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Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina A Partir

de um Perspectiva de Gênero
SUELI CARNEIRO

Ser negro sem ser somente negro, ser mulher


sem ser somente mulher, ser mulher negra
sem ser somente mulher negra. Alcançar a
igualdade de direitos é converter-se em um ser
humano pleno e cheio de possibilidades e
oportunidades para além de sua condição de
raça e gênero. Esse é o sentido final dessa
luta.

A autora inicia o seu texto indicando que a violência sexual colonial perpetrada pelos
senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas é o “cimento” de todas as
hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades. Esta forma de tratamento
da era colonial reservado às mulheres negras permanece vivo no imaginário social e
adquire novos contornos no presente.

A mulher negra ocupa posição específica na sociedade. Aponta a autora que, muitas
vezes, ao se fazerem referência à característica de mulheres, nem sempre tal
apontamento pode ser atribuído à identidade da mulher negra. Neste ponto, em
comentário sobre o mito da fragilidade feminina, a autora é clara em sua colocação:

Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres,


provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas
esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte
de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos
como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras,
quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quando
as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e
trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com
identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de
senhores de engenho tarados. Hoje, empregadas domésticas de
mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.

A autora é clara: a situação da mulher negra é pontual, identifica-se com situação social
do feminino e agrava-se na condição racial. HÁ VERDADEIRO ABISMO ENTRE A
REALIDADE DA MULHER BRANCA E AQUELA DA NEGRA. As mulheres negras
fazem parte de um contingente de mulheres que não são rainhas de nada [mito da
rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas], que são retratadas como antimusas da
sociedade brasileira, porque o modelo estético de mulher é a mulher branca. A
situação da mulher negra é especialmente mais grave.

Feitos os registros pontuais de algumas especificidades da situação do feminino negro


na sociedade, a autora de forma precisa enfatiza que a unidade na luta das mulheres em
nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as
desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a
superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do
racismo.
Seguindo a linha de argumento, a autora demonstra a necessidade de enegrecer o
movimento feminista brasileiro, o que significa, concretamente, demarcar e instituir
na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na
configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão
da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como
aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população
feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças
étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como
questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área da saúde;
instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa
aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios entre as mulheres brancas
e negras.

O PONTO ESTÁ EM ENTENDER QUE O NEGRO É CONSIDERADO


POPULAÇÃO DESCARTÁVEL. Portanto, no âmbito da luta feminista a causa da
mulher branca não é capaz de englobar a luta da mulher negra.

Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja


vivida como equivalência e não mais como inferioridade.

Breves apontamento pessoais

Assim como o texto da Lélia Gonzalez, a autora Sueli Carneiro evidencia a


especificidade da situação social da mulher negra e profunda necessidade de o
movimento feminista englobar em seu discurso as pautas da questão racial. Isto é dizer,
escusando-me se estiver eu dizendo alguma besteira, mas retiro do texto que o
movimento feminista branco não representa a mulher negra, sequer quanto à condição
de mulher, vez que a experiência do feminino negro é totalmente influenciado,
prejudicado e definido pela questão racial e dela não se pode dissociar.

O feminismo branco não é capaz de libertar as mulheres negras, portanto, defende


apenas parcela das mulheres. Limita a luta. Para se atingir um movimento
verdadeiramente libertário e universal, há que se enegrecer, englobar a pauta racial, aí
sim atingir-se-ia as mulheres como um todo em todas as esferas de opressão.

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