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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

PESQUISADORA: MARINA UCHÔA

Análise da Constituição do seu Estado

Redenção/ CE
2021
Introdução
A construção de um estado, país ou qualquer outro lugar que vise o direito como
uma conduta a ser seguida por uma sociedade, necessita de uma constituição em vigor,
e a constituição nada mais é do que um conjunto de normas, regras e leis de uma
instituição, em que vai regular o funcionamento do âmbito em que ela se aplica, limitando
os poderes e destacando os direitos e deveres de todos e a constituição brasileira surgiu
com esse intuito de equilibrar poderes, e priorizar os direitos do povo, buscando uma
democracia.
A constituição brasileira vigente atualmente foi realizada em 1988, um período
que marcava o fim da ditadura militar e uma reforma política, diante da pressão do povo
por exigir direitos a toda a população, um exemplo é o movimento que ficou conhecido
como Diretas Já, em que consiste no voto popular para eleger seus governantes, visto
que na época as eleições eram indiretas em relação a eleição presidencial, esse
movimento ficou bastante conhecido pela imensa participação popular, mas a pesar da
pressão existente as eleições seguiram como indiretas, e então diante da esperança de
um novo regime que substituiria a ditadura e estabelecesse uma democracia justa e
igualitária a todos surgiu uma expressão que ficou bastante conhecida na época a ‘’Nova
República’’.
No ano de 1987 se iniciou o processo de criação da nova constituição,
encerrando-se de maneira formal em outubro de 1988, sendo elaborada pela Assembleia
Nacional Constituinte, se tornando a lei suprema e fundamental do Brasil, essa
constituição foi apelidada de cidadã, querendo mostrar que esse novo regime seria
totalmente oposto ao anterior, tendo a garantia de direitos sociais a todos e levando
grandes avanços no que se refere aos direitos coletivos e individuais em relação a
igualdade e liberdade, sendo uma das mais extensas constituições já escritas, trazendo
inclusive o direito ao voto para a população, que representa um instrumento da
democracia constitucional, já que é uma legítima expressão da vontade do povo, além da
garantia dos direitos fundamentais entre outros, a sua elaboração é marcada pela
participação tanto de classes mais altas como de grupos populares, como uma forma de
mostrar uma nova política, que alcançaria a todos.
Entre 1964 a 1985 ocorreu a ditadura, um regime que ficou no poder por meio de
um golpe organizado pelos militares e civis, esse golpe deu início a um período difícil
para os brasileiros, marcado pelo autoritarismo, repressão e violência, contendo diversas
prisões arbitrárias, expurgos, assassinatos e desaparecimento de cadáveres, além de
tortura física e psicológica, isso ocorria a todos que iriam contra o regime implementado e
as suas regras impostas, e um dos suportes jurídicos que foi utilizado por eles para
praticar suas ações de repressão foi o AI-1.
O AI-1 foi um dos atos institucionais que permitiu o aprisionamento de pessoas de
maneira indiscriminada e dispensar servidores públicos do seu trabalho por serem
opositores do seu regime, então diante desse cenário que o Brasil se encontrava, os
cidadãos começaram a questionar e mobilizar grupos que não apoiavam os militares, que
seria necessário uma nova constituição, uma constituição que remetesse ao Estado de
Direito no país e que fosse democrática, contando com a participação popular por meio
de emendas do povo de distintos grupos étnicos, sociais e econômicos, além de ser
elaborada por representantes do mesmo em uma Assembleia Nacional Constituinte e a
partir disso a constituição foi criada, na sua escrita foi incluso que todo poder emana do
povo e essa frase traz um destaque aos movimentos sociais, já que essa é uma maneira
do povo expressar sua vontade, tendo maior visibilidade para mudanças sociais, além de
mostrar que a população iria ter suporte governamental por meio de políticas públicas e
isso seria uma forma de demonstrar que a participação cidadã será importante nessa
nova carta, sendo assim totalmente oposta a constituição outorgada pelos militares em
1967.
Com o fim da ditadura em 1987 a Assembleia Constituinte se reuniu para tratar da
elaboração da nova constituição, assim em 5 de outubro de 1988 a constituição foi
promulgada. As ações realizadas pelos governantes em que há um destaque da
democracia foi uma forma do Estado criar uma relação organizada e civil com a
sociedade, com a busca da institucionalização nas práticas para garantir segurança
social ao povo, desenvolvendo políticas com a inclusão da participação popular, essas
ações deixou claro o protagonismo da sociedade nessa nova gestão, essa vontade
política que surgiu trouxe consigo esperança para as pessoas naquela época, sendo até
um sinônimo de libertação, visto que eram pessoas que vivenciaram as repressões da
ditadura no seu cotidiano e por isso temiam um governo assim novamente.
Desenvolvimento
É importante ressaltar que junto com esse texto constitucional veio o princípio da
laicidade do estado, tendo assim um lugar sem uma religião oficial, garantindo maior
liberdade ao culto de outras crenças, trazendo a quebra de privilégios que alguns grupos
tinham por serem fiéis da igreja católica desde a constituição de 1824, tendo em vista
que um estado laico é um aspecto que revela a abrangência de diversos grupos distintos
em relação a igualdade religiosa, já que um ato constitucional que propõe a democracia
como pilar principal estaria indo contra seus próprios princípios favorecendo um grupo
religioso especifico que não representa a todos, mostrando como essa constituição teve
abordagens distintas das anteriores, tendo esse aspecto citado na obra 30 anos de
constituição cidadã: Debates em sua homenagem, que é mencionado como a
constituição conduziu essa abordagem.
‘’quanto à liberdade de crença, explica que compreende a
liberdade de escolha da religião, a liberdade de aderir a qualquer seita
religiosa, a liberdade (ou o direito) de mudar de religião, e também a
liberdade de não aderir a religião alguma, bem como a liberdade de
descrença, a liberdade de ser ateu e de exprimir o agnosticismo. Não
engloba, contudo, a liberdade de embaraçar o livre exercício de qualquer
religião, de qualquer crença, “pois aqui também a liberdade de alguém vai
até onde não prejudique a liberdade dos outros”. (DUARTE, 2018, p 23-
24)
A participação popular nessa constituinte foi um marco na sua realização em
relação aos movimentos sociais e a democracia que embora sempre conhecida, não era
tão presente nas políticas governamentais, e ela vem com uma exigência, exigência de
um representante, filósofos como Rousseau afirmavam que o poder legislativo pertence
ao povo, sabendo que era crucial para uma construção da política participativa, assim a
democracia seria algo que necessite de ações efetivas, em que haja uma construção
coletiva e que tenha o princípio da igualdade, e isso fez com ela se destacasse, sendo
citada por nomes como Zulmar Fachinh e Alexandre Plaguiarini, que reforçam a visão de
que a carta magna trouxe consigo características que simbolizam uma
constitucionalização democrática, que vem com processos e mecanismos que
possibilitam esse exercício da mesma, tendo os direitos humanos como um princípio.
‘’A Constituição Brasileira, promulgada em 5 de outubro de 1988,
representou um grande passo na construção da democracia no Brasil.
Produto da manifestação do poder constituinte originário, não foi um dado,
mas um construído. Quando o poder constituinte originário se manifesta,
as tensões sociais se elevam, visto que uma Constituição será revogada e
em seu lugar outra será promulgada. ’’ (FACHIN, PLAGUIARINI, 2018, p
151)
‘’Não se pode deixar de registrar que, concomitantemente a esses
movimentos sociais, outros setores da sociedade organizada atuaram,
também de modo veemente, no âmbito da Assembleia Constituinte, o que
estabeleceu um equilíbrio de forças a assegurar direitos e garantias dos
quais a sociedade pode usufruir, mesmo após 30 anos da promulgação da
Constituição Federal’’ (FACHIN, PLAGUIARINI, 2018, p 153).
É possível notar que o processo de constitucionalização do Brasil fez com que o
povo brasileiro se sentisse com autonomia sobre exercer sua cidadania pela primeira vez
em muitos anos, e isso não ocorreu só no Brasil, mas em vários países que passaram
por períodos de desestabilização e insegurança na sua política tinham um olhar de
esperança em relação a constituição do seu país. Em todo âmbito é necessário ordem e
acesso aos direitos básicos, então a constituição é o mecanismo que deve ser usado
para aplicar direitos e garantir que eles possam ser exercidos de maneira correta,
embora no meio político muitos representantes utilizem da sua posição para modificar a
constituição e favorecer seus interesses pessoais, a carta constituinte continua sendo a
melhor ferramenta para pôr em ação direitos fundamentais do povo, se tornando assim
essencial para a gestão de um governo.
A constituição é uma carta promulgada que foi elaborada por um órgão
constituído por pessoas, com o único objetivo que seria a sua criação, uma criação que
ocorreu em um momento histórico do Brasil, onde a política passava por um período de
redemocratização, logo após ter enfrentado um regime opressor, sendo aplicado na sua
construção princípios de forma consciente, considerados fundamentais para a formação
do Estado de direito, sendo assim uma constituição dogmática, e Diante desse processo
para a sua criação se faz necessário que uma carta constituinte tenha uma garantia para
a sua permanência e vigência, visto que ela é a proteção das leis formais e das normas
que devem reger os atos jurídicos, se tornando essencial um processo legislativo
especial para sua modificação, que possibilita assim uma certa estabilidade nas normas
sociais e a sua atualização, com o intuito de que ao mesmo tempo em que se mantenha
a sua estrutura política de acordo com as normativas imposta, ela também possa ser
permitido a atualização da mesma em momentos necessários, tornando-se uma
constituição considerada de estabilidade rígida.
A carta magna é tida como extensa, visto que ela enuncia de maneira detalhada
sobre os aspectos que organizam o Estado em relação aos demais poderes, tratando-se
das leis vigentes, por isso é composta por textos difíceis de ler e de ser compreendido
pela formalidade das palavras, ademais ela é vista como analítica, pela sua matéria ser
bem detalhada e de conteúdo minuciosa. A carta constituinte, além de ser dogmática,
rígida e analítica, ela apresenta o seu conteúdo de maneira formal, tendo características
orgânicas, ou seja, tendo normas que regulam a estrutura do Estado e do poder e
também possui normas que fazem parte dos direitos fundamentais, em que a atuação
dos poderes estatais é limitado, assumindo o seu conteúdo com uma forma, e
apresentando um conjunto de normas jurídicas que são decretadas através de um
processo específico para isso, que compõe um documento qualificado, sendo assim a
mesma singulariza-se de forma escrita, diante das suas classificações citadas é evidente
como a carta magna possui elementos que a compõe que simbolizam todo um
movimento histórico que foi a sua elaboração, e é demasiadamente importante para a
autonomia do povo.
Com 116 emendas à constituição brasileira de 1988 possui 110 emendas
constitucionais e 6 emendas de revisão, essas quantidades revelam as constantes
mudanças que a constituição vem sofrendo nos últimos anos, em média são 3,5
emendas acrescentadas na carta constituinte por ano, comparada as outras constituições
dos demais países nossa constituinte se mostra com constantes alterações, essas
exacerbadas modificações expõe até uma falha no nosso modelo de carta magna, visto
que a própria é considerada rígida, embora ela preserve as cláusulas pétreas, ou seja,
clausulas que são imutáveis, ainda é necessário um fortalecimento da cultura
organizacional, visto que ela deve simbolizar proteção, mantendo-se fieis a suas
finalidades.

Conclusão
Diante das análises apresentadas a constituição vigente retrata um momento em
que o Estado de direito democrático foi estabelecido trazendo conforto para muitos
brasileiros, com a ditadura militar veio o medo e repressão ao povo, e com a promessa
de uma democracia justa e igualitária, a carta magna foi tida como o início de um período
que traria melhorias nas condições de vida e humanitária dos cidadãos, e todo esse
processo histórico entorno dessa nova constitucionalização fez com que ela se torne
demasiadamente mais relevante diante das cartas anteriores e embora esse regime
democrático por muitas vezes não chegue a todos, ela continua sendo a melhor opção
para a gestão de um país que busque dar a população acesso a direitos de maneira
uniforme, sem distinção de raça ou classes sociais, além de haver paridade entre os
sexos, para nós atualmente essa questão de direitos é muito básica e simples, mas essa
não é a realidade de todos os países, como também em certos períodos da história do
nosso país não foi uma realidade presente.
Com os teóricos citados é possível notar que a nova constituinte simbolizava a
democracia através do poder do povo diante dos movimentos sócias, visto que foi esses
movimentos que revelaram a força que as pessoas tinham para influenciar as decisões
dos seus representantes, então toda a estrutura da constituição foi pensada de maneira
que mostrasse a democracia que estava sendo prometida naquele período, embora ela
não seja perfeita e as constantes emendas sofridas por ela revele isto, a constituição
sempre vai ser o mecanismo de representação legitima de um Estado de direito, um
estado que respeite suas normas e direitos fundamentais, seguindo as leis que são
submetidas aquele território.
REFERÊNCIAS

FACHIN, Z. A.; PAGLIARINI, A. C. MOVIMENTOS SOCIAIS NA CONSTITUIÇÃO


BRASILEIRA DE 1988: A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA E DOS DIREITOS
HUMANOS. Revista Direitos Humanos e Democracia, [S. l.], v. 6, n. 12, p. 150–160,
2018. DOI: 10.21527/2317-5389.2018.12.150-160.

GOHN, Maria da Glória. Constituição Federal e Direitos Sociais: avanços e recuos da


cidadania. Cadernos IHU ideias. São Paulo, ano 11, nº 203, 2014, p. 11-13, ISSN 1679-
0316

DUARTE, Alexia. et al. 30 Anos da Constituição Cidadã: Debates em sua Homenagem.


Belo Horizonte, Instituto para o Desenvolvimento Democrático, 2018.

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https://www.youtube.com/watch?v=F40sffq8ZqM&t=273s >. Acesso em: 17 de agosto de
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