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CONTABILIDADE E AUDITORIA

Contabilidade de
receitas,
contingências e
grupos empresariais

Marcos Bidart Carneiro de Novaes


Jeffrey Hanson Costa
Copyright © 2021 Suênia Graziella Oliveira de Almeida Santos do
Nascimento; Renata Ribeiro Lopes

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FGV EDITORA
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9.610/98).

Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade dos


autores.

1a edição – 2021

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS: Sandra Frank


EDITORAÇÃO ELETRÔNICA: Abreu’s System
REVISÃO: Aline Duque Erthal | Fatima Caroni
CAPA: aspecto:design
CONVERSÃO: Loope

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique
Simonsen/FGV

Nascimento, Suênia Graziella Oliveira de Almeida Santos do.

Contabilidade de receitas, contingências e grupos empresariais /


Suênia Graziella Oliveira de Almeida Santos do Nascimento, Renata
Ribeiro Lopes. – 2. ed. – Rio de Janeiro : FGV Editora, 2021.
1 recurso online (180 p.) : ePub

Publicações FGV Management.


Área: Contabilidade e Auditoria.
Inclui bibliografia.
ISBN: 978-65-5652-075-9

1. Contabilidade. 2. Contabilidade – Normas. 3. Balanço


(Contabilidade). 4. Auditoria. I. Lopes, Renata Ribeiro. II. Fundação
Getulio Vargas. III. Título. IV. FGV Management.
CDD – 657.3

Elaborada por Rafaela Ramos de Moraes – CRB-7/6625


Aos nossos alunos e aos nossos colegas
docentes, que nos levam a pensar e
repensar nossas práticas.
Sumário

Apresentação

Introdução

1 | Estrutura conceitual para relatório financeiro (framework)


Panorama geral do processo de convergência
Objetivos e usuários das demonstrações financeiras
Características qualitativas de informações financeiras úteis
Comparabilidade
Capacidade de verificação
Tempestividade
Compreensibilidade
Valor justo e essência sobre a forma
Principais elementos
O balanço patrimonial
Os ativos
Os passivos
O patrimônio líquido
A demonstração de resultado

2 | Receita de contrato com cliente


Aspectos introdutórios
Reconhecimento
Mensuração
Evidenciação

3 | Provisões, ativos e passivos contingentes


Contextualização conceitual
Provisões, passivos contingentes e outros passivos
Reconhecimento e divulgação
Mensuração
Baixa
Critérios de julgamento e estimativas contábeis
Efeitos nas demonstrações financeiras

4 | Investimento em coligada e controlada


Aspectos introdutórios
Investimentos: instrumento financeiro e instrumento patrimonial
Investimento em coligada
Investimento em controlada
Método de avaliação: equivalência patrimonial
Perdas por redução ao valor recuperável

5 | Demonstrações consolidadas
Aspectos introdutórios
Grupo econômico
Controle, poder e retorno
Procedimentos para a elaboração das demonstrações consolidadas
Eliminação de saldos intracompanhias
Eliminação dos débitos e créditos recíprocos
Eliminação da participação da controladora no patrimônio da controlada
Eliminação de vendas intracompanhias e lucro não realizado nos
estoques
Impactos da eliminação da equivalência patrimonial na controladora
oriundos de resultados não realizados
Eliminação dos lucros não realizados no ativo imobilizado e tributo na
operação
Participação societária menor que 100%, presença de não controladores
Perda de controle
Subsidiárias estrangeiras
Evidenciação

Conclusão

Referências

Autoras
Apresentação

Este livro compõe as Publicações FGV Management, programa de


educação continuada da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A FGV é uma instituição de direito privado, com mais de meio século de
existência, gerando conhecimento por meio da pesquisa, transmitindo
informações e formando habilidades por meio da educação, prestando
assistência técnica às organizações e contribuindo para um Brasil
sustentável e competitivo no cenário internacional.
A estrutura acadêmica da FGV é composta por escolas e institutos, todos
com a marca FGV, trabalhando com a mesma filosofia: gerar e disseminar o
conhecimento pelo país.
Dentro de suas áreas específicas de conhecimento, cada escola é
responsável pela criação e elaboração dos cursos oferecidos pelo Instituto
de Desenvolvimento Educacional (IDE), criado em 2003 com o objetivo de
coordenar e gerenciar uma rede de distribuição única para os produtos e
serviços educacionais da FGV.
Este livro representa mais um esforço da FGV em socializar seu
aprendizado e suas conquistas. Foi escrito por professores da FGV,
profissionais de reconhecida competência acadêmica e prática, o que torna
possível atender às demandas do mercado, tendo como suporte sólida
fundamentação teórica.
A FGV espera, com mais essa iniciativa, oferecer a estudantes, gestores,
técnicos e a todos aqueles que têm internalizado o conceito de educação
continuada, tão relevante na era do conhecimento na qual se vive, insumos
que, agregados às suas práticas, possam contribuir para sua especialização,
atualização e aperfeiçoamento.

Rubens Mario Alberto Wachholz


Diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento Educacional

Sylvia Constant Vergara


Coordenadora das Publicações FGV Management
Introdução

O objetivo deste livro é apresentar aos leitores conteúdos acerca das normas
brasileiras de contabilidade, recentemente alteradas e alinhadas às norminas
internacionais de contabilidade, que versam sobre as provisões,
investimentos, receitas e consolidação das demonstrações contábeis. A
necessidade de uma literatura atualizada se dá porque vivemos um
momento único na contabilidade brasileira, pois, antes da introdução das
normas internacionais, as diferentes interpretações das mesmas transações
levavam à falta de comparabilidade entre as demonstrações contábeis,
fazendo com que a informação contábil perdesse credibilidade no cenário
mundial. Após a convergência da contabilidade brasileira para os padrões
internacionais, as alterações em curso nas normas estão em fase final e
praticamente consolidadas.
Este livro está estruturado em cinco capítulos. O primeiro deles
contextualiza o processo de convergência, apresenta as origens e as
necessidades que impulsionaram a adequação das normas brasileiras de
contabilidade às normas internacionais e disserta sobre a tendência global
de harmonização das práticas contábeis em busca de uma linguagem única.
Além disso, aborda a base conceitual para elaboração e divulgação de
relatório financeiro, apresenta o objetivo das demonstrações contábeis, as
características qualitativas necessárias para que esse objetivo seja alcançado
e os componentes patrimoniais e de resultado.
O segundo capítulo aborda os aspectos avançados na contabilização das
receitas. Apresenta os pressupostos envolvidos na definição do momento
em que a receita deve ser reconhecida, respeitando o modelo de cinco
etapas, conforme prescreve a IFRS 15/CPC 47 – Receita de Contrato com
Cliente –, cuja vigência passou a ser obrigatória para os exercícios iniciados
em 2018.
No terceiro capítulo, evidenciamos como as transações que estão na
contingência de se concretizar impactam a contabilização das provisões.
Além disso, buscamos evidenciar o tratamento contábil para as obrigações e
os direitos que ocorrerão numa data futura, mas que podem influenciar a
tomada de decisão atual por parte dos usuários da informação contábil.
No quarto capítulo, são analisados os critérios adotados para contabilizar
os investimentos e os julgamentos necessários para classificar as investidas
em coligadas ou controladas. Evidenciamos também como se dá a avaliação
de tais investimentos no momento do reconhecimento e na mensuração
subsequente.
O quinto e último capítulo versa sobre as demonstrações contábeis de
grupos econômicos, comumente denominadas “demonstrações
consolidadas”. As companhias controladoras e controladas precisam
apresentar os componentes patrimoniais, de resultado e de fluxos de caixa
como se fossem uma única empresa objeto de contabilização, apesar de
terem CNPJs diferentes.
Buscando facilitar a compreensão e absorção dos temas abordados neste
livro, apresentamos os conceitos trazidos pela teoria, relacionando-os com a
realidade vivenciada na prática de mercado. Assim, ao longo dos assuntos
apresentados, ilustraremos com um quadro denominado “na prática de
mercado” exemplos práticos e casos reais, não identificando, no entanto, as
entidades envolvidas. A exceção ocorre no quinto capítulo, em que os casos
práticos são apresentados por meio de tabelas, por serem inerentes aos
papéis de trabalho da consolidação.
Por fim, na conclusão apresentamos uma visão geral sobre a
contabilização das receitas, contingências e grupos empresariais, bem como
retomamos os principais aspectos quanto ao seu impacto no mercado
brasileiro.
Boa leitura.
1
Estrutura conceitual para relatório financeiro
(framework)

Neste capítulo, traçamos um panorama geral sobre o processo de


convergência da contabilidade brasileira para os padrões internacionais,
bem como sobre a importância da sofisticação no tratamento contábil
devido à atual complexidade das operações organizacionais.
Além disso, apresentamos o objetivo das demonstrações contábeis, quais
os elementos envolvidos em tais demonstrações e a estrutura conceitual
básica que guia o tratamento devido aos fatos contábeis.

Panorama geral do processo de convergência

O contexto econômico de determinado local e o desenvolvimento de sua


contabilidade estão intimamente interligados, pois o modelo contábil será
determinado pelo processo pelo qual passou a formação da riqueza daquele
lugar.
Nesse sentido, após a Grande Depressão ocorrida na crise econômica de
1929, com a queda da Bolsa de Valores de Nova York, o modelo contábil
norte-americano começou a ser questionado, especificamente o processo de
regulação e as normas de contabilidade. O Instituto Americano de
Contadores Públicos Certificados (AICPA) criou um conselho voltado para
emissão de normas contábeis nos Estados Unidos que, mais tarde, na
década de 1970, transformar-se-ia num órgão independente denominado
Financial Accounting Standards Board (FASB).
Na mesma época, foi criado um órgão de caráter mundial para emissão
de normas internacionais de contabilidade, chamado de International
Accounting Standards Comitte (IASC), formado por entidades profissionais
contábeis de diferentes países. Em 2001, o referido órgão passou por uma
reestruturação em que a área técnica, separada da área administrativa,
passou a ser denominada International Accounting Standards Board
(IASB). Um detalhe importante nessa mudança é que os novos
pronunciamentos contábeis passaram a ser chamados de International
Financial Reporting Standards (IFRS), em vez de International Accounting
Standards (IAS), embora ainda existam algumas IAS vigentes. Observe,
leitor, que a proposta do órgão foi ampliar o alcance da emissão dos
normativos, abrangendo não só as questões meramente contábeis, mas
também as relacionadas a um maior nível de transparência e desempenho
das organizações.
Assim, com o fluxo internacional de capitais, com a formação de blocos
econômicos e a intensificação das transações comerciais entre diferentes
nações, começou a surgir a necessidade de os países convergirem para o
mesmo padrão de normas contábeis, para que pudessem contabilizar os
fatos contábeis num parâmetro comum e, então, possibilitar
comparabilidade. Esse processo é denominado “convergência da
contabilidade aos padrões internacionais”.
Os investidores, atualmente ativos em diversos países, necessitavam de
uma linguagem contábil única, baseada em critérios e normas comuns de
reconhecimento, mensuração e divulgação que lhes permitissem obter uma
interpretação melhor quanto às informações contábil-financeiras
disponibilizadas pelas empresas, alvos de investimentos, facilitando a
compreensão e comparabilidade dessas informações para a tomada de
decisão.
Havia diferentes formas de contabilizar as mesmas transações por alguns
motivos, um dos quais diz respeito ao foco em usuários distintos. O
principal usuário da contabilidade brasileira surgiu, no seu modelo de
concepção, na exploração do Brasil enquanto colônia de Portugal. Assim, a
formação da riqueza e, consequentemente, o modelo contábil brasileiro
foram direcionados para o recolhimento de tributos para a Coroa lusitana.
Logo, o fisco passou a ser o foco de nossa contabilidade. Se observarmos,
por exemplo, o modelo da Inglaterra, país com tradição em mercado de
capitais devido à Revolução Industrial, a contabilidade inglesa direcionou
seu alvo para investidores. Então, o foco nos usuários da informação, do
ponto de vista contábil, está intimamente ligado ao processo histórico-
cultural.
Outra dificuldade na adoção das normas internacionais reside na
existência de diferentes sistemas legais dos países que passaram pelo
processo de convergência. O sistema legal de um país nada mais é do que
um conjunto de normas jurídicas que visam disciplinar a convivência social.
No Brasil, por exemplo, o sistema legal era baseado em regras, conhecido
como Code Law, e todo o processo de registro dos fatos contábeis era feito
com base no que estava estritamente determinado em lei. De outro modo,
na Inglaterra, o sistema legal é baseado nos usos e costumes, denominado
Common Law, de tal forma que os fatos contábeis são registrados com base
no julgamento da administração da entidade sobre determinada transação.
Podemos citar como exemplo a depreciação de um equipamento. No
contexto brasileiro, era levada em consideração, para qualquer imobilizado,
apenas a tabela, com as taxas de depreciação, contida no Regulamento do
Imposto de Renda, enquanto na realidade inglesa a depreciação é calculada
com base no uso que é dado aos equipamentos, podendo haver diferentes
taxas para o mesmo tipo de imobilizado.
O processo de convergência no Brasil se iniciou em 2008, com a
promulgação da Lei no 11.638/2007, que alterou a Lei das S/A. No entanto,
sua origem remonta ao ano de 2005, quando foi criado o Comitê de
Pronunciamentos Contábeis (CPC), órgão responsável pelo estudo,
preparação e emissão de normas contábeis que por si sós não têm força de
lei, mas quando endossadas por órgãos reguladores tornam-se obrigatórias.
Vale salientar que, devido à relevância de tais normas, todos os
pronunciamentos emitidos pelo CPC já foram endossados pelos principais
órgãos reguladores do Brasil.
Atualmente, mais de 130 países adotam as IFRS e, no Brasil, passamos
da fase de implementação das normas para a fase de consolidação. Após
esta contextualização histórica, vamos evidenciar quais os objetivos e
usuários das demonstrações financeiras.

Objetivos e usuários das demonstrações financeiras

A estrutura conceitual teve sua primeira versão, enquanto norma emitida


pelo CPC no ano de 2008, logo após a formalização do processo de
convergência da contabilidade brasileira para os padrões internacionais. No
entanto, por ser um pronunciamento que advém do framework do IASB, em
2011 houve a necessidade de alteração devido a mais uma fase que foi
concluída; recentemente, em 2020, houve mais uma atualização. As
atualizações feitas nos pronunciamentos são chamadas de revisões,
simbolizadas pela letra “R”. Assim, o Pronunciamento Conceitual Básico,
após a segunda revisão (R2), passou a ser chamado de Estrutura Conceitual
para Relatório Financeiro.
As demonstrações financeiras possuem o objetivo fundamental de
retratar fidedignamente a posição patrimonial das entidades em determinada
data e os resultados econômicos e financeiros gerados por suas operações
em determinado período.
A contabilidade é um instrumento para o reconhecimento, mensuração e
divulgação dos resultados de natureza econômico-financeira e de
produtividade auferidos por determinada entidade no desempenho de suas
atividades operacionais e não operacionais.
Todos os esforços e ações desempenhados pela entidade resultam na
geração de valor econômico ao longo de sua continuidade e existência.
Nesse sentido, a entidade prepara informações contábil-financeiras que
retratam sua performance e posição patrimonial em determinado período
com o intuito de reporte e divulgação para usuários internos e externos.
Dessa forma, caro leitor, o principal objetivo das demonstrações
financeiras é auxiliar seus usuários na obtenção de informações úteis para
tomada de decisões e informar como tais demonstrações foram preparadas
quanto ao enfoque e às premissas adotados pela administração,
considerando as leis, normas, interpretações, orientações e comunicados
técnicos aplicáveis às operações da entidade. De acordo com o
Pronunciamento Conceitual Básico, o objetivo do relatório contábil-
financeiro é:

1.2 O objetivo do relatório contábil-financeiro para fins gerais é fornecer


informações financeiras sobre a entidade que reporta que sejam úteis para
investidores, credores por empréstimos e outros credores, existentes e
potenciais, na tomada de decisões referente à oferta de recursos à
entidade. Essas decisões envolvem decisões sobre:
(a) comprar, vender ou manter instrumento de patrimônio e de dívida;
(b) conceder ou liquidar empréstimos ou outras formas de crédito; ou
(c) exercer direitos de votar ou de outro modo influenciar os atos da
administração que afetam o uso dos recursos econômicos da entidade
[CPC 00 (R2), § 1.2].

Observe que o objetivo da informação contábil-financeira é retratar algo,


que seriam as informações úteis, para alguém, que seriam os usuários de
tais informações. Assim, no que se refere aos usuários das demonstrações
contábil-financeiras, podemos classificá-los em dois grupos: usuários
primários e outros tipos de usuários. Vamos tratar, a seguir, de cada grupo.
Primeiramente, vamos buscar entender como se dá a relação da entidade
com os usuários primários. Com a elaboração e apresentação dos relatórios
contábil-financeiros, alguns usuários serão impactados de forma mais
sensível pelas políticas financeiras e operacionais da entidade; são os
chamados usuários primários. Sendo assim, as empresas devem dar uma
atenção especial a tais usuários, sem, no entanto, criar uma hierarquia, de
modo que seus direitos estejam garantidos e protegidos. Como principal
exemplo desse tipo de usuário, há os investidores e credores, tanto os
existentes quanto os potenciais, estando uns e outros interessados na
capacidade da entidade de gerar benefício econômico para rentabilizar seus
investimentos ou viabilizar o cumprimento de obrigações de crédito.
Os investidores já existentes possuem instrumentos patrimoniais da
entidade, os quais podem ser exemplificados por participação acionária
direta, cotas patrimoniais, debêntures conversíveis em ações ou qualquer
outra forma de investimento societário. Já os investidores em potencial são
usuários primários interessados na performance econômico-financeira da
entidade, assim como em sua posição patrimonial, que pode influenciar
diretamente as decisões de manutenção, compra ou venda de instrumentos
patrimoniais. Imagine que você, leitor, deseja adquirir ações de uma
entidade negociada em mercado ativo – a informação quanto ao retorno
esperado desse investimento é relevante e é representada, por exemplo,
pelos dividendos pagos, acréscimos nos preços de mercado desses
instrumentos financeiros, lucro apurado e expectativa de geração de caixa
no futuro.
Da mesma forma que os investidores, os credores por empréstimos e
outros credores existentes, por exemplo os fornecedores, possuem interesse,
como usuários primários, nas informações contábil-financeiras tendo em
vista que, com base na performance e liquidez da entidade, extraem dados
importantes, contidos nesses relatórios, quanto à sua capacidade em honrar
compromissos de dívida e em gerar benefícios econômicos e fluxos de
caixa futuros por meio das suas operações. Sendo assim, a avaliação da
solvência e da capacidade de continuidade da entidade é fator relevante para
evitar futuras perdas para os credores supracitados.
De forma secundária, mas não menos importante, a norma elenca que
existem outros tipos de usuários que devem ser considerados potenciais
interessados nas informações reportadas pelas entidades. Observe, leitor, a
seguir, alguns exemplos desses usuários e algumas informações sobre eles:

• A própria administração. Incluem-se nessa terminologia a diretoria, a


presidência, conselhos, comitês e grupo executivo em geral, os quais
possuem interesse nas informações contábil-financeiras, pois mesmo
sendo capazes de obter dados internamente, possuem responsabilidade
quanto às informações divulgadas à sociedade como um todo, além de
serem os agentes tomadores de decisão e responsáveis pelas estratégias
e ações adotadas e a serem utilizadas pela entidade no curso normal de
suas atividades.
• Governo. Utiliza os relatórios como ferramenta para fiscalizações,
arrecadação de impostos e fonte para desenvolvimento de políticas
públicas e elaboração de índices econômicos.
• Clientes. Exigentes e cada vez mais conscientes da importância de
consumir produtos e receber serviços de entidades que adotam práticas
sustentáveis.
• Concorrentes. Diretos ou indiretos, esses usuários estão sempre ávidos
e atentos no sentido de obter informações sobre possíveis ameaças e
oportunidades relacionadas ao mercado do seu negócio.
• Outros interessados. Esse grupo tem interesse nas informações
econômico-financeiras das entidades porque influenciará ou será
impactado por suas atividades organizacionais. Como exemplo,
podemos citar os funcionários, sindicatos, órgãos de classe, agências
de risco, professores e estudantes, entre outros.

Os usuários devem entender os princípios, políticas e práticas contábeis


adotados pela entidade para que possam interpretar de forma correta as
informações divulgadas, sendo a falta de compreensão dos fundamentos
contábeis causadora de erros na interpretação dos resultados reportados. Da
mesma forma, caro leitor, outros aspectos devem ser levados em
consideração pelos usuários para tomada de decisões, entre os quais
podemos destacar os ambientes e os bastidores.
Os ambientes – econômico, político, legal, operacional e social – em que
a entidade está inserida podem influenciar de forma positiva ou negativa as
operações da mesma. Por exemplo: variações cambiais das moedas
relacionadas às transações correntes, oscilações nas taxas de juros,
alterações em normas locais, surgimento de novas tecnologias e de novos
concorrentes devido à queda nas barreiras de entrada do setor, progressos
ou incertezas no panorama político e perspectivas para a indústria de
atuação da entidade, entre outros.
A compreensão sobre os bastidores da entidade torna-se estratégica para
os tomadores de decisão, tendo em vista sua influência nas políticas
operacionais e financeiras da empresa. Podemos citar alguns exemplos
acerca dos bastidores:

• os controles internos representados pelos procedimentos, manuais e


normas internas, que maximizam a eficiência nos processos
operacionais e minimizam os riscos de erros, fraudes e incertezas;
• as estimativas e julgamentos utilizados para elaboração das
demonstrações contábeis;
• os planos estratégicos de curto e longo prazos projetados;
• as ações adotadas pela administração para estar em conformidade com
normas e regulamentos internos e externos, e com as melhores práticas
de governança corporativa;
• o enfoque utilizado para gestão de riscos aplicáveis à entidade.

Por fim, apresentados os objetivos das informações contábil-financeiras e


os usuários com potencial interesse nessas informações, voltar-nos-emos
para estudos que objetivam compreensão sobre pressupostos básicos dos
fundamentos qualitativos e de melhoria que norteiam a elaboração e
interpretação das demonstrações contábeis.

Características qualitativas de informações financeiras úteis

Vejamos agora os atributos que devem estar contidos nas informações


financeiras, conforme previsto pelo Pronunciamento Conceitual Básico. A
informação financeira precisa ser útil, podendo ser utilizada pelos
investidores e credores, existentes ou potenciais, para tomada de decisão
econômica sobre a organização à qual se reportam os relatórios. Deve-se
observar sempre a relação custo versus benefício para gerar tal informação,
pois uma informação útil não necessariamente é exata devido ao critério da
materialidade, que será abordado mais adiante.
Observe que as características qualitativas da informação financeira estão
diretamente relacionadas ao grau de utilidade para os usuários, ou seja, a
quão útil aquela informação pode ser para auxiliá-los em suas demandas.
No entanto, para que a informação seja útil, é fundamental que ela seja
relevante e que represente fidedignamente a realidade patrimonial e
financeira da entidade. Além disso, para melhorar o grau de utilidade da
informação financeira é necessário que ela seja comparável, verificável,
tempestiva e compreensível. Essa classificação pode ser vista na figura 1.

Figura 1
Características qualitativas das informações financeiras
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

A qualidade da informação financeira é classificada em duas vertentes:


características fundamentais e características de melhoria. Vamos detalhar
primeiramente aquelas que são primordiais, ou seja, fundamentais.
Para que a informação se torne relevante, ela precisa fazer a diferença na
tomada de decisão dos usuários, de modo que sua ausência poderia
prejudicar ou modificar a escolha do caminho a ser seguido, ou seja, a
escolha poderia ter sido outra se os interessados tivessem tomado ciência
prévia de tal informação financeira. A ausência, ou omissão, está atrelada
ao conceito de materialidade, segundo o qual uma informação será material
se, com sua falta, houver prejuízo na tomada de decisão; caso contrário, a
informação será imaterial e, por isso, irrelevante.
Cabe salientar que a norma não prescreve limite quantitativo para
estabelecer a partir de que valor a informação é material, tendo em vista que
há muitas variáveis envolvidas, como setor de atuação, tipo de empresa,
área etc. Além disso, tal informação fará diferença no processo decisório e,
portanto, será relevante, se tiver valor preditivo, valor confirmatório ou
ambos. Nesse quesito, o CPC 00 (R2), §§ 2.8 e 2.9, assegura que a
informação financeira possui:
• valor preditivo – quando pode ser utilizada como dado de entrada em
processos empregados pelos usuários para predizer futuros resultados;
• valor confirmatório – quando pode servir de feedback para avaliações
prévias (confirmá-las ou alterá-las).

Vamos observar, por meio do exemplo apresentado a seguir, quando a


informação financeira pode ter valor preditivo e/ou confirmatório.

NA PRÁTICA DE MERCADO

Quando os gestores da organização estão utilizando as informações contábeis pretéritas


para elaborar seus orçamentos, que são voltados para o futuro, é um típico exemplo de
valores preditivos, ou seja, com base no passado consegue-se prever a capacidade de
gerar fluxos de caixa futuros.
Além disso, o próprio regime de competência, ao registrar o fato no momento em que
seus efeitos são produzidos, também tem capacidade de previsão, tendo em vista que
permite a visualização da expectativa de realização dos recebíveis futuros, oriundos de
vendas a prazo ou da liquidação de obrigações geradas por compras a prazo. À medida
que os prazos vão se realizando, os usuários podem confirmar, por exemplo, nas
demonstrações intermediárias, se a empresa está cumprindo os compromissos
assumidos e recebendo os valores prometidos. Tem-se aí um exemplo de valor
confirmatório.
De outro modo, quando uma empresa solicita empréstimo, a instituição financeira
requer várias informações contábeis a fim de prever a capacidade de geração futura de
caixa, bem como de confirmar se as informações prestadas pela empresa estão em
consonância com a análise de crédito realizada previamente. Nesse caso, ambas as
características, de natureza preditiva e confirmatória, podem ser visualizadas.
Obs.: Demonstrações intermediárias são aquelas com período inferior a um exercício
social completo, normalmente divulgadas como informações trimestrais (ITR).

A segunda característica qualitativa fundamental diz respeito à


representação fidedigna. Para que a informação financeira tenha utilidade,
além de ser relevante precisa demonstrar fielmente a realidade das
transações, de modo que represente fidedignamente os fenômenos
patrimoniais e financeiros da organização em data e período determinados.
Antes da revisão realizada pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC),
em 2011, no Pronunciamento Conceitual Básico, existia uma característica
denominada confiabilidade, a qual foi alterada para representação fidedigna
por se tratar de uma denominação mais completa e legítima para demonstrar
como a informação contábil deve ser retratada pela entidade.
Para representar fielmente as transações ocorridas, a organização deve
observar o que existe por trás de cada nota fiscal, contrato ou acordo; deve
ir a fundo na verificação da essência econômica do fenômeno, ainda que a
forma jurídica demonstre uma realidade diferente, que pode estar camuflada
por excessos de termos e cumprimento de regras. Esse assunto será tratado
mais detalhadamente no tópico “Valor justo e essência sobre a forma”, deste
capítulo.
Para serem fidedignas, todas as demonstrações devem ser reflexos de
uma informação completa, neutra e livre de erros. Observe a figura 2 com
os atributos da representação fidedigna.

Figura 2
Atributos da representação fidedigna

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Quando falamos em uma informação completa, estamos nos referindo a


uma informação com o máximo de esclarecimentos e exposições que
possam facilitar o entendimento pelo usuário, ou seja, representar
quantitativamente e qualitativamente o fenômeno em questão.
Para uma informação ser neutra, ela precisa ser imparcial, e a
organização deve analisar as transações com ceticismo e responsabilidade,
de modo que não haja influência do comportamento do produtor da
informação nem exista seleção, provida de viés, do fenômeno a ser
apresentado. Analogamente, os responsáveis por revisar as informações
contábil-financeiras no papel de auditores independentes igualmente devem
garantir a neutralidade e independência para efetivo julgamento. Assim, não
deve haver manipulação de informação que leve o usuário a uma análise
enviesada da realidade econômico-financeira da empresa, sendo a
neutralidade um atributo presente também como um pilar das práticas de
governança corporativa.
Na versão anterior do CPC 00 (R2), a característica prudência foi retirada
da norma e deixou de ser tratada como elemento inerente à representação
fidedigna. No entanto, nesta última revisão, conforme § 2.16, a prudência
veio pautada como apoio essencial para exercício da neutralidade. Assim, a
norma estabelece que o exercício de prudência significa que ativos e
receitas não estão superavaliados e passivos e despesas não estão
subavaliados, bem como não é permitida a subavaliação de ativos ou
receitas ou a superavaliação de passivos ou despesas.
O atributo isento/livre de erro não quer dizer rigorosidade na precisão da
informação; significa que houve cautela na obtenção dos dados necessários
para gerá-la e não houve omissão de nenhum fato. O CPC 00 (R2), § 2.18,
assegura que, se a natureza e as limitações no processo de produção da
informação forem devidamente reveladas, e nenhum erro tiver sido
cometido na seleção e aplicação do processo apropriado para
desenvolvimento da estimativa, a informação contábil estará livre de erro.
Vamos agora tratar das características qualitativas de melhoria,
entendidas como os atributos que aprimoram a qualidade da informação
considerada relevante e fidedignamente representada. São elas:
comparabilidade, capacidade de verificação, tempestividade e
compreensibilidade.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Vamos ilustrar os três atributos da representação fidedigna por meio de uma situação
prática. Uma empresa vai realizar teste de imparidade nos ativos, ou seja, verificar se o
valor registrado na contabilidade está compatível com o valor que se consegue recuperar
por tais itens. Pois bem, imagine que a empresa, com base em dados históricos, verificou
que não conseguirá receber todos os valores devidos pelos seus clientes, fazendo com
que surja a necessidade de constituir uma perda estimada para crédito de liquidação
duvidosa, antes denominada provisão para devedores duvidosos.
Tal informação estará completa quando a empresa evidenciar o valor estimado da
perda, a subconta que reduz a conta “Clientes ou duplicatas a receber” e também todas
as informações adicionais, em notas explicativas, acerca dos detalhes sobre a apuração
e expectativas de perda. Além disso, essa operação será considerada neutra se a
empresa não estiver manipulando as informações para aumentar a perda e,
consequentemente, inflar as despesas no resultado, tendo em vista que, para fins
societários, o critério é subjetivo e pode ser usado com base no histórico de perdas. Para
fins tributários, o critério é bem mais objetivo, com todas as possibilidades de
reconhecimento de perdas de créditos detalhadas no Regulamento do Imposto de Renda
de 1999, sendo uma informação mais exata, porém menos relevante, pois pode não
representar fielmente a real expectativa de perdas de crédito.
Por fim, o processo de mensuração dessas possíveis perdas estará livre de erro se a
organização fez todo o esforço necessário para levantar todos os dados observáveis,
como natureza e montante de crédito, por exemplo, para estimar a perda. Observe que
isso não significa que a informação será exata, tendo em vista que a própria palavra
“estimativa” já descreve a ideia de incerteza, porém traduz fidedignamente a real
possibilidade do não recebimento com base nas melhores expectativas no momento.

Comparabilidade

No mundo dos negócios há uma necessidade constante de escolher qual a


melhor alternativa diante de determinado cenário; é o que chamamos de
processo de decisão. Nesse sentido, o usuário da informação contábil-
financeira precisa de referências, as quais devem estar no mesmo padrão,
para que ele consiga tomar decisão em relação às alternativas disponíveis.
Assim, a informação precisa ser elaborada segundo os mesmos critérios
de anos anteriores e conforme o padrão de normas vigentes, de modo que o
usuário tenha a possibilidade de comparar o desempenho da empresa em
relação a outras empresas do mesmo setor ou com a própria performance
em relação a períodos passados, visto que a tomada de decisão acerca de
qual o melhor investimento, em qual empresa aplicar recursos ou a qual
entidade conceder crédito, por exemplo, requer comparação por parte do
tomador de decisão.
Observe, no entanto, que em alguns momentos pode ser difícil manter a
consistência nas práticas adotadas para cumprimento do atributo
comparabilidade, pois pode haver a necessidade de mudar alguma política
ou critério contábil adotado para fins prospectivos, em relação ao período
anterior, a fim de representar mais fielmente o atual estado patrimonial, e
isso afeta o efeito comparativo. Note que, nesse caso, teríamos prejudicada
a característica qualitativa da comparabilidade, mas ainda assim prevalece a
representação fidedigna, tendo em vista que ela é hierarquicamente superior
por se tratar de uma característica fundamental. Lembramos que a
organização deve envidar esforços para que ambos os atributos possam ser
contemplados. Vejamos um exemplo a seguir.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Imagine uma empresa que atua no ramo de varejo de hortifrutigranjeiros. Por se tratar de
produtos altamente perecíveis, como frutas e verduras, ela adota como critério, para
apuração do custo de todos os seus produtos, o Peps (primeiro a entrar, primeiro a sair).
Faz todo sentido, tendo em vista que os primeiros que chegaram às lojas devem sair
primeiro, de modo que se otimizem os recursos e se minimizem as perdas. No entanto,
no ano seguinte, além destes produtos perecíveis, a empresa passou a vender outros
itens que possuem um prazo de vencimento razoável, tais como feijão, arroz, chocolates,
temperos etc. Para estes últimos itens, pode ser mais apropriado aplicar o CMP (custo
médio ponderado), de modo que não afetará a apuração do valor, por exemplo, de dois
chocolates que possuem três dias de diferença no seu vencimento, o qual ocorrerá dentro
de quatro meses vindouros.
Assim, nesse caso, verifica-se que o uso de um critério adicional irá afetar a com-
parabilidade com relação ao ano anterior, mas, por ter mudado a realidade nos negócios
da empresa, a informação será mais útil, e representará mais fidedignamente as
operações, se a empresa utilizar os dois critérios, Peps e CMP.

Vale ressaltar que a mudança de prática contábil é tratada pelo CPC 23 –


Políticas Contábeis, Mudança de Estimativa e Retificação de Erro – e exige
apresentação retroativa das demonstrações contábeis dos últimos dois
exercícios fiscais precedentes ao de reporte, justamente para que seja
possível identificar o impacto das novas práticas, seus efeitos para fins
ilustrativos e para possibilitar a comparabilidade utilizando-se as mesmas
premissas de elaboração para as informações reportadas em períodos
anteriores.

Capacidade de verificação

A capacidade de verificação ocorre quando uma informação pode ser


analisada pelos usuários e, mesmo por diferentes perspectivas, há uma
concordância na percepção acerca do fenômeno em questão, ou seja, tais
usuários são independentes, conscientes e possuem visões convergentes
sobre a informação apresentada. Isso não quer dizer que sempre haverá um
consenso pleno, pois, apesar de a informação ter utilidade, cada usuário vai
interpretá-la e, consequentemente, aplicá-la conforme seu entendimento. De
fato, observa-se que a capacidade de verificação melhora a representação
fidedigna, tendo em vista que o retrato da realidade econômica pode ser
apreendido por diversos usuários, apesar de estes possuírem diferentes
percepções.
Os usuários podem verificar determinada informação de forma direta ou
indireta. No primeiro caso, trata-se de um levantamento de informações
feito pela observação direta e não precisa de outras evidências para
representar fielmente a realidade. Já na verificabilidade indireta, o usuário
objetiva recolher dados preliminares que irão ser utilizados em técnicas que
auxiliarão na construção da informação para tomada de decisão. Nesse
caso, há necessidade de se embasarem em premissas que legitimem e
assegurem que a informação encontrada de forma indireta esteja refletindo
o cenário econômico atual da organização. Vejamos algumas situações
práticas nesse sentido.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Imagine uma empresa que presta serviços de soluções logísticas. Para realizar os
transportes rodoviários, a empresa conta com uma frota de mais de 600 veículos,
distribuídos no Nordeste do Brasil. O controle físico do imobilizado, nesse caso dos
veículos, é de extrema importância, pois impacta na estrutura da empresa e determina
alguns elementos que serão considerados no resultado do exercício. Assim, ao final de
cada exercício social, é realizado um inventário físico dos caminhões e das peças.
Perceba que, como esse procedimento é realizado in loco, o número de caminhões é
obtido por contagem física, sendo este um bom exemplo de uma informação verificável
obtida de forma direta.
De outro modo, os gestores da empresa, em parceria com a contabilidade, vão definir o
método de depreciação, entre os vários existentes, que melhor reflita como tais
caminhões consomem recursos ao longo de sua vida útil. Como existem várias
possibilidades para depreciar um ativo, a depender do método escolhido pode haver
diferenças entre os valores a serem colocados no resultado. Observe que existem
premissas a serem adotadas para o cálculo da depreciação, e, por isso, pode-se
apreender que a informação é obtida de forma indireta. Portanto, neste último caso, há a
verificabilidade indireta.

Tempestividade

O usuário necessita da informação contábil-financeira dentro de


determinado prazo em que ele consiga escolher a melhor alternativa no seu
processo de tomada de decisão, ou seja, o período de divulgação deve ser
adequado para que a informação tenha utilidade e, assim, seja capaz de
influenciar a decisão do usuário. Aquelas alternativas que foram produzidas
há mais tempo normalmente são menos úteis, a não ser que o usuário
necessite dessas informações mais antigas para fazer análise do
comportamento histórico e para projetar tendências.
É importante destacar que a informação deve ser apresentada a partir do
momento em que se tem conhecimento de uma transação, ainda que não se
tenha total certeza sobre as estimativas e valores. Assim, em termos de
representação da realidade, mais vale uma informação ex ante relevante,
porém subjetiva e imprecisa, do que uma informação ex post exata, porém
sem utilidade. De forma geral, deve haver um equilíbrio no processo de
priorização entre relevância e representação fidedigna; no entanto,
considere que podem existir incertezas no período interino em que o usuário
tenha necessidade de usar a informação para tomar a decisão, sendo esse o
momento em que o produtor da informação contábil deve fazer uso de
julgamento profissional para atender ao atributo da tempestividade. Vamos
refletir sobre como isso funciona na prática.

NA PRÁTICA DE MERCADO

Podemos pensar em duas situações práticas para exemplificar a tempestividade.


Primeiramente, do ponto de vista contábil, qualquer empresa, independentemente do
enquadramento jurídico ou regime de tributação, deve cumprir com as obrigações
principais e acessórias, as quais são regulamentadas pelas legislações comercial, fiscal e
previdenciária. Nesse sentido, quando um órgão regulador impõe prazos para entrega de
uma obrigação, por exemplo, o Sistema Público de Escrituração Digital (Sped contábil), o
atributo da tempestividade é requerido porque o usuário, nesse caso o fisco, necessita
das informações em tempo hábil para que possa fazer o cruzamento de informações.
Imagine agora uma indústria que fabrica produtos de limpeza e que, devido ao seu
processo produtivo, acaba causando danos ambientais. Em determinado ano, a
companhia foi negligente no tratamento dos resíduos e sua destinação foi feita de modo
irresponsável, contaminando criminalmente os lençóis freáticos. Naquele momento, a
equipe de contabilidade não conseguiu mensurar, precisamente, os prejuízos causados à
população, tampouco as possíveis indenizações a serem desembolsadas. Note que,
mesmo sem exatidão na estimativa dos danos, a empresa deveria divulgar a ocorrência
dos fatos nas demonstrações contábeis daquele ano, pois seria relevante para a tomada
de decisão dos usuários. Caso não apresentasse tal informação naquele momento,
quando a empresa viesse a ter uma mensuração precisa e exata a informação a ser
divulgada estaria irrelevante e, portanto, inútil para tomar decisão, pois seria
intempestiva.

Compreensibilidade

O usuário só conseguirá perceber a utilidade da informação se ele


compreender, com clareza, o conteúdo apresentado. Para tanto, o produtor
da informação contábil deve preparar os relatórios de forma transparente,
classificando e caracterizando os elementos com o intuito de facilitar o
entendimento para que o tomador de decisão possa impetrar aplicação
prática na seleção da melhor alternativa.
No entanto, a contabilidade, ao produzir a informação, parte do
pressuposto de que o usuário tem um mínimo de conhecimento sobre a
linguagem contábil, de modo que ele consiga interpretar com diligência o
fenômeno que se deseja retratar. Ainda que tal realidade reflita operações
sofisticadas, a informação contábil deve ser divulgada para que seja
considerada completa e assim atenda ao atributo da representação
fidedigna.
Nesse sentido, na perspectiva dessa característica qualitativa da
informação, o tomador de decisão, mesmo sem ser um especialista no
assunto, deve compreender satisfatoriamente a realidade econômica da
organização. Vamos ilustrar com um exemplo.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma empresa que atua no ramo de combustíveis teve uma redução brusca no seu
faturamento devido a uma obra do governo do estado para revitalização do aeroporto. O
posto localizava-se numa esquina, em formato de “L”, onde recebia clientes que
chegavam pelas duas ruas. Considere que houve a implantação de um canteiro em um
dos lados, de modo que os clientes que vinham dessa direção ficaram impedidos de
entrar no posto. Com isso, a empresa passou a receber clientes que vinham de uma
única rua, reduzindo seu faturamento em mais de 70%. Então, os advogados da empresa
entraram com um processo contra o estado, impetrando verbas indenizatórias pelos
prejuízos causados com a diminuição das receitas devido às obras, conhecido como lucro
cessante. O juiz, na análise dos fatos e para definição das perdas, designou um perito
contador para fazer um laudo especializado. Note que o laudo estará repleto de termos
técnicos, mas precisará estar num padrão compreensível, a fim de que o juiz, usuário da
informação nesse caso, consiga interpretar e, com zelo e ceticismo, proferir a sentença.
Além disso, o juiz precisa ter um conhecimento razoável de contabilidade para entender a
opinião e as evidências contidas no laudo pericial.

O CPC 00 (R2), § 1.17, afirma que o regime de competência

reflete os efeitos de transações e outros eventos e circunstâncias sobre


reivindicações e recursos econômicos da entidade que reporta nos
períodos em que esses efeitos ocorrem, mesmo que os pagamentos e
recebimentos à vista resultantes ocorram em período diferente.
Além disso, o CPC 00 (R2), § 3.9, afirma que o produtor da informação
financeira parte da premissa subjacente de continuidade para sua
elaboração, considerando o pressuposto de que a informação deve ser
produzida na perspectiva de que a organização não tenha a intenção de
encerrar suas operações num futuro previsível, ou seja, a empresa está em
processo contínuo de atividades. Caso a empresa verifique que, por
discricionariedade ou necessidade, irá reduzir materialmente a escala de
suas operações, ela deve mudar a base de mensuração e evidenciação de
suas transações. Por exemplo, numa situação normal, os estoques estariam
avaliados por um valor de entrada, conhecido como custo histórico. No
entanto, em caso de liquidação da empresa, os estoques passariam a ser
avaliados por valores de saída, como valor realizável líquido.
Note, leitor, que o Comitê de Pronunciamentos Contábeis e,
consequentemente, as normas endossadas pelo IASB não tratam
especificamente de princípios contábeis. No Brasil, os princípios eram
tratados pela Resolução no 750/1993 do Conselho Federal de Contabilidade,
atualizada pela Resolução no 1.282/2010 do mesmo órgão, na qual deixaram
de ser denominados princípios fundamentais de contabilidade e passaram a
ser chamados de princípios de contabilidade. A referida resolução foi
revogada em outubro de 2016, passando a vigorar apenas a estrutura
conceitual, a partir de janeiro de 2017.
Os órgãos, ao tratarem das características qualitativas, sejam
fundamentais ou de melhoria, acabam por adotar uma abordagem mais
pragmática e aplicada. Vamos agora refletir com mais detalhes sobre a
razão pela qual deve haver primazia da essência econômica da transação
sobre a forma jurídica, bem como acerca dos novos delineamentos sobre
mensuração a valor justo.

Valor justo e essência sobre a forma


Além dos atributos vistos na seção anterior, precisamos entender outros
dois itens primordiais na análise e julgamento da administração para retratar
o fenômeno patrimonial, quais sejam: essência sobre a forma e valor justo.
Vamos tratar primeiramente da essência sobre a forma.
A norma trata a característica “essência sobre a forma” de maneira
implícita na característica da representação fidedigna, tendo em vista que
não há que se falar em informação fidedigna se ela não apresentar a
essência econômica da transação, tendo em vista que a forma jurídica pode
estar camuflada de burocracias e aplicação da legislação.
Algumas transações podem ter elementos subjetivos, seja no momento de
seu reconhecimento ou nos critérios de mensuração, e por isso o contador,
em parceria com os gestores, deverá ter um elevado nível de conhecimento
técnico e do modus operandi das negociações. Então, deve-se fazer um
julgamento acerca da transação em questão, olhando-se a substância
econômica, na qual o resultado pode ser completamente diferente caso o
olhar esteja sob o prisma da forma legal.
Com isso, o patrimônio reconhecido pela contabilidade pode ter mais ou
menos elementos do que aquele patrimônio jurídico, pois contabilmente só
será levada em consideração a transação cuja representação fidedigna tenha
utilidade para o tomador de decisão. O usuário da informação se preocupa
com os possíveis impactos causados por determinada transação nos fluxos
de caixa futuros da entidade e não com sua respectiva titularidade jurídica.
Assim, ainda que se tenha certo grau de incerteza acerca da ocorrência, se
sua magnitude for considerável dever-se-á observar a relevância e impacto
de determinada informação sobre os demonstrativos contábeis.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Vamos imaginar a seguinte situação. Uma loja que revende material escolar no período
de baixa das vendas faz uma oferta para atrair clientes. Então, na compra de uma
mochila escolar, o comprador leva uma lancheira. Num primeiro momento, olhando
puramente a forma da transação, poder-se-ia ter a falsa impressão de que a venda
comercial foi apenas da mochila, já que a lancheira poderia parecer um brinde, inclusive
com um CFOP diferenciado.
No entanto, observando a essência econômica desta operação, pode-se perceber que
o preço da lancheira estava embutido no valor total da venda, ainda que a loja esteja
diminuindo sua margem de lucro. Sendo assim, a receita deve ser reconhecida
proporcionalmente para cada produto e não apenas para a mochila, pois a baixa dos
estoques se dará para os dois produtos.
Obs.: CFOP (Código Fiscal de Operações e Prestações) diz respeito ao código das
entradas e saídas de mercadorias intermunicipais e interestaduais.

Ao observar a essência de cada transação, e também no que diz respeito à


mensuração, podemos nos deparar com o binômio subjetividade versus
objetividade, no qual muitas vezes o critério mais objetivo e prático pode
não ser o mais relevante para a tomada de decisão. Diante dessa
necessidade de apurar um valor que retrate a realidade da substância
econômica, vamos analisar o conceito de valor justo.
A ideia de mensurar determinadas transações pelo valor justo, o fair
value, surgiu nos Estados Unidos, em contraponto à valoração pelo custo
histórico, tendo em vista que este tem uma visão unicamente pretérita, ao
passo que o valor justo evidencia o valor atualizado de mercado. Isso
ocorreu para que o investidor minoritário pudesse ter garantido um retorno
justo do seu capital.
Cada vez mais, a tendência das normas emitidas pelo IASB tem sido a de
mensurar determinadas transações pelo valor justo, por considerar esse
método mais transparente e fidedigno. Buscando respaldar tal
entendimento, o IASB emitiu a IFRS 13, que trata exclusivamente da
mensuração a valor justo. Aqui no Brasil, tal conceito foi introduzido a
partir da Lei no 11.638/2007, mas apenas em 2012 a mensuração a valor
justo foi endossada pelo CPC 46, que trata detalhadamente de todos os
critérios.
O valor justo é definido pelo CPC 46, § 9, como “o preço que seria
recebido pela venda de um ativo ou que seria pago pela transferência de um
passivo em uma transação não forçada entre participantes do mercado na
data de mensuração”. Vamos detalhar a seguir, em três partes, o conteúdo
intrínseco dessa definição.

• Transação não forçada. Quando nenhuma das partes está em condição


desprivilegiada para realizar a transação entre os itens patrimoniais. As
partes devem estar em situação equiparada de negociação e não devem
existir imposições que forcem uma das partes a transacionar, por
exemplo, quando uma das partes se encontra em processo de
recuperação judicial ou na iminência de romper uma cláusula
contratual restritiva, estando, portanto, em desvantagem, pela
existência de fatores que a obrigam a negociar.
• Participantes do mercado. As partes que estão negociando não são
relacionadas entre si; assim, o valor justo não incorpora nenhum valor
específico de determinado participante do mercado, ou seja, ele revela
um valor que os participantes de mercado estão dispostos a pagar na
transação. Imagine, por exemplo, uma transação entre a entidade e seu
respectivo empregado, o qual receberá pagamento baseado em ações.
Tendo em vista que se trata de uma extensão de sua remuneração,
nesse caso não há independência entre os participantes.
• Data da mensuração. Significa que uma transação deve ser mensurada
a valor justo no momento da ocorrência do fato gerador e evidenciada
no momento do fechamento das demonstrações contábeis, sendo estas
as informações intermediárias, nomeadas informações trimestrais
(ITR), ou anuais, levantadas ao final de cada exercício fiscal,
nomeadas demonstrações financeiras padronizadas (DFP).

O CPC 46, que versa sobre valor justo, afirma, em seu § 2, que este não é
um valor específico para a entidade nem um valor de contrato; na verdade,
trata-se de uma mensuração baseada no mercado, em que a melhor
evidência de valor é o preço negociado no mercado ativo.
No entanto, na impossibilidade de observar esse preço no mercado ativo,
a organização deve se utilizar de técnicas de avaliação, conhecidas como
mark-to-model, que maximizem o uso de dados observáveis, também
chamados de inputs. Para a mensuração baseada nas referidas técnicas,
deve-se levar em consideração o risco do negócio e até que ponto
determinado dado pode ser incluído no cálculo, a exemplo dos custos de
empréstimos, os chamados borrowing costs, que, em regra geral, devem ser
considerados despesas, mas, quando se tratar de um ativo qualificável, por
exemplo, podem ser capitalizados como custo do ativo.
Os dados observáveis são premissas que poderiam ser utilizadas por
qualquer outro participante do mercado, ou seja, são inputs disponíveis para
observação. De outro modo, os dados são considerados “não observáveis”
quando desenvolvidos e construídos pela própria empresa, e devem ser
evitados devido ao seu alto teor de subjetividade.
A depender do nível de dados que se consegue observar no momento da
mensuração a valor justo de ativos ou passivos, a norma elenca três níveis
hierárquicos de valor justo. Veja a figura 3.
Com isso, dependendo da maximização de inputs observáveis, ou seja,
dados observáveis, utilizados para mensuração do valor justo de
determinado item, dever-se-ão divulgar mais ou menos informações em
notas explicativas. Então, por exemplo, para um preço pouco observável no
mercado, em que se tem maior critério de subjetividade para definição do
valor ideal, exige-se um maior nível de transparência, de modo que o
usuário fique seguro de que, apesar dos critérios travestidos de julgamento e
interpretação, naquele momento aquele valor é o que melhor representa a
substância econômica do fenômeno.

Figura 3
Níveis hierárquicos de valor justo
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

De uma forma bem simplificada, adota-se o conceito de valor justo como


o valor que o mercado precifica, sendo essa premissa verdadeira apenas se
todos os participantes do mercado, no momento da transação, possuírem o
mesmo nível de informação sobre o ativo ou passivo em questão, ou seja, se
não houver assimetria informacional. Vejamos um exemplo a esse respeito.

NA PRÁTICA DE MERCADO

Imagine que a empresa X possui um veículo que não gera mais benefícios em suas
operações e, por isso, está tentando vendê-lo para a empresa Y. A empresa X tem
conhecimento de que o motor do veículo está com sérios problemas que comprometem a
vida útil dele e, em curto prazo, há que se trocar o referido motor por outro, de nova vida
útil. Imagine que a empresa Y, compradora, não tem conhecimento desse fato. O valor
que o mercado precifica para este veículo é baseado em um critério objetivo, que seria a
tabela Fipe. Essa tabela é desenvolvida pela Fundação Instituto de Pesquisas
Econômicas e expressa o preço médio de mercado que deve ser levado em consideração
no momento da negociação. Ora, nesse caso, observe que o valor de mercado deve ser
aquele estabelecido pela tabela objetiva, mas que é completamente diferente do valor
justo, pois este leva em consideração todos os inputs observáveis, e apenas a empresa X
possui o domínio completo de tais informações.

Após analisarmos os predicados que qualificam a informação contábil-


financeira, bem como os novos conceitos de mensuração a valor justo,
vamos agora identificar os elementos patrimoniais e de resultado que
compõem as demonstrações contábil-financeiras.
Principais elementos

Entendido o objetivo das informações financeiras, quem são os usuários que


possuem interesse nesses relatórios, suas características fundamentais e de
melhoria, partimos para o estudo dos principais elementos das
demonstrações contábeis, visando revisar os conceitos e definições de ativo,
passivo, patrimônio líquido, receitas e despesas. Nesses elementos estão
agrupados e organizados os direitos e obrigações, assim como está
apresentada a performance econômica da entidade.
As atividades desempenhadas por uma entidade, a alocação dos recursos
disponíveis, os compromissos assumidos, as relações estabelecidas com
terceiros e com seus empregados, assim como seus investimentos
operacionais e não operacionais, são legitimados por meio das
demonstrações contábeis, a fim de informar e direcionar as decisões de
usuários internos e externos.
Considerando a contabilidade uma linguagem universal, explicamos os
elementos de uma demonstração contábil como sendo as ferramentas
utilizadas para consolidar e demonstrar todos os fatos relevantes da
entidade em determinada data ou período. Imagine, caro leitor, que uma
empresa fosse uma pessoa física e tivesse de enviar, a um terceiro
interessado, uma foto atual, um filme do seu último ano e seu currículo
profissional contendo sua trajetória até aquele momento, desde sua
inicialização no mercado de trabalho. Pois bem: nesse caso, analogamente,
diríamos que o ativo e o passivo seriam a foto da empresa; a demonstração
do resultado, composta pelas receitas e despesas do último ano, seria o
filme; e o patrimônio líquido seria seu curriculum vitae.
Para obter maior entendimento de cada elemento, vamos a seguir defini-
los sumariamente, já considerando a premissa subjacente da continuidade,
ou seja, de que a entidade possui o pressuposto primário de manter-se em
operação por um prazo indeterminado.
O balanço patrimonial

O balanço patrimonial reúne os ativos e passivos da empresa,


separadamente, apresentados por subgrupos, conforme sua natureza, e
representa econômica e financeiramente os bens, direitos e obrigações de
determinada entidade em uma data específica.

Os ativos

Conforme o CPC 00 (R2), §§ 4.3 e 4.4, o ativo é um recurso econômico


presente controlado pela entidade como resultado de eventos passados.
Após a revisão da estrutura conceitual realizada em 2020, a perspectiva de
análise do ativo mudou, porque antes, para que pudéssemos reconhecer o
ativo, ele precisava gerar benefício futuro; após a revisão, basta que o
recurso econômico tenha o potencial de produzir benefícios econômicos
para que haja o reconhecimento do ativo.
Nesse sentido, os ativos representam o resultado de eventos passados e
devem estar reconhecidos pelos respectivos valores recuperáveis a cada
data de mensuração subsequente. Assim, se determinado ativo não puder
ser recuperado, ou tiver mudança no potencial de gerar benefício futuro,
deve ser ajustado e reduzido para que reflita o valor exato de sua realização.
Os ativos podem ser tangíveis, exemplificados por itens do imobilizado, ou
intangíveis, tais como marcas e patentes. Além disso, são apresentados nas
demonstrações contábeis conforme grau de liquidez e podem ser
considerados o lastro para as obrigações e garantias oferecidas pela
entidade a terceiros.

Os passivos
Conforme o CPC 00 (R2), § 4.26, passivo é uma obrigação presente da
entidade de transferir um recurso econômico como resultado de eventos
passados. Antes da revisão da estrutura conceitual realizada em 2020, a
norma indicava que a liquidação da obrigação era capaz de gerar benefícios
econômicos. O conceito trazido após a revisão diz que, para que exista
passivo, apenas três critérios devem ser satisfeitos:

• a entidade tem uma obrigação;


• a obrigação é de transferir um recurso econômico;
• a obrigação é uma obrigação presente que existe como resultado de
eventos passados.

A sutil alteração em tal conceito de passivo, ao desvincular que a


liquidação da obrigação gera benefício futuro, pode acarretar mudança no
julgamento, especialmente dos passivos contingentes e provisões, haja vista
que a análise de risco das contingências normalmente está associada ao
momento da liquidação ou aos valores a serem liquidados.
Além disso, é importante destacar que os passivos evidenciam o grau de
financiamento utilizando capital de terceiros e são apresentados nas
demonstrações contábeis conforme grau de exigibilidade.
Na estrutura do balanço patrimonial, além do grau de liquidez e
exigibilidade para ordenação das contas dos ativos e passivos, tais recursos
devem ser separados em circulantes e não circulantes, objetivando informar
aos usuários das demonstrações contábeis o prazo futuro esperado para
realizar determinado ativo ou liquidar determinado passivo. Destacamos
que os circulantes são os direitos realizáveis ou obrigações exigíveis em até
12 meses após a data-base das demonstrações contábeis.

O patrimônio líquido
Representa a posição acumulada dos investimentos realizados pelos sócios
da entidade, ou seja, os aportes de capital próprio, assim como os resultados
econômicos líquidos auferidos pela empresa desde sua criação. O saldo do
patrimônio líquido em determinada data, doravante acervo líquido,
representa a diferença entre ativos e passivos e é classificado em subgrupos,
a saber: capital social, reservas de capital, reservas de lucros, ações em
tesouraria, ajustes de avaliação patrimonial (AAP) e prejuízo acumulado.
As reservas supracitadas, por vezes criadas por exigências legais, são
formadas visando à proteção dos credores com relação a eventuais prejuízos
e representam uma fonte de informação para usuários quanto à forma como
a entidade aloca seus recursos patrimoniais residuais no que tange à
capacidade e intenção de distribuí-los ou aplicá-los nas próprias operações,
além de fornecerem informações quanto a restrições na sua utilização.
De forma objetiva, podemos compreender o balanço patrimonial por
meio dos conceitos de origens e aplicações de recursos, sendo as origens
consideradas todos os recursos captados pela entidade para financiamento
de suas operações, como empréstimos, capital de terceiros e até contas a
pagar a fornecedores, pois estes, ao concederem prazo para liquidação de
obrigações, estão temporariamente financiando as operações da entidade.
Esses recursos captados são aplicados pela entidade para obtenção de
benefício econômico futuro na aquisição de insumos, bens e equipamentos,
ou também investidos em ativos que propiciem a geração de valor para a
entidade, como investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas
tecnologias. Em suas operações, a entidade gera recursos que passam a
representar direitos, por exemplo, o recebível de clientes resultante de
vendas a prazo, assim como aplica os recursos financeiros gerados por suas
operações para obtenção de receitas não operacionais, como rendimentos de
aplicações financeiras. Ilustramos, no quadro 1, a estrutura patrimonial de
uma entidade considerando os pressupostos abordados até esta seção do
livro, objetivando sua maior compreensão quanto à apresentação dos
elementos patrimoniais das demonstrações contábeis.

Quadro 1
Estrutura patrimonial sintética considerando as origens e aplicações
de recursos
Balanço patrimonial sintético – ilustrativo

Aplicações Investimentos Bens e direitos Obrigações Origens


de realizados de
Ativo Passivo
recursos pela entidade recursos
Circulante Circulante
Caixa e Fornecedores
equivalente de Obrigações
caixa trabalhistas
Títulos e Empréstimos
valores e
mobiliários financiamentos
Contas a Impostos e
receber, contribuições a
líquidas recolher
Impostos e Debêntures Fontes de
financiamentos
contribuições a Outras
através do
recuperar obrigações capital de
Estoques Não circulante terceiros
Despesas Fornecedores
antecipadas Empréstimos
Adiantamento e
a fornecedores financiamentos
Outros ativos Provisão para
circulantes contingências
Não circulante Impostos e
Realizável a contribuições
longo prazo diferidas
Contas a Debêntures
receber, Outras
líquidas obrigações
Títulos e Fontes de
Patrimônio
valores financiamentos
líquido
mobiliários
Capital social
Depósitos Reservas de através do
judiciais lucro capital próprio
Impostos e Reservas de
contribuições a capital
recuperar Prejuízos
Outros acumulados
ativos Outros
realizáveis a resultados
longo prazo abrangentes
Investimentos
Imobilizado
Intangível
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Após a apresentação do balanço patrimonial, vamos evidenciar, a seguir,


as definições e os elementos que compõem a demonstração de resultado.

A demonstração de resultado

A demonstração do resultado apresenta as informações contábeis


relacionadas a determinado período, geralmente referente a um período
fiscal compreendido entre o primeiro dia do primeiro mês de determinado
ano até o último dia do décimo segundo mês do mesmo ano, com exceção
das entidades que apresentam relatórios utilizando períodos distintos
devido, por exemplo, à sazonalidade de suas operações. Nessa
demonstração, são reconhecidas as receitas e despesas auferidas entre os
dois balanços, diferentemente do balanço, que apresenta a posição
patrimonial da entidade na data da apresentação.
O resultado econômico auferido pela entidade é determinado pela
diferença entre as receitas geradas e despesas incorridas em determinado
período, sendo positivo ou negativo, ou seja, lucro ou prejuízo. É
obrigatória a divulgação do lucro ou prejuízo por ação, conforme previsto
no art. 187, inciso VII, da Lei no 6.404/1976. Para melhor entendimento,
abordaremos a seguir aspectos detalhados das receitas e despesas.
• Receitas. São aumentos nos benefícios econômicos durante
determinado período, monetizados e gerados pelas atividades usuais da
entidade, resultantes da venda de itens tangíveis e intangíveis ou da
prestação de serviços, incrementos nos ativos ou redução de passivos
que, por meio da entrada de recursos financeiros, reconhecimento de
ganhos ou de direitos, resultam no aumento do patrimônio líquido da
entidade, excluindo-se dessa definição os aportes de capital dos
acionistas. Abordaremos com mais detalhes os aspectos relacionados à
mensuração, reconhecimento e divulgação das receitas no segundo
capítulo deste livro.
• Despesas. Os elementos de despesa representam, em contrapartida aos
elementos de receita, os decréscimos nos benefícios econômicos
durante determinado período, monetizados e gerados pelas atividades
usuais da entidade, resultantes da aquisição de itens tangíveis e
intangíveis ou da contratação de serviços, decréscimo monetário no
valor dos ativos ou aumento de passivos que, por meio da saída de
recursos financeiros, reconhecimento de perdas ou de obrigações,
resultam na redução do patrimônio líquido da entidade.

Vale ressaltar, leitor, que o reconhecimento das receitas e despesas deve


ser baseado no fato gerador da transação, ou seja, as receitas são
reconhecidas quando (ou à medida que) a entidade satisfizer a obrigação de
performance ao transferir o bem ou o serviço, e as despesas quando do
recebimento do serviço contratado ou da compra de insumos no curso das
operações, não necessariamente representados pela transferência da posse e
sim pela transferência do risco da transação, respeitando, portanto, a
competência do fato gerador.
Da mesma forma, é importante destacar que a entrada ou saída de
recursos financeiros (fluxo de caixa) não necessariamente ocorre no mesmo
momento em que as receitas foram geradas e as despesas incorridas, visto
que, por exemplo, vendas ou compras a prazo indicam respectivamente
recebimento e pagamento de caixa futuros, em contrapartida às receitas e
despesas que devem ser reconhecidas quando de sua ocorrência.
O quadro 2 permite a visualização da estrutura da demonstração do
resultado de forma ilustrativa.

Quadro 2
Estrutura conceitual sintética ilustrativa
da demonstração do resultado do exercício
+ Receita operacional bruta
(-) (Deduções)
= Receita operacional líquida
(-) (Custo de mercadorias e/ou produtos vendidos)
(-) (Custo de serviços prestados)
= Lucro bruto

Receitas (despesas) operacionais


(+/-) (Despesas com pessoal)
(-)
(Despesas gerais e administrativas)
(-)
(-) (Despesas com serviços de terceiros)
(-) (Despesa de depreciação e amortização)
(+/-) Resultado de equivalência patrimonial (REP)
(+/-) Resultado na venda de participação acionária
(+/-) Outras receitas (despesas) operacionais, líquidas
(+/-)
Resultado financeiro
+
(-) Receitas financeiras
(Despesas financeiras)
= Resultado operacional líquido
+ Outras receitas
(-) Outras despesas
= Resultado antes do imposto de renda e da contribuição social
(-) Imposto de renda e contribuição social
= Resultado (lucro/(prejuízo)) líquido do período
Lucro (prejuízo) por ação básico e diluído
Básico
Diluído
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Vale ressaltar que o enquadramento de itens como ativos, passivos ou


patrimônio líquido deve considerar, além da forma legal de apresentação, a
essência da transação que os originou, o momento da transferência de riscos
como pressuposto para seu reconhecimento e a realidade econômica
relacionada aos benefícios ou perdas intrínsecas quanto à
recuperação/realização e liquidação dos ativos e passivos, respectivamente.
Concluindo, pudemos observar, ao longo deste capítulo, conceitos
relacionados às características qualitativas para reconhecimento e
mensuração das transações, os elementos dos relatórios contábil-
financeiros, assim como o objetivo e os usuários de tais demonstrativos.
No próximo capítulo, vamos abordar os aspectos relacionados à
contabilização das receitas no contexto brasileiro, atualizado pela IFRS 15,
e que passou a vigorar no país em 2018.
2
Receita de contrato com cliente

Neste capítulo, serão abordados os principais conceitos relacionados às


receitas, tanto da venda de bens quanto da prestação de serviços, assim
como todos os aspectos que devem ser considerados na identificação da
transação e em seu reconhecimento.
Ademais, apresentaremos as principais mudanças que passaram a vigorar
no Brasil desde 2018, com a adoção do CPC 47 – Receita de Contrato com
Cliente –, e que devem ser consideradas na preparação das demonstrações
contábeis das pequenas, médias e grandes corporações.

Aspectos introdutórios

Algumas transações de vendas têm características particulares e, por isso, a


contabilização das receitas recebia diretrizes de diversos pronunciamentos,
e não apenas da norma de receita propriamente dita, ou seja, o CPC 30 (R1)
não se aplicava a todos os tipos de receitas, como os contratos de seguro e
contratos de construção, por exemplo. Observe, na figura 4, os diferentes
normativos que abordavam a contabilização de receitas de acordo com a
operação e o setor de atuação, nos moldes até então vigentes do Comitê de
Pronunciamentos Contábeis e do IASB.
Figura 4
Panorama geral de normas sobre receitas

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Repare que havia uma vasta quantidade de normativos que tratavam do


processo de reconhecimento, mensuração e evidenciação das receitas,
dependendo do tipo de operação. Tal variedade de normas gerava certa
confusão por parte dos produtores da informação contábil pela falta de uma
unidade de referência e, consequentemente, gerava falta de comparabilidade
das práticas de reconhecimento entre diferentes setores e mercados.
Com vistas a sanar esse problema, foi criado um novo normativo com
todos os critérios para contabilização das receitas, a chamada IFRS 15 –
Receitas de Contratos com Clientes (Revenue from Contracts with
Customers) –, a qual supriu as demandas de todas as regras para
reconhecimento de receitas. A criação da referida norma foi fruto de uma
parceria dos dois principais órgãos normatizadores mundiais, quais sejam:
Comitê de Normas Internacionais de Contabilidade (International
Accounting Standards Board: IASB) e Comitê de Normas de Contabilidade
Financeira dos EUA (Financial Accounting Standards Board: FASB).
No contexto internacional, inclusive no Brasil, a IFRS 15 passou a ser
exigida em 2018, mas com exercícios financeiros iniciados em janeiro de
2017. Tal norma causou impacto não só na contabilidade financeira em si, a
partir das demonstrações, mas também nos processos gerenciais e na forma
de controlar as operações da organização. Isso porque houve um cuidado
maior tanto na identificação da transação, desde a ocorrência do fato
gerador, quanto no que diz respeito à eficácia dos controles internos para
garantir que a informação esteja representando fidedignamente a realidade
das operações. Além disso, todo o modus operandi das práticas de mercado
realizadas pela entidade foi revisado, incluindo todas as formalidades e
obrigações relativas aos contratos.
Devido a essa mudança nos requisitos para atendimento do novo
normativo que causou impacto no âmbito do processamento interno das
informações pelas empresas, houve um elevado nível de julgamento não
apenas na determinação das estimativas sobre o momento do
reconhecimento, mas também no valor atribuído às operações, que levaram
a ajustes nas demonstrações financeiras e, consequentemente, a maior
detalhamento e mais alto nível de exigência na divulgação das mesmas.
Alguns setores foram atingidos, a depender do nível de complexidade das
operações de cada entidade, com maior grau de impacto ao adotar os
critérios exigidos na IFRS 15, tais como softwares, construção,
terceirização, entre outros. Logo, houve uma preparação especial pelos
gestores das organizações para identificar qual a melhor forma de conduzir
a implementação do novo normativo.
A implantação desses novos critérios para contabilização das receitas de
contrato com clientes requereu que as organizações revisassem suas
transações nos seguintes aspectos:
• Contratos com cláusulas de restrição. Em decorrência das mudanças
no montante das receitas reconhecidas, algumas cláusulas de obrigação
estabelecidas em alguns contratos tiveram seu cumprimento ameaçado.
Por exemplo, quando a estimativa das receitas diminuía abaixo do
limite preestabelecido no contrato, houve exigibilidade de vencimento
antecipado de algum título.
• Avaliação de desempenho do setor comercial. Muitas empresas
desenvolvem programas de bonificação para os funcionários da área de
vendas, e a remuneração pode ser feita com base na performance das
receitas geradas com as vendas. Ora, se a forma de reconhecimento das
receitas oriundas das transações comerciais mudou, os planos e
incentivos a tais funcionários foram reavaliados de modo que houvesse
uma constante motivação e alinhamento aos objetivos organizacionais.
• Seleção do regime de tributação. Qualquer mudança nos itens que são
partes integrantes da demonstração de resultado, seja um elemento
aumentativo de resultado como as receitas ou elementos diminutivos
como as despesas, causa impacto nos tributos a serem recolhidos ao
fisco. Assim, em função da mudança no momento de reconhecimento
e dos valores a serem atribuídos às receitas, houve a necessidade de
uma cautelosa análise de revisão sobre o melhor enquadramento do
regime de tributação da entidade.
• Análise fundamentalista. As alterações na contabilização das receitas
refletem-se diretamente nos índices econômico-financeiros e nos
indicadores de desempenho, afetando a análise realizada pelos
investidores, fundamentada nas informações evidenciadas nas
demonstrações financeiras. Devido a isso, a organização teve de
delinear um efetivo processo de comunicação com todos os
stakeholders, de modo que a informação fosse transparente e
compreensível acerca dos efeitos no resultado dos principais impactos
relevantes.
Observe, leitor, que todas as mudanças trazidas pela IFRS 15 fizeram
com que as empresas substituíssem os procedimentos que porventura
pudessem gerar incertezas quanto à realização da receita, gerando
informação mais fidedigna para os usuários, tendo em vista que puderam
ser verificados não apenas os valores e a natureza das receitas, mas também
o momento do fato gerador e os riscos envolvidos na operação.
A norma institui um modelo único, constituído por cinco etapas, para
contabilização das receitas, independentemente do tipo de cliente e de
transação. O referido modelo objetiva evidenciar que deve ser feita uma
análise criteriosa acerca do momento em que há o surgimento do contrato
com o cliente e de como tal contrato atende aos requisitos para
reconhecimento da receita.
Então, desde o momento em que a norma entrou em vigor no Brasil, as
empresas adotaram o modelo de cinco etapas para contabilizar suas receitas.
Vale ressaltar que a preocupação ficou voltada para o reconhecimento da
receita: se ao longo do tempo, à medida que ela fosse sendo realizada, ou
num momento único, quando houvesse a transferência completa do controle
dos bens vendidos ou serviços prestados. Destaca-se ainda que o foco da
receita reconhecida ao longo do tempo diz respeito à transparência sobre o
desempenho da empresa em função da obrigação assumida de vender o bem
ou prestar o serviço.
Para que possamos compreender a contabilização de receitas,
primeiramente vamos apresentar sua definição e verificar qual a relação
desse elemento com outros itens patrimoniais.

Receitas são aumentos nos ativos, ou reduções nos passivos, que


resultam em aumentos no patrimônio líquido, exceto aqueles referentes a
contribuições de detentores de direitos sobre o patrimônio [CPC 00 (R2),
§ 4.68].

Note que, implicitamente, o conceito de receita traz a questão dos


benefícios econômicos que podemos observar tanto pelo aumento de ativo
quanto pela redução de passivo. Dessa forma, o ingresso ou aumento de tais
benefícios econômicos decorrentes da receita se dá de acordo com os
preceitos estabelecidos na estrutura conceitual. A esse respeito, veja a
figura 5.

Figura 5
Benefícios econômicos decorrentes da receita

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Observe que a figura 5 traduz a definição de receita como o aumento nos


benefícios econômicos durante o período contábil na forma de:

• Entrada de recursos ou aumento de ativos. Os benefícios econômicos


gerados pela entrada de recursos dizem respeito à entrada de dinheiro,
seja por caixa ou banco, decorrente da venda de bens ou da prestação
de serviços, ou pelo direito a receber, na forma de duplicatas, por meio
de vendas realizadas a prazo.
• Diminuição de passivos. Quando uma empresa recebe, de um cliente,
dinheiro decorrente da antecipação de pagamento, esse valor não pode
ser considerado receita no momento de seu recebimento, pois a
mercadoria ainda não foi entregue nem o serviço foi prestado. Logo,
foi gerada uma obrigação de entrega futura. Assim, quando a entrega
ocorrer ou o serviço for executado, note que não haverá mais entrada
de recursos, pois já houve antecipadamente; o que ocorre, de fato, é a
diminuição de passivo pelo cumprimento da obrigação em
contrapartida ao reconhecimento da respectiva receita, representando
um aumento no patrimônio líquido quando os ganhos forem
incorporados.
• Aumento no patrimônio líquido da entidade. Como o patrimônio
líquido é representado pelo saldo remanescente do ativo menos o
passivo, os ingressos brutos de benefícios econômicos recebidos e a
receber pela entidade, originários de suas próprias atividades, bem
como a diminuição das obrigações, geram matematicamente o
aumento do patrimônio líquido. Note que esse aumento não foi
proveniente de aporte de recursos dos proprietários da entidade, ou
seja, não houve integralização de capital social.

As receitas, ao serem divulgadas na demonstração do resultado do


exercício, representam os benefícios econômicos futuros que fluirão
exclusivamente para a empresa, e não aqueles que são considerados
deduções da receita, tais como tributos sobre as vendas, pois não geram
aumento no patrimônio líquido e, consequentemente, são excluídos da
receita bruta. No entanto, para atendimento dos critérios fiscais, seja na
apuração dos impostos incidentes sobre o faturamento ou na declaração de
obrigações acessórias, como a escrituração fiscal digital (EFD) para o PIS e
a Cofins, por exemplo, deve-se ficar atento à ocorrência do fato gerador da
receita para identificar o momento de reconhecimento.
Para fins práticos, o enfoque neste livro é dado naquelas receitas
operacionais mais comuns do mercado, as quais podem ser observadas nos
dois tópicos a seguir:

• venda de bens;
• prestação de serviços.

Assim como outros itens relacionados aos fenômenos patrimoniais, as


receitas são analisadas na perspectiva do famoso tripé da contabilidade:
reconhecimento, mensuração e evidenciação.
Desse modo, como a questão essencial na contabilização da receita é
determinar quando reconhecê-la e, portanto, quando é provável que
benefícios econômicos futuros fluam para a entidade e possam ser
confiavelmente mensurados, iremos tratar primeiramente de todos os
aspectos que devem ser considerados no momento do reconhecimento.
Vamos apresentar as circunstâncias em que os critérios de
reconhecimento são satisfeitos e fornecer orientação prática sobre a
aplicação desses critérios.
Com o objetivo de dar um tratamento mais sofisticado à identificação das
transações que geram receita, deve-se reconhecê-la a partir do momento em
que houver a transferência dos bens vendidos ou serviços prometidos, a um
valor ao qual o direito de recebimento da entidade seja equivalente.
Observe, na figura 6, o modelo de cinco etapas estabelecido pela IFRS 15 –
CPC 47.

Figura 6
Modelo para reconhecimento das receitas
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Reconhecimento

Na primeira etapa, a norma assegura que, inicialmente, um contrato deve


ser identificado. Ele é definido como um acordo entre duas ou mais partes
que cria direitos e obrigações exigíveis. O vendedor e o comprador podem
acordar verbalmente, o que não é abordado nas práticas atuais vigentes no
Brasil, ou celebrar um contrato escrito, podendo ainda haver algum
elemento implícito.
Conforme o CPC 47, § 9:

9. A entidade deve contabilizar os efeitos de um contrato com um cliente


que esteja dentro do alcance deste pronunciamento somente quando todos
os critérios a seguir forem atendidos:
(a) quando as partes do contrato aprovarem o contrato (por escrito,
verbalmente ou de acordo com outras práticas usuais de negócios) e
estiverem comprometidas em cumprir suas respectivas obrigações;
(b) quando a entidade puder identificar os direitos de cada parte em
relação aos bens ou serviços a serem transferidos;
(c) quando a entidade puder identificar os termos de pagamento para os
bens ou serviços a serem transferidos;
(d) quando o contrato possuir substância comercial (ou seja, espera-se
que o risco, a época ou o valor dos fluxos de caixa futuros da entidade se
modifiquem como resultado do contrato); e
(e) quando for provável que a entidade receberá a contraprestação à qual
terá direito em troca dos bens ou serviços que serão transferidos ao
cliente. Ao avaliar se a possibilidade de recebimento do valor da
contraprestação é provável, a entidade deve considerar apenas a
capacidade e a intenção do cliente de pagar esse valor da contraprestação
quando devido. O valor da contraprestação à qual a entidade tem direito
pode ser inferior ao preço declarado no contrato se a contraprestação for
variável, pois a entidade pode oferecer ao cliente uma redução de preço
[…].

Nessa primeira etapa, o principal impacto se dará naqueles contratos em


que há histórico de inadimplência pelos clientes, pois nos casos em que
parte da contraprestação não seja provável, a receita não deve ser
reconhecida pelo seu valor global, mas apenas na parcela provável de
realização. Note que tal avaliação é decorrente da ação simultânea do pré-
teste de imparidade e do reconhecimento da receita no momento inicial, ou
seja, não devem ser reconhecidas como receita as perdas por redução ao
valor recuperável, conforme dispõe a norma CPC 01 (R1).
No momento da análise contratual, acerca da alínea “d” (CPC 47, § 9),
deve-se aplicar julgamento para identificar se o contrato tem substância
comercial, notadamente quando os bens vendidos ou serviços prestados
forem objeto de troca ou de permuta por outros bens ou serviços de mesma
natureza e valores idênticos. Nesse caso, a permuta não é considerada uma
transação que gera receita e, consequentemente, não há que reconhecer as
receitas que são objeto de permuta, tendo em vista que, por serem de
mesma natureza, não haverá aumento do patrimônio líquido em decorrência
do aumento de ativo ou diminuição de passivo.
De outra forma, quando os bens vendidos ou serviços prestados
estiverem em negociação com outros bens ou serviços que não sejam
similares, mas sim de natureza diferente, tais permutas são vistas como
transações que geram receita e devem ser mensuradas pelo método de valor
justo, o qual será tratado em uma seção própria deste capítulo relativa à
mensuração de receita.
Para uma operação ser considerada uma permuta, deve-se observar até
que ponto os fluxos de caixa futuros da entidade serão modificados em
virtude da transação. De acordo com o CPC 27, § 25:

25. […] A operação de permuta tem natureza comercial se:


(a) a configuração (ou seja, risco, oportunidade e valor) dos fluxos de
caixa do ativo recebido for diferente da configuração dos fluxos de caixa
do ativo cedido; ou
(b) o valor específico para a entidade de parcela das suas atividades for
afetado pelas mudanças resultantes da permuta; […].

Dessa forma, em caso de permuta, para que haja o reconhecimento da


receita, faz-se necessário que a transação possua substância comercial.
Então, vejamos a seguir duas situações de permuta com diferentes
possibilidades de reconhecimento.
Na segunda etapa, pode-se verificar que a norma trata das obrigações de
performance, que nada mais são do que a obrigação da entidade vendedora
de desempenhar seu dever de repassar o controle do bem ou serviço à
entidade compradora. Dessa forma, tais obrigações devem ser
contabilizadas separadamente caso a promessa que irá gerar benefício para
o cliente possa ser identificada de forma isolada de outras obrigações do
contrato. Podemos citar como exemplo a venda de um bem com sua
instalação embutida no contrato. Nesse caso, há duas obrigações: uma pela
venda do bem e outra pelo serviço de instalação.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Imagine que uma companhia aérea vendeu um número de bilhetes de passagem maior
que as acomodações do voo. É o famoso overbooking, ou seja, o passageiro não
consegue embarcar no voo para o qual possuía reserva, devido ao excesso de
passageiros. Normalmente, essas empresas têm parcerias com outras companhias-
aéreas, de modo que haja a possibilidade de endosso, isto é, o direito que o passageiro
tem de trocar o bilhete de uma companhia aérea para outra. Num primeiro momento, na
perspectiva da forma jurídica, poder-se-ia pensar que a empresa endossatária, que está
recebendo o passageiro em decorrência de overbooking de outra companhia, deveria
contabilizar a receita da passagem. No entanto, olhando mais atentamente a essência
econômica da transação, observa-se que na verdade há uma permuta entre as
companhias aéreas, de modo que num momento subsequente a empresa endossatária
passará a ser endossante. Então, como não há natureza comercial, não há que se
reconhecer a receita.
De forma antagônica, imagine que a mesma companhia aérea está com necessidade
de realizar uma mudança em sua estrutura física interna e, para tanto, contratou uma
empresa que faz móveis planejados, bem como uma arquiteta. Após algumas reuniões
de negociação, o diretor de relacionamento sugeriu uma parceria em que pudesse ser
realizada uma permuta, ou seja, haveria uma troca de passagens aéreas pelos serviços
prestados da arquiteta e pelos móveis vendidos. Assim, note que a configuração dos
fluxos de caixa – ou seja, risco, oportunidade e valor do ativo recebido – é completamente
diferente da configuração dos fluxos de caixa do ativo cedido. Nesse caso, pelo fato de
ter sido gerado benefício futuro em decorrência do aumento de ativo com incremento do
imobilizado e aumento do patrimônio líquido, deve-se reconhecer a receita relativa ao
ativo cedido e, da mesma forma, o respectivo custo do bem adquirido, ambos a valor
justo.

A identificação das obrigações de performance de forma separada pode


gerar um grande impacto para empresas que costumam agregar em uma
única transação vários elementos que possuem objetos de promessa
distintos. De outra forma, algumas empresas que segregam aquelas
transações que possuem uma única obrigação de performance devem
agregá-la num único elemento para reconhecimento. Vejamos adiante dois
exemplos sobre o que acabamos de comentar.
Além disso, em certas ocasiões, pode existir a necessidade de aplicar
critérios de reconhecimento da receita de forma separada, ou seja, caso seja
possível identificar dois componentes de receita em uma única transação,
devem ser reconhecidos os valores separados para cada tipo de receita, com
a finalidade de representar a essência econômica da transação, ou seja, de
acordo com cada obrigação de performance.
NA PRÁTICA DE MERCADO

Primeiramente, vamos imaginar uma empresa que comercializa softwares e sua posterior
assistência de suporte. A entrega inicial é apenas do software, e posteriormente é
prestado o serviço de assessoria durante o período de uso. Ora, devemos refletir: as
obrigações de desempenho decorrentes da venda do software e da assistência de
suporte são identificáveis separadamente? Na verdade, o benefício gerado pelo software
vendido ao cliente é dependente do suporte dado posteriormente pela empresa, ou seja,
a assistência dada num momento posterior é essencial para o bom funcionamento do
software. Então, a contabilização se dá como uma obrigação de desempenho única.
Vamos imaginar agora que uma empresa comercialize aparelhos condicionadores de ar
e realizou a venda de um de seus produtos com o serviço embutido de instalação.
Imagine que o referido serviço prestado de instalação poderia ser realizado por outra
empresa do mercado sem prejuízo algum do funcionamento do aparelho. Então, nesse
caso, pode-se verificar que existem dois elementos diferentes que estão sendo adquiridos
pelo cliente, sendo um a venda do ar-condicionado e outro o serviço de instalação. Desta
forma, o tratamento contábil deveria considerar que há dois elementos identificáveis e,
portanto, há duas obrigações de desempenho a serem contabilizadas separadamente.

Nesse sentido, perceba, leitor, que o foco do julgamento relacionado ao


momento do reconhecimento diz respeito à identificação do tipo da receita
que está embutida na transação. Assim, avaliar-se-á se existe a necessidade
de segregar a transação em mais de um componente ou se há de se
reconhecer de maneira conjunta a receita em seu aspecto global, de modo
que haja prevalência da essência econômica das transações sobre a forma
jurídica. Vejamos, a seguir, uma situação em que há necessidade de exercer
julgamento para identificar os componentes de receita em uma única
transação.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Imagine um grande hospital, de uma famosa capital brasileira, que possui alta
credibilidade no mercado por proferir diagnósticos precisos e precoces. Para tanto, a
empresa costuma manter suas máquinas que realizam exames sempre atualizadas com
alta tecnologia, de modo a garantir qualidade nos procedimentos. Esse hospital realizou
uma compra, a uma empresa alemã, de um aparelho completamente novo e exclusivo no
mercado, o qual necessitava de pessoas habilitadas para operá-lo e garantir, assim, que
não houvesse erro no diagnóstico devido a um manuseio inadequado. A empresa alemã
embute no mesmo contrato, e nota fiscal, o valor da máquina juntamente com o
treinamento a ser dado para médicos do hospital. Note que, apesar de existir uma única
transação na forma jurídica do contrato, pode-se observar, pela essência econômica, que
na verdade há dois tipos de receita, um pela venda da máquina e outro pela prestação do
serviço de treinamento para operação da máquina. Dessa forma, os valores que se
consiga identificar relacionados aos treinamentos que serão dados posteriormente devem
ser diferidos e reconhecidos como receita durante o período em que o serviço for
executado.

No que diz respeito à satisfação da obrigação de performance, o CPC 47,


§ 31, estabelece:
31. A entidade deve reconhecer receitas quando (ou à medida que) a
entidade satisfizer obrigação de performance ao transferir o bem ou o
serviço (ou seja, um ativo) prometido ao cliente. O ativo é considerado
transferido quando (ou à medida que) o cliente obtiver o controle desse
ativo.

Acerca do controle do ativo, deve-se exercer julgamento sobre o exato


momento em que a entidade transfere os riscos e os benefícios
significativos da propriedade para o comprador, ou seja, para que a receita
não seja reconhecida, a análise deve estar fundamentada para garantir que a
entidade está retendo os riscos e benefícios da operação. Todavia, se o risco
retido pela empresa for considerado imaterial diante do valor global da
receita, o reconhecimento pode ser realizado, mas é recomendável que seja
efetuada uma provisão para obrigações decorrentes de tal risco retido, como
é o caso das garantias concedidas aos clientes. Observe, a seguir, um
exemplo prático sobre retenção de risco após venda de determinado item.

NA PRÁTICA DE MERCADO

Imagine que um banco de investimento possui uma carteira de recebíveis que está
registrada na contabilidade por R$ 540.000 e, para obtenção de caixa, foi decidido vendê-
la pelo mesmo valor. O banco garante ao comprador R$ 15.000 de restituição em casos
de perdas possíveis, mas exige, no contrato, que deverá aprovar revendas futuras dos
recebíveis. Com base nos valores dos anos anteriores, as perdas esperadas são de R$
20.000. A partir dessas informações, o principal julgamento a ser exercido é se houve
retenção dos riscos e benefícios, bem como se o controle foi retido. Note que, pelos
dados históricos, a perda é R$ 20.000, mas o banco só assegura até R$ 15.000 de
perdas, ou seja, a garantia não cobre todas as perdas possíveis, porém cobre parte
delas. Se observamos apenas esse fato, não conseguimos fazer uma análise completa
para definir se houve transferência ou retenção de riscos e benefícios. No entanto, como
está especificado no contrato que o banco deverá aprovar a transferência desses
recebíveis para uma terceira parte, infere-se que houve retenção de controle. Assim, o
banco só poderá reconhecer a receita em relação àquilo que ele não tem mais
envolvimento continuado, ou seja, não se deveria reconhecer a receita devido à
existência da garantia de R$ 15.000, pois representa manutenção da gestão continuada
dos bens vendidos e evidência de que não houve a transferência completa dos riscos e
benefícios associados ao item.
A seguir, observe alguns exemplos de situações em que a entidade pode
reter riscos e os benefícios significativos da propriedade, ficando impedida
de satisfazer as obrigações de performance e, consequentemente, de
reconhecer a receita.

• Quando a entidade vendedora retém uma obrigação em decorrência


de desempenho. Nesses casos, a empresa vendedora se compromete a
devolver o valor decorrente da venda caso o cliente venha a devolver
em razão de insatisfação quanto ao desempenho do produto que não
esteja coberta por cláusulas usuais de garantia.
• Nos casos em que o recebimento da receita de uma venda em
particular é contingente. Isso ocorre normalmente por meio de uma
venda consignada, ou seja, o reconhecimento da receita depende da
venda dos bens, pelo comprador, para um terceiro.
• Quando os bens vendidos estão sujeitos a instalação. Nessa situação,
como a instalação é uma parte significativa do contrato e ainda não foi
executada pela entidade, não se deve reconhecer a receita.
• O comprador tem o direito de rescindir a compra. Quando o cliente,
por uma razão especificada no contrato de venda, venha a possuir o
direito de devolver a mercadoria, o reconhecimento da receita ficará
vetado caso a entidade vendedora não esteja certa da probabilidade de
devolução.

Outra questão importante na satisfação das obrigações de performance


diz respeito aos bens que estão em trânsito. Para tratarmos disso, vamos
traçar um raciocínio. Observe, leitor, que a receita só poderá ser
contabilizada se o controle do bem, representado pela transferência dos
riscos e benefícios do mesmo, for repassado ao cliente. Antes dessa
transferência, o bem ainda é um estoque, ou seja, um ativo da empresa.
Relembrando o que apresentamos no primeiro capítulo, para ser
considerado um ativo basta que a empresa tenha o controle do bem,
independentemente da posse e da propriedade.
Imagine que uma empresa financiou seus estoques, cuja propriedade
jurídica, pelo contrato, é do fornecedor, e que tais estoques estejam
armazenados num galpão em poder de terceiros. Independentemente de a
posse ser de terceiros e de a propriedade ser do fornecedor, na essência
econômica o controle do bem é da empresa, pois titularidade não é
sinônimo de ter o bem em mãos e, na verdade, a entidade é que possui os
riscos e benefícios dos estoques.
Pois bem, a partir do conceito de ativo, quando os bens estão em trânsito
é de suma importância identificar quem possui seu controle. Assim, para
que se possa reconhecer a receita, no caso da vendedora, a empresa não
deve mais controlar o item, e sim transferir seus riscos e benefícios; para a
compradora, a contabilização do item como seu estoque se dará quando
assumir o referido controle.
Analisando tal cenário, o controle a partir do frete deve ser levado em
consideração. Tradicionalmente, conforme os aspectos legais e contábeis,
os bens deverão ser incluídos no estoque da empresa financeiramente
responsável pelos custos de transporte. Então, a este respeito, a Fipecafi
(2012:7) apresenta alguns tipos de frete que podem influenciar o
reconhecimento da receita. Vejamos a seguir:

• FOB (free on board) destination. Nessa modalidade, como a


mercadoria que está em trânsito é de inteira responsabilidade do
vendedor durante todo o trajeto até o destino, o reconhecimento da
receita e sua baixa de estoque só ocorrerão quando o comprador
receber os bens.
• FOB (free on board) shipping point. Nesse caso, de forma geral, os
bens em trânsito pertencem ao comprador. Assim, a responsabilidade
do vendedor é restrita ao momento em que ele entrega a mercadoria à
transportadora e, após a transferência de responsabilidade, a empresa
já pode reconhecer a receita, ainda que a mercadoria não tenha
chegado ao cliente.
• FAS (free along side). Nesse tipo de frete, existe uma divisão de
responsabilidades. A empresa vendedora arca com todas as despesas e
riscos envolvidos na entrega dos bens até o local onde serão
reembarcados. Já o cliente irá assumir as despesas de carregamento e
transporte. Então, a receita só será reconhecida pela empresa
vendedora quando os riscos e benefícios forem transferidos, no
momento em que o segundo transportador assumir o controle dos bens.
• CIF (cost insurance and freight). Nessa categoria, a empresa
vendedora assume os custos, o seguro e o frete da transação, ou seja, é
de sua inteira responsabilidade colocar as mercadorias no local que o
cliente determinar, e apenas nesse momento poder-se-á reconhecer a
receita e proceder à respectiva baixa de estoque.

Observe, a seguir, um exemplo prático que ilustra como pode haver


insegurança sobre o momento ideal de reconhecimento da receita.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma indústria especializada na produção de carne bovina resfriada e congelada, além de
vender carnes para todo o Brasil, realiza exportação para outros países da América
Latina em função da alta qualidade de seus produtos. Imagine que a indústria fique no
Norte do Brasil e que realize venda de produtos para estabelecimentos localizados em
Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Há alguns clientes que fazem o pedido sempre nos
últimos dias úteis do mês, de modo que o caminhão frigorífico sai da fábrica no final do
respectivo mês com a devida nota fiscal, senão nem passaria pelos postos fiscais
interestaduais, mas os produtos só chegam ao cliente no mês seguinte devido ao longo
tempo de deslocamento, pelo trajeto de norte a sul do país. Este fato poderia gerar
confusão para saber em qual momento identificar que os riscos e benefícios foram
transferidos para os clientes no Sul, se no mês de emissão da nota fiscal e saída do
produto da fábrica ou se no momento da chegada ao comprador no mês seguinte.
Observando a essência econômica da transação, e objetivando gerar uma informação
mais relevante, dever-se-ia identificar o tipo de frete envolvido, mas, de uma forma geral,
o reconhecimento da receita só deveria acontecer quando houvesse a transferência de
controle do bem para os clientes. Os produtos poderiam ainda não estar na posse do
comprador, mas se houvesse, por exemplo, um seguro da carga em que o cliente fosse
beneficiário, haveria elementos consistentes para que a receita pudesse ser reconhecida
com segurança.
Conforme o CPC 47, § B49, em alguns casos a entidade cobra do cliente,
na celebração do contrato, uma taxa inicial não restituível. Assim, para
identificar obrigações de performance nesses contratos, a entidade deve
avaliar se as taxas se referem à transferência de bem ou serviço prometido.
A referida taxa pode ser um pagamento antecipado por bens ou serviços
futuros e, portanto, deve ser reconhecida como receita quando esses bens ou
serviços forem fornecidos. O período de reconhecimento da receita deve se
estender além do período contratual inicial se a entidade conceder ao cliente
a opção de renovar o contrato e essa opção proporcionar a este último
direito material.
Em tais circunstâncias, quaisquer contraprestações antecipadas, ou seja,
entradas de recursos financeiros já recebidos pela venda dos bens, devem
ser reconhecidas como passivo sem efeito no resultado do exercício, vale
dizer, o momento do reconhecimento da receita pode ser diferente dos
benefícios gerados pela entrada de fluxos de caixa. Nesse caso de
antecipação dos recebíveis pela geração de um passivo na conta de
adiantamento de clientes, apenas num momento subsequente, quando a
empresa transferir os riscos e os benefícios ao comprador, poder-se-á
reconhecer a receita de venda mediante baixa daquela obrigação de entregar
a mercadoria por meio da diminuição do saldo da conta de adiantamento de
clientes em contrapartida ao reconhecimento da receita no resultado do
exercício. Vejamos um exemplo prático sobre o reconhecimento de receita
com antecipação de pagamento.
NA PRÁTICA DE MERCADO

Uma indústria produtora de material explosivo possui alguns pedidos feitos por
construtoras para produção de dinamites e não pode estocá-las, já que só pode produzir
mediante encomenda formalizada por órgãos fiscalizadores. Para realização do pedido,
os clientes precisam efetuar parte do pagamento, que monta em torno de 50% do valor
total da encomenda. Num primeiro momento, esse valor entrará no caixa da empresa,
mas ainda não se deve reconhecer a receita, pois se trata de um adiantamento de cliente,
que deve ser contabilizado no passivo por se tratar de uma obrigação adquirida de
entregar mercadoria no futuro. Posteriormente, quando os produtos forem entregues às
construtoras, no local que a legislação permita, inclusive com acompanhamento do
Exército, a receita deverá ser reconhecida pelo seu valor integral, ainda que o restante do
pagamento seja feito no futuro. Então, de qualquer forma, o principal critério de
reconhecimento da receita foi atendido pela geração de benefício econômico com a
entrada de recursos na empresa, seja pelo pagamento restante à vista ou pelo direito
adquirido de receber posteriormente, bem como pela diminuição do passivo
anteriormente adquirido, e, agora, a obrigação foi cumprida pela entrega dos produtos.

Mensuração

Assim como o processo de identificação e reconhecimento da receita é de


suma importância para gerar utilidade para os usuários, a forma pela qual a
receita será mensurada também irá completar a informação para que seja
capaz de impactar a tomada de decisão.
Conforme o CPC 47, § 46,

à medida que uma obrigação de performance for satisfeita, a entidade


deve reconhecer como receita o valor do preço da transação […], o qual
deve ser alocado a essa obrigação de performance.

Vale ressaltar que o montante supracitado deve ser deduzido de quaisquer


contraprestações variáveis de restrição, como descrito no item 2 a seguir,
tais como descontos comerciais concedidos aos clientes e/ou bonificações
decorrentes de volume ou mix de vendas.
Assim, na terceira etapa, dever-se-á determinar o preço da transação, o
qual é o montante da contraprestação que a empresa espera ter o direito de
receber de um cliente em troca da transferência de bens ou serviços
prometidos. Essa remuneração do contrato com o cliente deve refletir em
seu preço os seguintes aspectos:

1) valor da contraprestação fixa, variável ou ambas – no caso em que o


preço da transação tiver elemento de contraprestação variável, o CPC
47, § 53, elenca dois tipos de métodos para determiná-lo: método do
valor esperado e método do valor mais provável;
no caso de contraprestação variável em que haja algum fator limitante
2)
ou de restrição, deve-se considerar no preço de transação apenas
aquele que seja altamente provável de realização;
3) segregar qualquer elemento financeiro embutido na transação e estimar
o valor que seria recebido caso o cliente optasse por pagar à vista pelo
bem ou serviço prestado;
4) no caso em que a contraprestação que a empresa receberá do cliente
for bens ou serviços – os chamados itens não monetários –, dever-se-á
estimar o valor justo de tais itens e a contabilização se dará pelo
controle desses bens ou serviços;
5) devem ser observados os contratos em que haja alguma possibilidade
de pagamento ao cliente, apesar de ter sido realizada uma venda, como
nos casos de cupons, reembolsos, descontos etc.; nesses casos, quando
houver a transferência dos bens ou serviços prometidos aos clientes,
deverá ocorrer o reconhecimento da redução do preço da transação.

Com relação ao item 1, vejamos a seguir como alguns desses elementos


causariam impacto numa situação prática em que exista elemento de
contraprestação variável.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Vamos observar como poderíamos aplicar o método do valor provável. Imagine um
escritório de advocacia especializado em negociação, análise e risco de crédito, o qual foi
contratado por determinado cliente para negociar suas dívidas no montante de R$
280.000. Os advogados, com base em seu time sheet, estipularam honorários de R$
6.000. Depois do período da negociação, caso os advogados conseguissem reduzir a
referida dívida em até 50% do montante, eles teriam o direito a receber honorários
adicionais de R$ 15.000. Agora imagine que, com base nos serviços prestados em
períodos anteriores, é altamente provável que haja sucesso na negociação dos
advogados e que consigam reduzir ao percentual esperado. Ao aplicar o método do valor
provável, o preço da transação referente à contrapartida deveria ser de R$ 21.000.

Assim, no contexto brasileiro, ao compararmos os antigos moldes para o


reconhecimento de receita com os critérios trazidos pela IFRS 15/CPC 47,
podemos verificar que vários setores foram afetados em sua adoção, pois,
havendo valores em que a contraprestação seja variável, o reconhecimento
da receita pode ocorrer de forma imediata ou diferida.
No que diz respeito a uma transação com elemento de financiamento
embutido em consequência do diferimento do pagamento em condições que
fogem da normalidade da negociação, como permitir que o cliente pague
em 12 parcelas, por exemplo, a mensuração da receita deve ser feita com
base no cálculo do valor do acordo trazido a valor presente, isto é, devem-se
descontar todos os fluxos de caixa futuros a uma taxa de juros que
represente o risco da negociação, de acordo com os preceitos do CPC 47, §§
64 e 65. Nesse sentido, tais juros deverão ser reconhecidos utilizando como
base a taxa de juros vigente no mercado pertinente.
Por conseguinte, o elemento financeiro que esteja embutido na operação
– quer dizer, a diferença existente entre o valor total cobrado e o valor
nominal da contraprestação – deverá ser reconhecido como receita
financeira no resultado do período. Observe, a seguir, uma situação prática
para entendermos melhor como se daria uma venda com necessidade de
apurar o valor justo com elemento financeiro embutido.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma indústria que produz ventiladores de teto realizou uma venda a prazo. Caso o cliente
tivesse optado por pagar à vista, o valor da operação seria de R$ 520.000. No entanto, o
cliente optou pelo pagamento trimestral a prazo durante 12 meses nas seguintes
condições:
Primeira parcela: R$ 100.000 (final do trimestre);
Segunda parcela: R$ 200.000 (final do semestre);
Terceira parcela: R$ 300.000 (após 12 meses).
Note que o valor total a ser pago pelo cliente será de R$ 600.000, somando as três
parcelas. No momento do reconhecimento inicial seria feito o seguinte lançamento
contábil:
D – Contas a receber R$ 600.000
C – Juros a apropriar (redutora de ativo) R$ 80.000
C – Receita de vendas R$ 520.000
É necessário encontrar a taxa efetiva de juros para separar o valor da receita
propriamente dita do elemento financeiro e apropriar os juros da transação ao resultado,
à medida que o tempo transcorrer. Usando as teclas da calculadora financeira,
encontraríamos a seguinte taxa:
520.000 CHS g Cfo 100.000 g Cfj 200.000 g Cfj 0 g Cfj 300.000 g cfj f IRR
Taxa = 5,25228% a.t.
Com base nesta taxa encontrada, teríamos o seguinte fluxo de caixa durante o período:

Valor presente 520.000 Saldo inicial Juros Parcelas Saldo final

1o trimestre -100.000 520.000 27.311,87 -100.000 447.311,87

2o trimestre -200.000 447.311,87 23.494,08 -200.000 270.805,95

3o trimestre 0 270.805,95 14.223,49 0 280.029,45

4o trimestre -300.000 285.029,45 14.970,55 300.000 0


Total 80.000,00 600.000
Assim, ao final do primeiro trimestre, por exemplo, teríamos os seguintes lançamentos
contábeis, cujo racional se aplica ao fim das demais parcelas:
D – Banco: R$ 100.000 Pelo recebimento da parcela
C – Contas a receber: R$ 100.000
D – Juros a apropriar (redutora de ativo): R$ 27.311,87 Pela apropriação dos juros
C – Receita financeira: R$ 27.311,87

Observe que a receita será reconhecida pelo valor presente, descontando


os juros cobrados como financiamento da operação, conforme o caso
supracitado. No entanto, vale salientar que os impostos incidentes na
operação possuem como base de cálculo o valor global da nota fiscal.
Na quarta etapa, depois da identificação do preço da transação, deve-se
alocar tal preço às obrigações de performance determinadas na segunda
etapa. Note que se o contrato tiver apenas uma única obrigação de
performance não haverá necessidade de executar os procedimentos de
alocação dessa quarta etapa, tendo em vista que o próprio preço identificado
na etapa anterior seria exclusivamente da única obrigação.
Então, para alocação do preço às obrigações de performance, deve-se
levar em consideração a proporção do preço de venda de cada uma de
forma independente. O referido preço de venda normalmente é observável
no mercado, mas, na impossibilidade de se verificar tal preço, deve-se fazer
uma estimativa que seja fundamentada em evidências. Nesse caso, o preço
de venda não sendo observável, o CPC 47, § 79, sugere que a empresa
utilize três métodos para estimá-lo:

a) Método de avaliação de mercado ajustada. Nesta abordagem, “a


entidade pode avaliar o mercado no qual vende bens ou serviços e
estimar o preço que o cliente nesse mercado estaria disposto a pagar
por esses bens ou serviços”. Além disso, o preço da concorrência para
bens ou serviços similares pode ser usado como referência para ajustar
o preço de venda, conforme necessário, a fim de refletir os custos e
margens da entidade.
b) Método de custo esperado mais margem de lucro. Nesta abordagem, “a
entidade pode prever seus custos esperados para satisfazer a obrigação
de performance e então adicionar a margem apropriada para esse bem
ou serviço”.
c) Método residual. Nesta abordagem, “a entidade pode estimar o preço
de venda individual por referência ao preço de transação total menos a
soma dos preços de venda individuais observáveis de outros bens ou
serviços prometidos no contrato”. Esta abordagem é muito utilizada
para as situações das vendas em combo, em que a entidade embute um
bem ou serviço na venda de outro item.

Contudo, a entidade pode usar uma abordagem residual para estimar […]
o preço de venda individual de bem ou serviço somente se for atendido
um dos seguintes critérios:
(i) a entidade vender o mesmo bem ou serviço a diferentes clientes (ao
mesmo tempo ou aproximadamente ao mesmo tempo) por ampla gama
de valores (ou seja, o preço de venda é altamente variável porque o preço
de venda individual representativo não pode ser discernido de transações
passadas ou de outras evidências observáveis); ou
(ii) a entidade ainda não estabeleceu o preço para esse bem ou serviço e o
bem ou serviço não foi vendido anteriormente de forma individual (ou
seja, o preço de venda é incerto) [CPC 47, § 79].
A norma permite ainda a adoção da combinação de tais métodos ou
algum outro método que possa estimar o preço de maneira razoável,
maximizando, na medida do possível, o uso de inputs observáveis, assim
como prescreve o CPC 46 – Mensuração do Valor Justo (CPC, 2012h).
Vale ressaltar que a norma (CPC 47, §§ 91 e 92) assegura que “a entidade
deve reconhecer como ativo os custos incrementais para obtenção de
contrato com cliente, se a entidade espera recuperar esses custos”. O
conceito de custo incremental diz respeito aos “custos em que a entidade
incorre para obter o contrato com o cliente que ela não teria incorrido, se o
contrato não tivesse sido obtido (por exemplo, comissão de venda)”.
Por fim, na quinta etapa, ocorre o desfecho do reconhecimento da receita.
Assim, quando o controle do bem ou serviço é transferido ao cliente por
cumprimento da obrigação, a empresa pode reconhecer a receita.
A transferência do controle pode se dar num momento único, como nos
casos de transferência de titularidade legal, posse física e riscos e
benefícios. Além disso, também há transferência de controle nos casos em
que haja uma obrigação presente de pagar pelo ativo e o referido ativo tenha
sido aceito pelo cliente.
No entanto, quando a transferência do controle ocorrer ao longo do
tempo, a empresa deve selecionar algum método que identifique como a
obrigação de performance será cumprida. A IFRS 15 (IASB, 2015) elenca
os seguintes critérios para transferência de controle ao longo do tempo:

• os benefícios gerados pelo desempenho da empresa são consumidos


pelo cliente no mesmo momento em que ele recebe e consome tais
benefícios;
• o desempenho da empresa gera ou aperfeiçoa um ativo que vai sendo
controlado pelo cliente à medida que tal ativo é gerado ou
aperfeiçoado;
• o terceiro critério é dividido em duas partes:
a) o desempenho da entidade não cria um ativo com um uso alternativo
para a entidade, exemplificado por um ativo que apenas o cliente possa
utilizar;
b) a entidade tem o direito executável da exigibilidade do pagamento
pelo desempenho concluído até o momento, por exemplo, construir um
ativo a pedido do cliente.

Assim, nos casos em que a obrigação de performance é satisfeita ao


longo do tempo, a entidade deve mensurar o progresso em relação à
satisfação completa dessa obrigação aplicando métodos apropriados,
considerando a natureza do bem ou serviço que a entidade prometeu
transferir ao cliente (CPC 47, §§ 39 e 42).
Acerca dos serviços prestados ao longo do tempo, a receita associada à
operação deve ser identificada e reconhecida tendo como referência o
progresso de execução dos serviços prestados até a data de fechamento das
demonstrações financeiras. Raciocinemos sobre isso.
Em suas operações, as empresas necessitam de outras organizações para
prestação de serviços de diversas naturezas. No momento da negociação
para acordar os serviços a serem prestados, as empresas podem acertar um
valor total pelo serviço com o prazo estimado para concluí-lo, como
também podem negociar para que a prestação do serviço seja contínua, sem
prazo de término, de modo que os benefícios gerados estejam sempre em
processo de continuidade.
Nesse sentido, quando um serviço puder ser estimado pelo seu valor
global e houver como identificar o exato trabalho a ser desenvolvido
durante o período acordado, devemos levar em conta que a receita será
reconhecida à medida que o serviço for executado e quando os riscos e
benefícios relativos aos bens forem transferidos, o que muitas vezes
coincide com a entrega física do mesmo ou, nesse caso, com a efetiva
prestação dos serviços. No entanto, quando determinada etapa tiver maior
relevância do que quaisquer outras, o reconhecimento da receita deverá ser
adiado até que essa etapa significativa seja executada.
Observe, a seguir, uma situação prática para a identificação das etapas de
trabalho que impactará o reconhecimento da receita.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma empresa especializada em prestar serviços de consultoria empresarial possui
profissionais capacitados para diagnosticar e criar soluções estratégicas para um melhor
desempenho dos negócios de seus clientes. Tal organização foi contratada por um grupo
empresarial que atua na educação em nível de graduação e pós-graduação. O referido
grupo fazia má gestão de seus recursos e encontrava-se em estado de insolvência, ou
seja, necessitando vender ativos de longo prazo para pagar contas de curto prazo. Nesse
sentido, a consultoria verificou, entre outras coisas, que seria necessário executar as
seguintes etapas para chegar ao objetivo maior:
1) identificação do modelo de negócio;
2) levantamento de documentação;
3) planejamento dos programas de trabalho;
4) diagnóstico econômico-financeiro;
5) acompanhamento do status de negociação de dívidas;
6) levantamento dos critérios para remuneração com base no desempenho;
7) realização de planejamento tributário;
8) relatório final da consultoria.
O acordo inicial entre as partes foi que seria pago um valor global por toda a consultoria
dada num prazo estimado de seis meses. Não obstante a forma como o cliente iria pagar,
o reconhecimento da receita da prestação de serviços por parte da consultoria se daria
proporcionalmente, à medida que as etapas fossem executadas. Entretanto, poderia
haver dúvida acerca do momento ideal para reconhecer a receita, caso alguma etapa
fosse considerada, após julgamento exercido entre as partes, mais significativa do que
outra. Nesse caso, dever-se-ia adiar o reconhecimento da receita até o momento de
conclusão de tal etapa significativa, de forma proporcional aos serviços prestados. De
maneira prática, relatórios de medição com a relação das horas incorridas em cada
etapa, em contrapartida às horas totais orçadas, poderiam ser um parâmetro para o
reconhecimento da receita ao longo do período.

No reconhecimento da receita deve prevalecer, portanto, a essência


econômica sobre a forma jurídica, de modo que a informação gerada seja
útil e represente fidedignamente a transação. Assim, ainda que não
conheçamos detalhes sobre as etapas da prestação do serviço, mas já
tenhamos elementos suficientes que garantam que os benefícios
econômicos futuros irão fluir para a entidade, a receita deverá ser
reconhecida. Vejamos um exemplo a esse respeito.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma rede hoteleira possui um spa objetivando oferecer aos seus hóspedes tratamento de
beleza, saúde e bem-estar. Com a finalidade de incentivar seus clientes a consumirem
seus serviços, a empresa conta com um programa de bonificação em que são vendidos
pacotes promocionais e, para cada cinco estadias vendidas, uma gratuita adicional é
concedida ao cliente.
O spa estabelece regras dentro das quais o direito de usufruir de tais estadias está
limitado a três meses. Observe que tal bonificação, na essência econômica, nada mais é
do que uma redução da margem de lucro da empresa pelas estadias precificadas
individualmente, ou seja, no preço global das cinco estadias cobradas inicialmente está
incluído o serviço a ser prestado com a estadia da bonificação.
Note que a parcela relativa ao bônus deverá impactar o diferimento da receita pro rata
tempo no que se refere a esse bônus. Assim, pode-se depreender que a receita deve ser
reconhecida não só por cinco estadias, pois na essência estará correspondendo à
prestação do serviço de seis estadias. Logo, o reconhecimento da receita total relativa às
cinco estadias deverá ser distribuído pelas seis durante o período preestabelecido no
contrato.

Evidenciação

No que se refere às receitas, todas as informações relevantes que podem


impactar a tomada de decisão mas que não puderam ser traduzidas a partir
das informações gerais das demonstrações contábil-financeiras devem ser
elencadas de forma transparente nas notas explicativas. Tais informações
complementares são requeridas pelo CPC 47. Observe a seguir as
informações qualitativas e quantitativas que devem ser divulgadas pela
entidade:

(a) seus contratos com clientes […];


(b) julgamentos significativos e mudanças nos julgamentos feitos ao
aplicar este pronunciamento a esses contratos […]; e
(c) quaisquer ativos reconhecidos a partir dos custos para obter ou
cumprir um contrato com cliente […] [CPC 47, § 110].
No capítulo seguinte, abordaremos o tratamento contábil para as
obrigações e os direitos que ocorrerão numa data futura, mas que podem
influenciar na tomada de decisão atual por parte dos usuários da informação
contábil. Apresentaremos, também, como as transações que estão na
contingência de se concretizar impactam a contabilização das provisões.
3
Provisões, ativos e passivos contingentes

Neste capítulo, abordaremos as provisões, ativos e passivos contingentes,


considerados componentes relevantes dos relatórios contábil-financeiros e
que possuem características e pressupostos específicos para serem
reconhecidos, mensurados e divulgados.
Apresentaremos, ainda, as diferenças conceituais acerca dos elementos
supracitados, bem como as premissas adotadas na elaboração de estimativas
contábeis pelos gestores e o julgamento profissional necessário para
aplicabilidade dos normativos contábeis.

Contextualização conceitual

Os direitos e obrigações estão geralmente sustentados por documentos


comprobatórios e possuem sólidas bases de mensuração quando não
apresentam dúvidas ou incertezas acerca dos seus correspondentes valores e
respectivos prazos de realização ou liquidação. No entanto, buscando
atingir o objetivo primordial dos relatórios contábil-financeiros de
representar fidedignamente a realidade econômica e financeira das
empresas a que se reportam, deve-se considerar a existência de ativos e
passivos que, apesar de não possuírem precisas informações quanto a seus
valores e prazos, deveriam ser reconhecidos ou, ao menos, apresentados nas
demonstrações contábeis com finalidade informativa a quem interessar.
Baseado nesse pressuposto, em 2009 o Pronunciamento Técnico CPC 25
– Provisão e Passivo e Ativo Contingentes –, o qual tem correlação com a
IAS 37, foi introduzido pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis e
endossado pelos órgãos reguladores prospectivamente.
A compreensão da contabilização das provisões, ativos e passivos
contingentes requer que alguns conceitos e termos relevantes sejam
dominados pelo leitor. Vejamos algumas definições primordiais previstas
pelo Pronunciamento Técnico CPC 25, § 10, iniciando pelo conceito de
passivo:

É uma obrigação presente da entidade, derivada de eventos já ocorridos,


cuja liquidação se espera que resulte em saída de recursos da entidade
capazes de gerar benefícios econômicos.

Considerando a incerteza intrínseca e inerente a qualquer transação cuja


saída do recurso financeiro ainda não ocorreu, exemplificada por qualquer
compra a prazo, faz-se necessária a utilização de estimativas e do
julgamento do gestor para reconhecimento desses passivos.
Destaca-se que o fato gerador já ocorrido, exemplificado pela entrega
física de um insumo por um fornecedor na compra a prazo, traduz a
necessidade de reconhecimento da obrigação por parte da entidade
adquirente do bem ou serviço. No entanto, dependendo das circunstâncias
relacionadas à capacidade do gestor para mensurar com confiabilidade o
prazo e o valor da operação, tal passivo pode ser considerado um passivo
genuíno, caracterizado por obrigações devidamente fundamentadas por
documentação comprobatória ou derivadas de apropriações por
competência, o qual é tratado neste livro como outros passivos ou uma
provisão. Conforme o Pronunciamento Técnico CPC 25, § 10, “provisão é
um passivo de prazo ou de valor incerto”.
Dessa forma, podemos didaticamente resumir que um passivo é uma
obrigação presente, resultante de um evento que ocorreu no passado, sendo
denominado provisão apenas quando apresenta incertezas quanto ao prazo
de vencimento ou valor.
Note que abordamos o surgimento de passivos decorrentes de
apropriação por competência. Mas, leitor, o que isso significa? Na verdade,
a obrigação surge porque as despesas devem ser reconhecidas no resultado
no momento em que o fato gerador ocorre, ou seja, quando os benefícios
são consumidos. Assim, quando o pagamento não é feito à vista, a entidade
assume uma obrigação decorrente da postergação do pagamento concedida
pelo credor. Daí é que surgem as obrigações derivadas de apropriação por
competência.
Agora, caro leitor, imagine que, apesar de resultante de um evento
passado conhecido, haja dúvidas quanto à saída de recursos para liquidação
de determinado passivo ou não seja possível estimar o prazo ou o valor da
obrigação. Nesse caso, o passivo se caracteriza como um passivo
contingente, conforme definido no Pronunciamento Técnico CPC 25, § 10.

Passivo contingente é:
(a) uma obrigação possível que resulta de eventos passados e cuja
existência será confirmada apenas pela ocorrência ou não de um ou mais
eventos futuros incertos não totalmente sob controle da entidade; ou
(b) uma obrigação presente que resulta de eventos passados, mas que não
é reconhecida porque:
(i) não é provável que uma saída de recursos que incorporam
benefícios econômicos seja exigida para liquidar a obrigação; ou
(ii) o valor da obrigação não pode ser mensurado com suficiente
confiabilidade.

Observe que, analogamente ao passivo, um ativo cuja entrada de recursos


não seja considerada líquida e certa, ou cujos montantes relacionados não
possam ser estimados com segurança, representa ativo contingente, isto é,
um ativo possível que resulta de eventos passados e cuja existência será
confirmada apenas pela ocorrência ou não de um ou mais eventos futuros
incertos não totalmente sob controle da entidade [CPC 25, § 10].

Abordamos os conceitos de passivo, provisão, passivo contingente,


oriundos de um evento passado que resultou em uma obrigação presente.
Pois bem, tal evento pode ter sido originado e formalizado por meio de
cláusulas contratuais, legislação ou qualquer outra ação de lei em vigor que
crie determinada obrigação, denominada obrigação legal. Ou pode ser uma
obrigação não formalizada, a qual igualmente requer que a entidade a
reconheça e a liquide, sendo esta taxonomia assim definida pelo CPC 25.

Obrigação não formalizada é uma obrigação que decorre das ações da


entidade em que:
(a) por via de padrão estabelecido de práticas passadas, de políticas
publicadas ou de declaração atual suficientemente específica, a entidade
tenha indicado a outras partes que aceitará certas responsabilidades; e
(b) em consequência, a entidade cria uma expectativa válida nessas
outras partes de que cumprirá com essas responsabilidades [CPC 25, §
10, grifo no original].

Para facilitar o entendimento do que trata o normativo sobre a origem das


obrigações, observe, leitor, a figura 7.

Figura 7
Origem das obrigações
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Observe que obrigações criadas com base em políticas e declarações


públicas dão causa ao senso comum de direito por parte de usuários que
legalmente passam a requerer o cumprimento de compromissos
relacionados ao produto ou serviço adquirido, independentemente da
existência de formalização e anuência entre as partes. Vejamos um exemplo
a esse respeito.

NA PRÁTICA DE MERCADO
O gerente de marketing de uma loja especializada na venda de binóculos, com o intuito
de aumentar as vendas, optou por realizar uma propaganda no principal canal televisivo
do país oferecendo dois anos de garantia apenas para compras realizadas naquele mês
específico.
Observamos, nesse caso, uma obrigação presente, oriunda de um evento passado, a
qual não foi formalizada por meio de documento entre as partes, mas que, ao criar um
compromisso assumido publicamente, passa a ser considerada uma obrigação não
formalizada. Devido ao compromisso assumido, a saída de recursos para pagamento
dessa obrigação é certa, mas o prazo para liquidá-la e o montante devem ser projetados
com base nas melhores estimativas dos gestores.
Vale destacar que o procedimento para mensurar uma provisão envolve o
uso de estimativas e o exercício do julgamento profissional por parte dos
gestores, pois algumas informações devem ser projetadas conforme
expectativa de realização e premissas disponíveis.
Ainda sobre obrigações criadas por meio de processos formalizados, ou
seja, obrigações legais, destacamos a necessidade da antecipação do
reconhecimento de perdas futuras já previstas e calculáveis. Ou seja, alguns
contratos, por exemplo, preveem cumprimento de garantias cuja provisão
deve ser reconhecida no momento da venda ou prestação do serviço
relacionado.
Observe que alguns contratos, cujos custos essenciais para completá-los
excedem os benefícios econômicos futuros esperados, são considerados
contratos onerosos, e seus efeitos antecipados devem ser reconhecidos por
meio da constituição de respectiva provisão. Vamos aplicar esse conceito a
seguir.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma entidade X, que necessita de serviços logísticos aéreos, assinou um contrato com
uma empresa Y, prestadora de serviços aéreos, para utilização de 200 voos nacionais
para transporte de equipamentos estratégicos a serem utilizados em bases operacionais
distantes pelo período de um ano.
Após oito meses, e tendo utilizado apenas 120 voos, a empresa X decidiu fechar todas
as suas bases operacionais localizadas em outros estados, mantendo apenas a matriz
em funcionamento, não sendo, portanto, necessária a continuação de utilização dos 80
voos para esses destinos. No entanto, o contrato com a empresa Y prevê que os voos
devem ser pagos integralmente, não podem ser cancelados nem transferido o direito de
uso a terceiros.
Observamos, nesse caso, uma obrigação presente oriunda de um evento passado, a
qual foi formalizada por meio de contrato entre as partes, sendo, portanto, uma obrigação
legal. Devido ao compromisso assumido, a saída de recursos para pagamento dessa
obrigação é certa, o prazo de vencimento é conhecido e o montante pode ser estimado
com confiabilidade.
Uma provisão deve ser reconhecida pelo valor que reflita a melhor estimativa da
entidade X dos pagamentos inevitáveis conforme previsto em contrato, o qual se torna
oneroso após o fechamento das bases operacionais, visto que os custos para honrar a
obrigação tornaram-se superiores aos benefícios econômicos futuros esperados.
Apresentados os principais termos e respectivos significados,
focalizaremos os estudos para obter compreensão sobre: similaridades
conceituais existentes nos elementos contábeis, aplicação dos critérios de
reconhecimento, bases de mensuração apropriadas e divulgação requeridas
para as provisões, ativos e passivos contingentes e seus correspondentes
impactos nas demonstrações contábeis.

Provisões, passivos contingentes e outros passivos

Observe, caro leitor, que, apesar da semelhança entre os conceitos gerais


abordados anteriormente, existem diferenças relevantes quanto à
mensuração, reconhecimento e divulgação de cada obrigação. Por isso, tais
conceitos são classificados didaticamente neste livro como: outros passivos,
provisões ou passivos contingentes.
Primeiramente, vamos apresentar as particularidades de cada termo. Uma
obrigação passiva diversa ou um passivo genuíno, didaticamente
considerada neste livro como outros passivos, se caracteriza como uma
obrigação presente cujo valor pode ser mensurado com confiabilidade, o
prazo de liquidação é definido e, geralmente, tais passivos estão presentes
nas atividades rotineiras das entidades. Nesse grupo, enquadram-se aqueles
passivos cuja documentação comprobatória existente extingue qualquer
incerteza sobre valor e prazo, ou aquelas obrigações derivadas de
apropriações por competência. Por exemplo:

• gastos fixos com aluguel de espaço administrativo, cujo passivo é


reconhecido mensalmente, liquidado no início do mês seguinte ao de
competência e formalizado em contrato, sendo, portanto, uma
obrigação legal;
• salários a pagar a funcionários e respectivos encargos trabalhistas,
reconhecidos mensalmente a cada apuração da folha de pagamento,
cujo respectivo pagamento pode ocorrer no início do mês seguinte ao
da prestação do serviço;
• saldos a pagar a fornecedores de materiais operacionais diversos,
reconhecidos quando a entidade recebe o recurso, o material ou o
serviço, cuja documentação fiscal comprobatória ou medição do
serviço é conhecida e não enseja dúvidas quanto ao valor e prazo de
vencimento – o pagamento da obrigação é realizado em período
subsequente, conforme negociação entre as partes;
• itens de consumo recorrente, como contas de telefone, água e luz,
reconhecidos mensalmente com base nas faturas enviadas pelas
operadoras, contendo o respectivo consumo, para pagamento em
momento posterior.

Observe, leitor, que quando não for possível afirmar com certeza o prazo
de liquidação ou mensurar com confiabilidade o valor da obrigação, esta
será considerada uma provisão, registrada levando em consideração a
melhor estimativa da administração no momento do reconhecimento.
Vamos exemplificar.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma loja de artefatos esportivos usualmente oferece aos seus clientes um ano de
garantia para aparelhos adquiridos em uma de suas lojas, mediante a apresentação do
comprovante de garantia fornecido no momento da compra.
Observamos, nesse caso, uma obrigação presente oriunda de um evento passado, a
qual foi formalizada por meio de documento entre as partes, sendo, portanto, uma
obrigação legal. Devido ao compromisso assumido, a saída de recursos para pagamento
dessa obrigação é certa, mas o prazo para liquidá-la e o montante devem ser projetados
com base nas melhores estimativas dos gestores.
Considere que, historicamente, a cada 1.000 unidades vendidas, 85% não apresentam
nenhum defeito, 10% apresentam defeitos cujo custo de reparo unitário é de R$ 100 e
outras 5% devem ser trocadas na íntegra custando R$ 500 cada para a entidade. Com
base nesses dados, uma provisão de R$ 35.000 deve ser reconhecida para cada 1.000
unidades vendidas por ano, conforme cálculo abaixo:
1.000 × 85% × 0 = R$ 0
1.000 × 10% × 100 = R$ 10.000
1.000 × 5% × 500 = R$ 25.000
Total da provisão: R$ 35.000

Vale ressaltar que, embora em determinadas situações os valores ou prazo


de outros passivos necessitem ser estimados – por exemplo, valores
relacionados ao pagamento de férias dos funcionários –, o grau de incerteza
envolvido na determinação dessas estimativas é muito menor do que nas
provisões, devido a dados históricos disponíveis, adoção de premissas com
baixo risco de erro e parâmetros conhecidos pela entidade. É por isso que
passivos genuínos representados por apropriações por competência, apesar
de constituírem lançamentos estimados pela administração no período da
ocorrência para reconhecimento, não apresentam grau de incerteza
relevante e, assim, são considerados passivos genuínos e não provisões. Ou
seja, o grau de incerteza para apropriar por estimativa os gastos de luz de
determinada fábrica em determinado mês, por exemplo, é baixo se
comparado ao grau de incerteza para determinar o valor estimado de
provisão sobre peças defeituosas de novos produtos.
Compreendida a diferença entre provisão e outros passivos, vamos
prosseguir aprofundando nossos estudos na análise das diferenças
conceituais entre passivos e passivos contingentes.
Ao continuarmos a análise sobre a similaridade nos conceitos de provisão
e passivo contingente, faria sentido supor que todas as provisões são
contingentes pela incerteza envolvida na mensuração do seu prazo e valor.
No entanto, repare, leitor, que as provisões são reconhecidas como um
passivo por preencherem dois requisitos básicos: são obrigações presentes e
é provável a saída de recursos para liquidá-las. No entanto, um passivo
contingente não é reconhecido justamente porque não preenche algum dos
requisitos básicos para constituição de passivos, ou seja:

• não é uma obrigação presente e sim possível, pois ainda não houve a
confirmação de sua existência;
• é uma obrigação presente, mas existem incertezas quanto à
probabilidade de saída de caixa para liquidá-la ou não é possível
estimar com confiabilidade o valor da obrigação.
Vejamos alguns exemplos para ilustrar a aplicabilidade dos conceitos
aqui apresentados acerca das provisões, passivos contingentes e outros
passivos.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Uma empresa contratou um consultor contábil para instruir sua equipe administrativa
quanto à melhor forma de contabilizar determinados passivos, após desconfiança, por
parte do controller, da ocorrência de falhas nos procedimentos adotados. Foram
apresentadas quatro situações para o consultor, que explicou e apresentou os corretos
procedimentos que deveriam ser adotados, conforme segue:
1) Gastos com aluguel de espaço administrativo. A empresa paga o aluguel todo quinto
dia útil do mês subsequente ao mês de competência, no valor de R$ 15.000, definido em
contrato assinado entre as partes.
Diagnóstico do consultor contábil: refere-se a uma obrigação presente, classificada
como outros passivos, cujo prazo e montante são conhecidos e cujo reconhecimento
deve ser feito no mês de competência pelo valor definido em contrato.
2) Gastos com consultas jurídicas. A empresa possui uma parceria com um escritório de
advocacia que presta serviço legais sobre determinados assuntos jurídicos solicitados. O
pagamento é feito no momento de recebimento da respectiva nota fiscal, emitida com
base nas horas incorridas pelos advogados que prestaram serviço, o que é constatado
por meio de um boletim de medição operacional mensal assinado por ambas as partes.
Devido ao tempo necessário para processar o boletim, a nota fiscal só é emitida, em
média, 30 dias depois dos serviços prestados.
Diagnóstico do consultor contábil: refere-se a uma obrigação presente, classificada
como provisão, cujo prazo e valor são incertos; no entanto, podem ser estimados com
confiabilidade com base nos boletins de medição e taxa horária média cobrada
historicamente. O reconhecimento deve ser feito no mês de competência pela melhor
estimativa da administração.
3) Processo judicial. Referente a uma multa indenizatória de R$ 20.000 cobrada por
determinado cliente pelo não cumprimento de garantias contratuais. No entanto, a
empresa, por meio de seus assessores jurídicos, defende que o reparo exigido pelo
cliente não estava previsto na cobertura das garantias contratuais.
Diagnóstico do consultor contábil: refere-se a uma obrigação possível, classificada
como um passivo contingente, pois ainda há de ser confirmado se a empresa tem ou não
uma obrigação presente. O reconhecimento não deve ser feito até confirmação da
existência da obrigação.
Abordaremos, na sequência deste capítulo, aspectos relacionados ao
reconhecimento e mensuração das obrigações passíveis de serem
incorporadas ao patrimônio contábil.

Reconhecimento e divulgação

O reconhecimento de obrigações ou direitos refere-se ao fato de registrar


contabilmente determinado ativo ou passivo cuja contrapartida pode
impactar a demonstração de resultado da entidade. Vejamos, portanto, quais
obrigações são passíveis de reconhecimento. Apesar de não estar no escopo
do Pronunciamento Técnico CPC 25, abordaremos também o tratamento
contábil a ser aplicado a passivos genuínos.
Uma obrigação será reconhecida se, e apenas se, as três condições abaixo
forem atendidas:

• representar uma obrigação presente, advinda de um evento ocorrido


no passado, seja ela legal ou não formalizada;
• for provável a saída de recursos para liquidá-la;
• o valor da obrigação puder ser estimado com confiabilidade.

Tanto os passivos genuínos ou outros passivos quanto as provisões


atendem às condições citadas e são, portanto, sujeitos ao reconhecimento.
As particularidades de tais obrigações são suas classificações e o método de
mensuração, tendo em vista que as provisões se caracterizam pela incerteza
de prazo e valor, mas devem ser estimadas para registro.
O princípio básico para reconhecimento de uma obrigação se relaciona
ao tipo de obrigação, ou seja, as obrigações presentes são as únicas
passíveis de reconhecimento. Já as obrigações possíveis possuem
exigibilidade apenas de divulgação, e as obrigações remotas são isentas de
qualquer ação contábil até mudança no cenário. Portanto, podemos afirmar
que ativos e passivos contingentes não são suscetíveis de reconhecimento.
Ou seja, a existência de uma obrigação, presente ou não, quando não estiver
explicitamente clara, deve ser analisada considerando a probabilidade de
existência, geralmente embasada por especialistas que possam suportar as
decisões da administração.
Ainda sobre as definições contidas nas condições de reconhecimento das
obrigações, destacamos alguns aspectos relacionados ao reconhecimento
das provisões:

• Acerca de eventos passados, é importante destacar que independem de


ações futuras da entidade, ou seja, a obrigação presente resultante de
eventos passados não deixará de existir, independentemente de novas
ou corretivas ações futuras serem adotadas. Além disso, a referida
obrigação não deve ser confundida com despesas que necessitam ser
incorridas relacionadas a operações futuras, pois apenas as obrigações
que já existem na data do balanço devem ser reconhecidas.
• Acerca da saída de recursos que incorporem benefícios econômicos, o
reconhecimento da provisão só será realizado se a probabilidade de
saída de recursos for provável, e, conforme previsto no
Pronunciamento Técnico CPC 25, § 23, o termo provável significa
“mais provável que sim do que não de ocorrer”. Caso a probabilidade
de saída de recursos seja considerada possível, a informação deverá ser
divulgada em notas explicativas; caso seja remota, nenhuma ação é
requerida.
• Estimativa confiável. Considerando o grau de incerteza intrínseco para
definição do valor de uma provisão, o uso de estimativas é primordial
para determinação dos montantes provisionados, sendo consideradas
raras as situações nas quais a entidade não consegue projetar possíveis
desfechos para determinar estimativas confiáveis.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Imagine que uma empresa fabrica determinados produtos e, durante seu processo
produtivo, gera lixo químico, o qual é aterrado em áreas específicas criadas pela empresa
para dejeto. No entanto, após denúncia da comunidade local, as autoridades ambientais
penalizaram a empesa em R$ 20.000.000 pela poluição do lençol freático da cidade
devido a vazamentos causados por esses depósitos, que segundo as autoridades não
foram construídos de forma correta, pois não possuíam impermeabilização conforme
requerido para esse tipo de operação.
Perguntas:
• Trata-se de uma obrigação possível ou presente?
• A saída de recursos é provável, possível ou remota?
• O valor pode ser estimado?
Se não houver dúvida da culpa da empresa nos danos e sendo comprovadas as falhas
na operação, a obrigação é presente com saída provável de recursos, sendo o valor
estimável com base nas penalidades. Nesse caso, trata-se de uma provisão reconhecida
da seguinte forma:
D – Despesas com penalidades (DRE) R$ 20.000.000
C – Passivo a pagar R$ 20.000.000
Se existem dúvidas quanto à responsabilidade da mesma no vazamento, sendo a
confirmação dependente de eventos futuros e fora do domínio da entidade, a obrigação é
possível, e a probabilidade de saída de recursos também é possível, apesar de o valor
poder ser estimado. Neste caso trata-se de um passivo contingente que deve ser apenas
divulgado em nota explicativa.
Se existem evidências de que a empresa cumpriu todos os requisitos de segurança e
comprovadamente não possui relação com o ocorrido, sendo classificada pelos
assessores jurídicos como remota a chance da existência da obrigação, com
probabilidade de saída de recursos também remota, apesar de o valor poder ser
estimado, trata-se de um passivo contingente, mas que não há necessidade de divulgar
em nota explicativa.

Ainda sobre passivos contingentes, observe que elencamos situações nas


quais passivos contingentes não são reconhecidos, mas devem ser
divulgados caso sua evidenciação seja relevante para o usuário da
informação.
No entanto, vale ressaltar que apenas em alguns casos raros a entidade
tem a possibilidade de não reconhecer e divulgar uma obrigação em que a
saída de recursos para liquidá-la seja provável. Em particular, tratando-se de
companhias abertas ou reguladas, o não reconhecimento das respectivas
provisões só é permitido caso comprovado que não é possível estimar com
confiabilidade o valor da obrigação.
Nesse caso, a norma prevê a divulgação da natureza da transação,
previsão de liquidação e motivo do não reconhecimento da provisão, para
que os usuários interessados tenham acesso à informação e possam estimar
os efeitos por conta própria.
Analogamente, a não divulgação de uma obrigação com prognóstico
provável de perda somente é permitida caso seja comprovado que a
revelação prejudicaria as operações da entidade, por se tratar de informação
confidencial e estratégica da empresa ou por requerimento de sigilo judicial.
No entanto, atente, leitor, para o fato de que os respectivos órgãos
reguladores devem ser notificados.
Em outras palavras, se a administração da entidade julgar, com base na
opinião dos seus especialistas jurídicos internos ou externos, que as chances
de desembolso de recursos para liquidar uma obrigação são inferiores a
50%, ou seja, mais provável que não do que sim, trata-se de um passivo
contingente.
Vale salientar que aspectos relacionados à relevância e à materialidade
devem ser considerados pelos gestores quando da tomada de decisão dos
fatos precitados.
Vejamos, para fins didáticos, a árvore de decisão, ilustrada na figura 8,
referente aos requerimentos da norma CPC 25 para constituição de
provisões e passivos contingentes baseados na expectativa de saída de
recursos econômicos e da existência de uma obrigação possível ou presente.

Figura 8
Árvore da decisão para reconhecimento
de provisões e passivos contingentes
Fonte: CPC 25, apêndice B.

Vamos visualizar esses conceitos por meio da ilustração da prática de


mercado, objetivando demonstrar distintas situações e ações que devem ser
adotadas pelos elaboradores das demonstrações contábil-financeiras.
NA PRÁTICA DE MERCADO

Imagine que uma empresa prestadora de serviços demitiu em X0, sem justa causa, seu
gerente comercial, que recebia um salário de R$ 15.000 por mês e se chamava XPTO,
visando à redução de custos, visto que suas vendas haviam caído devido à entrada de
novos concorrentes no mercado. Logo após sua demissão, o funcionário XPTO entrou
com uma ação judicial contra a empresa pleiteando horas extras que, segundo ele, não
foram remuneradas apesar de terem sido realizadas, sendo o valor da causa arbitrado
em R$ 50.000, referente aos últimos cinco anos de trabalho. Os assessores jurídicos
contratados pela empresa para defendê-la nesse processo classificaram a causa no
momento inicial como de perda remota, já que a empresa entendia que a cobrança era
indevida. Portanto, em X0:
1) Entende-se que existe uma obrigação presente, cujo valor pode ser mensurado com
confiabilidade, mas que possui probabilidade remota de saída de recursos para liquidá-la.
Trata-se de um passivo contingente que não requer divulgação nem registro de provisão.
No ano seguinte, em X1, uma nova avaliação do processo foi realizada pelos assessores
jurídicos contratados, que classificaram a probabilidade de saída de recursos econômicos
como possível devido à apresentação de novas evidências pelo funcionário XPTO.
Portanto, em X1:
2) Entende-se que existe uma obrigação presente, cujo valor pode ser mensurado com
confiabilidade, com possível saída de recursos para liquidá-la. Trata-se de um passivo
contingente que, conforme a norma, requer divulgação e para o qual não é requerido o
registro de provisão.
Em X2, diante das evidências apresentadas pelo funcionário XPTO e do depoimento de
outros ex-funcionários da empresa confirmando a realização de horas extras, os
assessores jurídicos contratados entendiam que seria difícil refutar os argumentos e
passaram a classificar a probabilidade de saída de recursos como provável. Portanto, em
X2:
3) Entende-se que existe uma obrigação presente, cujo valor pode ser mensurado com
confiabilidade, com provável saída de recursos para liquidá-la. Trata-se, nesse caso, de
uma provisão que, conforme a norma, requer divulgação e o respectivo reconhecimento.

No que se refere aos ativos contingentes, como vimos no início deste


capítulo, basicamente poderíamos dizer que são direitos possíveis, cuja
entrada de recursos econômicos futuros é incerta, não sendo, portanto,
reconhecidos nas demonstrações contábil-financeiras.
Distintamente do tratamento contábil aplicado às obrigações com alta
probabilidade de saída de recursos, os ativos contingentes só podem ser
reconhecidos quando a expectativa de entrada de recursos for praticamente
certa, ou seja, no caso de processos judiciais, o respectivo direito pode ser
registrado apenas quando transitado em julgado.
Assim, os direitos com expectativa de entrada de recursos econômicos
praticamente certa são classificados como um ativo genuíno e reconhecido,
e se a expectativa for provável a divulgação será apenas sugerida. Caso seja
classificada como possível ou remota, a norma não prevê o registro nem a
divulgação de tal direito. Note que o peso dado ao ativo contingente é
diferente daquele dado ao passivo contingente, tendo em vista que quando a
contingência for provável existe a possibilidade de se reconhecer o passivo,
ao passo que, se for ativo, deve apenas ser divulgado.
NA PRÁTICA DE MERCADO

Imagine que uma empresa que opera no setor industrial adquiriu um equipamento de
soldagem, em X0, de um fornecedor estrangeiro para compor sua fábrica. Após seis
meses de utilização, o equipamento apresentou um defeito irreparável e teria de ser
trocado, conforme previsto nas cláusulas de garantia. No entanto, o fornecedor alegou
que o problema foi causado pelo mau uso do equipamento e, nesse caso, a garantia não
cobriria a substituição. A empresa compradora entrou com uma ação judicial requerendo
a devolução do dinheiro e indenização por prejuízos advindos da paralisação de parte de
suas operações no montante total de R$ 350.000. Vamos analisar as situações
apresentadas a seguir e determinar o correto tratamento contábil para cada momento.
Em X0: os assessores jurídicos da empresa avaliaram a causa inicialmente como remota
de ganho.
Tratamento contábil: trata-se de um ativo contingente que, conforme a norma prevê, por
ser remota a probabilidade da entrada de recursos econômicos, não deve ser
reconhecido e nem divulgado.
Em X1: os assessores jurídicos da empresa alteraram o prognóstico e avaliaram a causa
como possível de ganho, devido à existência de jurisprudência favorável.
Tratamento contábil: trata-se de um ativo contingente que, conforme a norma prevê, por
ser possível a entrada de recursos econômicos, não deve ser reconhecido nem
divulgado.
Em X2: os assessores jurídicos da empresa avaliaram a causa como provável de ganho,
baseados em uma perícia técnica favorável à empresa, que demonstrou que o defeito
não foi causado por mau uso do equipamento.
Tratamento contábil: trata-se de um ativo contingente que, conforme a norma prevê, por
ser provável a entrada de recursos econômicos, não deve ser reconhecido, mas sua
divulgação é sugerida.

Após termos apresentado as diferenças conceituais entre provisões, ativos


e passivos contingentes, os pressupostos necessários para reconhecimento e
divulgação de uma obrigação, aspectos da mensuração inicial e
subsequente, e as considerações acerca da determinação de estimativas,
concluímos destacando a importância da avaliação e classificação das
obrigações, visto o impacto relevante nas demonstrações contábeis e,
consequentemente, nas decisões dos usuários interessados.
As normas contábeis brasileiras, atualmente alinhadas com as normas
internacionais, defendem que as demonstrações contábeis devem refletir
fidedignamente a realidade da entidade, ou seja, os usuários que possuem
interesse nas informações reportadas esperam que todos os ativos
representem bens e direitos válidos e recuperáveis, assim como que os
passivos estejam devidamente reconhecidos, valorados e livres de erros.
Não são esperadas omissões de informações relevantes que, se conhecidas,
poderiam alterar as decisões tomadas pelos usuários existentes ou
potenciais.
A determinação de estimativas significativas e o julgamento profissional
exercido pelos elaboradores das demonstrações contábeis devem ser
amplamente divulgados e serão interpretados pelos usuários como a melhor
estimativa, ou seja, o melhor parâmetro de referência disponível naquela
data para monetizar as provisões e fatos relevantes que precisam ser
informados tempestivamente aos tomadores de decisão.
O que você, leitor, prefere? Tomar conhecimento de determinado fato
mesmo sabendo que os montantes relacionados podem sofrer alguma
alteração no futuro? Ou descobrir que informações que poderiam impactar
sua decisão em investir, por exemplo, em determinada empresa, foram
omitidas por erro, falha ou fraude?
Da mesma forma, deve ser avaliada a probabilidade de saída de recursos
para determinação do tratamento contábil aplicável. Vejamos a seguir.

NA PRÁTICA DE MERCADO

Uma empresa possui uma frota de navios, alugados a terceiros, para cruzeiros pela costa
brasileira. O contrato de aluguel padrão, classificado como um arrendamento operacional,
possui vigência de 10 anos e define que o arrendatário é o responsável pela manutenção
das embarcações. Conforme requerimento legal, a cada quatro anos os navios devem
realizar uma parada obrigatória para que sejam efetuadas as manutenções operacionais,
ação comumente conhecida como docagem. Outra entidade alugou um dos navios para
realizar cruzeiros temáticos, passando a ser arrendatária, sendo o início do contrato
datado de janeiro de 20X1. Com base nas informações contratuais, a arrendatária já
possui conhecimento sobre a obrigatoriedade da docagem a ser realizada em 20X5.
Portanto, com base nessas informações, podemos concluir que:
• Trata-se de uma obrigação presente, como resultado de um evento passado
(assinatura do contrato) com saída provável de recursos (gastos com manutenção –
docagem), sendo portanto classificada como uma provisão.
• Sendo uma provisão, a arrendatária deverá reconhecer um passivo no montante
referente ao que se espera gastar com a docagem obrigatória.
• A administração sabe que usualmente docagens em navios similares custam cerca de
R$ 2.000.000, com base em informações históricas fornecidas pela arrendadora, sendo
esta a melhor estimativa do valor da obrigação.
Considerando que essa despesa deve ser alocada ao resultado à medida que o
contrato é utilizado, esses custos devem ser inicialmente ativados e amortizados na fluên-
cia do contrato até a data da realização do fato, ou seja, pelos quatro anos entre cada
docagem. Veja os lançamentos:
Em 20X1: reconhecimento inicial da provisão
D – Manutenção a incorrer – despesas antecipadas (ativo) R$ 2.000.000
C – Manutenção obrigatória a pagar (passivo) R$ 2.000.000

Mensuração

A norma CPC 25 prevê que a provisão deve ser mensurada no ato do


reconhecimento pela melhor estimativa da administração quanto ao valor
que provavelmente será desembolsado pela entidade para liquidar a
obrigação presente.
Em seu § 37, o CPC 25 trata a melhor estimativa como o valor que
melhor representa a obrigação presente na data do balanço, ou seja, se essa
obrigação fosse liquidada no presente, o valor que melhor refletiria tal
desembolso deveria ser reconhecido.
Atente para o fato de que, caso a previsão de liquidação seja estimada
para acontecer em períodos futuros superiores a um período significativo, o
valor da provisão deve ser descontado a valor presente por uma taxa de
desconto que considere os riscos e o valor do dinheiro no tempo, conforme
previsto pela norma:

46. Em virtude do valor do dinheiro no tempo, as provisões relacionadas


com saídas de caixa que surgem logo após a data do balanço são mais
onerosas do que aquelas em que as saídas de caixa de mesmo valor
surgem mais tarde. Em função disso, as provisões são descontadas,
quando o efeito é material.
47. A taxa de desconto deve ser a taxa antes dos impostos que reflita as
atuais avaliações de mercado quanto ao valor do dinheiro no tempo e os
riscos específicos para o passivo. A taxa de desconto não deve refletir os
riscos relativamente aos quais as estimativas de fluxos de caixa futuros
tenham sido ajustadas [CPC 25, §§ 46 e 47].

Note que o valor contábil da provisão, quando utilizado o desconto a


valor presente, deve aumentar a cada período, objetivando demonstrar o
efeito do dinheiro no tempo, sendo a contrapartida o reconhecimento no
resultado do período como despesa financeira.
Adicionalmente, quando se espera que eventos futuros alterem o valor do
desembolso, estes só podem refletir na mensuração presente quando os
eventos forem considerados líquidos e certos. Imagine que uma nova lei ou
novas tecnologias reduziriam o custo relacionado a determinada obrigação;
no entanto, apenas se houver evidência objetiva suficiente da ocorrência
desses eventos, a provisão registrada na presente data poderá ser reduzida.
A cada período subsequente ao do registro inicial da provisão, uma nova
avaliação deve ser realizada pela administração, ou seja,

as provisões devem ser reavaliadas em cada data de balanço e ajustadas


para refletir a melhor estimativa corrente. Se já não for mais provável que
seja necessária uma saída de recursos que incorporam benefícios
econômicos futuros para liquidar a obrigação, a provisão deve ser
revertida [CPC 25, § 59].

Baixa

As provisões são baixadas quando efetivamente utilizadas ou revertidas.


Assim, o termo “utilizada” significa o momento do efetivo desembolso para
liquidar a obrigação para a qual a provisão foi originalmente constituída.
Note que, ao longo deste capítulo, por diversas vezes destacamos a
necessidade de os gestores estimarem valores ou prazos de uma obrigação.
Vejamos, então, de forma mais detalhada, os aspectos relacionados aos
critérios de julgamento e as estimativas contábeis significativas.

Critérios de julgamento e estimativas contábeis

Determinar estimativas contábeis razoáveis requer o exercício do


julgamento, por parte dos gestores responsáveis por elaborar e processar
informações contábil-financeiras, para estipular critérios realistas que
reflitam, o mais proximamente possível, a realidade econômica das
obrigações.
De forma prática, os valores definidos pela administração como a melhor
estimativa do desembolso necessário para liquidar um passivo levam em
consideração a experiência dos gestores na valoração de determinada
obrigação, dados históricos, parâmetros similares disponíveis no mercado e,
em alguns casos, laudos de especialistas. Paralelamente, auditores também
exercem diversos julgamentos na revisão de estimativas contábeis.
Vejamos algumas situações nas quais os gestores exercem o julgamento
profissional na determinação de estimativas significativas a serem
reconhecidas ou divulgadas nas demonstrações contábeis.

• Julgar se declarações publicadas pela entidade criam expectativas em


consumidores quanto ao cumprimento de compromissos assumidos
publicamente, ou seja, julgar se políticas publicadas e práticas
passadas usualmente adotadas pela entidade geram a necessidade de
reconhecimento de passivos por representar obrigações não
formalizadas. Para exemplificar, podemos citar propagandas realizadas
por empresas que se comprometem a devolver os valores gastos por
consumidores na aquisição de produtos caso o objetivo anunciado não
seja alcançado.
• Definição de prazos e valores para liquidação de obrigações
relacionadas a contratos onerosos ainda em execução.
• Projeções futuras quanto ao valor presente de obrigações cujo prazo de
liquidação seja incerto, pois depende da conclusão de obras ou projetos
em andamento.
• Previsão de juros e atualizações monetárias como premissas em fluxos
de caixa projetados relacionados a obrigações presentes ou possíveis.
• Definição de valores relacionados a garantias concedidas na venda de
produtos, baseadas na expectativa de liquidação dessas obrigações
contratuais, usualmente projetadas com base em informações
históricas de garantias exercidas.
• Estimativas relacionadas a processos judiciais em andamento cujo
valor exato depende da definição de eventos futuros.
• Projeção dos efeitos em obrigações presentes vinculadas a variações
cambiais cuja moeda de referência da transação difira da moeda
funcional da entidade.
• Definição se a entidade é responsável ou não por determinada
obrigação com base nos compromissos assumidos e relacionados ao
evento que gerou a obrigação. Em algumas situações, a
responsabilidade da entidade está limitada à conclusão de determinada
etapa ou processo.
• Avaliação e constante revisão da possibilidade da ocorrência de
desembolsos financeiros de passivos contingentes, ou seja, passivos
contingentes podem apresentar possibilidade de liquidação remota,
possível ou provável, impactando a forma como essa obrigação deve
ser reconhecida, mensurada e divulgada.

Efeitos nas demonstrações financeiras


Abordamos, no primeiro capítulo deste livro, os elementos que compõem as
demonstrações contábeis, sendo o conjunto completo composto pelos
seguintes demonstrativos: balanço patrimonial, demonstração do resultado
do exercício, demonstração do resultado do exercício abrangente,
demonstração dos fluxos de caixa, demonstração da mutação do patrimônio
líquido e respectivas notas explicativas.
Pois bem, o reconhecimento das provisões passivas impacta
economicamente as demonstrações contábeis, assim como a divulgação dos
ativos e passivos contingentes informa sobre eventuais contingências
futuras que possam representar entrada ou saída de recursos financeiros e,
consequentemente, influenciam seus usuários no que tange à tomada de
decisão.
Observe, leitor, que as provisões geram efeito no balanço patrimonial,
pois são reconhecidas no passivo circulante e/ou não circulante, de acordo
com a expectativa de prazo de liquidação, e impactam o resultado do
exercício por meio do reconhecimento das provisões, seus incrementos e
reduções oriundos da atualização das bases de mensuração, das reversões
quando aplicáveis e dos respectivos juros relacionados às atualizações
monetárias. Por conseguinte, a demonstração da mutação do patrimônio
líquido reflete os respectivos efeitos por meio do resultado líquido do
período – lucro ou prejuízo – incorporado ao patrimônio da entidade no
encerramento de cada exercício.
As provisões representam operações que não envolvem o desembolso de
caixa no momento de seu reconhecimento inicial e nas mensurações
subsequentes. Assim, as obrigações derivadas de apropriação por
competência impactam a demonstração de fluxo de caixa pelo método
indireto quando suas contrapartidas são reconhecidas no resultado sem
efeito de caixa, pois, apesar de não haver desembolso financeiro, pelo
método indireto o lucro será ajustado pela variação do patrimônio, estando
incluídas as alterações no passivo.
A apresentação, em notas explicativas, dos ativos e passivos contingentes
reflete, na data de referência das demonstrações contábeis, a expectativa
dos gestores quanto aos efeitos que possam vir a impactar a entidade caso
tais obrigações possíveis se tornem presentes e prováveis de gerar entrada
ou saída de recursos financeiros. Vale ressaltar que ativos e passivos
contingentes com prognóstico remoto de ocorrência não requerem
divulgação em notas explicativas, pois não representam informações úteis
nem relevantes para os usuários interessados nos relatórios contábil-
financeiros.
Abordamos, neste capítulo, como as transações que estão na contingência
de se concretizar impactam a contabilização das provisões. Além disso,
buscamos evidenciar o tratamento contábil para as obrigações e os direitos
que ocorrerão numa data futura, mas que podem influenciar a tomada de
decisão atual por parte dos usuários da informação contábil.
No próximo capítulo, abordaremos investimentos em controladas,
coligadas e operações em conjunto, sendo os conceitos precedentes
explicitados nos últimos capítulos deste livro como fundamentais para
compreensão dos efeitos patrimoniais e de resultado no que tange ao
reconhecimento, mensuração e evidenciação dos investimentos societários.
4
Investimento em coligada e controlada

Evidenciaremos agora os critérios que devem ser considerados no


tratamento contábil dos investimentos, bem como quais os julgamentos
necessários para classificação das investidas em coligadas, controladas e
empreendimento controlado em conjunto.
Vamos apresentar ainda como ocorre o processo de mensuração de tais
investimentos no momento do reconhecimento, utilizando o método da
equivalência patrimonial (MEP), e também na mensuração subsequente, a
partir do teste de redução ao valor recuperável de ativos.

Aspectos introdutórios

Com o aumento da competitividade e modernização dos mercados e o


incremento no fluxo de capitais, as empresas se veem obrigadas a adotar
estratégias que possibilitem reduzir seus custos, melhorar os processos
internos, aumentar a produtividade e, consequentemente, otimizar os
recursos para maximização dos lucros. Uma das estratégias utilizadas para
ganhar vantagem competitiva é a ampliação das atividades organizacionais,
levando as empresas a realizarem operações com outras entidades no intuito
de constituir grupos empresariais. Elas se tornam unidas no aspecto
econômico, mas permanecem independentes juridicamente.
Os aspectos relacionados à contabilização das operações em grupos
econômicos estão distribuídos nas normas internacionais emitidas pelo
International Accounting Standards Board (IASB) e nos pronunciamentos
emitidos pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). Observe, no
quadro 3, os normativos relacionados a essa temática nos contextos
brasileiro e internacional.

Quadro 3
Normas relativas à contabilidade de grupos empresariais
Internacional (IFRS) Brasil (CPC)
IAS 28 – Investments in CPC 18 – Investimentos em Coligada, Controlada e
Associates and Joint Ventures Empreendimento Controlado em Conjunto
IFRS 11 – Joint Arrangements CPC 19 – Negócios em Conjunto
IFRS 3 – Business Combination CPC 15 – Combinação de Negócios

IFRS 10 – Consolidated Financial


CPC 36 – Demonstrações Consolidadas
Statements
IAS 27 – Consolidated and
CPC 35 – Demonstrações Separadas
Separate Financial Statements
IFRS for Small and Medium
CPC PME (R1) para Pequenas e Médias Empresas
Business
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Além das normas listadas no quadro 3, o Comitê de Pronunciamentos


Contábeis emitiu uma interpretação, atualizada em 2014: a ICPC 09 (R2) –
Demonstrações Contábeis Individuais, Demonstrações Separadas,
Demonstrações Consolidadas e Aplicação do Método de Equivalência
Patrimonial. O intuito foi esclarecer e orientar sobre questões pertinentes
que não foram contempladas nas normas que tratam das operações de
grupos empresariais, definindo procedimentos contábeis específicos para as
demonstrações individuais das controladoras.
Há, caro leitor, uma vasta quantidade de normas que versam sobre o
tratamento contábil das operações de grupos econômicos. Todavia, neste
capítulo, daremos foco ao Pronunciamento Técnico 18, o qual possui
correlação com o IAS 28, para tratarmos da contabilização dos
investimentos em coligadas e controladas. Vale ressaltar que, apesar de
estarmos tendo como base tais atos normativos, quando alguma operação
não for objeto dessas normas precisaremos fazer conexões com outros
pronunciamentos, elencados no quadro 3.

Investimentos: instrumento financeiro


e instrumento patrimonial

Devido à complexidade das normas que tratavam de instrumentos


financeiros e à crise financeira de 2008, que teve como pano de fundo
problemas relacionados a informações não fidedignas de tais instrumentos,
os normativos internacionais que abordavam esses itens começaram a ser
questionados quanto à sua eficácia e efetividade. Assim, em 2014, o IASB
emitiu a IFRS 9 – Financial Instruments (IASB, 2014a) –, revogando as
IAS 32 e 39, com a finalidade de aprimorar os critérios de reconhecimento
e mensuração dos instrumentos financeiros e acrescentar outros
relacionados à evidenciação não abarcados na IFRS 7 (IASB, 2012c), que
trata da divulgação de instrumentos financeiros.
A IFRS 9 passou a ter vigência no Brasil, por meio do CPC 48, em
janeiro de 2018 e revogou as normas até então vigentes (CPCs 38, 39 e 40,
que tratavam da mensuração, apresentação e evidenciação, respectivamente,
dos instrumentos financeiros). No entanto, apesar de as normas supracitadas
não estarem mais em vigor, o novo normativo (CPC 48) continua fazendo
menção, para fins de conceito e definições, às normas revogadas; por isso,
ao longo desta seção, far-se-á referência às normas revogadas quando
alguns conceitos forem trazidos à tona.
Acerca do entendimento sobre os instrumentos financeiros, considere
usual que as empresas possuam interesses econômicos em outras
organizações, seja por verificar que tais empresas são rentáveis, seja por
uma questão estratégica de mercado. Por isso, decidem investir nessas
empresas comprando algum instrumento financeiro ou instrumento
patrimonial. De acordo com o CPC 39, § 11, instrumento financeiro é
“qualquer contrato que dê origem a um ativo financeiro para a entidade e a
um passivo financeiro ou instrumento patrimonial para outra entidade”. Já
instrumento patrimonial é definido como “qualquer contrato que evidencie
uma participação nos ativos de uma entidade após a dedução de todos os
seus passivos”, ou seja, participação no patrimônio líquido.
Segundo o CPC 48, § 4.1, os ativos financeiros devem ser mensurados
conforme as duas categorias em que estejam classificados:

• ativos financeiros ao custo amortizado;


• ativos financeiros ao valor justo, podendo ter ajustes feitos no
resultado do período ou no patrimônio líquido.

No entanto, para selecionar em qual das duas categorias citadas o


instrumento deve ser classificado, dever-se-á exercer julgamento e levar em
consideração dois elementos, conforme figura 9.

Figura 9
Fatores para classificar os ativos financeiros

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).


Com base nesses critérios, note, leitor, que deverá ser priorizada, na
análise do instrumento financeiro, a essência econômica. No que se refere
ao método do custo amortizado, o CPC 48, § 4.1.2, afirma que um ativo
financeiro será mensurado de tal forma se atender às duas condições a
seguir:

• for mantido com base no modelo de negócios que visa recolher os


fluxos de caixa contratuais decorrentes do instrumento, caso em que a
intenção deve ser a de manter os fluxos de caixa até o vencimento;
• o contrato do instrumento der direito, em datas específicas, a fluxos de
caixa que são apenas pagamentos do montante, ou seja, principal e
juros. Por exemplo, duplicatas a receber de clientes, empréstimos e
certificados de depósitos bancários.

Quanto ao método do valor justo, todos os ativos financeiros não


mensurados pelo método do custo amortizado são mensurados por esse
modelo, podendo a variação do valor justo ser reconhecida no resultado do
período ou no patrimônio líquido.
No caso de instrumentos de dívida, temos duas possibilidades: enquadrar
como custo amortizado, como visto anteriormente, ou reconhecer pelo valor
justo por meio de outros resultados abrangentes (VJORA). Este último caso
ocorre quando a empresa, além de colher os rendimentos decorrentes do
ativo, obtém também benefícios econômicos pela venda do item, sendo que
os montantes relacionados às mudanças no valor justo deverão ser
reconhecidos nos resultados abrangentes e transferidos para o resultado do
exercício apenas no momento de sua realização. Já no caso de instrumentos
patrimoniais, a regra geral é que sejam classificados pelo valor justo por
meio do resultado (VJMR), a não ser que, na essência, o instrumento seja
de longo prazo ou de prazo indefinido.
O instrumento classificado como valor justo por meio de outros
resultados abrangentes receberá um tratamento contábil diferente daqueles
designados na categoria de valor justo por meio de resultado. Isso porque,
no primeiro caso, a empresa não tem certeza quanto à realização do
instrumento, e por isso não seria razoável, por exemplo, reconhecer os
custos de transação no resultado do exercício, pois tal realização poderia
ocorrer em períodos subsequentes.
De outro modo, na categoria de valor justo por meio de resultado, como a
intenção da empresa é a de negociar o instrumento financeiro num prazo
muito curto, faz todo o sentido, por exemplo, reconhecer os custos de
transação já no resultado do exercício corrente quando se espera realizar os
efeitos do instrumento. Observe o caso a seguir, no qual um investimento é
caracterizado como valor justo por meio de resultado.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Em janeiro de 20X1, determinada empresa realizou a compra de 1.000.000 de ações ao
preço de R$ 20 por ação. Além disso, a empresa pagou de corretagens e emolumentos o
valor de R$ 100.000. Imagine que a empresa possui a intenção de negociar essas ações
num prazo muito curto e por isso esse investimento deveria ser classificado como valor
justo por meio de resultado (VJMR). Então, no momento do reconhecimento inicial, a
empresa deveria proceder com o seguinte lançamento contábil:
D – Ações (VJMR) R$ 20.000.000
D – Custos de transação (DRE) R$ 100.000
C – Banco R$ 20.100.000
Imagine agora que, em abril de 20X1, essas ações estivessem cotadas por R$ 25
cada. Como esse investimento é classificado como valor justo por meio de resultado,
todos os ajustes no valor das ações devem ser reconhecidos diretamente no resultado do
exercício (DRE). Considerando que a valorização foi de R$ 5 por ação e que a empresa
possuía 1.000.000 de ações, o tratamento contábil para que os montantes registrados
destes instrumentos financeiros refletissem o valor correto das ações em abril de 20X1
seria o seguinte:
D – Ações (VJMR) R$ 5.000.000
C – Outras receitas: R$ 5.000.000
Por fim, imagine que no mês seguinte, ou seja, em maio de 20X1, as ações estivessem
cotadas por R$ 26 cada e, por meio de análise de mercado, a empresa verificasse que a
tendência dos preços é que começassem a cair, razão pela qual decidiu vender 600.000
ações. Portanto, considerando que a valorização desses investimentos nesse período foi
de R$ 1, que a quantidade de ações era de 1.000.000 e que a baixa foi de apenas
600.000 ações, o tratamento contábil para esta operação seria o seguinte:
D – Banco R$ 15.600.000 (600.000 ações × R$ 26)
C – Ações (VJMR) R$ 15.000.000 (600.000 ações × R$ 25)
C – Outras receitas: R$ 600.000
D – Ações (VJMR) R$ 400.000 Pela valorização das ações que não foram vendidas
C – Outras receitas R$ 400.000

Apresentado um exemplo sobre o reconhecimento e mensuração de


instrumentos financeiros, observe a seguir, na figura 10, o resumo das
principais práticas adotadas na mensuração dos ativos financeiros, bem
como as principais diferenças, conforme as normas vigentes que versam
sobre os instrumentos financeiros.

Figura 10
Critérios de mensuração de ativos financeiros

Fonte: elaborada pelas autoras (2021).

Nesse sentido, observe, caro leitor, que a administração deve exercer


julgamento para classificar o instrumento financeiro adquirido, pois os
critérios de reconhecimento e mensuração serão determinados com base na
finalidade do instrumento, ou seja, o tratamento contábil dado ao
instrumento financeiro, de acordo com a IFRS 9, será feito a partir de uma
análise subjetiva, porém muito mais relevante para a tomada de decisão dos
usuários. Vejamos um exemplo prático sobre a aplicação de tal normativo.
NA PRÁTICA DE MERCADO

Imagine que uma grande empresa de varejo realizou uma venda a prazo e o cliente optou
por pagar em 10 parcelas. Considere que a empresa não tem a intenção de ficar
esperando o cliente pagar cada parcela com o objetivo de recolher os fluxos de caixa
contratuais decorrentes da operação. Por este motivo, descontou as referidas duplicatas
no banco, o qual cobrou encargos financeiros pela antecipação do prazo para
recebimento do valor descontado. Nesse caso, como o modelo de negócio da empresa
não é manter as duplicatas até o vencimento e não visa recolher os fluxos de caixa
contratuais, ela deve mensurar seus recebíveis pelo valor justo e quaisquer custos de
transação devem ser alocados no resultado do período.
De outro modo, imagine uma empresa prestadora de serviços de academia de
ginástica e artes marciais, na qual o cliente fechou um contrato para uso da academia
durante um ano e optou por pagar a anuidade em quatro parcelas. Nesse caso, como a
entidade pretende aguardar que o cliente pague todas as parcelas, ou seja, recolher os
fluxos de caixa decorrentes do contrato e mantê-los até o vencimento, ela deve mensurar
seus recebíveis pelo custo amortizado, em que os rendimentos ou juros deverão ser
calculados com base na taxa efetiva de juros e alocados ao resultado no período
correspondente.

Foi preciso abordar, de modo geral, quais investimentos devem ser


tratados como instrumentos financeiros para prosseguirmos com a
diferenciação do tratamento contábil dos investimentos, ora contabilizados
como instrumentos financeiros, ora como investimentos em coligadas e
controladas. Desse modo, é importante frisar que não são foco deste
capítulo os instrumentos financeiros, os quais são tratados em normativos
próprios, aqui no Brasil pelo CPC 48 e no contexto internacional pela IFRS
9, bem como os instrumentos patrimoniais em que as investidas não são
classificadas como coligadas nem como controladas ou empreendimentos
controlados em conjunto.
Conforme apresentado nos parágrafos precedentes, caso o investimento
em ações de outras companhias seja classificado como investimento em
controlada, coligada ou entidade controlada em conjunto, não será
considerado um instrumento financeiro e não será contabilizado em
conformidade com a IFRS 9, mas será contabilizado conforme a IFRS 10
(controlada), IAS 28 (coligada) e IFRS 11 (entidade controlada em
conjunto) – sendo que esta última também não é objeto deste capítulo.
Observe a figura 11, que ajuda a perceber, de forma resumida, quando
um investimento será tratado como instrumento financeiro ou como
investimento em coligada, controlada ou empreendimento controlado em
conjunto.

Figura 11
Árvore da decisão para fins de aplicação dos pronunciamentos
técnicos

Fonte: adaptada de Almeida (2010:199).

Após termos abordado os instrumentos financeiros e ilustrado, na figura


11, os pré-requisitos decisórios sobre como diferenciá-los dos investimentos
em controlada, coligada e controlada em conjunto, foco deste capítulo,
vamos prosseguir detalhando os investimentos em coligada e controlada.

Investimento em coligada
Para fins contábeis, o que diferencia um investimento classificado como
instrumento financeiro de outro chamado de instrumento patrimonial?
Contabilmente, muda tudo: os critérios de reconhecimento, mensuração e
evidenciação. Vamos, pois, mostrar quando os instrumentos patrimoniais
serão considerados investimentos em coligada, controlada ou
empreendimento controlado em conjunto.
Ao adquirir um instrumento patrimonial de outra empresa, a investidora
irá classificá-lo como investimento em coligada quando exercer influência
significativa sobre a investida. Existem duas maneiras de identificarmos se
há existência de influência significativa, que podem ser vistas na figura 12.

Figura 12
Existência de influência significativa

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

A figura 12 demonstra que a investidora estará exercendo influência


significativa quando ocorrer uma coisa e/ou outra. Vejamos:
quando a investidora detém pelo menos 20% do capital social votante,
• podendo participar nas deliberações das assembleias; e/ou
• quando a investidora possui alguma relação direta ou indireta na
condução e participação nas atividades organizacionais da investida –
isso ocorre, segundo a norma, quando a investidora tem o poder de
participar das decisões sobre políticas financeiras e operacionais de
uma investida, porém não controla tais políticas.

Acerca do segundo ponto, observe que, embora o investidor realize


operações vultosas com a investida, caracterizando a existência de certa
dependência econômica, isso, por si só, não é determinante para definir se
há influência significativa. Nesse sentido, o CPC 18 (R2), § 6, elenca
algumas situações que evidenciam quando a investidora está exercendo
influência sobre os negócios da investida, a saber:

(a) representação no conselho de administração ou na diretoria da


investida;
(b) participação nos processos de elaboração de políticas, inclusive em
decisões sobre dividendos e outras distribuições;
(c) operações materiais entre o investidor e a investida;
(d) intercâmbio de diretores ou gerentes;
(e) fornecimento de informação técnica essencial.

Além dos itens anteriormente mencionados, para determinar se há


existência de influência significativa, a investidora deve levar em
consideração a essência econômica das transações realizadas com a
investida. Então, nos casos em que exista a possibilidade de a investidora
aumentar ou adquirir poder de voto, como nos casos de bônus de
subscrição, opção de compra ou por meio de uma debênture conversível em
ação ordinária, ela deve exercer julgamento sobre a potencial participação
nas deliberações das assembleias.
Note que, apesar de estarmos tratando da possibilidade de direito a voto,
ao fazer análise pela essência econômica, o fato de a investidora ter a
possibilidade de reduzir o poder de voto de outrem, ou de aumentar o seu,
deverá ser refletido no seu julgamento sobre a existência, ou não, de
influência significativa. Caso, no futuro, a investidora não concretize o
direito de votar ou perca o poder de participar nas decisões políticas e
financeiras da investida, haverá a perda da influência significativa, e o
respectivo direito deixará de ser contabilizado como investimento em
coligada.
Por fim, durante o processo de julgamento para verificar se há existência
de influência significativa, caso seja verificado que está havendo controle
sobre a investida, ter-se-á de reconhecer a perda da influência e passar a
tratar a investida como uma controlada.

Investimento em controlada

Após abordarmos os investimentos em coligada, trataremos dos


investimentos em controlada, os quais apresentam particularidades
conceituais, sendo, portanto, importante distinguir se as investidoras
possuem investimentos em coligada ou controlada, ainda que o tratamento
contábil de ambas, aqui no Brasil, seja pelo método de equivalência
patrimonial, o qual veremos adiante, no próximo tópico. Isso porque, caso a
investidora tenha uma controlada, além do CPC 18 (R2), ela deverá
observar o CPC 15 (R1) – Combinação de Negócios – e o CPC 36 (R3) –
Demonstrações Consolidadas. Este último trata especificamente de relações
de poder e controle.
A norma internacional que trata da coligada, a IAS 28, não abrange
investimentos em controlada, bem como não há exigência de divulgação
das demonstrações individuais da controladora. No entanto, o IASB exige
que, caso a controladora esteja dispensada de apresentar as demonstrações
consolidadas, os investimentos em suas demonstrações separadas sejam
avaliados a valor justo ou pelo método do custo.
Já a norma brasileira, CPC 18 (R2), abrange tanto coligada quanto
controlada, e os dois tipos de investimento devem ser avaliados pelo
método de equivalência patrimonial (MEP). Até o ano de 2013, havia uma
diferença significativa entre o tratamento contábil dos investimentos em
controladas nos contextos brasileiro e internacional, pois a lei societária
brasileira exigia que a controladora, em suas demonstrações individuais,
avaliasse seus investimentos em controladas pelo MEP, enquanto para o
IASB a controladora deveria avaliar pelo custo ou valor justo.
No entanto, em 2014, a partir da atualização da IAS 27 – Separate
Financial Statements –, o IASB passou a permitir o uso do MEP nas
demonstrações separadas para a coligada, a controlada e o empreendimento
controlado em conjunto. Além disso, no mesmo ano, as sociedades
anônimas tiveram o aval da CVM no que se refere à revisão da IAS 27, com
a introdução da Instrução CVM no 733/2014, alinhando, portanto, as
práticas contábeis adotadas no Brasil com as IFRS.
Desse modo, a primeira coisa a ser feita é analisar como se dá a relação
da investidora com a investida, ou seja, deverá ser determinado se existe
algum tipo de envolvimento hierárquico entre ambas. Nesse contexto,
presume-se que há controle sobre a investida quando a investidora possui
mais de 50% das ações ordinárias, ou seja, do capital social votante,
preponderando nas deliberações das assembleias e detendo a maioria dos
votos para decidir sobre políticas operacionais e financeiras da investida.
Além disso, conforme o CPC 36 (R3), § 7, o controle também dar-se-á
quando ocorrerem as três situações expostas na figura 13.
Com relação ao primeiro item apresentado na figura 13, o poder da
investidora decorre dos direitos adquiridos, que podem ser obtidos de
forma direta e única, como no caso de possuir a maioria das ações
ordinárias, ou por meio de vários acordos contratuais. De forma simples,
podemos dizer que poder é o direito de dirigir as atividades relevantes da
investida, sendo esse direito classificado em dois tipos:

• Direito de proteção. O investidor objetiva proteger os interesses do


detentor do direito, que pode ser um terceiro, ou seja, devem ser
avaliados os direitos dos credores, por exemplo, e sua relação com
outros direitos. Nesse tipo de direito, a investidora não tem capacidade
de exercer controle.
• Direito substantivo. O investidor deve ter capacidade prática para
exercer esses direitos no momento da tomada de decisão. Nesse tipo,
há exercício de controle sobre a investida.

Figura 13
Atributos para exercer controle sobre a investida

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

De outro modo, assim como na análise da influência significativa, ao


fazer julgamento sobre haver controle sobre a investida, a investidora
também deve considerar a essência econômica de seu envolvimento com a
investida. Então, quando já existirem evidências de que a investidora está
na iminência de exercer o controle, ela deve analisar se tal potencial de
controlar as decisões já pode caracterizar o investimento como controlada.
E mais, pode haver um investidor majoritário que não participa ativamente
nas decisões e, apesar de sua passividade, ainda assim detém o poder.
No que se refere ao segundo fator da figura 13, em que a investidora
possui direitos sobre os retornos da investida, podemos perceber que tais
direitos decorrem de alguma transação realizada entre ambas, por exemplo,
remuneração pela administração do patrimônio da investida ou direitos a
recebimento de dividendos procedentes das ações adquiridas pela
investidora. Outrossim, tais retornos podem ser derivados de uma
combinação de funções operacionais entre as empresas, de modo que a
investidora consiga, estrategicamente, reduzir seus custos de produção,
otimizar os recursos e incrementar bens e serviços.
Por fim, o terceiro atributo da figura 13 diz respeito à capacidade de a
investidora utilizar seu poder sobre a investida para impactar o valor de
seus retornos. Nesse caso, a análise deve ser feita com base na teoria do
agenciamento (agency theory), a qual trata da relação entre dois indivíduos
na condução dos negócios empresariais.
De acordo com Hendriksen e Breda (2009), um desses dois indivíduos é
agente do outro, sendo esse outro conhecido como principal. Assim, o
agente compromete-se a realizar certas tarefas para o principal e o principal
compromete-se a remunerar o agente. Seria basicamente a relação entre o
gestor e o investidor de uma entidade.
E por que seria importante, para análise do controle, identificar quem é o
principal e quem é o agente? Porque o agente atua, segundo a norma, em
nome de outra parte, que seria o principal, e, portanto, não controla a
investida quando exerce sua autoridade de tomada de decisões, pois outras
partes poderiam se beneficiar de tais decisões. Então podemos inferir que o
agente estaria exercendo o direito de proteção enquanto o principal estaria
exercendo direitos substantivos, ambos tratados anteriormente. Além disso,
o CPC 36 (R3), § B71, assegura que quando o tomador de decisões detiver
outras participações na investida, isso pode ser um indicativo de que ele
está exercendo o papel de principal.
No intuito de facilitar o entendimento na identificação do papel do agente
e do principal, o CPC 36 (R3), § B60, elenca alguns fatores em que o
tomador de decisões deve considerar a relação geral entre ele, a investida e
as demais partes envolvidas com a investida, a saber:

• o alcance de sua autoridade de tomada de decisão sobre a investida


[…];
• os direitos detidos por outras partes […];
• a remuneração à qual tem direito de acordo com o contrato […];
• a exposição do tomador de decisão à variabilidade de retornos de
outras participações por ele detidas na investida […].

Sobre esse ponto, vamos ilustrar na próxima página, por meio de um caso
prático, adaptado da norma, como se daria o processo de identificação da
investidora no papel de agente ou de principal.
Após a apresentação sobre os critérios de identificação de investimentos
em coligadas e controladas, vamos, a seguir, abordar como tais
investimentos devem ser mensurados.
NA PRÁTICA DE MERCADO

Vamos imaginar uma corretora de valores mobiliários que atua no mercado financeiro. A
empresa criou um fundo de investimentos que é regulado e negociado publicamente, de
acordo com parâmetros bem definidos previstos no mandato de investimento, conforme
exigido por leis e regulamentos locais. O fundo foi vendido aos investidores como um
investimento em carteira diversificada de instrumentos patrimoniais de entidades
negociadas publicamente. Dentro dos critérios definidos, o gestor do fundo tem
autonomia para selecionar os ativos nos quais investir. Os investidores não detêm
nenhum direito substantivo que afete a autoridade de tomada de decisões do gestor do
fundo, mas podem resgatar suas participações dentro de limites específicos fixados pelo
fundo.
Além disso, o gestor do fundo recebe uma taxa baseada em mercado por seus
serviços, a qual é compatível com os serviços prestados, e efetua também um
investimento proporcional no fundo. A remuneração e o investimento do gestor do fundo o
expõem à variabilidade de retornos decorrentes das atividades do fundo, sem criar
exposição de importância tal que indique que o gestor do fundo é o principal. O fato de o
gestor estar exposto à variabilidade de retornos do fundo conjugado com sua autoridade
de tomada de decisão indica que ele é o agente. Assim, conclui-se que o gestor do fundo
não o controla.

Método de avaliação: equivalência patrimonial

Após a identificação da classificação dos investimentos, conforme a árvore


de decisão já apresentada para aplicação dos pronunciamentos e ilustrada na
figura 11, dever-se-á observar se as investidas são empresas coligadas ou
controladas, para correta classificação e, assim, mensurar tais investimentos
pelo MEP. Note, caro leitor, que, como dito, não será foco deste capítulo
nem o tratamento contábil específico para empreendimentos controlados em
conjunto, conforme o CPC 18 (R2), nem para sociedades que estejam sob
controle comum, conforme art. 248 da Lei no 6.404/1976, ainda que estes
também sejam avaliados pelo método de equivalência patrimonial.
É interessante notar essa diferença entre os normativos do Comitê de
Pronunciamentos Contábeis e da Lei das S/A (Brasil, 1976) quando da
aplicação do MEP. No primeiro caso, a exigência para aplicação, além das
coligadas e controladas, se dá também para o empreendimento controlado
em conjunto, enquanto a Lei das S/A, em seu art. 265, aborda as sociedades
que estão sob controle comum, o que pode ser diferente do controle
compartilhado. O CPC 19 (R2) – Negócios Conjuntos –, § 7, preconiza que
o controle conjunto ocorre quando há um compartilhamento, previsto em
contrato, do controle da investida, dependendo da decisão de um grupo de
investidores. Nenhum investidor controla isoladamente a investida como no
caso do controle comum, em que existe uma única sociedade de comando.
Observe, na figura 14, um resumo que demonstra quando se deve aplicar
o MEP nas investidas.
Figura 14
Investimentos sujeitos ao método de equivalência patrimonial

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

De acordo com o CPC 18 (R2), § 10, a contabilização dos investimentos


em coligadas e controladas pela equivalência patrimonial ocorre no
reconhecimento inicial pelo seu custo que, em momentos subsequentes, será
ajustado para refletir a alteração pós-aquisição na participação do investidor
sobre os ativos líquidos da investida, ou seja, sobre o patrimônio líquido da
investida. Observe a figura 15.

Figura 15
Reconhecimento inicial dos investimentos avaliados pelo método de
equivalência patrimonial
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Dessa forma, ao adquirir uma participação nos ativos líquidos de uma


investida, a investidora deverá mensurar o valor justo dessa participação.
Então, em suas demonstrações contábeis, o saldo contábil do investimento
inicialmente mensurado pelo custo será ajustado pela participação nos
resultados obtidos pela investida, bem como por alterações que possam vir
a ocorrer na sua participação relativa, tais como compra adicional de ações.
Note, leitor, que antes mesmo de falarmos sobre os ajustes no valor
contábil do investimento, precisamos enfatizar que, no reconhecimento
inicial, o investimento será mensurado pelo seu custo de aquisição. E o que
seria esse custo inicial do investimento?
Primeiramente, devemos ter em mente que esse custo nada mais é do que
o desembolso realizado pela investidora que lhe possa conferir controle
sobre a investida ou influência significativa, ou seja, o valor pago no
momento inicial para adquirir o investimento. Existem duas formas de
compor o custo do investimento no reconhecimento inicial. A primeira
delas pode ser vista na figura 16, em que o valor pago é maior que o valor
justo.

Figura 16
Custo inicial maior que o valor justo
dos ativos líquidos da investida

Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

De acordo com a figura 16, podemos observar que o valor pago poderá
ser maior do que a mensuração realizada no patrimônio líquido da
investida, ou seja, poderá conter elemento de ágio por expectativa de
rentabilidade futura. Esse ágio é conhecido contabilmente como goodwill,
representando um valor excedente atribuído ao negócio sobre o valor justo
dos ativos líquidos, e sua amortização não é permitida.
De modo contrário, a diferença do valor pago pela participação no capital
social da sociedade investida pode ser derivada de um ganho por compra
vantajosa, ou seja, a investidora poderá pagar um valor menor do que a
mensuração a valor justo do investimento, obtendo assim uma vantagem. A
esse respeito, vamos observar a figura 17, em que o valor pago é menor que
o valor justo do investimento.

Figura 17
Custo inicial menor que o valor justo dos ativos líquidos da investida
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Vale ressaltar que, no momento inicial, ambas – investidora e investida –


devem adotar práticas contábeis similares, inclusive quanto ao período de
reporte, de modo que o patrimônio de uma seja refletido fidedignamente no
da outra, ou seja, o CPC 18 (R2), § 27, define que os ajustes no saldo
contábil do investimento, decorrentes da aplicação do método da
equivalência patrimonial, devem ser aqueles reconhecidos nas
demonstrações contábeis da investida após a realização dos ajustes
necessários para uniformizar as práticas contábeis.
No momento dessa uniformização, caso a investida não adote as mesmas
práticas da investidora, a norma recomenda que a investida elabore uma
nova demonstração contábil-financeira com os ajustes necessários. Quando
isso não for possível, a norma permite um período de defasagem entre a
data-base das demonstrações da investida e a data-base das demonstrações
da investidora. Cabe destacar que a norma internacional IAS 28 permite
uma defasagem máxima de até 90 dias, enquanto o CPC 18 (R2) só
consente 60 dias, pois, quando as normas internacionais foram inseridas no
Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já normatizava essa
questão e o Comitê de Pronunciamentos Contábeis decidiu manter o prazo
já usual no país.
Perceba, caro leitor, que podem ocorrer diferenças no momento inicial
entre o valor justo do investimento e o valor desembolsado. Vamos analisar
um exemplo.
NA PRÁTICA DE MERCADO
Vamos imaginar que uma empresa X decide investir numa empresa Y e adquire 30% do
capital social votante da investida, realizando um desembolso no valor R$ 400.000. Foi
realizada mensuração e encontrado o valor justo relativo aos ativos líquidos da investida
nesse percentual de 30% de participação, montando o valor em R$ 320.000. Ora, se o
investimento a valor justo corresponde a R$ 320.000, mas a investidora pagou R$
400.000, pode-se perceber que houve um excesso de valor desembolsado, e o
tratamento contábil se daria da seguinte forma:
D – Investimento em coligada R$ 320.000
D – Goodwill R$ 80.000
C – Banco R$ 400.000
Imagine agora que, de outra forma, a empresa decidiu investir em outra companhia e
desembolsou os mesmos R$ 400.000. Foi realizada mensuração e encontrado o valor
justo relativo aos ativos líquidos da investida no percentual de 30% de participação,
montando o valor em R$ 450.000. Ora, se o investimento vale R$ 450.000 e houve um
pagamento de apenas R$ 400.000, pode-se perceber que houve um ganho de compra
vantajosa. Dessa forma, o lançamento contábil seria o seguinte:
D – Investimento em coligada R$ 450.000
C – Ganho de compra vantajosa (DRE) R$ 50.000
C – Banco R$ 400.000

No momento inicial, após haver o reconhecimento do investimento pelo


custo, devemos atentar para as alterações ocorridas subsequentemente no
patrimônio da empresa investida, sendo esta uma coligada e/ou controlada.
Então, pelo MEP, no resultado da investidora estará incluída sua
participação nos lucros ou prejuízos da investida, mas quando as
distribuições relativas a dividendos forem recebidas da investida, o valor
contábil do investimento registrado na investidora deverá ser reduzido
proporcionalmente.
Cabe ressaltar que são parte integrante do patrimônio líquido da
investida, e que devem ser levados em consideração, os direitos a
recebimento de dividendos relativos a ações preferenciais que estão em
poder de outras partes que não a do investidor. Esse fato influencia na
contabilização pelo investidor, visto que sua participação nos resultados do
período da investida só deverá ser contabilizada após a dedução dos
dividendos pertinentes a essas ações, ainda que não tenham sido declarados.
Nesse sentido, constarão nos outros resultados abrangentes da
investidora, de forma reflexa, as variações que ocorrerem nos outros
resultados abrangentes da investida proporcionalmente à sua participação,
por exemplo, aquelas decorrentes da reavaliação de ativos imobilizados, se
assim for permitido por lei.
Vale salientar que, caso haja alguma mudança na participação societária
da investida, mas essa empresa continue sendo uma coligada ou controlada,
os referidos resultados abrangentes previamente reconhecidos deverão ser
reclassificados, para a demonstração do resultado do exercício, como
receita ou despesa, na mesma proporção da receita ou despesa que esteja
relacionada com a mudança na participação societária.
Então, como vimos, diferentemente do método do custo, em que o saldo
contábil do investimento não sofre impacto decorrente das oscilações do
patrimônio líquido das investidas, pelo método de equivalência o saldo
contábil do investimento deverá refletir as mudanças ocorridas no
patrimônio líquido da coligada ou controlada. Assim, pelo MEP, o
investimento que foi reconhecido no momento inicial pelo custo será
ajustado pela participação nos resultados obtidos pela investida de forma
prospectiva, bem como por alterações que possam vir a ocorrer na sua
participação relativa. A contrapartida desses ajustes no saldo de
investimento vai se dar pelo resultado da investidora por meio de receitas
ou despesas de equivalência patrimonial.
Sobre este quesito de reconhecimento por equivalência via resultado da
investidora, a Lei no 6.404/1976, em seu art. 248, II e III, normatiza a
questão, como se segue:

II - o valor do investimento será determinado mediante a aplicação,


sobre o valor de patrimônio líquido referido no número anterior, da
porcentagem de participação no capital da coligada ou controlada;
III - a diferença entre o valor do investimento, de acordo com o número
II, e o custo de aquisição corrigido monetariamente; somente será
registrada como resultado do exercício:
a) se decorrer de lucro ou prejuízo apurado na coligada ou
controlada;
b) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos;
c) no caso de companhia aberta, com observância das normas
expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários [Brasil, 1976, grifos
nossos].

A Lei no 6.404/1976 é bastante restritiva quanto aos critérios que podem


impactar o resultado da investidora via equivalência patrimonial. Note que
o inciso III do art. 288 (acima) aborda três critérios para reconhecimento no
resultado do exercício. Vamos tratar detalhadamente os dois primeiros,
tendo em vista que o terceiro critério diz respeito a normas específicas
reguladas pela CVM e não se enquadra aqui neste capítulo.
No primeiro critério, quando a investida apresenta lucro ou prejuízo, seu
patrimônio líquido é impactado na mesma proporção, de modo que deverá
se refletir, por equivalência, no saldo do investimento por parte da
investidora na proporção percentual de sua participação na investida. Além
disso, a distribuição de dividendos por parte da investida ocasiona uma
diminuição em seu patrimônio líquido pela contrapartida de um passivo
constituído e, consequentemente, terá de diminuir o saldo contábil do
investimento por parte da investidora como contrapartida ao direito de
recebimento dos dividendos.
Já no segundo critério, a lei aborda as alterações que impactam o
patrimônio líquido e que não decorrem das reservas de lucro. Nesse caso, os
ganhos e perdas efetivos seriam decorrentes das reservas de capital, em que
a empresa pode se capitalizar aumentando seu patrimônio líquido via
emissão de bônus de subscrição e partes beneficiárias. Além desses itens,
quando existe um ágio na emissão de ações, ou seja, o preço de venda é
maior do que o valor nominal, ocorre uma segregação dentro do patrimônio
líquido – o valor nominal estará contido no capital social e o ágio constará
na reserva de capital. Assim, as mudanças ocorridas nas reservas de capital
estão enquadradas como ganhos ou perdas efetivas no patrimônio líquido.
Quando houver alguma mudança no patrimônio líquido da investida e tal
mudança não decorrer dos três critérios acima descritos pela Lei das S/A, as
alterações não poderão ser reconhecidas no resultado da investidora. Mas
você pode estar se perguntando como a investidora reconheceria esses
ajustes por equivalência. Pois bem, o reconhecimento se daria de forma
reflexa, aumentando ou diminuindo a própria conta de resultados
abrangentes no patrimônio líquido da investidora proporcionalmente ao seu
percentual de participação.
É o caso dos ajustes decorrentes de valor justo dos instrumentos
financeiros classificados como disponíveis para venda. Como vimos no
início do capítulo, tais ajustes não transitam no resultado do exercício
porque ainda não há expectativa de realização e, por isso, devem ser
reconhecidos em ajustes de avaliação patrimonial nos resultados
abrangentes. Note que esses ajustes não se enquadram nos critérios do art.
248 da Lei no 6.404/1976, ou seja, não se trata de um lucro ou prejuízo da
investida nem de um ganho ou perda efetiva. Vejamos, a seguir, um
exemplo de aplicação do MEP.

NA PRÁTICA DE MERCADO
Vamos imaginar que uma investidora compra 25% do capital social votante da investida
por R$ 50.000, obtendo assim a influência significativa. No momento do reconhecimento
inicial, o valor justo dos ativos líquidos identificáveis da investida montava o valor em R$
150.000, e o valor contábil dos mesmos na data da aquisição foi determinado em R$
120.000. Note que há uma diferença de R$ 30.000 entre o valor contábil e o valor justo,
dos quais 70% dizem respeito a um imóvel e os demais 30% advêm dos estoques, os
quais foram totalmente realizados até o final do exercício. Além disso, a investida
apresentou um resultado no período no valor de R$ 70.000, e o dividendo declarado para
distribuição foi de R$ 15.000.
Valores relacionados à investida
Valor justo dos ativos líquidos R$ 150.000
Valor contábil R$ 120.000
Goodwill = valor justo - valor contábil R$ 30.000
Estoques = 30% de 30.000 R$ 9.000
Imóvel = 70% de 30.000 R$ 21.000
Valores relacionados ao investimento
Custo do Investimento R$ 50.000
Valor contábil = 25% de 120.000 R$ 30.000
Mais valia ativos líquidos = 25% de 30.000 R$ 7.500
Subtotal = valor contábil + mais valia R$ 37.500
Goodwill = custo – (valor contábil + mais valia) R$ 12.500
Com base nessas informações, os seguintes lançamentos contábeis devem ser rea-
lizados:
D – Investimentos – coligadas R$ 17.500 Pelo reconhecimento
dos lucros da investida
C – Receita de equivalência patrimonial R$ 17.500 = 25% de 70.000
D – Receita de equivalência patrimonial R$ 2.250 Pela realização da
mais valia dos estoques
C – Investimentos – coligadas R$ 2.250 = 25% de 9.000
D – Dividendos a receber R$ 3.750 Pelo reconhecimento
dos dividendos
C – Investimentos – coligadas R$ 3.750 = 25% de 15.000
Assim, o saldo inicial do investimento é composto pelo valor contábil e pela mais-valia
atribuída aos estoques, somando R$ 37.500, e também pelo goodwill de R$ 12.500,
totalizando R$ 50.000. Após a movimentação ocorrida no período, decorrente do
aumento do investimento pelo reconhecimento do lucro na investida, R$ 17.500, a
diminuição do investimento pela realização da mais-valia dos estoques, R$ 2.250, e pelo
reconhecimento dos dividendos declarados, R$ 3.750, o saldo final do investimento
totalizou R$ 61.500. Com base nisso, observe o razonete da conta de investimentos em
coligada com a demonstração da movimentação e composição do saldo:
Investimentos – Coligada
Saldo inicial R$ 37.500 R$ 2.250 (2)
R$ 12.500 R$ 3.750 (3)
(1) R$ 17.500
R$ 67.500 R$ 6.000
Saldo final R$ 61.500

É importante destacar que existem exceções para o uso do método de


equivalência patrimonial e que algumas empresas estão dispensadas de
aplicá-lo. Note, leitor, que a aplicação do MEP não é uma questão de
escolha ou julgamento da administração, mas sim uma exigência do CPC
18 (R2) e da Lei no 6.404/1976 em seu art. 248.
As empresas não precisam aplicar o MEP quando atenderem aos
requisitos preconizados pelo CPC 36 (R3) – Demonstrações Consolidadas,
o qual detalha quais as situações em que coligada, controlada e
empreendimento controlado em conjunto estariam dispensados de
apresentar demonstrações consolidadas.
Cabe destacar que empresas mantidas por organizações de capital de
risco, como venture capital, private equity ou fundo de investimento, por
exemplo, também não devem aplicar a equivalência patrimonial; devem,
sim, aplicar o método de valor justo. Isso porque o objetivo de um fundo de
investimento, por exemplo, é o ganho de capital decorrente da valorização
das ações e o recebimento de dividendos. Outra situação para dispensa do
uso do MEP ocorre quando a investida é controlada por uma entidade que
não faz objeção quanto à não aplicação do método. Tal decisão da
investidora deve ser tomada em conjunto pelos acionistas ou sócios,
incluindo aqueles sem direito a voto.
Uma possibilidade para não aplicabilidade da equivalência patrimonial
seria também o caso de um ativo classificado como mantido para venda,
conforme IFRS 5 ou CPC 31, para o qual a norma exige, por exemplo, que
haja evidência de que a empresa pretende vendê-lo no curto prazo. Nesse
caso, o MEP não deve ser aplicado porque os referidos normativos possuem
regras de mensuração muito específicas e que se diferenciam daquelas
preconizadas na equivalência patrimonial. Por fim, a entidade deve deixar
de aplicar o MEP no momento em que a empresa investida não mais se
enquadrar nos critérios que a qualifiquem como coligada, controlada ou
como empreendimento controlado em conjunto.

Perdas por redução ao valor recuperável


No final de cada período de divulgação, a entidade avalia a existência de
evidências objetivas quanto ao valor recuperável dos investimentos em
coligadas e controladas. Caso haja algum indício de não recuperabilidade,
parcial ou integral, de tais investimentos, a entidade reconhece
imediatamente uma redução no valor recuperável no resultado do exercício
pelo montante que não se espera realizar.
Assim, de acordo com CPC 01 (R1) – Redução ao Valor Recuperável de
Ativos –, o referido teste consiste em comparar o valor contábil líquido com
o maior valor esperado de recuperação do investimento quando de sua
provável realização. Caso o valor contábil líquido venha a estar maior do
que o valor recuperável, a entidade deve reconhecer a perda no resultado do
período, de modo que o valor registrado na contabilidade esteja compatível
com o valor recuperável. De modo contrário, caso o valor contábil esteja
menor ou igual ao valor recuperável, a entidade não deve efetuar nenhum
tipo de contabilização, tendo em vista que a reavaliação de ativos está
proibida no Brasil. Na figura 18, pode-se verificar como o teste de
recuperabilidade é realizado.
Se, no exercício subsequente, a perda no valor recuperável diminuir, e tal
redução tiver alguma relação, definida por um critério objetivo, com um
evento que ocorreu após o reconhecimento dessa perda, a entidade poderá
reverter a perda reconhecida anteriormente, seja diretamente ou pelo ajuste
de conta de provisão, limitado ao valor da perda reconhecida no período
precedente.

Figura 18
Teste de imparidade nos ativos
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

A reversão não resulta em valor contábil do ativo (líquido de qualquer


conta de provisão) que exceda o valor contábil que seria contabilizado caso
a perda no valor recuperável não tivesse sido reconhecida. A entidade
reconhece imediatamente o valor da reversão no resultado.
Neste capítulo, analisamos quais são os critérios adotados para
contabilizar os investimentos e quais são os julgamentos necessários para
classificar as investidas em coligadas ou controladas. Evidenciamos
também como se dá a avaliação de tais investimentos no momento do
reconhecimento e na mensuração subsequente.
O próximo capítulo versa sobre a consolidação das demonstrações
contábil-financeiras. Assim, as bases conceitual e técnica abordadas nos
capítulos precedentes serão utilizadas como fundamento para o
levantamento das demonstrações consolidadas de determinado grupo
empresarial.
5
Demonstrações consolidadas

No capítulo anterior, apresentamos os investimentos em coligadas e controladas,


abordamos os instrumentos financeiros como forma de diferenciação em relação aos
investimentos patrimoniais e abordamos o método de equivalência patrimonial para
mensurar tais investimentos.
Neste capítulo, trataremos dos aspectos relacionados à elaboração de
demonstrações consolidadas para as companhias que possuem investimentos em
controladas, em que os valores são reconhecidos na consolidação de forma
proporcional ou integral no que diz respeito às transações entre empresas
consideradas partes de um mesmo grupo econômico.

Aspectos introdutórios

As demonstrações consolidadas são tratadas pelo Pronunciamento Técnico CPC 36


(R3), atualmente em sua terceira revisão, representada pela sigla R3, e que tem
correlação com a norma internacional IFRS 10, devidamente endossado pelos órgãos
reguladores a partir de sua primeira versão em 2009.
O principal objetivo do pronunciamento é definir princípios para as entidades
controladoras elaborarem e apresentarem demonstrações consolidadas, baseados no
pressuposto da existência de controle sobre uma ou mais entidades, esclarecer a
definição de controle e estabelecer exceções à regra de consolidação, quando
aplicáveis.
Primeiramente, caro leitor, abordaremos o conceito de consolidação em sua
primazia, no que tange ao real significado da palavra, como a junção dos registros
contábeis de entidades juridicamente distintas, evidenciados em apenas um
demonstrativo, como se fosse uma única empresa. De forma análoga, poderíamos
comparar com uma declaração de imposto de renda conjunta, relativa a todos os
membros de uma família, unificando as declarações de cada indivíduo, incluindo os
rendimentos, dependentes e despesas comuns.
No capítulo anterior, abordamos os investimentos realizados em outras entidades,
especificamente em controladas e coligadas, e como os resultados financeiros e
econômicos dessas investidas deveriam ser evidenciados nas demonstrações
contábeis individuais da investidora. Pois bem, além do reconhecimento desses
resultados em seu demonstrativo contábil individual por meio do MEP, o CPC 36
(R3), § 2, exige que as controladoras também apresentem de forma conjunta a
posição patrimonial e econômica do grupo como se fosse uma única entidade, sob a
denominação “demonstrações consolidadas”.
Assim, é importante frisar que este capítulo se aplica apenas a “investimentos em
controladas”, abordados em detalhes em seção com esse título no capítulo anterior.
Portanto, estão fora do âmbito da norma CPC 36 (R3) os investimentos em
instrumentos financeiros, coligadas, controladas em conjunto e combinação de
negócios, os quais possuem requisitos contábeis abordados em pronunciamentos
específicos.
Acerca da obrigatoriedade de elaborar demonstrações consolidadas, o art. 249 da
Lei no 6.404/1976 estabelece:

Art. 249. A companhia aberta que tiver mais de 30% (trinta por cento) do valor do
seu patrimônio líquido representado por investimentos em sociedades controladas
deverá elaborar e divulgar, juntamente com suas demonstrações financeiras,
demonstrações consolidadas nos termos do artigo 250.
Parágrafo único. A Comissão de Valores Mobiliários poderá expedir normas sobre
as sociedades cujas demonstrações devam ser abrangidas na consolidação, e:
a) determinar a inclusão de sociedades que, embora não controladas, sejam
financeira ou administrativamente dependentes da companhia;
b) autorizar, em casos especiais, a exclusão de uma ou mais sociedades
controladas.

Note, leitor, que, ao analisarmos inicialmente o referido artigo da Lei das S/A, o
critério para exigência de elaboração das demonstrações consolidadas pelas
controladoras estaria condicionado pela relação entre o total dos investimentos em
controladas e o patrimônio líquido da controladora, em pelo menos 30%. No entanto,
observando com cautela, o parágrafo único do art. 249 concede poderes à CVM,
permitindo que ela tenha liberdade de estabelecer critérios para elaboração de
demonstrações consolidadas.
A CVM, em sua Instrução Normativa no 247/1996, § 21, regulamenta que qualquer
companhia aberta que possuir investimento em sociedades controladas deve elaborar
demonstrações consolidadas, não impondo restrições, portanto, quanto ao valor do
investimento em relação ao patrimônio líquido da controladora. Da mesma forma, o
CPC 36 (R3), § 2 (a), também normatiza que, existindo uma relação de controle, a
consolidação deve ser realizada, representando um grande benefício para usuários
interessados. O segundo caso de obrigatoriedade para elaboração de demonstrações
consolidadas diz respeito aos grupos econômicos, que serão tratados em tópico
específico mais adiante neste capítulo.
Apesar do pressuposto básico de que toda entidade considerada controladora
deveria apresentar demonstrações consolidadas, a norma prevê que, quando da
existência de certas condições, a respectiva controladora estará excepcionalmente
isenta de tal obrigação, sendo essas condições apresentadas na figura 19, conforme
determina o § 4 (a) do CPC 36 (R3).

Figura 19
Condições para não apresentação de demonstrações consolidadas por
entidade considerada controladora
Fonte: elaborada pelas autoras (2017).

Adicionalmente, caso a controladora seja considerada uma entidade de


investimento, está dispensada de apresentar demonstrações consolidadas, conforme
previsto pelo Pronunciamento Técnico CPC 36 (R3), § 4B. Os investimentos desse
tipo de negócio devem ser mensurados e avaliados com base no valor justo. Mas o
que é uma entidade para investimento? Pois bem, leitor, observe a figura 20, que
resume os três elementos necessários para que uma entidade seja considerada de
investimento, conforme o § 27 do CPC 36. Vejamos.

Figura 20
Características de uma entidade para investimento
Fonte: CPC 36 (R3), § 27.

Além dos elementos elencados na figura 20, o CPC 36 (R3), § 28, assegura que a
entidade de investimento se caracteriza por possuir mais de um investimento ou
participações societárias na forma de participação patrimonial, assim como
usualmente possui mais de um investidor, o qual não necessariamente é parte
relacionada à entidade.
Tais entidades possuem o propósito comercial de investir para valorizar o capital e
obter renda por meio de receitas de investimento, tais como dividendos e juros.
Observe, leitor, que tal objetivo é distinto das entidades investidoras que visam
auferir retorno por meio do resultado econômico-financeiro gerado pelas atividades
operacionais da investida, ficando, portanto, inconsistente a necessidade de
consolidar seus demonstrativos com o objetivo de revelar os resultados auferidos
pelo grupo econômico. Abordaremos, na próxima seção, o conceito de grupo
econômico e a aplicabilidade da consolidação como fonte de informação relevante.

Grupo econômico

Um grupo econômico, à luz dos conceitos contábeis, foco deste livro, é formado pela
controladora e suas controladas, o que, intrinsecamente, refere-se ao pressuposto da
existência de controle de uma entidade sobre outra ou várias empresas, formando
assim um único bloco econômico. Vale ressaltar que, de forma análoga, a Receita
Federal do Brasil, em sua Instrução Normativa no 971/2009, art. 494, reforça tal
conceito quando caracteriza como grupo econômico de fato duas ou mais empresas
que estão “sob a direção, o controle ou a administração de uma delas, compondo
grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica” (Brasil,
2009), ainda que cada uma tenha personalidade jurídica própria.
Mediante o conceito de grupo econômico, ainda que as entidades sejam legalmente
independentes, a controladora e suas controladas constituem uma única entidade
econômica. A esse respeito, a Lei no 6.404/1976, art. 265, regulamenta a
possibilidade de constituição de um grupo de sociedade por meio da controladora e
suas controladas, mediante convenção. Então, existe a obrigatoriedade de elaboração
de demonstrações consolidadas para esse grupo de sociedade, exigida pelo art. 275
da referida lei. No entanto, como boa parte dos grupos empresariais no Brasil não se
formaliza por meio de convenção como grupo de sociedades, não estaria, a priori,
obrigada, pela lei societária, a apresentar demonstrações consolidadas. Porém, cabe
ressaltar que as sociedades anônimas estão sob a fiscalização da CVM e por isso
devem seguir os preceitos regulamentados na Instrução Normativa no 247/1996,
conforme tratado anteriormente.
A demonstração contábil de cada entidade demonstra sua própria situação
patrimonial e financeira; contudo, usuários e tomadores de decisões necessitam estar
informados sobre os resultados operacionais e a situação financeira do grupo. Tal
necessidade é satisfeita por meio das demonstrações consolidadas, as quais revelam
os resultados e posição patrimonial das entidades combinados em um só
demonstrativo, fornecendo elementos completos para o real conhecimento da
situação financeira do grupo e do volume total de suas operações.
A demonstração consolidada, portanto, combina todos os itens idênticos
constantes nas demonstrações individuais de cada entidade, evidentemente
eliminando-se todos os saldos de transações entre as mesmas, ensejando o
reconhecimento, nas controladas, de uma provisão para os interesses de acionistas
minoritários.
Assim, o conceito segundo o qual as demonstrações consolidadas devem
apresentar as operações e resultados das entidades pertencentes a um grupo
econômico como se fossem uma só companhia exige que, por exemplo, os recebíveis
de uma das entidades consolidadas sejam eliminados contra o montante equivalente
devido por outra. Isso porque a entidade controladora não pode ser nem devedora
nem credora de si própria. Da mesma forma, lucros auferidos nas operações entre as
entidades do grupo não devem ser reconhecidos, tendo em vista que a controladora
não pode auferir lucro consigo mesma.
No que se refere ao conjunto de entidades pertencentes a um mesmo grupo
econômico e elegíveis ao processo de consolidação, destacamos que não serão
excluídas aquelas que possuem atividades operacionais ou localização geográfica
diferente das demais entidades do grupo, ou seja, a condição fundamental para a
inclusão dos registros contábeis de uma controlada na demonstração consolidada é a
existência de controle efetivo exercido por sua controladora. Dessa forma,
abordaremos em seguida os aspectos relacionados ao controle, na forma de poder e
retorno, para consolidar o que foi apresentado na seção “Investimento em
controladas”, no capítulo 4 deste livro.
Controle, poder e retorno

No capítulo 4, enfatizamos que a classificação e a forma de mensuração dos


investimentos realizados em outras entidades dependem da interpretação do tipo de
relacionamento existente entre o investidor e as investidas, afetado pelo grau de
influência e de controle. Sumarizamos, no quadro 4, essa relação.

Quadro 4
Avaliação de investimentos
Avaliação dos investimentos por participação no capital de outra entidade
com foco no relacionamento do investidor com a investida
Tipo de
relacionamento Nenhuma
Influência
entre ou pouca Controle Controle compartilhado
significativa
investidor e influência
investida

Classificação Investimentos em
Ativo Investimentos em Investimentos em
do entidades controladas em
financeiro coligadas controladas
investimento conjunto – joint ventures

Equivalência
Equivalência patrimonial Equivalência patrimonial
patrimonial no
Método de Valor no balanço individual da no balanço individual da
balanço
avaliação justo controladora e controladora e
individual da
consolidação integral consolidação proporcional
controladora
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Conforme exposto no quadro 4, o requerimento de elaborar demonstrações


consolidadas está diretamente relacionado à existência de controle entre o investidor
e a investida. Diante disso, o que significa controle? De acordo com o CPC 36 (R3),
§ 6, controlar uma entidade significa deter direitos sobre ou estar exposto a retornos
variáveis decorrentes do seu envolvimento com a investida, os quais podem ser
afetados pelo poder que o investidor é capaz de exercer sobre a mesma.
Além disso, cabe destacar mais profundamente os conceitos de poder e retorno do
investidor. Primeiramente, o poder passa a existir, segundo o CPC 36 (R3), § 10,
quando o investidor possui direitos que lhe dão a capacidade de dirigir atividades
relevantes que possam afetar os retornos auferidos pela investida.
Entre as atividades relevantes de uma entidade, podemos citar a compra e venda de
ativos significativos, determinação da estrutura de capital da entidade, pesquisa e
desenvolvimento de novos produtos ou descontinuação de outros, além de outras
atividades que sejam importantes para cada empresa, considerando a relevância das
rubricas, dos processos e do setor de atuação.
No entanto, em seu § 11, o CPC 36 (R3) estabelece que a determinação da
existência de poder ou não pode ser uma tarefa difícil, principalmente quando os
direitos não estão claramente definidos. Por exemplo, poder adquirido diretamente
por meio de maioria de direitos de voto concedidos por instrumentos patrimoniais é
facilmente identificado; no entanto, em situações nas quais dois ou mais investidores
detêm os mesmos direitos acionários, deve-se avaliar qual possui o maior poder
sobre as atividades relevantes da investida e cujas decisões afetam seus retornos. Às
vezes, mesmo que uma entidade investidora exerça influência significativa sobre a
investida, isso não significa que ela detenha o poder e, consequentemente, que a
controle.
Nesse sentido, para que se determine o controle, conforme § 7 do CPC 36 (R3), é
necessário que, além de deter poder sobre a investida, o investidor esteja exposto a
ou tenha direito sobre os retornos auferidos pela mesma, ou seja, sobre os ganhos ou
perdas resultantes de seu desempenho, conforme abordado e exemplificado na figura
13, no capítulo 4 deste livro.
Para finalizar esta seção, devemos considerar o aspecto da contínua avaliação,
conforme o CPC 36 (R3), § B80, o qual pressupõe que o investidor controlador deve
avaliar permanentemente se eventuais mudanças nos fatos e circunstâncias existentes
podem afetar sua exposição ou direitos sobre os retornos da investida, assim como
deve reavaliar a ocorrência de certos eventos que impeçam que seu controle possa ser
exercido. Caso o investidor deixe de ser o controlador, os devidos ajustes nas
demonstrações financeiras consolidadas devem ser realizados para reconhecimento e
apresentação da perda de controle. Veremos em detalhe, no final deste capítulo, os
procedimentos requeridos para evidenciar a perda de controle.

Procedimentos para a elaboração


das demonstrações consolidadas

A norma CPC 36 (R3) prevê procedimentos específicos para a elaboração das


demonstrações consolidadas que serão abordados nesta seção. Primeiramente, alguns
requisitos contábeis devem ser cumpridos, como veremos a seguir.
4) Adoção de políticas contábeis uniformes, conforme § B87 do CPC 36 (R3), para
consolidação de transações de mesma natureza e eventos em circunstâncias
similares, visto que a utilização de políticas distintas causaria distorção nas de‐
monstrações contábeis consolidadas, uma vez que para combinação de
demonstrativos pressupõe-se que os montantes de cada entidade foram
reconhecidos utilizando-se a mesma base de mensuração e reconhecimento.
Dessa forma, caso uma controlada adote políticas contábeis distintas da
controladora, devem ser efetuados ajustes para que a demonstração contábil
desse membro esteja em conformidade com as políticas contábeis do grupo.
Imagine, leitor, que uma controlada apresente suas propriedades para
investimento mensuradas a custo histórico e a controladora valorize suas
propriedades pelo método de valor justo, ambos os métodos previstos no
Pronunciamento Técnico CPC 28, que trata de propriedade para investimento.
Nesse caso, visando à uniformidade das políticas adotadas por ambas, dever-se-
ia ajustar as propriedades da controlada a valor justo para fins de consolidação,
evitando assim distorções causadas por adoção de políticas contábeis distintas.
5) A data de referência para início da consolidação considera que uma investida
deve passar a ser consolidada a partir do momento em que o investidor obtiver o
controle. Desse modo, caso o controle seja adquirido no decorrer de um período
contábil objeto de consolidação, as respectivas receitas e despesas da controlada
serão incluídas nas demonstrações consolidadas a partir da data de aquisição do
investimento de forma prospectiva até a data em que a controladora perder o
controle, sendo a consolidação, a partir dessa data, não mais aplicável.

Depois de garantida a utilização de políticas contábeis uniformes, definidos os


prazos e selecionadas as investidas elegíveis para a consolidação, inicia-se o processo
de elaboração das demonstrações financeiras consolidadas. Assim, o referido
processo começa pela obtenção das demonstrações contábeis individuais da
controladora e de suas controladas, seguidas pelo somatório do saldo de cada conta
contábil das referidas demonstrações, bem como pela eliminação dos montantes
oriundos das transações realizadas entre controladora e controlada(s). Conforme
previsto pelo CPC 36 (R3) em seu § B86, listamos os procedimentos na figura 21.

Figura 21
Procedimentos para a elaboração
das demonstrações consolidadas

Fonte: CPC 36 (R3), § B86.

Os procedimentos indicados na figura 21 correspondem aos esforços para que as


demonstrações consolidadas representem fidedignamente a posição econômica e
financeira do grupo, e, para tanto, é necessário que a data-base das demonstrações
das controladas e da controladora seja a mesma. Caso sejam distintas, as controladas
devem elaborar demonstrações financeiras adicionais com a mesma data-base da
controladora, para fins de consolidação, unificando o período de reporte. Caso seja
impraticável, a controlada deverá efetuar os ajustes correspondentes às transações e
eventos relevantes ocorridos entre a data-base de suas demonstrações e a data-base
das demonstrações contábeis da controladora, respeitando a defasagem máxima
prevista no art. 248, I, da Lei no 6.404/1976, de dois meses entre as mesmas. O
referido prazo de defasagem também é previsto no CPC 36 (R3), § B93, alinhado
com as práticas contábeis da legislação societária brasileira, diferentemente do IASB,
que permite até 90 dias.
Além dos procedimentos previstos na norma, devem ser observados aspectos
gerenciais recomendados no processamento das informações contábeis das
controladas, tais como:

• utilização de um plano de contas contábil único para todas as empresas do grupo


econômico, o que facilitará o processo de consolidação;
verificação da existência de controles internos eficientes que permitam o

acompanhamento de todas as transações contábeis realizadas entre as empresas
do grupo, exemplificados pela realização de conciliações periódicas dos saldos
entre controladora e controladas;
• existência de controle dos saldos e dos resultados auferidos em transações
intragrupo;
• adoção de políticas contábeis uniformes pelas empresas controladas.

As demonstrações contábeis consolidadas são preparadas por meio de papéis de


trabalho, nos quais são normalmente transcritos todos os saldos de cada conta
contábil das controladas e da controladora. Note, leitor, que por esse motivo um
plano de contas contábil único para todas as empresas do grupo torna o processo de
consolidação mais eficiente e íntegro. Criam-se, portanto, papéis de trabalho para
compilação dos montantes contidos nos demonstrativos individuais das empresas, os
quais são somados e devidamente reduzidos das eliminações representadas pelas
transações entre membros do grupo, resultando nos saldos consolidados que irão
compor os seguintes demonstrativos nas demonstrações financeiras consolidadas:

• balanço patrimonial consolidado;


• demonstração consolidada do resultado do exercício;
• demonstração consolidada do resultado abrangente;
• demonstração consolidada da mutação do patrimônio líquido;
• demonstração consolidada do fluxo de caixa;
• demonstração consolidada do valor adicionado.

O quadro 5 ilustra um papel de trabalho modelo para apuração dos saldos


consolidados do balanço patrimonial, sendo sugerido o uso do mesmo racional para a
preparação dos papéis de trabalho dos demais demonstrativos contábeis citados
anteriormente.

Quadro 5
Papel de trabalho de consolidação
Descrição Controladora Controladas Eliminações Saldo
Cia. Somatório demonstrações
Cia. A Cia. B Cia. C Débito Crédito consolidadas
(...)
Coluna A Coluna Coluna Coluna Coluna I Coluna Coluna Coluna IV
B C (...) II III
Ativo
Caixa e bancos
Contas a receber
Outras contas a receber
Estoque
Imposto de renda diferido
Investimentos
Ágio na aquisição de investimento
Imobilizado
Depreciação acumulada
Etc.

Total do ativo

Passivo
Fornecedores
Contas a pagar
Empréstimos
Provisões
Imposto de renda a pagar
Etc.
Patrimônio líquido
Capital social
Reservas de capital
Etc.

Total do passivo
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Na coluna “Eliminações”, exposta no quadro 5, devem ser incluídos os saldos das


transações comuns entre as empresas do grupo, os quais serão eliminados, reduzindo
o saldo acumulado resultante do somatório dos demonstrativos individuais. Entre
essas eliminações, podemos destacar:

• participações recíprocas referentes à conta de investimento na controladora,


assim como os resultados de equivalência patrimonial auferidos no período;
• lucros ou prejuízos acumulados;
• custos dos estoques transacionados pelo grupo, cuja venda para terceiros ainda
não ocorreu;
• resultados decorrentes da venda de ativo imobilizado entre investidas;
• débitos e créditos diversos oriundos de operações entre controladora e
controladas;
• lucros não realizados de operações entre controladora e controladas.

Vale ressaltar, leitor, que a elaboração da demonstração da mutação do patrimônio


líquido consolidado representa um teste para verificar se a consolidação foi elaborada
corretamente. Isso porque tal demonstração deverá ser igual à demonstração
individual da mutação do patrimônio líquido da controladora, apenas com uma
coluna adicional contendo os valores pertinentes à participação dos não controladores
ou minoritários.
A elaboração da demonstração consolidada da mutação do patrimônio líquido deve
ser feita da seguinte forma:

• os saldos de início e fim do período são extraídos dos valores indicados nos
balanços patrimoniais consolidados;
• o lucro líquido é extraído da demonstração consolidada do resultado do
exercício e da demonstração consolidada do resultado abrangente total;
• em coluna própria, segrega-se a parcela atribuída aos acionistas não
controladores no resultado do período e no resultado abrangente total da parcela
atribuível ao controlador;
• os valores dos dividendos totais distribuídos devem ser a soma aritmética dos
respectivos dividendos distribuídos em cada investida, segregando a parcela de
controlador e não controladores.

Destacamos, no entanto, que em algumas raras situações o patrimônio líquido


consolidado pode ser distinto do patrimônio líquido ou do lucro líquido individual da
controladora. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando:

• a controlada apura passivo a descoberto, mas a controladora reconhece apenas a


despesa com equivalência até o limite do investimento, muitas vezes baseado
em responsabilidades societárias limitadas;
• apuram-se lucros não realizados na venda de estoques ou imobilizado da
controladora para uma controlada (downstream), transação que, apesar de não
afetar o cálculo de equivalência patrimonial, afeta a demonstração de resultado e
o balanço patrimonial consolidados;
o valor justo dos ativos líquidos da controlada é diferente do valor contábil de
• seu patrimônio líquido.

Apesar de não usuais, podem ocorrer outras situações que afetem a relação do
lucro líquido ou do patrimônio líquido da controladora com o consolidado.
Prosseguiremos apresentando como devem ser elaboradas as demonstrações
contábeis consolidadas, por meio de um exemplo prático no qual a empresa
controlada Cia. “B” é sempre uma subsidiária integral, ou seja, nesse caso, a empresa
controladora Cia. “A” detém 100% da participação societária da referida controlada.
Inicia-se o processo de consolidação elencando os saldos individuais da Cia. “A” e
da Cia. “B” e somando todas as contas contábeis patrimoniais. O próximo passo no
processo de elaboração da consolidação é realizar os devidos ajustes para eliminação
dos saldos e resultados oriundos de transações entre a controladora, Cia. “A”, e sua
controlada, Cia. “B”. Abordaremos as eliminações por natureza, para melhor
ilustração dos procedimentos requeridos para apuração dos saldos a serem ajustados,
os quais, ao final, deverão ser incluídos no papel de trabalho da consolidação para a
apuração final dos saldos da demonstração contábil consolidada do Grupo “AB”.
Portanto, caro leitor, quais são os ajustes que devem ser realizados no processo de
consolidação? Apresentaremos, na sequência, as principais eliminações aplicáveis às
empresas em geral, por meio de exemplos diversos para ilustrar os ajustes de
consolidação que devem ser realizados por natureza.

Eliminação de saldos intracompanhias

Para ilustrar a eliminação dos saldos intracompanhias, considere os saldos


patrimoniais e de resultado extraídos das demonstrações contábeis individuais
hipotéticas da controladora “A” e da controlada “B” apresentados no quadro 6.

Quadro 6
Saldos patrimoniais e de resultado – Cias. “A” e “B”
Controladora Controlada
Descrição
Cia. “A” Cia. “B”
Ativo

Caixa e bancos 180.000 100.000


Contas a receber 120.000 75.000
Duplicatas a receber 50.000 –

Investimentos
Participação na Cia. “B” 125.000 -

Total do passivo 475.000 175.000

Passivo
Fornecedores 75.000 -

Duplicatas a pagar - 50.000


Patrimônio líquido
Capital social 350.000 100.000
Lucros retidos (reservas) 50.000 25.000
Total do passivo + PL 475.000 175.000
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Com base nos saldos apresentados no quadro 6, veja a seguir os lançamentos


contábeis que devem ser realizados visando à eliminação dos saldos
intercompanhias.

Eliminação dos débitos e créditos recíprocos

Imagine que a empresa Cia. “A” tem duplicatas a receber de “B” no valor de R$
50.000 e que, consequentemente, a Cia. “B” possui o mesmo montante de duplicatas
a pagar à controladora. Nesse caso, a eliminação é simplesmente a somatória dos
recebíveis entre as empresas, pois o saldo do contas a receber no consolidado
responderá somente às duplicatas a receber com terceiros. Caso haja perdas
estimadas para créditos de liquidação duvidosa, esta deve ser eliminada na proporção
correspondente à parcela calculada sobre as duplicatas a receber intercompanhias.
Para fins de consolidação, devem ser feitos os seguintes lançamentos:

Eliminação no consolidado
Ajuste da consolidação Origem do ajuste
Ativo Passivo
Conta contábil Cia. “A” ou “B” Débito Crédito Débito Crédito

Duplicatas a receber Cia. “A” 50.000

Duplicatas a pagar Cia. “B” 50.000


Eliminação da participação da controladora no patrimônio
da controlada

O ajuste do investimento da controladora na demonstração consolidada é requerido,


visto que, como todos os saldos contábeis e resultados da controladora foram
incorporados na consolidação, a não eliminação do investimento causaria uma
duplicidade de saldos, ou seja, é como se fossem transferidos valores monetários de
uma conta bancária para outra na mesma entidade. Nesse exemplo, o saldo do
investimento da controladora Cia. “A” na Cia. “B” é de R$ 125.000, composto pelo
aporte inicial de R$ 100.000 somado aos resultados auferidos pela Cia. “B” em
períodos subsequentes de R$ 25.000. O ajuste na consolidação seria como segue:

Eliminação no consolidado
Ajuste da consolidação Origem do ajuste
Ativo Passivo
Conta contábil Cia. “A” ou “B” Débito Crédito Débito Crédito

Investimento: participação na Cia. “B” Cia. “A” 125.000

Capital social Cia. “B” 100.000

Lucros retidos Cia. “B” 25.000

O saldo consolidado, portanto, é apurado após somatório dos demonstrativos


contábeis individuais das Cias. “A” e “B” e respectiva inclusão dos ajustes de
eliminação (quadro 7).

Quadro 7
Apuração da demonstração contábil consolidada
Controladora Controlada Eliminações Saldo
Descrição Somatório
Cia. “A” Cia. “B” Débito Crédito consolidado

Ativo

Caixa e bancos 180.000 100.000 280.000 - - 280.000


Contas a receber 120.000 75.000 195.000 - - 195.000
(a)
Duplicatas a receber 50.000 - 50.000 - -
50.000
Investimentos -

Participação na (b)
125.000 - 125.000 - -
Cia. “B” 125.000

Total do passivo 475.000 175.000 650.000 - 175.000 475.000


Passivo
Fornecedores 75.000 - 75.000 - - 75.000
(a)
Duplicatas a receber - 50.000 50.000 -
50.000
Patrimônio líquido
(b)
Capital social 350.000 100.000 450.000 - 350.000
100.000
Lucros retidos (b)
50.000 25.000 75.000 - 50.000
(reservas) 25.000
Total do passivo + PL 475.000 175.000 650.000 175.000 - 475.000
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Eliminação de vendas intracompanhias e lucro não realizado nos estoques

As operações de venda de estoques da controladora para suas controladas


(downstream) ou das controladas para a controladora (upstream) requerem ajustes na
consolidação quando tais estoques ainda não tiverem sido transacionados com
terceiros, sendo, portanto, necessária a eliminação do lucro não realizado nessa
operação. O montante do lucro não realizado nos estoques é calculado com base na
estimativa da margem de lucro bruto, com base nos registros históricos contábeis e
gerenciais da entidade.
No entanto, caro leitor, quando a venda é realizada a preço de custo, sem lucro ou
prejuízo apurado na transação, o ajuste é bem mais simples, pois representa apenas a
transferência de ativos que devem ser computados uma única vez no consolidado
para que não haja duplicidade desses saldos.
Abordaremos primeiramente a opção de operação upstream. Vamos considerar
uma nova situação, cujos saldos patrimoniais e de resultado extraídos das
demonstrações contábeis individuais da controladora “A” e da controlada “B” são
vistos nos quadros 8 e 9, respectivamente.

Quadro 8
Balanços patrimoniais – Cias. “A” e “B”
Controladora Controlada
Descrição
Cia. “A” Cia. “B”
Ativo

Contas a receber 370.000 185.000


Estoques 100.000 -

Participação na Cia. “B” 170.000 -

Total do ativo 640.000 185.000


Passivo
Fornecedores 75.000 –
Patrimônio líquido
Capital social 220.000 125.000
Lucros retidos (reservas) 345.000 60.000
Total do passivo + PL 640.000 185.000
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

O quadro 8 apresenta os saldos patrimoniais das companhias “A” e “B” levantados


em determinada data, e o quadro 9, os saldos dos resultados do exercício apurados
para o referido período fiscal.

Quadro 9
Demonstrativos dos resultados do exercício – Cias. “A” e “B”
Controladora Controlada
Descrição
Cia. “A” Cia. “B”
Resultado do exercício
Receita de vendas 900.000 200.000
Custo de mercadorias vendidas 600.000 140.000
Resultado de equivalência patrimonial 45.000 -

Resultado líquido 345.000 60.000


Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Suponha que a controlada “B” tenha realizado, durante o exercício, vendas de


mercadorias à vista para a controladora “A” no montante de R$ 50.000, sendo a
margem de lucro bruto estimada de 30%. Primeiramente, vamos efetuar o cálculo dos
lucros não realizados nos estoques. Veja o quadro 10.

Quadro 10
Cálculo do lucro não realizado nos estoques
Cálculo do lucro nos estoques e do custo de mercadoria vendida
Valor do estoque no ativo da controladora – Cia. “A” 50.000
(×) margem de lucro da controlada – Cia. “B” – nas vendas para a controladora – Cia. “A” 30%
(=) lucro não realizado incluído nos estoques da controladora – Cia. “A” 15.000
Custo de mercadoria vendida – CMV (50.000 – 15.000) 35.000
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Após calcular o lucro nos estoques, vamos prosseguir com os ajustes que devem
ser realizados para fins de consolidação compilados no quadro 11.

Eliminação do lucro no estoque:

Ajuste da Eliminação no consolidado


Origem do ajuste
consolidação Ativo Demonstração do resultado
Conta contábil Cia. “A” ou “B” Débito Crédito Débito Crédito

Estoque Cia. “A” 15.000

Receita com vendas Cia. “B” 50.000

Custo de mercadoria vendida Cia. “B” 35.000

Eliminação do resultado de equivalência patrimonial:

Eliminação no consolidado
Ajuste da Origem do
consolidação ajuste Demonstração do
Ativo
resultado
Conta contábil Cia. “A” ou “B” Débito Crédito Débito Crédito

Participação na Cia. “B” Cia. “A” 45.000

Resultado de equivalência
Cia. “A” 45.000
patrimonial

Eliminação da participação societária:

Ajuste da Eliminação no consolidado


Origem do ajuste
consolidação Ativo Passivo
Conta contábil Cia. “A” ou “B” Débito Crédito Débito Crédito

Participação na Cia. “B” Cia. “A” 125.000

Capital social Cia. “B” 125.000


As eliminações, demonstradas individualmente nos tópicos anteriores, estão
apresentadas de forma consolidada nos quadros 11 e 12, conforme efeito patrimonial
ou no resultado do exercício, e devem ser analisadas em conjunto, pois os
lançamentos a débito e a crédito são complementares.

Quadro 11
Consolidação da demonstração patrimonial
Controladora Controlada Eliminações Saldo das
Descrição Somatório demonstrações
Cia. “A” Cia. “B” Débito Crédito consolidadas
Ativo

Contas a receber 370.000 185.000 555.000 - - 555.000


(a)
Estoques 100.000 - 100.000 - 85.000
15.000
(c)
125.000
Participação na (b)
170.000 - 170.000 - -
Cia. “B” 45.000

Total do ativo 640.000 185.000 825.000 - 185.000 640.000

Passivo
Fornecedores 75.000 - 75.000 - - 75.000
Patrimônio
líquido
(c)
Capital social 220.000 125.000 345.000 - 220.000
125.000
Lucros retidos (b)
345.000 60.000 405.000 - 345.000
(reservas) 60.000
Total do passivo +
640.000 185.000 825.000 185.000 - 640.000
PL
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Quadro 12
Consolidação da demonstração do resultado do exercício
Controladora Controlada Eliminações Saldo das
Descrição Somatório demonstrações
Cia. “A” Cia. “B” Débito Crédito consolidadas

Resultado do
exercício
Receita de vendas 900.000 200.000 1.100.000 (a) 1.050.000
50.000
Custo de (a)
600.000 140.000 740.000 705.000
mercadorias vendidas 35.000
Resultado de (c)
45.000 - 45.000 -
equivalência patrimonial 45.000

Resultado líquido 345.000 60.000 405.000 95.000 35.000 345.000


Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Analisando o saldo consolidado, observa-se que a eliminação do lucro nos


estoques evidencia a posição e o resultado econômico do grupo apenas com
entidades externas, expurgando assim saldos oriundos de transações internas sem
substância para fins de análise das empresas em conjunto.

Impactos da eliminação da equivalência patrimonial


na controladora oriundos de resultados não realizados

No exemplo anterior, pudemos observar que, para fins de consolidação, o


investimento e os resultados de equivalência patrimonial são ajustados. Assim,
vamos aprofundar o entendimento sobre os impactos na controladora. Além dos
investimentos, os resultados não realizados referentes a transações intracompanhias
também devem ser eliminados do resultado de equivalência patrimonial reconhecido
pela controladora em seu balanço individual.
Diferentemente do tratamento dado às coligadas, não será considerado apenas o
percentual de participação na investida, ou seja, todos os resultados não realizados
decorrentes de transações entre as companhias devem ser eliminados. Todos os
detalhes acerca dos procedimentos a serem adotados podem ser visualizados na
Interpretação Técnica ICPC – 09, em seus §§ 55 e 56.
Observe, a seguir, uma situação prática para visualizar a contabilização dos
resultados não realizados entre investidoras e empresas controladas, e os reflexos no
cálculo da equivalência patrimonial que deve ser ajustada.

NA PRÁTICA DE MERCADO

Vamos imaginar agora que a companhia investidora detém 65% do capital social votante de uma
empresa investida, preponderando nas deliberações das assembleias e tendo maioria dos votos
para decidir sobre políticas operacionais e financeiras da investida. Isso faz com que seu
investimento seja avaliado pelo método de equivalência patrimonial, por se tratar de um investimento
em empresa controlada. Observe abaixo o balanço patrimonial da investidora no momento inicial.
Balanço patrimonial – investidora
Ativo Passivo
Circulante Circulante

Bancos 500.000 Obrigações a pagar 250.000

Clientes 350.000 Patrimônio líquido

Não circulante Capital social 750.000

Investimentos – controlada 300.000 Reservas de lucro 150.000


Total 1.150.000 Total 1.150.000
Imagine que a investidora comprou um imóvel da investida no valor R$ 170.000, dos quais R$
40.000 correspondiam ao ganho de capital na operação. Além disso, a investida obteve um lucro no
período no valor de R$ 230.000, incluindo o ganho na venda do imóvel. Observe o cálculo referente
ao resultado a ser contabilizado pela investidora:
Equivalência patrimonial inicial = R$ 230.000 x 65% R$ 149.500
Resultado não realizado (total) (R$ 40.000)
Equivalência patrimonial ajustada R$ 109.500
Note que, no cálculo da equivalência patrimonial, o lucro não realizado foi eliminado pelo seu valor
total do lucro na venda do imóvel, conforme preceitua a ICPC 09. Note que no caso das controladas
não deve ser considerado o percentual de participação no resultado da investida, mas sim o valor
integral do lucro não realizado. A contabilização, pela investidora, da compra do imóvel e do
resultado de equivalência patrimonial iria se dar da seguinte forma:
D – Imobilizado: R$ 170.000 Pela compra do imóvel
C – Banco: R$ 170.000
D – Investimentos – Controlada:bsp; R$ 109.500 Pelo ajuste da
C – Receita de equivalência patrimonial: R$ 109.500 equivalência patrimonial
Considerando que essas operações só ocorreram no período em questão, observe como ficou o
balanço patrimonial da investidora no momento subsequente.
Balanço patrimonial – investidora
Ativo Passivo
Circulante Circulante

Bancos 330.000 Obrigações a pagar 250.000


Clientes 350.000 Patrimônio líquido

Não circulante Capital social 750.000

Investimentos – controlada 409.500

Imobilizado 170.000 Reservas de lucro 259.500

Total 1.259.500 Total 1.259.500


Eliminação dos lucros não realizados no ativo imobilizado e tributo na
operação

Assim como os lucros não realizados nos estoques abordados anteriormente, o ganho
auferido na venda de ativo imobilizado deve ser eliminado para fins de consolidação,
considerando as particularidades relacionadas ao cálculo da depreciação e o caráter
permanente da operação. Da mesma forma, em operações dessa natureza, a
incidência de tributo sobre o lucro também deve ser analisada e ajustada no
consolidado. Vejamos um exemplo prático.
Imagine que a controlada “B” venda, no final do exercício, um equipamento para
sua controladora “A” pelo montante de R$ 120.000, apurando nessa operação um
lucro de R$ 20.000. Considere que o ativo imobilizado possui vida útil residual de 10
anos, sendo 20 anos sua vida útil total, e estava registrado na Cia. “B” pelo montante
de R$ 200.000, já depreciado em 50%, apresentando, portanto, um valor contábil
líquido de R$ 100.000. Desconsidere a premissa de valor residual no exemplo a
seguir.

Cálculo do imposto diferido sobre o lucro


Valor do lucro na transação (ganho de capital tributável) 20.000
(×) alíquota de imposto incidente 34%
(=) tributo sobre o lucro não realizado 6.800
Cálculo do ganho não realizado
Valor do lucro na transação 20.000
(-) tributo sobre o lucro não realizado (6.800)
(=) ganho não realizado na venda do imobilizado 13.200
Cálculo da equivalência patrimonial na controladora “A”
Saldo inicial – investimento em “B” 120.000
Lucro do exercício da controlada “B”
0
(participação de “A” na controlada “B” – 100%)
(-) ganho não realizado na venda do imobilizado (13.200)
(=) resultado de equivalência patrimonial (13.200)
Saldo final – investimento em “B” 106.800

O saldo das demonstrações consolidadas é obtido por meio do somatório dos


saldos da controladora e da controlada, sendo esse novo saldo ajustado pelas
eliminações aplicáveis, tanto nos balanços patrimoniais quanto nas demonstrações de
resultado, conforme apresentado nos quadros 13 e 14.

Quadro 13
Consolidação do balanço patrimonial
Controladora Controlada Eliminações Saldo das
Descrição Somatório
Cia. “A” Cia. “B” Débito Crédito demonstrações

Ativo

Disponível 625.200 625.200 - - 625.200


Tributo sobre o lucro (a)
0 - - - 6.800
diferido 6.800
Participação na Cia. (a)
106.800 - 106.800 - -
“B” 106.800
Imobilizado – (a)
- 120.000 120.000 - 100.000
equipamentos 20.000

Total do ativo 732.000 120.000 852.000 6.800 126.800 732.000

Passivo
Fornecedores 127.200 - 127.200 - - 127.200
Patrimônio líquido
(c)
Capital social 400.000 120.000 520.000 - 400.000
120.000
Lucro retido
204.800 - 204.800 - 204.800
(reservas)

Total do passivo +
732.000 120.000 852.000 120.000 - 732.000
PL
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Quadro 14
Consolidação da demonstração do resultado do exercício
Controladora Controlada Eliminações Saldo das
Descrição Somatório
Cia. “A” Cia. “B” Débito Crédito demonstrações

Resultado do
exercício
Receita de vendas 900.000 0 900.000 - - 900.000
Custo de
-600.000 0 -600.000 - - -600.000
mercadorias vendidas
0
Ganho na venda de 20.000 20.000 (a) 0
imobilizado 20.000
Resultado de (c)
-13.200 0 -13.200 0
equivalência patrimonial 13.200
(a)
Tributo sobre o lucro -102.000 0 -102.000 -95.200
6.800

Resultado líquido 204.800 – 204.800 33.200 6.800 204.800


Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Vale ressaltar que, caso a operação de venda tivesse ocorrido no início do


exercício, durante os 12 meses subsequentes à venda a depreciação no exercício teria
sido calculada sobre o valor-base de R$ 120.000 pela adquirente do bem, o que
significa que, se o equipamento tivesse sido vendido pelo valor contábil histórico,
não teria sido aumentado pelo lucro na transação em R$ 20.000 e, consequentemente,
também não teria sido apurada depreciação sobre esse lucro. Ao efetuar ambos os
cálculos, encontramos os seguintes resultados de despesas com a depreciação deste
ativo:

Cálculo da depreciação antes da venda do equipamento


Valor histórico do equipamento 200.000
(-) depreciação acumulada (100.000)
(=) valor líquido do equipamento 100.000
Taxa de depreciação anual (20 anos = 5% ao ano) 5%
Valor da despesa anual com depreciação (200.000 × 5%) 10.000
Cálculo da depreciação após a venda do equipamento
Valor de compra do equipamento 120.000
(-) vida útil remanescente em anos 10
(=) taxa de depreciação anual (10 anos = 10% ao ano) 10%
Novo valor da despesa com depreciação (120.000 × 10%) 12.000

Assim, a despesa com depreciação calculada sobre o novo valor do ativo


impactaria o resultado em R$ 2.000 a mais por ano devido ao aumento da base de
cálculo em R$ 20.000. Esse incremento do imobilizado precisaria ser eliminado para
fins de consolidação, bem como o lucro na transação e o imposto diferido sobre o
lucro.
Cabe ressaltar que abordamos, nos exemplos anteriores, situações nas quais o
patrimônio líquido e o lucro líquido da controlada coincidiram com os do
consolidado. No entanto, conforme já destacado neste capítulo, existem situações em
que tais saldos podem não coincidir, por exemplo, quando o valor justo dos ativos
líquidos da controlada difere do valor justo das respectivas participações dos
controladores e dos não controladores.
Após apuração das eliminações que devem ser realizadas na consolidação, é
sugerida a preparação de um papel de trabalho que tabule todos esses ajustes para
controle e registro histórico do procedimento adotado na preparação das
demonstrações consolidadas, conforme modelo a seguir ilustrado no quadro 15,
aplicado aos dados das Cias. “A” e “B”.

Quadro 15
Papel de trabalho de registro dos ajustes de consolidação
Papel de trabalho – consolidação Cia. “A” e controladas
Descrição da Resumo dos lançamentos de eliminação na consolidação
Referência da eliminação/
eliminação ajuste de Demonstração
Conta Ativo Passivo
consolidação do resultado
contábil
Débito Crédito Débito Crédito Débito Crédito

Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Participação societária menor que 100%,


presença de não controladores

Em todos os exemplos anteriores das Cias. “A” e “B”, a controladora possuía


participação societária integral, ou seja, de 100%, na controlada. Mas suponha, caro
leitor, que a controladora “A” detenha apenas 80% da participação acionária do
capital social da controlada “B” e que os outros 20% pertençam a outros investidores
não controladores, denominados acionistas não controladores ou minoritários. Nesse
caso, as únicas alterações serão realizadas nos saldos da controladora,
especificamente na conta “participação na controlada ‘B’”, e, consequentemente, nas
contas somatórias “ativo não circulante” e “ativo”.
Note que, apesar de usualmente empregado por outros autores, o termo
“minoritário” deve ser utilizado com cuidado e apenas em referência à minoria de
participação societária, pois, por vezes, alguns controladores não são
necessariamente os majoritários societários, razão pela qual é sugerido o uso dos
termos “controladores” e “não controladores”, visto que o controle é determinante
para a consolidação.
Vejamos como seria a apresentação e a elaboração das demonstrações
consolidadas na existência de não controladores, quando teríamos o papel de trabalho
de consolidação das empresas “A” e “B” conforme ilustrado no quadro 16.

Quadro 16
Papel de trabalho incluindo não controladores
Controladora Controlada Eliminações Saldo
Descrição Somatório
Cia. “A” Cia. “B” Débito Crédito consolidado

Ativo
Circulante
Caixa e bancos 280.000 200.000 480.000 - - 480.000
Não circulante
(a)
Afac 50.000 - 50.000 - -
50.000
Investimentos
(b)
Participação na Cia. “B” 120.000 - 120.000 - -
120.000

Total do ativo 450.000 200.000 650.000 - 170.000 480.000


Passivo
Fornecedores 75.000 - 75.000 - - 75.000
Patrimônio líquido
(b)
100.000 –
Capital social 325.000 125.000 450.000 50.000
(c) –
25.000
(b)
Lucros retidos 20.000 –
50.000 25.000 75.000 -
(reservas) (c) –
5.000
Afac da Cia. “A” - 50.000 50.000 (a) - -
50.000
PL atribuído aos
acionistas 375.000
controladores
PL atribuído aos
(c)
acionistas não - 30.000
30.000
controladores
Patrimônio líquido
405.000
consolidado
Total do passivo + PL 450.000 200.000 650.000 200.000 30.000 480.000
Fonte: elaborado pelas autoras (2017).

Analisando a coluna de eliminações, foram efetuados os seguintes lançamentos:

Eliminação dos saldos recíprocos – Afac


(a) Débito Afac da Cia. “A” 50.000
(a) Crédito Afac na Cia. “B” 50.000
Representa a eliminação do adiantamento para futuro aumento de capital (Afac) realizado pela
controladora, visto ser um saldo ainda não realizado entre as companhias.
Eliminação do patrimônio e constituição da participação dos acionistas não controladores
(b) Débito Capital social 25.000
(b) Débito Lucros retidos (reservas) 5.000
(b) Crédito Participação de acionistas não controladores 30.000
Representa a eliminação da participação dos acionistas não controladores calculada aplicando-se a
participação de 20% sobre o capital social e reservas da controlada.

Eliminação da participação do acionista controlador no patrimônio líquido da controlada


(c) Débito Capital social 100.000
(c) Débito Lucros retidos (reservas) 20.000
(c) Crédito Participação na Cia. “B” 120.000
Representa a eliminação da participação dos acionistas controladores calculada aplicando-se a
participação de 80% sobre o capital social e reservas da controlada.

Se observarmos com cautela, leitor, a participação dos acionistas não controladores


ficará destacada em linha específica no patrimônio líquido da demonstração
consolidada, de forma que fique revelado o patrimônio pertencente aos acionistas não
controladores e, por conseguinte, a parcela pertencente aos controladores. Caso a
empresa “A” detivesse apenas 40% da participação acionária da controlada “B”, mas
possuísse a maioria das ações com direito a voto assegurando-lhe preponderância nas
deliberações sociais e poder efetivo de controlar as atividades relevantes, o
tratamento seria o mesmo, pois, apesar de ser minoritária, seria a controladora. Por
esse tipo de situação, verifica-se a importância da utilização do termo “acionistas não
controladores” em lugar de “minoritários”, visto que não necessariamente os
minoritários são não controladores.

Perda de controle

Caso a entidade investidora perca o controle da controlada em decorrência de novos


acordos ou situação de alienação do investimento, presume-se, com base no § B98 do
Pronunciamento Técnico CPC 36 (R3), que os seguintes procedimentos sejam
realizados para fins das demonstrações consolidadas:

• baixar os ativos e passivos da controlada pelos valores contábeis registrados no


momento da perda do controle, assim como os valores atribuídos aos acionistas
não controladores;
• reconhecer o valor justo da contrapartida recebido ou investimento retido na ex-
controlada.

Atente, leitor, que os resultados do investimento ainda existentes passam a ser


avaliados e reconhecidos conforme a nova classificação aplicável e, por vezes,
continuam sendo atribuídos por meio da equivalência patrimonial (quando coligada)
ou como instrumentos financeiros.

Subsidiárias estrangeiras

Os procedimentos aplicados na consolidação no caso de controladas no exterior, que


usualmente possuem moeda funcional distinta da controladora, são definidos pelo
CPC 02 (R2), o qual exige que os balanços patrimoniais sejam convertidos pela taxa
monetária do final do exercício e que as demonstrações de resultado sejam
convertidas pela taxa média anual, devido ao pressuposto de que as receitas e
despesas aconteceram no decorrer do ano. A diferença resultante da conversão
patrimonial pela taxa de fechamento e do resultado por taxa média é considerada
ganho ou perda pela desvalorização da moeda da controladora, e deve ser alocada em
conta específica no patrimônio líquido denominada cumulative translation
adjustment (CTA), ou seja, ajuste acumulado de conversão.
Apenas objetivando esclarecer o conceito de moeda funcional citado
anteriormente, destacamos que se refere à moeda de referência do ambiente
econômico principal no qual determinada entidade opera, sendo, portanto, a moeda
utilizada para reconhecimento original dos registros contábeis, e a moeda de
apresentação se refere àquela na qual as demonstrações financeiras são apresentadas.

Evidenciação

Além dos aspectos relacionados à elaboração das demonstrações consolidadas


abordados neste capítulo, devemos atentar para as divulgações requeridas pelo CPC
36 (R3), cujas principais revelações se relacionam aos seguintes itens:

• natureza do relacionamento entre a controladora e suas controladas, incluindo a


evidenciação de informações sobre o tipo de propriedade acionária, direta ou
indireta, poder de voto, entre outras informações;
• explicação do motivo para a controladora não possuir controle nos casos em que
a participação acionária na controlada exceder mais de metade do poder de voto;
• revelação da data de encerramento dos demonstrativos contábeis individuais das
controladas e evidenciação das exceções, quando aplicáveis, para períodos de
apuração distintos ao da controladora;
• divulgação de qualquer cláusula restritiva (covenants) advinda de obrigações
legais ou formalizadas que restrinjam a distribuição de dividendos, pagamento
de saldos intragrupo ou liquidação de mútuos pelas controladas;
• movimentação cronológica das mudanças na participação em controladas e seus
respectivos efeitos no patrimônio líquido consolidado atribuível aos sócios
controladores e minoritários – no caso de perda de controle da controlada,
devem ser revelados os ganhos ou perdas decorrentes do reconhecimento do
investimento remanescente.

As divulgações requeridas pela norma visam maior transparência e possuem o


objetivo de informar aos usuários interessados os retornos positivos ou negativos
oriundos de participação em controladas, uma vez que, como um único grupo
econômico, a performance das investidas deve ser levada em consideração quando
analisada a posição econômica e financeira do controlador.
As demonstrações contábil-financeiras consolidadas não são um conjunto de dados
agrupados desordenadamente; são, antes, a resposta à necessidade de usuários e
tomadores de decisões em conhecer, analisar e revelar situações conjuntas de
empresas que reúnem seus patrimônios na mesma comunidade de interesses.
Devemos observar que somente pela consolidação podemos ter a adequada medida
de valor patrimonial e financeiro de um grupo de empresas, denominado grupo
econômico. Não se devem considerar apenas os aspectos finais das contas
consolidadas, mas, para que esses aspectos possam ser apreciados, é necessária a
garantia de que a preparação das contas consolidadas tenha obedecido aos melhores
padrões técnicos e que as práticas contábeis das controladas estejam em
uniformidade com as políticas adotadas pelos demais membros do grupo.
Enfim, a consolidação, se efetuada por todas as empresas que forem pertinentes,
leva ao público em geral, aos credores e possíveis investidores a verdadeira posição
patrimonial e financeira de um grupo econômico dentro de seu ramo de atividade.
Conclusão

As organizações, no desenvolvimento de suas atividades, recorrem a


diversas fontes de recursos para conseguir manter, expandir ou aprimorar
suas operações. Pelo processo histórico-cultural do Brasil, as empresas, de
forma predominante, buscam financiamento nas instituições financeiras,
sendo esta a principal opção para captação de recursos. No entanto, apesar
desse cenário, os mercados de crédito e de capitais têm se fortalecido no
Brasil em decorrência de um maior fluxo de capitais internacionais e da
retomada do crescimento econômico desde meados da década de 1990.
Assim, os referidos mercados tornaram-se uma eficiente fonte de captação
de recursos, não só para as empresas que necessitam de capitais de terceiros
para financiamentos de suas atividades operacionais ou de investimentos,
mas também para os investidores nacionais e internacionais.
Nesse contexto, por ser considerada a principal ferramenta de
comunicação entre os usuários e as empresas, a contabilidade tornou-se o
centro das atenções a partir dessas mudanças no cenário econômico do
Brasil. Atrelado a isso, o país começou a ganhar destaque no cenário
mundial por se tornar uma excelente opção de investimento, obtendo uma
participação maior no fluxo de capitais internacionais. Consequentemente,
houve a necessidade de uma linguagem contábil sujeita à comparação com
outros mercados, levando à convergência da contabilidade brasileira com os
padrões internacionais.
As normas internacionais de contabilidade são delineadas para fornecer
solidez e segurança aos usuários das informações financeiras, notadamente
investidores e credores. Sua adoção pelos órgãos reguladores representa
uma significativa mudança nas práticas contábeis aplicadas no Brasil,
denotando um maior nível de transparência e credibilidade das informações
reportadas. As referidas mudanças foram apresentadas ao longo dos
capítulos deste livro, com conteúdos atualizados acerca das normas
brasileiras de contabilidade que versam sobre as provisões, investimentos,
receitas e consolidação das demonstrações contábeis.
Vale salientar que os diversos operadores da ciência contábil, enquanto
órgãos normatizadores, ainda estão em processo de atualização e
implementação de novas normas. Você, leitor, pôde observar que
abordamos neste livro normas que acabaram de ser implementadas no
Brasil, a exemplo da IFRS 15 e da IFRS 9, trazendo suas principais nuances
e como elas impactaram o patrimônio das empresas brasileiras quando
passaram a ser adotadas.
Buscamos, no decorrer desta obra, demonstrar que as postulações
teóricas, alinhadas com os normativos e com a legislação societária
brasileira, podem aprimorar a qualidade das informações contábil-
financeiras apresentadas pelas empresas, comprovando empiricamente que
o aperfeiçoamento da contabilidade é fruto da observação cética e detalhada
da realidade praticada pelo mercado.
Com essa abordagem, nós, autoras, como operadoras da contabilidade em
nosso cotidiano profissional, sentimo-nos motivadas e com a
responsabilidade de disseminar o conhecimento construindo novos
aprendizados conjuntos. Esperamos que este livro seja útil para você, leitor,
auxiliando-o no aprimoramento dos seus conhecimentos técnicos acerca da
contabilidade, pois mais importantes que um autor inspirado são leitores
sedentos pela busca incessante do conhecimento. O leitor é sempre o centro
do processo, e é ele capaz de fazer a diferença.
Referências

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IUDÍCIBUS, Sérgio et al. Manual da contabilidade societária: aplicável a
todas as sociedades de acordo com as normas internacionais e do CPC. 2.
ed. São Paulo: Fipecafi/Atlas, 2013.
Autoras

Suênia Graziella Oliveira de Almeida Santos do Nascimento


Mestre em ciências contábeis pela Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE). Possui especialização em normas internacionais de contabilidade e
normas internacionais de auditoria pela Fundação Instituto de Pesquisas
Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). Especializada em
demonstrações financeiras no padrão USGAAP e IASGAAP pela
Universidade de Illinois (EUA). Graduada em ciências contábeis pela
UFPE. Multiplicadora das IFRS certificada pelo Conselho Federal de
Contabilidade (CFC). É controller América Latina do Grupo Moura. Foi
diretora de finanças do Makro Atacadista S/A e líder da contabilidade da
Câmara Municipal do Recife. Foi superintendente da Faculdade Nova
Roma, obtendo, em sua gestão, o primeiro lugar geral no ranking do MEC
como melhor faculdade de Pernambuco. Membro da Rede NAF da Receita
Federal do Brasil. Tem experiência empresarial nas áreas de contabilidade e
finanças, com ênfase em S/A e empresas de grande porte. Professora
convidada do FGV Management. Membro da ONG Meu Propósito, que
atua com projetos de educação financeira pelo país. Possui publicações de
artigos em revistas científicas, bem como participações em seminários e
congressos nacionais e internacionais.
Renata Ribeiro Lopes
Graduada em administração de empresas pelo Ibmec (RJ), international
master in business administration pela renomada instituição Eada
(Espanha), além de possuir especializações obtidas em programas
internacionais de negócios pela Universidade de Ohio (EUA), Universidade
de Colúmbia (USA) e Lausanne (Suíça). Tem mais de 12 anos de
experiência como auditora, sendo que na sua trajetória profissional fez parte
do grupo gerencial executivo da Deloitte Touche Tohmatsu (RJ), na qual
participou coordenando projetos de auditoria e consultoria, prestando
serviço para grandes companhias nacionais e internacionais, principalmente
da indústria de óleo e gás. Participou e coordenou diversos projetos
relacionados a diagnóstico/adequação de normas contábeis locais e
internacionais (BRGAAP, USGAAP e IFRS), fusões e aquisições, private
placements, due dilligences, emissão de BDRs e ofertas públicas iniciais de
ações (IPOs) no Brasil e no exterior. Professora convidada do FGV
Management.

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