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5 cm x 13 cm Tipologia: Goudy Old Style 9/Estrangelo Edessa 10/12 Terra e território .FICHA TÉCNICA 6 Trabalho de Conclusão de Curso em Comunicação Social habilitação em Jornalismo Departamento de Jornalismo e Editoração Escola de Comunicações e Artes Universidade de São Paulo Junho 2008 Sue Angélica Serra Iamamoto No. USP 3687200 sueiamamoto@yahoo.com Sobre a publicação Projeto Visual: Comuna Gráfica Fotos: Sue Iamamoto Formato: 23 cm x 15 cm Mancha: 11.

7 Agradecimentos Terra e território Aos meus pais. A Igor. carinho e incentivo constante. A Rodrigo. pela orientação nesta viagem. companheiras cochabambinas. além de serem responsáveis por esta belíssima edição. também deram um empurrão final para que o trabalho saísse. . pela amizade. Thais e Anselmo. que. Às pessoas queridas que deixei no Brasil e às que conheci ao cruzar a fronteira. por todo o seu apoio. Margot e Christophe. da Comuna Gráfica. À professora Alice Mitika Koshiyama. que me acolheram e foram como uma família em momentos especiais. A Delphine e Julie. A Alcimar e Nelson.

8 RESUMO/ABSTRACT Este livro investiga os movimentos camponeses e indígenas na Bolívia. indigenous movement. sem-terra. Bolivia. Palavras-chave: Bolívia. landless movement. movimento camponês. Evo Morales period. movimento indígena. aymaras. aimarás. It focuses in three different movements. decolonization. província Omasuyus. descolonização. governo Evo Morales. Omasuyus province. which are also set in very different geographical regions: the landless movement at the west-side department of Santa Cruz de la Sierra. This book investigates the peasant and indigenous movements in Bolivia. coca growers. and the aymara movement at La Paz department. que ocupam também regiões geográficas bastante diferentes: o movimento sem-terra boliviano do departamento ocidental de Santa Cruz de la Sierra. cocaleiros. peasant movement. which brings a wider view on the Bolivian land and territory disputes. o movimento cocaleiro da região tropical do departamento de Cochabamba. o que traz um panorama mais amplo sobre as disputas pela terra e pelo território na Bolívia. O trabalho foi feito a partir do acompanhamento do cotidiano de comunidades rurais e de uma intensa pesquisa bibliográfica. The work was based on the rural communities’ daily life investigation and on a deep bibliographical research. Terra e território . e o movimento aimará do departamento de La Paz. Concentra-se em três movimentos distintos. the coca growers’ movement at the tropical region on Cochabamba department.

mulher. uma outra experiência sem-terra 13 19 23 24 25 27 28 29 29 32 33 37 39 41 46 48 49 53 54 56 57 60 60 64 65 66 67 69 Terra e território . Vem ver seu chaco!” Chaqueos.Ser índio e camponês na Bolívia As duas repúblicas Das comunidades às fazendas criollas A Revolução Nacional e a criação do campesinato Pacto Militar Camponês O katarismo e a CSUTCB Os cocaleiros Crise de mediação e Lei de Participação Popular Indígenas do oriente – a outra etnicidade Das primeiras revoltas do milênio à “revolução democrática cultural” 2 – O oriente boliviano e a luta pela terra Parte 1 – MST – Comunidade Agroecológica de Pueblos Unidos O assentamento em Yuquises Impactos políticos da ocupação em Los Yuquises Parte 2 – Políticas Agrárias na Bolívia A intervenção do Estado e a Lei Inra A Lei de Recondução Comunitária Limitação da propriedade individual de terras Regularização das terras em tempos de Evo A revolução agrária e o “salto qualitativo” Parte 3 .9 ÍNDICE Prólogo 1 . desmatamento e impactos ambientais Parte 4 – Tierra Prometida.Desafios para Pueblos Unidos “Nós sabemos produzir” Reunião comunal O que fazer com o dinheiro comum? “Vem.

Movimento cocaleiro e a luta pela soberania nacional Parte 1 . nem que seja em cima de quatro patas” Parte 5 – A batalha de Santa Cruz Bloqueio em San Julián Elite crucenha.Chapare Finados em Santa Helena A região O auge da coca: lógica inversa do camponês Parte 2 . no más!” Dona Isabela Parte 6 .O Estado contra a coca Negociando com o inimigo Lei 1008 Erradicação voluntária Desenvolvimento alternativo Parte 3 – A resistência cocaleira Opção Zero Cocaleiras e a opinião pública Coca Zero e erradicação forçosa Guerra pela Coca Parte 4 .O inimigo mora ao norte Viva a coca! Morte aos yankis! Nos EUA: “war on drugs!” Estratégia de domínio Parte 5 – Um cocaleiro no Palácio Quemado Economia da coca “Un catito. racismo e polarização A aparente regionalização da política Estatuto Autonômico e interesses agrários 3 .Movimento social e político no Chapare Mulheres cocaleiras 72 74 74 76 81 86 89 91 91 94 95 97 97 100 102 103 107 108 109 110 111 113 113 114 116 120 120 121 123 127 129 10 Terra e território .“Tem que continuar caminhando.

Três histórias aimarás Antecedentes de 2000. a história do Mallku Vivendo como os aimarás A Escola Ayllu de Warisata Perguntas.Rebeliões aimarás A promessa de Katari A convulsão de movimentos de 2000 O surgimento do Quartel de Q’alachaka Assassinos em nossa terra A mobilização aimará de 2001 A Guerra do Gás e a derrocada de Goni em 2003 Parte 2 – O aimará político Luta pela reivindicação ou reivindicação pela luta? A República de Qullasuyu Dialética e dualismo aimará O que é aimará? Parte 3 . certezas e esperanças Livros e artigos de referência Jornais consultados Legenda de fotos Siglas Glossário 131 134 135 139 140 143 145 145 146 148 151 151 152 158 158 159 162 164 166 166 171 173 181 185 187 188 191 193 Terra e território .11 A voz soberana do cocaleiro Visita à Federação do Trópico De movimento social a movimento político Mineiros e cocaleiros Institucionalidade: tática ou estratégia? 4 – O movimento indígena aimará de Omasuyus Parte 1 .

Terra e território .12 Dedico este trabalho ao povo boliviano. que não se rendeu à barbárie e ainda acredita na humanidade.

13 PRÓLOGO Terra e território .

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Márcio Pochmann.3 milhões. desemprego: tudo se resolveria se o povo fosse mais educado. já morava há sete anos no país. Aquecimento global.15 “É incrível. Vários motivos me levaram à Bolívia. revistas. Nestas aulas. somente no período de 1995 a 2000. mas têm um entendimento das coisas impressionante”. houve um aumento de 43% nas matrículas no ensino superior. adolescentes de classe média como eu só discutiam temas sociais nas aulas de redação preparatórias para os concorridos vestibulares paulistas. Sendo que. e mesmo assim. geralmente nos dois últimos parágrafos dos textos. as pessoas muitas vezes nem certidão de nascimento têm. no Brasil. a conversa embalou e logo me lembrei da minha adolescência vivida em Ribeirão Preto. Contei para minha amiga que. noticiários. no interior de São Paulo. tráfico de drogas. resume o principal deles. éramos estimulados a apresentar soluções para os problemas da sociedade. percebeu que o número de jovens empregados era de cerca de 16 milhões em ambos períodos.. De qualquer forma. O “entendimento das coisas” boliviano pode ser chamado de diversas formas: de consciência de classe. A grande maioria das soluções apresentadas – festejadíssimas pelos nossos mestres – passava pela melhoria do sistema educacional no país. etc. até de ignorância. Em contrapartida. que quando cheguei. há pouco tempo escreveu sobre a nossa incrível crença na educação para resolver o problema específico do desemprego. Comparando dados do final da década de 1980 e do final da década de 1990 no Brasil. A questão central é. violência urbana. que o desemprego no país é estrutural. Mas a frase desta amiga francesa. de autodeterminação dos povos. economista da Universidade Estadual de Campinas. Em compensação. segundo números do Ministério da Educação. elegem um fascista para presidente. não é uma questão Terra e território . As pessoas na França estudam anos. têm acesso a jornais. segundo Pochmann. aqui na Bolívia. de excesso de politização. o número de jovens desempregados foi de 1 milhão a 3.

Vivian. Contudo. São Paulo. Quantos jovens brasileiros não sonham em ultrapassar a barreira da pobreza ao serem esforçados. mineiro.Entrevista com Marcio Pochmann no site: http:// www. o capitalismo que se expande por todos os lados e impõe um modelo de mercado de terras e de trabalho assalariado. as políticas neoliberais que vendem os recursos naturais para estrangeiros. mas sim de uma luta por libertação. coordenadorias.de falta de ajuste entre a demanda do mercado e a formação do trabalhador1. se a educação não garante a inclusão. mas foi forjado durante estes quinhentos anos de presença espanhola. criando um critério bastante perverso a partir deste recorte.br/ entrevistas/entrevista0027. Editora Hucitec. ao estudarem bastante? Nada disso é mentira. a elite criolla e racista que nunca aceitou a presença indígena fora da sua situação histórica de servidão. Na Bolívia hoje. Famílias desequilibradas investem em bens quando têm dinheiro.Criollo é o termo que designa o descendente de espanhóis nascido na América Latina. Programas assistenciais em favelas tiram crianças do crime e as ensinam a fazer todo tipo de atividade.com. de organização comunitária forte. obviamente. Mas estas estatísticas pouco importam para o imaginário da classe média brasileira.. Exemplos da vida real recheiam os nossos meios de comunicação. que interveio militarmente inúmeras vezes na dizimação dos plantadores de coca. federações. Não se trata de uma luta para galgar degraus da sociedade. Mas ela só se organiza porque 16 1. Ele não tem suas causas simples de localizar. Movimento Cocaleiro na Bolívia.educacional. São lutas de uma população que teve massacrados seus valores. Ele é o oposto dela.ZAVALETA Mercado. René apud URQUIDI. Terra e território .são um fenômeno estranho ao Brasil. fortíssimo durante quase todo o século passado no país. As lutas bolivianas . aquele muitas vezes do analfabeto sem cidadania. não se deve somente a esta contribuição. Ela parte também de um passado indígena muito relembrado. como foi formulado pelo sociólogo boliviano Zavaleta Mercado3. vem do movimento operário.org/ wiki/Criollo 3. Trata-se de combater ao mesmo tempo os colonizadores europeus. famílias bem estruturadas investem na educação de seus filhos.wikipedia. juntas de vizinhos. de uma relação de respeito com a terra e com os recursos naturais. Parte dele. a falta dela sim garante a exclusão. Uma explicação bastante completa sobre as diversas formas de utilizar o termo nos diferentes países da América Latina pode ser encontrada em: http://es. etc.sejam elas pré. obviamente não é o que o senso comum brasileiro entende por educação. Mas a organização em sindicatos de todos os tipos. apesar de acontecerem justo cruzando a fronteira oeste. as memórias se cruzam em uma coexistência de tempos históricos diferentes. 2007. O entendimento das coisas boliviano. as nossas conversas cotidianas. mas transpor este tipo de resolução de problemas individuais para uma resolução sistêmica é de uma superficialidade tão grande que chega a ser criminosa.asp 2. de uma revolta histórica frente à presença espanhola e ao Estado criollo2 que foi imposto a partir da independência da nação. cultura e formas de organização social. anti ou de superação do capitalismo . o imperialismo do governo estadunidense. fugindo da miséria.

à reprodução social e cultural.17 permanece. Talvez as pessoas queiram saber mais do que o efeito para o consumidor brasileiro das políticas de nacionalização do gás de Evo Morales. violência e pobreza. corrupção. Juntos formam a palavra de ordem deste intenso movimento que nas próximas páginas será apresentado. Terra e território . ver as causas do turbilhão que vive o nosso país vizinho. mas de forma aprofundada e contextualizada. Este livro tem como finalidade cruzar esta fronteira. O termo “território” é ligado à gestão política do espaço ocupado. faz parte do repertório indígena. fome. com escravos. O termo “terra” é ligado ao trabalho agrícola. explorada. As respostas que encontra neste resgate ao passado e nesta luta contra o presente mesquinho trazem um conhecimento novo. à reprodução biológica. quinhentos anos depois. Escolhi o movimento camponês e indígena como tema geral porque ele foi o grande protagonista dos processos políticos e sociais destes últimos anos na Bolívia. distinto do conhecimento formal ao qual estamos acostumados. faz parte do repertório camponês. Talvez ainda haja um sentido de solidariedade entre povos que acenda um interesse dos brasileiros para saber como vivem e o que pensam os bolivianos. O mundo continua miserável. Ele é o inverso de submissão e colonização.

MAPA DA BOLÍVIA 18 Terra e território .

SER ÍNDIO E CAMPONÊS NA BOLÍVIA Terra e território .19 1 .

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Uma das características mais marcantes da Bolívia para o visitante estrangeiro é a fortíssima presença indígena na vida cotidiana da população.21 Terra e território Passei o meu último aniversário em Cochabamba. No meio do jantar. um fermentado de milho típico da região dos vales bolivianos) e a cidade toda ganha um cheiro de incenso graças à queima das mesas. que levam nas extremidades penduricalhos de fios trançados. até o tornozelo. de um total de pouco mais de oito milhões de habitantes. mas também nas cidades. e que em Cochabamba se repetia toda primeira sexta-feira do mês. Trata-se de uma roupa que as mulheres indígenas aprenderam a vestir nos tempos de colônia e mantêm esta tradição até hoje. Na área rural. comidas e folhas de coca. Estava na casa de amigos e era uma sextafeira. é visível em praticamente todo o território boliviano . Por todo lado vemos mulheres vestidas como cholitas: uma camisa justa de botões na frente e de mangas curtas ligeiramente bufantes. refrescos. Tratava-se do q’owa. doces e quinquilharias chinesas. Não é necessário passar muitos dias no país para perceber isso. os homens vão às chicherias (botecos onde se bebe chicha. chega a 79%. meu anfitrião saiu e começou a montar uma churrasqueira improvisada. torrões de açúcar em forma de amuletos e mais um ou outro objeto.com mais intensidade no campo. as cholitas estão sempre presentes nos negócios informais de rua. Segundo dados da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). 40% se identifica como . uma oferenda à Pachamama. a população indígena boliviana é de 66%. e duas tranças compridas. ele colocou em cima um papel de seda grande. a mãe-terra. Quando eles já estavam quentes. nas pequenas vendas de frutas. Nos centros urbanos. uma saia pregueada chamada pollera. pães. esta porcentagem aumenta muito mais. que vai até o joelho ou. se forem de La Paz. O que é queimado é chamado de mesa e nela podem ser acrescentados objetos diversos. É um dia festivo. Deste total de povos indígenas. em cujo centro havia uma série de ervas. tentando deixar os carvões em brasa.

Trata-se de uma identidade em constante mutação. Ele é como as cholitas que têm como principal característica uma roupa imposta pela colônia ou o quíchua. Santiago do Chile. Outros 50% se identifica como quíchua. que serviu ele mesmo para dizimar algumas Terra e território . Aos poucos. No início. p. Disponível em: http://www. mais perceptível e entendível se torna este elemento indígena. 42-46. Não resta outra opção que não vivê-lo. grupo étnico que fala a antiga língua dos incas e que se tornou uma espécie de idioma geral dos indígenas na colônia1. objeto de pensamentos generalizantes.cepal. mesmo sabendo que não fazemos parte dele. 2005. Los pueblos indígenas de Bolivia: diagnóstico sociodemográfico a partir del censo del 2001.pdf Quanto mais tempo se passa na Bolívia.org. grupo étnico tem a sua origem anterior à chegada dos incas e que se concentra principalmente nos departamentos de La Paz e Oruro. 22 1.ar/ publicaciones/xml/3/23263/ bolivia. código geral das populações indígenas andinas.aimará. ele invade os sentidos. em relação dialética com o presente vivido e o passado reconstituído.CEPAL / NAÇÕES UNIDAS. é somente algo exótico.

Terra e território . portanto. os ayllus. as suas histórias e lutas se cruzam desde o tempo da chegada dos espanhóis. o seu duplo caráter contraditório de instrumento classificatório de dominação e de resistência”2. Eram brancos ou índios. sendo a colonização das 2. 2003. resistente a muitos anos de presença massiva da língua espanhola. La Paz. uma tarefa que depende mais das movimentações políticas da época. rituais. Etnicidad y clase: El Estado boliviano y las estrategias andinas de manejo de su espacio. o uso de mão-de-obra gratuita. era necessário estabelecer esta diferença para justificar a invasão de território. como coloca Regalsky. no geral. etc. . não existiam enquanto tal. a catequização dos índios. Nisto consiste a sua fluidez. de quais são as pautas e as bandeiras que levantam a população. A etnicidade é um subproduto do colonialismo. As duas repúblicas Os camponeses. Este sistema predominava nas regiões altiplânicas da Bolívia. a mita. Nesta época. CEIDIS / CESU-UMSS / CENDA e Plural. é possível dizer que na Bolívia qualquer mobilização popular tem em suas fileiras uma quantidade gigantesca de índios. Portanto. 38. ora ambos reflete esta dinâmica entre identidades impostas ou autodefinidas. ele se confunde profundamente com o movimento indígena. Com dois terços da população nacional indígena. na época da colônia. entre opressão e resistência. mas que hoje é um símbolo forte da cultura pré-colonial. Tradução da autora. Pablo Regalsky. Os incas utilizavam esta mão de obra para atividades militares. É extremamente difícil tratar os dois enquanto movimentos isolados.23 línguas regionais. Em troca da mita. sob obediência aos seus respectivos caciques ou kurakas (autoridades locais). do que necessariamente de uma caracterização racial em si. etc. Durante a colônia. A história deste movimento ora indígena. neste momento utilizada para o trabalho nas minas. pesquisador do Centro de Comunicação e Desenvolvimento Andino (Cenda). tratava-se de uma demarcação étnica por parte dos espanhóis necessária para o estabelecimento da colônia. determinar o quanto de tal organização é indígena ou é camponesa é. Pablo. a etnicidade tem um duplo caráter e pode se transformar em uma ferramenta política de resistência. construção de obras públicas. a Coroa dava aos indígenas liberdade de organização em suas comunidades tradicionais. Ela consistia em um fornecimento anual de força de trabalho servil.REGALSKY. ora camponês. para facilitar a exploração da força de trabalho indígena nas recém descobertas minas de prata. mantidas. recrutada nas comunidades. caracteriza essa etnicidade da seguinte forma: “Está claro que o próprio colonialismo promoveu a diferença cultural como forma de dominação. p. Contudo. As leis e as autoridades tradicionais indígenas eram. No caso do movimento camponês. a Coroa Espanhola estabeleceu com as elites indígenas locais um acordo baseado no antigo sistema de tributos inca.

começou a incomodar a elite criolla. que acabava com os territórios comunais de origem na tentativa de transformá-los em propriedades 24 Terra e território . Em 1874. foi publicada a famosa Lei de Ex-vinculação.terras baixas. Esta imposição ideológica se manteve. além de haver um movimento do sistema capitalista como um todo para acabar no campo com mão-de-obra servil. No final do século XVIII e princípios do século XIX. Ambas deviam obediência à Coroa espanhola. a república dos espanhóis e a república dos índios. tanto de terras quanto de força de trabalho”. A elite indígena era indesejada porque trazia um empecilho para o assalariamento da mão-de-obra. Mas. há uma demanda maior por mão-de-obra livre para trabalhar nas fazendas e nos centros urbanos. Obviamente. O golpe ideológico do nacionalismo era caracterizar as comunidades autônomas indígenas como um resquício do colonialismo e do passado atrasado. o modelo de Estado respeitava um padrão europeu liberal e impunha mais uma vez uma forma de dominação aos indígenas. no fim do século XVIII. na Revolução Nacional de 1952 e só começou a ser questionada de forma mais profunda pelo movimento katarista de meados de 1970. no que foi chamado de sistema de “duas repúblicas”. mas cada uma possuía sistemas legislativos e administrativos diferentes. um processo diferente e muito mais recente. que controlava a mão-de-obra disponível. já que a controlava segundo os seus costumes e normas jurídicas. Das comunidades às fazendas criollas Ironicamente. como a mineração e as fazendas. foi exatamente a independência da Bolívia e a sua transformação em Estado nacional que criou condições para esta burguesia criolla esfacelar os territórios controlados pelos indígenas e incorporá-los enquanto mão-de-obra às suas próprias aspirações produtivas. Isso resultou. voltando a nossa cronologia. começa a querer se livrar desta elite e exercer o controle diretamente através do mercado. e também porque administrava parte considerável do território boliviano através das comunidades indígenas. O poder acumulado pela elite indígena. do oriente boliviano. nesta parte ocidental boliviana. como veremos. escrava ou de pequenos produtores de subsistência e transformá-la em assalariada. o fim do século XIX marca uma importante ação contra as comunidades indígenas feita pela burguesia criolla. tentando borrar as diferenciações culturais estabelecidas pelos espanhóis na colônia e estabelecer uma identidade comum de cidadão. Regalsky caracteriza o processo da seguinte forma: “quando a burguesia [boliviana] começa a se desenvolver mais.

A princípio. James. movimento que será apresentado melhor no quarto capítulo. como os vales de Cochabamba. La Paz. forjado pelas penúrias vividas na Guerra do Chaco e também acompanhando as tendências políticas da Argentina de Perón e do Brasil de Getúlio Vargas. as fazendas criollas se multiplicaram e passaram a agregar parte dos indígenas enquanto colonos. O período de servidão marca profundamente o repertório histórico do indígena boliviano. foi criado transitando entre o fascismo e o populismo da época. la lucha política en Bolivia 1952-1982. antigas fazendas são tomadas pelos seus colonos e transformadas em pequenas comunidades. Era então o período de domínio da chamada Rosca. este governo terminou precocemente em 1946. em especial a população aimará da província de Omasuyus. DUNKERLEY. Esta estrutura agrária se manteve até a Revolução Nacional de 1952 e a sua respectiva Reforma Agrária de 1953. Editora Plural. É importante lembrar 3. em 1953. a primeira reivindicação camponesa na revolução e. pequena elite de donos de minas de estanho que estava ligada aos interesses do imperialismo norte-americano3. Em troca. Como conseqüência desta política. pois dependia muito do nível de mobilização dos próprios colonos. A Revolução Nacional e a criação do campesinato O processo revolucionário da década de 1950 na Bolívia foi marcado por um nacionalismo arraigado e bastante massivo. Rebelión en las venas. Aos poucos. os camponeses indígenas não estavam envolvidos no processo revolucionário que se deu nas cidades e nas minas em abril de 1952. Devido às suas políticas populares. eles podiam cultivar as suas próprias terras. Mas se lembravam vivamente de um decreto anterior do governo de Villarroel que acabava com o sistema de pongueaje (trabalho gratuito) nas fazendas. partido que levou a cabo a revolução. Entre os seus mentores intelectuais tinha figuras da elite criolla urbana insatisfeita com a conjuntura política.25 agrícolas individuais e extinguia as autoridades tradicionais. O fim do trabalho gratuito foi. 2003. portanto. Terra e território . e tratava-se mais de uma medida para acalmar e controlar as rebeliões camponesas que já aconteciam em todo o país do que uma convicção política do MNR. Havia regiões que possuíam um movimento camponês mais adiantado. A reforma agrária foi anunciada um ano depois.Este período é retratado por Dunkerley. que igualmente tinham que pagar um tributo ao seu patrão na forma de dias por semana trabalhados nas terras ou na casa do fazendeiro. para concretizá-la. O Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). quando houve um golpe de estado e Villarroel foi assassinado. uma intensa ebulição no campo se iniciou. e regiões que demoraram mais para se organizar e reivindicar os seus territórios. Foi um processo que durou muitos anos. Os índios passaram então a tentar reconstruir a figura da comunidade dentro das fazendas.

extremamente arraigado na população branca e nas elites urbanas que também participaram da revolução de 52.. se o contato muito próximo com o movimento operário.. com secretário geral.também que este processo de Reforma Agrária se deu principalmente nas regiões altiplânicas e nos vales cochabambinos. A forma escolhida para a organização destas novas comunidades criadas pela reforma agrária era o sindicato agrário. por fim. que repetia estrutura formal do sindicato operário. determinou a forma. Deborah Yasher coloca isso da seguinte maneira: “como parte deste projeto corporativista. e o sonho dos índios de reconstruir a dinastia inca. com 26 4. Frente a tal racismo.. todas as condições materiais para reconstruir suas comunidades indígenas. tesoureiro. em linhas corporativistas) (. o das empresas agrícolas e latifúndios. e as assembléias de base eram as que se responsabilizam pela jurisdição interna.) toda tentativa de sublevação está condenada ao fracasso. pois se trata de uma luta pela reforma agrária que se estende até hoje. se na verdade ela existiu alguma vez em seu cérebro torpe e cheio de álcool. Tinham. Contudo. os índios habitantes da área rural somente puderam se encaixar no processo assumindo a sua identidade de camponeses. Terra e território . etc.Idem. desaparecerá frente a uma saraivada de balas mauser’”4. os dirigentes assumiam a figura do antigo cacique na liderança comunitária.) O corporativismo. A ideologia nacionalista não permitia a reafirmação da identidade étnica. As movimentações indígenas anteriores à revolução foram em sua maioria caracterizadas como mobilizações incivilizadas de uma população inferior. já que no oriente – região que ocupa grande parte do território boliviano – um outro processo de desenvolvimento agrário foi adotado. secretário de atas. a função de fato que estes sindicatos cumpriam – e cumprem até hoje – remetia a uma organização territorial que tem muito mais a ver com as antigas comunidades indígenas. Tradução da autora.) através de associações camponesas (organizando-as. criou um dualismo dinâmico. 49. p. vanguarda da Revolução de 1952... portanto. No próximo capítulo este processo agrário da região oriental boliviana será mais aprofundado. Paulatinamente. desta forma. James Dunkerley relata a posição do embaixador britânico em 1914 sobre as rebeliões indígenas no campo “‘atualmente (. os estados da América Latina incorporam aos índios (. Nesta época. a denominação “índio” era carregada de exacerbado racismo e preconceito.. Houve um processo extremamente contraditório em curso: ao mesmo tempo em que os camponeses indígenas eram estimulados a criar seus sindicatos e estruturar um movimento corporativista com forte ligação com o Estado do MNR e com a sua casta burocrática em reformulação. haviam resgatado o domínio territorial que lhes foi paulatinamente retirado no período republicano anterior.

a uma situação insustentável. que apontava para a falta de independência do movimento camponês. paulatinamente. Deborah apud REGALSKY. no qual o governo garantiria a continuidade da reforma agrária e os camponeses. Foram milícias camponesas.. Contudo. A violência e a instabilidade no campo chegaram. como a greve feita em São José em 1959. com assassinatos de figuras políticas locais e enfrentamento de diferentes milícias camponesas. a sua fidelidade ao regime. cit. Ao revisarmos os acontecimentos futuros no cenário rural boliviano. o governo ganhou o respaldo do campesinato. a Bolívia. Os camponeses passaram. O pacto durou até os anos 1970. As brigas no campo se estenderam até chegar a uma situação bastante sangrenta. É importante lembrar que o Pacto Militar Camponês não atingiu homogeneamente os camponeses bolivianos. implementou uma política econômica ortodoxa. o general das Forças Aéreas René Barrientos Ortuño começou a ganhar muita popularidade entre o campesinato. seguindo recomendações internacionais.27 5. identidades que mudavam de acordo com o cenário: para o estado os índios assumiram a identidade de camponeses. que se mantinham mais autônomos ao governo no desenrolar das suas políticas entre 1952 até o golpe militar de 1964. Pablo. A partir de então. a Federação de Camponesa de Cochabamba o nomeou como seu candidato oficial. porém. De fato. de forma também bastante contraditória. as que combateram diversas rebeliões mineiras. as brigas internas pelo controle do aparato do governo e do partido se transmitiam aos dirigentes camponeses. podemos perceber que. de aumento de preços de produtos industrializados e congelamento de salários e de preços de produtos agrícolas simples. a depender cada vez mais do recém recriado aparato militar para “apaziguar” os conflitos e assim. Até certo ponto. Pacto Militar Camponês Com a promoção da Reforma Agrária. p. não foi difícil delinear um pacto entre o governo militar e os camponeses.YASHER. o governo do MNR se utilizou desta instabilidade interna. por exemplo. Após o golpe organizado pelo mesmo Barrientos neste ano. op. os sindicatos Terra e território . os camponeses assumiram sua identidade como índios”5. estas duas tendências se desenvolveram e dão dinâmica ao movimento camponês indígena até hoje. com os vales cochabambinos nesta época sendo considerados zona militar. situação diferente do que ocorria com os operários. Tradução da autora. ligados a diferentes lideranças políticas do MNR. quando veio a crise do petróleo. 94-95. ele conseguiu incorporar o setor mais organizado deles. A relação era tão próxima que nas eleições presidenciais de 1964 que antecederam o golpe militar. no interior da comunidade.

como a de Tupac Amaru no Peru e de Tomás Katari em Potosi. que promovia o enxugamento do aparato estatal e reformas econômicas de “estabilização”. REGALSKY. A rebelião aconteceu paralelamente a muitas outras. foi a criação da Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) em 1979. o katarismo denunciava o nacionalismo enquanto forma de dominação européia. Katari coordenou uma rebelião em conjunto com Bartolina Sisa e cercou a cidade de La Paz em 1781. Tradução da autora. tendo enquanto referência mais forte a figura de Tupac Katari. A conseqüência direta foi a demissão de cerca de vinte mil trabalhadores mineiros estatais e. Ao filiar-se à COB (Central Operária Boliviana). a CSUTCB resgatou a luta conjunta entre camponeses e trabalhadores urbanos. a dianteira das mobilizações e lutas populares 28 6. op. incluindo os do ocidente. O katarismo e a CSUTCB Paralelamente ao declínio do Pacto Militar Camponês. cit. criando laços também dentro de setores urbanos. Já na década de 1970. Contudo.. ainda era uma relação baseada na cooptação de dirigentes sindicais e não necessariamente enraizada nas suas bases. O movimento se espalhou pelas regiões aimarás. Pablo. Foi aprovado o decreto 21060. os mesmos que participaram de forma mais ativa na Revolução de 1952. contudo. Eram lutas para a reconstituição do território originário. O principal feito do katarismo. O katarismo foi. e isso marcou diversas mobilizações do final dos anos 1970 até meados dos 1980. o movimento que dirigiu a reorganização do campesinato enquanto setor independente e autônomo. p.agrários dos vales de Cochabamba. Terra e território . um outro setor do campesinato boliviano começou a se reorganizar com base em elementos étnicos. Contudo. e resgatou com muita força uma memória de lutas indígenas de libertação contra o jugo europeu e criollo. Aimará. os mineiros. 43. o operariado boliviano sofreu um grande golpe na sua principal força motriz. pela primeira vez na história uma só entidade tinha a capacidade de mobilizar todos os setores camponeses indígenas do país. entidade marcada pelo clientelismo do Pacto Militar Camponês. norte da cidade de La Paz e ao leste do lago Titicaca. O movimento katarista surgiu na província de Omasuyus. a etnicidade era mais uma vez utilizada como “ferramenta de resistência da comunidade andina”6. em 1985. No modelo universalista e liberal de Estado-nação. portanto. a partir deste momento. chefiando 40 mil indígenas. que substituiu a antiga Confederação Nacional de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CNTCB). profundamente radicalizadas e questionadoras da presença espanhola. A CSUTCB representou um grande avanço nas futuras lutas sociais no país.

em especial da COB. o movimento camponês e indígena ainda não estava completamente estruturado dos resquícios do Pacto Militar Camponês e também sofria muito com as políticas imperialistas e neoliberais. pois como nenhum dos Terra e território . segundo cálculos unilaterais do governo. em 1988. como é o caso dos cocaleiros. pontua que o efeito prático da lei era de criminalizar os movimentos camponeses da região do Chapare: “Trata-se de uma lei inconstitucional. A partir dela. A democracia deste período foi chamada de democracia pactuada. Ali. Crise de mediação e Lei de Participação Popular A década de 1980 foi terrível para o movimento popular boliviano. Os cocaleiros Durante os anos de 1980. havia produção de folha de coca “excedentária” e que deveria ser controlada e erradicada. foi se formando um outro importante ator nas lutas sociais na Bolívia: o movimento cocaleiro. iniciou-se uma intervenção norte-americana muito mais forte no controle do narcotráfico e de tudo que se ligava a este na Bolívia. Junto com as políticas de ajuste estrutural. uma pessoa é culpada e depois tem que demonstrar a sua inocência. O primeiro era o desgaste intenso dos movimentos populares. de Cochabamba. Isso trouxe como conseqüência uma organização dos camponeses cocaleiros muito maior. que militarizava a região tropical do departamento de Cochabamba. apesar dos impactos na organização dos trabalhadores.29 na Bolívia passou ao movimento camponês indígena. O pesquisador Eduardo Córdova. Córdova atribui este enfraquecimento por dois motivos. O segundo motivo foi que as políticas neoliberais não eram neste período antipopulares. O estopim deste processo foi a aprovação da Lei 1008. a repressão contra os camponeses no Trópico de Cochabamba foi muito grande”. Ela inverte os princípios jurídicos. Segundo ela. buscando um discurso antiimperialista em resposta à presença americana e resgatando a folha de coca enquanto um símbolo da cultura indígena e de resistência. da Universidade Mayor de San Simon. pois. No terceiro capítulo uma descrição muito mais ampla será feita dos efeitos das políticas antidrogas na região do Chapare. Se por um lado a COB levou um golpe duríssimo em 1985 com a demissão dos mineiros. fruto das mobilizações para a conquista da democracia no início da década. estabilizavam a economia do país abalada pela imensa inflação. que passaram cada vez mais a adotar uma postura autônoma e enquanto setor diferenciado dos demais setores de produtores rurais.

que tinha enquanto seu vice-presidente um indígena aimará katarista. 9. Os sindicatos rurais poderiam ter seus próprios candidatos e os camponeses poderiam ser eleitos e participar no interior do Estado. Vivian. A lei também é identificada como um elemento importantíssimo para a criação e expansão do maior fenômeno eleitoral boliviano dos últimos tempos. O máximo que estes últimos conseguiam fazer eram algumas ações isoladas de resistência às políticas neoliberais. o 30 7.partidos que concorriam às eleições conseguia ganhar com maioria absoluta dos votos. Zavaleta Mercado caracterizava este estado como um “Estado Aparente”. A interpretação desta lei varia conforme a orientação teórica. O novo sistema passou a estabelecer como idade de aposentadoria 65 anos. assim como as milícias camponesas foram fundamentais para proteger o regime militar das insurreições populares mais autônomas. pois a sua fundação foi artificial. o Estado propôs uma reconciliação com o movimento camponês através da promulgação da Lei de Participação Popular (LPP). “os políticos se responsabilizaram pela política”. que muitas vezes foram feitas sem levar em conta nenhuma especificidade local8. foi marcada por grande endurecimento militar contra os movimentos sociais que levou à sua queda em outubro de 2003. op. sem forças para grandes mobilizações e intervenções nacionais. No início dos anos 1990. os governos também se viam débeis. iniciada em um momento de efervescência popular. externa à grande maioria da sociedade boliviana7. Terra e território . por exemplo.ZAVALETA Mercado. o Estado se fortalecia. Na realidade. uma característica geral do Estado boliviano. Contudo quando havia setores sociais envolvidos que lhes davam respaldo. Victor Hugo Cárdenas. quando a expectativa média de vida dos bolivianos na época não passava de 62. Era época do governo de Gonzalo Sánchez de Lozada9. Os movimentos sociais começam a se rearticular com mais força e a resistência ao neoliberalismo crescia e já apontava para um contra-ataque. caracterizações negativas e positivas da lei têm conclusões parecidas: houve aumento de presença camponesa nos municípios e a organização política institucional deste setor aumentou. cit. Contudo. 8.Um exemplo disso é a reforma no sistema boliviano de pensões e aposentadorias feita em 1996. era construído um acordo parlamentar na indicação presidencial. A concretização disso é seqüência de golpes de Estado que há na história do país e a ingerência estrangeira na determinação das políticas nacionais. René apud URQUIDI. já não havia tanta certeza na população de que a estabilidade da economia e as políticas de privatização de fato faziam com que as riquezas fossem divididas e a vida da população melhorasse. A sua primeira gestão foi marcada pela privatização de estatais e por reformas que incluiam setores indígenas e camponeses no aparato estatal. A sua segunda gestão. Esta lei mudou intensamente a perspectiva política institucional das populações rurais. Até que em 1994. incapaz de atuar na totalidade do território nacional. O apoio dos mineiros e da COB. Com os movimentos populares se reorganizando. foi essencial para a Revolução de 1952 e o governo do MNR que a seguiu. pois antes dela o território municipal era somente urbano e a população rural só votava nas eleições nacionais. como define Córdova este período.Gonzalo Sánchez de Lozada foi presidente de 1993 a 1996 e de janeiro a outubro de 2003. mas nunca como protagonistas do processo e sempre enquanto atores reativos. sem laços entre os governos e os movimentos sociais. A LPP incluía no sistema eleitoral municipal os territórios rurais.

Fato é que. entre la protesta callejera y la política institucional”. Dentro desta perspectiva teria surgido o MAS. Clacso / Plural. a LPP surge para criar “uma capa intermediária entre o campesinato indígena e o Estado”. Estado y poscolonialidad. a maior parte dos movimentos sociais era contrária à lei. a lei foi positiva para os movimentos sociais. Movimientos sociales. transformando o instrumento político camponês (MAS). Segundo ele. que era uma política imposta de cima para baixo. Em 1999. Movimento ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP). como denomina Eduardo Córdova. pois se tratava de um instrumento político que deixava claro a escolha pela institucionalidade em oposição à luta armada. 2007. “Os camponeses vão tentar entrar na institucionalidade e desde aí vão tentar fazer mudanças. Em 2002.DO ALTO. não pelo que faz o governo em nível nacional’”. em especial a CSUTCB. Hervé (editores). Uma das principais críticas era a de que a lei não havia sido feita em conjunto com estes movimentos. Tratava-se de uma política geral de “eliminação de atores estratégicos”. que antes era um instrumento para criar soberania e cuja proposta inicial era a defesa da terra e do território. elegeram nove prefeitos. DO ALTO. Terra e território . ao final. em meio à crise que derrubou dois presidentes. A princípio e antes do seu funcionamento.7%. Pablo. partido do atual presidente Evo Morales. “El MAS-IPSP boliviano. Evo Morales alcança o segundo lugar. Hervé. em um partido que se propõe a “resolver a crise do Estadonação”. “Estes movimentos diziam ‘agora nós vamos brigar pelo dinheiro da participação popular. Pablo Regalsky tem uma análise negativa da lei quase pelo mesmo motivo. A prática política deste partido no poder municipal acabou por significar não a independência do campesinato. mas sim a sua dependência com relação ao Estado e a criar “faccionalismos dentro desta mesma organização para ver quem repartia o dinheiro que as municipalidades administravam”. In: MONASTERIOS. Evo Morales ganha as eleições presidenciais com 53. lembra ele. Mas ele crê que. primeira eleição nacional com a sigla.31 10. pois os re-inseriram nos panoramas das disputas políticas institucionais. mas respeitando a Constituição e as leis”. La Paz. a presença política deste partido nas eleições municipais e nacionais foi exponencial. Pela primeira vez na história da democracia boliviana um candidato ganha com maioria absoluta10. Em 2005. na primeira eleição municipal que enfrentaram. STEFANONI. a partir da criação e da legalização do MAS-IPSP. enfatiza Córdova. Reinventando la nación en Bolivia. pois enfraquecia a organização nacional dos movimentos. a sua autonomia. na medida em que focava o centro das disputas políticas no espaço regional municipal. Karin.

Neste panorama. departamento de Beni. movimas. 800 indígenas chegaram à sede do governo e pela primeira vez fizeram com que o país percebesse a sua existência. 15. de diversas etnias. 14. Os que estavam incorporados nas fazendas enquanto peões e trabalhadores servis saíram às cidades. traçou caminhos diversos. dava proteção a propriedades pequenas e médias e a empresas agrícolas. O decreto 3464. apud GARCIA Linera. apesar das denúncias das mais diversas organizações. Chuquisaca.GARCIA Linera.Chaco de Tarija e áreas de coleta de castanhas na Amazônia boliviana. uma das maiores lutas políticas de muitos destes povos é conseguir documentos pessoais que possam garantir-lhes um mínimo de seguridade 32 11. mas sem estarem minimamente incorporados aos debates nacionais. A marcha teve tanto impacto na opinião pública que o governo emitiu imediatamente oito decretos. 13.) et al. Editora Plural. sendo que até hoje em algumas regiões14 o trabalho escravo e servil permanece. cit. por mais que tenha relação profunda com a do ocidente. Porém. que estabeleceram nesta região missões nos moldes das que foram feitas no Brasil e no Paraguai.DUNKERLEY. como chimanes. etc11. Até hoje. Eram indígenas provindos dos departamentos de Beni. COSTAS Monje. em direção a La Paz. idem. Não houve divisão de terras nessa área. Los movimientos sociales en Bolivia. 217. 12. Patricia. Álvaro (coord. matacos. grande maioria dos 36 reconhecidos pela nova Constituição Política do Estado. op. concentradas em sua maioria na região de Santa Cruz15.. eles pediam o reconhecimento da sua cultura e dos seus territórios. A expansão das fazendas criollas se deu em menor grau neste território pela grande extensão de terras e dificuldades no seu domínio devido ao clima e à vegetação tropical. A história do oriente boliviano. A colonização de fato ficou muito mais nas mãos dos padres jesuítas. que estabeleceu a reforma agrária em 2 de agosto de 1953.Ainda hoje.Indígenas do oriente – a outra etnicidade Paralelo a esta história de êxito. como madeireiros. um outro movimento começava a aparecer no cenário nacional. Esquecidos e alvos fáceis do abuso dos madeireiros e fazendeiros das regiões baixas bolivianas. agroindustriais e petroleiras. p.105. Álvaro (coord. guaranis.LEHM Arcaya. Em agosto de 1990 uma marcha de indígenas saiu de Trinidad. ainda em processo de aprovação. La Paz. James. Santa Cruz. yuracarés.). as terras baixas bolivianas concentravam dezenas de povos indígenas13. Tarija. p. A Reforma Agrária de 1953 praticamente se limitou nesta área a eliminar legalmente o trabalho servil. que sempre contou com indígenas aimarás ou quíchuas. Marxa. Ao contrário do oriente. 219. os povos indígenas desta região pouco ou nada participaram do processo. muitos estavam ainda isolados em seus territórios. tacanas. reconhecendo quatro territórios indígenas e se comprometendo a formar uma comissão de regularização dos direitos indígenas nas terras baixas (Amazônia e leste boliviano)12. Terra e território . CHÁVEZ Leon. lutando contra os avanços das forças que concentram poderes políticos e econômicos nestes locais. pois era um território reservado para a criação de empresas agrícolas segundo as políticas públicas pensadas pelo nacionalismo desenvolvimentista. 2008. Z. sirionós.. p. esta região possui mais de 30 povos indígenas.

da Confederação Sindical de Colonos da Bolívia (CSCB)18. Impulsionado pelo setor cocaleiro. desta organização crescente17. em conjunto com a Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesp) e com a Cidob. cit. e por fim. e a sua luta por reconhecimento ganha um destaque internacional. . as lutas e mobilizações começaram a entrar no terreno urbano. que forma. Além disso. moradores de bairros e trabalhadores urbanos. Estes colonos se organizam na CSCB e são diferentes.GARCIA Linera.33 16. embalados pela criação da Confederação Indígena do Oriente Boliviano (Cidob) em 1982 e por iniciativas de outras populações indígenas amazônicas em outras partes da América Latina16. mas sim contribuíram para tornar a Bolívia um país mais pobre e dependente. a ocupação dos seus territórios e a tentativa de eliminação gradual da sua cultura e modo de vida.O termo colono neste contexto remete ao camponês que foi levado pelo Estado a zonas de colônias. em 1984. que depois irá adotar a sigla de MAS. 17. conseguiu barrar a privatização da água. Plural / Cipca. Parte destes serviços não era controlada pelo Estado. mas sim por juntas comunitárias e. Esta frente social travou uma batalha intensa na cidade. a memória dos 500 anos de presença espanhola aproxima uma série de ONGs de defesa dos direitos indígenas destas organizações. 2002. a Coordenadora Indígena da Bacia Amazônica (Coica). que desta vez não tem relação com a cultura andina e altiplânica. Terra e território pública e status de cidadania. dos colonos em estado de servidão nas fazendas antes da reforma agrária. In: ALBÓ. ele é aprovado em 1995 em um congresso conjunto da CSUTCB. Das primeiras revoltas do milênio à “revolução democrática cultural” No início dos anos 2000. p.. mas que têm um inimigo comum a esta. Esta organização ajudou muito na estruturação dos trabalhos da Cidob na Bolívia. Álvaro (coord. e a Cidob (que neste momento já se chamava Confederação de Povos Indígenas da Bolívia). portanto. Já havia uma avaliação consensuada dos setores urbanos de que os ajustes econômicos aplicados durante os anos 1990 não distribuíram riquezas. É com este princípio somado ao de autodeterminação que será pensado pela primeira vez o Instrumento Político Pela Soberania dos Povos (IPSP). articulou-se com ativistas de San Francisco nos Estados Unidos (EUA) para pressionar a empresa americana Bechtel que estava negociando com o governo. camponeses. portanto. da Federação Nacional de Mulheres Camponesas da Bolívia – Bartolina Sisa (FNMCB-BS). Pueblos indios en la política. p. La Paz. Isso depois desembocou na criação da Confederação de Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (Confeniae). na prática.) et al. seria expropriada pelo governo para ser cedida a uma empresa privada. O estopim se dá em 2000 na cidade de Cochabamba. 184-205.Albó aponta que o primeiro despertar étnico na América Latina foi com os povos shuar nos anos 1960 na Amazônia equatoriana. Trata-se de mais um resgate da etnicidade. A marcha de 1990 é resultado. op.. A década de noventa inicia apontando perspectivas para estas populações. As organizações indígenas já haviam passado por um período de estruturação interna. onde obtiveram dotação de parcelas de terras. com a privatização da água. 18. 218. “Terra e território” é o grande mote das mobilizações dos anos 1990 e unia estes movimentos étnicos a todos aqueles que se organizam no campo de forma mais sindical. Xavier. A tentativa malfadada do governo Banzer de privatizar os serviços de água causou uma grande mobilização que unificou ambientalistas.

de parar as revoltas populares crescentes. Para entender as forças motrizes deste movimento político e social. a pretensão aqui não é estabelecer uma análise do que é o governo de Evo Morales. Em 2005. uma nova Reforma Agrária. mas já se pode notar muitos dos seus efeitos na sua principal base de sustentação. Em 2002. Marchas nacionais de camponeses neste período pediam a modificação da Lei Inra (Instituto Nacional de Reforma Agrária). Contudo. com a proposta de nacionalização e industrialização do gás natural. Isso se deve em parte porque seu governo podia responder às reivindicações populares e em parte também porque possuía uma imensa legitimidade enquanto liderança social. Foi em meio a tantas revoltas populares. inicia a chamada “revolução democrática cultural”. Para movimentos sociais bolivianos estava clara a possibilidade não somente de barrar as políticas do governo quanto também de avançar nas suas próprias pautas. o movimento camponês e indígena. Trata-se de uma luta tão forte que derrubou presidentes. cocaleiros também tinham a sua própria Guerra pela Coca. e tem força suficiente para refundar o país e começar a história de novo. que dois presidentes da Bolívia caíram (Sánchez de Lozada em 2003 e Carlos Mesa em 2005). acompanhei entre setembro de 2007 e junho de 2008 três movimentos com culturas camponesas distintas. lançou nacionalmente a agenda de outubro. que vinham avançando nas suas reivindicações. eleito presidente. depois camponeses e depois indígenas novamente. Claro que em muitos momentos as interpretações – que são muitas – vão aparecer. ou seja. melhor explicada no capítulo quarto. na qual denunciavam o fechamento de seus mercados e a violência que viviam devido à militarização da região. A Guerra do Gás. A questão central é demonstrar a linha histórica que levou a estes indígenas coloniais.A Guerra da Água foi chamada de primeira revolta do milênio e foi também a primeira conquista efetiva dos movimentos sociais bolivianos contra o neoliberalismo que avassalava o país. *** Escrevo este texto enquanto este governo está em vigência e seus rumos estão ainda abertos. A largada havia sido dada. a lutarem tão ferozmente pela sua soberania. e a refundação das bases do país através de uma Assembléia Constituinte. propagando os ideários descolonizadores de plurinacionalidade e reconhecimento das diversas etnicidades e das autonomias indígenas. Ele era o único candidato com a capacidade de fazer a Bolívia “governável”. recuou o imperialismo norte-americano. novas eleições foram chamadas e Evo Morales. 34 Terra e território .

mas acima de tudo lutam pela sua reconstituição enquanto povo. causando a morte de dezenas de camponeses plantadores de coca entre os anos de 1980 e 1990. região militarizada graças à política norte americana de Guerra contra as Drogas. Lá. e suas mobilizações. fui ao Chapare. Ali os camponeses não são migrantes. e. crimes gritantes contra os direitos humanos que são geralmente omitidos pela grande imprensa local. milícias armadas de latifundiários. Eles foram atores políticos essenciais do período de 2000 a 2005. região oriental do país. Cruzei a fronteira sul mato-grossense com o departamento boliviano de Santa Cruz. interpelaram com muita radicalidade a estrutura do Estado boliviano. Resgatam com força os seus símbolos culturais aimarás e heróis da luta pela sua libertação. sempre ocuparam o território onde estão. em um dos atores mais fortes do movimento camponês boliviano. em contraposição ao Estado colonial. monocultura de soja e de cana. trabalho assalariado miserável. Sua luta pode se focar no resgate aos recursos naturais. um recente movimento sem-terra. pela fortíssima repressão sofrida. mas que conformaram uma identidade cocaleira e se transformaram. por fim. conheci o movimento aimará da província de Omasuyus. Trata-se de uma zona tropical que reúne camponeses migrantes do altiplano.35 Relato as experiências por certa ordem cronológica e espacial. Não é gratuito que dali surgiu o impulso central para a criação do MAS-IPSP e dali provém o primeiro presidente indígena da Bolívia. chamadas de rebeliões indígenas aimarás. Em seguida. inspirado pelo brasileiro. Evo Morales. movimentos indígenas enfraquecidos na sua imensa diversidade e por anos e anos de missões religiosas. no departamento de La Paz. de leste à oeste. como Tupac Katari e seu cerco à cidade de La Paz em 1781. trabalho escravo e servil. encontrei uma estrutura agrária bastante parecida com a do Brasil: grandes latifúndios. num caminho que vai das terras baixas bolivianas ao altiplano andino. pois escolhi o percurso tendo em vista a perspectiva de uma brasileira. Terra e território . que simboliza boa parte dos desafios e contradições que vivem os camponeses desta região. Por fim.

MAPA DE SANTA CRUZ 36 Detalhe Terra e território .

O ORIENTE BOLIVIANO E A LUTA PELA TERRA Terra e território .37 2 .

38 Terra e território .

39

COMUNIDADE AGROECOLÓGICA DE PUEBLOS UNIDOS

1.O MST-B não é de uma afiliação ou de um braço internacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) brasileiro, apesar de muitas referências políticas e organizativas no movimento sem-terra brasileiro.

Terra e território

Ao encontrar uma pessoa pela primeira vez, Luiz Guerra raramente esboça reação. Quando muito, vira seu rosto para o lado oposto, com vergonha ou desdém. Luiz tampouco fala muitas palavras, mas “mama”, “papa” e “casa” estão no seu vocabulário de grunhidos típicos de crianças de dois anos de idade. É filho único, sem muitos amigos. Costuma brincar com o loro bravo de estimação ou - quando chove - com garrafas de plástico vazias em poças d’água. Luiz mora com seus pais em Pueblos Unidos, uma comunidade formada por famílias do Movimento Sem Terra – Bolívia (MST-B)1 que fica na província de Guarayos, norte do departamento de Santa Cruz. As famílias reivindicam 16 mil hectares nesta área, que serão terras coletivizadas, propriedade da pessoa jurídica “Comunidade Agroecológica de Pueblos Unidos”. A posse das terras ainda não está finalizada, mas a comunidade já conta com uma resolução de assentamento no local, o que os permite produzir e viver nas terras legalmente. Há muitas crianças como Luiz na comunidade, entre um e oito anos. Quando as crianças atingem uma idade maior, a ida das famílias para povoados maiores é quase inevitável. Com quase dois de fundação, Pueblos Unidos ainda não conta com uma escola própria. É por questões como educação e saúde – há um posto de saúde, mas falta médico e medicamentos – que muitas das 350 famílias que estão legalmente morando na comunidade não passam a maioria do tempo nela. Boa parte dos moradores, contudo, está esperançosa com a melhoria de infra-estrutura da comunidade e estão aguardando ajudas governamentais. Com isso, poderão se estabelecer de forma mais constante em Pueblos Unidos. A área de urbanização fica perto da entrada da comunidade e é nela que se concentram as habitações das famílias, uma grande construção retangular que serve de sede das atividades comunais (assembléias, reuniões, aulas etc.), três vendas, o posto de saúde e um poço – que fica no meio de um terreno aberto, ao redor do qual se dispõem os principais prédios. Todas as construções são cabanas,

com tetos de folhas de motacu, uma palmeira abundante nesta região, e paredes de madeira ou chuchiu, uma espécie de bambu. Os carros não entram na área de urbanização, pois ela é separada da estrada que leva a Pueblos Unidos pelo Rio Grande. O acesso à comunidade é, portanto, sempre feito de barco ou canoa. O que parece encantador aos olhos dos visitantes, um símbolo de reclusão ou mesmo rebeldia da comunidade é, na verdade, um grande problema. Toda a produção de Pueblos Unidos tem que ser transportada em barcos precários, o que dificulta o cotidiano e a auto-suficiência dos moradores. As crianças que ficam na comunidade inventam o que fazer. As maiores ajudam seus pais nas plantações. As outras gostam de imitar as atividades dos adultos, brincam de canoa, acompanham as assembléias do lado de fora da sede. Têm muita vontade de ir à escola e, quando se identificam, dizem seus nomes, sua idade, e a classe equivalente que estariam se estivessem na escola. Quando as famílias chegaram a essas terras, em setembro de 2006, foi contratado um professor para alfabetizar as crianças. Mas por problemas econômicos, o professor teve que ser dispensado. Neste momento, a comunidade conta somente com a ajuda voluntária da professora Fabiola Rojas, que visita a comunidade todos os finais de semana para alfabetizar os adultos da comunidade. São ao todo 90 alunos, que acompanham duas turmas, uma que vai da primeira a terceira série e outra que vai da quarta a sexta série. A professora ensina castelhano e matemática e tem como suporte de ensino as cartilhas Yo sí puedo2, que fazem parte de um programa recém criado pelo governo Evo Morales de erradicação do analfabetismo, inspirado por um programa equivalente de Hugo Chávez na Venezuela. Não há apoio para os outros materiais escolares, como cadernos, canetas, giz de lousa, etc. As aulas, apesar de serem voltadas para os adultos, contam com extensa participação das crianças. Algumas arrumam cadernos e lápis e passam a fazer seus próprios rabiscos, outras simplesmente correm de um lado para o outro, como numa festividade. Luiz, chamado por Caluchito pelas outras crianças de Pueblos Unidos em referência a seu pai, é muito novo e ainda não se encanta muito pelas atividades na sede. Passa a maior parte do tempo do lado oposto da urbanização, na venda de seus pais. Trata-se da maior venda da comunidade, a única que conta com um gerador de eletricidade e, portanto, com um refrigerador que pode oferecer bebidas geladas nos dias quentes que predominam nesta região. Quem cuida da venda é a sua mãe, Benita, que mantém as contas em um caderno pequeno. Seu pai não sabe ler muito bem e se volta mais para o trabalho no campo, onde têm pequenas plantações de arroz, batata, tomate e verduras. Juan Carlos Guerra, o Calucho, tem 29 anos e faz parte do movimento sem-terra desde 2001,

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2.Em tradução literal “Eu posso sim”.

Terra e território

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3.Trata-se de uma parceria que o movimento sem-terra tem com o Centro de Estudos Jurídicos e Investigação Social, organização sediada em Santa Cruz de la Sierra, especializada em questões agrárias.

um ano após a criação do movimento na Bolívia. Lembra com orgulho o passado de lutas que levou a conquista das terras de Pueblos Unidos. Entre 2001 e 2006, estas famílias tiveram que ocupar e desocupar mais de quatro localidades, muitas vezes enfrentando conflitos violentos com os latifundiários da região norte do departamento de Santa Cruz. “Entramos em La Luna, de La Luna nos tiraram; depois de San Caetano nos tiraram; de Guadalupe nos tiraram, e paramos em Yuquises, onde ficamos por um ano”, conta Calucho. E Yuquises traz aos sem-terra de Pueblos Unidos muitas lembranças amargas. O assentamento em Yuquises Segundo Javier Aramayo, o assessor jurídico dos sem-terra e que acompanha todas as batalhas legais empreendidas pelo movimento3, a descoberta na fazenda Los Yuquises se deu sem querer. Na época, o movimento havia feito uma brigada para localizar terras fiscais4 que poderiam ser revertidas para a reforma agrária. No dia 8 de agosto de 2004, quando esta brigada cruzava Los Yuquises, propriedade do fazendeiro Rafael Paz, encontrou homens que carregavam armamento moderno. Os sem-terra estavam em maior número e os detiveram. Logo descobriu na fazenda todo tipo de armamento, metralhadoras, fuzis, granadas tipo limão, aparatos de radiocomunicação. “Era obviamente um arsenal que havia entrado na Bolívia via contrabando, pela fronteira com o Paraguai”, diz o assessor. Aramayo tem a convicção de que este material era utilizado para fomentar os “comitês de autodefesa da terra”, que seriam um braço armado dos latifundiários da região. Ele explica que houve uma organização das famílias detentoras de terras para evitar o avanço dos assentamentos sem-terra e dos questionamentos às suas propriedades. “O movimento sem-terra se inicia com força na região do Grande Chaco5, onde passa a ter um caráter mais orgânico no final dos anos 1990. Logo em 2000 começa a tomar mais corpo e a se relacionar com outras organizações sociais, e neste ano há uma proliferação impressionante de assentamentos. Foram afetadas as propriedades de muitos deputados, senadores, autoridades, militares, etc. E em 2001, ocorre o massacre de Pananti6, e ele foi uma espécie de contestação violenta dos grupos de poder para a eliminação seletiva dos lideres do MST. E o efeito disso foi que, em vez do movimento ser extinto no Grande Chaco, ele começa em Santa Cruz a partir de 2002. E neste momento são afetadas grandes famílias do norte crucenho7, que é uma espécie de pólo de desenvolvimento agrícola e industrial, onde o Estado concentrou grandes capitais entre os anos 1960 e 1970”. Portanto, a partir da experiência na região do Grande Chaco, as famílias detentoras de terras passaram a se preparar para o conflito com os camponeses sem-terra.

4.Terras fiscais são terras de propriedade do Estado boliviano que ainda não tiveram nenhuma destinação. 5.Região que fica no departamento de Tarija.

6.O massacre de Pananti ocorreu em novembro de 2001 no departamento de Tarija, quando um grupo de paramilitares armados atacou um acampamento do movimento, ferindo e matando camponeses sem-terra.

7.Do departamento de Santa Cruz.

Terra e território

guatemalenses. e que tinham campos de tiros e torres de comunicação à satélite. diz Aramayo. para divertimento geral dos que ali estavam. Estavam todos com medo. com todos os seus guarda-costas por cima. peruanos. motivo suficiente para a reversão da propriedade da terra. uma corrida a armamento na região de Santa Cruz. da defensoria pública. Mas isso. São os jovens nascidos e criados em Santa Cruz. A investigação nos órgãos de governo correu e inclusive o serviço de inteligência do exército boliviano chegou a confirmar. chegaram representantes de vários ministérios. foram feitas denúncias ao Ministério Público e a imprensa foi chamada. Mas. no qual cada guarda comunicava a sua posição através de foguetes. Além da denúncia do armamento ilegal. e para que as autoridades a alcançassem eram necessárias várias horas de viagem. o clima era muito tenso. O que eles não sabiam era que havia sido organizado um sistema de sentinelas. as autoridades se desesperaram e se jogaram ao chão. deturpou tudo: “diziam que havia um campo de treinamento guerrilheiro. Então quem compõe majoritariamente o movimento sem-terra na região? São os filhos da antiga fracassada reforma agrária. Quando soou a troca de estalidos. ao final. absolutamente ninguém foi indiciado pela existência daquele armamento. houve também nela um estímulo à migração de famílias do oriente ao ocidente. através do Ministro de Governo da época.Aramayo ainda explica uma particularidade da expansão do movimento no norte crucenho. “Estas famílias vão vivendo ao redor destas fazendas. A região era isolada. Fizeram uma montagem para desprestigiar o movimento”. com mais de 60 trabalhadores e que estavam atrapalhando a atividade produtiva de Santa Cruz e que este campo estava sendo assessorado por colombianos. não foi reconhecido na opinião pública. Logo após a descoberta. Saul Lara. Aramayo conta uma situação que ilustra isso. pois era uma situação delicada e passível de um conflito armado a qualquer momento. filhos daqueles que haviam sido trazidos como força de trabalho para fortalecer as antigas fazendas tradicionais da região. para sustentar esta burguesia agrícola”. Após terem encontrado as armas. O movimento decidiu que permaneceria assentado na fazenda até que o processo terminasse e tudo fosse investigado. de organizações de direitos humanos. todo processo foi arquivado. conta ele. e eles se prepararam para iniciar uma reunião. Por ser uma região que concentrou muitos investimentos estatais para a produção agrícola. A descoberta de armas em Yuquises faz parte deste contexto. “Nós dizíamos que o movimento havia se tornado um defensor da democracia”. 42 Terra e território . A imprensa. Durante a noite. era denunciada a falta de atividade produtiva do local. para se tornarem mão-de-obra destas fazendas. obviamente.

Bolpress. Calucho descreve a ação dos paramilitares assim: “Primeiro queimaram nosso arroz e quando os companheiros foram tentar salvar seus produtos. não para formarem uma guarda paramilitar de Rafael Paz e despejar os sem-terra. os militantes do MST seqüestrados foram resgatados pelos sem-terra do próprio assentamento. Disponível em: http://www. presidente da CAO (Câmara Agroindustrial do Oriente)8. ficou no acampamento mais atrás”10. prenderam nove deles. por isso põe todo o poder do Estado para mostrar os do bando sem-terra como vítimas e não como o que realmente são: delinqüentes organizados para a subversão”. Segundo ele. que tiraram da prisão e contrataram para brigar com a gente”. Estudio de impacto en políticas de tierra y territorio: estudio de caso de “Los Yuquises”. levou a imprensa a acusar os sem-terra de seqüestradores. funcionário de Rafael Paz. Socompi não estava com a gente. “O governo é cúmplice e inimigo dos produtores e da institucionalidade crucenha. os papéis se inverteram.com. não nos disse que havia gente ali. Roçamos só um dia e Socompi não nos avisou nada. a ameaça de “justiça com seus próprios meios” dos latifundiários se concretizou. NÚÑEZ. disse na ocasião José Céspedes. No dia 8 de maio de 2008.com/art. Os militantes do movimento passaram a ser acusados de terroristas e a pressão dos latifundiários crescia a cada dia para que eles fossem despejados da fazenda. pois se esperava que alguma iniciativa fosse tomada. Tradução da autora. Eles foram torturados. 2005. No dia 15 de setembro de 2004. Rafael Paz. Enviados a los Yuquises con engaños para enfrentar a los Sin Tierra advierten con tomar la casa de Rafael Paz. bolpress.QUIROGA. sem levar em conta que o que pedia . ele nos levou direto ao matadouro. Agropecuarios acusan al gobierno. Ou seja. se o governo não tomasse iniciativas para impedir as ocupações de terras. grande parte destes contratados foi convocada para trabalhar como peões nos campos de cultivo. 10. José Luis Alvarada contou à imprensa que eles foram contratados por Vicente Socompi. não somente foram identificadas e denunciadas iniciativas paramilitares. De qualquer forma. 67 destes homens contratados por Paz ficaram sob a guarda do MST depois do enfrentamento. Santa Cruz de la Sierra. os agroempresários iriam “defender seus direitos com seus próprios meios”9. CIPCA Regional Santa Cruz. 16. contratou para esta ocasião mais de uma centena de homens para despejar à força os camponeses do MST que estavam em sua propriedade. 9. e ficou de nos pagar 50 pesos bolivianos por dia. amarrados.com/noticias/13-05-05/13_05_05_ nac4. dono de Yuquises.php?Cod=2 005001365&PHPSESSID=2a 320f85dc64affeaa85342b265e 420d. 13/05/2005. vendaram seus olhos. Contudo. Tradução da autora. que ameaçava textualmente que. Disponível em: http:// www. ao invés de evidenciar a iniciativa aberta paramilitar. Eulogio. Era uma gente drogada. via CAO. Inclusive quando houve enfrentamento com os sem-terra.43 8. Este fato.Los Tiempos. 21/06/2005. Omar. a CAO publicou uma carta aberta no jornal La Razón. mas também os promotores desta iniciativa. As pessoas que foram mantidas por somente alguns dias pelos do movimento sem-terra eram sempre identificadas como “reféns”. explicitaram que elas poderiam acontecer. que lhes disse que iam “roçar e fazer a colheita de arroz.lostiempos. Tradução da autora. Terra e território E aí. que se organizaram para enfrentar os contratados.php. para serem entregues mais uma vez às autoridades. p.

44 Terra e território .

15. No dia seguinte ao enfrentamento dos sem-terra com os contratados de Paz. Terra e território o MST era que estas pessoas fossem julgadas pela justiça e não eram utilizadas como moeda de troca para nenhuma negociação. no rosto e começaram a me chutar (.. Tradução da autora. porque estavam me batendo. cit. cit. Na época. de propósito. “Tocaram fogo. “Com uma mentira muito grande nos levaram e graças à gente eles já são donos destas terras”... em sua maioria de arroz. No final da atividade. e concluíram “eles nos fizeram brigar entre pobres”13.5 mil hectares cultivados. Não houve maior resistência ao despejo. lembra ele. Consideraram proprietários de toda esta produção os fazendeiros. Documentaram a produção que era equivalente a 400 mil dólares. 21/06/2005. foi atacado até ficar inconsciente pela Unión Juvenil Cruceñista (UJC). pois o MST contava com a promessa do governo de dotação imediata de terras fiscais. os “seqüestrados” pelo MST quando chegaram a Santa Cruz após a sua tão reivindicada libertação foram aos meios de comunicação não para reclamar dos abusos sofridos nas mãos dos sem-terra. o dirigente do MST que estava organizando a conferência. mas continuaram me batendo na boca. 14.) Não entendia porque estavam gritando.com. 18. cerca de nove meses depois da descoberta das armas e da presença do movimento em Yuquises . e de tudo isso nada foi recuperado. onde tiraram meus documentos. assim que saíssem da fazenda Los Yuquises.Entrevista dada para a publicação El Nuevo Dia. uma conferência de imprensa foi organizada pelo MST na praça central de Santa Cruz de la Sierra.Bolpress. uma publicação on-line alternativa. p.. 21/06/2005.com. 12. 13/05/2005.).. Agora sim você vai ver o que é sofrer’ (. idem.45 11.Los Tiempos. O movimento deu um . omitindo o fato de que eles foram levados à área para despejarem os sem terra e nem sequer sobre esta condição foram avisados pelos seus contratantes.Bolpress. ilegalmente. meu celular. mas sim para pedir o pagamento dos seus serviços prestados12. Começaram a mexer nas minhas coisas e gritavam ‘vamos te matar. perseguidos. Na ocasião.Expressão utilizada para identificar os indígenas provenientes do ocidente altiplânico boliviano. que estavam ameaçando um assentamento feito na defesa dos interesses públicos.e depois de muita pressão dos latifundiários . Houve companheiros detidos. em frente à sala de imprensa. comentaram eles para a Bolpress. op. Ironicamente.o despejo finalmente foi efetivado. Tradução da autora. o movimento já tinha nestas terras cerca de 3. Pedi-lhes para parar. Aramayo lembra que chegou em Yuquises cerca de 24 horas antes do despejo. 13. Sentia-me muito mal. nada deveria ser assim”. Tradução da autora. Cit. A intenção era denunciar os ataques aos direitos humanos promovidos pelos latifundiários. e perdi a consciência quando me bateram atrás da orelha”15. no nariz. colla14 de merda. in: QUIROGA. Omar et al. op. E no dia 25 de maio. O setor agroindustrial obviamente bradava contra os “delitos flagrantes contra a vida e a liberdade”11 destes “reféns”. Silvestre Saisari. ele disse a uma publicação local: “Arrastaram-me até me levarem outra vez à praça.

46 16. sua família e mais centenas de outras na chegada a Pueblos Unidos em 5 de setembro de 2006. indicando constantemente uma volta à fazenda improdutiva. 22.. Portanto. me disse ele e eu respondi ‘Porque eu estou com a razão. Impactos políticos da ocupação em Los Yuquises O caso da fazenda Los Yuquises teve um grande impacto durante o governo de Carlos Mesa (outubro de 2003 a junho de 2005) e nos debates acerca da propriedade da terra na região do oriente boliviano.prazo de cinco dias para que as terras fossem dotadas. A ocupação precisa ser vista sob o prisma da gestão de Carlos Mesa. somente com a entrada do governo Evo Morales a tão esperada dotação de terras foi feita. as famílias do MST que estavam em Yuquises começaram novamente as suas ações de pressão. A promessa de Mesa na época era garantir um maior diálogo com os movimentos sociais. Tradução da autora. o governo voltou atrás no que haviam combinado. Omar et al. foi este mesmo exército que acompanhou Calucho. mas os sem terra conseguiram a dotação de terras fiscais em uma área vizinha. No período que durou o assentamento. mas. posição considerada inaceitável para o setor agroempresário da região. que começou a atacar o governo com todas as armas que detinham: forte poder econômico e controle dos principais meios de comunicação do país e da região. “O Ministro de Desenvolvimento Sustentável. também porque sabia que se seu governo mantivesse a mesma agressividade de Sánchez de Lozada. de 8 de agosto de 2004 a 25 de maio de 2005. esclareceu que estudam a entrega de terras florestais aos camponeses que não participam em invasões”16. quando finalmente foram legalizadas terras para a conformação da sua tão esperada comunidade. dois governadores do departamento de Santa renunciaram graças às pressões do setor latifundiário.El Deber. a sua postura inicial ao lidar com o assentamento dos sem-terra era negociar. Contudo. p. em especial os televisivos. Vocês estão me tirando daí. A propriedade de Rafael Paz continuou intacta. E por ironia do destino. E é por isso que vou lutando. afirmou que o Estado não negociará com o MST nenhuma dotação de terras em Santa Cruz. in: QUIROGA. Terra e território . Ao final. que substituiu o governo de Gonzalo Sánchez de Lozada derrocado pelas mobilizações sociais de outubro de 2003. Cit. A partir desta demonstração do governo. Calucho recorda bem de um diálogo que teve com algumas autoridades no momento do despejo. “Eu falei pro capitão ‘eu não vou me render nunca. não duraria nem um mês. E vou entrar de novo aí. ‘Mas vocês são uns invasores! Por que fazem tanta desordem?’. mas vou entrar de novo”. porque sou homem e preciso de terra para trabalhar’. Sou boliviano e tenho o direito de ter um pedaço de terra para trabalhar. no dia 30 de maio. Erwin Aguilera.

o movimento sem-terra viu na descoberta das armas a possibilidade de denunciar a ação paramilitar dos latifundiários na opinião pública. até o momento. feito já no primeiro ano do governo de Evo Morales. tenha sido uma prioridade. contrário. No interior dos movimentos sociais. Estabelecer em Santa Cruz um feudo político que blindasse a agroindústria boliviana dos reveses da política nacional foi a saída mais viável encontrada. Contudo. Provavelmente. Talvez a idéia fosse reverter a imagem do movimento sem-terra na Bolívia como um movimento de invasores ilegais. a grande imprensa foi bastante eficaz na inversão de papéis. A conquista efetiva da sua luta foi fazer a sua demanda conhecida em território nacional. Ao final. que. portanto. de expor a improdutividade destes fazendeiros e a necessidade de redistribuição das terras. Isso lhes garantiu. pois isso poderia resultar um efeito multiplicador da mobilização parecido com o que houve em outubro de 2003. Neste último período do governo Mesa. que a partir de 2005 é conquistado por um partido de origem popular. É possível que esta tenha sido uma tendência geral do governo nesta época. Uma outra implicação que teve este conflito de Yuquises foi o questionamento que o setor agroindustrial fez à figura do governador. o que acelerou a sua queda em junho de 2005. a história das famílias de Yuquises se somou às tantas sagas do seu repertório histórico. veremos como esta aparente luta entre governo central e governo departamental vai se desenvolver na reivindicação dos Estatutos Autonômicos. acabou cedendo à pressão dos latifundiários e enviou o exército à região. que a dotação de terras para o assentamento de Pueblos Unidos. e o movimento sem terra mais uma vez foi tomado como ilegal.47 Mesa sabia o risco que correria se enfrentasse militarmente os assentados. Terra e território . promovida pelos movimentos sociais. Mais à frente. os setores de poder econômico da região identificaram a tendência de mudanças radicais no governo central. são os únicos que existem para o setor latifundiário de Santa Cruz. e o cargo de governador era. aos interesses destes setores. Por outro lado. por exemplo. endurecendo o discurso contra os movimentos sociais. no geral. violento e que atacava os direitos de propriedade. se tornou fortíssima a reivindicação regional de que este cargo fosse eleito diretamente pela população crucenha. com grande conteúdo simbólico na região. como vimos. para um movimento de defesa dos interesses públicos e que sofre com os mais diversos ataques aos seus direitos humanos. pois a Bolívia é um estado centralizado e não federativo. indicado pelo governo central.

48 POLÍTICAS AGRÁRIAS NA BOLÍVIA Pueblos Unidos tem este nome porque reúne famílias que vieram de diversas localidades do departamento de Santa Cruz e. Apesar da Reforma Agrária de 1953 proibir o latifúndio. muitas vezes de forma ilegal. Carlos. dos departamentos que ficam no altiplano boliviano – Chuquisaca. Oruro e Cochabamba. contudo. Estes camponeses não tiveram escolha para além de se tornarem empregados em terras alheias e esperavam contar com a sorte para talvez. ela permitia extensões de terra de até 50 mil hectares. os trabalhadores sem-terra espelham uma das histórias mais duras do campo boliviano. algum dia.org Terra e território . o que se reproduziu também no Pacto Militar Camponês. Se no altiplano era interessante manter o ritmo da distribuição de terras para garantir a imensa quantidade de milícias camponesas favoráveis ao regime. geralmente sem nenhum amparo em uma política de interesse público. enquanto ação primordial a “reivindicação de uma verdadeira reforma agrária no oriente boliviano”. o ocidente era utilizado como espaço de barganhas políticas com apadrinhados17. como caracteriza o seu 17. no geral quíchua e castelhano. La Paz. como demonstrou a experiência de Yuquises.ROMERO. portanto. A dinâmica da distribuição de terras entre os anos 1950 até os 1990 funcionou muitas vezes conforme os interesses políticos de cada governo. Como “filhos da fracassada reforma agrária”. Artigo disponível em: www. sendo que há comprovadamente dotações de terra maiores que esta área. Para conseguir isso. latifúndios escondidos sob a denominação empresas agrícolas.cejis. ter a sua própria terra que trabalhar. 19/08/2005. Seus pais vieram do altiplano porque as políticas agrárias na região não evitaram a criação de minifúndios incapazes muitas vezes de garantir a soberania alimentar das famílias que neles viviam. tiveram e têm até hoje que enfrentar uma luta arraigada com as poderosas famílias que controlam as terras do oriente do país. “La violencia como componente del proceso agrario boliviano”. Seus inimigos conquistaram suas terras nos governos nacionalistas. por relações pessoais com os políticos no poder. A maioria dos seus moradores fala pelo menos dois idiomas. O movimento sem-terra boliviano tem. Ali se acomodou a elite com grandes extensões de terras. principalmente.

foram dotados cerca de 23 milhões de hectares a aproximadamente 13 mil proprietários. por a região ter uma grande quantidade de terras baldias... no qual se comprometia a fazer atividades produtivas e se reportar ao Estado. período em que o decreto de reforma agrária de 1953 esteve vigente. os latifundiários rapidamente denominaram as suas propriedades enquanto empresas agrícolas. A intervenção do Estado e a Lei Inra O período de revisão das políticas agrárias durou de 1992 a 1996.). De 1953 a 1992. do governo Paz Zamora. estourou o caso Bolibras. op. p. sete estão com vícios irregulares de nulidade absoluta ou relativa (. 157.CEJIS / FSUTC-AT-SC. ou dividiam as suas terras entre parentes18. p. Estes e outros casos obrigaram o governo a intervir nos órgãos responsáveis – na época o Conselho Nacional de Reforma Agrária e o Instituto Nacional de Colonização – e a propor uma série de ações para reestruturar as políticas agrárias no país. a corrupção nos órgãos de reforma e gestão agrária chegou a um nível insustentável. o que não teria acarretado no oriente a explosão de tomadas de terras tal como houve no ocidente depois da revolução nacional. Aramayo apresenta dados de ilegalidades: “Neste período se pode considerar de que de cada 10 processos agrários que se tramitaram. somente 3%19. os segundos. 159. dirigente Silvestre Saisari. quando foi decretada a Terra e território . cit. no qual o Ministro da Educação Hedim Céspedes. Metade destes proprietários eram grandes.. 19. 20. Além disso. Além disso. Por fim. Talvez por este mesmo motivo não havia organizações sindicais camponesas fortes na região que pudessem liderar o processo. 2006. Na época. O resultado da reforma agrária em Santa Cruz pode ser resumido em números bastante simples.Dados do arquivo do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) boliviano. a antiga reforma agrária distribuía a terra com a condição de que quem a recebia teria que apresentar um plano de investimentos. ninguém revisava o plano de investimentos”. Santa Cruz. Situación y desafíos del movimiento campesino cruceño. p.. Os primeiros detiveram 97% das terras. 162. protegidas pela lei. com propriedades entre um a 500 hectares. não havia uma necessidade direta de desapropriação das fazendas que já existiam. In: CEJIS / FSUTC-AT-SC. quando se viram ameaçados. Não faziam nada. tramitou a seu favor uma dotação de 100 mil hectares de terras20. Uma delas seria a de que as relações entre os fazendeiros e os colonos nesta região possuíam na década de 1950 um grau de exploração diferente do que no altiplano e nos vales. com propriedades acima de 500 hectares – sendo quatro delas maior do que 50 mil hectares. cit.CEJIS / FSUTC-AT-SC. No início da década de noventa. op. As características da malfadada reforma agrária no oriente boliviano poderiam ser ligadas a várias situações.49 18. A outra metade eram pequenos ou médios.

1715. 165. também conhecida como Lei Inra. 173-4. p. a Lei Inra acabou sendo aprovada em agosto de 1996 sem estabelecer consensos com o setor camponês indígena. Este período tinha como função estudar o ordenamento territorial do uso do solo boliviano. indígenas e colonos. não poderia “ser vinculada à solicitação da parte interessada”. mesmo que estas estivessem comprovadamente improdutivas. 162. 23. p. As organizações camponesas indígenas defendiam uma revisão completa das irregularidades nos processos de dotação de terras anteriores. defendia que “a regulação da posse das terras e o seu aproveitamento eficiente fossem determinados pelo mercado de compra e venda destas”22. estabelecer estatísticas sobre o assunto. continha algumas disposições que favoreciam os trabalhadores rurais e que estes mais tarde vão aproveitar.Idem. processo chamado de saneamento agrário. p. junto com o empresariado. 22. de um lado e de outro lado o Poder Executivo e o setor empresarial agrícola. Logo. possibilidade existente na vigência da antiga Lei de Reforma Agrária23. Além disso. o que dificultava ainda mais a identificação de terras sem função social. além de determinar critérios de equidade de gênero para a distribuição e posse de terras.Lei do Serviço Nacional de Reforma Agrária (SNRA).Ibidem. Terra e território . A lei. que continuou o processo de revisão e regulamentação das terras. defendiam a política de distribuição de terras fiscais para camponeses. localizando geograficamente as superfícies que já haviam sido dotadas e aquelas que estavam vazias e eram propriedades do Estado. através das suas entidades representativas. a disputa se dava acerca das diversas concepções do que deveriam ser as políticas agrárias no futuro. O principal ponto negativo era relativo ao cumprimento da função social das propriedades.Ibidem. De forma geral. A principal delas era reafirmar a distribuição gratuita de terras a comunidades. O governo. verificação de cumprimento de função econômica e social das propriedades para eventual reversão dos títulos para o Estado. indígenas e colonos e não para grandes proprietários. de fato. Ao final. Tradução da autora. que logo iniciou uma série de protestos. Lei de No. dificultava muito a reversão das terras ao Estado. portanto. segundo esta lei. Uma demanda do setor camponês que também foi completamente ignorada foi o estabelecimento de limites mais rigorosos 50 21. 168 e p. já que o simples pagamento de imposto era considerado símbolo de não abandono e. pois excluía as iniciativas de controle social dos movimentos indígenas e camponeses. e por fim elaborar as leis correspondentes às conclusões deste processo21. todas estas políticas culminaram na elaboração da Lei Inra. identificar as sobreposições de titulações de terras e as irregularidades cometidas no passado acerca dos assuntos agrários. Uma outra característica negativa era que a expropriação de terras improdutivas. Os debates neste período ficaram polarizados por camponeses.

Cit. segundo um informe da Equipe de Análise de Conflitos do departamento de Santa Cruz. p. p. 212. op..Ibidem. uma em 2000 e outra em 2001. op. Segundo a lei. No decorrer destes anos. Sua característica mais marcante era garantir o direito proprietário das empresas agrícolas.51 24. a lei reproduzia o espírito das políticas neoliberais propostas na época. mantendo o limite estabelecido anteriormente de 50 mil hectares. o setor camponês se mobilizou para agilizar a regularização das suas terras. 177. cit. houve diversas denúncias de corrupção no interior do Inra. A principal delas era o fato da regularização das pequenas propriedades camponesas ou comunitárias serem realizadas de forma lenta ou inexistente por falta de verbas. titulando as propriedades legais. de fato o órgão público tramitava mais rapidamente . como vimos. O Inra departamental de Santa Cruz.Cit. os latifundiários. órgão governamental responsável por efetivar a regularização do território boliviano. secretário executivo da Federação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses Apiaguaiqui Tumba de Santa Cruz (FSUTC-AT-SC) em 2003.e identificando as terras fiscais para a continuidade da reforma agrária e conseqüente distribuição de terras a comunidades indígenas e camponesas. Sua principal medida prática era estabelecer um prazo de 10 anos. teria que ser feita uma análise integral do território boliviano. para terminar a regularização das terras na Bolívia. Tradução da autora. as poucas propriedades camponesas tituladas tiveram os seus trâmites pagos pelos próprios sindicatos agrários ou conseguiram assistência de alguma organização não governamental. 25. revertendo ao Estado as que não possuíam função social política. dificultando todas as formas de fazer cumprir a disposição constitucional que obrigava estas propriedades a terem função social. cita duas mobilizações com marchas de diversos setores camponeses. por exemplo. Além disso. No geral. na realidade. Diego Marquina. com os custos garantidos pelo Estado. 26. 204. “trabalharam muito para legalizar o ilegal”25. in: CEJIS / FSUTC-ATSC. Obviamente. avançaram muito mais na titulação das suas terras. Ou. que resultaram em acordos para acelerar o processo de regularização das terras e que mais tarde foram ignorados26. muitas dificuldades foram encontradas. que já estava comprometida devido às próprias disposições da lei . As negociações do conteúdo da lei que vieram na segunda metade dos anos 1990 foram para favorecer ainda mais o setor empresarial. Paralelo a isso. até 2006. in: CEJIS / FSUTC-ATSC. sendo que as demandas do movimento camponês indígena eram constantemente ignoradas24. Neste período. como disse um dirigente colono em 2003. tinha boa parte dos seus membros ligados à CAO e. cit. p. Mas. estas propriedades teriam que ser tituladas de forma gratuita. Terra e território para a propriedade agrária. por terem verbas para custearem os processos de regularização..

29. Mas até o ano 2000. de localização de terras fiscais e reversão de terras improdutivas. “O Inra. Carlos Eologio Cortez.CEJIS / FSUTC-AT-SC. Uma hipótese que se tira disso é que há terra para produzir. E disso sabem os camponeses do país. ao perceber a morosidade do processo de redistribuição agrária da Lei Inra – se é que se pode dizer que havia algum – os camponeses sem-terra intensificaram as tomadas de terra. 28. 211. até 2006. p. Além disso.Cit. não foi revertido nem um metro quadrado de terras. mas por viverem nas fronteiras com estas propriedades gigantes e improdutivas. tal medida não agilizou o processo e nem o tornou mais transparente. in: CEJIS / FSUTCAT-SC. op. porque em 96 se criou a Lei Inra para regularizar as terras. cit. 211.as demandas dos setores detentores de poder27. Aramayo resume a situação nos seguintes dados: “Dos 109 milhões de hectares que tem o país. Na realidade após anos da antiga reforma agrária e de mais de uma década da Lei Inra. graças à explosão mundial de agrocombustíveis que causou um aumento generalizado nos preços das terras. trouxe problemas aos pequenos produtores e não foram identificadas terras fiscais. mais que trazer soluções. Somente os dados de referência oficiais estão indicando que há uma grande possessão de terra improdutiva e ociosa”. são considerados de vocação agrícola cerca de 15%29. E. que poderiam assegurar uma divisão mais justa do território boliviano. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística.3 milhões de hectares de vocação agrícola estavam funcionando. reclamava um dirigente colono em dezembro de 200328. não havia nada. De fato. contudo. não há. E é por isso que surgi- 52 27. Terra e território . Casos como estes levaram o governo a terceirizar esta responsabilidade a empresas privadas.. por isso o problema está nos maus funcionários do Inra porque não estão cumprindo a lei”. dirigente da regional do MST de Santa Cruz. Tratava-se de um setor absolutamente descontente com as políticas do governo e descrente das supostas iniciativas de reforma agrária. quase eliminando o controle público que se poderia ter do processo. Não somente pelos dados. p. com este objetivo. Tradução da autora.Aproximadamente 16 milhões de hectares. No final da década de noventa. cit.. identifica neste momento o surgimento do movimento sem-terra: “O MST começou nos anos 2000. A declaração demonstra a impaciência dos pequenos trabalhadores rurais com a ineficiência e a desigualdade do processo depois de sete anos de aprovação da lei e faltando três anos para que o prazo final da regularização das terras terminasse. a realidade do campo boliviano continua sendo bastante desigual e demonstrando um potencial imenso para a distribuição entre comunidades camponesas. somente 2. a manutenção destas “terras de engorde” é um negócio cada vez mais rentável. op.

somada às brechas da legislação aproveitadas pelo setor latifundiário. começou a se articular um dispositivo de revisão da Lei Inra. Tratava-se de uma reivindicação dos movimentos sociais. Logo no início do governo. as chances dos interesses das elites locais prevalecerem aos do campesinato aumentavam. Ela começou a ser aplicada a partir da aprovação do seu regulamento. A oposição ao governo começou a boicotar a aprovação da lei no congresso. 3545. além de todas as marchas que proliferavam no país denunciando as políticas agrárias. Logo. impedia a efetiva aplicação da lei. somente em junho Terra e território . a falta de interesse das classes políticas e da burocracia que operava os órgãos de governo.fossem feitas e mais terras estivessem à disposição da reforma agrária. descentralizado na gestão anterior de Carlos Mesa. Também reforça a disposição que já havia na Lei Inra de que a distribuição de terras fiscais para a reforma agrária seria feita para comunidades (indígenas ou não) e não para propriedades individuais de qualquer tipo. que foi chamada de Lei de Recondução Comunitária da Reforma Agrária. Nos seus primeiros decretos. o governo voltou a centralizar o Inra. mas ao final do processo claramente os interesses eram irreconciliáveis. Em teoria. Portanto. Contudo. foi anunciada a segunda revolução agrária da Bolívia. as expectativas camponesas cresceram muito. A principal reivindicação era a revisão da Lei Inra para que as reversões das terras improdutivas – que todos sabiam que existiam . A Lei de Recondução Comunitária Com a chegada de Evo Morales ao Palácio Quemado. o início dos anos 2000 é um período muito intenso de ocupações de terras e de conflitos rurais. para pressionar que estas terras [que no processo de regularização do governo fossem identificadas como fiscais ou fossem revertidas de latifúndios improdutivos] fossem dotadas às famílias sem-terra”. tornando-se a Lei de No. Durante estes meses uma intensa negociação foi tentada com os setores empresariais agrícolas. A Lei de Recondução Comunitária trouxe na prática uma melhor caracterização do que consiste e do que não consiste função econômica social. facilitando a reversão de terras improdutivas em terras fiscais.53 mos. a Bolívia sempre teve um arcabouço legal que proibia o latifúndio e as propriedades agrárias improdutivas. representados principalmente pela CAO e pela Confederação Agropecuária Nacional (Confeagro). Foram necessários onze meses de governo para que a lei fosse aprovada. nome com o qual o governo tem tratado a sua política agrária até o presente momento. pois ficando o poder político do órgão da reforma agrária mais ligado à gestão departamental. e ela só foi finalmente aprovada quando uma intensa mobilização camponesa indígena chegava a La Paz em forma de marcha.

Elva Terceros. muitas vezes somente com o conhecimento do proprietário das terras a serem saneadas. Foi principalmente neste processo que centraram forças os movimentos camponeses e ali conseguiram aprovar a sua principal reivindicação referente às políticas agrárias: uma limitação para a propriedade agrária. antes da lei o controle social estava exclusivamente restringido às comissões agrárias. Limitação da propriedade individual de terras A aplicação destas políticas ocorreu paralelamente ao processo de Assembléia Constituinte. 54 Terra e território .. por empresas terceirizadas. e que foi também conseguida pelos movimentos através da marcha no ano passado [novembro de 2006]”. quando foi aprovado o texto constitucional em detalhe. que. comenta ele. O que estamos reivindicando agora é que ele fique com 5 mil hectares e o resto que vá para o Estado (. Saíram da carta final duas propostas de limitação. “Agora. pois a presença do Estado quase não existia. este controle social foi passado a qualquer cidadão. é muito confiante no processo de reversões agrárias que inaugura a lei. 5 ou 10 mil hectares. concretizará politicamente as medidas do governo Evo Morales. percebe na lei um grande avanço no que diz respeito ao controle social dos movimentos sociais rurais no processo de saneamento e titulação de terras. Além disso.) [Assim] vai sobrar muita terra para os que não têm em nosso país”. “Tenho certeza que em alguns anos teremos pelo menos 10 milhões de hectares para distribuir a nossos irmãos em todo o país.. aponta Carlos Romero. também passará por uma consulta pública a nova Constituição. Isaac Ávalos.de 2007. “Porque um empresário tem meio milhão de hectares e um camponês tem dois hectares. que iniciou em 2006 e terminou no dia 9 de dezembro de 2007. o Estado voltou a ser protagonista do processo de saneamento. Esta é a política que o presidente lançou com esta nova lei. que ainda precisam passar por um processo de referendo que deve acontecer em 2008. Antes. Qualquer cidadão pode ser denunciante de terras que não são trabalhadas”. onde estão as expressões coorporativas e de poder econômico deste setor. Nunca se sabia ao certo o que passava entre eles. processo este que também causou batalhas midiáticas entre governo e setor agrário empresarial. secretário executivo da CSUTCB. Isaac Ávalos defende a proposta de limitação de 5 mil. segundo ela. o processo era feito quase às escondidas. Com a lei. se aprovada... Junto com este referendo. investigadora de temas agrários na Bolívia. acabando com as terceirizações e aumentando a participação de setores sociais no processo. membro do MAS e também especialista em temas agrários.) O povo dirá: voto pelo latifúndio ou voto pelo 5 mil (.

Seria generalizar um enfrentamento com o oriente e se uniriam contra o governo madeireiros. diz que a proposta é feita com base na realidade altiplânica sem levar em conta realidades culturais e econômicas da região oriental do país. É exatamente esta certeza de Blanes que preocupa Patrícia Molina. o acúmulo da comissão que ele presidiu não apontava para nenhuma limitação. “Se a população se inclinasse pelos 5 mil hectares. que também foi deputado e presidente da Comissão Terra e Território na Assembléia Constituinte. “Tecnicamente. Mas de qualquer forma ele aponta que no processo constituinte.). “Eu creio que esta medida assim como está. Ela considera que se realmente é possível limitar a propriedade de terras. mas o minifúndio em terras tropicais é de 20 hectares (. Minifúndio em terras altiplânicas é de um hectare.. . para que realmente seja efetivo e não seja somente um discurso”. prevê ele.. coordenadora geral do Fórum Boliviano de Defesa do Meio Ambiente (Fobomade). Por questões de rendimento de escala. fazer uma campanha pelos 10 mil hectares. mas o problema é ter uma efetiva regulamentação da limitação. cana. portanto creio que neste tema ainda tem que procurar consensos. pois não vê força política do governo para efetivar a medida.. segundo Romero. pois “entendíamos que isso deveria obedecer a estudos multidisciplinares e a muitas considerações técnicas”.. é muito importante como se regulamenta isso. pode significar quase nada. Ele chama a proposta como fundamentalmente política e sem base em nenhum aspecto técnico. creio que seria muito difícil de administrar o tema pelos operadores da política agropecuária. a limitação na nova Constituição foi “uma medida política antes que técnica e deveria ser essencialmente técnica”. não se pode submeter a este tipo de limitação. seria um grande avanço. A grande extensão de produção de soja. Ou.). boiadeiros. agricultores. pelo contrário. “Isso será papel molhado. Eu posso dividir a minha possessão com minha família e igualmente mantenho tudo o que tenho. fazendeiros. é impossível pensar uma agricultura que tenha limites de 5 mil hectares. sem ter uma série de outras regulamentações. Então. Para os setores empresariais e para alguns intelectuais a proposta de limitação de terras é tida como descabida. Crê que ela servirá mais como uma bandeira que como uma política efetiva. você não pode dizer até 10 ou 5 mil (. pesquisador do Centro Boliviano de Estudos Multidisciplinares (Cebem). aponta que a proposta de 10 mil hectares seria mais viável. Porque isso é uma visão de terra do ocidente que não corresponde com a visão de terra que tem o oriente”. Eles propunham que o poder executivo posteriormente apresentasse uma lei que contivesse estes aspectos.55 Terra e território Já Carlos Romero. José Blanes. Mas. e povos originários”. algodão. que sim seriam mais administráveis”.

sendo que 31% estavam em processo e mais da metade. junho de 2007. de culturas de entendimento do território diferentes. Este aceleramento do processo. o governo de Evo Morales teve que enfrentar outro problema.Além disso. diz ela. foram mantidos através de créditos nunca pagos ao Estado e “agora. Ao mesmo tempo. haviam sido completamente regularizados somente 11% do território nacional. além de trazerem diversos impactos ambientais como o esgotamento do solo e o desmatamento. Não se trata. Regularização das terras em tempos de Evo Com relação à política agrária. A soja é subsidiada. fatores não questionados por Blanes. Basta de pensar o que temos para ver o que exportamos”. o que está em jogo na questão agrária boliviana são modelos de desenvolvimento. portanto. Con los pies en la tierra – Observatorio de la Revolución Agraria en Bolivia. Propomos pensar o nosso desenvolvimento a partir do nosso estado atual (. Se isso é cortado.FUNDACIÓN TIERRA. que ainda cobravam resultados mais efetivos. Molina questiona a própria forma adotada no oriente de monocultivo. em especial os do oriente do país. Neste sentido. é a exportação.. porque se subsidia o diesel. La Paz. as elites estão preocupadas porque não têm esta fonte de subsídio eterno”. “o que cria problemas ambientais e sociais. porque não é competitivo. a soja não existe. apesar de não ser em um ritmo desejado pelos camponeses do país. 41. nem haviam começado30. 1. O primeiro exemplo foi a própria 56 30. Houve consenso entre oposição e governo para prorrogar o prazo por mais sete anos. Deveríamos procurar outra coisa que sirva para as demandas locais”. no início do mandato. Nesta data.). p. Terra e território . O desenvolvimento tem que ser pensado desde dentro e para resolver as nossas necessidades. “O que complica a vida”. latifúndio e tipo de produção agropecuária voltada somente para a exportação. Ele iniciou quando faltava menos de um ano para terminar o prazo da Lei Inra de regularização e consolidação da propriedade agrária na Bolívia. 58%. o governo Evo Morales já havia declarado que este saneamento agrário na Bolívia estava em estado de emergência e abriu concursos para a contratação de mais funcionários para o Inra. No. Contudo. foco dos maiores conflitos agrários. Molina defende um modelo voltado principalmente para os interesses internos do país: “Nossas necessidades se resolvem facilmente. Ela aponta que os monocultivos de cana-de-açúcar ou de soja. mas sim de interesses econômicos que predominam na região e que não tem eco em interesses gerais da população. começou a intensificar as parcerias com a cooperação internacional para o financiamento do processo em vários departamentos. Então se está mantendo algo que teoricamente não deveria existir.. conseguiu ao menos render frutos no que diz respeito à cessão de alguns territórios fiscais aos indígenas e aos sem-terra. estabelecido para outubro de 2006.

quantidade populacional. estamos falando de quase 20 mil hectares. manejo florestal e outros usos produtivos. O segundo exemplo. foi a da Terra Comunitária de Origem (TCO) Monteverde. pois muitos companheiros têm uma visão bastante individual”. Agora estamos novamente recuperando isso. uma prova de aplicabilidade desta visão comunitária. apesar de sabermos que este não é um processo simples. mesmo sem que a principal política dela – a efetiva limitação da extensão de terras para evitar o latifúndio .tenha sido aplicada ainda. não se havia distribuído a uma comunidade terras com estas características”. comenta Aramayo sobre Pueblos Unidos. territórios que foram tituladas em favor dos indígenas. E neste processo do movimento sem-terra. quando antes somente havíamos chegado a algo em torno de 2 milhões. mas sim de dotações de terras que já pertenciam ao Estado antes. dotadas com terras fiscais. puderam obter seus títulos executoriais. “Na antiga reforma agrária havia comunidades inteiras que possuíam somente 20 hectares. Então. de junho de 2007. fazendo um cálculo grosso modo.por suas características em extensão de superfície. há avanços substanciais e especificamente para os povos indígenas”. localização estratégica da área . já que “o coletivo é Terra e território . mas que não estavam sendo muito bem fiscalizadas e que muitas vezes eram alvo de ocupações indevidas de fazendeiros.um fato único em toda a história da vida republicana. estamos em cerca de 26 milhões de hectares titulados como TCO. A revolução agrária e o “salto qualitativo” Estes exemplos fazem com que os dirigentes do MST falem da revolução agrária aplicada pelo governo com muitas esperanças. Isso faz deste processo . mais recente. a visão coletiva dos nossos ancestrais foi desaparecendo. durante a vida republicana que teve o nosso país. portanto. que foi dotada já em agosto de 2006 de um território de 16 mil hectares para a produção agrícola. Contudo. Estas duas dotações são tidas pelos movimentos enquanto exemplos concretos da revolução agrária que estaria acontecendo no país. A experiência de Pueblos Unidos tem sido. que em muitos casos estavam praticamente paralisadas na sua tramitação como a TCO Monte Verde. No período de 96 a 2006. Saisari localiza neste processo a importância da recuperação dos valores comunitários. “As TCOs [Terras Comunitários de Origem]. Estamos falando que em mais de 180 anos. “Percebemos que. Eu diria que no governo de Evo Morales. havia comunidades de três mil hectares.57 comunidade do MST Pueblos Unidos. nenhuma delas foi resultado de expropriações de terras improdutivas. Carlos Romero aponta um grande avanço na consolidação de territórios comunitários neste processo de saneamento.

como também o resto da sociedade deste projeto. mas sim um meio. reforma agrária não é a simples entrega da terra. conclui. “O que agora está acontecendo com Pueblos Unidos é um processo que estabelece uma perspectiva para os próximos 50 anos”. sobretudo. Pois a partir da consolidação de um assentamento e da “luta pela efetivação dos direitos econômicos. esta perspectiva só é tão forte porque muitas comunidades. do território. Enfim. sociais e culturais” das famílias desta comunidade . pois “eles estão convencidos que o capitalismo é a 58 Terra e território . como já afirmamos anteriormente. é convencer não somente os outros movimentos. foi ter se fechado em imediatismos. mas também a gerar um modelo de relações econômicas. o acesso às terras não é uma finalidade do movimento. Para a gente. e que somente assim esta prioridade pôde ser reforçada na Lei de Recondução Comunitária e na nova Constituição. poder reproduzir e manter a sua cultura e seus costumes – é iniciado um processo de empoderamento da comunidade. Ela passa a adquirir capacidade de governança. de alguma forma as duas perspectivas convergem na luta contra a visão de que a terra é uma mercadoria como qualquer outra. coletiva. que busca um equilíbrio entre homem e natureza”. acumulada na vida sindical boliviana.. Ele comemora o fato de que isso hoje já é um consenso entre eles.. apesar de reconhecer que os latifundiários do oriente do país não aceitarão a proposta com muita facilidade.). A posse e a gestão comunitária de terras se devem mais a esta referência ao passado indígena que Saisari pontua do que a uma concepção socialista de combate à propriedade privada. De fato. sem propriedade individual. das famílias. de todos os meios que se utilizam para conformar uma nova comunidade (. sociais e políticas distinto. abandonando as perspectivas de transformação da sociedade. Saisari é otimista. de poder ter acesso às terras.que seriam a garantia de soberania alimentária. O erro da primeira reforma agrária. Ela é a construção de uma nova sociedade. segundo o Saisari. mantiveram as suas gestões comunitárias sob o nome de sindicato agrário. sobre uma base ideológica. que permitiria dar um outro salto qualitativo. pontua o dirigente. Contudo. como sempre foi. Segundo Aramayo. sempre foi convencer os outros movimentos camponeses e indígenas que se deveria dar prioridade ao modelo de comunidades coletivizadas. elas se misturam quando Saisari explica o que seria o projeto de reforma agrária que o movimento defende: “Para a gente uma reforma agrária é quando há uma participação completa do Estado. Igualmente. A estratégia. no desenvolvimento das comunidades e das famílias”. dos recursos. diz ele. em que somente alguns tantos são os beneficiários. não somente para administrar as questões relativas à terra. O desafio.a alternativa que reivindicamos como organização para o futuro.

Para isso. Nosso país demonstrou isso. que ele é o meio para continuar aumentando a pobreza. Aponta a necessidade de que os movimentos sociais tenham meios de comunicação para fazer este embate ideológico e demonstrar que a sua proposta é possível. mais do que simples propaganda.59 única solução para o mundo sair da pobreza. Nós entendemos o contrário. haverá uma luta constante”. Bom. e disso depende o sucesso de Pueblos Unidos e das demais comunidades que estão sendo formadas de forma comunitária. Terra e território . os dirigentes do MST têm a convicção de que é necessário demonstrar na prática a viabilidade da sua proposta. mas eles não entendem assim.

com dificuldades de acompanhar as notícias acerca do governo de Evo Morales. Terra e território . organizada e mantida por uma equipe de onze membros da comunidade. milho (200 hectares) e arroz (200 hectares). em Pueblos Unidos o desafio se expressa numa percepção generalizada de que se a comunidade der certo. A presença de 350 famílias no território de 16 mil hectares foi estabelecida através de um cálculo de aproximadamente 50 hectares por família. com plantação de soja (450 hectares).Alternativa Bolivariana para as Américas). insumos e sementes. cujos técnicos e engenheiros ensinam o núcleo de produção a trabalhar com tratores a manejar os fungicidas. herbicidas. a comunidade recebeu do governo uma parte do maquinário utilizado na área de cultivo comunal. é provar que a comunidade sabe produzir. Destes. milho. frutas. mais famílias vão ter acesso a terras para trabalhar. Muitas famílias. viveram cada momento da luta para conseguir esta dotação de terras e valorizam muito os espaços conjuntos de discussão. contudo. Boa parte dos recursos para os investimentos iniciais de Pueblos Unidos veio do TCP-Alba (Tratado de Comércio dos Povos . para subsistência ou para venda externa. Nas assembléias. Os outros 45 hectares são destinados aos interesses comunais e podem servir para diversas atividades produtivas. até cinco podem ser trabalhados individualmente. verduras e legumes variados.60 DESAFIOS PARA PUEBLOS UNIDOS “Nós sabemos produzir” Cerca de 300 km ao norte de Santa Cruz. Assim. portanto. desde que os seus plantios individuais sejam suficientes para a sua subsistência e para garantir algum dinheiro para cobrir uma ou outra necessidade. A produção nas terras coletivas ocupa cerca de mil hectares hoje. não se importam muito com os rumos que são dados aos territórios coletivos. Outras. etc. pouco se interessam pelas assembléias e reuniões da comunidade. que financia combustíveis. reproduzida nas palavras de vários companheiros. Além disso. são plantados arroz. Nestes pequenos terrenos. Esta produção é toda mecanizada. batata. a idéia fixa. etc. Para impulsionar a produção foi contratada uma empresa.

A empresa que lhes dava assessoramento técnico lhes obrigou a vender sua produção de soja muito cedo. Vedia comenta sobre mais uma que ficaria responsável pelo transporte dos habitantes da comunidade. com produção mecanizada e presença de seus produtos de forma competitiva no mercado. Como não há caminhos que ligam a comunidade à estrada de terra. participando inclusive do conflito em Yuquises. dentre eles a família Paz que detinha a propriedade de Yuquises e que têm uma relação de ódio com o movimento. Além disso. por ser vanguarda de todo um processo. de que tudo isso será decidido e gerido pela comunidade nas assembléias comunais. Os latifundiários vizinhos. bandeira importante do movimento sem-terra também na Bolívia. instância máxima de decisão. querem instalar uma empresa madeireira para aplicar um manejo florestal ecológico na comunidade. O segundo seria o compromisso com uma cultura democrática de decisões através de assembléias comunais. sem abuso dos dirigentes. mas sabe escrever bem e antes de se juntar ao movimento sem terra já havia trabalhado como administrador de propriedades. Fala quíchua melhor que castelhano. Trata-se da difícil . os boicotaram continuamente. a produção teve que ser escoada de barco. Ele enfatiza. já seriam quatro unidades produtivas. Depois de consolidar a produção agrária mecanizada. pois também têm grandes extensões ecológicas que não poderiam ser economicamente exploradas de outra forma. e acabaram vendendo tudo abaixo do preço de mercado. Ele esteve no movimento sem-terra alguns anos antes da chegada a Pueblos Unidos.mas também recompensadora . Mas houve muitas dificuldades no primeiro ano. A produção é suficiente para alimentar as famílias. contudo. o cumprimento estrito dos mandatos políticos que são dados. Sente-se feliz por agora ser seu próprio patrão e explica com entusiasmo todos os planos produtivos que a comunidade tem. um migrante de Potosi. O terceiro aspecto seria a responsabilidade desta comunidade. O primeiro deles seria o compromisso histórico com a manutenção ecológica do território que ocupa. Para além da vontade da comunidade de provar que um território comunal pode ser produtivo em larga escala. e para isso teriam ainda que comprar meios de transporte. os rios e as lagoas que há no território os fazem pensar também em criação de peixes e ecoturismo. Os planos produtivos citados por Vedia já demonstram o desafio que enfrenta a comunidade. Uma parte considerável da plantação se perdeu por causa das inundações no início de 2006.61 Terra e território Carlos Vedia. fechando estradas e impedindo que levassem seus produtos aos mercados.tarefa de criar autogoverno. há todos os aspectos ligados à responsabilidade política da comunidade. chefia a equipe de produção. de apoiar as comunidades que se estão formando. mas muitas estão sem reservas em dinheiro para arcar com gastos que podem vir para além da . Com estas propostas.

dos Agrônomos e Veterinários Sem Fronteiras (AVSF). “Para muitos dos camponeses sem-terra. mas o modelo de produção adotado ainda é um aspecto central. por que não? Mas desde uma perspectiva de primeiro garantir a sua comida e a sua produção”.. Mas se é o mesmo modelo de produção baseado em esgotar o solo.. defende o modelo de agricultura familiar. Ele acredita que um assentamento como o de Pueblos Unidos sim traz muitos avanços. pensa que este problema é reflexo de não haver uma preocupação de construir modelos de produção familiar também no oriente boliviano. transporte. Roberto Aparício. porque não tem a possibilidade de transformá- 62 Terra e território . educação. diz ele. que lhes impõe a sua forma de cultivo com muita utilização de agrotóxicos e fertilizantes.. Parece-me que está muito bem exportar. ou seja. o modelo não é a agricultura familiar. de oferecer o que pede o mercado do norte. em ter uma lógica de exportação. depende necessariamente da promoção da pequena agricultura familiar. um intercâmbio de produtos a nível mundial. As contradições que existem em utilizar mecanismos de produção agrícolas presentes nas grandes fazendas latifundiárias no seio de um movimento que surge como contestação deles ainda não são tão evidentes para a comunidade como um todo. Aponta. A empresa que lhes dá assessoria técnica foi escolhida por um simples critério técnico e a utilização de agrotóxicos e de mecanização generalizada é feita sem levar muito em conta seus impactos ambientais. O pequeno produtor tem que vender seu produto. claro.. porque nunca viram um modelo de agricultura familiar ali [no oriente] que funcionasse e que permitisse viver dignamente”. fosse de mil camponeses. Ele conta que a sua instituição. Já seria melhor. por questões de justiça social e ocupação de território. isso não soluciona o problema (.). para uma maioria não pode funcionar”.alimentação – médicos. bens de consumo variados. Neste sentido. “O modelo que os camponeses têm no oriente é o modelo do fazendeiro. “O grande produtor é dono de outras partes da cadeia. tão ameaçada mundialmente com a inflação de alimentos. que é dela que provém a maior parte dos alimentos consumidos na Bolívia e não da agricultura em grande escala e de monocultivo do oriente. sem encarar muito os outros aspectos do desafio. Por estes e outros motivos. Este é o modelo exitoso e todos querem ser fazendeiros (. “Para mim parece mais justo socialmente e mais interessante para os bolivianos que uma propriedade que tem mil hectares de quinua e que é de uma pessoa sozinha. além disso. funciona muito bem para elites. a preocupação da comunidade tem se focado na produção.). é a própria indústria que tem terras. a garantia da soberania alimentar na Bolívia. E este sistema. Patrícia Molina aponta também que os camponeses do oriente dependem das cadeias de produção agroindustriais.

63 Terra e território .

na produção de sementes. Estão presentes cerca de setenta membros da comunidade. todos estão desconfiados. O contrato é lido em voz alta. Vedia. procedimentos parecidos os prejudicaram na venda da sua produção. no controle de pragas etc. pois neste momento brigamos com a fome que temos”. com o desmonte talvez não ordenado. sozinhos. Chama a atenção também o fato de haver muitos homens jovens. Garrafas de plástico viram barcos de navegação. as suas potencialidades. antes que o trabalho no chaco comece. reconhece que há muito que desenvolver na comunidade e confia que com o tempo e com a consolidação financeira. Chove. exigem que haja fiscais da comunidade no momento do exame da qualidade e de pesagem dos grãos. No ano anterior. poderão ter verbas para estruturaram melhor os seus projetos ecológicos. É dia 8 de outubro de 2007. Assim. a mesma que oferece assistência técnica à comunidade. solteiros e sem família ainda. sabemos que estamos gerando o mesmo problema. ou que esta estabeleça uma data para retirar a sua produção. Então. com as pragas. “Muitas vezes. Elas se limitam a tirar as suas dúvidas com os companheiros ao lado e a vigiar as crianças que brincam ao redor da sede. contudo. querem se informar 64 Terra e território . Eles estão discutindo o contrato da venda de mil toneladas de soja. Reunião comunal Às sete horas da manhã.los. estes produtores estão à mercê destas empresas. proposto pela empresa Fênix. não podemos dar conta disso”. Agora querem pesquisar bastante antes de assinar qualquer contrato. os riscos que se pode cometer. Ele faz a chamada das diversas comunidades que vivem em Pueblos Unidos e coordena o restante da reunião. fertilizantes e pesticidas”. secretário geral da comunidade. uma unidade que classifique as espécies. “O manejo ecológico não pode existir se não há uma pesquisa. Não concordam com a proposta de que a colheita seja feita pela empresa. que são evitadas pelos adultos e comemoradas pelas crianças. explica ela. que ajude outras comunidades no manejo ecológico. E por isso mesmo. os sem-terra se reúnem na sede. e a reunião precisa acontecer cedo. Muitos pontos são destacados. que lhes provêm sementes. Ele comenta que a intenção final é que Pueblos Unidos seja um centro de propagação de inovação tecnológica. segunda feira. planejamos ter um fundo comum para contratar técnicos e pesquisadores. 24 anos. É o caso de Davi Moreno. fruto da produção deste final de ano. Além disso. Mas agora é muito difícil pensar que vamos fazer um manejo sustentável desde o princípio. a sede está cercada de poças d’água. dentre eles menos de dez mulheres e nenhuma pede a palavra.

somente coordene os custos operativos e necessários para os seus investimentos de produção e Terra e território . O que fazer com o dinheiro comum? A venda da produção comunal obviamente dará ganhos para a comunidade em cifras muito superiores a qualquer pretensão isolada de um pequeno camponês. com linguagem técnica jurídica. Com ele. Assim como queremos ser autônomos com relação ao Estado. sempre foi um símbolo de injustiça. Desta forma. caminhos. a comunidade pretende ser autônoma da ajuda do Estado e de ONGs. mas na condição de empréstimos. a piscicultura e o ecoturismo). Segundo a sua experiência de lutas. Este processo é demorado. “Nada será presenteado.65 mais acerca do mercado de soja e acerca dos procedimentos jurídicos deste tipo de negociação. Finalmente encarregam Nazário Quispe. a letra escrita pomposamente. mas a comunidade já discutiu alguns parâmetros de utilização dos recursos. A idéia é que a comunidade em si não acumule capitais. assim como investir em tecnologia agrícola própria. que siga as orientações políticas do movimento. além de muitas críticas públicas de seus companheiros. Nazário também leva muita responsabilidade. A principal preocupação é evitar que os recursos sejam apropriados de forma individual. poderá desenvolver outras unidades produtivas (como o manejo florestal. Vedia esclarece que os recursos também serão utilizados para oferecer créditos aos camponeses da comunidade. da qual eles poderiam retirar verbas para as suas próprias produções. Primeiro os recursos serão utilizados para pagar as dívidas feitas para impulsionar os primeiros cultivos. pois sabe que um erro seu acarretará em muito prejuízo à comunidade inteira. responsável pelos contratos e de levar o documento a Santa Cruz para que seja revisto por um advogado e ser renegociado com a empresa Fênix. mas é a única forma de tentar garantir que não haja atropelos e que todas as famílias fiquem informadas e possam opinar acerca dos rumos da sua propriedade. Funcionaria como uma reserva comunal. membro do diretório executivo da comunidade. Com o tempo. será possível dividir entre os habitantes de Pueblos Unidos o dinheiro de cada colheita. A decisão do que fazer com este dinheiro é complicada. explica Vedia. os camponeses daqui têm que aprender a ser responsáveis”. quando já tiverem um maior excedente. A prioridade é que ele seja utilizado para sustentar a produção comunal. contratação de professores e compra de medicamentos. que sirva para fazer reinvestimentos na produção da comunidade. estes recursos também deverão ser utilizados para a construção de infraestrutura para a comunidade. Além disso.

prepara a alimentação da família e também vende aos visitantes da comunidade refeições durante o dia inteiro. Os cultivos seguem por alguns anos até que finalmente é estabelecido um período de descanso para estas terras. pontua o administrador da produção da comunidade. Aceitando a provocação do marido. As cinzas penetram no solo com as primeiras chuvas de outubro e novembro. atravessamos algumas centenas de metros da plantação coletiva de soja. antes da chegada das novas chuvas. Terra e território . se costuma plantar arroz. 66 31. Depois. é a primeira plantação que faz com a segurança de que vai poder fazer a colheita e vender o seu produto.desenvolvimento. “Não vamos acumular capitais. a terra toda manchada de negro pela queimada. Ex-dirigente. A empolgação com a sua plantação compensa o desinteresse que Calucho sente pelos assuntos políticos hoje. Logo chegamos a uma área desolada.Chaco é uma parcela de terra. pelo contrário. Para chegar ao chaco de Calucho. Com a resolução de assentamento emitida pelo Inra. Calucho preparou as suas terras com um procedimento chamado chaqueo. Logo. Acredita que os tempos mudaram. agora ninguém os poderá tirar destas terras. com troncos espalhados pelo chão. pode-se plantar milho ou mandioca. Isso permitiria que alguém que tenha dinheiro acabe por se intrometer na comunidade. quando este período termina. e depois. as terras negras estarão cobertas de pequenos pontinhos verdes. e ainda nesta semana ele vai começar a plantar arroz. Vem ver seu chaco!” Enquanto estamos nos preparando para visitar o pequeno lote de Calucho. o mato cresce. A terra descansa. pois para isso teríamos que ter ações. Não que Benita faça pouca coisa. Como a grande maioria dos camponeses bolivianos. “Vem. fertilizando a terra. nos nossos regulamentos e estatutos está bastante claro”. Trata-se de uma forma antiga de lidar com a terra e que consiste em limpar um terreno novo e depois queimar o mato cortado. logo depois que começam as chuvas. Ela cuida do filho e da venda. Não há espaço para isso. Calucho acabou de chaquear cerca de cinco hectares. no momento de paz e com as terras praticamente regularizadas. amarra Caluchito nas costas e nos acompanha na visita ao chaco31 recém preparado. A memória de toneladas e toneladas de arroz sendo perdidas em Yuquises ainda é muito viva em todos eles. este reclama que a sua mulher nunca foi visitar as suas parcelas de terra. se faz um novo chaqueio nos meses de agosto e setembro. Ali. Ele está empolgado. mulher. ele separa com saudosismo os velhos e os novos militantes do movimento semterra. podendo até comprá-la. A primeira chuva da primavera aconteceu na madrugada anterior.

Chaqueos. todos ajudavam. é muito contundente com relação a isso: “Houve diferentes processos neste país de incentivar a colonização. O fenômeno se estende para áreas de reservas ecológicas. Hoje ele se identifica como um militante de base. o calor fica insuportável. 70% deles estavam em Santa Cruz. não quer mais ser dirigente. Como sozinhas poderiam elas causar tanto dano ambiental? Patrícia Molina. Disponível em:http://www. “A queima de terras florestais é uma prática antiga. desmatamento e impactos ambientais Antes das primeiras chuvas de outubro e novembro. E a pecuária às vezes não tem muito sentido... A ação de camponeses e indígenas na derrubada 32. sendo que as pequenas propriedades camponesas ocupavam uma extensão ínfima de terras. cita outros dados. Esquecia esta matéria da real composição rural do oriente boliviano. Além disso. os problemas respiratórios das crianças triplicam. ameaçando gravemente a fauna e a flora da região. a comunidade inteira se sensibilizava e dava um jeito de tratá-lo.. conhecida como ‘chaqueos’. com o cultivo intensivo de soja. O latifundiário.. O mato é tombado para pôr vacas e desta maneira conseguir que se verifique que se está fazendo algo nas terras e que lhes dêem o título”. que também faz parte do Fobomade. mas nunca são comparados ao que gera os grandes latifundiários (.67 sente que o espírito não é mais tão coletivo quanto era há alguns anos.La Opinión. porque sai mais barato comprar carne do Brasil pelas dificuldades de transporte.).opinion. As direções políticas do movimento agora não têm nem idéia do que foi o passado de luta. Tradução da autora. o desmatamento avança incessantemente 300 mil hectares ao ano. majoritariamente ocupado por grandes propriedades agrárias. E estes chaqueios dos grandes são destinados à pecuária. É justamente a grande expansão agrícola a responsável por isso. se alguém tinha algum problema. e desmata enormes quantidades de terras (. Se havia um doente. segundo ele. informava que dos 17 mil focos de incêndio. o transporte de grupos humanos do ocidente ao oriente que gerou processos de desmatamento. quando vê um negócio... do Fobomade. Então isso está vinculado com a consolidação da terra.). explicava o jornal La Opinión sobre a destruição de mais de dois milhões de hectares com queimadas32. o departamento de Santa Cruz sempre está em estado de alerta. “De acordo com dados da Superintendência Florestal em 2007. bo/Portal.html?CodNot=56 06&CodSec=3. mas também com a conversão de terras para a pecuária (. consegue créditos. Terra e território .com.). realizada pelos indígenas e camponeses nesta época do ano para ter mais áreas de cultivo e evitar gastos em outros tipos de programas adequados para transformar a sua agricultura”. Antes. Javier Aramayo. As queimadas realizadas na área rural deixam toda a atmosfera da região cheia de fumaça.

Para Aramayo. além disso. o problema do desmatamento via chaqueio é no fundo um problema causado pela escolha de um modelo de produção que não tem compatibilidade com a manutenção do meio ambiente.e queima dos bosques não é feita em grande escala e foi realizada durante centenas de anos e nunca provocou este tipo de impacto ambiental”. é até positivo em alguns setores tropicais para promover a re-vegetação. Molina aponta. que prioriza o monocultivo em grande escala do que a “diversificação produtiva e agroecológica orientada para a soberania alimentar”. controlado e em pequena escala. que há estudos que comprovam que o chaqueio feito pelo camponês. 68 Terra e território .

A ocupação do assentamento é. onde havia muitas madeireiras. estas famílias ainda não contam com nenhuma resolução de assentamento. Chegou em Santa Cruz quando tinha vinte e poucos anos. na província de Ichilo. Com o tempo. participando das suas lutas nacionais.69 TIERRA PROMETIDA. pois as famílias que lá estão não sabem se vão poder ficar nesta área por muito tempo. nós temos uma pasta grossa assim. débil. Mas é ao contrário. Nesta época. estas comunidades se consolidaram enquanto comunidades do MST boliviano. segundo as . “Não sei porque se separaram. Terra e território A oeste de Pueblos Unidos. Algumas começaram a ter discordância com o projeto de dotação coletiva e logo passaram a se denominar sindicatos. se encontra a Comunidade Agroecológica Tierra Prometida. A demora na dotação de títulos e nos trâmites do processo de legalização do assentamento causou muitas fissuras nas comunidades. somente duas se mantiveram enquanto movimento sem-terra.Camba é o termo para denominar a população das terras baixas. Nós temos um processo de trâmite bem avançado. Diferente de Pueblos Unidos. que são collas-camba33. UMA OUTRA EXPERIÊNCIA SEM-TERRA 33. Este assentamento surgiu antes mesmo da existência organizada do movimento sem-terra. Ele é um dos que iniciaram o processo de ocupação destas terras. há quase dez anos. e nestas terras se casou e teve quatro filhos. com um movimento que iniciou nestas mesmas terras desde 1999. eram assessorados pelos sindicatos locais. As outras logo passaram a se chamar sindicatos agrários. portanto. explica Celestino Pacheco. Só falta para a gente conseguir a nossa personalidade jurídica. Encontraram terras desocupadas que poderiam se assentar e logo foram formadas cinco comunidades. Eles tem um memorial pequeno. Das cinco comunidades que havia. Um grupo de camponeses da região se organizou para ocupar algumas terras da reserva Choré. também no norte de Santa Cruz. Talvez porque pensavam que como sindicatos iam conseguir os títulos mais rápido. Ali estão assentadas cerca de cem famílias. uma outra comunidade do MST. o que a prefeitura nos está negando”.

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queiram os camponeses habitantes da área ou não. diz ele. Ele mesmo foi nas duas últimas marchas nacionais convocadas e aprecia estar . ao exemplo de seu pai. Provavelmente. cenoura. Não queremos matar muita floresta. queremos reflorestar com árvores frutíferas. eu já conheço e não gosto. o MST participa de vários movimentos. Plantava cebola. Porque se a gente derruba as árvores. não querem saber de nada. é mais difícil”. a terra está seca. Além disso. “Nós temos uma outra idéia de trabalhar a terra. não tem financiamento. e apresentava as terras enquanto um território único. E depois. Carlitos Vedia. nem que sejam pequenos proprietários. quero terra para trabalhar”. se saírem os papéis de titulação.. Como todos os integrantes da comunidade. segundo a legislação nacional. tudo era floresta. tomate.) Quando eu cheguei aqui. seria bom. para simplificar os caminhos burocráticos. Migrante de Oruro. em nome de uma organização que representa as cinco comunidades. Sebastiana Ortiz. se trata de uma disputa entre ter a propriedade coletiva ou ter a propriedade individual. Sozinhos. diz Celestino. O trâmite da titulação é um problema que depois estas cinco comunidades (duas do MST e três sindicais) vão ter que resolver. diz que a principal vantagem do movimento sem terra em relação aos sindicatos é que em comunidade é possível ter mais apoio para o desenvolvimento produtivo: “Os companheiros nos disseram que em comunidade pode vir muita ajuda. congressos e marchas. que também faz parte do movimento sem-terra da região. “aqui faz calor. a prioridade de dotações de terra é dada a comunidades. não a indivíduos. Porque às vezes queremos plantar madeiráveis. classifica os sindicatos como mais tranqüilos.. não falta comida”. No fundo. de fazer um trabalho conjunto. Na realidade. que morrem aos 40 anos devido aos rigores da profissão. logo o vento passa e espalha o fogo para todos os lados. Em comparação. pimentão. Porque não há nada ainda. Os assentados em Tierra Prometida também são unânimes em afirmar que o movimento semterra tem mais preocupação com o meio ambiente que os sindicatos. Porque tem companheiro que pega a sua terra para fazer negócio e eu não quero terra para negócio. organizar pesca e não tem ajuda. sempre falta dinheiro”. não queria seguir o destino dos mineiros da região. era uma beleza. “Isso de sindicato. Se vem. de 12 mil hectares. fica seca e não dá mais para plantar nada.71 Terra e território suas palavras. que também está no assentamento desde a sua fundação. “Santa Cruz é um paraíso”. a terra perde umidade. acredita que estes sindicatos só se formaram pela ganância dos seus camponeses. madeiráveis. Pacheco lamenta as suas divisões. (. estes serão coletivos. Ele foi iniciado antes da sua divisão. Agora.

Neste momento. a ferida não cicatrizava. Vivem nos povoados que ficam por perto. as cinco comunidades”. não há quase nenhuma infraestrutura para viver. De lá. De Tierra Prometida. participaram 60 pessoas na marcha. eles não têm muita segurança em produzir na comunidade e a parte comunitária das terras não é cultivada. No momento. Depois. falta estrutura para tudo. Como não têm titulação das terras. contando sempre com a ajuda da sua irmã para se alimentar. que nunca desistia.sempre participando de tudo. ele foi levado ao Hospital Viedma. uma semana se passou até que a necessária operação na sua perna fosse feita. diz Carlitos. completando quase trinta dias de caminhada. Tesouro e XV de Agosto. de Recondução da Reforma Agrária. 72 Terra e território . nem que seja em cima de quatro patas” Com esta frase Crescencio Torres concluiu a nossa conversa. em Cochabamba. sendo que dez alcançaram a cidade de La Paz. antes era bonito. apesar dos anos que estão lá. “Tem que continuar caminhando. a exemplo da de Pacheco e Sebastiana. Além disso. A titulação não chega. como Enconada. um bravo lutador de Potosi. Antes não. não lhe permite andar com firmeza. A participação de Crescencio foi interrompida perto de Cochabamba. dentre elas Crescencio. matando duas e ferindo mais nove. todos se dividiram e ele. A grande maioria das famílias. Tem uma ferida na perna que não se cura e. “Agora somos só dois grupinhos. portanto. Não tem esposa nem filhos. além de tudo isso. Ele foi vítima de um atropelamento durante a marcha de novembro de 2006 que pedia a aprovação da Lei 1715. que também relembram os áureos tempos de unidade. Crescencio foi transferido para a Clínica de Acidentados nesta mesma cidade. está muito desanimado. Por causa da demora na liberação de verbas do seguro de acidentes do motorista. quando pela manhã estavam levantando acampamento para continuar a marcha. um motorista atingiu desgovernadamente várias pessoas participantes da marcha. esteve na organização dos que foram pela primeira vez ocupar as terras que hoje chamam de Tierra Prometida. onde iniciou a sua demorada recuperação. A inspiração dela veio quando falava de seu pai. não pode trabalhar. A perna continuava infeccionada. Os motivos são variados. O primeiro deles é que em Tierra Prometida não tem um poço d’água profundo. As divisões causaram muita mágoa nos camponeses. Crescencio é também um militante antigo. sempre correm o risco de despejo. vive em uma pequena cabana em Enconada. todos juntos. não mora em Tierra Prometida. Sabem que.

Após fazer um extenso relato acerca do seu tratamento médico. mosquitos e furtos.Estas informações foram retiradas da carta de Thomas Siron. que ajudou Crescencio no seu primeiro ano de convalescença. mas agora já não possui cobertura do seguro do motorista. diz Crescencio. Como os feridos de outubro negro em El Alto. A cabana em que vive o deixa sujeito a goteiras. Crescencio terá que passar por outra cirurgia. uma das placas teve que ser retirada e. Quando recebe visitas. Crescencio foi vitimado enquanto lutava por seu povo. Contudo. as dores se mantinham. Em junho de 2007. Andrade. fala do seu acidente com desânimo.73 34. a ferida se cicatrizou. Ele me acompanhava sempre no hospital. Para se recuperar. em uma sociedade sem mais dominação. como o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. com pinos mal postos e placas impróprias para curar seus ossos. onde todos e todas tenham sua terra e o seu direito a se reproduzir”. Thomas teve que voltar para França para entregar a sua tese. A cirurgia custa 1500 dólares e ele ainda não tem idéia de como vai arrecadar este dinheiro. mas também uma causa de justiça social. também atrapalha bastante na sua recuperação. já que nem o dinheiro das passagens até Cochabamba para fazer as consultas ele tem34. um estudante francês que fazia o seu doutorado sobre o Movimento Sem Terra boliviano. prefere mostrar a carta escrita por Thomas. médico desta clínica. Por último. está descrente de tudo. voz baixa. Mostra as radiografias. em setembro de 2007. por sua classe e pela sua pátria e para conseguir dias melhores para todos. Sua alimentação irregular. a operação feita após o acidente foi inadequada. o motorista irresponsável. mas a fratura na perna não se restabeleceu. desde então. é um médico e possui uma clínica privada em Monteiro35.A Bolívia não conta com um sistema de saúde público que garanta atendimento gratuito à população. que até agora não respondeu juridicamente pelo caso. sua recuperação física e moral (já que o abandono não ajuda a recuperar suas forças) não é somente uma causa monetária. a carta termina assim: “A causa de Crescencio. Ironicamente. Não pode trabalhar. ainda que não com balas. “Foi um dos poucos que me ajudaram. que exprime em palavras claras os motivos para a sua revolta angustiada. mal consegue andar. Segundo o Dr. identifica os pinos mal postos. foi um filho de Deus”. sem muito cálcio. Terra e território . Crescencio não vê resultados no processo que está sendo levado contra o motorista. 35. Crescencio foi acompanhado desde o princípio por Thomas Siron.

Conta que há muitas dificuldades no movimento estudantil da UAGRM. Converso com um grupo de jovens que fazem parte da juventude do município. nasceu em San Julián. isola Santa Cruz do norte do país. Eles são responsáveis pelo segundo bloqueio que será instalado em alguns minutos. estamos reunidos no grande galpão da Federação de Colonos de San Julián. habitada principalmente por colonos migrantes do altiplano. mas ele se considera crucenho. que vai acontecer no dia seguinte. Ele sempre volta em fins de semana para sua cidade natal.74 A BATALHA DE SANTA CRUZ Bloqueio em San Julián São oito horas da noite. mas não estão ansiosos. capital do departamento de Beni. onde participa com mais intensidade das movimentações sociais. mas estuda na Universidad Autónoma René Gabriel Moreno (UAGRM). sabem exatamente onde são os pontos estratégicos. A cidade de San Julián é famosa pela sua localização estratégica e. A cidade. filha de migrantes. Jovens como Mario participam de bloqueios desde muito pequenos. em direção a Trinidad. A ação serve para impedir que as urnas do referendo cheguem a San Julián e também demonstra o repúdio dos habitantes locais ao processo. A maioria dos jovens que está ali reunida é assim. ao bloquear a estrada. como funciona o sistema de turno e o que fazer em caso de conflito. O motivo do bloqueio esta noite é o referendo sobre o Estatuto Autonômico de Santa Cruz. trabalhadores e camponeses. de 23 anos. considerado por eles um documento separatista. é conhecida por ser o bastião do MAS-IPSP no departamento de Santa Cruz e se opõe veementemente ao Estatuto Autonômico. é composta por estudantes. San Julián fica na estrada que corre pelo norte de Santa Cruz. em Santa Cruz de la Sierra. 4 de maio de 2008. Seus pais são migrantes. além de sempre fraudarem as eleições. orquestrado pelas elites empresariais locais para impedir os avanços do Terra e território . Mario Cruz. pois os grupos conservadores são apoiados pelo reitor e financiados pelo Comitê Cívico. camba-colla.

que fica na entrada da cidade. Junto deles estão muitos jornalistas. alguns carros chegam da parte sul da estrada. Ainda enquanto montam a barricada. e as risadas são gerais. Edgar Renjifo. passa um caminhão de frigorífico. Os jovens gritam. com roupas esportivas e camisetas azuis justas. vamos fazer um churrasco!”. dirigente da juventude. “não deixem passar. Por este motivo. que se organizaram depois do aparecimento da UJC para demonstrar que têm um posicionamento político diferente. Em uma assembléia convocada para o dia 3 de maio. a mesma organização que havia surrado o dirigente do MST Silvestre Saisari na praça principal de Santa Cruz. com suas câmeras de vídeo e máquinas fotográficas. Portanto.75 Terra e território governo Evo Morales. . demonstrando a sua falta de legalidade. a Corte Nacional Eleitoral (CNE) considerou ilegal o referendo crucenho. Atrás delas está escrito Juventude Che Guevara. As pessoas tentam escolher uma posição na qual a fumaça passe menos. Eles foram convidados pelos colonos de San Julián para garantir a segurança do bloqueio. Querem registrar o início do bloqueio e todos os conflitos com os automóveis que querem passar e não podem. começando naquela mesma noite. pois não sabem exatamente se virá e por onde virá a UJC. além de convocar o bloqueio de 24 horas. Além disso. San Julián adotou uma tática mais ousada. A juventude de San Julián vai em uma caminhonete até o seu ponto de bloqueio correspondente. a tática dos opositores ao estatuto é não participar da consulta. Logo. nenhuma organização internacional reconheceu o processo. O caminhão é o último liberado para passar. pneus são espalhados pela estrada e incendiados. Cerca de uma hora depois que o bloqueio foi instalado. De fato. Ele tem que ser convocado pelas autoridades nacionais”. eles decidiram que nenhuma urna seria aberta no município. e possuem nas suas costas diversas acusações de agressões aos direitos humanos. explica que o maior problema do referendo de aprovação do estatuto está na sua legalidade. Há uma certa apreensão dos colonos com relação a isso. no dia 7 de março de 2008. Deles saem jovens muito fortes. Há ameaças de que virá para acabar com o bloqueio a Unión Juvenil Cruceñista (UJC). “Não é um mecanismo presente na Constituição e as autoridades departamentais não tem o poder de convocar este referendo. mas é inevitável que depois de alguns minutos a sensação de sufoco seja geral. Eles atuam como espécie de braço armado do Comitê Cívico de Santa Cruz. mas falta um pouco de formação política. Um amigo jornalista me esclarece que eles se constituíram no interior das academias de musculação e que apóiam o governo de Evo. São jovens de bairros da periferia de Santa Cruz.

a população que estava espalhada pelos demais bloqueios começa ir em direção a Los Angeles. croatas. Haviam visto passar há pouco o jovem que tinha sido atropelado. Ao final do dia. “Falavam ‘ganha a autonomia e vão embora os collas de Santa Cruz’”. E a gente está aqui há milhares de anos”. eles ainda ficaram chutando e batendo nele”. Chegando lá. Já na entrada da cidade 76 Terra e território . Mas se são justamente eles que são descendentes de espanhóis. Elite crucenha. presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz e de Marta Cardoso. os ânimos já estavam mais calmos. Branco Marinkovic. lamenta um deles. deixando San Julian em paz com o seu bloqueio. Ao saber disso. notária local que tentou promover a abertura das urnas. Explica-me que houve uma tentativa de abertura de urna em uma das comunidades que fazem parte de San Julián e que eles estão indo para lá. Armas improvisadas. Alguns ficam. Uma cholita vai recolhendo pedras na estrada. caiu da van que o levava e teve as suas pernas atropeladas. os insultos racistas da briga anterior ainda ecoando fortemente na memória. ponto do conflito.Na manhã seguinte volto às barricadas. racismo e polarização Eu voltei para Santa Cruz um dia depois do referendo autonômico. “Eles dizem que a gente é de fora. os colonos de San Julián conseguiram fazer com que ninguém votasse no referendo na cidade. e todos sentem muito ódio. Felizmente. Um dos seus. alguns jovens pegam galhos de árvores ao lado do acostamento. A tensão é grande. a UJC não havia aparecido na noite anterior. Um menino. dizia outro. Os caminhões param algumas centenas de metros da escola onde as urnas foram abertas. Depois de se interarem melhor dos acontecimentos. americanos. “Depois que o menino caiu. No caminho. com olhos vermelhos e o rosto um pouco sujo pela fumaça. a maioria dos camponeses começa a voltar aos seus respectivos bloqueios. ambos migrantes de Potosi. Converso com dois camponeses de Brecha Casarabi. Os promotores do referendo haviam fugido. Edgar ainda está acordado. uma comunidade de San Julián. vem a notícia de que houve um ferido no conflito entre os inspetores de urna e os moradores de San Julián. Acompanho parte desta população. tentava fugir dos que defendiam a manutenção do referendo. todo machucado. Fizeram um ato de encerramento do bloqueio. num caminhão em direção a Los Angeles. que não é de Santa Cruz. contava um camponês que estava presente no conflito antes. da parte dos colonos. queimando bonecos de Rubén Costas. governador de Santa Cruz.

Mas agora mesmo eles utilizam isso. coisa que. Apegam-se e tomam o termo camba para poder ter créditos com uma grande massa da região. Esta construção de um povo que cita Ximena se refere à construção da identidade camba. que foram convocados pelo governador para guardar as urnas.). motor produtivo agrário do país. Os moradores deste bairro. pela cultura de organização e resistência do ocidente boliviano. “O discurso regional. e quem se apropria desses recursos (. Os crucenhos se orgulham da sua hospitalidade e simpatia com visitantes. Contudo. inimigos a serem combatidos dentro do território crucenho. conhecidos por serem mais fechados.77 36. que os patrões utilizavam para os indígenas. oriente contra ocidente. É um engano. Constroem um povo a partir de um inimigo comum.com. Santa Cruz. toda a insatisfação política.. social e cultural da população se choca com o inimigo. dificilmente acontece. O ataque é feito sob uma perspectiva geral de que o governo boliviano é centrado somente no altiplano e que. Os migrantes do altiplano são. o discurso do conflito das regiões acima de qualquer outro conflito social e econômico é resultado de um populismo de direita. portanto. atual vice-presidente da Cidob. houve fortes conflitos. O motor disso é um regionalismo muito arraigado. encobre a luta pelo excedente. 24/04/2008. principalmente no bairro popular Plan 3000. houve um enfrentamento mais violento do que o de San Julián.brasildefato. designação que no passado era equivalente a um peão. sem questionar a estrutura interna desse país ou região”36. Era o pior. No dia anterior. É um populismo de direita (. explica que não há uma cultura camba. onde os setores pobres. Pedro Nuni. que . e que servia para borrar as várias identidades indígenas da região. o intenso racismo das demarcações sociais em Santa Cruz. O fascismo constrói o judeu como o culpado de tudo. se posicionaram contrários ao referendo. colono servo das fazendas. que vê no resto do país o seu opositor e a causa de todos os problemas que enfrentam a população crucenha. Essa é a experiência fascista. para o os camponeses. entre os moradores e os jovens da UJC.. sempre foi colocada em um segundo patamar. a polícia interveio com gás lacrimogêneo e um senhor morreu de ataque cardíaco. Só são aceitos se se submetem ao discurso regionalista hegemônico da região.)... sempre se opondo aos compatriotas do altiplano. br/v01/agencia/entrevistas/aheranca-racista-e-oligarca-daelite-de-santa-cruz/ Terra e território podia ver pichado nos muros “passaporte para os collas”.Brasil de Fato. Disponível em: http://www. É normal que um estrangeiro seja muito bem recebido em Santa Cruz. na sua maioria também migrantes. Para parar o tumulto entre os dois bandos. “o termo camba é depreciativo. era como dizer ‘vocês são um lixo’. Segundo a socióloga Ximena Soruco. entrevista feita por Igor Ojeda. contudo. pelas riquezas naturais. Ali. poucos turistas percebem a moeda oposta desta simpatia. cambas contra collas. econômica.

Tradução da autora. mas o que conta é a lógica. e ‘eu também sou igual a você’”. principal organização de viés separatista em Santa Cruz. os indígenas e camponeses.. que. 39. 2008.). 40.. cit. Trata-se de uma descrição heróica do passado colonizador. “No oriente não há uma renovação de elites. e. na época do auge da borracha. Ximena (coord.A proposta de Estatuto Autonômico crucenho reconhece somente cinco povos indígenas. José Luís Roca. 78 37. (. El poder en Santa Cruz ayer y hoy. As elites que surgiram tiveram que incorporar as demandas dos movimentos sociais. O porta-voz deste discurso é o Comitê Cívico de Santa Cruz. como a do estanho.ROCA. Santa Cruz. Não é um problema de família.. Ximena (coord.). O comitê se tornou o grande defensor dos interesses da elite crucenha. mas que se permite uma mescla difusa com a cultura indígena local. Seu modelo econômico é o extrativo do século 19.. com fortes resquícios hispânicos: a cultura camba”38. Apesar de ter um longo histórico e do seu grande apelo popular. cit. deve-se assimilá-la como mão-de-obra”40. p. que as tenham questionado. Enquanto no ocidente. claro. op. O retorno à democracia e o período 2000-2005 também questionam e derrotam essas elites. não passou por um processo de modernização a exemplo de outras elites bolivianas. que querem que estejamos com eles. chegaram a Moxos. E o racismo contra a população indígena é da mesma época. E eles dizem que somos queridos. maior expoente do fascismo boliviano. o discurso regionalista é claramente impulsionado por uma minoria que detém o poder econômico em Santa Cruz. esta gente errante e audaz configurou um espaço onde prevalece uma cultura mestiça sui generis. indígenas.. Wilfredo Plata. um dos intelectuais entusiastas da cultura camba. também sociólogo. que transformam seu discurso de acordo com o contexto (. houve a Revolução de 1952. José Luis apud SORUCO.) até as primeiras décadas do século vinte quando se apropriaram definitivamente das planícies chaqueñas. Los barones del Oriente. as que empobrecem e as que enriquecem.. Fundación Tierra. MEDEIROS. expõe que por detrás deste discurso integrador do índio das terras baixas. sobrenomes que continuam.) et al. Gustavo.SORUCO. operários. populares. a elite crucenha se manteve com a mesma lógica da sua formação. cuja diversidade de povos indígenas não são passíveis de identificação precisa39. Começaram por Chiquitos.. op.somos nós. fato bastante evitado pelos exaltadores da identidade camba37. como aponta Soruco. no oriente há uma acumulação histórica de elites.. Enquanto a elite mineradora foi derrotada pela Revolução de 1952. Wilfredo. 107. Há famílias que entram e que saem. Há. sendo que o oriente boliviano contém mais de 30 populações étnicas diferentes. não há movimentos sociais. 38. em busca da borracha. se não for para exterminá-la. 101-166. camponeses. Terra e território . p. organização formada na década de 1950 com influência da Falange Socialista Boliviana. Pois.Brasil de Fato. Esta criação étnica por parte das elites crucenhas é materializada na Nación Camba. alcançaram o Rio Madeira (.) Enquanto no ocidente há uma acumulação histórica de movimentos sociais. se esconde um histórico de ocupação violenta de terras e extermínio étnico. do sangue espanhol. pontua: “Os crucenhos necessitaram três séculos para completar a ocupação do oriente. PLATA.

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diz Soruco. Esta elite aposta então no discurso da autonomia regional, na construção do inimigo comum altiplânico, aproveitando-se da dispersão dos movimentos sociais da região. “No passado, o discurso autonomista recorria ao argumento do isolamento geográfico e da marginalização das decisões políticas estatais, ou seja, à falta do Estado em um vasto território. Na etapa contemporânea, o argumento é inverso. Ou seja, a invasão por parte dos migrantes collas promovida pelo Estado centralizador – ou seja, muito Estado – e a apropriação dos indígenas das terras altas dos recursos naturais, considerados exclusivos dos crucenhos”, diz Plata41. Um dos exemplos que Plata utiliza para demonstrar este autonomismo moderno é uma citação de Sérgio Antelo, membro da Nación Camba: “Sob o argumento de que ‘todos somos bolivianos’ e temos direito a tudo que supostamente contém o país, foram socializadas ‘as terras sem dono’ que se encontram no ‘Oriente selvagem’, (...) o que deu origem a invasões étnicas sobre territórios que não lhes correspondem (...) nem por história, nem por falsos direitos constitucionais”42. Antelo aparentemente se esquece de que os territórios que hoje correspondem ao departamento de Santa Cruz um dia também foram por sua vez invadidos - não somente “etnicamente”, mas também culturalmente, militarmente e economicamente - pelos seus tão enaltecidos antepassados hispânicos. Contudo, a maior contradição que há no discurso desta elite é que ela foi justamente o único setor da sociedade crucenha beneficiado pelo Estado “andino-cêntrico”. Após o auge da borracha no século XIX, esta elite entrou em decadência e só conseguiu se reestruturar a partir da Revolução Nacional de 1952, quando a política agrária do MNR promovia a agroindústria no oriente boliviano. Desta forma, houve inúmeros créditos e ajudas estatais, como o deslocamento de mão-de-obra do ocidente, para conformar uma nova burguesia agrária baseada nas recém criadas empresas agrícolas. De fato, foi a ditadura de Banzer, que durou de 1971 a 1978, que deu extensões imensas de terras a esta elite, consolidando o modelo do latifúndio desta região. Os cultivos cíclicos desta região, como a cana e a soja, foram os únicos de fato a obter subsídio do Estado boliviano. Contudo, se muito do apoio material vinha de dentro do território nacional, esta elite sempre teve as suas perspectivas voltadas para fora. A começar pelo modelo de produção da região, exportador desde a época da borracha. “Essa burguesia nacional, que foi criada pelo Estado nacional, tem uma visão local, regional. Está olhando o exterior, mas localmente. Não olha para o ocidente. É uma visão antinacional”, diz Plata43. Por isso, não está minimamente preocupada com soberania alimentar da população

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41.SORUCO, Ximena (coord.) et al., op. cit., p. 162. Tradução da autora.

42.ANTELO, Sergio (negrito no original) apud SORUCO, Ximena (coord.) et al., op. cit., p. 143. Tradução da autora.

43.Brasil de Fato, op. cit.

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44.Citação retirada do filme boliviano Quien mató la llamita blanca?. Tradução da autora.

boliviana e em criar políticas agrárias que respondam às demandas internas do país. Mas além das perspectivas econômicas estarem voltadas para fora e para a exportação, as perspectivas culturais desta elite também se voltam para fora. È um regionalismo que resgata o passado hispânico e aponta para referentes culturais dominantes norte-americanos para se definir. Ignora completamente a existência de uma cultura boliviana geral. Há poucos anos, tornou-se um escândalo nacional a declaração de uma Miss Bolívia: “Infelizmente as pessoas que não conhecem muito sobre a Bolívia e pensam que somos todos índios. É o lado oeste do país, La Paz, a imagem que reflete isso, estas pessoas de baixa estatura e índias. Eu sou do outro lado do país, do lado leste, que não é frio, é quente. Nós somos altos, somos pessoas brancas e sabemos inglês. Este conceito errôneo de que a Bolívia é somente um país andino está equivocado. A Bolívia tem muito a oferecer e este é o meu trabalho como embaixadora do meu país, fazer com que as pessoas saibam sobre a diversidade que temos”44. Yayita Toledo, que representava a Bolívia no concurso de Miss Universo em 2004, falava sobre os preconceitos que os estrangeiros têm sobre o seu país. A aparente regionalização da política Contudo, no panorama político atual boliviano, as elites crucenhas ganham um papel de destaque nacional. A oposição mais forte ao governo de Evo Morales não é encabeçada por partidos tradicionais, mas sim pelo Comitê Cívico de Santa Cruz. Diversos intelectuais apontam como causa deste processo a grande crise do sistema político boliviano, que estourou no início deste século com as mobilizações de 2000 e ainda persiste. Reflexo desta crise é a baixíssima votação que os partidos tradicionais tiveram na última eleição nacional frente à esmagadora vitória do MAS-IPSP, de 53,7%. Em 2005, o MNR, partido do anterior governo, obteve somente 6,5% dos votos; a UN (Unidade Nacional), liderada pelo ex-empresário Samuel Doria Medina, que pertenceu ao MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) anteriormente, obteve 7,8%; e o Podemos (Poder Democrático Social), agrupação liderada por Jorge Quiroga, ex-ADN (Ação Democrática Nacionalista, partido de Hugo Banzer) obteve 28,6%. José Blanes aponta como uma das causas deste processo a Lei de Participação Popular. A lei regionaliza a política, incluindo no processo institucional as lideranças locais, que antes somente estavam envolvidas com as organizações sociais. “Então, uma estrutura de participação na gestão do Estado é aberta, e ela absorve uma quantidade muito grande das lideranças que antes eram somente lideranças sociais, e agora são polivalentes. Ao mesmo tempo em que é um líder social, pode ser um líder estatal.

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por exemplo. de classe. No coração da Europa havia uma nação muito forte desde a Segunda Guerra Mundial. mas ao mesmo tempo há mais clientelismo que nunca”. E pode ser anedótico. colombianos e peruanos. Mas. que foi amplamente questionado pela esquerda e pela direita. não descartam a possibilidade de estar em marcha uma tentativa de “balcanização” da Bolívia. que controlam as melhores terras produtivas do oriente e a Câmara de Hidrocarbonetos é controlada pela Petrobrás. E este perigo existe na Bolívia. aparece como um conflito de regiões. seria um golpe de Estado. o conflito entre estes dois pólos.Os partidos começam a se regionalizar”. em seus melhores representantes. todas as declarações das Forças Armadas Bolivianas deram pleno respaldo ao governo de Evo e à integração nacional. Nunca deixaram de procurar militares que estivessem dispostos a isso”. Uma outra possibilidade. como os comitês cívicos. mas nos perguntamos: por que o embaixador dos EUA na Bolívia45 é o mesmo que foi o representante dos EUA na época do fracionamento da Iugoslávia?”. Pablo Regalsky vê uma imensa influência brasileira na presença destes atores: “A CAO tem enquanto núcleo fundamental os sojeiros brasileiros. governador de Cochabamba. como a CAO e a Câmara de Hidrocarbonetos de Bolívia. mas ganha com muita força em sua relação com o Estado. de caráter não-fragmentador do território nacional. Philip Goldberg. e que em uma guerra nos anos 1990 se converteu em diversas nações. professor de sociologia da Universidad Mayor de San Andrés. possui atores no seu interior que não são exclusivamente da região. De fato. O Comitê Cívico de Santa Cruz. Há mais mobilização que nunca. fechando os limites da democracia representativa para os setores de poder econômico boliviano. Terra e território . foi assessor político na Bósnia e acompanhou de perto o processo da guerra civil iugoslava e o posterior julgamento do presidente sérvio Slobodan Milosevic. Toda 82 45. “Por isso é que a experiência iugoslava tem que ser tomada em conta. até o momento. Na crise deste Estado-nação. “Eu creio que tentaram golpes e vão continuar tentando. diz Paz. chegou a pedir às forças armadas que interviessem no governo para garantir um processo mais democrático de Assembléia Constituinte em novembro de 2007. Intelectuais como Eduardo Paz. Manfred Reyes Villa. há mais representação que nunca. De fato. ex-militar e aluno da Escola das Américas no Panamá. o desgaste da direita tradicional transforma as organizações sociais regionais. com a possibilidade de que políticas radicalizadas sejam implementadas com um apoio majoritário da população. Blanes conclui que o resultado deste processo é uma mistura explosiva de Estado com sociedade civil “Eu diria que por um lado a sociedade perde identidade como sociedade civil. Mas os partidos tradicionais já não conseguem lidar com esta nova situação política e são amplamente rechaçados nas eleições a partir de 2000 como símbolos da velha política. Tal fragmentação só pode ser pensada no contexto do governo de Evo Morales.O atual embaixador norteamericano da Bolívia.

Ou seja. E o governo. de se converterem em administradores de recursos importantes. Pando. “Eu creio que neste momento deveria estar claro de que eram empregados do Poder Executivo. Sobre o arco de alianças que a direita articula no país. com todos os canais de televisão e os jornais (. que era uma herança dos governos anteriores (. Como vimos no caso de Yuquises. acabou permitindo que ela se ampliasse”. no início de 2005 o conflito agrário no norte de Santa Cruz era fortíssimo. podem dali boicotar qualquer impulso parlamentar para mudança. o governo Mesa hesitou para adotar uma postura violenta contra os sem-terra. Nacionalmente. na verdade está plenamente respaldada pelo projeto expansionista. que os nomeia. incluindo também as empresas petroleiras: “Quais são os atributos da oposição? Tem cinco instrumentos. que se converteram nos tesoureiros dos comitês cívicos. as empresas petroleiras. estes últimos começaram a questionar fortemente a figura do governador.. Neste momento. a autonomia departamental perdeu. Sob a mesma pressão que levou às eleições diretas para governadores. A conformação dos governos departamentais opositores se deu logo em 2006. diz Paz.. através de uma administração cada vez mais independente. Quarto. E quinto.. Paz identifica cinco principais instrumentos. Houve também erros do governo Evo que permitiram este grande fortalecimento das regiões “opositoras”.A atual Constituição Política do Estado boliviana prevê que os governadores sejam nomeados pelo Presidente da República e dependem administrativamente do Ministério da Presidência. Terra e território esta ofensiva política da direita. que era considerado pouco agressivo por eles. Beni. o Poder Judiciário. lhes deram muitas possibilidades de ter poder desde de janeiro de 2006. Terceiro. são os cambas’. que são convertidos em um grande instrumento articulador de toda a oposição a Evo Morales. no primeiro ano do governo de Evo. Estas eleições não eram previstas constitucionalmente46 na Bolívia e. um acordo foi feito com o recém eleito presidente Evo Morales.83 46. a Embaixada dos EUA. que de maneira muito sutil e hábil foi articulando aonde tinha influência todas estas forças para debilitar o governo”. a reivindicação de que os governadores fossem eleitos aumentou muito e junto com as eleições presidenciais chamadas em 2005 (dois anos antes do previsto). Mas em quatro departamentos. Por ter maioria no senado. foi convocado um referendo para determinar se a Bolívia seria um país centralizado ou com autonomias departamentais. Neste embate entre camponeses e latifundiários. ao invés de controlar esta administração.). para que estes governadores pudessem ocupar seus cargos. Segundo. que não tinham poder autônomo próprio.. que as pessoas dizem ‘são os crucenhos. indicado pelo governo central. para fomentar mobilizações populares e grandes campanhas publicitárias contra o governo.. O problema é que estando Evo Morales respaldado pela lei.. foram chamadas também eleições diretas para os governadores.). os meios de comunicação. Santa . imperial brasileiro”.

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se apresentava em Santa Cruz o texto final do Estatuto Autonômico da região. o governo central ou os departamentos. a oposição se retira e se nega a estar presente nas sessões que determinam o texto final. É uma verdadeira guerra de versões na disputa de quem tem mais legitimidade para efetivar políticas estatais. não somente eles ganham autonomia de ação. explica ele. “Veio a nacionalização dos hidrocarbonetos e grande parte da renda petroleira é destinada a estes governos. como no recente caso dos Estatutos Autonômicos. não é a autonomia em si. ao mesmo tempo em que Evo Morales apresentava à nação o texto final da nova Constituição Política do Estado (CPE) no Palácio Quemado em La Paz. pois os governos departamentais ganham uma porcentagem do Imposto Direto dos Hidrocarbonetos (IDH). estes departamentos concretizam ações que podem ser consideradas desobediências civis. a Constituinte não se concretiza como tal. O maior problema da autonomia departamental que é aplicada hoje. Esta situação culmina no dia 15 de dezembro de 2007. mas ganham recursos econômicos. não há nada que regule a gestão dos governos departamentais e que os ligue à gestão nacional. Desde então. os que conformam as terras baixas bolivianas ao leste e ao norte do altiplano. E o que fazem os prefeitos? Deixam de prestar contas ao Estado. Estes quatro departamentos são chamados de “meia-lua”. Ao perceber que o consenso não seria viável e que o MAS era a força majoritária do processo. Por ser uma medida inexistente no arcabouço legal boliviano. Paz ainda cita um outro fator que fortaleceu estes governos departamentais opositores: o aumento da arrecadação graças à política de nacionalização dos hidrocarbonetos. redigido por ilustres locais que nem sequer foram eleitos para tal atividade. quando. . e a partir desta demanda passaram a fazer oposição ao governo. apresentados como continuação da vontade popular expressada em 2006. Propagada como um espaço de consenso nacional tanto pelo governo quanto pela oposição. A partir deste momento. suas autoridades locais se prenderam a esta demanda comprovada por autonomia departamental. O ano de 2007 foi inteiramente marcado pelas disputas acerca da Assembléia Constituinte. o “sim” ganhou. Portanto. adquirem cada vez mais independência e usam estes recursos para se fortalecer contra o governo central”. que se apresentam factualmente como estados separados. a sua tática passa a ser deslegitimar a Constituinte e incentivar a criação dos estatutos autonômicos dos departamentos da meialua. Então. mas o fato dela não ser regulamentada.85 Terra e território Cruz e Tarija. Estas verbas são utilizadas para organizar manifestações sociais pró-autonomia ou para fomentar campanhas publicitárias contrárias ao governo. pelas profundas divergências entre os dois grupos.

Beni e Pando47. por exemplo. está nas entrelinhas deste processo uma briga profunda sobre a terra e a garantia de continuidade da estrutura agrária da região. Esta análise é extremamente importante porque. e a agenda da meia-lua. acompanhada do referendo de limitação da extensão da propriedade agrária. O Estatuto Autonômico estabelece taxativamente que toda a administração agrária será competência departamental. o que impediria. Ou seja. já que importantes núcleos de poder como o senado são hegemonizados pela oposição. O departamento de Santa Cruz. que tem que fazer passar por referendo a sua CPE. o estatuto determina a criação do Conselho Agrário Departamental (Artigo 106) e do Instituto Departamental de Terras (Artigo 107). foi vanguarda de todo este processo e anunciou o seu referendo autonômico para o dia 4 de maio. seu funcionamento é completamente independente das disposições nacionais agrárias. como o Inra. que uma possível limitação de terras tenha efeito na região ou mesmo que o trabalho cotidiano do Inra na verificação do cumprimento de função econômica e social seja feito nas propriedades agrárias crucenhas. que “assinará todos os títulos agrários que creditem a propriedade sobre a terra e se encontrem dentro da ju- 86 47. que possui a maior população dos quatro. A agenda do governo central. “O direito proprietário sobre a terra. ambos sem nenhuma conexão com as entidades afins já existentes em nível nacional. Mas é o Artigo 109 que escancara a vontade das elites crucenhas de administrar as terras da região sem o mínimo de controle social. mais além de todas as disputas sobre autonomia ou não. Terra e território . Enquanto isso. ameaçada pelas medidas anunciadas pelo governo. o governo central ainda enfrenta problemas para aprovar a data dos seus referendos. é necessário fazer uma análise do Estatuto Autonômico de Santa Cruz. Este artigo estabelece um poder imenso do governador. apesar da Corte Nacional Eleitoral ter declarado o processo nulo.Pando e Beni fizeram as suas consultas no último dia 1o. Tarija fará a sua consulta no dia 22 de junho. a regularização dos direitos. Estatuto Autonômico e interesses agrários Para finalizar a história desta suposta briga entre regiões. Ele serviu de forte referência para a formulação dos demais estatutos que estão neste momento em processo de aprovação em Tarija. de junho. que quer aprovar os seus Estatutos Autonômicos.O ano de 2008 começa então com duas agendas. Para concretizar este poder absoluto sobre o território crucenho. a distribuição. redistribuição e administração das terras no departamento de Santa Cruz é responsabilidade do Executivo Departamental e estará regulado através de uma lei departamental aprovada pela Assembléia Legislativa Departamental” (Artigo 102).

Eu li uns folhetos também que diziam que a terra vai continuar como antes. que é uma medida que existe em qualquer país do mundo para realizar obras públicas”. segundo ele. Por quê? “Por Santa Cruz. isso é o que nos dá desconfiança (. mas bem elimina os mecanismos que já estão previstos na legislação agrária vigente. Conta mais neste processo o sentimento de pertencimento local. sentimento incorporado inclusive por alguns migrantes. tenho netos crucenhos. faltando dois dias para consulta e mesmo sabendo de todos estes problemas. de acordo com princípios constitucionais. permitindo a sua inscrição no Registro de Direitos Reais”. e no estatuto não há isso. Ele reconhece muitos dos problemas do Estatuto Autonômico: “Há artigos que não estão bem. Por exemplo. os estatutos não vão mudar nada.. “O estatuto não prevê nenhum mecanismo efetivo de redistribuição de terras. Então.87 risdição do Departamento Autônomo de Santa Cruz. que é “proteger as terras” do setor latifundiário. Mas a população urbana de Santa Cruz aparentemente não acredita que estas questões são tão relevantes.). o que também demonstra que a campanha pelo não-comparecimento teve resultados significantes. Tomara que seja para bem”. Os resultados finais do referendo mostraram um grande apoio popular ao estatuto. mais do dobro do padrão de abstenção da região. Terra e território . nem sequer a expropriação. Contudo. eu me sinto crucenho. trabalhei aqui 14 anos. demonstram o verdadeiro caráter do estatuto. Segundo dados da Corte Departamental Eleitoral. Não menciona a reversão. A política do governo [central] reparte as terras fiscais aos que não têm.. afirma que vai votar favorável ao estatuto. os quais. (. A própria onipotência do governador relativa à titulação de terras é considerada por Romero uma irracionalidade. Carlos Romero comenta inclusive que a ânsia destes proprietários de terras em Santa Cruz fez com que o estatuto tivesse algumas aberrações do ponto de vista da gestão pública.. 40% dos votantes habilitados não compareceram às urnas. salvo pela autoridade judicial competente. coisas a favor do trabalhadorr nem sequer estão escritas. Isso afeta também o camponês”. Mas. Aqui está a minha família. 86% dos votos válidos foram favoráveis ao estatuto e 14% contrários. Estes elementos. Sabino Aguilar é cochabambino e tem um pequeno negócio na periferia de Santa Cruz.) não são revisáveis. filhos das minhas filhas..

MAPA DE COCHABAMBA 88 Detalhe Terra e território .

MOVIMENTO COCALEIRO E A LUTA PELA SOBERANIA NACIONAL Terra e território .89 3 .

90 Terra e território .

ela seria levada ao cemitério. Na tradição boliviana.91 CHAPARE Terra e território Finados em Santa Helena No Chapare. Ela geralmente é composta por comidas. os homens bebiam. e a cada momento vinham crianças prestar as suas homenagens. O sindicato Santa Helena fica na beira de um ramal norte. em tributo aos mortos. coca. da estrada principal que liga Cochabamba a Santa Cruz. Todos se concentravam em uma das casas que fica mais perto da estrada secundária que passa pelo sindicato. Seu amigo. tudo envolto a uma densa vegetação. Quando cheguei no sindicato agrário Santa Helena. plantação . um terreno pequeno. conversavam e jogavam com moedas. Corta para a direita. era o dia de Todos os Santos. Seu Andrés. A mesa. carregada pelos membros da comunidade. muitas vezes já alcançando um terreno mais acidentado. Entramos os três em direção ao chaco. estava pronta. Os lotes dos membros desta comunidade se encontram saindo deste ramal para dentro. que leva até a cidade de Eterazama. pois o sindicato é o órgão de gestão territorial das comunidades camponesas. quando os mortos. depois para a esquerda. são recordados com prantos e festas. por volta das 9h da manhã. ia me mostrar esta manhã o seu chaco. em especial aqueles que morreram recentemente. subimos alguns barrancos. Mais tarde. o último dia de finados caiu em uma sexta-feira chuvosa. Até que chegamos à plantação de coca de Don Andrés. flores.6 mil m2. Atravessamos um pequeno córrego. Seu Julián e Seu Andrés estavam me esperando. coisas que os mortos apreciavam. As mulheres serviam pães assados e chicha. sua pequena plantação de coca e as demais coisas que são colocadas lá dentro para o sustento da família. um cato de coca – quarenta por quarenta metros. atrás das casas da comunidade. todos já estavam de pé há muito tempo. função que na Bolívia é uma mescla entre dirigente político e comunitário. Seu Julián é secretário geral do sindicato. andamos mais um pouco. que dão ao final 1.

Hoje. Terra e território . da base até a extremidade. sobra bastante terreno para Don Andrés produzir outras coisas. Para fazer a colheita. Como um cato é equivalente aproximadamente à sexta parte de um hectare. Seu Andrés Yucra. palo román. Arroz e mandioca. Como a coca se colhe a cada três ou quatro meses.permitida atualmente. quando a repressão não era forte. mortos e coca. Assim poderiam se salvar da erradicação forçosa promovida pelos governos anteriores. armendrillo . algumas árvores de cítricos. estes pés de coca foram plantados seguindo uma geografia diferente. Até o método da colheita é apropriado para o clima clandestino das plantações. Finalmente. Voltamos para a comunidade. nos dias da colheita o proprietário reúne à base do ayni a mão-de-obra para fazer o serviço com a rapidez necessária.Do Chapare. A manhã seguia. anos 1970 até meados de 1980. com somente um cato legalizado. mas a prática do acullico ou pijcheo não consiste em triturar as folhas. se não as folhas se rompem e ficam imprestáveis para vender depois. Na época anterior. Enquanto caminhamos pelo seu chaco. Mostraram-me como se colhe a coca. Muitos mascam a sua coca. com chuva. lembra. contratavam peões.Na verdade se diz mascar.cerebo. melhor. trazendo um grande bolo de folhas em uma das bochechas2. As mulheres se concentram mais na cozinha. Nos períodos de repressão intensa. 92 1. com seu lote de 9 hectares. No período auge do preço da folha de coca. Assim. 2. do final dos anos 1980 até meados dos anos 2000. Aqui e ali tem árvores madeiráveis .onde as plantações de coca eram permitidas por serem “tradicionais” – na qual cada folha é retirada com cuidado. maior unidade produtiva do chaco. Depois. dão conta do serviço com ayni. tijiaque. uma espécie de troca de diárias de serviços entre as famílias. servia para não chamar tanto a atenção dos militares. Cheia de símbolos do Chapare. ele e sua família têm os próximos meses para “devolver” o trabalho feito.5 hectares. mas somente para consumo familiar. mas sim pressioná-las com os dentes para aos pouco ir tirando a sua seiva. a colheita rápida servia para maximizar os ganhos. Não se pode fazer com muita força ou violência. ainda preparando comidas para servir. Se comparado com a colheita feita nos Yungas de La Paz . todos ocupavam boa parte dos seus lotes com hectares de coca. o método chaparenho1 é muito mais rápido. ocupando 3. Quanto mais escondidos na mata eram.que a seu tempo poderão render muito dinheiro. estão nove cabeças de gado. Os homens aos poucos iam ficando mais alegres com a chicha. Por mais que as políticas governamentais acerca da produção de coca tenham mudado nos últimos anos. tirando as folhas ao puxar a mão fechada pelo tronco. é um dos maiores camponeses do sindicato. A preparação para a ida ao cemitério continuava. ele vai me mostrando outros cultivos.

93 Terra e território .

Ali. esta era uma área muito pouco habitada. Economía campesina cocalera en los Yungas y el Chapare. 5. Federação Especial Yungas do Chapare e Federação Chimoré. muito úmido. p. p.KOMADINA. 7. Alison. já no fim do século XVII houve uma guerra entre os yuracarés e os espanhóis pelo controle da produção da folha de coca. La Paz. Álvaro (coord.) et al. p. que é quem responde unificadamente ao movimento cocaleiro do Chapare.) et al. tramas organizativas e identidad del MAS en Cochabamba (1999-2005). 82. Segundo o pesquisador Fernando Salazar. 383. 56. 2005. Ao voltarem da guerra. A coca era um mercado importante nesta época. como o de Santa Helena. estas se organizam dentro de seis federações camponesas: Federação do Especial do Trópico de Cochabamba. Estas federações se agrupam em uma Coordenadora. 2005.GARCIA Linera. à medida que se aproximam da província mais altiplânica de Ayopaya.. 43-45. com extensões de terra planas.. Elas fundaram povoados que existem até hoje. Jorge (coord. op. 384. Mas a colonização veio de forma mais contínua a partir do século XX. Estrategia. 8. Fundación PIEB. Coca en cifras – datos a nivel nacional. p. estes soldados não queriam mais trabalhar nestas fazendas e começam a procurar 94 3. DICYT-UMSS. La Paz. no norte argentino e chileno.. A formação destas organizações sociais está ligada ao histórico de colonização desta área. feita 6. GEFFROY. p. do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos da Universidad Mayor de San Simón. Kawsashun coca. p. mas que vão se acidentando a oeste. pois era muito consumida nas minas de Potosi. op. 91. quando muitos camponeses e fazendeiros começam a colonizar espontaneamente a região. Álvaro (coord. PIEB. El poder del movimiento político. com presença considerável dos índios yuracarés. Tiraque e Carrasco. a coca ocupava o quarto ou quinto lugar nas exportações bolivianas5. Por fim. 4. vivem atualmente no mínimo 40 mil famílias de pequenos produtores agrícolas3. Federação Mamoré Bulo Bulo.. quando prisioneiros paraguaios foram utilizados para construir uma via que ligava Villa Tunari a Cochabamba. Ainda no final do século XVII. Terra e território . apareceram na região missões franciscanas. GARCIA Linera. Durante a colônia. Fernando Salazar aponta uma outra conseqüência desta guerra para a região: muitos dos soldados convocados eram colonos em trabalho servil nas fazendas criollas bolivianas. É uma região onde predomina um clima tropical. fato que impulsionou a abertura da região.Segundo entrevista com Fernando Salazar. cit. Celine.DIRECO (Dirección Nacional de Reconversión Agrícola). cit. agrupados em 109 centrais sindicais4. CESU.).SPEDDING. que se organizam em sindicatos agrários. na província de Chapare. como San Antonio que depois foi rebatizado de Villa Tunari na década de 19407.SPEDDING.. 2007. Federação Centrais Unidas. cit. Federação Carrasco Tropical. Em termos gerais.A região O lugar denominado Chapare ou Trópico de Cochabamba na verdade é composto por três províncias do departamento de Cochabamba: Chapare. Alison. Muitos pesquisadores8 apontam como marco o final da Guerra do Chaco. Há hoje 1087 sindicatos na região. Um estudo do final do século XVIII indica que a coca representava cerca de 30% do valor total dos produtos nacionais comercializados no mercado de Potosi6. op.

como o sindicato Santa Helena. Tiravam o toldo. Spedding. Alison. A partir da Reforma Agrária de 1953. prometendo aos colonos9 infraestrutura produtiva. como em Chimoré em 1958. 12. com os camponeses se juntando e distribuindo lotes entre si10. o que no final acabou se resumindo em mosquiteiros e algumas sementes. identifica esta época como a que mais apresenta características da economia agrária capitalista. Nas regiões mais perto de Villa Tunari. Estavam desde a rua até a ponta com coca. p. p. já não tinham espaço nem para um pátio decente para secar a coca.Ibidem. contudo. 92. como a de Ivirgarzama. 11. os camponeses aos poucos se voltaram para o cultivo de coca.) em detrimento da coca foram práticas que contrariavam em muito a lógica de produção camponesa. os lotes raramente passam de 10 hectares. terras próprias no trópico cochabambino. “Alguns já não cultivavam banana nem cítricos. 10.Idem.Colonos neste caso novamente não é o colono servil das fazendas. 93. etc. mas sim o camponês deslocado pelo Estado para habitar e produzir em uma área. que foi secretário geral da Federação do Trópico no início da década de 1980. os governos começaram atuar de forma mais ativa na colonização da região como parte da sua política de modernização agrária. Em algumas regiões. arroz. aparentemente no início dos anos 1970 a produção de coca no Chapare ainda era voltada para os mercados tradicionais como os centros mineiros. Vinha um carro e este tinha que parar. a eliminação da rotatividade de cultivos e a diminuição dos plantios de subsistência (como mandioca. levando à modificação das formas de produção agrícola destes camponeses12. cítricos. que coincide com a presença forte da indústria da cocaína. Mas no final desta década a demanda da indústria da cocaína se torna mais marcante. e voltavam a secar a coca. o faziam na rua. que coordenou um extenso estudo sobre a economia camponesa cocaleira na Bolívia. Em algumas regiões. descreve Carlos Meneces. 92. a região viveu o auge do preço da coca. A utilização de praticamente todas as terras disponíveis para o plantio de coca. Terra e território .. p.95 9. O auge da coca: lógica inversa do camponês Entre 1970 a 1986. se formaram espontaneamente. op. os lotes variam entre 10 a 20 hectares. Com a pouca ajuda do governo para fomentar outros cultivos economicamente rentáveis. aproveitando que já havia um mercado deste produto tradicional em Villa Tunari11. cit. Muitas das colônias que existem hoje. A este extremo chegou”. ao analisar a história da economia da folha da coca. passava o carro. Segundo Alison Spedding. em seu chaco já não tinha espaço para nada. foram estabelecidas colônias dirigidas.SPEDDING.

7. que vinham a para trabalhar como peões ou partidários16 nas plantações de coca. Então. op. Antes. este era quase inexistente na região.Partidários são camponeses que cultivam terras de uma terceira pessoa e dividem seus ganhos com ela. 19. 15. A diversidade da produção com rotatividade de cultivos garante a alimentação da família. Segundo Spedding. Aos poucos.SPEDDING. segundo Spedding17. Alison. pois pode ser cultivada em pequenas extensões. Isso porque o cultivo de coca necessita de muita mão-de-obra e há certas etapas que são impossíveis de serem mecanizadas. por não terem mais mão-de-obra gratuita15. pois os camponeses tinham acesso às terras com a simples afiliação a um sindicato. 20. 16. inserida nos ciclos de rotatividade de cultivos. op. A coca se ajusta perfeitamente a esta lógica. Terra e território . cit. mesmo que os recursos econômicos provindos da venda destes produtos sejam muitos baixos. p. forjada nas dificuldades da agricultura andina. Contudo. p. ainda que este período de auge da coca tenha representado uma exceção. se veste. portanto.O espanto de Carlos com relação à forma como seus companheiros plantavam coca na época se justifica especialmente se tomarmos em conta esta lógica de produção. É por isso que as fazendas cocaleiras pararam de produzir coca a partir da Reforma Agrária e 1952. não se encontra referências de produtores que tenham adotado “relações de produção estritamente capitalistas” nesta época. 14. A racionalidade camponesa. os camponeses dos Andes asseguram um trabalho que ocupa toda a mão-de-obra familiar e uma produção certa.. gera atividades para toda a unidade familiar e recursos econômicos mínimos. dirigente do Sindicato Recta Ivirgarzama: “o agricultor planta coca. ela é praticamente tudo para o cocaleiro que não tem apoio”. Neste sentido.SPEDDING. p. os altos preços da coca atraíram como nunca migrantes de todo o país. cit.GOLTE apud SPEDDING. cit. op. muitos juntaram dinheiro para comprar lotes próprios e cultivar a sua própria coca. Com cultivos em diferentes pisos ecológicos. faz estudar os seus filhos. uma outra conseqüência do aumento de preço da coca foi a criação de um mercado de terras.Idem. por mais que seja pequena. em especial a colheita.. prioriza questões como garantir um mínimo de produção de subsistência ou a ocupação plena da família em detrimento da busca por máximos rendimentos por força de trabalho ou produtos “investidos” – como seria lógica capitalista14. 17.. 94. que significava a mesma coisa que incorporação a uma comunidade já criada ou ainda por ser estabelecida. Nas palavras de José Encinas. frente aos desastres naturais e às mudanças climáticas13. 96 13. Alison. faz a colheita e disso come. p. Alison.

a intervenção antidrogas no país. p. em especial os do período militar. somado à extrema violência de seu governo contra os movimentos sociais. a ideologia nacionalista ficava em segundo plano frente à crescente ligação destes com o narcotráfico que se estabelecia na região. símbolo de um passado indígena a ser superado pela fase nacionalista. Durante ditadura de Banzer. Portanto. Hervé. Contudo. Terra e território Ainda em 1961. para os governos que seguiram. Sua ditadura marca a “época dourada” da vinculação da economia boliviana à cocaína. O período entre 1975 a 1982 é caracterizado por Fernando Salazar como a época em que o narcotráfico governava o país. o mascar de coca. que as ligações entre o narcotráfico e o Estado boliviano ficaram mais explícitas. 19.DUNKERLEY.97 O ESTADO CONTRA A COCA 18. que além de tudo sempre estiveram ligados aos grupos de poder no país. o governo nacionalista de Víctor Paz Estenssoro se comprometeu na Convenção de Viena a erradicar a coca em 25 anos e acabar com a prática do acullico. . que ocupou quase toda a década de 1970. os camponeses cocaleiros. op. os EUA não apoiavam esta relação direta com o narcotráfico e este fator. A política se voltava principalmente contra a base da cadeia de produção. op. instalada a partir de 1982. derrubou Meza do poder em menos de dois anos de governo. provavelmente tidos como alvos mais fáceis que os poderosos clãs da cocaína. 383-392.DO ALTO. p. que então representava 50% do PIB boliviano19. Especula-se que os clãs da cocaína financiaram o seu golpe com cerca de um milhão de dólares18. cit. cit. foram descobertos vários escândalos ligando parentes do presidente e autoridades do governo com o tráfico de cocaína.. Contudo. a produção de coca e de cocaína na Bolívia aumentou exponencialmente até meados da década de 1980. Obviamente. quando reiniciaram os governos democráticos. 73. os governos bolivianos passaram a colaborar irrestritamente com a política norte-americana de combate às drogas. A partir de então. A atividade era entendida como arcaica. Mas foi na curta e violenta ditadura de Luis García Meza de 1980 a 1981. não possuía o narcotráfico como seu maior foco.. James.

“Se é sagrada. um pouco antes da queda do regime militar. pois o governo norte-americano necessitava de um interlocutor legítimo na região para começar a aplicar os seus planos de erradicação da coca. Mas a ditadura militar colocou na ilegalidade todas as federações. que foi nomeado junto com outros dois companheiros pela Federação para participar do encontro. motorista. As eleições tinham que ser democráticas. A inesperada vitória de Seu Carlos indicava um pressentimento dos cocaleiros de que os tempos haviam mudado. nem pisem.Negociando com o inimigo Seu Carlos Meneces não é daqueles que idolatra a folha de coca. nem cuspam!”. com exceção da Federação do Trópico. que pensavam que isso seria pactuar com as políticas do governo. foi organizada a eleição da diretoria da Federação do Trópico. A todo tempo. econômicos e ambientais. Seu Carlos queria participar das eleições. tendo como conseqüência enormes danos sociais. que era controlada politicamente pelo regime através da cooptação dos seus dirigentes. Ainda jovem. a autoridade americana tentava arrancar pedidos dos dirigentes. A política que os EUA propunham na época era a erradicação de qualquer maneira. acabando com a folha de coca e com quaisquer outros cultivos existentes. receberam um comunicado de que teriam uma reunião com uma autoridade americana de alto escalão. as repressões e o controle militar da época o desanimaram e ele preferiu tentar a sorte no campo. contrariando os seus ex-companheiros da então extinta Federação Chimoré. Eram resquícios do Pacto Militar Camponês. a financiada pelos militares. No cultivo da coca. que a coloquem em um altar! Não masquem. Dois dias depois que tomaram posse. Em 1982. gasolina. se tornou dirigente sindical da Federação Chimoré. A reunião foi à noite. chegou a se inscrever em direito na Universidad Mayor de San Simón. Contudo. em Villa Tunari. Tratava-se de uma das primeiras negociações com camponeses acerca da política americana de erradicação da folha de coca. distribuía presentes. “Os EUA sempre consideram que os países de terceiro mundo têm que ficar 98 Terra e território . Montou a sua chapa sem dinheiro para fazer campanha. se lembra da conversa com detalhes. Enquanto a outra chapa. feita geralmente com a pulverização de químicos por via aérea. Seu Carlos. mas as autoridades americanas presentes o impediram. Nascido na periferia de Cochabamba. visitando somente um terço da região. “queriam ver no que ia dar”. somente via a oportunidade de atrair algum desenvolvimento para a região. O governo quis anular a eleição. tinha carro.

. não havia como começar a negociação.. Mas a conversa estava emperrada. A gente masca a coca. Mas isso está mal. o americano emendou: “Olha. Por fim. as políticas de coca na Bolívia foram mais brandas que na Colômbia e no Peru”. como fazem? Colocamos ao ombro cem laranjas. E é suficiente para viver? Não.. que contratempo. mas a droga é pior. Então necessitam ganhos. mas sim dos americanos. “Eu creio que a partir disso. De que lhes serve ganhar o mundo e perder a sua alma? Não serve de nada. quem tinha que pedir alguma coisa eram eles. Falta desenvolvimento para vocês”. para isso temos a coca. quando o gerador do povoado falhou. Recebeu como resposta comentários acerca da beleza da natureza e da lua. diz ele. Então.99 Terra e território pedindo coisas. Seu Carlos crê que foi muito positiva. não? A estratégia dos dirigentes cocaleiros era fazer com que o representante americano entendesse que o problema com as drogas não era dos bolivianos. quando jovem. não da gente! A partir daí. Estavam pior que a gente”. como mendigos”. Eles sim tinham um problema grave. não há nenhum problema. o americano perguntou: Vocês para produzir cem laranjas. andamos. E quanto lhes pagam? Nos pagam tanto. E a gente era seis milhões nesta época e não tinha problema com isso. conclui Seu Carlos. se conseguiu negociar uma política para a coca com desenvolvimento alternativo e evitar a pulverização de químicos pelo ar. Como era bom. . Vocês necessitam ter eletricidade. não há lei em Bolívia que proíba isso? Não. caminhar com a namorada em noites de luar. Claro. Tiramos o equivalente a cem laranjas e ganhamos duzentas vezes mais. Ah.. há milhões de jovens em nosso país ficam doentes! Ahh! O problema é de vocês. Graças a ela. Portanto. A pobreza é um problema. Mas vocês não sabem. a conversa fluiu até as duas horas da madrugada. “Diziam que havia sete milhões de jovens que entravam a cada ano nas drogas.

portanto.. mas sim critérios culturais e geográficos. que pode. significavam menos territórios permitidos para os cocais) na medida em que o debate acerca da erradicação da folha de coca se tornava mais conflitivo20. O segundo território era onde havia cultivo “excedentário” da folha de coca e que se consistia principalmente no trópico cochabambino. Alison. portanto. chamada de desenvolvimento alternativo.100 Lei 1008 Contudo. op. se estabeleceu uma quantidade de hectares de serviriam a esta demanda e a quantidade que estariam “excedentes” e que. nada impediu que o governo boliviano. Terra e território .SPEDDING. Sempre foram. pois identifica o consumo tradicional boliviano da coca. ser mantido por um número limitado de cultivos. portanto. muitos problemas aparecem na aplicação desta lei. Contudo. O primeiro era uma área de cultivo “tradicional” da coca. começasse a aplicar políticas duras durante os anos 1980 a respeito dos produtores de coca. p. imensos os questionamentos sobre os critérios escolhidos para estabelecer 20. o governo promulga a Lei 1008. primeiro de uma série de planos que têm enquanto política comum a erradicação das plantações de coca. apesar de também incluir algumas regiões no departamento de La Paz. que teria a produção da folha autorizada e se consistia na região dos Yungas do departamento de La Paz na região dos Yungas de Vandiola no departamento de Cochabamba. serviriam ao narcotráfico. Além disso. além serem coletadas ou apresentadas sem o mínimo de rigor acadêmico. Em 1986 o preço da coca despencou e este fato coincidiu com o Plano Trienal. mates e usos rituais – da folha de coca. Ela estabeleceu a divisão do país em três territórios. o combate ao narcotráfico (sendo estes dois últimos garantidos por uma forte militarização da região) e a aplicação de cultivos de substituição da coca. Spedding aponta que. Esta lei teria sido baseada em estudos de produtividade dos cocais bolivianos e do consumo tradicional – através do acullico. cit. a lei não adotou critérios universais para estabelecer os cultivos “excedentes”. Assim. Dois anos depois. no qual o cultivo de coca estaria terminantemente proibido. a Lei do Regime da Coca e Substâncias controladas. O terceiro território é todo o restante do país. as cifras de produtividade tendiam a aumentar (ou seja. sustentado pelo americano. O primeiro deles eram os dados utilizados para calcular a produtividade dos cocais. 72. A lei poderia ser considerada um avanço se consideradas as tentativas americanas de eliminação completa da coca.

In: SPEDDING. como o Chapare. cuja explosão se dá no final dos anos 197021. o Chapare se constituía em uma importante região produtora de coca para os usos tradicionais. O estabelecimento destas duas zonas parece ter como principal orientação a divisão dos produtores de coca. Erradicação voluntária Como estratégia para a eliminação da coca e a aplicação de outros cultivos. como os Yungas. as áreas de cultivo “tradicional” e “excedentário”. é importante dar um panorama completo sobre as políticas de luta contra as drogas do Estado boliviano.Spedding sugere o ano de 1978 como uma data “que a demanda ilícita chegou a ser um fator determinante para a plantação de novos cocais”. portanto. impedindo a organização de lutas conjuntas. Isto uniu o setor camponês. A explicação dada é a de que as áreas de cultivo antigo. é culpada e tem que demonstrar a sua inocência”. que permitia prisões e ações militares contra pessoas ou comunidades antes que a culpa destes fosse comprovada. Graças à nossa luta ficamos. na qual o produtor de coca oferecia uma Terra e território . cit. ilegal. p. diz Feliciano Mamani. “O pretexto era a luta contra o narcotráfico e contra o terrorismo. muitos foram presos. além da militarização das regiões “excedentárias”. Como dissemos anteriormente. na denúncia de violações de direitos humanos. o conflito na região do Chapare se tornou intenso. também nos ensinou a falar de política”. tanto no plano local. tirar nossas terras. Havia uma grave inconstitucionalidade na lei. determinando. o movimento cocaleiro traçava novas formas de luta. e por causa desta luta e deste confrontamento. op. em especial a militarização e o total descumprimento dos direitos humanos. portanto. as políticas incluíam a erradicação dos cocais e o desenvolvimento de cultivos alternativos. não se considerava que já antes deste mercado. 73. em defesa das suas plantações de coca. A cada plano que o governo soltava. Alison. quais camponeses teriam a sua atividade considerada legal e quais. eram áreas que serviam para o consumo tradicional de coca. Segundo esta lei. o Plano Trienal e a Lei 1008 estabeleciam uma política de erradicação compensada. Contudo. o maior problema desta lei era o clima de terror que impunha nas áreas excedentárias. torturados e mortos sem nenhum processo jurídico que permitisse estas ações. mas queriam na verdade nos evacuar do Chapare. Antes de relatarmos algumas histórias das lutas destes camponeses. prefeito de Villa Tunari e ex-dirigente cocaleiro. Militarizaram e resistimos à militarização.. Contudo. eram áreas que haviam se estabelecido principalmente graças ao mercado de cocaína. há uma inversão dos princípios jurídicos. A partir destas políticas do final dos anos 1980. Combinado com a militarização da região. e as áreas de colonização recente.101 21. quanto no nacional. diz Eduardo Córdova “uma pessoa não é inocente.

Os cocaleiros que tinham muitos hectares de coca para oferecer à erradicação compensada juntaram uma pequena fortuna. os faziam voltar ao cultivo de coca. com o passar dos anos.Ibidem. Contudo. 324. Alguns aproveitavam este alto valor para erradicar seus cocais e com o dinheiro investir na plantação de novos cocais. No final. Muitos se dedicavam de fato aos cultivos alternativos. o preço do hectare erradicado chegou a um máximo de 2. mas as diversas dificuldades de mercado e de investimentos que estes representavam. op. lembra Carlos Meneces. O sucesso desta política nos primeiros anos se deu principalmente porque muitos dos cocais já estavam sendo abandonados.Idem. segundo os próprios chaparenhos. pois os cocais não erradicados até este momento eram o que uma família poderia cultivar23. desperdiçou seu dinheiro em bebedeiras ou com gastos excessivos e desnecessários24.SPEDDING.certa quantidade de plantação de coca a ser eliminada em troca de dinheiro e insumos para iniciar outros cultivos. Assim.. Trata-se de uma empresa financeira que apareceu no Chapare prometendo pagar juros altíssimos às aplicações feitas na empresa. sendo necessário alguns anos para que os camponeses se convencessem que a queda no preço da coca não era um fenômeno temporário. cit. a erradicação compensada chega a um mínimo. a empresa faliu e com isso devorou centenas de milhões de pesos bolivianos. marcando o fim deste processo. p. mas este dinheiro pouco foi aproveitado para o desenvolvimento da região. em especial aqueles que não tinham terras e trabalhavam como partidários ou peões. Mas. 23. p. que novamente seriam erradicados. nos quais os proprietários erradicavam os cocais que já não tinham mais condições de cultivar22. a política de erradicação compensada se encaixou perfeitamente para estes anos de baixa nos preços da coca. recursos retirados da economia dos camponeses do trópico. é a história da Finsa a mais lembrada quando se pensa em todo o dinheiro que passou pela região e não ficou.5 mil dólares. Desta forma. em 1994. Terra e território . Já quatro anos depois. Até meados dos anos 1990. Alison. 102 22. que representava um ganho econômico mais estável. Este abandono dos cocais não se deu imediatamente. voltassem para as suas regiões de origem. a grande maioria. 95 24. os proprietários tendiam a reduzir os seus cocais com o que conseguiam cultivar somente com a mão-de-obra da sua própria família. Os dados oficiais mostram que a erradicação compensada alcançou seu auge somente em 1990. p. “O chaparenho fazia uma colheita e tudo o que ganhava levavam a Finsa”. época em que este processo de abandono dos cocais culminava. A enorme queda nos preços da coca de 1986 fez com que muitos camponeses. Alguns conseguiram estabelecer pequenos negócios ou comprar carros para terem outras fontes de recursos. 95.

. sendo a sua produção geralmente voltada para a exportação. op. Depois. cit. não haveria mais compensação alguma e todos os cocais que ainda existissem iriam ser erradicados. segundo este plano. A princípio elas eram combinadas à erradicação. Depois. os preços foram baixando como conseqüência da política de retirada paulatina de subvenções até chegaram ao valor de 0. Quem não erradicasse neste período toda a extensão de seus cocais. a erradicação voluntária teria que acabar até o início do ano de 200225. mais uma vez fazendo com que os produtores voltassem a plantar coca. como certificações de utilização de agrotóxicos. Aos poucos. Alison. banana e abacaxi. pois a presença militar era mais forte e agressiva na tarefa de identificar e erradicar cocais. Os anos de erradicação compensada terminaram no segundo governo de Hugo Banzer Suárez. Com este valor.103 25. de Ivirgarzama. 47. 387. que não foram pensadas seriamente pelas instituições que promoveram estes cultivos. Além do palmito. A partir de janeiro de 2002. depois de 800 dólares e por fim chegariam a zero a partir de outubro deste ano. p. numa política de substituição da folha da coca. No início.. Álvaro (coord.) et al. que também tinha compensação por hectare erradicado. seria aplicada uma compensação comunitária. apareceram. José Encinas.50 peso boliviano.5 mil dólares. e o seu valor começava com 800 dólares. Mas os mercados no exterior só são abertos quando uma série de normas de cultivo. subia a 2 mil dólares no ano de 1999 e baixava durante os anos de 2000 e 2001 até 500 dólares. SPEDDING. Dos anos 1960 até meados dos anos 1980. com a distribuição de mudas e ferramentas para novos cultivos como forma de pagamento aos cocais erradicados. Desenvolvimento alternativo Paralelo à erradicação. os teria erradicados forçosamente depois.Grupo de Trabajo “En defensa de la hoja de coca” apud GARCIA Linera. cit. já não compensavam os altos custos da produção e grande parte dos produtores desistiram do palmito. cada unidade (interior do tronco da palmeira) era comprada pelos órgãos de desenvolvimento alternativo por 1. A produção repentina e massiva desta fruta no Chapare logo fez o mercado saturar e seu preço caiu absurdamente. Os principais produtos promovidos pelo desenvolvimento alternativo eram então: palmito. com a aplicação do seu Plano Dignidade em 1998..30 peso boliviano no final da década de 1990. Após esta medida. op. Conta que começou a plantar palmito em 1994. está atualmente em uma comissão produtiva da Central Carrasco na qual coordena os produtores de palmito.5 mil dólares. durante o ano de 1998 a compensação voluntária iria diminuir gradualmente de 2. também o cultivo de abacaxi passou por esta situação. diversas dificuldades. Um outro problema é que tanto o abacaxi quanto o palmito não são produtos que possuem um grande mercado consumidor interno. com valores que primeiro eram de 1. com a ajuda das políticas de desenvolvimento alternativo que lhe proveram de mudas e de formação técnica para o cultivo. muitos dos enfrentamentos na região se acirraram.Spedding aponta que. de acondicionamento e de transporte 26. p. o governo e os organismos internacionais propunham o desenvolvimento alternativo de outros cultivos. A falta de mercados consumidores era o principal problema apresentando por estas políticas. houve um incentivo vago à produção de cítricos26 e com o Plano Trienal (1986) e a Lei 1008 (1988) estas políticas ganharam mais corpo. Terra e território . Segundo este plano.

104 Terra e território .

2% das famílias camponesas que moram no Chapare hoje são exitosas com cultivos alternativos. Alison. há cerca de 46. Além disso. leite e palmito do Chapare foram até a cidade de Cochabamba para deixar seus produtos na porta da agência estatal responsável pelo desenvolvimento alternativo na região.8% das famílias da região que desenvolvem produtos alternativos. citando dados Concade28. Cochabamba. imposições com custos muitas vezes inviáveis para o pequeno produtor. Mas o dinheiro era gasto por eles. Ou seja. 1975-2004.105 27. já não se pode contar com os membros da família. 47%. possuem cultivos tradicionais para consumo próprio. Isso é explicado pelo simples fato de que é a coca a que garante o sustento da família enquanto o cultivo alternativo ainda não é rentável ou em anos de quedas bruscas de preços. Fernando Salazar aponta que. centenas de produtores “alternativos” de abacaxi. é possível desenvolver seriamente outros cultivos no Chapare. em especial a banana. O restante das famílias. Em 2002. José Encinas conta que. No geral estes são os camponeses mais pobres. para plantar um hectare de palmito se necessita ao redor de 1. . farreavam. pois há vontade política dos produtores de coca em diminuir e racionalizar a sua produção.SPEDDING. p. Normalmente. estes cultivos necessitam de mão-de-obra especializada. De la coca al poder. Um outro problema é que a maioria destes cultivos. em protesto pela falta de mercados prometidos pelo governo27. todos estes cultivos requerem muito mais investimentos que a coca. Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. 215. Terra e território são cumpridas. com pequenos lotes e sem condições de fazer quaisquer investimentos para cultivar outras coisas29. Fernando. 2007. que se há empenho do Estado e dos organismos internacionais. Trabalho feito através do Programa Clacso-Crop. cit. requer uma quantidade de terras bastante extensa para ser rentável. os camponeses mais pobres da região que possuíam lotes de cinco ou menos hectares já não tinham também a possibilidade de cultivar estes produtos. sem ajuda dos organismos de financiamento. Políticas públicas de sustitución de la economía de la coca y pobreza en Bolivia. Do dinheiro que veio para apoiar o desenvolvimento alternativo durante os anos 1980 e 1990. A frustração com relação à falta de mercados sempre foi muito grande. op. Todas estas dificuldades fizeram com que os produtos alternativos tivessem poucos êxitos nestes anos de sua aplicação. mas o fazem paralelamente aos cultivos da folha de coca e não são consideradas “exitosas”. aponta Salazar. “Foi a coca que gerou o desenvolvimento alternativo definitivo”. 41. a grande maioria ficou em salários de técnicos e obras super faturadas30: “Era um negócio dos anteriores governos neoliberais feito em nome da gente. p. 29. por exemplo. O principal problema que aponta é que nunca houve apoio real para isso. vive com os recursos obtidos com os cultivos de coca e. De todo o dinheiro somente 10% ou 20% chegava ao agricultor”.. Ele durou de 1998 até 2005. contudo. somente 6.5 mil dólares e poucos agricultores têm condições começarem esta produção sozinhos. ou seja. José Encinas crê.Os números apresentados estão em: SALAZAR. além deles. 28. Além disso.O Counter Narcotics Consolidation of Alternative Development Efforts (Concade) foi um projeto elaborado pela cooperação norte-americana através da AID-Usaid.

cheio de dificuldades para a inserção do pequeno produtor. Fernando Salazar resume o desenvolvimento alternativo proposto durante este tempo em “compensações e muita propaganda”. e que. que veio fácil através das compensações paternalistas. foram feitas a um terço do preço. impondo um modelo de desenvolvimento não aplicável a grande maioria destes trabalhadores. Não houve tentativa real de desenvolvimento integral camponês.Feliciano Mamani citou caso escolas que foram feitas pela Usaid a 120 mil dólares. por onde escorria todo o dinheiro que teria que desenvolver a região. Terra e território . O dinheiro. além de serem voltados para o mercado externo. No geral. o balanço é de que estas políticas foram e ainda são implementadas sem tomar em conta a realidade do produtor camponês. foi gasto sem estimular o desenvolvimento local.O desenvolvimento alternativo aplicado durante estes quase vinte anos de política de “Guerra contra as drogas” é visto pelos camponeses locais como uma falácia. a forma como organiza seu trabalho e a sua vida. com preocupação com o seu bem-estar e sustento da sua família. as suas práticas cotidianas. Os produtos de substituição eram cultivados somente se o camponês tivesse um lote grande suficiente e dinheiro para investir. As obras criadas eram elefantes brancos. ao serem copiadas pelas prefeituras locais. 106 30.

Pouco depois da aprovação do Plano Trienal – e recém presença das forças armadas na região – houve uma série de mobilizações pedindo participação na formulação das políticas públicas acerca da coca. em maio de 1987. novamente os militares voltaram a atirar na . os militares atiraram contra a uma multidão de manifestantes. Depois. Com esta reivindicação. E quando um exército entra em um lugar. Lembra dos abusos cometidos sem trégua. política anunciada pelo governo americano dias antes. não entra. assassinando”. os episódios e as reivindicações específicas. disparando. O desbaratamento desta mobilização pela polícia e pelos militares foi feito a custa de 8 mortos e mais de 500 presos. e de uma noite de tortura da qual obviamente não gosta de falar. José Encinas se lembra como foram estas quase duas décadas seguidas de repressão. chutando. e que passa pelo meio do Trópico. mas negada pelo boliviano. Em junho de 1987. pois já estava sendo formulada a Lei 1008. Em Villa Tunari. Mas sabe que tudo começou a partir da criminalização do produtor cocaleiro do Chapare. numa tentativa de negociar com as autoridades um esclarecimento sobre se havia ou não uso de herbicidas para erradicar cocais. Aí começaram a militarizar a zona. reclamando da utilização de herbicidas por parte das forças de erradicação na região. da truculência com a qual eram tratados. o que nos próximos anos se tornaria um padrão de respostas oficiais acerca das reivindicações chaparenhas. Com a voz se exaltando a cada verbo enumerado. no geral. Como muitos cocaleiros. não pode citar com exatidão as datas. né? Entra matando. os camponeses começaram a fazer novas mobilizações. eram rechaçadas pelo governo com a desculpa de que se tratava de uma “contra-ofensiva do narcotráfico”. pois. quando a população indignada ocupou o acampamento militar. batendo. Estas mobilizações.107 A RESISTÊNCIA COCALEIRA Terra e território “Nos anos 80 começou. que protestavam contra as mortes. com flores. matando uma pessoa a princípio. Este foi o estopim para outras mobilizações. os cocaleiros fecharam a estrada que liga Santa Cruz a Cochabamba.

as tropas continuaram com o clima de terror na cidade. Nas operações. apesar das diversas marchas e manifestações ocorridas no período. a marcha chegou a La Paz em setembro deste mesmo ano com cerca de 1500 manifestantes. “Entre la represión y la concertación: los cocaleros en el Chapare y en el Putumayo”. Na época. Conseguiram firmar um acordo com o governo. A política Opção Zero foi prontamente implementada pelo então primeiro governo de Sánchez de Lozada e. Em diversos momentos. causando a morte de mais duas pessoas. As tentativas de negociação dos produtores de coca foram em vão.. mais massacres e ataques aos direitos humanos apareceram no Chapare. 32. que incluía. sua declaração de que a guerra deveria se voltar “contra as colméias e não contra as abelhas”. op. perseguindo dirigentes. os cocaleiros organizaram uma grande marcha “Pela vida. que pedia a retirada de efetivos do DEA (Drug Enforcement Agency) americano e de forças militares e policiais do Chapare. p. Lee Brown. além do cumprimento de convênios anteriores ignorados pelo governo. acusando-os de narcotraficantes.. 2004. também chamado de czar antidrogas. a modificação da Lei 1008 e uma campanha internacional pela despenalização da folha de coca32. chamada Opção Zero. gases e golpes. Programa Regional de Becas CLACSO. Quando a manifestação já estava desbaratada. 395-399.). Na conta deles foi colocado o saldo final de 16 mortos destes conflitos31. Lee Brown pressionou o presidente boliviano por uma aplicação de uma política de tolerância zero com a coca “excedentária”. deixava explícito aos produtores de coca o recado de que o foco continuaria sendo eles e não os grandes e poderosos narcotraficantes. dentre muitos outros itens. Isso se alastrou nos seguintes dias para as outras cidades do trópico. espalhando gases pelo mercado. et al. faz uma visita à Bolívia.PINTO Ocampo. Terra e território . Contudo. p. dispersando os manifestantes com balas. Opção Zero Em 1993. uma repartição de políticas de controle de drogas dos EUA).eram vistos soldados norte-americanos participando e orientando as ações militares.Todo este processo de luta é bastante detalhado em GARCIA Linera. prendendo os seus manifestantes. pela coca e por soberania nacional”.criada com a militarização da região a partir de 1986 . o diretor da ONCDP (Office of National Drug Control Policy. Durante seu encontro com o então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.multidão. vizinhanças. como sua conseqüência. Informe final del concurso: Movimientos sociales y nuevos conflictos en América Latina y el Caribe. Álvaro (coord. onde as tropas atuavam sempre que havia concentrações de pessoas para debater ou protestar contra a repressão. cit. 108 31. o governo tentou desbaratar a marcha. Maria Teresa. 12-13. Em 1994. efetivadas pela Umopar (Unidade Móvel para Patrulha Rural) .

A marcha. saqueio de casas e presos políticos33. 63-66. Marchando por una vida sin violencia. Contudo. 149. pacífica e formada por cerca de 150 mulheres. a truculência da ação logo se explicitou: “Estas senhoras não têm o direito de atentar contra a segurança e a saúde das crianças que estavam carregando. ao serem liberadas. Com violência. 35.109 33. Contudo. sempre com a desculpa de era uma atividade ligada ao narcotráfico. por caminhos escondidos para fugir da polícia. as cocaleiras ganhavam a simpatia da opinião pública e dos camponeses das regiões pelas . que o movimento cocaleiro conseguiu tocar o país.Ibidem. CONTRERAS B. 149. amarram as nossas mãos. Contudo. Logo. Entram em nossos cocais e à força os erradicam. saiu de Cochabamba no dia 19 de dezembro de 1995 e logo no seu segundo dia sofreu uma tentativa de dispersão da polícia. com a marcha das mulheres cocaleiras “Pela vida e soberania nacional”. à medida que a marcha de aproximava de La Paz.. e violações de direitos humanos de forma geral. 34. O Ministro de Governo de então. Mujeres cocaleras. democrática e pacífica das cocaleiras36. Comité Coordinador de las Cinco Federaciones Del Trópico de Cochabamba. p.. tanto com relação à atuação da Umopar na erradicação de cocais. Carlos Sanchez Berzain. quanto à repressão feita às lideranças. Tradução da autora. p. relatava a marchista Apolônia Aduviri34.Ibidem. 64. ainda presas no quartel da Umopar em Chimoré. Eles tiram o nosso dinheiro.. põem panos em nossas bocas para que não se escute o abuso”. RODRÍGUEZ O. explicou a ação dizendo que as marchantes foram “convidadas” a entrar nos ônibus e voltar para o trópico. As mulheres relatavam casos de abusos sexuais e violência contra crianças e adolescentes. as mulheres novamente começaram a pensar em estratégias para voltar a se reunir com as suas companheiras que conseguiram fugir da polícia e davam continuidade à marcha35.AGREDA R.Idem. A reivindicação era principalmente a defesa dos direitos humanos. Por isso a marcha foi suspensa”. centenas de instituições sociais e autoridades passaram a declarar publicamente que quem “não tinha direito” era o governo de suspender a marcha e reprimir a manifestação pública. justificou ele na época. foram obrigadas a assinar documentos se comprometendo a não participar de nenhum movimento. acompanhadas de seus filhos e alguns homens. Alex. Terra e território Cocaleiras e a opinião pública Mas foi em 1995. Quem vai devolver? Parecem padrastos. Lá. porque batem em nossos filhos. 1996. A repressão do governo continuou. e tampouco têm o direito de fazer apologia de defesa a um material como a folha de coca excedentária. Norma. 36. Evelin. Cochabamba. conseguiram arrastar a maioria das marchistas para dentro de um ônibus que as levou de volta ao Chapare. p. p. “Quem são estes Umopares que não têm controle? Eles entram em nossas casas quando querem. inclusive da marcha. em especial depois da marcha de 1994. matéria prima do narcotráfico.

Terra e território . 38. Mas somente maltratavam e perseguiam a gente. devem levar a gente’. Coca Zero e erradicação forçosa Em 1997 assumiu a presidência o ex-ditador Hugo Banzer Suárez. de tudo nos tratavam. era na época dirigente das mulheres cocaleiras. cit. 402. Por isso. o grande esforço para superar o desgaste físico. A perseguição da polícia.Ibidem. várias mulheres cocaleiras dos Yungas de La Paz. Apesar do seu governo nos anos 1970 ter tido diversos laços com o narcotráfico. cuja meta era atingir de “coca zero” no Chapare.) et al. agora nos leve todos à prisão. hoje importante figura política do MAS-IPSP pois foi presidente da Assembléia Constituinte. Logo no início do seu mandato anuncia um plano de erradicação completa da coca excedentária. Para sustentar a erradicação forçosa. foram todos elementos que ajudaram as cocaleiras nesta batalha ideológica. Em La Paz. Somaram-se durante o caminho. conseguiram um acordo com o governo.quais passavam. quando era dirigente.. de ‘narco-dirigente’. Se somos de fato isso..GARCIA Linera. 189. política que pela primeira vez era assumida abertamente pelo governo. op. representantes de outras entidades solidárias e reforços do próprio Chapare. Se nos tratam de narcotraficantes. p. as mulheres se levantaram. O acordo. A política consistia em acabar paulatinamente com a erradicação compensada e substituí-la pela erradicação forçosa. fizeram uma reunião com as esposas do presidente e do vice-presidente. explicitando todos os abusos que sofriam e a sua pauta de reivindicação. “Diziam ‘narco-cocaleiras’ e tratavam o companheiro Evo. foi absolutamente desrespeitado nos meses e anos seguintes. e lhes dissemos ‘Agora aqui chegamos. que garantia a não aplicação futura da erradicação forçosa e cumprimento dos direitos humanos37. A marcha chegou em La Paz no dia 17 de janeiro de 1996. Silvia Lazarte. versão sempre sustentada pelo governo boliviano. mas após uma greve de fome ainda sustentada pelas marchistas. Álvaro (coord. E chegamos com os nossos pés em La Paz. mais que tudo. com cerca de quinhentas mulheres. As reuniões não foram muito frutíferas. principal pilar da política “coca zero”. a marcha conseguiu um grande avanço para o movimento cocaleiro: publicizar os abusos sofridos e convencer a opinião pública de que os camponeses do Chapare não eram narcotraficantes. p. Já não tínhamos liberdade de viver. Fizemos isso com clareza”. o Plano Dignidade. o governo instituiu 110 37. o pedido por defesa de direitos humanos básicos. Contudo. ele agora era encarado como um grande aliado pelo governo americano. lembra ela.

pelo menos por um período de três meses.Idem.. Um mês após o início das manifestações e depois de mais de dez mortos em conflitos. Álvaro (coord. os produtores de coca resgataram os comitês de autodefesa. Álvaro (coord. – o governo não cedia na política de erradicação forçada. As mobilizações incluíram a ocupação da sede local da Digeco (Direção Geral da Coca). Mesmo coordenadas com as demais mobilizações que sacudiam o país neste período – Guerra da Água. que proíbia a secagem. No final de 2000. bloqueios e protestos tanto na região do Chapare quanto na cidade de Cochabamba. tinham como função vigiar e esconder os caminhos que levavam aos cocais. como o de Sacaba. Terra e território . entrando em seu lugar o então vicepresidente Jorge Quiroga. 410. etc. principal centro de comercialização da coca chaparenha41. o presidente Banzer se reuniu com autoridades americanas em um evento público no quartel de Chimoré para apresentar os resultados exitosos de seu governo.. cit.111 39. que haviam sido utilizados no início dos anos 1990.) et al. transporte e comercialização da folha de coca do Chapare. 43 mil hectares de coca erradicados. causando mais feridos e presos. formados pelos próprios camponeses.Hugo Banzer Suárez se afastou por problemas de saúde em agosto de 2001. reunindo também estudantes e outros setores populares42. Jorge Quiroga publicou o decreto 26415.GARCIA Linera.GARCIA Linera. Guerra pela Coca A resposta que os camponeses deram a este decreto ficou conhecida como Guerra pela Coca. mostrando aos americanos que a coca não estava e nem iria estar erradicada. com o fechamento de vários mercados de coca. Estes comitês.. mas de fato conseguiram retardar ou mesmo impedir a erradicação em muitas zonas39. cit. José Encinas lembra que na ocasião houve um ato no qual os cocaleiros espalharam folhas de coca na estrada em frente ao quartel. 40. uma nova força repressora. A FTC cumpria o mesmo papel que a Umopar.) et al. poucos meses após ter assumido a presidência40. No final dos anos 1990 e início dos 2000. p. Pelo contrário. que juntava efetivos militares com policiais. marchas. Guerra do Gás. Contra a ofensiva do governo. 410411. a Força Tarefa Conjunta (FTC).. 41. garantia indenizações por feridos e mortos e colocava em liberdade todos 42. p. op. op. os cocaleiros conseguiram finalmente um acordo com o governo. Este decreto foi efetivado em 2002. estes comitês muitas vezes se enfrentavam com as forças de erradicação. O acordo anulava o decreto 26415. 399-400. p. impedindo a entrada da FTC nestes. Obviamente. em novembro de 2001. foram intensas as marchas e os bloqueios para protestar contra a situação no Chapare e tentar alguma negociação com o governo. porém com ainda mais violência e abusos38.

Já não era mais sustentável o cumprimento das recomendações econômicas e políticas norte-americanas. como a água e o gás. e acontecia graças a um fenômeno de intensa organização popular em diversas regiões do país.os detidos. mas também na aplicação das políticas de privatização de recursos naturais. Era o início do recuo governamental nas políticas acerca da coca. demonstrando a fragilidade e a crise pela qual passava o Estado boliviano nestes primeiros anos de 2000. 112 Terra e território . O recuo não era somente com relação aos cocaleiros.

113 O INIMIGO MORA AO NORTE 43. colaboraram em muito para o fortalecimento da reivindicação de soberania nacional. um relativo consenso da . As evidências eram muitas: agentes do DEA nas operações militares. Norma Rodriguez e Alex Contreras relatam em seu livro sobre a marcha das mulheres cocaleiras em 1995. Terra e território Viva a coca! Morte aos yankis! A palavra de ordem acima. algumas destas declarações. Identificam nela o seu principal elemento de união e sobrevivência. 8.Los Tiempos. após as intensas manifestações cocaleiras. Evelin et al. o então embaixador americano Manuel Rocha ameaçou o eleitorado boliviano de sanções do governo estadunidense caso elegesse Evo Morales: “uma Bolívia dirigida por gente que se beneficiou do narcotráfico não pode esperar que os mercados dos Estados Unidos se mantenham abertos para as exportações tradicionais como os têxteis e o gás natural”43. em quíchua “Kawsachun coca! Wañuchun yankis!”. as constantes alusões de políticos e autoridades norte-americanas à erradicação da coca na Bolívia através de ataques militares e fumigações. intenso investimento americano nas forças de repressão bolivianas e incontáveis declarações públicas de autoridades americanas que claramente excediam as funções diplomáticas. Uma delas. o governo norteamericano.. op. feita em março de 1995 pelo parlamentar norte-americano Dan Burton. sem a mínima demonstração de preocupação com os camponeses bolivianos. Tradução da autora. o inimigo era identificado como aplicador e propositor das políticas antidrogas no Chapare. Evelin Agreda.. Além disso. Desde os primeiros enfrentamentos com a força militar que foi imposta a partir do Plano Trienal de 1986. é um resumo das muitas lutas e mobilizações dos cocaleiros desde o final dos anos 1980. 44. Tradução da autora. p. Nas eleições presidenciais de 2002.AGREDA R. a coca. Mesmo quando já havia. é notável tanto pela sua agressividade quanto pela sua ignorância: “Se deve invadir a Bolívia desde as suas costas até o altiplano para bombardear os seus cocais”44. 27/06/2002.. cit. e também o seu principal inimigo.

O aberto sentimento antiamericano é um fenômeno comum na América Latina. determinantes para qualquer potencial país produtor de matérias-primas para drogas: abundância de terras e pobreza.opinião pública boliviana de que a folha de coca deve ser tratada de forma diferente que a cocaína. Disponível em: http://ain-bolivia. “The Drug War in the Andes”. as autoridades americanas seguiam afirmando o contrário. por exemplo. com o crescente do consumo de drogas entre jovens. coca não é sinônimo de cocaína e nem de vício. Ali. Esta política. Diversos estudos. demonstram que outras políticas que não a interferência direta nos países produtores da folha de coca. as autoridades do governo. as suas necessidades materiais negadas por uma estrutura econômica global. anunciada pelo presidente Nixon. logo se incorporaram durante a década de 1970 na base da crescente cadeia de produção da cocaína. nos países que viveram a política de Guerra contra as Drogas. um programa de um curso para ser ministrado nas escolas americanas esclarecendo os efeitos da Guerra contra as Drogas na região andina. a sua cultura. como acontece no resto do mundo. camponeses indígenas do altiplano. Nos EUA: “war on drugs!” As políticas antidrogas iniciaram com mais força nos EUA a partir da década de 1970. 114 45. A Guerra contra as Drogas. repetiam incansavelmente o discurso de que os cocaleiros defendiam o narcotráfico sempre que havia agressões aos seus direitos humanos. segundo Fernando Salazar. contribuindo grandemente para a sua perda de respeitabilidade. nos faz duvidar que a Guerra contra as Drogas tenha uma intenção genuína de resolução do problema da dependência destas substâncias. em especial as ligadas ao exército e à defesa nacional. os tradicionais produtores da folha de coca. a batalha contra as drogas passou a ser uma política internacional. pelo fato da folha de coca ser um produto natural há anos cultivado e consumido pelos povos andinos. a princípio teve como enfoque inicial o tratamento da dependência em substâncias como cocaína ou heroína45. além de ter um grande enfoque na criminalização e penalização de usuários e comerciantes destas substâncias. não há nenhuma restrição moral por parte dos camponeses à sua produção. como veremos a seguir. a relação com os EUA é um tanto mais amarga. teve como foco preferencial a região andina. da maconha ou da papoula. coincidindo com o fim da Guerra Fria. Da mesma maneira. O desinteresse dos seguidos governos estadunidenses em entender a realidade destes povos andinos. Linda. ao contrário do que acontece com as plantas de maconha. se dá pela existência de dois fatores. implementada nas últimas décadas do século XX. FARTHING. Contudo. Além disso.Estas informações foram retiradas do documento “The Drug War in the Andes”. A inserção neste mercado. com um alto grau de interferência nos países considerados fontes de droga. Nestas regiões. são muito mais eficazes.org/drugwarCompleteLF.doc Terra e território . Aos poucos.

maior parte dos recursos.html Terra e território Coincidentemente.Para chegar a tal conclusão. foi feito um estudo de quanto investimento a mais seria necessário para diminuir o consumo de cocaína em 1% no decorrer de um ano. O controle da oferta causa aumento de preços. em comparação com as políticas de controle de oferta. Linda. Segundo dados oficiais do governo americano de 2003. o tratamento é sete vezes mais efetivo do que o aumento do controle penal (domestic enforcement). o enfoque do problema das drogas nos EUA como um problema de segurança pública levou a intensa penalização das camadas mais pobres da população. cit. Já as políticas de tratamen- . pois. e por também serem criminalizadas pelas conseqüências deste problema. a grande maioria voltaria ao final a consumir drogas.FARTHING. os preços se normalizam e o consumo idem. cit.spring95. sendo que este aumento se deve majoritariamente a prisões relativas às leis antidrogas. org/publications/randreview/ issues/RRR.115 46. é utilizado para o aumento de repressão interna. Segundo ele. 47.crime/ treatment. sobre efetividade de políticas públicas de combate ao consumo de cocaína aponta números contundentes. In: FARTHING. após um alto investimento do Estado na recuperação destes. renomado instituto de pesquisa norte-americano. op. os autores do estudo apontam que as políticas mais eficientes para lidar com o consumo de drogas e os seus efeitos negativos é o controle da demanda e não da oferta.Dados do ONDCP (Office of National Drug Control Policy). 11 vezes mais efetivo que a interdição da entrada das drogas nas fronteiras e 23 vezes mais efetivo que a ajuda a outros governos a erradicarem a produção local de substâncias ilícitas48. nesta ordem de importância47. as mais suscetíveis à dependência destas substâncias. cerca de 9% é utilizado para pesquisas e 55%. cerca de 70% dos presos são viciados em substâncias ilícitas ou álcool46. Obviamente. interdição das rotas de comércio internacionais e erradicação de matérias primas em países-fonte. somente 36% do orçamento para controle de drogas é utilizado em tratamento e prevenção. 780 milhões de dólares na atuação em países fonte de matéria prima para drogas. levando o país a ter uma das taxas de encarceramento mais altas do mundo. mas logo que o mercado mundial se restabelece. a dependência de drogas se concentrava cada vez mais nas camadas mais pobres da população. o que eventualmente diminui o consumo. O principal efeito da política de reforço penal em território americano foi um aumento substancial de presidiários. Um resumo deste estudo pode ser encontrado em: http://rand. contudo. e não como uma dependência química e um problema de saúde. Estes números indicam que a questão das drogas é entendida prioritariamente como uma atividade criminosa. 250 milhões de dólares em reforço penal (domestic law enforcement). Há estudos. op. Além disso. 48. portanto. a população carcerária do estado de Nova Iorque cresceu mais de seis vezes. Um estudo do RAND. Chegaram aos seguintes números: 34 milhões de dólares em tratamento. De forma muito simples. que apontam que o tratamento é a política mais efetiva na diminuição real do consumo de drogas. Esta mentalidade é reforçada pelo lugar comum de que o tratamento a dependentes não é efetivo. Linda. Entre 1973 a 2004. Estas sofrem duplamente: por serem as mais alheias às políticas públicas de prevenção e tratamento de drogas e. à medida em que os anos avançavam.

2001. quando as pressões dos países afetados tiveram efeito e o governo americano optou por políticas mais sutis de controle.FARTHING. Através dele. “Drug Certification”. No. Linda. e mais atrelamento destes governos ao governo norte-americano. Junho. cit. que implementaram o modelo neoliberal em quase todo o mundo em desenvolvimento. eram previstas muitas sanções econômicas americanas. portanto. tais políticas causaram mais pobreza no campo. Vol. do 116 49. AMATANGELO. 50. pois contrariava a lógica de cooperação internacional requerida para enfrentar um problema como o narcotráfico. as propostas de tratados de livre-comércio. FARTHING. março de 2001. O certificado de drogas ocorreu até 2002. possui comprovada ineficácia no que diz respeito à sua meta final.fpif. 5.POTTER. as privatizações de empresas nacionais. In: Foreign Policy In Focus. Esta pesquisa foi feita no início da década de 1990. o governo estadunidense estabelecia unilateralmente metas para que os países produtores de drogas cumprissem anualmente no combate ao narcotráfico.SPENCER.html Terra e território . há quase vinte anos. têm um impacto considerável no consumo geral. Estratégia de domínio A Guerra contra as Drogas. que é diminuir o consumo de drogas. que obriga o governo norte-americano a retirar qualquer apoio a forças armadas que desrespeitem os direitos humanos51. como Noam Chomsky. mais dependência dos camponeses dos produtos ligados ao narcotráfico. mais intervenção militar.to. etc. Mesmo assim. Gina. Esta política foi fortemente criticada inclusive por especialistas americanos em políticas internacionais. George Ann.foreignpolicyinfocus. Com ela. Bill.org/ 51. Tais “sanções” não possuíam nenhuma relação com o combate às drogas e tinham como única função punir países que eventualmente não estariam colaborando com o problema americano.org/ briefs/vol5/v5n38bolivia_ body. Disponível em: http://www. Linda. foram gastos pelo governo americano mais de US$ 25 bilhões em políticas de interdição e erradicação de drogas em países produtores49. “Bolivia: Eradication and Backlash”. mesmo que não sejam efetivas individualmente (no sentido de que o usuário nunca mais irá consumir drogas). substituindo-a por uma lógica de chantagem unilateral50. que vêem nesta política estadunidense uma estratégia de dominação política e econômica da região andina. desta época até hoje. Estes fatos fazem muito palpável a tese de renomados intelectuais. Os constantes abusos da FTC boliviana. além de aglutinar intensos sentimentos antiamericanos. vieram conjugados os ajustes estruturais da década de 1980. Como um ciclo. 6. Linda Farthing e George Ann Potter apontam um outro problema das políticas americanas: o total descumprimento da Leahy Law. op. Disponível em: http://www. Caso não cumprissem. Uma das políticas de controle econômico que era utilizada em nome das lutas antidrogas era o certificado de drogas (drug certification) emitido pelo governo dos EUA. como corte de ajuda financeira ou voto negativo no Fundo Monetário Internacional (FMI) ou Banco Mundial (BM) para eventuais empréstimos pedidos por estes países.

117 Terra e território .

da ação militar dos EUA na ocupação do Iraque .No caso da Colômbia. como no caso da Bolívia e do Equador. htm. estes temas de alguma forma já haviam aparecido na Bolívia. 55. A agenda neoliberal se mantém até hoje. andinos e camponeses. mas ainda está em fase de implementação. Ana Maria L.TLC dos EUA com o Peru já foi aprovado e assinado.chomsky. A mistura ex- 118 52. foi eleito o candidato de centro Alan Garcia. Tradução da autora. a mobilização não ganhou a amplitude que ganhou no país vizinho e tampouco se refletiu no panorama eleitoral. Contudo. “Ecuador en la Encrucijada”. Ano VII No19 enero-abril 2006. ameaçados com os diversos produtos agroindustriais subvencionados pelo governo norte-americano. que não apresentava nenhuma resistência à aprovação do tratado55. com a recente aplicação dos Tratados de Livre Comércio (TLCs) – quase consolidados no Peru e na Colômbia53 -. promovendo muitos conflitos na região andina.e mais um sem número de exemplos . costumes e sobrevivência dos povos indígenas. lucha contra el TLC y racismo em Ecuador”. Os pré-candidatos democratas. Alejandro. já se manifestaram contrários à aprovação do TLC por denúncias de violações dos direitos humanos por parte do governo colombiano. em especial com o campesinato. em 08/02/2002. Assim como no Equador. Não se pode deixar de mencionar a conjugação da Guerra contra as Drogas com as políticas de ajustes estruturais. 53. em especial dos movimentos camponeses. pois apresenta franca oposição às políticas internacionais do país. Para o governo estadunidense. por exemplo. eram eles os mais afetados pelas políticas de abertura econômica. e MALDONADO. No Peru. Como já vimos. Contudo. No Equador. Noam Chomsky. igualmente. várias manifestações foram feitas em rechaço ao TLC com os EUA. identifica um ponto central com relação a isso: “Já faz um bom tempo se estabeleceu uma relação de muita proximidade entre violações de direitos humanos e ajuda e treinamento militar dos EUA. o tema do TLC tem invadido as campanhas eleitorais nos EUA. em uma entrevista a Week Online em 2002. In: Revista del Observatorio Social de América Latina. é que simplesmente não se importam. que atacava a outra política conjugada dos EUA na região andina: a Guerra contra as Drogas. precedeu a chegada de Rafael Correa no poder uma série de mobilizações indígenas intensas. que pediam um referendo para a aprovação do TLC e a caducidade do contrato com a petroleira Oxy. e também de recuperação dos recursos naturais54. 54. violações de direitos humanos são uma conseqüência secundária”52. info/interviews/20020208. A petroleira Oxy possuía um contrato de exploração do petróleo que garantia meros 15% dos lucros aos cofres equatorianos. disponível em: http://www.exército colombiano. com a Guerra da Água e a Guerra do Gás. Terra e território . O TLC afetava substancialmente os produtores camponeses.Entrevista dada a Week Online. Não é que os EUA gostem de torturar pessoas.Sobre as lutas contra o TLC no Equador consultei: MOREANO. de proteção dos usos. ano das mobilizações.nos indicam que provavelmente esta foi uma das leis mais ignoradas da história americana. Apareciam então como principais reivindicações da região temas antineoliberais. pelas quais passaram todo mundo em desenvolvimento a partir dos anos 1980. Em 2006. neste país se somou a estas mobilizações o movimento cocaleiro. “Movimiento indígena. Hillary Clinton e Barack Obama. Estas políticas de aplicação de pacotes econômicos ortodoxos e diminuição da função do Estado no que diz respeito à garantia dos direitos sociais interromperam importantes processos de democratização pós-ditaduras militares.

quanto por sua política “social” de controle das drogas. tanto por sua política econômica. basta somente citar as acusações que pairam sobre o presidente Álvaro Uribe. de envolvimento com grupos paramilitares. apesar do intenso investimento americano em fumigações aéreas. Para ter dimensão do seu fracasso. grande aliado dos EUA.119 plosiva destes temas levou Evo Morales ao governo e plantou uma arraigada certeza na população de que os EUA são um inimigo. e a não diminuição dos plantios de coca. Não quero aqui me estender sobre as conseqüências específicas do Plano Colômbia e da atuação dos EUA no país. A Colômbia. é um dos países onde esta política antidrogas se tornou mais notória. São atacadas as partes mais empobrecidas envolvidas no ciclo de produção e consumo de substâncias ilícitas. criminalizadas fortemente dentro e especialmente fora dos EUA. Não é de se espantar que um dos repertórios mais fortes dos crescentes governos de esquerda e movimentos sociais andinos é o pedido de soberania nacional frente às imposições norte-americanas. como sabemos. O fato da política antidrogas dos EUA não cumprir o fim a que se propõe e de desempenhar uma de política externa de intervenção na América Latina tem consequências desastrosas do ponto de vista social. a recente invasão do território equatoriano pelo exército colombiano causando um imenso problema diplomático na região. Terra e território .

cerca de um sexto de hectare. que acarretam inúmeros danos ambientais com agrotóxicos e esgotamento do solo. Sobre os países receptores de drogas. causando imensos danos a estas famílias e à economia do país. Enquanto a coca requer poucos nutrientes. aponta Fernando Salazar.. Com as convulsões sociais que precederam a caída de Carlos Mesa. pontua Salazar. A chegada de um ex-cocaleiro ao Palácio Quemado mudou em muito as políticas governamentais acerca da produção da folha de coca. somente alcançaria a agroindústria de Santa Cruz.DIRECO. é cultivada em policulturas.Segundo a Direco.120 UM COCALEIRO NO PALÁCIO QUEMADO 56. responsável por cerca da metade da produção nacional58. como o Brasil. op. A erradicação da folha de coca excedentária promovida pelos governos bolivianos a partir dos anos 1980 significava pelo menos o corte de metade desta produção. cit. Só no Chapare. 59. tão festejada pela sua importante contribuição ao desenvolvimento do país. é que os seus rendimentos são divididos por algumas famílias. Este dinheiro.5 mil hectares. em sistemas de rotação. afirma: “Enquanto uma parte dos políticos ou de sua polícia esteja vinculada ao narcotráfico. pois se trata de uma questão de mercado internacional. DIRECO. É com esta quantidade de dinheiro que a folha coca contribui anualmente para a economia do país. a agroindústria é baseada na monocultura da soja. enquanto os rendimentos da coca são divididos por milhares de famílias cocaleiras57. livre de taxações. p. 58. É por isso que Salazar caracteriza a atuação destes governos como hipócrita: “Diziam ‘acabamos com a coca e salvamos o mundo’. o Chapare é responsável por quase 28 mil toneladas métricas de um total de 59 mil de produção nacional. o que totalizava cerca de 3. rapidamente se espalha do pequeno produtor cocaleiro para todo território nacional. A diferença. Não há luta que vai solucionar.1600 m2. op. esqueça. Terra e território . são no mínimo 40 mil famílias. a erradicação da coca na Bolívia seria presentear a outros países estes ingressos de milhões de dólares. Equivalente a isso. por exemplo”.. 57. sendo um importante motor da economia boliviana.É possível apontar também como diferença entre esta agroindústria e o cultivo de coca questões ambientais.3. do açúcar ou na pecuária extensiva. cit. etc. Ele afirma que sem uma iniciativa global séria de controle de drogas. Economia da coca US$ 290 milhões: é o valor bruto da produção de coca em 2004 segundo dados oficiais56. mas o mundo não nos salva! Brasil não nos salva com o tema energético.000 m2. Se não entra por Bolívia. vai entrar por outros lados”. que possui 10. os cocaleiros conseguiram fazer um acordo que permitia a produção de um cato59 de coca por família que não possuía cultivos de desenvolvimento alternativo.

Portanto. O problema é justamente este. vou me arriscar com este respaldo. indicam que a partir do cato de coca. ao ver que a sua coca foi reduzida. eu vi esta mentalidade de diversificar sua produção ao redor do plano cato de coca. Afiliar outros membros da família enquanto unidades familiares diferentes no sindicato passou a ser uma burla comum para possuir mais de um cato.. não seja estigmatizado pelo narcotráfico. diz José Encinas. Mesmo que haja um esforço dos próprios camponeses para a produção de outros cultivos. não tem recursos econômicos para se dedicar à produção em grande quantidade destes produtos. se não há um incentivo para a produção rentável de outros cultivos. (. ao diminuir a sua plantação de coca. Catito é diminutivo de cato. Terra e território . o que equivale a cerca de 7 mil hectares de coca legais no Chapare. professor de sociologia da Universidad Mayor de San Andrés. A estratégia geral é a de promover cultivos alternativos em paralelo ao cultivo de coca racionalizado.Tradução livre: “Um catito.. o cato de coca hoje significa uma renda miserável para as famílias cocaleiras. “A coca é sempre mais rentável”. nada mais”. “Então. os cocaleiros terão que exceder o limite das suas plantações. representante dos cocaleiros. sendo quase inexistentes os conflitos dos cocaleiros com os militares nestes seus dois primeiros anos de gestão. alguns camponeses..121 Mas foi o governo de Evo Morales que de fato “pacificou” a região. aponta Encinas. Com relação aos produtores da folha de coca. “Un catito. no más!”60 Para ter êxito na sua proposta. com que tenho certeza que terei algum recurso. (.) Estamos colaborando. não lhe sobra mais nada do que novamente se dedicar a plantar coca”. “O agricultor cocaleiro. Mas todos concordam que é necessário racionalizar. Isso para que o nosso governo. o governo aposta suas fichas no controle social feito pelos próprios sindicatos desta limitação da produção da folha de coca. ficou permitido um cato de coca por família. estão fazendo um sacrifício. depois da erradicação forçosa. Mas a própria coca pode ser este respaldo necessário para o agricultor. quando Evo Morales chegou à presidência. muitos cocaleiros passaram a produzir para além do permitido. “Os companheiros cocaleiros. pelo menos é o que pontua David Llanos. e posso produzir um pouco de 60.) Ao não ter estes recursos. A tática do governo é focar esforços militares na interdição e destruição de focos de produção de cocaína. ao racionalizar um cato de coca. Contudo. e inclusive Fernando Salazar. eles vão continuar dependentes da economia da folha da coca. se não houver uma política de desenvolvimento integral na região.. Posso produzir palmito. ‘Tenho meu cato de coca. somos conscientes”.

. a Central Ivirgarzama conseguiu consolidar um conselho de desenvolvimento produtivo. em outubro do ano passado (2007). “Enquanto que com a coca. sempre tomando em conta os mercados consumidores. Com relação à coca. tem dúvidas acerca da industrialização da coca. todo este processo”. Está nas mãos do camponês. irmão de Carlos Meneces. A empresa também terá que ganhar. o dirigente aponta que assim seria possível mostrar à comunidade internacional que a coca boliviana vai para um mercado legal. Segundo ele. vão sendo aplicadas propostas de desenvolvimento produtivo para cada cultivo. Por fim.). José Meneces.). pretendemos transformar a nossa produção mates de coca ou energizantes. com certificações (. é secretário executivo da Central Ivirgarzama. palmito. não fala bem quíchua e teve que se acostumar a mascar coca em reuniões. etc. é da cidade de Cochabamba. O grande perigo. eles mais ou menos controlam desde a sua plantação. Subirá em centavos a sua renda. a central calcula a necessidade de US$ 100 milhões anuais em um plano qüinqüenal para desenvolver a região industrialmente. apesar de reconhecer que estes planos poderiam funcionar. Mas David Llanos. não mais. isso é o que estamos propondo concretamente pela Central. Um dos exemplos é a própria coca. a cooperativa também terá que ganhar”. o produtor camponês controlava somente a parte do cultivo. até o processamento e a venda. abacaxi. queremos fazer este cultivo de coca de maneira orgânica.. Então... pimenta. aponta ele. que pode ser explorada de maneira mais rentável. é a coca que nos permite comunicar” diz ele. Como o irmão. “além do quíchua. um dos maiores problemas dos produtos alternativos como o palmito é que a maior parte do dinheiro fica nas indústrias processadoras. madeiráveis. diz José Meneces.abacaxi. uma espécie de braço econômico que tem responsáveis por cada tipo de cultivo existente na central: coca. Para isso seriam necessárias duas coisas: intenso investimento internacional. A partir daí. Além dos maiores rendimentos que se poderia obter da coca desta forma. é que em um processo de industrialização da coca. está bastante preocupado com estas questões. a mesma situação que há com o palmito se repita: “será mais uma planta de processo de alimentos. Ele conta que o elemento principal da proposta da sua central é a industrialização dos produtos da região. outros produtos alternativos’”. Conta que seguiu um árduo caminho para que seus companheiros aceitassem as suas idéias. e disciplina e vontade dos agricultores chaparenhos para de fato se incorporarem em um mercado internacional. Mas. Depois. fazer uma indústria com a nossa coca orgânica”. “Queremos trabalhar os catos de coca em áreas comunais. ele acredita que seria mais interessante a proposta de melhorar a qualidade 122 Terra e território . que a maioria dos sindicatos possui (.

mas de todas as formas. “Agora ninguém pode entrar pela . Eu considero que qualquer produto para que tenha um arranque como produto.) E. lhes daria algo de recursos com o tempo. Se não tem um mercado interno. como a produção de folhas orgânicas. Evidentemente. intelectuais. contudo. se têm algo de respaldo. Quais seriam as garantias que estas tentativas de desenvolvimento de cultivos alternativo da era Evo Morales não vão repetir os mesmos erros dos projetos anteriores? Ou seja. a principal diferença dos projetos de desenvolvimento aplicados hoje e os que eram aplicados anteriormente é que agora todos eles são feitos em conjunto com as organizações representantes dos cocaleiros. o consumo de coca continua sendo necessário. que neste caso poderia ser o cato de coca: “Eu considero que os produtores chaparenhos. de relações internacionais (.. E hoje. Segundo Feliciano Mamani. “Por que o que acontece com o palmito? O problema dele é que a nível interno não se consome muito este produto. “a coca sempre teve desde séculos um mercado tradicional mais ou menos estável.. que não tenham uma lógica de produção externa à lógica camponesa? Sobre isso. a falta de mercado de forma geral. que pode diversificar a sua produção e pode assim ter uma boa parte da sua dieta diária [garantida com isso].). é necessário que tenha minimamente um mercado interno e depois pensar em exportação. ou a dependência somente do mercado externo. ou seja. não vão ter todo o controle sobre todo o movimento desta economia. Isso explica a possibilidade de aplicação de cultivos voltados para o mercado. poderiam desenvolver qualquer outro produto. Sempre está ligada com isso. é um pouco difícil que se sustente”. com perdas. então necessitam destes recursos”. Obviamente em escalas mínimas.. (. Ficam alguns questionamentos. Em contrapartida. terrenos em pequenas extensões (de 5 a 10 hectares) e mão-de-obra familiar. não está na dieta boliviana. prefeito de Villa Tunari. A coca tem o seu mercado estabelecido em populações rurais e centros mineiros. Porque a exportação sempre tem coisas ligadas a questões políticas. Enquanto no Chapare eles vivem mais do mercado. É um problema comum. ou seja. é uma lógica distinta do que estão pensando os camponeses. não é o camponês típico do Vale Alto [cochabambino]. desde que sejam aplicáveis às suas condições materiais. Não seria algo excludente. e que os camponeses possuam o mínimo de segurança para desenvolvê-los. há um crescimento nos centros urbanos. pontua ele. mas lhes vai dar algo de ganho adicional”. comerciantes”. David Llanos explica que o agricultor chaparenho não tem a mesma lógica do agricultor boliviano tradicional. apesar de sim centrar a sua economia na mão-de-obra familiar: “o camponês chaparenho vive de ganhos monetários.123 Terra e território da folha para o consumo tradicional. diz ele. como empresa..

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um cato pode render de dois até seis pacotes. algo em torno de 80 dólares. Supondo que renda quatro pacotes por colheita. Dona Isabela com sorte vende a sua produção por 600 pesos bolivianos.. está a casa de Dona Isabela Rivera. o que Dona Isabela vai receber com a coca do pátio.125 janela. Confunde- Terra e território . a coca não seca bem. Seu marido faleceu. Ela fica justo na beira da estrada e está com o pátio cheio de folhas de coca secando. só lembra do frio e da presença de Evo. etc. Seu rendimento por colheita varia. dependendo do tempo e da qualidade das terras. se colhe três. custa dinheiro. Ela diz que com isso não dá para viver: “Como vai dar? Em cada quatro meses colhe. pois faz calor. Esta medida equivale a 50 libras ou aproximadamente 19 kilos.. Com a libra da coca valendo 12 pesos bolivianos.). Conta que outubro é uma boa época para a coca. Agora temos uma política muito diferente (.. com os comitês cívicos. precisa contratar estes peões. No inverno. Antes. Às vezes vêm para ajudar. Mas no verão a colheita é boa e a coca sai bonita. quem nos fazia brigar? O dinheiro do desenvolvimento alternativo (. mas não guardados na memória. no máximo quatro vezes ao ano. O sol também é bem vindo neste dia de secagem. Delas. A coca de Dona Isabela. já que não dá conta do trabalho sozinha. Estamos avançando no desenvolvimento alternativo”. “dá bichinhos” e tem que comprar veneno. todos têm que entrar pela porta da frente”. Não dá. fomentava entidades paralelas aos sindicatos.. Quase puro quíchua fala Dona Isabela e nossa comunicação é no começo mediada por um jovem peão que a ajuda de vez em quando. vai dar menos de um pacote depois de seca. Ele diz que os projetos financiados por organizações internacionais são hoje coordenados com as prefeituras. um cato garantiria a uma unidade familiar 600 pesos bolivianos por mês. pois se o tempo está fechado. “Era gato e cachorro entre organizações. Com 58 anos registrados na cédula de identidade.). Ela participou de marchas até La Paz. Tudo está caro”. ela vive sozinha. e depois tem que comprar remédios para a folha e para as ervas. com as federações. as folhas não crescem muito. que ocupa todo o pátio. Para a sua plantação de coca. Dona Isabela A poucos quilômetros da sede da prefeitura de Villa Tunari e de tantas conversas otimistas. mas não muito. A coca. o dinheiro do desenvolvimento alternativo causava divisões entre as comunidades. seus filhos estão grandes. explica. negreia e perde o sabor. único cultivo que tem.

Já quase indo embora. Apoiada na mesa. diz que é velha. Desconfiada. apagamos. 126 Terra e território . não fica bem. Dona Isabela se vê bonita e sorri. ao lado de um vaso de flores. pergunto se posso tirar uma foto. Fazemos um trato: se a foto sai ruim.se com as reivindicações e com os anos.

do comitê de vigilância da prefeitura. muito mais um motivo moral que econômico. A mesa era conduzida por Homar Claros. Contudo. a vida sindical camponesa é tida como muito importante. mas ele por si só não garante a extensa participação em reuniões. Havia sanções para os que faltassem à reunião. da prefeitura de Villa Tunari.127 MOVIMENTO SOCIAL E POLÍTICO NO CHAPARE Terra e território A reunião ordinária da Central Chipiriri acontece a cada primeira terça-feira do mês. da rádio comunitária e da própria diretoria da central e da diretoria da central de mulheres. Apesar de muitos dizerem que participam das atividades comunais (reuniões. as multas pagas raramente excedem o dinheiro perdido com os dias parados. Assim são as coisas no Chapare. estavam reunidas cerca de 70 pessoas. debates sobre os problemas políticos do país. no interior do mercado de coca do povoado de Chipiriri. É. Eles passavam por informes da prefeitura acerca de obras e projetos. companheiro”. O sistema de multas e obrigatoriedade de participação em reuniões é comum em quase todos os movimentos camponeses bolivianos e também em muitos dos movimentos populares. O ampliado começou às nove horas da manhã. Cada dirigente faltante ou que não trouxera os delegados de base estipulados. assim se iniciavam quase todas as falas que ocuparam o dia inteiro de debates. As discussões eram intensas.) por causa das sanções. portanto. secretário executivo da central. etc. precauções acerca de roubos acontecidos em um dos sindicatos. do comitê cívico da região. “A palavra. teria que pagar 50 pesos bolivianos. algumas vezes em tom de cobrança e acusações. Em abril de 2008. como a nova constituição e os conflitos com a agroindústria. bloqueios. Eram representantes dos 11 sindicatos afiliados. fonte de sobrevivência durante tantos anos de luta. a continuação geralmente vinha em um . serviços comunais. outras vezes em tom de conciliação. resquícios do sindicalismo operário. Ele apresenta os mais de dez pontos de pauta para serem avaliados pelos demais. ou avisos duros sobre o controle interno do cato de coca. das comerciantes de coca.

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diferente de ocorria com outros movimentos. entidade que existe subordinada à Federação do Trópico. Evo é o seu presidente. nem havia divisões ou brigas internas por haver mais ou menos acordo político com as linhas nacionais do MAS. Eles chamam estas duas figuras de “dirigente” e “dirigenta” de sindicato. secretária geral61 e duas delegadas. Era um dia de semana e. temos 61. sobre atividades congressuais nacionais e seminários de formação. Porque talvez como mulheres não temos muita preparação. Terra e território . e tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo. Jovem. Dava informes sobre a situação política do país.) temos filhos. ninguém recebia salários ou liberações para estar ali. e o MAS é o seu instrumento político. Maria Eugênia se destacava entre elas. Na hora do almoço. é explicada por Maria Eugênia: “Porque tanto mulheres como homens têm que ter uma só visão. Não usava pollera nem tranças. atos públicos ou denúncias contra a “oligarquia da meia lua”. de mulheres. cabendo à mulher mais a coordenação de assuntos femininos. normalmente quem é considerado a autoridade máxima do sindicato é o dirigente. só mulheres. A imensa maioria eram camponeses “de base” (com cargos em sindicatos ou sem nenhum cargo) e discutiam cada uma das pautas.129 quíchua pontuado com uma ou outra expressão em castelhano. assim o descrevem. Ela ocupa atualmente o cargo de secretária de atas da Federação de Mulheres do Trópico de Cochabamba. coordenou a atuação das mulheres. e que coordena as atividades políticas femininas. em voz alta e clara. Participam deste congresso quatro representantes por sindicato: secretário geral.. A proporção de gênero que não é completamente livre. guardava na parte de cima as usuais flores de plástico da cholita cochabambina. da mais cotidiana até mais política conjuntural. cerca de 15 eram mulheres. pois havia entre eles um imenso consenso de que este é o seu governo. Por isso na convocatória se põe um homem e três mulheres. com somente uma pausa para almoçar às duas horas da tarde. Contudo.. com exceção dos representantes da prefeitura. um deles era acerca do congresso da sua federação. Apesar da população do Chapare ser migrante de distintas partes do país. Mulheres cocaleiras Das mais de 70 pessoas presentes na reunião da Central Chipiriri. no geral utilizando a imensa força de mobilização característica do movimento cocaleiro em marchas. e algo como cinco pediram a palavra. o quíchua é tido como um idioma geral. Em cada comissão tem que haver homens. quechuañol. (. cada sindicato possui além do seu secretário geral uma secretária geral. falava sem hesitar. O chapéu. Não houve nenhuma preocupação em afirmar a autonomia perante o governo. Ali ninguém fazia falas de defesa contundentes do governo. Sendo isso um a priori. as discussões políticas se focam mais em como ajudar o governo. Foram mais de doze horas de uma reunião que não se esvaziou em nenhum momento. representantes de qualquer sexo.Segundo Maria Eugenia. e nem de autoorganização. A discussão se estendeu até tarde da noite. Dos informes que deu. contudo.

portanto. dá 200 pesos bolivianos anuais a famílias que têm crianças de 6 a 10 anos matriculadas em escolas públicas. “diziam ‘o que sabe ela e por que veio?’. que foi desse choro que se aprendeu a elevar a voz e superar o medo.Bono Juancito Pinto é uma espécie de Bolsa Escola boliviana. como os demais dirigentes cocaleiros. se faz vestimentas. Ela defende. “Estamos vendo que temos que ir a Santa Cruz a nos enfrentar com eles. não participamos muito dos cursos. Não se trata de mera bravata.. “Não importa se vamos defender com nossas vidas. das organizações de mulheres no Trópico é a realização de seminários de formação e capacitação política das próprias mulheres. se nos equivocamos em alguma coisa.. polleras. Por todos os avanços do governo.).. eles nos ajudam (.). os homens não aceitavam a presença das mulheres. algumas vão morrer”. Sempre peço a palavra e digo assim duro. mas às vezes as mulheres estão mais raquíticas. como demonstrou a marcha de mulheres de 1995.. explica Maria Eugenia. Maria Eugênia conhece o machismo na região. isso significa hoje a aprovação da nova Constituição Política do Estado. que são vistos como atividades de auto-suficiência. que oferece 2400 pesos bolivianos anuais para os que não possuem nenhum tipo de aposentadoria e 1800 pesos bolivianos para os que possuem. Como mãe solteira. foi feita por gente especializada em roubar (. blusas. tudo o demais. Lembra que quando começou a freqüentar as reuniões. Assim como as organizações cocaleiras “de homens”. as mulheres do trópico estão dispostas a ofertar suas vidas. a atual constituição não foi feita pelos bolivianos. mais fracas”. “Consegui romper esta cadeia de machismo. o governo de Evo Morales como uma verdadeira revolução voltada para as camadas mais pobres da população. chefe de família e que cuida do seu próprio chaco. Porque se nós não fazemos. Para Maria Eugênia.. as “de mulheres” têm atualmente como principal bandeira a “defesa da Bolívia e seus recursos naturais”. Terra e território . quem vai fazer? Porque para os homens é melhor também”. “é uma forma de aprendizado. são organizados cursos de corte e costura. Nós como dirigentas estamos dispostas a morrer. E nós 130 62. Em contrapartida. não me calam fácil. dando como exemplo as políticas assistenciais do Bono Juancito Pinto e a Renta Dignidad62. Ela enxerga a iniciativa como uma tentativa de resgate de poder dos grupos oligarcas tradicionais.que cuidar da casa. e digo as verdades (. Mas a identificação do machismo interno não interfere na concordância com os companheiros sobre o debate político nacional. a convicção de Maria Eugênia é expressada algumas semanas antes da realização do referendo do Estatuto Autonômico de Santa Cruz.) A nova constituição reflete toda a nossa realidade”. Renta Dignidad é também uma política de bonificação para os bolivianos maiores de 60 anos.) Somos como dois tourinhos que vamos arar bem juntos. Paralelamente. Até agora há muito machismo”. Se algumas vão morrer. Uma das principais funções.. Então sempre te marginavam e a gente chorava.. Ela conta.. contudo. porque ela é a primeira que “foi feita pelos e para os bolivianos. Porque em Santa Cruz muitos de nossos companheiros estão em favor da gente. tudo o que se necessita aqui no trópico”. Os homens estão um pouco mais preparados. Porque lá estão impondo a autonomia (.

Geronimo. o MAS-IPSP. provavelmente. Ela descreve o personalismo. combinada com forças militares.131 como mulheres estamos analisando bem esta conjuntura e acreditamos que temos que derrotá-los (. de egos de dirigentes e dirigentas. Porque nossos filhos já não podem viver nesta escravidão. A história do instrumento político tão reivindicado pelos cocaleiros. Apesar da vontade das cocaleiras de irem a Santa Cruz no dia 4 de maio. rádio comunitária de responsabilidade da Federação do Trópico.). a Federação do Trópico pode encabeçar [uma luta] primeiro. diz Geronimo Anturiano. Estavam em meio à Guerra da Coca e. Gosto de brigar por defender meus direitos. Porque não gosto de brigar por coisas assim. A única coisa que desanima Maria Eugênia acerca do processo político que vive o país são as brigas internas. Portanto. Ao final. era como se estivessem tapando a nossa boca assim”. “Eu não estou muito preocupada com cargos. “Não somos solitários! Por exemplo.. O atual preconceito que há da parte das militantes antigas com relação às novas a incomoda muito. o governo de Jorge Quiroga havia utilizado seu último recurso para debilitar o movimento cocaleiro: confiscar os equipamentos da Rádio Chipiriri. Caso contrário. nestas condições péssimas”. entre mulheres há esta discriminação. A voz soberana do cocaleiro No dia 13 de abril de 2002. o apadrinhamento e a perseguição interna de dirigentes que começam a se destacar como uma “guerra suja”. Tal conflito fará. evitando conflitos fatais. mas depois as outras organizações se somam e assim podemos ganhar. com que Maria Eugenia saia da federação. o problema dela não é isolado. que dissesse minimamente ‘por favor. desabafa. foi completamente ilegal. vocês não têm esta documentação. no dia 4 de maio. Por que tem que nos tratar assim? Se sempre vivemos aqui”. Percebe nisso um erro muito grande. por isso digo que vou cumprir e vou sair.. conta que a ação da polícia. a minha vida. é inteiramente pontuada por brigas internas de lideranças. Mas assim. Terra e território . todas têm que estar preparadas. no dia anterior. “Nem sequer trouxeram um aviso prévio. que há oito anos trabalha na rádio. em completo repúdio aos estatutos autonômicos. brigar pessoalmente não”. o governo pediu a todos os movimentos sociais que se manifestassem pacificamente. precisam apresentar até tal data. “Elas sempre nos dizem ‘vocês são novas’. o Trópico de Cochabamba amanheceu calado. pois acha que a organização não pode depender de algumas poucas pessoas. “Não tínhamos voz. o movimento cocaleiro em conjunto com demais movimentos camponeses organizou uma concentração de centenas de milhares de pessoas em Cochabamba. Porque sozinhos não podemos”.

Fazer parar a rádio era um grande golpe contra as organizações sindicais chaparenhas. mas pagava de qualquer forma”. o governou cedeu e os cocaleiros receberam de volta os equipamentos da rádio. “Estes programas tinham a finalidade de desorientar as organizações. uns estavam com associações. em tom de anedota. explica Geronimo. os feridos. No sindicato. nesta rádio tínhamos toda esta informação e enviávamos a nível departamental. Então. deixávamos o que nos era conveniente. Geronimo conta. “Porque muitas emissoras. estava começando a dividir. E isso não era bom para a organização. E o financiador. Em junho. a rádio cumpria um papel importantíssimo frente à desinformação generalizada que promoviam os meios de comunicação tradicionais sobre o Chapare e os cocaleiros. Eles diziam que não era bom ter as plantações da folha de coca. se incorporaram de novo aos sindicatos. Logo. não sei se escutava ou não. junto com diversos outros pontos de reivindicação.vamos fechar’”. a matança. lembra Geronimo. deixou a equipe da rádio sem saber o que fazer. Os dois anos de Evo Morales na região mudou muita coisa. Mas quando ela aceitou os preços. A primeira saída pensada pela rádio foi cobrar preços exorbitantes da agência norte-americana. a recuperação dos equipamentos entrou nas negociações dos cocaleiros com o governo. Por ser uma rádio de propriedade do movimento sindical cocaleiro. e que tínhamos que fazer plantações de palmito. pensamos. abriram a porta. outros estavam com o sindicato. que o governo dizia que estava doando equipamentos para a rádio. não relatavam o que acontecia aqui no trópico. pegaram os equipamentos e foram embora. Contudo. porque isso era droga. locais ou departamentais. Vieram. inclusive”. e o resto apagávamos. se vamos colocar estas mensagens. quando se comprovou no momento da sua entrega que eram exatamente os mesmos que haviam sido retirados. A rádio sofre com um gravíssimo problema econô- 132 Terra e território . eram contra elas. os mal-tratos físicos. Mas hoje já não há tantos conflitos. nacional e mundial. abacaxi. sejam elas nacionais. já não é necessário fazer plantão à noite para escutar pelo telefone as notícias dos conflitos. para que ela desistisse de veicular seus programas. O cotidiano da rádio está mais calmo. Geronimo dá o exemplo de quando a agência de cooperação americana Usaid quis veicular seus programas na rádio. nem tudo está às mil maravilhas. “E que fazemos? Começamos a fazer truques. a rádio sempre possuiu recortes políticos. Então. No meio dos conflitos com as forças combinadas do governo. As associações paralelas promovidas pela cooperação internacional já se esfacelaram. o sindicalismo pode morrer”. E diziam que iam dar dinheiro para pôr secadoras ou colheitadoras. isso não se via.

A outra parte é garantida pela cobrança de anúncios de casas comerciais da região e serviços.5 mil dólares mensais para a rádio. A alternativa foi pedir a ajuda da federação. Então. ano de renovação deste projeto de financiamento. a equipe da rádio estava com muitas expectativas. Mas Geronimo conta que a resposta da sua financiadora foi desconcertante: “ela já não podia ajudar. São nestas conversas sindicais. E em 2005. a voz soberana dos cocaleiros. chegaram à conclusão de que deveria haver um seminário de formação sobre comunicação. A equipe. por esta rádio.Dutch support for Media in development” mico e foi. tornando-se “Free Voice . esta contribuição significaria 2. a CAF nos felicitou. dois locutores e dois operadores . Ele deu um extenso informe sobre a situação vulnerável da rádio e sobre a necessidade dos sindicatos de recolher as suas contribuições. Logo. outros davam dicas para a programação.A CAF mudou de nome em 2004. Havia feito um estudo de transmissão para começar também a veicular programas televisivos e formar uma rede de comunicação em todo o trópico. porque o objetivo que traçamos havia chegado. Geronimo também estava presente na reunião da Central Chipiriri. que tinha várias limitações para responder a todas as demandas. que antes era composta por seis pessoas .o diretor. o secretário administrador (Geronimo). “Então. e finalmente. dizendo que a organização que haviam financiado cumpriu a sua meta”. também terminou e ele voltou à Cochabamba. que se define cotidianamente os rumos da Rádio Chipiriri. seguiu-se uma longa discussão. a rádio recebeu verbas da ONG holandesa CAF (Communication Assistance Foundation)63. Por nove anos consecutivos. começamos incomodar nas reuniões das centrais e da federação. os nossos sonhos foram cumpridos. ironicamente.133 63. para que ela garantisse a existência da rádio.está hoje reduzida a quatro. Com os 18 mil afiliados que tem a federação. o governo Evo Morales um dos responsáveis indiretos por isso. Porque fizemos o companheiro Evo chegar à presidência. dizendo que eles levassem mais a sério”. Evo Morales havia acabado de ser eleito presidente e isso obviamente significava tempos melhores para o Chapare. um comunicador profissional. que vão dos tons mais exaltados aos mais conciliatórios. Terra e território . o que garantiria parte do pagamento dos seus salários e custos de operação. Um dos locutores da rádio foi embora e o contrato com o diretor da rádio. Alguns reclamavam que a locutora que ficou não fala bem quíchua. Os resultados dos problemas financeiros apareceram duramente neste começo de 2008. Igualmente. Geronimo escutava e dava também as suas opiniões como representante da equipe da rádio. A federação decidiu então cobrar uma contribuição anual de 12 bolivianos de cada afiliado para a manutenção da rádio.

Minha experiência com o movimento estudantil brasileiro me ensinou a considerar o aparelhamento dos movimentos sociais feito pelos partidos de esquerda uma das coisas mais condenáveis que existe na política. Achei um adesivo. assim como a sua sala principal tem esta dupla função. etc. a pessoa que estava sendo atendida e todas as demais que queriam falar com ele. onde eu poderia conversar com os dirigentes cocaleiros. O assessor lhe indicou que era melhor utilizar mais bandeiras bolivianas. tinha a firme intenção de entrevistar Júlio Salazar. cartazes. foram quase duas horas de espera dentro de uma sala onde ficava ao mesmo tempo a secretária. O dirigente cocaleiro coordena muitas das atividades do partido dali. Era ajudado por um assessor do partido na redação da convocatória do ato. Ao menos.Bandeira quadriculada formada por sete cores símbolo do Qullasuyu quando a cor branca está no meio. Procurei mais coisas. se constitui teoricamente enquanto um braço do movimento? Enfim. era a pergunta que passava em minha cabeça todo o tempo. assim como atende organizações base da federação e movimentos amigos. e quando o partido em questão é um instrumento político do próprio movimento? É aprovado em seus fóruns enquanto partido político e. perguntei à secretária se haveria uma outra ocasião mais tranqüila. que indicassem que ali também funcionava a sede de uma federação cocaleira. Não consegui a entrevista. No tempo que estive ali. Ela me escreveu em um papel “Shinahota. me horrorizava. secretário-geral da federação. da Bolívia e wiphalas64.Visita à Federação do Trópico A sede da Federação do Especial Trópico fica em frente à Praça Busch. Mas. Cansada de esperar.. 26/10/07. recém chegada na cidade. exerce também a função de presidente departamental do MAS-IPSP. Portanto. panfletos. a mesa de Salazar. em Cochabamba. ele sempre é feito às escondidas. Pediu a Júlio bandeiras do partido. que na época organizava um ato em defesa da Renta Dignidad. ou melhor. me chamou a atenção um senhor dirigente dos aposentados. já que ele tinha muitas dificuldades com a palavra escrita. Terra e território . Na primeira vez que eu passei por lá. A federação serve como sede do partido. acompanhei brevemente o cotidiano desta mescla intrigante de sindicato e partido. dialogaria com o nacionalismo boliviano. nunca tão explicitamente. Tudo me impressionava. Júlio Salazar. Nunca havia visto tamanha confusão entre um movimento social e um partido. 134 64. além do seu cargo na federação. uma folha a menos para a droga”. por exemplo. imitando o logo da coca-cola: “Coma coca. portanto. pois isso tornaria a comunicação do ato mais eficaz. além de cartazes para organizar a agitação do ato.

conta que a repressão foi um importante fator para que os cocaleiros aprendessem a falar de política. Ele foi surgiu em 1995. fazendo anotações. conta Mijia. sendo presidente da República. e para também acabar com as leis malditas. cocaleiro fundador do instrumento. “Então era para enfrentar estes governos de turno. Evo Morales. que estavam acabando com as organizações produtivas do trópico. colonos (CSCB). a organização muito à parte e a política muito à parte. Perguntei se era o presidente da federação. “Os governantes nos diziam que a nossa política era machado e pá. um deputado”. Mas discutimos e entramos em acordo. Os cocaleiros estavam cansados da sua impotência frente aos governos da época. De movimento social a movimento político Desde a sua fundação. prefeito de Villa Tunari. Mesmo agora. Segundo alguns. também temos o direito de ter um prefeito. os cocaleiros não permitiram que ele abandonasse esta função. Com isso queríamos acabar. onde participaram camponeses (CSUTCB). contratamos pessoas para passar cursos sobre política. a idéia de formá-lo se popularizou entre os cocaleiros durante a marcha de 94. Era para que houvesse uma união entre orgânico e político. Segundo Francisco Mijia. todas as centrais e federações juntas”. Feliciano Mamani. no congresso “Terra.135 Aniversário do presidente”. Território e Instrumento Político”. de fato. Por mais que o MAS tenha contado com outros setores importantes para a sua consolidação. perguntei muito jornalista. Ela respondeu rindo: ”Evo Morales”. é inegável que os cocaleiros foram e continuam sendo uma força central. no início dos anos 1990. a Coordenadora das Seis Federações do Trópico teve somente um representante máximo. como a Opção Zero e também a lei de imunidade. Mas. diz ele. Os cocaleiros sempre reivindicaram para si a paternidade MAS-IPSP (Movimento ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos) ou simplesmente instrumento político (IP). Nós estivemos em seminários. Lá iam estar os principais dirigentes durante todo dia. E como vamos suportar isso? Também tínhamos direito de formar uma política. que dificilmente cumpriam os seus acordos e que promulgavam leis impopulares sem que os movimentos sociais pudessem fazer qualquer coisa. Porque antes era diferente. me garantiu. mulheres camponesas (FNMCB-BS) e Terra e território . um presidente. Ela respondeu que sim. de todas as federações. “foi neste momento que a proposta ficou mais clara”. é um mecanismo para que ele não se afaste das suas bases e sempre volte ao trópico para prestar contas da sua política. a criação do instrumento político partiu de uma iniciativa conjunta dos cocaleiros com outros setores. “Seu nome?”.

136 Terra e território .

. Logo.O deputado plurinominal é eleito com a somatória dos votos nacionais em uma determinada sigla.. caso eles quisessem disputar estes espaços. e Alejo Véliz. Assembléia pela Soberania dos Povos (ASP) e o seu encarregado político era o dirigente camponês Alejo Véliz. op. portanto. que novamente estava em aliança com a . e o Mallku do outro”. ir crescendo a partir das prefeituras: “Eles pensavam que o negócio não era chegar na prefeitura. 67. 68. A idéia era que houvesse uma “participação direta dos militantes sindicais mediante uma adesão coletiva das suas organizações. op. 75. A representação nacional dos cocaleiros se dividia entre a CSUTCB e a CSCB. na sua maioria camponeses do Chapare67. quando se consegue a sigla do MAS (Movimento ao Socialismo). 31. 75.Idem. Alejandro Almaraz. Como já comentamos anteriormente. debilitando muito a sua luta66. E estes eram os que estão agora. promulgada um ano antes. portanto. p. Terra e território indígenas do oriente (CIDOB). ex-membro da direção nacional do MAS e atual Vice-ministro de Terras. de 1995 até 1999. mas sim a criação de um braço eleitoral tático. De fato. a princípio.. sem criar uma estrutura partidária”65. Jorge.DO ALTO. que tinha uma considerável base em outras regiões camponesas cochabambinas. as brigas internas entre as lideranças camponesas no interior deste movimento começaram a dar seus frutos. Contudo. Hervé.137 65. duas eleições diferentes. quando ele concorria à presidência e a deputado plurinominal68 pelo ASP. os potosinos – os dirigentes camponeses potosinos também era muito fortes – e outros que ficaram à margem do MAS e que faziam parte desta idéia inicial: Alejo Véliz de um lado. não era uma incorporação destes movimentos a um movimento político. que representava o setor cocaleiro. o instrumento teve que participar das eleições com siglas emprestadas e coalizões. mas sim ir avançando: prefeituras. Tradução da autora.com a sigla de Esquerda Unida e em coalizão com o Partido Comunista da Bolívia (PCB) – em dezembro de 1995. o instrumento político enfrentou um grande problema nos seus primeiros anos de existência: a negativa constante da Corte Nacional Eleitoral em lhe dar a sua personalidade jurídica. Evo. Já o deputado uninominal é eleito com somatória dos votos regionais. O nome dado a este instrumento foi. cit.KOMADINA. não se pode ignorar um outro importante fator para a criação deste instrumento: a Lei de Participação Popular. et al. Portanto. foram eleitos 11 prefeitos. São. Em teoria. na primeira eleição que o instrumento político participou . a lei abria espaços para a participação de camponeses dentro da política institucional local e. p. Este instrumento também respondia a uma demanda histórica de evitar as tradicionais divisões que sofriam as organizações sociais nos momentos eleitorais. parlamento e algum dia ganhar a eleição nacional. A principal delas era entre Evo Morales. diz que o entendimento dos dirigentes do instrumento era uma espécie de apropriação da LPP. igualmente necessitavam de um instrumento eleitoral. 66. cit. Esta briga leva a uma grande quantidade de sindicatos cocaleiros a boicotar a candidatura de Véliz em 1997. Contudo. p.

3% dos votos nacionais. p. em coligação com o PCB. 138 69. o que indicava que o “grupo do Evo” tinha bases políticas nacionais. É inegável que a sua relação com o movimento cocaleiro é da mais orgânica possível. conseguiu angariar somente 1. O ideal de instrumento político já aparecia bastante arranhado. enquanto o grupo de Alejo Véliz. DO ALTO.Esquerda Unida69. 78. cit. Ela era inaceitável para Felipe Quispe.Este boicote é relatado por Hervé do Alto. tratava-se de uma sigla criada por um antigo membro da Falange Socialista Boliviana. esta relação foi diferente. o Movimento Indígena Pachakuti (MIP). dando o nome atual do partido. pois se pretendia a representar de uma ampla gama de movimentos sociais se dividiu com uma simples briga de caudilhos. Quispe começou uma aproximação maior com o setor de Alejo Véliz e criou o seu próprio partido em 2000. partido de extrema direita. o deputado uninominal com a melhor porcentagem de votos em todo o país. mas não votassem em Véliz nacionalmente. eleito inclusive para mediar os grupos “evistas” e “alejistas” na confederação. 33-34. Hervé. 70. Além disso. a cor azul.. que fez com que regionalmente os cocaleiros votassem em Evo Morales para deputado uninominal.KOMADINA. se explicitou no resultado das eleições: Evo Morales foi eleito com 70%. Em 1999. onde Roman Loayza era importante dirigente camponês. cit. não pôde ser mudada. não conseguiu os votos suficientes para ser eleito deputado plurinacional. a sigla MAS-IPSP obteve 3. 61% dos votos que obteve a sigla não provinham do departamento de Cochabamba. processo que veremos mais à frente. et al.. Para a CSUTCB. O instrumento político idealizado pelos movimentos camponeses em 1995. Os votos do MAS. segundo ele. e Alejo Véliz.. inicia os anos 2000 como instrumento de alguns setores e de outros não. a adoção da sigla fascista negaria completamente a identidade indígena do instrumento. Contudo. a sigla “MAS” é oferecida a Evo Morales. Aceitando a sigla com muita dificuldade. pois dependia das suas direções políticas. A partir deste momento. cor do coorporativismo fascista boliviano. mas. cabeça de chapa. Quispe havia participado de algumas reuniões do IPSP. Tradução da autora.1% dos votos70. sendo factível para este setor o seu entendimento como braço político. então secretário-executivo da CSUTCB. op. fazendo com que os “evistas” adotassem a sigla de IPSP (Instrumento Político pela Soberania dos Povos) e os “alejistas” ficassem com ASP. A adoção da sigla “MAS” teve outras conseqüências. Ironicamente. contudo. Um pouco antes das eleições municipais de 1999. também contaram com uma votação expressiva na província cochabambina de Ayopaya. Terra e território . apesar da sua vanguarda política estar concentrada em Cochabamba. op. O voto cruzado. Jorge. apesar de serem massivos na região do Chapare. Inclusive. o setor evista consegue agregar-lhe o IPSP. p. mas sim do resto do país. Este fenômeno impulsionou o racha dentro do instrumento.

à qual sucederiam múltiplas fases de aproximação e afastamento. permite identificar a lealdade de geometria variável das organizações sociais em relação ao instrumento político. o movimento cocaleiro tem sim muitas referências nas lutas do operariado mineiro. 76.Sobre isso fala Eduardo Córdova: “Há alguns que dizem que os 21 mil mineiros que foram despedidos foram produzir coca. Mineiros e cocaleiros São muito comuns as comparações entre o protagonismo recente do movimento cocaleiro com o antigo protagonismo mineiro.5%”. é fonte de muitas Terra e território . um setor organizado em torno da Coordenadora de Povos Étnicos de Santa Cruz (CPESC) é mais radicalizado e se identifica com o instrumento político. p. como muitos pensam. a partir da criação deste instrumento e do seu funcionamento como estrutura autônoma das entidades que o propuseram. muitos se foram e não ficaram e voltaram às cidades ou a outros lugares.. um ano depois das demissões em massa de mineiros que marcou a decadência do seu movimento. como todo movimento social boliviano da atualidade. a proporção de exmineiros entre os camponeses cocaleiros era ao redor de 4% a 5%. Em um trabalho que vi dos anos 90. No oriente. Inclusive o MST. que se cria duas confederações camponesas paralelas. houve uma migração mineira nas décadas anteriores. alguns se foram. Tradução da autora. apesar da Cidob ter uma relação bastante variável com o MAS. o instrumento político sempre foi um processo alheio. Em um trabalho que se fez em 2002 em outra zona era de 2. em particular. Em uma federação de cocaleros que eu estudei. Mas. A CSUTCB se parte em duas. Um dos maiores propagadores da tese de que a vanguarda dos movimentos sociais bolivianos passou na década de 1980 dos mineiros para os produtores cocaleiros é Filemón Escobar. mas a população de ex-mineiros no Chapare hoje não é muito significante72. Fato é que. tem o setor de Santa Cruz com mais proximidade com o MAS e outros setores nacionais que adotam posturas mais autônomas. Mas dos que se foram não ficaram muitos.DO ALTO. que se amparou na sua experiência de ex-assessor político do movimento mineiro para se tornar um dos maiores ideólogos do instrumento político. Não se pode afirmar. Mas isso não é verdade. que houve um deslocamento populacional significativo das minas ao Chapare. Hervé. e outra com o MAS. De fato. Em 1986. é pela briga que se instalou dentro desta confederação a partir da negação de Quispe de participar do instrumento. Segundo Hervé do Alto “esta antecipada baixa [da Cidob]. Para a Cidob. oscilando entre a lealdade incondicional (que ilustra o setor cocaleiro) e a permanente negociação de fidelidades políticas”71.139 71. uma parte identificada com o discurso indianista de Quispe. op. Filemón Escobar. A grande maioria dos mineiros que em 85 se migraram para lá. contudo. já que se afasta da sua consolidação logo depois de 1995 por se inclinar neste período a táticas eleitorais clientelistas de alianças com partidos tradicionais. 72. provavelmente se dirigiu a outras regiões posteriormente. o Chapare vivia uma das suas maiores crises com a baixa do preço da folha de coca. cit. era ao redor de 5%. o fracionamento dos movimentos sociais bolivianos foi um processo constante.

eleições municipais. Portanto. total convergência com as idéias mineiras. cit. 74. Para explicar a estratégia de luta do movimento cocaleiro dentro da democracia representativa. para pressionar o modelo e atacar com nossas demandas e necessidades até que ele arrebente pelas suas próprias limitações internas”76.Entrevista citada em: KOMADINA. Tradução da autora.delas.. Segundo Escobar. cit. ressaltando que ao ser antiparlamentários não podemos deixar o campo livre aos nossos inimigos de classe. op. Havia dentro do instrumento político. aponta que o bloco mineiro foi uma exceção na experiência deste movimento: “a regra foi a estratégia insurrecional ou a participação eleitoral mediada pelos partidos de esquerda que atuavam como ventríloquos dos do movimento operário e camponês”74. nossa tarefa consiste em levar um bloco operário o mais forte possível ao parlamento. Román apud KOMADINA. Jorge. op. teve uma outra conseqüência: evitar que os cocaleiros adotassem a tática da guerrilha contra os constantes abusos que sofriam. e a única maneira de isso acontecer é entrarmos na linha da democracia representativa”75. defesa da biodiversidade e dos recursos genéticos e naturais. Terra e território . Jorge. op. o movimento operário. 39. cit. segundo ele. et al.. Tradução da autora. esta foi uma grande conquista. p.LOAYZA. 76. a única forma de defendê-la é com os sindicatos cocaleiros se transformando em força política. 77. Frente ao eleitoralismo. Institucionalidade: tática ou estratégia? A tese do instrumento político. assentamentos humanos. escritas em 2000: “Participamos dos espaços que nos oferecem na sociedade neoliberal. percepções da disputa parlamentar enquanto tática.. propostas de leis. 75. o que demonstrava pela primeira vez a possibilidade real de eleger um presidente. que identifica nestas palavras uma “leitura tática e instrumental” da democracia como um todo77 e não uma crítica a um sistema político específico. Mas Jorge Komadina. aponta que esta visão de Loayza foi superada dentro do MAS em 2002. p.Idem. cit. oponhamos a formação do bloco parlamentar mineiro”73. Mas. Komadina. Jorge. como podemos ver nas palavras de Román Loayza. p. 39. participação popular. Tradução da autora. o instrumento político foi impactado com o segundo lugar obtido por Evo nas eleições presidenciais. 39... 38. Neste ano. segundo Escobar. “A partir dos seus resultados o MAS interiorizou uma estratégia 140 73.. investigador social de Cochabamba. no princípio do movimento. contudo. p. a idéia do instrumento político tem. já que eles igualmente não se submetiam a um partido político.KOMADINA. et al.KOMADINA. 39. “Eu lhes dizia: ‘a única forma de defender a folha de coca não é agarrando os ferros. p. et al. ele recorre ao bloco parlamentar mineiro: “A Tese de Pulacayo diz textualmente que ‘na próxima luta eleitoral. mas sim ao movimento do qual fazem parte. Jorge. não era somente a idéia da guerrilha que se opunha a estratégia parlamentar. nacionais. op. etc. et al.. saúde. Tradução da autora. reforma educativa..

p. acabou sendo o mediador que permitiu rearticular os movimentos camponeses com o Estado. Hervé do Alto pontua que nos casos de profundas crises do Estado e de intensa mobilização social. muito mais cômodos no manejo da atividade parlamentar tendem a se apropriar da palavra pública do MAS-IPSP e.53. mas a pressão dos seus próprios sindicatos de base o fez incorporar a proposta mais avançada. ele já se consolidava como um a priori da sua ação. op. portanto.. Tradução da autora. Ele identifica como conseqüência deste maior eleitoralismo uma espécie de “oligarquização” do MAS. cit.. possuía uma base estratégica de independência política do campesinato e dos trabalhadores e da defesa da terra e do território. o que explica a tendência de se mobilizarem se existem motivos para fazê-lo dentro deste espaço”79. a definir eles mesmos as orientações do partido”. Hervé. ele acabou sendo o contrário. Contudo. cuja estruturação se sustenta em formas organizativas previamente existentes. 88. os intelectuais e/ou exmilitantes da esquerda. democrática e eleitoral para chegar ao poder”78. tudo isso foi um processo contraditório”. portanto. o instrumento político.DO ALTO. De dentro do partido. no exercício dos governos municipais.141 78.). “Enquanto os militantes têm dificuldades para adaptar-se a este novo âmbito que é o parlamento. p. Mas na prática. na qual o partido oficialmente defendia somente o aumento das regalias petroleiras de 18% para 50%. como sindicatos ou juntas vicinais. apresentam uma forte sensibilidade ao ‘que sucede’ dentro do espaço dos movimentos sociais..Idem. apesar de localizar as raízes dela já nas primeiras gestões realizadas pelo MAS em prefeituras. Agora. não viriam mais críticas sistêmicas ao Estado boliviano. Tradução da autora. as bases dos movimentos populares (inclusive as do próprio MAS) apontam uma agenda que obriga o partido a mudar o rumo das suas políticas. “A explicação que propomos aqui deste fenômeno é essencialmente estrutural: a ausência de aparato partidário que caracteriza o MAS-IPSP permite entender porque suas bases. mas baseado neste modelo de independência política. através da LPP. 79. não se pode generalizar que há uma mão de via única da esfera política em direção à social. “Inicialmente. do Estado e de qualquer partido político (. que eu apoiei muitíssimo. que após 2002 começou a incorporar cada vez mais intelectuais da esquerda que tinham um peso mais importante que os camponeses e indígenas no momento de definir quais seriam as figuras parlamentares. O principal era terra e território. Hervé do Alto concentra parte do seu trabalho nestas contradições do MAS. Ele cita o exemplo da reivindicação de nacionalização dos hidrocarbonetos. Pablo Regalsky lamenta profundamente esta mudança. Terra e território .

MAPA DE ACHACACHI 142 Detalhe Terra e território .

O movimento indígena de Omasuyus Terra e território .143 4 .

144 Terra e território .

região correspondente à Bolívia dentro do território inca. A capital da província. Em aimará q’alachaka significa ponte de pedra. reminiscências da Revolução Nacional de 1952. passamos por uma ponte.145 REBELIÕES AIMARÁS 1. Desde os tempos pré-incas. comparável aos exércitos de Tupac Katari (1781) e Zárate Willka (1899). perseguindo o trajeto do sol num caminho de leste a oeste. Eles reivindicavam a refundação do Qullasuyu. é o centro de comércio da região. representa cada uma das regiões incas. cit. Os aimarás em estado de guerra portavam acima de tudo as lembranças da sua história rebelde. op.hoje chamada província Omasuyus. Xavier. dependendo da disposição destas. Armados com mausers da década de 1950. Ali se reúnem os camponeses todas as quartas e domingos para distribuir seus produtos e comprar outros de necessidades básicas. quase imperceptível para os viajantes pela pequenez do riacho que ela atravessa. já a caminho de La Paz. Quando a cor branca cruza a diagonal da bandeira. o Tawantisuyu. Traziam marcadas as palavras pronunciadas por Tupac Katari mais de duzentos anos antes: “Eu morro. Achacachi. Terra e território A promessa de Katari Uma grande extensão de terras se espalha na região entre a Cordilheira Real dos Andes e o Lago Titicaca. Filetes de água correm do degelo dos altos picos nevados da cordilheira em direção ao lago. em Q’alachaka. bandeira de sete cores que. Saindo da cidade em direção sul. que em quíchua significa “as quatro jurisdições unidas”1. 173. estas palavras sempre foram símbolos de terror para a população criolla ur- . mas amanhã voltarei convertido em milhares de milhares”. agricultores povoam densamente a região . Ali. Estas águas irrigam a região. estes camponeses aimarás demonstraram todo o seu repúdio ao Estado boliviano.ALBÓ. de tubérculos e para a criação de animais. Carregavam a wiphala. se formou no início dos anos 2000 o terceiro grande exército indígena da história da Bolívia. tornando-a apta para o cultivo de cereais. localizada no departamento de La Paz. p.. Esperança de libertação para os índios aimarás da região ocidental boliviana. trata-se de uma bandeira do Qullasuyu.

Xavier Albó é um antropólogo estudioso do movimento indígena boliviano e em especial o aimará. Perfiles de la protesta. dirigente máximo da principal organização social boliviana. mas focava em uma exploração ainda visível e existente. El Mallku2. abrindo os diques que forneciam água à cidade. 61. cerco e comprovação de uma suposta barbárie indígena. Rufo Yanarico e Eugenio Rojas fizeram parte do comitê de bloqueio de 2003. em especial do conflito que houve em Achacachi no dia 9 de abril de 2000 entre os camponeses e os militares do quartel que está na própria cidade. John. Felipe Quispe. Elas coincidiram com a Guerra da Água em Cochabamba e com diversos outros protestos nacionais contra a Lei de Águas do governo de Hugo Banzer. seus recursos naturais. os índios bolivianos identificam a velha dominação colonial e racial com o nome moderno de neoliberalismo. era secretário executivo da CSUTCB de 1998 a 2003.Mallku significa em aimará significa condor ou líder. funcionário da prefeitura. a memória katarista é uma memória de medo. que tem em Omasuyus o seu foco de estudo. Para a elite mestiça que até hoje vive na sede do governo boliviano. No início do nosso século. com bloqueios de estrada. 2005. 146 2. Tupac Katari realizou um cerco da cidade de La Paz que durou meses. mas que igualmente usurpa suas terras. e participaram de todas as demais mobilizações anteriores. Fundación Unir / Fundación PIEB. In: CRABTREE. uma comunidade próxima ao lago Titicaca e na província de Omasuyus. A convulsão de movimentos de 2000 As mobilizações iniciaram em Omasuyus em abril de 2000. Rufo Yanarico se lembra bem desta época. Pablo Mamani é professor de sociologia da Universidade Pública de El Alto (Upea).bana. p. deixou a cidade sem comida e ameaçou inundá-la pela parte sul. Eugenio Rojas é atualmente prefeito de Achacachi e Rufo. Nascido em Jisk’a Axariya. La Paz. Terra e território . ele focou muito da sua gestão em mobilizações na sua região natal. *** A história sobre a rebelião aimará de 2000 a 2005 me foi relatada por alguns personagens que participaram ativamente dos protestos e por outros que tornaram destes protestos seu objeto de estudo apaixonado. Marxa Chávez é uma jovem socióloga pacenha. questiona seus modos de vida e de entendimento de mundo. importante centro de reflexão da identidade aimará por estar localizada em um centro urbano com um movimento étnico muito forte. O protesto era ancestral.

e ali queimaram papéis e confiscaram armas. O governo a princípio queria prender todos os envolvidos na morte do capitão. Álvaro (coord. os cocaleiros enfrentavam a política da coca zero. ao ver morto um irmão. 122. entraram na prisão e na escola base da polícia. é que os infratores do lado do exército “carregam condecorações. descem as águas até aqui”. As negociações se concluíram no dia 14 de abril3 sem nenhum avanço concreto. Então. O conflito logo causou a morte de dois jovens. os professores rurais e urbanos protestavam fortemente contra os salários baixos e faziam uma forte greve nacional. As ruas e as praças deste país levam os nomes destes assassinos. Neste protesto houve um enfrentamento entre os camponeses e os militares do regimento Ayacucho. Terra e território .Idem. 5. Felipe Quispe. um domingo de feira.GARCIA Linera.) et al. 122. Mas logo em setembro e outubro de 2000 as mobilizações iniciaram de novo. p.. pontua Quispe. com o degelo. Haviam se mobilizado com um bloqueio da estrada que liga Cochabamba a Santa Cruz para pedir a não construção de mais um quartel militar no Chapare. a permissão de um cato de coca por família e a aplicação de políticas reais de desenvolvimento alternativo5. nem os camponeses. E a gente dizia que da nossa parte também era intocável. que matam um capitão do exército como represália. 404. p. a gente exigiu do governo que eles identificassem no exército os soldados que haviam matado os dois jovens camponeses. Porque matar um branco é como matar um deus. A diferença. quem mata o branco é visto como um diabo. “tinham que ir para a prisão 70 pessoas da comunidade (. Depois. com esta mesma força impulsionada pela raiva. Porque era uma ação comunitária.. O primeiro era a comemoração da Revolução Nacional. E eles diziam que isso era intocável. esteve nas negociações posteriores ao 9 de abril entre os camponeses e o governo. op. 4. que acompanhava as mobilizações desde La Paz. cit. Ao mesmo tempo. Na região do trópico cochabambino. ninguém acabou sendo preso pelo conflito em Achacachi. Ali abaixo tem uma lagoa e dela. localizado na própria cidade de Achacachi. tanto em Omasuyus quanto nacionalmente. desta gente que mata a nação indígena”. iniciada nesta mesma data. p. Ele conta que neste dia.). tiraram o capitão do hospital e o mataram”. Estas mortes enraiveceram os camponeses.. Além disso.. porque “o general Banzer queria vender as águas do nevado do Illampu.Idem. já que a Lei de Águas já havia sido cancelada pelo governo por mobilizações anteriores4. Rufo conta que o capitão foi tirado ainda vivo do hospital. com forte militarização e repressão aos cultivos da folha. O segundo. não íamos investigar nada. toda as pessoas se levantaram e mataram o capitão”. nem os militares. e toda esta água teríamos que pagar. os camponeses estavam reunidos por dois motivos.147 3. mas “os camponeses. era um protesto contra a lei de privatização da água.

p. de cercar La Paz”. 124. como muitas cidades coloniais.Ibidem. Durante mais de duas semanas. a visualização dos índios como selvagens que iam entrar. o estabelecimento de mercados camponeses. pelo menos da zona central. discussões. de mais de 70 pontos. ‘Que está acontecendo. Toda a cidade está cercada e a memória do cerco é muito forte. Há espaços que os indígenas até agora não podem entrar. A principal cidade do país teve que receber alimentos por via aérea. “Há uma preocupação de todos os setores urbanos. planejavam táticas e se preparavam para o enfrentamento. as principais estradas da Bolívia estavam bloqueadas. fez explicitar as heranças coloniais que persistem na cidade: “Era muito evidente o racismo que havia em La Paz. Se você vai a um café na zona sul com uma pessoa que se veste de pollera. presente no planejamento de cada ação de mobilização. também ameaçavam com a inundação da cidade. Era a mais completa recriação da saga de Katari. Este era um dos pontos de bloqueio estratégicos da região de Omasuyus e os camponeses o mantinham através de turnos feitos pelas comunidades. segundo ela. os bloqueios no interior do país eram muito intensos. Era isso o que dizia a elite branca que vive na zona sul. não te servem. O cerco de 2000. e a cidade de La Paz estava completamente cercada. não querem te atender”. O surgimento do Quartel de Q’alachaka Ao mesmo tempo. entre outros pontos: a revisão da Lei Inra. Terra e território . 148 6. “São os maiores bloqueios que houve no país nos últimos 25 anos”. que iam assaltar e queimar a cidade. Então a memória indígena de mobilização recupera estas formas tão antigas de pensar a política. Os movimentos indígenas. que agora já não eram somente camponeses. e a doação de tratores para a mecanização do campo. a revisão do decreto 21060 aprovado em 1985: marco do início das políticas neoliberais na Bolívia com a demissão dos trabalhadores mineiros e políticas de estabilização econômica. mas também contavam com um importante setor urbano da cidade de El Alto. com todos os caminhos que vão ao interior do departamento fechados6. Tupac Katari fez um cerco que durou de seis meses a La Paz. mas a junção de diversos movimentos nacionais em mobilização fez com que a reivindicação da CSUTCB fosse mais factível. Os bloqueadores se reuniam nesta montanha e ali faziam assembléias. o que vai acontecer?’. diz Marxa Chávez. La Paz historicamente está constituída assim. E continua sendo uma cidade colonial.A região de Achacachi se mobilizava segundo as reivindicações da CSUTCB que incluíam. Foi nesta mobilização que surgiu o Quartel Indígena de Q’alachaka. Tratava-se de uma lista bastante ambiciosa. Logo atrás da pequena ponte que marca a entrada da cidade de Achacachi há uma montanha.

149 Terra e território .

Esta disposição à luta armada é explicada por Felipe Quispe por duas motivações. fazia frio. na montanha. são táticas pensadas diariamente”. lá em cima. nossa identidade. feitas em todos os dias do bloqueio de caminhos. ‘se o governo não responde. de nossa economia. E pensamos também as nossas ações. E o chamam Quartel Q’alachaka. Um exército indígena destas características não era visto desde 1899. mas isso vem da nossa militância. Mas o quartel. Eugenio Rojas explica que os governos posteriores tentaram retomar as armas dos camponeses. mas eles. Uma boa estratégia que tomaram os nossos avós”. Todas estas pessoas se encapuzam. Eu estava ali permanente no comando. pegam armas e estão com as bases”. as armas mais pesadas. E as discussões são diárias. para que ninguém as visse. não era somente um espaço de discussão política. ninguém podia ver. conta Felipe. A imprensa. colocaram os mausers abaixo junto com as bases. se debate. no qual as pessoas portavam armas. dispostas a um enfrentamento intenso. Das mobilizações de setembro e outubro de 2000. o exército. Vão surgindo estratégias revolucionárias. A segunda seria a experiência de alguns militantes aimarás com as guerrilhas armadas das décadas anteriores. de resgate das suas próprias raízes: “aí se formavam as pessoas. e os morteiros. Porque a cada dia vêm pessoas novas. como a luta de Tupac Katari. daí nasce a reconstituição de Qullasuyo. com os seus próprios caudilhos”. espertos. nossa história. não se cansavam. quando houve o exército indígena de Zárate Willka. era principalmente um espaço de resistência. do EGTK. Os camponeses também baixavam por turno. outro dia é de outro. não se pode cansar. As armas provêm principalmente da Guerra do Chaco da década de 1930 e da Revolução de 1952. se discutia temas importantes. que medidas vamos tomar?’. “entregaram as armas mais antigas e ficaram com as novas. um dia é turno de um grupo. só de avião se podia ver. A primeira seria o resgate da luta rebelde dos antepassados índios contra o branco opressor. Este quartel é um lugar onde se gera idéias. obviamente. Era pleno inverno. “Para que não houvesse desarme. Rufo lembra em especial da grande união que havia entre os camponeses e os professores rurais: “Os professores cancelavam as suas aulas e vinham aqui por turno dormir em Q’alachaka. as armas mais modernas mais acima.Eugenio Rojas vê o quartel de Q’alachaka como um espaço de formulação política. Fala-se muito de Tupac Katari. Marxa Chávez crê que a criação do Quartel Indígena de Q’alachaka é o evento mais importante que acontece neste bloqueio: “É outro ponto de trajetória [aimará] muito radical. dos Ayllus Rojos. com suas próprias armas. muito importante para o movimento indígena. Quando se declara alguma 150 Terra e território . como o Exército Guerrilheiro Tupac Katari (EGTK) do início da década de 1990. onde estávamos bloqueando.

Terra e território . se apropriaram da nossa terra”9. 10. como Los Andes. 123.Ibidem.8 milhões de hectares de terras para os camponeses. Pela primeira vez. a mobilização não tinha um caráter nacional e se focava na região aimará. com um presidente. A mobilização aimará de 2001 Apesar da imensa pauta conquistada em outubro de 2000. com uma mobilização que tinha como foco acima de tudo a construção de um projeto político.GARCIA Linera. já no início de 2001 era perceptível a pouca vontade do governo de cumprir com o prometido. Eram 72 pontos. Manco Cápac. Na ocasião das negociações. Tradução da autora.). mil tratores. eram apresentadas demandas étnicas. São elementos que abrem e rompem status de conveniência. Segundo ele. 126. porque a mobilização era contundente”. as declarações de Felipe Quispe às autoridades de governo ficaram conhecidas e ajudaram a fazer crescer o sentimento étnico de povo oprimido historicamente pelo branco estrangeiro: “Eu não vou olhar nos olhos de vocês. mercados camponeses.. levantamento ou conflito social. que pesquisa as estruturas simbólicas da resistência aimará. p. de reivindicação mais corporativa. p. como mudança de bandeira. diz Felipe Quispe8. “praticamente destruímos o governo de Banzer. uma sede para a CSUTCB.) et al. como soberania territorial.. Isso me dói porque vocês. as pessoas não se cansam em Omasuyus”. Isso me dói como Mallku maior. considera estas interpelações de Felipe Quispe como marcos. de hino e de heróis nacionais10.Idem. Anunciados para maio. inquilinos. Essa foi uma ruptura radical nos meios de comunicação (. 123. p. os bloqueios de estradas voltaram a aparecer em junho na região de Omasuyus e em outras províncias vizinhas no departamento de La Paz.). antes “ninguém se atrevia a falar assim com um ministro.Ibidem. muito mais do que conquistas específicas dentro 7. Além da exigência do cumprimento dos acordos anteriores. p. conseguimos até liberar os pequenos devedores”.. 3... A CSUTCB conseguiu a aprovação de quase todas as suas demandas. substituição de símbolos coloniais do Estado boliviano por símbolos indígenas. Camacho e Franz Tamayo. autogoverno indígena. o governo Banzer cedeu no início de outubro7. a modificação da Lei Inra. 8. cit. op.151 guerra. esta mobilização continha novas pautas em evidência. Ao contrário do que aconteceu em 2000. 126. Pablo Mamani.Felipe Quispe cita como conquistas da mobilização de 2000 “uma resolução para construir uma universidade indígena. Álvaro (coord. questionam de maneira radical o Estado e as elites criollas do país”.. porque os seus olhos estão banhados do sangue indígena (. 9. 11. Tratava-se de uma forte expressão de um nacionalismo indígena aimará11. Assassinos em nossa terra Frente à toda convulsão social que tomava o país e que causou a morte de nove pessoas e mais de uma centena de feridos.

Mas então falávamos não simplesmente de recursos. os governos bolivianos atiravam contra os seus próprios pés. “Em 2001 vai continuar o nosso pedido. lembra Marxa Chávez. ‘vamos ter guerra. op. já no dia 18 de julho. e o Quartel de Q’alachaka voltou a aparecer com muita força. dizendo que eles careciam de validação jurídica. A Guerra do Gás e a derrocada de Goni em 2003 No início de 2003 entra um novo governo. mas sob a lógica dos povos indígenas. O bloqueio de estradas interrompeu fluxos turísticos importantes. Será exército indígena contra exército republicano’. Durante quase um mês.. o governo esperou que a mobilização se enfraquecesse. Álvaro (coord.. Vamos expor que há duas Bolívias. evitando assim o conflito entre os aimarás e o exército. como o que liga a cidade de La Paz ao santuário de Copacabana. “Os aimarás dizem ‘não. que é a reconstituição de Qullasuyu. Xavier. mas também falávamos da nova Bolívia.do Estado boliviano. mais de 25 mil camponeses desceram armados aos pontos de bloqueio. Neste momento de tensão. 152 12. O governo do MNR logo no início repudia os acordos feitos nas mobilizações camponesas anteriores. dispostos a enfrentar o exército. o Ministro de Governo se impacientou e ameaçou mandar cinco mil homens a zona de Achacachi para acabar com o bloqueio12. ia haver matança. A mobilização se intensificou. é o segundo ponto importante da trajetória dos aimarás. na sua completa ignorância sobre a lógica de mobilização indígena camponesa. disposto a enfrentar. em julho de 2001. os setores sociais de Cochabamba através de Evo Morales (cocaleiros) e Oscar Oliveira (Coordenadoria da Água) indicaram a sua solidariedade à mobilização aimará e a sua disposição a se juntar aos bloqueios. 13. Terra e território . Gonzalo Sánchez de Lozada inicia então o seu segundo mandato como presidente boliviano. Contudo. É algo muito radical”. O exército tinha metralhadoras.GARCIA Linera. Foi um momento tão tenso. qual era a alternativa? Era refundar a Bolívia. pois em 2000 este exército se forma e em 2001 “ele aparece publicamente. têm mausers de cinqüenta anos. 88. seus princípios políticos e econômicos”. cit.ALBÓ. Então.) et al. cit. Os companheiros.. Mais uma vez. Então eles saem com suas armas e o exército do governo vai avançando com tanques. o exército não vai entrar aqui e se querem entrar. no Lago Titicaca. não têm armas. p. Felipe Quispe falou muito sobre isso. começou o diálogo com o governo13. Uma Bolívia do poder econômico e do poder político e outra Bolívia que não tem o que comer. 127. op. dia seguinte ao anúncio. conta Eugenio Rojas. Segundo ela. Contudo. já que estava concentrada somente em um departamento do país. p. por mais aguerridos que sejam. No dia 13 de julho. fuzis modernos”.

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14.Edwin Huampo, da província pacenha Los Andes, foi preso por participar da decisão de justiça comunitária de matar dois ladrões. GARCIA Linera, Álvaro (coord.) et al., op. cit., p. 128.

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Tratava-se de um governo de profundo corte neoliberal, que começa com a aplicação de políticas de ajustes econômicos ortodoxos, vistas de forma muito negativa pela população. Uma delas foi o impostazo, que causou já em janeiro de 2003 um conflito entre a polícia nacional mobilizada contra o exército sob mando do governo. A população urbana de La Paz logo se juntou ao conflito em defesa da polícia e morreram 32 pessoas nos dois dias que duraram os enfrentamentos. Marxa Chávez aponta que a linha neoliberal do governo de Gonzalo Sánchez de Lozada, o Goni, já não condizia com as discussões que havia na sociedade: “As pessoas estavam justamente questionando o neoliberalismo e Goni aparece com uma proposta neoliberal. Além disso há um questionamento ao primeiro governo dele, de 1993 a 1996, quando se capitalizou tudo, foram vendidas todas as empresas públicas de Bolívia”. No início do mês de setembro de 2003, o departamento de La Paz voltou a se mobilizar. Foram duas marchas que caminham em direção a La Paz, nenhuma muito massiva ou com cobertura midiática. Uma saiu de Caracollo, cidade ao sul de La Paz, liderada por Felipe Quispe. Participavam dela setores do seu partido, o Movimento Indígena Pachakuti, estudantes e moradores de El Alto. A outra saiu de Huarina, na própria província de Omasuyus, e foi convocada pela Federação Departamental de Camponeses, e juntava principalmente a direção do movimento sindical camponês da região. Além do cumprimento dos acordos anteriores, as marchas reivindicavam a libertação de um dirigente camponês preso pela execução de justiça comunitária14 e, mais importante, incorporavam o pedido de não-exportação, nacionalização e industrialização do gás natural. Na época, o governo queria exportar o gás boliviano aos Estados Unidos através de portos chilenos. Isso causou um grande impacto na população, que nunca perdoou o país vizinho por ter anexado a parte litoral boliviana no final do século XIX, deixando o país sem saída para o mar. “Queríamos dizer ao governo que não se vendesse o gás, porque eles queriam vender o gás ao Chile. E a gente se perguntava por que, pois o gás deveria ser para a gente. Os bolivianos não tinham gás e para vender havia. É um recurso não-renovável e tem que ficar para o país, não pode vender a outros”, diz Rufo Yanarico. Marxa Chávez, contudo, localiza o início das discussões sobre o gás antes do governo de Sánchez de Lozada. Tratava-se de uma discussão mais massiva do que a que houve em 2000, com a ameaça de privatização da água: “A água, que havíamos defendido em 2000 com todas as comunidades aimarás e com Cochabamba, se torna uma discussão também geral porque se começa a falar dos hidrocarbonetos.

Banzer morre e delega o governo a Tuto Quiroga, e aí se começa a falar da possibilidade da venda do gás. (...) Havia nas rádios, nas ruas, grupos de discussão sobre os recursos naturais e o racismo. Foi um processo muito forte de discussão coletiva, já não somente em nível de comunidades aimarás ou de Cochabamba, mas algo generalizado. Eu creio que era um processo de preparação coletiva para um futuro enfretamento”. Contudo, as marchas do início de setembro não causaram muita adesão pública, e os manifestantes decidem apelar para outra forma de mobilização. “As pessoas começaram a falar ‘não vamos sair daqui, temos que deixar na cidade o cheiro de índio, o cheiro da Pachamama’ (...). Diziam ‘vamos ficar em La Paz, em greve de fome’. E nós, como dirigentes, nos perguntávamos aonde. Porque se ficássemos em qualquer lugar, o governo no meio da noite ia nos despejar. Aí tivemos a idéia de ficar na Rádio San Gabriel, que era uma rádio católica”, conta Felipe Quispe. Mas as coisas não foram tão fáceis, e os responsáveis pela rádio cobraram aluguel dos grevistas. A solução apareceu quando autoridades do governo visitaram a rádio para começar uma negociação: “Para que não houvesse greve de fome, veio o Ministro de Assuntos Camponeses e Indígenas. Seqüestramos a ele e a seu vice-ministro, além de diretores. Todas as pessoas fechamos dentro da rádio. Nós somos preparados para este tipo de seqüestro, porque já havíamos aprendido antes”, explica Felipe Quispe. Para liberar as autoridades, os camponeses pediam duas coisas: a liberação do dirigente preso por justiça comunitária e que o governo pagasse o aluguel da rádio. Seus pedidos foram prontamente atendidos. Alguns dirigentes, conta Rufo Yanarico, saíram da greve de fome na rádio, localizada em El Alto, para organizar bloqueios nas suas comunidades. “Chamamos as bases para que nos apóiem, mas as pessoas estavam um pouco cansadas. Saímos com o bloqueio em Q’alachaka. Mas às 10h da manhã sai o quartel e prendem Eugenio (Rojas) e o levam ao Quartel de Ayacucho”. Este bloqueio começou no dia 15 de setembro de 2003. Rufo lembra que os soldados levaram Eugenio à Achacachi, que na época era do Comitê de Bloqueio, para denunciá-lo frente à população local: “Eles diziam às pessoas que ele que prejudicava o povo, que não deixava as pessoas trabalharem, que saía a bloquear. E Eugenio sabia porque estava bloqueando, então foi discurso contra discurso. Aí o povo defende a Eugenio, e acontece o contrário, os militares recebem pedradas e se escapam ao quartel”. Depois deste episódio, o governo decide no dia 20 de setembro, tomar ações mais enérgicas contra os bloqueios. A desculpa era recuperar turistas que estavam isolados em Sorata, pois a estrada que

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155 15.Cit in: GUTIÉRREZ, Raquel; ESCÁRZGA, Fabíola (coordenadoras). Movimiento indígena en América Latina: resistencia y proyecto alternativo, Volumen II, p. 60-67. Casa Juan Pablos / Centro Cultural / S. A. de C.V./ Centro de Estúdios Andinos y Mesoamericanos / Benemérita Universidad Antónoma de Puebla. 2006. 16.Cit. in: GUTIÉRREZ, Raquel et al., op. cit., p. 63. Tradução da autora.

17.GARCIA Linera, Álvaro (coord.) et al., op. cit., p. 129.

18.Idem, p. 129.

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liga a cidade com La Paz estava interrompida em Omasuyus. Rufo estava voltando do bloqueio para sua comunidade, Tacamara, quando viu um helicóptero chegando no quartel Ayacucho. Dentro dele estava o então Ministro de Governo Carlos Sánchez Berzain. Ele estava organizando no quartel uma ofensiva militar para trazer os turistas e dispersar o bloqueio na região. Foi em Warisata, povoado que fica justamente entre Sorata e Achacachi, que se enfrentaram o exército com os camponeses. Eugenio Rojas conta15 que a população local organizou uma resistência aos militares, impedindo a sua passagem com a destruição de pontes e caminhos. Quando eles finalmente conseguiram alcançar Warisata, enfrentaram-se primeiro com as mulheres e jovens, que não possuíam armas de fogo, somente pedras e paus. No momento de ingressar à comunidade, os militares utilizaram armas de fogo e assim se endureceu a guerra entre “Exército Indígena de Omasuyus contra o exército liberal de Sánchez de Lozada”16. O conflito começou às 15h e terminou às 19h, e resultou na morte de cinco pessoas, inclusive de uma menina de nove anos17, a maioria estava alheia ao conflito. A morte destas pessoas somada ao fato do exército ter metralhado a Escola de Warisata, símbolo da cultura aimará, mexeu amplamente com a opinião pública e teve, mais uma vez, um efeito multiplicador da mobilização. Felipe Quispe lembra de uma senhora, parente de uma das vítimas: “Esta mulher teve quase doze filhos, e aparecia bem forte pelos meios de comunicação (...). E as pessoas são muito sentimentais no nosso país, viam-na com muitos filhos, perguntando como ia sustentá-los, chorando pelas telas de televisão. Então esta dor, estas lágrimas de Warisata perfuraram os corações de pedra dos que viviam em El Alto e em La Paz”. A partir do massacre de Warisata, a população de El Alto se juntou maciçamente às mobilizações. De 20 de setembro até 17 de outubro, quando Goni caiu, o país se convulsionou. Os bloqueios de estrada se multiplicaram para outros territórios, e a vanguarda da ação política passou a ser a cidade El Alto, com o seu fortíssimo movimento de juntas de vizinhos. Os moradores de El Alto desciam à cidade de La Paz continuamente, paralisando suas atividades e cercando mais uma vez a sede do governo. Com a mobilização, houve massacres violentos, que chegaram a ter até 26 mortos em um dia, como o massacre do Rio Seco. Os mineiros de Huanuni e Caracoles se juntaram à mobilização, e, ao final, se provocou uma greve geral dos setores urbanos das principais cidades do país18. Marxa Chávez vê este período como uma conjunção de todas as forças sociais da Bolívia: “Em outubro, é como se tivéssemos juntado Cochabamba, com o altiplano aimará, com El Alto, e com a força de cidades como La Paz e Oruro. Tudo em um só tempo. É como se fossem diferentes tempos políticos

se preparavam para chegar à cidade de La Paz. Segundo Felipe Quispe. Todos estávamos dispostos a morrer. às casas dos ricos. Os indígenas de Omasuyus de fato chegaram a La Paz em outubro de 2003. a tática mais ambiciosa dentro deste projeto político aimará. o Plano Tarajchi. Antes que acontecesse isso. é uma cidade tomada pelos moradores. por exemplo. e que estão já na construção deste quartel indígena. que volta a sair. igual a de 1952. mas chegaram tarde. A cidade de El Alto. a sua industrialização. A cidade de Cochabamba. A agenda de outubro. escapou. contrário à exportação do gás por portos chilenos. que acontecia quando havia manifestações maciças. depois que Goni já havia renunciado. E assim começava. “À noite picávamos.juntos também. os caponeses bloqueavam caminhos pela noite e durante o dia saiam. era. e depois íamos embora. dos mineiros que chegam de Oruro a La Paz em outubro. que se insurreciona totalmente. atacávamos o inimigo.. clandestinamente. Oruro e Potosi que estão totalmente mobilizadas”. A gente caminhava pela estrada. não? O tempo sindical. “Os irmãos jovens caminhavam aqui pela cordilheira. enquanto o conflito urbano se intensificava em diversas partes do país. que expõe questões centrais para país. a dar nossas vidas.. que também se junta à mobilização. Eu 156 Terra e território . explica Quispe. até a cidade de La Paz. Gonzalo Sánchez de Lozada abandonou o governo. e a reversão generalizada das políticas neoliberais dos anos anteriores. político. se consistia em “assalto aos quartéis. Assim. se realizava quando as mobilizações estavam enfraquecidas. A cidade de La Paz. Já tínhamos preparado o cerco. ao palácio de governo”. O tempo das comunidades do norte (Omasuyos). E já estávamos a ponto de começar a guerra civil. um pássaro da região andina. O terceiro plano. marchas ou bloqueios. chamada de Plano Pulga. a tomada efetiva do poder. que também vão chegar. a polícia não pode entrar ao menos que seja disparando. Ela é resultado de um sentimento nacionalista difuso. que se desenvolve em uma agenda contundente e popular. derrocando Sánchez de Lozada e obrigando os governos futuros a olhar mais para as necessidades internas do país do que para as recomendações políticas e econômicas internacionais. no qual teríamos que morrer. Ela consegue reverter definitivamente o processo neoliberal boliviano. é forjada em meio a todas estas reivindicações. A operação era repetida sempre que o caminho era desbloqueado. segundo Quispe. A pulga de pica e salta constantemente”. A primeira. Os camponeses de Omasuyus. era a concretização do seu terceiro plano de ação. que reivindica a nacionalização dos hidrocarbonetos. A segunda tática era o Plano Formiga Colorada. desgastando as autoridades.

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creio que foi uma boa hora para Goni sair, senão, teríamos guerra civil”, conta Rufo Yanarico. Felipe Quispe lamenta, “se isso tivesse acontecido, já estaríamos muito diferente. Agora já não seriamos Bolívia, já seriamos Qullasuyu. Porque a gente teria feito outra coisa, não somos Evo Morales”. A Guerra do Gás derrubou Gonzalo Sánchez de Lozada em 17 de outubro de 2003. A instabilidade política da Bolívia continuou durante o mandato de Carlos Mesa, seu vice, que também foi obrigado a renunciar em 2005. Neste mesmo ano, foram chamadas novas eleições, das quais sai presidente o ex-cocaleiro Evo Morales.

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O AIMARÁ POLÍTICO

Luta pela reivindicação ou reivindicação pela luta? Nestes anos de luta intensa em Omasuyus, foram reivindicadas a não-privatização da água, listas imensas de pedidos específicos da CSUTCB, símbolos nacionais indígenas em contraposição aos símbolos coloniais e, finalmente, a nacionalização e industrialização dos hidrocarbonetos. Contudo, uma meta muito maior se transparece quando Felipe Quispe e Eugenio Rojas, por exemplo, expõem as suas histórias. As reivindicações aparecem, portanto, como desculpas, formas de mobilizar as pessoas em torno do seu grande projeto: a reconstituição do Qullasuyu, a tomada do poder pelos indígenas originários. Xavier Albó, contudo, vê nas mobilizações da região de Achacachi um terceiro e principal impulso: a rixa interna dentro da CSUTCB entre os partidários de Felipe Quispe e os partidários de Evo Morales. “E eu creio que a Guerra do Gás era a ocasião e não a causa principal. A causa principal era conseguir sua hegemonia dentro da CSUTCB”, diz o antropólogo. Tal disputa ocasionou em 2001 uma divisão da entidade que persiste até hoje, com uma confederação liderada por Quispe e outra por setores ligados ao MAS19. Então, se havia uma mobilização de cocaleiros, o setor aimará de Omasuyus se mobilizava mais fortemente, numa disputa para ganhar a legitimidade de vanguarda e de liderança. Às vezes, a balança pendia para o lado do altiplano, como em setembro e outubro de 2000 quando as mobilizações lançaram Felipe Quispe como personagem importantíssimo da conjuntura boliviana; outras vezes, a balança pendia para o trópico cochabambino, como em 2002 quando Evo Morales, então deputado, foi expulso do parlamento por perseguição política e as mobilizações cocaleiras ganharam tanta notoriedade que foram chamadas de Guerra do Gás20. Aparentemente, a rixa se esgotou em 2005, quando Evo Morales foi eleito presidente, suplantando em muito o seu antigo adversário.

19.Isaac Ávalos, citado anteriormente é secretário executivo da CSUTCB ligada ao MAS, enquanto Rufo Calle é secretário executivo da mais ligada ao grupo do Mallku.

20.Esta caracterização de lideranças em 2000 e 2002 é feita por Xavier Albó. In: ALBÓ, Xavier, op. cit., p. 92.

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De qualquer forma, não se pode explicar as mobilizações de 2000 a 2005 somente com a briga de lideranças e de egos. Havia diferenças entre os projetos políticos de mudança apresentados pelo setor aimará e pelo setor masista. Eles também disputavam entre si uma saída para a crise que enfrentava o Estado-nação boliviano. As reivindicações, no geral comuns aos dois blocos, diziam respeito à resistência frente à política neoliberal, às privatizações, à pobreza crescente da população, à falta de soberania nacional, à diminuição dos salários, dos direitos trabalhistas, etc. Contudo, o grande tema de debate entre os dois blocos sociais era o que fazer após o neoliberalismo ser derrotado. A reconstituição do Qullasuyu era um projeto ambicioso, mas carecia de apelo para os setores não aimarás da sociedade boliviana. “Era um projeto forte, mas utópico. Não era operativo”, aponta Xavier Albó. Segundo ele, a proposta era excessivamente “ideológica” e não partia das próprias comunidades para efetuar mudanças, num processo de baixo para cima, condição fundamental para uma efetiva descolonização. Em contrapartida, o projeto que apresentava o MAS-IPSP, por mais difuso que fosse, conseguia travar um diálogo a nível nacional. Frente à necessidade de descolonização, respondia com a proposta de Assembléia Constituinte, que teria caráter fundacional. Centrava-se muito nas propostas de nacionalização das empresas privatizadas e em uma política externa independente e denunciante do imperialismo norte-americano. Albó aponta no próprio Evo Morales algumas características importantes para que o MAS tivesse maior aceitação: “Parte da habilidade política do Evo foi ter, sendo ele somente dirigente cocaleiro, a habilidade de vestir camisetas muitos distintas. Recuperou o aimará de quando era menino, se colocou ao lado dos mineiros, começou a brigar junto com eles”. De qualquer maneira, o projeto masista conseguiu chegar à presidência da república em 2005. Enquanto isso, os que lutavam pela reconstituição do Qullasuyu ou estão agora um pouco eclipsados, ou aderiram ao projeto masista, tentando ver nele uma forma de aplicação do seu próprio, como é o caso do vice-presidente Álvaro Garcia Linera. A República de Qullasuyu Eugenio Rojas define o projeto de reconstituição do Qullasuyu com o resgate da política e da economia aimará. Esta política, segundo ele, não tem a lógica de dominação da política eurocêntrica capitalista “para o aimará a política é prestar serviço, não é dominar, presentear os nossos recursos naturais,

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A visualização do indesejado também não é feita somente olhando para a Europa. Nós agora estamos impulsionando as empresas comunitárias. frente à empresa privada.GARCIA Linera. Terra e território . a imagem do q’ara é sempre relacionada com a figura do que possui riquezas. por estar neste território. segundo as teorias clássicas liberais. É feita com a experiência objetiva da colonização na América Latina. ou o latifundiário croata que se apropria de territórios indígenas nas terras baixas do país21. p.. são todas associações comunais. este ano tem que ser esta região e aquela não.. a política eurocêntrica tomou características mais cruéis. Contudo. como aponta Garcia Linera22. Nos rincões da América Latina. Se antes ele era o espanhol. mas são frutos da exploração dos povos indígenas. Portanto. Álvaro (coord. estrangeiro. que promove os massacres no Chapare. que nos vai custar muito. por ter o usufruto da terra”. Esta é uma política de serviço. Não é essa a democracia e o princípio político do aimará. Claro que a contraposição à política eurocêntrica e dominadora e à empresa privada são fenômenos modernos. aqui não há empresas privadas.só pode ser entendida pela perspectiva histórica atual.Branco Marinkovic. Verá hoje. Portanto. massacrar. esta região é para isso. aqui será um novo nome para as antigas empresas coloniais que expropriavam os povos originários para guardar as suas riquezas em uma parte longínqua do globo. pois a sociedade de classes e colonial na Bolívia foi fundada a partir deste recorte cultural: “A etnificação social é um componente estrutural da formação classista da 160 21. Desta forma. para a fonte da colonização. personalistas.. se não que é servir ao povo (.oprimir. símbolo de modernidade em outras partes. sofre um processo atualmente por ter se apropriado indevidamente de 26 mil hectares. mas estamos avançando bem nisso”. do homem branco. a figura do q’ara. A empresa privada. ele passou a ser na atualidade a figura do gringo americano que intervém nos assuntos de política interna. corruptas e violentas. estas riquezas não provêm de um esforço pessoal. feita com maior contundência somente no século XX – quinhentos anos depois do início da colonização . presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz. com todas as distorções e massacres que são conseqüências de uma imposição cultural. op. Isso é uma nova alternativa. essa é para aquilo. A economia aimará segue os princípios comunitários e coletivos: “Nós não aceitamos a empresa privada. esta retomada dos valores antigos. diz Eugenio a partir também da sua experiência como prefeito. parte deles em território dos índios guarayos. como um exercício de comparação teórica. Da mesma maneira. que sugava a prata de Potosi e as vidas dos índios nas minas. impossíveis de serem pensados em épocas pré-colombianas. 176. cit.. Vão trabalhando por turno. a política é por turnos. 22. é constantemente revista dentro da figura do elemento explorador. que fazem parte da comunidade.) et al. econômica e política.) Então. trata-se de um conflito de classes com forte elemento étnico.

27. não temos medo de sermos processados”. 24. toda a infraestrutura para tal atividade. Garcia Linera ainda aponta que é justamente esta característica étnica que pôde fazer com que o movimento aimará. que lembra que organizações como a CSUTCB e a Conamaq (Conselho Nacional de Markas e Ayllus do Qullasuyu) tem projetos políticos distintos. portanto.Idem. é tanto ou mais visível. Era ele que regulava a exploração das empresas estrangeiras em território boliviano. tivesse um braço tão forte na zona urbana como o movimento de moradores de El Alto. segundo Garcia Linera. mas sim de um bem comunitário.. In: ALBÓ. destas estruturas de abastecimento27. a etnicidade como núcleo explicativo da opressão unificante.Ibidem.. sem a ajuda do Estado. op. Eugenio Rojas. mas garante que se sua comunidade achar necessário infringir as regras do Estado. era gestionado por sistemas comunitários e familiares.GARCIA Linera. cit. a privatização da água ameaçava a forma tradicional de gestão comunitária boliviana. 180181. ele o fará: “Mas se fazemos bem ao nosso povo. 26. ainda que economicamente menos exploradas (transportistas. p. 25.O partido fundado em meio a estas mobilizações por Felipe Quispe. 177. O Estado opressor. ambos aimarás. o movimento de Omasuyus não pode ser tomado como a totalidade do movimento aimará. O serviço de abastecimento de água. Tradução da autora. operários. e. “Ao ressaltar esta dimensão cultural da condição de classe. era ele que permitia a intervenção americana. o Movimento Indígena Pachakuti. tanto nos vales de Cochabamba quanto no altiplano de Omasuyus. com a luta contra a privatização da água26 em 2000. assim como Felipe Quispe e Evo Morales. de outras classes sociais etnicamente dominadas. Além de ser uma expropriação. que o próprio volume da riqueza possuída”23. também são figuras políticas muito diferentes. a participação no Estado é válida somente para se tornarem conhecidos e aprender como os q’aras controlam o poder. cit.161 23. Seu controle era feito por uma elite nacional que tinha muito mais em comum com os estrangeiros do que com os próprios bolivianos. 191. Contudo.) et al. Terra e território sociedade e. Álvaro (coord. aponta que o Estado traz limitações de ação. moralmente mobilizador. Tradução da autora. indica esta vontade política. em muitos casos. as organizações vicinais se responsabilizavam pelo abastecimento da água e haviam construído. Na tradição dos povos andinos “Pachakuti” significa mudança do mundo e nova era. a relação deste movimento com o Estado sempre teve em vista a sua substituição por outro modelo.)”24. principalmente no campo. o movimento abre as portas para uma articulação com outros setores. etc. por exemplo. majoritariamente camponês.Em Cochabamba. Para ele. “com a força das armas. que é prefeito. Frente a isso. Tratava-se de uma privatização não de um bem estatal. 176. p. Tal observação é feita por Xavier Albó. Xavier op. segundo Felipe Quispe. comerciantes. Portanto. uma ruptura que apontasse para uma nova era25. Esta sociedade “comunitarista” seria alcançada. . assim como o seu projeto político não é geral para todas as agrupações aimarás. sem indenização. não pela via eleitoral”. a figura do Estado foi cada vez mais questionada nas mobilizações de Omasuyus. e pelo qual Eugenio Rojas é prefeito de Achacachi.. ainda com características coloniais. Tal vontade de auto-governo e de autodeterminação se popularizou. era a materialização deste q’ara.

Ao contrário do ideário ocidental. o sentido comunitário. p. resgatando constantemente figuras de heróis aimarás como Tupac Katari e Bartolina Sisa. ao impulsionar a desagregação dos povos originários. eles querem se reconstruir enquanto povo. contudo. Da mesma forma. isso é evidente. uma característica geral em todos eles: “Bom. e se desenvolve mais comumente na forma do faccionalismo29. Contudo. op. contudo. não se pode negar que as adversidades vividas pelos aimarás como resultado da 162 28. os aimarás fazem da comunidade este princípio. o intenso faccionalismo que houve na região dos vales cochabambinos logo após a Revolução de 1952. No caso aimará. não tem o problema que há com os de outras partes.O antropólogo localiza. acabou criando também o efeito contrário.. Talvez o sentido da coletividade tenha se fortalecido especialmente devido à presença colonizadora que.ALBÓ. Uma das temáticas freqüentemente tratadas na sua obra é o que ele chama de “aparente paradoxo aimará”. em maior ou menor grau. que não consideram a coletividade. A comunidade ganha grande importância justamente pela sua capacidade de resolver conflitos entre indivíduos e por não permitir que haja grandes desigualdades no seu interior. Não se trata de algo necessariamente inexistente em outros grupos. Xavier. Albó lembra. seu objeto de estudo. um conflito entre os ayllus vizinhos Laymi e Qaqachaka causou a morte de 80 indígenas. Desta forma. A reivindicação. porém. Terra e território .Idem. que é ter a sua terra. 29. os impulsos individuais. o gérmen deste tipo específico de individualismo aimará permanece. p. cit. como exemplo disso. isso eles já têm. A intensa mobilização nos meses de setembro e outubro demonstrou um grande sentido étnico e de identificação aimará. com o cerco da cidade de La Paz e o bloqueio de diversas estradas. Dialética e dualismo aimará Há outras características gerais. que identifica Xavier Albó nos aimarás. Contudo. são canalizados em formas coletivas: de grupos contra grupos no interior de uma comunidade ou de comunidade contra comunidade em um espaço regional comum. Alguns meses antes. O que sim querem ter mais é seu próprio governo nestes territórios”. 30-31. com conflitos fatais entre grupos camponeses rivais. no qual estas duas características se apresentaram ante a opinião pública de forma muito contundente. Ele dá o exemplo do ano 200028. é visto em sindicatos de regiões quíchuas em todo o país. Albó aponta que o comunitarismo é uma forma que o grupo encontra para equilibrar os interesses individuais. de qualquer forma. 15-16. egoístas. que faz do indivíduo um princípio ordenador da sociedade. uma presença sempre muito forte de elementos solidários e faccionalistas nas populações aimarás.

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com povos que habitam um território composto por partes mais altas e partes mais baixas. Esta dialética e união de contrários são aspectos centrais na estruturação simbólica aimará31. Ela pode ser perceptível desde organizações sociais por metades. até entendimento dos objetos e da natureza. por exemplo. pontua Albó30.). Visiones aymaras sobre las autonomías. e outros que provocam mais a solidariedade. que são femininos”32. a casa é considerada masculina e o pátio feminino. p. “O aimará era uma rama que ficou majoritária de uma língua geral maior. eram etnias aimarás as que compunham os senhorios collas. por exemplo.colonização. E quando chegam os espanhóis. La Paz. com a anexação da região colla (Qullasuyu) ao domínio inca33. 32. dos incas.. porém mais resistentes). “há. 49. pedras masculinas (mais duras) e outra femininas (menos duras.. como a identificação de um inimigo em comum.Ibidem. também são motivos centrais para o faccionalismo. eles borram todas as diferenças que havia entre os indígenas e circunscrevem os indígenas em uma identidade determinada. BUENO S. cabe um esclarecimento aos leitores sobre a definição do que é ser aimará. p. quando têm um objetivo em comum. Bonifacio. E quando desaparece este objetivo comum. ‘índios aimarás. pan pan pan . Então. 33. sequer ao nível de querela. Mario (coord. estas são identificações coloniais”. PIEB. p.Ibidem. sobretudo. em contraste com o átrio ou a praça. 2007. Tradução da autora. nas quais “os aimarás estavam. Tradução da autora. As próprias regiões onde cada língua era falada também não correspondem às atuais divisões. PARDO V. Ramiro. Segundo Mario Galindo. Aportes para la construcción del Estado nacional. CRUZ A. Correspondiam mais a “zonas ecológicas”. Elizabeth. São brigas por território”. ou ao nível comunal. estão juntos. como a privação de recursos naturais (terras férteis. espécie de reinos localizados ao redor do Lago Titicaca que duraram do século XII até o século XV. Albó aponta alguns elementos que provocam mais o faccionalismo. brigam entre eles”. contudo é muito difícil falar de etnias puras. etc. índios quíchuas’. O que é aimará? Finalizando pelo início. “O motivo quase onipresente neste faccionalismo é o acesso aos recursos naturais... “Em grande síntese. 46. água para irrigação. estabelecendo. Hoje. 32. que todos os que falam a língua aimará hoje são decendentes dos senhorios collas e os que falam quíchua. em áreas de altitude mais aptas para o pastoreio. Terra e território . 31.). explica Marxa Chávez. p. como os recursos escassos. 251.GALINDO S. A utilização generalizada destes dois idiomas pelos povos andinos corresponde inclusive muito mais a um fenômeno colonial.Ibidem. e os quíchuas nos vales mais 164 30. a torre da igreja é considerada é masculina. que têm áreas geográficas mais contínuas. Neste ponto quase não há região – com exceções nos Yungas e zonas de colonização – nas quais não houve algum conflito.

p.165 34.ALBÓ. 173-174. Terra e território . apesar de ter raízes milenares. Dizer “Nação Aimará” e “República Qullasuyu” é fruto muito mais de um processo histórico de reversão da opressão étnica sofrida durante a colônia do que de uma mera vontade de voltar ao passado. mas quando o aimará passou a ser reivindicado como identidade política. Segundo ele. porém. aponta Xavier Albó34. Marxa Chávez aponta. Então. e talvez até mais importante que a língua falada. há um processo de identificação muito forte”. Mais uma vez tratamos de uma identificação que. Segundo ela. op. esta identificação foi fortemente negada. “A população aimará antes da colônia sofreu um processo de subordinação a tudo o que foi a dominação inca. era muito provável que o pertencimento a um aylllu era mais importante que a localização geográfica deste. Tradução da autora. Xavier. tem uma relação dinâmica com o presente e só pode ser entendida a partir da sociedade que vivemos hoje. o aimará enquanto folclore era aceito pela sociedade colonial. há uma mistura. que o fenômeno da forte identificação aimará de hoje se deve muito mais a uma identidade politicamente construída do que uma cultura em si.. Mas sim. ninguém pode dizer que são culturas puras. agrícolas”. cit.

Sempre com esta mentalidade de sair à luta armada”. em julho de 1980. Ele fazia parte de uma corrente chamada indianismo. São eles que propõem coisas tão fortes como a guerra de raças contra os brancos. E com estes credenciais voltamos a rearticular a militância. pois o seu discurso étnico e contra os q’aras era muito forte.166 TRÊS HISTÓRIAS AIMARÁS Antecedentes de 2000. A radicalidade é a característica mais marcante do indianismo. Dizer ‘você é um índio’ é uma desqualificação total. os fez abandonar o país. a fazer a luta armada”. Então. estas pessoas passaram a participar do movimento sindical camponês “Então aprendemos ali e logo em 1984 regressamos a La Paz e tivemos que ocupar as direções sindicais. Finalmente. que criou nesta época o Movimento Índio Tupac Katari (MITKA). “Tem uma conotação política muito forte esta palavra ‘índio’”. Ao voltar para a Bolívia. ele fazia parte do Exército de Liberação Nacional e junto com companheiros. pois foi justamente esta vertente que se inseriu na direção da CSUTCB. conspirativa. Nesta época. a história do Mallku Felipe Quispe começou a sua militância já nos anos 1970. a expulsão dos brancos”. na Frente Farabundo Martí para a Liberação Nacional. “pois é a palavra que as elites usam para descriminar. participou de guerrilhas em outros países. explica Marxa Chávez. que possuía uma linha mais nacionalista. diz ele. O indianismo se contrapunha ao Movimento Revolucionário Tupac Katari (MRTK). a organizar os quadros políticos. eles assumem essa visão e dizem ‘sim. “Ali aprendemos a fazer uma organização clandestina. quando o movimento étnico na região altiplânica aimará estava reflorescendo com base na referência política de Tupac Katari. somos índios e vamos nos liberar como índios’. foi formado o Exército Guerrilheiro Tupac Katari Terra e território . Eu fui secretário da federação. no início dos anos 1990. Felipe conta que o golpe de Estado de Garcia Meza. como podíamos nos articular. como em El Salvador.

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colocando bombas nas embaixadas. Era lamentável. diz Felipe. Mas não se compara a violência dos movimentos peruanos. Discutimos. E queríamos levar isso em prática. se indianizar. com militantes da esquerda marxista tradicional.. “E eu conheço um pouco o que era o Sendero Luminoso. eu trabalhei três meses ali na guerra. E trouxemos isso.. “Não sabiam cozinhar. O EGTK. comer a comida índia”. (.(EGTK). Aí aprendi também que no branco não se pode mandar. eram totalmente marxistas. Terra e território . quebrando as torres. mas vê muitos erros na atuação deles e das guerrilhas da época.) Era muito terror dentro na população indígena. havíamos participado e nos submetido às regras das guerrilhas na América Central. e eles os metiam assim. Trouxemos 168 35. que foi companheiro de Quispe no EGTK. pois suas ações efetivas se deram muito mais no plano da propaganda. buscavam a sua comodidade. “Eles eram do Movimento Nacionalista Revolucionário de Esquerda. Mas Felipe identificava discrepância com os militantes brancos. mas não tinha bases realmente rurais e andinas. queriam se proletarizar. queriam provar a coca. dos mórmons. A luta guerrilheira do EGTK acontece paralelamente a outras experiências latino-americanas dos anos 1990. Felipe Quispe sim havia conseguido aglutinar um grupo de base. suas lideranças são presas ou fogem do país. como Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA). 80.Idem. sempre tem este complexo de superioridade. os velhos. p. se limitava a fazer ações midiáticas de ataque a torres de televisão e embaixadas: “Fazíamos a nossa propaganda. sempre tem este ‘eu’”. e havia feito seus avanços para influir na poderosa CSUTCB desde o seu discurso mais radical e ideológico”35. Eles eram gente da burguesia. Tradução da autora. A ação guerrilheira também incluía treinamento dos novos militantes: “a gente. acima de tudo era uma expressão contra os EUA”. dos ricos. porque o pau tem que cruzar. Xavier Albó também aponta outra característica própria do EGTK: “Diferentemente de outros grupos. a guerrilha é desbaratada pelo governo. como o MRTA. e levamos até certo ponto”. sobretudo na região de Achacachi. Este exército juntava militantes antigos do indianismo. tupac-katarista. e só fazia fumaça. acredita que a experiência foi positiva. eu era muito jovem e não compreendia o que estávamos fazendo. nunca cozinhava a comida. como os irmãos Raul e Álvaro Garcia Linera. organização clandestina e pequena. como o próprio Felipe Quispe. Eles não gostavam de fazer guarda durante a noite. que atualmente é vice-presidente boliviano. Aí começamos a discrepar. Em 1992. que apelava para figuras andinas. nas igrejas evangélicas. ambos no Peru. não sabiam nada da ideologia índia. Eugenio Rojas.

) Mas nós. E havia o grupo de Evo Morales. sempre muito presente na memória aimará. os irmãos Garcia e outras lideranças do EGTK foram presos em 1992 e permaneceram cinco anos na prisão. o grupo de Alejo Véliz e o grupo de Evo Morales. Felipe Quispe é reeleito como secretário executivo e começa o paralelismo sindical da CSUTCB. “Felipe é eleito como máximo representante da CSUTCB em 98 e é interessante porque diferente dos outros dirigentes. não retroceder jamais. Quispe se aproxima mais do grupo de Véliz. e ainda continuamos”. mas junto. Eu era dirigente. 2003. o grupo de Felipe Quispe e as algumas federações departamentais que a ele permaneciam fiéis. Mas estes erros nos fortaleceram no futuro. . Em janeiro de 2001. em novembro de 1998. Ali. ele demonstrava especial capacidade denunciar publicamente os q’aras. Isso nos ajudou. como a de La Paz. cortar os produtos agropecuários. Esta expulsão ocorreu em março de 2000. que até então encabeçava o único partido nascido de dentro das organizações camponesas. Contudo. então segundo nome da CSUTCB. avançar diariamente com o povo.. como tínhamos uma posição radical e já havíamos feito a guerra de guerrilhas. fazer greves marchas. Em novembro deste mesmo ano. o MIP. Percebemos que os guerrilheiros com o povo avançam melhor. quando Roman Loayza.169 Terra e território essa experiência para cá e quase a mesma coisa implementamos na Bolívia. que até hoje possui duas sedes e duas diretorias.. no meio das pessoas. o que acirrou a disputa entre o seu grupo e o grupo liderado por Evo Morales. Dentro da massa. Desta forma. o Estado colonial opressor e reivindicar a figura do herói Tupac Katari. Segundo Marxa Chávez. Felipe foi eleito secretário-executivo da CSUTCB como mediação de uma rixa entre dois grupos cochabambinos. um congresso da CSUTCB em Oruro elege como secretário-executivo a Humberto Choque. que tinha uma linha política mais ou menos próxima de mim. cercar as cidades. que passou a ser chamado de El Mallku. que não queria realizar os bloqueios de estradas. Isso nos ajudou muito em 2000. este terror. Não era assim. 2005. ao menos se levamos em conta o movimento específico de Achacachi. Felipe era dirigente. em especial Felipe Quispe. foi expulso da confederação. pensávamos diferente. Felipe Quispe fundou seu próprio partido. Logo. 2001. Já nesta época. Logo depois. o MAS-IPSP. segundo ele porque o grupo de Evo era muito recuado nas suas ações: “Havia o grupo de Alejo Véliz. Ao saírem ganharam uma grande atenção midiática. O irmão de Eugenio. não reconhecem o congresso e em abril realizam um outro congresso em La Paz. Felipe Quispe. (. metido aí no meio. de qualquer maneira a entrada de Felipe Quispe na liderança da CSUTCB é um marco. tivemos que expulsar o grupo de Evo Morales”. a gente empurrando.

Este trabalho era feito com cursos. a pé. as pessoas falvam deste trabalho de base. Felipe Quispe conta que foi um processo de “re-indianização” das pessoas. des-neoliberalizar. de ter passado para as filas do MAS. É como piolho. e como o Evo está fazendo muito calor. mas ele nem sequer quis sair como deputado nacional. Oito anos depois dos conflitos massivos de 2000. pedindo a sua livre autodeterminação. muita gente foi para o outro lado. como estavam movimentizados [eram do MNR]. no qual se debatia política e recursos naturais e que foi central para a luta contra a privatização da água em 2000. seminários. este “processo de discussão ao nível das comunidades”. que voltassem a ser índios. das milícias armadas. como agora também estão neoliberalizados.que estão muito imiscuídos na política partidária. anti-branco. enquanto fazia a sua pesquisa em Omasuyus. Então começa a sacudir a apatia. neste calor”. Ele dizia que ia sair como deputado constituinte pelo nosso movimento político. Seus seguidores diminuíram consideravelmente de tamanho. Não há nenhuma carta de renuncia. Então. segundo Quispe. de bicicleta. com um grupo de companheiros que o apóiam”. “É como eu te dizia. ou seja. Quando era mais jovem. Quispe acusa também Eugenio Rojas. como o seu velho companheiro de guerrilha Álvaro Garcia Linera. e para tirar estes patrões tiveram que se armar..) Havíamos re-indianizado estas pessoas. atirar. as massas”. sabotar os meios econômicos dos ricos. anti-colonial. “A maioria dos camponeses eram militantes do MNR. Ele passa pelas 200 comunidades de Omasuyos. anti-capitalista”.. Muitos militantes passaram para o lado do MAS. estão vivendo aí. rompe o silêncio destes 500 anos. Ela relata que. (. e finalmente re-indianizar. de toda uma nação aimará. meus irmãos mais velhos eram do MNR. 170 Terra e território . Porque aqui neste lugar havia patrões. “Já não era colocar bombas. dado o que ele mesmo chama de “fenômeno Evo Morales”. A partir deste processo. fazer com que reencontrem com seu próprio pensamento. uma espécie de “escola política ideológica que eduque as pessoas. e isso é traição. se conseguiu apresentar um discurso diferente frente à nação. o que tinha que ser feito? Tinha que des-movimentizar. vão para o lado que faz calor. queríamos levar Álvaro Garcia como candidato à presidência. não há nada”. era uma luta massiva. anti-imperialista. prefeito de Achacachi pelo MIP. não simplesmente camponeses”. hoje pilar das políticas de governo do MAS. Logo aparece nas filas do MAS como candidato à vice-presidência. lamenta o Mallku. mas tampouco. “E a gente discutiu. o que ele faz é ir de comunidade em comunidade. Felipe Quispe não ocupa nenhum cargo dentro do movimento camponês indígena. sai à luz pública um discurso anti-q’ara. que praticamente os destruiu a partir de 2005. palestras.

Assim vemos a natureza. se refere à uma parcela de terra. Seu Rufo se surpreende ao saber que esta mesma empresa vende o seu litro de leite pasteurizado no supermercado a 5. aveia. de meio hectare. possui três vacas. que dão cada uma algo em torno de cinco litros ao dia. Ela conta também com os filhos. Além disso. sua esposa. se casou e teve seus três filhos: José. muito comum na alimentação tradicional andina. As plantações garantem a comida da família. são pisadas para desidratar e o resto da secagem é feita pelo sol. Depois da revolução de 1952. muito forte nos Andes durante o dia. enquanto o leite das vacas. nos acompanha e verifica se os chuños estão bem descascados. As filhas mulheres teriam que encontrar um marido para que pudessem ter seus próprios terrenos. a situação da família já não depende tanto da produção de leite. garante o dinheiro para comprar material escolar. já participa com os pais das reuniões comunitárias. De qualquer forma. Ali Seu Rufo nasceu. que até 1952 eram colonos na antiga fazenda de mesmo nome. o casal dividiu o lote de um hectare entre os seus dois filhos homens. Tacamara é uma comunidade de cerca de 400 famílias e fica aos pés do nevado Illampu.3 pesos bolivianos à empresa Pil Andina. Quando a colheita é feita. quatro porcos e uma galinha. Dona Emiliana. Chuño é um tipo de batata ressacada. é Dona Marcelina quem cuida do dia a dia da chacra. Marisol e Gabriel. Na sua chacra. foi herança dos pais de Seu Rufo. É uma denominação mais usada no altiplano Terra e território Vivendo como os aimarás “Os aimarás diziam que tem que tratá-la como gente. Seu Rufo mantém pequenas plantações de cebola. A sorte é que há a água do degelo que sempre proveu a região de irrigação e a comunidade nunca sofreu com as secas. são separadas as batatas mais miúdas. e demais necessidades de consumo. me explica Seu Rufo Yanarico enquanto descascamos chuño no gramado da sua pequena chacra36. Estas são espalhadas ao solo para que congelem com as geadas noturnas. roupas. Por fim. que já . com respeito”. A família vende o litro de leite por 2. O lote dos pais era garantido em troca do trabalho de segunda a sábado nas terras da patroa. a menos de vinte minutos por estrada de pedras saindo de Achacachi. Para comê-lo.50. e José. A pequena chacra. Depois. Dona Marcelina. se criou. infelizmente não se pode deixar a terra descansar. fava.Chacra.171 36. Com somente meio hectare. que é filho mais velho e tem hoje 17 anos. basta cozinhá-lo em água. e o chuño está pronto para ser guardado por anos e anos. não se pode desperdiçar nada. Da batata. assim como chaco. batata e trigo. explica Seu Rufo. Todos estudam na escola da comunidade. como Don Rufo agora é chefe de recursos humanos (personal) da prefeitura de Achacachi. as cascas têm que ser tiradas. Com o marido funcionário público.

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como o barrado verde que traz desejos de um bom cultivo. um pote com molho de pimenta e peixe frito do Titicaca. Falam algo em aimará. Dona Marcelina me explica que seus filhos querem me adotar. Marisol traz o almoço acompanhada de seus irmãos. Os ponchos vermelhos são vestimentas masculinas tradicionais na região de Omasuyus. e são utilizados na tradição aimará tanto para festividades quanto para a guerra.algumas fiando lã. Nele sentamos em roda para almoçar. vaidoso. veio vestindo seu poncho vermelho. magra e sem cor para os padrões bolivianos. as fazendas coloniais eram muitas ali. que traz embrulhados chuño. listrado de cores fortes e feito pela própria Dona Marcelina. grandes ou interessantes o suficiente Terra e território . Cada detalhe agregado ao poncho tem um significado. há outro pano. Basílio Quispe Churata pediu a autorização da prefeitura de Achacachi. Seu atrativo vinha provavelmente da fertilidade trazida pela irrigação natural e da proximidade com La Paz. Tudo bem assinado e comprovado. a luta pela liberdade. para pegar a van que parte de volta para Achacachi. Mas algumas poucas comunidades originárias se mantiveram. Dona Marcelina e Don Rufo têm uma reunião importante às 11h. por sorte. favas. Seu Rufo e Dona Marcelina se separam imediatamente. Quase toda a região de Omasuyus sofreu com a servidão indígena. Estendem na grama um tecido grosso bem resistente.173 têm idade para ajudar. dos tempos de colonos nas fazendas criollas. No centro. Eu. Quando terminamos de descascar o chuño. a família toda ri. na praça da comunidade. Devem pensar que eu. Vou com eles até lá. No caminho vejo baixar José. percebo um grupo de homens reunidos no canto esquerdo e um grupo de mulheres . passo fome no Brasil. Trata-se de nunca esquecer. Mas não há tempo para muitas conversas. para que ninguém lhe acusasse de atuar sem o aval da comunidade. Rimos todos. Sinto-me um pouco como Gringo. outras costurando – mais ao centro da praça. Diferentemente de outras regiões de aimarás. Já as listras escuras do chamado poncho huayruru (vermelho e negro) indicam o passado de servidão. Ao chegarmos na praça. A Escola Ayllu de Warisata Para falar comigo. encontro uma van que me leva direto a La Paz. pois provavelmente as suas terras não eram férteis. Ele tem oitenta anos e. o filho mais velho. pois sabe que junto com os jornalistas há sessões de foto. Tomamos um refrigerante de mamão. cada qual indo em direção ao grupo que lhes corresponde. portanto. atrasado para a reunião. o gato da família.

ao sul de La Paz. era avó paterna de Basílio. mas os fazendeiros não deixaram que ele desenvolvesse seu projeto. Avelino Siñani. Elizardo Pérez era nesta época funcionário do Ministério de Instrução Pública. Terra e território . Mas se deu conta que com o tempo. a cidade ia chegar até ali e não ia ser conveniente para os camponeses. se tornou posteriormente o Dia do Ìndio. que foi decretada a Reforma Agrária por Hernán Siles Zuazo. tio avô de Basílio38. em 1931. As classes eram clandestinas. e Elizardo Perez. O dia da sua fundação. cinqüenta e três nos depois. inspetor de assuntos indígenas do departamento de La Paz. acompanhou desde muito pequeno a construção e consolidação dos princípios político-pedagógicos da escola. “O tempo passou e ele preparou o seu plano de fundar um magistério. Manuel Quispe Siñani. saindo de Copacabana. Seu Basílio explica que foi uma peregrinação. com a titulação de terras a camponeses e a doação de tratores. e já há algum tempo procurava uma região onde pudesse desenvolver este projeto. 38. Era aparentemente contraditório que o Estado boliviano. A família de Seu Basílio era da comunidade Muramaya. portanto. ensinava a outros camponeses a ler. E ali lhe informaram que em Warisata havia uma escola particular clandestina e que necessitava um professor do Estado”. e isso foi um dos principais motivos para ter sido ali onde surgiu a escola indígena mais importante do país. Ali seu pai. Basílio. mais que tudo. e tinha somente três anos quando a Escola Ayllu de Warisata foi fundada. Ele tinha como tarefa criar núcleos de educação para os camponeses. Antes da existência da escola.para as fazendas. Avelino Siñani. e a fazer contas. portanto. pois os patrões da região não queriam que os índios tivessem qualquer tipo de formação e puniam fortemente os que se envolviam nestas atividades. 2 de agosto. anunciou a sua política de Revolução Agrária. na cidade de Ucareña. Warisata. Martina. Warisata era uma destas poucas regiões de Omasuyus onde ainda viviam famílias indígenas livres. Evo Morales. que era um camponês que tinha alguma educação básica. uma das oito comunidades que fazem parte de Warisata. A escola de Warisata se tornou referência para muitos outros projetos educativos indígenas latino-americanos e. foi referência para o ideal de liberação indígena camponês. Então saiu para as margens do lago Titicaca. passando por Huata e chegou em Achacachi. começou a organizar educação para operários e para camponeses. A escola nasceu de uma iniciativa conjunta de um habitante de Warisata.A irmã de Avelino Siñani. Voltou a La Paz e em Miraflores. a escrever. comemoração nacional de muito significado político na história posterior boliviana37. Primeiro se dirigiu a província Aroma. Basílio nasceu em 1928. havia conseguido comprar terras do seu antigo patrão. em 2 de agosto de 1953. O segundo intento não deu muito resultado. que igualmente representava os 174 37. possui uma cultura autônoma aimará muito forte.Foi no Dia do Índio. professor de origem mestiça formado em Sucre. à noite e com o local sempre variando. na mesma data e local.

Ao chegar na região.175 Terra e território fazendeiros que tanto se opunham à instrução do indígena. Seu Basílio explica isso com a Guerra do Chaco contra o Paraguai. de inclusão dentro do espaço boliviano. “Aqui estavam trabalhando os irmãos camponeses como formigas. e. pedra. tudo em comissões sob a orientação de Elizardo Perez. o nacionalismo casado com o resgate do indígena é um fenômeno que contraditoriamente vai se repetir a partir da Revolução de 1952. cascalho. coca e cigarro para os trabalhadores”. acabou sendo um espaço de resgate cultural e de resistência contra a opressão dos fazendeiros. se tornou um foco de organização e reivindicação do indígena. principalmente frente às constantes perdas territoriais que Bolívia vinha sofrendo na sua história. Na realidade. e. Era necessário formar uma massa com sentimento nacional. Mas este espaço. que não somente concordaram com a construção da escola. Elizardo Perez fez uma reunião com as autoridades da comunidade. outros traziam pedras. . Sob os ideais de progresso nacionalistas que floresceram a partir da Guerra do Chaco e que vão explodir na Revolução de 1952. tivesse a política de formar uma escola rural camponesa. Eu levava merenda. materiais de construção – barro. “Esta ocasião eu já assisti. acima de tudo. terra. que se iniciou em 1930 e que tinha como maior parte dos seus combatentes os indígenas recrutados. Desta maneira perdemos uma parte do chaco boliviano. por baixo disso surgia a reconquista do manejo territorial indígena e as condições para que fossem resgatadas formas de vida anteriores à colônia e à presença européia. já que até os recursos para que ela fosse construída partiram dos esforços das comunidades de Warisata. Ao se pretender um espaço universalizante. apesar de serem identificados como camponeses e de terem chamado as suas comunidades de sindicatos agrários. o presidente Daniel Salamanca disse que os nossos índios precisavam se civilizar. caciques e outras autoridades locais”. tinham poucos conhecimentos. palha. Alguns faziam os tijolos. Assim. “Que lindo teria sido se nossos irmãos camponeses soubessem se defender. imensamente dependente da comunidade para se efetivar. perdemos petróleo. aprender a ler e a escrever”. a escola se concretizou como um fruto da comunidade. mas também lhe ofereceram o terreno. promover o desenvolvimento no campo. Mas esta vontade do Estado boliviano não era mais do que um aval para que a escola funcionasse. de mallkus. Depois da sua fundação. Mas eles não sabiam mexer com armas. areia. Por isso. lembra Don Basílio Quispe. boa parte da escola ainda continuava em construção. foi formada esta escola que tinha como função “civilizar” o índio. todos os recursos locais – e força de trabalho comunitária para viabilizar o projeto. A mesma lógica seguiu Warisata. A reforma agrária devolve aos indígenas seu território.

Destes. Seu Basílio conta que o Parlamento Amauta se reunia semanalmente para estabelecer as tarefas a serem cumpridas no período. Ali. ela era dependente da comunidade onde estava inserida. o controle social é feito diretamente pela comunidade. na reposição de móveis. o que tinha mais experiência é o amauta maior. como organizar a irrigação e ajudar na manutenção dos cultivos. como tomate. com os professores e com as autoridades educativas e interministeriais. Amauta quer dizer sábio. se houvesse. Dentro destes parâmetros. durante o curto governo nacionalista do General Germán Busch. etc. os alunos aprendiam trabalhando para a própria escola. que eles possam criar as suas pequenas manufaturas. trabalho. tratar de problemas da escola. finalmente se concretizou o plano inicial de construir na escola um magistério. tapeçaria. o excedente da produção. Mas a segunda conclusão é que a auto-sustentabilidade do projeto apontava não para um modelo de escola liberal. No final da década de 1930.A filosofia pedagógica de Elizardo Perez aplicada ali tinha quatro preceitos básicos “estudo. para que se libertem da estrutura arcaica da servidão. Destes preceitos se pode tirar duas conclusões. Um espaço lhes é dado para que se desenvolvam. que tinha os seus campos de cultivo e tinha as suas oficinas de carpintaria. de ensinar aos camponeses a fazer roupas. e cada uma das comunidades de Warisata tinha que indicar um sábio representante para este conselho. A forte ligação da escola com a comunidade era determinada pelo Parlamento Amauta. que tem a ver com o nacionalismo. A primeira. de acordo com a necessidade”. etc. As tarefas poderiam ser políticas. Em 1937. casas. móveis. alface. o que dirige o parlamento. mecânica. Depois. um conselho de representantes das comunidades que se encarregava de coordenar os serviços das comunidades à escola. Mas elas também poderiam ser bastante pontuais. quanto na alimentação dos estudantes e professores. e para que com isso contribuam para o desenvolvimento da nação Bolívia. Era uma espécie de política de expansão das escolas técnicas no espaço rural. cebola. Ao invés de depender do Estado. o nacionalismo deu as condições para que as sementes do movimento indígena atual fossem plantadas e cuidadas. que eles introduzam o cultivo de outros alimentos. que incide sobre as políticas a serem desenvolvidas pela escola. nas quais o conselho tinha que “coordenar com o diretor. poderia ser vendido e ajudaria na arrecadação de recursos para a escola. é a necessidade de promover o desenvolvimento no campo. mas sim para um modelo de escola comunitária. herói da Guer- 176 Terra e território . produção e investigação”. tanto na construção de obras internas. a transparência é total. para equilibrar a sua dieta alimentar. etc. Neste sentido. Isso tornava a escola auto-sustentável.

que era amigo pessoal de Elizardo Perez e que financiou parte da construção do Pavilhão México. que foram buscar inspiração na antiga civilização pré-inca ao redor do Lago Titicaca. socialismo. que provavelmente quis deixar ali um recado. como comunismo era o nome que soava mais feio. respondia à demanda crescente destes outros projetos similares. impulsionando a criação de muitos núcleos de escolas indígenas espalhados em todo território boliviano. Mas. tido como um segundo pai por Seu Basílio. caiu o governo de Germán Busch e entrou na presidência Carlos Quintanilla. Já em 1940. saíam de Warisata os primeiros professores formados pela própria escola. Nesta época. As oficinas foram saqueadas e pararam de produzir. substituindo seus diretores e proibindo o Parlamento Amauta de funcionar. e disseram ‘a escola . a escola também mantinha vários contatos internacionais. Podia ser nacionalismo. Warisata se tornou um modelo nacional parra a educação rural. pois experiências neste sentido estavam sendo tentadas em muitos países da América Latina. eram autoridades e chefes. O artista projetou os impressionantes portais que estão nas extremidades do pavilhão. Independente da posição ideológica de Fuentes Lira. que careciam de professores formados nesta pedagogia. Perceberam que a filosofia de Elizardo Perez dava resultado. depois de três anos. Em estilo neo-tihuanaco. pois colocava em cheque o regime de servidão do qual dependia o seu bem-estar. Era uma época de muita instabilidade política. indigenismo. para os fazendeiros da região tudo que fosse contrário aos seus interesses era algo a ser combatido fortemente. cheia de golpes e contra-golpes de Estado. e. logo em cima da frase se nota duas ramas de cereais cruzadas. Em 1939. No início dos anos 1940. Houve uma relação especial com o governo de Lázaro Cárdenas no México. foi exatamente com ele que começaram a fazer a sua campanha de desprestígio da escola. “Trabalho é paz e liberdade”.177 Terra e território ra do Chaco. que era um jovem aluno da escola quando as obras do Pavilhão México começaram. a escola entrou em uma profunda decadência que levou ao seu fechamento em 1942. interveio na escola e nos demais núcleos de educação indigenal. portanto. comunitarismo. Don Basílio explica que por isso pensavam que eram comunistas. mas na realidade seu pai de criação queria interpretar a filosofia índia. O novo governo era mais identificado com a elite rural e mineira e tentou eliminar as políticas nacionalistas anteriores. lembrando o símbolo comunista da foice e o martelo. a obra foi coordenada por vários artistas latino-americanos. somente dois anos depois da fundação do magistério. O que está a leste tem a inscrição “Arte neo-índia para o povo” e o que está a oeste. Um destes artistas era o peruano Mariano Fuentes Lira. prédio que depois seria a sede do magistério de Warisata. “Os filhos dos fazendeiros estavam no governo. O magistério.

178 Terra e território .

Eu estava lá. pronto. por células nos organizamos. Não havia armamento. se tornou cabeleireiro e trabalhou em um salão cujo dono era japonês. No final da década de quarenta. Sem o magistério. pegava seus livros e continuava lendo. Basílio logo começou a conhecer as autoridades e a ganhar certa intimidade. Ele pediu então que viesse uma comissão de Warisata a La Paz para ter uma audiência com ele. reservista do exército. O presidente da época era Henrique Hertzog. Mas os rumos levaram Basílio. Em 1952 estoura a revolução nacional na sede do governo boliviano e ele. peguei a arma e pronto”. neoliberal. nos enganou. vão invadir’. mecânicos. estes índios um dia vão se levantar. que coincidentemente havia sido governador do departamento de La Paz em 1931 e estava presente na inauguração da escola. sua companhia serviu durante quatro meses como guarda do palácio de governo. Mas. Terra e território . Em 1948. na impossibilidade de se formar professor. O sinal já estava preparado. a outros lados. já estávamos bem organizados e o governo não sabia nada. o jovem Basílio teve que prestar serviço militar. lamenta Seu Basílio que na época havia acabado seu curso primário e queria iniciar o magistério. “Eu estava na célula São Pedro. e mesmo quando estava em casa. o que aconteceu? O fazendeiro se infiltrou. se apoderou da política do MNR. às 3h da manhã dinamites estouram em diferentes bairros da cidade. como eu sou reservista. Por favor. A comissão foi a La Paz. a reunião aconteceu e neste mesmo ano a escola de Warisata voltou a funcionar. E eu. Seu Basílio tirou algumas aprendizagens. e quem liderava era o doutor Hernan Siles Zuazo. que sempre gostou de estar bem informado. Victor Paz Estenssoro estava exilado na Argentina. só precisava tomar. meus companheiros vieram a La Paz. vão fazer bloqueio. pois tinha que ter assunto para falar com os clientes. Ele explica também que naquela época o MNR não era como o MNR de Goni. Tomamos todo. se incorpora ao levante. A outra é que se acostumou a ler muito jornal. mas o plano era atacar o arsenal de guerra de Chayapampa. E fecharam a escola”. A primeira é que até hoje sabe falar algumas palavras em japonês. carpinteiros”. costureiros. Toda a sua geração foi para La Paz e começaram a trabalhar para ganhar a vida. Um dia Basílio tomou coragem e disse ao presidente: “Minha Excelência. Ali havia munições. armas. são sapateiros. tudo. Por isso que houve a Guerra do Gás. Basílio. pegamos todos os armamentos.179 de Warisata tem que ser fechada. eu sou de Warisata e você também fundou a nossa escola. Dali. nos devolva a escola. No dia 8 de abril de 1952. “Foi um bom partido nesta época. porque o camponês já havia dado conta”.

era comunal. e dificultaram o desenvolvimento autônomo da sua própria pedagogia. cumpre a função de simples conselho. escreve. como a de tecidos e de carpintaria. Simplesmente ensina a ler e a escrever. Um dos motivos para isso ter acontecido foram as reformas educacionais que teve Bolívia durante a segunda metade do século XX. contudo. Mas Mamani também conta sobre iniciativas para recuperar o modelo de escola produtiva. que opina sobre os assuntos da escola. faz a mediação entre ela e a comunidade. e até agora continua. por exemplo. Enquanto agora é individual. mas já não atua como antes. Ela proporá um resgate à filosofia fundacional de Warisata. fala. ovelhas e galinhas. da escola produtiva. na falta de recursos para impulsionar estas políticas. Mamani tem esperanças em uma lei que está trabalhando o governo atualmente que será chamada de Lei Avelino Siñani e Elizardo Perez.A Escola Ayllu hoje “A escola foi reaberta em 1948. “Não era individualista a Escola Ayllu de Warisata. quando os habitantes das comunidades se responsabilizavam de fato pelas tarefas da escola. me explica Andrés Mamani. Mas não tem o mesmo objetivo. para equipar uma oficina. Agora. mantêm ainda alguns campos de cultivo de batatas e criam animais. O Parlamento Amauta ainda existe. como gado. já mudou. que conseguiram de forma mais eficiente incorporar a escola de Warisata a um padrão nacional. lamenta Andrés Mamani. o aluno olha e copia”. atual diretor da escola de Warisata. 180 Terra e território . já não é escola produtiva. assim como qualquer outra escola”. na aprendizagem também. Estão recuperando as oficinas. A iniciativa esbarra. o docente está na lousa.

CERTEZAS E ESPERANÇAS Terra e território .181 PERGUNTAS.

182 Terra e território .

como o futuro do movimento indígena camponês boliviano. são muitos: a oligarquia crucenha.183 Terra e território Com muitos percalços. fiquei ao todo seis meses na Bolívia. o profundo questionamento do Estadonação. idas e vindas. Evo conseguirá terminar o seu mandato? Se sim. este movimento será novamente cooptado pelos grupos dominantes reformulados? E o governo de Evo. Contudo. o regime burguês de democracia representativa está se esgotando. ao final do processo. que falam de processos históricos mais longos e profundos. a Bolívia do início dos anos 2000 viveu experiências de poder popular e de soberania. Ou será que. A Bolívia vive hoje um período pré (guerra civil? golpe? revolucionário?). Conseguirá ele cumprir a tarefa de descolonização a qual se propõe? Os inimigos. é um caminho para esta descolonização ou seria ele um caminho para a criação de novas elites? Marca o fim ou o começo deste processo de emancipação? O limite é muito tênue. sob quais concessões e condições? O país se dividirá? Haverá golpe de Estado? A nova Constituição Política de Estado será finalmente aprovada? Haverá uma legislação que limite efetivamente a propriedade de terras? A revolução agrária existirá de verdade ou não passará de discurso? Essas perguntas podem ser respondidas em questões de meses ou anos. mas tempo suficiente para acumular muitas dúvidas. no qual as pessoas estão enterradas em números de bilhões de . “atomizado”. chamado de pós-moderno. mas que é significativo por si só. o governo norte-americano. a persistente herança colonial. Como no Chile de Allende. Pouco tempo para entender o país. Sendo este trabalho realizado em meio a vários processos históricos – o mandato de Evo Morales. pela esquerda ou pela direita. como vimos. Mas há outras perguntas. na intensa disputa e polarização que há no país. a construção de auto-governos indígenas – muitas questões ficaram em aberto. Este fenômeno é ainda mais especial se considerarmos o período histórico que vivemos.

184 Terra e território . bloqueios. muito mais do que as intrigas políticas dadas dentro do Palácio do Governo. a história dos últimos anos foi traçada em assembléias. É por isso que. A população boliviana sabe da sua história de dominação. a história persiste e continua sendo assim. porque o neoliberalismo é o neocolonialismo. marchas e ocupações de terra.habitantes e nada mais importa do que a sua sobrevivência imediata. e sabe que a história não acabou. E mesmo com um representante deste movimento ocupando a cadeira presidencial. Aceitar esta constatação é torná-la verdade e as lutas bolivianas atuais só existem porque para grande parte da sua população este indivíduo pós-moderno atomizado não é uma realidade. o “pongueaje” moderno.

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P.188 LEGENDAS DAS FOTOS P. 2007. 5. Terra e território . P.] P. 63. Em 04/05/2008. P. Em 04/05/2008 P. Outubro. 14. 44. Outubro. P. 2007. Colonos preparados para enfrentar grupo rival que promovia a votação do Estatuto Autonômico de Santa Cruz. Campo de soja em Pueblos Unidos. A dirigente da Federação de Colonos em San Julián dá instruções durante bloqueio. 2007. 20. 79. Sem-terras tomam café da manha em Tierra Prometida. 38. 70. Dirigente comunitário de San Julián denuncia conteúdo do Estatuto Autonômico de Santa Cruz. Outubro. 63. Benita com Caluchito no seu chaco recém preparado. Colonos de San Julián se preparam para enfrentar grupo rival que promovia a votação do Estatuto Autonômico de Santa Cruz. P. Cholitas assistem ato repudiando a especulação no preço dos alimentos e o empresariado agrícola em Cochabamba. Em 04/05/2008. P. Casa de teto de motacu e parede de chuchiu na zona de urbanização improvisada em Pueblos Unidos. 2007. Em 06/12/2007. Outubro.

2008. Seu Julián e Seu Andrés mostram como se faz a colheita da coca. 84. 2007. P. Em 04/05/2008. está Evo Morales na bancada do Palácio Quemado. Ao fundo. P. Três Arroyos. pois os líderes cívicos de Santa Cruz são identificados como maçons. Dona Isabela em sua casa. Santa Helena. 136. Jovem ajeita pneus de ponto de bloqueio em San Julián.189 Logiero faz referência ás lojas maçônicas. 2007. Terra e território . Cartazes de denúncia do Estatuto Autonômico de Santa Cruz. Junho. 128. Manifestantes em frente à Embaixada dos EUA. 84. Novembro. Em 03/05/2008. 2007. 2007. P. Mercado de coca em Chipiriri. Secagem da coca de Dona Isabela. Moradores do bairro popular Plan 3000 de Santa Cruz de la Sierra à caminho de uma manifestação contrária ao Estatuto Autonômico. Três Arroyos. P. P. 84. P. 104. perto de Villa Tunari. Novembro. Em 15/12/2007. P. P. 2007. 93. perto de Villa Tunari. 144. 117. Novembro. Novembro. P. 2008. Em 02/05/2008. 90. P. Novembro. perto de Villa Tunari. Bloco da Federação Departamental de Camponeses de La Paz em manifestação em La Paz. Junho. P. Seu Carlos Meneces mostra plantação de banana promovida pelo desenvolvimento alternativo. Em 02/05/2008. Camponeses vêem a entrega da Nova Constituição Política do Estado. 124.

P. q’alachaka. 2008. “Jallalla Mallku”. Atrás. 2008. Província Omasuyus. Abril. El Mallku. Ponte de pedra.P. 178. Abril. 2008. Abril. “viva Mallku” já meio desbotando em Achacachi. 182. 163. 190 Terra e território . 178. Achacachi. a montanha onde os camponeses se reuniam. Abril. P. Dona Marcelina e Seu Rufo descascando chuno em Tacamara. P. Detalhe Pavilhão México do prédio do magistério de Warisata. Folhas de coca. Abril. P. 2008. 172. local onde surgiu o quartel indígena. 167. Abril. P. departamento de La Paz. El Mallku. Prédio do magistério de Warisata. Felipe Quispe. P. Cholitas da cidade de El Alto em manifestação em La Paz. 167. P. Abril. 2008. Abril. 2008. 167. 2008. P. P. Maio. 2008. P. Pacenha e wiphala. 2008. 2008. Felipe Quispe. 178. Junho. 149. Seu Basílio Quispe com a assinatura de Mariano Fuentes Lira em obra no Pavilhão México da Escola de Warisata. 167.

Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia DEA .Drug Enforcement Agency Digeco .Bartolina Sisa Fobomade .Central Operária Boliviana Confeagro .Ação Democrática Nacionalista ASP .Direção Geral da Coca EGTK .Confederação Agropecuária Nacional CPE .Assembléia pela Soberania dos Povos BM .Corte Nacional Eleitoral CNTCB .Constituição Política do Estado CPESC .Federação Nacional de Mulheres Camponesas da Bolívia .Confederação Sindical de Colonos da Bolívia CSUTCB .Fórum Boliviano de Defesa do Meio Ambiente .Confederação Indígena do Oriente Boliviano (na fundação) / Confederação de Povos Indígenas da Bolívia (hoje) CNE .Coordenadora de Povos Étnicos de Santa Cruz CSCB .Câmara Agroindustrial do Oriente Cidob .Banco Mundial CAO .191 SIGLAS Terra e território ADN .Exército Guerrilheiro Tupac Katari FMI – Fundo Monetário Internacional FNMCB-BS .Confederação Nacional de Trabalhadores Camponeses da Bolívia COB .

Bolívia PCB .Alternativa Bolivariana para as Américas TLC .Força Tarefa Conjunta IDH .Partido Comunista da Bolívia Podemos .Terra Comunitária de Origem TCP-Alba .Lei de Participação Popular MAS-IPSP .Serviço Nacional de Reforma Agrária TCO .Movimento Nacionalista Revolucionário MST-B .Movimento Indígena Pachakuti MIR .Federação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses Apiaguaiqui Tumba de Santa Cruz FTC .FSUTC-AT-SC .Movimento de Esquerda Revolucionária MNR .Tratado de Livre Comércio UJC .Instrumento Político pela Soberania dos Povos MIP .Unidade Móvel para Patrulha Rural UN .Unión Juvenil Cruceñista Umopar .Tratado de Comércio dos Povos .Poder Democrático Social SNRA .Unidade Nacional 192 Terra e território .Imposto Direto dos Hidrocarbonetos Inra – Instituto Nacional de Reforma Agrária LPP .Movimento ao Socialismo .Movimento Sem Terra .

com o qual se faz paredes para moradias.193 GLOSSÁRIO Terra e território Acullico ou pijcheo – Comumente chamado de “mascar” de coca. o devolve em atividades equivalentes. Chicha – Bebida alcoólica fermentada de milho. O tamanho e o estilo da pollera e do chapéu podem variar dependendo da região. . cacique. Camba – Como são chamados os habitantes das terras baixas bolivianas. Chuño – Espécie de batata desidratada. blusa rendada. forma de pagamento de tributos. Mita – Sistema de fornecimento de força de trabalho servil recrutada nas comunidades pelo o governo. Utilizado tanto pelos incas como pelos espanhóis. Chaco – Lote de terra. mas sim pressioná-las com os dentes para aos pouco ir tirando a sua seiva. termo utilizado em Santa Cruz e entre os cocaleiros. mas não consiste em triturar as folhas. termo utilizado em Omasuyus. futuramente. Ayni – Sistema de trabalho recíproco. Ayllu – Nome com o qual os povos andinos chamam as suas comunidades indígenas originárias. Chuchiu – Espécie de bambu. Kuraka – Chefe político da comunidade. Criollo . Colla – Como são chamados os habitantes do altiplano boliviano.Lote de terra. Chacra . Chaqueo – Processo de queima e derrubada do mato de um determinado terreno tanto para fins agrícolas quanto pecuários.Descendente de espanhóis nascido na América Latina. Cholitas – Mulheres indígenas do ocidente boliviano que se vestem com sua roupa típica: pollera. chapéu e tranças. Chicheria – bares populares onde se bebe chicha. no qual uma família conta com o trabalho de outras unidades familiares em uma determinada ocasião e.

e em Cochabamba são mais curtas. Q’owa – Cerimônia de oferenda à Pachamama. Pollera – Saia bastante rodada e volumosa utilizada pelas cholitas. Pongueaje – Sistema de trabalho servil dentro das fazendas criollas.Motacu – Espécie de palmeira abundante nas terras baixas bolivianas. indo até o tornozelo. 194 Terra e território . Em La Paz são mais cumpridas. com a qual se faz forragem para tetos de moradias. na qual os camponeses para cultivar e ter acesso a um lote de terras precisavam trabalhar nas terras do fazendeiro. Pachamama – Mãe-terra. até o joelho.

195 Terra e território .

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