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20 de abril de 2008 | N° 15577AlertaVoltar para a edição de hoje

M a r d e Pe t r ó l e o

A disputa por US$ 9 trilhões


Espalhadas do Espírito Santo a Santa Catarina, reservas de petróleo na área
chamada de pré-sal prometem dar novo sentido à estrofe do Hino Nacional
"deitado eternamente em berço esplêndido".

Novo símbolo da pujança potencial do Brasil, as descobertas de


megajazidas a grandes profundidades despertam a cobiça das grandes
companhias internacionais e animam planos de dar ao país um lastro
duradouro para o desenvolvimento.

Caso as estimativas informais, que situam as reservas do pré-sal entre 80


bilhões e 90 bilhões de barris, sejam confirmadas, o país estaria às
margens de um tesouro de cerca de US$ 9 trilhões - quase o Produto
Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos. Esse seria o valor de mercado do
produto atualmente, estima o geólogo Giuseppe Bacoccoli, que trabalhou
por três décadas na Petrobras.

Não é difícil entrever as causas do cuidado do governo federal e da


Petrobras na divulgação de informações sobre o assunto, bruscamente
sacudido pelas declarações do diretor-geral da Agência Nacional do
Petróleo (ANP), Haroldo Lima, no início da semana passada: ganhar tempo
para fazer ajustes nas regras antes que o jogo fique ainda mais pesado. Ao
estimar parte das jazidas - as compreendidas na formação chamada de Pão
de Açúcar - em 33 bilhões de barris, Lima ligou os radares do lobby
internacional contrário à mudança nas regras.

O consenso é de que as regras serão alteradas

Há concordância entre autoridades e especialistas de todos os naipes sobre


a necessidade de ajustes nas regras que regem atualmente a exploração e
produção de petróleo. Do primeiro diretor-geral da ANP, David
Zylbersztajn, que cultiva posições pró-mercado, aos nacionalistas
dirigentes da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), todos
concordam, pelo menos, com a elevação da taxa cobrada das empresas
concessionárias a título de Participação Especial (veja quadro ao lado).

- É natural mudar uma regra como a da Participação Especial. A lei já


prevê que pode ser definida por decreto. E o mundo de agora é diferente
do de 10 anos atrás. Agora, mudar a Lei do Petróleo é complicado. No
Congresso, vai ser uma confusão sem tamanho, não há condições de fazer
sem que leve a um fisiologismo monstruoso - avalia Zylbersztajn.

Também contrário à mudança na Lei do Petróleo, Bacoccoli exemplifica:


com participação de 25% nas áreas de Tupi e Carioca, a britânica BG teria
reservas quase tão grandes como as que o Brasil tinha até o novo ciclo de
descobertas, 10 bilhões de barris. A regra atual confere às empresas
vencedoras das licitações da ANP a propriedade sobre o óleo ou gás
extraídos.

- Sempre fui contra, mas já que vai mudar, seria interessante estudar o
modelo dos EUA, onde o agente regulador federal só define as regras em
territórios federais, como o Alasca, e em águas não rasas. No Texas, quem
decide é o próprio Estado - explica.

Mudanças devem incluir só áreas ainda não licitadas

Mais ambicioso, Fernando Siqueira, diretor da Aepet, vê o aumento da


Participação Especial como passo importante, mas não suficiente. Assim
como parte da direção da Petrobras, defende o modelo da partilha da
produção:

- Pela Constituição, o monopólio é da União. Existem no mundo inteiro


contratos que dão indenização a quem produz petróleo, em espécie
(dinheiro) ou percentual (do óleo extraído).

Mesmo Siqueira admite: seja qual for o alcance das mudanças, só devem
valer para áreas ainda não licitadas. A experiência ensinou que rasgar
contratos tem conseqüências nefastas.

- Não queremos que mude o passado. As estrangeiras vieram por regra


errada, mas em vigor - afirma

E por que mudar as regras daqui para a frente? Se estiverem corretas as


estimativas de reservas de até 90 bilhões de barris - embora sem chancela
oficial, executivos do setor admitem que esse é o volume comentado "nas
conversas na hora do uísque" - , mais da metade dessas jazidas ainda não
foi licitada. Além do porte de Oriente Médio, o Brasil seria candidato à
auto-suficiência em gás natural até 2015, estima a direção da Petrobras.
Marco Aurélio Tavares, diretor da consultoria Gás Energy, admite que
cálculos preliminares situam a produção em 100 milhões de metros cúbicos
em sete anos - o dobro do consumo atual:
- Não quer dizer que vamos deixar de importar da Bolívia, com quem
temos contrato de longo prazo, mas certamente melhorará nossa posição.

Tavares adverte, porém, que as áreas ricas em gás, assim como as em


petróleo, estão distantes da costa, o que dificulta o transporte. Será
preciso alto investimento em gasodutos ou, na melhor das hipóteses, de
navios para resfriamento para transporte em forma líquida - o gás natural
liquefeito.

( marta.sfredo@zerohora.com.br )

MARTA SFREDO
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M a r d e Pe t r ó l e o

Uma luta nas últimas fronteiras


Não é apenas porque o Brasil pode se converter subitamente em um país
das Arábias em reservas de petróleo que o interesse das companhias
privadas na área do pré-sal se acentuou. No mundo inteiro, os limites para
a atuação das grandes petroleiras multinacionais se estreitaram nos
últimos anos. Embora as grandes estatais também tenham perdido terreno,
um tipo específico de empresa, as chamadas national oil companies e
apelidadas de NOCs, dominam hoje a atividade de exploração e produção
de petróleo. A Petrobras é uma NOC - não é mais 100% estatal, porque tem
boa parte de suas ações nas mãos do mercado.

- As grandes multinacionais nem aparecem mais nos rankings. Exxon e Shell


ficam hoje atrás da PetroChina - observa o geólogo Giuseppe Bacoccoli.

Impacto das descobertas não será sentido no curto prazo

Com regras mais palatáveis aos interesses estrangeiros e agora com


reservas mais robustas, o Brasil se transformou numa espécie de última
fronteira com espaço para atuação das "irmãs", como ainda são
depreciativamente chamadas as grandes, especialmente americanas e
britânicas.

- O artigo 26 da Lei do Petróleo (que dá às concessionárias a propriedade


do óleo extraído) foi introduzido pelo lobby das irmãs. A Petrobras investiu
durante anos, descobriu as reservas que estão agora sendo entregues em
leilões a empresas estrangeiras, que querem comprar filé mignon a preço
de banana - reclama Fernando Siqueira, diretor da Aepet.

É no meio dessa batalha entre o avanço dos Estados e o apetite das


companhias petrolíferas que vai evoluir o debate sobre o alcance das
mudanças nas regras brasileiras.

- O essencial é que a discussão que vai se travar sobre as alterações não


faça com que esse processo de geração de novos investimentos e de maior
conhecimento do subsolo sofra descontinuidade como conseqüência. É
importante manter os leilões para que as novas encomendas sigam seu
curso - posiciona-se Alfredo Renault, superintendente da Organização
Nacional da Indústria do Petróleo (Onip).
Com a experiência de ter visto o segmento saltar de uma contribuição de
2,7% do PIB, em 1997, para 10% no ano passado, Renault adverte que é
preciso ter claro que os reflexos das novas descobertas na economia não
virão a curto prazo:

- Os projetos no setor de petróleo, entre a descoberta e a produção,


tardam em média cinco anos. Ainda não se sabe dizer se o pré-sal vai
alargar ou não esse prazo, mas intuitivamente prevemos que vai ser maior.

A fórmula da estimativa
O cálculo do valor das reservas do pré-sal é baseado na projeção de
existência de até 90 bilhões de barris de óleo equivalente (petróleo ou gás)
na área de 800 quilômetros de extensão e 200 quilômetros de largura que
vai do Espírito Santo até o norte de Florianópolis (SC).
A preços de hoje, de US$ 100 por barril, esse manancial valeria no
mercado US$ 9 trilhões, equivalente a quase toda a riqueza gerada nos
Estados Unidos em um ano.
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M a r d e Pe t r ó l e o

Sem medo da maldição


Bastou surgir a perspectiva de reservas gigantescas na costa brasileira para
um jorro de advertências sobre a "maldição do petróleo" - quando países
com instituições frágeis e economia instável exploram suas jazidas, correm
o risco de acentuar os defeitos em vez de corrigi-los. Mesmo escolados em
casos relativamente "malditos" - os países do Oriente Médio são o exemplo
mais citado, mas Bolívia e Venezuela ampliaram recentemente a lista de
exemplos - , especialistas garantem que o Brasil tem condições de isolar o
sortilégio.

Uma dessas defesas, cita Alfredo Renault, superintendente da Onip, é a


solidez democrática do país, recentemente conquistada, sob perspectiva
histórica, mas bastante consolidada.

- A democracia no Brasil veio para ficar, é irreversível. A maldição do


petróleo é intimamente ligada à falta de cultura democrática. Aqui há
alternância no poder, um processo eleitoral oxigenado - sustenta Renault.

Para o superintendente da Onip, um dos aspectos mais favoráveis das


novas descobertas é a garantia de continuidade do fluxo de investimentos
gerado no setor - que já beneficiaram o Rio Grande do Sul com o pólo
naval e pelo crescimento de empresas fornecedoras da cadeia do petróleo,
como a caxiense Lupatech e a erechinense Intecnial.

- Isso tem reflexo em toda a economia - festeja.

Do ponto de vista econômico, completa Marco Tavares, da Gás Energy, o


Brasil é mais do que um país produtor de petróleo. O especialista considera
"comparações facciosas" as relações com nações óleo-dependentes. Lembra
que o país tem outras commodities valorizadas negociadas no mercado
internacional - soja, minério de ferro, aço - e se relaciona com o resto do
mundo por meio de trocas comerciais sólidas e participações institucionais
consagradas.

Exemplo noruguês é lembrado para o futuro

Uma das advertências mais recentes sobre a dualidade das grandes


descobertas veio da revista britânica The Economist. A mais recente
edição tem dois artigos e um editorial sobre o Brasil.

"A riqueza do petróleo é adorável (lovely no original, termo pouco


freqüente em publicações especializadas em economia), é claro. Mas é
também motivo de preocupação". E adverte que o petróleo pode
transformar a economia brasileira, mas não necessariamente para melhor.

- O que precisamos pensar é como usar essa renda extra que teremos para
permitir dar ao país um salto tecnológico, como fizeram a Coréia do Sul e a
Índia, e transformar a exportação desses recursos naturais numa alavanca
para o futuro - recomenda Tavares.

Um dos exemplos mais citados é o da Noruega, que constituiu com os


recursos da exportação de petróleo dois fundos: Noruega e Global. Criada
em 1990, essa reserva foi reestruturada em 2005, para contemplar um
fundo de pensões voltado ao cidadão, além de outro destinado a
investimentos internacionais, uma espécie de fundo soberano - como o
Ministério da Fazenda sonha em criar no Brasil.