Você está na página 1de 190

A QUEBRA DE UM TABU

DE DOIS MIL ANOS

Uta Ranke-Heínemann, considerada a


maior teóloga do mundo, perdeu sua
cátedra na Universidade de Heidel-
berg quando publicou este livro. Pela
primeira vez em dois mil anos de
Uta Ranke - He·
Igreja Católica, uma mulher ousa dar
nome ao "problema que não tem
nome": a sexualidade. Este livro é
uma contribuição incalculável à his-
tória da sexualidade humana. Em
suas quase quatrocentas páginas, a
autora faz uma pesquisa monumen-
tal sobre as regras e virtudes da
Igreja sobre a sexualidade feminina,
que vai das suas raízes pré-cristãs até
os dias de hoje. Este livro abalou a
Igreja e, pela sua grande originali-
dade e erudição da autora, tornou-se
um dos mais importantes do nosso
tempo em sua área.

Rose Marie Muraro


da contracepça- 0 ' do
m
do prazer, . ·dade entre u
d11 ,,, º•1· ·li da intnm -o escuta as 1
1111111 11dl li 11·1 mulher. Ela nam comum. Uta fü1 nkc - / IP/1 1c•111i11111 11 ,1 pl'/111p/1 •,1
, ,. 111 , d home mulher a conq11fsti11• u,1111 t·:i11•dr,1 1·111
111111 ,, , . s(•rias o impor sua
li 111o1111l.1-; ie se empenha em levar em teologia numa u 11 fv<• ,·,1;f di1d1 • o!'lc-Lt/ 11!1•11111,
• l111pl1••, 111t•11 1·ra moral sem das deposta POSte1•io1·111c•111(• /lOI ' ('ll ll Si l <11 • SIIHS
ditac. u e
111111n l,1 1 • M'Star das pes. soas casa ··
7 Os fatores opiniões no campo du t'.\'.<'H<'st• 11 d.i 1110,·uJ
, 11111,1 i, )1 11 ' ~e chegou a i?so.xtracristã e sexual. O prcscnrc• li vro - • 1-:t lNl JC'o s PELO
1 1'111 qm . e rocedência ~ internas REINO DE DEUS - rl'f>rt•scnta, lal vr~, a
"
11 i11111los, d
1· . •tam.e
pnte às relaçoes mente
. S gura ' investigação mais s •ria n'ali zaclt1 nos
llf',1d11s
1 ll _( 11 e mano-católica. e o a Igreja últimos anos na teologia <'rum nica
ro
' " •n·1i\ . . ·incipais e, a formad com.Ele fºicou mundial acerca da fo.rma corno a Igreja
11111 cl11s p1 oder sagra º·sta somente romano-católica tratou a sexuc.1.llctade, a
il1•,1 r1l111I ? J1{erarquia,_ c_ompo âmbito de contracepção, o prazer e as mulheres.
, , .,. , \ó H lo ~ de celibatanos, n~.tário desse Estamos diante d e um trabalho histórico-
d, 11011_1'.'.'~\o autoritário e to~e~ sagrado, crítico minucioso, em cima de fontes
,1111 i· , 1c1c redor do po oderes, . se primárias, abrangendo o tempo ime-
p111l1•r. Ao com outros. :P nismo. Esta diatamente antes do cristianismo, a
i1111 ,!lado história do cnstia tolera a história comparada das igrejas cristãs até
1111•,.11111.0~- a de pod~r não ta a leveza o tempo de João Paulo II. A perspectiva é a
,11111111 tlac;aod amor, nao supor nvivência da mulher, vítima do sistema masculino
1, ,11•. tl1dade o não agüenta a co filhos, a ou celibatário que se apoderou do poder
il,1 1('1'11Lt!e:ente,
1 a mulher, i~! controlar sagrado e o usou quase sempre na ótica
-0 o poder prec ~ orno das
antifeminista e machista.
, 1H11 o
lnn:,1 cio dt~~ · 0 camp? -~u~;recôndita A leitura deste texto produz estar-
111do, taro das e da intlilll a todos, mas recimento a qualql.Jer pessoa sensata. É
p1",soas
1 ' l)CSSOaS.
casa Por isso, para lheres se tanto ódio ao sexo, hostilidade ao prazer,
as mu ' É difamação das pessoas casadas, suspeita
i .,s . ente para escrúpulo.
p1111< ipalm ente medo e. ar-se pelo de cada aceno de afetiv:idade e ternura,
1 1·1:1ram so~m cristão 0 n:nt de moral pecaminização de toda a esfera sexual, por
111:a:nsat~! Igreja em_ q~es;~~gia alguma, um lado, e exaltação exacerbada do
'11s1110 teologia nao e t do nome de celibato e culto maníaco à Virgindade, por
,,,·. ual. Sua tinuamente abusa ·tos e pre- outro, que o espírito se nega a crer que
porque con legitimar conce1 alidade não isto tenha a ver com Deus e seja a
1l1•us, . par:umanos e sua m~a no terror tradução histórica do sonho de Jesus
rn nce1to? ade porque basea Cristo. É uma moralidade do terror,
(' morali~ ~ncias. . é um grito conseqüência de mentes sexualmente
das consci~ Ranke-Hemem_ann ristãs para problemáticas. A doutrina tradicional
O livro -~ das consciênciase c Jesus nos concernente à sexualidade faz uma se-
de paração brutal entre sexualidade e amor.
q libertaça à liberdade qu difamação Os celibatários que formularam as dou-
ue voltem libertem da . se-
. tou e se . useram a trinas, especialmente Santo Agostinho e
conqms celibatários II?-P. imidade dos
que os do terror . a mt produzem Santo Afonso de Ligório, não mostram a
xualidade e às relações que menor idéia da dignidade da mulher e da
esposos e espiritualidade que se realiza entre es-
posos que se amam.
prazer. Leonardo Boff
A Tgrcja cios n•Jiba1árlos diz um não a
nru11 ru n1<;11t l' 111<10 o <ttr<• se• r•efc'I'<' ü t'sl'rrn
Uta Ranke-Heinemann

EUNUCOS
PELO REINO DE DEUS

MULHERES, SEXUALIDADE
E A IGREJA CATÓLICA

Tradução de
Paulo Fróes

~~
~:~
~EoltORA
RosAoos
TEMPOS
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO O Jesus do Tribunal Distrital 15

I As raízes pagãs do pessimismo sexual cristão 21

II O antigo tabu contra o sangue menstrual e suas


conseqüências cristãs 32

III O Novo Testamento, e como foi


incompreendido: a concepção virginal, o celibato
e o novo casamento das pessoas divorciadas 39

IV Os Padres da Igreja até Agostinho 58

V O planejamento familiar na antiguidade: o


infanticídio, o aborto, a contracepção 76

VI Agostinho 88

VII A evolução do celibato 111

VIII O medo das mulheres entre os celibatários 132


I
IX A supressão das mulheres pelos celibatários 138
8
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
9

X Para transfonnar leigos em monges 149


XXI Lutero e sua influência sobre a moralidade
XI Os penitenciais e as tábuas de penitência 160 sexual católica 273

XIl A Escolástica primitiva, Parte I: o casamento dos XXII Os jansenistas e a moralidade jesuítica 279
lascivos e o casamento josefita 166
XXIII A contracepção de 1500 a 1750 285
xnr' A Escolástica primitiva, Parte Il: a oposição de
Abelardo - uma história de aflições 181 XXIV João Paulo II e o sexo pelo prazer 293

XIV Coitus reservatus: a receita para o sexo sem XXV Os séculos XIX e XX:Aera do "controle da
pecado 184 natalidade" 303

XXVI O aborto 316


XV O século XIII: a idade áurea da teologia - e o
apogeu da difamação misógina 191 XVII O onanismo 329
XVI Tomás de Aquino: Lumen Ecclesiae ("A Luz da XVIII A homossexualidade 339
Igreja") 197
XIX A teologia moral no século XX 343
XVIl A exaltada campanha contra a anticoncepção
("O sexo antinatural") e suas conseqüências XX Notas sobre mariologia 360
legais na Igreja - da Idade Média à
atualidade 215 11/hllografia 369

XVIII O incesto 230 /,1,II, ·,, onomástico 370


XIX Os conjuros para a impotência, os amores /11,/1, ·,· n•missivo 380
satânicos, as feiticeiras e as crianças de mau
gênio trocadas ao nascer 241

XX O Concílio de Trento e o Papa Sisto o


Momentoso 258
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Ranke-Heinemann, Uta, 1927-


Rl58e Eunucos pelo reino de Deus: mulheres,
sexualidade e a Igreja Católica/ Uta
Ranke-Heinemann ; tradução Paulo Fróes. - Rio de
Janeiro: Rccord: Rosa dos Tempos, 1996.

Inclui bibliografia

1. Sexo e religião - Igreja Católica - História.


2. Sexo - Aspectos religiosos - Igreja Católica -
História 3. Mulheres-Comportamento sexual-
Aspectos religiosos - Igreja Católica - História. I.
Título. II. Título: Mulheres, sexualidade e a Igreja
Católica

CDD - 241.66
96-0183 CDU - 241.7

Para meu marido


Título original alemão
EUNUCHEN FÜR DAS HIMMELREICH

Uta Ranke-Heinemann, EUNUCHEN FÜR DAS HIMMELREICH


Copyright© 1988, Hoffmann und Campe Verlag, Hamburg

-•'<~~7"~
..Ai,,._

,.,,.º_
]E,,lt_

&DITORA AP'ILIADA

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa para o Brasil


adquiridos pela
Editora Rosa dos Tempos
Um selo da
DISTRIBUIDORA RECORO DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171-20921-380 Rio de Janeiro, RJ -Tel.: (021)585-2000
que se reserva a propriedade literária desta tradução
Impresso no Brasil

ISBN 85-01-04343-5

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL


Caixa Postal 23.052- Rio de Janeiro, RJ - 20922-970
"Porque há eunucos que o são desde o ventre de
suas mães; e há eunucos tornados tais pelas mãos
dos homens, e há eunucos que a si mesmos se
fizeram eunucos por amor do reino dos céus. "

MATEUS 19,12
Introdução

Ü }ESUS DO TRIBUNAL DISTRITAL

Na sessão ocorrida a 14 de julho de 1981, o Tribunal Distrital de


Hamburgo, Seção 144, condenou Henning V., editor-chefe de uma
r vista satírica, por insultar as crenças religiosas e por afrontar as
instituições eclesiásticas. O réu teve de pagar uma multa de uns
.200 marcos alemães (cerca de 1.700 dólares). Para justificar a
ntença, o tribunal argumentou: "A fé cristã, que se baseia na
p ssoa de Jesus Cristo como o núcleo essencial daquilo em que a
Igreja Cristã acredita, consiste na revelação do próprio Deus à
humanidade na pessoa de Jesus Cristo. Ele é caracterizado como o
R dentor, cuja vida foi livre de qualquer pecado e de qualquer
prazer sensual." Embora nem tudo a respeito da formulação da
ntença possa ser esclarecido, do prisméj. teológico e gramatical,
m smo assim o tribunal sem dúvida determinou "em nome do
povo" que Jesus foi uma pessoa absolutamente "livre da luxúria",
u seja, o Redentor sem alegria.
Presumivelmente o tribunal não quis dizer exatamente o que
lsse. Livre de qualquer pecado, sim; mas livre de qualquer espécie
prazer sensual, isso não pode ser. Senão Jesus seria transformado
num pobre coitado, numa pessoa verdadeiramente infeliz, e com
ss tipo de declaração o próprio tribunal poderia ofender o senti-
m nto religioso das pessoas. O tribunal nega a Jesus todo e qualquer
16 Eunucos pelo Reino de Deus 17
Uta Ranke-Heinemann

tipo de prazer, embora provavelmente só tenha um desses em Voltemos ao começo, ao Jesus sem alegria. A hostilidade _de
mente; e decerto não seria o de natureza intelectual, também Jesus ao prazer teve implicações, em primeiro lugar, para ª. v~da
conhecido como alegria, mas o prazer físico-carnal. Este se dá em conjugal de sua mãe: antes de nascer, ele estabeleceu as cond1~oes
vários níveis: do ouv.i r música ao desfrutar da comida e da bebida para permitir que Maria se tomasse sua mãe. Segundo os ensma-
(Jesus era chamado de "comilão e beberrão" por seus inimigos (Mt mentos da Igreja, Jesus não teria sentido prazer algum durante todo
11,19; Lc 7,34) e daí até o último e mais baixo, o prazer sexual. O o processo de redenção e, sobretudo, não teria se_ to_mado ~m
tribunal pensa com certeza na pior forma de prazer, qual seja, o homem, ou então teria procurado outra mãe, caso Mana tivesse tido
sexual. Assim, parece que o julgamento foi: Jesus nada tinha dessa o prazer de ter mais filhos além dele. Isso foi explicado pe~o Pa~a
espécie. Ao mesmo tempo, o tribunal vincula o prazer sexual de Sirício, no século IV, que afirmou que nesse caso Jesus nao tena
forma tão íntima ao conceito de "pecado" que uma outra questão aceitado Maria como mãe: "Jesus não teria escolhido nascer de uma
legal deveria ser esclarecida: o prazer sexual não é uma coisa boa. virgem, se tivesse sido obrigado a considerá-la tão int~mperante a
Já aqui parece seguir um antigo ponto de vista católico: não pode ponto de deixar que o útero, onde.o corpo do Senhor foi mode}ado,
haver prazer sexual sem pecado. A infelicidade sexual com um aquele átrio do rei eterno, foss~ mac~lado pel~ presença do semen
enfoque tão negativo ante o prazer, contudo, deve ipso facto signi- masculino. Quem quer que afirme isso estara defendendo a des-
ficar hostilidade ao prazer; e na realidade Jesus era aquela espécie crença do judeus" (carta, do ano de 392, ao Bispo Anísio ). Ter filhos
de Redentor sexualmente "apático" que odiava a luxúria- como é portanto uma falta de continência, ?1? mergulho no pr~er. ~on-
os teólogos celibatários sempre o viram. ceber uma criança, exceto pelo Espmto Santo, é uma v10laçao _e
Essa hostilidade ao prazer teve conseqüências, e não só para o uma imundície. E essa não era só a opinião pessoal de um determi-
réu em Hamburgo, que escapou com uma multa. Teve um vasto nado papa, conforme é provado pelo teólogo dogmáti~o cat?~i~o
número de conseqüências para muitas pessoas na História, e em Michael Schmaus, que afirma que com suas declaraçoes Smc10
grande parte tais conseqüências foram bem mais graves; por vezes stava prestando testemunho da "doutrina unânime da Igreja"
se estendiam por toda a vida, por outras eram até letais. No Código (Katholische Dogmatik, vol. 5, p. 109). ..A •

Penal de 1532 do Imperador Carlos V, o artigo 133 impunha a pena A hostilidade de Jesus ao prazer também teve consequencias
de morte para o uso de contraceptivos - que implicava a busca do para a imagem que os teólogos faziam das demais mulher~s. A
prazer sensual condenado pela Igreja. E mesmo no século atual, por imagem que oferecem é de inferioridade. Só servem para ter filhos,
exemplo, no período nazista, a piedosa hostilidade ao prazer de- a menos que se dediquem à auto-santificação, como fazem as
sempenhou importante papel na decisão do destino de seres huma- virgens. Mas não se pode fazer filho sem fazer sexo e serri a mulher
nos. Considere a questão, entre outras, da forma de manipular os r "maculada pela presença do sêmen masculino". Assim, a
pacien~es com doenças hereditárias e da maneira de "proteger a hostilidade de Jesus ao prazer significou que o desfrute do prazer
comumdade nacional, em justificável autodefesa, desses vermes" xual seria excluído do casamento cristão, tanto quanto possível,
(Cardeal Faulhaber). Numa conversa com Hitler, o cardeal se opôs muitas vezes sujeito a ameaças de condenação eterna.
aos p~anos do Führer de esterilizar os "vermes". Foi a antiga A mesma censura do prazer interferiu na vida sacerdotal, que
host1hdade ao prazer, com suposta origem em Jesus, que levou o t ve de se distanciar das misérias morais da existência diária. É
cardeal a opor-se aos planos de esterilização de Hitler e apresentou lógico que a hostilidade ao casamento conduz à vid~ celi_batária do
suas razões para que, em vez disso, esses indivíduos nocivos fossem cerdócio. E assim não admira que o grande manolog1sta e des-
transferidos a um campo de internamento, ou seja, um campo de prezador do casamento, o Papa Sirício, se colocasse à frente da
concentração. Mas falaremos mais sobre isso depois. btltalha contra o casamento.dos padres. Teve uma influência deci-
18 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 19

siva sobre o desenvolvimento do celibato, quando, em sua carta ao Sirício foi uin dos muitos marcos de uma longa história que
bispo espanhol Himério de Tarragona (385), rotulou de crime O fato transformou o cristianismo de lugar da experiência individual do
de sacerdotes continuarem a manter relações com as esposas depois amor a Deus aberto a todos como deveria ter sido - um amor em
da ordenação. Chamava a tais relações de obscoena cupiditas. (No que o corpo tem seu lugar natural e divinamente ordenado - no
começo da evolução do celibato, a maioria dos padres ainda era reino de uma casta de solteiros que legisla sobre uma massa de
casa~a, embora mesmo antes de 1139 não lhes fosse permitido casar pessoas, na maioria casadas e tratadas como seres inferiores. Essa
depois da ordenação. A partir daquele ano, contudo, não mais lhes foi a perversão da obra daquele homem de quem os cristãos derivam
era possível o casamento válido: a ordenação o tornava inválido.) seu nome. Face a face com um Senhor da Igreja que não mais revela
Outra carta deste neurótico sexual, do ano de 390 é destinada li proximidade de Deus aos homens e às mulheres e tampouco sua
a_foviniano, que julgava que a vida conjugal era tão boa quanto a •ompaixão por eles - porque foi transformado no Cristo dos
virgmal. Por volta de 388, Joviniano desenvolveu umas idéias quase inspetores de alcovas e da polícia conjugal, que se mostra indife-
luteranas sobre o casamento e a virgindade. Foi a Roma durante 0 nte e odeia os prazeres da carne - , a pessoa humana não mais
po~~ifica?~ de Sirício e P:r~uadiu numerosas virgens "consagra- ·onsegue reconhecer a si mesma como alguém a quem Deus ama,
das e vanos homens asceticos a casar. Colocava-lhes a seguinte mas só como um ser impuro e merecedor da condenação.
questão: "Será que vocês são melhores do que Sara, Susana, Ana
e t~tos h~~ens e mulheres santos da Bíblia?" Sobre a Virgem
Maria, Jovmiano era da opinião de que Maria de fato concebera
Jes~s ~orno virgem, mas não o gerou como tal, já que ao dar à luz
a vtr~mdade de seu corpo chegou ao fim. Assim, contestava a
doutnna da conhecida "virgindade no parto", ou seja, negava que
o hímen de Maria tivesse sido preservado durante o parto. Mas
des~e logo essa conclusão biológica inevitável foi um ultraje aos
ouv1~os dos ~e~~tos, como hoje ainda o é. Alguns leigos ascéticos
respeitados dmg1ra~-se ª? ,P~pa Sirício e exigiram a condenação
do h_erege. E por isso Smc10 excomungou-o e a oito de seus
segmdores (391).
Portanto, no caso de Sirício já encontramos reunidas muitas
cara~teríst~c_as tipicamente católicas: a hostilidade ao prazer, que
l~va a host1hd~de ao casamento, que leva ao celibato, e, em harmo-
n~a ~º1? tudo 1~so, a doutri?a da concepção virginal e a virgindade
b1olog1ca perpetua de Mana. O Papa Sirício só deixou sete cartas
sendo que quase todas sem exceção revelam seu pessimismo se~
xual. Esse ódio ridículo do casamento e do corpo, conforme mani-
festado pelo Papa Sirício e muitos outros, tornou-se tão dominante
na I~eja Católica que é considerado como o resumo da doutrina
c~tóhca, e poderia inclusive encontrar eco no julgamento de um
tnbunal alemão.
I

As RAízEs PAGÃS no PESSIMISMO


SEXUAL CRISTÃO

Não é verdade que o cristianlsmo trouxe o autocontrole e o


ascetismo ao mundo pagão que se deliciava com os prazeres e com
corpo. Pelo contrário, a hostilidade ao prazer e ao corpo é um
legado da antiguidade que foi singularmente preservado até hoje no
cristianismo. Os cristãos não ensinaram aos pagãos licenciosos,
dissolutos, a odiarem o prazer e a se controlarem; foram os pagãos
1ue tiveram de reconhecer que os cristãos eram tão adiantados
1uanto eles próprios. Galena (século II), médico pessoal do Impe-
rndor Marco Aurélio, grego e pagão, julgava louvável que os
·ristãos, apesar de sua deficiente filosofia, traduzissem em realida-
d virtudes autênticas que ele tinha em alta conta, como a continên-
•ia sexual durante toda a vida. Escreve: "As pessoas, na maioria,
n o conseguem acompanhar um argumento coerente. Isso porque
recisam de parábolas, de que fazem bom uso. De modo semelhan-
1 , hoje vemos pessoas chamadas cristãs que extraem sua fé de
pnrábolas e milagres. E contudo às vezes se comportam exatamente
orno aquelas que vivem segundo determinada filosofia. Pois seu
li sprezo pela morte e suas conseqüências se toma evidente para
1 l"ls todos os dias, assim como sua continência sexual. Pois entre
lns se contam não só homens como mulheres que vivem a vida
lnt ira na continência sexual. Entre elas há pessoas que atingiram
11 m tal estágio de autodisciplina e de autocontrole que não é inferior
11 dos filósofos genuínos" (Richard Walzer, Galen on Jews and
e'hristians, Londres, 1949, pp. 19-20).
O pessimismo sexual na antiguidade deriva, não como ocorre-
1111 depois no cristianismo, da maldição do pecado e da punição a
1 1 mas sobretudo de considerações médicas. Pitágoras (século VI
23
22 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus

a.C.) diz que d~vemos satisfazer o sexo no inverno, mas não no coisa só. O moralista e historiador grego Plutarco (m. ca. 120), um
verão, fazer uso moderado dele na primavera e no outono, embora dos mais proeminentes e populares autores ?ª literatura mund~al,
fosse prejudicial à saúde em todas as estações. Ao ser perguntado logia Lélio, que durante toda sua longa vida manteve relaçoes
qual a melhor ocasião para o amor, respondia: "quando você quer apenas com uma única mulher, sua esposa (Vidas paralelas, -
se enfraquecer" (Diógenes Laércio, Vida dos filósofos, VIII). Os Catão o Moço, 7). .
antigos, a propósito, acreditavam que as mulheres não eram preju- Essa visão cada vez mais implacável e redutora do sexo foi
dicadas pelo coito, já que, ao contrário dos homens, não sofriam a onformada pelo estoicismo, a maior escola da filosofia antiga, que
perda de energia mediante a perda do sêmen. O ato sexual é perdurou de 300 a.C. a 250 d.C. Até hoje a palavra "estóico" denota
apresentado como ato perigoso, difícil de controlar, prejudicial à •omportamento austero, impassível. Embora os filósofos gregos de
saúde e extenuante. Xenofonte, Platão, Aristóteles e o médico um modo geral concordassem com a importância considerável da
Hipócrates (século IV a.C.), todos o viam dessa forma. Platão (m. busca do prazer para o ideal humano de vida, os estóicos, sobretudo
348/47 a.C.) fala no Leis sobre o conquistador olímpico Issos de durante os dois primeiros séculos da Era Cristã, mudaram tudo isso.
Tarento: Ele era ambicioso e "possuía em sua alma a técnica e o 1 ejeitaram a procura do prazer. O efeito positivo dessa rejeição foi
poder da continência". Depois que começou a se dedicar ao treina- concentração da atividade sexual no casamento. Mas à proporção
mento, "diz-se que nunca mais tocou numa mulher ou num meni- que o prazer carnal se t~mou suspeito, o casamento também passou
no". Hipócrates descreve o destino do jovem que morria louco nser questionado e o celibato foi mais valorizado. O ~asamento era
d~pois de uma enfermidade de 24 dias que começava por um t ntado como uma concessão aos que não consegmam se conter,
simples mal-estar do estômago. Antes teria se excedido nos praze- uma permissão para a satisfação da luxúria ou do prazer para
res sexuais (Epidêmia III, 18). Hipócrates julgava que o homem n 1ueles que os consideravam indispensáveis. A pr~fe~ência p~lo
proporcionava ao corpo a máxima energia retendo o sêmen, porque • libato e a abstinência em detrimento do casamento Já tmham sido
a perda excessiva de sêmen levava à tabes dorsalis e à morte. A hoçadas pelo estoicismo e atingiu a plenitude no ideal cristão da
atividade se~ual era um perigoso sorvedouro da energia da pessoa. v rgindade. A suspeita estóica do prazer levou assim, por um lado,
Sor~no de Efeso (século II d.C.), médico pessoal do Imperador onsideração do casamento como superior a todo o espectro de
Adnano, considerava a virgindade contínua saudável. A única tlvidades sexuais, mas, por outro, também conduziu a uma discri-
justificativa para a atividade sexual era procriar, gerar a posterida- minação contra o casamento em favor da renúncia absoluta àpaixão
de. Sorano descreve os efeitos prejudiciais quando se vai além dos no prazer físico.
limites da procriação. O estóico Sêneca, que no ano 50 foi nomeado tutor de Nero,
Em sua _História da sexualidade, Michel Foucault (m. 1984) nt com 11 anos de idade, e por ele obrigado a cometer suicídio
procura ouvtr essas vozes da antiguidade. Segundo Foucault nos n 1100 65 (por suposta conspiração contra o imperador), argumenta
primeiros ?ois séculos da Era Cristã, a atividade sexual foi jul~ada lo H guinte modo, num ensaio "Sobre o casamento": "Todo o
com sevendade crescente. Os médicos recomendavam a abstinên- 11 mr pela esposa de alguma outra pessoa é vergonhoso. Mas
cia, aconselhavam a virgindade e não a busca do prazer. Os filósofos 111111h m é vergonhoso amar a própria esposa desmesuradamente.
11 nmar a esposa, o homem sábio toma a razão como guia, não a
estóicos condenavam todo o sexo extraconjugal e exigiam a fideli-
dade de ambos os cônjuges. A pederastia era vista menos favora- 1110 • o. Resiste ao assalto das paixões, e não se permite ser levado
velmente do que antes. Durante esses dois séculos, o elo 111111 tuosamente ao ato conjugal. Não há gesto mais depravado do
~atrimonial foi refortalecido; as relações sexuais só eram permi- 1111 de amar a própria esposa como se ela fosse uma adúltera.
tidas no casamento. A sexualidade e o casamento tomaram-se uma 111 1 s homens, entretanto, que dizem copular com uma mulher
25
24 Uta Ranke-Hememann Eunucos pelo Reino de Deus

ntre estóicos e cristãos foi uma certa desencarnação do casamento,


só para gerarem filhos, em prol do Estado ou da raça humana,
na medida em que a esfera sexual dele se desvinculava, ora vista
devem pelo menos tomar como exemplo os animais, e quando o
ob o aspecto do prazer, ora sob o da procriação. O ato conjugal
ventre da esposa inchar, não devem destruir sua posteridade. Não
p rmanece na esfera do prazer carnal; fracassa a tentativa de
devem se mostrar como meros pretendentes, mas como maridos"
Integrá-lo, continuando a ser estigmatizado pela desconfiança pe-
(o que significa: não manter relações sexuais com a mulher grávi-
nte toda a busca pelo prazer. A noção de que o sexo tem de ter
da). Essa passagem tanto agradou a Jerônimo, um dos Padres da
1lnalidade procriadora, caso contrário será visto sob o estigma
Igreja que odiavam o sexo, que a citou contra Joviniano, o amante
n gativo do prazer, e não à luz do amor, deixou marca duradoura
do prazer (Contra Joviniano I, 49). João Paulo II ainda fala sobre
o adultério com a própria esposa. "Não faças nada pelo simples no cristianismo.
Em Sêneca encontramos uma idéia que, mais tarde, incitou
prazer" ; é o princípio fundamental de Sêneca (Carta 88, 29). Seu
1 Hastrosamente a moralidade cristã a concentrar-se no sexo. O
contemporâneo mais jovem, Musônio, que foi professor de filosofia
11111 rescreve a sua mãe Hélvia: "Se refletires que o prazer sexual
estóica de muitos legisladores romanos, declarava que qualquer ato
11 o foi dado ao homem para o gozo ou a fruição, mas para a
sexual que não servisse à procriação era imoral. Segundo ele, só o
1 opagação da espécie, então se a luxúria não te tocou com seu
sexo conjugal, e só quando visava à procriação, estava de acordo
1pro envenenado, aquele outro desejo também passará por ti sem
com a boa ordem. Qualquer um que tentasse praticá-lo pelo simples
1 tocar. A razão derruba não somente um ou outro vício, mas todos
prazer, mesmo dentro dos limites do casamento, era passível de
1 uma só vez. A vitória ocorre uma só vez e em todos os aspectos."
re~reensão. Os estóicos do século I foram assim os pais das encí-
1 o significa que a moralidade é essencialmente moralidade se-
chcas sobre o controle de natalidade do século XX. Musônio rejeita
111I. Ser vigilante perante ela é ser vigilante, ponto.
de forma explícita a contracepção; pelo mesmo motivo, se rebela
O ideal da virgindade não começou com o cristianismo. O
contra o homossexualismo: o ato sexual tem de ser um ato de
1 umuturgo Apolônio de Tiana (século I d.C.), informa seu biógrafo
procriação.
Os estóicos, contudo, valorizaram o casamento acima e além
1 1 trato, fez um voto de castidade que manteve pela vida inteira.
1 naturalista Plínio o Velho, que morreu na erupção do Vesúvio
de ~ua função procriadora, como uma união de mútua ajuda (Mu-
79 d.C., elogia o elefante como exemplar, porque ~ó se acasala
~ô~10, Reliquiae XI!I)- Aristóteles afirmava não haver laço mais
tinis em dois anos (História natural, 8, 5). Plínio se refere aqui
1~t~o do que o _existente entre pais e filhos, enquanto Musônio
·, mceito ideal de pureza que prevalecia em sua época. O elefante
(zbzd., XIV) considerava o amor entre marido e mulher como o elo
to de Plínio estava destinado a ter um grande futuro e uma longa
mais forte da vida. Embora Aristóteles insistisse na subordinação
111 imcntre os teólogos cristãos e naliteraturadevocionistacristã.
da mulher ao homem e a descrevesse como de virtude inferior à do
111 o encontramos em Ricardo de São Vítor (m. ca. 1173), Alain
homem, para Musônio homens e mulheres eram igualmente virtuo-
1 1, li (m. 1202) e numa suma anônima do século XIII (Codex
sos. Musônio defende a educação e os direitos iguais para homens
I 1tlt111.,· Monacensis 22233), e também no dominicano Guilherme
e !11ulheres, uma idéia dificilmente aceita pela Igreja Católica, que
111ldn (m. antes 1270). No caso de Francisco de Sales, bispo de
ve o lugar da mulher na cozinha. O cristianismo também fala do
111 htn (m. 1622), o elefante aparece na introdução à Vida devota
casamento como uma união de "mútua ajuda" , mas no fundo só as
l11 111111 d 1609 (cf. Michael Müller, Die Lehre des hl. Augustinus
mulheres são consideradas como ajudantes do homem: Eva foi feita
11111 d1•r l aradiesesehe, pp. 74 e 207; John T. Noonan, Contracep-
para ~judar Ad_ão, e não vice-versa. E da época de Tomás de Aquino
1, ,,, , 1«>862, p. 248). E como sempre, ele é o modelo para os casados.
em ~1ante, Aristóteles foi elevado à condição de quase-padre na
1I' 111 ·isco de Sales escreve: "Não passa de um animal desajei-
IgreJa em questões relacionadas à mulher. Um elemento comum
26 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 27

tado, mas é o mais digno sobre a face da terra e um dos mais inteiram~nte em Deus." O jornal espera que "esta grande serva de
inteligentes ... Nunca muda de parceira e ama com ternura a que ( eus seja logo beatificada". . .
escolheu, com quem, entretanto, só se acasala de três em três anos, A visão negativa do prazer sexual que prevaleceu no_est01cis_mo
e isso só por cinco dias e de uma forma tão oculta que jamais é visto que foi característica dos dois primeiros sécu~os_ depois de Cnsto
no ato. Mas reaparece no sexto dia, no qual imediatamente vai viu-se ainda fortalecida pela invasão do pessim1smo, que pouco
direto para o rio, onde lava o corpo inteiro, não retomando à manada untes do nascimento de Jesus surgiu no Oriente, provavelmente na
antes de lavar-se. Não temos aí uma natureza boa e honesta?" (3, 1 rsia, abriu caminho para o Ocidente e veio a se_ revelar no
39). De acordo com a fúria cristã pela continência, Francisco deu • ,mpetidor mais perigoso do cristianismo. Esse ~ovi~en~o.' que
ao elefante de Plínio um ano a mais de castidade. Eis o que se lê no intitula gnosis (ciência), acreditava ter reconhecido a mutihdade
texto de Plínio: "Sem recato os elefantes jamais se acasalam, exceto u inferioridade de tudo o que existe. Pregava a abstinência do
em segredo ... Só o fazem de dois em dois anos e mesmo assim nsamento, da carne e do vinho. Já no Novo Testamento encontra-
dizem, nunca por mais do que cinco dias. No sexto dia se banha~ i 1 ,s passagens contra o gnosticismo e seu desprezo pela e,xis_tên,cia.
no rio. Até então não retomam à manada. Eles desconhecem o 1 rimeira Epístola a Timóteo termina com a sentença: "O Timoteo
adultério"(História natural 8, 5). (,.. ) Evita as conversas frívolas de coisas vãs e as contradições da
Num livro que ainda é popular entre católicos devotos em rnhm ciência (gnosis)." O corpo é para os gnósticos o "cadáver com
países de língua alemã, Histórias sobre a vida de Jesus por Anna ntidos, o túmulo que carregamos conosco". O mundo não vem
Catharina Emmerich, segundo Klemens von Bretano, tomamos a ln mãos de um Deus bom, mas de demônios. Só a alma humana,
encontrar o elefante. De fato hoje se tomou parte integrante da 1111 s ~a, seu verdadeiro eu, seu verdadeiro ego, surge, como uma
mensagem de Jesus, aparecendo em numerosas passagens das nt lha de luz de outro mundo, um mundo de luz. E capturada
visões proféticas, por exemplo: "Jesus também falou da grande 1 los poderes demoníacos e banida para este mundo de trevas. A
depravação da procriação na humanidade, e disse que as pessoas 11hn11 do homem assim se encontra numa terra estranha, num
devem se abster depois da concepção, citando a castidade e a mhicnte hostil, acorrentada à prisão escura do corpo. Seduzida
continência do elefante como prova de quanto os seres humanos 1 l 1 clamor e pelas alegrias do mundo, corre o risco ~e. não
ficam atrás dos mais nobres animais nessa questão" (ditado a 5 de n ontrar seu caminho de volta ao deus da luz de onde se ongmou.
novembro de 1820). O jovem casal nas bodas de Caná fica assim 1 os demônios tentam intoxicá-la, porque, sem as centelhas de
profundamente impressionado. "Ao fim da refeição, o noivo uma .,, , 0 mundo, essa criação dos demônios, toma a cair no caos, ras
vez mais veio até Jesus e falou-lhe humildemente, explicando como VIIS,
se sentia mortificado por todo o desejo carnal, e que ficaria feliz em O gnosticismo é um protesto veemente contra a idéia de que a
viver com a noiva ein continência, se ela anuísse. E a noiva também ln boa. É governado por um pessinpsmo profundo, que se
veio por conta própria até Jesus e disse o mesmo; e Jesus chamou ntrupõe à cosmovisão da antiguidade. E verdade que os gregos
aos dois e falou-lhes sobre o casamento e a pureza, que é de tanto lnluun familiaridade com a depreciação da matéria - falar do
agrado a Deus" (ditado a 2 de janeiro de 1822). O periódico católico 11 po como prisão da alma é remontar a Platão (Górgias 493 A)
Offertenzeitung escreveu em setembro de 1978 sobre Emmerich, a , mus o cosmo (= beleza e ordem, cf. "cosméticos") era uma
freira visionária estigmatizada, que morreu em 1824: "Dificilmen- trn tura unificada, graduada oe baixo para cima sem rompimento
te enc~ntraríamos maior antítipo aos prazeres deste mundo a que 1111 matéria e espírito. A demonização de toda a corporeidade e
se dedicam nossos contemporâneos ímpios do que no amor, no 1 ti nlu u matéria era desconhecida antes da invasão do gnosticismo.
sofrimento e na penitência dessa seguidora de Cristo que viveu 11 11 vasão da negatividade foi tão poderosa que se mostrou capaz
28 Uta Ranke-Heinemarm Eunucos pelo Reino de Deus 29

de transformar os sentimentos da antiguidade para com a vida. A ver~ã~·original que na primeira noite o casal dormiu junto, Jerôni-
imagem jovial da antiguidade esboçada pelo classicismo alemão mo faz Tobias esperar três noites antes de consumar sua união com
foi invalidada pelas pesquisas no gnosticismo. A filosofia neopla- ara. E quando Tobias dela se aproxima, depois de três noites de
tônica (de extrema importância para Agostinho), que se desenvol- oração, pronuncia palavras que não procedem do judaísmo, ~as de
veu na primeira metade do século III e que caracterizou o fim da Jerônimo: "Ora, vós sabeis, ó Senhor, que não é para satisfazer
antiguidade, foi influenciada pela compreensão gnóstica da vida e minha paixão que recebo minha prima como esposa, mas unica-
do estado de espírito geral. Sem dúvida, Plotino (m. 270), o princi- mente com o desejo de suscitar uma posteridade" (Tb 8, 9). Essa
pal representante do pensamento neoplatônico, escreveu contra os ufirmação forjada foi citada por todos os teólogos rigoristas até hoje
gnósticos, mas foi contaminado em grande parte pelo pessimismo , mo um argumento para a finalidade exclusivamente procriadora
gnóstico e pela fuga do mundo. "Ele parecia ter vergonha de possuir do casamento. Tobias originalmente disse, citando do Gn. 2, 18:
um corpo", escreve seu biógrafo Porfírio (m. ca. 305; A vida de " Não é bom que o homem esteja só"; mas Jerônimo simplesmente
Platino,§ l). O neoplatonismo exigia de seus seguidores uma vida mite essa sentença para não confundir a questão. Nas traduções
abstinente, uma verdadeira ascese. E teve um destino semelhante , tólicas mais recentes da Bíblia, as interpolações e as omissões de
ao do cristianismo: por mais que tenha lutado contra o gnosticismo J rônimo foram eliminadas. E há muito se foi o tempo em que o
desde o princípio, viu-se contaminado pela hostilidade gnóstica ao 1lspo de Amiens e os pastores de Abbeville_podiam c~brar uma taxa
corpo. dos noivos pela dispensa, quando não estivessem dispostos a ob-
O judaísmo em particular foi avesso ao ascetismo até a invasão rvar as três "noites de Tobias" e planejassem manter relações na
gnóstica, conforme se manifesta, por exemplo, na seita de Qumrãn. primeira noite. Voltaire ,(m. 1778), a ~ropósito, viu u~a con~xão
Não se considerava o mundo e a matéria como maléficos. Os judeus nlre as taxas pagas ao bispo de Amiens e a suposta 1us pnmae
não consideravam a superação do mundo e a negação da vida como noctis (direito da primeira noite), o privilégio do senhor feudal de
ato de piedade. E a adesão do judaísmo ao Deus bom e uno como r o primeiro a coabitar com seus súditos do sexo feminino na noi~e
o criador de todas as coisas que existem enfraqueceu o pessimismo 1 núpcias. Com efeito, parece haver uma conexão entre a ~ontl-
e as influências gnósticas negadoras do mundo sobre a seita de 1 ncia do jovem marido por amor de Deus, conforme descrito no
Qumrãn. Não há pessimismo sexual no judaísmo do Antigo Testa- 1 o de Tobias (na versão de Jerônimo), e a continência do jovem
mento. No entanto, muitos católicos já encontram as raízes desse 1 11rido por respeito ao privilégio do senhor feudal segundo o jus
pessimismo no Antigo Testamento, especificamente no Livro de I rlmae noctis e, por fim, a remuheração do bispo P'.31"~ di~pen~ar os
Tobias, que foi composto por volta de 200 a.C. Na realidade, a uis daquele privilégio. A idéia é a mesma: o direito a n01te de
colocação deste fundamento bíblico do ascetismo sexual deve-se p ·ias pertence em primeira instância ou ao senhor feudal ou ao
atribuir ao Padre da Igreja Jerônimo (m. 419/20). Em sua tradução nhor Deus. Para os protestantes, seria possível acrescentar, todo
da Bíblia para o latim (a Vulgata), que até hoje é considerada l ivro de Tobias, com ou sem as "noites de Tobias", não pertence
autoridade em matéria de doutrina pela Igreja Católica, ele alterou 1 A1 tigo Testamento e sim aos supostos escritos apócrifos (não-
o texto, desviando-o para o ideal da castidade. Segundo o Kirchen- 11 nicos).
lexikon (Wetzer/Welte) católico (1899), Tobias sobreviveu a sua Jraças às descobertas em Qumrãn junto ao mar Morto, em
noite de núpcias "por causa da continência dos recém-casados". I' l7, l mos um melhor panorama da seita dos habitantes do deserto
Pois sua mulher Sara já tivera sete maridos que morreram sobre ela, h1 1 mpo de Jesus, que eram conhecidos d~s?e a antiguidade pelo
todos durante a noite de núpcias; e também já se tinha cavado uma 111111 1 de essênios. A influência do gnosticismo e do ascetismo
sepultura para Tobias. Mas ele não morreu. Embora se diga na 1111I , que era em si alheia ao judaísmo, é observada claramente
30 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 31

nessa seita. Sabe-se que de fato não era uma comunidade monásti- de ter filhos, então abraçam o casamento. Não praticam o coito
ca, já que casados dela participavam, mas o grande cemitério a leste durante a gestação, o que mostra que não casam por causa só do
de Qumrãn mostra que os membros habilitados, os que ditavam as prazer, mas para a bênção dos filhos" (A guerra judaica II,~• 2-1}) -
normas, eram monges. Mesmo a disposição dos túmulos dá teste- Enquanto a seita judaica de Qumrãn, de acordo com ~ 1~~uen-
munho da posição privilegiada dos solteiros e o status inferior das i judaica gnóstica, propunha uma forma extrema de reJe1çao do
mulheres e crianças. Os edifícios de Qumrãn foram totalmente sarnento, em Fílon da Alexandria, filósofo grego-judeu e co~tem-
destruídos pelos romanos em 68. porâneo de Jesus, encontramos uma síntese do pensament~ Judeu
A idéia judaica de uma criação boa por um Deus Criador bom grego. No começo da Era Cristã, este culto judeu constrmu uma
foi bastante prejudicada pela influência do gnosticismo. O mundo, p nte do judaísmo ao mundo gr~go, d~ fé judaica à fil_o~o~ia grega;
segundo Qumrãn, é sombrio sob o domínio de Satã. Encontramos , por forte influência dessa filosofia, tentou fam1har1zar seus
expressão gnóstica semelhante no Evangelho de João, já que toda •ontemporâneos não-judeus com a Bíblia dos hebreus. ~s~a mescla
a polêmica contra o gnosticismo teve influência significativa sobre 11 judaísmo com o pensamento grego (sobretudo o e~to1c1srno) n?s
o Novo Testamento. Mas, nem no Novo Testamento e tampouco na 11 impressão de que Fílon já era o primeiro padre cnstão da lgreJa,
seita de Qumrãn a idéia judaica do Deus único e bom foi abando- 1 1 menos no que tange suas noções sobre o casame~to. Mas Fílo~
nada. 1 nteve-se judeu na medida em que não apoiava o ideal da castl-
Sobre os essênios o historiador judeu Josefo (m. ca. 100 d.C.) 1 d que se desenvolveu no começo do cristianismo. .
escreve: "Judeus por nascimento ( ... ) afastam-se das alegrias da Quando José esteve no Egito, narra Fílon, disse o segumte a
vida como se se afasta~._,em de um grande mal e abraçam a conti- 1111 pretensa sedutora, a esposa de Putifar: "Nós, de~cendentes dos
nência como virtude. Olham de modo desfavorável para o casamen- h hmus, temos práticas e costumes bastante peculiares. Ao con-
to, mas aceitam os filhos dos outros, enquanto ainda estiverem com 11 Irmos o matrimônio, procuramos virgens puras; e firmamos por
idade para serem instruídos. Por causa da inconstância das mulheres 111 tu não o prazer, mas a geração de filhos legítimos" (Sobre José
são cautelosos com elas, convencidos de que nenhuma mulher é • , ] ). Em sua explicação da:Lei de Moisés sobre o adultério, Fílon
fiel ao marido( ... ). Nem gritos nem qualquer outro ruído perturbam 111111 de "homens lúbricos que em sua frenética paixão praticam toda
o silêncio sagrado da casa ( ... ). Mas para os de fora parece um mtc de coito lascivo, não com a esposa alheia, mas com a
mistério sombrio e horrível. Este silêncio é conseqüência de sua 111 pria" (Sobre as leis individuais 3, 2, 9). Fílon quer dizer que o
constante observância da sobriedade e do hábito de comer e beber 1110 no casamento só deve ocorrer com finalidade procriativa, não

só para a satisfação das necessidades( ... ). São enfaticamente con- I' 111 prazer sexual. Por esse motivo elogia a poligamia de Abraão,
vencidos de que o corpo morre e a matéria não dura, mas que as pm 111 em sua opinião não foi determinada pela b~sca do prazer,
almas são imortais e eternas, duram para sempre ( ... ). Sobre as 111 p lo desejo de Abraão de aumentar a postendade. De fato,
almas crêem que vêm do éter mais rarefeito ( ... ). Se forem libertados 111111 v6 nessa idéia da procriação a única finalidade e o único
dos grilhões da carne, se consideram libertos de urna longa prisão 11111p isito do casamento, e nela insiste bem mais do _q~e os gregos
e planam nas alturas em bendito júbilo ( ... ). Há, contudo, ainda llll ll 11 s que o precederam: se alguém souber da estenhdade de ~ma
outro grupo de essênios (... ). Acreditam que quem renuncia ao 1 111l hl r num casamento anterior e casar-se com ela apesar disso,
casamento desconsidera um elemento essencial da vida, qual seja, 1111 •ntão "lavrando solo pobre e pedregoso", agindo só por
a criação da prole: acham que se todos tivessem a mesma opinião , l de prazer sensual, e tal atitude deve ser condenada. Mas se

dos outros, a raça humana logo terminaria. Mas testam as futuras h l'i tidade da mulher só for descoberta depois do casamento,
esposas durante três anos, e se estas( ... ) demonstram capacidade 11 , 1 p rdoa-se o marido que não a despreza. Os últimos resíduos
32 Uta Ranke-Heinemann 33
Eunucos pelo Reino de Deus

dessa noção de que o casamento tem de ser uma parceria apenas como O médico Sorano de Éfeso (século II d.C.), sustenta que a
para fins de procriação só foram removidos do Código do Direito concepção não pode ocorrer durante a menstruação e proíbe o a~o
Canônico em 1977: agora o marido precisa só ser capaz de praticar exual com mulheres neste estado. O sangue mens~al fr~sc~, diz
o coito, e não de ter filhos, para contrair um casamento válido. le, mantém o útero úrnido e "a umidade não só deb1h~a ~ v1~a~1dad_e
Fílon critica ferozmente a contracepção: "Os que durante o do sêmen; como a anula por completo" (Sobre as leis mdivi!uais
coito causam a destruição do sêmen são sem dúvida inimigos da , 6, 32). Essa é a justificativa de Fílon para a condenaçao no
natureza" (ibid. 3, 36). E em virtude da esterilidade do ato sexual, L vítico 20, 18: "Se um homem dormir com uma mul~er d~r~nte
também condena vivamente os homossexuais: "Como o mau agri- períoqo menstrual e tiver relações com ela, ambos serao ehmma-
cultor, o homossexual deixa desaproveitada a terra fértil e moureja s do meio do povo por terem posto a descoberto a fonte do
dia e noite com o tipo de solo do qual nenhum fruto se pode nngue." .
esperar." Fílon, que pensava como um grego sobre muitas coisas, O Antigo Testamento em s1 não explica essa penalidade ~troz.
foi absolutamente judeu em sua aversão à homossexualidade: "De- Aprendemos, contudo, em Levítico 15, 19-24, 9ue Deus defme a
vemos agir impiedosamente com esses homens, segundo a prescri- mulher menstruada como impura durante sete dias; e quem a tocar
ção da Lei, que diz que o homem efeminado, que falsifica o selo da u o que ela tiver tocado ou qualquer coisa ~oc~da por algué_m que
natureza, deve ser morto sem hesitação, e não se deve permitir que 1 tocou também ficará impuro. Na antiguidade tanto Judeus
viva um dia, nem mesmo uma hora, já que envergonha a s1 próprio, u nto pagãos eram convencidos de que o sangue menstrual ~a
sua casa, sua terra natal e toda a raça humana( ... ) porque está em nlidade era venenoso. Mas enquanto para Fílon a menstrua?ªº
busca de um prazer antinatural e trabalha, por sua vez, em prol da judicava o sêmen e impedia a concepção, para o naturalista
desolação e do despovoamento das cidades ( ...) ao destruir sua 1mano Plínio o Velho (m. 79, d.C.) o sexo com uma mulher
semente" (ibid. 3, 37-42). nstruada era proibido porque os filhos concebidos durante a
t nstruação eram doentes ou tinham soro sangüíneo purulento ou
t o nasciam mortos (História natural 7, 15, 87)
Por volta do ano 200 os Padres da Igreja, Clemente de Alexan-
II (m. 215?) e Orígenes (m. 254), que se fizeram ouvir dois
ui s depois através de Jerônimo (m. 420), a~egavall1: ':lue as
1111\'as concebidas durante a menstruação nasciam defi,cientes.
o ANTIGO TABU CONTRA o nlorme escreveu Jerônimo: "Quando um homem mantem rela-
·om a esposa nesse período, os filhos nasci?os dessa união são
SANGUE MENSTRUAL E SUAS 1lllHOS e hidrocefálicos; e o sangue corrompido faz c~m que _os
1 rp, IH de ambos os sexos, dominados pela peste, ora seJ~m mmto
CONSEQÜÊNCIAS CRISTÃS 1 1m n , ora muito grandes" (Comentário sobre Ezequiel 18, 6).
"( uem mantiver relações com a esposa durante a menstrua-
11• 1<.lverte o arcebispo Cesário de Arles (m. 542), "terá filhos
1 ,;,, H rão leprosos, ou epilépticos ou possuídos pelo demônio"
t l , h I Hrowe, Beitrage zur Sexualethik des Mittelalters,_p. 48). Em
Um tabu particular da antiguidade que o cristianismo acompa- 11 111 ,hm nciclopédicaEtimologias, que foi largamente hdadurante
nhou proibia o coito com a mulher durante a menstruação. Fílon, 11h 1111 de anos, Isidoro de Sevilha (m. 636) afirma que "depois
34 Uta Ranke-Heinemann unucos pelo Reino de Deus 35

de tocar-se em [sangue menstrual] os frutos não brotam, as flores f i pouco a pouco abandonada. Por volta do século XVI, o adver-
~urcham, a relv~ seca ( ... ) o ferro enferruja, o bronze enegrece, os ário de Lutero, o Cardeal Caetano (m. 1534), falava do coito
c~es que o cherram contraem raiva" (ibid, p. 2). Como Fílon, durante a menstruação apenas como "pecado venial" (Summula
Isidoro achava que o dano causado ao sêmen durante a menstruação / ccatorum 1526, sob o título matrimonium). Tomás Sánchez (m.
tomava a concepção impossível. Segundo o Abade Reginort· de 1 1O), teólogo moralista que estabeleceu as regras sobre questões
Prüm de Birei~~- 9_15) e Burcardo de Worms (m. 1025), os padres , njugais para seu próprio século e os seguintes, diz que muitos
no confessionano tinham de perguntar sobre as relações sexuais t logos não viam mais o sexo durante a menstruação com? peca-
durante o período menstrual. noso, mas que a maioria o considerava um pecado vemal, por
Os principais teólogos do século XIII, homens como Alberto t v r algo de "impróprio" a ele vinculado, a demonstrar f~lt~ de
Magno, Tomás de Aquino e Duns Scoto, proibiam o coito com uocontrole. O próprio Tomás Sánchez concordava com a ~lt1ma
mulheres menstruadas como pecado mortal em decorrência do mal lrmação. Não mais acreditava que a prática lesasse o feto, Já que
causado aos filhos. Bertoldo de Regensburgo (m. 1272), o mais dificilmente era provado. Sob certas circunstâncias, a relação
famoso pregador daquele mesmo século, deixa claro aos fiéis: u l com uma mulher menstruada poderia inclusive estar livre de
"Não tereis qualquer alegria com filhos concebidos durante a do se houvesse suficiente razão para justificá-la, como o
menstruação. Porque ora serão afligidos pelo demônio, ora lepro- 10 de superar forte tentação carnal ou para atenuar as_ brigas
sos, ou então epilé~ti~os, ou corcundas, ou cegos, ou de pernas jugais (O santo sacramento do matrimônio, livro 9, artigo 21,
tortas ou surdos, ou idiotas, ou terão a cabeça em forma de macete 7), . .
(... ) e ._se vos afastardes da esposa por quatro semanas, ou mesmo tguns teólogos do jansenismo (renascimento do agost~ianis-
por dois anos, cuidai para que não a desejeis ... Sois, afinal, pessoas trito durante o século XVII) viam a situação de modo diverso.
decentes; vede que os fétidos judeus evitam esse período com lga Lourenço Neesen (m. 1679), por exemplo, considerava o
grande diligência" (F. Gõbel, Die Missionspredigten des Franzis- t om mulheres menstruadas como pecado mortal para o côn-
kaners Berthold von Regensburg, 1857, pp. 354-55). Bertoldo faz que o exigisse (Heinrich K.lomps, Ehemoral und Jansenismus,
menção dos judeus ("fétidos" judeus, como o faria o anti-semitis- , p. 190). Os jansenistas, na maioria, falavam porém de pecado
~o cristão), porque na Idade Média o fato de que muito poucos 1nesse caso. Afonso de Ligório (m. 1787), o mais importante
J~deus contr~am lepra era muitas vezes explicado pelo cuidado que o moralista do século XVID, e um dos que firmaram as regras
tmham em evitar o coito com mulheres menstruadas. Os campone- atolicismo no sécuio XIX e início do século XX, segue a
ses, por ou~o _lado, :ram particularmente propensos à lepra; e ánchez, de sorte que até o começo de nosso século a relação
Bertoldo atribm o fenomeno ao fato de manterem relações com as 1 •om mulheres menstruadas era em geral tida como pecado
esrosa~ durante a men~truação (Browe, p. 4). Mesmo Jan Hus, que 1(1 ominikus Lindner, Der Usus matrimonii, p. 218).
foi queimado na fogueira por ocasião do Concílio de Constança em 1d ia da santa comunhão para mulheres menstruadas foi
1415 -mas não por suas opiniões a esse respeito, das quais mais t tnpre proibida durante a Idade Média, embora de forma
ou meno~ todos os padres do concílio partilhavam - , acreditava v ra na Igreja Oriental do que na Ocidental. O Patriarca
que as cnança~ corcunda~, estrábicas, de um só olho, epilépticas, 1 o d Alexandria (m. 264/65), discípulo de Orígenes, dizia
coxas e possmdas pelo diabo eram a conseqüência de sexo com t 1111 1 propósito indagar se a mulher poderia receber a comu-
mulheres menstruadas (Browe, p. 5). ' 11 porque a mulher devota, pia, nem sequer pensaria em se

Nos séculos seguintes, graças aos progressos da medicina, a 1111 no altar ou tocar no Corpo e no Sangue de Cristo" (Ep.
noção de que os deficientes eram concebidos durante a menstruação , I' l t , 1281 A). O núncio apostólico, Cardeal Humberto,
37
36 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Remo de Deus

qu~ causou o grande cisma de 1054 entre a Igreja Oriental e a cesso ao altar" (Responsa ad interrogationes Marci [resp. 35]; cf.
Ocidental que oc?rre_u ~m <:o~stantinopla, criticava a Igreja Grega Ida Raming, Der Ausschluss der Frau vom priestlichen Amt, 1973,
por sua postura discrimmatoria. O famoso canonista do século XII p. 39).
O sangue em decorrência do parto (lóquios) era considerado
da l?reja Ortod~xa, o jurista Teodoro de Balsamon (m. após 1195),
inda mais prejudicial do que o sangue menstrual, o que determi-
patriarca de ,:\ntl~q_uia, defendia o costume, como o patriarca copta
de Alexandria, Cmlo IIl (m. 1243). Os maronitas não o aboliram n va a proibição do coito de forma semelhante à que se aplicava às
até 1596 (cf. Browe, pp. 9 e 10). ulheres menstruadas. As mulheres que acabavam de dar à luz
, .O Ocidente adotou uma posição mais moderada. O Papa Gre- lavam ainda outros problemas para a Igreja Cristã anti-sexual, por
gorio Magno (m. 604) não proibia as mulheres de irem à igreja ou mplo, quando tinham de ser enterradas. Primeiro, segundo o
de receberem a comunhão, mas elogiava as que se abstinham da (nodo de Trier, realizado em 1227, as novas mães tinham de se
Eucaristia nesse período. Para Gregório, a menstruação era o resul- " conciliar com a Igreja". Só então poderiam freqüentar as igre-
tado do p_e~ado: as mulheres não "estavam proibidas de ir à igreja. 1 , Esta cerimônia de "purificação" era um amálgama das leis
1 d icas da pureza ritual (inclusive Maria só teve permissão para
Nem proibida~ de receber a comunhão naqueles dias. Mas quando
uma mulher nao se atreve, por grande reverência, a ir até lá deve trar no Templo quarenta dias depois e teve de oferecer um
ser elogiada. O período menstrual não é pecaminoso, é um episódio ·rifício de purificação) com a condenação caracteristicamente
absolutamente natural. Mas a natureza é muito perversa, e o que 11tã do prazer sexual e a difamação das mulheres.
parece maculado, mesmo sem a vontade do homem, decorre do Às mulheres que morriam no parto antes de serem "reconci-
s" com a Igreja era-lhes muitas vezes negado o enterro em
pecado" (Respos~a ª°. bispo inglês Agostinho, W' resposta).
mitério. Diversos sínodos - o de Ruão em 1074 e o de Colônia
. Esse deseqmlíbrio levou a uma legislação conflitante no
1279 - se opuseram a essa política e defendiam para elas o
Ocidente. Em alguns casos a comunhão era proibida para mulhe-
mo tipo de enterro que para os outros cristãos (Browe, p. 20).
res menstruadas, em outros era permitida. O canonista de Praga
Hcrever ao Eleitor João da Saxônia em 1530 em nome da Dieta
~atias d~ _Jano"'. (m. 1394), por exemplo, atacava os padres qu~
mbléia) Imperial de Augsburgo, Martinho Lutero observa que,
nao a~mit~am tais mulheres à Eucaristia. Para ele os padres não
1 reja Papal, "as mulheres que morrem no parto são enterradas
d:ve~iam md_a?ar sobr~ ~sse assunto no confessionário, "já que
uma cerimônia especial". Não sã9 colocadas, como as outras
nao e ~ecessario, nem utd e tampouco decente" (Browe, p. 14).
um, no meio da igreja, mas à porta (Briefwechsel 7 Calw/Stutt-
Mas ainda em 1684, no povoado de Deckenpfronn, na Floresta
1897, p. 258). Na diocese de Ghent, conforme prescrevia uma
Ne~ra, as ~ulheres menstruadas ficavam fora da igreja e "na
nl r ncia eclesiástica de 1632, as mulheres que morriam antes
reahd~de, ~~o entravam, postavam-se como criminosas, junto ao
pelourmho , conforme se descobre nos arquivos da Igreja (cf. r purificadas eram enterradas em sigilo (Browe, p. 21).
Browe, p. 14). 1tmbora tenham travado uma longa luta pelo direito a um
t rrn normal, as mulheres que acabavam de dar à luz também
A menst~ação mostrou-se particularmente fatal para as mu-
, um de travar uma luta ainda mais prolongada para ter o direito
lheres que qmsessem participar dos ofícios divinos. Teodoro de
1 tornar à Igreja sem se submeterem a uma purificação especial
Balsamon diz que "Em certa época as diaconisas costumavam ser
1 \ d janeiro de 1200, o Papa Inocêncio IIl impôs um interdito
ordenadas segundo as leis da Igreja. Permitia-se-lhes aproximar do
11111 'll porque o rei francês vivia um casamento sem efeito legal
altar, mas. por ~ausa de sua impureza mensal eram expulsas de seu
, 1 11 1 amante Agnes de Meran. O interdito determinava o fecha-
lugar na h~rgia ~ do ~ltar sagrado. Na ilustre igreja de Constanti-
1110 1 todas as igrejas francesas, que só seriam abertas para o
nopla as diacomsas amda são escolhidas, porém não mais têm
38 Hunucos pelo Reino de Deus 39
Uta Ranke-Heinemann

?ªtis~~ de ~nanças. O papa proibiu "estritamente" as mulheres de III


irem ~ 1gr:Jª pa~a a purificação e, por não terem sido purificadas,
ta~bem !1ªº podiam tom~ p~ no batismo de seus próprios filhos.
So depois ~e suspenso o mterd1to, puderam ser readmitidas pelos
padres. O mterd1to durou um ano, até o rei repudiar Agnes de o Novo TESTAMENTO, E COMO FOI
Meran. INCOMPREENDIDO: A CONCEPÇÃO
Isso contradiz_ia o que o mesmo papa, Inocêncio III, escrevera
em 11 ~8,ao arcebispo de Armagh em resposta à pergunta se a Lei VIRÇi-INAL, o CELIBATO E o Novo
de ~oises sobre as mulheres que acabaram de dar à luz ainda se CASAMENTO DAS PESSOAS DIVORCIADAS
aphcaya à Igreja. Não, disse Inocêncio, "mas se as mulheres
pre~enrem ~e afastar da igreja durante algum tempo em reverência,
creio que nao podemos repreendê-las" (Ep. I, 63; cf. Browe, p. 26).
quan?o se~trata de discriminar as mulheres, a colocação do sim e
~:1.simultaneos - por um lado sim, por outro não - sempre foi o desenvolvimento da moralidade sexual cristã as influências
t rminantes imediatas foram o judaísmo e o gnosticismo: o
, O costume de p~rificar as mulheres depois do parto durou quase
ud ísmo tal e qual encontrado num contemporâneo dos primeiros
9
at~, o p~e~ent:. Kirche~lexikon de Wetzer/Welte (1886) descreve 1 tãos, Fílon de Alexandria (m. ca. 45-50 d.C.), e o gnosticismo,
a ~unf1caçao da segumte forma: "Como os catecúmenos e os
pemtentes, a ~ulher que acaba de ter um filho deve primeiro se medida em que promoveu o ideal do celibato e subordinou o
mento à vida dos solteiros. É verdade que os cristãos resistiram
postar_o~ se_aJoelhar do l~o de fora da porta da igreja; e só depois
da pu~1ca~a? so!ene com agua-benta e com a oração do padre será nvasão do pessimismo gnóstico, e que durante os primeiros
conduzida a 1greJa. Isto é semelhante ao que acontece ainda hoje •ulos cristãos os gnósticos lhes eram oponentes especiais. Mas a
com os catecúmenos e ao que antes costumava acontecer aos lização da castidade como mais próxima de Deus foi adotada
p~nitentes ~úblicos na terça-feira santa" (Wetzer/Welte J, 1711). 1 H cristãos de seus oponentes; e acabou por infiltrar-se no Novo
Amda na dec~a de 1960, a prática da "purificação" era seguida t mento, embora só em pequena extensão.
de f~rma ,t;stnta. Em 1987 uma mulher me escreveu contando 0 Assim, no Apocalipse, João fala das 144 mil pessoas que
se?11mte: Lembro-me da _verg~nha terrível por que passou minha ntum um novo cântico diante do trono de Deus: "Estes são os
m~e. Em_ 1960 nasceu mmha irmã menor. Não permitiram que n o se contaminaram com mulheres, pois são virgens. São eles
!11m~~ mae, tomasse parte no batismo dela por não ter sido ainda u ompanham o Cordeiro por onde quer que vá; foram resgata-
punflcad~ . ~lgum. tempo depois, à tarde, ela entrou sorrateira- d ntre os homens, como primícias oferecidas a Deus e ao
me~te ~a igreJa, sozm~a,_ quando então o pastor a 'purificou'. Só 1 d iro" (Ap 14, 4). Aqui, exatamente no Novo Testamento, o
entao pode voltar a ass1strr ao culto religioso." 11 ti ·ismo triunfou sobre o legado judeu do Antigo Testamento,
u nunca fala nesses termos. No versículo seguinte, o Apocalipse
1 'l. ll •itação de Isaías 53, 9: "Na boca deles não se achou mentira,
imaculados." Mas Isaías nada diz naquela passagem sobre
uvlr ns" .
Noutra passagem do Novo Testamento, contudo, o gnosticismo
1111 h stilidade ao sexo e ao casamento são rejeitados. Em 1
41
40 . Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus

mento como evento histórico. Mateus 1 e Lucas 1 usam a concepção


Timóteo 4, 2-3, adverte-se contra os "hipócritas e impostores que,
virginal como metáfora, como outras metáforas no Novo Testarnen-
marcados na própria consciência com o ferrete da infâmia, proíbem t . Quanto ao profeta Isaías (século VIII a.C.), ele nunca fala de
o casamento( ... )". Em seu escrito "À nobreza cristã da Nação
ualquer parto virginal. A suposta promessa de um tal parto pelo
Alemã" (1520), Lutero cita esse versículo contra o papado: "E
pr feta não corresponde ao texto hebreu. Em Isaías 7, 14 se lê: "Eis
agora a sé apostólica, por sua própria iniqüidade, vem com a idéia
ue uma moça (alma) conceberá e dará à luz um filho, e será
de proibir os padres de casar. E o fez por ordem do demônio,
hamado Emanuel.'' O aparecimento da palavra "virgem" em
conform~ Paulo proclama em 1 Tm 4: 'Nos tempos vindouros, M teus 1, 23 vem da Septuaginta, a tradução grega da Bíblia (século
alguns hao de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros
11 a.C.), que traduz a palavra alma por parthenos (virgem). O
e a doutrinas diabólicas, proibindo o casamento.' Isso já causou
muitos infortúnios e levou à desunião da Igreja Grega. Recomendo
v cá.bulo hebraico pode significar virgem, mas não se quer com
N o dizer que toda jovem deva ter preservado a virgindade. No
que todos fiquem livres para casarou não." E em "Sobre o cativeiro
tanto, mesmo que Isaías tivesse se referido a uma virgem, não
babilônico da Igreja" (1520) escreve: "Sei que Paulo ordena: 'O
ia querido se referir a uma cóncepção virginal. Neste caso a
bispo seja marido de uma só esposa.' E assim abandonamos todos
sagem só significa que a mãe da criança era virgem antes de
esses regulamentos humanos amaldiçoados, que se insinuaram na
Igreja e só causaram a multiplicação de grandes perigos, pecados
gravidar. Não significa que_ a proc~~ção da cri~nç_a se daria de
rma sobrenatural e que não mterfenna em sua vrrgmdade.
~ ~ales_. .. Po~ q~e deve minha liberdade me ser tirada pela supers-
Não sabemos que moça ou virgem Isaías tinha em mente
tlçao e ignorancia de outros?"
ndo falou com o Rei Acaz em Jerusalém durante a guerra
E, por fim, nos Artigos Schmalkáldicos de 1537 Lutero afirma:
o~efrairnita de 734 a. C. Mas ao dar ao rei o "sinal" da moça
"Não tiveram qualq?e.: jus_ti~icativa para proibir o casamento e para
engravidaria, sem dúvida falava de um episódio em futuro
sobrecarregar a posiçao divma do sacerdócio com a exigência do
celibato contínuo. Ao assim proceder, agiram como patifes anticris-
ximo, não sobre algo que ocorreria só depois de mais de sete-
ntos anos. Isaías diz o seguinte da criança Emanuel: "Ele será
tão~ t~rânicos e perve~sos, causando toda a espécie de pecados
trido com manteiga e mel até que saiba rejeitar o mal e escolher
te...mveis, chocantes, e i?contáveis contra a castidade, em que se
veem apanhados ate hoJe. Nem nós nem eles recebemos qualquer m. Porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o
poder para fazermos uma criatura feminina a partir de um homem, , a terra, cujos dois reis tu temes, será devastada" (Is 7, 15-16).
ou um homem de uma mulher, e nem temos o poder de separar o anos 733 e 732 a.C. os assírios conquistaram ambos os reinos
h?mei:n da mulher, criaturas de Deus, ou de proibir as pessoas de umasco e do norte de Israel. O perigo que ameaçava o Rei Acaz
viver Juntas, honradas, no matrimônio. É por isso que nos recusa- s dois reinos foi assim superado. E a criança Emanuel, filho
ma jovem mulher, ainda era pequena, ainda não atingira a idade
mos a aceitar seu celibato execrável e que, pelo contrário, deseja-
mos que as pessoas fiquem livres para optar pelo casamento, uzão, e ainda se alimentava, conforme o profeta colocou, de
conforme Deus ordenou e estabeleceu. Pois Paulo diz em 1 Tm 4 t iga e de mel.
que essa é uma doutrina diabólica.'' , Assim nada há sobre a concepção virginal no Antigo Testamen-
M smo no Novo Testamento essa noção não é encontrada na
A apresenta~ão no Novo Testamento da concepção virginal não
11 ti primeiro autor, ou seja, Paulo. E o primeiro Evangelho,' o
deve ser entendida como expressão de hostilidade ao sexo e ao
Mnrcos, nada fala sobre ela. No Evangelho de São João, há
cas~mento, embora tenha sido mal interpretada nesse sentido. O
Antigo Testamento não prometeu uma concepção virginal biológi- 1 1 ncia expressa a Jesus como o filho de José (1, 45 e 6, 42).
1 l , u propósito, invoca o Antigo Testamento para identificar
ca, e tampouco o Novo Testamento pretende descrever esse nasci-
42 43
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus

Jesus: "Filipe encontra a Natanael e lhe diz: 'Achamos ~quele de David Friedrich Strauss, um dos mais famosos teólo~os pro-
quem Moisés escreveu na Lei e os Profetas anunciaram: é Jesus de l stantes do século XIX, mostrou como o process~ c~ntmuo de
Nazaré, filho de José"' (1, 45). hl toricização podia transformar uma metáf~ra da ~nt~gmda~e num
A lenda da concepção virginal só é encontrada em Mateus e em tato concreto de castidade pessoal com vida propna. As_sim em
Lucas. Mas mesmo no caso desses dois Evangelhos a metáfora só Vida de Jesus ( 1835) fala do sobrinho de Platão, Espeusip~, que
ocorre nas partes mais recentes do texto, não nas mais antigas. A nciona uma lenda ateniense corrente segundo a qu~l Pla:ªº era
genealogia de Jesus :m Ma~us 1 e em Lucas 3 vem de uma época
em que o fato de Jose ser o pat de Jesus era considerado como certo.
lho de Apolo: até Platão nascer, co°:ta~se, seu_ pai, Anst,on?,
teve-se de relações com a esposa, Penctiona (Diogen~s Laerc10
Essas partes do Evangelho têm por objetivo provar que Jesus é , t, 2). De forma similar'. disse S~all:ss, a lenda do ~asci,mento ~e
descende~te de _Davi através de! osé, o que pressupõe que José seja us de uma virgem limitava a vrrgmdade ~e Mana ate _o nasci-
o verdadeiro pat de Jesus. E Mana de forma bastante trivial se refere nto dele: "E, sem que ele a tivesse conhecido, el~ deu a ~uz ~eu
a José como o pai de Jesus em Lucas 2, 48. lho, que recebeu o nome de Jesus''. (Mt 1, 25). Plata.o teve irmaos
Só nas partes mais recentes desses dois Evangelhos é que rmãs, e Jesus também. São mencionados em Marcos _(6, 3) e em
~°:c?n~amos a ~oncepção virginal como metáfora para exprimir a teus (13, 55). O fato de que o Novo Testamento !nrorma da
miciativa especial de Deus na história da salvação. Aqui O Novo 1tência de irmãos e irmãs de Jesus mostra,.ª proposit?, que a
Testamento não visa a ser lido como um informe histórico ou táfora da concepção virginal não era entendida no se~tid~ ~es-
documentário, nem ser interpretado literalmente, da mesma forma ista sexual, como cada vez mais se deu durante sua histonciza-
como o relato da criação de Adão do barro, no Gênesis não tem no decorrer dos séculos. .
essa int~nç_ão. Am?os _são imagens expressivas para o c~nceito de Depois dos tempos do Novo Testame~to,. do século II em
que a cnaçao do pnmerro homem e a criação do "segundo homem" te, os irmãos e irmãs de Jesus foram pnmerro ,transform~~os
(conforme Paulo chama Jesus em 1 Coríntios 15, 47) são obra de meios-irmãos, do primeiro casamento d~ Jose, agora vmvo
1

Deus. oto-Evangelho de Tiago 9, ca. 150); e por ~im, por volta de 400,
. A imagem da concepção virginal corresponde às lendas e à nimo transformou os meios-irmãos en:i pnmos; e s~s_tentou ~ue
lmguagem metafórica da antiguidade que remontam à descendên- uma "fantasia ímpia, apócrifa" acreditar q1:e !ose t1;1esse tid~
cia de personalidades famosas de deuses. Segundo Suetônio Au- lhos de um primeiro casamento. Seg~nd? J~rommo, so um Jose
gusto era con_siderado_ um filho de Apolo, Plutarco conta-no~ que inal seria apropriado a uma Mana vlfgmal (Ad M_atth, 12).
Alexan~e foi concebido por um raio que atingiu o útero da mãe hn Maria continuou virgem depois e antes do nascimento ~e
(ou assim ela sonhara). Os cristãos tomaram essa espécie de ima- IIN A última janela vulnerável em sua virgindade foi fechada Já
gem ao pé da letra, no sentido biológico, não com relação aos deuses 1
·culo II, quando no Proto-Evangelho de Tiagp (19-20) uma
pagãos,:, mas ao_seu pr?prio Deus cristão, e ainda até hoje, no século t ira declarou que o hímen de Maria ficara preservado durante
XX. Na? se vai com isso negar que muitos pagãos antigos tomas- nuscimento de Jesus. As metáforas do Novo Testamento da
sem as 1mag:ns que glorificavam grandes homens por realidade, 1111 pção virginal assim adquirem um st~tus indepe~dente, s~b a
mas os pagaos educados e esclarecidos não o faziam. Essa a 1mll da continuação em capítulos sucessivos da castidade mtima
11
situação provavelmente descrita por Plutarco: "Vivia uma mulher 1h1 preservação biológica de Maria.
em _Ponto que alegava ter ficado grávida de Apolo. Naturalmente t{ capitulando: o profeta Isaías referiu-se no século VIII a.C. a
mmto_s duvidar~ de sua história, mas houve também muitos que 11 11111 moça que conceberia. O Novo Testam~nto ~01:1eçou a plasmar
acreditaram nela (Vidas paralelas, Lisandro, 26). 11
ufirmação na metáfora da concepçao vlfgmal como uma
' 45
44 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus

(Mt 19, 12). Essa afirmação, que naturalmente deve ser entendida
expressão da iniciativa especial de Deus na criação e na existência
•orno metáfora tem uma ligação gramatical imediata (através da
de Je~u~. Nos séculos seguintes essa metáfora foi elaborada numa
lavra "porq~e") com o debate precedente sobre o divórcio. A
descnçao detalhada da virgindade permanente de Maria antes
estão aqui é a renúncia voluntária ao segundo ou a novo casa-
durante e ?epois do nascimento de Jesus. Por coincidência, ess;
l nto, que Jesus considera adultério. "Incap~zes de casa~' (ou
desenvolvimento da metáfora da concepção virginal também fez
, mo na "Nova Bíblia" inglesa, unmarried) e uma traduçao co-
crer:.- e essa a conseqüência mais grave do processo de historici-
zaçao - que Deus é uma espécie de homem, pois lida com Maria uro mas errônea da palavra grega eunuchoi. _ ,
Cumpre admitir que essa passagem s?bre a autocastr_açao psi-
de for:n_a quas<; ~asculina. Conforme declara o conhecido teólogo
1 lca é uma das que têm.desnorteado a mmtas pessoas, e nao apenas
~ogmatico_catohco Mi:hael Schmaus: "O que sob outros aspectos
discípulos. O próprio Cristo diz: "Quem puder compreender
e ~onsAe~ido pela ~Jªº de um homem foi feito à Maria pela mpreenda." Mas qualquer que seja a resposta de alg~é!11_ a ela,
ompotenci~ de_ Deus (Katholische Dogmatik, vol. 5, p. 107).
se refere à incapacidade para o casamento ou a reJeiçao por
A tendencia crescente de colocar uma construção anti-sexual
n (pios a ele (conforme implícito em muitas leituras desse
nas_ passa~en~ do ~o~o T~stamento sem conotações antifísicas,
ho), e sim à renúncia ao adultério; e portanto n~da ~e~~ ver
anti-sexuais nao se hmitou a metáfora da concepção virginal. Esse
mo cehbato. Será necessário dizermos que toda a mstitmçao do
processo sexualmente pessimista de reinterpretação é visto com
1hu.to se baseou - e ainda hoje se baseia, falando em termos
bastant~ ~larez~ no caso de outra passagem até hoje tida como um ti •os - numa objeção tola pelos discípulos? Seu protesto se
comentáno, feito por Jesus, sobre o celibato - e um dos funda-
" m na idéia de que seria melhor não casar porque assim se perde
men~~~ dessa prática. Em sua "Carta a todos os sacerdotes da
rdade sexual e a possibilidade de livrar-se da esposa.
lgreJa , n,~ q~mta-feira santa, em 1979, o Papa João Paulo II se 1ortanto, Jesus está repudiando o adultério e o divórcio. E os
refe:e ao cehbato por ~m~~ do Reino dos Céus", sobre O qual se (pulos objetam que seria então melhor nã? se casar (iá_que não
su~oe que Jesus tenha dito: Quem puder compreender compreen-
1ud divorciar) . São pessoas que não ace~tam o que diz Jesus,
da. (Mt 19, 12). Jesus, na realidade, não fala aí de modo algum de
11 11 o o compreendem". Julgam melhor viver com uma mulh~r
cehbato, mas a passagem foi podada e arrumada para que assim um laço forte, indissolúvel, se isso significar o que Jesus diz
parecesse; e co~o tal tornou-se o lema preferido de todos os 1 nifica, ou seja, que não se pode ter outra mulher. Quan~o
defensores do celibato até João Paulo II e inclusive ele. diz logo a seguir, "Quem puder compreender (ou seJa,
Mas basta considerarmos o assunto colocado a Jesus para 1 r esse ensinamento') compreenda", não está tornando a
sabermos s~bre o que está falando ao responder. Não lhe perguntam o dos discípulos parte do Evangelho - porque tal objeção é
so~re o celibato, e portanto não está discutindo essa questão. Os 1I mente um protesto mac?ista, tanto mais .im_pressiona~te
fanseus ~ergu!1tª1!1 sobr,: o divórcio, sobre o qual propõe uma tese 111 os celibatários sempre mvocam esta obJeç~o - e _sim
de que ate e~tao ai?da n_ao se ouvira falar, já que naquela época um 111 lr11 :1 sua mensagem. Quer dizer o que ele disse, e nao o
ho~em podia s_e divorciar da esposa pelo simples fato de ela haver 1 11, 1 eus discípulos polígamos, a quem a exigência de Jesus
1
qu~im~d? seu Jantar (assim o Rabino Hillel, em contraste com 0
~ais r~gido Rabino Shammai). Jesus diz: "Todo aquele que se 111I
11 111 , utordoa os discípulos não é o ensinamento de Jesus sobre
divorciar de sua mulh_er ~ esposar_uma outra comete adultério" (Mt 1tl111h KOlteiro ou o celibato, sobre o que ele não diz absoluta-
?,
1 9). Mesmo seus discipulos obJetam a esse ensinamento· e Jesus 1111 11111 111 mas seu ensinamento sobre o casamento e o divórcio;
diz: "Nem todos, são capazes de entender isso" (Mt 19 ' 11) e 11 , 111 i'11na novidade. Os discípulos recorrem a Moisés, que
acrescen t a que ha uma autocastração por amor do Reino dos Céus
46 Eunucos pelo Reino de Deus
47
Uta Ranke-Heinemann

permitiu "dar uma certidão de divórcio à mulher e despedi-la". julgavam ter sido outorgada por Deus. O ju~aís~o nos di~s d~ !esus
Mas Jesus responde: "É por causa da dureza de vosso coração que à exceção de Qumrãn - afirmava a pobganua. Isso s1gmficava
Moisés permitiu divorciar-vos de vossas mulheres; mas no começo que um homem jamais violava o próprio casam~nt~. A esposa
não foi assim." E, para frisar seu ponto de vista, Jesus menciona a , rtencia ao marido, mas O marido. nã_o perte~~m a espos~. f
história da criação: "Não lestes que o Criador, no começo, fez o : l neira de Jesus ler a história da cnaçao destro1 toda a pos1çao
homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua 1 triareal. Não admira que os discípulos achassem que naqu~l~s
mãe e se unirá a sua mulher; e os .dois formarão uma só carne? 1 cunstâncias seria melhor não casar em absoluto. Aquela especie
Portanto, não separe o homem o que Deus uniu" (Mt 19, 3-12). 1 casamento não era o que tinham em mente. . , .
Formar uma só carne é para Jesus um ato de união total, Podemos encontrar um paralelo à passagem do di~orc1~ no
irrevogável, mais do que uma mera ligação temporária. Nessa união luto de Mateus do Sermão da Montanha (M~ ~• 27-~2): Ouv1~te~
total se baseia a indissolubilidade do casamento. Tomás de Aquino 1 foi dito aos antigos: Não cometerás adulteno. P01s eu vos d1g?;
(m. 1274) mais tarde fundamentou a indissolubilidade do casamen- 1 o aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher Jª
to por causa dos filhos, que a esposa não conseguiria criar sozinha. ulterou com ela em seu coração.( ... )" Como todos sabemos,!esus
Mas Jesus nada diz sobre os filhos. Nem fala de formar uma só mbém tinha algo a dizer sobre outros assuntos no Sermao ~a
carne com a finalidade de ter filhos. Seu novo ensinamento, que é ntanha. Mas, com a crescente insistência nas_ ~~en~as sexuais
a velha verdade "desde o princípio", defende a unidade indissolú- omparação com todas as demais áreas da def1c1encm humana,
vel dos cônjuges. essoas divorciadas e que tornaram a se cas~r receberam um
O ensinamento de Jesus, pelo qual ele remonta ao tempo antes
de Moisés, à origem da criação, atinge os ouvintes como algo
i mento especial da Igreja Católica, embor~ n~o ~s semeadores
discórdia. Hoje, como no passado, os pnnc1pais pecados da
ultrajante. A alternativa à interpretação do Rabino Hillel era a do nidade se situam nos quartos de dormir e não, por exemplo,
Rabino Shammai, que estabelecida condições mais rígidas, mas não
contestava a possibilidade do divórcio. Com suas palavras, Jesus ampos de batalha. . . _ . .
Sermão da Montanha, a mais nobre utopm_cnsta, s_e d~vid~
virou de cabeça para baixo a compreensão do divórcio pelos
uas partes. A parte maior, sem dúvida, é cons1derad~ mat!ng1-
discípulos. Os judeus entendiam "Não cometerás adultério" com
.
1mpra , 1. So' o novo casamento das pessoas
t·1cave . divorciadas
.
implicações diferentes para homens e mulheres; para o homem, só
r exceção, destacado e submetido a uma penahda~e espe~ml,
a relação sexual com a esposa de outro era adultério; para a mulher,
ra Jesus ao tratar do assunto tenha dito - e na rea~1~ade disse
a relação com qualquer outro afora o esposo era adultério. O homem
só violava o casamento de outro homem; o próprio casamento é v zes-que nem todos poderiam entender. Sem duv1~a: ~egar
violado só pela esposa. A razão disso é que a esposa era considerada ln da indissolubilidade do casamento, cancelar~ possib1hd~de
não uma companheira ou parceira do homem, mas sua posse. Ao 1 Ili da solidariedade radical, constitui um romp1~ento da vida
cometer adultério a esposa estava depreciando as posses do marido, 111111 , Mas crer que o fracasso nesse ponto tem m~s ~eso do que
enquanto o marido, ao cometê-lo, estava depreciando as posses de h• ,>Hdemais fracassos humanos é produto do pess1m1s~o s~~ual
outro homem. O adultério era uma espécie de crime contra a 1 r ja. É completamente errado recorrer a J~sus para J_u~t1f1car
propriedade. Assim, a relação sexual com uma mulher solteira não 1 ·, rismo celibatário. Com Jesus, o entusiasmo pos1t1".'o pe-

constituía adultério para o homem. 1 o ·ttsamento e as mulheres, de fato perante tod~ a hu~amd_ad~,
O ensinamento de Jesus revoga esse privilegiado conceito o princípio orientador. Pelo contrário, esse ~1gor ~ h~stll as
masculino de adultério. Também revoga a poligamia, que os judeus 1lh r li e, muitas vezes, puramente desumano, nao mais af1rn1an-
49
48 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus

do umpn· nc1p10
, · por amor da . quando depois se casa com outra mulher. Para mim ele comete um
Ias a um princípio. s pessoas, e sim passando a sacrificá- pecado venial neste caso" (De fide et operibus 19). Teodoro,
arcebispo de Cantuária (m. 690), os sínodos francos de Verberie (m.
. Mesmo na época em ue o
~~=~:~-::s~:~et~::! ~~oaibsião co~;:~
e 19 9) o supostas cond· ~
J ' . . . teor do texto mais I
J~~i;:::~:~ c~emd~osto
1vor-
içoes de Mateus (Mt 5 32
756) e Compiegne (m. 757) e a Compilação de Leis Canônicas de
Burcardo de Worms (m. 1025), todos determinam normas especiais
para o novo casamento de divorciados. O papa da reforma, Gregó-
esus ms1ste na indissolubilidodngdo (Mt 19) deixa bem claro q' rio VII (m. 1085), que insistia no celibato para o clero e combatia
que
. nem
, . tod os possam "entende
a e "o casamento, embora ressalte ue os padres casados, ao mesmo tempo se opôs ao segundo casamento
pnn~~p10 houve exceções na r' . r esse ensinamento. Desde - pelas mesmas razões de hostilidade ao sexo
(ou mcontinência") E assi P at1c~ a saber, no caso do adult, .o Entretanto, mesmo depois das reformas de Gregório, muitos
zida no texto que inte;.,om eU.: uma_'.senção foi mais tarde intr,:~o l ólogos ainda defenderam exceções para a indissolubilidade do
A I~reJa Protestante e a Igpreiaseüq~encalia do pensamento de Jesus- ·asamento. Entre eles contam-:se o adversário de Lutero, o cardeal
IgreJa Catól"ica R omana desde
co ~ 1054nent- _ que esta, separada da. a.etano e também o próprio Lutero e Erasmo de Rotterdam (m.
rretamente no sentid d traduzem essa
~:goundo apqual o divórc~o:oe~~~;~!cser a posi~ão rígida cJeº
eus. ortanto t d amento sao c tr
1:;:~
d. ~ 1536). Só em 1563 o Concílio de Trento proclamou de forma
nequívoca que o novo casamento de pessoas divorciadas por
qualquer motivo estava proibido. O Cânon 7, que assim determina,
adultério" p I ' ra ~~em a frase crucial por " on a a vontade
• e o contrano . exceto em ca d f l entretanto abrandado um pouco por solicitação de Veneza. Os
mesmo em caso de adultério~ 1greJa Católica a traduz por };e e v nezianos, que eram então uma força colonial, receavam dificul-
que mtroduziu essa fórmul Àde.scons1derando a Igre)a pri .f m des com os membros da Igreja Ortodoxa Grega nas ilhas de Creta,
Protestante permite-se a. ss1m, na Igreja Oriental e
enqi;:to;ste é decisiva::;;~=nto te mi IV~,

pessoas div~~(!:~ª
hipre e Corfu; e em sua petição ao concílio chamavam atenção
p ra o fato de que "todos sabem que os gregos mantiveram o

::E:~~~!:'a"'c:~~~:[;!:~1i!fifºe:~~):~:%:
nasse
1
omens e mulheres de forma d.
a se casar era exc
e o de Arles (314)
iversa: a mulh
stume de repudiar a esposa adúltera e se casarem com outra.
A 11im, dizem eles, estão seguindo um costume muio antigo de seus
· strais. Nunca foram condenados por qualquer concílio por esse
tivo, embora tal costume fosse bem conhecido da Igreja Roma-
era excomungado só omungada pelo resto da vida· o her que t~r- ". O texto original-redigido pelo Concílio de Trento afirmava que
tido à c ~ , aconselhado a não . ' ornem nao
r
E . .omunhao. Alguns Padres da I . mais se casar e era adrni m dissesse que alguém poderia tomar a se casar no caso de
biç~an~o (m. 403), Basílio (m. 379) greJ:d-Oágenes (m. 253/54): ultério seria excomungado. Em decorrência da intervenção ve-
permiti; segun~o casamento de divorcia:1t1am ~x~e~ões à proi- 1,luna, hoje se lê no Cânon 7: "Quem disser que a Igreja erra em

escreve: "O h
:s
nadas ci:u~~~::cf h~mens t~massem a se ~~s!p:~a;:o e Basíli.o
. um ~sttlo semelhante A . m determi-
1 nsinamento segundo o qual a pessoa não pode tomar a se casar
r xcomungado". Mesmo Pio XI em sua encíclica Casti connu-
1li ( 1930) seguiu raciocínio semelhante, com olhos na Igreja Grega.

;.:: ~:ta
adultério e to;~e: que reJe.ita a mulher de;oi;~:t~h~~· 430)

por ou::%~~::::e:::a 1;;'º


dev~ seii~~:oe:
(obs;uru s Sa)gradas Escrituras não está d adulteno e toma a se
11 ja, a prática grega do segundo casamento não foi condenada,
11111 a pessoa que dissesse que a Igreja Católica estava errada.
111111 OH papas sua infalibilidade é ainda mais importante do que seu
m est se alguém que te . e modo algum clar 1 111 • m as pessoas que tomam a se casar.
por ter esta cometido adultério : :i:ern_us~ão ~e rejeitar a mulhe~ 1 UR, como vimos, não disse absolutamente nada sobre o
propno visto como adúltero
50 Eunucos pelo Reino de Deus 51
Uta Ranke-Heinemann

celibato. Ele simplesmente corrigiu, para horror dos discípulos, a de levar junto uma mulher como irmã auxiliar, primeiro, traduzindo
tendenciosidade de uma sociedade polígama que desprezava as . "esposa" por "mulher" e, segundo, de 1592 em diante, invertendo
mulheres e esboçou a imagem ideal da unidade conjugal. Mas seu os termos "uma irmã como mulher" para "uma mulher como
ensinamento foi depois reinterpretado pelos teólogos celibatários irmã", eliminando assim todos os vestígios das esposas. Jerônimo,
como um apelo para que se renunciasse ao casamento, enquanto que foi o pai da Vulgata e um eminente filólogo, corretamen~e
suas palavras sobre formar uma só carne foram transformadas no traduziu do grego gune por uxor, palavra que sem qualquer amb1-
elogio dos celibatários como os eunucos do reino dos céus. güidade significa "esposa", já em 383. Mas depois de 385 preferiu
Numa outra questão o Novo Testamento também foi mal inter- o vocábulo mulier, que significa a um só tempo "esposa" e "mu-
pretado em sentido anti-sexual. João Paulo II falsamente vê o lher" e fez a tradução ficar: "Os apóstolos têm o direito da compa-
celibato obrigatório da Igreja Católica como não só recomendado nhia de uma 'irmã como mulher"' (mulier). Jerônimo chegara à
pelo próprio Jesus, mas também como uma "doutrina apostólica" conclusão de que a passagem tratava de mulheres criadas ou servas
("Carta a todos os sacerdotes da Igreja na quinta-feira santa", 1979, e não de esposas. Essa mudança de postura se deu em decorrência
cap. 8.) Na realidade todos os apóstolos eram casados. É interes- da carta do Papa Sirício, escrita em 385 ao bispo espanhol de
sante acompanhar a evolução das traduções e interpretações do Tarragona, dizendo que julgava "indecente" , mesmo "criminoso" ,
Novo Testamento e ver como no decorrer dos séculos as esposas quando os padres continuavam a manter relações sexuais com as
dos apóstolos foram transformadas numa espécie de empregadas. esposas e a gerar filhos depois da ordenação.
Isso se deu em virtude do esforço crescente para tomar os apóstolos Em 1592, então, contrariamente ao texto grego original e à
celibatários aparentes, até que o atual papa os elevou ao nível de ordem correta das palavras em Jerônimo (uma irmã como mulher)
pregadores e professores do celibato obrigatório. e também aos 28 manuscritos da Vulgata com a ordem vocabular
Mas a "doutrina apostólica" ensina que todos os funcionários correta, a Vulgata Clementina, hoje a edição oficial da Bíblia latina,
da Igreja têm o direito de casar. Paulo declara em 1 Coríntios 9, 5 sofreu a alteração decisiva. E assim se deu em decorrência de dois
que todos os apóstolos e Pedro, que apesar disso ainda é conside- manuscritos menos valiosos da Vulgata em que o texto grego foi
rado o primeiro papa, eram casados e levavam consigo as esposas traduzido na ordem errada (uma mulher como irmã ou uma mulher
em viagens como missionários. Ressalta que ele também tinha esse irmã). Dessa forma, a passagem sobre o direito dos apóstolos de
direito. A questão do casamento dos padres foi um importante fator serem acompanhados pelas esposas foi completamente deturpada
que contribuiu para a separação da Igreja Oriental (1054), na qual e tomada inócua (sobre tudo isso cf. Heinz-Jürgen Vogels, Pflicht-
os padres, mas não os bispos, têm permissão para casar, e depois zolibat, 1978).
da Igreja Protestante (século XVI), na qual os pastores e os bispos Há ainda outras passagens que provam que o celibato compul-
podem se casar. Por esse motivo vale a pena olhar com mais atenção sório não é uma doutrina apostólica (por exemplo, 1 Tm 3, 2 e Tt
para 1 Coríntios 9, 5, já que uma falsa tradução dessa passagem 1, 6). Aí se diz que um bispo deve ser o "marido de uma esposa",
impediu que os aspirantes ao sacerdócio católico romano se depa- significando que ele não deve tomar a casar depois do divórcio, de
rassem com seu direito ao casamento garantido pelos apóstolos - acordo com o ensinamento de Jesus sobre o adultério e a poligamia.
sobretudo quando tinham pouco conhecimento de grego. A passa- Mas essas passagens não são particularmente populares entre os
gem diz literalmente: "Acaso não temos nós direito de deixar que defensores do celibato, não mais do que a da sogra de Pedro (Me
nos acompanhe uma irmã (uma mulher cristã) como esposa, a 1, 30).
exemplo dos outros apóstolos e dos irmãos do Senhor e de Cefas?" Paulo, é verdade, fala sobre a maior disponibilidade da pessoa
Esse direito dos apóstolos lentamente se transformou no direito solteira para o Senhor (1 Cor 7), mas essa passagem não pode ser
53
Eunucos pelo Reino de Deus
52 Uta Ranke-Heinemann
Ainda outra passagem do Novo Testamento foi mal-interpreta-
arrolada em apoio_ao celibato cornpulsóno, já que a mesma epístola da corno se nele se defendesse o celibato. Alguns cristãos, influen-
(1 Cor 9, 5) menciona expressamente seu próprio direito de levar a ciados pelo ódio gnóstico ao corpo, perguntaram a Paulo se não
esposa consigo em viagens missionárias corno fazem os outros seria bom que um homem não tocasse urna mulher (1 Cor 7, 1). A
ap~stolos - a mesma passagem que foi neutralizada pela transpo- maioria dos comentaristas celibatários até hoje lê este versículo
siçao das palavras "mulheres" e "irmã". Podemos ver quanto o ( "Penso que seria bom ao homem não tocar mulher alguma") corno
papa, corno sucessor solteiro de Pedro, casado, se distanciou deste a resposta de Paulo, embora aí ele estivesse ~penas repe~indo ~
e _de_ Paulo no fato de que não podemos imaginá-lo falando de seu pergunta que lhe fora feita. Dessa forma a heresia dos gnostico~ foi
dtreito de ter urna esposa e de levá-la consigo em suas peregrinações transformada no apoio apostólico ao celibato e ao ideal da castida-
por todo o mundo. Entretanto, isso estaria absolutamente de acordo de. Contra suas próprias intenções, o Novo Testamento foi tomado
com o espírito do Novo Testamento. Clemente de Alexandria Padre pelà maré crescente do pessimismo sexual.
da Igreja, escreveu, por volta do ano 200, que, "mesmo Pa~lo não Em resposta à tese dos coríntios, de que o homem não deve
tem dú_vidas ao se ref~rir a sua esposa numa de suas cartas (Fp 4, tocar em urna mulher, Paulo desenvolve seu ponto de vista do
3), e~ª? a levou co,n~igo tão-somente para não ser prejudicado no casamento. Constata que todo homem deve ter esposa e toda mulher
exercicio de seu oficio. Daí declara numa carta: 'Não ternos nós o um marido. Ressalta que os casais casados não devem dar atenção
direito de levar urna irmã corno esposa, corno o resto dos apósto- à pessoa que os exorta à abstinência dentro da visão gnóstic~, mas
los?"' (Strornata III, 53). Não é sem interesse observar então que que, pelo contrário, todos têm a obrigação de aceder aos deseJOS do
por volta d_e duzentos as pessoas ainda sabiam que Paulo fora companheiro ou da companheira para a união sexual. Assim, não
ca~ad?. Mais tarde, quando a castidade foi mais e mais idealizada, se coloca ao lado do homem que defende a continência conjugal.
foi feita urna tentativa de caracterizá-lo - erradamente - como Afirma expressamente: "Não vos recuseis um ao outro, a não ser
um celibatário pela vida inteira. de comum acordo, por algum tempo, para vos aplicardes à oração."
Paulo era um fariseu (Fp 3, 5). Menciona isso, pode-se E prossegue: "E depois voltai a coabitar, para que não vos tente
acrescentar, com orgulho, já que a palavra não se havia tornado Satanás por vossa incontinência."
s~nônii:11? de _hipóc;~ta corno _in!elizrnente se tornou graças à A esse se segue o versículo .6, que Agostinho interpretou de
hipocnsia anti-sern1t1ca dos cnstaos. Segundo Joachirn Jeremias forma errada, e sobre o qual desenvolveu sua teoria desastrosa do
(n. 1900), um teólogo alemão protestante, Paulo era, por ocasião perdão e justificação para o coito conjugal. Na opinião de A;gosti-
de sua convers~o: um fariseu erudito ordenado, e portanto um nho a relação sexual é um ato passível de culpa e precisa de
homem de rneia~idade; assim, já que nos tempos de Jesus 0 justificativa: o filho. Lê-se no versículo 6 de Paulo: "Isto digo com?
casamento ocorna em geral entre dezoito e vinte anos era concessão, não corno ordem." A palavra "isto" poderia se refenr
casado. Pois que a atitude dos escribas perante o casarnent~ e o ou a "Não vos recuseis um ao outro a não ser... à oração", ou a "E
c~l~bato era perfeitamente clara: casar era urna obrigação incon- depois voltai a coabitar", já que ambas as sentenças estão presentes
d1c10nal do homem. A tradição atribuía ao Rabino Eliezer Ben- no versículo 5. Estará Paulo concedendo (Agostinho traduz "con-
Asai (ca. 90 d.C.) a sentença: "Quem não se envolve com a ceder" por "perdoar") o coito aos coríntios, ou estará concede~-
procriação é corno alguém que derrama sangue" (Yebarnoth 63b· do-lhes a abstenção do sexo conjugal por amor à oração? Mais
Strack e Billerberck, Kommentar zum Neuen Testament au; provável a última opção. Deixa a seu critério - nã~ lhes ordena~
Talm_ud ~nd Midrasch, II, p. 373). Para Jeremias, Paulo escreveu absterem-se do sexo em prol da oração. Mas se qmsesse se refenr
a Pnrne1ra Epístola aos Coríntios já viúvo (Zeitschrift für die à primeira opção, estaria dizend.o que não quer que sua concessão
neutestamentliche Wissenschaft 28 [1929], 321-23).
54 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 55

seja entendida como uma ordem para a atividade sexual, mas como (1 Cor 7, 27). Mas por trás dessas afirmações provavelmente se
um direito; noutras palavras: deixa a seu critério. Em qualquer caso encontra a expectativa intensa da segunda vinda de Cristo e do fim
a passagem tem de ser lida à luz dos versículos 2 e 5: "Todavia, do mundo. Diz o próprio Paulo: "Em razão das angústias . do
considerando o perigo da incontinência, cada um tenha sua mulher, presente" (7, 26). Dessa perspectiva, sua ressalva: "Estás livre de
e cada mulher tenha seu marido" e "Não vos recuseis um ao outro." mulher? Não procures mulher", não deve ser avaliada de forma
O teor de toda a discussão é, de qualquer forma, não a favor diversa das demais afirmações de Paulo ante essa expectativa, tais
dos defensores gnósticos da abstinência sexual. Pelo contrário: como: ''Cada um permaneça no estado em que foi chamado por
Paulo censura as pessoas que se afastam dos parceiros e parceiras Deus. Eras escravo quando Deus te chamou? Não te preocupes com
por piedade ou devoção mal-entendida. Menciona a necessidade de isso. Mesmo que possas tornar-te livre, antes aproveita de tua
se evitar a imoralidade (fruto da incontinência) como motivação escravidão" (7, 20-21). Se tivermosemmenteaconvicçãodePaulo
para o casamento e' o coito conjugal. Sem dúvida, isso não parece de que a parusia ocorreria ainda durante sua vida (1 Ts 4, 17), não
de muita sensibilidade, mas dada a pergunta gnóstica: "Não seria podemos mais vê-lo como defensor do celibato, tanto quanto não
bom ao homem não tocar mulher alguma?", é uma resposta extre- o era da escravidão.
mamente clara. Observamos que aqui nada se diz sobre ter filhos, A terceira passagem do Novo Testamento que trata em certa
pretexto mais importante de Agostinho para o sexo conjugal. As- profundidade do casamento (além das de Mateus 19 e 1 Coríntios
sim, a posição de Paulo contrasta com a insistência da Igreja, 7) é a Epístola aos Efésios (5, 22-32). Ainda se discute se essa
predominante ainda hoje, na procriação como o propósito do ato epístola foi escrita por Paulo. De qualquer forma, não podemos
conjugal. deixar de perceber que, embora em 1 Coríntios 7 a palavra "amor"
O trecho do sétimo capítulo da Primeira Epístola aos Coríntios, não seja mencionada em relação ao casamento, na Epístola aos
onde Paulo começa a falar da maior disponibilidade das pessoas Efésios temos: "Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou
solteiras, principia com as palavras: "A respeito das virgens não a Igreja e se entregou por ela.( ... ) Assim os maridos devem amar
tenho preceito do Senhor; porém, dou meu conselho ... " (1 Cor, 7, suas mulheres, como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher
25). Quase todos os teólogos católicos, inclusive João Paulo II, ama-se a si mesmo ... 'Por isso, o homem deixará pai e mãe e se
vêem as palavras de Jesus sobre o divórcio em Mateus 19 como o unirá ã• sua mulher, e os dois constituirão uma só carne.' Este
momento sunremo do celibato e do monaquismo (concentrando-se mistério é grande ..."
na objeção dos discípulos: "Se tal é a condição do homem a respeito Vale mencionar que nas três passagens do Novo Testamento
da mulher, é melhor não se casar!", e na resposta de Jesus, "Nem sobre o casamento não encontramos referência à geração de filhos,
todos são capazes de entender isso" - embora se referisse a sua que mais tarde se tornou cada vez mais importante para a morali-
palavra e não à objeção dos discípulos). Ao contrário, Paulo afirma dade sexual católica, deixando na sombra todos os demais propó-
desconhecer qualquer manifestação de Jesus sobre o estado celiba- sitos e motivos para o sexo conjugal. Isso não significa que Jesus,
tário. A fantasia do celibato preencheu entrementes essas lacunas Paulo e o autor de Efésios quisessem excluir a procriação: revela,
críticas na mensagem de Jesus. contudo, que podemos falar de forma significativa sobre o casa-
Quanto ao próprio Paulo, há algumas evidências de que, à mento sem que de imediato pensemos em filhos.
diferença de Jesus, não estava totalmente liberto das tendências A seita judaica de Qumran, que foi influenciada pelo gnosticis-
gnósticas. Sabidamente, escreve ele, Jesus não falou sobre o estado mo, é de grande importância no estudo do Novo Testamento, porque
celibatário, mas desejava emitir sua opinião pessoal. E seguem-se Jesus, João Batista e os apóstolos viveram durante décadas, por
afirmações como: "Estás livre de mulher? Não procures mulher" assim dizer, ao lado dela. O batismo era feito acima do lugar onde
56 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 57

o Jordão desemboca no mar Morto e ficava só entre 14 e 19 sobretudo como aqueles que estudavam a Torá, contraiu o matri-
quilômetros das ruínas de Qumrãn. Embora Jesus não fosse um mônio. O Talmud observa: 'O jovem de vinte anos que vive seµi
asceta, há fortes indícios de que João Batista tenha sido influencia- uma esposa é contaminado por pensamentos pecaminosos' (bKid-
do por Qumrãn, e "talvez tenha sido membro da seita" (Religion dushin 29 b), pois 'o homem está sempre na escravidão do desejo
in Geschichte und Gegenwart, vol. 5, 1961 , 751). A diferença entre da qual só o casamento o liberta' (b Yabmuth 63 a). Um Tosephta
eles era notória mesmo para seus contemporâneos. Jesus diz: "Veio (suplemento com comentário) sobre o Yabmuth 88 transmite uma
João, que não comia nem bebia, e dizem: 'está possesso de um nota áspera do Rabi Elieser Ben-Asai: 'Quem renuncia ao casamen-
demônio'. O Filho do Homem veio, come e bebe, e dizem: 'é um to viola o mandamento para crescer e multiplicar-se; deve ser
comilão e beberrão de vinho, amigo de publicanos e pecadores"' considerado um assassino que diminui o número dos seres criados
(Mt 11, 18-19). Assim, da mesma forma que Jesus não seguia o à imagem de Deus.'
estilo ascético de Qumrãn, por mais próximo da seita que estivesse, "Das muitas centenas de rabis do período talmúdico de nós
também não vemos nele qualquer tendência no sentido de estima conhecidos, só um, Ben-Asai (século II d.C.), não foi casado.
elevada pela castidade como modo de aproximar-se de Deus. Jesus Segundo uma leitura, mesmo esse bacharel esteve casado breve-
pertence à tradição do Antigo Testamento, que é alheia a esse mente com a filha de seu professor, Rabi Akiba, mas depois
pensamento. Está tentando trazer o judaísmo de volta às raízes: à permaneceu solteiro para dedicar-se exclusivamente à Torá. Foi
idéia da criação de um homem e de uma mulher que formam uma duramente criticado por isso por seus colegas: 'Alguns pregam bem
só carne e são portanto inseparáveis. e agem bem, outros agem bem e não pregam bem, mas tu pregas
A relação de Jesus à tradição do Antigo Testamento e ao bem e não ages bem.' Ben-Asai respondeu-lhes: 'Que posso fazer?
judaísmo também é importante por uma questão recentemente Minha alma se prende à Torá. O mundo pode ser mantido por outras
levantada uma vez mais pelo estudioso judaico da religião, Ben-
pessoas' (b Yabmuth 63 b). A bela pregação e o comportamento não
Chorin, que postula ter sido Jesus casado. É bastante plausível que
tão à altura de Ben-Asai consistia no fato de que ele ensinava todos
a tendência gnóstico-ascética, que impregnou o cristianismo e
os mandamentos, mas, sendo celibatário, se evadia do mandamento
surgiu muito cedo, tenha influenciado não só os ensinamentos de
fundamental: 'Crescei e multiplicai-vos' ...
Jesus, de acorpo com a interpretação dos que os pregavam, mas
" Isso devemos ter em mente quando olhamos a carreira de
também a imagem da pessoa do próprio Jesus; de sorte que hoje
Jesus ... Se ele tivesse desprezado o casamento, seus oponenentes
tomamos como certo que Jesus nunca se casou, embora não haja a
entre os fariseus o teriam repreendido, e seus discípulos lhe teriam
menor referência sobre isso no Novo Testamento. Contrariando
essa idéia, Ben-Chorin apresenta uma " seqüência de provas indi- perguntado por esse pecado de omissão ... Não nos deve surpreender
retas" de que Jesus fora casado: "Quando Lucas observa (2, 51-52) por nada ouvirmos sobre o casamento de Jesus, pois também nada
que o menino Jesus era obediente aos pais, isso obviamente signi- ouvimos sobre sua educação enquanto criança, sobre seu treina-
fica que ele se adaptou ao ritmo da vida civil ( ... ) a próxima etapa mento e prática vocacionais. Só ficamos sabendo que ele retomou
da vida é de importância decisiva: um rapaz de 18 anos debaixo do a Nazaré para viver a vida absolutamente normal de um judeu.
dossel nupcial (la-chupa). Se, conforme se relata expressamente, o Como também nada aprendemos sobre as esposas dos discípulos
jovem Jesus adiou todos os seus interesses particulares até seu posteriores, tanto quanto nada aprendemos, com pouquíssimas
aparecimento na vida pública e subordinou-se à vontade dos pais, exceções, sobre as esposas da maioria dos doutores da Lei do tempo
então com toda a probabilidade podemos presumir_que estes te- d Jesus, esse capítulo permanece no quadro do que é óbvio. Mais
nham lhe procurado uma noiva à altura; e que ele, como todo jovem, tnrd , na narrativa evangélica, as únicas mulheres mencionadas são
Uta Ranke-Heinemann 59
58 Eunucos pelo Reino de Deus

as que aparecem na vida pública de Jesus" (Schalom Ben-Chorin, pelo menos a seus próprios olhos, era uma questão que mesmo
Mutter Mirjam, 1982, pp. 92 ss). então não podia ser omitida e causava problemas aos bispos, que
Outro argumento para a tese de Ben-Chorin é que quando Paulo naquela época ainda eram casados.
afirma desconhecer qualquer pronunciamento de Jesus sobre o Por volta de 150 Justino Mártir escreve: "Desde o princípfo,
celibato, e que só pode manifestar sua opinião pessoal ( 1 Cor 7, 25), ou nos casamos, com a única finalidade de ter filhos, ou renuncia-
dificilmente o panorama se harmoniza com a noção de Jesus mos ao casamento e permanecemos na mais absoluta continência"
solteiro, celibatário. Embora Paulo pudesse não ter qualquer pro- (1 Apologia 29). Em relação a isso, Justino conta uma história, que
nunciamento de Jesus ante os olhos, se pudesse ter citado o exemplo recebe sua total aprovação, sobre um jovem cristão que solicitou
de Jesus celibatário, dificilmente ficaria satisfeito em ressaltar a permissão ao governador romano para ser castrado. No século I, o
falta de um pronunciamento específico. Não há forma de ele deixar Imperador Domiciano (m. 96) submetera a castração à punição
de mencionar o exemplo incomum estabelecido pela própria vida criminal. E o Imperador Adriano (m. 138) explicitamente estendera
de Jesus - se Jesus assim a tivesse estabelecido.
'' essa proibição inclusive.àqueles que voluntariamente concordavam
em ser castrados. Foi essa sua maneira de combater a rigorosa
tendência anti-sexual e anticonjugal (predominantemente gnóstica)
de seu tempo. Adriano instituiu a pena de morte para quem fosse
IV castrado sem permissão oficial, e também para o médico que fizesse
a operação. Justino escreve: "Assim, para que possais ter certeza
de que a libertinagem desenfreada não é um elemento de sigilo em
Os PADRES DA IGREJA ATÉ AGOSTINHO nossa religião, acrescento a seguinte história: certa vez um dos
nossos em Alexandria endereçou uma petição ao governador Félix
para conseguir que seu médico lhe removesse os testículos, porque
os médicos de lá declaravam que só poderiam castrá-lo com per-
missão do governador. E quando Félix se recusou a ceder ao pedido
Embora Jesus não fosse asceta e tampouco panegirista da casti- sob qualquer condição, o jovem permaneceu solteiro e absteve-se
dade, este último ideal gradualmente se disseminou pelo mundo com a convicção de que partilhava com os que o amparavam"
cristão. Ao ser levado a Roma, o Bispo Inácio da Antioquia, que foi
atirado às feras por volta do ano 11 O - um dos privilégios dos (ibid.). .
O jovem que Justino descreve queria utilizar sua castração para
romanos consistia no fato de que os prisioneiros condenados ~
enviar uma mensagem: a dos elevados padrões morais e ascéticos
morte nas p50víncias eram transportados à capital para servirem de
dos cristãos, e para combater as calúnias de inferioridade moral
diversão em algum dos circos - , escreveu sete cartas que são
consideradas testemunho importante do período imediatamente lançadas sobre o cristianismo. Em suas "apologias" (defesas do
posterior ao do Novo Testamento. Na carta ao Bispo Policarpo de cristianismo), Justino empenha-se em caracterizar os cristãos -
Esmirna, menciona as pessoas que "vivem em castidade em honra ainda uma minoria difamada naquele tempo - como pessoas
da carne de nosso Senhor". Mas não elogia esses indivíduos. Pelo politicamente confiáveis e moralmente elevadas. O fato de preferir
contrário, adverte-os contra a "arrogância" e prossegue: "Se ele se mencionar o caso do jovem nesse contexto demonstra que a casti-
vangloria, está perdido; e se se considera mais do que um bispo, é dade era capaz de impressionar seus contemporâneos. Pressupõe-se
vítima da destruição." Evidentemente o maior valor dos castos, que a história do jovem em sua tentativa de tornar-se eunuco
Uta Ranke-Heinemann
60

recomenda o cristianismo à platéia. Justino tenta fazer com que ela


não desaprove mas sim aplauda.
Os cristãos ainda não se viam como os mestres do mundo, que
estaria vivendo nas trevas sem eles. Ainda não eram considerados
como as pessoas que dariam aos pagãos e aos ateus os modelos do
bom comportamento. Muito pelo contrário: os pagãos os rotulavam
de "ateus" e os cristãos queriam provar que podiam atingir os
elevados ideais dos pagãos. Era isso o que Justino tinha em mente.
A opinião pública naquele tempo era dominada pela idéia -
ressaltada pelos estóicos dos séculos I e Il - de que o casamento
tinha de servir exclusivamente para a procriação, e também pela
idealização da castidade, pessimista, gnóstica, em que o corpo era
odiado. O cristianismo não inventou a reverência pela castidade, a
qual de forma alguma proveio de Jesus. Pelo contrário, os cristãos
se adaptaram a seu meio e então levaram o ideal da castidade até
pleno século XX - pois seu fim ainda não está à vista - como o
paradigma do cristianismo verdadeiro e original. Isto depois que
praticamente todos os demais, inclusive muitos de suas próprias
hostes - os protestantes - já haviam abandonado há muito esse
costume pagão antigo e obsoleto.
Sem dúvida, no período pós-apostólico houve uma luta exacer-
bada e secular entre a Igreja e os gnósticos, mas que teve influências
recíprocas: o jovem de Alexandria de que fala Justino, com seu
anseio pela castração e a aprovação desse ato de devoção por
Justino, demonstram a incursão profunda que o desprezo gnóstico
pelo corpo já fizera no cristianismo. Por outro lado, muitos gnósti-
cos, por sua vez, integraram Jesus em seu sistema como um
redentor da matéria, que se ocultava num corpo espectral ( os corpos
são materiais e, portanto, maléficos) e que pregava à alma dos
homens, ensinando-lhes de que maneira poderiam escapar da prisão
do corpo para entrar depois da morte no puro reino da luz.
Os gnósticos rejeitaram a ressurreição do corpo. Alguns se
consideravam cristãos - cristãos de nível mais elevado que o dos
simples crentes. Mas as linhas de divisão ficam indistintas, e
enquanto Justino (m. 165) (Padre da Igreja) enaltece o casamento
- embora só para a procriação - seu discípulo Taciano (m. 180)
desvia-se completamente para o campo gnóstico e toma-se o líder
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 61
60

recomenda o cristianismo à platéia. Justino tenta fazer com que ela dos "abstinentes", para quem o casamento era "lascivo" (Clemen-
te de Alexandria, Stromata III, 12, 89). Muitos cristãos, sobretudo
não desaprove mas sim aplauda.
Os cristãos ainda não se viam como os mestres do mundo, que em Roma e Alexandria, corriam o risco de se ver atolados no
estaria vivendo nas trevas sem eles. Ainda não eram considerados · gnosticismo ou de ser absorvidos por ele. ·
como as pessoas que dariam aos pagãos e aos ateus os modelos do Um homem que se dedicava plenamente à luta contra o gnos-
bom comportamento. Muito pelo contrário: os pagão~ os ro~l~vam ticismo foi o "mais instruído dos Padres", conforme depois Jerô-
de "ateus" e os cristãos queriam provar que podiam atmgrr os nimo o chamou, Clemente de Alexandria. Por volta de 200
'
elevados ideais dos pagãos. Era isso o que Justino tinha em mente. Alexandria era o centro do aprendizado cristão e gnóstico. Clemen-
A opinião pública naquele tempo era dominada pela idéia - te atacou os basilidianos. Basílides foi um gnóstico que ensinou em
ressaltada pelos estóicos dos séculos I e Il - de que o casamento Alexandria por volta de 120 a 140. Segundo Clemente, a distorção
tinha de servir exclusivamente para a procriação, e também pela das palavras de Jesus sobre o novo casamento (Mt. 19), hoje
idealização da castidade, pessimista, gnóstica, em que o corpo era lugar-comum, em qu,e se parte para a defesa do celibato, tem origem
odiado. O cristianismo não inventou a reverência pela castidade, a nos argui-hereges, os gnósticos. Escreve Clemente: "Os basilidia-
qual de forma alguma proveio de Jesus. Pelo_ contrário, o~ cristão~ nos afirmam que o Senhor, em resposta à pergunta dos apóstolos
se adaptaram a seu meio e então levaram o ideal d~ castidade ate se não seria melhor renunciar ao casamento, respondeu: 'Nem
pleno século XX - pois seu fim a~da não _e~tá à vista - c?mo o todos os homens podem entender isso' ... e interpretam essa passa-
paradigma do cristianismo verdadetro e ongmal. Isto depois ~ue gem mais ou menos da seguinte forma... 'Os que se tomaram
praticamente todos os demais, inclusive muitos de. suas ~rópnas impotentes para o casamento tomaram essa decisão em virtude das
hostes - os protestantes - já haviam aband nado há mmto esse conseqüências decorrentes do casamento para eles, porque temem
costume pagão antigo e obsoleto. as dificuldades em adquirir os meios de subsistência"' (ibid. III, 1,
Sem dúvida, no período pós-apostóli houv uma luta exacer- 1). Mais adiante Clemente interpreta a passagem corretamente. E
bada e secular entre a Igreja e os nó ti H, musque teve influências está mais do que na hora do papa e de todos os celibatários da Igreja
recíprocas: o jovem de Alexandria d qu fu i I Justino, c<:_m seu perceberem que depois de 1.800 anos de erro podem hoje enterrar
anseio pela castração e a apr vn · ) d HH • uto de devoçao por a sua passagem preferida sobre o celibato e a vida de solteiro e
Justino demonstram a incurRt pr fund, Ili () d sprezo gnóstico admitir a sua própria leitura da passagem pelo que de fato é: uma
pelo co~o já fizera no cristinnism , Pot' <Hll o lttd muitos gnósti- falsa e tendenciosa interpretàção realizada pelos gnósticos. O celi-
cos, por sua vez, int rnrum .1 s11s t 111 H li 1,ist ma como um bato se baseia num mal-entendido. Clemente corretamente afirma
redentordamatéria,qu s 11111v11111111 ·01potsp ctral(oscorpos que a passagem em Mateus 19 se refere ao divórcio: "Quando à
são materiais e, p rtanto, mal l'i ' l 111 pr ava à alma _d~s afirmação de Jesus de que 'nem todos são capazes de entender
homens ensinando-Ih Hcl Ili 11111n it·n podl dum scapar da pnsao isso' ... eles (os basilidianos) não sabem que depois de (Jesus) falar
do corp~ para ntrar d pois dn Ili ui II l puro r in da luz. sobre o divórcio, alguns perguntaram: 'Se tal é a condição do
Os gnósticos rej itaram II r 111 l't • o do rpo. Alguns se homem a respeito da mulher, é melhor não se casar', e por isso o
consideravam crist· os - ' rlt-it o dl 11fv 111111 i I vado que o dos Senhor disse: 'Nem todos podem entender isso (sobre o divórcio),
simples crente . Mas as linh11 d d v II n·um indistintas, e mas somente aqueles a quem foi dado.' Pois os fariseus queriam
enquanto Justino (m. 165) (Putln d11 lp.1 11) t•1111ll •e o casamento saber exatamente se ele permitiria a alguém se casar com outra
- embora só para a pr ·riu 111 d 1· p111< 'l I iano (m. 180) mulher quando a própria esposa fora condenada e repudiada por
desvia-se completam nl pum o t•11111p11 IH ltt· l l' t rna-se o líder imoralidade" (ibid. III, 50, 1-3).
62 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 63

Clemente aqui defende as palavras originais de Jesus contra a referir-se, entre outros, a Clemente de Alexandria, procurou enal-
apropriação pelos gnósticos, anticonjugais. Assim, enquanto Cle- tecer com elogios a Humanae vitae. Ressaltou que Clemente.proi-
mente defende o casamento contra os gnósticos, como algo de bom, bira o coito com mulher mais velha, o que claramente demonstrava
dádiva de Deus, por outro lado se vê absolutamente aprisionado ao que desde o início a Igreja se empenhara e falara abertamente em
ideal estóico da apatia (anulação das emoções) e da idéia estóica favor da encíclica sobre o controle da natalidade. Desde o princípio,
de que o casamento está exclusivamente a serviço da procriação. talvez, mas não desde o real princípio, ou seja, desde Jesus ou Paulo.
Nisto ele é um verdadeiro precursor das encíclicas papais sobre o A hostilidade ao prazer sexual é um legado gnóstico-estóico, que
controle de natalidade. Leva a questão tão longe que inclusive já em Clemente foi sobreposto ao Evangelho cristão ("Boa-
impinge uma falsa interpretação estóica sobre Paulo (1 Cor 7), que Nova"), e que fala do prazer como se fosse fonte de poluição ou de
não se refer;e à procriação, e sim apenas recomenda que se evite a conspurcação. Clemente passa então a falar sobre o famoso "dedo"
imoralidade: "Não vos recuseis um ao outro", diz o apóstolo, "a estóico, que mais tarde tornaria a adquirir grande importância,
não ser de comum acordo, por algum tempo. Aqui com as palavras graças a Agostinho: "Pois se a razão ensinada pelos estóicos sequer
'Não vos recuseis um ao outro', ele está se referindo à obrigação
permite que o sábio mova seu dedo em qualquer direção, quanto
conjugal de ter filhos, o que também se torna claro antes com as
mais devem os perseguidores da sabedoria afirmar seu domínio
palavras: 'O marido cumpra seu dever para com sua esposa e da
sobre o órgão da procriação?" (Paedagogus II, 10, 90, 1).
mesma forma também a esposa o cumpra para com o marido"'
Clemente de Alexandria pelo menos entendeu corretamente o
(ibid. IIl, 107, 5). Clemente também faz alusão ao fato de que Paulo
ensinamento de Jesus sobre a autocastração por amor do reino dos
(1 Cor 7, 2) vê o casamento como forma de satisfazer o impulso
sexual, mas isso dificilmente tem qualquer importância para seu céus (Mt 19). Mas o mesmo ensinamento foi dupla e falsamente
conceito de casamento (ibid. III, 15). compreendido por Orígenes, seu famoso sucessor na escola de
Clemente emprega a comparação com a vida agrícola que era catequese de Alexandria e o mais importante teólogo da Igreja
popular entre os estóicos. "Assim não está certo tornar-se escravo Grega. Orígenes lê as palavras de Jesus não só como uma exortação
dos prazeres do amor e dedicar-se lascivamente à satisfação dos ao celibato, mas também como uma ordem literal. Aos 18 anos, em
próprios desejos; da mesma forma que é errado entregar-se à sua busca pela perfeição cristã, castrou-se invocando os cristãos
excitação por paixões irracionais e ansiar tornar-se impuro. Como que assim o haviam feito antes dele (_Comentário sobre Mt 15, 3).
ao agricultor, ao homem casado só é permitido semear sua semente Depois admitiu seu erro em tomar a passagem sobre os eunucos ao
quando a estação permite" (Paedagogus, II, 10,102, 1). O adultério pé da letra, mas ainda via o celibato como algo mais elevado aos
com a própria esposa é um refrão dos rigoristas, desde Fílon a João olhos de Deus. Mesmo durante sua vida, Orígenes foi considerado
Paulo II. Clemente escreve: "Comete-se adultério com a própria o mais importante teólogo. Seu discípulo rico e patrono agradecido,
esposa quando se mantém relações sexuais com ela como se fosse Ambrósio, que se convertera do gnosticismo ao cristianismo, pagou
uma prostituta" (ibid. II, 1O, 99, 3). De acordo com seu ideal estóico pelos sete taquígrafos, pelos sete copistas e toda uma série de
de hostilidade ao prazer sexual, Clemente rejeita a relação sexual calígrafos do sexo feminino. Era um asceta rigoroso que nunca
com esposa grávida (ibid. II, 92, 2) ou entre casais de mais idade tocou em carne, vinho e em mulher. Nenhum teólogo na antiguidade
(ibid. II, 95, 3) como contrários ao ideal cristão. cristã foi mais controvertido do que Orígenes, o mais significativo,
porém ao mesmo tempo o mais inclassificável Padre da Igreja antes
A 16 de setembro de 1968, o Cardeal Frings reuniu em Colônia de Agostinho. Embora trezentos anos depois de sua morte (553)
todos os decanos e professores universitários de sua diocese e, ao fosse condenado pela Igreja por falsos ensinamentos, por exemplo,
64 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 65

sobre a alma humana, sua influência sobre importantes teólogos do católica,Agostinhoe Tomás de Aquino: Adão e Eva mantiveram
Oriente e do Ocidente foi enorme. relações sexuais no Paraíso? (Para uma discussão do que vem a
Orígenes associa a fé judeu-cristã num Deus único e bom, seguir, cf. Michael Müller, Die Lehre des hl. Augustinus von der
criador do corpo e da matéria, do casamento e da geração, e o Paradiesesehe und ihre Auswirkung in der Sexualethik des 12. und
desprezo gnóstico pelo corpo. O corpo e a matéria, diz ele, proma- 13. Jahrhunderts bis Thomas von Aquin, 1954). Gregório responde:
nam de um só Deus bom (e não de um criador perverso, como no Não. A vida antes da queda era como a dos anjos, que se multipli-
gnosticismo pré-cristão original), mas o corpo não é o primeiro cavam sem o casamento e a reprodução sexual. Não podemos
pensamento do Deus bom. Segundo Orígenes, é antes uma espécie imaginar como seria essa propagação, "mas é um fato" (De homi-
de castigo, uma "corrente", uma "prisão" que deve sua existência nis opificio 17).
a uma qu~da anterior das almas puras. Essas noções de Orígenes Deus, contudo, anteviu a queda e sabia que o homem desis-
foram condenadas pela Igreja. tiria de sua posição igual à dos anjos e buscaria a amizade de
Ainda outros argumentos tiveram conseqüências para a teologia formas inferiores de vida. E assim, quando criou o homem,
do casamento; por exemplo, Orígenes adverte contra o julgamento das dotou-o com a sexualidade animal, "que de forma alguma cor-
filhas de Lot com muito rigor só porque, não podendo encontrar responde à altura de nossa criação". Gregório vê essa dupla
esposos, engravidaram por conta própria mantendo relações sexuais decisão expressa na história da criação: "Deus criou o homem a
com o próprio pai. Esse incesto, afirma ele, foi bem mais casto do que sua imagem", diz primeiro; e então segue-se a sentença: "criou
a castidade de muitas pessoas. As esposas devem examinar a cons- o homem e a mulher" (Gn 1, 27). Isso implica, afirma Gregório,
ciência e ver se de fato só se aproximam dos maridos por amor dos que a diferenciação sexual, ser homem ou mulher, é apenas um
filhos e se, depois de conceberem, deixam de manter relações com ele, acréscimo tardio à verdadeira natureza dos seres humanos. A
como fizeram as filhas de Lot. Um grande número de mulheres, única coisa que foi feita à imagem de Deus é a natureza humana,
prossegue ele, consentem incessantemente na lascívia; são piores que não as diferenças sexuais, que são mero vestuário posterior da
animais, os quais nada mais têm a ver com as relações sexuais depois "imagem e semelhança" completas, um elemento animal desti-
de conceberem. Como afirma o apóstolo, mesmo as obras do casa- nado só aos animais (ibid. 16-17, 22).
mento devem ser realizadas para a glória de Deus. Esse é o caso Mais tarde, Agostinho e os teólogos medievais veriam a seme-
quando são realizadas com a única finalidade da procriação (ln lhança do homem com Deus só ubi sexus nullus est, onde não há
Genesim homiliae, 5, n. 4). A idéia de que é melhor ter filhos com o diferença sexual. O cerne da natureza humana, disse Agostinho, não
próprio pai do que evitar concebê-los com o próprio marido teria é tocado pela sexualidade (De trinitate XII, VII, 12). Esses teólogos
depois uma longa carreira pós-agostiniana. celibatários se perguntavam por que, logo depois de "Deus criou o
homem a sua imagem", o texto diz: "Criou o homem e a mulher",
Orígenes influenciou Gregório de Nissa (m. 395), o irmão mais já que em sua opinião não havia conexão entre a primeira e a
jovem de Basílio Magno (conhecido dos turistas modernos pelas segunda afirmação. Nunca compreenderam que a plena sexualida-
muitas catedrais de São Basílio). Gregório distanciou-se do de do ser humano único, íntegro, pessoal-espiritual é mais do que
conceito da queda das almas antes de terem sido incorporadas no sua sexualidade, mais do que sua mera capacidade biológica para
corpo humano, o que contradizia o Antigo Testamento. Mas o a reprodução. A sexualidade não é uma simples determinação
ódio de Orígenes pelo corpo continuou intacto. Gregório, que regional, funcional, mas uma característica peculiar da essência do
foi, aliás, um bispo casado, tratou de um assunto que mais tarde homem que remonta a suas origem mais primevas, psicofísicas,
iria dizer respeito a dois grandes pilares da moralidade sexual uma característica especial que ajuda a conformar, cada vez de uma
66 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 67

forma especial, todas as dimensões definíveis do ser humano, e é o homem teria permanecido livre das paixões. Teria se dedicado ao
também conformada por cada uma delas. A sexualidade não é algo que quer que escolhesse segundo o critério de seu entendimento
que uma pessoa simplesmente possua ao lado de outras coisas, mas (ibid. 12). "Olhamos para o futuro ansiando pelo tempo da
uma forma de ser fundamental em todas as coisas, e portanto algo completude, em que a vida humana tornará a ser redimida e
sem o que seus demais atos e relações existenciais não podem ser recolocada na condição original abençoada" (De hominis opifi-
concebidos e realizados. Como a sexualidade é transregional, tor- cio, 22). A ressurreição será o "retorno" à primeira modalidade
na-se extremamente difícil dar uma descrição definitiva da mascu- angelical de vida, "a restauração" de nosso estado primevo. Pois
linidade e da feminilidade humanas. Teria tal descrição de receber Cristo diz: na ressurreição eles não se casarão e nem se darão em
renovados matizes para as diferenças individuais da pessoa. E por casamento (ibid. 17).
isso as tentativas de definição sempre ficam abertas à acusação de João Crisóstomo (m. 407), o maior pregador da Igreja Oriental
confundir modelos e papéis de gênero historicamente condiciona- (chamado de chrysostomos, ou boca de ouro, desde o sexto século)
dos, ou a capacidade reprodutiva, com a essência da sexualidade, tinha uma orientação mais forte no sentido da Bíblia, embora em
ou então de dar predominância absoluta a um dos sexos e a definir muitos pontos partilhasse do pensamento anti-sexual de Gregório
o outro somente dessa perspectiva. de Nissa, por exemplo, da idéia de que Adão e Eva não praticaram
Em qualquer caso, apesar de sua hostilidade ao corpo e ao relações sexuais no paraíso. "De acordo com a vontade de Deus, o
sexo, Gregório foi impedido pela herança judaica ao cristianismo homem e a mulher habitaram o paraíso como anjos, sem serem
de incorrer completamente no gnosticismo e no ódio gnóstico da inflamados pela luxúria sensual.( ... ) Não havia desejo para o coito,
carne. O sexo, sustenta ele, foi criado por Deus (mesmo que o não havia nem concepção, nem nascimento nem qualquer espécie
tenha feito só porque anteviu a queda) e portanto é bom. Os de corrupção." Viviam na mais pura castidade "como no céu, e
órgãos sexuais são preciosos, porque com eles o homem (através eram abençoados nas relações com Deus" . A mulher foi criada por
da procriação) luta contra a morte (Oratio catechetica magna Deus para ajudar a Adão, como criatura que possuía a mesma
28). No paraíso, entretanto, a natureza animal da humanidade, natureza, dotada de razão e fala, e podia "oferecer-lhe muito
ou seja, nossa masculinidade e feminilidade, ainda não tinha consolo" (ln Genesim homiliae, 15, 3, 4). Em oposição a isso,
quaisquer conseqüências. Quando Adão andava nu, "ainda não Agostinho, que era particularmente convencido da inferioridade
coberto de peles animais, olhava no rosto de Deus, desconhecia das mulheres, ·afirmava que na solidão um homem significa mais
qualquer prazer no olhar e no provar, e simplesmente se regozi- para outro homem do que uma mulher. Por outro lado, o próprio
java no Senhor, e sua companheira o ajudava nesse mister" (De Crisóstomo obteve o consolo na solidão de uma mulher: ·do exílio
virginitate 12). escreveu 17 cartas para sua mais fiel defensora, a viúva Olímpias
Só depois da queda, diz Gregório, teve início a atual forma de de Constantinopla.
vida, a constituição animal do homem entrou em operação: os A queda pôs fim ao idílio edênico virginal de Adão e Eva.
humanos passaram a se reproduzir como animais. E com a procria- "Além daquela vida feliz, nossos primeiros pais perderam ao
ção animal, as paixões animais começaram a atuar. O homem foi mesmo tempo o ornamento da virgindade.( ... ) Depois de perderem
originalmente feito à imagem de Deus, ou seja, sem paixão. As essa indumentária real e de se verem privados da jóia celestial,
paixões não pertencem à natureza verdadeira do homem, eram a receberam em troca a destruição da morte, a maldição, as dores e a
princípio peculiares aos animais: os animais carnívoros subsistem vida laboriosa, e nas águas de tudo isso veio o casamento, essa
através da raiva, os fracos através do medo, e as espécies são vestimenta mortal e abjeta" (De virginitate 14; ln Genesim homi-
mantidas pelo anseio do prazer (ibid. 18). Como imagem de Deus, liae, 18, 1). O casamento, portanto, vem da desobediência, da
68 Uta Ranke-Heinemann . Eunucos pelo Reino de Deus 69

maldição e da morte. A castidade e a imortalidade se pertencem, o foi povoada de seres humanos, "só resta um objetivo: a prevenção
casamento e a morte se pertencem (De virginitate 14; ln Genesim da libertinagem e da lascívia" (ibid. 17, 19). "Cumpre ter uma
homiliae, 18, 4). esposa com a única finalidade de fugir do pecado e de libertar-se
Como Gregório de Nissa, Crisóstomo estava convencido de de qualquer espécie de obscenidade" (quales ducendae sint uxores,
que no paraíso ocorria a reprodução assexuada. Como isso ocorria, 5; de forma semelhante hom. in illud: propter fornicationes [1 Cor
ele não sabia: "De que casamento, então, foi gerado Adão? E que 7:2]). O casamento para Crisóstomo é uma concessão à fraqueza
dores do parto deram origem a Eva? Muitas miríades de anjos humana.
prestam homenagem a Deus e contudo nenhum deles teve sua Assim, enquanto Agostinho e a tradição que o segue conside-
existência através da propagação, através do nascimento, das dores ram a procriação como a única finalidade legítima do casamento,
e da concepção." Deus poderia de forma semelhante ter multipli- Crisóstomo vê as coisas de forma diferente. Sem dúvida, sua
cado os homens e as mulheres sem o casamento, "se da mesma terminologia (como a de Paulo em 1 Corfutios) não é bastante
forma que a Adão e Eva, se de forma diversa, não posso dizer" pessoal, mas, como Páulo, defende que o casamento existe para os
(De virginitate 14-15, 17). Crisóstomo transfere o mandamento de interesses dos cônjuges e não deve ser visto como um meio para a
Deus: "Crescei e multiplicai-vos", que foi pronunciado no paraíso procriação. Ele não proíbe a relação sexual com mulher grávida ou
imediatamente após a criação do homem e da mulher (Gn. 1, 28), que tenha passado a menopausa. Crisóstomo conhece as Escrituras
para depois da expulsão do Éden. Escreve: "Crescei e multiplicai- muito bem para dizer, como o Direito Canônico o fez até 1983: "A
vos, disse o divino Médico, quando a natureza explodiu, quando primeira finalidade do casamento é a procriação." Mais do que
não mais podia suportar a comoção das paixões e quando em meio qualquer outro Padre da Igreja antes dele, Crisóstomo via o casa-
a essa tempestade não tinha nenhum outro abrigo para fugir" (ibid. mento sobretudo como "remédio para a concupiscência" (para usar
17, 19). um termo mais recente). Mas para seus contemporâneos, os grandes
É surpreendente que Crisóstomo se apegue à idéia da castidade , Padres da Igreja como Ambrósio, Jerônimo e Agostinho, a noção
permanente de Adão e Eva no paraíso, embora tenha de fugir do' estóica do filho como o primeiro e único fim legítimo do casamento
Antigo Testamento para assim proceder. A depreciação gnóstica do é uma vez mais triunfante.
casamento e a exaltação da castidade sobrepostas à Bíblia judaica Crisóstomo, de forma cáustica - e incoerente - , condena a
são fatos evidentes na obra de Crisóstomo, embora dê diligente contracepção. Isso é uma herança do estoicismo, que Crisóstomo
atenção ao texto bíblico. O casamento é apenas as "roupas de não conseguia evitar, como tampouco conseguia evitar o ideal
crianças", que as pessoas crescidas, as que atingiram a plena gnóstico da castidade. Ao fim de seu sermão sobre Efésios 5, 22-33,
maturidade de Cristo, deixam de lado para vestirem as vestes da onde encontra um tributo esplêndido ao amor casado, diz: "Quem
castidade (ibid. 16). quer que se case dessa forma e com essas intenções não será muito
Quanto ao propósito do casamento, Crisóstomo segue as Epís- inferior aos monges e ao solteiros." Mas será inferior. Isso era algo
tolas Paulinas mais de perto do que qualquer outro Padre da Igreja. de que nenhum dos Padres da Igreja duvidava e nenhum dos
Para ele o casamento foi instituído para "a geração de filhos", mas, figurões da Igreja duvida, ainda hoje.
acima de tudo, para extinguir o fogo da natureza. Crisóstomo
lembra-nos o que Paulo diz: "Considerando o perigo da inconti- Segundo Ambrósio (m. 397), bispo de Milão, a castidade por livre
nência, cada um tenha sua mulher" - não para ter filhos. E pede escolha é uma virtude que surgiu pela primeira vez no mundo graças
aos cônjuges que se aproximem não para que se tomem pais de ao cristianismo. Dificilmente conseguiríamos imaginar hoje a im-
muitos filhos, mas para que Satanás não os tente. Agora que a terra portância do ideal da castidade nos séculos IV e V, e em que
70 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 71

profundidade influenciou a imaginação religiosa. A castidade era a pecado, mas sim como um fardo (Sobre as viúvas 13, 81). Em
virtude cristã. Ambrósio a considerava a nova e singular caracterís- relação a 1 Coríntios, Ambrósio menciona a natureza terapê_utica
tica que o cristianismo trouxe ao mundo, a concretização das do casamento: "Ao dizer que era melhor casar do que arder, o
promessas do Antigo Testamento. "Essa virtude é com efeito nossa Apóstolo estava evidentemente recomendando o casamento como
propriedade exclusiva. Os pagãos não a têm, não é praticada pelos remédio para proteger todos aqueles que, sob outros aspectos,
povos selvagens e mais primitivos. Não é encontrada em nenhum estariam em perigo" (ibid., 2, 12). Mas a verdadeira finalidade do
outro lugar entre as criaturas vivas. Embora partilhemos do mesmo casamento, segundo ele, é a procriação. Por isso condena de forma
ar das outras pessoas e participemos em todos os aspectos do corpo veemente a relação sexual com mulheres grávidas. Como os estói-
terreno, embora não sejamos diferentes dos outros em nosso nasci- cos que o precederam, cita o exemplo de animais como modelo:
mento, mesmo assim escapamos das misérias da natureza, que sob "Mesmo os animais nos mostram, com a linguagem muda de seu
outros aspectos são as mesmas, só pela castidade; enquanto a comportamento, que -são inspirados pelo instinto para manter a
castidade virginal parece tida em alta conta pelos pagãos, é no espécie e não pelo desejo sôfrego da união sexual. Pois assim que
entanto violada (embora colocada sob a proteção da religião) e notam que o ventre está grávido, não mais procuram a relação
perseguida pelas tribos selvagens e totalmente desconhecida a todas sexual e a obscenidade dos amantes, pelo contrário: adotam uma
as outras criaturas" (De virginibus, 1, 3-4).
conduta de pai e mãe. Os seres humanos, pelo contrário, não dão
Ambrósio queria que os padres deixassem de manter relações
atenção nem à criança no ventre, nem a Deus. Maculam a primeira
com suas esposas (De officiis I, 50, 248). Em numerosos escritos
e enraivecem o último. Controla teu apetite carnal e observa as
glorifica a castidade, sobretudo a ordem das virgens consagradas,
mãos de teu criador, que está formando um ser humano no ventre
que naquele tempo-pelo menos no Ocidente - ainda não viviam
da mãe. Ele está em atividade, e tu irias profanar o santuário do
em conventos, mas compunham uma classe própria na comunidade.
útero com a tua luxúria? Ou toma os animais como exemplo ou
Essas virgens, como se acreditava, levavam uma vida isolada com
as fmm1ias, dedicadas à oração, ao jejum e à santificação. teme a Deus" (Comentário sobre o Evangelho de Lucas I, 44).
Ambrósio foi à frente na condenação de Joviniano que de- Ambrósio, de forma semelhante, proíbe a relação sexual entre
fendeu que a virgindade (ou a castidade) não agradava mais a pessoas mais velhas: "Tudo tem seu tempo. ( ... ) Assim, certas
Deus do que o casamento. Além disso, duvidava que Maria épocas também foram destinadas ao casamento, em que é apropria-
tivesse permanecido virgem durante o nascimento de Jesus. da a geração de filhos. Enquanto persistir o vigor dos jovens, haverá
Depois do Papa Sirício excomungar Joviniano e seus oito segui- esperança para a bênção dos filhos ( ... ) o desejo para a relação entre
dores em Roma, comunicou a Ambrósio sua decisão. Este, que os sexos é permissível. Mas para os casais mais velhos, a própria
de início era grande inimigo de Joviniano, convocou seu próprio idade retira os limites para o desempenho nas tarefas do casamento,
sínodo em Milão e excomungou Joviniano e seus seguidores por e a suspeita de incontinência, que é e merece ser fonte de vergonha,
conta própria. O imperador Teodósio, amigo de Ambrósio, açoi- · determina que se abstenham do ato. Mesmo os casais jovens
tou Joviniano com um chicote com ponta de chumbo e o exilou costumam citar o desejo de ter filhos como justificativa, pensando
na ilha de Boa. O único relato que temos sobre a morte de que assim encontram desculpa para o fogo de sua juventude com o
Joviniano vem de Jerônimo no ano 406: Joviniano, disse, não desejo pela prole. Muito mais ignominioso seria ver pessoas mais
descansou sua alma, ele a vomitou entre carne de faisão e de velhas engajadas num ato que até as mais jovens se embaraçam em
porco" (Contra Vigilâncio 1). admitir. Mais ainda: mesmo as pessoas jovens e casadas, que
Ambrósio não diz que o casamento deve ser evitado como um mortificam seu coração na abnegação pelo temor a Deus, muitas
72 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 73


vezes renunciam àqueles atos da juventude tão logo concebem" foi criada no alto, para só então ser colocada na prática, com
(ibid. 43). resultados horríveis, pelas classes inferiores" (Heer, p. 80).
Nenhum Padre da Igreja escreveu mais ofensivamente sobre o
Como a teologia cada vez mais se tomou o assunto de celibatários, casamento ou mais desprezivelmente sobre o sexo do que Jerônimo
o pecado foi mais e mais colocado no reino do sexo. Com o (m. 420). E ao mesmo tempo nenhum Padre da Igreja foi tão querido
crescimento da neurose sexual, mediante seu empenho em tomar pelas mulheres, ou viveu tanto com elas (em proximidade física)
os leigos em monges, o cristianismo distanciou-se de suas raízes ou as amou tanto, em sua forma assexuada, quanto Jerônimo. Em
judaicas no Antigo Testamento e da vida judaica em geral. O 382, quando estava na casa dos trinta anos, foi a Roma e tomou-se
cristianismo virginal condenou o judaísmo carnal: os oito sermões o conselheiro espiritual e o centro de um grupo ascético de romanas
de Crisó~tomo dirigidos contra os judeus em 387 em Antioquia ricas e aristocráticas. Um dos membros deste círculo feminino
constituíram uma enorme calúnia. Descreveu os judeus como "car- reunido em tomo de_Jerônimo foi Paula; vinha de uma antiga
nais", "lascivos" e "amaldiçoados" . "Aqui encontramos reunido farm1ia, estava no começo dos trinta anos, viúva com cinco filhos.
o arsenal de todas as armas que foram apontadas contra os judeus A filha de Paula, a inteligente Eustáquia, aprendeu grego e hebraico
até hoje" (Friedrich Heer, Gotters erste Liebe: Die Juden im com Jerônimo para que pudesse estudar a Bíblia. Sob sua orienta-
Spannungsfeld der Geschichte, 1981, p. 67). Em 388, quando os ção, tomou-se a primeira mulher da nobreza romana a viver como
cristãos de Kallinikon, cidade sobre o Eufrates, incendiaram uma virgem consagrada. Em 383 Blesila, outra filha de Paula, morreu
sinagoga por instigação do bispo, o Imperador Teodósio ordenou aos vinte anos. Jerônimo foi acusado de deixá-la morrer à míngua
que essa fosse reconstruída à custa do bispo. Ambrósio protestou: por suas recomendações de jejum; e por ocasião de seu enterro,
"Declaro que incendiei a sinagoga, de fato, que ordenei que fizes- Roma foi varrida por forte onda de oposição à "horda detestável
sem isso para que não houvesse lugar onde o Cristo seja negado. dos monges" (Epístola, 39, 6). Em 386, Jerônimo transferiu-se com
( ... ) O que é mais importante, a noção de ordem ou os interesses da suas amigas espirituais para Belém, onde ele (com dinheiro herda-
religião?" (Epístola 40, 11). Quando o imperador hesitou, Ambró- do) e Paula (que contribuía com a parte do leão) financiaram um
estabelecimento monástico com hospedaria para peregrinos e com
sio interrompeu a missa e dirigiu-se a ele na presença da comuni-
uma escola. Paula ficou encarregada do mosteiro das mulheres,
dade reunida, dizendo que não prosseguiria enquanto o imperador
Jerônimo do dos homens (não ficavam distantes). Quando Paula
não revogasse a ordem. Dessa forma Ambrósio conseguiu que os
morreu, em 404, Jerônimo ficou tão deprimido que durante algum
cristãos incendiários ficassem livres da multa; e entrou na história
tempo se viu incapaz de trabalhar; e não resistiu por muito tempo
da Igreja como o cristão probo que se mantém firme, mesmo diante
à morte de sua "filha", Eustáquia, em 419. Suas últimas epístolas
do imperador.
deixam entrever o luto por Eustáquia.
É um erro, a propósito, achar que o anti-semitismo veio de
Enquanto ainda estava em Roma, Jerônimo teve uma disputa
baixo. Veio de cima, por exemplo, de um bispo como Ambrósio de · com um leigo chamado Helvídio, que falava sobre os irmãos de
Milão, Padre da Igreja. "Aqui também devemos continuamente ter Jesus no contexto do Novo Testamento (Me 6, Mt 13). Em 383,
em mente um fato - embora famosos teólogos, mesmo hoje, Jerônimo escreveu um texto "Contra Helvídio sobre a virgindade
falsamente aleguem que o oposto seja verdade: na Europa cristã o perpétua de Maria". As razões e as considerações exegéticas que
anti-semitismo vem de cima, não de baixo; do povo ou das classes Jerônimo cita contra Helvídio são essencialmente as que a Igreja
inferiores. Deriva da teologia, dos conceitos teológicos do mundo Católica defende até hoje. Segundo Jerônimo, Maria estabeleceu o
e da História. A imagem caricata, dominada por clichês do judeu, fundamento da castidade ou da virgindade para ambos os sexos, e
74 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 75

a superioridade moral dessa virgindade se torna clara em sua o segundo pilar, junto com Agostinho, da moralidade sexual cató-
pessoa. A realidade, porém, é outra: a virgindade não foi valorizada lica repete a mesma idéia. O casamento, afirma ele, destina-se à
porque Maria sempre foi virgem, pelo contrário: Maria foi trans- procriação, e portanto o homem que ama a esposa com muita paixão
formada numa virgem perpétua porque a virgindade era muitíssimo transgride o Bem do casamento e pode ser rotulado de adúltero
valorizada. (Summa Theologiae II/li q. 54 a.8). O Papa João Paulo II abordou
Em relação às controvérsias marianas da época, cumpre men- a noção de adultério com a própria esposa, na audiência geral de 8
cionar o Bispo Bonoso de Sárdica, que apoiava Helvídio. Como de outubro de 1980, e a confirmou (Der Spiegel, n. 4 7, 1980, p. 9).
este, Bonoso defendia que depois do nascimento de Jesus Maria Jerônimo menciona a única coisa boa que conseguiu extrair do
levou uma vida de casada normal com José e teve mais filhos. casamento numa carta a Eustáquia: "Produz virgens. Apanho a rosa
Bonoso também negava a doutrina da virgindade de Maria depois dos espinhos, o ouro da terra, a pérola das ostras" (Epístola 22, 20).
do nascimento de Jesus. Mas essa vida de casada normal de Maria Assim, diz que "a produção de filhos é permitida no casamento,
era e ainda é uma idéia imoral, intolerável aos olhos da maioria dos mas a manifestação do prazer sensual como as que se manifestam
clérigos celibatários. E por isso o Bispo Bonoso foi excomungado nos braços de uma prostituta são condenáveis numa esposa" ( Co-
pelo Papa Sirício. mentário sobre Efésios 5, 25). Jerônimo ressalta que, depois da
Em Belém (393), Jerônimo escreveu seus dois livros contra concepção, os cônjuges devem se dedicar à oração e não às intimi-
o herege Joviniano por duvidar da condição intacta de Maria ao dades físicas. O que está prescrito no mundo animal pela própria
dar à luz e por sustentar que a virgindade não era mais digna aos lei da natureza, ou seja, a renúncia ao acasalamento depois da
olhos de Deus do que o casamento. Ao defender seu ponto de fertilização, é algo que os seres humanos deveriam ratificar livre-
vista, Jerônimo atacou de tal forma o casamento que o genro de mente. Se o fizerem, receberão a recompensa celestial pela absten-
ção do prazer (ibid., 5, 25).
Paula, o Senador Pamáquio, tentou tirar todas as cópias dessa
Jerônimo oferecia um consolo às esposas: "Não nego que se
obra de circulação. Jerônimo, por exemplo, incorretamente atri-
encontram mulheres santas entre as esposas, mas só quando deixam
bui a sentença "seria bom ao homem não tocar mulher alguma" de ser parceiras, quando imitam a castidade virginal mesmo na
(1 Cor 7, 1) a Paulo, e não aos coríntios que faziam perguntas ao posição constrangedora que o casamento traz consigo" (Contra
apóstolo. Ele então escreve: "Assim há de ser mau tocar mulher. Helvídio 21). Blesila viveu esse ideal de virgindade. Depois de sete
Se no entanto a concessão é assegurada ao ato conjugal, isso é meses de casada, enviuvou e, sob a orientação de Jerônimo, dedi-
só para evitar algo muito pior. Mas que valor podemos encontrar cou-se inteiramente a Deus, ou seja, ao celibato. Em sua carta de
num bem que só é permitido com vistas a prevenir algo condolências- a Paula, escrita um mês depois da morte de Blesila,
pior?"(Contra Joviniano I, 7). Nesta polêmica Jerônimo cita Jerônimo elogia de modo enfático a falecida porque "a perda da
uma máxima atribuída a um certo Sexto, que a princípio ele virgindade causou-lhe mais sofrimento do que a morte do marido"
tomou pelo mártir Papa Sisto II (m. 258), que originalmente veio (Epístola 39, 1).
de uma compilação pagã.
A máxima de Sexto, segundo Jerônimo, diz que: "Aquele que
for um amante apaixonado demais (ardentior =ardente demais) da
própria esposa é adúltero" (ibid., 49) e isso passou a ser atribuído,
durante a Idade Média, ao próprio Jerônimo. Destinava-se a tornar-
se parte do repertório-padrão da tradição católica de ódio ao prazer
até João Paulo II, e inclusive ele. Tomás de Aquino, que constituiu
76 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 77

V 120 d.C.), o mais importante opositor do judaísmo na antiguidade


pagã. Sua polêmica contra os judeus está entre as coisas mais
amargas que escreveu. Como parte de uma longa série de críticas
que lança contra os judeus, essa "raça odiosa para os deuses",
Ü PLANEJAMENTO FAMILIAR NA também os acusa de não matarem seus recém-nascidos, por demais
ANTIGUIDADE: numerosos. Essa passagem denuncia o quão natural parecia ser nos
dias de Tácito a rejeição dos bebês indesejados ou com deficiência
o INFANTICÍDIOt o ABORTOt A física e também o fato de que os judeus eram, nesse sentido como
CONTRACEPÇÃO em tantas outras coisas, exceções à regra geral. Escreve: "Para
estabelecer sua influência sobre esse povo por todos os tempos,
Moisés introduziu novas práticas religiosas, bastante opostas às de
todas as outras religiões. Os judeus consideram profano tudo o que
consideramos sagrado; por outro lado, permitem tudo o que abo-
A questão da contracepção desempenhou um papel constante no minamo~... Também fazem a oferenda do boi, porque os egípcios
controle celibatário do sexo conjugal contrário ao prazer, sobretudo adoram Apis. Abstêm-se de carne de porco, em lembrança de uma
desde a época de Agostinho. Como a doutrina cristã nesse ponto peste, pois a sarna a que esse animal está sujeito uma vez os afligiu."
tomou forma contrariamente ao contexto do planejamento familiar. Tácito faz alusão aqui à suposta dermatose que, segundo o sacer-
pré-cristão e não-cristão, precisamos pesquisar a prática de tal dote egípcio Maneto (século III a.C.), foi o motivo por que os
planejamento no mundo antigo. Os métodos usados eram o infan- egípcios expulsaram os judeus de seu país. Essa era uma amostra
ticídio (matar os recém-nascidos), o aborto e a contracepção (ver de contrapropaganda pelos egípcios contra a história judaica do
John T. Noonan, Contraception, 19862). êxodo do Egito que teria ocorrido com a ajuda de Deus.
Só no ano 374 que, sob a influência do cristianismo, o infanti- Tácito prossegue: "Os judeus são extremamente leais entre si,
cídio passou a ser legalmente definiào como assassinato. Séneca e sempre prontos a demonstrar compaixão, mas perante todas as
(m. 65), por exemplo, considerava como episódio rotineiro em outras pessoas só sentem ódio e inimizade.( ... ) Embora como raça
Roma, como conduta sensata, o afogamento de lactentes malfor- sejam propensos à lúxuria, abstêm-se da relação sexual com mu-
mados ou doentes (De ira I, 15). Suetônio (m. século II d.C.) lheres estrang~iras; contudo entre eles nada é ilícito. [Nota: É
menciona o abandono de recém-nascidos como questão deixada a interessante que Tácito critica os judeus por seu apetite sexual sem
critério dos pais (Gaius Caligula 5). Plutarco (m. ca. 120 d. C.) limites, exatamente como os Padres da Igreja, ao promoverem o
escreve em sua biografia de Licurgo (século IX a.C.), o fundador ideal da castidade, atacariam os judeus 'carnais' por rejeitarem 0
da constituição espartana, que entre os espartanos os recém-nasci- celibato. Os cristãos adquiriram aquele ideal dos pagãos dos dois
dos eram primeiro examinados pelos anciãos, e os bebês fracos ou primeiros séculos, não dos judeus.] Adotaram a circuncisão para se
deformados eram jogados no precipício de Taygetos para que não distinguirem dos demais povos através dessa diferença. Os que se
se tomassem um fardo para o Estado. Ainda informa que as mães convertem a seus costumes seguem a mesma prática, e a primeira
banhavam os recém-nascidos em vinho, não em água, porque os 1ição que recebem é a de desprezar os deuses, repudiar seu país e
doentes e epilépticos não o toleravam e morriam (Vidas paralelas, levar os pais, os filhos e os irmãos em pequena conta. No entanto,
Licurgo 16). pensam em aumentar em número; pois consideram um crime matar
A esse respeito, há uma passagem interessante em Tácito (m. qualquer recém-nascido (póstumo ou indesejado), e crêem que as
78 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 79

almas dos mortos em batalhas ou pelo executor são imortais; daí contra a pílula e o aborto por um lado e a corrida armamentista por
sua paixão por filhos e seu desprezo pela morte... Os egípcios outro, com sua bem maior presteza em defender os que ainda não
adoravam muitos animais e muitas imagens monstruosas; os judeus nasceram em detrimento dos que já nasceram, dificilmente se nos
conceberam o deus único tão-somente, e isso só com a mente: afiguram como esquizofrênicos, tendo em vista os dois mil anos de
consideram ímpios os que de substâncias perecíveis fazem a repre- esquizofrenia. Mas o pagão Tácito presumivelmente acha os cris-
sentação de deuses à imagem do homem ... Por isso não erguem tãos notáveis pela mesma coisa que o irritava em relação aos judeus:
estátuas em suas cidades, ainda menos em seus templos; essa a incoerência.
adulação não é prestada aos reis, nem essa honra dada aos Césares ... Assim, antes que os cristãos aderissem à causa, os judeus se
O Rei Antíoco (século II a.C.) empenhou-se em abolir a superstição preocupavam com a vida de todos os recém-nascidos e de forma
dos judeus e em introduzir a civilização grega; a guerra com os semelhante se opunham ao aborto. O judeu Fílon de Alexandria (m.
partas, entretanto, impediu-o de aprimorar essas pessoas inferio- ca. 45-50), contemporâneo de Jesus, vincula expressamente o abor-
res." E Tácito chama os judeus de "povo que, propenso à supers- to ao infanticídio. Tendo declarado suas objeções ao aborto, escre-
tição, se opõe à religião" (Histórias V, 1-13). A propósito, o mesmo ve: "Ao mesmo témpo essa proibição interdita outra grande
costume que Tácito considera desprezível nos judeus, elogia nos injustiça, a saber, o abandono das crianças, um crime costumeiro
germanos. Escreve: "Estabelecer um limite para o número de filhos entre muitos outros povos em decorrência de sua desumanidade
ou matar recém-nascidos é considerado pecado, e os bons costumes inata" (Sobre as leis individuais 3, 20, 11 O). Fílon queixa-se de que
conseguem mais aqui do que boas leis noutros lugares" (Germania, existem pais que estrangulam os bebês ou penduram-lhes pesos e
cap. 19). Tácito vê os judeus como povo que gosta de guerrear, os afogam ou os abandonam em lugares desérticos para serem
fortalecidos pela fé na ressurreição dos guerreiros mortos, muito devorados por animais selvagens e por aves de rapina. Esses pais,
embora defendam claramente a proteção dos recém-nascidos. diz ele, são culpados de assassinato. Sua ofensa está vinculada à
Num questionário distribuído por Frankfurter Allgemeine Zei- lascívia, "pois são obscenos ao manter relações com as esposas não
tung, em 1984, o padre católico polonês Henryk Jankowski, con- para ter filhos e a perpetuação da raça humana, mas simplesmente
fessor de Lech Walesa e seu companheiro na viagem que fez em 11aciam sua luxúria através do coito como porcos ou carneiros"
visita ao papa, foi perguntado sobre as qualidades que mais apre- (ibid. 3, 20, 113).
ciava num homem. Respondeu: a virilidade e a coragem. As quali- Não podemos deixar de perceber que o judeu Fílon recrimina
dades que mais apreciava numa mulher eram a piedade e a vontade os pagãos obscenos que matam os filhos, enquanto o pagão Tácito
de ter filhos. A coragem masculina - significando sobretudo a r crirnina de igual modo os judeus que protegem os filhos ("entre
coragem numa batalha - e a fertilidade feminina combinam com lcs nada é ilícito", "embora como raça sejam propensos à luxú-
o antigo ideal judeu, que Tácito rejeitara, no hábito cristão. Por mais ria"). Nos primeiros dois séculos da Era Cristã, a noção de que a
aterrador que nos pareça a naturalidade com que Tácito considere ll1 ralidade era essencialmente a moralidade sexual era encontrada
o assassinato de bebês indesejáveis, e por mais gratos que nos ntre pagãos, judeus e cristãos. Foi uma herança comum do estoi-
sintamos ao judaíSil).O e ao cristianismo por terem mudado a cons- •lsmo ou do gnosticismo, preservada até hoje entre os cristãos e
ciência moral do Oéidente em sua direção, não podemos deixar de ontinua a ser o argumento preferido para desqualificar as pessoas
nos deter repentinamente ante a avaliação de Tácito do fato dos d diferentes crenças. A unanimidade de Tácito e Fílon em acusar
judeus não terem nada contra a morte nos campos de batalha, mas li ~ ponentes de obscenos ou de lascivos pode ser explicada pelo
de se oporem vigorosamente contra a limitação do número de 1 110 d que nos dois primeiros séculos da Era Cristã o desprezo pelo
filhos . Os bispos cristãos, em seu empenho atual na campanha 111p , com raízes em diversas filosofias, preparou o caminho para
80 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 81

o sistema da castidade sexual: por um lado, os que se encontravam é permitido, já que o assassinato nos foi proibido de uma vez por
além da "obscenidade" (tanto Tácito quanto Fílon se julgavam todas, mesmo destruir... ofeto no ventre. Não faz diferença destruir
pertencentes a esse grupo) e por outro os "obscenos", os lascivos, uma vida que já nasceu ou que está por nascer" (Apologiq,, 9, 7-8).
que continuavam a ter filhos, deixassem-nos viver ou não. Ao fim do século II, o advogado romano Minúcia Félix, que era
Nem Tácito nem Fílon, nem os judeus, nem os pagãos deram cristão, dirigiu-se aos pagãos nos seguintes termos: "Vejo que ora
o passo que conduziria ao desprezo dos "lascivos" rumo ao asce- abandonais recém-nascidos a feras e a aves de rapina, ora dais cabo
tismo total dos sacerdotes celibatários. Coube exclusivamente aos de suas vidas estrangulando-os. Algumas mulheres tomam remé-
cristãos considerar todas as pessoas casadas e que geravam filhos dios para destruir o germe da vida futura dentro de seu corpo.
como uma espécie inferior, mais pecadora, enquanto que os castos Cometem o infanticídio antes de darem à luz o filho" (Otávio 30,
e os solteiros eram gente de condição superior e mais santa. Foi a 2). Ambrósio (m. 397) também se refere a ambos os casos como
tendenciosidade ou preconceito cristão, noutras palavras, que lan- assassinato. Diz ele: "Os pobres abandonam os filhos, os ricos
çou os homens e as mulheres casados para uma categoria de matam o fruto de seu próprio corpo no ventre, para que sua
cidadãos de segunda classe. propriedade não seja dividida, e destroem os próprios filhos no
No início o cristianismo adotou dos judeus a rejeição pelo ventre através de poções venenosas. E antes da vida chegar ao
abandono ou a morte imediata dos filhos. Justino Mártir (m. ca mundo, é aniquilada" (Hexaemeron 5, 18, 58).
165) escreve: "Sabemos que o abandono de recém-nascidos é A 16 de janeiro de 318, o Imperador Constantino emitiu uma
também algo maligno, já pelo fato de que quase todos eles, não ordem proibindo os pais de matar seus filhos crescidos por crimes,
só as meninas mas também os meninos, são levados ao vício" (I conforme o direito da patria potestas lhes permitia. Mas só em 7
Apologia 27). Evidentemente, muitas crianças eram encontradas de fevereiro de 374, depois de mais de meio século do cristianismo
e salvas. "E além do mais, há de se temer que uma das crianças ter-se tomado uma, religião reconhecida e privilegiada pelo estado,
abandonadas, se não for acolhida, morrerá, e assim nos tomare- o infanticídio foi legalmente considerado assassinato.
mos assassinos" (ibid. 29). Lactâncio, Padre da Igreja que Cons-
tantino nomeou tutor do príncipe em 3l 7, escreve em suas m Roma havia leis que decidiam sobre o aborto (conforme vere-
Instruções divinas (304-13) sobre os pagãos: "Estrangulam seus mos, não levavam os direitos do feto em consideração, mas se
próprios filhos, ou então, se forem muito devotos para assim limitavam a proteger os direitos do marido e a vida da mãe). Mas
proceder, abandonam-nos" (5, 19, 15). no início da Era Cristã não sofreram modificação, embora desde o
O infanticídio e o aborto eram muitas vezes mencionados princípio os cristãos se empenhassem em defender o feto e comba-
conjuntamente e igualados. Na Epístola de Barnabé da primeira t r o aborto. A lei de Cornélia, que Sula sancionou em 81 a.e.,
metade do século II lemos o seguinte: "Não matarás nem o feto · ntra a compra e a ministração de bebidas envenenadas, foi
pelo aborto nem o recém-nascido" (19, 5). Em sua petição ao tplicada às poções para a potência e a fertilidade e às espécies
Imperador Marco Aurélio, o filósofo cristão Atenágoras escreve no • ntraceptivas e abortivas. Se um homem ou uma mulher que
ano 177 que os cristãos "chamam as mulheres que tomam remédios t lvcsse tomado a poção morresse, a pessoa que o forneceu era
para induzir o aborto de assassinas" e "proíbem o abandono dos xccutada. Assim, a preocupação era com os adultos, não com o
filhos porque é o mesmo que matar uma criança" (35). O Padre da r to.
Igreja Tertuliano diz em 198 que os pagãos estão acostumados a A lei do aborto promulgada pelo Imperador Sétimo Severo (m.
matar os recém-nascidos, "seja por afogamento, seja expondo-ps • 11) e por Caracala (m. 217) estipulava que a mulher que tentasse
ao frio, ou à fome, ou aos cães para que morram.( ... ) Mas não nos ,hortar a gravidez seria exilada, "pois é desonroso que uma mulher
82 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 83

negue filhos ao marido com impunidade". Tudo isso, obviamente, animais, a de Plínio (m. 79), História natural, a melhor e mais
tinha por meta proteger os interesses do marido. As mulheres abrangente enciclopédia científica da antiguidade, e a Ginecologia
solteiras que procuravam o aborto não eram punidas. Também essa do médico Sorano de Éfeso, que atuou durante a época dos impe-
lei não tratava da proteção do feto como tal. radores Trajano e Adriano (início do século II) em Roma. A Gine-
A proteção ao feto começou a ser implantada com base na cologia foi a fonte mais importante de conhecimento sobre a
crítica violenta que os cristãos faziam contra o aborto. Sabemos que contracepção para o Império Romano, como o foi para os árabes e
o aborto era comum no Império Romano, do fato, por exemplo, de através destes para a Europa medieval.
que Séneca (m. 65) elogiava a mãe porque, ao contrário de muitas Os primeiros contraceptivos que esses autores mencionam são
outras, "não destruía a esperança dos filhos concebidos no ventre" as poções. Plínio só dá uma receita: uma mistura de arruda (também
(Ad Helviam 16, 1). um abortivo), atar de rosas e aloé (babosa) (História natural 20, 51,
Desde o princípio os cristãos tomaram emprestada da tradição 142-43). Sorano trata das poções contraceptivas sob o título:
judaica essa noção para condenar de forma drástica o aborto. A "Deve-se usar drogas abortivas e contraceptivas? Como?" Alega
Didaché, também conhecida como "A Doutrina dos Doze Apósto- que são três as poções boas para o controle de natalidade: uma
los", desde a primeira metade do século II, falados "assassinos de mistura de suco de panasco, semente de arruda e de suco cirenaico
crianças, que seguem o caminho da morte, que matam a imagem misturado com cerca e servido com vinho; em segundo, uma
de Deus no útero" (5, 2). O sínodo espanhol de Elvira no começo · mistura de semente de goivo, murta, mirra e pimenta branca dissol-
do século IV condenava o aborto sob pena de excomunhão pelo vidas em vinho, para ser bebida em três dias sucessivos. Por fim,
resto da vida. Em 314, o Sínodo de Ancira estabelecia dez anos de prescreve uma mistura de mel rançoso com semen1:es de goivo e
penas eclesiásticas para as mulheres que mantivessem relações pastinaca. Sorano recomenda cautela, já que "esses medicamentos
sexuais (fornicação) e depois destruíssem as conseqüências. As n o só previnem a concepção, como também destroem o que já foi
decisões deste sínodo eram com freqüência citadas pelos concílios ncebido". Embora esses remédios pudessem também causar o
posteriores tanto no Oriente quanto no Ocidente. As Constituições uborto, se destinavam sobretudo à contracepção. Sorano adverte
Apostólicas, uma compilação do século IV, condenavam a morte qu podem causar acentuada irritação na cabeça e no aparelho
do feto já conformado (7, 3, 2). Os cânones de São Basílio (m. 379), di estivo, além de vômito (Ginecologia I, 19, 60-63).
que definiram as normas para a legislação da Igreja Oriental, O segundo método .usado na antiguidade consistia em não
condenavam sem exceção todas as mulheres que se submetiam ao ti ixar que o esperma chegasse ao útero. Aristóteles achava que a
aborto, sem levar em conta o grau de desenvolvimento do feto. O ·nnccpção ficava mais difícil tomando os lábios cervicais mais
castigo era o mesmo determinado pelo Sínodo de Ancira: dez anos , •orregadios: "Por isso é que algumas pessoas untam a parte do
depena. 1 ll r cm que o sêmen entra com óleo de cedro, pomada de chumbo,
1111 uma pomada feita de incenso e de azeite de oliva" (Sobre a
Os documentos mais antigos sobre os costumes contraceptivos vêm l,/,,•t,5ria dos animais 7, 3, 583a). Sorano recomenda uma mistura
do Egito. Trata-se de inscrições em papiro que datam dos séculos 111 11. ite de oliva velho, mel, resina de balsâmina fera ou de cedro,
XIX e XI a.e. Mencionam prescrições para tampões vaginais que p11111 H r aplicada ao útero. Também crê que lã macia aplicada ao
supostamente bloqueavam ou matavam o esperma. Os tampões 111 n ·i do útero também seja eficaz, ou lã embebida em vinho, em
eram saturados de substâncias como goma de acácia, mel e fezes 111 dis olveu casca de pinho com um agente de curtimento de
de crocodilo. A ciência greco-romana voltava-se sobretudo para 111111 r veneziano (Ginecologia I, 19, 61-62).
três obras, a de Aristóteles (m. 322 a.C.), Sobre a história do~ 11111'11 terceiro tipo de contracepção aplicava-se uma pomada
84 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 85

ao pênis. Supunha-se que ou destruísse o esperma ou, como um da menstruação, por outro lado, o útero readquire o apetite. Isso é
pessário, fechasse o útero ao entrar na vagina. Plínio recomenda demonstrado pelo fato de que as mulheres, depois,d~ menstruação,
goma de cedro (História natural 24, li, 18). estão especialmente inclinadas ao ato sexual. E mteressante, a
Além desses métodos também se recomendava outro: observar propósito, observar como as mulheres foram levadas, ou se deixa-
os períodos de esterilidade do ciclo da mulher. A escola de Hipó- ram levar, a crer que a libido é máxima durante a fase mais frutífera
crates (século V a.C.) chegara à conclusão de que o período fértil do ciclo, embora essa fase tenha variado, dependendo do estágio
se dava imediatamente após a menstruação (Doenças das mulheres da ciência médica da época. A 16 de setembro de 1968, quando o
I, 38). Sorano pensava da mesma forma. Assim diz: "O útero, em Cardeal Frings reuniu os decanos e os professores em Colônia,
que muito sangue foi coletado durante a menstruação, pode, é esperando tomar a Humanae vitae (a encíclica sobre a pílula
verdade, muito facilmente eliminar o sangue acumulado, mas é anticoncepcional) mais agradável a seu paladar, afirmou que o ato
incapaz de aceitar e acolher o sêmen." Acredita que uma ou outra conjugal era por sua própria natureza um ato cardeal de procriação,
mulher podem conceber durante a menstruação, mas "considera- já que a libido da mulher se encontrava em seu auge durante os dias
ções científicas levam à conclusão" de que o período menstrual não férteis. Até esse ponto, a opinião dos cardeais e de Sorano concor-
é a ocasião propícia para a concepção. Sorano também afirma que dam. Mas desde que a ciência deslocou a fase fértil de sua posição
o período antes da menstruação é desfavorável para a concepção, indicada por Sorano, também foi deslocada a suposta libido máxi-
pois o útero já está acumulando substâncias em seu interior e ma natural. A libido feminina evidentemente segue o conselho dos
portanto tem dificuldade de aceitar o sêmen. A melhor ocasião para cientistas. O auge da libido é uma construção dos moralistas, e as
a concepção, diz ele, é imediatamente após a menstruação (Gine- mulheres o localizam onde é mais recomendável, ou então onde e
cologia I, 1O, 36). quando é proibido, caso a mulher não deseje engravidar: as proibi-
Um assunto de amplo interesse na antiguidade era a euteknia, ·ões também estimulam a libido.
a bênção de filhos bons e sadios. O primeiro elemento importante Por fim, o mundo antigo estava familiarizado com o emprego
na euteknia era a idade dos pais. Segundo Platão, o homem gera a de amuletos. Sorano rejeita-os com desprezo (Ginecologia I, 19,
melhor prole entre os trinta e os trinta e nove anos de idade, a mulher 63). Mas seu julgamento não conseguiria erradicar a fé nesses
entre os dezesseis e os vinte. Aristóteles recomenda "estabelecer a cursos. Plínio recomenda que as mulheres "que têm filhos enxa-
idade de casamento para as meninas aos 18 anos, para os homens m ando a sua volta e cuja fertilidade esteja necessitando de trata-
aos 37 ou um pouco menos". Xenofonte elogia as leis de Licurgo m nto" usem um amul~to feito de um certo tipo de aranha. Devia
(fundador da Constituição Espartana) e as medidas que tomou para r preso a uma peça do vestuário (pele ou couro de cervo) e
que os pais de boa saúde gerassem prole sadia. Não se permitia às ·oi cado antes do nascer do Sol (História natural 29, 27, 85).
garotas que desejassem ser mães beber vinho a não ser diluído em coito interrompido não é mencionado nas obras científicas
água. Também deviam praticar esportes. Licurgo "instituiu corri- dm, nutores greco-romanos, seja porque era tomado como certo,
das e concursos de força entre mulheres à semelhança dos existen- t 1 , p rque já então as pessoas preferissem recomendar métodos
tes para os homens". 1,111· tudo usados pelas mulheres.
O melhor momento para conseguir a euteknia, diz Sorano, é 1
mo as poções contraceptivas também tinham efeitos aborti-
imediatamente após a menstruação: a pior prole nasce de relações v,, , ·nusavam problemas para a medicina antiga. Sorano, o mais
mantidas imediatamente antes. Pois assim como o estômago, quan- h11p, rtante autor nesse campo, dizia que enfrentara esse problema
do cheio de alimento, fica predisposto ao vômito, a fim de elirrnnar 11111 todas as poções que prescrevia. Sorano foi fortemente influen-
seu conteúdo, o mesmo se dá com o útero cheio de sangue. Depois 1 udo p •lo estoicismo, e por isso sua permissão para o aborto era
86 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 87

rígida: só o permitia quando o parto significasse perigo para a mãe. Depois dessa infâmia, depois da morte e da bruxaria, esse negócio
Para ele, a contracepção era melhor do que o aborto (Ginecologia parece ser inócuo para muitos homens, mesmo para aqueles que
I, 19, 60-61). têm esposa. E entre os últimos surge todo um manancial de malícia,
Mesmo durante a Era Cristã do Império Romano, Sorano já que as poções são preparadas não para prejudicar o ventre da
desfrutou de grande prestígio. Tertuliano fez uso de um de seus prostituta, mas a esposa ofendida( ... ) guerras sem fim, lutas pere-
escritos. Mesmo Agostinho, o grande opositor da contracepção, o nes, e as brigas e discussões são a ordem do dia" (Homilia 24 sobre
chama de "notabilíssimo autor médico" (Contra Juliano 5, 14, 51). a Epístola aos Romar/,Os). Crisóstomo tomou mais aguda ainda essa
E o médico cristão do imperador cristão e legislador Justiniano investida histórica, ao caracterizar a contracepção como "assassi-
(século VI), o alto dignitário Aécio, inclusive arrola os contracep- nato, e pior que assassinato", assim superando todos os escritores
tivos recomendados por Sorano - e os recomenda. Isso sugere que do mundo greco-romano, dos quais nenhum igualou o sêmen a um
os cristãos, nos primeiros séculos, eram mais livres sobre a questão ser humano.
do controle de natalidade que os católicos de hoje. O médico casado O ponto de vista prevalente na antiguidade foi a noção de
Aécio sem dúvida julgava a questão com menos rigor do que os Aristóteles de que a alma do feto masculino só ocorria depois de
Padres da Igreja celibatários, como Crisóstomo e Jerônimo, que quarenta dias da concepção, enquanto o feto feminino a adquiria só
tinham posição firmada sobre a contracepção. noventa dias depois. Antes o feto tinha primeiro uma alma vegetal
Crisóstomo fala de casais que não querem filhos e portanto e só então uma alma animal (Sobre a história dos animais 7, 3,
"matam o recém-nascido" ou "frustram o começo da vida" (Horn. 28 583b). Essa diferença temporal na gênese da alma do homem e da
sobre Mt 5). Não está claro se essa "frustração" se refere ao aborto ou mulher não seria apenas uma questão cronológica, mas de qualida-
à contracepção. Crisóstomo fala de forma inequívoca sobre a contra- de humana, já que a alma pertence antes ao homem e só depois à
cepção noutra passagem. Ao referir-se aos maridos cristãos que "des- mulher. A alma, ou seja, a essência da humanidade, é algo mais
prezam as esposas e procuram prostitutas", adverte-os: "Por que masculino do que ferrrinino.
espalhais o sêmen em campo destinado à destruição do fruto, onde Uma idéia semelhante sobre a inferioridade das mulheres pro-
todos os meios para frustrar a gravidez são empregados, onde o v welmente subjaz ao Antigo Testamento: segundo o Levítico 12,
assassinato é perpetrado antes do nascimento ocorrer? Não só fazeis 1-5, a mulher fica impura durante quarenta dias depois do nasci-
da meretriz uma meretriz, como também a tomais uma assassina. ( ...) 111 nto de um filho, e oitenta dias depois do nascimento de uma filha.
Há com efeito algo pior do que o assassinato-não sei como chamá-lo . <>s noventa dias antes do surgimento da alma feminina em Aristó-
-porque essas mulheres não matam algo que já adquiriu forma, mas 1 1 s e os oitenta dias de impureza no Antigo Testamento se fundem
impedem-no de adquiri-la. Desprezais a dádiva de Deus e combateis 1111 tradição cristã, d~ sorte que uma alma era atribuída ao feto
suas leis? Fazeis da antecâmara do nascimento a antecâmara da f minino oitenta dias depois da concepção.
carnificina? A mulher, feita para a reprodução, se toma, por vossa · De acordo com essa idéia sobre a animação sucessiva, o termo
causa, um instrumento de assassinato. Pois ela é perita nesse tipo de 11
1 sa sina" era incorreto não só em relação à contracepção como
ato e com ele prepara a vossa destruição, para que possa ser sempre 111111 m em relação ao aborto precoce. Agostinho segue a biologia
desejada e usada pelos amantes, para que possa arrancar mais dinheiro 1 t té lica ao escrever que nenhuma alma pode viver num corpo
deles. E mesmo que a destruição advenha dela, sois culpados. Aí 11 11 f rmado, e portanto não se pode falar em assassinato aqui
também surge a adoração de ídolos. Para se embelezarem, muitas (, 'oh1r> o ixodo 21, 80). Jerônimo também fala numa epístola a
dessas mulheres usam de magia, de bebidas de oferecimento, de 1 11 la: " O sêmen gradualmente toma forma no útero, e não se
poções mágicas, de poções venenosas e de outras coisas incontáveis. l'ml l'ular em assassínato até que os diversos elementos tenham
88 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 89

adquirido seu aspecto característico e seus membros'' (Epístola da sexualidade. Conforme declarou o historiador vienense Frie-
121, 4). drich Heer: "O processo catastrófico da dessexualização do
Entretanto, Jerônimo também é incoerente e fala exagerada- amor ganhou forte ímpeto no Ocidente através de Ag~stinho"
mente de "assassinato" com referência à contracepção. Numa carta (Gottes erste Liebe: Die Juden im Spannungsfeld der Geschich-
a Eustáquia, adverte sobre algumas virgens consagradas: "Algu- te, pp. 69, 71).
mas inclusive asseguram a esterilidade pela ajuda de poções, assas- Agostinho foi o grande criador da imagem cristã de Deus, do
sinando seres humanos antes de serem concebidos. Outras, quando mundo e da humanidade que é ainda amplamente aceita hoje em
descobrem que estão com um filho em decorrência do pecado, dia. Herdou o desprezo pelo sexo que satura a obra dos Padres da
praticam o aborto com drogas, e muitas vezes causam a própria 1 reja, tanto antes quanto em seus dias, e a ele acrescenta um novo
morte, levando consigo para o mundo inferior a culpa de três fator: uma ansiedade sexual pessoal e teológica. Associou a trans-
crimes: suicídio, adultério contra Cristo e o assassinato de uma 1 1i são do pecado original, que desempenha enorme papel em seu
criança" (Epístola 22, 13).
l tema de redenção, com o prazer da relação sexual. Para ele, o
p cado original significa a morte eterna, a condenação para todos
os que não forem redimidos pela graça de Deus da massa damnata,
qual todas as pessoas pertencem. Agostinho insiste em que nem
VI todos serão redimidos, por exemplo, as crianças sem batismo estão
p rdidas.
ra tão aferrado à condenação das crianças não batizadas, que
AGOSTINHO um de seus opositores, o Bispo Juliano de Eclano, um pelagiano,
11111 a-o com veemência: "Agostinho, estás por demais afastado dos
nti mentos religiosos, do pensamento civilizado, de fato do bom
n, sadio, se julgas que o teu Deus é capaz de cometer crimes
unira a justiça que são dificilmente imagináveis mesmo por bár-
Ü homem que fundiu o cristianismo com o ódio ao sexo e ao 111ros." Juliano chamava ao Deus de Agostinho "um perseguidor
prazer numa unidade sistemática foi o maior dos Padres da Igreja, 1111 r cém-nascidos, que lança ao fogo eterno bebês pequeninos'.'
Santo Agostinho (m. 430). Sua importância para a moralidade ( 011tinho, Opus lmperfectium Contra Juliano I, 48).
sexual cristã não é questionada e constitui o fundamento para a A ·ostinho certa vez contou a seguinte história a seus paroquia-
condenação da contracepção "artificial" por Paulo VI (1968) e por du rante um semião: Uma criança morreu enquanto ainda
João Paulo II (1981). Agostinho é o pensador teológico que pavi- 1 1in instruções para o batismo. Noutras palavras, era um cate-
mentou o caminho não só para os séculos como também para os ' 111 no. Desesperada por causa da condenação eterna, a mãe
milênios que se seguiram. As posições assumidas por ele tiveram li 1111 cadáver para o túmulo de Santo Estêvão. A criança des-
influência decisiva sobre os grandes teólogos medievais, por exem- 1' 111111 du morte, só para ser batizada e tornar a morrer, na certeza
plo, Tomás de Aquino (m. 1274), e sobre o jansenismo, aquele 1 ll I ntt o evitado a "segunda morte", ou seja, o inferno (Serm.
renascimento do puritanismo extremo da França nos séculos XVII ' \ \24) .
e XVIII. A autoridade de Agostinho no reino da moralidade sexual ( > 1~ n mado professor de teologia de Paris J ohannes Beleth (m.
foi tão avassaladora que teremos de olhar mais de perto suas idéias. 11 11h' ) proibia que gestantes mortas fossem veladas na igreja, já
Como muitos outros neuróticos, ele separa de forma radical o amor qll o l'llh ainda não nascido não fora batizado. Antes de essas
90 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 91

mulheres serem enterradas em cemitério sagrado, a criança tinha tudo porque constantemente a confundem com a concepção virgi-
de ser removida do corpo e enterrada fora do cemitério. Felizmente nal. Muitas pessoas acreditam que o dogma da Imaculada Concei-
esse costume devoto não foi praticado em todos os lugares. As leis ção se refere à época em que Maria concebeu Jesus pelo E;spírito
da Igreja na Noruega, por exemplo, proíbem expressamente a Santo. Mas na realidade se refere ao momento em que a própria
operação (Peter Browe, Beitrage zur Sexualethik des Mittelalters, Maria foi concebida por sua mãe sem pecado original. Enquanto a
p. 23). Mas a simples existência da proibição denota a coerência Igreja aderiu, com Agostinho, à idéia de que o pecado original era
espantosa da doutrina de Agostinho sobre o pecado original. transmitido pelo ato da concepção, era impossível falar da concep-
Pelágio e Juliano de Eclano entraram para as páginas da história ção imaculada de Maria. Para Agostinho, só Jesus estava livre do
da Igreja como grandes hereges. Agostinho, porém, com sua dou- pecado original, por ter vindo ao mundo sem qualquer ato sexual.
trina desumana, permaneceu até hoje como a força espiritual deter- E por outro lado, para ficar livre do pecado original, teve que vir a
minante, embora a Igreja comece vagarosamente, apesar dele, a sse mundo através da concepção virginal.
deixar que as crianças não batizadas entrem no reino dos céus, Em 1140, Bernardo de Claraval, ardoroso devoto de Maria,
afinal. Há não muito tempo Karl Rahner perguntou: "Terá sido decisivamente opôs-se à instituição de uma festa em Lião em honra
falso o argumento de Pelágio e de Juliano de Eclano contra o da Imaculada Conceição de Maria. Para ele, se Maria fora preser-
aparente triunfo universal de Agostinho? Não terão sido eles justi- v da do pecado original, então também se devia presumir que fora
ficados em muitos aspectos depois, num lento desenvolvimento que r sultado de uma concepção virginal.
durou até hoje?" (Theologie der Gegenwart, 1977, 2, 76). Agostinho foi o pai de uma ansiedade de 1.500 anos diante do
Há outro ensinamento de Agostinho que também teve conse- xo e de uma hostilidade persistente a ele. Dramatiza o medo do
qüências devastadoras, a saber, a doutrina da maneira pela qual o pr zer sexual, igualando prazer com perdição, de tal forma que
pecado original é transmitido às criancinhas, ou seja, a todos. qu m tentar acompanhar seu raciocínio terá a sensação de se ver
Agostinho ensinava que quando Adão e Eva desobedeceram a Deus p so num pesadelo. Impôs tal carga moral sobre o casamento que
e comeram do fruto proibido do paraíso, "Sentiram vergonha e 11 o nos surpreende quando pessoas artificialmente oprimidas por
cobriram o sexo com folhas de figueira". Conclui dessa passagem ln s viam estimuladas a rejeitar inteiramente a moralidade sexual
que "eis de onde vem" (ecce unde). Quer ele dizer que o que ambos r ,l .
tentavam ocultar era o lugar por onde o primeiro pecado foi Por mais significativa que possa ter sido a conversão de Agos-
transmitido (Sermons, 151, 8). Assim, segundo Agostinho, a rela- 1h lw (387) para a teologia, foi um desastre para as pessoas casadas.
ção sexual, ou mais precisamente o prazer sexual, é o que transmite 1r pnr u-se para a conversão rejeitando, aos 29 anos, a mulher com
o pecado original continuamente, de geração a geração. "Cristo foi 11111 Ili vi vera por 12 anos, e que lhe deu um filho, Adeodato (=dado
gerado e concebido sem qualquer prazer carnal e por isso perma- 1111 1) u ), quando tinha apenas 17 anos. Ficou com o menino,
neceu livre de qualquer espécie de profanação pelo pecado origi- 11q1111nto a mulher ( "foi ela que surgiu em meu caminho por causa
nal" (Enchiridion 13, 41). 11 llll us desejos errantes e minha falta de sensatez e critério;
Numa época de ansiedade perante a Aids podemos imaginar o t tu tnnt , só tive essa mulher"), cujo nome ele nunca menciona,
que significava pensar e sentir que o prazer sexual contaminava a 111 111 qu lhe seria fiel mesmo depois de mandada embora. Refe-
criança com o pecado original. Esse elo entre prazer e pecado só 1 110 r (acionamento com ela como "um mero pacto entre duas
foi definitivamente abandonado no século passado. Por isso a 11 ujoamoréobscenoequenãoqueremterfilhos-embora,
"Imaculada Conceição" não foi considerada um dogma até 1854. 1 111 fi lhos, eles nos compelem a amá-los" (Confissões, IV, 2,
Essa doutrina é conhecida dos homens e mulheres de hoje, sobre- , I' trópolis, 10ª edição, 1990).
92 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 93

Agostinho praticou rigorosamente a contracepção, observando issa é uma das muitas justificativas que alguns teólogos tentaram
os dias de infertilidade da companheira, embora tivesse frustrada tardiamente conceder ao grande Padre da Igreja.) Pelo contrário, o
sua vigilância por um erro de cálculo que o abençoou com Adeo- principal motivo foi que, durante a época de seu caso amoi:oso, ele
dato. Mas depois da conversão tomou-se um opositor fanático de p rtencia , à seita gnóstica dos maniqueus, que tiveram muitos
todo o tipo de contracepção. A razão em parte pela qual pretendia guidores entre as classes cultas mas que era proibida pelo Estado
evitar a gravidez durante o caso amoroso estava no fato de que não rnmano por praticarem a contracepção e o aborto. Fundado pelo
estava disposto a se casar com a mulher que não pertencia a sua p •rsa Mani (nascido ca. 216 d.C.), o maniqueísmo foi o último
classe social. Sua mãe, Santa Mónica, lutou contra a ligação, e mnde movimento religioso no Oriente depois do cristianismo e
cuidou para que a concubina fosse mandada de volta à África, pois untes do islamismo. Mani se apresentava como o Espírito Santo
ela estava preparando o filho para um casamento condizente. Mas prometido por Jesus. Segundo ele, a terra era o "reino das trevas
a noiva rica escolhida por Mónica ainda não estava em idade ·de Infinitas" criadas pelo demônio. A procriação era um ato diabólico,
casar. Agostinho teria de esperar mais dois anos por ela, por isso porque o homem era uma partícula de luz aprisionada num corpo
ficou com outra amante. "A mulher com quem eu tinha o hábito de mdo por demônios. Os maniqueus, como todos os anteriores
dormir foi embora por ser um empecilho a meu casamento, e meu 116sticos rigorosos, rejeitaram o Antigo Testamento, por este vin-
coração, preso ~ ela, foi ferido e magoado e dele pingava sangue. •11 lnr o Deus bom com a criação do mundo,já que consideravam o
Ela retomou à Africa depois de ter feito uma promessa a ti (Deus) mundo e o corpo provindos do demônio maligno.
de que nunca mais dormiria com outro homem, e fiquei com o filho Lxigiam o mais completo ascetismo de seus membros, "os
natural que tive dela. Mas eu, em meu infortúnio, não poderia seguir 1 li , ". Mas só algumas pessoas eram capazes disso. A maioria
o exemplo de uma mulher. Tive de esperar dois anos até que pudesse 11 1t ncia a uma segunda classe inferior de maniqueus, que eram,
ter a moça com quem estava comprometido, e não consegui supor~ 11111 Agostinho, simples "ouvintes", ou seja, viviam com esposas
tar a demora. Assim, como eu era menos ur1 amante do casamento 1111 nmantes, mas empenhavam-se em evitar o encarceramento do
do que um escravo da luxúria, encontrei para mim outra mulher. 1111111 m espiritual, a procriação. Depois da conversão, a afirmação
( ... ) Nem cicatrizou a ferida causada pela separação de minha. h, prnzer e a negação da procriação, que marcou seu período
amante anterior. Queimava, doía intensamente, e então supurava, e · 1111111lqucu, tomou-se uma afirmação da procriação e a negação do
quando a dor se tomava mais surda, tanto mais desesperado eu 111111.l r: o maniqueu tomou-se cristão.
ficava" (ibid. VI, 15). 1im certo sentido ele tàmbém se transformou, passou de mani-
Depois de sua conversão, sua consciência arrependida ante sua 1111 11 de segunda classe para o de primeira, porque cristãos e
própria traição para com a primeira amante transformou-se num 1111111 qu us concordavam em que o celibato era condição superior
desprezo pelo amor sexual em geral. Culpado como deve ter-se dn •111iamento simples (em que os cristãos tinham filhos e os
sentido, julgava que a culpa estàva menos em si mesmo do que no . 1111111 q11 LlS praticavam o controle da ·natalidade). Uma das razões,
prazer maligno do ato sexual. A moralidade sexual pessimista de 111111111 , por que o maniqueísmo teve tantos seguidores no tempo de
Agostinho é simplesmente uma repressão de sua consciência sexual 11 1l11h estava em que com seu ideal de castidade combinava
arrependida, sua aversão às mulheres uma revelação contínua da 111 111 •om o cristianismo e era visto por muitas pessoas como uma
causa responsável por seu próprio fracasso. 111111111 impcrior da fé cristã.
A aversão de Agostinho à concepção não se deveu meramente 1 >11rnnt·c o doloroso período em que passou com a segunda
ao fato de ele não desejar casar-se com a amante. (Não é verdade, 1 11111111, , /\ ostinho ocupou-se com a filosofia neoplatónica, sobre-
a propósito, que ele não pudesse desposá-la "por razões legais". t11d11 l'OIH Plotino. Plotino combinava a fuga gnóstica do mundo e
94 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 95

o reconhecimento de sua futilidade com o conhecimento do Deus para a do ódio ao prazer, ocorreu ao classificar as mulheres de
verdadeiro uno e bom. Ao contrário dos primeiros gnósticos e estimulantes, ignorando-as como companheiras. E até hoj~ o celi-
maniqueus, ele não atribui o mal a um princípio malévolo autôno- bato masculino do clero ainda está colocando as mulheres em seu
mo, mas o considera como um desvio da Verdade e do Bem. A lugar. No sábado de Aleluia, em 387, Agostinho foi batizado,junto
tendência ascética e neoplatônica de Agostinho, sua vontade e com seu filho Adeodato, por Ambrósio, o panegirista da castidade,
determinação de romper com todas as coisas terrenas e tudo o que a quem ele muito reverenciava. Três anos depois, Adeodato, rapaz
era querido neste mundo, sua mudança em direção ao Deus uno e de 18 anos, sem mãe, morreu, "o filho de minha carne, gerado por
verdadeiro, acabou desviada para uma versão escapista do cristia- mim em meu pecado" (ibid. IX, 6). Agostinho amava-o ternamente.
nismo em conseqüência de uma visita fortuita. Certo dia um com- Em quase todos os manuais católicos de teologia, lemos que
patriota seu da África, Ponticiano, apareceu inesperadamente e como cristão Agostinho defendia a "santidade do casamento"
chamou-lhe a atenção para o primeiro monge, o egípcio Antônio contra os maniqueus. Mas isso tem de ser corrigido: ele simples-
(ca. 300), cuja vida, escrita pelo Padre da Igreja Atanásio (m. 373), mente defendia a procriação conjugal contra os maniqueus. Ne-
vinha sendo cada vez mais disseminada no Ocidente e já encontrara nhum dos Padres da Igreja chegou a ter qualquer idéia sobre o que
muitos imitadores. Agostinho ficou profundamente impressionado. de fato era o casamento, muito menos Agostinho, nem durante seu
E quando Ponticiano o deixou, disse a seu amigo Alípio: "O que é p •rfodo maniqueu, quando viveu com a amante, e por certo nem
que está errado conosco? O que foi que ouviste? Os incultos •rn seu período monástico-episcopal, depois de se tomar cristão.
progridem e se refugiam nos céus à força, enquanto nós (olha para O método de contracepção que era usado pelos maniqueus e
nós!) com todo nosso conhecimento chafurdamos na carne e no que Agostinho submeteu a uma saraivada de críticas e desprezo é
sangue" (ibid. VIII, 8). Segue-se a famosa cena no jardim, que n único que hoje tem a bênção da Igreja. No sínodo episcopal
ocorreu em Milão em 386, a conversão imediata de Agostinho ao 1 nlizado em 1980 em Roma, em que a contracepção foi rejeitada
cristianismo. Isso se enquadra no processo de repressão da traição d forma veemente, só esse método recebeu a aprovação das
de sua amante em favor de uma conversão ao ascetismo ou, 1111loridades superiores. Por volta desse período apareceu em noti-
concretamente, uma depreciação do casamento perante o celibato. ·I rios da televisão um casal católico (uma espécie de casal modelo
Enquanto estava no jardim, Agostinho ouviu a voz de uma 11111 ·o-cervical-Ogino-Knaus), que fora chamado para aconselhar
criança cantando: "Toma e lê, toma e lê." Ele pegou a Bíblia, que p ssoalmente o Papa João Paulo II.
estava aberta ali no jardim, e leu: "Comportemo-nos honestamente, seguinte trecho não tem a intenção de criticar essa forma de
como em pleno dia: não vivendo em orgias e bebedeiras, em t 1111trncepção, embora Agostinho fosse receber esse casal, curiosa-
concubinato e libertinagem; em contendas e ciúmes. Ao contrário, 111 nl , não como um modelo papal, mas como "adúlteros" e
revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne para. "1th rtinos". Essa a linha na qual ataca os maniqueus: "Não nos
lhe satisfazer os apetites" (Rm 13, 13-14). A imagem do inimigo é 1111 v ri istes antes que observássemos o mais possível a época depois
clara: a luxúria, o prazer maligno, o desejo sexual, o apetite carnal. 1I , p •rfodo mensal, quando se espera que a mulher conceba, e nos
Diz Agostinho: "Foi como se meu coração se enchesse da luz da nh tiv ssemos das relações nesse período, para que a alma não se
confiança e como se todas as sombras de minha dúvida fossem 1, ncarcerada na carne? Conclui-se disso que, na vossa opinião,
varridas definitivamente ... Pois tu me converteste de tal modo que , , 11 11n nto não foi criado para ter-se filhos, mas para satisfazer
não mais procurei esposa nem qualquer outro desejo mundano" 11 d • •j s" (A moralidade dos maniqueus 18, 65).

(ibid. vm, 12). No·s dias de Agostinho, a profissão médica estava convencida
A conversão de Agostinho ao cristianismo, do amor ao prazer d 'llll u fa e mais fértil do ciclo de uma mulher se dava imediata-
96 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 97

mente após a menstruação. Noutra passagem Agostinho ataca a seguem entender a diferença metafísica entre os métodos 'naturais'
mesma questão ainda com maior vigor: "O nascimento de filhos é e os 'antinaturais'." Enquanto para Agostinho a contracepção é
o que mais abominais no casamento, e assim transformais vossos contra-cepção, o papa pede aos teólogos para que descubram a
'ouvintes' em adúlteros das próprias esposas, quando eles estão diferença onde não há nenhuma, teologicamente falando, sendo
alertas para que as mulheres não concebam.( ...) Não desejam ter tão-somente médica a única distinção. Podemos nos dar por felizes
filhos, único propósito por que contraíram o casamento. Por que por termos ao menos a permissão para o método do ritmo ou da
então não fazeis parte do número daqueles que proíbem o casamen- tabela - na Igreja Oriental a hierarquia ainda se encontra bastante
to( ... ) se tentais excluir dele o que o constitui em primeiro lugar? fixada em Agostinho, e não fez tanto progresso quanto a Igreja
Pois se o excluís, os maridos se tornam amantes vergonhosos, as Ocidental - mas o progresso perante Agostinho não deveria con-
esposas prostitutas, os leitos nupciais leitos de bordel, e os sogros sistir na escolha e na bênção papal de um método, através de uma
cáftens" (Contra Fausto, 15, 7). lógica esticada. Pelo contrário, ele deveria enfim deixar a questão
Foi absolutamente de acordo com Agostinho, Tomás, Jerôni- inteira nas mãos das pessoas casadas, a quem interessa o assunto
mo, com os estóicos, com Fílon, em suma, com toda a tradição em primeiro lugar.
anti-sexual que a 8 de outubro de 1980, numa audiência geral em Depois de 1981 o papa uma vez mais fez um pequeno desvio
Roma, o papa falou sobre o adultério com a própria esposa. Mas o na questão do ritmo. A 6 de setembro de 1984, de novo durante uma
papa não se referiu, como fez Agostinho, aos que empregavam o de suas audiências gerais semanais, em meio a uma série de doze
método do ritmo; ele só se referiu aos que faziam uso dos supostos discursos sobre o controle da natalidade, mais precisamente no
"métodos antinaturais". Agostinho referia-se ao método da tabela oitavo, João Paulo II advertiu os fiéis para não "usarem erradamen-
como o "método do cáften", ao passo que o Papa João Paulo II, 1 " o método aprovado pela Igreja de controle de natalidade. Isso
em Familiaris consortio ( 1981 ), não o cita sob o tópico da contra- oconteceria se os casais tentassem "por motivos desonestos" man-
cepção, e faz sua propaganda exagerada em linguagem hínica: "A 1 r (o número de filhos) abaixo da taxa de nascimentos moralmente
opção pelos ritmos naturais implica a aceitação dos tempos da ·orreta para sua família. Na realidade, o papa nem deveria interferir
pessoa, da mulher, e por isso também a aceitação do diálogo, do nu questão dos métodos, nem falar sobre o número de filhos
respeito mútuo, da responsabilidade comum." Quer dizer: "Viver " moralmente correto", nem supor como "desonestos" os motivos
o amor pessoal em sua reivindicação de fidelidade." los casais.
Só quando trata dos demais métodos de controle contraceptivo Ao contrário do papa, portanto, Agostinho não dividiu a con-
é que o papa retorna à linha agostiniana, ao falar de "uma falsifi- 1ru • pção em duas categorias, a permitida e a proibida: tudo era
cação da verdade interior do amor conjugal", porque "subordinam proibido. Ele ataca sobretudo o método hoje aprovado por João
o plano de Deus à arbitrariedade e manipulam e degradam a 1nul II, porque seus opositores, os maniqueus, e ele próprio na
sexualidade humana". Em Familiaris consortio o papa exorta ·os · uv ntude o empregaram em detrimento dos outros. Mas há tam-
teólogos a "elaborarem a diferença antropológica e moral entre a h lll passagens em que ele se refere aos supostos métodos artifi-
contracepção e o recurso ao ritmo". 11 : "Às vezes (aliquando) essa atrocidade obscena ou essa
Os teólogos devem se sentir sobrecarregados pela exigência do , ,I , nidade atroz chega ao ponto de as pessoas adquirirem venenos
papa - ele terá de elaborar essa diferença por conta própria 1111111 1 infertilidade (sterilitatis venena) ... para que a esposa se
exclusivamente. Porque, para citar o teólogo alemão moralista mais 111111 forme na prostituta do marido, ou para que ele cometa o
conhecido, Franz Bõckle: "Não nos devemos surpreender quando mlult ri com a própria esposa" (Casamento e libertinagem I, 15,
pastores perturbados e a maioria dos leigos pressionados não con- I /) 1iss princípio desempenhou importante papel na luta da Igreja
98 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 99

contra a contracepção. Foi citado em 1962, durante o Concílio olhos do Senhor, e o Senhor o feriu de morte. Então Judá disse a
Vaticano II, por exemplo, pelo Cardeal Ruffini, arcebispo de Paler- Onã: 'Vai, toma a mulher de teu irmão, cumpre teu dever de l~virato
mo, na Basílica de São Pedro, para condenar a pílula. e suscita prole para teu irmão.' Mas Onã, sabendo que essa prole
Mas outra passagem em Agostinho sobre a contracepção teve não seria sua, derramava o sêmen por terra cada vez que se unia à
um destino pelo menos tão desastroso quanto as outras já mencio- mulher de seu irmão, a fim de não dar descendência ao irmão. Seu
nadas. Disse ele: "É condenável e vergonhoso praticar o coito com comportamento desagradou ao Senhor, que o feriu de morte tam-
a própria esposa e ao mesmo tempo impedir a concepção de filhos. bém." Agostinho citou essa passagem como advertência contra a
Foi o que fez Onã, filho de Judá, e por isso Deus o matou"' (As unticoncepção, porque ela se enquadra em sua campanha anticon-
relações adúlteras 2, 12). O fato de Onã ter morrido depois de traceptiva. Outros, como Jerônimo e Tomás de Aquino, foram mais
praticar o coito interrompido, o que desagradou a Deus, há muito ·autelosos e não a empregaram.
neurotiza muitos casais que foram persistentemente repreendidos Os maniqueus queriam interromper a procriação para que não
com essa passagem neste século, sobretudo pelo Papa Pio XI. Em mais as centelhas de luz ficassem aprisionadas na matéria diabólica.
1930 disse ele: "Portanto, não admira que as Sagradas Escrituras Mesmo assim permitiam que os adeptos de segunda categoria, os
atestem que a majestade divina persiga essa conduta repreensível humados "ouvintes", se casassem, se não gerassem filhos. Mas
com ódio supremo, pois de fato Deus já a puniu com a morte. pura Agostinho, convertido, a procriação tomou-se o único objetivo
Agostinho chama a atenção para esse fato ao escrever: 'O coito propósito do casamento, à medida que via o prazer como diabó-
conjugal, mesmo com a esposa legítima, é proibido e imoral quando 1 '( • "Estou convencido", escreveu ele, "de que nada afasta mais
se evita o despertar de uma nova vida. Isso é o que Onã, filho de 11 Npfrito do homem das alturas do que os carinhos da mulher e
Judá, fez e por esse motivo Deus o matou"' (Casti connubii, 1930): nqu lcs movimentos do corpo, sem os quais um homem não pode
Deus persegue "com ódio supremo" os que praticam a contracep- 1o uir sua esposa" (Solilóquios I, 10).
ção. Isso o papa acrescentou graças a sua rica inventividade, A bondade da procriação e a maldade do prazer foram as duas
intensificando uma história que já é chocante. missas gêmeas que levaram Agostinho às suas exigências rigo-
O papa deliberadamente omite o fato de que a ofensa de Onã 11 quanto aos casais. E como a segunda premissa é falsa, o
não foi contra o casamento, mas contra a lei da sucessão. Onã, cuja ultudo foi uma calamidade. Pois Agostinho, embora certo em
morte serviu para muitos fins, é transformado num homem que oposição aos maniqueus, errava muito em sua luta contra o
queria "evitar o compromisso, mas provar os prazeres de qualquer 1 1o pclagiano Juliano de Eclano. Os pelagianos tinham uma
forma". Em Casti connubii, a primeira encíclica contra o controle turu positiva perante o prazer sexual. Olhavam-no como natural,
de natalidade deste século, Onã é usado para lançar o medo no 111 ma alguma pecaminoso, mais como uma vantagem especial
coração dos casais. 11 1mcnto. Do ponto de vista de Agostinho, aquilo comprovava
Quem foi o homem por causa do qual o onanismo passou a ser 11 p lagianos negavam o pecado original.
incorretamente designado? Incorretamente, porque ele não estava Jul no foi filho de um bispo católico, da classe apuliana
praticando a masturbação, mas o coito interrompido: segundo o 11 rlor. .,ra um sacerdote casado, um homem culto (ou seja,
costume do levirato, se um homem morresse sem filhos, o próximo 1 mi r I grego). Sua esposa, Tícia, era a filha do bispo católico
parente seu masculino, normalmente o irmão, tinha de gerar filhos 1 1,, l B nevento. Juliano foi ordenado bispo de Eclano em 416,
com a viúva, e assim assegurar um herdeiro de seu nome, na linha 111 t , durante a controvérsia pelagiana (a maior batalha de
masculina, e sua propriedade. A história de Onã é relatada em 1 1 uho), foi excomungado e afastado do ofício pelo Papa Zózi-
Gênesis 38, 7-1 O: "Her, porém, o primogênito de Judá, era mau aos 111 •I I H. Para Juliano, Agostinho sempre foi "o Africano". Após
100 Uta Ranke-Heinemann ' Eunucos pelo Reino de Deus 101

uma vida errante de altos e baixos, Juliano morreu algum tempo Tomás de Aquino depois citaria, aprovando: "Não vejo que espécie
depois de 450 na Sicília. No final da vida era o tutor particular de de auxílio a mulher deveria prestar ao homem, caso se exclua a
uma família pelagiana. Alguns amigos escreveram em seu túmulo: finalidade da procriação. Se a mulher não foi dada ao homem para
"Aqui jaz Juliano, bispo católico." Mas Agostinho, o celibatário, ltjudá-lo a gerar filhos, para que mais serviria? Para cultivarem a
derrotou Juliano, o casado, e com ele todos os homens casados. terra juntos? Se fosse necessária ajuda para isso, um homem seria
Como os Padres da Igreja antes dele e em seu próprio tempo, de melhor auxílio para outro homem. O mesmo se há de dizer para
Agostinho pergunta se Adão e Eva mantiveram relações sexuais no o conforto na solidão. Pois muito maior o prazer para a vida e para
paraíso: "Pergunta-se, de modo bastante oportuno, como podería- 11 conversa quando dois amigos vivem juntos do que quando homem
mos imaginar a união de um homem e uma mulher antes de mulher coabitam" (ibid. 9, 5-9). No paraíso, diz Agostinho, havia
pecarem, e se a bênção 'Crescei e multiplicai-vos e povoai a terra' 11 r lação sexual, porque em questões intelectuais a mulher não seria
deve ser entendida no sentido carnal ou espiritual", escreve ele em d utilidade para o homem, mas Deus, conforme sabemos, criou a
389. "Pois que podemos também pensar nessa bênção no sentido mulher para ajudar o homem, segundo o relato bíblico machista da
espiritual, e supor que só depois da queda foi transformada na •riução.
fertilidade carnal" (De Gen. contra Manichaeos I, 19). Agostinho As mulheres podem ter ficado surpresas com saber que só eram
também consegue imaginar que espécie de fertilidade espiritual ho 1s para a reprodução, e desqualificadas para qualquer outra coisa
seria essa: "Em que a mulher deveria ajudar o homem? Gerar frutos tll dissesse respeito à mente e à inteligência. Essa idéia foi
espirituais, a saber, boas obras para honra e glória de Deus, num lormulada por Tomás de Aquino em conexão com Agostinho da
relacionamento espiritual" (ibid. 2, 11). Conclui que no Éden a uinte maneira: a mulher é simplesmente útil na procriação
ligação entre o homem e a mulher era assexuada (ibid., I, 19). (t1tllutorium generationis) e para cuidar da casa. Para a vida inte-
Mas então Agostinho começou a titubear. Em 401 disse haver 1 tuul do homem não tem significado. Assim Agostinho foi o
três possibilidades: ou se entenderia a bênção na criação, "Crescei l I lhunte inventor do que os alemães chamam de três kás (Kinder,
e multiplicai-vos", de forma mística e metafórica; ou então Adijo tkl, ,, Kirche - filhos, cozinha, igreja), uma idéia ainda viva, que
e Eva poderiam ter "tido filhos sem o coito, de alguma outra forma on I íl ito continua a ser a posição teológica primária das mulheres
- por dádiva do Criador todo-poderoso, que os gerou sem pais". 11 hi rarquia da Igreja.
Ou, por fim, os filhos de Adão e Eva poderiam ter sido gerados Em sua obra principal, A Cidade de Deus, escrita entre 413 e
mediante o sexo. Nessa determinada obra (De bono con. 2) Agos- , Agostinho explica: "Não há como negar a evidência óbvia dos
tinho não desejava comprometer-se nessa difícil questão. 1 po de sexos diferentes, o que mostra que seria um absurdo
Numa obra que iniciou pouco depois, De Genesi ad litteram, 1 1h I lo negar o fato de que ambos foram criados para a finalidade
cuja composição prosseguiu até 415, tornou a mencionar a possi- 1 t r m filhos, de sorte a crescerem, se multiplicarem e povoarem
bilidade de que no paraíso as crianças fossem geradas sem a 1 11'1I" (XIV, 22, Vozes, Petrópolis, 1990). Agora tachava sua
atividade sexual. Talvez fossem concebidas através do amor pura- 1111 , nnterior de absurda, desdizendo-a em Retratações, come-
mente espiritual, "não corrompido pelo desejo" (3, 21). Mas no i , Ir s anos antes de sua morte.
decorrer da mesma obra, decidiu que mesmo no Éden a reprodução hn, havia sexo no Éden, e a idéia dos maniqueus de que a
ocorria através do ato sexual. Chegou a essa conclusão graças a seu 1 , 1 11 o veio com o demônio foi rejeitada. Mas e o prazer?
desprezo pelas mulheres. Corrigiu o antigo erro de Gregório de 11 1 11 prazer sexual no paraíso? A resposta de Agostinho é,
Nissa e de João Crisóstomo - que negaram a existência de sexo 1111111111 nte, não. Antes da queda o sexo era praticado sem toda a
no paraíso - com um novo erro, um certo absurdo misógino que · 111~ o que o acompanha hoje. No Éden, a vontade governava os
102 Uta Ranke-Heinemann , Eunucos pelo Reino de Deus 103

órgãos sexuais, como hoje as mãos e os pés. "Por que não devemos até a testa e depois levá-lo para o lugar. Alguns conseguem engolir
acreditar que antes da queda os homens pudessem controlar os um número incrível de vários artigos e então, com uma pequena
órgãos sexuais como são capazes de controlar os outros membros?" contração do diafragma, podem devolvê-lo, como se fosse tirado
(De Genesi ad litteram, 9, 10). "Movemos as mãos e os pés para d um saco, qualquer artigo que queiram, em condições perfeitas ...
que esses realizem suas funções especiais, quando assim queremos; Observamos então que o corpo, mesmo sob as atuais condições, é
isso não envolve relutância por sua parte, e os movimentos são um servo obediente para algumas pessoas de forma extraordinária,
realizados com toda a facilidade que observamos em nosso próprio lém das limitações normais da natureza... Se isso é assim, há
caso, e no de outros ... Então por que não devemos acreditar que os qualquer razão para que não devamos acreditar que, antes do
órgãos sexuais pudessem ter sido servos obedientes da humanida- p cado e de seu castigo pela corrupção, os membros do corpo do
de, ao comando da vontade, da mesma forma que os outros, se não homem estivessem sob o comando da vontade, sem qualquer desejo
houvesse o desejo, que veio como uma retribuição pelo pecado da obsceno, para a procriação? Como não obedeceu a Deus ( o homem)
desobediência?" (A Cidade de Deus XIV, 23). "Então (se não n o consegue obedecer a si mesmo."
houvesse o pecado) o homem teria semeado a semente e a mulher Mas de onde vem essa situação única dos órgãos sexuais em
teria concebido o filho quando os órgãos sexuais fossem desperta- qu não são "movidos pela vontade", e sim excitados "pela luxú-
dos pela vontade, no momento oportuno e na medida necessária, e 1 " ? Agostinho responde: " ... a retribuição pela desobediência é
não teriam sido excitados pelo desejo" (ibid. XIV, 24). "Então, sem lmplesmente desobediência em si" (ibid. 15). O corpo se recusa a
sentir a tentação da paixão a aguilhoá-lo, o marido relaxaria no seio h decer à mente de forma que o homem possa tomar consciência
da esposa com tranqüilidade de espírito e sem prejuízo para a Rua desobediência a Deus (ibid. 24). O castigo pela queda foi
integridade do corpo" (ibid. XIV, 26). 1 lmeiro lançado sobre o reino da sexualidade (ibid. 20). A atitude
Agostinho achava que quando o prazer sexual chega ao clímax, tu hierarquia celibatária da Igreja é uma só: o locus por excelência
não só escapa ao controle da vontade, como também "há quase que h p cado está no sexo - uma postura baseada nas fantasias de
uma extinção absoluta da vigília mental; os sentidos intelectuais ,stinho, em que manisfesta o ódio ao prazer.
são por assim dizer suprimidos. Ora, certamente qualquer amigo da fato, observado por Agostinho, de que algumas pessoas
sabedoria e das santas alegrias que vive uma vida de casado ... nn guem mexer as orelhas teve portanto conseqü~ncias, até
preferiria, se possível, ter filhos sem uma obscenidade dessa espé- , o século, como prova de que a procriação foi originalmente
cie. Já que então as partes criadas para essa tarefa seriam servas de 111,ada sem desejo sexual. Alguns leitores tentaram desculpar a
sua mente, mesmo em sua função de procriação, exatamente como 1 • de Agostinho sobre o controle voluntário do orgasmo, citando
os outros membros são seus servos nas várias tarefas a que se 11 d ficiente conhecimento do sistema nervoso humano, como se
destinam. Começariam sua atividade ao comando da vontade, em n 1, do argumento fosse um erro médico. Mas está errada essa
vez de serem estimulados pelo fermento da luxúria" ( ibid. XIV, 16). 1 1 u. De uma forma ou de outra, Agostinho teria feito do prazer
Agostinho dedica um capítulo inteiro de A Cidade de Deus uni resultado da queda. Ele não se interessava por medicina;
(XIV, 24) para provar sua idéia abstrusa de que o homem no paraíso 111 1111 banir, abolir o prazer, e qualquer forma ou meio que encon-
(noutras palavras, a pessoa ideal) controlava plenamente os órgãos 1 pura isso lhe serviria. O ideal estóico da apathia, do autocon-
sexuais com a vontade, o arbítrio. Observa que: "Algumas pessoas 11 , 11 lado de seu horror específico do desejo, da luxúria (traço
conseguem inclusive mover as orelhas, uma de cada vez ou as duas 11 t risticamente agostiniano), e não o estado da ciência médica
ao mesmo tempo. Outras, sem mexer a cabeça, conseguem trazer 111 11 1 f ram as razões por que discriminou, de modo a perdurar
todo o couro cabeludo - toda a parte recoberta pelos cabelos - lm1111t i,i 6culos, uma parte essencial da existência humana. "Nunca
104 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 105

devemos crer que a bênção de Deus, 'Crescei e multiplicai-vos e De fato, pode ser rotulado de "pecado, por ter sido despertado do
povoai a terra', tenha sido realizada através do desejo lascivo do p cado e dos impulsos para o pecado" (I, 71). Como vemos, ele
casal colocado no paraíso. Foi, com efeito, depois do pecado que 1 vou consigo sua fobia sexual para o túmulo.
surgiu tal desejo sexual (libido). Foi depois do pecado que a Na visão de Agostinho, o prazer sexual, que escurece a mente
natureza do homem sentiu, percebeu, corou e ocultou esse desejo d sobedece à vontade, degrada a reprodução humana ao nível dos
sexual; pois a natureza do homem preservou certo senso de decên- mimais: "Essa força reprodutiva, portanto, não foi removida pelo
cia, embora tenha perdido a autoridade a que o corpo se achava p ado do homem. 'O homem, colocado numa posição honrosa, é
subordinado em todas as partes" (ibid. 21). t nzido para o nível das feras', e se reproduz como elas. Todavia,
Na última década de sua vida, aproximou-se de certa forma dos 1nda há a centelha, por assim dizer, daquela razão em virtude da
pelagianos sobre a questão do desejo sexual. Concedeu a possibi- 1uul foi feito à imagem de Deus; essa centelha ainda não foi
lidade do desejo no Éden, de uma forma absolutamente reprimida mpletamente extinta" (A Cidade de Deus XXII, 24).
e subordinada. Em sua polêmica contra os pelagianos do ano 420 s casais só fazem bom uso desse mal do desejo quando
(Contra duas epístolas pelagianorum), sustenta que no paraíso ou n iam pela exclusiva finalidade do casamento, qual seja, a repro-
a relação sexual ocorria inteiramente sem prazer, ou esse prazer era 111 , antes e durante qualquer ato sexual. Contra Juliano, Agos-
despertado pelo comando da vontade, quando a razão constatava 1 nh ) salientou em 422: "O que não pode ocorrer sem desejo não
ser necessário o sexo para a procriação. "Se preferires aceitar a 1 v ria, entretanto, ocorrer por causa dele" (5, 9). E mais: "Se
última forma como a que prevaleceu no paraíso, se te parecer bom huuv sse qualquer outra forma de ter filhos, então todos os atos
que nessa condição feliz as crianças eram geradas através de tal 11 11s estariam obviamente subordinados ao desejo e portanto
desejo carnal (concupiscentia carna/is), que não ficou à frente nem 11' ntariam um mau emprego deste mal." Mas como não há
tampouco atrás do comando da vontade, à qual tinha de obedecer t m procriar de outra forma, os casais que fazem sexo com o fim
e não transgredir, então não fazemos objeção" (I, 17). p o riação "fazem bom uso deste mal" (Contra Juliano 5, 46).
Assim, perto do fim da vida concedeu ao prazer - controlado 1ortnnto, Louise Brown, o primeiro bebê de proveta, teve êxito
pela vontade e pela razão - um lugar no paraíso. Em seu último 111rt ao ser a criança ideal de Agostinho, já que foi concebida
escrito, "Obra incompleta contra Juliano" (429/30), redigida ime- 1 111 sem prazer físico. O único elemento perturbador é que o
diatamente antes de sua morte, considerou o problema do desejo
1 11 foi obtido pela masturbação do lúbrico pai. Mas se o sêmen
uma vez mais: parece que o incomodou bem no final. Juliano
ido removido cirurgicamente, então teríamos atingido um
afirmara que o desejo sexual era o sexto sentido do corpo, e uma
li ,1 , mais ou menos paradisíaco, que atenderia a todas as exigên-
energia neutra que poderia ser empregada bem ou mal. A atual
•ondições de Agostinho. Se ignorarmos o antiestético, nessa
forma do impulso sexual, disse ele, era a mesma que no paraíso.
1111 11 n o há obscurecimento da mente, que Agostinho conside-
Agostinho insistiu, entretanto, que em qualquer caso o ato sexual
deve ter ocorrido de forma diferente no Éden: ou não havia o desejo, , t 11 1 s oncertante com relação ao sexo e que Tomás de Aquino
e nesse caso o desejo é um vício, ou havia, mas ao comando da li 111 1 d pois com veemência.
vontade, e nesse caso piorou através do pecado, pois o prazer sexual h mm que era outorgada a uma concepção despojada de
no paraíso teria se constituído de tal forma que "só ocorria com a , 1 pod ser observada na Virgem Maria. Sua imagem foi
vontade da alma" (6, 22) e não "suprimia o pensamento da mente 1d11 110 que era e continua sendo o ideal celibatário: concebeu
como prazer avassalador" (4, 39). Em qualquer caso, Agostinho 11 111 lndo virginal, sem ser envergonhada pelo desejo, e por
chama o prazer sexual, em sua forma atual, de um "mal" (4, 23). 111111 v l também deu à luz sem sentir dor (Enchiridion 34). As
106 Uta Ranke-Heinemann ' I!unucos pelo Reino de Deus 107

outras mulheres, infelizmente, ficaram com a maldição da queda: p rdão do apóstolo. "Ao conceder o perdão, o apóstolo evidente-
"entre dores darás à luz os filhos" (Gn 3, 16). m nte denuncia-o como uma falta" (De peccato originali 42). Ou,
Nem o parto virginal e tampouco a fertilização in vitro são " nde foi dado o perdão, não há razões para se negar a presença
circunstâncias comuns, e no método usual e desprivilegiado de dn culpa" (De nuptiis et concupiscentia I, 14). E em seu .último
concepção, o desejo não pode ser excluído-Agostinho afirma que 1ívro, Contra Juliano, afirma: O apóstolo não daria o perdão, se não
nunca encontrou um marido que pudesse declarar que "manteve 11 Jmitisse que havia ali pecado" ( Opus lmperfectum Contra Juliano
relações sexuais só com a expectativa da concepção" (De bono con. 1 29).
13). E por isso faz uma prescrição: perante o desejo é preciso Mas o ato sexual para a procriação é despojado de culpa mesmo
distinguir entre "sentir" e "buscar". "Distingue entre esses dois pnru Agostinho, e assim o perdão pela culpa em decorrência do
elementos com clareza", adverte ele. A sensação física é boa, o oito só pode se referir ao sexo praticado "não pelo desejo da
desejo físico é um mau impulso. Assim, o ato sexual é bom quando 1rocriação", mas em vista do "desejo pelo desejo" (De nuptiis et
ocorre com a intenção correta (ou seja, a de ter um filho). Mas é um l'fmcupiscentia, I, 14). Naturalmente, lembra-nos Agostinho, que
pecado quando o casal se submete ao desejo (Opus Imperfectum n o devemos insistir muito na presteza do apóstolo em perdoar.
Contra Juliano 4, 29). M smo no sexo conjugal a pessoa pode incorrer em pecado mortal
Depois de recomendar essa espécie de esquizofrenia conjugal, 1or um excesso de prazer sensual. Essa falta de autocontrole não é
em seu último livro, interrompido pela morte, Agostinho acaba 1,h rta pela disposição do apóstolo em conceder e perdoar, porque
bruscamente a obra de sua vida. Mas para os casais devotos surgiu 11 s caso a pessoa se torna "adúltera" como a própria esposa
aí um problema que nunca foi solucionado e que reviveu em todos ( ',mtra Juliano 2, 7, 20). Esse tema do sexo conjugal inspirado
os renascimentos agostinianos, por exemplo, no jansenismo. Luís 1 lo desejo como pecado mortal continuaria a fascinar e a preocu-
XIV, de 48 anos, certa vez queixou-se, ao confessar, de sua segunda J 111' os papas e os teólogos até nosso século, conforme vemos, por
esposa, Madame de Maintenon, por ela mostrar-se frígida durante mplo, na condenação do livro de Van de Velde.
o ato conjugal. Sobre o que o confessor, Monsieur Godet des Apesar do efeito do prazer sensual, que por causa do pecado
Marais, bispo de Chartres, ressaltou-lhe: "Grande graça fazer por 1 1 inal adquiriu esse estranho poder sobre os seres humanos, sob
pura virtude o que tantas mulheres fazem sem mérito, por realiza- IIIIH circunstâncias o sexo conjugal é perdoável, e portanto só um
rem-no com paixão." A pessoa que nada sente em absoluto é a de 1 ·ndo venial, embora de fato não haja pecado se o casal quer
maior mérito aos olhos de Deus. lhoN. Isso se deve, diz Agostinho, aos "três bens do casamento",
Agostinho encontrou em Paulo, segundo julgava, a prova de que 111 d sde a época do primitivo escolasticismo foram chamados de
1
a procura do prazer no sexo é pecado. Paulo parece o responsável 1 11 que desculpam o casamento". Esses três bens tomam as
diante de todos os celibatários pelo princípio que supostamente lhe é ln t,S sexuais toleráveis, justificam-nas moralmente, compen-
atribuído: "Penso que seria bom ao homem não tocar mulher alguma'' t 1 1 p lo mal do desejo, e o contrabalançam, desde que o desejo
(1 Cor 7, 1). Essa tese, na realidade colocada pelos coríntios e citada 11 t'jft excessivo.
no começo da resposta de Paulo, foi, com poucas exceções, até hoje ( >1-1 três bens são os filhos, a fidelidade e a indissolubilidade do
lida de forma incorreta. Paulo diz então: "Digo isto como concessão t 1111 1t nto. "Tríplice é o bem do casamento: a fidelidade, a prole
(cabe a vós decidir), não como ordem" (1 Cor 7, 6). Mas Agostinho 1 , ·t·amento. A fidelidade não permite que ocorram relações
traduz da seguinte forma: "Isto digo como perdão" (venia), e faz a 1111 ~ ra do casamento. O bem da prole faz com que os filhos
passagem se referir à retomada das relações sexuais. 1,11111 cbidos e aceitos com amor, para que sejam bem nutridos
Repetidas vezes afirma que o coito no casamento recebe o 1ludos onscienciosamente. O sacramento impede a dissolução
108 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 109

do matrimônio e a esposa rejeitada de tornar a casar" (De Genesi sforço para reprimir a sexualidade levaram Agostinho a afirma-
ad litteram 9, 7). Com a ajuda desses fatores compensadores, diz ' es como esta: Os olhos do cristão devem sempre estar voltados
Agostinho, o sexo conjugal ou é desculpado (inteiramente livre de para a vida eterna. Quanto mais ama o que é imortal, corri mais
culpa) ou perdoável (um pecado venial). O coito é livre de culpa só v emência odiará o que é transitório. É por isso que o marido cristão
quando ocorre para a procriação. O coito por desejo, já que ocorre u testa a conexão mortal e se volta para o que "pode entrar conosco
dentro do casamento, é perdoado pelo apóstolo em virtude do bem no reino". Para esse fim ele visa modelar a sua esposa. "Ele ama
da fidelidade e assim não está livre de culpa, mas é só perdoável. , fato de ela ser humana, e odeia o fato de ser mulher" (Sobre o
Resta ainda uma questão: são necessárias duas pessoas para o 1 •,•rmão da Montanha I, 15 e I, 41).

ato sexual. Talvez uma esteja mantendo a relação por desejo e a Dada a ênfase que coloca na procriação, não admira que
outra não. Agostinho também considerou essa possibilidade, e A ostinho prefira a poligamia a amar e desejar uma mulher pelo
estabeleceu a distinção: O que exige o sexo do outro (exceto para Ili ela é. "Prefiro usar da fertilidade de muitas mulheres para uma
a procriação) comete um pecado perdoável, ou seja, venial. Mas 1 nnl idade altruísta à carne de uma única mulher para o próprio bem
quem realiza o coito a pedido do outro, mas pessoalmente não busca 1 lu. Pois no primeiro caso se luta pelo benefício condizente com
o prazer, está desculpado. Ele ou ela não precisa do perdão apostó- poca do Antigo Testamento, enquanto que no segundo estamos
lico. De modo algo incoerente com sua tese da procriação como a llunlc tão-somente da satisfação de um desejo voltado para o prazer
única meta legítima do casamento, Agostinho também considera o 1 1r no. É por isso que aqueles, a quem o apóstolo, em 1 Cor 7, 6,
ato do debitum reddere (sexo conjugal a pedido) como livre de ptova, com perdão misericordioso, a relação carnal com uma
culpa: "A obrigação não acarreta culpa, mas a exigência da obri- 111111h r, estão menos a caminho de Deus do que aqueles que, apesar
gação acima e além da necessidade de procriação é um pecado 1 muitas esposas, não têm outra meta em sua coabitação conjugal
venial" (Sermões 51, 13). Os cônjuges têm a obrigação estrita de 1 qu a geração de filhos" (De doctrina christiana 3, 18).
não se negarem ao parceiro, para que ele ou ela não incida em Naturalmente, Agostinho não pretende introduzir a poligamia,
pecado ainda mais grave. Assim Agostinho não nega o caráter 1 1 restringe aos tempos do Antigo Testamento. Em seu ponto
paulino do casamento como um "remédio para a concupiscência". vista, a poligamia não contradiz a ordem da criação, mas a
Bastante de acordo com Agostinho, o bispo de Chartres reco- 1 mdria sim. Pois, acredita ele, as esposas são as servas do
mendou a Madame de Maintenon, depois de Luís XIV queixar-se 111 lo. " Ora, uma serva ou uma escrava nunca tem muitos senho-
de sua falta de desejo na cama: "A mulher está obrigada a servir de ' 11111s um senhor tem muitas escravas. Assim, nunca ouvimos
refúgio para a fraqueza do homem, que de outra forma se desenca- l 1 1 qu mulheres santas tivessem servido a vários maridos vivos
minharia." O fato de que, graças a sua frigidez, ela nada sentia só h11 q I muitas serviram a um só marido ... Isso não é contrário à
lhe aumentava o mérito. 1 1111 in do casamento" (De bono conjugali 17, 20). No contrato
Não é necessário acrescentar que Agostinho rejeitava a relação 111 ·11samento civil, na lei romana dos tempos de Agostinho, não
sexual com a mulher menstruada, grávida ou na menopausa: "A p11 11 em sobre a subordinação da esposa ao marido (cf. Kari
verdadeira castidade conjugal evita a relação com a mulher mens- 1 11h th B!llrresen, Subordination et equivalence, 1968, pp. 82-
truada ou grávida; na realidade se contém para qualquer encontro 1 l 11 lo contrário, Agostinho alude ao contrato de casamento
conjugal quando não há mais nenhuma perspectiva de concepção, 11 1 1 , 11ssinado pelo bispo, que insiste na subordinação ao marido
como é o caso da pessoa de mais idade" (Contra Juliano 3, 21). 11111 ,w 7, 6, 7 e 332, 4). Agostinho também tem um exemplo
A visão unilateral do casamento como uma instituição para a 1111111111 pronto para as esposas/escravas cristãs, a saber, o de sua
procriação, a eliminação total do componente pessoal no sexo e o , M 11l ·a. Escreve ele: "Quando chegou à idade de casar lhe
110 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus J]l

foi dado um marido a quem serviu como a um mestre( ... ) Suportou Quaresma e no catecumenato (preparação para o batismo) e em
suas infidelidades e nunca teve uma única discussão com ele sobre cral no tempo das orações. A oração agrada mais a Deus, diz. ele,
esse assunto ( ... ) Havia esposas com maridos muito mais meigos quando é espiritual, ou seja, quando a pessoa está despojada dos
do que ele que saíam de casa com os rostos desfigurados pelas d ·sejos carnais (Defide et operibus 6, 8). Agostinho não estava só
marcas de socos e que, quando se reuniam para conversar, muitas 11 fazer essas exigências. Escreve seu contemporâneo Jerônimo:
11
vezes se queixavam do comportamento deles. Mas minha mãe Apóstolo diz que não se pode orar no momento em que se
falava com suavidade e dava sérios conselhos, costumava dizer que mantém relações com a esposa. Assim, se a oração se toma impos-
a falta estava na língua das mulheres. Todas ouviram, dizia ela, o ível com o coito, tanto mais em se tratando do que é mais que a
contrato de casamento que lhes fora lido em voz alta e daquele dia oração, o recebimento do corpo de Cristo.( ... ) Falo às consciências
em diante deveriam considerá-lo como um instrumento legal pelo ,s
u que comungam no mesmo dia em que mantêm relações conju-
qual se tomavam servas: assim deveriam se lembrar de seu lugar e ui s" (Epístolas 48, 15). Orígenes também proibia o sexo antes da
não se revoltar contra os senhores." Agostinho prossegue dizendo •omunhão: "Age irrefletidamente quem entra no santuário da
que o fato de Mônica nunca ter sido espancada pelo marido irascí- ~r ja depois do ato conjugal e de sua impureza, e arrogantemente
vel, Patrício (o pai de Agostinho), persuadiu numerosas esposas a 1 •cbe o pão eucarístico. Está desonrando e profanando o que é

seguirem-lhe o exemplo. "As que o seguiram verificaram que anto" (Select, in Ezech. cap. 7).
tinham todas as razões para agradecer-lhe; as que não seguiram A orientação do apóstolo Paulo é invertida, já que começa com
ainda eram tratadas com violência e mantidas em sujeição" (Con- 11 guinte princípio: "Não vos recuseis um ao outro." Prossegue
fissões IX, 9). A alegação de que o cristianismo representou a nt falando do mútuo acordo entre marido e mulher. A suspensão
libertação das mulheres é tão falsa quanto duradoura. voluntária do coito para a oração aos poucos se tornou uma proibi-
Para Agostinho, o ódio ao prazer era ainda mais importante do º ri gorosamente regulada do sexo nos momentos que antecedem
que a insistência no fim procriativo de todo o ato conjugal. Vemos Ili se seguem à oração; todos os domingos e dias de festa, toda
11 uuresma e, sob outros aspectos, o mais espaçadamente possível.
isso no fato de que ele defende o conhecido casamento de São José,
n<ln não tratamos do problema central do cristianismo quanto ao
ou seja, a continência total no casamento, conforme se vê na vida
111 ucontece quando alguém deseja conceber um filho no domingo.
de muitos santos. Escreve a uma mulher que vivia com o marido
em abstinência total: "Teu marido não deixa de ser teu esposo por
causa da abstinência conjunta das relações carnais. Haveis de
permanecer bem mais dedicados como cônjuges, tanto mais se vos
dedicardes a essa resolução" (Epístolas, 262, 4). VII
Aos olhos de Agostinho, a virgindade (castidade) é moralmente
superior ao casamento, e o casamento sem sexo também é superior
ao casamento com sexo. O marido e a esposa atingem padrões mais A EVOLUÇÃO DO CELIBATO
elevados de desenvolvimento moral pela renúncia conjunta ao
coito. "Em nossos dias, quem tiver chegado ao amor perfeito de
Deus por certo terá apenas um desejo espiritual de filhos" (De bono
conjugali 3, 3; 8, 9; 17, 9).
Devido ao poder espiritual mortífero do prazer sexual, Agosti- l t•libato católico tem raízes pagãs. As prescrições da pureza
nho conclama à continência nos domingos e dias de festa, na lllm·t ri u derivam da Idade da Pedra da consciência religiosa.
112 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 113

Desenvolveram-se a partir do terror ante o numinoso inabordável celibato e conseqüentemente identificando o casamento com a
ou divino temível. No amor do Evangelho de Deus não fazem impureza.
sentido. Foi sobre o transfundo de hostilidade ao sexo e ao casamento
Muitos sacerdotes pagãos se castravam para que não se vissem por parte dos principais teólogos e, em particular, dos papas que o
maculados pelo sexo, para serem mediadores puros e santos entre celibato compulsório foi impingido aos sacerdotes católicos. Os
o povo e o deus ou a deusa. A castração ritual é encontrada, por primórdios do ataque celibatário ao corpo são encontrados já nos
exemplo, na Babilônia, no Líbano, na Fenícia, em Chipre, na Síria séculos iniciais de nossa era, embora esse desenvolvimento só fosse
no culto de Ár~emis em Éfeso, no culto de Osíris no Egito, e n~ determinado por lei tardiamente e, mesmo assim, em dois estágios:
primeiro em 1139, quando o Papa Inocêncio II declarou a ordena-
culto frígio de Atis e Cibele, que foi amplamente disseminado pelo
ção clerical um impedimento "destrutivo". O que significava que
Oriente e Ocidente (cf. Peter Browe, Zur Geschichte der Entman-
ordenação e o casamento eram mutuamente exclusivos; todo o
nung, 1936, pp. 13 s).
casamento por parte dos sacerdotes depois dessa data foi invalida-
Em seu livro, Dás Kreuz mit der Kirche: Eine Sexualgeschichte
do. A Igreja então tinha um instrumento nas mãos para impedir o
des Christentums (1974 ), Karlheinz Deschner mostra como está de casamento de padres; mas depois obteve um outro instrumento de
acordo com a crença arcaica o fato da proximidade aos deuses •ontrole: no Concílio de Trento (1545-63) criou-se uma cerimônia
depender da abstinência sexual. Segundo Demóstenes (m. 322 formal obrigatória para contrair-se o casamento. Até então o casa-
a.C.), "um certo número de dias de abstinência deviam ser obser- mento não exigia formalidades, ou seja, as pessoas podiam se casar
vados" antes da visita aos templos e antes de tocar os vasos m segredo, contraindo casamentos válidos sem sacerdotes ou
sagrados. Tíbulo (m. ca. 17 a.C.) escreve: "Ordeno que fique longe, t stemunhas. Ao estipular que o casamento ocorresse perante o
muito longe do altar quem tiver desfrutado dos prazeres do amor p stor local e testemunhas, a Igreja impedia que homens que se
na noite anterior" (Elegias II, 11). De modo semelhante Plutarco tivessem casado em segredo se tornassem padres. Assim, depois de
(m. ca. 120 d.C.) adverte para que não se vá ao templo comparecer 11 9 era impossível para os padres se casarem, e depois de Trento
a algum sacrifício depois de um contato sexual. Deve haver pelo m impossível para homens casados tornarem-se padres. Depois da
menos uma noite intercalada de sono (Quaest. conv. 3, 6). A poca em que os padres podiam se casar, veio a época dos casa-
inscrição no templo em Pérgamo exorta a um dia de purificação m ntos sacerdotais clandestinos e perseguidos. Depois de Trento o
depois do sexo conjugal, e dois dias depois do sexo extraconjugal. mcubinato passou a ser a única saída, uma opção triste mas não
A Igreja mostrou-se solícita perante os ecos do celibatário do nrumente escolhida. A história do celibato foi conturbada, não só
mundo antigo, tratando-o como reminiscente de uma longa descen- pnru aqueles que a iniciaram e a desenvolveram como também para
dência de nobres. Nem se intimidou ao interpretá-los para atender pessoalmente atingidos. Para muitas dessas pessoas, sobretudo
a suas necessidades. Em 1936, Pio XI disse o seguinte sobre o n as mulheres, significou um desastre.
celibato: "Mesmo os antigos romanos reconheciam a correção de paladino do celibato, o Papa Gregório VII, tachou de "cisão
tal comportamento. Uma de suas leis - 'Hás de aproximar-te casta r lações entre o clero e as mulheres através de um anátema
dos deuses' -foi citada pelo maior de seus oradores" (da encíclica 1 rn " (Carl Joseph Hefele, Konziliengeschichte, vol. 5, p. 22).
Sobre o sacerdócio católico, trad. port., Vozes, Petrópolis, 1946, M II muito antes de Gregório, essa idéia fora anunciada e encontrara
Doe. Pont., n. 8). Assim o papa não hesitou em interpretar Cícero, o na Igreja. O primeiro passo importante e oficial nesse sentido
que aí cita (De legibus lv. 2, cap. 8), como um pregador do celibato. 11 ·ontrado no cânon 33 do sínodo espanhol de Elvira, no começo
Assim procede identificando a pureza ritual dos romanos com o 111 ·ulo IV. Aí se declarava que "os bispos, os padres e os
114 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 115

diáconos, ou seja, todos os clérigos que comparecessem ao serviço proteção e defendeu-os contra os que se recusavam a tomar parte
do altar tinham de se abster de relações conjugais com as esposas das missas celebradas por padres casados. As pretensas Constitui-
e não ter mais filhos. Os que violassem essa ordem seriam excluídos ões Apostólicas (ca. 380) excomungavam qualquer padre ou bispo
do sacerdócio". Isso ainda não era o celibato no sentido atual, os qu repudiasse a esposa sob a desculpa de devoção. Porém, por
sacerdotes não tinham de esquecer o casamento, nem tinham de utro lado, o Concílio de Cartago, do ano 390 (cân. 2), estabeleceu
repudiar as esposas. Mas a proibição de ulteriores relações conju- ra os clérigos a mesma obrigação estabelecida em Elvira e o
gais para os sacerdotes foi o primeiro round de uma longa história {nodo subseqüente em Cartago, 11 anos depois, fez o mesmo ( cân.
de repressão. ), urgiram também exigências mais rigorosas. O sínodo romano
As exigências feitas pelo sínodo de Elvira tiveram pouco Papa Inocêncio I (m. 417) do ano 402 estabeleceu: "Bispos,
significado para a Igreja como um todo. Deve-se acrescentar ime- 1 dres e diáconos precisam ser solteiros" (cân. 3). Isso não teve
diatamente que a Igreja Oriental não aderiu ao movimento no Ili tlquer conseqüência para as leis canônicas até então. Como
sentido do celibato compulsório, e esse desenvolvimento no Oci- 1 s, os homens casados eram ordenados padres, e depois muitos
dente não foi o fator menos importante no desencadeamento do 1tro sínodos, como, por exemplo, o Sínodo de Arles em 443 (cân.
grande cisma entre as Igrejas Oriental e Ocidental. Mas Elvira não ) o terceiro Sínodo de Orléans em 538 (cân. 2), se limitaram a
foi a última palavra. Seguiram-se outros sínodos e outros Padres da rtnr a continência conjugal dos clérigos. Concretamente, isso
Igreja, além sobretudo de papas, que cada vez mais tentavam impor n ficou que: "Aos padres e diáconos não é permitido comparti-
o celibato. No primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (325), dn mesma cama e do mesmo quarto com as esposas, para que
entretanto, as tentativas de impor a toda a Igreja leis como as do uiam sob suspeita de relações carnais" (quarto sínodo de
Sínodo de Elvira foram frustradas. 1 nns em 541, cân. 17). O Sínodo de Clermont, em 535, especi-
Presume-se que o bispo espanhol Hósio de Córdova, que já VII que, "aquele que é ordenado sacerdote ou diácono não pode
assumira a liderança em Elvira, foi um dos que propuseram a t nuar a manter relações conjugais. Torna-se irmão de sua
proibição das relações conjugais para os padres em Nicéia também. n u nnterior" (cân. 12). O Sínodo de Tours (567) regulamentava
Segundo um relato do historiador Sócrates (m. ca. 450), o bispo 1111 njugal dos bispos: "O bispo só pode procurar sua esposa
egípcio Panúcio, solteiro, homem de grande prestígio, que perdera 1 rmã. Onde quer que esteja, deverá ficar sempre rodeado de
um olho e um tendão do joelho na perseguição imposta por Diocle- , , sua residência deverá ficar separada da de sua esposa,
ciano, ergueu-se e disse que nenhum jugo pesado desse tipo deveria 1 1 que os clérigos em serviço nunca entrem em contato com
ser colocado sobre o clero, pois o casamento era algo de honrável. 1 ulh rcs que servem a esposa do bispo" (cân. 12). O sínodo
Bastava aos que entrassem para o clero solteiros não se casarem 1111 1 afirmar o seguinte: "Como muitos arciprestes no campo,
depois, mas nenhum padre deveria ser separado da mulher com h cio d diáconos e subdiáconos, estão sob suspeita de prosseguir
quem se casara enquanto ainda era leigo. O discurso de Panúcio 11 r lações conjugais, o arcipreste deve sempre ter um clérigo
pode ser verdadeiramente histórico ou, como alguns depois afirma- 1 , qu o acompanhará aonde for e que deve ter a cama no
ram, sobretudo os defensores ocidentais do celibato, pode ser 11111 qllnrto com ele." Era um sistema de vigilância completa,
lendário. Isso é irrelevante, já que em qualquer caso está claro que 111 11 11 sse contexto sete subdiáconos, lentes, ou leitores podem
o Oriente seguiu conduta diversa e que houve uma resistência 1.11r" (cân. 19). Assim um turno eclesiástico substituía outro
contemporânea ao celibato. 11111 tio supervisor.
Os sínodos que se seguiram não estabeleceram uma política 1 N e permitia-se que o próprío bispo dormisse sozinho.
coerente. O de Gangra (340/41) tomou os padres casados sob sua 1111, h d Toledo, em 633, presidido por Santo Isidoro de
116 Uta Ranke-Heinemann ' Eunucos pelo Reino de Deus 117

Sevilha, no entanto declarou: "Como o clero não tem causado o nrta aos bispos da Gália recomendando aos sacerdotes a continên-
menor escândalo em decorrência de seu estilo de viver, os bispos •ln com as esposas, e fazendo uma advertência com referência a
devem ter testemunhas em seus aposentos, para que todas as Ad o, que foi "expulso do paraíso" por causa da transgressão ao
suspeitas malévolas possam ser afastadas do pensamento da laici- mnndamento da continência. O Papa Dâmaso (ou Sirício) foi evi-
dade" (cân. 22). Por outro lado, as autoridades se viram num dilema J ntcmente um partidário do Éden assexuado depois rejeitado por
perante os bispos. O Sínodo de Paris decidiu, em 829, que "a um i stinho.
sacerdote não é permitido delatar os pecados de um bispo, porque O Papa Leão I, o Grande (m. 461), foi o primeiro a estender a
este lhe é superior" (cân. 20). Alguma segurança poderia ser pr< lbição do coito conjugal aos subdiáconos. Numa carta ao Bispo
mantida nesse caso, se os padres casados e as esposas vivessem em tunásio da Tessalônica, em 446, diz o seguinte: "Embora seja
lugares separados. o Sínodo de Lião, em 583, decretou: "Os 1 rmitido aos que estão fora da ordem clerical entregarem-se às
clérigos casados não podem viver junto com as esposas" (cân. 1), lnt midades conjugais e à procriação dos filhos, por outro lado nem
ordem repetida pelo Sínodo de Toledo, em 589, (cân. 5). Ili mo os subdiáconos devem ter permissão para o casamento
Os Padres da Igreja em particular entraram na luta pelo celiba- 1 rnul, de forma a representarem a pureza da continência perfeita,

to. Cirilo de Jerusalém (m. 386) sustentava que "o bom sacerdote 1nrtanto mesmo os que têm esposas devem se comportar como
se abstém de mulher" (Catecheses 12, 25). E Jerônimo escrevia 1 tivessem" (Carta 14, cap. 4). Numa tônica semelhante em
contra os bispos que toleravam "esposas grávidas de clérigos e t I posterior (458 ou 459) ao Bispo Rústico de Narbona, onde
crianças chorando nos braços das mães". Num texto contra Vigi- ntretanto proíbe aos clérigos se separarem das esposas, diz:
lâncio, ele atacou dizendo: •• Afinal não somos diferentes dos 1 i da continência para os servos do altar é a mesma dos bispos
porcos" (cap. 2). Ambrósio disse que os padres que continuavam 11 Ir s. Era permissível aos últimos, quando leigos ou leitores,
tendo filhos "oravam pelos outros com espíritos tão impuros quan- ter filhos. Mas depois que chegaram aos estágios meneio-
to os corpos" (Sobre os deveres dos que servem na Igreja II, 249). lo untes, o que anteriormente lhes era permitido não lhes é
Na África do Norte, Agostinho deu ênfase e praticidade à idéia de li 1ltld mais. Portanto, para que transformem seu casamento
celibato. Quando se tomou bispo de Hipona em 395, imediatamente 1 1 1 m casamento espiritual, embora possam não se separar das
construiu um mosteiro. Fez coJll que todo o clero da cidade entrasse 1 11 , devem contudo possuí-las como se contudo não as pos-
nele, e todo novo candidato para a ordenação tinha de comprome- 111, de sorte que o amor conjugal seja preservado, mas os atos
ter-se a viver naquele "claustro clerical" sob sua supervisão. I • uls sejam interrompidos" (ibid., 167, 3).
O fator decisivo foi a adesão dos papas à causa. O primeiro foi 1 tpa Gregório I, o Magno (m. 604), firmou orientação
Sirício, sobre quem já falamos. Na carta que escreveu ao Bispo Ih 11\l numa carta ao Bispo Leão de Catana: "Que seu espírito
Himério de Tarragona, em 385, refere-se ao comportamento dos 11111I uide com diligência dos que acabam de ser elevados a
sacerdotes que faziam sexo com as esposas, o que era "uma 1111 h m, para que não tomem a liberdade de manterem relações
vergonha para a religião honrada" e um "crime". Tais padres eram 11 p sas, caso as tenham. Mas faça-os saber com toda a
para ele "mes~res do pecado", "escravos do desejo". Numa carta 1h111l que tudo será observado como se ocorresse debaixo dos
aos bispos da Africa datada de 386, fala de "ultraje", de "profana- du .' Apostólica." Dos padres exigia que do dia de sua
ção pela concupiscência carnal'', e aplica as palavras da Epístola a 111 1 m diante "amassem as esposas como se fossem irmãs
Tito aos sacerdotes que atacava: "Para os profanos e descrentes 1111( las em com elas como se fossem inimigas" (Diálogos
nada é puro." A propósito, ou o Papa Sirício ou seu predecessor, o 111
Papa Dâmaso (m. 384) _ a atribuição é incerta - escreveu umn 1 •ontexto o Papa Gregório fala da exemplar "partida da
118 Uta Ranke-Heinemann ' Eunucos pelo Reino de Deus 119

alma de um sacerdote da Núrsia". O caso lhe fora relatado pelo gado. Se persistir, será destituído." O cânon 48 pode ser interpre-
venerável Abade Estefânio, "que há pouco tempo morreu aqui em tado como uma fórmula consensual perante Roma: "Se alguém for
Roma". Durante toda a vida esse padre da Núrsia vivera sob o lema: ordenado bispo, a esposa terá de ir para um mosteiro bastante
"Amar a esposa como uma irmã e fugir dela como de um inimigo." distante. Mas o bispo terá de cuidar dela. Se ela o merecer, poderá
Gregório nos conta: "É por isso que este homem recusou-se a tornar-se também uma diaconisa."
deixar que a esposa lhe fizesse os mínimos serviços, para que não Como podemos ver, a noção de impureza do ato sexual, ou da
caísse em pecado." Tendo concedido a esse santo homem da Núrsia poluição do sacerdote pelo casamento, também estava viva em
a dimensão heróica da santidade que em muito ultrapassava a 8 izâncio. Mas teve conseqüências mais tênues do que com os
perfeição normal dos clérigos, já que esses, satisfeitos, permitiam pupas. Portanto, não admira que o Papa Sérgio I não assinasse as
que as mulheres os servissem em tudo e relutassem em servirem-se soluções que tinham sido assinadas pelo imperador e pelos 211
a si mesmos, Gregório prossegue: "Esse sacerdote venerável, pntriarcas e bispos ou representantes dos bispos. Disse que preferia
depois de viveruma longa vida, já com quarenta anos de sacerdócio, 1 orrer. Seguiram-se sérias complicações, até que, quase duzentos
viu-se atacado por uma febre violenta e chegou ao fim. Quando sua n s depois, o Papa João VIII (m. 882) reconheceu as decisões do
esposa percebeu o colapso de seus membros estirados como se ncílio com uma fórmula elástica: declarou que aceitava os
estivesse morto, aproximou o ouvido de seu nariz. O velho compa- · nones de Troiano II que "não contradissessem a fé verdadeira, a
nheiro, exemplar, sentiu-lhe a proximidade e gritou: 'Mulher, afas- o Imoral, e os decretos de Roma" (Hefele, Ili, pp. 316-17). Dessa
ta-te de mim ... bem-vindos, meus senhores ... Estou indo, estou 1 rma deixa saber que a seus olhos as relações conjugais por parte
indo.'" E com isso entrou para o clube masculino celestial dos h>N padres contradiziam os três. Até hoje a Igreja Ortodoxa baseia
celibatários. Gregório quer dizer que os santos apóstolos (natural- 1111 postura nessa matéria nas resoluções de Troiano. Aos sacerdo-
mente sem as esposas) saíram ao encontro desse santo sacerdote ao t permitido casar antes da ordenação e que permaneçam casados
falecer (ibid. IV, 11). 1 pois. Só para os bispos houve alguma mudança: para evitar a
Em decorrência do rigor do Ocidente ante o celibato, a Igreja pulsão das esposas, só os monges são nomeados bispos.
universal começou a se dividir. A ruptura já fora preparada pelos No Ocidente, pelo contrário, a posição delineada no sínodo
episódios no primeiro Concílio Ecumênico em Nicéia (325); e punho) de Elvira só endureceu. Na Alemanha, Bonifácio (m.
cresceu consideravelmente no Segundo Trulano, um sínodo reali- ), o pretenso apóstolo dos alemães, considerava a luta contra o
zado em 691/692, que teve seu nome de "Trullos", o salão aboba- > casado de seu tempo como sua principal missão. O quanto
dado de reuniões no palácio imperial em Bizâncio. Para a Igreja B nifácio perseguiu seu objetivo pode ser visto pelos castigos
Ortodoxa este sínodo ainda hoje tem importância decisiva e é 1I idos aos padres, aos monges e às freiras "lascivas", no pri-
considerado o Sétimo Concílio Ecumênico. Foi convocado pelo 1n oncílio Alemão que ele convocou em 742. O padre culpado
Imperador Justiniano II como um sínodo imperial. Sobre a questão h , d "ficar dois anos na prisão, antes era açoitado em público
do celibato o sínodo teve uma postura contrária à do papa, embora 1 pois o bispo podia repetir o castigo". Os monges e as freiras
também procurasse um consenso. Lê-se no cânon 13: "Na Igreja 1 111111 "ser levados à prisão depois do terceiro açoitamento para
romana, os que receberam o diaconato ou o sacerdócio têm de 1111111 ir a pena até que transcorresse um ano" . Ao mesmo tempo
prometer suspender as relações com as esposas. Mas permitimos li I mi tinham "de ter os cabelos da cabeça raspados" (Samtliche
que continuem casados, de acordo com os Cânones Apostólicos (nº l11 (/f,•11 des hl. Bonifatius, 1859, vol. 2, p. 7). Apesar do tratamento
6). Quem tentar romper com o casamento será destituído, e o clérigo 11111 o p la Igreja por volta do ano 1000, parece que a maioria do
que se separar da esposa sob o pretexto de piedade será excomun- 1 1. , 1·11 ·asada.
120 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 121

Com o Papa Leão IX (m. 1054) a pretensa Reforma Gregoriana, retorquia dizendo que "Pedro lavou a imundície do casamento com
assim denominada em homenagem a Gregório VIl (m. 1085), teve o sangue de seu martírio" (De pe,fectione monachorum).
início. Os movimentos de reforma na Igreja Católica sempre signi- O mais implacável defensor do celibato foi Gregório VII.
ficam, além do refortalecimento do poder papal, a repressão das Naqueles dias, o Código do Direito Canônico permitia ·que os
mulheres e a campanha pelo celibato. Num sínodo romano, o Papa padres tivessem casamentos válidos mesmo depois da ordenação,
Leão IX manteve as esposas dos padre8 escravizadas no palácio mbora nesse caso perdesse o uso de ordens. Mas esse regulamento
Lateranense (cf. Roger Kempf, em Jedin, Handbuch der Kirchen- nu maioria dos lugares só ficou no papel, porque muitos padres
geschichte, vol. 111/1, 1966, p. 407 s). Foi seu núncio, o Cardeal ram casados e detinham a função clerical. Não em poucas regiões
Humberto, que fez o rompimento definitivo com o Oriente. Não é 11sa era a conduta geral. Numa carta ao Bispo Bernoldo de Cons-
por acaso que o grande cisma entre as Igrejas do Oriente e do t mça, Gregório deixou claro o que achava do casamento sacerdotal:
Ocidente se deu na época da Reforma Gregoriana, pois a questão ·hnmava-o de "crime de fornicação". Exortou as pessoas a boico-
do casamento sacerdotal teve papel decisivo nesta reforma. O lur mos padres casados, e proibiu a laicidade sob pena de excomu-
Cardeal Humberto, que presidiu a delegação papal a Bizâncio e em nh o de participar de missas ou de quaisquer ofícios religiosos por
1 s realizados. Para Gregório o casamento sacerdotal era concubi-
16 de julho de 1054 pronunciou o anátema sobre a Igreja Oriental,
nuto.
descreveu a diferença entre as duas igrejas sobre esse ponto da
Entre os padres em questão Gregório despertou franca resistên-
seguinte maneira: "Os jovens maridos, exaustos por acabarem de
l 1. Lambert de Hersfeld conta que não foram poucos os que
praticar os desejos carnais, servem ao altar. E, imediatamente após,
nn11ideraram o papa um herege porque se esquecera das palavras
tomam a abraçar as esposas com as mãos que foram santificadas 1 risto ("Nem todos poderão entender isso") e do apóstolo
pelo corpo imaculado de Cristo. Essa não é a marca da fé verdadei- (" Mas, se não podem guardar a continência, casem-se"). Ele estava
ra, mas uma invenção de Satanás." Na Igreja Latina, disse o cardeal, 1 ntnndo forçar os seres humanos a viverem como anjos. E embora
só os que fizeram o voto de continência são ordenados sacerdotes tivesse desafiando o curso normal da natureza, só estava promo-
(C. Will, Acta et scripta quae de controversiis ecclesiae graecae et ndo a fornicação. Se ele persistisse nesse enfoque, eles preferi-
latinae 1861, p. 126). ' m renunciar ao sacerdócio do que ao casamento, e então veria
O Patriarca Petros de Antioquia reagiu à prescrição do celibato 1 d arranjar os anjos para servir à Igreja (Hefele, V, 23-24). E
na Igreja Ocidental com ironia. Os latinos, disse, devem ter perdido berto de Gemblours escreveu: "Muitos viram na proibição do
os documentos autênticos do Concílio de Nicéia, quando Roma foi mparecimento à missa rezada por sacerdotes casados uma con-
ocupada pelos vândalos. Também defendeu o clero casado de seu dl · o direta ao ensinamento dos Padres. Isso causou um tal
patriarcado (Georg Denzler, Das Papsttum und der Amtszolibat, ndalo que a Igreja nunca fora dividida por maior cisma. Eram
vol. 1, 1973, 54). u •os os que observavam a continência" (ibid., 24).
Outro porta-voz da Reforma Gregoriana foi o pregador das () Arcebispo Sigefredo de Mogúncia seguiu a orientação do
penas e castigos e opositor das mulheres, Pedro Damião (m. 1072). 111, mas não com pouca hesitação (ibid., 25-26). Recomendou a
Para ele, como Cristo nascera de uma virgem, ele também teria de 11 ·I roque fizesse "voluntariamente" o que tinha de ser feito, ou
ser auxiliado por almas virginais na celebração da Eucaristia. Só 1, ~ nunciar ou ao casamento ou ao sacerdócio, e assegurou-lhe
mãos virginais devem ter permissão para tocar no corpo do Senhor 111 Nmo tempo que o papa o obrigava a tomar essa atitude. A
(De dignitate sacerdotii). Quanto ao fato incômodo de que Pedro, 1 1 nnção dos padres foi tão grande que alguns exigiram a depo-
o primeiro papa, fora casado, o devoto fanático pelo celibato o, ou em alguns casos, inclusive o assassinato do arcebispo, de
122 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 123

sorte a desencorajar seu sucessor de investida semelhante contra o Arcebispo Manassés II de Rheims deu permissão ao Conde de
casamento. O arcebispo enviou mensageiros a Roma solicitando ao Plandres de prender as mulheres dos clérigos (Hefele, V, 231) . O
papa para ser menos rigoroso. Mas seu pedido não foi ouvido. No Sínodo de Londres organizado em 1108 pelo famoso Anselmo de
Sínodo de Mogúncia, em 1075, o Bispo Henrique de Chur chegou antuária, que tentou impor o celibato com toda a força, declarou
como o plenipotenciário do papa e ordenou ao arcebispo que que as esposas dos padres eram propriedade do bispo (cân. 10).
obrigasse o clero a desistir ou do casamento ou do sacerdócio. Uma Nessa época, tinha-se uma idéia fixa: o casamento dos padres
vez mais o protesto foi tão furioso que o Arcebispo Sigefredo não ra simplesmente sem validade, embora essa noção fosse contrária
prosseguiu no assunto. Houve protestos semelhantes em Passau lei canônica preponderante. Em 1130, o Papa Inocêncio II (m.
contra o Bispo Altmann, que chamou o casamento sacerdotal de 1143) declarou no Sínodo de Clermont que "como se pressupõe
"vício" para o qual o castigo era a condenação eterna (ibid., 27). que os padres sejam templos de Deus, vasos do senhor e santuários
O bispo inclusive foi alvo de agressões físicas. d Espírito Santo ... é ofensivo a sua dignidade deitar no leito
O Bispo Otto de Constança fez exatamente o oposto do que o ·onjugal e viver na impureza" (Mansi, Sacr. Cone. collectio 21,
papa ordenou: não só permitiu que os padres casados continuassem 38). Com base nesse raciocínio, as esposas eram consideradas
casados, como deu permissão para que os padres solteiros se meramente concubinas sem quaisquer direitos.
casassem. O papa escreveu uma encíclica em que exigia que todos O passo legal decisivo nesta luta foi tomado por Inocêncio II
os padres e os leigos na Alemanha deixassem de obedecer aos
no segundo Concílio de Latrão em 1139. Nele o casamento dos
bispos não favoráveis ao celibato. Em 1078, o papa colocou sob
pudres passou a ser não mais apenas proibido, mas anunciou-se
anátema uma carta de Santo Ulrico de Augsburgo que falava em
oficialmente que o casamento contraído depois da ordenação não
favor do casamento de padres (ibid., 121).
tinha qualquer validade. Os que haviam se casado depois da orde-
nu ·ão tiveram que separar-se. Justificou-se isso com o seguinte
Houve também protestos em outros países, por exemplo no Sínodo
de Paris, em 1074. Quase todos os bispos, abades e outros clérigos dizer: "Dessa forma a pureza que é do agrado de Deus pode se
achavam que o papa estava errado; e quando o Abade Gualter de lisseminar entre os eclesiásticos e as fileiras dos ordenados." Em
Saint Martin em Pointoise declarou que o rebanho devia seguir o outros casos o casamento na Igreja Católica era indissolúvel, mas
pastor, houve tumulto. Os padres cuspiram no abade, o espancaram no interesse da "pureza" sacerdotal os casamentos válidos eram
e depois o jogaram para fora (ibid., 28). E o Arcebispo João de ora invalidados depois de consumados e do casal ter-se separado.
Ruão, que realizou um sínodo em 1074 e ameaçou os padres De 1139 em diante, os homens casados não mais eram ordena-
casados de excomunhão, foi expulso da igreja por uma saraivada padres, desde que a Igreja soubesse que eram casados. Isso, no
de pedras. Sob seu sucessor, Goisfredo de Ruão, brigas violentas nlimto, nem sempre se deu antes de 1563 (quando a cerimônia
rebentaram na igreja por causa da questão do celibato durante o 1 , mal do casamento se tomou obrigatória). Até esse ano, portanto,
sínodo de 1119. 1 liam ainda do ponto de vista do Direito Canônico padres
As esposas em questão suportaram o impacto de tudo isso, v11ll lumente casados, sempre e quando houvessem casado em sigilo
conforme se depreende dos seguintes fatos: já em 1089, o Papa 111 11 de sua ordenação. Mas, na terminologia da Igreja, as esposas
Urbano II, sucessor de Gregório VII, estabeleceu no Sínodo de l 1 1mdres foram, desde 1139, rotuladas sem distinção de "éoncu-
Melfi que quando um subdiácono não estivesse disposto a se 111111 " ou "prostitutas" pelo Papa Alexandre III (m. 1181) ou
separar da esposa, "o príncipe poderia escravizá-la" (Decretum ' ,híltcras", pelo Papa Inocêncio III (m. 1216). Em 1231, o Sínodo
Gratiani, pars II, dist. XXXII, c. 10; Hefele, V, 175). Em 1099 o 111vl nciano de Ruão determinava a raspagem do cabelo das con-
124 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 125

cubinas dos padres perante a comunidade reunida num ofício de Sínodo de São Põlten em 1284 estipulou que os padres se
acusação e então eram severamente punidas. cusassem mutuamente.
Em 1227 na Alemanha, o Papa Gregório IX (m. 1241) deter- O Sínodo de Bremen, realizado em 1266 sob a mão do Cardeal
minou que o temido Conrado de Marburgo (m. 1233) tomasse uido, núncio do Papa Clemente IV, dá uma indicação das dificul-
medidas eficazes para que os padres alemães se separassem das dades prevalentes na Alemanha naquela época: "Os subdiáconos e
concubinas. Conrado, que foi o confessor de Santa Isabel da Turín- clero superior, que tomam uma concubina sob o título de esposa
gia e desde 1227 "inquisidor pontifício para toda a Alemanha", que a ela se juntam sob esse mesmo nome, estão suspensos para
instrumento da centralização papal, inspetor do clero, angariador mpre da função sacerdotal. A prole dessas uniões não tem direito
dos fundos para as cruzadas, e vulto importante nos preparativos propriedade dos pais, e o que quer que esses pais deixarem depois
para a cruzada de 1227, foi assassinado em 1233, vítima da resis- d morte será dividido entre o bispo e a cidade. Os filhos de tais
tência à primeira grande perseguição aos hereges na Alemanha, que l dres serão para sempre execrados. Mas como alguns prelados
ele desencadeou. l rmitem a impureza por dinheiro, excomungamos e anatematiza-
Durante séculos o clero dinamarquês protestou contra o celi- mos a todos, clero e laicato, prelados e seus subordinados, que
bato compulsório. Na Suécia a prática começou a ser introduzida ubcrta ou sigilosamente protegem tais fornicadores, e também os
só no século XIII. Na Itália, o Sínodo Geral de Melfi em 1284 que ajudam a impedir a observância desse estatuto, que precisam
atacou os que "casaram quando minoristas (clérigos de ordens r lidos em todos os sínodos provincianos e diocesanos. Mas
menores) e então, depois de receberem ordens maiores, mantive- 4ueles, sejam do clero ou do laicato, que entregarem suas filhas
ram as esposas, segundo a tradição grega." Na Espanha, o Sínodo Ili irmãs aos clérigos de ordens superiores, seja para um pretenso
de Salamanca em 1335 refortaleceu a proibição contra o casamento usamento ou o concubinato, estão proibidos de entrar nas igrejas"
para o clero de ordem superior. Mas o grande número de sínodos (li fele, VI, 84).
medievais contra o casamento de padres demonstra justamente A resistência ao celibato continuou. Mas os episódios lenta-
como foi generalizado o movimento. A manifestação contra o 1 nte faziam pressão no sentido de uma mudança um tanto diversa
"concubinato" se fazia nos Sínodos de Saumur em 1253, de Albi do Papa Gregório: a Reforma. Tomando emprestado o nome do
em 1254,deColôniaem 1260,de Vienaem 1267,deOfenem 1279, Imperador Sigismundo, um documento denominado de Reformatio
de Bourges em 1280, de São Põlten em 1284, de Wüzburg em 1287, 'I i.\-mundi, que circulou no Concílio de Basiléia (1435), apresen-
de Grado em 1296, de Ruão em 1299, de Penafiel (Espanha) em vu as razões para os que desejassem se afastar do celibato: os
1302, de Colônia em 131 O, de Bérgamo em 1311, de Notre-Dame- Ires, afirmava, deveriam viver como seus pares no Oriente ou na
de-Pré perto de Ruão em 1313, de Bolonha em 1317, de Valladolid punha, "onde os padres têm esposas". Além disso, Cristo não
em 1322, de Praga em 1349, 1365 e 1381, de Pádua em 1350, de ·rotara proibição ao casamento de sacerdotes, e portanto essa lei
Benevento em 1378, de Palencia em 1388 etc. A lista está incom- mu maior número de maus resultados do que de bons (Denzler
pleta e pode ser estendida. , 177-78). O documento foi rejeitado.
A dureza da Igreja ao impor o celibato pode-se ver no Sínodo Por outro lado, muitos padres não obedeceram à norma do
de Münster em 1280, que proibia aos padres de participarem do 1 bato. Embora a mesma lei canônica se aplicasse à Espanha e às
casamento ou do enterro de seus filhos (cân. 2). O mesmo é 11111is regiões do Ocidente, o casamento sacerdotal parece ter
verdadeiro sobre o regulamento a ser cumprido em diversos luga- mi praticamente estabelecido aí. Por exemplo, o terceiro minis-
res, por exemplo, no Sínodo de Valladolid em 1322 (cân. 7), 1 •ral da Ordem dos Jesuítas, Francisco de Bórgia (m. 1572),
segundo o qual as esposas não poderiam ter um funeral religioso. li f i depois canonizado, bisneto do Papa Alexandre VI, passou
126 Uta Ranke-Heinemann •unucos pelo Reino de Deus 127

sua infância no palácio do bispo em Saragoça, onde seus avós Dom t ". Nesse discurso alarmante ao concílio, Baumgartner insistia que
Alonso de Aragão e Dona Anna Urrea viviam juntos, em união n maioria das províncias protestantes da Alemanha teria permane-
quase oficial. E o padre da paróquia basca Pedro López, irmão de ido fiel a Roma, se esta tivesse sido mais flexível na. questão
Santo Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas, deixou quatro filhos n idental do casamento dos padres (Concilium Tridentinum, ed.
ao morrer (1529)-e não foi uma exceção. rresgesellschaft, 1901 ss, VIII, 620 ss).
Quanto aos padres na Alemanha, em 1525 o cônego de Mogún- Mas o Concílio de Trento, que permanece até hoje como o
cia, Karl von Bodmann, observou um "aumento quase inacreditá- ndamento essencial da doutrina católica, não apenas não mostrou
vel da licenciosidade entre o clero alemão desde a proclamação do f exibilidade sobre a questão do casamento sacerdotal como tam-
pressuposto novo Evangelho (de Lutero)". Que o monge agostinia- m bruscamente declarou: "Se alguém disser que não é melhor e
no tomara para si o problema do casamento sacerdotal; e o efeito m is divino viver na castidade ou sem casar do que na condição de
de seus ataques aos votos de celibato e monásticos fora tão grande NUdo, seja excomungado." Das três conclusões possíveis - mas
que uma onda de casamentos varreu todo o clero, inclusive os JU m ousaria concluir qualquer coisa nessa questão?- que ou o
monges e as freiras. Os primeiros reformistas, com exceção de nmento tinha maior valor do que o celibato aos olhos de Deus,
Melanchthon (m. 1560), eram todos padres. Inclusive o famoso u que o casamento e o celibato eram de igual valor, ou que o
humanista e padre Erasmo de Rotterdam (m. 1536), segundo filho libato tinha maior valor, os padres celibatários do concílio opta-
de um padre e da filha de um médico, se colocou do lado dos que pela última. É compreensível, porque o que tinham em mente
queriam "transformar concubinas em esposas" (De conscribendis u próprio valor, o mais elevado, o qual queriam firmar através
episcopis 47). um princípio doutrinário. Mas quando não se permite que a
Em 1542, quando o Núncio Papal Morone chamou a atenção oa casada sugira que o casamento e o celibato sejam iguais
do Arcebispo Albrecht de Brandemburgo para a urgência do celi- rnnte Deus, sem que seja anatematizado, então a arrogância dos
bato, este lhe falou: "Sei que todos meus padres vivem em concu- 11utários se torna insuportável.
binato. Mas o que devo fazer para detê-los? Se eu os proibir das 1)cpois do Concílio de Trento terminar, em 1564, o Imperador
concubinas, ou vão querer ter esposas, ou se tomar luteranos" (cf. nundo escreveu uma carta a diversos cardeais, ressaltando a
carta de Morone ao Cardeal Farnese, Monumenta Vaticana, editada ln de que se fosse possível aos padres casar, então qllase todos
por H. Laemmer, 1861 , p. 412). Foi em vão que o Papa Paulo IV 1 passaram para os luteranos permaneceriam na Igreja Católica
(m. 1559) encarregou Daniele de Volterra de pintar roupas nas 111.lcr II, 225). Mas nada mudou. Aos olhos dos celibatários, a
imagens nuas no afresco gigante de Michelangelo, "O Último 11 , por exemplo, na Diocese de Constança, era bastante
Juízo" , na Capela Sistina. Em 1561 o Núncio Papal Commendone 1lor vel. Em 1576, o Núncio Bartolomeu de Portia escreveu ao
informava da corte do Duque de Cleves que, segundo o próprio 1o sufragâneo de Constança que o concubinato sacerdotal na-
duque, em suas províncias "não havia cinco padres que não vives- 1 ln ·idade não era considerado nem vergonhoso nem um vício.
sem em concubinato público" (AugustFranzen, Zolibat und Pries- 1 rn não se recusava a ir ao altar com o coração impuro e as
terehe, p. 82). 11 nodoadas pelo mais ignominioso dos leitos, e de tocar o
O delegado do Duque Albrecht da Baviera, Agostinho Baum- 11p11 d Cristo na presença dos anjos. O núncio disse não conse-
gartner, informou ao Concílio de Trento, em 1562, que na última 11 p nsar em tal sacrilégio sem romper em lágrimas (ibid., 242).
visita à Baviera, "de uma centena de padres, eram dificilment transgressões contra o celibato foram muitas vezes punidas
encontrados uns três ou quatro que não vivessem em concubinat 111111 ltas. Em 1521 o bispodeConstança,Hugo vonLandenberg,
público ou secreto ou então que não se tivessem casado abertamen- 11ll 11 11 rca de seis mil florins em multas por aproximadamente
128 Uta Ranke-Heinemann
Eunucos pelo Reino de Deus 129

umas 1.500 crianças filhas de padres nascidas por ano - ou assim


alegaram seus inimigos protestantes (Flugschriften aus den ersten Z/jfibat und Priesterehe, p. 97). O bispo de Bamberg, Gottfried de
Jahren der Reformation IV, 7, editado por Schottenloher, 1911, Aschhausen, recorreu ao braço secular, "para que se pudesse abrir
305-6). E assim a questão dos padres casados desempenhou um •uminho à força nas residências, tirar para fora as concupinas,
papel substancial na propagação da Reforma. Muitos tomaram-se uçoitá-las publicamente e colocá-las presas" (Deschner, p. 164).
protestantes por razões de economia, como, por exemplo,.º pastor As noções reformistas de Lutero sobre o casamento de padres
católico Samuel Frick de Maienfeld, que de 1515 a 1521 foi sempre de religiosos causaram toda a espécie de tumulto na Inglaterra,
pontual no pagamento das multas a seu bispo por seus sete filhos, que se desligara de Roma em decorrência do divórcio de Henrique
até que se tomou protestante (O. Vasella, Reform und Reformation VIII. Como exemplo disso basta que observemos as freiras agosti-
in der Schweiz, 1958, p. 51). Para Frick assim como para muitos niunas do mosteiro de Lacock. O mosteiro foi fundado no século
outros a Reforma significou lucro financeiro. Os inspetores podiam UI e foi um dos últimos a ser dissolvido por Henrique VIII em
dizer se um pastor era protestante ou católico pela designação da 1539. Foi vendido a William Sherrington, um cavalheiro dafarru1ia
mulher que residia em sua casa - uxor (esposa) oufamula (cria- ui de Henrique VIII e que permanece até hoje nas posses da
da-serva). Esses dois termos tomaram-se a chave para a diferencia- umflia Sherrington. Henrique primeiro mandou para casa as freiras
ção confessional. E nesse processo de denominação e de descoberta oro, mas - ainda vinculado à tradição católica nessa questão
da identidade toda a diferença, a princípio, às vezes consistia no insistiu que nenhuma freira inglesa se casasse. O rei não tomaria
simples fato de que o pastor católico dizia que sua esposa era a , nhecimento das novas idéias luteranas da Alemanha. Mas então,
mulher da limpeza, e o protestante, que a mulher da limpeza era sua h governo de seu filho Eduardo VI, a Inglaterra se tomaria mais
esposa. O vice-cura católico de Heerdt encontrou uma fórmula •ididamente protestante. Permitiu que as freiras se casassem, e
1 111itas se casaram. Logo depois disso, Maria, a filha de Henrique
ecumênica para sua situação e em 1569 disse aos inspetores bem
em sua cara que não podia administrar sua fazenda pobre e mise- 1 u primeiro casamento com Catarina de Aragão, chegou ao
110110. Maria era católica; e as freiras que tinham se casado nesse
rável sem a governanta (famula) e seus quatro filhos (August
Franzen, Visitationsprotokolle, 1960, pp. 109-10). 1 o-tempo agora tiveram de aprender que estavam em pecado
Mas mesmo depois da Reforma, ainda havia muitos padres 111rt11I. Receberam a ordem de tomar a colocar os hábitos o mais
católicos que se consideravam casados. O Bispo Filipe de Worrns 1 11 ssa possível; mas isso foi tudo o que puderam fazer, porque
escreveu numa carta ao Deão de Wimpfen em 1598 que, 'com 1 mo Maria não conseguiu desalojar William Sherrington do
exceção do deão, "todos os clérigos são afligidos pelo vício infame 1 unte prédio pelo qual havia desembolsado tanto dinheiro. Por
e escandaloso do concubinato". Uma inspeção em Osnabrück em 1 1, 1 8 gunda filha de Henrique, Elizabeth, foi também coroada
1624/25 revelou que a grande maioria do clero vivia em concubi- 11h11; e determinou que as freiras eram legalmente mulheres
nato. No entanto, a Igreja procedeu com violência brutal. Em 1651, 11 Jus. Só sabemos de uma delas que conseguiu encontrar o
o Sínodo de Osnabrück anunciou: "Deveremos( ... ) inspecionar a · 1Ido e reassumiu a vida de casada que interrompera durante a
casa dos que estão sob suspeita noite e dia e fazer com que essas 111trn Reforma (cf. Bamber Gascoigne, Die Christen, 1981, VII,
pessoas indecentes sejam marcadas a fogo pelo carrasco. E se as 1
autoridades forem frouxas ou negligentes hão de ser punidas por 1lluminismoeaRevoluçãoFrancesanãoviramocelibatocom
nós" (Decr. 26: cf. Deschner, p.162). Uma vez mais no século XVII h11 umigos. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
1 l1111111va em 1791 que ninguém deveria ser impedido de casar.
o Arcebispo Fernando da Baviera fez com que todas as esposas dos
padres fossem colocadas na prisão ou expulsas do país (Franzen, lhm l s de padres franceses se casaram, entre eles o Bispo Talley-
d ( l libato foi revivido na França graças a Napoleão e seu
130 Uta Ranke-Heinemann unucos pelo Reino de Deus 131

pacto com Pio VII em 1801. Com os dogmas da Imaculada Con- d stinados a ele, e conseqüentemente é vivido ou suportado mais
ceição em 1854 e da infalibilidade papal em 1870, o século XIX >U menos com relutância. E que 52% dos candidatos consideram
seria não apenas o século da Mariologia e do papado, como também n cessário que o celibato obrigatório seja suspenso no futuro e que
o do celibato. No século XX, com os tratados de Latrão e o pacto que a critério do indivíduo decidir. Outros 27% consideram essa
entre o Vaticano e o governo italiano, os fascistas na Itália fizeram d ia uma opção que merece ser considerada, 11 % consideram-no
sua parte para impor a idéia do celibato. O Pacto de 1929 afirma ,mecessário, e só 9% o consideram fora de questão" (Geist und
que os padres não podiam ser assalariados nem permanecer no I ben, vol. 49, 1976, n. 1, 65). No caso dos padres, pelo menos dos
governo ou no serviço público sem a permissão do bispo local. E uis jovens, os resultados são semelhantes: "Sobre a questão do
assim a desgraça dos padres casados foi oficialmente programada. llbato, os candidatos ao sacerdócio pensam em linhas absoluta-
Mesmo em nosso século a idéia de que o corpo humano é algo nte semelhantes às dos padres mais jovens" (ibid. ).
negativo, algo de que a pessoa próxima a Deus deveria se libertar, A sim podemos entender que muitos padres estão virando as
tem importância decisiva para os celibatários da Igreja. Em sua , t11s ao celibato. Segundo estimativas para a Alemanha Ocidental,
encíclica Sobre o sacerdócio católico, do ano de 1936, Pio XI número chega a seis mil padres (Christenrechte in der Kirche,
11
ressalta: "Como Deus é espírito, parece apropriado que todo o que 1 ·ircular, 1987, 61). A estatística citada para a Itália é de oito mil,
seja ordenado e que se dedique a seu espírito deve também em certo 11 u França também de oito mil, e para os Estados Unidos, 17
sentido livrar-se de seu corpo" (trad. port., Vozes, 1946, Doe. li, m incluir os homens e as mulheres que pertencem às ordens
Pontif. nº 8). E em seu decoro e modéstia ainda observa: "Quando 1 osas (Ursula Goldmann-Posch, Unheilige Ehen: Gesprache
alguém tem um ofício que em certo sentido se eleva inclusive acima li l'rieste,frauen p. 12). Na esfera mundial, a Associação de
dos mais puros espíritos diante do Senhor, não será oportuno que Ir atólicos e Suas Esposas (Vereinigung katholischer Priester
deva viver o mais que possa como um espírito puro?" (ibid. p. 20). l lhrer Frauer), que foi fundada em Bad Nauheim em 1984,
Por sua vontade de viver como puros espíritos, os celibatários da ln oitenta mil padres casados. Esse total seria aproximadamente
Igreja se livraram de sua primeira e mais importante responsabili- 1 , lo clero católico no mundo. "Durante o pontificado de Paulo

dade, qual seja, a de viver como seres humanos em meio a seres ( 111, 1978) cerca de 32 mil padres de todo o mundo foram
humanos. lindos, ou seja, liberados do sacerdócio e portanto da obrigação
A 25 de outubro de 1969, Paulo VI orou a Maria, na Basílica llh 1to. Desde a ascensão de João Paulo II o Vaticano pratica-
de Santa Maria Maggiore em Roma: "Ensina-nos o que já sabemos i n o emitiu nenhuma laicização. Em Roma falam de um
e que humilde e confiantemente confessamos: a sermos puros, 'ln11u1111tionamento de laicização' ( ... )Entrementes estatísticas não-
como tu; a sermos castos, ou seja, fiéis a essa tarefa poderosa e fit Iam de mais de 10 mil petições no gelo" (ibid., p. 13).
grandiosa, que é nosso santo celibato, nestes dias em que tantos o Ili mero dos que desejam abandonar o celibato e se casar seria
discutem e alguns não mais o compreendem." Aqui, por certo, Ili 111 maior, caso os padres em questão não se vissem, em
temos um apelo só para a santa Maria da Igreja do Ocidente, que 1 pnrte, diante de um vazio vocacional depois de abandona-
se coloca do lado dos celibatários puros e castos contra o sacerdócio 11 11 : rdócio, já que não recebem nem seguro-desemprego,
casado impuro e incontinente. Alguns graus de longitude em dire- li 1111 lhamento, nem ajuda para novo treinamento.
ção a leste, Maria carece da mesma esfera de influência doutrinária v s r óbvio que em comparação aos padres casados o
e prática, por causa do costume imemorial do casamento de padres. 111 d padres solteiros que mantêm relações sexuais com
As pesquisas de candidatos ao sacerdócio já em 1974 mostram 11 substancialmente maior. E evidentemente os próprios
que atualmente também o celibato é muitas vezes rejeitado pelos 1 lu param à mesma conclusão por conta própria. "Uma
132 Uta Ranke-Heinemann /$Unucos pelo Reino de Deus 133

recente pesquisa de opinião encomendada pelo 'Grupo de Estudo 11 1lheres seriam consideradas "liberadas", por não aceitarem os
sobre o Celibato', em que se fez o levantamento de 1.500 padres f llpéis femininos tradicionais e, pelo contrário, financiarem Jesus
na arquidiocese de Colônia, constatou que 76% acreditavam que u grupo "com suas posses" (Lc 8, 3).
muitos dos membros do clero viviam com uma mulher de alguma No tempo de Jesus, era costume geral que, se uma mulher
forma" (ibid., p. 15). h asse a falar com um homem na rua, poderia ser repudiada pelo
Assim o celibato tomou-se uma ficção, e mesmo a respiração mtrido sem restituição de sua parte no casamento - sem pensão
artificial realizada pelo papa não salvará o paciente. Uma das mais 1 mentícia, diríamos hoje. E, por outro lado, era considerado
patéticas tentativas de justificar o celibato veio numa carta de João til üante que o discípulo de um rabino, para não mencionar o
Paulo II a todos os padres na quinta-feira santa de 1979: "Os que 1 prio rabino, falasse com uma mulher na rua. Essas mulheres que
exigem a 'laicização' da vida sacerdotal e aplaudem suas várias 11 uniam em tomo de Jesus, suas discípulas, não compunham uma
manifestações certamente nos deixarão em apuros caso sucumba- 1di ncia passiva. As mulheres foram as primeiras a anunciarem a
mos à tentação. Deixaremos de ser solicitados e populares" (tradu- Hurreição de Jesus. Lucas (24, 10) diz: "Eram elas Maria Mada-
ção do Secretariado da Conferência dos Bispos Alemães). Se o 1 n , Joana, Maria - mãe de Tiago; e as outras suas amigas
significado do estilo de vida celibatário é "ser solicitado e popu- lutaram aos apóstolos a mesma coisa." Não se tratava apenas de
lar", noutras palavras, tomar-se interessante, então é hora de de- formação particular, e sim de um anúncio público, já que a palavra
clarar falido este sistema. g para "relataram" (apaggellein) tem caráter oficial.
Aos olhos dos próprios discípulos a abertura de Jesus para com
mulheres era incomum. Pede de beber a uma mulher samaritana
1 ira de um poço e conversa com ela, embora os judeus tivessem
VIII 1 es hostis com os samaritanos. "Nisso seus discípulos chega-
m maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher.
N n uém todavia perguntou: 'Que perguntas?' ou: 'Que falas com
1 '/'" (Jo 4, 27).
0 MEDO DAS MULHERES ENTRE )s seguidores de Jesus, entretanto, não o seguiram nesse ponto.
os CELIBATÁRIOS bertura às mulheres, o respeito que demonstrava por elas
11m substituídos depois de sua morte, por parte dos oficiais
·ulinos da Igreja, por uma mistura peculiar de medo reprimido,
·onfiança e arrogância. Um testemunho poético da pia distância
manter das :r:_nulheres encontramos na segunda epístola pseu-
Jesus foi um amigo das mulheres, o primeiro e praticamente o 1 mentina, "As Virgens", presumivelmente composta no ter-
último amigo que as mulheres tiveram na Igreja. Causava sensaçã , século, mas até muito depois, já no período moderno, era
porque ele se relacionava com mulheres, porque era rodeado por 11 uída ao Papa Clemente 1 (m. 97), e portanto foi de extrema
"muitas mulheres" (Lc 8, 3), o que para um rabino e professor d pnrt ncia na educação do clero. "Com a ajuda de Deus eis o que
leis judaicas era absolutamente inaceitável e sem precedentes para ntt)S: não vivemos com virgens e nada temos a ver com elas.
seu tempo. Sabemos que ele teve 12 discípulos homens, embora •ornemos e não bebemos com virgens, e onde dormem lá não
também muitas discípulas, inclusive senhoras de sociedade como 1111imos. As mulheres não nos lavam os pés, nem nos ungem. E
Joana, mulher de um procurador de Herodes Antipas. Hoje essaH li vnmente não dormimos onde esteja uma virgem consagrada,
134 Uta Ranke-Heinemann unucos pelo Reino de Deus 135

na realidade nem sequer passamos uma noite lá" (cap. 1). Onde o fnl 1. Dificilmente imaginaríamos maiorcontrastre do que o encon-
Pseudo-Clemente passa uma noite, "não pode haver qualquer 1 ndo entre a conduta de Jesus e a de Agostinho. Possídio, durante
mulher, nem moça solteira, tampouco mulher casada, nem mulher muitos anos seu amigo e colega de alojamento, conta que: "Nenhu-
idosa, nem consagrada a Deus, nem criada cristã, nem pagã, porque m t mulher jamais botou o pé em sua casa, nunca falou com uma
só homens podem estar com homens" (cap. 2). Esse trecho pseu- mulher exceto na presença de uma terceira pessoa ou fora da sala
dopapal é particularmente curioso porque seu autor evidentemente 1 visitas. Não fez exceções, nem mesmo para sua irmã mais velha
queria superar Jesus na castidade. Faz uma alusão por demais clara ua sobrinhas, as três freiras" (Vita 26). Esse comportamento
à cena com a mulher pecadora que lavou-lhe os pés com as 11 re que o homem era psíquicamente perturbado.
lágrimas, e então beijou-os e ungiu-os. Em sua pureza celibatária, As mulheres eram um perigo moral tanto maior, quanto mais a
o escritor nunca teria permitido qualquer coisa semelhante consigo rança da Igreja insistia em compelir os padres ao celibato. A
próprio. Com esse modelo peculiar de castidade, o escritor afronta 1 hin de mulher, conforme encontramos, digamos, em Agostinho,
Jesus, que comia e bebia com mulheres e não se ofendia em dormir o I ria ser vista só como uma aberração particular grotesca, en-
numa casa onde também elas dormissem. 111 nto esse modo patológico de comportamento não tivesse con-
Os celibatários da Igreja nunca conseguiram lidar livre e aber- 10 ·ncias legais na Igreja. Mas teve conseqüências, que
tamente com as mulheres. Seus status e estilo de vida foram por 1 nificaram um trauma imenso para as mulheres. O Sínodo de
demais baseados na diferenciação e oposição ao casamento e à lviru proibia aos padres que permitissem a presença das filhas em
feminilidade para que não vissem as mulheres como a negação de 11 , a menos que fossem virgens e tivessem feito os votos de
sua existência celibatária e uma ameaça a ela. As mulheres muitas 1idade. Sínodos incontáveis proibiram as mulheres que não eram
vezes os atingiram como a personificação das armadilhas do demô- 1 ntcs de permanecer na casa dos clérigos, por exemplo, o quinto
nio. O maior perigo do mundo, conforme o vêem, move-se furtiva- 11 ,d de Orléans, em 549, declarava que não deveria haver mulher
mente nesse sentido. Crisóstomo deixa isso claro em seu escrito 1 unha em casa, "e mesmo as parentas não devem ficar ali em
Sobre o sacerdócio: "Há no mundo um grande número de situações IIN inconvenientes" (Carl Joseph Hefele, Konziliengeschichte,
que debilitam a consciência da alma. A primeira e mais importante 1, \), O Sínodo de Tours, em 567, decretou que o clérigo poderia
destas é o trato com as mulheres. Em sua preocupação com o sexo m casa "apenas mãe, irmã, filha ... nenhuma freira, nenhuma
masculino, o superior não pode se esquecer das mulheres, que vn, nenhuma criada". Mâcon, em 581, determinou que "só uma
precisam de maiores cuidados, exatamente por causa de sua pronta , m e, irmã, ou sobrinha poderiam, se necessário, viver na
inclinação para o pecado. Nesta situação o inimigo maligno pode 1 ". Toledo, em 633, ordenou que: "Nenhuma mulher pode viver
encontrar muitas maneiras de entrar sorrateiramente, em sigilo. 11 ll dos sacerdotes, exceto as mães, as irmãs, as filhas e as tias."
Pois o olhar das mulheres toca e perturba nossa alma, e não só o 1 ut, m 743 não permitia mulheres, "exceto a própria mãe ou
olhar da mulher desenfreada mas também o da mulher decente" ntus mais próximas". O terceiro Sínodo de Toledo, em 589,
(VI, cap. 8). Obviamente o celibato não consegue mudar homens 1111 1 ceu que todos os padres que tivessem mulheres estranhas
em seres assexuados, e por isso "o olhar da mulher" era um perigo 11 11 que despertassem suspeita deveriam ser punidos, enquanto
constante. 111111h resseriam vendidas como escravas pelo bispo. De modo
Agostinho desempenhou um papel decisivo nas relações dos 1 Ih inte, um Sínodo Provincial de Sevilha (ca. 590) ordenava
celibatários com as mulheres. Esse ilustre santo moldou o ideal da 1 juízes seculares vendessem as mulheres encontradas nas
piedade cristã mais do que qualquer um antes ou após ele, e sua -• dos padres. O quarto Sínodo de Toledo (633) repetiu a ordem
atitude negativa perante as mulheres revelou-se particularment Il i l11 no terceiro: se os padres tiverem contato com mulheres
136 Uta Ranke-Heinemann unucos pelo Reino de Deus 137

estranhas, essas serão vendidas, e os padres castigados. O Sínodo m 1888 e foi canonizado em 1934, escreve em 1951 que este padre
de Augsburgo de 952 determinava que as mulheres "suspeitas", h moso "era tão casto, que só permitia ser auxiliado pela mãe". (Se
nas casas de membros do clero, tinham de ser expulsas com açoite. to tipo de auxílio é critério de santidade, muitos filhos têm as
Os Sínodos de Sens (1269), de Bourges (1286) e o Concílio 1ualidades essenciais de um santo.) E em 1895, o Papa João·XXIn,
Nacional Alemão em Würzburg (1287) proibiram ao clero de ter nt o menino de 14 anos, captou o espírito de Agostinho, quando
cozinheiras. •reveu em seu diário espiritual: "Todo o tempo( ... ) devo evitar
Mas as mulheres estranhas (ou seja, que não eram parentes), trato, devo evitar jogar ou brincar com mulheres - a despeito de
na casa de membros do clero, não eram as únicas sob suspeita. A uu condição, idade ou grau de parentesco." Em 1897 escreveu:
11
desconfiança recaía inclusive sobre os membros mais íntimos da As mulheres de qualquer condição, mesmo parentas e santas, hei
farm1ia. O Papa Gregório I, o Magno, escreveu aos bispos (Epístola tratar com respeitosa reserva e evitar toda a familiaridade, todas
60) advertindo-os para não conviverem mesmo com as mães ou as r uniões e conversas com elas, especialmente se forem jovens.
irmãs. O Sínodo de Nantes (658) fala das relações perversas entre N o levantarei meu olhar para seu rosto, lembrando o que ensina o
padres e as respectivas mães e outros parentes, declarando: "Os 1 pírito Santo: 'Não detenhas o olhar sobre uma virgem, para que
membros do clero não devem permitir que nem mesmo a mãe, a uu beleza não venha a causar tua ruína"' (tradução em Geistliches
irmã, ou a tia viva em casa com ele, porque atos horríveis de incesto 1 Nt•buch, Herder, 1969, pp. 26, 36. Essa tradução é tendenciosa.
já ocorreram." O sínodo reformista de Metz, em 888, não admitiria 11 v z de "evitar", o italiano original diz "fugir, como do demô-
11
na casa de um clérigo nem a mãe, nem a irmã; e o Sínodo de 1 1 • Uma nota misógina semelhante cinqüenta anos depois, escrita
Mogúncia, no mesmo ano, diz no artigo 10: "Os clérigos não 1947 pelo homem que era então núncio em Paris, o Cardeal
podem ter em casa mulheres de qualquer grau de parentesco, porque n •nlli, foi simplesmente omitida da tradução alemã). O papa,
alguns inclusive se desencaminharam com as próprias irmãs." turulmente, interpretou de modo completamente errado a passa-
Esses pronunciamentos sugerem a grande miséria que muitas pes- mdo Eclesiástico 9, 5 que menciona. O texto diz que não se deve
soas sofreram em decorrência da prática infeliz da coerção de luiir qualquer menina, para que não se seja obrigado a pagar ao
padres ao celibato. uma multa e casar com ela.
Os seguintes regulamentos ilustram como a Igreja definia o Até hoje os celibatários da Igreja acreditam que o perigo tem
papel da mulher como sedutora: o Sínodo de Paris, em 846, proibia s femininas, e essa crença foi levada em consideração na
a qualquer mulher entrar no lugar onde estivesse um padre. Em 906, mm; o dos padres. Isso é atestado por muitos padres e estudantes
o abade Reginon de Prüm, em Eifel, instado pelo arcebispo de Trier, 1 ologia citados em Klerus zwischen Wissenschaft und Seelsor-
Ratbod, emitiu uma ordem para que se vigiassem os padres: veri- litado por Leo Waltermann (1966). Os depoimentos aí infeliz-
ficar e ver se "o padre (possui) algum cubículo junto à igreja ou se Ili s o anônimos; mas a Igreja Católica não apóia a liberdade
há portinhas suspeitas nas proximidades" (cf. Karlheinz Deschner, pr ssão. O modo como os clérigos são treinados para demons-
Das Kreuz mit der Kirche: Eine Sexualgeschichte des Christen- 111,u1 obediência ansiosa e sem aprumo a seus senhores consti-
tums, p. 160). O Sínodo de Coyaca em 1050, organizado pelo Rei 111 um outro capítulo na história da educação sacerdotal. Alguns
Fernando I, não permitia que mulheres vivessem nas vizinhanças 111' rmantes de Waltermann foram no entanto suficientemente
da igreja. O mesmo sínodo exigia que as mulheres das casas dos 1 j11 )S para dizer que os seminaristas eram advertidos para "não
clérigos se vestissem de preto. t •om as freiras e as noviças em casa" (p. 83). Um capelão
O exemplo salutar de Agostinho encontrou imitadores nos 111111 sobre a "proibição de dizer alô para as meninas que varrem
tempos modernos. La Varende, biógrafo de Dom Bosco que morreu 1111 !ores" (p. 146). Um pastor escreve: "Na realidade somos
138 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 139

deixados quase que inteiramente sem orientação sobre o celibato; asos aqui. Não procurarei abrandar a dureza desse versículo; mas
pois somos aconselhados continuamente a fugir das mulheres como uma contraquestão merece ser citada: De que modo os que insistem
sendo essa a melhor conduta" (p. 158). Outro capelão nos conta: no silêncio feminino explicam o fato de que na mesma epístola ( 11,
"Vida sacerdotal: o assunto do celibato era tabu. Ao perguntarmos 5) Paulo fala de mulheres que pregam abertamente na igreja; e trata
ao diretor se ele não queria usar do horário regular de instrução para tema como questão corriqueira? Seja como for que se entenda a
nos dizer alguma coisa sobre o celibato, em vez de tratar dos bservação de Paulo sobre o silêncio - houve um infinita varie-
assuntos usuais (rubricas, ordem-do-dia, comportamento, a tradu- d de de tentativas para explicá-la (uma interpolação posterior, não
ção dos hinos latinos do breviário), obtivemos a resposta: 'O que d próprio Paulo, ou apenas se refere a "interrupções", e portanto
dizer a respeito? Vocês não têm permissão para casar, e é só isso.' desordem, já que alguns versículos antes [28 e 30] o mesmo
Depois acabou de fato dizendo alguma coisa: devemos ter cuidado li ncio é exigido também dos homens etc.) - não deve de qual-
com as mulheres e ( ... ) mesmo com velas bentas vocês podem li r forma ser lida na perspectiva simplória, unilateral e misógina
queimar os dedos"(p. 167). 1u preferem alguns eclesiásticos.
Ao manterem a devida distância das mulheres, os celibatários Não negamos que existam passagens em Paulo e noutros textos
da Igreja são auxiliados pela consciência de sua própria superiori- Novo Testamento que tratem as mulheres como submissas. A
dade espiritual. Quando inesperadamente se mostram condescen- imeira Epístola a Timóteo (2, 12) não hesita em dizer: "Não
dentes e cumprimentam as mulheres, suas palavras revelam um mito à mulher que ensine, nem que se arrogue autoridade sobre
sabor cômico que pode ser inclusive mais desalentador do que o homem, mas permaneça em silêncio." Assim, se 1 Coríntios (14,
desprezo usual diário. Conforme certa vez me escreveu um bispo não é suficiente, os comentaristas citam as Epístolas a Timóteo,
de Essen (em 1964): "Fico contente que você, esposa e mãe, nham ou não sido escritas por Paulo. A Bíblia é a Bíblia. Ou talvez
consiga ainda ser tão ativa espiritualmente." não seja exatamente verdadeiro. Pouco antes dos versículos
tidos em 1 Timóteo lemos: "As mulheres usem traje honesto( ... )
nfeitem sem frisar os cabelos, sem ouro nem pérolas nem
tidos de luxo" (v. 9). Hoje essa ordem não é interpretada tão
IX t ltumente. Ou pelo menos não ouvimos falar de mulheres detidas
porta da igreja e obrigadas a depositar os brincos e os broches
ucristia para guarda, ou para ver se estão com os cabelos
d s.
A SUPRESSÃO DAS MULHERES PELOS 1 ura muitas pessoas a Bíblia é urna espécie de supermercado,
1 s apanha o que se precisa. Por exemplo, ao citar o versículo
CELIBATÁRIOS
1 rido: "As mulheres sejam submissas a seus maridos" (Ef 5,
, os pregadores em geral omitem o páragrafo principal onde
111 : ''Sujeitai-vos uns aos outros" (Ef 5, 21), noutras palavras:
Ili tridos devem ser igualmente subordinados às esposas. Isso
Ü texto bíblico preferido dos sacerdotes é 1 Cor 14, 34: "Como ilinria as coisas entre homens e mulheres - embora não
em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas li um nte, porque, alguns versículos adiante, o texto diz: "As
assembléias." A Bíblia é a palavra de Deus, mas às vezes a palavra 11 11s sejam submissas em tudo a seus maridos" (v. 24), sem
dos homens forçá a entrada; e nós evidentemente temos um desses 1 o à retribuição do favor pelos maridos. Esse desequilíbrio é
140 Uta Ranke-Heinemann .unucos pelo Reino de Deus 141

infeliz e não pode ser sequer justificado pela posição das mulheres n o mais prossegue no Ocidente cristão, não é graças à Igreja, mas
nos tempos de Jesus, já que as mulheres pagãs e judias faziam P ar del~, e po~ certo ~inda não foi detido na própria Igreja.
melhor do que isso em muitos pontos. À proporção que o cristia- Na raiz da d1famaçao das mulheres na Igreja, encontra-se a
nismo ganhou solo, as mulheres inclusive perderam seus postos na noção de que são impuras e como tais se opõem ao que é sànto. Na
organização paulina. nvuliação dos clérigos, as mulheres são seres humanos de segunda
A princípio as mulheres participavam ativamente da expansão 1 sse. Clemente de Alexandria escreve: com relação às mulheres
11
da Igreja jovem. Paulo relata (1 Cor 11, 5) que as mulheres prega- xata consciência de sua própria natureza deve evocar sentimen~
vam durante a liturgia como faziam os homens. Fala de mulheres de vergonha" (Paeda.gogus II, 33, 2). Embora Clemente não
que "profetizam", o que indica um ato de proclamação oficial, plicasse às mulheres a razão para essa indecência intrínseca
melhor traduzido por "pregação". Mulheres como Febe eram lxa claro como deveriam se vestir: "As' mulheres devem esta:,
diaconisas (Rm 16, 1-2). Paulo chama a si mesmo de diácono, ou rnpletamente veladas, exceto quando estão em casa. Ao velarem
ministro, de uma comunidade (Cl 1, 25); e parte do serviço prestado rosto, e~tarão assegurando que não atrairão ninguém ao pecado.
pelos diáconos era o ensino (Cl 1, 28). Na Epístola aos Romanos 1, sa e a vontade do Logos, a de que convém que elas se cubram
(16, 3), Priscaé chamada de "cooperadora em Jesus Cristo", termo 111 véu na oração" (ibid. , III, 79, 4).
que para Paulo sempre vem acompanhado de uma autoridade mandamento para que as mulheres cubram o rosto aplica-se
oficial especial. O serviço na igreja é caracterizado em 1 Cor 16, 1r tudo no campo do sagrado. As Constituições Apostólicas (II,
16 como "trabalho árduo". Em Rm 16, 12, três mulheres, Trifena, , mpostas ca. 380) estabeleciam que as mulheres só podiam
Trifosa e Pérside são descritas como mulheres "que muito traba- mnr a comunhão usando véu. Em sua famosa Resposta aos
lham para o Senhor". Em 1Ts 15, 12, "as pessoas que arduamente 1 aros, em 866, o Papa Nicolau I também exortou as mulheres
trabalham entre vós" são as "que dirigem" . 1 ,rcm _véu na igreja. No sexto século, a Igreja inclusive exigiu
Paulo caracteriza uma mulher chamada Júnia como "muita 111' maos das mulheres fossem encobertas: "Uma mulher não
estimada entre os apóstolos" (Rm 16, 7). Com o tempo, desde 1 ~e aproximar da eucaristia de mãos nuas" (Mansi 9, 915).
que ele escreveu o texto, Júnia sofreu uma mudança de sexo, e lo IS o fez parte das medidas repressivas da Igreja contra as
1lht rcs.
foi denominada "Júnias". Mas a Igreja primitiva bem sabia:
Jerônimo e Crisóstomo, por exemplo, tomam como certo que Mas a ordem para usar o véu foi além da esfera do sagrado.
Júnia era mulher. Crisóstomo escreve: "Que brilho e habilidade 11 ·nndo _um suposto regulamento do apóstolo Paulo que na

essa mulher deve ter tido para ser merecedora do título de lldude nao fala de nenhuma espécie de velamento Crisóstomo
apóstolo, e de fato proeminente entre os apóstolos" (ln epist. ad 1 nou "que as mulheres se velassem não só na ho;a da oração,
Romanos homilia 31, 12). Até o fim da Idade Média nem um •onstantemente" (Vigésima Sexta Homilia sobre J Cor 11 5).
1111 10 não diz que ela deve ser coberta, mas que ela deve' ser
único comentarista vira um nome de homem em Rm 16, 7 (cf.
B. Brooten em Frauenbefreiung: Biblische und Theologische
1 d11, u seja, se vestir com bastante cuidado" (ibid., 11, 6).
1 , tomo está errado e exagera aqui. Paulo não está falando de
Argumente, editado por E. Moltmann-Wendel, 1978, pp. 148-
111111 nto; na realidade, nem sequer fala em cobrir, e sim de um
51). Mas na contínua repressão das mulheres pela Igreja, esse
h • / lt'l!leado feminino prescrito para os círculos judeus de devo-
nome de mulher foi substituído por um nome de homem. A
11h1· ~~~ o~ ~ari~~us. Em Paulo a expressão "com a cabeça
história do cristianismo é quase a história de como as mulheres 11ht rta s1gmf1ca com o cabelo desarrumado", sinal de modo
foram silenciadas e privadas de seus direitos. E se esse processo ldu relaxado. "Com a cabeça coberta" significa com "um
142 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 143

penteado decente". Mas Crisóstomo não foi o único a interpretar ' nário eclesiástico. Do ponto de vista da Igreja a melhor mulher é
erradamente Paulo: em alguns países as mulheres ainda pedem u de quem menos se fala, menos se olha e menos se ouve falar. O
emprestado um chapéu ou um véu antes de irem à igreja. gu)amento paulino do penteado foi transformado num capuz
Um título para 1 Cor 11 ("Do velamento das mulheres na mágico, sob o qual se consegue fazer a mulher desaparecer inteira-
igreja") foi acrescentado depois em muitas das traduções da Bíblia, m nte. De todos os regulamentos datados do Novo Testamento a
mas isso também é falso. O ponto em questão são os penteados. 1 reja Católica preservou com mais diligência e multiplicou os q~e
Nos tempos de Jesus, o cabelo das mulheres judias respeitáveis era lminuíam a condição ou o status da mulher. Quanto aos demais
primeiro trançado, então se colocava na cabeça um pano de lã que lamentos bíblicos obsoletos, como a ordem: "Não receberás
chegava até os olhos. As tranças eram arrumadas sobre esse pano, 1 (teu irmão) nem juros nem ganho; mas temerás teu Deus" (Lv
então vinha uma fita, e depois uma pequena cobertura sobre as ~ 36), as coooperativas de crédito diocesanas e os bancos papais
tranças as mantinha juntas, por fim, no alto de tudo uma rede de h muito costumam suspendê-los.
cabelos, que dava suporte ao penteado. Como Crisóstomo, Ambrósio também ordenou que as mulhe-
Conta-se a história da esposa do famoso Rabi Akiba (m. 135), undassem pelas ruas cobertas com um véu: "Que a mulher cubra
que vendeu as tranças para custear os estudos do marido. Isso 1beça, de forma a garantir o decoro mesmo em público. Suas
demonstra que algumas mulheres gastariam dinheiro para ter um ões não devem ser prontamente oferecidas aos olhos de um
penteado apropriado, caso a natureza não lhes desse cabelos em m m jovem, e por esse motivo deve-se cobrir com um véu
quantidade suficiente (cf. H. L. Strack e P. Billerbeck, Kommentar 1p ·ial" (Sobre a penitência, cap. 16). As chamadas Constituições
zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch, III, pp. 427 e ss). ostólicas (ca. 380) de forma semelhante exigem que as mulheres
A "mulher pecadora da cidade" (Lc 7, 37) enxugou os pés de Jesus ·ubram com véu nas ruas.
com os cabelos soltos - o que correspondia à sua vida dissoluta. A Igreja veio ainda com outros mandamentos e medidas para
Pelo contrário, o Talmud fala de uma mulher cujos sete filhos se rndar as mulheres. No início do quarto século, o cânon 81 do
tomaram sumos sacerdotes para que ela nunca andasse com o 1 ui de Elvira determinou que as mulheres não poderiam escre-
cabelo desarrumado, nem mesmo em casa (Strack e Billerbeck, III, 11 m receber cartas em seu próprio nome. Nem teriam permissão
p. 430). Paulo afirma que se a mulher não arrumar o cabelo •ortar o cabelo (Sínodo de Gangra, século IV). Essa proibição
decentemente, então deveria muito bem raspá-lo (1 Cor 11, 6). Isso vn as adeptas de um certo Eustácio de Sebaste (m. depois de
seria absolutamente vergonhoso. Em qualquer caso ele está falando ), fundador de uma seita rigorosamente ascética. Hefele escre-
sobre o cabelo e não sobre véus ou chapéus. Mesmo assim, já está " Nu Primeira Epístola aos Coríntios (11, 10), o apóstolo Paulo
confundindo questões de moda com as de decência e moralidade. •ubelo longo das mulheres, que lhes foi dado como um véu
E é preciso contudo admitir que Paulo exige um penteado 111, como sinal de sua submissão ao homem. Como muitas
conveniente das mulheres e quer manter a ordem patriarcal na vidH 1 lnras de Eustácio, conforme nos informa o Sínodo de Gangra,
delas. Ainda não vai tão longe quanto foram os Padres da Igreja em 11111· nn essa submissão e deixaram os maridos, também desisti-
sua interpretação repressiva. É digno de nota que Paulo exige qu ln Mm bolo dessa condição e deixaram de usar cabelos longos"
a mulher cubra a cabeça (no sentido explicado) durante as oraçõeN O) ,
e pregações públicas. Crisóstomo significativamente omite o as• 11rr gimentação de mulheres pelos celibatários da Igreja
sunto da pregação de qualquer forma: o processo pelo qual a lgreju 1111 11-se à vida particular. As Constituições Apostólicas adver-
silenciava as mulheres, cobrindo-as o mais possível, e as afastav11 11111 l heres para não se lavarem com muita freqüência:
"Além
dos olhos do público era geral. A mulher pregadora desapareceu do _111 (a mulher) não deve se lavar com muita freqüência, não
144 Uta Ranke-Heinemann unucos pelo Reino de Deus 145

ao meio-dia, nem todos os dias. Que lhe seja atribuída a décima 1 reja; pelo contrário, devem simplesmente rezar e ouvir os mes-
hora como o momento apropriado para o banho" (I, 9). Clemente t s. Para nós, o próprio Mestre e Senhor Jesus só nos enviou os
de Alexandria se preocupava com a prática de esportes entre as 1 oze para ensinar o povo e os gentios. Mas nunca enviou mulheres,
mulheres. Ao mesmo tempo que queria locais apropriados para que mbora estas não faltassem. Pois a mãe do Senhor estava conosco,
os homens se exercitassem ("Os homens devem participar de lutas uu irmã, Maria Madalena, Maria- a mãe de Tiago, Marta e Maria
romanas sem roupas ou de jogos de bola", Paedagogus III, 50, 1), , as irmãs de Lázaro, Salomé e muitas outras. Se tivesse sido
dizia: "As mulheres também não devem ser excluídas do treina- •onveniente, ele as teria chamado por conta própria. Mas se o
mento físico. Não devem participar das lutas romanas e das corri- m rido é o chefe da esposa, não está certo que o resto do corpo
das, mas deviam praticar fiação de lã e a tecelagem, e ajudar a fazer mande a cabeça" (III, 6). De acordo com a vontade de seus
pão, quando necessário. As mulheres devem também ir buscar na nhores espirituais, as mulheres na igreja tinham de ficar quietas,
despensa aquilo de que precisamos" (ibid., 49, 2-3). 1 o quietas que só podiam mover os lábios sem emitir qualquer som.
Crisóstomo (m. 407) suspira piedosamente por causa das mu- "Ali, virgens devem rezar em silêncio os Salmos e ler em silêncio.
lheres em geral: "Todo o sexo é fraco e volúvel" (Nona homilia d vem falar com os lábios de sorte que nada seja ouvido; 'pois
sobre J Tm 2, 15). Mas conhece uma possibilidade de redenção para li n o permito que as mulheres falem na igreja'. As mulheres
elas: "Devemos então dizer que não há salvação para elas? Sim, v m fazer só isso. Quando rezam devem mover os lábios, mas a
há. De que tipo? A salvação através dos filhos" (ibid.). Pelo 'I. não deve ser ouvida", conforme declara Cirilo de Jerusalém
contrário, Ambrósio (m. 397) vê nas crianças e nos problemas que n. 86) (Catequese introdutória, cap. 14).
trazem, além do prazer carnal da mãe que tomam manifesto, um As Constituições Apostólicas defendem que como a mãe de
motivo para rejeitar a maternidade e recomendar a virgindade: us não batizou o filho, fica provado que as mulheres não estão
"Que uma nobre esposa se gabe de sua numerosa quantidade de m1itidas de batizar ou realizar outras funções sacerdotais. "Mas
filhos; à medida que aumenta esse número, o mesmo se dá com seus nu seção anterior não permitimos que as mulheres pregassem,
problemas. Ela poderá contar com o consolo que os filhos lhe 1u alguém deseja ir contra a natureza e permitir-lhes fazer o
trazem, mas que conte também as mágoas. Ela se toma mãe, mas v · sacerdotal? Pois fazer das mulheres sacerdotisas é um erro
os fardos não perdem tempo em se acumular: antes que possa mpiedade pagã (os sacerdotes pagãos eram evidentemente
apertar a criança junto ao coração, lamenta-se das dores cruciantes os hostis às mulheres do que os cristãos). Então também, se
( ... ) as filhas deste mundo se casam e são dadas em casamento, mas permitido que as mulheres batizassem, o Senhor por certo
a filha do Reino dos Céus se abstém de todo o prazer carnal" (De sido batizado por sua mãe e não por João" (ibid., III, 9).
virginibus I, cap. 6). t 1li uno (m. depois de 220) também exige que não seja permitido
Com essa espécie de teologia prática, as mulheres são rapida- mlheres batizar ou ensinar. Por um lado insiste que o batismo
mente afastadas da esfera da Igreja e do sagrado. Não surpreende r ministrado por "qualquer um", mas por outro proíbe com
que as Constituições Apostólicas não permitissem que mulheres 1 1 n ia às mulheres de assim procederem: "Espera-se que a
ocupassem postos na Igreja. (Esse texto foi a compilação mais 11 n ·ia louca das mulheres, que ousaram querer ensinar, não vá
abrangente das leis canônicas e da liturgia do quarto século. Alega 11111 a ponto de reivindicarem o direito de batizar também"
terem sido os apóstolos os autores e por isso teve grande influência. 1/, •o batismo, cap. 17).
Por volta de 1140 foi em grande parte incorporado ao Decreto d . mulheres também não deviam servir ao altar. O Sínodo de
Graciano e nessa forma continuou a ser importante até o presente): li · itt (século IV) declara (cân. 44): "não é permitido às
"Não permitimos que as mulheres exerçam o ofício do ensino nn Ih 1 , aproximarem-se do altar." O Sínodo de Nimes (394)
146 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 147

proibia o "serviço sacerdotal" das mulheres, opondo-se assim à fato de que a "praga" não só das freiras, mas de todas as mulheres
seita prisciliana, em que as mulheres eram sacerdotisas. De forma n altar, fosse "erradicada" através dos séculos até os dias atuais.
semelhante, numa carta aos bispos da Lucânia, em 494, o Papa Mesmo no século XX a proibição de mulheres servirem ao altar
Gelásio (m. 496) considera o serviço das mulheres no altar como f' i mantida. Em 1917 foi apoiada no livro das leis da Igreja, o CIC
um desrespeito "Conforme descobrimos, para nossa ira, tal é o ( odex Iuris Canonici). "A mulher não pode ministrar. Só admite-
desprezo pelas verdades divinas que até mulheres, como fomos exceção, se não se dispuser de um homem e houver bom motivo.
informados, servem aos santos altares. E tudo o que é exclusiva- Mas as mulheres não podem em caso algum subir ao altar e só
mente confiado ao serviço de homens tem sido executado pelo sexo ~em dar_ respostas de longe" (cân. 813 § 2). Numa capela de
que não tem direito de fazê-lo." Foi levantada uma queixa seme- iras, a missa pode ser celebrada com o auxílio de uma freira. Mas
lhante no Sínodo de Nantes em 658. for fácil conseguir um coroinha, então se comete pecado venial
No Oriente também, no sínodo persa de Nísibis em 485, o ' NO se use uma mulher. Fica proibido sob pena de grave pecado,
metropolitano Barsumas e seus bispos proibiram às mulheres de ntudo, a uma mulher que esteja auxiliando aproximar-se do altar''
entrar no batistério e de assistir aos batismos, porque isso estava H ribert Jone, Katholische Moraltheologie, 1930, p. 444).
levando à indecência e a casamentos proibidos. O Sínodo de No novo Código do Direito Canônico, em vigor desde 1983,
Aquisgrana, em 789, declarou ser proibido às mulheres entrarem houve progresso aparente, já que o cânon 906 diz que se exige
11
no santuário. Os estatutos sinodais de São Bonifácio (m. 754) participação de ~m dos fiéis" na celebração da missa, o que pelo
proibiam às mulheres cantar na igreja. O sínodo reformista de Paris, nos em aparência acabAa com a proibiç~o sobre as mulheres que
em 829, exprimiu queixa sobre os seguintes abusos: "Em algumas ludam a missa. Mas o canon 230 § 1 deixa claro que o ofício do
províncias as mulheres acotovelam-se ao redor do altar, tocam os ' 61ito~' só pode ser confiado a homens. E portanto em 1980, 0
vasos sagrados, passam ao padre as vestes sacerdotais, e até distri- pu Joao Paulo II ordenou, numa instrução com o belo nome de
buem o corpo e o sangue de Cristo às pessoas. Isso é vergonhoso e ' Jma dádiva sem preço", que "às mulheres estão vedadas as
não deve ocorrer... Sem dúvida esses costumes surgiram' pelo n · es de ajudante de missas". Em 1994, João Paulo II revogou
descuido e negligência dos bispos." NU dá~iva sem preço", podendo as mulheres novamente ajuda-
na ffilssa.
A segunda carta do Pseudo-Isidoro, atribuída ao Papa Sotero
(m. 177), forjada (presumivelmente por volta de 850), mas que ~a antiguidade até os tempos modernos, as mulheres foram
constituiu base sólida na repressão às mulheres pregada pelos h1das de cantar em coros de igreja. Mesmo no século XX a
lhição foi repetida por Pio X (hoje canonizado), porque era
líderes da Igreja, afirma: "Foi informada a Santa Sé que as mulhe-
n~o_às mulheres terem qualquer função litúrgica (Motu próprio
res consagradas e as freiras entre vós têm tocado os vasos sagrados
musica sacra, 1903). No Repertorium Rituum de Philipp Hart-
e as vestes sacras. Ninguém que saiba o que é certo duvidará de que
11_1 do an? de 191~ l~mos: "Só homens de conhecida devoção e
tal conduta merece desaprovação e censura. Portanto, ordenamos,
1idade tem perffilssao para serem membros de coro de igreja,
com base na autoridade da Santa Sé, que cesseis de assim proceder
1 ns que se mostrem dignos dos serviços sacros. Como os
o mais depressa possível, e que impeçais essa praga de se propagar l11r s na igreja ocupam um posto litúrgico, as vozes femininas
por todas as províncias". Por volta de 1140 a carta forjada foi citada 1odem ser usadas na música sacra. Assim, caso se queiram as
por Graciano como tendo autoridade papal, e dessa forma recebeu de contralto e soprano, devem se aceitar meninos" (p. 360).
a importância que ainda tem, até hoje (cf. Ida Raming, Der Aus- Ili 1~40 s~ deu uma reviravolta, quando na nova edição do
schluss der Frau vom priestlichenAmt, 1973, p. 9). Contribuiu para rtorium Rituum de Johannes Kley, ali se lê "( ... ) os meninos
148
Uta Ranke-Heinernann unucos pelo Reino de Deus 149

devem ser incluídos, mas agora as mulheres também são, em grande m virtude da arrogância masculina, renunciou a um aspecto deci-
parte, admitidas" (p. 403). Pio XII cautelosam~~t~ permitiu que as lvo da catolicidade que deveria preencher. Há muito que trocou
mulheres cantassem, mas só "fora do presbiteno e da mesa da u catolicidade por um sexismo presunçoso.
comunhão" (lnstructio de musica sacra AAS 48[1958] 658). Mas Essa Igreja viril degenerou num cristianismo atrofiado. A fé
não é impossível que reformistas como o atual papa varram dos rlstã ressecou-se num credo celibatário; e por esse motivo os
coros de igreja mulheres ali infiltradas. nhores espirituais da Igreja em grande parte perderam o senso
No passado, a forma de impedir as mulheres no canto e~a que a fé cristã é na realidade. Exemplo típico disso temos na
através do coro de castrati (castrados). No Lexikonfür Theologie l lrmação feita pelo Cardeal Hengsbach de Essen sobre a ocasião
und Kirche lemos: "A castração de meninos para preservar-lhes as rdenação. Segundo Westdeutsche Allgemeine Zeitung, de 24
vozes de s~prano e contralto foi praticada especialmente na Itália maio de 1988, ele chamou as "exigências atuais e espetacu-
do século XVI ao XVIII. Ao contrário da Alemanha e da França, s para a remoção do elo entre o celibato e o sacerdócio" uma
na Itália os castrati rapidamente abriram caminho na Igreja. Na " rise de fé". Ainda pior, descreveu essa crise como a "verda-
Capela Sistina vieram durante o reinado de Clemente VIII (1592- ru emergência religiosa da atualidade". Assim, uma crise de
1605) para substituir homens que cantavam em falsete nos trechos , d ntro dessa perspectiva, é questionar o celibato compulsório,
de soprano (nunca foram em geral aceitos nas partes~~ contralto). m dida que a fé esteja presa a essa compulsão. Tais axiomas
No começo do século XIX desapareceram da musica secular, latícios na realidade só revelam a cegueira diante da verda-
embora no início do século XX os castrati ainda cantassem na ru emergência da atualidade. O panorama pastoral precisa ser
Capela Sistina" (VI, 1961, 16). Talvez, se as coisas forem do jeito r ndo numa visão das verdadeiras emergências humanas, da
que O papa quer, e da forma que os papas c~mpreendem a santidade lndeira crise de fé; e aqui as mulheres - se lhes permitirem
da liturgia, os castrati possam uma vez mais retornar ao canto pelo r oderiam prestar um verdadeiro serviço aos cavalheiros da
final deste século.
Somando tudo, considerando a repressão, a difamação e a
demonização das mulheres, toda a história da Igreja faz parte d
um longo, arbitrário e bit~lado desp?tismo ?1ªs~ul~~ sobre o sexo
feminino. E esse despotismo contmua ate hoje, mmterrupto. A X
subordinação das mulheres aos homens continua a serum postula~
dos teólogos ao longo da história da Igreja; e mesmo na IgreJu
masculina de hoje continua a ser tratado como um dogma du
vontade divina. A Igreja masculina nunca compreendeu que li A TRANSFORMAR LEIGOS EM MONGES
realidade da Igreja se baseia na humanidade partilhada do ho~elll
e da mulher. O apartheid praticado ante as mulheres pelos legislo
dores da Igreja viola a justiça, na mesma medida como_ faz l1
apartheid político. O fato de a Igreja invocar a Deus e a Cnst~ n 1
processo não melhora as coisas; simplesmente ~crescenta matiz 11 pr cesso de monasticização dos padres, que legalmente foi
blasfemos a seu procedimento injusto. Mas acima de ~ud~, mlllt 111I tudo no Ocidente mas na prática nem sempre teve êxito,
Igreja meramente masculina, apesar ~o nome ~ue atnbum a 11 à tarefa laboriosa e sempre inacabada de "transformar
IIIOS
mesma, há muito deixou de seruma Igreja no sentido pleno, porqu , 1 m monges" através da "teologia celibatária" (Friedrich
150 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 151

Heer, Gottes erste Liebe: Die Juden im Spannungsfeld der Ges- do, à medida que Fulgêncio exorta os fiéis a lutarem por essa forma
chichte). mais elevada de vida.
Embora ao fim de sua vida Agostinho tivesse concedido aos O Papa Gregório Magno (m. 604) marca o final do período dos
pelagianos um prazer controlado, quase sem alegria, no paraíso, no Padres da Igreja, que ocupam um lugar especial na teologia. Gre-
período que se seguiu, os teólogos optaram pela posição agostiniana ório também segue rigorosamente a Agostinho e seu ideal do
adotada no início: não houve desejo no Éden. Constantemente sarnento paradisíaco: Deus fez originalmente o homem de tal
insistiram num versículo dos Salmos (50, 7 [protestantes 51, 7]): rma que os filhos eram gerados "sem o pecado do desejo carnal"
"Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado." Esse nasciam sem pecado, assim como a terra dá seus frutos sem
versículo foi usado como a fonte para o ensinamento de Agostinho p cada (ln VII Psalm. poenit., sobre o Salmo 5[101] n. 26). Ora, o
segundo o qual o prazer que ressoa através de todos os atos de xo conjugal se faz sem culpa só quando realizado para o fim da
procriação é o veículo do pecado original. Muitos dos teólogos que rocriação. Se o casal buscar o prazer, entretanto, "macula a forma
vieram depois de Agostinho condenaram ainda mais do que ele o usta do laço conjugal consentindo no desejo". Como Agostinho,
prazer sexual. Embora Agostinho tivesse descrito o sexo par;i o fim regório se refere a Paulo dizendo que tais pessoas serão perdoa-
da procriação e o cumprimento da obrigação conjugal fosse um ato s, porque permanecem dentro da estrutura do casamento. Assim,
livre de culpa, num sermão de Natal do Papa Leão I, o Grande (m. tisfazer os impulsos sexuais é pecaminoso, mesmo no casamento,
461), encontramos pela primeira vez a afirmação de que todo ato mbora, segundo 1 Cor 7, 6, esse pecado encontre o perdão (Moral.
conjugal é pecado. Leão elogia Maria por ser uma exceção - , 29; Reg. past 3, 27).
afinal, era Natal - por ter ela concebido sem culpa, "ao passo que Todas essas especulações pelos monges-teólogos sobre a peca-
com todas as outras mães nesta terra a concepção não se faz sem lnosidade (ou inocência) do sexo não teriam perturbado tanto os
pecado" (Sermões 22, 3). 11ais, se tais idéias não tivessem desencadeado conseqüências
O mais importante teólogo de seu tempo, Fulgêncio de Ruspe mcretas. Em primeiro lugar, três passagens do Antigo Testamento
(m. 533), não vai tão longe quanto esse famoso papa. Prende-se 1 v ram influência sobre as normas da abstinência. Como prepara-
mais rigorosamente a Agostinho e a suas duas exceções à pecami- o para a revelação divina no Monte Sinai, Moisés exigiu que os
nosidade do sexo conjugal. Fulgêncio converteu-se a um estilo de uelitas se abstivessem durante dois dias de relações com as
vida monástico pelos escritos de Agostinho, e depois foi nomeado posas (Ex 19, 14-15). O sacerdote Aquimelec entregou os pães
bispo. Partilhou plenamente dos pontos de vista de Agostinho, por rados ao esfomeado Davi, só ao saber que Davi e seus homens
exemplo, da noção de que em todo ato de procriação o prazer haviam mantido relações durante vários dias (1 Sm 21, 1-6).
envolvido macula a criança com o pecado original, e por isso, as fim, segundo Levítico 15, 18, depois do coito, os casais perma-
crianças sem batismo não podem entrar no gozo eterno. Embora iam impuros até o anoitecer. A Igreja teve de sair à cata dessas
aproprie-se de Agostinho sem alterá-lo, aprimora o apóstolo Paulo. passagens do Antigo Testamento com uma lente de aumento,
Diz Fulgêncio: "Penso que seria muito bom ao homem não tocar 1ue o judaísmo está longe de dessexualizar as pessoas casadas;
mulher alguma" (1 Cor 7, 1). Como quase todos os teólogos até 11 do século IV em diante o cristianismo viu nessa dessexualiza-
hoje, Fulgêncio coloca na boca de Paulo palavras que na verdade o sua missão mais importante.
exprimem a visão das pessoas que perguntavam ao apóstolo, e por 1 urante toda a Idade Média as questões quando manter e
isso, em vez de "bom" diz "muito bom" (magnum bonum est) "'mdo não manter relações sexuais, que espécie de castigo (além
(Epístola I, 6-9, 20.22; De veritatepraedest. I, 10). A ausência de 11 ma dieta a pão e água) tinha-se de infligir à pessoa e por quanto
prazer assim toma-se o bem supremo do cristianismo mal-orienta- mp por ter feito sexo no momento errado eram de enorme
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 153
152

importância. (Podemos desconsiderar a proibição do sexo durante leprosos não vêm das pessoas com entendimento, que observam a
a menstruação e depois do parto, já que nesses casos os médic9s castidade nos dias de festa, mas na maior parte de camponeses que
equivocadamente acreditavam que o sangue menstrual ou da mu- não sabem se controlar. Se os animais irracionais se acasalam só
lher que acabara de dar à luz era venenoso, o que torna a proibição nas épocas apropriadas, tanto mais deveriam os seres humanos
um tanto compreensível.) O tema aqui é a proibição do coito nos feitos à imagem de Deus fazer o mesmo" (Peter Browe, Beitrage
chamados dias santificados: aos domingos, em todos os dias de zur Sexualethik des Mittrlalters, p. 48).
festa (havia muitos),.,no jejum de quarenta dias antes da Páscoa, É o mesmo sermão, a propósito, em que Cesário profetiza
pelo menos vinte dias antes do Natal, muitas vezes também vinte males e deficiências semelhantes para crianças concebidas durante
ou mais dias antes de Pentecostes, três ou mais dias antes de receber menstruação (conforme vimos no II capítulo). "Todas as vezes
a comunhão. Por isso as pessoas em geral só comungavam nas que virdes nos dias de festa à igreja", ensina aos fiéis, "e desejardes
grandes festas - no Natal, na Páscoa, no dia de Pentecostes - já receber os sacramentos, mantende a castidade durante vários dias
que tinham de abster-se do sexo e praticar o jejum nessas ocasiões ntes, para que possais vos aproximar do altar de Deus com a
de qualquer maneira. O espectro de abstinência exigido variava de onsciência em paz. Também deveis fazer isso durante toda a
região para região. Mas as épocas de continência sempre totaliza- Quaresma e até o domingo depois da Páscoa, para que estejais
vam um período mínimo de cinco meses. Então somavam-se os ustos e puros nas festas mais santas. Quem forum bom cristão não
períodos individuais por causa da menstruação, da gravidez, do 6 observará a castidade vários dias antes da comunhão, mas
parto, e como veremos, da amamentação. Muitos dos fiéis queixa- também só manterá relações com a esposa para ter filhos" (ibid.,
vam-se de que não sobrava muito tempo. p. 51).
Mas os teólogos sabiam como impor essas exigências. O Papa Uma mulher certa vez mostrou a São Gregório de Tours (m.
Gregório Magno, por exemplo, em uma de suas muitas histórias 594) seu filho cego e aleijado, "e confessou em lágrimas que
miraculosas narra o seguinte conto de advertência do castigo divi- ncebera num domingo ( ... ) Eu disse a ela que isso acontecera por
no: uma nobre mulher, recém-casada, foi convidada pela sogra a ·nusa do pecado de violar aquela noite de domingo. Notai bem,
comparecer à consagração da Igreja de São Sebastião. "Na,noite h mens, basta que cedais ao desejo nos outros dias. Deixai este dia
anterior fora vencida pelo desejo carnal e não conseguira se abster maculado para o louvor de Deus, caso contrário vossos filhos
das relações com o marido. Como temia a vergonha perante os scerão aleijados, epilépticos ou leprosos" (ibid., p. 48). E em sua
homens mais do que ao julgamento de Deus, foi à igreja apesar de mosa carta ao príncipe búlgaro Bóris, em 866, recém-convertido,
seus escrúpulos de consciência. Tao logo as relíquias do santo 1upa Nicolau I (m. 867) não deixou de proclamar aos boas-novas
mártir estavam sendo conduzidas para o interior do templo, o continência em todos os domingos. "Se devemos nos abster do
espírito do mal entrou nela e, apesar de muitos esforços, não pôde balho mundano aos domingos, tanto mais devemos estar em
ser expulso por muito tympo." Por fim, o santo Bispo Fortunato de unrda contra o desejo carnal e todas as impurezas do corpo" (n.
Todi conseguiu subjugá-lo (Diálogos I, cap. 10). A história da sogra ). Naturalmente, Nicolau também fala na carta da abstinência
do Papa Gregório foi contada repetitivamente por pregadores e ual durante a Quaresma etc. etc. (n. 99).
escritores devotos nos séculos seguintes; Por transgredir essas leis, os castigos impostos pelos padres em
O Bisph Cesário de Arles (m. 542) tinha ainda exemplos piores mi variavam entre vinte e quarenta dias .de jejum rigoroso a pão
para ilustrar seus sermões públicos: "Todos os que não conseguem ua. Os leitores podem achar que tais proibições sobre o coito
se abster antes do domingo ou de qualquer outro dia de festa, terão 11m apenas conselhos às pessoas casadas, que ao violá-las não se
filhos leprosos ou epilépticos ou possuídos pelo demônio. Todos 0 8 lll ·tia pecado grave, capaz de acarretar castigos drásticos. Mas
154
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 155

isso é apagar mil anos de tirania sobre as pessoas casadas e por volta de 1140, e graças a isso desfrutaram de longa e influente
substituí-los pelos períodos ulteriores, mais brandos. Os pregadores arreira. Santa Isabel de Schõnau (m. 1165) advertia aos casais para
e escritores dos períodos Merovíngio (500-751) e Carolíngio (7 51- praticarem a continência, a menos que desejassem chamar a vin-
987), os bispos e concílios galicanos, os penitenciais (lista de gança de Deus sobre si e sobre seus filhos (Liber viarum Dei; cap.
pecados com a tábua de penitências), os sínodos e os confessores 13).
todos concordavam que as pessoas casadas tinham de abster-se do Há uma carta sobre este assunto que foi citada inúmeras vezes
sexo, só discutindo por quanto tempo e qual o castigo pela desobe- sde o século VIII: o famoso rescrito (Responsum Gregorü), do
diência. Às vezes as exigências eram extremas, como na ordem pa Gregório I ao Bispo Agostinho da Inglaterra. Esse documento
sinodal do Bispo Ratério de Verona, em 966: além dos períodos n o teve qualquer influência atenuante sobre a rigorosa regulamen-
habituais (todos os domingos etc.) ele acrescentava todas as sextas- t ção da vida conjugal, pelo contrário, só confirmava a noção de
feiras. Uma compilação de cânones da Irlanda fala, além disso, de ue todo ato sexual é pecaminoso. Uma das questões, a décima, da
todas as quartas-feiras e de três períodos de quarenta dias de jejum Inglaterra, que a carta de Gregório respondia foi: "Um homem pode
no ano (Browe, p. 42). ntrar na igreja ou tomar a comunhão depois de manter relações
Desnecessário dizer, nenhum casamento poderia ocorrer du- njugais?" Recentemente, o Responsum foi considerado (talvez
rante os períodos de abstinência. "Pois neste período a noiva e o njustamente) como forjado, em época posterior (composto não
noivo não podem manter relações entre si", explicava o abade ntes de 731). Seu impacto todavia foi poderoso, já que até o século
borgonhês Henry de Vienne no final do século XIV (ibid., p. 46!. X foi firmemente citado como proveniente do grande Papa Gre-
Muitos regulamentos episcopais determinam que os padres ensi- rio 1. Sua resposta é: "O.prazer sexual nunca se dá sem pecado.
nem às pessoas sobre as proibições e que as preguem, sobretudo almista não nasceu do adultério ou da fornicação, mas de um
durante a quaresma. Fica claro, pelos muitos penitenciais, por l\Numento legítimo, e no entanto disse: 'Eis que nasci na culpa,
exemplo, o Decreto de Burcardo de Worms (m. 1025; XIX, cap. 5!, inha mãe concebeu-me no pecado"' (Sl. 50, 7 [Protestantes 51,
. que os confessores tinham de perguntar às pessoas sobre a absti- 1). A complicada distinção esquizofrênica de Agostinho entre
nência. Durante a inspeção o bispo tinha de perguntar ao clero: ntir prazer e suportar (sem pecado) e buscar o prazer e desfrutá-lo
"Ensinastes aos fiéis quais os dias em que se devem abster das ·aminoso) é descartada, para prejuízo das pessoas casadas - se
relações com as esposas?", conforme se vê no penitencial do Abade JU as coisas poderiam ser ainda piores depois de Agostinho. O
Reginon de Prüm (m. 915). Reginon formula as questões da seguin- i o homem perfeito, ensina o rescrito de Gregório, é "aquele que
te maneira: "Tiveste relações conjugais no domingo? Então tens de nsegue não arder em meio ao fogo". E por esse motivo, Gregório
fazer três dias de penitência... Tu te conspurcaste com a esposa u quem forjou a carta) adverte ao homem da Inglaterra que não
durante a quaresma? Então tens de fazer um ano de penitência ou igreja.
dar 26 soldi, em esmolas. Se o fizeste enquanto,ystavas bêbado, alemão Alberto Magno (m. 1280) achava que a proibição
então a penitência só será por quarenta dias." O padre deve t~mbém· regório contra a presença de tais pessoas na igreja podia ser
cuidar para que o marido se afaste da esposa vinte dias antes d ti ficada da seguinte maneira: no coito a mente é sufocada sob
Natal e de Pentecostes, em todos os domingos, e depois que a (l soda carne (ln IV sent. d. 31 a. 28 soll.). O que faz Alberto
concepção estiver confirmada (ibid., p. 47). No século XII essas p rguntar por que os pecados puramente espirituais, que são
rigorosas obrigações ainda estavam em vigor em quase todas as uit mais graves, não incorrem no mesmo caso de proibição de
regiões. Graciano, o Padre da jurisprudência eclesial, incorporou igreja. Responde que isso é porque os graves pecados
os regulamentos de Reginon em sua compilação das leis canônicas 1 rituais não paralisam a mente pela investida do prazer sen-
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 157
156

sual, e também não despertam os sentimentos de ~ergonha. A tempo para os motivos, com relação aos atos individuais de relação.
relação sexual, por outro lado, enerva o espírito, e ponsso a pes_soa Distinguiram - tendo por guia uma vez mais a Agostinho - entre
que nela se envolve deve abster-se da contemplação de coisas o cônjuge que solicita o sexo e o que cede ao pedido; e tornaram a
perguntar qual o motivo que o cônjuge tinha para manter a relação.
sagradas(ibid., ad.5). ,
Voltemos ao rescrito de Gregório, que levou Alberto Magno as O melhor de todos era o desejo de ter filhos, o que não deve
profundas especulações acima. E se o ma~do só fi~esse o_sexo para ntretanto ser equiparado a alegria em ter a criança ou herdeiro,
a procriação? Resposta: "Se o homem tivesse so r~laç?e~ par~ o mas em ter nela mais um servo de Deus. Ainda dependia de que
propósito da geração de filhos, então pode entrar_na igreJª: ~ssim papel desempenhava o prazer na relação sexual, se era praticado
a procriação é permitida nos sábados e domm~os. So ha um m vontade, com relutância, e com arrependimento, ou se era
problema: Temos de pressupor que a pessoa contmuamente man- buscado, exclusivamente buscado, imoderadamente buscado, ou
tenha o pensamento fixo na procriação e saiba como "não arder e~ buscado de forma antinatural. Além disso, as primeiras excitações
meio ao fogo". Gregório achava que o bom~~ da ~~laterra devia o ato sexual tinham de ser avaliadas, quais os pensamentos que o
decidir se era esse seu caso. Mas essa decisao foi tirada de suas Indivíduo tinha no princípio, no meio e no fim do coito. Dessa
~ rma, a teologia lavrou para si um rico e novo campo de atividade.
mãos pelos teólogos celibatários. Determin~am que ele e to?~s as
demais pessoas casadas não tinham recebido a _graça da fngidez mo estavam predominantemente interessados nos motivos, mui-
gregoriana, e sem exceção proib~am os casais de tomarem a t Rdesses novos teólogos consideraram as violações dos períodos
comunhão depois de relações sexuais. . ~ . oibidos em si só como pecados veniais.
Gregório também entra na questão do tempo de abstmencia do Mas a crença na natureza condenável do coito em certas
homem depois do nascimento de um filho. Já vimos que o mesmo siões sobreviveu durante um longo tempo nas ordens e nos
regulamento serve para o tempo certo depois do_ parto e para a rmões episcopais, e no confessionário. No século XIII em Lau-
menstruação (Gregório diz que "a Lei de Deus castiga com a morte ne, cinco mulheres haviam ·dormido com os maridos antes da
o homem que tem relações sexuais com a ~sposa d~r'.1-°te ~ me~s- ta do padroeiro. Ao entrarem na catedral, sofreram uma espécie
truação"). Mas os teólogos cristãos, inclusive Gregono, va? alem. taque epiléptico, que só terminou depois de confessarem a culpa
"O marido deve abster-se da coabitação até o desmame da cnança." runte as pessoas e prometerem não mais fazerem tais coisas antes
Gregório condena o uso de amas-de-leite: "Entre os casados um grandes festas no futuro (Cartulaire du Chapitre de N.D. de
costume maléfico tornou-se corriqueiro, qual seja, o das mulheres usanne; Mémoires et documents publ. par la Soe. d'hist. de la
não mais desejarem nutrir os próprios bebês, e entregá-los a outras l.,·se Romande I, 6 [1851] 576).
mulheres para esse propósito. A única causa deste costuro~ malé- No caso do grande pregador popular Bertoldo de Regensburgo,
volo parece ser a incontinência. Como se recusam a ser contmentes, fcrenciação do coito, segundo o motivo, prosseguiu, pelo menos
querem suprimir o leite materno de seus filhos."_O e~o I?édico d linhas gerais, dentro da perspectiva dos períodos rigorosos.
que o coito estraga o leite materno teve grande mfluencia ~obre O m de seus sermões de matrimônio, diz ele: "Nas noites de
emprego de amas-de-leite até os tempos modeffi:OS (ver? m~eres• pera dos dias santos de preceito cumpre que as pessoas se
sante livro sobre esse tópico de Elisabeth Badmt~r, Histoire d<' nt nham castas. De forma semelhante durante todo o dia de
1 hração, até a noite. Vós, mulheres, sabeis bem porque me
l'amour matemelle, Paris, 1980).
Os teólogos escolásticos, do século XI ao ~éculoXI~, \ºm~am 1111panhais mais do que os homens. Vemos, muitas vezes, que as
medidas para abandonar o rígido esq~e~a antigo da abstt?encia ent Ih res são mais castas que os homens, os quais querem liberdade
domingos, dias de festa e épocas de JeJum. Mudaram a enfase, do tudo, e querem exercer seu arbítrio no comer e beber, e por causa
158 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 159

disso tomam-se tão livres que não dariam atenção a qualquer exigir o sexo na noite de véspera da comunhão; outros, embora em
período. Portanto, mulher, cumpre dissuadi-lo da melhor fo~a pequeno número, sequer consideravam pecado receber a comunhão
possível. Mas se ele se mostrar tão diabólico a ponto de pragúeJar depois do coito. Ele próprio, Sánchez, considerava mais apropriado
e querer deixá-la e procurar outra, e estiver falando sério, e se não não tomar a comunhão depois do coito, exceto quando ·as relações
o conseguires impedir de assim proceder, antes de deixá-lo procurar ocorressem com o propósito da procriação. Nesse caso a conspur-
outra, presta atenção, mulher, embora seja a noite santa do Natal ou cação física e o prazer sexual ~ão sobrepujados pelo bem da
da sexta-feira santa, cede com tristeza no coração. Pois estás procriação. O mesmo é verdadeiro para o sexo como obrigação ou
inocente, se o fizeres sem vontade. Mas todos os santos cujo período para evitar a própria incontinência. Mas se alguém praticasse o sexo
não respeitaste chorarão por ti no Juízo Final" (Franz Pfeiffer, para desfrutar do prazer, então não poderia receber a comunhão no
.Berthold von Regensburg, 1862, vol. I, p. 324). mesmo dia sem cometer pecado venial. A irritação espiritual cau-
sada pelo coito não era um estado conveniente para receber a
Assim, enquanto Bertoldo de Regensburgo em seus sermões faz comunhão. Mesmo neste caso, receber a comunhão poderia não ser
distinções ao emitir o juízo sobre os motivos parno coito, nas pecado, caso o afastamento dela chamasse desagradavelmente a
orientações pastorais a seu clero, o bispo Guilherme Durando · atenção (Dominikus Lindner, Der Usus Matr(monii, p. 222).
(m. 1296) indiscriminadamente proíbe o sexo nos períodos sa- Os jansenistas, que serão discutidos depois, seguem uma
grados. O mesmo ocorre num decreto do Sínodo Diocesano de linha perceptivelmente mais dura. Afonso de Ligório (m. 1787),
Nimes, em 1284, e num guia dos confessores castelhanos que
que foi menos rigoroso que os jansenistas nesse ponto, partilhou
datado século XIII (Browe, p. 76-77'). Em 1443, São Bernardino
da opinião de Tomás Sánchez. No decorrer do sécuio XIX, as
de Siena pregou em Pádua dizendo que ocorria uma "irreverên-
relações sexuais "por prazer" deixaram de ser rotuladas de
cia imunda" e pecado mortal, quando os casais não se abstinham
de sexo durante vários dias antes da comunhão" (ibid., p. 77-78). pecaminosas (desde que, naturalmente, não se empregassem
Como prova cita Graciano. Assim, ao contrário de quase todos métodos anticoncepcionais), e por isso a comunhão depois do
os teólogos de seus dias, Bernardino sustentava que ess~s câno- coito deixou de ser pecaminosa. Mas ainda em 1923, na vigésima
nes deviam ser enfaticamente firmados. E, de modo similar, no dição do Tratado sobre o sexto mandamento e o uso do matri-
manual para o clero da diocese de Salisbury, em 1506, prescre- mônio (Abhandlung überdas 6. Gebot und den Ehegebrauch) do
via-se com rigor para as pessoas casadas a continência antes da r nomado teólogo moralista H. Noldin (m. 1922), encontramos
comunhão e também durante os dias de festa e os períodos de uma advertência às pessoas casadas: que não comunguem depois
jejum - o que foi também excepcional para o período em o coito venialmente pecaminoso (o pecado é sobretudo uma
questão. É verdade e o Catecismo do Concílio de Trento (1566) uestão de porcentagem de prazer sexual na motivação do casal),
ainda falava na abstinência do sexo em certas ocasiões, invocan- menos que haja uma importante razão para tal. Na 21ª edição
do o costume do pas~ado. Mas tal não mais era entendido como d Noldin/ Smith, de 1926, essa advertência foi omitida. Ainda
obrigação, só como "admoestação". Os sínodos depois deste (de m 1929, Dominikus Lindner escreveria em seu livro Der Usus
Besançon em 1571, de Bourges em 1584 e de Wüzburg em 1584) Matrimonii: "Ninguém discorda que a abstinência do comércio
só "advertiam" os fiéis para que observassem a continência, mas urnal no dia da comunhão é extremamente recomendável" (p.
não mais a definiam como obrigação. " ~ 24). E mesmo hoje há muitas mulheres ainda vivas que costu-
Tomás Sáncbez (m. 1610) faz um levantamento das opiniões mavam se confessar por terem praticado sexo com O marido na
sustentadas pelos teólogos: alguns consideravam pecado venial V spera da comunhão.
160 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 161

XI como os monges, obrigadas a viver em completa renúncia do


mundo. O que significava anos de abstenção sexual. Por esse
motivo, o Sínodo de Agde advertia contra a imposição da pena com
muita presteza em pessoas jovens. O próprio Cesário observava em
Os PENITENCIAIS E As TÁBUAS DE seu sermões que os casais jovens que recebiam tal castigo não
PENITÊNCIA deveriam renunciar completamente ao coito, a menos que tivessem
cometido sério crime que tivesse de ser expiado dessa forma.
De forma semelhante o Papa Leão I, numa carta escrita, em
458, ao bispo de Narbona, solicitava que os jovens penitentes
tivessem permissão para casar e exercessem seus direitos conjugais
No período pós-agostiniano, a oposição ao controle da natalidade (Epistola ad Rusticum 13). Os Concílios de Arles (443) e de Ürléans
(538) determinaram que as pessoas casadas tinham permissão para
tomou forma ainda mais nítida. Cesário (m. 542), bispo de Arles (a
Roma da Gália), outrora monge, foi encarregado pelo Papa Símaco imporem a pena eclesiástica a si próprias só com o consentimento
(m. 514) de cuidar "da questão religiosa na Gália e na Espanhà". do outro cônjuge (Peter Browe, Beitriige zur Sexualethik des Mit-
Cesário deu início a treze sínodos no século VI; sua influência telalters, p. 44). Por ser tão severa, a pena eclesial era em geral
estendeu-se aos bispos dos ostrogodos e dos francos. scolhida apenas por pessoas idosas ou moribundas.
Numa carta a todos os bispos e padres em sua esfera de Martinho (m. 580), arcebispo de Braga na Espanha, que tam-
influência sobre prementes problemas morais, exorta os compa- bém foi monge antes de tornar-se bispo, prescreveu dez anos de
nheiros a incutir costumes cristãos às pessoas. Depois de falar sobre penitência pela prática da contracepção. Equiparava a contracepção
o aborto como assassinato, volta-se para a contracepção: "Quem ao infanticídio: "Quando a mulher cometeu fornicação e depois
poderia omitir a advertência ao fato de que nenhuma mulher pode matou a criança dela resultante, ou quando tentou o aborto e
beber uma poção que a tome incapaz de conceber ou que prejudique também tentou matar o que concebera, ou quando tomou precau-
sua força natural, que é determinada pela vontade de Deus para ser ções para que não concebesse, quer tenha feito isso em adultério ou
fértil? Tantas vezes quantas fosse capaz de concebei- ou de dar à no casamento legítimo, os primeiros cânones estipulam que tal
luz, seria então responsável por igual número de assassinatos. E mulher não pode receber a comunhão até que esteja no leito de
caso não se submeta ao devido castigo, caberá a ela a condepação morte. Mas por compaixão decidimos que essa e outras mulheres
pela morte eterna no inferno. Se uma mulher não deseja ter filhos, ômplices no crime, devem ser submetidas a dez anos de penitência
que se entenda de forma devota e conscienciosa com o marido, pois_ clesiástica" ( Capitula Martini, 77).
a mulher cristã só é estéril pela castidade" (Carta, entre os Sermones A regulamentação da vida sexual de pessoas leigas pelos bis-
I, 12). A fórmula prática: "tantas contracepções, tantos assassina- pos-monges (Cesário, Martinho) e pelos papas como Gregório J
tos" agradou a Cesário e ele a repetiu em dois outros sermões (44, ncontrou expressão num singular gênero literário: os penitenciais.
2 e 51, 4). sses livros continham catálogos de pecados e uma lista de peni-
Assim Cesário deixa as mulheres escolherem entre o inferno l ncias para cada um. Revelam que a contracepção era classificada
depois da morte ou o castigo nessa vida ou, como o define o Sínodo ·omo questão particularmente grave, um pecado mortal sem qual-
de Agde em 506 (cân. 37) presidido pelo próprio Çesário, entre a 1uer exceção. Os mais antigos penitenciais vêm dos :mosteiros da
excomunhão e a pena eclesiástica. A última era bem diversa do que Irlanda, onde foram compostos pelos abades. (Os monges irlande-
é hoje. As pessoas que entravam em "estado penitencial" eram, s desempenharam importante papel no proselitismo da Europa.)

\
162 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 163

Outros penitenciais largamente divulgados foram os de Reginon de Teodoro, o mon~e grego da terra natal de São Paulo de Tarso, que
Prüm (m. 915) e do Bispo Burcardo de Worms de 1010. Nessa se tomou arcebispo de Cantuária e é considerado o verdadeiro
época, Worms era um importante centro eclesiástico, sede de 17 organizador da Igreja Inglesa, estabelecia a pena para o coito oral
sínodos imperiais, que se reuniram do ano 764 a 1122. com_uma duração de sete ou quinze anos ou inclusive· pelo resto
Um dos textos do penitencial de Reginon de Prüm, que depois da vida, para o abort? antes do quadragésimo dia um período de
foi reproduzido por Burcardo de Worms, teve enorme efeito sobre três vezes quarenta dias, e para o assassinato premeditado uma de
o ensinamento da Igreja relativo à contracepção, porque no século ete anos. O penitencial anglo-saxônico do Pseudo-Egberto (ca.
XIII fazia parte das leis canônicas. Ao falar das perguntas que o 800) estabelece a pena de sete anos (ou perpétua) para o sexo oral,
bispo deveria formular por ocasião da inspeção, Reginon diz: "Se d z anos para_ o sexo anal, sete a dez anos para o aborto, e sete anos
alguém (si aliquis) para satisfazer o desejo ou por ódio deliberado para? assass!nato premeditado. Os Canones Gregorii (690-710,
fizer qualquer mal a um homem ou a uma mulher, para que ela não lambem considerados obra do Arcebispo Teodoro) impõem quinze
possa ter filhos, ou se qualquer pessoa der a outra algo para beber, nos de pena para o sexo anal, e sete anos para o assassinato
de forma que esta não possa procriar ou ter um filho, então essa remeditado. O penitencial anglo-saxônico de Egberto, arcebispo
pessoa será considerada assassina." Esse princípio, que foi parte d York _(m. 766), pune o sex? anal com sete anos de penitência, e
integrante das leis canônicas católicas até 1917 e que rotulava a assassmato com quatro a cmco anos. O penitencial frâncico de
contracepção como assassinato, teve grande influência na dramati- o Huberto (680-780), assim chamado por causa do mosteiro de
zação da contracepção. rdennes _onde foi de~coberto, exige dez anos de pena para o coito
A Igreja condenava como contracepção não apenas as poções nte~rompido, e tambem dez anos para a contracepção por meio de
que as pessoas tomavam, mas também vários tipos de coito em que çoes, e dez anos para o assassinato premeditado. Existiam
a concepção era evitada: coito interrompido e também o sexo anal mbém penas eclesiásticas - embora consideravelmente mais
e oral. As penas para essas três formas de sexo eram enormes. As andas, que só duravam dias ou semanas - por desvios da
sentenças estabelecidas pelos diversos penitenciais variavam bas- "posição monástica": a posição com a mulher em cima era con-
tante, mas ficamos surpresos ante o fato de que o coito_anal e oral dera~a peculiarmente obscena e um obstáculo à concepção. Se
(o coito interrompido é mencionado com menor freqüência) eram desvio da positão pre!crita era regularmente usado pelo casal
ra a contracepçao, entao as penas eram mais severas. O peniten-
muitas vezes punidos de forma mais severa que o aborto, de fato
1 l de Egberto prescrevia três anos de pena para esses casos O do
com mais severidade que o assassinato premeditado. Os autores
udo-Teodoro (século IX) de um a três anos (cf. John T. No~nan,
desses livros sem dúvida achavam que certas práticas sexuais eram ontracepção, pp. 152 ss).
mais repreensíveis do que matar um ser humano. Não é por acaso Do século VIII em diante os confessores tinham de perguntar
que em sua luta contra o pecado, às vezes só contra os falsos pressamente sobre a contracepção. A prova mais pormenorizada
pecados da esfera sexual, a Igreja Católica até hoje revela mais He interrogatório está no decreto de Burcardo de Worms. Bur-
empenho do que contra os crimes contra a vida humana nas guerras, rdo instrui os confessores a formular as perguntas "com delica-
nos assassinatos em massa, e na pena de morte. Rejeitando a zn e bondade". Muitas perguntas dizem respeito às mulheres em
perversão que a moralidade do Ocidente cristão sofreu nas mãos rticular. Os pontos críticos eram o aborto e a contracepção. Nas
desses falsos valores, Ernst Bloch escreveu com amwgura em 1u Htões para os maridos inclui: "Copulaste com tua esposa ou com
1968: "Não se permite que mulheres com braços nus entrem na lllrn mulher por trás, como cães? Em caso afirmativo, então dez
igreja, mas permitem que judeus nus cavem as próprias covas." de penitência a pão e água. Copulaste com tua mulher durante
O penitencial anglo-saxônico (reunido entre 690 e 710) de m nstruação, então dez dias de penitência a pão e água. Se a tua
164 Uta Ranke-Heinemann unucos pelo Reino de Deus 165

esposa foi à igreja depois de ter um filho, mas antes de ser purifi- Enquanto os irlandeses não prescreviam pena para o coito com
cada, deve cumprir a pena por tanto tempo quanto deveria ter ficado mulheres grávidas, os penitenciais frâncicos do Pseudo-Teodoro
afastada da igreja. E se copulaste com ela durante esse período, ( éculo IX) determinavam quarenta dias de penitência para o coito
terás de cumprir vinte dias de pena a pão e água. Se copulaste com durante os últimos três meses de gravidez. O penitencial das igrejas
a esposa depois da criança se mexer no útero ou durante os quarenta Alemanha (Ecclesiarum Germaniae, século XI) determinavam
dias antes do parto, terás de cumprir vinte dias de penitência a pão z dias de penitência a pão e água para o sexo depois de conhecida
e água. Se copulaste com ela depois de certa a concepção, bastam concepção e vinte dias depois dos primeiros movimentos fetais.
dez dias a pão e água. Se copulaste com ela no dia do Senhor, terás lguns se limitam a proibir o coito nos últimos três meses de
de cumprir quatro dias de penitência a pão e água. Tu te maculaste ravidez. Um fator importante nesses regulamentos era a preocu-
com a tua esposa durante a quaresma? Então terás de cumprir ação com o embrião. No segundo século d.C., o médico Sorano
quarenta dias de penitência a pão e água. Se ocorreu enquanto Éfeso sustentara que o coito devia cessar completamente durante
estavas bêbado, pena de vinte dias, a pão e água. Tens de permane- primeiro estágio da gravidez, pois assim como o estômago
cer casto vinte dias antes do Natal, em todos os domingos, durante limina o alimento quando sacudido, o útero eliminará o embrião.
todos os jejuns que a Lei determina, em todos os dias de festa dos or outro lado, Galeno (século II d.C.) afirmava que poderia ser
Apóstolos, e em todos os principais dias de festa. Se não cumprires praticado o coito com moderação mesmo durante o primeiro estágio
essa norma, terás de fazer penitência de quarenta dias a pão e água." da gravidez.
Os penitenciais também proibiam o coito com mulher grávida Os Padres da Igreja proibiram o coito com as mulheres grávidas
e entre cônjuges estéreis e idosos. No entanto, o coito com mulhe- obretudo porque a concepção não mais ocorria, e por isso não
res grávidas muitas vezes não tinha castigo definido, e o sexo entre havia justificativa para as relações. Mas com o passar do tempo, a
pessoas estéreis nunca tem. Isso é surpreendente, já que Agostinho preocupação com o embrião foi cada vez mais mencionada como
foi muito enfático na questão do sexo só para a procriação. O mais r zão para a proibição. Do século XIII em diante era essa a única
antigo penitencial irlandês, o de Finiano (século VI), proíbe o coito azão citada. Alberto Magno (m. 1280) afirma que o prazer sexual
durante a gravidez e entre pessoas estéreis, mas não prescreve aera o perigo do útero se abrir e o feto cair. Esse perigo, acreditava
penitências para as transgressões. O segundo 'livro penitencial te, era particularmente agudo nos primeiros quatro meses de
irlandês, o de Columbano (final do século VI), nem sequer men- aravidez (Comentário sobre as Sentenças 4, 31, 22). Tomás de
ciona o assunto (cf. Noonan, pp. 163 ss). quino (m. 1274) acreditava que o coito com a gestante só era
Talvez essa atitude manifestamente delicada (aos 'olhos do p cado mortal quando havia risco de aborto espontâneo (ibid., 4,
papa) dos penitenciais irlandeses seja o motivo pelo qual o Papa 31, 2, 3). Nos séculos que se seguiram, esse continuou sendo o
João IV tenha se sentido compelido a escrever aos bispos da Irlanda nsinamento oficial da Igreja.
em 640, castigando o "veneno da heresia pelagiana", que "tornou O coito com mulher menstruada era também proibido. No
a reviver entre vós". Refere-se ao salmo 50, 7, "Eis que nasci na penitencial anglo-saxônico de Beda o Venerável (m. 735) e nos
culpa, minha mãe concebeu-me no pecado." (A carta pode ser anones Gregorii prescrevia-se penitência de quarenta dias. O
encontrada na História Eclesiástica de Beda, 2, 19.) Na realidade, P eudo-Teodoro pede trinta dias de penitência, e o Antigo Peniten-
nenhum dos penitenciais ( os irlandeses não estavam sozinhos nis- ·ial Irlandês (ca. 780), só vinte dias. Não se afirma que os autores
so) atribuía penitência à busca do prazer decorrente do ato sexual ; oncordassem com Isidoro de Sevilha (m. 636), segundo o qual a
portanto seguiam os pelagianos mais do que a Agostinho - e isso concepção não ocorria durante a menstrução ou com Jerônimo, que
chamou a atenção do papa. Hupunha que os filhos assim concebidos nasciam com deficiências.
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 167
166

Conforme mencionamos em capítulo anterior, nenhuma das peni- achavam que nos tempos pré-cristãos a humanidade havia se mul-
tências deixa de prescrever a obrigação da continência durante os tiplicado o suficiente para completar o número de santos no céu.
Agora, no período após o Novo Testamento, o celibato, a virginda-
períodos de oração, de penitência e das festas religiosas.
de, eram o programa de escolha divina. ·
Embora Agostinho insistisse na procriação como a finalidade
do casamento e deixasse seu caráter de remédio em segundo plano,
s primeiros escolásticos ressaltavam esse segundo ponto. Para eles
XII casamento era agora principalmente destinado a prevenir a fomi-
ação. Porém, exatamente como Agostinho teria feito, davam pri-
mazia moral à reprodução. Ou seja, o caráter de remédio esbarra
A Esco1AsTICA PRIMITIVA, PARTE I: m seus limites quando se impede a reprodução ou se pratica a
ntracepção. Aos olhos desses teólogos o casamento é um hospital
O CASAMENTO DOS LASCIVOS E O para aqueles que por fraqueza não conseguem seguir o que lhes foi
CASAMENTO]OSEFITA si~nado, a castidade. Pois, conforme demonstrou Agostinho, o
stigo pela queda atingiu o homem "não nos olhos ou em qualquer
utro membro, mas só nos órgãos sexuais, que devem servir à
produção" (Guilherme de Champeaux [m. 1121], sent., q. 26).
Os primeiros escolásticos viam em todas as pessoas casadas
Ü pessimismo sexual de Agostinho, que foi em grande parte micadores em potencial, cuja enfermidade - "que consiste na
intensificado pelo Responsum do Papa Gregório Magno ("O prazer n apacidade de abster-se do ato sexual" (Pedro Lombardo, IV sen.
sensual nunca ocorre sem pecado"), dominou do século XI ao XIII, 6, 2) - é, em última análise, o prazer sexual que não existiu no
a época da Escolástica, "a idade áurea da teologia", com~ é araíso, conforme mostrou Agostinho. A doença de que sofrem os
chamada. O apogeu da escolástica acredita-se que tenha ocomdo sais encontra seu remédio e seu perdão no casamento. Isso,
com Tomás de Aquino (m. 1274), que até hoje se equipara a t mbém, foi demonstrado por Agostinho com suas razões para
Agostinho como a segunda grande autoridade em q~est_ões sexuais. Rculpar o sexo no casamento. O medicamento que tomam é a
Mas com Aquino, a teologia cristã do casamento atmgm seu ponto pula, que deve portanto estar sempre a sua disposição. Estêvão
mais baixo, criando o contexto para a demonização do sexo. A ngton, arcebispo de Cantuária (m. 1228) foi a ponto de exigir que
reponsabilidade da "Bula das feiticeiras" (1484) do Papa Inocêncio xo conjugal fosse praticado mesmo com risco de vida de
VIII, duzentos anos depois da hiorte de Tomás, não pode ser 1 uém: "É preferível que a mulher se deixe matar a deixar o
atribuída a ele, mas sem a crença supersticiosa de Aquino na relação rido pecar." E portanto deve cumprir com a obrigação conjugal,
sexual com o demônio e sua exortação à destruição dos herege smo por ocasião do puerpério, caso considere muito provável
aquele documento não seria concebível. u o marido não consiga se conter (Michael Müller, Die Lehre des
Os teólogos da chamada Escolástica primitiva (do século XI ao /, Augustinus von der Paradiesesehe und ihre Auswirkung in der
início do século XIII) distinguem, como faz Agostinho, duas fina- , ' ualethik des 12. und 13. Jahrhunderts bis Thomas von Aquin,
lidades do casamento: a) a procriação segundo determina o Gêne- , 173). Nesse caso a mulher é obrigada a fazer sexo mesmo durante
sis: "Crescei e multiplicai-vos" e b) a prevenção da fornicação (d 1uaresma e outros períodos de continência.
acordo com 1 Cor 7). Como Agostinho, os escolásticos primitivos A mulher é como uma enfermeira que rompe a grade temporal
00
168 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 169

com que os teólogos haviam cercado o sexo conjugal. O erro desejo, mas só pelo remédio oposto, ou seja, pela completa conti-
cometido pelos teólogos celibatários ao ditarem aos casais quando nência e rigorosa disciplina física. A isso Alberto responde que a
poderiam exercer seus direitos foi lentamente substituído por outro oncupiscência sexual está num plano muito profundo da humani-
erro: que as pessoas casadas- ou na realidade os homens casados, dade, que é atraída pelo pecado original. É uma condiçã0 crônica,
já que os teólogos machistas em geral só pensavam em homens - de sorte que o ascetismo radical só prejudicaria a natureza (ibid., d.
que os homens casados eram como doentes terminais levados à 26 a. 8). Felizmente, os monges não planejaram a monasticização
condenação eterna, a menos que suas esposas-enfermeiras se sacri- ompleta das pessoas casadas; se contentaram em mitigar a quan-
ficassem por eles, mesmo com risco de vida para atenderem à tidade de desejo conjugal.
obrigação conjugal e fornecerem o remédio contra a incontinência No século XII os teólogos fixaram em sete o número de
em todas as ocasiões. Noutras palavras: na prática isso significou a acramentos. Nessa época o casamento era um dos sacramentos,
escravização sexual das mulheres. ' mas recebeu classificação separada. Aos olhos dos primeiros esco-
A idéia das mulheres como enfermeiras dos homens dominava lásticos o casamento tinha uma posição inferior dentro dos sacra-
aquelas cabeças machistas. Mas o contrário não funcionou, como mentos em virtude de sua função medicinal. Em suas Sentenças,
vemos num regulamento estabelecido por Odo, reitor da Universi- que foi o manual da teologia acadêmica até o século XVI, Pedro
dade de Paris (m. ca. 1165). Odo diz que se a mulher exigir sexo ombardo (m. 1164) diz que existem três tipos de sacramento: 1)
nos dias santos, o marido não deve atender seu desejo, e sim s que conferem a graça, como a Eucaristia e as ordens sagradas;
"reprimir seu atrevimento com jejuns e espancamentos" (ibid., 32, 2) os que são um remédio contra o pecado e que conferem a graça,
3). Nada diz sobre a mulher bater no marido por seus pedidos orno o batismo; e 3) por último, o casamento, que é um remédio
inoportunos. . ·ontra o pecado, mas que não confere a graça (/V, 2, 1). O domini-
A prova de que o remédio do coito cura o desejo sexual fm no espanhol Raimundo de Penhaforte (m. 1275) achava que os
descoberta por Guilherme de Auvergne (m. 1249), bispo de Paris. rimeiros cinco sacramentos destinavam-se a todos, o sexto, o das
Seu lema para as pessoas era: "Fugi de todo prazer físico", porque rdens sacras, era para as pessoas perfeitas, e o sétimo, o do
o prazer prejudica o desenvolvimento da alma. Nas conversas com sarnento, para as imperfeitas (Raymundiana 3, 24, 2).
pessoas casadas, ele ouviu a feliz notícia de que "às ".ezes os jovens Na Alta Escolástica (século XIII), muitos teólogos falavam da
permanecem frios com as esposas, mesmo quando bonitas, e quase raça com referência ao sacramento do matrimônio, mas no caso
gelados para com outras mulheres, mesmo quando estas são boni- Tomás de Aquino, por exemplo, acabou soando assim: "Sempre
tas" (De sacramento matrimonii, cap. 8 e 9). Por volta do ano 1200, ue o pleno poder é dado por Deus, a ajuda para usá-lo corretamente
um teólogo anônimo fez a mesma feliz descoberta. Escreve dizendo também é dada. Ora, como o pleno poder no casamento é dado ao
que os jovens testemunharam a verdadéira eficácia do remédio, marido para usar a esposa para a procriação, também lhe é dada
explicando "que de qualquer modo são frios para com as belas uela graça sem a qual não conseguiria fazê-lo apropriadamente
esposas, e quases frios para com as outras" (Müller, p. 203). convenienter)" (Summa Theologica Suppl. q. 42 a. 3). O que
Enquanto os penitenciais visavam extirpar o desejo sexual humano lgnifica "apropriadamente" com referência às relações sexuais foi
pela limitação temporal, os teólogos da Escolástica primitiva eram finido pelos celibatários que odiavam o prazer, entre os quais
mais favoráveis ao método homeopático: o sexo conjugal era o lava Tomás de Aquino, não obstante algumas pessoas quererem
remédio para o sexo conjugal. h,cutir esse assunto hoje em dia. E assim Tomás também escreve:
Alberto Magno depois faz menção de uma objeção levantada través dessa graça "a concupiscência é suprimida em sua raiz"
por alguns teólogos: uma fraqueza não é curada pelo objeto do ln IV sent, 26 q. 1 a. 4). Ou, como seu professor Alberto Magno

- - '

li..
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 171
170

disse: O efeito da "graça medicinal" do casamento é o de mitigar de melhor qualidade, porque o "calor" do ato sexual não só se
a concupiscência (ln IV sent., 26 a. 8). ·· punha à excelsa virtude da continência, como também tinha a
desvantagem de que "as pessoas que ardem mais com a concupis-
Alguns teólogos hoje vêem grande progresso desde a perspectiva ência só têm poucos filhos ou nenhum" (De sacramento matrimo-
da Escolástica primitiva, em que o casamento não confere .a graça nii, cap. 8). Com a restrição por parte dos pais, os filhos se tornam
mas só é remédio, e pelo qual o desejo é suprimido, até à posição "maiores, mais fortes, e em todos os aspectos mais louváveis"
da Alta Escolástica, em que o casamento confere a graça, que (ibid., cap. 9). Quanto menos paixão reinava no sexo conjugal -
consiste na supressão do desejo. Mas esse progresso existe só aos ssa era a quintessência moral - tanto maior o número de filhos,
olhos destes retóricos religiosos. Querem ver um avanço na obra tanto melhores seriam.
de Tomás de Aquino, que permaneceu como grande autoridade até Apesar da tentativa dos celibatários da Igreja de reprimi-lo, o
nossos dias, embora na realidade ele só agrave a hostilidade sexual prazer permaneceu e continuou presente em todos os atos de
de Agostinho com os erros biológicos e os pressupostos patriarca~s procriação. Como os casais deveriam tratar esse assunto era um
de Aristóteles. Nenhum dos escolásticos primitivos falou mais roblema para o qual o franciscano Odo Rigaldo (m. 1275) apre-
ofensivamente sobre o caráter sacramental do casamento do que ntou um modelo útil. Odo acreditava que um sentimento ainda
Tomás, que escreveu: "Foi necessário aplicar um remédio para o mais forte poderia suprimir o prazer pecaminoso. Por exemplo, um
desejo sexual por meio de um sacramento. Em primeiro lugar, valo com uma pata machucada podia ser forçado pelo cavaleiro
porque através do desejo sexual não só a pessoa é corrompida, mas ue usasse esporas para trotar sem mancar. Assim também, o
também a natureza; em segundo lugar, porque o desejo sexual com arido perfeito conseguiria prevenir a excitação sexual através da
sua instabilidade paralisa a razão" (Summa Theologica m q. 65 a. rreta intenção e conseguiria também dirigi-la pelo comando da
1 ad 5). Dada essa noção, não é preciso dizer que Tomás colocava zão para seu objetivo, de tal forma que o ato sexual ocorreria sem
o sacramento do casamento em último lugar, "porque tem um cado (ln II sent., d. 20 q. 6). Naturalmente, antes do coito se
mínimo de espiritualidade" (ibid., a. 2. ad 1). veria estar atento para que as excitações sexuais não viessem
A Igreja teve um programa de graça, ou de frigidez, para as imeiro (essas, segundo Odo e muitos outros, eram pecaminosas).
pessoas casadas, e para atingir esse objetivo o próprio ~exo f?! m vez disso, as coisas deveriam ocorrer na seguinte seqüência:
utilizado como instrumento. Esse esforço, conforme vimos, Jª imeiro de tudo, o casal deve ter a intenção de procriar. Então a
estava dando frutos, a monasticização dos leigos estava progredin- ri meira excitação sexual deve ser desencadeada por este pensa-
do: os maridos cristão já haviam esfriado perante as esposas belas; nto. Assim, com boas intenções a conduzir o comportamento,
era só diante das beldades alheias ou estranhas que o processo de os os atos posteriores estariam orientados, a priori, para a meta
esfriamento ainda não tinha tido êxito. Mas a frieza para com a reta. Essa é a razão por que não haveria pecado nas preliminares
própria esposa era a coisa mais importante, já que o marid? cristão coito, enquanto que, se ocorrer o contrário, os primeiros impul-
está proibido de cometer adultério de qualquer forma. Sua hberdade sexuais são pecaminosos, seja quando começam a ocorrer
do desejo tem de ser preservada no casamento, que é a opção pontaneamente e não são dirigidos pela razão ou pelo cumpri-
emergencial para os cristãos, e, em última análise, toda a qu~stão nto do dever, seja quando só forem dirigidos para essa meta
do casamento está nos filhos. Mas mesmo para o bem dos filhos, ois (ibid., d. 31) .
os teólogos afirmaram que a continência é útil e neeessária. Gui- O desdobramento do ato conjugal em muitos atos de sorte a
lherme de Auvergne (m. 1249) sustentava que a continência mais ltrur o elemento pecaminoso tomou-se moda entre os teólogos ..
abrangente possível levaria a um maior número de filhos e a filhos. m o de Tournai (m. 1201) disse que o ato poderia transcorrer sem
172 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 173

pecado (ou seja, sem prazer), mas não podia ser completado sem ~ulher bonita pecava menos, "porque era mais compelido pela
ele (Disp., 25 q. 1). Devia essa idéia a seu mestre, o abade Odo de visão de sua beleza" e "onde é maior a compulsão, menor o
Ourscamp (m. depois de 1171 ). O Cardeal Roberto de Courçon, que pecado". Baziano (m. 1197), renomado canonista de Bolonha
morreu como pregador das Cruzadas diante de Damietta, em 1219, apresentava o mesmo argumento (Müller, p. 138). · '
achava que o pecado do coito se dava na verdade no meio: "Quando Um defensor vigoroso do ponto de vista de que o pecado era
alguém tem relação com a esposa para o fim da procriação ou maior com a mulher bonita foi o famoso jurista e cardeal de Ferrara,
cumpre seu débito conjugal, então as primeira e última partes do o_m.onge camaldulen~e Hugúcio (m. 1210), mestre do Papa Jnocên-
ato, durante as quais busca a Deus, são meritórias. Mas as partes c10 III. Com esses dms teólogos a noção agostiniana-gregoriana de
do meio, em que o homem todo é dominado pela carne e se toma que todo o prazer sexual é um mal atingiu seu apogeu. Hugúcio
completamente carnal, constituem pecado venial" (Summa theolo- constantemente repete o axioma do rescrito do Papa Gregório: "O
giae mora/is, c. 128). Existiam, com efeito, alguns maridos capazes prazer nunca se dá sem pecado." Por isso rejeita a idéia do santo
de tomar moralmente aceitáveis inclusive aquelas partes críticas do marido que o~eia o pr~zer que obtém durante o coito com a esposa
meio ou a conclusão do ato. Guilherme de Auxerre (m. 1231) por esse motivo estana supostamente livre de pecado. Esse marido
sustentava que "Quando um santo homem( ... ) conhece camalmen- também peca, porque ·o prazer está sempre ligado à ejaculação do
te a esposa e o prazer que lhe ocorre durante o ato( ... ) de forma sperma. Só "aquele que nada sente não peca" (Müller, pp. 111).
alguma o agrada, e pelo contrário lhe suscita o ódio, então o odas 1:s sensações do pra~er venéreo são pecaminosas, a despeito
comércio carnal é sem pecado. Isso, contudo, raramente acontece" s razoes para seu aparecimento, ou da ocasião de sua ocorrência.
(Müller, p. 185). O dominicano Rolando de Cremona (m. 1259) Não faz di!er:nça se_ são causados pelo estupro de uma virgem ou
gostou tanto dessa descoberta teológica que se apropriou da idéia ela procnaçao de fühos, ou durante uma ejaculação noturna. O
de Guilherme (Müller, p. 194). razer nunca se dá sem pecado. Hugúcio metodicamente leva essa
Anselmo de Laon (m. 1117), exaltado como o "Pai da Esco- b trusa idéia agostiniana-gregoriana a seu limite lógico.
lástica", defendia a tese de que a proporção de pecado é determi- . Cu~pre reparar, de passagem, que o problema, tipicamente
nada pela quantidade de prazer (Müller, p. 114). hbatario, se há pecado ou não nas "poluções" noturnas de padres
Isso deu origem entre os teólogos a uma controvérsia: se o monges e em que medida, manteve os teólogos morais extrema-
pecado cometido seria maior com uma mulher bela do que com uma nte ocupados. Seus comentários sobre o assunto poderiam en-
feia. Pedro Cantor (m. 1197) opinava que o coito com uma mulher h r bibliotecas. Estaria o erro no comer e beber em excesso? Nas
bela era com maior pecado, do que o com a feia, porque trazia mais ntasias eróticas durante o dia? Hugúcio liquida rapidamente as
satisfação. Uma vez mais, quanto maior o prazer, maior o pecado. luções apontadas. Não era comer demais e tampouco os <leva-
Logo, ele procurava desvalorizar as mulheres bonitas aos olhos dos i - esses eram pecados em si - que servia como critério para
homens, falando delas como a literatura ascética espanhola do rau de pecaminosidade das emissões noturnas. O fator decisivo
século XVI com freqüência faria: "Considera que a mais adorável o grau de prazer envolvido. O homem que simplesmente sen-
das mulheres começou a existir a partir de uma gota de sêmen d o prazer pecava venialmente. Já o que se entregasse compla-
cheiro fétido, e então considera sua parte do meio, como um ntc a ele cometia pecado mortal (Müller, p. 112).
recipiente de imundície; e depois considera seu fim, quando entã orno t~da a experiência do prazer sexual era pecado, Hugúcio
será o pasto dos vermes" (Müller, p. 151). mo Agost~nho antes dele, achava que Jesus não desejou ter sido
Alain de Lille (ca. 1202) chegou a uma conclusão diferenl udo atraves de uma relação sexual. De acordo com o versículo
nessa controvérsia. Achava que o homem que fazia sexo com umu ntinuamente repetido do Salmo 50, 7 (protestantes 51, 7): "Mi-
174 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
175

nha mãe concebeu-me no pecado", o pecado dos pais durante o ato pratica para _éumpri~~nto do débito conjugal. No sexo para satis-
sexual é a razão para o pecado original ser passado aos filhos faz~r o _deseJo, Huguc10 sustenta que o próprio homem provoca a
(Müller, pp. 110-11). Tão coerente foi a condenação de Hug~cio do exc1taçao sexual através de pensamentos, de caríci.as e de estimu-
prazer, que ele entrou em conflito com o próprio Agostmho, o lant~•sA q~e visam ~orná-lo capaz de praticar o coito com mais
teólogo que deu ao prazer um nome sujo. Com efeito, chocou-se frequencia. Esse coito é ~ecado ?Iortal. Nos dois séculos seguintes,
com a opinião de Agostinho partilhada por quase todos os t~ólogos, c~nforme_ ocorreu, os teologos tiveram muito trabalho com descri-
ou seja, que o sexo conjugal para a procriação ou para satisfazer o çoes precisas desse coito lúbrico, a pecar ou não mortalmente e a
débito conjugal não era pecado. Para Hugúcio essa relação não era sclarecer a p~caminosidade ou não do coito número três. '
pecaminosa, mas sim o prazer necessariamente s_entido ~o. at~. ~o~o mmtos dos escolásticos primitivos, Hugúcio se ateve à
Sobre o mandamento de Deus na criação: "Crescei e multiphcai- tendencia contemporânea de ver o marido (os teólogos masculinis-
vos", diz ele: "Pode-se afirmar que Deus ordena e faz muitas coisas tas _se preocupavam sob~etudo com os homens casados) como
que não são nem podem ser sem pecado." Assim, por e~emplo, paciente em constante pengo de sucumbir a um ataque de fomica-
Deus ordena que o homem cuide de sua esposa e de seus filhos, o ã~ morta~mente pecaminosa, a menos que o remédio do sexo
que dificilmente pode ser feito sem pecado. A satisfação do débito stivesse disponível em todas as horas, dia e noite, a ser ministrado
conjugal não é uma obrigação para pecar mas uma obrigação co,!11 P la esp_osa enfermeira. Hugúcio não mais via a proibição do sexo
um ato que não pode ser realizado sem pecado (Müller, p. 113). Nao n s p~nodos .sagr~d?s como obrigação rigorosa, mas só como
é fácil embaraçar um teólogo. Hugúcio admite uma certa dificul- ugestao. Assim reJe1tou a alegação de que qualquer tipo de coito
dade em sua posição, mas que só o estimula, e o faz anunciar um Páscoa, por qualquer motivo, fosse um pecado mortal. Para ele
novo tipo de sexo conjugal, sem pecado, mesmo segundo seus ~ado mortal era o coito lúbrico, ou libidinoso, além do de tipo
rigorosos critérios. Era a "união reservada", como seria depois ntmatu:al;_~sses eram pecaminosos todo o tempo. O que exata-
chamada (amplexus reservatus ou coitus reservatus - que não nte s1gmficava _"antinatural" para os teólogos veremos depois.
deve ser confundido com coitus interruptus), um assunto que n~retan~o, Hugúc~o at~ ~ermiti~ o coito com a mulher grávida (que
ocupou os teólogos moralistas até hoje e _que será analisado no U~tos h~ros p~n~ten~1ais haviam proibido) por causa do maior
capítulo 14. . rigo da mcontmencta, da fornicação e do adultério.
O Cardeal Hugúcio estabelece a ordem dos motivos para o sexo Sobr~ a questão da disponibilidade constante do remédio do
conjugal. Os teólogos gradualmente estabeleceram quatro razões o conJugal,_Hugúcio i1:11aginou o_seguinte caso extremo: Supo-
principais: 1) coito para procriação, 2) coito ~or obrigação (~ó estes ~ue o marido tenha s1do_escolhido ~apa, contra os desejos da
dois considerados sem pecado por Agostmho), 3) o coito por osa. Mesm~ neste caso_ tena de cumpnr seu débito conjugal com
incontinência (considerado sem pecado por alguns, mas visto pelu p~sa. ~e _nao con~egmsse persuadi-la da continência, a esposa
maioria, inclusive por Hugúcio, como pecado venial), e 4) ~oi_t l d na ex1glf ? marido de volta do concílio e dos cardeais. Por
para satisfação do desejo (considerado pecado mortal pela mmonu, rio, sua c~rrelf~ papal estaria terminada. Mas o perigo de forni-
inclusive Hugúcio). Muitos autores não sabiam com certeza qual 11 o est~ta acima de todas as demais considerações, o sexo
diferença entre o terceiro e o quarto motivos, mas Hugúcio esclu nJ11g~l tmha de ser garantido. Esse foi um dos poucos casos a
rece a coisa toda. Ele diz que no sexo por incontinência, a excitaç, o 1pós1to, em que um teólogo falou sobre os direitos da espo~a.
sexual ocorre primeiro e só depois o marido decide manter rel~çõ sse t:a~mento preferencial só ocorreu em virtude da desvan-
com a esposa. Esse coito (para o marido) é um pecado vemal. 1 11 li posiçao dela na Igreja, ou seja, porque ela não poderia ser
sem pecado (desde Agostinho) só para o cônjuge (a mulher) qu o 11. H. Caso contrário, Hugúcio teria falado sobre a reivindicação
176 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 177

do marido, exigindo que a esposa se afastasse do concílio e dos Summa anônima faz menção do fato de que toma a concepção quase
cardeais. , . . impossível. Hoje sabemos melhor a respeito - o que toma ainda
Discípulo de Hugúcio foi Inocêncio III, o ?1ª~s :mp_ortante papa mais grotesco o fato de que neste século o livro de T. H. van de
da Idade Média. O prazer visto como mal e a ms1st:~crn no pecado Velde, O casamento ideal ( 1926), tenha sido incluido no Índice dos
de todo e qualquer ato sexual, adotados de Gregono,,Ma~no yor Livros Proibidos, embora sua única posição heterodoxa fosse o
Hugúcio ("o prazer sexual nunca se dá sem pecado ) _at~ngm o abandono da posição missionária.
clímax com Inocêncio III. Escreve este_, 1:._or_ exemplo. Quem Essa fixação mórbida dos celibatários da Igreja no ato conjugal
poderia ignorar que a consumação do m~t:,1momo nu~ca ocorre sem como pecado e ao mesmo tempo como remédio para o pecado, essa
as chamas da obscenidade, sem a polmçao do desejo, pelo qual o simultânea repugnância ao sexo e sua insistência nele (mesmo que
sêmen recebido é corrompido e destruído?" Como todo_s os Padres significasse perigo mortal para a esposa) desencadeou, já no século
da Igreja que odiavam o prazer, c_ita o Salmo 5?:. "Os pais c?metem XIl, uma forte reação do alemão Hugo de S. Vítor (m. 1141), que
pecado real( ... ) a criança contrai o peca~o ong~al. E por isso que fora antes o conde de Blankenburg. Ele recomendava o casamento
0 salmista diz: 'Eis que nasci na culpa, mmha mae concebeu-me no puro, josefita, espiritualizado, uma união de almas sem a união da
pecado."' Quanto à idéia de Agostinho d?s bens que desculpam_ o carne. O casamento verdadeiro, genuíno, perfeito era consumado
casamento, para Inocêncio só livram o c01to do p~cad~ ~ortal, nao no espírito e só no espírito. Hugo era fascinado pelo casamento de
do venial (Comentário sobre os sete S~lmos_P~~ztenciazs 4). Maria e José, o casal dos sonhos dos celibatários que odiavam o
Uma série de teólogos da Escolástica pnm1t1va co~denou vee- prazer. Ele queria que todos os casamentos neste se espelhassem.
mentemente O consumo de alimentos sexnalmente estimulantes e, Como Agostinho, Hugo estava convencido de que Maria e José
sobretudo, qualquer desvio da posição normal como peca~o ?1ortal, tiveram 1:1m verdadeiro casamento, do que conclui, como fez Agos-
na medida em que ocorresse por desejo. A Summa anomma do tinho (ver as passagens em Müller, p. 32), que o ato físico não
século XIII (Codex latinus Monacensis 22233) declarava que, St:_ a pertence à essência ideal do casamento. Segundo o contemporâneo
esposa concordasse em evitar a posição normal, era um pecado tao
mais velho de Hugo, Anselmo de Laon, por ocasião de seu casa-
sério quanto o assassinato. Noções semelhantes foram apresentadas
mento Maria concordou com o ato conjugal, mas estava convencida
pelo dominicano Rolando de Cre~~na (m. 1259), professor de
de que José jamais lhe pediria para cumprir este seu débito como
Paris, e seu seguidor, também domm1cano, Hugo de St. Cher (m.
sposa. Hugo, indignado, rejeita esse ponto de vista, porque se
1263), além do dominicano Guilherme de Rennes (m. c~. 1250). A
baseia num falso conceito de casamento. Argumenta que o ato
Summa anônima, ao lado de Rolando de Cremona e Gmlherme de
exual não faz parte da essência do casamento, porque, caso con-
Rennes, permite um desvio da posiç~o normal em cert?s casos, a
trário, Maria teria aquiescido em manter relações sexuais - mas
saber, por razões médicas, como obesidade, quando o c01to d~ outra
Isso seria uma acusação criminosa contra a Santíssima Virgem (De
forma seria impossível e quando as tentativas de emagrecimento h. Mariae virginitate).
falhassem. Nesses casos, Rolando exorta as pessoas corpulentas a
As dificuldades que os celibatários clericais enfrentaram com
"unirem-se à maneira das feras", mas sempre "com pesar na
ua invenção do casamento josefita assexuado ainda continuam
alma". Como dieta para as pessoas com excesso de pe~o, recomen-
ntre nós. Embora não se negue o fato de que Maria fosse casada,
da trabalho, suar, pouco sono, pouca carne, pão de pm~ç~, e beber
l ostume eclesiástico piedoso prefere falar de José não como seu
vinagre (Summa de matrimonio solutio). Qual?uer pos1çao, exceto
marido mas como seu "noivo", assim praticamente suprimindo o
a normal, era considerada "antinatural" e por isso ~cnava-se entre
·nsamento. Hugo, pelo contrário, via em José o marido ideal e no
os pecados mais graves. Entre as outras razões para isso, o autor da
'IIRam nto josefita o casamento autêntico. Para as mentes piedosas

1.
1.
1
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 179
178

de hoje, entretanto, o termo "casamento" foi evidentemente tão corações (Müller, p. 81 ss). E se faltasse seu primeiro elemento ou
corrompido pelas pessoas normais casadas que não mais gostam de s~ja, ess~ "aliança de amor", então não seria "válido", mesmo ~ue
usá-lo para o quadro ideal do casamento e preferem chamar José tivesse sido consumado (Müller, p. 83). Pelo contrário, o ideal do
de noivo de Maria, que soa mais puro. Após assim resgatar o casamento seria mais perfeitamente realizado seni o coito. Então
casamento verdadeiro do "mal" da excitação sexual, encontra e teria a santidade do amor, e nada aconteceria "que pudesse
palavras elevadas, estranhas para o amor conjugal, qu~ outros causar ;~rgonha à castidade" (Müller, p. 79). As relações sexuais,
teólogos julgaram difícil comentar - ou para os quais nunca nec~ssar1as para a procriação e para o desempenho do débito
ocorrera comentar - por que sempre tiveram em mente o sexo conJugal, não pertencem à essência do casamento, mas só a sua
conjugal maculado pelo desejo. Só depois de separar o corpo e a "obri~ação", que está subordinada àquela essência. Assim para
mente dessa forma, Hugo conseguiu (como Agostinho) falar sobre ontrairem ~11.1 casamen_to válido, os cônjuges precisam só desejar
o amor conjugal e complementar e transcender a visão crua do companhemsmo da vida espiritual e do amor, não a parceria do
casamento .como uma instituição principalmente voltada para a xo (cf. Müller, p. 78). "Pelo contrário, creio que o casamento se
reprodução ou para a cura da fornicação. Hug? ~mite u~ duro ~ z presente de forma mais plena, mais verdadeira e mais santa
veredicto sobre a noção do casamento como remed10 para a mcon- uando_ a ~li31:1ça foi forjada pela corrente do amor apenas e não n~
tinência, já que a experiência do prazer sexual é para ele um mal: ncup1scencia da carne e do desejo. ( ... ) Quando dois se tornam
o casamento, diz, confina "o calor da concupiscência excessiva" à m só espírito, não é melhor do que quando se tornam uma só
aliança conjugal. "Perdoa" por meio de seus bens esse elemento me?" (cf. Müller, p. 81).
maligno, "para que não seja conside.rado como condenação" . As palavras absolutamente ternas de Hugo sobre o matrimônio
"Mas não faz com que o mal deixe de ser mal, simplesmente não o amor soa~ estranhas e aprazíveis para uma época em que os
o toma condenável." ólogos ofens1~amente estavam fixados na sexualidade das pes-
Em vez de reabilitar o prazer e o corpo, e varrer todo o sistema as casad~s.' e viam o sexo sobretudo como a ameaça da fornicação
de "justificativa e perdão" lançado por Agostinho, Hu~o prefere do adulteno. Mas Hugo não teve êxito em tornar a união física
distanciar-se do casamento carnalmente consumado e ena o casa- ma parte d~ sua visão espiritualizada. Tornou-se, pelo contrário,
mento puramente espiritual, assim só conseguindo inferiorizar m dos mais extremos interlocutores da pressuposta teoria do
ainda mais o amor físico. Por exempío, ao contrário de muitos dos nsenso do matrimônio e o mais áspero oponente da teoria da
primeiros escolásticos, Hugo proíbe terminantemente o sexo nos bitação.
dias santos, equiparando-o ao "coito antinatural" (De sacramentis Durante séculos grassou na Igreja uma controvérsia sobre essas
2, 11, 7. 9. 10). s teorias. A questão era a seguinte: o casamento ocorreria através
Ainda segundo ele, a principal razão de Deus para instituir o ?ªbft~ção, do consenso ou de ambos? A lei romana apresentava
casamento não foi a procriação dos filhos, nem a profilaxia do vício, rmc1p1~ de ~ue era o consenso e não a coabitação (consensus
mas - conforme demonstrado pelas palavras de Adão, quando ·it matnmomum et non concubitus). A lei matrimonial católica
Deus lhe trouxe Eva - para a união das almas. Diz Adão: "Por ~iu o princípio_ romano, como vemos, por exemplo, na carta
isso o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir a sua mulher" • •rtta pelo Papa Nicolau I aos búlgaros recém-convertidos em 866.
(Gn 2, 24). Só depois disso é que cita a "obrigação" do casamento, a questão da aplicação da lei e onde colocar a ênfase ao
que consiste em o homem e a mulher tomar-se uma só. carne. Mas l rpretá-la deu origem a duas teorias conflitantes.
o amor espiritual está acima disso. A questão primeiro tornou-se concretamente importante num
O casamento não se baseou na união carnal, mas na união dos > que causou grande agitação em seu tempo (século IX). Um
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 181
180

nobre da Aquitânia chamado Estêvão casou-se com a filha do XIII


Conde Regimundo e então mandou-a de volta para o pai, imedia-
tamente após a cerimônia de casamento, sem que o mesmo tivesse
sido consumado. O Conde Regimundo levou a queixa ao Sínodo
de Touzy, em 860, a todos os bispos francos. Eles, por seu turno,
A ESCOLÁSTICA PRIMITIVA, PARTE II:
encarregaram o teólogo mais proeminente do período, Hincmar de A ÜPOSIÇÃO DE ABELARDO_ UMA
Rheims (m. 882), que investigasse o assunto. Em seu escrito sobre
"O casamento de Estêvão com a filha do Conde Regimundo", HISTÓRIA DE AFLIÇÕES
Hincmar defendeu a teoria da coabitação: a consumação sexual era
tão essencial ao casamento que sem ela não se poderia sequer falar
em casamento. Citou uma suposta passagem de Agostinho: "O
matrimônio não é imagem do matrimônio de Cristo e da Igreja, a
menos que os participantes façam uso de seus direitos conjugais" , V or volta do fim do século XII e imc10
. , . d o XIII houve
ou seja, a menos que haja coabitação. mos, um acordo quase universal entre os teólogos· ~odo ato'sceomol
No século XII, as duas teorias se opunham de maneira nítida. casamento era pe · E · xua
m Hu , c. o A c~oso._ sse po~to de vista atingiu o auge
A teoria do consenso foi apresentada sobretudo pela Universidad b lard~/079-l~~~)siçao ve10 do úmco teólogo casado, Pedro
de Paris, a da coabitação pela de Bolonha. O principal jurista d r . , que se tornou famoso por c d
Bolonha, o monge Graciano, via o elemento constitutivo do matri• ,, hz caso de amor com Heloísa (1101-1164) ausa ~ s~u
mônio na coabitação, copula. Em virtude de suas conseqüência~ mo professor em Paris. Abelardo foi o único d~1 s~: grande ex1to
para o casamento josefita (Maria não teria sido casada então), Hugo teólogos que detestavam ss1 ente na massa
de S. Vítor via o fator constitutivo no consenso no matrimônio, dn
h nova forma os mesm o prazer e que sempre apresentavam
.. os argumentos. Abelardo foi também um
qual excluía - no interesse do casamento josefita - todas aH iu~:cos a ~ntlcar o grande massacre dos judeus durante as
conexões com o sexo. , s do seculo XII. Durante sua vida foi difamad
A discussão foi resolvidá mediante uma posição consensual ge ~or S. Bernardo de Claraval (m. 11.53) B d o co~o
que foi mantida até hoje: o Papa Alexandre III (m. 1181) essencial gum que p lnA • • • emar o por fim
mente endossou a teoria do consenso. Assim o casamento já é válidu )urdo LogoO d apa_ Aobcenlcio II impusesse o silêncio perpétuo a
· epo1s e ardo morreu.
antes de ser consumado, mas até lá não é indissolúvel. Isso signifi u uando Abelardo ainda ensinava e p · · , •
que o casamento não consumado pode ser dissolvido, mas o co11 nn ional. Em 1118 . ~ ~n_s,_Ja tmha reputação
sumado não. Mesmo líoje, segundo o Código de Direito Canôni o, ' sua carreira umvers1tana foi interrom id
p ª
quem não tiver mantido relações sexuais depois da cerimônia li
casamento pode ter o casamento dissolvido e se casar de novo.
u caso com Heloísa. Naquela época Abelard • .
111 goflFulberto, cuja sobrinha bela e in~ligente
1 1 o uentemente q t f A ,
~:::::an!acl
1 asa
, ava
,

lo h braico Ab 1 duan o o r~ce~ e estava inclusive apren-


. e ar o, que então amda n~ d
1,f li aulas particulares Mais t d ao era pa re, dava a
• ar e escreveu sobre essas prel
1 /_~~;. ~~:~:m.Historiadc~lamitatum mearum, a história
1111
J;
1111 ·asa. fixandooconcor e1 com Fulberto que ele me levaria
1 li ir se~ objetivo·p::: ~i~~a ~ontade. (1... ) E assim conseguiu
· eiro para e e e o aprendizado da
182 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
183

sobrinha. ( ... ) Durante essas lições tínhamos muito tempo para


célebre, p~meiro 3:mantes e depois casados, que se tomaram víti-
nosso amor ( ... )e ocorriam mais beijos do que palavras. Minha mão mas das leis do celibato.
tinha mais buscas a fazer em seus seios do que nos livros, e em vez Abe!ardo censurou seus contemporâneos por só permitirem
de lermos os textos, líamos longamente nossos olhos" (ibid., 15 ss). que o coit? ~corresse de uma forma que nunca poderia ocorrer. Não
Heloísa engravidou; Abelardo raptou-a e levou-a para sua irmã na era a tradiçao, m~s a razão que tinha de decidir a correção de uma
Bretanha. Prometeu a seu tio furioso que se casaria com ela, desde tese. Abelardo afirma: "Nenhum prazer natural da carne pode ser
que Fulberto mantivesse o casamento em segredo. Por causa das de~i~ado pecado, nem se pode imputar culpa quando alguém se
reformas do Papa Gregório VII, todos os homens casados eram deh~ia~o pr1:12er, onde deve necessariamente senti-lo." Pois "desde
excluídos do sacerdócio, a menos que as esposas entrassem para o primeiro d,1,ª de nossa criação, quando o homem vivia no paraíso
um mosteiro. Mas Heloísa não queria ir para um convento. Por sem pecado , o ato sexual e o consumo de alimentos saborosos
outro lado, nem queria interferir na carreira acadêmica de Abelardo, ram naturalmente ligados ao prazer. O próprio Deus criou a
que naquele tempo só era possível para padres. Então decidiu natureza dessa forma (Eth. 3). O ensinamento de Agostinho segun-
permanecer como sua concubina. Ele a convenceu, entretanto, a do o qua~ o prazer sexual é a c_onse~üência do pecado, e O castigo
casar, o que deveria ficar do conhecimento só de uns poucos amigos por ele, e algo que Abelardo Jamais menciona embora estivesse
de confiança. Deixaram seu filho Astrolábio com a irmã de Abelar- natural11;1ente familiarizado com ele. Censura se~s contemporâneos
do e se casaram na presença de Fulberto. Uma vez mais Heloísa por sua msens~tez ao permitirem o ato sexual para a procriação e
mudou-se para a casa do tio, Abelardo retomou à vida celibatária, para o cumprimento da obrigação, enquanto ao mesmo tempo
e só se viam esporadicamente. Fulberto achou que esse segredo proíb~~ ~ prazer necessariamente ligado ao ato. Abelardo também
denegria a reputação de Heloísa e espalhou a notícia de seu casa- opoe a mterpretação de 1 Cor 7, 6 em que Paulo "perdoa" 0 coito
mento. Por isso Abelardo raptou Heloísa e levou-a para um con- nJug_al, nou~r~s_Palavras, que o considera um pecado. Paulo, diz
vento em Argenteuil, onde ordenou-lhe que vestisse um hábito de 1 , d~ixa a cn:e~o _dos casados manter ou não manter relações. E
freira, mas que não fizesse os votos. Quando Fulberto e sua gent l mbem se opo_e,;i ~nterpretaç~o do versículo sempre repetido do
descobriram, viram aí uma fraude bastante desprezível e uma ulmo 50 (v. 7). Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me
tentativa de Abelardo de livrar-se de Heloísa. "Essas pessoas peca~o." Para el~ is30 não significa que o prazer experimentado
ficaram tão amarguradas que decidiram me destruir. Meu criado fol los pais n3: p_rocnaçao manche a criança, e sim que apenas fala
subornado e levou-os até meu quarto, onde eu dormia tranqüilo. n pecado ongmal, que todos trazem consigo.
então se vingaram em mim, de forma tão cruel, tão vergonhosa qu Em decorrê,ncia ~e sua tentativa de reabilitar o prazer sexual,
o mundo ficou estatelado de horror: Arrancaram de meu corpo OH b !ardo ta~bem afirmou a Conceição Imaculada de Maria, ou
órgãos que os tinham incomodado. Dois companheiros meus fora11 UI'. a doutnna segundo a qual Maria foi concebida sem pecado
apanhados durante a fuga, cegados e castrados também" (ibid., 28 , l~Jnal, enquanto seu oponente Bernardo de Claraval veemente-
Toda a cidade de Paris, todo o clero ficou do lado de Abelardo, nte a a~cava e ch~mou Abelardo de herege por apoiá-la. Como
Seus alunos o procuraram para consolá-lo. Abelardo convenc 11 pr~sumia que ~~a fora concebida através do ato sexual normal
os _nomes lendanos de seus pais eram Joaquim e Ana _ nem
Heloísa a tomar-se freira; mas tarde ela veio a ser uma abadessa,
>Ntmh~ ~em a tradição que a ele se seguiu absolveram-na do
ele próprio tomou-se monge em S. Denis. A pedido de seus alunoN
udo ongmal. Bernardo salientava que havia prazer (libido) no
e de seu abade, ele voltou a lecionar. A história de Abelardo e d
x~al, e J?razer é pecado, e onde prevalece o pecado O Espírito
Heloísa continua a ser, e será para sempre, a história de um casnl
nto nao está presente. Portanto, é impossível que a alma de Maria
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
184 185

recebesse a graça santificante no momento da concepção (Epístolas como o é par~ _todos os católicos mais rigorosos até ho -
174, 1. 5. 6. 7. 9). Prazer e pecado, prazer e a transmissão do pecado pro~lema teolog1co de Hugúcio era este: como cumprir O ~e}-. O
original eram vistos como uma coisa só, junta. Abelardo, o defensor conJugal (que O marido é obrigado a executar a pedido da e e bito
do prazer, foi o primeiro a romper essa falsa conexão. de forn:ia a ?eixar o ~ornem sem pecado, já que O prazer ses~?sa)
Por mais sensacional que isso possa parecer, Abelardo também forma me?avel ao eJacular, e assim o deixa sujeito ao p adde
mbora seJa apenas pecado venial. eca o,
em muitas coisas se via prisioneiro da tradição. Por exemplo, ao
alegar que o motivo ideal para o ato sexual era o desejo de ter filhos, Hugúcio descobriu uma maneira: "Posso cumprir minh .
e que as mulheres santas, como Ana, poderiam ter renunciado ao gação para com a esposa e aguardar até que se tenha sacia~Oobn-
sexo por completo, caso houvesse outra forma de ter filho (Eth. 3). u prazer. Com efeito, nesses casos as mulheres estão muitas em
costumadas a sentir prazer antes dos maridos e quando o vezes
Abelardo também considerava a vida celibatária de continência
como uma forma mais perfeita e meritória do que o casamento aos da mulher no ~to físico tiver sido saciado, po~so, se dese}:azer
fastar sem satisfazer meu prazer, livre de pecado e sem d . ' me
olhos de Deus. fl · " (S et.xar o
A teoria do ódio ao prazer de Agostinho era tão dominante que men mr_ umma 2, 13). Só se precisava ter uma certa do
não sofreu nenhum arranhão com o aparecimento dos argumentos oncentraçao para prender o sêmen, mas a dificuldade se just~ de
de Abelardo quanto à naturalidade do prazer. Pelo contrário, man- marido que luta pela santidade permanece sem pecado l ic~:
teve sua influência autoritária e só depois de Abelardo chegou ao orq~e ~opulou sem prazer. Retirou o membro da vagina e rn aqm,
apogeu com Hugúcio, com cuja proposta pervertida de sexo conju- Pois d1s so, nao
~ • ·
penrutm que ocorresse a ejaculação (que' teri esmo.d
m pecado mortal). a. s1 o
gal sem pecado nos ocuparemos agora.
O orgasmo da esposa, que exigiu o coito por incontinênc ·
rimeiro lugar, é pecado venial, porque segundo Agost1'nho ta em
·t , · ·ct ' , quan
o ~~1 o e ex1g1 o, só o exigido para a procriação é sem peca -
ugucio, qu~ exc~de inclusive a Agostinho no ódio ao Ptazdo.
XIV urece preferir o coito reservado ao coito sem pecado de Ago . er,
V ltado para a procriação ou por obrigação. Para Hugu' cioso' stm~o
e d , 1 °cmto
rv~ o e rea mente sem pecado, porque não se acompanh
Coirus REsERVATUS: A RECEITA PARA o nsaçoes de prazer. Hugúcio não entra na questão de até que a das
m homem pode sentir prazer mesmo sem ejacular Ponto
SEXO SEM PECADO Alguns ficaram a se perguntar de que modo o ~onge Hu , •
h gara a conceber esse método. Ele próprio menciona qugucio
"freqüentemen_te " praticado.
· John T. Noonan aventa a hipótese e era
U. era u1?. metodo contraceptivo dos cátaros e generalizad de
O método de coito apoiado pelo cardeal Hugúcio (m. 1210), nte d~ltáha (Co~tracepção 19862, p. 297). O método é igual~eno
1~1enc1?nado na hteratura do amor cortês dos trovadores. Prim .n-
grande especialista em leis canônicas e professor do ainda maio!'
1111 oduz1do na teologia por Hugúcio como forma d ~iro
Papa Inocêncio III, só funciona para o homem. Está fora de questão fl' ai d . e exc1llir o
1 icr ~exu o coito conjugal, depois tornou-se um pomo d
para qualquer pessoa interessada na procriação e por esse motivo
6rdia por causa de seu efeito colateral contraceptivo. e
foi depois discutido como forma de contracepção. Deve ser distin•
guido do coito interrompido (que para Hugúcio era pecado mortal,
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 187
186

A discussão teológica que agora será apresentada, em alguns de temente daquilo a que se referiam com o termo, não tinham dúvida
seus meandros, pode ser resumida como a "história segundo a d: que sua ~jaculação se relacionava ao orgasmo, como a ejacula-
qual as pessoas casadas foram tiranizadas pelo ódio ao prazer e çao masculma. No caso do Cardeal Hugúcio, o orgasmo feminino
o tabu do sêmen". As idéias que apoiaram o coito reservado e a fazia parte do plano, porque o coito reservado ficava sob o rótulo
controvérsia teológica secular a seu respeito são tão abstrusas de •:débito conjugal" do marido, mas sem incorrer no pecado de
que não se sabe mais a quem menear a cabeça, se aos monges sentir prazer por parte dele. Com o Arcebispo Palude também a
teólogos que o recomendaram ou aos que o proibiram. Os 9-u~ o esposa não podia mais sentir o orgasmo, porque o coito reservado
proibiram assim o fizeram porque mesmo sendo daquele Jeito, para Palude ficava sob o rótulo de "anticoncepção".
muito prazer ocorria, ou poderia ocorrer, e os que o recomenda- O método encontrou um público ainda maior graças a S.
ram o fizeram para permitir que muito pouco prazer fosse pos- Antonino (m. 1459), um dominicano e arcebispo de Florença. Em
suaSumma (3, 120), adota ipsis litteris a apresentação do Arcebispo
sível. O ódio ao prazer é o único motivo em ambos os casos. .
Até hoje nenhum teólogo católico deixou de rotular o coito Palude. E dois manuais para confessores, também do século XV. se
interrompido como pecado sério, mas o juízo a respeito do coito atém precisamente ao texto de Palude. Eram estes a Summa dos
caso~ de consciência, sob a entrada debitum (débito conjugal), pelo
reservado foi e é, muitas vezes, positivo. A questão surgiu inclusive
em 1960, depois que o Cardeal Suenens o recomendou como franciscano Trovamala (m. depois de 1494), e A lepra moral do
abuso do sexo pelas pessoas casadas, do dominicano alemão João
método anticoncepcional para casais que por razões legítimas
tinham de evitar a gravidez (Um problema crucial, 1960, PP· Nider (m. 1439). De 1450 a 1750 o coito reservado foi cada vez
mais mencionado pelos teólogos como método anticoncepcional
81-82). permissível.
Durante cem anos, depois que Hugúcio pela primeira vez fez
a sugestão, nada foi dito a respeito. Então o Arcebispo Pedro de Mas havia dissidentes. O primeiro destes foi o dominicano
Palude (m. 1342) manifestou sua oposição aos maridos que Silvestre Prierias (m. 1523), que de 1517 em diante se empenhou
praticavam o Coitus lnterruptus por desejo de não ter mais m r~futar as teses de Lutero sobre as indulgências. Achava o ponto
filhos, quando não podiam mais sustentá-los. Por outro lado, de vista de Palude "por demais insensato" (em sua Summa sob o
concedia o uso do coito reservado sob certas condições: "Mas título de debito coniugali). Outros o seguiram e salientaram que o
se o marido se afastar antes de completar o ato e não ejacular, ato sexual que não servisse à procriação merecia ser condenado. O
inquisidor dominicano Bartolomeu Fundo (m. 1545) viu o.método
então evidentemente não comete pecado mortal, a menos que
como mortalmente pecaminoso. Essa opinião foi partilhada pelo
aconteça de sua esposa ser despertada para a ejaculação" (Co -
dominicano italiano Inácio Conradi (m. 1606) e pelo espanhol
mentário sobre as Sentenças 4, 31, 3, 2). Ele quer dizer orgasmo,
jesuíta Henríquez (m. 1608).
caso em que há pecado mortal. ' . A posição do Arcebispo Palude, segundo a qual o coito reser-
A expressão "sêmen feminino" foi cunhada por Hipócrates (m.
ca. 375 a.C.). O médico grego Galeno (século Il) descreve esse vado era permitido como ato contraceptivo que só seria condenado
e levasse a esposa ao orgasmo, foi apoiada pelo adversário de
pretenso sêmen como mais frio e mais úmido que a variedade
utero, o Cardeal Caetano (m. 1534) e pelo jesuíta Tomás Sánchez
masculina; considera-o necessário para a procriação, diversamente
(m. 1610). Sánchez achava que se o casal era pobre e tinha muitos
de Aristóteles, que achava que só o sêmen masculino tinha proprie-
dades reprodutoras. Do tempo de Alberto Magno e Tomás de
nlhos, que nã5> poderiam alimentar, tinham aí um motivo legítimo
pura adotar o método (O santo sacramento do matrimônio 9, 19).
Aquino em diante os teólogos seguiram sobretudo a biologia de
Afonso de Ligório (m. 1787) considerava a coito reservado um
Aristóteles. Ao mencionarem esse "sêmen feminino", independe-
188 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
189

pecado mortal quando induzia ao orgasmo ("ejaculação") na mu- pecado original e suas conseqüências" ("De amplexu reserv "
lher, caso contrário era um pecado venial. O jesuíta alemão Paul 1951). ato ,
Laymann (m. 1635), confessor do Imperador Fernando II, em sua Em 1952 o proeminente moralista jesuíta Franz Hürth tr
obra sobre teologia moral, considerava venial esse pecado, como para o rol dos contrários ao dominicano Hering defendendo en ?u
Charles Billuart (m. 1757). O teólogo moralista Diana (m. 1663), reservado como não sendo antinatural Chego~-se a um conº coito
que Pascal atacou por sua frouxidão, dizia que o método era a 30 dej·unho d 1952 d · senso
. e , quan o o Santo Ofício emitiu um mo ·tu
empregado "freqüentemente". afumando que os padres não deviam falar a respeito do m .m
A tola controvérsia sobre o coito reservado prosseguiu até os reservado co ~ h . coito
mo se nao ouvesse objeções a serem levantad
séculos XIX e XX. O jesuítaAugustLehmkuhl (m. 1918) julgava ro~ u
o método como "dificilmente prático", já que estimulava o "Teólogos moralistas mais recentes permitem a prática dele
desejo sexual e não o satisfazia. Outros proibiram o método, já
que suspeitavam que a maioria dos casais na realidade estava
praticando o coito interrompido. Neste século, o Bispo Smet de
6 discord_ando quanto à extensão exata dessa permissão B '
n?ard Hanng_não deseja nem recomendar nem proibir a e~
ic~a: ?u coito seco, como às vezes é chamado. Ele nfo o
:z:
Bruges recomenda o método como um "mal menor" para casais proib~na'. se o casal conseguisse se controlar e persistisse "em
que usariam contraceptivos sob outros aspectos. Arthur Ver- reverencia ~a_ra com o cr~ador e de um para com o outro''. "O
meersch (m. 1936) sustentava que para a maioria dos casais era specto positivo ?ele esta na determinação de não usar mal o
um pecado, porque não escapariam do perigo do coito interrom- êmen da n_o~a vida, caso não se pretenda a procriação" (D
pido. Ele se inclina a permitir aos casais só ejaculações ocasio- esetz Chnstz, 373). Desnecessário dizer que Haring term • as
nais, desde que não sejam intencionais. Dois livros do leigo t ment~ pr?íbe o coitus interruptus. man-
católico Paul Chanson, que apareceram com imprimatur da ~ J_:smta _J?sef Fuchs acompanha o jesuíta Franz Hürth na
arquidiocese de Paris em 1947, foram retirados de circulação em vah~çao positiva do coito reservado. Grande defensor do mé-
1950 por ordem do Santo Ofício. Chanson recomendava o coito t do e o cardeal belga Suenens, que já foi mencionado R
reservado como um ato de autocontrole, "a humanização da en?a-o ~orno solução nos casos onde por boas r;zõ:iº~
carne". O ato, conforme descrevia, durava de dez a trinta minu- ravidez nao deve ocorrer (Sobre toda a controversia cf N
m, PP· 296 ss, 3?3, 336 ss, 447 ss.). Todo esse debat~ il~st oo-
tos, e tinha por objetivo promover o amor conjugal.
Em 1951, ocorreu o ataque mais maciço jamais de8fechado sastr~ da m~rahdad: sexual católica, em que a diretriz su r:e~
11 é o imperativo de nao desperdiçar o sêmen e obrigar os p .
contra o método, liderado pelo dominicano H. M. Hering. Cha- despoiarem d ~ casais
mou a coisa toda de "imoral", porque, em oposição, digamos, J , -se as sensaçoes prazerosas, um processo inven-
aos beijos, envolvia as partes sexuais que segundo o cânon 1081 do pelos teologos mas apresentado como "reverência para
·nador". com
§ 2 eram destinadas para a geração da prole. Portanto, todo o
processo '' era um pecado gravíssimo, que na realidade pertencia ;8ntrementes, alguns dos últimos parecem ter desistido de ad
à esfera dos vícios antinaturais". Chanson, replicava Hering, ~Ir sobr:e o orgasmo feminmo, embora durante séculos fosse ar -
u1tos teologos o ponto crucial. o orgasmo ~enn· · P ª
esquecera-se do primeiro fim do casamento (a procriação) e com 1 . • . l' nmo, como esses
ogos o viam, ocoma da ejaculação de um "sêmen femin . ,,
muitos casais a coisa descambava para o coito interrompido, j ~
que não sabiam como se controlar. Chanson deixara de fora toda Inda em ~930, Heribert Jone falava em seu tratado sobre teo~~o · ·
uma série de verdades dogmáticas, por exemplo, "a doutrina do oral?~ e3aculaç~o da mulher (p. 615, 18ª edição, 1968, p. 62 l)i:
lomm1cano Hermg faz o mesmo até 1951 ("D l
e amp exu reser-
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 191
190

vato", em Angelicum, 1951, 323). Já que no decorrer dos anos o XV


conhecimento biológico dos teólogos aproximou-se um pouco mais
dos fatos (o óvulo foi descoberto em 1827), alguns deles abando-
naram a noção religiosa do sêmen feminino, e com isso varreram
para debaixo do tapete o orgasmo feminino, destinado ao esqueci- O SÉCULO XIII: A IDADE Áu~EADA
mento teológico. Mas, por essa razão, toda a história do "amplexo TEOLOGIA -E o APOGEU DA DIFAMAÇÃO
reservado" passou a ser muito mais centrada no homem e em seu
sêmen. MisóGINA
O ponto crucial é que o homem não deve praticar o coito
interrompido. Ao omitir a idéia do sêmen feminino e do orgasmo
supostamente a ele vinculado, a atenção pastoral concentrou-se no
sêmen masculino. Foi declarado tabu, não deve ser usado mal, não
pode ser descartado. Dele depende a salvação eterna, dessa subs- Muitos escri~ores da atualidade gostariam de ver os grandes
tância que não pode vir à luz, cujo devido lugar é a vagina, onde, log~s d/o penodo da Alta Escolástica, sobretudo Alberto Magno
por outro lado, não pode estar sempre, já que sob certas circunstân- ??1sc1p~l~ Tomás de Aquino (m. 1274), como uma virada na
cias há razões legítimas contra sua presença. Mas se não é desejado d1çao d~ od10 ago~tini~o ao prazer. Supõe-se que essa mudança
ali, não é mais desejado em lugar algum. Se não estiver indicada i ~co~~o, ~ partir da mcorporação, feita por Alberto, da biolo-
sua presença ali, então está contra-indicada em todos os demais nnst?tehca a estrutura dos dogmas da Igreja. Já que Aristóteles
lugares, e tudo isso em meio ao estresse e ao gasto de um bocado n te~zava o prazer ~anifesto numa boa ação como bom e
de energia no autocontrole-por reverência ao criador de toda essa lura!, isso . trana
. uma distensão na guerra fria da I greJa
. contra o
ordem. M
· ~s _mfehzmente, nada disso é verdade.
Absurdos como este são o resultado de uma moralidade sexual
s u~1cos a lucrar com Aristóteles foram Adão e Eva, no
equivocada que depois de quase dois mil anos ainda não está
lido af1rm~do por Alberto e Tomás que no paraíso o prazer
disposta a desistir de seu domínio usurpado sobre os quartos de
ui era maior do que é hoje - embora por outro lado fosse
dormir das pessoas casadas. É surpreendente como durante todo o
decorrer da História, e de forma abundante, cada geração criou m menor do que é hoje, já que naqueles dias o prazer era
outra geração de pretensos especialistas incompetentes, envolven- lrnmente regula~o pela. razão. Agostinho já concedera algo
do-os com um halo divino, a dedicar uma parcela substancial de lhant~ ao pelag1ano Juhano no final de sua vida, mas na baixa
suas vidas a falar bobagens. Essas figuras de cera pseudoteológicas Média e na Escolástica primitiva isso fugiu para o segundo
nos fariam rir às gargalhadas, se não soubéssemos que seus pro- >. ob outros aspectos, a aproximação de Aristóteles da teolo-
prietários e operadores são responsáveis por um sem-número d nuda acrescentou a não ser danos. Em primeiro lugar _
tragédias conjugais. 1, da confusa biologia aristotélica - provocou um ma::
'/,O às mulheres, e em segundo, gerou ainda mais ódio contra
o, porque Alberto e, sobretudo, Tomás não deixaram de
ntar as observações de Aristóteles sobre o êxtase e O torpor
11111 do orgasmo_como mais uma característica negativa do
llhnl~mo sexual de Agostinho. Em terceiro lugar e por fim a
lt rt zação de Aristóteles do ato sexual como um "ato natuntl"
'
192 Uta Ranke-Heinemann
Eunucos pelo Reino de Deus
193
comum à humanidade e aos animais (que na ~eahdade poderia te~
levado a uma atenuação da suspeita da IgreJa ante o praze~), so tasse a monasticização da sociedade. Alberto nos oferece ainda
ajudou a lançar toda a esfera da sexualidade para o plano animal, outras revelações em sua sabedona de padre confessor: "Conforme
ou bestial. "No ato sexual o ser humano toma-se semelh'.111te às ouvi no confessionário em Colônia, galanteadores delicados sedu-
bestas (bestiaiis efficitur)", disse Tomás _(Summa, The?log~ca
98 a. 2). Ao classificar o sexo como bestial: Tomas foi mais a
i! zem mulheres com toques cautelosos. Quanto mais essas mulheres
parecem rejeitá-los, mais realmente anseiam por eles e resolvem
do que seu mestre Alberto. Por outro lado, ~a passag,:ns peçonhen- consentir com o que querem. Mas para se mostrarem castas, agem
. , m·as em Alberto , e de um tipo que nao se encontra
tamente m1sog como se desaprovassem tais coisas" (ibid., XIII q. 18). Essa é uma
no sistema seco de Tomás. AI antiga teoria masculina, que então recebe a bênção de Santo Alber-
Alberto Magno foi o grande depreciador das mulheres. egava to: quanto mais a mulher resiste, tanto mais quer. Alberto Magno
que "a mulher é menos qualificada (que o_hor_ne~) para o compor- deveria receber o título de "Patrono dos Estupradores".
tamento moral. Pois a mulher contém mais hqmdo que_ o homem, Pode ser aqui mencionado de passagem que Alberto também
e é uma propriedade dos líquidos fazer com que as coisas subam d sempenhou um importante papel na história do anti-semitismo
com facilidade mal se apegando a elas. Os líquidos se ~ovem com •ris tão. Ele sem misericórdia suprimiu e destruiu a cultura judaica.
facilidade, portanto as mulheres são inconstantes e ~unosas. Quan- le pertenceu aos líderes da comissão investigadora que em 1248
do uma mulher tem relações com um homem, gostana, tanto qu~to uncionou a queima do Talmud (240 carroças) em 1242. Corrobo-
, el de deitar com outro homem ao mesmo tempo. A mu er u para essa desastrosa e injusta decisão com a própria assinatura.
~~~s~:b~ 0 que é fidelidade. Acreditai-me, se lhes derdes a ~ossa 1 so resultou em outras destruições pelo fogo do Talmud e na
confiança ficareis desiludidos. Confiai num professor expenente. struição de importantes centros de ensino judaico.
Por essa ;azão os homens prudentes partilham de seus planos e Em sua carta ao Rei Luís IX (São Luís) de França (m. 1270)
ações com qualquer outra pessoa, menos com as espos~s. A m~lher tada de 9 de maio de 1244, o Papa Inocêncio IV (que convocou
é um homem vil e bastardo e tem uma natu~~za 1mperfe1~ e •omissão de Alberto em 1247 por causa das queixas dos judeus)
deficiente em comparação com a dele. Portanto, e m_segu~a d~ ~1. O tou como motivo para a incineração do Talmud de 1242 "falsifi-
que não pode conseguir, tenta obter através de mentiras diabolicas. • es sobre a Santíssima Virgem". Referia-se à contestação dos
E assim, para abreviar, deve-se estar de guarda ~te_toda a m~lher, d us sobre a concepção virginal. Estamos bem informados sobre
como se ela fosse uma cobra venenosa e um demomo com c~1fre~. o Luís IX de França, sob cujo governo as incinerações ocorreram.
Se eu pudesse dizer o que sei sobre as mulher:s, ? m~ndo ficarrn Jean de Joinville, seu amigo e companheiro na Sétima Cruzada
es antado ... A mulher, estritamente falando, nao e mais esperta o teve estômago para se juntar a Luís na Oitava e ficou em casa,
si! mais maliciosa do que o homem. A esperteza ~oa como algo castelo), é considerado um relator de confiança e minucioso
bom, a malícia como algo mau. Assim nos ~tos m~li~os e perver• grafo do rei. Nenhum leigo, declarou Luís IX, deve discutir com
sos, a mulher é mais esperta, ou seja, ~ais_mal1c1osa do que o udeus sobre a concepção virginal; mas quando alguém calunia
homem Seus impulsos a impelem em dueçao a todos os mal~s, 1 ·ristã, o fiel deve enfiar a espada no corpo do judeu, "o mais
assim c~mo a razão impele o homem para todo o bem" (Quaestw• puder". Joinville relata neste contexto o destino de um judeu
nes super de animalibus XV q. 11). . foi severamente espancado no mosteiro de Cluny, porque não
Pode-se ver destas citações como o cehba~o co~segue corrom Ji11 acreditar na concepção virginal.
per e desumanizar mesmo seus locutores mais em1nentes. Toda li Alberto, que foi ~ontemporâneo de Luís, glorificou Maria à
sorte de difamação contra as mulheres era justificável, caso fomen 111 de todas as outras mulheres. Ele achava que Eva, pelo
1111 rio, deixara para todas as mulheres um duplo e um triplo
194 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
195

"infortúnio" - além das durezas da gestação e das dores do parto "humilhante", "partilhado pelas feras", "brutal", "corrupto"
- primeiro, o infortúnio da tentação à concupiscência, segundo, o "depravado", "infectado" e "infectante" (em relação à contarni~
da depravação do ato sexual e, terceiro, o do desejo excessivo na nação pelo pecado original) (cf. Leopold Brandi, Die Sexualethik
concepção (ln Lc 1, 28). des hl. Albertus Magnus, pp. 45, 61, 73, 79, 80, 82, 83, 95, 96,216).
Supõe-se que Alberto introduzm uma atitude menos tendencio- Para Alberto, dada a torrente de suspeita sobre o prazer (assim
sa perante o prazer sexual. Isso não é verdade, pois Alberto (e como p~~ G~aciano_, o pai do <;ódigo do Direito Canônico), con-
Tomás) aderem rigorosamente à linha agostiniana e incorporam a ~é1? ~xigrr tnnta ~oites ~e casti?ade dos recém-casados, já que a
afirmação aristotélica sobre o prazer só na medida em que não idéia e qu~ talvez ainda seJa possivel, em princípio, que entrem para
interfere com o ódio agostiniano ao prazer. Alberto e Tomás ressal- um mosterro (ln IV sent. d. 27 a. 8). Mesmo na noite de núpcias, de
tam que o prazer é bom à medida que signifique a preservação das fato mesmo durante toda a lua-de-mel, os monges não perdem a
espécies. Alberto quer dizer que, no sentido aristotélico, a natureza spe:ança._ C:om efeito, de~ois de passado o tempo para ingressar
colocou prazer no coito para que este fosse desejado para a preser- na vida rehgiosa, pode-se ainda lutar pela perfeição. O marido que
vação da espécie (ln IV Sent., 26, 2 e 31, 21 n. 3). O prazer, portanto, "cumpre sem vontade com a obrigação conjugal" é mais perfeito
só é bom como meio para atingir-se determinado fim. A busca do (ibid., d. 32 a. 3), embora não tão perfeito, porque perfeito só um
prazer é então, como antes fora, um pecado. padre celibatário, como Alberto.
Nenhum membro da Alta Escolástica fez jamais a menor Alberto também diz que é indecente fazer sexo nos dias de festa
concessão sobre esse ponto. Pelo contrário, qualquer lucro minús- nos dias d~ jejum e de procissão (ibid., 32 a. 10). E só se permite
culo que tenha sido feito com a atenuação aristotélica em relação que os casais recebam a .comunhão depois do coito quando esse
ao prazer foi investido pelos escolásticos numa acentuação ainda ocorreu por motivos moralmente inatacáveis, ou seja, pela procria-
mais nítida sobre a procriação como o fim real, natural do casamen- ção ou por obrigação, embora isso só costumasse ser aplicado ao
to: o prazer era apenas o meio de garantir a conquista da procriação. ônjuge que concedesse ao pedido. Se o motivo para a pessoa pedir
Mas qualquer um que fosse motivado pelo prazer estava tomando para fazer sexo ~ão fosse_ a procriação mas o desejo do prazer, então
o meio num fim, o que era contra a ordem dada por Deus e portanto o confessor devia adverti-lo para evitar a comunhão (ibid., d. 32 a.
um pecado. É um pecado mortal, ou seja, incorre-se na condenação 13 ad quaest. 1). Vê-se como é importante a confissão para 0
eterna quando se tem uma relação sexual só por prazer. onf~ssor: p~a fazer co_m seus penitentes essas finas distinções
Isso não representa qualquer mudança da Escolástica primitiva. morrus e deslindar a motivação das pessoas casadas.
Alberto e Tomás apenas evitaram a fórmula de Gregório Magno ~m dos fundamentos principais da ética sexual agostiniana,
("O prazer nunca se dá sem pecado"), segundo a qual, do século que ainda pode ser encontrado nos tratados mais recentes de mora-
VI ao XII, todo o prazer sexual no ato conjugal era considerado lida?e cat~lica, est~ ~a grande diferença entre cumprir O próprio
pelo menos um pecado venial. Alberto e Tomás ficam bastante ébito conJugal e exigtr que o outro cônjuge cumpra o dele. Alberto
próximos de Agostinho, que rotulou o coito de ato sem pecado ssalta a distinção ao dizer: quem cumpre seu débito conjugal não
quando feito para a procriação e por obrigação a pedido do outro prova mas dep~ora o anseio sexual do cônjuge. Não pretende
cônjuge. Para Alberto e Tomás o prazer não é um pecado nesses promover o deseJo do outro, mas curar a enfermidade do cônjuge.
dois casos, embora seja aos olhos de Alberto (como era aos de Noutras palavras, ambos operam em conjunto, mas a atitude moral
Agostinho)um "mal", um "castigo", "obsceno", "desprezível", d cada ~m é ~bsolutamente diferente. "O cônjuge que exige age
"feio", "vergonhoso", "doente", uma "degradação do espírito", p r deseJo lascivo, o que cumpre com a obrigação age com base na
uma "humilhação da razão pela carne", "vulgar", "rebaixante", virtude da fidelidade conjugal. Assim, a exigência é pecado, e 0
196 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 197

atendimento dessa exigência um mérito" (ibid., 32, 9, cf. as passa- res negras têm mais sêmen porque são mais passionais. As mulheres
gens em Müller, Die Lehre des hl. Augustinus von der Paradiese- de cabelo escuro são as que mais têm sêmen. As magras têm mais
sehe und ihre Auswirkung in der Sexualethik des 12. und 13. do que as g~rd~. Alberto segue a biologia de Aristóteles ao opôr-se
Jahrhunderts bis Thomas von Aquin, p. 254). aos que atr1bmam força geradora ao sêmen feminino. O sêmen
Um pecado, naturalmente, não é igual a outro pecado. Alberto feminino é ~quo~o e fino e "impróprio à reprodução" (Quaestiones
cita o axioma dos que odiavam o prazer e que entrou no repertório super de ~n:maltbus XV q. 19)._ Por esse motivo, segundo Alberto,
dos celibatários graças a Jerônimo: o "amante apaixonado demais O t~rmo semen da mulher, onundo de Galeno, é incorreto" (De
[ardente demais] pela esposa" comete pecado mortal. O "que não animal IX, 2, 3). O sêmen masculino é como o artista o mestre
é apaixonado demais pela esposa" comete pecado venial. O último 2,
que dá~ forma, Ao sêmen fe~nino o recebe (ibid., IIl, 8). Ess~
recebe o "perdão" apostólico, que Alberto, como Agostinho, lê em formaçao ~elo semen masculino, um processo que sempre visa ao
1 Cor 7, 6 (in IV Sent. 31, 5). d~senvolv1~ento da forma masculina perfeita, pode fracassar de-
Alberto tem argumentos mais do que teológicos para orientar vido a c?nd1ções ~esfavoráveis, caso em que nasce uma mulher.
e regular o sexo conjugal, tem também um fundamento científico: Temos ai a velha d~famação aristotélica das mulheres, que Alberto
o coito praticado com demasiada freqüência leva ao envelhecimen- lnc?rpora_ à, teologia dos celibatários. Michael Müller diz que "o
to e à morte prematura (De animalibus 1.9 tr. I, 2 e 1. 15 tr. 2, 6). ma10~ preJmzo ~au~ado às mulheres, depois da ameaça do dualismo
Sexo em excesso rarefaz o cérebro, os olhos ficam fundos e fracos. ~ós~1co na ant!gmdade, data do século XIlI pela aceitação indis-
E Alberto dá prova disso: "Um certo Mestre Clemente da Boêmia rimmada da biologia aristotélica" (Grundlagen der katholischen
contou... me que um certo monge, já de cabelos grisalhos, saíra com xualethik, 62).
uma linda mulher, como um homem esfomeado. Até começar o
ofício das matinas ele a desejou ardentemente 66 vezes. Mas pela
manhã caiu prostrado doente na cama, e morreu no mesmo dia. Por
ser um nobre, seu corpo foi dissecado. E descobriu-se que seu XVI
cérebro fora bastante consumido e o que ficou era do tamanho d
uma romã, e os olhos foram também destruídos" (Quaestione,\'
super de animalibus XV q. 14). O coito freqüente nos faz ficar
calvos mais depressa, porque o sexo nos resseca e nos esfria (ibid,,
TOMÁS DE AQUINO: LUMEN EccLESIAE
XIX q . 7-9). Alberto também percebeu que as pessoas que praticam ("A LUZ DA IGREJA")
sexo muitas vezes são seguidas por cães. Explica isso dizendo qut
"os cães adoram os cheiros fortes e correm atrás de cadáveres, e o
corpo de uma pessoa muito dada ao coito aproxima-se da condição
do cadáver por causa de todo o sêmen putrefato" (ibid., V q. 11-14 ,
No que concerne ao sêmen, Alberto também acredita que o undame~talm~~te, Tomás de Aquino não fez mais do que urdir,
mulheres o emitem durante o coito, e trata desse questão co111 forma s1stemat1ca, os pontos de vista da Alta Escolástica num
muitos pormenores. A ejaculação das mulheres, acreditava ele, (1 njunto. E, até onde vai a adoção da biologia aristotélica, nada diz
mais das vezes se vincula ao orgasmo, mas em outras o orgasmo rn do que seu mestre, Alberto Magno, já apresentara"com maio-
também deriva de um "espírito animal que faz cócegas" (D d~talhe~, embora de modo menos organizado. Todavia, deve-
animal. XV, 2, 11). O sêmen feminino é esbranquiçado. As mulh • mvest1gar com mais atenção a ética sexual de Tomás, porque
198 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
199
seus argumentos tiveram enorme influência que se estende até
Gên~si~ m~is ou menos como um relato histórico literal. Por que
nossos dias. Na moralidade sexual, Tomás continuou sendo a 0
demomo nao fala com Adão e sim com Eva?, indaga Agostinho. E
autoridade, ao lado de Agostinho.
dá a resposta: Satanás se dirigiu "ao elemento inferior dos dois
Em seu tratamento regular "dos ensinamentos de Agostinho
humanos( ... ) pressupondo que ao homem não seria assim tão fácil
sobre o casamento antes da queda dos primeiros pais e seu impacto
enganar, e que não seria aprisionado por um falso movimento de
sobre a ética sexual dos séculos XII e XIII até Tomás de Aquino"
sua parte, 1!1ªs. só se desviado para outro erro." Agostinho admite
(Die Lehre des hl. Augustinus von der Paradiesesehe und ih~e
Auswirkung in der Sexualethik des 12. und ~3. Jahrhu~derts_ bis
as circunstancias atenuantes para Adão: "Não podemos acreditar
q~e o homem fosse levado para o mau caminho(... ) porque acre-
Thomas von Aquin, 1954), Michael Müller afirma que tais ensma-
d1tav~ que a mulher estivesse falando a verdade, mas que ele caiu
mentos de Tomás "surpreendentemente - até onde vai o assunto
trave~ das sugestões dela porque estavam muito unidos em sua
das questões individuais - são pouco mais d? que uma repe~ção
parcena. ( ...) Eva aceitou o que disse a serpente como verdadeiro
das opiniões escolásticas usuais, de linha mais dura, fortalecidas
nq~anto ~d~~ se recusou a separar-se de sua companheira, mesrn~
por fragmentos didáticos de Aristóteles" (p. 255)._ Exceto pelo ~ato
que Isso s1gmficasse dividir com ela o pecado" (A Cidade de DeUs
de que não há nada de surpreendente ~ esse respeito~ a caractenza-
IV, 11, Petrópolis, Vozes, 1990). O amor da mulher conduz
ção de Müller está correta. Só alguem que acredita que houve homem à ruína. 0
qualquer modificação essencial na difamaçã? e no desprezo da
A fr~ira Hildegarda de ~ingen (n. 1179) utilizou a explicação
Igreja Católica ante as mulheres, desde Agostmho nos séc~los IV
Ago~tmho e tornou-a mais clara: "O demônio( ...) viu que Adão
e V até Tomás no século XIII, ou que pudesse ter ocomdo tal
t~va mflamado de um amor de tal forma violento por Eva que
mudança, dada a proeminente influência de Tomás, do século ~ II
na tudo o que ela lhe dissesse" (Scivias 1, visio 2). Tudo isso não
ao XX - só um observador assim ingênuo - se "surpreendena"
ssa_d~ mesma e velha condenação das mulheres, pois as mulheres
ao reparar que basicamente tudo continuou como sempre_fora.
o o mimigo met~fórico de toda a teologia celibatária, e as próprias
Tomás escreve: "A continência perpétua é necessána para a
ulheres com mmta freqüência aceitaram a noção de que seu sexo
devoção perfeita. ( ... ) É por isso que Joviniano, que colocou o r uma praga escolhida por Deus.
casamento no mesmo plano da castidade, foi condenado" (Summa
Tendo ~or fundo esse antigo desprezo agostiniano pelas mu-
Theologica 11/11 q. 186 a. 4). E Tomás repete diversas vezes o qu lh res, no seculo XIII, os teólogos escolásticos, sobretudo Alberto
Jerônimo já calculara nos séculos IV e V, ou seja, que as pessoas
omás, r~forçados por Aristóteles, deram sua contribuição. Aris-
virgens e castas têm uma recompensa celestial de 100%, enquanto 1 l~s ~bnu os olhos dos monges para a razão mais profunda da
que os viúvos e viúvas recebem 60%, e as pessoas casadas 30% ~ nondade da mulher: a mulher devia sua existência a um erro
(ibid., 11/11 q. 152 a. 5 ad 2). Quem hoje tentar colocar o ~asamento urn deslize no processo de nascimento. Era, noutras palavras, u~
no mesmo plano da castidade será visto, como acontecena naquelo " homem mal gerado ou deficiente". Embora essa descoberta de
mesma época, como quem afunda a virgindade ao nível do casa lstóteles s_e ~nquadre suavemente no pensamento da Igreja mas-
mento e ofende a própria Virgem Maria. E quanto à posição da 1ina agostmiana, não foi aceita sem alguns transtornos. Guilher-
mulheres na Igreja machista, não houve a menor modificação. de Auvergne (m. 1249), Magister regens da Universidade de
Agostinho escreveu há muito tempo que todos os problemas?" ris, afirmava que se a mulher fosse rotulada de homem defeituo-
humanidade começaram, por assim dizer, com a mulher, ou seJII,
' ntão .º homem tai_nbéi_n poderia ser rotulado de mulher perfeita,
com Eva; que a expulsão do paraíso foi por culpa dela. E até a virad 1 Ili tena um sabor mqu1etante de "heresia sodornítica" (homos-
do século o Vaticano ainda lia a história da criação e da queda m, 11alismo) (De sacr. matr. cap. 3).
200 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
201

Mas o medo dos homens da Igreja de aprovar, junto com fülho, mas só a nu triz da semente recém-plantada/ que cresce."
Aristóteles, uma admiração grega misógina do homossexu~lis~o Chamando a atenção para Palas Atena, que nasceu sem mãe da
foi mais fraco do que seu desejo de encontrar enfim uma exphcaçao cabeça _de St:_U pai'. Zeus'. ele prossegue: "Pode haver/ um pai sem
convincente para a subordinação da mulher ao homem. Os te~l~- que haJa mae. Et-la ah,/ testemunha viva, a filha de Zeus do
gos-patriarcas cristãos conseguiram a tutela nesse P_?nto d~s !ilo- Olimpo,/ ela que nunca foi criada na escuridão do ventre." E Atena
sofos-patriarcas pagãos. Depois que os h?men_s (pagao~ ~ cnstãos) filha exclusiva do pai, diz: "Não há mãe em lugar algum que m~
trouxeram a mulher de volta aos filhos e a cozmha e ex1grram para tenha dado à luz" (Eumênides 11. 658-60, 662,65, 736-40).
si todas as demais atividades de aspecto mais interessante, ocorreu- Essas noções depreciativas da mulher como espécie de vaso de
lhes a idéia (aos homens pagãos e cristãos) de que o homem é flores par~ o sêmen masculino foram elaboradas por Aristóteles
"ativo" e a mulher "passiva". E esse fato da atividade masculina, numa teona que perdurou por milhares de anos. Aristóteles, Alberto
acreditava Alberto, tornava os homens de maior valor ?º ~ue ~s Tomás vêem as coisas da seguinte maneira: segundo o princípio
mulheres. O princípio de Agostinho segundo o qual "o ativo e mais fundamental de que "todo elemento ativo cria algo semelhante a si
valioso que o passivo", está pura e simple~mente "c?rreto" (~um- mesmo", só os homens deveriam nascer na realidade em decorrên-
ma Theologiae ps. 2 tr. 13 q. 82 m. 2. obJ. 1; cf. Michael Muller, ia d~ cópula. A energia do sêmen tem por objetivo próprio produzir
Grundlagen der Katholischen Sexualethik p. 62). . . lgo igualmente perfeito, ou seja, outro homem. Mas devido a
Aristóteles vinculou essa atividade masculina e essa pass1v1da- ircunst~cias desfavoráveis, as mulheres, ou seja, os homens
de feminina ao ato da procriação: o homem "gera", a mulher mperfe1tos, ganham existência. Aristóteles chama as mulheres de
"concebe" (= recebe) o filho. Nossos hábitos lingüísticos foram rren peperomenon, um homem mutilado ou imperfeito (Sobre a
intocados pela descoberta (em 1827) do óvulo por K. E. von Baer,
eração dos animais 2, 3). Alberto e Tomás traduziram a expressão
que provava que as mulheres contribuía~m co1!1 ~u~ met~de_ ~o ga po~ mas occasionatus. Alberto explica que "occasio significa
processo de concepção. A noção de que o se~en e o umco pnnc1p~o
m de~e1to que não corresponde às intenções da natureza" (De
ativo na procriação persistiu de forma tão remtente, graças a Tomas
nima~lbus 1, _250). E p~a Tomás significa que "algo que não tem
de Aquino, que ainda hoje a hierarquia da Igreja ignora as conse-
l nçao em s1, e se ongma em alguma deficiência" (ln /l sent. 20,
qüências teológicas da descob~rta de von B~er, P?r exemplo, para l, 1; De veritate 5, 9 ad 9).
a concepção de Jesus. Não mais podemos dizer s1mplesment~ qu
Assim, ao nascer, toda a mulher já tem um fracasso atrás de
Maria concebeu Jesus por intermédio do Espírito Santo. Aceitar a
: u mulher é um fracasso. Tomás escreve que as circunstâncias
existência do óvulo significa negar que Deus tenha sido a único
V rsas_ qu: f~zem com que o homem gere algo não tão perfeito
força a efetuar a encarnação e admitir que a concepção ?e Cristo
foi só em 50% obra do Espírito Santo (cf. Uta Ranke-Hememann,
nt? s1 propno, abrangem, por exemplo, o vento sul úmido, que
< nge~ a uma pessoa com maior conteúdo de água (Summa
Widerworte, Goldmann Paperbacks, 19892, p. 287 ss).
'hrologlca I q. 92 a 1). E sabe a que essa situação inconveniente
A idéia de que o homem era a única causa da procriação não
tJ levar: "como há maior teor de água nas mulheres são elas
foi inventada por Aristóteles. É condi~ent~ com a imagem que ON
INfacilmente seduzidas pelo prazer sexual" (ibid., III~- 42 a. 4
homens faziam de si mesmos. Mesmo Esqmlo (525-456 a.C.), o pai
~), Para as mulheres é muito mais difícil resistir ao prazer sexual
da tragédia ocidental, via o homem como o únic~ e exclusivo
r file têm "menor força mental" do que os homens (II/II q. 49
gerador da vida. Daí o fato de Orestes. ter assassm~do a mãL', ),
Clitemnestra, não ser tão sério quanto se tivesse assassmado o pai,
Alberto também dá crédito à influência dos ventos, entre outras
Como diz Apolo: "a mãe não é um dos pais do que se chama/ s li
l na criação de homens ou mulheres: "O vento norte revigora
11 N,
202 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
203
o princípio ativo, o vento sul o enfraquece.( ... ) O vento norte leva
à geração de homens, o vento sul à de mulheres, porque o vento Em deco1;ên~i~,da_ "deficiência em sua capacidade de raciocínio",
norte é puro e resseca as exalações e estimula a força natural. Mas que t~~em ~ evidente em crianças e em doentes mentais", não
o vento sul é úmido e pesado como a chuva" (Quaestiones super é perrruti~~ as mulheres servirem de testemunhas em assuntos
de animalibus XVIII q. 1). Tomás assume postura semelhante tes~entár~o~ (Summa Theologica Il/II q. 70 a. 3). (O direito
cano~1~0 re3e1t~u o depoimento das mulheres em questões testa-
(Summa Theologica I q. 99 a. 2 ad 2). . ~ .
A mulher, portanto, é um produto da polmçao ambiental, um mentárias e em3ulgamento_s criminais, mas noutros casos permitia-
lhes ~es~emunhar.) As crianças também tinham de observar a
aborto. Em seu estilo caracteristicamente filósofico e abstrato, em
superioridade do_pa~: _"O ~ai deve ser amado mais do que a mãe,
vez de ecológico ou descritivo, Tomás diz que as mulheres não
por ~er el~ ? prmcip10 ativo da geração, enquanto que ela é
correspondem à "primeira intenção da natureza", a qual visa à passivo" (1b1d., II/II q. 26 a. 10). 0
perfeição (os homens), mas a uma "segunda ~ntenção da natureza",
" Tais ~iferenças podem se~encontradas mesmo no ato conjugal:
(a coisas tais como) "decaimento, defonmdade e a fraqueza da
Ao m~do cabe a parte mais nobre no ato conjugal, e é natural
velhice" (ibid., Suppl. q. 52 a. 1 ad 2). Assim a mulher é um
que precise c~rru;,menos ao exigir o débito conjugal do que quando
substituto que adquire existência quando a jntenção primeira da
mu!he~,º exige (Summa Theologica Suppl. q. 64 a. 5 ad 2). Pois
natureza, a criação de um homem, fracassa. E ela um homem com
coito s~,mp~e tem algo de vergonhoso em si e faz a pessoa
retardo do desenvolvimento. Entretanto, mesmo esse fracasso fe-
~rubes~e: (~b1d., q. 49 a. 4 ad 4). As mulheres são mais inclinadas
minino faz parte do plano de Deus, não num sentido ptjmário mas
mcontmencia do que os homens, diz Tomás, invocando Aristóte-
secundário (ou qualquer outro que seja), já que "a mulher é desti- 1 ~ (Summa Theologica nm
q. 56 a. 1). O martelo das feiticeiras*
nada à procriação" (ibid., I q. 92 a. 1). Mas, do ponto de vista f~r~~va que essa era a razão por que havia maior número de
monástico de Tomás, aí se esgota a utilidade da mulher. ~ ttlcerras do que de feiticeiros (I q. 6).
Tomás recorre a Agostinho sem citá-lo: o auxílio para o qual Deus . Como criatura deficiente, ainda de algum modo no nível da
criou a mulher de Adão se refere apenas ao auxílio para a procriação, r1an9a, a mulh_er é capaz de conceber filhos mas não de educá-los.
já que em todas as demais atividades ~m homem seria. de maior tremam_ento ~telectual das crianças só pode advir do pai, já que
serventia para outro homem. Alberto disse a mesma coisa a esse 1 é o lide~ 1~telectual. Tomás estriba a indissolubilidade do
respeito (ln II sent. 20, 1 e IV sent. 26, 6). Os teólogos masculinos sarnento principalmente no fato de que "a mulher não é de forma
assimilaram Agostinho: para a vida intelectual masculina a mulher não ~uma ~d~quada" para a tarefa de educar a prole. Nesse assunto 0
tinha significado. Pelo contrário, Tomás acreditava que através do 1é ~ais importante do que a mãe. Em virtude de sua "razão mais
contato com a mulher, a alma do homem -como ensinava Agostinho rfe1ta", pod~ melhor "instruir" o entendimento dos filhos, e
- descia de suas alturas, seu corpo caía sob o domínio da mulher ruças a"sua v~rtus (= "força" e "virtude") mais vigorosa pode
portanto "numa escravidão mais ~arga do que qual~uer out!~" (ln lhor mante-los sob controle" (Summa Contra Gentiles ITI
1 Cor 7, 1). Tomás cita Agostinho: 'Nada degrada mais o espmto do 122). '
homem de sua elevação do que os carinhos da mulher e o contato Tomás tem ainda outra razão para tornar o casamento indisso-
corporal sem o qual o homem não pode possuir a esposa" (Summa vel: "Por9ue a mulher pre~isa do homem não só para gerar e
Theologica II/II q. 151 a. 3 ad 2). ucar os filhos, como tambem dele necessita como seu senhor
As mulheres têm menos vigor físico e intelectual do que os NSoal (gubernator), já que o homem", repete Tomás, é "de uma
homens. Os homens têm "uma razão mais perfeita" e uma "virtud
mais forte" do que as mulheres (Summa Contra Gentiles III, 123), Puhllcado no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos. (N. do T.)
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 205
204

razão mais perfeita" e de uma "virtude mais forte". Mui!os homens degradação das mulheres pela Igreja, cumpre deixar claro que a pior
imaginam que por terem maior força física (virtus, hteral~ente de todas as acusações - que a Igreja duvidasse que as mulheres
"virilidade"), possuem também maior virtude. Daí que o vocabulo tinham alma ou que eram humanas de fato - não é verdadeira.
latino virtus pode ser traduzido por "virtude" ou "forç~" ou Muitas vezes se ouve ou se lê que no segundo Sínodo ·de Mâcon
simplesmente "masculinidade". Pois já a virtude romana denvava (585) os participantes discutiram se as mulheres tinham ou não
da noção de força masculina. Há muitos elementos a com~r?var tinham alma, mas isso nunca aconteceu. As almas não eram a
que as primeiras virtudes a surgirem na raça humana e a adqmnrem questão. Gregório de Tours, que estava lá, informa que um bispo
a supremacia sobre as demais, dos homens _sobre as mu~eres, dos levantou a seguinte questão: "poderiam as mulheres serem chama-
homens da Igreja sobre as mulheres na IgreJa, eram as virtudes que das de 'homo'?" Temos aí portanto uma questão filológica (embora
permitiam aos mais fortes dominare~ os mai_s fracos e dessa forma rguida em virtude dos homens atribuírem para si maior valor):
conquistarem para si a honra e a glóna. A~si1!1.ª força e a brav~ra homo em latim significa "pessoa" e também "homem", como
guerreira masculina (virtus) passaram a sigmficar a ~es~a_coisa outros cognatos em todas as línguas neolatinas, e como a palavra
que "virtude". Quando Tomás diz que a esposa esta suJeita ao man (homem) em inglês. Os outros bispos, prossegue Gregório,
marido por causa de sua "maior virtus", provavel11:en~e se refere remetem o investigador à história da criação, que diz que Deus criou
tanto a força para mantê-la sob controle quanto a virtude para homem (homo), "homem e mulher os criou" e à denominação de
corrigi-la. Em qualquer caso a esposa tem as mesmas vantagens da~ Jesus "Filho do Homem" (filius hominis), embora fosse filho de
crianças: as de serem "instruídas e mantidas sob controle" pelo pai uma virgem, e portanto filho de uma mulher. Esses esclarecimentos
(ibid., m, 123; 122). ssencialmente resolveram a questão: o termo homo devia ser
Tomás sustenta que "como as mulheres estão num estado de plicado às mulheres e aos homens (Gregório de Tours, Historia
subordinação", não podem receber as Ordens Sacras (Summa Francorum 8, 20).
Theologica Suppl. q. 39 a. 1). Essa subordinação aos homens é ~a~a Tomás sentiu ter o apoio de Aristóteles não só no rebaixamento
Tomás o verdadeiro motivo para negar às mulheres qualquer oficio das mulheres como também na questão da hostilidade ao sexo e ao
eclesial. Mas ele se contradiz quando, por outro lado, fala das razer. A ressalva de Aristóteles que o prazer sexual interfere no
mulheres que não existem em estado de sujeição aos homens: "Ao nsamento (Ética aNicômaco 7, 12) lhe foi proveitosa, reforçando
fazerem o voto da virgindade ou da viuvez consagrada e portanto, seu pessimismo sexual agostiniano. Cita Homero referido por
ao se casarem com Cristo, são elevadas à dignidade dos homens ristóteles: "Afrodite enfeitiça até mesmo os mais judiciosos
(promoventur in dignitatem viri~em), _através do que_fic~~ livres da ntidos" e ressaltou a noção de que "o prazer sexual suprime
subordinação a estes e se unem 1med1atamente a Cnsto (ln I Cor., talmente o pensamento" (Summa Theologica II/li q. 55 a. 8 ad
cap. 11, lectio 2). . 1). Tomás insiste em retomar a sua convicção de que "o prazer
Mas então por que as mulheres não podem se tomar sacerdoti- xual bloqueia por completo o uso da razão", que "sufoca a razão"
sas? Tomás não tem resposta para isso. Talvez a causa se encontr de que " absorve a mente".
mais nos homens do que nas mulheres. Muito antes disso, a pro~ó- Hoje não mais podemos reconstituir os processos cognitivos
sito Jerônimo anunciara a idéia absurda de que "uma mulher dei~a r trás da rejeição fanática por parte de Tomás (dele sobretudo,
de ~er mulher" e pode ser chamada de homem "quando deseJH s também de toda a teologia baseada em Agostinho) do ato
servir a Cristo mais do que ao mundo" ( Comentário sobre Efésios, xua1, em virtude de "escurecer", de fato "dissolver" a mente.
livro III, cap. 5). >más sustenta que o coito freqüente "enerva a mente" (ln IV sent.
Podemos observar, de passagem, que por pior que fosse esso expos. text). Assim, as raízes de seu pensamento não são
206 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
207

primariamente teológicas, e ninguém pode mais ~artilhar de s~as pecado original, é contaminado e corrompido" (Suppl. q. 49 a. 1 ad
ansiedades biológicas primitivas, a menos que ainda se acredite, I}. !omás vê "a resistência da carne ao espírito que se toma
nestes dias e na era atual, que o sexo praticado com freqüência cause p~icularn:iente perceptível nos órgãos da reproduçã.o como um
debilidade mental e desintegre as células cerebrais. Algo semelhan- maior castigo do que a fome e a sede, já que essas últimas são
te a isso é o que Tomás parece querer dizer com "enervar" . E assim puramente físicas, mas a primeira é também intelectual" (De maio
faz questão de acrescentar em sua descrição da castidade ("a mais 15, 2 ad 8). Mesmo o jesuíta Josef Fuchs considera essa idéia de
bela das virtudes", Summa Theologica II/II q. 52 a. 5) que esta Tomás "um tanto parcial" (Die Sexualethik des heiligen Thomas
libera os adeptos da "lesão da razão" (corruptio rationis, In IV sent. vonAquin, p. 40). ,
33, 3, 1 sol. e ad 4) que ocorre na vida sexual. Evidenteme~te, os . Se o prazer sexual transmite o pecado original, isso não quer
celibatários da Igreja não alegavam simplesmente que, em virtude dizer que alguém que nada sinta também nada transmita. Se assim
de seu estilo de vida, possuíam mais graça divina (100% em fosse os filhos das pessoas frígidas seriam sem pecado. Mas os
comparação aos 30% das pessoas casadas), ~as que também_dis- t11 61ogos pensaram nessa possibilidade também. Tomás explica:
punham de maior racionalidade (p?r nã? ter sido :ssa corrompid~)- Se pela graça _de Deus alguém possui o dom de não sentir qualquer
Junto a seu quociente de salvação, mfehzmente, nao fazem mençao prazer desmedido no ato da procriação, mesmo assim estará trans-
a seu quociente de inteligência, embora essa sem dúvida fosse mitindo o pecado original ao filho." Pois o prazer sexual em questão
também de interesse geral. . n o é o praze~ real (experimentado no momento da procriação) mas
A conexão entre sexualidade e pecado original e esse rebaixa- prazer habitual (baseado na condição humana), que é o mesmo
mento do intelecto pelo desejo foram as principais razões para m todas as pessoas (Summa Theologica 1/11 q. 82 a. 4 ad. 3). Assim,
Agostinho desenvolver sua doutrina dos ?ens compens~dores que smo as pessoas frígidas não têm sorte, porque são lúbricas de
desculpam o casamento. Tomás assumiu ess~ dout~~ª- Como ~ma latente, têm uma propensão ao prazer que absorve a mente,
Agostinho, descreveu o prazer sexual não como mcondicionalmen- isso basta. Mesmo a graça de Deus, que os poupa do prazer
te pecaminoso, mas como um castigo result~nte d~ ~ueda. J?aí a ncreto que, sob outros aspectos, escurecia-lhes o intelecto duran-
necessidade de bens compensadores, dos quais o prmcipal esta nos sexo, nada pode fazer a respeito.
filhos. Raciocinando absolutamente na mesma linha de Agostinho, Não há pais que consigam escapar das armadilhas dos teólogos.
afirma: "Nenhum homem racional pode chamar a si a responsabi- pai e a mãe de Maria são a única exceção, embora isso só tenha
lidade de qualquer perda, se essa não for compensada por outro do estabelecido em 1854, no dogma da Imaculada Conceição.
valor igual ou maior." Mas o casamento é uma espécie de situação , Tomás, só Jesus e não Maria esteve livre do pecado original.
em que se experimentam perdas: a razão é varrida pelo prazer, como firma que como todo o ato sexual significa "corrupção" e "po-
diz Aristóteles, e então existem as "aflições da carne", como diz o" do ventre, no caso de Maria, Jesus foi concebido sem o coito
Paulo. Daí a decisão de casar só pode ser vista como justa quando ' or questão de pureza e para evitar a contaminação" (ln Math. 1
esse "prejuízo é contrabalançado por uma compensação que torn ,247]). Segundo Tomás, só Jesus foi puro, ou seja, concebido
a união conjugal louvável: e isso se consegue pelos bens qu( m ter si?~ contaminado ~elo sexo, sem contrair por contágio o
desculpam o matrimônio e o tomam louvável". Para comparaç1: u uclo ongmal do ato conJugal da procriação. Josef Fuchs, espe-
Tomás faz menção do comer e do beber: como não há prazer t O lizado em Tomás de Aquino, observa aqui: "Como Tomás
veemente a eles vinculado que sobrepuje a razão, o comer e o beb 1 1 nde essa 'impureza' sexual não pode ser determinado precisa-
não requerem uma compensação correspondente. Em oposição uo Ili " (ibid., p. 52). Os teólogos se inclinam, sobretudo no caso
comer e ao beber, "o poder do sexo, através do qual se transmit !1 príncipe dos teólogos, a darem a melhor interpretação possível
208 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
209
aos fatos. E quando isso não é mais possível, preferem ressaltar que
:ristãos, ,?u de qualque_r f~rrna Tomás de Aquino, degradaram a
não conseguem entender Tomás a admitirem com franqueza que mulher dando-lhe o s1gruficado de "infâmia" O 'd' l'b , .
ele está falando tolices e que se viu envolvido nas tolices de outro a , 'd' , . o 10 ce 1 atáno
o sexo e o 10 as mulheres. Fuchs observa que "~omás al
grande teólogo, Agostinho. t . .1, egremente
repe e o ~ue P aulo diz em 1 Cor 7, 1: 'Penso que seria bom ao
A essa altura poderíamos brevemente arrolar os termos dados homem nao tocar mu1?er alguma"' (Fuchs, p. 261).
pelo santo teólogo medieval ao ato do sexo conjugal, termos que
efu~ ra)to,de que o pnncípio gnóstico (que Paulo citou para poder
segundo JosefFuchs "poderiam surpreender" o leitor (ibid., p. 50).
; - o e representado até hoje como um princípio próprio de
Os únicos leitores a ficarem surpresos, no entanto, serão os que se aulo tem. causado ~á dois mil anos toda a espécie de danos. O
recusam a ver que todo o corpo da moralidade sexual católica foi supo~to axioma pauhno tomou-se o principal trecho de prova para
desviado desde o início. Na terminologia de Tomás de Aquino
encontram-se: "imundície" (immunditia), "mancha" (macula),
âcelibato; E Tomás re~ete a ''escala de remuneração'' que foi aceita
t~te ~~~los, ou SeJa? :iue a recompensa celestial para as virgens
"porcaria" (foeditas), "torpeza" (turpitudo), "desonra" (ignomi- 1
nia). Os sacerdotes, diz Tomás, preservam a "pureza do corpo~'
s ra e . o,?~ª ~s v1~vos de 60%, e só de 30% para os casados,
com os cehbatános mclurndo-se entre as virgens (ibid., II/II q. 152
através do celibato (passagens citadas em Fuchs, pp. 50-51). A • 5 ad. 2; 1/Il 9· 70 a. 3 ad 2; Suppl, q. 96 a. 4).
guisa de desculpa, Fuchs acrescenta: "Tomás foi parte ( ... ) de uma Para Tomas, como para Agostinho e toda a tradição "o casa-
longa tradição. ( ... ) As~im lhe teria sido difícil apresentar um mento sem rela~ões_ cama~s é mais santo" (ln IV Sent. d.' 26, 2, 4)
ensinamento mais liberal" (ibid., p. 51). Ninguém tem de repetir fato de que nao so Tomas, màs os teólogos em geral, entram e~
tolices. E desde então a tradição, fortalecida por Tomás, tornou-se ~o~enores sobre os votos de continência feitos por pessoas casa-
ainda mais longa, e as tolices são ainda repetidas, e a doutrina mais as emonstra que ~ão eram poucos os casais que viviam como
liberal se torna cada vez mais difícil de ser apresentada por causa monges. Tanto Graciano quanto Pedro Lombarda tratam em suas
do peso cada vez maior da tradição. rdens regulares desses casamentos e do que os casais tinham d
Aqui estão algumas outras descrições do coito conjugal forne-
cidas por Tomás, que foi canonizado como santo e chamado d
~er, o que não m~is podiam fazer etc. O modelo aqui é sempre
sarnento de Mana e José.
i
doctor angelicus ("o doutor angelical"): "degeneração" (deformi• I Além disso, ~s mulheres casadas, embora partilhassem de um
tas), "doenças" (morbus), "corrupção da integridade" (corruptio gar com os mar1d?s no nível mais baixo da remuneração celestial
integritatis) (Summa Theologica I q. 98 a. 2), um motivo pan1 m grande parte arnda constituíam um grupo ainda bem meno;
aversão e "repugnância" (repugnantia). Tomás disque os ordena ompensado. Isso se pode depreender de uma observação elo
dos ao sacerdócio sentem tal aversão ao casamento "por causa do ,ufta Pedro Bro~e, especialista em Idade Média cristã ~ue
ato conjugal", por que este "impede os atos do intelecto" e s lar~~' em seu hvro Die hiiu.fige Kommunion im Mitteiatter
interpõe no caminho de uma "maior integridade" (Summa Theolo 1 8). _Às mulheres casadas era vedado tomar a comunhão com
gica Suppl. q. 53 a. 3 ad 1). Tomás passa mais tempo do qu~ ON '1~ênc1a. Eram consideradas impuras ou então não tinham m, .t
outros teólogos medievais apresentando e interpretando o ens11111 nc ie~t~. S~ se o m~rido morresse, ou se ambos fizessem um :~t~
mento do Papa Gregório I sobre "as oito filhas da incontinência", 'O?tme:ic1a ~odenam dar início à real procura da perfeição e se
Um do.s piores efeitos da incontinência é a "feminilização (111 Nl,~Ua~~ e~tivesse correta, poderiam receber a comunhão c~m
coração humano" (Summa Theologica 11/11 q. 83 a. 5 ad 2) . ( l 1 Tequenc1a" (p. 120).
pagãos masculinos elevaram a virtus (= virilidade) ao status d Ma_s nem ~odos os casais conseguiam atingir esse ob ·etivo
"virtude", no sentido que hoje a entendemos. Os celibatád11 li st1co de vmvez ou de completa abstinência sexual. Par~ eles
210 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
211

a questão era a seguinte: embora não pudessem ser perfeitos, pelo imputam às pessoas casadas e concedem como motivo para O coito
menos não deveriam cair em pecado. Para esse fim Agostinho e é um exemplo de tolice intolerável.
Tomás ofereciam duas modalidades de coito: 1) o sexo para a . Mesmo o Concílio Vaticano II, que foi equivocadamente con-
procriação e 2) o sexo para satisfazer o débito conjugal, essa última s1clerado _um_ passo à frente na moralidade sexual, diz que "muitas
"para que se evitasse o perigo" (Summa Theologica Suppl. q. 64 a. vezes a f1dehdade pode e?trar em crise, quando O número de filhos
2 ad 1; ad 4), ou seja, "se prevenisse a fornicação (pelo outro - pelo menos temporanamente - não puder ser aumentado" e
cônjuge)" (ibid., q. 48 a. 2). Todos os demais motivos, por mais nenh~ma "s?lu_ção_ imoral" (anticoncepção) pode ser empregada.
belos e nobres que pudessem ser (por exemplo, o amor, que nunca O pengo de mf1dehdade é a primeira coisa que ocorre ao concílio
é mencionado), só levam ao coito pecaminoso, no mínimo venial- obre ? te?1ª, da contracepção. O outro perigo, além desse que 0
mente pecaminoso (ibid., q. 49 a. 5). ooncílto ve, e que '_'o ~em da prole pode ser comprometido, e a
Alguns teólogos da Escolástica primitiva argumentavam que o oorag~m. ~e ter mais filhos estará em risco" (Gaudium et spes
sexo para evitar a fornicação da própria pessoa interessada também Constitu1çao pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, 51). '
não era pecaminoso, conforme vemos inclusive numa obra escrita ~o~ecemos ~elo segundo ponto: O segundo perigo que a
para confessores em meados do século XIlI e atribuída ao Cardeal IgreJa ~e 9uando na? se pode ter mais filhos é o de que não se queira
Hugo de St. Cher. Segundo ele, o confessor devia perguntar ao r mais filhos.? pnme1ro perigo é que as pessoas casadas poderão
penitente: "Tiveste contato com a tua esposa só por prazer? Pois ometer adulteno. Com seu perigo imaginado do ad lt' ·
61 rb , · u eno os
. ogos ce 1 atános da Igreja omitiram o verdadeiro perigo, qual
devias tê-la procurado só para a procriação ou para evitar tua
própria fornicação ou para satisfazer o débito conjugal" (Noonan, ~a, ~ de que a_s pessoas casadas lentamente virem as costas para
Contracepção, p. 272). Mas Tomás se prende renitentemente a IgreJa ~onást1ca celibatária porque estão fartas desse tratamento
Agostinho e repudia essa conduta frouxa. Escreve: "Se alguém ~fculo, mcompet~n~e, tutel~, e gostariam de fazer sexo não para
tiver a intenção de usar o sexo para evitar a fornicação de sua parte Vltar qualquer_espe~1e de pengo, mas por motivos que obviamente
( ... ) então comete pecado venial, pois o casamento não foi instituído ,~scend~m a 1magmação dos celibatários eclesiásticos. o "exer-
10 da vutude da castidade conjugal'', que O Vaticano II recomen-
para isso." Ou seja: pode-se fazer sexo sem pecado para evitar a
fornicação do outro, já que aí é questão de cumprir com a própria ' e~ v~z. de "bus_c~r ~,aminhos para regular os nascimentos que
Mag1ster:o ( ... ) reJe1ta , constitui uma interferência da Igreja nas
obrigação (Summa Theologica Suppl. q. 49 a. 5 ad. 2).
Quando lemos as discussões teológicas seculares sobre o peri• ocu~açoe~ de_ foro íntimo das pessoas casadas e que os casais
estao mais dispostos a aturar.
goda fornicação, para um ou outro cônjuge, a qual deve ser evitado
pelo coito, ou sobre o perigo da fornicação só pela outra pessou
1t ~os a !omás. O desvio da posição sexual convencional
(Tomás e outros dizem que a própria tendência de cada um 11
~1~a ele, e um de uma série de vícios antinaturais que fora~
fornicação é mais bem controlada pela oração e pelo jejum), s ~nfic~dos, num s!st~ma ~ue data de Agostinho, como piores do
podemos considerar essa visão do sexo num sentido: um insulto à o coito com a pro~~Ia ~ae (veremos !llais sobre isso no próximo
pessoas casadas. Depois de atingido o número máximo de filhos, l Jlílltlo). ~ssa class1f1caçao das demais posições sexuais não se
única oportunidade para o sexo sem pecado é quando a outra pess li nlxa m_mto bem no esquema de Tomás, já que os outros vícios
está prestes a cair em fornicação, e então se é obrigado a prevenh lln11t~r~1_s que ele cataloga têm em comum a característica de
a situação cumprindo-se com a obrigação para com ela. A amea~•1 1OSH ibil~~r a procriação. Em casos excepcionais, ele permite
contínua da fornicação e do adultério que os celibatários da Igr 11 lllls pos1çoes, quando os casais não podem fazer sexo de outra
210 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 211

a questão era a seguinte: embora não pudessem ser perfeitos, pelo imputam às pessoas casadas e concedem como motivo para o coito
menos não deveriam cair em pecado. Para esse fim Agostinho e é um exemplo de tolice intolerável.
Tomás ofereciam duas modalidades de coito: 1) o sexo para a . Mesmo o Concílio Vaticano Il, que foi equivocadamente con-
procriação e 2) o sexo para satisfazer o débito conjugal, essa última s1derado _umyasso à frente na moralidade sexual, diz que ••muitas
"para que se evitasse o perigo" (Summa Theologica Suppl. q. 64 a. vezes a f1dehdade pode entrar em crise, quando o número de filhos
2 ad 1; ad 4), ou seja, "se prevenisse a fornicação (pelo outro - pelo menos temporariamente - não puder ser aumentado" e
cônjuge)" (ibid., q. 48 a. 2). Todos os demais motivos, por mais nenhuma "solução imoral" (anticoncepção) pode ser empregada.
belos e nobres que pudessem ser (por exemplo, o amor, que nunca O perigo de infidelidade é a primeira coisa que ocorre ao concílio
sobre o tema da contracepção. O outro perigo, além desse que o
é mencionado), só levam ao coito pecaminoso, no mínimo venial-
concílio vê, é que "o bem da prole pode ser comprometido, e a
mente pecaminoso (ibid., q. 49 a. 5).
Alguns teólogos da Escolástica primitiva argumentavam que o corag~m. d_e ter mais filhos estará em risco" (Gaudium et spes,
Const1tu1çao pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, 51).
sexo para evitar a fornicação da própria pessoa interessada também
~o~ecemos pelo segundo ponto: O segundo perigo que a
não era pecaminoso, conforme vemos inclusive numa obra escrita
Igreja ~e 9uando nã? se pode ter mais filhos é o de que não se queira
para confessores em meados do século Xill e atribuída ao Cardeal
ter mais filhos. O pnmeiro perigo é que as pessoas casadas poderão
Hugo de St. Cher. Segundo ele, o confessor devia perguntar ao
cometer adultério. Com seu perigo imaginado do adultério os
penitente: "Tiveste contato com a tua esposa só por prazer? Pois
te~logos celibatários da Igreja omitiram o verdadeiro perigo, qual
devias tê-la procurado só para a procriação ou para evitar tua eJa, o de que as pessoas casadas lentamente virem as costas para
própria fornicação ou para satisfazer o débito conjugal" (Noonan, Igreja monástica celibatária porque estão fartas desse tratamento
Contracepção, p. 272). Mas Tomás se prende renitentemente a ri~ículo, incompetente, tutelar, e gostariam de fazer sexo não para
Agostinho e repudia essa conduta frouxa. Escreve: "Se alguém v1tar qualquer espécie de perigo, mas por motivos que obviamente
tiver a intenção de usar o sexo para evitar a fornicação de sua parte transcendem a imaginação dos celibatários eclesiásticos. O "exer-
( ...)então comete pecado venial, pois o casamento não foi instituído ício da virtude da castidade conjugal", que o Vaticano II recomen-
para isso." Ou seja: pode-se fazer sexo sem pecado para evitar a a, e~ vc?. de "bus_c~ ~~minh~s ~ara r~gular o~ n~scimentos que
fornicação do outro, já que aí é questão de cumprir com a própria Mag1steno ( ... ) reJe1ta , const1tu1 uma mterferenc1a da Igreja nas
obrigação (Summa Theologica Suppl. q. 49 a. 5 ad. 2). reocupações de foro íntimo das pessoas casadas e que os casais
Quando lemos as discussões teológicas seculares sobre o peri- n o estão mais dispostos a aturar.
go da fornicação, para um ou outro cônjuge, a qual deve ser evitada
pelo coito, ou sobre o perigo da fornicação só pela outra pessoa Vi )temos a Tomás. O desvio da posição sexual convencional
(Tomás e outros dizem que a própria tendência de cada um a re~i~a ele, é um d_e uma série de vícios antinaturais que fora~
fornicação é mais bem controlada pela oração e pelo jejum), só l11ss1ficados, num sistema que data de Agostinho, como piores do
podemos considerar essa visão do sexo num sentido: um insulto à li o coito com a própria mãe (veremos mais sobre isso no próximo
pessoas casadas. Depois de atingido o número máximo de filhos, a upftulo). Essa classificação das demais posições sexuais não se
única oportunidade para o sexo sem pecado é quando a outra pessou n _aixa m~ito bem no esquema de Tomás, já que os outros vícios
está prestes a cair em fornicação, e então se é obrigado a preventr ntmatura1s que ele cataloga têm em comum a característica de
a situação cumprindo-se com a obrigação para com ela. A ameaça possibilitar a procriação. Em casos excepcionais, ele permite
contínua da fornicação e do adultério que os celibatários da Igreja utras posições, quando os casais não podem fazer sexo de outra
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 213
212

forma por razões médicas, por exemplo, por causa de sua corpu- da" (Summa Theologica II/II q. 153 a. 2) e "ordem" (ibid., II/II q.
lência (ln IV sent, 1 exp. text). Tomás sustenta que os outros vícios 125 a. 2) continuam em uso. Dizem respeito à forma que melhor
mais pecaminosos - por serem antinaturais - piores do que o atende à finalidade da procriação, uma forma específica, noutras
incesto, o estupro e o adultério, são a masturbação, a bestialidade, palavras, da qual não é possível se afastar. O desvio do. método
o homossexualismo, o coito anal e oral, e o coitus interruptus prescrito pela Igreja de ejaculação do sêmen é contra naturam,
(Summa Theologica II/II q. 154 al. 11). Tomás parece colocar o antinatural. Tomás escreve: "A forma do coito é prescrita pela
desvio da posição normal na lista dos pecados mais graves porque natureza" (ln IV sent. 31, exp. text). O ato deve proceder numa
acreditava que como os demais atos da lista, que impediam a seqüência apropriada, mesmo quando no caso de uma mulher
contracepção, esse desvio, pelo menos, tomava a concepção mais estéril a concepção não mais possa ocorrer. O desvio desse método
natural é sempre pecado grave, sempre antinatural.
difícil.
Alberto, o mestre de Tomás, ensinava que, quando a mulher A teoria de Tomás tem implicações atuais para a inseminação
fica deitada na posição lateral, o sêmen encontrará sérias dificulda- artificial, que foi proibida em 1987 pela Congregação do Vaticano
des para chegar ao útero, e que quando a mulher ficava em cima do para a Fé: "A inseminação artificial homóloga (grifo meu) dentro
homem o útero seria "virado de cabeça para baixo" e seu conteúdo do casamento não é permitida." Há uma exceção, entretanto: o
derramaria (De animal 1O, 2). Em qualquer caso, Tomás e todos os sêmen pode ser obtido pelo coito por meio de uma camisinha, caso
teólogos que o seguiram classificaram todos os desvios da posição esta esteja perfurada, de sorte a preservar-se a forma de um ato
sexual "normal", enquanto isso fosse motivado pelo desejo, entre natl!lral de procriação, e para que não ocorra nenhuma modalidade
"os mais graves pecados contra a castidade". Essa asneira conti- não permitida de contracepção. O ato conjugal deve ocorrer como
nuou até o século XX (cf. a proibição do Casamento petfeito de se fosse levar à procriação, como se fosse possível ocorrer a
Van de Velde, publicado em 1926), embora, entrementes, as pes- concepção através dos orifícios na camisinha (cf. Publik-Forum,
quisas biológicas tenham demonstrado que a noção de que essas 29 de maio de 1987, p. 8). E só por essa via indireta, só por um ato
posições eram um empecilho à concepção fosse um erro. conjugal infértil realizado como se fosse fértil, pode-se ajudar no
Os penitenciais e manuais de teologia medievais tratam com prosseguimento da fertilidade. O ato supostamente natural tornou-
pormenores das "posições antinaturais". Alberto Magno tenta se o primeiro mandamento e mantém esse status mesmo quando
demonstrar com argumentos anatômico-fisiológicos que a posição sua meta original, conforme prescreve a Igreja, a procriação, não
convencional é a única natural: "Se o homem deve ficar embaixo mais pode ser conseguida, e quando a masturbação para obter-se o
ou em cima, se deve ficar de pé, deitado ou sentado, se a cópula sêmen seria um método tão bom quanto ou até melhor por ser menos
deve ocorrer por trás ou pela frente ... essas perguntas de natureza complicado. Mas a masturbação ainda é classificada entre os mais
vergonhosa na realidade nunca deveriam ser tratadas, a menos que graves pecados antinaturais da contracepção, mesmo quando pre-
coisas singulares, ou das que hoje se ouvem no confessionário, cisamente é usada para tomar a concepção possível. O procedimen-
tomem tal atitude necessária" (ln VI sent. 31). (Oxalá os celibatá- to padronizado tomou-se mais importante do que o objetivo, a
rios da Igreja deixassem de usar o confessionário para se intrometer procriação. O que é "natural" é determinado por velhas tradições,
em questões que não lhes dizem respeito ... ) e tais tradições são diligentemente protegidas por velhos celibatá-
Para Tomás, o sexo conjugal é urna secreção direcionada de rios machistas.
sêmen para gerar filhos. Esse é o único objetivo do ato sexual A procriação, da maneira prescrita pela Igreja, não pode ocorrer
(Summa Contra Gentiles 3, 122). E o sexo só é moral quando fora do casamento. Isso, diz Tomás, é uma lei que a natureza
corresponde a uma ordem correta. As expressões "forma ordena- também estabeleceu. Em certas espécies, nos pássaros por exem-
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
214 215

do Aristóteles como seu ~roto-Konr~


XVII
Lo;enz) que os ma~hos e :s
pio ele observou (toman fêmeas ficam juntos dep01s da procn~-
role, "já que só a fêmea nã? bast~a
ção para juntos cn~em.1 dissolubilidade do casamento e dete°!11-
para criá-los". Assim, ~ ~omo acontece com os pássaros (os caes A EXALTADA CAMPANHA CONTRA A
nada pela natureza, pois_ Tomás) as mulheres não conseguem
/ . creditava J.'
são outra histona, ~
' • •
Af ai entre outras coisas, a cnaçao os
- d ANTICONCEPÇÃO (O "SEXO
criar os filhos sozmhas. ,, (Su:nma Contra Gentiles 3, 122). Por-
fl.lhos dura "longo tempoifi i·at heteróloga (por qualquer pessoa ANTINATURAL") E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
• ~o artl lC · C /}º /
tanto, a inse1:1inaça . fora de questão par~ a Igreja ato_1ca e e LEGAIS NA IGREJA -DA IDADE MEDIA
exceto o marido) e~~:a Não corresponde a ordem apropnada do
categoricamente ~eje! . À ATUALIDADE
sexo para a procnaçao. " tá de acordo com a natureza que os
Tomás sustenta que . es. se repitam no homem, embora de
/ · dos ammais
ha/bi·tos louvave1s l S4 a 3 ad 3). Logo, nao - h/a mot·1vo
rfi ·ta" (Supp q. · · -
forma mais pe et · de novos métodos de procnaçao, a
Para que tenham?s espedrançabramos no reino animal. Josef Fuchs
· ro os escu / busca o rumo
O conhecimento médico sobre a contracepção existente na Euro-
menos que pnmei / . "Repetidas vezes Tomas pa medieval veio dos árabes. As duas primeiras escolas de medicina
diz O seguinte so~re To~;;- "Ele( ... ) mais do que qualquer ~utro na Europa foram fundadas no século XI em Salerno e no século XII
1
no reino animal (p. _ · ntre a vida sexual humana e ammal m Montpellier. Aí as informações sobre o controle de nascimento
teólogo, faz comparaço~s0 ~agem do assunto" (Fuchs, p. 277). o mundo greco-romano e as novas descobertas dos árabes foram
como um método de ª ~ a natureza ensine a todas as criaturas ansmitidas à Europa medieval, através dos livros muçulmanos. O
Segundo Tomás, tudo quan ° be no comportamento animal. A!é xto mais importante foi o do Cânones da ciência médica, de
é obrigatório e melhor se pe;~;em do reino animal é a que a Igreja lbn-Sinã, redigido em Damasco no século XI e traduzido para o
boie a mais importa!1te menbn·gatória· os animais só mantêm rela- 1 tim, sob a rubrica de Avicena, em Toledo, um século depois. Até
J ' • d ns1dera o · / • A m
Católica am a co . - (de qualquer modo e assim que vee ado do século XVII continuou a ser a obra de referência mais
·
ções sexuais par aaprocnaçao . • · d d
demonstra O sigmf1ca o o ato sexu~ . 1 Os gnificativa para os médicos europeus.
os teólogos), o que nos ace ti vos, 0 que demonstra que os ant!c?n- Em sua farmacologia, Avicena arrola as qualidades contracep-
animais não usam contr .P E por isso O estudo pseudoteolog1co vns de várias plantas. "O óleo de cedro destrói o sêmen, e quem
traceptivos nao - sao - naturrus.
. de conduzir à verdade ec 1estas· / t·1ca
p nis unta com tal óleo evita a gravidez" (2, 2, 163). Aristóteles
do comportamento amma1 po
11 referira a essa propriedade do óleo de cedro em seu livro Sobre
permanente.
história dos animais. Avicena também cita antigas prescrições de
pócrates, de Sorano de Éfeso, e de Plínio, ao lado de algumas
niR recentes. Seguindo a linha de Sorano, recomenda a contracep-
sobretudo quando a gestação causa perigo de vida à mãe.
Alberto Magno recorre a Avicena para embasar a maior parte
u conhecimento médico. E nele se baseia para dizer, por
mplo, que na mulher que se põe por cima do homem o útero fica
216 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 217

torcido, "de forma que o que está dentro toma a escorrer para fora". dedicou sua obra ao bispo de Arezzo. Naqueles dias, a medicina e
Alberto descreve as causas da esterilidade sobretudo em sua obra a teologia faziam juntas pesadas exigências à fé das pessoas.
De animalibus com a meta de "permitir à medicina que trate a Com o século XI a luta da Igreja Católica contra a anticoncep-
esterilidade". Ao considerar tudo o que precisa ser evitado para que ção entrou em nova fase. O confronto com os cátaros E= os puros,
não seja estéril, explicitamente apresenta o conhecimento ~os ára- u.ma seita cujo nome é a raiz da palavra alemã Ketzer, que significa
bes e dos antigos gregos e romanos sobre o que deve ser feito para herege), que condenavam por completo a procriação, acendeu o
que as pessoas se tomem estéreis. Mas tão log~ se afasta de sua fogo do compromisso da Igreja contra a anticoncepção. Em segun-
apresentação científica de Avicena e fala como teologo, ~orno todos do lugar, no período do Escolasticismo, a teologia tomou-se objeto
os escolásticos usa o texto agostiniano aliquando, refenndo-se aos do mais zeloso empenho por parte dos estudiosos, o que levou a um
métodos artifi;iais de contracepção como "venenos da esterilida- renascimento do pensamento de Agostinho. No século IV, os opo-
de". sitores de Agostinho haviam sido os gnósticos maniqueus, que
Nem todos os teólogos escritores tratam as drogas usadas para rejeitavam a procriação como diabólica. O próprio Agostinho per-
a contracepção e o aborto com tanto fôlego quanto Alberto. O bispo tenceu a essa seita antes de tomar-se cristão, para tão-somente
dominicano Vincent de Beauvais (m. ca. 1264) conta em sua transformar-se em seu mais feroz inimigo. Por volta do princípio
Enciclopedia (a primeira obra substancial dess~,espécie da Ida~e do século XI, uma vez mais uma onda de hostilidade ante a
Média) sobre as plantas, por exemplo, a arruda: Controla e supn- reprodução começou a varrer a Europa ocidental. Consistia em
me os maus desejos, reduz e seca por completo o sêmen" (Speculum grupos e em ideologias que concordavam na questão do repúdio à
naturale 1O, 138). Afirma que a alface tem propriedades semelhan- procriação: os bogomilos, os trovadores, os cátaros, os albigenses.
tes. Em um só caso das drogas supressoras do desejo menciona que Não cabe aqui entrar na difícil questão do grau em que esses grupos
funcionam também como contraceptivos. Santa Hildegarda de se relacionavam - se é que se inter-relacionavam - e se, por
Bingen, abadessa de Ruppertsberg, escreveu um livro sobre medi- exemplo, os trovadores, em sua glorificação do amor e do prazer
cina natural, em que não faz referência alguma à contracepção e ao sexual sem a procriação, estariam reagindo ao empobrecimento do
aborto, mas, de acordo com o ideal católico de piedade, recomenda ensiHamento cristão sobre o sexo. (Aludindo ao fim da procriação,
remédios, por exemplo a alface brava, "para abafar o desejo sensual que recebia uma ênfase unilateral pelos teólogos, muitos minnesin-
em homens e mulheres" (Subtilitatum I, 92). Até hoje a contracep- gers - trovadores alemães da época - declaravam que o amor
ção no sentido católico, sem sombra de dúvid~, t~m de s~r praticada não existia entre as pessoas casadas.) Em qualquer caso, está claro
desse modo, monástico, combatendo-se o propno deseJo. que na Idade Média a luta agostiniana contra a anticoncepção
Do ponto de vista da ciência moderna, a maio~a dessas drog~s maniquéia voltou ou revigorou-se na luta contra o controle dos
não tem efeito algum. E portanto, os que delas fizeram uso nao nascimentos, especialmente entre os cátaros.
teriam percebido que por volta de 1300 o médico Magnino de Três textos em particular estariam destinados a desempenhar
Milão da escola de Salemo, em seu livro Regime para a saúde grande papel na campanha contra a anticoncepção, dois de Agosti-
recom'endava que as pessoas que "desejassem ser continentes~' (e nho e o texto si aliquis. Os dois textos agostinianos, que são citados
que ele considerava" admiráveis" por assim procederem) devenam como o aliquando e o adulterii malum foram trazidos à baila pela
"subjugar seu impulso sexual" usando as mesmas plantas que primeira vez por Ivo de Chartres (m. 1116). Noonan chamou alvo
Avicena prescrevia para aumentar a potência. Outro exei:riplo ~e de "marco na formação da visão canônica da contracepção" ( Con-
conselho dado por Magnino era que, comendo uma abelha, . a tracepção p. 173). Foi um adepto da reforma gregoriana. Não se
mulher ficava estéril, mas facilitava o parto" (2, 7). Magnmo satisfez com o Decretum de Burcardo de Worms e adotou como
218 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 219

item mais importante na sua própria compilação de leis (D_ecretum tural é elevado ao máximo numa questão: "É mais vergonhoso
1O, 55) um texto que caíra no esquecimento, em que Agostmho fala quando a esposa tem isso feito em si mesma pelo marido do que
sobre os "venenos da esterilidade" e rotula a esposa que os emprega quando ele o faz com outra mulher" (Decretum 2, 32, 7, 11). No
de "prostituta do marido". Esse texto foi denominado ai!quando contexto imediato Agostinho falava mais sobre o coito anal e oral,
(palavra com que começa o texto). Em segundo lugar, Ivo mcorpo- mas na Concordância de Graciano, essa proibição é amarrada a
rou em sua compilação três textos de Agostinho sobre "o co~to uma criminalização da anticoncepção conjugal da qual nunca se
antinatural no casamento", onde conclui que, por exemplo, o coito ouvira falar e passa então a ser o limite absoluto do vício, além
interrompido é pecado pior do que a fornicação e o adultério (ibid, mesmo do incesto ou do "sexo seguro" com uma prostituta.
9, 110, 128), até pior do que o sexo com a própria mãe, já que o Também em meados do século XII, Pedro Lombardo, bispo de
incesto é "natural", pois está aberto à procriação. Esses três text~s Paris e teólogo muito apreciado, compilou uma segunda antologia
foram depois reunidos sob a epígrafe adulterii malum. Ivo quena teológica, conhecida como As sentenças. Seria o tratado de referên-
que essa seleta documentasse uma dura condenação de todas as cia para os estudiosos de teologia (inclusive Martinho Lutero) até
formas de contracepção. o século XVI. Se Graciano foi o Pai do Direito Canônico, Pedro
Os textos aliquando e adulterii ma/um adquiriram uma impor- Lombardo foi o mestre da Teologia Dogmática, até que no século
tância que durou séculos, graças a duas obras de referência que XVI suas Sentenças foram substituídas pela Summa Theologica de
foram ainda de maior significado do que tudo o que Ivo escreveu. Aquino, que possui autoridade até hoje.
Por volta de 1140, apareceu a primeira delas: a compilação de leis Pedro Lombardo muitas vezes segue Graciano: e cita aliquan-
não oficial mas aceita de um modo geral, feita pelo monge Gracia- do contra a prática da contracepção. Sob a epígrafe: "Os que
no, em Bolonha, sob o título de Concordantia discordantium cano-
procuram os venenos da esterilidade não são cônjuges, mas forni-
num ( = Concordância das leis discordantes), também chamad~
cadores", diz: "Ela é a prostituta do marido, e ele o adúltero com
resumidamente de "Decreto de Graciano". Até 1917, quando f01
a própria esposa" (Sentenças 4, 31, 4). Também adota a "escala de
introduzido o Código de Direito Canônico, o Decreto de Graciano
indecência" de Graciano (ibid., 4, 38, 4), em que "o coito antina-
era considerado o elemento mais significativo da legislação funda-
mental da Igreja ocidental. Durante séculos Graciano foi o pão de tural" (contracepção), sobretudo com a própria esposa, constitui o
cada dia dos canonistas. Graças a ele, todo e qualquer estudante das
ápice (ou abismo) do vício.
leis canônicas se familiarizava com aliquando, com sua rubrica: Tanto Graciano quanto Pedro Lombarda têm suas raízes em
"Os que procuram os venenos da infertilidade são os fornicadores, Agostinho. O último traz à baila uma vez mais a antiga conexão
não cônjuges" (Decretum 2, 32, 2, 7). gostiniana entre o pecado original e o sexo conjugal: "A causa do
Ao lado das citações de Agostinho feitas por Ivo, Graciano pecado original é uma contaminação que [o filho gerado] contrai
estabeleceu uma "escala de indecência", que soa mais ou menos do ardor dos pais e de seu desejo lúbrico." A transmissão do pecado
assim: "O mal do adultério (adulterii malum] é maior do que o da riginal revela nos "membros a lei do desejo mortal, sem o que as
fornicação, mas ainda maior é o do incesto; pois é pi~r dormir com lações sexuais não podem ocorrer". Por esse motivo "a relação
a própria mãe do que com a esposa de outro. Pior de todos, xual é condenável e maléfica, enquanto não for perdoada pelos
entretanto, é tudo o que se faz contra a natureza, por exemplo, bens do matrimônio" (ibid., 2, 31, 6; 4, 26, 2). Graciano e Pedro
quando um homem deseja usar uma parte do corpo da esposa que ombardo assim tomam Agostinho por fundamento, mas vão além
não é permitida para esse uso." Incluído neste "coito antinatu~al" le, primeiro, ao incorporarem em suas compilações o rescrito do
está o coito interrompido. Esse apogeu do comportamento antma- apa Gregório Magno, com seu axioma fatal: "Nunca pode haver
221
Eunucos pelo Reino de Deus
Uta Ranke-Heinemann
220
no ~femo "que pecavam no casamento". Seu confessor e biógrafo,
prazer sexual sem pecado" e em segundo lugar, colocando uma Raimundo de Capua (m. 1399), depois geral da ordem dominican
perguntou-lhe "por que aqueles pecados, que não são mais grav:;
ênfase particularmente negativa na contracepção.
As conseqüências práticas de sua proibição rigorosa da contra- ?.º que outros, são punidos tão severamente". Ela re~pondeu·
cepção podem ser demonstradas no seguinte exemplo: U~a m~l~er Porque os pecadores não os percebem muito, e por isso nã~
sofreu de hérnia umbilical por causa do parto, e os médicos msis- sentem tanto. remorso quanto . com os outros pecados . Al'em d'lSSO,
tiram que ela não sobreviveria a outro parto. Algumas pess~as cometem tais pecados mais regular e freqüentemente do qu
diziam que "ela fizesse uso de um veneno esterilizante, pois assim outros "(Noonan, p. 227). Mesmo aquela , época as pessoas casadaseos
poderia continuar a cumprir seu débito conjugal, se tivesse certeza aparentement~ passaram por mom~ntos difíceis descobrindo peca-
de que não mais engravidaria." O Teólogo Petro Cantor (m. 1197) dos ~nde os t~ologos e seus papagaios devotos, homens e mulheres
opôs-se a essa opinião e decidiu, de acordo com o aliquando, q~e deseJav~m ve-los. Santa Catarina seguiu a mesma linha partidári~
em nenhuma circunstância a mulher poderia fazer uso de tais de Graciano,~de Pedro Lombardo " e de Tomás de Aquino , que viam ·
"venenos" (Summa de sacramentis 350; quaestiones et miscella- a contracepçao'f' como um pecado contra . a natureza" e cansequen- ..
temente c1assi 1caram-na como o da pior espécie contra a castidade.
nea).Em geral, entretanto, a confiança nas poções contraceptivas
. . O famoso yregador popular Berm~dino de Siena (m. 1444),
01
não se generalizou. Só com a invenção da pílula ( que os teologos CUJa meta . a devoçao a Maria e Jose''l'c · outro
'd na vida era. fomentar
moralistas de hoje chamam de "droga da infertilidade") essa que ~v1 entem~nte tinha a impressão de que as pessoas casadas
situação se modificou. E assim menor importância foi conferida na re~rna;~m a~nr os olhos para seus pecados, a que só os sacerdotes
prática pastoral da Igreja ao aliquando do que ao segundo texto ~ . nao
hbatar1os . estavam
, cegos: "Os casados mergulharam numa
agostiniano clássico sobre a questão da anticoncepção, a "~sc~a gnorancm rmserave1, como porcos num cocho imundo" (A z· · ~
• ~ 17 l) " ~ re zgiao
de indecência". Os métodos de contracepção que ele denuncia sao rtst~ _ , ante . . Verao que cometem muitos pecados em sua
os que Bernhard Haring, o teólogo moralista alemão de maior nd1çao de casados, pecados 9ue nunca confessaram e que nem
vendagem deste século, chama de "a mutilação d~s relaçõe~ co~- erce~eram se~ pecados. ( ... ) E perversidade um homem manter
jugais" (Das Gesetz Christi, p. 355). O que os escntores ~ed1evais laçoes sexu~s co~ a pr?pria mãe, mas é muito pior quando
tinham principalmente em vista era o coito interrompido. Esse, untém
"É relaçoes
lh antmatura1s com a esposa" (Sermões seraJ~Fi-zcos 19 ,
como vimos, era considerado pior do que o coito com a própria , m~ ?r qu_e a mulher mantenha relações da forma natural
mãe. Na linguagem dos teólogos daquela época o coito interrom- m ?_pro~n~ pai do que com o_marido de forma antinatural" (A
pido costumava ser chamado de ejaculação "fora do canal correto", llgiao_ crista 17, 1, 1). Bemardmo também cita números exatos.
11 e rml casamentos 999 são do demônio", só por causa d ·
embora Tomás preferisse a palavra "órgão" (instrumentum) a
' cados contra a natureza,, . E sses, diz . Bernardino são tod os
"canal". Nos séculos XIII, XIV e XV, os teólogos dedicaram mais d · 1 ~ " , os os
a atenção aos "pecados contra a natureza" e não aos "venenos da 8
e eJacu açao sempre e de qualquer forma em que a procria-
infertilidade". Os sermões matrimoniais eram sermões sobre os não pode ocorrer" (Sermões seráficos 19, 1). "Todas as vezes
"pecados contra a natureza". Os confessores eram. instruídos a o casal se une desse forma, de modo a não conceber e ter filh
perguntarem aos penitentes se os haviam cometido.
•ur,am" (Le predi~he volgari, Milão, 1936, p. 433). os,
Podemos perceber o quanto a condenação da contracepção l ,m seus sermoes contra a mcontinência que fez na cort
penetrou na mentalidade cristã por alguns comentário_s de Santa n' sa, Joã? ~erson (~. 1429) inclusive invocava um decreto d~
Catarina de Siena (m. 1380), que foi a vigésima quinta filha em sua 1 rador cnstao Valentmiano do ano 390 que punia O homosse-
família. Ela descortinou, em suas visões, um grupo de pecadores
222 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 223

xualismo com a queima na fogueira ( Codex Theodosianus 9, 7, 6). nas sutis questões do sexo, em que os confessores eram os especia-
Gerson equipara todas as ações que frustram a fertilidade do sexo listas. Mesmo hoje, ficamos a nos perguntar sobre a origem desse
conjugal com o homossexualismo. Ataca a "criativa indecência dos detalhado conhecimento, que em grande parte excede o nível de
pecadores" no casamento. Tais atos "muitas vez~s merece~ a informações do cidadão comum. ·
morte pelo fogo, e são piores do que se tivessem sido cometidos Alain de Lille (m. 1202), da mesma forma, recomenda cautela
com mulheres que não as esposas dos pecadores. Pode uma pessoa em seu penitencial. Segundo ele, quando o penitente confessa uma
manter qualquer relação, se evitar que o fruto do matrimônio seja espécie proibida de coabitação, o padre deve perguntar se era
concebido? Digo que isso é muitas vezes um pecado de tal ordem fornicação, adultério, incesto, ou um pecado contra a natureza. Isso
que merece as chamas. ( ... ) Toda a conduta imaginável que impede é importante, já que o pecado contra a natureza é o mais grave de
a união de um homem e de uma mulher para a procriação deve ser todos. Mas o padre "não deve entrar em muitos detalhes". Caso
condenada" (Sermão contra a incontinência, Segundo Domingo ontrário estaria oferecendo ao penitente uma opotunidade para
do Advento, Obras, vol. m, 916). pecar (Penitencial PL 210, 286 ss.). Roberto de Flamesbury, inglês
O dominicano Jerônimo Savonarola (1452-98), que expulsou confessor dos alunos da abadia de São Vítor em Paris adotou
os Mediei de Florença, que proclamou Cristo como Rei, que teve posição semelhante no penitencial que escreveu logo d;pois de
todas as quinquilharias profanas jogadas no fogo e acabou queima- 1208.
do na fogueira, disse aos confessores: "Deveríeis perguntar sobre No ano de 1215, o IV Concílio de Latrão ordenou a todos os
este pecado( ... ) se foi no canal, ou se num canal indecente ou fora ristãos se confessarem e comungarem pelo menos uma vez por
do canal" (Guia dos Confessores, Pecados contra o Sexto Manda- no. Essa postura orientou a composição de muitos guias para os
mento). Ele se referia a 1) uso de um preservativo, 2) coito anal ou onfessores do século XIII. O cardeal de Hóstia (m. 1270) avalia
oral, 3) coito interrompido. om clareza as perguntas a serem feitas aos penitentes: "Quais as
O sacramento da penitência criava a melhor oportunidade para uestões que podem ou devem ser colocadas pelo confessor?" Para
chamar a atenção das pessoas aos pecados conjugais através do rguntas sobre a incontinência, o confessor deve explicar o pecado
interrogatório cruzado. Os primeiros penitenciais medievais e o ntra a natureza nas seguintes palavras: "Pecaste contra a natureza
Decreto de Burcardo (m. 1025), que foi aceito de modo geral at ndo contato carnal com tua esposa de forma diversa da exigida
final do século XII, formulavam as questões com clareza. O pro- la natureza?" O confessor não deve, entretanto, mencionar as
blema, entretanto, era que para muitos penitentes as perguntas !ferentes formas pelas quais o coito viola a natureza. Ele poderia
sugeriam idéias indesejáveis (para a Igreja). Por esse motivo, por rguntar ao penitente "com cautela" da seguinte maneira: "Sabe-
volta do final do século XII, os confessores começaram a evitar, d s muito bem qual é a forma natural.Já ejaculaste de algum modo
certo modo, as perguntas explícitas. O penitencial de Bartolome 1 lv rso? Se ele disser não, então não faças mais perguntas. Se ele
de Exeter (m. 1184) diz que os pecados contra a natureza pela ser sim, podes perguntar, se aquilo ocorreu dormindo ou acor-
pessoas casadas não devem ser descritos com muita exatidão, "poi. d ? Se disser acordado, podes perguntar: Com uma mulher? Se
ficamos sabendo que homens e mulheres, em virtude da descriçt o ser que sim, podes perguntar, então, fora do canal ou dentro dele,
detalhada de crimes com os quais antes não estavam familiarizadoN, •orno?" (Summa 5, "Penitência e Perdão" 49). E numa obra
caíram em pecado que desconheciam" (Penitencial, cap. 38). Se111 hitualmente, atribuída ao Cardeal Hugo de St. Cher (m. 1263), na
dúvida, as perguntas nos confessionários às vezes atendiam a um 1 l ntação para os confessores sob a epígrafe "adultério", se lê que
função hoje reservada à literatura pornográfica. De qualqu~r form11, v m perguntar: "Pecaste com a própria esposa contra a natureza?
os leigos, homens e mulheres, costumavam ser apenas diletanl o pecador perguntar: O que é isso contra a natureza?, o padre
224 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 225

pode dizer, o Senhor só permitiu de uma maneira, a qual todos os Alexandre, Gerson e Bernardino, explicitamente incluíam o coito
homens devem aderir. Portanto se pecaste de alguma outra forma interrompido em sua definição de pecados contra a natureza (cf.
que não essa, cometeste pecado mortal" (cf. Noonan, pp. 271-72). Noonan, pp. 262-62).
Apesar da cautela recomendada aos c?nfessores, certas m~lhe- A condenação absolutamente derradeira da contracepç-ão - já
res insuspeitáveis devem às vezes ter empmado as orelhas ou !i~ado que a Igreja não tinha mais para onde ir - veio por fim com o
irritadas no confessionário. Isso se depreende de um com_entano de terceiro texto clássico contra a anticoncepção. Isso se encontra
Bernardino de Siena (m. 1444): "Mulheres tolas mmtas vezes numa terceira e importante antologia escolástica, que foi redigida
procuram os maridos e dizem, para darem a si mesm~s o a~ de por ordem do Papa Gregório IX (m. 1241) por seu capelão, o
respeitabilidade: 'O padre ~e ~erguntou. so~re :ssa c01sa suJ~ e dominicano Raimundo de Penhaforte. Foi uma compilação de
queria saber o que faço contigo , e o mar:ido mgenuo sempre ~ica decretais pontificiais, que, como o Decreto de Graciano, preparou
furioso com o padre." Bernardino quer dizer que por es~e motl~o ou gerou o conteúdo do Código do Direito Canônico, publicado em
os padres eram tolhidos em suas perguntas. Mas Bernardmo qu~~a 1917; esta compilação incorporou o texto já mencionado a propó-
ser um padre alerta, e não um "cão silencioso". Portanto, exigia sito dos penitenciais: "Se alguém (si aliquis) usar de feitiçaria ou
que os confessores se exprimissem cl~amente ao formular as administrar venenos esterilizantes, é um assassino." Quando a
perguntas (Sermões seráficos 19, 1). Evidente~ente, a clareza de contracepção foi rotulada de assassinato num código de obrigação
Bernardino fez com que algumas mulheres deixassem de co~pa- universal produzido por ordem do papa, o cume do monte Everest
recer a seus sermões. Por isso, ele criticava os maridos que deixa- foi alcançado na campanha contra a anticoncepção.
vam as mulheres em casa quando ele pregava, para que "não O cânon si aliquis era compatível com a violenta retórica de
aprendessem essas verdades necessárias_" (A religião cristã 17, ante Jerônimo e de Crisóstomo, e contribuiu seriamente para a declara-
1). Podemos concluir que alguns casrus ach~va~ que o que era ção na Igreja Católica da ilegalidade da contracepção. Mas por
antinatural e vergonhoso não era tanto sua propna condu_ta sexual outro lado era alheio ao direito canônico desde o princípio, já que
e sim as perguntas do confesso~ e os sermões de,~ernardmo. . o direito canônico da Igreja adotava a teoria da animação sucessiva
Severas penitências eram ditadas para as praticas contracepti- do feto e penalizava como assassinato, não a contracepção, mas
vas como o coito interrompido. Uma penitência importante era a apenas o aborto do feto animado. Graciano e Pedro Lombardo
negação das relações conjugais. O cônjuge inocente (em geral a mantinham a mesma posição. Uma carta do Papa Inocêncio III
esposa) ficava responsável por impor a pena_ contra o culp~d_?- mostra que só o aborto e mesmo só depois de um certo tempo (ca.
Assim a esposa tinha de negar o sexo ao marido como condiçao oito dias) era considerado assassinato. O caso em questão envolvia
para não partilhar da culpa dele. A Summa de Alexandre d~ Rales um monge cartuxo que providenciou para que a amante abortasse.
(m. 1245) estabelece o seguinte: "A esposa não pode sob circun~- O papa decidiu que o monge não era culpado de homicídio, já que
tância alguma ceder ao pecado contra a _natureza, e se consent~r, o embrião ainda não estava "animado", no sentido da biologia
comete pecado mortal" (Summa Theologzca 212, 3, 5, 2, 1, 3). Joao aristotélica. Agostinho via as coisas na ótica de Inocêncio, como
Gerson pregava que se um ~os ~ônjuges desejas_se al~o _"i~,decoro- fazia Jerônimo, quando se exprimia em termos legais, não retóricos.
so" durante as relações conjugais, o outro devena resistir, mesmo Tomás, o mestre das minúcias, alude ao si aliquis, quando diz
até a morte" (Obras, Antuérpia, 1706, vol. 3, 916). E Bern~rdino que o uso de venenos para a infertilidade é um pecado grave "e
de Siena deixava claro em seus sermões que: "Melhor sena que contra a natureza, já que mesmo os animais não impedem a con-
vós esposas morrêsseis do que ceder" (Sermões seráficos 19, 1; cepção de crias, mas não tão grave quanto o assassinato, já que a
de ~odo se~elhante em Le prediche volgari, p. 435). Os três, ·oncepção poderia possivelmente não ocorrer por outros motivos."
226 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 227

Podemos falar de assassinato, diz ele, só quando aborta um embrião esse argumento foram rejeitadas por Roma por não se ter garantia
já formado (ln N Sent. 31, 2 exp. text.). Ignorando a incoerê~cia, de que "uma gota de sêmen não tivesse entrado na vagina". As
as decretais papais caracterizam a contracepção como assassmato camisinhas não oferecem segurança absoluta, e portanto a questão
e colocam-na no alto da lista de pecados. Por outro lado, em sua da indissolubilidade do casamento é um problema para a indústria
crítica a si aliquis, quando Tomás descreve o uso de poções esteri- da borracha.
lizantes como "pecado contra a natureza", afasta-se da linguagem A importância do sêmen chegou a extremos neste contexto. Já
usual, já que em geral "pecado contra a natureza" só significava o vimos que buracos na camisinha têm vantagens para alguns casa-
coito que não introduzisse o sêmen propriamente no "canal" cor- dos, já que sem tais buracos os católicos estariam proibidos de
reto, a vagina. "Assassinato" aplicava-se ao uso de venenos que praticar qualquer forma de inseminação artificial. A questão da lei
causavam a esterilidade. canônica levantada pela camisinha não tão segura deixa a seus
Mesmo hoje o Código do Direito Canônico faz uma distinção usuários, se não um casamento dissolúvel, um problema insolúvel:
entre os dois grupos: por um lado, há a pílula e por outro o coitus star seguro, ou não estar seguro, eis a questão.
interruptus e o coito com camisinha. O novo Código do Direito Outra forma de não se consumar o casamento era através do
Canônico,emvigordesde 1983,diznocânon 1061: "Umcasamen- coitus reservatus, em que não há ejaculação. Urna vez mais vemos
to válido entre pessoas batizadas, se não foi consumado, é mera- a importância do sêmen. Ao contrário do coito com camisinha, o
mente contraído (ratum). É 'contraído e consumado' (ratum et coito reservado presenteava os teólogos com urna situação clara e
consummatum), quando os cônjuges consumaram o ato conjugal de imples, pois o sêmen não era ejaculado nem dentro, nem em
forma condizente com a dignidade humana. Esse ato é intrinseca- direção à vagina. Infelizmente, nem todos os problemas na teologia
mente destinado à procriação, a que o casamento é destinado por atólica são assim tão fáceis de resolver.
natureza, e através dele os cônjuges se tomam uma só carne." Isso O coito com diafragma, poderia ser acrescentado, conta corno
significa, como vimos, que um casamento meramente "contraído" onsurnação. Isso está vinculado - entre outras coisas - à visão
pode ser dissolvido, e ambos os cônjuges podem se casar novamen- aristotélica de que o homem é o verdadeiro procriador, e que deixou
te; mas o casamento "contraído e consumado" é indissolúvel e, ua marca na legislação conjugal católica. Para a Igreja, a ejacula-
enquanto o outro viver, os cônjuges não podem se casar de novo. ão na vagina é o elemento decisivo, e a disposição dos órgãos
E, em particular, o coito com a mulher que toma pílula conta como ntemos da mulher é de menor preocupação. Vamos encontrar esse
consumação do casamento, mas o coito interrompido não. Se a ratamento desigual entre homens e mulheres urna vez mais na
esposa tomar a pílula, o casamento é indissolúvel. Se o marido uestão da impotência.
sempre retirar o pênis antes de ejacular, o casamento pode ser
desfeito, pois segundo o Código do Direito Canônico nunca foi Voltemos à posição de Tomás sobre o cânon si aliquis. Embora,
consumado. · orno vimos, ele rejeitasse a palavra "assassinato" para a contra-
O Código Canônico esbarra em dificuldades com o uso d pção, e restringisse seu uso ao aborto do feto animado, foi
camisinhas. Os especialistas em leis da Igreja discutem se a ejacu- ntretanto quem fomentou e consolidou a noção legal da Igreja da
lação em direção à vagina é necessária, ou se basta a ejaculação na ntracepção corno quase-assassinato. A criminalização da anti-
vagina. Pois mesmo que os legisladores canônicos decidissem qu ncepção, promovida pelos papas do século XX, pode em grande
teria de haver ejaculação em direção à vagina para o casamento ser urte ser vista à luz das teorias de Tomás de Aquino.
consumado e indissolúvel, ninguém poderia conseguir a dissolução Para Tomás, todo ato sexual tem de ser um ato conjugal, e todo
alegando uso de camisinhas. Todas as tentativas anteriores de usar to conjugal tem de ser um ato de procriação. Urna violação dos
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 229
228

mandamentos sexuais é uma violação da vida em si. Porque o nato através do s~ aliquis te~e por objetivo apenas avaliar o co -
sêmen já contém a potencialidade de uma pessoa inteira (ou, mais portamento no remo da confissão e da penitência Mas d . m
marca na legislação penal secul .· eixou sua
precisamente, do homem inteiro, já que a mulher só ganha existên- conseqüências foram pavorosas. ~~s1.J~:ªafmi~as pessoas suas
cia por alguma falha no processo de desenvolvimento; De maio 15 tanto na "Lei Criminal de Bamberg" de 1507 iquis encontrou eco
a. 2). A ejaculação desregulada vai contra o bem-estar da natureza, Penais" do Imperador Carlos V em 1532.' quan~o nas "Normas
0
que se encontra na preservação das espécies. "Portanto, depois do óltimas impunha a ena de 0 ' · artigo 133 dessas
pecado do assassinato, através do qual a natureza humana, que já
existe na realidade, é destruída, o pecado da prevenção da procria-
~~~o do fet~ ani!ado. 1s: 0
::n~~icc;: /~e~~~ft:~:~ç:::
" . ens e o a ?gamento para as mulheres. Para o aborto d
~~
ção da natureza humana vem em segundo lugar" (Summa Contra
Gentiles III, 122). A contracepção é, assim, não a mesma coisa que 11
~~{:iç\~~)aamda não estivesse_ viva" (noutras palavras, an~~~=
.' s penas eram mais leves.
o assassinato, mas está muito próxima dele. Junto com Aristóteles, Houve amda outras vítimas da loucur d I .
Tomás chama o sêmen de "algo divino" (De maio 15, 2). "Uma no quarto Concílio de Latrão, o Papa Ino:ên~i;;~t· Em 121?,
pessoa pode ser gerada mediante uma única coabitação e, portanto, o Papa Gregório IX (0 do . [" . , que era tio
provocar desordem na coabitação, que prejudicaria o bem-estar dH lutar contra os cátaros e pr;~:t:~u:~~ ~o~vocou a I?~eja para
prole a ser gerada, é pecado mortal" (Summa Theologica 11/11 q, articipassem da cruzada para erradicarº aº1 os ~atohc_os que
154 a. 2 ad 6). smos privilégios dos cruzados ue iam , eresia tenam os
Embora Tomás rejeitasse o cânon si aliquis, outros foram sencadeada .ª perseguição terrívd e secul:r ~:~:!:nta. Era
além disso e rotularam como assassinato não só a contracepção ua ~uta pcela vida fictícia, os guerreiros contrários à anti~~~c;p~
por meio de poções medicinais, como também, por exemplo, o rans1ormaram-se em assassinos sem 1 . . , .
coito interrompido. Pedro Cantor (m. 1197) (Verbum abbrevia m os vivos. o castigo p h qua quer misencordia
ara os ereges que se O h , "''
tum 138, "o vício sodomítico") recomendava que se aplicass o rdadeira era a morte na fogueira. pun am a 1e
termo "assassinato" para a contracepção, pela qual se referiu Mas as fogueiras que começaram então a u .
particularmente ao pecado de Onã, "que derramava o sêmen no nas no princípio. Em 1326 p ~ q eima~ estavam
• • , o apa Joao XXII eqmp
chão". O franciscano Bernardino de Siena (m. 1444), o mal 1llc~rras aos hereges, depois dos teólo os arou as
t na em massa c ·d,. g terem fomentado a
proeminente pregador de seus dias, via a coisa do mesmo jeito d m" . E 1º4m a i eia das relações sexuais entre aquelas e
o z
No décimo quinto sermão de seu ciclo de sermões sobre 11
"eterno Evangelho", dedicado "ao horrível pecado contru 11
omo. em 87 os autores d
t ªm pela ~plicação do cânon si al~quis~:':.~~:: ::~~;!:~s
natureza" , cita um trecho que erroneamente acreditava ser th
Agostinho: "Os que são contaminados por esse vício são asslt
sinos de seres humanos, não pela espada mas por atos. " <1111
A
~:::~• ;e
orma a pum~las com a morte. Assim, depois da morte elo fo '
10 ª dmo~e pelo fogo das feiticeiras, epis3dios q!~
a oram estmados a reduzir a cinzas
H desprezível da população feminina e u uma pdorcentagem
efeito, acrescenta: "Devem ser caracterizados não só como 11 t iras. ma gran e parte das
sassinos de homens, mas o que ainda é mais terrível de imagin ll
como verdadeiros assassinos dos próprios filhos." Esse pe uh•
é cometido por homens e mulheres, "e sobretudo por aq1:H1I 1
que se encontram na sagrada condição do matrimônio" [l ,
1] (cf. Noonan, p. 236-37).
A inflação da contracepção, incrível e absurda, como ass 1
230 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 231

XVIII !oda essa estrutura foi inventada pelos celibatários da Igreja.


E foi levada ao extremo do grotesco (as pessoas no sétimo grau de
parentesco não podiam se casar, embora desde a época de Inocêncio
o INCESTO III (m. 12!6) .ªp~oibição tenha sido limitada ao quarto grau) para
to~ar mai~ dificd o casamento e promover a monasticização dos
l~ig?s. O sistema também criou a oportunidade de se repudiar 0
conJuge por: 1) p~r~ntesco por consangüinidade; 2) afinidade pelo
casa~ento;. 3) aflillda~e por coabitação proibida; 4) integridade
Sendo mau como era (por exemplo, pelo seu caráter contracepti- pábhca (no!vado anten?r) e 5) parentesco espiritual (com padri-
vo), o coito antinatural poderia ter suas vantagens do p~nto d~ vista nhos de bat!smo e de cnsma e seus familiares).
da lei canônica, sobretudo no complicado assunto dos impedimen- No Antigo Testamento (Levítico e Deuteronômio) são relativa-
tos ao casamento. A relação não fica muito clara à primeira vista, m~n~ poucos os casamentos proibidos por parentesco, de consan-
mas pode logo ser identificada. Não era permitido, por exemplo,.ª ( (bmda?e ~u de afinidade. Um homem não pode se casar com a
um homem casar-se com sua cunhada, nem mesmo com as mais mãe, a irma, a neta, a tia, a madrasta, a sogra, a nora, a enteada, a
distantes parentas não-consangüíneas (parentas "por afinidade"). fi lha _de enteado ou enteada, a filha de madrasta por casamento
Mesmo se um homem mantivesse relações com qualquer mulher anterior, a esposa do irmão do pai, ou a cunhada. Por outro lado 0
antes de se casar, seus irmãos não poderiam se casar com ela - homem era na ~~alidade ob~gado pelo costume do levirato a ge;ar
pelo impedimento de afinidade oriundo do coito ilícito. A essa lhos para a vmva de seu irmãos, se ela não tivesse filhos. Sob
altura, surge a questão seguinte: terá sido usada ou não a contracep- Utros a~~ectos, :ntr~ os judeus até hoje, o casamento entre parentes
ção durante o coito ilícito. Pediu-se ao Papa Urbano II_ (m. 109~) nsangumeos nao so não é proibido, como é recomendado. Dizia-
que solucionasse o problema: supondo que um de d01s ou ma!S que ~U~ home°:1 não devia se casar enquanto a filha de seu
irmãos tivesse mantido relações antinaturais com uma mulher, tenu ão nao tivesse atrngido idade para tal; só então, se ela não lhe
isso criado uma afinidade conjugal de sorte que nenhum dos irmão radasse, ele deveria procurar outra pessoa" (H. L. Strack e p
poderia casar-se com ela? A resposta do papa: Não. Uma ejaculaçã l li rbeck, Kommentar zum Neuen Testament, aus Talmud un,d
imprópria não define o tipo de coito que leva a esse tipo d ldrasch II, 380). O casamento entre primos era comum: Isaac
impedimento. O irmão poderia casar com a mulher. u ~om R~bbec~, Jacó casou com Lia e Raquel.
Mas de outro ponto de vista essa vantagem era uma desvantu Joao Batista foi decapitado por ter reprovado a Herodes Anti-
gem, porque o irmão não mais poderia se separar da esposa_inv 1 : "Não te é permitido ter a mulher de teu irmão" (Me 6,18).
cando o impedimento ao casamento com base na coab1taç u dfades ª?andonou o marido, "Herodes o sem-terra". João
proibida, visto que a investigação diligente do passado de su11 1 vn pela lei do Antigo Testamento, conforme se lê no Levítico
própria vida ou do da esposa era muitas ve~es recomp~n.sada p 111 , 16 ~ 20, ~1). João proibia o casamento com a esposa de um
decreto da nulidade. O casamento, a despeito dessa afmtdade, 111 o ainda vivo, mas não porque defendesse a indissolubilidade
o mesmo que incesto. A maneira mais simples de conseguir-se U11l usamento ~ atacasse o novo casamento de pessoas divorciadas.
divórcio na Idade Média era através da descoberta de incest 1111 11 são _noçoe~ que foram desenvolvidas mais tarde pelo cristia-
longo dessa rede emaranhada de relações. Foi essa a co~dll 1 o, Joao Batista es~~va sir~plesmente repetindo a lei do Antigo
adotada por Henrique VIII, o mais famoso dos supostamente d1v111 1 mento que permitia o divórcio e mesmo a poligamia, mas
ciados na Igreja. 11 l o casamento com a esposa do irmão enquanto esse ainda
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 233
232
que~~s c_oncessões para graus mais distantes de parantesco. Mas
estivesse vivo. O Papa Gregório Magno estava equivocado ao r.roibia n?,?ro_samente o ~asa~ent? entre primos de primeiro grau:
invocar João Batista em seu rescrito à Inglaterra e fazer dele um . a expenencia nos ensmou , disse, "que tais casamentos são
mártir da proibição cristã ao casamento com parentes afins, como mfecundos." ·
veremos. A_ i~~ia de justificar as proibições ao incesto citando o prejuízo
Ao contrário da relativa moderação dos judeus, os cristãos heredi~ano à prole s~ ficou ~m moda entre os teólogos recentemen-
elaboraram toda uma constelação de casuísmos legais para proibir te. Dois exemplos disso senam o de Fritz Tillmann em seu Hand-
casamentos que até então nenhuma religião fora ~apaz de inven~~' buc~ der katholischen Sittenlehre, que surgiu durante o período
mesmo no plano teórico, e isso só pode ser exphcado pela h~st~h- nazista, e o de Bernhard Haring, em seu Das Gesetz Christi, 8ª ed.,
dade católica ao sexo e ao prazer (cf. G. H. Joyce, Christian 1967. Entretanto, a saú~e dos filhos não depende do grau de
Marriage, 1948, pp. 507 ss.: Os graus proibidos de parentesco e de pare_ntesco mas do matenal hereditário. Gregório Magno proibia
afinidade pelo casamento). a~s mg~eses d~ se casarem com a viúva do irmão. "É por isso que
Em 314, o Concílio de Neocaesaréia decretava que se uma Sao Joao Batista foi decapitado." Se os que já viviam nesses
mulher se casasse com dois irmãos em sucessão devia ser exco- cas~mentos antes da ~hegada dos missionários cristãos teriam,
mungada por cinco anos. O sínodo espanhol de Elvira, no i~íci? do ntao, d~ ~e separar, foi uma questão a que o papa respondeu com
século IV, prescrevia que se um homem se casass~ com a 1rm~ de boas noticias: "J~ que se diz ex~stire1? !1mitos entre os ingleses que
sua falecida esposa, ela seria excomungada por cmco anos. So se época em que amda eram pagaos viviam em uniões desse tipo se
estivesse gravemente doente lhe era permitido ~ntrar em e~tado ceitarem a fé, _devem ser advertidos a observarem continên~ia.
penitencial, mas então teria de prometer renunciar ao relaci?na- evem !emer o Julgamento terrível de Deus, para que não incorram
mento. O Antigo Testamento não proibia o casamento com ~ 1~ã m sofnmentos : t~rmentos eternos por causa do desejo carnal."
da falecida esposa, e sim o casamento com a esposa de um ~r~ao m to~o caso,_ nao tmham de repudiar as esposas do tempo pagão.
vivo. Santo Ambrósio também errou, quando em 397 pro1bm o s letoes rece~-convertidos no século Xill passaram por maus
casamento de um homem com a sobrinha, afirmando que no omentos, em vrrtude de sua conversão, como veremos.
Levítico os casamentos entre primos em primeiro grau eram proi- Nos seculos Vill e IX a Igreja exigia que os casais com sexto
bidos, o que incluiria o casamento entre tios e sobri~ha~ ( Carta à a~ de parentesco se separassem e arranjassem novos cônjuges.
Paterno). Ambrósio estava errado em ambas as avaliaçoes. Agos- sim, por exemplo, os sínodos de Verberie (756) e Compiegne
tinho admite que o Antigo Testamento via as coisas d~ forma 757) estabe~eceram ess~ ordem. No ano 800, o Papa Leão III
diversa. Para ele, naquele tempo os casamentos entre pnmos d rtava os bispos da Baviera a não permitirem qualquer casamento
primeiro grau eram permitidos, mas depois foi proibido por i~d • ntre p~entes consangüíneos até a sétima geração, porque no
coroso, já que "há na consciência humana um certo senso ~1st timo dia? Senhor repousou de todas suas ordens (Wetzer/Welte,
rioso e inerente de decência( ... ) que assegura que se determmado irc:henle~i~on, XII, 847). A prova de que o casal não tinha paren-
parentesco dá a uma mulher direito à honra e ao respeito,. el~ e t co_no setimo gr~u era praticamente impossível de obter e, se tal
protegida do desejo (e é desejo, embora resulte na procnaçao) o li ao se des~obnsse depois, o casamento era anulado. Um con-
qual, como sabemos, envolve vergonha mesmo para a castidade d11 llo de Col~ma: ~m 922, só foi até o quinto grau.
casamento" (A Cidade de Deus, XV, 16). Quanto a af1mdade por coabitação proibida, o sínodo de Com-
No século VI a proibição do casamento incestuoso chegou 11 gne estabele~eu pela primeira vez, em 757, que se uma mulher
atingir os primos de terceira geração. O ~apa Gre~~rio Magno Ili us e com o irmão de um homem com quem ela previamente
seu rescrito aos ingleses recém-convertidos permitia algumas p
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 235
234
pontificiais tivesse se fechado para sempre Ino " · III •
tivera um relacionamento imoral, este casamento não era válido. a-ª~ª mulher que a proibição de t . . cenc15> mformou
No século IX, o já mencionado Conde Estêvão, que mandou sua d1vma e sim humana. A mulher ed~s casame~tos nao era uma lei
jovem esposa de volta ao pai, o Conde Regimundo, depois da ter parentesco com o man·d p a a anulaçao do casamento por
O em quarto grau M •.
cerimônia de casamento mas antes da noite de núpcias, e deu ensejo ~apal era possível tolerar tal casamento 1 _as com a dispensa
ao famoso julgamento pronunciado por Hincmar de Rheims (rn. hvrar-se do marido Alé d. ~ee anaoconseguiaentão
882), alegou que antes de seu casamento mantivera relações sexuais Inocêncio IIl como deveri: t I!to, o bispo ~e Riga perguntou a
com uma mulher parente de sua esposa e portanto incorrera num q~~ tinham o costume pelo q~:::~o: os letoes ~ecém-batizados,
impedimento de afinidade por coabitação proibida. Recusou-se a vmva do irmão Se tai·s p _ ornem podia se casar com a
. · essoas nao pude
dar o nome da mulher, e com a ajuda de Hincmar conseguiu fazer depo1s de se tomarem cristãs . ssem manter a esposa
com que os bispos francos concedessem que tal afinidade constituía Com u~ olho no Antigo Testar:ie~~;:as se recu_sariam ao batismo.
"impedimento dirimente" ao casamento. o segumte: se a viúva tivesse filhos Jbre? le~irato, o papa decidiu
O Imperador Henrique m (m. 1056) violou as leis da Igreja ao o casamento subseqüente teria d o pnmeiro casamento, então
casar-se com Inês, filha de Guilherme da Aquitânia, porque ele e a esposa serem batizados Se a ese ser ~ul~do antes de o marido ou
Inês eram netos de duas meias-irmãs, Albreda e Matilde, e portanto casamento, então o se~nd posa nao t1vesse_filhos do primeiro
eram parentes em quarto grau. Foi só com a Reforma Gregoriana exceção. Mas nenhuma pes~o:ªt::;~~ pode~a prosseguir, por
no século XI que a Igreja conseguiu suprimir coerentemente os . . Isso na prática s·igm·t·1cava que podena
cunhada. a · , se casar. com a
casamentos incestuosos, que junto com a erradicação do casamento pnme1ro casamento tinha de s vmva com filhos do
dos padres foi o ponto-chave da reforma. São Pedro Damião (m. ua cunhada; caso contrário esneayoararddo ~tual marido, porque fora
·d · , po ena tomar s · ~
1072) proclamou com ardor que os cânones sagrados proibiam man o qmsesse se converter t . d - e cnsta. Se o
todos os casamentos entre parentes, enquanto a mais tênue lembran- a, fosse ela jovem com filh;s e~a e separar-s~ da cunhada/espo-
ça desses laços perdurasse. Em 1066/67 o Papa Alexandre II proibiu rescidos. E assim um bom , p quenos, ou mais velha com filhos
um casamento porque a mulher era parente em quarto grau de uma ristãs por discórdia conjug~~m~ro de pessoas deve ter se tomado
pessoa com quem o homem antes tivera um caso. As dispensas eram con~e~~do menos na Letônia.
Ficara difícil encontrar uma companheira ou companheiro para Algumas pessoas que quisesse~ ~~ co~. fundamento ocasional.
0
casar, afinal. Nenhum casal poderia ter certeza de que alguém, asamento, mas a anulação par; te;; ,ispensa para preservar
motivado por inveja ou malícia, não pudesse acusar a relação de ser correu a Inocêncio III re b. na-lo, como a mulher que
· ' ce iam-na Outr ·
incestuosa perante o tribunal eclesiástico. Se os filhos fossem tspensa não a conseguiam O C d i as que qmsessem a
repentinamente declarados ilegítimos, isso teria conseqüências le• nomado legisladorcanôni~o dis ar eap Turrecr~~ata (m. 1468),
gais para sua herança etc. A situação toda causou uma inquietação uenãoestavanospoderesdo' a :ao apaEu_gemoIV(m.1447)
compreensível, e assim o Papa Alexandre III (m. 1181) decretou Ida França, uma dispensa parp p dar ao Delfim, mais tarde Luís
asecasarcoma · ~d .
que se o casamento em quarto grau de parentesco tivesse durado d Nposa. Pode-se observar d irma e sua falecida
18 a vinte anos não mais poderia ser anulado. E o Papa Lúcio Ili f i anulado em 1983 emb,ore hp~ssa~em, 9ue esse impedimento só
' a ammtotaisdi ·
(m. 1185) permitiu ao arcebispo de Spalato que não interferisse no ld as costumeiramente a de .t d . spensas seJam conce-
casamentos entre pessoas com o quinto grau de parentesco. , A primeira dispens~ paraJ:Si; co:ve~edi~to do cardeal.
Em 1215, o Papa Inocêncio III reduziu os graus de parentesc, 1 dada no ano de 1500 pel p airmadeumafalecidairmã
proibido pelo sangue e pelo casamento do sétimo para o quarto Munuel de Portugal (m 1521)º apa Alexandre VI ao Rei Dom
· , que desposou Maria de Aragao, ~ a
grau. Mas isso não significou que a porta para as normas conjugai
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 237
236

Henrique nunca teve um casamento válido com Ana Bole El"


irmã de sua falecida esposa, Isabel. Em 1503, foi concedid~ uma ºlh ·1 , . na. iza-
dispensa para permitir que a irmã de Maria e Isabel, Catarina_ de beth era
,
f 1 a 1 eg1t1ma e portanto não poderia reivindica
t dºfº
t
r o rono
Aragão, se casasse com Henrique VIII, o irmão de seu f ~lecido - ate que os empos se mo 1 1caram uma vez mais e ela b
subindo ao trono. ~ca ou
marido. Essa dispensa depois tornou-se ensejo para o rompimento
Apesar dos muitos pedidos para que se reduzissem
da Inglaterra com Roma. O Concílio de Trento, a propósito, de~re-
pro1ºbºd 1 os por afºm1"dade d e casamento e por parentesco , O e os graus
onc110 n·
tou que as dispensas para o segundo grau de parentesco só podenam
ser concedidas a príncipes por motivo de bem-estar público (Sess. de ~rento (.154 . 5- 63) manteve-se no quarto grau. Só em 1917 a
lgreJa adIDitm uma redução, . mas
. apenas para O terce·iro grau
24 Cap. 5 de reform. matr.). ortanto, d e 1917 em d iante podia-se casar com a filha deu mpnmo · ·
Os esforços de Henrique VIII para anular o casamento com .
Catarina de Aragão foram frustrados. Já que o Papa Júlio II lhe der~ m segundo grau - mais ou me~os a posição que prevalecera no
éculo,V. Em _ 1983, foram lh anunciadas
, . novas reduções , p or exem-
a dispensa para casar com a viúva de seu irmão Artur, o r~J
p1o, ate entao uma mu er so podia se casar com o primo d •
dificilmente poderia esperar que Clemente VII fizesse uma !11~ia . d" d . . e seu pai
volta. E assim acabou tomando providências por conta p~opna. me d iante 1spensa, o que ep01s deixou de vigorar não send ·
, · d. l ' o mais
necessaria 1spensa a guma.
Memorandos de seus próprios legisladores canôn~cos gara.1;t~ra~ a
Em 1983, o impedimento por parentesco espiritual t b'
Justiniano pr01~b~iraem
correção do que ele pretendia estabelecer, ou seJa, que Juho nao
deixou de vigorar. . Em 530, o Imperador . o
tinha o direito de conceder-lhe a dispensa. O papa viol~r~ um
mandamento divino. Henrique inclusive tinha provas (parciais) de asamento entre afilhados e pa~nnhos. No segundo Concílio de
que a causa era justa por própria experiência pess?al: achava ~u~ a Trulano, em 692 (can. •
53) e no smodo romano de 721 "oi· 1' PfOl·b·d 1 0
casamento de padrmho com um dos pais de seu(sua) afilh d 0 ( )
Papa Nicolau I (m. 867) proibiu o casamento entre os f ~ ~ ·
série de abortos espontâneos e o nascimento, enfim, de uma umca
filha (Maria I a Sanguinária) podiam ser referidos à ameaça do
Levítico 20, 21: "Se um homem tomar .a mulher de seu irmão, é um padrinho e seus afilhados. O sínodo franco de Verbe/ (o7s56e
· · - d A • 1e )
uma impureza; ofendeu a honra de seu irmão: não terão filho~." A x.1gia a separaçao os conJuges, caso o marido tivesse co t 'd
·· 1 nra10
Assembléia da Igreja de Cantuária decidiu a favor do rei P?r parentesco espmtua com sua esposa por ter sido padr· h d
votação de 244 a 19, e a Assembléia de York aprovou por4~ a dois.
.
crisma dos fºlh d A ·
. i os esta. ss1m, as mulheres que queriam se ~parar
m º e
Henrique também ganhou o apoio dos protestantes, que disseram dos mandos
_ . usavam desse pretexto . da crisma,
. que as colocavaem
que os graus de parentesco proibidos pelo Levítico tinham tanta laçao mcestuosa com os maridos. _ Por isso ' sínodo de ChAl
o aons
força obrigatória quanto os Dez Mandamentos. E portanto o papa d eclarou em 8 13 que nesse caso nao deveria ocorrer separa -
A• d " çao, mas
que o conJuge cu1pa o 1osse condenado à penitência perp, tu
nada tinha a dizer quanto a sua dispensa. , .
Com a segunda esposa, Ana Bolena - então era ele propno ~ . O Kirchenlexikon de Wetzer/Welte (1901, volume XII)et ª·
" t .. . emum
chefe da Igreja Inglesa e não mais recorria a Roma - o rei ar tigo so bre os · hparen·
escos espmtuais", que revela O q t
uan o os
conseguiu declarar a ilegitimidade de sua filha Eliza~eth_ com .º l{deres d a 1greJa aviam pensado ~m tudo e o quanto sujeitaram 0
auxílio do impedimento da afinidade conjugal por coab1taçao proi- ssunto a regulamentos de cumpnmento obrigatório. Tom, t
bida. Ana foi afastada do caminho por decapitação. Mas antes ~
bém. -. sobretudo
. Tomás - dedicou . _ tais esforços aos parenastescos am-
ele ter-se casado com Ana, mantivera relações com sua irmã mais spmtua1s que nos . espanta . a prec1sao
. .. com que explica ess t 1·
a o ice,
velha, Maria (coito normal, e portanto o impedimento não desmo- sorte que po dia contmuar
' . Justificando-a em casos parti·cu1ares
ronou como ocorreu no controvertido caso dos irmãos pelo Papa (Suppl., q. 56 a. 4 e 5). Eis o panorama histórico dado p u,
./\u 1 d d • or vvet-
Urbano li). Assim, segundo a opinião abalizada de seus canonistas, Z r, vve te e to a essa situação absurda: "No período que se seguiu
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 239
238

(do século IX em diante) a noção dos impedimentos foi largamente de se? ~ascime~to: em 1983, que esse impedimento foi removido
expandida. Com base na paternitas spiritualis, o casamento foi do Codigo do Dtreito Canônico.
proibido não só entre o batizando (ou o crismando) e o batizante, e Em 1522, em seu sermão sobre a vida dos casados, Lutero
entre o batizando ou o crismando e o padrinho, mas também entre repree~~eu a Igrej_a Católica pelos abusos que encorajava: As
o cônjuge do batizante ou padrinho e o batizando ou o crismando, prescnçoes do Antigo Testamento não devem ser ampliadas. Elas
no caso de o batizante ou padrinho serem casados e o casamento se referem a pessoa~ mencionadas de forma explícita, não a graus
ter sido consumado (patemitas indirecta). ( ...) Devido à compater- de par~ntesco. Calvmo contestou isso. Ele acreditava que as leis
do Antigo Testamento tinham de ser completadas por analogia. Por
nitas ou commaternitas spiritualis, o casamento foi proibido entre
xe?1plo, se nã~ era permitido a uma mulher se casar com dois
o batizante e o padrinho, por um lado, e os pais verdadeiros da
lrmaos _um _depois do outro, então nenhum homem poderia se casar
criança, por outro. O impedimento também existia entre o cônjuge
?m a_1rma de sua esposa. Mas tudo o mais que foi além dessas
do batizante ou do padrinho no caso de um casamento consumado M ttuaç,~es paralelas não passou de embuste diabólico dos papas. O
e os pais da criança (compaternitas indirecta). ( ... ) Por fim, em onc11to de Trento atacou o pensamento de ambos os reformistas
virtude dafratemitas spiritualis, era proibido o casamento entre o excomungou.ª _todos os que dissessem: "só aqueles graus de
batizando ou crismando e os filhos dos padrinhos e também os dos re~tesco _e afmidade por casamento indicados no Levítico po-
batizantes (XII, 851). m 1mpedir o casamento ?u, caso esse já tenha ocorrido, podem
Na obra de Afonso de Ligório (m. 1787) encontramos, detalha- nular o contrato; e a IgreJa não pode dar dispensa pelo impedi-
damente, página após página, onde e quando o padrinho tem de . nto de alguns d~sse~ ?raus e não pode ordenar que outros graus
tocar o afilhado, de sorte que se soubesse entre quem e quem mais, ~am capazes de Justificar o impedimento e a dissolução de um
daí em diante, poderia existir um impedimento ao casamento, e qual sarnento."
o cônjuge que daí por diante não poderia solicitar do outro o ~ Igreja Orient~I pou~ou-se de muitas complicações por
cumprimento do débito conjugal ou qual deles só poderia cumpri-lo mais r~co~hecer_ º. impedimento por afinidade em decorrência
a pedido, porque ele ou ela, ao tocarem na criança durante o coab1taçao proibida, que se espalhou no Ocidente no século
batismo, repentinamente se teriam tomado parentes espirituais de III. Sob outr?s_aspectos, as normas para as relações consangüí-
seu companheiro ou companheira conjugal e, portanto, daquel s e por afm1dade no casamento não eram essencialmente
momento em diante, viviam em incesto, por terem agido inadver• versas das do Ocidente. Quando o Patriarca Marcos de Alexan-
tida ou maliciosamente (isto é, suspendido a criança pela frente) ou ln_ fez ver ao famoso legislador canônico e patriarca de Anti-
talvez por não terem agido assim (Theologia moralis 6, n. 148 ss.), u1~, Teodoro de Balsamon (m. após 1195), que a comunidade
Entretanto, as coisas foram muito simplificadas por Afonso, já qu Hla de Alexandria degenerara tanto que se tornara difícil evitar
o Concílio de Trento desconsiderou grande parte da confusão nos ~~sarnentos incestuosos, Teodoro respondeu que isso não
impedimentos ao casamento decorrentes do parentesco espiritual. t1f1cava cometer pecados.
Lutero, a propósito, considerou improcedente toda essa questão Josef Fu_chs, perito em Tomás de Aquino, faz um elogio espe-
já em 1520 ao escrever: "E portanto todas essas mentiras sobre l 1 ~o ~qumate por ele, entre outras coisas, ter fornecido uma
condição de padrinho, de mãe, de irmão, de irmã e de filha devem , tlf~cat1va completa fªra a p_roibição dos incestos. Escreve Fuchs:
ser consideradas a mais absoluta letra morta. ( ... ) Vede como 11 Nli t_m , embora Tom_as mantivesse grande parcela do ensinamento
liberdade cristã foi subjugada pela cegueira humana" (Sobre 11 llc1onal que era simplesmente transmitido a cada geração de
cativeiro babilônico da Igreja). Mas foi só quinhentos anos depol logos, elaborou um caminho completamente novo e indepen-
240 Uta Ranke-Heinemann
Eunucos pelo Reino de Deus 241

dente. Compare-se, por exemplo, a minuciosa argumentação da


proibição dos incestos com a transmissão sem mai?res problemas origem comum, e também porque '' está de acordo com os sete dons
do Espírito Santo".
da tradição nos demais teólogos. Por exemplo, Gmlherme de Au-
Mais recentemente, observa Tomás, isso foi reduzido ao quarto
xerre, sob outros aspectos bastante independente, desconhece qual-
grau (por Inocêncio III no quarto Concílio de Latrão em 1215).
quer justificativa intrínseca para esses casos" (Die Sexualet~ik 1~s
Tomás julga que o quarto grau é "apropriado", porque graças à
heiligen Thomas von Aquin, pp. 277-78). qua~d.o t~das as Justifi-
prevalência do desejo sexual e do descuido, o fracasso em serem
cativas são ridículas, melhor não recorrer a Justificativa alguma do
observadas as muitas proibições para os graus de parentesco tor-
que a uma justificativa falha. O elogio que F~chs_ ~az a Tomás é
nou-se uma "armadilha para a condenação de muitos". Assim, seja
idêntico à responsabilidade que este mere~~ porJUStI!i~ar onde n~da o quarto ou o sétimo, Tomás é capaz de justificar qualquer número
há a justificar, por aceitar sem a menor cntica uma sene de asneiras
de graus. Sem dúvida, teria considerado razoável e encontrado
para então passar a racionalizá-las. . . ,. . razões divinas para estender a proibição ao décimo quarto grau,
Foi particularmente fácil a Tomás elaborar tais ideias,_ p01s
tudo sob o lema monástico de mais amizade e menos paixão.
encaixam-se, por assim dizer, com seu lema sobre a repressao d_o
casamento. Um dos motivos que toma de Agostinho é "o cresci-
mento da amizade" (isto é, da amizade que advém do parentesco e
da afinidade conjugal). Crescem os laços de amizade nas relações,
afirma Tomás, quando limitamos o casamento a pessoas que_ n~o XIX
têm qualquer relação. Outra razão que julga encontrar em A:nsto-
teles - Aristóteles, decerto, ficaria assombrado ao descobrir que
dera tanto valor a tais tabus artificiais e forçados - é essa: se o Os CoNJURos PARA A IMPOTÊNCIA,
amor dos familiares se somar ao amor sexual, há risco de um amor
passional por demais excessivo, "já que por natureza o homem ama os AMORES SATÂNICOS, AS FEITICEIRAS
seus parentes consangüíneos, caso sobrevenha o amor decorrente EAS CRIANÇAS DE MAU GÊNIO TROCADAS
da união sexual, haverá um excesso de paixão no amor e uma
quantidade máxima de desejo sexual, e isso vai contra a castidade" AO NASCER
(Summa Theologica II/li q. 154 a. 9).
Tomás explica a enorme ampliação pelo cristianismo das pou-
quíssimas proibições do Antigo Testamento para os graus de paren-
tesco argumentando que, "através da nova lei do espírito e do
amor", maiores graus de parentesco foram proibidos_ e torno~-s Aimportância de Tomás de Aquino para a ética sexual não advém
também necessário que "os homens se afastassem mais das coisaf, do fato de ter mudado o curso da teologia nessa esfera, mas, pelo
carnais e se dedicassem mais às coisas espirituais". O que temos ontrário, do fato de ter sido ele o grande conformista em sintonia
aí, noutras palavras, é o processo de transformação de pessoaH •om sua época, que pegou sua doutrina, sobretudo a vertente
nservadora, deu-lhe forma permanente, e defendeu-a contra a
leigas em monges. Por esse motivo, Tomás considera "razoável''
liberalização. Seu erro mais grave, que devido a sua autoridade
que a proibição do casamento se estenda até o sétimo ,gra~ d
stava destinado a ter as mais devastadoras conseqüências, foi a
parentesco e de afinidade conjugal - razoável, porque_ ~lem disso
posição aos que duvidavam (mesmo na credulidade do século
marido e a esposa não poderiam mais lembrar com facihdade suu
III) que os demônios estivessem, com grande eficácia, ocupados
242 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 243

na esfera do sexo, que tivessem, por exemplo, o poder mágico de foram enfeitiçados pelo poder dos demônios" (Comentário sobre
tomar os homens impotentes. Tais dúvidas, acreditava ele, contra- as Sentenças IV d. 34 à. 8).
diziam a fé católica: "A fé católica nos ensina que os demônios têm Sobre a ~uestão do motivo que levava o demônio a impedir o
alguma importância, que podem prejudicar os seres humanos e até homem particularmente de ter relação sexual e não de comer e
mesmo impedir as relações sexuais." Critica "os que dizem que beber, São Boaventura (m. 1274), o grande teólogo franciscano,
tais feitiços não existem e são apenas um produto da descrença. o~s~rvava: "Como o ato sex~al f~i corr,o~pido (através do pecado
Segundo tais pessoas, os demônios não passam de imaginação ongmal) e tomou-se, por assim dizer, fetido, e como além disso os
humana, ou seja, os seres humanos imaginam tais demônios e eres humanos são em grande parte por demais lúbricos O demônio
depois sofrem de males em decorrência do terror de tais fantasias" tem _sobre eles muito poder e autoridade. Pode-se ~rovar isso
(Quaestiones de quodlibet X q. 9 a. 1O). m~diante um exemplo e pela autoridade das Sagradas Escrituras,
Aqui também Tomás não foi o inventor mas o preservador mais pois ficamos sabendo que um demônio de nome Asmodeu matou
influente de preconceitos. A idéia da impotência por indução má- ete homens na cama, ~as não à ~esa" (IV d. 34 a. 2 q. 2)"
gica pode ser encontrada já numa carta escrita em 860 pelo Arce- Boaventura se refere ao Livro de Tobias, que através de acréscimos
bispo Hincmar de Rheims. Segundo Burcardo de Worms (m. 1025), cortes no texto, feitos pelo tradutor São Jerônimo, foi falsificado
o confessor deve perguntar ao penitente o seguinte: "Fizeste o que para exprimir a hostilidade ao prazer sexual, e assim é citado até
as mulheres amorosas estão acostumadas a fazer? Quando vêem hoje_ p~los teólogos católicos (p. ex., Bemhard Hãring, Das Gesetz
que seu amante quer contrair matrimônio lícito, matam-lhe o desejo Chnstz,. 371-7:) como prova bíblica de que Deus pretendia que o
através de fórmulas mágicas para que não possa manter relações to con3ugal so se destmasse à procriação. Até o século XVIII 0
com a esposa. Se assim procedeste, deverás fazer penitência de text~ e_ra t~bém citado como prova do fato de que, embora o
quarenta dias a pão e água." Essa superstição foi então incorporada demomo nao possa causar a morte no leito nupcial, pode sem
às compilações de leis de Ivo de Chartres no século XI e de dúvida causar a impotência.
Graciano, no XII, e também às de Pedro Lombardo (século XII), O Livro de Tobias conta do casamento do jovem Tobias com
nas Sentenças. ua prima Sara, que já se casara com sete homens todos mortos
Mas foi só no século XIII, a "Idade Áurea da Teologia", que pel~ demônio_ Asmodeu na noite de núpcias. O arc~jo Rafael dá a
essa crença andou a passos largos e inimagináveis no sentido da Tobias o segumt~ conselho (na realidade de Jerônimo): "Ouve-me,
aceitação, não obstante houvesse outras opiniões. O jesuíta Pedro eu te mos~arei sobre quem o demônio tem poder: são os que se
Browe, especialista em Igreja medieval, escreve: "Assim, o poder casam, bamndo Deus de seu coração e de seu pensamento e se
do demônio sobre a força procriadora masculina foi, porém, clara- ntreg~ a sua paixão como o cavalo e o burro, que nã~ têm
mente contestado por alguns teólogos e leigos. Pelo menos em ntendimento. ( ... ) Tu, porém, quando te casares ... viverás com ela
numerosos tratados descobre-se a repetitiva objeção de que essa m castidade durante três dias, e não vos ocupareis de outra coisa
tese não passava de uma tentativa para explicar efeitos cujas causas enão ~e orar juntos.(... ) Passada esta terceira noite, aproximar-te-
eram desconhecidas e por isso atribuídos a demônios e seus instru- ás da Jovem no temor do Senhor, mais com o desejo de ter filhos
mentos. Mas essa objeção foi( ...) refutada e rejeitada por Tomás que com o ímpeto da paixão." E depois de três dias e três noites
de Aquino, como eivada de livre-pensamento e não-católica" Bei- T~bias di~: _"Ora, vós sabei~, ó Senhor, que não é para satisfaze;
trage zur Sexualethik des Mittelalters, p. 124). Já antes de Tomás, mmha paixao que_ recebo mmha prima como esposa, mas unica-
seu mestre Alberto Magno também censurava os livre-pensadores mente com o dese30 de suscitar uma posteridade" (Th. 6 14-22 e
não-católicos: "Ninguém pode duvidar que existam muitos(!) que 8, 9). No texto original de Tobias (século II a. C.) Tobias' mantém
244 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 245

relações com Sara já na primeira noite, e tanto a instrução do arcanjo das feiticeiras" ~o papa se voltava contra as muitas pessoas, "de
quanto as belas palavras do noivo vêm do asceta Jerônimo. qualquer categona, estado, posição, proeminência, dignidade ou de
Desde o início do século XIII em diante, incontáveis sínodos g?alquer condição que seja - não importando o privilégio de que
atacavam as feiticeiras "que perpetravam conjuros contra as pes- d1s~onha" - e tambéi:11 contra "clérigos e leigos que procuram
soas casadas para que não pudessem manter relações conjugais" . cunosamente saber mais do que lhes compete" e também a todos
Entre esses sínodos contam-se os de Salisbury (1217), o de Ruão os que "vierem a dificultar ou impedir a ação dos inquisidores, a
(por volta de 1235), o de Fritzlar (1243), o de Valência (1255), o de todos os que se lhes opuserem" no julgamento de feiticeiras pro-
Clermont (1268), o de Grado (1296), o de Bayeux (1300), o de movidos pelos inquisidores (a quem o papa chama de "meus
Lucca (1308), o de Mogúncia (1310), o de Utrecht (1310), o de gl!l~ridos filhos"). As penas contra os sabe-tudo - parecia haver
Würzburg (1329), o de Ferrara (1332), o de Basiléia (1434) (cf. mmtos deles na Alemanha naquele tempo - deviam ser as mais
Browe, p. 127). "rigorosas".
Em sua famosa "Bula das feiticeiras" de 1484, o Papa Inocên- O martelo das feiticeiras também dá início ao primeiro ataque
cio VIII nomeou dois dominicanos alemães, J. Sprenger (professor contra os céticos. Começa pela pergunta: "Crer em bruxas será
de teologia em Colônia) e Heinrich lnstitoris (Heinrich Kramer) acaso tão essencial à fé católica que sustentar obstinadamente
como inquisidores (depois autores de O martelo das feiticeiras) , opinião contrária deve ser considerado heresia?" A resposta, natu-
desde que ouvira falar que, nas dioceses de Mogúncia, Colônia, ralmente, é sim. A principal fonte e garantia dessa doutrina católica
Trier e Salzburgo, um grande número de pessoas de ambos os sexos está em Tomás de Aquino. Esse erro [de que não existem bruxas
estavam envolvidos em bruxaria de sorte a impedir "os homens de 'capazes de impedir a manifestação da força germinativa ou do
realizarem o ato sexual e as mulheres de conceberem, de tal forma coito conjugal'] pode ser repelido como pura falsidade por todos
que os maridos não vêm a conhecer as esposas e as esposas não ~s outros escolásti~os e mais ainda por São Tomás, que o estigma-
vêm a conhecer os maridos". Estribados no cânon si aliquis, que tJ~a coi:no. ve~dade1ra ~eresia, ao afirmar que tal erro procede da
rotula a contracepção como assassinato, Institoris e Sprenger em raiz da mfidehdade. E Ja que a infidelidade no cristão é considerada
seu O martelo das feiticeiras (1487; Iq. 8) exigiam a pena de morte heresia, essas pessoas devem portanto ser consideradas suspeitas
para os que praticavam tal forma de feitiçaria que, de acordo com de heresia culposa" (1 q. 8).
"Bula das feiticeiras", causava a impotência e a esterilidade. O A Alemanha tornou-se o país onde ocorreu o maior número de
próprio Deus, acreditavam os autores, encarregava-se da pena de julgament?s po~ feitiçaria. A resistência dos alemães a esses julga-
1
morte por outro tipo de contracepção, dando cabo rapidamente dos m~~to~ foi vencida pela "Bula das feiticeiras" e por O martelo das
pecadores: "Pois não há pecado que Deus tenha tantas vezes punido feztzcezras. Antes da mencionada bula, só ocorriam alguns julga-
com a morte repentina", diziam, quanto os vícios "contra a natu- mentos esparsos naqu~le país; depois o número cresceu tanto que,
reza da reprodução", por exemplo, o "coito praticado fora do canal cerca ~e 150 anos mais tarde, o jesuíta Friedrich von Spee, apesar
correto" (ibid., I q. 4). Para Sprenger e Institoris a contracepção, do pengo de ser condenado à fogueira, se colocava contrário aos
mesmo a não causada por feitiçaria, justificava a pena de morte. julgamentos em sua Cautio criminalis ("Advertência sobre os
A crença na impotência por malefícios e encantamentos e a julgamentos", 1630), dizendo que, "especialmente na Alemanha a
histeria coletiva ante as feiticeiras recebeu uma orientação autori- fumaça da fogueira se encontra em toda a parte" (q. 2).
tária, vinda de cima. Tomás atacara os livre-pensadores que nega- Para Spee a razão dos julgamentos por bruxaria assolarem mais
vam ser a impotência o resultado de bruxaria e que questionavam a Al_em~ha do que outros países estava em "J. Sprenger e Heinrich
o papel do demônio no ato sexual. De forma semelhante, a "Bula Institons, que naquela época foram enviados à Alemanha como
246 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
247

inquisidores de heresia pela Sé Apostólica... Co~eço .ª !ecear, não, todas as parteiras foram exterminadas. Uma entre três mulheres
já antes me assaltara a angústia de que aqueles mqms1dores trou- executadas era parteira. Esses julgamentos em Colônia foram os
xeram para a Alemanha toda uma hoste de bru~as co~ suas torturas que levaram Spee - que acompanhara muitas feiticeiras até a
astutamente inventadas e amplamente generalizadas (q. 23). Spee fogueira - a escrever vários capítulos de sua Cautio criminalis.
faz alusão aqui à mais horrível determinação de O m_artelo ~as Em s:u livro Die Vernichtung der Weisen Frauen (A destruição
feiticeiras, a introdução da tortura generalizada-ou,seJa, repetl~a <f:1-~ part~iras, _1?8~, p. 131), H~insohn e Steiger afirmam que Spee
interminavelmente. Graças a esse recurso, era possivel extorqmr vm mmtas fe1t1_cerr~~ verdaderras ( ... )em ação", mas como podem
todas as confissões e denúncias que se desejassem. fazer tal afirmativa e mcompreensível. O trecho do livro de Spee a
que se re!erem ~ uma q~estão retórica: "O que poderia parecer mais
O martelo das feiticeiras analisa com minúcia a questão "por que em sentido hoJe em dia do que acreditar que o número de verda-
Deus conferiu ao demônio maior poder de conjurar contra o ato deiras feitic<:_iras seja ~qu~n? e_ esteja diminuindo? E contudo ( ... )
venéreo e não contra qualquer outro ato humano". Os dois autores verda~e nao tem ~~~r m1m1go do que o preconceito" (q. 9).
criminosos e sexualmente patológicos retomam várias vezes a essa Caractenzar como opm1ao de Spee o que o próprio Spee chama de
questão (1 q. 3; q. 6; q. 8; q. 9; q. 10; II q.1; q. 1 c. 6) e respondem-na r.reco!1ceito não tem sentido. Algumas páginas adiante ele diz:
referindo-se a Tomás de Aquino: "Diz-nos ainda que, pelo fato d fss1m, te!1?º. de confessar que em vários lugares acompanhei
0 primeiro pecado que tomou o homem escravo do demôni~ ter 1versas fe1t1ce1ras até a morte, mulheres de cuja inocência não
sido O do ato carnal, logo maior o poder conferido por Deus ao diabo t ~h~ d~vida até hoje,. pois despendi todos os esforços e toda a
com relação a esse ato e não com relação aos dem~s" (1 q. 6). ~om lhgencia para descobnr a verdade( ... ) e nada consegui encontrar
efeito, Sprenger e Institoris estavam certos em mvocar Aqumo, não se~ in~cência em todos os lugares" (q. 11). '
Josef Fuchs escreve em 1949: "Em vista do papel desempenhad l A pnnc1pal acusação que lnstitoris e Sprenger lançam contra
pelo poder sexual na transmissão do pecad_o orig~al, Tomás ~e!e~, "bruxas-parteiras" era a de que matavam crianças não batizadas
mina que o reino do sexo é, de forma especial, o ~emo do demomo I q. 1 c._2). "Pois o demô~i~ sabe que, por causa do castigo da
(Die Sexualethik des heiligen Thomas von Aqum P·, 6_0). Para esim ndenaçao ~u do pec~d~ ongmal, essas crianças são privadas de
convicção, Tomás por seu turno apela ao Papa Gre~ono 1 (~~ maio t~ar no Remo do C~u (li q. 1 c. 13). Quanto à ligação entre
15, 2 o. 6). Essa questão recorrente, "porque sena permiudo ílll t1,mortos e ? demômo, tem-se nessa idéia uma conseqüência do
demônio praticar feitiçarias exatamente contra o ato sexual e n 1 tnamento msano de Agostinho segundo o qual Deus condena ao
contra outros atos humanos" e a resposta, "por causa da repugn li mo as crianç~~ s~m batismo. Mas nada justifica a acusação de
eia do ato procriativo, e porque através dele o pecado original martelo da~ feiticer:as de que as parteiras são responsáveis pela
transmitido a todos os homens" (1 q. 3; q.10) transformam-se 1111 rte de recem-nascidos. A segunda censura feita pelos autores
motivo condutor de O martelo das feiticeiras. Ira as ~~xas-parte~:as é a de que "impedem a concepção no
Outra questão em que insistem particularmente os dois a~tOJ o d_e_ vanas_ formas (li a. 1 c. 5). É provável que as parteiras
é demonstrar por que dentre as mulheres "as bruxas parte1rll 1 11,mitissem mformações sobre a contracepção, ou o que fosse
todas as demais ultrapassam em ações vergonhosas" (III q. ll n tderado ~~mo tal. Mas é igualmente certo que não poderiam
Sprenger e Institoris escrevem do alto de sua experi~ncia C{ 111 11 sponsabihzadas por todos os casos de esterilidade. A absurda
inquisidores: "Bruxas arrependid~s confe~s_aram mu~ta~ vez • nção teológica,já t~ad~cional (adotada por Institoris e Sprenger,
nós e a outros que não há quem mais maleficios cause a fe cat 1 lnv~cavam a si abquis) de que a contracepção é assassinato,
do que as parteiras" (1 q. 11). Em Colônia, de 1627 a 1630 q1111 tltu1 o segundo motivo fundamental para se "incinerar" as
248 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
249

parteiras. E "incinerar" era uma palavra med?nha que constante- provinciano realizado por São Carlos Borromeo na Lombardia, em
mente usavam em sua campanha para extermmar mulheres e par- 1579, instituía penas contra a feitiçaria que impedisse o coito
teiras. e ·1· 'd d conjugal. Atitude semelhante foi tomada nos Sínodos de Ermland
Na Alta Idade Média os especialistas tinham 1ami iari Aa . e com (1610) e de Lüttich (1618). E o Sínodo de Naumur (1639) r~novou
uns cinqüenta ou sessenta métodos emp~~ga?os p~lo demomo P,ª~ª um antigo ritual contra esses encantamentos, "porque sabemos que
impedir O ato conjugal. O martelo das feiticeir~~ ,cita toda uma sene por eles todos os dias os casamentos são jogados na confusão"
destes procedimentos, como por exemplo: e ca?az ~e. ca~s'!!" (Br?we, ~P· ~28-29). O Sínodo de Colônia (1662) tratou da questão
diretamente o enfraquecimento do órgão que ~erve a fertih~açao da impotencia através de fórmulas mágicas. O jesuíta da Baviera
(I q. 8). Os autores acreditavam que a castid~de no sentid? ~a Gaspar Schott (m. 1667), que durante muito tempo foi professor de
frigidez impede que os demônios consigan_i efeitos em seu habito física em Palermo, explicava que "Não há outra forma de magia
de lançar malefícios sobre os órgãos mascuh~os (I q. 1 c. 7), e nesse mais generalizada e mais temida hoje em dia. Em certos lugares os
contexto regularmente citam o Livro de Tobias, na passagem auto- asais não mais ousam casar publicamente na igreja perante o
rizada por Jerônimo: "Ele confere poder ao demônio_ sobre os ~ue astor e as testemunhas, casam-se em casa um dia antes e vão para
se entregam à luxúria" (lq. 8; q. 9; q. 15; 112. q 1 c.7, q.1 c. 11, q. igreja no dia seguinte" (Browe, p. 129). Alguns casais casavam-se
2 c. 2; q. 2 c. 5). ,, portas fechadas ou à noite e consumavam o casamento antes do
Temido sobretudo era o chamado "nó de cordão , q~~ ~s mper do dia, para que não fossem vistos por bruxos ou feiticeiras
franceses chamavam de nouer l 'aiguillette. Consistia em~ feiticei- rowe, p. 129). Alguns sínodos dos provincianos italianos e fran-
ra ou O feiticeiro dar um nó ou fechar um cadeado repentm~~ent ses, como os de Nápoles (1576), de Rheims (1583) e de Bourges
durante a cerimônia de casamento. Dependendo da espec1e d 1584), proibiram esses casamentos supersticiosos. O Sínodo de
fórmula pronunciada, o efeito duraria por mais ~u po~ menos h ims advertia os casais para empregarem um antídoto que o
tempo. Seria impossível para o casal manter relaçoes ate que s lvro de Tobias, aliás, de Jerônimo, recomendava como auxílio
quebrasse o encanto. Francis Bacon (m. 1626), protetor do Grand ntra os demônios: "unirem-se por amor da prole e não por
Selo e presidente da câmara dos lordes, diz que esses nós eram ~o". A crença na impotência de origem mágica causou incon-
hábito comum em Saiotes e na Gasconha (Sylva sylvarum seu V is crises de ansiedade neurótica em casais até o século XVIII
historia naturalis, n. 888). . Afomso de Ligório viu-se completamente absorvido por elas e
Mas também se ouviam as vozes da razão. Em seu ensaio sob1r tinha dúvida de sua realidade.
O poder da imaginação, Montaigne (m. 1592) trata com_pormeno Essa impotência de causa diabólica teve conseqüências legais.
res O fenômeno dos nós, "pois as pessoas não falam mais de oulrn cmar de Rheims disse que os casos em que o casamento não era
coisa". Descreve como ajudou seu amigo, o duque de Gurson, li o podia ser consumado por encantamento favoreciam a sepa-
vencer o medo de um feitiço para a impotência por ocasião da n llt e a possibilidade de novo casamento. A princípio, Roma não
de núpcias. O conselho amigo de Mon!aigneA ao_s r:cém-c_~sa~o nhecia esses divórcios e exigia que os parceiros vivessem como
para que se vissem livres da fixação na impote~cia, ~ a p~cienc1111 e irmã. Mas depois que a opinião de Hincmar foi aceita na
a indulgência para com a própria capacidade de 1magmaçao ~e IH 111 !pilação de leis de Graciano e nas Sentenças de Pedro Lombar-
um. Pensa que será conduta mais bem-sucedid_a do que a obstmw,• 11 ' Juase todos os teólogos decidiram que a impotência de origem
dos que metem na cabeça que têm de se dommar. . 1·a _era um i1!1~edimento ao matrimônio. Em 1207 o Papa
Ao contrário deste cético muito humano, a lgreJa, em seu Nlfft• · nc10 III decidm que o casamento de Filipe II Augusto da
supersticioso, condenava os mágicos e as feiticeiras. Um sfno,h, u com Ingeborg deveria ser dissolvido por esse motivo, caso
250 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
251

a nova tentativa que o rei fizesse, com medidas auxiliares como a uma mulher. As crianças diabólicas assim geradas (costumam
. ·
d istm?m ·d ser
doação de esmolas, oração, missas, não fosse bem sucedida. De as por seu tamanho extraordinário) são assim, na realida-
forma similar, em 1349 o casamento de João de Tyrolia com de, cnanças humanas, por terem sido geradas com sêmen humano
Margaret de Caríntia foi dissolvido por causa de impotência em (Summa Theologica, I, q. 51 a. 3ad 6). Determinados pormenores
decorrência de fórmulas mágicas. Mesmo hoje a suposta impotên- por ~x~m~lo, d~ que forma o_ s~me? obti?o de um homem pel~
cia relativa (que só ocorre perante a própria esposa), caso se mostre demomo
·
e mantido
T ,
fresco
_
e fertll ate o coito com a feiticeira , sao
-
duradoura e incurável, é impedimento dirimente. O casamento pode coisas a que .1omas nao se refere. Essas lacunas são preenchid
ser anulado (cân. 1084, CIC, 1983) e os dois cônjuges podem tomar por O ma_rtelo das feiti~eiras. Os demônios, ao que parece, possue:
a casar. Mas hoje as questões da impotência não são mais tratadas um aparelho de aquecimento e refrigeração para a transferência d0
no contexto do demônio e do encantamento, e sim por aconselha- sêmen (I q. 3).
mento médico ou psicológico. E assim Tomás . de Aquino,
. o maior teólogo católico , to·i O
hornem que exp1icou o sistema das paixões diabólicas. Isso ,
No começo da "Bula das feiticeiras" o papa afirma que alélll de ~testado por Sigm?~d. von Riezl:r, que estudou "A história do:
causarem impotência, feiticeiros e feiticeiras realizam outra ativi- Julgamentos das feiticeiras na Baviera" (Geschichte der Hexenp _
dade monstruosa, ou seja, a fornicação com o demônio: "De fato, zesse in Bayern): "Os perseguidores baseavam o que esta/º
chegou-nos recentemente aos ouvidos, não sem que nos afligísse- fazendo em sua autoridade [de Tomás]. Sempre que se verific::
mos na mais profunda amargura, que em certas regiões da Alema- as passagens de prova citadas como evidência de sua posição
nha do Norte, e também nas províncias, nas aldeias, nos territórios descobre-se que só as de Tomás têm o caráter de claro princí · '
e nas dioceses de Mogúncia, Colônia, Treves, Salzburgo, muitas . ' . O 'D
doutnnano. . _outor Angehco
' . ' , o santo famoso e o eruditopio da
pessoas de ambos os sexos, a negligenciar a própria salvação e a ordem dos domimcanos, deve ser portanto identificado como O q
· ·b · ue
desgarrarem-se da fé católica, entregaram-se a demônios, a íncubos mais contn um para criar a histeria da feitiçaria. Por esse motivo
e a súcubos ... " No fundo de tudo isso se encontra a idéia teológica conforme relatam os autores de O martelo das feiticeiras se '
da posição sexual costumeira à qual evidentemente o demônio olega (entre outros), o inquisidor de Como, no condado de B;rmi~
também adere: os demônios masculinos ficam em cima, os femini- u Wormserbad, no mesmo ano de 1485, mandou para a fogueira
nos embaixo, estando aí por que o papa chama os demônios com 41 ~ulheres, enqu~nto outras tantas só evitaram o mesmo destino
os quais as bruxas ou os feiticeiros cometem fornicação simples- fugmdo pela fronteira para o Tirol" (1896, pp. 42-43).
mente de incubi (que se deita por cima) ou succubi (que deita em ?s autores de O martelo das feiticeiras se debruçam sobre a
baixo). A principal origem da "Bula das feiticeiras" e de O martelo egm~te questão:, por que os homens não mantêm tantas relações
das feiticeiras, que pretende ser um comentário sobre a mencionada exums com os sucubos quanto _as mu~eres, com íncubos (I q. 2 c.
bula papal, é a noção de Tomás de Aquino dos amores diabólicos 1), noutr~s .Pª!avras: por que existe maior numero de feiticeiras do
com os íncubos e os súcubos. O perverso O martelo das feiticeiras ue de feiticerros? Essa questão dá a oportunidade aos dois escri-
a ninguém cita com tanta freqüência quanto a Tomás, que explica tores de desenvolverem em profundidade sua visão das mulhere
como o sexo com o diabo e a geração de crianças diabólicas ocorre, unindo o coro teológico da Igreja a todos os difamadores d:;
ao desenvolver a teoria de como o sêmen é obtido: um único e o mulheres,_ dos quais descobrem uma presença abundante na tradi-
mesmo demônio pode produzir o sêmen adotando a forma de uma o Catóhca. Encontramos aí o antigo argumento aristotélico d0
mulher e fazendo sexo (como súcubo) com um homem e então maior teor de água das· mulheres que, segundo Alberto e Tomá
tomando a forma de um homem e fazendo sexo (como íncubo) com t rna as mulheres inconstantes e de pouca confiança, e tomado tã~
252 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
253

comum na teologia que sua citação era supérflua (1 q. 6). Os autores tramas e os engodos chorosos são notoriamente próprios das mu-
citam Crisóstomo, sobre Mateus 19: "É melhor não se casar. Que lheres. _Respon~e~a?1os que nesse caso, como os julgamentos de
há de ser a mulher senão uma adversária da amizade, um castigo Deus s_ao U?J-1:llisteno ... " etc. etc. (III, q. 15).
inevitável, um mal necessário, um perigo doméstico, uma tentação A ~f~nondade da mulher (femina, em latim) pode ser vista no
natural, uma calamidade desejável, um deleite nocivo, um mal da seu propno nome: "pois femina vem de fe e minus (com menos fé),
natureza, pintado de lindas cores" (I q. 6). Os autores citam a por s~r a mulher sempre mais fraca em manter e em preservar sua
"experiência" como prova de que há mais devassidão entre as fé. E isso decorre de sua própria natureza; embora a graça e a fé
mulheres do que entre os homens. Em qualquer caso, as mulheres naru~~l nunc~ t:nham ~altado à Virgem Santíssima, mesmo por
são "mais fracas na mente e no corpo( ... ) pois no que tange ao ocas1ao daPaixao de Cnsto, quando carecia a todos os homens" (I
intelecto, ou ao entendimento das coisas espirituais, parecem ser de q. 6). Como quase todos os grandes caluniadores cristãos das
natureza diversa da do homem, fato que é defendido pelas autori- mulheres, os aut~r~s de O martelo das feiticeiras, sobretudo Spren-
dades, pela razão e por vários exemplos das Escrituras". ger, que teve o mento de promover o rosário, eram também grandes
As autoridades são desencavadas para tudo. Os autores de O veneradores de Maria.
martelo das feiticeiras citam Terêncio e Lactâncio com seus dizeres . º! autores de O martelo das feiticeiras têm ainda outras
misóginos. Fecundos, recorrem também à Bíblia, sobretudo aos ObJeçoes a levantar contra as mulheres: "Se perquirirmos devida-
Provérbios: "Um anel de ouro no focinho de um porco, tal é a mente, vamos descobrir que quase todos os reinos do mundo foram
mulher formosa e insensata" (11, 22). E há aquela "razão": "Mas derrubados por mulheres. Tróia, cidade próspera, foi destruída por
a razão natural está em que a mulher é mais carnal do que o homem, ausa do rapto de uma mulher, Helena... " Opinam que "verdadei-
o que se evidencia pelas suas muitas abominações carnais." ra~ente, sem a per~ersidade das mulheres, para não falar da bru-
Institoris e Sprenger inclusive citam dizeres caluniosos sobre ?,
xar~a, mundo amda permaneceria à prova de inumeráveis
as lágrimas das mulheres: "Pois diz Catão: 'quando uma mulher pengos . E enquanto desenvolvem o tema das mulheres ocorre-
chora, está urdindo uma cilada'." E prossegue: "Quando uma lhes outra ~déia: "Consideremos outra de suas propriedades _ a
mulher chora, está querendo enganar um homem" (I q. 6). Poroutro voz: Mentirosas P?r natureza, seu discurso a um só tempo nos
lado, não chorar é sinal de culpa e bruxaria. O fato fisiológico que · gmlhoa e nos deleita. Pelo que sua voz é como o canto das sereias
ocorre durante a tortura quando a pessoa é incapaz de derramar que com sua doce melodia seduzem os que se lhes aproximam e 0 ;
lágrimas é explicado pelos dois inquisidores como sinal de ação de matam. E os matam esvaziando suas bolsas, consumindo suas
bruxas e trouxe às mulheres ainda mais desgraça s9b a forma d 1
rças e fazendo-os renunciarem a Deus ( ... ) Provérbios 5 3-4:
tortura: "Verificamos pela experiência", escrevem, "que quanto P~rque os lábios da _mulher estranha destilam mel, seu pal~dar é
mais conjuradas são, menos são capazes de chorar( ... ) é possível mrus oleoso que o azeite.No fim, porém, é amargo como o absinto"'
que depois, na ausência do juiz e não no momento ou no local da (1 q. 6). ·
tortura, possam ser capazes de chorar na presença dos guardas. Mas não era apenas a voz da mulher, mas também seu cabelo
motivo da incapacidade de derramar lágrimas talvez esteja no fato ue a predestinava ao coito com o demônio: "Guilherme de Paris
de que a graça das lágrimas é um dos principais dons concedidos ssalta que os íncubos parecem molestar sobretudo as mulheres e
ao penitente." Mas também no caso de a feiceira conseguir chorar, ~inas de lindos cabelos; ou porque assim pretendem excitar e
nossos dois sádicos sabem o que fazer disso. "Mas poderia obje- nstigar o~ homens ( ... ) ou porque gostam de se vangloriar futilmen-
tar-se que é possível que convenha à astúcia do demônio, com li t ~ resp~1to, ou mesmo porque Deus em Sua bondade permite que
permissão de Deus, permitir que uma bruxa chore; já que o luto, aH 11s1m seJa para que as mulheres passem a ter medo de instigar os
254 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 255

homens exatamente pelo meio que os demônios gostariam que elas de pertencer a uma "das três classes de homens", fora das quais
os instigassem" (II q. 2 c. 1). Em qualquer caso, os lindos cabelos nenhuma outra está "protegida das bruxas". Portanto, assim não
de uma mulher têm algo a ver com a proximidade do demônio. estariam "sujeitos aos malefícios ou às tentações causadas por
A resposta à questão: por que existem mais feiticeiras do que bruxaria, por um dos 18 modos que serão agora analisados" (II
feiticeiros, culmina na seguinte convicção dos dois autores: "Con- q. 1).
cluímos que tudo ocorre por causa do desejo carnal, insaciável nas Afonso de Ligório (m. 1787), uma vez mais, discute os amores
mulheres. No penúltimo capítulo dos provérbios (cap. 30) lemos: diabólicos com pormenores num capítulo intitulado "Como o
'Há três coisas insaciáveis, quatro que nunca dizem: Basta! A quarta confessor deve tratar os atormentados pelo demônio". Invocando
é a boca do útero.' Pelo que, para saciar sua lascívia, copulam até Tomás, Afonso descreve como os filhos do diabo são gerados pelo
mesmo com demônios. Poderíamos entrar em maiores detalhes, coito de um demônio com uma mulher, embora tal criança não seja
mas para o homem sábio basta uma palavra( ... ) E por esse motivo na verdade filha do demônio e sim de um homem de quem previa-
convém referir-se a tal heresia culposa como a heresia das bruxas mente o demônio colhera o sêmen.
e não a dos magos ( ... ) E abençoado seja o Altíssimo, que até agora Afonso se volta para os confessores: "Assim, se alguém ataca-
tem preservado o sexo masculino de crime tão hediondo: como Ele do pelo inimigo do mal se apresentar, que o confessor zeloso se
veio ao mundo e sofreu por nós, deu-nos, a nós homens, esse esforce para dar ao penitente as armas para sua luta temerosa( ... )
privilégio" (1 q. 6). Que exorte o penitente a refrear-se o mais possível dos prazeres
Após essa apresentação abrangente da essência da mulher, sensuais( ... ) Que, além disso, lhe pergunte se alguma vez invocou
pode-se compreender que ambos os autores sentiam uma profunda o inimigo perverso ou se fez com ele alguma aliança( ... ) Pergun-
afinidade intelectual com Tomás de Aquino, sobre quem dizem o te-lhe de que forma o demônio lhe aparece, se sob forma de homem,
seguinte: "Graça não menos importante foi concedida a São Tomás, de mulher ou de animal, porque então, se ocorreram relações
Doutor de nossa Ordem, na qual ingressou à revelia da farm1ia. Para sexuais, o pecado contra a castidade e a religião se soma ao pecado
impedi-lo, seus irmãos chegaram a confiná-lo no cárcere. E ade- da fornicação, ou da sodomia, ou do incesto, ou do adultério ou do
mais, desejando tentá-lo, levaram até ele uma prostituta sedutora, sacrilégio( ... ) Pergunte-lhe também onde e em que hora ocorreu a
suntuosamente vestida. Mas quando Tomás a viu, pegou de uma relação ( ... ) Que consiga do penitente uma confissão completa, por
tocha acesa e com o fogo material expulsou de sua cela o instru- que essas pessoas facilmente omitem pecados quando se confes-
mento do fogo da luxúria; e prostrando-se então em oração de am" (A prática do confessor VII, 110-13). Ainda em 1906, o
graças pelo dom da castidade, acabou adormecendo. Em sonho, teólogo moralista Franz Adam Gõpfert dava instruções aos confes-
apareceram-lhe dois Anjos do Senhor, dizendo: 'Vê, por ordem do ores sobre a maneira de lidar com penitentes que confessassem ter
Senhor Deus vamos cingir-te com o cinturão da castidade, e nenhu- feito sexo com o demônio (ver capítulo XXIX deste livro, "A
ma outra tentação há de soltá-lo, pois não pode ser adquirido pelos Teologia Moral do século XX").
méritos da virtude humana, porque é dado como dom pelo Senhor
Deus tão-somente.' E assim sentiu-se Tomás protegido e, perceben- A idéia de relações sexuais diabólicas teve terríveis conseqüências
do que usava um cinto, acordou com um grito. E foi-lhe concedido não só para as feiticeiras mas também para muitas crianças (supos-
um dom de castidade de tal magnitude que passou, desde então, a tamente filhos do demônio). Em seu livro Das unselige Erbe des
abominar todos os prazeres da carne, a só falar com alguma mulher Christentums: Die Wechselbalge - Zur Geschichte der Heilpiida-
sob coerção, mostrando-se forte em sua castidade perfeita." Dessa gogik ( "A herança profana do cristianismo: as crianças trocadas
forma, conforme vêem Institoris e Sprenger, Tomás teve a boa sort ao nascer - Sobre a história da pedagogia terapêutica", 1985),
256 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 257

Walter Bachmann descreve os efeitos da teoria das relações diabó- do _querer fazer com que surdos e mudos falassem" (Georgens e
licas sobre as crianças deficientes até o século XX. O martelo das Demhardt em vol. Ide seu Heilpéidagogik mit besonderer Berück-
feiticeiras, em 1487, fala dessas crianças "trocadas": "Outra coisa sichtigung der Idiotie un1 der Idiotenanstalten, Leipzig, 1861, cf.
terrível que Deus permite acontecer aos homens é o roubo de seus Bachmann, pp. 230-31). E verdade que um ministro protestànte em
filhos, que são tomados de suas mulheres, enquanto estranhas Hamburgo, Dietfried Gewalt, que tomava conta de pessoas com
crianças são colocadas em seu lugar pelos demônios. Essas crianças deficiência auditiva, alude ao fato de que não foi o pastor Goeze e
são geralmente conhecidas como campsores, em alemão Wechsel- sim o Pastor Granau de Eppendorf perto de Hamburgo que fez esse
kinder (crianças trocadas) ( ... ) Algumas estão sempre doentes e julgamento negativo sobre os surdos-mudos (Samuel Heinicke e
choram muito" (II q. 2 c. 8). Lutero recomendava que essas crianças Johan Melchior Goeze, em Horgeschéidigtenpéidagogik, 1989, vol.
fossem afogadas, já que "não passam de um pedaço de carne" e 1, 48 ss.) Mas nada há a contestar contra o fato de que os surdos-
"não há alma nelas" (Bachmann, pp. 183, 191, 195). mudos tinham de sofrer por causa de uma teologia agostiniana,
O primeiro alemão a tomar uma posição contra a histeria da
sombria e sem piedade. Assim ainda encontramos na Brockhaus
bruxaria e o tratamento desumano das crianças deficientes e com
Encyclopedia (edição do jubileu, 1903, vol. 15, 635): "Inclusive a
doença mental foi o médico calvinista Johann Weyer (m. 1588).
Igreja não tomou o partido deles (dos surdos-mudos), desde que
Seu livro Von den Blendwerken der Damonen, von Zauberei und
Santo Agostinho firmou o princípio: as pessoas que nascem surdas
Hexerei (Sobre os delírios dos demônios, sobre a magia e a bruxa-
mudas não podem receber a fé, porque a fé procede da audição,
ria, 1563) foi logo colocado no Índice dos Livros Proibidos. Weyer
do que se ouve" (Bachmann, pp. 291 ss).
era o médico pessoal do Duque Johann Wilhelm de Jülich e Cleve.
O abade francês de l 'Épée (m. 1789) é considerado o "redentor
Acabou acusado de ter causado a melancolia do duque por bruxaria
dos surdos-mudos". Dele escrevem Georgens e Deinhardt: "O
e teve de fugir de Düsseldorf. Sua voz passou despercebida.
No Naturwissenschaftliche Untersuchung über die unterges- abade, homem devoto, piedoso, com idéias próprias - indepen-
chobenen Kinder (Investigação científica das crianças substituídas) dência que demonstrou mais de uma vez - motivado e tocado, em
de M. G. Voigt (Wittenberg, 1667), lemos: "As crianças substituí- primeiro lugar, por sua familiaridade com duas irmãs surdas-mu-
das não têm alma racional" e "as crianças substituídas não são das, pessoas de boas maneiras e educadas, que um clérigo tentara
humanas" (Bachmann, pp. 38, 45). ( penas tentara) ensinar com o auxílio de gravuras, decidiu ajudar
Um capítulo triste dessa história diz respeito as surdos-mudos, t da a raça desses infelizes." "Quando deu início a seus esforços,
embora não fossem incluídos entre as substituídas. Todo um grup barrou com a resistência mais violenta, com o escárnio e a
de teólogos sustentava que os surdos-mudos estavam excluídos du rseguição, mas, persistente, prosseguiu em seu caminho, e, só
fé, e que na realidade estavam condenados ao inferno. Para prova,· s últimos anos de sua vida, conquistou o reconhecimento geral e
essa tese, invocavam Agostinho, que dissera: "Essa deficiênci11 dmiração, e - isso teve para ele mais significado do que a fama
(surdez congênita) também é obstáculo (impedit) à própria f , soube que o destino de suas crianças, os surdos-mudos do
conforme atesta o apóstolo com as palavras: 'A fé procede do natituto, estava assegurado" (Bachmann, p. 233).
audição' (Rm 10, 17 Contra Julianum 3, 4). Assim, o destino doM Bachmann oferece um resumo mais doloroso: "No curso da
surdos-mudos era sombrio, porque "curá-los era não só considero tória humana, os deficientes dificilmente poderiam ter experi-
do impossível, como uma suposta invasão da autoridade divina. N ntado mais preconceitos, ou mais desprezo, mais intolerância e
século XVIII, o pastor Goeze, em Hamburgo, imortalizado po1 is desumanidade do que experimentaram no mundo cristão"
Lessing, trovejava nos sermões( ... ) contra a arrogância irreligios , /bld., p. 442).
258 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 259

XX procu_stiana de valores com os filhos em cima, o prazer e o desejo


embaixo, e a prevenção da fornicação no meio, está fora da reali-
dade e é desconcertante e absolutamente ridícula. De qualquer
forma, nos setecentos anos que se seguiram desde o tempo de
O CoNcí11onE TRENTO Eo PAPA SrsTo Tomás concluiu-se enfim que os coitos (conjugais) dos tipos 3 e 4,
oMoMENToso bem como os do tipo 1 e 2, estavam isentos de pecado. No entanto,
a propósito do tipo 4, de longe o mais controvertido, cumpre
ressaltar que, segundo uma decisão do Papa Inocêncio XI, em 1679,
"o coito apenas pelo desejo" não pode ser considerado sem pecado.
O monge holandês cartusiano Dionísio de Roermond (m. 1471)
Nos setecentos anos que se seguiram à morte de Tomás de escreveu um livro em latim para os seus "queridíssimos" amigos
Aquino, que é muitas vezes considerado o apogeu da teologia educados e casados sobre A vida virtuosa das pessoas casadas.
católica, em sua implacável guerra de prós e contras, os teólogos Nele, levanta a questão, entre outras, sobre se as pessoas casadas
na realidade só resolveram dois problemas conjugais - embora os podem amar "com desejo sensual". Pensa ser isso permissível, mas
casados só pudessem menear a cabeça frustrados ante suas desco- como medida de precaução insiste no fato de que Santa Brígida da
bertas. Agostinho decidira que o sexo para gerar prole é sem pecado, Suécia (m. 1373) fala em suas visões sobre um homem que foi
dizendo o mesmo do sexo por obrigação, a pedido do outro cônjuge. condenado por amar a esposa muito sensualmente. Assim, Dionísio
Por volta de 1300 a idéia de que o coito para evitar a própria era da opinião que os homens casados com mulheres bonitas e as
fornicação não era pecado, embora tivesse algum respaldo, foi mulheres casadas com maridos atraentes deveriam tomar cuidado
contestada por Tomás, que nesse particular seguiu Agostinho. Tais (John T. Noonan, Contracepção, p. 305).
relações sexuais eram classificadas por Tomás (e Agostinho) de Nos séculos XV e XVI encontramos três teólogos que, sem se
pecados veniais. O quarto motivo para o sexo, o desejo sexual, era impressionarem com as terríveis visões de Santa Brígida, chegaram
em geral visto, por volta de 1300, pelo menos como pecado venial, posição mantida pela Igreja do século XX. Não foram, entretanto,
e sob certas circunstâncias como pecado mortal. Heinrich Klomps, lém dela, porque embora isentassem de crime coito como meio
teólogo moralista de Colônia, resume toda a situação: "O resultado para evitar a fornicação e sentir prazer, acreditavam que a contra-
concreto na teologia moral dessas reflexões existenciais subjetivas epção através do coito interrompido e as medicações era pecado
é a teoria da desculpa e a teoria da indulgência. A primeira afirma mortal.
que os casais cristãos estão completamente desculpados se seu O primeiro dos três é Martin Le Maistre (m. 1481), famoso
empenho ético voltar-se ( ... ) para a procriação ( ... ) ou para o rofessor em seu tempo, e que em 1464 foi o Magnífico Reitor da
desempenho do débito conjugal, caso em que o bem da prole e da Universidade de Paris. Le Maistre abandonou o modelo agostiniano
fidelidade supera os efeitos negativos da concupiscência e do prazer e quatro categorias de prazer, do mínimo ao máximo. Tentou
sexual. A teoria da indulgência permite que os bens do matrimônio livrar-se das distinções agostinianas nos motivos para o ato conju-
intervenham e atenuem a culpa, se o sexo for motivado pelo desejo 1e procurou dar-lhe legitimação sem limites. Alegou que a noção
de prevenir a fornicação da parte do próprio cônjuge que o solicita que o coito por prazer como possível pecado mortal era "muito
ou pela vontade de satisfazer o desejo sexual" (Klomps, Ehemoral ais perigosa ~ara a moralidade humana" do que seu próprio ponto
und Jansenismus, p. 209). vista. Aqm apelava à razão: "Pergunto em quantos perigos
O grande absurdo de vincular-se o amor conjugal a uma escala nvolvem eles a consciência de cônjuges por demais escrupulosos,
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 261
260

já que muitos, ao descobrirem que a esposa ficou grávida imedia- duração a garantia da correção. Mas por mais que os séculos
tamente após a união sexual, se vêem expost.?s, po~ ~ausa ~esses passem, um erro não se transforma em verdade.
teólogos, ao perigo do pecado mortal, caso exiJa_o debito c_onJ~g~; O motivo que Le Maistre imputa aos casais para evitarem a
a menos que tenha certeza de só o fazer para evitar a formcaçao. concep_ção é exatamente o mesmo e o primeiro citado de novo pelo
A essa opinião opunha a sua própria até então inédita: "Digo que Papa Pio XI em sua encíclica Casti connubii (1930). Le Maistre só
qualquer pessoa pode ter o desejo de desfrutar do prazer, em aponta um motivo para a contracepção: "é praticada, diz ele, pelos
primeiro lugar pela simples alegria ~esse prazer, e em ~egundo, para que levam vida promíscua( ... ) para desfrutarem mais do ato se-
escapar ao taedium vitae e ao sofnmento da depres_sao que sob~e- xaal." A Casti connubi (literalmente: "Casamento casto") diz:
vém pela carência de alegrias sensuais. O ato conJugal, que vi~a "Algumas pessoas reivindicam essa liberdade criminosa por aver-
iluminar o humor sombrio decorrente da falta de prazer sexual, nao são à bem-aventurança dos filhos, querendo evitar o fardo mas
desfrutar das alegrias."
tem nada de errado."
Quanto às duas autoridades que sempre lhe eram lembradas, A encíclica então faz menção de uma segunda categoria de
Agostinho e Aristóteles, dizia que o primeiro só fora contra o sexo casais que praticam a contracepção reivindicando a liberdade cri-
"desenfreado" e "antinatural". Tomás de Aquino constantemente mi~osa - pode-se aí ver o progresso na reflexão teológica nos
invocava a idéia aristotélica de que a inteligência sofria dano pela. gumhentos anos desde Le Maistre-, "outros, porque supostamen-
intimidades conjugais, as quais assim tinham de ser compensadas te não podem observar qualquer espécie de continência". Noutras
pelos "bens que perdoam o casamento", mas Le Maistre P:ocurn palavras, além dos que buscam o prazer, há agora os que se recusam
atenuar essa posição: mesmo que fosse verdade - o que nao 1~ prescindir dele. Antes de prosseguir como Le Maistre e falar de
parece de forma alguma evidente - essa ~rivação da r~zão se:HI Onã, o bicho-papão que "Deus matou", a Casti connubii corrige
imediatamente compensada pelos bons efeitos das relaçoes conJU• qualquer possível mal-entendido diretamente: "Mas por mais grave
gais. E, além disso, Aristotéles permitia o uso do prazer quando este que possa ser, não há razão alguma que possa transformar algo
atendia ao "bem-estar e à saúde do corpo e da alma". Intrinsecamente antinatural em alguma coisa conforme a natureza
Esse pensador crítico inclusive se perguntava de que modo <1 moralmente bom. E como o ato conjugal é destinado pela natureza
coitus interruptus podia ser antinatural, "se a coisa em si não de~~ertar uma nova vida... " etc. etc. Os celibatários e os monges
contra a natureza, nem o órgão, e tampouco a cópula". Mas oo mitlram de uma vez por todas o coito exclusivamente para a
responder a questão, reincide na trajetória pres~rita pela Igreja. Di~ produção e portanto a procriação não pode, em nenhuma circuns-
que o sêmen não é ejaculado "no órgão proJetado pela naturei11 cia, ser desvinculada dele (sobre Le Maistre, cf. Noonan, 306
para recebê-lo" e "que é um grave pecado contra a ~atureza". Bill ; 357ss; 367).
defesa deste argumento cita a história de Onã do Antigo Testam li Le Maistre estava à frente de seu tempo. Seus pontos de vista
to. E segundo sua maneira de ver, o coito inte~ompido ~ º, ~so d1 1berais tiveram prosseguimento na Universidade de Paris com o
medicamentos contraceptivos caem na categoria do hoID1c1d10. cocês John Mayor (m. 1550). Seu discípulo, o futuro reformista
Le Maistre também nunca tentou impingir suas colocaç 1- ocês John Knox, dizia ser ele "considerado um oráculo em matéria
racionais às falsas respostas tradicionais. Mostra o dilema qu ll religião". Criticava o cardeal Hugúcio (m. 1210), canonista da
papas e teólogos católicos enfrentam há quinhento~ anos d~sd N111 ·olástica primitiva, que aceitava a famosa sentença do rescrito do
tempo e sobretudo quando se apegam à suposta antmaturahdad d11 li~~ Gregó!1o M~gno: "Nunca pode haver prazer sexual sem peca-
contracepção por nenhum outro motivo além daquele ao qual Ili ,. E por isso via todo ato sexual como pecaminoso: "Vede como
teólogos sempre aderiram e que a seus olhos tem em sua 1011~11 homem, tão sensato sob outros aspectos, está pronto para lançar
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 263
262

uma corda em tomo do pescoço de qualquer um, só por causa de 156~ para uso ,d~s pastores, que te~e e ainda tem grande prestígio,
umas poucas palavras. Se nenhuma outra idéia me ocorresse ex~e!o contem uma umca ordem executiva sobre o ato conjugal: "Os
aquela, preferiria ignorar dez autoridade~ da ,e~tatura de G~egono crentes devem aprender sobretudo duas coisas: 1) não manter
a fazer tais assertivas. Eu diria: Sem dúvida, e isso o que afirmam, Felações por prazer ou desejos sensuais, mas só dentro dos limites
mas nada provam. E quando alguma coisa contradiz a probabil~da- prescritos pelo Senhor. Pois é conveniente lembrar o aviso do
de, faz-se necessário um teste audacioso. O que quer que se diga, apóstolo: 'Que os que têm esposa vivam como se não tivessem
é bastante difícil provar que o marido peca quando procura a esposa nenhuma', e além disso lembrar o que disse São Jerônimo: 'O
pelo prazer" (ln IV Sent. d. 31 q. un. concl. 7). , hom~m sábio ~eve amar a es~osa com a razão, não com paixão, que
Mesmo o já mencionado elefante casto, que _alguns t~ologos domme os estimulos do deseJo e que não se permita ser tumultuo-
propõem como modelo para as pessoas casadas, nao causa impres- samente arrastado pela coabitação. Nada é mais vergonhoso do que
são a Mayor: "Quando se faz referência ao fato de 9-ue .º e~efant~, amar a esposa como se ela fosse uma adúltera' e 2) refrear-se do
por exemplo, evita a fêmea gr~vida ou que ou:ros ammais n~o mais ato s~xual de vez em quando e rezar." (Cumpre notar que o
se acasalam depois de ocomda a fecun~a~ao, e qu: por i~so ~s Catecismo Romano também tem outras coisas a dizer não sobre o
esposas não têm mais permissão para ~~hcitar relaço~s conJugais s~xo conjugal, mas sobre o casamento como um todo; ~or exemplo,
durante a gravidez ou durante a estenhd~de da ~elhice, c~mpre cita a passagem de Efésios: "Maridos, amai vossas esposas" [Ca-
responder: tal inferência não é válida. P01s as div~rsas cnaturas tecismo 2, 8, 16]).
também têm diversas capacidades( ... ) se a sensaçao de prazer é qu~m encontrar dificuldade no primeiro ponto, isto é, que lhe
forte ou fraca não tem qualquer significado" (ln IV Sent., d. 31 un . é proibido manter relações motivado pelo desejo, pode adotar o
fol. 204). . egundo ponto, que diz que também pode abster-se do sexo, "acima
O discípulo de Mayor, Jacques Almam (m. 1515), que foi de tu~o pelo menos durante três dias antes de receber a Sagrada
chamado de "o mais agudo pensador" (disputator acutissimus) da Bucar1st1a, mas com mais freqüência durante o período de jejum
Universidade de Paris e morreu quando tinha só 35 anos, defendiu olene da quaresma, conforme nossos Padres determinaram, santa
posições como as de Le Maistre e Mayor. "Dizer que todo_s ?s qU,, corretamente." Uma vez esclarecidos esses dois pontos - ne-
procuram o coito para obter prazer com~t~m peca~o ~arece mJusto nhum outro~ mencionado sob essa rubrica: "O que se deve ensinar
(Noonan, p. 311). "Desejar não ter paixao 1mphcaria em adorrn o~r~ as ob~igações conjugais" - os que seguirem o programa de
cimento, estupefação" (Klomps, p. 57). 01s itens têm a promessa de um aumento em graça divina, e por
m "receberão a vida eterna pela bondade de Deus" (2, 8, 33). A
Depois dos pronunciamentos desses três teólogo_s, ~ voz. da raz o Visão de S~ta Brí~ida do homem que foi condenado por amar a
emudece durante séculos. E quando se faz ouvir, e rapidamenl posa mmto pass10nalmente adquire implicações estranhas no
silenciada. Nada ouviremos semelhante a isso entre os reforrni st11 atecismo Romano, especialmente por insistir em incluir Tobias o
do século XVI, menos ainda entre os jansenistas do século XVII , pectro do leito nupcial. O Catecismo não hesita em levanta; o
nem de Tomás Sánchez (m. 1610), um dos "jesuítas laxistuN" ma de Tobias na nova versão dada por Jerônimo, segundo o qual
combatidos pelos jansenistas, nem de Afonso de Ligório, q111 sete predecessores de Tobias não sobreviveram à noite de
dominou a ética católica nos séculos XVIII e XIX. pcias com Sara, "porque eram escravos do desejo" (2, 8, 13).
Depois do Concílio de Trento, a espéc~e de ~b~rtura ~u , Vale lembrar qu~ o Catecismo Romano carece da ênfase agos-
encontra em Le Maistre, Mayor e Almam nao mais e possivel. ( 1 mana sobre a procnação entre os motivos para o sexo no casamen-
Catecismo Romano, publicado por ordem do Concílio de Trento li • Mais importante do que constantemente pensar em filhos
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 265
264

durante o sexo é constantemente não pensar em prazer. Isso, sem


dúvida, preserva o programa essencial de Agostinho porque ele não
~;:t:;:~:~:l~ ~~r!i~~!~)é~:~:i:~r:/~~i:r~ndde a contracepção
11

era unia pessoa que gostasse de crianças, antes odiava o prazer. Seu da confissão e da penitência. Sisto V enC n e parte ao campo
a excomunhão e a pena de morte ao p:ssou a_ameaçarcom
opositor, Juliano de Eclano, chama-o de "perseguidor dos recém- t: . os que 1orneciam e os que
nascidos", em virtude de sua condenação das crianças não batiza- aziam uso _das poções contraceptivas ("remédios maldit ")
das. Para Agostinho é mais importante que as pessoas vivam
virginalmente do que gerarem prole. A seção 8 do Catecismo ~1~:::~:. ~~~:!º.:': ::i:~~:s~e•::;: :e;;a:,::;~=;~i
Romano, "Sobre o Sacramento do Matrimônio", começa dizendo
que seria na realidade desejável que, todos os cristãos não se
casassem, "que todos desejassem empenhar-se pela virtude da :!::!;;:::::::::~~:~~:~i!:!~~:::: :0:'::,~0
1591gada _por seu segundo sucessor, o Papa Gregório XIV em

continência, pois os crentes não encontram nada mais abençoado


nesta vida do que o espírito, sem serem distraídos pelas preocupa- os p~;:~::s:;~::t~ meta reformai:_ a Igreja e sobretudo erradicar
ções mundanas e depois de acalmarem e subjugarem todos os uma Ih . ~ea_çava os adulteros com a forca, e executou
prazeres da carne firmarem-se unicamente no zelo da santidade e mu er por prostitu1r a própria filha. Em sua História
na contemplação das coisas celestiais".
A despeito dessa harmonia com Agostinho, o Catecismo Ro-
mano apresenta um afastamento, bastante atrasado, dos motivos
Papas, Ludwig von Pastor ressalta: "Não h,
V foi long~ ?emais." Isso porém não inval~d:o:::;:
menta positivo desse papa· "Os h" t . d
::â: ~os
qu~ Sisto
seuJulga-
agostinianos para o sexo, e aponta em direção ao século XX: A t ndências concordam que· Sisto ~s t:tu:eJ das ~ais diversas
procriação não precisa mais ser o motivo para todos os atos sexuais adpaRs, entre os ~ais eminentes que deram orige~\;;~sdf~!~~=s
no casamento, mas não pode ser excluída. O Catecismo Romano a estauraçao Católica ( ··· ) A postendade
· .
mjustamente ( ) nãoª
iguala a contracepção ao homicídio: "Quem na vida conjugal evita u a esse papa o nome de Grande ou Magno" (X, 6-7). ...
a concepção através de medicamentos ou aborta o fruto do ventr Pastor ~escreve o caso da caftina enforcada: "Foi acolhida
comete crime dos mais graves, pois tais atos equivalem a uma saprovaçao geral a execução no início de junho de 1586 d por
conspiração perversa para cometer homicídio" (2, 8, 13). mana que vendera a honra da filha. O julgamento foi aind: u~a
Depois do Concílio de Trento, um processo de rigoroso regu vero nesse caso pelo fato de que a filha d . , . mais
lamento da vida religiosa começou a ganhar ímpeto. Isso é demonH ante, teve de assistir à execu - ' usan o as Joias do
trado por um segundo decreto de Roma ainda mais rigoroso qu 11 bo cadafal d çao e permanecer durante uma hora
. s~, on e estava pendurado na forca o cadáver da mãe
Catecismo Romano, embora só ficasse em vigor por breve período Uma ava1iaçao contemporân . ·
Esse decreto extinguia uma norma que vigorara até então e q111 IR6dio sabe . ea em que se visava a apologia do
depois tornou a vigorar até o século XIX, a saber, o aborto de f li 1 lizada ~m Ro1:s que a cafü?agem tornara-se de tal forma gene-
a que as menmas estavam menos prote ida .
masculino até quarenta dias depois da fecundação e o de fl (11 mães do que junto a estranhos" (ibid 70) "N g s Ju1:to
feminino até oitenta dias depois da concepção não acarretav llll to V levou à fogueira um padre e u~ m; . o mesmo mes,
penalidade. Na prática isso significava- já que não havia for11 11 domia, embora ambos tenh . mno por causa de
para se determinar o sexo fetal - que o aborto estava isento d lr,u" (ibid. 71) "A d am volu~tan_~ente confessado a
castigo durante os primeiros oitenta dias de gestação.
A regra foi então extinta pelo fanático Papa·Sisto V qu 1 111
nccsto e ~os ~rim!e:int;a~º~!~::~n:;f;iª;!~ :~;i~
de propagação oral e escrita de calúnias,, (ibid., 69) . Ja~~
casos
nos
1588, na bula Effraenatam, tentou converter o cânon si aliqut,,, Ili vimos
266 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
267

no capítulo sobre o incesto a abrangência da interpretação da Igreja para gerar prole (potentia generandi) e declarou-os inaptos para o íl' !
a esse crime (pp. 215 ss). casamento. Nesse particular, seguia a conseqüência lógica do fato
"Em agosto de 1586, a execução de urna nobre romana por ~e qu~, se~ndo Ago~tinho e Tomás de Aquino, a procriação. é o
adultério junto com dois de seus cúmplices foi largamente deplo- fim pnrnerro e essencial do casamento. Sisto V tolerava a esterili-
rada. Sisto V tanto não se deixou perturbar por isso que ordenou ao dade_~uando e~arn desconhecidas suas razões, mas declarava que a
Cardeal Santori redigir urna bula ameaçando com a pena de morte estenhdade cuJa causa era conhecida (falta dos testículos) consti-
os casos de adultério. Seus conselheiros tentaram dissuadi-lo dessa tuía impotência e tomava a pessoa inapta para o casamento. Evi-
idéia, afirmando que os reformistas iriam explorar tal d~~rnento dentemente, era fácil constatar a presença dos testículos.
em interesse próprio, corno prova da moral corrupta da Cuna, mas Mais difíceis de verificar eram as causas de esterilidade em
tentaram em vão. A bula foi publicada a 3 de novembro de 1586, mulheres. Algumas mulheres bíblicas inclusive tiveram filhos em
determinando que homens e mulheres adúlteros, assim corno os idade a~ançada. De qualquer forma, essa incerteza deu origem a
pais que exercessem o lenocfuio co~ as filhas, s~ri_a1!1 ~onden~d~s uma legislação confusa e peculiar. Em diversas decisões de Roma
à morte. Os casais que se divorciassem por miciativa propna (de 3 de_fevereiro de 1887; 3 de julho de 1890; 31 de julho de 1895;
receberiam punição semelhante a critério dos juízes. ( ... ) O número 2 de abnl de 1909 e de 10 de dezembro de 1916), a Igreja determi-
de acusados foi tão grande que a ordem não pôde ser rigorosamente nava que as mulheres não podiam ter negado o casamento, embora
cumprida" (ibid., pp 71-72). . .. apresentassem urna ~usência completa dos órgãos internos repro-
Em 1587, esse papa temível publicou urna norma que sig?ifi- dutores (p. ex., depois de remoção cirúrgica). No caso dessa mulier
cava a tragédia para muitas das pessoas envolvidas: O horne~ tm~a excisa (mulher cortada) a razão dessa decisão estava em que
de ter sêmen verdadeiro (ou seja, dos testículos), caso contrano nao permanecia a dúvida de a "operação realizada ter de fato excluído
poderia casar. Essa ordem só foi revogada em 1977. A 28 de ju_nho qualquer possibilidade de concepção" (Cf. Klaus Lüdicke Fami-
de 1587, Sisto escreveu ao núncio apostólico da Espanha e bispo lienplanung und Ehewille, 1983, p. 175). Por outro lado, u~ regu-
de Novara sobre a aptidão ao casamento daqueles a que~ faltavam lamento de 3 de fevereiro de 1916 declarava o casamento
os dois testículos, mas que conseguiam ter ereção e que eJaculavam lnv_alidad~ por_causa da "impotência" da mulher, já que não havia
um sêmen fluido que, entretanto, "não era satisfatório para a tecido de h~aça~ entre a vagina e os órgãos pós-vaginais (Lüdicke,
procriação e o casamento". Não conseguiam secretar "sêmen p. 83). Aqm, evidentemente, a esterilidade era considerada incon-
verdadeiro" (verum semen). Segundo esse papa, esses eunucos ou t st~ e manifesta. Mas, em geral, as normas para as mulheres
spadones entretanto se uniam com mulheres "em as~uerosa lasc~- rattca~ente só e~i~iam delas a aptidão para o coito (potentia
via" e "em contatos impuros", chegando à arrogância de contrair oeundL), ao contrario do caso dos homens. Considerando que até
o matrimônio, e até de lutar "obstinadamente" por esse direito. O 1977 a Igreja exigia mais dos homens do que das mulheres, per-
fato de as mulheres saberem do "defeito" desses homens transfo u~ta-se se e~se não seria um efeito secundário da biologia aristo-
rnava esses casos numa ofensa ainda pior aos olhos do papa. hca, d~ noçao de que só o homem é responsável pela procriação.
Sisto ordenou ao núncio que cuidasse para que esses rnarid0H Assim, para os homens a aptidão para o sexo não bastava
fossem separados das esposas e para que os casamento~ fosseni lnham também de ser capazes de produzir "sêmen verdadeiro". :É
anulados. Julgava intolerável que essas pessoas dormissem 1111 rdade que em resposta à questão de Aquisgrana - se o homem
mesma carna com mulheres, em vez de v'i:verern na castidade c Ili terilizado à força por vasectomia irreversível tinha permissão
elas dando-se à "prática de atos carnais e libidinosos". Proibiu, a casar - o Santo Ofício decidiu em 16 de fevereiro de 1935
p9~nto, o casamento dos homens que não tivessem capacidadt la não proibição do casamento, já que o caso dizia respeito a uma
268 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 269
1

medida injusta e coerciva por parte do Estado. Mas~~ 22 de j~neiro As pessoas que por demais se afastaram da realidade da sexua- 1 ,1

de 1944 a Rota Romana repudiou de modo explícito esse Julga- lidade humana - como os celibatários que ocupam os altos postos
mento i~vocando um discurso do Papa Pio XII a 3 de outubro de da Igreja Católica - , as pessoas que esculpem em bronze a
1941. () homem de Aquisgrana, submetido à esterilização forçada finalidade reprodutora do casamento por suspeitarem do prazer, só
por Hitler, não atendia às exigências feitas por Sisto V em 1587. ~a sabem criar falsos problemas que depois, comprovadamente, são
mesma forma que os eunucos libidinosos do século XVI, ele nao difíceis de tratar. Mesmo que a maioria dos senhores romanos se
podia produzir verum semen. . _ . console com a idéia de que as coisas sempre foram decididas como
Desde 1977 entretanto, o homem de Aqmsgrana nao mais em 1977, ainda há os que ao primeiro sinal de progresso em direção
precisava agir a~sim. O decreto sobre a impotência; d_a Sagrada à racionalidade de repente acham o mundo ininteligível.
Congregação da Fé, que visa a pôr fim à longa controversia: começa Não obstante as lamentações de Pio Fedele, podemos ver nas
com as seguintes palavras: "A Sagrada Congregação ~a Fe sempre reportagens de quase todos os jornais alemães de 3 de dezembro de
manteve a posição de que os submetidos à .:'asec:o~ua ou. que se 1982 a grande alienação do decreto sobre a impotência, de 1977, a
encontram em circunstâncias semelhantes nao estão ~myed1dos ~e respeito da vida real dos homens e mulheres concretamente envol-
casar." À afirmação de que sempre foi essa sua pos1çao, a Ig~eJa vidos nestas questões. O Westdeutsche Allgemeine Zeitung descre-
Católica revela uma nota que lhe é peculiar, mesmo quand~ isso ve1,1 o caso da seguinte maneira: "Dois jovens, deficientes físicos,
significa passar por cima da verdade histórica, já que com efe~t~ as não tiveram permissão para casar numa igreja católica, em Muni-
coisas nem sempre foram assim. Basta olhar para o ~ovo Cod1go que. Segundo o casal, o pároco recusou-se a casar o homem de 25
do Direito Canônico (1983, cân. 1084), que não só simplesmente anos, que sofre de atrofia muscular, com sua namorada quase cega,
segue O que determinava o código anterior (1917, cân. 1068) - em um atestado de potência. O casal - a noiva, que tem a mesma
segundo o qual a impotência torna o casamento _nul~ -:- con_io_o dade do noivo, é protestante- contraiu o matrimônio numa igreja
limita, acrescentando a palavrinha coeundi, ou seJa, so ~ map~1dao rotestante. Segundo as leis conjugais católicas, considera-se a
para o coito, e não a de ter uma ejaculação normal, mvahda o naptidão sexual um impedimento legal ao casamento, do qual a
casamento. Igreja não admite exceções, conforme explicaram os assessores da
Houve progresso nesse ponto, conforme pod~mos_ de~reend~r õria do arcebipo em Munique na quinta-feira.'' A 9 de dezembro
das palavras de consternação do famoso cano~1~ta 1tahano P1? 1982, sob a manchete "União da Juventude em Munique contra
Fedele, que escreveu, em 1976, que no futuro o semen verdadei- 'Teste do Pênis"', o mesmo jornal informava que: "A Associação
ro" não mais seria exigido dos homens: "Assim, mal valeu a pena s jovens de Munique vê a recusa de um padre católico em casar
nos incomodar tanto, suportar a fome e noites de insônia, ~e a m casal com deficiência física numa cerimônia eclesiástica 'como
viagem pelo mar sem fim e perigoso, em meio a tan_tos recifes, nsgressão do mandamento de humanidade e uma violação da
estava destinada a terminar com as conclusões a que mesperada• gnidade humana'. Conforme relatado, a razão citada pelo padre
mente chegaram quase todos os membros da comissão" [prestes n a tal atitude foi a 'incapacidade de procriação' do marido. Numa
publicar o decreto sobre a impotência]. Fedele entã~ lame~ta o fat rta aberta à Cúria do arcebispo, a Associação dos Jovens rotula
de que essa decisão significava abandonar o Concího ':7at1can~ II 'teste do pênis' como o cúmulo da atitude 'reacionária e não
a encíclica Humanae vitae. Prossegue: "Onde com efeito ouv1m lista' da Igreja Católica perante as questões da sexualidade."
nessas conclusões ... o eco da noção de que o casamento e o am 1 Vamos supor que não fossem as autoridades da Igreja e sim o
conjugal são orientados, por natureza, para a procriação, para genw v m casal que estivesse enganado em fundamentar a recusa do
prole?" (citado em Lüdicke, pp. 247 ss). oco na incapacidade procriadora. A Cúria do arcebispo teria
270 Uta Ranke-Heinemann Eun.lcos pelo Reino de Deus
271

sabido que agora só a inaptidão para o coi~o é um ~mpe~imento ao 1798 as mulheres reapareceram pela primeira vez nos palcos de
casamento. Contudo, para alguns paraplégicos - mclusive o cas~l Roma.
em questão - a lei matrimonial católica é tão intolerável hoJe . E~ 1936, ~ jesuíta Peter Browe acusou os papas de serem "os
quanto sempre foi. A mudança ocorrida em 1977 não favoreceu o pnmeiros, no fmal do século XVI, a introduzirem os castrati em
homem que, por incapacidade de ereção, não ~ode fazer sexo, suas capel~s ou de lá tolerarem sua presença, quando ainda eram
embora sob certas circunstâncias certamente sena capaz de pro- desconhe~1~os nos teatros e noutras igrejas italianas". Depois de
criar. A Igreja dita a forma precisa do ato conjugal par~ todos ,e o terem pro1b1do a entrada de cantoras e de atrizes nos palcos dos
faz de forma a rebaixar um paraplégico e sua companheira ao mvel Estados pontifícios, "perderam por completo o contato com a vida
de recém-nascidos, pois segundo a moralidade sexual católica, as se não aprenderam que os castrati tomaram o lugar e o papel da;
intimidades só são permitidas no casamento e só no contexto do mulheres". Portanto, a "defesa dos papas" é incorreta (Zur Ges-
coito padronizado concedido pela Igreja. Essa espécie de interfe- chichte der Entmannung, 1936, p. 102).
rência nos direitos de todos de casar é intolerável e mostra uma vez Em 17~8, o Papa ~ento XIV disse um não decisivo à pergunta
mais que os celibatários que dirigem a Igreja deveriam_ ser mais que_ s_e fazia: se os bispos nos sínodos deveriam emitir decreto
bem aconselhados para não se embrulharem em questoes dessa pro1b_mdo os_cor?s d~ castrati. O papa insistiu que sem eles havia
natureza. o pe1_1go das 1gre3as ficarem vazias. "A convicção do papa, que era
A decisão de Sisto V, em 1587, proibindo o casamento de domrnada (... ) pelo medo de igrejas vazias, naturalmente estimulou
castrati causou muitas tragédias pessoais para as pessoas envolvi- cant~ por ~astrati. Desacelerou o processo da supressão da
das. Do século XII em diante, o costume de castrados como coristas astraçao, e foi um dos motivos por que nenhum sínodo diocesano
na Igreja Grega tornou-se prática generalizada. Na Igreja Ocidental, u provincial nos séculos XVIII e XIX publicou ordem contrária a
os castrati surgiram pela primeira vez provavelmente na Espanha le. As idéias de Bento promoveram a castração e impediram-lhe a
do século XVI (foram o ensejo para o decreto fatal de Sisto). Mas bolição" (ibid. , pp. 115ss).
outros países seguiram o exemplo da Espanha. O castrado espanhol O jesuíta si~iliano Tambu~i (m. 1675) foi um defensor parti-
Francesco Soto foi aceito no coro da Capela Sistina em 1562. O ular da castraçao porque assim "o elogio de Deus [é] mais doce
primeiro castrado italiano que cantou na Capela Sistina (começan• s. o~vidos na~ igrejas". Afonso de Ligório admite que- a idéia de
do em 1579) foi Girolarno Rossini (m. 1644). A presença doN ro1bir tal ~~ttlação para manter os sopranos é "mais provável"
castrati na cap~la da corte dos Gonzagas em Mântua é confirmado ~ue a oprn1ão contrária de Tamburini e de muitos outros teólogos
já em 1563. O próprio Sisto V promoveu o crescimento da práticu d1cAad~s por ele. Mas ressalta que os teólogos podem recorrer à
de castração, quando proibiu, pela primeira vez, a entrada d 1 rancia _demonstrada pela Igreja perante esse costume (Theolo-
mulheres nos palcos dos teatros públicos e nos tea~ros d~ óper~ d la moralls IV n. 374). O último castrado a cantar na Basílica de
Roma e dos Estados Pontifícios. (As mulheres haviam sido proibi o Pedro morreu em 1924.
das de cantar na igreja antes mesmo do século IV.) A expulsão du Esses castrati muitas vezes levavam a vida muito festejada dos
cantoras e das atrizes pelo papa foi logo imitada por outros EstadoN tr~s e dos íd?l?s populares. Eram rodeados de mulheres, mas a
dentro e fora da Itália. O Papa Inocêncio XI reiterou a proibiçl o, , ~a lhes proibia casar. Bartolomeo de Sor]isi, que se casou em
que vigorou durante todo o século XVII e o XVIII. Goethe ouviu 110 (1667) com Dorotea Lichtwer, lutou a vida inteira para ficar
castrati em Roma e achava bom o costume, mas a Revoluç 11 nt à esposa e morreu muito abatido ao fracassar. O castrado
Francesa pôs fim à mordaça que Sisto V colocara nas mulheres. H111 llppo Finazzi teve melhor sorte. Ele apaixonou-se por uma pro-
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
272 273

tes tan te, Gertrude Steinmetz de Hamburgo,


. ~ .
que não se sentia presa
b XXI
a qualquer lei eclesiástica do matnmomo e provou ser oa esposa.
Sisto V elevou o sêmen à categoria de princípio e fim da vida
conjugal, como se esse fosse uma espécie de dispensa~or ~o sacra-
mento. Quem não foss_e capaz de mostr~ q~e possma _se~en de LUTERO E SUA INFLUÊNCIA SOBRE A
acordo com as especificações do papa, nao tmha perm1ssao para
casar. Desde 1977 entretanto, a proibição só se aplica, quando o MORALIDADE SEXUAL CATÓLICA
sêmen, de espécie genuína, ?u "apena~ um líquido semelhante a
sêmen", não seguir pelo traJeto presento pelos regulamentos da
Igreja.
o escandaloso breve pont1fic10 ~ . "
· ' . de s·isto V sobre a "l asc1v1a
(tentigo) dos eunucos que tinham de ser separados das esposas por Assim, conforme observamos, algumas vozes um tanto ríspidas
ausa de "atos carnais asquerosos", já que se tratava de um se fizeram ouvir depois do Concílio de Trento. Por outro lado, o
e"escândalo" que levava a' " condenaçao - das a1mas " , mos t~a-n~s confronto com Lutero - sobretudo da parte dos jesuítas - levou
simplesmente o seguinte: as vozes que se l~vantar~m ~a Umvers1- a um certo antiagostinismo e, daí, a uma diminuta liberalização na
dade de Paris por volta de 1500, vozes mais favorave1s ao prazer, moralidade sexual. Essas duas tendências na segunda metade do
desapareceram agora, no alvorecer do Concílio de Trento, surgindo século XVI acabaram numa colisão entre uma forma do jansenismo
em seu lugar uma melodia diferente. agostiniano estrito, por um lado, e o que os jansenistas chamavam
A 4 de fevereiro de 1611, a Cúria Romana anunciou _que no de "moral jesuítica laxista", por outro. Afonso de Ligório (m. 1787)
tocante ao sexo "não havia questão que pudess~ se~ cons1d~ra~a elaborou uma espécie de consenso. Sua teologia moral é ainda
trivial". A 24 de abril de 1612, o geral dos Jesmtas, Claud10 considerada válida na Igreja de hoje: mais rigoroso do que os
Acquaviva, expediu uma determinação a tod~s os membros ~o ~esuíta~ "laxistas" dos séculos XVI e XVII, mas menos do que os
Ordem, para que não ensinassem _nem advert1s_sem que podenn Jansemstas.
haver pecado venial contra a castidade. Ou seJa: todo o praz r Quanto a Lutero, os teólogos católicos gostam de apontar o fato
sexual decorrente de um desejo fora do casamento era sempr de que fora um monge agostiniano (eremita de Santo Agostinho),
pecado grave. Acquaviva ameaçava a todos os que se opus~ssem li que jamais deixou para trás a moralidade sexual de Agostinho. Pelo
sua diretriz com a excomunhão e o afastamento d~ e~s1~0: Ao contrário, dizem, insistia no prejuízo causado ao homem pelo
contrário digamos do roubo, onde alguns centavos nao s1gmf1calll pecado original, e nessa medida não significou qualquer progresso
muito, 0 ~ impulsos de prazer sexual sentidos por um c~sal d1 sim um recuo nessa esfera. Assim, por e_?Cemplo, em sua biografia
orados de mãos dadas são pecado mortal, desde que dehberad11 de Lutero (1911) o jesuíta Grisar diz: "E suficientemente trágico
nam . " .
_ ou seja, 0 prazer, nã? a condenação a~ miemo em que mcorrc111, que Lutero ( ... ) em seu conceito supostamente tão elevado das
E assim, até hoje, contmua a ser na lgreJa. lações conjugais ( ... ) caracterizasse, entretanto, o ato conjugal,
m virtude da concupiscência, como pecado grave. Na obra que
screveu em Wartburg, De votis monasticis, declara: 'O ato conju-
al é pecado segundo o Salmo 50, 7, de forma alguma distinto do
dultério e da fornicação, na medida em que dele participem a
puixão sensual e o desejo nefando. Mas Deus de modo algum trata
or isso com mais severidade as pessoas casadas, apenas tem
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 275
274
O agostinismo de Lutero, ou seja, sua ênfase na miséria do
compaixão, já que nos é impossível evitá-lo, embora sejamos
homem em decorrência do pecado original e em sua necessidade
obrigados a passar sem ele'" (II, 499). . . de redenção - que foi imediatamente abafada, no caso de Lutero;
Grisar está certo: Lutero repetiu toda a asneira com respeito ao
por sua ainda maior insistência no perdão e na graça - teve por
prazer do passado cristão, sobretudo ~a fo~a ~d~tada pela Esco-
reação, no lado católico, um certo antiagostinismo, que lançou
lástica primitiva: a de ódio ao deseJO e ~ paixao. Entret~to a
alguns raios de luz na moralidade sexual católica. Esse declínio do
desprezava. o próprio Grisar faz alusão a isso, ao prossegmr, um
pessimismo sexual vinculava-se a controvérsias com os reformis-
tanto queixoso: "Já nos familiari~amos c~i:n sua, estranha e essen-
tas sobre o pecado original. Embora o grande significado que
cialmente impossível 'teoria da 1mputab1hdade , segundo a qua~
Agostinho teve para o protestantismo não o tornasse suspeito
Deus é capaz de não ver um pecado que, contudo, _re~l11!en~ ah
perante os católicos, levou a alguma crítica de suas idéias. O
está." Apesar de suas raízes agostinianas e de sua ms1sten~ia no
Cardeal Belarmino de Roma (m. 1621), o mais influente teólogo
pecado original, Lutero introduz _al~~ P:ºg~e~so ess~~c1al na jesuíta de seu tempo, sustentava que a noção agostiniana de que o
moralidade sexual. Sua doutrina da JUSt1ficaçao so pela fe caus~u
pecado original era transmitido pelo prazer sexual não podia ser
um nivelamento na classificação entre pecado v~mal e m?rtal, tao
interpretada literalmente. Agostinho nunca descobrira uma respos-
esmeradamente distinguidos pelos teólogos ~at?h~os, abnndo por-
ta sobre a forma precisa como se transmitia o pecado original.
tanto caminho para a liberalização. A d1stmçao entre yecado
O 0 Embora também Belarmino não ofereça uma solução ao problema,
venial e mortal desaparece da linguagem d_o. P~?testantismo;
conceito do pecador mortal individual cede a ideia de que todos
dá início à exoneração do prazer sexual ( Controvérsia sobre a
perda da graça 4, 12).
somos, a um só tempo, justos e pecadores. . .. _ Para Belarmino e depois sobretudo para muitos jesuítas do
Como quer que se pense da doutrina prote~tante da Just1f1caça~,
éculo XVII por ele influenciados, a controvérsia com Lutero levou
foi uma bênção para a moralidade sexual. P01s, enquanto o catoli-
um cauteloso otimismo em sua visão da natureza humana e,
cismo produziu a consciência do pecado, sem que _se c~me~essem
ortanto, das inclinações sexuais humanas. Eles penderam para
pecados, a noção protestante dos pecados que nao sa? visto~
más de Aquino (m. 1274) que, seguindo Aristóteles, caracteriza-
contados é sempre apropriada. Assim desaparece o tecido urdido
de motivos e de valores compensatórios que tornam o ~razer ~ar~al
º prazer como algo natural. Começando no século XVI, a Summa
'heologica de Aquino sobrepujou as Sentenças de Pedro Lombardo
por vezes aceitável, por vezes tolerável, a merecer mdulgencia,
permissão, perdão ou punição. A estonteante est~tur~ de fantasmas
m. 1164) como principal manual de formação da Igreja, uma
em torno do prazer, que supostamente violava a d1gmdade humann, sição adotada até hoje.
Um dos jesuítas moderadamente progressista, que deu alguns
foi atingida "só pela fé" de Luter~, e ~omeç?u a desabar,!º meno.
sos além de Agostinho, foi Tomás Sánchez (m. 1610) de Cór-
no princípio. A pudicícia do puntamsmo e a flor do pantano dl 1
ba: autoridade suprema em questões conjugais. Um pequeno
protestantismo reformado. , .. 1 vunço de Sánchez consistiu em tratar o sexo conjugal do terceiro
A conquista pioneira de Lutero nessa area - mt1dament
(para evitar que a própria pessoa cometa fornicação) como sexo
simbolizada por seu casamento com uma frei~a _- foi ~ fato_ q1u
mpecado, desde que todos os outros meios legítimos de resistir
pôs fim à subordinação antinatural da _co~d1çao ~atnmom~I
t ntação - jejum, vigílias, obras de caridade - não ajudassem
celibatária. Em seu sermão "Sobre a avaliaçao favora~el d~ estado
,\'agrado sacramento do matrimônio, líb. 9, dist. 9). Sánchez foi
conjugal" (15Jl) diz: "Sob o papado, o casamento foi co~s1dernd11
·edido por três dominicanos, o Cardeal Caetano (m. 1534),
inferior, e todos os elogios foram para o estado de solteiro, a QIII
lv stre Prierias (m. 1523), ambos conhecidos opositores de Lu-
quase todos estavam obrigados."

\
276 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 277

tero, e o teólogo da corte do Imperador Carlos V, Domingos Soto expressão do amo~ deve ser _restringida aos limites da simples /li
(m.1560). . t~rnura, en~uanto nao houv_e~ risco de gratificação. Do que for além
Sánchez parece racional e moderno, por exemplo, ao afirmar disso( ... ) nao se pode participar ativamente" (Das Gesetz Christi
que na realidade não há motivo para classificar a motivação do casal p. 357). ~es~e ponto, Haring segue Afonso de Ligório, o fundado;
para ~ sexo numa das categorias da finalidade. Não é pecado, diz de ~ua propna Orde~, a dos Redentoristas. Da época de Afonso até
ele, "quando os cônjuges desejam se unir simplesmente porque são o seculo XX, ?s casais não casados, os noivos e os casados passam
casados" (ibid., 9, 8). O fato de que essas verdades simples afetam a ~er menos hb~rdade, por causa do "perigo da gratificação", ou
o leitor agradavelmente demonstra a grande tensão que os celiba- se]a, do praze~, liberdade bem menor do que a concedida por Tomás
tários da Igreja articularam para si nas malhas técnicas das suas Sanchez no secul~ XVI. (A posição de Santo Afonso, que Haring
análises da questão do sexo. Mas então Sánchez refreia suas decla- apresenta e que amda vale até hoje, pode ser encontrada em sua
rações progressistas, embora óbvias. Não considera o coito pelo Theologia mora/is III, n. 416; VI, n. 854; VI, n. 934). Sánchez
simples prazer sem pecado, e se afasta de Mayor e Almain, que são apressa-se em acrescentar que, naturalmente, não se permite às
praticamente os únicos que cita em apoio desse ponto de vista pesso:is casada~ ~ue tenham por meta provocar uma ejaculação
extremo. E assim se junta à maioria, classificando o coito pelo atraves _das ca~cias; mas com Afonso/Haring nada podem fazer
prazer como pecado venial (ibid., 9, 11, 2). caso ha_ia o perigo da gratificação.
Eis aqui uma de suas afirmações mais progressistas: seria 1:omás Sánchez, como todos os teólogos, chama o coito inter-
permitido aos casais "se abraçarem, beijarem e cederem a outra8 rompido de pecado mortal contra a natureza (O sagrado sacramen-
carícias costumeiras entre os cônjuges para atestarem seu amor to do m~trimônio, 9, 20, 1). Por outro lado, adota a postura
mútuo", mesmo que haja o perigo previsível da ejaculação? "Em P,:ogressista no caso da mulher estuprada e que deseja remover 0
muitos mestres", escreve ele, "tenho visto a afirmativa de que h semen. Sánchez diz que sim, afirmando que esse é um ato de
pecado mortal para os sujeitos ao perigo da ejaculação." Cita ess H autodefesa contra o sêmen como se fosse um agressor injusto (ibid.,
especialistas um depois do outro e tenta então refutá-los. Ek 2, 22, 17). Ele pressupõe que a fecundação ainda não ocorreu. Mais
próprio acredita que fazer alguma coisa que possa causar um11 ou menos 150 anos depois, Afonso de Ligório, o papa da moral
ejaculação não-intencional nem sempre é mau, uma razão premenll mesm~ para este século, atacou a opinião de Sánchez. Sustentava
pode justificar o risco. Para o cônjuge uma "razão urgente" é o que o semen nunca pode ser removido "sem que se cometa injustiça
desejo de "dar testemunho e fortalecer o amor mútuo( ... ) Serin o~tra a ~a~reza ou a raça humana, cuja reprodução [pelo estupro!]
extremamente severo, e o amor sofreria muito se os cônjuges 1 ena preJudicada". Além disso, o sêmen agora se encontrava em
refreassem diante dessas carícias''. Assim defende o contato sext111I possessão "pacífica", ou seja, comportava-se pacificamente. Du-
(no casamento), fora do contexto do ato sexual, embora "o peri 11 rante o e!tupro a mulher tinha permissão para se defender, de sorte
exista", que se derrame o sêmen e que esse não chegue aond 11 que. o semen do estuprador derramasse fora do "canal" a ele
moralidade católica diz ser o único lugar onde deva chegar: o Hlt t s~nado, ~as depois do estupro, esse não era mais o caso (Theo-
conjugal convencional que de forma alguma impeça a procria · 11 logi~ morahs, VI, n. 954). Assim o sêmen do estuprador foi pro-
(ibid., 9, 45, 33-37) (cf. Noonan, Contracepção, pp. 324 ss). o~id? ~o status de uma semipessoa; nada pode ser feito para
O progresso conseguido por Sánchez fica claro quando co111 ~udic~-lo. Desfruta da mesma proteção que um pacífico cidadão
sfrutana.
parado aos recuos que ocorreram em nosso século. Assim, p111
exemplo, Bernhard Haring, em 1967, diz que se a gravidez pud11 Uma série de teólogos do século XVII que vieram depois de
não ocorrer por perigo mortal à mãe, então, "em minha opinil o, t más Sánchez diferiram dele ao sustentar que mesmo o ato sexual
278 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
279

por prazer, no casamento (n. 4) era sem pecado. São eles: o peca~o. <? papa assim passou a ser mais uma voz - e nem sequer /1
agostiniano espanhol Ponce de León (m. 1629), os jesuítas espa- a mais vigorosa - em toda uma série de protestos. Ainda mais
nhóis Gaspar Hurtado (m. 1647), Martín Pérez (m. 1660), e o padre ~ac!ços fo~am ~s pro!estos contra todo o desenvolvimento dos
secular espanhol Juan Sánchez (m. 1624), um escritor perspicaz e JeSmtas l~x1stas, mclus1ve Tomás Sánchez, por parte dos jansenis-
conhecido como "laxista", que em sua obra sobre os sacramentos tas. Quenam soerguer Agostinho, inteiro, sem cortes, e colocá-lo
cita página após página Mayor e Almain, observando entusi~s11;1a- de volta ao pedestal. Ficaram perturbados com a palavra "só" na
do, "essas são belas palavras, são áureas palavras" (Hemnch condenação papal. O prazer de qualquer forma, seja "só" ou "não
Klomps, Ehemoral und Jansenismus, p. 71). Assim, os quatr~
motivos para o ato sexual entre pessoas casadas dados pelos ceh-
s?", era-lh~s. r:pugnante. E anteviram como os jesuítas manipula-
nam a pr01b1çao papal, graças à palavra só: diriam alguma coisa
batários da Igreja são sem pecado. Isso nos coloca mais ou menos c?mo: o ato sexualyor p~~z~.~ não é afetado pela proibição papal,
no estágio em que agora nos encontramos: o ensinamento católico ~o o_ato sexual motivado so por prazer. E foi isso, de fato, que 0
atual sustenta que, no ato conjugal, os motivos, encabeçados pela JeSUI~ ~s~anhol Fuente Hurtado (m. 1686) imediatamente fez.
procriação, não mais merecem tanta consideração. O que é impor- . . J?1f1cilm~nte alguém se satisfaria com essa condenação. Os
tante, entretanto, é que nada seja feito para restringir o curso do ato ~?1~gos estntos do praz_er ficaram inco~odados com a palavra
conjugal conforme estabelecido pela natureza; isso seria contra a so , e os outros, dos mais aos menos lax1stas, ficaram incomoda-
natureza e um pecado grave. Noutras palavras: Não hás de praticar dos, porque se dera a condenação de qualquer forma do ato sexual
a contracepção. Não é preciso constantemente pensar em filhos, por prazer. Em qualquer caso, a palavra "só" assegurou um novo
desde que não se exclua essa possibilidade. e_e~ci~te tema teológico para os duzentos anos seguintes: 0 que
Heinrich Klomps diz que com isso "todo um novo tipo de d1s_tmgmra o ato sexual "por prazer" do ato sexual "só por prazer"?
argumento na história da moralidade conjugal é lançado ( ...) em v~z Pois o papa apenas objetara ao "só por prazer", e portanto ...
de prevalecer uma moralidade de intenção, prevalece uma morali-
dade de ação, e daí o conceito do natura actus (a natureza do ato
conjugal) adquire importância central" (ibid., p. 72). E "coloca a
lenta e indefinida discussão sobre os motivos num fundamento XXII
inteiramente novo" (ibid.). Mas numa verificação mais detida, a
situação dos casados não se modificou de forma decisiva. Sem
dúvida estão livres da antiga malha de quatro pontos do agostinis-
mo, mas agora se encontram presos a um programa de um ponto Üs]ANSENISTAS E A MORALIDADE
só. Num sistema confuso como a moralidade sexual agostiniana, ]ESUÍTICA
cada novo passo dado à frente leva a um novo beco sem saída. A
única ajuda para os casados aqui está em dizer adeus à ditadura dos
monges e dos celibatários e confiar em sua própria inteligência
em sua própria consciência.
A 2 de março de 1679, o Supremo Magistério interveio nn Ü jansenismo leva o nome do bispo holandês de Lovaina na
controvérsia sobre o prazer no ato conjugal; o Papa Inocêncio XI Bé~gi~a, Comélio Jansênio (m. 1638) (para o que se segue cons~ltar
condenou o princípio defendido por Juan Sánchez (e outros) - 1:Jemnch Klomps, Ehemoral und Jansenismus, pp. 97 ss). Em seu
segundo o qual o ato sexual só por prazer era inteiramente seni hvro Augustinus, Jansênio tentou levar a rigorosa moralidade se-
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
280 281

xual agostiniana contra todas as recentes tendênci_a~,à toler~~ia, e Jansênio se refere constantemente a 1 Cor 7, 6 segundo O
&~ 1 • t ~ . . qua
1 li
enfrentar os "brilhantíssimos defensores do deseJo . Jansemo se- (
na rn1sa ~ erpret~çao ag?st~iana) Paulo caracteriza O sexo conju-
gue O rasto do baixo nível .~oral de _seu tempo;, o q~al .~otula ~e ~al que na~ s1rva a procnaç~o. como necessitado de perdão, e por
saeculum corruptissimum, a era mais corrupta , ate a teolo~ia isso peca~noso. Para Jansemo, o desejo sexual nos foi imposto
mais recente" que se desviou de Agostinho e do~ P~dres ~a Igr~I~· como castigo pelo pec_ado de Adão e Eva. Só pode ser moralmente
(Ele situa Tomás de Aquino entre os teólogos autent1cos, amda f1e1s tratado como um castigo a que temos de nos submeter "A ·
de l ect~tw. . ( d . . ss1m a
a Agostinho.) . ca:na1zs . o e1e1te carnal) - escreve Klomps, falando
Para ele, a motivação para o se~o conJugal te~ de c~~cen!r~-s~ dos teol~go~ Jansemstas-de~e avultar como um comprometimen-
inteiramente na procriação, jamais no prazer. A umao f1S1ca. e to da digmdade humana. Tivesse sido possível a inse · ~
'f' · l , . mmaçao
bestial se não for para gerar prole e sob a pressão do de~eJ? arti 1cm naque1a. epoca, considerando-se o fundamento em que
sensual." Por esse motivo, todo o ato sexual com mulheres gravi- baseavam a doutrma, nossos autores teriam de estabeleceA-la
das, estéreis ou na fase pós-menopáusica deve ser conden~do. O norma" ( z'b z'd., p. 203) . como
ato sexual para evitar a fornicação ou merament~ por p_razer e, para . Enquanto ~utro_s teólogos, ~~ époc~, tentavam escapar de um
usar O termo de Jansênio, "pelagiano", ou seJa, laxismo. Como sistema , . de motivaçao. compulsona . que mterferia em todos O s a tos
Agostinho, o único tipo de ato sexual que admite, alé~ do sexoyara d a pratica sexua1conJuga1, os Jansenistas retomavam a ele N h
a procriação, é o sexo para cumprimento do débi~o conJugal. O ideal '1 , 1· d . . en um
teo ogo mora 1sta po ena negar que a interpretação de Ja A · d
.d d al d A . nsemo a
é relações livres do desejo. Mesmo o obscurecimento da vonta~e morali a e sexu e gostmho estivesse perfeitamente t
. f" ~ d . corre a.
para procriar pela expectativa do prazer é passível de culpa. Janse- C mco a Irmaçoes o 1ivro Augustinus de Jansênio foram cond _
nio relata que passou a vida inteira às voltas com as obras de das pelo Papa Inocêncio X em 1653 como heréticas mas e e~a-
. , ~ d , . , s reie
Agostinho: leu vinte vezes algumas passagens_, outras chegou a l~r n~m,as ques~oes og~aticas relativas à graça e à predestinação e
trinta. E sentiu-se ultrajado pelo fato de o ensmamento _de Ago~t1- nao a mor~idade COilJugal. A mo~alidade sexual de Augustinus
nho, que ele não poupou esforços para compreender, tivesse sido correspondia tanto aos pontos de vista de Agostinho que ~ ,
IgreJa . ~ d , nao so a
distorcido pelas novas doutrinas. nao o con enou na epoca, como desde então nun ·
Eis aqui o resultado final de seus esforços: "Em ~erdade, es~a C 'l" .
A IgreJa ato 1ca ainda não percebeu e mu·t mais o
. ca
cond.enou.
. . " , i o menos
é a forma ideal de levar a vida conjugal cristã, que resiste ao deseJ0 admitm, que seu maior Doutor" afastou-se da rota corret a, numa
~ ~
sexual de copular com mulher menstruada, com mu~~r ~rávid~, questão que tem repercussoes concretas , diar'ias , sobre a maiona· ·
. .
com mulher absolutamente estéril, e com mulher que Jª nao mais dos homens e mulheres, mJustamente sobrecarregando a ·A
possa ter filhos. E digo ainda que não se deve_fazer o ~~imo pelo · d · , . conscien-
cia e mumeras
. . ~ pessoas amda d hoje.. Em 1679, 0 Papa Inocenc10A · XI,
prazer sexual. Com efeito, se a prole, o motivo de u~iao entre o por so11citaçao premente os Jansenistas, condenou um · , ·
homem e a mulher no casamento, pudesse ser concebida de outru "1 · ,, , prmcipio
axista : que o ato sexual so por prazer não é pecado.
forma, sem a experiência do desejo, os casais te~am que ~gir du G_omunhão fre~fente (1643), um livro do eminente jansenista
união conjugal." Jansênio vê o sexo durante a gravidez como ~moral Antome
e pecaminoso, não por causa de possível lesão ao feto (e~se f01 outr . A . Arnauld ( le grand b Arnauld"), que estipulou ngorosas ·
exigencias para se rece er a eucaristia, acabou por ter m ·t, ·
fator agravante), mas porque a procriação não é mais possível. · fl A · , , XX m 1ssima
tn uencia ate o secu1o . ~ecomendava aos casais que se absti-
Nesse ponto todos os jansenistas concordaram. Recorreram a ~gos• vessem de sexo antes e depois da comunhão. O livro foi' de t
tinho, a Ambrósio, a Jerônimo, a Clemente de Alexandna et , . ~ d corren e
de uma discussao entre uas nobres senhoras (a Marquesa d s- bl,
. d G , , ') e a e
(Klomps, pp. 184, 186 ss.) a Prmcesa e uemene sobre a freqüência com que deveriam
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 283
282
111
comungar. Amauld atacou "os jesuítas laxistas", que exortavam as obscurece o fato de que em questões de moralidade sexual os
pessoas à comunhão freqüente, mesmo as que não atendessem a "jesuítas laxistas" estavam mais próximos da verdade do que ele.
todos os quesitos necessários para recebê-la. Em decorrência desse Por outro lado, estava no alvo certo ao denunciar a evolução da
livro, as pessoas raramente comungavam, até o decreto sobre a teologia moral católica a partir do século XVI, com suas intermi-
comunhão por Pio Xem 1905. náveis distinções microscópicas e suas minúcias casuísticas, que
Ainda mais eficaz na propagação do jansenismo foram as vão muito além de Agostinho e Tomás de Aquino e muitas vezes
"Cartas a um amigo no interior", as famosas Lettres provinciales levam a situações absurdas. Pascal com argúcia critica impiedosa-
de Blaise Pascal (m. 1662). O jansenismo é um fenômeno comple- mente essas bobagens, mas prefere manter um refinado silêncio
xo, mas todos os adeptos partilhavam de uma aversão aos jesuítas. sobre o assunto da moralidade sexual. Corretamente percebeu que
Pascal teve êxito em lançar sobre estes uma luz dúbia que para era despropositada, sobretudo nessa esfera, a preocupação obsessi-
muitas pessoas ainda paira sobre eles. EmAugustinus, Jansênio não va com pormenores, independentemente do fato de esses teólogos
só fez ressurgir a moralidade conjugal de Agostinho, mas sobretudo serem julgados muito tolerantes (como fez Pascal) ou por demais
sua doutrina da graça. As Lettres provinciales tratam dessa doutrina rigorosos (como fazemos hoje). A história futura da teologia moral
agostiniano-jansenista e criticam os jesuítas por suas noções teimo- católica nos séculos XVIII, XIX e no nosso, acima e além de tudo,
sas a respeito da graça e da moralidade. Pascal quase não faz com uma atenção por demais assídua nas questões sexuais provaria
menção da moralidade sexual. Ele informa a seu amigo fictício do que Pascal estava certo.
interior sobre uma conversa com um padre jansenista, que lhe Empenhou-se, no julgamento de muitos, em fazer com que os
apresentou, entre outras coisas, os pontos de vista dos teólogos jesuítas perdessem a credibilidade em questões éticas. Um dos
jesuítas sobre os noivos e os casados. Diz Pasc~l: " ~ntão ele ~ e resultados disso foi que, embora ele próprio tivesse considerado
disse as coisas mais estranhas que se podem 1magmar. Poderia discretamente o tema do sexo, outros jansenistas, que faziam rigo-
encher várias cartas contando-lhe sobre o assunto, mas não quero rosas exigências aos casados, tiveram mais influência em muitos
sequer reproduzir as citações, já que mostras a todos que podes as crentes do que os jesuítas com suas exigências "laxistas". Sobre-
minhas cartas. Não gostaria que as lesse quem só estivesse à busca tudo g~aças a Pascal, o jansenismo teve uma profunda influência,
de diversão" (Carta 9). Tomás Sánchez, o jesuíta especializado em , particularmente na França, na Bélgica, e no mundo católico de
ética sexual, a quem Pascal se refere nas Cartas 5, 7, 8 e 9, em outroA língua inglesa, sua orientação foi dominante até o século XIX.
aspectos da ética, foi provavelmente um dos que ele se recusa o Lourenço Neesen (m. 1679), reitor jesuíta do seminário na
citar. O desvio desse jesuíta da moralidade sexual agostiniana f idade belga de Mechlin, chegou ao ponto de fazer a seguinte
omparação: embora o Estado na realidade não aprove os bordéis,
mínimo, mas demais para Pascal.
Pascal escreveu essas cartas para ajudar seu amigo Antoint as os tolera para evitar um mal maior, da mesma forma as pessoas
Amauld, que fora expulso da Sorbonne. Nas Cartas 15 e 16 h sadas não podem confirmar o prazer sexual na intimidade da
elogia o livro de Amauld sobre a comunhão freqüente. Pascal ach , lação, só podendo tolerá-lo para a procriação e para o cumpri-
que, pelo contrário, os jesuítas "profanam o sacramento" (Carl 11 nto do débito conjugal. Corrompida como está a natureza, não
mos outra forma de chegar à finalidade justa de gerar prole
16) com suas exigências indulgentes.
Quando Pascal morreu, aos 39 anos, foi encontrado com u11111 lomps, pp. 182 ss).
camisa de cilício, com pequenos ganchos de ferro. Pascal a usurn Louis Habert (m. 1718), um dos principais teólogos franceses
para se punir pelas mínimas faltas. A genialidade e a perspicácia d1 século XVII e conselheiro de vários bispos, sustentava que a
suas cartas que fizeram seus oponentes jesuítas parecer ridícul ll manidade já fora destruída uma vez - no dilúvio - por causa
284 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
285

de pecados cometidos no casamento. O dilúvio foi causad_o pelo


"aviltamento, pela poluição, pela profanação [pelo que mais?] d_o XXIII 11

leito conjugal". Mediante a graça dada pelo sacran:iento do ma~-


mônio, permite-se que os casais partilhem d~ mentahdad~ ?,e Tobias
("unirem-se apenas pelo amor da pr~le, na~ pelo ?,eseJo ), o que
foi de importância vital para a humanidade, Jª que protege a raça
A CONTRACEPÇÃO DE 1500 A 1750
humana de um novo dilúvio" (ibid., p. 160) e faz com que os
cônjuges sejam capazes de usar correta1:1ent~ "o mal d? prazer
sexual", deixando de amarem como pagaos na enf~rmidad~ do
desejo" (ibid., p. 158). Os jansenistas constantemente citam o L~vro Embora a Antiguidade e a Idade Média tratassem cientificamente
de Tobias, que com a falsa aparência da traduçã? ?e Jerô?imo a contrace~ção e os períodos de infertilidade da mulher, a crença
inspirou o medo aos cristãos casados, como uma especie de Dracula em demômos e a perseguição das feiticeiras levaram as pessoas a
do quarto de dormir (os sete maridos de Sara levados por Asmodeu), encararem esses assuntos como do domínio do diabo. Sobretudo
durante os últimos 1.500 anos. , dep_5>is da promulgação da "Bula das feiticeiras" (1484), da publi-
Desnecessário dizer que o ódio jansenista ao p~azer _tambem c~~ao ~e O martelo das feiticeiras (1487) e da subseqüente inten-
levou as conclusões agostinianas para a esfera da manologia, como sif1caçao da_ campanha para queimar na fogueira as supostas
vemos na obra do belga Guilherme Estius (m. 1613), professor em bru~as-parterras, a questão da contracepção tomou-se suspeita e
Douai e um dos pioneiros do jansenismo. Ele arg~mentava que, por pengos_a._ O progresso científico nessa área foi bloqueado pela
causa da "sujeira" do impulso carnal, Jesus deseJou nascer de uma saperst1çao que papas e teólogos estavam sempre aprofundando. A
virgem e não de uma relação conjugal (Klomps, p. 78). E o sucessor "Bula das feiticeiras", com sua denúncia das artes de feitiçaria
de Estius em Douai, Sylvius (m. 1649), demonstrou como a pureza artes que "impedem os homens de gerar e as mulheres de conce~
de Maria poderia ser imitada pelas_ pes,.:>ºª~ ~asa~as norm~is. Pre- ber", e os séculos de incineração de feiticeiras que se seguiram-
cisam, disse ele, eliminar toda a aqmescencia mtenor ao excitamen- sobre1:°do. na ~lemanha - não criaram um ambiente em que a
to que lhes sobrevém no ato da ~rocriação, ?ª mesma f ~rma qu~ o pesqmsa c1ent1f1ca sem preconceitos e tendenciosidades pudesse se
homem coxo bendiz o passo adiante que da, embora nao bendi~a desenvolver.
seu defeito de mancar que o acompanha (ibid., p. 80). Embora nao
Assim, os casais cristãos só dispunham de dois métodos de
mais usemos a palavra "sujeira ?u imu~dície" COJ? re~erê~~ia ~ con~acepção. O primeiro era o mais católico, a continência, con-
ato conjugal (sobretudo graça,s a moralidade ?º~ Je_smta~ l~~IS• vemente qua~do ambos os cônjuges o desejassem. Esse foi O que
tas"), a sujeira ainda aí está. E dela que os pnncipais c~h~atanos Jonathan Sw1ft (m. 1745) aconselhou nas Viagens de Gulliver
da Igreja querem proteger Maria, ao se re~usarem ar~oxima-la das (1726). Os H ouyhnhnms perfeitos e inteiramente racionais (cava-
esposas normais e dos casamentos normais em matena de concep• los) comportam-se de tal forma que "impedem que o país fique
ção e parto. sobrecarregado em números": os da classe superior deixam de
manter relações sexuais tão logo tenham gerado um de cada sexo.
(... ) Mas a r~ç~ inferior se multiplica para se tomarem servos( ... )
têm a perm1ssao de gerarem três de cada sexo, para servirem de
criados nas famílias nobres. Noonan fala sobre esse método de
contracepção em seu livro Contracepção (1982 2): "Nenhum teó-
logo importante negou que a continência, para evitar o excesso de

\
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 287
286

filhos, não fosse lícita" (p. 336). Desse ponto de vista, ~avia ao adultério. Dificilm~nte teríamos uma expressão mais clara do fato
menos alguma coisa que as pessoas casadas estavam autonzadas a de que o sexo conJug1;1: nesse caso, nada tem a ver com amor, já
fazer. Podemos presumir que essa espécie de ovo de Colombo que a ameaça de adulteno por parte do marido dificilmente aumen-
taria a disposição da esposa em manter relações.
provavelmente nunca foi proibida, mesmo pelos teólogos sem
Contrário a muitos de seus predecessores, Afonso de Ligóri
importância. . .
As palavras de Noonan são sintomáticas de urna situaçao em
_ (m. ~ 7~7) estava inclinado a pensar que a recusa do sexo so~
que as pessoas casadas têm um g~P? de clerocratas que ~s con_du- condiçoes de grande po?rez~ não er~ p~~tida, exatamente por
causa da ameaça de fomicaçao. Isso sigmficava que a infidelidad
zern pelo nariz: todas as suas atividades, desde q~e nao seJªJ?
oculta do marido ficava a alertar a já sobrecarregada esposa com~
proibidas, requerem a aprovação dos teólog?s morah~tas. A c?n~i-
se fosse aquele seu pecado, caso não fizesse sexo com O ma ·d
nência por mútuo acordo representava o ideal conJugal cnstao
desde os tempos antigos. Na Idade Média já existia uma série de Por ?utro l~do, negar-se,ª? marido delicado, fiel e amoroso po~u~
ervas monásticas que ajudavam na continência, por exemplo, a~nus motivo mmto menos ~eno que o da pobreza extrema não seria
castus (literalmente, cordeiro casto), que Plínio (rn. 79) menciona pecado e~ absolu~o, diz Afonso, desde que o marido não insista
em sua História natural, e sobre a qual Francisco de Sales (m. 1622) (Theologw moralzs VI, n. 940-41). A precedência à infidelidad
diz em sua sempre popular Introdução à vida devota: "Quem oculta dos m~i~os f~i um, motivo fundamental da moralidad:
dormir sob o efeito da erva agnus castus se tomará recatado e casto" sex~al da IgreJa, mclusive
. ate
_ ,o Concílio Vaticano II. Os teólo gos
ded:caram a maxima atençao a prevenção do adultério e da forni-
(3, 13). c~çao, colocando em segundo lugar qualquer prejuízo sério que tal
Mas se o casal discordar a respeito da abstinência, a questão se
atitude pudesse ter para a mãe. A moralidade sexual católic ,
torna complicada. A primeira resposta a ela - se uma mulher em
sobretudo uma moralidade da casta dos senhores e uma explora;ã~
opressiva pobreza pode recusar o débito conjugal - foi não. ~e
Maistre (m. 1481) achava que uma mulher que não cedesse ao c01to cruel das mulheres.
"pode legalmente ser compelida a tal [ao coito com o marido]" ~Até hoje os c_elibatários da Igreja jamais levaram em conside-
(Questões morais II, foi. 49r). Só no século XVI alguns teólogos raçao o s~xo m?t~vado pe~o amor (que simplesmente não existe na
decidiram em contrário. Domingos Soto (m. 1560), por exemplo, taxonom1a teologic~ ~lassica do sexo) e à contracepção responsável
declarou que a recusa ao sexo não era pecado mortal, "sobretud? que _esse possa e~igir. Segund? eles, as _relações conjugais são
quando sofrem de assoladora pobreza e portanto_ não P?dem ~h- destma~as exclu~ivai:iente a evi~ar a fornicação e gerar prole, ou
mentar muitos filhos" (Noonan, p. 331). Isso foi uma movaçao, para evitar a fomicaçao e a um so tempo aceitar-se a possibilidade
uma importante concessão da parte de Soto, que era teólogo da corte de ?lh~s. Apesar_d_e algumas belas palavras aqui e acolá, a situação
hoJe nao se modificou nem um pouco. Se os teólogos a come
do Imperador Carlos V. . h . d ' çar
Tomás Sánchez chegou a decisão semelhante. E o Jesuíta Paul o~ A gostln o, tivessem. ado a mesma consideração ao amor
Laymann (m. 1635), cujo livro sobre teologia moral !oi a ?~ra d on{ugal que_ d~ra~ ao peng? (sobret~do para o marido) de forni-
referência durante 150 anos nas faculdades de teologia catohca na açao e de mfidehdade, tenam erguido um sistema ético m ·
humano, bem diverso do brutal sistema ora em vigor. No fundo ais
Alemanha, dirigidas sobretudo por jesuítas, decidiu que "na pobre• ~ d . ~ d ,as
za extrema" as esposas deviam ter permissão para se negar aoH ques toes os cnstaos casa os, administradas exclusivamente p
. l . f . , or
maridos (5, 10, 31, 16). Todos esses generosos senhores concorda• 'éngos so teiros, so reram preJmzo.
vam, entretanto, que essa recusa era pecado mortal se fizesse con1 Além da continênci~ por acordo ~útuo, então, os casais cristãos
que o marido caísse em pecado mortal, ou seja, se cometesR tiveram um segundo metodo a seu dispor sob sérias circunstâncias,

\
288 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 289

o do coitus reseroatus. Todos os demais métodos de contracepção Os rigoristas achavam que isso era exclusivamente pecaminoso"
foram incluídos na categoria dos pecados mortais, sobretudo o coito (Haring, "Moral für die Erlõsten", in Theologie der Gegenwart
interrompido e as supostas poções (medicamentos). O coito inter- 1982, 1, 2). '
rompido foi condenado como pecado grave, entre outros, pelo Não há nada disso nesta passagem de Afonso. Está em questão
Cardeal Caetano (m. 1534). Francisco de Sales (m. 1622) afirma: apenas o seguinte: se a esposa inocente peca gravemente fazendo
"O ato de Onã mereceu o repúdio de Deus." Critica "certos mestres sexo com seu marido que peca gravemente. Mesmo noutro trecho
modernos do erro, que acham que não o ato, mas só as más que é evidentemente o que Haring tinha em mente e que citou e~
intenções de Onã desagradaram a Deus" (Introdução à vida devota, 1986 ~Th~ologie der Gegenwart, 1986, 4,214), isto é, Theologia
3, 39). Como modernos inovadores que evidentemente defendiam 1:2oralls hb VI, n. 954, Afonso de forma alguma permite o coitus
o coitus interruptus como método contraceptivo, Francisco de Sales mterruptus para a contracepção. Pelo contrário, diz expressamente
não entendia os reformistas, que não trouxeram nenhum progresso que "nem a ameaça da pobreza e tampouco o perigo do parto 0
nesse ponto, já que aderiram ao ensinamento de Agostinho. desculpam", que é "uma violação da finalidade primeira do
Sobre o tema do coito interrompido, uma questão sempre casamento". Aqui simplesmente discute se a pessoa é obrigada a
despertou particular interesse nos teólogos, ou seja, o comporta- m~t:r o~ não a relação, caso essa significasse uma ameaça à
mento da esposa. Se ela souber que o marido vai praticar o sexo propna saude, ou quando a pessoa vai ser morta por um inimigo,
interrompido, deverá resistir ao desejo do marido até a morte, como ou se alguma outra pessoa entrar no quarto. Na verdade, nenhum
pensava São Bernardino de Siena (m. 1444)? Como Le Maistre e teól~go c~tólico, nem mesmo o de matiz conservador mais profun-
Tomás Sánchez antes dele, Afonso de Ligório via a situação da ?~• J~mais alegou que uma pessoa deva sucumbir a um ataque
seguinte maneira: A esposa pode, deve na verdade ceder ao sexo, mnmg?, sofrer ~m, at~que do cor~ção, suportar a intervenção -
se um mal maior for previsto por causa da recusa. Ao assim aparecnnento, d1sturbio, estorvo, mterrupção ou interferência -
proceder, não está formalmente cooperando com o pecado. De fato, de uma terceira pes~oa, ~ apesar d~ tudo isso prosseguir na relação
ela mesma pode solicitar o sexo, se caso contrário caísse em sexual. E todavia nmguem pode mterromper o sexo sob circuns-
incontinência (Theologia mora/is VI, n. 947). Encontramos aí uma tância alguma visando à contracepção - isso era um pecado
vez mais o cuidado da Igreja com a adúltera em potencial e sua mortal para Afonso e continua a ser até hoje. O teólogo católico
negligência com aqueles que não vêem o sexo conjugal como q~e ten~a a ~provação de Roma para excusar o coito interrompido
substituto para o adultério. O porta-voz de Afonso do século XX, amda nao foi concebido.
Bemhard Haring, também permite que as esposas cooperem no ~ssim, embora Afonso de Ligório não fosse o moralista pro-
coito interrompido "para que guardem o marido contra o adulté- gressista capaz. de excusar o coito interrompido que Haring, seu
rio". Entretanto, ele não se refere à solicitação de uma tal relação colega redentonsta, quis hoje em dia fazer dele, cautelosamente -
(A lei de Cristo III, 357). pelo me~os até que a Igreja ponha fim a seus empenhos-, é notável
Haring estava errado, a propósito, quando, escrevendo em uma coisa: Afonso não exige, como faz Bernardino de Siena:
honra do fundador dos Redentoristas (1982), disse: "Causará sur- ~•me1!1or seria que ~ós, esposas, morrêsseis do que ceder" (quando
presa, sobretudo àqueles que consideram Afonso um arquiconser- imagma ela que s~ra provavel~ente cometido o coito interrompido,
vador, saber que ele aplica esse princípio básico a uma questão cf. p. 222 deste livro). Nos seculos XIX e XX o Vaticano terá um
particularmente controvertida hoje em dia, ou seja, o coito inter- jul~~ento mai~ rigoroso do que o de Afonso sobre a questão do
rompido: 'As relações conjugais podem ser interrompidas, desd coito mterrompido, por exemplo, nas respostas oficiais de Roma
que exista uma razão proporcional' (Theologia moralis VI, n. 947) em 1822, em 1823 e em 1916, conforme veremos.
290 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
291

O outro método contraceptivo, através de poções, foi equipa- extraconjugais. Madame de Sévigné provavelmente tinha em men-
rado pelo Catecismo Romano no Concílio de Trento ao homicídio. te essas camisinhas pouco confiáveis ao escrever uma carta (em
E em 1588 Sisto V, já mencionado, ameaçava a todos que o 1671) à filha, a Condessa de Grignan, dizendo que eram " um
praticavam com a pena de morte. O teólogo jesuíta Padre Laymann baluarte contra o prazer e uma teia de aranha contra o perigo". Em
(m. 1635) chamava a essa forma de contracepção de "quase-assas- qualquer caso, as camisinhas do século XVII não foram um sucesso
sinato" e de pecado mortal (3, 3, 3, 2). Indaga: "Pode uma mulher retumbante.
tomar um medicamento para evitar a concepção, se sabe (por Os pastores tinham dois caminhos possíveis para informar a
informação do médico) ou se suspeita (por experiência própria) que seus rebanhos sobre a contracepção: o púlpito e o confessionário.
o nascimento da criança lhe ocasionará a morte?" Resposta: Não. Nos sermões sobre a contracepção a maioria das pessoas era mais
A contracepção vai contra a principal finalidade do casamento. E cautelosa do que São Bernardino (m. 1444). Parece que só alguns
temos aqui a justificativa: "Caso fosse permitido à mulher impedir dos ~a~res i?clina??s ao jansenismo não colocaram em prática as
a concepção nesses casos, estaríamos diante de um abuso surpreen- r~stnço~s ~stocrat1cas de Pascal. Um dos que não seguiram essa
dente e grande prejuízo seria causado à reprodução humana." E lmha foi F1hpe Boucher, que por volta do início do século XVIII
imediatamente acrescenta a outra forma de contracepção, o coito pre?ava contra o "abominável crime de Onã", contra a sodomia
interrompido: "Por razão semelhante, os doutores de teologia ~co_1t~ anal) e contra o uso de ervas anticoncepcionais. Boucher
concordam que em nenhum caso seja permitido o desencadeamento ms1stia que a pobreza não era justificativa para a esposa sobrecar-
da ejaculação do sêmen" (5, 10, 3, 1) (cf. Noonan, Contracepção, regada negar ao marido seus direitos conjugais (Noonan, p. 373).
p. 370). Em geral, os pregadores aderiam à orientação do Concílio de Trento
A noção de contracepção como algo equivalente a homicídio fof1?ulada no Catecismo Romano. Na seção: "O que deve ser
- não partilhada, contudo, por todos os teólogos- foi confirmada ensmado sobre as obrigações conjugais", se lê: "Aqui os pastores
em 1677 pela descoberta dos espermatozóides móveis no sêmen. A devem se expressar de tal forma que não deixem escapar nenhuma
"pessoa em potencial" de que Tomás falara foi então nitidamente palavra de seus lábios que fira o ouvido dos crentes como coisa vã
demonstrada no sêmen humano. Nos séculos XVII e XVIII muitos ou que ofenda as almas devotas ou cause motivo de riso" (2, 8, 33).
autores compararam o marido com o semeador que joga a semente Quanto à maneira de o pastor encarar o sexto mandamento ("Não
num sulco - viam-no como se colocasse um pequeno ser dentro cometerás adultério") insinuava-se: " Mas que o pastor seja dili-
da esposa. A contracepção passou a estar mais próxima ainda do gente e prudente ao tratar desse assunto, e que o mencione de forma
homicídio do que (graças ao si aliquis) antes. Mas as atitudes .7,
vel~da" ~3, 1). "Sobre, e_ssa questão muitas e variadas espécies
começaram a mudar em meados do século XVIII e as pessoas não de hcenc1os1dade e de luxuna podem não ser mencionadas. O pastor
mais viam a contracepção como assassinato. O personagem deci- deve admoestar cada penitente em particular, conforme as circuns-
sivo foi Afonso de Ligório. Noonan ressalta: "Uma tradição tão tân,ci~s d~ n_iomento e das pessoas em questão exigirem" (3, 7, 5).
antiga quanto a de Reginon de Prüm e Burcardo, de fato tão antiga O umco top1co a ser claramente mencionado era o da contracepção
quanto a de São Jerônimo, caiu em desuso. Com Santo Afonso o através de medicamentos, "pois isso deve ser considerado um plano
enfoque homicida à contracepção chegou ao fim de sua vida ímpio de homicidas" (2, 8, 13).
teológica" (ibid., pp. 364-65). Tamb~m ~u_anto ao ~~ame dos penitentes sobre a contracepção
Por volta da metade do século XVII foi inventada a camisinha, no confess10nano, a pohtica antes do Concílio de Trento era menos
mas era muito cara e muito pouco confiável para ganhar maior acanhada ou constrangida. Depois desse concílio, o único conselho
significado. Os homens, costumeiramente, só a usavam para casos dado aos confessores sobre as questões sexuais pelo Rituale Roma-
292 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 293

num (o livro de referência sobre a administração dos sacramentos) Muitas vezes, mesmo quando as crianças dizem 'não', convém
era o de omitir "questões imprudentes aos jovens de ambos os formular-lhes algumas perguntas sugestivas, por exemplo: 'E agora
sexos, ou a outras pessoas sobre coisas com as quais não estavam dize-me, quantas vezes fizeste isso? Cinco vezes? Dez vezes?'
familiarizadas, para que não se escandalizassem e assim não apren- Então deve-se perguntar com quem dormiram e se brincaram com
os dedos na cama" (ibid., VII, 90).
dessem a pecar". Carlos Borromeo (m. 1584) aconselhava aos
confessores exercerem "extrema cautela" com os pecados da carne
(Instrução sobre a correta administração do sacramento da peni-
tência, 12). E Afonso de Ligório disse aos confessores: "Em geral,
o confessor não está obrigado a, e não lhe convém, indagar às XXIV
pessoas casadas sobre os pecados vinculados à obrigação conjugal,
salvo se perguntar às esposas, o mais discretamente possível, se
cumpriram com sua obrigação, indagando, por exemplo, se obede- JoAo PAu10 II EO SEXO PELO PRAZER
ceram aos maridos em tudo. Sobre outras questões deve ser silen-
cioso, caso não seja indagado pelo penitente em primeiro lugar" (A
prática do confessor II, 41).
Essa sábia reticência por parte dos confessores a respeito da
contracepção não durou muito. As perguntas sobre esse tema esta- Quando o papa Inocêncio XI declarou em 1679 que "as relações
vam destinadas a se constituírem no elemento central das confis- conjugais por mero prazer" não eram sem pecado, assegurou que
sões de pessoas casadas nos séculos XIX e XX. As palavras de os teólogos moralistas ficassem ocupados com o estudo da morali-
Afonso sobre a obediência total da esposa ao marido estão de dade pelos dois séculos seguintes. Enquanto os jansenistas rejeita-
acordo com a contínua tradição de censurar as mulheres na Igreja vam qualquer motivação prazerosa para o sexo, de acordo com
Católica. Agostinho e o Catecismo Romano (1566), os teólogos moderados
Embora Afonso dê aos confessores o sábio conselho de não tentaram conceder um pouco mais de espaço para o prazer e
fazerem perguntas sobre a contracepção no casamento, o que aprofundar a distinção entre o sexo por prazer e o sexo só por prazer,
recomenda que se indague a crianças e as pessoas solteiras é o que já que somente esse último era afetado pelo decreto pontifício.
há de mais impertinente e importuno. A instrução do Concílio de Afonso de Ligório estabeleceu a norma para a ética católica
Trento para que se discutam tais questões de "forma velada" leva, durante o século XIX e, em grande parte, durante o século XX. Foi
no caso de Afonso, a uma ocultação sombria que só faz piorar as canonizado em 1839 e recebeu o título de Doutor da Igreja em 1871.
coisas: "As crianças devem ser tratadas com o maior carinho e Afonso resolveu o problema sexual de uma forma amplamente
delicadeza possíveis. Que o confessor deixe que digam todos os circunstancial. Disse que o sexo tão-somente por prazer fora em
pecados de que se lembrem. Depois disso pode-se formular as geral considerado pecado venial - era pecado mortal só sob certas
seguintes perguntas( ... ) Cometeram algum pecado feio? Embora condições prévias - porque o prazer planejado pela natureza como
sobre esse tópico o confessor deva perguntar com cautela. Que el meio de reprodução se tornava a finalidade do ato conjugal. Não
comece a distância, numa linguagem geral, indagando primeiro s era pecaminoso quando o marido visava sobretudo a procriação e
fizeram uso de nomes feios, se fizeram certas brincadeiras com usava do prazer num empenho moderado, de sorte a excitar-se para
outros meninos ou meninas, e se fizeram tais brincadeiras em o ato conjugal (Theologia moralis VI, n. 912). O prazer, portanto,
segredo. Depois deve-se perguntar se fizeram coisas desonrosas, pode ser buscado, mas não de forma exclusiva ou primordial. O
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
295
294
. o roblema a uma fórmula breve_: o sexo 46), elevando-as assim do nível do entorpecimento animalístico à
século XIX por fim r~du;e1! prazer é o sexo que exclui outras esfera da pessoa.
motivado tão-s?me~ ~ encontramos esse ~gu~ento, por :,xem- Van de Velde queria trazer a variedade para o quarto de dormir,
finalidades c~nJugai rini (m. 1881). Isso s1gmfica exclusao _da uma variedade que previamente "só parecia possível [ao homem]
Plo, no -Jesmta Balle ~ a exclusão da prole pela contracepçao, mudando seu objeto sexual". Em última análise ele se preocupava
para o sexo, nao com a fidelidade e o amor entre os cônjuges; e, sobretudo por
motivaçao enial mas mortal. •
que não seria ~ec_ado v to a~ desfrute sexual - se nele se ten~ ~m partilhar do pensamento católico sobre o divórcio, a contracepção
A controversia quan . , el para o sexo - foi assim dec1d1da e o coito interrompido, achava que "meus pontos de vista não
t perm1ss1v . R
motivo moralme~ e hora Agostinho e o Catecismo omano contradizem a moralidade católica" (p. 269). Nesse aspecto estava
de modo afirmativo_,
, ·
:~
ideia
profundamente equivocado. O pessimismo sexual e a hostilidade
fossem contrario~ a s hie~árquicos da Igreja também revelaram sua ao prazer típicos' da moralidade sexual católica proibiam essa
Mas os supenore ontece a um autor que argument~ e~ espécie de obra sobre o livre espaço íntimo das pessoas casadas,
- trando o que ac · ~ d pos1çao um espaço que os supervisores celibatários da Igreja consideram
posiçao mos aior prazer através de vanaçoes ~
favor da busca _de m Na época em que os bispos alemaes_ quase como de sua responsabilidade essencial administrar, planejar e
dirigir.
sexual conven~10nal. ff tl r "o baluarte contra o bolchev1s11!;0 e
sem exceção vrram e: e~a~' uma das coisas que faziam alusao à Em 1911, o mais eminente teólogo moralista da época, o jesuíta
Hieronimus Noldin (m. 1922), expressou uma perspectiva do pra-
a peste da literatura\:~ obsc~no específico que por volta de ~930
zer sexual que não era mais tão negativa quanto a de Agostinho,
última frase era um~- - e fora incluído no índice dos L~vros
mas era positiva só na aparência: "O Criador colocou o prazer e o
já chegara à 15_ª e t~ao,lo regime nazista. O próprio Papa P1? XI
anseio por ele na natureza, a fim de atrair o homem a algo que é em
Proibid~s e conflscadncicÍica Casti connubii, onde torceu ~eu tl_~lo
si impuro, sujo e problemático em suas conseqüências" (De sexto
fala do hvro em s~ \ para Prostituição pe,feita (traduçao of1c1al praecepto et de usu matrimonii, p. 9).
de Casamento pe,tt o Dessa forma, o papa criou um n~vo es~d_o Do ponto de vista dessa postura teológica, Van de Velde sim-
pelos bispos alemaes). livro uma distribuição ainda maior: Ong1• plesmente não serviria. Além de tolerar o negócio sujo para a
perfeito e asse~urou :: 1926, seu autor era um ginecologista ho• finalidade daqueles filhos problemáticos, via significado e finali-
nalmente pub~1cado a clínica de senhoras no Haarlem, ! h~odor dade na sujeira em si. Não admira que o Magistério da Igreja
landês e ex-direto;: Casamento pe,feito era uma abreviaça~ d terntasse esmagá-lo com todo o seu peso. Em Casti connubii ( 1930),
Hendrik van de Ve ~ te· O Casamento levado à maior pe,fetção que visava principalmente os casais que "por aversão à bênção dos
seu título um ~ntofips~o'f:Jgi~o-técnico (prefácio do autor). . " filhos desejavam evitar o fardo mas desfrutar das alegrias", Van de
do ponto de ~tsta .s ou seja, para "Prostituição perfeita : s • Velde é tratado a golpes esmagadores - o que é absolutamente
Para mmtos casai : tã em que o prazer sexual era suspeito Inapropriado, já que adota a antiquada postura de ver a maternidade
bretudo no Ociden~ c~~ s~~ual é subdesenvolvida, Van de Veld orno "a coisa mais elevada que uma mulher de mente sã poderia
portanto a cultura , c~eªde Galileu do leito conjugal. Removeu tabu desejar" (p. 222). Isso se dá porque ele se concentra no prazer como
tomou-seumaespe
_ f' • s dos casais . . s1·mplesmente falando sobre elu11,
d ,, t I e não o deixa no plano obscuro e secundário como meio para
das relaçoes 1s1c~ "ncia a expressões latinas ao assim proce 1' hegar-se à procriação, que a ética conjugal cristã diz ser a única
mesmo d~do p~e ::.iliares à linguagem dos médicos e Pº~?a111 oisa em que devemos nos concentrar. E portanto, com sua "ido-
"porque sao mais na discussão de muitos assuntos (p, 1 triada carne", como sua "inglória escravidão aos desejos", com
. ntos das pessoas
os senume
296 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 297

seus "pensamentos ímpios", Van de Velde, segundo entende o para satisfazer a minha paixão que recebo a minha prima como
papa, contribui para a "afronta à dignidade humana" (Casti con- esposa, mas unicamente com desejo de suscitar uma posteridade"'
nubii). (Tb 8, 9). Assim, deve-se sempre ter em mira o filho durante o sexo,
Van de Velde transforma o gabinete venenoso dos confessores e embora algum prazer possa ser intencional, deve ser; segundo
numa farmácia para os casais. O que fora descrito durante milhares Haring, "uma ocasião para a atividade que fica dentro da ordem
de anos como causador da morte eterna, mesmo que tomado em correta de motivos. Então não há( ...) pecado" (ibid., 371-72).
doses mínimas, ele agora prescreve em forma concentrada, já que Mesmo o Papa João Paulo II aceitou um certo grau de desejo
para ele a perversidade não é uma questão de posição sexual m~s pelo prazer por parte das pessoas casadas quando em Familiaris . 1

de atitude intelectual. Hoje a tempestade sobre Van de Velde amai- consortio (1981) permitiu a continência periódica como método
nou. Desde a publicação do livro, a Igreja intensificou seu combate para ~vitar filhos. Assim, abandonou o motivo agostiniano da
à contracepção, com o que abafa de forma infalível e incorrigível procnação como o fator mais importante em todo o ato conjugal, e
as verdadeiras questões e sofrimentos da raça humana. ao fazer essa concessão ao prazer, o papa está em franca oposição
Em sua Lei de Cristo (1967), Bemhard Haring condena pes- à condenação agostiniana do ritmo como "método do alcoviteiro".
soalmente o livro de Van de Velde, que rejeita por conter "instru- No e~t~to, João Paulo II ainda se mantém na trilha do antigo
ções que chegam a pormenores repulsivos" . Em vez de prescrições agostmismo. Na verdade, o motivo da procriação como exigência
particulares, ele tem uma prescrição universal~ ofe~ecer. Em seu para todo o ato conjugal foi descartado, mas não o ódio ao prazer.
capítulo "A técnica do amor", ele recomenda que Juntos ouçam E já que, no fu~do, Agostinho abominava o prazer mais do que
com fervor a Palavra de Deus" e "que orem juntos" (Haring, Lei gostava da procnação, a tradição católica foi preservada. A procria-
de Cristo, III, 363). ção pode ser evitada, na medida em que se evite também o prazer:
Haring também dá informações sobre a quantidade de prazer através da continência. Tem-se em todo caso a impressão de que a
que deve haver. Sobre a questão do "sexo por mero desejo d contínua: ênfase nos filhos como a primeira finalidade do casamento
prazer sensual", diz o seguinte: "Se nesse caso, entr~tan~o, a na realidade se volta para a atividade preferida dos celibatários da
consumação do matrimônio guardar a sua forma como serviço à Igreja: manter os casais longe do sexo.
vida [quer dizer, se não houver contracepção], então a falta s Assim, Jo~o Paulo II, apesar de discordar de Agostinho, trouxe
encontra meramente na ausência de motivàção abrangente e dev à luz a verdadeira força motriz, oculta por trás da moralidade sexual
portanto-no que tange o ato individual-ser 'apenas' um pecado de Agostinho, o ódio ao prazer. João Paulo II também não está
venial" (ibid., 371). As aspas de Haring na pal~vra "apenas" noN primordialmente preocupado com os filhos. Conforme necessário
dizem que não devemos fazer pouco caso da questão. E, com efeito, os filhos serão evitados pela contracepção, católica ou não. O qu~
prossegue: "Mas se este não for o juízo de um único ato como tal, o preocupa é restringir o prazer. Aqui a Igreja tenta salvar o que
mas uma postura global perante as relações conjugais em que só s pode ser salvo. Felizmente o método do ritmo (tabela) ainda é
veja o prazer e só se tenha o prazer como objetivo, então ness_u bastante complicado e o período de continência que requer é
separação de mero instinto do amor genuíno e da presteza em servi 1 bastante longo. Com grande satisfação João Paulo II cita a encíclica
à vida, vemos exposta uma das raízes mais perigosas da incontiM Humanae vitae do Papa Paulo VI (1968): "O domínio da vida
nência uma atitude nitidamente incasta." E Haring esclarece aind11 instintiva a~ravés da razão e do livre-arbítrio sem dúvida requer um
melho; seu ponto de vista: "Os sentimentos de Tobias devem cin ii c:rt? ascetismo, para que a manifestação do amor conjugal pelos
tudo o que acontece no casamento, embora não precisem desencu conJuges possa ocorrer na ordem correta, sobretudo no que tange à
dear todos os atos conjugais: 'Ora, vós sabeis, ó Senhor, que não observação da continência periódica." Que bom que não temos de
298 Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 299
'
temer que a ciência logo seja capaz de calcular a capacidade da quebra-cabeça: "Temos aqui uma diferença que é maior e mais
mulher de conceber com mais precisão - o dia certo ou mesmo profunda do que em geral se pensa, e que em última análise está
um certo número de horas precisamente previsíveis. Caso contrário, vinculada a duas noções mutuamente exclusivas da pessoa e da
o que aconteceria à ordem correta para a manifestação do amor sexualidade humana." Nunca teríamos tido essa idéia por conta
conjugal - e ao ascetismo? E muitas coisas malograriam também. própria, mas agora pelo menos sabemos em que direção devemos
O papa cita uma outra passagem da encíclica de seu predecessor: olhar. O papa prossegue: "A decisão em prol dos ritmos naturais
"Essa disciplina e essa ordem, que pertence à castidade conjugal, implica na aceitação do tempo da pessoa, da mulher, e com isso
de forma alguma avilta o amor conjugal, pelo contrário, confere-lhe uma aceitação do diálogo, do respeito mútuo, da responsabilidade
um valor humano superior. É verdade: requer o esforço contínuo, comum, e do autocontrole." Se não fosse pelo autocontrole - a
mas graças a sua influência benéfica, as pessoas casadas desenvol- única coisa em que o papa está realmente interessado - não
vem suas personalidades de forma mais plena e mais completa, por teríamos outra escolha senão a de concordar que o papa se importa
se tomarem mais ricas em valores espirituais. Os frutos que propicia com a pessoa, com a mulher. E qualquer observador aprovaria o
à vida familiar são a pw e a felicidade, e atenua a solução dos outros diálogo com a mulher ou o respeito por ela, não fosse o senão, o
problemas. Promove a mútua atenção entre os cônjuges, ajuda-os obstáculo que o papa estipula, qual seja, de todas as épocas, a do
a vencerem o egoísmo, que é o inimigo do amor verdadeiro, e período fértil da mulher, e portanto a da abstinência regular do sexo,
aprofunda o senso de responsabilidade. Através dela, os pais se configura a oportunidade para uma vida conjugal moralmente mais
tomam mais capazes de exercer uma influência ainda mais profun- elevada e uma condição para todas as boas e louváveis bênçãos que
da e eficaz na educação dos filhos." Em suma, a continência é um menciona.
rico veio espiritual. Traz ao pai, à mãe e aos filhos (e certamente de Esse hino papal à continência conjugal se encontra sob o
forma indireta ao avô e à avó também) tudo o que poderiam desejar. título "Serviço à vida", na carta apóstolicaFamiliaris Consortio
É a chave para a solução de todos os problemas do casamento, da (1981). "Serviço à vida" parece ser uma contradição à contra-
criação dos filhos, e da vida em geral. ,, cepção que de fato é aí discutida, mas o papa tem em mente um
Considerando os efeitos prodigiosos da continência pi:iriódica, serviço à vida diferente, mais elevado, no seguinte contexto: ao
João Paulo II encarregou os teólogos do futuro de responderem a praticarem a abstinência, as pessoas casadas se aproximam, por
uma questão. Ele fez "um apelo urgente aos teólogos que assistam alguns dias pelo menos, do estado da castidade e se qualificam,
o Magistério da Igreja com força conjunta ( ... ) para elaborar e embora só periodicamente, para uma existência de nível superior.
sondar mais profundamente a diferença, a um só tempo antropoló- Seu "serviço à vida"' não mais consiste na procriação mas na
gica e moral, entre a contracepção e o recurso ao método do ritmo" . abstinência. Nesta situação, o papa modificou e transformou a idéia
Como Agostinho desafiara essa distinção moral-teológica, a tarefa da contracepção. Considera a continência periódica como uma
não será fácil. Estritamente falando, é um problema insolúvel,, espécie de exercício conjugal. Simplesmente se recusa a admitir o
porque onde não há diferença moral, nenhuma poderá ser desco• fato de que através dessa abstinência os casais estão tentando evitar
berta. A única diferença na realidade não é teológica mas papal: o o período fértil da mulher, ou seja, evitar filhos. É por isso que o
método do ritmo permite ao papa obrigar aos casais o jugo dn papa não chama a continência periódica de "concentracepção" -
continência durante pelo menos alguns dias por mês, enquanto ON uma palavra que nunca ocorre nesse contexto - e sim "regulação
outros métodos não o permitem. dos nascimentos", que a tudo retifica. Dessa forma ainda estamos
Os teólogos, presumivelmente, não farão greve, e descobri n o falando sobre algum tipo de nascimento.
aquela diferença. Afinal, João Paulo Iljá apontou para a solução do Os teólogos, que nunca se sentem perdidos, certamente serão
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus
300 301

úteis na busca dessa grande diferença entre contracepção e regula- no Boletim Pastoral para as Dioceses de A .
sen-Colônia-Osnabrück (1976): "Devido à qu_Lsgrana-Berlim-Es-
ção do nascimento. O Cardeal Ratzinger já veio em auxílio do papa.
vida das mulheres, que no século XIX vivmi_aruor probabilidade de
Com relação ao Sínodo Romano dos Bispos em 1980, escreveu uma . m, em m'd'
carta pastoral de 27 páginas aos padres, aos diáconos, e aos assis-
tentes pastorais da Arquidiocese de Munique-Freising, onde dá
anos, mmtas vezes morrendo por debilitação c
e:
d . e ia, só 35
v~zes na própria mesa de parto, há também a;;~a pe~o parto, às
numero de pessoas que vivem J·untas trinta . .. escimento no
atenção diligente e elogia os resultados do sínodo sobre o tema "O 'cmquenta
casamento e a família". Nela fala sobre a Humanae vitae: "Preci- ses~enta anos. Esse período de tempo significa u , e me~mo
samente desse ponto de partida [a experiência das mulheres], mais~ sobretudo para O marido. Pois, enquanto no rna provaça~ a
puramente do ponto de vista experiencial, algo se torna muito claro depois da morte da esposa (muitas vezes ainda jovei:assado podia,
e de forma muito convincente e que nossa argumentação teológica (em geral com ~sposa mais jovem), hoje é obri ad) tornara casar
O
anterior deixara de mostrar: que, no caso da alternativa entre os esposa que mmtas vezes envelhece mais dep·ressa g d a suportar a
métodos naturais e a contracepção, não temos uma questão de
eorno vemos, todo mundo tem seu fardo a carr o que ele."
diferentes meios para um mesmo fim, desprovida de significado
se vêem limitadas em sua liberdade e se tornam ~?~· _As mulheres
Utihz, · "
moral, mas há um abismo antropológico entre ambos, que por essa pfl1:l1a, enquanto os homens perdem sua liberdade ave1s pela
idade crescente das esposas. Além disso a ,1 1 por causa da
mesma razão é um abismo moral. Mas como posso eu indicá-lo em
buído para sobrecarregar os homens já ~u;~ u ª pode ter contri-
poucas linhas quando nossa consciência comum simplesment
hoje são debilitadas pelos partos rep~tidos neem tantas mulheres
barra a porta ao entendimento?" Com efeito, umas poucas linhall • , m morre
não serão suficientes para combater a ignorância das pessoas casa,. de parto.e deixam vago o leito nupcial para uma mu Iher mm •na• mesa
das. Os teólogos terão de trabalhar durante várias gerações parn Mas fie 1izmente.
há um recurso para essas situ -
d
- ais Jovem.
açoes tao p bl ,
trazerem luz à cega consciência comum, que nem é capaz nem est ticas, qu al seJa, o a continência recomendad 1O ro ema-
Meves prossegue: "Será que as diretrizes do p: pe papa. Christa
disposta a reconhecer a diferença, e assim se tornarem os teólogoM
a luz dos casados que continuam todos tateando nas tr_evas. o têm uma justificativa prática? Não protege!~ara as mulheres
Felizmente o cardeal dá uma dica quanto à maneíra como St rnarem uma nova espécie de jogo limpo mulheres de se
poderá penetrar pouco a pouco nessas idéias difíceis: "Com a pílultt asculina? Não dão ao homem, através dom p!a ª sexualidade
a espécie própria de tempo da mulher, e sua própria espécie de At)J de, da consideração para com as mulheres an am~nto da casti-
, . , uma maior 'b•1·
lhe é tirada. Como quer o mundo tecnológico, ela se torna cont de d e uma necessana compensação espiritual poss1 1 1-
imais?" para seus instintos
nuamente 'utilizável'. Esse é o ponto que Christa Meves recent
mente enfatizou de forma impressionante. Ela se refere nes O papa, com seu evangelho da continência é a , .
contexto ao significado e à beleza da continência, algo sobre o qu ti teger as esposas da mentalidade de pirat't d unica pessoa a
nossa civilização doente dificilmente ousa ainda falar. - Tudo is 11 imalescos. A. mulher, usando a pílula, desatreana 1e ~eusO maridos
·
e muito mais, como todos sabemos, levou a uma tal saturação <H1t xu o m,'.1Ildo de tal forma que se veria <lesam
ald impulso
a pílula que deveríamos ver aí uma oportunidade para reconsid nndonada as suas garras. A única proteção Paradamente
m Ih que pode en ,
o papa, que e proíbe a pílula em seu próp . . contrar e
rarmos todo o assunto."
Assim, se aos olhos do Cardeal Ratzinger a pílula constitui 11111 l~á~la da existência como jogo limpo. Os m r_ido mter~sse, para
. . . . an os an1m 1
fardo para as mulheres, para igualarmos as coisas, devemos • 111 tlf1cam
e
a 1mciat1va do papa em bloquear-lhe
al,
. .
s os mstint 0
a escos
um fardo para os homens, conforme Christa Meves expõe 1111111 ll laz em de postar-se diante da espo os. papa
d sa como
. ,º protetor,
.1
ensaio: "Seráqueocasamento(católico)cristãoaindatemfutun1'/' uan o-a a recusar a pílula, porque com ela f
icana a mercê do
' 1

Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 303


302 )

marido lúbrico. O papa é a poderosa fortaleza das mulheres e o XXV


Vaticano uma espécie de abrigo das mulheres. E a Santa Sé pron-
tamente opera o milagre. Enquanto a mulher que toma a pílula faz
o marido se comportar como um devasso, a que não toma faz com
que aja de forma casta e continente. Conforme vê Christa Meves,
Os SÉCULOS XIX E XX: ·
o papa tem uma noção da pílula à maneira do Dr. Jekyll e Mr. Hyde: A ERA DO "CoNTROLEDA NATALIDADE"
dependendo se a esposa toma a pílula ou não, o marido ora é uma
besta, ora é um anjo.
Independentemente dessas transformações miraculosas, há
algo mais a considerar: todos os que glorificam a continência
conjugal, de João Paulo II a Christa Meves, se recusam a ver que o
sensualista desenfreado não é o único que degrada o outro como
9 Iluminismo e ~ R:volução Francesa não ofereceram, a princí-
pio, . qualquer apoio a contracepção. E quando O jovem padre
mero objeto de seus instintos. Pode haver uma forma mais sublime angh<:_ano Thomas Malthus apresentou sua idéia sobre a superpo-
de degradação ao tomar o outro o objeto para o controle de seus pulaçao e~ 1798, denunciando o fato de que a população tendia a
instintos. Isso não é falar a favor pílula (Christa Meves: "há um crescer..mms depress~ do qu~ a produção de alimentos, advertia
novo tipo de tumor da glândula pituitária que só aparece em contra a conspurcaçao do leito nupcial" e "as artes impuras
·
• que
mulheres que usam a pílula por muito tempo") ou contra o método visam esco~der as conseqüências de relações proibidas, que clara-
do ritmo, nem tampouco a favor da camisinha ou contra o coito ~ente precisam ser caracterizadas como vícios". Exortava e
interrompido - ou vice-versa. Só se quer aqui frisar o seguinte: d1ss , " t· ~ . ,, , m vez
todas essas questões não são direcionadas para os teólogos e os d o,, a con, meneia·d,. d moral . Entretanto ' foi a obra de Malth us que
eu 1~pet? a I eia o controle de natalidade que se apoderou d
papas, mas para a medicina e os próprios casais, sua responsabili- consc1encia dos séculos XIX e XX. ª
dade e consideração pelo outro. Em Familiaris consortio João
Na Eu~opa, à~uela época, o coito interrompido era o método
Paulo II protesta contra "a grave afronta à dignidade hwnana" que
contraceptivo mais . generalizado·' e assim permaneceu mesmo
ocorre quando os governos "tentam cercear a liberdade dos cônju-
quanddo da vulcamzação
· · da borracha' em 1843 , que popul ar1zou · o
ges em decidir se podem ou não ter filhos". Esquece-se de dizer
que muitos cônjuges católicos vêem no estilo do papa de limitar sua uso a ca~smha. Em ~850, o j~suíta francês Jean-Pierre Gury (m.
liberdade nesse ponto igualmente uma "afronta grave à dignidad 1866), o teologo moralista catohco mais lido do século XIX d' · .
"E d' ' IZ!a
humana". Além disso eles a vêeµi como hipocrisia quando a Igreja . m nossos ia~ a P,~aga tenebrosa do onanismo [coito interrom~
insiste na liberdade contra a anti concepção, mas proíbe a liberdad p1do] se generalizou (Manual de Teologia Moral II 705) G
acha.va que " u~a i:nuIh.er peca gravemente se desencaminhar, · uryo
para praticá-la, já que no fundo a Igreja não defende realmente a
liberdade de um único casal. Simplesmente se empenha em imp r mando, mesmo mdrreta e tacitamente, no uso impróprio do casa-
sua própria ditadura moral sem levar em conta o bem-estar das mento (contracepção) ao lamentar-se do número de filhos que t
pessoas casadas, uma ditadura baseada no desprezo pelo casamento das dores, d do parto
, • ou da dificuldade
. em criá-los , ou d'1zend o em,que
nutrido pelos celibatários que odeiam o prazer e têm um culto morrera_ a prox1ma vez que tiver um filho"(ibid., II, 824).
maníaco da virgindade. Ass1~ a esposa não pode fazer o marido praticar o sexo
lnte~omp1do por medo de morrer, mas terá de resistir se ele 0
praticar
· , ·pord conta
Ch própria?
, Em novembro de 1816, R orna m1ormou
· .,
O v1gar10 e ambery que era permitido à mulher prosseguir com
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 305
304

, . ·uízo decorresse de sua recusa. De fato, da Igreja Católica contra a anticoncepção começou a sério. A
o sexo, caso algum s~n~ preJr citar o sexo se, caso contrário, caís~e oportunidade se deu, por um lado, pelo crescente interesse público
a própria mulher po ena so i ai·s vemos a preocupação da Igreja mundial no controle da natalidade e a disseminação dos contracep-
eia (Uma vez m . .
~~=:o
• • A

em mcontmen · t cial e sua neghgência para com tivos entre as massas, e por outro lado, pela guerra franco-prussiana,
só com os adJlteros _em c~njugal como substituto _P~ª 0 ambos vistos à luz de um tomismo recém-redescoberto, que só
aqueles que naodde~e~amd Roma praticamente repetia a posiçao de aceita o ato sexual como ato de procriação conjugal. Em 1872, no
adultério.) Essa ecisao e dia da Bastilha, em Beauvais, o cardeal suíço Gaspar Mermillod
Afonso de Ligó~i°d 1822 em resposta a um pedido renovado ~e disse o seguinte aos franceses: "Vocês se afastaram de Deus, e Deus
A 23 de abn e ' C Roma disse que a mulher podena os atacou. Num cálculo abominável, vocês escavaram covas em vez
informação _sobre est~ que\!~isse espancamento, morte, ou outras de encherem os berços com filhos. É por isso que lhes faltaram
"ceder passivamente 'se~ nsentisse Respostas semelhantes soldados" (ibid., p. 414). Em 1886, pela primeira vez, Roma
graves crueldades, caso na? cod 1823 ~ a 3 de abril de 1916. O decretou ser tarefa dos confessores, no caso de "suspeita bem-fim-
1º de fevereiro e , ~ ,
foram dadas a . mais áspero. Não se fizera mençao a dada", perguntar aos penitentes sobre a prática da contracepção.
tom, será observado, ficaraAfonso nem em resposta ao capelão de Então, no século atual, o último obstáculo à obrigação do
ameaça de morte nem com nada era dito sobre a mulher que em confessor de fazer perguntas, ou seja, a exigência da "suspeita
Chambéry em 18 ~ ; ~ ~or:rmissãoparasolicitararelação sexual.
6 bem-fundada", foi por terra. Em 1901, um pastor francês anônimo
A

certas circunstancias t~n ~ p Roma emitiu uma resposta sobre trouxe a Roma a questão. Ao ouvir a confissão de Titius (pseudô-
Em 1853, pela pnmerra vetz, a· "A mulher pode ceder passi- nimo), que descreve como "rico, honrado e culto", e um "bom
. · h Apergun a er . .
0 uso de carmsm as. ~ ual?" A resposta· Não. Assim, se cristão", é perguntado sobre a contracepção. Titius dissera-lhe que
· de relaçao sex • · .
vamente a esse tipo 1 poderia se submeter ao sexo mter- praticava o coitus interruptus para não baixar de padrão de vida -
houvesse perigo de morte, ; ªnão ao sexo com camisinha. A 3 de tinha um 'menino e uma menina - e também para não esgotar a
rompido, mas evidente:e~:ou que no último caso a esposa deve esposa com gestações sucessivas. O pastor desaprovou a conduta e
junho de 1916: Ro~a ec se ele fosse um estuprador'D. recusou-se a dar a absolvição, mas Titius replicou que outro con-
. · mando como · · d fessor, um professor de teologia moral de um seminário, aprovara
resistir ao ' . t a a anticoncepção não havia am a s
A batalha da Igreja con r dos do século XIX. Isso pode ser o que fazia, na medida em que procurava aquietar seus desejos e
desenvolvido plenam~nte em metaa de Roma: em 1842, um bispo mão ter uma ejaculação. Titius então deixou o confessionário e
ela segumte respos
constatad o P B t' te Bouvier perguntara a Roma com } espalhou que o pastor era ignorante e arrogante. A resposta de
francês chamado_ Je~n- d apu:les que ("quase todos os casais joven, Roma, de 13 de novembro de 1901, defendia o pastor, dizendo que
lidar com as confl~soes aq itus interruptus porque não querialll era impossível dar a absolvição a um penitente que não repudiasse
da diocese") praticavam; co foi que de acordo com o conselho seu onanismo (coitus interruptus) inequívoco.
ter filhos. A respo sta ~e, . ºf.~omem instruído e muito hábil ne8MII Na virada do século, os teólogos belgas assumiram a frente no
de Santo Afonso de Ligono_ f' ar em silêncio a respeito dessu ataque ao sistema do "silêncio tolerante". Sustentavam que mesmo
, ") nfessor devena ic J h 'l' as mães de moças recém-casadas tinham de ser indagadas se
area ' o co f0 sse especificamente perguntado ( o n
coisas, a menos que_ 400 ss.) 0 padre Gury também af!r11111 aconselharam às filhas a "ficar de guarda". Em particular, o
Noonan, Contracepçao, PP· h ma pergunta deveria ser fet ttl 1" principal teólogo moralista daquela época, o belga Arthur Ver-
va invocando Afonso, qu~ n~n u 'd meersch (m. 1936), teceu elogios ao grito de guerra. Se o marido
' . , • b O coito mterrompi o.
confessionano so r~ . rtel do século XIX, a exacerbadH 111111 propusesse usar camisinha durante o sexo, a esposa era obrigada a
No entanto, no ultimo qua
Uta Ranke-Heinemann Eunucos pelo Reino de Deus 307
306

resistir até que fosse fisicamente vencida ou até que sacrificasse de Paderbom e~creveu .~m ensaio para a revista Theologie und
"um valor equivalente à vida". A esposa era obrigada a defender-se Glaube, onde afirmava: As guerras modernas são guerras onde as
contra o marido como se ele fosse um estuprador. Deve estar mas~a~ desem~enham um papel extremamente importante. Assim
preparada para arcar com as conseqüências, ou seja, "fim da alegria os hmite~ d~l~berados colocados sobre o número de filhos [na
ou da felicidade na família, rompimento do casamento, abandono França] _sigmficaram a renúncia à mesma força nacional que a
propositado, divórcio". Conforme disse Vermeersch: "Por que conseg~ida i:el~ Alemanha. ( ... ) Milhares de pais lamentam a perda
achar que é uma coisa terrível que a castidade conjugal, como todas de seu filho umco. ( ... ) Deve ser castigo. (... ) A guerra lançou nova
as virtudes cristãs, exija seus mártires?" (ibid., p. 432). A orientação luz ao problema ~a evitação deliberada de filhos." A idéia macabra
de Vermeersch às esposas foi incluída na decisão do Vaticano, de ameaçar os p~is ~º1!1 a morte prematura dos filhos como castigo
previamente mencionada, de 3 de junho de 1916. . , . p~la contracepçao Jª tivera o aval da aprovação da orientação dos
Em 1909, por sugestão de Vermeersch, o arcebispo da Belgica, bispo~ belgas a~s confessores em 1909. E durante a Segunda Guerra
o Cardeal Mercier, publicou uma carta pastoral sobre "as obriga- Mundi~l, a noçao teve ~eu eco na Quaestiones de castitate et luxuria
ções da vida conjugal". A esta seguiu-se no mesmo ano uma (9uestoes sobre ~ castidade e a luxú_ria, Bruges, 1944) pelo domi-
orientação "contra o onanismo" dos bispos belgas para os padres mcan~ be!ga e _teolog? moral Benedikt Merkelbach (m. 1942).
e confessores. Alegava que o "perversíssimo pecado de Onã" era Nao tão mas, porem más o suficiente foram as observações do
praticado na Bélgica por ricos e pobres, na c~dade e ~o int_erior. Padre H. A. Kr?se, no renomado periódico jesuíta Stimmen der Zeit
"Neste perigo público", eles, os bispos, estanam negligenciando 0915): "Na_ viva discussão causada pelo declínio ameaçador na
sua tarefa, se em face desse vício contra a natureza não levantassem taxa d~ natalidade da Alemanha, repetidas referências foram feitas
suas vozes para se oporem a um pecado que bradava aos céus. As ao pei:igo que tal !ato imp?: à posição do Império como potência
pessoas devem ser advertidas para terem mais confiança na Provi- mundial.( ... ) As epocas dificeis em que somos obrigados a viver
dência, que cuidaria para que ninguém morresse de fome. A luta ll_?OS~ram com aterradora clareza quão justificadas eram tais refe-
contra esse mal deve ser executada com especial severidade no ren~ias. D~ q_ue_modo poderia o Império Alemão resi