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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Faculdade de Direito

Yana Rodrigues Teixeira Lizardo

A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL: o sentido da colonização brasileira e o


papel do Direito na obra de Caio Prado Jr.

Belo Horizonte

2021
Yana Rodrigues Teixeira Lizardo

A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL: o sentido da colonização brasileira e o


papel do Direito na obra de Caio Prado Jr.

Monografia apresentada ao Programa de


Graduação em Direito da Universidade Federal
de Minas Gerais como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Vitor Bartoletti Sartori

Belo Horizonte

2021
À minha mãe, aos meus avós e a todo o povo
brasileiro que resiste.
AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, agradeço à minha mãe, Viviane, pelo amor e pelo esforço dedicados em
garantir a melhor educação possível a mim e ao Igor. Sem seu apoio, seu carinho e sua
confiança eu não teria chegado até aqui, mãe. Ao meu avô Edgar, pelo amor incondicional,
pela confiança e carinho, por ter contribuído com a minha formação (inclusive
financeiramente) e, principalmente, por me inspirar na luta por um Brasil mais justo. Ao meu
avô Moacir, in memoriam, por todas as risadas e todos os puxões de orelha, pelo carinho e por
nunca me deixar dormir na escola. Às minhas avós, Maria Aparecida e Antônia, pela força
que emanam. Ao Igor, meu irmão, pelo amor e pelo carinho (nem sempre declarados). Aos
meus tios e tias, que sempre torceram por mim. Agradeço ao meu primo-irmão, Thales, que
sempre acreditou em mim e sempre foi lugar de apoio e carinho. À minha prima Isabela, in
memoriam, por me mostrar que a vida pode ser linda. Aos primos Renato e Cássia, por terem
me presenteado com os livros que estudei neste trabalho. Vou ser sempre grata a vocês pelo
apoior e confiança. Agradeço ao meu companheiro de luta e de vida, Paulo Antonio, pelo
tempo dedicado na leitura desse trabalho, pelo carinho e aconchego nos dias difíceis, pelas
risadas compartilhadas e por todo o carinho de sempre.

Ao meu orientador, Vitor, pela dedicação, pela confiança, por servir de inspiração, por ter
topado seguir comigo na minha primeira pesquisa acadêmica, pelos memes e figurinhas de
gatos.

Um agradecimento especial às minhas companheiras e aos meus companheiros de luta e


caminhada que me acolheram no Ceará: Carliana, Natália, Thalita, Péricles (incluindo aqui
toda a sua família que me acolheu como se fosse parte), Crateús, Ítalo, Maria Alice, Fladson,
Ramiro, PH, Joana, Tamyres, e tantos outros que aqui não caberiam. Ao Levante Popular da
Juventude, movimento que me formou enquanto militante e que me fez entender que o
conhecimento só é válido quando voltado aos interesses do nosso povo. Ao Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra pela inspiração e pela luta grandiosa (aqui, fica um
agradecimento especial ao João Pedro, que me inspirou a estudar a questão agrária no Brail).
Aos companheiros e às companheiras da Consulta Popular, por serem um exemplo de
militância. Agradeço enormemente à Célula Centro, do Levante BH, que fez a faculdade de
Direito ser um lugar menos hostil e que me inspira a continuar, a todos vocês, agradeço pela
confiança, pela paciência, pelo companheirismo e pelos aprendizados. Aos de antes, que me
acolheram e me formaram: Bia, Débora, Bruno, Stéphano, Luciana, Bruna, Júlia. Aos de
agora, meus púpilos: Ana Luiza, Bruna, Yara, Maria Clara, José, Izaú, Gabriel, Gustavo,
todas as Naths, Maria Angélica, Osvaldo (espero não ter esquecido de ninguém). Aos
companheiros e às companheiras do Levante BH, de antes e de agora: Jojo (sem você talvez
eu nem tivesse entrado pro Levante), Fê Lage, Fê Maria, Nath Ferreira, Nath Ramos, Leite,
Bruno, Vithoria, PA (mais uma vez você aqui, bem), Thainá, Renan. Obrigada pela
dedicação, pela dedicação e por me inspirarem. À Thays, Luiz Bugareli (primo-companheiro),
Lucas Bezerra e Ju Furno, agradeço por toda dedicação na formação do nosso movimento e
por me inspirarem a continuar estudando e lutando pela transformação da realidade. Agradeço
à AJUP –PUC Minas por ter me movimentado, por ter mostrado a realidade do nosso povo e
ter plantado a semente da militância. Em especial, agradeço à Fernandinha, Jojo, Adília
(MTD, Glicose (MTD) e Cintia.

Agradeço às minhas amigas do peito, Luiza, Bárbara e Maju, por todo acolhimento e amor
dedicados, pelas trocas, pelas brigas, pelas muitas risadas e choros, pelo desespero e pelo
amparo. Vocês foram fundamentais para eu me manter firme. À Jéssica, professora que
marcou nossas vidas com apenas um mês de aulas, e que se tornou uma amiga, conselheira,
uma mulher que eu admiro e com quem troco as melhores dicas de livro. Aos amigos do
Tutidadada!, Bruno, Leite, Vithoria, Amanda e Elis: obrigada por me acolherem nesse grupo,
sempre quis fazer parte dessa trupe e que bom poder compartilhar esse momento importante
com vocês.

Aos meus professores do ensino médio: Kennedy, Allana, Junio, William, Patricia, Claudia,
Gabriel, Joelma, Gisele e Martin. Sem vocês, possivelmente eu não teria chegado até aqui,
vocês foram fundamentais na minha formação. Agradeço às trabalhadoras terceirizadas da
FDCE, que compartilharam comigo momentos que vão marcar pra sempre minha trajetória.
Agradeço ao povo brasileiro que tanto insiste em resistir. Às professoras e aos professores da
faculdade que me acompanham até aqui e que vou levar pra vida: Marcella, Jéssica
(professora e melhor amiga virtual), Eliana (da PUC), Vitor (mais uma vez), Fábio, Marco
Antonio, Giovani Clark. À professora Marília Lomanto e ao professor Cloves Araújo, pela
troca que tivemos no Curso de Direito e Questão Agrária – agradeço pela inspiração e pela
generosidade. Agradeço a todos que lutaram e aos que continuam lutando pela defesa da
universidade pública, gratuita e de qualidade.

Com toda a certeza, eu esqueci de agradecer alguém que marcou a minha trajetória até aqui.
Não se sintam menos, eu sei quem vocês são e sei que estão comigo. Obrigada!
Aprieto firme mi mano
y hundo el arado en la tierra
hace años que llevo en ella
cómo no estaré agotado?
(...)
Y en ela tarde cuando vuelvo
en el cielo apareciendo una estrella
nunca es tarde me dice ella
la paloma volará, volará, volará

Cómo yugo de apretado


Tendo el puño esperanzado
Porque todo cambiará

Victor Jara

RESUMO

O trabalho em tela tem como objetivos, através do estudo das obras de Caio Prado Júnior,
compreender o sentido da colonização enquanto base e origem da estrutura e organização
agrária brasileira; bem como compreender o papel ativo do Direito como um dos fatores de
transformação daquela estrutura, sob a ótica do autor. Assim, procura-se identificar e
compreender a solução apontada por Caio Prado Jr. para a questão agrária no Brasil e de que
maneira a melhoria das condições de vida dos trabalhadores rurais - vista por ele sob duas
perspectivas convergentes: luta dos trabalhadores e legislação assecuratória de melhorias nas
condições de trabalho - concorre para a reforma agrária “entendida como deve ser” e para o
processo revolucionário brasileiro, na medida em que desgasta as forças capitalistas e
evidencia suas contradições. O autor, analisando a questão agrária no Brasil, preocupou-se em
dar saltos qualitativos na elaboração de uma teoria revolucionária (2019, p. 203) que
condissesse com a realidade brasileira. Para tanto, o historiador brasileiro reforçou a
necessidade de caracterizar as relações de trabalho e produção predominantes no meio rural
brasileiro, vez que seria por meio dessa caracterização que se encontrariam a natureza dos
conflitos e a dinâmica das contradições fundamentais do processo histórico-social do país
(2014, p. 135). Para fins de delimitação da pesquisa, serão consideradas, principalmente, as
obras A Revolução Brasileira, Formação do Brasil Contemporâneo e A questão agrária no
Brasil, todas de autoria do estudioso brasileiro. Pela leitura e análise crítica da obra de Caio
Prado Jr., concluímos que, para o historiador, a contradição principal incluída no processo
revolucionário do campo seria a péssima condição de vida e de trabalho dos trabalhadores
rurais. Assim, o principal objetivo da reforma agrária no Brasil seria a elevação dos padrões
de vida dos trabalhadores do campo, o que, para Caio Prado Jr., é de grande potencial
revolucionário, tendo em vista que esgarça as contradições do modo de produção capitalista,
contribuindo para sua superação. Para tanto, confia que a expansão e efetivação de uma
legislação trabalhista rural sejam o caminho para alcançar o objetivo apontado.

Palavras chave: Questão agrária brasileira. Sentido da Colonização. Revolução brasileira.


Direito. Trabalhadores rurais. Legislação trabalhista rural.
ABSTRACT
The present work, through the study of the works of Caio Prado Júnior, to understand the
meaning of colonization as the basis and origin of the Brazilian agrarian structure and
organization that we still identify today; as well as understanding the active role of Law as
one of the factors that transformed that structure, from the perspective of the author. Thus,
seeking to identify and understand the solution pointed out by Caio Prado Jr. for the Agrarian
Question in Brazil and how to improve the living conditions of rural workers - seen by him
from two converging perspectives: improvement of the working conditions throught
legislation - contributes to agrarian reform “understood as it should be” and to the Brazilian
revolutionary process, as it wears out capitalist forces and highlights their contradictions. The
author, analyzing the agrarian question in Brazil, was concerned with making qualitative leaps
in the elaboration of a revolutionary theory (2019, p. 203) that would be consistent with the
Brazilian reality. Therefore, the Brazilian historian reinforced the need to characterize the
predominant work and production relations in the Brazilian rural environment, since it would
be through this characterization that the nature of conflicts and the dynamics of the
fundamental contradictions of the country's historical-social process would be found. (2014,
p. 135). For the purpose of delimiting the research, the works The Brazilian Revolution,
Formation of Contemporary Brazil and The agrarian question in Brazil will be considered, all
by the Brazilian scholar. By reading and critically analyzing the work of Caio Prado Jr., we
concluded that, for the historian, the main contradiction included in the revolutionary process
of the countryside would be the terrible condition of life and work of rural workers, so that the
main objective of the reform in Brazil would be to raise the standards of living of rural
workers, in view of the fact that it rip the contradictions of the capitalist mode of production,
contributing to its overcoming. To this end, it is confident that the expansion and
implementation of rural labor legislation will be the way to achieve the stated objective.

Keywords: Brazilian agrarian issue. Colonization Sense. Brazilian revolution. Right. Rural
workers. Rural labor legislation.
Sumário
1. Introdução .................................................................................................................................. 1
2. O sentido da colonização: como Caio Prado Jr. compreende a questão agrária no processo da
formação social brasileira................................................................................................................... 2
2.1. A colonização como um capítulo da história do comércio europeu .......................................... 2
2.1.1. Os fatores que determinaram o regime agrário das grandes propriedades no Brasil .............. 5
2.2. Os três caracteres da formação agrária brasileira e a evolução econômica da colônia ............... 8
3. Respostas para a questão agrária brasileira .................................................................................13
3.1. A revolução brasileira e a teoria revolucionária ......................................................................13
3.2. A concepção do Partido Comunista do Brasil sobre a questão agrária.....................................15
3.3. A posição de Caio Prado Jr. frente à questão agrária brasileira ...............................................24
4. A linha principal e essencial da reforma agrária no Brasil ..........................................................34
4.1. As duas frentes de ataque da Reforma Agrária brasileira ........................................................35
4.2. O papel ativo do Direito na modificação da estrutura agrária brasileira ..................................38
5. Conclusão .................................................................................................................................44
6. Referências Bibliográficas .........................................................................................................45
1. Introdução
A questão agrária no Brasil tem sua raiz na invasão e colonização europeia das
Américas, que se sustentou por meio do sistema de trabalho escravista e, posteriormente,
pela exploração da mão de obra livre assalariada. A concentração da propriedade fundiária
no país está intimamente ligada ao processo de colonização e do desenvolvimento do
capitalismo europeus, e contribuiu para a formação econômica e social do Brasil. Nesse
sentido, busca-se, neste trabalho, estudar a obra de Caio Prado Júnior, que foi um dos
grandes estudiosos e intérpretes da Questão Agrária no Brasil, que enxergou na questão
agrária brasileira o seu potencial revolucionário.
Sob a ótica do autor, seriam três os fatores que determinaram o regime agrário das
grandes propriedades no Brasil: o caráter tropical da terra; os objetivos que animam os
colonizadores e as condições da nova ordem econômica (2011, p. 123-124). Além disso, o
autor aponta como caracteres importantes da formação agrária brasileira a monocultura; a
grande propriedade de terra e o trabalho escravo (2011, p. 124).
Esses fatores inter-relacionados também contribuíram para a exploração e para as
precárias condições de vida dos trabalhadores rurais. Sendo assim, para o historiador
marxista, são dois os elementos que convergem para a superação da estrutura agrária
brasileira fruto do passado colonial: a luta reivindicatória dos trabalhadores por melhores
condições de vida e de trabalho e uma legislação social-trabalhista adequada (2014, p. 413).
Cumpre dizer que esses dois elementos, para o autor, são de caráter revolucionário e
contribuiriam para a transformação econômica e social do país.
Diante disso, procura-se compreender o sentido da colonização e o papel ativo do
Direito na Questão Agrária brasileira, sob a ótica de Caio Prado Jr. Segundo Caio Prado Jr.
(2011, p. 9), para compreender o Brasil contemporâneo de sua época – marcadamente o
século XX -, precisamos conhecer e entender nosso passado colonial e as transformações
que se deram naquele período que nos marca até hoje. Para o autor,

Os problemas brasileiros de hoje, os fundamentais, pode-se dizer que já


estavam definidos e postos em equação há 150 anos. E é da solução de
muitos deles, (...), que depende o de outros em que hoje nos esforçamos
inutilmente. (PRADO JR., 2011, p. 10)

Diante de tal entendimento, buscaremos compreender de que modo a questão agrária


está vinculada, na obra de Caio Prado Jr., ao processo de colonização portuguesa pelo qual o
Brasil foi forjado. Visualizar quais são os elementos que determinaram o regime agrário das
1
grandes propriedades no Brasil; entender o que seria, para o autor, a contradição principal no
campo brasileiro até, pelo menos, o século XX – suas principais obras foram publicadas nesse
contexto -; e, por fim, compreender qual seria o papel do Direito para a transformação da
realidade brasileira a partir da questão agrária.
Para tanto, dividimos o texto em três partes principais. Primeiramente, busca-se
compreender o sentido da colonização e como Caio Prado Jr. compreende a questão agrária
no processo da formação brasileira. Em segundo lugar, serão demonstradas as respostas
dadas, àquela época – década de 60 – à questão agrária no Brasil. Nesse ponto, buscamos
apresentar a posição do Partido Comunista do Brasil1 (PCB) sob a ótica do autor, bem como a
sua posição enquanto pensador brasileiro e estudioso do tema.
Por fim, apontaremos a linha principal e essencial da reforma agrária no brasil,
segundo o entendimento de Caio Prado Jr. Neste contexto, apresentaremos os dois caminhos
propostos para a transformação da realidade do campo brasileiro e o papel que o Direito
cumpre, a partir da legislação trabalhista rural, na modificação da estrutura agrária brasileira
de acordo com o autor.

2. O sentido da colonização: como Caio Prado Jr. compreende a questão


agrária no processo da formação social brasileira

2.1. A colonização como um capítulo da história do comércio europeu


Na obra Formação do Mundo Contemporâneo, de Caio Prado Jr., publicada pela
primeira vez em 1942, o autor busca explicar a formação social e econômica do Brasil. Nesse
sentido, parte da análise da colonização europeia da América, especificamente do processo de
colonização do Brasil pelos portugueses, para compreender quais seriam os fatores que
determinaram a evolução econômica e social do país e qual seria o sentido da colonização do
nosso povo.
De acordo com o pensamento caiopradiano, todo povo tem na sua evolução um certo
“sentido” (2011, p. 15), que deve ser observado não nos pormenores da história, mas em sua
totalidade, levando-se em conta o conjunto de fatos e acontecimentos essenciais que
constituem a formação daquele povo. Não significa dizer que o sentido da evolução de um
povo é imutável. Para o autor,

1
O V Congresso do PCB (realizado em setembro de 1960), cuja tarefa principal era legalizar o partido, decidiu
2
O sentido da evolução de um povo pode variar; acontecimentos estranhos a
ele, transformações internas profundas do seu equilíbrio ou estrutura, ou
mesmo ambas essas circunstâncias conjuntamente, poderão intervir,
desviando-o para outras vias até então ignoradas. (PRADO JR., 2011, p. 15-
16)

Ocorre que, de acordo com Caio Prado Jr., ainda que existam “pormenores mais ou
menos complexos” (2011, p. 16), que fazem parte e constroem a história de um determinado
povo e que, por vezes, ameaçam mudar o rumo de sua história e “nublar o que
verdadeiramente forma a linha mestra que a define” (2011, p. 16), estes ficam em segundo
plano. Delimitar isso é importante para compreender a escolha do autor, em sua obra
Formação do Brasil Contemporâneo, quanto ao momento do processo de colonização a ser
analisado por ele.
Caio Prado Jr., para analisar a formação do Brasil contemporâneo 2, se debruçou sobre
a “última página” do processo de colonização, porque, segundo ele, aquele momento se
apresenta como um “termo final e a resultante de toda nossa evolução anterior” (2011, p. 16).
Antes, para compreender o sentido da colonização, o autor entendeu necessário a
reconstituição do conjunto da formação brasileira, considerando seus antecedentes e os três
séculos de atividade colonizadora que caracterizam a história dos países europeus a partir do
século XV (2011, p. 16). Sem compreender o contexto dos países europeus naquela época,
seria difícil entender a formação do Brasil na sua totalidade.
Nesse sentido, Caio Prado afirma que a colonização brasileira não foi um processo
natural e espontâneo, desvinculado de outros processos semelhantes de colonização, como os
dos continentes africano e asiático (2011, p. 17). A ocupação, pelos europeus – mais
especificamente pelos portugueses, no caso brasileiro -, do nosso território, fazia parte,
segundo o historiador marxista, do projeto de desenvolvimento do comércio continental
europeu (2011, p. 17). Vejamos o que diz o autor:

(...) todos os grandes acontecimentos desta era, que se convencionou com


razão chamar dos “descobrimentos”, articulam-se num conjunto que não é
senão um capítulo da história do comércio europeu. (PRADO JR, 2011, p.
19).

Com o objetivo de expandir o seu comércio, os países europeus decidiram alargar o


horizonte pelo oceano afora. Nesses termos é que se deu a exploração da costa africana, o

2
Quando nos referimos ao Brasil “contemporâneo”, estamos falando do contexto e da época em que o autor
estava situado, principalmente entre as décadas de 40 e 60.
3
descobrimento e a ocupação das ilhas pelos portugueses, a busca por especiarias na Índia e o
descobrimento da América (2011, p. 19).
Contudo, diferentemente do que aconteceu nos outros continentes explorados pelos
europeus, a América não foi vista, inicialmente, com tanto interesse pelos colonizadores. Pelo
contrário, era “senão um obstáculo oposto à realização de seus planos e que devia ser
contornado.” (2011, p. 19). O plano inicial, cujos principais autores foram os espanhóis,
seguidos pelos portugueses, e que levou ao descobrimento da América, era encontrar um novo
caminho para o Oriente.
Isso explica a grande diferença entre a colonização da América quanto a de outros
continentes, marcadamente a África e a Ásia. Ora, a ideia de povoar o território americano
não surgiu de início a nenhum dos países colonizadores europeus. O que lhes interessava era
tão somente a expansão do comércio, e, por isso, o relativo desprezo, segundo Caio Prado Jr.,
pelo território “primitivo e vazio” que era a América (2011, p. 20). Vejamos:

Na América a situação se apresenta de forma inteiramente diversa: um


território primitivo habitado por rala população indígena incapaz de fornecer
qualquer coisa de realmene aproveitável. Para os fins mercantis que se
tinham em vista, a ocupação não podia fazer como nas simples feitorias (...);
era preciso ampliar essas bases, criar um povoamento capaz de abastecer e
manter as feitorias que se fundassem e organizar a produção dos gêneros que
interessassem ao seu comércio. A ideia de povoar surge daí, e só daí.
(PRADO JR., 2011, p. 21)

Sendo assim, a disposição de povoar a América surgiu para os colonizadores europeus


quando começaram a identificar a possibilidade de explorar e produzir gêneros que fossem de
interesse para o comércio em expansão. Madeiras, peles e pesca foram os principais produtos
que, inicialmente, os eurpeus exploraram (2011, p. 22). Posteriormente, devido à interseção
de alguns fatores, a agricultura tornou-se a base econômica mais estável e mais ampla na
América (2011, p. 22), principalmente na América tropical.
A seguir, analisaremos os fatores que contribuiram para o início da exploração
agrícola no território que hoje é o Brasil e, mais ainda, para a constituição do regime agrário
imperante nestas terras desde àqueles tempos.

2.1.1. Os fatores que determinaram o regime agrário das grandes propriedades no


Brasil
As condições da nova ordem econômica, que dizem respeito a expansão marítima dos
colonizadores europeus, tem como origem “simples empresas comerciais levadas a efeito
4
pelos navegadores daqueles países.” (2011, p. 17). Até o século XIV, o comércio europeu se
dava principalmente no próprio continente, por vias terrestres. A navegação existia somente
na costa e de cabotagem, segundo o autor (2011, p. 17).
A partir do desenvolvimento dos meios de transporte marítimos, outras rotas surgirão
e, como reflexo disso, o deslocamento da primazia comercial dos territórios centrais do
continente para aqueles que tinham saídas para o oceano, como é o caso da Inglaterra e da
península Ibérica (2011, p. 18). Sendo assim, aqueles que possuíam territórios melhores
situados, foram os pioneiros na expansão marítima europeia. Os portugueses, em primeiro
lugar, seguidos dos espanhois, portanto.
Nesse contexto, os portugueses procuravam, com o avanço pelo mar, empresas nas
quais não tivessem concorrentes antigos. Vejamos:

(...) os portugueses vão mais longe, procurando empresas em que não


encontrassem concorrentes mais antigos e já instalados, e para que contavam
com vantagens geográficas apreciáveis: buscarão a costa ocidental da África,
traficando aí com os mouros que dominavam as populações indígenas. Nessa
avançada pelo oceano descobrirão as ilhas (Cabo Verde, Madeira, Açores), e
continuarão perlongando o continente negro para o sul. Tudo isso se passa
ainda na primeira meta do século XV. Lá por meados dele começa a se
desenhar um plano mais amplo: atingir o Oriente contornando a África. (...).
Atrás dos portugueses lançam-se os espanhóis. Escolherão outra rota, pelo
Ocidente em vez do Oriente. Descobrirão a América, seguidos aliás de perto
pelos portugueses, que também toparão com o novo continente. (PRADO
JR., 2011, p. 18)

Como dito anteriormente, segundo o autor marxista, o descobrimento da América e a


exploração do seu território é um dos capítulos da história do comércio europeu (2011, p. 19).
Serve de suporte ao desenvolvimento do capitalismo na Europa. Contudo, a forma de
explorar, ocupar e colonizar se darão, aqui, de modo diverso do que ocorreu em constinentes
como a África e a Ásia, onde já existiam civilizações minimamente organizadas. Na América,
encontrarão “um território primitivo habitado por rala população indígena incapaz de fornecer
qualquer coisa de realmente aproveitável.” (2011, p. 21).
Dessa forma, para atingir os objetivos comerciais que se tinham em mente, a ocupação
do território americano não se daria como nas simples feitorias, com pouca gente responsável
apenas pela administração do negócio e sua defesa (2011, p. 21). De acordo com Caio Prado
Jr., “era preciso ampliar essas bases, criar um povoamento capaz de abastecer e manter as
feitorias que se fundassem e organizar a produçãos dos gêneros que interessassem ao seu
comércio.” ( 2011, p. 21).

5
Outro fator que contribuiu para o início da produção agrícola no Brasil, se alinhando
às condições da nova ordem econômica, foi o clima tropical. Diferentemente da América
temperada, ocupada pelos colonos ingleses, a América tropical possui condições naturais
favoráveis para a produção de gêneros agrícolas que os europeus não estavam acostumados,
mas que, pela expansão do comércio além mar, lhes interessariam.
A zona temperada do continente americano, onde hoje encontramos, basicamente, os
territórios dos Estados Unidos e do Canadá, não possuía nada que verdadeiramente
interessasse aos colonizadores europeus e, por esse motivo, ficaria durante muitos tempo
restrita à exploração de produtos básicos (2011, p. 22). O que realmente contribuiu para o
povoamento daquele território não foi senão a situação interna da Europa – marcada, naquele
contexto, por conflitos religiosos e políticos e por mudanças econômicas3-, que levou alguns
povos a se refugiarem na zona temperada do novo continente. Isto porque a zona temperada
da América possui condições naturais semelhantes a que os europeus estavam acostumados
(2011, p. 23). Sobre isso, vejamos o que afirma Caio Prado:

São assim circunstâncias especiais, que não têm relação direta com ambições
de traficantes ou aventureiros, que promoverão a ocupação intensiva e o
povoamento em larga escala da zona temperada da América. (...). Daí
derivará um novo tipo de colonização – será o único em que os portugueses
não serão os pioneiros -, que tomará um caráter inteiramente apartado dos
objetivos comerciais até então dominantes neste gênero de empresas. O que
os colonos dessa categoria têm em vista é construir um novo mundo, uma
sociedade que lhes ofereça garantias que no continente de origem já não lhes
são mais dadas. Seja por motivos religiosos ou meramente econômicos
(esses impulsos aliás se entrelaçam e sobrepõem), a sua subsistência se
tornara lá impossível ou muito difícil. (...). O que resultará desse
povoamento, realizado com tal espírito e num meio físico muito aproximado
do da Europa, será naturalmente uma sociedade que, embora com caracteres
próprios, terá semelhança pronunciada à do continente de onde se origina.
(PRADO JR., 2011, p. 23-24)

Diversamente é o processo que ocorre na zona tropical e subtropical do continente


americano. Primeiramente, as condições naturais dos trópicos eram muito diferentes do
habitat de origem dos colonizadores, de modo que aqueles cujo único objetivo era povoar e
firmar um novo lar, não se sentiram atraídos (2011, p. 24). Como vimos anteriormente, os
europeus que buscaram os trópicos tinham como objetivo explorar gêneros que não existiam

3
Segundo Caio Prado Jr (2011), a Europa, no século XVI, passava por um período de transformação econômica,
de modo que, na Inglaterra, por exemplo, a população foi obrigada a se deslocar do campo para a produção de lã.
Muitos desses camponeses formaram as correntes migratórias que viriam para a América.
6
na Europa e que aqui, principalmente devido às condições climáticas, era possível produzir.
Assim,
(...) as colônias tropicais tomaram rumo inteiramente diverso do de suas
irmãs da zona temperada. Enquanto nestas se constituirão colônias
propriamente de povoamento (...), escoadouro para excessos demográficos
da Europa que reconstituem no Novo Mundo uma organização e uma
sociedade à semelhança do seu modelo e origem europeus, nos trópicos, pelo
contrário, surgirá um tipo de sociedade inteiramente original. Não será a
simples feitoria comercial, que já vimos irrealizável na América. Mas
conservará no entanto um acentuado caráter mercantil; será a empresa do
colono branco, que reúne à natureza, pródiga em recursos aproveitáveis para
a produção de gêneros de grande valor comercial, o trabalho recrutado entre
raças inferiores que domina: indígenas ou negros africanos importados. (...).
(PRADO JR., 2011, p. 28).

Ou seja, são os objetivos mercantis que estimulam o início da expansão ultramarina


dos povos europeus e que se alinham às condições encontradas na empresa americana, quais
sejam, clima favorável, vasto território, terras férteis inutilizadas. Fatores naturais que
contribuiriam, portanto, para a exploração e produção de novos gêneros que faziam falta à
Europa e ao seu comércio em expansão.
Desse modo, na sua totalidade, e vista de fora, a colonização da América tropical e
subtropical é caracterizada como uma “vasta empresa comercial” (2011, p. 28), cujo fim seria
explorar os recursos naturais de um território inexplorado em proveito do comércio europeu.
Segundo Caio Prado Jr., esse seria o verdadeiro sentido da colonização tropical, de onde
nasce o Brasil e que explica a formação social e econômica dos trópicos americanos (2011, p.
28).
Os objetivos que animam os colonizadores a ocuparem a América tropical e
subtropical são, portanto e, principalmente, a possibilidade de desenvolver e expandir o
comércio europeu. A oportunidade de produzir nestes territórios gêneros que não eram
encontrados nem na zona temperada, tampouco na Europa, foi determinante na decisão de
ocupar as regiões tropical e subtropical da América.

A América lhe poria à disposição, em tratos imensos, territórios que só


esperavam a iniciativa e o esforço do homem. É isso que estimulará a
ocupação dos trópicos americanos. Mas trazendo esse agudo interesse, o
colono europeu não traria com ele a disposição de pôr-lhe a serviço, neste
meio tão difícil e estranho, a energia do seu trabalho físico. Viria como
dirigente da produção de gêneros de grande valor comercial, como
empresário de um negócio rendoso; mas só a contragosto como trabalhador.
Outros trabalhariam por ele. (...). Para estes [os trópicos], o europeu só se
dirige, de livre e espontânea vontade, quando pode ser um dirigente, quando
dispõe de cabedais e aptidões para isso; quando conta com outra gente que
7
trabalhe para ele. Mais uma circunstância vem reforçar essa tendência e
discriminação. É o caráter que tomará a exploração agrária nos trópicos. Esta
se realizará em larga escala, isto é, em grandes unidades produtoras –
fazendas, engenhos, plantações (...) – que reúnem cada qual um número
relativamente avultado de trabalhadores. Em outras palavras, para cada
proprietário (fazendeiro, senhor ou plantador), haveria muitos trabalhadores
subordinados e sem propriedade. (PRADO JR., 2011, P. 25-26)

Esses fatores, portanto, foram fundamentais para a formação do regime agrário das
grandes propriedades no território brasileiro. São eles, resumidamente: as condições da nova
ordem econômica, consubstanciada na expansão do comércio europeu por via marítima; os
objetivos que animam os colonizadores e, diretamente associado a isso, o caráter tropical da
região, que favorece a produção de novos gêneros nos quais os europeus não estavam
acostumados, mas que lhes seriam de grande interesse.

2.2. Os três caracteres da formação agrária brasileira e a evolução econômica da


colônia
Vistos os elementos que determinaram o regime agrário das grandes propriedades no
Brasil – as condições da nova ordem econômica, os objetivos que animam os colonizadores e
o caráter tropical da terra -, é necessário, agora, compreender as três principais características
da formação agrária brasileira.
Como demonstrado, o interesse em ocupar a América, mais especificamente sua zona
tropical, onde está localizado o território brasileiro, diz respeito à oportunidade de produzir
gêneros dos quais os europeus não tinham acesso. A exploração desses produtos foi possível
devido às condições naturais favoráveis do teritório, como também à necessidade de expansão
mercantil da Europa.
Para a produção dos gêneros tropicais, como o açúcar, o algodão, o tabaco, entre
outros, os portugueses dividiram o território da colônia em grandes pedaços de terras. Isso se
deu tanto pela grande disponibilidade de terras virgens, mas também, e fundamentalmente,
pela necessidade da exploração agrícola em larga escala (2011, p. 123). Vejamos:

A grande exploração agrária – o engenho, a fazenda – é consequência natural


e necessária de tal conjunto; resulta de todas aquelas circunstâncias que
concorrem para a ocupação e aproveitamento deste território que havia de
ser o Brasil: o caráter tropical da terra, os objetivos que animam os
colonizadores, as condições gerais desta nova ordem econômica do mundo
que se inaugura com os grandes descobrimentos ultramarinos, e na qual a
Europa temperada figurará no centro de um vasto sistema que se estende
para os trópicos a fim de ir buscar neles os gêneros que aquele centro

8
reclama e que só eles podem fornecer. São esses, em última análise, os
fatores que vão determinar a estrutura agrária do Brasil colônia.
(PRADO JR., 2011, p. 124)

Diante disso, a formação agrária brasileira tem como elemento fundamental, na


agricultura, “a grande propriedade monocultural trabalhada por escravos” (2011, p. 123). Ou
seja, os três elementos característicos do regime agrário brasileiro são: a grande propriedade, a
monocultura e o trabalho escravo (2011, p. 124). Esses caracteres, segundo Caio Prado Jr.,
derivam diretamente e como consequência necessária dos fatores estudados no tópico 2.1.1
deste trabalho.
Os colonos que vieram ocupar e explorar o território que hoje constitui o Brasil tinham
como único objetivo dirigir um grande negócio (2011, p. 124). E, sendo assim, “só uma
empresa de vulto, a grande exploração rural em espécie e em que figure como senhor”, pode
lhe interessar (2011, p. 124). Inicialmente, portanto, são concedidos aos colonos português
grandes pedaços de terra.
A política da metrópole portuguesa tem como norte, desde o princípio da colonização,
constituir um regime agrário de grandes propriedades e firmado na grande exploração
monocultural e escravista, que serviria de base para o desenvolvimento do capitalismo
europeu e para o nascimento do capitalismo no Brasil. Em momento algum, segundo leciona
Caio Prado Jr., pensaram uma organização diferente, baseada em pequenas propriedades de
camponeses (2011, p. 125).
As condições naturais da colônia foram determinantes para estabelecer o regime
agrário de grandes propriedades no território brasileiro. Isso porque o meio natural ofereceu,
junto às “exigências técnicas de exploração tropical”, dificuldades “ao trabalho de indivíduos
isolados”, principalmente pelo fato de ainda não estarem habituados com o território, mas tão
somente desbravando-o (2011, p. 125).
Quanto à forma de produção, baseada na monocultura, esta também tem íntima relação
com as condições naturais do território. Afinal, os portugueses tinham como principal
interesse a produção de gêneros de grande valor comercial e muito lucrativo (2011, p. 126),
que só poderiam ser produzidos aqui. Como afirma Caio Prado Jr.:

A monocultura acompanha necessariamente a grande propriedade tropical:


os dois fatos são correlatos e derivam das mesmas causas. A agricultura
tropical tem por objetivo único a produção de certos gêneros de grande valor
comercial e por isso altamente lucrativos. (...). É fatal portanto que todos os
esforços sejam canalizados para aquela produção; mesmo porque o sistema
da grande propriedade trabalhada por mão de obra inferior, como é a regra
9
nos trópicos, não pode ser empregada numa exploração diversificada e de
alto nível técnico. (PRADO JR., 2011, p. 126)

Junto à decisão pela produção monocultural, veio também a instalação de mão de obra
escrava – tudo isso voltado à reprodução capitalista, segundo o autor marxista. Como dito
anteriormente, os portugueses que vieram para o Brasil não tinham o menor interesse em
trabalhar a terra. Pelo contrário, vieram como empresários. Além disso, Portugal não possuía
população suficientemente grande para servir de mão de obra no campo. A solução
encontrada, portanto, foi a escravização de milhares de negros africanos. Sobre isso, Caio
Prado afirma que:
Com a grande propriedade monocultural instala-se no Brasil o trabalho
escravo. Não só Portugal não contava com população suficiente para
abastecer sua colônia de mão de obra, como também, já o vimos, o
português, como qualquer outro colono europeu, não emigra para os
trópicos, em princípio, para se engajar como simples trabalhador assalariado
do campo. A escravidão torna-se assim necessidade: o problema e a solução
foram idênticos em todas as colônias tropicais e mesmo subtropicais da
América. (PRADO JR., 2011, P. 126-127)

Estes três elementos caracterizam e fundamentam a organização econômica do Brasil


colonial. Cumpre destacar que não só a agricultura se valeu destes caracteres, como também a
mineração e a atividade extrativa (2011, p. 129). Tanto uma, como a outra adotaram
organização semelhante à da agricultura, ainda que com técnicas próprias de cada atividade
(2011, p.128). Ou seja, pautam-se pela exploração em grandes unidades trabalhadas por
escravos (2011, p. 128).
Diante disso, o autor aponta como a consequência final e mais grave a forma que
tomou a evolução econômica brasileira (2011, p. 132), que se apoiou em bases precárias.
Afinal, nossa economia não foi, segundo o historiador, forjada para atender aos interesses da
própria população, mas sim a interesses alheios. Nesse sentido, temos que:

(...) a colonização não se orienta no sentido de construir uma base econômica


sólida e orgânica, isto é, a exploração racional e coerente dos recursos do
território para a satisfação das necessidades materiais da população que nela
habita. Daí a sua instabilidade, com seus reflexos no povoamento,
determinando nele uma mobilidade superior ainda à normal dos países
novos. (PRADO JR., 2011, p. 75)

Além disso, não contava com “forças próprias e existência autônoma” (2011, p. 133).
Ou seja, a economia brasileira dependia de elementos externos para se sustentar:

10
Uma conjuntura internacional favorável a um produto qualquer que é capaz
de fornecer impulsiona o seu funcionamento e dá a impressão puramente
ilusória de riqueza e prosperidade. Mas basta que aquela conjuntura se
desloque, ou que esgotem os recursos naturais disponíveis, para que aquela
produção decline e pereça, tornando impossível manter a vida que ela
alimentava. (PRADO JR., 2011, p. 133)

Para Caio Prado Jr., é nesse contexto da organização do trabalho e da propriedade que
nasce a concentração extrema da riqueza que caracteriza a economia do Brasil colônia (2011,
p. 129). Afinal, mais de 30% da população vivia em situação miserável, desprovida de
quaisquer bens (2011, p. 129), sendo apenas explorada pelos grandes empresários rurais.
Vejamos o que diz o historiador:

São estes, em suma, os característicos fundamentais da economia colonial


brasileira: de um lado, essa organização da produção e do trabalho, e a
concentração da riqueza que dela resulta; do outro, a sua orientação, voltada
para o exterior e simples fornecedora do comércio internacional. Nessas
bases se lançou a colonização brasileira (...). Não há na realidade
modificações substanciais do sistema colonial nos três primeiros séculos de
nossa história. (PRADO JR., 2011, p. 129)

Junto à grande propriedade rural monocultora e escravista, voltada para atender às


necessidades externas, nasce também a grande exploração, a pobreza extrema e as grandes
desigualdades econômica e social que acompanharão o Brasil durante sua evolução. E, apesar
da Independência, poucas coisas se alteraram de fato. Como afirma Caio Prado Jr.:

O Brasil não sairia tão cedo, embora nação soberana, de seu estatuto colonial
a outros respeitos, e em que o “sete de setembro” não tocou. A situação de
fato, sob o regime colonial, correspondia efetivamente à de direito. E isso se
compreende: chegamos ao cabo de nossa história colonial constituindo
ainda, como desde o princípio, aquele agregado heterogêneo de uma
pequena minoria de colonos brancos ou quase brancos, verdadeiros
empresários, de parceria com a metrópole, da colonização do país; senhores
da terra e de toda sua riqueza; e doutro lado, a grande massa da população, a
sua substância, escrava ou pouco mais que isso: máquina de trabalho apenas,
e sem outro papel no sistema. (PRADO JR., 2011, p. 132)

Tudo isso, portanto, possui grande significação econômica e social. Afinal, foi da
organização em que se constituiu a agricultura brasileira – e também outros setores
importantes da economia, como a mineração e o extrativismo - que resultou toda a estrutura
do país: “a disposição das classes e categorias de sua população, o estatuto particular de cada
uma e dos indivíduos que as compõem. (...), o conjunto das relações sociais no que têm de
mais profundo e essencial.” (2011, p. 150).
11
Desse modo, os três elementos característicos da formação agrária brasileira são
também responsáveis pela estrutura social e econômica e pela consolidação do capitalismo no
Brasil: a divisão de classes – de um lado, os proprietários de terras e donos das riquezas
produzidas; de outro, os trabalhadores, em sua maioria escravizada, vivendo em condições
miseráveis. Além disso, esse tipo de organização contribuiu, também, para a formação
econômica do país pautada em atender interesses externos e, por isso, dependente de outros
países. Resumidamente, tem-se que:

(...) Estruturou-se assim a sociedade colonial brasileira e o “negócio” para


que se destinava – a produção de objetos de comércio demandados pelos
mercados europeus -, somando-se nessa organização e atividade mercantil as
reservas naturais de um território praticamente inexplorado e virgem, com a
força de trabalho de uma população escrava, e a ação empreendedora e
dirigente do povoador e colono português. De uma tal atribuição respectiva
de funções às duas categorias fundamentais da população colonial –
empresários e dirigentes do negocio, de um lado; trabalhadores e
fornecedores de mão de obra, do outro – tinha que naturalmente resultar,
como de fato resultou, a apropriação da terra, principal recurso natural
oferecido e a ser aproveitado e explorado pela minoria dos primeiros. Os
demais não deveriam participar do empreendimento senão como
trabalhadores. O essencial da estrutura agrária brasileira legada pela colônia
se encontrava assim como que predeterminada no próprio caráter e nos
objetivos da colonização. A grande propriedade fundiária constituiria a regra
e elemento central e básico do sistema econômico da colonização, que
precisava desse elemento para realizar os fins a que se destinava. A saber, o
fornecimento em larga escala de produtos primários aos mercados europeus.
(PRADO JR., 2014, P. 325)

Conclui-se, portanto, que a questão agrária é um dos elementos determinantes da


formação social e econômica do Brasil. É também, para Caio Prado Jr., um dos principais
entraves ao desenvolvimento do país e à superação de desigualdades. Sendo assim, é
necessário compreender quais são as respostas dadas pelas forças políticas da época ao
problema agrário brasileiro, bem como a posição de Caio Prado Jr. nesse sentido.

3. Respostas para a questão agrária brasileira


Apontamos, anteriormente, que o regime agrário é um dos elementos determinantes
para a evolução econômica e social brasileira. É considerada, também, um dos entraves ao
desenvolvimento do país e à superação de desigualdades sob a ótica de Caio Prado Jr..
Nesse sentido, o autor, em sua obra A Revolução Brasileira, publicada pela primeira
vez em 1966, visualizando o problema e as potencialidades revolucionárias por trás do
problema agrário brasileiro, passa a analisar quais seriam as possíveis respostas à questão
12
agrária nacional. Primeiramente, aponta a saída apresentada pelos comunistas, principalmente
no que diz respeito à teoria revolucionária defendida pelo Partido Comunista do Brasil (PCB)
e suas implicações na questão agrária.
Contrariando o pensamento dos comunistas à época4, Caio Prado Jr., a partir de uma
análise marxista da história e da realidade brasileira, apresenta outro caminho para a questão
agrária no país. A contradição principal, que possibilitaria uma ruptura com a ordem vigente,
não era, para o autor, aquela apontada pelos comunistas em suas teses.

3.1. A revolução brasileira e a teoria revolucionária


Antes de analisar propriamente as posições da esquerda brasileira quanto à questão
agrária nacional, é importante compreender o que seria revolução e o papel da teoria
revolucionária brasileira, sob a ótica de Caio Prado Jr.. Afinal, é a partir desses pontos que o
autor critica os caminhos adotados pelo PCB, bem como qual seria o seu entendimento sobre
a questão agrária no Brasil.
Revolução é o processo histórico de transformação político-social marcado por
reformas e modificações econômicas, sociais e políticas continuadas que,

concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em


transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações
econômicas e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias
sociais. (PRADO JR., 2014, p.12).

São, portanto, os contextos históricos de grandes transformações sociais, políticas e


economômicas que caracterizam o processo revolucionário. Para o autor marxista, é somente
compreendendo a realidade como ela de fato se apresenta que se há de construir uma
revolução que solucione os problemas sociais existentes:

É de Marx a observação tão justa e comprovada por todo o decorrer da


história de que os problemas sociais nunca se propõem sem que, ao mesmo
tempo, se proponha a solução deles, que não é e nem pode ser forjada por
nenhum cérebro iluminado, mas se apresenta, e aí há de ser desvendada e
assinalada, no próprio contexto do problema que se oferece, e na dinâmica
do processo em que essa problemática se propõe. (PRADO JR., 2014, p. 14)

Para dar vazão às contradições de potencialidade revolucionária, Caio Prado Jr. aponta
como fundamental uma leitura fiel da realidade. Nesse sentido, é necessário que a análise da
4
É importante destacar que Caio Prado Jr., embora tenha feito parte do Partido Comunista do Brasil, sempre teve
uma visão crítica quanto aos rumos que o partido tomava e a forma com que analisavam a realidade brasileira.
13
conjuntura econômica, social e política seja feita com base no que de fato existe, e não
baseada na vontade e na abstração daqueles que a estudam. Afinal, a realidade aponta as
contradições e também as soluções que são inerentes a ela. Não é necessário que importemos
soluções estranhas à nossa realidade. Sobre isso:

(...) pela consideração, análise e interpretação da conjuntura econômica,


social e política real e concreta, procurando nela sua dinâmica própria que
revelará tanto as contradições presentes, como igualmente as soluções que
nela se encontram imanentes e que não precisam ser trazidas de fora do
processo histórico e a ele aplicadas numa terapêutica de superciência que
paira acima das contingências históricas efetivamente presenciadas.
(PRADO JR., 2014, p. 16)

A teoria revolucionária brasileira é, assim, “a resposta a ser dada às questões


propostas” pela conjuntura do país (2014, p. 19) em um determinado momento histórico. Ela
será, então, “a interpretação da conjuntura presente e do processo histórico de que resulta.”
(2014, p. 19). Resumidamente, a teoria revolucionária deve se pautar pela conjuntura
econômica, social e política analisada concretamente, sem abstrações e ideações estranhas à
realidade. É a partir dessa análise profunda da realidade que se apresentam as “questões
pendendentes” e as soluções apontadas por estas questões (2014, p. 22).
Uma análise infiel à realidade contribui para a construção de uma teoria falha, que não
favorece a ação revolucionária, mas, antes, leva a erros difíceis de serem contornados. Caio
Prado Jr. apresenta como exemplo disso os equívocos cometidos pela esquerda brasileira que,
ao distorcerem a realidade, agiu de modo a contribuir para o golpe militar de 64. Sobre isso:

(...) as graves distorções observadas na interpretação da realidade política,


econômica e social brasileira contribuíram para os erros que vinham sendo
cometidos desde longa data na ação política de esquerda, e que levaram
afinal ao desastre de 1º de abril. Esses erros agravaram consideravelmente
depois da renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961, degenerando então
nesse elementar e grosseiro oportunismo a que fizemos referência, e que
caracterizou a situação deposta em abril de 1964. Não é de admirar que as
esquerdas brasileiras, privadas de uma teoria satisfatória e capaz de as
conduzir com segurança a seus objetivos, se tivessem deixado levar pelas
seduções de demagogos instalados no poder. (PRADO JR., 2014, p. 24)

Segundo o autor, as insuficiências teóricas, naquele momento, das esquerdas


brasileiras impediram que enxergassem a realidade como ela de fato se apresentava.
Consequentemente, os erros na interpretação da realidade brasileira levaram a ações políticas
desacertadas, contribuindo para o atraso no processo revolucionário brasileiro (2014, p. 28). O

14
PCB, naquele momento, confiava na possibilidade de uma revolução burguesa no Brasil o
que, para Caio Prado Jr., não seria possível, haja vista que o Brasil não teria uma “burguesia
nacional” (2014, p. 120) que fosse capaz de de opor ao imperialismo. Para o autor marxista, a
burguesia brasileira não era uma força política revolucionária tal como defendiam os
dirigentes do PCB à época.
É a partir disso que Caio Prado Jr. passa a analisar a posição da esquerda brasileira,
pricipalmente do Partido Comunista do Brasil (PCB). Naquele momento, predominava no
partido a leitura da Terceira Internacional Até então, predominava, na referida organização, a
leitura oriunda da III Internacional, que, na fase comandada por Stalin, defendia uma
interpretação etapista dos países subdesenvolvidos. Para chegar ao socialismo, esses países
deveriam, necessariamente, passar por uma revolução democrático-burguesa. Esta concepção
foi largamente difundida pelos comunistas brasileiros dirigentes do partido, principalmente
por autores como Alberto Passos Guimarães e Nelson Werneck Sodré (2019, p. 204).
A concepção etapista do processo histórico defendida pelo PCB naquele momento
refletiu na sua interpretação sobre a questão agrária no Brasil. Conforme veremos, as teses
majoritárias do PCB afirmavam existir no Brasil “restos feudais” que deveriam ser
suprerados. Nesse sentido, Caio Prado Jr. se utiliza do debate e da análise feita pelos
pecebistas sobre o tema para demonstrar como a teoria revolucionária do PCB pautou-se na
irrealidade, levando à ação revolucionária alheada da realidade.

3.2. A concepção do Partido Comunista do Brasil sobre a questão agrária


Caio Prado Jr. considera que a esquerda brasileira se inspirou na teoria marxista da
revolução, mas o pensamento revolucionário brasileiro, principalmente dos dirigentes do PCB
como era o caso de Nelson Wenerck Sodré, foi elaborado sob ilusões, utilizando-se de
conceitos pré-fabricados e sem considerar verdadeiramente a realidade brasileira 5 (2014, p.
30). Sendo assim, o que concretamente caracterizava a economia e a estrutura social e política
do país era falseado, não refletia a realidade, mas, sim, tratavam-se de abstrações e de análises
completamente distorcidas (2014, p. 30-32). Vejamos:

Isto é, não parte da consideração e análise daqueles fatos como realmente


eles se apresentam, a fim de os interpretar e determinar a sua dialética, isto é,
a sua dinâmica e projeção futura, com o que se elaborará a teoria
revolucionária. Caminha-se em sentido precisamente contrário, a saber,

5
Estamos nos referindo à década de 60, quando A revolução brasileira foi publicada pela primeira vez. A
análise do autor diz respeito àquele contexto e é dele que estamos tratando.
15
admite-se a priori essa teoria, e procura-se nela encaixar os fatos, por mais
que eles se deformem nessa arbitrária e singular manipulação. (PRADO JR.,
2014, p. 32)

Para construir a teoria revolucionária brasileira, a esquerda nacional, à época, utilizou-


se de textos clássicos do marxismo e do exemplo histórico dos países socialistas –
principalmente no exemplo chinês 6 -, desconsiderando, contudo, que se tratavam de
realidades marcadamente diferentes da brasileira. Ou seja, não fizeram questão de enxergar os
fatos como eles realmente eram, “mas como deveriam ser à luz do que se passou (...) em
outros lugares.” (2014, p. 32).
Os autores da teoria revolucionária brasileira, naquele contexto, não partiram da
análise das condições econômicas, sociais e políticas concretas do país, mas sim de abstrações
da nossa realidade, sem, aliás, questionarem sobre a possibilidade de aplicarem essas
alheações ao Brasil (2014, P. 33). De acordo com as concepções formuladas por esses
teóricos, “a humanidade em geral e cada país em particular”, inclusive o Brasil, “haveriam
necessariamente que passar através de estados ou estágios sucessivos de que as etapas a
considerar, (...), seriam o feudalismo e o capitalismo.” (2014, p. 33). Tratava-se de uma
concepção etapista da história, na qual todos os países deveriam atravessar cada um daqueles
estágios até chegar ao socialismo (2014, p. 33).
Para Caio Prado Jr., contudo, essas ideias não condiziam com a análise marxista da
história. Não havia nelas nada de verdadeiramente científico (2014, p. 33). Vejamos:

A ideia de que a evolução histórica da humanidade se realiza através de


etapas invariáveis e predeterminadas é inteiramente estranha a Marx, Engels
e demais clássicos do marxismo cujas atenções, no que nos interessa aqui, se
voltaram sempre exclusiva e particularizadamente para o caso dos países e
povos europeus. É deles que se ocuparam, e não generalizaram nunca as suas
conclusões acerca das fases históricas percorridas por aqueles países e
povos. Analisaram a eclosão e o desenvolvimento do capitalismo que, na
Europa, emergiu do feudalismo que o precedeu, procurando nessa dialética
da hitória moderna e contemporânea as premissas do socialismo que, como
revolucionários, eles visavam realizar e de fato se realizou por seu
ensinamento e sua ação. (PRADO JR., 2014, p. 34)

6
O Programa da Internacional Comunista adotado pelo VI Congresso Mundial reunido em Moscou em 1928
dividia os países subdesenvolvidos da época como países coloniais ou semicoloniais – como a China e a Índia –
e os países dependentes – países da América Latina, incluindo o Brasil. O Programa defendia que esses países
que possuíam, segundo os autores, restos feudais ou características semi-feudais, deveriam passar por etapas de
desenvolvimento e por uma revolução democrático-burguesa para, só então, construir o socialismo. O PCB,
atrelado à Terceira Internacional, utilizou deste documento como base para a formulação de sua teoria
revolucionária, tentando aplicar à realidade brasileira aspectos que evidentemente não se aplicavam à nosssa
realidade.
16
Marx e seus seguidores europeus nunca transportaram a interpretação sobre a
realidade daqueles países a outros. A evolução do feudalismo para o capitalismo e a
maturação deste último sistema, destruindo o que havia de resquícios do antigo regime não
era uma regra que se aplicaria a todos os lugares do mundo (2014, p. 34). Era, pelo contrário,
parte da evolução histórica dos países europeus e que não deveria ser replicada
irrefletidamente em realidades completamente diferentes.
Evidentemente que esses fatos poderiam se repetir em outros lugares, mas não era uma
obrigatoriedade ou uma “fatalidade histórica” que assim o fosse (2014, p. 34). Contudo, não
foi essse o entendimento dos comunistas naquele momento. Estes admitiam que os fatos
históricos ocorridos na Europa necessariamente se repetiriam no Brasil, como um modelo
universal (2014, p. 34). Nada mais antimarxista e antidialético do que tal interpretação:

Essa maneira de abordar a consideração dos fatos históricos, escusado dizê-


lo, é inteiramente descabida. E parece ressuscitar velhas concepções
obsoletas que realmente causa espanto encontrar em análises que se reputam
marxistas ou inspiradas no marxismo. (...) O que precisamente o marxismo,
com seu método dialético, introduziu de novo na análise e interpretação
históricas (...) é a explicação dos fatos e das situações históricas pela
emergência progressiva deles dentro de um processo em permanente
devenir, e se projetando assim para o futuro numa perpétua renovação. Isto
é, sem repetir o passado, ou melhor, sem se modelar segundo formas e
circunstâncias prefixadas. (PRADO JR., 2014, p. 34-35)

É estranho ao marxismo, portanto, que se coloque a evolução histórica de todos os


povos do mundo dentro de uma série predeterminada de regimes políticos, econômicos e
sociais, pelos quais todos eles devem necessariamente atravessar (2014, p. 36). E foi
exatamente nesses termos que agiram os pseudomarxistas7 brasileiros, prefixando uma etapa
feudalista na evolução histórica brasileira. Para tanto, utilizaram-se de “vagas e aparentes
semelhanças” entre o que se tinha aqui com o que existiu no feudalismo dos países europeus
(2014, p. 36).
A teoria marxista da revolução brasileira, formulada na década de 20, considerava que
o país se encontrava na transição do sistema feudal para o capitalismo (2014, p. 37). Isso era
defendido devido, principalmente, ao baixo nível de desenvolvimento do Brasil,
contrariamente ao que acontecia nos Estados Unidos e na Europa, “países de economia
capitalista madura e altamente desenvolvida” (2014, p. 37). Para esses pensadores brasileiros,

7
Esse termo é utilizado por Caio Prado Jr. diversas vezes, principalmente na obra A revolução brasileira, para se
referir aos partidários do PCB que se pautavam por uma teoria revolucionária alheia à realidade concreta do país,
importando conceitos e fatos históricos de outras realidades completamente distintas.
17
a revolução aqui se daria “dentro do mesmo esquema consagrado, o da revolução
‘democrático-burguesa’” (2014, p. 37).
Nesse sentido, seguindo o esquema prefixado, o que deveria acontecer no Brasil, de
acordo com aqueles pensadores, era uma revolução agrária e anti-imperialista:

Revolução agrária e anti-imperialista: eis o quadro em que se incluiria a


conjuntura revolucionária desses países. Anti-imperialista porque oposta à
dominação das grandes potências capitalistas; agrária porque se tratava de
neles superar a etapa “feudal” em que, em maior ou menor grau, eles ainda
se encontravam. (PRADO JR., 2014, p. 38)

Existiam, contudo, enormes diferenças entre os países “coloniais e semicoloniais” da


Ásia e os países dependentes da América Latina (2014, p. 38). Essas diferenças foram
desconsideradas pelos pensadores da teoria revolucionária brasileira, que também ignoravam
completamente a realidade nacional e fizeram de tudo para encaixá-la no “esquema
consagrado de uma revolução democrático-burguesa” com o objetivo de eliminar os “restos
feudais” que acreditavam existir (2014, p. 39). Vejamos:

É o desconhecimento e mesmo o desprezo completo dos fatos reais


brasileiros que presidem à sua elaboração, como se tais fatos pouco
importassem, uma vez que a teoriaa ser aplicada já se impunha por si prória
e independetemente de maior indagação. É, aliás, aquela ignorância da
realidade brasileira que tornou tão fácil aos autores da nossa teoria
revolucionária aplicarem ao Brasil o esquema consagrado de uma revolução
democrático-burguesa destinada a eliminar do nosso país os “restos feudais”
ainda nele presentes por atribuição do mesmo esquema. (PRADO JR., 2014,
p. 39)

É a partir desta concepção de que no Brasil existiam “restos feudais” que os teóricos
revolucionários, marcadamente os do Partido Comunista do Brasil, passaram a analisar a
questão agrária nacional. Um dos elementos do sistema agrário brasileiro que apontavam
como característico de um regime semifeudal era a parceria (2014, p. 41). Contudo, a parceria
que foi utilizada no Brasil não era a clássica, tal qual utilizavam os europeus (2014, p. 41).
Antes disso, a nossa parceria, de acordo com Caio Prado Jr., aproximava-se ao salariado,
constituindo-se, então, “uma forma capitalista de relação de trabalho.” (2014, p. 41).
Além do regime de parceria, outros elementos foram utilizados para caracterizar o
Brasil como feudal ou semifeudal. Entre eles destacam-se o cambão – que consistia na
prestação de serviços de forma gratuita em troca da utilização e ocupação da terra, o que
acontecia sobretudo no Nordeste -; o barracão – era o fornecimento, pelo proprietário da terra,
18
de gêneros a preços extorsivos aos trabalhadores -; além de outras formas de exploração do
trabalho (2014, p. 43). Contudo, segundo o autor marxista:

Tudo isso, todavia, nada tem de “feudal” ou “semifeudal”, no sentido


próprio da expressão, e não naquele que se vulgarizou por força da própria
teoria que lhe deu essa qualificação. Para se fundamentar e coonetar essa
teoria, foi-se forçado a deformar não apenas os fatos da realidade a que se
pretendia aplicá-la, mas também os próprios conceitos de que se utiliza.
“Feudal” tornou-se assim sinônimo ou equivalente de qualquer forma
particularmente extorsiva de exploração do trabalho, o que é naturalmente
falso. (...) constituem remanescentes, isto sim, do sistema de trabalho vigente
legalmente no Brasil até fins do século passado, a saber: a escravidão.
(PRADO JR., 2014, p. 43)

Apropriando-se daquilo que aconteceu na Europa, os teóricos revolucionários


brasileiros confiavam que a principal contradição no campo era a existência do “latifúndio
feudal”. Contudo, “o conceito de latifúndio feudal ou semifeudal é inaplicável e inteiramente
descabido no que respeita ao Brail e à maior e melhor parte de sua estrutura rural.” (2014, p.
46). O que pretendiam, na verdade, era replicar o contexto europeu no Brasil,
desconsiderando as peculiaridades de nossa formação e evolução, bem como a conjuntura
econômica, política e social à época.
A reforma agrária realizada nos países europeus foram fruto de lutas e reivindicações
dos camponeses que, durante a transição do feudalismo para o capitalismo, encontraram a
grande oportunidade de realizá-la. Afinal, contavam, naquele momento, com o apoio da
burguesia gerada pelo capitalismo. A reforma agrária consistia em um elemento importante
para a revolução democrático-burguesa no contexto europeu. Vejamos:

Essas lutas e reivindicações da massa camponesa existentes na Europa, de


longa data, encontraram sua grande oportunidade somente na fase de
transição para o capitalismo, quando as aspirações camponesas se somaram
aos objetivos gerais da burguesia gerada pelo capitalismo, e se traduziram,
no plano econômico, pela penetração das relações capitalistas de produção
no campo. A reforma agrária que se propõe aí, em correspondência e
continuação à luta camponesa, será a transformação do latifúndio feudal em
exploração capitalista, e a substituição do senhor feudal pelo camponês
capitalista. Isso pela abolição dos privilégios e direitos daquele primeiro, a
fim de permitir ao camponês seu livre desenvolvimento econômico e
transformação em produtor capitalista. É dentro desse quadro e em
conjuntura como essa (...) que se situa a reforma agrária como parte e
elemento integrante da revolução democrático-burguesa. (...) Nada há, como
logo se vê, que justifique a transposição de tal situação e conjuntura para as
condições do Brasil. As coisas se passaram historicamente entre nós, e por
isso continuaram a se manifestar, de maneira completamente distinta.
(PRADO JR., 2014, p. 45).
19
Os partidários desse entendimento associavam, então, o sistema econômico
dominante no meio rural brasileiro ao agrarismo feudal, de modo que a conclusão de ordem
prática a que se filiavam era de que a luta dos trabalhadores rurais teria como objetivo
principal “a livre ocupação e utilização da terra que hoje trabalham a título de empregados da
grande explração.” (2014, p. 49). Ou seja, a reivindicação principal daqueles trabalhadores
seria a terra, o que, nesse sentido, representaria a superação do feudalismo agrário ou dos
restos daquele regime (2014, p. 49).
Naquele contexto, o PCB, obcecado pela ideia de que o Brasil deveria superar os
“restos feudais” por meio de uma revolução democrático-burguesa e antifeudal, ignorava,
segundo Caio Prado Jr., as contradições “mais profundas e revolucionariamente mais
fecundas” (2014, p. 53) – que veremos adiante -, haja vista não se encaixarem aos esquemas
teóricos preestabelecidos. Os documentos oficiais do Partido, àquela época, demonstram isso.
O Programa de 1954 8, por exemplo, no plano da reforma agrária, defendia a divisão da
terra por meio de confiscação dos latifúndios, a abolição das formas “semifeudais” de
exploração dos camponeses, etc.. Algumas pautas importantes no que diz respeito às relações
de emprego no meio rural ficaram de fora do programa, contudo. Não bastasse, os autores do
Programa demonstraram não conhecer a realidade brasileira, haja vista que, um dos pontos
defendidos por eles era a garantia de salário mínimo para os trabalhadores rurais.
Ocorre que a garantia do salário mínimo já estava prevista na Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT), de 1943. Ou seja, há 11 anos que o direito já era garantido aos
trabalhadores rurais. O que faltava, contudo, e que não foi pautado pelo Programa do PCB,
era torná-lo efetivo (2014, p. 54). Vejamos:

(...) o Programa do PCB de 1954 simplesmente ignorava o assunto. E


certamente porque ele não se enquadrava nas premissas teóricas de sua
imaginária revolução antifeudal. Com essa viseira de uma falsa teoria
revolucionária posta em frente aos olhos, tornava-se impossível aos
elaboradores do Programa enxergarem o que se passava na realidade dos
fatos que julgavam interpretar. (PRADO JR., 2014, p. 55)

O PCB estava completamente alheio à realidade brasileira, especialmente no que diz


respeito à condição de vida dos trabalhadores rurais. Cuidando de impor sua teoria

8
O Programa do Partido Comunista do Brasil de 1954 foi aprovado no IV Congresso do partido, de 7 a 11 de
Novembro de 1954 e está disponível em:
<https://www.marxists.org/portugues/tematica/rev_prob/64/programa.htm>.
20
revolucionária à realidade do país, ainda no Programa de 1954, no ponto 399, os autores
propunham a substituição da meia e da terça pelo pagamento em dinheiro, vez que
consideravam-nas formas “semifeudais” de exploração do trabalhador rural (2014, p. 55).
Ocorre que, para os trabalhadores, este não era um problema. Pelo contrário, segundo
Caio Prado Jr., a parceria representava para eles uma relação vantajosa, de modo que, quando
tomaram conhecimento da proposta do Partido, se indignaram:

(...) ocorreram a muitos trabalhadores que tiveram conhecimento do


Programa, e que energicamente protestaram contra a projetada substituição
da parceria pelo pagamento em dinheiro, substituição essa que, se realizada,
agravaria ainda mais a sua já tão precária situação financeira. Nada, contudo,
inclusive esses protestos que precederam a aprovação do Programa e se
formularam quando da prévia publicação de seu prjeto, foi suficiente para
vencer as inabaláveis convicções “antifeudais” dos congressistas, e sua
ojeriza, em consequência, à parceria por eles incluída entre os “restos
semifeudais” a serem erradicados da organização agrária do país. (PRADO
JR., 2014, p. 56)

Passados os anos, no que diz respeito à questão agrária, nada se modificou na teoria e
nos programas do Partido. Continuaram alheados à realidade nacional, com ações práticas e
políticas que pouco contribuiram para a transformação do país (2014, p. 56). Em 1960,
amparado ainda por sua teoria revolucionária distorcida, o PCB, em sua Resolução Política 10,
no item 25, dispôs sobre a necessidade de “dar atenção principal aos assalariados e
semiassalariados agrícolas” e sobre a organização desses trabalhadores em sindicatos (2014,
p. 57). Ocorre que não passava, segundo o autor marxista, de “uma réstia de luz em meio à
escuridão”, haja vista que logo em seguida os autores da Resolução de 1960 voltam à ideia de
que as reivindicações dos camponeses deviam estar associadas à luta pela posse da terra
(2014, p. 57).
As incoerências e dubiedades em suas teses, resoluções e ações práticas e políticas
dizem respeito à insuficiência da base teórica a que estavam associados os comunistas do
Partido (2014, p. 57). Refletem, segundo o autor, “a contradição entre a teoria e a experiência
prática”, tendo em vista que a ação prática mostrava o caminho a seguir – organização dos
trabalhadores rurais assalariados ou semiassalariados por melhores condições de trabalho e de
vida -, mas a teoria revolucionária não caminhava naquele sentido (2014, p. 57-58).

9
O Programa de 1954 do PCB está disponível em
<https://www.marxists.org/portugues/tematica/rev_prob/64/programa.htm>
10
A Resolução Política de 1960 está disponível em: <
https://www.marxists.org/portugues/tematica/1960/09/congresso.htm>
21
Em 1961, o Programa do PCB volta a sinalizar que a desapropriação das grandes
propriedades, extinção da meia e da terça, etc., seriam o caminho para a “revolução
antifeudal” no Brasil (2014, p. 58). Mais uma vez, desatentos à realidade do país, deixam a
questão da legislação trabalhista e das melhorias nas condições de trabalho e emprego da
massa rural em segundo plano. Exemplo disso é o lançamento do documento “A posição dos
comunistas diante das Reformas de Base”, de maio de 1963, onde os comunistas ignoravam
completamente a promulgação do Estatuto do Trabalhador Rural, de março do mesmo ano.
Vejamos:
Além disso, mais uma vez se confirma a subestimação em que tem a
legislação rural-trabalhista – pudera, ela implicava uma censura implícita à
tão cara teoria da revolução antifeudal! – pela maneira como abordar o
assunto no mesmo documento. A referência às relações de empregado no
campo se encontra colocada em último lugar, e se limita a uma vaga e
genérica recomendação de uma “legislação trabalhista adequada aos
trabalhadores rurais”. (...) Aliás em toda a literatura do partido não se
encontra uma palavra sequer de que se tenha notícia, nem antes nem depois
de promulgado o Estatuto, de análise do assunto. (PRADO JR., 2014, p. 59-
60)

O PCB e seus principais dirigentes à época subestimeram e negligenciaram o


“conteúdo principal” da realidade econômica e social do campo brasileiro (2014, p. 60).
Dessa forma, a ação revolucionária se tornou vacilante, deixando de se pautar por objetivos
precisos e bem definidos (2014, p. 62). Isto se explica pelo apego do partido e de seus
seguidores à uma teoria revolucionária alheia e desatenta à realidade brasileira:

A razão principal por que não se mobilizou ou pelo menos tentou seriamente
mobilizar a massa trabalhadora rural na base de reivindicações por melhores
condições de trabalho e emprego se deveu ao fato de essas reivindicações
não se considerarem essenciais, nem mesmo suficientemente importantes no
processo revolucionário do campo brasileiro, que deveria obedecer, segundo
a teoria oficial consagrada e indiscutivelmente aceita, ao esquema da
revolução antifeudal: supressão das relações semifeudais de produção, em
particular e diretamente pela destruição do latifúndio. (PRADO JR., 2014, p.
63)

A teoria adotada pelo PCB naquele contexto não condizia com a conjuntura, tampouco
com a estrutura econômica e social do país. Afinal, o Brasil já possuía relações subsumidas ao
capitalismo, tanto no campo como nas cidades. Não existiam aqui, segundo o autor marxista,
relações feudais ou semifeudais. Os pecebistas, contudo, tentavam enquadrar as contradições
e conflitos derivados das condições de trabalho no campo brasileiro à teoria da reforma
agrária antifeudal (2014, p. 60), inspirados pela transição do feudalismo para o capitalismo na
22
Europa. As soluções que apontavam não convinham à realidade brasileira, especialmente no
que diz respeito à questão agrária:

Transportou-se para cá, encaixando arbitrariamente e sem nenhum espírito


crítico na evolução histórica brasileira, a situação da Europa egressa da
Idade Média e do feudalismo cuja economia agrária, tão distinta da nossa, se
caracterizava essencialmente pela presença de uma economia e classe
camponesas, isto é, uma estrutura econômica e social de pequenos
produtores individuais constituída de unidades familiares voltadas
essencialmente para a produção de subsistência e onde o mercado
representava papel secundário e subsidiário. Essa economia camponesa dos
países europeus se encontrou até os tempos modernos — e na Europa
oriental, inclusive na Rússia tsarista, até o século XX — oprimida, explorada
e sufocada pela grande propriedade fundiária de origem feudal. Propunha-se
assim a reforma agrária em termos de libertação dessa economia e classe
camponesas. (...). Completamente distintas, como logo se vê, são as
condições brasileiras, tanto no que se refere à formação histórica de nossa
economia como, em consequência, no que diz respeito à situação nos dias de
hoje. A economia agrária brasileira não se constituiu à base da produção
individual ou familiar e da ocupação parcelária da terra, como na Europa,
mas sim se estruturou na grande exploração agrária voltada para o mercado.
E o que é mais, o mercado externo, o que acentua ainda mais a natureza
essencialmente mercantil da economia agrária brasileira, em contraste com a
dos países europeus. Não se constituiu assim uma economia e classe
camponesas, a não ser em restritos setores de importância secundária. E o
que tivemos foi uma estrutura de grandes unidades produtoras de
mercadorias de exportação trabalhadas pela mão de obra escrava. (PRADO
JR., 2014, p. 78-79)

Diante disso, as soluções para os problemas que atingiam o povo brasileiro,


especialmente os trabalhadores rurais, seriam, para o historiador marxista, outras. Conforme
demonstraremos, Caio Prado Jr. propôs caminhos diferentes para a questão agrária no Brasil,
se pautando pela realidade do campo brasileiro como ela era, não com base em ideações.

3.3. A posição de Caio Prado Jr. frente à questão agrária brasileira


Ainda que filiado ao PCB, Caio Prado Jr. tinha grandes divergências com a linha
política adota pelo Partido, especialmente do que diz respeito à teoria revolucionária brasileira
e, especialmente, à questão agrária. Para o autor marxista, diferentemente do que defendiam
os pecebistas à época, não existiam no Brasil restos feudais a serem superados por uma
revolução democrático-burguesa. O Brasil, para Caio Prado Jr., já era um país capitalista
(2010, p. 91).
O erro cometido pelos dirigentes do PCB àquela época, segundo o historiador
marxista, foi “teorizar no abstrato e na base de modelos que não se enquadram na nossa

23
realidade” (2014, p. 33). Tratava-se, então, de elaborar uma teoria revolucionária que
efetivamente se ajustasse à realidade brasileira, diversamente do que fizeram os comunistas
(2014, p. 33).
Diferentemente da teoria revolucionária adotada pelo PCB àquela época, o historiador
marxista entendia que o Brasil não possuia restos feudais. O que existia no Brasil eram
relações de trabalho capitalistas, com características remanescentes do sistema de trabalho
escravista, especialmente no campo brasileiro (2014, p. 43). Não existia aqui, portanto, uma
economia camponesa, como nos países europeus que passaram pelo feudalismo (2014, p. 48).
Pelo contrário, tivemos no Brasil, inicialmente, a exploração da mão de obra escrava e, após a
abolição, ainda com resquícios daquele sistema de trabalho, tínhamos o trabalhador livre,
assalariado ou semiassalariado, explorado pelo grande proprietário.
No Brasil a história se constituiu de forma completamente diferente à Europa pré-
capitalista: não existia aqui nenhum “latifúndio feudal” (2014, p. 45). A grande propriedade
rural brasileira se constituiu na base da grande exploração comercial, não parcelária,
trabalhada por escravos (2014, p. 46). Não houve aqui a constituição de latifúndios “na base e
em superposição a uma economia camponesa preexistente”, como ocorreu no agrarismo
feudal europeu (2014, p. 46). Vejamos:

Aquilo que essencial e fundamentalmente forma esta nossa economia


agrária, no passado como ainda no presente, é a grande exploração rural em
que se conjugam, em sistema, a grande propriedade fundiária com o trabalho
coletivo e em cooperação e conjunto de numerosos trabalhadores. No
passado esses trabalhadores eram escravos, e era isso que constituía o
sistema, perfeitamente caracterizado, que os economistas ingleses de então
denominaram plantation system (sistema de plantação), largamente
difundido por todas as áreas tropicais e subtropicais colonizadas por
europeus e a que Marx se refere em diferentes passagens de O capital. Não
se incluem nesse sistema relações de trabalho e produção próprias da
economia camponesa, como se dá com relação ao agrarismo feudal.
(PRADO JR., 2014, p. 47)

Sendo assim, a luta dos camponeses europeus havia de ser diferente da dos
trabalhadores rurais brasileiros. Afinal, os camponeses lutavam pela utilização e exploração
da terra que ocupava e necessitava para sua subsistência (2014, p. 48), enquanto os
trabalhadores do campo brasileiro lutavam por melhores condições de trabalho e emprego.
Vejamos:
O trabalhador escravo, tanto como seu sucessor emancipado, não luta como
o camponês pela livre utilização e exploração da terra que ocupa e necessita
para sua manutenção. (...) Por isso a livre utilização e exploração da terra

24
que ocupa e de que diretamente se mantém, sem interferências ou restrições,
constitui sua aspiração máxima e essencial. (...) Diferentemente disso, o
trabalhador da grande exploração rural, seja escravo ou livre, é mantido,
remunerado ou compensado pelos serviços que presta, pelo senhor ou
proprietário sob cujas ordens e a cujo serviço se encontra. (...) Deriva daí que
o trabalhador nessa situação dirige sua luta principal em sentido diverso do
camponês, e essencialmente no de melhorar quantitativa e qualitativamente
sua remuneração e os recebimentos que percebe a título de empregado. Ele
não se orienta diretamente para a ocupação e posse da terra. A sua posição,
comparada à do camponês, se acha invertida. (PRADO JR., 2014, p. 48)

Além disso, a relação que o camponês tinha com a terra é completamente diferente
daquela que o escravizado ou o trabalhador emancipado mantém com ela. O primeiro se acha
economicamente ligado à terra e a ela diretamente associado, enquanto o escravo e seu
sucessor têm uma relação indireta com ela:

(...) enquanto o camponês se acha economicamente ligado e associado à terra


de forma direta, a ligação econômica do trabalhador empregado na grande
exploração com a terra se faz indireta e em função da mesma grande
exploração de cujo sistema econômico e produtivo ele não participa senão a
título de simples força de trabalho, e não de ocupante propriamente e
explorador direto da terra como se dá com o camponês. (PRADO JR., 2014,
p. 49)

Pontuar essas diferenças é essencial para compreender as consequências práticas de


uma ou outra teoria. Caracterizando o sistema econômico dominante no meio rural brasileiro
como feudal, tal qual fez o PCB, concluíram que a luta dos trabalhadores rurais brasileiros
teria como principal objetivo a “livre ocupação e utilização da terra” (2014, p. 49). Por outro
lado, a teoria caiopradiana é no sentido de que nunca houve, no campo brasileiro, “restos
feudais” tampouco feudalismo. A economia agrária brasileira seria de natureza
fundamentalmente capitalista (2014, p. 107), de modo que a principal reivindicação dos
trabalhadores rurais era por melhores condições de trabalho e emprego (2014, p. 50).
Era necessário, portanto, analisar e interpretar a realidade brasileira tal como ela se
apresentava (2014, p. 81). Fazia-se necessário perceber que os remanescentes do passado
colonial ainda estavam presentes na realidade do país, mesmo depois da independência de
Portugal (2014, p. 87). Nesse sentido, destacavam-se dois elementos principais do sistema
colonial brasileiro cujos remanescentes ainda se faziam sentir e que deveriam ser superados
pelo processo evolutivo. Eram eles, segundo Caio Prado Jr.:

(...) de um lado, o caráter originário da economia brasileira estruturada na


base da produção para o atendimento de necessidades estranhas ao país e
25
voltada assim essencialmente para o fornecimento de mercados exteriores; e
de outro lado, o tipo de relações de produção e trabalho vigentes na
agropecuária brasileira, bem como as condições materiais e morais da
população trabalhadora daí derivadas, e que conservam ainda muito
acentuadamente alguns dos traços nelas impressos pela tradição escravista
herdada do passado colonial. (PRADO JR., 2014, p. 86)

A função a que se destinou a economia brasileira desde a colonização, qual seja


atender ao mercado externo, incluiu o Brasil, desde então, “no sistema internacional do
capitalismo” (2014, p. 87). Esse elemento contribuiu também para a penetração e dominação
do imperialismo no país, de modo que nossa economia continuou a atender interesses
estranhos e permaneceu dependente da conjuntura externa (2014, p. 87).
A economia brasileira, desde a colonização, serviu sempre aos interesses externos,
principalmente dos países europeus e, posteriormente, aos norte-americanos. Foi com base na
exportação de produtos primários aqui produzidos que se sustentou o imperialismo e que se
manteve a vida do país. Afinal, é com a receita proveniente dessa exportação que o Brasil
conseguia importar alguns produtos que não eram aqui produzidos, bem como servia de
engrenagem ao imperialismo (2014, p. 89). Pouco se alterou no que diz respeito à economia
brasileira, desde o fim do sistema colonial:

Todo funcionamento da economia brasileira, isto é, as atividades econômicas


do país e suas perspectivas futuras, se subordina assim, em última instância,
ao processo comercial em que os trustes ocupam hoje o centro. Embora
numa forma mais complexa, o sistema colonial brasileiro continua em
essência o mesmo do passado, isto é, uma organização fundada na produção
de matérias-primas e gêneros alimentares demandados nos mercados
internacionais. (PRADO JR., 2014, p. 89)

Ainda que tenha passado por grandes transformações, a economia brasileira não
conseguiu superar suas principais debilidades originárias, tampouco libertar-se da
dependência e da subordinação ao sistema econômico e financeiro internacional, ocupando ali
uma posição periférica e dependente (2014, p. 91). Em resumo, o antigo sistema colonial,
embora tenha passado por modificações e adotado formas diferentes e, em que pese toda a
evolução e as transformações realizadas com a diversificação da economia brasileira ao longo
dos anos, fundamentalmente se manteve (2014, p. 92).
As contradições apresentadas pela ação imperialista no Brasil diziam respeito,
segundo Caio Prado Jr., ao desequilíbrio de nossas contas externas devido às relações
financeiras mantidas com o sistema internacional do capitalismo (2014, p. 92). É nessa
contradição que se encontra um dos pontos nevrálgicos da revolução brasileira, vejamos:
26
É nessas contradições, que têm seu foco no estado das contas externas do
país, e que daí irradiam para todo o organismo econômico do país,
perturbando-lhe grave e comprometedoramente o funcionamento, que se
localiza um dos principais centros nevrálgicos do processo histórico
revolucionário em sua fase atual. É da superação dessas contradições que
depende, na conjuntura que atravessamos, o desenvolvimento daquele
processo que levará o país à definitiva libertação de suas contingências
coloniais. É, aliás, nesses termos que se propõe a questão do imperialismo no
Brasil, pois é naquela superação e na solução das contradições que se
apresentam no terreno onde se estabelecem as relações da economia
brasileira com o sistema internacional do capitalismo imperialista que se
reformularão e reestruturarão essas relações na base, para nós, de uma
economia nacional e não marginal e periférica daquele sistema e entrosada
na dominação imperialista. (PRADO JR., 2014, p. 93)

Além do imperialismo, outro aspecto da conjuntura econômica brasileira naquele


contexto e que se colocava como ponto essencial da problemática da revolução diz respeito
aos “remanescentes do sistema colonial nas relações de trabalho e no estatuto do trabalhador
rural” (2014, p. 95). Este é também o ponto central para compreender a posição de Caio Prado
Jr. em relação à questão agrária brasileira.
O trabalhador foi incluído na organização econômica colonial como simples força de
trabalho, “como instrumento vivo destinado a fornecer energia física necessária à realização
dos objetivos mercantis da colonização.” (2014, p. 95). Alguns passos foram dados para
superar esse estado de coisas, destacando-se principalmente o fim do tráfico africano e a
abolição da escravidão em 1888 (2014, p. 95).
Segundo o autor marxista, a abolição destruiu o principal óbice ao estabelecimento
definitivo e à generalização das relações capitalistas de produção (2014, p. 95). Isso podia ser
evidenciado pelos fatos históricos seguintes à abolição, tendo em vista que as pessoas que
deixaram de ser escravas no Brasil tornaram-se trabalhadores assalariados, empregados nos
mesmos estabelecimentos rurais da grande exploração agrária (2014, p. 95). Essa constatação
é fundamental, pois, segundo o historiador, evidencia o grande erro cometido pelos
comunistas que defendiam uma fase “feudal” e a superação dos “restos feudais” (2014, p. 96).
Vejamos:
O fato é que, com a substituição definitiva e integral do trabalho escravo
pelo livre, achou-se presente no Brasil o conjunto dos elementos estruturais
componentes do capitalismo. Esse sistema não representa, em última
instância, mais que o termo final do processo de mercantilização dos bens e
das relações econômicas, o que se completa precisamente quando esse
processo atinge e engloba a força de trabalho transformada em simples
mercadoria que se compra e se vende. É isso justamente que se verifica no
Brasil com a abolição, pois os demais elementos estruturais da economia
27
brasileira já eram de início de natureza essencialmente mercantil. (PRADO
JR., 2014, p. 96)

Fato é que a abolição não eliminou completamente traços escravistas nas relações de
trabalho livre (2014, p. 97). Ocorre que esses remanescentes, longe de ser um obstáculo ao
desenvolvimento do capitalismo no Brasil, lhes são favoráveis (2014, p. 97), haja vista que
“contribuem para a compressão da remuneração do trabalho, ampliando com isso a parte da
mais-valia, e favorecendo, por conseguinte, a acumulação capitalista.” (2014, p. 97). Portanto,
o que sobra do escravismo, segundo o autor marxista, representa um elemento de que o
capitalismo se aproveita vez que o baixo custo da mão de obra permite a manutenção de
empreendimentos rurais que, de outra maneira, seriam deficitários (2014, p. 97).
Desse modo, para Caio Prado Jr., a grande tarefa proposta na revolução brasileira
naquele contexto, no que diz respeito à questão agrária, seria a elevação dos padrões de vida
dos trabalhadores rurais, que ainda carregavam o peso da tradição escravista (2014, p. 97).
Neste ponto, importa destacar que a revolução brasileira, para Caio Prado Jr., não se resumia à
resolução das contradições no campo. Pelo contrário, a questão agrária, ainda que tenha
destaque e grande relevo na teoria revolucionária do autor, está diretamente associada à
questão urbana11. Naquele contexto, o Brasil começava seu processo de industrialização e os
trabalhadores urbanos também estavam envoltos pelas relações de trabalho e produção
capitalistas – de modo que a superação do capitalismo no Brasil só se daria com a resolução
daquelas questões. Vejamos:
Prende-se o proletariado urbano à massa rural, em primeiro lugar, pela
origem comum, pois tanto quanto esta última, ele provém diretamente ou
muito proximamente do campo. Não há no Brasil tradição urbana muito
antiga, e a maior parte da população das cidades brasileiras veio do campo.
Mas não é somente nem sobretudo isso que identifica os dois setores da
população trabalhadora. Mais que a origem comum, é a posição social que
os solidariza um com o outro. A luta de ambos é análoga, as reivindicações
são semelhantes, e a classe que enfrentam, a burguesia, é a mesma.
Finalmente, o que associa de maneira mais íntima trabalhadores da cidade e
do campo é a circunstância de que a solução dos problemas essenciais de
todos e o atendimento de suas reivindicações se confundem afinal num
mesmo processo, que se pode comparar à tendência ao nivelamento dos
líquidos em vasos comunicantes. (...). (...) Apresentam-se, pois, as melhores
condições possíveis para a ligação e associação de ambos os setores da
classe trabalhadora brasileira e para a sua mobilização conjunta na obra
revolucionária; complementando-se com isso mutuamente a potencialidade
revolucionária da massa trabalhadora rural, com as superiores condições de
luta, e capacitação para ela, do proletariado urbano. (PRADO JR., 2014, p.
171-172)

11
Ver em A apreensão caiopradiana do direito na via colonial, de Arthur Bastos Rodrigues.
28
Destaca-se ainda que o desenvolvimento e o aprofundamento do sistema capitalista de
produção culminaram na redução dos padrões materiais de vida do trabalhador rural (2014, p.
98), inclusive porque esse progresso foi, segundo o autor, acompanhado pela grande expansão
das lavouras necessárias para o fornecimento de matéria prima para a indústria nascente
(2014, p. 98). Isso significou maior exploração da mão de obra, que, inclusive, não tinha mais
tempo suficiente para se dedicar às suas próprias plantações de subsistência (2014, p. 98). As
condições de vida dos trabalhadores rurais foram, assim, piorando.
Resta evidente, portanto, que, diferentemente dos dirigentes do PCB àquela época,
Caio Prado Jr. não defendia a teoria revolucionária antifeudal. Pelo contrário, segundo ele, as
relações de produção predominantes na economia brasileira naquele contexto, inclusive no
que diz respeito à agropecuária, seriam de natureza capitalista (2014, p. 100). Não existiam
“restos feudais” no Brasil, mas sim o desenvolvimento do capitalismo com remanescentes do
sistema colonial que a ele se ajustaram:

No que respeita à estrutura econômica interna, o sistema colonial ainda se


conserva, particularmente no concernente à economia agrária, por
acentuados remanescentes que marcam as relações de trabalho e se revelam
sobretudo nos baixos níveis e padrões da população trabalhadora rural. Essa
situação que se enquadra perfeitamente no sistema colonial e na sua função
econômica — pois faz possível a produção a baixo custo dos produtos
primários de pequeno valor unitário nos mercados externos a que eles se
destinam — é incompatível com o desenvolvimento econômico em bases
nacionais, e constitui por isso grande obstáculo a esse desenvolvimento, pois
entre outras consequências restringe o mercado interno e assim entrava a
industrialização que representa o fundamento de uma economia nacional.
Tais remanescentes coloniais, contudo, se ajustam perfeitamente nas
relações capitalistas de produção, como tivemos ocasião de ver. (...) É no
interior do próprio capitalismo, e nas contradições específicas por ele
geradas, que se encontram os fatores capazes de levar à superação e
eliminação do que sobra de colonialismo nas relações de trabalho e produção
da economia brasileira e no estatuto do trabalhador rural. Essa é uma
conclusão de fundamental importância que decorre de nossa análise, e que
põe por terra a tese que afirma terem as contradições presentes na economia
brasileira sua raiz num pseudofeudalismo ou “semifeudalismo”, que se
costuma caracterizar (quando se caracteriza, pois fica-se no mais das vezes
em simples afirmações dogmáticas) com vagas assimilações a circunstâncias
ocasionais colhidas num ou noutro aspecto fortuito da economia brasileira.
(PRADO JR., 2014, p. 100-101)

Significa dizer que, enquanto o PCB formulava e difundia uma teoria revolucionária
antifeudal, completamente estranha à realidade brasileira, Caio Prado Jr. defendia que, ainda
que com remanescentes das relações escravistas (2014, p.103), o que existia no Brasil era
29
capitalismo. Inclusive, o capitalismo brasileiro se beneficiou do sistema de trabalho
escravista, haja vista o baixo custo da mão de obra que contribuía para ampliar a parte da
mais-valia, favorecendo, consequentemente, a acumulação capitalista (2014, p. 97). E sendo
assim, a contradição principal existente no campo brasileiro não dizia respeito à posse da
terra, mas sim às péssimas condições materiais e culturais a que estavam submetidos os
trabalhadores.
Não há dúvidas que, no Brasil, a propriedade fundiária rural se encontra
extremamente concentrada e que a agropecuária se realiza, grande parte das vezes, nesses
estabelecimentos de grande área (2014, p. 103). Acontece que, para Caio Prado Jr., esse fator
não era suficiente para caracterizar o “latifundiário” no sentido de simples proprietário, “que
somente nessa qualidade de proprietário participa da produção.” (2014, p. 103). Isso explica o
porquê que, para o autor marxista, não existia no Brasil, ao contrário do que defendia o PCB,
uma classe de camponeses. O que existia eram os trabalhadores assalariados ou não. Vejamos:

Isso porque a grande propriedade brasileira, o nosso “latifúndio”, é na parte


essencial e fundamental da economia agrária brasileira a grande exploração
rural, o empreendimento em grande escala, centralizado e sob a direção
efetiva (seja embora ineficiente, desleixada, que nada disso muda
essencialmente a situação) do proprietário que a essa qualidade de
“proprietário” alia a de empresário da produção. Deriva daí que os
trabalhadores da grande exploração agropecuária brasileira (a fazenda, a
usina, o engenho, a estância etc.) não são “camponeses” no sentido próprio
de produtores autônomos e parcelários, e sim empregados daquela grande
exploração. Empregados que recebem sua remuneração (o pagamento pela
venda e cessão de sua força de trabalho) em dinheiro, participação na
produção ou em outra modalidade qualquer. Mas são sempre empregados, e
se não assalariados puros (aliás, o maior contingente de trabalhadores rurais
brasileiros o é), pelo menos se podem assimilar a assalariados pela natureza
de suas relações de trabalho.

Significa dizer que, para Caio Prado Jr., os “polos principais da estrutura social” do
meio rural brasileiro não eram os latifundiários ou “senhores feudais”, de um lado, e os
camponeses, de outro; mas sim e respectivamente, o empresário capitalista e o trabalhador
empregado, assalariado ou assimilável a ele (2014, p. 104). Isso é explicado pelo fato de que a
agropecuária no Brasil, diferentemente do que apontavam os dirigentes do PCB àquela época,
era essencial e fundamentalmente capitalista (2014, p. 107), de modo que as relações sociais
não podiam ser senão a de empregador/empresário e trabalhador/empregado.
A maioria da população trabalhadora do campo brasileiro compõe, para o historiador
marxista, a categoria de trabalhadores empregados, não a de camponeses (2014, p. 128-129).

30
Contudo, o autor não ignora a existência de relações de produção camponesas, ou seja, a
pequena produção autônoma de arrendatários e de pequenos e médios proprietários (2014, p.
130). Ocorre que, para ele, não seria possível englobá-los junto aos trabalhadores rurais
empregados, vez que cumprem posições marcadamente distintas no processo revolucionário
brasileiro (2014, p. 130):

Para uma real e adequada apreciação da estrutura econômica e social da


agropecuária brasileira — condição essencial para a devida análise e
interpretação da revolução brasileira no campo —, é preciso levar em
consideração, o que não tem sido feito, aquelas distinções, discriminando
devidamente os vários setores da massa trabalhadora rural a fim de definir a
posição de cada qual e seu papel no processo revolucionário. Isso é essencial
para a determinação e caracterização das contradições econômico-sociais
presentes na economia brasileira, e das quais se alimenta o processo da
revolução. (PRADO JR., 2014, p. 130)

A caracterização precisa das relações de trabalho e produção no meio rural brasileiro


é de extrema importância, tendo em vista que, para o autor marxista, é na situação
socioeconômica presente no campo brasileiro que se encontrariam as contradições
fundamentais e de maior potencialidade revolucionária no contexto em que se encontrava o
país (2014, p. 135). Para ele, “é aí que a herança da nossa formação colonial deixou seus mais
profundos traços, e os mais significativos do ponto de vista social.” (2014, p. 135). Desse
modo, a superação do “estatuto colonial” seria a “linha mestra” da revolução brasileira e
encontraria no meio rural brasileiro as principais barreiras para sua efetivação (2014, p. 135).
A precisa caracterização das relações de trabalho e de produção no campo brasileiro é
essencial para compreender quais seriam as contradições principais a serem enfrentadas no
processo revolucionário (2014, p. 135). É a partir dessa caracterização que Caio Prado Jr.
enxerga e analisa a natureza dos conflitos e a dinâmica das contradições fundamentais
presentes no contexto histórico e social do país naquele momento (2014, p. 135).
Conforme já afirmamos, as relações de trabalho predominantes no campo brasileiro,
de acordo com Caio Prado Jr., eram as relações de emprego (2014, p. 135). Desse modo, o
“conflito básico” nela presente girava em torno da reivindicação, pelos trabalhadores rurais,
de melhores condições de trabalho, como melhor remuneração, segurança para exercer suas
atividades, tratamento adequado, entre outras (2014, p. 135). A partir dessas reivindicações os
trabalhadores rurais visavam melhorar suas condições materiais de vida e elevar seu estatuto
social (2014, p. 135).

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Para o historiador marxista, isso representaria, portanto, a superação dos
remanescentes do sistema colonial que mais profundamente marcaram nossa formação
econômica e social. Exemplo disso são as formas escravistas de exploração do trabalho e a
péssima condição de vida e de trabalho a que a população trabalhadora do campo brasileiro
era submetida (2014, p. 135). Vejamos:

As reivindicações dos trabalhadores rurais por melhores condições de vida


(...) representam mais uma etapa e se acrescentam às anteriores, através das
quais se vem erguendo a massa da população brasileira do simples estatuto
de instrumento de trabalho e produção a serviço da empresa mercantil aqui
instalada pela colonização para o plano de uma coletividade nacionalmente
integrada e organizada. (...) Aí se evidencia o grande papel que representam,
na fase atual do processo histórico brasileiro, as contradições presentes no
campo e que se revelam particularmente nos conflitos gerados na base da
luta dos trabalhadores rurais por melhores condições de emprego. (PRADO
JR., 2014, p. 136)

Resta evidente, portanto, que, para Caio Prado Jr., a principal contradição presente no
campo brasileiro naquele momento não era a questão da terra, como queriam os dirigentes do
PCB (2014, p. 136). Para o autor marxista, essa luta estaria em segundo plano. O elevado
índice de concentração da propriedade fundiária rural existente no Brasil e o fato de que boa
parte dos trabalhadores não dispunha dessa propriedade não era suficiente para colocar a
questão da terra em primeiro plano e, menos ainda, como sendo a contradição principal do
processo revolucionário (2014, p. 137).

De início, não se pode considerar a questão da terra no Brasil como


expressão de uma contradição fundamental, e muito menos da mesma ou
semelhante natureza daquela que se observa na transição do feudalismo para
o capitalismo, e de que a Europa nos fornece o modelo clássico. (...) A
questão da terra no Brasil não tem a generalidade suficiente, nem se
apresenta com a necessária uniformidade em todos os lugares, para constituir
ponto de partida de amplos e continuados movimentos de massa, que é o que
realmente, em profundidade, interessa ao ponto de vista revolucionário.
(PRADO JR., 2014, p. 144)

O que explicaria a debilidade e a falta de projeção da luta pela terra no Brasil, de


acordo com Caio Prado Jr., é que esta luta não teria no Brasil um forte e generalizado
movimento de massas rurais “impulsionado por uma economia camponesa tolhida e limitada
em seu progresso, ou contida em sua expansão pelo obstáculo e resistência que oferece a
concentração da propriedade fundiária rural.” (2014, p. 146). Afinal, os produtores
autônomos, os camponeses propriamente ditos, sempre cumpriram um papel secundário na
32
economia brasileira (2014, p. 146). Esse fato foi determinado pelo processo de colonização
que serviu de base para a formação da economia brasileira e não poderia, de uma hora para
outra, ser alterado a fim de satisfazer “necessidades teóricas de concepções apriorísticas.”
(2014, p. 146).
Para Caio Prado Jr., a questão da terra estaria de certa forma vinculada à contradição
principal da economia agrária brasileira, a saber, as relações de emprego na grande
exploração rural (2014, p. 146). Significa dizer que a partir das reivindicações e do sucesso
progressivo na luta por melhores condições de trabalho e emprego na grande exploração, a
questão da terra se desenvolveria e seria solucionada (2014, p. 146). Vejamos:

De fato, nessa luta, e na medida em que ela conquistar terreno, verificar-se-á


a tendência à decomposição e ao desaparecimento daqueles setores e
empreendimentos da grande exploração que se mostrarem incapazes de
suportar, seja qual for o motivo específico dessa incapacidade, a elevação de
custos de produção determinados pela melhoria da remuneração do trabalho,
que decorrem da mesma luta. Já se observou que uma parte seguramente
apreciável da grande exploração se mantém graças unicamente ao baixo
custo da mão de obra empregada, baixo custo esse fruto da exploração
intensiva do trabalhador, inclusive através de formas semiescravistas. A
acentuação e o desenvolvimento da luta reivindicatória por melhores
condições de trabalho e emprego tenderão, assim, a eliminar as empresas que
não tiverem condições para se adaptar, pelo aumento da produtividade, à
nova situação criada pelas exigências dos trabalhadores. A solução será
então o desmembramento da propriedade. (PRADO JR., 2014, p. 146-147)

Ou seja, o aguçamento da luta pela melhoria nas condições de vida dos trabalhadores
rurais da grande exploração tornaria a mão de obra mais cara (2014, p. 147), de modo a
desestabilizar muitas delas, que não suportariam a elevação dos custos. Dessa forma, a grande
exploração que não conseguisse se sustentar seria eliminada e retalhada, resultando na
disponibilidade de terras para a pequena produção (2014, p. 147). A questão da terra não seria
assim o elemento principal que impulsionaria o processo revolucionário, como acreditavam os
dirigentes do PCB à época, mas estaria a ela vinculada.
É evidente, portanto, que a principal contradição do campo, segundo Caio Prado Jr.,
dizia respeito às relações de trabalho na grande exploração rural. Seria ela o fio condutor da
revolução brasileira:

Verifica-se por aí como a questão da terra se acha, no Brasil, vinculada à


contradição principal incluída no processo revolucionário do campo, e que
diz respeito às relações de emprego na grande exploração rural. Há outra
circunstância ainda que revela a direção principal e imediata para que se
oriente a solução das contradições presentes na economia agrária brasileira, e
33
quais as perspectivas reais e concretas que se apresentam para o duplo
objetivo revolucionário que vem a ser, de um lado, a mobilização da massa
trabalhadora rural; de outro, o encaminhamento do processo revolucionário
para seu fim essencial e fundamental, no momento, e que consiste na
elevação dos padrões materiais e do estatuto social da população
trabalhadora rural. (PRADO JR., 2014, p. 148)

Diante disso, o autor marxista delineou alguns caminhos importantes para impulsionar
o processo revolucionário brasileiro a partir daquilo que ele considerava como a contradição
principal no campo. É o que buscamos demonstrar no capítulo seguinte.

4. A linha principal e essencial da reforma agrária no Brasil


A transformação da realidade brasileira e a superação da formação colonial cabia,
portanto, à população trabalhadora rural (2014, p. 170), cuja tarefa era impulsionar o processo
revolucionário brasileiro a partir da sua luta por melhores condições de vida e emprego. Para
tanto, Caio Prado Jr., aponta o caminho pelo qual deveria se dar aquelas transformações.
Em A Revolução Brasileira o historiador marxista sinaliza sobre qual seria a forma de
os trabalhadores rurais superarem as contradições do campo e contribuírem para o processo
revolucionário brasileiro. Contudo, é na obra A questão agrária no Brasil, publicada pela
primeira vez em 1979, com a reunião de artigos escritos pelo autor marxista entre os anos de
1960 e 1964, que o historiador brasileiro fixa a linha principal e essencial da reforma agrária
no Brasil.

(...) a linha principal e essencial da luta e ação reivindicatória e política, no


que se refere ao campo, e, portanto, da reforma agrária, será no sentido da
melhoria, em benefício do trabalhador, das condições de trabalho e emprego.
Note-se que isso não exclui, mas antes compreende como projeção futura, a
introdução de formas socialistas de produção, no momento e na medida em
que através da luta reivindicatória da massa trabalhadora rural
amadurecerem as condições para isso. O que não tem e não pode ter prazo
fixado, sendo mais ou menos próximo em função do conjunto de fatores —
os políticos e de ordem geral, em particular — que atuam no sentido da
revolução socialista. (PRADO JR., 2014, p. 417)

Cumpre observa que A questão agrária no Brasil é uma obra composta de seis artigos
publicados na década de 60, quando a questão agrária estava no centro do debate político e
econômico no Brasil. Destaca-se também que, nesse momento, Caio Prado Júnior reconhece a
importância a reforma agrária baseada na divisão de terras como uma das frentes estretégicas

34
na luta por melhores condições de vida da população trabalhadora rural e para o processo
revolucionário brasileiro.
Portanto, no presente capítulo buscamos analisar quais seriam os caminhos apontados
por Caio Prado Jr., além de compreender o papel do Direito para a superação das contradições
no campo brasileiro, segundo as concepções do autor.

4.1. As duas frentes de ataque da Reforma Agrária brasileira


Na década de 60, mais da metade da população brasileira dependia, para sua
sobrevivência, da utilização da terra (2014, p. 291). Por outro lado, devido à grande
concentração fundiária que caracterizava a economia agrária brasileira, o uso da terra era
feito, predominantemente, em benefício de uma minoria. Evidentemente que essas
circunstâncias contribuíram para que grande parte da população brasileira da época vivesse
em condições miseráveis e sem perspectivas, além de ser um dos principais obstáculos ao
desenvolvimento do econômico e social do país à época (2014, p. 292).
A população do campo brasileiro estava dividida em dois principais grupos: de um
lado, uma minoria de grandes proprietários de terras que concentravam riquezas; do outro
lado, a massa de trabalhadores rurais que, sem tem condições de de ocupar e explorar terras
alheias como arrendatários, vendiam sua força de trabalho para o primeiro grupo (2014, p.
293). O segundo grupo era a maioria da população rural que, para sobreviver, alienava sua
força de trabalho, fazendo “pender a balança da oferta e procura de mão de obra em favor da
procura” (2014, p. 293). Desse modo, eram os grande proprietários de terra que, sabendo
dessa condição, se aproveitam e impunham suas condições nas relações de trabalho (2014, p.
293). Isso explica as péssimas condições e o baixo padrão de vida dos trabalhadores rurais,
muitas vezes beirando a formas de trabalho com caracterísiticas marcadamente servis (2014,
p. 293).
A questão agrária brasileira estava situada, assim, na relação de efeito e causa entre a
miserabilidade a que a população trabalhadora rural estava submetida e o tipo de estrutura
agrária do Brasil, cuja principal caracterísitica era a acentuada concentração da propriedade
fundiária (2014, p. 294).
Desse modo, considerando que a questão agrária era um problema econômico e social
no Brasil, era necessário analisar essa questão tendo em vista o objetivo prático que se
procurava atingir (2014, p. 297). Para o autor marxista, esse objetivo consistia em corrigir a

35
situação deplorável a que os trabalhadores rurais brasileiros estavam submetidos. Era esse,
portanto, o primeiro e principal plano da questão agrária brasileira (2014, p. 297).

No que respeita à solução deste problema máximo do Brasil de nossos dias,


e que consiste em arrancar da miséria em que vegeta, na sua esmagadora
maioria, a população rural do país, em lhe elevar os padrões de vida e
lastrear com isso o processo de desenvolvimento econômico brasileiro, que
sem isso não passará nunca de uma aparência e superficialidade a disfarçar
um profundo e real atraso, para se conseguir isso, é preciso fundar qualquer
programa de reforma na consideração preliminar das circunstâncias gerais e
fundamentais que estão na base da deplorável situação atual. É nisso que
consiste essencialmente a nossa questão agrária. (PRADO JR., 2014, p. 304)

Haja vista o papel que a grande exploração agromercantil representava na economia


rural brasileira, as relações de produção e trabalho seriam por ela determinadas (2014, p. 333).
Ou seja, das relações existentes entre o grande proprietário, de um lado e, do outro, os
trabalhadores rurais que lhes forneciam a mão de obra necessária para o funcionamento da
grande exploração (2014, p. 333). Seria importante, portanto, na ótica de Caio Prado Jr.,
compreender sob quais condições se davam essas relações, ou seja, compreender os fatores
que atuavam na oferta e demanda da força de trabalho.
O primeiro desses fatores era a concentração da propriedade fundiária que, ao criar um
monopólio virtual da terra” em favor de uma minoria de grandes proprietários, tirava a
possibilidade da grande massa de trabalhadores rurais produzir de forma autônoma, sem
precisar vender sua força de trabalho (2014, p. 333). Tal situação determinava uma posição de
privilégio do empresário rural, que poderia impor suas condições frente aos trabalhadores
rurais, principalmente no que dizia respeito ao custo da mão de obra (2014, p. 333).
Consequentemente, os trabalhadores rurais eram submetidos a baixos padrões de vida.
Além desse fator, a insuficiência de mão de obra no campo também era um fator
determinante das péssimas condiçõesa de vida dos trabalhadores rurais (2014, p. 334). Afinal,
se eram poucos os trabalhadores disponíveis, mais explorados eles deveriam ser para dar
conta de produzir o que era demandado pelo grande proprietário. Isso deu origem, inclusive, a
formas de “escravidão disfarçada”, como a retenção de trabalhadores por dívidas feitas com o
empregador (2014, p. 334). Inclusive, práticas como essas eram regulamentadas pelo Código
Civil Brasileiro de 1916, em seus arts. 1.230 e 1.235 (2014, p. 334).
Era visível, portanto, a miséria material e as péssimas condições de trabalho a que a
massa da população rural brasileira estava submetida. Dessa forma, tratava-se de superar essa
condição, adotando uma política orientada pela transformação das relações de trabalho no
36
campo e pela melhoria nas condições de vida dos trabalhadores rurais (2014, p. 343). No
contexto em que o Brasil se encontrava, a reforma agrária teria como objetivo fazer com que a
utilização da terra se realizasse em benefício dos trabalhadores rurais, deixando de ser apenas
um negócio para uma minoria de grandes proprietários (2014, p. 353).

Para que a utilização da terra deixe de ser o grande negócio de uma reduzida
minoria, e se faça em benefício da população trabalhadora rural que tira
dessa terra o seu sustento, é preciso que se favoreça e fomente por medidas
adequadas o acesso da mesma população trabalhadora à propriedade
fundiária. Esse seria o ponto fundamental da reforma agrária, pois com a sua
realização se atingiria o essencial que a reforma tem em vista: a elevação do
nível de vida da população rural. (PRADO JR., 2014, p. 354)

Além da divisão da terra, para a transformação das condições de vida dos


trabalhadores rurais e a elevação dos padrões de vida dessa massa de trabalhadores, era
necessário, para o autor marxista, a extensão da legislação social ao campo (2014, p. 355). Ou
seja, seriam duas as frentes de ataque da reforma agrária brasileira:

Trata-se, de um lado, da extensão da legislação social trabalhista para o


campo, isto é, de proporcionar ao trabalhador rural proteção legal adequada
que lhe assegure melhores condições de vida, tal como vem sendo praticado
de vinte e tantos anos para cá com relação ao trabalhador urbano da indústria
e do comércio. De outro lado, prevê-se a modificação da estrutura da
propriedade fundiária rural no sentido de corrigir a extrema concentração
que caracteriza essa propriedade, a fim de proporcionar aos trabalhadores
rurais mais oportunidades de acesso à posse e utilização da terra em proveito
próprio. (PRADO JR., 2014, p. 359)

A concretização dessas duas lutas estratégicas seria fundamental, segundo Caio


Prado Jr., para a assegurar aos trabalhadores rurais melhores condições de vida, vez que uns
poderiam se tornar proprietários de terras e produzir de forma autônoma, sem precisa vender
sua força de trabalho; e aos que constinuassem empregados, não seriam mais obrigados a se
submeter a condições indignas (2014, p. 359). Importante observar que as duas frente de
atuação rumo à reforma agrária se articulam e se complementam. Afinal,

(...) seria inteiramente falso imaginar (como pensa um certo sectarismo de


esquerda) a possibilidade do desaparecimento desde logo da relação de
emprego no trabalho rural e a transformação instantânea, ou mesmo a curto
prazo da massa rural brasileira, em uma coletividade de camponeses
pequenos produtores e proprietários. Isso é inimaginável, pois não há no
Brasil condições para tanto, nem econômicas e de ordem geral, nem mesmo

37
a necessária habilitação de boa parte da população trabalhadora rural para o
exercício, em nível adequado e para a própria elevação de seu nível de vida,
de uma atividade produtiva autônoma. (PRADO JR., 2014, p. 359-360)

Resumidamente, a reforma agrária, para o autor marxista - no contexto em que estava


inserido (década de 60, especialmente) -, deveria se desenvolver simultaneamente na base das
duas frentes de atuação, quais sejam: de um lado, a regulamentação das relações trabalhistas
no meio rural; e, de outro, à facilitação do acesso e uso da terra por parte da população
trabalhadora do campo (2014, p. 361).
Sendo assim, veremos adiante de que modo, segundo Caio Prado Jr., essas frentes
deveriam se desenvolver e se articular para alcançar o objetivo principal da reforma agrária
brasileira: a transformação nas condições de vida da população trabalhadora rural.

4.2. O papel ativo do Direito na modificação da estrutura agrária brasileira


Como sinalizamos anteriormente, o historiador marxista aponta duas saídas
concomitantes para a questão agrária brasileira: a extenção da legislação social-trabalhista ao
meio rural e a facilitação do acesso à terra pelos trabalhadores rurais. Apesar de suas
diferenças – tanto de natureza, quanto de conteúdo -, ambas têm no Direito, por meio de
legislações, um instrumento importante de efetivação. Desse modo, em primeiro lugar
analisaremos a linha da extensão da legislação trabalhista no campo e, em seguida, a linha da
democratização de terras, assim como fez Caio Prado Jr em A questão agrária no Brasil.
As relações de trabalho no meio rural foram marcadas por circunstâncias particulares
da formação histórica do Brasil e pelas condições especiais em que se realizaram as atividades
produtivas no campo brasileiro (2014, p. 361). Uma das peculiaridades presentes nas relações
de trabalho rural era a remuneração dos trabalhadores, que nem sempre se davam somente por
dinheiro. Em que pese a maioria dos trabalhadores rurais fossem assalariados, muitos deles,
além de serem remunerado em dinheiro, tinham a possibilidade de complementar sua
remuneração utilizando-se de parcelas ou lotes de terrenos para produção de culturas próprias
(2014, p. 361). Além disso, a maioria dos trabalhadores rurais, naquela época, moravam na
propriedade do empregador, ficando, de certo modo, isolados (2014, p. 261).
Todas essas peculiaridades deveriam ser levadas em conta na formulação de uma
legislação social-trabalhista voltada para as relações no campo brasileiro (2014, p. 363). Ou
seja, a regulamentação da remuneração dos trabalhadores deveria considerar as diversas
formas com que era feita, de modo a equilibrar os elementos que nela concorriam, garantido
que a remuneração não ficasse ao arbítrio do grande prorpietário (2014, p. 363). Além disso, a
38
questão da moradia do trabalhador deveria ter um destaque especial na legislação. Era
necessário garantir habitações convenientes aos empregados, que garantissem segurança,
conforto e higiene (2014, p. 363).
Ainda sobre a questão da moradia, é necessário pontuar que, na maioria das vezes, o
proprietário da terra impunha uma jurisdição própria, regulando o uso do espaço e as vias de
comunicação existentes entre os trabalhadores e o meio externo à propriedade (2014, p. 365).
Ou seja, o empregador ultrapassava os limites de titular do direito de propriedade, interferindo
na esfera pessoal dos trabalhadores.

De “empregador” ele se faz insensivelmente ou tende a se fazer “senhor” de


seus empregados. O direito privado de propriedade transborda aí para o
terreno das relações públicas e assume feições de um direito público
exercido por um particular. O que, aliás, é de fácil verificação no regime
imperante na generalidade das fazendas brasileiras e nas relações que aí se
observam entre proprietários e trabalhadores. A situação de fato é aí a do
exercício, pelo proprietário, e em maior ou menor grau segundo suas
disposições particulares, mas sempre de alguma forma efetivo, o exercício
de atribuições que competem normalmente ao poder público. (PRADO JR.,
2014, p. 365)

Neste ponto, Caio Prado Jr. considerava fundamental a mudança no direito civil
brasileiro no sentido de limitar o direito de propriedade do imóvel rural (2014, p. 366). Era
necessário impedir que os direitos do proprietário ultrapassassem a esfera privada das relações
de trabalho, interferindo na liberdade pessoal do empregado e cerceando-lhes direitos (2014,
p. 367). A legislação trabalhista voltada para o meio rural deveria demarcar os poderes dos
proprietários, que somente diziam respeito à relação de trabalho existente entre ele e o
empregado. As demais atividades exercidas pelos trabalhadores estavam fora do poder do
empregador.

Uma legislação trabalhista eficaz e realmente protetora do trabalhador


empregado rural deve, além de regular as relações de trabalho, criar as
condições necessárias, e que fazem falta no meio rural brasileiro por
circunstâncias que lhe são peculiares, para que entre proprietários e
trabalhadores subsistam unicamente, como se dá nos centros urbanos,
relações puramente de trabalho, isto é, de prestação remunerada de serviços,
de empregador a empregado. E que essas relações não se envolvam e
deformem, como tão frequentemente se dá entre nós, por vínculos estranhos
de natureza extraeconômica que afetam o estatuto político-pessoal do
trabalhador. O argumento de que tais limitações da propriedade privada
ferem os legítimos direitos do proprietário é insubsistente, pois esses direitos
não se podem exercer, no referente aos trabalhadores empregados, além da
esfera estrita que diz respeito à utilização dos serviços daqueles

39
trabalhadores para os fins precisos para que eles fossem engajados, a saber, a
execução de uma atividade produtiva. (...). As demais atividades do
empregado estão naturalmente excluídas dessa jurisdição e autoridade do
empregador, e nada justifica que por se exercitarem no interior de uma área
territorial e juridicamente apropriada pelo empregador, e isso por imposição
de circunstâncias ocasionais inspiradas, aliás, pelos interesses e necessidades
desse mesmo empregador, elas se subordinem direta ou indiretamente,
próxima ou remotamente, e por mínimo que seja, à vontade do empregador.
(PRADO JR., 2014, p. 367)

Conforme o entendimento do autor marxista, era indispensável a repressão legal no


sentido de limitar o direito de propriedade dentro dos limites que lhe fossem de fato
convenientes. Desse modo é que seria possível realizar as condições necessárias para o “livre
ajuste e exercício das relações de trabalho entre empregados e empregadores” no meio rural
brasileiro (2014, p. 368).
Diante disso, Caio Prado Jr. considerou de fundamental importância a promulgação do
Estatuto do Trabalhador Rural em 1963. Para ele, a extensão da legislação trabalhista para o
meio rural brasileiro - ainda que marcada por graves falhas -, caso fosse levada a sério e
devidamente efetivada, tinha o potencial de promover grandes transformações econômicas e
sociais no país (2014, p. 403). Contudo, para o autor marxista, o Estatuto não levou em
consideração as diferentes relações de trabalho e emprego presentes no meio rural brasileiro,
deixando de lado suas complexidades e especificidades. Sendo assim, a legislação deixou em
aberto questões importantes, o que poderia prejudicar os trabalhadores, haja vista que
estariam submetidos aos arbítrios do empregador (2014, p. 408).
Conforme disposto no tópico 3.1 deste trabalho, as forças de esquerda, marcadamente
os pecebistas, se alhearam da formulação do Estatuto Rural, preocupados que estavam com a
teoria da revolução antifeudal. Nesse sentido, questões importantes deixaram de ser debatidas
e enfrentadas pela esquerda brasileira, que não fizeram frente na criação da legislação. Para
Caio Prado Jr., muitas das falhas existentes no Estatuto poderiam ser evitadas caso a esquerda
brasileira não tivesse se furtado ao debate. Além disso, poucos eram os que se debruçavam a
entender a questão agrária brasileira, o que se tornou evidente com as lacunas deixadas por
aquela legislação. Vejamos:

Isso teria sido evitado, ou pelo menos muito atenuado, se durante a discussão
e votação do projeto do Estatuto o assunto fosse acompanhado atentamente
pelas forças políticas de esquerda e por progressistas, naturalmente grandes
interessados no caso. O Estatuto, na forma em que se apresenta, revela
claramente a displicência com que foi elaborado, o que resultou na
insuficiente informação e preparação de seus redatores acerca da realidade

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brasileira. Eles mostram ignorá-la em boa parte, o que, sejamos justos, não é
somente nem mesmo principalmente de sua culpa. A matéria, altamente
complexa, ainda muito pouco estudada cientificamente e praticamente
desconhecida, no seu conjunto, por economistas, sociólogos e juristas
brasileiros (não se cita, acredito, nenhum trabalho sistemático e geral a
respeito da questão), essa matéria das relações de trabalho na agropecuária
brasileira deveria ter sido amplamente debatida enquanto se encontrava
pendente de decisão do Congresso. Isso atrairia o interesse geral, em
particular dos estudiosos e técnicos em questões dessa ordem, o que teria
permitido a elaboração de um texto legal capaz de efetivamente atender de
maneira conveniente aos fins visados, o que infelizmente só em parte, e parte
reduzida, se verificou no Estatuto tal como foi promulgado. (PRADO JR.,
2014, p. 408)

Boa parte da esquerda à época estavam preocupados unicamente com a questão da


subdivisão das terras como elemento essencial da reforma agrária no país. Ocorre que, para o
historiador marxista, a subdivisão da terra estava longe de ser o principal caminho e o mais
fácil para a reforma agrária no Brasil (2014, p. 409). A legislação trabalhista que protegesse
os trabalhadores rurais seria, antes, uma grande facilitadora da subdivisão de terras (2014, p.
409).

Boa parte da agropecuária brasileira, particularmente em seus setores mais


importantes e fundamentais que serão decisivos no encaminhamento da
reforma agrária no Brasil (...), se acha organizada na base da grande
exploração rural (fazenda, engenho, usina de açúcar, estância etc.) que tem
como elemento constitutivo essencial a relativa extensão, nuns casos mais,
noutros menos, da área fundiária ocupada e explorada. Não é evidentemente
possível falar aí em “subdivisão” e retalhamento da propriedade, o que
significaria a desorganização da produção nas bases em que atualmente se
apoia e exigiria a reorganização do sistema produtivo pela substituição da
grande exploração de produção centralizada e concentrada pelo pequeno
produtor individual. É isso realizável? Penso que não. Mas seja como for, o
fato é que essa mudança de sistema nunca foi objeto de discussão, e nem ao
menos se pensou, ao que se saiba, em propor as formas práticas de realizá-la.
(PRADO JR., 2014, p. 409)

Para a realização da reforma agrária com base na subdivisão de terras, o que


significaria uma “transformação completa da estrutura e organização dos principais setores”
da economia agrária brasileira (2014, p. 410), era necessário a existência de um movimento
social organizado. Somente com a mobilização das forças sociais é que a reivindicação pela
subdivisão da terra seria levada a cabo no Brasil (2014, p. 410).
Ocorre que além da fundamental importância das mobilizações sociais e da força
reivindicatória de movimentos sociais organizados, Caio Prado Jr. apontava algumas medidas
de caráter legislativo que considerava necessárias para a efetivação da transformação da

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estrutura agrária brasileira. Além da extenção da legislação social-trabalhista, o autor
acreditava na potencialidade de outros tipos de regulamentação que limitassem a propriedade
privada rural.
A desconcentração e o parcelamento da propriedade fundiária era um dos objetivos
fundamentais da reforma agrária brasileira, segundo Caio Prado Jr.. Tratava-se, nesse ponto,
de facilitar o acesso à terra pelos trabalhadores rurais, para que pudessem garantir sua
subsistência de maneira autônoma, sem a necessidade de alienar sua força de trabalho.Para o
autor, tornar a utilização da terra acessível aos trabalhadores rurais teria um duplo resultado
favorável à promoção e elevação dos padrões de vida da população do campo (2014, p. 372).
Vejamos:

De um lado, conceder-se-á àqueles trabalhadores sem terra que desejarem


trabalhar por conta própria, e que se acham capacitados para isso, de
disporem de terra própria e alcançarem assim melhores condições de vida.
(...). De outro lado, como já se notou, a possibilidade e a facilidade do acesso
à propriedade da terra representarão para o trabalhador uma alternativa de
opção entre trabalhar por conta própria, em vez de se engajar a serviço
alheio. (PRADO JR., 2014, p. 372)

Desse modo, a ação legal deveria, para o autor marxista, se orientar no sentido de
regulamentar algumas situações que eram muito presentes no meio rural brasileiro. Para Caio
Prado Jr., seria importante a regulamentação legal das diversas formas de uso da terra pelos
trabalhadores rurais brasileiros, como era o caso das parcerias, do arrendamento da terra, entre
outros.
Era necessário, ainda, que houvesse uma legislação que restringisse a livre utilização
da terra, delimitando sua destinação e forma de utilizá-la (2014, p. 377). O autor marxista
considerava necessário, portanto, a intervenção legal no “disciplinamento das atividades
rurais e destinação a ser dada à terra pelos seus proprietários.” (2014, p. 377). Nesse tipo de
legislação, seria necessário a restrição quanto à subutilização da terra. Vejamos:

Numa legislação dessas relativa ao uso da terra estaria naturalmente


compreendido o caso tão frequente, que se pode mesmo dizer a regra no
Brasil, da subutilização da terra. Esse é um corolário da concentração da
propriedade e vai desde o latifúndio improdutivo, conservado sobretudo
como reserva especulativa, até a utilização precária favorecida e até
aconselhada pela circunstância que a farta disponibilidade de terras,
proporcionada pela grande propriedade, torna possível e mesmo avantaja a
exploração agrária em extensão, o que supre a exploração intensiva com o
mesmo resultado absoluto e menor inversão e sobretudo menor esforço e
dedicação. (PRADO JR., 2014, p. 377)
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Além disso, a subutilização da terra era facilitada pelo regime tributário vigente no
Brasil, tendo em vista que a terra era praticamente isenta de qualquer ônus fiscal (2014, p.
378). Nesse sentido, Caio Prado Jr. defendia a necessidade de uma legislação tributária efetiva
e condizente com o objetivo central, que era o da desconcentração da terra. Uma tributação
que fosse de fato efetiva contribuiria para abaixar o preço das terras, que, em boa parte do
país, se achavam superavaliadas e com preços voltados à especulação (2014, p. 378). A
especulação fundiária seria prejudicada pela oneração com tributos altos, de modo que, a
única solução, segundo Caio Prado Jr., seria o retalhamento da propriedade fundiária que não
suportasse o ônus da tributação.
A saída para a questão agrária no Brasil, sob a ótica do historiador marxista, tinha
como ferramenta a ampliação, a efetivação, a criação e a modificação de legislações que
pudessem contribuir com a transformação da realidade dos trabalhadores rurais. O autor
utiliza-se do Direito como um instrumento para tentar resolver os problemas sociais e
econômicos no Brasil, marcadamente no que diz respeito à questão agrária brasileira.
A necessidade de extensão da legislação trabalhista como a linha essencial da reforma
agrária no Brasil, a regulamentação de atividades rurais, como a parceria, o arrendamento,
etc., bem como a criação de uma legislação tributária que contribuisse para a desconcentração
fundiária são elementos essenciais no entendimento do autor sobre a transformação do regime
agrário no país. Não à toa que apontou a importância do Estatuto do Trabalhador Rural e deu
ênfase no erro cometido pela esquerda brasileira em menosprezar o papel de tal legislação na
concretização da reforma agrária braisleira. O Direito possui, portanto, papel relevante e
ativo, haja vista o papel que as leis assumem para a efetivação da reforma agrária brasileira na
obra de Caio Prado Jr..
5. Conclusão
Compreender o sentido da colonização e a questão agrária no Brasil é de fundamental
importância para entender a realidade brasileira e atuar sobre ela no sentido de transformá-la.
Não é outro o objetivo do presente da trabalho. Por meio da obra historiográfica de Caio
Prado Júnior, é possível perceber elementos que, até hoje, de alguma forma, transpassam a
realidade atual do país.
Caio Prado Jr. aponta, a partir do sentido da colonização, elementos que marcaram a
formação econômica e social do Brasil, como é o caso da estrutura agrária baseada na grande
propriedade de terra e a utilização de mão de obra escrava na grande exploração. Além disso,

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o autor marxista aponta que a colonização brasileira, assim como de toda a América Tropical,
fazia parte da expansão do comércio europeu.
É a partir desses elementos e de outros que apontamos anteriormente, que o
capitalismo começa a se forjar no Brasil. Ainda que existissem remanescentes do sistema
escravista de trabalho, é o capitalismo o modo de produção que predomina no Brasil, segundo
Caio Prado Jr.. Tal formulação é fundamental para compreender a questão agrária no Brasil
sob a ótica do autor. Afinal, não se tratava apenas de realizar reformas, como acreditavam
alguns; mas tampouco se tratava de superar “restos feudais”, como defendiam os pecebistas.
Antes, era necessário interpretar a realidade do campo brasileiro e reconhecer a sua essência
capitalista, principalmente no que diz respeito às relações de trabalho, e transformar aquela
realidade a partir das contradições que ela apresentava.
Desse modo, Caio Prado Jr. entendeu que a contradição principal incluída no processo
revolucionário do campo dizia respeito às relações de emprego na grande exploração rural.
Tratava-se, então, de superar as péssimas condições de vida e trabalho a que a população rural
brasileira estava submetida. Para tanto, o historiador marxista aponta como linha principal da
reforma agrária brasileira a extensão da legislação social-trabalhista aos trabalhadores rurais.
Sendo assim, a partir do estudo e da análise das obras A Revolução Brasileira, Formação
do Brasil Contemporâneo e A questão agrária no Brasil é possível identificar o papel ativo do Direito
no que diz respeito à transformação da realidade agrária do Brasil. Ainda que, por vezes, Caio Prado
Júnior tenha apontado que algumas das legislações vigentes à época (como o Código Civil Brasileiro
de 1916) contribuíam para a manutenção dos privilégios de uma minoria frente à miséria de uma
maioria, o autor acredita no potencial transformador das leis. Não à toa que aponta a importância (e os
limites) do Estatuto do Trabalhador Rural de 1943; a necessidade de uma legislação tributária que
atingisse as grandes propriedades; etc.
Importante observar que, ao longo deste trabalho e do estudo das obras do historiador
marxista, foi possível perceber algumas lacunas ou, até mesmo, contradições, no que diz respeito,
principalmente, ao papel que a redistribuição de terras teria no processo revolucionário do campo
braisleiro. No compilado de artigos de A questão agrária no Brasil, Caio Prado Jr. afirma que as duas
frentes de ataque da reforma agrária brasileira seriam a extensão da legislação social trabalhista para o
campo, proporcionando ao trabalhador rural proteção legal adequada que pudesse lhe assegurar
melhores condições de vida e trabalho; e a modificação da estrutura agrária no sentido de corrigir a
extrema concentração fundiária característica do meio rural brasileiro.
Ocorre que na obra A Revolução Brasileira, publicada em 1966 pela primeira vez – posterior
aos artigos publicados em A questão agrária no Brasil, portanto – o autor marxista pondera que a
questão da terra – defendida pelos dirigentes do PCB como a contradição principal do campo
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brasileiro - seria secundária e não teria o potencial revolucionário que havia na elevação do estatuto
social do trabalhador rural. Essa é, contudo, uma questão que não conseguimos superar no presente
trabalho, mas que fica como apontamento para um próximo estudo.

6. Referências Bibliográficas
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Argumentum. Vitória, v. 11, n. 1, p. 200-212, jan./abr. 2019. Disponível em:
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DUARTE, Hugo Villaça. Em busca da Revolução Brasileira: um debate crítico sobre as teses
históricas e a linha política do PCB. EDOS. Rio Grande do Sul, v. 3, n. 6, p. 87-102, jan./jul.
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PRADO JÚNIOR, C. A revolução brasileira; A questão agrária no Brasil. – 1ª ed. – São


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PRADO JÚNIOR, C. Formação do Brasil contemporâneo. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia


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PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL. Programa do Partido Comunista do Brasil. IV


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RODRIGUES, Arthur Bastos. A apreensão caiopradiana do direito na via colonial. In: Anais
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Acessado em 16 mar. 2021.

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