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Equipe de tradução:

Carla Dalmaz (Caps. 1, 6, 8-10, 19-21, 26 e 33)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Carlos Alberto Saraiva Gonçalves (Caps. 17 e 24)


Doutor em Bioquímica, Professor Adjunto do Departamento de Bioquímica, ICBS
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Carlos Alexandre Sanchez Ferreira (Caps. 29 a 31)


Doutor em Bioquímica, UFRGS, Professor Adjunto do Departamento de Ciências Microbiológicas
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Carmem Gottfried (Caps. 2 e 23)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Christianne G. Salbego (Caps. 3 a 5)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Cristina Brinckmann de Oliveira Netto (Caps. 27 e 32)


Doutora em Bioquímica, Serviço de Genética Médica
Hospital de Clínicas de Porto Alegre, RS

Deusa Aparecida Vendite (Cap. 25)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

FátlmaT. Costa Rodrigues Guma (Cap. 18)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul , Porto Alegre, RS

Fernanda Urruth Fontella (Caps. 7 e 28)


Farmacêutica-Bioqu ímica, Doutora em Fisiologia pela UFRGS,
Laboratório Central da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, RS

Márcia Rosângela Wink (Cap. 22)


Doutora em Bioquímica, Professora do Departamento de Biofísica, IB
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Regina Pessoa Pureur (Cap. 15)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul , Porto Alegre, RS

Regina Maria Vieira da Costa Guaragna (Cap. 16)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Vera Maria Treis Trindade (Caps. 11 a 14)


Doutora em Bioquímica, Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Pamela C. Champe, Ph.D.
Department of Biochemistry
Un iversity of Medicine anel Dentistry of New Jersey -
Robert Wood Johnson Medical School
Piscataway, New Jersey

Richard A. Harvey, Ph.D.


Department of Biochemistry
University of Medicine anel Dentistry of New Jersey -
Robert Wood Johnson Medical School
Piscataway, New Jersey

Denise R. Ferrier, Ph.D.


Department of Biochemistry
Drexel University College of Medici ne
Philadelphia, Pennsylvania

Consultoria, supervisão e
revisão técnica desta edição:
Carla Dalmaz
Doutora em Bioquímica,
Professora Adjunta do Departamento de Bioquímica, ICBS
Universidade Federal elo Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

2006
Obra originalmente publicada sob o título
Lippincott 11/us trated Revíews: Bíochemistry, 3/E
ISBN 0-7817-2265-9

Esta publicação contém informações relacionadas a princípios gerais de cuidados médicos,


que não devem ser interpretados como instruções específicas para pacientes individuais.
As informações e os encartes dos fabricantes de produtos médicos devem ser revistos para
informações atuais, incluindo contra-indicações, doses e precauções.

© 2005 Lippincott Williams & Wilkins.


Published by arrangement with Lippincott Williams & Wilki ns, U.S.A.
© 2006, Artmed Editora SA

Capa: Mário Róhnelt

Leitura final: Luana Peixoto, Daniele Cunha

Supervisão editorial: Letícia Bispo de Lima ·

Editoração eletrônica: New Book Editoração Ltda.

~Ociil~O Bra.silairn para


b Proteção dos Direitos
EditoriaJS c Autcmris
RESPEITE O AUTOR
N AO F AçA COP IA
www.abpdea org.br

C451b Champe, Pamela C.


Bioquímica I Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise
R. Ferrier; tradução Carla Dalmaz ... [et ai.).- 3. ed.- Porto Alegre :
Artmed, 2006.
544 p.; 28 cm.

ISBN 85-363-0590-8

1. Bioquímica. I. Harvey, Richard A. 11. Ferrier, Denise R. III. Título.

CDU 577.1

Catalogação na publicação: Júlia Angst Coelho- CRB Provisório 05/05

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


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SAC 0800 703-3444

IMPRESSO NO BRASIL
PR/NTEO lN BRAZIL
AUTORES COLABORADORES

Cal Mclaughlin, Ph.D.


Department of Biological Chemistry
University of Califo rnia, lrvine
lrvine, Californ ia

Vernon E. Reichenbecher, Ph.D.


Department of Biochemistry and Molecular Biology
.;•
. .. , . .
~
Marshall University School of Medicine
Huntington, West Virginia

''

IMAGENS DIGITAIS

Michael Cooper
Cooper Graphics
www.cooper247.com
Este livro é dedicado a
Marilyn Schorin,
cuja compreensão generosamente compartilhada
acerca da natureza,
juntamente com seu apoio resoluto, guiou
palavras confusas em sua transformação
em idéias coerentes.
Agradecimentos

Somos gratos aos muitos amigos e colegas que generosamente contribu íram,
com seu tempo e esforço, para nos ajudar a tornar este livro tão acurado e útil
quanto possível. Ta mbém reconhecemos o apoio de nossos demais colegas da
Universidade de Medicina e Odontologia de New Jersey - Escola de Medicina
Robert Wood Johnson, que foi extremamente valioso. Nós (RAH e PCC) deve-
mos especiais agradecimentos ao nosso Diretor, Dr. Masayori lnouye, que nos
encorajou, ao longo dos anos, neste e em outros projetas de ensino. Estamos
especialmente agradecidos à Dra. Mary Mycek, da Universidade de Medicina e
Odontologia de New Jersey - Escola de Medicina de New Jersey, que participou
ativamente deste projeto. Também ficamos gratos pelos muitos e úteis comentá-
rios do Dr. William Zehring e do Dr. Jeff Mann.

Sem artistas tal entosos, uma obra ilustrada seria impossível; nesse sentido,
fomos especialmente afortu nados em trabalhar com Michael Cooper em todo
este projeto. Seu senso artístico e sua habilidade em t rabalhar com imagens
digitais muito acrescentaram à nossa capacidade de tornar vivas para nossos
leitores as "histórias" bioquímicas.

Os editores e a equipe de produção da Lippincott Williams & Wilkins foram uma


constante fonte de encorajamento e disciplina. Queremos agradecer especial-
mente ao nosso editor, Neil Marquardt, por suas contribuições úteis, incentiva-
deras e criativas: sua imaginação e disposição nos ajudaram a completa r este
complexo projeto. A edição final do livro foi aprimorada pelos esforços de Jenni-
fer Glazer.
Sumário

UNIDADE 1: Estrutura e função das proteínas


Capítulo 1: Aminoácidos 1
Capítulo 2: Estrutura das proteínas 13
Capítulo 3: Proteínas globulares 25
Capítulo 4: Proteínas fibrosas 43
Capítulo 5: Enzimas 53

UNIDADE 11: Metabolismo intermediário


Capítulo 6: Bioenergética e fosforilação oxidativa 69
Capítulo 7: Introdução aos carboidratos 83
Capítulo 8: Glicólise ' 89
Capítulo 9: ' Ciclo do ácido cítrico 107
Capítulo 10: Gliconeogênese 11 5
Capítulo 11: Metabolismo do glicogênio 123
Capítulo 12: Metabolismo de monossacarídeos e dissacarídeos / 135
Capítulo 13: ....v ia das pentoses-fosfato e NADPH 143
Capítulo 14: Glicosami noglicanos e glicoproteínas 155

UNIDADE III: Metabolismo dos lipídeos


Capítulo 15: Metabolismo dos lipídeos da dieta 171
Capítulo 16: Metabolismo dos ácidos graxos e triacilgliceróis 179
Capítulo 17: Metabolismo dos lipídeos complexos 199
Capítulo 18: Colesterol e metabolismo dos esteróides 217

UNIDADE IV: Metabolismo do nitrogênio


Capítulo 19: Aminoácidos: destino do nitrogênio 243
Capítulo 20: Degradação e síntese dos aminoácidos 259
Capítulo 21: Conversão dos aminoácidos em
produtos especializados 275
Capítulo 22: Metabolismo dos nucleotídeos 289
X Sumário

UNIDADE V: Integração do metabolismo


Capítulo 23: Efeitos metabólicos da insulina e do glucagon 305
Capítulo 24: O ciclo alimentado/jejum 319
Capítulo 25: Diabetes melito 335
Capítulo 26: Obesidade 347
Capítulo 27: Nutrição 355
Capítulo 28: Vitaminas 371

UNIDADE VI: Armazenamento e expressão da informação genética


Capítulo 29: Estrutura e replicação do DNA 393
Capítulo 30: Estrutu ra e síntese do RNA 413
Capítulo 31: Síntese protéica 429
Capítulo 32: Biotecnologia e doença humana 445

UNIDADE VIl : Revisão da bioquímica


Capítulo 33: Resumo de fatos-chave na bioquímica 469
Índice 509
Aminoácidos

I. VISÃO GERAL
A Aminoácido livre
As proteínas são as moléculas mais abundantes e com maior diversidade de
funções nos sistemas vivos. Praticamente todos os processos vivos dependem
dessa classe de moléculas. Por exemplo, enzimas e hormônios polipeptídicos
controlam e regulam o metabolismo do organismo, enquanto proteínas contrá-
teis no músculo ensejam a realização dos movimentos. Nos ossos, a proteína
colágeno forma uma estrutura para a deposição de cristais de fosfato de cálcio,
aluando de modo semelhante aos cabos de aço que reforçam o concreto. Na
corrente sangüínea, proteínas, como a hemoglobina e a albumina plasmática,
transportam moléculas essenciais para a vida, enquanto as imunoglobulinas Grupo
I
combatem bactérias e vírus potencialmente causadores de infecções. Em suma,
as proteínas apresentam uma incrível diversidade de funções e, ainda assim,
apresentam todas em comum a característica estrutural de serem polímeros
A cadeia lateral é O car bono a
de aminoácidos. Este capítu lo descreve as propriedades dos aminoácidos; o
distinta para cada encontra-se entre ·
Capítulo 2 mostra como esses blocos constitutivos simples são unidos para aminoácido. os grupos carbo-
formar as proteínas - as quais apresentam estruturas tridimensionais únicas - , xila e amino.

tornando-as capazes de desempenhar funções biológicas específicas.


B Aminoácidos combinados
em ligações peptídicas
11. ESTRUTURA DOS AMINOÁCIDOS

Embora mais de 300 diferentes aminoácidos tenham sido descritos a partir de - NH-CH-CO-NH-CH-C0-
fontes naturais, apenas 20 deles são normalmente encontrados como consti - 1 I

tu intes de proteínas em mamíferos. (Nota: Esses são os únicos aminoácidos R R


codificados pelo DNA, o material genético da célula [veja a pág. 393).) Cada
aminoácido (exceto a prolina, que é descrita na pág. 4) apresenta um grupo As cadeias laterais deter-
carboxi la, um grupo amino e uma cadeia lateral distinta ("grupo R") ligados minam as p ropriedades
ao átomo de carbono a (Figura 1 .1A). Em pH fisiológico (aproximadamente pH das proteínas.

= 7,4), o grupo carboxila encontra-se dissociado, formando o íon carboxilato,


carregado negativamente (-COO-), e o grupo amino encontra-se protonado
(- NH3 • ). Nas proteínas, quase todos esses grupos carboxila e amino estão Figura 1.1
combinados, formando as ligações peptídicas, e, em geral, não estão disponí- Características estruturais dos
veis para reações químicas, exceto pela possibilidade de formação de pontes aminoácidos (mostrados em sua forma
de hidrogênio (Figura 1 .1 B). Assim sendo, é a natureza dessas cadeias late- completamente protonada).
rais que determinará, em última anál ise, o papel de um aminoácido em uma
2 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

proteína. Portanto, será útil classificarmos os aminoácidos de acordo com as


propriedades de suas cadeias laterais - isto é, se elas são apoia res (ou seja,
apresentando uma distribuição homogênea de elétrons) ou polares (ou seja,
apresentando uma distribuição desigual de elétrons, como no caso de ácidos e
bases; Figuras 1.2 e 1.3).

A. Aminoácidos com cadeias !aterias apoiares


Cada um desses aminoácidos possui uma cadeia lateral, a qual não apre-
senta a capacidade de receber ou doar prótons, ou de participar em liga-
ções iônicas ou formação de pontes de hidrogênio (veja a Figura 1.2). As
cadeias laterais desses aminoácidos podem ser pensadas como "oleosas",
ou semelhantes a lipídeos, uma propriedade que promove interações
hidrofóbicas (veja a Figura 2.9, pág. 18} .

1. Localização dos aminoácidos apoiares nas proteínas. Nas prote-


ínas encontradas em soluções aquosas, as cadeias laterais apoiares
dos aminoácidos tendem a agrupar-se no interior da proteína (Figura
1.4). Este fenôm eno é o resultado da hidrofobicidade dos grupos R

CADEIAS LATERAIS APOLARES

H
I
+H 3N- C - COOH
I
CH3
pK1 = 2,3

Glicina Alanina Valina

H H
I I
+H 3N- C - COOH ... H 3N-C -COOH
I I
H - C - CH3

ó
I
CH2
I
CH3

Leuc i na lsoleucina Fenilalanina

H
I
+H 3N- C - COOH
I
CH2
t
Oc 11
N'.... CH
H

Triptofano Metionina Prolina

Figura 1.2
A classificação dos 20 aminoácidos encontrados nas proteínas de acordo com a carga e a polaridade de suas cadeias
laterais é mostrada aqui e continua na Figura 1.3. Cada aminoácido é mostrado em sua forma completamente protonada,
com os íons hidrogênio dissociáveis representados em vermelho. Os valores de pK para os grupos a-carboxila e a.-amino
dos aminoácidos apoiares são semelha ntes àqueles mostrados para a glicina . (Continua na Figura 1.3.)
Bioquímica Ilustrada 3

CADEIAS LATERAIS POLARES DESPROVIDAS DE CARGA

H . H
I I
..H 3N - C - COOH • H 3N- C -COOH
I I
H - C - OH H - C - OH
I I
H CH3

Serina Treonina Tiros ina

Asparagina Cisteína Glutamina

CADEIAS LATERAIS ÁCIDAS

Ácido aspártico Ácido glutâm ico

CADEIAS LATERAIS BÁSICAS

pK 1 = 1,8 pK2 = 9,2


H
I I ~
• H 3 N- C - COOH
I
CH2
I
C=CH
I I
•H N ~ __.. NH

I ~
p K2 = 6,0

Histidina Lisina Arginina

Figura 1.3
A classificação dos 20 aminoácidos encontrados nas proteínas, de acordo com a carga e a polaridade de suas cadeias
laterais (continuação da Figura 1.2).
4 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

apoiares, que aluam como gotículas de óleo que coalescem em um


Aminoácidos Aminoácidos apoiares ambiente aquoso. Desse modo, os grupos R apoiares preenchem o
pol ares ( • ) na ( ) agrupados na
superfície de s uperfície de proteínas interior da proteína na medida em que ela se enrola e ajudam a estabe-
proteínas solúveis. de membrana. lecer sua forma tridimensional. (Nota: Nas proteínas localizadas em um
ambiente hidrofóbico, como no interior de uma membrana, os grupos R
apoiares são encontrados na superfície da proteína, interagindo com o
ambiente lipídico [veja a Figura 1.4].) A importância dessas interações
hidrofóbicas para a estabilização da estrutura protéica é discutida na
pág. 19.

2. Prolina. A cadeia latera l da prolina e seu grupo a -amino formam um


anel, de modo que esse aminoácido difere dos demais pelo fato de
conter um grupo imino, em vez de um grupo amino (Figura 1.5). A
geometria única da molécu la da prolina cont ribui para a fo rmação
Proteína solúvel Proteína de membrana
da estrutura fibrosa do colágeno (veja a pág. 45) e, freqüentemente,
interrompe as hélices a encontradas em proteínas globulares (veja a
Figura 1.4 pág. 26) .
Localização dos aminoácidos
apoiares em proteínas solúveis e de B. Aminoácid os com cadeias laterais polares, desprovidas de
membrana. c arga elétrica
Esses aminoácidos apresentam carga líqu ida igual a zero em pH neutro,
Grupo Grupo embora as cadeias laterais da cisteína e da tiros ina possam perder um
i mino a mino próton em pH alcalino (veja a Figura 1.3). Os aminoácidos serina, treonina
e tirosina contêm, cada um, um grupo hidroxila, que pode participar da for-
mação de pontes de hidrogênio (Figura 1.6). As cadeias laterais da aspa-
ragina e da glutamina contêm, cada qual, um grupo carbonila e um grupo
amida, os q uais podem também participar de pontes de hidrogênio.

1. Ligação dissulfeto. A cade ia lateral da cisteína contém um grupo


Prol i na Alanina
s u lfidrila (-SH), o qual é um componente importante do sítio ativo
de muitas enzimas. Nas proteínas, os grupos - SH de duas cisteínas
Figura 1.5 podem tornar-se oxidados e formar um dímero, a cistina, que contém
Comparação entre o grupo imino um ligação cruzada denominada ponte dissulfeto (- S- S- ). (Veja a pág.
encontrado na prolina e o grupo 19 para discussão acerca da formação da ligação dissulfeto.)
a -amino encontrado em outros
aminoácidos, como a alanina. 2. Cadeias laterais como sítios de ligação para outros compostos.
A serina, a treonina e, mais raramente, a tirosina contêm um grupo
hidroxi la polar , que pode servir como um sítio de ligação para estrutu-
ras, tais como um grupo fosfato. (Nota: A cadeia lateral da serina é um
+H 3 N- C - COOH componente importante do sítio ativo de muitas enzimas.) Além disso, o
I
grupo amida da asparagina, assim como os grupos hidroxila da serina

ô o
I
H
Tirosina
e da treonina, pode servir como sítio de ligação para cadeias de oligos-
sacarídeos nas glicoproteínas (veja a pág . 156).

C. Ami no ácidos com c adeias laterais ácidas

Ponte de Os aminoácidos ácido aspártico e ácido glutâmico são doadores de pró-


} hid rogêni o t ons . Em pH neutro, as cadeias laterais desses aminoácidos encontram-
o
11 se co mpletamente ionizadas, contendo um grupo carboxilato carregado
,c, negativamente (-Coo-). Esses aminoácidos são, portanto, denominados
Grupo aspartato e glutamato, para enfatizar o fato de estarem carregados negati-
carbo nila
vamente em pH fisiológico (veja a Figura 1.3).

Fi gura 1.6 D. Aminoácidos com cadeia s late rais b ás icas


Ponte de hidrogênio entre o grupo
hidroxila fenólico da tirosina e As cadeias laterais dos aminoácidos básicos são aceptoras de próto ns (veja
outra molécula contendo um grupo a Figura 1.3). Em pH fisiológico, as cadeias laterais da lisina e da arginina
carbonila. encontram-se completamente ionizadas, com carga positiva. Em contraste, a
Bioquímica Ilustrada 5

histidina é fracamente básica e o aminoácido livre, em geral, não apresenta


carga elétrica em pH fisiológico. Entretanto, quando a histidina encontra-se O Primeira letra única
incorporada em uma proteína, sua cadeia lateral pode apresentar-se com
carga positiva ou neu tra, dependendo do ambiente iônico fornecido pela
C isteína = Cys = c
cadeia polipeptídica da proteína. (Nqta: Essa é uma propriedade importante
H istidina = His = H
da histidina e contribui para o papel que esse aminoácido desempenha no
l soleucina = lle = I
M etionina = Met = M
funcionamento de proteínas, tais como a hemoglobina [veja a pág. 26].) Serina = Ser = s
V alina = Vai = v
E. Abreviaturas e símbolos para os aminoácidos de ocorrência
mais f reqüente
fJ Os aminoácidos de ocorrência
mais freqüente têm prioridade
O nome de cada aminoácido possui uma abreviatura associada de três A lanina = A la = A
letras e um símbolo de uma letra (Figura 1.7). Os códigos de uma letra são Glicina = Gly = G
determinados pelas seguintes regras: Leucina = Leu = L
p
Prol ina = Pro =
1. Primeira letra única. Se apenas um nome de aminoácido começa com T reonina = Thr = T
uma determinada letra, então aquela letra é utilizada como seu sím-
bolo. Por exemplo, I = isoleucina. B Nomes com sons semelhantes
(conforme pronunciado em inglês)
2. Os aminoácidos de ocorrência mais freqüente têm prioridade. Se Ar ginina = Arg = R {"aRginine")
mais de um aminoácido têm seus nomes começando com determ inada Asparagin a = Asn = N (contém N)
letra, o aminoácido de ocorrência mais freqüente recebe aquela letra Aspartato = Asp = D ("asparD ic")
como símbolo. Por exemplo, a glicina é mais freqüente que o glutamato, Glutamato = Glu = E ("glutE mate")
então G = glicina. Glutamina = Gln = Q ("Q -tamine")
Fenilalanina = Phe = F ("Fenylalanine")
3. Nomes com sons semelhantes. Alguns símbolos de uma letra soam, Tirosina =Tyr = Y ("tY rosine")
em inglês, de forma semelhante ao início do nome do aminoácido que
Triptofano =Trp = W (duplo anel na
molécula)
representam. Por exemplo, F = fenilalanina, ou W = triptofano ("twypto-
phan", como diria Elmer Fudd). IJ Letra próxima à letra inicial

4. Letra próxima à letra inicial. Para os demais aminoácidos, é atribuído


Aspartato ou = Asx = B (próxima do A)
um símbolo de uma letra, a qual deve estar tão próxima quanto possí- asparagina
vel , no alfabeto, à letra inicial do nome daquele aminoácido. Além disso, Glutamato ou = Glx = z
a letra B é atribuída ao Asx, significando tanto ácido aspártico quanto glutamina
asparagina, o Z é atribuído ao Glx, significando tanto ácido glutâmico Li s ina = Lys = K (próxima do L)

quanto glutamina, e o X é atribuído a um a minoácido não-identificado. Aminoácido = X


indeterminado

F. Propriedades ópticas dos aminoácidos


O carbono a. de cada aminoácido está ligado a quatro grupos diferentes e Figura 1.7
é, portanto, um átomo de carbono quiral ou opticamente ativo. A glicina é Abreviaturas e símbolos para os
a exceção, pois seu carbono a. apresenta dois átomos de hidrogênio como aminoácidos de ocorrência mais
freqüente.
substituintes e, assim sendo, é opticamente inativa. (Nota: Os aminoácidos
que apresentam um centro assimétrico em seu carbono a. podem existir em
duas formas, designadas o e L, que são imagens especulares uma da outra
[Figura 1.8]. As duas formas, em cada par, são denominadas estereoisôme-
ros, isômeros ópticos ou enantiômeros.) Todos os aminoácidos encontrados
nas proteínas apresentam a configuração L o-Aminoácidos, no entanto, são
encontrados em alguns antibióticos e em paredes celulares de bactérias. (Veja
a pág. 250 para uma discussão acerca do metabolismo de o-aminoácidos.)

III. PROPRIEDADES ÁCIDO-BÁSICAS


DOS AMINOÁCIDOS

Os aminoácidos, em solução aquosa, contêm grupos a.-carboxila fracamente áci- Figura 1.8
dos e grupos a.-amino fracamente básicos. Além disso, cada um dos aminoácidos As formas o e L da alanina são
ácidos e cada um dos aminoácidos básicos contêm um grupo ionizável em sua imagens especulares (imagens no
cadeia lateral. Assim sendo, tanto os aminoácidos livres quanto alguns aminoá- espelho).
6 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

cidos combinados por meio de ligações peptídicas podem aluar como tampões.
A relação quantitativa entre a concentração de um ácido fraco (HA) e sua base
conjugada (A-) é descrita pela equação de Henderson-Hasselbalch.

A. Derivação da equação
Considere a liberação de um próton por um ácido fraco, representado por HA:

HA H• + A-
ácido próton forma salina
fraco ou base conjugada

O "sal" ou a base conjugada, A-, é a forma ionizada de um ácido fraco. Por


definição, a constante de dissociação do ácido, K., é

(Nota: Quanto maior o K., mais forte o ácido, pois indica que a maior parte
de HA foi convertida em H• e A-. Por outro lado, quanto menor o K. , menos
ácido foi dissociado e, portanto, mais fraco é o ácido.) Se isolarmos [W]
na equação anterior, tomando o logaritmo de ambos os lados da equação,
multiplicando ambos os lados por - 1 e substituindo pH = - log [W] e pK. =
- log K,, obteremos a equação de Henderson-Hasselbalch:

8. Tampões
Um tampão é uma solução q ue resiste a mudanças de pH quando se
ow H 2o adicionam pequenas quantidades de ácido ou base. Um tampão pode
ser produzido pela mistura de um ácido fraco (HA) com sua base conju-
CH3 Co On
Lo " .! .' CH 3COO- gada (A-). Se um ácido, como o HCI, for adicionado a uma solução, pode
FORMA I ~ FORMA 11 ser neutralizado pelo A-, o qual, no p rocesso, é converti do em HA. Se
(ácido acético, HA) H+ (acetato, A- )
uma base for adicionada, o HA pode neutralizá-la, sendo convertido em
A- nesse processo. A capacidade tamponante máxima ocorre quando o
pH for igual ao pK., mas um par conjugado ácido/base pode ainda servir
como tampão efetivo quando o pH da solução estiver até ± 1 unidade de
pH afastado do pK•. (Nota: Se as quantidades de HA e A- forem iguais, o
pH é igual ao pK•.) Como mostrado na Figu ra 1.9, uma solução contendo
ácido acético (H A = CH 3- COOH) e acetato (A- = CH3- COO-), com um pK.
de 4,8, resiste a mudanças no pH entre os pHs 3,8 e 5,8, com capac idade
tamponante máxima no pH 4,8. (Nota: Em pHs abaixo do pK 8 , a forma
ácida, protonada [CH 3- COOH], é a forma predominante. Em pHs acima
do pK., a forma básica, não-protonada [CH3-C00l , é a forma predomi-
nante na solução.)

C. Titulação de um aminoácido
pH
1. Dissociação do grupo carboxila. A curva de titulação de um amino-
ácido pode ser analisada como descrito ante riormente para o ácido
Figura 1.9 acético. Considere a alanina, por exemplo. Esse aminoácido contém um
Curva de titulação do ácido acético. grupo a-carboxila e um grupo a-amino. Em pHs baixos (ácidos) , ambos
Bioquímica Ilustrada 7

ow H 2o
H H H
+H3N c COOH +H 3 N c coo- \..)) H2 N c coo-
CH 3 CH3 ~ CH3
H+
FORMAl FORMA 11 FORM III
pK 1 ::: 2,3 pK2 = 9,1
Alanina em uma solução ácida Alanina em uma solução neutra Alanina em uma solucão básica
(pH menor que 2) (pH aproximadamente 6) (pH acima de 1O)

Carga líquida =+1 =


Carga líquida O Carga líquida =- 1
(forma isoelétrica)

Figura 1.10
Formas iônicas da alanina em soluções ácidas, neutras e básicas.

os grupos encontram-se protonados (como mostrado na Figura 1.1 O). À


medida que o pH da solução é aumentado, o grupo - COOH da forma
I pode dissociar, doando um próton ao meio. A liberação de um próton
resulta na fo rmação do grupo carboxilato, -coo-. Essa estrutura é
mostrada como a forma 11, que é a forma dipolar da molécula (veja a
Figura 1.1 0) . (Nota: Essa forma, também denominada zwitterion, é a
forma isoelétrica da alanina - ou seja, possui uma carga líquida igual
a zero.)

2. Aplicação da equação de Henderson-Hasselbalch. A constante de


dissociação do grupo carboxila de um aminoácido é denominada K1 , e
não K. , pois a molécula contém um segundo grupo titu lável. A equação
de Henderson-Hasselbalch pode ser utilizada para analisar a dissocia-
ção do grupo carbox ila da alanina do mesmo modo que o descrito para
o ácido acético.

K = [H+] [li]
1 - [-1
]-

Onde I é a forma completamente protonada da alanina e 11 é a forma


isoelétrica da alanina (veja a Figura 1.10). Essa equação pode ser rear-
ranjada e convertida em sua forma logarítmica para dar:

[li]
pH =pK1 + log [i]

3. Dissociação do grupo amino. O segundo grupo titulável da alanina é


o grupo amino (-NH 3+), mostrado na Figura 1.10. Ele é um ácido muito
mais fraco que o grupo - COOH e, portanto, apresenta uma constante
de dissociação muito menor, K2 . (Nota: Seu pK. , portanto, é maior.) A
liberação de um próton pelo grupo a mino da forma 11 resulta na forma
comp letam ente desprotonada da alanina, a forma III (veja a Figura
1.1 0).

4. pKs da alanina. A d issociação seqüencial de prótons dos grupos car-


boxila e amino da alanina está resumida na Figura 1.1 O. Cada grupo
8 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

titulável apresenta um pK. que é numericamente igual ao pH no qual


exatamente metade dos prótons foram removidos daquele grupo. O pK.
para o grupo mais acídico (-COOH) é o pK, , enquanto o pK. para o
grupo acídico seguinte (-NH3 •) é o pK2 .

5. Curva de titulação da alan ina. Pela aplicação da equação de Hender-


son-Hasselbalch a cada grupo acídico dissociável, é possível calcular a
curva de titu lação completa de um ácido fraco. A Figura 1.11 mostra a
variação no pH que ocorre durante a adição de base à forma comple-
tamente protonada da alanina (1), até produzir a forma completamente
desprotonada (III ). Observe o seguinte:

a. Pares tampões: o par -COOH/-COo- pode servir como um tam-


pão na região de pH ao redor do pK, e o par -NH3·/-NH2 pode
tamponar na região ao redor do pK2 .

b. Quando pH = pK: quando o pH é igual ao pK, (2,3), existem na


solução quantidades iguais das formas I e 11 da alanina. Quando o
pH é igual ao pK2 (9,1), estão presentes na solução quantidades
iguais das formas 11 e III.

c. Ponto isoelétrico: em pH neutro, a alanina existe predominante-


mente como a forma dipolar 11 , na qual os grupos amino e carbox ila
estão ionizados, mas a carga líquida é zero. O ponto isoelétrico (pi)
é o pH no qual um aminoácido é eletricamente neutro - ou seja, no
qual a soma das cargas positivas é igual à soma das cargas nega-
H
I
tivas. (Nota: Para uma aminoácido, como a alanina, por exemplo,
H2N-ç- coo-
que apresenta apenas dois hidrogênios dissociáveis [um do grupo
CH3
o:-carboxila e um do grupo ex-amino], o pi é a média entre pK, e pK2
FORMA III [pi= [2,3 + 9 ,1]/2 = 5,7, veja a Figura 1.1 0). O pi está assim a meio
caminho, entre o pK, (2,3) e o pK2 (9, 1). Ele corresponde ao pH no
Região de qual predomina a estrutura 11 [com carga líquida igual a zero) e em
tamponamento
~ que há também quantidades iguais das formas I [carga líquida + 1]
e III [ca rga líquida -1] .)

6. Carga líquida dos aminoácidos em pH neutro. Em pH fisiológico,


todos os aminoácidos apresentam um grupo carregado negativamente
(-COOl e um grupo carregado positivamente (- NH3 . ), ambos ligados
ao carbono a. (Nota: Os aminoácidos glutamato, aspartato, histidina,
arginina e lisina apresentam , além desses, outros grupos potencial-
mente carregados em suas cadeias laterais.) Substâncias como os
aminoácidos, que podem atuar como ácidos ou bases, são definidas
como anfotéricas e são chamadas anfólitos (eletrólitos anfotéri-
4 6 cos).
pH

D. Outras aplicações da equação de Henderson-Hasselbalch


H H
I A equação de Henderson-Hasselbalch pode ser utilizada para calcular
+H N -C - COOH • H 3 N-ç-coo-
3 I • como o pH de uma solução fisiológica responde a mudanças na concen-
CH 3 CH3 tração de um ácido fraco e/ou de sua correspondente forma de "sal". Por
FORMAl FORMA 11 exemplo, no sistema tampão do bicarbonato, a equação de Hender-
son-Hasselbalch prediz como mudanças na [HC03- ) e na pC02 influen-
ciam o pH (Figura 1.12A). A equação também é útil para calcu lar as
Figura 1.11 quantidades das formas iônicas de grupos acídicos e básicos. Por exem-
Curva de titulação da alanina. plo, muitas drogas são ácidos fracos ou bases fracas (Figura 1.128).
Bioquímica Ilustrada 9

Drogas ácidas (HA) liberam um próton (W) , dete rminand o a form ação
de um ânion carregado (A-). D BICARBONATO COMO UM TAMPÃO

HA ;:Z

Bases fracas (BH•) também podem liberar um H•. A forma protonada das
•e Um aumento no íon b icarbonato
drogas básicas, no entanto, normalmente possui carga elétrica, e a perda faz com qu e o pH a umente .

de um próton produz a base desprovida de carga (B).


e Obstrução p ul mo nar pro voca u m
aumento no díóJCido de carbono e
f az com q ue o pH d iminua.

Uma droga passa através de membranas mais facilmente quando não estiver
carregada. Assim sendo, para um ácido fraco, a forma desprovida de carga
HA pode permear membranas e A- não pode fazê-lo. Para uma base fraca,
como a morfina, por exemplo, a forma desprovida de carga, B, atravessa
membranas, enquanto BH• não o faz. Portanto, a concentração efetiva da
forma permeável de cada droga em seu sítio de absorção é determinada
pelas concentrações relativas das formas carregada e desprovida de carga.
A razão entre as duas formas é, por sua vez, determinada pelo pH no sítio
m ABSORÇÃO DE DROGAS

de absorção e pela força do ácido fraco ou da base fraca, representada pelo (Drog a- ]
• pH = pK+ Iog
[Droga-H]
pK. do grupo ionizável. A equação de Henderson-Hasselbalch é útil para
a determinação da quantidade de droga encontrada em cada lado de uma e No pH do estômago (1,5), uma droga
membrana que separa dois compartimentos que diferem com relação ao pH, =
como a Aspiri na® (ácido fraco, pK 3,5)
como, por exemplo, o estômago (pH 1,0-1,5) e o plasma sangüíneo (pH 7,4). estará predominantemente protonada
(COOH) e, portanto , desprovida de carga.

IV. MAPAS DE CONCEITOS-CHAVE


e Drogas desprovidas de carga elétrica
geralmente at ra vessam memb ranas mais
ra pidamente que moléculas com carga .

Os estudantes algumas vezes encaram a bioquímica como uma série obscura


de fatos ou equações a serem memorizados, em vez de um corpo de conceitos
a serem compreendidos. Detalhes fornecidos com a finalidade de enriquecer
a compreensão desses conceitos tornam-se, inadvertidamente, distrações. O
que parece estar faltando seria um mapa do camin ho - um guia que forneça
aos estudantes uma compreensão intuitiva d e co mo vários tópicos e ncai -
xam-se para fazer sentido. Pensando assim, os autores criaram uma série de
Membrana
mapas bioqu ímicos de conceitos-chave, que ilustram graficamente as rela- lipídica
ções entre as idéias apresentadas em um capítulo e mostram como a informa-
ção pode ser agrupada ou organizada. Um mapa conceituai é, portanto, uma
ferramenta para visualizar conexões entre conceitos. O material é apresentado
de maneira hierárquica, com os conceitos mais gerais e inclu sivos no topo do
mapa e aqueles conceitos mais específicos e menos ge rais arranjados abaixo.

A. Como é construído um mapa de conceit o s-chave?


1. Quadros de co nceitos vin culado s. Os educadores definem conceitos
como "regularidades percebidas em eventos ou objetos". Em nossos
mapas bioquímicos, os conceitos incluem abstrações (por exemplo, LUZ DO
ESTÔMAGO
energia livre), processos (por exemplo, fosforilação oxidativa) e com-
postos (por exemplo, glicose-6-fosfato). Esses conceitos amplamente
definidos estão priorizados, com a idéia central posicionada no topo
da página. Os conceitos que seguem a partir dessa idéia central estão Figu ra 1.12
desenhados em quadros (Figura 1.1 3A). O tamanho do quadro e da A equação de Henderson-
letra indicam a importância relativa de cada idéia. Linhas são desenha- Hasselbalch é utilizada para prever:
das entre os quadros dos conceitos para mostrar como se re lacionam. (A) variações no pH, à medida que as
A marcação na linha define a relação entre dois conceitos, de modo concentrações de HC03- ou C02 são
alteradas; ou (B) as formas iônicas
das substâncias.
1O Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

m Quadros de conceitos
vinculados
que possa ser lido como uma afirmação válida, ou seja, a conexão
passa a ter sentido. As linhas com cabeças de setas indicam qual o
sentido em que a conexão deve ser lida.

2. Vínculos cruzados. Ao contrário dos padrões ou diagramas de fluxo


linear, os mapas de conceitos-chave podem conter vínculos cruza-
dos, que permitem ao leitor visualizar relações complexas entre idéias
representadas em diferentes partes do mapa (Figura 1.138) ou entre o
mapa e outros capítulos neste livro ou em livros complementares desta
série (Figura 1.13C). Vínculos cruzados podem assim identificar con-
r:l Conceitos vinculados ceitos centrais em mais de uma disciplina, permitindo aos estudantes
&:ii dentro de um mapa eficiência em situações clínicas e no exame de licenciamento médico
(nos Estados Unidos) ou em outros exames com características multi-
disciplinares. Os estudantes aprendem, assim, a perceber visualmente
Degradação
é produzido pela
Conjunto relações não-lineares entre fatos, em contraste com referências cruza-
das proteínas deami·
das em textos lineares.
noácidos

8 . Mapas de conceitos-chave e aprendizado relevante

leva à "Aprendizado relevante" refere-se a um processo no qual os estudantes


ligam informações novas a conceitos relevantes que já possuem. Para
aprender de modo significativo, os indivíduos devem escolher, consciente-
Conjunto mente, relacionar informações novas ao conhecimento que já têm, em vez
é consumido pela de ami- de, simplesmente, memorizar definições de fatos ou conceitos isolados. A
proteínas noácidos
simples memorização não é desejável, pois tal aprendizado é facilmente
corporais
esquecido e não é prontamente aplicável à resolução de problemas em
novas situações. Assim sendo, os mapas de conceitos-chave preparados
pelos autores não devem ser decorados. Isso seria meramente a promoção
Conceitos com vínculos do aprendizado por memorização, fugindo ao propósito dos mapas. Em
cruzados com outros vez disso, espera-se que os mapas de conceitos-chave funcionem como
capítulos e outros matrizes ou guias para organizar a informação, de modo que os estudantes
livros nesta série possam faci lmente descobrir as melhores maneiras de integrar informações
novas no corpo de conhecimentos que já possuem.

V. RESUMO DO CAPÍTULO
... como a proteína .. . como o dobramento
se dobra em incorreto das proteínas
sua conformação pode levar à doença do Cada aminoácido apresenta um grupo a-carboxila e um grupo a-amino
nativa príon, como por exemplo (exceto a prolina, que possui um grupo imino) . Em pH fisiológico, o grupo
a doença de
Creutzfeldt-Jakob a -carboxila está dissociado, formando o íon carboxi lato (- Coo-), carregado
negativamente, e o grupo ex-amino está protonado (-NH 3+). Cada aminoácido
u
veja a pág. 397
também ap resenta uma cadeia lateral (são 20 cadeias laterais diferentes,
para os 20 aminoácidos) ligada ao átomo de carbono a. A natureza química
dessa cadeia late ral determina a função de um aminoácido em uma proteína
e fornece a base para a classificação dos aminoácidos em apoiares, polares
Es rruturad.t~ s
Protoín.1s 2 desprovidos de carga, ácidos e básicos. Todos os aminoácidos livres podem
:: ~:~lia
servir como tampões, assim como os aminoácidos que apresentam carga
quando ligados às cadeias peptídicas. A relação quantitativa entre a concen-
tração de um ácido fraco (HA) e sua base conjugada (A-) é descrita pela equa-
ção de Henderson-Hasselbalch. O tamponamento ocorre na faixa do pK. ± 1
unidade de pH e é máximo quando pH = pK., situação na qual [A-] = [HA]. O
carbono a de cada aminoácido (com exceção da glicina) está ligado a quatro
diferentes grupos químicos e é, portanto, um átomo de carbono quiral ou opti-
camente ativo. Apenas a forma L dos aminoácidos é encontrada nas proteínas
Figura 1.13
sintetizadas pelo corpo humano.
Símbolos utilizados nos mapas de
conceitos-chave.
Bioquímica Ilustrada 11

Aminoácidos
(completamente protonados)

são compostos por podem

j
Grupo o:-carboxila Grupo o:-amino Cadeias laterais de Liberar H'
(-COOH) (-NH 3 +) 20 tipos diferentes

I, eatuam como
esta eltá

~ ~
desprotonado (- COOl em pr otonado (-NH,·) em Ácidos fracos
pH fisiológico
J I pH fi siológico
I conforme descrito pela

/ comp ostas por


Equação de Henderson-
Hasselbalch:

[ I 1 pH = pK. + Iog-A:_

I
HA

Cadeias laterais Cadeias laterais Cadeias laterais Cadeias !aterias que prediz
apoiares polares, desprovidas
de carqa ácidas básicas

I
J
Alanina Asparagina Ácido aspártico Arginina
Glicina Cisteína Ácido glutâmico Histidina
lsoleucina Glutamina Li sina
Leucina Serina
Metionina Treonina caracte!izadas por caracterizadas por que prediz que
Fenilalanina Tirosina
Prolina '------ __] ~

r
Triptofano A cadei a lateral se
A cadeia l ateral é
Valina dissoci a em -coo-
protonada e geral-
em pH fisio lógi co
mente ap resenta
L----,-------'1 carga positiva em pH
fisiológi co que prediz

encontradas encontradas encontradas encontradas

Máxima capacidade tampo-


nante quando pH = pK.

j No exterior de proteínas que aluam em um ambiente aquoso e no


interior de pr oteínas associadas a membranas
que prediz que
No interior de proteínas que aluam em um
ambiente aquoso e na superfície de
proteínas (como proteínas de
t
pH = pK. quando [HA] = [Al
membrana) que interagem com lipídeos

Estrutur•da•
PToteínas 2
Nas proteínas, a
maior parte dos
Desse modo, a
natureza química da
:·;.:.1
Portanto, esses ... como a proteína .; r."'
-
g rupos a-coo- e cadeia lateral
a-NH 3• dos amino- grupos não estão determina o papel dobra para
ácidos est á com- disponívei s para que o aminoácido assumir s ua con-
binada, formando reações químicas. terá em uma prote- f ormação nativa.
ligações peptídicas. ína, em especial ...

Figura 1.14
Mapa de conceitos-chave para os aminoácidos.
12 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Como questões para estudo, podemos sugerir...


O Enquanto você pensa 1. 1 Qual das seguintes alternativas pareia corretamente um aminoácido
com uma característica química válida?
acerca da questão,
A. Glutamina: Contém um grupo hldroxila
cubra a resposta em sua cadeia lateral.
B. Serina: Pode formar pontes dissulfeto.
com um cartão... C. Cisteína: Contém a menor cadeia lateral.
O. lsoleucina: É treqüentemente enconlrada
mergulhada no centro das proteínas.
E. Glicina: Contém um grupo amida em sua
cadeia lateral.

fd .. .e então remova o
u•
1.1 Qual das seguintes alternativas pareia corretamente um aminoácido
com uma caracterfstica química válida?
cartão e confirme se
aI
Resposta correta • O, Em proteír;as encotltradas
em soiUÇôes aqliOSi\S, os cadelas la_terals de
~~;~~e~:,~;~~f. hidroxila em t:? ~~=r~:·no'tt:~s:~~~a.A
A. Glutamina:
sua resposta e seu
raciocíno estão
corretos.
B. Serina:
C. Cisteína:
Pode formar pontes dissulfeto.
Contém a menor cadeia
lateral.
R\ çlutamJM conlém uma amida em sua cadela
lat61"81. A serina e a trocnna oontõm grupos
hidroxia em suos cadeias laterais. A crsteina
pode txmarligações dissi.Meto.Agicina posstJI a
O. lsoleucina: t freqüentemente encontrada .._-__.,_'""'__ _ _ _ _ _-.J
~ p;""""',..._,=
1

mergulhada no cenlro das proteínas. Q


E. Glicina: Contém um grupo amida em sua ("1(\
cadeia lateral. V "\l

\JfL

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

1.1 Qua l das seg uintes alternativas pareia corretamente um


aminoácido com uma característica química válida? Resposta correta = D. Em proteínas encontradas em soluções
aquosas, as cadeias laterais de aminoácidos apoiares, como
A. Glutamina: Contém um grupo hidroxila a isoleucina, tendem a agrupar-se no interior da proteína. A
em sua cadeia lateral. glutamina contém uma amida em sua cadeia lateral. A serina
B. Serina: Pode formar pontes dissulfeto. e a treonina contêm grupos hidroxila em suas cadelas laterais.
C. Cisterna: Contém a menor cadeia lateral. A cisteína pode formar ligações dissulfeto. A glicina possui a
D. lsoleucina: É freqüentemente encontrada menor cadeia lateral.
mergulhada no centro das
proteínas.
E. Glicina: Contém um grupo amida em
sua cadeia lateral.

1.2. Qual das seg uintes afirmativas a respeito da glutamina Resposta correta = C. A glutamina contém dois grupos titulá-
está correta? veis, a u-carboxila e o u-amino. A glutamina é um aminoácido
A. Contém três grupos tituláveis. polar, neutro, que apresenta pouca mobilidade eletroforética em
B. É classificada como um aminoácido ácido. pH 7,0. O símbolo para a glutamina é 'Q'.
C. Contém um grupo amida.
D. Seu símbolo de uma letra é E.
E. Migra para o cátodo (eletrodo negativo) durante uma
eletroforese em pH 7,0.
Estrutura das
Proteínas
H H H H
I I I I
- N- C-C-N - C-
1 11 I
H O CH3

I. VISÃO GERAL

Os 20 aminoácidos comumente encontrados em proteínas estão unidos entre


si por ligações peptídicas. A seqüência linear dos aminoácidos ligados contém
a informação necessária para formar uma molécula protéica com uma estrutura
tridimensional única. A complexidade da estrutura protéica é melhor analisada
considerando-se a molécula em termos de quatro níveis de organização, deno-
minados primário, secundário, terciário e quaternário (Figura 2.1 ). Um exame
desses níveis de complexidade crescente revelou que, em uma ampla variedade
de proteínas, certos elementos estruturais são repetidos, sugerindo que existem
"regras" gerais relacionadas às maneiras pelas quais as proteínas.se organizam.
Estes elementos estruturais repetidos variam desde combinações simples de
hélices u. e folhas ~ . formando motivos pequenos (pág. 18), até o dobramento
complexo dos domínios polipeptídicos de proteínas multifuncionais (pág. 18).

11. ESTRUTURA PRIMÁRIA DAS PROTEÍNAS

A seqüência de amino ácidos em uma proteína é denominada estrutura pri-


mária da proteína. A compreensão da estrutura primária das proteínas é impor-
tante, pois mu itas doenças genéticas resu ltam em prote ínas com seqüências
anormais de aminoácidos, ocasionando organização irregular, com perda ou
prejuízo da função normal. Se as estruturas primárias das proteínas normais e
mutantes são conhecidas, esta informação pode ser usada para diagnosticar ou
estudar a doença.

A. A ligação peptídi ca
Nas proteínas, os aminoácidos são unidos covalentemente por ligações pep-
tídicas, as quais são ligações amida entre o grupo u.-carboxila de um amino-
ácido e o grupo u.-amino de outro. Por exemplo, a valina e a alanina podem
formar o dipeptídeo valilalanina, por meio da formação de uma ligação pep-
tídica (Figura 2.2.). As ligações peptídicas não são rompidas por condições
desnaturantes, como aquecimento ou altas concentrações de uréia. Deve Figura 2.1
haver uma exposição prolongada a um ácido ou a uma base forte em tem- Os quatro níveis estruturais das
peraturas elevadas para hidrolisar essas ligações de forma não-enzimática. proteínas.
14 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

1. Nomeando o peptídeo. Por convenção, a extremidade amino livre da


Formação da cadeia peptídica (N-terminal) é escrita à esquerda, e a extremidade
ligação peptídica
carboxila livre (C-terminal), à direita. Dessa forma , todas as seqüências
de aminoácidos são lidas da extremidade N para a C-terminal do pep-
tídeo. Por exemplo, na Figura 2.2A, a ordem dos aminoácidos é "valina,
alanina", e não "alanina, valina". A ligação de muitos aminoácidos por
H
I ligações peptídicas resulta em uma cadeia não-ramificada, denominada
•H3 N- cI - coo- polipeptídeo. Cada aminoácido que compõe um peptídeo é denomi-
CH3 nado "resíduo". Quando um polipeptídeo é nomeado, os sufixos -ina,
-ano, -ico ou -ato, dos resíduos de aminoácidos, são alterados para -ii,
Valina Alanina com exceção do aminoácido C-termi nal. Por exemplo, um tripeptídeo
composto por uma valina N-terminal, uma glicina e uma leucina C-ter-
minal é denominado valil-glicil-leucina.

2. Características da ligação peptídica. A ligação peptídica tem um


caráter de dupla ligação parcial, isto é, é mais curta do que uma liga-
ção simples e é rígida e planar (Figura 2.28). Isso impede a rotação
livre da ligação entre o carbono da carbonila e o nitrogênio da ligação
peptídica. Entretanto, as ligações entre os carbonos a e os grupos a-
amino ou a-carboxila podem rotar livremente (embora limitadas pelo
tamanho e caráter dos grupos R). Isso permite que a cadeia polipep-
tídica assuma uma variedade de configurações possíveis. A ligação
peptídica geralmente é uma ligação trans (em vez de eis; veja a Figura
2.28), em grande parte devido à interferência estérica dos grupos R
quando em posição eis.

m Características da
ligação peptídica
3. Polaridade da ligação peptídica. Assim como todas as ligações
amida, os grupos -C=O e -NH da ligação peptídica não possuem
carga e nem aceitam ou fornecem prótons na faixa de pH de 2 a 12.
Assim, os grupos carregados presentes nos polipeptídeos consis-
Ligação Ligação tem unicamente no grupo a-amino N-terminal, no g rupo a -carboxi la
peptídica trans R R peptídica eis R C-terminal e de quaisquer grupos ionizáveis presentes nas cadeias
laterais dos aminoácidos constituintes. (Nota: Os grupos -C=O e
-NH da ligação peptídica são polares e estão envolvidos em pontes
de hidrogênio; por exemplo, nas hélices a e folhas p, descritas nas
págs. 16-17.)

8. Determinação da composição de aminoácidos de um polipeptídeo


Ligações peptídicas
em proteínas O primeiro passo para determinar a estrutura primária de um polipeptídeo
• Caráter de dupla ligação é identificar e quantificar seus aminoácidos constituintes. Uma amostra
parcial · purificada do pol ipeptídeo a ser analisado é p rimeiramente submetida à
• Rígida e planar
hidrólise por um ácido forte, a 11 0°C durante 24 horas. Esse tratamento
cliva as ligações peptídicas e libera os aminoácidos individuais, os quais
• Configuração trans
podem ser separados por cromatografia de troca de cátions. Nessa
• Sem carga, porém polar técnica, uma mistura de aminoácidos é aplicada a uma coluna que contém
uma resina à qual um grupo carregado negativamente está firmemente
aderido. (Nota: Se o grupo aderido for carregado positivamente, a coluna
torna-se trocadora de ânions.) Os aminoácidos ligam-se à coluna com
Figura 2.2 d iferentes afinidades, dependendo das suas cargas, hidrofobicidade e
A. Formação de uma ligação outras caracte rísticas. Cada aminoácido é seqüencialmente liberado da
peptídica, representando
coluna cromatográfica por eluição com soluções de crescente força iônica
a estrutura do dipeptídeo
e pH (Figura 2.3). Os aminoácidos separados, contidos no líquido eluído
valilalanina.
da coluna, são quantificados após o aqu ecimento com ninhidrina , um rea-
8 . Características da ligação
peptídica. gente que forma um composto de cor púrpura com a maioria dos aminoá-
cidos, amônia e aminas. A quantidade de cada aminoácido é determinada
por espectrofotometria, medindo-se a quantidade de luz absorvida pelo
Bioquímica Ilustrada 15

derivado da ninhidrina. A análise descrita anteriormente é efetuada por


Bomba
meio de um analisador de aminoácidos- um aparelho automático, cujos
de tampão
componentes são ilustrados na Figura 2.3. F==::-r===\XF=> lnjeção de
amostra

C. Seq üenciamento do peptídeo a partir de


Coluna de
sua extremidade N-terminal troca iônica
O seqüenciamento é um processo gradual de identificação de aminoácidos
específicos em cada posição da cadeia polipeptídica, iniciando na extre-
midade N-terminal. O fenilisotiocianato, conhecido como reagente de
Edman, é usado para marcar o resíduo aminoterminal, sob condições leve-
mente alcalinas (Figura 2.4). O derivado resu ltante, feniltioidantoína (PTH),
provoca uma instabilidade na ligação peptídica N-terminal, que pode ser
seletivamente hidrolisada sem clivar as outras ligações peptídicas. A iden-
tidade do aminoácido obtido pode então ser determinada. O reagente de
Edman pode ser aplicado repetidamente ao peptídeo mais curto, resultante
de cada ciclo prévio. Esse processo foi automatizado e, atualmente, a repe-
tição do método pode ser efetuada por um aparelho ("seqüenciador") para
determinar a seqüência de mais de 100 resíduos de aminoácidos, iniciando
na extremidade aminoterminal de um polipeptídeo.
Fita de registro
ou computador
D. Clivagem do polipeptídeo em fragmentos menores
Muitos polipeptídeos têm uma estrutura primária composta de mais de 100
aminoácidos. Essas moléculas não podem ser seqüenciadas diretamente de
uma extremidade a outra por um seqüenciador. Entretanto, essas moléculas
maiores podem ser cl ivadas em sítios específicos e os fragmentos resultan-
tes podem ser seqüenciados. Utilizando-se mais de um agente de clivagem
(enzimas e/ou produtos químicos) em amostras separadas do polipeptídeo
purificado, fragmentos justapostos podem ser gerados para permitir o orde- Figura 2.3
namento correto dos fragmentos seqüenciados, fornecendo assim a seqüên- Determinação da composição de
aminoácidos de um polipeptídeo,
cia completa de aminoácidos do polipeptídeo ma ior (Fi gura 2.5).
utilizando um an alisador de
aminoácidos.
E. Determinação da estrutura primária de uma proteína por
seqüenciamento do DNA
A seqüên cia de nucleotíd eos em um a reg1ao de cod ificação do DNA
determina a seqüência de aminoácidos de um polipeptídeo. Assim, se a
se qüência de nucleotídeos pod e ser determinada, é possível, por meio
do código genético (veja a pág. 429), traduzi r a seqüê ncia de nucleotí-
deos na seqüência co rrespondente de aminoácidos daquele polipeptíd eo.
Esse proce sso, embora usado rotin eiramente pa ra obter as se qüências

O Marcação f) Liberação do derivado do aminoácido por


hidrólise ácida

H 2N-c;:H-2~COOH ( ) HN-c;:H-2~COOH H2 N ~COOH


~
CH

Alanina
.
Pepttdeo ~
c
I
soe;:
CH 3
Peptídeo marcado Peptídeo mais curto
+
:rNHJ a ",l-c':H
N·terminal "

6 "
O
Fenilisotiocianato
J\H'CH3
PTH-alanina

Figura 2.4
Determinação do resíduo aminotermina l de um polipeptídeo por degradação de Edman.
16 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Peptideo de seqüência desconhecida


de aminoácidos das proteínas, apresenta as limitações de não ser capaz
de prever as posições das ligações dissulfeto na cadeia dobrada e de não
~ 1. Clivagem com tripsina nos sítios
identificar qualquer aminoácido que seja modificado após sua incorpora-

1
ção ao polipeptídeo (modificação pós-tradução, veja a pág. 440). Assim,
contendo lisina e arginina

O 2. Determinação da seqüência dos


o seqüenciamento direto de proteínas é uma ferramenta extremamente

--------
peptideos, utilizando o método importante para determinar o verdadeiro caráter da seqüência primária de
de Edman
muitos polipeptídeos.
Peptídco A Peptídeo B Peptídeo C

® @©? III. ESTRUTURA SECUNDÁRIA DAS PROTEÍNAS


@©@?
Qual a seqüência ®@©?
correta?
O esqueleto polipeptídico não assume uma estrutura tridimensional aleatória,
@©@? em vez disso, geralmente forma arranjos regulares de aminoácidos que estão
©®@? localizados próximos uns aos outros na seqüência linear. Esses arranjos são
@@@ ?
denominados estrutura secundária do polipeptídeo. A hélice a, a folha ~ e a
Peptídeo de seqüência desconhecida
dobradura ~ são exemplos de estruturas secundárias freqüentemente encon-
~
n 11. Clivagem com brometo de
tradas em proteínas. (Nota: A hélice do colágeno, outro exemplo de estrutura
secundária, é discutida na pág. 43.)
g cianogênio no sítio da metionina
2. Determinação da seqüência dos

...._...........
Peptídeo X
peptídeos, utilizando o método
de Edman

PeptídeoY
A. Hélíce a
Existem várias hélices polipeptídicas diferentes encontradas na natureza,
mas a hélice a é a mais comum. Ela apresenta uma estrutura helicoidal,
que consiste de um esqueleto polipeptídico central em espiral e bem com-
pacto, com as cadeias laterais dos aminoácidos que a compõem esten-
Seqüência original do peptídeo dendo-se para fora do eixo central, de modo a evitar a interferência estérica
entre si (Figura 2.6). Um grupo variado de proteínas contém hélices a. As
queratinas, por exemplo, são uma família de proteínas fibrosas intimamente
relacionadas, cuja estrutura é quase totalmente constituída de hélices a.
Figura 2.5
Peptídeos justapostos produzidos Elas constitu em os principais com ponentes de tecidos como o cabelo e a
pela ação da tripsina e de brometo pele, e sua rigidez é determinada pelo número de ligações dissulfeto entre
de cianogênio. as cadeias polipeptídicas constituintes. Em contraste à queratina, a mioglo-
bina, cuja estrutura é formada por aproximadamente 80% de hélices a, é
uma molécula globular flexível (veja a pág. 26).
As cadeia laterais
dos aminoácidos 1. Pontes de hidrogênio. Uma hélice a é estabilizada por uma ampla
se estendem para
fora da hélice. formação de pontes de hidrogênio entre os átomos de oxigênio das
carbonilas e os hidrogênios das amidas das ligações peptídicas que
compõem o esqueleto polipeptídico (veja a Figura 2.6). As pontes de
hidrogênio estendem-se na espiral, do oxigên io da carbonila ao grupo
- NH- de uma ligação peptídica quatro res íduos à frente no polipep-
tídeo. Isso assegura que todas, exceto a primeira e a última ligações
peptídicas componentes, estejam ligadas entre si por pontes de hidra-
gênio. Essas ligações são individualmente fracas, mas coletivamente
servem para estabilizar a hélice.

2. Aminoácidos por passo. Cada passo (ou volta completa) de uma


hélice a contém 3 ,6 aminoácidos. Assim, os resíduos de aminoácidos
separados por três ou quatro resíduos na seqüência primária estão
espacialmente próximos, quando dobrados em hélice a .

3. Aminoácidos que quebram uma hélice a . A prolina quebra uma


hélice a, porque o seu grupo imino não é compatível geometricamente
com a espiral voltada para a direita da hélice a. Assim, ela insere uma
dobra na cadeia, que interrompe a suave estrutura helicoidal. Um
grande número de aminoácidos carregados (por exemplo, glutamato,
aspartato, histidina, lisina ou arginina) também quebra a hélice a, pela
Figura 2.6
Hélice a mostrando o esqueleto do formação de ligações iônicas ou por se repelir eletrostaticamente um
peptídeo.
Bioquímica Ilustrada 17

aminoácido ao outro. Finalmente, os aminoácidos com cadeias laterais


volumosas, como o triptofano, ou aminoácidos como a valina ou a iso-
leucina, que se ramificam no carbono 13 (o primeiro carbono no grupo
m
R, logo após o carbono a), podem interferir com a formação de uma
hélice a se estive rem em grande número.

8 . Folha 13
A folha 13 é outra forma de estrutura secundária , na q ual todos os compo-
nentes da ligação peptídica estão envolvidos com po ntes de hidrogênio
(Figura 2.7 A). As sup erfícies das folhas 13 apresenta m uma aparência
"pregueada" e essas estrutu ras são, portanto, freqü entemente denomina-
das "folhas 13 p regueadas". Quando são feitas ilustrações da estrutura
protéica , as fitas 13 são muitas vezes visualizadas como setas largas
(Figura 2.78 ).

1. Co mparação ent re a fol ha 13 e a hélice a. Ao contrá rio da hélice a,


as folhas 13 são compostas de duas ou mais cadeias peptídicas (fitas
13) ou segmentos de cadeias polipeptídicas, as quais apresentam-se
quase totalmente estendidas. Note também que, nas folhas 13. as pon-
tes de hidrogênio são perpendiculares ao esqueleto polipeptídico (veja
a Figura 2.7A).

2. Folhas paralelas e antiparalelas. Uma folha 13 pode ser formada por


duas ou mais cadeias polipeptídicas ou segmentos de cadeias polipep-
tídicas separados, dispostos de forma antiparalela um ao outro (com
as extremidades N-terminal e C-terminal das folhas 13 alternando-se,
conforme ilustrado na Figura 2.78) ou de forma paralela (com todos
os N-terminais das folhas 13 juntos, conforme ilustrado na Figura 2.7C).
Quando as pontes de hid rogênio são formadas entre os esqueletos
polipeptíd icos de cadeias polipeptídicas separadas, elas são denomi-
nadas ligações intercadeias. Uma folha 13 também pode ser formada
por uma única cade ia polipeptídica, dobrando-se sobre si mesma (veja
a Figura 2.7C). Nesse caso, as pontes de hidrogênio s!3.o ligações
intracadeia. Em proteínas globulares, as folhas 13 sempre apresentam
uma curvatura para a direita, quando observadas ao longo do esque-
leto polipeptídico. (Nota: Folhas 13 dobradas freqüentemente formam a
parte central de proteínas globulares.)
Folha 13 pregueada ant iparalela

C. Curvaturas 13 {voltas rev ersas ) N-terminal


As curvaturas 13 reve rtem a direção de uma cadeia polipeptíd ica, auxi-
liando a formação de uma estrut ura com pacta e glo bular. Elas nor-
malmente são e ncon tra das na supe rfície d as moléculas p rot éicas e
f reqü e ntem e nte co ntêm resíduo s ca rre gados . (Nota: As curvaturas
13 receberam esse nome porque e las muitas vezes conectam faixas
sucessivas de folhas 13 antiparalelas.) As curvaturas 13 geralmente são
compostas por quatro aminoácidos, um dos qua is pode ser a prolina - o
Folha 13 pregueada paralela
iminoácido que causa uma "dobra" na cadeia polipeptídica. A glicina, o
aminoácido com menor grupo R, também é enco ntrada com freqüência
nas curvaturas 13. As cu rvatu ras 13 são estabilizadas pela formação de
Figura 2.7
pontes de hidrogênio e ligações iônicas.
A. A estrutura de uma folha 13. B.
Uma folha 13 antiparalela, com fitas
D. Estrutura s ecund ária não-repetitiva 13 representadas por setas largas.
C. Uma folha 13 paralela , formada
Aproximadamente a metade de uma prote ína globular média está organi-
por uma única cadeia polipeptídica,
zada em estrutu ras repetitivas como a hélice a e/ou as folhas 13. O restante
dobrando-se sobre si mesma.
da cadeia polipeptídica é descrito como tendo uma conformação em alça ou
18 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

I
l
I

I
Unidade ~-a-~ Chave grega Meandro ~ Barril ~

Figura 2.8
Motivos estruturais comuns, combinando hélices a e folhas ~· Seus nomes descrevem seus aspectos esquemáticos. (Nota:
A chave grega leva o nome de um desenho freqüentemente encontrado na cerâmica grega clássica.)

em espiral. Essas estruturas secundárias não-repetitivas não são "aleatórias",


mas simplesmente possuem uma estrutura menos regular do que aquelas
descritas anteriormente. (Nota: O termo "espiral randômica" refere-se à estru-
tura distorcida, obtida quando as proteínas são desnaturadas [veja a pág. 21].)

E. Estruturas supersecundárias (motivos)


As pràteínas globulares são construídas pela combinação de elementos
H O estruturais secundários (hélices a, folhas ~ e seqüências não-repetitivas).
I 11
~ N- C - C-.NYVVV" Esses formam principalmente a região central - isto é, o interior da molé-
I I

H ÇH2 \ cula. Eles são conectados por regiões em alça (por exemplo, curvaturas p)
Dois resíduos SH Esqueleto na superfície da proteína. As estruturas supersecundárias são normalmente
de cisteína SH polipeptídico produzidas pelo agrupamento das cadeias laterais de elementos estruturais
secundários adjacentes, próximos um do outro. Assim, por exemplo, as
~ ~H2 I hélices a e as folhas ~. que são adjacentes na seqüência de aminoácidos,
~ N -c - c -.NYVVV" também são normalmente (mas não sempre) adjacentes na proteína final,
I 11
H O dobrada. Alguns dos motivos mais comuns estão ilustrados na Figura 2.8.

I Oxidante
{-(por exemplo, 0 2)
IV. ESTRUTURA TERCIÁRIA DAS PROTEÍNAS
GLOBULARES
H O
I 11
~ N-C - C -.NYVVV" A estrutura primária de uma cadeia polipeptídica determina sua estrutura terci-
I I

H ÇH2 ária. (Nota: ''Terciária" refere-se tanto ao dobramento dos domínios [as unidades
s
I
básicas de estrutura e função, veja a discussão a seguir) quanto ao arranjo final
s
I
dos domínios no polipeptídeo.) A estrutura das proteínas globulares em solu-
I ÇH2 ção aquosa é compacta, com uma alta densidade (estrutura muito dobrada)
N -c- c -.NYVVV" de átomos no centro da molécula. As cadeias laterais hidrofóbicas são posi-
I 11
H O cionadas no interior, enquanto os grupos hidrofílicos geralmente são encon-
trados na superfície da molécula. Todos os grupos hidrofíl icos (incluindo os
componentes da ligação peptídica) localizados no interior do polipeptídeo estão
envolvidos na formação de pontes de hidrogênio ou de interações eletrostáticas.
(Nota: As estruturas em hélice a e em folha ~ proporcionam o máximo de pon-
tes de hidrogênio aos componentes da ligação peptídica no interior dos polipep-
tídeos, eliminando assim a possibilidade de que as moléculas de água possam
ligar-se a esses grupos muito hidrofílicos e romper a integridade da proteína.)
Figura 2.9
Formação de uma ponte dissulfeto A. Domínios
pela oxidação de dois resíduos de
Domínios são as unidades funcionais fundamentais com estrutura tridi-
cisteína, produzindo um resíduo de
cistina. mensional em um polipeptídeo. As cadeias polipeptídicas maiores do que
Bioquímica Ilustrada 19

200 aminoácidos de comp rimento geralmente apresentam dois ou mais


domínios. O centro de um domínio é formado a partir de comb inações H H O
I I 11
de elementos estruturais supersecundários (motivos). O dobramento ~ N -C -C-vVVYVV'-
da cadeia peptídica dentro de um domínio normalmente ocorre indepen- HC- CH3
dentemente do dobramento em outros domínios. Assim, cada domínio
apresenta as características de uma proteína globular pequena e com- 1
Esqueleto
?H2 lsoleucina
CHs
pacta, que é estruturalmente independente de outros domínios na cadeia
polipeptídico
polipeptídica.

B. lnterações que estabilizam a estrutura terciária j ; H3C


~
'" '
~H2
CH3
' eH ...
Leucina
A estrutura tridimensional única de cada polipeptídeo é determinada por
N-C - C~
sua seqüência de aminoácidos. As interações entre as cadeias laterais dos I l 11
H H O
aminoácidos direcionam o dobramento do polipeptídeo para formar uma
estrutura compacta. Quatro tipos de interações cooperam para estabilizar
as estruturas terciárias das proteínas globulares.

1. Pontes dissulfeto. Uma ponte dissulfeto é uma ligação covalente for-


mada pelos grupos sulfidrila (-SH) de dois resíduos de cisteína para
produzir um resíduo de cistina (Figura 2.9). As duas cisteínas podem Figura 2.10
estar separadas uma da outra por muitos aminoácidos na seqüência lnterações hidrofóbicas entre
aminoácidos com cadeias laterais
primária de um polipeptídeo, ou podem mesmo estar localizadas em
apoiares.
duas cadeias polipeptídicas diferentes; o dobramento da(s) cadeia(s)
polipeptídica(s) aproxima os resíduos de cisteína e permite a ligação
covalente de suas cadeias laterais. Uma ponte dissulfeto contribui para
a estabilidade da conformação tridimensional da molécula protéica.
Po r exemplo, muitas ligações dissulfeto são encontradas em proteínas
como as imunoglobulinas, que são secretadas pelas células. (Nota:
Essas fortes ligações covalentes contribuem para estabilizar a estrutura
das proteínas e evitar que elas se tornem desnaturadas no meio extra-
celular. )

2. lnterações hidrofóbicas . Os aminoácidos com cadeias late rais Glutamato Aspartato


hidrofóbicas tendem a ficar localizados no interior da molécula poli- H H O H H O
I I 11 1 I 11
peptídica, onde eles se associam com outros aminoácidos hidrofó- VV"<-N - C-C~N-C-C~
I

bicos (Figura 2.1 0). Em contraste, aminoácidos com cadeias laterais ÇH2
polares ou com carga tendem a ficar na superfície da molécula , ÇH2
em contato com o solvente polar. (Nota: Proteínas localizadas em c
ambientes apoiares [lipídicos]. como as membranas celulares, exi- o"_ 'o·
bem um arranjo inverso - isto é, as cadeias laterais de aminoácidos +NH
I 3
hidrofílicos estão localizadas no interior do polipeptídeo, enquanto os ÇH2
aminoácidos hidrofóbicos estão local izados na superfície da molé-
ÇH2
cula, em contato com o ambiente apoiar [veja a Figu ra 1.4, pág. 4).) ÇH2
Em qualquer dos casos, ocorre a segregação energeticamente mais H CH2
I I
favorável dos grupos R. N-C-C
I 11

3. Pontes de hidrogênio. Cadeias laterais de aminoácidos contendo H O


hidrogênio ligado a oxigênio ou nitrogênio, como os grupos alcoólicos Li sina
da serina e da treonina, podem formar pontes de hidrogênio com áto-
mos ricos em elétrons, como o oxigênio dos grupos carboxila ou grupos Ligação i ónica
carbonila das ligações peptídicas (Figura 2. 11 ; veja também a Figura
1.6, pág. 4). A formação de pontes de hidrogênio entre grupos polares
na superfície de uma proteína e o solvente aquoso aumentam a solubi-
lidade da proteína.
Figura 2.11
4. lnterações iônicas. Grupos carregados negativamente, como o grupo lnterações de cadeias laterais de
carboxila (- COO-) na cadeia lateral do aspartato ou do glutamato, aminoácidos por meio de pontes de
podem interagir com grupos carregados positivamente, como o grupo hidrogênio e ligações iônicas.
amino (-NH 3• ) , na cadeia lateral da lisina (veja a Figura 2.11 ).
20 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

C. Dobramento protéico
As interações entre as cadeias laterais dos aminoácidos determinam como
uma cadeia polipeptídica longa se dobra para formar a intricada confor-
mação tridimensional de proteínas funcionais. O dobramento protéico, que
ocorre dentro da célula de segundos a minutos, emprega um atalho pelo
labirinto de possibilidades de dobramento. Com um dobramento peptídico,
as cadeias laterais dos aminoácidos são atraídas ou repelidas de acordo
com suas propriedades químicas. Por exemplo, cadeias laterais carrega-
das positiva e negativamente atraem umas às outras. Por sua vez , cadeias
laterais com cargas semelhantes repelem-se umas às outras. Além disso,
as interações envolvendo pontes de hidrogênio, interações hidrofóbicas e
pontes dissulfeto podem influenciar o processo de dobramento. Esse pro-
cesso de ensaio e erro testa muitas, mas não todas as possibilidades de
configuração, em busca de um estado no qual as atrações sobrepujem as
repulsões. Isso resulta em uma proteína dobrada corretamente, com um
baixo estado energético (Figura 2.12).

O. Papel das chaperonas no dobramento protéico


Geralmente se aceita que a informação necessária para corrigir o dobra-
mento da proteína está contida na estrutura primária do polipeptídeo.
Considerando essa premissa , é difícil explicar por que as proteínas, em
sua maioria, quando desnaturadas (veja a seguir), não retomam sua con-
formação nativa sob condições ambientais favoráveis. Uma resposta para

fJ Formação de domínios
esse problema é que a proteína começa a se dobrar durante os estágios de
síntese, em vez de esperar que a síntese de toda a cadeia esteja completa.
Isso limita a competição entre configurações de dobramento, possíveis em
bandas maiores do peptídeo nascente. Além disso, um grupo especializado
de proteínas, denominadas "chaperonas", é req uerido para o dobramento
adequado de muitas espécies de proteínas. As chape ronas - também
denominadas proteínas de "choque térmico" - interagem com o poli-
peptídeo em vários estágios durante o processo de dobramento. Algumas
chaperonas são importantes para manter a proteína desdobrada até que
sua síntese esteja terminada, ou agem como catal isadores, au mentando
a velocidade dos estágios finais no processo de dobramento. Outras pro-
tegem as proteínas durante o dobramento, para que as regiões expostas,
n
U
Formação de um
monômero protéico final tI mais vulneráveis, não formem dobramentos improdutivos.

V. ESTRUTURA QUATERNÁRIA DAS PROTEÍNAS

Muitas proteínas consistem em uma única cadeia polipeptídica, sendo defini-


das como proteínas monoméricas. Outras, entretanto, consistem em duas
ou mais cadeias polipeptídicas, que podem ser estruturalmente idênticas ou
totalmente diferentes. O arranjo dessas subunidades polipeptídicas é denomi-
nado estrutura quaternária da proteína. (Nota: Se existem duas subunidades,
a proteína é denominada "dimérica", se são três subunidades, "trimérica", e
se existem várias subunidades, "multimérica".) As subunidades são mantidas
Figura 2.12 unidas por interações não-covalentes (por exemplo, pontes de hidrogênio,
Etapas no dobramento protéico. ligações iônicas e interações hidrofóbicas). As subunidades podem funcionar
independentemente umas das outras ou podem trabalha r cooperativamente,
como no caso da hemoglobina, onde a ligação do oxigênio a uma subunidade
do tetrâmero aumenta a afinidade das outras subunidades ao oxigênio (veja
a pág. 29).
Bioquímica Ilustrada 21

VI. DESNATURAÇÃO DE PROTEÍNAS

A desnaturação protéica resulta no desdobramento e na desorganização das precursora


estruturas secundária e terciária, sem que ocorra hidrólise das ligações peptí- amilóide
dicas. Os agentes desnaturantes incluem calor, solventes orgânicos, agitação
mecânica, ácidos ou bases fortes, detergentes e íons ou metais pesados, como
chumbo e mercúrio. A desnaturação pode, sob condições ideais, ser reversível; ~ Clivagem enzimática
nesse caso, a proteína dobra-se novamente em sua estrutura original quando ~)l(rff
o agente desnaturante for removido. Entretanto, as proteínas, em sua maioria, I ~ Clivagem enzimática

uma vez desnaturadas, ficam permanentemente alteradas. As proteínas desna- · ·~


turadas são freqüentemente insolúveis, e, portanto, precipitam em solução.

VIl. DOBRAMENTO INADEQUADO DE PROTEÍNAS

O dobramento protéico é um processo complexo de ensaio e erro, que algu-


mas vezes pode resultar em moléculas dobradas de forma imprópria. Essas
proteínas dobradas de forma incorreta são normalmente marcadas e degra-
dadas dentro da célula (veja a pág. 441 ). Entretanto, esse sistema de controle
de qualidade não é perfeito, e agregados intra ou extracelulares de proteínas
inadequadamente dobradas podem se acumular, particularmente durante o Aj3
envelhecimento. Depósitos dessas proteínas impróprias estão associados com
algumas doenças, incluindo amiloidoses. Me;n'b~1~~~ õÚH,~

A. Amiloidoses
rç;~liJW.&r
r. .r ~,.--------
Agregação
O dobramento impróprio de proteínas pode ocorrer espontaneamente ou
espontãnea para
ser causado por uma mutação em um determinado gene, o que produz uma fo rmar f ibrilas
proteína alterada. Além disso, algumas proteínas, aparentemente normais, insolúveis de
folha ~ pregueada.
após uma clivagem proteolítica anormal assumem uma conformação única,
que leva à formação de longos feixes de proteínas fibrilares, constituídos de
folhas ~ pregueadas. O acúmulo desses agregados protéicos espontâneos,
denominados amilóides, tem sido implicado em muitas doenças degenerati-
vas - particularmente na desordem neurodegenerativa denominada doença
de Alzheimer. O componente predominante da placa amilóide que se acu-
mula na doença de Alzheimer é um peptídeo formado por 40 a 43 res íduos
de aminoácidos, denominado Ap. Os métodos de cristalografia de raios X e
espectroscopia de infravermelho demonstram uma conformação caracterís- Modelo de
fibrilas amilóides
tica de folha ~ pregueada na forma de fibrilas não-ramificadas. Esse peptí-
deo, quando agregado na configuração de folha ~ pregueada, é neurotóxico
e é o evento patogênico central, que leva a um prejuízo cognitivo, caracterís-
tico da doença. O peptídeo amilóide A~ , depositado no cérebro em decor-
rência da doença de Alzheimer, é derivado por clivagem proteolítica de uma
proteína muito maior, a proteína precursora amilóide - uma proteína com
um único domínio transmembrana, expressa na superfície de células neurais ..
e em outros tecidos (Figura 2.1 3). Os agregados contendo o peptídeo A~ ~ Fotomicrografia de
placas amilóides
formam a placa amilóide, localizada no parênquima cerebral e ao redor dos em uma secção de
vasos sangüíneos. A maioria dos casos de doença de Alzheimer não é de córtex temporal
origem genética, embora pelo menos cinco a dez por cento dos casos tenha proveniente de um
paciente com
origem familiar. Um segundo fator biológico envolvido no desenvolvimento
doença de Alzheimer
da doença de Alzheimer é o acúmulo cerebral de emaranhados neurofibrila-
res. Um componente-chave desse emaranhado de fibras é a forma anormal
da proteína tau, que na forma saudável auxilia na organização da estrutura Figura 2.13
microtubular. A proteína tau defeituosa, entretanto, parece bloquear as ações Formação das placas amilóides
da sua forma equivalente normal. encontradas na doença de Alzheimer.
22 Pamela C. Champe, Richa rd A. Harvey, Denise R. Fe rrie r

8. Doença do prío n
O A interação da molécula PrP
infecciosa com uma PrP normal
f az com que a forma normal
A proteína do príon (PrP) tem sido fortemente implicada como o agente
causador das encefalopatias espongiformes transmissíveis (EETs},
adquira a forma infecciosa.
incluindo a doença humana de Creutzfeldt-Jakob, o scrapie* em ovelhas
e a encefalopatia espongiforme bovina no gado (popularmente con hecida
1
como "doença da vaca louca"}. Após uma ampla série de procedimentos
de purificação, os cientistas ficaram perplexos ao descobrir que a infeccio-
sidade do agente causador do scrapíe em ovelhas estava associada a uma
única espécie de proteínas, que não era associada a ácidos nucleicos detec·
táveis. Essa proteína infecciosa é designada proteína do príon. Ela é alta-
PrP não-infecciosa
mente resistente à degradação proteolítica e, na forma infecciosa, tende a
(oontém héUoe o) ~
formar agregados fibrilares insolúveis, similares à placa amilóide encontrada

~,p
em outras doenças encefálicas. Uma forma não-infecciosa da PrP, contendo
as mesmas seqüências de aminoácidos e de genes do agente infeccioso,
está presente em encéfalo normal de mamíferos, na superfície de neurônios

~ infeocio"'
(:Cntém folhas jl)
e de células gliais. Dessa forma, a PrP é uma proteína capaz de cooptar
outras. Não se tem encontrado diferenças estruturais primárias ou modifica-
ções pós-tradução entre as fo rmas normal e infecciosa da proteína. A chave

,,
para se tornar uma proteína infecciosa aparentemente reside em alterações
na conformação tridimensional da PrP. Tem sido observado que diversas
hélices a presentes na forma não-infecciosa da PrP são substituídas por
folhas p na forma infecciosa (Figura 2. 14). Provavelmente é essa diferença
de conformação que confere uma relativa resistência à degradação prole·
PrP infecciosa olítica de príons infecciosos e que lhes permite serem distinguidos da PrP
(contém folhas 13) normal em tecidos infectados. O agente infeccioso é, então, uma versão
alterada da proteína normal, agindo como uma "matriz" ao fazer a proteína
Essas duas moléculas se
fJ dissociam e convertem duas
moléculas adicionais de PrP não·
normal assumir uma conformação patogênica. As EETs são invariavelmente
fatais e atualmente nenhum tratamento é capaz de alterar esse resultado.
infecciosa na forma infecciosa.

VIII. RESUMO DO CAPÍTULO

Para entender a estrutura protéica é central o entendimento do conceito de confor-


mação nativa (Figura 2.15), que é a estrutura protéica inteiramente organizada e
funcional (por exemplo, uma enzima ativa ou uma proteína estrutural). A estrutura
tridimensional única da conformação nativa é determinada pela estrutura primária,
isto é, a seqüência de aminoácidos. As interações entre as cadeias laterais dos
PrP não-infecciosa PrP não-infecciosa aminoácidos direcionam a organização de uma cadeia polipeptídica para formar
(contém hélice a ) (contém hélice a ) estruturas secundárias, terciárias e (algumas vezes) quaternárias, as quais
f
' cooperam para a estabilização da conformação nativa da proteína. Além disso, as
"chaperonas", um grupo especializado de proteínas, são necessárias para a correta
organização de muitas espécies de proteínas. A desnaturação protéica resulta no
desdobramento e na desorganização da estrutura protéica, sem que haja hidrólise
das ligações peptídicas. A desnaturação pode ser reversível ou, mais freqüente·
mente, irreversível. Doenças podem ocorrer quando uma proteína aparentemente
normal adquire uma conformação que é citotóxica, como no caso da doença de
Alzheimer e das encefalopatias espongiformes transmissíveis (EETs}, incluindo
Isso resulta em um aumento a doença de Creutzfeldt-Jakob. Na doença de Alzheimer, proteínas normais, após
exponencial da forma infecciosa. um processo químico anormal , adquirem um estado de conformação único, que leva
à formação de agregados neurotóxicos de proteínas amilóides, em forma de folha
p pregueada. Nas EETs, o agente infeccioso é uma versão alterada da proteína do
príon normal, agindo como uma "matriz" por fazer a proteína normal assumir uma
conformação patogênica.
Figura 2.14
Um mecanismo proposto para a
multiplicação de agentes príon
infecciosos. N. de T. Scrapie- do inglês scrape (roçar, raspar); doença fatal em ovelhas e cabras, marcada por
coceira intensa, perda da coordenação motora e degeneração progressiva do sistema nervoso
central.
1
Veja a pág. 397 em Microbiologia Ilustrada para uma discussão mais detalhada sobre prions.
Bioquímica Ilustrada 23

Hierarquia da estrutura protéica

Primária
contribui para
é
a seqüência de
aminoácidos

pode ser

[Hélice a ,----------.-•1 Chaperonas

[ Folha p

[ Curvatura P (voltas reversas) l -+---0>-


consiste em
-----1

( Estr uturas não-repetitivas

[ Estruturas supersecundárias

Função
Biológica
Por exem plo:
[ I nterações hidrofóbicas • Catálise
estabilizada e Proteção
[ Pontes de hidrogénio por é • Regulação
a organização e Transdução de sinal
[ lnterações eletrostáticas tridimensional da e Armazenamento
cadeia dobrada e Estrutura l
[ Pontes dissulfeto
e Transporte

desorga-
nQação >-,---0-e_s_n_a_t_u_ra_n_t_e_s____
ocasionada por r ::-- ------c-----c----j
Por exemplo:

algumas
e Uréia
[ lnterações hidrofóbicas e Temperatura e pH
estabilizada é podem
extremos
por o arranjo recuperar
[ Pontes de hidrogênio pode contribuir para e Solventes orgânicos
de múltiplas subuni-
[ lnterações eletrostáticas dades polipeptídicas
na proteína pode
formar

veja a pág. 397


j
Ds
L Doençade
Creutzfeldt-Jakob
conduz à r:;::::l
conduz a
- + - - - - - ~--------1
Organização
A maioria
das proteínas
não pode se
reorganizar após
a remoção do
alterada
conduza agente desnaturante
Doença de
Alzheimer
conduz à [ Proteínas amilóides J~-----{_ _______j t
Desnaturação
ir reversível

Figura 2.15
Mapa de conceitos-chave referentes à estrutura protéica.
24 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Fe rrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

2.1 Uma ligação peptídica:


=
Resposta correta A. A ligação peptidica tem um caráter de
A. apresenta um caráter de d upla ligação parcia l; dupla ligação parcial. Ao contrário de seus componentes - os
B. está ionizada em pH fisiológico; grupos a -amino e o;-carboxila - os componentes da ligação
C. é clivada po r agentes que desnaturam proteínas, como peptidica não aceitam ou fornecem prótons. A ligação peptídica
solventes orgânicos e altas concentrações de uréia; não é clivada por solventes orgânicos ou uréia, mas é lábil em
meio ácido forte. Geralmente está em configuração trans.
D. é estável ao aquecimento em ácidos fortes;
E. ocorre com mais freqüência na configuração eis.

2.2 Qual das segui ntes afirmações está correta? Resposta correta = C. As curvaturas ~ treqüentemente contêm
A. A hélice a pode ser composta por mais de uma cadeia prolina, a qual proporciona uma dobra. A hélice o; difere da tolha
polipeptídica. ~ por ela sempre fazer parte da espiral de uma simples cadeia

B. As folhas 13 existem somente na forma antipa ralela. polipeptídica. A estrutura em tolha ~ pregueada ocorre tanto
C. As curvaturas 13 freqüentemente contêm prolina. na forma paralela quanto na forma antiparalela. Os motivos
são elementos da estrutura terciária. A hélice a. é estabilizada
D. Os motivos são um tipo de estrutura secundária.
principalmente por pontes de hidrogénio entre os grupos -C=O
E. A hélice a é estabilizada principalmente por interações
e -NH- das ligações peptfdicas.
iônicas entre as cadeias laterais dos aminoácidos.

2.3 Qual das seguintes afirmativas sobre a estrutura protéica =


Resposta correta E. A organização correta de uma proteína
está correta? é direcionada por interações específicas entre as cadeias late-
A. As proteínas constituídas por um polipeptídeo podem rais dos resíduos de aminoácidos que compõem uma cadeia
ter e strutu ra quaternária. polipeptidica. Os dois resíduos de cisteína que reagem para
B. A formação de uma ponte dissulfeto em uma proteína formar uma ponte dissulfeto podem estar distantes um do outro
na estrutura primária (ou mesmo em polipeptídeos separados),
requer que os dois resíduos de cisteína participantes
mas são aproximados pela organização t ridimensional da
estejam adjacentes entre si, na seqüência primária da
cadeia polipeptídica. A desnaturação pode ser reversível ou
proteína. irreversível. A estrutura quaternária requer mais de uma cadeia
C. A estabilidade da estrutura quaternária das proteínas polipeptidica. Essas cadeias encontram-se associadas por meio
,. se dá principalmente como resultado das ligações de interações não-covalentes.
covalentes entre as subunidades.
D. A desnaturação protéica sempre resulta em perda irre-
versível das estruturas secundária e terciária.
E. A informação necessária para o dobramento correto
de uma proteína está contida na seqüência específica
dos aminoácidos ao longo da cadeia polipeptídica.

2.4 Um homem de 80 anos de idade apresentava preju ízo das Resposta correta = O. A doença de Alzheimer está associada
funções intelectuais e alte rações de humor e de compor- com longos agregados tibrilares protéicos, constituídos de
tamento. Sua família relatou desorientação progressiva tolhas p pregueadas, encontrados no encéfalo e em outros
locais. A doença está relacionada com o processamento anor-
e perda de memória durante os últimos seis meses. Não
mal de uma proteína. O acúmulo da proteína alterada ocorre
há história familiar de de mência. O paciente foi provi-
em uma con figuração de folhas p pregueadas, que é neuro-
soriamente diagnosticado como portador d e doença de tóxica. A proteína amilóide Ap, depositada no encéfalo em
Alzheimer. Qual das seguintes hipóteses melhor descreve decorrência da doença de Alzheimer, é derivada por clivagem
a doença? proteolítica de uma proteína muito maior, a proteína precursora
A. Está associada com a proteína 13-amilóide - uma p ro- amilóide- uma proteína transmembrana expressa na superfície
teína anormal, co m seqüência alterada de aminoáci- de células neurais e em outros tecidos. Muitos casos de doença
de Alzheimer são esporádicos, embora pelo menos 5 a 10%
dos.
por cento dos casos tenham origem familiar.
B. Resulta do acúmulo de proteínas desnaturadas que
apresentam conformações aleatórias.
C. Está associada com o acúmulo da proteína precursora
amilóide.
D. Está associada com o depósito d e agregados de peptí-
deos amilóides neurotóxicos.
E. É uma doença produzida por ação do ambiente, não
influenciada pela genética do indivíduo.
Proteínas
Globulares

I. VISÃO GERAL

O capítulo anterior descreveu os tipos de estruturas secundária e terciária que


-
__.
<t:
são os tijolos e a argamassa da arquitetura protéica. Com o arranjo desses 0:::
elementos estruturais fundamentais em diferentes combinações, é possível
t-
:z:
const rui r uma grande diversidade de proteínas, as quais serão capazes de UJ
desempenhar uma variedade de funções especializadas. Este capítulo examina (_)
a relação entre a estrutura e a função de algumas proteínas globulares clini- <t:
camente importantes, as hemeproteínas. As proteínas estruturais fibrosas são
(_)
discutidas no Capítulo 4.
w
l-
o
::;
11. HEMEPROTEÍNAS GLOBULARES CC
ãi
Hemeproteínas são um grupo especializado de proteínas, as quais contêm
heme como grupo prostético firmemente ligado (veja a pág. 54 para uma dis-
cussão sobre grupos prostéticos). O papel do grupo heme é determinado pelo
ambiente criado pela estrutura tridimensional da proteína. Por exemplo, o grupo
heme de um citocromo funciona como um carreador de elétrons, sendo alter-
nadamente oxidado e reduzido (veja a pág. 75). Em contraste, o grupo heme da
enzima catalase é parte do sítio ativo da enzima, a qual catalisa a quebra do
peróxido de hid rogênio (veja a pág. 146). Na hemoglobina e na mioglobina, as
duas hemeproteínas mais abundantes em humanos, o grupo heme serve para
ligar, de forma reversível, o oxigênio.

A. A estrutura do heme
O heme é um complexo entre a protoporfirina IX e o íon ferroso (Fe 2+)
(Figura 3. 1). O fe rro está preso no centro da molécula do heme por meio
2
de ligações aos quatro nitrogên ios do anel porfirín ico. O Fe + do heme pode
fo rmar duas interações adicionais, uma de cada lado do plano do anel porfi- '
I
rínico. Por exemplo, na mioglobina e na hemoglobina, uma dessas posições I
___}

estabelece uma interação coordenada com a cadeia lateral de um resíduo


de histidina da molécula da globina, enquanto a outra posição fica disponí- Figura 3.1
vel para ligar o oxigênio (Figura 3.2). (Veja a pág. 276 para uma discussão A. Hemeproteína (citocromo c).
sobre a síntese e a degradação do heme.) B. Estrutura do heme.
26 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Figura 3.2
A. Modelo da mioglobina, mostrando as hélices de A a H. B. Diagrama esquemático do sítio de ligação do oxigênio na
mioglobina.

8 . Estrutura e função da mioglobina


A mioglobina, uma hemeproteína presente no coração e no músculo
esquelético, funciona tanto como um reservatório de oxigênio quanto
como um carreador de oxigênio, que aumenta a velocidade de tra ns-
porte d e oxigênio dentro da célu la muscular. A mioglobina consiste em
uma única cadeia polipeptídica, a qual é estruturalmente similar a uma
das cadeias polipeptídicas individuais que constituem as subunidades
da molécula da hemoglobina. Essa homologia torna a mioglobi na um
modelo útil para int erpretar algumas das comp lexas prop riedades da
hemoglobina.

1. Conteúdo de hélice ex. A mioglobina é uma molécula compacta, com


aproximadamente 80% de sua cadeia polipeptídica dobrada em oito
segmentos de hélice a. Essas regiões a-helico idais, marcadas de A a
H na Figura 3.2A, são delimitadas pela presença de prolina, cujo anel
de cinco membros não pode ser acomodado na hélice a (veja a pág.
16), ou por curvas ~ e alças estabilizadas por pontes de hidrogênio e
ligações iônicas (veja a pág . 17).

2. Localização dos resíduos de aminoácidos polares e apoiares. O


interior da molécula de mioglobina é constituído quase que completa-
mente por aminoácidos apoiares. Eles estão compactados, formando
uma estrutura estabilizada por interações hidrofóbicas entre esses resí-
duos (veja a pág. 19). Em contraste, os aminoácidos carregados estão
localizados quase exclusiva mente na superfície da molécula, onde
podem formar pontes de hidrogênio entre si e com a água.

3. Ligação do grupo heme. O grupo heme da mioglobina se situa em


uma fenda na molécula, a qual é revestida por aminoácidos não-
polares . Exceções notáveis são dois resíd uos de histidina (Figura
3.28). Um, a histidina proxim al, liga diretamente o ferro do grupo
heme. O segundo, ou histidina distal, não interage diretamente com
o grupo heme, mas ajuda a estabiliza r a ligação do oxigênio ao íon
fe rroso. A po rção protéica da mioglobina, ou globina, cria assim um
microambiente especial para o grupo heme , pe rmi tindo a ligação
reversível de uma molécula de oxigênio (oxigenação). A perda simultâ-
nea de elétrons pelo íon ferroso (oxidação) ocorre apenas raramente.
Bioquímica Ilustrada 27

Figura 3.3
A. Estrutura da hemoglobina, mostrando a cadeia polipeptídica. B. Desenho simplificado, mostrando as hélices.

C. Estrutura e função da hemoglobina


A hemoglobina é encontrada exclusivamente nos eritrócitos, onde sua
principal função é transportar oxigênio dos pulmões até os capilares dos
tecidos. A hemoglobina A, a principal hemoglobina em adul.tos, é com-
posta por quatro cadeias polipeptídicas - duas cadeias alfa (a) e duas
cadeias beta (~) - mantidas unidas por meio de ligações não-covalentes
(Figura 3.3). Cada subunidade contém segmentos de estrutura em hélice a ,
além de uma fenda, ou bolso, onde se liga o grupo heme, de forma similar
ao descrito para a mioglobina. A molécula tetramérica da hemoglobina, no
entanto, é estrutural e funcionalmente mais complexa do que a mioglobina.
Por exemplo, a hemoglobina pode transportar C02 dos tecidos até os pul-
mões e pode carregar quatro moléculas de 0 2 dos pulmões às cél ulas dos
tecidos do corpo. Além disso, as propriedades de ligação do oxigênio na
hemoglobina são reguladas por interações com efetores alostéricos (veja
a pág. 62).

1. Estrutura quaternária da hemoglobina. O tetrâme ro da hemoglo-


bina pode ser considerado como a associação de dois dímeros, ( a~),
e (a~) 2 , em que o número se refere aos dímeros um e dois. As duas
cadeias polipeptídicas em cada dímero são mantidas firmemente uni-
das, principalmente por meio de interações hidrofóbicas (Figura 3.4).
(Nota: Nesse caso, os resíduos de aminoácidos hid rofóbicos estão
localizados não apenas no interior da molécula, mas também em uma
região da superfície de interface de cada subunidade. As interações
hidrofóbicas intercadeia formam fortes associações entre as subuni-
dades a e as subunidades ~ nos dímeros.) Ligações iônicas e pontes
de hidrogênio também ocorrem entre os membros do dímero. Em
contraste, os dois dímeros são capazes de se move r um em relação
ao outro, sendo mantidos unidos principalmente por meio de ligações
polares. As interações mais fracas entre esses dímeros móveis resulta
28 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Ligações iónicas e pontes lnterações fortes, Algumas ligações iónicas


de hidrogênio ocorrem entre principalmente e pontes de hidrogênio
os pares de dimeros o:J3 na hidrofóbicas, ent re as entre os di meros o:J3 são
forma desoxigenada . cadeias o: e J3 formam rompidas no estado
dimeros o:J3 estáveis. oxigenado.

Estrutura "T" ou tensa, da desoxiemoglobina Estrutura "R" ou relaxada da oxiemoglobina

Figura 3.4
Diagrama esquemático mostrando mudanças estruturais resultantes da oxigenação e desoxigenação da hemoglobina.

em duas conformações diferentes, observadas na desoxiemoglobina,


com relação à oxiemoglobina (veja a Figura 3.4).

a. Forma T. A forma desoxigenada da hemoglobina é chamada de


"T", o u forma tensa . Na forma T, os dois díme ros a~ interagem
por meio de uma rede de ligações iônicas e pontes de hidrogênio,
que restringem o movimento da cadeia polipeptídica. A forma T é a
forma de baixa afi nidade pelo oxigênio da hemoglobina.

b. Forma R. A ligação do oxigênio à hemoglobina causa a ruptura de


algumas ligações iônicas e pontes de hidrogênio entre os dímeros
a~. Isso leva a uma estrutura chamada de "R" ou forma relaxada,
na qual as cadeias polipeptídicas têm maior liberdade de movimen-
tos (veja a Figura 3.4). A forma R é a forma de alta afinidade pelo
oxigênio da hemoglobina.

D. A ligação do oxigênio à mioglobina e à hemoglobina


A mioglobina pode ligar somente uma molécula de oxigênio (02) , porque
contém apenas um grupo heme. Em contraste, a hemoglobina pode ligar
quatro moléculas de oxigênio - uma para cada um de seus quatro grupos
heme. O grau de saturação (Y) desses sítios de ligação ao oxigênio em
todas as moléculas de mioglobina ou hemoglobina pode variar de zero
(quando todos os sítios estão vazios) a 100% (quando todos os sítios estão
preenchidos; Figura 3.5).

1. Curva de dissociação do oxigênio. Uma curva da saturação (Y)


medida em diferentes pressões parciais de oxigênio (p02) é chamada
de curva de dissociação do oxigênio. As curvas para a mioglobina e
para a hemoglobina apresentam diferenças importantes (veja a Figura
3.5). Esse gráfico ilustra que a mioglobina tem maior afinidade pelo oxi-
gênio do que a hemoglobina. A pressão parcial de oxigênio necessária
para obter metade da saturação dos sítios de ligação (P50) é de aproxi-
Bioquímica Ilustrada 29

madamente 1 mm Hg para a mioglobina e 26 mm Hg para a hemoglo-


bina. (Nota: Quanto maior a afinidade pelo oxigênio [isto é, quanto mais A curva de dissociação do oxigênio é
acentuada em baixas concent rações de
fortemente liga o oxigênio], menor a P50) oxigênio, como ocorre nos tecidos. Isso
permite que o oxigênio seja liberado para
a. Mioglobina. A cu rva de dissociação do oxigênio da mioglobina responder a pequenas variações na p02.
possui uma forma hiperbólica (veja a Figura 3.5). Isso reflete o
fato de que a mioglobina liga-se reversivelmente a apenas uma p02 nos
molécula de oxigênio. Assim , a mioglobina oxigenada (Mb02) e a
desoxigenada (Mb) estão em um equilíbrio simples:

o"'
O equilíbrio é desviado para a direita ou para a esquerda à medida E
que o oxigênio é adicionado ou removido do sistema. (Nota: A mio- o(.)
globina tem a função de ligar o oxigênio liberado pela hemoglobina o
uu
()o
nas baixas p02 encontradas no músculo. A mioglobina, por sua ~
:::1
vez, liberará o oxigênio dentro da célula muscular em resposta à 1V
<11
demanda de oxigênio.) Cll
"O o. :
b. Hemoglobina. A curva de dissociação do oxigênio da hemoglobina # 0 t t 40 ao 120
Pressão parcial de oxigênio (p02 )
tem forma sigmoidal (veja a Figura 3.5), indicando que as subu-
nidades cooperam na ligação do oxigênio. A ligação cooperativa
I I
(mm Hg)
P50 =1 Pso =26
do oxigênio às quatro subunidades da hemoglobina significa que
a ligação de uma molécula de oxigênio a um dos grupos heme
aumenta a afinidade pelo oxigênio dos grupos heme restantes na Figura 3.5
mesma molécula de hemoglobina (Figura 3.6). Esse efeito é deno- Curvas de dissociação do oxigênio
minado interação heme-heme (veja a seguir). Embora seja ma is para a mioglobina e para a
difícil para a primeira molécula de oxigênio ligar-se à hemoglobina, hemoglobina.
a ligação subseqüente de oxigênio ocorre com alta afinidade, como
demonstrado pela curva rapidamente ascendente na região de 20 ' Hb
/

a 30 mm Hg (veja a Figura 3 .5). / '


E. Efeitos alostéricos
A capacidade da hemoglobina para ligar-se reversivelmente ao oxigênio
é afetada pela p0 2 (devido às interações heme-heme, conforme descrito
anteriormente), pelo pH do ambiente, pela pC0 2 e pela disponibilidade
de 2,3-bisfosfoglicerato. Esses são coletivamente chamados de efetores ' /
Hb
alostéricos (outro sítio), pois sua interação com um sítio na molécula da
hemoglobina afeta a ligação do oxigênio aos grupos heme em outras regi- t:í I:!
ões da molécula. (Nota: A ligação do oxigênio à mioglobina não é influen-
ciada pelos efetores alostéricos da hemoglobina.)

1. lnterações heme-heme. A curva sigmoidal de ligação do oxigên io


reflete mudanças estruturais específicas, as quais são iniciadas em
um dos grupos heme e são transmitidas aos outros grupos da estru-
tura tetramé rica da hemoglobina. O efeito líquido é que a afinidade
da hemoglobina pelo último oxigênio ligado é aproximadamente 300
vezes maior do que a afinidade para a ligação do primeiro oxigênio.

a. Ligando e liberando o oxigênio. A ligação cooperativa do oxigê-


nio permite à hemoglobina liberar mais oxigênio aos tecidos em
resposta a variações relativamente pequenas na pressão parcial
de oxigênio. Isso pode ser observado na Figura 3.5, onde está indi-
cada a pressão parcial de oxigênio (p02) nos alvéolos pulmonares
e nos capilares dos tecidos. Por exemplo, no pulmão, a concentra- Figura 3.6
ção de oxigênio é maior, e a hemoglobina se torna praticamente A hemoglobina liga o oxigênio com
afinidade crescente.
saturada (ou "carregada") com oxigênio. Em contraste, nos tecidos
30 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

periféricos, a oxiemoglobina libera (ou "descarrega") a maior parte


de seu oxigênio para utilização no metabolismo oxidativo dos teci-
dos (Figura 3.7).

b . Significado da curva s igmoidal de dissociação do oxigênio.


A inclinação abrupta da curva de dissociação do oxigênio na faixa
de concentração de oxigênio que ocorre entre os pulmões e os
tecidos permite que a hemoglobina transporte e libere o oxigênio
de forma eficiente, desde os sítios de alta p02 até os sítios de
baixa p02 . Uma molécula com a curva de dissociação hiperbólica,
como a mioglobina, não apresenta o mesmo grau de liberação de
oxigênio nessa faixa de pressão parcial de oxigênio. Pelo contrá-
rio, ela teria afinidade máxima pelo oxigênio em toda essa faixa
de pressão de oxigênio e, dessa forma , não o liberaria para os
tecidos.

2. Efeito Bohr. A liberação do oxigênio pela hemoglobina é aumentada


quando o pH diminui ou quando a hemoglobina está na presença de
uma pressão parcial de C02 aumentada. Ambos resultam na red ução
da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio e, dessa forma, em um des-
locamento da curva de d issociação do oxigênio para a direita (Figura
3.8). Essa alteração na ligação do oxigênio é denominada de efeito
Bohr. Por sua vez, o aumento do pH ou uma redução da concentração
de C02 resultam em maior afinidade pelo oxigênio e em um desloca-
mento da curva de dissociação do oxigênio para a esquerda.

a. Origem dos prótons que diminuem o pH. A concentração de


ambos, C02 e W , nos capilares dos tecidos metabolicamente ati-
vos é maior do que aquela observada nos capilares alveolares dos
pulmões, onde o C02 é liberado no ar expirado. (Nota: Ácidos orgâ-
nicos, como o ácido láctico, são produzidos durante o metabolismo
anaeróbico no músculo em contração rápida [veja a pág. 101].)
Nos tecidos, o C02 é convertido pela anidrase carbônica em ácido
Figura 3.7 carbônico:
Transporte de oxigênio e C0 2 pela
hemoglobina.

o qual perde espontaneamente um próton, to rn ando-se bicarbo-


Diminuição do pH resulta em decréscimo nato (o principal tampão do sangue):
da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio ,.
e, dessa forma, em um deslocamento para .,
a d ireita da curva de d issociação do
oxigênio.
O próton produzido por esse par de reações contribui para a redu-
ção do pH. Esse gradiente diferencial de pH (os pulmões tendo um
pH mais alto e os tecidos um pH mais baixo) favorece a liberação
de oxigênio nos tecidos periféricos e a associação ao oxigênio
Em pH ma is f.
baixo, é no pulmão. Assim , a afinidade da molécula da hemoglobina pelo
necessári a maior ~ oxigênio responde a pequenas alterações no pH entre o pulmão e
p02 para atingir '
uma d eterminada os tecidos que consomem oxigênio, tornando a hemoglobina um
saturação de eficiente transportador de oxigênio.
oxigênio.
! I I I
b . Mecanismo do efeito Bohr. O efeito Bohr reflete o fato de que
40 80 120
a forma desoxi da hemoglobina possui maior afinidade aos pró-
Pressão parcial de oxigênio (p02 )
(mm Hg) tons que a oxiemoglobina. Esse efeito é causado po r grupos
ionizáveis, como grupos a.-am ino N-terminais e cadeias laterais
específicas de histidina, que possuem pKa mais altos na desoxie-
Figura 3.8 moglobina do que na oxiemoglobina. Assim, um aumento na con-
Efeito do pH sobre a afin idade da centração de prótons (resultando na diminuição do p H) faz com
hemoglobina pelo oxigênio.
Bioquímica Ilustrada 31

que esses grupos fiquem protonados (carregados) e capazes


de formar ligações iônicas (também chamadas pontes salinas). Glicólise
Essas ligações estabilizam preferencialmente a forma desoxi da Glicose
hemoglobina, produzindo uma redução na afinidade pelo oxigê-
nio.

O efeito Bohr pode ser representado esquematicamente como:


1,3-Bisfosfo-
o
glicerato c-o-
oxiemoglobina desoxiemoglobina H-c-o-® =
onde um aumento de prótons (ou a redução da p0 2 ) desloca o
equilíbrio para a direita (em favor da desoxiemoglobina} , enquanto
um aumento na p02 (ou redução de prótons) desloca o equilíbrio
para a esquerda.
j H-c-o-® =
H
I

2,3-Bisfosfogli-
cerato
H20
3-Fosfo-
glicerato
3. Efeito do 2,3-bisfosfoglicerato sobre a afinidade pelo oxigênio. O
2,3-bisfosfoglicerato (2,3-BPG) é um importante regulador da ligação
do oxigênio à hemoglobina. É o fosfato orgânico mais abundante nos t
eritrócitos, onde sua concentração é aproximadamente equivalente à
da hemoglobina. O 2,3-BPG é sintetizado a partir de um intermediário
t
da rota glicolítica (Figura 3.9; veja a pág. 99 para uma discussão acerca
da síntese do 2,3-BPG na glicólise).

a. Ligação do 2,3-BPG à desoxiemoglobina. O 2,3-BPG diminui


a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, por ligar-se à desoxie- Figura 3.9
moglobina, mas não à oxiemoglobina. Essa ligação preferencial Síntese de 2,3-bisfosfoglicerato.
estabiliza a conformação tencionada da desoxiemoglobina. O efeito
(Nota: ® é um grupo fosfo ril. )
da ligação do 2,3-BPG pode ser representado esquematicamente
como:

Hb02 + 2,3-BPG ~ Hb-2,3-BPG + 02

oxiemoglobina desoxiemoglobina

b. Sítio de ligação do 2,3-BPG. A molécula do 2,3-BPG liga-se a


uma fenda formada pelas duas cadeias ~ da globina, no centro do
tetrâmero da desoxiemoglobina (Figura 3.1 O). Essa fenda contém
vários aminoácidos carregados positivamente, que formam liga-
ções iônicas com os grupos fosfato carregados negativamente do
2,3-BPG. (Nota: Uma mutação em um desses resíduos resulta em Uma única molécula de 2,3·BPG liga-se a
uma concavidade positivamente
variantes de hemoglobina com afinidade anormalmente elevada carregada, formada pelas cadeias Jl
da desoxiemogloblna.
pelo oxigênio.) O 2,3-BPG é expelido na oxigenação da hemoglo-
bina.

c. Deslocamento da curva de dissociação do oxigên io. A molé-


cula de hemoglobina da qual o 2,3-BPG foi removido possui uma
alta afinidade pelo oxigênio. Entretanto, conforme observado no eri-
trócito, a presença de 2,3-BPG reduz significativamente a afinidade
da hemoglobina pelo oxigênio, deslocando a curva de dissociação
do oxigênio para a direita (Figura 3. 11 ). Essa afinidade reduzida
permite que a hemoglobina libere o oxigênio eficientemente nas
pressões parciais encontradas nos tecidos.

d. Resposta dos níveis de 2,3-BPG à hipóx ia ou anemia crónicas.


A concentração de 2,3-BPG no eritrócito aumenta em rE!sposta à
hipóxia crônica, como observado no enfisema pulmonar obstrutivo
ou em altitudes elevadas, quando a hemoglobina circulante pode Figura 3.10
ter dificuldade em receber oxigênio suficiente. Os níveis intrace- Ligação do 2,3-BPG à
desoxiemoglobina.
32 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

lulares de 2,3-BPG também estão elevados na anemia crônica,


quando menos eritrócitos que o normal estão disponíveis para
2,3-BPG = O
(Hemoglobina suprir as necessidades de oxigênio do organismo. Níveis elevados
depletada de 2,3-BPG) de 2,3-BPG diminuem a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio,
permitindo maior descarga de oxigênio nos capilares dos tecidos
o"' (veja a Figura 3.11 ).
E
o(.)
o e. Papel do 2,3-BPG no sangue transfundido. O 2,3 -BPG é
""..,
~
essencial para a função normal de transpo rte de oxigên io da
E 2,3-BPG = 8 mmoi/L hemoglobina. Por exemplo, o sangue estocado em ácido-citrato-
"'"'
(sangue de
indivíduos adaptados a
dextrose, um meio anteriormente bastante utilizado, leva a uma
"'
'O
grandes altitudes) redução do 2,3-BPG nos e ritrócitos. Esse sangue apresenta uma
'#.
o afinidade pelo oxigênio anormalmente elevada e apresenta difi-
o 40 80 120
culdade em liberá-lo de forma adequada para os tecidos. Assim,
Pressão parcial de
oxigénio (mm Hg) a hemoglobina deficiente em 2,3-BPG atua como uma espécie de
"captador" para o oxigênio e não como um sistema de transporte
para o mesmo. Embora os eritrócitos transfundidos sejam capazes
Figura 3.11 de restaurar seus suprimentos depletados de 2,3-BPG em 24 a
Efeito do 2,3-BPG sobre a afinidade 48 horas, pacientes gravemente doentes podem ter seu estado
da hemoglobina pelo oxigênio. comprometido se transfundidos com grandes quantidades desse
sangue "despojado" de 2,3-BPG. A redução no 2,3-BPG pode ser
prevenida pela adição de substratos como a inosina (hipoxanti na-
ribose, veja a Figura 22.7, pág. 292} ao meio de armazenamento.
A inosina, uma molécu la não-ca rregada , penetra no eritrócito,
onde sua ribose é liberada, fosforilada e entra no ciclo das pen-
toses (veja a pág. 145}, eventualmente sendo convertida em 2,3-
BPG.

4. Ligação do C02 • A maior parte do dióxido de carbono produzido no


metabolismo é hidratada e transportada como íon bicarbonato (veja a
pág. 9}. Entretanto, algum C02 é carregado como carbamato, ligado a
grupos a -amino (desprovidos de carga), da hemoglobina (carbamino-
emoglobina; veja a Figura 3.7), que pode ser representado esquemati-
camente como:

Hb- NH 2 + C02 ;! Hb-NH-COO- + H'


A ligação do C02 estabiliza a forma T ou desoxi da hemoglobina, resul-
ãJ
::J
Ol tando em um decréscimo de sua afinidade pelo oxigênio (veja a pág.
c: O%CO-Hb
~ 20 28). Nos pulmões, o C02 dissocia-se da hemoglobina, e é liberado pela
"'
'O
-'
E
\ 50%CO-Hb
respiração.

g 5. Ligação do CO. O monóxido de carbono (CO) liga-se fortemente (mas

.s
5 10 I reversivelmente) ao ferro da hemoglobina, fo rmando carboxiemo-
globina (HbCO). Quando o monóxido de carbono liga a um ou mais
õ dos quatro grupos heme, a hemoglobina muda para a conformação
'O "'o relaxada, de modo que os grupos remanescentes ligam-se ao oxigênio
'O
·::J o IL..l-1---'---'--'--'---'--'---'--'--'---' com maior afinidade. Isso leva ao deslocamento da curva de satu ra-
~ o 40 80 120
ção para a esquerda, mudando o formato sigmoidal da curva para o
o
() Pressão parcial de oxigénio (p02 )
(mmHg)
formato hiperbólico. Como resultado, a hemoglobina afetada é incapaz
de liberar o oxigênio para os tecidos (Figura 3 .12}. (Nota: A afinidade
da hemoglobina pelo CO é 220 vezes maior do que para o oxigênio.
Figura 3.12 Conseqüentemente, mesmo concentrações mínimas de monóxido de
Efeito do monóxido de carbono sobre carbono no meio podem produzir concentrações tóxicas de carboxie-
a afinidade da hemoglobina pelo moglobina no sangue. A toxicidade do monóxido de carbono parece
oxigênio. resultar da combinação de hipóxia tecidual e de dano c elular direto
Bioquímica Ilustrada 33

mediado pelo monóxido de carbono.) O envenenamento por monóxido


Composição Fração da
de carbono é tratado com terapia de 100% de oxigénio, que facilita a Forma das cadeias hemoglobina total
dissociação do CO da hemoglobina.
HbA ~132 90%

F. Outras hemoglobinas HbF C1"2Y2 < 2%


É importante lembrar que a hemoglobina A humana (HbA) é apenas um HbA2 ~ô2 2-5%
membro de uma família funcional e estruturalmente relacionada de pro-
teínas, as hemoglobinas (Figura 3.13). Cada uma dessas proteínas trans- HbA1c a 2 132 -glicose 3-9%
portadoras de oxigénio é um tetrâmero, composto por dois polipeptídeos
do tipo u.-globina e dois polipeptídeos do tipo ~-globina. Algumas hemo-
globinas, como a HbF, normalmente são sintetizadas somente durante o Figura 3.13
desenvolvimento fetal, enquanto outras, como a HbA2 , são sintetizadas no Hemoglobinas humanas normais de
adulto, embora em baixos níveis, se comparados à HbA. A HbA pode tam- adultos. (Nota: As cadeias u. nessas
bém ser modificada pela adição covalente de uma hexose. Por exemplo, a hemoglobinas são idênticas.)
adição de glicose forma um derivado glicosilado da hemoglobina, a HbA 1c.

1. Hemoglobina fetal (HbF). A HbF é um tetrâmero, consistindo em duas


cadeias u. idênticas àquelas encontradas na HbA, mais duas cadeias
gama (y) (a 2"{2 , veja a Figura 3.13). As cadeias 'Y são membros da famí-
lia de genes das ~-globinas (veja a pág. 35) .

a. Síntese de HbF durante o desenvolvimento. Nas primeiras


semanas após a concepção, a hemoglobina embrionária (Hb
Gower 1), composta por duas cadeias zeta e duas cadeias épsi-
lon (~2 ~:: 2) , é sintetizada pelo saco embrionário. Dentro de poucas
semanas, o feto começa a sintetizar a HbF na medula óssea em
desenvolvimento. A HbF é a principal hemoglobina encontrada no Momento do
feto e no recém-nascido, perfazendo cerca de 60% da hemoglo- nascimento

bina total dos eritrócitos durante os últimos meses da vida fetal Cadeias
semelhantes
(Figura 3.14) . A síntese da HbA inicia na medula óssea por volta do à a -globina
oitavo mês de gravidez e substitui gradualmente a HbF. (A Figura
3.14 mostra a produção relativa de cada tipo de cadeia da hemo-
globina durante a vida fetal e pós-natal.)

b. Ligação do 2,3-BPG à HbF. Em cond ições fisiológicas, a HbF U)


'iii
possui uma afinidade maior pelo oxigénio do que a HbA, pois a :g
HbF liga-se apenas fracamente ao 2,3-BPG. (Nota: As cadeias cu
c:
y-globina da HbF não possuem alguns dos aminoácidos positiva- :õ
o
c,
mente carregados encontrados nas cadeias de ~- g l obina , os quais Q)
'O
são responsáveis pela ligação ao 2,3-BPG.) Uma vez que o 2,3-
:(l Cadeias
BPG serve para reduzir a afinidade da hemoglobina pelo oxigénio, 'iii semelhantes à
a interação mais fraca entre 2,3-BPG e HbF resulta em uma maior ~ ~-globina
U)
afinidade da HbF pelo oxigénio, quando comparada com a HbA. cu
'O
Em contraste, quando o 2,3-BPG é removido de ambas, HbA e E
Q)
Cl
HbF, elas apresentam então uma afinidade semelhante ao oxigé- !9
c:
nio. A maior afinidade da HbF pelo oxigénio facilita a transferência Q)
!:?
do oxigénio da circulação materna para os eritrócitos do feto atra- ~
vés da placenta.

2. Hemoglobina A 2 (HbA2 ). A HbA2 é um componente menor da hemo- 9


globina normal do adulto, surgindo inicialmente cerca de 12 semanas Meses antes e depois do nascimento
após o nascimento e finalmente constituindo cerca de 2% da hemoglo-
bina total. É composta por duas cadeias u.-globina e duas cadeias delta
(o-) (~82 , veja a Figura 3.13). Figura 3.14
Alterações na hemoglobina durante o
desenvolvimento.
34 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

3. Hemoglobina A 1c. Sob condições fisiológicas, a HbA é glicosilada de


forma lenta e não-enzimática; a extensão da glicosilação depende da
concentração plasmática de uma determ inada hexose. A forma mais
abundante de hemoglobina glicosilada é a HbA 1c . Ela possui resíduos
de glicose ligados predominantemente aos grupos NH 2 das valinas
N-terminais das cadeias ~-g lobina (Figura 3.15). Quantidades aumen-
tadas de HbA 1c são encontradas nos eritrócitos de pacientes com
diabetes melito, pois a HbA desses pacientes está em contato com
maiores concentrações de glicose durante os 120 dias de vida de seus
eritrócitos. (Veja a pág. 339 para uma discussão acerca do uso desse
fenômeno para a avaliação dos níveis sangüíneos médios de glicose
em pacientes diabéticos.)

III. ORGANIZAÇÃO DOS GENES DAS GLOBINAS

Para compreender as doenças resultantes de modificações genéticas na estru-


tura ou síntese das hemoglobinas, é necessá rio compreender como os genes
da hemog lobina, os quais direcionam a síntese das diferentes cadeias de
globinas, são organizados estruturalmente em famílias de genes e como são
/" expressos.
I)!H \'JH
HÇH HÇH
co c:o A. A família dos genes a
'
HOCH HOCH
I
HCOH HCOH
' Os genes que codificam as subunidades do tipo a-globina e do tipo ~­
HCOH H90H
' globina das cadeias da hemoglobina ocorrem em dois agrupamentos (ou
Hemoglobina A 1c famílias) de genes, localizados em dois cromossomas diferentes (Fig ura
3.16). O grupo de genes a no cromossoma 16 contém dois genes para as
cadeias de a-globina. Ele também contém o gene zeta (~). que é expresso
Figura 3.15 precocemente no desenvolvimento, como um componente da hemoglobina
Adição não-enzimática de glicose à embrionária, além de uma série de genes semelhantes aos da globina, os
hemoglobina. quais não são expressos (isto é, sua informação genética não é usada para
produzir cadeias de globina), e são denominados pseudogenes.

B . Família dos genes J3


Um único gene para a cadeia de (3-globina está localizado no cromossoma
11 (veja a Figura 3.16). Existem ainda outros 4 genes semelhantes aos da

Duas cópias do gene de u-globina


Genes de cadeias são designados <><1 e a2. Cada
semelhantes à <><-globina uma delas pode fornecer cadeias
(cromossoma 16) .--------------.-----,-----"~...,
de <><· globina que combinam-se
com as cadeias de jl-globina.
As hemogl obinas são
formadas por combinações
de cadeias semelhantes
à a · globina e à jl-globina
1
Hb Gower 1

f
Figura 3.16
Organização das famílias de genes das globinas.
Bioquímica Ilustrada 35

~-globina: o gene épsilon (e) (o qual, de modo semelhante ao gene Ç, é


expresso no início do desenvolvimento embrionário), dois genes 'Y (Gy e As famílias de genes de globinas "-e 11
contêm três éxons (regiões de codificação)
~. que são expressos na hemoglobina fetal, HbF) e o gene õ, que codifica separados por dois íntrons (seqüências
intervenientes) não-codificadores.
a cadeia de globina encontrada na hemoglobina que aparece minoritaria-
mente em adultos, a HbA2 .

C. Etapas da síntese das cadeias das globinas


A expressão de um gene de globina inicia no núcleo de precursores dos eri-
trócitos, onde a seqüência de DNA que codifica o gene é transcrita. O RNA
produzido pela transcrição é, na verdade, um precursor do RNA mensageiro
Transcrição
(RNAm), que é usado como um molde para a síntese de uma cadeia de glo-
~

bina. Antes de poder ser utilizado como tal , duas bandas de RNA não-codifica-
dor (íntrons ou seqüências intervenientes) devem ser removidas da seqüência
precursora do RNAm, e os três fragmentos restantes (éxons) devem ser liga- RNAm

dos novamente de forma linear. O RNA maduro resultante penetra no citosol,


onde sua informação genética é traduzida, produzindo globina. (Um resumo
desse processo é mostrado na Figura 3.17. Uma descrição mais detalhada da
síntese protéica é apresentada no Capítulo 31, pág. 429.)

IV. HEMOGLOBJNOPATIAS Corte-junção

~ NÚCLEO

As hemoglobinopatias têm sido tradicionalmente definidas como uma família


de distúrbios causados pela produção de uma molécula de hemoglobina estru-
turalmente anormal, pela síntese de quantidades insuficientes de hemoglobina
normal ou, raramente, por ambas. A anemia falciforme (HbS), a doença da
hemoglobina C (HbC) e a síndrome da talassemia são hemoglobinopatias
representativas, que podem ter conseqüências clínicas graves. As duas primei-
ras condições resultam da produção de hemoglobinas com seqüências alte-
radas de aminoácidos, enquanto as talassemias são devidas a uma produção
diminuída de hemoglobina normal.

A. Anemia falc iforme (doença da hemoglobina S)


A anemia falciforme (também denominada doença falciforme) é uma
doença genética do sangue causada pela alteração de um único nucleo- Hemoglobina
tídeo (mutação pontual) no gene da cadeia de (3-globina. É a desordem
hereditária do sangue mais comum nos Estados Unidos, afetando 80.000
Figura 3.17
norte-americanos. Ocorre primariam ente na população afro-americana,
Síntese das cadeias de globinas.
afetando um em cada 500 bebês recém -nascidos afro-americanos nos
Estados Unidos (Figura 3.18). A anemia falciforme é uma doença homozi-
gota recessiva. Ela ocorre em indi víduos que herdaram dois genes mutan- 300 289
r-
tes (um de cada um dos pais) que codificam a síntese das cadeias ~ das
moléculas de globina. (Nota: A cadeia ~-globina mutante é designada ~·. o
o
o
e a hemoglobina resultante, o: 2 ~ 5 2 , é denominada HbS.) A presença da o200
o
doença não se manifesta no bebê, até que uma quantidade suficiente de ~
Americanos
HbF seja substituída pela HbS, quando os eritrócitos começam a assumir
oa. nativos
Hispânicos \
a morfologia falciforme (veja a seguir). A anemia falciforme caracteriza-se
por episódios dolorosos (crises) que ocorrem durante toda a vida, por uma
anemia hemolítica crônica e pelo aumento da suscetibilidade a infecções,
que começam em geral no início da infância. Outros sintomas incluem sín-
o 1,7
Brancos
\
.§.d. ~
Asiáticos
n
36

Afro-
drome aguda do peito, acidentes vasculares cerebrais e disfunção esplê- americanos
nica e renal. A vida média de um e ritrócito homozigótico para HbS é de
cerca de 20 dias, comparada com os 120 dias para célu las normais. Os
heterozigotos, representando um em cada dez afro-americanos, possuem Figura 3.18
um gene normal e um gene falciforme. Os eritrócitos desses heterozigotos Anemia falciforme nos Estados
Unidos.
36 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

H H
H I H I
~N- C~ ~N - C - C-v'VVVVV'
I " I "
CH20 CH O
I ' 2
CH2 CH2
CH2
coo·

D
CH2

ü
Vai · His · Leu · Thr · Pro · Glu · Glu · Lys
12345678
-vvv Vai · His · Leu · Thr · Pro · Vai · Glu · Lys -vvv
12345678
ü3
NH +

Vai · His · Leu · Thr · Pro · Lys · Glu · Lys -vvv


12345678

HbA HbS HbC

Figura 3.1 9
Substituição de aminoácidos na HbS e na HbC.

contêm ambas, HbS e HbA. Esses indivíduos possuem o traço falciforme .


Em geral eles não apresentam sinto mas clínicos e podem te r uma expec-
tativa de vida normal.

1. Substituição de aminoácidos nas cadeias ~ da HbS. Uma molécula


de HbS contém duas cadeias a normais e duas cadeias ~ mutantes
5
(~ ), nas quais o ácido glutâmico da posição 6 é substituído pela valina
(Figura 3.19). Assim sendo, durante uma eletroforese em pH alcalino,
a HbS migra mais lentamente em direção ao ânodo (eletrodo positivo)
do que a HbA (Figura 3.20). Essa alteração na mobilidade é o resultado
da ausência dos resíduos de glu tamato negativamente carregados
nas duas cadeias ~ . tornando assim a HbS menos negativa que a
HbA. (Nota: A eletroforese da hemoglobina obtida a partir de eritrócitos
lisados é utilizada rotineiramente no diagnóstico da doença e do traço
falcêmico.)

2. As alterações falciformes nos eritrócitos causam anóxia tecidual.


A substituição de um resíduo de glutamato carregado por uma val ina
apoiar forma uma sal iência na cadeia ~ . a qual se associa de fo rma
complementar com a cadeia de a-globina de outra molécula de hemo-
globina na cé lula (Figura 3.21 ). Em condições de baixa pressão de
oxigên io, a HbS polimeriza dentro dos eritrócitos, primeiro formando
um gel, subseqüentemente se agregando em uma rede de polímeros
fibrosos que distorce as células, produzindo eritrócitos rígidos e defor-
mados. Essas células falciformes freqüentemente bloqueiam o fluxo
sangüíneo nos capi lares de pequeno diâmetro. Essa interrupção no
suprimento de oxigênio leva à anóxia localizada (privação de oxigênio)
no tecido, causando dor e, eventualmente, a morte (infarto) das células
na vizinhança da área do bloqueio.
As hemoglobinas est ão
carregadas negativamente e 3. Variáveis que aumentam a indução de células falciformes. A exten-
m igram e m direção ao ânodo. são dessa morfologia anormal e, assim, da gravidade da doença é
aumentada por qualquer variável que aumente a proporção de HbS
no estado desoxigenado (isto é, que reduza a afinidade da HbS pelo
oxigênio). Essas variáveis incl uem a d iminuição da pressão de oxi-
Figura 3.20
gênio devida a altitudes elevadas ou vôo em avião não-pressurizado,
A. Fotografia de um gel antes da
aumento na pC02 , diminuição do pH e aumento da concentração de
eletroforese. 8. Diagrama das
hemoglobinas A, S e C após a 2,3-BPG nos eritrócitos.
eletroforese.
Bioquímica Ilustrada 37

Cavidade
hidrofóbica -.,.,_

No estado
desoxigenado, a HbS
polimeriza em fibras
longas, semelhantes a
uma corda.

Vai·His·Leu·Thr·Pro·Giu·Giu·Lys vvv

t
Vai·His·Leu·Thr·Pro·Vai·Giu·Lys vvv

Cadeia ~ P·6·Valina

4. Tratamento. A terapia envolve adequada hidratação, analgésicos,


terapia antibiótica agressiva se houver infecção e transfusões em
pacientes que apresentem alto risco de oclusão fatal de vasos. Transfu-
sões intermitentes com concentrados de eritrócitos reduzem o risco de
acidentes vasculares cerebrais, mas os benefícios devem ser bem ava-
liados, devido às complicações que podem ocorrer, as quais incluem
sobrecarga de ferro (hemossiderose), infecções e complicações imu-
nológicas. A hidroxiuréia, uma droga antitumoral, diminui a freqüência
das crises de dor e reduz a mortalidade. O mecanismo de ação dessa
droga ainda não é completamente compreendido, mas deve envolver
um modesto aumento da hemoglobina fetal, o que diminui él. indução de
células falciformes.

5. Possível vantagem seletiva do estado heterozigoto. A elevada fre-


qüência do gene HbS entre os africanos, apesar de seus efeitos lesivos
no estado homozigoto, sugere que exista uma vantagem seletiva para
indivíduos heterozigotos. Por exemplo, os heterozigotos para o gene
da anemia falciforme são menos suscetíveis à malária, causada pelo
parasito Plasmodium fa/ciparum. Esse organismo desenvolve parte
obrigatória de seu ciclo vital no eritrócito. Uma vez que, em indivíduos
heterozigotos, assim como nos homozigotos para HbS, essas células
apresentam um tempo de vida menor do que o normal, o parasito não
pode completar seu estágio de desenvolvimento intracelular. Esse fato
pode oferecer uma vantagem seletiva aos heterozigotos que vivem em
reg iões onde a malária é uma das maiores causas de morte. A Figura
3.22 ilustra que, na África, a distribuição geográfica da anemia falciforme
é similar à da malária.

B. Doença da hemoglobina C
Assim como a HbS, a HbC é uma variante de hemoglobina com uma única
substituição de um aminoácido na posição seis na cadeia de p-globina (veja Figura 3.21
a Figura 3.19). Nesse caso, entretanto, uma lisina substitui o glutamato (em Eventos celulares e moleculares que
levam a uma crise falciforme.
38 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

vez da substituição por uma valina na HbS). (Nota: Essa substituição faz
com que a HbC mova-se mais lentamente em direção ao ânodo do que

\
a HbA ou a HbS [veja a Figura 3.20).) Os pacientes homozigotos para a
hemoglobina C geralmente apresentam anemia hemolítica crônica, relativa-
mente leve. Esses pacientes não sofrem crises de infarto e não necessitam

~
de qualquer terapia específica .

• 1o-20% C. Doença da hemoglobina SC


o s - 10% ) ; i Nessa doença, algumas cadeias de p-globina possuem a mutação fal-
0 1-5% \ "'r' . . . ciforme, enquanto outras cadeias p possuem a mutação encontrada na
doença da HbC. (Nota: Pacientes com a doença HbSC são duplamente
heterozi gotos (heterozigoto composto], pois ambos os g enes para a
cadeia ~ são anormais, embora diferentes um do o utro.) Os níveis de
hemoglobina tendem a ser mais altos na HbSC do que na anemia falei-
form e, podendo estar no limite inferior da faixa normal. O curso clínico de
adultos com a doença HbSC difere daquele da anemia falciforme, no qual
os pacientes geralmente apresentam crises dolorosas que começam na
infância. É comu m pacientes com a doença HbSC permanecerem bem (e
sem diagnóstico) até sofrerem uma crise de infarto. Essa crise geralmente
ocorre após um parto ou uma cirurgia e pode ser fatal.

D. Metemoglobinemia
3
A oxidação do grupo heme da hemoglobina ao estado de íon férrico (Fe •)
forma a metemoglobina, a qual não pode ligar o oxigênio. Essa oxidação
Figura 3.22 pode ser causada pela ação de ce rtas drogas, como os nitratos, ou por
A. Distribuição da anemia produtos endógenos, como inte rm ediários reativos do oxigênio (veja a
falciforme na África, expressa como pág. 145). A oxidação pode também ser resultado de defeitos genéticos;
porcentagem da população com a por exemplo, certas mutações nas cadeias de globinas a ou p promovem
doença. B. Distribu ição da malária na a formação de metemoglobina (HbM). Alé m disso, uma deficiência na
África. NADH-citocromo b5 -redutase (também chamada de NADH-metemoglo-
bina-redutase), a enzima responsável pela conversão da metemoglobina
3
(Fe • ) em hemoglobina (Fe 2• ) , leva ao acúmulo de metemoglobina. (Nota:
Os eritrócitos de recém-nascidos apresentam aproximadamente metade
ft Cada cópia do cromossoma 11 tem apenas da capacidade dos adultos em reduzir a metemoglobina. Assim sendo, são
W um gene para as cadeias da 13-globina. especialmente suscetíveis aos efeitos dos compostos capazes de produzir
metemoglobina.) As metemoglobinemias são caracterizadas por " cianose

I~
----
chocolate" (uma coloração marrom-azulada da pele e das membranas) e
sangue cor de chocolate, como resultado da coloração escura da metemo-
-LJL::J-- globina. Os sintomas estão relacionados com hipóxia tecidual, e incluem
: .....IL..: : .....IL..: ansiedade, dor de cabeça e dispnéia. Em casos raros, pode ocorrer coma
e morte.
Normal (3-Talassemia (l-Talassemia
menor maior
E. Talassemias
aP aY
ya As talassemias são doenças hemolíticas hereditárias, nas quais ocorre um
~a
HbA Hb F desequilíbrio na síntese das cadeias de globina. Como um grupo, são os
distúrbios mais comuns de um único gene em humanos. Normalmente, a
yy síntese das cadeias de globinas a e p é coordenada de modo que cada
yy
cadeia a tem uma cadeia ~ correspondente. Isso leva à formação de a2 ~ 2
Hb de Bart Precipitado
de cadeia a (HbA). Nas talassemias, a síntese de uma cadeia a ou p é defeituosa. A
talassemia pode ser causada por uma série de mutações, incluindo deleção
de genes, ou ainda substituições ou deleções de um ou vários nucleotídeos
Figura 3.23
A. Depleções do gene da p-globina
nas P-talassemias. B. Tetrâmeros de
hemoglobina, formados nas
P-talassemias.
Bioquímica Ilustrada 39

no DNA. (Nota: Cada talassemia pode ser classificada como um distúrbio


0
no qual não são produzidas cadeias de globinas [talassemia U ou 13"], ou Legenda
como um distúrbio no qual algumas cadeias são sintetizadas, porém em Gene normal para
velocidade reduzida [talassemia u • ou 13·].) cadeias de a-g lobina

1. (3-Talassemias. Nessas doenças, a síntese das cadeias 13 está di mi- \


nuída ou ausente, enquanto a síntese das cadeias u está normal.
As cadeias de u -globina não podem formar tetrâmeros estáveis e, ~ ............:---
> Parde
cromossomas 16
portanto, precipitam , causando a morte prematura das células inicial-
mente destinadas a tornarem-se eritrócitos maduros. Também ocorre
I
Gene deletado para a
cadeia de a-globina
o acúmulo de u 2y2 (HbF) e y4 {Hb de Bart). Existem ape nas d uas
cópias do gene da 13-globina em cada célula (uma em cada cromos-
somo 11 ). Assim sendo, indivíduos com defeitos no gene da cadeia
13 apresentam o traço de 13-talassemia (13-talassemi a meno r), se Cada cópia do cromossoma 16 possui dois
genes adjacentes para cadeias de a -globina.
tiverem apenas um dos genes defeituoso, ou 13-talassemia maior,
se ambos os genes para a cadeia de 13-g lobina forem defeituosos
(Figura 3.23) . Uma vez que o gene da 13-gl obina não é expresso
até o final da gestação, as manifestações físicas das 13-talassemias
só aparecem após o nascimento. Os indivíduos com 13-talassemia
menor produzem algumas cadeias 13. e geralmente não necessitam
tratamento específico. Entretanto, as crianças que nascem com 13-
talassemi a maior possuem o triste destino de parecerem saudáveis Indivíduo Portador
normal " silencioso"
ao nascimento, tornando-se gravemente anêmicos, em geral durante
o primeiro ou segundo ano de vida. Esses pacientes requerem trans-
fusões de sangue regulares. (Nota: Apesar desse tratamento salvar
vidas, o efeito cumulativo das transfusões é uma sobrecarga de ferro
[uma síndrome conhecida como hemossiderose], a qual tipicamente
leva à morte entre 15 e 25 anos de idade. ) O aumento do uso da Traço de a -talassemia
terapia de reposição de células de medula óssea tem sido benéfico (forma heterozigota) Apresentam
para esses pacientes. sintomas
clínicos leves

2. 13-Talassemias. Esses são defeitos nos quais a síntese das cadeias


de u -globina está diminuída ou ausente. Uma vez que o genoma
de cada indivíduo contém quatro cópias do gene de u -globina (dois Traço de a-talassemia
em cada cromossoma 16), existem muitos níveis de deficiência de (forma heterozigota)
cadeias u (Figura 3.24). Se um dos quatro genes é defeituoso, o
indivíduo é chamado de portador silencioso da a-talassemia, pois
não apresenta qualquer das manifestações físicas da doença. Se
dois genes da cx-globina são defeituosos, o indivíduo é denominado
como possuidor do traço de <X-talassemia. Se três genes da cadeia
Doença da Hidropisia fetal
ex estão defeituosos, o indivíduo tem a doença da hemoglobina H hemoglobina H (geralmente fatal
{HbH) , uma anem ia hemolítica leve a moderadamente grave. (Nota: (clinicamente grave) ao nascimento)
A síntese das cadeias de globinas y e 13 não-afetadas co ntinua
resultando no acúmulo do tetrâmero y no recém-nascido [y4 , Hb de
Bart] ou de tetrâmeros 13 [134 , HbH]. Apesar desses tetrâmeros serem m aP
~:A
~~ . ~~
relativamente solúveis, as subunidades não apresentam interação a a 3 ~~
heme-heme. Suas cu rvas de dissociação do oxigênio são quase HbH
sempre hiperbólicas, indicando que esses tetrâmeros têm afinidades Pplll3 ~
yy
muito elevadas pelo oxigênio. Isso os torna essencialmente inúteis y p p~ rfp
como transportadores de oxigênio para os tec idos.) Se todos os
n
yYÕÕ ~~ Hb de Bart Precipitado
quatro genes de a -globina são defeituosos, ocorre m hidropisia fetal de cadei as~
e morte do feto, pois as cadeias a são necessárias para a síntese
da HbF.
Figura 3.24
A. Deleções do gene de a.-globina
nas u-talassemias. B. Tetrâmeros
de hemoglobina, formados nas
a-talassem ias.
40 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

V. RESUMO DO CAPÍTULO

A hemoglobina A, a principal hemoglobina de adultos, é composta de qua-


tro cadeias polipeptídicas (duas cadeias a e duas ~. a2 ~2 ), mantidas unidas
por interações não-covalentes. As subunidades ocupam posições diferentes
na desoxiemoglobina, se comparadas com a oxiemoglobina. A forma desoxi
da hemoglobina é chamada de "T" ou forma tensa. Ela apresenta restrições
estruturais, que limitam o movimento das cadeias polipeptídicas. A forma T é
a forma de baixa afinidade pelo oxigênio da hemoglobina. A ligação do oxi-
gênio à hemoglobina causa a ruptu ra de algumas ligações iônicas e pontes de
hidrogênio. Isso leva a uma estrutura chamada "R" ou forma relaxada, na qual
as cadeias polipeptídicas possuem maior liberdade de movimento. A forma R
é a forma de alta afinidade pelo oxigênio da hemoglobina. A curva de dis-
sociação da hemoglobina tem forma sigmoidal (em contraste com a da mio-
globina, a qual é hiperbólica), indicando que as subunidades ligam o oxigênio
de forma cooperativa. A ligação cooperativa do oxigênio pelas quatro subu-
nidades da hemoglobina significa que a ligação de uma molécula de oxigênio
a um dos grupos heme aumenta a afinidade pelo oxigênio dos grupos heme

Hemo globina

Estrutura da hemoglobina
I Ligação ao 0 2 I Efeitos alostéricos
I
I Efeitos do
monóxido de carbono
I 1
extste como na
composta ele

Desoxiemoglobina
(formaT)
• Oxiemoglobina
(forma R)
Forma desoxi
(desoxiemoglobina,
forma T)
Diferentes posições r
caracterizada por liga leva à
I
prefendalmente
caractertzaela por caractenZada por t
t f lnt eração
baixa afinidade pelo 0 2 alta afinidade pelo 0 2 Heme-Heme Efetores alostéricos

Estrutura Maior liberdade ion hidrogénio (H' )


leva a
rígida de m ovimentos 2,3-Bisfosfoglicerato caracterizada por

I
O primeiro 0 2 liga leva à
com baixa afinidade
Quatro subunidades
I leva à

..
compostas por leva ao

Dois t ipos leva ao

compostos por

Deslocamento da
leva a curva de saturação do leva à
lsubun:dades a j J Subunidades flJ 0 2 para a direita
I
compostas ele compostas ele Próximos três 0 2
t t ligam-se com aumento Curva hiperbólica de
crescente de afinidade saturação do 0 2
I
leva à
compostos por
t
Curva sigmoidal
de ligação ao 0 2

Figura 3.25
Mapa de conceitos-chave para a estrutura e a função da hemoglobina.
Bioqu ímica Ilustrada 41

remanescentes na mesma molécula de he moglobina. A habilidade de ligar


revers ivelmente o oxigênio da hemoglobina é afetada pela p02 (por meio de
interações heme-heme), pelo pH do meio, pela pC02 e pela disponibilidade de
2,3-bisfosfoglicerato. Por exemplo, a liberação do 0 2 pela Hb é aumentada
quando o pH diminui ou quando a pC0 2 aumenta (efeito Bohr), como acon-
tece em um músculo em exercício, e a curva de dissociação do oxigênio é
deslocada para a direita. Para co ntrabalançar os efeitos de hipóxia ou anemia
crônicas, a concentração de 2,3-BPG nos eritrócitos a umenta. O 2,3-BPG
liga-se à Hb e diminui sua afinidade pelo oxigênio, dessa forma também des-
locando a curva de d issociação do oxigênio para a direita. O monóxido de
carbono (CO) liga-se fortemente (porém reversivel mente) ao ferro da hemo-
globina, formando carboxiemoglobina, HbCO. As hemoglobinopatias são
doenças causadas pela produção de moléculas de hemoglobina estrutural-
mente anormais, pela síntese de quantidade insuficiente de subunidades de
hemoglobina normal ou, raramente, por ambas. A anemia falciforme (doença
HbS) , a doença da hemoglobina C {doença da HbC) e as síndromes de
talassemias são hemoglobinopatias representativas, que podem a presentar
conseqüências clínicas graves.

Hemoglobinopatias

+ t t
Síntese de hemoglobinas
estruturalm e nte ano rmais
J I Síntese de quantidades
ins uficientes de hemogl obina normal
J
[ Outras
l
por exemplo
t
por exemplo
t
por exemplo
+ porex~mplo I
por exemplo
I
por exemplo
[ HbS
causa(apor
I [ HbC
'
causa(apor
I [ Hb ,SC
causa(apor
I
[
t
a -talassemias I[
t
13-talassemias
I
I I
Mutação pontual Mutação pontual em Diferentes mutações caustdas por causatas por
em ambos os genes que ambos os genes q ue pontuai s em cada gene
codificam a cadeia J3 cod ificam a cadei a 13 que codifica a cadeia 13

compdsta por
I
composta por compdsta por
s íntese diminuída
das cadeias a
li síntese diminuída
das cadeias J3
1

~Lys
~ levando à levando à
[ J3s GI;-Val I[ 13s Giu ) 13s Giu- Val
[
t
Ane mia I[
t
Ane m ia )
levando à levando à 13s Giu - Lys 1 '
levando ao ' ao
levando
+ + levando à
I Solubilidade reduzida
na forma desoxi
I
Anemia
hemolítica
I
+
[ Freqüentemente assintomática )
t
Acúmulo de y 4 (Hb de
t
Acúmulo de 'Y4 {Hb
Bart) e de 134 (Hb H) e de Bart) e precipatação
episÓdios precipatação de de cadei as a
levaAdoà ocasionais de cadeias 13
t +
[ Formação de polímeros
I
I So lubilidade reduzida
na forma desoxi
I [ Metemogl obinemia )
levaJdoà
levando à caracterizada por
Oclusão vascular t t
[ Formação de polímeros ) [ Fe++- Fe+++ )
levahdo à levando à levando à
t f t
[ Dor (crises)
I [ Oclusão vascular ) [Incapacidade de ligar 0 2 )
' levando à
levando à
:t t
[ Dor (crises)
I [ Cianose chocolate
I

Figura 3.26
Mapa de conceitos-chave para hemoglobinopatias.
42 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

3.1 Qual das afirmações a segui r, sobre hemoglobinas, está


correta?
=
Resposta correta A. Uma vez que o 2,3-BPG reduz a afini-
dade da hemoglobina pelo oxigênio, a interação mais fraca
A. O sangue fetal apresenta maior afinidade pelo oxigênio entre o 2,3-BPG e a HbF resulta na maior afinidade da HbF
do que o sangue de adulto, pois a HbF tem uma afini- pelo oxigénio, em relação à HbA. Em contraste, se o 2,3-BPG
dade diminuída pelo 2,3-BPG. for removido de ambas, HbA e HbF, elas terão uma afinidade
B. A HbF purificada (livre de 2,3-BPG) apresenta maior similar pelo oxigênio. A HbF consiste de a,y 2 • A HbA1c é uma
afinidade pelo oxigênio do que a HbA purificada. forma glicosilada da HbA, formada não-enzimaticamente nos
eritrócitos. A HbA2 é um componente menor da hemoglobina
C. A composição da HbF é ~Õ2 .
normal do adulto, aparecendo inicialmente por volta de 12
D. A HbA,c difere da HbA por uma única substituição de
semanas após o nascimento.
aminoácido, determinada geneticamente.
E. A HbA2 aparece precocemente na vida fetal.

3.2 Qual das seguintes afirmações a seguir, sobre a capa-


cidade da acidose em induzir uma crise na doença falei- Resposta correta = A. A HbS é significativamente menos
solúvel na forma desoxigenada, comparada à oxi-HbS. Uma
forme, está correta?
diminuição do pH (acidose) desloca a curva de dissociação do
A. A acidose diminui a solubilidade da HbS. oxigénio para a direita, indicando menor afinidade pelo oxigênio.
B. A acidose aumenta a afinidade da hemoglobina pelo Isso favorece a formação da hemoglobina na forma desoxi, ou
oxigênio. tensa, podendo desencadear uma crise falciforme. A ligação do
C. A acidose favorece a conversão da hemoglobina da 2,3-BPG é aumentada, pois ele liga-se apenas à form a desoxi
forma tensa para a forma relaxada. das hemoglobinas.
D. A acidose desloca a curva de dissociação do oxigênio
para a esquerda.
E. A acidose diminui a capacidade do 2,3-BPG de ligar-
se à hemoglobina.

3.3 Qual das afirmações a seguir, a respeito da ligação do


oxigênio à hemoglobina, está correta?
=
Resposta correta C. A ligação do oxigénio a um dos grupos
heme aumenta a afinidade pelo oxigênio dos grupos heme
A. O efeito Bohr resulta em uma menor afinidade para o remanescentes na mesma molécula. O dióxido de carbono
oxigênio em valores altos de pH. diminui a afinidade pelo oxigénio, porque diminui o pH; também
B. O dióxido de carbono aumenta a afinidade da hemo- a ligação com o dióxido de carbono estabiliza a forma tensa ou
globina pelo oxigênio, por ligar-se aos grupos amino- desoxi. A hemoglobina liga uma molécula de 2,3-BPG. A deso-
terminais da cadeia polipeptídica. xiemoglobina apresenta maior afinidade por prótons e, assim
sendo, é um ácido mais fraco.
C. A afinidade da hemoglobina pelo oxigênio aumenta à
medida que a porcentagem de saturação aumenta.
D. O tetrâmero de hemoglobina liga 4 moléculas de
2,3-BPG.
E. A oxiemoglobina e a desoxiemoglobina apresentam a
mesma afinidade por prótons (W).

3.4. Um homem com 67 anos se apresentou no setor de


Resposta correta = C. A oxidação do componente heme da
emergência com um histórico de uma semana de angina e
hemoglobina para o estado férrico (Fe:>.) forma a metemoglo-
respiração curta. Ele reclamou que sua face e extremida-
bina. Isso pode ser causado pela ação de certas drogas, como
des apresentavam uma "coloração azulada". Sua história os nitratos. As metemoglobinemias são caracterizadas por uma
médica inclui angina crônica estável, tratada com dinitrato cianose chocolate (uma coloração marrom-azulada da pele
de isossorbida e nitroglicerina. O sangue retirado para e das membranas) e sangue de coloração chocolate, como
análise apresentou uma coloração chocolate. Qual dos resultado da coloração escura da metemoglobina. Os sintomas
diagnósticos a seguir seria o mais provável? estão relacionados com hipóxia tecidual e incluem ansiedade,
dor de cabeça, dispnéia e, raramente, podem ocorrer coma e
A. Anemia falciforme
morte.
B. Carboxiemoglobinemia
C. Metemoglobinemia
D. ~-Talassemia
E. Doença da hemoglobina SC
Proteínas
Fibrosas

I. VISÃO GERAL

O colágeno e a elastina são exemplos de proteínas fibrosas bem caracteriza-


das, que apresentam função estrutural no organismo. Por exemplo, o colágeno e
a elastina são componentes da pele, do tecido conectivo, da parede dos vasos
sangüíneos e da córnea e da esclera do olho. Cada proteína fibrosa apresenta
propriedades mecânicas especiais, resultado de sua estrutura única, a qual é
obtida pela combinação de aminoácidos específicos em elementos regulares de
estrutura secundária. Isso está em contraste com as proteínas globulares, cuja
forma é o resultado de interações complexas entre elementos estruturais secun-
dários, terciários e, às vezes, quaternários.

11. COLÁGENO

O colágeno é a proteína mais abundante no corpo humano. Uma típica molé-


cula de colágeno é longa, com uma estrutura ríg ida, na qual três cadeias poli-
peptídicas (referidas como "cadeias a") estão torcidas uma em volta da outra,
de forma semelhante a uma corda de tripla hélice (Figura 4.1). Apesar dessas
moléculas serem encontradas em todo o corpo, seus tipos e sua organiza-
ção são ditados pelo papel estrutural que o colágeno desempenha em cada
órgão em particular. Em alguns tecidos, o colágeno pode estar disperso como
um gel que dá suporte à estrutura, como na matriz extracelular ou no humor
vítreo. Em outros tecidos, o colágeno pode estar torcido firmemente em fibras
paralelas,. o que confere grande resistência, como nos tendões. Na córnea, o
colágeno está empilhado de forma a transmiti r a luz com o mínimo de disper- Figura 4.1
são. O colágeno dos ossos ocorre como fibras arranjadas em ângulo tal, umas Tripla hélice do colágeno.
em relação às outras, que lhe permite apresentar alta resistência mecânica
em qualquer direção.

A. Tipos de colágeno
A superfamília das proteínas de colágeno inclui mais de 20 tipos de colá-
geno, assim como outras proteínas que apresentam domínios semelhantes
ao colágeno. As três cadeias polipeptídicas a são mantidas unidas por meio
de pontes de hidrogênio entre as cadeias. Variações na seqüência de ami-
noácidos das cadeias a resultam em componentes estruturais de tamanho
44 Pamela C . Champe, Richa rd A. Ha rvey, De n ise R. Fe rrier

semelhante (cerca de 1.000 aminoácidos), mas com pro priedades ligei-


TIPO DISTRIBUIÇÃO TECIDUAL ramente diferentes. Essas cadeias a combinam -se para formar os vários
tipos de colágeno encontrados nos tecidos. Por exemplo, o colágeno mais
Fo rmado s por f ibrilas comum, tipo I, contém duas cadeias chamadas a 1 e uma cadeia chamada
Pel e, ossos, tendões,
a 2 (a 12 a 2), enquanto o colág eno do tipo 11 contém três cadeias o:1 (o:13 ) .
I
vasos s angüíneos, córnea Os co lágenos podem ser organizados em três grupos , com base em sua
11 Cartilagem, d isco localização e suas fu nções no organismo (Figura 4.2).
intervertebral, corpo vítreo
III Vasos sang üineos, pele fetal 1. Fibrilas formadoras de colágeno. Colágenos dos tipos I, 11, e II I são
fibrilares e têm estrutura semelhante a uma corda, conforme descrito
anteriormente para uma molécula típica de colágeno. Ao microscópio
Formados por redes
eletrônico, esse polímero linear de fibrilas apresenta padrões de ban-
IV Membrana basal
das característicos, refletindo a organização escalonada regular das
VIl Abaixo do epitélio moléculas individuais do colágeno nas fibrilas (Figura 4.3). As fibras
estratificado escamoso de colágeno do tipo I são encontradas nos elementos estruturais que
apresentam alta resistência à tensão (por exemplo, tendão e córnea),
A s s ociado a f ibrilas enquanto as fibras formadas pelas moléculas de colágeno do tipo 11
estão restritas a estruturas cartilaginosas. As fibrilas derivadas do colá-
IX Cartilagem
gene do tipo III são prevalentes nos tecidos mais elásticos, como as
paredes vasculares.
XII Tendões, ligamentos,
alguns out ros tecidos
2. Colágenos formadores de redes. Os colágenos dos tipos IV e VIl
formam uma malha tridimensional, ao invés de fibrilas distintas (Figura
Figura 4.2 4.4). Por exemplo, as moléculas do tipo IV se associam em uma lâmina
Tipos mais abundantes de colágeno. ou malha, que constitui a maior parte das membranas basais. (Nota:
Memb ranas basais são estruturas finas, semelhantes a uma lâmina,
que promovem suporte mecânico para células adjacentes e funcionam
como uma barreira de filtração semipermeável para macromo lécu las
em órgãos como o rim e o pulmão.)

3. Colágeno associado a f ibrilas. Os colágenos dos tipos IX e XII ligam-


se à superfície das fibrilas de colágeno, ligando essas fibrilas umas às
outras e a outros componentes da matriz extracelular (veja a Figura 4.2).

/ Molécula de coláteno ~

~
Arranjo escal onado das
moléculas do colageno
promovem a aparência estriada
das f ibrilas negativamente

Fig ura 4.3


As fibrilas de colágeno à direita apresentam um padrão de bandas característico, refletindo a o rganização regularmente
escalonada das moléculas de colágeno dentro da fibrila.
Bioquímica Ilustrada 45

B . Estrutura do colágeno
1. Seqüência de aminoácidos. O colágeno é rico em prolina e glicina,
ambos importantes na formação da tripla hélice. A prolina facilita a
formação da conformação helicoidal em cada uma das cadeias a, por-
que a sua estrutura em anel causa "torções" na cadeia polipeptídica.
A glicin a, o menor aminoácido, é encontrado a cada três posições
na cadeia polipeptídica. Ela se adapta ao espaço restrito onde as três
hélices se aproximam. Os resíduos de glicina são parte da seqüência
repetitiva -Giy-X-Y-, onde X freqüentemente é prolina e Y geralmente
hidroxip rolina ou hidroxilisina (Figura 4.5). Assim, a maior parte da
cadeia a pode ser vista como um politripeptídeo, cuja seqüência pode
ser representada como (-Giy-X- Y- }a33•

2. Estrutura em tripla hélice. Diferentemente da maioria das proteínas


globulares, que estão dobradas em estruturas compactas, o colágeno,
uma proteína fibrosa, possui uma estrutura em tripla hélice alongada, o
que coloca muitas das cadeias laterais dos aminoácidos na superfície
Figura 4.4
da molécula. (Nota: Isso permite a formação de ligações entre os gru-
Micrografia eletrônica de uma rede
pos R dos monômeros de colágeno vizinhos, resultando na sua agre- poligonal formada pela associação de
gação em longas fibras.) monômeros de colágeno do tipo IV.
3. H idroxiprolina e h idroxi lisina. O co lágeno con tém hidroxiprolina
(hyp) e hidroxilisina (hyl), as quais não estão p resentes na maioria das
demais proteínas. Esses resíduos resultam da hidroxilação de alguns
-w
I I I I

dos resíduos de prolina e lisina, após sua incorporação na cadeia poli- Jli':Giy-Leu-Hyp~ly- Pro-Hyp-~ly- Ala- Hyl
1-.. 1- L...- I
I I
peptídica (Figura 4.6). A hidroxilação é, assim, um exemplo de modifi- ' '
cação pós-traducional (veja a pág. 440). A hidroxiprolina é importante
para estabilizar a estrutura em tripla hélice do colágeno, pois ela maxi-
miza a formação de pontes de hidrogênio.
Figura 4.5
4. Glicosilação. O grupo hidroxila dos resíduos de hidro xilisina do colá- Seqüência de aminoácidos de parte
gene pode ser glicosilado enzimaticamente. Mais comumente, a glicose da cade ia a 1 do colágeno. (Nota: Hyp
e a galactose são ligadas seqüencialmente à cadeia polipeptídica antes é hidroxiprolina e Hyl é hid roxilisina.)
da formação da tripla hélice (Figura 4.7).

C. Biossíntese do colágeno
Resíduo de prolina
Os polipeptídeos precursores da molécula do colágeno são formados \
nos fibroblastos (ou nas cé lulas relacionadas osteoblastos dos ossos e
condroblastos da cartilagem), e são secretados na matriz extracelular.
Depois de modificações enzimáticas, os monômeros de colágeno maduro
agregam-se, estabelecendo ligações cruzadas, formando as fibrilas do
0 2 ~o:-Cetoglutarato
colágeno.
Prolil-
hidroxilase .. ' ' ~ '
1. Formação das cadeias pró-a. O colágeno é uma das muitas pro-
teínas que normalmente funcionam no exterior das células. Como a H 20 Succinato + C02
maioria das proteínas produzidas para serem exportadas, os precur- H
sores polipeptídicos das cadeias a , quando recém-sintetizados, con- Cadeia Pró-o: . I
~ HN - C -CO ~
têm uma seqüência especial de aminoácidos em suas extremidades I I
aminote rm inais. Essa seqüência atua co mo um sinal para que o poli- H2C, ,CH2
CH
peptídeo que está sendo sintetizado seja destinado a sair da célula.
Essa seqüência sinal izadora facilita a ligação dos ribossomos ao
retículo endoplasmático rugoso (RER) e direciona a passagem do
I ~H
Resíduo de hidroxiprolina
polipeptídeo para dentro das cisternas do RER. A seqüência sina-
lizadora é rapidamente clivad a no ret ículo endoplasmático, produ-
zindo um precursor do colágeno denominado ca deia pró-a (veja a Figura 4.6
Figura 4.7). Hidroxilação de resíduos de prolina
em cadeias pró-a de colágeno pela
prolil-hidroxilase.
46 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

1:11 O RNAm é traduzido no cito-


1::'111 Resíduos selecionados
1::.1 de prol i na e de lisina
1';::1 sol em pré-pró-polipeptídeo
das cadeias a, que são desloca-
O Genes para as
cadeias pró-a1 e
pró-a 2 são trans-
são hidroxilados. das para o retículo endoplasmático, critos em RNAm.
onde a seqüência-sinal
é removida.

n Resíduos selecionados de
li.l hidroxilisina são glicosila-
dos com glicose (e) e
galactose (O ).
ONA

RNAm
A . Três cadeias pró-a são
1:,11 reunidas .
• Ligações dissulfeto intra-
cadeia e intercadeias são
formadas na extensão
'· C-terminal do pró-peptídeo.

Extensão
C-terminal do
pró-peptídeo

A mol écula de pró-colágeno é


secretada de um vacúolo de Golgi
para a matriz extracelular.

Membrana/
plasmática

r."ll As porções N-terminais e C-ter-


I:JI minais dos pró-peptideos são cli-
vadas por pró-colágeno-peplldases.
Continua na próxima página .•.

Figura 4.7
Formação de uma fibrila de colágeno. (Continua na próxima página)
Bioquímica Ilustrada 47

...Continuação da página anterior

Porção N-terminal Porção C-terminal


do pró-peptídeo do pró-peptídeo
,----~------x·_.

A Reunião das moléculas de ~·


a colágeno em fibrilas, com '
Fibrilas
interligadas l interligações subseqüentes. f!

Figura 4.7
Formação de uma fibrila de colágeno. (Continuação da página anterior)

2. Hidroxilação. As cadeias pró-ex são processadas por diversos pas-


sos enzimáticos dentro do lúmen do RER, enquanto os polipeptídeos
ainda estão sendo sintetizados (veja a Figura 4.7). Os resíduos de
prolina e lisina encontrados na posição Y da seqüência - Giy-X-
Y- podem ser hidroxilados para forma r resíduos de hidroxiprolina e
hidroxilisina. Essas reações de hidroxilação requerem oxigênio mole-
cular e o agente redutor vitamina C (ácido ascórbico, veja a pág.
375), sem o qual as enzimas hidroxilantes, prolil-hidroxilase e lisi/-
hidroxilase, são incapazes de funcionar (veja a Figura 4.6). No caso
da deficiência de ácido ascórbico {e, dessa forma, ausência de
hidroxilação da prolina e da lisina), as fibras do colágeno não podem
estabelecer ligações cruzadas (veja a seguir), diminuindo enorme-
mente a resistência à tensão nas fibras reunidas. Uma doença resul-
tante dessa deficiência é o escorbuto . Pacientes com deficiência
de ácido ascórbico ta mbé m apresentam hematomas nos membros,
como resultado do extravasamento subcutâneo de sangue (fragili-
dade capilar; Figura 4.8).

3. Glicosilação. Alguns resíduos de hidroxilisina são modificados por gli-


cosilação com glicose ou glicosil-galactose (veja a Figura 4.7).

4. Polimerização e secreção. Depois da hidroxilação e da glicosilação,


as cadeias pró-ex formam o pró-colágeno, um precursor do colágeno
que apresenta uma região central de tripla hélice rodeada por exten-
sões não-helicais aminoterminais e carboxiterminais, chamadas de
pró-peptídeos (veja a Figura 4.7). A formação do pró-colágeno inicia
com a formação de pontes dissulfeto intercadeias, entre as extensões
C-terminais das cadeias pró-ex. Isso traz as três cadeias ex para um
a linhamento favorável para a formação da hélice. As moléculas do
pró-colágeno são translocadas para o aparelho de Golgi, onde são
empacotadas em vesículas secretórias. As vesículas fundem-se com a Figura 4.8
membrana celular, levando à liberação de moléculas de pró-colágeno As pernas de um homem de 46 anos
no espaço extracelular. com escorbuto.

5. Clivagem extracelular das moléculas de pró-colágeno. Depois de


serem liberadas, as moléculas de pró-colágeno são clivadas pelas N- e
C-pró-colágeno-peptidases, as quais removem os pró-peptídeos termi-
nais, liberando as moléculas de tripla hélice do colágeno.
48 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

6. Formação das fibrilas de colágeno. Moléculas individuais de colá-


gano se associam espontaneamente para formar fibrilas. Elas formam
um arranjo ordenado, superposto e paralelo com as moléculas de colá-
Resíduo gano adjacentes, formando um arranjo escalonado, de forma que cada
de lis ina
molécula sobrepõe-se à molécula vizinha pelo comprimento de aproxi-
madamente três quartos de molécula (veja a Figura 4.7).

7. Formação de ligações cruzadas. O arranjo fibrilar de moléculas de


colágeno serve como substrato para a lisil-oxidase. Essa enzima extra-
celu lar desamina oxidativamente alguns resíduos lisil e hidroxilisil do
colágeno. Os aldeídos reativos resultantes (ali sina e hidroxialisina)
Cadeia de Cadeia de podem se condensar com outros resíduos lisil ou hidroxilisil das molé-
colágeno colágeno
culas de colágeno vizin has, para formar ligações covalentes cruzadas
~.~ ~~ (Figura 4.9). (Nota: Essa ligação cruzada é essencial para a lcançar a
O=C
I
C=O resistência à tensão, necessária para o funcionamento adequado do
H - Ç-CH2- CH2-CHfCHfNH 2 HC-CH
li 2
-CH2-CH2-C-
I
H tecido conectivo. Portanto, qualquer mutação que interfira com a capa-
HN O NH cidade do colágeno de formar ligações cruzadas entre as fibrilas quase
~ Resíduo Resíduo ~ certamente afetará a estabilidade do colágeno.)

~
de lisina dealisina

D. Degradação do colágeno

oJ t Lo
H-9 -CH2- CH2-CH 2-CH 2-NH-CH 2- CH2"CH2"CH 2- 9- H
Colágenos normais são moléculas altamente estáveis, tendo meias-vidas
que podem chegar a muitos meses. Entretanto, o tecido conectivo é muito
dinâmico e está constantemente sendo remodelado, muitas vezes em
HN NH
resposta ao crescimento ou à lesão do tecido. A quebra das fibrilas do
~ ~ colágeno é dependente da ação proteolítica de colagenases, as quais
fazem parte de uma grande família de metalo-proteinases de matriz. Para
o colágeno do tipo I, o sítio de clivagem é específico, gerando fragmentos
Figura 4.9 de três quartos ou um quarto d e comprimento. Esses fragmentos são
Formação de ligações cruzadas no degradados posteriormente por outras proteinases até seus aminoácidos
colágeno. constituintes.

E. Doenças do colágeno
Defeitos em qualquer um dos muitos passos da síntese das fibras do colá-
gano podem resultar em doenças genéticas envolvendo a incapacidade do
colágeno em formar fibras e, dessa forma, prover os tecidos com a neces-
sária resistência à tensão normalmente promovida pelo colágeno. Mais de
1.000 mutações foram identificadas em 22 genes que codificam 12 tipos de
colágeno. A seguir, são fornecidos alguns exemplos de doenças resultantes
da síntese defeituosa do colágeno.

1. Síndrome de Ehlers-Danlos (EDS). Essa doença é constituída por


um grupo heterogêneo de desordens generalizadas do tecido conec-
tivo, resultantes de erros inatos do metabolismo das moléculas de
fibrilas de colág eno. A EDS pode resultar da deficiência de enzimas
que processam o colágeno (po r exemplo, deficiência de lísil-hidro-
xilase ou deficiência da pró-colágeno-peptidase) ou de mutações
na seqüência de aminoácidos do co lágeno dos tipos I, II I ou V. As
mutações clinicamente mais importantes são encontradas nos genes
para o colágeno do tipo III. O colágeno contendo cadeias mutantes
não é secretado, e é degradado ou acumulado em grande quantidade
nos compartimentos intracelulares. Uma vez que o colágeno do tipo III
é um importante componente das artérias, podem ocorrer problemas
vasculares letais. (Nota: Embora o colágeno do tipo III seja apenas um
componente menor das fibrilas do colágeno da pele, por razões des-
conhecidas os pacientes com EDS também apresentam defeitos nas
Figura 4.1 0
fibrilas de colágeno do tipo I. Isso resulta em pele elástica e articula-
Pele elástica na síndrome de Ehlers-
ções frouxas [Figura 4.1 0].)
Danlos.
Bioquímica Ilustrada 49

2. Osteogênese imperfeita (osteogenesis imperfecta, 01). Essa doença,


conhecida como síndrome dos ossos frágeis , é também constituída
por um grupo heterogêneo de distúrbios hered itários, caracterizados
por ossos que facilmente "vergam" e fraturam (Figura 4.11 ). Cicatrização
demorada e uma coluna retorcida, que dá um aspecto de "corcunda",
são características comuns da doença. A 01 do tipo I é chamada de
osteogênese imperfeita tardia. Essa doença surge no início da infân-
cia, com fraturas secundárias a traumas menores, e pode-se suspeitar
de sua ocorrência se no ultra-som pré-natal forem detectados arcos ou
fraturas nos ossos longos. A 01 do tipo 11 , chamada de osteo gênese
imperfeita congênita, é mais grave, e os pacientes morre m de hipo-
plasia pulmonar ainda no útero ou no período neonatal. A maioria dos
Figura 4.11
pacientes com 01 grave apresenta mutações nos genes das cadeias de
Forma letal de osteogênese
pró-colágeno do tipo I, pró-1-a ou pró-2-a. As mutações mais comuns
imperfeita na qual as fraturas
causam a substituição de resíduos de glicina, que aparecem a cada aparecem intra-útero, revelada por
três aminoácidos na tripla hélice, por um aminoácido com cadeia lateral esta radiografia de um feto.
volumosa. As pró-cadeias a estruturalmente anormais podem impedir a
organização da proteína na conformação em tripla hélice.

III. ELASTINA
91;i H
-vvv-C-C-N -vvv-
Em contraste com o colágeno, o qual forma fibras que apresentam alta resistên- CH2
cia à tensão, as da elastina é uma proteína do tecido conectivo com proprie- CH2
I

dades semelhantes às da borracha. Fibras elásticas compostas de microfibrilas o~c cCH 2


c=o
de elastina e de glicoproteínas são encontradas nos pulmões, na parede de H-C-CH -CH - C 9 ' C -CH -CH -C-H
I 2 2 I 11 2 2 I

grandes artérias e nos ligamentos elásticos. Elas podem ser distend idas em HN c~ C NH
várias vezes o seu comprimento normal , mas retorn am ao formato original ~ ®t;J/ ~
quando a força de tensão é relaxada. yH2
yH2 Ligação cruzada
de desmosina
yH2
A. Estrutura da elastina yH2
-vvv-C-C - N -vvv-
A elastina é um polímero protéico insolúvel, sintetizado a partir de um pre-
0 HH
cursor, a tropoelastina, a qual é um polipeptídeo linear composto por cerca
de 700 aminoácidos, a maioria deles pequenos e apoiares (por exemplo,
glicina, alanina e valina; veja a pág. 2). A elastina é também rica em prolina
Figura 4.12
e lisina, mas contém muito pouca hidroxiprolina e não contém hidroxilisina.
Ligações cruzadas de desmosina na
A tropoelastina é secretada pela célula no espaço extracelular. Neste, ela
elastina.
interage com determinadas glicoproteínas de microfibrilas, como a fibrilina,
a qual funciona como um suporte sobre o qual a tropoelastina é depositada.
(Nota: Mutações nos genes da fibrilina são responsáveis pela síndrome
de Marfan.) Algumas das cadeias laterais de lisina nos polipeptídeos da
tropoelastina são desaminadas oxidativamente pela lisi/-oxidase, formando
resíduos de alisina. Três cadeias laterais de resíduos de alisina mais uma
cadeia lateral de um resíduo de lisina não-alterado, da mesma cadeia
polipeptídica ou de uma cadeia vizinha, formam uma ligação cruzada deno-
minada desmosina (Figura 4. 12). Isso produz elastina - uma rede seme-
lhante à borracha, amplamente interconectada, que pode ser distendida em
qualquer direção quando pressionada, fornecendo elasticidade ao tecido
conectivo (Figura 4.13).

B. Papel da a 1-antitripsina na degradação da elastina


1. a 1 -antitripsina. O sangue e outros flu idos corporais contêm uma proteína,
a a,-antitripsina (a 1-AT, também comumente chamada de a 1-antiprotei-
nase), que inibe diversas enzimas proteolíticas (também chamadas de
proteases ou proteinases), as quais hidrolisam ou destroem proteínas. Figura 4.13
Fibras de elastina nas conformações
relaxada e estirada.
50 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

(Nota: O inibidor foi denominado originalmente a.,-antitripsina porque inibe


a atividade da tripsina [uma enzima proteolítica sintetizada como tripsino-
A a,-antitripsina normalmente gênio pelo pâncreas, veja a pág. 246].) A a.,-AT compreende mais de 90%
inibe a elastase liberada
durante a fagocitose, por neu- da fração a.1 -globulina do plasma normal. A a.,-AT tem o importante papel
trófilos presentes nos alvéolos fisiológico de inibir a e/astase de neutrófilos - uma potente protease que
dos pulmões.
é liberada no espaço extracelular e degrada a elastina da parede alveolar,
assim como outras proteínas estruturais em vários tecidos (Figura 4.14).
A maioria da a.,-AT encontrada no plasma é sintetizada e secretada pelo
(} ~ Elastase de fígado. O restante é sintetizado em diversos tecidos, incluindo monócitos e
~ neutrófilos macrófagos alveolares, os quais podem ser importantes na prevenção da
lesão tecidual local pela e/astase.

ALVÉOLOS PULMONARES
2. Papel da cx 1-AT nos pulmões. No pulmão normal, os alvéolos são
expostos cronicamente a baixos níveis de elastase de neutrófilos, a
Neutrófilo ~ qual é liberada a partir de neutrófilos ativos ou em degeneração. Essa
atividade proteolítica pode destruir a elastina na parede alveolar se não
for contraposta pela ação inibitória da a.1-AT, o mais importante inibidor
da e/astase dos neutrófilos (veja a Figura 4.14). Uma vez que o tecido
pulmonar não pode se regenerar, o enfisema resulta da destruição do
tecido conectivo da parede alveolar.

3. Enfisema resultante da deficiência de cx 1 -AT. Nos Estados Unidos,


cerca de 2 a 5% dos pacientes com enfisema apresentam predisposi-
ção à doença devido à deficiência hereditária da a. 1-AT. São conhecidas
várias mutações no gene a.,-AT que causam a deficiência dessa prote-
ína, mas uma única mutação na base purina (GAG -7 AAG, resultando
na substituição de uma lisina por glutamato na posição 342 da proteína)
é, clinicamente, a mais encontrada. Um indivíduo deve herdar dois alelos
' ~
Uma deficiência de ~- '--- a. 1-AT anormais para correr o risco de desenvolver enfisema. Em um
«1-antitripsina permite r "'<:::- ........... indivíduo heterozigoto, com um gene normal e um gene defeituoso, os
que a elastase dos e.

neutrófilos destrua o ~ níveis de a.,-AT são suficientes para proteger os alvéolos da lesão. (Nota:
pulmão. ~ Uma metionina específica da a ,-AT é necessária para a ligação do ini-
bidor a suas proteases-alvo. Fumar causa a oxidação e a subseqüente
~ inativação desse resíduo de metionina, diminuindo assim a eficiência do
inibidor em neutralizar a elastase. Fumantes com deficiência de a,-AT,
portanto, apresentam maior taxa de lesão pulmonar e menor taxa de
() (} ~ a 1-Antitripsina
sobrevivência, comparados com indivíduos não-fumantes portadores da

() deficiência.) A deficiência do inibidor de elastase pode ser revertida pela


administração semanal de a, -AT intravenosa. A a.,-AT difunde a partir
/~ Elastina do sangue para o pulmão, onde atinge níveis terapêuticos no fl uido que
rode ia as células epiteliais do pulmão.

ESPAÇO EXTRACELULAR IV. RESUMO DO CAPÍTULO

As moléculas de colágeno contêm grande abundância de prolina, lisina e


Figura 4.1 4 glici na, esta última ocorrendo a cada terceira posição da estrutura primária.
Destruição do tecido alveolar pela O colágeno ta mbém contêm hidroxiprolina, hidroxilisina e hidroxilisina
elastase, liberada dos neutrófilos. glicosilada, formadas por meio de modificações pós-traducionais. As molécu-
las de col ágeno tipicamente formam fibrilas, que contêm uma longa e firme
estrutura tripla helicoidal, na qual três cadeias polipeptídicas do colágeno são
torcidas uma ao redor da outra, como um cordão, formando uma super-hélice
tripla. Outros tipos de colágeno formam redes semelhantes a uma malha. A
elastina é uma proteína do tecido conectivo, com propriedades semelhantes às
da borracha, que ocorre em tecidos como o pulmão. A cx1-antitripsina (cx1-AT),
produzida principalmente pelo fígado, mas também por outros tecidos como
monócitos e macrófagos alveolares, impede a degradação da elastina das pare-
des alveolares. A deficiência de a.1 -AT pode causar enfisema.
Bioquímica Ilustrada 51

Estrutura do colágeno
I
composta por
I Síntese do colágeno

envolve
I Doenças da síntese do colágeno

exemplo~ incluem
t t
Deposição de fibras insolúveis
- { Três cadeias pol ipeptídicas (cadeias a ) J fora da célula, iniciando com
.I moléculas solúveis dentro
caractenzadas por
da célula
t 1--1 Síndrome de Ehlers-Danlos
( Estrutura primária in comum l envrlve
I . As mutações mais importantes clinicamente
I estão no gene para o colágeno do tipo III.
composta por grandes quantidades de • Ocorrem problemas vasculares
potencialmente letais.
Prol i na J • Os pacientes também apresentam defeitos
Reações Reações nas fibrilas de colágeno do tipo I, o que
formam Glicina que ocorrem que ocorrem resulta em pele elástica e articulações frouxas.
dentro da !orada
encontada célula célula

[ A cada terceira posição da


y Osteogênese imperfeita
cadeia polipeptidica • A maioria dos pacientes com a forma grave
contém

_, Hidroxiprolina f-
da doença apresenta mutações no gene para
o colágeno do tipo I.
• As cadeias estruturalmente anormais
-i Hidroxil is ina t-- impedem o dobramento da proteína em uma
Hidroxilisina conformação de tripla hélice.
---+1 glicos i lada f- constituídas de constituídas de

resultantes de
t
[ Modificações
pós-traducionais
j
~ Colágeno fibrilar
Por exemplo:
• Tipo I (encontrado na pele)
'---
[ Elastina
I
caracterizada por
l
• Tipo 11 (encontrado na cartilagem)
t
• Tipo III (encontrado nas artérias)
. Transcrição de genes de
• Um polímero insolúvel de proteína, sintetizado
caracterizado por
. cadeias u do colágeno
a partir de um precursor, a tropoelastina.

l t
..
Tradução em cadeias
polipeptídicas . À medida que é secretada pela célula, a

l
Triplas hélices longas e resls-
tentes , com ligações cruzadas Glicosilação de hidroxilisina tropoelastina interage com microfibrilas
em um arranjo escalonado Formação de pontes glicoprotéicas especificas, como a
dissulfeto na extensão fibrilina, a qual fu nciona como um suporte
~ Colágeno associado a fibrilas
Por exemplo:
. C-terminal do pró-peptideo
Formação de uma tripla hélice
.
sobre o qual a tropoelastina é depositada .

Mutações no gene da fibrilina são responsá-


• Tipo IX (encontrado na cartilagem) veis pela síndrome de Marfan.
• Tipo XII (encontrado em ligamentos)

caracterizado por

l t
Fibrilas ligadas a outros
componentes na matriz
. Hidroxilação de prolina e lisina
[ Doenças da degradação da elastina
I
por exemplo
I
extracelular


J Secreção da molécula de pró-
colágeno a partir do vacúolo de +
Deficiência de a 1-antitripsina
L._ Rede de colágeno
Por exemplo: . Golgi para o espaço extracelular
Clivagem das porções
N-terminais e C-terminais dos
• Nos alvéolos, a elastase liberada por neutrófi-
• Tipo IV (encontrado na los ativados e em degeneração é normal-
membrana basal) pró-peptideos, formando mente inibida pela u 1 -antitripsina.
• Tipo VIl (encontrado sob o
epitélio escamoso) . fibras insolúveis
Autopolimerízação das
. Defeitos genéticos na a 1-antitripsina podem
levar ao enfisema.
moléculas do colágeno em fibras
caracterizada por • A deficiência de inibidor da elastase pode ser
e subseqüente formação de
t ligações cruzadas
revertida por administração intravenosa
semanal de a 1-AT.
[ Polimerizar em lâminas ou malhas l

Figu ra 4.15
Mapa de conceitos-chave para as proteínas fibrosas, colágeno e elastina.
52 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

4 .1 Qual das afirmações a seguir, sob re o principal tipo de


colágeno encontrado na pele ou nos ossos, está correta? Resposta correta = E. As moléculas do pró-colágeno contêm
uma seção central com tripla hélice, com extensões C- e N-ter-
A. Um terço dos aminoácidos do colágeno é constituído minais não-helicoidais. Um terço dos aminoácidos do colágeno
por hidroxiprolina. é constituído por glicina, com quantidades significativas, porém
B. A glicina é encontrada apenas nas extensões C- e N- menores, de hidroxiprolina. O ascorbato é requerido para a
terminais. hidroxilação dos resíduos de prolina e de lisina das cadeias
C. Sua s íntese ocorre na matriz extracelular. pró-a. Os polipeptídeos precursores da molécula do colágeno
D. As fibrilas do colágeno são mantidas unidas un ica- são formados nos fibroblastos (ou nos osteoblastos, no caso
do ossos, e nos condroblatos, no caso das cartilagens) e são
mente por forças não-covalentes.
secretados para a matriz extracelular. As fibrilas do colágeno
E. A molécula do pró-colágeno contém extensões C- e N-
são mantidas unidas por ligações covalentes.
terminais não-helicoidais.

4.2 Uma mulher de 30 anos apresentou diminuição progres-


siva da respiração. Ela negou ser fumante. O histórico Resposta correta = B. A deficiência de o:,-antitripsina é
uma doença genética que pode causar enfisema pulmonar,
familiar revelou que sua irmã sofreu de uma doença pul-
mesmo na ausência de consumo de cigarros. A deficiência
monar não-explicada. Q ual das seguintes etiologias pode-
de o:,-antitripsina permite o aumento da atividade da elas-
ria justificar os sintomas pulmonares da paciente? tase, com destruição da elastina nas paredes alveolares,
A. Deficiência de prolina-hidroxilase. mesmo em não-fumantes. A deficiência de o:,-antitripsina
B. Deficiência de o.,-antitripsina. deve ser suspeitada em pacientes com menos de 45 anos,
C. Deficiência de vitamina C na dieta. que apresentem doença pulmonar obstrutiva crónica e que
não apresentem histórico familiar de bronquite ou do uso de
D. Diminuição da atividade da elastase.
tabaco, ou quando vários membros da família desenvolvem
E. Aumento da atividade da colagenase.
doença pulmonar obstrutiva precocemente.

4.3 Uma criança de 7 meses caiu enquanto engalinhava, e


Resposta correta = B. A criança provavelmente tem osteo-
agora apresenta inchaço em uma das pernas. Com um
gênese imperieita. A maioria dos casos surge a partir de um
mês de idade, a criança teve fraturas múltiplas, com varia-
defeito no gene que codifica o colágeno do tipo I. Os ossos,
dos estados de cicatrização (clavícula direita, úmero d ireito na maioria dos pacientes afetados, são finos, osteoporosos,
e rádio direito). A os 7 meses, a às vezes arqueados, com um córtex fino e uma trabécula defi-
criança teve uma fratura no fémur ciente, e extremamente propensos a fraturas. Existem 4 tipos,
arqueado (veja o raio X a seguir). mas os tipos I e 11 são responsáveis pela maioria dos casos.
Os ossos são finos, com uma fina Esse paciente é afetado pelo tipo I, osteogênese imperieita tar-
trabécula e também finos córtices. dia. A doença se manifesta no início da infância, com fraturas
Um cuidadoso histó rico fa miliar secundárias a pequenos traumas. A doença pode ser prevista
exclu iu tra umas não-ac id e nta is por meio de ultra-som pré-natal, pela detecção de fraturas ou
arqueamento de ossos longos. O tipo 11 , osteogênese imperfeita
(maus tratos) como causa das fra-
congénita, é mais grave, e os pacientes morrem de hipoplasia
turas ósseas. Provave lmente , a
pulmonar ainda in utero ou no período neonatal. Defeito no
criança tem um defeito no(a): colágeno do tipo III é a causa mais comum da síndrome de
A. fibrilina; Ehlers-Danlos, caracterizada por problemas vasculares letais e
B. colágeno tipo I; pele elástica. O colágeno de tipo IV forma redes e não fibrilas.
C. colágeno tipo III;
O. colágeno tipo IV;
E. elastina.
Enzimas

1. Oxldorredutases Catalisam reações de


oxidorredução, como por exemplo:
CH3 - C H- coo- + NAD+ CH3 - C- coo-+ NADH + W
' ~
11
Lactato-
I. VISÃO GERAL OH 2e· desidrogenase O
2H
Lactato Piruvato
Praticamente todas as reações no corpo são mediadas por enzimas, as Catalisam a transferência de grupos
quais são proteínas catalisadoras que aumentam a velocidade das reações, 2. Transferases contendo C-, N- ou P-, como
por exemplo:
sem sofrerem al terações no p rocesso global. Dentre as muitas reações
~ H20
biológicas que são energeticamente possíve is, as enzimas seletivamente tH 2 -~H- coo-+~ t, y H2- coo- + JH~
canalizam reatantes (chamados substratos) para rotas úteis . As enzimas ' H ' + Serina hidroximetil
NH3+ CH2
O NH3 ·transferase
direcionam, assim, todos os eventos metabólicos. Este capítulo examina a Serina Glicina
natureza dessas moléculas catalíticas e seu mecanismo de ação. Catalisam a quebra de ligações pela
3. Hidrolases
adição de água, como por exemplo:

11. NOMENCLATURA

Cada enzima recebe dois nomes. O primeiro é um nome curto, o nome


--
Urease

Catalisam a quebra de ligações C-C,


recomendado, conveniente para uso corriqueiro. O segundo é mais com- C-Se certas lígações C-N, como
4. Liases
pleto, o nome sistemático, o qual é utilizado quando uma enzima precisa por exemplo:
ser identificada sem ambigüidades.

A. Nome recomendado
CH3 - c tcoo-
o"
Piruvato
--
Piruvato-
descarboxilase
CH3- sH + co 2
o
Acetaldeído

Os nomes de enzimas mais comumente usados têm o sufixo " -ase" Catalisam racemização de isômeros
5. lsomerases ópticos ou geométricos, como
adicionado ao nome do substrato da reação (por exemplo, glicosidase, por exemplo:
urease, sacarase) ou à descrição da ação realizada (por exemplo, /ac-
tato-desidrogenase e adenilato-cic/ase) . (Nota: Algumas enzimas man- ~yH3
-oOC·CH -C-CoA2
têm seu nome trivial original, o qual não tem qualquer associação com a 6
reação enzimática, por exemplo, tripsina e pepsina.) Metilmalonii-CoA
Catalisam a formação de ligações
entre carbono e O, S, N, acoplada à
6. Ligases hidrólise de fosfatos de alta energia,
B. Nom e sistemático
~omopore~emplo:
A União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB, de
lnternational Union of Biochemistry and Molecular Biology) desenvolveu CH3 - ?, - c oo- + co 2 f?ruv?i/o. OOC - CH2 .. ?, - coo-
um sistema de nomenclatura no qual as enzimas são divididas em seis O carboxilase O
I \
classes principais (Figura 5.1 ), cada uma com numerosos subgrupos. O Piruvato ATP ADP + P; Oxalacetato
sufixo - ase é adic ionado para completar a descrição da reação química
catalisada, como por exemplo o-glicera/deído-3-fosfatase:NAD-oxidorre-
Figura 5 .1
dutase. Os nomes da IUBMB são exatos e informativos, mas às vezes
Exemplos das seis principais classes da
são muito incômodos para o uso geral.
classificação internacional das enzimas (THF é
o tetraidrofolato).
54 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

III. PROPRIEDADES DAS ENZIMAS

As enzimas são catalisadores protéicos que aumentam a velocidade de uma


reação química e não são consumidos durante a reação que catalisam. (Nota:
Alguns tipos de RNA podem atuar como enzimas, geralmente catalisando a
quebra e a síntese de ligações fosfo-diéster. Os RNAs com atividade catalítica
são chamados ribozimas [veja a pág. 436] e são encontrados com muito menos
freqüência que as proteínas catalisadoras.)

A. Sítios ativos
As molécu las de enzimas contêm uma região específica formando uma
fenda ou bolso, que é chamada sítio ativo. O sítio ativo contém cadeias
laterais de aminoácidos, as quais criam uma superfície tridimensional com-
Figura 5.2 plementar ao substrato (Figura 5.2). O sítio ativo liga o substrato, formando
Representação esquemática de uma
um complexo enzima-substrato (ES). O complexo ES é convertido em
enzima com um sítio ativo, ligando-se
enzima-produto (EP), o qual subseqüentemente se dissocia em enzima e
à molécula de substrato.
produto.

B. Efic iência catalítica


A reações catalisadas por enzimas são, em sua maioria, altamente eficien-
MITOCÔNDRIA tes, ocorrendo de 10 3 a 10 8 vezes mais rapidamente do que as reações
e Ciclo do ácido c ítrico não-catalisadas. Tipicamente , cada molécula de enzima é capaz de trans-
e Oxidação de ácidos graxos formar de 100 a 1.000 moléculas de substrato em produto por segundo. O
e Descarbox ilação do piruvato número de moléculas de substrato convertidas em moléculas de produto
por molécula de enzima por segundo é chamado de número de renova-
CITOSOL ção (turnover).
e Glicólise
e Ciclo das hexoses
C. Especificidade

As enzimas são altamente específicas, interagindo com um ou alguns pou-


cos substratos e catalisando apenas um tipo de reação química.

D. Cc-fatores

Algumas enzimas se associam com um co-fator não-protéico, o qual é


necessário para a atividade enzimática. Os co-fatores comumente encon-
2
trados incluem íons metálicos, tais como Z n2• ou Fe • , e moléculas orgâ-
nicas, conhecidas como coenzimas, que freqüentemente são derivadas
de vitaminas. Por exemplo, a coenzima NAD+ contém niacina, o FAD con-
tém riboflavina e a coenzi ma A contém ácido pantotênico. (Veja as páginas
371-379 para o papel das vitaminas como precursoras de coenzimas.) O
e Síntese de conjunto da enzima com o seu co-fator é chamado holoenzima. A apoen-
DNAe RNA
zima refere-se à porção protéica da holoenzima. Na ausência do co-fator
apropriado, a apoenzima geralmente não apresenta atividade biológica.
LISOSSOMA
Um grupo prostético é uma coenzima firmemente ligada à enzima, que
e Degradação de desta não se dissocia (por exemplo, a biotina ligada a carboxilases, veja a
macro mol éculas complexas
pág. 379).

E. Regulação
Figura 5.3
A atividade enzimática pode ser regulada, isto é, as enzimas podem ser
Localização intracelular de algumas
vias bioquímicas importantes. ativadas ou inibidas, de modo que a velocidade de formação do produto
responda às necessidades da célula.
Bioquímica Ilustrada 55

F. Localização dentro da célula


Muitas enzimas estão localizadas em organelas específicas dentro da
célula (Figura 5.3). Esta compartimentalização serve para isolar o subs-
trato ou o produto da reação de outras reações competitivas. Isso garante o
meio favorável para a reação e organiza as milhares de enzimas presentes
na célula em vias definidas.

IV. COMO FUNCIONAM AS ENZIMAS

O mecanismo da ação enzimática pode ser encarado de duas perspectivas


diferentes. A primeira aborda a catálise em termos de alterações de energia
que ocorrem durante a reação, ou seja, as enzimas fornecem uma rota de
reação alternativa, energicamente favorável, diferente da reação não-cata-
lisada. A segunda perspectiva descreve como o sítio ativo facilita quimica-
mente a catálise.

A. Alterações de energia que ocorrem durante a reação


Praticamente todas as reações têm uma barreira de energia separando
os reatantes dos produtos. Essa barreira, denominada energia livre de
ativação, é a diferença entre a energia dos reatantes e aquela de um inter-
mediário de alta energia, que ocorre durante a formação do produto. Por
exemplo, a Figura 5.4 mostra as alterações na energia durante a conversão
de uma molécula do reatante A no produto B, passando pelo estado de
transição (intermediário de alta energia), T*:

1. Energia livre de ativação. O pico de energia na Figura 5.4 é a dife- Não exi ste uma diferença na energia livre
da reação global (a energia dos produtos
rença na energia livre entre os reatantes e T*, onde um intermediário m enos a energia dos reatantes) entre
rico em energia é formado durante a conversão do reatante em pro- reações catal isadas e não-catalisadas.

duto. Devido à grande energia de ativação, as velocidades das reações


químicas não-catalisadas são freqüentemente lentas.

2. Velocidade da reação. Para as moléculas reagirem, devem conter


energia suficiente para superar a barreira de energia do estado de tran-
sição. Na ausência de uma enzima, somente uma pequena proporção
da população de moléculas pode possuir energia suficiente para atingir
o estado de transição entre reatante e produto. A velocidade da reação
é determinada pelo número dessas moléculas "energizadas". Em geral,
quanto menor a energia livre de ativação, mais moléculas têm energia
suficiente para superar o estado de transição e, assim, mais rápida é a
velocidade da reação.

3. Rota alternativa de reação. Uma enzima permite que uma reação


ocorra rapidamente nas condições normais na célula, oferecendo uma
rota de reação alternativa, com uma menor energia livre de ativação
(veja a Figura 5.4). A enzima não altera a energia livre dos reatantes ou
dos produtos e, assim sendo, não altera o equilíbrio da reação. Estado final
(produtos)

B. Química do s ítio ativo Progresso da reação ---~

O sítio ativo não é um receptáculo passivo para a ligação do substrato, mas


sim uma máquina molecular complexa, empregando uma diversidade de
mecanismos químicos para facilitar a conversão do substrato em produto. Figura 5.4
Diversos fatores são responsáveis pela eficiência catalítica das enzimas, Efeito de uma enzima sobre a
incluindo os fatores considerados a seguir. energia de ativação de uma reação.
56 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrie r

1. Estabilização do estado de transição. O sítio ativo freqüentemente


atua como um molde molecular flexível , que se liga ao substrato em
uma geometri a que lembra estrutura lmente o estado de transição
ativado da molécula (veja T* na parte superior da curva na Figura
5.4). Estabilizando o substrato em seu estado de transição, a enzima
aumenta enormemente a concentração do intermediário reativo que
pode ser convertido no produto e, assim, acelera a reação.

2. Outros mecanismos. O sítio ativo pode fornecer grupos catalíticos


que aumentam a probabilidade de se formar o estado de transição. Em
algumas enzimas, esses grupos podem participar em uma catálise
ácido-básica geral, na qual os resíduos de aminoácidos doam ou
aceitam prótons. Em outras enzimas, a catálise pode envolver a forma-
ção transitória de um complexo covalente enzima-substrato.

3. Visualização do estado de transição. A conversão do substrato em


produto, catalisada por enzimas, pod e ser visualizada como sendo
semelhante à remoção de um suéter de um bebê não-cooperativo
(Figura 5.5). O processo possui uma elevada energia de ativação,
pois a única estratégia razoável para remover a roupa (exceto rasgá-
la) reque r que a agitação aleatória da criança determine uma posição
em que ambos os braços fiquem completamente estendidos acima da
cabeça - uma posição improvável. Entretanto, podemos visualizar uma
mãe agindo como uma enzima, inicialmente entrando em contato com
o bebê (formando o complexo ES) e, a seguir, orientando os braços
do bebê para uma posição vertical e estendida, análoga ao estado de
transição ES. Essa postura (conformação) facilita a remoção do suéter,
resultando no bebê sem o blusão, que aqui representa o produto. (Nota:
O substrato ligado à enzima [ES] está em um nível energético ligeira-
mente menor que o substrato não-ligado [S], o que explica a pequena
"queda" na curva em ES.)

Figura 5.5
Representação esquemática de mudanças energéticas que acompanham a formação do complexo enzima-substrato e a
subseqüente formação de um complexo do estado de transição.
Bioquímica Ilustrada 57

V. FATORES QUE AFETAM A VELOCIDADE DA REAÇÃO


Enzimas que seguem a cinética de
Michaelis·Menten apresentam
As enzimas podem ser isoladas das c élulas e ter suas propriedades estudadas curvas hiperbólicas.

em tubos de ensaio (isto é, in vitro). As diferentes enzimas mostram diferentes


respostas às alterações de concentração de substrato, temperatura e pH. Esta
seção descreve fatores que influenciam a velocidade da reação enzimática. As
respostas enzimáticas a esses fatores fornecem informações valiosas sobre
como funcionam as enzimas nas células vivas.

A . Concentração do substrato
1. Velocidade máxima. A velocidade de uma reação (v) é o numero de
moléculas de substrato convertidas em produto por unidade de tempo;
geralmente, a velocidade é expressa como 11mol de produto for-
mado por minuto. A velocidade de uma reação catalisada por enzima
aumenta conforme a concentração do substrato, até uma velocidade
máxima (V maxl ser atingida (Figura 5.6). A obtenção de um platô na
Figura 5.6
velocidade de reação em altas concentrações de substrato reflete a Efeito da concentração do substrato
saturação pelo substrato de todos os sítios de ligação disponíveis nas sobre a velocidade da reação.
moléculas enzimáticas presentes.

2. Formato hiperbólico da curva de cinética enzimática. A maioria das


enzimas mostra uma cinética de Michaelis-Menten (veja a pág. 58),
na qual a curva de velocidade de reação inicial, V 0 , contra a concen-
tração do substrato, [S], possui uma forma hiperbólica (semelhante
à curva de dissociação do oxigênio da mioglobina; veja a pág. 29). Em
contraste, as enzimas alostéricas freqüentemente mostram uma curva
sigmóide (veja a pág. 62) , semelhante na forma à curva de dissociação
do oxigênio da hemoglobina (veja a pág. 29).

B. Temperatura
1. Aumento da velocidade com a temperatura. A velocidade de reação
aumenta com a temperatura, até um pico de velocidade ser atingido
(Figura 5 .7). Esse aumento é devido ao aumento do nú mero de molé-
culas com energia suficiente para atravessar a barreira de energia e
formar os produtos da reação.

2. Diminuição da velocidade com a temperatura. Uma elevação maior


da temperatura resulta em redução na velocidade de reação, como
resultado da desnaturação da enzima, induzida pela temperatura (veja
a Figura 5.7).
lnativação térmica
da enzima
C. pH
1. Efeito do pH sobre a ionização do sítio ativo. A concentração de H+
afeta a velocidade de reação de várias maneiras. Primeiro, o processo
catalítico geralmente requer que a enzima e o substrato tenham deter-
minados grupos químicos em um estado ionizado ou não-ioni zado, de
modo a interagirem. Por exemplo, a atividade catalítica pode requerer
que um grupo amino da enzima esteja na forma protonada (- NH/ ). Em
pH alcalino, esse grupo não está protonado e, desse modo, a veloci-
dade da reação diminui.
20 40 60 80
2. Efeito do pH sobre a desnaturação da enzima. Valores extremos de Temperatura (OC)
pH também podem levar à desnaturação da enzima, pois a estrutura da
molécula protéica cataliticamente ativa depende do caráter iônico das
cadeias laterais dos aminoácidos. Figura 5.7
Efeito da temperatura sobre uma
reação catalisada por enzima.
58 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

3. O pH ótimo varia de acordo com a enzima. O pH no qual a atividade


máxima da enzima é atingida difere para cada enzima e, geralmente,
reflete a [H+] na qual a enzima funciona no organismo. Por exemplo,
a pepsina, uma enzima digestiva do estômago, apresenta atividade
:E
,.,<>-o máxima em pH 2, enquanto outras enzimas, destinadas a funcionar em
..e Trip sina Fosfatase
pH neutro, são desnaturadas em meio com essa acidez (Figura 5.8) .
"C
.. alcalina

11>
"C
"C
'(j
. VI. EQUAÇÃO DE MICHAELIS-MENTEN
o
~ A. Modelo de reação
Michaelis e Menten propuseram um modelo simples, que explica a maioria
3 5 7 9 11
das características das reações catalisadas por enzimas. Nesse modelo, a
pH
enzima combina-se reversivelmente com o substrato, formando um com-
plexo ES que, subseqüentemente, degrada-se em produto, regenerando a
Figura 5.8 enzima livre. O modelo, envolvendo uma molécula de substrato, é represen-
Efeito do pH sobre reações tado a seguir:
catalisadas por enzimas.
k1 k2
E + S ES ---+ E + P
k-1

onde S é o substrato
E é a enzima
ES é o complexo enzima-substrato
k,, k _, e k2 são as constantes de velocidade

B. Equação de Michaelis-Menten

Vmax A equação d e Michaelis-Menten descreve como a velocidade da reação


l varia com a concentração do substrato:
,.,o
<>-
e"'
"C"'11>
"C
"C
'õ"'
o
~ onde v0 =velocidade inicial da reação
[Substrato]
vmax = velocidade máxima
Km= constante de Michaelis = (k .1 + k2 )/k,
O maior Km da enzima 2 [S] = concentração de substrato
reflete uma baixa afinida-
de da enzima pelo Ao derivar-se a equação de velocidade de Michaelis-Menten, são feitas as
substrato. considerações a seguir.

O menor Km para a 1. Concentrações relativas de E e S. A concentração de substrato ([S]) é


enzima 1 reflete uma alta muito maior do que a concentração da enzima ([E]), de modo que a por-
afinidade da enzima
centagem de substrato ligado à enzima em qualquer te mpo é pequena.
pelo substrato.

2. Hipótese do estado de equilíbrio. A [ES] não varia com o tempo


(hipótese do estado de equilíbrio), isto é, a velocidade de formação
Figura 5.9 de ES é igual àquela da degradação de ES (para E + S e para E + P).
Efeito da concentração do substrato Em geral, um intermediário em uma série de reações é dito estar em
sobre a velocidade de reação para estado de equilíbrio quando sua velocidade de síntese é igual a sua
duas enzimas: velocidade de degradação.
enzima 1 com um Km menor e
enzima 2 com um Kmmaior. 3. Velocidade inicial. Somente as velocidades iniciais da reação (v0 ) são
utilizadas na análise das reações enzimáticas. Isso significa que a velo-
Bioquímica Ilustrada 59

cidade de reação é medida assim que a enzima e o substrato são mis-


turados. Nesse momento, a concentração de produto é muito pequena Em altas concentrações de
e, assim sendo, a velocidade da reação inversa de P para S pode ser substrato ([S]»Km), a
veloci dade da reação é de
ignorada. ordem zero - isto é, é
constante e independente da
concentração de substrato.
C. Conclusões importantes sobre a cinética de Michaelis-Menten
1. Características do Km. Km- a constante de Michaelis - é caracterís-
tico de uma enzima e de determinado substrato seu , e reflete a afini- Vmax
dade da enzima para aquele substrato. O Km é numericamente igual à
concentração do substrato na qual a velocidade da reação é igual a
Y2 Vmax· O Kmnão varia com a concentração da enzima.

a. Km baixo. Um Km numericamente pequeno reflete uma alta afi-


nidade da enzima pelo substrato, pois uma baixa concentração
de substrato é necessária para atingir a metade da saturação da
enzima- isto é, atingir a velocidade que é Y2 Vmax (Figura 5.9).

b. Km alto. Um Kmnumericamente grande (elevado) reflete uma baixa


afinidade da enzima pelo substrato, pois é necessária uma alta
concentração de substrato para atingir a metade da saturação da
enzima.
Em baixas concentrações de
2. Relação entre a velocidade e a concentração da enzima. A velo- substrato ([S] «Km), a
velocidade de reação é de
cidade da reação é diretamente proporcional à concentração da primeira ordem - isto é, é
enzima em qualquer concentração de substrato. Por exemplo, se a proporcional à concentração
de substrato.
concentração da enzima é reduzida pela metade, a velocidade inicial
da reação (v0 ) , assim como a V max• são reduzidas à metade da veloci-
dade original.
Figura 5.10
3. Ordem de reação. Quando a [S] é muito menor que o Km, a veloci-
Efeito da concentração do substrato
dade da reação é aproximadamente proporcional à concentração do
sobre a velocidade da reação, para
substrato (Figura 5.1 O). A velocidade da reação é então dita de pri- uma reação catalisada por enzima.
meira ordem com relação ao substrato. Quando a [S) é muito maior
do que o K m, a velocidade é constante e igual à Vmax· A velocidade da
reação, nesse caso, é independente da concentração de substrato e
é dita de ordem zero em relação à concentração de substrato (veja a
Figura 5.1 O).

O. Gráfico de Lineweaver-Burke

Quando V0 é colocada em um gráfico contra [S], nem sempre é possível


determinar quando a Vmax é alcançada, devido à ascensão gradual da curva
hiperbólica em altas concentrações de substrato. Entretanto, se colocarmos
1/V0 versus 1/[S], obtém-se uma linha reta (Figura 5 .11 ). Esse gráfico, o
gráfico de Lineweaver-Burke (também chamado de gráfico dos duplos-
recíprocos) pode ser utilizado para calcular K m e Vmax• assim como para
determinar o mecanismo de ação de inibidores enzimáticos.

1. A equação que descreve o gráfico de Lineweaver-Burke é: Figura 5.11


Gráfico de Lineweaver-Burke.

= __!Sm_ +
Vo Vmax [S] Vmax
60 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

VIl. INIBIÇÃO DA ATIVIDADE ENZIMÁTICA

Qualquer substância que possa diminuir a velocidade de uma reação catalisada


por uma enzima é chamada de inibidor. Inibidores reversíveis ligam-se à
enzima por meio de ligações não-covalentes. A diluição do complexo enzima-
inibidor resulta na dissociação do inibidor reversivelmente ligado e na recupera-
ção da atividade enzimática. A inibição irreversível ocorre quando uma enzima
inibida não recupera sua atividade quando o complexo enzima-inibidor é diluído.
Os dois tipos mais comuns de inibição encontrados são inibição competitiva e
inibição não-competitiva.

A. Inibição competitiva
Esse tipo de inibição ocorre quando o inibidor liga-se reversivelmente ao
mesmo sítio que o substrato normalmente ocuparia e, dessa forma, com-
pete com o substrato por esse sítio.

1. Efeito sobre a V max· O efeito de um inibidor competitivo é revertido pelo


aumento da [S]. Em uma concentração de substrato suficientemente
alta, a velocidade da reação atinge a Vmax observada na ausência do
inibidor (Figura 5.12).

2. Efeito sobre o Km. Um inibidor competitivo aumenta o Km aparente


para determinado substrato. Isso significa que, na presença de um ini-
bidor competitivo, mais substrato é necessário para atigir Y2 Vmax·

3. Efeito sobre a curva de Lineweaver-Burke. A inibição competitiva


apresenta uma curva de Lineweaver-Burke característica, na qual as
curvas da reação inibida e não-inibida interceptam o eixo do y em
1Nmax (Vmax não é alterada). As reações inibida e não-inibida intercep-
tam o eixo do x em pontos diferentes, indicando que o Km aparente é
aumentado na presença do inibidor competitivo (veja a Figura 5.12).

A 8
A velocidade mãxima, Vmax•
Vmax -- - - - ---- - -------------- -- ------- - - - - -- - ---- - -- - --- é a mesma na presença de
Sem um inibidor competitivo
lo
..,.
ICU

~ Com inibidor
., Vmax competitivo
~2 I
I
"C
ca I
"C I
·;:; I
o
!/(Km aparente na presença de - K;;; "'-
~ ~ um inibidor competitivo) --.......
OL
O ~t~~~~~~-L~~~-L~~-L~~~~~~~~ -~~~J_~~-L~~~-L~~~

[S]

Km A constante de Michaelis, Km, é aumentada


na presença de um inibidor competitivo

Figura 5.12
A. Gráfico do efeito de um inibidor competitivo sobre a velocidade da reação (v0 ) versus substrato [S]. B. Gráfico de
Lineweaver-Burke para a inibição competitiva de uma enzima.
Bioquímica Ilustrada 61

4. Estatinas como exemplos de inibidores competitivos. Esse grupo


de drogas anti-hiperlipidêmicas inibe competitivamente o primeiro
passo comprometido com a síntese do colesterol. A reação é catalisada HMG-CoA -redutase
pela hidroximetilglutarii-CoA-redutase (HMG-CoA-redutase, veja a pág. Sítio ativo

219). As estatinas, tais como a atorvastatina (Liptor) e a sinvastatina


(Zocor)\ são análogos estruturais do substrato natural dessa enzima
e competem efetivamente, inibindo a HMG-CoA-redutase. Dessa forma,
elas inibem a síntese de novo do colesterol e, assim, diminuem os
níveis plasmáticos de colesterol (Figura 5.13).

B. Inibição não-competitiva
Esse tipo de inibição pode ser reconhecido por seu efeito característico
sobre Vmax (Figura 5.14). A inibição não-competitiva acontece quando o ini-
bidor e o substrato ligam-se a sítios diferentes sobre a enzima. O inibidor
não-competitivo pode ligar-se tanto à enzima livre quanto ao complexo ES,
de modo a impedir que a reação ocorra (Figura 5.15). HMG-CoA
(substrato)

1. Efeito sobre a V max· A inibição não-competitiva não pode ser superada


pelo aumento da concentração de substrato. Desse modo, os inibidores H3
não-competitivos diminuem a vmax da reação. Lovastatina
(inibidor competitivo)
2. Efeito sobre o Km. Os inibidores não-competitivos não interferem na
ligação do substrato com a enzima. Assim sendo, a enzima mostra o
Figura 5.13
mesmo Kmna presença e na ausência do inibidor não-competitivo.
A lovastatina compete com a HMG-
3. Efeito sobre a curva de Lineweaver-Burke. A inibição não-compe- CoA pelo sítio ativo da HMG-CoA-
titiva é faci lmente diferenciada da inibição competitiva pela curva 1/v 0 redutase.
versus 1/[S], onde a V max diminui na presença de um inibidor não-com-
petitivo, enquanto o Km não é alterado (veja a Figura 5.14).

A 8
A vel ocidade máxima, Vmax• é
reduzida na presença de um Inibidor não-
Vmax
Sem inibidor não-competitivo

~
o
""o.
"'<I>~Vmax
-o 2 "'--...__ Com inibidor
Q)
-o não-competitivo
"'
-o

o
~
o
o
t [S]

Km A constante de Michaelis, Km, não é alterada na


presença de um inibidor não-competitivo

Figura 5.14
A. Gráfico do efeito de um inibidor não-competitivo sobre a velocidade da reação (V0 ) versus substrato [S]. B. Gráfico de
Lineweaver-Burke para a inibição não-competitiva de uma enzima.

1
Veja o Capitulo 21 de Farmacologia Ilustrada (2• e 31 edições) para uma discussão acerca de
drogas usadas para tratar hiperlipidemia.
62 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

4. Exemplos de inibidores não-competitivos. Alguns inibidores agem


pela formação de ligações covalentes com grupos específicos da
enzima. Por exemplo, o chumbo forma ligações covalentes com os gru-
pos sulfidrila da cadeia lateral da cisteína nas proteínas. A ligação do
Enzima (E) Complexo ES metal pesado mostra uma inibição não-competitiva. A ferroquelatase,
2
uma enzima que catalisa a inserção do Fe + na protoporfirina (precursor
do grupo heme, veja a pág. 277), é um exemplo de enzima sensível à
inibição pelo chumbo. Outros exemplos de inibidores não-competitivos
são certos inseticidas, cujos efeitos neurotóxicos são resultantes de
sua ligação irreversível ao sítio catalítico da enzima acetilcolinesterase
(uma enzima que cliva o neu rotransmissor acetilcolina) .

C. Inibidores enzimáticos como drogas


Complexo El Complexo ESI
(i nativo) (inativo) Pelo menos metade das dez drogas mais comumente prescritas nos Esta-
dos Unidos age por meio da inibição de enzimas. Por exemplo, os ampla-
me nte prescritos antibióticos ~-lactâm icos, como a penicilina e amoxicilina ,
2

atuam inibindo uma ou mais enzimas envolvidas na síntese da parede celu-


Figura 5.15
Um inibidor não-competitivo ligando- lar bacteriana. As drogas também podem agir inibindo reações extracelula-
se à enzima e ao complexo enzima- res. Isso é ilustrado pelos inibidores da enzima conversara de angiotensina
substrato. (ECA) . Eles diminuem a pressão sangüínea por bloquear a enzima, que
cliva a angiotensina I para formar a forma vasoconstritora, a angiotensina
11. Estas drogas, que incluem o captopril, o enalapril e o lisinopril, causam a
3
vasodilatação e, com isso, uma redução da pressão arterial .

Vmax
r--- ---- r - -~- --- - --- ------ -
1 I VIII. REGULAÇÃO DA ATIVIDADE ENZIMÁTICA
:Z c
0 L-------L-
: Vmax
1(0 '- t
~ t I A regulação da velocidade das reações enzimáticas é essencial para o orga-
f! ~ I
nismo coordenar seus numerosos processos metabólicos. As velocidades da
l maioria das enzimas respondem a mudanças na concentração dos substratos,
I
I
r pois o nível intracelular de muitos dos substratos se encontra na faixa do Km.
Dessa forma, um aumento na concentração do substrato é refletido no aumento
da velocidade de reação, o que tende a fazer a concentração do substrato retor-
t nar ao valor normal. Além disso, algumas enzimas com funções reguladoras
Ko,s
especializadas respondem a efetores alostéricos ou a modificações covalentes,
[SubstratoI
ou ainda, possuem a velocidade de sua síntese alterada quando as condições
fisiológicas são alteradas.
Vmax
r------- --- ------- --- - -----
A. Sítios alostéricos de ligação
lo
As enzimas alostéricas são reguladas por moléculas chamadas efeto-
""
(.)>
res (também chamados de modificadores ou moduladores), os quais
"'~
..
'O
ligam-se de forma não-covalente a outro s ítio que não o sítio catalítico.
'C Essas enzimas são compostas por subunidades múltiplas e o sítio regu-
"'
'C

latório, o qual liga o efetor, pode estar localizado em uma subunidade
o não-catalítica. A presença de um efetor alostérico pode alterar a afinidade
;g!
da enzima pelo seu substrato ou modificar a atividade catalítica máxima
t
Ko,s Ko,s Ko,s da enzima ou ambos. Os efetores que inibem a atividade enzimática são
[SubstratoI denominados efetores negativos, enquanto aqueles que aumentam a
atividade enzimática são denominados efetores positivos. As enzimas
a lostéricas geralmente possuem subunidades múltiplas e, freqüente-
Figura 5.16 mente, catalisam o passo comprometido com a via, no início da rota
Efeito de efetor negativo (-) ou
metabólica.
positivo(+) sobre uma enzima
alostérica. A. A Vmax é alterada. B. A 2
Veja o Capítulo 32 de Farmacologia Ilustrada (38 edição) ou o Capitulo 30 (2ª edição) para uma
concentração de substrato que dá discussão acerca dos inibidores da síntese da parede celular bacteriana.
metade da velocidade máxima (i<o.s) 3
Veja o Capítulo 19 de Farmacologia Ilustrada (21 e 3ª edições) para uma discussão acerca dos
é alterada. inibidores da enzima conversara da angiotensina.
Bioquímica Ilustrada 63

1. Efetores homotrópicos. Quando o substrato em si alua como efetor,


o efeito é dito homotrópico. Um substrato alostérico funciona, mais
freqüentemente , como um efetor positivo. Nesse caso, a presença de ,.,.,..----- ........ ,
uma molécula de substrato em um sítio da enzima aumenta as proprie- / ''
dades catalíticas de outros sítios de ligação ao substrato, isto é, seus
sítios exibem cooperatividade. Essas enzimas apresentam uma curva e
~
/

A ...8 ... C ... D ... E ...


''
sigmoidal quando a velocidade de reação (v0 ) é relacionada com a
concentração de substrato [S] (Figura 5.16). Isso contrasta com a curva
hiperbólica característica da cinética de Michaelis-Menten, conforme
discutido previamente. (Nota: O conceito de cooperatividade da ligação
do substrato é análogo à ligação do oxigênio à hemoglobina.) Efetores Figura 5.1 7
positivos e negativos de enzimas alostéricas podem afetar tanto a vmax Inibição de uma via metabólica por
quanto o Kmou ambos (veja a Figura 5.16). retroalimentação.

2. Efetores heterotrópicos. O efetor pode ser diferente do substrato,


em cujo caso o efeito é dito heterotrópico. Por exemplo, conside re a
inibição por retroalimentação mostrada na Figura 5.17. A enzima
que converte A em B tem um sítio alostérico, no qual se liga o produto
final E. Se a concentração de E aumenta (por exemplo, se ele não é
ATP Proteína- ADP
utilizado tão rapidamente como é sintetizado), a enzima inicial da rota é

?=<
>-<
inibida. A inibição por retroalimentação fornece à cé lula um produto de
que ela necessita regulando o fluxo de moléculas de substrato em uma
Enzima Enzima
via que leva à síntese daquele produto. (Nota: Efetores heterotrópicos
são comu mente encontrados; por exemplo, a enzima da via glicolítica OH _ oPo3=
fosfofrutocinase é alostericamente inibida por citrato, o qual não é subs-
HP04 Fostoproteína- H20
trato da enzima [veja a pág. 97].) fosfatase

8 . Regulação de enzimas por modificação covalente


Muitas enzimas podem ser regu ladas por modificação covalente, mais fre- Figura 5.18
qüentemente pela adição ou pela remoção de grupos fosfato de resíduos Modificação covalente por adição e
específicos de serina, treonin a ou tirosina na enzima. A fosforilação de remoção de grupos fosfato.
proteínas é reconhecida como uma das principais formas pelas quais os
processos celulares são regulados.

1. Fosforilação e desfosforilação. As reações de fosforilação e desfos-


forilação são catalisadas por uma família de enzimas, denominadas
de proteína-cinases, as quais utilizam trifosfato de adenosina (ATP)
como doador de fosfato. Os grupos fosfato são clivados de enzimas fos-
foriladas pela ação das fosfoproteínas-fosfatases (Figura 5.18).

2. Resposta da enzima à fosforilação. Dependendo da enzima especí-


fica, a forma fosforilada pode ser mais ou menos ativa do que a forma
não-fosforilada. Por exemplo, a fosforilação da glicogênio-fosforilase
(enzima que degrada o glicogênio) aumenta sua atividade, enquanto a
adição de fosfato à enzima glicogênio-sintase (enzima que sintetiza o
glicogênio) diminui sua atividade (veja a pág. 132).

C. Indução e repressão da síntese de enzimas


Os mecanismos regu ladores descritos previamente modificam a atividade
de molécu las enzimáticas existentes. Entretanto, as células também podem
regular a quantidade de enzima presente - em geral alterando a velocidade
da síntese da enzima. O aumento (indução) ou a diminuição (repressão) da
síntese da enzima leva a uma alteração na população total de sítios ativos.
(Nota: Nesse caso, a eficiência das moléculas existentes da enzima não é
afetada.) As enzimas sujeitas à regulação da síntese em geral são aquelas
que são necessárias apenas em um estágio do desenvolvimento ou em
condições fisiológicas especiais. Por exemplo, níveis elevados de insulina,
64 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

EVENTO REGULADOR EFETOR TÍPICO RESULTADOS TEMPO NECESSÁRIO PARA A ALTERAÇÃO

Inibição pelo substrato Substrato Altera veloci dade (v0 ) Imediato

Inibição pelo produto Produto Altera Vma• e/ou Km Imediato

Controle alostérico Produto final Altera Vm" e/ou Km Imediato

Modificação covalente Outra enzima Altera Vmu e/ou Km Imediato a minutos

Síntese e degradação da enzima Hormônio ou metabólito Altera a quantidade da enzim a Horas a d ias

Figura 5.19
Mecanismos de regulação da atividade enzimática.

como resultado de altos níveis de glicose no sangue, levam a um aumento


na síntese de enzimas-chave no metabolismo da glicose (veja a pág. 97) .
Em contraste, enzimas que são continuamente utilizadas geralmente não
são reguladas pela alteração da velocidade de sua síntese. Alterações dos
níveis enzimáticos como resultado da indução ou da repressão da síntese
protéica são lentas (de horas a dias), comparadas com as alterações regu-
ladas alostericamente, as quais ocorrem em segundos a minutos. A Figura
5.19 resume as formas mais usuais pelas quais a atividade enzimática é
regulada.

IX. ENZIMAS NO DIAGNÓSTICO CLÍNICO

As enzimas plasmáticas podem ser classificadas em dois grupos principais.


Primeiro, um grupo relativamente peq ueno de enzimas, que é seletivamente
secretado no plasma por ce rtos tipos celulares. Por exemplo, o fígado secreta
os zimogênios (precursores inativos) de enzimas envolvidas na coagulação
sangüínea. Segundo, um grande número de enzimas é liberado das células
durante a renovação celular normal. Essas enzimas quase sempre atuam intra-
celularmente e não têm função fisio lógica no plasma. Em indivíduos saudáveis,
o níve l dessas enzimas é razoavelmente constante e representa um estado
de equilíb ri o, no qual a velocidade de liberação dessas enzimas no plasma
pelas células danificadas é equilibrada por uma velocidade igual de remoção
do plasma. A presença de atividade enzimática elevada no plasma pode indi-

CAPILAR

m Renovação celular normal m Necrose celular como resultado de doença ou trauma

Figura 5.20
Liberação de enzimas a pa rtir de células normais e de células doentes ou expostas a um trauma.
Bioquímica Ilustrada 65

car lesão tecidual, que é acompanhada pela liberação aumentada de enzimas


intracelulares (Figura 5.20). (Nota: Plasma é o flu ido, a parte não-celular do
sangue. Exames de laboratório para atividades enzimáticas mais freqüente-
mente utilizam o soro, o qual é obtido pela centrifugação do sangue total após
ele te r coagulado. O plasma é um líquido fisiológico, enquanto o soro é prepa-
rado no laboratório.)

A. Alterações dos níveis plasmáticos de enzimas em doenças


Muitas doenças que causam lesão tecidual resultam no aumento da libera-
ção das enzimas intracelulares no plasma. As atividades de muitas dessas
enzimas são rotineiramente determinadas para fins de diagnóstico em
doenças do coração, do fígado, do músculo esquelético e de outros teci-
dos. O nível de atividade enzimática específica no plasma freqüentemente
está relacionado com a extensão da lesão tecidual. Assim, a determinação
do grau de aumento da atividade de uma determinada enzima no plasma
em geral é útil para a avaliação do prognóstico do paciente.
Direção da migração

B. Enzimas plasmáticas como ferramentas diagnósticas


Algumas enzimas apresentam atividade relativamente alta em apenas
alguns tecidos. A presença de um aumento do nível dessas enzimas no
plasma reflete uma lesão do referido tecido. Por exemplo, a enzima alanina-
aminotransferase (ALT, veja a pág. 248) é abundante no fígado. O apareci-
CK1 CK2 CK3
mento de níveis elevados de ALT no plasma sinaliza uma possível lesão do
tecido hepático. O aumento no nível plasmático de enzimas com uma ampla Q. o Origem
distribuição tecidual permite uma indicação menos específica sobre o sítio
da lesão celular. Essa falta de especificidade tecidual limita o valor diagnós-
tico de muitas enzimas plasmáticas.

C. lsoenzimas e doença cardíaca

A maioria das isoenzimas (também chamadas isozimas) são enzimas que As isoenzimas da CK são
catalisam a mesma reação. Entretanto, elas não têm necessariamente as carregadas negativamente e
migram em di reção ao ànodo.
mesmas propriedades físicas, devido a diferenças geneticamente determi-
nadas na seqüência de seus aminoácidos. Por essa razão, as isoenzimas lnfarto do
podem conter diferentes números de aminoácidos carregados e, portanto, miocárd io
podem ser separadas umas das outras por eletroforese (Figura 5.21). Dife-
rentes órgãos freqüentemente contêm proporções características de diferen-
tes isoenzimas. O padrão de isoenzimas encontrado no plasma pode, desse
modo, servir para identificar o sítio da lesão tecidual. Por exemplo, os níveis Normal

plasmáticos de creatina-cinase (CK) e de /actato-desidrogenase (LDH) são


comumente determinados para o diagnóstico do infarto do miocárdio. Eles
são particularmente úteis quando o eletrocardiograma é de difícil inte rpreta-
ção, como quando tenha havido episódios prévios de doença cardíaca.
Figura 5.21
1. Estrutura quaternária das isoenzímas. Muitas isoenzimas contêm
Estrutura das subunidades e
diferentes subunidades, em várias combinações. Por exemplo, a crea-
mobilidade eletroforética das
tina-cinase ocorre como três isoenzimas. Cada isoenzima é um dímero, isoenzimas da creatina-cinase.
composto por dois polipeptídeos (chamados subunidades B e M) asso-
ciados em três combinações: CK1 =BB, CK2 =MB e CK3 = MM. Cada
uma das isoenzimas da CK apresenta uma mobilidade eletroforética
característica (veja a Figura 5.21 ).

2. Diagnóstico do infarto do miocárdio. O músculo miocárdico é o


único tecido que contém mais de 5% da atividade total da CK como
a isoenzima CK2 (MB). O aparecimento dessa isoenzima híbrida no
plasma é praticamente específico para o infarto do miocárdio. Após um
infarto agudo do miocárdio, essa isoenzima aparece (em ce rca de 4 a 8
66 Pamela C. Champe, Richard A. Ha rvey, Denise R. Ferrier

horas do início da dor torácica) e atinge um pico de atividade em apro-


ximadamente 24 horas (Figura 5.22) . (Nota: A atividade da lactato-desi-
drogenase também está elevada no plasma após um infarto, atingindo

t um pico em 36 a 40 horas após o início dos sintomas. A atividade da


LDH apresenta, assim, valo r diagnóstico para pacientes admitidos mais
de 48 horas após o infarto - um período no qual a CK2 pode fornecer
resultados equivocados.)

3. Novos marcadores para o infarto do miocárdio. Troponina T e


troponina I são proteínas reguladoras, envolvidas na contratilidade
do miocárdio. Elas são liberadas para o plasma em resposta ao dano
cardíaco. Níveis elevados de tropon inas no soro são mais preditivos de
24 48
conseqüências adversas de uma angina instável ou de um infarto do
Horas
miocárdio do que o ensaio convencional da CK2.
lnfarto

X. RESUMO DO CAPÍTULO
Figura 5 .22
Surgimento da creatina-cinase (CK) Enzimas são proteínas catalisadoras que aumentam a velocidade de uma
e da /actato -desidrogenase (LD H) no reação química por diminuir a energia do estado de t ransição. As molécu-
plasma após um infarto do miocárdio. las de enzimas não são consumidas durante a reação que catalisam. Elas
contê m uma região específica ou uma "fe nda" cha mada de sítio ativo.
Este contém cadeias laterais de aminoácidos que criam uma supe rfície tri-
dimensional complementar ao substrato. Ele liga o substrato, formando um
complexo enzima-substrato (ES). O ES é convertido no com plexo enzima-
produto (EP), o qual é subseqüentemente d issociado em enzima e produto.
Uma enzima permite que a reação p roceda rapida m ente e m co ndições
existentes dentro da célula, por facilita r uma via alternativa de reação com
uma menor energia livre de ativação. A enzima não altera a energia livre
dos reatantes e dos produtos e, assim , não altera o equilíbrio da reação. A
maioria das enzimas apresenta a cinética de Michaelis Menten. Um gráfico
relacionando a velocidade inicial da reação , V 0 , contra a concentração de
substrato, [S] , tem um formato hiperbólico, semelhante à curva de disso-
ciação do oxigênio da mioglobina. Qualquer substância capaz de diminuir a
velocidade de uma reação catalisada por enzima é chamada de inibidor. Os
dois tipos mais comuns de inibição são a competitiva (a qual aumenta o Km
aparente) e a não-competitiva (na qual a V max é diminuída). Em co ntraste ,
as enzimas alostéricas, com múltiplas subunidades, freq üentemente mos-
tram uma curva sigmoidal, com aspecto semelhante à curva de dissociação
do oxigênio da hemoglobina. Essas enzimas são freqüentemente encontra-
das cata lisando passos comprometidos (limitantes da velocidade) de
uma via. As enzimas alostéricas são reguladas por moléculas chamadas de
efetores (também modificadores), que ligam-se de fo rma não-covalente em
outro sítio, que não o sítio ativo. Os efetores podem ser positivos (acele ram
as reações catalisadas pelas enzimas) ou negativos (diminuem a ve locidade
da reação). Um efetor alostérico pode a lterar a afinidade da enzima pelo seu
substrato ou modificar a atividade catalítica m áxim a da enzima ou ambos.
Bioquímica Ilustrada 67

Enzimas Catálise Velocidade das reações enzimáticas


são é estudata usando geralmente é influenciada por
t
Cataltsadores Modelos de reação • Concentração da enzima
por exemplo • Temperatura
que contém
E+ S __. ES __. E+ P • Co-fatores
•pH
que leva a
• Concentração do substrato
Sítio(s) ativo(s) t
que é uma fenda • Modificaç ão covalente
Equações cinéticas
na superfície da
enzima, complementar por exemplo • Inibidores
à estrutura Equação de
do substrato Michaelis-Menten: classificados como
Vmax · [S)
Vo= - - -
Km+[S)
permitindo quando
I
t
A ligação do substrato
a qual prediz
t
Como variações na [S]
I afetam v 0
que leva à

~
por exemplo, para Michaelis·Menlen:
A curva de (S) versus quando
v 0 é hiperbólica
t
Km não é alterado
Vmax diminui

Quando a [S) é muito


maior que o Km, a
velocidade da reação
que leva ao é independente da [S]

~ o que é chamado
[S)

~
~
( Aumento da velocidade S __. P
Enzimas alostéricas
mas I
Ordem zero geralmente
Não altera o t
equilfbrio da reação • São compostas por múltiplas
subunidades
• Catalisam reações limitantes
de velocidade
• Ligam o substrato cooperati-
vamente
• Apresentam uma curva
sigmoidal quando se constrói
Quando [S) = Km um gráfico de v0 versus [S)
então v 0=1
/ 2 V max

• Ligam-se a efetores alosté-


Quando a [S] é menor ricos diferentes do substrato
que Km, a velocidade I
da reação é levando à
proporcional à [S)

I
o que é chamado

levando a
t
Alterações na Vmax ou na afini-
dade pel o substrato ou ambos

Figura 5.23
Mapa de conceitos-chave para enzimas. S =substrato, [S] = concentração de substrato, P = produto, E = enzima, V0 =
velocidade inicial , V max =velocidade máxima, K m= constante de Michaelis.
68 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

5.1 Um inibidor competitivo de uma enzima:


Resposta correta = A. Na presença de um inibidor competitivo,
A. aumenta Km sem afetar a Vmax; uma enzima parece ter menor afinidade pelo substrato, mas
B. diminui Km sem afetar a Vmax; quando a concentração de substrato é aumentada, a veloci-
C. aumenta Vmax sem afetar Km; dade observada se aproxima de Vmax· (Veja o painel B, Figuras
D. diminui Vmax sem afetar Km; 5.12 e 5. 14, para uma comparação dos efeitos de inibidores
E. dim inui ambos, Km e Vmruc competitivos e não-competitivos.)

5.2 A constante de Michaelis, Km, é:


Resposta correta = D. Lembre que o Km tem a dimensão
A. numericamente igual a Y2 Vmax; de concentração e é uma característica de uma enzima em
B. dependente da concentração da enzima; determinadas condições de reação. O Km não depende da
C. independente do pH; concentração da enzima, mas pode variar com o pH. Um ini-
D. numericamente igual à concentração do substrato que corres- bidor não-competitivo diminui a V max• mas não altera o Km (veja
ponde à metade da velocidade máxima; a Figura 5.14 ).
E. aumentada na presença de um inibidor não-competitivo.

5.3 Um homem de 70 anos foi admitido no setor de emergência com


um histórico de 12 horas de dor no peito. A medida da creatina- MM
cinase (CK) no soro foi determinada na admissão (no 1º dia) e
novamente no dia seguinte (Figura 5.24). No segundo dia após a MM
Paciente Paciente
admissão, ele apresentou arritmia cardíaca, a qual cessou após
3 ciclos de cardioconversão elétrica, os dois últimos com máximo
de energia. (Nota: A cardioconversão é feita colocando-se duas
placas com 12 cm de diâmetro em contato firme com o peito e
\ Normal
\
aplicando-se uma breve diferença de voltagem.) O ritmo cardíaco
normal foi estabelecido. Ele não apresentou arritmia recorrente
nos dias consecutivos. Sua dor no peito diminuiu e ele foi liberado
no décimo dia. Qual das afirmações a seguir é mais consistente Na admissão 12 horas após
com os dados apresentados? (Dia 1) cardioconversão
(Dia 2)
A. O paciente teve um infarto do miocárdio 48 a 64 horas antes
de sua admissão.
B. O paciente teve um infarto do miocárdio no 2º dia. Figura 5.24
C. O paciente teve angina antes da admissão. Níveis séricos de creatina-cinase.
D. O paciente teve uma lesão no músculo esquelético no 2º dia.
E. Os dados não permitem qualquer conclusão sobre um infarto
do miocárdio antes ou depois de sua admissão no hospital.
Resposta correta = D. O padrão da isoenzima CK na admissão
mostrou a isoenzima MB elevada, indicando que o paciente
apresentou um infarto do miocárdio nas 12 a 24 horas ante-
riores. (Nota: Em 48 a 64 horas depois do infarto, a isoenzima
MB deveria retornar aos valores normais.) No 2° dia, 12 horas
após as cardioconversões, a isoenzima MB havia diminuído,
indicando não haver lesão posterior no coração. Entretanto,
o paciente apresentou um aumento da isoenzima MM após a
cardioconversão. Isso sugere lesão muscular, provavelmente
resultante da contração convulsiva do músculo causada pela
cardioconversão repetitiva. A angina é tipicamente o resultado
de espasmos transitórios na vasculatura cardíaca, e não seria
de se esperar que levasse à morte tecidual que resultaria no
aumento da c reatina-cinase sérica.
Bioenergética
e Fosfori lação
Oxidativa
I. VISÃO GERAL

A bioenergética descreve a transferência e a utilização da energia em sistemas


biológicos. Ela utiliza algumas idéias básicas da termodinâmica, em especial o
conceito de energia livre. Mudanças na energia livre (~G) fornecem uma medida
da possibilidade, em termos energéticos, de que uma reação química ocorra e ~G : VARIAÇÃO NA ENERGIA LIVRE
nos permitem, portanto, prever se uma reação ou processo pode acontecer. A • Energia disponível para realizar trabalho.
bioenergética preocupa-se apenas com os estados energéticos inicial e final e Aproxima-se de zero, na medida em
que as reações aproximam-se do
dos componentes da reação e não com o mecanismo de uma alteração química equilíbrio.
ou com o tempo necessário para que ela ocorra. Em suma, a bioenergética pre- • Prediz se uma reação é favorável.
diz se um processo é possível, enquanto a cinética avalia quão rapidamente a
reação acontece (veja a pág. 54). ôH: VARIAÇÃO NA ENTALPIA
• Calor liberado ou absorvido
durante uma reação.
11. ENERGIA LIVRE • Não prediz se uma reação
é favorável.

O sentido de uma reação química e até que ponto ela ocorre são determina-
dos pelo grau em que dois fatores são alterados durante a reação. Esses são
a entalpia (~H . uma medida da mudança no conteúdo de calor dos reatantes
e produtos) e a entropia (~S. uma medida da desorganização dos reatantes e ilH- TilS
produtos, Figura 6.1 ). Nenhuma dessas grandezas termodinâmicas é, por si só,
suficiente para determinar se uma reação química ocorrerá espontaneamente 118: VARIAÇÃO NA ENTROPIA
no sentido em que está escrita. Entretanto, quando combinadas matematica- • Medida da desorganização.
mente (veja a Figura 6.1 ), a entalpia e a entropia podem ser utilizadas para defi- • Não prediz se uma reação é favorável.
nir uma terceira grandeza, a energia livre (G), a qual prediz o sentido em que
uma reação ocorrerá espontaneamente.

III. VARIAÇÕES NA ENERGIA LIVRE Figura 6.1


Relação entre as variações na
energia livre (G), entalpia (H) e
A variação na energia livre pode ser mostrada de duas fornias, ~G e ~Gu A entropia (S). T é a temperatura
primeira, ~G (sem o sobrescrito "o") , é mais geral, pois prediz a mudança na absoluta em graus Kelvin (K): K =
energia livre e, assim , o sentido de uma reação em qualquer concentração °C + 273.
70 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

especificada dos produtos e dos reatantes. Por outro lado, a variação na ener-
A - B 0
gia livre padrão, ôG (com o sobrescrito "o") , é a variação na energia livre
(Reatante) (Produto)
quando reatantes e produtos estão em concentração igual a 1 mol/L. (Nota : A
Estado de
concentração de prótons é conside rada, neste texto, 1o· moi!L, ou seja, pH =
7
transição
0
7 .) Embora ô G represente variações de energia nessas concentrações não-
fisiológicas de reatantes e produtos, ainda assim é útil para a comparação de
variações de energia em diferentes reações. Alé m disso, ôG0 pode ser determi-
nado facilmente a partir de medidas da constante de equilíbrio (veja a pág. 72).
0
Esta seção resume os usos de õG; ô G será descrito na pág. 71 .

A . O sinal de ô G prediz o sentido da reação

A variação na energia livre, ô G, pode ser utilizada para predizer o sentido


Estado final
de uma reação em condições de pressão e temperatura constantes. Consi-
dere a reação:
Progresso da reação - - +
A ~ 8

8 ~A
1. ô G negativo . Se ôG é um valor negativo, há uma perda líquida de
Estado de
transição energi a, e a reação anda espontaneamente no sentido em que está
escrita, ou seja, A é convertido em 8 (Figura 6 .2A). A reação é dita
exergônica.

2. ô G positivo. Se ôG é um valor positivo, há ganho líquido de energia, e


a reação não anda espontaneamente de 8 para A (como indicado na
Figura 6.28). A reação é dita endergônica, e alguma energia deve ser
adicionada ao sistema para fazer com que a reação ande de A para 8 .

3. ô G igual a zero. Se ô G = O, os reatantes estão em equilíbrio. (Nota:


Quando uma reação ocorre espontaneamente - ou seja, alguma ener-
Estado inicial
gia livre está sendo perdida - a reação então continua, até que ôG
Progresso da reação ----+
atinja o zero e o equilíbrio seja estabelecido.)

B. ôG de r eações no sentido direto e inve rso

Figura 6 .2 A energia livre de uma reação (A --.. B) no sentido direto (aquele em que
Variação na energia livre (ôG) está escrita) é de igual magnitude, mas de sinal oposto àquela da reação
durante uma reação. A. O produto no sentido inverso (8 --.. A). Por exemplo, se o ôG da reação no sentido
apresenta menor energia livre direto é - 5.000 cal/ moi, então o ô G da reação no sentido inverso é +5.000
(G) que o reatante . 8. O produto
cal/moi.
apresenta maior energia livre que o
reatante.
C. ôG depe nde das concentrações dos reatantes e dos produ tos

O ô G da reação A --.. 8 depende da concentração do reatante e do produto.


À temperatura e pressão constantes, a seguinte relação pode ser deduzida:

o [B]
ô G = ô G + RT ln [A)

onde ôG0 é a variação de energia livre padrão (veja a segu ir);


R é a constante dos gases (1 ,987 cal/moi-grau);
T é a temperatura absoluta (K);
(A] e (8] são as concentrações reais de reatantes e pro-
dutos;
ln representa logaritmo natu ral.
Bioquímica Ilustrada 71

Uma reação com óG0 positivo pode ocorrer no sentido direto (ter um óG
A Condições de não-equilíbrio
final negativo) se a razão entre produtos e reatantes ([B]/[A]) for suficiente-
mente pequ ena (ou seja, se a razão de reatantes para produtos for muito
grande). Por exemplo, cons idere a reação: ® = 0,9 moi/L €) = 0,09 moi/L

Glicose-6-fosfato ~ frutose-6-fosfato

A Figura 6.3A mostra as cond ições de reação em que a concentração


do reatante, a glicose-6-fosfato, é alta, quando comparada com a con-
centração do produto, a frutose-6-fosfato. Isso significa que a razão entre
produto e reatante é pequena e, portanto, RT ln ([frutose-6-fosfato]/
[glicose-6-fosfato]) é um valor alto e negativo, fazendo com que óG seja
negativo, apesar de ó G 0 ser positivo. Desse modo, a reação pode andar
no sentido direto.
® €)
Glicose-6-P Frutose-6-P

D. Variação-padrão de energia livre, ó G 0 B Condições-padrão


0
óG é denominado variação-padrão de energia livre, pois é igual à va riação
de energia livre, óG, em condições-padrão, ou seja, quando reatantes e
® = 1 moi/L @ = 1 moi/L

produtos são mantidos em concentrações de 1 moi/L (veja a Figu ra 6.38).


Nessas condições, o logaritmo natural (ln) da razão entre produtos e rea-
tantes é zero (ln 1 = O) e, desse modo, a equação apresentada no final da
pág. 70 torna-se:

0
1. ó G possui valor preditivo apenas em condições-padrão. Sob con-
dições-padrão, óG0 pode ser utilizado para predizer o sentido em que
0 0
uma reação anda, pois, nessas condições, óG é igual a óG. óG não
C Condições de equilíbrio
pode, porém , predizer o sentido de uma reação em condições fisioló-
gicas, pois é um valor composto apenas por constantes (R, T e K,q) e,
portanto, não é alterado por mudanças nas concentrações de substra-
®= 0,66 moi/L @= 0,33 moi/L
tos e produtos.

Relação entre ó G e Keq· Em uma reação A ~ B, um ponto de equi-


0
2.
líbrio é alcançado, no qual alterações químicas não mais ocorrem de
forma efetiva, ou seja, quando A é convertido em B na mesma veloci-
dade com que B é convertido em A . Nesse estado, a razão entre [B] e
[A] é constante, independentemente das concentrações reais dos dois
compostos:

K = [B]eq K = [Frutose-6-fosfato] = 0,504


eq [A]eq eq [Giicose-6-fosfato]

Onde K.q é a constante de equilíbrio e [A]eq e [B].q são as concentra-


ções de A e B no equilíbrio. Quando a reação A ~ B chega ao equilí- Figura 6.3
brio, em condições de temperatura e pressão constantes, a variação de O óG de uma reação depende da
energia livre final (óG) no equilíbrio é zero. Portanto, concentração de reatante (A) e
produto (B). Para a conversão de
glicose-6-P em frutose-6-P, o óG
ôG = O = ôG 0 + RT ln [B]eq
é negativo quando a razão entre
[AJeo
o reatante (A) e o produto (B) for
alta (acima, painel A); é positiva em
onde as concentrações reais de A e B são iguais às concentrações de
condições-padrão (painel B, no meio
reatantes e produtos no equilíbrio, [A].q e [B] eq• e sua razão, como mos- da figura); e é zero no equilíbrio
trado anteriormente, é igual a K,q. Assim, (figura inferior, painel C).
72 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Essa equação nos permite algumas predições simples:

____...
0
Se K,q = 1, então 6 G = O A +-- B
0
Se K,q > 1, então 6G < O A -=+ B
0
Se Keq < 1 , então 6G > O
A ~B

3. O óG0 de duas reações consecutivas é aditivo. As variações-padrão


de energia livre (6G0 ) são aditivas em qualquer seqüência de reações
consecutivas, assim como o são as variações de energia livre (óG}.

m Processo não-favorável (óG é positivo) Por exemplo,


Glicose + AT P ~ glicose-6-fosfato + ADP 6G = - 4.000 cal/moi
0

Glicose-6-fosfato ~ frutose-6-fosfato 6G
0
= +400 cal/moi
Glicose + ATP ~ frutose-6-fosfato + ADP 6G
0
=-3.600 cal/moi
:::::~>

4. óGs de uma via são aditivos. Essa propriedade aditiva das variações
de energia livre é muito importante em vias bioqu ímicas, através das
quais os substratos devem fluir em um determinado sentido (por exem-
plo, A ~ B ~ C ~ D ~ ... ). Desde que a soma de ó Gs das reações
individuais seja negativa, a via, potencialmente, pode ocorrer como
está escrita, mesmo que algumas reações individuais componentes
dessa via tenham t.G maior que zero. A velocidade real das reações
Acoplamento de um processo favorável depende, logicamente, da atividade das enzimas que catal isam essas
C (·óG)· com um processo não-favorável
(+àG) para produzir um resultante ·L\G reações.

IV. ATP COMO UM CARREADOR DE ENERGIA

Reações ou processos que apresentam t.G muito maior que zero, como por
exemplo íons movendo-se contra um gradiente de concentração através de
uma membrana celular, podem ocorrer pelo acoplamento do movimento ender-
gônico dos íons com um segundo processo espontâneo que apresente um óG
bastante negativo, como a hidrólise de trifosfato de adenosina (ATP). A Figura
6.4 mostra um modelo mecânico de acoplamento de energia. Uma engrenagem
~G- à qual está amarrado um peso gira espontaneamente no sentido de alcançar o
estado de menor energia, nesse caso com o peso na posição mais baixa (veja
a Figura 6.4A}. O movimento contrário (veja a Figura 6.4B) é energeticam ente
desfavorecido e não ocorre espontaneamente. A Figura 6.4C mostra q ue o
movimento energeticamente favorável de uma engrenagem pode ser utilizado
Figura 6.4
Modelo mecânico de acoplamento para girar uma segunda engrenagem em um sentido para o qual ela não giraria
de processos favoráveis e não- espontaneamente. O exemplo mais simples de acoplamento energético em
favoráveis. reações biológicas ocorre quando as reações que requerem energia e as rea-
ções que produzem energia compartilham um intermediário comum.

A. Reações são acopladas por meio de intermediários comuns


Duas reações químicas possuem um intermediário comum quando ocorrem
seqüencialmente, de modo que o produto da primeira reação seja substrato
da segunda reação. Por exemplo, dadas as reações
Bioquímica Ilustrada 73

.Ligações fosfato de Adenina


aJta energia

D é o intermed iário comum e pode servir como carreador de energia NH 2


I
química entre as duas reações. Muitas reações acopladas utilizam ATP
~-~ç-'(N>
para gerar um intermediário comum. Essas reações podem envolve r a cli-
vagem do ATP, ou seja, a transferência de um grupo fosfato do ATP para 'N )-_N
outra molécula. Outras reações levam à síntese de ATP pela transferên-
cia de fosfato de um intermediário rico em energia para o ADP, formando
ATP.
HO HO
8 . ATP como carreador de energia
Ribose
O ATP consiste em uma molécula de adenosina (adenina + ribose) à q ual
estão ligados três grupos fosfato (Figura 6.5). Se um fosfato for removido,
será produzido o difosfato de adenosina (ADP); se dois fosfatos fore m Figura 6.5
re movidos, teremos como resultado monofosfato de adenosina (AMP) . Trifosfato de adenosina.
A energia livre padrão para a hidrólise do ATP, ~G , é aproximadamente
0

- 7.300 cal/moi para cada um dos dois grupos fosfato term inais. Em função
desse ~Go grande e negativo, o ATP é denominado um composto fosfatad o
de alta energia.

V. CADEIA TRANSPORTADORA DE ELÉTRONS

Moléculas ricas em energia, como a glicose, são metabolizadas por uma série
de reações de oxidação, levando por fim à produção de C0 2 e água (Fig ura
6.6). Os intermediários metabólicos dessas reações doam elétrons a coenzimas Metabolismo
específicas - nicotinamida-adenina-dinucleotídeo {NAD+) e flavina-adenina-dinu-
cleotídeo (FAD) - fo rmando as coenzimas reduzidas ricas em energia, NADH e
FADH2 . Essas coenzimas reduzidas , por sua vez, podem doar, cada uma, um Carboidratos
Ácidos graxas
par de elétrons a um grupo especial izado de carreadores de e létrons, coletiva- Aminoácidos
mente denominados cadeia transportadora de elétrons, descrita nesta seção.

lç;~:~~
À medida que os elétrons fluem através da cadeia transportadora de elétrons,
eles perdem muito de sua energia livre. Parte dessa energia pode ser captada e
armazenada para a produção de AT P a partir de ADP e fosfato inorgânico (P;).
~ NADH+W
Esse processo é den ominado fosforilação oxidativa e é descrito na pág. 77. O
i~ FADH 2
restante da energia livre, que não é captada para a síntese de ATP, é liberado
na forma de calor.

A. A mitocôndria
A cadeia transportadora de elétrons localiza-se na membrana mitocon- 02
drial interna e é a via fin al comum pela qual os elétrons oriundos de
diferentes combustíveis do organismo fluem para o oxigênio. O transporte
ADP+P;~l~ ~:DH+W
z::a~"::o•
de elétrons e a síntese de ATP pel a fosforilação oxidativa ocorrem continua-
mente em todos os tecidos que contêm mitocôndrias.

1. A estrutura da mitocôndria. Os componentes da cadeia transporta-


dora de elétrons estão localizados na membrana interna. Embora a
ATP ~ l~ FAD

membrana externa contenha poros especiais, que a to rn am livremente H2 0


permeável à maioria dos íons e moléculas pequenas, a membrana
Fosforilação oxidativa
mi tocondrial interna , por sua vez, é uma estr utura especializada,
impermeável à maioria dos íons peq uenos, inclu indo W, Na+ e K+, a
moléculas pequenas, como ATP, ADP e piruvato, e a outros metabólitos Figura 6.6
importantes para a função mitocondrial (Figura 6.7). Para mover íon s Degradação metabólica de moléculas
ou moléculas através dessa membrana são necessários carreadores cuja quebra produz energia.
74 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

ou sistemas de transporte especializados. A membrana mitocondrial


MEMBRANA INTERNA interna é excepcionalmente rica em proteínas, metade das quais está
Impermeável à envolvida diretamente no t ransporte de elétrons e na fosfori lação oxi-
maioria dos íons
pequenos e de dativa. A membrana mitocondrial interna apresenta-se convoluta. Essas
CÉLULA mo léculas grandes dobras ou convoluções são denominadas cristas e aumentam enorme-
e pequenas.
mente a superfície da membrana.

2. Os complexos d a ATP-sintase. Esses complexos de proteínas são


a ludidos como partículas da membrana interna e encontram-se
ligados à superfície interna da membrana mitocondrial interna. Eles
aparecem como esferas que projetam-se para dentro da matriz mito-
condrial.

3. A matriz mitocondrial. Essa solução semelhante a um gel , encon-


trada no inte rior da mitocôndria, apresenta uma constituição de 50%
de proteín a. Essas mo léculas incluem as enzimas respo nsáve is
pela oxidação do piruvato, dos aminoácidos, dos ácidos graxos (por
~ - oxi dação) e aquelas do ciclo do ácido cítrico. A síntese de uréia e
do he me ocorre parcialmente na matriz m itocond rial. A lém d isso, a
matriz contém NAo• e FAD (as formas oxidadas das duas coenzi-
mas necessárias como aceptoras de hidrogênio) e AD P e P;. utiliza-
dos para prod uzir ATP. (Nota: A matriz também contém RNA e DNA
mitocondriais [RNAmt e DNAmt] e ribossomos mitocon driais.)

8 . Organização da cadeia

A membrana mitocondrial interna pode ser rom pida, produzindo cinco com-
plexos enzimáticos separados, denominados Complexos I, 11, II I, IV e V. Os
Complexos I a IV contêm, cada um deles, parte da cadeia transportadora
de elétrons (Figura 6.8), enquanto o Complexo V catalisa a síntese de ATP
(veja a pág. 78). Cada complexo aceita ou doa elétrons, que são trocados
entre esses complexos e ca rreadores de elétrons relativamente móveis,
como a coenzima Q e o citocromo c. Cada carreador, na cadeia transpor-
tado ra de elétrons, pode receber elétrons de um doador e pode, subse-
Estruturas que
s intetizam ATP qüentemente, doá-los para o próximo carreador na cadeia. Os elétrons
(partículas na combinam-se, no final, com o oxigênio e com prótons, formando água. Essa
membrana interna)
necessidade de oxigênio dá, ao processo de transporte de elétrons, a deno-
minação de cadeia respiratória , a qual é responsável pela maior parte da
utilização de oxigênio no o rganismo.
MATRIZ
• Enzimas do ciclo do ácido c ítrico
• Enzimas da oxidação dos C. Reações da cadeia t ransportadora de elétrons
ácidos graxos
Com exceção da coenzima Q, todos os membros dessa cadeia são proteí-
e DNAmt, RNAmt
nas. Estas podem funcionar como enzi mas, como é o caso das desidroge-
• Ribossomos mitocondriais
nases, podem conter ferro como parte de um centro ferro-enxofre, podem
estar coordenadas com um anel porfirina, como ocorre com os citocromos,
ou podem conter cobre, como o complexo citocromo a + a3 .
Figura 6.7
1. Formação de NADH. O NAo• é reduzido a NADH por desidroge-
Estrutura da mitocôndria, mostrando
uma representação esquemática da nases que removem dois átomos de hidrogênio de seus substratos.
cadeia transportadora de elétrons e (Para exemplos d essas reações, veja a discussão a respeito das
das estruturas que sintetizam o AT P desidrogenases q ue participam do cic lo do ácido c ítrico, págs. 110-
na membrana interna da mitocôndria. 111.) Ambos os elétrons , mas apenas um próton (ou seja, um íon
DNAmt = DNA mitocondrial; RNAmt hidreto, :H-), são transferidos ao NAo• formando NADH mais um pró-
= RNA mitocondrial. ton livre, H• .
Bioquímica Ilustrada 75

~Espaço
MITOCÔNDRIA intermembranas

substratox
(reduzido) NAo+ X FMNH2

1- 0 2
Produto NADH FMN 2 3

(oxidado) + H+ CoQ X : Fe +K Fe +~Fe2+

Fumarato X FADH2
CoOH2
Cito b

Fe3 +

Complexo III
· Cito c

Fe 2+
Cito a + a3

Fe3+

Complexo IV

Succinato FAD

Complexo 11

Figura 6.8
A cadeia de transporte de elétrons. (Nota: O Complexo V não é mostrado.)

2. NADH-desidrogenase. O próton li vre mais o íon hidreto carregado


pelo NADH são a seguir transferidos para a NADH-desidrogenase, um
complexo enzimático (Complexo I) embebido na membrana mitocon-
drial interna. Esse complexo possui uma molécula de flavina-mononu-
cleotídeo (FMN , uma coe nzima estruturalmente relacionada ao FAD;
veja a Figura 28.5, pág. 373) fortemente ligada, que aceita os dois
átomos de hidrogênio (2e- + 2W ), tornando-se FMNH 2 . A NADH-desi-
drogenase também contém diversos átomos de ferro pareados com
átomos de enxofre, constituindo centros ferro -enxofre (Figura 6.9).
Esses centros são necessários para a transferência dos átomos de
hidrogên io para o próximo membro da cadeia, a ubiquinona (conhe-
cida como coenzima Q).

3. Coenzima a. A coenzima Q é um derivado de quinona, co m uma longa


cauda isoprenóide. É também denominada ubiquinona, por sua ubi-
qüidade nos sistemas biológicos. A coenzima Q pode aceitar átomos
de hidrogênio tanto do FMNH2 , produzido pela NAOH-desidrogenase,
quanto do FADH2 (Complexo 11), produzido pela succinato-desidroge-
nase e pela acii-CoA-desidrogenase.

4. Citocromos. Os demais membros da cadeia de transporte de elétrons


são citocromos. Cada um deles apresenta um grupo heme, constituído
por um anel porfirina contendo um átomo de ferro (veja a pág. 277).
Distintamente do que ocorre no grupo heme da hemoglobina, o átomo
de ferro dos citocromos é convertido reversivelmente de sua forma de
íon férrico (Fe3 • ) para íon ferroso (Fe2· ) , como parte normal de sua
função de carreador reve rsível de elétrons. Os elétrons fluem ao longo Figura 6.9
da cadeia, desde a coenzi ma Q, pelos citocromos b e c (Complexo III) Centro ferro-enxofre da NAOH-
e a+ a3 (Complexo IV, veja a Figura 6.8). desidrogenase.
76 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

O bloqueio da transferência de elétrons


po r qualquer desses inibidores faz
cessar o fluxo de elétrons do substrato
até o oxigênio, pois as reações da
cadeia transportadora de elétrons são
fortemente acopladas, como
engrenagens em uma rede.

Figura 6.10
Inibidores de sítios específicos no transporte de elétrons, mostrado utilizando um modelo mecânico para o acoplamento das
reações de oxidação-redução. (Nota: A figura ilustra a direção normal do fluxo de elétrons.)

5. Citocromo a + a3 . Esse complexo de citocromos é o único carreador


de elétrons em que o ferro do heme possui um ligante livre, que pode
reagir diretamente como o oxigénio molecular. Neste sítio, os elétrons
transportados, o oxigénio molecular e os prótons livres são reunidos
para formar água (veja a Figura 6.8). O citocromo a + a 3 (também cha-
mado citocromo-oxidase) contém áto mos de cobre ligados, que são
necessários para que essa complexa reação ocorra.

6. Inibidores de sítios específicos . Inibidores de sítios específicos na


cadeia transportadora de elétrons têm sido identificados e são ilustra-
dos na Figura 6.1 O. Esses compostos previnem a passagem de elé-
trons, ligando-se a algum componente da cadeia , bloqueando a reação
de oxidação/redução. Desse modo, todos os carreadores de elétro ns
antes do bloqueio tornam-se completamente red uzidos, enquanto
aqueles localizados após o bloqueio estão oxidados. (Nota: Uma vez
que o transporte de elétrons e a fosforilação oxidativa estão fortemente
Reação geral de oxidação-redução
acoplados, a inibição de sítios específicos da cadeia transportadora de
elétrons também inibe a síntese de ATP.)
NADHXFMN
+H+
C. Liberação de energia livre durante o transporte de e létrons

NAD+ FMNH2 A energia livre é liberada à medida que os elétrons são transfe ridos ao
longo da cadeia transportadora de elétrons, de um doador (agente redutor)
Reações redox componentes
para um aceptor (agente oxidante). Os elétrons podem ser transferidos sob
FMN + 2e- + 2H+ diferentes formas; por exemplo, como íons hidreto (:W) para o NAD+, como
NADH+W)
átomos de hidrogénio (·H) para o FMN, para a coenzima Q e para o FADou
como elétrons (-e-) para os citocromos.

NAD++ 2e- + 2W ( FMNH, 1. Pares redox. A oxidação (perda de elétrons) de um composto é sem-
pre acompanhada pela redução (ganho de elétrons) de uma segunda
Par redox Par redox
E0 =- 0,32 volt E0 =- 0,22 volt
substância. Por exemplo, a Figura 6.1 1 mostra a oxidação do NADH
a NAD+, acompanhada pela redução do FMN a FMNH 2 . Tais reações
de oxidação-redução podem ser escritas como a soma de duas semi-
Figura 6.11 reações: uma reação de oxidação isolada e uma reação separada de
Oxidação do NADH pelo FMN, redução (veja a Figura 6.1 1). NAD+ e NADH fo rmam um par redox,
separados nos dois pares redox assim como FMN e FMNH2 ou FAD e FADH2 . Os pares redox diferem
componentes. em sua tendência de perder elétrons. Essa tendência é característica
Bioquímica Ilustrada 77

de cada par redox e pode ser expressa quantitativamente por uma


constante, E0 (o po tencial d e redução-padrão), com unidades em Compostos com E0 bastante negativo
volts. (localizados na parte superior da tabela)
são fortes agentes redutor es - ou seja,
apresentam uma grande tendência de
2. Potencial de redução-padrão (e) . Os potenciais de redução-padrão perder elétrons.
0
para vários pares redox podem ser listados, indo do mais negativo E
para o mais positivo. Quanto mais negativo for o potencial de redução-
padrão de um par redox, maior será a tendência da forma redutora
0 Par redox Eo (volts)
desse par em perder elétrons. Quanto mais positivo o E , maior a
tendência da forma oxidante daquele par em aceitar elétrons. Desse
0
modo, os elétrons fluirão do par com E mais negativo para aquele par
'<!. *' NAD+/NADH -0,32
0 0
FMN/FMNH2 -0,22
com E mais positivo. Os valores de E para alguns membros da cadeia
Piruvato/lactato -0,19
de transporte de elétrons são mostrados na Figura 6 .12.
Citocromo c Fe3+/Fe2 + +0,07
3.
0
LlG 0 está relacionado com LlE • A variação na energi a livre está dire- ~ 1/2 02/H20 +0,82
0
tamente relacionada com a magnitude da variação do E :

LlG0 = - n F LlE0 onde


n = número de elétrons transferidos (1 para um citocromo, 2 para Os compostos na parte inferior da
tabela s ão fortes agentes
NAD H, FADH2 e coenzima Q) oxidantes, isto é, querem
receber elétrons.
F = constante de Faraday (23.062 cal/volt -moi)
6 E0 = E0 do par aceptor de elétrons menos E0 do par doador de
elétrons
Figura 6.12
LlG0 =variação na energia livre padrão Potenciais de redução-padrão de
algumas reações.
0
4. LlG para o ATP. A energia livre padrão para a hidrólise do grupo fos-
fato terminal do ATP é - 7.300 cal/moi. O transporte de um par de elé-
trons do NADH para o oxigênio, por meio da cadeia transportado ra de
elétrons, produz 52.580 cal/moi e, portanto, energia mais que suficiente
é disponibilizada para produzir 3 ATPs a partir de 3 ADPs e 3 P; (3 x
7 .300 = 21.900 cal). As calorias restantes são liberadas como calor.
(Nota: O transporte de um par de elétrons do FADH 2 ou do FMNH2 para
o oxigênio via cadeia transportadora de elétrons gera energia mais que
suficiente para produzir 2 ATPs a partir de 2 ADPs e 2 P,.)

VI. FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA

A transferência de elétrons ao longo da cadeia de transporte de elétrons é ener-


geticamente favorecida, pois o NADH é um forte doador de elétrons, e o oxigê-
nio molecular é um ávido aceptor de elétrons. O fluxo de elétrons do NADH para
o oxigên io, porém, não resulta diretamente na síntese de ATP.

A . A hipótese quimiosmótica
A hipótese quimiosmótica (também conhecida como hipótese de Mitchell)
explica como a energia livre gerada pelo transporte de elétrons através da
cadeia transportado ra de elétrons é utilizada para produzir ATP a partir de
ADP + P;.

1. A bomba de prótons. O transporte de elétrons está acoplado à fosfo-


rilação do ADP pelo transporte de prótons (W ) através da membrana
mitocondrial interna, prótons esses que são bombeados da matriz para
o espaço intermembranas. Esse processo cria, através da membrana
mitocondrial interna, um gradiente e létrico (com cargas mais positivas
78 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

MITOCÕNDRIA
ADP+ P;

Espaço
intermembranas

NAD+

Complexo
v

ESPAÇO
INTERMEMBRANAS

Figura 6.13
Cadeia trans portadora de elétrons, mostrada acoplada ao transporte de prótons. (Nota: O Complexo 11 não é mostrado.)

no lado externo da membrana do que no lado interno) e um gradiente


de pH (o meio, no lado de fora da membrana, está em um pH mais
baixo do que no lado interno; Figura 6.13). A energia gerada por esse
gradiente de prótons é suficiente para impulsionar a síntese de ATP.
Proteínas desacopladoras criam um Desse modo, o gradiente de prótons funciona como o intermediário
" vazamento de prótons", permitindo comum que acopla a oxidação à fosforilação.
que os prótons retornem à matriz
mitocondrial sem capturar energia
na forma de ATP. 2. A ATP-sintase. O complexo enzimático ATP-sintase (Complexo V, veja
a Figura 6.13) sintetiza ATP, utilizando a energia do gradiente de pró-
tons gerado pela cadeia transportadora de elétrons. (Nota: Essa enzima
também é chamada ATPase, pois a enzima isolada também catalisa a
hidrólise de ATP a ADP e fosfato inorgânico.) A hipótese quimiosmótica
propõe que, após os prótons serem transferidos para o lado citosólico
da membrana mitocondrial interna, eles retornam à matriz mitocondrial
passan do através de um canal no complexo ATP-sintase, resultando
então na síntese de ATP a partir de ADP + P; e, ao mesmo tempo, dis-
sipando os gradientes elétrico e de pH.

a. Oligomicina. Essa droga liga-se ao pedúnculo da ATP-sintase,


fechando o canal de W e impedindo o retorno dos prótons à matriz
mi tocondrial. Uma vez que os gradientes de pH e elétrico não
podem ser dissipados na presença dessa droga, o transporte de
elétrons cessa, devido à dificuldade de bombear mais prótons con-
tra gradientes tão grandes. Demonstra-se, assim, mais uma vez, o
forte acoplamento entre os processos de transporte de elétrons e
fosforilação - a inibição da fosforilação inibe a oxidação.
Figura 6.14
Transporte de H+ através da membrana b. Proteínas desacopladoras (UCPs, de uncoupling proteins).
mitocondrial por proteínas desacopladoras. UCPs são proteínas encontradas na membrana mitocondrial
Bioquímica Ilustrada 79

interna de mamíferos, incluindo humanos. Essas proteínas criam


um "vazamento de prótons", ou seja, permitem aos prótons retor-
narem à matriz mitocondrial sem que a energia seja captu rada
como ATP (Figura 6.14) . (Nota: A energia é liberada na forma de
calor.) A UCP1 , também denominada termogenina, é responsável NADH + H+ NAD+
pela ativação da oxidação de ácidos graxos e produção de calor 9H20H \... ../'
nos adipócitos marrons dos mamíferos. A gordura marrom , ao 9=O Glicerofosfato'J'
CH 2 0PO~ desidrogenase CH 20PO~
contrário da gordura branca, mais abundante, gasta quase 90% citosólica
de sua energia respiratória para a termogênese em resposta ao DHAP Glicerol-
3-fosfato
frio, tanto no nascimento quanto ao despertar após a hibernação,
no caso de animais hibernantes. Os humanos, porém, apresentam CITOSOL ~-
transportador~
pouca gordura marrom (exceto no recém-nascido) e a UCP1 não
parece desempenhar um papel importante no balanço energético. -· CCadeia ·-·
Outras proteínas desacopladoras (UCP2, UCP3) foram descober- de elétrons
tas nos humanos, mas seu significado continua controverso.
FADH2 FAD
~H20H ~ __) 9H20H
c. Desacopladores sintéticos. O transporte de elétrons e a fosforila-
C=O ( --- - - HO-C-H
ção oxidativa podem ser desacoplados por meio de compostos que 1 Glicerofosfato· 1
CH20PO~ desidrogenase CH20P03'
aumentam a permeabilidade da membrana mitocondrial interna a
DHAP mitocondrial Glicerol-
prótons. O exemplo clássico é o 2,4-dinitrofenol , um transportador
3-fosfato
de prótons lipofílico, que difunde facilmente através da membrana
mitocondrial. Esse desacoplador faz com que o transporte de
elétrons funcione em uma alta velocidade, sem estabelecer um MEMBRANA MITOCONORIAL INTERNA
gradiente de prótons, de forma semelhante ao que ocorre com as
UCPs (veja a Figura 6.14). A energia produzida pelo transporte de
elétrons é liberada como calor, em vez de ser utilizada para sinte-
tizar ATP. Em doses altas, a droga Aspirina® (assim como outros
salicilatos) desacopla a fosforilação oxidativa. Isso explica a febre
que acompanha superdoses tóxicas dessas drogas.
Oxalacetato
NADH -1
+ H+ Malaio·
+---r .
Glutamat o

desidrogenase Ammo-
NAD+ 1 sólica tranl rase
B. Sistemas de transporte através da membrana
A membrana mitocondrial interna é impermeável à maior parte das substân- Maiato ~~

~ y
o:- Cetoglutarato Asparato
cias hidrofílicas ou com carga. Essa membrana contém, porém, numerosas
proteínas de transporte, que permitem a passagem de moléculas específi-
cas desde o citosol (ou, mais corretamente, o espaço intermembranas) até
CITOSOL ·- -{r =ír ~
o:-Cetoglutarato Asparato
a matriz mitocondrial.

1. Transporte de ATP-ADP. A membrana mitocondrial interna reque r


NAo+ M_a't'o
transportadores específicos para transportar o ADP e o P; do citosol
Malato-
(onde o ATP é utilizado e convertido em ADP em muitas reações desidrogenase Amino-
que requerem energia) para dentro da mitocôndria, onde o ATP pode
ser novamente sintetizado. Um carreador de nucleotídeos da ade- NADH~I
+H+
mitocondrial

t l_
transferase

nina transporta uma molécula de ADP do citosol para a mitocôndria,


enquanto exporta um ATP da matriz para o citosol. Esse carreador é
I Oxala~etato Glutamato

fortemente inibido pela toxina vegetal atractilosídeo, resultando na ~Cadeia transportadora de elétrons
depleção do conjunto de ADP intramitocondrial e na inibição da pro-
MATRIZ MITOCONDRIAL
dução de ATP. (Nota: Um transportador de fosfato é responsável pelo
transporte do fosfato inorgânico do citosol para a mitocôndria.)
Figura 6.15
2. Transporte de equivalentes redutores. A membrana mitocondrial Lançadeiras para o transporte de
interna não possui uma proteína transportadora de NADH , de modo elétrons através da membrana
que o NADH produzido no citosol não pode penetrar diretamente na mitocondrial interna. A. Lançadeira
mitocôndria. Os dois elétrons do NADH (também denominados equi- do glicerofosfato. B. Lançadeira do
valentes redutores) , no entanto, são transportados do citosol para a malato-aspartato.
mitocôndria utilizando mecanismos de lançadeiras. Na lançadeira do
glicerofosfato (Figura 6.15A), dois elétrons são transferidos do NADH
para a flavoproteína-desidrogenase , localizada na membrana interna
80 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

da mitocôndria. Essa enzima, então, doa seus elétrons para a cadeia


de transporte de elétrons, de modo semelhante ao que ocorre com a
succínato-desídrogenase (pág. 111 ). A lançadeira do glicerofosfato,
portanto, resulta na síntese de dois ATPs para cada NADH citosólico
oxidado. Isso contrasta com a lançadeira do malato-aspartato (veja
a Figura 6.1 58), que produz NADH (em vez de FADH 2) na matriz mito-
condrial e leva, desse modo, à produção de três ATPs para cada NADH
citosólico oxidado.

C. Deficiências herdadas da fosforilação oxidativa

Treze dos aproximadamente 1 00 polipeptídeos necessários para a fosfori-


lação oxidativa são codificados pelo DNA mitocondrial (DNAmt), enquanto
as demais proteínas mitocondriais são sintetizadas no citosol e transpor-
tadas para a mitocôndria. Deficiências na fosforilação oxidativa são, mais
provavelmente, resultado de alterações no DNAmt, que apresenta uma taxa
de mutações cerca de dez vezes maior que o DNA nuclear. Tecidos com
maiores necessidades de ATP (por exemplo, SNC, músculos esquelético e
cardíaco, rins e fígado) são mais afetados por deficiências na fosforilação
oxidativa. Mutações no DNAmt são responsáveis por diversas doenças,
incluindo alguns casos de miopatias mitocondriais (Figura 6.16) e a neu-
ropatia óptica hereditária de Leber, uma doença na qual ocorre perda
bilateral da visão central, como resultado da degeneração neurorretiniana,
Figura 6.16 incluindo lesão do nervo óptico. O DNAmt é herança materna, pois as mito-
Fibras musculares de um paciente côndrias do espermatozóide não penetram na célula-ovo.
com uma miopatia mitocondrial
mostram proliferação anormal de
mitocôndrias quando coradas para a VIl. RESUMO DO CAPÍTULO
succinato-desidrogenase.
A variação na energia livre (ó G) que ocorre durante uma reação prediz o
sentido no qual aquela reação ocorrerá espontaneamente. Se óG é negativo
(ou seja, o produto apresenta menor energia livre que o substrato) , a reação
ocorre espontaneamente. Se óG é positivo, a reação não ocorre esponta-
neamente. Se óG = O, os reatantes estão em equilíbrio. A variação na energia
livre de uma reação no sentido direto (A -7 B) é igual em magnitude, mas de
sinal oposto, àquela da reação inversa (B -7 A). Variações-padrão de energia
0
livre (L'>G ) são aditivas em qualquer seqüência de reações consecutivas. Por-
tanto, a ocorrência de reações ou processos que apresentem um óG bastante
positivo torna-se possível pelo acoplamento com a hidrólise de trifosfato de
0
adenosina {ATP) , que apresenta um L'>G bastante negativo. As coenzimas
reduzidas NADH e FADH2 doam, cada uma delas, um par de elétrons para um
conjunto especializado de transportadores de elétrons, consistindo de FMN,
coenzima Q e uma série de citocromos , coletivamente denominados cadeia
transportadora de elétrons. Essa via está presente na membrana mito-
condrial interna e é a via final comum, pela qual os elétrons provenientes de
diversos combustíveis do organismo fluem até o oxigênio. O último citocromo, o
citocromo a + a 3 , é o único citocromo capaz de ligar oxigênio. O transporte de
elétrons está acoplado ao transporte de prótons (H+) através da membrana
mitocondrial interna, desde a matriz até o espaço intermembranas. Esse pro-
cesso cria um gradiente elétrico e um gradiente de pH através da membrana
mitocondrial interna. Após os prótons serem transferidos para o lado citosólico
da membrana mitocondrial interna, eles podem voltar à matriz mitocondrial,
passando por um canal no complexo ATP-sintase, o que resulta na síntese de
ATP a partir de ADP e P; e, ao mesmo tempo, dissipa os gradientes de pH e elé-
trico. Desse modo, diz-se que o transporte de elétrons e a fosforilação estão
fortemente acoplados. Esses processos podem ser desacoplados por pro-
teínas desacopladoras encontradas na membrana mitocondrial interna e por
compostos sintéticos como o 2,4-dinitrofenol e a Aspirina®, os quais aumen-
Bioquímica Ilustrada 81

Fosforilação oxidativa
Ciclo do ácido produzem
cítrico e 13-oxidação NADH e FADH 2
dos ácidos graxas
que doam elétrons para a FMN
t formada por
coa
Cadei a trans portadora de elétrons Citocromo b
I Citocromo c
leva a
Citocromo a + a3
Fluxo de elétrons ~
Único componente que
acopladoao pode reagir di reta mente
+ com o oxigênio
Transporte de prótons (H+)

da

Matriz para o
espaço intermembranas
visualizados como
criando

Gradientes elétrico e de pH

através da
t É rica em proteínas
l notável Impermeável à maioria das moléculas pequenas
[ Membrana mitocondrial interna Contém transportadores para compostos específ icos
pois
permitindo
t
Prótons
para

Voltarem à matriz mitocondrial


por
MATRIZ
t MITOCONDRIAL
Passagem por um canal na
molécula da ATP-sintase

resultando em

Síntese de AT P a visuaUzada como


Substrato partir de ADP + Pi
oxidado

( , ,";
·Membrana
mitocondrial
interna

~ + ~ +
~ H+ lr H+
H+ H+ H+ H+ H+
Figura 6.17
Resumo de conceitos-chave para a fosforilação oxidativa. (Nota: O fluxo de elétrons e a síntese de ATP são representados
como conjuntos de engrenagens interconectadas para enfatizar a idéia de acoplamento. )
82 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

tam a permeabilidade da membrana mitocondrial interna a prótons. A energia


produzida pelo transporte de elétrons é, nesse caso, liberada como calor, em
vez de ser utilizada para a síntese de ATP. Mutações no DNA mitocondrial
(DNAmt) são responsáveis por alguns casos de doenças mitocondriais, como
a neuropatia óptica hereditária de Leber.

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

6. 1 Qual das seguintes alternativas a respeito da cadeia trans-


portadora de elétrons está correta?
A. Todos os componentes da cadeia transportadora de
e létrons estão presentes em grandes complexos pro-
téicos de subunidades múltiplas, embebidos na mem- Resposta correta = D. Treze dos aproximadamente 100 poli-
b rana mitocondrial interna. peptídeos necessários para a fosforilação oxidativa são codifi-
B. O oxigénio oxida diretamente o citocromo c. cados pelo DNA mitocondrial, incluindo-se aqui a produção de
C. A succinato-desidrogenase reduz diretamente o cito- citocromo c e de coenzima O, componentes do transporte de
cromo c. elétrons. O oxigênio oxida diretamente a citocromo-oxidase. A
D. A cadeia transportadora de elétrons contém algumas succinato-desidrogenase reduz diretamente o FAD. O cianeto
cadeias polipeptídicas codificadas pelo DNA nuclear e inibe o fluxo de elétrons, o bombeamento de prótons e a sín-
tese de ATP.
algumas codificadas pelo DNAmt.
E. O cianeto inibe o fluxo de elétrons, mas não o bombe-
amento de prótons ou a síntese de ATP

6 .2. Uma biópsia de músculo de um paciente com uma doença


rara, a d oença de Luft, mostrou mitocôndrias anormal-
mente grandes, que contin ham cristas dobradas quando
examinadas ao microscópio eletrônico. A atividade ATPá-
sica basal d as mitocôndrias foi sete vezes maior que o
Resposta correta = E. Quando a fosforilação está parcialmente
normal. Por meio desses e de outros dados, concluiu-se desacoplada do fluxo de elétrons, espera-se um decréscimo no
que a oxidação e a fos forilação estavam parcialmente gradiente de prótons através da membrana mitocondrial interna
desacopladas. Qual das seguintes afirmativas sobre esse e, assim, prejuízo na síntese de ATP. Em uma tentativa de com-
paciente está correta? pensar essa deficiência na captura de energia, o metabolismo e
A. A velocidade de transporte de elétrons é anormal- o fluxo de elétrons até o oxigênio são aumentados. Esse hiper-
metabolismo será acompanhado por aumento na temperatura
mente baixa.
corporal, pois a energia dos combustíveis é em grande parte
B. O gradiente de prótons através da membrana mitocon-
desperdiçada, aparecendo como calor. A cadeia transportadora
drial interna é maior que o normal. de elétrons ainda será inibida pelo cianeto.
C. Os níveis de ATP na mitocôndria são maiores que o
normal.
D. O cianeto não inibiria o fluxo de elétrons.
E. O paciente apresenta hipermetabolismo e temperatura
inte rna elevada.
Introdução aos
Carboidratos

I. VISÃO GERAL Nomes genéricos Exemplos


3 carbonos: trioses Gliceraldeído
Os carboidratos são as moléculas orgânicas mais abundantes na natureza. Eles 4 carbonos: tetroses Eritrose
possuem uma grande variedade de funções, as quais incluem o fornecimento 5 carbonos: pentoses Ribose
de uma fração significativa da energia na dieta da maioria dos organismos e 6 carbonos: hexoses Glicose
7 carbonos: heptoses Sedoeptulose
a atuação como uma forma de armazenamento de energia no corpo e como
9 carbonos: nonoses Ácido neuramínico
componentes da membrana celular, mediando algumas formas de comunicação
intracelular. Os carboidratos também servem como componentes estruturais de
muitos organismos, incluindo a parede celular de bactérias, o exoesqueleto de
Figura 7.1
muitos insetos e as fibras de celu lose das plantas. A fórmu la empírica para mui-
Exemplos de monossacarídeos
tos dos carboidratos mais simples é (CHP)n, daí o nome "hidratos de carbono".
encontrados em humanos,
classificados de acordo com o
11. CLASSIFICAÇÃO E ESTRUTURA número de carbonos que contêm.
DOS CARBOIDRATOS

Os monossacarídeos (açúcares simples) podem ser classificados de acordo


com o número de átomos de carbono que contêm . Exemplos de alguns monos-
sacarídeos comumente encontrados em humanos estão listados na Figura 7 .1.
Os carboidratos com um aldeído como seu grupo funcional mais oxidado são
denominados aldoses, enquanto aqueles com um grupo cetona como seu
grupo funcional mais oxidado são chamados cetoses (Figura 7.2). Por exem-
plo, o gliceraldeído é uma aldose, enquanto a diidroxiacetona é uma cetose.
Os carboidratos que apresentam um grupo carbonila livre recebem o sufixo • Grupo
"-ose". (Nota: As cetoses [com algumas exceções, como, por exemplo, a frutose] • cetona
recebem duas letras adicionais no seu sufixo; "-ulose", como, por exemplo, xilu-
lose.) Os monossacarídeos podem ligar-se por ligações glicosídicas, criando
estruturas maiores (Figura 7.3). Os dissacarídeos contêm duas unidades de ÇH20H
monossacarídeos, os oligossacarídeos contêm cerca de 3 a 12 unidades C =O
I
de monossacarídeos e os polissacarídeos contêm mais de 12 unidades de CH20H CH20H
monossacarídeos, podendo chegar a centenas de unidades de açúcares em Gliceraldeído Diidroxiacetona
sua estrutura.

Figura 7.2
Exemplos de glicídeo do tipo aldose
(A) e do tipo cetose (B).
84 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

A. lsômeros e epímeros
Carbono 4 da
Os compostos que contêm a mesma fórmula química, mas estruturas dife-
rentes, são denominados isômeros. Por exemplo, frutose, glicose, manose
e galactose são todos isômeros um do outro, ou seja, apresentam a mesma
CH2 0 H fórmula quím ica, C6 H120 6 . Se dois monossacarídeos diferem na sua con-

~HOH
figuração ao redor de apenas um determinado átomo de carbono (com
exceção do carbono da carbonila, veja "anômeros", a seguir), eles são defi-
nidos como epímeros um do outro. (Eles também são isômeros, é claro!)
Por exemplo, a glicose e a galactose são epímeros em C-4 - suas estru-
OH Ligação OH
glicosidlca tu ras diferem somente na posição do grupo -OH no átomo de carbono 4.
(Nota: Nos açúcares, a numeração dos carbonos inicia na extremidade que
Lactose: galactosil-(3(1 .-,4)-glicose contém o carbono da carbon ila, isto é, o grupo aldeído ou cetona [Figura
7.4].) A glicose e a manose são epímeros em C-2. A galactose e a manose,
entretanto, NÃO são epímeros - eles diferem na posição do grupo -OH em
Figura 7.3 dois átomos de carbono (2 e 4) e são, portanto, definidos somente como
Uma ligação glicosídica entre duas isômeros (veja a Figura 7.4).
hexoses produzindo um dissacarídeo.

B. Enantiômeros
Um tipo especial de isomeria é observado em pares de estruturas que são
imagens uma da outra no espelho. Essas imagens especulares são deno-
CHO minadas enantiômeros, e os dois membros do par são designados como

=-l
I
HCOH o- e L-açúcares (Figura 7.5). Em seres humanos, a grande maioria dos açú-
I
HOCH cares é do tipo o-açúcares.
Galactose
HO-ÇH
HCOH C. Ciclização de monossacarídeos
I

CH 2 0 H
Menos de 1% de cada monossacarídeo com cinco ou mais átomos de car-
Epímeros em C-4 bonos ocorre na forma de cadeia aberta (acíclica) . Ao contrário, eles são
encontrados predominantemente na forma de anel, na qual o grupo aldeído
'CHO } (ou cetona) reagiu com um grupo álcool da mesma molécula.
H-•c- OH +- h
I
HO -"C - H 1. Carbono anômero. A formação de um anel resulta na criação de
Glicose
H- 'C- OH um carbono anômero no carbono 1 de uma aldose, ou no carbono
1
H - •C-OH 2 de uma cetose. Essas estruturas são designadas configurações
I
' CH 2 0H
a ou ~ dos açúcares, por exemplo, a -o-glicose e ~-o-glicose (Figura
7 .6). Esses dois glicídeos são ambos moléculas de glicose, mas e les
Epímeros em C-2 são anômeros um do outro. As enzimas são capazes de distinguir

l
entre essas duas estruturas e utilizam uma de las preferencialmente.
CHO
Por exemplo, o glicogênio é sintetizado a partir da a -o-glicopiranose,
HO-CH lsômeros
I enquanto a celulose é sintetizada a partir da ~-o-glicopiranose . Os
Manose HO~H anômeros cíclicos a e ~ de um glicídeo em solução estão em equilíbrio
HCOH um com o outro e podem ser espontaneamente interconvertidos (um
I
HCOH processo denominado mutarrotação, veja a Figura 7.6).
I

CH2 0H
2. Glicídeos redutores. Se o átomo de oxigênio do ca rbono anômero
(o grupo carbonila) de um glicídeo não está ligado a qualquer outra
estrutura, esse glicídeo é um glicídeo redutor. Ele pode reagir com rea-
yH 2 0H} gentes químicos (por exemplo, a solução de Benedict) e reduzir o com-
C =O ponente reativo, enquanto seu carbono anômero torna-se oxidado.
I

Frutose HO- C- H (Nota: Somente o estado do oxigênio no carbono anômero determina


I
H -C - OH se o glicídeo é redutor ou não-redutor - os demais grupos hidroxila da
I
H C-OH molécu la não estão envolvidos.)
I

CH2 0 H
D. Carboidratos complexos

Figura 7.4 Os carboidratos podem unir-se por ligações glicosídicas a estruturas que
Epímeros em C-2 e em C-4 e um não são carboidratos, como purinas e pirimidinas (como as ligações encon-
isômero da glicose.
Bioquímica Ilustrada 85

tradas em ácidos nucleicos), anéis aromáticos (tais como em esteróides e


na bilirrubina), proteínas (encontradas em glicoproteínas e glicosaminogli-
canos) e lipídeos (em glicolipídeos). A aldose, cujo carbono 1 (ou cetose,
cujo carbono 2) participa da ligação glicosídica, é chamada de resíduo
glicosil. Por exemplo, se o carbono anômero da glicose participa de tal
ligação, esse glicídeo é denominado um resíduo glicosil; assim, o dissaca-
rídeo lactose (veja a Figura 7.3) é uma galactosil-glicose.

1. 0-Giicosídeos e N-Giicosídeos. Se o grupo na molécula que não é


carboidrato, à qual o glicídeo está ligado, é um grupo -OH, a estrutura
é um 0 -glicosídeo. Se o grupo é um grupo - NH2 , a estrutura é um N-
glicosídeo (Figura 7.7). (Nota: Todas as ligações glicosídicas glicídeo-
glicídeo são do tipo 0-.)
Figura 7 .5
2. Denominação das ligações glicosídicas. As ligações glicosídicas Enantiômeros (imagens especulares)
entre glicídeos são designadas de acordo com o número dos carbonos da glicose.
que estabelecem a conexão e também em função da posição do grupo
hidroxila no carbono anômero do glicídeo envolvido na ligação. Se esse
grupo hidroxila do carbono anômero está na configuração a , a ligação HO , ,H ~ H, , QH

H-t~H
é uma ligação oo. Se o grupo estiver na configuração ~. a ligação é uma
ligação ~-A lactose, por exemplo, é sintetizada pela formação de uma H-6-oH J H-6-oH J
I I I

ligação glicosídica entre o carbono 1 de uma B-galactose e o carbono HO -C(-~HO +t HO-C( - H +!" H0 -9-~HO
H-C-OH H-C-OH H-C-OH
4 da glicose. A ligação é, dessa forma, uma ligação glicosídica B(1~4) I > >
H-C H-C -OH H-C
(veja a Figura 7.3). (Nota: Como a extremidade anômera do resíduo de I I >

H-C - OH H-C-OH H-C - OH


glicose não está envolvida na ligação glicosídica, ela (e, dessa forma, a H
I I
H
I
H
lactose) permanece sendo um glicídeo redutor.) Jl-O·Giico- o-Glicose a -D·Giico·
piranose piranose

III. DIGESTÃO DOS CARBOIDRATOS


Figura 7.6
Os principais sítios de digestão dos carboidratos da dieta são a boca e o lúmen A interconversão das formas
intestinal. Essa digestão é rápida e geralmente está completa no momento em anômeras a e B da glicose
que o conteúdo estomacal atinge a junção entre duodeno e jejuno. Há poucos (mutarrotação).
monossacarídeos presentes em dietas de origem mista, animal e vegetal. Por-
tanto, as enzimas necessárias para a degradação da maioria dos carboidratos
da dieta são principalmente dissacaridases e endoglicosidases (que quebram
aH + â - cH2-J
oligossacarídeos e polissacarídeos). A hidrólise de ligações glicos ídicas é NH2
catalisada por uma família de glicosidases que degrada carboidratos em seus Açúcar Aspar agina

H 2 0~
glicídeos redutores componentes (Figura 7.8). Essas enzimas em geral são
específicas para a estrutura e a configuração do resíduo glicosil a ser removido, Cadeia

bem como para o tipo de ligação a ser hidrolisada. OH t ~


oli eptfdlca

A. A digestão dos carboidratos inicia na boca


O H~
N - C - CH 2

Liga~licosidica

-l
Os principais polissacarídeos da dieta são de origem animal (gl icogênio)

a
e vegetal (amido, composto de amilose e amilopectina). Durante a mas-
tigação, a a-amilase salivar atua brevemente sobre o amido da dieta, de
maneira aleatória, hidrolisando algumas ligações a(1--74). (Nota: Existem OH + HO -CH2
H
na natureza ambas as endoglicosidases, a[1 ~4] e f3[1 ~ 4], mas os huma- Açúcar Seri na

nos não produzem nem secretam esta última nos sucos digestivos. Dessa
forma, eles são incapazes de digerir a celulose - um carboidrato de origem H20
, l
:1 Cadela
polirptídica

~~,;:;::~
vegetal que contém ligações glicosídicas ~[1 --7 4] entre seus resíduos de
glicose.) Uma vez que tanto o glicogênio quanto a amilopectina são rami-
ficados - eles também contêm ligações a( 1~6) - os produtos da digestão
resultantes da ação da a.-amilase contêm uma mistura de moléculas de oli-
gossacarídeos ramificados menores (Figura 7.9). A digestão dos carboidra-
tos cessa temporariamente enquanto o alimento está no estômago, porque
a elevada acidez inativa a a -amilase salivar. Figura 7.7
Glicosídeos: exemplos de ligações N-
glicosídicas e 0-glicosídicas.
86 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

B. A digestão subseqüente dos carboidratos pelas enzimas

0-JC)
pancreáticas ocorre no intestino delgado
Quando o conteúdo ácido do estômago atinge o intestino delgado, ele é

rH,O
Glioo_,,
neutralizado pelo bicarbonato secretado pelo pâncreas, e a (J..-amilase pan-
creática continua o processo de digestão do amido.

O Ho H
OH HO
C. Digestão final dos carboidratos pelas enzimas sintetizadas pelas
células mucosas intestinais
O processo final da digestão ocorre no epitélio mucoso do jejuno superior,
diminuindo à medida que os produtos seguem ao longo do intestino del-
gado, e inclui a ação de várias dissacaridases e oligossacaridases (Figura
Figura 7.8 7. 10). Por exemplo, a isomaltase rompe a ligação (1..(1 ~ 6) da isomaltose, e
Hidrólise de uma ligação glicosídica. a maltase hidrolisa a maltose, ambas produzindo glicose; a sacarase hidra-
lisa a sacarose, produzindo glicose e frutose, e a Jactase ([3 -ga/actosidase)
hidrolisa a lactose, produzindo galactose e glicose. Essas enzimas são
secretadas pelo lado luminal da membrana em forma de escova das células
da mucosa intestinal e permanecem associadas a essa membrana.

D. Absorção dos monossacarídeos pelas células da mucosa do


intestino
O duodeno e o jejuno superior absorvem a maior parte dos glicídeos da
dieta. A captação de glicose pelas células intestinais não requer insulina.
Entretanto, diferentes glicídeos são absorvidos por meio de diferentes
mecanismos. Por exemplo, a galactose e a glicose são transportadas para
o interior das células mucosas por um processo ativo, que requer energia,
envolvendo uma proteína transportadora específica e necessitando de uma
captação concomitante de íons sódio. A absorção de frutose requer um
transportador de monossacarídeo independente de sódio (GLUT-5). Todos
os três monossacarídeos são transportados das células mucosas intesti-
Parte de uma nais para a circulação porta por outro transportador, o GLUT-2. (Veja a pág.
mol écula de glicogênio
95 para uma discussão desses transportadores.)
a-Amilase ~
E. Degradação anormal de dissacarídeos
Todo o processo de digestão e absorção dos carboidratos é tão eficiente
em indivíduos saudáveis que, normalmente, todo o carboidrato digerível da
dieta é absorvido no momento em que o material ingerido atinge o baixo
jejuno. Entretanto, devido à predominante absorção de monossacarídeos,
qualquer defeito na atividade de determinada dissacaridase da mucosa
intestinal causa a passagem do carboidrato não-digerido para o intestino
grosso. Como conseqüência da presença desse material asmaticamente
Malto-oligossacarideo
(principalmente maltotri ose) ativo, a água flui da mucosa para o intestino grosso, causando diarréia
osmótica. Isso é reforçado pela fermentação bacteriana dos carboidratos
remanescentes, produzindo compostos de dois ou três carbonos (os quais
Oligossacarídeo também são asmaticamente ativos), além de grande volume de C02 e gás
H2 , causando cólicas abdominais, diarréia e flatulência.

1. Deficiência de enzimas digestivas. Deficiências hereditárias de


determinadas dissacaridases têm sido relatadas em bebês e crianças
com intolerância a dissacarídeos. As alterações na degradação das
dissacaridases também podem ser causadas por uma variedade de
doenças intestinais, má-nutrição ou drogas que danificam a mucosa do
intestino delgado. Por exemplo, as enzimas da membrana em forma de
Figura 7.9 escova são rapidamente perdidas em indivíduos normais com diarréia
Degradação do glicogênio da grave, causando uma deficiência enzimática adqu irida e temporária.
dieta pela (J..-amilase salivar ou Assim, pacientes que sofrem ou estão se recuperando de tais doenças
pancreática.
Bioquimica Ilustrada 87

não podem beber ou comer quantidades significativas de produtos deri-


vados do leite ou sacarose sem exacerbar a diarréia. Dextri nas do amido
lsomaltose
2. Intolerância à lact ose. Mais da metade dos adultos do mundo são into- Maltose
Lactose
lerantes à lactose (Figura 7.11 ). Isso se manifesta particularmente em r;o~....::..:~::---~ Sacarose
certas raças. Por exemplo, até 90% dos adultos com ascendência africana Celulose
ou asiática são deficientes em lactase e, dessa forma, são menos capazes
de metabolizar lactose que os indivíduos originários do norte da Europa. O
O baixo pH
mecanismo pelo qual a enzima é perdida não é claro, mas é determinado faz cessar
geneticamente e representa uma redução na quantidade da proteína enzi- a ação da
a-ami lase salivar
mática, mais do que uma enzima modificada e inativa. O tratamento para
esse distúrbio é simplesmente a remoção da lactose da dieta, ou ingerir a
/actase em forma de pílulas antes de comer. a-Amilase
pancreática

3. Deficiência d e iso maltase-sacarase. Essa deficiência enzimática


Para o lsomaltose
resulta na intolerância à sacarose ingerida. Esse distúrbio é encontrado FÍGADO Maltose
em cerca de 10% dos esquimós da Groenlândia, enquanto 2% dos

t
Lactose
norte-ame ricanos são heterozigotos para essa deficiência. O t rata- Sacarose

mento é a remoção da sacarose da dieta.


Circulação
porta
4. Diagnóstico. A identificação de determinada deficiência enzimática pode Enzim as ligadas à
membrana das c élula
ser real izada pelo desempenho em testes de tolerância oral ao dissa- !f-L-- - - , da mucosa:
carídeo. A medida de gás hidrogênio no hálito é um teste confiável para (isomaltase
determinar a quantidade de carboidrato ingerido e não-absorvido pelo maltase
lactase
organismo, mas metabolizado pela flora intestinal (veja a Figura 7.1 1). sacarase)

IV. RESUMO DO CAPÍTULO Cel ulose

Os monossacarídeos (glicídeos simples) que contêm um grupo aldeído são Fig ura 7.10
denominados aldoses, e aqueles com um grupo cetona são chamados cetoses . Digestão dos carboidratos.
Os dissacarídeos, os oligossacarídeos e os polissacarídeos consistem em
monossacarídeos unidos por ligações glicosídicas. Compostos com a mesma
fórmula química são chamados isô meros. Se dois monossacarídeos isômeros
diferem na configuração em torno de um determinado átomo de carbono (com
exceção do carbono da carbonila), eles são definidos como epímeros um do
outro. Se um par de glicídeos são imagens especulares um do outro (enantiôme-
ros), os dois membros do par são designados como o- e L-açúcares. Quando um
glicídeo cicliza, é criado um carbono anômero a partir do grupo aldeído de uma Lactose

aldose ou do grupo cetona de uma cetose. Esse carbono pode ter duas configu-
rações, a. ou ~- Se o oxigênio do carbono anômero não estiver ligado a qualquer
t
Galactose
outra estrutura, esse glicídeo é um glicídeo redutor. Um glicídeo com seu car- +
Glicose
bono anômero ligado a outra estrutura é chamado um resíduo glicosil. Glicídeos
podem ligar-se a grupos -NH 2 ou -OH, produzindo N- ou 0-glicosídeos. A cx-
amilase salivar atua sobre o amido da dieta (glicogênio, amilose, amilopectina),
produzindo o ligossacarídeos. A cx-amilase pancreát ica continua o processo Lactose
de digestão do amido. O processo final ocorre no epitélio mucoso do intestino !
BACTÉRIAS
delgado. Várias dissacaridases (por exemplo, lactase [Jl-galactosidase], saca-
rase, maltase e isomaltase) produzem monossacarídeos (glicose, galactose
e frutose). Essas enzimas são secretadas pelas células da mucosa intestinal
Metabólilos
de 2 carbonos
/1 ~H
/~ 2
C0 2 Metabólltos
e permanecem associadas com o lado lu minal da membrana em forma de
~e ~arbonos
escova . A absorção dos monossacarídeos requer transportadores específicos.
Se a degradação do carboidrato é deficiente (como resu ltado de hereditariedade,
doença intestinal, má-nutrição ou drogas que danificam a mucosa do intestino DISTENÇÃO ABDOMINAL
delgado), os carboidratos não-digeridos irão passar para o intestino grosso, onde DIARRÉIA
DESIDRATAÇÃO
podem causar diarréia osmótica. A fermentação bacteriana desses compostos
produz grande volume de C02 e gás H2 , causando cólicas abdominais, diarréia
e flatulência. A intolerância à lactose, causada pela deficiência ou ausência da Figura 7.11
lactase, é, sem dúvida, a mais comum dessas deficiências. Metabolismo anormal da lactose.
88 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Monossacarídeos
Podem ser classificados como
I

~--~A_Id_or~-es ~J
____ L[____ c~,e-~ro_se_s
__ _JJ [L ____Is_õ_~~e_ro_s__~J ~~---E~p_íf,e_r_os__~J [L ___En_a_n_ttr~_m_e_ro_s~
quando contêm quando contêm quando apresentam quando quando são
t t t t
Diferem na Imagens especulares
configuração ao um do outro
redor de um
determinado
Podem cic/izar, produzindo um átomo de carbono
t podem ligar·se para formar

Carbono anômero

que contém

+
Dissacarídeos
quando classificado como Por exemplo:
Sacarose=
glicose + fru tose
Lactose=
galactose + glicose
Maltose =
o glícídeo é c/assíflcado como glicose + glicose

I Oligossacarídeos )

Polissacarídeos
I
podem ser
I
f
Lineares Ramificados
Por exemplo: amido Por exemplo: glicogênio

Figura 7.12
Mapa de conceitos-chave para a estrutura dos monossacarídeos.

Questão para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

7.1 Um homem negro jovem foi ao consultório do seu médico


qu e ixando-se de distensão abdominal e d iarréia . O Resposta correta = E. Os sintomas físicos sugerem a deficiên-
cia em uma enzima responsável pela degradação de carboidra-
paciente apresentava olheiras fundas e o médico notou
tos. Os sintomas observados após a ingestão de derivados do
sina is de desidratação. A temperatura do paciente estava
leite sugerem que o paciente é deficiente em lactase.
normal. Ele explicou que o episódio ocorreu após uma
festa de aniversário, na qual ele participou de um concurso
de ingestão de sorvet e. O paciente relatou episódios ante-
riores de natureza similar após a ingestão de q uantidades
significativas de derivados do leite. Este quadro clínico é
mais provavelmente devido a uma deficiência de:
A. o:-amilase salivar;
8. isomaltase ;
C. o:-amilase pancreática;
D. sacarase;
E. lactase.
Glicólise

I. INTRODUÇÃO AO METABOLISMO O produto de uma


reação é o substrato
da reação subseqüente.
No Capítulo 5, reações enzimáticas foram analisadas individualmente, na ten-
tativa de explicar os mecanismos da catálise. Nas células, entretanto, essas
reações raramente ocorrem isoladamente, sendo em geral organizadas em
seqüências de múltiplos passos, denominadas vias , tais como a glicólise \ ( Glic~7-6-P; Gli-
(Figura 8.1 ). Em uma via, o produto de uma reação serve como substrato para
a reação subseqüente. Diferentes vias também podem formar intersecções,
~ Frutose·6·P
~~
estabelecendo uma rede de reações químicas, integrada e com propósitos defi- Frutose-1 ,6·bis·P
nidos. Essas redes de reações são, coletivamente, denominadas metabolismo, t ~
que é a soma de todas as mudanças químicas que ocorrem em uma célu la, um Gliceraldeído·3-P ::; Diidroxi-
H acetona·P
tecido ou um organismo. As vias, em sua maior parte, podem ser classificadas
1,3-Bisfosfoglicerato
como catabólicas (de degradação) ou anabólicas (de síntese). Reações cata-
bólicas quebram moléculas complexas, como proteínas, polissacarídeos ou H
3-Fosfoglicerato
lipídeos, em umas poucas moléculas mais simples, como C02 , NH3 (amônia) e
H
água. Vias anabólicas formam produtos finais complexos a partir de precursores 2·Fosfoglicerato
simples, como a síntese de um polissacarídeo, o glicogênio, a partir de glicose. tt
Nos capítulos que se seguem, esse texto focalizará as vias metabólicas centrais Fosfoenolpiruvato
envolvidas na síntese e na degradação de carboidratos, lipídeos e aminoácidos. ~
Lactato ~ Piruvato

A. Mapa metabólico
Ao investigarmos o metabolismo, será conveniente examinarmos suas vias
Figura 8.1
componentes. Cada via é composta de seqüências multienzimáticas e cada
Glicólise, um exemplo de via
enzima, por sua vez, pode apresentar importantes características catalíti- metabólica.
cas ou regulatórias. Para dar ao leitor uma "visão panorâmica", um mapa
metabólico contendo as vias centrais mais importantes para o metabolismo
energético é mostrado na Figura 8.2. Esse mapa é úti l para traçarmos
conexões entre vias, visualizando o "movimento", com propósitos definidos,
de metabólitos intermediários, e para imaginarmos o efeito do bloqueio de
uma via sobre o fluxo de metabólitos, uma situação que poderia ocorrer, por
exemplo, pelo efeito de uma droga ou da deficiência herdada na atividade
de uma enzima. Ao longo das próximas três unidades deste livro, cada via
em discussão será repetidamente caracterizada como parte do mapa meta-
bólico principal, mostrado na Figura 8.2.
90 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

6-P-Giiconato Glicogênio Galactose

Ribulos~ ~conolaCOona ( 0P-Giicose ~ t


Galactose-1-P

Ribose-~J/ ~ Glicrr· -P ~ ~
UDP-Galactose

Xilulose-5-P Glicose-6-P ~ Glicose


tt
Frutose-6-P Frutose
Sedoeptulose-7-P
~~ t
Frutose-1,6-bis-P r
t~--j/.-7---------.t
T
Gliceraldeído Frutose-1-P

Gliceraldeído-3-P
Gliceraldeído-3-P ~ Diidroxiacetona-P
•amw•
1,3-Bisfosfoglicerato
tt
Gliceroi-P +---- Glicerol
tt L t
3-Fosfoglicerato

tt ~ Triacilglicerol i
2-Fosfoglicerato
tt
t
Acii-CoA graxo +-----Ácidos graxos
~
Ala ~ Fosfoeno lpiruvato / t Síntese e
Cys 1----~ - -- t t
La::;; - - , degradação de
Gly ~ triacilgliceróis
~; PiruF~Malonii-CoA

NH 3 T c o2 +-

carbamoii-P A~~ A~le ~ ->

r \
~
L Citrulina~
Aspartato Oxalacetato
//
Citrato
~

Ornitina ~
--
Argininossuccinato
)~ Fumarato
Maiato
I
--!.-
i
lsocitrato
~ co2
a-Cetoglularato ~ Glu +--
Gln
(.. ~ *-{ Pro
His

~rginina I ~~clnalo Succinitc:~o!_


r
Metilmalonii-CoA Arg
Uréta ~ j
Phe]
1 Met
lle
Vai
~ p roptom
. ·lc
~
- oA
Acetii-CoA
Tyr Thr Acii-CoA graxo
(número ímpar de carbonos)

Figura 8.2
Reações importantes do metabolismo intermediário. Diversas vias importantes, que serão discutidas nos capítulos que
se seguem, estão destacadas. Setas de reações em curva ( O ) indicam reações em um sentido e no sentido inverso,
catalisadas por enzimas diferentes. As setas retas ( ~ ) indicam reações em um sentido e no sentido inverso, catalisadas
pela mesma enzima. Chave: texto em azul = intermediários do metabolismo dos carboidratos; texto em marrom =
intermediários do metabolismo dos lipídeos; texto em verde = intermediários do metabolismo das proteínas.
Bioquímica Ilustrada 91

Estágio 1:
Hidrólise de moléculas
Proteínas J Polissacarideos I Lipídeos

complexas em seus
blocos constitutivos

Estágio 11:
Conversão dos blocos
constitutivos em
acetii-CoA (ou outros
intermediários
' I
Aminoácidos I I Monossacarideos

'
Glicerol , ácidos
graxos
I

simples)
[ Acetii-CoA j

t{;.~:->,}
Estágio III:
Oxidação da
acetii-CoA; --+
fosforllação ac1do 'f --+
oxidat lva '\.cítric~
~

Figura 8.3
Os três estágios do catabolismo.

B. Vias cataból icas


As reações catabólicas têm o propósito de capturar a energia química,
obtida da degradação de moléculas combu stíveis ricas em energ ia, for-
mando ATP. O catabolismo também permite que molécu las da d ieta (ou
moléculas nutrientes armazenadas nas células) sejam convertidas em
blocos constitutivos, necessários para a síntese de moléculas complexas.
A energia gerada pela degradação de molécu las complexas ocorre em três
estágios, como mostrado na Figura 8.3.

1. Hidrólise de moléculas complexas . No primeiro estágio, moléculas


com pl exas são quebradas em seus blocos constitutivos. Por exem-
plo, proteínas são degradadas em aminoácidos, polissacarídeos em
monossacarídeos e triacilgliceróis em ácidos graxos livres e glicerol.

2. Conversão dos blocos constitutivos em intermediários mais sim-


ples. No seg undo estágio, esses blocos constitutivos dive rsos são
posteriormente degradados em acetii-CoA e em umas poucas outras
moléculas simples. Parte da energia é capturada como ATP, porém
essa quantidade é pequena, comparada com a energia produzida
durante o terceiro estágio do catabolismo.

3. Oxidação d a acetii-CoA. O ciclo dos ácidos t ricarboxílicos {CAT)


(veja a pág . 107) é a via final comum da oxidação de moléculas com-
bustíveis, como a acetii-CoA . Grandes quantidades de AT P são gera-
das na fosforilação oxidativa (veja a pág. 77) , à medida que elétrons
fluem do NADH e do FADH2 para o oxigênio. Aminoácidos
Glicideos
Ácidos graxos
C. Vias anabólicas Bases
nitrogenadas
As reações anabólicas reunem moléculas pequenas, como aminoácidos, para
formar moléculas complexas, como as proteínas (Figura 8.4). As reações
anabólicas necessitam energia, a qual, via de regra, é fornecida pela quebra Figura 8.4
de ATP, dando AD P e P,.. Freqüentemente, as reações anabólicas envolvem Comparação entre vias catabólicas e
reduções químicas, nas quais o poder redutor é, geralmente, fornecido pelo anabólicas.
92 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Sinalização sináptica doador de elétrons NADPH (veja a pág. 145). Observe que o catabolismo é
um processo convergente, ou seja, uma ampla variedade de moléculas é
transformada em uns poucos produtos finais. Em contraste, o anabolismo é
um processo divergente, no qual uns poucos precursores biossintéticos for-
mam uma ampla variedade de produtos poliméricos ou complexos.

nervosa Neuro-
transmissor 11. REGULAÇÃO DO METABOLISMO
Sinalização endócrina

Hormônio Q As vias metabólicas devem ser coordenadas, de modo que a produção de ener-
gia ou a síntese de produtos finais estejam de acordo com as necessidades da
célula. Além disso, células individuais não funcionam isoladamente, mas são

'
Célula-
alvo parte de uma comunidade de tecidos que interagem. Desse modo, um sofisti-
cado sistema de comunicação evoluiu para coordenar as funções do organismo.
Sinais regulatórios que informam uma determinada célula sobre o estado meta-
bólico do organismo como um todo incluem hormônios, neurotransmissores
Contato direto e a disponibilidade de nutrientes. Esses, por sua vez, influenciam os sinais
gerados dentro da célula (Figura 8.5).

A. Sinais de dentro da célula (intracelulares)


A velocidade de uma via metabólica pode responder a sinais reguladores
que surgem de dentro da célula. Por exemplo, a velocidade de uma via
pode ser influenciada pela disponibilidade de substratos, pela inibição
ocasionada pelos produtos ou por alterações nos níveis de ativadores ou
Figura 8.5 inibidores alostéricos. Esses sinais intracel ulares normalmente determinam
Alguns mecanismos comumente respostas rápidas e são importantes para a regulação do metabolismo
usados para a transmissão de sinais momento a momento.
reguladores entre células.
8. Comunicação entre as células (intercelular)
A capacidade de responder a sinais extracelulares é essencial para a
sobrevivência e para o desenvolvimento de todos os organismos. A sinali-
zação entre as células fornece uma integração mais ampla do metabolismo
e normalmente resulta em uma resposta que é mais lenta, quando compa-
rada com aquela observada com sinais que se originam dentro da cél ula.
A comunicação entre células pode ser mediada pelo contato entre suas
superfícies e, em alguns tecidos, pela formação de junções comunicantes,
permitindo comunicação direta entre os citoplasmas de células adjacentes.
Para o metabolismo energético, no entanto, a via mais importante de comu-
O domínio extracelular contém o sitio de
ligação para um ligante (um hormônio ou
nicação é a sinalização química entre as células, mediada, por exemplo, por
um neurotransmissor). hormônios trazidos pela corrente sangüínea ou por neurotransmissores.

C. Sistemas de segundos mensageiros


Hormônios ou neurotransmissores podem ser imaginados como sinais, e
seus receptores como detectores de sinal. Cada componente serve como
um elo na comunicação entre eventos extracelulares e alterações químicas
dentro da célula. Muitos receptores sinalizam o reconhecimento de um
ligante a eles ligado pelo desencadeamento de uma série de reações que,
por fim, resulta em uma resposta intracelular específica. Moléculas deno-
minadas "segundos mensageiros"- assim designadas por intervirem entre
transmembrana.
o mensageiro original (o neurotransmissor ou o hormônio) e o efeito final
dentro da célula - são parte de uma cascata de eventos que traduz a liga-
ção do hormônio ou neurotransmissor em uma resposta celular. Dois dos
mais reconhecidos sistemas de segundos mensageiros são o sistema cál-
cio/fosfatidilinositol (veja a pág. 203) e o sistema da adenilato-ciclase,
Figura 8.6
Estrutura de um receptor de o qual é particularmente importante para a regulação das vias do metabo-
membrana típico. lismo intermediário.
Bioquímica Ilustrada 93

D. Adenilato-ciclase
O reconhecimento de um sinal químico por alguns receptores de mem- O
Espaço
O receptor, quando desocupado, não
interage com a proteína G 5 •

brana, como os receptores adrenérgicos ~ e ~. irá disparar um aumento


1
eX1racelular O Hormônio ou
ou uma redução na atividade da adenilato-ciclase. Essa é uma enzima ~ neurotransmissor
ligada à membrana, que converte ATP em 3',5'-monofosfato de adeno- Membrana celular
sina (também denominado AMP cíclico ou AMPc). Esses sinais químicos
são freqüentemente hormônios ou neurotransmissores, os quais se ligam
especificamente a um determinado tipo de .receptor de membrana. Desse
modo, tecidos que respondem a mais de um sinal químico devem apresen-
tar diversos receptores diferentes, cada um dos quais pode estar ligado à
adenilato-ciclase. (Nota: Certas toxinas, como aquela produzida pelo Vibrio Adenilato-
c lclase
cholerae, também podem ativar a cascata da adenilato-cic/ase, com conse- Citosol i nativa
2
qüências potencialmente desastrosas. ) Esses receptores caracterizam-se
por apresentarem um domínio extracelular, onde ligam-se o ligante, sete
hélices transmembrana e um domínio intracelular, que interage com proteí-
fJ O receptor, quando ocupado, sofre
uma alteração conformaclonal e
Interage com a proteína G8 , a qual
libera o GDP e liga GTP.
nas G (Figura 8.6).

1. Proteínas reguladoras dependentes de GTP. O efeito da ocupação


e da ativação do receptor sobre a formação do segundo mensageiro
não é direto, mas mediado por proteínas triméricas especializadas que
localizam-se na membrana celular. Essas proteínas, denominadas pro-
teínas G por ligarem nucleotídeos da guanosina (GTP e GDP), formam
um elo da cadeia de comunicação entre o receptor e a adenilato-cic/ase. Adenilato-
cic/ase
A forma inativa da proteína G liga-se ao GDP (Figura 8.7). O receptor GTP GDP i nativa
ativado interage com proteínas G, disparando uma troca de GDP por
GTP. A proteína G trimérica, então, dissocia-se em uma subunidade a
A subunidade a da proteína Gs se
e um dímero ~'Y· A forma da subunidade a ligada ao GTP move-se do dissocia e ativa a adenilato-ciclase.
receptor para a adenilato-ciclase, que é então ativada. Muitas molécu-
las de proteína G ativa são formadas por um receptor ativado. (Nota: A
capacidade de um hormônio ou neurotransmissor de estimular ou inibir o
a adenilato-ciclase depende do tipo de proteína G ligada ao receptor.
Uma família de proteínas G, designadas G., é específica para a esti-
mulação da adenilato-ciclase; outra família de proteínas G, designadas
G;. causa inibição da enzima [não-mostrada na Figura 8.7].) As ações
do complexo proteína G-GTP são de curta duração, pois a proteína G
apresenta uma atividade GTPásica inerente, resulta ndo na hidrólise
rápida do GTP a GDP. Isso causa a inativação da proteína G.
AMPc+ PP;
2. Proteína-cinases. O próximo elo no sistema de segundo mensageiro do
Quando o hormônio não mais está
AMPc é a ativação, pelo AMPc, de uma família de enzimas denominadas presente, o receptor reverte para o
proteína-cinases dependentes de AMPc, como, por exemplo, a pro- estado basal. O GTP ligado à
subunidade a é hidrolisado a GDP e
teína-cinase A (Figura 8.8). O AMPc ativa a proteína-cinase A ligando- a adenilato-ciclase é desativada.
se às suas duas subunidades regulatórias, determinando a liberação
das subunidades catalíticas ativas. As subunidades ativas catalisam a
transferência de fosfato do ATP para resíduos específicos de serina ou
treonina em proteínas que são substrato dessa enzima. As proteínas
fosforiladas podem atuar diretamente sobre canais iônicos da célula ou
podem tornar-se enzimas ativadas ou inibidas. A proteína-cinase A tam-
bém pode fosforilar proteínas específicas, que se ligam a regiões promo- ( Adenilato-
toras no DNA, determinando um aumento na expressão de determinados ciclase
P; Inativa
genes. (Nota: Nem todas as proteína-cinases respondem ao AMPc; há
diversos tipos de proteína-cinases que não são dependentes do AMPc,
como, por exemplo, a proteína-cinase C, descrita na página 203.)
Figura 8.7
O reconhecimento de sinais químicos
por certos receptores de membrana
' Veja o Capítulo 6 de Farmacologia Ilustrada (2" e 3" edições) para uma discussão acerca dos dispara um aumento (ou, menos
receptores adrenérgicos. freqüentemente, um decréscimo) na
2
Veja a p. 185 de Microbiologia Ilustrada para uma discussão acerca da toxina da cólera (cholera). atividade da adenilato-ciclase.
94 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

3. Desfosforilação de proteínas. Os grupos fosfato adicionados às pro-


Subunidades ~- ~""..,,... Subunidades teínas pelas proteína-cinases são removidos pelas proteína-fosfatases
regulatórias catalíticas - enzimas que cl ivam hidroliticamente ésteres de fosfato (veja a Figura
8.8). Isso assegura que mudanças na atividade enzimática, induzidas
proteína-cinase dependente de AMPc pela fosforilação de proteínas, não sejam permanentes.

··~1
Adenilato·
ATP ciclase ) 4. Hidró lise do AM Pc. O AMPc é rap idamente hidrolisado a 5' -AM P
pela fosfodiesterase do AMPc, uma enzima de uma família que cliva
ligações de 3',5'-fosfodiéster cíclico. O 5'-AMP não é uma molécula de
sinalização intracelular. Desse modo, os efeitos do neurotransmissor ou

-~
~+­
do hormônio mediados pelo aumento do AMPc terminam rapidamente
se o sinal extracelular for removido. (Nota: A fosfodiesterase é inibida

~~~ por derivados de metilxantinas, como teofilina e cafeína. 3}

A
.r~
Unidade catatltica ativa
III. VISÃO GERAL DA GLICÓLISE
... da protelna-cinase
Proteína
que funciona
como
substrato
f ~
) Proteína
fosforilada
A via glicolítica é utilizada em todos os tecidos para a quebra da glicose, com o
objetivo de fornecer energia (na forma de ATP) e intermediários para outras vias
ATP ADP metabólicas. A glicólise é o centro do metabolismo dos carboidratos, pois prati-
camente todos os glicídeos - sejam eles provenientes da dieta ou de reações
catabólicas ocorrendo no o rganismo - podem ser, no final, convertidos em gli-
P; cose (Figura 8.9A). O piruvato é o produto final da glicólise nas células que pos-
suem mitocôndrias e um fornecimento adequado de oxigênio. Essa série de dez
reações é denominada glicólise aeróbica, pois o oxigênio é necessário para
EFEITOS Proteína a reoxidação do NADH formado durante a oxidação do gliceraldeído-3-fosfato
INTRACELULAR E$ desfosforilada (Figura 8.98 ). A glicólise aeróbica prepara as condições necessárias para a des-
carboxilação oxidativa do piruvato a acetii-CoA, o principal combustível do ciclo
do ácido cítrico. Alternativamente, a glicose pode ser convertida em piruvato,
Figura 8.8 que é reduzido pelo NADH para formar lactato (Figura 8.9C). Essa conversão de
Ações do AM Pc. glicose em lactato é denominada glicólise anaeróbica, pois pode ocorrer sem a

Glicose-6-P .,__ Glicose Glicose-6-P "'--' Glicose


H H
Frutose-6-P Frutose-6-P
<.. <..
Frutose-1 ,6-bis-P Frutose-1,6-bisfosfato
t + $ +
Gliceraldeído-3-P ~ Diidroxi- Gliceraldefdo-3-P ~ Diidroxia-
NAD+------i i acetona-P NAD+ --..j i cetona-P
NADH ~ NADH ~
1,3-Bisfosfoglicerato 1 ,3-Bisfosfoglicerato
H H
3-Fosfoglicerato 3-Fosfoglicerato
H .(,t
2-Fosfoglicerato 2-Fosfoglicerato
H H
Fosfoenolpiruvato Fosfoenol piruvato
Fosforilação t t
oxidativa Piruvato Lactato -<::::::::::=~ Piruvato

Figura 8.9
A. Glicólise, mostrada como uma das vias essenciais do metabolismo energético. 8. Reações da glicólise aeróbica. C.
Reações da glicólise anaeróbica.

3
Veja o Capitulo 10 de Farmacologia Ilustrada (2' e 3• edições) para uma discussão acerca dos
derivados da metilxantina como droga.
Bioquímica Ilustrada 95

participação do oxigênio. A glicôlise anaerôbica permite a produção contínua de


ATP em tecidos que não apresentam mitocôndrias (por exemplo, os eritrôcitos) Glicose /">oli Transportador
ou em células em que o oxigênio esteja em quantidade insuficiente. Espaço -u, J de glicose
extracelular ('?~ (estado1)

IV. TRANSPORTE DA GLICOSE PARA DENTRO


\J() Membrana celular

Citosol
DAS CÉLULAS

A glicose não pode difundir diretamente para dentro das cél ulas. Portanto, ela
utiliza um dos dois seguintes possíveis mecanismos de transporte: um sistema
de transporte por difusão facilitada, independente de Na•, ou um sistema de co-
transporte monossacarídeo-Na•.
Espaço
extracelular
n
(fij J
Transportador
de glicose

'~""· 2)
A. Transporte por difusão facilitada, independente de Na• Citosol
li
Esse sistema é mediado por uma família de pelo menos 14 transportadores
de glicose encontrados nas membranas celulares. Eles são designados
GLUT-1 a GLUT-14 (isoformas 1 a 14 dos transportadores de glicose,
o
glucose transporters). Esses transportadores ocorrem na membrana em Figura 8.10
dois estados conformacionais (Figura 8.1 0). A glicose extracelular liga-se Representação esquemática do
ao transportador, o qual, então, sofre uma alteração em sua conformação, transporte facilitado de glicose
transportando a glicose através da membrana. através de uma membrana celular.
1. Especificidade tecidual da expressão gênica dos GLUTs. Os
transportadores de glicose apresentam um padrão de expressão com
especificidade tecidual. Por exemplo, o GLUT-3 é o principal transpor-
tador da glicose nos neurônios. O GLUT-1 é abundante nos eritrôcitos
e no encéfalo, mas apresenta pouca expressão no músculo do adulto,
enquanto o GLUT-4 é abundante no tecido adiposo e no músculo
esquelético. (Nota: O número de transportadores ativos do tipo GLUT-4
nesses tecidos é aumentado pela insulina. [Veja a pág. 310 para uma
discussão a respeito do papel da insulina no transporte da glicose.))
As demais isoformas de GLUT também apresentam distribuição com
especificidade tecidual.

{< t
Fase de
investimento 2ATP
2. Funções especializadas das isoformas de GLUT. Na difusão faci- de energia
litada, o movimento da glicose segue um gradiente de concentração,
ou seja, de uma concentração maior de glicose para uma menor. Por
exemplo, GLUT-1 , GLUT-.3 e GLUT-4 estão envolvidos principalmente
J
na captação de glicose a partir do sangue. Em contraste, o GLUT-2,
que é encontrado no fígado, no rim e nas células ~ do pâncreas, pode
transportar a glicose tanto para dentro dessas células, quando os níveis
Fase de
produção
de energia
t
4AOP

>
>
de glicose no sangue estão altos, quanto das células para o sangue,
2NAD+
quando os níveis sangüíneos de glicose estiverem baixos (por exem-
pl o, no jejum). O GLUT-5 é singular, no sentido de que é o principal
transportador para a frutose (em vez da glicose) no intestino delgado
e nos testículos. O GLUT-7, encontrado no fígado e em outros tecidos
L
gliconeogênicos, medeia o fluxo de glicose através da membrana do
retículo endoplasmático. Produção líquida (glicólise aeróbica):
Glicose 2 Piruvato
2ADP 2ATP
B. Sistema de co-transporte monossacarídeo-Na• 2 NAO+ 2NAOH

Esse é um processo que requer energia e que transporta a glicose "contra"


um gradiente de concentração - ou seja, de concentrações menores de gli-
cose, fora da célula, para um meio com concentrações maiores, no interior Figura 8.11
da célula. Esse sistema é um processo mediado por carreador, no qual o As duas fases da glicôlise aeróbica.
movimento da glicose está acoplado ao gradiente de concentração do Na•,
o qual é transportado concomitantemente à glicose para o interior da célula.
Esse tipo de transporte ocorre nas células epiteliais do intestino, túbulos
renais e plexo corôide.
96 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

V. REAÇÕES DA GLICÓLISE
o
C-H
H-C-OH A conversão de glicose em piruvato acontece em dois estágios (Figura 8.11 ). As
HO-C-H cinco primeiras reações da glicólise correspondem a uma fase de investimento
H-C - OH
de energia, na qual as formas fosforiladas dos intermediários são sintetizadas,
H -C - OH
H -Ç- OH à custa de gasto de ATP. As reações subseqüentes da glicólise constituem uma
H fase de produção de energia, na qual ocorre uma produção líquida de duas
o-Glicose moléculas de ATP por molécula de glicose metabolizada, por fosforilação no
~ATP nível do substrato. (Nota: Duas moléculas de NADH são formadas quando é
produzido piruvato [glicólise aeróbica], enquanto o NADH é convertido nova-
t~ADP mente em NAD+ quando o lactato for o produto final [glicólise anaeróbica].)
o
C-H A. Fosforilação da glicose
H-C-OH
HO-C-H Moléculas fosforiladas de glicídeos não atravessam facilmente as mem-
H-C-OH branas celulares, pois não há carreadores específicos na membrana para
H-C - OH esses compostos, e eles são muito polares para difundir através da mem-
H-c-o-® brana celular. A fosfori lação irreversível da glicose (Figura 8.12), portanto,
H
Glicose-6-fosfato
retém efetivamente o glicídeo na forma de glicose-6-fosfato citosólica, asse-
gurando assim seu posterior metabolismo na célula. Os mamíferos pos-
suem diversas isoformas da enzima hexocinase, que catalisa a fosforilação
Figura 8.12 da glicose a glicose-6-fosfato.
Fase de investimento de energia:
fosforilação da glicose. 1. Hexocinase. Na maior parte dos tecidos, a fosforilação da glicose
é catalisada pela hexocinase, uma das três enzimas reguladoras da
glicólise (veja também a fosfofrutocinase e a piruvato-cinase) . A hexoci-
nase apresenta especificidade ampla quanto ao substrato e é capaz
de fosforilar diversas hexoses, além da glicose. A hexocinase é inibida
pelo produto da reação, a glicose-6-fosfato, que se acumula quando
a metabolização dessa hexose-fosfato está reduzida. A hexocinase
apresenta um baixo Km (e, portanto, uma alta afinidade, veja a pág.
59) para a glicose. Isso permite a fosforilação eficiente e o metabolismo
subseqüente da glicose, mesmo quando as concentrações teciduais da
mesma estiverem baixas (Figura 8.1 3). A hexocinase, entretanto, apre-
senta baixa vmax para a glicose e, portanto, não pode seqüestrar (reter)
Concentração de fosfato celular na forma de hexoses fosforil adas, ou fosforilar maior
glicose sangüínea quantidade de glicídeos que a célula pode utilizar.
no jejum

Vmax 2. Glicocinase. Nas células do parênquima hepático e nas células das


--- - --- ----- - -- -- -- --ãJicõCinãse --- -
ilhotas no pâncreas, a glicocinase (também denominada hexocinase
O, ou do tipo IV) é a principal enzima responsável pela fosforilação
da glicose. Nas células ~ . a glicocinase funciona como um sensor de
glicose, determinando o limiar para a secreção de insulina. No fígado,
a enzima facilita a fosforilação da glicose durante uma hiperg licemia.
(Nota: A despeito do nome popular - embora algo equívoco - da gli-
Vmax
hexocinase cocinase, a especificidade dessa enzima quanto ao substrato é seme-
Hexocinase lhante à especificidade das demais isozimas hexocinases.)

a. Cinética. A glicocinase difere da hexocinase quanto a diversas pro-


5 \o 15 20 priedades importantes. Por exemplo, ela apresenta um Km muito
Km maior, requerendo uma maior concentração de glicose para hemis-
Hexocinase G licocinase
saturação (veja a Figura 8.13). Desse modo, a glicocinase funciona
Concentração de g licose, mmoi/L
apenas quando a concentração intracelular de glicose no hepa-
tócito está elevada, como durante o breve período que se segue
Figura 8.13 ao consumo de uma refeição rica em carboidratos, quando altas
Efeito da concentração de glicose quantidades de glicose são levadas até o fígado via veia porta. A
sobre a velocidade da reação glicocínase apresenta alta vmax• permitindo que o fígado remova
de fosforilação, catalisada pela eficientemente o excesso de gl icose fornecido pe la circulação
hexocinase e pela glicocinase. porta. Isso impede que grandes quantidades de glicose cheguem
Bioqu ímica Ilustrada 97

à circulação sistêmica após uma refeição rica em carboidratos e,


assim, minimiza a hiperglicemia durante o período absortivo. (Nota:
O GLUT-2 assegura que a glicose sangüínea equilibre-se rapida-
mente entre os dois lados da membrana do hepatócito.)

b. Regulação pela frutose-6-fosfato e pela glicose. A atividade da


glicocinase não é inibida alostericamente pela glicose-6-fosfato,
diferentemente das demais hexocinases, sendo, porém, inibida
indiretamente pela frutose-6-fosfato (a qual está em equilíbrio
com a glicose-6-fosfato) e estimulada indiretamente pela gli- t
cose, pelo mecanismo descrito a seguir. No núcleo dos hepatóci- F6P
tos, há uma proteína reguladora da glicocinase. Na presença de
frutose-6-fosfato, a glicocinase é translocada para o núcleo, onde t
liga-se fortemente à proteína reguladora, o que inativa essa enzima
(Figura 8.14). Quando aumentam os níveis de glicose no sangue (e
t
Piruvato
G/icocinase
(GK) (inativa)

também no hepatócito, em conseqüência da função do GLUT-2),


a glicose induz a liberação da glicocinase de sua proteína regula-
dora, e a enzima retorna ao citosol, onde fosforila a glicose, dando Figura 8.14
glicose-6-fosfato. À medida que os níveis de glicose livre diminuem, Regulação da atividade da
a frutose-6-fosfato faz com que a glicocinase seja translocada de glicocinase pela prote ína reguladora
volta para o núcleo, onde se liga à proteína reguladora, inibindo da glicocinase.
assim a atividade da enzima.

c. Regulação pela insulina. A atividade da glicocinase nos hepató-


citos também é aumentada pela insulina. À medida que os níveis
de glicose no sangue aumentam após uma refeição, as células ~
do pâncreas são estimuladas a liberar insulina na circulação porta.
(Nota: Aproximadamente metade da insulina recém-secretada se
ligará ao fígado durante a primeira passagem por esse órgão. O
fígado está, portanto, exposto a duas vezes mais insulina, em rela-
ção àquela observada na circulação sistêmica.) A insulina também
promove a transcrição do gene da glicocinase, resultando em um
aumento da proteína enzimática no fígado e, assim, da atividade
total da glicocinase. (Nota: A ausência da insulina, em pacientes
com diabetes, causa uma deficiência na glicocinase hepática. Isso
contribui para a incapacidade do paciente em diminuir eficiente-
o
mente os níveis sangüíneos de glicose.) C-H
H-C-OH
HO-C-H
B. lsomerização da glicose-6-fosfato H-C-OH
A isomerização da glicose-6-fosfato, com produção de frutose-6-fosfato, é H-C-OH
catalisada pela fosfoglicose -isomerase (Figura 8.15) . A reação é facilmente
H-c-o-®
H
reversível e não é um passo limitante ou regulado.

lt
Glicose-6-fosfato

Fo sfoglicose-
C. Fosforilação da frutose-6-fosfato 1somerase ~

A reação irreversível de fosforilação, catalisada pela fosfofrutocinase-1


(PFK-1) é o mais importante ponto de controle e o passo limitante da velo- H
cidade da glicólise (Figura 8.16). A PFK-1 é controlada pelas concentrações H-C-OH
CoO
disponíveis de seus substratos, ATP e frutose-6-fosfato, e pelas substâncias HO-C-H
reguladoras descritas a seguir. H-C- OH
H-C-OH
1. Regulação pelos níveis energéticos dentro da célula. A PFK-1 é ini- H-c-o-®
bida alostericamente por níveis elevados de ATP, o qual alua como um H
sinal de "riqueza energética", indicando uma abundância de compostos Frutose-6-fosfato
de alta energia. Níveis elevados de citrato, um intermediário do ciclo dos
ácidos tricarboxílicos (veja a pág . 109), também inibem a PFK-1. Essa
enzima, por outro lado, é ativada alostericamente por altas concentra- Figura 8.15
ções de AMP, que sinaliza depleção das reservas de energia da célula. lsomerização da glicose-6-fosfato em
frutose-6-fosfato.
98 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

2. Regulação pela frutose-2,6-bisfosfato. A frutose-2,6-bisfosfato é o


Frutose-6-fosfato
mais potente ativador da PFK-1 (veja a Figura 8.16). Esse composto
também atua como inibido r da frutose-1 ,6-bisfosfatase (veja a pág.
11 9 para uma discussão acerca da regulação da gliconeogênese) . As
ações recíprocas da frutose-2,6-bisfosfato sobre a glicólise e a glico-
neogênese asseguram que essas vias não estejam completamente
H ativas ao mesmo tempo. (Nota: Isso resu ltaria em um "ciclo fútil", em
H-9-o-® que a glicose seria convertida em piruvato, seguindo-se nova síntese
C =O
HO-C-H de glicose a partir do piruvato.) A frutose-2,6-bisfosfato é formada pela
I fosfofrutocinase-2 (PFK-2), uma enzima diferente da fosfofrutocinase-

~ H~~u® 1. A frutose-2,6-bisfosfato é convertida novamente em frutose-6-fosfato


pela frutose-bisfosfatase-2 (Figura 8.17). (Nota: As atividades cinásica

~ Frutose-1,6-bisfosfato
e fosfatásica são diferentes domínios de uma molécula polipeptídica
bifuncional.)
~ ~aseA H
H-c -o-® a. Durante o estado alimentado. A diminuição nos níveis de glu-
9
H C ,.. cagon, juntamente com níveis elevados de insulina, como ocorre
( > <?=o
HC ® Triose-
fosfato-
H- C - OH
H
após uma refeição rica em carboidratos, causa um aumento na fru-
H tose-2,6-bisfosfato e, portanto, na velocidade da glicólise no fígado
;somerase
(veja a Figura 8.17) . Desse modo, a frutose-2,6-bisfosfato atua
Gliceraldeído- Oíidroxiacetona-
3-fosfato
como um sinal intracelular, indicando abundância de glicose.
fosfato

b. Durante o jejum. Níveis elevados de glucagon e baixos de insu-


Figura 8.16 lina, como ocorre durante o jejum (veja a pág. 327) , determinam
Fase de investimento de energia uma diminuição na concentração intracelular de frutose-2 ,6-bisfos-
(continuação): conversão da frutose- fato hepática. Isso resulta em uma diminuição na velocidade geral
6-fosfato em trioses-fosfato. da glicólise e um aumento na gliconeogênese.

nmrmmrm~~~~~rm~
~~~UM~MMUM~~~MW~~~~~~~~~~u.~~~UM~~~~MM~~~
Ativação de muitas enzimas

ATP AMPc
O Uma razão insulina/glucagon elevada causa
uma diminuição no AMPc e redução nos
níveis de proteína-cinase A ativa.
~
'I
17

protefna-cinase Ã'ativa
.. ____ ,.. ___ 1

--------. .
I I

~
Frutose-6-fos fato :::::::::> Frutose-6-fosfato
fJ Diminuição na atividade da proteína-
cinase A favorece a desfosforilação do
complexo PFK-2/FBP-2.
Glicólise

ATP
.,
r I
moooo-s p '-' Gloooso
.t '•,,
~ ~# p p
Frutos o-6 · P
ADP
<.
Frutose-1 6-bi s.P
1 \ ~
} -:-----. _. . ~ ... 11.~->
GllcOioldeldo-3-P "'> DHAP ADP
H
1,3-BtSiosfogllccta!O
'(
lt p Enzima bifuncio nal
3-Foslogllçcroto
!I Frutose ~ .6 -bisfosfato
2-Fosioghc&rato
lt
Fosloenolp1ruva1o
A PFK-2 desfosforilada é ativa, enquanto a
ft Concentrações elevadas de frutose-2,6-bisfosfato ati vam a PFK- 1, FBP-2 é i nativa; isso favorece a produção da
Iii levando a um aumento na velocidade da glicólise. frutose-2,6-bisfosfato.

Figura 8.17 ,
Efeito de concentrações elevadas de insulina sobre a concentração intracelular de frutose-2,6-bisfosfato no fígado. PFK-2 =
fosfofrutocinase-2; FBP-2 =frutose -bisfosfato-fosfatase-2.
Bioquímica Ilustrada 99

O. Clivagem da frutose-1 ,6-bisfosfato o


C-H
A a/do/ase A cliva a frutose-1 ,6-bisfosfato, dando diidroxiacetona-fosfato e H-C-OH
gliceraldeído-3-fosfato (veja a Figura 8.16). A reação é reversível e não é regu- H-Ç-o-®
lada. (Nota: A aldolase 8 , no fígado e no rim, também cliva a frutose-1,6-bisfos- H
Gliceraldeído-
fato e funciona no metabolismo da frutose da dieta [veja a pág. 136).) 3-fosfato

E. lsomerização da diidroxiacetona-fosfato
A triose-fosfato-isomerase interconverte essas duas trioses, a diidroxia-
cetona-fosfato e o gliceraldeído-3-fosfato (veja a Figura 8.1 6). A diidroxia-
cetona-fosfato isomeriza, dando gliceraldeído-3-fosfato, para um posterior
metabolismo pela via glicolítica. Essa isomerização resulta na produção o
líquida de duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato pelos produtos da cl i- é- o-®
vagem da frutose-1 ,6-bisfosfato. H-C-OH
H-Ç-o-®
H
F. Oxidação do gliceraldeído-3-fosfato 1,3-Bisfosfoglicerato

g_o-
t
A conversão do gliceraldeído-3-fosfato em 1,3-bisfosfoglicerato pela g/ice-
ra/deído-3-fosfato-desidrogenase é a primeira reação de oxidação-redução
ADP~e
da glicólise (Figura 8.18). (Nota: Uma vez que há apenas uma quantidade Fosloglicerato H-Ç-o-®
cinsse H-C-O-@
limitada de NAo• na célu la, o NADH produzido nessa reação deve ser reo-
xidado a NAo • para que a glicólise continue. Os dois principais mecanismos ATP 2,3-Bisfosf~glicerato
para a oxidação do NADH são: [1) a conversão ligada ao NADH de piruvato
em lactato [veja a pág. 101) e [2) a oxidação do NADH via cadeia respirató- 9c-o- ~H 2 0
ria [veja a pág. 75).) H-c-oH Fosfatase
H-c-o-®
1. Síntese do 1 ,3-bisfosfoglicerato. A oxidação do grupo aldeído do H ®-oH
g liceraldeído-3-fosfato a um grupo carboxi la está acoplada à ligação 3-Fosfoglicerato
de um P; a esse grupo carboxila. O grupo fosfato de alta energia no
Fosfoglicerato-t·l
carbono 1 do 1,3-bisfosfoglicerato (1 ,3-BPG) conserva boa parte da mutase ~
energia livre produzida pela oxidação do glice raldeído-3-fosfato. A ener-
gia desse fosfato de alta energia impele a síntese de ATP na próxima o
reação da glicólise. é-o-
H-Ç-o-®
2. Mecanismo do envenenamento pelo arsênico. A toxicidade do arsê- H-C-OH
nico é explicada principalmente pela inibição de enzimas como a piru-
H
2-Fosfoglicerato
vato-desidrogenase, que requer ácido lipóico como co-fator (veja a pág.
107). No entanto, o arsênico pentavalente (arsenato) também impede
Eno/asef'l
a produção líquida de ATP e de NADH durante a glicólise, sem a inibi- t~ H20
ção da via em si. Isso ocorre porque o arsenato compete com o fosfato o
inorgânico como substrato da g/icera/deído-3-fosfato-desidrogenase, c-o-
formando um complexo que espontaneamente hidrolisa, para produzir c-o-®
3-fosfoglicerato (veja a Figura 8.18). Por passar ao largo da síntese e H-C-H
da desfosforilação do 1 ,3·BPG, a célula é privada da energia normal- Fosfoenolpiruvato
mente obtida na via glicolítica.

3. Síntese de 2,3-bisfosfoglicerato nos eritróc itos. Parte do 1 ,3-bis-


Piruvato-
cmase ~
~~ Frutose-1 ,6-
bisfosfato
fosfoglicerato é convertida em 2,3-bisfosfoglicerato (2,3-BPG) por ação O ATP
da bisfosfoglicerato-mutase (veja a Figura 8.18). O 2,3-BPG, que é
c-o-
encontrado apenas em quantidades-traço na maior parte das células, C=o
está presente em alta concentração nos eritrócitos (veja a pág. 31 ). H-C-H
O 2,3-BPG é hidrolisado por uma fosfatase, dando 3-fosfoglicerato, H
Plruvato
que também é um intermediário da glicólise (veja a Figura 8. 18). Nos
eritrócitos, a glicólise é modificada pela inclusão desses "desvios" de
reações. Figura 8.18
Fase de produção de energia:
conversão de gliceraldeído-3-fosfato
em piruvato.
1 00 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

G. Síntese do 3-fosfoglicerato, com produção de AT P


Quando o 1 ,3-BPG é convertido em 3-fosfoglicerato, o grupo fosfato de
alta energia do 1,3-BPG é utilizado na síntese de ATP a partir de AD P
(veja a Fig u ~a 8. 18). Essa reação é catalisada pela fosfoglicerato-cinase,
a qual, diferentemente da maior parte das demais cinases, é fisiologica-
mente reversível. Uma vez que duas moléculas de 1 ,3-BPG são produzi-
das para cada molécula de glicose que entra na via glicolítica, a reação
dessa cinase repõe as duas moléculas de ATP consumidas na formação
inicial de g licose-6-fosfato e frutose-1 ,6-bisfosfato. (Nota: Esse é um
exemplo de fosfo ri lação no n íve l do substrato, em que a prod ução de
um fosfato de alta e nergia está diretamente acoplada à oxidação de um
substrato, em vez de resultar da fosforilação oxidativa, via cadeia trans-
portadora de elétro ns.)

H. Troca do g rupo fosfato do carbono 3 para o carbono 2


A troca do grupo fosfato do carbono 3 para o carbono 2 do fosfoglicerato
pela fosfoglicerato-mutase é livremente reversível (veja a Figura 8.18).

I. Desidratação do 2-fosfogl icerato


A desidratação do 2-fosfoglicerato pela enolase redistribui a energia dentro
da molécula do 2-fosfoglicerato, resultando na formação do fosfoenolpiru-
vato (PEP), que contém um enol fosfato de alta energia (veja a Figura 8 .1 8).
A reação é reversível, apesar do produto ser um composto de alta energia.

J. Formação d o p iruvato, com p rodução de ATP


A conversão do PEP em piruvato é catalisada pela piruvato-cinase, a
terceira reação irreversível da glicólise. O equilíbrio da reação da piruvato-
cinase favorece a síntese de ATP (veja a Figura 8.18). (Nota: Esse é outro
exemplo de fosforilação no n ível do s ubstrato.)

1. Regulação por proação. No fígado, a piruvato-cinase é ativada pela


frutose-1 ,6-bisfosfato, o produto da reação da fosfofrutocinase. Essa
regulação por proação (em vez da mais comum, por retroalimentação)
tem o efeito de unir as atividades das duas cinases: um aumento na
ATP AMPc +PP; atividade da fosfofrutocinase resulta em níveis elevados de frutose-1 ,6-

'1
bisfosfato, ativando a piruvato-cinase.

Pro teína-cinas e A ativa 2. Modulação covalente da p iru vato-cinase. A fosforilação por uma
proteína-cinase dependente de AMPc leva à inativação da piruvato-
PEP cinase no fígado (Figura 8.1 9). Quando os níveis sangüíneos de glicose
ADP
estão baixos, um a umento no glucagon induz elevação nos n íve is
p intracelulares de AMPc, levando à fosfori lação e à conseqüente inati-
ADP vação da piruvato-cinase. Desse modo, o fosfoenolpiruvato não pode

~ prosseguir na via glicolítica, entrando, então, na via da gliconeogênese.


Isso explica, em parte, a inibição da glicólise e a estimulação da glico-
neogênese observadas em resposta ao glucagon. A desfosforilação da
piruvato-cinase por uma fosfoproteína -fosfatase resulta na reativação
ATP ,~,_--
Piruvato da enzima.

3. Deficiência da p iruvato-cinase. Um eritrócito maduro normal não


Figura 8.19 apresenta mitocôndrias e é, portanto, completamente dependente da
Modificação covalente da piruvato- glicólise para a produção de ATP. Esse composto de alta energ ia é
cinase, resultando em inativação da necessário para satisfazer as necessidades energéticas do eritrócito
enzima. e também para alimentar as bombas necessárias para a manutenção
Bioquímica Ilustrada 101

da forma bicôncava e flexível dessa célula, o que permite que ela Glicose-6-P "-' Glicose
force seu caminho por capilares muito estreitos. A anemia observada
F A enzima pode apresentar
na deficiência de enzimas glicolíticas é uma conseqüência da redu-
uma resposta anormal ao
ção da velocidade da glicólise, levando à diminuição na produção ativador frutose-
de ATP. As alterações na membrana da célula vermelha do sangue, Fru 1,6-bisfosfato.

resultantes dessa condição, levam a mudanças no formato da célula


e, por fim , a sua fagocitose por células do sistema reticuloendotelial,
especi almente por macrófagos do baço. A lise e morte prematura
dessas células vermelhas resulta em anemia hemolítica. Entre os
pacientes com defeitos genéticos em enzimas glicolíticas, cerca de
95% apresentam deficiência na piruvato-cinase e 4% apresentam
deficiência na fosfog/icose-isomerase. A deficiência de piruvato-
cinase (PK) é a segunda causa mais comum de anemia hemolítica
re lacionada a enzimas (perdendo apenas para deficiência da gli-
cose-6-fosfato-desidrogenase). A deficiência de PK restringe-se aos
eritrócitos e produz anemia hemolítica (destruição dos eritrócitos)
crônica, de moderada a grave, em que a forma grave requer trans- Piruvato-
fusões regulares de eritrócitos. A gravidade da doença depende do cinase
grau de deficiência enzimática (geralmente de 5 a 25% dos níveis
normais) e do grau em que os eritrócitos do paciente sejam capazes
de compensar a deficiência, sintetizando níveis aumentados de 2,3-
ATP
BPG (veja a pág. 31 ). Quase todos os indivíduos com deficiência de Piruvato
PK possuem uma enzima mutante que apresenta propriedades anor- H
mais- freqüentemente, alterações na cinética (Figura 8.20). Lactato

A atividade ou a estabilidade
K. Redução de piruvato a lactato da enzima pode estar alterada
ou a quantidade de enzima
O lactato, formado pela ação da lactato-desidrogenase, é o produto final pode estar diminuída.
da glicólise anaeróbica nas células eucarióticas (Figura 8.21). A formação
do lactato é o principal destino do piruvato nos eritrócitos, no cristalino e na
córnea do olho, na medula renal, nos testículos e nos leucócitos.
Figura 8.20
1. Formação de lactato no músculo. No músculo esquelético em exer- Alterações observadas em várias
formas mutantes da piruvato-cinase.
cício, a produção de NADH (pela glicera/deído-3-fosfato-desidrogenase
e pelas três desidrogenases dependentes de NAD• do ciclo do ácido
cítrico) excede a capacidade oxidativa da cadeia respiratória. Isso
resulta em um aumento na razão NADH/ NAD·, favorecendo a redução
de piruvato a lactato. Portanto, durante o exercício intenso, o lactato
se acumula no músculo, causando uma diminuição no pH intracelular,
podendo levar a cãibras*. Muito desse lactato acabará difundindo para
a corrente sangüínea, podendo ser utilizado pelo fígado para produzir
glicose (veja a pág. 116).

2. Consumo do lactato. O sentido da reação da /actato-desidrogenase


Piruvato
depende das concentrações intracelulares relativas de piruvato e lac-
tato e da razão NADH/NAD+ na célula. Por exemplo, no fígado e no
NADH + H+~CNADH +H+
coração, a razão NADH/NAD+ é mais baixa que no músculo em exer- Lactato-
cício. Esses tecidos oxidam lactato (obtido a partir do sangue), produ- desidrogenase
zindo piruvato. No fígado, o piruvato pode ser convertido em glicose, NAD+ NAD+
pela gliconeogênese, ou oxidado no ciclo do ácido cítrico. O músculo çoo-
cardíaco oxida lactato a C02 e H20, via ciclo do ácido cítrico. H-c-oH
CH3
Lactato
N. de T. A maioria dos autores considera que o lactato pode estar envolvido na dor muscular per-
cebida durante o exercício (como um dos fatores), porém não na cãibra muscular (contração súbita
e intensa do músculo, determinada por hiperexcitabilidade do neurõnio motor) . Acredita-se que a
cãibra durante o exercício seja determinada por um desequilíbrio nas concentrações de eletrólitos, Figura 8.21
induzido pela sudorese, porém não há consenso a esse respeito. lnterconversão de piruvato e lactato.
102 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

3. Acidose láctica. Concentrações elevadas de lactato no plasma, uma


condição denominada acidose láctica, ocorrem quando há um colapso
do sistema circulatório, como em um infarto do miocárdio, em uma
Glicose

ATP
ADP
;JI •
embolia pu lmonar ou na hemorragia não-controlada, ou quando o
indivíduo está em choque. A falha em levar quantidades adequadas
de oxigênio aos tecidos resulta em prejuízo na fosforilação oxidativa
e diminuição na síntese de ATP. Para sobreviver, as cé lulas utilizam
Glicose-6-P a glicólise anaeróbica como um sistema auxiliar para a produção de
ATP, produzindo ácido láctico como produto final. (Nota: A produção de
quantidades escassas de ATP pode significar a sobrevivência da célula,
Frutose-6-P durante o período necessário para o restabelecimento de um fluxo ade-
quado de sangue para os tecidos.) O aumento no oxigênio, necessário
ATP ADP~ =>ti para a recuperação após um período em que a sua disponibilidade
foi inadequada, é denominado débito de oxigênio. Esse débito está
r--------, freqüentemente relacionado à morbidade ou à mortalidade de pacien-
Produção Frutose-1,6-bisfosfato
tes. Em muitas situações clínicas, a medida dos níveis sangüíneos de
de NADH

Gliceraldeído-3-P
t ( 3> DHAP
~ ácido láctico fornece uma detecção rápida do débito de oxigênio. Por
exemplo, os níveis sangüíneos de ácido láctico podem ser utilizados
para avaliar a presença e a gravidade de um choque e para monitorar a

I i recuperação do paciente.

2N91
2 NAD+ p, _
L Produção de energia com a glicólise
Apesar da produção de uma certa quantidade de ATP durante a glicólise,
os produtos finais, piruvato ou lactato, ainda retêm a maior parte da energia

:;;itI
2 (1 ,3-Bisfosfoglicerato)
originalmente contida na glicose. O ciclo do ácido cítrico é necessário para
2ADP liberar completamente essa energia (veja a pág. 107).
2ATP
1. Glicólise anaeróbica. Duas moléculas de ATP são geradas para cada
2 (3-Fosfoglicerato) molécula de glicose convertida em duas moléculas de lactato (Figura
8.22). Não há produção ou consumo líquido de NADH. A glicólise anae-
~t
2 (2-Fosfoglicerato)
róbica, embora liberando apenas uma pequena fração da energia con-
tida na molécula da glicose, é uma fonte valiosa de energia em diversas
condições, como (1) quando o suprimento de oxigênio é limitado, como

~t
2 (Fosfoenolpiruvato)
no músculo durante o exercício intenso e (2) em tecidos com poucas
mitocôndrias ou nenhuma delas, como a medula renal, os eritrócitos
maduros, os leucócitos e as células do cristalino, da córnea e dos testí-
2ADP : d culos.

2A~P~.

,'"""")K
2. Glicólise aeróbica. A produção e o consu mo diretos de ATP é o mesmo
que aqueles da glicólise anaeróbica, ou seja, um ganho líquido de dois
'"'"~") ATPs por molécula de glicose. Duas moléculas de NADH são também
produzidas para cada molécula de glicose. A glicólise aeróbica requer
a oxidação da maior parte desse NADH pela cadeia de transporte de
2 NAD+ 2 NADH + 2H+ elétrons, produzindo aproximadamente três ATPs para cada molécula
de NADH que chega à cadeia respiratória (veja a pág. 77).

VI. REGULAÇÃO HORMONAL DA GLICÓLISE

Figura 8.22 A regulação da glicólise por ativação ou inibição alostérica, ou por fosforila-
Resumo da glicólise anaeróbica. As ção/desfosforilação de enzimas-chave, é de curto prazo- ou seja, influencia
reações envolvendo a produção ou o consumo de glicose durante períodos de minutos ou horas. Sobrepostas
o consumo de ATP ou NADH estão a esses efeitos que mudam de momento a momento estão influências hor-
indicadas. As reações irreversíveis monais, mais lentas e normalmente mais profundas, sobre a quantidade de
da glicólise são mostradas com setas proteína enzimática sintetizada. Esses efeitos podem resultar em aumentos
grossas. DHAP = diidroxiacetona- da atividade enzimática de 10 a 20 vezes, que tipicamente ocorrem ao
fosfato. longo de horas a dias. Embora o foco deste capítulo seja a glicólise, altera-
ções recíprocas ocorrem nas enzimas-chave da gliconeogênese, que são
Bioquímica Ilustrada 103

descritas no Capítulo 1O (veja a pág. 115). Consumo regular de refeições


ricas em carboidratos ou administração regular de insulina determinam um Glicose
aumento nas quantidades de glicocinase, fosfofrutocinase e piruvato-cinase Glicocinase , I ,O ~ l!@li!!,@M
no fígado (Figura 8.23). Essas mudanças refletem um aumento na transcri- ~ O "(•n..unnuQII[$(•(elel
ção gênica, resultando em aumento na síntese dessas enzimas. Uma alta
atividade dessas três enzimas favorece a conversão de glicose em piruvato, Glicose-6-P
uma característica do estado alimentado (veja a pág. 31 9). Por outro lado, H
a transcrição gênica e a síntese de glicocinase, fosfofrutocinase e piruvato- Frutose-6-P
cinase estão diminuídas quando o glucagon plasmático está alto e a insu-
lina está baixa, como por exemplo no jejum e no diabetes.
Fosfofruto- , I ,O ~l!@iii!.@M
cinase ~ O ~...........Cijii[f[.[,Hi

Frutose-1 ,6-bisfosfato
VIl. DESTINOS ALTERNATIVOS DO PIRUVATO t o/
Gliceraldeido-3-P ~ Diidroxi·
acetona-P
A. Descarboxilação oxidativa do piruvato li
1 ,3-Bisfosfoglicerato
A descarboxilação oxidativa do piruvato pelo complexo da piruvato-desidro-
genase é uma via importante nos tecidos com alta capacidade oxidativa, H
3-Fosfoglicerato
como o músculo cardíaco (Figura 8.24). A p iruvato-desidrogenase converte
H
irreversivelmente o piruvato, produto fina l da glicólise, em acetii-CoA, princi- 2-Fosfoglicerato
pal combustível para o ciclo do ácido cítrico (veja a pág. 107) e bloco cons- -H
trutivo para a síntese de ácidos graxos (veja a pág. 181). Fosfoenolpiruvato
, 1_o ~••·Miii!.GM
B. Carboxilação do piruvato a oxalacetato Piruvato-
cinase ~ O -<...........Cfflll!ffi[.[·j,i
A carboxilação do piruvato a oxalacetato (OAA) pela piruvato-carboxilase
Piruvato
é uma reação dependente de biotina (veja a Figura 8.24). Essa reação é
H
importante, pois repõe os intermediários do ciclo do ácido cítrico e fornece Lacta to
substrato para a gliconeogênese (veja a pág. 116).

C. Redução de piruvato a etanol (microrganismos) Figura 8.23


Efeito da insulina e do glucagon
A conversão de piruvato em etanol ocorre por meio de duas reações, resu- sobre a síntese de enzimas-chave da
midamente mostradas na Figura 8.24. A descarboxilação do piruvato pela glicólise no fígado.
piruvato-descarboxilase ocorre e.m fungos e em certos microrganismos,
mas não em humanos. A enzima requer, como coenzima, a tiamina-pirofos-
fato e catalisa uma reação semelhante àquela descrita para a piruvato-desi-
drogenase (veja a pág. 108).

VIII. RESUMO DO CAPÍTULO

A maior parte das vias pode ser cla ssificada como catabólica (degrada
moléculas complexas em uns poucos produtos simples) ou anabólica
(sintetiza produtos finais complexos a partir de precurso res simples). As
reações catabólicas também capturam energia química na fo rma d e
ATP, a partir da degradação de moléculas ricas em energia. As reações
anabólicas requerem energia, que é geralmente fornecida pela quebra do
ATP. A velocidade de uma via metabólica pode responder a sinais regula-
dores, por exemplo ativadores ou inibidores alostéricos, originá rios de
dentro da célula. A sinalização entre células fornece uma integração do
metabolismo. A mais importante forma para esse tipo de comunicação é a
sinalização química entre células, por meio, por exemplo, de hormônios
ou neurotransmissores. Moléculas que funcionam como segundos men-
sageiros fazem a retransmissão do sinal químico (hormônio ou neurotrans-
missor) para respostas intracelulares adequadas. A adenilato-ciclase é uma
enzima ligada à membrana que sintetiza AMP cíclico (AMPc) em resposta a
sinais q uímicos, como os hormônios glucagon e adrenalina. Após a ligação
de um hormônio a seu recepto r na superfície celular, uma proteína regu-
1 04 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

ladora dependente de GTP (proteína G) é ativada e, por sua vez, ativa a


SÍNTESE DE ETANOL
adenilato-ciclase. O AMPc ativa uma proteína-cinase, que tostorila um con-
• Ocorre em fungos e em
junto de enzimas, provocando a ativação ou desativação dessas enzimas.
algumas bactérias (inclusive
da flora intestinal). A fosfo rilação é reve rtida por proteínas fosfatases . A glicólise aeróbica,
• Via dependente de tiamina-
cujo produto final é o piruvato, ocorre em células com mitocôndrias e com
pirofosfato. suprimento adequado de oxigênio. A glicólise anaeróbica , cujo produto
final é o ácido láctico, ocorre em células desprovidas de mitocôndrias ou em
células que não apresentam quantidade suficiente de oxigênio. A glicose é
Etanol transportada através da membrana por uma entre pelo menos 14 isofor-

t~ NAD+
mas de transportadores de glicose (GLUTs). O GLUT-1 é abundante em
eritrócitos e no encéfalo , o GLUT-4 (que é dependente de insulina) é
encontrado no músculo e no tecido adiposo e o GLUT-2 é encontrado no

r-_ NADH+W
fígado e nas células 13 do pâncreas. A conversão de glicose em piruvato
(glicólise) ocorre em dois estágios: uma fase de investimento de ener-
gia, na qual intermediários fosforilados são sintetizados à custa de ATP, e
uma fase de produção de energia, na qual o ATP é produzido. Na fase de
investimento de energia, a glicose é fosforilada pela hexocinase (encon -
trada na maior parte dos tecidos) ou pela glicocinase (uma hexocinase
encontrada em hepatócitos e nas células 13 do pâncreas). A hexocinase
apresenta alta afinidade (baixo Km) pela glicose e baixa V max e é inibida
pela glicose-6-fosfato. A glicocinase apresenta alto Km e maior Vmax para
a glicose. Ela é inibida indiretamente pela frutose-6-fosfato e ativada pela
glicose. A transcrição do gene da glicocinase é aumentada pela insulina.
A glicose-6-fosfato é isomerizada, dando frutose-6-fosfato, que é fosforilada
pela fosfofrutocinase, produzindo frutose-1 ,6-bisfosfato. Essa enzima é
inibida alostericamente por ATP e por citrato e é ativada por AMP. A fru-
tose-2,6-bisfosfato, cuja síntese é ativada pela insulina , é o mais potente
ativador alostérico dessa enzima . Um total de dois ATPs são utilizados
nessa fase da glicólise. A frutose -1 ,6-bisfosfato é clivada, formando duas
trioses que são posteriormente metabolizadas pela via glicolítica, produzindo
COMPLEXO DA piruvato. Durante essas reações, quatro ATPs e dois NADHs são produzi-
PIRUVATO- dos a partir de ADP e NAD+. O passo final na síntese de piruvato a partir do
DESIDROGENASE fosfoenolpiruvato é catalisado pela piruvato-cinase. Essa enzima é ativada
• Inibido por acetii-CoA. alostericamente pela frutose-1 ,6-bisfosfato e controlada hormonal mente,
sendo ativada pela insulina e inibida pelo glucagon, v ia sistema do
• Fonte de acetii-CoA para
o c iclo do ácido cítrico e AMPc. A deficiência da piruvato-cinase perfaz 95% de todos os defeitos
para a síntese de ácidos herdados em enzimas glicolíticas. Essa deficiência restringe-se aos eritró-
graxos.
citos e causa anemia hemolítica crônica moderada a grave. Na glicólise
• É uma reação irreversível. anaeróbica, o NADH é reoxidado a NAD+ pela conversão de piruvato em
ácido láctico. Isso ocorre em cé lulas que apresentam poucas ou nenhuma
mitocôndria, como os eritrócitos, e em tecidos em que a produção de NADH
excede a capacidade oxidativa da cade ia respiratória, como no músculo em
PIRUVATO-
CARBOXILASE exercício. Concentrações elevadas de lactato no plasma (acidose láctica)
ocorrem quando há um colapso do sistema circulatório ou quando um
• Ativada por acetii-CoA. indivíduo está em choque. O piruvato pode a inda ser (1) descarboxilado
• Repõe intermediários do ciclo oxidativamente pela piruvato-desidrogenase, produzindo acetii-CoA, (2)
do ácido cítrico.
carboxilado a oxalacetato (um intermediário do ciclo do ácido cítrico) pela
• Fornece substratos para a piruvato-carboxilase ou (3) reduzido a etanol pela piruvato-descarboxi-
gliconeogênese.
lase, em microrganismos.

Figura 8.24
Resumo dos destinos metabólicos do
piruvato.
Bioquímica Ilustrada 1OS

Características metabólicas Regulação da glicólise


da glicólise

Glicólise Estado alimentado


consiste em
o Ingestão de glicose
Glicose
+
[ Todos os t ecidos ocorre em

ocorre no
o Glicose sangüínea

[ Citosol

Hexocinase )
O Liberação de insulina

I NADH produz
NADH ~=F=o=s:::fo:::f:ru:t:oc:i:na:s:e==J g..------..
Que NADH seja requer Piruvato-cinase (PK)
reox idado
a NAD+

ATP
I ATP produz
ATP notável
pois Estado de jejum
Piruvato Piruvato
O
Glicose sangüínea

pode ser seguida por pode ser seguida por

Oxigênio para reoxldar não


requer NADH a NAD+ pela requer
Oxigênio
cadeia de transporte
de elétrons
consiste em
r-------A~------~
Piruvato
t t
Piruvato
t
Piruvato
t t' NAOH r: NADH
Acetii-CoA
f"NAD+ t......_NAD+
Lactato Etanol, co2
ocorre em ocorre em
t t
E ritrócitos Fungos
Músculo em exercício Alguns oulros
Tecidos anóxicos microrganismos
Ac etii-CoA
t pode resultar em
t t
2C02
Acidose lática

leva à
t
Deficiência de Alteração no Alteração na
piruvato-cinase dobramento estrutura primária
da enzima
causando Ciclo do
Ácido crulco 9

Co nc e it os r e l acio n ad os

Figura 8.25
Mapa de conceitos-chave para a glicólise.
106 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

8.1 Qual das seguintes afirmativas a respeito da glicólise está


Resposta correta : D. As reações da hexocinase, da fosfofru-
correta?
tocinase e da piruvato-cinase são todas irreversíveis e são os
A. A conversão de glicose em lactato requer a presença passos reguladores na glicólise. A conversão de glicose em
de oxigênio. lactato (glicólise anaeróbica) é um processo que não envolve
B. A hexocinase é importante para o metabolismo hepá- uma oxidação ou redução líquida e, assim, o oxigénio não é
tico da glicose apenas durante o período absortivo, necessário. A glicocinase (e não a hexocinase) é importante no
após o consumo de uma refeição contendo ca rboidra- metabolismo hepático da glicose apenas no período absortivo,
após o consumo de uma refeição contendo carboidratos. A
tos.
frutose-2,6-bisfosfato é um potente ativador (não inibidor) da
C. A frutose-2 ,6-bisfosfato é um potente inibidor da fosfo-
fosfofrutocinase. A conversão de glicose em lactato produz dois
frutocinase. ATPs, mas não há produção líquida de NADH.
D. As reações limitantes da velocidade também são as
reações irreversíveis.
E. A conversão de glicose em lactato produz dois ATPs e
dois NADHs.

8.2 A reação catalisada pela fosfofrutocinase:


Resposta correta : C. A fosfofrutocinase é a enzima marca-
A. é ativada por altas concentrações de ATP e citrato; passo da glicólise. É inibida por ATP e por citrato, utiliza frutose-
B. utiliza frutose- 1-fosfato como substrato; 6-fosfato como substrato e catalisa uma reação que está distante
C. é a reação reguladora da via glicolítica; do equilíbrio. A reação é ativada por frutose-2,6-bisfosfato.
D. está próxima ao equilíbrio na maior parte dos tecidos;
E. é inibida pela frutose-2,6-bisfosfato.

8.3 Comparado com o estado de repouso, o músculo em con-


Resposta correta : A. O músculo em contração vigorosa mos-
tração vigorosa apresenta:
tra um aumento na produção de lactato e uma taxa aumentada
A. um aumento na conversão de piruvato em lactato; de oxidação do piruvato, em comparação com o múscu lo
B. redução na oxidação de piruvato a C02 e água; esquelético em repouso. Os níveis de AMP e NADH aumentam,
C. diminuição na razão NADH/NAD•; enquanto uma mudança na concentração de frutose-2,6-bisfos-
D. diminuição na concentração de AMP; fato não representa um fator-chave na regulação da glicólise no
E. redução nos níveis de frutose-2,6-bisfosfato. músculo.

8.4 Um homem de 43 a nos de idade apresentava sintomas


Resposta correta : C. Diminuição na produção de lactato no
de fraqueza, fadiga, falta de ar e tonturas. Seus níveis de
eritrócito indica um defeito na glicólise. Entre pacientes apre-
hemoglobina estavam entre 5 e 7 g/dl (valores normais
sentando defeitos genéticos em enzimas da via glicolftica,
para o sexo masculino acima de 13,5 g/dl). Eritrócitos do cerca de 95% mostram uma deficiência na piruvato-cinase e
paciente mostravam produção de lactato anormalmente 4% apresentam deficiência na fosfoglicose-isomerase. A defici-
baixa. Uma deficiência de qual das seguintes enzimas ência da piruvato-cinase é a segunda causa mais comum (após
seria a causa m ais provável para a anemia observada deficiência na glícose-6-fosfato-desidrogenase) de anemia
nesse paciente? hemolítica relacionada a deficiências enzimáticas.
A. Fosfoglicose-isomerase
B. Fosfofrutocinase
C. Piruvato-cinase
D. Hexocinase
E. Lactato-desidrogenase
Ciclo
, do
Acido Cítrico

I. VISÃO GERAL

O ciclo do ácido cítrico (também chamado ciclo de Krebs ou ciclo dos áci-
dos tricarboxíl icos) desempenha diversos papéis no metabolismo. É a via final
para a q ual converge o metabolismo oxidativo de ca rboidratos, aminoácidos e
ácidos g raxos, seus esqueletos carbonados sendo convertidos em C0 2 e H2 0 .
Essa oxidação fornece energia para a produção da maior parte do ATP na maio-
ria dos animais, incluindo humanos. O ciclo ocorre totalmente na mitocôndria e
está, portanto, bastante próximo das reações de transporte de elétrons (veja
a pág. 73), as quais oxidam as coenzimas reduzidas, produzidas pelo ciclo. O
ciclo do ácido cítrico é, assim, uma via aeróbica, pois o 0 2 é necessário como
aceptor final dos elétrons. O ciclo do ácido cítrico também participa em diversas
reações sintéticas importantes. Por exemplo, o ciclo funciona na formação de
glicose a partir de esqueletos carbonados de alguns aminoácidos e fornece
blocos constitutivos para a síntese de alguns aminoácidos (veja a pág. 265) e
do heme (veja a pág. 276). Além disso, intermediários do ciclo do ácido cítrico
podem ser sintetizados pelo catabolismo de alguns aminoácidos. Portanto, esse
ciclo não deve ser visto como um ciclo fechado, mas sim como um ciclo de trá-
fego, com compostos que entram e saem de acordo com as necessidades do
o rganismo. Acetii-CoA

~Citrato C
Oxalacetato
11. REAÇÕES DO CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO
11 ~ '
, Maiato lsocitrato
No ciclo do ácido cítrico, o oxalacetato é inicialmente condensado com um
grupo acetila, originário da acetii-CoA, e então é regenerado quando o ciclo se
if
Fumarato
r co2
a.-Cetoglutarato
completa (Figura 9.1 ). Desse modo, a entrada de uma acetii-CoA em uma volta \\ ~ C0 2
do ciclo do ácido cítrico não leva à produção ou ao consumo dos intermediários. Succinato Succinii-CoA
~
A. Descarboxilação oxidativ a do piruvato
O piruvato, produto final da glicólise aeróbica, deve ser transportado para Figura 9.1
dentro da mitocôndria antes que possa entrar no ciclo do ácido cítrico. Esse O ciclo do ácido cítrico, mostrado
transporte é efetuado por um transportador específico para o piruvato, que como parte das vias centrais do
ajuda esse composto a cruzar a membrana mitocondrial interna. Uma vez metabolismo energético. (Veja a
na matriz, o piruvato é convertido em acetii-CoA pelo complexo da piruvato- Figura 8.2, pág. 90, para uma visão
mais detalhada do mapa metabólico.)
108 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

o11
desidrogenase, um complexo multienzimático (Figura 9.2). (Nota: A irrever-
c-o- sibilidade da reação impede a formação de piruvato a partir de acetii -CoA
'
C=O e explica po r que a glicose não pode ser formada a partir de acetii-CoA, via
I
gliconeogênese.) No sentido estrito, o complexo da piruvato-desidrogenase
CH3
não é parte do ciclo do ácido cítrico propriamente, mas é uma importante
Piruvato
fonte de acetii-CoA -o substrato de dois carbonos que alimenta o ciclo.
CoA
1. Enzimas componentes do complexo. O complexo da piruvato-desi-
Piruvato· drogenase é um agregado multimolecular, que apresenta três enzimas,
desidrogenase
a piruvato-desidrogenase (E" também chamada descarboxilase), a
Acetii-CoA diidrolipoil-transacetilase (E2 ) e a diidrolipoil-desidrogenase (E). Cada
NADH uma está presente em múltiplas cópias e cada uma delas cata lisa
uma parte da reação geral (Figura 9.3). Sua associação física une as
reações na seqüência apropriada, sem a liberação dos intermediários.
o
11 Além das enzimas participantes na conversão do piruvato em acetii-
CoA-C- CH 3 CoA, o complexo também contém duas enzimas reguladoras forte-
Acetii-CoA mente ligadas, a proteína-cinase e a fosfoproteína -fosfatase.

2. Coenzimas. O complexo da piruvato-desidrogenase contém cinco


Figura 9.2 coe nzimas, que aluam como carreadores o u como ox idantes para
Descarboxilação oxidativa do os intermediários das reações mostradas na Figura 9.3. A E, requer
piruvato. tiamina-pi rofosfato, a E2 reque r ácido lipóico e coenzima A e a E3
requer FAD e NAD+. (Nota: Deficiências em tiamina ou niacina podem
causar sérios problemas relacionados ao sistema nervoso central. Isso
ocorre porque células nervosas são incapazes de produzir quantidade
suficiente de ATP [via ciclo do ácido cítrico] para seu funcionamento
adequado se a piruvato-desidrogenase estiver inativa.)

3. Regulação do complexo da piruvato-desidrogenase. As duas enzi-


mas reguladoras que fazem parte do complexo ativam e inativam a E 1
alternadamente: a proteína-cinase independente de AMPc fosforila e,
desse modo, inibe a E 1, enquanto a fosfoproteína-fosfatase ativa a E,
(Figura 9.4). A cinase é ativada alostericamente por ATP, acetii-CoA
e NADH. Portanto, na presença desses sinais ricos em energia, o
complexo da piruvato-desidrogenase tem sua ação diminuída. A acetil-

o FADH 2 FAD A forma sulfidrila do ácido lipóico é


Diidrolipoil- ~ oxidada pela diidrolipoil-
desídrogenas~ desídrogenase dependente de FAD,
levando à regeneração do ácido
NAD+ NADH+W llpólco oxidado.
O intermediário hldroxietil é oxidado, por
transferência à forma dissulfeto do ácido
lipóico, ligado cova lentemente à 1::1 A fl avoproteína reduzida é reoxidada a FAD
diidrolipoil-transacetilase. 1!,1 pela diidrolipoil-desídrogenase, enquanto o
NAD+ é reduzido.

Figura 9.3
Mecanismo de ação do complexo da piruvato-desidrogenase. TPP = pirofosfato de tiamina; L= ácido lipóico.
Bioquímica Ilustrada 109

CoA e o NADH também inibem alostericamente a forma desfosforilada


p
(ativa) da E 1• A proteína-cinase é inativada alostericamente por NAD• e
pela coenzi ma A - sinais de falta de energia que, desse modo, acionam AOP
a piruvato-desidrogenase (veja a Figura 9.2). O piruvato também é um
inibidor potente da proteína-cinase. Desse modo, se a concentração de (H20
piruvato aumentar, a E 1 apresentará sua atividade máxima. O cálcio é
Fosfo-
um forte ativador da proteína-fosff!tase, estimulando a atividàae dã E~. ca++O proteína-
(Nota: Isso é especialmente importante no músculo esquelético, onde a tostatase

liberação de ca•• durante a contração estimula o complexo da piruvato-


desidrogenase e, conseqüentemente, a produção de energia.)

4. Deficiência na piruvato-desidrogenase. A deficiência no complexo


da piruvato-desidrogenase é a causa bioquímica mais comum de
acidose láctica congênita,. A deficiência nessa enzima resulta na Piruvato
incapacidade de converfer piruvato em acetii-CoA, fazendo com que
o piruvato seja desviado para a reação de formação de ácido láctico,
via lactato-desidrogenase (veja a pág. 101 ). Isso gera problemas prin-
Figura 9.4
cipal mente para o encéfalo, que depende do ciclo do ácido cítrico para
Regulação do complexo da piruvato-
a produção da maior parte de sua energia e é especialmente sensível
desidrogenase.
à acidose. A forma mais grave dessa deficiência causa acidose láctica
intensa, com morte neonatal. Uma segunda forma produz acidose lác-
tica moderada, mas causa profundo retardo psicomotor, com lesões no
córtex cerebral, nos núcleos da base e no tronco encefálico, levando
à morte no início da infância. Uma terceira forma da deficiência causa 00
ataxia (incapacidade de coordenar movimentos vol untários) episódica, o
11 11
11
o c-c-o·

11 ·

CoA-C-CH3 + ·o-C-CH2
induzida por refeições ricas em carboidratos. O defeito-na E 1 é ligado
ao X, no entanto, devido à importância dessa enzima para o encéfalo, a Acetii-CoA Oxalacetato
deficiência afeta ambos os sexos. Assim sendo, o defeito é classificado Citrato· F=;:H20
como dominante ligado ao X. Não há tratamento comprovadamente sintase
CoA
eficiente para a deficiência do complexo da piruvato-desidrogenase, o
embora uma dieta cetogên ica (pobre em carboidratos e rica em gordu- CH2-c- o·
ras) tenha se mostrado benéfica em alguns casos. Tal dieta fornece um IÇ?
suprimento de combustível alternativo, na forma de corpos cetônicos Ho-c-c-o·
(veja a pág. 193), que pode ser utilizado pela maior parte dos tecidos, Ç? I
incluindo o encéfalo, embora não pelo fígado (veja a pág.194). ·o- C- CH 2
Citrato
5. Mecanismo do envenenamento pelo arsênico. Como descrito ante-
riormente (veja a pág. 99), o arsênico pode interferir com a glicólise Aconitase ll
na reação que utiliza gliceraldeído-3-fosfato, diminuindo, assim, a pro- o
dução de ATP. O "envenenamento por arsê_nico", no entanto, é devido cH2-c- o·
principalmente à inibição de enzimas que utilizam ácido lipóico como 1(91
um co-fator, incluindo a piruvato-desidrogenase, a u -cetoglutarato- H -C ~
desidrogenase (veja a seguir) e a desidrogenase de u-cetoácidos de Ç?l
cadeia ramificada (veja a pág. 264).(0 arsenito (forma trivalente do ·o-C-C-OH
I

arsênico) forma um complexo estável com os grupos tiol (-SH) do ácido H


lsocitrato
lipóico, impedindo assi m que o composto possa ser utilizado como
AD+
coenzima ) Ouando o arsenito se liga ao ácido lipóico no complexo da
i' '
piruvato-desidrogenase, o piruvato (e, conseqüentemente, o lactato) lsocítrato- ADH + H+
se acumula. Assim como na deficiência do complexo da piruvato-desi- desidrogenase

drogenase, essa condição afeta especialmente o encéfalo, levando a


distúrbios neurológicos e morte.
Ç? C(H2
o
11
C(H2-c-o· 8 co2

B. Síntese do citrato a partir de acetii-CoA e oxalacetato ·o-C-C:;O


a.-Cetoglutarato
A condensação de acetii-CoA e oxalacetato para formar citrato é catalisada
pela citrato-sintase (Figura 9.5). Essa condensação aldólica apresenta o equi-
líbrio bastante deslocado na direção da síntese de citrato. A citrato-sintase é Figura 9.5
2
ativada alostericamente por Ca • e ADP e inibida por ATP, NADH, succinii- Formação de u-cetoglutarato a partir
CoA e derivados acii-CoA graxos (veja a Figura 9.9). A principal forma de de acetii-CoA e oxalacetato.
11 O Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

regulação, no entanto, é também determinada pela disponibilidade de seus


substratos, acetii-CoA e oxalacetato. (Nota: O citrato, além de ser um interme-
diário do ciclo do ácido cítrico, também serve como fonte de acetii-CoA para
a síntese citosólica de ácidos graxos [veja a pág. 181]. Além disso, o citrato
também inibe a fosfofrutocinase, a enzima que determina a velocidade da gli-
cólise [veja a pág. 97], e ativa a acetii-CoA-carboxilase [a enzima limitante da
a-Cetoglutarato velocidade de síntese de ácidos graxos; veja a pág. 181].)
CoA
C. lsomerização do citrato
O citrato é isomerizado pela aconitase, resultando em isocitrato (veja a
Figura 9.5). (Nota: A aconitase é inibida por fluoracetato, um composto
NADH +H+ utilizado como raticida. O fluoracetato é convertido em fluoracetii-CoA, que
condensa com o oxalacetato para formar fluorcitrato- um potente inibidor
oií
da aconitase- resultando em acúmulo de citrato.)
Ç? <(H2-c-o·
CoA-C-CH2
D. Oxidação e descarboxilação do isocitrato
Succinii-CoA
A ísocítrato-desídrogenase catal isa a descarboxilação oxidativa irreversível
GDP+ P;
do isocitrato, originando a primeira das três moléculas de NADH produzidas
Succinii-CoA-
tiocinase
pelo ciclo e a primeira liberação de C02 (veja a Figura 9.5). Esse é um dos
passos limitantes da velocidade do ciclo do ácido cítrico. A enzima é ati-
GTP
vada alostericamente por ADP (um sinal de que a quantidade de energia na
CoA célula está reduzida) e por ca•• e é inibida por ATP e NADH, cujos níveis
o
11
estão elevados quando a célula apresenta abundantes reservas de energia.
Ç? <(H2-c-o·
·o- C - CH2 E. Descarboxilação oxidativa do a-cetoglutarato
Succinato
A conversão de a-cetoglutarato em succinii-CoA é catalisada pelo com-
plexo da a-cetoglutarato-desídrogenase, o qual consiste em três atividades
Succinato- k : F A D enzimáticas (Figura 9.6). O mecanismo dessa descarboxilação oxidativa é
desidrogenase muito semelhante àquele utilizado para a conversão de piruvato em acetii-
FADH 2 CoA. A reação libera o segundo C02 e produz o segundo NADH do ciclo.
o
11
As coenzimas necessárias são a tiamina-pirofosfato, o ácido lipóico, o
H, /c - o· FAD, o NAD+ e a coenzima A. Cada uma delas funciona como parte do
c mecanismo catalítico, de modo semelhante ao descrito para o complexo da
o(;
li/ ' piruvato-desídrogenase (veja a pág. 108). O equilíbrio da reação encontra-
·o - c H
se deslocado no sentido da formação de succinii-CoA - um tioester de alta
Fumarato energia, semelhante à acetii-CoA. O complexo da a -cetoglutarato-desidro-
genase é inibido por ATP, GTP, NADH e succinii-CoA, além de ser ativado
por ca++. J;le não é, no entanto, regu lado por reações de fosforilação/des-
!osforilação, como descrito para o complexo da piruvato-desidrogenase.
(Nota: O a -cetoglutarato é também produzido por desaminação oxidativa ou
H O por transam inação, a partir do aminoácido glutamato.)
I 11
Ho - c-c-o·

c:?
·o-C - CH 2
I F. Clivagem da succinii-CoA
A succínato-tíocínase (também denominada succíníi-CoA-síntetase) cliva a liga-
L-Maiato
ção tioester de alta energia da succinii-CoA (veja a Figura 9.6). A reação está
acoplada à fosforilação de GDP, produzindo GTP. O GTP e o ATP são energeti-
camente interconversíveis pela reação da nuc/eosídeo-dífosfato-cínase:
Figura 9.6
Formação de maiato a partir de GTP + ADP ~ GDP + AT P
a -cetoglutarato.
A produção de GTP pela succínato-tíocínase é outro exemplo de fosforila-
ção no nível do substrato (veja a pág. 100). (Nota: A succinii-CoA é tam-
bém produzida a partir de propionii-CoA, que provém do metabolismo de
ácidos graxos com número ímpar de átomos de carbono [veja a pág. 191] e
do metabolismo de diversos aminoácidos [veja a pág. 264].)
Bioqu ím ica Ilustrada 111

G. Oxidação do succinato H O
I 11

O succinato é oxidado a fumarato pela succinato-desidrogenase, produ- Ho- c - c-o-


zindo a coenzima reduzida FADH 2 (veja a Figura 9.6). (Nota: O FAD, e não \11
o NAD+, é o aceptor de elétrons, pois o poder redutor do succinato não é -o-C-CH2

d,:::;~~.:~r;: NAD•
suficiente para reduzir o NAD+.) A succinato-desidrogenase é inibida pelo
oxalacetato.

H. Hidratação do fumarato
O fumarato é hidratado, resultando em maiato, em uma reação livremente
\1 \1 NADH + H+
c-c - o-
reve rsível, catalisada pela fumarase (também denominada fumarato-hidra-
tase, veja a Figura 9.6). (Nota: O fumarato é também produzido pelo ciclo \1 I
-o-C-CH2
da uréia [veja a pág. 251], na síntese de purinas [veja a pág. 293] e durante
Oxalacetato
o catabolismo dos aminoácidos fenilalanina e tirosina (veja a pág. 261].)

I. Oxidação do maiato Figura 9.7


Formação de oxalacetato a partir de
O maiato é oxidado a oxalacetato pela malato-desidrogenase (Figura 9.7). maiato.
Essa reação produz o terceiro e último NADH do ciclo. (Nota: O oxalace-
tato é também produzido por transaminação, a partir do aminoácido ácido
aspártico.)

III. PRODUÇÃO DE ENERGIA PELO CICLO DO


ÁCIDO CÍTRICO

Dois átomos de carbono entram no ciclo na forma de acetii-CoA e o deixam na


forma de C0 2 . O ciclo não envolve consumo ou produção de líquidos de oxala-
cetato ou de qualquer outro intermediário. Quatro pares de elétrons são transfe-
ridos durante uma volta do ciclo: três pares de elétrons reduzem NAD+ a NADH
e um par reduz FAD a FADH 2 . A oxidação de um NADH pela cadeia transpor-
tadora de elétrons (veja a pág. 73) leva à fo rmação de aproximadamente três
ATPs, enquanto a oxidação do FADH2 gera cerca de dois ATPs. O total de ATPs
produzidos na oxidação de uma acetii-CoA está mostrado na Figura 9.8. A
Figura 9.9 resume as reações do ciclo do ácido cítrico.

IV. REGULAÇÃO DO CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO

A. Regu lação por ativação e inibição de atividades enzimáticas


Em contraste com a glicólise, que é regulada principalmente pela fosfofruto-
cinase, o ciclo do ácido cítrico é controlado pela regulação de diversas ativi- Reação produtora Número de
dades enzimáticas (veja a Figura 9.9). As mais importantes dessas enzimas de energia ATPs produzidos
reguladas são a citrato-sintase, a isocitrato-desidrogenase e o complexo da
3 NAOH - 3 NAO+ 9
a-cetoglutarato-desidrogenase.
FADH2 - FAD 2

8 . Regulação pela disponibilidade de ADP GDP+ P; --+- GTP

12 ATPs/acetii·CoA
1. Efeitos de um aumento no ADP. A energia consumida como resul- oxidada
tado da contração muscular, de reações biossintéticas ou de outros
processos leva à hidrólise do ATP em ADP e P;. O aumento resultante
na concentração de ADP acelera a velocidade de reações que utili- Figura 9.8
zam ADP para produzir ATP. a mais importante delas sendo a fosfori- Número de moléculas de ATP
lação oxidativa (veja a pág. 77). A p rodução de ATP aumenta, até que produzidas pela oxidação de uma
molécula de acetii-CoA (utilizando
se equilibre com a taxa de consumo de ATP pelas reações que reque-
ambos os processos, fosfori lação
rem energia.
no nível do substrato e fosforilação
oxidativa).
112 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

2. Efeitos de uma diminuição no ADP. Se o ADP (ou o P,) está pre-


sente em concentração limitante, a formação de ATP pela fosfqrilação
oxidativa diminui, como resultado da falta de aceptor do grupo fosfato
(ADP) ou de fosfato inorgânico (P;)- A velocidade da fosforilação oxida-
tiva é proporcional à relação [ADP][P;]/[ATP]; essa relação é conhecida
como controle respiratório da produção de energia. A oxidação de
NADH e de FADH 2 pela cadeia transportadora de elétrons também
cessa se o ADP for limitante. Isso ocorre devido ao fato dos processos
de oxidação e fosfori lação serem fortemente acoplados e ocorrerem
simultaneamente (veja a pág. 78). À medida que o NADH e o FADH 2 se
acumulam, há uma depleção de suas formas oxidadas, fazendo com
que a oxidação de acetii-CoA pelo ciclo do ácido cítrico seja inibida, em
função da falta de coenzimas oxidadas.

V. RESUMO DO CAPÍTULO

O piruvato é descarboxilado oxidativamente pelo complexo da piruvato-


NAD
Succinato
desidrogenase, produzindo acetii-CoA, principal combustível para o ciclo do
~ccinii-CoA ácido cítrico (ou ciclo dos ácidos tricarboxílicos). Esse complexo enzimático
CoA ,~ ~ requer cinco coenzimas: tiamina-pirofosfato, ácido lipóico, FAD, NAD+ e
ATP ADP+ P coenzima A (a qual contém a vitamina ácido pantotênico). A reação é ativada
(GTP) (GDP + P~) por NAD+, coenzima A, piruvato e cálcio, e inibida por ATP, acetii-CoA e NADH.
A deficiência da piruvato-desidrogenase é a causa bioquímica mais comum
de acidose láctica congênita. Uma vez que essa deficiência priva o encéfalo
de aceti i-CoA, o sistema nervoso central é especialmente afetado, com profundo
Quatro moléculas de
retardo psicomotor e morte ocorrendo na maioria dos pacientes. A deficiência
co-fator reduzidas por é dominante, ligada ao X. O envenenamento por arsênico causa inativação
acetii-CoA oxidada . , . _...._.....,_"" da piruvato-desidrogenase, por ligar-se ao ácido lipóico. O citrato é sintetizado
até C02.
a partir de oxalacetato (OAA) e acetii-CoA, pela citrato-sintase. Essa enzima
é ativada alostericamente por ADP e inibida por ATP, NADH, succinii-CoA e

m Acetii-CoA
C#rato-
ATP
derivados de acii-CoA graxo. O citrato é isomerizado a isocitrato pela aconi-
tase. O isocitrato é oxidado e descarboxilado pela isocitrato-desidrogenase,
produzindo a -cetoglutarato, além de C02 e NADH . A enzima é inibida por
sinlase
NADH ATP e NADH e ativada por AD P e ca++. O a -cetoglutarato é descarboxilado
Succinii-CoA
ADP Derivados oxidativamente pelo complexo da a-cetoglutarato-desidrogenase, dando
acii-CoA graxos succi nii-CoA, C0 2 e NADH. A enzima é muito semelhante à piruvato-desidro-
~- genase e utiliza as mesmas coenzimas. O complexo da a -cetoglutarato-desi-
Cttrato

~
drogenase é ativado por cálcio e inibido por ATP, GTP, NADH e succinii-CoA.
A succinii-CoA é clivada pela succinato-tiocinase (também denominada
lsocitrato succinii-CoA-sintetase), produzindo succinato e GTP. Este é um exemplo
NADH lsocitrato\O de fosforilação no nível do substrato. O succinato é oxidado a fumarato
ATP O desidro,- J ADP
genase"' Ca.. pela succinato-desidrogenase, produzindo FADH 2 . Essa enzima é inibida
Fumarato ATP a-Cetoglutarato pelo oxalacetato. O fumarato é hidratado a maiato pela fumarase (fumarato-

~~
Complexo

~O
GTP A da o.-Ceto- hidratase) e o maiato é oxidado a oxalacetato pela malato-desidrogenase,
NADH 'Wil g/utaralo-
Succinii-CoA des•drogenase produzindo NADH. Três NADHs, um FADH2 e um GTP (cujo fosfato terminal
Succinato pode ser transferido ao ADP pela nucleosídeo-difosfato-cinase, produzindo ATP)
'""~ccinii-CoA são produzidos por uma volta do ciclo do ácido cítrico. A oxidação dos NADHs
e do FADH2 pela cadeia transportadora de elétrons produz cerca de 11 ATPs,
levando a 12 o número total de ATPs produzidos.

Figura 9.9
A. Produção de coenzimas reduzidas, ATP
e co2 no ciclo do ácido cítrico.
B. Inibidores e ativadores do ciclo.
Bioquímica Ilustrada 113

Função do ciclo do ácido cítrico Regulação do ciclo do ácido cítrico


consiste em
Carboidratos
Aminoácidos
Ácidos graxos Regulação direta das Regulação indireta, por
atividades enzimát icas meio do acoplamento

'
Acetii-CoA

, J . . ;Citrato
Oxalacetato tlf executa a
por ATP, ADP, NADH e
outros efetores
obrigatório entre
oxidação e fosforilação

responde a

/ lsocitrato
k ( Estado de baixa energia J

1
Maiato
...,. C02 '--- - - . -- --' caracterizado por
I
caracterizado por
Fumarato a-Cetoglutarato em + +
\ uccinato Á co
2
,[ ---C-0- 2-'t_e _á_g_u_a_
o ATP
I
e
o ATP
I
~inii-CoA
t t
ADP ou P; o ADP, AMP ou P;

leva à c
produz
t
+
( ] Oxidação de NADH
o
n
e
I X
NADH e ã
leva a leva a
FADH2
t t o
I
leva à
o NADH/NAD+

leva à
o NADH/ NAD+

leva à
l
d
e
c
o
t t n
c
Atividade do ciclo do Atívidade do ciclo do e
como resultado da ácido cítrico ácido cítrico i
t I
o
ADP Fosforilação s
ATP oxidativa

Glicose / Piruvato + - ~~~~~-


fornece substrato para
' Acetii-CoA

~Oxalaceta~ L . Citrato
tlf
t
Reações de
síntese
Malal lsocitrL por exemplo
Gll concogênese
10

ácidos
I
Amino-....Fu a ato
\ } /.
...,.C02
a-Cetoglutarato + - Amino-
ácidos
S . ~ C02
ucc: ; ; ;ecinii-CoA + - Aminoácidos L..__ _,C,...,-
o-,-n-,-e-
x"" o _d-:-e-c_o_n_c_e..,-it:-o-s--"""""> -~~..:~~ ~~
ã_

Figura 9.10
Mapa de conceitos-chave para o ciclo do ácido cítrico.
114 Pame la C. C hampe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

9.1 A conversão de piruvato em acetii-CoA e C02 :


Resposta correta = B. O ácido lipóico é um aceptor interme-
A. é reversível; diário do grupo acetila, formado na reação. O complexo da
B. envolve a participação de ácido lipóico; piruvato-desidrogenase catalisa uma reação irreversível, que é
C. é ativada quando o complexo da piruvato-desidroge- inibida quando a enzima está fosforilada. A enzima localiza-se
nase é fosforilado por uma proteína-cinase na pre- na matriz mitocondrial.
sença de ATP;
D. ocorre no citosol;
E. depende da coenzima biotina.

9.2 Qual das seguintes condições diminui a oxidação de ace-


Resposta correta = C. Uma baixa razão NAD"/NADH limita a
tii-CoA pelo ciclo do ácido cítrico?
velocidade das desidrogenases que requerem NAD". Razões
A. Uma razão ATP/ ADP baixa. ATP/ADP e GTP/GDP baixas estimulam o ciclo. O AMP não
B. Baixas concentrações de NADH, devido à rápida oxi- afeta diretamente o ciclo.
dação a NAD• pela cadeia respiratória.
C. Uma baixa razão NAD./NADH.
D. Alta concentração de AMP.
E. Uma baixa razão GTP/GDP

9.3 A reação a seguir é a soma de três passos do ciclo do


ácido cítrico: Resposta correta = B. Succinato + NAD" + FAD __, oxalacetato
+ NADH + FADH 2

A + B + FAD + H,O ~ C + FADH 2 + NADH


Reatante A Reatante B Reatante C

A. Succinii-CoA GDP Succinato


B. Succinato NAD• Oxalacetato
C. Fumarato NAD• Oxalacetato
D. Succinato NAD• Maiato
E. Fumarato GT P Maiato

9.4 Um bebê do sexo masculino de um mês de idade apre-


Resposta correta = E. O paciente parece apresentar uma defi-
sentou anormalidades no sistema nervoso e acidose
ciência de PDH que responde à tiamina. A enzima não é capaz
láctica. Ensaios enzimáticos para a atividade da piruvato- de ligar-se à tiamina-pirofosfato em baixas concentrações, mas
desidrogenase (PDH) , em extratos de cultura de fibro- apresenta atividade significativa em uma alta concentração do
blastos da pele, mostraram 5% da atividade normal, com co-fator. Essa mutação, que afeta o K,. da enzima pelo co-fator,
baixa concentração (1 x 1 o·•
mM) de pirofosfato de tiamina está presente em alguns, mas não em todos os casos de defici-
(TPP) , mas 80% da atividade normal quando o ensaio ência de PDH. Todos os erros inatos da PDH estão associados
continha uma alta (0,4 mM) concentração de TPP Qual com níveis elevados de lactato, piruvato e alanina (o produto
das seguintes afirmativas, com relação a esse paciente, da transaminação do piruvato). Os pacientes rotineiramente
apresentam defeitos neuroanatômicos, retardo no desenvolvi-
está mais correta?
mento e, freqüentemente, morte precoce. Aumento nos níveis
A. Níveis elevados de lactato e piruvato no sangue predi- de piruvato e lactato são também observados na deficiência
zem com confiabilidade a presença de deficiência de da piruvato-carboxilase, outro defeito raro do metabolismo do
PDH. piruvato. Uma vez que a PDH é parte integral do metabolismo
B. O paciente provavelmente-apresentará problemas na dos carboidratos, uma dieta com baixo (e não alto) conteúdo de
degradação de ácidos graxos. carboidratos poderia reduzir os efeitos da deficiência enzimá-
C. Espera-se que uma dieta consistindo em alta ingestão tica. Em contraste, a degradação dos ácidos graxas ocorre via
conversão a acetii-CoA por 13-oxidação, um processo que não
de carboidratos seja benéfica para esse paciente.
envolve piruvato como intermediário. Desse modo, o metabo-
D. A concentração de alanina no sangue provavelmente lismo dos ácidos graxos não está prejudicado nessa deficiência
está abaixo do normal. · enzimática.
E. A administração de tiamina provavelmente reduzirá a
concentração sérica de lactato e levará a uma melhora
dos sintomas clínicos.
Gliconeogênese

I. VISÃO GERAL

Alguns tecidos, como o encéfalo, os eritrócitos, a medula renal , o cristalino e


a córnea, os testículos e o músculo em exercício, requerem um suprimento
contínuo de glicose como combustível metabólico. O glicogênio hepático, uma
fonte essencial de glicose pós-prandial, pode satisfazer essas necessidades
por apenas 1O a 18 horas na ausência de ingestão de carboidratos (veja a pág.
328). Durante um jejum prolongado, os depósitos de glicogênio hepático são
depletados, e a glicose é formada a partir de precursores como o lactato, o piru-
vato, o glicerol (derivado do esqueleto dos triacilgliceróis, veja a pág. 188) e os
a-cetoácidos (obtidos do catabolismo de aminoácidos glicogênicos, veja a pág.
260). A formação de glicose não ocorre por simples reversão da glicólise, pois o
equilíbrio geral da glicólise favorece fortemente a formação de piruvato. Em vez
disso, a glicose é sintetizada por uma via especial, a gliconeogênese. Durante Glicose-6-P ~ Glicose
um jejum de uma noite, cerca de 90% da gliconeogênese ocorre no fígado, com .J.t
Frutose-6-P
os rins fornecendo 1O% das moléculas de glicose recém-sintetizadas. Durante o
jejum prolongado, no entanto, os rins tornam-se importantes ó rgãos produtores Frulose\~-~-P
de glicose, contribuindo, segundo estimativas, com 40% da produção total de 1t-- -----.,l
Gliceraldeído-3-P +- Diidroxia-
glicose. A Figura 10.1 mostra a relação entre a gliconeogênese e outras rea- t
j, ~ cetona-P
ções importantes do metabolismo intermediário. 1,3-Bisfosfoglicerato
J.t
3-Fostoglicerato

11. SUBSTRATOS PARA A GLICONEOGÊNESE a


2-Fosfoglicerato
j,t
Fosfoen~p,ruvato

E
Precursores gliconeogênicos são moléculas que podem ser utilizadas na produção
líquida de glicose. Eles incluem todos os intermediários da glicólise e do-ciclo do ato ~ P~ruvato

ácido cítrico. Glicerol, lactato e a -cetoácidos, obtidos da desaminação de aminoá- o~jll c· .


cidos glicogênicos, são os mais importantes precursores gliconeogênicos. 1'
Oxalacelato
: ~

A. Glicerol
O glicerol é liberado durante a hidrólise de triacilgliceróis, no tecido adiposo Figura 10.1
(veja a pág. 188), e é levado ao fígado pelo sangue. O glicerol é fosforilado A via da gliconeogênese, mostrada
pela glicerol-cinase, resu ltando em glicerol-fosfato, que é oxidado pela g/i- como parte das vias essenciais do
cerol-fosfato-desidrogenase, produzindo diidroxiacetona-fosfato - um inter- metabolismo energético. As reações
mediário da glicólise. (Nota: Os adipócitos não podem fosforilar o glicerol, numeradas são exclusivas da
pois não apresentam a glicero/-cinase. ) gliconeogênese. (Veja a Figura 8.2,
pág. 90, para uma visão mais detalhada
do mapa metabólico.)
116 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

B. Lactato
O lactato é liberado no sangue pelo músculo esquelético em exercício e
pelas célu las que não possuem mitocôndrias, como os eritrócitos. No ciclo
de Cori, a glicose oriunda do sangue é convertida, pelo músculo em exer-
cício, em lactato, o qual difunde para o sangue. Esse lactato é captado pelo
fígado e reconvertido em glicose, que é liberada de volta para a circu lação
(Figura 10.2).

C. Aminoácidos
Os aminoácidos obtidos pela hidrólise de proteínas teciduais são as prin-
cipais fontes de g licose no jejum. o:-Cetoácidos, como o oxalacetato e o
o:-cetoglutarato, são produzidos pelo metabolismo de aminoácidos gli-
cogênicos (veja a pág. 259). Essas substâncias podem entrar no ciclo do
ácido cítrico e produzi r oxalacetato - um precursor direto do fosfoenolpiru-
vato. (Nota: Acetii-CoA e compostos que a produzem [por exemplo, ace-
toacetato e aminoácidos como lisina e leucina] não podem levar à síntese
líquida de glicose. Isso se deve à natureza irreversível da reação da piru-
vato-desidrogenase, que converte piruvato em acetil-CoA [veja a pág. 107].
Esses compostos originam, em vez da glicose, os corpos cetônicos [veja a
pág. 193] e são, portanto, denominados cetogênicos.)
Figura 10.2
O ciclo de Cori.
III. REAÇÕES EXCLUSIVAS DA GLICONEOGÊNESE

Sete reações glicolíticas são reve rsíveis e são utilizadas na síntese de glicose
a partir de lactato ou piruvato. Três das reações glicolíticas, no entanto, são
irreversíveis e devem ser contornadas pela utilização de quatro reações alter-
nativas, que favorecem energeticamente a síntese de glicose. Essas reações
exclusivas da gliconeogênese são descritas a seguir.

A. Carboxilação do piruvato
O primeiro "bloqueio na via" que deve ser contornado, na síntese de gli-
cose a partir do piruvato, é a conversão de piruvato em fosfoenolpiruvato
(PEP), que, na glicólise, é irreversível, catalisada pela piruvato-cinase. Na
gliconeogênese, o piruvato é primeiramente carboxilado pela piruvato-car-
boxilase, produzindo oxalacetato (OAA), que é então convertido em PEP
pela ação da PEP-carboxicinase (Figura 10 .3).

1. A biotina é uma coenzima. A piruvato-carboxilase contém biotina


(veja a pág. 379), que liga-se covalentemente à proteína enzimática
pelo grupo ~- a mino da lisina, formando uma enzima ativa (veja a
Figura 10 .3). Essa forma covalentemente ligada de biotina é deno-
minada biocitina. A clivagem de um fosfato de alta energia do ATP
impulsiona a formação do intermediário enzima-biotina-C02 . Esse
complexo de alta energia, subseqüentemente, carboxila o piruvato,
formando oxalacetato. (Nota: Essa reação ocorre na mitocôndria de
células hepáticas e renais e tem dois propósitos: fornecer um subs-
trato importante para a gliconeogênese e fornecer OAA, que pode
repor os intermediários do ciclo do ácido cítrico, pois esses podem
sofre r uma depleção, dependendo das necessidades de síntese da
célula. As células musculares também contêm piruvato-carboxilase,
mas utilizam o OAA apenas para esse último propósito - elas não
sintetizam glicose.)

2. Regulação alostérica. A piruvato-carboxilase é ativada alosterica-


mente pela acetii-"CoA. Níveis elevados de acetii-CoA podem sinalizar
Bioquímica Ilustrada 117

Piruvato-carboxílase
(com biotina ligada
covalentemente)
Acetii-CoA
o O C02 é ativado e transferido ao piruvato pela piruvato-
carboxilase, produzindo oxalacetato.

o )
o o
11 11
c -c-o· 00
11 H
I

CH3
c-c-o·
91
NBJN~ "fJ==-o-:-:-~,-'. -~-~-at_o_n_ã_o- - -,
o
11
-o-c- cH2

-o-c- Oxalacetato

pode atravessar a
S membrana
mitocondrial, então
é reduzido a maiato,
que pode fazê-lo.
L-- - - - = - - - - - ----::.::;;> Maiato

CITOSOL
o
®-o-c-c-o·
11
CH 2
Fosfoenolpiruvato

Figura 10.3
Ativação e transferência de C02 para o piruvato, seguindo-se o transporte do oxalacetato para o citosol e subseqüente
descarboxilação.

um de diversos estados metabólicos nos quais é necessária uma sín-


tese aumentada de oxalacetato. Por exemplo, isso pode ocorrer durante
o jejum, quando o OAA é utilizado para a síntese de glicose pela glico-
neogênese no fígado e no rim. Por outro lado, quando os níveis de ace-
tii-CoA estive rem baixos, a piruvato-carboxilase enco ntra-se bastante
inativada, e o piruvato é, em sua maior parte , oxidado pela piruvato-
desidrogenase, produzindo aceti i-CoA, que pode ser posteriorm ente
oxidada pelo ciclo do ácido cítrico (veja a pág. 107) .

B. Transporte do oxalacetato para o citosol


O oxa lacetato prod uzido na mitocôndria deve chegar ao citosol, onde
outras enzimas da gliconeogênese estão localizadas. O OAA, e ntretanto,
é incapaz de atravessar diretamente a membrana m itocondr ial inte rna ;
ele deve ser primeiramente reduzido a maiato pela malato-desidrogenase
mitocondrial. O maiato pode ser transportado da mitocôndria para o cito-
sol, onde é reoxidado a oxalacetato pela malato-desidrogenase citosólica
(veja a Figura 10.3).

C. Descarboxilação do oxalacetato citosólico


O oxalacetato é descarboxilado e fosforilado no __çitosol pela PEP-carboxici-
nase (também chamada PEPCK) . A reação utiliza energia da hidrólise de
118 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

GTP (veja a Figura 10.3). As ações combinadas da piruvato-carboxilase


Frutose-2,6-Bisfosfato
e da PEP-carboxicinase fornecem uma via energeticamente favorável do
piruvato ao PEP. O PEP sofre então as reações da glicólise, andando no
sentido inverso, até chegar à frutose-1 ,6-bisfosfato.
H H
I I
H-C-0- P H-C- OH
I
C =O
I
C=O D. Desfosforilação da frutose-1 ,6-bisfosfato
I I
HO-C-H HO-C-H A hidrólise da frutose-1 ,6-bisfosfato pela frutose-1,6-bisfosfatase contorna a
I I
H-C-OH H- C- OH reação irreversível da fosfofrutocinase-1 e fornece uma via energeticamente
I I
H - C-OH H- C- OH favorável para a formação de frutose-6-fosfato (Figura 10.4 ). Essa reação é
I I
H -C- 0- P Frutose-1,6- H-C-0- P um importante sítio regulatório da gliconeogênese.
I I
H bisfosfatase H
1. Regulação pelos níveis energéticos dentro da célula . A frutose-1,6-
Frutose-1 ,6- Frutose-6-
bisfosfato fosfato bisfosfatase é inibida por níveis elevados de AMP, que sinalizam um
estado de "baixa energia" na célula. Altos níveis de ATP e baixas con-
centrações de AMP, por-sua vez, estimulam a gliconeogênese.
Figura 10.4
Desfosforilação da frutose-1 ,6- 2. Regulação pela frutose-2,6-bisfosfato. A frutose-1 ,6-bisfosfatase,
bisfosfato. encontrada no fígado e no rim , é inibida por frutose-2 ,6-bisfosfato,
um efetor alostérico cuja concentração é influenciada pe los níveis
de glucagon circulante (Figura 10.5) . (Nota: Lembre que a frutose-
2,6-bisfosfato ativa a PFK- 1 da glicólise [veja a Figura 8 .1 7, pág. 98),
permitindo assim o controle recíproco da síntese e da oxidação da
glicose.)

Glucagon ......._
(alto) -..,.,

o Uma alta razão glucagon/insulina leva a


um aumento no AMPc e a nívei s
aumentados de proteína-cinase A ativa. ATP fJ Um aumento na atividade da
proteína-cinase A f avorece a
forma fosforilada do com plexo
PFK-2/FBP-2.
Proteína-cinase A ativa

Frutose-6-fosfato

Glic:o$e-6·P ......_Glicose
H
Fruto....-6·P
') ADP ATP

~I
Frutose·1,6·bis·P
FBP-2
~ (inativa)
OliceraJdei Oo·3·P ~ DHAP . ............. _~ ...... ~
11 y
1,3-Bislosfoglicçmto
lt p Enzima bifuncional
3-Fosfogllcerato
lt Frutose-1 ,6-bisfosfato
2·Fostogtieerato
H

Níveis diminuídos de frutose-2,6-bisfosfato levam


n
U
A PFK-2 fosforilada é inativa, enquanto
a FBP-2 é ativa; isso impede a
a uma menor Inibição da FBP-1, o que implica em formação da frutose-2,6-bisfosfato.
um aumento na velocidade da gliconeogênese.

Figura 10.5
Efeito de níveis elevados de glucagon sobre a concentração intracelular de frutose-2,6-bisfosfato no fígado. PFK-2 =
fosfofrutocinase-2; FBP-2 = Frutose-bisfosfato-fosfatase-2.
Bioquímica Ilustrada 119

E. Desfosforilação da glicose-6-fosfato
o
li
o
ti
A hidrólise da glicose-6-fosfato pela g/icose-6-fosfatase contorna a reação C-H C-H
I
I
irreversível da hexocinase .e fornece uma via energeticamente favorável H- C- OH H- C- OH

"V
I I
para a formação de gl icose livre (Figura 10.6). O fígado e o rim são os HO-C-H HO- C- H
I I
únicos órgªos que liberam glicose livre a partir da glicose-6-fosfato. Esse H-CI - OH H-C- OH
I
processo, na verdade, requer duas enzimas: a glicose-6-fosfato-trans/o- H-C-OH H-C- OH
I
case, que transporta a glicose-6-fosfato através da membrana do retícu lo I
H-C-OH
H- C- O- p Glicose·
endoplasmático (RE), e uma segunda enzima RE, a g/icose -6-fosfatase I
6·fosfatase
I

H H
(encontrada apenas em células gliconeogênicas), que remove o fosfato,
Glícose-6- o - Glicose
produzindo glicose livre (Figura 10.6). (Nota: Essas enzimas são necessá-
fosfato
rias para o último passo da glicogenólise [veja a pág. 127], além de o serem
para a gliconeogênese. A doença do armazenamento do glicogênio do
tipo la [veja a pág. 128] é resultado de uma deficiência herdada em uma Figura 10.6
dessas enzimas.) Transportadores específicos são responsáveis pela libera- Desfosforilação da glicose-6-fosfato.
ção de glicose livre e de fosfato de volta ao citosol e, nos hepatócitos, para
o sangue. (Nota: O músculo não possui a g/icose-6-fosfatase e, portanto,
não pode fornecer glicose para o sangue a partir da gliconeogênese. Além
disso, a glicose-6-fosfato obtida a partir do glicogênio muscular não pode
ser desfosforilada para produzir glicose livre.)

F. Resumo das reações da glicólise e da gliconeogênese


Das 11 reações necessárias para converter piruvato em glicose livre, sete
são reversíveis, catalisadas por enzimas glicolíticas (Figura 10.7). As rea-
ções irreversíveis da glicólise, catalisadas pela hexocinase, pela fosfofru- Glicose-6· P ~ Glicose
tocinase e pela piruvato-cinase são contornadas pela ação das enzimas +t
g/icose-6-fosfatase, frutose - 1, 6-bisfosfatase e piruvato-carboxilase/PEP- Frutose·6· P
~ ))9 .r
carboxicinase. Na gliconeogênese, o equilíbrio das sete reações reversíveis
Frutose·1 ,6·bis-P
da glicólise é deslocado para favorecer a síntese de glicose como resultado
da formação essencialmente irrevers ível de PEP, frutose-6-fosfato e glicose,
1 l
catalisada pelas enzimas gliconeogênicas. (Nota: A estequiometria da glico-
neogênese a partir do piruvato acopla a clivagem de seis ligações de fos-
fato de alta energia e a oxidação de dois NADHs com a formação de cada
G;;:~~>e: ~~~~~
molécula de glicose [veja a Figura 10.7].)
2 1,3·Bisfosfoglicerato

IV. REGULAÇÃO DA GLICONEOGÊNESE


2
lP::6:
3·Fosfoglicerato
A regulação momento a momento da gliconeogênese é determinada princi-
2GDP
.t..t
2 2·Fosfoglicerato
palmente pelos n íveis circulantes de glucagon e pela disponibilidade de subs-
tratos gliconeogênicos. Além disso, lentas mudanças adaptativas na atividade
+ 2 P;
2
a
Fosfoenolpiruvato
enzimática resu ltam de alterações na velocidade de síntese ou degradação de ~
enzimas, ou em ambas. (Nota: O controle hormonal do sistema glicorregulador 2 Piruvato

é apresentado no Capítulo 23, pág. 305.) co~~~ATP~


y ; ADP+2 P(~
A. Glucagon 2 Oxalacetato
Esse hormônio, produzido em ilhotas pancreáticas (veja a pág. 3 11 ), esti- 2GTP
mula a gliconeogênese por meio de três mecanismos.

1. Alterações em efetores alostéricos. O glucagon diminui os níveis


Figura 10.7
de frutose-2,6-bisfosfato, resultando na ativação da frutose - 1,6-bis-
Resu mo das reações da glicólise
fosfatase e na inibição da fosfofrutocina se (veja a Figura 10.5). (Nota:
e da gliconeogênese, mostrando
Veja a pág. 98 para o papel da frutose-2,6-bisfosfato na regulação da
as necessidades energéticas da
glicólise.)
gliconeogênese.
120 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

2. Modificação da atividade enzimática por ligação covalente. O


glucagon, via aumento nos níveis de AMPc e na atividade da proteina-
cinase dependente de AMPc, estimula a conversão da piruvato-cinase
em sua forma inativa (fosforilada). Isso diminui a conversão do PEP em
piruvato, tendo o efeito de redi recionar o PEP para a síntese de glicose
(Figura 10.8).
ATP AMPC +PP;
Glicose 3. Indução da síntese de enzimas. O glucagon aumenta a transcrição
t
'1
do gene da PEP-carboxicinase, aumentando assim a disponibilidade
de atividade enzimática no momento em que os níveis de seu substrato
Proteína-cínase A ativa
t aumentam, com o jejum. (Nota: A insulina causa uma diminuição na
transcrição do RNAm para essa enzima. )

B. Disponibilidade de substrato
ADP
A disponibilidade de precursores gliconeogênicos, especialmente de ami-
~ noácidos glicogênicos, influencia significativamente a velocidade da síntese
hepática de glicose. Níveis diminuídos de insulina favorecem a mobilização
_de aminoácidos a partir das proteínas musculares e fornecem esqueletos
carbonados para a gliconeogênese.
Piruvato

C. Ativação alostérica pela acetii-CoA


Figura 10.8
Durante o jejum, ocorre a ativação alostérica da piruvato-carboxilase
A modificação covalente da piruvato-
hepática pela acetii-CoA. Como resultado da lipólise excessiva no tecido
cinase resulta em inativação dessa
adiposo, o fígado é inundado com ácidos graxas (veja a pág. 328). A velo-
enzima. OAA = oxalacetato.
cidade de formação de acetii-CoA pela ~-oxidação desses ácidos graxas
excede a capacidade do fígado de oxidá-la a C02 e H2 0 . Como resultado,
a acetii-CoA se acumula, levando à ativação da piruvato-carboxilase. (Nota:
A acetii-CoA inibe a piruvato-desidrogenase [veja a pág. 108]. Desse modo,
esse único composto pode red irecionar o piruvato no sentido da gliconeo-
gênese, removendo-o da oxidação no ciclo do ácido cítrico.)

D. Inibição alostérica pelo AMP


A frutose-1,6-bisfosfatase é inibida por AMP- um composto que ativa a fos-
fofrutocinase . Desse modo, um aum ento no AMP estimula vias que oxidam
nutrientes, fornecendo energia para a célula. (Nota: ATP e NADH, produzi-
dos em grandes quantidades no jejum por vias catalíticas, como a oxidação
dos ácidos graxas, são necessários para a gliconeogênese.)

V. RESUMO DO CAPÍTULO

Os precursores gliconeogênicos incluem todos os intermediári os da gli-


cólise e do ciclo do ácido cítrico, o glicerol liberado pela hidrólise de triacil-
gliceróis no tecido adiposo, o lactato liberado no sangue por células que não
possuem mitocôndrias e pelo músculo esquelético em exercício e os o:-ceto-
ácidos originários do metabolismo dos a minoácidos glicogênicos. Sete das
reações da glicólise são reversíveis e são util izadas pela gliconeogênese no
fígado e nos rins. Três reações são fisiologicamente irreversíveis e devem
ser contornadas. Essas reações são catalisadas pelas enzimas glicolíticas
piruvato-cinase, fosfofrutocinase e hexocinase. O piruvato é convertido em
fosfoenolpiruvato (PEP) pelas enzimas piruvato-carboxilase e PEP-carbo-
xicinase. A carboxilase requer biotina e ATP e é ativada alostericamente por
acetii-CoA. A PEP-carboxicinase requer GTP. A transcrição de seu RNAm é
aumentada pelo glucagon e diminuída pela insulina. A frutose-1,6-bisfosfato
é conve rtida em frutose-6-fosfato pela frutose-1 ,6-bisfosfatase. Essa enzima
é inibida por níveis elevados de AMP e ativada por níveis aumentados de
Bioquímica Ilustrada 121

ATP . Essa enzima é também inibida por frutose-2,6-bisfosfato, principal ati-


vador alostérico da glicólise. A glicose-6-fosfato é convertida em glicose pela
glicose-6-fosfatase. Essa ativid ade enzimática é também necessária para o
último passo na degradação do glicogênio, além de ser necessária na gliconeo-
gênese. Uma deficiência nessa enzima resulta na doença do armazenamento
do glicogênio do tipo la.

Substratos para a gliconeogênese Regulação da gliconeogênese no jejum

Estado de jejum
[ Gliconeogênese
I
consiste em Liberação de ácidos
t graxos do tec ido adiposo
Piruvato
1----------·1-----~1 Passos regulados
t
Oxalacetato Oxidação de ácidos
Eritrócitos graxos no fígado
Músculo em exercício t fornecem

t +
Esqueletos ~P:ir:u:va:t:o:-c:a:r=b=ox=i=la:s=e=~- -IJ Acetii-CoA no fígado
t carbonados para a
Frutose-1 ,6-
s íntese de novo
t de glic ose bisfosfatase
Tecido adiposo
t I
que consistem em
o O Glic ose sangüínea

t t
t Glicerol e l actato,
que entram
Glicose diretamente na
gliconeogênese
I
e
+
A minoácidos
I
cuj o metabolismo
Acetii-CoA converge para o

~Citrato t
Oxalacetato
•...... Ciclo do
ác ido cítrico

-
I
Ma,la
lsocitrato L ._

LC02
_;__:....;__:_:_:....;:...:..._...J Ciclo do
Àctdo Cítrico 9

~~ ~~ ) Conexãodeconceitos)
~ Fum\
arato o:-Ceto~
glutarato ~-
~
Succinato S .. C A C02 ·- -~
...., ;yrm. 1 o : . ..

Figura 10.9
Mapa de conceitos-chave para a gliconeogênese.
122 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta.

10.1 A síntese de glicose pela gliconeogênese a partir do piru-


Resposta correta = C. A biotina é a coenzima/grupo prostético
vato:
da piruvato-carboxilase. A carboxilação do píruvato ocorre na
A. ocorre exclusivamente no citosol; mitocôndria, enquanto as outras reações da gliconeogênese
B. é inibida por níveis elevados de glucagon; ocorrem no citosol. O glucagon estimula a gliconeogênese.
C. requer a participação de biotina; O lactato não é um intermediário na conversão de píruvato a
D. envolve lactato como intermediário; glicose.
E. requer oxidação/redução de FAD.

10.2 Qual das seguintes afirmativas a respeito da gliconeogê-


Resposta correta = O. Durante o jejum que ocorre à noite, o gli-
nese está correta?
cogênio sofre uma depleção parcial e a gliconeogênese forn ece
A. Ocorre no músculo. glicose para o sangue. A gliconeogênese é inibida pela frutose
B. É estimulada pela frutose-2,6-bisfosfato. 2,6-bisfosfato e estimulada por níveis elevados de acetii-CoA. A
C. É inibida por níveis elevados de acetii-CoA. degradação de ácidos graxas produz acetii-CoA, que não pode
D. É importante para a manutenção da glicose sangüínea ser convertida em glicose. Os esqueletos carbonados da maior
durante o jejum que normalmente ocorre durante a parte dos aminoácidos, porém, são gliconeogênicos.
noite.
E. Utiliza esqueletos carbonados originários da degrada-
ção de ácidos graxas.

10.3 Qual das seguintes reações é excl usiva da gliconeogê-


nese? =
Resposta correta C. As demais reações são comuns tanto à
gliconeogênese quanto à glicólíse.
A. Lactato -4 Piruvato
B. Fosfoenolpiruvato --7 Piruvato
C. Oxalacetato -4 Fosfoenolpiruvato
D. Glicose-6-fosfato -4 Frutose-6-fosfato
E. 1,3-Bisfosfoglicerato -4 3-Fosfoglicerato

10.4 Uma menina de 13 anos de idade é trazida ao consultório


por sua mãe, que está preocupada com os sintomas de Resposta correta = O. Essa paciente mostra muitos sinais de
um transtorno alimentar denominado anorexia nervosa. Essa
fadiga crônica, tonturas e perda de peso apresentados
condição caracteriza-se por aversão ao alimento, que leva a um
pela filha. A paciente apresentava 165 cm de altura e
estado de jejum e definhamento. Os pacientes freqüentemente
pesava 47 kg. Exames de laboratório mostraram leuco- apresentam uma visão distorcida de seu próprio peso ou forma,
penia, glicose sangüínea = 50 mg/dl (glicose sangüínea e não se preocupam com as sérias conseqüências de seu baixo
normal no jejum = 70 a 90 mg/dl) e níveis elevados de peso para a saúde. Após diversos meses de quase inanição, a
corpos cetônicos. Um questionamento insistente revelou glicose sangüínea nesta paciente está sendo mantida pela
que a jovem havia praticamente jej uado por quatro meses, gliconeogênese, principalmente a partir de aminoácidos mobi-
esperando obter um "rosto delgado", como um requisito lizados de proteínas teciduais. Esse processo envolve diversas
para a carreira de modelo. Qual das seguintes alternativas vitaminas (piridoxina, tiamina, biotina) e, embora não tenha sido
determinado, a paciente provavelmente apresenta deficiência
explica melhor a hipoglicemia da paciente?
vitamínica. As explicações alternativas são insustentáveis. O
A. Prejuízo na secreção de insulina. glícogênio hepático será exaurido nos primeiros dias de jejum.
B. Secreção aumentada de glucagon. Prejuízo na secreção de insulina ou secreção aumentada de
C. Prejuízo na hidrólise do glicogênio hepático. glucagon levariam a uma hiperglicemia. Diminuição na hidrólise
D. Prejuízo na conversão de aminoácidos em glicose. de triacilgliceróis no tecido adiposo não levari.a à hipoglicemia.
E. Prejuízo na mobilização de triglicerídeos.
Metabolismo do
Glicogênio

I. VISÃO GERAL

Uma fonte constante de glicose sangüínea é uma necessidade absoluta para a


vida humana. A glicose é a fonte preferencial de energia para o encéfalo e for-
nece a energia necessária para células com poucas ou nenhuma mitocôndria,
como os eritrócitos maduros. Ela é também essencial como fonte de energia
para o músculo em exercício, onde se constitui em substrato para a glicólise
anaeróbica. A glicose sangüínea pode ser obtida de três fontes principais: dieta,
degradação do glicogênio e gliconeogênese. A ingestão, através dos alimentos,
de glicose e de seus precursores (como o amido, os monossacarídeos e os dis-
sacarídeos) é esporádica e, dependendo do tipo de alimentação, nem sempre
representa uma fonte segura de glicose para o sangue. Em contraste, a glico-
neogênese (veja a pág. 115) pode fornecer uma síntese sustentada de glicose,
mas é um tanto lenta para responder a uma redução no nível sangüíneo dessa
substância. Sendo assim, o corpo desenvolveu mecanismos para armazenar
um suprimento de glicose em uma forma rapidamente mobilizável , o glicogê-
nio. Na ausência de uma fonte de glicose na alimentação, esse composto é
rapidamente liberado a partir do glicogênio hepático e renal. Da mesma forma,
o glicogênio muscular é degradado em grande quantidade durante o exercício,
proporcionando uma importante fonte energética a esse tecido. Quando os
estoques de glicogênio se esgotam, determinados tecidos sintetizam glicose
de novo, usando aminoácidos das proteínas teciduais como principal fonte de
Glicogênio
carbonos para a via gliconeogênica. A Figura 11 .1 apresenta as reações de
\
síntese e degradação do glicogênio como uma parte das vias essenciais do
metabolismo energético. ( UDP-Glicose
J
Glicose-1-P

11. ESTRUTURA E FUNÇÃO DO GLICOGÊNIO tt


Glicose-6-P O Glicose

Os principais estoques de glicogênio no corpo se encontram nos músculos


esqueléticos e no fígado, embora a maioria das ou tras cé lu las armazene
pequenas quantidades para uso próprio. A função do glicogênio muscular é Figura 11 .1
servir como reserva de combustível para a síntese de ATP durante a contra- Síntese e degradação de glicogênio
ção muscular. A função do glicogênio hepático é manter a concentração de são mostradas como parte das
glicose sangüínea, especialmente durante o início do jejum (Figura 11 .2, e reações essenciais do metabolismo
veja a pág. 328). energético (veja a Figura 8.2, na pág.
90, para maiores detalhes das reações
do metabolismo geral).
124 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

A. Quantidades de glicogênio hepático e muscular


Aproximadamente 400 g de glicogênio compõem 1 ou 2% do peso do mús-
cu lo em repouso, e cerca de 100 g perfazem até 10% do peso do fígado de
um adulto bem alimentado. Não se sabe ao ce rto o que limita a produção
de glicogênio a esses níveis. Contudo, em algumas doenças vinculadas ao
armazenamento de glicogênio (veja a pág.128), sua quantidade no fígado
e/ou no músculo pode ser significativamente mais elevada.

B. A estrutura do glicogênio
O glicogênio é um homopolissacarídeo de cadeia ramificada formado,
exclusivamente, por a-o-glicose. A união glicosídica primária é uma ligação
cx(1~4) . Após uma média de 8 a 1O resíduos glicosil, há uma ramificação
contendo uma ligação cx( 1 ~6) (Figura 11.3). Uma única molécula de glico-
8
gênio pode ter uma massa molecular de até 10 dáltons. Essas moléculas
existem em grânulos citoplasmáticos diferenciados, que contêm a maioria
das enzimas necessárias para a síntese e para a degradação de glicogênio.

C. Flutuação dos estoques de glicogênio


Os estoques de glicogênio hepático aumentam durante o estado alimentado
(veja a pág. 321) e são depletados durante o jejum (veja a pág. 328). O gli-
cogênio muscular não é afetado por períodos curtos (alguns dias) de jejum
e só diminui moderadamente em jejuns prolongados (semanas). O glicogê-
nio muscular é sintetizado para repor os estoques dos músculos, depois de
terem sido esgotados, por exemplo, após um exercício extenuante. (Nota:
A síntese e a degradação de glicogênio são processos que acontecem de
Figura 11.2 forma contínua. As diferenças entre as velocidades desses dois processos
Funções do glicogênio muscular e do determinam os níveis de glicogênio armazenado durante estados fisiológi-
glicogênio hepático. cos específicos.)

III. SÍNTESE DE GLICOGÊNIO (GLICOGÊNESE)

O glicogênio é sintetizado a partir das moléculas de ex-o-glicose. O processo


ocorre no citosol e requer energia fornecida pelo ATP (para a fosforilação da
glicose) e trifosfato de uridina (UTP).

Figura 11.3
Estrutura ramificada do glicogênio, mostrando as ligações cx-1 ,4 e cx-1 ,6.
Bioquímica Ilustrada 12 5

A. Síntese de UDP-glicose
UDP-Glicos e
A a -o-glicose ligada ao difosfato de uridina (UD P) é a fonte de todos os
resíduos glicosil que são adicionados à molécula de glicogênio em forma-
ção. A UDP-glicose (Figura 11.4) é sintetizada a partir da glicose-1-fosfato
e de UTP pela UDP-glicose-pirofosfori/ase (Figura 11.5). A ligação rica em
energia do pirofosfato (PP;), o segundo produto da reação, é hidrol isada em
dois fosfatos inorgânicos (P,) pela p irofosfatase, garantindo que uma reação
de síntese se dê na direção da produção de UDP -glicose. (Nota: A glicose-
6-fostato é convertida em glicose-1-fosfato pela fosfoglicomutase. A glicose-
1,6-bisfosfato é um intermediário obrigatório nessa reação [Figu ra 11.6].)
Glicose Uridina-di fosfato

B. Síntese de um iniciador (segmento inic ial) para principiar a síntese


de glicogênio
Figura 11 .4
A glicogênio-sintase é responsáve l pela formação das ligações a( 1~4) no A estrutura da UDP-glicose.
glicogênio. Essa enzima não pode iniciar a síntese da cadeia homopolissa-
carídica usando glicose livre como aceptora de uma molécula de glicose a
partir de UDP-glicose. Em vez disso, ela só pode alongar cadeias já exis-
tentes de glicose. Sendo assim, um fragmento de glicogênio pode servir
como segmento inicial (iniciador) em células cujos estoques de glicogênio
não estejam totalmente esgotados. Na ausência de um fragmento de glico-
gênio, uma proteína chamada g licogen ina pode servir como aceptora de
resíduos de glicose (veja a Figura 11.5). O grupo hidroxila da cadeia lateral
de uma tirosina específica serve como local onde a unidade glicosil inicial é
unida. A transferência das primeiras moléculas de glicose da UDP-glicose à
glicogenina é catalisada pela própria glicogenina, que pode, então, transferir
outras unidades glicosil a(1 ~4) para a cadeia em formação. Essa cadeia

Glicose-6-fosfato

-tt Fosfoglicomutase
Tiroslna

UTP + Glicose-1-fosfato

UDP·glicose -pirofosfori/ase lHO~"'--.._


H,o i PP;

p;,.~,.,.~
Glicogenina

2 P;

Ligações a{1 ~4)


.: 1} I Ligação a{1 ~6)

•-.~-~--~ ---~---0~
\ ·I-.).1"·-·-·
·- . " '' '
,_
1 e d

tI
Alongamentos posteriores nas extremidades
não-reduto ras pela glicogênio-síntase,
estabelecendo ligações a(1~4).

Ramificações adicionais, com estabelecimento


EXTREMIDADES
--}de ligações o.(1 ~6).
NÃO-REDUTORAS
GLICOGÊNIO

Figure 11 .5
Síntese de glicogênio.
126 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

curta serve para receber futuros resíduos de glicose, como descrito a seguir.
(Nota: A glicogenina continua associada à molécula completa de glicogênio
Glícose-6- ® e se encontra em seu centro.)

C. Alongamento das cadeias do glicogênio pela glicogênio-sintase


Glicose-1 ,6-
I
®
p O alongamento de uma cadeia de glicogênio envolve a transferência de um

Gl ~1-
resíduo de glicose a partir da UDP-glicose para a extremidade não-redutora
da cadeia em crescimento, formando uma nova ligação glicos idica entre a

,.- - -:- - - :- .X p
hidroxila do carbono anômero (carbono 1) da glicose ativada (UDP-glicose)
e a hidroxila do carbono 4 do resíduo glicosil aceptor (veja a Figura 11.5).
(Nota: A extremidade "não-redutora" de uma cadeia de carboidrato é aquela
p em que o carbono anômero do açúcar terminal está unido por uma ligação
glicosídica a outro composto, tornando o açúcar terminal em "não-redutor''
[veja a pág. 84].) A enzima responsável pela formação de ligações cx(1 ~4)
Figure 11.6 no glicogênio é a glicogênio-sintase. (Nota: O UDP liberado quando a nova
lnterconversão de glicose-6- ligação glicosídica cx{1~4) é formada pode ser convertido novamente em
fosfato e glicose-1-fosfato pela UTP pela nucleosídeo-difosfato-cinase (UDP + ATP ~ UTP + ADP, veja a
fosfoglicomutase. pág. 294].)

O. Formação das ramificações no glicogênio


Se nenhuma outra enzima de síntese agir sobre a cadeia, a estrutura
resultante será uma molécula linear de resíduos de glicosil, unidos por
ligações a.(1 ~4). Um composto com essas características é encontrado
em tecidos vegetais e é denom inado amilose. Em vez disso, o glico-
gênio possui ramificações localizadas, em média, a cada oito resíduos
glicosil de intervalo, resultando em uma estrutura altamente ramificada,
semelhante a uma árvore (veja a Figura 11.3), e que, por sua vez, é
muito mais solúvel do que a cadeia não-ramificada da amilose. As ram i-
ficações aumentam o número de extremidades não-redutoras às quais
se podem acrescentar novos resíduos glicosil (e, como descrito poste-
riormente, das quais se pod em remover esses resíduos), acelerando
assim a velocidade em que podem ocorrer a síntese e a degradação
de glicogênio. Além disso, as ramificações aumentam muito o tamanho
dessa molécula.

1. Formação das ramificações. As ramificações são formadas pela ação


da "enzima de ramificação" amilo-a(1~4)~ a.{l~ 6)-transglicosidase.
Essa enzima transfere uma cadeia de 5 a 8 resíduos glicosil da extre-
midade não-redutora da cadeia do glicogênio [clivando uma ligação
cx{1~4) ) para outro resíduo na cadeia, unindo-a por meio de uma liga-
ção a(1 ~ 6). A nova extremidade não-redutora (veja "j" na Figura 11.5),
bem como a antiga extremidade não-redutora, da qual 5 a 8 resíduos
foram removidos (veja "o" na Figura 11.5), pode, agora, ser ainda mais
alongada pela glicogênio-sintase.

2. Formação de ramificações adicionais. Após o alongamento dessas


duas extremidades por ação da glicogênio-sintase, os seus 5 a 8 resí-
duos glicosil terminais podem ser removidos e utilizados para formar
outras ramificações.

IV. DEGRADAÇÃO DO GLICOGÊNIO (GLICOGENÓLISE)

A via de degradação, que mobiliza o glicogênio armazenado no fígado e no


músculo esquelético, não é o inverso das reações de síntese. Em vez disso, um
conjunto de enzimas citosólicas diferentes é necessário. Quando o glicogênio
Bioquímica Ilustrada 127

é degradado, o produto primário é a glicose-1-fosfato, obtida pela clivagem das


ligações g licosídicas a(1 -?4). Além disso, glicose livre é liberada a parti r de
cada resíduo glicosil unido por ligações a(1-?6).
H,_~ H,_O\, H,_O\, Hr \ ,
H~~ ··· ~~H
OH OH OH
A. Encurtamento de cadeias
~ OH Cadeia de glicogênio

L"!~----
A glicogênio-fosforilase cliva, seqüencialmente, as ligações glicosídicas
a (1-?4) entre os res íduos glicosil, a partir das extremidades não-redutoras
das cadeias de glicogênio, por meio de fosforólise simples, até que restem
quatro unidades glicosil em cada cadeia antes do ponto de ramificação
(Figura 11 .7). (Nota: Essa enzima contém uma molécula de piridoxal-fos-
fato ligada covalentemente, que é necessária como coenzima.) A estrutura H~
resultante é chamada de dextrina-limite e a fosforilase não consegue
H~O -PO,"
degradá-la mais (Figura 11.8). OH

8 . Remoção das ramificações Glicose-1 -P

As ramificações são removidas por duas atividades enzimáticas (veja a +


Figura 11 .8). Em primeiro lugar, a oligo-a(1 -? 4)-?a(1-?4)-glican-trans-
ferase remove os três resíd uos glicosil mais externos, entre os quatros
unidos na ramificação. A seguir, ela os transfere para a extremidade
H:r-0\, Hrc\, H:r-0\,
H~ ··· ~~H
não-redutora de outra cadeia, alongando-a. Dessa forma, uma ligação OH OH OH

a (1 -?4) é rompida e outra ligação a(1 -?4) é formada. Logo após, o resí- Glicogênio restante
duo de glicose restante , unido por ligação a(1-?6), é removido por hidró-
lise, pela atividade da ami/o-a ( 1~6)-glicosidase , liberando glicose livre.
(Nota: Tanto a transferase quanto a glicosidase são domínios de uma
Figura 11.7
mesma cadeia polipeptídica, a "enzima de desramificação".) A cadeia
Clivagem de uma ligação a( 1 ~ 4 )
glicosídica está, novamente, disponível para a degradação pela glicogê- glicosídica por fosforólise.
nio-fosforilase, até que sejam alcançadas quatro unidades glicosil antes
da próxima ramificação.

C. Conversão de glicose-1-fosfato em glicose-6-fosfato


A glicose-1-fosfato, produzida pela glicogênio-fosforilase, é convertida
no citosol em glicose-6-fosfato pela fosfoglicomutase - uma reação que
produz glicose-1 ,6-bisfosfato como intermed iário temporário, mas essen-
cial (veja a Fi gura 11 .6) . No fígado, a glicose-6-fosfato é transposta para
o retículo endoplasmático (RE) pela glicose-6-fosfato-trans/ocase. Nessa
estrutura, ela é convertida em glicose pela g/icose-6-fosfatase - a mesma
enzima utilizada na última etapa da gliconeogênese (veja a pág. 119). A
glicose resultante é, então, transportada para fora do RE até o citosol. Os
hepatócitos liberam as moléculas de glicose derivadas do glicogênio no
sangue, para ajudar a manter os níveis sangüíneos de glicose até que a via
gliconeogênica esteja, ativamente, produzindo glicose. (Nota: No músculo, a
glicose-6-fosfato não pode ser desfosforilada devido à ausência da glicose-
6-fosfatase. Em vez disso, ela entra na via glicolítica, fornecendo a energia
necessária para a contração muscular.)

D. Degradação lisossômica do glicogênio


U ma pequena quantidade de glicogênio é, continuamente, degradada
pela enzima lisossômica a(t-?4)-glicosidase (maltase ácida). O objetivo
dessa via é desconhecido. Entretanto, a deficiência dessa enzima gera
um acúmulo de glicogênio em vacúolos no citosol, resultando na grave
doença de armazenamento do glicogênio tipo 11 (doença de Pompe,
veja a Figura 11.8).
128 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

EXTREMIDADE
/;,-;. -
'>-' - REDUTORA

ligação a -1 ,6 ·-
·- -._-·-·-
·- -·- a (1->4) -glicosidase
/isossômica

EXTREMIDADES TIPO 11: DOENÇA DE POMPE (DEFICIÊNCIA


DA o.(1-'>4)-GL/COSIDASE L/SOSSÔMICA)
NÃO-REDUTOR
• Deficiência inata da enzima lisossômica
• Generalizada (principalmente fígado, coração, músculos)
• Concentrações elevadas de glicogênio presentes em
TIPO V: SÍNDROME DE McARDLE vacúolos anormais no citosol
(DEFICIÊNCIA DA GLICOGÊNIO-FOSFORILASE • Níveis n ormais de g licose sangüínea
DOS MÚSCULOS ESQUELÉTICOS) • Cardiomegalia grave
• Morte precoce devida, geralmente, à falha do coração
• Músculo esquelético é afetado; enzima
• Glicogênio com estrutura normal
hepática normal
• Fraqueza temporária e cãibra nos músculos
esqueléticos após exercício
• Sem elevação do lactato sangüíneo durante
exercício extenuante
• Desenvolvimento mental normal
• Mioglobinemia e mioglobinúria
• Prognóstico de razoável a bom
• Alto nível de glicogênio com estrutura
normal no músculo

(/
Glicose-1-P
e ,

.
9

'O
c. ~·-
,O
_.-'·-·-· •- o

-
$

-·- -·
. - <. '
DEXTRINA-
LIMITE i -· "'
~

-·-···-·--.,1
6
<:== ENZIMA DE DESRAMIFICAÇAO
c CJ
e f g

.-• ·-·-'
o'
11 · -· -·
.- -· -· · o

------::0~
9'
a' b' c' d' e' \' e'

<:===== ENZIMA DE DESRAMIFICAÇÃO

Gl~o••1 IJ
-·-·-·-·-··-· .--·-·-·-·-·-·-·
6

'
a' b' c' d' e' \
' <! ' . -
-• - -· -• · iI Continua na próxima página

Figura 11.8
Degradação do glicogênio, mostrando algumas das doenças de armazenamento do mesmo. (Continua na próxima
página.)
Bioquímica Ilustrada 129

TIPO la: DOENÇA DE VON GIERKE (DEFICIÊNCIA


DA GL/COSE-6-FOSFATASE)
(Continuação da Figura 11.8)
I Repetição
t dos passos
oa1':1 1':1
1:11
Tipo lb: DEFICIÊNCIA DA GL/COSE-
6-FOSFA TO-TRANSLOCASE GLICOSE-1-P + GLICOSE (Razão - 8:1)

• Afeta fígado, rins e intestino


• Hipoglicemia no jejum -grave
• Fígado graxa, hepatomegalia
• Doença renal progressiva
• Retardo no crescimento e atraso da puberdade
• Hiperacidemia láctica e hiperuricemia
• Estrutura normal do glicogênio; aumento do
glicogênio armazenado
• Tratamento: infusão gástrica de glicose
durante a noite ou administração regular de
amido de milho não-cozido

Figura 11.8
(Continuação)

V. REGULAÇÃO DA SÍNTESE E DA DEGRADAÇÃO


DO GLICOGÊNIO

Devido à importância da manutenção dos níveis de glicose no sangue, a


m FÍGADO
síntese e a degradação do glicogênio, forma de armazenamento da glicose, Glicogênio

~ f:/ \0~
são firmemente reguladas . No fígado, a síntese do glicogênio é acelerada
quando o corpo está bem alimentado, enquanto a degradação do glicogênio Glicose-6-P ........
é acelerada em períodos de jejum. No músculo esquelético, a degradação do ATP ........~ O( Glicose-6-P
glicogênio ocorre durante o exercício, e a síntese começa assim que o mús- Glicogénio- Glicogênio-

Giioo~ ~z l~
culo entra novamente em descanso. A regulação da síntese e da degradação
do glicogênio ocorre em dois níveis. Em primeiro lugar, a glicogênio-sintase
e a glicogênio-fosforilase são controladas alostericamente. Em segundo, ....
as vias de síntese e de degradação do glicogênio são reguladas hormo-
nalmente. (Nota: A regulação da síntese e da degradação de glicogênio é
extremamente complexa, envolvendo muitas enzimas [por exemplo, proteína- Glicose-1-fosfato
cinases e fosfatases], cálcio e inibidores de enzimas, entre outros modula-
dores. Uma discussão completa dessas vias vai além da abrangência de um
livro de revisão básica. Sendo assim, esta seção apresenta um panorama
m MÚSCULO
Glicogênio
geral dos mecanismos fundamentais da regulação da síntese e da degrada-
ção do glicogênio.) Glicose·6·P ........ ~ ~ \0~
ATP ........~ O( Glicose-6-P
A. Regulação alostérica da síntese e da degradação do glícogênio

)sintase
Glicogênio· Glicogenio-
A glicogênio-sintase e a g/icogênio-fosforilase respondem aos níveis dos Ca2+ ~O\
"Iase
metabólitos e às necessidades energéticas da célula. É lógico, portanto,
que a síntese do glicogênio seja estimulada quando a disponibilidade de AMP~ o
substrato e os níveis de energia são altos, e a degradação do glicogênio
seja aumentada quando os níveis de energia e o suprimento de glicose dis-
Glicose-1-fosfato
ponível são baixos.

1. Regulação da síntese e da degradação de glicogênio no estado


alimentado. No estado alimentado, a glicogênio-sintase é alosterica- Figura 11.9
mente ativada por glicose-6-fosfato quando esta estiver presente em Regulação alostérica da síntese e
da degradação de glicogênio no (A)
concentrações elevadas (Figura 11.9). Em contraste, a g/icogênio-tos-
fígado e no (B) músculo.
130 Pamela C. Cham pe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

tori/ase é inibida alostericamente por glicose-6-fosfato, bem como por


ATP, um sinal de alto nível energético na célula. (Nota: No fígado, a gli-
cose também serve como inibidor alostérico da glicogênio-fosfori/ase.)

2. Ativação da degradação do glicogênio no músculo pelo cálcio.


Durante a contração muscular, há uma necessidade rápida e urgente
Ca2+ é liberado do retículo de ATP, ou seja, de energia, a qual é fornecida pelo estoque de gli-
endoplasmático em resposta cog ênio no músculo. Impulsos nervosos causam despolarização da
à l igação de h ormônios o u 2
membrana, a qual, por sua vez, promove a liberação de Ca + do retí-
de neurotransmissores a
· recept ores da superfície culo sarcop lasmático para o sarcoplasma das cé lu las musculares.
celular. O Ca2 + liga-se à calmodulina, uma proteína da fam ília de pequenas
proteínas ligantes de cálcio. (Nota: A cal modulina é a mais amplamente
distribuída dessas proteínas e está presente em praticamente todas as
células.) A ligação de quatro íons Ca2 • à calmodulina desencadeia uma
2
mudança conformacional, de fo rma que o complexo Ca +-calmodulina
ativado associa-se a mo léculas p rotéicas - muitas vezes en zimas
- ativando-as, moléculas essas que eram inativas na ausência desse
complexo (Figura 11 .10). Dessa maneira, a calmodulina funciona como
uma subunidade essencial de muitas proteínas complexas. Uma delas
2
é a tostori/ase-cinase, que é ativada pelo complexo Ca +-calmodulina
sem necessidade de que a cinase seja fosforilada pela proteína-cinase
dependente de AMPc (veja a seguir e veja a Fi gura 11 .11). Quando o
músculo relaxa, o Ca2+ retorna ao retículo sarcoplasmático e a fosfori-
O aumento temporário da /ase-cinase se torna inativa. (Nota: A fosforilase-cinase apresenta sua
concentração de Ca2+ atividade máxima durante o exercício muscular, quando se encontra,
intracelular favorece a 2
formação do c omplexo
ao mesmo tempo, fosforilada e ligada ao Ca +.)
Ca2+-calmodulina.
3. Ativação da degradação do glicogên io no músculo pelo AMP . A
glicogênio-fosforilase muscular está ativa na presença das altas con-
centrações de AM P que ocorrem no músculo, em condições extremas
de anóxia e de depleção de ATP. O AMP se liga à fo rma inativa da gli-
cogênio-fosforilase, causando a sua ativação sem a fosforilação (veja a
Figura 11.11).

B. Ativação da degradação de glicogênio pela via direcionada


pelo AMPc
A ligação de hormônios, como glucagon ou adrenalina, a receptores de
membrana sinaliza a necessidade de que o glicogên io seja degradado para
elevar os níveis da glicose sangüínea ou para fornecer a energia para o
músculo em exercício.

1. Ativação da proteína-cinase. A ligação do glucagon ou da adrenalina


a seus receptores específicos nas membranas celulares resu lta na
ativação mediada pelo AMPc da p roteína-cinase dependente de AMPc.
Essa enzima é um tetrâmero, possuindo duas subunidades regulado ras
O complexo Ca2+-cal modulina (R) e duas subunidades catalíticas (C) . O AMPc liga-se ao dímero de
é um compon ente essencial de
m uitas enzimas dependentes
subunidades regu latórias, liberando as subunidades catalíticas ind ivi-
de Ca2+. duais, que são ativas (veja a Figura 11.11 ). (Nota: Quando o AM Pc é
removido, o tetrâmero inativo, R2 C2 , forma-se novamente.)

2. Ativação da fosforilase-cinase. A fosfori/ase-cinase existe em duas


Figura 11.10 formas: uma forma inativa "b" e uma forma ativa "a". A proteína -
A calmodulina medeia muitos efeitos cinase dep endente de AMPc ativada fosforila a forma inativa da fosfori-
do cálcio intracelular. lase-cinase, resultando na sua ativação (veja a Figura 11.11 ). (Nota: A
enzima fosforilada pode ser desativada por meio da remoção hidrolítica
do seu fosfato pela prote ína-fosfatase 1. Essa e nzima é ativada por
uma cascata de sinais mediada por cinases, iniciada pela insulina [veja
a pág. 309].)
Bioquímica Ilustrada 131

a:::--:::l Gl~cagon Adrenalina


...... (FIGADO) 0 (MÚSCULO e FÍGADO)

GLICOGÊNIO
É
FUNÇÃO DO CÁLCIO NO MÚSCULO Fosfodiesterase
AMPc (• ) -------')~ 5'-AMP DEGRADADO
Durante a contração muscular, o Ca2+
é liberado do reticulo sarcoplasmático. ~
O Ca 2+ liga-se à subunidade Proteína-cinase A Proteína-cinase A
.fu
+
w
calmodulina da fosforilase-cinase, dependente de AMPc dependente de AMPc
ativando-a sem fosforilação. A (inativa) (ativa)
fosforilase-cinase pode, então, ativar
a glicogênio-fosforilase, causando a
degradação de glicogênio.
~0 0 G/icogênio:

0@7 fosforilase a

~
(ativa)
p
Glicogênio- Glicogênio-' Proteína-
fosforilase-cinase b fosforilase·cinase a fosfatase 1
(inativa) (ativa)
.. -"9'0
Proteína-fosfatase 1
Glicogênio·
fosfori/ase b
(I nativa)
:vt Insulina

FUNÇÃO DO AMP NO MÚSCULO


No múscul o, sob condições extremas de anóxia e de depleção de ATP,
o AMP ativa a g/icogênio-fosforitase b sem que ela esteja fosforilada.

Figura 11 .11
Ativação e inibição da degradação do glicogênio.

3. Ativação da glicogênio-fosforilase. A glicogênio-fosforilase também


existe em duas formas: a forma inativa, b, desfosforilada, e a forma
ativa, a, fosforilada. A fosforilase -cinase at ivada fosforila a g/icogê-
nio-fosforilase b, gerando a glicogênio-fosforilase a, que dá início à
degradação do glicogênio. A fosforilase a é convertida novamente em
fosforilase b pela hidrólise de seu fosfato pel a proteína-fosfatase 1
(Nota: Quando a glicose se liga à glicogênio-fosfori/ase a, sinalizando
que a degradação de glicogênio não é mais necessária, esse complexo
se torna um substrato melhor para a proteína-fosfatase 1. Além disso,
quando a glicogênio-fosforilase b muscular estiver ligada à glicose,
ela não poderá ser ativada, alostericamente, pelo AMP. No músculo, a
insulina inibe indiretamente essa enzima por aumentar a captação de
glicose [veja a pág. 308], permitindo o aumento do nível de glicose-6-
fosfato - um potente inibidor alostérico da glicogênio-fosforilase [veja a
Figura 11.9].)

4. Resumo da regulação da degradação do glicogênio. A cascata de


reações listada anteriormente resulta na degradação do glicogênio. O
grande número de etapas seqüenciais serve para amplificar o efeito do
sinal hormonal, ou seja, algumas moléculas de hormônios associadas
aos seus receptores resultam na ativação de um determinado número
de moléculas de proteína-cinase e, cada uma delas, pode ativar muitas
moléculas de fosforilase-cinase. Isso resulta na produção de muitas
moléculas de glicogênio-fosforilase a ativas que podem degradar o gli-
cogênio.
132 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

C. Inibição da síntese de glicogênio por uma via direcionada


Glucagon Adrenalina pelo AMPc
(FÍGADO) (MÚSCULO e FÍGADO)

r:v o
A enzima regulada na síntese de glicogênio é a glicogênio-sintase. Ela tam-
bém existe em duas formas, a forma "a", que não é fosforilada e é a forma
mais ativa, e a forma "b", fosforilada e inativa (Figura 11.12). A glicogênio-
sintase a é convertida na forma b (e, portanto, inativada) por fosforilação em
vários sítios da enzima, os quais determinam um nível de inativação propor-
cional ao seu grau de fosforilação. Esse processo de conversão é catalisado
por várias proteína-cinases diferentes, que são reguladas pelo AMPc ou
outros mecanismos sinalizadores. (Nota: A proteína-cinase C, uma prote-
ína-cinase dependente de Ca2 • e de fosfolipídeos [veja a pág. 203], também
fosforila a glicogênio-sintase. Nem a proteína-cinase A, nem a proteína-
AMPc (• ) Fosfo- ) 5'-AMP
cinase C fosforilam diretamente a glicogênio-fosforilase.) A associação dos
diesterase hormônios glucagon ou adrenalina com seus receptores nos hepatócitos,
ou da adrenalina com os receptores das células musculares, resu lta na
ativação da adenilato-ciclase, mediada por uma proteína G (veja a pág.
93). Essa enzima catalisa a síntese do AMPc, que ativa a proteína-cinase
A, dependente de AMPc, como descrito na pág. 93. A seguir, a proteína-
cinase A fosforila e, assim, inativa a glicogênio-sintase. A glicogênio-sintase
b pode ser transformada novamente em sintase a pela proteína-fosfatase 1,
que remove hidroliticamente os grupos fosfato.
Protefna-cinase A
fu
dependente de AMPc
(ativa)
+
-w VI. DOENÇAS DE ARMAZENAMENTO DO GLICOGÊNIO

~ Esse é um grupo de doenças genéticas resultantes de um defeito em uma das

~p
enzimas necessárias para a síntese ou para a degradação de glicogênio. Elas
resultam na formação de glicogênio com estrutura anormal ou no acúmulo de
Glicogênío- Glícogênio~ quantidades excessivas de glicogênio normal em tecidos específicos, como
sintase a sintase b conseqüência de uma degradação prejudicada. Uma enzima específica pode
(ativa) (inativa) estar defeituosa em um único tecido, como o fígado, ou o defeito pode ser mais

~
generalizado, afetando fígado, músculo, rim, intestino e miocárdio. A gravidade
das doenças de armazenamento (depósito) do glicogênio (DDG) varia entre as
fatais na infância e os transtornos leves, que não ameaçam a vida. Algumas das
Proteína-fosfatase 1
DDGs mais comuns são mostradas na Figura 11.8.
o
t
Insulina
VIl. RESUMO DÓ CAPÍTULO

Os principais estoques de glicogênio no corpo são encontrados nos mús-


culos esqueléticos, onde servem como reserva de combustível para a sín-
tese de ATP durante a contração muscular, e no f ígado, onde o glicogên io
é usado para manter a concentração de glicose sangüínea, especialmente
nos estágios iniciais do jejum. O glicogênio é um polímero altamente rami-
SÍNTESE DO ficado de a-o-glicose. A principal ligação glicosídica é a ligação a(1-74).
GLICOGÊNIO Após aproxidamente 8 a 10 resíduos glicosil, há uma ramif icação contendo
É INIBIDA uma ligação a(1-76). UDP-glicose, o fragmento construtivo de glicogênio,
é sintetizado a partir de glicose-1-fosfato e de UTP pela UDP-glicose-piro-
fosforilase . A glicose da UDP-glicose é transferida para as extremidades
não-redutoras das cadeias de glicogênio pela glicogênio-sintase, que esta-
Figura 11.12 belece ligações a(1 -74). As ramificações são formadas pela amilo-a(1-7
Regulação hormonal da síntese de 4)-7 a (1 -76)-transglicosidase, que transfere um oligossacarídeo de 5 a 8
glicogênio. (Nota: Ao contrário da resíduos glicosil, da extremidade não-redutora da cadeia principal do glicogê-
glicogênio-fosforilase, a glicogênio- nio para outro resíduo na cadeia principal (clivando uma ligação a[1 -74] e
sintase é inativa se fosforilada.) inserindo o oligossacarídeo por meio de uma ligação a[1-76]). A glicogênio-
fosforilase cliva as ligações o:(1-74) entre resíduos glicosil nas extremida-
des não-redutoras das cadeias de glicogênio, produzindo glicose-1-tosfato,
Bioquímica Ilustrada 133

requerendo piridoxal-fosfato como coenzima. Essa degradação seqüencial


continua até que restem quatro unidades glicosil em cada cadeia antes do
ponto de ramificação. A estrutura resultante é chamada de dextrina-limite.
A oligo-a(1 ~ 4)~a(1 ~4)-glican -transferase (nome comum, glicosil-(4:4)
transferase) remove os três resíduos glicosil mais externos dos quatro
ligados a uma ramificação e os transfere à extremidade não-redutora de
outra cadeia, onde eles podem ser convertidos em glicose-1-fosfato pela
glicogênio-fosforilase. A seguir, o único resíduo de glicose que resta unido
por ligação a-1,6 é removido hidroliticamente pela atividade da amilo-a-1 ,6-
glicosidase, liberando glicose livre. A glicose-1 -fosfato é convertida em
glicose-6-fosfato pela fosfoglicomutase. No músculo, a glicose-6-fosfato
entra na via glicolítica. No fígado, o fosfato é removido pela glicose-6-fosfa-
tase, liberando glicose livre, que pode ser usada para manter os níveis de
glicose no sangue no início de um jejum. Uma deficiência dessa fosfatase
causa a doença do armazenamento de glicogênio de tipo 1 (doença de
Von Gierke). Essa doença resulta na incapacidade do fígado de fornecer gli-
cose livre para o corpo durante o jejum. Essa deficiência afeta a degradação
de glicogênio e o último passo da gliconeogênese. A glicogênio ...sintase e a
glicogênio-fosforilase são reguladas alostericamente. No estado alimen-
tado, a glicogênio-sintase é ativada pela glicose-6-fosfato, mas a glico-
gênio-fosforilase é inibida pela glicose-6-fosfato, bem como pelo ATP. No
fígado, a glicose também serve como inibidor alostérico da glicogênio-fos-
forilase. O Ca2+ é liberado pelo retículo sarcoplasmático durante o exercí-
cio. Ele ativa a fosforilase-cinase no músculo ao associar-se à subunidade
calmodulina da enzima. Isso permite que a enzima ative a glicogênio-fos-
forilase, causando assim a degradação de glicogênio. A síntese e a degra-
dação de glicogênio são reciprocamente reguladas pelos mesmos sinais
hormonais, ou seja, um nível elevado de insulina resulta em um aumento
geral da síntese e em uma diminuição na degradação de glicogênio,

Ca racterísticas metabólicas Regulaçã o

ocorre princi-
[ Fígado, músculo j palmente no
Glicogênio Enzimas reguladas

[ Citosol ocoffeno
~P-Giicose)
requer
[ UTP
Glicose-1-P

D
Estado alimentado

lngestã~ de glicose
:~,c------....!..-.., O
Estado de jejum

Ingestão ~e alimento!
leva à leva ã levaà leva a
t
D Glico; sangüínea O Glicose sangüínea
I
I
leva a ATP leva à
Glicose~P f Á~-........,
Glicose
(fígado) OUberação de insulina Duberação de glucagonj

l )

Figura 11 .13
Mapa de conceitos-chave para o metabolismo de glicogênio no fígado.
134 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

enquanto que um nível elevado de glucagon (ou de adrenalina) determina


maior degradação e menor síntese de glicogênio. Enzimas fundamentais
são fosforiladas por uma família de proteína-cinases, algumas das quais são
dependentes de AMPc (composto que aumenta por ação do glucagon e da
adrenalina). Grupos fosfato são removidos pela proteína-fosfatase 1 (ati-
vada quando os níveis de insulina estão elevados).

Questões para Estudo

Escolha a ÚNICA resposta correta .

11 .1 Um menino de dois anos foi levado ao pronto-socorro,


Resposta correta = C. Uma deficiência de glicose-6-fosfatase
sofrendo de hipoglicemia grave. Examinado fisicamente,
(doença de Von Gierke) impede o fígado de liberar glicose livre
concluiu-se que ele apresentava hepatomegalia. Exames
no sangue, causando hipoglicemia grave no jejum, hiperaci-
de laboratório ind icaram que ele também apresentava demia láctica e hiperuricemia. Uma deficiência de glicogênio-
hiperacidemia láctica e hiperuricemia. Uma biópsia do fosforilase resultaria em uma diminuição na degradação de
fígado mostrou que os hepatócitos continham quantidades glicbgênio, causando hlpoglicemia de jejum, mas não os outros
ma iores do que as normais de glicogên io, de estrutura sintomas. Uma deficiência de glicogênio-sintase resultaria em
normal. Posteriormente, se concluiu que a criança apre- quantidades menores de glicogênio estocado. A amilo-u(1->
sentava deficiência em qual das seguintes enzimas? 6)-glicosidase remove resíduos glicosil únicos unidos à cadeia
de glicogênio por meio de uma ligação glicosidica a(1->6).
A. Glicogênio-sintase
Uma deficiência nessa enzima resultaria em diminuição da
B. Glicogênio-fosforilase capacidade da célula de degradar ramificações do glicogênio,
C. Glicose-6-fosfatase produzindo dextrinas-limite. A deficiência de amilo-a(1->4)->
D. Amilo-a(1-76)-glicosidase a(1->6)-transglicosilase diminuiria a capacidade da célula de
E. Amilo-a (1-74)-7a(1-76)-transglicosidase formar ramificações.

11 .2 Adrenalina e glucagon a presentam qual dos seguintes


Resposta correta = B. Tanto a adrenalina quanto o glucagon
efeitos sobre o metabolismo do glicogênio no fígado?
aumentam a degradação do glicogênio no fígado. Sendo assim,
A. A síntese liquida de glicogênio é aumentada. a atividade da glicogênio-fosforilase aumenta, ao passo que
8. A glicogênio-fosforilase é ativada, enquanto a glicogê- a ativídade da glicogênio-sintase diminui. A proteina-cinase
nio-sintase é inativada. dependente de AMPc e seu substrato, a fosforilase-cinase,
C. Tanto a glicogênio-fosforilase quanto a glicogênio-sin- também são ativadas.
tase são ativadas, mas em taxas significativamente
diferentes.
D. A glicogênio-fosforilase é inativada, ao passo que a
glicogênio-sintase é ativada .
E. A proteína-cinase dependente de AMPc é ativada, ao
passo que a fosforilase-cinase é inativada.

11.3 Na contração dos músculos esqueléticos, uma súbita ele-


Resposta correta = O. O Ca2 ' liberado do retículo sarcoplasmá-
vação na concentração de Ca2• citosólico irá resultar em : tico durante o exercício associa-se à subunidade calmodulína
A. ativação da proteína-cinase dependente de AMP da fosforílase-cinaJe, ativando, assim, essa enzima. As outras
cíclico; alternativas não sao determinadas por uma elevação do cálcio
8. dissociação da proteína-cinase dependente de AMP citosólico.
cíclico em subunidades catalíticas e reguladoras;
C. inativação da fosforilase -cinase, causada pela ação de
uma proteína-fosfatase;
O. ativação da fosforilase-cinase;
E. conversão de AMPc em AMP pela fosfodiesterase.
Metabolismo de
Monossacarídeos
e Dissacarídeos
Glicogênio Galactose
\ t
I. VISÃO GERAL
( u~P-Giicose l Galactre-1-P

Embora muitos monossacarídeos encontrados na natureza tenham sido iden-


Glicose-1 -P ~UDP-Galactose
tificados, apenas alguns açúcares aparecem como intermediários metabólicos
H
Glicose-6-P G- Glicose
ou componentes estruturais nos mamíferos. A glicose é o monossacarídeo mais
consumido pelo homem, e seu metabolismo tem sido discutido exaustivamente.
Contudo, dois outros monossacarídeos - a frutose e a galactose - ocorrem em
quantidades significativas na dieta e dão contribuições importantes ao metabo-
lismo energético. Além disso, a galactose é um componente importante dos ca r-
boidratos estruturais da célula. A Figura 12.1 mostra o metabolismo da frutose e
da galactose como uma parte das vias essenciais do metabolismo energético.

11. METABOLISMO DA FRUTOSE

Cerca de 10% das calorias contidas nas dietas ocidentais provêm da frutose
(cerca de 50 g por dia). Sua principal fonte é o dissacarídeo sacarose, o qual,
quando clivado no intestino, libera quantidades eqüimolares de frutose e gli-
cose (veja a pág. 86). Ela é também encontrada como monossacarídeo livre no
xarope de milho - em alta concentração (55% de frutose/45% de glicose, que é
utilizada para adoçar a maioria dos refrigerantes de cola) - , em muitas frutas e
no mel. Sua entrada nas células não é dependente da insulina (diferentemente
da glicose em certos tecidos; veja a pág. 95) e, ao contrário da glicose, não pro-
move a secreção de insulina.
Frutose

A. A fosforilação da frutose t
~ Gliceraldeído Frutose-1 -P
Para entrar nas vias do metabolismo intermediário, a frutose deve antes ser Gliceraldeido-3-P ~
T
Diidroxiacetona-P
fosforilada (Figura 12.2). Isso pode ser alcançado pela ação da hexocinase
ou da frutocinase (também chamada cetoexocinase). A hexocinase fosfo-
rila a glicose em todas as células do corpo (veja a pág. 96) e várias outras Figura 12.1
hexoses podem servir como substratos para essa enzima. Entretanto, ela Metabolismo da galactose e da
tem uma baixa afinidade (ou seja, um alto Km, veja a pág. 59) para a frutose. frutose, como parte das vias
Sendo assim, a menos que a concentração intracelular de frutose se torne essenciais do metabolismo
extraordinariamente alta, a presença de concentrações normalmente satu- energético (veja a Figura 8.2, pág.
rantes de glicose faz com que pouca quantidade de frutose seja convertida 90, para uma visão mais detalhada
das reações gerais do metabolismo).
136 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

em frutose-6-fosfato pela hexocinase. A frutocinase proporciona o principal


METABOLISMO GLICÓLISE
DA FRUTOSE mecanismo para a fosforilação da frutose (veja a Figura 12.2). Essa enzima
é encontrada no fígado (que processa a maior parte da frutose da dieta),
nos rin s e na mucosa do intestino delgado, e converte a frutose em fru-
A menos que a concentração
intracelul ar de frutose se torne
tose-1 -fosfato , utilizando ATP como doador de fosfato. (Nota: Esses três
extraordinariamente alta, a tecidos contêm também a a/do/ase B, discutida a seguir.)
hexocinase está saturada com
glicose e fosforila glicose e
não frutose. s_ Clivagem da frutose-1 -fosfato
A frutose-1-fosfato não é convertida em frutose-1 ,6-bisfosfato, como ocorre
ÇH20H ÇH 20 H com a frutose-6-fosfato (veja a pág. 97), e sim clivada pela a/do/ase B (tam-
C=O
I
C =O bém chamada de frutose-1 -fosfato-a/do/ase), produzindo diidroxiacetona-
I
HO - C - H HO - C - H fosfato (DHAP) e gliceraldeído_ (Nota: Tanto a a/do/a se A [encontrada em
I I
H- C-OH H- C - OH todos os tecidos] quanto a a/do/ase B clivam a frutose-1,6-bisfosfato pro-
I I
H - C-OH H- C - OH duzida durante a glicólise, resultando DHAP e gliceraldeído-3-fosfato [veja
I I

CH20H CH 20- p a pág. 99).) A DHAP pode entrar, diretamente, na glicólise ou na gliconeo-
Frutose- gênese, ao passo que o gliceraldeído pode ser metabolizado por diversas
Frutose .. '!.~".Of. ':'f!~.e. ;>
1
6-fosfato vias, como ilustrado na Figura 12.3.

1/"ATP 1/"ATP
Frutocínase Fosfofrutocinase
C. Cinética do metabolismo da frutose
O metabolismo da frutose é mais rápido que o da glicose, porque as trioses
tADP tADP
formadas a partir da frutose-1-fosfato desviam da reação da fosfofrutoci-
nase - a etapa marca-passo mais importante no controle da velocidade na
glicólise (veja a pág. 97). (Nota: Com a administração de frutose ao fígado,
~H20- P ÇH20 - P
por meio de infusão intravenosa, por exemplo, pode-se elevar significativa-
C =O C =O
I I mente a taxa de lipogénese, em função do aumento da produção de acetii-
HO- C - H HO - C-H
I I CoA.)
H- C-OH H - C - OH
I I
H- C-OH H - C-OH
I I
D. Deficiências do metabolismo da frutose
CH 20H CH20 - p
Frutose- Frutose- A deficiência de uma das enzimas-chave necessárias para a entrada da
1-fosfato 1 ,6-bisfosfato frutose nas vias do metabolismo intermediário pode resultar tanto em uma
condição benigna (deficiência de frutocinase), quanto em um distúrbio
grave do metabolismo no fígado e nos rins, devido à deficiência da a/do-
A/do/ase 8
fase B (intolerância hereditária à frutose, IHF) , que se estima ocorrer em
1:20.000 nascidos vivos. Os primeiros sintomas surgem quando o bebê é
o11
o
11
desmamado e começa a receber alimento conten do sacarose ou frutose.
C- H C- H A frutose-1-fosfato se acumula, e os níveis de ATP e de fosfato inorgânico
I I
H caem significativamente, com a adenina sendo convertida em acido úrico,
H- C - OH I H - C - OH
I H-C-OH I
causando hiperuricemia. A diminuição da disponibilidade de ATP no fígado
I CH20 - P
C=O afeta a gliconeogênese (causando hipoglicemia com vômitos) e a síntese
I
CH 20 - P de proteínas (causando uma redução nos fatores de coagulação sangüí-
neos e de outras proteínas essenciais). Se a frutose (e, portanto, a saca-
Gllceral deído

Diidroxiacetona-
I Gliceral deído-
3-fosfato rose) não for removida da dieta, podem ocorrer falência hepática e morte. O
diagnóstico de IHF pode ser realizado com base na presença de frutose na
fosfato
urina ou pelo teste de polimorfismo de comprimento do fragmento de restri-
ção (veja a pág. 454).

Figura 12_2 E. Conversão da manose em frutose-6-fosfato


Fosfori lação da frutose e clivagem
dos seus produtos fosforilados. A manose, o epímero em C-2 da glicose (veja a pág. 84), é um componente
importante das glicop roteínas (veja a pág.164). A hexocinase fosforila a
manose, produzindo manose-6-fosfato, a qual, por sua vez, é (reversivel-
mente) isomerizada a frutose-6-fosfato pela fosfomanose-isomerase_(Nota:
Há pouca manose nos carboidratos da dieta. A maior parte da manose
intracelular é sintetizada a partir da frutose ou é manose preexistente,
liberada durante a degradação de carboidratos estruturais e reaproveitada
[salva] pela hexocinase.)
Bioquímica Ilustrada 137

Glicose-6-fosfatase
GLICOSE ( Glicose-6-P ----:> ----:> GLJCQGÊNIQ

SACAROSE------~1------~> Saca rase


"
Fosfoglicoisomerase

~
Frutose-6-P

FRUTOSÚRIA ESSENCIA L
"'
Frutose-
1,6-bisfosfatase

~
• Ausência da frutocinase. P; Frutose-1,6-bis-P
• Autossômica recessiva (1 em 130.000 Frutose-1 -P
nascimentos). l \

A~~
• Benigna, condição assintomática.
• Frut ose acumula na urina.
t Diidroxiacetona-P

INTOLERÂ NCIA HEREDITÁRIA À FRUTOSE


("ENVENAMENTO POR FRUTOSE" ) NADH + H+
Gliceraldeído

~ "'(
ATP
t
Triose-P-
isomerase
• A ausência da aldolase 8 conduz à retenção Triocinase
Alcoot-

GH~<.to-3-P
intracelular da frutose-1-P. desidrogenase

l
• Causa hipoglicem ia grave, vômitos , ictericia,
hemorragia, hepatomegalia e hiperuricemia.
• Pode causar falência hepát ica e morte.
NAo•4 )
• Terapia: Detecção rápida e remoção imediata
da f rutose e da sacarose da dieta.
Glicerol ADP Trios!
isomerase

ATP~ )/
Diidroxiacetona~P GLICÓLISE

FOSFQGLJCERÍDEQS
ADP ~
...C:(' - - - - ~(--
Glicerol-cinase

Gliceroi-P
Gliceroi-P·
desidrogenase

)/ l
PIRUVATO
n
TRIACILGLICERÓIS ~~
Figura 12.3
Resumo do metabolismo da frutose .

F. Conversão da glicose em frutose, via sorbitol


A maioria dos açúcares é fosforilada rapidamente após sua entrada nas
cé lulas, sendo então aprisionados nelas, pois os fosfatos orgânicos não
podem cruzar membranas livremente, sem transportadores específicos. Um
mecanismo alternativo para metabolizar um monossacarídeo é convertê-lo
em polio l por meio da redução do grupo aldeído, produzindo assim mais
um grupo hidroxila.

1. Síntese de so rb it ol. A aldose-redutase reduz a glicose. produzindo


sorbitol (glucitol, Figura 12.4). Essa enzima é encontrada em muitos
tecidos, incluindo o cristal ino, a retina, as células de Schwann dos ner-
vos periféricos, o fígado, os rins, a placenta, os eritrócitos e as células
dos ovários e da vesícula seminal. Nas células do fígado, dos ovários,
nos espermatozóides e nas vesículas sem inais, há uma segunda
enzima, a sorbítol-desidrogenase, que é capaz de oxidar o sorbito l,
produzindo frutose (veja a Figura 12.4). Essa rota com duas reações,
que transformam glicose em frutose nas vesículas seminais, ocorre em
138 Pamela C. Champe, Richard A. Harvey, Denise R. Ferrier

função dos espermatozóides utilizarem a frutose como uma importante


A VESÍCULAS SEMINAIS
fonte ene rgética. A via do sorbitol à frutose no fígado proporciona um
mecanismo pelo qual qualquer sorbitol disponível é convertido em um
Glicólise
substrato que pode entrar na glicólise ou na gliconeogênese.
t
t 2. O efeito da hiperglicemia no metabolismo do sorbitol. Como a insu-
lina não é necessária para a entrada de glicose nas células listadas no
CHO parágrafo anterior, grandes quantidades de glicose podem entrar nes-
I
H-C-OH
HO- C-H
sas células em períodos de hiperglicemia, como por exemplo no dia-
H-~-OH betes não-controlado. Concentrações elevadas de glicose intracelular
H - C-OH e um suprimento adequado de NADPH fazem com que a a/dose-redu-
SANGUE '
CH20H fase produza um aumento significativo na quantidade de sorbitoll que
Glicose Glicose não consegue atravessar de forma eficiente as membranas celulares e,
A/dose·
redu/ase
~ADPH + W portanto, permanece preso dentro da célula (veja a Figura 12.4). Isso é
exacerbado quando a sorbitol-desidrogenase é deficiente ou ausente,
NADP+ como por exemplo na retina, no cristalino, nos rins e nas células ner-
vosas. Como resultado, o sorbitol acumula nessas células, gerando
<;:H20H efeitos osmóticas fortes e, assim, as células incham como resultado
H-C-OH da retenção de água. Algumas das alterações patológicas associadas
HO-C-H ao diabetes podem ser, parcialmente, atribuídas a esse fenô meno,
I
H - C- OH
incluindo a formação de catarata, a neuropatia periférica e os proble-
H-~-OH
CH20 H mas vasculares que levem à nefropatia e à retinopatia. (Veja a pág. 343
Sorbitol para uma discussão a respeito das complicações do diabetes.)

ADPH+W
Sorbitol·
desidrogenase
III. METABOLISMO DA GALACTOSE
NADP+
A principal fonte de galactose na alimentação é a lactose (galactosi l-~ - 1 ,4-gli-
CH20H
I cose) obtida do leite e dos seus derivados. (Nota: A digestão da lactose pela
C =O ~-galactosidase [lactase] da membrana das cél ulas da mucosa intestinal foi dis-
HO-C- H
H- C - OH
cutida na pág. 86.) Alguma galactose pode também ser obtida por degradação
H-~-OH lisossomal de carboidratos complexos, como glicoproteínas e glicolipídeos, que