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Direito Penal | Paulo Henrique

DIREITO PENAL PARTE GERAL

ESTRUTURA DO PODER JUDICIÁRIO

- Precedente: é uma decisão proferida no julgamento de um caso


concreto, que se emprega como base para decisão de outro caso.

- Jurisprudência: é um conjunto de decisões de um tribunal sobre uma


determinada matéria em um determinado sentido. Quando se diz que
sobre uma determinada matéria existe jurisprudência significa que um
tribunal tem um grande volume de decisões decidindo de uma
determinada forma.

- Súmula: é a extração de enunciados a partir da jurisprudência dominante


de um tribunal. A súmula é o conjunto de enunciados e o enunciado é algo
que se extrai da jurisprudência, mas que com ela não se confunde.

Você sabe como é organizada a estrutura do PODER JUDICIÁRIO?

Importante: A Justiça do Trabalho não possui jurisdição penal (ADI 3684,


julgada pelo STF em 01.02.2007).

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ESTRUTURA DO CÓDIGO PENAL

Princípios +
Fundamentos do
Direito Penal

Teoria Geral da
Norma (art. 1-12)
Parte Geral (art. 1 -
120)
Teoria Geral do
Crime (art. 13-31)

Código Penal
Teoria Geral da Pena
(art. 32-120)

Parte Especial (art. Crimes em Espécie


121 - 361) (art. 121 - 359-H)

O Direito Penal cuida de proteger diversos bens jurídicos, importantes para


a sociedade, definindo infrações penais e cominando sanções penais a
quem não os respeite.

Como visto acima, nosso Código Penal é dividido em duas partes: geral e
especial. Na PARTE GERAL, estudam-se as regras de aplicação da lei penal,
os ensinamentos introdutórios do Direito Penal aplicáveis a todas as leis
que tratam de matéria penal, ainda que fora do Código Penal. Por outro
lado, na PARTE ESPECIAL, tem-se estabelecidos os diversos delitos e suas
pernas respectivas, bem como previsões de isenção de pena (ex.: art. 143,
181, 348, parágrafo 2º), de exclusão da ilicitude (ex.: art. 128) e artigos
meramente explicativos (ex.: arts. 327, 337-D).

DIREITO PENAL E SISTEMA PENAL

De acordo com Nilo Batista, devemos distinguir entre direito penal e


sistema penal. Provisoriamente, diremos que direito penal é o conjunto
de normas jurídicas que preveem os crimes e lhes cominam sanções,
bem como disciplinam a incidência e validade de tais normas, a

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estrutura geral do crime e a aplicação e execução das sanções


cominadas.

Há outros conjuntos de normas que estão funcionalmente ligadas ao


direito penal: assim, o direito processual penal, a organização judiciária, a
lei de execução penal, regulamentos penitenciários etc. Criadas por esses
conjuntos, ou a eles subordinadas, existem instituições que desenvolvem
suas atividades em torno da realização do direito penal.

Exemplo: A Polícia judiciária investiga o crime, sujeitando-se as regras do


CPP; o inquérito é encaminhado a uma Vara Criminal; o promotor oferece
a denúncia; se condenado, o sujeito será recolhido em uma Penitenciária,
submetido ao que dispõe a LEP.

Vimos a sucessiva intervenção, em três nítidos estágios, de três instituições:


a instituição policial, a instituição judiciária e a instituição
penitenciária. A esse grupo de instituições que, segundo as regras jurídicas
pertinentes, se incumbe de realizar o direito penal, chamamos de sistema
penal.

CRIMINOLOGIA

Criminologia, segundo Lola Aniyar de Castro, “é a atividade intelectual que


estuda os processos de criação das normas penais e das normas sociais
que estão relacionadas com o comportamento desviante; os processos de
infração e de desvio destas normas; e a reação sociais, formalizada ou não,
que aquelas infrações ou desvios tenham provocado: o seu processo de
criação, a sua forma e conteúdo e os seus efeitos”.

Para a professora venezuelana, a criminologia englobaria os seguintes


aspectos:

1. a sociologia do direito penal e do comportamento desviante;

2. a etiologia do comportamento delitivo e do comportamento desviante;

3. a reação social, compreendendo a psicologia social correspondente, as


penas e outras medidas, bem como a análise das instituições que as
executam.

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POLÍTICA CRIMINAL

Segundo Nilo Batista, do incessante processo de mudança social, dos


resultados que apresentam novas ou antigas propostas do direito penal,
das revelações empíricas propiciadas pelo desempenho das instituições
que integram o sistema penal, dos avanços e descobertas da criminologia,
surgem princípios e recomendações para a reforma ou transformação
das legislação e dos órgãos encarregados de sua aplicação. A esse
conjunto de princípios e recomendações denomina-se política criminal.

DENOMINAÇÕES ESPECÍFICAS DO DIREITO PENAL

- DIREITO PENAL OBJETIVO: constitui-se das normas penais incriminadoras


(definem as infrações penais e cominam as sanções penais) e não-
incriminadoras.

- DIREITO PENAL SUBJETIVO: é o direito de punir do Estado (jus puniendi),


ou seja, o direito do Estado de aplicar as normas penais. O direito de punir
possui três momentos:
a) ameaça da pena (pretensão intimidatória);
b) aplicação da pena (pretensão punitiva);
c) execução da pena (pretensão executória);

- DIREITO PENAL DO FATO: significa que as leis penais somente podem punir
fatos causados pelo homem e lesivos a bens jurídicos de terceiro. Não se pune
o pensamento, mas sim as manifestações exteriores do ser humano.

- DIREITO PENAL DO AUTOR: é marcado pela punição de pessoas que não


tenham praticado nenhuma conduta. Pune-se alguém pelo seu modo de ser
ou pela sua característica ou condição pessoal e não pelo seu fato.

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LEI PENAL NO TEMPO

1. INTRODUÇÃO

De acordo com Rogério Sanches, como decorrência do princípio da


legalidade, aplica-se, em regra a lei penal vigente ao tempo da realização
do fato criminoso (tempus regit actum).

Excepcionalmente, no entanto, será permitida a retroatividade da lei penal


para alcançar fatos passados, desde que benéfica ao réu.

A esta possibilidade conferida à lei de movimentar-se no tempo (para


beneficiar o réu) dá-se o nome de extratividade.

A extratividade deve ser compreendida como gênero do qual são espécies:

(a) a retroatividade, capacidade que a lei penal tem de ser aplicada a fatos
praticados antes da sua vigência; e

(b) a ultratividade, que representa a possibilidade de aplicação da lei penal


mesmo após a sua revogação ou cessação de efeitos.

2. TEMPO DO CRIME

(CP) Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou


omissão, ainda que outro seja o momento do resultado.

Para a correta (e justa) aplicação da lei penal é imprescindível definir o


tempo do crime, ou seja, quando um crime se considera praticado. A
respeito disso, há diferentes teorias apontadas pela doutrina:

a) TEORIA DA ATIVIDADE: considera pratica o crime no momento da


conduta (ação ou omissão), ainda que outro seja o momento do resultado.
O CP adotou esta teoria (art. 4º).

Exemplo: Jorge, com a intenção de matar, desfere uma facada em


Matheus. Logo em seguida é interrompido por terceiros. Matheus é levado

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ao hospital, mas não suporta os ferimentos sofridos e morre cinco dias


após as facadas.

Nesse caso, o crime foi praticado (tempo do crime) no dia da facada e não
no dia da morte (momento da consumação).

b) TEORIA DO RESULTADO: considera o momento da produção do


resultado.

c) TEORIA MISTA (OU UBIQUIDADE): considera tanto o momento da


conduta como o do resultado.

 QUESTÕES ESPECIAIS:

- CRIME PERMANENTE E IMPUTABILIDADE: se uma pessoa menor de 18


anos inicia a prática de um crime permanente (ex.: sequestro) e atinge a
maioria enquanto não cessada a permanência, aplica-se a legislação penal,
tendo em vista que passou a ser imputável durante a prática da conduta.

- FIXAÇÃO DA IMPUTABILIDADE: se um menor de 18 anos desfere


facadas na vítima que vem a falecer dias depois, ocasião em que já atingiu
a maioridade, aplica-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e não
do Código Penal (CP), tendo em vista que o ato infracional foi praticado na
época em que era inimputável (momento da conduta).

3. SUCESSÃO DE LEIS PENAIS NO TEMPO

Entre o fato praticado e o término do cumprimento da pena, podem surgir


várias leis penais, ocorrendo aquilo que chamamos de sucessão de leis no
tempo. Quando ocorre a sucessão, é necessário observar, em especial, as
regras da ultratividade ou retroatividade.

Vejamos os possíveis cenários:

TEMPO 01 TEMPO 02 FENÔMENO

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FATO: indiferente FATO: criminalizado NOVATIO LEGIS


penal INCRIMINADORA

FATO: é crime FATO: se torna ABOLITIO CRIMINIS


irrelevante penal

LEI: mais severa LEI: mais branda NOVATIO LEGIS IN


MELLIUS

Retroatividade da lei
penal mais benéfica.

LEI: mais branda LEI: mais severa NOVATIO LEGIS IN


PEJUS

Ocorre a
ultratividade da lei
penal mais benéfica.

O conteúdo típico PRINCÍPIO DA


FATO: criminalizado criminalizado migra CONTINUIDADE
para outro tipo NORMATIVO-TÍPICA
penal

NOVATIO LEGIS INCRIMINADORA

É aquela que passa a considerar crime o fato que anteriormente não


incriminado.

Nesse caso, a novatio legis incriminadora é irretroativa e não pode ser


aplicada a fatos praticados antes da sua vigência.

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Exemplo: o crime previsto no art. 311-A do Código Penal (fraude em


certames de interesse público) não pode incidir sobre condutas praticadas
antes do dia 16/12/2011, dia em que a norma entrou em vigor.

ABOLITIO CRIMINIS

(CP) Art. 2º, caput - Ninguém pode ser punido por fato que lei
posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a
execução e os efeitos penais da sentença condenatória.

A abolição do crime representa a supressão da figura criminosa. Trata-se


da revogação de um tipo penal pela superveniência de lei
descriminalizadora.

Exemplo: a Lei 11.106/2005 revogou, dentre outros, o delito de adultério,


então capitulado no art. 240, do CP, tendo vista, justamente, que o bem
jurídico que era objeto de tutela – a fidelidade matrimonial recíproca –
deixou de possuir ofensividade penal, devendo eventual infração daquele
dever conjugal ser resolvida na esfera civil (arts. 1566, I, e 1573, I, do CC).

CUIDADO: a abolitio criminis não se confunde com o princípio da


continuidade normativo-típica.

A abolitio criminis representa a supressão formal e material da figura


criminosa, expressando o desejo do legislador em não considerar
determinada conduta como criminosa. Doutra banda, o princípio da
continuidade normativo-típica significa a manutenção do caráter
proibido da conduta, porém com o deslocamento do conteúdo criminoso
para outro tipo penal – a intenção do legislador, nesse caso, é que a
conduta permaneça criminosa.

Exemplo: Os crimes de estupro e de atentado violento ao pudor foram


reunidos em um único dispositivo após a edição da Lei 12.015/2009, não

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ocorrendo abolitio criminis do delito do art. 214 do Código Penal – CP,


diante do princípio da continuidade normativo-típica.

NOVATIO LEGIS IN MELLIUS

(CP) Art. 2º, parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo
favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos
por sentença condenatória transitada em julgado.

Pode ocorrer que a lei nova, mesmo sem descriminalizar, dê tratamento


mais favorável ao sujeito. Mesmo que a sentença condenatória se encontre
em fase de execução, prevalece a lex mitior que, de qualquer modo,
favorece o agente.

Exemplo: a Lei 12.015/2009, que alterou, dentre outros, o art. 229 do CP


(manutenção de casa de prostituição). A nossa legislação, com a nova lei,
insistiu em punir a manutenção de prostíbulos, mas deu-lhe nova
configuração, porque agora exige um estabelecimento onde haja
exploração sexual (não simplesmente sexo, sim, exploração sexual). De
lugar destinado a encontros libidinosos, passou-se para estabelecimento
onde haja exploração sexual.

 SÚMULA RELACIONADA:

- Súmula 611, STF: Transitada em julgado a sentença condenatória,


compete ao juízo das execuções a aplicação de lei mais benigna.

NOVATIO LEGIS IN PEJUS

A nova lei que, e qualquer modo, prejudicar o réu (lex gravior) também é
irretroativa, devendo ser aplicada a lei vigente quando do tempo do crime.

Lei posterior, que de qualquer modo agrava a situação do sujeito, não


retroagirá (art. 5º, XL, da CF). Se houver um conflito entre duas leis, a

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anterior, mais benigna, e a posterior, mais severa, aplicar-se-á a mais


benigna: a anterior será ultra-ativa, por sua benignidade, e a posterior será
irretroativa.

Exemplo: a pena do crime previsto no art. 316 do Código Penal


(concussão) foi majorada, em razão da aprovação da Lei 13.964/2019
(Pacote Anticrime), passando a ser: reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e
multa.

Exemplo: a Lei 12.234/2010 aumentou de 2 (dois) anos para 3 (três) anos


o prazo da prescrição, para crimes com pena máxima inferior a 1 (um) ano.

 SÚMULA RELACIONADA:

- Súmula 711, STF: A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado
ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da
continuidade ou da permanência.

Conforme o entendimento do STF, se o agente permaneceu na prática de


crimes (crime continuado) ou permanente na prática delituosa (crime
permanente), mesmo após da edição de lex gravior, a aplicação da pena
deverá ocorrer na forma prevista pela nova lei, ainda que sofra maior
punição pelo crime.

Exemplo: se o sujeito inicia um crime de sequestro (art. 148, do CP) na


vigência da lei X e termina sob a regência da lei Y (que aumentou a pena
da infração), aplica-se ao caso a lei mais gravosa.

Exemplo: suponham-se três delitos de furto em continuação, sendo que


dois furtos tenham sido praticados sob a égide da lei X, mais favorável, e o
terceiro sob a regência da lei Y, mais gravosa (aumentou-se a pena).
Aplica-se ao crime continuado a lei mais gravosa.

4. COMBINAÇÃO DE LEIS PENAIS

Discute-se acerca da possibilidade da combinação de várias leis para


beneficiar o agente.

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Têm-se os seguintes entendimentos:

a) NÃO É POSSÍVEL: isso porque os princípios da ultratividade e da


retroatividade da lex mitior não autorizam a combinação de duas normas
que se conflitam no tempo para se extrair uma terceira que beneficie o réu.
Além disso, o juiz estaria legislando ao criar uma nova lei.

Nesse sentido, Costa e Silva, Nélson Hungria, Aníbal Bruno, Heleno


Fragoso.

 SÚMULA RELACIONADA:

- Súmula 501, STJ: É cabível a aplicação retroativa da Lei n. 11.343/2006,


desde que o resultado da incidência das suas disposições, na íntegra, seja
mais favorável ao réu do que o advindo da aplicação da Lei n. 6.368/1976,
sendo vedada a combinação de leis.

b) É POSSÍVEL: uma vez que, se pode o todo, não teria problema escolher
de um todo e parte de outro, atendendo, assim, os princípios da
ultratividade e retroatividade benéficas. O juiz apenas efetua uma
integração normativa.

Nesse sentido, Basileu Garcia, José Frederico Marques, Magalhães


Noronha, Rogério Greco, Luiz Regis Prado, Cezar Roberto Bitencourt, Luiz
Flávio Gomes.

5. LEI TEMPORÁRIA E LEI EXCEPCIONAL

(CP) Art. 3º - A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o


período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a
determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência.

A lei temporária (temporária em sentido estrito) é aquela instituída por


um prazo determinado, ou seja, é a lei que criminaliza determinada
conduta, porém prefixando no seu texto lapso temporal para a sua
vigência.

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Exemplo: a Lei 12.663/2012 criou inúmeros crimes que buscavam proteger


o patrimônio material e imaterial da FIFA, com tempo certo de vigência (até
31 de dezembro de 2014).

A lei excepcional (ou temporária em sentido amplo) é editada em função


de algum evento transitório, como estado de guerra, calamidade ou
qualquer outra necessidade estatal. Perdura enquanto persistir o estado de
emergência.

Duas características essenciais: (a) autorrevogabilidade e (b)


ultratividade.

São autorrevogáveis, daí porque chamadas também de leis intermitentes,


e alcançam os fatos praticados durante a sua vigência, ainda que as
circunstâncias de prazo e de emergência tenham se esvaído.

ATENÇÃO: Podemos afirmar que as leis temporárias e excepcionais não se


sujeitam aos efeitos da abolitio criminis (salvo se houver lei expressa com
esse fim).

6. LEI INTERMEDIÁRIA

Pode ocorrer o surgimento de lei intermediária, ou seja, aquela vigente


depois da prática do fato, mas revogada antes de esgotadas as
consequências jurídicas da infração penal. Mesmo nesta situação, o
princípio da retroatividade da lei mais benigna permanecerá válido.

Exemplo: Lei 01 cominando pena de reclusão de 6 a 10 anos para o crime.


Lei 02 (intermediária) cominando para o mesmo crime pena de 2 a 4 anos.
Lei 03 prevendo, também para o mesmo crime, pena de 8 a 12 anos.
Supondo que o crime seja praticado durante a Lei 01, mas a prolação da
sentença se dê durante a vigência da Lei 03. Nesse caso, aplica-se a lei
intermediária, que é mais favorável.

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7. CONFLITO APARECENTE DE NORMAS

Na hipótese de determinado fato apresentar dificuldade para a correta


adequação típica, tendo em vista que aparentemente se mostra subsumido
a mais de um tipo penal, surge o conflito aparente de normas.

Assim, a unidade de fato e a pluralidade de normas (de tipos penais) são


os pressupostos desse conflito.

Para solucionar a questão, evitando-se o bis in idem, tem-se quatro


princípios:

7.1. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE

No conflito entre um tipo penal específico e um tipo penal genérico,


prevalece o específico – lex specialis derogat legi generali. O tipo penal
específico (que pode estar contido no Código Penal ou na legislação penal
especial) contém todos os elementos do tipo penal genérico e outros que
caracterizam a especialidade.

De acordo com Fernando Galvão, o princípio da especialidade pode ser


decomposto em três regras de aplicação prática:
a) uma norma prevista na parte especial do Código Penal afasta a
incidência de norma prevista na parte geral;
b) um tipo penal que apresente maiores detalhes sobre a conduta proibida
afasta a incidência de outro mais genérico;
c) um tipo incriminador previsto na legislação extravagante que traz
especial tratamento ao bem jurídico afasta a incidência de tipo genérico
constante no Código Penal.

Exemplo: homicídio – art. 121, CP (tipo geral); e infanticídio – 123, CP


(tipo especial).

Exemplo: homicídio culposo – art. 121, §3º, CP (tipo geral); e homicídio


culposo – art. 302, CTB (tipo especial).

7.2. PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE

O princípio da subsidiariedade significa que um preceito penal só terá


aplicação, de forma auxiliar, no caso de não caracterizar-se outro
considerado de incidência primária – lex primaria derogat legi subsidiariae.

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Segundo Fernando Galvão, a subsidiariedade, portanto, é característica da


disposição legal que se considerada remanescente a outra que se
apresenta mais abrangente.

Exemplo: é o que acontece na cominação de pena do tipo previsto no


artigo 132 do Código Penal, ao dispor que tal apenação se opera se o fato
não constitui crime mais grave.

7.3. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO

De acordo com Marcelo André de Azevedo e Alexandre Salim, ocorre a


absorção de um delito por outro, tornando-se uma unidade complexa. Para
que um delito seja absorvido por outro, entende-se que deve haver uma
relação de meio e fim, ou um dos crimes deve se mostrar como fase
necessária para a realização do outro.

Situações possíveis:

a) CRIME PROGRESSIVO: o agente desde o início de sua conduta possui a


intenção de alcançar o resultado mais grave, de modo que seus atos violam
o bem jurídico de forma crescente. As violações anteriores ficam
absorvidas. O delito de menor gravidade trata-se de um crime de
passagem obrigatória, pois os bens jurídicos devem ser conexos por
estarem na mesma linha de desdobramento da ofensa.

Exemplo: para consumar o homicídio necessariamente haverá o crime de


lesão corporal (crime de passagem).

b) PROGRESSÃO CRIMINOSA (SENTIDO ESTRITO): o agente produz o


resultado pretendido, mas, em seguida, resolve (substituição do dolo)
progredir na violação do bem jurídico e produz um resultado mais grave
que o anterior. O fato inicial fica absorvido.
Exemplo: o sujeito, em um momento inicial, pratica lesões corporais na
vítima. Em seguida, não satisfeito, resolve matá-la. Aqui ocorre a
substituição do dolo, ao contrário do crime progressivo, no qual o agente
desde o início possui a intenção de praticar a ofensa de maior gravidade.

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c) CRIME-MEIO É ABSORVIDO PELO CRIME-FIM: crime-meio, como o


próprio nome diz, é aquele praticado pelo agente como meio de atingir
outra finalidade, que se trata do crime-fim. Apesar de ter o agente
praticado mais de um fato considerado crime (pluralidade de fatos),
incide apenas um tipo penal.

Exemplo: o crime de falso (crime-meio) e estelionato (crime-fim).

SÚMULA RELACIONADA:
- Súmula 17, STJ: Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais
potencialidade lesiva, é por este absorvido.

d) FOTO POSTERIOR NÃO PUNÍVEL: sempre que o fato posterior (eventual


crime posterior) se referir ao mesmo bem jurídico e à mesma vítima, ficará
absorvido pelo primeiro (crime anterior), uma vez que já houve a lesividade
ao bem jurídico.

Exemplo: se o agente destrói a coisa furtada, ele não responderá pelo


crime de dano (art. 163).

7.4. PRINCÍPIO DA ALTERNATIVIDADE

Aplica-se aos tipos mistos alternativos, isto é, àqueles que descrevem


crimes de ação múltipla.
Assim, mesmo havendo várias formas de conduta (mais de um verbo) no
mesmo tipo, somente haverá a consumação de um único delito,
independentemente da quantidade de condutas realizadas no mesmo
contexto.
Na realidade, a doutrina observa que não há conflito de normas, mas
conflito dentro da própria figura típica.

Exemplo: tráfico de drogas – art. 33 da Lei n. 11.343/2006.

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LEI PENAL NO ESPAÇO

1. TERRITORIALIDADE

(CP) Art. 5º - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções,


tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no
território nacional.

§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território


nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública
ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, bem
como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de
propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo
correspondente ou em alto-mar.

§ 2º - É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo


de aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada,
achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em vôo no
espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do
Brasil.

No Brasil, a regra geral é a da territorialidade da lei penal brasileira,


aplicando-se a lei penal nacional aos crimes cometidos em território
brasileiro sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito
internacional (art. 5º, caput, CP).

Segundo Juarez Cirino dos Santos, o território é o espaço de exercício da


soberania política do Estado, constituído pelo (a) solo, como extensão de
terra contínua/descontínua com rios, lagos e mares territoriais; (b) subsolo,
como profundidade cônica do território em relação ao centro do Planeta,
(c) mar territorial, com a extensão de 12 milhas marítimas a partir do
litoral brasileiro (Lei 8.617/1993); (d) plataforma continental, com a
extensão de 200 milhas marítimas a partir do litoral brasileiro, como zona
econômica exclusiva (Lei 8.617/93, que incorporou a Convenção da ONU
de 1982 sobre Direito do Mar), (e) espaço aéreo correspondente ao

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território (Convenção de Chicago de 1944 e Convenção de Varsóvia de


1929 sobre aviação civil internacional).

O Código Penal traz, no próprio art. 5º, normas em que há verdadeira


extensão do território nacional para fins de aplicação do Direito Penal:

APLICA-SE A LEI PENAL BRASILEIRA

ESPÉCIE DE EM EM EM ALTO-MAR
EMBARCAÇÃ TERRITÓRI TERRITÓRIO OU NO ESPAÇO
O OU O ESTRANGEIR AÉREO
AERONAVE NACIONAL O CORRESPONDENT
E

Nacional,
pública ou a SIM SIM SIM
serviço do
governo
brasileiro;

Nacional, SIM NÃO SIM


mercante ou
particular;

Estrangeira, NÃO NÃO NÃO


pública;

Estrangeira,
mercante ou SIM NÃO NÃO
particular

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Conclusões:

a) quando os navios ou aeronaves brasileiras forem públicos ou


estiverem a serviço do governo brasileiro, quer se encontrem em
território nacional ou estrangeiro, são considerados parte do nosso
território.

b) se privados, quando em alto mar ou espaço aéreo correspondente,


seguem a lei da bandeira que ostentam.

c) quanto aos estrangeiros em território brasileiro, desde que públicos,


não são considerados parte do nosso território.

Exemplo: estamos em alto-mar, numa embarcação brasileira privada, e ela


naufragou. Sobre os destroços da embarcação um italiano mata um
argentino.

Os destroços continuam ostentando a bandeira, assim aplica-se a lei


brasileira.

Exemplo: estamos em alto-mar, numa embarcação brasileira e acaba por


colidir em uma embarcação holandesa. Dois sobreviventes constroem uma
jangada com destroços dos dois navios. Um americano mata um argentino
na jangada.

Aqui o código não responde, logo na dúvida aplicamos a lei da


nacionalidade do agente, a lei americana.

Exemplo: na costa brasileira, em embarcação colombiana pública, ocorre


o crime de tráfico de drogas. Aplica-se a lei colombiana.

Obs.: Agora, caso o marinheiro saia da embarcação e pratique o crime em


solo brasileiro, a resposta será “depende”: se o marinheiro descer a serviço

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da Colômbia aplicar-se-á a lei colombiana; caso contrário, será a lei


brasileira.

CUIDADO quanto ao PRINCÍPIO DA PASSAGEM INOCENTE! Quando um


navio atravessa o território nacional apenas como passagem necessária
para chegar ao seu destino (no nosso território não atracará), não se aplica
a lei brasileira, respeitando-se o princípio da passagem inocente, previsto
em tratados internacionais e na lei 8.617/93:

(Lei 8.617) Art. 3º É reconhecido aos navios de todas as nacionalidades


o direito de passagem inocente no mar territorial brasileiro.

§ 1º A passagem será considerada inocente desde que não seja


prejudicial à paz, à boa ordem ou à segurança do Brasil, devendo ser
contínua e rápida.

§ 2º A passagem inocente poderá compreender o parar e o fundear, mas


apenas na medida em que tais procedimentos constituam incidentes
comuns de navegação ou sejam impostos por motivos de força ou por
dificuldade grave, ou tenham por fim prestar auxílio a pessoas a navios
ou aeronaves em perigo ou em dificuldade grave.

§ 3º Os navios estrangeiros no mar territorial brasileiro estarão sujeitos


aos regulamentos estabelecidos pelo Governo brasileiro.

2. LUGAR DO CRIME (locus commissi delicti)

(CP) Art. 6º - Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu


a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu
ou deveria produzir-se o resultado.

Para se saber se a lei penal brasileira será aplicada e considerando as regras


vistas (no item anterior), é imprescindível que se defina o lugar em que a
infração penal foi cometida.

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O Brasil adotou a teoria mista ou da ubiquidade, segundo a qual


considere-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou
omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria
produzir-se o resultado (art. 6º, CP).

DICA para memorizar e não confundir com o tempo do crime: “L U T A”

A aplicação de tal teoria é importante nos chamados crimes à distância,


que são aqueles em que o lugar dos atos executórios é diferente do lugar
do resultado, como no exemplo em que um crime é executado na
Argentina e consumado no Brasil ou vice-versa.

3. EXTRATERRITORIALIDADE

Embora tenha adotado, como regra geral, o princípio da territorialidade, o


Código Penal cuida também, no seu art. 7º, da aplicação da lei penal
brasileira a certos fatos praticados no estrangeiro. Em outros termos,
estende-se a incidência da nossa lei penal para alcançar condutas que
ocorrem fora do território nacional, propriamente considerado ou por
equiparação (hipóteses de extraterritorialidade da lei penal).

EXTRATERRITORIALIDADE INCONDICIONADA: as hipóteses


catalogadas (no inciso I) vinculam-se a alta relevância dos interesses
atingidos, e não se exige qualquer condição para a incidência da nossa lei
penal.

Portanto, os fatos serão processados e julgados no Brasil,


independentemente do seu autor ser brasileiro, estrangeiro ou apátrida.
Pouco importa se a conduta tiver sido praticada em alto-mar ou no espaço
aéreo correspondente, ou ainda no território de outro Estado.

a) crimes contra a vida ou liberdade do Presidente da República;

b) crimes contra o patrimônio ou a fé pública de pessoas jurídicas


de direito público;

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(União, Estados, Distrito Federal, Municípios, Territórios, Empresa


Pública, Sociedade de Economia Mista, Autarquia, Fundação Pública).

c) crimes contra a administração pública, por quem está a seu


serviço;

(guarda relação com servidores que estejam desempenhando suas


atividades fora do território nacional – princípio da proteção ou defesa).

d) crimes de genocídio, quando o agente for brasileiro ou


domiciliado no Brasil;

(genocídio é a destruição (morte dolosa), no todo ou em parte, de


grupo nacional, étnico, racial ou religioso – princípio da justiça
universal).

(genocida = brasileiro ou estrangeiro / apátrida domiciliado no


território brasileiro).

EXTRATERRITORIALIDADE CONDICIONADA: situações nas quais, de


forma excepcional, pode ocorrer a incidência extraterritorial da lei penal,
desde que atendidas certas condições.

Cuidam-se, efetivamente, de hipóteses residuais, mas necessárias para que


determinados fatos não se quedem sob o selo da impunidade.

a) crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a


reprimir;

Por força de tratados e convenções internacionais, o Brasil


comprometeu-se a processar e julgar os autores de delitos como
pedofilia, tráfico de drogas, tráfico de pessoas, dentre outros –
princípio da justiça universal.

b) crimes praticados por brasileiros no estrangeiro;

Vincula-se à norma constitucional que veda a extradição de nacionais.


Dessa forma, perpetrando o brasileiro, nato ou naturalizado,
determinado crime fora de nossas fronteiras, o Brasil se vê

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impossibilitado de extraditá-lo, razão pela qual deve deflagrar ação


penal e, se for o caso, condená-lo por aquele fato – princípio da
personalidade ou nacionalidade ativa.

c) crimes praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras,


mercantes ou de propriedade privada, quando em território
estrangeiro, e aí não tenham sido julgados;

Como visto, a aeronave ou embarcação brasileira, de natureza privada,


que se encontre no território de outro Estado, não é considerada
como extensão do território nacional. Assim, cabe a justiça do outro
país processar e julgar os fatos havidos a bordo daquela embarcação
o aeronave. No entanto, caso a justiça estrangeira não se interesse em
apreciar o fato delituoso, tal dispositivo prevê a aplicação da nossa lei
penal, suprindo eventual lacuna – princípio da bandeira ou
representação.

CONDIÇÕES (pressupostos que devem ocorrer conjuntamente):

1. Entrar o agente no território nacional;

Basta a presença física, sendo irrelevante a motivação.

2. Ser o fato punível também no país em que foi praticado;

Obviamente, se o fato ocorreu em alto-mar ou no espaço aéreo


correspondente, este requisitos deve ser tido como devidamente
suprido, na medida em que não há a incidência da lei penal de
nenhum país.

3. Estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira


autoriza a extradição;

Em geral, todos os crimes são passíveis de extradição. Excepcionam-


se os crimes políticos ou de opinião, os crimes militares próprios, os
crimes aos quais a lei brasileira imponha pena de prisão igual ou
inferior a um ano, dentre outros referidos nos artigos 77 e 78 do
Estatuto do Estrangeiro ou em tratados e convenções internacionais.

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4. Não ter sido o agente absolvido no estrangeiro, ou não ter aí


cumprido pena;

5. Não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro


motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais
favorável.

EXTRATERRITORIALIDADE HIPERCONDICIONADA: a lei penal brasileiro


será aplicada, desde que cumpridas condições extras:

a) crimes praticados por estrangeiros contra brasileiro fora do


Brasil;

CONDIÇÕES (extras):

1. Todas as vistas anteriormente;

a) crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir;


b) crimes praticados por brasileiros no estrangeiro; ou c) crimes
praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de
propriedade privada, quando em território estrangeiro, e aí não
tenham sido julgados;

2. Não foi pedida extradição pelo país onde o crime ocorreu; ou


foi pedida, mas o Brasil a negou;

3. Requisição do Ministro da Justiça;

4. PENA CUMPRIDA NO ESTRANGEIRO

(CP) Art. 8º - A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta


no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada,
quando idênticas.

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Pode ocorrer que o agente seja condenado no estrangeiro e no Brasil pela


prática do mesmo crime. Nesse caso, para não haver a dupla punição pelo
cometimento da mesma infração (non bis in idem), estabelece o art. 8º do
CP que “a pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil
pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando
idênticas”.

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CONCEITO DE CRIME

CONCEITO LEGAL
De acordo com o artigo 1º da Lei de Introdução ao Código Penal: “Considera-se
crime a infração penal que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer
isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa;
contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão
simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente”.

CONCEITO FORMAL
De acordo com Juarez Cirino dos Santos, as definições formais mostram o crime
como violação da norma penal respectiva – por exemplo, o homicídio como
violação da norma não deves matar.

Em outras palavras, delito, do ponto de vista puramente formal, é o que o Estado


descreve literalmente na lei como tal.

Para se praticar o crime, formalmente, o agente precisa realizar a conduta descrita


na lei pelo legislador, violando desse modo a correspondente norma penal. O
conceito formal de delito está vinculado ao princípio da legalidade (nullum
crimen nulla poena sine lege).

CONCEITO MATERIAL
Segundo Juarez Cirino dos Santos, as definições materiais mostram o crime como
lesão do bem jurídico protegido – por exemplo, o homicídio como destruição da
vida humana.

O mais difundido conceito material de crime é o que enfoca como fato ofensivo
(grave) desvalioso a bens jurídicos muito relevantes. Ele realça seu aspecto
danoso (sua danosidade social) e o descreve como lesão ou perigo de lesão ao
bem jurídico relevante. Crime, portanto, seria, o fato fumano lesivo ou perigo
(ofensivo) a um interesse relevante.

CONCEITO ANALÍTICO (dogmático / científico / operacional / doutrinário)


Há divergência com relação às estruturas (pressupostos de punibilidade) do fato
punível.

Todavia, majoritariamente, adota-se um conceito tripartido: fato típico +


antijuridicidade (ilicitude) + culpabilidade.

Segundo Guilherme Nucci, trata-se de uma conduta típica, antijurídica e


culpável, vale dizer, uma ação ou omissão ajustada a um modelo legal de
conduta proibida (tipicidade), contrária ao direito (antijuridicidade) e sujeita a um

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juízo de reprovação social incidente sobre o fato e seu autor, desde que existam
imputabilidade, consciência potencial de ilicitude e exigibilidade e possibilidade
de agir conforme o direito.

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CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES

1. CRIMES MATERIAL, FORMAL E MERA CONDUTA

- Crime material (ou de resultado naturalista) é o que, na sua descrição típica, descreve
um resultado naturalístico e o exige para a sua consumação formal.

Ex.: homicídio (descreve o resultado morte e o exige para a consumação); no homicídio


há uma conduta e uma modificação do mundo exterior por ela causada; leia-se: há uma
conduta e um resultado naturalístico.

- Crime formal é o que descreve o resultado naturalístico, mas não o exige para a
consumação formal do delito.

Ex.: extorsão (CP, art. 158, que se consuma formalmente com o constrangimento à
vítima, independentemente da obtenção de qualquer vantagem ilícita). A vantagem
ilícita, nesse caso, é mera fase de exaurimento. Chama-se também crime de consumação
antecipada ou de resultado cortado, porque o legislador não espera a ocorrência do
resultado naturalístico previsto no tipo (que é a vantagem ilícita).

- Crime de mera conduta é o que descreve tão somente a conduta e consuma-se


(formalmente) com a sua realização (ex.: invasão de domicílio, desobediência), sem
descrever qualquer resultado naturalístico.

 SÚMULA RELACIONADA:

- Súmula 500, STJ: A configuração do crime do art. 244-B do ECA independe da prova da
efetiva corrupção do menor, por se tratar de delito formal.

2. CRIMES DOLOSO, CULPOSO E PRETERDOLOSO

Essa classificação refere-se à natureza do elemento volitivo caracterizador da infração


penal. Diz-se o crime doloso, segundo definição do Código Penal, quando o agente quis
o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo; culposo, quando o agente deu causa ao
resultado por imprudência, negligência ou imperícia (art. 18, CP).

Preterdoloso ou preterintencional é o crime cujo resultado total é mais grave do que o


pretendido pelo agente. Há uma conjugação de dolo (no antecedente) e culpa (no
subsequente); o agente quer o minus e produz o majus.

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3. CRIMES COMISSIVO, OMISSIVO E COMISSIVO-OMISSIVO

O crime comissivo consiste na realização de uma ação positiva visando a um resultado


tipicamente ilícito, ou seja, no fazer o que a lei proíbe.

Já o crime omissivo próprio consiste no fato de o agente deixar de realizar determinada


conduta, tendo a obrigação jurídica de fazê-lo; configura-se com a simples abstenção da
conduta devida, quando podia e devia realizá-la, independentemente do resultado.

No crime omissivo impróprio ou comissivo por omissão, a omissão é o meio através do


qual o agente produz o resultado. Nestes crimes, o agente responde não pela omissão
simplesmente, mas pelo resultado decorrente deste, a que estava, juridicamente,
obrigado a impedir.

4. CRIMES INSTANTÂNEO E PERMANENTE

Crime instantâneo é o que se esgota com a ocorrência do resultado. Segundo Damásio,


é o que se completa num determinado instante, sem continuidade temporal (lesão
corporal). Instantâneo não significa praticado rapidamente, mas significa que uma vez
realizados os seus elementos nada mais se poderá fazer para impedir sua ocorrência.

Permanente é aquele crime cuja consumação se alonga no tempo, dependente da


atividade do agente, que poderá cessar quando este quiser (cárcere privado, sequestro).

ATENÇÃO: Crime permanente não pode ser confundido com crime instantâneo de
efeitos permanentes (homicídio, furto), cuja permanência não depende da
continuidade da ação do agente.

5. CRIMES DE DANO E DE PERIGO

Crime de dano é aquele para cuja consumação é necessária a superveniência de um


resultado material que consiste na lesão efetiva do bem jurídico. A ausência desta pode
caracterizar a tentativa ou um indiferente penal, como ocorre com os crimes materiais
(homicídio, furto, lesão corporal).

Crime de perigo é aquele que se consuma com a superveniência de um resultado


material que consiste na simples criação do perigo real o bem jurídico protegido, sem
produzir um dano efetivo.

O perigo, nesses crimes, pode ser concreto ou abstrato. Concreto é aquele que precisa
ser comprovado, isto é, deve ser demonstrada a situação efetiva de risco ocorrida no
caso concreto ao bem juridicamente protegido.

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O perigo abstrato pode ser entendido como aquele que é presumido juris et de jure.
Nesses termos, o perigo não precisaria ser provado, pois seria suficiente a simples
prática da ação que se pressupõe perigosa.

6. CRIMES UNISSUBJETIVO E PLURISSUBJETIVO

Crime unissubjetivo é aquele que pode ser praticado pelo agente individualmente – que
também admite o concurso eventual de pessoas –, constituindo a regra geral das
condutas delituosas previstas no ordenamento jurídico-penal.

Crime plurissubjetivo, por sua vez, é o crime de concurso necessário, isto é, aquele que
por sua estrutura típica exige o concurso de, no mínimo, duas pessoas.

7. CRIMES UNISSUBSISTENTE E PLURISSUBSISTENTE

Crime unissubisistente constitui-se de ato único. O processo executivo unitário, que não
admite fracionamento, coincide temporalmente com a consumação, sendo impossível,
consequentemente, a tentativa (injúria verbal).

Contrariamente, no crime plurissubsistente sua execução pode desdobra-se em vários


atos sucessórios, de tal sorte que a ação e o resultado típico separam-se espacialmente.

8. CRIMES COMUM, PRÓPRIO E DE MÃO PRÓPRIA

Crime comum é o que pode ser praticado por qualquer pessoa (lesão corporal,
estelionato, furto).

Crime próprio ou especial é aquele que exige determinada qualidade ou condição


pessoal do agente. Pode ser condição jurídica (acionista); profissional ou social
(comerciante); natural (gestante, mãe); parentesco (descendente) etc.

Crime de mão própria é aquele que só pode ser pratica pelo agente pessoalmente, não
podendo utilizar-se de interposta pessoa (falso testemunho, prevaricação).

ATENÇÃO: A distinção entre crime próprio e crime de mão própria, segundo Damásio,
consiste no fato de que, “nos crimes próprios, o sujeito ativo pode determinar a outrem
a sua execução (autor), embora possam ser cometidos apenas por um número limitado
de pessoas; nos crimes de mão própria, embora possam ser praticados por qualquer
pessoa, ninguém os comete por intermédio de outrem”.

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9. CRIME CONSUMADO E TENTADO

Considera-se consumado o crime em que se reúnam todos os seus requisitos de ordem


legal (artigo 14, incido I, do Código Penal).

ATENÇÃO: Não se confunde com crime exaurido, em que ocorrem acontecimentos


subsequentes à consumação, que, por isso mesmo, nela não influenciam, não obstante
devam ser considerados na aplicação da pena.

Há, portanto, hipótese em que, por circunstâncias alheias à vontade do agente, o


resultado não ocorre, caracterizando o crime tentado (artigo 14, inciso II, do Código
Penal.

10. CRIME SIMPLES, COMPLEXO, QUALIFICADO E PRIVILEGIADO

Rogério Sanches apresenta as seguintes diferenciações:

(A) simples: é o crime basilar, formado objetivamente por apenas um tipo penal e
subjetivamente sem nenhuma circunstância que aumente ou diminua sua gravidade.

(B) complexo: é o crime formado por meio da reunião entre dois ou mais tipos penais.
Como exemplos, podemos citar o crime de roubo (furto + constrangimento ilegal) e
extorsão mediante sequestro (extorsão + sequestro).

OBS.: o que se entende por crime complexo em sentido amplo?

A doutrina utiliza, também, a denominação crime complexo em sentido amplo para


definir o delito acrescido de circunstâncias ou elementos que, por si sós, não constituem
crime. No caso da denunciação caluniosa, por exemplo, o delito é formado pela calúnia
e pela comunicação à autoridade a ocorrência de infração penal, ato este isoladamente
não criminoso. Do mesmo modo, o estupro, formado pelo constrangimento violento e
pelo ato de libidinagem, por si só, atípico quando praticado contra pessoa não
vulnerável.

OBS.: O que se entende por crime ultra complexo?

Ocorre quando um crime complexo é acrescido de outro, este servindo como


qualificadora ou majorante daquele. Imaginemos um roubo (crime complexo) praticado
com emprego de arma de fogo. Temos, na hipótese, uma unidade jurídica ultra
complexa formada pela reunião do crime de roubo (nascido da fusão do
constrangimento ilegal + furto) e o crime de porte ilegal de arma de fogo.

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(C) qualificado: é o crime que deriva do tipo penal básico ou do complexo, com a mesma
natureza, cuja reprimenda sofre um agravamento, em novos patamares mínimo e
máximo, em virtude da maior gravidade da conduta.

(D) privilegiado: é aquele em que a lei considera determinadas circunstâncias que


diminuem a gravidade da ação e, consequentemente, a reprimenda imposta. Há, por
exemplo, o furto privilegiado pela primariedade do agente e pelo pequeno valor da
coisa; homicídio privilegiado quando praticado por motivo de relevante valor social etc.

11. CRIME HABITUAL

Crime habitual é aquele que se configura mediante a reiteração de atos. Somente irá
ocorrer se houver repetição da conduta que revele ser aquela atividade um
procedimento costumeiro por parte do agente. Como exemplo, temos o delito previsto
no artigo 229 do Código Penal, que pune a manutenção de estabelecimento em que
ocorra exploração sexual.

12. OUTRAS CLASSIFICAÇÕES

Na doutrina, ainda encontramos outras classificações:

- Crime progressivo (ou de passagem): é aquele em que, para alcançar seu intento, deve
o agente obrigatoriamente violar norma de caráter menos grave. No furto a residência,
por exemplo, antes se pratica a violação de domicílio. No homicídio, necessariamente
ocorre a lesão corporal.

- Crime de ação única e de ação múltipla: será de ação única o crime em que o tipo
penal prevê apenas uma conduta nuclear possível. Assim, é o furto, em que só há a
conduta de subtrair. Crime de ação múltipla (ou de conteúdo variável) é aquele em que
diversas são as condutas possíveis, como no tráfico de drogas, sendo que, neste caso, se
o agente praticar mais de uma, no mesmo contexto fático, responderá por crime único.

- Crime a prazo: é aquele que exige o decurso de um prazo para que se configure. É o
que ocorre na apropriação de coisa achada (artigo 169, parágrafo único, inciso II, do
Código Penal), que se consuma se o agente que acha coisa alheia perdida e dela se
apropria, total ou parcialmente, deixa de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de
entregá-la à autoridade competente, dentro do prazo de quinze dias.

- Crime de opinião ou de palavra: é aquele praticado por meio de abuso da liberdade


de expressão (injúria, calúnia, difamação, apologia de crime ou criminoso).

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- Crime de fato permanente e de fato transeunte: delito de fato permanente (ou não
transeunte) é o que deixa vestígios materiais que devem ser constatados mediante
perícia. Exemplo: falsificação de documento. Delito de fato transeunte, ao contrário, não
permite constatação mediante análise de vestígios, pois não os exibe. Exemplo: injúria
cometida por meio de palavras.

- Crime remetido: é aquele em que sua definição típica se reporta a outro crime, como
o artigo 304 do Código Penal.

- Crime de rua (ou do colarinho azul): é o crime cometido normalmente por pessoas
economicamente menos favorecidas, como o furto e o roubo. São denominados crimes
do colarinho azul em alusão ao uniforme que era utilizado por operários norte-
americanos no início do século XX, então chamados de blue-collars.

- Crime do colarinho branco: é o delito cometido na esfera econômica, movimentando


normalmente grande volume de recursos. É o caso dos crimes contra o sistema
financeiro nacional e de lavagem de dinheiro.

- Crime cibernético: é aquele cometido por meio da rede mundial de computadores ou


mesmo por meio de uma rede pública ou privada de computadores.

- Crime de greve: é o delito cometido durante a paralisação dos empregados.

- Crime de lockout: é o deltio cometido no decorrer da paralização do empregador.

- Crime de tendência interna transcendente (ou crime de intenção): o sujeito ativo quer
um resultado dispensável para a consumação do delito. O tipo subjetivo é composto
pelo dolo e por elemento subjetivo especial (finalidade transcendente). Exemplo: na
extorsão mediante sequestro – art. 159 – a obtenção da vantagem (resgate) é
dispensável para a consumação (que se contenta com a privação da liberdade da vítima).

- Crime de resultado cortado: espécie de crime de intenção, o resultado (dispensável


para a consumação) não depende do agente, não está na sua esfera de decisão.
Exemplo: na extorsão mediante sequestro, a obtenção da vantagem – pagamento do
resgate -, dispensável para a consumação do crime, não depende do agente, mas de
terceiros ligados à vítima.

- Crime mutilado de dois atos: também espécie de crime de intenção, o crime mutilado
de dois atos se verifica quando o resultado dispensável depende de novo

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comportamento do agente; está em sua esfera de decisão. Exemplo: no crime de


petrechos para falsificação de moeda, a efetiva falsificação das moedas e sua colocação
em circulação, ambos os resultados dispensáveis para a consumação, dependem de
nova decisão do agente.

- Crime militar próprio: previsto apenas no Código Penal Militar. Exemplo: deserção
(CPM, art. 187).

- Crime militar impróprio: a mesma figura típica do Código Penal Militar é prevista no
Código Penal ou em outras leis especiais. Exemplo: o crime de furto é previsto no CPM
e do CP.

- Crime vago: possui como sujeito passivo entidades sem personalidade jurídica (vítima
indeterminada). Exemplo: violação de sepultura (CP, art. 210).

- Crime funcional próprio: a condição de funcionário público é essencial para


configuração do crime, de forma que, sem ela, não há outro delito. Exemplo:
prevaricação (CP, art. 319).

- Crime funcional impróprio: a ausência da condição de funcionário público desclassifica


a infração. Exemplo: a ausência da qualidade de funcionário público desclassifica o crime
de peculato-apropriação para o crime de apropriação indébita.

- Crime acessório: aquele que depende da existência de outro crime. Exemplo: o crime
de receptação (CP, art. 180) depende da existência de um crime anterior, do qual a coisa
provém.

- Crime à distância ou de espaço máximo: a conduta é pratica em um país e o resultado


ocorre em outro.

- Crime plurilocal: o crime percorre dois ou mais territórios do mesmo país (Comarcas
de São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos). Gera conflito interno de
competência (qual comarca aplicará a lei brasileira?). O Código de Processo Penal
adotou, em regra, a teoria do resultado, sendo competente a comarca onde se deu a
consumação (CPP, art. 70).

- Crime de alucinação: é uma hipótese de delito putativo por erro de proibição (erro de
proibição invertido). O agente pratica um fato que entende ser criminoso, mas, como

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não existe norma de proibição (incriminadora), pratica uma conduta atípica. Exemplo:
João e Maria praticam incesto imaginando que se trata de crime. No entanto, não existe
norma de proibição para esse fato.

- Crime de ensaio (delito de laboratório, crime putativo por obra do agente


provocador): são as denominações dadas ao crime impossível na hipótese de flagrante
preparado ou provocado.

 SÚMULA RELACIONADA:

- Súmula 145, STF: não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna
impossível a sua consumação.

- Crimes aberrantes: são as hipóteses de erro na execução (CP, art. 73), resultado
diverso do pretendido (CP, art. 74) e aberratio causae.

- Crimes infamantes: são aqueles que revelam a depravação moral, desonra ou


desonestidade de quem os pratica.

- Crime profissional: é aquele praticado por quem se utiliza da profissão que exerce para
alcançar finalidade ilícita.

- Crime gratuito: é aquele cometido sem motivo conhecido. Não há de ser confundido
com o motivo fútil, presente quando o móvel apresenta real desproporção entre o delito
e sua causa moral.

- Crime de ímpeto: é aquele que resulta de uma reação emocional, sem premeditação,
como no homicídio cometido sob o domínio da violenta emoção.

- Crime multitudinário: é o delito cometido por multidão no contexto de um tumulto. O


conceito de multidão não é estabelecido pela lei, impondo-se a análise do caso concreto
para a sua configuração.

- Crime independente: é o delito que não assume ligação com outras infrações penais.

- Crime de conexão teleológica: é praticado para assegurar a execução de outro crime,


futuro.

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- Crime de conexão consequencial: é cometido para assegurar a ocultação, a


impunidade ou a vantagem de outro crime, passado.

- Crime de conexão ocasional: não há, na realidade, conexão entre os crimes, pois um
não é cometido para assegurar a execução ou para garantir a ocultação de outro. Há,
tão somente, uma proximidade física entre várias infrações penais, que não se
relacionam entre si. Exemplo: o agente mata alguém e, em seguida, aproveita a
oportunidade para subtrair bens a este pertencentes.

- Crime anão (ou crime liliputiano): é a denominação reservada às contravenções


penais.

- Crime político: é aquele que vulnera a segurança interna ou externa do Estado. É o


caso dos crimes contra a segurança nacional previstos na Lei n. 7.170/83.

- Crime de responsabilidade: será próprio ou impróprio. O crime de responsabilidade


próprio é uma infração penal comum cometida por determinados agentes, julgada pelo
Poder Judiciário, ao passo que o impróprio revela uma infração político-administrativa,
cuja apreciação e punição política (impeachment) são atribuídas ao Poder Legislativo.

- Crime de menor potencial ofensivo: é aquele com pena máxima não superior a dois
anos, conforme definição do artigo 61 da Lei n. 9.099/95, investigado por meio de termo
circunstanciado, admitindo as medidas despenalizadoras da transação penal e
suspensão condicional do processo.

- Crime de médio potencial ofensivo: é aquele em que, apesar da pena máxima


suplantar 2 anos, a pena mínima é igual ou inferior a 1 ano, admitindo a medida
despenalizadora da suspensão condicional do processo.

- Crime de maior potencial ofensivo: é aquele incompatível com medidas


despenalizadoras (transação penal e suspensão condicional do processo).

- Crime hediondo: é o delito constante do rol do artigo 1º da Lei n. 8.072/90.

- Crime equiparado a hediondo: é o delito não constante do rol do artigo 1º da Lei n.


8.072/90, mas que, por imposição constitucional, sofre os mesmos consectários. São
equiparados a hediondo o tráfico de drogas, o terrorismo e a tortura.

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SUJEITO ATIVO

É a pessoa que pratica a conduta descrita pelo tipo penal. Animais e coisas não podem
ser sujeitos de crimes, nem autores de ações, pois lhes falta o elemento vontade.

Em outras palavras, Rogério Sanches afirma que qualquer pessoa física capaz e com 18
(dezoito) anos completos pode ser sujeitos ativo de crime.

APROFUNDAMENTO: pessoa jurídica pode figurar como sujeito ativo de crime?

Cuidado: A Constituição Federal em duas oportunidades sinaliza a possibilidade.

 (CF) Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de
atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da
segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei.

§ 5º A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica,


estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza,
nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular.

 (CF) Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

§ 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores,


pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da
obrigação de reparar os danos causados.

Cuidado: A norma constitucional abstrata que fala sobre os crimes contra a ordem
econômica, financeira e economia popular, depende de regulamentação por uma norma
infraconstitucional, todavia, esta ainda não existe.

Atenção: Ao contrário da situação anterior, no caso de crimes ambientais, além da


autorização constitucional, temos a regulamentação por uma lei infraconstitucional: a
Lei nº 9.605/1998 (Lei dos Crimes Ambientais).

Memorize: Atualmente, no Brasil, os únicos crimes que se reconhecem a


responsabilidade penal da pessoa jurídica são os crimes ambientais.

TEORIA DA DUPLA IMPUTAÇÃO


De acordo com esta teoria, para a validade da tramitação de feito criminal em que se
apura o cometimento de delito ambiental, na peça exordial devem ser denunciados
tanto a pessoa jurídica como a pessoa física.

Atenção: Isso era o que prevalecia até 2013, mas a partir de então os Tribunais mudaram
de posição.

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 STJ (ORIENTAÇÃO ANTERIOR):

RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. CRIME CONTRA O MEIO AMBIENTE. ART.


38, DA LEI N.º 9.605/98. DENÚNCIA OFERECIDA SOMENTE CONTRA PESSOA JURÍDICA.
ILEGALIDADE. RECURSO PROVIDO. PEDIDOS ALTERNATIVOS PREJUDICADOS.
1. Para a validade da tramitação de feito criminal em que se apura o cometimento de delito
ambiental, na peça exordial devem ser denunciados tanto a pessoa jurídica como a pessoa
física (sistema ou teoria da dupla imputação). Isso porque a responsabilização penal da pessoa
jurídica não pode ser desassociada da pessoa física - quem pratica a conduta com elemento
subjetivo próprio.
2. Oferecida denúncia somente contra a pessoa jurídica, falta pressuposto para que o processo-
crime desenvolva-se corretamente.
3. Recurso ordinário provido, para declarar a inépcia da denúncia e trancar, consequentemente,
o processo-crime instaurado contra a Empresa Recorrente, sem prejuízo de que seja oferecida
outra exordial, válida. Pedidos alternativos prejudicados.
(RMS 37.293/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 02/05/2013, DJe
09/05/2013)

 STF (ATUAL ORIENTAÇÃO):

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO PENAL. CRIME AMBIENTAL. RESPONSABILIDADE PENAL DA


PESSOA JURÍDICA. CONDICIONAMENTO DA AÇÃO PENAL À IDENTIFICAÇÃO E À PERSECUÇÃO
CONCOMITANTE DA PESSOA FÍSICA QUE NÃO ENCONTRA AMPARO NA CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA.
1. O art. 225, § 3º, da Constituição Federal não condiciona a responsabilização penal da pessoa
jurídica por crimes ambientais à simultânea persecução penal da pessoa física em tese
responsável no âmbito da empresa. A norma constitucional não impõe a necessária dupla
imputação. [...]
RE 548181; Órgão julgador: Primeira Turma; Relator(a): Min. ROSA WEBER;
Julgamento: 06/08/2013; Publicação: 30/10/2014

 STJ (ATUAL ORIENTAÇÃO):

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO. NÃO-CABIMENTO. PROCESSUAL


PENAL. CRIMES DOS ARTS. 54, CAPUT, E 60, AMBOS DA LEI N.º 9.605/98. TRANCAMENTO DA
AÇÃO PENAL. MEDIDA EXCEPCIONAL. DENÚNCIA GERAL. POSSIBILIDADE. INÉPCIA NÃO
CONFIGURADA. ATIPICIDADE DA CONDUTA ENQUADRADA COMO CRIME DE POLUIÇÃO.
NECESSIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA. VIA ELEITA INADEQUADA. EXCLUSÃO DA PESSOA
JURÍDICA DO POLO PASSIVO DA AÇÃO PENAL. INVIABILIDADE. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE
ILEGALIDADE QUE PERMITA A CONCESSÃO DE ORDEM EX OFFICIO. ORDEM DE HABEAS CORPUS
NÃO CONHECIDA. [...]
7. A pessoa jurídica também denunciada deve permanecer no polo passivo da ação penal. Alerte-
se, em obiter dictum, que a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal reconheceu que a
necessidade de dupla imputação nos crimes ambientes viola o disposto no art. 225, 3.º, da
Constituição Federal (RE 548.818 AgR/PR, 1.ª Turma, Rel. Min. ROSA WEBER, Informativo n.º
714/STF). [...]
(HC 248.073/MT, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 01/04/2014, DJe
10/04/2014)

Memorize: Atualmente, os Tribunais Superiores derrubaram a teoria da dupla


imputação (ou do concurso necessário).

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2
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SUJEITO PASSIVO

É o titular do bem jurídico protegido pelo tipo penal incriminador, que foi violado. Divide-se em:
a) SUJEITO PASSIVO FORMAL (CONSTANTE), que é o titular do interesse jurídico de punir,
surgindo com a prática da infração penal. É sempre o Estado;
b) SUJEITO PASSIVO MATERIAL (EVENTUAL), que é o titular do bem jurídico diretamente lesado
pela conduta do agente.

QUESTÃO: a pessoa jurídica pode ser sujeito passivo de crime contra a honra?

Em sendo a difamação um tipo penal que pretende proteger justamente a honra objetiva da
vítima, sua reputação, deve ser reconhecida a legitimidade de pessoa jurídica para ser sujeito
passivo desse crime.
Do mesmo modo, com relação à calúnia, todavia, o fato falso a ela atribuído deve ser previsto
como crime ambiental.

OBJETO DO CRIME
Objeto jurídico é o bem ou interesse protegido pela norma penal incriminada. Nesse sentido,
pode-se afirmar que objetivo jurídico é sinônimo de bem jurídico-penal.
Deve-se observar, a propósito, que o Código Penal agrupa, na Parte Especial, em cada um dos
seus Títulos e Capítulos, determinados bens jurídicos penalmente tuteláveis (vida, liberdade
individual, patrimônio, administração pública etc.)
Objeto material é a pessoa ou coisa sobre a qual incide a conduta criminosa. Em suma, o objeto
material é para onde converge a ação ou omissão descrita no tipo penal respectivo.
Assim, no crime de homicídio, o objeto jurídico é a vida, enquanto que o objeto material é o
corpo humano. No furto, objeto jurídico é o patrimônio e o objeto material é, por exemplo, a
carteira de dinheiro de alguma pessoa.

QUESTÃO: é possível crime sem objeto material?

É possível a existência de delito sem objeto material, como ocorre nos chamados “crimes de
mera conduta”.
Exemplo: art. 150, CP;
Violação de domicílio

Art. 150 - Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou


contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia
ou em suas dependências:

Pena - detenção, de um a três meses, ou multa.

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Nesse sentido, Flávio Monteiro de Barros 1 complementa que o objeto material situa-se dentro
do tipo penal. Entretanto, nem todo tipo penal tem objeto material. Há, efetivamente, certos
delitos cuja conduta não recai sobre pessoa nem coisa, estando, por isso, destituídos de objeto
material. Tal ocorre com os delitos de mera conduta (ex.: reingresso de estrangeiro expulso –
art. 338 do CP) e com todos os crimes omissivos puros (ex.: omissão de socorro – art. 135 do
CP). Os crimes formais podem ou não ter objeto material, todos têm objeto material porque o
resultado necessariamente deve produzir-se sobre uma pessoa ou coisa.

1
BARROS, Flávio Monteiro de. Direito Penal – Parte Geral. São Paulo: Editora Saraiva, 2003, p. 120.
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FATO TÍPICO

É representado por uma conduta humana que provoca um resultado indesejado, previsto na lei
penal.

Subdivide-se em:

a) Conduta: dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva;

b) Resultado: naturalístico (que é modificação do mundo fático) ou jurídico (exposição a perigo


ou efetiva lesão ao bem jurídico tutelado).

c) Nexo causal: relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado.

d) Tipicidade: é a perfeita correlação entre o fato concreto e a previsão legal.

 Lembre-se da estrutura analítica do crime:

FATO TÍPICO ANTIJURÍDICO CULPÁVEL

- Conduta; - Comportamento - Imputabilidade;


não justificado;
- Resultado; - Potencial consciência da ilicitude;

- Nexo Causal; - Exigibilidade de conduta diversa;

- Tipicidade;

CONDUTA
De acordo com a Teoria Finalista (de Hans Welzel), conceitua-se a conduta como um
comportamento humano voluntário e consciente dirigido a uma finalidade.

Assim, tradicionalmente teremos como FORMAS DE CONDUTA:

- AÇÃO: movimento corpóreo ou comportamento positivo; por exemplo: matar, subtrair,


constranger.

Os delitos que descrevem uma ação proibida são denominados crimes comissivos.

- OMISSÃO: abstenção de um comportamento.

- CRIME OMISSIVO PRÓPRIO: o agente viola a norma mandamental, deixando de fazer o que
ela determina (obrigação de fazer).

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Exemplo: no crime de omissão de socorro – art. 135, CP – a norma mandamental é: “prestarás


socorro”;

- CRIME OMISSIVO IMPRÓPRIO (ou comissivo por omissão): o agente pode e deve agir (dever
jurídico especial) para impedir o resultado, mas se omite (art. 13, §2º, CP).

O garante se omite acarretando a produção do resultado naturalístico.

Exemplo: “A”, contratada para ser babá da criança “B”, se distrai assistindo TV, não impedindo
que “B” suba numa cadeira e despenque pela janela do apartamento em que reside.

Relevância da omissão

(CP) Art. 13, §2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia
agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem:

a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância;

b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado;

c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado.

Noutro giro, NÃO haverá conduta quando:

→ CASO FORTUITO/FORÇA MAIOR: fato imprevisível.

Exemplo: um motorista de caminhão é atacado por um enxame de abelhas e acaba colidindo


com um outro veículo.

Exemplo: TÍCIO dirige normalmente seu automóvel em viagem de férias quando, em


determinado momento, ocorre o rompimento da barra de direção do veículo que,
desgovernado, sai da pista e atinge o transeunte Pedro, causando-lhe lesões corporais graves.

→ MOVIMENTO (OU ATO) REFLEXO: movimento de reação a um estímulo interno ou externo –


ato fisiológico.

Exemplo: convulsão epilética; excitação sensitiva (espirro, acesso de tosse).

ATENÇÃO: os atos instintivos e automáticos (ex.: ação em curto circuito; reação impulsiva ou
explosiva) são passíveis de controle pelo querer (atenção) do agente e não excluem a ação.

→ ESTADO DE INCONSCIÊNCIA: atos realizados independentemente da vontade humana.

Exemplo: sonambulismo; sono profundo; hipnose profunda.

Exemplo: “A”, sonâmbulo, pisoteia a cabeça da criança “B”, que estava deitada no chão.

→ COAÇÃO FÍSICA IRRESISTÍVEL (vis absoluta): Força, constrangimento físico exterior que
obriga materialmente o agente. Deve ser irresistível, isto é, sem possibilidade de resistência /
sem domínio do próprio corpo.

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Exemplo: “A”, de forma inesperada, empurra “B”, com força, dentro da piscina, chocando-se
com a criança “C”, que vem a se afogar e morrer. Conquanto com seu corpo tenha causado a
morte de “C”, “B” não realizou conduta do ponto de vista penal.

Exemplo: “A”, com força superior a “B” obriga-o a vibrar um golpe de punhal contra o corpo de
“C”.

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CULPABILIDADE

O crime é concebido como conduta típica, antijurídica e culpável (conceito tripartido) ou apenas
como conduta típica e antijurídica (conceito bipartido).

Para os adeptos do conceito bipartido, a culpabilidade não é elemento do crime, mas sim
pressuposto de aplicação da pena.

Independentemente do conceito do crime, a culpabilidade é o juízo de reprovação do agente


por ter praticado um fato típico e ilícito, quando podia entender o caráter ilícito deste fato e,
assim, se motivar para agir conforme o direito.

Em relação à culpabilidade, o Código Penal adotou a teoria normativa pura, baseada na teoria
finalista da conduta. Nessa concepção, a culpabilidade é composta dos seguintes elementos:

- IMPUTABILIDADE;

- POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE; e

- EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA.

*APROFUNDAMENTO

TEORIAS DA CULPABILIDADE

Teoria Psicológica Teoria Psicológica Teoria Normativa Teoria Limitada da


Normativa Pura ou Extremada Culpabilidade

Base Causalista Base Neokantista Base Finalista - Só se diferencia da


extremada no
Obs.: dolo/culpa tratamento das
- Imputabilidade; - Imputabilidade migram para o fato descriminantes
típico. putativas.
- Dolo; ou - Dolo Normativo
- Culpa; (Dollus Mallus); ou - Imputabilidade;
- Culpa
- Potencial
- Exigibilidade de consciência da
conduta diversa ilicitude;

- Exigibilidade de
conduta diversa;

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CONCURSO DE CRIMES

No Direito Penal brasileiro a pluralidade sucessiva de fatos puníveis chama-se


Concurso Material (art. 69, CP), a pluralidade simultânea de fatos puníveis
denomina-se Concurso Formal (art. 70, CP) e a pluralidade continuada de fatos
puníveis aparece sob a designação de Crime Continuado (art. 71, CP).

CONCURSO MATERIAL
(CP) Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou
omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se
cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja
incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de
detenção, executa-se primeiro aquela.

§ 1º - Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada


pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os
demais será incabível a substituição de que trata o art. 44 deste Código.

§ 2º - Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o


condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis entre
si e sucessivamente as demais.

Ocorre o concurso material quando o agente, mediante mais de uma conduta


(ação ou omissão), pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não.

No concurso material há pluralidade de condutas e pluralidade de crimes.

Adota-se, nesse caso, o CÚMULO MATERIAL – este sistema recomenda a soma


das penas de cada um dos delitos componentes do concurso.

CONCURSO FORMAL
(CP) Art. 70 - Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão,
pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais
grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas
aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas
aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é
dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos,
consoante o disposto no artigo anterior.

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Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela
regra do art. 69 deste Código.

Ocorre o concurso formal quando o agente, mediante uma só conduta (ação ou


omissão), pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não.

No concurso formal há unidade de conduta e pluralidade de crimes.

 CONCURSO FORMAL PRÓPRIO


O concurso formal será próprio (perfeito) quando a unidade de comportamento
corresponder à unidade interna da vontade do agente, isto é, o agente deve
querer realizar apenas um crime, obter um único resultado danoso.

Adota-se, nesse caso, a EXASPERAÇÃO – este sistema recomenda a aplicação da


pena mais grave, aumentada de terminada quantidade em decorrência dos
demais crimes.

 CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO


O concurso formal será impróprio (imperfeito) quando o agente deseja a
realização de mais de um crime, ou seja, tiver consciência e vontade em relação
a cada um deles (desígnios autônomos).

Adota-se, nesse caso, o CÚMULO MATERIAL – este sistema recomenda a soma


das penas de cada um dos delitos componentes do concurso.

ATENÇÃO!  CONCURSO MATERIAL BENÉFICO (FAVORÁVEL)

Se o sistema da exasperação elevar a pena além daquilo que a simples soma


aritmética representaria, a lei determina que seja realizado o cúmulo material.

JURISPRUDÊNCIA (CONCURSO FORMAL)


 O roubo praticado contra vítimas diferentes em um único contexto configura
o concurso formal e não crime único, ante a pluralidade de bens jurídicos
ofendidos.
 A distinção entre o concurso formal próprio e o impróprio relaciona-se com o
elemento subjetivo do agente, ou seja, a existência ou não de desígnios
autônomos.

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 O aumento decorrente do concurso formal deve se dar de acordo com o


número de infrações.

 O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações


penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade
delitiva, quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela
incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano. (Súmula n. 243/STJ)

 No concurso de crimes, o cálculo da prescrição da pretensão punitiva é feito


considerando cada crime isoladamente, não se computando o acréscimo
decorrente do concurso formal, material ou da continuidade delitiva.

CRIME CONTINUADO
(CP) Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou
omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas
condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes,
devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro,
aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave,
se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços.

Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes,


cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz,
considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a
personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias,
aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se
diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do art.
70 e do art. 75 deste Código.

É uma ficção jurídica, em benefício do réu, significando que a prática de várias


condutas, implicando em vários resultados típicos, desde que concretizem crimes
da mesma espécie, em circunstâncias semelhantes de lugar, tempo e modo de
execução, pode formar um só delito consumado, aplicando-se a pena do mais
grave, ou se idênticas, qualquer delas, com um aumento variável, como regra, de
um sexto a dois terços.

Adota-se, em regra, a EXASPERAÇÃO – este sistema recomenda a aplicação da


pena mais grave, aumentada de terminada quantidade em decorrência dos
demais crimes.

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Agora cuidado, pois se for crime continuado específico, ou seja, praticado com
violência ou grave ameaça à pessoa, contra vítimas diferentes, o juiz pode
aumentar a pena até o triplo.

JURISPRUDÊNCIA (CRIME CONTINUADO)

 A continuidade delitiva, em regra, não pode ser reconhecida quando se


tratarem de delitos praticados em período superior a 30 (trinta) dias.

 A continuidade delitiva pode ser reconhecida quando se tratarem de delitos


ocorridos em comarcas limítrofes ou próximas.

 A continuidade delitiva não pode ser reconhecida quando se tratarem de


delitos cometidos com modos de execução diversos.

 Para a caracterização da continuidade delitiva, são considerados crimes da


mesma espécie aqueles previstos no mesmo tipo penal.

 Quando se tratar de crime continuado, a prescrição regula-se pela pena


imposta na sentença, não se computando o acréscimo decorrente da
continuação. (Súmula n. 497/STF)

 Admite-se a continuidade delitiva nos crimes contra a vida.

 Na continuidade delitiva prevista no caput do art. 71 do CP, o aumento se faz


em razão do número de infrações praticadas e de acordo com a seguinte
correlação: 1/6 para duas infrações; 1/5 para três; 1/4 para quatro; 1/3 para cinco;
1/2 para seis; 2/3 para sete ou mais ilícitos.

 A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente,


se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade delitiva ou da
permanência. (Súmula n. 711/STF)

MULTAS NO CONCURSO DE CRIMES


Quando houver concurso formal de crimes, concurso material ou continuidade
delitiva, vimos que cada um deles possui um sistema de aplicação da pena
privativa de liberdade, seja com a soma de todas ou com a incidência de aumento
de uma das penas.
Com relação à pena de multa, o artigo 72 do Código Penal dispõe que no
concurso de crimes, são aplicadas distinta e integralmente.
Deste modo, qualquer que seja a modalidade de concurso de crimes, as penas
devem ser aplicadas de modo autônomo e integral. Portanto, ao final, as penas
de multa sempre devem ser somadas.

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TIPICIDADE

1. EVOLUÇÃO DA TIPICIDADE PENAL


O fato típico, como já estudado, é o primeiro substrato do conceito analítico de crime. São seus
elementos a conduta, o resultado, o nexo causal e a tipicidade penal.

A compreensão acerca da tipicidade tem evoluído de acordo com as novas concepções sobre o
Direito Penal.

A teoria tradicional compreendia a tipicidade sob o aspecto meramente formal. Assim,


conceituava-se a tipicidade como a subsunção do fato à norma. Desse modo, aquele que
subtraía uma caneta “bic” de uma papelaria praticava conduta típica, ajustando-se seu
comportamento à norma estampada no artigo 155 do Código Penal.

Para teoria moderna, entretanto, a tipicidade penal engloba tipicidade formal e tipicidade
material. A tipicidade penal deixou de ser mera subsunção do fato à norma, abrigando também
juízo de valor, consistente na relevância da lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado. É
somente sob essa ótica que se passa a admitir o princípio da insignificância como hipótese de
atipicidade (material) da conduta. Assim, no exemplo anterior, embora haja tipicidade formal, a
conduta do agente que subtrai a caneta “bic” não representa lesão relevante e intolerável ao
bem jurídico tutelado.

Eugênio Raul Zaffaroni, incrementando a concepção moderna desse importante elemento do


fato típico, desenvolve a teoria da tipicidade conglobante. Aqui, a tipicidade penal é a soma
entre tipicidade formal e tipicidade conglobante, esta composta pela tipicidade material e
antinormatividade do ato (ato não determinado ou não incentivado por lei).

2. TIPICIDADE CONGLOBANTE
A proposta da teoria é harmonizar os diversos ramos do Direito, partindo-se da premissa de
unidade do ordenamento jurídico. É uma incoerência o Direito Penal estabelecer proibição de
comportamento determinado ou incentivado por outro ramo do Direito (isso é desordem
jurídica).

Dentro desse espírito, para se concluir pela tipicidade penal da conduta de um resultado, é
imprescindível verificar não apenas a subsunção formal fato/tipo e a relevância da lesão ou
perigo de lesão, mas também se o comportamento é antinormativo, leia-se, não determinado
ou incentivado por qualquer ramo do Direito.

Da lição, conclui-se que a tipicidade conglobante tem como consequência a transferência do


estrito cumprimento de um dever legal e do exercício regular de direito incentivado da ilicitude
para a tipicidade, servindo como suas causas de exclusão.

3. ESPÉCIES DE TIPICIDADE FORMAL


São duas as espécies de tipicidade formal (ou formas de adequação típica).

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ADEQUAÇÃO TÍPICA IMEDIATA (DIRETA): opera-se um ajuste entre o fato e a norma penal sem
depender de dispositivo complementar. Através de um único dispositivo se alcança a subsunção
entre a conduta e o tipo penal.

Exemplo: “A” matou “B”. O comportamento de “A” se subsume, com perfeição, ao disposto no
artigo 121 do Código Penal.

ADEQUAÇÃO TÍPICA MEDIATA (OU INDIRETA): nesse caso, o ajuste entre o fato e a norma
somente se realiza através da conjugação do tipo penal com uma norma de extensão.

a) NORMA DE EXTENSÃO TEMPORAL: a conduta de “tentar matar alguém” somente é punível


em razão da norma descrita no artigo 14, inciso II, do Código Penal. Sem essa norma, lendo o
artigo 121 do CP, a conclusão seria pela atipicidade do comportamento.

b) NORMA DE EXTENSÃO PESSOA E ESPACIAL: o artigo 29 do Código Penal, que dispõe sobre o
concurso de pessoas, reflete uma norma auxiliar, cuja existência permite a subsunção indireta
da conduta do partícipe (que não realiza o núcleo do tipo, mas, de qualquer modo, concorre
para o delito).

Note-se que aquele que praticar a conduta de “vigiar o local enquanto alguém realiza o crime
de homicídio” é um fato, a princípio, atípico, porque não se encontra previsto em qualquer
norma penal.

c) NORMA DE EXTENSÃO CAUSAL: o artigo 13, §2º, do Código Penal, estabelece a “relevância
da omissão”, tornando-a típica (através de adequação indireta). Se não fosse o dispositivo
mencionado, a mãe que deixa de amamentar a sua filha não seria responsabilizada penalmente,
porque a sua omissão, de fato, não causou a morte (mas sim a inação). Graças ao referido
dispositivo, por não ter evitado o resultado, é equiparada ao seu causador.

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Direito Penal | Paulo Henrique

ARREPENDIMENTO POSTERIOR

(CP) Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa,
reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa,
por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços.

NATUREZA JURÍDICA

Trata-se de causa obrigatória de diminuição de pena (- 1/3 a - 2/3).

REQUISITOS

a) Crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa;


b) Reparação do dano ou restituição da coisa;
c) Ato voluntário do agente;
d) Até o recebimento da denúncia.

Exemplo: CAIO furtou a TV de MARIO, porém CAIO, influenciado por seu pai, resolveu
restituir a coisa no dia seguinte.

QUESTÕES ESPECIAIS

- E se o arrependimento ocorrer após o recebimento da denúncia?

Circunstâncias atenuantes
(CP) Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a pena: [...]
III - ter o agente: [...]
b) procurado, por sua espontânea vontade e com eficiência, logo após o crime,
evitar-lhe ou minorar-lhe as consequências, ou ter, antes do julgamento, reparado
o dano;

- E se houver violência à coisa?


Note que é a violência contra pessoa que não permite o arrependimento posterior.

Logo, violência contra coisa (furto mediante rompimento de obstáculo, por exemplo)
não constitui fator de impedimento do artigo 16 do Código Penal.

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Direito Penal | Paulo Henrique

- O arrependimento posterior se comunica aos coautores e partícipes?

Já decidiu o STJ (REsp 1.187.976-SP) que o benefício do arrependimento posterior


comunica-se aos coautores e partícipes que não tenham participado da restituição da
coisa ou da reparação do dano. Assim, uma vez reparado o dano integralmente por um
dos autores do delito, a causa de diminuição de pena do arrependimento posterior,
prevista no artigo 16 do CP, estende-se aos demais coautores.

- E se a reparação for parcial?

Já decidiu o STF (HC 165312) que é possível o reconhecimento da causa de diminuição


de pena prevista no art. 16 do Código Penal (arrependimento posterior) para o caso em
que o agente fez o ressarcimento da dívida principal (efetuou a reparação da parte
principal do dano) antes do recebimento da denúncia, mas somente pagou os valores
referentes aos juros e correção monetária durante a tramitação da ação penal.

Nas exatas palavras do STF: “É suficiente que ocorra arrependimento, uma vez reparada
parte principal do dano, até o recebimento da inicial acusatória, sendo inviável
potencializar a amplitude da restituição.”

 ATENÇÃO: Em se tratando de crime contra a tributária (Lei 8.137/1990),


apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, CP) ou sonegação de contribuição
previdenciária (art. 337-A, CP), de acordo com a jurisprudência, notadamente do STJ, o
adimplemento do débito tributário (ou da contribuição previdenciária), a qualquer
tempo, até mesmo após o advento do trânsito em julgado da sentença penal
condenatória, é causa de extinção da punibilidade do acusado - artigo 9º, § 2º, da Lei
10.684/2003.

 ATENÇÃO: Peculato culposo (art. 312, § 3º).

Peculato culposo
§ 2º - Se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano.
§ 3º - No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se precede à sentença
irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena
imposta.

 ATENÇÃO: No delito de estelionato cometido por meio de cheque sem fundos (CP,
art. 171, § 2º, VI, do CP), caso o pagamento do cheque seja feito antes do recebimento
da denúncia ou queixa isso obsta o início da ação penal, por força da súmula 554 do STF
(que afasta a fraude e, em consequência, o próprio delito).

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DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA / ARREPENDIMENTO EFICAZ

(CP) Art. 15 - o agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou


impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados.

DESISTENCIA VOLUNTÁRIA

Pressupõe a desistência voluntaria “o não fazer”, isto é, o abandono da pratica dos atos
que conduzam a consumação do crime, bem como a voluntariedade do agente
(independentemente do motivo).

Exemplo: um Deputado, numa discussão de trânsito, disparou contra o motorista de um


ônibus, acertando-o levemente; aproximou-se dele, podia ter efetuado mais disparos,
podia ter matado, mas desistiu (STF, AP 277-DF).

Nisso reside o instituto da desistência voluntária. O agente pode consumar, mas não
quer.

Exemplo: o sujeito disparou contra a vítima, acertando-lhe de raspão o ombro. Desiste


de prosseguir. Podia prossegir, mas não quis. Não responde pela tentativa de homicídio
que iniciou. Só responde objetivamente pelo que fez: lesões corporais;

E se nesse caso o disparo não acertou a vítima, passando perto da cabeça? O agente só
responde por perigo de vida (CP, art. 132).

Exemplo: O agente ingressa na casa da vítima para furtar. Desiste voluntariamente. Não
responde pela tentativa de furto, só responde pelo que objetivamente fez: invasão de
domicílio.

“FÓRMULA DE FRANK”: FRANK sintetizou com grande eloquência a distinção entre


desistência voluntária e tentativa, na seguinte frase: “posso, mas não quero (desistência
voluntária); quero, mas não posso (tentativa)”.

ARREPENDIMENTO EFICAZ (RESIPISCÊNCIA)

Segundo Cézar R. Bitencourt, no arrependimento eficaz o agente, após ter esgotado


todos os meios de que dispunha – necessários ou suficientes –, arrepende-se e evita que
o resultado aconteça. Isto é, pratica nova atividade para evitar que o resultado ocorra.
Aqui, também, não é necessário que seja espontâneo, basta que seja voluntário.

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Exemplo: MARCELO desfere cinco tiros em JÚLIO, com a intenção de matar. Após os
disparos, arrepende-se de forma voluntária, conduzindo JÚLIO até o hospital mais
próximo para que receba socorro médico.

Caso JÚLIO permaneça vivo, MARCELO responderá pelas lesões causadas na vítima,
caracterizando o arrependimento eficaz; se JÚLIO falecer (em razão dos disparos),
responderá MARCELO por crime de homicídio consumado, havendo mera atenuação da
pena (arrependimento ineficaz).

Exemplo: depois de uma discussão no interior de um barco, JHONI lança seu desafeto
ao mar, tendo conhecimento de que ele não sabe nadar, querendo causar sua morte
por afogamento. Neste caso, JHONI fez tudo aquilo que podia para conseguir o resultado
morte: lançou ao mar a vítima que não sabia nadar. No entanto, após esgotar os atos
que entendia como suficientes e necessários à consumação da infração penal,
arrependido, JHONI resolveu salvar a vítima, não permitindo que ela morresse. Se a
vítima sair ilesa do ataque, JHONI não responderá por absolutamente nada; se,
entretanto, sofrer alguma lesão, esta será atribuída a JHONI.

DICA: LEMBRE-SE DE DUAS REGRAS DA “PONTE DE OURO”!

 O agente não responde pela tentativa do delito que pretendia (e que já foi iniciado);

 O agente só responde pelo que objetivamente causou (se previsto em lei);

TENTATIVA QUALIFICADA

Chama-se de tentativa qualificada (essa não é uma denominação muito adequada)


exatamente esse fenômeno que consiste na punição do agente exclusivamente pelo fato
secundário (se previsto em lei).

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TIPO DOLOSO

Segundo Juarez Cirino dos santos, o DOLO é a vontade consciente de realizar um crime – ou,
mais tecnicamente, vontade consciente de realizar o tipo objetivo de um crime. O dolo é
composto de um elemento intelectual (consciência, ou representação psíquica) e de um
elemento volitivo (vontade, ou energia psíquica), como fatores formadores da ação típica
dolosa.

TEORIAS DO DOLO:

- TEORIA DA REPRESENTAÇÃO:
Privilegia o lado intelectual, não se preocupando com o aspecto volitivo, pois pouco importa se
o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. Basta que o resultado tenha sido
antevisto pelo sujeito. Em nosso sistema penal tal teoria deve ser afastada, por confundir o dolo
com a culpa consciente.

Para a teoria da representação, podemos falar em dolo toda vez que o agente tiver tão
somente a previsão do resultado como possível e, ainda assim, decidir pela continuidade de
sua conduta.

- TEORIA DA VONTADE:
Essa teoria se vale da teoria da representação, ao exigir a previsão do resultado. Conduto, vai
mais longe. Além da representação, reclama ainda a vontade de produzir o resultado.

Segundo a teoria da vontade, dolo seria tão somente a vontade livre e consciente de querer
praticas a infração penal, isto é, de querer levar a efeito a conduta prevista no tipo penal
incriminador.

- TEORIA DO CONSENTIMENTO (ASSENTIMENTO OU ANUÊNCIA):


Complementa a teoria da vontade, recepcionando sua premissa. Para essa teoria, há dolo não
somente quando o agente quer o resultado, mas também quando realiza a conduta
assumindo o risco de produzi-lo.

Já a teoria do assentimento diz que atua com dolo eventual aquele que, antevendo como
possível o resultado lesivo com a prática de sua conduta, mesmo não o querendo de forma
direta, não se importa com a sua ocorrência, assumindo o risco de vir a produzi-lo.

Em resumo:

(CP) Art. 18, I, DOLO TEORIA

Quando o agente quis o DIRETO VONTADE


resultado...

Ou assume o risco de INDIRETO CONSENTIMENTO


produzir o resultado...

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ESPÉCIES DE DOLO:
De acordo com Juarez Cirino dos Santos, A teoria penal moderna distingue três espécies de
dolo: a) o dolus directus de 1º grau; o dolus directus de 2º grau; c) dolus eventualis.

Em linhas gerais, o dolo direto de 1º grau compreende o que o autor quer realizar; o dolo
direito de 2º grau compreende as consequências típicas representadas como certas ou
necessárias pelo autor; o dolo eventual compreende as consequências típicas representadas
como possíveis pelo autor, que consente (ou concorda) em sua produção.

• DOLO DIRETO: o agente prevê um resultado, dirigindo sua conduta na busca de realizá-
lo.

→ DOLO DE 1º GRAU: O fim é diretamente pretendido pelo agente, ou seja, o que o autor
quer realizar.

→ DOLO DE 2º GRAU: O resultado é obtido como consequência necessária à produção do


fim, isto é, compreende as consequências típicas representadas como certas ou necessárias
pelo autor.

Exemplo: caso Thomas (Alemanha, 1875).

• DOLO EVENTUAL: O agente não quer o resultado, mas prevê e o aceita como possível,
assumindo o risco que ele ocorra.

Em outras palavras, o dolo eventual compreende as consequências típicas representadas como


possíveis pelo autor, que consente (ou concorda) em sua produção.

Exemplo: caso LEDERRIEMENFALL (Alemanha, 1955)

TEORIA DA CEGUEIRA DELIBERADA OU IGNORÂNCIA DELIBERADA (WILLFUL


BLINDNESSE ou DELIBERATE IGNORANCE

Segundo Jesús-Maria Silva Sánchez (2013, p. 49), “é cabível a imputação de conduta a


título de dolo, ainda quando seja impossível constatar um estado mental de
conhecimento da situação na qual o agente se encontrava, sempre e quando possa ser-
lhe imputável que deveria conhecer e que, se não o fez, foi porque provocou o
desconhecimento por ação ou omissão”.

EXEMPLO: “A”, um “doleiro” – ou seja, a uma pessoa que habitualmente remete


dinheiro para contas bancárias, no exterior, por intermédio de canais financeiros
“alternativos” àqueles fiscalizados pelas autoridades públicas –, remete, a pedido do
cliente “B”, grande quantidade de dólares para uma conta secreta em um “paraíso
fiscal”, ignorando ou sequer desejando saber a origem da citada quantia em dinheiro.
Por meio a teoria da cegueira deliberada, poder-se-ia imputar a “A”, a conduta de
lavagem de dinheiro, a título de dolo eventual.

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OUTRAS CLASSIFICAÇÕES DE DOLO


 DOLO ALTERNATIVO: ocorre quando o agente quer um ou outro resultado (sendo
alternativas típicas excludentes). O dolo alternativo pode acontecer em relação a
qualquer uma das modalidades básicas de dolo como vimos.

Todas as espécies de dolo podem existir sob a forma de dolo alternativo , com uma ação
e várias alternativas típicas:
a) A atira em B para matar ou ferir;
b) A atira para matar B ou, pelo menor, matar o cachorro de B;
c) A atira para matar o cachorro de B, mas consente na possibilidade prevista de matar
B, próximo do animal.

 DOLO NORMATIVO (DOLO JURÍDICO ou DOLUS MALUS): houve uma época em que
se concebia o dolo como dolus malus, ou seja, somava-se o dolo (consciência e vontade
de concretizar os requisitos objetivos do tipo) com a consciência da ilicitude (era
adotado pela doutrina naturalista clássica assim como pela doutrina neokantista – final
do século XIX até meado do século XX).

DOLO GERAL (DOLUS GENERALIS ou ERRO SUCESSIVO): segundo WELZEL, “quando o


autor acredita haver consumado o delito quando na realidade o resultado somente se
produz por uma ação posterior, com a qual buscava encobrir o fato”, ou, ainda, na
definição de HUNGRIA, “quando o agente, julgando ter obtido o resultado intencionado,
pratica segunda ação com diverso propósito e só então é que efetivamente o dito
resultado se produz.”

Exemplificando, os insignes juristas trazem à colação caso do agente que após desferir
golpes de faca na vítima, supondo-a morta, joga o seu corpo em um rio, vindo esta, na
realidade, a falecer por afogamento.

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LEGÍTIMA DEFESA

(CP) Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios
necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.

Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se


também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco
de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes.

A legítima defesa apresenta duplo fundamento: de um lado, a necessidade de defender bens


jurídicos perante uma agressão; de outro, defender o próprio ordenamento jurídico, que se vê
afetado ante uma agressão ilegítima.

1. REQUISITOS
De acordo com a doutrina, são eles:

1º - Agressão injusta, real, atual ou iminente;

- Ataque humano dirigido contra bens jurídicos legitimamente defensáveis.

2º - Ameaça ou ataque a direito próprio ou alheio;

- Qualquer direito pode ser defendido legitimamente: vida, liberdade individual,


patrimônio, honra etc.

3º - Necessidade da reação e proporcionalidade entre o ataque e a reação;

- A defesa, para ser legítima, precdisa sar necessária para a proteção de bens jurídicos. De
outro lado, deve ser proporcional: (a) repulsa com os “meios necessários” e (b)
moderação na repulsa.

4º - Aspecto subjetivo;

- O agente precisa, em regra, atuar com consciência de que defende direito próprio ou
alheio.

Obs.: A reação a uma agressão justa não caracteriza legítima defesa, como, por exemplo, reagir
à regular prisão em flagrante ou a ordem legal de funcionário público etc.

Obs.: O agente que desfere chupes e pontapés na vítima, seu sogro, um senhor de 74 anos, após
uma suposta agressão verbal, não respeita os limites da necessidade de moderação.

Obs.: São exemplos de direitos passíveis de defesa lícita à vida, a integridade física, o patrimônio,
a honra, os costumes sexuais, a saúde pública, o meio ambiente, a segurança dos meios de
transporte etc.

Exemplo: pode-se admitir a legítima defesa de alguém que, enquanto capina, é atacado por seu
inimigo, mais forte fisicamente, com socos e pontapés, e emprega em sua defesa a foice que
utilizava no trabalho. Ou seja, é preciso ter em conta de que instrumentos dispunha o atacado,

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na situação de emergência a que se viu submetido, para constatar se houve ou não emprego
dos meios necessários.

Outro exemplo: aquele que, no intuito de se livrar do ataque de um assaltante que lhe aponta
uma faca, se vale de socos e pontapés, atua, em princípio, em legítima defesa. Porém, se esse
mesmo assaltado, depois de prostrar o atacante e deixá-lo inconsciente, segue golpeando-o,
deixa de atuar em legítima defesa, em função da imoderação de usa própria violência.

2. DIFERENÇAS ENTRE LEGÍTIMA DEFESA E ESTADO DE NECESSIDADE

ESTADO DE NECESSIDADE LEGÍTIMA DEFESA

 No estado de necessidade há um  Na legítima defesa o conflito ocorre


conflito de interesse legítimo, e a entre interesses lícitos, de um lado, e
sobrevivência de um significará o ilícitos, de outro;
perecimento do outro;

 No estado de necessidade a  Na legítima defesa a preservação do


preservação ocorre por meio de ataque; interesse ameaçado se faz por meio de
defesa;

 No estado de necessidade existe ação;  Na legítima defesa existe reação;

3. ESPÉCIES DE LEGÍTIMA DEFESA


LEGÍTIMA DEFESA REAL (OU PRÓPRIA):

É a tradicional defesa legítima contra agressão injusta, atual ou iminente, onde estão presentes
todos os requisitos da sua configuração. A antítese desta é a legítima defesa putativa, que
resulta de uma avaliação equivocada do agente, que incorre em erro.

LEGÍTIMA DEFESA PUTATIVA


Ocorre quando alguém se julga, erroneamente, diante de uma agressão injusta, atual ou
iminente, encontrando-se, portanto, legalmente autorizado a repeli-la. A legítima defesa
putativa supõe que o agente atue na sincera e íntima convicção da necessidade de repelir essa
agressão imaginária. Esta modalidade de legítima defesa só existe na representação do agente,
uma vez que, objetivamente, não existe.

LEGÍTIMA DEFESA AGRESSIVA E DEFENSIVA


A legítima defesa defensiva ocorre quando a reação não constitui fato típico (“A” reage contra
ataque injusto, apenas imobilizando os braços do agressor); de outro lado, é ofensiva ou
agressiva quando a reação configura fato típico (o sujeito reage e causa, v. g., lesão corporal no
agressor).

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Legítima defesa agressiva que atinge o ofensor não autoriza indenização civil.

LEGÍTIMA DEFESA SUCESSIVA


Haverá legítima defesa sucessiva na hipótese de excesso, que permite a defesa legítima do
agressor inicial. Verifica-se quando, por exemplo, o agredido, exercendo a defesa legítima,
excede-se na repulsa. Nessa hipótese, o agressor inicial, contra o qual se realiza a legítima
defesa, tem o direito de defender-se do excesso, já que o agredido, pelo excesso, transforma-se
em agressor injusto.

Outro exemplo: o agressor é contido pela vítima que o imobiliza, amarrando-o. Em seguida o
agredido passa a apertar excessivamente e balançar as cordas para ferir os pulsos do agressor,
que reage, a pontapés. A reação do agressor amarrado é uma legítima defesa que aparece em
face da injustiça gerada pelo excesso na defesa do sujeito que foi primeiramente agredido.

LEGÍTIMA DEFESA RECÍPROCA


É inadmissível legítima defesa contra legítima defesa, ante a impossibilidade de defesa lícita
em relação a ambos os contentores, como é o caso típico do duelo. Somente será possível a
legítima defesa recíproca quando um dos contentores, pelo menos, incorrer em erro,
configurando a legítima defesa putativa.

4. SITUAÇÕES ESPECIAIS

LEGÍTIMA DEFESA REAL COM “ABERRATIO ICTUS”:


Se o agente, diante de uma situação de ataque real, reage contra o agressor, mas infelizmente
acaba atingindo um inocente (um terceiro inocente ou é um terceiro – um atirador de elite, v.g.
– que acaba atingindo a própria vítima), está absolvido no âmbito criminal (agiu em legítima
defesa), mas terá que indenizar no campo civil.

LEGÍTIMA DEFESA CONTRA DIRIMENTE DE CULPABILIDADE:


É possível legítima defesa contra quem pratica uma conduta acobertado por uma dirimente de
culpabilidade, como, por exemplo, coação moral irresistível ou obediência hierárquica. Como a
exclusão da culpabilidade não afasta a sua ilicitude, é perfeitamente possível a reação defensiva
legítima.

Nesse sentido, a maioria da doutrina entende que aquele que é assaltado por um adolescente,
ou agredido por um doente mental que não conhece a ilicitude de seu comportamento, não
necessita submeter-se à agressão. É que, nesses casos, a agressão é injusta, o sujeito é que não
é culpável.

5. PACOTE ANTICRIME

A Lei 13.964/19 (Pacote Anticrime) inseriu no artigo 25 do Código Penal um parágrafo que
dispõe o seguinte: “Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se
também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de
agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes.”

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Segundo Rogério Sanches, a alteração não parece trazer reflexos práticos, servindo, quando
muito, como instrumento para melhor compreensão do instituto da legítima defesa no dia a dia
dos agentes policiais e de segurança pública.

Com efeito, se a justificante só tem cabimento quando observados os requisitos do caput do art.
25, estamos, ao fim e ao cabo, diante de um simples exemplo. Em outras palavras, mesmo antes
da alteração legal, justificaria a sua conduta pela legítima defesa o agente policial ou de
segurança pública que, na situação descrita, usando moderadamente dos meios necessários,
prevenisse injusta agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de
crimes.

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PENA DE MULTA

Multa

(CP) Art. 49 - A pena de multa consiste no pagamento ao fundo penitenciário


da quantia fixada na sentença e calculada em dias-multa. Será, no mínimo,
de 10 (dez) e, no máximo, de 360 (trezentos e sessenta) dias-multa.

§ 1º - O valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser inferior
a um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato,
nem superior a 5 (cinco) vezes esse salário.

§ 2º - O valor da multa será atualizado, quando da execução, pelos


índices de correção monetária.

Critérios especiais da pena de multa

(CP) Art. 60 - Na fixação da pena de multa o juiz deve atender,


principalmente, à situação econômica do réu. (Redação dada pela Lei nº
7.209, de 11.7.1984)

§ 1º - A multa pode ser aumentada até o triplo, se o juiz considerar que,


em virtude da situação econômica do réu, é ineficaz, embora aplicada no
máximo.

De acordo com o artigo 49 do Código Penal, a pena de multa consiste no


pagamento ao fundo penitenciário da quantia fixada na sentença e calculada em
dias-multa. Será, no mínimo, de 10 (dez) e, no máximo, de 360 (trezentos e
sessenta) dias-multa.
Além disso, o valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser inferior a
um trigésimo do maior salário mínimo mensal vigente ao tempo do fato, nem
superior a 5 (cinco) vezes esse salário.
O magistrado, portanto, atentando-se aos limites legais e a capacidade
econômica do réu fixará a pena multa, podendo, ainda, aumentar o valor até o
triplo, caso entenda ser insuficiente e ineficaz diante da situação financeira do
acusado.

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NÃO PAGAMENTO VOUNTÁRIO DA PENA DE MULTA


É importante anotar, por fim, que caso não haja o pagamento da pena de multa,
esta será convertida em dívida ativa da Fazenda Pública, ficando sujeita à ação de
execução fiscal.

Conversão da Multa e revogação

(CP) Art. 51. Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será


executada perante o juiz da execução penal e será considerada dívida de
valor, aplicáveis as normas relativas à dívida ativa da Fazenda Pública,
inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição.

ADAPTAÇÃO AO NOVO SISTEMA DE DIAS-MULTA

(Lei nº 7.209/84) Art 2º - São canceladas, na Parte Especial do Código Penal


e nas leis especiais alcançadas pelo art. 12 do Código Penal, quaisquer
referências a valores de multas, substituindo-se a expressão multa de por
multa.

Exemplo: Estelionato. Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, de quinhentos


mil réis a dez contos de réis.

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PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS

Penas restritivas de direitos

(CP) Art. 43. As penas restritivas de direitos são:

I - prestação pecuniária;

II - perda de bens e valores;

III - limitação de fim de semana.

IV - prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas;

V - interdição temporária de direitos;

VI - limitação de fim de semana.

Prestação Pecuniária

REAIS

Perda de Bens e Valores

DIVISÃO (Classificação)
Prestação de Serviços à
Comunidade

Interdição Temporária de
PESSOAIS
Direitos

Limitação de fim de Semana

 ESPÉCIES:

1. PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA

Art. 45, § 1º: A prestação pecuniária consiste no pagamento em dinheiro à


vítima, a seus dependentes ou a entidade pública ou privada com destinação
social, de importância fixada pelo juiz, não inferior a 1 (um) salário mínimo

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nem superior a 360 (trezentos e sessenta) salários mínimos. O valor pago será
deduzido do montante de eventual condenação em ação de reparação civil,
se coincidentes os beneficiários.

§ 2º No caso do parágrafo anterior, se houver aceitação do beneficiário, a


prestação pecuniária pode consistir em prestação de outra natureza.

2. PERDA DE BENS E VALORES

Art. 45, §3º: A perda de bens e valores pertencentes aos condenados dar-se-
á, ressalvada a legislação especial, em favor do Fundo Penitenciário Nacional,
e seu valor terá como teto – o que for maior – o montante do prejuízo causado
ou do provento obtido pelo agente ou por terceiro, em consequência da
prática do crime.

3. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE

Art. 46. A prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas é


aplicável às condenações superiores a seis meses de privação da liberdade.

§ 1º A prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas consiste


na atribuição de tarefas gratuitas ao condenado.

§ 2º A prestação de serviço à comunidade dar-se-á em entidades


assistenciais, hospitais, escolas, orfanatos e outros estabelecimentos
congêneres, em programas comunitários ou estatais.

§ 3º As tarefas a que se refere o § 1o serão atribuídas conforme as aptidões


do condenado, devendo ser cumpridas à razão de uma hora de tarefa por dia
de condenação, fixadas de modo a não prejudicar a jornada normal de
trabalho.

§ 4o Se a pena substituída for superior a um ano, é facultado ao condenado


cumprir a pena substitutiva em menor tempo (art. 55), nunca inferior à
metade da pena privativa de liberdade fixada.

4. INTERDIÇÃO TEMPORÁRIA DE DIREITOS

Art. 47 - As penas de interdição temporária de direitos são:

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I - proibição do exercício de cargo, função ou atividade pública, bem como


de mandato eletivo;

II - proibição do exercício de profissão, atividade ou ofício que dependam de


habilitação especial, de licença ou autorização do poder público;

III - suspensão de autorização ou de habilitação para dirigir veículo.

IV - proibição de frequentar determinados lugares.

V - proibição de inscrever-se em concurso, avaliação ou exame públicos.

5. LIMITAÇÃO DE FIM DE SEMANA

Art. 48 - A limitação de fim de semana consiste na obrigação de


permanecer, aos sábados e domingos, por 5 (cinco) horas diárias, em casa
de albergado ou outro estabelecimento adequado.

Parágrafo único - Durante a permanência poderão ser ministrados ao


condenado cursos e palestras ou atribuídas atividades educativas.

 CARACTERÍSTICAS DAS PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS:

As penas restritivas de direitos ostentam duas características, a saber:


AUTONOMIA e SUBSTITUTIVIDADE. Significa dizer que, em regra, elas não
podem ser cumuladas com as penas privativas de liberdade.

Em verdade, primeiro o juiz fixa a pena privativa de liberdade e, depois, na mesma


sentença, verifica se existe a possibilidade de substituí-la pela pena restritiva de
direitos.

 REQUISITOS PARA SUBSTITUIÇÃO DA PENA:

Podemos esquematizar os requisitos elencados no artigo 44 do Código Penal da


seguinte forma: objetivos (dizem respeito ao fato praticado) e subjetivos
(relacionados ao agente).

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REQUISITOS REQUISITOS
OBJETIVOS SUBJETIVOS

• Pena não superior a • Não ser o condenado


4 anos; reincidente em crime
doloso;*
CRIME DOLOSO
• Crime cometido, sem • A substituição seja
violência ou grave indicada e suficiente;
ameaça à pessoa. (Art. 44, § 3º, CP)

• Qualquer pena ×
CRIME CULPOSO
aplicada.

ATENÇÃO: O reincidente em crime culposo não tem impedimento para receber


uma pena restritiva de direitos.

ATENÇÃO: Mesmo sendo reincidente (em crime doloso), o juiz poderá aplicar a
substituição, desde que, em face de condenação anterior, a medida seja
socialmente recomendável e a reincidência não se tenha operado em virtude da
prática do mesmo crime.

ATENÇÃO: na condenação igual ou inferior a um ano, a substituição pode ser


feita por multa ou por uma pena restritiva de direitos.

ATENÇÃO: na condenação superior a um ano, a pena privativa de liberdade pode


ser substituída por uma pena restritivas de direitos e multa ou por duas penas
restritivas de direitos.

NOVIDADE: Lei nº 14.071, de 13 de outubro de 2020 - “Art. 312-B. Aos crimes


previstos no § 3º do art. 302 e no § 2º do art. 303 deste Código não se aplica o
disposto no inciso I do caput do art. 44 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro
de 1940 (Código Penal).”

 POSSIBILIDADE DE SUBSTITUIÇÃO DA PENA – LEI DE DROGAS

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- Jurisprudência (STF): Foi reconhecida a inconstitucionalidade da vedação


prevista na parte final do § 4º do art. 33 da Lei de Drogas. Logo, admite-se a
substituição da pena privativa de liberdade por restritivas de direitos aos
condenados pelo crime de tráfico de drogas, desde que preenchidos os requisitos
do art. 44 do Código Penal.

A Resolução nº 5 de 2012 do Senado Federal suspendeu (nos termos do art. 52,


X, da Constituição Federal) a execução da expressão “vedada a conversão em
penas restritivas de direitos”, uma vez que foi declarada inconstitucional por
decisão definitiva do STF no HC 97.256/RS.

 IMPOSSIBILIDADE DE SUBSTITUIÇÃO DA PENA – LEI MARIA DA PENHA

- Súmula 588, STJ: A prática de crime ou contravenção penal contra a mulher


com violência ou grave ameaça no ambiente doméstico impossibilita a
substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos.

 CONVERSÃO

Explica Bitencourt que “ao adotar as penas restritivas de direitos, como


substitutivas da pena de prisão, era indispensável dotá-las de COERCIBILIDADE.
E para isso nada melhor do que a previsão da possibilidade de convertê-las em
pena privativa de liberdade. A finalidade da conversão, em outras palavras, é
garantir o êxito das penas substitutivas.”

- DESCUMPRIMENTO INJUSTIFICADO DA RESTRIÇÃO:

Art. 44, § 4º: A pena restritiva de direitos converte-se em privativa de


liberdade quando ocorrer o descumprimento injustificado da restrição
imposta. No cálculo da pena privativa de liberdade a executar será deduzido
o tempo cumprido da pena restritiva de direitos, respeitado o saldo mínimo
de trinta dias de detenção ou reclusão.

- SUPERVENIÊNCIA DE CONDENAÇÃO POR OUTRO CRIME:

Art. 44, § 5º: Sobrevindo condenação a pena privativa de liberdade, por outro
crime, o juiz da execução penal decidirá sobre a conversão, podendo deixar
de aplicá-la se for possível ao condenado cumprir a pena substitutiva
anterior.

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ESTADO DE NECESSIDADE

(CP) Art. 24 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de
perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito
próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se.

§ 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o
perigo.

§ 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser
reduzida de um a dois terços.

1. SITUAÇÕES SEMELHANTES

(CP) Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: (Vide ADPF 54)

Aborto necessário

I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;

Aborto no caso de gravidez resultante de estupro


II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante
ou, quando incapaz, de seu representante legal.

Constrangimento ilegal

(CP) Art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe
haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a
lei permite, ou a fazer o que ela não manda:

Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa. [...]

§ 3º - Não se compreendem na disposição deste artigo:

I - a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu


representante legal, se justificada por iminente perigo de vida; [...]

2. ESTADO DE NECESSIDADE

De acordo com a doutrina, o estado de necessidade caracteriza-se pela colisão de interesses


juridicamente protegidos, devendo um deles ser sacrificado em prol do interesse social.

Como salienta Heleno Fragoso: “O que justifica a ação é a necessidade que impõe o sacrifício de
um bem em situação de conflito ou colisão, diante do qual o ordenamento jurídico permite o
sacrifício do bem de menor valor”, desde que imprescindível, acrescentamos, para salvaguarda
do bem preservado.

Exemplo clássico: dois náufragos disputam a mesma tábua, que não suporta mais de um; uma
vida terá de ser sacrificada para salvar a outra. Em tais hipóteses, o Direito, reconhecendo sua

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impotência para salvar os bens em perigo, admite que um deles seja sacrificado em benefício
do outro, aguardando a solução natural, para proclamá-la legítima.

Outro exemplo: “furto famélico”.

3. REQUISITOS

Requisitos objetivos:
1º - existência de PERIGO ATUAL ou IMINENTE;
- probabilidade de dano ao bem jurídico, presente ou preste a se tornar presente.

2º - direito PRÓPRIO ou ALHEIO;


- direito alheio diz respeito a direitos de terceiras pessoas.

3º - NÃO TER O AGENTE PROVOCADO O PERIGO DOLOSAMENTE;


- quem provoca o perigo (“por sua vontade”) não pode invocar estado de necessidade.

4º - INEVITABILIDADE DO COMPORTAMENTO LESIVO;


- é preciso que o agente não tenha outro meio de salvar o bem jurídico.

5º - PROPORCIONALIDADE;
- Há que se existir proporcionalidade entre o bem jurídico sacrificado e o protegido. Não
se exige proporcionalidade absoluta, mas não se pode perder de vista o equilíbrio.

Requisito subjetivo:
6º - ASPECTO SUBJETIVO
- Consistem em o agente saber (ter consciência de ) que está agindo “para” salvar um
direito próprio ou alheio.

4. ESPÉCIES

 ESTADO DE NECESSIDADE AGRESSIVO E ESTADO DE NECESSIDADE DEFENSIVO

No estado de necessidade agressivo, o agente atinge um bem jurídico (coisa ou pessoa) de um


inocente, isto é, de quem não deu origem ao perigo, de quem de nenhuma maneira é
responsável pela fonte de perigo (há, portanto, responsabilidade civil);

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Por outro lado, no estado de necessidade defensivo, o agente afeta interesses de quem causou
ou contribuiu para a situação de perigo, é, de alguma maneira, responsável pela fonte do perigo
(não há indenização civil).

 ESTADO DE NECESSIDADE PRÓPRIO E DE TERCEIRO

No estado de necessidade próprio, a proteção do direito é do próprio o agente. Já no estado de


necessidade de terceiro, a proteção é de direito terceiro.

 ESTADO DE NECESSIDADE REAL e PUTATIVO

O estado de necessidade real está disposto no art. 24 do Código Penal, ou seja, existe uma real
situação de perigo.

Por outro lado, no estado de necessidade putativo, o agente supõe a existência da situação real
de perigo ou erra sobre os limites da excludente, imaginando que pratica um fato lícito.

5. TEORIAS

 TEORIA UNITÁRIA

Para a teoria unitária, adotada pelo nosso Código Penal, todo estado de necessidade é
justificante, ou seja, tem a finalidade de eliminar a ilicitude do fato típico praticado pelo agente.

É importante anotar que o art. 24 do Código Penal não considera expressamente o balanço de
bens, exigindo-se apenas o critério da razoabilidade.

 TEORIA DIFERENCIADORA

A teoria diferenciadora, por sua vez, traça uma distinção entre o estado de necessidade
justificante (que afasta a ilicitude) e o estado de necessidade exculpante (que elimina a
culpabildade), considerando-se os bens em conflito.

Se o bem jurídico protegido pelo agente for de valor superior ao bem sacrificado haverá
excludente de ilicitude. Agora, caso o bem protegido seja de valor inferior ou igual ao bem
sacrificado poderá haver a exclusão da culpabilidade.

Exemplo: Suponhamos que TÍCIO, para salvar sua vida em risco, sacrifica o patrimônio de CAIO.
Para as duas teorias TÍCIO pode invocar estado de necessidade, excluindo a ilicitude do seu
comportamento.

Imaginemos situação inversa: TÍCIO, para salvar seu patrimônio em perigo, mata CAIO. Para a
teoria diferenciadora, pode o caso configurar causa de exclusão da culpabilidade (estado de
necessidade exculpante); já para os adeptos da teoria unitária, TÍCIO praticou crime, incidindo,
conforme as circunstâncias causa de diminuição de pena.

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FASES DE REALIZAÇÃO DO FATO TÍPICO - ITER CRIMINIS

A realização de qualquer fato humano delitivo percorre um caminho, mais ou menos longo, de
acordo com cada caso. Esse caminho, processo ou sucessão de etapas recebe o nome de iter
criminis.

A partir dos atos preparatórios existe responsabilidade penal, desde que o fato constitua um
crime autônomo.

Exemplo: O agente, com a intenção de matar a vítima (cogitação), adquiri um revolver e se posta
de emboscada a sua espera (atos preparatórios), atirando contra ela (execução) e produzindo
a morte (consumação).

NÃO PUNIBILIDADE DA COGITAÇÃO E DOS ATOS PRETARATÓRIOS


Regra geral é que a cogitação e os atos preparatórios não sejam puníveis.

Contudo, em determinadas situações, o legislador entendeu por bem punir de forma autônoma
algumas condutas que poderiam ser consideradas preparatórias.

Exemplo: Terrorismo (Lei nº 13.260/2016):

Art. 2º O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste
artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião,
quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a
perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

§ 1º São atos de terrorismo:

I - usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases
tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de
causar danos ou promover destruição em massa; [...]

Art. 5º Realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar


tal delito:

Pena - a correspondente ao delito consumado, diminuída de um quarto até a metade.

DIFERENÇA ENTRE ATOS PREPARATÓRIOS E EXECUÇÃO


Teorias sobre a diferenciação entre atos preparatórios e executórios:

a) TEORIA DA HOSTILIDADE AO BEM JURÍDICO: os atos de execução são os que expõem o


bem jurídico a perigo. Foi defendida pelo ilustre jurista Nelson Hungria.

b) TEORIA SUBJETIVA: o início da execução não é compreendido a partir da conduta descrita na


norma penal incriminadora, mas sim a partir do elemento subjetivo do sujeito ativo. A maior

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crítica feita a essa teoria diz respeito à antecipação que haveria em muitos casos, tornando a
conduta punível antes de o sujeito ter efetivamente iniciado a execução do crime. Os limites
entre a cogitação e a preparação e a própria execução ficariam confusos, gerando insegurança
na aplicação da lei penal.

c) TEORIA OBJETIVO-FORMAL OU LÓGICO-FORMAL: ato executório é aquele que inicia a


realização do núcleo do tipo. Portanto, é a realização do núcleo do tipo que configura o marco
de início da execução e, por conseguinte, do marco a partir do qual a conduta passa a ser
punível.

d) TEORIA OBJETIVO-INDIVIDUAL, MISTA OU CRITÉRIO COMPOSITIVO: ato executório é aquele


que se realiza no momento imediatamente anterior ao início dos atos executórios, de acordo
com o plano do agente. Esta teoria se baseia no fato de que a execução de cada delito pode
variar muito, desde uma sequência complexa de atos ou até um comportamento abrupto e
repentino. Por isso, a lei não pode descrever todos os modos possíveis de execução de cada
infração penal, de modo que a forma dos atos executórios vai variar conforme o plano concreto
do autor. Na jurisprudência, entretanto, parece prevalecer, atualmente, a teoria objetivo-
individual.

Exemplo: sobre a distinção entre ato preparatório e ato executivo, o Superior Tribunal de
Justiça já assentou que tal diferenciação:

[...] “8. A distinção entre atos preparatórios e executórios é tormentosa e exige uma
conjugação de critérios, tendo como ponto de partida a teoria objetivo-formal, de Beling,
associada a outros parâmetros subjetivos e objetivos (como a complementação sob a
concepção natural, proposta por Hans Frank), para que, consoante o tirocínio do julgador,
seja possível definir se, no caso concreto, foram exteriorizados atos tão próximos do início
do tipo que, conforme o plano do autor, colocaram em risco o bem jurídico tutelado.

9. Tal solução é necessária para se distinguir o começo da execução do crime, descrito no


art. 14, II, do CP e o começo de execução da ação típica. Quando o agente penetra no
verbo nuclear, sem dúvida, pratica atos executórios. No entanto, comportamentos
periféricos que, conforme o plano do autor, uma vez externados, evidenciam o risco
relevante ao bem jurídico tutelado também caracterizam início da execução do crime.

10. Não houve violação do art. 14, II, do CP, pois os atos externados ultrapassaram meros
atos de cogitação ou de preparação e expuseram a perigo real o bem jurídico protegido
pela norma penal, inclusive com a execução da qualificadora do furto. Os recorrentes,
mediante complexa logística, escavaram por dois meses um túnel de 70,30 metros entre
o prédio que adquiriram e o cofre da instituição bancária, cessando a empreitada, em
decorrência de prisão em flagrante, quando estavam a 12,80 metros do ponto externo do
banco, contexto que evidencia, de forma segura, a prática de atos executórios.” [...]

(REsp 1252770/RS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em
24/03/2015, DJe 26/03/2015)

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CONSUMAÇÃO
De acordo com Rogério Greco:

a) MATERIAIS e CULPOSOS: quando se verifica a produção do resultado naturalístico, ou seja,


quando há a modificação no mundo exterior. Ex.: homicídio (art. 121, CP);

b) OMISSIVOS PRÓPRIOS: com a abstenção do comportamento imposto ao agente. Ex.: omissão


de socorro (art. 135, CP);

c) META CONDUTA: com o simples comportamento previsto no tipo, não se exigindo qualquer
resultado naturalístico. Ex.: violação de domicílio (art. 150, CP);

d) FORMAIS: com a prática da conduta descrita no núcleo do tipo, independentemente da


obtenção do resultado esperado pelo agente, que, caso aconteça, será considerado como mero
exaurimento do crime. Ex.: extorção mediante sequestro (art. 159, CP);

e) QUALIFICADOS PELO RESULTADO: com a ocorrência do resultado agravador. Ex.: lesão


corporal qualificada pelo resultado aborto (art. 129, §2º, V, CP);

f) PERMANENTES: enquanto durar a permanência, uma vez que o crime permanente é aquele
cuja consumação se prolonga, perpetua-se no tempo. Ex.: sequestro e cárcere privado (art. 148,
CP).

EXAURIMENTO
Na doutrina, prevalece que o exaurimento não faz parte do iter criminis, mas pode influir, a
depender do caso concreto, na fixação da pena-base (Art. 59, CP) ou funcionar como
qualificadora ou causa de aumento.

Exemplo: corrupção passiva - art. 317, §1º (majorante); resistência - art. 329, §1º (qualificadora).

Corrupção passiva

(CP) Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda
que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou
aceitar promessa de tal vantagem:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

§ 1º - A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da vantagem ou promessa,


o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo
dever funcional.

Resistência

(CP) Art. 329 - Opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a
funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio:

Pena - detenção, de dois meses a dois anos.

§ 1º - Se o ato, em razão da resistência, não se executa:

Pena - reclusão, de um a três anos.

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AÇÃO PENAL

A ação penal é o direito que tem o acusador (público ou privado) de, mediante o
devido processo legal, provocar o Estado a dizer o direito no caso concreto,
solucionando, desse modo, conflito de interesses surgido no meio social. É de
natureza instrumental, possibilitando a persecução penal em juízo.

1. AÇÃO PÚBLICO E DE INICIATIVA PRIVADA

Ação pública e de iniciativa privada

Art. 100 - A ação penal é pública, salvo quando a lei expressamente a


declara privativa do ofendido.

§ 1º - A ação pública é promovida pelo Ministério Público, dependendo,


quando a lei o exige, de representação do ofendido ou de requisição do
Ministro da Justiça.

§ 2º - A ação de iniciativa privada é promovida mediante queixa do


ofendido ou de quem tenha qualidade para representá-lo.

§ 3º - A ação de iniciativa privada pode intentar-se nos crimes de ação


pública, se o Ministério Público não oferece denúncia no prazo legal.

§ 4º - No caso de morte do ofendido ou de ter sido declarado ausente


por decisão judicial, o direito de oferecer queixa ou de prosseguir na ação
passa ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão.

A ação penal no Brasil pode ser (a) pública ou (b) privada.

Ação penal pública é promovida pelo Ministério Público, por meio da denúncia,
bifurcando-se em (a) incondicionada e (b) condicionada (à representação da
vítima ou requisição do Ministro da Justiça).

Ação penal de iniciativa privada, por sua vez, é promovida pela vítima (ou seu
representante legal) por meio de queixa-crime, subdividindo-se em:

a) exclusivamente privada: admite sucessão em caso de falecimento do seu


titular;

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b) personalíssima: não admite sucessão em caso de falecimento de seu titular; e

c) subsidiária da pública: possível em caso de inércia do Ministério Público em


crime perseguido mediante ação penal pública. Esta última é chamada de ação
penal supletiva.

 Da sucessão (§4º): nos casos em que cabe sucessão (art. 24, §1º e art. 31,
ambos do CPP), esta deverá obedecer a seguinte ordem de preferência: cônjuge
ou companheiro, ascendente, descendente ou irmão – “CCADI”.

 Como descobrir se a ação penal é pública ou privada? O art. 100 do CP


alerta que a regra é perseguir a pena de um crime mediante ação penal pública
incondicionada, salvo quando a lei expressamente a declara privativa do ofendido
ou condiciona a ação do Ministério Público à prévia representação do ofendido
ou de requisição do Ministro da Justiça.

 Existe no Brasil ação penal pública subsidiária da pública? Parcela da


doutrina enxerga no art. 2º, §2º, da Lei 201/67 um exemplo.

2. AÇÃO PENAL NO CRIME COMPLEXO

Art. 101 - Quando a lei considera como elemento ou circunstâncias do tipo


legal fatos que, por si mesmos, constituem crimes, cabe ação pública em
relação àquele, desde que, em relação a qualquer destes, se deva proceder por
iniciativa do Ministério Público.

Crime complexo representa a simbiose de dois tipos legais, nem sempre


perseguidos pela mesma espécie de ação penal, por exemplo: roubo é a soma do
furto mais lesão corporal, ameaça ou constrangimento ilegal.

Em resumo, explica o art. 101 do CP que se um dos crimes fundidos for


perseguido mediante ação penal pública, todo o crime complexo também o será.

A doutrina não vislumbra utilidade em tal artigo, uma vez que o CP adotou o
sistema de especificar claramente quando o crime deve ser apurado mediante
ação penal de iniciativa privada ou pública condicionada, lembrando que no
silêncio será pública incondicionada.

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3. IRRETRATABILIDADE DA REPRESENTAÇÃO

Art. 102 - A representação será irretratável depois de oferecida a denúncia.

Este artigo, lido a contrario sensu, permite a retratação da representação até o


oferecimento da denúncia.

Todavia, respeitado o prazo decadencial (em regra, 6 meses), a doutrina


majoritária sustenta ser possível a retratação da retratação, devolvendo-se ao
titular da ação penal pública a condição (específica) da ação antes retirada.

É dizer: a vítima ou seu representante legal, que ofereceu tempestiva


representação, retratando-se antes de ser oferecida a denúncia, pode voltar atrás
e representar novamente, desde que dentro do prazo fatal.

 ATENÇÃO: a Lei n. 11.340/06 (violência doméstica e familiar contra a mulher),


no seu art. 16, admite a retratação da representação (equivocadamente chamada
de renúncia) até o recebimento da denúncia, excepcionando, assim, a regra
trazida pelo art. 102 do CP (e art. 25 do CPP). Deve ser observado, ainda, que a
possibilidade de retratação não se aplica à lesão corporal, ainda que de natureza
leve, pois o STF, no julgamento da ADI 4424, em interpretação conforme do art.
16, concluiu pela natureza pública incondicionada da ação penal neste crime.

4. DECADÊNCIA DO DIREITO DE QUEIXA OU DE REPRESENTAÇÃO

Decadência do direito de queixa ou de representação

Art. 103 - Salvo disposição expressa em contrário, o ofendido decai do direito


de queixa ou de representação se não o exerce dentro do prazo de 6 (seis)
meses, contado do dia em que veio a saber quem é o autor do crime, ou, no
caso do § 3º do art. 100 deste Código, do dia em que se esgota o prazo para
oferecimento da denúncia.

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AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL PRIVADA


CONDICIONADA À SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA
REPRESENTAÇÃO E
AÇÃO PENAL PRIVADA
A queixa ou a representação tem A queixa subsidiária começa a ser
como termo inicial o dia em que se contada do dia em que se esgota o
conhece a autoria. prazo para o oferecimento da
denúncia.
Se decorrer o prazo de 6 meses, Se decorrer o prazo de 6 meses,
ocorre a decadência extinguindo a ocorre decadência, porém sem a
punibilidade. extinção da punibilidade, pois o MP
continua legitimado para ajuizar a
ação penal.

5. RENÚNCIA EXPRESSA OU TÁCITA DO DIREITO DE QUEIXA

Renúncia expressa ou tácita do direito de queixa

Art. 104 - O direito de queixa não pode ser exercido quando renunciado
expressa ou tacitamente.

Parágrafo único - Importa renúncia tácita ao direito de queixa a prática de


ato incompatível com a vontade de exercê-lo; não a implica, todavia, o fato
de receber o ofendido a indenização do dano causado pelo crime.

6. PERDÃO DO OFENDIDO

Perdão do ofendido

Art. 105 - O perdão do ofendido, nos crimes em que somente se procede


mediante queixa, obsta ao prosseguimento da ação.

Art. 106 - O perdão, no processo ou fora dele, expresso ou tácito:

I - se concedido a qualquer dos querelados, a todos aproveita;

II - se concedido por um dos ofendidos, não prejudica o direito dos outros;

III - se o querelado o recusa, não produz efeito.

§ 1º - Perdão tácito é o que resulta da prática de ato incompatível com a


vontade de prosseguir na ação.

§ 2º - Não é admissível o perdão depois que passa em julgado a sentença


condenatória.

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RENÚNCIA PERDÃO DO OFENDIDO

Decorrente do princípio da Decorrente do princípio da


oportunidade disponibilidade
Ato unilateral Ato bilateral
Cabível, em regra, em AP Privada Cabível apenas na AP Privada
(exceção – Lei 9.099/95, abrangendo a
AP Pública condicionada)
Obsta a formação do processo penal Pressupõe processo penal em curso
É sempre extraprocessual Pode ser extraprocessual ou
processual

7. PRINCÍPIOS DA AÇÃO PENAL

AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL DE


INCONDICIONADA CONDICIONADA INICIATIVA PRIVADA

OFICIALIDADE: o Estado OFICIALIDADE: o Estado


delega ao Ministério delega ao Ministério
Público a atribuição Público a atribuição
privativa para a privativa para a
propositura da ação propositura da ação
penal, que passa a agir em penal, que passa a agir em
seu nome. seu nome.

AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL DE


INCONDICIONADA CONDICIONADA INICIATIVA PRIVADA

OBRIGATORIEDADE: OBRIGATORIEDADE: OPORTUNIDADE: a


presentes os requisitos presentes os requisitos propositura da ação fica a
previstos em lei (indícios de previstos em lei (indícios de cargo da vontade da
autoria e prova da autoria e prova da vítima, de seu
materialidade delitiva), a materialidade delitiva), e representante legal ou
ação penal deve ser desde que haja sucessor.
proposta pelo Ministério representação da vítima ou
Público. requisição do Ministro da
Justiça, a ação penal deve
ser proposta pelo
Ministério Público.

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AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL DE


INCONDICIONADA CONDICIONADA INICIATIVA PRIVADA

INDISPONIBILIDADE: o INDISPONIBILIDADE: o DISPONIBILIDADE: o


Ministério Público não Ministério Público não titular da ação penal pode
pode desistir da ação penal pode desistir da ação penal desistir da ação penal em
já proposta. já proposta. andamento.

(CPP) Art. 42. O Ministério Público não poderá desistir da ação penal.

AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL DE


INCONDICIONADA CONDICIONADA INICIATIVA PRIVADA

INDIVISIBILIDADE: o INDIVISIBILIDADE: o INDIVISIBILIDADE: a


Ministério Público deve Ministério Público deve vítima, se representante
propor ação penal em face propor ação penal em face legal ou sucessor, deve
de todos aqueles sobre os de todos aqueles sobre os propor ação penal em
quais recaiam os requisitos quais recaiam os requisitos face de todos aqueles
legais. legais. sobre os quais recaiam os
requisitos legais.

AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL PÚBLICA AÇÃO PENAL DE


INCONDICIONADA CONDICIONADA INICIATIVA PRIVADA

INTRANSCENDÊNCIA: a INTRANSCENDÊNCIA: a INTRANSCENDÊNCIA: a


ação penal apenas pode ser ação penal apenas pode ser ação penal apenas pode ser
proposta em face daquele proposta em face daquele proposta em face daquele
que se acredita ter que se acredita ter que se acredita ter
praticado a infração penal. praticado a infração penal. praticado a infração penal.

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APLICAÇÃO DA PENA

1. DAS ESPÉCIES DE PENA

(CP) Art. 32 - As penas são:


I - privativas de liberdade;
II - restritivas de direitos;
III - de multa.

2. SISTEMA TRIFÁSICO

Cálculo da pena
Art. 68 - A pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art. 59 deste
Código; em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e
agravantes; por último, as causas de diminuição e de aumento.

Fixação da pena
Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta
social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e
conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima,
estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e
prevenção do crime:

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APLICAÇÃO DA PENA

CRITÉRIO TRIFÁSICO (Nelson Hungria)

Cálculo da pena

(CP) Art. 68 - A pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art. 59


deste Código; em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e
agravantes; por último, as causas de diminuição e de aumento.

1º Fase Analisa as circunstâncias judiciais Estabelece a


elencadas no art. 59, CP; PENA-BASE

Analisa as circunstâncias agravantes Estabelece a


2º Fase (art. 61 a 62, CP) e as circunstâncias PENA INTERMEDIÁRIA
atenuantes (art. 65 e 66, CP); ou
PENA PROVISÓRIA

3º Fase Analisa as causas de diminuição e Estabelece, por fim, a


aumento da pena; PENA DEFINITIVA

 PENA-BASE: Circunstâncias judiciais

Fixação da pena

Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta


social, à Personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e
conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima,
estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e
prevenção do crime: [...]

1. Culpabilidade
É um plus de reprovação da conduta, ou seja, mensurar se o grau do dolo ou da
culpa do agente extrapolam os limites do tipo penal. Essa culpabilidade é
sinônimo de grau de reprovação.

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Cuidado para não confundir: é diferente da culpabilidade substrato do crime


– É o juízo de reprovação que recai sobre a conduta do agente e é composta
pelos seguintes elementos: a) imputabilidade; b) potencial consciência da
Ilicitude; c) exigibilidade de Conduta Diversa;

2. Antecedentes
Possui maus antecedentes o agente capaz que possui contra si uma sentença
penal condenatória transitada em julgado.

Isso é baseado no princípio da não-culpabilidade (art. 5º, LVII, CF) e no princípio


da presunção de inocência (art. 8º, Item 2, CADH – Convenção Americana dos
Direitos Humanos/Pacto de San José da Costa Rica).

- Súmula 636, STJ: A folha de antecedentes criminais é documento suficiente a


comprovar os maus antecedentes e a reincidência.

- Súmula 444, STJ: É vedada a utilização de inquéritos policiais e ações penais


em curso para agravar a pena-base.

A partir disso, podemos concluir que:

- Prescrição da pretensão punitiva não gera maus antecedentes;


- Prescrição da pretensão executória gera maus antecedentes;
- Transação Penal (aceita/homologada) não gera maus antecedentes (art. 76, Lei
9.099/95);
- Suspensão condicional do processo não gera maus antecedentes (art. 89, Lei
9.099/95);
- Sentença concessiva de perdão judicial não gera maus antecedentes; (art. 120,
CP e Súmula 18, STJ).

Atenção:
→ Todo reincidente tem maus antecedentes.
→ Nem todos aqueles que possuem maus antecedentes são
reincidentes.

Trânsito em Extinção da Até 5 anos Após 5 anos


Julgado Pena (reincidente) (maus antecedentes)

- Jurisprudência (STJ): Os atos infracionais não podem ser considerados maus


antecedentes para a elevação da pena-base, tampouco para a reincidência.

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- Jurisprudência (STJ): Havendo diversas condenações anteriores com trânsito


em julgado, não há bis in idem se uma for considerada como maus antecedentes
e a outra como reincidência.

3. Conduta Social
É o comportamento do agente no seio familiar, social, comunitário ou
profissional.

- Jurisprudência (STF): Condenações anteriores transitadas em julgado não


podem ser utilizadas como conduta social desfavorável. A circunstância judicial
"conduta social", prevista no art. 59 do Código Penal, representa o
comportamento do agente no meio familiar, no ambiente de trabalho e no
relacionamento com outros indivíduos. Os antecedentes sociais do réu não se
confundem com os seus antecedentes criminais. São circunstâncias distintas, com
regramentos próprios. Assim, não se mostra correto o magistrado utilizar as
condenações anteriores transitadas em julgado como "conduta social
desfavorável".

- Jurisprudência (STJ): o uso de entorpecente pelo réu, por si só, não pode ser
considerado como má-conduta social para o aumento da pena-base.

4. Personalidade do Agente
É a índole, o caráter do sujeito.

- Jurisprudência (STJ): Para valoração da personalidade do agente é


dispensável a existência de laudo técnico confeccionado por especialistas nos
ramos da psiquiatria ou da psicologia.

5. Motivos
É o porquê da ação delituosa, ou seja, o que levou o agente a agir.

Atenção: o motivo fútil (insignificante, desproporcional) e o motivo torpe


(desprezível, repudiado moralmente) são circunstâncias agravantes e não podem
ser valorados negativamente pelo juiz na primeira fase da dosimetria, sob pena
de constituir bis in idem.

6. Circunstâncias
É o “modus operandi” empregado na prática do delito.

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- Jurisprudência (STJ): A natureza e a quantidade da droga não podem ser


utilizadas simultaneamente para justificar o aumento da pena-base e afastar a
redução prevista no §4º do art. 33 da Lei 11.343/06, sob pena de caracterizar bis
in idem .

7. Consequências
É o resultado da pratica delituosa, isto é, o resultado levando em conta para a
vítima, para a família da vítima e para a sociedade.

- Jurisprudência (STF): Elevados custos da investigação e enriquecimento do réu


não são argumentos para aumentar a pena-base. Os elevados custos da atuação
estatal para apuração da conduta criminosa e o enriquecimento ilícito obtido pelo
agente não constituem motivação idônea para a valoração negativa do vetor
"consequências do crime" na 1ª fase da dosimetria da pena. Em outras palavras,
o fato de o Estado ter gasto muitos recursos para investigar os crimes (no caso,
era uma grande operação policial) e de o réu ter obtido enriquecimento ilícito
com as práticas delituosas não servem como motivo para aumentar a pena-base.

- Jurisprudência (STJ): O expressivo prejuízo causado à vítima justifica o


aumento da pena-base, em razão das consequências do crime.

- Jurisprudência (STJ): Nos crimes tributários, o montante do tributo sonegado,


quando expressivo, é motivo idôneo para o aumento da pena-base, tendo em
vista a valoração negativa das consequências do crime.

8. Comportamento da Vítima
É verificar, na pratica do delito, se a vítima provocou ou negligenciou para que o
crime ocorresse.

- Jurisprudência (STJ): O comportamento da vítima em contribuir ou não para


a prática do delito não acarreta o aumento da pena-base, pois a circunstância
judicial é neutra e não pode ser utilizada em prejuízo do réu.

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 PENA PROVISÓRIA / INTERMEDIÁRIA: Circunstâncias agravantes /


atenuantes

Agravantes (arts. 61 – 64) Atenuantes (arts. 65 – 66)

- O rol é taxativo; - O artigo 66 permite a atenuação


por outra circunstância não prevista
- Agravam a pena, salvo quando no artigo 65;
forem qualificadoras ou causas de
aumento de pena; - Atenuam a pena, salvo quando
figurarem como causas de diminuição;
- Não podem levar a aplicação da
pena além do limite máximo; - Não podem levar a aplicação
aquém do limite mínimo (Sumula
- Não se aplicam quando a 231, STJ);
atenuante for preponderante;
- Não se aplicam quanto o agravante
for preponderante (art. 67, CP).

- Jurisprudência (STJ): diante do reconhecimento de mais de uma qualificadora,


somente uma enseja o tipo qualificado, enquanto as outras devem ser
consideradas circunstâncias agravantes, na hipótese de previsão legal, ou, de
forma residual, como circunstância judicial do art. 59 do Código Penal.

REINCIDÊNCIA
Reincidir significa incidir novamente, já no Direito Penal significa repetir o fato
punível.

1º Crime Trânsito em julgado Fim do


Fim do Prazo de 5
de sentença Cumprimento /
anos
condenatória Extinção da pena

Ficta Real

Portador de
Reincidência Maus
antecedentes

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Os efeitos da reincidência são temporários (sistema da temporariedade). De


acordo com Paulo César Busato, a passagem no tempo de cinco anos sem prática
de novo crime, por outro lado, representa um período em que, ao menos,
teoricamente, o sujeito demonstra estar socialmente reintegrado, pelo que seu
passado negativo é desprezado.

GERA reincidência:

Se a pessoa é E depois da Qual será a


condenada condenação definitiva consequência?
definitivamente por pratica novo (a)

Crime (Brasil ou Crime Reincidência


exterior)
Crime (Brasil ou Contravenção Reincidência
exterior)
Contravenção (Brasil) Contravenção Reincidência
Contravenção (Brasil) Crime Não há reincidência
Contravenção Crime ou contravenção Não há reincidência
(estrangeiro)

NÃO GERA reincidência:

 Crimes militares próprios;

São aqueles previstos apenas no código penal militar.

Exemplo: embriaguez em serviço (art. 202, CPM); dormir em serviço (art. 203,
CPM); desrespeito (art. 160, CPM; cobardia (art. 363, CPM); fuga na presença de
inimigo (art. 365, CPM);

Obs.: homicídio, calúnia, lesão corporal e peculato, por exemplo, são crimes
militares impróprios, logo geram reincidência.

Segundo Heleno Fragoso, para efeitos de excluir a reincidência, devem ser


considerados apenas os crimes propriamente militares, pois estes têm índole
inteiramente diversa dos previstos na legislação comum, atentando contra a
disciplina e a hierarquia.

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 Crimes políticos;

É aquele de motivação política que lesione (lesionar) ou ameaça a estrutura


político-social vigente no país, isto é, atentam contra a ordem constitucional ou
o Estado Democrático.

Exemplo: art. 2° da Lei 7.170/83 (Lei de Segurança Nacional).

ATENÇÃO: Se a pessoa é condenada definitivamente por crime militar próprio e


depois da condenação definitiva pratica novo crime militar próprio, será
considerado reincidente de acordo com artigo 71 do Código Penal Militar.

MENORIDADE
Ser o agente menor de 21 (vinte e um) anos na data do fato.

Tal circunstância atenuante também interfere na contagem dos prazos


prescricionais, reduzindo-os de metade (art. 115, CP).

- Súmula 74, STJ: Para efeitos penais, o reconhecimento da menoridade do réu


requer prova por documento hábil.

- Jurisprudência (STJ): A menoridade é a circunstância que prepondera sobre


qualquer agravante, pois o agente nesta etapa (entre 18 e 21 anos) conta com a
personalidade em desenvolvimento.

SENILIDADE
Ser o agente maior de 70 (setenta) anos na data da sentença condenatória.

- Jurisprudência (STJ / STF): deve o agente ser maior de 70 anos até a decisão
que primeiro o condena (sentença condenatória ou acordão condenatório), não
basta ser acordão confirmatório.

CONFISSÃO ESPONTÂNEA
- Súmula 545, STJ: Quando a confissão for utilizada para a formação do
convencimento do julgador, o réu fará jus à atenuante prevista no artigo 65, III,
d, do Código Penal.

- Súmula 630, STJ: A incidência da atenuante da confissão espontânea no crime


de tráfico ilícito de entorpecentes exige o reconhecimento da traficância pelo

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acusado, não bastando a mera admissão da posse ou propriedade para uso


próprio.

- Jurisprudência (STJ): é possível, na segunda fase do cálculo da pena, a


compensação da agravante da reincidência com a atenuante da confissão
espontânea.

- Jurisprudência (STJ): nos casos em que há múltipla reincidência é inviável a


compensação integral entre a reincidência e a confissão espontânea.

 PENA DEFINITIVA: Causas de aumento / diminuição de pena

AGRAVANTES E ATENUANTES CAUSAS DE AUMENTO E DE


DIMINUIÇÃO DA PENA

- São valoradas na segunda fase do - São valoradas na terceira fase do


cálculo da pena; cálculo da pena;

- O quantum está previsto em lei, em


- O quantum fica a critério do juiz, patamares fixos ou variáveis;
devendo fundamentar;
Exemplo: art. 155, §1°, CP; art. 157,
§2° CP;
- O juiz está adstrito ao limite
mínimo e máximo previsto em lei - O juiz pode extrapolar os limites do
(Súmula 231, STJ); preceito secundário.

- Súmula 442, STJ: é inadmissível aplicar, no furto qualificado, pelo concurso de


agentes, a majorante do roubo.

- Súmula 443, STJ: o aumento na terceira fase de aplicação da pena no crime de


roubo circunstanciado exige fundamentação concreta, não sendo suficiente para
a sua exasperação a mera indicação do número de majorantes.

- Súmula 511, STJ: é possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º


do art. 155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem
presentes a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora
for de ordem objetiva.

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- Súmula 607, STJ: A majorante do tráfico transnacional de drogas (art. 40, I, da


Lei n. 11.343/2006) configura-se com a prova da destinação internacional das
drogas, ainda que não consumada a transposição de fronteiras.

- Jurisprudência (STJ): é possível que a causa de diminuição estabelecida no


art. 33, § 4º, da Lei n. 11.343/06 seja fixada em patamar diverso do máximo de
2/3, em razão da qualidade e da quantidade de droga apreendida.

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TENTATIVA

(CP) Art. 14 - Diz-se o crime:

II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à


vontade do agente.

Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena


correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços.

NATUREZA JURÍDICA
É uma norma de extensão ou ampliação temporal da figura típica.

ELEMENTOS DO CRIME TENTADO:


a) início da execução;

b) não consumação do crime por circunstância alheias à vontade do agente;

c) dolo de consumação;

d) resultado possível;

NÃO ADMITEM TENTATIVA:


a) os crimes culposos;

Exemplo: art. 121, §3º, CP.

b) os crimes condicionados (a existência de um resultado naturalístico);

Exemplo: art. 122, CP.

c) os crimes habituais (exigem a prática reiterada da conduta);

Exemplo: art. 282, CP.

d) os crimes omissivos (omissão própria);

Exemplo: art. 135, CP.

e) os crimes unisubsistentes (praticados com um único ato);

Exemplo: art. 140, CP (verbal).

f) os crimes de perigo abstrato (o perigo é absolutamente presumido por lei);


Exemplo: art. 306, CTB.
g) os crimes preterdolosos (dolo no antecedente e culpa no consequente);

Exemplo: art. 129, §3º, CP

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CUIDADO!

 As contravenções penais: (Decreto-lei nº 3.688)

(DECRETO-LEI Nº 3.688) Art. 4º Não é punível a tentativa de contravenção.

 Os crimes de atentado ou empreendimento:

Exemplo: (LEI Nº 7.170) Art. 11 - Tentar desmembrar parte do território nacional para constituir
país independente. Pena: reclusão, de 4 a 12 anos.

Exemplo: (Código Penal) Art. 352 - Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo
submetido a medida de segurança detentiva, usando de violência contra a pessoa: Pena -
detenção, de três meses a um ano, além da pena correspondente à violência.

Exemplo: (Código Eleitoral) Art. 309. Votar ou tentar votar mais de uma vez, ou em lugar de
outrem: Pena - reclusão até três anos.

ESPÉCIES DE TENTATIVA
a) Perfeita/ Acabada/ Crime falho: o agente esgota todos os meios executórios que tinha
a sua disposição e não consegue consumar o delito por circunstâncias alheias a sua
vontade.
b) Imperfeita/ Inacabada: o agente inicia a execução, mas não esgota o processo
executório, deixando de consumar o crime por circunstâncias alheias a sua vontade.
c) Tentativa Branca (incruenta): ocorre quando o objeto material não é atingido pela
conduta criminosa.
d) Tentativa Vermelha (cruenta): ocorre quando o objeto material é atingido pela conduta
criminosa.

OBS: uma só conduta pode abranger várias formas de tentativa ao mesmo tempo, por exemplo,
pode haver nas mesmas circunstâncias uma tentativa perfeita e incruenta.

CRITÉRIO PARA A DIMINUIÇÃO DA PENA (- 1/3 a - 2/3)


A análise do iter criminis (itinerário do crime) percorrido tem importância para a adoção do
critério de diminuição de pena. Quanto mais próximo da consumação, menor será a redução de
pena, e no sentido inverso, na hipótese da tentativa se distanciar da consumação.

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