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O Pérola Vermelha

Cena do Pérola Vermelha pelo ponto de vista de


Hawke

Por Jennifer L. Armentrout


O Pérola Vermelha

“Os guardas da Donzela são bons homens.”


Eu levantei meu olhar do copo de whiskey que estava segurando para olhar o mortal parado
ao lado da lareira vazia. “Bons homens morrem o tempo todo.”
“Verdade”, o Comandante da Guarda Ascendente respondeu. “Mas poucos bons homens
restam em Solis.”
“Nisso nós podemos concordar.” Eu observei o Comandante Jansen por um longo momento.
“Um bom homem a menos será um problema?”
Seu olhar encontrou o meu. “Se fosse um problema eu não estaria aqui. Eu só estou dizendo,
será uma pena perder um deles.”
“Pena ou não, eu preciso me aproximar dela. Estar no exército não vai me ajudar. Você sabe
disso. Você também entende o que está em jogo aqui.” Minha cabeça inclinou. Se os Ascendidos
descobrissem para quem o Jansen realmente trabalhava, ele estaria morto. Ele sabia disso. “E como
não há vagas abertas atualmente para quem guarda ela, precisamos abrir uma.”
“Eu entendo.” Jansen passou a mão em sua cabeça, seus ombros tensos embaixo da túnica
marrom que usava. “Isso não significa que eu deva gostar do que deve ser feito.”
Eu sorri fracamente para sua resposta. “Se você gostasse, então você seria mais útil para os
Ascendidos, já que eles apreciam dor e mortes sem sentido.”
Suas bochechas ficaram levemente vermelhas com a lembrança de que estamos discutindo
casualmente a morte de um homem inocente. Entretanto, nós não somos os inimigos. Nenhuma
quantidade de mal vindo de mim iria superar o que os Ascendidos tinham feito para o meu povo e
para aqueles de Solis. “O que você sabe sobre a Donzela?” o Comandante perguntou. Eu sabia que
seu nome era Penellaphe.
Eu sabia que ela tinha um irmão que tinha ascendido.
Eu sabia que ela era a favorita da rainha.
“Eu sei o bastante.”
Jansen alongou seu pescoço de um lado para o outro. “Ela é a favorita de muitas pessoas, não
apenas da rainha.”
“Como isso é possível?” o lobo que estava parado ao lado da janela perguntou. “Ela é vista
raramente em público, e mais raramente ainda ela fala.”
“Ele levantou um bom ponto,” eu disse, bebendo um drink. O licor esfumaçado desceu mais
suave que qualquer outro espírito que essa terra miserável tem a oferecer.
“Para ser honesto, eu não sei. Mas muitos falam sobre a bondade dela,” ele respondeu. “E os
guardas dela se importam com ela. Eles protegem ela porque eles querem, enquanto muitos guardas
reais protegem os seus senhores porque eles põem comida nas mesas de suas famílias e mantem
as cabeças deles sobre seus ombros. Mais ou menos isso.”
O que ele disse não era exatamente novidade para mim. Havia pouca informação reunida
sobre a Donzela, mas eu sabia que aqueles das classes trabalhadoras e mais baixas tinham carinho
por ela. Porque era a pergunta certa. E para ser honesto, eu esperava que fosse apenas suas tolas
superstições que guiavam esses sentimentos. Eu não queria e não precisava que a Donzela fosse
gentil. “E as mesmas pessoas acreditam que ela é a Escolhida pelos deuses – o que é impossível.
Então me desculpe se eu não confio no julgamento deles.”
Ele me lançou um sorrio irônico. “Meu ponto é, quando ela desaparecer, vai causar uma
comoção. Não apenas com os Ascendidos. As pessoas irão procurar por ela.”
“O que vai causar uma grande comoção são os exércitos do meu pai descendo sobre Solis e
destruindo cada cidade e vilarejo que cruzar seu caminho. Tudo em retribuição pelo o que os
Ascendidos fizeram comigo e o que estão atualmente fazendo com meu irmão.” Eu disse para ele.
“Agora me diga, qual comoção você prefere ver? Perguntas sobre uma Donzela desaparecida? Ou
guerra?”
“O que eu queria ver são os malditos Ascendidos erradicados,” Jansen vociferou. O único
motivo de eu permitir isso foi o que saiu de sua boca logo depois. “Eles mataram meus filhos,
Príncipe. Meu primeiro e segundo filhos”- Ele parou abruptamente engolindo com dificuldade.
“Eu farei qualquer coisa para parar eles.”
“Então me dê a abertura que preciso.” Eu passei meu dedão pela borda do meu copo. “Depois
que eu libertar meu irmão, matarei o rei e a rainha. Isso eu prometo.”
Jansen exalou com dificuldade, e era óbvio que ele não gostava disso. Meu respeito pelo
homem cresceu. Nada sobre esse trabalho era agradável. Se alguém gostasse de alguma parte dele,
estaria vivendo mais do que merecia. “Ela caminha pelo jardim toda noite ao crepúsculo.”
“Eu já sei disso.” Eu segui ela e seu guarda pessoal pelos jardins muitas vezes ao entardecer,
chegando o mais perto possível sem ser visto. O que, infelizmente, não era perto o bastante.
“Mas você sabe que ela vai para ver as rosas que florescem a noite?”
Eu parei. Eu não sabia disso. Estranhamente agitado pela revelação de que eram as rosas que
ela buscava, eu me ajeitei na poltrona. Ao longo do dia, eu frequentemente me pegava imaginando
o que ela achava tão interessante naqueles jardins.
“Ou sabe que é o jardim perto das árvores de jacarandá?”
Um sorriso apareceu lentamente no canto dos meus lábios. “Onde uma seção do muro interior
está derrubada?”
O Comandante concordou com um aceno. “A mesma seção que eu já falei para os Teermans
arrumarem umas quinhentas vezes.”
“Sorte a minha que eles não arrumaram.”
“Sim.” Jansen se moveu da lareira. “Faça o que você precisa fazer, e eu tomarei conta do
resto.”
“Você tem certeza que consegue garantir o lugar dele como Guarda Real?” o lobo perguntou
enquanto caminhava para fora das sombras.
“Eu tenho.” Jansen focou em mim. “Você tem elogios tão brilhantes da capital,” ele
respondeu secamente. “E a Duquesa acha você... agradável aos olhos. Não será difícil.” Meu
lábio se curvou em nojo enquanto eu olhava para o lobo. “Você sabe o que fazer, Jericho.”
O lobo sorriu e acenou com a cabeça. “Ela terá um guarda a menos após a próxima visita ao
jardim.”
“Bom.”
“Mais alguma coisa?” Comandante Jansen perguntou.
Eu balancei minha cabeça enquanto meu olhar retornava ao meu drink, mas levantei minha
cabeça quando o homem alcançou a porta. “Nenhum mal deve ser feito a Donzela. Você me
entendeu?” O Comandante ficou em silêncio enquanto Jericho concordava.
Eu fitei o olhar pálido do lobo. “Eu estou falando sério, Jericho. Ela deve se manter segura
nisso tudo.”
“Mensagem clara, Príncipe.”
Observando eles saírem, admite a mim mesmo que minhas exigências faziam pouco sentido.
Eu planejava levar a Donzela de tudo e de todos que ela conhecia. Ao me tornar seu guarda pessoal,
eu teria o que era mais próximo de livre acesso a ela. A única outra maneira de levar ela seria fazer
um cerco no castelo dos Teermans, mas muitos inocentes morreriam no processo. O sequestro não
seria exatamente um trabalho agradável, mas a ideia de machucar uma mulher fez minha pele
arrepiar. Mesmo quando eu tive que fazer isso. Mesmo quando foi uma Ascendida.
Mas o que eu planejei para ela era muito melhor do que o meu pai teria feito se tivesse a
chance- e ele também era alguém que o Comandante Jansen considerava um bom homem.
“Eu não gosto dele.”
Olhando sobre meu copo de whiskey, eu ergui minhas sobrancelhas. Kieran Contou estava
encostado na parede, seu rosto sempre montado com uma máscara de indiferença. Ele estava tão
silencioso durante a reunião que eu duvidava que o Comandante Jansen tinha percebido que ele
estava lá. O lobo não poderia parecer mais entediado nem se tentasse, mas eu conhecia ele bem.
Eu já vi ele parecer que estava quase dormindo, e rasgar a garganta de seja lá quem fosse que
estivesse falando um segundo depois. Ele estava vestido exatamente como eu essa noite, com o
uniforme da maldita Guarda Ascendente, e eu apostaria que ele não vê a hora de por fogo nessas
roupas.
“Qual deles?” Eu perguntei.
“Por que eu teria um problema com o Comandante?”
“Jansen pergunta demais.”
“Se ele não perguntasse você repensaria trabalhar com ele,” Kieran respondeu. “Eu não gosto
do Jericho.”
“Quem gosta? Ele é inconsequente, mas ele não tem escrúpulos quando o assunto é matar.”
“Nenhum de nós tem. Nem mesmo você.” Kieran fez uma pausa. “Pelo menos quando estamos
acordados.”
Mas quando dormimos, uma história bem diferente poderia acontecer.
“Eu posso matar Jericho,” ele ofereceu, o seu tom é o mesmo como se ele estivesse me
perguntando se quero comer alguma coisa. “E dou conta do guarda.”
“Eu não acho que isso seja necessário. Eu suspeito que ele vai acabar morto daqui a pouco de
qualquer modo.”
“Eu tenho um pressentimento que isso é verdade.”
Eu sorri. Os pressentimentos do Kieran geralmente se tornavam realidade. Assim como seu
pai. “Eu vou ir ver se os outros já chegaram.” Kieran se afastou da parede. “Você vai ficar aqui?”
“Por mais um tempo.”
“Esperando companhia hoje?” ele perguntou enquanto se movia para a porta.
“Não.” Meu olhar voltou para o whiskey. “Hoje não.”
“O Pérola Vermelha é um lugar estranho para se passar uma noite sozinho.”
“É mesmo? Eu imagino que você não saiba como é estar aqui sozinho.”
“E você sabe?” ele retrucou.
Um sorriso tenso torceu meus lábios. “Boa noite, Kieran.”
O lobo deixou escaper uma risada suave e conhecida enquanto deslizava para fora do quarto.
Qualquer um teria pensado duas vezes sobre essa risada, mas eu não fazia isso com Kieran. E ele
estava certo. O Pérola Vermelha era um lugar estranho para se passar um tempo sozinho. Esses
quartos eram usados para os tipos de reuniões que você não queria que outros soubessem. Às vezes,
palavras eram trocadas. Outras vezes, outro tipo de comunicação acontecia, um com muito menos
roupas que geralmente não terminava com discussões da probabilidade eminente da morte de
alguém. Mesmo assim, esses tipos de reuniões se tornaram poucas e muito distantes, não se
tornaram?
Eu terminei o whiskey, acolhendo a queimação enquanto inclinava minha cabeça contra a
poltrona. Uma pesada inquietação tomou conta de meus ossos. Eu encarei o teto escuro,
imaginando quando algumas horas de prazer sem sentido pararam de ter o efeito desejado de
desligar a minha mente.
Será que alguma vez isso funcionou? Por mais de alguns segundos? Eu poderia ocupar minhas
mãos e minha língua e qualquer outra parte do meu corpo com curvas suaves e quentes, locais
escondidos, mas minha mente sempre terminava onde exatamente eu tentava fugir.
Naquela maldita gaiola com uma fome interminável.
Meu irmão.
O sentimento de estar morto, mas ainda estar respirando. Como se tudo o que fazia minha vida
ser mais do que apenas existir ainda estivesse naquela gaiola.
Mesmo agora eu conseguia sentir as frias e machucadas mãos e ouvir a risada provocadora
enquanto o Ascendido cortava fora lentamente uma parte de quem eu era. E Malik? Ele
provavelmente experimentou o que eu sofri e ainda mais. Minha mão apertou o copo. Eles têm ele
pelo dobro de tempo que me tiveram cativo. Como meu irmão ainda pode estar vivo-?
Malik precisa sobreviver. Porque ele era forte. Eu não conhecia ninguém mais forte que ele, e
eu estava tão perto de libertar ele. Eu apenas precisava-
O som de passos parando do lado de fora da porta fez minha cabeça levantar e meus olhos
abrirem. A maçaneta da porta destrancada começou a girar.
Eu me movi rápido, colocando o copo na pequena mesa ao lado da poltrona e recuando para
as sombras agarradas nas paredes. Eu enrolei meus dedos ao redor do punho de uma das espadas
curtas que deixei perto da porta. Nenhum dos meus homens ousaria entrar no quarto sem bater.
Nem mesmo Kieran.
Obviamente alguém tinha o desejo de morrer essa noite.
A porta se abriu apenas o bastante para um corpo passar. Imediatamente, curiosidade levou
embora a tensão rastejando em meus músculos enquanto eu observava a figura leve e encapuzada
fechar a porta. A capa era familiar. Eu inalei profundamente enquanto o intruso andou para trás,
passando por mim. A capa pertencia a uma criada que eu conhecia, mas ela – e era definitivamente
uma ela – não cheirava como Britta. Todos tinham um aroma único, algo a que Atlantis e lobos
eram sensíveis. O aroma de Britta me lembrava de rosas e lavanda, mas o aroma que me provocava
agora era outro.
Mas quem estaria em sua capa e nesse quarto? Aborrecimento queimou em mim enquanto eu
observava ela olhar ao redor, mas logo senti uma inquietação iminente no seu lugar. Britta ou outra
pessoa, a intrusa inesperada pelo menos oferecia um entretenimento. Não importa o quão rápido
desapareceria, ainda seria uma prorrogação de todos esses malditos pensamentos em minha cabeça.
Uma prorrogação das memórias.
Do... agora.
Observando ela, eu larguei a espada. Ela começou a virar e eu fiz minha jogada. Mais quieto
que um lobo, eu estava nela antes mesmo que tivesse chance de perceber que alguém estava no
quarto com ela.
Passando um braço pela sua cintura, eu a puxei de costas contra mim. Eu baixei minha cabeça
enquanto ela enrijecia e cheirei ela novamente. Era fresco. Doce. “Isso,” eu disse, “é inesperado.”
E não parecia como Britta também.
A criada tinha uma altura média para um mortal, mal chegando até meu queixo. Mas o quadril
sobre minha mão era mais cheio, e o aroma...
Me lembrou de néctar de mel.
Ainda assim, não é como se eu estivesse muito comprometido com a criada para lembrar. A
quantidade de whiskey que eu consumi na última vez que encontrei ela provavelmente não ajudou
nisso. “Mas é uma surpresa bem vinda.”
Ela girou para mim, sua mão direita abaixando até a área de sua coxa enquanto ela levantava
sua cabeça e então congelou. O suspiro afiado que ela tomou foi audível.
Um longo momento passou enquanto eu tentava ver entre a escuridão do capuz. Mesmo com
as pesadas sombras do quarto iluminado por velas, minha visão superava a de um mortal. Mesmo
assim não consegui ver suas feições. Mas eu conseguia sentir a intensidade do seu olhar, e mesmo
com minhas memórias embaçadas das horas que passei com ela, eu não me lembrava dela
mantendo o capuz.
“Eu não esperava você essa noite,” eu admiti, pensando no que Kieran falaria se ele retornasse.
Um meio sorriso apareceu em meus lábios quando ouvi outro suspiro suave. “Faz apenas alguns
dias, querida.”
Seu corpo encapuzado deu um pequeno salto, mas ela não disse nada enquanto continuava me
encarando das profundezas do seu capuz. “Pence falou para você que eu estava aqui?” eu perguntei,
me referindo ao guarda que Britta conhecia, que geralmente trabalhava comigo na guarda.
Um momento passou e ela sacudiu sua cabeça. Britta não saberia em qual quarto eu poderia
ser achado. Toda vez que estive aqui eu solicitei um diferente.
“Você estava me observando então? Me seguindo?” eu perguntei, estalando levemente a
língua sob minha respiração enquanto o sentimento de aborrecimento queimou uma vez mais. “Nós
teremos que falar sobre isso, não teremos?” E nós iríamos, porque isso não poderia acontecer
novamente. Mas como...? Ela estava aqui. As memórias e inquietação estavam em espera por
enquanto, e ela… ela tinha um aroma tão diferente. Bom. “Mas não hoje à noite, pelo o que parece.
Você está estranhamente quieta.”
Eu realmente lembrava que Britta era o oposto de quieta. Uma tagarela. Fofa, embora de um
jeito opressor demais. Esse era um lado totalmente diferente da criada. Talvez ela quisesse ser mais
misteriosa essa noite.
“Nós não temos que conversar.” Eu procurei pela bainha da minha túnica, puxando-a pela
minha cabeça e a jogando de lado.
Ela estava incrivelmente imóvel, mas aquele aroma fresco e doce dela aumentou e se tornou
mais forte, reforçado por sua excitação. A promessa de um prazer primário e quieto foi a isca que
me atraiu para ela.
“Eu não sei que tipo de jogo você está fazendo esta noite.” Agarrando- a por trás de seu capuz,
eu passei meu outro braço ao redor da sua cintura, puxando-a contra mim. Ela arquejou, e eu gostei
desse pequeno som ofegante. “Mas eu estou disposto a descobrir.”
Eu a levantei e suas mãos – suas mãos enluvadas – foram parar em meus ombros. O tremor
que senti passar por ela eriçou meus sentidos. Tudo sobre ela estava diferente, e eu não conseguia
evitar em me perguntar quanto eu bebi da última vez que estive com ela. Eu a levei para a cama,
nos guiando para baixo e deitando-a de costas enquanto afundava nela, pego desprevenido pela
sedutora mistura de maciez e dureza abaixo de mim. Isso era outra coisa que eu não me lembrava.
Eu lembrava de Britta sendo magra, mas aqui tinha curvas – curvas luxuriantes que não posso
esperar para desvendar e explorar. E caramba, mesmo sendo errado, uma parte de mim estava feliz
por eu estar tão fora de mim na última vez que estive com ela. Porque isso... isso parecia novo e
nada como uma tarefa que era só sobre um resultado final. Aqueles momentos que varriam embora
as memórias. Mas agora, eu não estava pensando sobre aquelas mãos frias e machucadas, enquanto
abaixava minha cabeça, colocando minha gratidão no beijo, mostrando meu agradecimento da
única maneira que eu sabia.
Sua boca era macia e doce sob a minha, e quando ela arfou, eu aprofundei o beijo tanto quanto
eu pude sem revelar o que eu era, deslizando entre aqueles lábios entreabertos do jeito que eu
esperava que estaria mais tarde entre suas coxas. Eu movi minha língua sobre a dela, levando o
gosto dela para minha boca. Seus dedos cravaram em meus ombros enquanto ela estremeceu contra
mim. O aroma de sua excitação aumentando me atingiu como um relâmpago, e eu senti o que só
poderia ser descrito como uma tentativa de toque de sua língua contra a minha.
O corpo realmente não parecia o que eu me lembrava.
O gosto na minha língua, e o aroma doce e fresco de néctar de mel não era nada de como eu
lembrava.
Não tinha nada nem remotamente parecido com uma tentativa no jeito que Britta beijava. Isso
sim eu lembrava. Ela beijava como se estivesse faminta, do momento que nossos lábios se tocavam
até o último segundo antes de nossas bocas se separarem. A fêmea sob mim beijava como...
Como alguém com bem menos experiência do que aquelas que normalmente eu passava meu
tempo.
Coração batendo forte, eu interrompi o beijo e levantei minha cabeça. “Quem é você?”
Não teve resposta, e seja qual for o jogo que essa garota estava jogando, eu não ia jogar sem
saber com que cartas estava jogando. Eu puxei o capuz para trás, expondo seu rosto – Puta merda.
Por um momento, eu não pude acreditar no que eu estava vendo. Ser pego de surpresa era tão
raro que eu quase ri, eu encarei seu rosto – ou o que eu podia ver do seu rosto de qualquer jeito.
Ela usava uma máscara branca, como muitas usavam no Pérola Vermelha, mas eu ainda sabia de
quem era o corpo enrolado no meu, de quem era o gosto ainda formigando em meus lábios. Eu só
não podia acreditar, enquanto meu olhar passava pela máscara larga que cobria da sua bochecha
até sua sobrancelha.
Impossível. Mas era ela. Eu reconheceria a curva de sua mandíbula e aquela boca – aqueles
lábios volumosos em forma de arco e da cor de frutas vermelhas – em qualquer lugar. Era tudo o
que era sempre visível dela. E os deuses sabiam que eu tinha tentado dar uma olhada em como ela
se parecia embaixo daquela porra de véu quando eu segui ela e seus guardas reais pelos jardins do
castelo; quando eu observava ela com suas criadas. Eu já a vi sorrir algumas vezes. Eu ouvi ela
falar menos ainda, mas eu conhecia aquela boca.
Era ela que eu havia acabado de sentar e discutir nesse mesmo quarto.
Era ela.
A Donzela.
A Escolhida.
A favorita da rainha.
E por alguma razão além do meu entendimento ou de qualquer maldito Atlanti, ela era muito
importante para o reino. Tão importante que ela era mantida enclausurada e bem guardada o tempo
todo. De alguma forma, ela era a chave para suas Ascensões, e eu sabia que aquela rainha vadia e
rei bastardo fariam qualquer coisa para mantê-la segura.
Ainda assim, aqui estava ela, no maldito Pérola Vermelha, em um quarto comigo – sob mim
– alguém que ela devia temer mais do que os deuses em si. Porque não havia dúvida em minha
mente que ela já ouviu os rumores sobre mim, o nome que me deram.
Eu passei anos planejando levar ela, tinha orquestrado tantas mortes, e acabei de selar o destino
de outra, tudo para que eu pudesse me aproximar dela o bastante para levá-la. E ela praticamente
caiu no meu colo.
Ou eu caí no dela.
Tanto faz.
Outra risada de incredulidade cresceu na minha garganta, porque o que no vasto reino de puta
que pariu estava fazendo a inalcançável, não vista, e intocada Donzela no Pérola Vermelha? Em
um quarto privado? Beijando um homem?
A risada nunca saiu porque outra coisa chamou minha atenção. Seu cabelo. Sempre esteve
escondido sob o véu, mas na luz das velas, eu podia ver que era da cor do mais rico vinho.
Eu puxei minha mão de trás da sua cabeça, notando como ela ficou tensa enquanto eu pegava
uma mecha do seu cabelo, puxando ele para fora. A mecha era macia enquanto deslizava pelos
meus dedos.
A Donzela era ruiva.
Eu não faço ideia de porque isso me surpreendeu, mas pareceu como uma descoberta tão
surpreendente quanto encontrar ela aqui. “Você definitivamente não é quem eu pensava que era,”
eu murmurei.
“Como você soube?” ela exigiu.
Meu olhar voltou para o dela. A voz, mais forte e mais terrena do que eu esperava na primeira
vez que ouvi ela falar, era dela. Confirmação adicional que eu não precisava, mas mesmo assim
agora tenho.
O choque da situação forçou uma resposta honesta de mim. “Porque da última vez que eu
beijei a dona dessa capa, ela quase chupou minha língua garganta abaixo.”
“Oh,” ela sussurrou, e o que eu podia ver do seu nariz se enrugou.
Eu a encarei, ainda tentando desvencilhar minha mente do fato de que ela era a Donzela.
“Você já foi beijada antes?”
“Eu já!”
Um lado dos meus lábios se levantou. “Você sempre mente?”
“Não!” ela exclamou.
“Mentirosa,” eu provoquei, não conseguia me controlar.
A pele abaixo da máscara ficou vermelha enquanto ela empurrava meu peito. “Você deveria
sair.” (expressão em inglês com duplo sentido: ter um orgasmo)
“Eu estava planejando isso,” eu murmurei, pensando que ela provavelmente não fazia ideia
do que isso significava.
Mas então seus olhos se estreitaram atrás da máscara de um modo que me disse que ela sabia
exatamente o que eu quis dizer, e isso foi outro choque.
Ela tinha... a Donzela tinha uma mente suja.
A risada que estava se formando escapou livre, e foi uma risada tão real que veio de um local
tão acolhedor que eu geralmente esquecia que existia. Me chocou pra caramba, me enchendo com
emoções que eu acreditava que estavam mortas.
Interesse.
Admiração.
Curiosidade genuína.
Um sentimento de... contentamento.
Contentamento? De que porra de lugar isso veio? Eu não faço ideia, mas nesse momento, eu
não me importava. Eu estava interessado. E, deuses, eu não conseguia me lembrar da última vez
que eu estava focado em algo que não fosse meu irmão. O calor em meu peito se esfriou.
“Você realmente devia se mover,” ela disse.
Sua exigência me puxou do desastre que meus pensamentos estavam me levando. “Eu estou
bastante confortável onde estou.”
“Bem, eu não estou.”
Eu pude sentir meus lábios se curvando, e não sei se era o desespero de recuperar aquelas
emoções temporárias ou algo a mais que me levou a fingir que eu não fazia ideia de quem ela era.
“Você vai me dizer quem você é, Princesa?”
“Princesa?” Ela piscou.
“Você é muito exigente.” Eu encolhi os ombros. “Eu imagino uma Princesa sendo exigente.”
“Eu não sou exigente,” ela discutiu. “Saia de cima de mim.”
Eu arqueei uma sobrancelha, sentindo aquele calor de novo- aquele... prazer. “Sério?”
“Falar para você se mover não é ser exigente.”
“Nós vamos ter que discordar nisso.” Fiz uma pausa. “Princesa.”
Seus lábios se curvaram e depois de alinharam. “Você não deveria me chamar assim.”
“Então como eu deveria chamar você? Um nome, talvez?”
“Eu… Eu não sou ninguém,” ela respondeu.
“Ninguém? Que nome estranho. Meninas com esse nome geralmente tem o hábito de usarem
roupas de outras pessoas?”
“Eu não sou uma menininha,” ela retrucou.
“Eu realmente espero que não.” Espera. Eu não fazia ideia de qual era a idade da Donzela.
“Qual é sua idade?”
“Tenho idade suficiente para estar aqui, se é com isso que você está preocupado.”
A quantidade de alívio foi um aviso. “Em outras palavras, idade suficiente para se mascarar
como alguém diferente, levando outros a acreditarem que você é outra pessoa e então permitindo
que eles beijem você-”
“Eu entendi o que você quis dizer,” ela interrompeu, me surpreendendo mais uma vez. “Sim,
eu tenho idade suficiente para todas essas coisas.”
Ela sabia o que todas essas coisas eram? De verdade? Se sim, tinha uma caralhada de coisas
que eu não sabia sobre a Donzela. Mas eu não acho que esse seja o caso. Ela não beijou como
alguém que sabia de experiência pessoal o que todas essas coisas significavam. “Eu vou dizer a
você quem eu sou, embora eu sinta que você já sabe. Eu sou Hawke Flynn.”
Ela ficou quieta por um momento e então soltou, “Oi.”
Isso foi... Isso foi fofo.
Eu sorri ironicamente. “Essa é a parte onde você me diz seu nome.” Quando ela não disse
nada, meu interesse apenas cresceu. Não é como se eu esperasse que ela admitisse quem ela era,
mas eu estava morrendo para descobrir o que ela iria compartilhar. “Então terei que continuar
chamando você de Princesa. O mínimo que você poderia fazer é me dizer porque você não me
parou.”
Continuando teimosamente quieta, ela levou seu lábio inferior carnudo entre seus dentes.
Cada parte minha focou nisso – em sua boca. E caramba, isso encheu minha cabeça com todo
tipo de coisa e meu corpo estava vergonhosamente indo atrás da minha mente. Eu me movi
levemente, escondendo minha reação. “Tenho certeza que é mais do que minha boa aparência
desarmante.”
Seu nariz se torceu. “É claro.”
Eu ri, surpreso mais uma vez por ela – por mim mesmo. “Eu acho que você acabou de me
insultar.”
Ela estremeceu “Não foi isso que eu quis dizer-”
“Você me machucou, Princesa.”
“Eu duvido muito disso. Você deve estar mais do que consciente de sua aparência.”
“Eu estou.” Eu sorri para ela. “Isso levou muitas pessoas a fazerem escolhas questionáveis de
vida.”
Eu esperava que levasse ela a fazer algumas escolhas questionáveis de vida, que, considerando
onde ela estava, não eram desconhecidas para ela.
“Então porque você disse que foi insultado?-” Sua boca se fechou rápido e ela empurrou meu
peito novamente. “Você ainda está em cima de mim.”
“Eu sei.”
“É muito rude de sua parte continuar assim quando eu já deixei claro que eu gostaria que você
se movesse.”
“É muito rude de sua parte entrar no meu quarto vestido como-”
“Sua amante?”
Eu encarei ela por um momento. “Eu não chamaria ela assim.”
“Do que você chamaria ela?”
Caramaba, como eu deveria responder isso? “Uma... boa amiga.”
Ela me encarou de volta. “Eu não sabia que amigos se comportavam dessa forma.”
“Eu estou disposto a apostar que você não sabe muito sobre esse tipo de coisa.”
“E você aposta tudo isso em apenas um beijo?”
“Só um beijo? Princesa, você pode aprender muitas coisas com apenas um beijo.”
Ela ficou quieta, e eu... precisava saber por que ela estava aqui, no Pérola Vermelha, nesse
quarto, usando uma capa de uma criada. E onde estavam os seus guardas? Eu duvidava seriamente
que eles permitiriam que ela viesse aqui. Se fosse isso, eu precisava saber qual deles permitiu isso
para que eu possa ter certeza de que não foi o que foi encontrado morto.
Mas eu comecei com a pergunta mais importante. “Por que você não me parou?”
Enquanto eu esperava por uma resposta, meus olhos viajaram pela sua máscara e então mais
abaixo, onde sua capa estava aberta...
Eu senti como um soco no peito quando eu vi o que ela vestia.
Ou o que ela não estava vestindo, para ser mais preciso.
O decote era baixo, expondo o volume surpreendente dos seus seios, e o vestido, independente
de qual material sedoso seja feito, agora é meu preferido. Era quase transparente e fino o suficiente
para me fazer pensar por um momento que os deuses acordaram de seu sono para me abençoar.
Por que a intocada, pura Donzela estaria no Pérola Vermelha – uma casa notória do prazer em
Masadonia – sozinha? Em um quarto com um homem que ela acreditava que pensava que ela era
outra pessoa? Um homem que beijou ela sem uma palavra de protesto saindo de seus lábios.
Caramba, ela me beijou de volta. Começou, pelo menos. E ela estava vestida… Ela estava vestida
para total devassidão.
De repente pareceu difícil respirar, quando meu olhar encontrou o dela. Um senso de
entendimento fluiu sobre mim, rapidamente seguido de descrença. Havia apenas um motivo para
ela estar aqui.
E eu estava mais interessado em todos os motivos do porquê do que eu jamais estivesse
interessado em qualquer outra coisa desde... sempre. Eu não deveria estar. Eu havia acabado de
receber o ganso de ouro. Essa era a oportunidade perfeita para eu levar ela. Eu poderia fugir da
cidade agora mesmo.
Não teria necessidade de continuar o papel de guarda leal e obediente. Não teria necessidade
de me aproximar dela. Caramba, eu não poderia chegar mais perto do que eu estou agora.
Bem, caramba... Eu poderia.
Eu poderia chegar muito mais perto.
Mas se eu levasse ela agora, eu nunca ouviria de seus lábios porque ela está aqui. E eu preciso
saber isso. Se eu fizer minha jogada, eu perderia o estranho palpitar em meu peito. O calor. O
prazer. E eu sou um filho da puta egoísta quando o assunto é algo que eu quero.
Além do mais, não fui eu que achei ela. Ela me achou. E em um instante, eu estava mais do
que disposto em deixar isso rolar o máximo possível.
Porque tudo isso vai acabar cedo demais.
“Eu acho que estou começando a entender,” eu digo a ela.
“Isso significa que você vai se levantar para eu poder me mover?”
Eu neguei com a cabeça. “Eu tenho uma teoria.”
“Eu estou esperando segurando minha respiração por isso.”
A Donzela... ela tinha uma boca e tanto.
Eu gostei disso.
Muito.
“Eu acho que você veio para esse quarto com um propósito em mente,” eu digo. “É por isso
que você não falou ou tentou corrigir minha suposição de quem você era. Talvez a capa que você
pegou emprestada também tenha sido uma decisão bem calculada. Você veio aqui porque você
queria algo de mim.” Ela prendeu aquele lábio entre os dentes novamente.
Eu me mexi mais uma vez, levantando minha mão até sua bochecha direita. O simples toque
levou um tremor através dela. “Eu estou certo, não estou, Princesa?”
“Talvez... Talvez eu tenha vindo aqui para… para conversar.”
“Para conversar?” Eu quase ri de novo. “Sobre o que?”
“Muitas coisas.”
Lutando contra um sorriso, eu digo, “Tipo?”
Sua garganta engoliu delicadamente. “Por que você escolheu trabalhar na Ascenção?”
“Você veio aqui essa noite para perguntar isso?” Eu perguntei, mais seco do que qualquer
coisa que Kieran poderia ter dito, mas estava claro por seu olhar que ela esperava uma resposta.
Então eu dei a mesma resposta que eu dava para qualquer um que perguntasse. “Eu entrei para a
Ascenção pelo mesmo motivo que a maioria.”
“E qual é?” ela perguntou.
A mentira veio fácil demais. “Meu pai era um fazendeiro, e essa não era uma vida para mim.
Não há muitas outras oportunidades oferecidas além de ingressar no Exército Real e proteger a
Ascenção, Princesa.”
“Você está certo.”
Surpresa tremeluziu por mim. “O que você quer dizer com isso?”
“Quero dizer, não há muitas chances de as crianças se tornarem algo diferente do que seus
pais eram.”
“Você quer dizer que não há muitas chances de as crianças melhorarem sua posição de vida,
de fazer melhor do que aqueles que vieram antes delas?”
Ela deu um aceno curto. “A... ordem natural das coisas não permite exatamente isso. O filho
de um fazendeiro é um fazendeiro ou eles…-”
A ordem natural das coisas? Para Solis, talvez. “Eles escolhem se tornar um guarda, onde
arriscam suas vidas por um pagamento estável do qual provavelmente não viverão o suficiente
para desfrutar? Não parece muito uma opção, parece?”
“Não,” ela disse, enviando ainda assim outra onda de surpresa por mim. Eu não tinha, nem
por um momento, considerado que a Donzela gastaria um segundo pensando sobre aqueles que
guardam a cidade. “Pode não haver muitas opções, mas ainda acho – não, eu sei – que entrar para
a guarda exige um certo nível de força e coragem inatas.”
“Você acha isso de todos os guardas? Que todos são corajosos?”
“Eu acho.”
“Nem todos os guardas são bons homens, Princesa,” eu disse, considerando cada palavra.
Seus olhos se estreitaram. “Eu sei disso. Bravura e força não significam bondade.”
“Podemos concordar nisso.” Meu olhar baixou até sua boca.
“Você disse que seu pai era um fazendeiro. Ele está... ele foi para os deuses?”
Meu pai era um deus entre muitos homens. “Não. Ele está vivo e bem. O seu?” Eu perguntei,
mesmo que eu já soubesse.
“Meu pai – meus pais, ambos, se foram.”
“Lamento por ouvir isso,” eu digo, sabendo que seus pais morreram há muitos anos atrás. “A
perda de um parente ou membro da família continua sendo sentida mesmo após muito tempo, a
dor diminui, mas nunca desaparece. Anos depois, você ainda se pega pensando que faria qualquer
coisa para ter eles de volta.” Seu olhar se agitou para meu rosto.
“Você soa como alguém que conhece em primeira mão.”
“Eu conheço,” eu digo, me recusando a pensar em nada daquilo.
“Sinto muito,” ela sussurrou. “Sinto muito por quem você perdeu. A morte é...”
Eu inclinei minha cabeça. “A morte é como um velho amigo que te faz uma visita, às vezes
quando é menos esperada e outras vezes quando você espera por ela. Não é a primeira nem a última
vez que ela vai fazer uma visita, mas não torna nenhuma morte menos dura ou implacável.”
“É isso.” Tristeza coloriu seu tom, puxando uma parte de mim que precisava ficar amortecida.
Eu baixei minha cabeça, notando sua respiração entrecortada quando meus lábios se aproximaram
dos dela. “Eu duvido que a necessidade de uma conversa levou você a esse quarto. Você não veio
aqui conversar sobre coisas tristes que não podem ser mudadas, Princesa.”
Seus olhos se arregalaram sob a máscara, e eu senti ela se enrijecer sob mim. Eu não precisava
conhecer seus pensamentos para saber que ela estava debatendo entre o que ela sabia que devia
estar fazendo versus o que ela queria.
Essa mesma batalha tinha se enfurecido brevemente dentro de mim, porém a curiosidade
imprudente ganhou – assim como meu egoísmo. Ela seria a responsável entre nós que daria um
fim nisso? Se sim, eu iria embora desse quarto. Eu iria.
Eu não sequestraria ela hoje à noite, mesmo que isso faça mais sentido do que ir embora desse
quarto sem a única pessoa de quem vim atrás nesse reino. O que me parou foi algum tipo de senso
cavalheiresco deturpado, por mais ridículo que isso soe. Mas eu sabia porque ela estava aqui.
A Donzela queria conhecer prazer.
E tinha algo tão… inocente sobre isso. Corajoso. Inesperado. Eu não sabia o que tinha
acontecido em sua escolha de vir aqui, o que ela teve que fazer ou como ela se preparou ou mesmo
o porquê. E se eu revelasse quem eu era – quem ela era para mim – em uma sociedade como a que
os Ascendidos tinham criado, onde mulheres precisavam esconder seus rostos quando buscavam
prazer e felicidade, poderia ser visto como uma punição. Como se isso fosse o que acontecia
quando você experimentava certos comportamentos, e eu... eu não queria ser a pessoa que
arruinaria isso para ela.
Eu senti o momento que ela tomou a decisão. Seu corpo relaxou sob o meu enquanto ela levava
aquele lábio inferior entre os dentes uma vez mais.
E deuses, eu não esperava por isso. Eu achava que ela ia encerrar isso. Ela iria. Mas caramba,
eu era um bastardo porque eu estava... tão fascinado – tão intrigado que não poderia terminar isso.
Respirando fundo de um modo que pareceu estranhamente superficial, eu passei um dedo pela
fita de cetim de sua máscara. “Posso remover isso?”
Ela balançou sua cabeça negando.
Desapontamento me cercou. Eu queria ver seu rosto e as expressões que ela fazia, mas aquela
máscara... era apenas um pedaço de pano bobo. No entanto, às vezes, tolice alimentava bravura, e
quem era eu para julgar? Afinal, eu estava constantemente fingindo. Minha vida nesse reino era
uma fachada. Tudo sobre mim era uma mentira. Bom, quase tudo.
Eu passei meu dedo pela linha de sua mandíbula e por sua garganta, enquanto seu pulso
acelerava descontroladamente. Meus dedos pararam onde a capa estava amarrada. “E que tal isso?”
Ela assentiu.
Eu nunca removi uma capa tão rápido na minha vida.
O arrepio que vi, o aumento súbito de seus seios enquanto eu deslizava a ponta do meu dedo
sobre seu decote maravilhosamente indecente, enviou uma onda de desejo cru e latejante por mim.
Em um flash de calor, eu vi aquele vestido dela em farrapos, e eu entre suas coxas, primeiro com
minha língua e depois com meu pau. E esse desejo era quase tão potente quanto a necessidade de
permanecer onde eu estava – quente e interessado e vivo.
Eu me verifiquei então.
Cerrando minha mandíbula, eu desejei que a pulsação crescente se esfriasse. Eu estava
disposto a ir aonde quer que isso me levasse, mas não lá. Isso seria tirar muito dela, e não importa
se fosse dado de boa vontade. Eu era um monstro, mas não esse tipo de monstro.
Mas havia muitas coisas que nós poderíamos fazer.
“O que você quer de mim?” eu perguntei, brincando com o pequeno laço entre as doces curvas
de seu peito. “Diga-me, e eu farei.”
“Por que?” ela perguntou. “Por que você... faria isso? Você não me conhece, e você pensou
que eu era outra pessoa.”
Não é como se eu pudesse responder essa pergunta honestamente, e não tinha nada a ver com
quem ela era. “Eu não tenho outro lugar para estar no momento, e eu estou intrigado.”
“Porque você não tem outro lugar para estar no momento?”
“Você prefere que eu seja poético sobre como estou encantado com sua beleza, mesmo que
eu só possa ver metade de seu rosto?” Eu perguntei. “O que, aliás, pelo o que posso ver é agradável.
Você prefere ouvir que estou cativado pelos seus olhos? Eles são um belo tom de verde pelo o que
posso dizer.”
Os cantos de seus lábios se viraram para baixo. “Bem, não. Não quero que você minta.”
“Nenhuma dessas coisas eram mentira.” Puxando o pequeno laço, abaixei minha cabeça,
roçando meus lábios sobre ela. Seu aroma fresco e doce aumentou. “Eu disse a verdade para você,
Princesa. Eu estou intrigado por você, e é muito raro alguém me intrigar.”
“Ah é?”
“Então,” eu disse, rindo contra a curva de sua mandíbula. “Você mudou minha noite. Eu tinha
planejado voltar para meu quartel. Talvez ter uma boa, embora chata, noite de sono, mas eu tenho
uma suspeita de que essa noite será tudo, menos chata, se eu passar com você.” Não seria nada
menos que um milagre.
“Você estava... você estava com alguém antes de mim?” Ela perguntou.
Eu levantei minha cabeça. “Essa é uma pergunta aleatória.”
“Tem dois copos ao lado do sofá.”
“É também uma pergunta pessoal e aleatória feita por alguém que nem sei o nome.”
Suas bochechas ficaram vermelhas.
E eu... Eu podia entender seu questionamento, não podia? Sua preocupação. “Eu estava com
alguém,” eu respondi. “Um amigo que não é como a dona dessa capa. Um que eu não via já fazia
um tempo. Nós estávamos conversando, em particular,” eu expliquei, e isso me chocou. Eu
raramente fazia esse tipo de coisa.
Mas minha resposta não era exatamente uma mentira. Eu não via Kieran há algum tempo.
“Então, Princesa, você vai me dizer o que você quer de mim?”
Sua respiração cortou de novo. “Qualquer coisa?”
“Qualquer coisa.” Eu deslizei minha mão para baixo, segurando o peso surpreendentemente
cheio de seu seio. As vestes brancas que eu normalmente via ela usando tinham escondido muito.
Mas agora, com o tecido fino de seu vestido esticado contra sua pele, eu podia distinguir o
tom profundo e rosado, e o seu oh-tão-tão-intrigante bico endurecido. Meu polegar seguiu meu
olhar.
Ela engasgou enquanto suas costas se arquearam, pressionando seu seio com mais firmeza em
minha palma. Meu peito se apertou com uma onda de necessidade.
“Estou esperando.” Eu passei meu polegar mais uma vez, apreciando profundamente o som
ofegante que ela fez e a curva de seu corpo. “Diga-me o que você gosta, para que eu faça você
amar isso.”
“Eu…” Ela mordeu seu lábio. “Eu não sei.”
Meu olhar voou até o dela enquanto eu congelava. Suas palavras foram um lembrete. Elas
também eram uma faísca que acendeu um fogo na necessidade que eu senti de mostrar para ela
exatamente o que ela queria.
“Eu vou dizer o que eu quero.” Eu movi meu polegar novamente, devagar, mais forte. “Eu
quero que você remova sua máscara.”
“Eu...” Seus lábios se separaram. "Por quê?"
"Porque eu quero ver você."
"Você pode me ver agora."
"Não, Princesa." Eu abaixei minha cabeça. "Eu quero realmente ver você quando eu fizer isso
sem seu vestido entre você e minha boca."
Mantendo meu olhar em seu rosto, porque eu me recusava a perder um momento, passei minha
língua sobre a ponta de seu seio. A seda mal era uma barreira e, quando fechei a boca sobre o pico
túrgido, pude facilmente imaginar-me fazendo algo que raramente me ocorria quando estava com
uma mortal.
Eu podia me ver afundando meus dentes na carne inchada, descobrindo se ela era tão doce
quanto seu cheiro. Aposto que sim. Meu corpo respondeu ao grito de prazer que separou os lábios
dela, enrijecendo e endurecendo.
“Remova sua máscara. Por favor." Eu deslizei a mão sobre a curva exuberante de seu quadril
e desci por sua coxa até onde o vestido se separava. Sua pele parecia o material sedoso, suave
enquanto eu enrolava meus dedos - em torno de algo duro. "Mas o que…?"
Minha mão fechou-se sobre o cabo de uma adaga. Mas que droga é essa? Eu desembainhei a
lâmina, balançando para trás quando ela se sentou, tentando pegar a arma.
A Donzela tinha uma adaga. E não um tipo comum e qualquer.
"Pedra de sangue e osso de lobo."
“Devolva isso,” ela exigiu, lutando para ficar de joelhos.
Meu olhar mudou da adaga para ela. “Esta é uma arma única.”
"Eu sei." Uma confusão de ondas de vinho tinto e cachos caiu sobre seus ombros.
“O tipo que não é barato.” E um que tinha um propósito específico. "Por que você está com
isso, Princesa?"
"Foi um presente, e não sou tola o suficiente para vir a um lugar como este desarmada."
Essa foi uma decisão inteligente. “Carregar uma arma e não ter ideia de como usá-la não faz
ninguém sábio.”
Seus olhos se estreitaram com irritação. “O que faz você pensar que não sei como usar?
Porque eu sou mulher?"
Eu a encarei. “Você não pode se surpreender que eu ficaria chocado. Aprender a usar uma
adaga não é exatamente comum para as mulheres em Solis. ”
"Você está certo, mas eu sei como usá-la."
A confiança em suas palavras me disse que ela não falava mentiras. Então, a Donzela sabia
como empunhar uma adaga. Isso foi total e gloriosamente inesperado. Em vez de me preocupar,
isso me deixou ainda mais interessado.
O lado direito dos meus lábios se curvou para cima. “Agora, estou realmente intrigado.”
Seus olhos se arregalaram quando eu enfiei a lâmina da adaga no colchão e fui para ela. Eu a
levei para a cama, estabelecendo-se entre suas coxas e deixando-a sentir exatamente o quão
intrigado eu estava-
Um punho bateu na porta. "Hawke?" A voz de Kieran soou. "Você está aí?" Parei e fechei os
olhos, dizendo a mim mesmo que eu não estava ouvindo sua voz.
"É Kieran."
"Como se eu já não soubesse disso", murmurei, e uma pequena risada a deixou. O som abriu
meus olhos e trouxe um sorriso aos meus lábios.
"Hawke?" Kieran bateu mais um pouco.
“Eu acho que você deveria responder para ele,” ela sussurrou.
"Droga." Se eu não fizesse isso, ele provavelmente iria invadir. "Estou completamente e
felizmente ocupado no momento."
“Lamento ouvir isso,” Kieran respondeu enquanto eu me concentrei nela. O lobo bateu
novamente. “Mas a interrupção é inevitável.”
“A única coisa inevitável que vejo é a sua mão quebrada se você bater na porta mais uma
vez,” eu avisei, fazendo com que seus olhos se arregalassem. "O quê, Princesa?" Eu abaixei minha
voz. "Eu disse que estava realmente intrigado."
“Então, devo arriscar uma mão quebrada,” Kieran respondeu, e um grunhido de frustração
retumbou de dentro de mim. "O... enviado chegou." Deuses.
Amaldiçoei novamente, desta vez em voz baixa. Isso não poderia ter acontecido em pior hora.
"Um... enviado?" ela perguntou.
“Os suprimentos que estávamos esperando”, expliquei, o que era meio que verdade. "Eu
preciso ir."
Ela assentiu.
E eu precisava sair, mas não queria. Demorei vários minutos para me forçar a me mover. De
pé, peguei minha túnica do chão enquanto dizia a Kieran que estaria fora em alguns minutos. Ele
não estaria esperando por mim no corredor. Ele iria para algum lugar mais silencioso. Eu puxei a
camisa pela cabeça, olhando por cima do ombro e vendo que ela havia recuperado a adaga. Eu
sorri.
Garota esperta.
Passei meu cinto pelos ombros e peguei as duas espadas curtas do baú perto da porta, e
era como se eu não tivesse controle sobre o que saía da minha boca. "Voltarei assim que
puder." Eu embainhei as lâminas ao lado do corpo, percebendo que o que eu disse era verdade. Eu
voltaria.
"Eu juro."
Ela assentiu mais uma vez.
Eu a encarei. "Diga-me que você vai esperar por mim, princesa."
"Eu vou."
Girando, fui até a porta e parei. Lentamente, eu me virei e mergulhei na visão dela - aquela
massa surpreendente de ondas vermelhas e aqueles lábios entreabertos, a maneira como ela se
sentou ali, agarrando as pontas de sua capa em torno dela, corajosa, mas vulnerável. Era uma
mistura interessante, uma que eu queria continuar explorando.
“Estou ansioso para voltar.”
Ela ficou em silêncio novamente, e eu sabia que era improvável que ela estivesse aqui quando
eu voltasse, mas eu voltaria. Eu procuraria por ela. E se ela não estivesse aqui? Eu iria encontrá-la
novamente.
Mais cedo ou mais tarde.
Ela seria minha.

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