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Pré-Conferência

Nacional de Cultura
Afro-brasileira
Encontro define estratégias da
cultura afro-brasileira para defender
na Conferência Nacional de Cultura
Editorial

Este ano, o Ministério da Cultura completará 25 anos e a Fundação


Cultural Palmares, instituição vinculada à Pasta, 22 anos. Adulta e madura –
consolidada dentro do segmento que representa – a Fundação já passou por
várias mudanças e, consequentemente, passará por tantas outras.

Os últimos sete anos foram marcantes neste processo. Mudamos o espaço


físico da Fundação, que antes era chamado pelos militantes de “Porão do
Navio Negreiro”, hoje temos uma nova sede com mais de 4 mil m2, em local
amplo e arejado; passamos de 90 servidores – sendo que cerca de um terço
deles eram terceirizados – para 171. Modernizamos o parque tecnológico,
um investimento de mais de R$ 4 milhões e saímos de um orçamento de R$
8 milhões para cerca de R$ 30 milhões, em 2010. Além disso, estreitamos
laços com países da América Latina – que, contando com os brasileiros
representam cerca de 123 milhões de afrosdescendentes – e com os países
da África, em eventos como a participação na Coordenação Geral do III
Festival Mundial de Artes Negras – Fesman e com a Semana do Benin na
Bahia, que teve cerca de 40 beninenses entre artistas e autoridades em um
intercâmbio político e cultural.

Entre outras mudanças, também marcantes, está a nova política de


repasse de verbas, passamos a adotar editais com critérios de regionalização.
Enterramos definitivamente a política do balcão e dos apadrinhamentos e
demos lugar às políticas públicas que foram implementadas de maneira
vigorosa, transparente e democrática.

Nesse sentido, 2010 promete. O ano começou dinâmico com o Movimento


AfroPop Brasileiro, idealizado por Margareth Menezes e patrocinado pela
Palmares; com o 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras –
de R$ 1,1 milhão –, com a pré-Conferência Nacional de Cultura Afro-brasileira
e agora, nesse mês, com a participação efetiva da Palmares na Conferência
Nacional de Cultura. Ainda estão previstos cinco eventos internacionais –
Conferência internacional sobre o futuro da língua portuguesa no cenário
mundial; Conferência Iberoamericana para uma agenda afrodescendente
das Américas; Copa da Cultura na África do Sul; 3º Congresso da cultura
Iberoamericana; Semana do Brasil no Benin – além de dois grandes editais,
o de 21 de agosto, data de aniversário da Fundação e o Idéias Criativas, para
o 20 de novembro.

Para isso, contaremos com a dedicação da equipe da Fundação – sempre


atenta as missões e aos valores que norteiam o objetivo de sua existência – e
com as bençãos de Yemanjá e Oxalá, regentes de 2010.

Axé !

Zulu Araújo
Presidente da Fundação Cultural Palmares
ANO VI - NÚMERO 6 - MARÇO 2010

Presidente da República Revista Palmares


Luiz Inácio Lula da Silva Jornalista Responsável
Ministro da Cultura Rachel Mortari MTb 650/AL
Juca Ferreira Revisão
Lúcia Pinheiro MTb 870 DRT/PA
Fundação Cultural Palmares Matérias
Presidente Lúcia Pinheiro
Zulu Araújo Marcus Bennett
Chefia de Gabinete Rachel Mortari
Eliane Borges Arte e Diagramação
Assessoria Internacional Alessandro Naves Resck
Martha Mouterde Fotos
Assessoria de Comunicação Arquivo/Palmares
Rachel Mortari Foto Capa
Dep. de Fomento e Promoção da Cultura Afro-Brasileira Estúdio Foto´ Art
Elísio Lopes Junior Grafite do DF Zulu
Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro
Maurício Reis
Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra Equipe Ascom Palmares
Mércia Queiroz Coordenação
Coordenação-Geral de Gestão Estratégica Rachel Mortari
Maria Aparecida Chagas Ferreira Jornalista
Coordenação Geral de Gestão Interna Lúcia Pinheiro
Remo Nonato Publicidade e Marketing
Procuradoria Geral Caína Castanha
Dora Lúcia de Lima Bertúlio Web Designer
Auditor Interno Alessandro Naves Resck
Ricardo Portocarrero Menezes Estagiária de Jornalismo
Representante da Fundação Cultural Palmares no Rio de Janeiro Ana Paula Mendes
Benedito Sergio de Almeida Alves Secretária
Representante da Fundação Cultural Palmares na Bahia Ana Carla Rogado
Luciana Mota
Representante da Fundação Cultural Palmares em Alagoas Tiragem: 8.000 exemplares
Mestre Claúdio Distribuição Gratuita
Gráfica Brasil

Endereço:
Setor Bancário Sul, Quadra 2, Lote 11 Asa Sul - Brasília/DF - 70070-120
Telefone: (61) 3424-0166 / 0162 - Telefax: (61) 3424-0164
www.palmares.gov.br
Sumário

Pré-Conferência Nacional de Cultura


Afro-brasileira 4

Temas discutidos
Eixo 1 - Produção Simbólica e Diversidade da
Cultura Afro-brasileira 12
Eixo 2 - Cultura, Cidade e Cidadania Afro-brasileira 14
Eixo 3 - Desenvolvimento Sustentável e Cultura
Afro-brasileira 17
Eixo 4 - Economia Criativa e Cultura Afro-brasileira 19
Eixo 5 - Gestão e Institucionalidade da Cultura Afro-
brasileira 21

Estatuto da Igualdade Racial 24

Quilombolas e a resistência 28

Movimento AfroPop Brasileiro 36

Projeto Parabólica 46

Encontro Afro-latino 48

Notas 54

Ministério Ministério
MINISTÉRIO DA CULTURA MINISTÉRIO DA CULTURA
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES da Cultura FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES da Cultura

3
Criação da Marca: Alessandro Resck

4
Encontro debate
espaço da cultura
negra no Brasil
Durante dois dias cerca de duzentas pessoas participaram
da pré-Conferência Nacional de Cultura Afro-brasileira. Na
pauta, questões como racismo institucional, apropriação de
conhecimento, intolerância, e muitos outros temas ligados à
condição do negro hoje no país

Rachel Mortari

S egundo dados da Pesquisa


Nacional por Amostra de
Domicílios - Pnad divulgados
Mudanças que, consequen-
temente, devem ocorrer também
no campo da cultura. A mesma
Afro-brasileira, nos dias 24 e
25 de fevereiro, em Brasília,
organizada pela Fundação
pelo Instituto Brasileiro de pesquisa informa que em 2010 a Cultural Palmares, vinculada
Geografia e Estatística (IBGE), população brasileira é composta ao Ministério da Cultura, com o
em janeiro deste ano, o por 50,30% de negros, dessa objetivo de apresentar propostas
Brasil ganhou 3,2 milhões de forma o espaço da cultura negra do setor para a 2ª Conferência
pessoas autodeclaradas pardas ou afro-brasileira não deve se Nacional de Cultura (CNC) que
e perdeu 450 mil pessoas restringir a guetos e nem ser vista acontecerá entre os dias 11
brancas. Dados como esses, de forma folclórica e setorizada e 14 de março, também na
revelados na autodeclaração dentro da sociedade, visto que é capital federal.
dos entrevistados, mostram a base da expressão de mais da Durante os dois dias do
mudanças no sentimento metade da população. “A cultura evento, delegados, militantes,
de pertencimento de uma brasileira é, em todos os sentidos, atores, representantes de
população e, em uma perspectiva a cultura negra. É preciso que isso religiões de matriz africana
subjetiva, confirmam que a noção seja respeitado”, afirma o cantor e demais protagonistas da
de raça é uma construção social Lazzo Matumbi. cultura afro-brasileira – cerca de
e que há mudanças ocorrendo Foi este sentimento de duzentas pessoas – discutiram
nesse sentido, fruto do debate autoreconhecimento qu e cinco eixos estratégicos, que
sobre as políticas afirmativas norteou os debates da pré- serão debatidos na conferência
adotadas no Brasil. Conferência Nacional de Cultura nacional: produção simbólica e

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Foto: Pedro França, Comunicação Social/MinC
Na mesa de abertura estavam o cantor baiano Lazzo Matumbi, o embaixador do Senegal no Brasil, Fodé Seck,
Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares, o jornalista e editor da Revista Raça, Maurício Pestana;
a secretária de Articulação Institucional do Ministério da Cultura e coordenadora executiva do Programa Mais
Cultura, Silvana Meireles, representando o ministro Juca Ferreira e mãe Railda de Oxum

diversidade da cultur a af ro - abertura fez uma explanação neste ano. Se fizermos uma
b r asil e ir a; cultura, cidade sobre os últimos sete anos da continha simples, com 10%
e cidadania afro-brasileira; Palmares. “O que consideramos deste montante teremos R$
cultura afro-brasileira e prioritário, neste momento, não 200 milhões de investimento
economia criativa, e gestão e é a ampliação pura e simples do na cultura afro-brasileira, isto
institucionalidade da cultura orçamento da Palmares, embora significa quase 10 vezes mais o
afro-brasileira (leia na pag. 12). isto seja importante. O que orçamento destinado à Palmares.
Esses temas suscitaram nós consideramos prioritário Já que somos a maioria da
debate sobre o espaço da cultura é disputar em igualdade de população brasileira, por
negra dentro da sociedade condições os R$ 2 bilhões que não fazemos valer este
brasileira, racismo institucional, que serão disponibilizados aspecto quantitativo, do
apropriação de conhecimento, para o Ministério da Cultura ponto de vista político.
intolerância e outras questões
Foto: Estúdio Foto´ Art

ligadas à condição do negro no


Brasil hoje. “Parece que é pouco,
mas antes nem esse debate
era travado; este espaço é uma
grande conquista”, comemora
Dora Bertúlio, procuradora
chefe da Palmares.
Esse mesmo espaço dentro
das políticas públicas da cultura
brasileira foi questionado pelo
presidente da Fundação, Zulu
Araújo, que em seu discurso de DF Zulu animou levou sua arte ao encerramento do 1º dia

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Zulu encerrou a pré- de cultura. “Teremos que fazer “Tivemos menos de 30 dias
Conferência falando da nossas reivindicações pelo para organizá-lo e, além disso,
importância do momento para convencimento e espero que é um encontro eclético, pois
a comunidade negra e disse os representantes escolhidos aqui estão representados os
que os critérios escolhidos para defendam as estratégias 27 estados e a cultura afro-
a condução do encontro foram aprovadas de maneira coletiva, brasileira não se resume apenas
elaborados em conjunto com respeitando este fórum”. em uma expressão artística, ela
todos os dirigentes da Palmares, No encerramento a tem várias vertentes. Reunimos
de forma democrática. “O descontração ficou por conta pessoas ligadas à música, dança,
processo foi transparente do do movimento hip-hop do DF representantes de religiões de
início ao fim. E isso tudo é uma Zulu, da Ceilândia, Distrito matriz africana, pensadores,
grande vitória, não só para o Federal -, que integra música, quilombolas. Reunir essa
movimento, por vocês estarem dança, grafite e rap, e do grupo diversidade de pessoas para
aqui, mas pelas decisões que Chorinho a Bessa. discutir e definir apenas cinco
foram tomadas. Estamos prontos O evento foi organizado estratégias é um grande
para discutir a conferência pelo Departamento de desafio, mas há, também, um
nacional de igual para igual.” Promoção da Cultura Afro- grande esforço de todos os que
Ele disse que no encontro brasileira da Palmares, cujo estão aqui para que a gente
nacional a discussão será política responsável pela pasta, Elísio desenhe políticas culturais
e que os delegados terão que Lopes Junior, declarou que o para a cultura afro-brasileira”,
fazer política também na área encontro foi proveitoso. completou Elisio.
Foto: Estúdio Foto´ Art

Plenária em momento de benção para iniciar as atividades

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As decisões considerados os membros da da cidade de Senador Guionard,
lista tríplice elaborada pela pré- que transformou a frente da casa
Além dos eixos, o encontro Conferência para conselheiros e templo religioso do pai Daniel
definiu os delegados que do CNPC. Zulu confirmou o de Oscassio em depósito de lixo
representarão a cultura negra compromisso do ministro em em represália a denúncias de
na Conferência Nacional e a lista garantir a inclusão desses nomes. intolerância religiosa.
tríplice que vai se encaminhada ao Dos três, dois serão escolhidos A delegada e artística plástica,
ministro da Cultura para a escolha pelo ministro como conselheiros. Ivonete Aparecida Alves, acredita
dos dois nomes que representarão Das moções encaminhadas na intersetorialidade para a
o setor no Conselho Nacional de ao presidente da Palmares criação de propostas de políticas
Política Cultural (CNPC). uma pede apoio técnico e públicas. “A pré-Conferência
Além disso foram aprovadas institucional para a criação do tem esse papel aglutinador”,
três moções, uma encaminhada Fórum Nacional de Culturas além disso considera o fórum
ao ministro da Cultura, Juca Afro-Brasileiras, para a qual Zulu permanente, aprovado em
Ferreira, e duas encaminhadas colocou a Fundação que dirige à moção, uma grande conquista,
ao presidente da Palmares, disposição. A outra traz o repúdio “pois o movimento ainda é
Zulu Araújo. A encaminhada da delegação do Acre – e pede o muito desarticulado, com um
ao ministro sugere que sejam apoio da Palmares – ao o prefeito certo bairrismo”.

Nome dos delegados e Maria Liosmira Rodrigues dos “Espero que os delegados
Santos – ‘Mãe Dalila’
Região Sudeste:
defendam as estratégias
Titulares: Sandra Maria da Silva e Região Sul: aprovadas de maneira
Ivonete Aparecida Alves Titulares: Márcio Ramos e Isabela
Suplentes: Mãe Maria Moura e Patrícia Camargo S. da Cruz coletiva, respeitando este
Suplentes: Dalzira Márcia
Adriana Barbosa fórum”, diz Zulu Araújo
Aparecida e Janete Gomes da
Região Nordeste: Silva
Titulares: Maria Lucia Goes Brito e
Ivonete Aparecida Alves
Lista tríplice:
Suplentes: Benedito Basílio
Luciana Conceição da Silveira, Lamartine Silva, Antonio José Amaral
Gomes Filho (Bené Gomes) e
Ferreira.
José Felipe dos Santos
Foto: Estúdio Foto´ Art

Região Norte:
Titulares: José Rodrigues
“Arimatéia” e Maria Aparecida
Matos
Suplentes: Antônio José Amaral
Ferreira (PA) e Janete dos Santos
Oliveira

Região Centro-Oeste:
Titulares: Wanderléia Santos
Rosa e Marlene de A. Justino
Suplentes : Pedro de Reis Oliveira

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Foto: Estúdio Foto´ Art
Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos

Estratégias aprovadas:

1) Construir uma rede brasileira e a uma política cultural intercâmbio e negócios entre os
colaborativa de caráter para a cultura afro-brasileira. empreendimentos negros.
propositivo com abrangência
nacional, formada por 3) Garantir um percentual do 5) Formação continuada a ser
representantes do poder público recurso do FNC, para valorização organizada pelo Ministério da
e sociedade civil, coordenada e promoção da cultura afro- Cultura sobre relações raciais nas
pela Fundação Cultural Palmares, brasileira, a ser gerido pela secretarias vinculadas ao MinC,
com o objetivo de promover Fundação Cultural Palmares. com o objetivo de combater o
a formação, articulação e racismo institucional, além da
intervenção política com vistas a 4) Criar mecanismos de ações promoção pelo MinC de oficinas
favorecer a execução de políticas afirmativas que contemplem de capacitação para elaboração
públicas afins com a diversidade projetos promovidos por de projetos de cultura
da cultura afro-brasileira, proponentes afro-descendentes negra, junto às organizações
resguardando o universo variado e a produção cultural negra proponentes, bem como a
da produção simbólica. no Fundo Nacional de Cultura proposição à Advocadia Geral da
no segmento da diversidade, União (AGU) para a realização de
2) Definição de ações além de editais promovidos curso de formação em relações
afirmativas para a cultura afro– pelas estatais. Levando em raciais junto aos procuradores
brasileira na mídia, ocupação consideração não somente federais e advogados da União,
espacial e georeferenciamento a produção, mas também a solicitando à Secretaria Especial
orientado pela presença negra e difusão e distribuição dos de Políticas de Promoção da
cultura afro-brasileira nas cidades produtos culturais negros Igualdade Racial – Seppir para
garantindo a apropriação dos para os eventos nacionais que dê ênfase à cultura afro-
marcos regulatórios político- e internacionais, inclusive brasileira nos programas dos
jurídicos já existentes que criando uma Feira Nacional de ministérios e secretarias da
interessam a comunidade afro- Cultura Negra para promover Presidência.

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Fotos: Estúdio Foto´ Art

Mural

Participantes da pré-Conferência

Mãe Railda de Oxum

Professor Samuel Vida, na palestra sobre Cultura,


Diversidade, Cidadania e Desenvolvimento na Cultura
Afro-Brasileira
Editor da Revista Raça, jornalista Maurício Pestana
e o presidente da FCP, Zulu Araújo

Participante da pré-Conferência
Diretor de Fomento e Promoção
da Cultura Afro-Brasileira da
10 FCP, Elísio Lopes Junior
Participante da pré-Conferência

Participante da pré-Conferência

Ao centro, o ator Antônio


Pompeu e à direita o
diretor de Proteção ao
Patrimônio
Afro-Brasileiro da FCP,
Maurício Reis

Delegada Ivonete Aparecida Alves

Ao centro, o cantor Lazzo Matumbi e à direita o


embaixador do Senegal no Brasil, Fodé Seck

Participantes da pré-Conferência

Cineastra
Jeferson D

Abertura da pré-Conferência 11
Eixo 1 – Produção Simbólica e Diversidade da Cultura Afro-brasileira
Rosane Borges, mediadora

por meio das significações que historicamente discriminados,


Foto: Estúdio Foto´ Art

institui. É ele que garante o resgatando o estatuto universal


distanciamento da natureza, de sua produção cultural. Sob
à construção do mundo, à esse olhar, poderemos então falar
construção da realidade a ser de cultura, de direitos culturais e
vivida, nos fornecendo um quadro de diversidade cultural.
comum de referência com o qual
tecemos a História. Diversidade Cultural Afro-
Por esta condição, brasileira
percebemos que a produção
simbólica, a produção cultural No que diz respeito à
é nexo prioritário para a cultura afro-brasileira, como
emancipação humana em sua podemos ver nela o estatuto
radicalidade. Muitas vezes do universal do ser humano
reduzida a apenas algumas de a partir de matrizes africanas
É dado incontestável o fato suas possibilidades, a cultura que foram ressignificadas no
de o homem se constituir como possibilita uma redefinição contexto brasileiro? São várias as
ser simbólico. O ser falante/ dos códigos sociais, políticos perspectivas que se abrem para
social, marca registrada do e econômicos que regem a uma intervenção cultural que
homem, torna-se distinto de dinâmica das relações. A ordem não se queira apenas restrita à
outros animais pela assunção simbólica nos diz, assim, que o festividade efêmera e passageira.
da ordem simbólica. Esta se homem é um ser de cultura que, Sabemos da influência
refere a uma operação de no sentido antropológico do monumental dos negros na
diferenciação/substituição que termo, é “um conjunto complexo formação da cultura nacional.
organiza o mundo com um dado que inclui os saberes, as crenças, a A diáspora africana no mundo,
a ver, a vivenciar. Trata-se de uma arte, o direito, os costumes, assim com a experiência dolorosa da
operação de separação que marca como todas as maneiras e regras escravidão moderna, legou aos
a passagem natureza/cultura. usadas pelo homem que vive em diversos países o exercício de
Segundo o antropólogo Ernest sociedade”. práticas culturais tão plurais
Cassirer, o homem não vive num Esta definição nos leva ao quanto incontáveis. As variadas
universo puramente físico, mas menos a duas conseqüências. etnias dos escravizados, bantos,
num âmbito fundamentalmente De um lado, liga a dimensão nagôs, jejes – extratos que deram
simbólico. A linguagem, o mito, de cultura à dimensão social origem às religiões afro-brasileiras
a arte e a religião são partes do homem: implica as criações –, e hauçás e malês – de origem
deste universo. São os vários fios que operam o homem que vive islâmica e alfabetizados em
que tecem a rede simbólica, a em sociedade, e para que esta árabe – trouxeram, igualmente,
teia emaranhada da experiência existência social se realize e se tradições distintas.
humana. Todo o progresso reproduza. Se cada indivíduo Dança, música, religião,
humano, no pensamento e tiver seu direito reconhecido em culinária e idioma brasileiros
na experiência, aperfeiçoa e aceitar, recusar ou modificar sua foram banhados nas matrizes
fortalece esta rede. herança cultural, então a cultura fundantes da cultura brasileira
A ordem simbólica é o lugar pertence a uma dimensão (africana, indígena e européia),
onde se constitui o humano: ser coletiva essencial. De outro lado, desenhando os contornos
social, falante, fabricante, uma esta dimensão coletiva pode visar de um país plural em suas
vez que lhe dá acesso ao mundo o reconhecimento de grupos manifestações. Se por um lado, a

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presença indisfarçável da cultura práticas culturais são elaboradas imateriais, que são expressões
afro-brasileira é consenso, por cotidianamente, transformando dessas comunidades nos mais
outro permanece o desafio de o conhecimento em experiência diferentes aspectos: objetos,
combinarmos cultura e estrutura. de aprendizagem, do mesmo costumes, canções, rituais,
Somos um país assimilacionista modo que a própria experiência encontrados na religião, na
do ponto de vista cultural vivida se transforma em culinária, nos modos de tecer e
(nos formamos a partir de conhecimento. Aprende-se por de se vestir. Uma retomada de
influências africanas, indígenas meio da socialização. Em todos vozes que ficaram silenciadas
e europeia), mas excludente do os momentos da existência, na por opressões históricas é
ponto de vista das estruturas relação com o outro e nas ações fundamental e necessária para
sociais. Diversidade cultural e vividas é que nos constituímos. uma compreensão democrática
pluralidade não são correlatas Essa constituição é elaborada de educação e, por conseguinte,
de equidade e acesso igualitários constantemente e se revela das relações sociais. O primeiro
a bens simbólicos. Como nas mínimas coisas. Assim, movimento para esta escuta
promover, então, a aproximação pormenores normalmente é o reconhecimento da
entre cultura e igualdade, a fim considerados sem importância existência de espaços outros
de que possamos vivenciar a e triviais carregam muitos que não o da educação formal,
experiência da pluralidade, livre elementos importantes que nos como portadores de saberes.
das assimetrias que marcam o permitem captar a realidade. Para isso, é necessário tomar
jogo das relações raciais? Como Considerar os mais diversos como imprescindível para o
fazer da diversidade cultural elementos presentes nas práticas, entendimento desses saberes, os
afro-brasileira um meio pelo qual como alimentação, vestuário, nexos entre educação e cultura,
redefinamos a dinâmica social, o r a l i d a d e, g e s t u a l i d a d e, considerando que uma não
marcada por assimetrias sociais? sonoridade, odores ou sabores, existe sem a outra, ambas sendo
Um dos caminhos, entre os permite decifrar a diversidade alimentadas e alimentando-se na
vários trajetos possíveis, é, como e a complexidade da realidade arte e na memória.
consideram os pesquisadores histórica da população afro- Esse princípio é revestido
Ratts e Damascena (2006), brasileira e alegar participação de exigência ética sem a qual
identificar a produção do igualitária da população negra não poderemos ensejar práticas
conhecimento, o saber, o fazer na vida nacional. O patrimônio culturais que promovam a
negro africano nas práticas cultural da população negra é emancipação e a igualdade entre
cotidianas, já que a cultura e as composto de bens materiais e os povos que construíram o País.

Foto: Estúdio Foto´ Art

Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos


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Eixo 2 – Cultura, Cidade e Cidadania Afro-brasileira
Ari Lima, mediador

brasileiras, tomo a cidade de fato uma experiência particular


Foto: Estúdio Foto´ Art

Salvador, minha cidade de que remete à cidade em seu


referência e pertencimento, cotidiano, mas por outro lado se
como estrutura histórica, social e descola deste mesmo cotidiano,
cultural modelar. porque ele é superado por uma
Além disso, quero confessar a realidade imaginária, fundada
dificuldade que tive em atender no espetáculo, no mercado de
a provocação feita, na medida bens culturais e na midiatização.
em que esta parece solicitar a Enfim, temos uma cidade
adesão a uma assertiva. Ou seja, predominantemente negra,
senti-me convocado a aderir muito diversificada em sua
ao argumento de uma política configuração cultural negra,
cultural que parece ter seu germe branca ou mestiça, mas que
de sentido na compreensão hoje se traduz, todo o tempo,
A cidade e a cultura afro- da polis, da cidade brasileira, em carnaval e mercadoria
brasileira para além do carnaval como espaço vocacionado à de suposto caráter popular e
diversidade cultural, à pluralidade democrático. Em nome do povo,
Para esta pré-Conferência e justaposição de pontos de pelo povo, para o povo (leia-se
Nacional de Cultura Afro- vista, à equivalência ideológica e povo negro), a carnavalização,
brasileira, foi-me solicitado simbólica de sujeitos e produções a espetacularização e a
desenvolver o argumento culturais, à democracia. Não mercantilização do cotidiano se
da cidade como espaço de compartilho deste ponto de consolida na cidade de Salvador
produção, intervenção, diálogos, vista. Compreendo que, por um na medida em que é vitoriosa
trocas culturais, garantias de lado, todas as nossas cidades- a perspectiva que apaga a
direito e acesso a bens culturais. referência são espaços culturais esperança e os sonhos de muitos
Compreendo que sendo este multirreferenciados, porém que tiveram o privilégio de
um evento de âmbito nacional, nossa experiência de polis, de sonhar e cultivar outra realidade
a “cultura” e a “cidade” devam ser cidade me parece um simulacro cultural. Assim como se consolida
tratados de modo que todas as da noção de urbanidade que na medida em que sonega a
nossas manifestações culturais prevê como fundante o diálogo, uma maioria absoluta a quem se
e todas as nossas cidades, ou a troca e o acesso equitativo a dirige esta mesma perspectiva
ao menos as nossas diferentes bens culturais. De fato, nossa do sonho e da esperança da
cidades-referências, sejam experiência de cidade parece intervenção, diálogo e trocas
contempladas e alentadas ter como fundante a contínua culturais. Ou seja, a cidade
na discussão. Por outro lado, reprodução de hierarquias, carnavalizada, espetacularizada,
localizados que estamos em um sobretudo a racial, da exclusão, da midiatizada entende e dissemina
país de dimensões continentais, repulsa à dissensão e ao conflito o argumento de que a ignorância
formado por cidades que de opiniões e ideias. Enfim, de si mesmo, do outro, de sua
remetem a uma história social fundante em nossa experiência própria realidade cultural é
e cultural comungáveis, porém de cidade é o autoritarismo e a salvação, “é só alegria”, como se
distinguíveis em muitos aspectos pretensão homogeneizante. diz na Bahia, e que a lucidez do
incomuns e muito específicos, Neste sentido, no simulacro conhecimento, da criação, da
preferi organizar ideias, elaborar urbano, que é a cidade, a dissensão e do conflito de ideias
provocações que se podem produção e o acesso aos bens é dor e caminho atávico para a
remeter a todas as cidades culturais em Salvador, temos de solidão cultural e existencial.

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É preciso ainda dizer que a suposto inventor da axé music, o Desde a ascensão e
nossa cidade até se constitui como músico Luiz Caldas, que afirmou: consolidação da axé music, o texto
um espaço de produção cultural, “Axé music não é estilo musical, na canção popular e afro-baiana
mas não pode ser um espaço de é democracia musical”. Na foi se reduzindo, se reduzindo
intervenção, de diálogo, de trocas entrevista, várias vezes o próprio até chegar apenas ao refrão. Foi
culturais e de acesso equivalente Luiz Caldas, outros artistas e se reduzindo, se reduzindo até
a bens culturais, porque vários dos seus fãs lembraram o que os movimentos de quem
impregnada de sua herança texto da emblemática canção de ouve se tornassem cada vez
colonial e escravocrata, fomenta Axé Music composta por Caldas e mais óbvios. Ou seja, aboliu-se
a interação, a convivência de Paulinho Camafeu há 25 anos: a dança, o prazer de coreografar
diferentes, mas abomina o espontâneo e popular em nome
diálogo e as trocas culturais. E Nega do cabelo duro de um erotismo que repete o
não pode haver diálogo num Que não gosta de pentear negro e a cultura afro-baiana
contexto territorial onde as Quando passa na boca do tubo como raça objetificada, esvaziada
pessoas do discurso são senhor O negão começa a gritar e simulacro. A experiência com
e escravo, inferiores e superiores, Pega ela aí a música foi se reduzindo, se
abastados e despossuídos Pra quê? reduzindo de tal modo que
de riqueza material, mentes Pra passar batom artistas de todas as tendências
perversas e vidas roubadas. De que cor? musicais são compelidos ao
Imaginem que durante o De violeta elogio e afirmação da axé music
carnaval da cidade de Salvador, Na boca e na porta do céu como o viés, por excelência, da
vi na internet um depoimento do Na boca e na bochecha criação musical. Isto porque esta

Foto: Estúdio Foto´ Art

Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos

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parece ser a única possibilidade A negritude com o os despreza. Esta comunicação
de abrir mercado, sobreviver empresarial educa e disciplina
no mercado e diversificar o Olodum continuou sendo a percepção e o gosto estético
espetáculo, embora o preço a a revelação da beleza, da não mais do folião, mas do
pagar seja altíssimo, uma vez consumidor, durante os 11 meses
que todas as tendências musicais energia, da dignidade do que antecedem o carnaval –
acabam tendo de permitir que através de telenovelas, telejornais,
ser negro
toda música acabe em axé music. impressos, rádio, publicidade e
De fato, apesar de ser o carnaval espetáculos de grande porte,
não se constitui o diálogo, não há de modo que a massa negra
intervenção nem troca cultural. permaneça complacente
Há mercado e cada vez mais sobrevida institucionalizada à negação de si mesma e
variações de mercado. desse patrimônio no carnaval. antipopular. Assim, as imagens e
Para terminar, vou me remeter Isto porque, em 30 anos de o imaginário alternativos criados
brevemente à história do Grupo existência do Grupo Cultural pelo Olodum, ao longo de 30
Cultural Olodum e seu impacto Olodum, constatamos os limites anos, aparecem hoje como um
na cultura do carnaval afro- que uma produção cultural nestes suspiro, “bonito de se ver”, mas
baiano. Há 30 anos, no finalzinho termos enfrenta para redefinir são incapazes de impedir que esta
da década em que se nutriram a vida simbólica e material de triste e dessemelhante realidade
efervescentes esperanças de uma grande massa de indivíduos do carnaval tenha se consolidado
transformação e sublimação da negros. Ou seja, aqueles que como norma.
triste e dessemelhante realidade fazem, aqueles que administram Bom seria que, além de
em que permanecemos, o e aqueles que “curtem” o produzir imagens e imaginário
Olodum estreou com a pretensão carnaval se responsabilizam alternativos à norma vigente,
de “fazer cultura” e fazer a cada vez menos pela dimensão entidades como o Olodum
diferença para além do carnaval. constitutiva do carnaval da Bahia, dispusessem também de um
Ali se percebia a intenção de sua problemática particular, que aparato econômico e tecnológico
que o quadro atual, já esboçado, é seu viés popular e participativo. que permitisse um tratamento
viesse a ser inoculado ou ao Acredito mesmo que estejam estético e político de outra
menos interceptado por um novo convencidos de que este ordem das imagens capturadas
sopro de esperança. Desde então, carnaval, por si só, como ele e do imaginário produzidos e
o Olodum estabeleceu uma nova hoje se estrutura, já se oferece disseminados entre aqueles
clivagem no carnaval, elaborou como circunstância de elogio que fazem, que administram
um discurso étnico-musical que e promoção da participação e “curtem” o carnaval. Ou seja,
ultrapassou a referência mítica popular ampla e diversificada, bom seria que tais agentes
negro-africana. A negritude com até porque é assim que os meios do carnaval pudessem falar
o Olodum continuou sendo a de comunicação, os formadores para si mesmos de modo que
revelação da beleza, da energia, de opinião, artistas consagrados outros pudessem também se
da dignidade do ser negro, mas e os organizadores o divulgam. entreter, os ouvir e, digamos,
foi também colocada como De fato, o carnaval baiano em democraticamente, reorientar
uma questão política diante de seus “circuitos” pretensamente suas ações. Enfim, nos próximos
públicos dispersos na diáspora, democráticos, está orientado anos, me parece que é uma tarefa
heterogêneos, negros e brancos. por uma política cultural, por do Olodum, mas também de uma
Acontece que, com o passar uma estética e um modelo de inovadora política cultural, deve
dos anos, garantiu-se um retorno comunicação empresarial e se promover uma intervenção
simbólico e econômico daquilo privada que não ignora em sua cultural no carnaval de modo
que o patrimônio cultural totalidade o patrimônio cultural que se mantenha sua dimensão
negro expressa, mas por outro negro e os negros, até porque festiva, mas se renove seu vigor
lado, garantiu-se apenas uma seria impossível fazê-lo, mas político e estético.

16
Eixo 3 – Desenvolvimento Sustentável e Cultura Afro-brasileira
Mércia Queiroz, mediadora

deve também ser sustentável, Expressões Culturais” (UNESCO,


Foto: Estúdio Foto´ Art

em respeito a esta e às próximas de 2005), na qual, articulada aos


gerações. direitos humanos e ao princípio
Por outro lado, a cultura da diversidade, a cultura é
vem sendo compreendida concebida como elemento
na sua diversidade, nas suas estratégico no processo de
diversas dimensões: a simbólica desenvolvimento sustentável; e a
(produção simbólica); a coletiva formulação do “Plano Nacional de
e política (“dimensão cidadã”) – Cultura”, com grande mobilização
cultura como um direito de criar, e participação da sociedade
produzir e de ter acesso a ela; civil, que “estabelece vínculos
e na sua dimensão produtiva e entre arte, ciência e economia
econômica (geração de valor, na perspectiva da inclusão e do
emprego e renda), o que lhe desenvolvimento”. Ainda assim,
imprime um caráter transversal sabemos que temos muito a
“só haverá verdadeiro com os demais setores da caminhar para fazer valer estes
desenvolvimento, que não se vida social (educação, saúde, avanços, visando a construção
deve confundir com crescimento comunicação, turismo, ciência e de um modelo mais humano,
econômico, no mais das vezes tecnologia, segurança etc.) sustentável e inclusivo, no qual
resultado de mera modernização Assim, o potencial da cultura a função estratégica da cultura é
das elites – ali onde existir um vem sendo cada vez mais fundamental.
projeto social subjacente” reconhecido como estratégia Certamente que não se pode
(Celso Furtado) para o desenvolvimento, tanto negar a relevância da discussão
no seu entendimento como sobre a cultura como um recurso
Na atual perspectiva da um bem simbólico e veículo capaz de gerar riquezas ou,
promoção do desenvolvimento de transmissão de idéias e melhor dizendo, a importância
humano e social sustentável, valores, resgatando na alma da problemática que envolve
parece haver alguns consensos da sociedade aquilo que só ela a cultura e sua relação com o
quanto à compreensão de que: pode oferecer ao mundo como, desenvolvimento em todas as
o desenvolvimento, embora ao mesmo tempo, possuidora de suas dimensões. Todavia, como
dependa do crescimento um valor econômico que pode alguns autores advertem, também
econômico, não é resultante contribuir para a pauta de fluxos precisamos estar atentos a que o
automático deste, devendo, nacionais e internacionais de potencial de geração de riquezas
assim, ser reconhecido e bens e serviços do país. e de empregos representado
planejado obser vando-se No B r a s i l, país de pela cultura não pode nem
sua transversalidade com os inquestionável r iqueza deve ser separado de uma
aspectos sociais e culturais de cultural e também de muitas visão ampliada da cultura como
cada país; ele se faz sobre uma desigualdades, muito se tem geradora de riquezas simbólicas.
base local, territorial – o que avançado nas políticas públicas Trata-se, portanto, de buscar
implica planejamento de modo para as complexas relações o crescimento econômico por
participativo – devendo elevar entre cultura e desenvolvimento. meio do estímulo às atividades
o poder aquisitivo e a qualidade É importante lembrar, por ligadas à cultura, criando
de vida do global da sociedade, exemplo, a ratificação, em 2007, também, e principalmente, as
dentro dos princípios dos direitos da “Convenção sobre a Proteção condições propícias ao aumento
humanos; e, por fim, de que e a Promoção da Diversidade das da diversidade das manifestações

17
culturais, promovendo a inclusão, identidade cultural, respeitando a cultura, de alguma forma,
simultaneamente cultural, social e os valores simbólicos que estes pode vir a trazer benefícios aos
econômica, de novos e múltiplos aspectos culturais representam territórios, caso suas estratégias
agentes criadores. para os sujeitos e grupos destes sejam planejadas em comum
O desenvolvimento sus- territórios; acordo com os seus cidadãos
tentável da cultura, em uma c) a salvaguarda da e outros agentes envolvidos
unidade territorial, seja ela participação dos diferentes nesta atividade, o que implica
uma região, uma cidade, um grupos que formam estas o processo participativo e a
bairro, um terreiro, pressupõe, populações e a consideração dos busca de soluções locais que
pelo menos: interesses locais; valorizem as especificidades
a) o reconhecimento e a d) a geração de emprego culturais de cada um deles. As
valorização dos indivíduos, e renda, garantindo que uma articulações dessas condições
que usam e dão vida ao local, parte significativa da população aqui apontadas podem
como sujeitos das ações de seja beneficiada, de fato, pelos estabelecer redes e tramas de
desenvolvimento, assim como resultados positivos econômicos, relações positivas, que valorizem
dos bens, das diversas expressões sociais e culturais decorrentes do as comunidades e os recursos
e iniciativas culturais; além do processo de desenvolvimento. culturais existentes nestes
estímulo à vitalidade criativa Na perspectiva integradora territórios e possibilitem a
ali existente e à qualificação e mais humana do promoção do desenvolvimento
profissional. desenvolvimento sustentável na escala humana nessas
b) o resgate do significado da e sustentado, acreditamos que localidades.

Foto: Estúdio Foto´ Art

Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos

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Eixo 4 – Economia Criativa e Cultura Afro-brasileira
Mauricio Pestana, mediador

da movimentação do mercado todos os aspectos da vida social,


global da cultura, em que apenas como música, culinária, religião,
cinco paises controlam 60% de artes visuais, moda e dança,
toda a produção, principalmente sendo praticamente impossível
cultura tecnológica, a que mais pensar o país sem reportar essa
influencia e traz dividendos de presença, a história se repete
Foto: Estúdio Foto´ Art

dominação política e econômica. quando se fala na divisão dos


Isto fica nítido quando lucros provenientes desse
analisamos as empresas culturais produto: a exemplo de outros
relacionadas ao cinema: as setores da economia brasileira, o
indústrias do entretenimento negro encontra-se de fora.
de Hollywood, nos Estados Reverter este quadro
Unidos, possuem 80% das salas desfavorável em que a cultura
de cinema de todo o planeta, ou se encontra é de vital urgência
seja apenas um setor econômico para a nossa sobrevivência
Cultura – um bem essencial de um país tem domínio sobre econômica e social; apesar dos
para o desenvolvimento, físico praticamente tudo o que o anos de escravidão e dos poucos
e espiritual humano. Neste mundo vê nas salas de cinema, anos de pseudoliberdade,
contexto e em um mundo sem gerando uma concentração temos sido os responsáveis pela
fronteiras como o da atualidade, a violenta em um só setor. difusão da cultura brasileira
cultura tem impacto significativo No Brasil, segundo os últimos dentro e fora do país. Antes
na vida dos cidadãos em qualquer dados do IBGE, a indústria cultural mesmo de se inventar o termo
parte, é um bem estratégico para conta com mais de 269 mil Economia Criativa, nossas avós
a sobrevivência em vários países. empresas e emprega 1,4 milhão de já sobreviviam com criatividade
Prova disso são os relatórios do pessoas (sem contar a economia econômica em que a matéria
Banco Mundial indicando que informal). São perceptíveis as prima era a cultura, preservada
7% do PIB do planeta provêm péssimas condições econômicas desde a África e comercializada
da cultura, que ao longo tempo em que vive grande parte dos mesmo que de modo informal
tem sofrido mutação, antes de trabalhadores nessa área, como no seio da sociedade. Falo da
elemento de dominação social e artistas, técnicos e produtores. baiana do acarajé que com
política para o de dominação de Perceptível também é a seu tabuleiro e sua culinária
forte presença econômica. falta de qualquer estratégia milenar africana sustentou e
Vemos, hoje, países, regiões que impulsione este setor ainda sustenta gerações. Falo
e povos que historicamente para a autosustentação. Quase também do capoeirista que
têm sido aviltados pelo todas as políticas relacionadas com sua arte e inteligência criou
poder econômico encontrando- ao incentivo e à difusão dos grupos de alunos e hoje projeta
se desprotegidos não só produtos culturais no Brasil o Brasil em mais de 150 países,
na absorção de sua cultura, se fazem por meio de projetos e do futebol com sua ginga, sua
mas também na exclusão de curto e médio prazo, não malemolência de jogadores
nos resultados econômicos existe política consistente como Pelé, Ronaldinho ou Cafu,
provenientes deste bem. Um visando a autosustentação, projetando o Brasil no mundo
grande exemplo vem da América estabilização e exportação no por décadas, tempo esse em que
Latina e da África, que, apesar setor em nosso país. nenhuma ação patrocinada pelo
da diversidade e riqueza cultural Aqui, onde a cultura negra é Estado conseguiria tamanho
que possuem, não somam 4% patente, estando presente em efeito positivo.

19
O que diríamos, então, da dizer do carnaval, nossa maior inteligência, seja na culinária, na
música dos nossos cancioneiros festa popular exportada para religiosidade, na música, na dança
populares, ou até mesmo da quase todo o mundo, cuja mola e no imaginário, para conseguir
Bossa Nova, gênero musical propulsora mais uma vez é o sobreviver até os dias de hoje.
respeitado hoje no mundo samba, ritmo trazido pelos nossos O que já passou da hora é do
inteiro, cuja matriz mais uma vez antepassados da África? Estado e da sociedade brasileira
remete ao samba, à cultura negra Falar em economia criativa, adotarem políticas de valorização,
pujante que ainda sobrevive nos para nós, é simplesmente de incentivo à comercialização, à
morros e nas periferias deste endossar tudo o que temos difusão e à estruturalização da
país, dando sobrevivência a feito desde que o primeiro cultura brasileira a médio e longo
muitos grupos musicais dessa africano aqui pôs os pés e viu-se prazo, sobretudo, a cultura afro-
tal economia criativa? O que obrigado a usar de toda a sua brasileira.

Foto: Estúdio Foto´ Art

Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos

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Eixo 5 – Gestão e Institucionalidade da Cultura Afro-brasileira
Dora Bertúlio, mediadora

neste novo século – após 500 discussão do tema Gestão e


Foto: Estúdio Foto´ Art

anos de história – tem sido Institucionalidade da Cultura


marcantes na discussão pública Afro-Brasileira.
e inserção na agenda política do A gestão pública da
país sobre as relações raciais, o cultura impõe um olhar com
que abre ambiente propício para especialidade para o modo de
a valorização da cultura negra ver e fazer da população negra,
como efetivamente parte da observadas as vicissitudes das
cultura nacional. Nesse contexto, relações raciais formatadas
então, a Conferência Nacional ao longo dos 500 anos de
de Cultura insere, nas discussões nossa história. Não se pode,
para promover o debate e então, deixar de incluir, na
reflexão sobre os caminhos reflexão sobre estratégias de
das políticas culturais para as desenvolvimento cultural do
décadas vindouras, o Setorial Brasil, o ambiente sócio-político
A cultura é a alma de uma Afro-Brasileiro. Tal medida se em que as relações de poder
sociedade, de um povo, de um centra na perspectiva de que no micro e macro contexto são
indivíduo. os debates e a participação racistas e consequentemente
Na formação da sociedade dos grupos e indivíduos com de hierarquização dos valores
brasileira, as culturas originárias experiência na formulação e culturais da população brasileira,
das diversas nações e povos execução de projetos cuja linha na infeliz padronização européia
africanos aqui depositados em de trabalhar e pensar traga em como sendo aquela que “reflete”
razão do tráfico de escravos no seu cerne a cultura afro-brasileira, a apreensão do significado
Atlântico, foram e continuam possam contribuir com esse novo nacional.
sendo marcantes e interferentes momento de formulação das Se esta é a realidade das
na sociedade brasileira. É correto políticas culturais nacionais. políticas e dos investimentos dos
afirmar-se que o que chamamos A presente pré-Conferência, diversos setores que promovem
de cultura brasileira, sem preparatória deve, então, indicar e fomentam a cultura nacional
minimizar o lugar das culturas ao governo e ao Estado brasileiro, incluída com particularidade
indígenas e européias, tem seu como promover e estimular a as ações governamentais,
potencial de referência no modo cultura negra nacional, inseri- faz-se imprescindível, neste
de vida e manifestações culturais la positiva e necessariamente momento de reflexão, abrir a
das etnias e nações africanas. no projeto nacional de cultura crítica para as atuais políticas e
A história do Brasil, no entanto, a ser implementado pelas a visão homogeneizada de uma
e são diversos os movimentos administrações governamentais. formação cultural, quando temos
a denunciarem e demandarem Com essa introdução, temos um ambiente tão diverso quanto
por políticas que tenham essa então a tarefa de discutir e o que temos e com valores
dimensão da realidade, não traz apresentar pontos que deverão sociais díspares, privilegiando
na formação de nossa sociedade, intervir e, eventualmente, mudar grupos em detrimento de
o valor dessa contribuição como as estratégias de implementação outros grupos. Tal realidade
igualmente não reconhece a da cultura negra, com a age com total desprezo aos
potencialidade da cultura que perspectiva do desenvolvimento projetos culturais democráticos
convencionamos a chamar afro- da população negra no contexto anunciados e que, portanto,
brasileira. nacional. Este deve ser então não cumpridos. Essa parece ser
Os anos 1990 e a continuidade o ponto de partida para a a premissa fundamental para

21
a construção de uma política das relações sociais com poder mas igualmente no ideário
nacional de cultura, pretendida do conhecimento formal. No popular e inconsciente coletivo
para a Conferência Nacional de contexto das relações raciais, nacional, quer nas manifestações
Cultura do MinC. aqueles que detém esse culturais propriamente ditas,
Hoje temos as normativas poder representam o valor verificamos os entraves
e regulamentos para a gestão formatado ao longo da história institucionais. Ditos entraves,
governamental da cultura com nacional, como de mérito para não necessariamente dirigidos
os mesmos instrumentos da o desenvolvimento, qual seja para restringir a participação
administração pública que a representação do valor racial desses grupos e indivíduos não
gerenciam as demais atividades branco. pertencentes aos espaços de
do Estado. Esta generalização Ao visualizarmos os poder tradicionais mas que na
que por certo tem seus ganhos instrumentos para a utilização prática fazem essa determinação
para o controle das atividades dos recursos públicos, financeiros de exclusão, são estabelecidas
públicas e utilização de recursos ou de qualquer ordem que por leis e normas do direito
do tesouro, por outro lado, se não possam estabelecer ganhos, quer administrativo que como aqui
devidamente convencionado, na valorização da cultura quer já dito, são produzidas com
tende a prejudicar as populações no projeto de desenvolvimento a generalidade de “normas e
de menor poder aquisitivo e de humano onde a cultura, em nosso regulamentos da administração
menor inserção no seu meio entendimento, é representada pública”, onde a particularidade
social, privilegiando grupos e pelas relações não somente de das instituições e, mais ainda,
indivíduos que estejam à frente suas manifestações concretas, a particularidade das ações

Foto: Estúdio Foto´ Art

Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos

22
e finalidades das instituições promovem e realizam a cultura das políticas culturais do Estado
do Estado não são levadas em afro-brasileira, a fim de que estes brasileiro, a serem desenvolvidas
conta. possam, em equidade, participar pelo governo devem por certo
Nessa reflexão, a proposta dos ganhos e benefícios do trazer nas discussões desta pré-
que estamos levando é de desenvolvimento econômico do Conferência as propostas aqui
que há necessidade de uma país. Também faz-se necessária apresentadas. Nestas, o tema
análise ponderada sobre as a discussão e reflexão sobre desse eixo deve buscar a revisão
regras que estabelecem a os mecanismos de controle da das normativas e regulamentos
participação e parceria do administração pública para, ao no sentido de abrigar, com
Estado brasileiro com os grupos, mesmo tempo, atender a ética igualdade de condições
organizações e indivíduos que e o adequado uso dos recursos os movimentos trazidos e
expressam a cultura negra públicos e permitir que esses propostos pelos grupos e
nacional e agem com o intuito recursos possam ser utilizados organizações que promovem
do desenvolvimento humano de forma democrática e justa, e apóiam as manifestações
da população negra, como atendendo sempre ao princípio culturais afro-brasileiras, em
estratégia do desenvolvimento constitucional inscrito no Art. um conceito amplo de cultura
do país – de toda a sociedade. 3º da Constituição Federal, qual onde as formas de viver das
Análises que devem resultar seja, garantir o desenvolvimento populações remanescentes de
em propostas de mudanças nacional, erradicar a pobreza quilombos, as comunidades
estruturais dos mecanismos de e a marginalização e reduzir inseridas em área de risco
promoção e fomento da cultura as desigualdades sociais e dos projetos de segurança
nacional a ser realizada pelo regionais, como parte dos pública que, em outro painel
Estado brasileiro, partindo de objetivos fundamentais da deverá ser discutido em
políticas públicas voltadas para República brasileira. atenção à necessária garantia
o desenvolvimento nacional, Os novos ares que devem ser de integridade física, moral e
atendendo as particularidades trazidos pela Conferência Nacional psíquica da população negra
dos grupos e organizações que de Cultura no estabelecimento no país.
Foto: Estúdio Foto´ Art

Grupo de Trabalho discutindo eixos temáticos

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24
Estatuto da Igualdade
Racial ainda é um marco
a ser conquistado
Abolição da escravatura não garante liberdade e igualdade
aos negros que ainda hoje vivem os resquícios dos 400 anos de
escravidão no Brasil

Marcus Bennett

A pós 121 anos da abolição da


escravatura um documento
para garantir a igualdade racial
quilombolas.
O texto do projeto
estabelece medidas de combate
plenário daquela Casa, apenas
nas comissões e já passaria a valer
desde então. Contudo, como foi
foi criado no Brasil, o Estatuto à discriminação racial e para aprovado com modificações,
da Igualdade Racial – Projeto de promover a participação de deve agora passar por nova
Lei nº 6.264/05. Ele foi votado afrodescendentes nas áreas análise no Senado.
e aprovado em setembro de institucionais e de poder em Por conta disso, questões
2009 pela Comissão Especial da condições de igualdade com como a demarcação das terras
Câmara dos Deputados – criada as outras etnias. Entre os quilombolas e a criação de cotas
especialmente para proferir preceitos para se viabilizar esta de 20% para negros em filmes e
parecer sobre o projeto. Mas, participação, está a previsão programas de TV ficaram de fora.
de lá para cá, houve pouca de conselhos de Promoção da Essa mudança foi necessária
evolução no sentido de torná-lo Igualdade Racial nos âmbitos para que a bancada do partido
uma realidade. municipal, estadual e federal, dos Democratas (DEM) – maior
O Estatuto passou quase 10 formados por representantes do opositora ao Estatuto – concordasse
anos no Congresso Nacional governo e da sociedade civil. com a aprovação da Lei.
promovendo intensas discussões O projeto do Estatuto da O autor do projeto, senador
e brigas em torno do tema da Igualdade Racial, originário do Paulo Paim (PT-RS), aponta
igualdade racial, do sistema de Senado Federal, tramitou em algumas razões que fazem com
cotas e das políticas de promoção caráter conclusivo, ou seja, sem que a lei não tenha se tornado real
para afrodescendentes e a necessidade de ser votado no ainda em 2009, como esperavam

25
as lideranças do movimento nós não recuamos”, esclarece. “o estatuto cumpre
negro e parlamentares favoráveis E complementa: “o estatuto
ao Estatuto. cumpre um papel simbólico um papel simbólico
“Setores conservadores importante, o de reconhecer importante, o de
criaram obstáculos ao avanço que a abolição da escravatura
do Estatuto, principalmente, nas no Brasil ainda não foi concluída, reconhecer que a abolição
questões referentes aos territórios já que os afrodescendentes
da escravatura no Brasil
quilombolas e à criação de cotas enfrentam preconceitos e
raciais”, explica Paim. dificuldades, especialmente no ainda não foi concluída, já
De acordo com a proposta acesso à educação e ao mercado
original do parlamentar, o texto de trabalho”.
que os afrodescendentes
também conferia cotas para Para o senador Paulo Paim, enfrentam preconceitos
negros em instituições públicas a não aprovação do projeto em
de ensino superior, o que não foi 2009, no Senado, deve-se ao fato e dificuldades,
considerado no texto aprovado de que alguns membros da Casa especialmente no acesso
pela comissão da Câmara. querem tirar ainda mais pontos
Da forma como foi aprovado, do que já foi retirado na Câmara. à educação e ao mercado
o Estatuto estabelece políticas “Alguns radicais pretendem
de trabalho”, diz Paim
de proteção e promoção desfigurar o Estatuto além do
da igualdade racial, como a que já aconteceu na Câmara.
possibilidade de o governo criar Já reduziram de 30 para 10% as
incentivos fiscais para empresas cotas às candidaturas partidárias,
com mais de 20 empregados e agora estão querendo acabar
formada por pelo menos 20% com a parte que trata da saúde
de negros. E, ainda, prevê ao dos negros. Não dá para aceitar
poder público a adoção de mais recuo, temos que votar o
ações afirmativas em instituições texto da forma como chegou Para o ministro da Secretaria
públicas federais de ensino, mas da Câmara, mesmo que demore de Políticas de Promoção da
sem a previsão de cotas, além mais tempo. Não dá para Igualdade Racial – Seppir,
da promoção de igualdade de aprovar um texto que vai ferir Edson Santos, o Estatuto é
oportunidade no mercado de a autoestima do povo negro. uma legislação que tem por
trabalho. Senão, daqui a pouco, o que fica objetivo consolidar, enquanto
Outro tema de grande de bom do Estatuto é só a capa. política de Estado, a promoção
interesse foi a aprovação de Se aqui [Senado] conseguirmos da igualdade racial. “O estatuto
uma cota de 10% para negros aprovar da forma como foi na é uma legislação que tem a
nas candidaturas às vagas Câmara será ótimo”, observa. finalidade de assegurar os
da Câmara dos Deputados, Flávio Jorge, da Soweto direitos da população negra,
Assembleias Estaduais e Câmara Organização Negra, entende direitos esses que não foram
de Vereadores. O texto inicial que mesmo com a existência observados quando da abolição
previa um percentual de 30%. do Estatuto as organizações da escravatura, o que gerou
Apesar disso, o presidente da sociais vão ter que suar para essa dívida imensa do Estado
Comissão Especial na Câmara, fazer valer a lei. Em sua avaliação brasileiro com esse segmento
deputado Carlos Santana (PT-RJ), “a aprovação do Estatuto da da população. O estatuto fixa
viu a aprovação como um marco Igualdade Racial, assim como normas legais que possibilitam
histórico, o qual reconheceria a Lei de Cotas, será um marco a ascensão da população
que no Brasil ainda existe importante, mas a eficácia e a negra, sua inclusão no processo
racismo. “Ao aprovar o estatuto implementação dessas leis vão econômico de forma qualificada
estamos reconhecendo que há depender sempre da pressão do e sua mobilidade social a partir
discriminação racial no Brasil, mas movimento social”. da educação”, explica.

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Principais pontos - Os direitos das mulheres religiões de matriz africana
negras estão contemplados em praticadas no Brasil
- Partidos são obrigados um capítulo
a reservar 10% de suas - Trata ainda de questões
candidaturas para negros nas - Currículo do ensino como o esporte, o acesso à
eleições proporcionais. Hoje só fundamental deverá ter aulas de saúde e a criação do Fundo
há reserva para mulheres história geral da África e história Nacional de Promoção
do negro no Brasil da Igualdade Racial, para
- Sistema de saúde terá promover igualdade de
de garantir tratamento e - Será reconhecido o direito oportunidades e inclusão
especialização em doenças mais à liberdade de consciência e social dos afro-brasileiros
comuns na raça negra, como de crença dos afro-brasileiros para garantir cidadania à
anemia falciforme e da dignidade dos cultos e comunidade negra brasileira.

Histórico do Estatuto da Após essa troca de ideias, março no Senado Federal, e o


Igualdade Racial a primeira versão do Estatuto esforço é para que o Estatuto
foi apresentada na Câmara seja aprovado ainda no governo
A ideia de construção do dos Deputados ainda em Lula. O senador arrisca:
Estatuto começou a surgir 1995, mas não chegou a ser “Seria interessante se fosse
quando o então deputado Paulo votado. Somente quando aprovado no dia 1º de maio,
Paim visitou a África, no início Paim se tornou senador é que seria uma bonita simbologia,
da década de 1990, ocasião em conseguiu retomar o debate representando não só os negros,
que conheceu Nelson Mandela sobre a temática racial no mas todos os trabalhadores
e recebeu a “Carta da Liberdade Congresso Nacional. brasileiros, negros e brancos”,
do Povo Sul-africano”. Somado Em 2003, o projeto do diz, empolgado.
a isso, dois outros episódios Estatuto da Igualdade Racial
também foram marcantes na foi apresentado e aprovado
pelo Senado, sendo submetido,

Foto: Dilvugação
época: a caminhada dos cem
mil sobre Washington, liderada então, à votação na Câmara dos
por Martin Luther King, e o Deputados para que o projeto
reconhecimento da Suprema se tornasse lei. Mas, na Câmara
Corte norte-americana aos ficou por sete anos à espera do
direitos dos negros. aval dos parlamentares, que só
Assim, Paim começou a foi ocorrer em setembro de 2009.
esboçar um projeto que pudesse Como foram feitas algumas
modificar a situação dos negros mudanças na concepção
brasileiros. “Foram quase cinco original, o projeto voltou ao
anos de idéias e debates com Senado, onde espera até hoje
toda a sociedade. Antes de a confirmação dos senadores
apresentar o projeto eu quis para se tornar um marco
ouvir todos aqueles, negros e histórico na reparação dos
brancos, comprometidos com direitos dos negros.
Senador Paulo Paim
a causa. Houve um grande De acordo com o senador,
diálogo”, conta. o debate deve retornar em

27
Foto: Marcus Bennett

Comunidade de São Domingos, Paracatu-MG

28
Os quilombolas
e a resistência
A luta pelo direito à vida e à liberdade levou milhares de negros
a se organizarem em seus quilombos, espaços que possibilitavam
a expressão de seus valores e práticas tradicionais com base
na ancestralidade escrava e africana. Ainda, hoje, famílias
compostas por descendentes de ex-escravos, representadas pelas
comunidades quilombolas, configuram uma das expressões de
resistência à histórica exclusão social sofrida pelos negros no
Brasil a partir da necessidade de reconhecimento pelo Estado de
sua ancestralidade, cidadania e direito de acesso às suas terras e
garantia da continuidade de seus costumes, valores e tradições

Marcus Bennett

U m assunto bastante dis-


cutido e presente na pauta
da mídia e dos parlamentares
procurado, além de minimizar
as dificuldades de acesso aos
direitos básicos das famílias
remanescentes de quilombos
existentes hoje no Brasil, além
da defesa jurídica das áreas já
brasileiros nos últimos anos foi quilombolas, mediar e superar tituladas, conforme prevê, o art.
à questão do direito de posse os obstáculos perante a questão 16 do decreto: “Após a expedição
das terras pertencentes às do conflito agrário. do título de reconhecimento
comunidades quilombolas. Um Com os objetivos de preservar, de domínio, a Fundação
direito reconhecido em nossa valorizar e desenvolver a cultura Cultural Palmares garantirá
Constituição Federal que tem afro-brasileira, a FCP também assistência jurídica, em todos os
sido alvo de críticas e comentários é responsável pela emissão do graus, aos remanescentes das
racistas em meio aos constantes certificado de autodefinição comunidades dos quilombos
conflitos e disputas judiciais. (conforme estabelecido por para a defesa da posse contra
Por isso, a Fundação Cultural meio no decreto nº 4.887 de 20 esbulhos e turbações (proteção
Palmares (FCP), vinculada ao de novembro de 2003 em seu contra atos de violência, invasão
Ministério da Cultura, tem artigo 3º § 4º) das comunidades ou algum tipo de transtorno, de

29
forma a garantir a privacidade O papel da Fundação
e o sossego da comunidade),
para a proteção da integridade nessa luta é oficializar e
territorial da área delimitada formalizar a existência
e sua utilização por terceiros,
podendo firmar convênios com das comunidades
outras entidades ou órgãos que
quilombolas
prestem esta assistência...”.
Para que um grupo ou
comunidade seja considerado
como remanescente de
quilombo, alguns conceitos
são fundamentais. Assim, são
reconhecidos como tais, “os
grupos étnicos raciais que incorporadas à legislação
possuam trajetória histórica brasileira pelo decreto
própria, dotados de relações legislativo 143/2002 e decreto
territoriais específicas, com nº 5.051/2004.
presunção de ancestralidade Não há como se ter um
negra relacionada com formas de número exato de comunidades
resistência à opressão histórica quilombolas existentes no Brasil,
sofrida, e acima de tudo, que uma vez que o processo de
se autoreconheçam como reconhecimento das mesmas é
descendentes de escravos”, relativamente recente e exige
define Eliane O’Dowyer em seu maior engajamento dos órgãos
livro Quilombos: identidade do Estado e da sociedade
étnica e territorialidade. Cada brasileira na publicização da
comunidade deve se auto- existência desse segmento
declarar como tal, ou seja, social. No entanto, até o
como comunidade quilombola início deste ano, a Fundação
cuja origem, valores e Cultural Palmares já tinha
práticas são compartilhados certificado 1.408 comunidades
coletivamente. Tal atribuição que comprovaram e se
não é feita pela Fundação autodeclararam descendentes
Cultural Palmares ou qualquer de escravos.
outro órgão governamental. O Assim, o papel da Fundação
reconhecimento da natureza nessa luta é oficializar e
quilombola surge da própria formalizar a existência das
necessidade do grupo social em comunidades quilombolas,
identificar suas raízes e valorizar assessorar juridicamente e
o núcleo de sua cultura por meio desenvolver projetos para
da luta de resistência. que as mesmas possam ter
O amparo legal é dado pela acesso e passem a exercer
Convenção 169, da Organização seus direitos de cidadania,
Internacional do Trabalho, além de serem inseridas em
ratificada pelo governo programas e políticas públicas
brasileiro, por meio do fecreto governamentais a fim de
n.º 5.051, de 19 de abril de 2004, terem reparado os direitos de
cujas determinações foram igualdade e liberdade dos quais

30
foram tolhidos durante e após
a escravidão, já que ainda hoje

Foto: Regina Santos


sofrem com o racismo velado
existente no país.
Os grupos que hoje são
considerados comunidades de
quilombolas se constituíram
a partir de uma grande
diversidade de processos, que
incluem não apenas “as fugas”
com ocupação de terras livres
e geralmente “isoladas” – visão
esta já superada – mas as
heranças, doações, recebimento
de terras como pagamento de
serviços prestados ao Estado, a
simples permanência nas terras
que ocupavam e cultivavam
no interior das grandes
propriedades para continuarem
a servir de mão-de-obra, bem
como a compra de terras, tanto
durante a vigência do sistema
escravocrata quanto após a sua
extinção.
Um dos aspectos relacionados
à configuração dos quilombos é a
organização política e a inclusão
de outros grupos excluídos em
tais espaços. Ou seja, longe
de ser um local isolado onde
os escravos se refugiavam, o
quilombo tem a função de
agregar e organizar grupos em
prol de um objetivo comum
e compartilhado por seus
membros. Atualmente, pode-
se dizer que as comunidades
quilombolas formaram-se a
partir da manutenção de suas
tradições culturais, suas origens
étnicas e identidades sociais
bem como são fruto de uma
organização política própria.
Para acessar a política de
regularização de territórios
quilombolas, as comunidades
devem encaminhar à Fundação
Palmares uma declaração na
Comunidade de Santo Amaro, Paracatu-MG

31
qual se identificam enquanto O quilombo não mil hectares foram titulados
comunidade quilombola e que pelo governo federal até 2002,
assim desejam ser reconhecidos. significou apenas um em terras de domínio particular,
Deste modo, caberá à Fundação lugar de refúgio de relativos a 2.270 famílias, mas não
expedir uma Certidão de foram registrados em cartório,
autoreconhecimento em nome escravos fugidos, mas porque as áreas correspondentes
da mesma. não foram desintrusadas
a organização de uma
Hoje, existem na FCP (termo técnico utilizado pelo
mais de dois mil processos sociedade livre incra para definir a remoção
abertos para certificação de de não-quilombolas das terras
comunidades quilombolas que demarcadas e a desapropriação
se autodeclararam. dos imóveis particulares), já
que os moradores antigos
não quilombolas não foram
Outros procedimentos indenizados e retirados do local.
enorme número de relatórios Contudo, já no início do
Após a certidão emitida técnicos que devem ser governo Lula a temática
pela FCP, o processo para realizados para dar continuidade quilombola teve maior
regularização fundiária – aos processos de titulação amplitude. Estudos e debates
identificação, delimitação, das terras. “Hoje, contamos foram iniciados e logo em
demarcação e titulação da terra apenas com 27 antropólogos 2003 surgiu o decreto 4.887,
- segue para o Instituto Nacional para atender o Brasil inteiro. considerado um marco político
de Colonização e Reforma Agrária Há também o problema do no reconhecimento dos direitos
(incra) que fica responsável excesso de cautela que devemos dos povos e comunidades
pelo levantamento territorial tomar para atender as muitas tradicionais. Givânia explica
e estudos antropológicos e legislações e normas criadas também, que a dedicação do
históricos, dentre outros, a a partir do decreto 4.887, sem governo federal nos últimos
serem elaborados a partir contar com as ações judiciais que anos se transformou em
dos Relatórios Técnicos de param os processos”, esclarece. investimentos. Isso porque, a
Identificação e Delimitação O decreto 4.887/03 é a verba destinada para a ação
(RTIDs), para a correta delimitação norma legal que regulamenta o de estudo, demarcação e
e demarcação da área a ser procedimento para identificação, titulação da Coordenação de
titulada aos quilombolas. reconhecimento, delimitação, Regularização de Territórios
Até o momento, já foram demarcação e titulação das terras Quilombos do incra aumentou
emitidos 106 títulos de ocupadas por remanescentes das consideravelmente: de R$ 3,5
propriedade para as áreas comunidades dos quilombos. milhões, em 2003, para R$ 10
quilombolas, beneficiando 173 Ainda assim, mesmo com milhões, em 2010. E não ficou
comunidades e 11.070 famílias. a regulamentação jurídica e somente nisso. As verbas para
O número ainda é baixo, mas a com o esforço do incra para o pagamento de indenização
tendência até o final do Governo regularizar a ocupação das a ocupantes não quilombolas
Lula é aumentar esses números. terras, o conflito agrário continua subiu de R$ 28 milhões para
Segundo a coordenadora sendo o principal problema R$ 54 milhões, sendo que a
Geral de Regularização de enfrentado pelas comunidades coordenadora geral já fez
Territórios Quilombos do incra, quilombolas. Pois a concessão um pedido de destaque
Givânia Silva, uma das principais do título para as comunidades solicitando mais R$ 36,5
dificuldades encontradas pela nem sempre significa que os milhões para essa ação.
instituição é a falta de servidores quilombolas realmente detêm Segundo ela, é necessário
e especialistas, principalmente a posse da terra. De acordo com esse dinheiro para que se possa
antropólogos, para suprirem o dados do Instituto, cerca de 290 indenizar os proprietários que

32
atualmente utilizam as terras a titulação é a última etapa. quilombo em oito anos. O
dos quilombolas, deixando estes Não adianta darmos o título governo Lula, até janeiro de
como os únicos usuários, bem e não regularizar a terra, não 2010, já outorgou 60 títulos,
como para reaver as benfeitorias efetuarmos a desintrusão, pois beneficiando 82 comunidades.
que possam ter sido feitas. não resolveria a questão e ainda Ao todo, já foram emitidos 106
Por isso, de 2003 até causaria mais conflitos”. títulos de propriedade em 97
hoje, mais 60 comunidades Atualmente, o incra conta territórios quilombolas.
quilombolas receberam o título com 948 processos abertos à O Instituto de Terras do Pará
de suas terras, já com todos os espera da titulação de terras. foi o órgão que mais emitiu títulos
processos judiciais resolvidos e para comunidades quilombolas:
com a desintrusão devidamente A titulação 38 títulos entre 1997 e 2008.
realizada, ou seja, os quilombolas Os outros governos de estado
são verdadeiramente os donos Tanto o governo federal que também titularam terras
e únicos ocupantes das terras. quanto o governo estadual de quilombo foram: Maranhão
“O processo é longo, mas o que podem titular terras de (23 títulos), São Paulo (6), Piauí
minimiza nossa angústia é saber quilombo. Entre novembro de (5), Bahia (2), Rio de Janeiro (1)
que quando titulados esse título 1995 a abril de 2008, o governo e Mato Grosso do Sul (1). Pela
e a posse da terra são reais”, federal outorgou 27 títulos para Fundação Cultural Palmares
comemora Givânia. E ressalta, comunidades quilombolas. O também já foram expedidos 15
“nosso objetivo maior sempre governo Fernando Henrique títulos de posse de terra.
é a regularização fundiária, Cardoso titulou 46 terras de

Foto: Regina Santos

Comunidade de Santo Amaro, Paracatu-MG

33
Palmares e os simbólico, pois é um ato o lançamento do Programa
quilombolas formal que legitima um direito Brasil Quilombola, em 2004,
adquirido de reconhecimento que mobiliza 23 ministérios e
Atualmente, a Palmares por das comunidades quilombolas órgãos federais e têm como
intermédio do Departamento pelo Estado”. principais objetivos a garantia
de Proteção do Patrimônio Afro- Maurício também fala do acesso à terra, ações de
brasileiro (DPA), desenvolve sobre o caráter político saúde e educação, construção
duas ações específicas para do reconhecimento das de moradias, eletrificação,
as comunidades quilombolas. comunidades por parte do re cup e r aç ão amb i e nt al,
O etnodesenvolvimento das Estado. “Essa identificação incentivo ao desenvolvimento
comunidades remanescentes e manifestação pelo local, atendimento das famílias
de quilombo, que implementa reconhecimento étnico pelas quilombolas, e medidas de
ações para o desenvolvimento comunidades quilombolas é o preservação e promoção
das comunidades de acordo primeiro passo para o processo das manifestações culturais
com suas necessidade e com de regularização fundiária e quilombolas.
suas tradições e a capacitação acesso à implementação de Para o quilombola Adalmir
de recursos humanos em cultura políticas públicas. O Estado José da Silva, coordenador geral
e patrimônio afro-brasileiro, brasileiro reconhece, não da Associação quilombola de
que forma multiplicadores somente, a existência das Conceição das Crioulas, localizada
quilombolas e da população comunidades, mas sua condição no município de Salgueiro,
afro-brasileira em cultura e atual em função de sua em Pernambuco, a simples
patrimônio afro. trajetória histórica. O diferencial certificação pela Palmares já
Para o diretor do DPA, no governo Lula foi a construção traz muitos benefícios. “Além
Maurício Jorge Souza dos Reis, do diálogo, com a participação de podermos participar dos
“a emissão da certidão de de lideranças quilombolas, programas sociais, temos o apoio
autodefinição das Comunidades movimentos sociais e órgãos da assessoria jurídica quando
Remanescentes de Quilombos, parceiros, reconhecendo e há algum conflito na questão
ratifica a missão da instituição valorizando a história e a cultura da territorialidade. Certificados,
na implementação de políticas desses povos, viabilizando, temos mais presença e ajuda do
públicas para essas comunidades, dessa forma, a implementação governo”, conta.
além de promover a preservação, de políticas públicas”. Recentemente, em convênio
a proteção e a disseminação Com esse conjunto do com a FCP, a comunidade de
da cultura negra visando sua Estado, algumas ações têm sido Conceição das Crioulas recebeu
inclusão e seu desenvolvimento. implementadas para garantir batedeiras de cereais para
Essa certidão tem caráter o direito à cidadania, à saúde, facilitar a produção das sementes.
à educação e à preservação e Reconhecida nacionalmente
Foto: Estúdio Foto´ Art

valorização da cultura, como pelos seus produtos artesanais,


por exemplo: Regularização como as bonecas de fibra de
Fundiária; Luz Para Todos, caroá e objetos de argila, a
Saúde da Família, Saúde comunidade participa também
Bucal; distribuição de material do Selo Quilombola. De acordo
didático e capacitação de com Adalmir, “o selo dá mais
professores da educação básica; visibilidade aos nossos produtos
construção de espaços físicos nas e podemos vender mais”,
comunidades remanescentes de comemora.
quilombos e inclusão produtiva, Instituído pela Secretaria
desenvolvimento local e fomento Especial de Políticas de Promoção
ao etnodesenvolvimento. da Igualdade Racial - Seppir, o
Diretor da DPA, Maurício Reis
Importante também foi Selo Quilombola visa a criação

34
de uma rede nacional de gestão Na maior parte dos casos são licenciamentos e promover a
de um selo que identifique ações do Programa de Aceleração aproximação e compreensão
os quilombolas, para atribuir do Crescimento (PAC), que atende das comunidades quilombolas
identidade cultural e agregar ao desenvolvimento econômico junto aos empreendimentos
valor a produtos artesanais com do país em vários níveis e setores existentes em suas áreas, além
potencial de desenvolvimento de produção. Os EIAs/RIMAs são do acompanhamento, por meio
econômico sustentável para as obrigatórios e são alguns dos da realização de vistorias e
comunidades remanescentes de requisitos exigidos pelo Instituto visitas técnicas para verificação
quilombos. Brasileiro de meio Ambiente da abrangência dos impactos e
A distribuição de cestas (ibama) para a obtenção das avaliação participativa junto às
alimentares também é uma outra licenças ambientais. Um dos comunidades quilombolas sobre
ação em favor das comunidades. itens que integram os Estudos a atuação das empresas.
Em convênio com o Ministério e Relatórios é a caracterização Do mesmo modo, auxilia
do Desenvolvimento Social e das comunidades tradicionais, na inclusão e participação das
Combate à Fome, a FCP busca uma vez constatada a existência comunidades quilombolas na
atender o máximo de famílias das mesmas nas áreas de elaboração de diagnósticos,
quilombolas em situação abrangência apontadas pelas estudos, relatórios, Programas
de insegurança alimentar e empresas. Quando identificada Básicos Ambientais, bem
nutricional. A prioridade é dada a comunidade quilombola, como na execução das obras e
a grupos remanescentes de ela deverá ser devidamente suas intervenções de forma a
quilombos, famílias acampadas apresentada nos estudos e garantir o acesso desses povos
que aguardam o programa de relatórios segundo aspectos às informações sobre as ações
reforma agrária, comunidades socioeconômicos, culturais que envolvem seus territórios.
de terreiros, indígenas, atingidos e históricos. Da mesma Por outro lado, é essencial
por barragens e populações forma, faz-se necessária a promover a aproximação das
residentes em municípios apresentação dos possíveis empresas com a realidade
vítimas de calamidades públicas, conflitos envolvendo questões que afeta as comunidades
impossibilitadas de produzir ou territoriais, fator predominante quilombolas, principalmente
adquirir alimentos. Hoje, 24.850 na realidade que atinge a no que diz respeito à influência
famílias quilombolas e 8.400 maior parte das comunidades dos impactos nos locais onde
famílias nas comunidades de quilombolas no Brasil. ocorrerão as obras, respeitando
terreiro de matriz africana são Assim, a Palmares tem a as tradições e manifestações
atendidas pelo convênio. função de avaliar, tecnicamente, culturais destas comunidades.
Além disso, o DPA também o conteúdo dos EIA/RIMA Os quilombos vivem até
trata de questões ligadas emitidos pelas empresas e hoje se dedicando à agricultura
às ações de licenciamentos remeter parecer ao ibama familiar, ao artesanato e à
ambientais, nos quais se dedica para possíveis ajustes, como a prestação de serviços. Essas
à análise dos Estudos de Impacto verificação da existência de outras comunidades guardam
Ambiental (EIAs) e Relatórios comunidades quilombolas, consigo uma riqueza em
de Impacto Ambiental (RIMAs), melhor detalhamento acerca termos de diversidade cultural
acompanhando as empresas que da caracterização destas relacionada à culinária,
afetam direta e indiretamente os comunidades, além de listar artesanato, construções, festas
quilombolas, especificamente, outros aspectos que possam não e comemorações, práticas
quando da interferência de ter sido apontados de forma clara religiosas e modos de viver
obras e atividades voltadas aos nos estudos, condicionando, específicos que remetem às
grandes empreendimentos, inclusive, as próximas fases suas raízes africanas um toque
como hidrelétricas, gasodutos, de licenciamento. À FCP brasileiro.
rodovias e linhas de também cabe o diálogo com O valor desta memória é
transmissão. os órgãos responsáveis pelos incalculável.

35
Foto: Ricardo Prado

Giro Cultural na sede dos Filhos de Gandhy, no Pelourinho

36
Deixa a vida girar...

O Movimento AfroPop Brasileiro misturou ritmos de raízes afro-


brasileiras com sonoridades pop mundiais, traduziu a arte
usando várias linguagens como a fotografia e as artes plásticas
em um mesmo espaço e, foi além, abriu espaço para o debate
sobre a arte negra, sobre a arte que é consumida – ou vendida
– e, principalmente, a importância de valores que traduzam a
afirmação da negritude

Rachel Mortari

o Giro Cultural circulou


por Salvador e visitou
três bairros da cidade e o
Menezes com o patrocínio da
Fundação Cultural Palmares,
vinculada ao Ministério da
temos que ser muito, mas muito
bom no que fazemos ou não
encontraremos espaço para nos
Pelourinho. Juntou cerca de 500 Cultura. O Movimento, que expressar”, explica a cantora.
crianças e adolescentes entre aconteceu durante o mês de Nas conversas com os
cinco e 20 anos com músicos, janeiro em Salvador, misturou meninos ela era sempre muito
artistas, religiosos, políticos, sonoridades, estilos musicais, enfática, alertando que as
dançarinos, gestores públicos, fotografia, artes plásticas e histórias que eles estavam
jornalistas. Dessa mistura também tratou do social. ouvindo eram histórias da vida
uma conversa franca e aberta O Giro era um sonho antigo real, não era conversa de novela.
sobre negritude, afirmação, de Margareth, “sempre quis reunir Eram histórias de gente que
preconceito, sexualidade, a meninada para conversar sobre sofreu de verdade, de dor, mas
talento e, principalmente, sobre essas coisas. Coisas que tratem eram também histórias de gente
perseverança e confiança, sobre de nossas raízes, da nossa luta que venceu. “Eu sempre fui
a necessidade de acreditar em diária, de nossa necessidade de muito atirada, sempre enfrentei
um sonho e correr atrás dele, se superar o tempo todo. Pobre os desafios, não me deixei
com coragem. e negro tem que estudar muito intimidar, mas nunca tive um
O Giro Cultural integrou o mais, trabalhar muito mais, se incentivo como esse, alguém que
Movimento AfroPop Brasileiro, dedicar muito mais. Não temos a dissesse ‘olhe menina, siga em
coordenado por Margareth alternativa de sermos medianos, frente’ e eu acho que o incentivo

37
é importante, é alento para alto, negro e com cabelos a gente”, desabafa a vereadora
nossas almas, por isso criamos rastafári – puxou rapidamente que trabalhava como faxineira
este espaço, para que ele seja sua bolsa, que estava na cadeira. ao passar no vestibular de
um momento de reflexão”. Ele, calmamente, falou em seu Pedagogia.
O primeiro encontro, ouvido: “Não se preocupe, hoje “O projeto de vida de
na sede do Ilê no Curuzu, eu não vim roubar, só almoçar”. vocês deve ser estudar muito,
bairro da Liberdade, juntou Já Zezé Motta contou da sua conhecer a África, suas origens,
personalidades de peso. A atriz dificuldade em conseguir papéis suas essências. Chega de filhos
Zezé Motta, o dirigente do Ilê na televisão. “Até depois de todo de negros mortos tornarem -se
Ayê, Vovô, além de Margareth, meu sucesso no cinema com números de estatísticas, não
Zulu Araújo, presidente da Xica da Silva, onde ganhei todos estamos aqui de penetras, tem
Palmares e a vereadora de os prêmios que se pode ganhar algo que nos pertence e temos
Salvador, Olívia Santana (PCdoB). no cinema, só me ofereciam que resgatar”, alerta.
Uma reunião emocionante, trabalhos como empregada Já no segundo encontro a
porque foi a primeira do projeto doméstica”, relatou. descontração da jornalista Rita
– trazendo a ansiedade da estréia História semelhante vivenciou Batista tomou conta da escola
– e porque tratou de questões Olívia. “Minha mãe era faxineira Marquês de Maricá, no Pau
muito pessoais, falou-se do e eu não queria ser faxineira, Miúdo. E brincando se falou de
preconceito vivido no trabalho, é um trabalho digno mas não coisas sérias, como sexualidade,
nas ruas, com amigos. podemos aceitar isso como gravidez precoce, paternidade,
Vovô contou que uma vez pertencente ao nosso DNA. responsabilidade, preconceito,
estava em um restaurante a Podemos ser mais, podemos ser DST/AIDs. “Existe muitas formas
quilo e que, com o prato na outras coisas, é preciso termos de prazer, mas na hora do ‘vamos
mão ao procurar uma mesa um projeto de vida senão o ver’ é preciso usar a camisinha”,
para sentar-se, uma senhora capitalismo selvagem e racista lembra a jornalista, que tem um
olhou para ele – um homem arruma um projeto de vida para programa na rádio Metrópole

Foto: Ricardo Prado

Em tom de descontração a jornalista Rita Ribeiro falou sobre sexualidade,


responsabilidade, preconceito entre outras coisas

38
travestis negras, o que sobra

Foto: Ricardo Prado


é a prostituição, na hora que a
fome bate a gente sabe o que
é preciso fazer. Estou feliz onde
estou porque sou perseverante,
tenho um trabalho”.
Nesse dia também estavam
presentes na reunião o músico
Roberto Mendes e o editor da
revista Raça, Mauricio Pestana.
O terceiro Giro aconteceu
na sede colorida dos Filhos de
Gandhy, no Pelourinho e falou da
arte enquanto ferramenta para
mudar a vida. Para esse encontro,
de casa lotada, Margareth e Zulu
receberam os atores Érico Brás e
Valdinéia Soriano, do Bando de
Teatro Olodum – que fazem o
seriado Ó pai Ó e o ator Jackson
Costa, o professor e compositor
Terceiro Giro Cultural na sede dos filhos de Gandhy Jorge Portugal e o fundador do
Projeto Axé, Cesare de La Rocca.
na capital baiana, o ´Rita para as drogas, para morrer na mão Histórias muito parecidas.
maiores´ e responde perguntas da polícia. Paternidade exige Nascidos em favelas ou em
sobre sexualidade responsabilidade. O Olodum locais muito pobres tiveram na
Participaram ainda desse cuidou de muitos desses interpretação, na música, na
encontro, além de Margareth meninos, mas mesmo assim poesia, suas vidas transformadas.
e Zulu, o padre Alfredo, muitos morreram cedo”. Érico lembrou, no entanto, que
coordenador do Instituto Margareth atentou também quando começou a fazer teatro
Beneficente Conceição Macedo para o crescimento econômico na escola só podia participar das
e a sexóloga Maria Paquelé. do país, ressaltando que esse atividades se tivesse boas notas,
Margareth foi direta: “Ouvi crescimento requer profissionais o mesmo critério utilizado pelo
algumas meninas dizerem capacitados. “Vai haver vaga e Bando de Teatro Olodum.
que tem vergonha de levar não vai ter gente para trabalhar
camisinha na bolsa porque o porque nossas meninas estão
menino pode achar que ela está em casa cuidando dos filhos e
sendo oferecida. Mas, quando a não foram para a escola.” “Até depois de todo meu
menina fica grávida e o pai some, Parte do sucesso do
sucesso com Xica da
é geralmente a família dela que resultado dessa conversa pode
a acolhe e se responsabiliza pela ser conferida ali na hora, com o Silva, onde ganhei todos
criança”. depoimento vibrante da travesti
Pegando o gancho de Paulete Furacão, 25 anos. “Eu sou
os prêmios que se pode
Margareth, Zulu falou do a perseverança porque acredito ganhar no cinema, só me
que era a paternidade na sua em mim, na minha capacidade
geração: era legal fazer um filho e, por isso, conquistei meu ofereciam trabalhos como
em cada mulher, só que muitos espaço neste lugar - no projeto empregada doméstica” ,
dos meus amigos perderam Jovem Aprendiz. “Para as
seus filhos para o tráfico, para travestis, principalmente as fala Zezé Mota

39
Cesare, no entanto, contou das crianças - de 4 a 7 anos - na talvez nem todos vocês tenham
outra história. Italiano há 43 anos abertura da exposição O Benin sucesso, mas por meio da
no Brasil e 31 na Bahia encontrou está vivo ainda lá, no Museu Afro arte vão saber ser cidadãos e
em Salvador traços de sua Brasil, na Semana do Benin na poderão interferir na sociedade.
cidade natal, Florentina. “Aqui as Bahia, promovida pela Palmares. Diferente de Cesare, nós não
pessoas respiram arte, há beleza “A arte que eles apresentaram vai estamos aqui por opção, não
nas ruas, antigos casarões”, fazer a vida deles se transformar”, somos imigrantes, somos
conta o italiano que trabalha comemora Zulu. descendentes de escravos, de
com meninos e meninas de rua Zulu que não é artista, músico pessoas que vieram para o Brasil
usando a arte educação como ou poeta, mas também teve a forçadas. Ainda hoje vivemos os
forma de transformação para vida transformada pela arte e resquícios desses 400 anos de
´livrá-los´ de abuso sexual e do explicou para a garotada seu escravidão. A forma de mudar
trabalho, por exemplo. “Arte não papel no meio de tantos artistas. nossas vidas é pela arte, a arte
é o instrumento para educar, ela “Se há algo que pode mudar que vem de nossas origens,
é a educação. Sem arte não é nossas vidas é a cultura. Ela muda recebida de nossos ancestrais”.
possível viver”. nossa cabeça, nossa consciência, Com gostinho de quero mais
Arte que recentemente ela é uma ferramenta para se o último encontro aconteceu
mudou a vida dos meninos do processar a vida com qualidade, no Clube Bogary, na Ribeira, e
Grupo PIM. O projeto está pronto e não precisa, necessariamente, tratou de protagonismo, política
para virar Ponto de Cultura ser engajada”. e cidadania. Para o debate, além
ainda em 2010. Isto foi uma Ele explica que a arte é uma de Margareth e Zulu, estavam
determinação do presidente Lula das coisas mais importantes na presentes o coreógrafo Zebrinha,
depois de ver a apresentação Bahia. “Aqui há vários desejos, o deputado federal Luiz

Foto: Ricardo Stuckert

Presidente Lula emocionado com a apresentação dos meninos do PIM na abertura


da exposição O Benin está vivo ainda lá, no Museu Afro Brasil, na Semana do Benin na Bahia

40
Alberto (PT-BA) e o secretário

Foto: Ricardo Prado


executivo do conselho estadual
de juventude, Vladimir Costa,
Leandro Vilas Verde da ONG
Cipó Comunicação Interativa e o
músico Tonho Matéria.
Luiz Alberto salientou a
importância da participação
política; Zebrinha, a importância
da militância. “Larguei a
faculdade de veterinária para
estudar dança. Foi um auê.
Pobre e negro largar um curso
elitizado para dançar. Foi preciso
muito garra. Cresci ouvindo meu “Temos a capacidade de mudar a nossa história”, diz Tonho Matéria
pai falar que fulana, que estava
namorando um branco, estava
namorando um homem de bem, Caymmi e Carmem Miranda - a falou do papel institucional
ou que a mulher que tinha filho primeira imagem que se teve da Fundação que dirige. “A
branco teve barriga limpa. Coisas do Brasil lá fora foi a imagem da Palmares é a primeira instituição
que negavam nossa negritude. baiana estilizada pela cantora. do governo brasileiro que trata
Hoje, a maioria da minha família Por isso temos que cuidar da de cultura negra. A fundação
é militantes, fruto das informações cultura da Bahia”. tem por princípio formular e
que eu levei para eles”, conta o “Cerca de 98% das cidades implantar políticas públicas
dançarino que estudou na França brasileiras não tem cinema, 50% para potencializar a participação
e hoje é diretor artístico do Balé não tem teatro. Ficamos a mercê dos negros no processo de
Folclórico da Bahia. E avisa: do que passa na televisão. É desenvolvimento a partir de sua
“para se tornarem protagonistas preciso tomar cuidado, pois tem história e sua cultura. Por isso,
de suas vidas se espelhem em muita coisa grosseira, muita apoiamos o Movimento AfroPop
pessoas que se pareçam com música ruim, coisas que estão Brasileiro assim como apoiamos
vocês”. poluindo a cabeça de vocês. outros grupos, não só baianos,
Tonho Matéria, que – quando Falar de sexo é bom, fazer sexo é porque somos também um
criança – foi protagonista da bom, mas não precisa ser só isso espaço de combate ao racismo,
bacia de acarajé na cabeça e da e tem que ser tratado de forma ao preconceito. A nossa arma é a
caixa de picolé encontrou na saudável, respeitosa. Essas cultura”, enfatiza.
capoeira e na música a forma pessoas que estão participando Participaram dos encontros
de transformar sua vida. “Somos do Giro podem falar de outra jovens do bairro da Liberdade
nós que temos a capacidade de forma de cultura com vocês”, e da ONG Fábrica Cultural,
mudar a nossa história”. atentou Margareth. mantida por Margareth
Margareth – que já gravou Para a contora a semente foi Menezes; Instituto Cultural Pé
músicas de Tonho – atentou plantada. “Será preciso tempo de Moleque; Associação Cul-
sobre o cuidado da cultura para ver o que foi apreendido tural Os Negões; Adolescente
que é consumida hoje. com toda essa conversa. Eu Aprendiz, mantido pelo
“Lamentavelmente a música espero que este momento de Instituto Beneficente Con-
baiana é colocada da pior forma reflexão tenha valido e ajude-os ceição Macedo (IBNC); PIM
possível. A Bahia é destaque no em suas caminhadas”. (Projeto de Iniciação Musical);
turismo internacional, mas isso Em todos os encontros Herdeiros de Angola; Grupo
faz parte de um legado deixado Zulu Araújo, um dos primeiros Palafitas; Gapa, e Rede
por Jorge Amado, Dorival arquitetos negros da Bahia, Reprotai.

41
Somos nós a alegria da
cidade

“Apesar de tanto não, tanta


dor que nos invade, somos nós
a alegria da cidade”, o trecho
da música de Lazzo Matumbi
revela um pouco da realidade
vivida hoje no carnaval da Bahia.
O estado brasileiro com 73,2%
da população composta por
negros, mas que no entanto
tem um carnaval cada vez
mais comercializado, com trios
elétricos e cordas que dificultam a
participação de muitos baianos.
“A comunidade está perdendo
seu espaço no carnaval. A
única forma de participarem
do carnaval é trabalhando. Eles
saem nas quintas e sextas-feiras
como blocos de samba e nos
outros dias ficam espremidos
entre os camarotes e as cordas.
Hoje, o carnaval da cidade não
nos pertence. O carnaval não é
mais de rua, para brincar; agora
ele é excludente”, lamenta a
representante da Palmares na
Bahia, Luciana Motta.
Foi esse carnaval, essa raiz,
que o AFroPop se propôs a
homenagear. “Não é apenas
um resgate dos blocos afros,
é mais que isso, é misturar o
antigo com o novo, o tradicional
com a tecnologia; é misturar
a música de raiz da Bahia com
o contemporâneo, fazer uma
grande mistura de sons”, explica
a autora do projeto.
E essa mistura Margareth
levou para o palco do Cais
Dourado, em Salvador, durante
quatro quintas-feiras. Com ela
estiveram, Peu Meurray e os
Pneumático, Alcione, Diego
Figueiredo, os blocos afros

42
Male de Balê, filhos de Gandhy,
Cortejo Afro, Afro Muzenza,
Ilê Aye, além de Saulo, Lazzo,
Virgínia Rodrigues, Martinália,
Carlinhos Brown, Elba Ramalho,
Roberto Mendes, Gilberto Gil, e
Gerônimo.
Essa mesma salada musical
Margareth levou para o trio
elétrico AfroPop no circuito
Barra/Ondina. No domingo de
carnaval cantaram com ela –
para agitar os foliões – Lazzo,
Carla Cristina, Mariene de Castro,
Diego Figueiredo e o cantor
português, Luiz Represas. Na
segunda-feira, um momento
muito especial para o AfroPop,
Margareth foi acompanhada
pelos blocos afros, Balê de Malê,
Muzenza, Ilê Ayê, Cortejo Afro
e Filhos de Gandhy. Em cima
do trio elétrico eles cantaram e,
na rua, alas dos cinco blocos da
Bahia, acompanharam os foliões
com muito axé e muitas cores.
O Movimento foi coordenado
pelo Depar tamento de
Fomento a Cultura Afro -
brasileira da Palmares, com a
direção artística da cenógrafa
e diretora carioca, Bia Lessa e a
realização das Agências Via Press
Comunicação, Viva Agência de
Idéias, Estrela do Mar e IBCM.
As exposições fotográficas
tiveram a participação dos
fotógrafos Phillip K auame
Ap ag y a , Január i o G arcia ,
Márcio Lima e Adenor Gondim.
Informações detalhadas
sobre cada encontro podem ser
acessadas no site da Palmares:
www.palmares.gov.br

43
Foto: Ricardo Dantas
Mural
Giro Cultural na sede
dos Filhos de Gandhy

Jovens registram

Foto: Ricardo Dantas


suas impressões
no mural do Giro
Cultural, na sede dos
Filhos de Gandhy

Margareth Menezes,
Elba Ramalho e
Moraes Moreira, no
Cais Dourado

Trio Elétrico do
AfroPop na
segunda -feira
de carnaval

As Ganhadeiras
de Itapoã, no
Cais Dourado
Foto: Vera Milliotti

Apresentação do grupo Palafitas,


Lazzo Matumbi, Virgínia Rodrigues e Margareth Menezes, no Cais Dourado
na sede dos Filhos de Gandhy

44
Foto: Ricardo Dantas
Foto: Vera Milliotti

Foto: Ricardo Dantas


Margareth e os Negôes ao final do Giro
Ilê Ayê, Balê de Malê e Afro Muzenza no trio AfroPop

Foto: Ricardo Dantas


Foto: Alex Dantas

Zezé Motta e Margareth no 1º Encontro do Giro Cultural


Foto: Ricardo Dantas

Zulu Araújo fala aos jovens no 2º encontro do Giro

Foto: Vera Milliotti


Edlane Conceição também se expressa no Giro

Margareth leva blocos afros para o trio AfroPop


Foto: Alex Dantas

Foto: Vera Milliotti

Violinista Diego Figueiredo e Peu Meurray com Margareth Menezes Cantor português Luis Represas e Margareth no trio AfroPop

45
Criação da Marca: Alessandro Resck

Participe e apresente sua ideia!

www.palmares.gov.br

46
C ap t a n d o
a s m e l h o re s
ideias!
O Projeto Parabólica tem por finalidade promover o diálogo direto
entre o governo e os agentes sociais interessados no
desenvolvimento de políticas públicas e projetos que promovam e
disseminem a cultura afro-brasileira.

c oordenado pelo Depar-


tamento de Fomento e
Promoção da Cultura Afro-
e técnicos de instituições de
cultura afro-brasileira, agentes
culturais, políticos, artistas e
DATA LOCAL

brasileira, da Fundação Cultural produtores, a fim de garantir sua 18 e 19/03 Maceió/AL


Palmares (FCP), o Parabólica participação nas seleções por
visa buscar caminhos diretos e meio do poder público, assim 22 e 23/03 Goiânia/GO
simplificados para viabilizar a como informá-los sobre formas
ação interativa e dinâmica da e possibilidades existentes de
24 e 25/03 Brasília/DF
cultura negra. financiamento da cultura. Para
Com a criação deste projeto isso, será realizado um ciclo
29 e 30/03 Belo Horizonte/
será possível construir uma de palestras com orientações
MG
metodologia participativa entre básicas a respeito da elaboração
a FCP/MinC e os interlocutores de trabalhos e captação de
31/03 e São Paulo/SP
civis, tornandoviável a recursos.
01/04
formulação e execução de Os estados foram
políticas públicas de forma selecionados a partir de
democrática. Inúmeras são as uma pesquisa quantitativa 05 e 06/04 Rio de Janeiro/
RJ
demandas que a FCP recebe para de projetos recebidos pela
o desenvolvimento de parcerias, Fundação nos últimos dois
convênios, consultorias e/ou anos. Essas escolhas foram 08 e 09/04 Porto Alegre/RS
apoios diretos. O suporte a realizadas por meio de um
essas demandas pode ser mapeamento dos estados 12 e 13/04 Recife/PE
dado de várias formas, não que mais apresentaram
apenas financeiro. projetos ou buscaram 15 e 16/04 Macapá/AP
O Parabólica acontecerá em informações junto à Fundação,
dez capitais brasileiras com o incluindo os candidatos a 19 e 20/04 Salvador/BA
objetivo de orientar gestores editais e seleções públicas.

47
Foto: Januário Garcia

Entre dos Mares: Ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá,


no aniversário de 21 anos da Palmares em agosto 2009

48
Um encontro
das Américas
afrodescendentes
Para consolidar cada vez mais o diálogo entre os afrodescedentes
da América Latina e Caribe entra em cena de 25 a 28 de maio
próximo, em Salvador (BA), o 2º Encontro Afro-Latino, reunindo
ministros da Cultura dos países latino-americanos e do Caribe

Lúcia Pinheiro

H á uma estimativa, hoje,


de que a América Latina
e o Caribe concentram uma
uma desatenção generalizada
em relação a esses povos que
representaram vários séculos
Venezuela – que implementaram
algum tipo de reforma visando
a cidadania multicultural dos
população de 150 milhões de de aporte cultural, material, povos indígenas, somente
afrodescendentes. A despeito imaterial e simbólico dos o Brasil, Colômbia, Equador,
das medidas constitucionais afrodescendentes na região. Guatemala, Honduras e
e estatutárias que proíbem a Segundo o estudo ´Inclusão Nicarágua estenderam alguns
discriminação racial na maioria indígena e exclusão dos afro- direitos coletivos aos afro-
dos países da região, a América descendentes na América Latina´, descendentes. E mesmo nos
Latina apresenta um alto grau em quase todos os casos de casos em que obtiveram esses
de desigualdade racial e de reforma multicultural, os grupos direitos, em quase nenhum
discriminação contra populações indígenas foram muito mais país os afro-descendentes
afro-descendentes e indígenas. bem-sucedidos na obtenção foram contemplados da
A adoção de medidas contra de direitos do que os afro- mesma maneira que os povos
essa exclusão é o maior desafio a descendentes. indígenas.
ser enfrentado pelas sociedades Dos quinze países latino- De fato, em apenas três países
latino-americanas. americanos – Argentina, Bolívia, da região – Honduras, Guatemala
A diáspora africana na Brasil, Chile, Colômbia, Costa e Nicarágua – indígenas e afro-
região representa cerca de Rica, Equador, Guatemala, descendentes têm direitos
30% da população total. Honduras, México, Nicarágua, coletivos iguais. Além disso,
Entretanto, ainda hoje perdura Panamá, Paraguai, Peru e apenas um pequeno subconjunto
49
de afro-descendentes – em

Foto: Acervo FCP


geral comunidades rurais
que descendem de escravos
foragidos – conquistou
direitos coletivos durante as
mencionadas reformas.
Apesar de a grande maioria
dos afro-descendentes estar
excluída das recentes reformas
que asseguraram direitos
coletivos, somente o Brasil e
a Colômbia estão tentando
elaborar outros meios legais
para combater o racismo,
como a legislação relativa aos
direitos civis.
Neste sentido, este Olínia Gotéz (Universidade Católica de Quito) , Zulu Araújo e John Antón
segundo encontro afro-latino
é uma oportunidade valiosa

Foto: Januário Garcia


de contribuição coletiva dos
governos desses países e,
particularmente, dos ministérios
da Cultura acerca da indiscutível
contribuição afrodescendente
para a construção das
sociedades panamericanas e
de seus avanços. Neste ponto,
o foco foi direcionado aos
ministérios da Cultura dos
países da região, tendo em
vista que o reconhecimento
cultural constitui um importante
objetivo de desenvolvimento. A
eles foi, então, recomendado o
empenho na busca de soluções
para o enfrentamento das
desigualdades e dos conflitos.
No Brasil, as políticas
públicas direcionadas para
valorizar a identidade de negros
com programas de inclusão
social atingem hoje mais de
50% da população, devido ao
autoreconhecimento. Um bom
exemplo de reconhecimento
desta política veio do Programa
Regional de Apoio às Populações
Rurais de Ascendência Africana
Entre dos Mares: Ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá,
da América Latina – Acua, que
no aniversário de 21 anos da Palmares, em agosto de 2009

50
contemplou três comunidades
Foto: Januário Garcia
quilombolas do Brasil com um
aporte financeiro de 20 mil
dólares, durante o período de
dois anos. A Acua selecionou, ao
todo, 13 projetos pela relevância
em ações de sustentabilidade,
direcionados à melhoria da
qualidade de vida dessas
comunidades.
As comunidades formadas
pelos negros escravos, que
fugiram do trabalho forçado
e resistiram à recaptura por
parte dos escravocratas,
receberam vários nomes nas
Entre dos Mares: Ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá, diversas regiões das Américas:
no aniversário de 21 anos da Palmares em agosto 2009 quilombos ou mocambos no
Brasil, palenques na Colômbia e
Foto: Acervo FCP

em Cuba, cumbes na Venezuela,


marrons no Haiti e demais ilhas
do caribe francês, grupos ou
comunidades de cirramones
em diversas partes da América
espanhola, maroons na Jamaica,
Suriname e no sul dos Estados
Unidos.
Em cada região das
Américas, onde o regime
escravagista se instalou,
registraram-se movimentos
de rebelião contra essa
ordem, significando que a
história do cativeiro negro nas
Américas se confunde com
a história da rebelião contra
o regime escravagista. Esses
movimentos moldaram,
profunda e definitivamente,
até os dias atuais, o perfil
ideológico, cultural e
psicossocial de todos os
paises das Américas negras.
E em cada um deles foi se
construindo uma saga das
lutas dos escravos, com
seus sucessos, fracassos,
John Antón , Olínia Gotéz (Universidade Católica de Quito) e Zulu Araújo perseguições, traições e atos
de heroismo.

51
Pauta do debate Este segundo encontro tem de 12 ministérios e instituições
como meta consolidar propostas de cultura da América Latina
Em resposta ao compromisso para embasar um plano de ações e Caribe e de seis organismos
assumido em Cartagena durante estratégicas inédito no mundo. É internacionais.
o I Encontro Afro-Latino, realizado prevista a participação de vinte Martha avalia que o
em 2008, o Ministério da Cultura ministros de Cultura, além de afrodescendente brasileiro ficou
e a Fundação Cultural Palmares organismos internacionais, como durante décadas buscando suas
realizam entre os dias 25 e 28 a Organização dos Países Ibero- raízes na África, “só que quando
de maio, em Salvador (BA), o Americanos (OEI), a Organização ele faz o movimento de retorno
II Encontro Afro-Latino com o das Nações Unidas para a para o continente africano,
objetivo de evoluir na discussão Educação, a Ciência e a Cultura não encontra o que procura,
e na elaboração de uma Agenda – Unesco, e a Organização porque lá não existe as mesmas
Afrodescendente nas Américas. Internacional para as Migrações. preocupações que existe aqui.
A pauta do encontro é sobre A programação terá plenárias, O afro-brasileiro vai buscar
as políticas públicas de ações conferências, atividades artísticas suas raízes, de certa forma
afirmativas para a igualdade e workshops, num esforço para dignificar essa brasilidade,
racial, e busca avançar em concentrado de mobilizar a resgatar sua identidade e não
projetos e propostas de atenção pública, dos gestores têm esse feedback, os africanos
cooperação entre 20 países e artistas para a concretização não querem mais falar sobre o
envolvidos no empreendimento de um projeto com diretrizes tráfico negreiro.
– todos os países da América que norteiem a ação dos países Ela conta que quando os
Latina e mais o Caribe –, por latinos no âmbito das políticas colombianos trabalhavam nessa
meio da articulação, cooperação, culturais e de reparação social. agenda afro-latina se deram conta
intercâmbio, da promoção e Segundo a assessora que os afrodescendentes têm os
da divulgação da cultura afro internacional da FCP, Martha mesmos problemas, as mesmas
nesses países. Mouterde, foi a Colômbia que questões sociais, identitárias,
O primeiro evento foi criou o formato desta agenda em todos os países latino-
considerado um marco na afro-descendente nas Américas. americanos. “Então, é muito
proposta de cooperação “Eles organizaram o 1º encontro mais fácil um afrodescendente
multilateral entre os países lá em Cartagena com o tema brasileiro conversar com um
ibero-americanos, que elegeram Agenda Afrodescendente nas afrodescendente colombiano do
a diversidade cultural como Américas, onde foi elaborada a que ambos conversarem com um
objetivo de um projeto de Declaração de Cartagena”, um africano. O diálogo, as aspirações
integração que deve ganhar documento que é a linha mestra são totalmente diferentes. Com
contornos nesta segunda edição. para formulação de políticas isso, eles se descobriram e se
Nessa perspectiva, a cultura públicas culturais voltadas para reconhecem como irmãos, pois
foi posicionada como eixo os afro-descendentes na América entre eles existem os mesmos
central do desenvolvimento, Latina no periodo 2009/2019. A questionamentos. É possível,
e elemento fundamental da declaração recebeu a chancela realmente, que um brasileiro
identidade e do bem-estar das venha a ser “irmão” de um
nações. O encontro deixou a Os afrodescendentes colombiano, porque os navios
reflexão de que é na riqueza aportavam aqui e lá. Isso é como
das manifestações culturais que latinos se descobriram uma “descoberta” recente para
a população afrodescendente os afrodescendentes latino-
e se reconhecem
de todos os paises encontra americanos, por isso, a existência
um sentimento comum de como irmãos, pois desta agenda afro-latina e
unidade e de solidariedade para a existência de um diálogo
a afirmação de seus valores e de
têm os mesmos
construtivo entre os afro latinos-
seu patrimônio. questionamentos americanos”, define Martha.
52
Observatório Afro-Latino experiências culturais e sociais dados durante o evento. Isso
entre as comunidades afro-latinas. possibilitará a ampliação
No primeiro encontro afro- A ferramenta é virtual e ilimitada da discussão, trazendo
latino muito se discutiu sobre pretende estar permanentemente para dentro do embate e das
como os meios de comunicação em construção disponibilizando reflexões todas as redes sociais
podem contribuir para o acesso informações sobre estudos, que estarão articuladas, porém
e a divulgação das manifestações pesquisas e estatísticas não presentes fisicamente. A
culturais afrodescendentes e em diversas áreas, além da rede virtual permitirá que
para a consolidação de uma contribuição cultural dos os interessados participem
sociedade justa e igualitária. Foi segmentos afrodescendentes das discussões nos mais
aprovada a recomendação de em cada país. O objetivo diversos lugares do mundo,
que sejam estimulados processos do Observatório é levar a documentando opiniões e
de comunicação nos diferentes sociedade a conhecer melhor conteúdos, e viabilizando a
meios para superar a exclusão as manifestações culturais na democratização do evento
social, por meio da produção América Latina e proporcionar e, consequentemente, das
de conteúdos próprios pelas a reflexão crítica, a preservação decisões.
comunidades afrodescendentes e o desenvolvimento dessas Esta proposta de
e incentivo à adoção de formas manifestações. virtualização e difusão do
de representação apropriadas A ideia no II Encontro Afro- evento segue o direcionamento
e coerentes com sua cultura e Latino é que o Observatório aprovado no I Encontro Afro-
aspirações. esteja todos os dias, durante Latino, e nesse sentido, além
O Observatório Afro-Latino 24 horas, retransmitindo do Observatório, será criada
é um programa da Fundação informações, conteúdos, uma campanha de mídia que
Cultural Palmares orientado imagens, repercutindo para deve ser difundida em toda a
para o intercâmbio e a troca de o mundo os passos que serão América Latina.

ht t p : / / a f ro - l at i n o s. p a l m a re s. g ov. b r

53
NOTAS

Prêmio

No dia 1º de março, a comissão julgadora oficial do 1º


Prêmio Nacional de Expressões Culturais e a Fundação
Cultural Palmares definiu os critérios e as datas para a
escolha dos projetos vencedores, que ocorrerá nos dias
25 e 26 do mês, em Brasília. Participaram da reunião o
diretor do Departamento de Fomento e Promoção da
Cultura Afro-brasileira, Elísio Lopes Junior, a presidente
do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo
dos Santos Neves – Cadon e produtora executiva do
Prêmio, Ruth Pinheiro, e o representante da Petrobrás,
Luís Carlos do Nascimento.

O prêmio de R$ 1,1 milhão direcionado ao teatro,


dança e artes visuais, com estética negra, será
distribuído entre as regiões Norte, Nordeste, Centro-
Oeste, Sudeste e Sul do país. As inscrições ficaram
abertas de 10 de janeiro a 5 de março de 2010.

www.premioafro.org A próxima reunião da comissão julgadora para a


seleção dos projetos será realizada na capital federal,
nos dias 23 e 24 de março.

Expresso Brasil na Copa

A Copa do Mundo na África do Sul, em 2010 terá muito mais dos brasileiros do que
futebol, terá uma participação cultural efetiva. Uma parceria da Fundação Cultural
Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, com a Embaixada do Brasil na África
do Sul realizará um festival itinerante mesclando o pensamento e as expressões
artísticas e intelectuais brasileiras, em parceria com os africanos, já que são povos
culturalmente irmãos.

O projeto terá palco itinerante, ônibus volante e auditório para palestras com
personalidades brasileiras.

54
Filmes brasileiros em Berlim

Dois filmes brasileiros que tratam da questão do negro no Brasil – Bróder e Besouro – participaram
este ano do 60º Festival Internacional de Cinema de Berlim, na Mostra Panorama.

Bróder é um longa-metragem de ficção


do cineasta paulistano Jefferson D, que trata
com naturalidade (não com clichês) a cultura
negra brasileira no cinema. Filmado no Capão
Redondo, grande bairro da zona sul de São
Paulo, que costuma ser associado a altos índices
de criminalidade, Bróder conta a história de três
amigos de infância separados pela vida. “É um
projeto de dentro para fora. Não importa quem
é negro ou branco. Importa quem é excluído.
É uma história de irmandade, para pegar pela
O diretor Jeferson De, Cassia Kiss e Caio Blat
emoção e não um manifesto.”

No filme, eu coloquei um menino branco dizendo ‘Eu sou negão!’ pra ver o que acontecia. O
resultado ficou interessante”, diz o diretor, que é o criador do movimento Dogma Feijoada, que luta
pela representação positiva dos negros no cinema e na TV, assim como maior participação desses na
frente e atrás das câmeras do cinema nacional.

O outro filme brasileiro, Besouro, de João Daniel


Tikhomiroff, é inspirado no livro Feijoada no Paraíso do
cartunista e publicitário carioca Marco Carvalho. Besouro
é o lendário herói da capoeira brasileira. Um menino que
desafiava as leis da gravidade e os senhores do engenho
em um Brasil recém liberto da escravidão.

O longa é um épico em que a fantasia e o registro


histórico se misturam no cenário deslumbrante do
Recôncavo Baiano dos anos 1920. A Fundação Cultural
Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, apresentou
uma sessão especial do filme em novembro último, no
Museu da República, em Brasília.

55
Editais
Como forma de democratizar e dar mais transparência ao repasse de recursos da
Fundação Cultural Palmares ao fomento da cultura negra, a Fundação lançará neste
ano dois grande editais: um para o 21 de agosto, quando se comemora o aniversário
da Fundação, e outro para o 20 de novembro, Semana da Consciência Negra.

No ano passado a semana da Consciência Negra foi comemorada durante todo


o mês com atividades em 12 estados brasileiros, 15 escolhidas pelo Edital Nacional
de Idéias Criativas e cinco concebidas pela Fundação. As atividades foram variadas e
contaram com seminários, lançamentos de livros, cinema, música, dança, culinária,
contadores de histórias e várias outras performances. Em Alagoas, o 20 de novembro
contou com atividades na Serra da Barriga, em União dos Palmares e em Salvador
contou com a Semana do Benin na Bahia.

Santana (AM), Brasília e Planaltina (DF), Goiás Velho (GO), São Luiz (MA), Cuibá
(MT), Belo Horizonte, Mariana e Nova Lima (MG), Irati (PR), Recife (PE), Rio de Janeiro
(RJ), Pelotas (RS), Florianópolis (SC), Presidente Prudente e São Paulo (SP) e Arrais
(TO) também tiveram ideias criativas.

56
o e
r e li
u
g
a
i
l
ã
d a d
Política da Juventude
Protagonismo Juvenil

o r i ap a
e g
z
r o
ig
b e d h i s t ó r i a
r
n
a

a lt u
O mundo que temos é o mundo que queremos?

s cu ça
O mundo que temos, com certeza, não é o mundo que queremos.
Temos desafios, queremos oportunidades na questão da

m
empregabilidade.
f o r
g e
Que empregabilidade é essa?
a
c o r m o r b
Empregabilidade juvenil, na qual as expectativas estão a mil.

ã o a u m
Queremos servir, mas o servir sem ser servil, afinal não é esse o
z
n a ç
objetivo do protagonismo juvenil?

r m i
Queremos mostrar nossos serviços, serviços esses que não são

g i a
e t e b o o l o
quaisquer serviços mesmo sem a dita experiência.

d ilom e
O mercado de trabalho anda muito competitivo, mas isso não é

d
i
e
empecilho, porque somos diferentes, somos proativos.
u
q a
d
Enfim, somos capazes, temos identidade, caráter, personalidade e

i
dignidade para atuar junto a vocês com os nossos conhecimentos,

ê n c
a
habilidades e atitudes da história da juventude.
t
s i s
i d
em meus heróis altivos

r e ç a
i
t a
encontrei

s t lu t
ju
n
as encontrei,

e e
enfim me encontrei

d
id
Edlane Santos Jesus da Conceição

r d a
Integrante da ONG Fábrica Cultural que participou dos quatro encontros do Giro Cultural -

e
parte do Movimento AfroPop Brasileiro idealizado por Margareth Menezes e patrocinado
pela Fundação Cultural Palmares. Esta poesia foi escrita no último encontro inspirada

ib fri a
pelo tema Jovem Protagonista - Política e Cidadania.

c
c o r l
Programa da Fundação Cultural Palmares
orientado para o intercâmbio e a troca de
experiências culturais e sociais entre as
comunidades afro-latinas

htt p://a fro -latinos.palmares.gov.br

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