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A sucessão legítima no novo Código Civil – Parte II

José Fernando Simão

Na coluna publicada no mês passado, tratamos da sucessão dos descendentes,


ascendentes e cônjuges sobreviventes e as profundas alterações sofridas pela
ordem de vocação hereditária com a derrogação das regras previstas no artigo
1603 do Código Civil de 1916 pelo artigo 1829 do Código Civil de 2002.

Já explicamos que o cônjuge, agora, é também herdeiro necessário ao lado dos


ascendentes e descendentes e terá direito à legítima (a metade dos bens da
herança – artigo 1845 do Código Civil de 2002). Assim, independentemente do
regime de bens, o testador que não tiver descendentes nem ascendentes deverá
reservar a metade de seu patrimônio ao cônjuge. Sob o manto do Código Civil de
1916, o testador que se encontrasse nessa situação poderia dispor livremente
sobre a totalidade de seus bens (artigo 1721 do Código Civil de 1916).

Resta então tratar da sucessão dos colaterais, ou seja, daqueles que somente serão
chamados a suceder se o falecido não deixar descendentes, ascendentes, ou
cônjuge sobrevivente. Os colaterais são aqueles parentes com os quais não há
relação de descendência/ascendência mas que pertencem a um mesmo tronco e
que tem um ancestral comum. Assim, pais, filhos, netos, bisnetos, avós, bisavós
são ascendentes e descendentes entre si. Já os irmãos, tios, sobrinhos, primos,
tio-avô, sobrinho-neto são parentes colaterais pois têm um ancestral
comum.

O parentesco colateral, também chamado de transversal, vai até o quarto grau,


segundo regra inovadora do Código Civil de 2002 (artigo 1592). Pelo Código Civil
de 1916, artigo 331, o parentesco colateral ia até sexto grau. Mas com relação ao
direito das sucessões, já previa o artigo 1612 do Código Civil de 1916, que era
chamado a suceder apenas o parente colateral até quarto grau. E o Código Civil de
2002 repete a regra no artigo 1839. Assim, para fins sucessórios o parentesco
colateral vai até quarto grau. andou bem o novo Código ao ajustar o parentesco
colateral limitando-o ao quarto grau.

A regra segundo a qual os colaterais de grau mais próximo excluem os de grau


mais remoto vem prevista no artigo 1613 do Código Civil de 1916 e artigo 1840 do
Código Civil de 2002. Assim, irmãos do falecido (parentes colaterais em segundo
grau), excluem da sucessão os tios do falecido (parentes colaterais em terceiro
grau), assim como os tios-avós e primos-irmãos (parentes colaterais em quarto
grau).

A exceção a essa regra é o direito de representação. Assim, se o falecido deixou


irmãos vivos (parentes em segundo grau) e também sobrinhos, filhos de um irmão
que faleceu anteriormente (irmão pré-morto), apesar dos sobrinhos serem parentes
do falecido de terceiro grau, eles também serão chamados à sucessão na qualidade
de representantes de seu pai (irmão do falecido) e dividirão entre si a parte que a
ele caberia (essa é regra dos artigos 1622 e 1623 do Código Civil de 1916 que vem
repetida nos artigos 1853 e 1854 do Código Civil de 2002). E nesse caso, se dois
forem os sobrinhos, repartirão em partes iguais o quinhão que pertenceria a seu pai
se vivo fosse (artigo 1614 do Código Civil de 1916 e 1855 do Código Civil de 2002).
É a chamada sucessão por estirpe.

Com relação à sucessão do colateral, prevê a lei outra regra especial: a hipótese
em que o tio do falecido (parente em terceiro grau) concorrer com o sobrinho do
falecido (também parente em terceiro grau). Pela regra geral, como o tio e o
sobrinho são parentes de terceiro grau do morto, ambos deveriam repartir a
herança em partes iguais. Mas, o Código Civil de 1916 em seu artigo 1617, caput e
o Código Civil de 2002 em seu artigo 1843 determinam que os tios do falecido só
herdarão se não houver sobrinhos do falecido. Nesse caso, os sobrinhos do “de
cujus” recebem a herança toda. A redação do artigo 1617 do Código Civil de 1916
(“em falta de irmãos herdarão os filhos destes”) não é tão clara. Já o artigo 1843
do Código Civil de 2002 afasta qualquer dúvida: “na falta de irmãos, herdarão os
filhos destes e, não os havendo, os tios”

Outra regra do Código Civil de 1916, artigo 1617, parágrafo primeiro, reproduzida
no Código Civil de 2002, artigo 1843, parágrafo primeiro garante aos sobrinhos do
morto o direito de herdar por direito próprio (ou por cabeça) os bens deixados por
seu tio, se o falecido não deixou irmãos vivos.

Exemplificativamente diríamos o seguinte: se o de cujus deixou um irmão vivo e


dois sobrinhos (filhos de um irmão pré-morto), a herança se dividirá em duas
partes: 50% tocará ao irmão do falecido e 50%, na proporção de 25% para cada
um para os sobrinhos do morto. Esse é o caso de representação também
chamada de sucessão por estirpe. Já na hipótese de o morto deixar dois
sobrinhos e uma sobrinha, sendo os dois sobrinhos filhos de um irmão do morto
(pré-morto) e a sobrinha filha de uma irmã (igualmente pré-morta), a herança se
dividirá em três partes iguais e todos herdarãopor cabeça ou direito próprio: 1/3
para um sobrinho, 1/3 para o outro sobrinho e 1/3 para a sobrinha.

Por fim, salientamos que os parentes em quarto grau (tio-avô e sobrinho neto)
jamais herdam por representação (que é exceção e não regra) herdando apenas
por direito próprio, ou seja, quando inexistirem herdeiros de terceiro grau. Nessa
hipótese, não valem as regras da representação, nem as regras referentes à
exclusão do tio do falecido em caso de concorrer com sobrinho do falecido (artigo
1843 do Código Civil de 2002). Assim, se o falecido deixou como únicos herdeiros
um tio-avô (parente em quarto grau) e um sobrinho-neto (igualmente parente em
quarto grau) a herança será dividida pelos dois em parte iguais.

Essas são as principais regras referentes à sucessão dos colaterais. Como se nota,
as regras existentes no Código Civil de 1916 são idênticas àquelas contida
no Código Civil de 2002, sendo que o último traz uma grande vantagem por
melhor esclarecer a norma contida no caput do artigo1617, expressamente
excluindo os tios do falecido da sucessão em que concorrerem com o sobrinho do
morto (caput do artigo 1843).

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