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Liev S.

Vigotski

TEORIA E MÉTODO

EM PSICOLOGIA

Tradução CLAUDIA BERLlNl:1\

;;)~O PESQUISA: LErnl'RM· n~ Y'~r'·~~te:r Martins Fontes


MAPEANDO INTEF :~(f/\íT\" São Paulo 2004
DJf(l5JO+ COORD. Prot. Dr. Joã(· ·:~"ü.sta·Maruns

11111111111111111111111111
íNDICE

Esta ohra foi puhlicada origino/menIr em russo com o título

SOBRANIA SOTCHINENII TOM VTOROI.

PROBLEMI OBCHEI PSIKHOLOGUII

por Editorial Pedagógui/..a, Moscou. em /982.

Copyrighl © Editoriol Pedagóguika, Moscou. 1982.

Copyright © /996, LiITaria Marfill.~ FOl1tes Editora Lula ..

São Paulo, paro a presenre ediçao.

lª edição
maio de /996
311 edição
julho de 2004

Tradução
CLAUDIA BERLlNER
Primeira Parte
Revisão da tradução PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
Ebra Arantes DA PSICOLOGIA
Revisões gráficas
Maria da Penha Faria (Tuca)

Maria Cecília Vallllllcchi

Os métodos de investigação reflexológicos e psicoló­


Produção gráfica gicos .......................................................................... . 3
Geraldo A/\'('.\'
Psicologia geral e experimental (Prólogo ao livro de
A. F. Lazurski) ............................................................ .
33
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro. SP, Brasil) A consciência como problema da psicologia do com­
Vygotsky, Lev Semenovitch. 1896-1934. portamento .................................................................. . 55
Teoria e método em psicologia / Lev Semenovilch Vygotsky ;
tradução Claudia Berliner. - 3u ed. - São Paulo: Martins Fontes, Sobre o artigo de K. Koffka "A introspecção e o
2004. - (Psicologia e pedagogia) método da psicologia". A título de introdução ............ . 87
Título original: Sobrania sotchinenii tom vtoroi : prohlemi obchei O método instrumental em psicologia ........................ .
93
psikhologuii.

Bibliografia

Sobre os sistemas psicológicos .................................... .


103
ISBN 85·336·2018-7
A psique, a consciência, o inconsciente ...................... .
137
1. Psicologia - Teoria, métodos etc. J. Título. 11. Série. Desenvolvimento da memória (Prefácio ao livro de A.
04-4190 CDD·150.92 N. Leóntiev) ................................................................ .
161
índices para catálogo sistemático: O problema da consciência ......................................... .
171
I. Sistemas psicológicos 150.92
A psicologia e a teoria da localização das funções
Todos os direi/os desta edição para a língua portu/?uesa reseITados à
psíquicas ..................................................................... . 191
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Rua Conselheiro Ramalho, 330 0/325-000 São Paulo SP Brasil

Te/. (11) 3241.3677 Fax (11) 3105.6867

e-maU: info@marlimfolltes.com.h,. h//p:llw\-1·\-1·.rnarfin.~1"ontes.c(}m.hr

IIIIIIIIIIIIII

Segunda Parte Abreviações utilizadas para indicar os responsáveis


O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA entre colchetes do texto e notas de pé de página:
PSICOLOGIA. UMA INVESTIGAÇÃO
METODOLÓGICA
Uma L.V. - Vigotski
lUUUIUgILd .......................................... . 203
N.R.R. Nota do revisor russo
R.R - Revisor russo
N.R.E. - Nota do revisor espanhol
R.E. Revisor espanhol
Nota de apresentação da edição ongll1al em russo ..... . 421
N.T.E. Nota do tradutor espanhol
de introdução sobre o trabalho criativo de L. S.
N.E.B Nota do editor brasileiro
Vigotski, por A. N. Leóntiev ........................................ . 425

Epílogo, por M. F. Iarochevski e G. S. Gurguenidze ...... 471


Biblíografia cilada............................................. .......... 517

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OS MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO
REFLEXOLÓGICOS E PSICOLÓGICOS·

Os métodos de do homem
chegaram agora a um ponto de inflexão em seu desenvolvi­
mento. A necessidade (e a inevitabilidade) dessa virada deve­
se à desproporção que existe entre, por um lado, a imensa
tarefa de estudar a totalidade do comportamento humano a
que se propunha a reflexologia e, por outro, os modestos e
escassos meios que para sua resolução proporcionava o
experimento clássico da formação do reflexo condicionado
(secretor ou motor). Ess't desproporção manifesta-se cada vez
com mais clareza à medida que a reflexologia l passa do estu­
do das relações mais elementares do homem com o meio
ambiente (a atividade que responde às formas e fenômenos
mais primitivos) à investigação de interações muitíssimo com­
plexas e variadas, sem as quais não se pode decifrar o com­
portamento humano em suas leis mais importantes.

• "Metódika ret1eksologuítcheskovo i psikhologuítcheskovo isliédovania".


Este artigo foi escrito baseando-se na comunicação que L. S. Vigotski apresen­
tou no Ir Congresso Nacional de Psiconeurologia em Leningrado. a 6 de janei­
ro de 1921. e foi publicado na coleção "Problemas da psicologia atual" sob a
redação de K. N. Kornílov. Moscou, 1926.
1. P;;r;; Vigotski, e segundo o ponto de vist;; impemnte em su;; época, a
a rejlexologia compunha-se dos postulados de V. M. Békhterev sobre os ret1e­
xos concatenados (como aquelas reações de respost;; do organismo a estímu­
los externos em situações experimentais) e dos postulados de I. P. Pávlov
sobre os ret1exos condicionados. (N.R.R.)

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Nesse sentido, para além do elementar e primitivo, só tudo isto essa fusão, ou seja, a criação de uma metodologia
restou para a reflexologia a afirmação geral e estrita, aplicá­ única de investigação do comportamento humano e, por
vel igualmente a todas as formas de comportamento, de que conseguinte, de uma disciplina científica única, pode ser
estas são constituídas por um sistema de reflexos condicio­ considerada como um fato que está se produzindo ante nos­
nados. Mas essa afirmação excessivamente geral não levou sos próprios olhos.
em conta as particularidades específicas de cada sistema, A breve história dessa aproximação é a Ini­
nem as leis que regem a combinação dos reflexos condicio­ a excitação elétrica cutânea realizava-se na planta
nados no sistema de conduta, nem as complcxíssimas intera­ do com o que se provocava um reflexo de defesa na
os reflexos de uns sistemas sobre os outros, nem do mesmo, ou nele todo. Posteriormente, V. P. Proto­
um caminho para a científica dessas pópov1 introduziu uma importante modificação no procedi­
Disso decorre o caráter declarativo e esquemático mento: substituiu o pé pela mão, supondo que seria muito
dos trabalhos reflexológicos quando se propõem resolver os mais vantajoso escolher a mão como critério precisamente
do comportamento do homem em vertentes mais por ser esta um aparelho de resposta mais elaborado, mais
ou menos complexas. adaptado do que o pé às de orientação sob influên­
A reflexologia clássica mantém-se em suas investigações cia do meio ambiente. E apóia com argumentos extraordina­
dentro de um princípio científico universal darwiniano, redu­ riamente convincentes a importância que tem a
zindo tudo ao mesmo denominador comum. E, precisamente a escolha adequada do aparelho de resposta. evi­
por ser excessivamente geral e universal, esse princípio não dente que se escolhemos num gago ou num surdo seus
oferece à ciência um meio direto para julgar suas formas'par­ órgãos articulatórios como aparelho de resposta, ou aquela
ticulares e individuais. No fim das contas, também resulta extremidade de um cachorro que corresponda a um centro
impossível para a ciência concreta do comportamento huma­ motor cortical que tenha sido extirpado ou, em geral, um
no limitar-se a assim como uma física concreta não pode aparelho pouco ou mal adaptado ao tipo de reação que se
se limitar apenas ao princípio da gravidade universal. São espera (como é o pé de uma pessoa com os movimentos
necessárias balanças, aparelhos e métodos especiais para co­ preensores), avançaremos muito pouco no estudo da
nhecer o mundo terreno concreto, material, limitado, sobre a dez, da exatidão e da perfeição da orientação. embora se
base de um princípio geral. O mesmo ocorre com a reflexo­ mantenham intactas as analisadora e combinatória
logia. Tudo leva a ciência do comportamento do homem a do sistema nervoso. "Com efeito, nossos experimentos tor­
sair dos limites do experimento clássico e procurar outros naram evidente diz Protopópov que a formação dos
meios de conhecimento. reflexos condicionados é alcançada com maior rapidez nas
Não só já se manifesta claramente uma tendência à am­ mãos, assim como também se obtém antes a diferenciação e
da metodolOl:!:Ía reflexológica, mas perfilam-se as se mantém de maneira mais consistente" 0923, p. 22). Nes­
deve seguir: uma maior aproxi­ se sentido, a metodologia de experimentação
mação e, em última instância, a fusão definitiva com os pro­
cedimentos de investigação estabelecidos há muito tempo
na psicologia experimental. Embora isso pareça paradoxal 2. Protopópov, Viktor Pávlovich (1880-1957). Psiquiatra soviético.
no que se refere a disciplinas tão opostas e embora não Desenvolveu os princípios e métodos de prevenção, profilaxia e tratamento
das psicoses. As invest!gaçõcs de Protopópov no campo (k1 filosofia e da pato­
unanimidade entre os próprios reflexólogos, que avaliam de logia da atividade nervosa superior do homem facilitaram a introdução na psi­
formas muito diversas a psicologia experimental. apesar de quiatria da doutrina de J. P. Pávlov sobre os reflexos condicionados. (N.R.R)
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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 7

começa a se parecer bastante com a psicológica. O ção da fala para e o círculo dos fenôme­
pode colocar com facilidade a mão sobre a mesa e os dedos nos a estudar.
se em contato com a através da passa a Portanto, no que se refere ao aparelho de resposta, já
corrente elétrica. não existem desacordos e divergências com a psicologia. I.
Por conseguinte, se no estudo dos reflexos do homem P. Pávlov assinalava as vantagens da escolha precisamente
formos além do princípio e nos colocarmos o objetivo do reflexo de secreção da saliva nos cachorros, sabendo que
de estudar os distintos tipos de reação que determinam o é a menos arbitrária. Isso era extraordinariamente importan­
comportamento, a escolha do órgão que terá de reagir será te enquanto se tratasse de descobrir o próprio princípio dos
um fator de importância decisiva. Como disse Protopópov, reflexos condicionados, da "salivação psíquica" que se pro­
"o homem e o animal dispõem de numerosos aparelhos de duz ao ver a comida. Mas as novas tarefas exigem também
resposta, mas sem dúvida aos excitantes hetero­ novos meios, os avanços obrigam a mudar de rota.
gêneos do meio ambiente com os mais desenvolvidos ou O segundo e mais importante fato consiste em que a
mais bem adaptados ao caso em questão" (ibidem, p. 18). própria metodologia da reflexologia tropeçou com determi­
"O homem foge dos perigos com os pés, se defende com as nados fatos que qualquer criança conhece perfeitamente. O
mãos etc. Naturalmente, pode-se desenvolver no um re­ processo de diferenciação do reflexo no indivíduo nào é
flexo combinado de defesa, mas se o que devemos investi­ conseguido rapidamente. Muito tempo transcorre antes que
gar não é apenas a função combinatória que realizam por si o reflexo que se formou passe de a diferencia­
mesmos os grandes hemisférios [= princípio geral L.V.], mas do, isto é, para que o homem aprenda a reagir apenas ao
também estabelecer o grau de rapidez, exatidão e r.", .. t~.ir?i" excitante principal e para que a reação se iniba ante os estra­
da orientação, o aparelho de resposta que se escolherá para nhos. "Resulta, portanto [o grifo é meu L. V.l, que ao se agir
a observação não será indiferente" sobre o sujeito com as palavras adequadas pode-se favorecer
Mas quando dizemos a, também é preciso dizer b. tanto a inibição quanto a excitação das reações condiciona­
Protopópov se vê obrigado a reconhecer que tampouco se das" (ibidem, p. 16). Se explicar-se a um sujeito que·somente
pode deter aqui a reformulação. "O homem possui um apa­ um determinado som aparecerá combinado com a corrente
relho eferente muito mais desenvolvido que a mão no mes­ elétrica e os restantes não, a discriminação se produzirá de
mo âmbito motor e com ajuda dele estabelece uma comuni­ imediato. Com a ajuda da palavra podemos provocar a inibi­
cação indubitavelmente muito mais ampla com o mundo çào e o reflexo condicionado ao excitante principal e inclusi­
que o rodeia: refiro-me aqui aos órgãos articulatórios. ve pode-se provocar o reflexo não-condicionado à corrente:
Considero perfeitamente possível e conveniente que as basta dizer ao sujeito para não afastar a mão.
investigações reflexológicas passem a partir de agora a utili­ Por conseguinte, na metodologia do experimento intro­
como objeto, considerando-a como um fato duz-se "a palavra adequada" para formar a discriminação.
das condições de comunicação que determinam a Esse mesmo meio serve nào apenas para conseguir a inibi­
inter-relação do homem com o meio circundante através de ção, mas também para despertar a atividade reflexa. "Se dis­
sua esfera motora" (ibidem, p. 22). Que se deva considerar sermos verbalmente ao sujeito que afaste a mão ante um
a fala como um sistema de reflexos condicionados é algo certo sinal", o efeito não será pior do que quando afasta a
que não é necessário repetir, pois para a reflexologia isso mão ao passar corrente pela placa. Protopópov supõe que
constitui uma verdade quase evidente. São também eviden­ sempre provocamos a desejada. É evidente que, sob
tes as vantagens que proporcionará à reflexologia a utiliza- o oonto de vista reflexológico, o fato de afastar a mào por
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intermédio de um acordo verbal estabelecido com o pontos extraordinariamente importantes, a cuja fundamenta­
é um reflexo condicionado. E toda a entre essa ção e defesa está dedicado o presente artigo.
condicionada e outra elaborada a partir do reflexo à O primeiro se refere à técnica e os métodos de investi­
corrente se decide dizendo que neste caso nos encontramos gação, e o segundo aos princípios e objetivos das duas
diante de um reflexo condicionado secundário, ao passo .ciências. Ambos estào estreitamente ligados entre si e com
que no outro se tratava de um primário. Mas Protopópov os dois relaciona-se um equÍvoco importante que obscurece
também reconhece que essa circunstância fala, na verdade, o problema. A aceitação desses pontos ainda não esclareci­
a favor dessa metodologia. "É indubitável diz ele que no dos impõe-se tanto pelas conclusôes logicamente inevitáveis
futuro a investigação retlexológica sobre o homem deverá das teses reflexológicas já quanto pelo próximo pas­
se realizar fundamentalmente com a ajuda de retlexos C()Il­ so, que se dará em a que conduz a
dicionados secundários" (ibidem, p. 22). E, contudo, não é método adotou.
evidente que serâo precisamente os ref1exos de ordem su­ O que é que ainda falta e que impede que a metodolo­
perior que desempenharâo um papel importantíssimo, tanto experimental fisiológica e a reflexológica coincidam e se
quantitativa como qualitativamente, no comportamento do fundam definitiva e totalmente? Tal como o formula Proto­
homem durante a e que serão precisamente pópov, falta apenas uma coisa: o interrogatório do sujeito,
eles que explicarão o comportamento em sua estática e em seu informe verbal sobre o curso de alguns aspectos dos
sua dinâmica? Mas com estas duas suposições: 1) a excitação processos e as reações, aos quais os experimentadores nào
e a limitação (discriminação) de reação com a ajuda de ins­ podem ter acesso de outra forma do que através do testemu­
truções verbais; e 2) a utiliza~~ão de todo tipo de nho do próprio indivíduo objeto do experimento. É aqui que
inclusive a verbal, da palavra, entramos em cheio no campo parece estar encerrada a essência da discrepância, uma dis­
da metodologia da psicologia experimental.
que a reflexologia não hesita em converter numa
No histórico artigo citado, V. P. Protopópov detém-se decisiva e de
por duas vezes nesse ponto. Diz ele: "A organização dos
Esse fato está relacionado com o segundo ponto, o rela­
experimentos nesse caso C. ..) é absolutamente idêntica à
tivo aos objetivos de ambas as ciências. Protopópov nào fala
que se utiliza há algum tempo na psicologia
uma única vez do interrogatório do sujeito.
para investigar a denominada reação psíquica
V. M. Békhterev\ (1923) diz reiteradamente que, sob o
seguir, introduzem-se "as mais diversas modificações na
ponto de vista reflexológico, a investigação subjetiva só é
organização dos por exemplo, cabe utilizar
admissível quando é feita pela própria pessoa. No entanto,
com fins retlexológicos o denominado experimento associa­
o interrogatório do sujeito é necessário precisamente sob o
tivo L.) e, ao fazê-lo, nâo levar em conta apenas o objeto
ponto de vista da integridade da
mas descobrir também as marcas de excitações
De fato, o comportamento do
anteriores, inclusive as inibidas" (ibidem).
novas reflexas são não apenas pelas
Apesar de alto conceito em que tem os experimentos psi­
cológicos, apesar de realizar tão decididamente a passagem 3. Békhterev, Vladímir Mikháilovich (1867·1927). Fisiólogo, neurólogo c
do experimento reflexológico clássico à riquíssima diversida­ psicólogo russo. Criador da doutrina sobre o comportamento como um siste~
de da experimentação psicológica, ainda vedada aos fisiólo­ ma de reflexos. a partir dos quais se constitui a atividade, tanto psíquica quan­
to social. das pessoas. Deu a essa doutrina o nome de psicologia objetiva,
gos, e apesar de traçar com enorme audácia novos caminhos
depois de psico-reflexologia e, lInalmente, de reflexologia, considerando-a
e métodos para a retlexologia, Protopópov deixa no ar dois como a antítese da psicologia empírica ou subjetiva. (N.R.RJ
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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 11
reaçôes (manifestadas, totalmente
bitauelmente tinham existência objetiua anterior (e é aí que
claramente mas também
se funda toda a diferença entre os pensamentos e a lingua­
nifestos externamente,
gem, só nisso!). Temos muitos meios de confirmar que exis­
terev mostra, L M. Sétchenov4, que o pensamento
tiam de fato com todos os traços próprios de sua realidade
não é outra coisa senão um reflexo inibido, retido, um refle­
material e, o que é mais importante, elas mesmas se ocupa­
xo interrompido em suas duas terças partes, concretamente
rão de convencer-nos de sua existência. Irão euidencíar-se
no pensamento com que é o caso mais freqüente
com tanta força e clareza no curso ulterior da rea~~ão que
de reflexo verbal contido. obrigarão o experimentador a levá-Ias em consideração, ou
Surge a pergunta: por que admitimos o estudo dos refle­ a renunciar em geral a estudar o curso das reações em que
xos verbais em sua integridade e inclusive depositamos estão inseridas. E existem muitos casos desses processos de
nesse campo as maiores expectativas e nâo levamos em con­ reaçôes, de desenvolvimento de reflexos condicionados em
sideração esses mesmos reflexos quando não se manifestam que não se introduzem reflexos inibidos (= pensamentos)?
externamente mas sem dúvida existem objetivamente? Se Portanto, ou renunciamos a estudar o comportamento
pronuncio em voz alta, para que o experimentador ouça, a da pessoa em suas formas mais transcendentais, ou necessa­
palavra "tarde", que me surgiu por associação, isto é consi­ riamente teremos de introduzir em nossos experimentos o
derado como uma reação verbal, um reflexo condicionado. controle desses reflexos não manifestados. A reflexologia é
Mas se pronuncio a palavra para mim mesmo, sem que seja obrigada a também levar em conta os pensamentos e a tota­
ouvida, se a penso, deixa por isso de ser um reflexo e se alte­ lidade da psique se
ra sua natureza? E onde está o limite entre a palavra pronun­ A psique é apenas um movimento
ciada e a não-pronunciada? Se os lábios se moveram, se que objetivamente se tocar e que
emiti um balbucio que o experimentador não percebeu, o ver. O que se vê somente através do microscópio, do teles­
que se deve fazer em tal caso? Poderá pedir-me que repita ou dos raios X também é objetivo. E também o são os
em voz alta a palavra ou considerar-se-á que esse é um reflexos inibidos.
método subjetivo, introspecção ou outras coisas O próprio Békhterev afirma que os resultados das inves­
Se isso é factível (e nisto coincidiria quase todo o tigações levadas a cabo escola de Wurtzburgo no âmbito
por que não pode me pedir que diga em voz alta a do "pensamento puro", nas esferas superiores da psique,
pronunciada mentalmente ­ ou murmurada sem mover coincidem em essência com o que sabemos dos reflexos con­
os lábios - na medida em que era e continuará sendo uma dicionados. M. B. Krol' diz claramente que os novos fenôme­
reaçào motora, um reflexo condicionado sem o qual nào há nos descobertos pelos investigadores de Wurtzburgo no cam­
pensamento? E isso já é interrogatório, testemunho verbal e po do pensamento sem imagens e não-verbal não são outra
do sujeito a respeito das não coisa senão os reflexos condicionados pavlovianos. E que tra­
não captadas pelo ouuido do experimentador mas que indu­ balho minucioso foi precisamente exigido para a análise dos
informes e testemunhos verbais dos sujeitos, só para chegar à
4. Sétchenov, Iván Mikháilovich (1829-1905). Fisiológo e psicólogo russo. conclusão de que o próprio ato do pensamento escapa ã
Criador de wna nova corrente na investiga~'âo das funções dos centros ner7 introspecção, que o encontramos já preparado, que não cabe
vosos superiores, na qual se baseava o programa de estruturaçâo da psicologia em informes, ou, o que dá na mesma, que é um reflexo
objetiva. Exerceu enorme influência no estudo determinista do comportamento
mediante conceitos naturais científicos e métodos objetivos. (N.R.R.)
5. Krol, Mikhail BOl'ísovitch (1869-1939) Neurólogo soviético. (N.R.RJ
12 TIORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 13

Nl'lIl é preciso dizer que o papel desses informes e


ram). O uivo de um lobo provoca em mim, como excitante,
illll.'rrogatórios verbais e o valor que lhes concede tanto a reflexos somáticos e mímicos de temor; a mudans,:a da respi­
investigação reflexológica quanto a psicologia de caráter ração, as palpitações do coração, o tremor, a secura na gar­
científico não coincidem integralmente com os que lhes atri­ ganta (reflexos) me fazem dizer: "Sinto medo". Por conse­
buíam os psicólogos subjetivistas. Como devem ser conside­ guinte, um reflexo pode desempenhar um papel de excitante
rados, pois, pelos psicólogos objetivistas e qual é seu papel para outro reflexo do mesmo sistema ou de um sistema dife­
e sua importância num sistema de experimentação rigorosa rente e provocá-lo também como excitante externo (alheio).
e cientificamente verificável? E, nesse sentido, pode-se considerar que a própria relação
Os reflexos nào existem isoladamente, nem atuam de entre ref1exos está submetida a todas as leis de formação
maneira dispersa, mas estruturam-se em complexos, em sis­ dos reflexos condicionados. De acordo com uma lei dos
temas, em complicados grupos e formações que determinam ret1exos condicionados, um ret1exo entra em conexão com
o comportamento do homem. As leis que regem a estrutura­ outro convertendo-se, em determinadas circunstâncias, em
ção dos reflexos em complexos, os tipos que essas forma­ seu excitante condicionado. Esta é a primeira evidente e
ções adotam, as variedades e formas de interação dentro fundamental, da relação entre os ret1exos.
deles e de interação entre a totalidade dos sistemas são Esse é o mecanismo que permite compreender em linhas
todas questões de primordial i.mportância dentro dos graves bastante aproximadas e genéricas o valor (objetivo) que po­
problemas com que defronta a psicologia científica do com­ dem ter para a investigação científica os testemunhos verbais
portamento. A doutrina dos ret1exos está ainda em seus pri­ dos sujeitos em uma prova. Os reflexos não-manifestos (fala
mórdios e ainda não foi investigada em todos esses âmbitos. silenCiosa), os reflexos internos, inacessíveis à percepção
Mas já podemos falar de uma indubitável interação entre sis­ direta do observador, podem com freqüência manifestar-se
temas isolados de reflexos, da int1uência de uns sistemas indiretamente, de forma mediada, através de reflexos acessí­
sobre outros e inclusive aproximarmo-nos de uma explica­ veis à observação e em relação aos quais desempenham o
ção dos traços, por hora gerais e grosseiros, que regem o papel de excitantes. Através da presença do reflexo completo
mecanismo dessa influência. O mecanismo seria çste: em (a palavra) estabelecemos a do excitante correspondente, que
um reflexo qualquer, sua própria parte reativa (movimento, nesse caso desempenha um duplo papel: o de excitante em
secreçâo) converte-se em excitante de um novo reflexo do relação ao reflexo completo e o de reflexo em relação ao
meSmo sistema ou de outro sistema. excitante anterior. Seria um suicídio para a ciência, dado o
Apesar de eu não ter conseguido encontrar essa formu­ enorme papel que a psique isto é, o grupo de reflexos inibi­
lação em nenhum ret1exólogo, sua veracidade é tão patente dos desempenha na estrutura da conduta, renunciar a ter
que sua ausência só se explica porque todos a subeátendem acesso a ela através de um caminho indireto: sua influência
e a aceitam tacitamente. O cachorro reage ao áCido clorídri­ em outros sistemas de reflexos. (Recordemos a doutrina de
co secretando saliva (reflexo), mas a própria saliva constitui Békhterev sobre os ret1exos internos, êxtero-internos etc. E,
um novo excitante para o reflexo de deglutição ou para ainda mais, se levarmos em conta que com freqüência dispo­
expulsá-la para fora. Numa associação livre, em resposta ã mos de excitantes internos que não estão ã vista, que perma­
palavra "rosa", que age como excitante, pronuncio "capu­ . necem ocultos nos processos somáticos e que, no entanto,
chinha". Trata-se de um ret1exo, que por sua vez é excitante podem se revelar através dos ret1exos produzidos por eles.
da palavra seguinte: "ranúnculo". (Tudo isto ocorre dentro Neste caso, a lógica é a mesma e é idêntico o funcionamento
de um mesmo sistema ou de sistemas próximos, que colabo- dos pensamentos e sua manifestação material).

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 15
14 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

Interpretado desse modo, o informe do sujeito não Isso equivale mais ou menos ao que Békhterev denomi­
constitui de forma alguma um ato de introspecção que vem na reflexos subordinados e não-subordinados. Concretamen­
despejar sua gota de fel no barril do mel da investigação te, essa interpretação da consciência é confirmada pelos
científica. Nâo se trata de introspecçâo. O sujeito de forma resultados das investigações da escola de Wurtzburgo, que
alguma adota a posição de observador, ou ajudá o experi­ estabelecem entre outras coisas a impossibilidade de observar
mentador a buscar reflexos ocultos. O exame mantém-se até o próprio ato de pensar ("não se pode pensar o pensamen­
porque escapa à percepção; isto é, não pode agir como
o final como objeto do experimento, mas tanto nele como
objeto de percepção (excitante) para si mesmo, por se tratar
no próprio informe introduzem-se, através das perguntas,
de fenômenos de ordem e natureza distintas de tantos pro­
algumas variações, transformações, introduz-se um novo
cessos psíquicos que podem ser observados e percebidos (da
excitante (uma nova pergunta), um novo reflexo que traz
mesma maneira que podem agir como excitantes para outros
elementos de juízo sobre as partes não esclarecidas das per­
sistemas), E, em nossa opinião, o ato da consciência não é
guntas anteriores. É como se se submetesse o experimento a
um reflexo, como tampouco pode ser um excitante, mas é um
um duplo objetivo. mecanismo de transmissão entre sistemas de re}7exos.
Mas também a própria consciência ou tomada de cons­ Com essa interpretação, que estabelece uma diferença
ciência de nossos atos e estados deve ser interpretada como metodológica radical e de princípio entre o informe verbal
um sistema de mecanismos transmissores de certos reflexos do sujeito e a introspecção, muda radicalmente, como é
para outros que funcionam corretamente em cada momento óbvio, a natureza científica da instruçào e do interrogatório.
consciente. Quanto maior for o ajuste com que qualquer O que fazemos com a instrução não é pedir ao sujeito que
reflexo interno, em qualídade de excitante, provoque uma se ocupe de uma parte das observações, que desdobre sua
nova série de reflexos procedentes de outros sistemas e se atenção e a dirija para suas próprias vivências. De forma
transmita a outros sistemas, mais capazes seremos de nos nenbuma. O que a instrução faz, na qualidade de sistema
darmos conta de nossas sensações, de comunicá-Ias aos de excitantes condicionados, é provocar previamente os
demais e de vivê-las (senti-Ias, colocá-Ias em palavras etc.). reflexos de orientação necessários que determinarão o curso
Dar-se conta significa transferir certos reflexos para outros. posterior da reação e dos reflexos de orientação dos meca­
O inconsciente baseia-se psiquicamente em que alguns nismos transmissores, precisamente daqueles mecanismos
reflexos não se transmitem a outros sistemas. Pode haver que entrarào em jogo no curso do experimento. Neste caso,
graus de consciência - ou seja, interações entre sistemas no a instrução que se dirige aos reflexos secundários, reflexos
seio do mecanismo do reflexo que atua - de infinita diversi­ de reflexos, não se diferencia basicamente em nada da que
dade, A consciência das próprias sensações significa apenas se refere aos reflexos primários, No primeiro caso: diga a
que elas atuam como objeto (excitante) de outras sensações: palavra que você acaba de pronunciar no seu interior. No
a consciência é a sensação das sensações, exatamente da segundo caso: afaste a mão,
mesma forma que as simples sensações são a sensação dos E prossigamos, O próprio interrogatório não consiste
objetos. Mas precisamente a capacidade do reflexo (sensa­ em extrair do sujeito suas próprias vivências. A questão é
ção do objeto) de ser um excitante (objeto de sensação) pa­ radicalmente distinta em princípio, A pessoa submetida à
ra um novo reflexo (nova sensação) converte esse mecanis­ prova não é a testemunha que declara sobre um crime que
mo de consciência em um de transmissão de reflexos de um presenciou (seu antigo papel), mas é o próprio criminoso e,
sistema para outro. o que é mais importante, no momento do crime. Não se

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16 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 17

trata de um interrogatório depois do experimento; é uma ta normal, capaz de compreender e falar nossa linguagem.
parte orgânica, integrante do próprio e não se diferencia em Mas nem a um recém-nascido, nem a um doente mental,
absoluto dele, salvo na utilização dos próprios dados no nem a um criminoso que oculta algo, faremos um interroga­
curso do experimento. tório. E não o faremos precisamente porque o entrelaça­
a interrogiltório não é uma superestrutura do experimen­ mento de um sistema de reflexos (consciência) e a transmis­
to, mas o próprio experimento que ainda não terminou e que são destes ao sistema verbal, ou não estão desenvolvidos
prossegue. Por isso o interrogatório deve ser construído não neles, ou estão perturbados pela doença, ou foram inibidos
como uma conversa, um discurso, como o interrogatório de e retidos por outros complexos de reflexos mais potentes.
um fiscal, mas como um sistema de excitantes, em que se Mas no caso de um adulto normal que consentiu voluntaria­
tenha a exata medida de cada som e se escolham rigorosamen­ mente em realizar a prova, o experimento é insubstituível.
te somente aqueles sistemas de reflexos refletidos, que possam De fato, é fácil distinguir no homem um grupo de refle­
ter no experimento um indubitável valor científico e objetivo. xos, cuja denominação correta seria a de sistema de reflexos
É por isso que todo o sistema de modificações (a surpre­
de contato social (A. B. ZalkindY'. Trata-se de reflexos que
sa, o método gradual, etc.) do interrogatório é de grande
reagem a excitantes que, por sua vez, são criados pelo ho­
importância. Devem ser criados um sistema e uma metodolo­
mem. A palavra escutada é um excitante, a palavra pronun­
gia .de interrogatório estritamente objetivos, como parte dos
ciada é um reflexo que cria esse mesmo excitante. Esses
excitantes introduzidos no experimento. E é evidente que a
reflexos reversíveis, que originam uma base para a cons­
introspecção não organizada, assim como a maioria dos teste­
ciência (entrelaçamento de reflexos), servem de fundamento
munhos, não pode ter valor objetivo. É preciso saber o que se
para a comunicação social e para a coordenação coletiva do
irá perguntar. Quando os vocábulos, as definiçôes, os termos
comportamento, o que indica, entre outras coisas, a origem
e os conceitos sâo vagos, não podemos relacionar, através de
social da consciência. De toda a massa de excitantes, desta­
um procedimento objetivamente confiável, o testemunho que
ca-se claramente para mim um grupo: o dos estímulos so­
o sujeito oferece de "leve sentimento de dificuldade" com o
reflexo-excitante objetivo, provocado por esse testemunho. ciais, que procedem das pessoas; eles se destacam porque
Mas seu testemunho: "diante da palavra trovão pensei em eu mesmo posso reproduzir esses excitantes, porque logo se
relâmpago" pode ter um valor completamente objetivo para o convertem para mim em reversíveis e, por conseguinte, em
estabelecimento indireto do fato de que a palavra "trovão" com os restantes, determinam meu comporta­
reagiu com o reflexo não-manifesto "relâmpago". mento de forma distinta. Eles fazem com que eu me pareça
Por conseguinte, impôe-se uma reforma radical na utili­ comigo mesmo, me identificam a mim mesmo. No sentido
zação do interrogatório e das instruçôes e no controle dos amplo da palavra, é na fala que reside a fonte do comporta­
testemunhos do sujeito. Afirmo que é possível criar em cada mento e da consciência. A fala constitui, por um lado, um
caso individual uma metodologia objetiva que transforme o sistema de reflexos de contato social e, por outro, o sistema
interrogatório do sujeito num experimento científico rigoro­ preferencial dos reflexos da consciência, isto é, servem para
samente exato. refletir a influência de outros sistemas.
Gostaria aqui de assinalar dois aspectos: um, que limita Por isso se funda aí a solução do enigma do "eu" alheio,
o dito anteriormente e, outro, que amplia seu valor. do conhecimento da psique dos demais. a mecanismo da
a sentido limitante dessas afirmações é claro por si só: 6. Zalkind, Arón Borísovitch (1888-1936). Pedagogo e psicólogo soviéti­
essa modificação do experimento é aplicável à pessoa adul- co. (N.R.R.)
18 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 19

forma ou outra o comportamento do sujeito e tenha podido,


consciência de si mesmo (autoconhecimento) e do reconhe­
portanto, ser eliminado do fenômeno a estudar ou absoluta­
cimento dos demais é idêntico: temos consciência de nós
mente não ser levado em consideração. Não há nenhum ato
mesmos porque a temos dos demais e pelo mesmo mecanis­
de comportamento durante o experimento no qual, junto ao
mo, porque somos em relação a nós mesmos o mesmo que
curso dos reflexos que não escapem ao sujeito
os demais em relação a nós. Reconhecemo-nos a nós mes­
outros que não estão ao alcance da vista ou do ouvido. Ou
mos somente na medida em que somos outros para nós
seja, tampouco existe algum caso no qual possamos renun­
mesmos, isto é, desde que sejamos capazes de de
ciar a essa parte do experimento, mesmo que seja apenas a
novo os reflexos próprios como excitantes. Entre o mecanis­
título de verificação.
mo que me permite repetir em voz alta a pronuncia­
Se um sujeito lhes diz que nào entendeu a instrução,
da mentalmente e o de que possa repetir isso com outra
não tomarão esse reflexo verbal como uma prova inequívo­
não há basicamente diferença alguma: em ambos os
casos trata-se de um reflexo-excitante reversível. Por isso, é ca de que seu excitante não provocou os reflexos de orien­
tação de que vocês necessitavam? E se perguntarem a essa
no contato social entre o experimentador e o sujeito que
pessoa: "Você entendeu a instrução?", não será que essa
esse contato se desenvolve com normalidade (uma pessoa
lógica precaução não implica recorrer à palavra acabada
adulta etc.). O sistema de reflexos verbais do sujeito oferece
[emitida em sua totalidade R.E.] como refletora de réfle­
ao experimentador a autenticidade de um fato científico,
xos, como testemunho de uma série de reflexos inibidos? E
sempre e quando se cumpram todas as condiçôes de certe­
quando uma reação demorou muito, nào considerará o ex­
za, necessidade e globalidade que caracterizam um sistema
perimentador uma do sujeito do tipo: "tembrei­
de reflexos em estudo.
me de um assunto desagradável para mim"? E assim por
O segundo aspecto, que amplia o exposto anteriormen­
diante. Na medida em que se trata de um método imprescin­
te, pode ser expresso de forma simples da seguinte maneira.
podemos encontrar milhares
O interrogatório do sujeito com a finalidade de estudar e
controlar de modo totalmente objetivo os reflexos não-mani­
utiliza cientificamente. E não seria útil, talvez, dirigir-se ao
festos é uma parte necessária em qualquer investigação ex­ uma reação que demorou mais do que se espe­
raria considerando outras para perguntar-lhe
perimental de uma pessoa normal em estado de Não
"você estava pensando em outras coisas durante o experi­
estamos falando aqui do testemunho introspectivo de sensa­
mento?", para obter a resposta: "Sim, fiquei pensando o
subjetivas, ao qual Békhterev tinha direito de conceder
tempo todo se as coisas deram certo hoje". E não apenas em
um valor unicamente complementar, colateral, auxiliar, mas
casos tão lamentáveis é útil e necessário recorrer ao teste­
de uma fase objetiva da experimentação, uma fase de verifi­
munho do sujeito. Para determinar os reflexos de orienta­
cação dos dados obtidos nas fases anteriores, da qual quase
ção, para levar em conta os ref1exos ocultos necessários que
nenhum experimento pode prescindir. Com efeito, a psique
em desempenha nos organismos superiores e no nós mesmos provocamos com a finalidade de comprovar
que não houve reflexos estranhos e para outros mil objeti­
homem um papel de complexidade reflexa crescente e o fato
vos, é necessário recorrer a uma metodologia de interroga­
de não estudá-la renunciar ã análise (precisamente
r.hipthla e não unilateral, subjetiva ao inverso) tório cientificamente elaborada, em vez de utilizar conversas
que inevitavelmente são filtradas no experimento. Mas é
humano. Nào houve nenhum caso de
óbvio que essa metodologia requer muito
provas realizadas com sujeitos normais em que o fator dos
complexas para cada caso.
reflexos inibidos. da osiaue. não tenha determinado de uma
20 TIOAIA I M~TODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 21

Para terminar essa questão e passar para a segunda, em psicologia. O paulatino aperfeiçoamento do método
intimamente relacionada com é curioso assinalar que os reflexológico conduziu-o casualmente lo grifo é meu L.V.]
reflexólogos que adotaram a metodologia da psicologia a essas modalidades de investigação, que apresentam ape­
experimental em sua integridade omitem precisamente esse nas semelhanças externas [o grifo é meu - L. V.] com as que
aspecto, por considerá-lo, ao que tudq indica, supérfluo e em osicoloQia. Os fundamentos de
não ajustado aos princípios do método objetivo etc. Neste o
sentido, é de grande interesse a coletânea "Novas idéias em do totalmente distintos.
medicina" 0924, nº 4), na qual há uma série de artigos que nsíOllicos com vivências anímicas em sua mani­
perfilam uma linha de desenvolvimento metodológica na ete. 0923, pp. 25-6) - o que segue é
direção indicada por V. P. Protopópov, com a do conhecimento de todo leitor de obras de reflexologia.
de adicional de excluir o interrogatório O mesmo sucede na Creio não ser difícil demonstrar que essa aproximação
passou a realizar expe­ não é casual e que a similitude de formas de análise não é
rimentos com seres integralmente o apenas externa. Na medida em que a reflexologia tenta
método sem recorrer ao interrogatório. Não explicar a totalidade do comportamento do homem, ela tem
será esta a explicação para a escassez de conclusôes e a de utilizar inevitavelmente o mesmo material que a psicolo­
de resultados das investigaçôes que escutamos nos gia. A pergunta se formula da seguinte maneira: a
informes experimentais apresentados neste congresso? O reflexologia omitir a e nào levá-la em conta em abso­
que podem acrescentar à verificaçào do princípio geral - há luto enquanto sistema de reflexos inibidos e
muito estabelecido e de maneira mais eloqüente de que de diferentes sistemas? Cabe explicar cientificamente o com­
no ser humano os reflexos se estabelecem com maior rapi­ ~~~'~mento do homem sem recorrer à psique? Deve a
dez do que no cachorro? Sabe-se disso sem necessidade de sem alma, a sem metafísica alguma, conver­
recorrer a experimentos. A constatação do evidente e a re­ ter-se em psicologia sem psique ­ em reflexologia? Do pon­
petição do a-bê-cê do que se desconhece são indefectivel­ to de vista biológico, seria absurdo supor que a psique é
mente atributos de todo investigador que não modifi­ totalmente desnecessária para o sistema da conduta. Ou
car seus métodos de trabalho. aceitamos um absurdo tào evidente ou negamos a existência
neste trabalho a tarefa de elaborar um es­ da psique. Mas os fisiólogos mais extremistas não são parti­
quema estrutural de um método científico-objetivo comum dários disso: nem Pávlov, nem Békhterev.
para a e para a experimentação do comporta­ L P. Pávlov diz claramente que "nossos estados
mento humano e sua defesa sob um ponto de vista teórico. vos constituem uma realidade primordial, que rege nossa
Mas, como já afirmei, essa questão técnica encontra-se em vida cotidiana e condiciona o progresso da convivência hu­
estreita com outra discrepância de caráter teórico, mana. Mas uma coisa é viver de acordo com estados
sobre a qual insistem os reflexólogos, inclusive aqueles que vos e outra analisar seus mecanismos de um ponto de vista
reconhecem a unidade de método com os Proto­ verdadeiramente científico" 1). De forma que há uma
pópov expressa-se assim: "A inclusão neste método realidade orimordial que rege nossa vida cotidiana Ce isso é
reflexología. Red.] dos procedimentos de análise que há e, no entanto, a investigação objetiva da atividade
muito se utilizam na psicologia experimental foi resulta­ nervosa superior o comportamento - pode prescindir do
do do desenvolvimento natural da própria reflexologia e controle dessa instância diretora do comportamento, ou
não silmifica de modo alQum a transformado desta última seja, da psique.
22 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 23
Basicamente, diz Pávlov, na vida só nos interessa uma
coisa: nosso conteúdo psíquico. O que mais ocupa o homem É possível, perguntamo-nos, excluir o estudo
é a consciência e os tormentos desta. E o próprio Pávlov fenômenos que alcançam seu máximo desenvolvimento nos
reconhece que é impossível não prestar atenção a eles (aos processos mais complexos ele atividade correlativa, nessa
fenômenos psíquicos), porque estão muito estreitamente ciência que faz precisamente dessa atividade correlativa o
unidos aos fisiológicos e determinam o funciona­ objeto de seu estudo? Mas Békhterev não despreza a psico­
Depois disso, pode-se renunciar ao logia subjetiva, mas a deslinda da reflexologia. Porque é evi­
E o próprio Pávlov situa muito bem o dente para qualquer um que cabe adotar aqui uma das duas
de cada ciência quando diz que a reflexologia estuda o alternativas seguintes: 1) ou explicar a totalidade da ativida­
da atividade nervosa e a a superes­ de correlativa sem a psique ­ fato que Békhterev reconhece -,
trutura. "E como o é compreensível e neste caso, esta última se converte em um fenômeno cola­
sem o ao passo que é impossível analisar o último teral, coisa que ele mesmo nega; 2) ou essa explicaçãó re­
sem o primeiro, nossa é melhor, já que o êxito de sulta impossível e nesse caso deve-se admitir a psicologia
nossas não depende em absoluto de outras. desligando-a da ciência do comportamento etc.
Creio que, pelo contrário, nossas investigações devem se Em vez de optar por uma das alternativas, Békhterev fala da
revestir de importância maior para a psicologia, já que irão mútua relação de ambas as ciências, 'de sua possível aproxi­
constituir posteriormente o principal fundamento do edifício mas, como esse momento ainda não che­
da psicologia" (ibidem, p. 105). Qualquer filósofo corrobora­ gou, supoe que por enquanto podemos nos manter no âm­
rá que a reflexologia é o princípio geral, o fundamento. Até bito de certas relações mútuas e estreitas entre as duas disci­
agora, enquanto estavam sendo construídos os alicerces, ci entíficas.
comuns para os animais e o homem, quando se tratava do Békhterev fala ainda da inevitável
simples e elementar, não era necessário contar com o psíqui­ construção no futuro de uma
co. Mas esse é um fenômeno temporário: quando os vinte especificamente de estudar os fenômenos
anos de experiência com que conta a reflexologia chegarem a psique é inseparável da atividade correlativa e alcança seu
a trinta, a situação mudará. Eu parti da tese de que a crise da máximo desenvolvimento precisamente em suas formas su­
metodologia começa nos reflexólogos precisamente quando periores, como é possível estudá-Ias em separado? Isto seria
passam dos fundamentos, do elementar e do simples, para factível se se reconhecesse que as duas facetas do problema
uma estrutura superior, para o complexo e sutil. têm uma natureza e uma essência diferenciadas, como de­
V. M. Békhterev (923) mostra-se ainda mais decidido, fendeu insistentemente a psicologia. Mas Békhterev a
mais resoluto, ou, dito de outra maneira, adota uma postura teoria do paralelismo e da interação psicológicos e afirma
mais inconseqüente e contraditória intrinsecamente. Seria um precisamente a unidade dos processos psíquicos e nervosos.
grande erro considerar,reconhecer, que os processos subjeti­ Fala muitas vezes da correlação entre os fenômenos
vos são por natureza fenômenos completamente supérfluos subjetivos (psique) e os objetivos, mantendo-se veladamen­
ou colaterais (epifenômenos), já que sabemos que nela todo te sempre no âmbito do dualismo. E dualismo é o verdadei­
o supérfluo se atrofia e se destrói, ao passo que nossa ro nome da postura adotada por Pávlov e Békhterev. Para
experiência nos diz que os fenômenos subjetivos este último, a psicologia experimental não é aceitável justa­
seu máximo desenvolvimento nos processos mais CUllHJ!<::l\.lJ/) mente porque recorre à introspecção para estudar o mundo
de atividade correlativa [sootnosítelnaia diéiatelnostl a psique. Békhterev propôe que suas investigações
analisadas sem levar em conta os processos da cons­
24 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 25

ciência. E, no que se refere aos métodos, diz claramente que trata do mesmo. Na opinião de Békhterev, os estados subje­
a reflexologia utiliza métodos objetivos rigorosos que lhes tivos, os fenômenos psíquicos, existem na tensão da corren­
são específicos. Sem dúvida, no que diz respeito aos méto­ te nervosa, no reflexo (anotem isso!) de concentração, líga­
dos, vimos que a própria reflexologia reconhece que coinci­ do à retensão da corrente nervosa quando se estabelecem
dem plenamente com os psicológicos. novos nexos. Que fenômenos tão misteriosos são esses? Não
Em suma, duas ciências que têm o mesmo objeto de fica claro, já que também eles são reaçôes do organismo,
análise, o comportamento do homem, que utilizam para isso mas refletidas por outros sistemas de reflexos: a linguagem,
os mesmos métodos, continuam, contudo, apesar de tudo, a emoção (reflexo mímico-somático) e outros? O problema
sendo duas ciências distintas?" O que as impede de se fundi­ da consciência deve ser formulado e resolvido pela psicolo­
rem? Fenômenos subjetivos ou psíquicos, repetem aos qua­ gia na medida em que se trata de uma interação, um reflexo,
tro ventos os retlexólogos. E em que consistem esses fenô­ uma auto-excitação, de diferentes sistemas de reflexos. É
menos subjetivos: o psíquico? consciente o que se transmite na categoria de excitante para
Entre os possíveis enfoques dessa questão - que é decisi­ outros sistemas e produz neles uma resposta. A consciência
va -, a reflexologia adota a posição do mais puro idealismo e é o aparelho de resposta.
dualismo, cuja denominação correta seria a de idealismo ao É por isso que os fenômenos subjetivos estão unicamen­
inverso. Para Pávlov trata-se de fenômenos sem causa e que te em meu alcance, somente eu os percebo como excitantes
não ocupam lugar; para Békbterev carecem de qualquer exis­ de meus próprios reflexos. Nesse sentido tem muita razão W.
tência objetiva, já que só podem ser estudados dentro de si James, que mostrou em uma brilhante análise que nada nos
mesmos. Mas, tanto Békbterev quando Pávlov sabem que a admitir o fato da existência da consciência como
esses fenômenos regem nossa vida. Não obstante, vêm neles, algo independente do mundo, apesar de não negar nem nos­
no psíquico, algo distinto - que deverá ser investigado de sas vivências, nem a consciência destas. Toda diferença entre
modo independente dos reflexos, assim como estes devem a consciência e o mundo (entre o reflexo ao reflexo e o re­
ser investigados separados do psíquico. Estamos, naturalmen­ flexo ao excitante) decorre apenas do contexto dos fenôme­
te, ante um materialismo de pura estirpe: renunciar à psique. nos. O mundo está no âmbito dos excitantes; a consciência
Mas só é materialismo num âmbito: o seu. Fora desse âmbito, no de meus reflexos. Esta janela é um objeto (o excitante de
age como idealismo de pura estirpe, separando a pSÍCllIe e meus reflexos); a mesma janela, com essas mesmas qualida­
seu estudo do sistema de conduta do homem. des, é minha sensação (um ret1exo transmitido a outros siste­
A psique não existe 10m do comportamento, assim como mas). A consciência é apenas o reflexo dos retlexos.
este não existe sem aquela, ainda que seja apenas porque se Ao afirmar que também a consciência deve ser interpre­
tada como reação do organismo e suas próprias reações,
• No resumo do congresso, publicado na coletânea "Novidades em rene­ vemo-nos obrigados a ser mais reflexólogos que o próprio
xologia" 092'5, nº O. nos comentários, diz-se sobre meu informe. referindo-se Pávlov. O que se se quer ser conseqüente, às vezes é
a essa idéia, que o autor "tentou mais uma vez apagar os limites entre os preciso ir de encontro a tal indecisão e ser mais papista do
enfoques ref1exolôgicos e psicológicos, originando com isso alguns comentá­
que o papa e mais monarquista que o rei. Os reis nem sem­
rios maldosos sobre a rd1exo\ogia, que caiu em contradiçües internas" (p.
359). Em vez de desmentir essa idéia, o mediador alega que "o conferencista é pre são bons monarquistas.
um psicólogo que tenta, além do mais, assimilar também a proposta ref1exoló­ Quando a reflexologia exclui os fenômenos psíquicos do
gk:a. Os resultados falam por si". Um silêncio bem eloqüente! Teria, contudo, círculo de suas investigações como algo que nào é de sua
sido mais oportuna e necessária uma formulação exata de meu erro. competência, age da mesma maneira que a psicologia idealis­

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26 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 27

ta, que estuda a psique prescindindo de todo o resto, como única pedra sem verificar as diretrizes e o tipo de edifício
se fosse um mundo fechado em si mesmo. A bem da que irão levantar.
a psicologia raramente excluiu de seu âmbito o aspecto obje­ Falemos claro. Os enigmas da consciência, da psique,
tivo dos processos psíquicos e nem se encerrou no círculo da não podem ser eludidos com subterfúgios, nem metodológi­
vida interior, como se esta fosse uma ilha deserta do espírito. cos nem teóricos. Não se pode fazer rodeios para deixar a
Os estados subjetivos isolados do espaço e de suas causas ­ consciência de lado. James se perguntava se a consciência
não existem por si mesmos. E, pela mesma razão, existia e respondia que a respiração existia, disto tinha cer­
pode existir a ciência que os estuda. Estudar o comportamen­ teza, mas quanto ã consciência, duvidava. Mas essa formula­
to da pessoa sem a psique, como quer a reflexologia, é tão da questão é gnosiológica. Psicologicamente, a cons­
impossível como estudar a psique sem o comportamento. ciência é um fato indubitável, uma realidade primordial e
Não é possível, portanto, abrir espaço para duas ciências dis­ um fato, nem secundário, nem casual, de enorme importân­
tintas. E nâo é preciso ser muito perspicaz para dar-se conta cia. Ninguém o discute. Podemos adiar o problema, mas
de que a psique é essa própria atividade correlativa, que a não eliminá-lo por completo. Na nova psicologia, as coisas
consciência é uma atividade correlativa dentro do próprio nào andarào bem até que nos coloquemos audaz e clara­
mente () problema da psique e da consciência e até que não
organismo, dentro do sistema nervoso: a atividade correlativa
o resolvamos experimentalmente, seguindo um procedi­
do corpo humano consigo mesmo.
mento objetivo. Em que etapa surgem os traços conscientes
O estado atual dos dois ramos do saber sugere clara­
dos reflexos, qual é seu significado biológico, são perguntas
mente que a integraçâo das duas ciências não apenas é
que devemos fazer, e é preciso preparar-se para resolvê-las
necessária mas também frutífera. A psicologia está vivendo
experimentalmente. O problema depende apenas de formu­
uma séria crise no Ocidente e na URSS. Para James, ela não
lar corretamente a questão e a solução chegará mais cedo
passa de um monte de matéria bruta. N. N. Langue7 compara
ou mais tarde. Em um arrebatamento "energético", Békh­
a situação da psicologia com a de Príamo nas ruínas de
terev até o pan-psiquismo, a atribuir dimensão pes­
Tróia (1914, p. 42). Tudo desmoronou, tal é o resultado da
soal a plantas e animais; em outro lugar, não se decide a
crise e não apenas na Rússia. Mas também a reflexologia foi
a hipótese da alma. A reflexologia não abandonará
parar num beco sem saída, depois de ter erguido os alicer­
esse estado de primitiva ignorância sobre a psique enquanto
ces. Uma ciência não pode prescindir da outra. É necessário
se mantiver afastada dela e continuar encerrada no estreito
e urgente elaborar uma metodologia científica objetiva co­
círculo do materialismo fisiológico. Ser materialista em fisio­
mum, uma formulação comum dos problemas mais impor­
logia não é difícil. Mas provem como sê-lo em psicologia e,
tantes que cada ciência, por separado, já não pode, não
se não o conseguirem, continuem a ser idealistas.
apenas formular, mas nem mesmo tentar resolver. E se nào
Ultimamente, o problema da introspecção e de seu
parece claro que se pode construir a superestrutura contan­
papel na investigação psicológica aguçou-se muito sob a
to que se disponha de alicerces, tampouco os construtores influência de dois fatores:
destes, depOis de havê-los terminado, podem colocar uma Por um lado, a psicologia objetiva que, embora aparen­
temente tenha tendido num primeiro momento a rejeitar
7. Langue, Nikolái Nikoláievitch (Hl58-1921). Psicólogo niSso. Professor da abertamente a introspecção, considerando-a um método
Universidade de Novo[{)ssiisk (Odessa) e destacado representante da corrente
nos últimos tempos tem se aventurado em
científico-natural na investigaçào das funções psíquicas (percepçào, atenç,lo).
Defendia uma concepção genéticd e biológica dessas funções. (N.R.R.) mas tentativas de achar um valor objetivo nisso que se deno­
28 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 29

mina introspecção, J. Watson, A, Weiss e outros começaram quais recorremos quando não conseguimos ler uma carta.
a falar de "concluta verbal" e relacionam a introspeq:ào Mas, ao passo que a lente de aumento nào modifica o pró­
como o funcionamento desse aspecto verbal de nosso com­ prio objeto, mas ajuda a vê-lo com maior clareza, a intros­
portamento; outros falam de "conduta interna", de "concluta modifica o objeto a observar. Ao comparar pesos,
verbal" manifesta etc. diz Koffka, a descrição verdadeira não deverá
Por outro lado, a nova tendência da P"lLUIU15'd esse ponto de "este objeto é mais pesado
denominada "psicologia da , mas "minha de peso se intensifí­
M. Wertheimer e outros), que
em subjetivo
tro anos enorme importância, interveio com uma violenta

crítica nas duas frentes, acusando tanto a psicologia empíri­


Os novos psicólogos reconhecem também o heróico
ca quanto o behaviorismo do mesmo pecado: sua incapaci­
fracasso da escola de e a impotência da
dade para estudar mediante um único método (objetivo ou
gia empírica (experimental). A verdade é que também reco­
subjetivo) o comportamento real, vital, do homem.
nhecem a esterilidade do método puramente objetivo e pro­
Os dois fatores complicam ainda mais o problema do põem uma perspectiva funcional e integral. Para esses
valor da introspecção e obrigam, portanto, a analü;ar siste­ cólogos, os processos conscientes "são apenas processos
maticamente as formas, essencialmente diferentes, de intros­ parciais de grandes configurações"; por isso, e continuando
a que essas três partes em discussão se referem. com sua posição, "depois da parte consciente de um grande
Tentaremos nas próximas linhas sistematizar o processo - ou seja, a configuração -, depois dos limites de
embora tenhamos de fazer sua consciência", submetemos nossas teses à comprovação
de caráter geral. funcional com falOS Os psicólogos que reconhe­
Em primeiro lugar, devemos assinalar que a solução do nào constitui o método funclamen­
problema deverá surgir de dentro da crise cada vez mais limitam-se a falar apenas da-
patente da própria psicologia empírica. Nada mais falso do ou
que pretender que a crise que parece ter cindido em dois através " extraídas funcionalmente dela e
c<lmpos a ciência russa é apenas uma crise local, própria da confirmada pelos fatos.
Rússia. A crise se estende hoje em dia por toda a psicologia Vemos, por que, se por um lado a ret1exo­
universal. O aparecimento de uma escola psicológica (a psi­ logia russa e o behaviorismo norte-americano tentam encon­
cologia da gestalt), surgida no seio da psicologia empírica, é trar uma "introspecção objetiva", os melhores representantes
boa prova disso, De que esses acusam a intros­ da psicologia empírica buscam também uma "introspecção
de que com esse método de real", fidedigna.
se convertem de modo inevi­ f: para responder à pergunta do que seria tal coisa que
que exige aten­ devemos tentar sistematizar todas as formas de introspecção
analítica, arranca sempre o objeto a observar do nexo e estudar cada uma delas em separado.
em que apareceu e o traslada para um novo sistema, "para o cinco formas principais.
sistema do sujeito", para o "eu" (K. Koffka, 1924). Nessas l.A à pessoa submetida à prova. Isso, natural­
circunstâncias, as vivências se convertem, inevitavelmente, mente, é em já que oressuoõe a
em subjetivas. Koffka compara a introspecção, capaz apenas organização
de observar sensaçôes claras, com os óculos e a lupa, aos pessoa, Aquele que tentar evitá-Ia nos
30 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 31

sujeitos humanos cometerá um erro, porque substituirá as por isso encerram elementos de falsidade; pode ocorrer,
ordens manifestas, e que portanto são levadas em considera- que totalmente falsos. Por isso é absurdo
pela auto-instru):ão da pessoa em questão, ordem fiar-se neles. Mas, será que isso significa que não devemos
inculcada pelas circunstâncias do experimento etc. É impro­ escutá-los em durante o processo e prescindamos de
vável que atualmente haja que negue a necessidade interrogar as testemunhas? Isto tampouco seria inteligente.
da Escutamos o processado e a vítima, verificamos, confronta­
2. Manifestações da pessoa submetida ã prova, relativas mos, recorremos a provas materiais, a documentos,
ao objeto externo. Por exemplo, quando se mostram dois testemunhos de testemunhas (também aqui há testemunhos
círculos: "este é azul, aquele, branco". Esse tipo de introspec­ e, desse modo, estabelecemos o fato.
ção, que se comprova sobretudo recorrendo à mudança fun­ Não se deve esquecer que existem muitas ciências que
cionai de toda uma série de excitantes e declarações (não é não podem esmclar o assunto recorrendo à observação dire­
um círculo azul, mas uma série de círculos azuis que se obs­ ta*. Os historiadores e os geólogos estabelecem fatos que
curecem e clareiam oaulatinamente). também pode resultar não mais existem, através de méLOdos indiretos e, no entan­
to, afinal de contas estudam fatos que existiram, e não pistas
3. As declarações da pessoa submetida ã prova sobre c documentos que permaneceram e foram conservados. O
suas próprias reações internas: "dói, me sinto bem" etc. É psicólogo encontra-se com freqüência na mesma
uma forma menos fidedigna de introspecção, embora seja do historiador e do arqueólogo e atua então como o deteti­
acessível à comprovação objetiva e possa ser admitida. ve que investiga um crime que não nrp"pnC'ir
4. A descoberta de uma oculta. A pessoa subme­
tida a uma prova diz um número que lhe ocorreu; consta
como está colocada a língua dentro de sua boca; repete uma
em que pensou etc. Esta é a variedade de descober­
ta indireta da reação, que propugnamos no presente artigo.
5. Finalmente, a descrição detalhada por parte da pes­
soa submetida à prova de seus estados internos (metodolo­
gia de Wurtzburgo). Constitui a variedade de introspecção
menos fidedigna e de comprovação mais inexeqüível. Aqui,
a pessoa submetida à prova é colocada na situação de
observador auxiliar; o observador (observer, como dizem os • Compare-se: Ivanóvski V,H lntroducción metodológica a la ciellcia y la
psicólogos ingleses) passa a ser, neste caso, o sujeito e não Minsk, 1923, pp. 199-200. O autor indica como alguns psicólogos se
do exoerimento: o exoerimentador limita-se ao opunham à introdução do inconsciente em psicologia, baseando-se no fato de
que ele não pode ser observado diretamente. Os psicólogos objetivistas tam­
Aqui, em vez de fatos se
bém estudam os fenômenos da consciência recorrendo ao método indireto,
apresentam teorias preparadas. do mesmo modo que O.'i psicólogos anteriores estudavam o inconsciente por
Tenho a impressão de que o problema do valor científi­ seus traços, suas manifestações, suas influências etc.
co que cabe atribuir à introspecção deverá resolver-se de 8. Ivanóvski, Vladimir NikoJáievitch 0867-1931). Filósofo e psicólogo
forma análoga a como resolvemos o do valor prático dos russo. Ocupou-se da história do associacionismo e nessa posição criticou o
conceito de atividade do espírito e da apercepção de G. W. Leibniz, J. F.
testemunhos da vítima e do réu na instrução de
Herbert e fundamentalmente de W. Wundt. Participou ativamente do desen­
mento sumário. São parciais - sabemos disso a volvimento da psicologia pedagógica I1Jssa. (N.R.ru
PSICOLOGIA GERAL E EXPERIMENTAL*
(PRÓLOGO AO LIVRO DE A. F. LAZURSKI)

o livro de A. F. Lazurski 1 ganha uma nova edição


quando tanto a ciência psicológica russa quanto o ensino
das disciplinas psicológicas nas escolas superiores atraves­
sam um período de crise aguda. Essa crise está condiciona­
da e determinada, por um lado, pelos êxitos do pensamento
fisiológico, que com os métodos das ciências naturais exatas
alcançaram os setores mais complexos e difíceis da ativida­
de nervosa superior e, por outro, pela crescente oposição
dentro da própria ciência psicológica aos sistemas tradicio­
nais da psicologia empírica. A isso se acrescentou, além do
mais, uma tendência, totalmente inevitável e que se podia
esperar - e que se expande pela quase totalidade da atual
frente russa da cultura -, a revisar os fundamentos e princí­
pios da psicologia à luz do materialismo dialético e a ligar a
elaboração da investigação científica e teórica, assim como

• "Predislovie k knigue A. F. Lazúrskovo Psikhologuia ohstchaia i ekspe­


rimerltalnaia". O prólogo ao livro de A. F. Lazurski foi escrito em 1924 para a
terceira edição dessa obra. (Leningrado, 1925),
l. Lazurski, Aleksander Fióclorovitch (1874-1917). Psicólogo russo.
Iniciador do estudo da doutrina sobre as diferenças psicológicas individuais,
para cuja interpretaçào mantinha uma orientaçào científico-natural.
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o ensino dessa ciência, a de caráter filosófíco tarefa era difícil. Por um lado, era preciso conservar integral­
mais gerais e fundamentais. mente o respeito ao legado científico e pedagógico de tão
Uma tanto teórica quanto pe­ notável erudito como era o honrado professor Lazurski, evi­
da crise e da reestruturação da psi­ tar qualquer deformação ou vulgarização de seus pensamen­
e torna necessários certos esclarecimentos prévios tos, conservar intactos e exatos, na medida do possível, o
para qualquer novo trahalho que se apresente sohre esse espírito e inclusive a letra de seu livro e sua forma de expres­
tema. O mesmo se aplica aos textos que forem reeditados. como se se tratasse da entonação e das pausas de seu
O curso de Lazurski foi redigido há quinze anos, partin­ curso. Por outro lado, era necessário colocar nas mãos dos
do das aulas ministradas aos alunos de uma das escolas su­ estudantes um manual do curso de psicologia a que iriam
periores de Petersburgo e servia de manual desse curso nos assistir em 1925, ou seja, levar em conta e introduzir no livro
centros de ensino superior. O manual atendia a seu todas as correções que foram se acumulando nos textos des­
tinados ao ensino ao longo de um período de dez a
e era completamente satisfatório. Escrito com extraordinária
anos, e que neste caso haviam se tornado especialmente
simplicidade e clareza e de uma forma que o
necessárias nos anos de crise da última década.
ao alcance de todos, é dos méritos que qualquer ma­
Esse objetivo, como ficará evidente para todos, não pode
nual deve reunir: um conteúdo plenamente científico do ma­ ser alcançado em sua totalidade. Por isso, a presente tentativa
terial que inclui uma pedagógica e uma distri­ deve ser considerada necessariamente como lima solução de
compendiada e sistemática. Surge agora a terceira compromisso, capaz de proporcionar um manual temporário
do livro que deverá cumprir primordialmente, em de caráter transitório, mas que de modo algum resolve por
nossa opinião, o mesmo objetivo: servir de guia no curso de completo e de forma definitiva o problema da criação de um
psicologia da escola, ajudando com isso tamhém os profes­ novo manual que responda a todas as colocadas
sores e os estudantes a saírem da crise que, nos centros de atual estado da ciência. Esse manual de novo cunho é
ensino, se retlete principalmente, e de forma mais grave. na coisa do futuro. Como material didático temporário, transitó­
ausência de um livro de texto. o curso de Lazurski pode, em nossa opinião, ser útil. A
Foi precisamente esse fim da nova edlçao que favor disso falam os fundamentos científicos, completamente
a não ser uma mera do livro tal como o sadios em geral, que serviram de base para seu trabalho
havia escrito o oróprio autor, mas a submetê-lo a uma certa pedagógico e científico e sobre os quais criou o curso.
realizada, para a edição, pelos pro­ "Pode se considerar que um dos traços mais característi­
fessores auxiliares do Instituto Pedagógico da Universidade cos da psicologia atual - assim é dito no princípio do curso
estatal número 1 de Moscou, V. A. Artiómov', N. F. Dobrinin1 é sua transformaçào paulatina em ciência exata, no sentido
e A. R. Luria, assim como por quem escreve estas linhas. A com que utilizamos esta palavra ao nos referirmos às ciên­
cias naturais" 0925, p. 27). Nessa
2. Artiómov. Vladimir Aleksándrovitch (n. 1897). Psicólogo soviético. encontramo-nos agora diante de tentativas tão radicais de
Durante os anos 20-30 foi um dos principais colaboradores do Instituto reforma de nossa ciência que o ponto de vista do autor do
Psicológico, adjunto à Universidade estatal de Moscou. Seus principais traba­
curso pode facilmente parecer moderado e "paulatino" de-
lhos são dedicados à psicologia da linguagem.
3. Dobrinin, Nikolái Fiódorovitch (1890-1981). Psicólogo soviético.
embora Lazurski fosse, sem dúvida, um daqueles psi­
Durante os anos 20-30 foi um dos principais cola hora dores do Instituto cólogos de transformar a psicologia em uma ciên­
Psicológico, adjunto ã Universidade estatal de Moscou. Seus principais traba­ cia exata. Lazurski partia ele um ponto de vista geral sobre a
lhos dedicados à psicologia da aten(ào. psique de caráter biológico e interpretava todos os proble­
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mas da psicologia como sendo de caráter biológico. Afirma­ das cientificamente pela própria análise psicológica da fé e
va, assim, que todas as funções psíquicas têm também sua das concepções religiosas, nem ser tão hipotéticas e tão
faceta fisiológica, ou, em outros termos, que no organismo pouco fidedignas como nesse capítulo. Por isso, não era con­
não existem processos psíquicos puros Co processo criativo, veniente conservar num manual um material discutível e uni­
diz ele, entre outras coisas, é, de forma análoga a todos os lateral, que, além do mais, perdeu nos últimos anos, devido
processos espirituais restantes, um processo psicofisiológico, ~1 transformação cultural geral, quase todo seu interesse. Um
ou seja, que tem seu correlato fisiológico equivalente). Tam­ capítulo assim não pode ter cabimento, é evidente, num
bém estava convencido da total regularidade da atividade curso universitário atual e, pela mesma razão, tampouco tem
psíquica; no que se refere a sua doutrina do caráter integral sentido que figure num manual destinado ao mesmo.
da personalidade, afirmava que nossa organização psíquica Também foi suprimida uma página do capítulo I - "Ob­
nos foi proporcionada como um todo, como uma unidade jeto e tarefas" -, onde o autor, ao contrário de seu ponto de
coerente e ordenada. Tudo isso coincide de tal forma com os vista geral, defende o direito da ciência de introduzir hipó­
princípios fundamentais da psicologia biológica, que o livro teses e afirma que, neste sentido, o conceito de alma como
acaba sendo muito melhor do que toda uma série de outros base dos processos psíquicos tem todo direito de existir.
cursos universitários, inclusive do que os criados há pouco Isso nos faz retroceder tanto, inclusive em comparação com
tempo. A tudo isto deve-se acrescentar uma característica re­ a psicologia empírica, essa psicologia sem alma, que consti­
lativamente rara nos manuais russos universitários, que é o tuiria uma indubitável e violenta dissonância em um curso
fato de que o autor introduz no curso exemplos e dados da de psicologia científica.
psicologia experimental. Destacamos, também, o espírito No restante, reimprimiu-se integralmente o texto da
ponderado e diáfano, naturalista e realista, que impregna to­ segunda edição, salvo por insignificantes omissões de pala­
do o livro.
vras soltas, frases cortadas, observações etc. Essas omissões
Esses méritos indiscutíveis do manual, seus pontos de devem-se, em sua maioria, a exigências puramente técnicas
contato com a psicologia científica recém-surgida são aspec­ e estilísticas, em função de certos adendos introduzidos no
tos que era necessário destacar em primeiro lugar, sublinhar texto. Considerávamo-nos no direito de fazê-lo, já que par­
e conseguir que aparecessem no livro em primeiro plano. tíamos da convicção de que um manual não é uma canção,
Mas, para isso, foi preciso introduzir com enorme cuidado da qual não se pode suprimir uma palavra, e que a supres­
no texto que aqui se apresenta algumas modificações. Em são de um vocábulo ou sua substituição por outro mais
geral, as mudanças realizadas, ou seja, a parte técnica do oportuno, segundo as exigências do contexto, não podem
trabalho de redação, reduziram-se ao seguinte: ser consideradas de modo algum como uma tergiversação.
Omitiu-se o capítulo XXI Cda segunda edição), "Os senti­ Isto foi feito apenas em bem poucos casos, onde era com­
mentos religiosos". Esse capítulo não mantém uma relação pletamente necessário e inevitável e onde renunciar a isto
orgânica com o curso, não constitui parte integrante indis­ teria significado renunciar a redigir o texto.
pensável do sistema do mesmo e, no aspecto científico, care­ As correções realizadas e os adendos introduzidos apa­
ce de valor sério e original. Não passa de uma pequena rami­ recem entre colchetes, destacando-se do texto e aparecendo
ficação dentro do capítulo da psicologia das sensações, de como adendos posteriores. Foi preciso recorrer a isso por­
modo algum obrigatória e internamente desnecessária. Além que o próprio caráter do manual não permitiria observações
disso, em quase nenhum outro campo as teses do autor po­ extensas, chamadas, citações de obras e de outros autores.
dem resultar tão discutíveis, nem estar tão pouco respalda­ O manual devia continuar sendo isso, ou seja, um livro que
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oferece uma exposição coerente de um curso para o ensino Dada a ausência de um sistema universalmente reco­
de uma ciência. nhecido, que caracterizou, durante as últimas décadas, a
Os adendos e correções tiveram quase sempre, em to­ psicologia empírica, os psicólogos de diferentes correntes e
dos os lugares, o caráter de no escolas criavam quase sempre sua forma especial de expor
vez que se fala das tarefas, dos métodos e do o curso e interpretavam a sua maneira os principais princí­
cologia, acrescentamos a palavra - K.K.J, porque pios e categorias psicológicos. Diante desse estado de coi­
tanto teórica quanto historicamente as afirmações do autor sas, o curso de Lazurski só pode ser caracterizado como um
conservam sua autenticidade científica apenas com essa cor­ curso combinado, que inclui os sedimentos de diversos sis­
reçào; essa correção também estava subentendida antes, temas, que une numerosas distintas e esboça
mas dispensava-se especificá-la porque, além da psicologia uma certa linha média resultante de diferentes correntes psi­
empírica, em nossos cursos para estudantes não existia cológicas. A linha correspondente ao ponto de vista do
outra. A maioria das correções em geral: esse mesmo autor, que se fez notar, como é natural, na própria escolha
caráter. Em alguns lugares incluiu-se uma palavra para do material e na suficientemente clara reunião do mesmo,
reforçar o sentido, para estabelecer um nexo com o contex­ poderia ser denominada provavelmente de eclética. Isto
to, com um adendo introduzido anteriormente. Em outros permite pensar que as teses e dados novos que foram intro­
-imiu-se uma palavra que sobrava e que induzia duzidos não resultarão organicamente estranhos dentro do
substituiu-se por outra, de novo para sistema da obra e encontrarão seu lugar junto com outras
com o contexto l!eral dos adendos linhas do mesmo que se entrecruzam.
introduzidos. Nesse sentido, é preciso levar em conta que, em geral,
Finalmente, alguns adendos mais extensos introduzidos um manual não deve ser concebido de forma dogmática;
em certos capítulos, que também figuram entre deve, antes, ter um caráter informativo. Em nossa época, por
foram considerados como o mínimo de dados necessários mais antipedagógico que pareça, um manual de psicologia
que deviam ser incluídos no manual e sem os quais sua uti­ deve ter, em maior ou menor grau, um caráter crítico. Ainda
lização resultaria francamente impossível, já que, em tal não se criou um novo sistema de psicologia científica que,
caso, o curso ministrado da cátedra e o lido no livro divergi­ sem se apoiar em absoluto nos anteriores, seja capaz de
riam de forma definitiva e incorrigível. Nesse sentido, foi organizar seu próprio curso. Os pontos de vista fundamen­
preciso que os adendos fossem feitos nào sob a forma de tais de nossa ciência ainda estão determinados em
simples especificações de uma ou outra tese, citação ou medida por traços negativos. Muitos
mas sempre levando em considera- nova ciência baseiam-se ainda na força de refutação e da crí­
os estudantes e em duas palavras a essência da tica. A psicologia como ciência, utilizando palavras de E.
Os adendos foram sempre realizados conservando­ Thorndike, está mais próxima do zero do que da perfeição.
se essa perspectiva histórica e portanto, sempre o cará­ Por outro lado, ainda é muito grande a necessidade de recor­
ter de um ponto de vista científico posterior. Isso resulta rer à experiência precedente, constituída com uma velha ter­
oportuno, sobretudo, porque o livro de Lazurski não consti­ minologia. Ainda sào de uso comum, tanto na língua cotidia­
tui um sistema psicológico estritamente fechado, completo e na quanto na científica, conceitos e categorias cotidianos.
original. A originalidade da obra científica de Lazurski se Por isso foi necessário renunciar desde o princípio à
manifesta em outras esferas de seu trabalho, mas nào no idéia de traduzir todo o curso para o idioma da nova psico­
estudo do sistema geral, da psicologia teórica. ou de introduzir pelo menos uma terminologia, uma
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classificação e um sistema paralelos. Isso teria signifícado criado exclusivamente, em de arquivá-lo definitiva­
escrever um livro totalmente novo, em vez de redigir a ter­ mente, ainda mais levando-se em conta que, sem
ceira da obra de Lazurski. Por isso foi necessário além de cientista, ele era também um ativista e um pedago­
decidir conscientemente lançar o livro que expõe o sistema go e que não teria repetido agora sua segunda tex­
da psicologia empírica, utilizando os termos dessa psicolo­ tualmente. Podemos afirmá-lo com certeza, mesmo sendo
gia, de acordo com a classificação tradicional e assim por teria adotado agora. E para
diante. Mas desejamos reforçar tudo isso de algum modo a escola é mais útil utilízar, ainda que seja apenas critica­
com novo material científico e aproximá-lo um pouco da mente, um material válido, do que carecer por completo de
realidade. A seQunda tarefa consistiu em proporcionar ao um manual durante todo o tempo de transição.
livro um certo material essencialmente em apresen­
tar criticamente um novo ponto de vista.
Em linhas gerais, o fato é que Lazurski se situa com 2
ambos os pés no terreno da psicologia empírica tradicional
e compartilha com ela de todos os defeitos e imperfeições Seria um profundo engano considerar que a crise da
que obrigam a psicologia científica que hoje se tenta cons­ ciência psicológica teve início nos últimos anos, com o sur­
truir a se confrontar com a psicologia empírica e opor-se a gimento de correntes e escolas que se declaram opostas ã
ela. Descobrir a linha fundamental de divergência com a su­ psicologia empírica, e que antes disto tudo se desenvolvia
ficiente dureza e clareza, apresentar o novo ponto de vista de forma feliz. A psicologia empírica, que substitui a racio­
com o detalhe e a sufíciente força de convicção nos aden­ nal ou metafísica, realizou dentro de seu âmbito uma
introduzidos sempre por motivos circunstanciais e de tante reforma. A partir da afirmação de]. Locke de que a
forma fragmentada, era totalmente impossível. Por isso con­ investigação da essência da alma era uma especulação, a
sideramos conveniente dedicar a isso a segunda parte desta psicologia empírica evoluiu, de acordo com o espírito cien­
introdução, para, dessa maneira, orientar o pensamento de tífico geral de sua época, até converter-se em uma "psicolo­
todo aquele que utilizar o livro de uma forma de certo sem alma", uma ciência experimental acerca dos fenô­
modo crítica, proporcionando-lhe a vacina necessária e si­ menos espirituais ou estados da consciência, estudados me­
tuando-o na correta disposição em relação ao ponto de diante a percepção interna ou a introspecção. No entanto, a
vista exposto com suficiente plenitude no mesmo. Portanto psicologia não conseguiu criar sobre essas bases um sistema
a segunda parte destina-se a servir a qualquer leitor quer universal e necessário similar ao de outras ciências. Seu
como capítulo introdutório, quer como capítulo comple­ estado no final do século XIX, pode ser caracterizado
mentar do livro. com bastante correção pela existência de um grande desa­
Estamos perfeitamente conscientes de que com isso, e cordo dentro do pensamento científico que se tinha dividido
sem invadir em absoluto o texto, modificamos o tom princi­ em numerosas correntes isoladas, que defendiam seu pró­
e o sentido do livro mais do que com todas as insignifi­ prio sistema e interpretavam e compreendiam a sua maneira
cantes omissôes, notas e correções realizadas no texto e as categorias e princípios fundamentais de sua ciência.
mencionadas anteriormente. Ao agirmos assim, supusemos "Pode-se dizer, sem medo de exagerar - manifesta a esse
também que a lembrança mais lisonjeira de Lazurski seria respeito N. N. Langue -, que a descrição de qualquer pro­
que seu manual, embora enfocado de forma crítica, fosse cesso psíquico apresenta distintas aparências em funç:ão de
novamente introduzido em nossa escola, para a qual foi ser caracterizado ou de a ele serem aplicadas as categorias
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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 43

de diferentes sistemas psicológicos: o de Ebbinghaus ou


toda ciência deve se fazer. O testemunho subjetivo sobre as
Wundt, Stumpf ou Avenarius, Meinong ou Binet, James ou próprias sensações nunca pôde dar uma justificativa para
G. E. Müller" 0914, p.
suas explicações genéticas e causais, nem proporcionar uma
A profunda crise que dividiu a psicologia empírica teve análise rigorosa e pormenorizada de sua composição, nem
como conseqüência inevitável, por um lado, a ausência de oferecer uma constatação indiscutível e objetivamente fide­
um sistema científico único, reconhecido por todos e, por
digna de seus principais traços.
outro, a inevitabilidade do aparecimento de novas correntes Esses fatos, que se produziam dentro da própria psico­
psicológicas, que tentavam encontrar uma saída para a crise, logia, tornaram patente a necessidade de adotar um ponto
renunciando às principais premissas da psicologia empírica
de vista objetivo e, dessa maneira, determinar o objetivo, o
e adotando como fundamentos e fontes de conhecimento método e os princípios de seu estudo para assegurar a pos­
outras mais sólidas e cientificamente mais fidedignas.
sibilidade de construir um sistema científico exato e rigoro­
Na verdade, as teses fundamentais da psicologia empíri­ so. Apesar da confusão e indeterminação desse futuro siste­
ca ainda estão tão impregnadas da herança da psicologia ma, da falta de coordenação de pensamento dentro das dife­
metafísica e tào estreitamente vinculadas ao idealismo filo­ rentes correntes da psicologia objetiva, da freqüente falta de
sófico e permeadas de subjetivismo, que não constituem um clareza de suas teses fundamentais e de seus pontos de par­
terreno favorável e cômodo para a criação de um sistema
tida, cabe tentar esboçar, em suas linhas essenciais, algumas
científico único da psicologia como uma das ciências natu­
idéias gerais dessa psicologia científica, à luz das quais o
rais. O próprio conceito de "fenômeno espiritual" encerra psicólogo de nossos dias se vê obrigado a assimilar e refazer
toda uma série de elementos que sào inconciliáveis com
o material da psicologia anterior.
essas ciências naturais. Nota-se aqui claramente a herança
Costuma considerar-se que o objeto da psicologia cientí­
da psicologia racional e o caráter inconcluso de suas refor­
fica é o comportamento do homem c dos animais, interpn
mas. Reconhecer os fenômenos espirituais como com­
tando como comportamento todos os movimentos que so­
pleta e decididamente distinto quanto a sua natureza e enti­ mente os seres vivos realizam, em contraposição ao reino
dade de todos os demais estudados pela ciência e atribuir­ mineral. Esse movimento é sempre uma reação do organismo
lhes certos traços e possibilidades que não foram descober­
vivo a qualquer excitação que atue sobre ele vinda do meio
tos em tempo algum e em nenhum lugar do mundo nada
externo ou que surja dentro do próprio organismo. A reação
mais significa do que renunciar à possibilidade de transfor­ é um conceito biológico geral e podemos falar da mesma
mar a psicologia numa das ciências naturais exatas.
maneira de reações nas plantas, quando seus talos tendem a
Por fim, o material da psicologia empírica, sempre tingi­ se voltar para a luz, de reaçôes nos animais, quando a traça
do de uma tonalidade subjetiva e extraído, em todos os voa em direção à chama de uma vela ou um cachorro secreta
casos, do estreito poço da consciência individual, junto com
saliva quando lhe mostram carne, ou de reações no
seu método principal, que reconhece o caráter essencial­ ouve a campainha da porta e a abre. Em todos esses
mente subjetivo do conhecimento dos fenômenos psíquicos, casos, encontramo-nos diante de um processo totalmente
mantém nossa ciência tão atada e limita tanto suas possibili­ claro de uma reação completa, que se inicia através de um
dade que a condena, assim, à atomização da psique, a sua um impulso, um estímulo (a luz, a chama da a
fragmentação em numerosos fenômenos, independentes uns visão da carne, a campainha), que se transforma em determi­
dos outros, e à incap,lcidade de agrupá-los. Essa psicologia nados processos internos que surgem no organismo graças a
era imoolente para responder às principais questôes que
esse imoulso (os processos químicos sob a influência da luz
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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 45

nas plantas e na a excuaçao nervosa, a percepção, a Esses pontos de vista sobre o principal mecanismo do
"lembrança", o "pensamento" no cachorro e no homem) e comportamento concordam totalmente com o esquema bio­
termina, finalmente, com um determinado movimento de res­ fundamental da vida espiritual exposto no presente
posta, uma uma mudança, um ato no organismo (a fle­ manual: a percepção das impressões externas, sua transfor­
xão do talo, o vôo da traça, a secreção da saliva, o caminhar e ma\:ão subjetiva e, como resultado desta, uma determinada
a abertura da porta). Esses três momentos ­ a excitação, sua influência no mundo externo. Essa interpretaçào também
transformação no organismo e a ação de resposta são sem­ está de acordo com outra afirmação geral deste curso: que
pre próprios de qualquer tanto em seus casos e for­ toda sensação espiritual, qualquer que seja percepções ou
mas mais elementares, onde todos eles se manifestam e po­ apreciações, esforços volitivos ou sensações já é um pro­
dem ser facilmente identificados à simples vista, como tam­ cesso ou uma atividade.
bém naqueles em que, devido ã grande complexidade do O comportamento dos animais e do homem conl>titui
processo ou do choque de muitos excitantes e reações ou da uma forma extraordinariamente importante de ada ptação
ação em algum dos órgãos internos de um excítante interno biológica do organismo ao meio. A adaptação, que é a lei
invisível (a contraç,lo das paredes do intestino, o afluxo de fundamental e universal do desenvolvimento e da vida no
sangue a um determinado órgão), torna-se impossível identi­ organismo, adota duas formal> principais.
ficar à simples vista esses três momentos. No entanto, uma A primeira produz mudanças na estrutura dos
análise exata descobrirá sempre nesses casos a presença de em seul> órgãos, sob a influência do meio. A outra,
três partes que integram a reação.
importância não é menor do que a da primeira, consiste na
Com freqüência, as adotam formas tão comple­ mudança de comportamento dos animais sem que se altere
xas que exigem uma análise detalhada para que se possa a estrutura de seu corpo. Todos conhecem a enorme
distinguir os três momentos. Às vezes, os excitantes estão tâncía que o instinto desempenha na conservação do indiví­
tão profundamente ocultos nos processos orgânicos inter­ duo e da espécie, instinto este que consiste em movimentos
nos ou demoraram-se tanto em relação ao momento da rea­ adaptativos muito complexos do animal, sem os quais a exis­
ção de resposta ou entram em conexão com combinações tência deste e de sua espécie seria inconcebível. É o que
tão complexas de outros excitantes, que nem sempre é pos­ torna compreensível a utilidade biológica da psique. Ao
sível percebê-los e identificá-los ao simples olhar. Muitas introduzir uma extraordinária complexidade no comporta­
vezes, o movimento de resposta ã ação do organismo está mento do homem, ao proporcionar-lhe urna enorme tlexibi­
tão reprimido, tão condensado, tão encoberto e oculto, que converte-se num dispositivo biológico muito
pode facilmente passar despercebido e, inclusive, parecer so, sem igual no mundo orgânico e ao qual o homem deve
não existir. É o que ocorre nas mudanças que a respiraçào e seu domínio sobre a natureza, ou seja, as formas superiores
a circulação sanguínea experimentam em algumas sensa­ de sua adaptação. Nestas circunstâncias, quando a
ções tênues ou em pensamentOI> silenciosos, que vem acom­ é submetida a análises científicas, revela sua nature­
de uma fala interna silenciosa. A partir dos movi­ za motora, sua estrutura, que coincide totalmente com a da
mentos mais rudimentares dos animais unicelulares, que se revela seu valor de dispositivo vital real do
manifestam na repulsa dos excitantes desfavoráveis e na mo, sua função específica e de natureza análoga às demais
atraçào dos favoráveis, as reações vâo se complicando e ado­ funções adaptativas. Os mais delicados fenômenos da psi­
tam formal> cada vez mais elevadas, chegando ao comporta­ que nada mais sào do que formas organizadas de comporta­
mento t<lO complexamente organizado do
mento particularmente complexas, que, por conseguinte, de­
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sempenham a mesma função de adaptação que as outras ta-se de um reflexo simples ou não-condicionado, de uma
formas de acomodação dos organismos sem que varie a reação inata. Se, ao mesmo tempo (ou um pouco
organização destes. começa a atuar sobre o cachorro qualquer outro excitante,
Os dois procedimentos de adaptação (tanto a modifica­ como, por exemplo, uma luz o tique-taque de um me­
ção da estrutura dos animais quanto a de seu comportamen­ trônomo, uma pressão tátil etc., depois de repetir-se várias
to sem que varie a estrutura) podem ser divididos, por sua vezes a ação conjunta de ambos os excitantes, costuma apa­
vez, em hereditários e não hereditários. Os primeiros sur­ recer no cachorro um reflexo condicionado, ou ele
gem através de um procedimento evolutivo mais lento, de­ começa a secretar saliva com o simples acender da luz azul,
senvolvem-se graças à seleção natural, consolidam-se e se ou ao ouvir o tique-taque do metrônomo. Por conseguinte,
transmitem por herança. Os segundos sào formas mais rápi­ entre a reação do cachorro (secreção de saliva) e o meio
das e flexíveis de adaptação e tem origem no processo da estahelece-se um novo nexo, que não figurava na organiza-
experiência particular do indivíduo. Se os primeiros permi­ hereditária de seu comportamento e que se criou em
tem adaptar-se às lentas mudanças do meio, os segundos conseqüência de certas condiçôes (COincidências no tempo)
respondem a variações súbítas, rápidas e bruscas. Por isso ao do processo da experiência individual do cachorro.
estabelecem formas de conexão muito mais diversas e fleXÍ­ Esse mecanismo de formação do reflexo condicionado
veis entre o organismo e o meio. explica muito do comportamento do animal. É um dos ad­
Também o comportamento dos animais e do homem é miráveis mecanismos de adaptação, extraordinariamente fle­
por reações hereditárias e adquiridas através da xível, que permitem ao animal estabelecer formas multiface­
experiência individual. As primeiras compõem-se de refle­ tadas, complexas e flexíveis de inter-relação com o meio e
xos, instintos e algumas reaçôes emocionais e constituem o proporcionam a seu comportamento um valor exclusiva­
capital hereditário, comum a todo o de dispositivos mente biológico. Esse mecanismo evidencia claramente a lei
biologicamente úteis do organismo. Sua origem é, em geral, fundamental do comportamento: as reações adquiridas (re­
a mesma que a das mudanças hereditárias da estrutura do flexos condicionados) surgem sobre a base das hereditárias
organismo e explica-se totalmente pela doutrina da evolu­ (não-condicionad~ls) e são, na essência, as mesmas reações
ção, desenvolvida de forma genial por Darwin. mas de forma desarticulada, combinadas de
Apenas muito recentemente, graças às investigaçôes de maneira distinta, e o fazem em conexão com elementos to­
Pávlov e Békhterev, surgiu a doutrina dos renexos condicio­ talmente novos do meio. Fica claro que, em determinadas
nados, que desvenda o mecanismo da origem e da produção circunstâncias (suficiente força de excitação, coincidência
das reaçôes adquiridas. Em sua essência, essa doutrina no tempo com o excitante não-condicionado), podem se
ser resumida assim: Se no animal atua um excitante que des­ converter em estimulantes para qualquer reação. Em outras
nele uma reação inata (renexo simples ou não-condi­ palavras, graças a esse mecanismo torna-se possível uma
cionado) e, simultaneamente (ou um pouco antes), atua ou­ variedade infinita de nexos e correlações do organismo com
tro excitante, indiferente, que normalmente nào provoca o meio, graças a que o comportamento em todas as for­
essa reaçào, e essa ação conjunta de ambos os excitantes, mas superiores com que tropeçamos no homem se converte
coincidindo no tempo, se repete várias vezes, normalmente no mais perfeito procedimento de adaptação.
e em conseqüência disso, o animal começará a reagir inclusi­ Evidencia-se também que o meio, como sistema de exci­
ve diante de um excitante anteriormente indiferente. Por tantes que atuam no organismo, constitui um fator decisivo
exemplo, dá-se carne a um e ele secreta tra- no estabelecimento e na formação dos reflexos condiciona­
48 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 49

dos. É precisamente a organização do meio que determina as com a sllnples intervenção do tíque-taque ou da
condições das quais depende a forma~:ào dos novos nexos Esse é um reflexo condicionado de segunda ordem. É muito
que constituem o comportamento do animal. O meio desem­ provável que sejam possíveis super-reflexos semelhantes de
penha, em relaçào a cada um de nós, o papel de laboratório, uma ordem extraordinariamente alta, ou seja, que se possam
no qual são educados nos cachorros os reflexos con­ tais nexos entre o organismo e elementos concre­
dicionados e onde, combinando e unindo de certa forma os tos do meio, que estejam infinitamente distantes da reação
excitantes carne, a luz, o pão ou o metrônomo), se primária, inata.
za de uma maneira diferente a cada vez o comportamento do Estabeleceu-se também que a influência, durante o de­
animal. Nesse sentido, o mecanismo do reflexo condiciona­ senvolvimento da reação, de qualquer excitante estranho de
do é uma ponte lançada entre as leis biológicas dos força suficiente, a inibe e detém. Uma nova excitaçào, incor­
vos hereditários estabelecidos por Darwin e as leis sociológi­ agora às duas primeiras, passa a exercer uma in­
cas estabelecidas por K. Marx. É precisamente este o meca­ fluência retardativa, inibidora, no próprio freio, inibe o freio
nismo que pode explicar e mostrar como o comportamento ou desenfreia a reação. Cabe considerar casos muito
hereditário do homem, que constitui uma aquisição biológi­ cados de diferentes combinações de vários excitantes, que
ca geral de todo o reino animal, se converte em seu compor­ provocam as mais diversas e complicadas reações. Por meio
tamento social, que surge sobre a base do hereditário, sob a do mesmo procedimento experimental estabeleceu-se a
influência decisiva do meio social. Somente esse enfoque possibilidade, em determinadas circunstâncias, de educar
permite estabelecer fundamentos biossociais sólidos no estu­ nos animais os denominados reflexos vestigiais, nos quais a
do do comportamento do homem e considerá-lo como um reação de resposta surge apenas quando o excitante inter­
fato biossocial. Tinha muita razão Pávlov quando dizia que rompe sua ação ou o fazem os reflexos retidos
essa doutrina deve servir de base para a psicologia: é a partir nos quais a parte de resposta da reação se atrasa no tempo
daquela que esta última deverá começar. em relação ao começo da excitação. Além disso, vislumbra­
A doutrina dos reflexos condicionados apenas começou ram-se leis extraordinariamente complexas de regulação
a se ocupar desse ingente e complexo problema e ainda se recíproca de reflexos, de sua inibição ou reforço mútuos, de
encontra muito longe de extrair conclusões definitivas em sua luta pelo órgão de trabalho.
quase todos os campos da investigação. No entanto, basean­ Todos esses e numerosos outros fatos, estabelecidos
do-se nos resultados já obtidos, pode-se considerar estabe­ com a precisão indubitável e indiscutível do saber científico
lecido que o mecanismo dos reflexos condicionados exato, permitem supor com bastante plausibilidade que o
formas de comportamento extraordinariamente comportamento dos animais e do homem, em suas mais
complexas e variadas. Parece, portanto, que os reflexos con­ variadas formas, se compôe de reflexos condicionados em
podem se completar e se formar não a penas diferentes combinaçôes. Qualquer ato de comportamento se
mediante a combinação do excitante não-condicionado de forma segundo o modelo de um reflexo. Alguns autores
lima reação hereditária com um indiferente, mas também (Békhterev e outros) supõem que a própria ciência do com­
a de um novo excitante com o reflexo condiciona­ portamento deveria se chamar reflexologia. Os psicólogos,
do estabelecido anteriormente. Por exemplo, se já estivesse contudo, preferem o termo "reação", por ter um significado
formado no cachorro o reflexo salivar ã luz azul, ao combi­ biologicamente mais amplo. A reação inclui o comporta­
nar a desta com um novo excitante (a campainha, o mento humano dentro do círculo de conceitos biológicos
tique-taque) obteríamos depois de várias tentativas o reflexo gerais: reagem as plantas e os organismos animais mais sim­
50 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 51

pIes. O reflexo é apenas um caso particular de reação, ou à psicologia do comportamento L.V.). Apesar de tudo, sua
da reação dos animais que possuem sistema nervo­ denominação será útil enquanto este objeto de estudo não
so. Pressupôe necessariamente o conceito de arco corresponder a nenhuma outra ciência."
ou seja, do caminho nervoso constituído por um nervo cen­ É necessário assinalar, além do mais, que, do ponto de
trípeto que leva a excitação ã célula nervosa do sistema cen­ vista da psicologia do comportamento, a reflexologia repre­
traI, que transmite essa reação a um nervo centrífugo e deste senta outro ponto de vista, tão inaceitável quanto o da
último leva a excitação abdutora para o órgão de trabalho. cologia empírica. Se esta última estuda a psique sem com­
Reflexo é um conceito estritamente fisiológico. portamento, em sua vertente isolada, abstrata e separada de
Além disso, o estado atual da doutrina do sistema nervo­ tudo, a primeira procura ignorá-Ia e estuda o compor
so converte em muito verossímil a probabilidade da reação to prescindindo dela. Esse materialismo fisiológico unilateral
que surge, não através de uma excitação nervosa dos órgãos está tão distante do materialismo dialético quanto o está o
dos sentidos, que proporciona um impulso ao aparecimento idealismo da psicologi,l empírica. Limita o estudo do com­
de um novo processo no sistema nervoso central, mas portamento humano a seu aspecto biológico, ignorando o
mediante centros espontâneos de excitação, localizados de fator social. Estuda o homem somente no que se refere a sua
diferentes maneiras no cérebro, condicionados por processos pertença ao mundo geral dos organismos animais, a sua
radioativos produzidos por sais de potássio. De acordo com fisiologia, já que se trata de um mamífero. Em contraposição
P. P. Lázarev\ é possível supor a existência de rea).·ões de ã adaptação passiva dos animais ao meio, a experiência his­
não reflexo (já que nelas não existe arco reflexo, por não tórica e social, a originalidade da adaptação laboral ativa da
haver excitante externo), mas que ao mesmo tempo possuem natureza a si mesma continua inexplicada nessa perspectiva.
o caráter estrito de uma reação completa: encontramo-nos Além disso, a própria reflexologia reconhece a realidade e a
aqui em presença de um excitante (desintegração radioativa), indiscutível existência da psique. Békhterev previne contra
a consideração dos processos psíquicos como fenômenos
de processos dentro do organismo e de uma reação. Final­
supérfluos, acessórios. Pávlov denomina a psique de "pri­
mente, o termo "reação" goza de grande tradição na psicolo­
gia experimental. Por tudo isso, os psicólogos atuais empe­ meira realidade".
Biologicamente, seria um completo despropósito afir­
nhados em criar a nova psicologia repetem, não obstante,
mar a realidade da psique e admitir ao mesmo tempo sua
seguindo com prazer N. N. Langue: "Dispomos de uma deno­
inutilidade e a possibilidade de explicar todo o comporta­
minação tradicional para um grupo de fenômenos que,
mento sem ela. Este não existe no homem sem a psique,
embora amplo, dista muito de estar delimitado com exatidão.
como tampouco esta última existe sem ele, já que a psique e
Essa denominação nos foi transmitida desde os tempos em
o comportamento são a mesma coisa. Somente o sistema
que não se conheciam as severas exigências científicas atuais.
científico que descobrir a importância biológica da
Deve-se suprimir o nome por ter-se modificado o objeto da
no comportamento humano, que indicar com exatidão o que
ciência? Isto seria pedante e nem um pouco prático. Portanto,
traz de novo para as reações do organismo e o explicar co­
admitamos sem vacilar uma 'psicologia sem alma' [referência
mo um ato de comportamento, poderá aspirar ao nome de
psicologia científica.
4. Lázarev, Piotr Petróvitch (1878-1942). Físico, biofísica e geofísico Esse sistema ainda não foi criado. Cabe afirmar com cer­
soviético. Elaborou a teoria físico-química da excitação (a denominada teoria
iônica da excitaçào) e a doutrina ela adaptação do sistema central aos exci­ teza que não surgirá nem das mínas da psicologia empírica,
tantes externos. nem nos laboratórios dos reflexólogos. Chegará como a am­
52 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 53

síntese biossocial da doutrina do comportamento do ani­ instruídas, ou as observações cotidianas sobre os filósofos,
mal c do homem social. Essa nova psicologia será um ramo mas o que é de fato indubitável neste caso é uma proximi­
da biologia geral e, ao mesmo tempo, a base de todas as dade mútua. Isso deverá sempre ser levado em considera­
ciências sociológicas. Constituirá o núcleo em que estarão ção ao lembrar que a rotineira terminologia coti­
unificadas as ciências da natureza e as do homem. Por isso diana com freqüência, não tanto aos conheci­
estará estreitamente ligada à filosofia, mas à filosofia estrita­ mentos científicos atuais sobre a vida espiritual quanto a
mente científica, que supõe uma teoria conjunta do saber acrescentamos: e
científico, e não à filosofia predecessora das ca ­ L. V.j antenor umaem, p. 74).
científicas. é indubitável que na nova psicologia todos os
Até este momento, apenas fixar as balizas c cri­ terminologia, todo o aparato cientí­
térios gerais que marcarão a linha da nova empírica, serào revistos. reconstruídos e
os quais teremos de tratar a científica da criados de novo. Nào há dúvida de que muito do que ali
anterior. Enquanto não tiver sido criada a nova terminologia ocupa o·primeiro lugar ocupará aqui o último. A nova psico­
nem elaborada a nova estaremos obrigados (e logia considera os instintos e os impulsos como o núcleo
não apenas por um ano) a utilizar as velhas, sublinhando fundamental ela psique e provavelmente nélo os estudará na
sempre, contudo, o convencionalismo, tanto dos velhos con­ última parte do curso. Também evitará a amílise
ceitos quanto de suas velhas divisões. dispersa, de isolados da psique, em que era de­
No final das contas, e utilizando palavras de Lazurski, composto o comportamento do indivíduo na
na maioria dos casos deve-se considerar como terminologia saica. Mas, enquanto não tiver sido criado o novo
da "psicologia da vida cotidiana" a linguagem de uso geral, não temos outro remédio senão aceitar
não científica, popular. Nào cra à toa que Lazurski conside­ ainda que de forma na Clencia e no
rava que uma das tarefas de seu livro consistia em estabele­ aparato da lembrando que esse é o untco nr,,,rprl
cer uma relacão entre as mento para poder incorporar à nova ciência o indiscutível
valor das observações objetivas, dos experimentos exatos
acumulados ao longo do secular trabalho da psicologia em­
convencional pírica. Apenas, devemos recordar a cada momento a conven­
o mesmo papel que à terminologia da vida cionalidade dessa terminologia, o novo ângulo que cada
quase com ao próprio au­ conceito e palavra adotou, o novo conteúdo que inclui. Não
tor suas próprias palavras sobre a terminologia da psicologia se deve esquecer nem por um minuto que cada vocábulo da
racional. "Atualmente (. .. ) não podemos aceitar mais essa psicologia empírica é um odre velho que se encherá de vinho
divisào, sem realizar nela mudanças importantes. Se a repro­ novo.
duzi integralmente foi, em primeiro lugar, devido a seu
valor histórico e, em segundo, porque na vida cotidiana
com muita freqüência classificamos os processos psíquicos
quase do mesmo modo. Em geral, a das
(líremos: psicologia empírica - L.V.] bas­
tante da da vida cotidiana. É difícil dizer quem
influiu sobre quem neste caso: os sobre as pessoas
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"

A CONSCIÊNCIA COMO PROBLEMA

DA PSICOLOGIA DO COMPORTAMENTO*

Uma aranha executa operações que se assemelham às manipulações


do tecelão, e a construção das colméias das abelhas
envergonhar mais de um mestre-de-obras,
Mas há algo em que o pior mestre-de-obras
leva vantagem, logo de início, sobre a melhor
é o fato de que, antes de executar a construção,
projeta-a em seu cérebro,
No final do processo de trabalho, brota um resultado,
que antes de começar o processo
já existia na mente do operário; ou um resultado que já linha
existência ideal.
O operário não se limita a fazer mudar de forma a matéria que lhe
oferece a natureza,
mas, ao mesmo tempo, realiza nela seu objetivo,
objetivo que ele sabe que rege como lima lei
as modalidades de sua atuação
e à qual tem necessariamente de submeter sua vontade,

K. MARX

• "Soznanic kak problema psikhologuiti povedicnia", Escrito em 1925 e


publicado em K, N, Kornílov (Org.) Psicologia y marxismo, Moscou e

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Leningrado, 1925,

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56 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 57

1 psicologia. Além disso, quanto mais


princípio que tomemos, mais fácil será adaptá-lo ao fato que
Nossa literatura científica elude insistente e intencional­ investigamos. Não se deve esquecer, contudo, que a ampli­
mente o problema da natureza psicológica da consciência, e tude e () conteúdo do conceito estào sempre em relação
procura não se dar conta dele, como se para a nova inversa. E como a amplitude dos princípios universais tende
gia não existisse em absoluto. Em conseqüência disso, os ao infinito, seu conteúdo psicológico diminui até o zero com
sistemas de psicologia científica à criação dos quais assisti­ a mesma rapidez.
mos hoje em dia trazem implícitos, desde seu próprio come­ Mas este não é um defeito atribuível apenas ao curso de
ço, uma série de defeitos orgânicos. Mencionaremos apenas Békhterev. Esse mesmo defeito aparece e ref1ete-se de
alguns que, em nossa ooinião. são os mais fundamentais e ma forma em cada tentativa de formular sistematicamente a
importantes. doutrina do comportamento do indivíduo do ponto de vista
1. Ao ignorar o problema da consciência, a psicologia da mera reflexologia.
está fechando para si mesma () caminho da investigação de 2. A negação da consciência e a tendência a construir o
problemas mais ou menos complexos do comportamento sistema psicológico sem esse conceito - como uma "psicolo­
humano. Vê-se obrigada a se limitar à explicação dos nexos sem consciência", segundo expressão de P. p, Blonski
mais elementares do ser vivo no mundo. É fácil comprovar p. 9) fazem com que os métodos se vejam privados
essa afirmação se dermos uma olhada no índice do livro de dos meios mais fundamentais para investigar essas reações
V. M. Békhterev Fundamentos gerais da reflexo/agia do ho­ não manifestas nem aparentes à primeira vista, tais como os
mem (923): "Princípio da conservação da energia. Princípio movimentos internos, a fala interna, as reações somáticas
da mutabilidade contínua. Princípio do ritmo. Princípio da etc. Limitar-se a estudar as reações visíveis à primeira vista
adaptação. Princípio da igual à ação. Princípio da rela­ resulta estéril e injustificado, inclusive no que se refere aos
tividade". Em uma só palavra, princípios universais, que abar­ problemas mais simples do comportamento humano. E, no
cam não apenas o comportamento dos animais e do ho­ entanto, o comportamento do indivíduo é organizado de tal
mem, mas rodo o conjunto do universo, ainda que, é forma que sào justamente os movimentos internos pouco
não apareça nem uma única lei psicológica que formule os conhecidos que o orientam e dirigem. Quando formamos o
possíveis nexos encontrados ou a interdependência entre os reflexo condicionado salivar no cachorro, organizamos pre­
fenômenos e que caracterize a originalidade do comporta­ viamente seu comportamento de um modo determinado,
mento humano que o diferencia do comportamento animal. através de procedimentos externos, já que de outra forma o
Por outro lado, o livro que acabamos de mencionar gira experimento não é possível. Colocamos o animal no banco
em torno do experimento clássico de formação do reflexo de experimentação, o amarramos com correias etc. Da mes­
condicionado, uma pequena mostra, de extraordinária im­ ma maneira organizamos previamente o comportamento do
portância básica, mas que não cobre o espaço universal des­ sujeito por meio de movimentos internos conhecidos atra­
de o reflexo condicionado de primeiro grau até o princípio vés de instruçôes, esclarecimentos etc. E se esses movimen­
da relatividade. A inadequação entre o telhado e os alicerces tos internos variam subitamente no transcurso do experi­
e a essência de edificação entre ambos facilmente de mento, todo o quadro do comportamento se alterará de
manifesto o quanto ainda é prematuro formular princípios forma brusca. Por conseguinte, limitamo-nos a falar de rea­
universais baseados no material reflexológico e o quanto é çôes inibidas, que sabemos estarem sendo produzidas de
simples extrair as leis de outros ramos do saber e aplicá-las à forma constante e ininterruota no onmnismo e que desem­
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58 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 59

penham um papel regulador influente sobre o comporta­ sem mais nem menos uma lei do domínio da psicologia ani­
mento, já que este é consciente. Mas carecemos de mai ao da psicologia do homem. Faz-se necessária, por
instrumento para investigar essas reações internas. cípio, uma certa reserva. Mas não apenas a desconhecemos,
Para dizê-lo com todas as letras: o sempre pensa como tampouco sabemos onde buscá-la.
consigo mesmo e isso nunca deixa de influir em seu com­ A lei do dominante estabelece a existência no sistema
portamento. A mudança repentina de pensamento durante a nervoso do animal de alguns focos de excitação que atraem
prova repercute sempre no comportamento da pessoa sub­ outros, as excitações suhdominantes, que nesses momentos
metida a ela (de repente, ocorre-lhe um pensamento: "Não vão parar no sistema nervoso. A excitação sexual nos gatos,
vou olhar para o aparelho"). Mas não temos a menor idéia os atos e deglutição e defecação, o reflexo de abraçar nas
de como considerar essa influência. rãs, tudo isso, como mostram as investigações, se reforça
3. Apaga-se radicalmente toda diferença entre o com­ por meio de qualquer excitante estranho. Passa-se direta­
portamento do animal e o do homem. A biologia traga a mente disso para o ato de atenção do homem e estabclece­
sociologia e a fisiologia o faz com a psicologia. O estudo do se que a base fisiológica desse ato é constituída pelo domi­
comportamento do homem é abordado do mesmo modo que nante. Mas o que se constata é que precisamente a atenção
o estudo do comportamento de qualquer mamífero. E assim está privada desse traço característico, ou seja, da capacida­
fazendo, esquece-se o que acrescentam de novo a consciên­ de de ser reforçada sob a ação de qualquer excitante estra­
cia e a psique ao comportamento humano. Recorrerei, a títu­ nho. Pelo contrário, todos eles desviam e enfraquecem a
lo de exemplo, a duas leis: a de extinção (ou de inibição atenção. De novo, a passagem das leis do dominante, esta­
interna) dos reflexos condicionados, estabelecida por L P. helecidas no gato e na rã, para as do comportamento huma­
Pávlov (923), e a dos dominantes, formulada por A. A. no necessitam de uma séria correção.
UkhtomskP (1923). 4. O mais importante é que a exclusão da consciência
A lei de extinção (ou de inibição interna) dos reflexos do campo da psicologia científica deixa em grande medida
condicionados estabelece que a excitação prolongada com intactos o dualismo e o espiritualismo da psicologia subjeti­
um excitante condicionado e não reforçada mediante um va anterior. V. M. Békhterev afirma que o sistema reflexoló­
excitante incondicionado produz o enfraquecimento paula­ gico não contradiz a hipótese "da alma" (923). Caracteriza
tino e por fim a extinção total do reflexo condicionado. os fenômenos subjetivos ou conscientes como fenômenos
Passemos ao comportamento do homem. No sujeito restrin­ de segunda ordem, especificamente internos, que acompa­
gimos uma reação condicionada a um certo excitante: "Quan­ nham os reflexos concatenados. O fato de admitir a possihi­
do ouvir a campainha aperte o botão do console". Re­ Iidade ou, inclusive, de reconhecer como algo inevitável o
aparecimento no futuro de uma ciência à parte - a reflexo­
)etímos o experimento 40, 50, 100 vezes. Ocorre
logia subjetiva -, apenas reforça o dualismo.
a conexão se reforça a cada vez, a cada dia.
A principal premissa da reflexologia, a admissão da
Produz-se o cansaço, mas não é isso o que supõe a lei da
possibilidade de explicar todo o comportamento do homem
extinção. É evidente que, neste caso, é impossível transpor
sem recorrer a fenômenos subjetivos, ou seja, ·a psicologia
sem psique, representa a outra face do dualismo da psicolo­
1. Ukhtomski, Aleksiéi Aleksiéicvitch (1875-191í2), Fisiólogo soviético,
Elaborou ,I doutrina cio dominante como sistema funcíonal cspecíal (conste­
gia suhjetiva, com sua tentativa de estudar uma psique pura,
laç:ão de processos nos centros nervosos), que constitui o mecanismo fisiológi­ abstrata. Enquanto temos ali a psique sem comportamento,
co de org,mização e regulação do comportamento. (N.R.R.) aqui temos o comportamento sem psique e, tanto lá quanto

1
111 !• •

60 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 61

a "psIque' e o "comportamento" são interpretados como A investigaçào das dominantes nos animais e a
dois fenômenos distintos. É precisamente devido a esse dua­ da integração dos reflexos demonstraram de forma convin­
lismo que nenhum psicólogo, mesmo que se trate do cente que o trabalho de cada órgão, seu retlexo, não é algo
tualista ou idealista mais incisivo, nega o materialismo fisio­ mas somente uma função do estado geral do orga­
lógico da reflexologia; ao contrário, a qualquer idealismo nismo. O sistema nervoso funciona como um conjunto ­
sempre o pressupôe. indefectivelmente. modelo de Ch. Sherrington -, que deve servir de base para a
5. Ao eliminar a consciência da psicologia entramos de doutrina do
maneira firme e definitiva no círculo do biologicamente ab­ Com efeito, a palavra "reflexo", no sentido em que é uti­
surdo. O próprio Békhterev nos previne contra o grande lizada em nosso lembra muito a história de Kannitversh­
erro que é considerar os "processos subjetivos como total­ tan, o nome que um pobre estrangeiro na Holanda escutava
mente supérfluos ou secundários na natureza (epifenôme­ em resposta a suas perguntas: "Quem estão enterrando? De
já que sabemos que nesta tudo que é secundário se quem é esta casa? Quem passou no carro?" etc. Pensava inge­
atrofia e se destrói, ao passo que nossa nuamente o pobre estrangeiro que naquele país tudo era
nos diz que os fenômenos subjetivos seu maior realizado por Kannitvershtan, quando, na verdade, essa pala­
desenvolvimento nos processos mais complexos da ativida­ que os holandeses com quem tropeçava não
de correlativa" (ibidem, p. 78). suas perguntas. O reflexo da meta ou o de
Por conseguinte, há de se convir que, ou é realmente liberdade parecem apenas exemplos de incom­
assim, e neste caso é impossível estudar o comportamento preensão dos fenômenos que se . Parece evidente
que não se trata nesse caso de um reflexo no sentido
do homem e as complexas formas de sua atividade, inde­
como pode sê-lo o reflexo salivar, mas de um mecanismo de
de sua
comportamento estruturalmente distinto. Somente reduzindo
neste caso a
tudo a um denominador comum poderemos dizer: isto é um
já que se
como: isto é Kannitvershtan. Mas, nesse caso, a pró­
com um absurdo
"reflexo" perde seu sentido.
bilidade.
O que é a sensação' É um reflexo. O que são a lingua­
6. Assim formulada a questão, fecha-se para sempre o
gem, os gestos, a mímica? Também reflexos. E os instintos, os
acesso à investigação dos problemas mais transcendentais, lapsos, as São também reflexos. Todos os fenôme­
como a estrutura de nosso comportamento, de seus compo­ nos que a escola de Wurtzburgo encontrou nos processos
nentes e de suas formas. Estamos condenados para sempre a mentais superiores, a análise dos sonhos proposta por Freud,
manter a falsa concepção de que o comportamento é uma também sào reflexos. Evidentemente, isto está correto, mas a
soma de reflexos. esterilidade científica de constatações tão simplistas é, de
O reflexo é um conceito abstrato: todo oonto de vista, evidente. Com esse método de análise, a
tem grande valor mas não pode se converter no conceito
principal da psicologia como ciência do comportamento do 2. conceitos de reflexo de meta e reflexo de liberdade for,un intro­
homem, porque esse comportamento nào constitui de forma duzidos por I. P. Pávlov; no entanto, mIo se encaixavam no esquema deter­
alguma um saco de couro cheio de reflexos nem seu cére­ minista fundamcntal da formulaç'ão do reflexo condicionado. Vigotski se man­
ifestava contrário ,) univers'llizaç;lo desse esquema, considerando que com
bro é um hotel para os reflexos condicionados que casual­ isso M,' perdia seu valor positivo. que :,ó pode se conservar se se limita o
mente se alojam nele. esquema mencionado a d<:termin'HJo CÍrculo de fenômenos. (N.R.R.)
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62 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 63

ciência não apenas deixa de lançar a luz e claridade sobre os foram estudadas uma ou duas classes de reflexos - o salivar
problemas a estudar que permita distinguir e delimitar obje­ e o defensivo-motor -, e somente reflexos condicionados de
tos, formas, fenômenos, mas, ao contrário, obriga a ver tudo primeira e segunda ordem e numa linha biologicamente não
em uma penumbra em que tudo se mistura e onde esmaece vantajosa para o animal (por que haverão de secretar saliva
qualquer limite definido entre os objetos. Isto é um reflexo e em resposta a sinais muito distantes, a excitantes condicio­
isto não é, mas quem distingue um do outro? nados de ordem superior?). Por isso seremos cautelosos ao
O que é preciso estudar não são os reflexos, mas o com­ trasladar diretamente as leis reflexológicas para a psicologia.
portamento: seu mecanismo, composição, estrutura. Quando Como afirma com razão V. A. Vágner ' (1923), os reflexos
fazemos experiências com animais ou pessoas crendo inva­ constituem os alicerces, mas partindo apenas deles ainda não
riavelmente que estamos investigando uma reação ou um se pode dizer nada sobre o que se vai construir em cima.
reflexo, o que sempre investigamos, na verdade, é o com­ Cremos que, considerando todos esses raciocínios, de­
portamento. O que ocorre é que estamos previamente orga­ vemos deixar de considerar o comportamento do homem
nizando, de maneira preestabelecida e padronizada, o com­ .~. como um mecanismo que conseguimos desvendar totalmen­
portamento do sujeito para conseguir que prevaleça a reação te graças à chave do reflexo condicionado. Sem uma hipóte­
ou o reflexo: de outro modo, não o conseguiríamos. se de trabalho prévia sobre a natureza psicológica da cons­
Nos experimentos de I. P. Pávlov, será que o cachorro ciência é impossível revisar criticamente todo o capital cien­
reage com o reflexo salivar e não com as numerosas e mais tífico nesse campo, selecioná-lo e peneirá-lo, transcrevê-lo
diversas reações motoras, internas e externas, sem que estas para um novo idioma, elaborar novos conceitos e criar uma
influam no processo reflexo que estamos observando? E nova área de problemas.
será que não é o mesmo excitante condicionado utilizado A psicologia científica não deve ignorar os fatos da cons­
em tais experimentos que provoca essas outras reações (a ciência, mas materializá-los, transcrevê-los para um idioma
orientação das orelhas, dos olhos etc.)? Por que o fechamen­ objetivo que existe na realidade e desmascarar e enterrar
to da conexão condicionada se produz entre o reflexo sali­ para sempre as ficções, fantasmagorias e similares. Sem isso
var e a campainha e não de outra maneira? Ou, dito de outra é impossível qualquer trabalho de ensino, de crítica e de in­
forma, por que não é a carne que começa a provocar os vestigação.
movimentos de orientação das orelhas? Por acaso a única Não é difícil compreender que nào há necessidade de
reação manifesta do sujeito é apertar o botão da campainha considerar a consciência nem biológica, nem fisiológica,
diante de um sinal? Não são também partes essenciais da nem psicologicamente como uma segunda categoria de fenô­
reação o relaxamento geral do corpo ou o fato de apoiar-se menos. É necessário encontrar para ela, como para todas as
no espaldar da cadeira, de desviar a cabeça, suspirar etc? outras reações do organismo, uma interpretação e um lugar
Que isto valha para demonstrar o caráter complicado de adequados. Esta é a primeira exigência de nossa hipótese de
qualquer reação, sua dependência do mecanismo de com­ trabalho. A segunda seria que a hipótese deverá explicar sem
portamento a que está incorporada, a impossibilidade de a menor fissura aqueles problemas fundamentais relaciona­
estudar uma reação de forma abstrata. Tampouco devemos
esquecer, antes de ampliar e exaltar nossas conclusões so­ 3. Vágner, Vladímir Aleksándrovitch (1889-1934). Fundador da psicolo­
gia animal na Rússia. Partindo da doutrina datwinista, investigou, baseando-se
bre os experimentos clássicos com reflexos condicionados,
no método objetivo, os instintos nos animais. Demonstrou que a regulação
que a investigação se encontra apenas em seus primórdios e psíquica do comportamento se manifesta em sua singularidade ao ser estuda­
que cobriu uma área ainda muito limitada, que somente da de forma histórico-comparativa. CN.R.R.)
IIIIII! 111111,

64 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 65
dos com a consciência: o problema da conservação da ener­
serve herdada fisicamente. Toda

gia, a introspecção, a natureza psicológica do conhecimento


nossa o comportamento baseiam-se na utili­

de outras o caráter consciente das três


da experiência das geraçóes

pais dimensões da psicologia empírica


ou seja, de uma que não se transmite de pais

ções e vontade), o conceito do inconSC>'-l


para filhos através do nascimento. Convencionaremos cha­

consciência, de sua identidade e unidade.


má-la de experiência histórica.

Neste breve e ráoido esboco expusemos apenas algu­


Junto disso deve se situar a experiência social, a de

e fundamentais, con­
outras pessoas, que constitui um importante componente do

dará lugar ao surgimento da hipótese


comportamento do homem. Disponho não apenas das cone­

de trabalho da consciência no comportamento psicológico.


xões que se fecharam em minha experiência particular entre

os reflexos condicionados e elementos isolados do meio, mas

também das numerosas conexões que foram estabelecidas na

2
experiência de outras pessoas. Se conheço o Saara e

apesar de nunca ter saído de meu país e de nunca ter olhado

Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de fora,


por um telescópio, isso se deve evidentemente ao fato de que

isto é, sem partir da psicologia.


essa experiência se na de outras pessoas que foram

Em suas formas principais, todo o comportamento do


ao Saara e olharam É igualmente evidente

animal compõe-se de dois grupos de reações: os reflexos


que os animais não possuem essa experiência. Designá-la­

inatos ou não-condicionados e os adquiridos ou condiciona­


emos como componente social de nosso comportamento.

dos. Além disso, os reflexos inatos constituem algo assim


Por fim, algo completamente novo no comportamento
como o extrato biológico da experiência hereditária coletiva
do homem é que sua adaptação e o comportamento relacio­
de toda a espécie e os surgem sobre a base dessa
nado com essa adaptação adquirem formas novas em rela­
hereditária através do fechamento de novas cone­
ção ã dos animais. Estes adaptam-se passivamente ao meio;
xões, obtidas na particular do indivíduo. Desse
o homem adapta ativamente o meio a si mesmo. É verdade
todo comportamento animal pode ser considerado
que, também entre os animais, encontramos formas iniciais
convencionalmente como a experiência hereditária mais a
de adaptação ativa na atividade instintiva (a construção de
multiplicada pela particular. A origem da expe­
ninhos, de tocas etc), mas, em primeiro lugar, no reino ani­
riência hereditária foi esclarecida por Darwin; o mecanismo
mal essas formas não têm um valor predominante e funda­
da multiplicação dessa pela pessoal é o meca­
mental e, em segundo lugar, seus mecanismos de execução
nismo do reflexo condicionado, estabelecido por L P. Pávlov.
continuam sendo essencialmente
Mediante essa fórmula coloca-se, em geral, um ponto final
A aranha que tece a teia e a abelha que constrói as col­
no comportamento do animal.
méias com cera o farão por do instinto, corno
Muito diferente é o que ocorre com o homem. Aqui,
nas, de um modo uniforme e sem manifestar nisso urna ati­
para abarcar de maneira completa a totalidade do comporta­
vidade maior do que nas outras adaptativas. Outra
mento é necessário introduzir novos componentes na fórmu­
coisa é o tecelão ou o arquiteto. Como diz Marx, eles cons­
la. É preciso, antes de mais assinalar o caráter extraor­
truíram previamente sua obra na o resultado obtido
da exoeriência herdada peJo homem se
1: no processo de trabalho existia idealmente antes do começo

~
animal. O homem não se
desse trabalho (vide K. Marx, F. Obras, t. 23, p. 189).

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64 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 65
dos com a consciência: o problema da conserva,'üo da ener­
serve a penas Toda
gia, a introspecçào, a natureza psicológica do conhecimento
nossa vida, o LVlllportamento baseiam-se na utili­
de outras consciências, o caráter consciente das três
das gerações
pais dimensões da
de uma que não se transmite de pais
ções e vontade), o conceito do
para filhos através do nascimento. Convencionaremos cha­
consciência, de sua identidade e unidade.
má-la de experiência histórica.
expusemos apenas
Junto disso deve se situar a experiência social, a de
e fundamentais, cuja con­
outras pessoas, que constitui um importante componente do
ao surgimento da hipótese
comportamento do homem. Disponho não apenas das cone­
de trabalho da consciência no comportamento psicológico.
xões que se fecharam em minha experiência particular entre
os reflexos condicionados e elementos isolados do meio, mas
também das numerosas conexões que foram estabelecidas na
2
experiência de outras pessoas. Se conheço o Saara e Marte,
apesar de nunca ter saído de meu país e de nunca ter olhado
Tentemos agora enfocar o problema pelo lado de fora,
por um telescópio, isso se deve evidentemente ao fato de que
isto é, sem partir da psicologia.
essa experiência se origina na de outras pessoas que foram
Em suas formas principais, todo o comportamento do
ao Saara e olharam pelo É igualmente evidente
animal compõe-se de dois grupos de reações: os reflexos
que os animais nâo possuem essa
inatos ou nào-condicionados e os adquiridos ou condiciona­
".-.rntV'nente social de nosso comportamento.
dos. Além disso, os reflexos inatos constituem algo assim
completamente novo no compo
como o extrato biológico da hereditária coletiva
do homem é que sua e o comportamento relacio­
de toda a espécie e os adquiridos surgem sobre a base dessa
nado com essa adaptação adquirem formas novas em rela­
hereditária através do fechamento de novas cone­
ção à dos animais. Estes adaptam-se passivamente ao meio;
obtidas na experiência particular do indivíduo. Desse
o homem adapta ativamente o meio a si mesmo. É verdade
todo comportamento animal pode ser considerado
que, também entre os animais, encontramos formas iniciais
convencionalmente como a hereditária mais a
de adaptação ativa na atividade instintiva (a construção de
pela particular. A origem da expe­
ninhos, de tocas etc.), mas, em primeiro lugar, no reino ani­
riência hereditária foi esclarecida por Darwin; o mecanismo
mal essas formas não têm um valor predominante e funda­
da multiplicação dessa experiência pela pessoal é o meca­
mental e, em segundo lugar, seus mecanismos de execução
nismo do reflexo condicionado, estabelecido por r. P. Pávlov.
continuam sendo essencialmente
Mediante essa fórmula coloca-se, em geral, um ponto final
A aranha que tece a teia e a abelha que constrói as col­
no comportamento do animal.
méias com cera o farão por do instinto, como
Muito diferente é o que ocorre com o homem. Aqui,
nas, de um modo uniforme e sem manifestar nisso uma ati­
para abarcar de maneira completa a totalidade do comporta­
vidade maior do que nas outras adaptativas. Outra
mento é necessário introduzir novos componentes na fórmu­
coisa é o tecelão ou o arquiteto. Como diz Marx, eles cons­
la. É preciso, antes de mais nada, assinalar o caráter extraor­
truíram previamente sua obra na o resultado obtido
dinariamente amplo da herdada pelo homem se
no processo de trabalho existia idealmente antes do começo
for comparada com a experiêncía animal. O homem não se
desse trabalho (vide K. Marx, F. Obras, t. 23, p. 189).

ii

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66 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 67

Essa explicação de Marx, completamente indiscutível, nada não são sempre iguais: em um caso diz-se que o reflexo de
mais significa do que a obrigatória duplicação da experiên­ alimentação se reforça junto com o de alerta; em outro, da
cia no trabalho humano. No movimento das mãos e nas mo­ vitória do primeiro sobre o último. Ambos os reflexos consti­
dificaçôes do material, o trabalho repete o que antes havia tuem, na verdade, algo assim como os dois pratos da balan­
sido realizado na mente do trabalhador, com modelos seme­ ça, diz Pávlov a esse respeito, sem fechar os olhos ante a sin­
lhantes a esses mesmos movimentos e a esse mesmo mate­ gular complexidade do processo de desenvolvimento dos
rial. Essa experiência duplicada, que permite ao homem reflexos. "Se levarmos em conta diz que o mencionado
desenvolver formas de adaptação ativa, o animal não a pos­ reflexo a uma excitação externa não só é limitado e regulado
sui. Denominaremos convencionalmente essa nova forma por outro ato reflexo simultâneo externo, mas também por

,
de comportamento de experiência duplicada. toda uma massa de reflexos internos, assim como pela
Agora o termo novo em nossa fórmula de comporta­ de todos os possíveis excitantes internos (químicos, térmicos
~~,
mento do homem adotará a seguinte forma: experiência his­ i'_ etc., e isso tanto no nível dos diferentes setores do sistema
experiência social, experiência duplicada. nervoso central como diretamente sobre os próprios elemen­
Continua de pé a questão: com que signos, relaciona­ tos tissulares de trabalho), podemos ter uma idéia da autênti­
dos entre si e, ao mesmo tempo, com a parte anterior, po­ ca complexidade dos fenômenos refletores de resposta" Cihí­
dem estar relacionados esses novos componentes da fórmu­ dem, p. 190).
la? O signo de multiplicação da experiência hereditária pela O princípio fundamental de coordenação dos reflexos,
particular é claro para nós: significa o mecanismo do reflexo como se explica nas investigaçôes de Ch. Sherrington, con­
condicionado. siste na luta que se estabelece entre distintos grupos de
As próximas partes deste artigo estão dedicadas à busca receptores por um campo motor comum. "Visto que os neu­
dos signos que faltam. rônios aferentes do sistema nervoso são em número muito
maior que os eferentes, cada neurônio motor não se acha
em conexão refletora com um só receptor, mas com muitos,
3 provavelmente com todos. No organismo ocorre uma luta
contínua entre diferentes receptores pelo campo motor
No ponto anterior tocamos nas vertentes biológica e comum, pelo domínio de um órgão de trabalho. O resultado
social do problema. Ocupemo-nos agora, de forma igual­ dessa luta depende de causas muito complexas e numero­
mente resumida, da vertente sas. Parece portanto, que cada reação, cada reflexo
Até mesmo os experimentos mais simples com reflexos vitorioso, se produz após uma luta, depois de um conflito,
isolados deparam com o problema da coordenação desses no 'ponto de colisão'." (Ch. Sherrington, 1912)
reflexos ou sua transformação em comportamento. Vimos, O comportamento é, pois, um sistema de reaçôes triun­
antes, que qualquer experimento de Pávlov pressupôe um fantes.
comportamento previamente organizado do cachorro, de Em condições normais, diz Sberrington, se se deixam
forma que no choque de reflexos se feche a única conexào de lado os problemas da consciência, o comportamento do
necessária. Pávlov se viu obrigado (1950) a formar outros animal é constituído por transiçôes sucessivas do campo
reflexos mais complexos no cachorro, e mais de uma vez motor final para um grupo de reflexos ou para outro. Em
comenta que no processo de experimentação surgem cho­ outras palavras, o comportamento é lima luta que não se
ques entre dois reflexos diferentes. Além disso, os resultados interrompe nem por um minuto. Temos base suficiente para
1 1
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68 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 69

supor que uma das funçôes mais importantes do cérebro paração com as que morreram esmagadas. Isto reflete
consiste precisamente em estabelecer a coordenação entre melhor o caráter catastrófico da luta do processo dinâmico e
reflexos que provêm de pontos distantes, de modo que o dialético entre o mundo e o homem e no interior deste, que
sistema nervoso é integrado, na verdade, oela totalidade do se denomina comportamento.
indivíduo. Duas premissas, necessárias para formular com precisão
O mecanismo coordenador do campo motor geral serve () problema da consciência como mecanismo do comporta­
de base, na opinião de Sherrington, para o importante pro­ mento, depreendem-se destas consideraçôes:
cesso psíquico da atenção, e graças a este último princípio 1. Parece que o mundo se verte no orifício largo do
vai se gerando em cada momento a unidade de ação, o que, funil através de milhares de excitantes, inclinações, convi­
por sua vez, serve de base para o conceito de personalida­ tes; dentro do funil têm uma luta e um enfrentamento
de, de modo que a formação do sistema de personalidade ininterruptos; todas as excitaçôes saem em número muito
assim, sendo tarefa do sistema nervoso, segundo afir­ reduzido pelo orifício estreito, sob a forma de reaçoes de
ma Sherrington. O ret1exo é a reação integral do organismo. resposta do organismo. O comportamento que se realizou é
Por isso. em cada músculo, em cada órgão de trabalho, é uma parte insignificante dos comportamentos possíveis.
ao portador, que qualquer grupo de Cada minuto do homem está cheio de possibilidades não
receptores pode possuir" (ibidem, p. realizadas. Essas possibilidades não realizadas de nosso com­
Sherrington explica de maneira magnífica sua concep­ portamento, essa diferença entre os orifícios largos e estrei­
ção sobre o sistema nervoso com a seguinte compara­ tos do funil são uma realidade inacessível, da mesma forma
ção: "o sistema de receptores mantém a mesma relação com que a reação vitoriosa, porque os três momentos da reação
o das vias eferentes que o orifício superior largo de um funil que lhes correspondem estão presentes.
com o de saída. Mas cada receptor mantém nào ape­ Quando a estrutura do campo comum final é um pouco
nas com uma via eferente, mas com muitas, talvez com to­ complicada e os renexos são complexos, o comportamento
das; naturalmente, a consistência dessa conexão pode ser nào realizado pode adotar as mais diversas formas. "Nos
diferente. Por continuando nossa comparação com o reflexos complexos, os arcos complexos se unem às vezes a
é preciso dizer que cada sistema nervoso é um funil uma parte do campo geral e lutam uns contfa os outros em
que tem um de seus orifícios cinco vezes mais largo que o relação a outra de suas partes" (Ch. Sherrington, 1912, p. 26).
outro; dentro dele estão os feceptores, que também são funis Por conseguinte, a pode ficar realizada pela metade
orifício largo está voltado para a extremidade de saída ou realizar-se em alguma, sempre indeterminada, de suas
do funil geral e o cobre por completo" (ibidem, p. partes.
r. P. Pávlov (1950) compara os grandes hemisférios ce­ 2. Graças ao complexíssimo equilíbrio que se estabele­
febrais com uma central telefônica, onde se produz o fecha­ ce no sistema nervoso atra vês dessa complicada luta de
mento de novas conexôes temporárias entre os elementos ref1exos, é freqüente que baste uma força insignificante do
do meio e as reaçôes concretas. Mas nosso sistema nervoso novo excitante para resolver o resultado da luta, e, portanto,
lembra, muito mais do que uma central telefônica, as estrei­ no complicado sistema de em uma nova
tas portas de um grande edifício, em direção às quais se força insignificante pode determinaf o resultado e o sentido
lança a multidão num momento de pelas portas pas­ do resultante. Em uma grande guerra, a incorporação de um
sam apenas algumas poucas pessoas; as que conseguiram pequeno Estado a uma das partes pode decidir a vitória ou a
atravessá-Ias com sucesso são um número reduzido em com­ derrota. Seria, pois, fácil supor como reaçôes por si mesmas
IIII!
111111 dil!ll

70 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 71

insignificantes, inclusive pouco notáveis, podem acabar sen­ saliva (reflexo), mas a
do decisivas em função da conjuntura no "ponto de colisão" para o reflexo da
em que intervêm. uma associação livre, para a palavra excitante "rosa" pro­
nuncio "narciso". Trata-se de um reflexo, que, por sua vez, é
um excitante para a palavra seguinte: "aleli". Isso se produz
4 dentro de um mesmo sistema ou de sistemas próximos que
colaboram. O uivo do lobo produz em mim, como excitante,
A lei mais elementar e mais importante, a lei geral de os reflexos somáticos e mímicos de temor; a mudan~:a de
conexão dos reflexos, pode ser formulada assim: os reflexos respiração, as batidas do coração, o tremor, a secura na gar­
se enlaçam entre si segundo as leis dos reflexos condiciona­ . ganta (ref1exos) me fazem dizer ou pensar: "Tenho medo."
dos; ou a parte de resposta de um reflexo (motora, Encontramos aqui a transmissão de uns sistemas a outros.
secretora) pode se converter, em condições adequadas, em Parece, portant(), que devemos compreender, antes de
um excitante condicionado (ou inibidor) de outro reflexo ao mais nada, a' própria consciência ou a conscientização por
se conectar com a extremidade sensorial deste último. É pos­ nossa parte dos atos e estados como um sistema de
sível que toda uma série de conexões semelhantes sejam mecanismos transmissores de uns reflexos para outros, que
hereditárias e pertençam a reflexos nâo condicionados. O res­ funciona perfeitamente em todo momento consciente. Quan­
tante delas se cria durante o processo da - e não to mais acertadamente cada reflexo interno na qualidade
se estabelece de forma menos permanente no excitante provocar toda uma série de reflexos diferentes
I. P. Pávlov chama esse mecanismo de reflexo em ca­ de outros sistemas e transmitir-se a eles, mais
deia e o inclui na explicação do instinto. Em seus experi­ consciente será sua sensação (será sentida, se verá reforçada
mentos, G. P. Zelionii'l (1923) descobre o mesmo mecanis­ na palavra etc.).
mo ao os movimentos musculares rítmicos, que Dar-se conta de algo significa justamente transformar
também se revelaram como um reflexo em cadeia. Por con­ certos reflexos em outros. O inconsciente. o psíquico, implica
seguinte, esse mecanismo é o que melhor explica as uniões que os reflexos não se transmitem a outros sistemas. São pos­
inconsistentes, automáticas, de reflexos. Não obstante, se síveis infinitas variedades de graus de consciência, ou seja, de
não nos limitarmos a um me.smo sistema de reflexos, mas de sistemas incorporados ao mecanismo do reflexo
considerarmos distintos sistemas e a possibilidade de trans­ que atua. A consciência das próprias sensacões nada mais
miss:lo de um sistema para outro, encontraremos o mecanis­ do que sua posse na
mo fundamental que objetivamente caracteriza a consciên­ para outras sensações. A consciência é a vivência das vivên­
cia: a capacidade que tem nosso corpo de se constituir em são as sensaçües dos
excitante de seus atos) de si mesmo diante de do reflexo (a sensação
outros novos constitui a base da consciência. do objeto) de ser um excitante (objeto da constitui
Pode-se falar já da indubitável interação entre sistemas o mecanismo de transmissão de reflexos de um sistema a

isolados de reflexos e da repercussão de uns sistemas sobre outro. É aproximadamente isto que V. M. Békhterev denomi­

os outros. O cachorro reage ao ácido c1orídríco secretando na reflexos subordinados ou não-subordinados.

A psicologia deve, pois, formular e resolver o problema

4. Zelionii, Glleorglli Pávlovitch OH78-1951). Fisiólogo soviético, discípu­ da consciência na perspectiva de considerá-la como interaç:lo,

lo de I. P. Pávlov. (N.R.lU reflexão, excitação recíproca de diferentes sistemas de refle­


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72 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 73

xos. É consciente o que se transmite a outros sistemas na qua­ márías, essa "segunda conexão, pode enlaçar, como mostra
lidade de excitante e provoca neles uma resposta. A consciên­ a investigação, tanto ref1exos compatíveis como de tipo an­
cia é sempre um eco, um aparelho de resposta. Três citações tagônico. Dito de outra forma, a reação secundária pode
de diversos autores podem nos servir para apoiar essa tese. ou interromper a primitiva. Nisto consiste o meca­
1. Convém recordar que nas obras de psicologia se nismo da consciência.
observou mais de uma vez que a reação circular é um meca­ 3. Por fim, I. P. Pávlov afirma em uma de suas obras
nismo que devolve ao organismo seu próprio reflexo com a que a reprodução dos fenômenos nervosos no mundo sub­
ajuda das correntes centrípetas que surgem por esse motivo, poder-se-ia dizer, uma refração múl­
e que constitui o fundamento da consciência (N. N. em seu conjunto a interpretação psico­
Além do mais, menciona-se com freqüência o valor da atividade nervosa é altamente convencional e apro­
da reação circular: a nova excitação, enviada pelo ximada.
ref1exo, produz uma nova rea~:ão, secundária, que, ou refor­ É pouco provável que Pávlov quisesse fazer subenten­
ça e repete a primeira, ou a enfraquece e inibe, em funçào der aqui mais do que uma simples comparação, mas, por
do estado geral do organismo: ou seja, da valoraçào que este nossa parte, estamos dispostos a interpretar suas palavras
dá a seu próprio reflexo. Por conseguinte, a reação circular no sentido literal e exato e afirmar que a consciência é a
nào é uma simples união de dois mas uma umao múltipla dos reflexos".
em que uma reação e regula outra. Estamos aqui ante
um novo aspecto no mecanismo da consciência: seu papel
regulador em relação ao comportamento. '5
2. Ch. Sherrington distingue os campos exteroceptivos e
interoceptivos como campos da superfície externa e interna Com isto resolve-se () problema da psique sem perda de
de alguns órgãos, onde se introduz certa parte do meio A consciência se reduz, por completo, a alguns me­
externo. Distinto deles, o campo proprioceptivo é canismos transmissores de reflexos, que agem de acordo
que através do próprio organismo provoca as mudanças que com leis de forma que cabe admitir que no organis­
se produzem nos múseulos, tendões, articulacões. vasos mo nào há outros processos além das
sanguíneos etc. Abre-se também uma possibilidade para a resolução do
"Diferentes dos receptores dos campos extero e intero­ da autoconscíência e da introspecção. A percep­
ceptivos, os do campo proprioceptivo são excitados somen­ ção interna e a introspecção só sào possíveis graças à exis­
te de forma secundária por influências que provêm do meio tência do campo proprioceptivo e dos reflexos secundários
externo. Seu excitante é constituído pelo estado ativo de com ele relacionados. É sempre como um eco das reações.
uns ou de outros por exemplo, a contração muscu­ Vêem-se, assim, perfeitamente os limites da introspec­
que, por sua vez, serve de primária para a excita­ enquanto percepção do que, segundo expressão de
do receptor superficial por parte de fatores do meio J. Locke, se produz na própria alma do homem. Isto deixa
externo. Geralmente, os reflexos que se produzem graças à claro que essa experiência é acessível a uma única pessoa,
excitação dos órgãos proprioceptivos combinam-se com aquela que a vive. Eu e somente eu posso observar e perce­
ref1exos provocados pela excitação de exterocepti­ ber minhas secundárias, porque apenas para mim
vos" (Ch. Sherrington. 1912, p. meus reflexos servem de novo excitante para o campo pro­
A combinação de reflexos secundários com pri­ príoceptivo. Explica-se também facilmente a principal limi­
_llIllIh 1II111!
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74 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 75

tação do experimento; pela mesma razão que no caso ante- mesmo raciOC1l110 e processo de
o não se parece com nada que tenha relação tando assim a vida psíquica, o informe do
com excitantes sui generis, que só se encontram em meu a prova não é de modo algum um ato de introspecção que
corpo. O movimento de meu braço, ao olhar, aparentemente introduz uma colherada de fel no barril de
ser um excitante, tanto para meu olhar mel da investigação objetivo-científica. Não há introspecção
como para o alheIO, mas a consciência desse movimento, as alguma. Não se coloca, de forma alguma, a pessoa submeti­
proprioceptivas que surgem e provocam as rea­ da a prova em situação de observador e, portanto, ela não
ções secundárias, existem apenas para mim. Não têm nada o experimentador a observar os reflexos para ele ocul­
em comum com a primeira excitaçâo do olho. Aqui agem tos. O sujeito submetido a prova mantém-se até o final e
outros condutos nervosos, outros outros exci­ em seu próprio informe na qualidade de objeto do
tantes completamente distintos. mento, mas neste se introduzem certas mudanças e transfor­
Os dois fatos mantêm uma estreita relação com um dos através de um interrogatório posterior: introduz-se
problemas mais complicados da metodologia psicológica: um novo excitante (o novo interrogatório), um novo refle­
com o valor da introspecção. A psicologia anterior conside­ xo, que permite julgar sobre as partes do excitante prece­
rava esta como uma fonte essencial e mais importante do dente que ficaram sem explicação. Nesse caso, é como se
conhecimento psicológico. A reflexologia a rejeita por com- todo o experimento passasse por um duplo objetivo.
ou a suhmete ao controle dos dados É preciso, pois, que na metodologia da investigação psi­
fonte de dados complementares (V. M. cológica se faça o experimento passar através das
A interpretação do problema que acabamos de expor secundárias da consciência. O comportamento do homem e
compreender, em suas linhas o valor o estabelecimento nele de novas reações condicionadas sào
vo) que pode ter para a investigação científica a resposta ver­ determinados não pelas reações complexas, manifestas e
bal de um sujeito submetido a uma prova. Os reflexos não­ totalmente mas também pelas não reveladas exter­
manifestos (a fala silenciosa), os reflexos internos, inacessí­ namente, que nào podem ser vistas ao simples olhar. Por
veis ã percepção direta do observador, podem ser descober­ que podem ser estudados os reflexos complexos de
tos, muitas vezes, indiretamente ou de forma mediatizada, gem e não podem ser levados em consideração os pensa­
através de reflexos acessíveis à observação, dos quais, por mentos-reflexos, interrompidos em seus dois terços, embora
sua vez, são excitantes. Pela presença de um reflexo comple­ se trate do mesmo tipo, real e inquestionável, de
to palavra) estabelecemos a do excitante correspondente, Se pronuncio em VO:l alta, de forma que o experimen­
que no presente caso desempenha um duplo papel: primeiro, tador a escute, a palavra "tarde", que me veio ã mente em
de excitante em uma livre. essa será considerada uma reação
de reflexo em um reflexo condicionado. E se a pronuncio silencio­
Visto que a psique, o sistema de reflexos não-manifes­ samente, para mim, se penso nela, deixará por isso de ser
tos, desempenha esse papel central e primordial no sistema um reflexo e sua natureza mudará? E onde está o limite
do comportamento, seria um suicídio para a ciência renun­ entre a pronunciada e a nào Se os
ciar a investigá-Ia indiretamente através de seu ret1exo em lábios se moveram, se emito um murmúrio que, no entanto,
outros sistemas de reflexos. Dessa maneira, levamos em con­ o experimentador nâo escuta, o que acontecerá? Ele
sideração os reflexos procedentes de excitantes internos, me pedir que repita a palavra em voz alta ou se
ocultos para nós. Desse modo, seguimos a mesma lógica, o neste caso, de um método subjetivo, somente admissível se
III!

76 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 77

aplicado à própria pessoa? Se puder (e com isto estarão Não fica claro que se não levar
provavelmente quase todos de acordo), por que náo pedir isto em sem dúvida alguma, uma idéia
que diga em voz alta a palavra pronunciada mentalmente, "trovão" fosse e náo
isto é, sem mover os lábios nem emitir um murmúrio?
Porque sempre foi, e continua sendo, uma reação motora Fica subentendido que, neste caso, não se trata de sim­
de linguagem, um reflexo condicionado, sem o qual náo trasladar a introspecção experimental da psicolo­
existe o pensamento. E isto já é um interrogatório, uma tradicional para a nova. antes, da urgente ne­
manifestação do sujeito submetido a prova, sua cessidade de elaborar uma nova metodologia para investigar
verbal às que, embora náo tenham sido os reflexos inibidos [zatormozjônie refleksil. Estamos apenas
pelo ouvido do experimentador (aí se defendendo aqui essa necessidade essencial e a possibilida­
entre os pensamentos e a de de satisfazê-Ia.
anteriores. Para terminar com os problemas dos métodos, detenha­
tos para nos convencermos de que sua presença é real e mo-nos brevemente na ilustrativa metamorfose que está vi­
contamos com todos e cada um dos traços que provam sua vendo atualmente a metodologia da ret1exoló­
existência. É na desses procedimentos que se gica em sua aplicação ao homem e ã qual se referia Y. P.
uma das mais importantes tarefas da Protopópov em um de seus artigos.
Um dos procedimentos elabora- Inicialmente, os reflexólogos praticavam a
elétrica cutânea da planta do pé; depois verificou-se mais
Mas o mais é que eles mesmos [os ref1exos
vantajoso escolher como critério a de de um
não-manifestos ~ R.R.1 se preocupam em nos convencer de
aparelho mais perfeito, mais adaptado às reacóes orientado­
sua existência. Pôem-se de manifesto com tal força e clareza
ras; a mão substituiu o pé (Y. P.
no transcurso posterior da reação, que obrigam o experi­
Mas, ao dizer a, também é preciso dizer b. O homem
mentador a levá-los em consideraçáo ou a renunciar por
um aparelho ainda mais perfeito. com a aiuda do
completo a estudar o desenvolvimento da reação em que se
introduzem. E será que existem muitos exemplos de com­ estabelece uma conexão mais
portamento onde não se introduzem reflexos retidos [za­ articulatórios: temos de passar às
diérjannie refleksiJ? Por conseguinte, ou renunciamos a Mas o mais curioso são esses "certos casos" que o in­
estudar o comportamento do homem em suas formas mais enfrentar durante o processo de seu tra­
essenciais, Ou introduzimos em nosso experimento o con­ balho: o fato de que o homem alcançou muito lenta e peno­
trole obrigatório desses movimentos internos. samente a diferenciação do reflexo e de que, atuando sobre
Dois exemplos esclarecem essa necessidade. Se me lem­ o com as palavras adequadas, pode-se favorecer
bro de algo e um novo ref1exo de linguagem, será tanto a inibiçào quanto a estimulaçào de reações condicio­
por acaso indiferente o que penso neste momento, tanto se nadas (ibidem, p. 16). Em outras palavras, as descobertas
para mim a dada quanto se estabeleço uma realizadas reduzem-se ao seguinte: no caso do homem, po­
conexão lógica entre ela e outra? Não fica claro que nos dois de-se conseguir um acordo com palavras, de modo que
casos os resultados seráo substancialmente distintos? diante de um determinado sinal retire a mão e diante de
Na associacão ante a "trovão" outro não a retire. A esse respeito, Protopópov estabelece
, mas um pouco antes me ocorreu o dois princípios, importantes para nós.
_ _ _ _ _ _"'111

78 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA P,ROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 79

1. "Indubitavelmente, no futuro, as investigações refle­ interesse do organismo na reação, como organizador interno
xológicas no homem deverão se realizar, em psicologia de todo o comportamento presente em um momento dado.
experimental, servindo-se basicamente de reflexos condicio­ Indicarei, além do mais, que a tridimensionalidade dos senti­
nados secundários." (Ihidem, p. 22.) Isto significa apenas dos proposta por Wundt se refere, em essência, a esse cará­
que a consciência írrompe inclusive nas provas dos reflexó­ ter valorativo da emoção, a essa espécie de repercussão de
logos e modifica consideravelmente o quadro do comporta­ todo o organismo ante sua própria reação. Daí o caráter irre­
mento. Faça a consciência sair pela porta e ela entrará pela petível, exclusivo, das emoções em cada caso concreto.
janela. 2. Os atos de conhecimento da psicologia empírica tam­
2. A inclusão desses procedimentos de investigação na bém manifestam sua dupla natureza, já que transcorrem cons­
metodologia reflexológica funde por completo esta última cientemente. A psicologia distingue claramente duas fases
com a metodologia de investigação das reações, estabeleci­ neles: os atos de conhecimento em si e a consciência dos
da há muito tempo na psicologia experimental. O próprio mesmos.
Protopópov aponta este fato, embora considere a coincidên­ São especialmente curiosos os resultados da refinadíssi­
cia casual e apenas externa. Para nós, está claro que se trata, ma introspecção da escola de Wurtzburgo, desse destilado
neste caso, de uma capitulação completa da metodologia de "psicologia de psicólogos", que podemos encontrar nes­
puramente reflexológica, cuja utilização deu bons resultados sa corrente. Uma das conclusões dessas investigações esta­
no caso do comportamento dos cachorros. belece a impossibilidade de observar o próprio ato do pen­
Consideramos importante assinalar, nem que seja em samento, que escapa ã percepção. Aqui, a introspecção se
duas palavras, que, se contemplarmos do ponto de vista da esgota em si mesma. Encontramo-nos no próprio fundo da
hipótese que expusemos aqui os três aspectos que a psico­ consciência. A conclusão que se impõe de uma certa incons­
logia empírica diferenciou na psique (consciência, senti­ ciência dos atos do pensamento é paradoxal. Além do mais,
mento e vontade), nào será difícil identificar no plano da os elementos que percebemos, que encontramos em nossa
consciência essa mesma natureza tripla, o que é compatível consciência, são antes sucedâneos do pensamento do que a
tanto com nossas hipóteses quanto com a metodologia que essência do mesmo: correspondem a todo tipo de retalhos,
delas se desprende. farrapos, espuma.
l. A teoria das emoções de W. James (905) sustenta Experimentalmente conseguiu-se demonstrar, diz a esse
perfeitamente essa interpretação da consciência dos senti­ respeito O. Külpe (916), que não podemos afastar de nós
mentos. James altera a ordem dos três elementos habituais mesmos nosso "eu". É impossível pensar, pensar entregan­
(A a causa dos sentimentos; B o próprio sentimento; C sua do-se por completo aos pensamentos e submergindo neles e
manifestação corporal) da seguinte maneira: A C - B. Nào observá-los ao mesmo tempo. Nào é possível levar até o fim
retornarei sua conhecida argumentação. Apenas mencionarei uma tal divisâo da psique. O que, por sua vez, significa que
que nela se evidencia perfeitamente: a) o caráter reflexo do não se pode dirigir a consciência para si mesmo e que esta
sentimento, o sentimento como sistema de reflexos A e B; constitui um fenômeno secundário. Não se pode pensar o
o caráter secundário da consciência dos sentimentos, próprio pensamento, captar o mecanismo específico da cons­
quando sua própria reaçâo serve de excitante a uma rea~:ão ciência, precisamente porque nào é um reflexo, ou seja, não
nova, interna - B e C. Também se pode ver aqui o valor bio­ pode ser objeto de vivência, excitante de um novo reflexo,
lógico do sentimento como reação avaliadora rápida de todo mas é um mecanismo transmissor entre sistemas de refle­
o organismo a seu próprio comportamento, como ato do xos. Mas, quando se terminou o pensamento, ou seja, se
'1111
IlIIJi ,Iilll

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 81


80 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

6
fechou o reflexo. oode-se observá-lo conscientemente:
o outro": como diz Külpe.
Existe no homem um grupo de reflexos facilmente identi­
M. B. Krol a esse em um de seus
ficáveis cuja denominaçào correta seria a de reversíveis: sâo
(922), que os novos fenômenos descobertos pelas investi­
reflexos a excitantes que podem, por sua vez, ser criados pelo
gaçôes realizadas escola de Wurtzburgo nos processos
homem, A palavra escutada é: um excitante, a pronunciada,
superiores da consciência lembram de modo extraordinário
um reflexo que cria esse mesmo excitante. Aqui, o reflexo é
os reflexos condicionados pavlovianos. A
porque o excitante pode se transformar em reação
do pensamento, o fato de o encontrarmos já
e vice-versa, Esses reflexos reversíveis, que criam a base do
complexas da atividade, as buscas etc. falam na­
comportamento social, servem de coletiva do
turalmente disso. A impossibilidade de observá-lo fala a
Dentro de toda a massa de excitantes há um
favor dos mecanismos que indicamos aqui.
grupo que, a meu ver, se destaca com a dos excitantes
3. Por último, é precisamente a vontade que descobre
melhor e de forma mais simples a essência da própria cons­
ciência, A presença prévia de representações motoras (ou
de secundárias ao movimento de órgàos) ex­
t das pessoas. E se destaca porque eu
individualmente, esses
mesmos excItantes; porque logo se convertem para mim em
reversíveis e, por conseguinte, determinam meu
de que se trata, Qualquer movimento deverá se reali­
mento de um modo diferente dos demais, Assemelham-me a
zar da vez inconscientemente, Depois, sua cineste­
outras pessoas, tornam meus atos idênticos a mim mesmo. No
sia (ou sua secundária) se converte na base de
sentido amplo da palavra é na que se encontra pre­
sua consciência (H, Münsterberg, 1914; H. Ebbinghaus, 1912),
cisamente a fonte do comportamento social e da consciência,
É a consciência da vontade que proporciona a i1usào de dois
É muito importante, ainda que apenas de passagem,
em fazê-lo e o fiz. E aqui, com efeito,
estabelecer aqui a idéia de que, se isto for realmente assim, o
encontramo-nos em presen<,~a de duas
mecanismo do comportamento social e o da consciência é o
ordem inversa: orimeiro a secundária e
mesmo, A linguagem é, por um lado, um sistema de "refle­
vezes, o processo se

xos de contato social" (A, B. Zalkind, 1924) e, por outro la­


ato volitivo e de seu mecanismo, confundida com os moti­

preferencialmente um sistema de reflexos da consciên­


vos, ou pelo enfrentaj11ento de várias secundá­

isto é, um aparelho de reflexo de outros sistemas,


rias, concorda também com os pensamentos desenvolvidos

É aqui que está a raiz da do "eu" alheio, do


anteriormente.

conhecimento da psique alheia. O mecanismo do conheci­


Mas, talvez, o mais importante seja que à luz desses
mento de si mesmo e o do outro é o mes­
pensamentos explica-se o desenvolvimento da consciência
mo, As doutrinas habituais sobre o conhecimento da
desde o momento em que se nasce, sua procedência da
alheia, ou assumem sua incognoscibilidade (A. L Vvediens­
seu caráter secundário e, por conseguinte, sua
ki" 1917). ou então tentam construir um mecanismo verossÍ­
dependência psicológica em relaçào ao meio, A experiência
determina a consciência: esta lei pode obter aqui pela pri­ s. Vveuienski, Aleksandr Ivánovitch 0856-192'». Professor da Universi
meira vez, recorrendo a uma certa redução, um significado daele ele São Petersburgo, filósofo idealista. Em slIa opinião, a viela espiritual
exato e descohrir o próprio mecanismo de tal nào possui nenhum traço objetivo e por isso a alma alheia é incognoscíveL
Considerav,) que a tarefa ela psicologia se limita a descobrir os fenôL1Ienos
determinabilidade.
espirituais e que () único meio de aceder a eles (: a introspecção, (N.RR)
illHHUllIllI1 fi 11 11 I

82 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 83

mil que é essencialmente o mesmo, ainda que as hipóteses A educação da consciência da linguagem nos surdos­
distintas, tanto pela teoria das sensações quanto pela mudos e, em parte, o desenvolvimento das reações táteis
das analogias; conhecemos os outros na medida em que nos cegos podem ser uma magnífica confirmação da idéia
conhecemos a nós mesmos; ao conhecer a cólera alheia da identidade dos mecanismos da consciência e do contato
a minha prõpria. social e de que a primeira é algo assim como o contato con­
Na verdade, seria mais correto dizer precisamente o sigo mesmo. Em geral, a linguagem não se desenvolve nos
contrário. Temos consciência de nós mesmos porque a le­ surdos-mudos, detendo-se no estágio de grito refletor, não
mos dos demais e pelo mesmo procedimento através do porque tenham lesões nos centros da linguagem, mas por­
qual conhecemos os demais, porque nós mesmos em que, devido à falta de audição, paralisa-se a possibilidade
a nós mesmos somos o mesmo que os demais em relação a de que o ret1exo da linguagem seja reversível. A linguagem
nós. Tenho consciência de mim mesmo somente na medida não retorna como excitante ao próprio falante, Por isso é
em que para mim sou outro, ou seja, porque posso perceber inconsciente e associaI. Geralmente, os surdos-mudos se li­
outra vez os reflexos próprios como novos excitantes. Entre mitam ao idioma convencional dos gestos, que os familiari­
o fato de que eu possa em voz alta a palavra dita em za com o reduzido círculo da experiência social de outros
silêncio e o fato de que possa repetir a palavra dita por surdos-mudos e desenvolve neles a consciência, graças ao
outro não existe nenhuma diferença, como tampouco fato de que esses reflexos retornam ao próprio mudo atra­
em princípio, nos mecanismos: ambos são um reflexo rever­ vés do olhar.
sível um excitante. A educação do surdo-mudo em sua vertente psicológica
Por como conseqüência da adoção da hipótese consiste precisamente em restabelecer ou compensar o me­
proposta, decorre diretamente a socialização de toda a cons­ canismo alterado de reversibilidade de reflexos. Os surdos
ciência. Disso se conclui que o reconhecimento, a priorida­ aprendem a falar verificando nos lábios do falante os movi­
de temporal e efetiva pertencem à vertente social e à cons­ mentos feitos para pronunciar e eles próprios aprendem a
ciência, A vertente individual se constrói como derivada e falar utilizando as excitações cinestésicas secundárias que
secundária sobre a base do social e segundo seu exato surgem nas reações motoras da linguagem. O mais admirável
modelo. Vem daí a dualidade da consciência: a idéia do é que a consciência da linguagem e a experiência social apa­
é a mais próxima da idéia real da consciência. O que recem ao mesmo tempo e de forma totalmente paralela. É
não deixa de ter uma certa afinidade com a divisão da per­ como um experimento montado especialmente nature­
sonalidade em "ego" e "id" que S. Freud descobre analitica­ za, que confirma a tese fundamental de nosso artigo. Em
mente. O "ego" se comporta em relação ao "id" de modo outro trabalho espero mostrar isso com maior clareza e de
semelhante a um cavaleiro, diz Freud, que deve domar um forma mais completa. O surdo-mudo aprende a ter consciên­
cavalo, com a única diferença de que o cavaleiro cia de si mesmo e de seus movimentos na medida em que
terá de realizá-lo com suas próprias forças, ao passo que o aprende a ter consciência dos demais, A identidade dos dois
"ego" deve fazê-lo com forças emprestadas, Essa compara­ mecanismos é surpreendentemente clara e quase evidente,
çào pode ser levada adiante. Assim como o cavaleiro que, se agora, reunir os elementos da fórmula do
nào quiser se separar do cavalo, não terá outro remédio se­ comportamento humano, descrita antes. Evidentemente, a
nào conduzi-lo aonde este queira ir, também o "ego" trans­ experiência histórica e a social não constituem nada psico­
forma em geral em ação a vontade do "id", como se se tra­ logicamente distinto, já que, na verdade, nào podem ser
tasse da sua própria (S, Freud, 1924b). separadas e sempre se apresentam juntas. Unamos ambas
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84 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 85

com o signo +. Seu mecanismo é absolutamente o mesmo grafe. "No que me diz respeito, estou convencido - diz
que o da consciência, como procurei demonstrar, porque James - de que em mim a corrente dos pensamentos (...) é
também esta última deve ser considerada como um caso apenas uma denominação imprecisa do que, em um exame
particular da experiência social. Por isso, é fácil designá-las mais minucioso, se demonstra, na verdade, uma corrente
com o mesmo índice de experiência duplicada. 'Penso', que segundo Kant deve
todos os meus objetos, nào é mais do que 'respiro', que os
acompanha de verdade (. ..) Os pensamentos (...) sào feitos
7 do mesmo material que as coisas. (19] 3, p. 126.)
Neste ensaio apontamos rápida e sucintamente apenas
Considero extraordinariamente importante e essencial algumas idéias de caráter prévio. No entanto, parece-me
indicar, a título de resumo deste ensaio, a coincidência de que é justamente a partir daqui que se deverá iniciar o estu­
conclusões que existe entre os pensamentos desenvolvidos do da consciência. O estado em que se encontra nossa ciên­
nele e a análise da consciência realizada por W. James. cia ainda a mantém muito afastada da fórmula final de um
Idéias procedentes de campos totalmente distintos e que fo· teorema geométrico que coroe o último argumento: como
ram desenvolvidas por caminhos completamente diferentes queríamos demonstrar. Cremos que no momento atual ainda
conduziram a um mesmo ponto de vista, já mencionado por continua importante definir com precisão o que é que se
James em sua análise especulativa. Vejo nisso uma certa deve demonstrar para depois nos dedicarmos a demonstrá­
confirmação parcial de minhas idéias. Já em Psicologül lo: primeiro, formular a tarefa; depois, resolvê-Ia'.
(1911), ele dizia que a existência de estados de consciência Para essa formulaçào da tarefa confiamos que, dentro
enquanto tal não constitui um fato plenamente demonstrado do o presente ensaio sirva.
e sim um preconceito profundamente arraigado. Foram pre­
cisamente os dados de sua brilhante introspecção que o
convenceram disso.
"Cada vez que tento notar em meu pensamento - diz
ele a atividade enquanto tal tropeço infalivelmente em um
ato puramente físico, uma impressão qualquer que provém
da cabeça, das sobrancelhas, da garganta e do nariz." E no
artigo "Existe a consciência?" (913), explica que a única di­
ferença entre a consciência e o mundo (entre um reflexo ao
reflexo e um reflexo ao excitante) reside apenas no contex­
to dos fenômenos. No contexto dos excitantes trata-se do
mundo, no de meus reflexos, da consciência. Esta é apenas
um reflexo de reflexos.
Por conseguinte, a consciência como categoria específi­ •o presente artigo já fie encontrava na fase de correç;io das prova.,
tomei conhecimento de alguns trahalhos relacionados com esse pro­
ca, como procedimento especial da existência, não aparece.
hlema e pertencentes a psicólogos behavioristas. Estes autores propõem e
Conclui-se que é uma estrutura muito complexa do compor­ resolvem o prohlema da consciência de forn1o próxima às idéias aqui desen­
tamento, concretamente a duplicação do mesmo, como se volvidas, como um problema de relação entre reaçües (cotejar com "compor­
diz em relaçào ao trabalho nas palavras que servem de epí­ tamento verb;llizado"l.
Iliil,
IIIII

SOBRE O ARTIGO DE K. KOFFKA


"A INTROSPECÇÃO E O MÉTODO
DA PSICOlOGIA"*.
A TíTULO DE INTRODUÇÃO

Quando os organizadores desta obra selecionaram o


artigo de K. Koftka "A introspecção e o método da psicolo­
gia", o que os guiava era a consideração de que para cons­
truir um sistema psicológico marxista é necessário orientar-se
corretamente entre as correntes psicológicas atuais. Já faz
muito tempo que a ciência e seu desenvolvimento saíram do
estado em que cada país podia elaborar seus problemas sepa­
radamente, de forma isolada e relativamente independente.
Não pode haver erro maior para compreender a atual crise da
psicologia do que reduzi-la aos limites e fronteiras do pensa­
mento científico russo. E esta é a maneira pela qual os repre­
sentantes de nossa psicologia empírica avaliam a questão: se
lhes déssemos crédito, na psicologia do Ocidente tudo per­
maneceria tão imutável e tranqüilo como "a mineralogia, a
física e a química", ao passo que nós, os marxistas, empreen­
demos nada mais do que a reforma da ciência. Repetimos
mais uma vez: não se pode apresentar o estado real das coi­
sas sob um aspecto mais falso e tergiversado.
O começo da crise russa é marcado pela orientação em
direção ao agressivo behaviorismo norte-americano. No prin­
cípio, isso era necessário. Era preciso conquistar posições
• "Po póvodu statí K. Koffki 'Samonabliudenie i metod v psikhologuii',"
Escrito em 1926 como introdução a um artigo de K, Koffka e publicado em
K. N, Kornílov (org,), Problemas de psicologia atual, Moscou, 1926,
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IIIII III!' 1111111"1111:
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88 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 89


em psicologia e libertar-se do cativeiro do :>UlJ)C:lI
UlJ)eLlv.t:>
pecto florescente" e compara a queda da psicologia associa­
vismo espiritualista e idealista. Mas agora todos percebem cionista com a da alquimia. Realmente. a crise iniciou-se
que a psicologia marxista só pode seguir até um certo ponto com a decadência da teoria associacionista; a partir de en­
o caminho escolhido pelo behaviorismo norte-americano e tão, a psicologia científica deixou de pisar em terreno firme
a reflexologia russa. Surge a necessidade de separar-se dos e começou o terremoto. Atualmente assistimos a uma
companheiros de viagem e traçar o próprio caminho. mudança de direção extraordinariamente interessante e sig­
Os aliados de ontem na guerra comum contra o subjeti­ nificativa da crise e das principais for~~as em litígio. Se o
vismo e o empirismo provavelmente se converterão amanhã princípio da crise européia se caracteriza pela intensificação
em nossos inimigos na luta pela afirmação dos fundamentos do momento idealista e subjetivista (E. Husserl, A. Meinong,
básicos da psicologia social do homem social, pela libertação escola de Wurtzburgo), hoje em dia a direção é justamente a
da psicologia do cativeiro biológico e por devolver a ela o contrária.
significado de ciência independente, e deixar de ser um dos Como afirma I. Everguétov (924), a psicologia e seu
capítulos da psicologia comparada. Em outras palavras, quan­ método estão se transformando em materialistas no sentido
do passarmos a construir a psicologia como ciência do com­ mais estrito da palavra. Mesmo se isto não for exatamente
portamento do homem social e não do mamífero superior, assim, não há a menor dúvida de que indica com acerto a
aparecerá claramente a linha de discrepância com nosso alia­ direção. A psicologia tende a se transformar em
do do passado. embora seja possível que nesse caminho se afunde por mais
A luta aprofunda-se e passa para uma nova fase. É ne­ de uma vez no lodo idealista. A psicologia divide-se clara­
cessário lembrar (para dirigi-la e calcular cada passo) que mente em duas correntes: uma se apóia no bergsonismo,
não se desenvolve dentro da idílica e pacífica paisagem do aprofundando e corrigindo a linha do espiritualismo em psi­
empirismo "científico", mas em circunstâncias muito tensas e cologia, e a outra tende ostensivamente para a construção
dentro de uma violentíssima luta científica, da qual participa monista e materialista da psicologia
tudo que há de vivo em psicologia. O que menos evoca o É orientar-se com precisão na luta científica que
estado atual da ciência psicológica é uma paisagem bucólica. atualmente ocorre na psicologia ocidental. Temos a inten­
"Tudo tranqüilo em Shipka'" só para quem não vê nada. Con­ ção de publicar em russo os trabalhos seminais mais
cretamente, na psicologia ocidental foi realizado um trabalho tantes que caracterizam cada corrente e oferecer em uma
crítico tão destrutivo que o empirismo pré-crítico, ingênuo e das próximas seleções um resumo das correntes psicológi­
feliz que nos é apresentado parece algo pré-diluviano na cas atuais do Ocidente". Começaremos pela corrente mais
ciência européia. influente e interessante de todas, pela chamada
"O psicólogo de nossos dias parece-se com Príamo sen­ da gestalt, entre cujos representantes se destaca K. Koffka.
tado nas ruínas de Tróia - constata N. N. Langue, ao resumir Não procuraremos oferecer lima exposição detalhada e lima
o estado atual da psicologia." 0914, p. 42.) Ele mesmo fala apreciação dessa teoria no presente comentário: limitar-nos­
o tempo todo da crise da psicologia como se se tratasse de emos a fazer algumas breves observações sobre ela.
um terremoto, que "destrói num instante uma cidade de as­ A Dsicologia da Gestalt (teoria da imagem, psicologia da
psicologia estrutural, como costuma ser traduzida em
1. Shipka é o nome de um desfiladeiro da cadeia montanhosa central da
Bulgária, Stara-Platina, onde, em 21/26-8-1877, as forças russas e búlgaras outros idiomas) foi se formando ao longo dos últimos dez
repeliram com êxito os duríssimos ataques do exército do rajá Solimão na
guerra russo-turca daquele ano. (N.T.E.) • Tinha razão Everguétov ao intitular seu resumo: "Depois do empirismo".
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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 91
90 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

11' anos. Já superou há muito os limites da investigação experi­ de em qualidade, quando o utiliza para explicar a diversida­
mental de percepção da forma que presidiu seus primórdios de qualitativa das vivências (fenômenos). Os processos cons­
e que constitui, por enquanto, seu principal conteúdo psico- cientes já não sào declarados como o único objeto da inves­
Procura transformar-se em teoria psicológica geral, tigação, mas são interpretados como partes de processos
como diz Koffka em outro artigo. Extrapola suas condições psicofisiológicos integrais de maior envergadura. Aqui, os
para a psicologia comparada e para a psicologia da crian­ "fenômenos psíquicos" da psicologia empírica perdem defi­
ça, para a psicologia social e para todas as ciências limítro­ nitivamente sua importância excludente e independente. A
fes, procurando formular de novo seus princípios fundamen­ psique é considerada como um "aspecto fenomênico do
tais. E é precisamente na qualidade de nova doutrina psico­ comportamento", como parte integrante deste.
lógica que essa nova teoria se contrapõe, por um lado, à psi­ 2. Metodologia sintética e funcional da investigação. Ao
cologia empírica tradicional (a associacionista e a de Wurtz­ reconhecer a unidade, mas não a identidade do interno e do
burgo) e, por outro, ao behaviorismo. E é precisamente externo no comportamento, os psicólogos da nova escola
enquanto doutrina psicológica nova que essa teoria é objeto renunciam com a mesma firmeza, tanto ã introspecção anali­
de atenção em todos os países: podem-se encontrar artigos sadora, que não pode constituir em si mesma um método da
sobre ela em revistas francesas, inglesas, norte-americanas, psicologia e nunca será seu principal método, quanto ao
espanholas, sem falar das alemãs. A própria oposição da psi­ objetivismo puro que alcança sua forma extrema de Watson,
cologia da Gestalt ao empirismo e ao behaviorismo puro, a Embora adiram por completo a toda uma série de acusações
própria tentativa de encontrar um ponto de vista unificador que o behaviorismo lança contra a introspecção, consideram
para o comportamento e de elaborar uma metodologia sinte­ errôneo nào levar de forma alguma em consideraçào a face­
tizadora transformam essa corrente em um aliado nosso de ta "interna" do comportamento (Koffka). A nova metodolo­
imenso valor em toda uma série de problemas. Isto não signi­ procura fundamentar um método subjetivo-objetivo fun­
fica que nossa aliança irá constituir um bloco de princípios cionai que abarque os pontos de vistas descritivos (descriti­
firme e duradouro; já nesse momento poderíamos assinalar trospectivoVe funcional (objetivo-reacional).
com precisão toda uma série de pontos em que divergimos 3. Pontos de divergência. Dentro de nossa indiscutível
dessa teoria. O leitor encontrará no artigo de Koffka a expo­ coincidência com a psicologia da Gestalt, não podemos fe­
sição dos critérios mais importantes, tanto críticos quanto char os olhos para os pontos de divergência que existem
positivos, dessa escola. De nossa parte, indicaremos seus entre ambos os sistemas - e que irão crescer à medida que as
pontos de contato e de discrepância com a psicologia mar- duas correntes se desenvolverem em muito do que se refe­
deixando para outra oportunidade a análise detalhada re à elaboração do objeto e do método de nossa ciência. Para
e a avaliaçào da mesma. nós, contudo, isto não retira nenhum valor da nova corrente.
1. l'j,faterialismo monísta da nova teoria. A psique e o Não pensamos em absoluto encontrar na ciência ocidental
comportamento "interno e externo" (segundo a terminologia um sistema psicológico marxista já elaborado. Seria quase
de W. Kõhler), as reações fenomênicas e corporais (Koffka), um milagre se este tivesse surgido. Mas esses pontos de
não constituem duas esferas distintas e de natureza diferen­
2. Par& L. S. Vígotski. a psicologia descritiva ou descritivo-introspectiva
te. "O interno é externo" (Kôhler). A nova teoria parte da consiste na análise dos fenômenos da consciência por meio de uma auto­
li identidade fundamental das leis que constroem os "conjun­ observação especialmente organizada (introspecçáo). É preciso distinguir essa
! tos" (Gestalten) na física, na fisiologia, na psique. A nOVa corrente da psicologia descritiva (ou "compreensiva") tal como ê interpretada
teoria admite o princípio dialético da transição da por W. Dilthey. (N.R.lU
1111111111111
:Ih II iHi 1111111111111111111111111111111111111111111111111111111111 I11IIJlIJlIlIJUl1I1I1I1II11111lI1I1II11111I1II11111111111111111111111111II 1IIIIIi , 1I1~11I11.

92 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

servem para aguçar o fio da nova ciência. Em o MÉTODO INSTRUMENTAL EM PSICOLOGIA*


nossa luta contra o empirismo aprendemos muito e, nesse
é útil tomarmos como ponto de partida o behavioris­
mo puro. Dessa forma, poderemos provavelmente realçar
algumas das teses da psicologia marxista em nossos debates
com a psicologia da Gestalt e em sua crítica. Talvez a crítica
pudesse se desenvolver na linha de questões tais como a ten­
tativa da nova teoria de evitar o vitalismo e o mecanicismo; a
excessiva assimilação dos problemas da psique aos procedi­
mentos teóricos e dados da física atual; a falta de um ponto
de vista social, a teoria "intuitiva" da consciência e muitas
outras mais. Mas não esqueçamos que o próprio fato de apa­
recer no Ocidente uma corrente como a psicologia da Gestalt
mostra, sem a menor dúvida, que as forças motoras objetivas
inseridas no desenvolvimento da ciência psicológica agem na do homem surge uma série de
mesma direção que a reforma marxista da psicologia. Para para o domínio dos próprios
oe,ro~hj~-Io. basta olhar o princípio que se desenvolve na com a técnica, esses dis­
cologia, não através da estreita abertura de nossa discussão de pleno direito, a denominação
com os mas na escala da ciência universal. convencional de ferramentas ou instrumentos psicológicos
a terminologia de E. Claparede,
R. Thurnwald).
2. Essa como qualquer outra, nâo pode chegar
até a total coincidência de
todos os traços de ambos os conceitos; por isso, não se pode
esperar de antemão que encontremos nesses dispositivos
todos os traços dos instrumentos de trabalho.
3. Os instrumentos psicológicos sào criações artificiais;
estruturalmente, são dispositivos sociais e nâo orgânicos ou
individuais; destinam-se ao domínio dos processos próprios
ou alheios, assim como a técnica se destina ao domínio dos
processos da natureza.
4. Como exemplo de instrumentos psicológicos e de
seus complexos sistemas podem servir a linguagem, as dife­
rentes formas de numeração e cálculo, os dispositivos mne­

• "Instrumentalnii metod v psikhologuíi". Conferência proferida em 19.:\0


na academia de educação comunista N. K. Krupskaia. Do arquivo pessoal de
L. S. Vigotski. Primeira publicação.

_Uf"llllum.t.'III,

94 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA 95


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

motécnicos, O simbolismo algébrico, as obras de arte, a es­


crita, os diagramas, os mapas, os desenhos, todo tipo de
nos convencionais etc. A, 7B

5. Ao inserir-se no processo de comportamento, o instru­


mento psicológico modifica de forma global a evolução e a
estrutura das funções psíquicas, e suas propriedades determi­
nam a configuração do novo ato instrumental do mesmo mo­
do que o instrumento técnico modifica o processo de adapta-
natural e determina a forma das operações laborais.
6. Além dos atos e processos de comportamento natu­
rais, é preciso distinguir as funções e formas de comporta­ x
mento artificiais ou instrumentais. Os primeiros surgiram e se
desenvolveram como mecanismos especiais ao longo do
A X e X - 13, cada uma das quais é um reflexo condi­
processo da evolução e são comuns ao homem e aos animais
cionado, determinado propriedades do tecido cere­
superiores; os segundos constituem uma realização posterior
bral, da mesma forma que a conexão A - fi. O novo, o artifi­
da humanidade, um produto da evolução histórica e são a
o instrumental é dado pela substituição de uma cone­
forma específica de comportamento do homem. Nesse senti­
xão A - B por duas: A - X e X 13, que conduzem ao mesmo
do, T. Ribot chamou de natural a atenção involuntária e de
resultado, mas por outro caminho. O novo é a direção artifi­
artificial a voluntária, vendo nela um produto do desenvolvi­
cial que o instrumento imprime ao processo natural de fe­
mento histórico (cf. o ponto de vista de P. P. Blonski).
chamento da conexão condicionada, ou seja, a utilização
7. Os atos artificiais (instrumentais) não devem ser consi­
ativa das propriedades naturais do tecido cerebral.
derados como sobrenaturais ou supra naturais, criados segun­ 8. Nesse esquema, apreende-se a essência do método ins­
do determinadas leis novas, especiais. Os atos artificiais são
trumental e a singularidade implicada nesse enfoque sobre o
precisamente os mesmos atos naturais, que podem ser decom­
comportamento e seu desenvolvimento em relação aos outros
postos até o fim e reduzidos a estes últimos, da mesma manei­
dois métodos científico-naturais de estudo do comportamen­
ra que qualquer máquina instrumento técnico) pode ser
to, nos quais não interfere em momento algum, e os
decomposta em um sistema de forças e processos naturais.
tampouco rebate. Às vezes estudaremos o comportamento
O artificial é o resultado de uma combinação (constru­ humano como um complexo sistema de processos naturais
e é ao que tende a substituição e o emprego desses cujas leis diretrizes podem ser desvendadas, da mesma manei­
processos naturais. A relação entre os processos instrumen­ ra que se poderia fazer com a atuação de qualquer máquina
tais e os naturais pode ser explicada por meio do seguinte enquanto sistema de processos físicos e químicos. Outras
esquema: um triângulo.
vezes, faremos o estudo sob o ponto de vista da utilização dos
Na lembrança natural estabelece-se uma conexão asso­ processos psíquicos naturais que lhe sào próprios e das for­
ciativa direta (um reflexo condicionado) A B entre os dois mas que essa utilização adota, procurando compreender
estímulos A e R. Na lembrança artificial, mnemotécnica, des­ como o homem maneja as propriedades naturais de seu tecido
sa mesma marca através do instrumento psicológico X (nó cerebral e como controla os processos que nele ocorrem,
no lenço, esquema mnemônico), no lugar da conexão direta 9. O método instrumental estabelece um novo ponto de
A - B estabelecem-se duas novas conexões:
vista sobre a relação entre o ato de conduta e () fenõmeno
IIIIIIWWWIII'

96 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 97

externo. Dentro da relação geral estímulo-reação (excitante­ etc.) de todos os processos psíquicos que fazem parte do
formulada pelos métodos científico-naturais em ato instrumental, substituindo certas funçôes por outras. Ou
o método instrumental distingue dois tipos de rela­ recria e reconstrói por completo toda a estrutura do
entre o comportamento e o fenômeno externo: este últi­ comportamento, do mesmo modo que o instrumento técni­
mo, o estímulo, pode em certos casos, desempenhar o papel co recria totalmente o sistema de operaçôes de trabalho. Os
de objeto para o qual se o ato de comportamento para processos psíquicos globalmente considerados (na medida
resolver alguma das tarefas a que o indivíduo se propõe em que constituem uma completa unidade estrutural e fun­
comparar, escolher, valorar, ponderar etc); em outros cional) orientam-se para a resolução de uma tarefa que é
casos, pode desempenhar o papel de meio com a ajuda do pelo objeto de acordo com a evolução do pro­
dirigimos e executamos as operações psíquicas necessá­ cesso, que é ditada pelo instrumento. Nasceu uma nova
rias para resolver essas tarefas (lembrança, comparação, esco­ estrutura: o ato instrumentaL
lha etc). A natureza psicológica da entre o ato de 12. Se considerarmos do ponto de vista da psicologia
comportamento e o estímulo externo é essencialmente distin­ científico-natural, a totalidade dos conteúdos do ato instru­
ta nos dois casos: o estímulo determina, condicíona e organi­ mental cabe integralmente dentro de um sistema de estímu­
za o comportamento de forma totalmente diferente e por los e reaçôes. A natureza de conjunto do ato instrumental
meio de procedimentos absolutamente singulares. No primei­ determina a singularidade de sua estrutura interna, cujos
ro caso, o correto seria denominar o estímulo de objeto e, no aspectos mais importantes foram enumerados anteriormente
segundo, de ferramenta psicológica do ato instrumental. ( estímulo-objeto e o estímulo-instrumento, ou seja, a recria­
10. A singularidade do ato instrumental, cuja descoberta ção e combinaçào das com ajuda do instrumento).
é a base do método instrumental, apóia-se na presença si­ Em termos da psicologia científico-natural, podemos defini­
multânea nele de estímulos de ambas as classes, isto é, de lo por seus componentes como uma função complexa, glo­
e de ferramenta, cada um dos quais desempenha um balmente sintética (sistema de mas que é ao mes­
papel distinto qualitativa e funcionalmente. Por conseguin­ mo tempo o fragmento mais simples de comportamento
te, no ato instrumental entre o objeto e a operação psicoló­ com que depara a investigação e a unidade elementar de
gica a ele dirigida, surge um novo componente intermediá­ comportamento do ponto de vista do método instrumental.
rio: o instrumento psicológico, que se converte no centro ou 13. Uma diferença muito importante entre o instrumen­
foco estrutural, na medida em que se determinam funcional­ to psicológico e o técnico é a orientaçào do primeiro para a
mente todos os processos que dão lugar ao ato instrumental. e o comportamento, ao passo que o segundo, que
Qualquer ato de comportamento transforma-se então em também se introduziu como elemento intermediário entre a
uma operação intelectual. atividade do homem e o objeto externo, orienta-se no senti­
1 L A inclusão do instrumento no processo de compor­ do de provocar determinadas mudanças no próprio objeto.
tamento provoca, em primeiro lugar, a atividade de toda O instrumento psicológico, ao contrário, nào modifica em
uma série de funções novas, relacionadas com a nada o objeto: é um meio de influir em si mesmo (ou em
do mencionado instrumento e de seu manejo. Em segundo - na psique, no comportamento -, mas nào no obje­
suprime e torna desnecessária toda uma série de pro­ to. É por isso que no ato instrumental reflete-se a atividade
cessos naturais, cujo trabalho passa a ser efetuado pelo ins­ relacionada a nós mesmos e nào ao objeto.
trumento. Em terceiro lugar, modifica também o curso e as 14. Na singular direção que adquire do instrumento
diferentes características (intensidade, cológico não há nada que contradiga a própria natureza, já
1111111111:::

1111111 I illl~lllIlli

98 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 99
que, nos processos de atividade e de trabalho, o homem "se ção, o pensamento verbal ou matemático e assim por diante;
confronta como um poder natural com a matéria da nature­ e c) a psicologia infantil e pedagógica. O método instrumen­
za" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 23, p. 188), entendendo
tal nada tem em comum (exceto o nome) com a teoria da
por matéria a substância e o produto da própria natureza.
lógica instrumental de J. Dewey e outros pragmatistas.
Quando o homem atua dentro desse processo sobre a natu­
18. O método instrumental não estuda apenas a criança
reza exterior e a modifica, também está atuando sobre sua
que se desenvolve, mas também aquela que se educa, fato
própria natureza e a está modificando, fazendo com que
este que qualifica como uma diferenciação crucial para a
dependa dele o trabalho de suas forças naturais. Subordinar
história do filhote humano. A educação não pode ser quali­
também essa "força da natureza" a si mesmo, ou seja, a seu
ficada como o desenvolvimento artificial da criança. A edu­
próprio comportamento, é a condição necessária do traba­
cação é o domínio artificial dos processos naturais de de­
lho. No ato instrumental o homem domina a si mesmo a
partir de fora, através de instrumentos psicológicos. senvolvimento. A educação não apenas influi em alguns
15. É evidente que alguns estímulos não se transformam processos de desenvolvimento, mas reestrutura as funções
em instrumentos psicológicos pelas propriedades físicas que do comportamento em toda sua amplitude.
atuam no instrumento técnico (dureza do aço etc.). No ato 19. Se a teoria do talento natural (A. Binet) procura cap­
instrumental atuam as propriedades psicológicas do fenôme­ tar o processo de desenvolvimento natural da criança, inde­
no externo, o estímulo se transforma em instrumento técnico pendentemente da experiência escolar e da influência da
graças a sua utilização como meio de influência na psique e educação, ou seja, estuda a criança sem levar em considera­
no comportamento. Por isso, todo instrumento é necessaria­ ção seu nível de escolarização, a teoria da aptidão ou do
mente um estímulo: se não o fosse, ou seja, 'se não gozasse talento escolar tenta captar unicamente o processo de de­
da faculdade de influir no comportamento, não poderia ser senvolvimento escolar, isto é, estudar o aluno de um deter­
um instrumento. Mas nem todo estímulo é um instrumento. minado curso escolar, independentemente do tipo de crian­
16. O emprego de um instrumento psicológico eleva e ça. O método instrumental estuda o processo de desenvolvi­
amplia infinitamente as possibilidades do comportamento, mento natural e da educação como um processo único e
pois põe ao alcance de todos o resultado do trabalho dos considera que seu objetivo é descobrir como se reestrutu­
gênios (como se comprova na história da matemática e de ram todas as funções naturais de uma determinada criança
outras ciências). em um determinado nível de educação. O método instru­
17. Por sua própria essência, o método instrumental é mental procura oferecer uma interpretação acerca de como
um método histórico-genético que proporciona à investiga­ a criança realiza em seu processo educacional o que a
ção do comportamento um ponto de vista histórico. O com­ humanidade realizou no transcurso da longa história do tra­
portamento só pode ser entendido como história do compor­ balho, ou seja, "põe em ação as forças naturais que formam
tamento (P. P. Blonski). Os principais âmbitos de observação sua corporeidade C. .. ) para assimilar desse modo, de forma
em que se pode aplicar com êxito o método instrumental útil para sua própria vida, os materiais que a natureza lhe
são: a) o âmbito da psicologia histórico-social e étnica, que brinda" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 23, pp. 188-9). Se a
estuda o desenvolvimento histórico do comportamento e primeira metodologia estuda a criança, independentemente
seus distintos graus e formas; b) o âmbito da investigação do fato de ser escolar, e a segunda estuda o escolar, inde­
das funções psíquicas superiores, isto é, as formas superiores pendentemente de outras particularidades da criança como
da memória (vide as investigações mnemotécnicas), a aten­ criança, a terceira estuda a criança como escolar.
III!!
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100 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 101

o desenvolvimento de numerosas funções psíquicas mentos e pode utilizar qualquer metodologia, ou


naturais na idade infantil (a memória, a atenção) ou não se quer procedimento técnico de investigação: o experimento,
reflete em absoluto no resultado mais ou menos evidente de a observação etc.
uma mensuração, ou, se se reflete, o alcance é tão reduzido 21. As investigações sobre a memória, o cálculo, a for­
que não há maneira de justificar a enorme diferença que mação dos conceitos nas crianças em idade escolar realiza­
existe entre a atividade da criança e a atividade correspon­ das pelo autor e por iniciativa sua podem ser consideradas
dente do adulto. A criança se equipa e se reequipa ao longo como exemplos de aplicação do método instrumental.
de seu processo evolutivo com os mais diversos instrumen­
tos; aquela que pertence ao nível superior se diferencia,
entre outras coisas, daquela que pertence ao nível inferior
nível e pelo tipo de instrumental, isto é, pelo grau de
domínio do próprio comportamento. Os principais marcos
no desenvolvimento são o período no qual não há
gem e aquele no qual a linguagem aparece.
20. A diferença nos tipos de desenvolvimento infantil (o
talento, a anormalidade) está estreitamente vinculada com
as características do desenvolvimento instrumental.
quer tipo de desenvolvimento infantil é determinado, em
grande medida, pela incapacidade da criança de utilizar por
si mesma suas próprias funções naturais e de dominar os
instrumentos psicológicos.
21. Investigar as características e a estrutura do compor­
tamento da criança exige desvendar seus atos instrumentais
e levar em consideração a reestruturação das funções natu­
rais que o compõem. O método instrumental é aquele que
investiga o comportamento e seu desenvolvimento por meio
da descoberta dos instrumentos psicológicos que estão
implicados e do estabelecimento da estrutura dos atos ins­
trumentais.
22. O domínio de um instrumento psicológico e, por
seu intermédio, da correspondente função psíquica natural,
eleva esta última a um nível superior, aumenta e amplia sua
atividade e recria sua estrutura e seu mecanismo. Os proces­
sos psíquicos naturais não são eliminados com isso, mas
entram em combinação com o ato instrumental e dependem
funcionalmente, em sua estrutura, do instrumento utilizado.
23. O método instrumental proporciona ao estudo psi­
cológico da criança tanto os princípios quanto os procedi-
II

SOBRE OS SISTEMAS PSICOLÓGICOS*

o que exporei a é fruto de um trabalho ceill­


de experimentaçào e constitui uma tentativa ainda não
concluída de interpretar teoricamente o que foi tomando
forma ao longo de uma série de trabalhos destinados a inte­
grar duas linhas de a e a patológica, Por­
tanto, podemos considerar como uma tentativa básica c
nào somente formal de concentrar nossa atenção naqueles
problemas novos que foram surgindo diante de nós como
fruto de uma comparação entre uma série de problemas que
até agora só tinham sido estudados do ponto de vista do de­
senvolvimento funcional e aqueles formulados quando essas
funções se desintegram, selecionando todos aqueles aspec­
tos das pesquisas que levamos a cabo em nosso laboratório
que possam tcr algum valor prático. Visto que o que vou cx­
por supera, por sua complexidade, o sistema de conceitos
com que operamos até agora, quero começar
explicação que a maioria de nós conhece.
criminavam o fato de que estávamos
problemas extraordinariamente simples, sempre respondía­

• ''o Psikhologuítcheskikh sístemakh", Transcriçào estenográfica corrigi­


da da comunicação lida a 9 de outubro de 1930 na Clínica de Enfermidade~
Ment<lis d,l l' Universidade estatal de Moscou. Do arquivo pessoal de L 5,
Vigotski, publicado pela primeira vez.
11111111 Illi

104 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 105

mos que, na verdade, deviam nos acusar do contrário: e que mantém uma relação especial em relação a essas fun­
cam de forma excessivamente um problema de gran­ ções) e o mecanismo relativamente simples que admitíamos
de importância. E agora vocês verão uma tentativa de tratar em nossa explicação.
uma série de fenômenos, que interpretamos como mais ou Já em anteriores tropeçamos com o tema so­
menos compreensíveis ou primitivos, para nos aproximar­ bre o falar. Denominei essa comu
mos de uma interpretação de sua complexidade, que é os sistemas devido às
maior do que parecia a princípio. que surgem entre as concretas
Gostada de lembrar que esse movimento no sentido da que se dão no processo de desenvolvimento e as que se
cada vez mais dos problemas que desintegram ou experimentam mudanças patológicas duran­
estudamos não é casual, e que já está contido numa deter­ te um processo de alteraçào.
minada fase de nossa investigação. Como sabem, o traço Ao estudar a evolução do pensamento e da linguagem
de nosso enfoque do estudo das funções superio­ na idade infantil, vimos que o processo de desenvolvimento
res é que atribuímos a estas um papel distinto do das fun­ dessas funções não consiste fundamentalmente no fato de
ções psicológicas primitivas no desenvolvimento da perso­ que dentro de cada uma delas se produza uma
nalidade. Quando dizemos que o homem é dono de seu mas em que a mudança é no nexo inicial entre o que é
comportamento e que o dirige, estamos exolicando coisas característico tanto da no plano zoológico quanto
simples (como a atenção arbitrária ou a do desenvolvimento da criança na idade mais precoce. Esse
através de outras mais complexas, como a nexo e essa relação não permanecem iguais durante o de­
Vinham nos acusando de esquecer do conceito de persona­ senvolvimento posterior da criança. Por isso, uma das idéias
lidade e, no entanto, este está presente em todas as explica­ centrais no âmbito da evolução do pensamento e da lingua­
ções que damos das funções psicológicas. De fato, estamos gem é que não existe uma fórmula fixa que determine a rela­
procedendo de acordo com os preceitos da investigação entre ambos e que válida para todos os níveis de
científica que, segundo a magnífica de Goethe, desenvolvimento e formas de alteração: em cada um deles
transforma os problemas em postulados, ou seja, parte da encontramo-nos com em conexões concretas. É
formulação de hipóteses que devem ser resolvidas e a isto que esta minha comunicaç'ão se dedica.
verificadas durante o próprio processo de (extraordinariamente simples) consiste em
Gostaria de lembrar que por mais que durante o processo de desenvolvimento do comporta­
que tenha sido o modo como mento, especialmente no processo de seu desenvolvimento
superiores, recorremos, no entanto, ao conceito histórico, o que muda não são tanto as fun\~ões, tal como
específico de personalidade de natureza mais complexa e tínhamos considerado anteriormente (era esse nosso
mais integral, em relação ao qual tentamos explicar funções nem sua estrutura, nem sua parte de
relativamente tão simples como a atenção involuntária ou a que o que muda e se modifica são
memória lógica. Fica claro assim que, à medida que o traba­ ou o nexo das entre de maneira que surgem
lho a vançava, tínhamos de preencher essa novos agrupamentos desconhecidos no nível anterior. É por
a hipótese, transformá-la paulatinamente em um conheci­ isso que, quando se passa de um nível a outro, com freqüên­
e escolher em nos­ cia a diferença essencial não decorre da mudança intrafun­
sas lllvesugaçoes os momentos que preenchessem a lacuna cional, mas das mudanças interfuncionais, as mudanças nos
entre a personalidade (concebida do ponto de vista genético nexos interfuncionais, da estrutura interfuncional.
11 I1

106 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 107
Denominaremos sistema psicológico o aparecimento des­
como se ajustam entre si. Tanto as considerações teóricas
sas novas e mutáveis relações nas quais se situam ali fun­
quanto a linha experimental mostram que a sensório-motrici­
ções, dando-lhe o mesmo conteúdo que se costuma dar a
dade constitui um conjunto psicofisiológico único. Esse
esse conceito - infelizmente amplo demais.
ponto de vista é defendido, em particular, pelos psicólogos
Duas palavras a respeito de como vou distribuir o mate­
gestaltistas (K. Goldstein do ponto de vista neurológico, W.
rial. É conhecido de todos o fato de que muitas vezes o pro­
Kóhler, K. Koffka e outros, do psicológico). Não posso enu­
cesso de exposição segue um caminho contrário ao da inves­
merar todas as alegações a favor desse ponto de vista. Direi
tigação. Teria sido mais fácil para mim abordar o material de
apenas que depois de estudar atentamente as investigações
uma perspectiva teórica e não fazer referência às investiga­
experimentais dedicadas a essa questão vemos até que
ções levadas a cabo no laboratório. Mas não posso fazer isto:
ponto os processos motores e sensoriais constituem um todo
ainda nào possuo um ponto de vista teórico geral que
único. Assim, a solução motora para as tarefas nos macacos
que esse material, e considero um equívoco teorizar antes do
nada mais é do que a continuação dinâmica desses mesmos
tempo. Exporei de forma simples e sistemática a escala co­
processos, dessa mesma estrutura que se fecha no campo
nhecida de fatos, que vão de baixo para cima. Tenho de
sensorial. Todos conhecem a convincente tentativa de Kóhler
reconhecer previamente que ainda não sou capaz de abarcar
(930) e outros de demonstrar, contrariando a opini~lo de K.
toda a escala dos fatos em um nível teórico realmente com­
Bôhler, que os macacos não resolvem a tarefa dentro do
preensivo, estabelecendo correspondências lógicas termo a
âmbito intelectual, mas do sensorial, e isso se confirma nos
termo entre os fatos e as relações que os unem. Indo de
experimentos de E. )aensch, que mostrou que nos sujeitos
baixo para cima quero me limitar a mostrar a enorme quanti­
com imagens eidéticas o movimento do instrumento rumo ao
dade de material acumulado que encontramos com freqüên­
objetivo ocorre no campo sensorial. Por conseguinte, na
cia em outros autores, para colocá-la em relação com os pro­
medida em que se pode resolver integralmente uma tarefa
blemas para cuja solução este material desempenha um pa­
nele, não se trata de algo estático.
pel primordial: recorrerei para isso concretamente ao proble­
Se prestarem atenção a esse processo, verão que a idéia
ma da afasia e ao da esquizofrenia em patologia e ao da
da unidade sensório-motora se verá plenamente confirmada
idade de transição na psicologia genética. Permitir-me-ei ir
enquanto nos limitemos a sujeitos animais ou tratemos com
expondo as considerações teóricas ao mesmo tempo: creio
crianças muito pequenas ou com adultos, para quem estes
que, hoje em dia, é o único que temos para oferecer.
processos estão muito próximos dos afetivos. Mas quando
avançamos mais produz-se uma mudança surpreendente. A
unidade dos processos sensório-motores, a conexão segun­
1
do a qual o processo motor constitui um prolongamento
dinâmico da estrutura que se fechou no campo sensorial, se
Permitam-me começar pelas funções mais simples: as
destrói. A matricida de adquire, assim, um caráter relativa­
relações entre os processos sensoriais e os motores. Na psi­
mente independente em relação aos processos sensoriais e
cologia atual, o problema dessas relações coloca-se de forma
estes últimos isolam-se dos impulsos motores diretos, sur­
totalmente distinta do que lie fazia antes. Se para a velha plii­
gindo entre eles relações mais complexas. As experiências
cologia constituía um problema estabelecer quais eram os
de A. R. Luria com o método motor combinado (928) ofere­
de associação que apareciam entre as funções, para a
cem-nos uma nova faceta à luz dessas considerações. O mais
psicologia moderna o problema se coloca de forma inversa:
interessante é que, quando o processo retorna de novo a
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tdHiliidí , . ""iWJHIII.

108 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA • PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 109

uma na qual o está em tensão emocional, se Vimos que a percepção se desenvolve segundo o mesmo
restabelece a conexão direta entre os impulsos motores e padrão que o pensamento e a atenção arbitrária. O que
sensoriais. Ao passo que, quando o homem não se dá conta acontece? Como já dissemos, desenrola-se um determinado
do que faz e age sob a influência de uma reaç~ão processo de "interiorização" dos procedimentos com a
comprovar seu estado interno e suas características dos quais a criança que percebe um objeto o compa­
perceptivas através de sua motricidade, observando-se no­ ra com outro e assim por diante. Embora essa linha de
vamente o retorno à estrutura característica de estados pre­ investigação tenha nos conduzido a um beco sem
coces de desenvolvimento. outras investigaçôes evidenciaram com toda clareza que o
Se o experimentador que realiza a prova com o macaco desenvolvimento posterior da percepção consiste em esta­
deixa de lado a tarefa experimental e se coloca diante do belecer uma complicada síntese com outras funções, con­
animal, sem se preocupar com o que este vê, mas unicamen­ cretamente com a da linguagem. Essa síntese é tão comple­
te com sua ação, será então capaz de se dar conta através xa que, salvo nos casos patológicos, se torna impossível
dela do que o animal submetido ã prova vê. É precisamente estabelecer a estrutura básica da percepção. Darei um
isto que Luria denomina método motor combinado. Pelo tipo exemplo muito Se investigamos a percepção de
de movimento pode-se estabelecer a curva das reações inter­ um quadro, como fez W. Stern, observaremos que quando a
nas, como é característico nas etapas precoces de desenvol­ transmite o conteúdo do mesmo nomeia objetos
vimento. Com muita freqüência, ocorre na criança uma rup­ isolados e quando brinca de dizer o que este último repre­
tura da conexão direta entre os motores e senso­ senta expressa todo seu conjunto, omitindo detalhes isola­
riais. Por enquanto sem nos adiantarmos) podemos esta­ dos. Nos experimentos de Kohs, nos quais se analisa a per­
belecer que os processos motores e sensoriais, interpretados cepção em suas manifestações mais ou menos puras, a
no plano psicológico, adquirem uma relativa independência - sobretudo a surda-muda - constrói figuras que se
mútua, relativa no sentido de que já não existe a unidade, a ajustam por completo ao modelo, reproduz o desenho cor­
conexão direta, própria do primeiro nível de desenvolvimen­ respondente, uma mancha de cor; mas, quando recorremos
to. Por outro lado, os resultados das investigações à linguagem para denominar os cubinhos, obtemos no prin­
sobre as formas inferiores e superiores da motricidade em cípio uma união incongruente, que carece ele estrutura: a
e que separar os fatos hereditários dos coloca os cubinhos um ao lado do outro sem inte­
do desenvolvimento cultural, levam a concluir que, do ponto em uma estrutura de
de vista da psicologia diferencial, o que caracteriza a motrici­ Para suscitar uma percepção clara é preciso colocar o
dade do adulto evidentemente não é sua constituição inicial, sujeito em determinadas condições artificiais, o que consti­
mas as novas conexões, as novas relações em que a motrici­ desafio metodológico nas provas com os
dade se acha em relação com as outras esferas da personali­ num experimento em que temos de apresentar
dade, com as demais absurda ao sujeito, lhe mostrarmos nâo apenas
Continuando essa idéia, quero deter-me na percepção. um Objeto, mas também uma figura geométrica, estaremos
Na criança, esta adquire uma certa independência. acrescentando conhecimento à (por exemplo,
Diferente do animal, a pode contemplar a situação que se trata de um triângulo). E para que, como diz Kóhler,
durante certo tempo e, sabendo o que deve não agir não formemos a imagem de um objeto, mas apenas de
de imediato. Não vamos nos deter em como isto se produz, "material visual", é necessário apresentar uma combinação
mas nos centraremos no que ocorre com a percepção. de coisas confusa e absurda ou então o obieto conhecido
"ulUUUllIlllllliilllllllll 111111 1I11W,11I1I1;

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 111


110 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

em uma exposição muito breve - para que não reste mais lugar da lembrança direta. No trabalho de A. N. Leóntiev
do que a impressão visuaL Em outras condições, não pode­ (1931) e no de L. V. Zankov\ mostra-se que o desenvolvi­
remos retroceder a uma percepção direta equivalente. mento dos fatos gerais da memória segue curvas distintas.
Na afasia, ou em formas profundas de desintegração Referimo-nos à reestruturação das funções naturais, a sua
das funções intelectuais, concretamente da percepção (co­ substituição e ao aparecimento de uma complicada fusão do
mo observou, em particular, O. Petzel), encontramo-nos pensamento com a memória, que recebeu a denominaç.·ào
diante de um certo retorno à separação da percepção do empírica de memória lógica.
complexo em que se desenvolve. Não posso dizer isso de Há um fato notável nas experiências de Zankov que
forma mais simples e breve, a nào ser indicando que, de atraiu minha atenção. Verificou-se que na memória mediada
a percepç~ão do homem atual se transformou em uma o pensamento passa a ocupar um primeiro plano, e as pes­
parte do pensamento em imagens, porque ao mesmo tempo soas, segundo suas características genéticas, agem sobre a
em que percebo vejo que objeto percebo. O conhecimento lembrança de uma lista de palavras de acordo nào com as
do objeto é simultâneo à percepção do mesmo, e vocês propriedades da memória, mas com as da memória lógica.
sabem que esforços são necessários no laboratório para Esse pensamento se diferencia profundamente do pensa­
separar um do outro: uma vez isolada da motricidade, a per­ mento no sentido estrito da palavra. Quando dizemos a uma
cepçâo nào continua se desenvolvendo intrafuncionalmen­ pessoa adulta para lembrar uma sucessào de 50 palavras
te, mas o desenvolvimento ocorre precisamente devido ao pelas imagens que lhe oferecemos, ela recorre ao estabeleci­
de que a percepção estabelece novas relações com outras mento de relações mentais entre o signo, a imagem e o que
funções, entra em complicadas combinações com novas fun­ se lembra. Esse pensamento nào tem correspondência algu­
ções e começa a atuar em conjunto com elas como um siste­ ma com o pensamento real do homem, mas é arbitrário; a
ma novo, que se revela bastante difícil de decompor e pessoa não está interessada se está correto ou não, se é
desintegração só pode ser observada na patologia. verossímil ou inverossímil o que lembra. Nenhum de nós,
Se avançarmos um pouco mais, veremos como a cone­ quando lembra algo, pensa em como faz para resolver o pro­
xão inicial, característica da relação entre as funções, se blema. Todos os critérios fundamentais, as conexôes, os
desintegra e surge uma nova conexão. Este é um fenômeno fatores característicos do pensamento enquanto tal se defor­
geral, com que tropeçamos a cada passo e do qual não nos mam por completo no pensamento orientado para a lem­
damos conta porque não lhe prestamos atenção. Isso é brança. Teoricamente, deveríamos ter dito antes que na
observado em nossa prática experimental mais simples. lembrança mudam todas as funções do pensamento. Seria
Darei dois exemplos. absurdo que nos ativéssemos, neste caso, a todas as cone­
O primeiro refere-se a qualquer processo intencional­ xões e estruturas do pensamento que são necessárias quan­
mente mediado, como é o caso da lembrança de palavras do este serve para resolver tarefas práticas ou teóricas. Repi­
com ajuda de imagens. Aqui já encontramos um desloca­ to, a memória nào apenas muda quanto contrai matrimônio,
mento de funções. A criança que lembra uma série de pala­ se nos permitirem dizê-lo assim, com o pensamento, mas
vras com ajuda de imagens apóia-se não apenas na memó­ este, ao modificar suas funções, nào é o mesmo que conhe­
mas também na fantasia, em sua habilidade para encon­
trar a analogia ou a diferença. Por conseguinte, o processo 1. Zankov, Leonid Vladímirovitch 0901-1977). Defectólogo e psicólogo
de recuperação nâo depende dos fatores naturais da memó­ soviético. Os trabalhos a que VigOlski se refere foram publicados posterior­
mas de uma série de funções novas, que intervém no mente. (Vide Zankov, 1949). (N.R.R)
i til 1I1"! i 'j;jjJilIlIlII.

112 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 113

cemos quando estudamos operações lógicas. Aqui se alteram e na subordinação deste às regras do jogo influi também no
todas as conexões estruturais, todas as relações, e nesse pro­ desenvolvimento da
cesso de substituição de funções nos encontramos com a for­ Mas eis o que realmente suscita interesse a nossos
mação do novo sistema a que me referi antes. olhos: a conclusão de que, em um primeiro momento, toda
Se subirmos um degrau mais e prestarmos atençao aos função superior estava dividida entre duas pessoas, consti­
resultados de outras investigações, observaremos mais uma tuía um processo psicológico mútuo. Um deles se dá em
regularidade na formação de novos sistemas psicológicos. A meu cérebro, outro, no do indivíduo com quem discuto:
questão da conexão no cérebro entre esses novos sistemas, "Este lugar é meu." "Não, é meu." "Eu peguei primeiro."
sua relação com o substrato fisiológico, nos informará e ilus­ Aqui, o sistema do pensamento está dividido entre duas
trará o problema central de minha comunicação de hoje. crianças. O mesmo ocorre no diálogo: falo - vocês me com­
Ao estudar os processos das funções superiores nas preendem. Somente depois começo a falar para mim. A
crianças chegamos a uma conclusão que nos surpreendeu. em idade pré-escolar dedica horas inteiras à lingua­
Toda forma superior de comportamento aparece em cena gem consigo mesma. Surgem nela novas conexões, novas
duas vezes durante seu desenvolvimento: primeiro, como relações entre as funções, que não filmravam nas conexões
forma coletiva do mesmo, como forma interpsicológica, um iniciais de suas funçôes.
procedimento externo de comportamento. Não nos damos Esse fato desempenha um papel muito especial, central,
conta desse fato porque sua cotidianeidade nos cega. O no domínio do próprio comportamento. O estudo da gênese
exemplo mais claro disto é a linguagem. No princípio, é um desses processos mostra que qualquer processo volitivo é
meio de vínculo entre a criança e aqueles que a rodeiam mas, inicialmente social, coletivo, interpsicológico. Isto se rela­
no momento em que a criança começa a falar para si, pode se ciona com o fato de que a criança domina a atenção de
considerar como a transposição da forma coletiva de compor­ outros ou, pelo contrário, começa a utilizar consigo mesma
tamento, para a prática do comportamento individual. os meios e formas de comportamento que, no princípio,
Segundo a excelente formulação de um psicólogo, a lin­ eram coletivos. A mãe chama a atenção da criança para algo:
guagem é não apenas um meio de compreender os demais, esta, seguindo suas indicações, dirige sua atenção para o
mas também de compreender a si mesmo. que ela mostra: aqui nos encontramos sempre ante duas
Se recorrermos a trabalhos experimentais atuais, foi funções separadas. Depois, começa a ser a própria criança
J. Piaget o primeiro a formular e confirmar a tese de que nas quem dirige sua e desempenha em relação a si
crianças em idade pré-escolar o pensamento nào surge an­ mesma ,o papel de mãe, surge nela um complicado sistema
tes que a discussão tenha surgido em seu grupo social. de funções, que inicialmente estavam cindidas. Um indiví­
Antes de serem capazes de discutir e levantar argumentos, duo ordena e outro cumpre. O indivíduo ordena a si mesmo
as crianças carecem de qualquer pensamento. Suprimirei e ele mesmo cumpre.
uma série de fatos e somente relatarei uma conclusão a que Consegui obter experimentalmente fenômenos análo­
chegam esses autores e que modificarei um pouco a meu gos numa menina que estou observando. Qualquer um de
modo. O pensamento, sobretudo na idade pré-escolar, sur­ nós os conhece pelas observações cotidianas. A própria
ge como a interíorização da situaçào de disputa, corno a dis­ criança começa a ordenar a si mesma: "{Im, dois, três",
cussào desta dentro de si mesmo, Em sua investíga<,:ão sobre como antes ordenavam os adultos. E, em seguida, ela mes­
o jogo infantil, K. Gross (1906) mostrou que o papel exerci­ ma cumpre sua ordem. Durante o processo de desenvolvi-1
do pela coletividade infantil no domínio do comportamento mento psicológico, surge, por conseguinte, a fusão de deter- ~
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d' di

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 115


114 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

sonhos" Levi-Bruhl observa com muita pertmenua que nos


~ minadas funções que, no princípio, estavam em duas pes­
encontramos diante de uma situação em que qualquer um
, soas. A origem social das funções psíquicas superiores cons­
de nós teria respondido: "Vou pensar". Em contrapartida, o
titui um fato muito
cafre diz: "Verei isso em sonhos". Para ele, o sonho desem­
f: também digno de nota que aqueles signos que pare­
penha a mesma função que o pensamento para nós. Con­
cem ter desempenhado um papel tão importante na história
vém que nos detenhamos nesse exemplo porque, aparente­
do desenvolvimento cultural do homem (como mostra a his­
mente, as leis dos sonhos são essencialmente as mesmas
tória de sua evolução) são, na origem, meios de comunica­
para o cafre e para nós.
ção, meios de influências sobre os demais. Todo signo, se
tomarmos sua origem real, é um meio de comunicação e, Não existe fundamento para supor que o cérebro huma­
no tenha experimentado biologicamente uma evolução im­
poderíamos dizê-lo mais amplamente, um meio de conexão
portante no transcurso da história da humanidade. Tampou­
de certas funções psíquicas de caráter social. Trasladado por
co se deve supor que o do homem primitivo se diferencia
nós mesmos, é o próprio meio de união das funções em nós
do nosso e seja um cérebro deficiente, com uma estrutura
mesmos, e poderemos demonstrar que sem esse signo o cére­
biológica distinta da nossa. Todas as investigações biológi­
bro e suas conexões iniciais não poderiam se transformar nas
cas condulem à idéia de que o homem mais primitivo que
complexas relações, o que ocorre graças à linguagem.
conhecemos merece biologicamente o título completo de
Por conseguinte, os meios para a comunicação social
homem. A ev()lw;~ão biológica do homem já tinha terminado
são centrais para formar as complexas conexões psicológi­
antes que começasse seu desenvolvimento histórico. E a
cas que surgem quando essas funções se ·transformam em
em uma forma de comportamento da própria tentativa de explícar a diferença entre nossa forma de pen­
sar e a do homem primitivo, considerando que este se en­
pessoa.
Se galgarmos um lance mais, veremos outro caso inte­ contre em outro nível de desenvolvimento biológico, consti­
tuiria uma confusão grosseira entre os conceitos de evolu­
ressante de formação de tais conexôes. Poderão ser obser­
biológica e desenvolvimento histórico. As leis do sonho
vadas em geral na criança e com maior freqüência no pro­
são as mesmas, mas o papel que o sonho desempenha é
cesso de jogo (experimentos de N. G. Morózova), no qual a
totalmente distinto e observamos que essa diferença nào
criança modifica o significado do objeto. Tentarei explicar
existe apenas entre () cafre e nós, mas também entre o ro­
com um exemplo filogenético.
mano e nós, mesmo que, ao enfrentar uma situação difícil,
Se olharem em um livro sobre o homem primitivo tro­
este não dissesse: "Verei isso em sonhos", porque se encon­
peçarão com exemplos do tipo do que vamos expor. Com
trava em outro nível de desenvolvimento humano e resolvia
freqüência, a singularidade da forma de pensar do homem
primitivo não consiste em que não tenha suficientemente as questões, segundo expressão de Tácito, "com as armas e
a razão e não com os sonhos, como uma mulher", mas tam­
desenvolvidas as funções que possuímos ou que lhe falte
bém esse romano acreditava nos sonhos; para ele, o sonho
alguma delas, mas que ele distribui, de nosso ponto de
era um sinal, um presságio; um romano nào começava um
vista, de outra maneira essas funções. Um dos exemplos
mais impressionantes são as observações de L. Levi-Bruhl negócio se tinha um sonho ruim relacionado com ele; para
o romano, o sonho entrava em outra conexão estrutural com
(930) sobre um cafre, cujo filho um missionário propôs
enviar para a escola da missão. Para o cafre essa situação é as demais funções.
E se recorrerem a um neurótico de Freud, terão uma
extraordinariamente complicada e difícil, e, não querendo
nova postura diante dos sonhos. É muito interessante a
declinar da oferta de modo taxativo, ele diz: "Verei isso em
"dll III 11111

PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 117


116 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

observação de um dos críticos de Freud em relação ao fato ção entre a leitura do livro e a prática, começaram a apreciar
de que a tendência para que os apetites sexuais se manifes­ de outra maneira as ocupaçôes dos homens brancos.
tem em sonhos, própria de um neurótico, só é válida para o A valoração do pensamento e dos sonhos não tem uma
e agora". No neurótico, os sonhos servem seus fonte individual, mas mas isto nos interessa sob outro
tes sexuais, mas isso nào constitui uma lei geral. Essa ques­ . Vemos como aparece aqui um novo conceito dos
tão deverá ser objeto de investig::Jção posterior. sonhos, extraído pelo homem do meio social em que vive,
Se levarem isso mais adiante, verão que os sonhos que cria uma nova forma de comportamento intra-individual
entram em relações completamente novas com uma série de num sistema, assim como o sonho de cafre.
funções e o mesmo pode ser observado em relação a toda É preciso assinalar, por um lado, a conexão que alguns
uma série de outros processos. Vemos que, no princípio, o sistemas novos mantêm não só com signos sociais, mas tam­
pensamento segundo expressão de Spinoza, a serviço bém com a ideologia, e o significado que tal ou qual função
das emoções, e o indivíduo que tem inteligência é dono das psicológica adquire na consciência das pessoas, ao passo que,
emoções. por outro lado, o processo de aparecimento de novas formas
O exemplo do sonho do cafre tem um significado muito de comportamento a partir de um novo conteúdo é extraído
mais amplo que o simples caso de um sonho; é aplicável ã pelo homem da ideologia do meio que o rodeia. Eis aqui dois
construção de toda uma série de complexos sistemas psico­ pontos de que necessitamos para conclusões posteriores.
lógicos.
Gostaria de chamar a atenção de vocês para uma con­
clusão importante. É notável que, para o cafre, o novo siste­ 2
ma de comportamento surge de determinados conceitos
ideológicos, o que Levi-Bruhl e outros sociólogos e Se dermos mais um passo no caminho do estudo dos
gos franceses denominam conceitos coletivos sobre o complexos sistemas e relaçôes desconhecidos nos níveis pre­
sonho. Não foi o cafre, que deu essa resposta individual, coces de desenvolvimento e nos que surgem relativamente
quem criou esse sistema, mas seu conceito de sonho está mais tarde, chegaremos a um sistema muito complexo de
integrado ao sistema conceitual da tribo a que pertence. variação de concepções e de aparecimento de outras novas,
Para eles é característica essa atitude para com os sonhos e que ocorre nos primórdios do desenvolvimento e na forma­
é assim que resolvem os difíceis problemas da guerra, da do novo indivíduo na idade de transi~:ão. Até agora, o
paz e outros. Temos diante de nós um exemplo de mecanis­ defeito de nossas investigações decorreu do fato de nos
mo psicológico cuja origem é determinada por um sistema limitarmos ã idade infantil precoce e pouco nos interessar­
conceitual, pelo valor que se dá a tal ou qual função. Em mos pelos adolescentes. Quando tropecei com a necessida­
uma série de interessante~ pesquisas norte-americanas dedi­ de de estudar a psicologia dessa idade de transição a partir
cadas aos povos semi primitivos vemos que à medida que se do ponto de vista de nossas investigações, fiquei surpreso
vão familiarizando com a civilização européia e recebendo grau (de .. .) neste nível em comparação com a idade
objetos que os europeus utilizam, vão se interessando por infantil*. A essência do desenvolvimento psicológico não se
eles e apreciando as possibilidades que oferecem. Essas baseia aqui no desenvolvimento posterior, mas na mudança
investigaçôes mostram que no princípio os homens primiti­ de conexões.
vos resistiam à leitura de livros. Depois de terem recebido
simples instrumentos de lavoura e terem visto a rela­ • Assim, na transcriçào estenográfica. (N.R.R.)
~ li iiiillllllllllllllllll1111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111 IIIIIIUIII111IIIIIIIUlJU 111111

I
118 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 119
I
A investigação do pensamento do adolescente repre­ Observem a idade de transição. Verão que, para o ado­
sentou uma grande dificuldade na psicologia da idade de
lescente, lembrar significa pensar. Se antes da idade de tran­
transição. Com efeito, o adolescente de 14-16 anos altera o pensamento da criança se apoiava na memória, e
pouco sua linguagem, no sentido de aparecerem formas
pensar significa lembrar, para o adolescente, a memória se
essencialmente novas, em comparação com as que uma
baseia fundamentalmente no pensamento: lembrar é, antes
criança de 12 anos utiliza. É difícil perceber aquilo que po­
de mais nada, procurar numa determinada seqüência lógica
deria explicar o que ocorre no pensamento do adolescente.
o que se precisa. Essa distribuição de funções, essa mudan­
Por exemplo, é difícil que a memória ou a atenção nos pro­
ça em sua relação, que introduz indiscutivelmente o papel
porcionem na idade de transição algo novo em relação à
do pensamento em todas elas, e que traz como resultado
idade escolar. Mas se recorrermos concretamente ao mate­
que este último já nào seja uma função entre outras mas
rial elaborado por A. N. Leóntiev (1931) veremos que é ca­
aquela que distribui e muda outros processos psicológicos,
racterística da adolescência a passagem dessas funções para
pode ser observada na idade de transição.
dentro. O que para o escolar é externo no âmbito da memó­
ria lógica, da atenção arbitrária, do pensamento, torna-se
interno no adolescente. As investigações confirmam que
3
aparece um novo traço. Vemos que a interiorização se
realiza porque essas operações externas se integram em
Conservando a mesma ordem de exposição e seguindo
uma função complexa e em síntese com toda uma série de
desde os sistemas psicológicos inferiores até a formação de
processos internos. Devido a sua lógica interna, o processo
outros de ordem cada vez mais elevada, chegamos àqueles
não pode continuar sendo externo, sua relação com todas as
que constituem a chave de todos os processos de desenvol­
outras funções mudou, formou-se um novo sistema, refor­
vimento e de desintegração, ou seja, a formação de concei­
çou-se e transformou-se em interno.
tos, de funçôes, que, pela primeira vez, amadurecem e se
Darei um exemplo muito simples: a memória e o pensa­
definem na idade de transição.
mento no período de transição. Atentem para a seguinte
É impossível fazer agora uma exposição mais ou menos
mudança interessante (faço uma certa simplificação). Vocês
integral da doutrina do desenvolvimento psicológico do con­
conhecem o papel colossal que a memória desempenha no
ceito e devo dizer que na investigação psicológica o conceito
pensamento da criança antes da idade de transição. Para ela,
aparece (e este é o resultado final de nosso estudo) como
pensar significa em grande medida apoiar-se na memória. A
um sistema psicológico, do mesmo tipo daqueles dos quais
pesquisadora alemã Ch. Bühler dedicou-se especialmente a
já falamos.
estudar o pensamento das crianças quando estas resolvem
Até agora, a psicologia empírica tentava estabelecer
tal ou qual problema e demonstrou que para elas, para quem
como fundamento das funções de formação do conceito
a memória alcança seu máximo desenvolvimento, pensar
alguma função parcial: a abstração, a atenção, a distinção
significa recordar casos concretos. Vocês se lembrarão do
dos traços da memória, a elaboração de determinadas ima­
clássico exemplo imortal de A. Binet, em suas experiências
gens. Para isso, partia da concepção lógica de que qualquer
com duas meninas. Quando pergunta o que é um ônibus,
função superior tem sua análoga, sua representação no
recebe a resposta: "Esse bonde de cavalos com assentos
plano inferior, como é o caso da memória e da memória
moles, sobem muitas senhoras, o cobrador faz tlim e assim
lógica, da atenção direta e da arbitrária. O conceito era con­
por diante".
siderado como uma imagem modificada, transformada, libe­
III

120 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 121

rada de todas as partes descartáveis, uma espécie de concei­ ao buscar outra sene de objetos para esse objeto,
to polido. F. Galton comparava o mecanismo do conceito busca a conexão entre ele e outros. Não se relega uma série
com uma fotografia coletiva, quando numa chapa se retrata de traços a um segundo plano, como na fotografia
toda uma série de pessoas: os traços semelhantes sobres­ mas, pelo contrário, cada tentativa de resolver a tarefa con­
saem, os casuais se diluem entre si. siste na de conexóes e nosso conhecimento sobre
Para a lógica formal, o conceito é o conjunto de traços o objeto se enriquece devido ao fato de que o estudamos
que foram destacados da série e ressaltados nos momentos em conexào com outros
em que coincidem. Se tomarmos, por exemplo, os conceitos Darei um Comparemos a imagem direta de
mais simples: Napoleão, francês, europeu, homem, animal, qualquer nove, como pode ser uma carta com o número 9. O
ser, e assim por diante, obteremos uma série de conceitos nove desta última é mais rico e concreto que nosso conceito
cada vez mais gerais, mas cada vez mais pobres no que se de "9", mas este encerra toda uma série de apreciações que
refere à quantidade de traços concretos. O conceito "Na­ nào existe no do '"9" nào é divisível por números
poleão" é infinitamente rico quanto a seu conteúdo concre­ pares, mas por 3, é 32 , base do quadrado de
to, o de "francês" já é muito mais pobre: nem tudo que se com toda uma série numérica e assim por diante. fica
refere a Napoleão se refere a um francês, e o conceito de então, que, se no psicológico o processo de
homem é mais pobre ainda. do conceito consiste na de conexôes do objeto em
A formal considerava o conceito como um con­ em relacào a outros, no encontro de um conjunto
junto de traços do objeto afastado do grupo, corno um encontramos todo o conjunto de
to de traços Por isso o conceito surgiria corno resul­ suas seu no mundo, se assim podemos dizer.
tado da de nossos conhecimentos sobre o O "9" é um ponto determinado em toda a teoria dos núme­
to. A dialética mostrou que o conceito não é um ros, com a de movimentos e de combinações
esquema tào formal, um conjunto de traços abstraídos do subordinados sempre à lei Dois pontos cha­
objeto, mas que oferece um conhecimento muito mais rico e
mam nossa Em primeiro lugar, o conceito nào con­
do mesmo.
siste na fotografia coletiva, nem de que se apaguem
Toda uma série de psicológicas, e entre
os traços individuais do objeto, mas no fato de que o conhe­
elas concretamente as nossas, conduzem-nos a uma formu­
cemos em suas em suas e, em segundo
totalmente nova do oroblema relacionado com a for­
no conceilo o objeto não é uma imagem modificada
A
mas, como mostram as psicológicas atuais, a
ao se tornar cada vez mais
predisposiçã.o a toda uma série de "Quando me
número cada vez maior de r.h,N.. <: seu con-
dizem 'mamífero' pergunta um dos psicólogos -, a que cor­
a loglca tormal, mas sim o enriquece, é
responde isso psicologicamente?" Isso equivale à possibilida­
que obtém urna inesperada nas inves­
de de desenvolver o pensamento e, em última instância, a
e se vê confirmada na análise do desenvolvimento
dos conceitos em seu perfil em comparação com uma concepção do mundo. Porque encontrar o lugar do
formas mais de nosso pensamento. As investiga- mamífero no reino animal, o lugar deste último na natureza,
revelaram que, quando o sujeito de uma prova resolve constitui uma verdadeira concepção do mundo.
uma tarefa de formação de nossos conceitos, a essência do
processo que ocorre consiste no estabelecimento de cone- 2. Morózova, Natalia Grigóricvna (n. 1906). Dcfectóloga soviética.
1111111 i . ~"d; q I

122 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 123

Vemos que o conceito é um sistema de apreciações, re­ determinado sistema de conceitos. No conceito encontramos a
duzidas a uma determinada conexão regular. Quando ope­ unidade de forma e conteúdo a que nos referimos antes.
ramos com cada conceito isolado, o essencial está em que o Pensar com hase em conceitos significa possuir um
fazemos ao mesmo tempo com todo um sistema. determinado sistema já preparado, uma determinada forma
J. Piaget (932) dava a crianças de 10-12 anos tarefas de pensar, que ainda não predeterminou em absoluto o
que consistiam em operar simultaneamente com dois traços: conteúdo final a que se há de E. Bergson pensa nos
um animal tem as orelhas compridas e o raho curto ou as conceitos da mesma maneira que um materialista, amhos
orelhas curtas e o rabo curto. A criança resolve a tarefa cen­ possuem a mesma forma de pensar, mesmo que cheguem a
trando sua atenção apenas em um dos traços. Não consegue conclusões diametralmente opostas.
operar com o conceito como sistema; domina todos os tra­ É precisamente durante a idade de transição que se pro­
ços que integram o conceito, mas de forma separada; não duz a formação definitiva de todos os sistemas. Isso ficará
domina a síntese em que o conceito atua como um sistema mais claro quando passarmos ao que pode constituir, em
único. Nesse sentido, parece-me admirável a observação de certo sentido, a chave da idade de transição: a psicologia da
V. 1. Lenin sohre Hegel, quando diz que o mais simples fato esquizofrenia.
de generalização encerra uma convicção a respeito do mun­ E. Busemann introduziu na psicologia do período de
do exterior, do que ainda não temos plena consciência. transição uma distinção muito interessante. Refere-se aos
Quando realizamos a generalização mais simples, não temos três tipos de conexão existentes entre as funçôes psicológi­
consciência das coisas como se existissem individualmente, cas. As primárias são hereditárias. Ninguém negará que en­
mas numa conexão regular, subordinadas a uma determina­ tre determinadas funções existem conexôes que se modifi­
da lei (Obras completas, t. pp. 160-1). É impossível cam diretamente: assim ocorre, por exemplo, no sistema
expor agora esse problema, extraordinariamente atraente e que rege as relaçôes entre os mecanismos emocionais e os
central, em sua aplicação à formação dos conceitos, por seu intelectuais. Outro sistema refere-se às conexôes que se
significado, para a psicologia atual. estabelecem durante o processo de encontro de fatores ex­
Somente na idade de transição se formaliza definitiva­ ternos e internos, essas conexôes que me são impostas pelo
mente essa função e a criança passa a pensar em conceitos, meio: sabemos como é possível educar a criança para a sel­
partindo de outro sistema de pensamento, das conexões com­ vageria e a crueldade ou para o sentimentalismo. Essas são
Perguntamo-nos: em que se distingue o complexo da as conexões secundárias. E, finalmente, as conexões terciá­
criança? Antes de mais nada, o sistema do complexo é um sis­ rias, que se formam na idade de transição sobre a base da
tema de conexões ordenadas concretas, relacionadas com o autoconsciência e que caracterizam realmente a personali­
que se apóia fundamentalmente na memória. O con­ dade no plano genético e diferencial. Essas conexôes esta­
ceito é um sistema de apreciações, que inclui em si uma rela­ helecem-se sohre a hase da autoconsciência. A elas se refere
ção no que diz respeito a um sistema muito mais amplo. A o mecanismo do "sonho do cafre", descrito acima. O fato de
idade de transição é a idade de estruturação da concepção do que relacionemos conscientemente uma determinada fun­
mundo e da personalidade, do aparecimento da autoconsciên­ ção com outras, de forma que constituam um sistema único
cia e das idéias coerentes sobre o mundo. A hase para esse de comportamento, se produz porque temos plena cons­
fato é o pensamento em conceitos, e para nós toda a expe­ ciência de nosso sonho, de nossa posição diante dele.
riência do homem culto atual, o mundo externo, a realidade Busemann vê uma diferença radical entre a psicologia
externa e nossa realidade interna estão representados em um da criança e a do adolescente: a primeira se caracteriza por
' _ .JI',"',""'''íllllr_
! 1 IIHlíii!iI!!. _WIIIIL'il" IIi

124 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 125

um plano psicológico único de direta; a segunda, pela A esquizofrenia proporciona uma enorme riqueza de
autoconsciência, pela atitude para consigo mesmo a partir dados relacionados ao tema a que estou me referindo. Pro­
de fora, a reflexão, a capacidade não apenas de pensar, mas curarei apresentar o mais importante e mostrar que em sua
também de se dar conta da base do pensamento. ampla diversidade, as formas em que a esquizofrenia se
Em várias ocasiões estaheleceu-se uma relação entre os manifesta procedem da mesma fonte, que têm em sua hase
prohlemas da esquizofrenia e os da idade de transição, um determinado processo interno, capaz de explicar seu
como indica a própria denominação de dementia precox. E, mecanismo de funcionamento. A primeira coisa que se de­
embora na terminologia clínica tenha perdido seu significa­ sintegra no esquizofrênico é a função de formação de con­
I, do inicial, até mesmo autores tão atuais como E. Kretschmer ceitos e somente depois começam as esquisitices. Os esqui­
na Alemanha e P. P. Blonski na União Soviética defendem a zofrênicos caracterizam-se por seu torpor afetivo; modificam
idéia, haseando-se em sua similaridade externa, de que a sua atitude para com a esposa amada, os pais, os filhos. No
idade de transição e a esquizofrenia são a chave, uma da outro extremo, é clássica a descriçào de inabilidade e costu­
outra, já que todos os traços característicos da idade de tran­ mam ser descritos por sua irascihilidade e pela ausência de
sição tamhém se ohservam na esquizofrenia. qualquer tipo de impulso, embora se verifique, como apon­
O que se manifesta na idade de transição de forma con­ ta com correção Bleuler, uma vida afetiva extraordinaria­
fusa chega ao limite na patologia. Kretschmer (1924) expres­ mente aguçada. Quando à esquizofrenia vem se somar qual­
sa-se com maior audácia ainda: nào há diferenças no plano quer outro processo, por exemplo, a arteriosclerose, o qua­
psicológico entre um processo de maturação sexual, que se dro clínico se altera bruscamente, as emoções do esquizo­
produza violentamente, e um processo esquizofrênico, que frênico não se enriquecem, mas somente se modificam suas
transcorra suavemente. Há uma certa parte de verdade nisso manifestações principais.
do ponto de vista da forma externa, mas me parecem falsas Na inabilidade afetiva, quando a vida emocional se
a própria formulação do problema e as conclusões a que empobrece, todo o pensamento do esquizofrênico começa a
chegam os autores. Se estudarmos a psicologia da eSGuizo­ ser regido apenas por seus afetos, como indica I. Storch.
frenia, essas conclusões não se justificam. Trata-se do mesmo distúrbio: uma mudança na correlação
Na verdade, a esquizofrenia e a idade de transição estão entre a vida intelectual e a afetiva. A teoria mais clara e bri­
em relação inversa. Na primeira, observamos a desintegra­ lhante sobre as mudanças patológicas na vida afetiva foi
ção das funções que se criam na idade de transição e ainda desenvolvida por Ch. BlondeI. A essência dessa teoria con­
que se cruzem na mesma estação vão em direções contrá­ siste no seguinte. Quando se manifesta um processo psico­
rias. Na esquizofrenia tropeçamos com um misterioso qua­ lógico alterado (especialmente se não houver imhecilidade),
dro, do ponto de vista psicológico, e nem mesmo nos me­ o que ocorre é, antes de mais nada, a desintegração de
lhores clínicos atuais encontramos explicação para o meca­ todos os sistemas complexos alcançados como resultado da
nismo de formação dos sintomas; é impossível mostrar vida coletiva, a desintegração daqueles sistemas de forma­
como surgem. As discussões entre os clínicos giram em tor­ ção mais recente. As idéias e os sentimentos não variam,
no do que predomina: a pobreza afetiva ou a diasquisia mas todos perdem as funçôes que desempenhavam no siste­
sugerida por E. Bleuler (o que deu lugar ao nome de esqui­ ma complexo. Se para o cafre o sonho estahelecia novas
zofrenia). No entanto, a essência da questão localiza-se nes­ relaçôes em relação ao comportamento futuro, esse sistema
se caso não tanto nas mudanças intelectuais e efetivas, mas se descomporá e aparecerão perturbações, formas de com­
na elevação das conexôes existentes. portamento insólitas. Em outras palavras, a primeira coisa
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126 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 127

que salta à vista no tratamento clínico psiquiátrico das alte­ processo de desenvolvimento ontogenético, as emoções
raçõe:; psicológica:; é a desintegração daqueles sistemas que, humanas entram em conexão com as normas gerais relativas
por um lado, :;e formaram mai:; tarde e, por outro, são de tanto à autoconsciência da personalidade quanto à cons­
origem social. ciência da realidade. Meu desprezo por outra pessoa entra
Esse fato é e:;pecialmente patente na esquizofrenia e em conexão com a valoração dessa pessoa, com a compre­
ainda mais enigmático já que, do ponto de vista formal, se ensão dela. E-é nessa complicada síntese que transcorre
conservam as funções psicológicas: não ocorrem mudanças nossa vida. O desenvolvimento histórico do:; afetos ou das
na memória, na orientação, na percepção, na atenção. A emoções consiste fundamentalmente em que se alteram as
orientação mantém-se e, se um paciente delirante for inter­ conexões iniciai:; em que se produziram e surgem uma nova
rogado com habilidade quando diz estar num palácio, se ordem e novas conexões.
verá que ele sabe perfeitamente onde se encontra na verda­ Já dissemos que, como expressava corretamente Spino­
de. O que caracteriza a esquizofrenia é a conservação das za, o conhecimento de nosso afeto altera este, transforman­
funções em si mesmas e a desintegração do sistema que apa­ do-o de um estado passivo em outro ativo. O fato de eu pen­
rece em certas circunstâncias. Partindo disso, Blondel fala sar coisas que estão fora de mim não altera nada nelas, ao
do transtorno afetivo do esquizofrênico. passo que o fato de pensar nos afetos, situando-os em
A forma de pensar, que junto com o sistema de concei­ outras relações com meu intelecto e outras instâncias, altera
tos nos foi impo:;ta pelo meio que nos rodeia, inclui também muito minha vida psíquica. Em termos simples, nossos afe­
nossos sentimentos. Não sentimos simplesmente: o sentimen­ tos atuam num complicado sistema com nossos conceitos e
to é percebido por nós sob a forma de ciúme, cólera, ultraje, quem não souber que os ciúmes de uma pessoa relacionada
ofensa. Se dizemos que desprezamos alguém, o fato de com os conceitos maometanos da fidelidade da mulher são
nomear os sentimentos faz com que estes variem, já que diferentes dos de outra relacionada com um sistema de con­
mantêm uma certa relação com nossos pensamentos. Com ceitos opostos sobre a mesma coisa, não compreende que
eles sucede algo parecido ao que ocorre com a memória, esse sentimento é histórico, que de fato se altera em meios
quando se transforma em parte interna do processo do pen­ ideológicos e psicológicos distintos apesar de que nele reste
samento e começa a ser denominada memória lógica. Assim sem dúvida um certo radical biológico, em virtude do
como nos é impossível distinguir onde termina a percepção surge essa emoção.
superficial e onde começa a compreensão em relação a um Por conseguinte, as emoções complexas aparecem so­
objeto determinado (na percepção estão sintetizadas, fundi­ mente historicamente e são a combinação de relações que
das, as particularidades estruturais do campo visual e da com­ surgem em conseqüência da vida histórica, combinação que
preensão), também no nível afetivo nunca experimentamos se dá no transcurso do processo evolutivo das emoções. Es­
os ciúmes de maneira pura, pois ao mesmo tempo estamos sa idéia serve de base para os postulados a respeito do que
conscientes de suas conexões conceituais. ocorre na desintegração da consciência devido a uma doen­
A teoria fundamental de Spinoza (911) é a seguinte. ça. São esses os sistemas que se desintegram nesse caso, e
Ele era um determinista e, distinguindo-se os estóicos, afir­ disto decorre a inabilidade afetiva do esquizofrênico. Se
mava que o homem tem poder sobre os afetos, que a razão lhes disserem: "Você nào tem vergonha, só um canalha se
pode alterar a ordem e as conexões das emoçõe:; e fazer comporta assim", permanecerá completamente frio, para ele
com que concordem com a ordem e as conexões dadas isso não constitui uma enorme ofensa. Seus afetos se sepa­
razão, Spinoza manifestava uma atitude genética correta. No raram e agem à margem desse sistema. Também é própria
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128 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 129
do esquizofrênico a atitude oposta: os afetos começam a
consiste na cisão do meio social. O esquizofrênico torna-se
modificar seu pensamento, sendo este um pensamento a
cada vez mais introvertido e sua manifestaçào mais extrema
serviço de interesses e necessidades emocionais.
é o autismo. Todos os sistemas a que nos referimos, que são
Para encerrar o tema da esquizofrenia quero dizer que,
sistemas de origem social, fundam-se na atitude social para
assim como se formam as funções na idade de transição,
consigo mesmo, como dissemos antes, e se caracterizam
essas funções, cuja síntese observamos ao longo dela, se
pelo traslado das relaçôes coletivas para o interior da perso­
desintegram na esquizofrenia, alterando-se e perdendo sua
nalidade. O esquizofrênico, que perdeu as relaçôes sociais
conexão com o pensamento sem que possamos percebê-lo.
com aqueles que o rodeiam, perde-as para consigo mesmo.
Em certa medida, voltaríamos ao estado que existe nos ní­
Como bem disse um clínico, sem fazer disso Um princípio
veis precoces de desenvolvimento, quando é muito difícil
teórico, o esquizofrênico não deixa apenas de compreender
chegar a qualquer afeto. Ofender uma criança de tenra
os demais e de falar com eles, mas deixa de se dirigir a si
idade é muito fácil, mas fazê-lo indicando que as pessoas
mesmo através da linguagem. A desintegração dos sistemas
decentes não agem assim é muito difícil: o caminho é total­
de personalidade construídos socialmente é outro traço da
mente diferente, e o mesmo ocorre na esquizofrenia.
desintegração das relações externas, que são relações inter­
Para resumir tudo isto gostaria de dizer o seguinte: o psicológicas.
estudo dos sistemas e de suas funções é muito instrutivo
não apenas no caso do desenvolvimento e da construção dos
processos psíquicos, mas também no caso de sua desinte­ 4
gração. Esse estudo explica os interessantíssimos processos
de desintegração que observamos em clínica psiquiátrica e Deter-me-ei somente em duas questões.
que surgem sem que desapareçam bruscamente certas fun­
A primeira refere-se a uma conclusão a nosso ver muito
ções, como, por exemplo, a fala nos afásicos. Isso explica
importante sobre tudo que foi dito a respeito dos sistemas
por que alterações tão fortes podem produzir alteraçôes
psicológicos e do cérebro. Devo rejeitar as idéias desenvol­
débeis no cérebro; e explica o paradoxo psicológico de que
vidas por K. Goldstein e A. Gelb de que qualquer função
nas afasias e nas alterações orgânicas globais do cérebro se
psicológica superior mantém uma correlação fisiológica di­
observam alterações psicológicas insignificantes, ao passo
reta tanto com a estrutura fisiológica da função quanto com
que na esquizofrenia, na psicose reativa, nos encontramos
sua vertente psicológica. Mas, em primeiro lugar, exporei
diante de uma desordem total do comportamento em com­
suas idéias. Ambos dizem que nos conceitos dos afásicos se
paração com o de uma pessoa adulta. A chave para com­
altera a função do pensamento que corresponde à função
preender isso está na idéia dos sistemas psicológicos, que
fisiológica básica. Aqui, Goldstein e Gelb incorrem numa
não surgem diretamente da conexão de funções, tal e como
séria contradição com eles mesmos, já que antes afirmaram
aparecem no desenvolvimento do cérebro, mas dos sistemas
no mesmo livro que o afásico retoma ao sistema de pensa­
a que nos referimos. E que as manifestações psicológicas da
mento característico do homem primitivo. Se no afásico se
esquizofrenia, tais como a inabilidade afetiva, a desintegra­
encontra afetada a função fisiológica e este retoma ao nível
ção intelectual, a irritabilidade, encontram aí sua explicação
de pensamento que corresponde ao homem primitivo, deve­
global, sua conexão estrutural.
mos dizer que este último carece de função fisiológica bási­
Gostaria de terminar com o seguinte. Um dos três traços
ca que existe em nós. Ou seja, sem se alterar morfologica­
cardinais da esquizofrenia é a alteração caracterológica, que
mente a estrutura do cérebro também apareceria aqui a fun­
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130 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 131

çào básica, que não existe nos níveis primitivos de desen­ mo uma massa informe e renunciava a reconhecer que suas
volvimento. De que base dispomos para supor que há mi­ distintas não têm o mesmo valor e que desempenham
lhares de anos se produziria no cérebro humano uma reor­ um papel diferente na construçào das psicológicas.
tão radical? Também nisto a teoria de Goldstein e Evidentemente, esse ponto de vista é incongruente. Por
Gelb tropeça em uma dificuldade intransponível. Mas têm posteriormente continuou-se a localizar as funções em dis­
certa razão ao considerarem que qualquer sistema psicológi­ tintos setores do cérebro, distinguindo, por exemplo, a área
co complexo - tanto o sonho do cafre quanto o conceito e a práxica e outras. As áreas estâo relacionadas entre si, e o
autoconsciência da personalidade - é, no fim das contas, que observamos nos processos psíquicos é a atividade con­
produto de determinada estrutura cerebral. Todo o de áreas isoladas. Essa idéia é sem dúvida mais acerta­
ma consiste em o que é que corresponde fisiologicamente da. Estamos diante de uma complexa colaboração entre uma
no cérebro aO pensamento em conceitos. série de zonas distintas. O substrato cerebral dos processos
Para explicar como aparece isso no cérebro basta admi­ psíquicos não é integrado por setores isolados, mas por
tir que este encerra condições e possibilidades de tal combi­ complexos sistemas de todo o aparelho cerebral. Mas o pro­
de funções, de tal síntese nova, de tais sistemas no­ blema consiste no seguinte: se esse sistema aparece
vos. que, em geral não precisam ter se produzido estrutural­ mente na própria estrutura do ou seja, se se
mente de antemão e penso que toda a neurologia atual obri­ nas conexões que existem entre suas diferentes partes,
ga a supor isto. Damo-nos cada vez mais conta da manifesta devemos supor que as conexôes das quais surge o conceito
diversidade e do caráter inconcluso das cerebrais. É já se encontravam previamente na mencionada estrutura. Se
muito mais correto admitir que o cérebro encerra enormes admitirmos que cabem nele outras mais complexas que nào
possibilidades para o aparecimento de novos sistemas. Essa existiam antes, transporemos de imediato esse problema
é a principal premissa. Resolve a pergunta que se formula a para outro
respeito dos trabalhos de Levi-Bruhl, que sustentou na últi­ Permitam-me esclarecer isto mediante um esquema,
ma discussão da filosófica francesa que o homem ainda que muito rudimentar. Na personalidade, unem-se for­
pensa de maneira distinta da nossa. Isto significa mas de comportamento que antes estavam divididas entre
que seu cérebro é diferente do nosso? Ou teremos de admi­ duas pessoas: a ordem e a execução; antes ocorriam em
tir que devido à nova função este último se modificou biolo­ dois um dos quais sobre o outro, digamos
gicamente ou que o espírito o utiliza apenas como instru­ que com a ajuda da palavra. Quando se unem num cérebro,
mento e, por conseguinte, um único instrumento tem muitas temos o seguinte quadro: o ponto A no cérebro nào pode
utilizações, por ser o espírito que se desenvolve, e não o alcançar o ponto B através de uma conexão direta, não se
cérebro? encontra em conexào natural com ele. As possíveis cone­
Na verdade, parece-me que a introdução do conceito de xôes entre partes isoladas do cérebro se estabelecem fora,
sistema psicológico tal como o expusemos oferece-nos a através do sistema nervoso periférico.
possibilidade de formarmos uma idéia das conexões Partindo dessas idéias, podemos compreender uma
reais, das complicadas relações reais que existem nesse caso. série de fatos da patologia, sobretudo aqueles casos em que
Isto também remete, em certa medida, a um dos uma pessoa com sistemas cerebrais lesionados nâo é capaz
mas mais difíceis: o da localização dos sistemas psicológicos de realizar algo diretamente, mas consegue fazê-lo se falar
superiores. Até agora, o assunto foi abordado de duas ma­ disso mesma. Esse quadro clínico é claramente ob­
neiras. O primeiro ponto de vista considerava o cérebro co­ servável nos que padecem do mal de Parkinson. Um
1111111111111 IIII

132 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 133

soniano não consegue dar um passo; mas, se lhe disserem: depois, a extrapsicológica: começo a dizer a mim mesmo; e,
"Dê um passo", ou colocarem um papel no chão, ele conse­ em seguida, a intrapsicológíca: dois pontos do cérebro, que
guirá. Todos sabemos como eles caminham bem pelas esca­ são estimulados de fora, têm tendência a atuar dentro de um
das e como andam mal em um chão plano. Para conduzir o sistema único e se transformam em um ponto intracortical.
paciente ao laboratório é necessário colocar no chão uma Permitam-me deter-me brevemente no destino posterior
série de Quer andar, mas não pode influir sobre sua desses sistemas. Gostaria de mencionar que no plano psico­
motricidade pois esse sistema está destruído. Por que um lógico-diferencial nem eu nem vocês nos distinguimos uns
parkinsoniano consegue andar depois de terem sido coloca­ dos outros por eu possuir um pouco mais de atenção do
dos papéis no chão? Aqui cabem duas explicações. Uma foi que vocês; a diferença caracterológica essencial e
dada por I. D. Sapir': o doente quer levantar a mão quando te na prática na vida social das pessoas encontra-se nas es­
lhe ordenam que o faça, mas esse impulso é insufíciente; truturas, relações, conexôes, de que dispomos entre diver­
quando ligamos o pedido a mais um impulso (visuaI), sos pontos. Quero dizer com isso que o decisivo não é a
levanta-a. O impulso complementar age junto com o princi­ memória, ou a atenção, mas até que ponto o homem faz uso
pal. O quadro pode se apresentar de outro modo. O siste­ dessa que papel desempenha. Já vimos que os
ma que lhe permite levantar a mão está alterado. Mas ele sonhos podem desempenhar um papel central para o cafre.
ligar um ponto do cérebro com outro através de um Para nossa vida psicológica são parasitas que não desempe­
signo externo. nham papel algum de importância. O mesmo ocorre com o
Considero que a segunda hipótese sobre o movimento pensamento. Quantas inteligências estéreis existem que não
dos parkinsonianos seja a correta. Eles estabelecem a cone­ produzem nadar Quantas inteligências que pensam, mas que
xão entre dois pontos de seu cérebro através de um nào agem! Todos se lembram dessa situação quando sabe­
influindo sobre si mesmos a partir de um terminal periférico, mos como é preciso atuar e o fazemos de outra maneira.
o que é confirmado pelos dados experimentais obtidos quan­ Gostaria de indicar que há aqui três planos extraordinaria­
do o enfermo fica esgotado. Se a se reduzisse apenas mente importantes. O primeiro corresponde às classes so­
a que esgotamos o doente até o limite, o efeito do estímulo ciais e psicológicas. Queremos comparar o operário com o
complementar deveria aumentar ou, pelo menos, ser igual à burguês. O fato não consiste, como pensava W. Sombart,
queda, à recuperação, desempenhar o papel de um excitante em que para o burguês o principal a avareza, em que
externo. Um dos autores russos que descreveram pela primei­ tenha havido uma seleção biológica de pessoas avaras para
ra vez os parkinsonianos dizia que o mais importante para o as quais o fundamental é a mesquinhez e a acumulação.
paciente era a excitação ruidosa (tambores, música), mas as Admito que existem muitos operários mais avaros que os
pesquisas posteriores mostraram que nào é assim. Não quero burgueses. A essência da questão não consiste em que o
dizer que ocorre exatamente isso nesses enfermos, mas basta papel social se deduz do caráter mas em que, a partir
chegar à conclusào de que é suficiente, por enquanto, admitir cria-se uma série de conexões caracterológicas. Os traços
essa possibilidade, como continuamente nos é sugerido pelos sociais e de classe formam-se no homem a partir de sistemas
processos de desintegraçào. interiorizados, que nada mais são do que ,os sistemas e rela­
Quaisquer dos sistemas a que me refiro percorrem três çôes sociais entre pessoas trasladados, para a personalidade.
etapas. Primeiro, a interpsicológica: eu ordeno, você executa; É nisto que está baseada a investigação dos processos de
trabalho na orientação profissional: cada profissão um
3. Sapir. Isai Davídovitch (1897-1937). Psiquiatra soviético. determinado sistema de tais conexões. Para um maquinista
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134 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 135

de bonde, por o que realmente importa nào é tanto toda teórica. Parece-me que desse ponto
o fato de possuir mais atenção do que um homem comum, de vista nossos trabalhos sào claros e ocupam seu lugar.
mas o de saber utilizá-la adequadan Careço da força teórica para unir tudo. Apresentei uma ga­
que a atenção ocupe um lugar que no ma muito ampla, mas formulei um conceito geral na quali­
não ocupar e assim por diante. dade de idéia para abarcar tudo. E teria gostado, hoje, de
E, finalmente, nos traços diferenciais e caracterológicos, esclarecer a idéia básica que fui amadurecendo durante vá­
é preciso distinguir fundamentalmente as conexões caracte­ rios anos, mas que finalmente não me decido a dar por con­
rológicas primárias, que ocorrem em uma ou outra propor­ firmada pelos fatos. Nossa próxima tarefa consistirá em dei­
ção, como por exemplo, a constituição esquizóide ou ciclói­ xar clara essa idéia, da forma mais efetiva e detalhada
de, das outras conexões que surgem de modo totalmente vel. Desejaria, baseando-me nos fatos que ~t"~~~U'V"
distinto e que distinguem a pessoa desonesta da honrada, a expressar minha fundamental: não se trata de que
veraz da falsa, a fantasiosa da diligente. Não se trata tanto de as alterações se dêem exclusivamente no seio das
que uma pessoa menos cuidadosa ou mais embusteira mas de que existem nas conexôes e na infinita
que outra, mas que e se desenvolveu na diversidade de formas de estas se manifestarem; que em
um determinado sistema de conexões. K. Lewin diz com uma determinada fase de desenvolvimento aparecem novas
razão que a dos sistemas psicológicos coincide sínteses, novas funções cruciais, novas formas de conexões,
com o desenvolvimento da personalidade. Nos casos mais e que devemos nos interessar pelos sistemas e pela finalida­
elevados, quando nos achamos em presença de individuali­ de dos sistemas. Parece-me que sistemas e finalidade são as
dades humanas que revelam o grau máximo de perfeição duas palavras que devem encerrar o alfa e o ômega de nos­
ética e a mais maravilhosa vida espiritual, encontramo-nos so trabalho mais imediato.
diante de um sistema no qual o todo mantém relação com a
unidade. Spinoza defende uma teoria (que modifíco ligeira­
mente) segundo a qual a alma pode conseguir que todas as
manifestações, todos os estados, se voltem para um mesmo
um sistema com um centro a

do comportamento bumano. Para Spi­

noza, a idéia única é a de Deus ou de natureza. Psico­

isso absolutamente não é necessário. Mas o


bomem pode com certeza reduzir a um sistema não apenas
funções isoladas, mas criar também um centro único para
todo o sistema. Spinoza mostrou esse sistema no plano filo­
sófico; existem pessoas, cuja vida é um modelo de subordi­
nação a um fim, que mostraram na prática que isso é
vel. Resta para a psicologia a tarefa de mostrar como verdade
científica esse tipo de surgimento de um sistema único.
Para terminar, de indicar mais uma vez que
apresentei uma escala de talvez dispersa, mas que,
não obstante, vai de baixo para cima. Omiti quase por com­
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A PSIQUE, A CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE*

As três palavras que encabeçam o título de nosso


ensaio, a psique, a consciência e o inconsciente, não repre­
sentam apenas três questões psicológicas centrais e funda­
mentais, mas são, em grau muito mais elevado, questões
metodológicas, ou seja, questões relativas aos princípios de
estruturação da própria cíência psicológica. T. Lipps expres­
sou-o com precisão em sua conhecida definição do prohle­
ma do suhconsciente, segundo a qual o suhconsciente nào é
tanto uma dimensão psicológica mas um prohlema que afeta
a própria psicolúgia enquanto ciência.
H. Hóffding (1908) subentendia o mesmo quando afir­
mava que a introdução em psicologia do conceito de in­
consciente tem um significado análogo ao da introdução do
conceito de energia potencial em física. É somente a partir
da introdução desse conceito que a psicologia se torna pos­
sível em todo seu sentido como ciência independente,
capaz de unir e coordenar os fatos da experiência em um
determinado sistema subordinado a regularidades concretas.
Quando H. Münsterberg tratou desse mesmo problema esta­
beleceu uma analogia entre o problema do inconsciente em

• "Psíkhika, soznanie, hessoználeJnoe", Não se sabe quando o If'Jbalho


foi escrito, Foi puhlicado pela primeira vez na compilaçáo Elementos de psico­
logia geral (Moscou. 1930),
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138 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 139

psicologia e o da existência da consciência nos animais e caminhos para a construçào de uma psicologia sintética. De
afirma que é impossível decidir qual das diferentes explica­ nossa parte, não enfocaremos essa questão de uma vertente
do problema é a correta se nos basearmos somente em histórica ou crítica, não nos dedicaremos a analisar em sua
Para ele, trata-se de um que é preci­ totalidade os tipos mais importantes de compreensão de
so resolver antes de nos dedicarmos a estudar os fatos. todos esses prohlemas, mas limitaremos desde o princípio
Em outras palavras, a questão de os animais pOSSUÍ1 nossa tarefa a considerar a importância dos três termos no
ou não consciência não pode ser resolvida experimental­ sistema da psicologia científica objetiva.
mente, trata-se de uma questão gnoseológica. E o mesmo Até muito pouco tempo atrás, a possihilidade da psicolo­
ocorre no caso do inconsciente: nenhuma das vivências anor­ dependia do reconhecimento
mais pode servir por si mesma para demonstrar que é neces­ da psique como esfera independente da existência. Ainda é
sária uma explicação psicológica e não fisiológica. Estamos muito corrente a de que o conteúdo e o da
diante de uma questão filosófica que é preciso resolver teori­ ciência psicológica são constituídos pelos fenômenos ou
camente antes de que possamos nos dedicar a explicar fatos pelos processos psíquicos e que, por conseguinte, a lJ1>J,\..UIU­
concretos. gia como ciência independente só é possível se partirmos do
Vemos que tanto correntes quanto sistemas pressuposto filosófico-idealista da independência e da exis­
inteiros se desenvolvem de maneira completamente distinta têm'ia inicial no mesmo plano do espírito e da matéria.
em função das explicações que oferecem sobre os três ter­ É assim que opera a maioria dos sistemas idealistas em
mos que formam o título deste Basta lembrar como à psicologia, procurando emancipá-la de sua natural
a psicanálise, construída sobre o conceito do in­ tendência a unir-se às ciências naturais, do "materialismo
consciente, e compará-la à psicologia sutil" (selwndo exoressào de W, Dilthey) que penetra nela
que estuda exclusivamente fenômenos conscientes. um dos mais importantes
Basta, ainda, lembrar a psicologia objetiva de r. P. Pávlov ou da
e dos behavioristas norte-americanos, que excluem por formulou ultimamente
completo os fenômenos psíquicos do círculo de suas inves­ uma exigência que significa, de fato, que a psicologia deve
tigações e compará-los com os partidários da denominada ser elahorada partindo exclusivamente do método
psicologia compreensiva ou descritiva, cuja única tarefa co. Para Spranger, é evidente que isto pressupõe, obrigato­
consiste em analisar, classificar e descrever os fenômenos riamente, renunciar a qualquer gênero de explicação fisioló­
da vida Dsíquica sem recorrer em absoluto ãs questões da gica em psicologia e optar por explicar os fenômenos psí­
Basta apenas lembrar de quicos partindo deles mesmos.
tudo isso para se convencer de que a questão da Dsi(]ue. do Essa mesma idéia é defendida às vezes inclusive por
consciente e do inconsciente, tem um valor no começo de suas investigações sobre a
determinante para qualquer sistema Pávlov chegou à conclusão de que o ato
destino de nossa ciência depende de como se resolva essa o ardente de comer, é, sem dúvida. um
questão, fundamental para ela. excitante dos centros dos nervos salivares. Como se
Para alguns, deixará de existir por completo, sendo renunciou posteriormente a esse ponto de vista e estabele­
substituída pela atual fisiologia do cérebro ou reflexologia, ceu que, ao estudar o comportamento dos animais e, em
para outros se transformará em psicologia eidética ou feno­ particular, a salivação psíquica, deve-se evitar a referência a
menologia pura do espírito; os terceiros, por fim, buscam os qualquer tipo de ato psíquico. Expressões tais como "o de­
M""""'I'''I,

140 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 141

sejo ardente de comer", "o cachorro lemhrou", "o cachorro Temos, por um lado, a completa negação das possihili­
adivinhou" foram eliminadas por completo de seu lahorató­ dades de estudar a psique e a decisào de ignorá-la, pois seu
rio, estabelecendo-se uma multa especial para aqueles que estudo nos põe no caminho do pensamento desmotivado. O
recorressem durante o trahalho a esse tipo de expressão psi­ que na verdade caracterizaria a vida psíquica seriam seus
cológica para explicar algum ato do animal. intervalos, a falta de uma percepção permanente e constante
Na opinião de Pávlov, quando recorremos a atos psíqui­ de seus elementos, o desaparecimento e o reaparecimento
cos estamos escolhendo o caminho do pensamento intermi­ desses elementos. Por isso, considera-se impossível estahele­
nista, sem motivação, e estamos nos afastando da via rigorosa cer relações causais entre elementos isolados, do que resulta
da ciência natural. Por isso, a via correta tanto para resolver o a necessidade de renunciar à psicologia como disciplina
problema do comportamento como para dominar o compor­ científico-natural. "Do ponto de vista da psicologia - diz
tamento passa, em sua opinião, por uma autêntica fisiologia Münsterherg -, não ocorrem conexões reais nem mesmo
do cérehro, que possa investigar as conexões nervosas e as entre fenômenos completamente conscientes da vida psíqui­
correspondentes conexões de reflexos, assim como as unida­ ca, de modo que tais fenômenos não podem ser as causas de
des de comportamento, sem supor que estejam em ahsoluto algo, nem servir-lhe de explicação. Por isso, na vida interna,
acompanhadas por qualquer fenômeno psíquico. tal e como a considera a psicologia, nào existe uma causali­
r. P. Pávlov demonstrou, e nisso consiste seu grande dade direta, porque a explicação causal só é aplicável aos
mérito, que se pode interpretar o comportamento de um fenômenos psíquicos, que podem ser considerados como um
ponto de vista fisiológico, sem tentar entrar no mundo inter­ complemento dos processos fisiológicos." 0914, p. 631.)
no do animal e que esse comportamento pode ser explicado Portanto, uma das vias nos conduz à completa negação
com exatidão científica e, inclusive, podemos predizer esse da psique e, por conseguinte, da psicologia. Restam outros
comportamento soh determinadas condições, e tudo isso dois caminhos, não menos interessantes, que testemunham
sem necessidade de formarmos uma idéia, nem que seja va­ com igual clareza o heco sem saída a que o desenvolvimen­
ga e distante, das vivências do animal. Dito de outra manei­ to histórico conduziu nossa ciência.
ra, Pávlov mostrou que é possível estudar ohjetiva e fisiolo­ O primeiro deles é a psicologia descritiva, da qual já
gicamente o comportamento, pelo menos do animal, e em falamos. Considera que a psique é uma esfera da realidade
princípio tamhém possivelmente das pessoas. Ou seja, estu­ totalmente isolada, na qual não atua nenhuma das leis da
dar o comportamento ignorando a vida psíquica. matéria e constitui o verdadeiro reino do espírito. Nesse
Ao mesmo tempo, Pávlov, prendendo-se à mesma lógi­ âmbito completamente espiritual são impossíveis todos os
ca que E. Spranger, dá a Deus o que é de Deus e a César o tipos de relação causal; e dentro dele deve-se buscar a com­
que é de César, reservando para a fisiologia o enfoque obje­ preensão, o esclarecimento dos significados, o estabeleci­
tivo do comportamento e para a psicologia o subjetivo. Tam­ mento dos valores. Dentro dele pode-se descrever e dividir
bém para Pávlov o psicológico e o psíquico coincidem por as estruturas, classificá-las e estahelecê-las. Essa psicologia
completo. Como toda a história de nossa ciência tem mos­ descritiva contrapõe-se à explicativa, eliminando por com­
trado, essa questão é completamente insolúvel se partirmos pleto do campo da ciência as tarefas da explicação.
do pressuposto filosófico até agora mantido pela psicolo­ À psicologia descritiva como ciência do espírito se opõe
gia. Criou-se uma situação que parece expressar e resumir a psicologia científico-natural. Assim, mais uma vez a psico­
de forma sumária todo o longo desenvolvimento de nossa logia se cinde em duas partes que não mantêm relação mú­
ciência. tua. Na psicologia descritiva imperam outros procedimentos
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142 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 143

de conhecimento totalmente diferentes: não se pode recor­ A alternativa de Freud consiste em uma tentativa de conti­
rer à indução para estabelecer leis empíricas, mas predomi­ nuar interpretando as conexões e as dependências dos fenô­
na o método analítico ou fenomenológico, o método da menos psíquicos no âmbito do inconsciente e em supor que
apreciaçào sobre o sentido ou a intuição, que permite anali­ por trás dos fenômenos conscientes se encontram os incons­
sar os dados obtidos diretamente da consciência. cientes, que os condicionam e que podem ser reconstruídos
"No campo da consciência - diz E. Husserl - a diferença por meio da análise de suas marcas e da interpretação de suas
entre o fenômeno e a realidade foi destruída." 0911, p. 25.) manifestações. Mas o próprio Spranger faz uma severa ressal­
Nele, toda aparência que parece é realidade. Por isso, esse va a Freud: nessa teoria observa-se um erro teórico curioso.
tipo de psicologia parece-se muito mais com a geometria do Diz que, embora com Freud se tenha superado o materialismo
que qualquer outra ciência natural, como, por exemplo, a fisiológico, continua existindo um materialismo psicológico,
física: e também por isso essa psicologia deverá se transfor­ uma premissa metafísica tácita, a premissa de que a presença
mar na matemática do espírito com que sonhava Dilthey. É de uma atração sexual se explica por si mesma e todas as
evidente que neste caso o psíquico se identifica integral­ outras devem ser interpretadas a partir dela.
mente com o consciente, já que a intuiçào pressupõe a Com efeito, a tentativa de criar uma psicologia com o
conscientizaçào direta das vivências próprias. Mas há ainda a uxílio do conceito de inconsciente tem, nesse caso, duas
um outro método em psicologia que, como indicava E. vertentes: por um lado, tem afinidades com a psicologia idea­
Spranger, obedece também ao princípio que ele mesmo pro­ lista, já que se cumpre o preceito de explicar os fenômenos
põe, embora siga o caminho inverso: o psicológico - psico­ psíquicos a partir deles mesmos; e, por outro, Freud se situa
logicamente. Para essa corrente, o psíquico e o consciente no terreno do materialismo ao introduzir a idéia de um forte
não são sinônimos. O conceito central da psicologia é o determinismo em todas as manifestações psíquicas, cuja
inconsciente, que permite preencher as lacunas da vida psí­ base fica reduzida ao nível orgânico e biológico ou, em ter­
quica, estabelecer as conexões causais que faltam, continuar mos concretos, ao instinto de conservação da espécie.
a descrição dos fenômenos psíquicos para além da mente São, portanto, três as vias que se apresentam: renunciar
mas nos mesmos termos, considerando que a causa deve ter ao estudo da psique (reflexologia), "estudá-la" através do psí­
homogeneidade com a conseqüência, ou pelo menos estar quico (psicologia descritiva) e conhecê-la através do incons­
na mesma linha dela. ciente (Freud). Como veremos, são três sistemas psicológi­
Portanto, mantém-se a possibilidade da existência da cos totalmente distintos, que resultam de diferentes manei­
psicologia como ciência específica. Mas essa tentativa é em ras de ter acesso à compreensão da psique em cada um
grande parte dupla, já que inclui dentro dela duas tendên­ deles. Já dissemos que o desenvolvimento histórico de
cias essencialmente heterogêneas. Spranger tem razão ao nossa ciência conduziu esse problema para um beco sem
afirmar que Freud, principal representante dessa teoria, par­ saída, do qual não há outra forma de sair a não ser renun­
te tacitamente do mesmo princípio que a psicologia com­ ciando ao fundamento filosófico da velha psicologia.
preensiva, ou seja, de que no campo da psicologia o conhe­ Somente um enfoque dialético do problema nos revela
cimento deve ser construído, sempre que possível, de forma que na própria formulação, sem exceção, de todos os pro­
puramente psicológica. Digressões prematuras ou casuais blemas relacionados com a psique, a consciência e o incons­
no campo do anatômico ou do fisiológico, ainda que pos­ ciente havia sido cometido um erro. Em todos os casos esta­
sam descobrir conexões psicofísicas em nível factual, não mos diante de problemas formulados de maneira equivocada
nos ajudarão a compreender nada. e que, por isso, são insolúveis. A profunda diferença entre os
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144 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 145

problemas psíquicos e fisiológicos resulta totalmente insupe­ lista, o psíquico escapava ao processo global de que é parte
rável para o pensamento metafísico, ao passo que a irreduti~ integrante e era considerado como um processo indepen­
bilidade de uns aos outros não constitui obstáculo para o dente que existe paralelamente aos processos
pensamento dialético, acostumado a analisar os processos de sem nenhuma com eles.
desenvolvimento por um lado como processos contínuos e, Em contrapartida, o reconhecimento da unidade desse
por outro, como processos que são acompanhados por sal­ processo psicofisiológico conduz-nos obrüwtoriamente a
tos, pelo aparecimento de novas qualidades. uma metodológica
A psicologia dialética parte, antes de mais nada, datmi­ devemos estudar os processos
dade dos processos psíquicos e fisiológicos. Para a psicolo­ forma
gia dialética a psique não é, como expressara Spinoza, algo
que jaz além da natureza, um Estado dentro de outro, mas
uma parte da própria natureza, ligada diretamente ãs fun­
da matéria altamente organizada de nosso cérebro. e do físico
Assim como o resto da natureza, não foi criada, mas que a pSIque surgiu em
num processo de desenvolvimento. Suas formas embrioná­ um determinado nível de desenvolvimento da matéria orgâ­
rias estão presentes desde o princípio: na própria célula viva nica e, em que os processos psíquicos constituem
mantêm-se as propríedades de mudar sob a influência de uma parte de conjuntos mais complexos, fora
externas e de reagir a elas. dos nâo existem c, portanto, não podem ser estuda-
Em algum lugar, em um determinado nível de desenvol~ não deve nos levar a identificar o psíquico com o físico.
vimento dos produziu-se uma Esta realizou-se por duas vias: uma delas
no dos processos cerebra é característica da corrente da filosofia idealista refletida
por toda a marcha precedente nos trabalhos de E. Mach; outra é própria do materialismü
senvolvimento e, por outro, constituía um salto em seu mecanicista e dos materialistas franceses do século XVTII. O
o surQimento de uma nova último ponto de vista consiste em identificar o processo
com o fisiológico nervoso reduzindo o primeiro a
Se aceitarmos essa história natural da psi­ este último. O resultado disso é que o problema da psique
também a segunda idéia: a psique se anula por completo e se apaga entre () comportamento
nào deve ser considerada como uma série de processos psíquico superior e as formas anteriores de adaptação da
que existem em algum lugar na qualidade de com- psiq ue. O testemunho indiscutível da experiência direta
acima e dos cerebrais, mas como cx- fica destruído, chegando a uma contradição inevitável e
desses mesmos processos, como uma face­ inconciliáv,el com todos os dados, sem exceção, da expe­
uma característica qualitativa especial das fun­ riência psíquica.
superiores do cérebro. Outra identificação, própria do enfoque de Mash, con­
, Por meio da o processo psíquico se separa siste em equiparar a vivência psíquica . por exemplo, a sen­
ou se subtrai do psicofisiológico, mas é apenas no seio sação com o objeto real correspondente. Como se sabe, na
deste que adquire significado e sentido. A impotência da filosofia de Mach, esse tipo de identificaçâo leva ao reco­
velha psicologia para resolver () problema psíquico decorria nhecimento da existência de elementos nos quais não se
em grande parte do fato de que, devido a seu enfoque idea­ pode distinguir o objetivo do subjetivo.
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146 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 147

A psicologia dialética renuncia a ambas as identifica­ que a psicologia deva estudá-los como um processo único e
ções, não confunde os processos integral, tentando, dessa maneira, encontrar uma saída para
cos, reconhece o caráter irredutível da singularidade qualita­ o beco em que se mete. Poderíamos recordar aqui a adver­
tiva da psique e afirma apenas que os processos psicológi­ tência feita por V. I. Lênin no livro Materialismo e empiro­
cos são únicos. Chegamos, por conseguinte, ao reconheci­ criticismo (Obras completas, t. 18, p. 150) sobre uma inter­
mento de processos psicofisiológicos singulares e únicos, pretação errônea dessa fórmula. Lênin afirma que a contra­
que constituem as formas superiores de comportamento do posição entre o psíquico e o físico é completamente neces­
homem, aos quais propomos denominar processos psicoló­ sária, mas dentro dos estritos limites da formula~:ào das tare­
gicos, diferentes dos psíquicos e por analogia aos chamados fas gnoseológicas, e que levar essa contraposição para fora
processos fisiológicos. de tais limites seria um engano.
Poderão facilmente nos perguntar: por que não chamar A dificuldade da psicologia consiste pre-
com esse duplo nome processos que são cisamente em que seu ponto de vista é científico-real, onto-
por sua natureza, como já reconhecemos? Cremos que a e por isso essa contraposi~:ão seria um erro. Assim
consiste em que chamá-los de psicológicos como na análise gnoseológica devemos contrapor rigida­
uma metodológica com a qual abor- mente sensação e objeto, na psicológica não devemos con­
dar aqueles processos que a psicologia estuda e, com isto, trapor o processo psíquico ao fisiológico.
estamos sublinhando a possibilidade e a necessidade de um Tentemos explorar agora, sob essa perspectiva, se a
objetivo único e integral da psicologia como ciência. Junto aceitação dessa tese nos oferece alguma saída para o beco.
com isto e sem que coincida com ele também pode existir o Como se sabe, a psicologia tradicional ainda não encontrou
estudo psicofisiológico: a fisiologia psicológica ou a psicolo­ uma solução para dois problemas: o da
gia fisiológica, que considera como tarefa específica estabe­ ca da psique e o do esclarecimento das
lecer as conexóes e dependências existentes entre os dois atividade cerebral começa a ser acompanhada por fenóme­
gêneros de fenômeno. nos psicológicos. Pessoas tão antagônicas como o
De fato, em nossa psicologia comete-se com V. M. Békhterev e o subjetivista K. Bühler reconhecem que
Essa fór­ nada sabemos da função biológica da psique, mas que não
entre os cabe admitir que a natureza cria dispositivos supérfluos e
e tlSlolbglCO, é muitas vezes interpretada que, como a psique surgiu no processo da evolução, deve
e leva a contrapor o psíquico e o fisiológi­ desempenhar alguma função, mesmo que esta nos seja total­
co, o que, por sua vez, suscita a idéia de que a psicologia mente incompreensível até agora.
dialética deve ser constituída pelo estudo puramente fisioló­ Pensamos que o caráter insolúvel desses
gico dos reflexos condicionados e pela análise introspectiva, decorre de uma formulaçã.o equivocada. É absurdo arrancar

que se unem mecanicamente entre si. Não se poderia conce­ uma determinada qualidade de um processo inte­

ber nada de mais antidialético. se perguntar sobre suas funções como se exis­

A originalidade da psicologia dialética consiste totalmente independente do processo integral

mente na tentativa de determinar de modo é uma propriedade. É absurdo, por exemplo,


novo seu objeto de estudo, que não é outro senão o proces­ de separar do sol seu calor, atribuir-lhe um significado inde­
so integral do comportamento. Este se caracteriza por contar pendente e se perguntar que significado tem e que a\,<lo
tanto com componentes psíquicos quanto fisiológicos, ainda pode exercer esse calor.
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148 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSLCOLOGIA 149

E, no entanto, é precisamente assim que a psicologia fundamental da psicologia dialética consiste precisamente
agiu até agora. Descohriu a vertente psíquica dos fenôme­ em descobrir a conexão significativa entre as partes e o
nos e depois tentou demonstrar que não serve para nada, em saber considerar o processo psíquico em conexão
que essa vertente psíquica é incapaz de produzir por si nica nos limites de um processo integral mais complexo.
mesma a menor mudança na atividade cerebral. A própria Nessa linha G. V. plékhanov 0956, t. 1, p. 75) abriu o
da questào encerra a falsa suposição de que os importante debate sobre se os processos psíquicos podem
fenômenos psíquicos podem influir sobre os cerehrais. É influir nos corporais. Em todos os casos em que se fala da
ahsurdo perguntar se essa qualidade pode atuar sobre um influência dos processos psíquicos (como o terror, uma
do grande angústia, impressões penosas etc.) nos corporais, os
de que entre os processos psíquicos fatos se transmitem, em sua maioria, de forma fiel, mas a
e os cerebrais possam existir inter-relações admite de ante­ interpretação que se dá aos mesmos é falsa. Naturalmente,
mão a idéia da psique como uma forma mecânica em todos esses casos não é a impressão, nem o ato psíquico
que na opinião de uns é capaz de agir sobre os processos em si (o ardente desejo de comer, como dizia Pávlov) que
cerehrais e, na opinião de outros, pode fazê-lo apenas de inl1uenciam os nervos, mas é o processo fisiológico corres­
forma paralela. Tanto a doutrina do paralelismo quanto a da pondente a essa impressão, que constitui com ela um todo,
ação recíproca encerram essa falsa premissa. Somente o que conduz ao resultado de que falamos.
conceito monista da psique permite formular de forma total­ No mesmo sentido, A. N. Siévertsov' fala da psique co­
mente diferente a questão de seu de adaptação dos animais,

Repetimos mais uma vez: se separarmos a psique dos se, na veroaae, não aos processos psíquicos, mas aos

processos de que é parte integrante, não cabe perguntar para lógicos no sentido que explicamos acima.

que serve, que papel desempenha no processo da vida. a idéia da mecânica da no


De fato, existe um processo psíquico dentro de uma Os velhos

ração complexa, dentro de um processo único de compo psicólogos consideram-na como uma que

menta, e se quisermos compreender a função biológica da existe junto com os processos cerebrais. Com isso estamos

psique devemos nos perguntar sohre esse processo em sua chegando ao ponto central de nosso
totalidade: que função cumprem na adaptação essas formas Como já indicamos anteriormente, Husserl toma como

de comportamento? Ou, dito de outra maneira, devemos nos ponto de partida a tese de que na psique elimina-se a dife­

perguntar sobre () significado biológico não dos processos rença entre fenômeno e existência: basta admitir isto para

psíquicos, mas dos psicológicos, e então o insolúvel proble­ que cheguemos, por uma lógica inevitável, à

ma da psique, que, por um lado, nào pode ser um epifenô­ gia, pois então na psique não existe entre o que

meno, um apêndice supérl1uo e, por outro, não pode se des­ parece e o que é. O que parece o fenômeno é precisa­
locar nem um milímetro do cérebro, lerá sido resolvido.
Como diz Koffka, os processos psíquicos indicam com 1. Siévcrtsov, Aleksi('i Nikoláicvitch 0866-1936\ Biológo SOVlenco Em

antecipação as complexas psicofisiológicas de seu trahalho Evolllçào e psique (922) analisa os procedimentos de adaptaç~l()

do organismo ao meio mediante mudanças no comportamento dos animais

que eles mesmos fazem parte. Esse ponto de vista monísta sem que se altere sua organização. Os mecanismos individuais do comporta­

consiste precisamenLe em analisar um fenômeno em mento, ao alcançarem seu grau máximo ele desenvolvimento no homem, asse­

sua totalidade como uma e suas partes como guram sua ,Idaptaçào :1 quaisquer condições de existência e dão lugar ii cria·

elementos orgânicos da mesma. Por a tarefa çáo do chamado meio artificial- () meio da cultura e da civilização. (N.KIU

IUnlll 111111;;; ;~jii;;; ,,1111111

150 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 151

mente a verdadeira essência. Resta-nos apenas constatar es­ Pode parecer-nos que fazemos algo por uma causa determi­
sa essência, analisá-Ia, diferenciá-Ia e sistematizá-la, mas mas na realidade a causa é outra. Podemos supor,
aqui a ciência de caráter empírico nada tem a fazer. com toda a convicção que nos dá a vivência direta, que go­
K. Marx diz, em relação a um problema análogo: "\ ...} se zamos de liberdade de vontade e nos equivocarmos cruel­
a essência das coisas e sua forma de se manifestar coincidis­ mente a esse respeito. Chegamos com isso a outro problema
sem diretamente, toda ciência seria supérflua" (K. Marx e F. central da psicologia.
Engels, Obras, t. 25, parte lI, p. Com efeito, se as coisas A velha psicologia identifica psique e consciência. Por
fossem diretamente o que parecem, nào seria necessária ne­ conseguinte, todo o psíquico era ao mesmo tempo cons­
nhuma pesquisa científica. Essas coisas deveriam ser registra­ ciente. Por exemplo, os psicólogos F. Brentano, A. Bain e
das, contadas, mas não pesquisadas. Situaçào análoga é criada outros afirmavam que a questão da existência de fenômenos
na psicologia, quando se nega a diferença entre o fenômeno e psíquicos inconscientes era contraditória em sua própria
a realidade. Onde esta coincide diretamente com o fenômeno definição. A propriedade primeira e mais direta do psíquico
não há lugar para a ciência, apenas para a fenomenologia. é que temos consciência disso, o vivemos, é-nos dado na
Pela interpretação tradicional da psique era totalmente experiência direta interior, e por isso a própria expressão de
impossível sair desse atoleiro. Era absurdo até mesmo for­ "psique inconsciente" parecia aos velhos autores tão absur­
mular a questão de qual a distinção que se deve fazer na da quanto a de "quadrado redondo" ou seca".
psique entre fenômeno e existência. Mas, uma vez mudada Outros autores, ao contrário, havia muito se concentra­
a perspectiva, no sentido de que os processos psicológicos vam em três fatos principais, que os obrigara a introduzir
substituíram os psíquicos, podemos também aplicar em em psicologia o conceito de inconsciente.
esse critério de L. Feuerbach: nem mesmo no pensa­ O primeiro fato consistia em que a própria consciência
mento se destruiu a diferença entre fenômeno e realidade; dos fenômenos tem graus diversos: alguns vivem-nos mais
também no pensamento é preciso distinguir entre o per~a­ consciente e claramente, outros, menos. Existem coisas que
mento e o pensamento do pensamento. se encontram quase no próprio limite da consciência e que
Se levarmos em conta que o objeto da psicologia é o entram e saem de seu campo com muita facilidade, existem
processo psicofisiológico integral do comportamento, pare­ coisas das quais temos uma vaga consciência, existem im­
ce evidente que nào se pode definir este como um compo­ pressões vivas, ligadas mais ou menos estreitamente ao sis­
nente exclusivamente psíquico, que seja além disso inter­ tema real de vivências, por exemplo, os sonhos. Por conse­
pretado por uma determinada autopercepção. De fato, a in­ afirmavam o fenômeno não se transforma em
trospecção nos proporciona sempre dados da autoconsciên­ menos psíquico pelo fato de se tornar menos consciente. A
cia que podem deformar, ou inevitavelmente o fazem, os partir daí chegavam à conclusào de que é possível admitir
dados da consciência. Estes últimos, por sua vez, nunca des­ também fenômenos psíquicos inconscientes.
vendam por completo e diretamente as propriedades e ten­ Outro fato consiste em que dentro da própria vida psí­
dências de todo o processo integral de que fazem parte. As quica se manifesta um certo confronto de diferentes elemen­
relações entre os dados da autoconsciência e a consciência, tos, a luta para entrar no campo da consciência, o desloca­
entre os desta e o processo sào idênticas às relações entre o mento de uns elementos por outros, a tendência à renova­
fenômeno e a realidade. ção, às vezes a repetição inoportuna e assim por diante.
A nova psicologia afirma rotundamente que tampouco J. Herbart, que reduzia a vida psíquica à complicada mecâ­
no mundo da psique coincidem o fenômeno e a realidade. nica das representações, distinguia também as representa­
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152 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 153

çôes mascaradas ou inconscientes, que apareciam em decor­ so e no comportamento, onde surgem os processos psicoló­
rência de seu deslocamento do campo da consciência clara gicos integrais, e não buscar finalmente o surgimento dos
e continuavam existindo sob o limiar da consciência como processos no seio dos processos nervosos.
uma tendência à representação. Aí se encontra, por um Quem mais se aproxima disso é quando compa­
lado, de forma embrionária, a teoria de S. Freud, segundo a ra a consciência com uma mancha luminosa que se move
o inconsciente surge do deslocamento, e, por outro pela superfície dos hemisférios de acordo com a
a teoria de H. Hoffding, para quem o inconsciente cor­ excitação nervosa ótima 0951, p. 248).
responde à energia potencial em física. Na psicologia tradicional, a questão principal no pro­
O terceiro fato consiste no seguinte. A vida hlema do inconsciente consistia em reconhecer o incons­
como já foi dito, supõe uma série de fenômenos excessiva­ ciente como psíquico ou como algo fisiológico. Autores
mente fragmentários, que exigem, naturalmente, admitir como H. Münsterberg, T. Ribot e outros, que não viam outra
que continuam existindo inclusive quando nào temos mais possibíBdade de explicar os fenômenos psíquicos a não ser
consciência deles. Vi algo; depois, passado certo tempo, através da fisiologia, manifestavam-se abertamente a favor
lembro disso e surge a pergunta: o que aconteceu com a do reconhecimento fisiológico do inconsciente.
representação desse durante o tempo em que não Assim, Münsterberg (914) afirma que não existe ne­
me lembrava dele? A nunca colocou em dúvida nhum traço entre os que são atribuídos aos fenômenos
que no cérebro se conserva um certo rasto mas inconscientes em que alguém possa se basear para poder
correspondia o fenômeno ootencial a esse rasto? Muitos incluí-los entre os psíquicos. Em sua opinião, nem mesmo
pensavam que sim. casos em que os processos subconscientes mos­
A partir daqui coloca-se uma questão muito complexa, tram uma manifesta utilidade, existem fundamentos para
pois desconhecemos até agora as condiçôes em que a cons­ atribuir a eles uma natureza psíquica. A atividade cerebral
ciência começa a acompanhar os processos cerebrais. Assim fisiológica, diz ele, nào apenas pode dar resultados franca­
como no caso do significado biológico da psique, a dificul­ mente racionais, mas é a única capaz de fazê-lo. A atividade
dade do problema está em sua falsa formulação. Não se psíquica é totalmente incapaz disso; por isso, Münsterberg
pode perguntar em que condições começa o processo psí­ chega à conclusão geral de que o inconsciente é um proces­
quico a acompanhar o nervoso, porque, em os pro­ so fisiolóQ;ico e que essa explicação não deixa lugar a te 0­
cessos nervosos não são acompanhados às quais é fácil partindo do conceito da
mas estes formam parte de um processo integral mais com­ subconsciente. Em suas próprias palavras, um
plexo, do qual também faz parte, de maneira orgânica, o dos méritos não menos da
nervoso. ca científica consiste precisamente em que serve de barreira
Por exemplo, V. M. Békhterev (926) supunha que so­ contra a penetração dessa pseudofilosofia. No entanto, Müns­
mente auando a corrente, ao se expandir pelo terherg admite que se deve utilizar a terminologia psicológi­
tropeça com um obstáculo ou encontra uma dificul­ ca na investigação do inconsciente, com a condição de que
somente então a consciência começa a trabalhar. Na os termm; sirvam apenas de etiqueta para processos fisioló­
verdade, a pergunta tem de ser feita de outra forma: em que nervosos extremamente complexos. Münsterberg afir­
condiçôes sUl.'gem os complexos processos caracterizados ma que, em termos concretos, se tivesse que escrever a his­
pela presença neles da parte psíquica? Portanto, é preciso tória de uma mulher na qual se observara um desdobramen­
buscar determinadas condiçôes conjuntas no sistema nervo­ to de consciência, consideraria todos os processos subcons­
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154 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 155

cientes como fisiológicos, mas para maior comodidade e te caso o inconsciente não oferece uma explicação realmen­
clareza os descreveria no idioma da psicologia. te científica.
Em uma coisa Münsterberg tem indubitavelmente razão. Não se compreende como essa coisa irreal exerce ao
A explicação fisiológica do subconsciente fecha as portas mesmo tempo uma influência tão claramente real como é
para as teorias místicas, ao passo que, em contrapartida, o um ato obsessivo. O problema merece ser estudado, pois,
reconhecimento de que o subconsciente é psíquico leva de entre todas as concepções do inconsciente, a teoria de Freud
fato, com freqüência, como no caso de E. Hartmann, a uma é uma das mais complexas. Como veremos, para Freud o
teoria mística, que admite a existência da personalidade inconsciente é, por um lado, algo real, que de fato provoca
consciente junto com a do segundo "ego", construído de um ato obsessivo, não é simplesmente uma etiqueta ou uma
acordo com a mesma imagem, e que, falando com proprie­ forma de expressão. Nisto parece estar decisivamente contra
dade, é a reencarnação da velha idéia de alma, só que numa a tese de Münsterberg, mas, por outro lado, não explica
nova e mais confusa redação. qual é a natureza desse algo inconsciente.
Para que nosso resumo seja completo e para que se Em nossa opinião neste caso Freud criou um conceito
possa avaliar adequamente a nova proposta de solução, de­ difícil de conceber visualmente, algo que também se dá com
vemos lembrar que a velha psicologia ainda dispõe de um freqüência nas teorias físicas. A idéia do inconsciente, afir­
terceiro caminho para explicar o problema do inconsciente, ma Freud, é, de fato, tão impossível quanto o é a do éter
precisamente o escolhido por Freud. Já falamos da dualida­ sem gravidade que não produz atrito. É tão inconcebível
de do mesmo. Freud não resolve a questão principal, insolú­ como o conceito matemático "-1". Em minha opinião, pode­
vel na verdade, de se o inconsciente é ou não psíquico. Diz mos utilizar tais conceitos; mas é preciso compreender que
que ao investigar o comportamento e as vivências dos doen­ nos referimos a conceitos abstratos, não a fatos.
tes nervosos tropeça com determinadas lacunas, com cone­ Mas é precisamente este o ponto fraco da psicanálise a
xões omitidas, esquecimentos, que conseguia reestabelecer que se referia E. Spranger. Para Freud o inconsciente é, por
por meio da análise. um lado, um procedimento para descrever fatos conhecidos,
Freud fala de uma paciente que realizava atos obsessi­ ou seja, um sistema de conceitos convencionais; por outro
vos, cujo significado era desconhecido para ela. A análise lado, no entanto, insiste em que o inconsciente é um fato
descobriu as premissas de onde derivavam esses atos in­ que exerce uma influência tão clara como um ato obsessivo.
conscientes. Nas palavras de Freud, comportava-se exata­ O próprio Freud afirma em outro livro que substituiria com
mente da mesma maneira que a pessoa hipnotizada a quem prazer todos esses termos psicológicos por outros fisiológi­
H. Bernheim sugestionara J'lara que cinco minutos depois de cos, mas que a fisiologia atual não lhe permite dispor dos
despertar abrisse um guarda-chuva na sala, e que cumpria conceitos necessários.
essa sugestão estando desperta, sem ser capaz de explicar o A nosso ver, esse é o mesmo ponto de vista expresso de
motivo de sua ação. Ante semelhante estado de coisas, forma conseqüente por E. Dale, quando defende que as
Freud fala da existência de processos espirituais inconscien­ conexões psíquicas e os atos ou os fenômenos devem ser
tes. Freud afirma estar disposto a renunciar ã hipótese de explicados partindo precisamente de conexões e atos psíqui­
sua existência somente se alguém for capaz de descrever cos, mesmo que para isso às vezes seja necessário recorrer a
esses fatos com maior rigor científico; até lá continuará hipóteses de certa amplitude. Por isto, as interpretações e
insistindo nessa tese e encolhe os ombros surpreso, renun­ analogias fisiológicas podem apenas ter um valor auxiliar ou
ciando a compreender, quando lhe replicam que no presen­ provisoriamente heurístico para as tarefas explicativas e hi­
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156 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 157

póteses da psicologia; as teorias e hipóteses psicológicas te. É aqui justamente que se situa o problema. A última per­
representam apenas a continuação mental da descrição de gunta pode ser formulada assim: admitamos que o incons­
fenômenos homogêneos no mesmo sistema independente da ciente é psíquico e goza de todas suas propriedades, embora
realidade. Portanto, as tarefas da psicologia como ciência não constitua uma vivência consciente. Mas, será que tam­
independente e as exigências teórico-cognitivas lhe atribuem bém o fenômeno psíquico consciente pode produzir direta­
a obrigação de combater as tentativas usurpadoras da fisiolo­ mente ações? Porque, como já dissemos, em todos os casos
gia, de não se desconcertar com as lacunas e intervalos reais em que se atribui uma ação aos fenômenos psíquicos, dize­
ou imaginários no âmbito de nossa vida espiritual consciente mos que esta foi realizada pelo processo psicofisiológico
e tentar preenchê-los nos elos ou modificações do psíquico, integral e não apenas por sua parte psíquica. Por conseguin­
que não são objeto da consciência total, direta e permanen­ te, o próprio caráter do inconsciente, que consiste em innuir
te, ou seja, nos elementos do que denomina subconsciente, nos processos conscientes e no comportamento, exige que
pouco consciente ou inconsciente. seja reconhecido como um fenômeno psicofisiológico.
No entanto, na psicologia dialética o problema do in­ Outro problema que se nos apresenta é que para des­
consciente se coloca de uma forma totalmente distinta: era crever determinados fatos temos de empregar conceitos que
natural que a questão "é psíquico ou fisiológico?" se formu­ correspondam à natureza deles. Para resolvê-lo, o ponto de
lasse ali onde o psíquico era considerado como absolutamen­ vista dialético afirma que o inconsciente não é nem psíquico
te desgarrado dos processos psicológicos e de qualquer fenô­ nem fisiológico, mas psicofisiológico, ou, sendo mais exa­
meno. No segundo caso, o problema do inconsciente se tos, psicológico. Essa definição ajusta-se à autêntica nature­
resolvia de acordo com a linha de Pávlov; no primeiro, de za e ãs autênticas características do objeto, já que considera­
acordo com a da psicologia compreensiva. Hartmann e Müns­ mos todos os fenômenos de comportamento como proces­
terberg são, em relação ao campo do inconsciente, compará­ sos integrais.
veis a Husserl e Pávlov em relação à psicologia geral. Gostaríamos de assinalar também que em muitas oca­
Para nós é importante formular a pergunta assim: é psi­ siões já se havia tentado sair do atoleiro da psicologia tradi­
cológico o inconsciente e pode ser considerado dentro de cional provocado pela incapacidade desta de resolver os
outros fenômenos homogêneos como mais um aspecto dos principais problemas da psique e da consciência. Por exem­
processos de comportamento junto com os processos psico­ plo, W. Stern procurou encontrar uma saída recorrendo ao
lógicos a que nos referimos antes? Também a esta pergunta conceito de funções psicofísicas e processos neutros, isto é,
já respondemos acima ao analisarmos a psique, e afirmáva­ processos que não eram nem físicos nem psíquicos, mas
mos que é preciso considerar esta (a psique) como parte que estavam além dessa separação.
integrante de um processo complexo que não se limita em Mas, na verdade, só existe o psíquico e o físico, e o
absoluto a sua vertente consciente; por isso, consideramos neutro pode não passar de uma solução de compromisso.
que em psicologia é completamente lícito falar do psicologi­ Parece evidente que essa construção nos afasta definitiva­
camente consciente e inconsciente: o inconsciente é poten­ mente do autêntico objeto da psicologia, pois este existe
cialmente consciente. realmente e somente a psicologia dialética é capaz de indi­
Gostaríamos de assinalar a diferença entre esse ponto de car a saída ao afirmar que o objeto da psicologia não é cons­
vista e o de Freud. Para este, o conceito de inconsciente é, tituído pelo fenômeno psicológico neutro, mas pelo fenô­
como já dissemos, por um lado, um procedimento de descri­ meno psicofisiológico integral único, que convencionalmen­
ção dos atos e, por outro, algo real, que gera atos diretamen- te denominamos fenômeno psicológico.
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TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 159


158

A tentativa de Stern e outras parecidas são importantes nas uma questão de dogma, revivem e se transformam em
no sentido de que desejam acabar com o pressuposto sus­ tema de investigação na' nova psicologia.
tentado pela velha psicologia, de que entre o psíquico e o Tomemos outro aspecto do extremo oposto da psicolo­
psicológico se pode colocar um sinal de igualdade, e no gia, mas que mostra com igual clareza o mesmo. A psicologia
sentido de que mostram que o objeto da psicologia não é objetiva procurou, através da obra de]. Watson (1926), abor­
dar o problema do inconsciente. Esse autor distingue o com­
constituído pelos fenômenos psíquicos, mas por algo mais
portamento verbalizado e o não-verbalizado e afirma que
complexo e integral, em cuja composição () psíquico só
uma parte dos processos comportamentais desde o princí­
intervém como um membro orgânico, e que poderia ser
pio acompanhados de palavras pode ser provocada ou subs­
denominado psicológico. É por sua descoberta desse fato
tituída por processos verbais. Essa parte é controlada por
que a abordagem de Stern difere de forma decisiva de todas
nós, como diz Békhterev. A outra não é verbal, não mantém
as outras tentativas. relação com as palavras e, portanto, escapa a nosso contro­
Como conclusão, gostaríamos de assinalar que todas as le. A conexão do comportamento com a palavra já foi des­
conquistas, tanto da psicologia subjetiva quanto da objetiva, crita há tempo por Freud, que indicava como inconscientes
são incorporadas de fato pela nova formulação do problema precisamente aquelas representações alheias à palavra.
apresentada pela psicologia dialética. A estreita conexão entre a verhalização e a consciência
Assinalemos um primeiro aspecto: a psicologia subjeti­ de tais ou quais processos tamhém foi mencionada por al­
va descobriu uma série de propriedades dos fenômenos psí­ guns críticos de Freud, que se inclinavam a equiparar o
quicos, que somente essa nova formulação pode realmente inconsciente com o associaI e o associaI com o não-verbal.
explicar e avaliar adequadamente. Assim, a velha psicologia Watson também vê na verbalização a principal diferença do
descrevia como propriedades diferenciadoras específicas consciente. Afirma categoricamente: tudo que Freud deno­
dos fenômenos psíquicos sua espontaneidade, o procedi­ mina de inconsciente é, em essência, não-verbal. Dessa tese,
mento original para conhecê-los (a introspecção) ou a atitu­ Watson extrai duas conclusões altamente curiosas. Con­
de, mais ou menos próxima da personalidade, o "eu" e as­ forme a primeira, não podemos nos lembrar dos aconteci­
sim por diante. F. Brentano formulou como traço principal mentos mais remotos da infância precisamente porque ocor­
dos fenômenos psíquicos sua relação intencional com o reram quando nosso comportamento ainda não estava ver­
objeto ou o fato de que mantêm com este uma relação espe­ balizado e por isso a parte mais precoce de nossa vida será
cífica característica apenas dos fenômenos psíquicos, ou sempre inconsciente para nós. A segunda conclusão assinala
seja, que representam esse objeto ou estão ligados a ele de o ponto fraco da psicanálise, que consiste precisamente em

maneira singular. que por meio da conversa, ou seja, por meio das reaçôes

Deixando de lado como traço claramente negativo o verbais, o médico procura interferir em processos incons­

traço da espontaneidade, vemos que na nova formulação da cientes, isto é, não-verbais.

questão todas as propriedades (como a singular representa­ Não queremos dizer agora que essas teses de Watson

ção do objeto no fenômeno psíquico, a especial conexão sejam absolutamente corretas, ou que devam servir de pon­

dos fenômenos psíquicos com a personalidade, o acesso, to de partida para a análise do problema do inconsciente;

restrito ao sujeito, de sua observação ou de suas vivências) gostaríamos apenas de assinalar que o germe positivo

constituem importantes características funcionais desses pro­ encerrado nessa conexào entre o inconsciente e o não-ver­

cessos psicológicos, consideradas específicas do psíquico. bal (também apontada por outros autores) só pode ser ple­

Todos esses aspectos, que para a velha psicologia eram ape­ namente desenvolvida com base na psicologia dialética.

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DESENVOLVIMENTO DA MEMÓRIA*
(PREFÁCIO AO LIVRO DE A. N. LEÓNTIEV)

A psicologia científica atual sofre em sua própria


base metodológica uma profunda crise, que veio se incu­
bando ao longo de todo seu desenvolvimento histórico. É
uma crise que repercute em todas e cada uma das pesquisas
psicológicas, tão plenamente e com tanta força, que deve
sem dúvida levar ao começo de uma nOva época nessa ciên­
cia e implica a impossibilidade de que possa continuar se
desenvolvendo em seu antigo leito. Qualquer que seja a fu­
tura psicologia, nào poderá ser de forma alguma uma nova
continuação direta da antiga. Por isso, a crise significa um
ponto de inflexão na história de sua evolução e sua dificul­
dade consiste em que aparecem entrelaçados numa extrava­
gante e complicada meada tanto traços da psicologia passa­
da quanto da futura, de modo qHe a tarefa de desembaraçá­
la apresenta muitas vezes enormes dificuldades e exige uma
investigação histórica, metodológica e crítica dedicada espe­
cificamente a esse problema.
Como já dissemos, a crise adota um caráter tão univer­
sal que não existe problema de certa importância na psico­
logia que não tenha sido afetado por ela. É evidente que ca­
da tópico da psicologia científica a vive a sua maneira. Cada

• "Predislovie k knigue A. N. Leónlieva Razvitie pámiatí". Escrito (' puhli­


cado em 1931 (Moscou, Leningrado).
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162 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

se expressa de uma maneira específica e recebe

uma determinada interpretação em do caráter do pro­

blema investigado e das mudanças históricas por que pas­

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PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA

Esta mesma luta entre tendências tão inconciliáveis


determinou, no fundamental, o destino das investigações
sobre a memória em psicologia. De acordo com a correta
163

observação de H. Münsterberg, a psicologia teleológica rara­


sou. Apesar disso, a natureza metodológica da crise conti­

nua, de fato, sendo a mesma, à margem da ampla variedade


mente se manifesta de forma realmente pura e
de suas manifesta~:ôes, de toda a riqueza que mostra em
Na maioria das vezes aparece misturada exteriormente e de
sua refraç:ão quando passa através dos diferentes maneira a elementos da psicologia causal. Nesse
caso, descreve, por exemplo, os processos da memória
dos distintos problemas investigados. Por
como causais e os sensíveis e volitivos como intencionais,
luz da crise que abarca o

um deslocamento que provém facilmente da influência das


pontos de partida, o método e a formulação da questão,

concepções ingênuas da vida cotidiana.


que se pode compreender e abordar metodologicamente

E, com efeito, em geral os processos da memória em


não apenas a tentativa de definir em as bases e o sis­

psicologia eram tratados do ponto de vista da psicologia


tema dos conhecimentos psicológicos, mas também cada

científico-natural, causal. A valiosa idéia por E.


investigação concreta dedicada a algum problema psicoló­

Hering de que a memória é a propriedade geral da matéria


gico específico. e uma série de investigações que se desenvolve­
Não constitui uma exceção a essa regra o problema pa­ ram ImpULsionadas por esse pensamento estào na origem
ra o qual se volta a investigação de A. N. Leóntiev, à da corrente materialista espontânea na doutrina da memó­
servem de introdução estas linhas. De a memona é um ria dentro da dupla corrente mista da psicologia empírica.
~~.~,.,.~" de tal calibre que nele aparecem com
Nào é estranho, portanto, que o ponto de vista fisiológico
maior precisão e clareza os principais traços da crise. extremo em psicologia, que havia encontrado sua máxima
Como se o conteúdo fundamental da crise psico­ expressão na corrente associacionista e que dera lugar ao
lógica é a luta entre duas tendências inconciliáveis e radical­ aparecimento da psicologia da conduta e da
mente diferentes, que ao longo da evolução da psicologia, e transformasse o problema da memória em seu tema
entrelaçadas de diferentes formas, serviram de base para a do e centraL
ciência psicológica. Atualmente, os representantes mais lúci­ como ocorre reiteradamente na história do saber, a
dos da psicologia já estão bem conscientes dessas tendências existência desse ponto de vista obrigou a que no
e também compreenderam, em sua grande maioria, que não outro pólo começassem a se acumular sobre a memória
é possível nenhum compromisso entre elas. Um reduzido idéias de caráter totalmente oposto. As regularidades psico­
número de audazes pensadores começa a se dar conta de lógicas especiais da memória, as formas e procedimentos de
que a psicologia há de encontrar no caminho de seu desen­ seu funcionamento, especialmente humanos, nào podiam
volvimento um momento de virada decisiva, relacionada obter, é evidente, uma razoavelmente satisfatória
com a renúncia radical às duas tendências que até agora em uma formulação totalmente analítica do problema, que
dirigiram sua evolução e determinaram seu conteúdo. final da na redução das formas
Essa crise se expressa fundamentalmente no pressupos­
to, falso, de duas psicologias: a l.
f:,.'
da memória a suas formas inferiores, primárias,
a sua base orgânica geral e à dissolução da
e a teleo
teóricas não relacionadas entre si e totalmente independen­
tes uma da outra. i" ',
~r~
totalidade do problema em uma concepção vaga, indetermi­
nada, difusa, que se encontrava quase nos limites da metafí­
sica, do "mnemo" como capacidade universal da matéria.

1 I.
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164 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 165

Por conseguinte, o materialismo metafísico levou obri­ do cérebro, e a diferença entre percepção e lembrança é
gatoriamente a que no pólo oposto, seguindo esse caminho somente de intensidade; para a outra, a memória é algo dis­
de forma conseqüente, aparecesse uma metafísica idealista. tinto de uma funçào do cérebro, e a percepçào e a lembran­
Essa concepção idealista da memória superior encon­ ça se distinguem não apenas quantitativa, mas qualitativa­
trou sua mais alta expressão no conhecido trabalho de E. mente. O próprio Bergson é partidário da segunda teoria.
KPre<",,,n "Matéria e memória", no qual essa condicionalida­ Para ele, a memória é algo distinto de uma função do cére­
de mútua entre os pontos de vista mecanicista e idealista se bro. É algo "absolutamente independente da matéria". "Com
manifesta com maior clareza. Quando analisa a a memória entramos, na verdade, no campo do espírito",
memória motora, que serve de base para a do cos­ assim formula sua idéia fundamental. O cérebro é simples­
tume, parte da impossibilidade de subordinar a atividade da mente um instrumento que permite que se revele essa ativi­
memória humana em seu conjunto às regularidades desse dade puramente espiritual. Todos os fatos e todas as analo­
tipo de memória. Das leis do costume não se podem dedu­ gias falam, de seu ponto de vista, a favor da teoria que con­
zir e explicar as funções de lembrança: este é o nervo ocul­ sidera o cérebro como algo mais do que um intermediário
to, mas central, de toda a teoría, sua premissa fundamental, entre as e os movimentos.
sua única base real, sobre a qual se mantém e junto com a Vemos, portanto, que o enfoque dualista predomina na
qual cai. É disso que decorre sua doutrina das duas memó­ psicologia, encontra sua melhor expressão na doutrina das
rias: a do cérebro e a do duas memórias e vemos, na seqüência, como este dualismo
Nessa teoria da qual um dos principais argumentos é o conduz irreversivelmente, de cima a baixo, à concepção idea­
critério mecanicista conseqüente sobre a memória orgânica ­
o dualismo, característico de toda sua psicologia e da memó­
ria em particular, adquire uma fundamentação metafísica.
Para Bergson, como bom behaviorista conseqüente, o cére­
bro é simplesmente um aparelho para a conexão entre os
• lista da memória, à teoria de Bergson da memória do espírito,
absolutamente independente da matéria, ou à teoria da
memória genética e universal, à teoria mnemônica de Semon.
Ao se estudarem as investigações psicológicas da me­
mória orientadas nesse sentido, come~~a a parecer que esses
impulsos internos e os movimentos do corpo. Em nossa opi­
trabalhos pertencem a uma época da investigação
nião, diz ele, o cérebro não passa de uma espécie de central
há muito ultrapassada, na qual o método histórico era alheio
cujo papel é o de dar uma linha ou obrigar a es­
a todas as ciências e na qual A. Comte já percebia o papel
perar. O desenvolvimento do sistema nervoso consiste
privilegiado que a sociologia desempenhar com o
somente em que os pontos do espaço, que se conectam com
os mecanismos motores, se tornam cada vez mais numero­ recurso a este método. Porque o método histórico do pensa­
sos, distantes e complicados. Mas o papel essencial do siste­ mento e da investigação entrará na psicologia mais tarde do
ma nervoso ao longo de toda sua evolução continua sendo o que em todas as outras ciências.
mesmo. Nào adquire qualitativamente novas funçôes, e o A partir de Comte, a situação muda radicalmente. Nào
esse órgão fundamental do pensamento apenas a biologia, mas a astronomia, a geologia e toda a
não se distingue na essência em nada, segundo Bergson, da ciência natural em geral assimilaram o método histórico de
medula espinhal. Entre as denominadas faculdades percepti­ pensar, excetuando apenas a psicologia. Em seu tempo,
vas do cérebro e as funções refletores da medula espinhal, a Hegel considerava a história como privilégio do espírito e
única diferença, diz ele, consiste no grau e não na essência. negava esse privilégio à natureza. Somente o espírito tem
A partir disso é que Bergson distingue, naturalmente, história, dizia, ao passo que na natureza todas as formas são
duas teorias da memória. Para uma, é apenas uma simultâneas. Mas hoje a situação é inversa. Faz tempo que a
1111"1111!' IIIII

166 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 167

ciência da natureza assimilou a verdade de que todas as for­ psicologia da memória foi o estudo da memória em seu mo­
mas não sào simultâneas na natureza e somente podem ser vimento, a tarefa de captar as distintas formas desse movi­
compreendidas sob a perspectiva de seu desenvolvimento mento. A pesquisa psicológica depara assim com dificulda­
histórico. Somente os psicólogos fazem exceç,:ão supondo des insuperáveis.
que a psicologia se ocupa de fenômenos eternos e invariá­ É costume hoje queixar-se das deficiências da psicolo­
veis, independentemente de que essas propriedades eternas gia e de sua desastrosa situação. Muitos pensam que a
e invariáveis procedam da matéria ou do espírito. O enfo­ cologia como ciência ainda nâo começou e que somente
que metafísico dos fenômenos psicológicos mantém-se em começará em um futuro mais ou menos distante. Os prólo­
ambos os casos com a mesma força. gos às pesquisas psicológicas são escritos em tom menor:
Essa idéia anti-histórica encontrou sua máxima expres­ Príamo, nas ruínas de Tróia, retomando a imagem de N. N.
são na conhecida tese da psicologia transcultural associacio­ Langue, que não encontrou melhor comparação para a
que sustenta que as leis do espírito humano são as cologia atual, imagem que deambula pelas páginas dos li­
mesmas sempre e em qualquer lugar. Por mais estranho que vros de psicologia.
pareça, a psicologia não assimilou ainda a idéia da evolução, Os pensadores sérios, como, por exemplo, o acadêmico
apesar de dedicar áreas inteiras justamente ao estudo do pro­ Pávlov, estão dispostos a admitir como dificuldades inevitá­
blema da evolução. Essa contradição interna reflete-se no veis inerentes à própria ciência as que aparecem em tal ou
fato de que são precisamente os psicólogos que estudam a professor alemão ao preparar o programa de um curso
evolução os que a formulam como problema metafísico. universitário de psicologia. Antes da guerra, em 1913, diz
São conhecidas as enormes dificuldades que coloca ele, colocou-se na Alemanha a questão de separar nas uni­
para a psicologia da memória o problema de seu desenvol­ versidades a psicologia da filosofia, ou seja, de organizar
vimento na idade infantil. Houve psicólogos que, baseando­ duas cátedras, em vez de apenas uma, como era até então.
se em fatos irrefutáveis, afirmavam que na infância a memó­ W. Wundt manifestou-se contrário a tal separação, basean­
ria se desenvolve da mesma maneira que todas as outras fun­ do-se, com certeza, em que em psicologia não se pode
çôes. Outros, apoiando-se em fatos igualmente montar um programa obrigatório comum, já que cada pro­
afirmavam que à medida que a criança avança em seu de­ fessor tem sua própria psicologia especial. Não fica
senvolvimento sua memória se enfraquece e diminui. conclui o acadêmico Pávlov, que a psicologia ainda não
Outros, ainda, tentavam conciliar as duas teses e sustenta­ alcançou o grau de ciência exata?
vam que na primeira metade da infância a memória se de­ Mas tais argumentos resolvem em simples operações e
senvolve e na segunda diminui. sobre um programa de duas linhas o problema de uma ciên­
Essa situação não é característica apenas da psicologia cia, o problema de séculos passados e vindouros.
infantil. Também o é da psicopatologia, que tampouco pôde Para desgosto dos chorões, no entanto, a psicologia não
compreender as pautas próprias do processo de desintegra­ está pensando em morrer. Ao contrário, procura tomar cons­
ção da memória e o mesmo pode ser dito da psicologia ani­ ciência de seu próprio plano de investigações, criar sua pró­
mal. Para todas essas ciências, a evolução da memória nada pria metodologia, e, enquanto pessimistas como Mobius
mais significa do que um incremento puramente quantitati­ declaram "a perda de esperança em qualquer psícologia"
vo da função, sempre invariável em si mesma. como argumento fundamental em favor da metafísica, ou­
Poderíamos generalizar todas essas insuficiências dizen­ tros tentam superar esta última com o auxílio da psicologia
do que o que representou uma enorme dificuldade para a científica.
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168 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 169

o primeiro ponto de partida das novas investigações é za, sua composição, sua estrutura, sua forma de e, ao
a idéia do desenvolvimento: não explicar o desenvolvimen­ mesmo tempo, a chave de todo o problema da psicologia do
to da memória partindo de suas propriedades, mas sim de­ homem, que tenta descobrir de maneira adequada o conteú­
duzir estas partindo de seu desenvolvimento. É essa a tarefa do verdadeiramente humano dessa psicologia.
fundamental da nova investigação, na qual também se ins­ E, junto com a introdução do pomo de vista histórico
creve o trabalho de A. N. Leóntiev. em psicologia, salta para primeiro plano a interpretação
Seu desejo de basear-se no enfoque histórico da memó­ especificamente psicológica dos fenômenos estudados e das
ria leva o autor a unir métodos de investigação metafísica­ regularidades que os regem. Esta investigação parte da con­
mente divididos até agora na psicologia. Interessam a ele vicção de que existem regularidades psicológicas especiais,
tanto o desenvolvimento quanto a desintegração, a análise conexôes, relações e dependências, que é preciso estudar
genética e a patológica, interessam a ele também tanto uma como tais, ou seja, psicologicamente.
memória extraordinária quanto a de um semidébil. E essa Poderíamos repetir a tese formulada por um dos mais
união nào é casual. Surge como necessidade lógica do prin­ destacados representantes da psicologia idealista atual: a
cipal ponto de partida de toda a investigação, que não é Psychologica psichologice, introduzindo nela, contudo, um
outro senão e a tentativa de estudar a memória partindo de conteúdo essencialmente distinto. Para a psicologia idealis­
sua evoluç:ão histórica. ta, a exigência de estudar psicologicamente o psicológico
A distinção empírica das funções superiores da memória significa, antes de mais nada, estudar por separado a psi­
não é nova. É algo que devemos à psicologia experimental, que como reino independente do espírito, sem a menor
que conseguiu diferenciar empiricamente funções tais como relação com a base material da existência humana. Para o
a atenção arbitrária e a memória lógica, embora lhe dando autor que defende a tese idealista esta significa, em essên­
uma explicação metafísica. Na pesquisa que aqui apresenta­ cia: o psíquico é totalmente independente. Mas formalmen­
mos é feita uma tentativa de estabelecer como base do estu­ te, esse princípio, que o estudo de um ponto de vista
do das funç:ões superiores da atenção e da memória - em psicológico das regularidades psicológicas, é profundamen­
tudo em que se diferenciam das elementares e em sua unida­ te correto. O que se tenta justamente no livro de A. N.
de e conexão com elas - a especificidade de seu processo de Leóntiev é, alterando o conteúdo essencial dessa exigência,
desenvolvimento, ao qual devem seu aparecimento. Mostrar desenvolver de forma conseqüente o ponto de vista psico­
experimentalmente o devir da chamada memória lógica e da lógico no tema a estudar.
chamada memória arbitrária, descobrir sua psicogênese, Assim, o trabalho também propõe uma série de teses de
seguir seu destino posterior e compreender os principais caráter prático e imediato. Não é por acaso que outro aspec­
fenômenos da memória e da atençào na penpectilJa de seu to do problema do desenvolvimento da memória tenha sido
desenvolvimento: é esta a tarefa desta investigação. sempre o da educabilidade da memória, e é preciso dizer
Nesse sentido, o trabalho metodológico de Leóntiev é claramente que a formulação metafísica da questão no que
determinado por nossa idéia básica e central: a idéia do se refere à psicologia da memória sempre fez com que a
desenvolvimento histórico do comportamento do homem, a pedagogia da memória carecesse de fundamentação psico­
teoria histórica das funções psicológicas superiores. A ori­ lógica. Somente um novo ponto de vista, que procura des­
gem e a evolução das funções psicológicas do homem e em cobrir a natureza psicológica da memória enfocada sob a
particular das funções superiores da memória são, do ponto perspectiva de sua evolução, pode levar-nos, pela primeira
de vista desta teoria, a chave para compreender sua nature­ vez, a uma pedagogia da memória construída de forma ver­
1111111111'1; IIII 111 li."

170 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

dadeiramente científica, à fundamentação psicológica de sua o PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA*


educação.
Em todos estes aspectos, o trabalho de Leóntiev consti­
tui um primeiro passo na investigação da memória de um
novo ponto de vista e, como qualquer primeira tentativa,
não abarca, naturalmente, todo o problema em seu conjunto
e não pode pretender resolvê-lo mais ou menos em sua
totalidade. Mas este primeiro passo foi dado em uma dire­
ção completamente nova e extraordinariamente importante,
cujo ponto final pode ser definido em poucas palavras, infe­
lizmente estranhas até agora para a maioria das investiga­
ções psicológicas nesse campo: a memória do homem.

1. Introdução

Embora a psicologia tivesse definido a si mesma como


a ciência da consciência, seu conhecimento a respeito desta
era quase nulo.
Formação do problema na velha psicologia. T. Lipps,
por exemplo, sustentava que o "inconsciente é um proble­

• "Probliema soznania". Este capítulo reúne anotações dos comentários


de Vigotski em uma reunião de trabalho. A primeira publicação deste material
aparece no livro Psicologia da gmmática (Moscou, 1968). É precedida de um
prólogo e de uma introdução de A. N. Leóntiev, que convém consultar antes
de ler este capítulo e que estão incluídos como nota no final,' colocando algu­
mas interrogações acerca do material procedente dos seminários da última
etapa de Vigotski'.
1. Prólogo de A. N. Leóntiev à publicação de "O problema da consciên­
cia". em Psicolo!!.ia da !!.1-amática:
As notas sobre a comunicação de L. 5. Vigotski estão sendo editadas de
acordo com os cadernos manuscritos conservados no arquivo pessoal de A. N.
Leóntiev. Neles, o texto principal está escrito nas páginas da direita (ímpares)
e as interpolações e anexos, realizados, em particular, por A. V. Zaporójetz,
nas páginas da esquerda (pares). Todas as notas (exceto algumas. claramente
posteriores, que desconsideramos e que sào apenas uma retomada do exposto
por Vigotski numa formulação mais moderna) estão escritas com pena.
Evidentemente, em nossa publicação utilizamos em primeiro lugar o
texto fundamental. Este é complementado pelas interpolações das páginas
pares do caderno, que aparecem entre parênteses angulares <>. Nào efetuamos
iii;l!j!fHHl~Hiil: 11111111 ;

172 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 173

ma próprio da psicologia ". O problema da consciência Doutrina da consciência na psicologia classista. Apa­
formulado fora da psicologia e antes dela. recem duas concepções principais sobre a consciência:
A psicologia descritiva sustenta que, diferentemente do 1ª concepção. A consciência é estudada como que
ohjeto das ciências naturais, o fenômeno e a existência está fora das funções psíquicas, como um certo espaço psí­
coincidem em psicologia; por isto, esta última seria uma quico por exemplo: a consciência é um cenário no
ciência conceitual. Mas como na experiência da consciên­ qual se desenrola um drama; em psicopatologia distingui­
cia só temos acesso a um fragmento dela, o estudo da cons­ mos, de acordo com isso, dois casos principais: ou se altera
ciência em seu coniunto se revela impossível para o inves- o ato ou a própria cena). Por conseguinte, segundo essa
representação a consciência (como qualquer eSjJaço) carece
Conhecemos toda uma série de leis formais da cons­ de toda característica qualitativa. Assim, a ciência da cons­
ciência: sua continuidade, sua relativa clareza, sua unidade, ciência atuaria como a ciência das relações ideais (geome­
sua identidade, o fluxo da consciência. tria - E. Husserl: geometria do espírito W. Dilthey).

cones no texto. Seguindo o original. na pane central das notas incorporamos estrutura intern,L sob a perspectiva da doutrina da conSClenCLa do homem.
uma nota da intervenç;\o de L. S. Vigotski ao informe de A. R. Lu ria, que Essa comunic;lç{to, escrita por mim de forma muito sintética. em forma de
respondia, de acordo com o lema, à parte correspondente da comunicação "O tese, baseava-se no rcsumo de numerosas investigações realizad;ls com a par­
problema da consciência". ticipação e soh a direpío de L. S. Vigotskí. Por isso, minha exposição durou
Tudo que A. N. Leóntiev destacou no manuscrito foi conservado por nós. muito tempo, mais de sete horas, com aproximadamente duas de descanso
Todos os parênteses redondos c os colchctcs pertencem ao original. A~ para '1Imoçar. e mais um dia foi dedicado para sua discllssão.
passagens entre aspas correspondem a citaçücs diretas da linguagem oral de Se bem me lembro, nessa conferência interna p,lItídparam, além de A. N.
L. S. Vigotski. No fragmento publicado correspondente às notas das inter­ Leóntiev e A. R. Luria, L. l. Bojóvitch, A. V. Zaporájetz, R. Ye. Liévina, N. G.
vençôes de L. S. Vigotski sobre as teses da discussüo de 1933-1931, seguimos Morózova e L. S. Slávina.
os mesmos princípios de apresentaçüo, com a única diferença de que a inter­ As anotaçôes da intervenção de L. S. VigoL'iki no scminário interno em
polação feita tambêm com tinta pelo próprio A. N. Leóntiev aparece entre que foram analisadas as teses em preparaçào para a discussüo aberta sobre os
parênteses angulares. trabalhos de I.. S. Vigotski e sua escola exigem certas explicaçôes. Esperava-se
lntrodu~'ào a "Problema da consciência", de A. N. Leómiev (op. cil.); que a dL'iCussào se desse em 1933 ou 1934, mas mio se reali/Du em vida de L. S.
No final dos anos 20, reúne-se em torno de L S. Vigotski um reduzido Vigotski. Ficou também inconcluso o trabalho preparatório realizado para essa
grupo de jovens psicólogos, que começa a trabalhar sob sua direção. discussão. Esses fragmentos de anotaçôes que publicamos incluem, de todos os
Paralelamente ãs discussões de questôes científicas, levadas a cabo de forma problema!> abordados nesse trabalho preparatório, apenas o que Vigolski abor­
sistemática nas reuniões das cátedras e no laboratório, onde então se reali­ dou em sua comunicação sobre o problema da consciência .. (A. N. Leóntiev.)
zavam investigações, L. S. Vigotski convocava ,18 vezes, para conversar infor­ 2. O desaparecimento, justamente nos anos de preparação destas Ohras
malmentt:, seus colaboradores mais próximos e discípulos, em reuniôes que escolhidas, dos discípulos mais próximos de Vigotski, coloca sérios problemas
denominávamos seminários internos. O objetivo era levar a cabo retlexões sohre o processo de criaçüo e de pensamento do psicólogo msso, especialmente
teóricas sobre o caminho percorrido, disculir os problemas que causavam sobre seu trabalho e suas preocupações na sua última etapa. A nota de I.eóntiev
polêmicas e estabelecer o plano de trabalho futuro. Em geral, esses seminários parece levantar mais questões do que responder a elas. Que outros problemas
internos desenvolviam-se na forma de um intercâmbio livre de opiniücs sobre foram abordados nessa série de seminários' Existem, como no caso desse "pm­
as questões que tinha surgido; em alguns casos liam-se e se discutiam comu­ blema d,l consciência", anotaçóes feitas por algum dos presentes sobre a inter­
nicações detalhadas, preparadas especialmente para isso. Em nenhum caso venção de Liev Semiónovitch' ConseLvava A. N. Leóntiev tod,lS ou somente parte
elaboravam-se atas. Por isso, somente algumas das intervençôes de L. S. dessas anotaçôes? Qual teria sido, neste caso, seu destino' Nt~ste caso de "O
Vigotski foram conservadas nas notas pessoais dos participantes. problema da consciência", a ínterven\;üo de Vigotski em continuaçào ao in!()rme
As notas sobre a comunicaçào de L. S. Vigotski que publicamos remon­ lido por Leóntiev foi anotada pelo próprio Leóntiev ou por outro discípulo?
tam ao momento em que surgiu a necessidade interna de realizar a recapitu­ Neste caso, foi Zaporójets que, ao corrigir as anotaçôes, na verdade corrigiu-se
lação das investigações dos processos psíquicos superiores, analisando sua mais tarde a si mesmo, ou !()i outro e, neste caso, quem? (N.R.E.)
1IIIIIWidiliHiiii !ÍP: ;illltl"tHtilHIII L!í i i i !, i 111 IIII

174 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 175

2a concepção. A idéia é a de uma certa qualidade geral, 2. A conexão entre as atividades da consciência nada
dos processos psicológicos. Por isso, essa qualidade modifica de importante nas próprias atividades, já que estas
pode ser retirada do parênteses, pode não ser levada em estão conectadas não por necessidade, mas como o dado
consideração. Também nesta representação a consciência diretamente a um indivíduo ("têm um dono"; W. James ­
age como algo carente de qualidade, que está fora, que é carta a Stumpf).
invariável, que não se desenvolve. 3. Esta conexão é adotada como postulado e não como
"A esterilidade da psicologia decorria do fato de que o problema (a conexão da função é invariável).
problema da consciência não era estudado."
Problema essencial. [A consciência era considerada
ou como um sistema de funções ou como um sistema de lI. Nossa hípótesefundamental apresentada defora
fenômenos (C. Stumpf).]
Nosso problema. A conexão entre as atividades da cons­
<Problema dos pontos orientativos [na história da psi­ ciência não é permanente. E isto tem importância em rela­
cologia]. ção a cada uma das aNuidades. Essa conexão deve ser con­
[Na questão das relações da consciência com as funções vertida rIO problema da investigação.
psicológicas existiam dois pontos de vista principais]: Observação. Nossa posição é contrária à psicologia ges­
1. Sistemas funcionais. Protótipo - psicologia das facul­ táltica, que "Fez do problema um postulado", supôs de ante­
dades. Representação do organismo espiritual, dotado de mào que toda atividade é estrutural; Ipara nós é característiw
atividades. o contrário: o postulado é convertido por nós em problema].
2. Psicologia da experiência de consciência: que estuda A conexão das atividades é o ponto central no estudo de
a imagem, sem estudar o espelho (especialmente claro na qualquer sistema.
psicologia associativa e paradoxalmente na Gestalt). Segun­ Explicação. O problema da conexão deve contrapor-se
icologia da experiência de consciência: a) nunca foi desde o princípio ao enfoque atomista. A consciência é
conseqüente nem poderia sê-lo; b) sempre trasladou as leis desde seus primórdios algo integral é isso que postulamos.
de uma função a todas as demais etc. A consciência determina o destino do sistema, como o orga­
[Perguntas que surgem em relação a nísnlO as funções. Deve considerar-se a mudança da cons­
1. Relação da atividade com a experiência de consciên­ ciência em seu conjunto como explicação de qualquer mu­
cia (problema do dança interjimcional.
2. Relação entre as funções. Partindo de uma função,
pode-se explicar todas as outras? (problema do
3. Relação da função com o fenômeno (problema da 111. A hipótese "partindo de dentro ", ou seja,
intencionalídade) .> do ponto de vista de nossos trabalhos

Como a psicologia compreendia as relaçôes entre distin­ (Introdução: importância do signo: seu sentido
tas atividades da consciência? (Este problema carecia de Nos primeiros trabalhos ignorávamos que o significado é
importância, mas para nós é fundamenta]). A esta pergun­ próprio do signo. <"Mas há um tempo para recolher as
ta a psicologia respondia com três pedras e outro para espalhá-las." (Eclesiastes).> Partíamos
1. Todas as atividades da consciência atuam juntas. do princípio da constância do significado, e para isso despe­
'li'I":
l iJlllI li li j li H, IIU"ft;i'tiI,lll

176 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 177

lavamos este, tirando-o do parêntese. Mas já nas primeiras çào segundo linhas puras: o intelecto não reestruturou ainda
investigações o problema do significado estava implícito. Se sua consciência.
antes nossa tarefa era mostrar o que havia de comum entre [Apologia por parte de Kôhler de O. Selz. K6h1er men­
o "nó'" e a memória lógica, agora consiste em mostrar a ciona na nova edição que Selz "foi o único que interpretou
diferença que existe entre eles. corretamente meus experimentos" (pp, 675-7).']
De nossos trabalhos depreende-se que o signo mod~fíca Em Koffka: "Profunda afinidade" entre o comportamen­
as relações inte1fimcionaís. to dos macacos e o intelecto dos homens, mas também exis­
te uma limitação: nos macacos o instinto é o que estimula a
ação e somente o procedimento é racional. São ações não­
IV. A hipótese "partindo de baixo" volitivas. que a vontade é a liberdade da situação (o es­
portista se detém ao ver que, apesar de tudo, não ganhará a
Psicologia dos animais. competição) .
Depois de W. Kühler começa uma nova época na psico­ O homem quer um pau, o macaco umfruto. (O macaco
logia animal (. .. )
não quer um instrumento. Não o prepara para o futuro. Para
Concepção de V. A. Vagner: 1) desenvolvimento segun­ ele é uma maneira de satisfazer um desejo instintivo.)
do linhas puras e mistas; 2) (. .. ) (p. 38); 3) segundo linhas
instrumento. O instrumento distrair-se da situa­
puras - desenvolvimento mutacional; 4) segundo mistas
ção. O emprego do instrumento exige uma estimulação,
adaptativo; 5) (. .. ) (pp. 69-70)<.
uma motivação d~ferente. O instrumento mantém conexão
É: semelhante ao do homem o comportamento dos maca­
com o significado (do o~fetoJ
cos antropóide:-/? Terá Kôhler aplicado corretamente o crité­
(K6hler) (Kühler apresentou seu trabalho polemizando
rio de racionalidade? Ação integral fechada de acordo com a
com E. Thorndike).
estrutura do campo também na andorinha (. .. ) A limitação
de ação do macaco funda-se na coerência da mesma. Para
ele as coisas carecem de valor constante. Para o macaco o
pau não se transforma em instrumento, pois carece de valor
Conclusôes:
instrumental. O macaco limita-se a "completar" o triângulo.
O mesmo ocorre para Gibier com os cachorros. L No mundo animal, o aparecimento de novas funções
Conclusôes a extrair. Três níveis. A atividade ret1exa con­ mantém conexão com a mudança no cérebro (segundo a
dicionada é a que estimula o instinto. A atiuidade dos maca­ fórmula de Edinger); no homem isto não é assim. <Para­
cos também é instintiva, mas somente urna variação intelec­ lelismo entre o desenvolvimento psicológico e morfológico
tual do instinto, ou seja, um novo mecanismo da mesma ati­ no mundo da zoologia, de qualquer forma quando se pro­
vidade. O intelecto dos macacos é resultado de uma evolu­ duz por linhas puras.>
2. No mundo animal, a evoluç;ào é por linhas puras. A
3. Vigotski refere-se a uma das três funçôes vcstigiais ou superiores evolução adaptativa segue, por sua vez, o princípio sistêmi­
primitivas que analisa em seu estudo das fun~'ôes superiores (Tomo 1II das co <O homem não pode ser distinguido' por um único aspec­
Ohras esculbidas), que é justamente a dos n()s ou orifícios nos povos primi­
tivos, no marco do triângulo da mediação, (N,RE.)
4, Nem () texto nem os editores russos citam a fonte, que é, sem dúvida, 5, Vide a bibliografia. Quando só existir uma obra nela nào faremos
uma das duas obras de Vágner mencionadas na bibliografia. (N,R.E.) comentários. (N.ltE')
·11111"",,' IIIII!i !ijlldj

178 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 179

to (intelecto, vontade), mas muda essencialmente sua abor­ ou: a) do ponto de vista d;:';:'ULldl ou o significado
dagem da realidade.> atuou como recordalório da do ponto de
3. O intelecto dos macacos de Kôhler está no reino dos vista do que acontece conosco (fenomenologicamente)
instintos. Dois aspectos distintivos deles: a) o intelecto não quando percebemos o significado das palavras (H. Watt).
reestrutura o sistema de comportamento; b) não existe o fala nào é importante para o pensamento Wurtz­
instrumento, o instrumento carece de significado, tampouco burgo; a fala é igual ao pensamento behavioristas.J
existe o significado de objeto. A estimulação continua sendo Posição invariáuel em todos os autores: o significado de
instintiva ("O instrumento abstração"). todas as palavras é invariável, nào evolui.
K. Buytendijk. O animal não se destaca da situação, não A variação das palavras era estudada:
tem consciência dela. em lingüística - como o movimento da palavra; caráter
O animal se diferencia do homem por uma distinta geral caráter abstrato, é um significado lingüístico, não
organização da consciência. "A consciência distingue o psicológico;
homem do animal." em psicologia CF. Polan); o significado permanece es­
tanque, só varia o sentido. O sentido da palavra refere-se a
W.James 314): No animal No homem processos psicológicos despertados pela palavra em ques­
isolat abstract tào. neste caso, não há evolução, movimento, já que o
construct princípio de construção do sentido continua sendo o mes­
recept concept mo. Polan amplia o conceito de "sentido".
infient em psicolingiiística e psicologia considerou-se a mu­
de significado em função do contexto (sentido figura­
(psicologia da Gestalt) <Nossa diferença em relação à psico­ irônico, etc.)
logia estrutural: a psicologia estrutural é uma psicologia na­ Em todas essas teorias (+ W. Stem) a evoluçtio do signi­
turalista, assim como a reflexologia. O significado e a estru­ ficado se dá como etapa inicial e nela termina esse processo.
tura se identificam com freqüência nessa psicologia.> (Stern: a criança descobre a função nominativa. Isso se
mantém como princípio constante da relação entre o
o significado. Para Stern, a evolução reduz-se à
V. "No interior" do vocabulário, ao desenvolvimento da gramática, da sinta­
xe e à ampliação ou contração do significado. Mas o princí­
1. Análise semiótica no sentido estrito continua sendo o mesmo).
"Sempre se analisou a linguagem partindo da afirmação
Toda palavra tem significado; o que é o significado da de que o significado é constante, ou seja, que a relação
palavra? entre o pensamento e a palaura permanece constante"
. O significado não coincide com o significado lógico. "O sign~t'icado é o caminho do pensamento para a pala­
desprovido de sentido tem significado). vra." <O significado não é a soma de todas as operações
O que é que caracteriza nossaformulação da questão? psicológicas que estão por trás da palavra. O significado é
- A fala foi considerada como a vestimenta do pensa­ algo mais definido: é a estrutura interna da operação do
mento (escola de Wurtzburgo) ou como um hábito Cbeha­ signo. Isso é o que se encontra entre o pensamento e a
viorismo). E quando estudaram os significados o vra. O significado não é igual à palavra, nem é igual ao pen­
,jlllllllllllfll, 111 1111 ilWí III!;; 111111

180 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 181

samento. Esta não-identidade pode ser verificada na não­ lLAIClllplU de F. M. Dostoiévski de um escritor).1.
coincidência das linhas de evolução.> Por conseguinte: existe uma falta de coíncidéncia entre
os aspectos semiótico efásico dafala.

2. Da fala externa ã interna


Notas da intervençüo de L. S. Vigotski a propósito do
A. Fala externa informe de A. R. Luria

oque descobrir o significado? [A insuficiência de L. Levi-Brubl consiste em que toma a


Na linguagem devemos distinguir os aspectos semiótico fala como algo constante. Isso o conduz a paradoxos. BaSla
e fásicoj o que os liga é a de unidade e não de iden­ darmo-nos conta de que suas idéias sobre o significado e
tidade. A palavra não é simplesmente o substituto da coisa. suas combinações (sintaxe) são diferentes das nossas para
Por exemplo, os experimentos de lngenieros" com os que desapareçam todos os absurdos. O mesmo pode ser
ficados presenciais". dito em relação à pesquisa sobre a afasia, onde não se dis­
tingue o fonema e o significado.]
Demonstração. A primeira palavra é uma palavra fási­
ca, a semiótica, em contrapartida, é uma <Realizamos anteriormente uma análise no plano do
comportamento e não no da consciência, e disto decorre o
é assim: afásica, da palavra isolada à oração,
caráter abstrato das conclusões. Para nós o principal é (ago­
à oração subordinada; a semiótica, da ao nome. Ou
ra) o momento do sentido. Por exemplo, a semelhança na
"o desenvolvimento do aspecto semiótico dafala nào evo­
estrutura externa das operações de signos nos afásicos, es­
luí paralelamente coinCide) com ofásico". [O 'desenvol­
quizofrênicos, débeis mentais, primitivos. Mas a análise se­
vimento do aspecto fásico da fala se antecipa ao semió!ico.]
miótica descobre que internamente sua estrutura tem
"A lógica e a gramática não coincidem". Tanto no pen­
cados distintos (problema da afasia semiótica).>
samento como na fala, o e predicado psicológico e o O significado não é igual ao pensamento expresso em
gramatical não coincidem. <Desde a Gramática do espírito palavras.
pensava-se que o aspecto fásico é o selo do espírito na Na fala não coincidem seus aspectos semióticos e fási­
fala.> Existem duas sintonizações: a semântica e afásica. cos; assim, o desenvolvimento da fala vai fasicamente da fa­
A. Gelb: gramática do pensar e da fala. la à scmioticamentc, em contrapartida, a criança co­
''A gramática da fala nâo coincide com a do pensa­ meça pela frase. [Compare-se a fusão das palavras na frase
mento." dos semi-analfabetos.]
[Que mudanças nos mostra o material psicopatológico? O lógico e o sintático tampouco coincidem. Exemplo:
uma pessoa pode falar entorpecidamente b) o pró- "o relógio caiu" sintaticamente aqui "relógio" é o sujeito,
sujeito que fala não sabe o que quer dizer; c) transgri­ "caiu" - o predicado. Mas quando se diz isto em resposta à
dem os limites do idioma (divergência consciente, com­ pergunta: "O que aconteceu?"; "O que caiu?", logicamente
preendida); d) competência gramaticaL] aqui caiu é o sujeito, relógio - o predicado (ou seja, o
novo). Outro exemplo: "Meu irmão leu este livro" - o acento
6. José lngenieros (1877-1925), Professor ele Psicologia Experimental na lógico pode recair sobre qualquer palavra.
Universidade de Buenos Aires (N.E.B.'l. [Fala carente de juízo dos microcefálicos etc.]
iillllllili!líllliii' . ··[11
:HI!i'f
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182 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 183

o pensamento que uma pessoa quer expressar não ape­ O trabalho de Wurtzburgo consistia na tentativa de se
nas não coincide com o aspecto fásico da fala, mas tampou­ introduzir no pensamento. A tarefa da psicologia não con­
co com o semiótico. Exemplo: o pensamento: "Não é minha siste apenas em estudar essas idéias internas, mas em trans­
pode ser expresso nos sentidos: "Queria tirar o pó"; formá-las em mediadas, ou seja, estudar como essas idéias
"Não encostei em nada"; "O relógio caiu sozinho", etc. O internas agem, como se realiza o pensamento na palavra. <É
próprio "Nâo é minha culpa" tampouco expressa em absolu­ errôneo pensar (como faziam os seguidores da escola de
to um pensamento (não é igual a ele?); essa mesma frase que a tarefa da psicologia se reduz a investigar
tem sua sintaxe semiótica. essas nuvens que não se transformaram em chuva.>
o pensamento é uma nuvem, da se despren­
de em
o está de modo diferente de B. Pala interna
sua expressão através da fala. O pensamento não pode ser
expresso diretamente na palavra. Na fala interna a falta de coincidência entre os aspec­
(K. S. Stanislávski: por trás do texto está o subtexto). tos semânticos e fásicos é ainda mais acentuada.
Toda expressão tem uma segunda intenção. Todo discurso é O que éfala intema?
lima alep,oria. que consiste essa intenção? Em 1) A fala menos o (ou seja, a que a fona­
um dos relatos de G. Uspienski, um esoerto diz: preciso distinguir entre a fala pronunciada e a fala
interna (aqui se equivocam Ijacksoll e H. Head).>
não é algo pronto para ser 2) A pronúncia mental das palavras (memória verbal -.J.
precipita-se, realiza certa função, Charcot). Aqui a doutrina sobre os tipos de fala interna coin­
um certo trabalho. Esse trabalho do pensamento é a transi­ cide com os tipos das representaçôes (memória). É como
ção das sensações da tarefa - através da construção do sig­ uma preparação da fala externa.
nificado - ao desenvolvimento do próprio pensamento. 3) Interpretação atual dafala interna
lSemioticamente, "o relógio caiu" refere-se ao pensa­ A linguagem interna forma-se de um modo totalmente
mento correspondente, assim como a conexão semântica na diferente da externa. Nela existe outra relação entre os mo­
lembrança mediada se refere ao que se mentos fásicos e semânticos.
O pensamento não apenas se expressa na palavra mas A fala interna é abstrata em dois aspectos: a) é abstrata
nela se realiza. em relação a toda a fala sonora, ou seja, reproduz apenas
O pensamento é um processo interno mediado. <É o seus traços fonéticos semantizados (por exemplo: três rrr na
caminho de um desejo vago até a expressão mediada atra­ palavra rrrevolução ... ), e h) é agramática; nela qualquer pala­
vés do significado, ou melhor dizendo, não até a expressão, vra é predicativa. A gramática nào é senão a semiótica da
mas até o aperfeiçoamento do pensamento na palavra.> fala externa: na interna os significados se enlaçam entre si
A fala interna já existe desde o princípio de outro modo do que na externa; na fala interna a fusão se
Em geral, não existe signo sem significado. A efetua de acordo com um tipo de aglutinação.
de palavra é a principal função do signo. Há aglutinaçào das palavras é possível precisamente gra­
onde há signo. Esta é a faceta interna do . Mas na ças à aglutinação interna.] <As locuçôes idiomáticas alcan­
consciência há também que não tem significado. çam a máxima difusão na fala interna.>
'i'FIIII""'1I111
: "11111 Ili i I iJílI

184 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 185

Influência do sentido: a palavra se restringe e se enri­ O sentido das palavras muda também com o motivo.
no contexto. A palavra inclui o sentido dos contextos Por consef.{uinte, a explicação final está na motivação; isto
aglutinação. A palavra seguinte inclui a anterior. fica especialmente claro na idade infantil. <Pesquisa de D.
"A fala interna constrói-se de forma predicati· Katz sobre as manifestações infantis. Trabalho de Stolz (psi­
dificuldades da tradução dependem do cológico ­ lingüista censor de correspondência em tempo
caminho da transição de um plano a outro: pensamento -. sig­ de guerra); análise de cartas de prisioneiros sobre a fome.>
nificado -. fala externa fásica.
Fala escrita. [Dificuldades de fala escrita: carece de en­
tonação, de interlocutor. Representa uma simbolização de Conc!usôes desta parte
nela é mais difícil a motivação.
Aj'ala escrita encontra-se em outra relação com respeito o significado da palavra não é igual a uma coisa sim­
ã j'ala interna, surge depois desta e é a mais gramatizada. ples dada de uma vez por todas (contra 7
Mas está mais próxima da fala interna do que a externa; O significado da palavra é sempre uma generalização;
associa-se aos significados, esquivando-se da fala externa.] por trás da palavra existe sempre um processo de generaliza­
Resumo: na fala interna tropeçamos com uma n~)Va - o significado surge onde existe generalização. DesenIJol­
forma de fala. onde tudo é diferente. vimento do sign(licado desenIJollJimento da generalização.'
Os princípios de generalização podem mudar. "No
desenIJolvimento varia a estrutura da generalização" Cdesen­
C. Pensamento estratifica-se, o processe realiza-se de outra
[O processo de realização do pensamento no significado
o pensamento também tem uma existência indepen­ é um fenômeno complicado, que flui a partir do interior,
dente, que não coincide com os significados. "dos motivos para a fala" C?).]
É preciso encontrar uma determinada construção de sig­ "No significado sempre ocorre uma realidade generalí­
nificados para expressar o pensamento. [Texto e subtexto.l zada" (L. 5.).
Explicação. Isto pode ser explicado no exemplo da am­
nésia. É possível esquecer:
o motivo, a intenção; VI. Em profundidade e em extensão
b) o que, precisamente? Co pensamento?);
c) o significado através do qual eu queria me expressar; [Questôes principais]: 1) o significado da palavra cresce
a palavra. na consciência: que importância tem isto para a própria
"O pensamento realiza-se na palavra ". Dificuldade de le­ consciência?; 2) como e por causa do que varia o significado?
vá-lo a cabo. <Impossibilidade de expressar o pensamento [Primeiras respostas): 1) a palavra, ao crescer na cons­
diretamente. Graus de amnésia graus de atuação mediada ciência, modifica todas as e todos os processos; 2)
(transição) do pensamento ã palavra - graus de atuação me­ o próprio significado da palavra evolui em função da mu­
diada do pensamento através do significado.> dança da consciência.
Compreensão. A verdadeira compreensão consiste em
penetrar os motivos do interlocutor. 7. Em latim no original. (N.T.E.)
': 1~ li !iH!U li!! n i H! H n! 11 H [nu I: 1~; ~ í n li fI! i P! i f li lU ili iHiHi H fl!lil 11 ~; n n fi
I

....ttiUUjÜWWU IlliH 11111111111 111111 i111111 11 11 ilillllllllllil iIUI I1 í11 II illllllllllllll 1111111111111 111,

186 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 187

PajJel do significado na vida da consciência A atividade formativa do sentido conduz a uma deter­
minada estrutura semântica da jJrójJria consciência.
"Dizer expor uma teoria. Por conseguinte, a fala era examinada de modo equivo­
"O mundo dos objetos surge ali onde surge o mundo cado não apenas em relação ao pensamento. A fala produz
das denominações" (L. S. - J. S. Mil!). mudanças na consciência. "A fala é um correlato da cons­
"A constância e o caráter de categoria do que se relacio­ ciência, não do pensamento."
na com o obíeto é o signíficado deste." [Lênin sobre o fato
"O pensamento não é uma porta através da qual pene­
de nos destacarmos do mundo.] <Esse significado, essa rela­
tra a fala na consciência" (L. S.). AIala é o sinal do contato
ção com o objeto, íá existem na percepção.>
direto entre consciências. A relação entre fala e consciência
percepção nossa tem um significado. Qual­
- é um problema psicofísico. ao mesmo tempo, ultrapas­
quer absurdo é percebido por nós (como sensato), que lhe
sa os limites da consciência.>
atribuímos significado.
O significado do ohjeto não é o da palavra. "Um As primeiras comunicações da criança, assim como a
tem significado" quer dizer que faz parte da comunicaçào. práxis precoce, não são intelectuais. <Ninguém demonstrou
Conhecer o significado - conhecer o singular como uni­ que a primeira comunicação seja intelectual.> A criança, em
versal. nào fala apenas quando pensa.
"Graças aofato de terem sido denominados, ou seja, ge­ "Com seu aparecimento, a fala modifica porprincípio a
neralizados, os processos da consciência do homem têm seu consciência. "
significado. (Isso nào no mesmo sentido do referente à pa­ O que é que move os si.gn(licados, o que determina seu
lavra. - L. S.). desenvolvimento? "A cooperação entre consciências." O pro­
Sign~fícado é próprio do signo. cesso de alteridade da consciência.
Sentido é o que faz parte do significado (resultado do A cisão é inerente à consciência. A fusão é inerente à
significado), mas não foi fixado pelo consciência. <Sào necessárias para a consciência.>
Formação do sentido resultado, produto do si.gn(fica­ Como surge a .generalizaçâo? Como varia a estrutura
do. O sentido é mais amplo do que o significado. da consciência?
Consciência 1) conhecimento associativo; 2) cons­ Ou: o homem recorre ao signo, e este engendra o signi­
ciência (social). ficado, ou o significado se torna consciência. Não é a última
[As primeiras perguntas das crianças nunca são pergun­
coisa que ocorre.
tas sobre a denominação; são perguntas sobre o sentido do
As relações interfuncionais determinam o significado =
<O consciente não é simplesmente estrutural (em
a consciência, a atividade da consciência. "A estrutura do
contraposição à teoria da Gestal!.» significado é determinada pela estrutura da consciência co­
A consciência em seu conjunto tem estrutura semântica.

mo sistema. A consciência está estruturada como sistema.


jul.gamos a consciência em função da estrutura semântica

Os sistemas estáveis - caracterizam a consciência.


da amsciêncía, já que o sentido, a estrutura da consciência

- é a atitude para com o mundo externo.

Na consciência surgem conexões semânticas (a vergo­

o orgulho - a hierarquia [, .. 1 o sonho do cafre, Masha

Bolkónskaia" reza, quando outro pensa


8. Personagem do romance Guerra epaz de L. N. Tolstói. (N.T.E.)
' I 11" ' ~ "," ". .· II
IüWUtlWUUl 1111111 J11111111 Ih 1IIIIIiliillll!llliiiiii!iH,"ii!!i!illd

188 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 189


Conclusão

"A análise semiótica é o único método adequado para


estudar a estrutura do sistema e o conteúdo da consciência."
Assim como o método estrutural é para

mina a "profundidade", mas o "cume" da persona


O caminho que leva aos movimentos ocultos como ten­
dência da ciência atual (a química para a estrutura do áto­
mo, a fisiologia da digestão para as vitaminas etc.). Em psi­
cologia procurou-se antes compreender a memória lógica
como se se tratasse de fazer um nó, agora é interpretada co­
mo a lembrança do sentido. A psicologia da profundidade
afirma que as coisas são o que eram. O inconsciente nào
evolui - isso é uma descoberta extraordinária. Os sonhos
resplandecem com luz refletida, assim como a Lua.
Isso se depreende de como interpretamos a
Como transformação do que esteve dado desde um
pio? Como nova formulação? Então. o mais
o último!
"No princípio foi o ato ,e nao o ato tOI no ormclOlO). e O não se refere ao pensamento, mas a toda
no final surge a palavra, e isso é o mais a consciência.
o significado do que dissemos? "Para mim essa cons­
ciência é suficiente", ou seja, agora me conformo com o fato
de qUe o oroblema foi enunciado.

Adendo
Sobre o trabalho preparatório das teses jJara u debate de

Notas da intervençâo de L. S. Vigotski em 5 e em

O fato central de nossa psicologia é o fato da me­


diada.
'1""""Im1li! llüüUHlUlHUHlIIlIU 1111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111 IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!1

A PSICOLOGIA E A TEORIA DA LOCALIZAÇÃO


DAS FUNÇÕES PSíQUICAS·

A favor da legitimidade e fecundidade de um enfo­


que psicológico do problema da localização das funções psí­
quicas fala o fato de que as concepçôes psicológicas que
prevaleceram em cada época sempre tiveram uma influência
sobre o problema da locali2;ação: ã psicologia
corresponde a doutrina atomista da localização; à psicologia
estrutural, a tendência dos cientistas atuais à interpretação
integradora da localização. O problema da localização é, na
essência, o da relação entre as unidades estruturais e as fun­
cionais na atividade cerebral. Por isso, manter uma das con­
rp,nr"p<: sobre a localização não deixa de ser relevante para

estabelecer qual é o autêntico caráter da localização.


As teorias atuais mais avançadas sobre a localização
conseguiram superar os principais defeitos da doutrina clás­
sica, contudo não conseguiram resolver de modo satisfató­
rio o problema da localização das funçôes psíquicas, funda­
mentalmente por causa das insuficiências da análise psicoló­
gico-estrutural das funções a localizar que foi aplicada. Não
podemos explorar todas as possibilidades do grande avanço

• "PsikhoJoguia i utchcnie o lokalizatsii psikhitcheskikh funktsii"


Comunicação apresentada no I Congresso de PsiconeuroJogia da Ucdnia
(junho de 1934). Publicadas no livro Atas do I Congresso da Ucrânia de
Neuropatologistas e Psiquiatras, Khárkov, 1934.
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192 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 193

que se produziu dentro da doutrina da localIzaçao, que se localização. E isto se ref1ete com especial força no problema
deve aos resultados alcançados pela histologia, pela citoar­ da localização das funções psíquicas superiores, ligadas a
do cérebro e pela medicina prática, porque carece­ setores especificamente humanos do cérebro (lóbulos fron­
mos de um sistema de análise psicológica suficientemente tais e parietais). Nessa questào, o peso dos fatos obríga os
complexo e poderoso. Onde essa carência mais se faz notar investigadores a escaparem dos limites da concepção da
é no problema da localização das zonas cerebrais especifi­ cologia estrutural e introduzir novos conceitos fisiológicos
camente humanas. Embora a maioria dos pesquisadores (doutrina do pensamento categoriaI de Goldstein, doutrina
atuais concordem quanto à imperfeição do ponto de vista da função simbólica de H. Head, doutrina da categorização
contrário às localizaçôes específicas e quanto à insuficiência da percepção de O. Petzel e
da fórmula "o cérebro como um conjunto", a análise funcio­ No entanto, esses mesmos investigadores reduzem de
nal de que se utilizam, baseada nos princípios da psicologia novo esses conceitos psicológicos às funções principais e
estrutural, se revelou tào impotente para levar a doutrina da elementares ("função principal do cérebro" em Goldstein,
localização para além das limitações dessa posição, quanto estruturação em Petzel), ou transformam-nas em entes meta­
valiosa e fecunda foi em seu momento para resolver a pri­ físicos existentes desde os tempos mais remotos (Head).
meira etapa crítica do trabalho a que se propunham as no­ Portanto, girando dentro do círculo vicioso da psicologia
vas teorias (superar a doutrina atomista). estrutural, a doutrina da localizaçào das funçôes especifica­
A psicologia estrutural em que se baseiam as teorias mente humanas oscila entre os pólos extremos do naturalis­
atuais não permite, por sua própria essência, ir além do mo e do espiritualismo.
reconhecimento de duas funções para cada centro cerebral: Cremos que o sistema de análise psicológica adequado
uma específica, relacionada com um tipo determinado de para desenvolver uma teoria deve partir da teoria histórica
atividade da consciência, e outra não-específica, relacionada das funçôes psíquicas superiores, que por sua vez se apóia
com qualquer outra atividade da mesma (a doutrina de K. em uma teoria que responde à organização sistemática e ao
Goldstcin sobre a figura e o fundo e a de K. Lashley sobre significado da consciência no homem. Essa doutrina atribui
as funções específica e não-específica do córtex óptico). um significado primordial a: a) a variabilidade das conexões
Essa doutrina reagrupa, de fato, a velha doutrina clássica e relaçôes interfuncionais; b) a formaçào de sistemas dinâ­
sobre a estrita correspondência entre as unidades estruturais micos complexos, integrantes de toda uma série de funções
e funcionais, sobre a especialização de setores isolados para elementares; e c) a reflexão generalizada da realidade na
determinadas funções limitadas (doutrina sobre a função consciência. Esses três aspectos constituem, na perspectiva
específica dos centros) c a nova concepção, de tendência teórica que defendemos, o conjunto de características essen­
deslO'calizadora, que nega essa correspondência e essa ciais e fundamentais da consciência humana e são a expres­
especialização funcional de setores isolados e que parte da são da lei segundo a qual os saltos dialéticos não são apenas
fórmula "o cérebro como conjunto" (doutrina sobre a fun­ a transição da matéria inanimada à sensação, mas também
não-específica dos centros, função na qual todos esses desta para o pensamento. Utilizada por nós durante vários
centros desempenham um papel equivalente). anos como hipótese de trabalho, essa teoria conduziu-nos
Essas doutrinas, por conseguinte, não se elevam acima na investigação de uma série de problemas de psicologia
das duas posiçôes extremas existentes na teoria da localiza­ clínica a três teses fundamentais, relativas ao problema da
mas as une mecanicamente, incorporando assim os de­ localização e que podemos tomar como hipóteses de traba­
feitos da velha e nova doutrina: a localização estrita e a anti- lho, que parecem explicar bem os fatos clínicos conhecidos
194 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 195

sobre esse problema e, além disso, permitem elaborar uma as partes se representam em duas modalidades essencial­
investigação experimental adequada. mente distintas: quando, na atividade cerebral, a figura é
A primeira de nossas conclusües refere-se à função do representada pelas funções psíquicas superiores e o
conjunto de cada uma das na atividade do cérebro. A pelas inferiores; e quando, ao contrário, a figura é represen­
análise dos distúrbios afásicos, agnósticos e apráxicos obri­ tada pelas funções inferiores e o fundo, pelas superiores.
ga-nos a reconhecer que nas doutrinas de Goldstein e Sob essa perspectiva que expusemos das rela~:ôes intercen­
não se consegue realmente resolver o problema das funçôes trais nas diferentes formas de atividade da consciência,
do conjunto e das partes. O pressuposto de uma função podemos a explicações muito hipotéticas diante de
dupla (específica e não-específica) para cada centro é inca­ fenômenos tais como o desenvolvimento automatizado e
paz de explicar adequadamente a complexidade dos fatos desautomatizado de um determinado processo, a
obtidos nos experimentos sobre os distúrbios que citamos de uma mesma função num nível distinto e assim por dian­
acima. A investigação obriga-nos, pois, a chegar a uma solu­ te. A partir das investigaçôes experimentais, que nos forne­
ção em certo sentido contrária. Em primeiro lugar, mostra­ ceram a base empírica para as generalizaçôes que expuse­
nos que uma função específica nunca está ligada à atividade mos, chegamos ãs duas teses
de um determinado centro e que é sempre produto da ativi­ 1. Em uma lesão focal (afasia, agnosia, apraxia) todas as
dade integrada de diversos centros, rigorosamente diferen­ outras funçôes que nào se relacionam diretamente com o
ciados e relacionados hierarquicamente entre si. Em segun­ setor lesionado se sentem afetadas de forma específica e
do lugar, nossa investigação püe em evidência que tampou­ nunca manifestam uma diminuição uniforme, como seria de
co a função global do cérebro, que serve para criar o esperar segundo a teoria da equivalência dos setores fron­
decorre da atividade conjunta, indivisível e funcionalmente tais do cérebro em relação a sua função não-específica.
homogênea de cada um dos centros, mas que é produto da 2. Uma mesma função, que não mantém relaçào com o
atividade integrada das funçôes correspondentes a áreas vê-se afetada também de forma totalmente
do cérebro, separadas, diferenciadas e unidas de quando varia a localização da lesão e nào mostra
novo entre si hierarquicamente, que não participam direta­ a mesma diminuição ou transtorno quando varia a localiza­
mente da formação de figuras. Na atividade cerebral, por ção do foco, como seria de esperar, de acordo com a teoria
global é uma função simples, da equivalência das diferentes áreas do cérebro que
executada de maneira global, em um pam na formação do fundo.
dos casos pelo cérebro funcionalmente homogêneo, nem a As duas teses obrigam-nos a concluir que a função cio
função parcial implica um centro especializado, também conjunto está organizada e estruturada como uma atividade
homogêneo. Tanto na função global quanto na parcial ocor­ integrada, que tem por base relações intercentrais dinâmicas
re a divisão e a unidade, a atividade integradora dos centros diferenciadas de forma complexa e conectadas hierarquica­
e sua diferenciação funcional. Diferenciação e integração mente.
não só não se excluem mas pressupôem, ao contrário, uma Outra série de investigaçôes experimentais nos
mútua e caminham de certo modo em paralelo. E o por sua vez, estabelecer as seguintes teses:
mais importante de tudo é que para diferentes funçôes é 1. Uma determinada função complexa (a linguagem)
preciso pressupor também uma estrutura igualmente distinta ver-se-á afetada no caso de lesão de uma determinada área.
das relaçôes intercentrais. Podemos, de qualquer e estará relacionada sempre globalmente em todas suas par­
considerar estabelecido que as relações entre o conjunto e tes, ainda que não de modo uniforme, com um aspecto par­

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196 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA i PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PSICOLOGIA 197

cial dessa função (sensorial, motora, mnêmica). Isto indica


que o funcionamento normal desse complicado sistema psi­
cológico não está garantido apenas pelo conjunto de todas
as funções das áreas especializadas, mas por um único siste­
ma de centros, que participa da formação de qualquer dos
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ção e a liberação) e a ignorar as novidades que na atividade
do cérebro introduzem cada uma das funções desses centros
superiores, aos quais atribuem a capacidade de inibir e sen­
sibilizar a atividade dos centros inferiores, mas não a de
criar e incorporar à atividade do cérebro nada essencialmen­
aspectos parciais da função em questão. te novo. Nossas investigações levam-nos a supor o contrá­
2. Qualquer função complexa, que não se relaciona rio: ou seja, que a funçào específica de cada sistema inter­
diretamente com o setor lesionado, vê-se afetada de forma central concreto consiste em primeiro lugar em proporcio­
completamente específica não apenas no que se refere à re­ nar uma forma totalmente nova e produtiva de atividade
dução do fundo, mas como figura, quando a lesão afeta fun­ consciente, que não se limita a inibir e estimular os centros
cionalmente a área à qual está estreitamente conectada tal inferiores. O principal aspecto na função específica de cada
funçào. Isso indica novamente que o funcionamento normal centro superior é o novo modus operandi da consciência.
de qualquer sistema complexo depende da atividade inte­ A segunda conclusào geral a que chegamos a partir de
gral de um determinado sistema de centros, sistema com­ nossas investigações experimentais refere-se à questão da
posto nào apenas por centros diretamente conectados a correlação entre as unidades funcionais e estruturais que se
algum aspecto do sistema psicológico em questão. dão nos transtornos do desenvolvimento infantil provocados
Essas duas teses forçam-nos a concluir que tanto a fun­ por alguma deficiência cerebral ou pela desintegração de
ção de uma parte concreta quanto a do conjunto sào estru­ determinados sistemas psicológicos em decorrência de deter­
turadas como atividades integradas, baseadas em complica­ minada lesão em um cérebro adulto e que nos permite
das relações intercentrais. supor uma localizaçào análoga à que se daria na criança. O
Nào há dúvida de que cabe atribuir à análise localiza­ estudo da sintomatologia que acompanha o desenvolvimen­
cionista-estrutural o fato de haver desvendado e submetido to psíquico deficiente nas diferentes patologias cerebrais,
a investigação essas complexas relações hierárquicas inter­ comparado com o das alterações ou transtornos patológicos
centrais. No entanto, os melhores pesquisadores limitaram­ que se seguem à lesão em uma localização análoga de um
se até agora a aplicar esses conceitos funcionais, tanto à ati­ cérebro adulto, leva-nos à conclusão de que é possível ob­
vidade dos centros superiores quanto à dos inferiores e sem servar um quadro sintomático análogo na criança e no adul­
distinguir neles nenhuma organização hierárquica. Na ver­ to quando a localização das lesões é distinta e, pelo contrá­
dade, interpretam as alterações funcionais dos centros supe­ rio, lesões com a mesma localização na criança e no adulto
riores (por exemplo, a área óptica larga de O. Petzel) pela podem dar lugar a quadros sintomáticos completamente
óptica da psicologia das funções dos centros inferiores diferentes.
(área óptica estreita). Mas os princípios básicos da psicolo­ Enquanto conclusão relevante podemos afirmar que as
gia estrutural de que partem esses pesquisadores não permi­ profundas diferenças que observamos no que diz respeito às
tem avaliar adequadamente a complexidade e hierarquiza­ conseqüências das mesmas lesões conforme estas se produ­
ção dessas relações interespaciais, e não podem, portanto, zam como processo de desenvolvimento ou então de dete­
su perar os limites de uma análise em termos puramente des­ rioração poderiam ser explicadas por meio desta lei geral:
critivos (mais primitivo mais complexo, mais curto/mais nos transtornos de desenvolvimento provocados por uma
comprido). Por isso, vêem-se obrigados a reduzir as funções patologia cerebral, mantendo-se iguais as demais circuns­
específicas dos centros superiores às dos inferiores (a inibi­ tâncias, é funcionalmente mais afetado o centro su perior
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198 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA PROBLEMAS TEÓRICOS E METODOLóGICOS DA PSICOLOGIA 199

mais próximo do setor lesionado e relativamente menos o investigação do problema da localização em geral e, em par­
centro inferior mais próximo dele, do qual, no entanto, ticular, do problema da localização cronogenética.
depende funcionalmente. Ao passo que na ínvolução obser­ A última de nossas três teses teóricas gerais proporcio­
va-se a relação contrária: nas lesões de qualquer centro, nadas por nossa investigação experimental refere-se às ca­
mantendo-se iguais as demais circunstâncias, é mais afetado racterísticas específicas da localização das funções nas áreas
o centro inferior dependente do mais próximo ao setor cerebrais especificamente humanas. A investigação de afa­
lesionado e relativamente menos, o superior mais próximo sias, agnosias e apraxias leva-nos à conclusão de que na
dele, do qual depende funcionalmente. localiza~'ão desses transtornos desempenham um importante
Encontramos a confirmação real dessa lei em todos os papel as altera,,:ões das conexões extracerebrais na atividade
casos de afasias e agnosias infantis congênitas e precoces e do sistema de centros que assegura o funcionamento corre­
nos de transtornos que se observam em crianps e adultos to das formas superiores da linguagem, do conhecimento e
como seqüelas de encefalites epidêmicas, assim como nos da atuação. Essa conclusào apóia-se empiricamente nas
casos de oligofrenias com diferentes localizações da patologia. observações sobre a história do desenvolvimento das formas
O que explica essa regularidade dos efeitos é que as superiores de atividade da consciência, que nos mostram
relações complexas entre os diferentes sistemas cerebrais que inicialmente todas essas funções agem em estreita cone­
são produto do desenvolvimento, de modo que tanto na xào com a atividade externa e apenas posteriormente pare­
evolução do cérebro quanto no funcionamento do cérebro cem interiorizar-se, transformando-se em atividade interna.
adulto deve ocorrer uma diferente dependência mútua dos A investigação das funções compensatórias que aparecem
centros. Os centros inferiores, que na história do cérebro nesses transtornos mostra também que a objetivaç:ão da fun­
são condição prévia para o desenvolvimento das funções ção alterada, seu deslocamento para fora e sua transforma­
dos centros superiores (que dependem, portanto, evolutiva­ ção em atividade externa são um dos principais mecanismos
mente dos inferiores) devido ã lei da transmissão das fun­ de compensação das alterações.
ções para cima, deixam de ser independentes no cérebro O sistema de análise psicológica que aqui propomos e
desenvolvido e adulto e ficam subordinadas a instâncias que que utilizamos nas investigações sobre o problema da loca­
dependem, no entanto, dos centros superiores para exercer lização a que nos referimos, supõe a nosso ver uma mudan­
sua atividade. O desenvolvimento vai de baixo para cima, a ça radical no método experimental psicológico. Uma mu­
decadência de cima para baixo. dança que podemos sintetizar em dois aspectos principais:
Temos uma confirmação empírica complementar dessa 1. Substituir a análise que decompõe o complexo con­
tese nas observações acumuladas sobre os mecanismos junto psicológico em seus elementos integrantes (e que,
compensatórios ou substitutivos e indiretos que se produ­ nesse processo de decomposição do conjunto em seus ele­
zem no desenvolvimento. Essas observações mostram que mentos, perde aquelas propríedades globais próprias do
em um cérebro adulto com um determinado defeito são os conjunto que tentava explicar), por outra forma de análise
centros superiores que, com freqüência, se encarregam da em que se decomponha o conjunto completo em unidades
funç~10 compensatória, ao passo que em um cérebro em que não possam mais ser objeto de ulterior decomposição,
processo de desenvolvimento os que se encarregam são os mas que continuem conservando em sua forma mais simples
centros inferiores em relação ao setor afetado. Graças a essa as propriedades inerentes ao conjunto.
lei, o estudo comparativo do desenvolvimento e da deterio­ 2. Substituir a análise estrutural e funcional, incapaz de
ração se transforma em uma das vias mais frutíferas para a abarcar a atividade em seu conjunto, pela análise interfun­
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200 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

donal ou por sistemas, baseada na análise das conexões e


relaçôes interfundonais, determinantes de cada uma das
formas de atividade dadas.
SEGUNDA PARTE
O emprego desse método na
clínica permite: a) partindo de um só princípio, os O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE
DA PSICOLOGIA.
b) unificar em uma estrutura
inclusive aqueles que mantêm UMA INVESTIGAÇÃO METODOLÓGICA
rela~~ões mais distantes; e c) estabelecer a via que provoca
desde alterações focais determinadas até a mudança concre­
ta que se produz no sujeito como entidade global e em seu
modo de vida.
Todos os fundamentos teóricos levam-nos a supor que
o problema da localização nào pode ser resolvido de forma
idêntica nos animais e no homem. Por isso, transpor direta­
mente os dados da com animais em que se
real iza a extirpação de determinadas áreas do cérebro ao
campo da análise clínica e ao problema da localização no
homem (K. Lashley) só pode levar a graves erros. A teoria
da evolução das faculdades no reino animal se­
gundo linhas puras e mistas, que vai se impondo cada vez
mais na psicologia comparada atual, faz com que nos incli­
nemos para a idéia de que as unidades estruturais e funcio­
nais na atividade cerebral, específicas do homem, dificil­
mente podem ocorrer no reino animal e de que o cérebro
humano dispõe, em comparação com os animais, de um
princípio localiza dor, graças ao qual chegou a se transformar
no da consciência humana.
11 I! i

o SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE


DA PSICOLOGIA·,
UMA INVESTIGAÇÃO METODOLÓGICA

A pedra que rejeitaram os cunstnltoYes,


essa veio ti ser a pedra angular..

Ultimamente, cada vez soam com maior freqüência


vozes que colocam o problema da psicologia como um
problema de primeiríssima importância, Essas colocaçôes, e
isto é o mais notável, nào partem dos filósofos (para quem
isso se converteu num costume profissional) nem dos psicó­
logos teóricos, mas dos psicólogos práticos, que estudam
aspectos concretos da psicologia aplicada, e dos psiquiatras e
psicotécnicos, representantes da parte mais exata e precisa de
nossa ciência, É evidente que nos encontramos diante de
uma encruzilhada, tanto no que se refere ao desenvolvimento
na pesquisa quanto ao acúmulo de material experimental, à
sistematização dos conhecimentos e à formação de princípios
e leis fundamentais, Continuar avançando em linha reta,
realizando o mesmo trabalho, dedicar-se a acumular
material paulatinamente, resulta estéril e inclusive impossível.
Para adiante é preciso demarcar um caminho,
Dessa crise metodológica, da evidente necessidade de
direção que mostram uma série de disciplinas particulares ­
num determinado nível de conhecimentos - de coordenar

• "lstoritcheskii smisl psikhologuitcheskovo krízissa". Obra escrita em


1927, puhlícada pela primeira vez nas Obras escolhidas. Ver nota da p. 421.
204 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 205

criticamente dados heterogêneos, de sistematizar leis disper­ A chave da psicologia está na patologia; e n,10 porque esta
sas, de interpretar e comprovar os resultados, de depurar mé­ última tenha desvendado e estudado antes as raízes da psi­
todos e conceitos, de estabelecer princípios fundamentais, que, mas porque esta é a natureza interna dos fatos que, por
em síntese, de dar coerência ao conhecimento, é de tudo do conhecimento científico
isto que surge a ciência geral.
Por o conceito da psicologia geral nào coincide em pessoa com uma psicopatologia é, como
absoluto com esse outro conceito básico, central para uma uma pessoa em maior ou menor grau normal e deve ser
série de específicas, que é o de psicologia teórica. definida em relação ã normalidade, para os novos sistemas,
Esta última (que conforma essencialmente a psicologia do qualquer pessoa normal é mais ou menos patológica e deve,
homem adulto normal) deveria ser considerada como uma portanto, ser interpretada como uma variante de tal ou qual
das disciplinas particulares, junto com a animal e a patológico. Em termos simples, alguns sistemas consi­
psicopatologia. O fato de que até agora tenha deram a pessoa normal como protótipo e o indivíduo pato-
do, e continue a fazê-lo em parte, esse papel de fator genera­ como urna variedade ou variante desse protótipo;
Iizador e formador até certo ponto da estrutura e dos sistemas outros, pelo tomam como modelo o fenômeno
das disciplínas concretas, às quais proporciona conceitos fun­ patológico e consideram o normal como uma de suas varie­
e as quais conforma, segundo sua própria estrutu­ dades. E quem poderá dizer como a psicologia futura
ra, se pela história do desenvolvimento da ciência, vai resolver esse debate?
mas nào se deve a uma necessidade Embora a psicolo­ Além dessas duas alternativas (uma que adota como
do homem normal tenha desempenhado um papel direti­ padrão o homem normal e outra que adota o patológico),
vo, isto nào decorre da própria natureza da ciência, mas que respondem a critérios em parte empíricos e em parte
dependeu de condições externas: basta que estas variem para existem outros sistemas que se baseiam na psi­
que a psicologia do homem normal perca esse papel diretivo. animal. É o caso, por exemplo, da maioria dos cur­
Naqueles sistemas psicológicos que cultivam o conceito de sos norte-americanos de comportamento e dos russos de re­
inconsciente, o papel dessa disciplina diretiva, cujos flexologia, que desenvolvem todo seu sistema partindo do
pais conceitos servem de pontos de partida para as ciências conceito de reflexo condicionado, que é tomado como
é desempenhado pela psicopatologia. Tais sào, por cípio central. Além de conceder um papel de protagonista à
os sistemas de S. Freud, A. Adler e E. Kretschmer. psicologia animal empírica na elaboração dos conceitos fun­
Para este último, esse papel determinante da psicopato­ damentais, uma série de autores a apresentam como a disci­
já não mantém relaçào com o conceito central de plina geral a que outras disciplinas deveriam se referir.
como ocorre em Freud e Adler. Ou seja: já nào Argumentam que, já que a psicologia animal foi aquela que
se formula a psicopatología como primordial porque estuda deu lugar à ciência do comportamento e constitui o ponto
o objeto fundamental (o inconscie de partida da análise objetiva do psíquico, e visto que essa
critério essencialmente segundO o qual a es­ ciência é estritamente uma ciência biológica, a ela corres-
sência e a natureza dos fenômenos a estudar se revelam em elaborar os conceitos fundamentais da ciência e pro­
sua forma mais pura em suas manifestaçôes extremas, pato­ porcioná-los a outras
lógicas. Por conseguinte, é preciso ir da patologia à normali­ Este é, por exemplo, o ponto de vista de I. P. Pávlov.
dade, explicar e compreender o homem normal a partir da Em sua opinião, o que os psicólogos fazem não pode se
patologia e não o inverso, como se vinha fazendo até agora. refletir na psicologia animal, mas o que os psicólogos com-
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206 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 207
parados fazem determina em grande parte a tarefa dos psi­ Compreender o obrok a partir da renda e a forma feudal
estes constroem a su perestrutura e os primeiros a partir da burguesa: é exatamente o mesmo procedimento
estabelecem os fundamentos (950). De fato, a fonte de metodológico mediante o qual compreendemos e definimos
onde extraímos as categorias para analisar e o pensamento e os rudimentos da linguagem nos animais a
o comportamento, a instância a que recorremos partir do pensamento evoluído e da linguagem do homem.
para comprovar nossos resultados, o modelo que nos serve Só podemos compreender cabalmente uma determinada
para aperfeiçoar nossos métodos é a psicologia animal. etapa no processo de desenvolvimento ou, inclusive, o pró-
Encontramo-nos de novo diante de uma inversão nos
processo se conhecemos o resultado ao qual se dirige
papéis que a psicologia tradicional tinha atribuído às diver­ esse desenvolvimento, a forma final que adota e a maneira
sas disciplinas. O ponto de referência era o homem e dele como o faz. Trata-se unicamente, é claro, de transferir num
se partia para dar conta do psiquismo animal; interpretando plano metodológico categorias e conceitos fundamentais do
suas manifestações por analogia com nós mesmos. E nem
superior para o inferior e não de extrapolar sem mais nem
sempre a questão podia ser reduzida a um antro­
menos observações e generalizações empíricas. Por exem­
existiam fundamentos meto­
plo, os conceitos de classe social e de luta de classes mani­
aconselhavam seguir essa via na pes­
festam-se com toda nitidez quando se analisa o sistema ca­
quisa: a psicologia subjetiva nào podia funcionar de outra
mas também são a chave de todas as formas pré­
maneira. Via na psicologia do homem a chave da
da sociedade, embora as classes sociais sejam di­
dos animais e nas formas superiores a chave da interpreta­
ferentes e nào ocorram as mesmas formas de luta. Ou
ção das inferiores. O pesquisador nem sempre deve seguir o
trata-se de diferentes estágios concretos no desenvolvimen­
mesmo caminho seguido pela natureza, com freqüência é
to da categoria "classe social". Mas todas essas característi­
mais vantajoso o caminho inverso.
cas, que permitem diferenciar as formas históricas de épocas
Era para esse conceito de método "inverso" que Marx
anteriores das formas capitalistas, não só não se apagam
afirmava que a "anatomia do homem era a
mas, pelo contrário, só se tornam acessíveis quando analisa­
chave da anatomia do macaco" (K. Marx, F. Obras, t.
das a partir de categorias e conceitos obtidos da análise de
46, parte I, p. 42). "Só poderemos compreender as
sobre a existência de uma consciência elevada nas espécies
esclarece Marx - é a
inferiores se já soubermos previamente em que consiste o
çào histórica de produção mais desenvolvida e multiforme.
mais elevado." Assim, a economia burguesa nos oferece a
Por isso, a análise dos tipos de que se dão em seu
chave da economia antiga etc. Mas não no sentido como o
seio e a interpretação de sua estrutura nos oferecem, ao
interpretam os economistas, que apagam todas as diferenças
mesmo tempo, a possibilidade de analisar a estrutura e as
históricas e vêem todas as formas da sociedade como formas
relações sociais de todas as formas de sociedade desapareci­
Podemos compreender o obrok I ou os dízimos se
das, cujos despojos e elementos serviram para construí-Ia.
conhecermos os mecanismos do arrendamento agrário, mas
Alguns restos ainda não superados desses despojos e ele­
não podemos identificá-los com este último"
mentos continuam arrastando sua existência dentro da so­
1. Obrok. sistema de tributação do camponês em benelkio de proprie­ ciedade burguesa, e o que em formas precedentes de socie­
tário das terras, existente na RlIssia durante () regime de servidão (abolido em dade só existia como indício desenvolveu-se nela até alcan­
1861). Consistia no pagamento anual de uma determinada quantidade de çar seu pleno valor, e assim por diante." (Ibidem.) O cami­
metal ou em espécie. (N.T.E.)
nho torna-se mais fácil de compreender quando se conhece
Híd'11

208 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 209

seu final; é este, além que dá sentido a cada etapa do animal ao homem. "O simples, o elementar ­
particular. diz ele pode ser compreendido sem o complexo, ao passo
Esse é um dos caminhos que esclarecer o complexo com o elementar é impossível."
uma série de ciências em que ele é suficientemente A partir desses dados constituir-se-á "a base do conhecimen­
do. É aplicável à Pávlov, panindo precisamente to psicológico" (ibidem, p. 105). E no prólogo do livro no
de um ponto de vista metodológico, nega o caminho do qual os vinte anos de experiência no estudo do com­
homem ao animal; não se trata de que os fenômenos huma­ portamento animal, Pávlov declara que "está
nos sejam essencialmente diferentes dos animais, mas de vogável e firmemente convencido de que
que não se pode aplicar aos animais as categorias c concei­ no fundamental esse caminho" se
tos psicológicos humanos. Seria estéril - de um ponto de mecanismo e as leis da natureza humana"
vista cognitivo - fazê-lo. Por isso, Pávlov defende o caminho Eis aqui uma nova controvérsia entre o estudo dos ani­
contrário: o do animal ao humano, por considerá-lo como o mais e a elo homem. A é, de fato, muito
caminho de investigação mais direto e aquele que repete o semelhante à controvérsia entre a psicopatologia e a psicolo­
seguido pela natureza. Conforme suas palavras, "se do homem normal. Que disciplina deve reger, unir, ela­
borar os conceitos fundamentais, os princípios e os métodos,
de conceitos psicológicos, que não têm lugar no espaço
comprovar e sistematizar os dados de todos os outros domí­
não podemos penetrar no mecanismo do comportamento
nios? antes, a psicologia tradicional considerava o animal
dos animais, no mecanismo dessas re\açôes" (1950, p.
como um antepassado mais ou menos distante do homem,
Por conseguinte, a não está nos fatos, mas nos
agora, em contrapartida, a reflexologia se inclina a conside­
ou seja, na forma de esses fatos. "Nossos
rar o homem como "um animal bípede, sem plumas", nas
nós os imaginamos sob a forma de espaço e tempo; palavras de Platão. Antes, definia-se e descrevia-se a
para nós, trata-se de fatos totalmente científico-naturais; pelo do animal com conceitos e termos extraídos das
contrário, os fatos psíquicos sào concebidos exclusivamente çôes do homem; agora, o comportamento dos animais nos
de forma temporal", diz (ibidem, p. 104). Pávlov estabelece proporciona "a chave para compreender o comportamento
explicitamente que se trata não só cle emancipar-se dos con­ do homem" e o que chamamos "comportamento humano" é
ceitos psicológicos, mas de elaborar uma nova psicologia exclusivamente como derivado do fato de que
com a ajuda dos conceitos dotados de uma referência espa­ um certo animal caminha ereto e por isso fala, e de que dis­
essa nova psicologia demonstra que sua formula cão não de mãos com o polegar oposto.
a determinado grupo de Podemos nos perguntar de novo: quem, afora a futura
é uma formulação de princípios conceituais c, portanto, nào psicologia resolverá essa controvérsia entre o homem
se limita a reclamar independência para seu campo de inves­ e o animal em psicologia, controvérsia de cuja solução de­
mas pode estender sua influência a todas as esferas pende nada mais nada menos do que o destino futuro de
do conhecimento psicológico nesse novo tipo nossa ciência?
de conceito que se desenvolve no espaço.
Em sua opinião, mais cedo ou mais tarde a ciência tras­
ladará ao psiquismo humano os dados objetivos "guiando-se 2
pela similitude ou pela identidade das manifestaçôes exter­
nas" e explicará objetivamente a natureza e o mecanismo ela A de sistema,
consciência (íbidem, p. 23). Seu caminho vai do simples ao de que nos ocupamos, até que ponto amadure-

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210 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 211

ceu a necessidade de uma psicologia geral e delineamos, ca, porque essa parte constitui a base de toda a psicologia"
em parte, os limites e o conteúdo aproximado desse concei­ 0917, p. 5). H. Hóffding, que supunha possível fazer
to. A partir de agora nos manteremos nessa via para nossa 10gia "através de vários procedimentos e métodos", que afir­
análise: partiremos de uma série de fatos, ainda que só se mava que "não existe uma psicologia, mas muitas", e que
trate de fatos de caráter muito geral e abstrato (como tal ou não via a necessidade de unidade, tendia a considerar a psi­
sistema psicológico e seu modelo, as tendências e o cologia subjetiva como "a base em torno da qual, como em
destino de diferentes teorias, estes ou aqueles métodos de torno de um centro, devem se agrupar as riquezas de outras
conhecimento, categorizações científicas e esquemas fontes de conhecimento" 0980, p. 30). Com efeito, seria
Não os trataremos do ponto de vista da lógica abstrata, pu­ mais oportuno neste caso falar de uma psicologia básica OLl
ramente filosófica, mas como determinados fatos da história central ao invés de falar de LIma psicologia geral. Mas é pre­
da ciência. Ou seja, como acontecimentos concretos, histori­ ciso muito dogmatismo e muita ingenuidade presunçosa
camente vivos. Referir-no-emos aos sistemas levando em para não ver que surgem outros sistemas com uma base e
conta suas tendências, as oposições entre uns e outros, seus um centro totalmente distintos e que, nesses outros siste­
condicionamentos reais e sua essência teórico-cognitiva, mas, o que os psicólogos acadêmicos consideram "o básico"
isto é, sua correspondência com a realidade, ao conheci­ se desloca para a periferia pela própria natureza das coisas.
mento da qual estão destinados. É através da análise da rea­ Toda uma série de sistemas consideraram que a psicologia
lidade científica e nào por meio de raciocínios abstratos que subjetiva era básica ou central, coisa tão compreensível em
pretendemos obter uma idéia clara da essência da psicolo­ seu momento quanto o é agora o fato de que tenha
gia individual e social como aspectos de uma mesma ciên­ sua importância. Terminologicamentc seria mais correto
cia - e do destino histórico de ambas. E do mesmo modo falar de psicologia diferenciando-a da psicologia
que o político extrai suas regras de atuação da análise dos aplicada, como faz E. Münsterberg (1922). Tudo que se refe­
acontecimentos, extrairemos dessa análise nossas regras re ao homem normal e adulto constituiria um ramo especial,
para organizar a investigaç:ào metodológica, que se baseia junto com a psicologia infantil, a psicologia animal e a
no estudo histórico das formas concretas que a ciência foi copatologia.
adotando e na análise teórica dessas formas para chegar a A psicologia assinala L. Binswanger, nào é nem
princípios generalizadores, comprovados e válidos. Em nos­ a psicologia geral nem LIma parte dela, mas é um objeto da
sa opinião, é aí que deve estar o germe dessa psicologia psicologia Esta última se coloca perguntas tais como se
geral, conceito que procuraremos esclarecer neste capítulo. é possível, em geral, a psicologia teórica, e que estrutura e
A primeira coisa que podemos estabelecer através dessa utilidade têm seus conceitos. A psicologia teórica não
análise são os limites entre a psicologia geral e a psicologia ser identificada com a psicologia geral, já que o que esta se
teórica do homem normal. Vimos que esta nào tem por que coloca precisamente como problema fundamental não é o
identificar-se com a psicologia mas que, para alguns problema da criação de teorias em psicologia 0922, p. 5).
sistemas, é antes de mais nada uma disciplina particular, Há um segundo ponto que nossa análise permite esta­
outro ramo passando a ter esse caráter geral, vimos que o belecer com certeza: o próprio fato de que a psicologia teó­
da psicologia geral pode ser desempenhado Ce de fato e posteriormente outras disciplinas, tenha desempe­
isso ocorre) pela psicopatologia e pela teoria do comporta­ nhado o papel de ciência geral está condicionado, por um
mento animal. A. L Vvedienski supunha que à psicologia lado, pela ausência de uma psicologia geral, e, por outro,
geral "seria muito mais correto chamá-la de psicologia bási- pela grande necessidade que existe dela e de que sejam
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212 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 213

desempenhadas suas para tornar possível a pesqui­ significado podem ter essas buscas para nossa clenda no
sa científica. A está grávida de uma disciplina momento histórico atual de seu desenvolvimento, qual é o
mas ainda não deu ã luz. conceito que procuramos como objeto da e qual
A terceira que deduzir de nossa análise é a resposta que procuramos para a pergunta do que é que
é a distinção entre duas fases no desenvolvimento de a psicologia estuda.
quer ciência geral, de Todo fenômeno concreto é absolutamente infinito e
a história da ciência e da ~,~hvl~ inesgotável se considerarmos em separado cada um de seus
desenvolvimento, a traços. Em todos os fenômenos sempre é preciso buscar o
somente por um traço puramente que os converte em objeto científico. É isso precisamente
como diz corretamente Binswanger, ocorre na maioria das que distingue a observaçào de um do sol por parte
ciências. Assim, distinguimos a botânica geral e a especial, a de um astrônomo da desse fenômeno a título de
biologia e a fisiologia, a patologia e a psiquiatria etc. Para a curiosidade. Na primeira se destacará
disciplina geral o objeto de estudo é o geral, o que é próprio que o transforma em um fato astronô­
de todos os objetos da ciência em questão. A disciplina parti­ mico; na segunda, só se observarão traços que por
cular ocupa-se, em contrapartida, do que é próprio de grupos acaso chamam a atenção.
ou inclusive de indivíduos dentro de uma mesma categoria O que é que têm em comum todos os fenômenos que a
de Nesse sentido, concedia-se o nome de especial à psicologia estuda, o que é que transforma em fatos
disciplina que agora chamamos diferencial; e nesse mesmo cos os mais diversos fenômenos desde a secreção da sali­
sentido, esse ramo da psicologia era denominado de "indivi­ va nos cachorros até o prazer da tragédia -, o que têm em
dual". A da botânica ou da zoologia estuda o que comum os desvarios de um louco e os rigorosÍssímos cálcu­
existe de comum a todas as plantas ou a todos os los de um matemático? A psicologia tradicional responde: o
o que é próprio de todos os homens. Para que têm em comum é que todos eles são fenômenos psíqui­
abstraiu-se da diversidade dos fenômenos em questão o con­ cos, que nào se desenvolvem no espaço e só sào acessíveis
ceito de um ou outro traço comum, próprio de todos ou da à percepção do sujeito que os vive. A renexologia responde:
maioria deles e esse traço, que fora despojado da diversidade o que têm em comum é que todos esses fenômenos são
real dos traços concretos, se transformou em objeto de estudo fatos de comportamento, processos correlativos de ativida­
da disciplina Por isso, considerou-se que o que distin­ atos de do organismo. Os psicanalistas
guia essa disciplina e seu objetivo consistia em apresentar dizem: o que há de comum a todos esses fatos, o mais pri­
cientifícamente fatos que são comuns ao maior número de o que os une e constitui sua base é o inconsciente.
fenômenos particulares do ramo de conhecimento em ques­ essas três respostas estabelecem três significados
tão (I. Biswanger, 1922, p. 3). distintos da psicologia a qual definem como a ciência
Esse estágio de busca no qual se tenta definir um con­ 1) do psíquico e de suas propriedades, ou 2) do
ceito abstrato e comum para todas as disciplinas psicológi­ mento, ou 3) do inconsciente.
cas (no qual se constitui o objeto de todas elas e no qual se Disto se deduz a importância da concepção geral para
determina o que deve ser destacado do caos dos fenômenos delimitar o objeto da ciência. Qualquer falO, expresso con­
isolados e o que tem valor cognitivo para a psicologia den­ secutivamente a partir da concep<,;ão de cada um desses três
tre todos os fenômenos) é um estágio que aparece muito sistemas, adotará três formas totalmente distintas; melhor
claramente em nossa análise. Permite que calibremos que dizendo, teremos três fatos distintos. E, à medida que a
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214 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 215

ciência avançar, à medida que se acumularem os fatos, obte­ dos psicanalistas, que simplesmente não existem para ou­
remos sucessivamente três generalizações distintas, três clas­ tros psicólogos; para muitos trata-se da mais louca fantasia.
sificações distintas, três sistemas distintos, três ciências dis­ Para \YI. Stern, que em geral adota uma atitude benevolente
tintas, que estarão tanto mais afastadas do fato comum que para com a psicanálise, as interpretações psicanalíticas, tão
as unia e tanto mais afastadas umas das outras, quanto habituais na escola de Freud e tão inquestionáveis para os
maior for o sucesso com que se desenvolverem. Pouco psicanalistas quanto a medição da temperatura num hospi­
de seu aparecimento, essas ciências se verão obriga­ e os fatos cuja existência afirmam, lhe fazem lembrar a
das a selecionar distintos fatos e a própria seleção dos fatos quiromancia e a astrologia do século XVI. Para Pávlov, a afir­
determinará na seqüência o desenvolvimento da ciência. mação de que o cachorro lemhrou da alimentaçào ao escu­
K. Koffka foi o primeiro a expor a idéia de que, se as coisas tar a campainha não passa de uma fantasia. Do mesmo
continuarerri assim, a psicologia introspectiva e a psicologia modo, os introspeccionistas consideram que nos atos de
do comportamento passarão a constituir duas ciências dife­ pensamento não existem os movimentos musculares descri­
rentes. O caminho de uma estará tão distante do da outra, tos pelos condutivistas.
que é "impossível dizer com segurança se conduzirão real­ Mas o conceito essencial que age como suporte na ciên­
mente a um mesmo objetivo" (K. Koffka, 1926, p. o que poderíamos denominar abstração primária, não só
Também Pávlov e Békhterev compartilham, na essên­ está determinando o conteúdo das disciplinas particulares,
cia, da mesma opinião; para eles é plausível a idéia da exis­ como também seu caráter integrador e, portanto, a forma de
tência paralela de duas ciências: a psicologia e a reflexolo­ explicar os o princípio explicativo essencial da ciência.
que estudam o mesmo mas de perspectivas diferentes. E, assim como nas disciplinas particulares se dá uma
"Não nego a psicologia como conhecimento do mundo inte­ tendência a transformar-se em ciência e a estender sua
rior do homem", diz Pávlov a esse respeito 0950, p. 125). innuência às áreas próximas, a ciência surge da neces­
Para Békhterev, a reflexologia não se contrapôe à psicologia sidade de unir ramos heterogêneos do saber. Quando disci­
subjetiva nem exclui, por menos que seja, esta última, mas plinas análogas acumulam suficiente quantidade de material
delimita uma esfera particular da pesquisa, ou seja: cria uma em domínios relativamente distantes entre si, surge a neces­
ciência paralela nova. Ele mesmo fala das estreitas relações sidade de unificar o material heterogêneo, de estabelecer e
entre ambas as disciplinas científicas e inclusive de uma "re­ determinar a relação entre os diferentes domínios e entre
flexologia subjetiva") que surgirá inevitavelmente no futuro cada um deles e a totalidade do saber científico. Como esta­
(1923). Certamente, é preciso dizer que tanto Pávlov belecer relação entre os materiais da patologia, da
Békhterev negam de fato a psicologia e confiam na gia animal, da psicologia social? Vimos que o substrato da
lidade de abarcar integralmente todo o ramo do saber sobre unidade é dado fundamentalmente pela ahstração
o homem valendo-se do método objetivo, o que equivale a Mas a união de material heterogêneo - como defende a psi­
admitir que só pode haver uma ciência, embora em palavra cologia da gestalt - nào pode ser alcançada mediante a sim­
reconheçam duas. É assim que o conceito geral predetermi­ aposição da coníunção "e", mediante a simples união
na o conteúdo da ciência. das partes, de modo que cada uma delas conserve
Atualmente, a psicanálise, o behaviorismo e a psicolo­ e a independência. A unidade consegue-se por
gia subjetiva operam não apenas com diferentes conceitos, meio da suhordinação e o domínio, por meio da renúncia
mas também com fatos diferentes. Fatos tão indubitáveis, das disciplinas particulares à soberania em favor de uma
tão reais, tão comuns a todos, como o complexo de Édipo Dentro do novo conjunto não se produz a
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216 TEORIA E MÉTODO EM PSICOL.OGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOL.OGIA 217

coexistência de disciplinas, mas um sistema hierárquico, do­ ria na origem da rivalidade interdisciplinar pela supremacia.
tado de um centro principal e outros secundários, como o O fato de que exista um conceito generalizador e, assim
sistema solar. De forma que a unidade é o que determina o como se dá uma batalha entre as disciplinas para conseguir
II papel, o sentido e () significado de cada domínio isolado: esse conceito generalizador, também se dará irremediavel­
isto é, nào só determina o conteúdo da ciência, mas também mente uma batalha pelo princípio, Com efeito: a reflexolo­
I
a forma explicativa a ser adotada, o princípio de generaliza- nào só formula o conceito de comportamento, como tam­
I que com o tempo, ã medida que a ciência evolui, se bém o princípio do reflexo condicionado, ou seja, a
transformará em seu princípio explicativo. do comportamento com base na externa do
Aceitar a psique, o inconsciente ou o comportamento animal. E é difícil dizer qual dessas duas idéias é mais
como conceitos primogênitos significa não só reunir três importante para esta corrente teórica. Se descartarmos o
categorias distintas de como também oferecer três dife­ princípio dos reflexos condicionados ficaremos somente
rentes formas de explicar esses fatos, com o comportamento. Ou com um sistema de movi­
A tendência a generalizar e integrar os conhecimentos mentos e de formas de agir que têm sua explicação na cons­
transforma-se assim em uma tendência a explicá-los e o ciência, matéria da qual se ocupa faz muito tempo a psicolo­
caráter de integração do conceito generalizador o transfor­ subjetiva, Se descartarmos o conceito e ficaremos apenas
ma em princípio explicativo, porque explicar significa esta­ com o princípio, teremos uma psicologia associacionista
belecer uma conexão entre vários fatos ou vários grupos de sensualista, De uma e da outra trataremos mais adiante. Por
fatos, explicar é referir uma série de fenômenos a outra, hora, o importante é estabelecer que tanto a generalização
explicar significa para a ciência definir em termos de causas. do conceito quanto o princípio generalizador criam a ciên­
Enquanto a se dá no seio de uma disciplina, a cia geral, mas somente se ambos vierem unidos, se aparece­
explicação será levada a cabo por meio da conexão causal rem ao mesmo tempo. Do mesmo modo, a psicopatologia
de fenômenos que estão dentro de um mesmo domínio. Mas não só apresenta o conceito generalizador do inconsciente,
quando elevamos nossas generalizações por cima de disci­ como o interpreta de forma explicativa recorrendo ao
plinas particulares, unificamos fatos de diferentes domínios, cípio da sexualidade, Para a psicanálise, generalizar as disci­
isto é, estabelecemos generalizações de segundo grau, plinas psicológicas e integrá-las sobre a base do conceito do
devemos buscar de imediato uma explicação de grau supe- inconsciente supõe explicar totalmente - a partir da sexuali­
ou seja, a conexão de todos os âmbitos do conheci­ dade - o mundo que a psicologia estuda,

mento em com fatos que estão fora deles. Dessa Ambas as tendências a tendência à integração e à gene­
maneira, quando buscamos um princípio explicativo saímos - ainda aparecem unidas e é difícil distingui-las: a
dos limites da ciência particular e nos vemos obrigados a segunda não se manifesta com suficiente clareza e, às vezes,
situar esses fenômenos num contexto mais amplo. inclusive pode não estar presente. Quando coincide com a
Existe, pois, uma tendência a estabelecer um primeira, isso se deve mais uma vez a fatores históricos e nào
explicativo unitário e a que este atue a partir de fora dos a uma necessidade lógica, Mas quando se dá um confronto
limites em que nasceu a ciência, convertendo-se desse mo­ entre disciplinas pela supremacia, essa tendência ã generali­
do num princípio explicativo, não mais das da costuma aparecer em outra série de fatos, podendo
realidade a que se referia num princípio, mas do sistema de forma isto é, independentemente da primei­
da realidade, e não só da ciência em que surgiu, mas ra tendência, Em ambos os casos, dizer que as duas
do sistema científico em sua totalidade. Essa tendência esta- tendências se manifestam em sua fonna mais pura,
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218 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 219

II
Assim, na psicologia tradicional, o conceito do de vista também científico. Isto coloca a possibilidade de
pode estar presente em muitas explica\~ões, embora nào em uma metodologia científica sobre uma base histórica.
qualquer uma: associacionismo, psicologia do ato, teoria A regularidade na mudanç~a e no desenvolvimento das
das faculdades etc. Isto é, a relação existente entre a genera­ idéias, o aparecimento e a morte dos conceitos, inclusive a
lização e a integração é estreita, mas não inevitável. Um mudança de etc, tudo isso pode ser
conceito admite uma série de explicações e vice-versa. Mais do cientificamente se relacionarmos a ciência em
nos sistemas da psicologia do inconsciente, esse con­ 1) com o substrato sócio-cultural da época; 2) com as leis e
ceito fundamental não é obrigatoriamente interpretado co­ condições gerais do conhecimento científico; 3) com as exi­
mo sexualidade. Em A. Adler e C. ]ung, a explicação básica gências objetivas que a natureza dos fenômenos objetos de
é dada por outros princípios. Por no confronto estudo coloca para o conhecimento científico no estágio
disciplinar ocorrerá necessária e logicamente essa atual da investigação. Ou seja, em última instância, com as
tendência do saber rumo à integraçào mas a segunda ten­ exigências da realidade objetiva que a ciência em questão
dência nem sempre se manifestará como uma necessidade estuda. Porque o conhecimento científico deverá se adaptar,
lógica, mas aparecerá em função dos condicionamentos his­ se acomodar às particularidades dos fatos que são estuda­
tóricos. Por isso é mais fácil analisá-la em sua aparência dos, deverá se estruturar de acordo com suas E
mais pura, no confronto de princípios e escolas dentro de por isso, na do fato científico cabe descobrir sem­
uma mesma pre a participação dos fatos objetivos que essa ciência estu­
da. Procuraremos levar em conta, em nossa análise. os três
pontos de vista.
3 Podemos expressar esquematicamente o destino geral e
a linha de desenvolvimento dessas idéias explicativas do
Podemos, portanto, afirmar que qualquer descoberta seguinte modo: em primeiro lugar, se dá uma descoberta
mais ou menos importante em qualquer ramo, qualquer des­ real qualquer mais ou menos importante, qualquer desco­
coberta que saia dos limites desse domínio parcial, tenderá herta que modifique a idéia habitual sobre todo um âmbito
a se transformar num princípio explicativo de todos os fenô­ de fenômenos de referência e que inclusive ultrapasse os
menos psicológicos e obrigará a psicologia a sair de seus limites desse grupo parcial de fenômenos onde foi observa­
próprios limites, levando-a a domínios mais amplos do sa­ da e formulada.
ber. Essa tendência manifestou-se nas últimas décadas com Segue-se a isso o estágio de propagação da influência
uma regularidade e constância tão extraordinária, e com tal dessas mesmas idéias aos domínios contíguos ou, por assim
uniformidade nos mais diversos ramos, que é possível reali­ dizer, a expansão das idéias a um número de fatos maior do
zar previsões sobre o processo de evolucão de tal ou que originalmente abarcava. Tudo isso dá lugar a uma modi­
conceito ou descoberta, de tal ou ficação da própria idéia (ou sua aplicação): aparece uma
essa repetição regular que ocorre na evolução das mais mais abstrata desta e a conexào com os fatos a
diversas idéias demonstra de forma evidente (com uma evi­ que deve sua origem vai se debilitando, ainda que essa co­
dência que raras vezes se apresenta ao historiador da ciên­ nexão aja como garantia da autenticidade da nova
cia e ao metodólogo) a necessidade objetiva que subja;;: ao medida em que esta começa sua marcha conquistadora, e
desenvolvimento da ciência, uma necessidade que podere­ isso é muito importante enquanto descoberta cientificamen­
mos descobrir se enfocarmos os fatos da ciência de um ponto te comprovada.
UI

I1I1 220 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 221

I
I
I Em seu terceiro de desenvolvimento a
que já impregnou em maior ou menor grau a dIsCIplma em
ceito e da explicaçào. Além disso, a própria integração pres­
supõe logicamente (como mostramos mais acima) o estabe­
seio surgiu inicialmente, viu-se por isso parcialmente lecimento de conexões com uma esfera mais ampla de co­
modificada e modificou por sua vez a configuraç~ão estrutu­ nhecimentos, a saída dos próprios limites, e é isso que faz a
rai e o alcance da disciplina. Já desviada dos fatos a que idéia quando se separa do conceito. Certas vezes age como
I
II

deve sua origem, a idéia, que existia em forma de princípio ligação entre a psicologia e numerosos ramos externos a
I
formulado mais ou menos abstratamente, passa ao nível da como a biologia, a físico-química ou a mecânica, enquanto o
"'11
I,
confrontação pelo domínio no seio da disciplina, isto é, à conceito principal faz com que se afaste deles. As funçôes
fase de integração. Isso costuma acontecer porque a idéia, desses aliados, que agem temporariamente juntos, mudaram
como princípio conseguiu se apoderar de toda a de novo. Outras vezes, a idéia incorpora-se abertamente a
disciplina, ou seja, este ou aquele sistema filosófico, estendendo-se, modifican­
servia de base para a disciplina adaptou-se em a ela e do-se e modificando os mais remotos âmbitos da realidade, a
esta age agora de acordo com ele. E, em nossa análise, tro­ totalidade do universo, formulando-se como um princípio
peçamos precisamente com esse estágio misto de existência universal ou inclusive como uma ideologia.
da idéia, quando ambas as tendências se apóiam mutuamen­ Essa descoberta, inchada até se transformar em ideolo­
te. Continuando sua expansão na corrente da tendência à gia, como a rà que se transformou em
integração, a idéia se transfere facilmente para as disciplinas perigoso de desenvolvimento, o
1 1

I
contíguas, sem deixar, ela mesma, de se modificar, dilatan­ mente, como uma bolha de sabão; em todo caso, entra no
do-se à medida que incorpora novos fatos e modificando estágio de luta e em que se encontra agora por toda
por sua vez os ramos em que penetra. O destino da idéia parte. É verdade que já antes, nos estágios precedentes, ocor­
nessa etapa, totalmente unido ao da disciplina que rera uma luta contra a idéia. Mas então tratava-se da reação
representa e que luta pelo domínio. normal ao movimento desta, a resistência de cada ramo isola­
No quarto estágio, a idéia volta a se desprender do con­ do a suas tendências conquistadoras. A força inicial que havia
ceito inicial, já que o próprio falo de empreender uma con­ engendrado sua descoberta a protegia da verdadeira luta
quista (mesmo que essa conquista seja apenas um projeto, existência, corno a màe protege seus familiares. Somente
defendido por uma escola ou pela totalidade do âmbito do agora, depois de ter se separado por completo dos fatos que
conhecimento psicológico, por todas as disciplinas) impul­ a originaram, de ter sido desenvolvida até os limites
siona o desenvolvimento da idéia. A idéia continuará sendo lógicos, levada até as últimas conclusôes e generalizada o
um princípio explicativo na medida em que máximo possível, é que a idéia descobre finalmente o que na
limites do conceito principal; porque, como verdade é e se manifesta com seu verdadeiro rosto. Por mais
sair dos próprios limites em busca de causas exter­ estranho que pareça, precisamente quando foi levada até sua
nas. Se a idéia coincidisse por completo com o conceito forma filosófica, quando parece velada por várias capas e se
não explicaria mais nada. Mas visto que o concei­ encontra muito longe de suas raízes direlas e das causas
to principal não pode logicamente continuar se desenvol­ sociais que a engendraram, somente agora descobre o que
vendo (se assim fosse estaria negando a si mesmo, já que seu quer, o que é, de que tendências sociais a que inte­
sentido está em definir um ramo do conhecimento psicológi­ resses de classe serve. Somente depois de ter se desenvolvido
co: por isso sua própria essência o impede de sair de seus até se transformar numa ideologia ou até conexão
limites) deverá se produzir novamente a separação do con- com ela, a idéia parcial, de fato científico que era, se transfor­
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222 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 223

ma de novo num fato da vida social; ou retoma ao seio 4


de onde surgiu. Somente ao se transformar de novo em uma
parte da vida social, põe em evidência sua natureza social, É este o caminho que percorre em
que vivia, naturalmente, o tempo todo nela, mas que perma­ descoberta que tenda a se transformar num
necia oculta sob a máscara do ato cognitivo e na qualidade tivo. O próprio aparecimento de tais idéias explica-se pela
de tal figurava. existência de uma necessidade científica (arraigada, no fim
Pois nesse o destino da idéia se determina das contas, na natureza dos fenômenos em estudo) e
aproximadamente assim. nova idéia, como ao novo fidal­ forma como se manifesta essa necessidade numa determinada
go, indicam sua origem burguesa, ou seja: sua origem real. etapa do conhecimento: em outras palavras, natureza da
Limitam-na aos ramos de onde procede; obrigam-na a retro­ ciência e, em última instância, pela natureza da realidade psí­
ceder em seu desenvolvimento; reconhecem-na como des­ que essa ciência estuda. Mas a única coisa que a histó­
coberta parcial, mas rejeitam-na como ideologia; e agora se ria da ciência pode explicar é por que surgiu a necessidade
estabelecem novos procedimentos para considerar a ela e de novas idéias num determinado estágio do desenvolvimen­
aos fatos a ela relacionados como uma descoberta parcial. to e por que esse nascimento era impossível cem anos antes.
Dito de outra maneira, outras ideologias que representam Que descobertas concretas se desenvolvem no seio de uma
outras tendências e forças sociais reconquistam a idéia e ideologia e não; que idéias se destacam, que caminho
inclusive seu campo inicial, elaboram seu ponto de vista percorrem, que destino alcançam, tudo isso depende de fato­
sobre ela e, então, ou a idéia morre ou continua res externos à história da ciência e que a determinam.
mais ou menos incluída estreitamente em tal ou qual ideolo­ Caberia uma comparação a respeito da doutrina da arte
gia entre uma série de ideologias, compartilhando seu desti­ de G. V. Plékhanov. A natureza dotou o homem de uma
no e realizando suas funções, mas deixa de existir como necessidade estética que possibilita que este tenha idéias
idéia revolucionadora da ciência; é uma idéia que se apo­ estéticas, gostos e sensações. Mas estabelecer com exatidão
sentou do serviço e que obteve em seu departamento o grau que gostos, idéias e sensações vai ter o homem social em
de questão numa determinada época histórica nào é diretamen­
Por que deixa de existir a idéia como tal? Porque no te deduzível da natureza do homem. Essa resposta só nos
campo da ideologia rege a descoberta por Engels, da pode ser dada por uma interpretação materialista da história
concentração de idéias em torno de dois pólos - o idealismo (G. V. Plékhanov, 1922). Contudo, esse raciocínio não é, em
e o materialismo -, que correspondem aos dois pólos da o fruto de uma comparação ou de uma metáfora,
vida social, às duas principais classes que lutam. A natureza mas responde ponto a ponto a uma lei geral que Plékhanov
social das idéias manifesta-se com muito mais facilidade em aplicou parcialmente aos problemas da arte. Na verdade, a
um fato filosófico do que como fato científico: termina seu interpretação científica nada mais é do que uma forma a
papel de agente ideológico oculto disfarçado de fato cientí­ mais de atividade do homem social entre outras atividades.
fico e fica desmascarada, começando então a participar co­ Por conseguinte, o conhecimento científico, considerado
mo um elemento a mais na luta de classes das idéias. Aqui, como conhecimento da natureza e não como ideologia,
na qualidade de pequeno elemento de uma enorme soma, constitui um tipo de trabalho e como todo trabalho é, antes
desaparece como uma gota de água no oceano e deixa de de mais nada, um processo entre o homem e a natureza. E,
existir por si mesma. nesse processo, o próprio homem enfrenta a natureza en­
quanto surgida de seu seio. Trata-se, pois, de um pro­
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224 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 225
cesso condicionado tanto
ciência é importante na medida em que dctennina o grau de
transformada quanto pelas da transforma­
conhecimento dos fatos psíquicos.
dora da natureza; ou seja, condicionado, .neste caso,
Os auatro conluntos de idéias a que nos referimos sào
natureza dos fenômenos psíquicos e condiçõe
da pSicologia da Gestalt e
vas do homem (G. V. Plékhanov, 1922a). Por isso, os fenô­
o oersonalismo.
menos psíquicos, enquanto fenômenos naturais (ou seja, não
As idéias da nasceram de descobertas espe-
modificados), não podem explicar o desenvolvimento, o
cíficas no campo da neurose; estabeleceu-se de forma indis­
movimento, as mudanças na história da ciência. Esta é uma
cutível o fato de que toda uma série de fenômenos psíqui­
verdade evidente. Não obstante, em qualquer estágio ele
cos é determinada pelo inconsciente e o fato de que a se­
desenvolvimento é possível isolar, diferenciar e abstrair as
xualidade se oculta numa série de atividades e sob formas
que a própria natureza faz sobre os fenômenos
que anteriormente nào eram consideradas eróticas. Paulati­
que devem ser estudados no nível atual de conhecimento de
namente, esta descoberta concreta, respaldada pelo êxito de
que se dispõe. Nível que evidentemente não é determinado
sua aplicação terapêutica e com a autoridade que isso lhe
pela natureza dos fenômenos, mas pela história do homem.
conferia (isto é, sancionada pela veracidade de sua prática),
porque no nosso nível atual de conhecimentos as
foi transposta por uma série de campos adjacentes, como a
propriedades naturais dos psíquicos constituem
psicologia da vida coticliana ou a psicologia infantil, além de
uma categoria puramente histórica (íá que essas
da totalidade dos enfoques teóricos sobre a
des variam durante o processo de conhecimento e a soma de
neurose. No confronto disciplinar, essa idéia se impôs sobre
determinadas propriedades é uma magnitude puramente his­
os mais distantes ramos da psicologia, sustentando-se que
tórica) cabe considerá-las como a causa ou como uma das
com ela se poderia estudar a psicologia da arte ou a psicolo­
causas do desenvolvimento histórico da ciência.
gia dos povos. Mas a psicanálise estava ultrapassando desta
Como exemplo do padrão evolutivo que seguem em psi­
forma os limites da psicologia: a sexualidade se transforma­
cologia as idéias gerais que acabamos de descrever, vamos
va no princípio metafísico de uma série de idéias metafísi­
analisar o destino de quatro conjuntos de idéias que tiveram
cas, a psicanálise se transformava em ideologia, a psicologia
influência nas últimas décadas. Para isso, vamos nos interes­
se transformava em meta psicologia. A psicanálise dispõe de
sar somente pelo fato que torna possível o aparecimento des­
sua própria teoria do conhecimento e de sua própria metafí­
sas idéias e não pelas idéias em si, isto é, por aquele fato que
sica, de sua sociologia e de sua matemática. O comunismo e
tem suas raízes na história da ciência e não fora dela. Não nos
o totem, a Igreja e a obra de Dostoiévski, o ocultismo e a
poremos a analisar por que essas idéias e sua o mito e as invenções de Leonardo da Vinci sào
história, e não outras, sào lmportantes como smtoma, como
apenas sexo e mascarado.
indicador do estado em que vive a história da ciência. Não
Semelhante foi o caminho seguido pela idéia do reflexo
nos interessa agora a pergunta histórica, mas a metodológica:
condicionado. Todos sabem que surgiu do estudo da saliva­
até que ponto foram descobertos e em que medida sào
çào psíquica dos cachorros. Mas acabou se estendendo tam­
conhecidos os fatos psíquicos e que mudanças se na
bém a outros fenômenos e conquistou a animal.
estrutura da ciência para poder avançar no conhecimento
O sistema de Békhterev, por sua vez, pôs todo seu empe­
sobre a base do já conhecido? O destino dos quatro conjuntos
nho em se aproximar e se ligar a todos os campos da psico­
de idéias permitirá evidenciar o conteúdo e a magnitude das
logia para acabar submetendo-os. Todo sonho, pensamento,
necessidades da ciência no momento atual. A história da
trabalho ou criação é um ref1exo. A psicologia da arte, a psi-
226 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 227

cotecnía c a paidologia, a psicopatologia e inclusive a psico­ história da psicanálise e da reflexologia, e todo o mundo se
logia subjetiva acabam submetidas. E agora a rcflcxologia só transformaria em personalidade. A filosofia, que começara
lida com princípios e leis universais, com a essência da contrapondo a individualidade às coisas, arrebatando-a do
mecânica. Assim como a psicanálise se transforma em mcta­ domínio destas, terminou reconhecendo que todas as coisas
através da biologia, a reflcxologia se transforma eram individualidades. Disto resultou que as coisas nào exis­
através desta última em ideologia energética. O sumário de tiam em absoluto. A coisa é unicamente uma parte da indivi­
um curso de reflexologia é o catálogo universal das leis do dualidade: dá na mesma a perna do homem e a perna da
universo. E, de novo, assim como na psicanálíse, no mundo cadeira: mas como essa parte é, por sua vez, composta de
tudo é reflexo. Anna Karênina e a cleptomania, a luta de partes etc., até o infinito, a perna do homem ou da mesa
classes e a paisagem, o idioma e os sonhos também são volta a ser uma individualidade em relação a suas partes e
reflexos (V, M, Békhterev, 1921, 1923). uma parte somente em relaçào ao conjunto, O sistema solar
A psicologia da Gestalt surge inicialmente de pesquisas e as formigas, o bonde de Hindenburg, a mesa e a pantera
psicológicas concretas sobre os processos de percepção da são igualmente individualidades (W, Stern,
forma e é aí que recebe seu batizado prático: passou pela Esses destinos, tão semelhantes como quatro gotas da
prova da verdade, Mas por ter nascido na mesma época que mesma chuva, arrastam as idéias pelo mesmo caminho, O
a psicanálise e a reflexologia, realiza o mesmo caminho que volume do conceito aumenta e tende ao infinito e, de acor­
elas com surpreendente uniformidade. Entra na psicologia do com a conhecida lei da lógica, seu conteúdo tende com
animal e constata que o pensamento dos macacos também é idêntica celeridade a zero. Cada uma dessas idéias é, no
um processo gcstáltico: no caso da psicologia da arte e da lugar que lhe corresponde, extraordinariamente rica quanto
psicologia dos povos, constata que o conceito pré-histórico a seu conteúdo, está cheia de significado e sentido, está
do mundo e a criação da arte também são Gestalten, a psi­ plena de valor e é frutífera. Mas quando as idéias se elevam
cologia infantil e a psicopatologia também passam a fazer à categoria de leis universais passam a valer o mesmo, tanto
parte da Gestalt, assim como o desenvolvimento da criança umas quanto as outras são absolutamente iguais entre si,
e as doenças psíquicas. Transformada finalmente em ideolo­ isto é, simples e redondos zeros; a individualidade de Stern
gia, a psicologia da Gestalt descobre as Gestalten na tísica e é para Békhterev um complexo de retlexos, para Werthei­
na química, na fisiologia e na biologia, e a Gestalt, enxuga­ mer uma Gestalt e para Freud sexualidade.
da até chegar a se converter numa fórmula lógica, aparece E no quinto estágio de desenvolvimento todas essas
no fundamento do mundo; ao criar o mundo, disse Deus: idéias enfrentam a mesma crítica, que pode ser resumida em
"que seja Gestalt" e tudo se transformou em Gestalt (M. uma única fórmula, À psicanálise se diz: o princípio da
Wertheimer, 1925; W, Kôhler. 1917, 1920; K, Koffka, 1925), sexualidade inconsciente é insubstituível para explicar as
O personalismo, por último, surge inicialmente das pes­ neuroses histéricas, mas não lança luz alguma sobre a estru­
da psicologia diferencial. O princípio da persona tura do mundo nem sobre o desenvolvimento da história, À
de tão grande valor para a mensuração em psicologia ou retlexologia dizem: não se pode cometer um erro lógico, O
para os enfoques relativos às aptidões etc., expandiu-se reflexo constitui apenas um dos capítulos da psicologia, não
meiro ao longo da psicologia para depois ultrapassar seus impregna sua totalidade nem, naturalmente, a totalidade do
limites. No conceito de individualidade, sob a forma de per­ mundo (V. A. Vágner, 1923; L S, Vigotski, 1925a), Aos psi­
sonalismo crítico. cabia influir não só o homem, mas também cólogos da Gestalt dizem: vocês encontraram um
Só mais um passo, que já foi dado na muito valioso em seu campo; mas, se o pensamento nào
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228 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 229

supõe outra coisa que momentos de unidade e integridade 5


ou, o que dá na mesma, só encerra uma fórmula gestáltica, e
se essa fórmula expressa a essência de qualquer processo Ao das descobertas sobre os
orgânico e inclusive físico, o quadro do mundo seria evi­ prinCipiaS gerais, pudemos observar como se manifestava
dentemente de uma pcrfeiç.'ão e simplicidade assombrosas: a em sua forma pura uma tendência ã explicação, que já apa­
eletricidade, a força da e o pensamento humano recera na luta pelo predomínio que se dá entre disciplir
se reduziriam a um denominador comum. Não se pode en­ Mas com isso já chegamos ã fase da
fiar pensamento e atítude num mesmo saco de estruturas ciência geral, aquela a que nos referimos brevemente acima.
que não demonstrem primeiro que seu posto está no mesmo Na primeira fase, determinada tendência à generaliza­
que as funçôes estruturais. O novo fator funciona ção, a ciência geral se diferencia das ciências particulares
num campo muito amplo, mas limitado: como princípio uni­ por sua estrutura interna. Como veremos, nem todas as ciên­
versal não resiste à crítica. E, ainda que graças ao modo de cias percorrem ambas as fases em seu desenvolvimento; na
pensar de alguns audazes teóricos tenha imperado a lei de maioria delas a disciplina geral só se dá na primeira fase.
conseguir "tudo ou nada" nas tentativas explicativas, os pes­ Veremos claramente a causa disso quando formularmos com
quisadores prudentes se vêem obrigados, atuando como exatidão sua diferença qualitativa para com a segunda fase.
contrapeso, a levar em consideração a teimosia dos fatos. vimos como o princípio explicativo nos obriga a sair
Porque procurar explicar tudo equivale a não explicar nada. dos limites de uma ciência determinada para interpretar a
Essa tendência que qualquer idéia nova em psicologia totalidade do saber como uma categoria particular que exis­
tem de se transformar em lei universal, não significa que a isto é, nos leva aos
psicologia deve, na verdade, basear-se em leis universais, últimos e mais que são essencialmente
que todas essas idéias estão esperando que chegue a idéia­ princípios filosóficos. Nesse sentido, a ciência geral é a filo­
mestra e ponha em seu devido lugar cada idéia particular e sofia das disciplinas particulares.
lhe indique qual é seu significado? A regularidade do cami­ Nesse sentido L. Binswanger diz que a ciência geral
nho que com constância percorrem as mais estuda os fundamentos e os problemas de todo um setor da
diversas idéias está naturalmente evidenciando que esse realídade, como, por exemplo, a biologia geral (1922, p. 3).
caminho está pela necessidade objetiva de É curioso que o livro que deu origem ã biologia geral se
um princípi chamasse Filosofia da zoologia (J. B. Lamarck). Quanto mais
princípio falta e não existe que chega a geral, continua Binswanger,
ocupam seu lugar. A psicologia deu-se conta de que para maior é o setor que abarca e mais abstrato e distante da rea­
ela é uma questão de vida ou morte encontrar um lidade diretamente é o objeto dessa investigação.
explicativo geral e se agarra a qualquer idéia, mesmo que No lugar de animais ou pessoas, o objeto de que se
seja falsa. ocupa a ciência é a
Spinoza, em seu Tratado da correção do intelecto, des­ como na ao invés dos corpos e suas lIlUUdl1\""
creve assim esse estado de consciência: "(...) como um doen­ qualquer ciência mais cedo ou mais tarde, o momen­
te que sofre de uma enfermidade letal, prevendo a morte to em que deve ter consciência de si mesma como um con­
certa se não empregar determinado remédio, sente-se na junto, compreender seus métodos e trasladar a atenção dos
contingência de procurá-lo, ainda que incerto, com todas as atos e fenômenos aos conceitos que utiliza. Mas, a partir
pois que nele está sua única esperança" 0924, p. 63). desse momento, a ciência geral passa a se distinguir da par­
228 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 229

supõe outra coisa que momentos de unidade e integridade 5


ou, o que dá na mesma, só encerra uma fórmula gestáltica, e
se essa fórmula expressa a essência de qualquer processo Ao longo da evolução das descobertas parciais sobre os
orgânico e inclusive físico, o quadro do mundo seria evi­ princípios gerais, pudemos observar como se manifestava
dentemente de uma perfeição e simplicidade assombrosas: a em sua forma pura uma tendência à explicação, que já apa­
eletricidade, a força da gravidade e o pensamento humano recera na luta pelo predomínio que se dá entre disciplinas.
se reduziriam a um denominador comum. Nào se pode en­ Mas com isso já chegamos à segunda fase da evolução da
fiar pensamento e atitude num mesmo saco de estruturas ciência geral, aquela a que nos referimos brevemente acíma.
qllt.' não demonstrem primeiro que seu posto está no mesmo Na primeira fase, determinada pela tendência ã generaliza-
f('('ípicnte que as funções estruturais. O novo fator funciona a ciência geral se diferencia das ciências particulares
num campo muito amplo, mas limitado: como princípio uni­ por sua estrutura interna. Como veremos, nem todas as ciên­
vl'rsal nLlo resiste à crítica. E, ainda que graças ao modo de cias percorrem ambas as fases em seu desenvolvimento; na
pt'nsar dl' alguns audazes teóricos tenha imperado a lei de maioria delas a discíplina geral só se dá na primeira fase.
consl'guír "tudo ou nada" nas tentativas explicativas, os pes­ Veremos claramente a causa disso quando formularmos com
quisadores prudentes se vêem obrigados, atuando como exatidão sua diferença qualitativa para com a segunda fase.
contrapeso, a levar em consideraçào a teimosia dos fatos. Já vimos como o princípio explicativo nos obriga a sair
Porque procurar explicar tudo equivale a nào explicar nada. dos limites de uma cíência determinada para interpretar a
Essa tendência que qualquer idéia nova em psicologia totalidade do saber como uma categoria particular que exis­
tem de se transformar em lei universal, não significa que a te entre toda uma série de categorias, isto é, nos leva aos
psicologia deve, na verdade, basear-se em leis universais, últimos e mais gerais princípios, que sào essencialmente
que todas essas idéias estão esperando que chegue a idéia­ princípios filosóficos. Nesse sentido, a ciêncía geral é a filo­
mestra e ponha em seu devido lugar cada idéia particular e sofia das disciplinas particulares.
lhe indique qual é seu significado? A regularidade do cami­ Nesse sentido L. Binswanger diz que a ciência geral
nho que com surpreendente constância percorrem as mais estuda os fundamentos e os problemas de todo um setor da
diversas idéias está naturalmente evidenciando que esse realidade, como, por exemplo, a biologia geral 0922, p. 3).
caminho está predeterminado pela necessidade objetiva de É curioso que o livro que deu origem à biologia geral se
um princípio explicativo, e é precisamente porque esse chamasse Filosofia da zoologia (J. B. Lamarck). Quanto mais
princípio falta e nào existe que alguns princípios parciais longe chega a investigaçào geral, continua flinswanger,
ocupam seu lugar. A psicologia deu-se conta de que para maior é o setor que abarca e mais abstrato e distante da rea­
ela é uma questão de vida ou morte encontrar um lidade diretamente percebida é o objeto dessa investigaçào.
explicativo geral e se agarra a qualquer idéia, mesmo que No lugar de plantas, animais ou pessoas, o objeto de que se
seja falsa. ocupa a ciência é a manifestação da vida, força e matéria,
Spinoza, em seu Tratado da correçâo do intelecto, des­ como na física, ao invés dos corpos e suas mudanças. Para
creve assim esse estado de consciência: "c...) como um doen­ qualquer ciência chega, mais cedo ou mais tarde, o momen­
te que sofre de uma enferm idade letal, prevendo a morte to em que deve ter consciência de si mesma como um con­
certa se não empregar determinado remédio, sente-se na junto, compreender seus métodos e trasladar a atenção dos
contingência de procurá-lo, ainda que incerto, com todas as atos e fenômenos aos conceitos que utiliza. Mas, a partir
forças, pois que nele está sua única esperança" 0924, p. 63), desse momento, a ciência geral passa a se distinguir da par­
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ticular, nào porque tenha um âmbito mais amplo, um con­ que de alto. nível. É claro que não se ocupa de objetos vivos
teúdo maior, mas porque está organizada qualitativamente e concretos, de plantas ou animais, mas de abstrações tais
de outra forma. Já não estuda os mesmos objetos que a ciên­ como o organismo, a evolução das espécies, a seleção natu­
cia particular, mas analisa seus conceitos; transforma-se nu­ a vida. Mas aquilo que estuda com a ajuda dessas abstra­
ma investigação crítica, no sentido em que E. Kant empre­ ções é, em última instância, a mesma realidade que a zoolo­
gou essa expressão. A análise crítica não é mais uma análise gia e a botânica. Seria um equívoco afirmar que estuda con­
biológica ou física, mas centrada nos conceitos da biologia e ceitos e não a realidade ret1etida neles, assim como o seria
da física. Binswanger define, portanto, a psicologia dizer que o engenheiro que estuda o projeto de uma
como a interpretaçào crítica dos principais conceitos da psi­ na estuda o projeto e não a máquina ou que um anatomista
o que, em duas palavras, pode ser resumido como a que estuda em um atlas anatômico estuda e não o
"crítica da psicologia". É um ramo da metodologia geral, isto esqueleto humano. Porque também os conceitos são somen­
é, uma parte da lógica, cuja tarefa consiste em estudar como te desenhos, fotografias, esquemas da realidade e ao estudá­
se aplicam as diferentes formas e normas lógicas em distin­ los estudamos modelos dessa última, assim como mediante
tas ciências em funçào da natureza formal e material uma planta ou um mapa geográfico estudamos um país
que o objeto apresente, em função do modo de abordar o ou uma cidade estranha.
conhecimento dos problemas 1922, pp. ;3-5). O próprio Binswanger vê-se obrigado a reconhecer, em
Mas esse raciocínio, embora baseado em premissas ló­ relação a ciências tão desenvolvidas como a física e a
gico-formais, só é em parte veraz. É verdade que a ciência ca, que se cria entre os pólos crítico e empírico um
geral é a doutrina dos fundamentos últimos, dos princípios e campo de investigação que conhecemos sob a denominação
problemas gerais do ramo do saber em questào e que, por de física (ou química) teórica ou geral. A psicologia científi­
conseguinte, seu objeto, sua forma de análise, seus critérios, co-natural teórica, afirma o psicólogo suíço, também se com­
são diferentes dos das disciplinas particulares. Mas não é porta de um modo similar quando tenta atuar segundo os
verdade que unicamente uma parte da lógica, uma dis­ parâmetros da física. Por mais abstratamente que a física
ciplina lógica. Não é correto que a biologia geral tenha dei­ teórica formule o objeto de seu estudo, por exemplo, a "dís­
xado de ser uma disciplina biológica, ou que a psicologia das dependências causais entre os fenômenos da
geral tenha deixado de ser psicologia e tenham ambas se natureza", estuda fatos reais. A física geral analisa o próprio
transformado em lógica, nem que sejam somente crítica no conceito de fenômeno de conexão física causal, mas
sentido kantiano, que trabalha somente com conceitos. Se não as leis e teorias particulares sobre base puderam
nos ativermos ã natureza interna do saber científico, isso é ser explicados os fenômenos reais como fisicamente cau­
falso tanto de seu ponto de vista histórico, quanto fático. sais: antes, a própria explicaçào física constitui um objeto de
É errôneo historicamente, isto é, não responde à situa­ investiga(,:ão da física geral (L. Binswanger, 1922, pp. 4-5).
ção real dos fatos em nenhuma das ciências. Não existe uma Como vemos, o próprio Binswanger reconhece que sua
com a forma descrita por Binswanger. Inclusi­ concepção da ciência difere precisamente neste
ve a biologia geral tal como existe na realidade (a biologia da concepção atual que ocorre em uma série de ciências. O
cujos fundamentos foram estabelecidos por Lamarck e que as distingue não é o maior ou menor grau de abstração
Darwin em seus trabalhos), a biologia que é até agora o có­ dos conceitos, ou o fato de que estes estejam mais ou menos
do conhecimento real da matéria viva não é, evidente­ distantes dos fatos reais ou empíricos, nem as dependências
mente, uma parte da lógica, mas uma ciência natural, ainda causais que estabelecem como objeto geral de uma
I' o

rnH'.'"fIlIlIIRmOUIUIIIIII

232 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 233

mas que se diferenciam em seu objetivo final: a física geral se da ausência de qualquer magnitude) são, como mostrou
orienta, em última instância, para fatos reais que quer expli­ Engels, plenamente qualitativos, Ou seja, são, em última ins­
car com a aíuda de conceitos abstratos. Idealmente, a ciência tância, reais, são correspondências muito distantes e abstra­
geral não se orienta para os fatos reais mas para os próprios tas das relaçôes reais entre as coisas. A realidade existe
conceitos, e nada tem a ver com os fatos reais. inclusive dentro das abstrações imaginárias das matemáti­
O que se verifica é que, quando sLlrgem oposições entre cas. "Dezesseis não é somente a soma de 16 unidades, mas
teoria e história, quando existem, como neste caso, divergên­ é tamhém o quadrado de 4 e a quarta potência de 2 (. .. )
cias entre a idéia e o fato, a discussão se resolve sempre em Somente os números pares são divisíveis por 2 (. .. ) Para 3
um sentido ou no outro. Mas nas investigaçôes sobre os prin­ rege a regra da soma dos algarismos (...) Para 7 rege uma
cípios, os argumentos sobre os fatos são, às vezes, inoportu­ regra especial" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 20, p. 573). "O
nos. Aqui, ante a crítica que indica a não-conformidade entre zero anula qualquer outro número pelo qual se multiplique;
idéias e fatos pode-se responder com razão e com sentido: e, ao se combinar com outro número como divisor ou como
pior para os fatos. Nesse caso, pior para as ciências, se estas dividendo, transforma este número, no primeiro caso, em
se encontram na fase de desenvolvimento em que ainda não infinitamente grande e, no segundo, em infinitamente
alcançaram o grau de ciência geral. O fato de que a ciência pequeno C..)" (ibidem, p. 576). Sobre todos esses conceitos
ainda não exista nesse sentido não quer dizer que não da matemática caberia dizer o que Engels diz do zero, em­
vá existir, que não deva existir, que não seja possível nem pregando palavras de "O nada de algo é um determi­
necessário iniciá-la. Por isso, o problema deve ser estudado nado nada" (ibidem, p. ou seja, um nada no fim
desde suas raízes lógicas; somente então será possível expli­ das contas. Mas, não serão talvez essas qualidades, proprie­
car também o significado histórico da divergência entre a dades ou determinações dos conceitos como taL que não
ciência natural e sua idéia abstrata. mantêm a menor relação com a realidade?
De é importante estabelecer duas teses. F. Engels considera claramente errônea a opinião de
1) Todo conceito científico-natural, por mais alto que que a matemátíca trata de criaçóes puramente livres e de
seja seu grau de abstração em relação ao fato empírico, produtos do espírito humano que carecem de toda corres­
encerra também uma concentra<,.'ão, um sedimento da reali­ pondência no mundo objetivo. O correto é precisamente o
dade concreta e real de cujo conhecimento científico surgiu, contrário. Na natureza encontramos protótipos de todas
ainda que seja só em uma solução muito fraca. Ou seja, a essas quantidades imaginárias. A molécula possui proprie­
qualquer conceito, ainda que se trate do mais abstrato - do dades em relação à massa correspondente, idênticas às que
último - corresponde um certo grau de realidade, represen­ possui a diferencial matemática em relação a sua variável.
tada no conceito em forma abstrata, segregada ela realidade; "A natureza opera com essas diferenciais, com as moléculas,
inclusive conceitos puramente fictícios, não mais científico­ exatamente do mesmo modo e respeitando as mesmas leis
naturais, mas matemáticos, são, no fim das contas, uma que a matemática com suas diferenciais abstratas" (ibidem,
repercussão, um reflexo de relações reais entre coisas e pro­ p. Em matemática esquecemos todas essas analogias e
cessos reais, ainda que não procedam de um conhecimento por isso suas abstrações se transformam em algo enigmáti­
experimental, real, mas tenham surgido a priorí, segundo o co. Sempre podemos encontrar "relações reais, das quais foi
caminho dedutivo, de operações especulativas lógicas. In­ tomada ( ... ) a relação matemática e inclusive casos naturais
clusive um conceito tão abstrato como a série numérica, análogos ao modo matemático em que age essa relaçâo"
inclusive uma fiCÇél0 tào patente como o zero (isto é, a idéia (íhidem, p. 586). Protótipos do infinito matemático e outros
234 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 235

conceitos figuram no mundo real. "O infinito matemático nada percepçào num conceito geral; a Cflança, ao nomear
está tomado, ainda que de um modo inconsciente, da primeira vez as coisas, realiza autênticos descobrimen­
realidade, razão qual só pode ser compreendido partin­ tos. O que se vê não é, na verdade, uma vaca. N~10 se vêem
do da realidade e nào de si mesmo, da abstração matemáti­ as vacas. O que se vê é algo grande, preto, que se move, mu­
ca" Obidem). ge etc., e se compreende que é uma vaca e este ato é um ato
Se isto é verdade em relação à abstração matemática de classificação, de inclus,10 de um fenômeno isolado dentro
é, em relação à máxima abstração possível) o será de da categoria de fenômenos análogos, de sistematização da
maneira ainda mais evidente quando o aplicamos às abstra­ experiência etc. Assim, a própria língua encerra os funda­
reais das ciências naturais; estas terão de ser explica­ mentos e as possibilidades da cognição científica do fato. A
das, naturalmente, partindo apenas da realidade de que é o germe da ciência e nesse sentido cabe dizer que
foram tomadas e nào partindo delas mesmas, das próprias no começo da ciência estava a palavra.
abstrações. Quem viu, quem percebeu fatos empíricos, como o
2) A segunda tese que é necessário estabelecer para calor oculto na formação do vapor? Em nenhum processo
realizar uma análise de princípio do problema da ciência real podemos percebê-lo diretamente, mas podemos dedu­
é oposta à primeira. Se aquela afirmava que na mais zir obrigatoriamente esse fato e deduzir significa operar com
alta abstração científica há um elemento de realidade, esta, conceitos.
como teorema contrário, estabelece que todo fato científico­ Um bom exemplo da existência de abstra~'ões e da par­
natural isolado, por mais empírico e pouco maduro que do pensamento em todo fato científico é encontra­
seja, já encerra uma abstração primária. O fato real e o fato do em Engels. As formigas têm olhos diferentes dos nossos;
científico distinguem-se precisamente um do outro pelo
vêem raios químicos invisíveis para nós. Isto é um fato. Co­
fato de que este último constitui o fato real reconhecido em
mo foi estabelecido? Como podemos saber que "as formigas
determinado sistema, isto é, uma abstra<,,'ão de certos traços
vêem coisas invisíveis para nós"? Baseamos isto, naturalmen­
da inesgotável soma de signos do fato natural. O material da
te, nas percepçôes de nossos olhos, mas também na ativida­
ciência não é constituído pelo material natural cru, mas pelo
de de nosso pensamento. Por conseguinte, o estabelecimen­
material logicamente elaborado que se destaca de acordo
to do fato científico j{l é um produto do pensamento, isto é,
com um determinado signo. Os corpos físicos, o movimen­
do com:eíto. "É claro que jamais chegaremos a saber como
to, a substância, são abstraçôes. O próprio ato de denominar
as formigas vêem os raios químicos. E para aquele para
um fato mediante a palavra supõe superpor a ele um c(m­
quem isto for uma tortura, não vemos que remédio ofere­
o de destacar nele uma de suas facetas significa inter­
pretá-lo assimilando-o ã dos fenôlllenos reconhe­ cer" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 20, p. 555)*
cida anteriormente pela experiência. Qualquer palavra já é
uma teoria, como observaram faz tempo os lingüistas e mos­ * Assinalemos. a propósito, que neste exemplo psicológico pode-se ver
trou perfeitamente A. A. Potebnia. como n:lo coincidem em psicologia o fato cicntífico e o da experiência direta.
Tudo que é descrito como fato já é teoria, diz Müns­ É possível estudar como as formigas vêcm c inclusive como vêem coisas invi­
terberg, recordando as palavras de Goethe, ao fundamentar síveis para nós e nào saber que coisas sào estas para as formigas. Ou seja, é
possível estabelecer fatos psíquicos sem partir de modo algum da experiência
a necessidade da metodologia (1922). Quando tropeçamos
interna. em outras palavras, sem uma origem subjetiva. Engels nào eon...,idera
com o que denominamos vaca e dizemos: "isto é uma vaca", que isto seja importante para o fato científico: para quem isto for uma tortura,
ao ato de perceber unimos o de pensar, incluindo a mencio- diz. nào vemos qual remédio podemos oferecer.
236 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 237

Eis aqui o melhor exemplo de falta de coincidência Mas pode ser que a natureza dos objetivos da disciplina
entre o fato real e o científico. Nesse caso a discrepância se geral ou da particular seja na verdade a mesma, pode ser que
manifesta com especial clareza, mas em qualquer fato se só as distinga a proporção da relação entre o conceito e o
apresenta, em maior ou menor medida. Nunca vimos os fato e que a diferença de princípio que permite incluir uma
raios químicos nem percebemos as sensações das formigas; delas na lógica e a outra na física esteja na direç:ào, no
ou seja: como fato real da experiência direta, a visão dos vo, no ponto de vista de ambas as análises, no distinto papel,
raios químicos por parte das formigas não existe para nós. poder-se-ia que desempenham os mesmos elementos
Mas para a existência coletiva da humanidade existe sim em ambos os casos. Nào poderíamos dizer que tanto o con­
como fato científico. O que dizer então do fato da ceito quanto o fato participam da formação do objeto de
da Terra em torno do Sol? Trata-se neste caso de um fato uma ou de outra ciência, mas num caso no da ciência
que para chegar a ser um fato científico teve de inver­ empírica recorremos aos conceitos para conhecer os fatos
ter o curso natural do pensamento do homem, apesar de a e no segundo - na ciência geral - utilizamos os fatos para
rotação da Terra em torno do Sol ter sido estudada por meio conhecer os próprios conceitos? No primeiro caso, o concei­
das observações da rotação do Sol em torno da Terra. to não é um objeto, um fim, um objetivo de conhecimento.
Dispomos agora do necessário para resolver o Os conceitos são instrumentos da ciência, meios, procedi­
ma e podemos nos dirigir diretamente para nosso mentos auxiliares, mas o fim desta, seu objeto, sào os
Se a base de qualquer conceito científico é constituída pelos como resultado do conhecimento aumenta () número de
fatos e, por sua vez, a dos fatos científicos está nos concei­ fatos que conhecemos e nào o de conceitos; estes, em con­
tos, depreende-se inevitavelmente que, quanto a seu objeto trapartida, como todos os instrumentos de trabalho, se des­
de análise, a diferenp entre as ciências gerais e as empíricas gastam com () uso, se deterioram, necessitam ser revisados e,
é puramente quantitativa e não conceitual: trata-se de dife­ com freqüência, substituídos. No segundo caso, pelo contrá­
rentes graus e não de diferentes naturezas de um fenômeno. rio, estudamos os próprios conceitos como tal, sua
As ciências gerais não se ocupam de objetos reais, mas de com os fatos é apenas um meio, um procedimento, um méto­
abstrações; nào estudam as plantas e os animais, mas a vida: a comprovação de sua utilidade. Como resultado disso
seu objetivo são os conceitos científicos. Mas a vida também não conhecemos novos mas adquirimos ou novos con­
é parte da realidade e esses conceitos têm protótipos na rea­ ceitos ou novos conhecimentos sobre os conceitos. Porque se
lidade. As ciências particulares têm como objeto fatos reais olhar duas vezes uma gota de água com um microscó­
com existência efetiva: não estudam a vida em mas e serão dois processos totalmente distintos, apesar de a
classes e grupos reais de plantas e animais. Mas também as e o microscópio serem os mesmos; na primeira vez, por
e os animais, o vidoeiro e () tigre, e inclusive este meio do microscópio estudamos a composição da gota de
vidoeiro e este tigre já sào conceitos. O fato e o conceito água; na segunda, mediante o exame da de água, com­
constituem o objeto de certas disciplinas, mas só em grau provamos a própria validade do microscópio, não é assim?
diferente, em proporção diferente. Por conseguinte, a física Mas a dificuldade do problema consiste precisamente
não deixa de ser uma disciplina física e não se trans­ em que isto nào é assim. É verdade que, na ciência
forma em parte da lógica pelo de que se ocupe dos utilizamos os conceitos como instrumentos para conhe­
conceitos físicos mais abstratos; até mesmo neles se reco­ cer os fatos. Mas, à medida que os utilizamos, os comprova­
nhece, no fim das contas, um determinado fragmento da mos, os estudamos, os dominamos, os modificamos, elimi­
realidade. namos os conceitos inúteis e criamos outros novos. lá no
238 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 239

primeiro estágio de elaboração científica do material empíri­ ao mesmo tempo um novo conceito; será que antes nào se
co, o emprego de conceitos implica uma crítica aos dava o nome de reflexo a um movimento aprendido, resul­
conceitos sob a perspectiva dos fatos e permite que alguns tado do adestramento? Nào podia ser de outra forma: se a
conceitos sejam comp<trados com outros e que alguns sejam ciência só descobrisse fatos, sem ampliar com isso os limites
modificados. Que sirvam de exemplo os dois fatos científí­ dos conceitos, nada descobriria de novo; permaneceria
cos que acabamos de mencionar) que não pertencem em estancada, se limitaria a encontrar a cada vez novos exem­
absoluto à ciência geral: a rotação da Terra em torno do Sol plares dos mesmos conceitos. Todo novo grão de um fato já
e a visão das formigas. Quanto trabalho crítico sobre nossas é uma ampliação do conceito. Toda nova relação descoberta
percepções e, portanto, quantos conceitos relacionados com entre dois fatos exige imediatamente a crítica cios dois con­
quantas análises diretas dos conceitos - não­ ceitos correspondentes e o estabelecimento de novas rela­
visão, movimento aparente), quanta de novos con­ ções entre eles. O reflexo condicionado é a descoberta de
quantas conexões novas entre os conceitos, quantos um novo fato com a ajuda de um velho conceito. Soubemos
de conceito de visão, de luz, de movimento etc. foram que a satisfaçào psíquica surge diretamente do reflexo, me­
necessários para estabelecer esses fatos! Finalmente, será lhor dizendo, que é o próprio reflexo, mas que atua em
que a própria seleção dos fatos que queremos conhecer não outras condições. Mas, ao mesmo tempo, é a descoberta de
ocorre em função de uma análise conceitual e não só de um novo conceito com a ajuda de um antigo fato: com a
fatos? Porque se os conceitos, na qualidade de instrumentos, ajuda do fato conhecido de todos de que "fico com água na
estivessem destinados de antemão a determinados fatos da boca" ao ver a comida", obtivemos um conceito totalmente
experiência, toda a ciência seria dispensável: milhares de novo do reflexo. Nossa idéia dele se modificou diametral­
funcionários registradores ou estadistas contadores ter-se­ mente; antes, o reflexo era sinônimo de um fato pré-psíqui­
iam dedicado a distribuir todo o Universo em fichas, colu­ co, inconsciente, invariável. Agora nos reflexos se agrupa
nas, seções. O conceito científico se distingue do registro no toda a psique, o reflexo demonstrou ser o mecanismo mais
ato da escolha do conceito necessário, ou seia, na análise do flexível etc. Como isto teria sido possível se Pávlov tivesse
fato e na análise do conceito. estudado somente o fato da salivação e não o conceito de
Toda palavra é uma teoria; a denominação do objetivo reflexo? Em essência é a mesma coisa, mas expresso de duas
é o conceito que a ele se aplica. É verdade que com a ajuda formas distintas, já que em toda descoberta científica o
das palavras queremos interpretar os objetívos. Mas é que conhecimento do fato é, na mesma média, o conhecimento
cada denominação, cada utilização da palavra, desse em­ do conceito. A análise científica dos fatos se diferencia pre­
brião da ciência, constitui uma crítica da palavra) um des­ cisamente do registro dos mesmos porque implica a acumu­
gaste de sua imagem, uma ampliação de seu significado. Os . lação de conceitos, implica a inter-relação de conceitos e
lingüistas demonstraram com toda clareza como as fatos, ressaltando os primeiros.
variam com o uso; caso contrário, a língua não se renovaria Finalmente, é nas ciências particulares que nascem to­
nunca, as palavras não morreriam, não nasceriam, não enve­ dos os conceitos que a ciência geral estuda. Porque não é
lheceriam. na que nascem as ciências naturais, não é ela que
Finalmente, qualquer descoberta na ciência, qualquer lhes fornece conceitos preparados de antemão. Como se
passo para frente na ciência empírica, é sempre ao mesmo
tempo um ato de crítica do conceito. L P. Pávlov descobriu 2. Na expressão russa figura a palavra "saliva-, sliunki tekut «rad. lil.:
o fato nos reflexos condicionados; mas será que nào criou "minha saliv~1 carl. (NTE.)
O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 241
240 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

zoologia, da emhriologia e da fototecnia, da zootecnia etc.


poderia então admitir que o trahalho de criação de concei­
Ou seja, atuamos da mesma maneira que nas ciências parti­
tos cada vez mais ahstratos se produza de forma totalmente
com fatos individuais; e baseando-nos no novo
inconsciente? Como é possível a existência de teorias, de
estudo de fatos originados em distintas ciências estabelece­
leis, hipóteses alternativas sem a crítica de conceitos? Como
mos outros novos. Durante todo o processo de análise e
se pode criar em geral uma teoria ou uma hipótese,
como resultado dele, operamos com fatos.
ou algo que ultrapasse os limites dos fatos, sem traha­
Por conseguinte, as difcrenç:as existentes quanto a ohje­
Ihar com os conceitos?
tivos, direção e formação dos conceitos e os fatos entre as
Poderia então acontecer que nas ciências particulares a
ciências gerais e as particulares voltam a ser somente dife­
análise dos conceitos se faça superficialmente, junto com
renças quantitativas, diferenças de grau e não de natureza.
outras coisas, ã medida que se vai estudando os fatos, e que
Diferenças que não são absolutas nem de princípios.
a ciência geral estude exclusivamente conceitos? Isto tam­
Passemos finalmente ã definição positiva do que é a
bém seria errôneo. Vimos que os conceitos abstratos com
ciência geral. Poderia parecer que, se as
que opera a ciência geral encerram um núcleo real. Coloca­
ciências gerais e particulares, no que se refere a seu objeto e
se então a seguinte pergunta: o que a ciência faz com esse
formas de análise, são apenas relativas e não absolutas, quan­
núcleo: prescinde dcle, esquece-o, se oculta por trás da
titativas e não de princípio, careceríamos de fundamentos
inexpugnável fortaleza da abstração, como as matérias pu­
ras, e não recorre a esse núcleo nem no processo de
nem em seu resultado, como se o núcleo real não existisse
,~ para delimitar as ciências de um ponto de vista teórico.
Poderia parecer que não existe uma ciência geral, só ciências
particulares. Mas, é claro, isto não é correto. A quantidade
em absoluto? Basta estudar o tipo de análise que se utiliza
nesse caso se transforma em qualidade e estahelece a origem
na ciência geral e seu resultado final para ver que nào é
de uma ciência qualitativa distinta, mas não a exclui da famí­
assim. Será que os conceitos são analisados através de pura
lia das ciências em questão nem a transfere para a lógica.
dedução, da descoherta de relações lógicas entre eles e nào
Que a base de qualquer conceito científico esteja fundamen­
através de uma nova indução, de uma nova análise, do esta­
tada num fato nào significa que em todo conceito científico o
helecimento de novas relações, em suma, através do traba­
fato esteja representado do mesmo modo. No conceito mate­
lho sohre o conteúdo real desses conceitos? Porque não
mático de infínito, a realidade se nos apresenta de um modo
desenvolvemos nosso pensamento a partir de premissas par-
totalmente diferente de como aparece no conceito do reflexo
como em matemática, mas induzimos, criamos novas
condicionado. Nos conceitos de ordem superior com que
al)strações. É assim que atua a hiologia geral e a física geral.
opera a ciência geral, a realidade aparece representada de
Nenhuma ciência geral agir de outro
um modo distinto de como a representa a ciência empírica. E
a fórmula lógica "A é B" é substituída por definiçõe c
esse procedimento, esse tipo, essa forma de apresentação da
por A e B reais: a massa, o movimento, o corpo, o
realidade pelas diferentes ciências é o que determina a estru­
mo. E como resultado da análise realizada pela ciência
tura das disciplinas.
não obtemos, como é lógico, novas fórmulas de inter-rcla­
Mas essa diferença no modo de apresentar a realidade,
de conceitos, mas novos fatos: conhecemos por exem­
ou seja, de estruturar os conceitos, tampouco deve ser inter­
plo a evolução, ou a herança, ou a inércia. Como conhece­
pretada como ahsoluta. Entre a ciência empírica e a geral
mos o conceito de evolução? Que caminho seguimos para
existem muitos graus de transiçào: nem Lima só ciência digna
alcançá-lo? Comparando fatos tais como os dados que pro­
deste nome, diz Binswanger, oode "se limitar ã simoles acu­
vêm da anatomia comoarada. da fisiologia. da botânica e da

.ilIIlIiL
242 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 243

mulação de conceitos, tenderá antes a transformar todo con­ mentos inatos, puderam fabricar algumas coisas muito fá­
ceito em regra, as regras em leis, as leis em teorias" 0922, p. ainda que laboriosa e imperfeitamente, feito o que
À medida que se acumula saber científico dentro da pró­ fabricaram outras coisas mais difíceis, com menos trabalho e
pria ciência, elaboram-se sem cessar conceitos, métodos e mais perfeição, passando assim gradativamente das obras
teorias. Ou seja, a transição de um pólo ao outro do fato ao mais simples aos instrumentos e destes a outras obras e ins­
conceito - que se produz, faz com que desapareça o abismo trumentos, para chegar a fazer tantas coisas e tão difíceis
lógico, o abismo intransponível entre a ciência geral e a par­ com pouco trabalho, também o intelecto, por sua força nati­
ticular. Esse processo é o que dá origem à independência va, faz para si instrumentos intelectuais e por meio deles
real e à necessidade da ciência geral. Assim corno a própria adquire outras forças para outras obras intelectuais, graças
disciplina particular realiza em seu interior todo esse traba­ ãs quais fabrica outros instrumentos ou poder de continuar
lho de elaborar os fatos, convertendo-os em leis e estas, atra­ investigando e assim prosseguindo gradativamente até atin­
vés das teorias, em hipóteses, a ciência geral leva a cabo gir o cume da sabedoria" 0914, pp.
esse mesmo trabalho para urna série de ciências particulares, Inclusive a corrente metodológica cujo representante é
seguindo um procedimento idêntico e com os mesmos fins. Binswanger não pode deixar de reconhecer que a produção
Esse raciocínio é absolutamente análogo ao que segue de instrumentos e a criação não são dois processos indepen­
Spinoza quanto fala do método. Recorrendo a uma compara­ dentes na ciência, mas duas facetas de um mesmo processo,
ção do âmbito industrial, o processo metodológico, equivale­ que caminham de mãos dadas. Seguindo H. Rickert, Bins­
ria, por sua natureza, à elaboração de meios de produção. wanger define toda a ciência como a elaboração de um ma­
Mas na indústria a elaboração de meios de produção não terial. E por isso se coloca dois problemas em relação a cada
constitui um processo inicial especial, mas uma parte do pro­ ciência: o problema do material e o de sua elaboração. No
cesso geral de produção e depende dos mesmos processos e entanto, não é possível estabelecer uma distinção taxativa
instrumentos de produção que o resto da produção. entre o material de uma ciência e sua elaboração, porque o
"Para isso, deve-se primeiramente considerar argu­ próprio conceito de objeto de qualquer ciência empírica
menta Spinoza - que não haverá aqui uma investigação sem implica um alto grau de elaboração. Binswanger estabelece
fim; a saber, para descobrir qual o melhor método de inves­ uma diferença entre o materíal bmto, o objeto real e o obje­
tigar a verdade não é necessário outro método para investi­ to científico; este último é criado pela ciência por meio de
gar qual o método de investigar a verdade; e para que se conceitos procedentes do objeto real (Binswanger, 1922, pp.
investigue esse segundo método, não é necessário um ter­ 7-8). Se formulamos um terceiro círculo de problemas
ceiro, e assim ao infinito: por esse modo nunca se chegaria sobre a relação entre o material e a elaboração, isto é, entre
ao conhecimento da verdade, ou, antes, a conhecimento o objeto e o método da ciência -, também neste caso a dis­
algum. O mesmo se diria dos instrumentos materiais, sobre cussão pode girar somente em torno de o que é que define
os quais se argumentaria de igual forma, pois para forjar o o que: o método define o objeto ou o inverso. Alguns, como
ferro precisar-se-ia de um martelo e, para se ter martelo, é K. Stumpf, supõem que a única diferença entre os métodos
preciso fazê-lo, para o que se necessita de outro martelo e decorre da diferença entre os objetos. Outros, como Rickert,
de outros instrumentos, os quais também supõem outros opinam que distintos objetos, tanto físicos quanto psíquicos,
instrumentos, e assim ao infinito; e desse modo em vão ten­ exigem o mesmo método (ibidem, pp. 21-2). Mas, como
taria alguém provar que homem nenhum tem poder de for­ podemos ver, tampouco aqui existem fundamentos que per­
o ferro. Mas como os homens no começo, com instru- mitam delimitar entre a ciência geral e a particular.
244 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 245
A única coisa que tudo isso demonstra é que é impossí­ ticulares é a mesma que a existente entre estas e os fatos da
vel definir de forma absoluta o conceito de ciência geral, só realidade que estudam. A biologia recebe material proce­
cabendo fazê-lo em relação à ciência particular. Não se dife­ dente de distintas ciências e o elabora assim como o faz
rencia desta última nem pelo objeto, nem pelo método, nem com o seu cada ciência particular. A única diferença consis­
pelo fim, nem pelo resultado de suas análises. Em relação a te em que a biologia começa ali onde termina a embriologia,
toda uma série de ciências particulares, que estudam sob o a zoologia, a anatomia etc. A biologia reúne um material
mesmo ponto de vista âmbitos contíguos da realidade, a tomado de diferentes ciências, assim como cada uma dessas
ciência geral realiza o mesmo trabalho, empregando o
ciências reúne distintos materiais.
mesmo procedimento e com o mesmo fim que cada uma das
Esse ponto de vista explica tanto a estrutura lógica da
ciências particulares. Vimos que nenhuma ciência se limita
ciência geral quanto sua estrutura real e seu papel histórico.
simplesmente a acumular material, mas o submete a um tra­
Se aceitarmos a opinião oposta de que a ciência geral é
tamento multiforme e multigradual, que permite agrupar e
parte da lógica, seria inexplicável, em primeiro lugar, por
generalizar esse material criando teorias e hipóteses, que
que precisamente as disciplinas muito desenvolvidas são as
ajudam a interpretar com maior amplidão a realidade e qve
que conseguiram criar e elaborar até os menores detalhes
a ilustram com fatos particulares isolados. A ciência geral
seus métodos, seus conceitos básicos e suas teorias, as que
continua a tarefa das ciências particulares. Quando o mate­
dão lugar a ciências gerais. Deveriam ser as disciplinas no­
rial alcançou o grau máximo de generalização possível na
vas e jovens, as que começam, que mais necessitariam ado­
ciência particular em questão, a última generalização só
tar os conceitos e os métodos de outras ciências. Em segun­
pode ocorrer fora de seus limites, mediante comparações
do lugar, por que é um grupo de disciplinas próximas que
com uma série de ciências próximas. É isto que a ciência
se integra na biologia geral e nào se constitui em ciência
geral faz. Sua única diferença em relação às ciências particu­
geral cada uma das ciências - a botânica, a zoologia, a
lares consisre cm realizar o trabalho sobre a base do realiza­
antropologia - separadamente? É porque não se pode defi­
do por uma série de ciências. Se efetuasse esse mesmo tra­
nir uma lógica da zoologia ou da botânica, separadamente,
balho somente em relação a uma ciência nunca teria se
assim como existe uma lógica da álgebra? De fato, tais disci­
transformado numa disciplina independente e teria conti­

plinas isoladas podem existir e existem, mas nem por isso se


nuado como parte dessa mesma ciência. Por isso pode-se

transformam em ciências gerais, assim como a metodologia


definir a ciência gcral como a ciência que recebe o material

da botânica nào se converte em biologia.


de uma série de ciências particulares e leva a cabo uma ela­

L. Binswanger parte, da mesma forma que toda sua cor­


boração e generalização posterior do mesmo,

dentro de cada disciplina em separado.


rente, de uma concep~'ão idealista do saber científico, ou
seja, de premissas idealistas de caráter gnoseológico e de
Por isso, a relação entre a ciência geral e a ciência
uma concepção lógico-formal das ciências. Para ele, os con­
cular é a mesma que a existente entre a teoria dessa ciência
ceitos estão separados dos objetos reais por um abismo
particular e uma série de leis particulares suas. Ou seja,
intransponível. O saber tem suas leis, sua natureza e seu
trata-se de uma diferença em função do grau de generaliza­
apriorismo. Conduz a uma realidade conhecida. Por isso,
dos fenômenos a estudar. A ciência geral surge da ne­
para Binswanger, é impossível estudar esses
cessidade de continuar o trabalho das ciências particulares
essas leis, esses conhecimentos isolados, independentemen­
ali onde estas últimas se detêm. A relação entre a ciência
te do que se conhece com eles. Segundo ele, é possível
geral e as teorias, leis, hipóteses e métodos das ciências par-
car a crítica da razão científica em biologia, psicologia, físi­
246 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 247

ca, assim como para Kant era possível a crítica da razão respondência entre a realidade e o pensamento em matemáti­
pura. Binswanger está disposto a admitir que os métodos de ca, diz que "todas as leis numéricas dependem do sistema
conhecimento determinam a realidade, assim como para adotado e encontram-se condicionadas por ele. Assim, nos
Kant a razão ditava leis para a natureza. Para ele, as relações sistemas de base dois e de base três, dois por dois não é igual
entre as ciências nào estão determinadas por seu desenvol­ a quatro, mas a cem ou a onze" (ibidem, p. Podemos
vimento histórico nem pelas exigências da experiência cien­ dar mais um passo e dizer que os pressupostos subjetivos de
tífica (isto é, pelas exigências da própria realidade que se que parte o processo de conhecimento se manifestam sempre
conhece através da ciência), mas pela estrutura lógico-for­ em nosso modo de expressar as leis da natureza e de relacio­
mal dos conceitos. nar diferentes conceitos; devem ser levados em conta, mas
Esse enfoque não seria concebível sob outra perspecti­ sempre como reflexo da dialética objetiva.
va filosófica, pois renunciaríamos a essas premissas lógico­ Por conseguinte, à crítica gnoseológica e à lógica for­
formais e gnoseológicas e isso suporia a queda imediata maI, como fundamentos da psicologia geral, deve se con­
dessa concepção da ciência geral. Basta adotarmos a pers­ trapor a dialética, que "se concebe como a ciência das leis
pectiva realista-objetiva isto é, materialista em gnoseologia mais gerais de todo devir. Isto significa que suas leis devem
e dialética em lógica - na análise teórica do conhecimento reger tanto o devir da natureza e a história humana quanto
científico para que aquela teoria se torne inviável. Esse o que se dá no campo do pensamento" (ibidem, p. 582).
novo enfoque nos indica que a realidade determina nossa Isto quer dizer que a dialética da psicologia assim que
experiência; que a realidade determina o objeto da ciência e podemos denominar de forma breve a psicologia geral,
seu método, e que é totalmente impossível estudar os con­ contra a definição de Binswanger de "crítica da psicologia")
ceitos de qualquer ciência prescindindo das realidades é a ciência das formas mais gerais do devir tal como se
representadas por esses conceitos.
manifesta no comportamento e nos processos de conheci­
F. Engels assinala várias vezes que para a lógica dialética mento, isto é, assim como a dialética da ciência natural é,
a metodologia das ciências é o reflexo da metodologia da
ao mesmo tempo, a dialética da natureza, a dialética da psi­
realidade. "A classificação das ciências diz ele -, cada uma
cologia é, por sua vez, a dialética do homem como
das quais analisa uma forma especial de devir ou uma série
da psicologia.
de formas de devir coerentes e que se transforma m nas
Engels considera inclusive que a classificação puramen­
outras, é, portanto, a classificação, a ordenação em sua suces­
te lógica dos juízos de Hegel se baseia nào só no pensamen­
são inerente dessas mesmas formas de devir e nisso reside
sua importância" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 20, pp. 564-5). to, mas também nas leis da natureza. Esse é precisamente o
É possível ser mais claro? Quando classificamos as ciências,
traço que ele considera distinto da lógica dialética. "C .. ) O
estabelecemos a hierarquia da própria realidade. "A dialética que em Hegel aparece como um desenvolvimento da forma
subjetiva, o pensamento dialético não é mais do que um discursiva do juízo como tal, responde ao desenvolvimento
reflexo do devir através de contradições (. .. )" (ibidem, p. de nossos conhecimentos teóricos sobre a natureza do devi r
526). Aqui aparece claramente a exigência de levar em con­ em geral, conhecimentos que descansam sobre LIma base
sideração a dialética objetiva da natureza na hora de investi­ empírica. O que demonstra, com efeito, que as leis do pen­
gar a dialética subjetiva em tal ou qua/ciência, OLl seja, o pen­ samento e as leis naturais coincidem necessariamente entre
samento dialético. Naturalmente, isso não significa de modo si quando são conhecidas de um modo acertado" (ibidem,
algum que fechemos os olhos para as condições subjetivas pp. 539-40). Essas palavras encerram a chave da psicologia
desse pensamento. O próprio Engels, que estabeleceu a cor- geral como parte da dialética: essa correspondência entre
248 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA
O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 241
pensamento e realidade que se dá na ciência constitui ao quais se ocupa a psicologia a partir de seu propno centro,
mesmo tempo o objeto e o critério fundamental e inclusive ou seja, enquanto disciplina
o método da psicologia geral, isto é, seu princípio geral. Aquele que adotar o ponto de vista da disciplina gera
ou, o que dá na mesma, colocar os fatos das disciplinas
gerais nào num plano de igualdade, mas como material
6 científico, e se perguntar como essas disciplinas abordam os
fatos da realidade, substituirá imediatamente o ponto de
A p:-Jl\."VIUJ:;;l<l
vista da crítica pelo da análise. A crítica se acha no mesmo
Esta plano que o criticado e se desenvolve integralmente no seio
de uma disciplina concreta. Seu objetivo é exclusivamente
crítico e não positivo: só lhe interessa se tal ou qual teoria é
quantidades; por verdadeira ou não e em que grau; avalia e julga, mas não
pode ser considerada como um caso particular de fórmula analisa. A critica B, mas ambos ocupam a mesma
algébrica. Disto se evidentemente que para cada em relação aos fatos. A muda quando A começa a
disciplina particular e para cada LIma de suas leis nào lhe é adotar em relação a B a mesma que este em
indiferente que caso particular de qual fórmula geral é. O aos fatos, ou seja, nào criticar mas analisá-lo. A análise já
que diferencia a ciência geral e lhe atribuiu seu papel de pertence à ciência geral: suas tarefas nào são críticas, mas
protagonista não emana do fato de que esteja acima das positivas; não lhe interessa avaliar tal ou qual doutrina, mas
ciências, ou de que se baseie na lógica, isto é, nos últimos conhecer algo novo sobre os fatos que a doutrina apresenta.
fundamentos do conhecimento científico, mas do fato de Entào, quando a ciência utiliza a crítica como método, tanto
que está por baixo das ciências particulares, de que parte o processo [a investigação R.R.], quanto o resultado desse
das próprias ciências e estas delegam à ciência geral sua processo se diferenciarão radicalmente da discussão crítica.
sanção de verdade. A ciência geral surge, portanto, da sítua­ Em última instância, a crítica formula opiniões, ainda que se
que ocupa em relação às ciências particu­ trate de opiniões sólidas e seriamente fundamentadas, ao
lares: resume sua é sua portadora. Se represen­ passo que a análise geral estabelece leis e fatos objetivos.
tássemos em forma de um círculo o sistema de Somente quem elevar sua análise do plano da discussão
conhecimentos que abarcam todas as crítica de tal ou qual sistema até a altura da investigação
cas, a Clencia seria o centro da circunferência. com a ajuda dos métodos da ciência geral, descobri­
Suponhamos agora que temos vários centros rá o verdadeiro da crise da psicologia e percebe­
como no caso da discussào entre disciplinas especiais que rá a estrutura no atual confronto de idéias e
pretendem ser o centro, ou da pretensão de diferentes ções, um confronto condicionado
idéias de ser o princípio explicativo central. É evidente que mento da ciência e natureza da realidade a estudar na
corresponderão a elas distintas circunferências; como cada fase de seu conhecimento. Em lugar do caos de
novo centro será ao mesmo tempo um ponto periférico da heterogêneas, do mosaico de opiniões discrepantes, verá
antiga circunferência, obteremos, por conseguinte, várias um quadro harmonioso dos critérios fundamentais que
circunferências que se cortam entre si. Essa nova distribui­ regem o desenvolvimento científico. Perceberá o sistema de
ção de cada circunferência representaria graficamente em tendências objetivas que necessariamente ocorrerão na tare­
nosso exemolo um setor particular de conhecimento dos fa histórica do desenvolvimento ela ciência e que atuam com

t
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250 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 251

a força de urna mola de aço, apesar de investigações e teóri­ ção do tecido cientifico em psicologia, que está condicio­
cos. Em vez de discutir e avaliar criticamente tal ou nando a vontade de todos os investigadores.
autor, em vez de tachá-lo de inconsciente ou contraditório,
se dedicará ã análise positiva das exigências que as tendên­
cias ohjetivas da ciência colocam. Conseguirá assim fazer 7
um mapa do esqueleto da ciência geral enquanto sistema de
leis, princípios e fatos determinados, em vez de um Podemos desvendar o significado exato da dependência
to de opiniões sohre opiniões. entre cada operação psicológica e a lei geral, tomando
Somente um investigador assim captará com fidelidade como exemplo qualquer problema que tenha ultrapassado
e precisão o significado da catástrofe que se está produzin­ os limites da disciplina particular que o formulou.
do e ohterá uma idéia clara do papel que cada teoria e esco­ Quando T. Lipps, ao falar do subconsciente, diz que
la desempenha, do lugar que ocupa e do significado que não é tanto lima questão psicológica quanto uma questão da
tem. Em vez de recorrer ao impressionismo e ã subjetivida­ psicologia, está se referindo a que o subconsciente é um
de inevitáveis em toda crítica, se guiará pela certeza científi­ problema da psicologia geral (914). Com isto queria ape­
ca e pela veracidade. Desaparecerão para ele (e esse será o nas significar que a questão do subconsciente não se resol­
resultado do novo ponto de vista) as diferenças veria como resultado de tal ou qual análise parcial, mas de
individuais. Compreenderá o papel do indivíduo na história; uma investigação básica com os métodos da ciência
compreenderá que nào se pode explicar as pretensões de Ou seja, comparando amplíssimos dados dos mais diversos
universalismo da reflexologia partindo de erros e opiniões setores da ciência: relacionando o problema com algumas
pessoais, de particularidades, da ignorância de seus criado­ das premissas fundamentais do conhecimento científíco, por
res, assim como não se pode explicar a Revolução Francesa um lado, e com alguns dos resultados mais generalizados de
haseando-se na corrupção dos reis e da corte. Poderá anali­ todas as ciências, por outro lado; encontrando o lugar desse
sar em que medida o desenvolvimento da ciência depende conceito dentro do sistema dos conceitos fundamentais da
da hoa ou má vontade de seus artífices, o que é que se psicologia; realizando urna análise dialética essencial sobre
explicar em função dessa vontade e o que, pelo contrano, a natureza do conceito e sobre as qualidades da realidade
deve ser explicado para além dela, com base nas tendências que este abstraiu. Essa análise precede logicamente qual­
objetivas que atuam apesar desses artífices. É evidente que quer análise concreta sobre aspectos parciais da vida sub­
o caráter universal que adota em Békhterev a perspectiva consciente e determina a maneira como as próprias análises
reflexológica é determinado tanto peculiaridades de devem ser formuladas.
uma criaçào pessoal quanto por sua bagagem científica. Mas Como bem disse Münsterberg: "Em última instância,
tamhém para Pávlov, com uma mentalidade e urna expe­ mais vale obter uma resposta provisória e relativamente
riência científica distintas, a reflexologia constitui a "última exala a uma pergunta corretamente formulada do que con­
ciência", a "onipotente ciência natural", que proporcionará a testar, com a exatidão de urna décima, uma pergunta formu­
"verdadeira, completa e total felicidade humana" 0950, p. ladu de forma equivocada" 0922, p. 6). Na e na
17). O mesmo caminho percorrem, de forma diferente, o Investigação científica, a formulação correta a uma pergunta
behaviorismo e a psicologia da Gestalt. Fica claro que o que nAo (. um ato menos importante do que a elaboração da res­
é preciso estudar, em vez do mosaico da boa ou má vontade posta adequada, e exige muito mais responsabilidade. A
dos investigadores, é a unidade dos processos de regenera- Imensa maioria das pesquisas psicológicas modernas anota
II1

252 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 253


com o maior cuidado e exatidão a última decimal da curam responder está formulada de modo equivocado.
resposta a uma pergunta formulada erroneamente na raiz. Pode-se multipl icar o número de habitantes do
O tipo e o revestimento dos materiais que estudemos pelo de verstas que há da Terra ao Sol e dividir o produto
variarão em função de aceitarmos, junto com Münsterberg, obtido pela duração média da vida do elefante e realizar
que o subconsciente é simplesmente fisiológico e não psico­ impecavelmente toda a operação, sem se enganar num
lógico; ou que convenhamos com outros em considerar os único algarismo, e ainda assim o número obtido pode con­
fenômenos temporariamente ausentes da consciência como duzir ao erro aquele que quiser saber qual é a renda nacio­
subconscientes (como toda uma massa de lembranças, co­ nal do Paraguai. É isso o que fazem os ecléticos: respondem
nhecimentos e hábitos potencialmente conscientes) ou de à pergunta formulada pela filosofia marxista com o que lhes
que chamemos subconscientes aos fenômenos que não sugere a metapsicologia freudiana.
alcançaram o limiar da consciência, que são minimamente Para mostrar a arbitrariedade dessas tentativas, deter­
conscientes, perifé'ricos no campo da consciência, automáti­ nos-emos em três tipos de casos de união de uma pergunta
cos e irreconhecíveis; ou de que encontremos na base do de um tipo com uma resposta de outro. Não pretendemos,
deslocamento subconsciente, junto com Freud, uma tendên­ de forma alguma, esgotar toda a gama de tentativas ecléticas
cia de caráter sexual, ou em nosso segundo eu uma perso­ com esses três exemplos.
nalidade especial; ou que, finalmente, demos a todos esses A primeira tentativa de assimilar a uma escola
fenômenos o nom!:' de "in_", "sub-", ou superconscientes ou os produtos científicos de outra consiste em transferir direta­
admitamos as três denominações, como faz Stern. Tudo isso mente as os fatos, as teorias, as idéias etc. Em apoderar­
fará variar seriamente o tipo, o revestimento, a composição se de um setor mais ou menos amplo, ocupado por outros
e as propriedades do material a estudar. A pergunta pressu­ investigadores, em anexar um território alheio. Tal
põe em parte a resposta. de anexação direta costuma ser vivida por todo sistema cien­
As tentativas ecléticas de conjugar elementos heterogê­ tífico novo que estenda sua influência a disciplinas próximas
neos, de natureza distinta e de diferentes origens científicas, C pretenda ocupar um papel diretor na ciência geral. Seu
carecem desse caráter sistemático, dessa sensação de estilo, próprio material é excessivamente reduzido e esse mesmo
dessa conexão entre nexos que proporciona o submetimen­ Mllitema absorve e subordina corpos estranhos, modificando­
to das teses particulares a uma única idéia que ocupa um Os ligeiramente e preenchendo assim o vazio de seus exten­
lugar central no sistema de que faz parte. Tais são, por !!los limites. Geralmente, o que resulta é um conglomerado de
exemplo, as sínteses do behaviorismo e da psicologia freu­ teorias científicas e fatos embutidos com horrível arbitrarie­
diana nas publicações norte-americanas; o freudismo sem d'lde dentro dos limites da idéia que os une.
Freud dos sistemas de A. Adler e C. Jung; o freudismo refle­ Assim é o sistema da reflexologia de V. M. Békhterev.
de Békhterev e A. B. Zalkind e, finalmente, as ten­ IJ.ml ele tudo vale, inclusive a teoria de A. 1. Vvedienski so­
tativas de unir a psicologia freudiana e o marxismo (A. R. hre " incognoscibilidade do eu alheio (ou seja, a expressão
1925; B. D. Fridman, 1925). Quantos exemplos só no &!Xlrcma do solipsismo e do idealismo em psicologia), has­
campo do subconsciente! Todas essas colocações tomam o IlIndo-lhe que essa teoria confirme mais ou menos sua tese
rabo de um sistema e o adaptam à cabeça do outro, interca­ p"rllt.'ular da necessidade do método objetivo. O fato de
lando no meio o tronco de um terceiro. Não é que tão que. dentro do conjunto geral de todo o sistema, essa idéia
monstruosas combinações sejam errôneas, todas elas são dll Inl:ognoscibilidade represente uma profunda brecha que
verídicas até o último décimo. mas a oen:mnta a que pro­ Mulupa os fundamentos do enfoque realista da personalida­
t: l!;! ~ í l j f; d 11 í I11I1I11111111111111I11111111111111111111111111
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254 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 255

de nào incomoda o autor (assinalemos que Vvedienski tais superiores realizadas pela escola de Wurtzburgo, assim

apóia sua teoria nos trabalhos de ... Pávlov, sem se dar conta como os resultados dos estudos de outros representantes da

de que ao chamar em seu auxílio o sistema da psicologia psicologia subjetiva, "podem ser coordenadas com o esque­

objetiva está recorrendo a seu carrasco). Mas para o meto­ ma dos reflexos cerebrais ou combinatórios" (ibidem, p.

dólogo é profundamente significativo que antípodas como 387). Nào é necessário assinalar que apenas com esta frase

"Vvedíenski-Pávlov" e "Békhterev-Vvedienski" nâo só se se apagam todas as premissas essenciais do sistema próprio:

desmintam entre si mas que pressuponham necessariamente se tudo pode se coordenar com o esquema do reflexo e

a existência de ambos e tudo "está completamente de acordo" com a reflexologia,

clus6es o testemunho da "firmeza dessas conclus6es". Para inclusive o descoberto pela psicologia subjetiva, por que ir

o terceiro lou seja, para o metodólogo - R.R.] fica claro que contra essa psicologia? As descobertas realizadas
em
não se trata de uma coincidência de conclus6es obtidas de Wurtzburgo foram obtidas com um método que, na

forma totalmente independente por representantes de dife­ de Békhterev, nào conduzem à verdade; e, no entanto,

rentes especialidades (por exemplo, o filósofo Vvedienski e estão completamente de acordo com a verdade

biólogo Pávlov), mas da coincidência dos pontos de vista Como isto é possível?
que têm sua nas premissas filosóficas do Com a mesma despreocupação se procede ã anexação

idealismo dualista. Essa "coincidência" é do território da psicanálise. Para isso basta declarar que "a

desde o próprio princípio: Békhterev aceita doutrina dos complexos de C. Jung corresponde perfeita­

um tem razão, o outro também terá. mente aos dados da reflexologia", mas num parágrafo ante­

O princípio da relatividade de A. Einstein e os princí­ rior assinalamos que essa doutrina se baseia numa análise

pios da mecânica newtoniana, incompatíveis entre si, ajus­ subjetiva, que Békhterev rejeita. Nào importa: encontramo­

tam-se perfeitamente no sistema eclético. A Rejlexologia nos num mundo de uma harmonia pré-estabelecida, de uma

coletiva de Békhterev reúne o catálogo positivo das leis uni­ maravilhosa correspondência, de uma admirável coincidên­

versais. Nesse sentido, a metodologia do sistema se caracte­ cia de doutrinas 'baseadas em análises falsas e dados proce­

riza por um pensamento volátil e dentes das ciências exatas; mais precisamente, encontramo­

de idéias que, através de uma nos num mundo de "revolu<.~6es terminológicas", segundo

todos os trâmites intermediários, nos leva à lei da expressão de P. P. Blonski 0925a, p. 226).

proporcional entre a velocidade do movimento e a Toda nossa época eclética está cheia dessas coincidên­

motriz, estabelecida em mecânica, ao fato da participação cias. Por exemplo, A. B. Zalkind anexa esses mesmos seto­

dos Estados Unidos da América na I Guerra européia e vice­ res da psicanálise e da doutrina dos complexos em nome

versa, do experimento de um certo doutor Schwarzmann dos setores dominantes. Ocorre que a escola psicanalítica

sobre os limites da freqüência das excitaç6es cutâneas, que desenvolveu o mesmo conceito de dominância, só que "com

do reflexo concatenado, à "lei univer­ outras express6es e com outros métodos", com plena inde­

que se manifesta por toda parte e que pendência da escola reflexológica. "A corrente dos comple­

alcançou sua definitiva entre os xos" dos psicanalistas, a "orientaçào estratégica" dos adleria­

astros e os planetas nas brilhantes nos sào os mesmos dominantes, mas em formulaç6es fisio­
ev. M. Békhterev, 1923, p. 344). 1t'>l(kas gerais. A anexação, a transposição mecânica de

Não é preciso dizer que a anexaçâo de áreas psicológi­ mc.'ntos de um sistema alheio ao próprio, parece se

cas é decidida e audaz. As investigaç6es dos processos men­ neste caso, como em todos os casos, sempre de maneira

II,i

256 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 257

e como evidência de verdade. Semelhante coinci­ mos denominar "método de superposição lógica de concei­
dência teórica e prática "quase de duas doutrinas tos". Define-se o sistema marxista como monista, materialis­
que operam com um material manifestamente distinto e que
empregam métodos totalmente diferentes constitui uma ao superpor os conceitos,
prova convincente da correção do caminho fundamental estes e declara-se a união dos sistemas. Através
que segue a atual reflexologia*. Lembremos que para Vve­ elementar eliminam-se
dienski sua coincidência com Pávlov era também uma prova grosseiras, bruscas, que saltam ã
de veracidade de suas teses. Mais ainda: essa coincidência mente do sistema, considerando-as exageradas etc. É assim
mostra, como indica várias vezes Békhterev, que se pode que se dessexualiza o freudismo, porque o pansexualismo
chegar a uma verdade coincidente através de métodos com- não concorda de modo algum com a filosofia de Marx.
distintos. Na o que prova a coincidên­ "Bom", dizem-nos, "admitamos o freudismo sem os postula­
cia é apenas a carência de princípios e o ecle­ dos da sexualidade", Mas ocorre que esses postulados cons­
tismo do sistema em que se estabelece a coincidência. Um tituem precisamente o nervo, a alma, o centro de todo o sis­
refrão oriental diz que quem pega um lenço alheio pega o tema. É possível aceitar um sistema sem seu centro? Porque
odor alheio; quem pega dos psicanalistas a doutrina dos a psicologia freudiana sem o postulado da natureza sexual
complexos de ]ung, a catarse de Freud, a orientação estraté­ do inconsciente é o mesmo que o cristianismo sem Cristo ou
gica de Adler, pega também uma boa dose de odor desses o budismo sem Alá,
sistemas, ou seja, do espírito filosófico de seus autores. um milagre histórico que o Oci­
Se esse primeiro procedimento de importação de idéias dente tivesse e tivesse se criado um sistema acabado
alheias de uma escola para outra lembra a anexação de um de filosofia marxista sobre raízes filosóficas totalmente dis­
território alheio, o segundo procedimento de associação de tintas e uma cultural completamente diferente. Isto
idéias alheias assemelha-se a um tratado de aliança entre teria significado que a filosofia não determina em absoluto o
dois países, mediante o qual nenhum dos dois perde sua desenvolvimento da ciência. Vejamos se não: partem de
independência, mas ambos concordam em atuar conjunta­ Schopenhauer para criar a psicologia marxista, o que equi­
mente, partindo da comunidade de interesses. Este é o pro­ vale à mesma total esterilidade da tentativa de unir psicolo­
cedimento a que se costuma recorrer quando se quer asso­ gia freudiana e marxismo, assim como o sucesso da coinci­
ciar o marxismo e a freudiana. Nesse caso, utili­ dência bekhtereviana significaria a bancarrota do método
za-se o método que por com a geometría objetivo: se os dados da análise subjetiva coincidem inte­
gralmente com os da objetiva, deveríamos nos perguntar
• É curioso que Békhterev veja essa coincidência subjetiva do conceito por que é pior a análise :;ubjetiva. Se Freud pensava, sem se
de dominante com relação um setor totalmente dL'itinto; quando descreve a
dar conta, em outros sistemas filosófico:; ou se, aderindo
escola de ]ung e de Freud e a orienta~'ào dos complexos, encontra também,
naturalmente, pkn<l coincidência com os dados que a retlexologia <I presenta , conscientemente a criou a doutrina marxista da
mas não com o dominante, A este correspondem, em contrapartida. os fenô­ em nome do que, cabe perguntar-se, deve-se
menos descritos pela escola de Wum:burgo, ou seja que "participa dos pro­ frutífero erro: se em Freud não é preciso modificar
cessos eb lógica" individualmente e correlaciona com o conceito de tendência opinião desses autores, para que unir a psicanálise ao mar­
determinante <1923, p. 386). A enorme heterogeneidade de coincidências con­
crerás (o dominante equivale ou ao conceito, ou à tendência dominante, ou à
xismo? No fio dessa argumentação surge uma curiosa per­
atenção, segundo A. A. Ukht(}mskD é a melhor prova da vacui<bde, da inutili­ gunta: como é possível que a evolução lógica de um sistema
dade. da esterilidade e da arhitrariedade dessas coincidências. que coincide por completo com o marxismo o leve a consi­
~- Wliíi

258 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 259

derar que o fundamental é a idéia da sexualidade, sendo o conquistas científicas". Basta reduzir a um denominador
caráter fundamental dessa idéia claramente inconciliável comum todos esses nomes e o marxismo para que não seja
com o marxismo? Um método não é responsável em alguma difícil a adesão a este último de qualquer "grande conquísta
medida pelas conclusões conseguidas com sua ajud<l? Como científica", porque essa é precisamente a premissa; porque
é possível que um método veraz, que cria um sistema veraz, é precisamente nela e não na conclusão que se encerra a
baseado em premissas verazes, tenha levado seus autores a "coincidência" que se busca. A "metodologia fundamental
uma teoria falsa, a uma idéia central falsa? É preciso possuir da época" é composta pela soma das descobertas de
uma grande dose de despreocupação metodológica para Pávlov, Einstein etc.; o marxismo é uma das descobertas
não ver esses problemas, que surgem inevitavelmente em que fazem parte do "grupo de princípios obrigatórios para
toda tentativa mecânica de deslocar o centro de qualquer todas as ciências conexas". Aí, ou seja, na primeira página,
sistema científico: nesse caso, da doutrina de Schopenhauer poderiam dar-se por terminados todos os raciocínios: basta
sobre a vontade como base do mundo à doutrina de Marx so­ citar juntos Einstein e FremI (porque também este represen­
ore o desenvolvimento dialético da matéria. ta uma "grande conquista científica" e participa, portanto,
Mas o pior ainda nos espera. Essas tentativas conduzem do "fundamento metodológíco geral da época"). Mas quan­
a fechar os olhos para fatos contraditórios, levam a nào ta confiança carente de espírito crítico é preciso ter para
prestar atenção a amplíssimas áreas, a princípios capitais, extrair da soma de sobrenomes famosos a metodologia de
introduzem monstruosas tergiversações nos dois sistemas uma época!
que se procura unir. Obriga a realizar em ambos transforma­ Não existe uma só metodologia fundamental de uma
ções como as que leva a cabo a álgebra para demonstrar a época; o que existe na verdade sào conjuntos de
identidade de duas expressões. Mas transformar o aspecto metodológicos em litígio, profundamente hostis, que se
dos sistemas, operando com magnitudes absolutamente dis­ excluem uns aos outros e cada teoria a de Pávlov, a de
símiles às algébricas, sempre leva, de fato, a deformar a Einstein etc. - tem seus valores metodológicos. Extrair dos
essência dos próprios sistemas. parênteses a metodologia geral da época e diluir nela o mar­
Por exemplo, no artigo de A. R. Luria, a psicanálise é xismo significa transformar nào só a aparência mas também
apresentada como o "sistema de psicologia monista", cuja a essência do marxismo.
metodologia "coincide com a metodologia do marxismo" Mas eS.%IS transformações também as experimenta inevi­
0925, p. . Para demonstrá-lo, operam-se transformações tavelmente a psicologia freudiana. O próprio Freud teria
verdadeiramente ingênuas em ambos os sistemas, em de­ estranhado muito saber que a psicanálise é um sistema de
corrência das quais acabam "coincidindo". Vejamos breve­ psícologia monista e que ele "continua metodologicamente
mente essas transformaçôes. Antes de mais nada, no artigo (. ..) o materialismo histórico" (B. D. Fridman, 1925, p. 1
inclui-se o marximo na metodologia geral da época (junto Evidentemente, nenhuma revista psicanalítica publicaria arti­
com Darwin, Kant, Pávlov, Einstein, que, juntos, estabele­ gos de Luria ou de Fridman. E isso é muito importante.
cem o fundamento metodológico da época). () papel e a Porque nos encontramos diante de uma situação muito estra­
importância de cada um dos mencionados autores são, é nha: Freud e sua escola nào se declaram em momento algum
claro, profundamente distintos por princípio. E o papel do monistas, nem materialistas, nem dialéticos, nem continua­
materialismo dialético é absolutamente diferente por sua dores do materialismo histórico. Em contrapartida, declaram
própria natureza. Desconhecer isto implicaria, em geral, a respeito deles: "vocês são isto, aquilo e mais aquilo; vocês
excluir mecanicamente o método somativo das "grandes mesmos não sabem o que são". Não que essa situação
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260 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 261

impossível, ela poderia ocorrer, mas exige que se esclareça cidência") que a doutrina de FremI sobre o papel primárIO
com precisão as bases metodológicas da doutrina, que se das paixôes cegas, papel que se reflete de forma incons­
como a concebem e como a desenvolveram seus ciente e desvirtuada na consciência, remonta diretamente
autores e, depois, que se desminta com clareza os funda­ da metafísica idealista da vontade e das representaçôes de
mentos da mesma e se indique de que bases se serviu a psi­ Schopenhauer. Em suas conclusôes mais extremas, o pró­
canálise para desenvolver um sistema de metodologia alheia prio Freud indica que se encontra no porto de Schopen­
a seus autores. Ao invés disto, sem urna só análise dos con­ hauer. Mas também em suas premissas fundamentais, assim
ceitos principais de Freud, sem pesar e iluminar criticamente como nas linhas determinantes de seu sistema, est:1 ligado à
suas premissas e pontos de partida, sem ilustrar criticamente a do grande pessimista, como pode evidenciar a
gênese de suas idéias, inclusive sem uma simples informaç,10 mais simples análise.
de como Freud de fato concebe os fundamentos filosóficos E também em seus trabalhos "práticos" a psicanálise
de seus sistemas, se afirma, mediante a acumulação mostra suas tendências profundamente estáticas e nüo dinâ­
formal de fatos, a identidade dos dois sistemas. micas, conservadoras, antidialéticas e anti-históricas. Heduz
Mas, pode ser verídica essa característica lógico-formal os processos psíquicos superiores individuais e coletivos ­
de ambos os sistemas? vimos como se extrai do marxis­ diretamente a raízes que evoluíram pouco, primitivas, em
mo sua contribuição à metodologia geral da época, na essência pré-históricas, pré-humanas, sem deixar espaço
tudo se reduz, de forma exemplar e ingênua, a um denomi­ para a história. A obra de F. M. Dostoiévski é analisada do
nador comum: por Einstein, Pávlov e Marx serem mesmo modo que os totens e tabus das tribos primitivas; a
devem ter um fundamento comum. Mas nisto a psicologia Igreja o comunismo, a horda primitiva, tudo isso pro­
freudiana se desfigura ainda mais. Não me refiro ao fato de cede na psicanálise de uma mesma fonte. Que tais tendên­
despojá-la da idéia central, seguindo um procedimento me­ cias estejam presentes na psicanálise fica patente em todos
cânico, como faz A. B. Zalkind (924), que silencia essa os trabalhos dessa escola que tratam dos problemas da cul­
idéia em seu artigo (o que também é curioso). Mas vejamos tura, da sociologia, da história. Comprovamos, portanto,
o suposto monismo da psicanálise, com o que FremI não que nào segue, mas que nega, a metodologia do marxismo.
teria estado de acordo. Onde, em que palavras, com que Mas sobre isso, nem uma palavra.
motivo se passou ao terreno do monismo filosófico a que Por último e em terceiro lugar, todos os conceitos prin­
se refere o artigo? Será que toda redução de um certo grupo do sistema psicológico de Freud remontam a T. Lipps.
de fatos à unidade empírica é monismo? Ao contrário, Freud Os conceitos de "inconsciente", de "energia psíquica
reconhece sempre o psíquico, ou seja, o inconsciente, a determinadas representações", das pulsões como base da
como lima força especial, que nào pode ser reduzida a ne­ da luta das pulsões e das traníiferências, da natureza
nhuma outra. Além do mais, por que esse monismo "mate­ afetiva da consciência etc. Em outras palavras, as raízes psi­
rialista" no sentido filosófico? O materialismo médico (que cológicas de Freud penetram as camadas espiritualistas da
reconhece a influência de órgãos isolados etc. nas forma­ psicologia de Lipps. Como é possível nào levar isto absolu­
çôes psíquicas) ainda está muito distante do filosófico. tamente em conta ao falar da metodologia de Freud?
Desempenha fundamentalmente um papel gnoseológico na Por conseguinte, vemos de onde surge Freud e para on­
filosofia marxista, e Freud se mantém no gnoseológico no de se dirige seu sistema: de Schopenhauer e Lipps a Kohlnay
terreno da filosofia idealista. É um fato (não só nâo des­ e a psicologia das massas. É preciso ser monstruosamente
mentido, mas nem sequer analisado pelos autores da "coin- tolerante para silenciar a meta psicologia, a psicologia so­

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262 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 263

cial*, a teoria da sexualidade de Freud, quando se explica o muito mais fácil fazê-lo nos sistemas metodológicos cons­
sistema da psicanálise. Esse modo de expor o sistema leva­ cientes, precisos, livres de contradições, que têm plena
ria uma pessoa que não conhecesse Freud a ter uma idéia consciência de seus mestres, que foram unificados e estrutu­
equivocada sobre ele. O próprio Freud teria sido o primeiro rados logicamente; é muito mais difícil avaliar com correção
a protestar contra a denominação de "sistema". Em sua opi­ e descobrir a verdadeira natureza das metodologias incons­
nião, um dos maiores méritos da psicanálise e de seu autor cientes, que se formam espontânea, contraditoriamente, sob
consiste em que este elude conscientemente o caráter do as mais diversas influências, às quais pertence justamente a
sistema (1925). O próprio Freud rejeita o "monismo" da psi­ psicanálise. Por isso, esta exige uma análise metodológica
canálise: não insiste em reconhecer o caráter exclusivo e particularmente escrupulosa e crítica e não a ingênua super­
original dos fatos descobertos por ele; não procura em abso­ posição dos traços de dois sistemas distintos.
luto "apresentar uma teoria exaustiva da vida espiritual do "Para uma pessoa não versada nos problemas científico­
homem". Limita-se a exigir a aplicação de sua tese para com­ metodológicos - diz V. N. lvanóvski -, o método é o mesmo
pletar e corrigir nossos conhecimentos obtidos por qualquer para todas as ciências" 0923, p. 249). E a ciência que mais
meio (ibidem). Em outro lugar diz que a psicanálise se sofreu com essa falta de compreensão do prohlema foi a psi­
caracteriza por sua técnica e não por seu conteúdo. Tam­ cologia. Sempre a incluíram na biologia ou na sociologia. Em
bém manifesta que a teoria psicológica é somente temporá­ poucas ocasiões suas leis e teorias foram avaliadas mediante
ria e que será substituída por uma teoria orgânica. o critério da própria metodologia psicológica, ou seja, partin­
Tudo isto pode facilmente conduzir ao erro. Pode pare­ do de um interesse pelo pensamento científico psicológico
cer que a psicanálise carece, com efeito, de sistema e que enquanto tal, de sua teoria e de sua metodologia, de suas
seus dados podem ser utilizados para corrigir e ampliar fontes, formas e fundamentos. É por isso que em nossa críti­
qualquer sistema de conhecimentos adquirido por qualquer ca de sistemas alheios, na avaliação de sua veracidade, care­
outro meio. Mas isso é profundamente errôneo. Do que a cemos do fundamental: da compreensão de seu fundamento
psicanálise carece é de uma teoria-sistema apriorista; como metodológico, que é o único que pode levar à avaliação cor­
ocorre com Pávlov, Freud descobriu demais para criar um reta do conhecimento no que diz respeito a seu caráter
sistema abstrato. Mas da mesma forma que o herói de Molie­ demonstrável e indubitável (V. N. lvanóvski, 1923). E, nesse
re que, sem suspeitar, falava durante toda sua vida em sentido, duvidar de tudo, não crer em nada de pés juntos,
prosa, Freud, como investigador, criava um sistema: ao in­ exigir de toda tese seus fundamentos e suas fontes do conhe­
troduzir um novo vocábulo, ao relacionar um termo ao cimento é a primeira regra da metodologia da ciência. Assim
outro, ao descrever um novo fato, ao extrair uma nova con­ nos protegemos de um erro ainda maior: não mais conside­
clusão ia criando, passo a passo, um sistema. O que aconte­ rar iguais os métodos de todas as ciências, mas crer que a
ce é que a estrutura de seu sistema é muito específica, muito estrutura de todas as ciências é a mesma.
obscura e complicada e é muito difícil orientar-se nela. É "A mente sem experiência representa, por assim dizer,
cada ciência num plano: dado que a ciência constitui um co­
• É curioso assinalar que não só os críticos de Freud criam em seu nome nhecimento fidedigno, indubitável, nela tudo deve ser fide­
uma nova psicologia social, mas que tamhém os reflexólogos (A. B. Zalkind) digno; todo seu conteúdo deve ser obtido e demonstrado
rejeitam as tentativas da reflexologia de "penetrar" no campo dos fenômenos
através de um mesmo método, que proporciona um conheci­
sociais, de explicá-los através dela, assim como algumas de suas pretensões
filosóficas gerais e tamhém o método de pesquisa "em algum lugar" (A. B. mento fidedigno. Não é o que ocorre na realidade: em toda
Zalkind, 1924). ciência nos encontramos, sem dúvida alguma, com fatos iso­
~1I11i

264 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 265

lados comprovados Ce grupos de fatos análogos), com teses de de separar os fatos de seus significados visívcís e pr(lXl­
e leis gerais estabelecidas de forma inquestionável, mas tam­ mos a condição primeira e necessária da análise. Isto não
bém com suposições, hipóteses, que algumas vezes têm quer dizer de maneira alguma que tudo na psicanálise con­
caráter temporário e provisório e outras, em contrapartida, tradiz o marxismo. Não é esse o problema que aqui me preo­
indicam os últimos limites de nossos conhecimentos (numa cupa. O que me preocupa é ressaltar como devem ser uni­
determinada época, pelo menos); encontramos conclusões dos dois sistemas de idéias (metodologicamente) e como
mais ou menos indubitáveis de teses estabelecidade de não devem ser unidos (sem espírito crítico).
forma inamovível; como estruturas que ampliam os limites No enfoque não-crítico cada um vê o que quer e não o
de nossos conhecimentos ou que têm () significado de "fic­ que é: um marxista encontra na psicanálise o monismo, o
ções" introduzidas conscientemente; com analogias, genera­ materialismo ou a dialética que nào aparecem nela; um
lizações aproximadas etc. A ciência tem uma estrutura varia­ fisiólogo como A. K. Lients supõe que "a psicanálise é um
da e a compreensão desse fato tem um significado sistema psicológico somente de nome; na verdade, é objeti­
tíssimo para a cultura científica do indivíduo. Cada tese cien­ vo, fisiológico" 0922, p. E o metodólogo Binswanger
tífica particular possui seu grau de autenticidade próprio, parecer ser o único que, em seu trabalho dedicado a Freud,
inerente apenas a ela e dependente do procedimento e grau assinala que, a seu ver, é o psicológico, isto é, o antifisiol6­
de sua fundamentação metodológica, e a ciência - enfocada gico, que constitui o principal mérito de Freud em
metodologicamente - nào constitui lima superfície homogê­ tria. "Mas - acrescenta esse conhecimento ainda não se
nea contínua, mas um mosaico de teses de diferentes graus conhece a si mesmo, isto é, carece da compreensão de seus
de autenticidade" (ibidem, p. 250). conceitos principais, de seus logos" 0922, p.
Por isso, o segundo procedimento de fusão dos siste­ Por isso torna-se particularmente difícil estudar o conhe­
mas comete dois erros principais: 1) a combinação do méto­ cimento que ainda não tomou consciência de si mesmo e de
do de todas as ciências (Einstein, Pávlov, A. Comte, Marx) e seus O que, naturalmente, nâo significa de modo al­
2) a reunião de toda a heterogênea estrutura do sistema gum que os marxistas não devam estudar o inconsciente
científico num plano, numa mero fato de que as principais concepções de Freud
nua". A limitação da personalidade ao dinheiro; da honesti­ contradizem o materialismo dialético. Pelo contrário,
dade, da tenacidade e outras coisas mil ao erotismo anal mente porque a psicanálise estuda seu objeto com base em
R. Luria, 1925) ainda não significa monismo; e a confu­ meios impróprios, é necessário conquistá-la para o marxis­
são dessa tese, quanto a sua natureza e seu grau de autenti­ mo, estudá-Ia empregando os meios da verdadeira metodo­
cidade, com os princípios do marxismo, é um enorme erro. logia. De outro modo, se na psicanálise tudo coincidisse com
O princípio que se depreende dessa tese, a idéia geral que o marxismo, não seria preciso mudar nada nela e os psicólo­
está por trás dela, sua importância metodológica, o método gos poderiam desenvolvê-la precisamente como psicanalis­
de análise que lhe é prescrito são profundamente conserva­ tas e não como marxistas. E para levar a cabo esse estudo é
dores: assim como o presidiário está acorrentado à prisão, preciso observar, antes de mais nada, a natureza metodológi­
na psicanálise o caráter o está ao erotismo infantil, a vida ca de cada idéia, de cada tese. Nessas condições, as idéias
humana está predeterminada no mais essencial pelos confli­ mais metapsicológicas podem ser interessantes e ilustrativas;
tos infantis, tudo nela consiste em eliminar o comolexo ele por exemplo, a doutrina de Freud sobre a pulsào de morte.
Édipo etc., a cultura e a vida da humanidade se No prefácio que escrevi para a tradução do livro de Freud
novamente da vida primitiva. É precisamente essa capacida­ sobre esse tema tentei demonstrar que, por menos convin-
!I!

Ui i i Hul

266 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 267

centes que sejam suas conformações reais (neuroses traumá­


paradoxal "pulsão de morte" - esse registro ainda desconhe­
ticas e repetição de sensações desagradáveis no jogo infan­ mas que indubitavelmente existe, com que a tendência
por mais paradoxal e contraditória que seja sua compa­
para a morte está representada no organismo. Com isto não
ração com as idéias biológicas universalmente aceitas, por
quero dizer que a solução dada por Freud a esse problema
mais clara que a coincidência de suas conclusões com a
seja um caminho real na ciência nem uma via para todos. É
filosofia do nirvana, o conceito com que Freud opera, o
mais lima trilha alpina sobre os precipícios para aqueles que
conceito de pulsão de morte, responde à necessidade da
não padecem de vertigem. Creio que a ciência também
atual de dominar a idéia da morte, assim como a
necessita de semelhantes livros: livros que não descubram
matemática teve necessidade em determinado momento do
verdade, mas que ensinem a buscar a verdade, ainda que
conceito de número negativo. Formulo a tese de que o con­
não a tenham encontrado, Nesse prefácio eu dizia claramen­
ceito de vida em biologia alcançou uma grande clareza. A
te que a importância do livro não depende da comprovaç:
ciência assimilou-o e sabe como operar com ele, como ana­
real de sua autenticidade: em essência, a questão fica corre­
lisar e interpretar o vivo, mas ainda não se conseguiu domi­
tamente formulada. E para formular tais questões é
nar o conceito da morte. No lugar desse conceito entreabre­
mais criatividade do que para levar a cabo uma observação
se um oco, um lugar vazio. A morte é interpretada somente
ordinária em qualquer ciência, de acordo com o modelo
como uma contraposiçào contraditória da vida, como a au­
estabelecido (L. S. Vigotski, A. R. Luria, 1925).
sência de vida, em suma, como o não-ser. Mas a morte é um
Um dos críticos desse livro manifestou uma
fato que tem também seu significado positivo, é um aspecto
incompreensão do problema metodológico implicado nessa
particular do ser e não só do não-ser; é um certo algo e nào
apreciação, uma completa confiança nos traços exteriores
o completo nada. E esse significado positivo da morte é des­
das idéias, um temor isento de espírito crítico ante a fisiolo­
conhecido pela biologia. Na verdade, a morte é a lei univer­
do pessimismo e decidiu de súbito que "Schopenhauer
sal do vivo; é impossível conceber que esse fenômeno nada
pessimismo". Não compreendeu que existem pro­
represente no organismo, isto é, nos processos da vida. É
blemas aos quais nào se pode chegar voando, sem mancar,
difícil crer que a morte careça de significado ou só tenha um
e que nesses casos não é um pecado mancar, como diz fran­
significado
camente Freud. Aquele que vir nisto apenas uma daudica­
Engels manifesta uma opinião análoga a esta. Refere-se
está cego metodologicamente. Com efeito, não é difícil
à idéia de Hegel de que não pode haver uma fisiologia cien­
dizer que Hegel era idealista, isto se aos quatro ventos.
tífica que não considere a morte como elemento essencial
O genial está em ver no sistema de Hegel um idealismo que
da vida e que não compreenda que a negação da vida está
pendia sobre a cabeça do materialismo. Ou separar a
incluída de fato na própria vida, de modo que a vida se con­
verdade metodológica (a dialética) da falsid.ade real, ver que
cebe sempre com referência a seu resultado necessário, a
Hegel caminhava rumo ã verdade mancando.
morte, sempre contida nela em estado germinaI. É precisa­
Este não é mais do que um exemplo isolado do cami­
mente a isto que se reduz a concepção dialética da vida:
nho adequado para assimilar as idéias científicas: é necessá­
"Viver é morrer" (K. Marx, F. Engels, Obras, t. 20, p. 611).
rio elevar-se por cima de seu conteúdo real e colocar à
É precisamente esta a idéia defendida por mim no men­
prova seu significado essencial. Mas para isso é necessário
cionado prefácio do livro de Freud: a necessidade de assimi­
tcr um ponto de apoio fora dessas idéias. Quando se fica
lar o conceito da morte aos princípios da biologia e de de­
com os dois pés no terreno das próprias idéias, quando se
signar ainda que por enquanto com o "x" algébrico ou a
trabalha com conceitos elaborados a partir delas. torna-se
II

268 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA


O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 269
situar-se fora. Para referir-se criticamente a um vés do experimento. E, depois de ter resolvido sua própria
sistema alheio é preciso antes de mais nada dispor de um sis­ tarefa, o autor chegou à terceira e última conclusão: os fenô­
tema de princípios próprio. Julgar Freud à luz de princípios menos descritos por Fremi podem ser comprovados ~v"'~""
extraídos do próprio Freud significa justificá-lo de antemão. mentalmente em animais e ser analisados posteriormente
E esse procedimento de assimilar idéias alheias constitui o utilizando o método dos reflexos salivares condicionados.
terceiro tipo de integração de idéias do qual passamos a n()~ Comprovar as teses de Frem! por meio das idéias de
ocupar agora. Pávlov não é em absoluto o mesmo que fazê-lo através das
Empregaremos de novo um exemplo isolado para facili­ idéias. Pois bem, a demonstração dessa
tar a descoberta e a exposição dessa nova formulação meto­ de não foi estabelecida analiticamente, mas através da experi­
dológica. No laboratório de Pávlov formulou-se o problema mentação. O fundamental consiste em que quando o autor
de transformar experimentalmente excitantes vestigiais e tropeçou no curso de suas próprias investigaçôes com fenô­
reflexos condicionados vestigiais em excitantes condiciona­ menos análogos aos descritos pela escola de FreucI, em
dos efetivos. Para isso era preciso "eliminar a inibição" conse­ nenhum momento passou para um território alheio, mas con­
guida por meio do reflexo vestigial. Como fazê-lo? Para alcan­ seguiu fazer avançar sua investigação servindo-se deles. Sua
çar esse objetivo, Yu. P. Frolov recorreu a um procedimento descoberta tem um sentido, um valor, um lugar, um
que tinha uma certa analogia com procedimentos da escola do dentro do sistema de Pávlov e não no sistema de Freud.
de Freud. Mediante a destruição dos complexos inibidores Os círculos de ambos os sistemas coincidem num ponto
estáveis reconstruía precisamente a situação em que esses de intersecçüo: ali se tocam, e esse ponto é do domínio de
complexos tinham se formado anteriormente. E o experimen­ ambos. Mas sua origem, seu significado e seu valor estào
to deu certo. Considero que o procedimento metodológico determinados por sua posição no primeiro sistema. Com
utilizado constitui basicamente um modo correto para formu­ essa investigação chegou-se a uma nova descoberta, estabe­
lar tanto o tema de Freud quanto, em geral, todas as teses leceu-se um novo fato, estudou-se um novo aspecto e tudo
alheias. Procuraremos descrever esse procedimento. isto dentro da doutrina dos reflexos condicionados e nào
Em primeiro lugar, nesse caso o problema surgiu no dentro da psicanálise. Dessa maneira, desaparece
curso de investigaçôes próprias sobre a natureza da inibição coincidência "quase milagrosa"!
interna. Portanto, a tarefa fora colocada, formulada e com­ Para ilustrar o abismo que pode existir entre duas ma­
à luz de princípios próprios e da mesma maneira neiras de proceder, basta ver como Békhterev realiza uma
utilizaram-se os conceitos da escola pavloviana na formula- elaboração reflexológica da idéia da catarse baseando-se na
teórica do trabalho experimental e na delimitaçào de descoberta de uma coincidência verbal. A entre os
sua importância. Sabemos o que é um reflexo vestigial e dois sistemas se resume fundamentalmente na catarse: o
também sabemos o que é um reflexo afetivo; transformar depreciado "efeito do impulso mímico-somático inibido".
um em outro significa eliminar a inibição e assim sucessiva­ Por acaso esse efeito não constitui uma descarga daquele
mente, ou seja, todo o mecanismo do processo é concebido reflexo que, ao ser reprimido, oprime a personalidade e a
em categorias completamente determinadas e homogêneas. "coage", transformando-a em doente? Por acaso essa descar­
A analogia com a catarse tinha somente um valor ga em forma de reflexo da catarse nào permite resolver de
encurtou o caminho da própria busca e conduziu rapida­ forma natural o estado mórbido? "O sofrimento chorado não
mente ao objetivo. Mas foi adotado apenas como uma supo­ constitui uma descarga do reflexo reprimido? (Y. M. Békh­
sição, uma suposição que se verificou imediatamente atra- terev, 1923, p.
III

270 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 271

Cada oalavra desse texto é uma pérola: "impulso tnlml­ ainda que isto exija penetrar no caminho das hipóteses
haver algo mais claro e mais exato? Para Dalié assinala que as estruturas ou hipóteses
evitar a linguagem da psicologia subjetiva, Békhterev não lógicas são apenas um prolongamento mental de fenômenos
despreza o idioma vulgar, apesar do que a terminologia de homogêneos dentro de um mesmo sistema independente da
Freud não pode aparecer com maior clareza. Como é que o realidade. As tarefas da psicologia e suas exigências teórico­
reflexo reprimido, ao "oprimir" a personalidade, a cognitivas lhe prescrevem lutar, com a ajuda do inconscien­
Por que o sofrimento chorado é uma descarga do reflexo te, contra as tentativas usurpadoras da fisiologia. A vida
reprimido? O que fazer se a pessoa chora no mesmo mo­ transcorre com intervalos, está cheia de lacunas. O
mento em que experimenta seu sofrimento? Termina afir­ que ocorre com a consciência durante o sono, com as lem­
mando também que () pensamento é um reflexo inibido e branps que não reconhecemos aqui e agora? Se queremos
que a concentração, ligada à retenção da corrente nervosa, é explicar o psíquico a partir do psíquico sem recorrer a outro
de fenômenos conscientes. Oh, inibição sal­ âmbito de fenômenos, sem nos trasladarmos para a fisiolo­
permite explicar os fenômenos cons­ gia, se queremos preencher os intervalos, as lacunas, as
cientes e na seguinte os inconscientes! omissões na vida da psique, temos de supor que esses fenô­
Tudo que foi dito acima demonstra claramente que menos continuam existindo de uma forma especial: como
quando se fala do inconsciente é preciso distinguir entre o algo que é, ao mesmo tempo, inconsciente e psíquico. Essa
problema metodológico e o empírico, ou seja, entre a ques­ interpretação do inconsciente como conjetura necessária,
tão psicológica e a da própria psicologia. Estabelecer a dis­ como continuaçào e complemento hipotético da experiência
tinção com que iniciamos esta parte do texto. A união acríti­ também é desenvolvida por W. Stern (1924).
ca de ambos conduz a uma grosseira deformação de toda a E. Dalié distingue dois aspectos no problema: o real e o
questão. O simpósio sobre o inconsciente (1912) mostra que hípot(~tico ou metodológico. Este último determina o valor
a solução dos fundamentos do problema ultrapassa os limi­ cognitivo ou metodológico que tem para a psicologia a cate­
tes da psicologia empírica e está inevitavelmente relaciona­ goria do inconsciente. A tarefa consiste em esclarecer o sig­
da com convicções filosóficas gerais. Quando aceitamos, nificado e o âmbito de fenômenos que esse conceito encer­
como F. Brentano, que não existe o inconsciente, ou com ra para a psicologia como ciência explicativa. No caminho
Münsterberg, que é simplesmente fisiológico, ou com Schu­ de Jerusalém, o autor pensa que se trata antes de mais nada
bert-Soldern, que é uma categoria gnoseologicamente neces­ de uma categoria ou de um processo de pensamento de que
ou com Freud, que é nossos argumentos e não se pode prescindir para explicar a vida espiritual, e faz
conclusões vão além dos limites da investigaçào empírica. referência a um âmbito especial de fenômenos. Dalié diz
Entre os autores russos, E. Dalié matiza os movimentos com razão que o inconsciente é um conceito criado a partir
gnoseológicos que impulsionam a elaboraç.:âo do conceito de dados indubitáveis da experiência psíquica, de uma
de inconsciente. Na sua opini<io, na base desse conceito en­ experiência que exige necessariamente ser completada com
contra-se a tentativa de defender a independência da psico­ a hipótese do inconsciente. Disto decorre a natureza muito
como ciência explicativa contra a usurpação dos méto­ complexa de todas as teses que operam com esse conceito:
dos e princípios fisiológicos: a exigência de que o psíquico em cada tese é preciso distinguir o que procede dos dados
se explique a partir do psíquico e não do fisiológico, de que da experiência psíquica irrcfutável e o que provém ela ne­
a psicologia se mantenha dentro de si mesma, dentro de cessidade hipotética, e qual é o grau de autenticidade de
seus oróorios limites, na análise e na descrição dos lima e outra. Nos trabalhos críticos que examinamos acima
li'

272 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 273

os dois aspectos do problema se misturam: a hipótese e o do que as teses das escolas psicológicas, que se servem de
o princípio e a observação empírica, a ficção e a lei, a conceitos criados recentemente, pouco sistematizados, para
estrutura e a generalização, tudo aparece entremeado for­ estudar domínios totalmente novos (isto ocorre, por exem­
mando um verdadeiro emaranhado. na escola de Freud, que ainda não tomou consciência
Nesses trabalhos críticos a questão principal permanece de si mesma). Nesse caso, tomamos emprestado um produto
intocada: Lients e Luria asseguram a Freuci que a psicanálise mais elaborado, operamos com magnitudes mais determina­
é um sistema fisiológico; mas o próprio Freud é inimigo da das, mais exatas e mais claras; os perigos de erro
concepção fisiológica do inconsciente. Daliê tem toda razão a probabilidade de êxito aumenta.
ao dizer que essa questão da natureza psicológica ou fisio­ Por outro lado, como a contribui<,;'ão procede neste caso
lógica do inconsciente ê a primeira fase e a mais de outras cil~ncias, o material é mais estranho, mais hetero­
de todo o problema. Antes de descrever e classificar psico­ gêneo do ponto de vista metodológico, e as condiçôes de
logicamente o problema do subconsciente, devemos saber sua assimilação se tornam mais difíceis. A facilidade ou difi­
se estamos operando neste caso com algo fisiológico ou psí­ culdade que apresentam as condições dos dados em compa­
é preciso demonstrar que o inconsciente ê, em ração com as que examinamos anteriormente nos levam a
uma realidade psíquica. Em suma, para resolver psicologica­ estabelecer um processo necessário de diversificação na aná­
mente o problema do inconsciente é necessário formulá-lo lise teórica que substitua a diferenciação real que oferece a
como problema da própria psicologia. experimentação.
Detenhamo-nos num fato que parece muito paradoxal à
primeira vista e que, por isso mesmo, é bem cômodo para a
8 análise. A reflexologia, que estabelece em todas as esferas
essas coincidências tão milagrosas entre seus dados e os da
A necessidade de estudar os fundamentos dos conceitos análise subjetiva e que quer constmir seu sistema baseando­
da ciência geral (essa espécie de álgebra das ciências parti­ se nas ciências naturais exatas, vê-se surpreendentemente
culares) e seu papel na organização das disciplinas particu­ obrigada a protestar precisamente contra a transposição das
lares manifesta-se com mais clareza ainda quando a psicolo­ leis das ciências naturais à psicologia.
gia toma emprestados conceitos de outras ciências. Ao que Quando N. M. SchelovánovJ investiga os métodos da re­
tudo indica, nos encontramos neste caso em melhores con­ f1exologia genética, rejeita (com absoluto e inesperado fun­
dições para passar os resultados de uma ciência ao sistema damento) que sua escola deva imitar as ciências naturais
de outra, porque o grau de autenticidade, de clareza e de trasladando à psicologia subjetiva aqueles métodos que pro­
fundamentação das teses ou leis emprestadas costuma ser enormes resultados nas primeiras, mas que sào
muito mais elevado do que o das teses e leis psicológicas. pouco úteis para estudar a psicologia subjetiva. J. Herbart e
Por exemplo, introduzimos no sistema psicológico de expli­ G. Fechner trasladam mecanicamente a análise matemática
cação uma lei estabelecída em fisiologia ou em embriologia, para a psicologia e W. Wundt o experimento fisiológico.
um princípio biológico, uma hipótese anatõmica, um exem­
etnológico, uma classificação histórica etc. As teses e 3. Schelovánov, Nikolai Matviéiekitch (n. 1892-?). Fisiólogo soviético,
construçôes dessas ciências muito desenvolvidas, que par­ discípulo de Békhterev que investigou o comportamento infantil na primeira
tem de princípios bem fundamentados, costumam estar ana­ infância. Desenvolve idéi,!& semelhantes às que cita Vigotski, em obra de
lisadas metodologicamente com uma exatidão muito maior 1929. (N.R.R.)
i!;li

O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 275


274 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

a russa. O que interessa é ilustrar como muitas questões for­


W. Preyer formula o problema da psicogênese por analogia
muladas de forma equivocada pela psicologia adquirem
com a biologia e depois S. Hall e outros adotam em biologia
aparência científica graças aos empréstimos procedentes das
o princípio de Müller-Haeckel e aplicam-no incontrolada­
ciências naturais. Como resultado de sua análü;e metodoló­
mente não só como princípio metodológico, mas como prin­
gica, N. M. Schelovánov chega ã conclusão de que o método
explicativo do "desenvolvimento espiritual" da crian­
genético é basicamente inviável na psicologia empírica e
ça. Não é que sejamos, diz o autor, contra a aplicação de
que, por isso, nào modifica a relação entre a psicologia e a
métodos provados e fecundos. Mas sua utilização só é possí­
Mas, por que em psicologia infantil se formulou
vel quando o problema é formulado corretamente e
equivocadamente o problema do desenvolvimento, o que
o método responde à natureza do objeto a estudar. De outro
conduziu a uma enorme perda de trabalho inútil? Schelová­
modo, obtém-se a ilusão de que se trata de algo científico
nov pensa que a psicologia da infância nada pode oferecer
exemplo característico disto é a reflexologia russa). O
de novo além do que oferece a psicologia geral. No entanto,
véu das ciências naturais com o qual, segundo uma expres­
a psicologia geral não existe como sistema único e suas con­
sâo de I. Petzoldt"', se cobre a mais retrógrada metafísica nào
tradições teóricas tornam impossível a psicologia infantil.
salvou nem Herbart, nem Wundt: nem as fórmulas matemá­
De forma disfarçada e imperceptível para o próprio investi­
ticas, nem os aparelhos exatos salvaram do fracasso o pro­ as premissas teóricas predeterminam por completo o
blema mal formulado. procedimento de tratamento dos fatos empíricos. Predeter­
Lembremo-nos de Münsterberg e de suas observações minam a interpretação dos fatos recolhidos nas observações
sobre o último dígito decimal, extraído como resposta a uma em função da teoria sustentada por tal ou qual autor. Essa é
pergunta falsa. Em biologia, a lei genética explica o autor a melhor refutação ao empirismo imaginário das ciências
- constitui a generalizaçâo teórica de uma série de fatos e naturais. Por isso é impossível trasladar os fatos de uma teo­
sua aplicação em psicologia é o resultado de uma especula- ria a outra: caberia pensar que um fato sempre é um fato,
superficial, baseada exclusivamente na analogia de fatos que um mesmo objeto - a criança e um mesmo método
de âmbitos diversos. (Não é assim que a reflexologia sem a observação objetiva - só permitiriam transpor os fatos da
levar a cabo sua própria investigaçào mediante uma espe­ psicologia para a reflexologia se se partisse de diferentes
análoga, toma de vivos e mortos, de Einstein e de objetivos e distintas premissas de oartida. O autor só se
Freud, modelos preparados para suas estruturas?) Esse
equivoca em duas teses.
cípio explicativo converte-se no ponto final de toda uma ­ Seu primeiro erro consiste em pensar que a psicologia
cadeia de erros quando se aplica em psicologia, não na qua­ infantil conseguiu resultados positivos quando se serviu de
lidade de hipótese de trabalho, mas como um princípio teó­ princípios de biologia geral e nào de princípios psicológi­
rico estabelecido, terminado, fundamentado cientificamente cos, como ocorre, a seu ver, na teoria do jogo desenvolvida
por fatos pertencentes a outra esfera de conhecimento. por K. Gross, quando, na verdade, constitui um dos melho­
Não vamos, como faz o defensor dessa opinião, exami­ res exemplos do que é um estudo puramente psicológico
nar a questão a fundo. Existe literatura abundante, inclusive sem recorrer a empréstimos. Um estudo comparativo e obje­
tivo, metodologicamente irrepreensível e transparente, in­
1. Petzoldt, Josef C1862-1929}. filósofo empírico-crítico alemâo. Conside­ ternamente coerente desde a coleta e descrição dos fatos até
rava o mundo externo como um conjunto de imagens sensitivas, diferentes as últimas generalizações teóricas. Gross proporcionou uma
para distintos objetos. Reduzia a gnoseologia à psicologia e considerava
teoria do jogo para a biologia, Criou a teoria com um méto­
sujeito do conhecimento o indivíduo separado dos nexos sociais. (N.R.R.)
"1HmJI"'" ,,,,.,
JJW JHd l LLI IIII

276 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 277

do psicológico, e não a tomou da biologia; resolveu seu é impossível"); 3) por conseguinte, a osicolm!.ia infantil não
problema náo à luz da biologia mas formulando para si tam­ é
bém tarefas psicológicas De fato, o que ocorre é pre­ No entanto, constitui um grave erro pensar que a ciên­
cisamente o contrário do que Schelovánov sustenta: a psico­ cia só pode estudar o que nos mostra a experiência direta.
infantil conseguiu resultados teóricos valiosos precisa­ Como o psicólogo estuda o inconsciente, como o historia­
mente quando não recorreu a empréstimos, mas seguiu seu dor e o geólogo estudam o passado, o físico-óptico os raios
caminho próprio. O próprio Gross manifesta-se a todo invisíveis, o filósofo as línguas clássicas? Os estudos basea­
momento contra os empréstimos. S. Hall, recorrendo a dos na análise de de influências, em métodos de
empréstimos tomados de E. Haeckel, desenvolveu idéias interpretação e reconstrução, na crítica e na indagação do
baseadas em absurdas análises forçadas, ao foram tão úteis quanto os baseados no método
passo que Gross, seguindo seu próprio caminho, desenvol­ da observação "empírica" direta. V. N. Ivanóvskí explicou
veu idéias úteis para a própria biologia, idéias náo menos isto muito bem ao falar da metodologia das ciências, expon­
úteis do que a lei de Haeckel. Lembremos também a teoria do precisamente o exemplo da psicologia. A experiência
da linguagem de Stern, a teoria do pensamento infantil de direta desempenha um papel menor inclusive nas ciências
Bühler e Koffka, a teoria dos níveis de Bühler, a do adestra­ experimentais. M. Planck diz: a unificação de todo o sistema
mento de Thorndike: todas s,10 psicologias do mais puro da física teórica é conseguida graças a sua libertação dos
estilo. Schelovánov chega a uma conclusão errônea: o aspectos antropomórficos e, em particular, das percepções
da psicologia da infância não se limita em absoluto ã acu­ sensoriais específicas. Na doutrina da luz e, em da
de dados reais e a uma classificação prévia, ou se­ energia radiante, afirma Planck, a física opera com métodos
a um trabalho preparatório. Mas é precisamente a isto nos quais "o olho humano quase não intervém, atua somen­
que, de modo inevitável, pode e deve se ver reduzido o pa­ te como um aparelho ocasional (é verdade que de grande
pel dos princípios lógicos desenvolvidos por Schelovánov sensibilidade), já que capta raios dentro de uma reduzida
junto com Békhterev. Porque a nova disciplina reflexológica zona do espectro, que quase náo alcança a amplitude de
carece de idéias sobre a infância, de uma do uma oitava. Para o resto de espectro intervêm, no lugar do
desenvolvimento, de objetivos de investigação: ou seja, des­ olhos, outros aparelhos de percepção e de mensuração,
conhece o problema do comportamento e da personalidade como por exemplo o detector de ondas, o termoelemento, o
infantil e só dispôe do princípio da observação objetiva, que barômetro, o radiômetro, a chapa fotográfica, a câmara de
no fundo só é uma boa regra técnica; no entanto, com essa ionização, Portanto, a separação entre o conceito físico prin­
arma ninguém descobriu uma grande verdade. cipal e a percepção sensorial específica produziu-se na ópti­
O erro do autor relaciona-se com o primeiro. ca assim como na mecânica, onde o conceito de força já
Schelovánov nào compreende o valor positivo da psicologia perdeu há muito tempo seu nexo inicial com as
e subestima seu papel porque parte da idéia metodológica musculares" 0911, pp. 8, 112-3).
(bastante infantil) de que, ao que tudo indica, só se Por conseguinte, a física estuda precisamente aquilo
estudar aquilo que nos proporciona a experiência direta. que o olho não porque se estamos de acordo, junto com
Toda sua teoria "metodológica" se baseia num silogismo: 1) o autor (N. M. Schelovánov - Red.) e com Stern, acerca de
a psicologia estuda a consciência; 2) a experiência direta que a infância é para nós um paraíso perdido, e de que para
nos oferece a consciência do adulto ("o estudo empírico do nós, adultos, já é impossível penetrar por completo nas pro­
desenvolvimento filogenético e ontogenético da consciência priedades e na estrutura da alma infantil (porque não nos é
"'ftJ1.WII iili, 11111

O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 279


278 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA

oferecida nas sensaçóes diretas), é necessário reconhecer dido"? A mesma que chama de paraíso perdido a psi­
também que os raios que não estão ao alcance direto de cologia infantil faz o mesmo com a história. E se o historia­
nossos olhos são outro paraíso perdido para sempre, que a dor ou o geólogo ou o físico pensassem como o reflexólo­
inquisição espanhola é um inferno perdido para sempre etc. go, diriam: como o passado da humanidade e da Terra
Mas aí está o quid da questão: o conhecimento científico e a (como a alma infantil) não estão diretamente a nosso alcan­
percepção direta não coincidem em absoluto. Não podemos ce e só está diretamente a nosSO alcance o presente (como a
viver as impressóes infantis, do mesmo modo que não po­ consciência do adulto), tendemos a interpretar erroneamen­
demos ver a Revolução Francesa e, no entanto, a criança te o passado por analogia com o presente ou com um "pe­
que vive seu paraíso com toda naturalidade e o contemporâ­ queno presente" (a criança é um adulto pequeno), e por
neo que viu com seus olhos os episódios mais importantes conseguinte a história e a geologia são subjetivas, são im­
da Revolução estão, apesar disso, mais distantes do que nós possíveis; só é possível a história da atual (psicologia
do conhecimento científico desses fatos. Não só as ciências do adulto) e a história do passado pode ser estudada apenas
da cultura, maS também as da natureza constroem seus con­ como ciências dos vestígios do passado, dos documen­
ceitos independentemente da experiência direta; lembremos tos como tal, e não do passado como tal (o que equivale
as palavras de Engels sobre as formigas e sobre os limites de aos procedimentos de estudo dos reflexos sem a menor
nosso olho. interpretação dos mesmos).
Como se comportam as ciências no estudo do que não Em essê.ncia, é esse dogma da experiência direta como
se nos oferece diretamente? Em geral, reconstroem, elaboram única fonte e limite natural do conhecimento científico que
seu objeto de estudo recorrendo ao método de explicar ou mantém e lança no vazio toda a teoria sobre o método dos
interpretar seus vestígios ou influências, isto é, recorrendo a reflexólogos. Vvedienski e Békhterev procedem de uma rai?
elementos que lhes proporcionam uma experiência direta. comum: ambos supóem que a ciência só pode estudar o que
Assim, o historiador interpreta - documentos, a introspecção oferece; ou seja, a percepção direta do psicó­
memórias, jornais etc. e, no entanto, a história é logo. Alguns, ao confiar a alma a esse olho da introspecção,
mente a ciência do passado, reconstruído segundo seus ves­ constroem toda a ciência conforme suas propriedades e os
tígios. Não é a ciência dos do passado, mas do pró­ limites de suas possibilidades; outros, ao não confiarem
prio passado. Não é a ciência dos documentos de lima revo­ nele, querem estudar unicamente o que se pode captar com
lução, mas da própria revolução. O mesmo acontece com a o olho verdadeiro. Por isto que a reflexologia se orga­
psicologia infantil: será que a infância, a alma infantil não niza metodologicamente conforme o mesmo princípio se­
está a nosso alcance, nào deixa não se manifesta gundo o qual a história deveria ser definida como a ciência
para fora, não pode ser descoberta? A questão consiste ape­ dos documentos do passado. A reflexologia, graças a muitos
nas em como, com que método interpretar esses vestígios: princípios frutíferos das ciências naturais, transformou-se
esses vestígios podem ser interpretados por analogia com a numa corrente profundamente progressista em psicologia,
experiência adulta? A questão é, portanto, a de encontrar mas como teoria do métodO é profundamente reacionária,
uma interpretação correta e não de renunciar por completo porque retrocede ao preconceito sensualista ingênuo de que
a interpretá-los. Os historiadores conhecem mais de uma só é possível estudar aquilo que percebemos e na medida
construção equivocada, baseada em documentos verídicos em que o percebemos.
mas em falsas interpretaçóes. Que conclusão tiramos de Exatamente da mesma maneira que a física se liberta
tudo isto? De que a história é um "paraíso para sempre per­ dos elementos antropomórficos, ou das percepçóes
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sensoriais específicas e trabalha sem necessidade de que os prinClplOs universais da psicologia. Deve transformar-se
olhos vejam diretamente os objetos que estuda, assim a num prohlema específico da psicologia.
deve tratar o conceito do psíquico: independente­ Se isto for assim, coloca-se a questào da natureza da
mente de que se ofereça ou nào à observação direta, do interpretação, ou do método indireto. Muitos dizem: "a
mesmo modo que a mecânica atua com independência da história interpreta os vestígios do passado, mas a física
sensação muscular e os ópticos da visual. Os subjetivistas observa o invisível com a ajuda de instrumentos de forma
que refutaram o método objetivo ao demonstrar que tão direta como se o visse com os olhos. Os instrumentos
as sobre o comportamento encerram geneticamente são a prolongação dos órgãos sensoriais do cientista: o
germes de introspecção G. L Tchelpánov' (925), S. V. microscópio, o telescópio, o telefone etc. convertem o invi­
Kravkov 6 (922), Yu. V. Portugálov' (1925). Mas a origem sível em visível e em objeto da experiência direta; a física
genética do conceito nada nos diz de sua natureza não interpreta o invisível, ela o vê".
também o conceito de força em mecânica remonta genetica­ Mas essa opinião é falsa. A análise metodológica da sig­
mente ã sensação muscular. nificação dos aparelhos científicos evidenciou, já faz tempo,
A introspecção coloca um problema técnico e não de que estes desempenham um papel novo e fundamental e
é um instrumento entre outros, como o olho para que não se limitam a prolongar os órgàos sensoriais. O
os físicos. Será empregada na medida em que for útil. Não prio termômetro pode servir de exemplo desse novo com­
existem questões de princípio sobre a natureza e a veracida­ ponente que os instrumentos introduzem nos métodos cien­
de do saber ou dos limites do conhecimento que nos obri­ tíficos: no termômetro lemos a temperatura; esse aparelho
guem a aceitar ou esse instrumento. Engels demons­ não nem prolonga a sensação de calor da maneira
trou que os limites do conhecimento dos fenômenos lumi­ como o microscópio continua o olho, mas nos emancipa
nosos não são determinados pela estrutura natural do olho; plenamente da sensação no estudo do calor: o termômetro
Planck diz o mesmo em nome da física atual. Separar o con­ pode ser utilizado por alguém que careça dessa sensação,
ao passo que um cego não pode fazer uso do microscópio.
ceito psicológico fundamental da percepção concreta cons­
A termometria constitui um modelo puro do método indire­
titui a tarefa imediata da psicologia. A própria introspecção
to: porque, diferente do que acontece com o microscópio,
deve ser explicada em termos dos postulados, métodos e
nào estudamos aquilo que vimos - a elevação do mercúrio,
do álcool -, mas o calor e suas mudanças, indi­
5. Tchelpánov, Guerrgui Ivánovitch (1862-1936). Psicólogo e filósofo mercúrio ou pelo álcool, interpretamos as indica­
idealista nJ.'iSo. Fundador (1912) e diretor (até 1923) do Instituto Psicológico ções do termômetro, reconstruímos o fenômeno a estudar
de Moscou, o primeiro criado na Rússia. Partia do princípio do denominado por suas marcas, por sua influência na dilatação do corpo. É
'I paralelismo empírico da alma e do corpo. Considerava a introspecção como a
assim que são feitos todos os instrumentos a que se refere
única fonte dos fenômenos psíquicos e relegava o experimento a um papel
auxiliar. mnsiderando,junto com Wundt, que sua principal importância con­ Planck como meios para estudar o invisível. Por conseguin­
!
sistia em [Ornar mais exata a introspecçào. (N.H.R.) te, interpretar significa reconstruir o fenômeno segundo
6. Kravkov, Serguiéi Vassilievitch 0893-1951). Psicólogo soviético, espe­ suas marcas e influências, haseando-se em regularidades
cialista no campo da investigação da psicofisiologia dos órgãos dos sentidos. estabelecidas anteriormente (neste caso, na lei da dilatação
L. S. Vigotski criticou-o pelo trabalho "Introspeq:ào", publicado em 1922.
I (N.RRJ dos corpos em conseqüência do calor). Não existe uma dife­
7. Portugálo\!, Yuri Verniamínovitch 0876-1). Psiquiatra, psicólogo, rença essencial entre o emprego do termômetro e a inter­
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(N.R.R.) pretação que se dá na história ou na psicologia. O mesmo

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pode ser dito de todas as ciências: são indeoendentes das é correta a introspecção. Em síntese, o experimento nào ­
percep~:ões sensoriais específicas. amplia o conhecimento, mas o controla. A psicologia ainda
K. Stumpf fala de um matemático cego, Sourderson, que não tem uma metodologia de seus aparelhos nem formulou
escreveu um manual de geometria; A. M. Scherbina" conta uma maneira de conceber os aparelhos que nos liberte da
que sua não o impedia de explicar óptica para os introspecção (como o termômetro liberta da sensação de
videntes (1908). É que todos os instrumentos que Planck calor), em vez de se limitar a controlá-la e reforçá-la. A filo­
menciona podem ser adaptados aos cegos, assim como já sofia do cronoscópio coloca problemas mais difíceis do que
existem relógios, termômetros e livros para cegos. De modo sua técnica. Mas teremos oportunidade de falar mais vezes
que um não-vidente também poderia se dedicar à óptica: é sobre o método indireto em psicologia
uma questão de técnica e não de essência. G. P. Zelionii afirma com razão que entre nós a
K. N. Kornílov9 (1922) demonstrou muito bem que: 1) O "método" inclui duas coisas distintas: 1) a metodologia da
fato de que existam divergências de critério a respeito de pesquisa, o procedimento técnico; e 2) o método de conhe­
questões metodológicas nas formulações experimentais faci­ dmento, que determina o objetivo da pesquisa, o caráter e a
lita muito o aparecimento de conflitos. Esses conflitos dão natureza de uma ciência. Em psicologia, o método é subjeti­
ao desenvolvimento de diversas correntes em psicolo­ vo, ainda que a metodologia possa ser parcialmente objetiva.
gia. Por exemplo, as diferentes formas de conceber a utiliza­ Em fisiologia, o método é objetivo, ainda que a metodologia
possa ser parcialmente subjetiva (por exemplo, na fisiologia
ção do cronoscópio a propósito de sua colocação num ou
dos órgãos dos sentidos acontece isto). O experimento re­
noutro lugar nos experimentos deram origem a diferentes
formou a metodologia, mas nào o método. É por isso que só
maneiras de formular o método e o sistema teórico psicológi­
atribui valor nas ciências naturais ao procedimento de
co em seu conjunto, formulações que separaram a escola de
nóstico e não ao método psicológico.
W. Wundt da de O. Küple; 2) O método experimental nada
É nessa questão que está o quid de todos os problemas
trouxe de novo para a psicologia: para Wundt é um corretivo
metodológicos próprios da psicologia. A necessidade de sair
da introspecção; para N. Ach, os dados desta última só po­
de uma vez por todas dos limites da experiência direta é um
dem ser controlados por meio de outros dados assunto de vida ou morte para ela. Separar, libertar os con­
vos, como se a de calor só pudesse ser controlada ceitos científicos da percepção específica só é possível com
por meio de outras sensações; para Deichler, as valorações o método indireto. Cientificamente, a objeção de que o
numéricas nos proporcionam uma medida de até que ponto método indireto é inferior ao direto é profundamente errô­
nea. Precisamente porque nào ilustra a totalidade da sensa­
8. Scherbína, Aleksandr Moisíéiektch (1887-?). Psicólogo e pedagogo ção, mas somente um dela, é que é capaz de de­
soviético. (N.R.R.)
sempenhar a tarefa científica: isola, analisa, destaca, abstrai
9. Kornílov, Konstantín Nikoláievich (1879-1957). Psicólogo soviético.
Iniciador da reestruturação do sistema de conhecimento psicológico sobre a traços; também na observação direta destacamos a narte a
base da metodologia do marxismo. Manifestou-se contra o subjetívismo de G. 1. observar. Para
Tchelpánov, a reflexologia de Békhterev e o behaviorismo norte-americano. com as formigas a percepção direta dos raios qUÍ­
Defendeu como concepção marxista em psicologia a reatologia, condamada a micos, nào sabemos que remédio oferecer, diz Engels; no
suprimir o exclusivismo da psicologia subjetiva (empírica) e objetiva (reflexo­
entanto, conhecemos melhor do que as formigas a natureza
logia) mediante a síntese dessas duas tendências. Posteriormente, no entanto,
renunciou a essa tese. Estudou o problema da psicologia pedagógica e da psi­ desses raios. A tarefa da ciência não consiste em fazer com
cologia da personalidade. (N RR) que as sensações sejam percebidas: se assim fosse, em vez
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III

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de fazer ciência bastaria registrarmos nossas percepções. Na olho não veja tudo aquilo que segundo a óptica poderia ser
verdade, também para a psicologia se coloca o problema da visto. Há algo como um funil que se estreita e que leva das
limitação de nossa experiência direta, porque toda a psique reações inferiores às superiores.
responde às características de um instrumento que selecio­ Seria errôneo pensar que não vemos aquilo que é biolo­
na, isola traços dos fenômenos. Um olho que tudo visse, gicamente inútil para nós. Seria inútil para nós ver os micró­
precisamente por isto nada veria; uma consciência que se bios? Os órgãos dos sentidos apresentam claramente marcas
desse conta de tudo, não se daria conta de nada; se a intros­ de que são, antes de mais nada, órgãos de seleção. O pala­
pecção tivesse consciência de tudo, nào teria consciência de dar é evidentemente um órgão seletor da digestão. O olfato,
nada. Nossa consciência encontra-se encerrada entre dois uma parte do processo respiratório: são como pontos alfan­
limiares, vemos apenas um pequeno fragmento do mundo; degários de fronteira que servem para comprovar as excita­
nossos sentidos nos apresentam um mundo compendiado ções procedentes do exterior. Cada órgão toma o mundo
em extratos que são importantes para nós. E no interior des­ cum grana salis, como o coeficiente de especificação a que
ses limiares absolutos, tampouco se capta toda a diversidade se referia Hegel, e como um "índice de relação", assim como
de mudanças e matizes, mas a percepção das mudanças a qualidade de um objeto determina a intensidade e o cará­
depende de novos limiares. É como se a consciência seguis­ ter da influência qualitativa de outra qualidade. Por isto exis­
se a natureza por saltos, com omissões, com lacunas. A psi­ te uma completa analogia entre a seleção do olho e a poste­
que seleciona certos pontos estáveis da realidade em meio rior seleção do instrumento: ambos são órgãos de seleção (o
ao fluxo geral. Cria para si ilhas de segurança no fluxo de que fazemos no experimento). De forma que a própria natu­
Heráclito. É um órgão seletor, uma peneira que filtra o reza psíquica do conhecimento constitui a raiz dessa neces­
mundo e o modifica de forma que seja possível agir. É nisto sidade, que o conhecimento científico tem, de se libertar da
que se encontra seu papel positivo, não no reflexo (também percepção direta.
o não-psíquico é capaz de refletir; o termõmetro é mais Por isso, a evidência direta apresenta uma identidade
exato do que a sensação), mas no fato de que nem sempre fundamental com a analogia utilizada como critério de ver­
se revela exato refletir, ou seja, deformar subjetivamente a dade científica: ambas devem submeter-se a uma análise crí­
realidade em benefício do organismo. tica; ambas podem tanto enganar quanto dizer a verdade. A
Se víssemos tudo (sem limiares absolutos), se percebês­ evidência da rotação do Sol em torno da Terra nos engana, a
semos todas as mudanças, sem um único minuto de inter­ analogia em que se baseia a análise espectral conduz ã ver­
rupção (sem limiares relativos), teríamos diante de nós um dade. É essa a razão pela qual alguns propõem a legitimida­
caos (lembramos da quantidade de objetos que o microscó­ de da analogia como método básico da psicologia animal. A
pio nos revela em uma gota de água). O que seria então um analogia é completamente admissível somente quando se
copo de água? E um rio? Uma barragem reflete tudo, uma especificam aquelas condições que a tornam exata; o que
pedra reage, em essência, a tudo. Mas sua reação é igual à aconteceu até agora é que a analogia nada mais fez do que
excitação: causa aliqua e.llectum. A reação do organismo é proporcionar histórias e curiosidades, porque se recorria a
"mais cara": não é igual ao efeito. Gasta forças potenciais, ela onde não era adequada pela própria essência dos fatos.
seleciona os estímulos. A psique é uma forma superior de se­ Mas a analogia pode proporcionar resultados tão úteis quan­
,!III:I:
leção: o vermelho, o azul, o forte, o ácido. Apresenta-nos to os da análise espectral. Por isso, a situação em física e em
um mundo cortado em porções. A tarefa da psicologia con­ psicologia é essencialmente a mesma; metodologicamente,
siste precisamente em esclarecer qual é o proveito de que o só se diferenciam em grau.
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A seqüência psíquica apresenta-se a nós como um frag­ deve ser explicado física e quimicamente, mas nào psicolo­
mento: mas, para onde desaparecem e de onde aparecem gicamente, caso contrário abrimos as portas da ciência para
todos os elementos da vida psíquica? Vemo-nos obrigados a "agentes místicos", para "estruturas arbitrárias, que nunca
continuar a seqüência conhecida de suposições. É precisa­ podemos comprovar" 0914, p. 251).
mente nesse sentido que H, H6ffding introduz esse conceito, Ou seja, retornamos a Hôffding: existe a série físico­
que corresponde ao de energia potencial em física; por isso, química que, em alguns pontos fragmentados, é acompa­
Leibniz introduz os elementos infinitamente pequenos da nhada de imediato ex nihilo pela seqüência psíquica; ten­
consciência, "Vemo-nos obrigados a continuar a vida da tem compreender e interpretar cientificamente esse "frag­
consciência no inconsciente para nào cometer um disparate" mento". O que significa essa discussào para o metodólogo?
(li, H6ffding, 1980, p. 87). No entanto, para liüffding o "in­ É necessário sair psicologicamente dos limites da consciên­
consciente é o conceito limite da consciência", e nesse limite cia percebida diretamente, de modo a deslindar o conceito
podemos "ponderar a possibilidade" mediante hipóteses, da sensação. A psicologia como ciência da consciência é,
mas "ampliar consideravelmente os conhecimentos reais é por princípio, impossível; e é duplamente impossível como
impossível (. ..) Em comparação com o mundo físico, o mun­ ciência da psique inconsciente. Parece nào haver saída, não
do espiritual é para nós um fragmento; só podemos comple­ existir solução para essa quadratura do círculo. Mas a física
mentá-lo através de hipóteses" (ibidem), encontra-se exatamente na mesma situação; efetivamente, a
Mas inclusive esse respeito pelos limites da ciência pa­ seqüência física se estende inclusive mais que a psicológica,
rece insuficiente para outros autores, Do inconsciente só mas tampouco ela é infinita e foi também a ciência que deu
podemos afirmar que existe; por sua própria definição, não continuidade a essa experiência, desconectando o olho. É
é objeto da experiência; demonstrá-lo com fatos da observa­ precisamente esta a tarefa da psicologia.
ção, como tenta Hôffeling, é ilícito. A palavra inconsciente Nesse sentido, para a psicologia a interpretação não é
tem dois significados, existem dois tipos de inconsciente que só uma amarga necessidade, mas um modo de conhecimen­
não devem ser confundidos, É por isso que a discussão gira to libertador, essencialmente fecundo, salto vitale que, para
em torno de um objeto duplo: por um lado sobre as hipóte­ os maus saltadores, se transforma em salto mortale, A psico­
ses e por outro sobre os fatos observáveis, logia terá de confeccionar sua filosofia dos aparelhos, assim
Mas se dermos somente mais um passo nessa direção como os físicos têm sua filosofia do termômetro. De fato,
voltaremos ao ponto de partida: ã dificuldade que nos obri­ em psicologia as duas partes desse debate recorrem à inter­
gou a supor o inconsciente. pretação: o subjetivista dispõe, no fim das contas, da pala­
A psicologia encontra-se aqui numa situação tragicômi­ vra da pessoa submetida à prova, ou seja, que o comporta­
ca: quero e não posso. Vê-se obrigada a aceitar o incons­ mento e sua psique é um comportamento interpretado. O
ciente para não cometer um disparate, mas ao aceitá-lo co­ objetivista também interpreta inevitavelmente. O próprio
mete um disparate ainda maior e retrocede aterrorizada. conceito da reação inclui a necessidade de interpretação, de
Como quem foge de uma fera e, ao tropeçar em um perigo III~nificado, de conexão, de relações. De fato: actío e reactÍ(~
ainda maior, retrocede até o menor. Mas, não dá na mesma IIllo conceitos inicialmente mecânicos, de modo que é precí­
morrer por uma ou outra coisa? Wundt vê nessa teoria o eco 110 observar a ambos e formular a lei. Mas em psicologia e
da filosofia naturalista mística dos começos do século XIX. rlsiologia a reação não é igual ao estímulo, tem um significa­
Em sua esteira, N, N. Langue aceita que a psique inconscien­ du, um fim, isto é, desempenha uma determinada função
te é um conceito internamente contraditório, o inconsciente dc:ntro de um grande conjunto, está relacionada qualitatíva­
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mente com seu excitante; e esse significado da como da conduta chega ã conclusão da existência de um proces­
função do conjunto, essa qualidade das mútuas, não so adulto de pensamento, utilizando apenas a lógica. Com
é proporcionada pelo experimento mas as encontramos atra­ isto, tem consciência de seu método e refuta brilhantemen­
vés da dedução. Em síntese e numa formulação geral: ao te E. Titchener, que defende a tese de que o da
estudar a conduta como sistema de reações, não estudamos conduta não pode, por sê-lo, admitir o pro­
os atos de conduta em si mesmos (como órgãos), mas em cesso do pensamento se carece dos meios para observá-lo
suas relacões com outros atos estímulos. E a reação, assim diretamente e por isso adota a via introspectiva para estu­
que essa reação seu dá-lo. Mas Watson diferencia radicalmente o conceito de
nào são nunca objeto de nossa direta. Sobretudo pensamento do de percepção do pensamento na introspec­
se considerarmos que se trata da assim corno o termômetro nos emancipa da sensação
rogêneas os estímulos e as reaçôes. Isto é muito criamos o conceito de calor. Por isto sublinha: "Se
te: a reação é uma resposta; a resposta só pode ser estudada alguma vez estudar cientificamente a natureza
pela qualidade de suas relaçôes com a pergunta, e é esse o intima do pensamento (. ..) devemos isto em medida
significado da resposta, que não se encontra na percepção, aos aparelhos científicos" 0926, p. 301). Por no fim
mas na interpretação. das contas "a do psicólogo não é tão lamentável:
De é essa a interpretação de todos os autores. também os fisiólogos se contentam em observar os resulta­
V. M. Békhterev distingue o reflexo criativo. O proble­ dos finais e utilizam a lógica". "O partidário da
ma está no excitante: a criação ou reflexo simbólico é a rea­ de condUla sente que deve manter firmemente essa posição
para responder a esse excitante. Mas os conceitos de diante do problema do pensamento" (ihidem, p. 302). E o
criatividade e de símbolo sào conceitos semânticos e não significado é para Watson um problema experimental. Que
experimentos: o reflexo é criativo se se com o estímu­ podemos partindo do que nos foi dado, e por meio
lo, numa reação que cria algo novo; é simbólico se substitui do
outro reflexo, mas não é possível ver diretamente o caráter E. Thorndike distingue as reaçôes de sentimento, dedu­
simbólico ou criativo do reflexo. ção, talento, destreza (1925). De novo,
I. P. Pávlov distingue distintos tipos de reflexo: o de Tudo consiste em como interpreta
liberdade, o de objetivo, o de alimentação, o defensivo. Mas introspecção própria, por analogia com as
a liberdade ou o objetivo não podem ser vistos, não têm um cas etc. Por isso, Koffka tem razão quando afirma: nào exis­
como, por exemplo, os de nutrição; tampouco te um critério objetivo acerca da consciência, nào sabemos
são estão integrados mesmos movimentos se na verdade existe ou não a consciência, mas isto não nos
que os demais; a defesa, a liberdade e o objetivo são o aflige em absoluto. Nào obstante, o comportamento é tal
nificado desses reflexos. que a consciência que lhe pertence, se deverá ter
K. N. Kornílov distingue as urna determinada estrutura; por isso, o comportamento deve
escolha, a associativa, a de reconhecimento etc. ser explicado justamente enquanto consciente. Ou, para
uma classificação segundo o significado, isto é, segundo a expressá-lo de outra maneira mais paradoxal: se cada um
interpretação, sobre a base da estímulo-resposta entre tivesse somente as reaç:ôes que podem ser observadas por
eles. todos, ninguém poderia observar nada. Ou , que a base
J. Watson, embora admita idênticas distinções segundo da científica consiste em sair dos limites do visí­
o significado, diz francamente que atualmente o psicólogo vel e buscar seu significado, que nào pode ser observado.
'n"'''lll111.UIIII ji

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Koffka tem razão. Tinha razão quando afirmava que o sua percepção visual da dos raios químicos do que
behavíorismo está condenado ã esterilidade se se limitar a conhecer cientificamente sua visão.
estudar o que observa, se seu ideal consistir em conhecer o de sistema científico segundo a ar­
sentido e a velocidade de movimento de cada membro, a que os sustenta. A
secreção de cada glândula, como resultado de cada estímu­ sempre a ser a ossamenta, como o
lo. Seu campo será constituído unicamente de fatos da fisio­ do animal. Os animais mais como o caracol e a tar­
logia dos músculos e das glândulas. A descrição "este ani­ taruga, levam seu esqueleto na parte externa e, assim como
maI foge de um certo perigo, por mais insuficiente que seja, as ostras, podem ser separados da ossamenta, sendo o que
caracteriza no entanto cem vezes mais o comportamento do resta uma massa mole, pouco diferenciada; os animais supe­
animal do que a fórmula que nos dá o movimento de todas riores têm o esqueleto no interior e o convertem em seu
suas patas, com suas velocidades variáveis, as curvas da res­ apoio interno, o osso de cada um de seus movimentos. Em
do pulso etc." (K. 1926). psicologia também é preciso diferenciar os tipos inferiores e
W. Kõhler mostrou com os fatos como se pode de­ superiores de organização metodológica.
monstrar sem introspecção a existência de pensa­ Eis aqui a melhor refutação do ilusório empirismo das
mento nos macacos e inclusive estudar através do método ciências naturais. O que se constata é que nada podemos
introspectivo reações objetivas que desvendam o andamen­ trasladar de uma matéria a outra. Ainda que nos pareça que
to e a estrutura desse processo (917). Kornílov tornou evi­ um fato simples é um que um mesmo objeto - a crian­
dente como é possível medir com o método indireto a osci­ ça - e um mesmo método a observação objetiva - nos per­
lação energética de diferentes operaçôes do pensamento, mitem, ainda que os obietivos finais e as oremissas iniciais
utilizando o dinamoscópio de maneira análoga ao termô­ sejam distintos,
metro (1922). O erro de Wundt consiste precisamente no gia para a reflexologia. E que a diferença surgiria somente
emprego mecânico de aparelhos e do método matemático na interpretação dos mesmos fatos. No entanto, os sistemas
não para ampliar, mas para controlar e corrigir, nào para de Ptolomeu e de Copérnico também se baseavam, no fim
libertar-se da introspecçào mas para se ligar a ela. Em es­ das contas, nos mesmos fatos, mas vemos que os fatos con­
na maioria das de Wundt, a introspec­ seguidos com a ajuda de diferentes princípios cognitivos sào
sobra: serve apenas para destacar os experimentos que justamente fatos distintos.
Mas é radical e absolutamente desnecessária Portanto, a discussão sobre a aplicação do princípio
na doutrina de Kornílov. Não obstante, a psicologia ainda biogenético em nào é simplesmente uma discus­
tem de criar seu a são sobre os fatos. Os fatos sào indubitáveis e existem dois
abre o caminho para isso. grupos deles: por um lado, a recapitulaçào dos estudos rea­
Podemos resumir nossas conclusões sobre a até agora sobre o desenvolvimento da estrutura do
ção do dogma estritamente sensualista, remetendo-nos às organismo e, por outro, os indubitáveis traços de semelhan­
palavras de Engels sobre a atividade do olho ao qual se ça que existem entre a filogênese e a ontogênese da
acrescenta o pensamento, que nos permite descobrir que as E desejamos sublinhar que tampouco a respeito dessa seme­
formigas vêem o que para nós é invisíveL lhança cabe qualquer discussão. Koffka, que impugna essa
Durante muito tempo a psicologia procurou alcançar teoria e nos apresenta uma análise metodológica dela, afir­
não o conhecimento, mas a sensação. Continuando com ma no entanto, de forma rotunda, que as analogias de que
nosso exemolo. buscava mais compartilhar com as formigas parte essa teoria mesmo sendo falsa - existem realmente e
IIII

292 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 293

sem a menor dúvida. A discussão refere-se mais ao valor renunciar a qualquer princípio de comprovação e de sele­
dessas analogias, que não pode ser estabelecido sem que se ção das analogias que permita diferenciar os fatos que
analise a fundo os princípios da psicologia infantil e sem devem ser obíelo dessa interpretação dos que não devem
que se tenha uma idéia geral da infância, uma concepção de sê-lo. E, justamente, o jogo nos animais não pode ser objeto
sua importância e de seu sentido biológico e sem que se dessa explica~'ão. "Pode-se explicar o jogo do jovem
disponha de uma teoria determinada sobre o desenvolvi­ com sua vítima?" pergunta K. Gross (906). É claro que é
mento da crian~~a (K. Koffka, 1925). Encontrar analogias em impossível compreender o íogo como uma recapitulação da
parte é muito fácil; a questão é corno foram procu­ filogenética. É, pelo contrário, uma antecipação da
radas. (Note-se que analogias parecidas podem também ser futura atividade do tigre e nào uma repetição de seu desen­
encontradas no comportamento do adulto.) Nessas desco­ volvimento passado; deve ser explicado e compreendido
bertas podem ocorrer dois erros típicos: um é, por exemplo, da relação com o futuro tigre, ã luz da qual o
o que comete S. Hall, como evidenciaram Thorndike e Gross um significado, e não à luz do passado de sua
numa excelente análise crítica. Este último autor considera espécie. O passado da espécie manifesta-se aqui num senti­
com razão que a tarefa da ciência e o sentido de toda com­ do totalmente distinto: através do futuro do indivíduo, que
paração é de não só destacar os traços coincidentes, mas esse passado predetermina, embora não diretamente, nem
sobretudo procurar as diferenças que se dão dentro dessa no sentido da mera repetição.
semelhança (906). Por conseguinte, a psicologia compara­ E aonde nos leva esse raciocínio? Justamente a ver que
tiva não só deve compreender o homem como animal, mas, no nível biológico e precisamente na série defenômenos que
mais ainda, como não-animal. sào homogêneos em outros níveis de evolução e onde for­
A aplicação simplista do princípio psicogenético deu mulamos uma comparação com seu análogo homogêneo,
assim lugar ã busca de afinidades em qualquer lugar, de essa teoria quase-biológica mostra-se inconsistente. Se com­
modo que um método correto e alguns fatos estabelecidos pararmos o íog o da criança com o do isto é, com o dos
com exatidão, mas não criticamente aplicados, conduziram mamíferos superiores, e levarmos em conta não só as seme­
a monstruosos artifícios e a afirmaçôes falsas. Por lhanças, mas também as d~/'erenças, descobriremos o
íá que no infantil se mantiveram, por tradição, muitas cado biológico comum, que está contido precisamente em
influências do passado ancestral (arco e flecha, brincadeira suas diferenças tigrinho brinca de caçar como o tigre; a
de roda), Hall vê nisso a repetição e ao mesmo tempo a gra­ criança brinca de ser gente grande; ambos exercitam para a
dual eliminação, sob uma forma mais inofensiva, do que é vida futura as funções necessárias ­ teoria de K. Gross). Mas
dos animais e dos estágios pré-históricos de desen­ ao comparar fenômenos heterogêneos (o jogo do homem
o que para Gross demonstra uma surpreenden­ com a água a vida dos anfíbios na água), e apesar da gran­
te carência de senso crítico. O medo de gatos e de cachorros de analogia externa e aoarente, a teoria carece biologica­
seria assim uma reminiscência dos tempos em que esses ani­ mente de sentido.
mais ainda eram selvagens; a água atrai as crianças porque A um argumento tão contundente Thorndike acrescenta
procedemos de animais aquáticos; o movimento automático sua observação sobre a distinta ordem em que os mesmos
das mãos nas crianças pequenas é uma reminiscência de princípios biológicos aparecem na ontogênese e na filogêne­
nossos antepassados que nadavam na etc. se. a consciência surge muito cedo na ontogênese e
O erro consiste, por conseguinte, em interpretar todo muito tarde na filogênese; pelo contrário, a atração sexual
comportamento da criança como uma recapitulação e em aparece muito cedo na filogênese e muito tarde na ontogê­

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294 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 295

nese (E. Thorndike, 1925). W. Stern, utilizando considera­ Somente assim, seguindo cada princípio até suas últi­
).'ôes análogas, critica essa mesma teoria em sua aplicação mas conclusões, levando cada conceito até o limite a que
ao jogo. tende, analisando até o fim de cada etapa do pensamento,
Um erro de outro tipo é o que comete P. P. Blonski pensando-a às vezes a partir da posição do autor, pode-se
quando defende - legitimamente a validade dessa lei para determinar a natureza metodológica do fenômeno a anali­
o desenvolvimento emhrionário do ponto de vista da hiome­ sar. Por isso, somente na ciência em que o conceito foi ori­
cânica, fazendo ver que seria um milagre se não existisse. ginariamente cunhado e onde o conceito se desenvolveu e
Blonski assinala a natureza hipotética de tais consideraçôes foi levado até o limite de sua expressão, ele é utilizado de
("n~lo muito demonstráveis") para chegar finalmente a afir­ forma consciente e não cega. Quando o trasladamos a outra
má-las C'pode ser assim"). Ou seja, depois de fundamentar a ciência fica cego e não nos leva a parte alguma. Esse tipo de
possibilidade metodológica da hipótese de trahalho, o autor, trasladação cega do princípio hiogenético, do experimento
em vez de passar à análise e ã comprovação da hipótese, ou do método matemático próprios das ciências naturais
adota o caminho de HaH e já explica o comportamento da deu à psicologia a aparência de algo científico, mas por
criança partindo de analogias muito compreensíveis: no baixo dessa aparência se oculta, de fato, uma total impotên­
gosto da criança por trepar em árvores vê a recapitulação, cia ante os fenômenos a estudar.
não da vida dos macacos, mas dos homens primitivos, que Para fechar definitivamente o círculo que descreve o sig­
no entanto viviam entre rochas e gelo; no ato de arrancar o nificado desse princípio psicogenético na ciência, vejamos
papel de parede, vê o atavismo de arrancar a casca das árvo­ ainda seu último destino. Porque não se trata apenas de des­
res etc. (P. P. Blonski, 1921). O mais curioso de tudo é que cobrir a esterilidade de um princípio e de realiz,l[ sua crítica,
esse erro leva Blonski ao mesmo que a Hall: à negação do indicando os casos mais curiosos e os artifícios que até os
jogo. Como apontam Gross e W. Stern, justamente onde mais escolares reconhecem. Dito de outra maneira, a história de
analogias entre a ontogênese e a filogênese podem ser um princípio não se encerra com sua simples eliminação das
extraídas é que esse paralelismo é mais inconsistente. Por áreas que não lhe pertencem, com sua simples reprovação.
sorte, Blonski, como se estivesse dando um exemplo da ine­ Lemhremos que esse princípio estranho penetrou na ciência
vitável pressão das leis metodológicas do conhecimento através da ponte dos fatos, de analogias que na verdade exis­
científico, não recorre nem mesmo a termos novos; não vê a tem e que ninguém nega. Mas à medida que esse princípio
necessidade de denominar a atividade da criança por meio se afiançava e se tornava forte, foi aumentando o número de
de um "termo novo" Cíogo). Isto nos mostra que em seu pro­ fatos, em parte falsos, em parte verdadeiros, em que se apóia
cesso metodológico perdeu primeiro o sign~ficado do jogo e, sua potência imaginária. Ao mesmo tempo e por sua parte, a
em seguida e conseqüentemente (o que o honra), renuncia crítica desses fatos e a do próprio princípio atrai para a área
também ao termo que expressa esse significado. Porque, na de análise da ciência outros novos fatos. E o problema não
verdade, se a atividade ou o comportamento da criança são se limita aos fatos: a crítica deve encontrar uma explicação
atavismos, são somente uma recapitulação do passado, então de fatos confrontados, de modo que no final ambas as teo­
o termo "jogo" é impróprio. Essa atividade nada tem em rias acabam se assimilando e se chega, sobre essa base, a
comum com o jogo do tigre, como mostrou Gross. E a decla­ uma degeneraçâo do princípio.
ração de Blonski "Não gosto desse termo" deveria ser tradu­ Sob a pressão dos fatos e das teorias estranhas, o novo
zida metodologicamente assim: "Perdi a compreensão e o adventício (o princípio psicogenético) modifica sua face.
sentido desse conceito" (1921). Com o princípio biogenético ocorreu o mesmo: degenerou e
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296 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 297

hoje se apresenta em psicologia sob duas formas distintas ceira etapa: separar os fenômenos da doença das reações a
de que o processo de degeneração ainda nâo termi­ o sadio do enfermo, os processos de infecçào e de recu­
nou): 1) a teoria do útil, defendida pelo neodarwinismo e peração. Abordaremos isto, com a análise da terminologia
peta escola de Thorndike, que considera que o indivíduo e científica, na terceira e última digressão, para daí passar
a espécie estão subordinados em seu desenvolvimento às diretamente a formular o diagnóstico e o prognóstico de
mesmas leis; disto decorre uma série de coincidências mas nosso doente: a natureza, o sentido e a saída da crise que
também de não-coincidências: nem tudo que é útil para a está se desenvolvendo.
espécie na etapa inicial também o é para o indivíduo; a
teoria da concordância, defendida em psicologia por Koffka
e por]. Dewey, e na filosofia da história por O. Spengler. 9
Essa teoria supõe que qualquer processo de desenvolvimen­
to tem indispensavelmente algumas etapas comuns e deter­ Se alguém quisesse construir uma idéia clara e objetiva
minadas formas sucessivas; do mais simples ao mais compli­ da situação que vive agora a psicologia e das dimensões da
cado e dos níveis inferiores aos superiores. crise, bastaria estudar a linguagem psicológica, sua nomen­
Está longe de nossas intenções nos pronunciarmos a res­ clatura e sua terminologia, o vocabulário e a sintaxe do psi­
da verdade de qualquer dessas posturas, ou entrar no cólogo. A linguagem, a científica em particular, é o instru­
terreno dos fatos. O que nos interessa é acompanhar a diná mento do pensamento, o instrumento da análise, e basta
mica da reação espontânea e cega do corpo científico diante olhar o instrumento que a ciência utiliza para compreender o
de um objeto estranho, importado; acompanhar as formas caráter das operaçôes a que se dedica. As linguagens alta­
dessa inflamação científica em função do tipo de infecção, mente desenvolvidas e exatas da física moderna, da
para passar da patologia à norma; esclarecer as atividades e da fisiologia (sem falar da matemática, onde ela desempenha
funções normais das diferentes partes integrantes: dos "­ um papel essencial), foram se formando e aperfeiçoando ao
órgãos" da ciência. É nisto que consiste o objetivo e o signifi­ mesmo tempo que se desenvolvia cada uma dessas ciências,
cado de nossa análise, que, embora às vezes pareça se des­ e isto não ocorreu de forma alguma espontaneamente, mas
viar, desenvolve a comparação, sugerida por Spinoza, da psi­ se produziu conscientemente: sob a influência da tradição,
cologia de nossos dias com um doente grave. Se situássemos da crítica, da criatividade terminológica cunhada pelas pró­
no marco dessa metáfora o significado de nossa última digres­ prias sociedades e pelos congressos científicos.
poderíamos resumir assim nossa análise e conclusões: A linguagem psicológica atual é, antes de mais nada,
A partir da análise do inconsciente, estudamos no co­ insuficientemente terminológica: isso significa que a psico­
meço a natureza, a ação e procedimento de difusão da logia ainda não possui sua linguagem. Em seu vocabulário
III infecção, a penetração a partir dos fatos de uma idéia alheia, encontramos um conglomerado de três classes de palavras:
sua conquista do organismo e a alteração das funçôes deste. 1) Palavras da linguagem cotidiana, vagas, polissemân­
Ao passar em seguida para a análise da biogênese pudemos ticas e adaptadas à vida prática. A. F. Lazurski acusava disso
estudar a reaçào do organismo, a luta contra a infecção, a a psicologia das aptidões; consegui mostrar que isso tam­
tendência dinâmica de absorver, de expulsar, neutralílar e bém é aplicável à linguagem da psicologia empíríca e inclu­
assimilar o corpo estranho e de se regenerar e mobilizar for­ sive, em parte, à do próprio Lazurski (L. S. Vigotski, 1925).
ças contra o contágio: falando em te.rmos médicos, de pro­ Como prova disto basta lembrar as dificuldades com que
duzir anticorpos e produzir imunidade. Resta a última e ter- deparam os tradutores em psicologia - tomemos por exem­
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298 TEORIA E MÉTODO EM PSICOLOGIA O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA CRISE DA PSICOLOGIA 299

pIo o sentido da visào (sentido no significado de sensação) rever, analisar e estudar coisas especialmente delicadas
para apreciar o metamorfismo, a inexatidão da linguagem e cheias de matizes, e procuravam transmitir as incompará­
cotidiana; veis particularidades das ciências espirituais, fatos sui [!,ene­
2) Também maculam a linguagem dos psicólogos as ris, aqueles onde pela primeira vez a ciência procurava
da linguagem filosófica que já perderam sua cone­ transmitir a própria sensação, ou seja, quando propunha a
xão com o significado original, igualmente polissemânticas, lua linguagem tarefas de que habitualmente se ocupa a
em conseqüência da luta entre as distintas escolas filosófi­ expressão literária. Por isso os psicólogos aconselharam
cas, e extremamente abstratas. A. Lalande vê nelas a princi­ aprender psicologia com os grandes romancistas, pois eles
pal fonte de imprecisão em psicologia: os tropos dessa lin­ mesmos falavam o idioma da literatura impressionista, e
guagem favorecem um pensamento indeterminado; as metá­ inclusive os melhores, os psicólogos de estilo mais brilhan­
foras, valiosas enquanto ilustrac;~ão, são perigosas enquanto te, viam-se impotentes para criar uma língua exata e escre­
fórmulas, pois levam à personificação dos fatos e das fun­ viam de forma metaforicamente expressiva: inculcavam,
ções psicológicas; os sistemas ou teorias são interpretados desenhavam, representavam, mas não protocolízavam. As­
através de "ismos" entre os quais são inventados ou imagi­ sim são James, Lípps, Binet.
nados pequenos dramas mitológicos (L. Lalande, 1929); O VI Congresso Internacional de psicólogos celebrado
Finalmente, os vocábulos e formas da linguagem to­ em Genebra (1909) colocou essa questão na ordem do dia e
madas das ciências naturais e empregados em sentido publicou duas comunicações - de J. Baldwin e E. Claparede
rado servem diretamente para enganar. Quando um psicólo­ mas não fizeram mais que estabelecer as regras das
go raciocina sobre a energia e a força, inclusive sobre a lidades lingüísticas, embora Claparede tenha tentado definir
intensidade, ou quando se refere ã excitação etc., encobre quarenta termos de laboratório. O dicionário de Baldwin na
sempre por trás de uma palavra científica um conceito não­ Inglaterra, o dicionário técnico e crítico de filosofia na Fran­
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