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FACULDADE DE SÃO BENTO

LICENCIATURA PLENA EM TEOLOGIA

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

Lorenzo Nacheli

Um catecismo essencial com as imagens

São Paulo

2015
FACULDADE DE SÃO BENTO
LICENCIATURA PLENA EM TEOLOGIA

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

Um catecismo essencial com as imagens

Lorenzo Nacheli

Monografia apresentada ao
Curso de Licenciatura em Teologia
da Faculdade de São Bento do
Mosteiro de São Bento de São
Paulo, como requisito parcial para a
obtenção do título de Licenciado em
Teologia.

Orientador: Prof. Dr. Sergio Alejandro Ribaric

São Paulo

2015
Dedico este trabalho a todos os
meus irmãos do Sermig - Fraternidade
da Esperança e a todos os amigos e
voluntários do Arsenal da Esperança,
pois foram a dedicação e a paciência
deles que nos permitiram fazer este ano
de formação na Itália.
AGRADECIMENTOS

Agradeço aos acolhidos do Arsenal da Esperança que me ajudam todos os dias a viver
as palavras do Evangelho. Agradeço a todos os amigos que participaram do curso de
catecismo e que me deram a inspiração para a realização deste TCC.

Agradeço a Ernesto Olivero e a dom Luciano Mendes de Almeida (in memoriam), que
acreditaram em mim desde que me conheceram e que, apesar da minha pobreza, viram em
mim um possível presbítero.

Agradeço a todos os amigos da minha Fraternidade, especialmente aos amigos que


operam no Brasil, que me apoiaram e permitiram os meus estudos. Sem a ajuda deles, eu
nunca conseguiria enfrentar este desafio do estudo.

Agradeço de maneira particular a Simone Bernardi, meu companheiro de Fraternidade


e de estudo, que comigo tem enfrentado o desafio de se dividir entre os compromissos da
faculdade e a responsabilidade na comunidade do Arsenal da Esperança. Junto com ele
agradeço também a Andrea Bisacchi que, de maneira paralela, na Itália, enfrentou o mesmo
desafio.

Agradeço a todos os professores do curso de teologia da Faculdade de São Bento que,


com seriedade, organizaram o nosso caminho de formação. De maneira particular, quero
agradecer ao coordenador do curso de teologia, Prof. Domingos Zamagna, e ao orientador
deste trabalho, Prof. Sergio Ribaric, por ter permitido o desenvolvimento deste TCC na Itália.

Agradeço a Thais dos Santos Domingues pela revisão, pelos conselhos e pelo apoio
que nunca faltaram ao longo do percurso de realização deste TCC. Agradeço a Chiara Dal
Corso pelo aconselhamento iconográfico.

Agradeço à mamãe Pina e ao papai Calogero, porque é sempre bom agradecer aos
pais. Sem eles, esta história sequer teria começado.
RESUMO

Este trabalho pretende oferecer argumentos a favor de uma evangelização que não faça
distinções, mas que, ao contrário, se coloque diante de todos os jovens, homens e mulheres
com o mesmo amor e entusiasmo do Deus semeador. Os mais pobres, simples ou
"complicados" têm o direito de receber o anúncio do Evangelho de forma acessível para eles.
Este trabalho está dividido em duas partes principais. A primeira motiva a evangelização das
pessoas mais simples. A segunda ilustra o percurso de um catecismo essencial elaborado com
a Palavra de Deus e com imagens, em um método que convida todos os catequistas a costurar
uma formação sob medida para cada grupo a ser formado à fé cristã.

Palavras-chave: Catequese, Evangelização, Imagens, Palavra de Deus, Credo.


ABSTRACT

This study aims to provide arguments in favor of an evangelization that does not make
distinctions, but instead is put before all the young people, men and women with the same
love and enthusiasm of God sower. The poorest, simple or "complicated" have the right to
receive the Gospel in an accessible way for them. This work is divided into two main parts.
The first motivates the evangelization of the simplest people. The second illustrates the route
of an essential catechism prepared with the Word of God and images, in a method that invites
all catechists to sew a training tailored to each group to be formed to the Christian faith.

Keywords: Catechesis, Evangelization, Images, Word of God, Creed.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 10

1. POR QUE UM NOVO CATECISMO COM AS IMAGENS ......................................... 17


1.1 A MENSAGEM DE JESUS É PARA TODOS ................................................................. 17
1.2 CATECISMO: DIREITO DOS MAIS SIMPLES ............................................................. 23

2. A IMPORTÂNCIA DAS IMAGENS PARA A TRANSMISSÃO DA FÉ .................... 27

3. PROPOSTA DE UMA METODOLOGIA COM A UTILIZAÇÃO DAS IMAGENS E


DA PALAVRA DE DEUS...................................................................................................... 32
3.1 OBJETIVO CATEQUÉTICO ............................................................................................ 32
3.2 METODOLOGIA ............................................................................................................... 35

4. CATECISMO ESSENCIAL COM AS IMAGENS ......................................................... 38


4.1 JESUS FILHO .................................................................................................................... 38
4.1.1 Cristo Pantocrator ............................................................................................. 38
4.1.2 O Bom Pastor ..................................................................................................... 39
4.1.3 Representação de Jesus ..................................................................................... 40
4.1.4 Cristo coroado de espinhos ............................................................................... 40
4.1.5 Rosto do homem do Santo Sudário .................................................................. 41
4.2 DEUS PAI .......................................................................................................................... 52
4.2.1 Deus Pai no trono, com Jesus e a Virgem Maria ............................................ 52
4.3 TRINDADE – ESPÍRITO SANTO .................................................................................... 54
4.3.1 Santíssima Trindade ou Ícone dos Três Anjos ................................................ 54
4.4 NATIVIDADE – ENCARNAÇÃO DE JESUS – FESTA DO NATAL ........................... 57
4.4.1 Natividade de Jesus............................................................................................ 57
4.4.2 Natividade de Jesus............................................................................................ 59
4.5 MARIA MÃE DE DEUS ................................................................................................... 60
4.5.1 Mãe de Deus das Três Mãos ............................................................................. 60
4.6 MORTE DE JESUS ........................................................................................................... 61
4.6.1 Crucificação de Cristo ....................................................................................... 61
4.7 JESUS RESSUSCITADO – FESTA DA PÁSCOA .......................................................... 63
4.7.1 Morte e Ressurreição de Jesus.......................................................................... 63
4.7.2 Ressurreição ....................................................................................................... 63
4.7.3 Descida aos infernos .......................................................................................... 64
4.8 JUÍZO UNIVERSAL ......................................................................................................... 67
4.8.1 O Juízo Final ...................................................................................................... 67
4.8.2 Visão de João Clímaco....................................................................................... 68
4.9 ASCENSÃO – A IGREJA – DISCÍPULOS DE EMAÚS ................................................. 71
4.9.1 Ascenção do Senhor ........................................................................................... 71
4.9.2 A Ceia em Emaús ............................................................................................... 72
4.10 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS ........................................................................ 74
4.10.1 Tríptico dos sete sacramentos ......................................................................... 74
4.11 BATISMO ........................................................................................................................ 76
4.11.1 Batismo de Cristo ............................................................................................. 76
4.12 CRISMA – FESTA DE PENTECOSTES ........................................................................ 78
4.12.1 Pentecostes ........................................................................................................ 78
4.12.2 Pentecostes ........................................................................................................ 79
4.13 EUCARISTIA: COMUNHÃO ......................................................................................... 81
4.13.1 Última ceia ........................................................................................................ 81
4.14 EUCARISTIA: SERVIÇO – LAVA-PÉS ........................................................................ 83
4.14.1 Lava-pés ............................................................................................................ 83
4.14.2 Eucaristia e Lava-pés ...................................................................................... 84
4.15 RECONCILIAÇÃO – PERDÃO – UNÇÃO DOS ENFERMOS – FILHO PRÓDIGO . 85
4.15.1 O retorno do Filho Pródigo ............................................................................. 85
4.16 VOCAÇÃO – PARÁBOLA DOS TALENTOS – ORDEM – MATRIMÔNIO ............. 88
4.16.1 Vocação dos Santos Pedro e André ................................................................ 88
4.16.2 A vocação de São Mateus ................................................................................ 89
4.17 BEM-AVENTURANÇAS – MANDAMENTOS ............................................................ 90
4.17.1 O Sermão da Montanha .................................................................................. 90
4.18 ORAÇÃO CRISTÃ – ANO LITÚRGICO – PAI-NOSSO .............................................. 91
4.18.1 Ícone russo das doze festas litúrgicas ............................................................. 91
4.19 PALAVRAS DE DEUS – PARÁBOLA DO SEMEADOR ............................................ 92
4.19.1 São João Evangelista e Prócoro ...................................................................... 92
4.20 JESUS ACOLHE – FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE .................................................. 94
4.20.1 O Bom Samaritano (de Delacroix) ................................................................. 94
4.20.2 O Bom Samaritano .......................................................................................... 95
CONCLUSÃO......................................................................................................................... 97

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 98

ANEXOS ............................................................................................................................... 102


ANEXO A: CRISTO PANTOCRATOR ............................................................................... 102
ANEXO B: O BOM PASTOR ............................................................................................... 103
ANEXO C: REPRESENTAÇÃO DE JESUS ........................................................................ 104
ANEXO D: CRISTO COROADO DE ESPINHOS ............................................................... 105
ANEXO E: ROSTO DO HOMEM DO SANTO SUDÁRIO ................................................ 106
ANEXO F: DEUS PAI NO TRONO, COM JESUS E A VIRGEM MARIA ....................... 107
ANEXO G: SANTÍSSIMA TRINDADE OU ÍCONE DOS TRÊS ANJOS ......................... 108
ANEXO H: NATIVIDADE DE JESUS................................................................................. 109
ANEXO I: NATIVIDADE DE JESUS .................................................................................. 110
ANEXO J: MÃE DE DEUS DAS TRÊS MÃOS .................................................................. 111
ANEXO K: CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO ......................................................................... 112
ANEXO L: MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS ......................................................... 113
ANEXO M: RESSURREIÇÃO.............................................................................................. 114
ANEXO N: DESCIDA AOS INFERNOS ............................................................................. 115
ANEXO O: O JUÍZO FINAL ................................................................................................ 116
ANEXO P: VISÃO DE SÃO JOÃO CLÍMACO ................................................................... 117
ANEXO Q: ASCENÇÃO DO SENHOR ............................................................................... 118
ANEXO R: A CEIA EM EMAÚS ......................................................................................... 119
ANEXO S: TRÍPTICO DOS SETE SACRAMENTOS......................................................... 120
ANEXO T: BATISMO DE CRISTO ..................................................................................... 121
ANEXO U: PENTECOSTES ................................................................................................. 122
ANEXO V: PENTECOSTES ................................................................................................. 123
ANEXO W: ÚLTIMA CEIA ................................................................................................. 124
ANEXO X: LAVA-PÉS ......................................................................................................... 125
ANEXO Y: EUCARISTIA E LAVA-PÉS ............................................................................. 126
ANEXO Z: O RETORNO DO FILHO PRÓDIGO................................................................ 127
ANEXO AA: VOCAÇÃO DOS SANTOS PEDRO E ANDRÉ............................................ 128
ANEXO AB: A VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS ................................................................. 129
ANEXO AC: O SERMÃO DA MONTANHA ...................................................................... 130
ANEXO AD: ÍCONE RUSSO DAS DOZE FESTAS LITÚRGICAS .................................. 131
ANEXO AE: SÃO JOÃO EVANGELISTA E PRÓCORO .................................................. 132
ANEXO AF: O BOM SAMARITANO (DE DELACROIX) ................................................ 133
ANEXO AG: O BOM SAMARITANO ................................................................................. 134
10

INTRODUÇÃO

Como e por que semear no campo pedregoso onde, à primeira vista, não poderia
nascer nada?

Quando lemos a parábola do semeador (Mt 13,1-9; Mc 4,3-9; Lc 8,4-8), logo nos
perguntamos em quais condições o nosso coração está em relação aos campos que as
parábolas nos apresentam: será que a Palavra de amor de Deus está verdadeiramente
penetrando na minha vida? Encontrou uma boa recepção? Estamos deixando frutificar a
Palavra ou os nossos propósitos permanecem somente palavras jogadas ao vento que não se
traduzem em fatos? Porém, quando essa mensagem é lida por aqueles que são os
"semeadores", o destaque maior se dá na questão do campo que encontro à minha frente e que
precisa ser semeado. O semeador da parábola (Mt 13,1-9) não se importa com as condições do
terreno: ele semeia abundantemente, de mãos cheias, jogando a semente em todos os cantos.
Às vezes, os semeadores – os evangelizadores – esquecem-se dessa confiança que Deus põe
em todas as pessoas, em qualquer ser humano, sem olhar presente ou passado. Os semeadores
muitas vezes preferem sonhar em encontrar campos bom, férteis, com terra boa que produza
muito fruto, com jovens e adultos prontos a receber e a colocar em prática rapidamente o
ensinamento que lhe é apresentado. Mas nem sempre acontece de as pessoas à nossa frente
estarem prontas para receber a semente boa. Hoje, na maioria das vezes, não é assim. Mesmo
os campos – os corações – que teriam todas as condições para acolher a Palavra de Deus e a
filosofia do agir cristão acabam muitas vezes desperdiçando a semeadura, escolhendo
caminhos mais simples, às vezes paralelos, mas não o caminho proposto. Ainda assim, não
podemos parar de semear, sabendo que a semente poderá produzir em tempos diferentes e que
talvez sejam outros a cuidar da colheita.

Neste nosso tempo, quando parece cada vez menos necessário falar de Deus, entender
o seu amor ou simplesmente procurá-lo, vendo as nossas comunidades esvaziadas e as
vocações cada vez mais escassas, sentindo-nos ameaçados por muitos lados, a tentação que
bate à nossa porta é a ideia de que tornou-se indispensável fazer uma grande "campanha de
recrutamento" que visa o convencimento e o "alistamento" de novos cristãos. É como se
estivéssemos indo rumo a uma disputa ou, ainda pior, a uma guerra de convencimento e de
proselitismo, onde só os números no final contam. Parece que, na concepção de muitos, nesse
tipo de campanha os resultados e os números são mais importantes do que o contágio de amor
que a Palavra pode operar no coração das pessoas. Com essa "filosofia", é fácil cair no engano
11

de uma evangelização do "sucesso", como em uma fábrica onde a produção e a qualidade


devem estar de braços dados. Seria fácil formar somente os corações que parecem prometer
bons frutos, deixando de lado aqueles que, do nosso ponto de vista, não nos dão garantias de
bom êxito. Na prática, o risco é o de visar somente os resultados, os frutos, e excluir as
"propriedades medicinais" e de salvação que o anúncio da Palavra tem e o bem que ele pode
fazer às pessoas. Isso seria não fazer mais evangelização, e sim proselitismo; substituir a
Palavra de Deus pela nossa; fazer uma campanha de marketing em vez de apresentar uma
pessoa, como se estivéssemos vendendo um produto, tentando fazê-lo ser escolhido no lugar
de outro mais ou menos equivalente. Entretanto, os evangelizadores e a Igreja querem
apresentar Jesus vivo, ressuscitado, que opera no meio de todos os homens. Os cristãos não
apresentam um produto a ser consumido, mas "Alguém" com quem se relacionar, Alguém
para quem doar a própria vida, pelo qual e por quem as nossas perspectivas mudam, o nosso
tudo muda. Por isso, é preciso que os cristãos se deixem conhecer por aquilo que são, pela
própria postura frente aos acontecimentos da vida de todos os dias, pela caridade e pela
acolhida que sabem dar porque foram marcados pelo encontro com Deus. Não existe melhor
"propaganda" do que doar a vida para os outros – e que isso seja evidente.

Como podemos intuir lendo a carta apostólica Evangelii Gaudium de papa Francisco,
as palavras dos Evangelhos contagiam essencialmente depois da "alegria" de encontrar
alguém transformado pelo encontro com Jesus, porque um homem ou uma mulher só encontra
Deus quando enxerga nos olhos e na vida de outro homem ou outra mulher essa alegria de
seguir Jesus Cristo. Mas isso requer paciência, e não pressa. Só se conhece uma pessoa
convivendo com ela por muito tempo. Os próprios apóstolos, depois de ter caminhado muito
com Jesus, não O conheciam plenamente. Acontece com todas as pessoas, em todos os
relacionamentos: é só um pouco por vez e ao longo do tempo que passamos a confiar e nos
deixamos transformar. Muitas vezes, são necessários anos para encontrar Jesus nos cristãos,
entender que houve um encontro com Cristo, acreditar e colocar-se à escuta de Deus, para
procurar o próprio encontro com Deus no íntimo do próprio coração.

Papa Francisco sabe bem disso e lembra ao povo cristão que, mesmo que seja justo
convencer o outro de que o melhor que pode acontecer na vida dele é se tornar cristão,
devemos ter em mente alguns princípios que nos ajudam a proceder segundo a lógica de
Deus. Ele enuncia esses princípios na própria Evangelii Gaudium. Por exemplo, lembra-nos
de que "o tempo é superior ao espaço" (FRANCISCO, 2013, § 222). Isso quer dizer que "este
12

princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos. Ajuda a
suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de planos que o
dinamismo da realidade impõe" (FRANCISCO, 2013, § 223). Em qualquer esforço de
evangelização, no encontro com o outro, não podemos agir seguindo a obsessão pelos
resultados. O mundo não vai se encher de cristãos apenas com o nosso esforço, mas sim com
a vivência conjunta e honesta dos cristãos no meio dos todos aqueles que encontram. Dar
prioridade ao espaço significa ter consciência de que é mais importante a semeadura do que os
resultados imediatos. Somos chamados a não ter medo de começar com qualquer pessoa um
caminho de aproximação à fé, um percurso de formação. Talvez inventando cada um uma
maneira particular, se for necessário, mas todos devem encontrar as portas abertas.
Precisamos encontrar o sentido do acompanhar as pessoas no seu caminho em direção a Deus,
sabendo que o caminho de uma pessoa é sempre longo e pode ser auxiliado pela experiência e
pelo acompanhamento de muitas pessoas.

Neste trabalho, procuramos argumentar sobre a necessidade de não se apavorar frente


às pessoas que aparentemente não teriam condições de receber os ensinamentos dos
Evangelhos e colocá-los em prática. O evangelizador, quem repassa aos novos ingressantes as
bases do nosso Credo, inicia um caminho que está nas mãos de muitos, nas mãos da Igreja
inteira, que a cada vez precisa acolher quem bate à sua porta em qualquer condição que ele se
encontre e qualquer que seja o seu passado. Aqui, nos vem ao encontro outro princípio
enunciado pelo papa Francisco: "o todo é superior à parte" (FRANCISCO, 2013, § 234).
Precisamos valorizar muito a nossa comunidade, as pessoas que temos à frente, os nossos
desafios, mas sabendo que existe algo maior do qual precisamos nos colocar a serviço. "É
necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio lugar, que é um dom de
Deus. Trabalha-se no pequeno, no que está próximo, mas com uma perspectiva mais ampla"
(FRANCISCO, 2013, § 235).

Além de dar as motivações para essa postura de vida, que podemos definir
simplesmente "evangélica", outro objetivo deste trabalho é sistematizar um método que nasce
da experiência da comunidade do Arsenal da Esperança1. Há anos essa comunidade procura
enfrentar o desafio da evangelização dos próprios acolhidos, direta ou indiretamente. O

1
O Arsenal da Esperança é uma casa em São Paulo que acolhe diariamente 1.200 homens em situação de rua e
que quer ser "um lugar de fraternidade, aberto à acolhida e ao encontro com quem quiser procurar o sentido da
sua vida". Informações disponíveis em: <http://www.sermig.org/br/arsenal-da-esperanca>. Acesso em: 27 abr.
2015.
13

primeiro passo é acolher todos com a mesma atenção e dedicação. Deus está sempre presente
e é a base desse carinho e desse "profissionalismo". Para aqueles que manifestam o desejo de
aprofundar a própria fé depois de ter conhecido os amigos da Fraternidade que habitam e
animam a casa, procuramos costurar para eles um percurso que os aproxime à figura de Jesus
Cristo. Não se trata de uma experiência de sucesso imediato; pelo contrario: a impressão que
fica é a que estamos jogando sementes no meio de pedregulhos. Ainda assim, temos a
esperança de deixar algo que possa mudar suas vidas. Trata-se de uma reflexão, de um
método desenvolvido para tentar alcançar todos os que se deixam atrair pela bondade de
Deus.

Da Evangelii Gaudium, extraímos outros princípios que podem nos ajudar nesse
desafio. Por exemplo, entender que "a realidade é mais importante do que a ideia"
(FRANCISCO, 2013, § 231). Que bem podemos fazer se não sabemos ler a realidade que está
à nossa frente e pretendemos aplicar algo já organizado? A flexibilidade da evangelização é
cada vez mais necessária em um cenário de relatividade.

A ideia – as elaborações conceituais – está ao serviço da captação,


compreensão e condução da realidade. A ideia desligada da realidade dá
origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam
ou definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada
pelo raciocínio. (FRANCISCO, 2013, § 232)

As ideias que estudamos e que nos preparam para o papel de semeador na maioria das
vezes chocam-se com a realidade que encontramos nas nossas comunidades. Nesses casos,
precisamos aceitar a realidade e não deixar que as ideias aprendidas se tornem mais
importantes do que as pessoas, abortando qualquer tentativa de aproximação. As pessoas
precisam do nosso acompanhamento e, pelo bem espiritual delas, temos que ter a coragem de
mudar de direção e de método mesmo em pleno caminho. É nesse sentido que utilizamos o
verbo "costurar" para visualizar esse amor necessário para personalizar um caminho de
formação.

Não podemos esquecer também que "a unidade prevalece sobre o conflito"
(FRANCISCO, 2013, § 226). Não existe evangelização eficaz se quem se aproxima da
comunidade não encontra nela o espelho do Evangelho:
14

Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como


se nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros
entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte,
projetam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim,
a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada,
de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-
lo no elo de ligação de um novo processo. "Felizes os pacificadores" (Mt 5,
9)! (FRANCISCO, 2013, § 227)

Precisamos aprender a viver uma verdadeira comunhão aprendendo a valorizar os


diferentes dons que Deus nos concedeu. Precisamos aprender a restitui-los. Este talvez seja o
maior desafio da evangelização: mostrar aos outros como nos amamos. É essa a postura que
atrai e converte. Após o encontro com Jesus ressuscitado, os discípulos de Emaús (Lc 24,13-
35) disseram: "Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos
explicava as Escrituras?" (Lc 24,32). As pessoas, encontrando-nos na vida de todos os dias,
deveriam perceber o mesmo calor que Jesus passou aos discípulos falando com eles pelo
caminho. Ernesto Olivero2 usa estas palavras para comentar o que deveria dizer uma pessoa
quando encontra um membro da Fraternidade da Esperança que ele fundou:

Eu gostaria que quem procura, ao nos encontrar, pudesse dizer:


"encontramos cristãos que se parecem com o Jesus deles; não são melhores
que os outros, mas nos acolhem com bondade e, mesmo se recebem palavras
duras, não são vingativos, não são ladrões, não são mentirosos, são bons"...
Eu gostaria que as pessoas pudessem dizer de nós: "aqueles são amigos de
Deus. Talvez não sejam melhores que os outros, mas estão sempre prontos a
querer bem; com eles se pode sempre contar. Quando os vemos, eles nos dão
consolação". (Ernesto Olivero)3

Enfim, precisamos criar novas e acolhedoras hospedarias, semelhantes àquela onde o


samaritano abrigou o ferido da parábola (Lc 10,30-37), prontas a se confrontar com os
desafios do nosso tempo. Hospedarias sustentadas pela gratuidade de comunidades que

2
Fundador do Sermig - Fraternidade da Esperança. "O Sermig - Serviço Missionário Jovens – nasceu em 1964
de uma intuição de Ernesto Olivero e de um sonho compartilhado com muitos: derrotar a fome com obras de
justiça e de desenvolvimento, viver a solidariedade para com os mais pobres e dar uma atenção especial aos
jovens, procurando junto a eles os caminhos da paz. Dos 'sins' de jovens, casais e famílias, monges e monjas
nasceu a Fraternidade da Esperança, para estar perto do homem do nosso tempo e ajudá-lo a encontrar Deus."
("Il Sermig - Servizio Missionario Giovani – è nato nel 1964 da un'intuizione di Ernesto Olivero e da un sogno
condiviso con molti: sconfiggere la fame con opere di giustizia e di sviluppo, vivere la solidarietà verso i più
poveri e dare una speciale attenzione ai giovani cercando insieme a loro le vie della pace. Dai 'Si' di giovani,
coppie di sposi e famiglie, monaci e monache è nata la Fraternità della Speranza, per essere vicini all'uomo del
nostro tempo e aiutarlo a incontrare Dio.") Disponível em: <http://sermig.org/it/fraternita-della-speranza>.
Acesso em: 25 jan. 2015. Todas as traduções são livres e de responsabilidade do autor deste trabalho.
3
"Mi piacerebbe che chi cerca vedendoci dissesse: 'abbiamo trovato dei cristiani che rassomigliano al loro Gesù,
non sono migliori degli altri, ma ti accolgono con bontà e anche se ricevono degli sgarbi non sono vendicativi,
non sono ladri, non sono bugiardi, sono buoni'... Mi piacerebbe che la gente di noi dicesse: 'quelli sono amici di
Dio. Forse non sono migliori degli altri però sono sempre pronti a voler bene, su di loro si può contare. A vederli
danno consolazione'." Informação verbal de Ernesto Olivero, em 26 de abril 2015, em retiro realizado no Arsenal
da Paz, em Turim, Itália.
15

somente pelo fato de existir evangelizam e que mantém constante postura de quem não se
contenta com o mundo como ele é, mas quer torná-lo melhor. Semear com inteligência e
caridade no coração de todos os que ingressarem nessas hospedarias, sem exceção, sem
preconceitos antievangélicos e sem posturas "industriais", será o desafio de caridade do
futuro, o pilar das novas comunidades cristãs que devem inspirar-se nas primeiras
comunidades que aceitaram acreditar em Jesus. Mesmo as comunidades pequenas poderão
experimentar a certeza do encontro com Jesus, viver à sua presença, ser exemplo a ser
seguido; exemplo que, se todos procurassem viver, mudaria a face da terra ou pelo menos
diminuiria o espalhar-se de tanta dor e de tanto sofrimento.

Também o Diretório Geral para a Catequese (DGC), da Congregação para o Clero, e o


Diretório Nacional de Catequese (DNC), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), que serão utilizados abundantemente neste trabalho, insistem sobre a necessidade de
ter uma atenção particular para a cultura de cada país e, sobretudo, pela evangelização dos
menos favorecidos, dos mais pobres que se aproximam da fé católica. Já está presente nesses
documentos um claro pedido pela centralidade de Jesus e, portanto, da Palavra de Deus, pelo
papel da comunidade cristã evangelizadora e de bons cidadãos, pela importância da oração
cristã e da participação na liturgia e pela formação à honestidade moral.

Outro ponto original deste trabalho é a utilização das imagens como suporte e como
instrumentos importantes a serviço do esforço catequético. Assim nos introduz ao tema da
imagem o bispo de Novara, monsenhor Franco Giulio Brambilla (in LA PARETE..., 2013)
comentando na prefácio do livro escrito em ocasião dos 500 anos da Parete Gaudenziana4:
"Por que para contar algo precisamos da imagem? Porque a narração é feita sobretudo de
imagens. Jesus foi aquele que por intermináveis trinta anos não disse uma palavra, mas ficou

4
A Parete Gaudenziana é a parede que divide pela metade a Igreja de Santa Maria das Graças que se encontra
no vilarejo de Varallo Sesia no Piemonte. Trata-se de um elemento típico da arquitetura franciscana da segunda
metade dos anos 400, que tinha o objetivo de introduzir o fiel ao mistério de Cristo "recontando" a vida de Jesus.
O enorme afresco realizado pelo artista Gaudenzio Ferrari é um clássico exemplo de arte a serviço da fé. O fiel,
entrando na Igreja encontra à sua frente os relatos dos Evangelhos, as várias cenas que descrevem os principais
episódios da vida de Cristo, com particular atenção aos momentos da paixão. De grande impacto é a
representação da cena da crucificação, que é colocado acima do altar maior onde se celebra o grande banquete
que lembra a ressurreição de Cristo (POMI, 2012).
16

imerso – utilizo uma expressão figurada – em banho-maria no imaginário do seu povo..."5.


Continua mais à frente:

Narração e imagem, portanto, iluminam-se reciprocamente. As


imagens preciosas que muitas vezes acompanham a narração evangélica
possuem uma função complementar: de fato, as imagens se entrelaçam com a
trama da narração, colocando em movimento a fantasia com o relato.
Pensemos nas maravilhosas Anunciações ou nas pungentes retratações da
Cruz... Porém, enquanto a palavra narrada pede o compromisso da resposta, a
imagem retratada cativa a responder com a liberdade de coração. E abre
vislumbres de futuro à vida e ao mundo. (in LA PARETE..., 2013) 6

Essa é uma parte importante deste trabalho: as imagens podem ser um excelente
veículo de transmissão da nossa fé, "bombas" capazes de escancarar os corações mais
indiferentes. Por isso, podem ajudar muito na evangelização daqueles que têm mais
dificuldades em assimilar os conceitos fundamentais da nossa fé. Quanto mais capazes de
mostrar a beleza da entrega do homem Jesus no meio dos outros homens e de mostrar o
caminho de beleza que qualquer homem ou mulher pode aceitar fazer, mais eficazes as
imagens serão.

Por último, para auxiliar na ação catequética, desenvolvemos uma proposta de


percurso com vinte imagens, cada uma com um tema específico da nossa fé. Proposta que
trilha o caminho do Credo Apostólico auxiliada pela aliança entre o relato evangélico e as
imagens. Cada imagem é acompanhada por um suporte iconográfico, que se coloca a serviço
do educador. Trata-se de uma entre as muitas outras sínteses que podem ser feitas com a
Palavra de Deus e com inúmeras imagens, tanto com aquelas que o patrimônio da Igreja já
possui quanto com aquelas que ainda podem ser realizadas.

5
"Perché per raccontare c'è bisogno dell'immagine? Perchè il racconto è fatto soprattutto di immagini. Gesù è
stato colui che per trenta interminabili anni non ha detto una parola, ma si é immerso, uso questa espressione
ardita, a bagnomaria nell'immaginario del suo popolo..."
6
"Racconto e immagine dunque s'illuminano reciprocamente. Le immagini preziose che accompagnano sovente
la narrazione evangelica hanno la funzione complementare: infatti, le immagini s'intrecciano con la trama della
narrazione mettendo in moto la fantasia con il racconto. Si pensi alle stupende Annunciazioni o alle struggenti
raffigurazioni della Croce... Mentre, però, la parola narrata chiede l'impegno della risposta, l'immagine
raffigurata avvince per rispondere con la libertà di cuore. E apre squarci di futuro alla vita e al mondo."
17

1. POR QUE UM NOVO CATECISMO COM AS IMAGENS

1.1 A MENSAGEM DE JESUS É PARA TODOS

O Evangelho é uma lição de vida. Nós, cristãos, estamos nas nossas comunidades
porque fomos atraídos por essa lição. Ficamos atraídos pela Palavra de Jesus que lemos nos
Evangelhos que foram escritos para todos os homens e mulheres. Não estamos frente a uma
mensagem lançada somente para os melhores ou para os eleitos, os preferidos, os inteligentes,
os potentes. Trata-se de um convite que pode ser abraçado, como fala o próprio Jesus, seja por
aquele que tem cem talentos, seja por aquele que tem somente um. O importante é colocar-se
a caminho com aquilo que se tem. Na criação, Deus colocou no coração das pessoas a
capacidade de entendê-lo e vivê-lo plenamente, independentemente das capacidades de cada
um. Talvez aquele que tem menos instrumentos precise encontrar uma comunidade
acolhedora, que se torne família e que saiba ajudá-lo a viver essa lição. Então, podemos
propor a mensagem de Jesus a qualquer um; o anúncio dele é universal. Todos podem aderir:
o rico que acredita ser abençoado na vida por Deus; aquele que se acha pecador e está jogado
debaixo de uma ponte; mas também uma criança, um jovem, uma família. Se essa adesão não
permanecer superficial, será um sim que compromete profundamente a própria vida.

Não se trata de uma proposta de vida para se tornar perfeito ou melhor que Jesus, mas
para viver qualquer situação da vida com Jesus. Ninguém pode ser melhor que Jesus. Ele veio
ao mundo para mostrar o rosto do Pai. Foi o mesmo Cristo que se referiu a Deus como Pai,
paizinho, tornando-o um Deus carinhoso, bem próximo das nossas necessidades. Essa
maneira de se relacionar com o divino eliminou as distâncias: não estamos mais longe dele.
Por isso, a Igreja nas orações comunitárias reza pelo menos três vezes por dia a oração do Pai-
Nosso. Quando falamos do centro do coração a palavra "nosso", os cristãos sãos chamados a
sentir profundamente essa proximidade, sentindo que o Pai amado não tem medo das nossas
fraquezas e, principalmente, que temos um Pai comum a todos os homens e mulheres que
agora estão e que já passaram pela nossa terra. Todos podem chamá-lo de Pai Nosso, palavras
que nos unem à divindade e a toda a sua criação. A palavra "Nosso" não quer fazer uma
separação egoísta de exclusão entre os homens, dividi-los entre bons e maus, crentes ou não
crentes, pobres ou ricos, justos ou pecadores; e sim iluminar os corações com a luz que
ilumina essa união universal da humanidade. No amor infinito de Deus, não poderia ser
diferente.
18

Deus não quer que nos tornemos escravos dele, por isso nos fez livres. Não quer
obrigar ninguém a amá-lo. Convida-nos a caminhar com Ele para mostrar o quanto é bonito
estar com Ele e entrar em um caminho de transformação do coração. Transformar o coração
para que a bondade, a luz e a misericórdia de Deus mudem a maneira de encarar a vida. Deus
nos criou para alcançarmos a felicidade, e não para nos usar. Somos o fruto de um amor
transbordante. Às vezes, a nossa maneira de ver a felicidade não coincide com a maneira do
Deus de amor que se doa, e por isso perdemos o rumo. A felicidade que Ele pensou para nós é
aquela que não exclui os problemas e as dificuldades da vida, mas que os enfrenta para vivê-
los como imitação do próprio Cristo. O amor de Deus nos convida continuamente a não tomar
atalhos que parecem caminhos mais rápidos e menos cansativos. O papa Francisco, na
contextualização da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, cujo objetivo é animar ao
anúncio do Evangelho no mundo atual, exprime muito bem o que significa entrar nesse atalho
proposto pela sociedade na qual vivemos:

Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer


ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros,
nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma
responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar
anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo
que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de
possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de
forma alguma. (FRANCISCO, 2013, § 54)

Em um mundo onde:

O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de


consumo que se pode usar e depois lançar fora... fere-se, na própria raiz, a
pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou
sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são "explorados", mas
resíduos, "sobras". (FRANCISCO, 2014, § 53)

Diferentemente dessa cultura do descartável, para os cristãos não existe nenhuma


pessoa que não mereça viver plenamente a própria dignidade, que é dom de Deus. Por isso, o
padre jesuíta Georg Sporschill7, que sempre achou mais interessante ir até aqueles que este
sistema descarta, costuma dizer: "Acredito que não haja nenhum 'caso perdido'... Cada um,

7
Padre Georg Sporschill, jesuíta austríaco, grande amigo do cardeal Carlo Maria Martini. Desde 1991 trabalha
com meninos de rua e desemparados de Bucareste. Logo depois da queda da ditatura comunista de Nicolae
Ceauşescu, esses meninos fugiram dos orfanatos, refugiando-se nos esgotos da cidade. Padre Georg liderou por
muitos anos a pastoral que cuida deles, criando novos organismos sociais para acolhê-los e tirá-los da rua. Hoje,
está empenhado em ajudar os ciganos da província da Transilvânia, abandonados por todos os lados.
19

mesmo aquele que assumiu um estilo de vida contrário a Deus e por isso contrário ao próprio
bem, tem o direito de ter a sua chance" (SCIAMPLICOTTI, 2014)8.

O Diretório Nacional de Catequese (DNC) redigido pela Conferência Episcopal dos


Bispos do Brasil (CNBB) nos lembra que existe um "direito do fiel e da comunidade à
catequese". A catequese é um direito de todos os homens e mulheres que se sentem atraídos
pelas palavras de Deus:

Jesus, em seu ministério, proclama ter sido enviado para anunciar aos
pobres a Boa-Nova (cf. Is 61,1-5; Lc 4,18-19), dando a entender e
confirmando-o depois com sua vida que o Reino é destinado a todos os
povos, a partir dos menos favorecidos. Ele se dirige a grandes e pequenos, a
homens e mulheres, a ricos e pobres, a sãos e doentes, a próximos e distantes,
a judeus e gentios, a justos e pecadores, ao povo e às autoridades, aos
indivíduos e grupos. Convida seus discípulos a fazerem o mesmo. (CNBB,
2005, § 177)

Então é um direito de todos e não somente de poucos que parecem ter mais
entendimento! É claro que essa "mensagem de libertação" está nas mãos daqueles que tiveram
a graça de entendê-la, mas também estes são chamados, como os discípulos fortificados pelo
Espírito Santo no dia de Pentecostes, a ser os facilitadores para que a Boa-Nova possa fazer
sentido na vida de quem não possui as ferramentas para chegar a um pleno entendimento da
mensagem evangélica. De acordo com o Diretório Geral para a Catequese (DGC):

A Boa-Nova do Reino de Deus, que anuncia a salvação, inclui uma


'mensagem de libertação'. Ao anunciar este Reino, Jesus se dirigia de maneira
particularíssima aos pobres: 'Bem-aventurados vós, os pobres...' (Lc 6,20-21).
Estas bem-aventuranças de Jesus, dirigidas àqueles que sofrem, são o anúncio
escatológico da salvação que o Reino traz consigo. Elas registram aquela
experiência tão dilacerante, à qual o Evangelho é tão sensível: a pobreza, a
fome e o sofrimento da humanidade. (CONGREGAÇÃO PARA O CLERO,
1997, § 103)

Os antigos conselhos eram principalmente proibições: não roubar, não matar, não
desejar a mulher do próximo... Já as bem-aventuranças vão além de não fazer algo. Elas
dizem como vestir algumas atitudes de amor, que Jesus diretamente nos ensina com a sua vida
e que vão converter o coração dos homens. Os discípulos são chamados para que esta
mensagem possa chegar a todos, especialmente aos mais humildes, que conhecem melhor o
sofrimento do mundo. De acordo com o Documento de Aparecida, redigido pelo Conselho
Episcopal Latino-Americano (CELAM):

8
"Credo che non ci sia nessun 'caso perso'... Ognuno, anche chi ha assunto uno stile di vita contrario a Dio e
quindi al proprio stesso bene, ha diritto alla sua chance."
20

Iluminados pelo Cristo, o sofrimento, a injustiça e a cruz nos desafiam


a viver como Igreja samaritana (Lc 10,25-37), recordando que "a
evangelização vai unida sempre à promoção humana e à autêntica libertação
cristã". (CELAM, 2007, § 26)

Devemos ser puros de coração para nos abrirmos à bondade de Deus:

A missão do anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo tem destinação


universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência,
todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada
do humano pode lhe parecer estranho. (CELAM, 2007, § 380)

Jesus demostrou que, com a ajuda do Pai, podemos dizer não às tentações. O Novo
Testamento veio para ser a revolução de amor anunciada pelos antigos. Todos os cristãos são
chamados a viver esses novos mandamentos, uma Nova Aliança. Por isso, Jesus é chamado
de novo Adão, como se fosse uma nova fase da humanidade, uma nova e mais perfeita aliança
com Deus.

Ser homem e mulher da Nova Aliança significa ser um cristão discípulo desse Jesus
que nos está olhando. Que nos está dizendo que é possível. A presença dele na nossa vida tem
que ser evidente, tem que nos moldar nas decisões que tomaremos e na partilha com os nossos
irmãos. Quem vive Deus simplesmente como um cristão sabe viver, ele mesmo, como sinal
da presença de Deus, sacramento vivo que une a o céu e a terra. O Documento de Aparecida
resume assim os gestos que mostram a presença de Deus na vida dos homens:

A vivência pessoal e comunitária das bem-aventuranças, a


evangelização dos pobres, o conhecimento e cumprimento da vontade do Pai,
o martírio pela fé, o acesso de todos aos bens da criação, o perdão mútuo,
sincero e fraterno, aceitando e respeitando a riqueza da pluralidade e a luta
para não sucumbir à tentação e não ser escravo do mal. (CELAM, 2007, §
383)

O Filho de Deus, mesmo nos pedindo para ficar longe do mal, não nos pede para ficar
fora do mundo; ao contrário, nos pede para viver no mundo com uma postura diferente e
nova, fecundando-o e semeando a sua mensagem. A Igreja de Cristo está no mundo. O nosso
mundo, mesmo que pareça distante disto, é o mesmo onde caminhou Jesus.

Jesus oferece, a quem ainda não o conhece, algo pelo qual vale a pena viver. Além de
não serem excluídos do amor de Deus, os pobres são na verdade "os destinatários
privilegiados do Evangelho [...] Como pude evidenciar na Encíclica Deus Caritas Est, 'a
Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os
Sacramentos nem a Palavra'" (BENTO XVI, 2007).
21

A Igreja na sua história muitas vezes caiu na tentação de separar os bons dos maus, os
beneficiados pela graça do Senhor e os que não foram agraciados, o joio do trigo. Mas Jesus
não veio para fazer essa divisão, não faz essa separação:

Jesus saiu ao encontro de pessoas em situações muitos diferentes:


homens e mulheres, pobres e ricos, judeus e estrangeiros, justos e
pecadores... convidando-os a segui-lo. Hoje, continua convidando a encontrar
nEle o amor do Pai. Por isso mesmo, o discípulo missionário há de ser um
homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai,
especialmente para com os pobres e pecadores. (CELAM, 2007, § 147)

O que Ele faz quando vai procurar as ovelhas perdidas? Procura convencê-las de que a
vida que lhe é oferecida vale a pena ser vivida plenamente com Ele, e essa é a principal
missão do cristão. Quem somos nós para julgar quem pode ser amado por Deus e quem não
pode? Qual ovelha deve ser resgatada e qual não merece esse resgate? A misericórdia de Deus
vai além do que podemos imaginar. Isso teria que nos alegrar, porque temos certeza desse
amor infinito que não vai nos deixar sozinhos.

Jesus abriu para todos uma janela no céu, uma janela que mostra a beleza do paraíso,
porque Ele mesmo é o paraíso. A coisa mais bonita que podemos desejar para nós e para os
nossos irmãos é estar junto com Jesus no paraíso, e Ele nos dá a possibilidade de estar com
Ele já aqui na terra. Ele já antecipa esse paraíso prometido quando estamos com Ele. Já
estamos no paraíso. Qualquer tentativa de evangelização é caminho para aprender juntos a
estar com Ele.

Deus não criou uma pessoa para não ser amada, e ninguém pode se excluir sozinho
desse amor oferecido por Deus. Papa Francisco, nas primeiras páginas da exortação Evangelii
Gaudium, lembra que o convite de Jesus é para todos:

Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre,


a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo
menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a
dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não
lhe diz respeito, já que "da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído".
(FRANCISCO, 2014, § 3)

Todos os que nasceram merecem atenção e a misericórdia de Deus. A mensagem


evangélica é transmitida com insistência pela nossa vida para todos aqueles que nos
encontram, a partir do momento exato no qual aceitamos pessoalmente e comunitariamente
este desafio. Através do acolhimento, podemos convencer que é bem melhor seguir a lei do
amor do que afastar-se dela. Por isso, os pastores bispos reunidos em Aparecida convidaram
22

principalmente os pastores, os consagrados e as consagradas a transformar todos os espaços


de encontro da comunidade em:

lugares de anúncio explicito do Evangelho, principalmente aos mais


pobres [...] Desse modo, segundo seus carismas fundacionais, colaboram com
a gestação de uma nova geração de cristãos discípulos e missionários e de
uma sociedade onde se respeite a justiça e a dignidade da pessoa humana.
(CELAM, 2007, § 217)

Dessa possível e inteligente postura, ditada diretamente pela sabedoria do Evangelho,


podem nascer as esperanças para uma nova primavera na Igreja para o mundo.
23

1.2 CATECISMO: DIREITO DOS MAIS SIMPLES

De acordo com o DNC:

Opção preferencial pelos pobres: a Igreja redescobriu os pobres não


apenas como categoria sociológica, mas sobretudo teológica; considera-os
destinatários de sua missão e evangelizadores. Não se trata de um tema da
catequese, mas de uma perspectiva geral, que orienta concretamente
objetivos, sujeitos e destinatários, conteúdo, métodos, recursos e a própria
formação de catequistas. (CNBB, 2005, § 13, item l)

Todos estão convidados a compartilhar a alegria do Evangelho, afirma com força o


papa Francisco (2014, § 3); também "o Catecismo confirma: o ser humano pode chegar até
Deus ouvindo a mensagem da criação, e por isso toda pessoa humana é capaz de Deus."
(CNBB, 2005, § 19)

Papa Francisco (2013, § 14) cita a XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos
Bispos, que mergulhou no tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã,
frisando que "a nova evangelização interpela a todos". Ele relata principalmente três âmbitos
onde compartilhar essa alegria. Primeiro, na pastoral ordinária com as pessoas da
comunidade. Em segundo lugar, com as pessoas batizadas que não vivem as exigências do
Batismo, que "não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação
da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes
restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho." E, enfim, com
aqueles "que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram". Estes últimos podem
um dia voltar, mesmo que os pastores não estejam preparados, e não podem encontrar as
portas fechadas. Por isso, o Santo Padre insiste em afirmar o Evangelho para todos já
indicando o caminho de uma renovada maneira de evangelizar, não com palavras, mas pela
atração:

Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever


de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova
obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte
estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por
proselitismo, mas "por atração". (FRANCISCO, 2013, § 14)

Mas então como anunciar sem obrigar ninguém a se aproximar da verdade da nossa
fé? O que podemos fazer para convencer as pessoas de que é bom seguir os ensinamentos de
Jesus Cristo? Essa foi a pergunta feita ao padre jesuíta Georg Sporschill, empenhado há
muitos anos na acolhida dos meninos desamparados e dos ciganos da Romênia em Bucareste.
Ele respondeu assim:
24

Não podemos convencer ninguém a seguir-nos. Não podemos oferecer


comida a quem não está com fome; o importante é que em algum momento
esse homem, essa mulher ou essa criança saiba que, se começar a sentir fome,
a nossa comunidade está pronta e disponível para oferecer boa comida.
(Informação verbal)9

Seguindo essa metáfora da fome de Deus, quando alguém é tocado por dentro e
exprime o desejo de conhecer mais de perto Jesus, não pode encontrar as portas fechadas e ser
espantado pela comunidade. Ao contrário: deveria reconhecer na comunidade os traços do
amor de Deus que o atraiu. Quando alguém começa a estar com fome de algo que nunca
comeu, tem que se acostumar aos poucos com a nova comida, como já falou o apóstolo São
Paulo (1 Cor 3,1-9). A um recém-chegado não podemos dar tudo o que estamos acostumados
a comer, pois ele vai acabar se engasgando. É preciso introduzi-lo com respeito e carinho:
essa será uma demonstração de amor da comunidade para com ele; assim, ele se tornará a
nossa nova dádiva, a nova pérola que Deus doa para sua comunidade querida, qualquer que
seja a sua identidade.

É necessário, então, oferecer alimentos de fé e de catecismo mais "digeríveis" para


quem apresenta essas dificuldades. O Diretório Geral para a Catequese (DGC) sabiamente
permite articular metodologias que sejam construídas à medida das pessoas que batem às
nossas portas e que podem ser das mais diferentes. Neste trecho, a intenção é não engessar o
catecismo em um único método de transmissão da fé:

[...] a Igreja não possui um método próprio, nem um método único,


mas sim, à luz da pedagogia de Deus, discerne os métodos do tempo, assume
com liberdade de espírito "tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro,
amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor" (Fl 4,8),
em síntese, todos os elementos que não estão em contraste com o Evangelho,
e os coloca a serviço deste. Admirável confirmação disso encontra-se na
história da Igreja, onde tantos carismas de serviço da Palavra geraram
variados percursos metodológicos. (DGC, 1997, § 148)

O mesmo documento afirma que "a perfeita fidelidade à doutrina católica é compatível
com uma rica diversidade no modo de apresentá-la" (DGC, 1997, § 122).

Além de ser uma possibilidade reconhecida nos documentos da Igreja, deve se tornar
cada vez mais uma prática de respeito às pessoas que, sentindo-se atraídas, interessaram-se
em caminhar e conhecer os fundamentos da fé cristã, tomaram coragem e se apresentaram
com o espírito de quem quer aprender:

9
Afirmação obtida na palestra de lançamento do livro Chi salva una vita salva il mondo intero (Quem salva uma
vida salva o mundo inteiro), no dia 23 de outubro 2014, no Arsenal da Paz, em Turim, Itália (STIMIGLIANO, S.
Chi salva una vita salva il mondo intero. Edizioni San Paolo, 2014).
25

Desta forma, "a variedade dos métodos é um sinal de vida e uma


riqueza", e, ao mesmo tempo, uma demonstração de respeito pelos
destinatários. Tal variedade é exigida pela "idade e pelo desenvolvimento
intelectual dos cristãos, pelo seu grau de maturidade eclesial e espiritual e por
muitas outras circunstâncias pessoais". (DGC, 1997, § 148)

Qualquer que seja o grau de maturidade cultural, social e espiritual, a formação


catequética deveria sempre ter ingredientes que não podem se deixado de fora, questões
importantes e fundamentais para a fé cristã. O DGC nos lembra a importância da "articulação
tradicional em torno das quatro colunas que sustentam a transmissão da fé: símbolo,
sacramentos, decálogo e Pai Nosso." (DGC, 1997, § 122)

O próprio Catecismo da Igreja Católica (CIC), partindo do Credo, apresenta a


importância dos sacramentos, inserindo-os na perspectiva da economia da salvação, para
depois passar à questão dos conselhos evangélicos até chegar à necessidade da oração cristã.

A fórmula doutrinária do Credo é síntese e coluna da fé do cristão. O Ofício Divino da


Liturgia das Horas da quinta-feira da 31° semana do tempo comum, nos propõe uma
meditação de São Cirilo de Jerusalém que descrevia a importância do Credo para as pessoas
que não tinha uma proximidade com a Palavra de Deus e nem instrumentos adequados para a
sua interpretação:

Abraça, cuidadoso, unicamente a fé que agora a Igreja te entrega para


aprendê-la e confessá-la, protegida pelos muros de toda a Escritura. Já que
nem todos podem ler as Escrituras, uns por falta de preparo, outros por
qualquer ocupação que os impede de conhecê-la, para que não pereçam por
ignorância, encerramos nos poucos versículos do símbolo todo o dogma da
fé... Da forma como a semente de mostarda num pequenino grão contém
muitos ramos, assim este símbolo em poucas palavras encerra como num seio
materno o conhecimento de toda a religião contida no Antigo e no Novo
Testamento. (LITURGIA DAS HORAS, 1995)

Símbolo que se fundamenta a partir da Palavra, e por isso é importante também no


processo de transmissão da fé. Palavra

que ilumina nossa existência e continua sendo o caminho da


Revelação de Deus para nós hoje. Por isso, a fonte da evangelização e
catequese é a Palavra de Deus. A Igreja transmite e esclarece os fatos e
palavras da Revelação e, à sua luz, interpreta os sinais dos tempos e a nossa
vida nos quais se realiza o desígnio salvífico de Deus, para que "o mundo
ouvindo creia, crendo espere e esperando ame". (CNBB, 2005, § 25)

Deixar-se acompanhar em cada argumento proposto por um trecho do Evangelho


ajudará a não tomar caminhos extravagantes ou totalmente desviados.
26

Mantendo o Símbolo e a Palavra de Deus como coluna vertebral da catequese, não


queremos esquecer a necessidade de uma comunidade que é sempre acolhedora. A "iniciação
à vida de fé em comunidade: conforme a pedagogia de Deus, Ele se revela no dia-a-dia de
pessoas que vivem em comunidade" (CNBB, 2005, § 13). Trata-se de uma acolhida que é
papel não somente do acompanhador do processo educativo, mas de cada componente da
comunidade acolhedora. O recém-chegado não pode permanecer um desconhecido; ao
contrário, deve ser introduzido delicadamente e com sabedoria no processo de comunhão.
Aceitar o recém-chegado na comunidade, sem medo de perder o próprio espaço, é um dos
gestos mais importantes em uma comunidade de fé. Desejar que cada vez mais pessoas
possam compartilhar da mesma fé deveria deixar as portas das nossas igrejas cada vez mais
abertas. No caminho introdutivo doutrinário, os catecúmenos devem ser introduzidos com
carinho e cuidado nos encontros comunitários, nas liturgias que envolvem os irmãos, nas
questões pastorais onde pode ser útil. É aí que ele pode identificar a beleza que aprendeu nos
encontros de formação. "Por isso, o lugar ou ambiente normal da catequese é a comunidade
eclesial. Onde há uma verdadeira comunidade cristã, ela se torna uma fonte viva da catequese,
pois a fé não é uma teoria, mas uma realidade vivida pelos membros da comunidade" (CNBB,
2005, § 52). Gradualmente, ele deve sentir que está fazendo parte. Por isso, para ensinar e
introduzir um homem ou uma mulher à vida cristã, ele não pode ser relegado somente a um
ensino doutrinal, mas precisa do encontro e da ajuda de toda uma comunidade envolvida no
processo de formação. O DNC deixa claro que é preciso fazer um salto de qualidade:

Catequese como processo de iniciação à vida de fé: é o deslocamento


de uma catequese simplesmente doutrinal para um modelo mais experiencial,
e da catequese das crianças para a catequese com adultos. Tanto a dimensão
doutrinal como a da experiência estão integradas no processo de tornar-se
discípulo de Jesus. (CNBB, 2005, § 13)10

10
Características do documento da CNBB Catequese Renovada (1983).
27

2. A IMPORTÂNCIA DAS IMAGENS PARA A TRANSMISSÃO DA FÉ

Para transmitir conteúdos, a imagem é certamente mais eficaz que a palavra


enunciada. Se esta afirmação é verdadeira de maneira geral, adquire ainda mais valor quando
falamos de transmissão dos conteúdos da mensagem de fé. Como nos lembrou o então
presidente da comissão especial de preparação do Compêndio do Catecismo da Igreja
Católica, Joseph Ratzinger, individualizando na utilização das imagens umas das principais
características da obra:

A terceira característica reside nas imagens [...]. Provêm do riquíssimo


património da iconografia cristã. A tradição secular e conciliar diz-nos que
também a imagem é pregação evangélica. Os artistas de todos os tempos
apresentaram à contemplação e à admiração dos fiéis os factos salientes do
mistério da salvação, no esplendor da cor e na perfeição da beleza. Indício de
que, hoje mais do que nunca, na época da imagem, a imagem sagrada pode
exprimir muito mais que a palavra, pois é muito mais eficaz o seu dinamismo
de comunicação e de transmissão da mensagem evangélica. (COMPÊNDIO,
Introdução, § 5)

Desde sempre foi claro esse potencial, e, ao longo dos séculos, a Igreja utilizou de
maneiras diferentes a arte a serviço do povo de Deus. Como escreve padre Bernard Ardura,
secretário do Pontifício Conselho para a Cultura de 1997 a 2010: "Visto que não existe uma
arte específica da Igreja [...], a Igreja aceita a arte dos povos para o serviço do Culto,
convencida de que a arte é o caminho privilegiado para encontrar Deus" (apud BAROFFIO,
1995 p. 13)11. Sobretudo na Idade Média, as igrejas se tornaram lugares onde quem não sabia
ler podia ver pintadas as histórias da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Só
recentemente a leitura e o entendimento são direitos de todos; antigamente, eram
pouquíssimos aqueles que sabiam ler e que tinham tempo de filosofar. Nos antigos mosteiros,
os monges copistas permitiram que não se perdesse nada das palavras das Sagradas
Escrituras, mas também poucos deles sabiam ler e entendiam o que estavam copiando. Não
foi necessário muito tempo para que as primeiras comunidades cristãs utilizassem as imagens
para aproximá-los da própria fé. As igrejas tornaram-se as "Bíblias pintadas" dos analfabetos
e dos mais humildes; mas, sobretudo, tornaram-se a maneira mais convincente que a
comunidade tinha para repassar a crença da Igreja. Era direito também dos mais simples
conhecer as promessas do Cristo. Ainda hoje, as igrejas podem oferecer uma leitura única das
histórias evangélicas. Cláudio Pastro descreve a força da sua imensa obra iconográfica no
Santuário Nacional de Aparecida: "Trinta e quatro painéis, em azulejos, escrevem em

11
"Poiché non esiste una specifica arte della Chiesa [...] la Chiesa accetta l'arte dei popoli per il servizio del
Culto, convinta che l'arte è la strada privilegiata per incontrare Dio."
28

desenhos os Evangelhos de Jesus. Temos aí a Palavra de Deus, em forma e cor, que arrebata
cada fiel em contato com 'o fato e a pessoa de Jesus' para depois racionalmente melhor
compreender a cena" (in APARECIDA, 2013, p. 8).

A importância da imagem no mundo de hoje perdeu sua força. Estamos


sobrecarregados de imagens. É sempre mais fácil ter conosco as fotos dos nossos amigos, dos
nossos parentes, dos nossos filhos para podermos lembrar deles. Também colocamos as
nossas fotos nas redes sociais esperando que alguém possa pensar em nós. As fotos nos
ajudam a fazer-nos presentes e a sentir a presença de outros, mesmo de quem está longe ou
não está mais conosco. Os cristãos desde a antiguidade utilizaram as imagens para ficar mais
perto de Jesus, para não esquecer, para não ficar sozinhos, para entender melhor a própria fé.

A imagem é importante porque faz parte da nossa vida. Tudo o que vemos não é o que
vemos, mas a nossa interpretação do que estamos vendo. Isso aparece de forma clara quando
diferentes pessoas fazem o exercício de descrever a mesma cena: com certeza, teremos
imagens diferentes, mesmo assistindo ao mesmo acontecimento. Hoje é impossível pensar a
nossa sociedade sem imagens; isso já era verdade nos tempos antigos, quando os homens
tinham as próprias idealizações e as próprias imagens formadas, mas hoje isso acontece de
maneira ainda mais evidente e confusa. Hoje é normal caminhar na rua com uma imagem na
camiseta ou com brincos e anéis. Na maioria das vezes, essas "imagens" estão em nós
somente porque gostamos visivelmente delas, mesmo quando não sabemos ou não nos
preocupamos com seu significado; podemos até usar uma camiseta com um palavrão ou uma
bobagem escrita em um idioma desconhecido, e isso parece não ser problema nosso. Isso não
era possível em épocas passadas. A imagem tinha o valor de pertença ou de crença, algo que
hoje parece ser "líquido" (BAUMAN, 2004): hoje pertenço, amanhã não sei, talvez pela
metade. A imagem esvaziou-se de significados, mas ainda tem um poder enorme de
influenciar as decisões da nossa vida. Perdido o sentido de pertença, hoje as imagens nos
invadiram de formas boas e ruins. Mesmo achando que sim, o homem não pode viver sem
imagens. Uma televisão sem imagens seria um rádio; mas, mesmo assim, o rádio fala
lembrando e suscitando imagens na nossa cabeça. Imaginem a internet sem imagens: perderia
todo o seu valor e o seu poder de atrair e servir às pessoas. Pensem nas revoluções do cinema,
do smartphone, da publicidade, da fotografia etc.

Temos hoje o dever e a necessidade de voltar a propor o valor da imagem como a


Igreja sempre a pensou: como instrumento capaz de dialogar com as pessoas e de abrir
29

caminhos novos. O arcebispo de Turim, monsenhor Cesare Nosiglia, na sua última Carta
Pastoral (2014-2015), relata a própria preocupação em encontrar formas novas para eliminar
ou minimizar as dificuldades que atrapalham ou sufocam a transmissão da mensagem
evangélica, evitando que ela seja erradicada do coração das pessoas. Ele pede e deseja que o
povo de Deus – de maneira particular os catequistas e todos os transmissores da fé – faça uma
nova releitura da sociedade e um esforço para encontrar a maneira para atrair. Assim escreve
ele, no capítulo que se refere à iniciação cristã:

É cada vez mais urgente, todavia, procurar caminhos e modalidades de


uma nova eficaz inculturação da fé, assim como em muitas outras épocas
históricas a Igreja fez por meio de linguagens, formas expressivas,
testemunhos, sinais e experiências adequadas para falar com imediatismo aos
homens do próprio tempo. (NOSIGLIA, 2014, § 8)12

Em outro trecho da mesma carta pastoral, ele fala da necessidade, se realmente


queremos amar as pessoas e apresentar Jesus a elas, de identificar "aquelas aberturas através
das quais é possível fazer emergir as grandes perguntas de sentido, a procura pela verdade, as
questões decisivas da vida que interessam profundamente a qualquer pessoa" (NOSIGLIA,
2014, § 8)13. É isso que estamos tentando apresentar nesta iniciação cristã: as imagens como
"varchi", aberturas introdutórias para alcançar o nosso objetivo de introduzir os elementos da
fé no coração dos mais simples. Por isso, as imagens são instrumentos importantes para esta
metodologia, sem querer torná-las as protagonistas: elas não são o centro e não pretendem sê-
lo em momento algum.

Padre Ardura nos explica bem essa afirmação, quando fala da utilização da arte nos
mosteiros medievais:

A arte que no paganismo antigo assumia uma função sacra e um poder


mágico foi fecundada e purificada pela fé cristã, para a qual existe um único
absoluto: o Evangelho da salvação. Por isso, nos mosteiros medievais, a arte,
promovida fortemente nas suas diversas formas, nunca é considerada um
absoluto, mas um meio muito adequado para exprimir o mistério divino,
suscitar uma resposta do coração humano, levar o homem ao encontro
pessoal com o invisível, com Deus. (apud BAROFFIO, 1995, p. 13)14

12
"È sempre più urgente tuttavia ricercare vie e modalità di una nuova efficace inculturazione della fede, così
come in tante altre epoche storiche ha fatto la Chiesa attraverso linguaggi, forme espressive, testimonianze, segni
ed esperienze idonee a parlare con immediatezza agli uomini del proprio tempo."
13
"quei varchi attraverso cui è possibile far emergere le grandi domande di senso, la ricerca della verità, le
questioni decisive della vita che interessano nel profondo ogni persona."
14
"L'arte che nel paganesimo antico assumeva una funzione sacra e un potere magico, é stata fecondata e
purificata dalla fede cristiana, per la quale c'è un unico assoluto: il Vangelo della salvezza. Quindi nei monasteri
medievali l'arte, così fortemente promossa nelle sue diverse forme, non viene mai considerata un'assoluto, ma
30

Ardura continua o seu pensamento colocando a pesquisa iconográfica como


instrumento necessário e fundamental que não pode ser eliminado da vida do homem: "Uma
luta pela imortalidade, que supera o nível do 'útil' para prosseguir com o encontro com o ser
das coisas, com o seu significado último" (apud BAROFFIO, 1995 p. 13)15. João Paulo II
tinha a mesma opinião, quando falava dos ícones:

O ícone não é então apenas obra de arte pictórica. Ele é, num certo
sentido, como que um sacramento da vida cristã, porque nele se faz presente
o mistério da Encarnação. Nele se reflete, de modo sempre novo, o Mistério
do Verbo feito carne, e o homem – autor e, ao mesmo tempo, partícipe –
alegra-se com a visibilidade do Invisível. (JOÃO PAULO II, 1994, § 4)

A palavra italiana "varchi", utilizada pelo arcebispo de Turim, pode ser traduzida por
muitos sinônimos: aberturas, acessos, portas, caminhos. São todas palavras que nos ajudam a
identificar uma passagem que cada pessoa que se coloca à frente da imagem sacra é chamado
a fazer. Mesmo com as dificuldades iniciais, no nosso caso as imagens podem ser definidas
como verdadeiras "bombas de beleza", de fácil entendimento, que, além de apresentar janelas
para entrar em um mundo até então novo e desconhecido, devem poder derrubar muros,
escancarar portas fechadas, abrir novos caminhos na vida das pessoas. Bento XVI (2009)
explicava qual era o sentido destas "bombas de beleza": "o que pode voltar a dar entusiasmo e
confiança, o que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o caminho, a elevar o olhar
para o horizonte, a sonhar uma vida digna da sua vocação, a não ser a beleza?". Dom
Raymundo Damasceno Assis, Cardeal-Arcebispo de Aparecida, e dom Darci José Nicioli,
CSsR, Bispo-Auxiliar de Aparecida, tinham bem claro este poder da beleza: "A beleza nos
aproxima da Beleza, Jesus Cristo" (in APARECIDA, 2013, p. 5).

Para Cláudio Pastro, a arte sacra não pode ficar superficial, mas deve necessariamente
levar o homem a uma teofania. As igrejas devem tornar a ser lugares onde Deus se revela à
humanidade sem rumo, que precisa de indicações e tem que contar com o amor de Deus.

A arte, a imagem, é a única linguagem universal do homem. [...] A


atenção para com esse espaço teofânico (onde o próprio Senhor toma a
iniciativa e se manifesta) faz com que nada aí seja colocado aleatoriamente.
Nesse espaço simbólico, um traço, uma cor, um objeto, um tijolo... serve ao
Senhor que aí se revela. (in APARECIDA, 2013, p. 8)

come um mezzo adattissimo ad esprimere il mistero divino, suscitare una risposta del cuore humano, portare
l'uomo all'incontro personale con l'invisibile, con Dio."
15
"una lotta per l'immortalità, che supera il livello dell''utile' per procedere com l'incontro con l'essere delle cose,
il loro significato ultimo."
31

Praticamente, a arte torna-se elemento eficaz para levar aos homens, mesmos aos mais
simples, a beleza do Evangelho, que se torna cada vez mais o objetivo de cada cristão, como
nos lembra o papa Francisco na Evangelii Gaudium:

Quando se consegue exprimir, de forma adequada e bela, o conteúdo


essencial do Evangelho, de certeza que essa mensagem fala aos anseios mais
profundos do coração: "O missionário está convencido de que existe já, nas
pessoas e nos povos, pela ação do Espírito, uma ânsia – mesmo se
inconsciente – de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho
que conduz à liberação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio
de Cristo deriva da convicção de responder a tal ânsia". (FRANCISCO, 2014,
§ 265)

É por isso que Antonio Paolucci (in ZAGNOLI, 2009), diretor dos Museus do
Vaticano, não tem medo de definir a Capela Sistina como livro pintado de catecismo:
"Esquecemos principalmente que a [Capela] Sistina é um livro; um livro de teologia, de
catequese, de fé, no qual nada é deixado à imprevisibilidade do gênio, no qual tudo é colocado
com coerência iconográfica absoluta"16. Maria Antonietta Crippa (in BAROFFIO, 1995, p.
122) nos lembra a famosa citação do papa Gregorio Magno: "As imagens, pictura quasi
scriptura, devem ser utilizadas como símbolos do alfabeto para poder encontrar os sagrados
mistérios"17.

"O ícone é belo, logo torna belos" (BRAGANTINI, 2008, p.13). Quando somos
atingidos por essas "bombas de beleza", nos tornamos belos, mesmo que apenas por um
momento, mesmo que não o percebamos. Devemos deixar-nos explodir por dentro para que a
beleza que está em nós, aquela que Deus colocou no ato da criação, possa ser despertada.
Descobriremos, então, que nós somos belos e que tudo o que é belo foi feito para nós. "Pinta-
se para ficar bonito, para deixar transparecer a beleza, e o que é o belo para um crente senão
as grandes obras que Deus fez para nós? Diante de um ícone, de uma parede, de uma folha, o
crente 'vê e escuta'" (BRAGANTINI, 2008, p. 13). Esse é o desafio deste método: parar diante
de uma imagem que nos remete a algo maior e tentar escutar alguma coisa que vem de dentro
de nós.

16
"Si dimentica soprattutto che la Sistina é un libro; un libro di teologia, di catechesi, di fede, dove nulla é
lasciato alla imprevedibilità del genio, dove tutto si tiene com coerenza iconografica assoluta."
17
"Le immagini, pictura quasi scriptura, devono essere utilizzate come segni dell'alfabeto per poter trovare i
sacri misteri."
32

3. PROPOSTA DE UMA METODOLOGIA COM A UTILIZAÇÃO DAS


IMAGENS E DA PALAVRA DE DEUS

3.1 OBJETIVO CATEQUÉTICO

O objetivo deste catecismo é entrar nos fundamentos da fé proclamada pelos cristãos e


tentar, com o auxílio das imagens, entender melhor o que significa aceitá-la e praticá-la na
vida do dia a dia. Cada encontro está acompanhado por uma imagem que ajuda o grupo a
mergulhar, discutir e aprofundar um tema importante para a nossa vida na comunidade.

Seguindo o Diretório Nacional de Catequese podemos individuar os objetivos


principais da formação catequética. O primeiro objetivo é o conhecimento da fé: "a catequese
introduz o cristão no conhecimento do próprio Jesus, das Escrituras Sagradas, da Igreja, da
Tradição e das fórmulas da fé, particularmente do Credo Apostólico" (CNBB, 2005, § 53). O
curso não pretende repassar tudo o que se conhece sobre a fé, mas quer ser uma introdução,
um estimular o desejo de uma contínua formação cristã. Outro objetivo é a iniciação
litúrgica: "É tarefa da catequese introduzir no significado e participação ativa, interna e
externa, consciente, plena e frutuosa dos mistérios (sacramentos), celebrações, sinais,
símbolos, ritos, orações e outras formas litúrgicas" (CNBB, 2005, § 53). Quer oferecer as
bases para conhecer, entender e receber os sacramentos, mas também introduzir o catecúmeno
na beleza da vida litúrgica guiada pela Igreja, sem deixar de lado a questão da formação
moral, especialmente quando temos à nossa frente pessoas que passaram por dificuldades no
passado ou que estão ainda mergulhadas nelas:

[...] uma tarefa importante da catequese é educar a consciência,


atitudes, espírito e projeto de vida segundo Jesus. As bem-aventuranças e os
mandamentos, lidos e praticados à luz do Evangelho, e com suas
consequências éticas e morais, tanto pessoais como sociais, fazem parte do
conteúdo essencial da educação para as atitudes cristãs, como discípulos e
discípulas de Jesus Cristo. (CNBB, 2005, § 53)

Essa introdução oferece um ponto de vista diferente, que ajuda a enxergar o mundo
com os parâmetros da lógica de Deus, que tem o olhar do amor, aquele herdado pelo Bom
Samaritano. Oferece ao catecúmeno o gosto da beleza da nossa fé, aquele gosto que marca o
coração, para permanecer pela vida toda, mesmo nos momento de tempestade, na presença de
Deus, atualizando a cada momento a vida de oração: "cabe à catequese ensinar a rezar por,
com e em Cristo, com os mesmos sentimentos e disposições com os quais Ele se dirige ao Pai:
adoração, louvor, agradecimento, confiança, súplica, contemplação. O Pai-Nosso é o modelo
acabado da oração cristã" (CNBB, 2005, § 53). Aquele que sabe rezar o Pai-Nosso sabe que
33

naquele termo "nosso" está a humanidade inteira, os irmãos, mesmo aqueles que não
conhecemos ou que nos odeiam.

Como já foi dito no capítulo precedente, o curso, pela sua natureza, não pode existir
desvinculado da comunidade onde está sendo ministrado; não se trata de um curso
universitário onde o aluno aprende os conteúdos e depois de um percurso de provas recebe o
certificado e vai embora. Participar desse curso significa "fazer parte", por um tempo limitado
ou para sempre, de uma comunidade. Insistimos no argumento de que é a comunidade que
deve oferecer, para quem partilha o curso, não somente momentos de formação, mas também
oportunidade de ser introduzido nas práticas da caridade, do voluntariado e na celebração da
liturgia comunitária, que estão na base da vida de um cristão. Deve ser bem claro para quem
participa dessa formação que quem pretende seguir Jesus Cristo não pode fazer isso fora de
uma vida comunitária: "se a fé pode ser vivida em plenitude somente dentro da comunidade
eclesial, é necessário que a catequese cuide com carinho dessa dimensão" (CNBB, 2005, §
53).

Atitude, oração, doar-se aos irmãos, para ser sinal de esperança e de paz. Nesse curso
vamos aprender o necessário para que essa atitude tenha uma base sólida, para que a prática
não fique descolada da teoria, para que uma possa dar sentido à outra. Os primeiros "cartões
de visita" do cristianismo e da comunidade cristã para com os catecúmenos são os próprios
catequistas. São fundamental o amor e a dedicação deles ao acolhê-los:

A catequese é um dos meios pelos quais Deus continua hoje a se


manifestar às pessoas. Ela atualiza a Revelação acontecida no passado. O
catequista experimenta a Palavra de Deus em sua boca, à medida que,
servindo-se da Sagrada Escritura e dos ensinamentos da Igreja, vivendo e
testemunhando sua fé na comunidade e no mundo, transmite para seus irmãos
essa experiência de Deus. [...] Ele é também um profeta, pois faz ecoar a
Palavra de Deus na comunidade, tornando-a compreensível. Catequese (katá-
ekhein, em grego) significa ressoar; a Igreja dá-lhe o sentido de ressoar a
Palavra de Deus hoje. (CNBB, 2005, § 27)

Já escrevemos que ninguém pode ser cristão sozinho, nem um eremita. Se ele, isolado,
esquece os outros e não reza pelo bem da humanidade, não está cumprindo o mandamento de
amar os outros como a si mesmo; mesmo na sua santidade e no seu ascetismo doado a Deus,
permanecerá cristão pela metade. Jesus nos falou que é seu discípulo verdadeiro somente
aquele que doa a própria vida pelo irmão. Trata-se de exaltar a dimensão do testemunho – "a
missão do cristão é levar, à sociedade de hoje, a certeza de que a verdade sobre o ser humano
só se revela plenamente no mistério do Verbo encarnado" (CNBB, 2005, § 53) – e também a
34

da missão – "o verdadeiro discípulo de Jesus é missionário do Reino. 'As comunidades


eclesiais tenham viva consciência de que 'aquilo que uma vez foi pregado pelo Senhor' deve
ser proclamado e espalhado até os confins da terra'" (CNBB, 2005, § 53). Ser cristão significa
também conhecer o mundo que procuramos viver dignamente, o mundo do dia a dia, com os
seus problemas que nos envolvem diretamente e com aqueles em terras distantes, que não
podem não nos deixar indiferentes porque são parte da nossa humanidade. Não existe curso de
catecismo, sobretudo de adultos, que não deixe de interrogar as dúvidas e os problemas do
mundo.

Em síntese, o objetivo deste curso, além do de aprender a ler as imagens que se


encontram nas nossas igrejas, será o de entender bem em qual Jesus a Igreja católica acredita.
O nosso Credo. Isso para poder ter claro o que significa fazer parte do Povo de Deus. Homens
e mulheres, diferentes entre eles, que aceitaram a proposta de Jesus e que entenderam a
necessidade de proclamar a mesma fé e de tentar vivê-la.
35

3.2 METODOLOGIA

Partindo sempre da certeza de que "o eixo central do Catecismo da Igreja Católica é
Jesus Cristo,' ...o Caminho, a Verdade e a Vida' (Jo 14,6)" (DGC, 1997, 123), o nosso ponto
de partida, a coluna vertebral deste curso é o Credo da Igreja católica e a Palavra de Deus
onde conhecemos Jesus. Assim nos lembra o capítulo da Regra do Sermig - Fraternidade da
Esperança intitulado Il Vangelo nostra regola: "O Evangelho é a nossa regra de vida porque
nos comunica Jesus. Aprendemos assim a rezar como Ele rezava, a agir como Ele agia, a ter
os mesmos sentimentos que Ele tinha. Jesus é o Senhor da nossa vida e procuramos
transformar a nossa vida na Dele" (OLIVERO, 2013, p. 34) 18.

O CIC será um guia precioso para valorizar esses instrumentos. Mas, antes de tudo, é
importante esclarecer uma premissa: esta proposta de Iniciação Cristã não quer de jeito
nenhum se apresentar como um pacote fechado, um catecismo já pronto para o uso, e sim
como um método que pretende chegar a todos aqueles que encontraram ou reencontraram as
forças para se aproximar do mistério da nossa fé. Ninguém pode ser deixado de fora quando
manifesta o desejo de entender melhor o que significa ser cristão, o desejo natural de conhecer
Jesus Cristo. Este é um convite importante feito a todos pelo papa Francisco:

Para partilhar a vida com a gente e dar-nos generosamente,


precisamos de reconhecer também que cada pessoa é digna da nossa
dedicação. E não pelo seu aspecto físico, suas capacidades, sua linguagem,
sua mentalidade ou pelas satisfações que nos pode dar, mas porque é obra de
Deus, criatura sua [..]. se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso
já justifica o dom da minha vida. (FRANCISCO, 2014, § 274)

Com esse objetivo, seguem as sugestões que foram pensadas para uma comunidade
cristã que sabe abrir as portas a qualquer um, respeita cada pessoa na sua diversidade e
pretende incluir todos e apresentando para quem o deseja a mensagem da Boa-Nova. Quem se
coloca nessa escuta precisa ser amado pela comunidade onde está inserido. Esse amor se
exprime também com uma catequese simples, basilar, quase personalizada, como uma roupa
que é diferente para cada pessoa.

Também quem já recebeu os sacramentos pode se aproximar da nossa metodologia.


Querer continuar uma caminhada catequética-teológica na comunidade deve ser para o cristão

18
"Il Vangelo è la nostra regola di vita perché ci comunica Gesù. Impariamo così a pregare come lui pregava, ad
operare come Lui operava, ad avere i suoi stessi sentimenti. Gesù è il Signore della nostra vita e noi cerchiamo di
transformare la nostra vita nella sua."
36

uma prática incentivada em qualquer fase da vida, ainda que com diferentes metodologias. É
sempre bom educar a pessoa à exigência permanente e constante da formação:

O adulto que precisa de catequese não é só aquele que não a recebeu


em outras faixas etárias. Todos precisam continuar progredindo na fé e no
conhecimento do Senhor: "Sempre mais se impõe uma educação permanente
da fé que acompanhe o ser humano por toda a vida e se integre em seu
crescimento global". (CNBB, 2005, § 180)

A nossa sugestão se apresenta como uma estrutura mínima – estrutura flexível,


adaptável, acrescentável – que, utilizando como base a Palavra de Deus e as imagens, se
coloca como instrumento de ajuda para um público que apresenta maiores dificuldades, mas
que ao mesmo tempo demonstra – apresentando-se com os próprios limites, dificuldades e
enormes cicatrizes deixadas pela vida sofrida – querer fazer parte de uma comunidade cristã.
Não determinamos sugestões de tempo. Cada argumento pode ser trabalhado em um ou mais
encontros. Dependendo das possibilidades (econômicas e de tempo) e, principalmente, do
patrimônio artístico do próprio território, este percurso pode ser feito também de forma
itinerante, nas igrejas, nos mosteiros, nos espaços que podem ser "livros" que catequizam por
meio da arte.

A riqueza das imagens na nossa arte sagrada cristã, patrimônio acumulado em séculos
de história da Igreja, presente nas nossas igrejas e nos lugares sagrados, pode e deve ser
utilizada em todas as suas potencialidades. Permite-nos também utilizar diferentes imagens
para explicar um ou mais aspectos do nosso Credo. Em alguns dos argumentos coloquei
imagens complementares, além da imagem principal que abre os encontros. Claramente,
quem ministra o curso tem total liberdade de utilizar outras imagens, capazes de falar tanto
quanto e até mais do que as que foram aqui escolhidas.

Apresentamos vinte temas para serem enfrentados. Cada tema compreende: uma ou
mais indicações de textos da Sagrada Escritura; uma ou mais imagens ilustrativas, "bombas de
beleza"; e a relativa explicação iconográfica. Para cada tema sugerimos também outros
argumentos que entendemos que não podem ser deixados de lado, mesmo que seja um
momento de iniciação cristã. Utilizando o primeiro tema, que desenvolve a nossa crença em
Jesus Filho, colocamos uma sugestão de roteiro completo, com o auxílio também de imagens
complementares, além da imagem principal do Cristo Pantocrator.
37

Enfim, recordamos a importância de inserir cada catecúmeno em todos os âmbitos da


comunidade cristã, ajudando-o a encontrar o sentido original de cada atividade, apoiando-se
em uma nova maneira de se relacionar com quem quer aprender, procurando individuar

[...] um novo modo de organizar o processo catequético: não mais


como os tradicionais planos de aulas, mas através de um roteiro de atividades
evangélico-transformadoras. É um itinerário educativo, que vai além da
simples transmissão de conteúdos doutrinais desenvolvidos nos encontros
catequéticos. Esses roteiros contemplam um processo participativo de acesso
às Sagradas Escrituras, à liturgia, à doutrina da Igreja, à inserção na vida da
comunidade eclesial e a experiências de intimidade com Deus. (CNBB, 2005,
§ 152)
38

4. CATECISMO ESSENCIAL COM AS IMAGENS

4.1 JESUS FILHO

Marcos 8,27-33 – Apocalipse 21,5-6

4.1.1 Cristo Pantocrator

(1546). Teófanes de Creta. Mosteiro Stavronikita, Monte Athos, Grécia.

(Anexo A)

Isto fala o Catecismo da Igreja Católica quando se refere às imagens, lembrando que a
figura de Jesus Cristo é principio e motivo da nossa fé:

A imagem sacra, o "ícone" litúrgico, representa principalmente Cristo.


Não pode representar o Deus invisível e incompreensível: foi a encarnação
do Filho de Deus que inaugurou uma nova "economia" das imagens:
"Outrora Deus, que não tem nem corpo nem figura, não podia de modo
algum ser representado por uma imagem. Mas agora, que Ele se fez ver na
carne e viveu no meio dos homens, eu posso fazer uma imagem daquilo que
vi de Deus. [...] Contemplamos a glória do Senhor com o rosto descoberto".
(CIC, § 1159)

Reflete a centralidade da figura de Jesus, Filho de Deus. Os ícones que representam o


Cristo Pantocrator – palavra que em grego significa "Aquele que tem poder sobre tudo" -
querem mostrar ao mundo cristão um Jesus onipotente, que toma para si as características das
maiores divindades pagãs. Nós O encontramos retratado sentado no trono reservado aos reis,
bendizente com a mão direita e com o livro do Evangelho na mão esquerda; é o livro onde se
encontram as palavras de Jesus, que estão na base da liturgia. Trata-se de um Cristo atraente,
bonito, majestoso e sereno, feito para transmitir ao mesmo tempo sabedoria e firmeza; o
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica nos recorda que São João Crisóstomo escrevia de
Jesus: "O Cristo estava na flor da idade, no vigor do Espírito e nele resplandecia uma dupla
beleza, a da alma e a do corpo" (COMPÊNDIO, 2005, p. 12). Então, não se pode olhar para
Ele sem ser capturado pelo seu olhar que nos oferece as certezas que procuramos.

Jesus é rei, e, no lugar da coroa, encontramos uma auréola na qual se percebe a


presença de uma cruz que identifica o cordeiro de Deus. Essa auréola será o sinal iconográfico
que diferenciará a santidade de Jesus, fonte de todas as outras santidades, da maneira de ser
santo de qualquer outro homem que o siga. O fundo da imagem tem a característica cor
dourada dos antigos ícones; indica que Jesus está fora do tempo, no paraíso, o lugar que nos
aguarda.
39

Analisando os componentes iconográficos da imagem, podemos ler uma fascinante


síntese dos primeiros concílios ecumênicos, tratando com perfeição as duas naturezas de
Jesus, que as cores das vestes trazem à tona: a humanidade na sua profunda beleza e o
esplendor da divindade. A estola dourada que desce do ombro direito lembra o seu sacerdócio
eterno, à maneira de Melquisedec. O Cristo parece abençoar quem está à sua frente: a mão
direita levantada tem o anular dobrado que aproxima-se do polegar. Essa posição quer
lembrar, para eliminar qualquer sombra de dúvidas, a realidade da dupla natureza do Filho de
Deus, agora verdade de fé: Jesus é cem por cento homem e cem por cento Deus. Os outros
três dedos nos apresentam a unidade da trindade: onde está Jesus estão presentes sem
descontinuidade também o Pai e o Espírito Santo.

Cristo ressuscitou. Não estamos frente à representação de qualquer acontecimento da


vida do encarnado ou a um testemunho de algo que aconteceu no passado, mas a um Cristo
vivo na nossa frente, um Cristo que podemos imaginar ao nosso lado, que mostra, vencedor,
as marcas do seu sofrimento, as cicatrizes deixadas pelos cravos nas mãos – sinais que
permanecem mesmo depois da ressurreição – para lembrar que o gesto de se entregar à cruz
foi real, foi um sinal de amor absoluto. Ele não fugiu das dificuldades; venceu a morte
definitivamente para que também nós pudéssemos ganhar a nossa vida eterna na casa do Pai.

4.1.2 O Bom Pastor

Cláudio Pastro. Brasil. (Anexo B)

A figura de Jesus Bom Pastor é com certeza uma das maneiras mais antiga de lembrar
a passagem de Jesus no meio do seu povo. Ele é lembrado como o Bom Pastor da parábola de
Lucas 10, 1-7. O Bom Pastor não tem medo de deixar as noventa nove ovelhas que estão
seguras para ir atrás da ovelha perdida. A imagem, que tem origem na mitologia pagã, mostra
um jovem pastor, que está voltando ao abrigo com a ovelha reencontrada no ombro. Jesus não
quer perder nenhuma das ovelhas que lhe foram confiadas pelo Pai. Assim as primeiras
comunidades de cristãos, que viviam as dificuldades da perseguição, lembravam que Jesus
voltaria para resgatá-los e levá-los com Ele à casa do Pai. Não era somente uma esperança,
mas uma certeza que estava presente no coração das pequenas comunidades escondidas e
apavoradas pelas perseguições. Na versão de Cláudio Pastro, propõe-se Jesus tocando flauta
embaixo de uma árvore. Ele reencontrou a ovelha perdida que agora está no seu colo. A outra
ovelha aos pés dele está segura e tranquila porque aos seus pés se sente protegida.
40

4.1.3 Representação de Jesus

(Século V). Autor anônimo. Catacumba de Comodila, Roma, Itália. (Anexo C)

É nas catacumbas que podemos encontrar aquela que podemos pensar como a
"fotografia" mais fiel de Jesus. O rosto de Cristo aqui marca uma iconografia que será
utilizada por muitos séculos, e que ainda hoje é a mais conhecida: a de um Jesus barbudo, que
com certeza é aquele que mais se aproxima dos homens do tempo dos acontecimentos
evangélicos na Galileia. Nessa pintura, Jesus aparece entre as letras gregas  e  que
lembram a autoafirmação de Cristo no livro do Apocalipse: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o
Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim" (Ap 22,13), que se tornará o sinal da divindade do
Cristo.

4.1.4 Cristo coroado de espinhos

Cristo coronato di spine (1450). Beato Fra Angelico. Museu de Livorno, Livorno,
Itália. (Anexo D)

Esta pintura representa outra maneira de imaginar o Cristo. Conta sua subida ao
calvário, coroado de espinhos e vestido de purpura. É claro que o artista exaltou o vermelho,
cor da paixão: está na auréola, na vestimenta, nos olhos exaustos, nos lábios, mas
principalmente no sangue que, partindo da coroa de espinhos, "pinta" tragicamente o rosto.
Sangue oferecido em sacrifício por todos. No sofrimento extremo, mesmo sendo martirizado,
Jesus mantém a postura real, não perde a própria dignidade, olha direto nos olhos de quem
quer olhar nos seus. O efeito faz que o espectador, olhando com devoção o quadro, não possa
permanecer indiferente. Estamos frente ao momento do sacrifício mais lindo que uma pessoa
pode oferecer: dar a vida pelas pessoas que ama. Jesus, nosso amigo e nosso Senhor,
ofereceu-se por cada homem e por cada mulher, para dizer-nos que não estamos sozinhos. As
inscrições na auréola e nas vestes são claras: REX REGUM D[OMI]N[U]S
D[OM]I[NA]T[IS]19.

19
Rei dos reis e Senhor dos senhores.
41

4.1.5 Rosto do homem do Santo Sudário

Turim, Itália. (Anexo E)

Não sabemos se o rosto que ficou impresso no Sudário de Turim é realmente o do


Messias; mas ele com certeza teve um impacto importante na iconografia da arte religiosa,
sobretudo da Idade Média. As primeiras comunidades eram acostumadas a desenhar um Jesus
jovem, como o Bom Pastor; aqui, encontramos um homem morto com cabelos compridos e
barba, que sofreu um grande trauma que tirou a sua vida. Colocando-nos frente a esta
imagem, podemos sentir todo o sofrimento da humanidade, que parece nunca parar. Jesus, que
se encarnou, que caminhou conosco nesta terra, que nos comunicou o amor do Pai, não fica
longe de ninguém, não foge de nenhuma dor; Ele está conosco qualquer que seja o nosso
sofrimento.

Sugestão de roteiro completo.

Frente às imagens de Jesus. Quando alguém faz uma imagem, quer comunicar
alguma coisa. Quando estamos frente a uma imagem de Jesus, não estamos diante de uma foto
que nos permite ver como Ele é, mas de uma "ideia" de Jesus que o artista está querendo
passar e que pode ajudar aqueles que a veem a conhecê-lo melhor. Se o autor é fiel, partindo
da interpretação da Palavra de Deus, podemos conseguir entender melhor quem é Jesus para a
Igreja. Em todas as épocas, tivemos na Igreja uma compreensão teológica diferente da figura
de Jesus Cristo. Na arte surgiram infinitas possibilidades de mostrar características
importantes e essenciais desse homem. Estas podem ser consideradas janelas abertas sobre o
coração de Cristo, importantíssimas para nos aproximar daquilo que temos de mais sagrado,
nas diferentes condições do nosso viver. Quando queremos encontrar esperança, podemos nos
colocar frente a imagens de Jesus ressuscitado rei do universo; se precisarmos ajudar a
comunidade a não desistir dos desafios cotidianos, o Bom Pastor dá a força para não nos
sentirmos sozinhos; quando O reconhecemos como o cordeiro de Deus sofredor no martírio, o
associamos ao sofrimento da humanidade. E assim acontece com todas as coisas da nossa
vida. Penetramos no patrimônio que nos oferecem os ensinamentos dos Evangelhos e, assim,
nesse percurso guiado, vamos encontrar o desejo de ser aquela ovelha resgatada ou parte do
povo sacerdotal, no meio dos ouvintes das bem-aventuranças, prontos como os servidores, de
ser aqueles que foram curados, chamados por uma vocação nova ou estando junto aos
discípulos dos quais foram lavados os pés; mas lembramos também que podemos ser luz e sal
para o mundo. Toda a nossa fé gira em volta dele: "no centro da catequese encontramos
42

essencialmente uma Pessoa, a de Jesus de Nazaré, Filho único do Pai [...], que sofreu e
morreu por nós e agora, ressuscitado, vive conosco para sempre [...]" (CIC, § 426).

Jesus está presente na nossa vida de todos os dias e está pedindo para nos abrirmos à
realidade dessa presença. Presença que é "às vezes difícil de reconhecer, trabalhosa de viver,
no limite do impossível, mas é real" (OLIVERO, 2013, p. 42)20. É real principalmente quando
nos colocarmos em escuta profunda e envolvente da sua Palavra: "Todas as palavras do
Evangelho são palavras escritas para nós, possíveis de serem vividas, pois, do contrário, nem
teriam sido pronunciadas. A Palavra renova todos os dias a eternidade do encontro com Jesus,
o Filho de Deus" (OLIVERO, 2013, p. 34)21. Quando não nos vemos mais como luz, sal,
ovelhas, servidores e nem discípulos, somente o viver plenamente a missão na comunidade
pode nos ajudar a resgatar essa realidade.

Entender quem é Jesus. É importante reconhecer desde o começo que, para nós
cristãos, Jesus é Deus encarnado. Lendo o Antigo Testamento, podemos ver como Deus se
comunicava com o seu povo através da voz e das ações dos profetas. Podemos pensar em
Abraão que conversava com Deus e estipulou o pacto da Aliança; em Jacó, que lutou com
Deus e ganhou; em José, abençoado por Deus, que o tornou, graças à fidelidade o homem
mais poderoso da terra; em Moisés, que foi enviado para libertar o seu povo e dialogava face
a face com Deus. E esses são somente os mais lembrados. Mas, no final, quem era Deus?
Alguém que estava longe. Nós, cristãos, tivemos a graça de reconhecer no homem Jesus a
encarnação de Deus. Ele se fez igual a qualquer homem que nasceu na face da terra,
caminhou nas cidades, sentiu dor, cócega e frio, comeu, pensou, desejou, riu, foi tentado (não
foi igual a nós somente no pecado). Ele abriu para nós uma janela que nos confirmou
definitivamente que Deus existe, se ainda tínhamos dúvidas. Se, antigamente, para falar com
Deus precisávamos da mediação dos profetas, aqueles que andaram com Jesus nos caminhos
da Palestina, simples pescadores escolhidos por Ele, conversaram diretamente com Deus.
Hoje, fazendo um salto imaginativo – ou melhor, um salto espiritual – também nós, quando
nos reunimos em nome dele, diante de qualquer imagem sagrada que o represente, podemos
nos colocar entre aqueles que ficam em volta de Jesus para ouvi-lo e escutar a Boa-Nova,
sabendo que, se conseguirmos ficar próximo a ele, a nossa vida vai com certeza se moldar à

20
"a volte difficile da riconoscere, faticosa da vivere, al limite dell'impossibile, ma è reale."
21
"Tutte le parole del Vangelo sono parole scritte per noi, possibili da vivere, altrimenti non le avrebbe
pronunciate. La Parola rinnova ogni giorno l'eternità dell'incontro con Gesù, il Figlio di Dio."
43

sua Palavra. Todas as vezes que estamos à escuta do Evangelho, estamos escutando Jesus, a
Palavra de Deus em pessoa.

Lendo os acontecimentos do Evangelho, podemos entender que até os discípulos que


caminharam com Jesus, comeram o mesmo peixe, olharam nos seus olhos, tocaram as suas
mãos... Mesmo eles, que ficaram tão perto, enxergaram um Jesus diferente cada um – não
porque Jesus, que é sempre o mesmo, tivesse muitas formas de ser, mas porque cada pessoa
está suscetível a interpretar o que vê e o que experimenta da sua própria maneira. Isso
acontece também conosco. Cada cristão tem a percepção da sua imagem de Jesus, que está
impressa em cada coração. É como precisássemos descrever um amigo ou um acontecimento:
cada um o enxergaria e o contaria de maneira diferente. Isso acontece também com as
palavras de Jesus. Por isso, ao longo dos séculos, também a interpretação dos artistas da
figura de Jesus – que, naturalmente, refletia a leitura da cristologia do seu tempo – mudou
bastante. Qualquer artista é filho do seu tempo, mesmo querendo fugir dele.

Todos podem ter na cabeça e no coração uma imagem diferente de Jesus, dependendo
das nossas experiências, de onde moramos, de quem nos introduziu a fé, daquilo que
estudamos etc. O catecismo nos ajuda a entender bem esse Jesus, a responder às várias
perguntas que surgem: quem é Jesus para nós? O que nos quer dizer? O que Ele significa para
os que decidiram segui-lo? Mas devemos saber que podemos falar de Jesus de muitas formas,
e manter clara uma premissa importante que o próprio CIC nos lembra: "Crer que Jesus Cristo
é o Filho de Deus é condição necessária para ser cristão" (CIC, § 454). Vejamos, então, quem
é esse homem para os homens e as mulheres que seguem a mesma fé que a Igreja católica
professa.

Jesus é cem por cento Deus e cem por cento homem 22. Desde que Jesus esteve no
meio do seu povo, a Igreja esforçou-se para entender a sua natureza. Não era fácil acreditar
que um Deus pudesse se tornar homem. Como pode o Criador se fazer criatura e permanecer
Deus ao mesmo tempo? Mas é nisso que acreditamos. Muitos procuraram dar uma resposta a
essas dúvidas utilizando a tradição, o método filosófico, muitos tomaram uma posição; para
chegar à verdade que hoje a Igreja proclama, os cristãos se enfrentaram em longos debates,
encontros e concílios; e também em guerras, incompreensões e divisões que marcaram a

22
O dogma das duas naturezas de Jesus (verdadeiro Deus e verdadeiro homem) esclareceu-se ao longo do
tempo, começando no Concílio ecumênico de Niceia, em 325, e terminando no Concílio ecumênico de
Constantinopla, em 553 (CIC, § 464-§ 469).
44

história da Igreja e são evidentes ainda hoje. Alguns diziam que Jesus foi simplesmente um
grande profeta com superpoderes que chegavam diretamente de Deus, negando a divindade de
Jesus; outros acreditavam que Ele só parecia ter um corpo, mas que sua essência era espiritual
e sua aparência era, na realidade, um "holograma", negando a humanidade dele; outros ainda
tinham a certeza de que era Deus, somente em parte era Deus etc. Pode-se imaginar como isso
criou confusão ao longo dos primeiros cinco séculos. Chegar a essa verdade de fé não foi fácil
para ninguém e o ícone do Cristo Pantocrator é a síntese dos primeiros concílios ecumênicos:
Jesus é cem por cento Deus e cem por cento homem.

A encarnação de Jesus, o seu ser homem não diminuiu em nada a sua divindade; da
mesma forma, o fato de ser Deus não impossibilitou a encarnação. Muito pelo contrário:
"Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Cristo tem uma inteligência e uma vontade humanas
em perfeito acordo e submissão à inteligência e vontade divinas, que Ele tem em comum com
o Pai e o Espírito Santo" (CIC, § 482). A Palavra de Deus desvenda a natureza de Deus que é
"comunidade" e por isso nós o reconhecemos como Santíssima Trindade. Três pessoas que
são o mesmo Deus, inseparáveis e ao mesmo tempo pessoas distintas: Deus Pai criador, Jesus
Filho salvador e o Espirito Santo, chamado de Paráclito. Então, Jesus é Deus. Por isso,
quando falamos que Deus é criador podemos dizer sem problemas que também Jesus é
criador de todas as coisas que conhecemos, entre as quais o tempo no qual estamos
mergulhados.

O Pai enviou o seu Filho ao mundo porque tinha chegado o momento de o próprio
Deus falar de si e mostrar com a vida aos homens como viver a humanidade. Nós tínhamos
esquecido o que significava viver plenamente, e ainda hoje não está muito claro nas nossas
cabeças o que é certo e o que está errado. Quando se torna normal na sociedade fazer o
contrário dos conselhos que Jesus nos dá – para muitos, talvez até de forma inconsciente –,
voltamos as costas ao Criador e também à nossa humanidade.

Jesus, revelação de Deus. Antes da chegada do Verbo encarnado no meio do povo,


Deus se manifestou de várias maneiras, mas de forma mais evidente falou por meio dos
profetas com palavras e sinais poderosos. Deus revelou-se no Antigo Testamento na ação da
45

natureza23, nos milagres em nome de Deus por parte de enviados 24, afastando os demônios
com a ação dos seus anjos25, chamando novamente à vida alguém que a perdeu26. O Pai,
enviando diretamente Jesus, o seu Filho primogênito, no meio do seu povo, coloca em prática
um plano de amor e revela-se definitivamente como Deus da vida. Não precisou de
mensageiros ou de anjos: Ele mesmo falou livremente de si e mostrou esses poderes. Por isso,
a Igreja se refere a Jesus como o Filho legítimo de Deus e a nós como seus filhos adotivos: "O
nome de Filho de Deus significa a relação única e eterna de Jesus Cristo com Deus seu Pai:
Ele é o Filho único do Pai e, Ele próprio, Deus" (CIC, § 454). Como criaturas que somos,
Deus poderia nos tratar como bem entendesse, mas decidiu amar-nos e preparou-nos um lugar
perto dele no fim dos tempos. Quando falamos que o Filho mostra a face de amor do Pai,
queremos dizer que o Pai envia o Filho para nos ensinar como ser próximos dele e dos que
estão perto de nós.

Jesus experimentou a condição humana em tudo. Quando olhamos para Jesus,


podemos ver verdadeiramente alguém como nós. Os Evangelhos nos contam que Ele
experimentou tudo o que um ser humano pode sentir. Antes do evento encarnação, pensar em
um Deus que se rebaixasse para provar na carne a mesma condição de vida das suas criaturas
era algo de inimaginável. A pessoa que nos olha das imagens é o Jesus ressuscitado que ainda
traz consigo as marcas da cruz. Esse ressuscitado, que está ao lado do Pai, através da postura
vencedora continua dizendo: "eu já venci qualquer dor, qualquer sofrimento da humanidade,
também o seu!". Derrotou o autor do mal e fez tudo isso por nós. As suas cicatrizes, que
podem ser vistas e contempladas por todos, se misturam com as cicatrizes dos homens e,
silenciosas, nos dizem: "Não tenha medo, eu estou com você!". Ele está fora do tempo, no
Paraíso. Está nos aguardando-nos e nos quer com Ele a qualquer custo.

No Jesus de olhos vermelhos de Beato Fra Angelico, o autor quis mostrar de maneira
evidente que, mesmo sendo Deus, o Cristo não se importou em enfrentar as consequências da

23
Por isso Jesus pode aplacar a tempestade quando está no barco (Mt 8,23-27; Mc 4,35-41 e Lc 8,22-25): Ele é
rei da natureza porque a natureza é construção do criador. Quando volta a tranquilidade àquele lago, quando a
tempestade lhe obedece, Deus se revela com o poder da Palavra.
24
No Novo Testamento é o próprio Deus, na figura de Jesus, que se mostra onipotente.
25
Diante de Jesus, os demônios o reconhecem (Mc 5,7; 1,24; 3,11 e Lc 4,34) e fogem.
26
Jesus foi o único que ressuscitou definitivamente da morte. Em todos os outros casos que encontramos nos
relatos da Bíblia nos quais Deus restitui a vida a alguém (Mt 9,18-26; 27,52; Mc 5,21-43; Lc 7,11-17; 8,40-56;
Jo 11,1-44, apenas para citar as passagens relatadas nos quatro Evangelhos), não podemos falar de ressurreição.
Quem recebeu esse dom terá que enfrentar a morte novamente. Somente com a volta de Jesus todos poderemos
ressuscitar com ele definitivamente. Jesus devolve a vida para mostrar que não tem medo da morte. Jesus deixa
entender a todos nós que ele é Deus porque, tendo sido morto de verdade, ressuscita para sempre.
46

sua total doação para com os outros. Ao contrário: mesmo podendo encontrar na sua divina
criatividade mil formas para resolver a confusão criada pelos homens, escolheu o caminho de
compartilhar a vida com as suas criaturas e, nessa vida, quis compartilhar qualquer situação.
Não ficou calado por medo de contradizer os poderosos do seu tempo, mas aceitou as provas e
os sofrimentos da paixão para permanecer com cada pessoa que sofre. Por isso, nesse Jesus
que está sofrendo podemos encontrar o sofrimento da humanidade inteira, carregada nos seus
ombros. Com uma rápida olhada, o vermelho intenso e trágico daqueles olhos quer transmitir
imediatamente ao espectador o sangue derramado daqueles que padeceram injustamente, que
sofreram as próprias limitações, derrotados pelas doenças, oprimidos, escravizados. Qualquer
homem e mulher tem direito à própria vida; mas, para ser feliz, não é suficiente viver: é
preciso praticar a vida plenamente, uma vida que faça de tudo para tornar-se um dom a ser
compartilhado, que fica sempre em contato com o próprio criador e que, com o mesmo amor,
desdobra-se para que nenhuma ovelha se perca, para que ninguém fique fora da comunidade,
para ser sinal de paz. Com a sua entrega gratuita, Jesus quer devolver aquela vida que muitos
não puderam viver plenamente. Com esse olhar ensanguentado de compaixão, pede ao fiel
que se apaixone por cada homem da mesma forma.

O Santo Sudário certamente nos traz, no mínimo, a imagem de uma pessoa que sofreu
a mesma paixão de Jesus. Foi crucificada, flagelada, torturada desumanamente. Muitos se
reconheceram nesse rosto sofredor; diante do Sudário, muitos entregam o sofrimento a Deus e
se sentem consolados. Jesus sofreu como qualquer homem de corpo e alma. Qualquer
sofrimento é contemplado nesse rosto que, apesar de tudo, mesmo sem vida, permanece
confiante. Se nós conseguirmos sofrer por amor como Ele sofreu, teremos a certeza de
ressuscitar com Ele.

Cristo, Verbo encarnado. No ícone do Pantocrator, Jesus nos mostra a Palavra de


Deus: a mantém do mesmo lado do coração. É o presente mais precioso que deu à
humanidade e, por isso, não pode ficar escondida ou deixada dentro de uma gaveta. Cada
pessoa precisa lê-la e trazê-la no coração, com o objetivo de encarná-la com a própria vida.
Jesus se fez homem não para fazer uma viagem turística ou apenas por diversão depois de
séculos de apatia vivendo no céu. Ele veio para mostrar-nos como se caminha, como se
enfrentam as coisas da vida, como evitar o mal, como empreender o bem, como se reza. Veio
nos dizer para restituirmos o amor de Deus aos outros. Veio nos explicar como ler o Antigo
Testamento à luz da sua vinda. Veio para nos salvar.
47

"O nome de Jesus significa 'Deus salva'. O menino nascido da Virgem Maria é
chamado 'Jesus', 'porque salvará o seu povo dos seus pecados' (Mt 1, 21); 'não existe debaixo
do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos' (At 4, 12)" (CIC, § 452).
Ele nos livrará da morte, da nossa condição de vida que é dolorida, limitada, angustiante.
Também prometeu nos livrar das injustiças, das opressões e das pobrezas. Porém, a sua
mensagem não deve ser confundida com qualquer mensagem revolucionária a favor dos
últimos e dos oprimidos, porque a de Jesus é uma "revolução" que parte do amor
incondicional pela humanidade inteira. Por isso, sua mensagem é algo que ajuda a viver bem
aqui na terra, mas que, principalmente, nos prepara para a vida eterna ao seu lado. A jornada
de quem caminha desde já com Jesus está antecipando um pedaço de céu. Com todos os
defeitos de qualquer construção humana, as nossas comunidades cristãs possuem esse papel
de apresentar, mesmo que de maneira ofuscada, a beleza de viver com Deus, antecipação de
algo maior e mais magnífico, que nem podemos imaginar.

A esperança de uma vida nova. Jesus não pode ser separado do Pai e do Espírito
Santo, e da mesma forma participou da criação e estará presente também quando o tempo
terminar. Nesse sentido, simbolicamente fala-se que Ele é o Alfa e o Ômega, a primeira e a
última letra do alfabeto grego – ou seja, o princípio e o fim. Deus inventou o tempo, é dono
do tempo. Quando estivermos com Jesus no Paraíso, não existirá o tempo. O século IV, em
Roma, não era a melhor época para viver e praticar a fé cristã, por causa das perseguições dos
romanos. Acreditar em Jesus Cristo significava aceitar o esconderijo, a perseguição e a
possibilidade de ter que professar a própria fé mesmo sabendo que isso significaria morte
certa. O martírio não era uma possibilidade remota para os cristãos. Os homens que se
reuniam frente à imagem de Jesus na catacumba tinham a certeza de que a morte não era o
fim de tudo, mas o começo de uma nova vida, promessa que o próprio Jesus fez da vida eterna
com ele. Uma vida certamente melhor do que aquela que estavam enfrentando na terra. Hoje,
em muitos lugares, ser cristão é bem menos perigoso e pode até ser somente um rótulo
carregado superficialmente – atitude que em tempos mais antigos não era possível. Mesmo
assim, ainda hoje o cristão tem que viver bem o seu tempo aqui na terra. Nesse sentido, ser
cristão vai além de ser bom, rezar, fazer o bem; implica também em ajudar o outro que está ao
meu lado a encontrar-se com Deus, dando a devida importância às coisas da terra, mas tendo
muito claro que estamos aqui de passagem.
48

Quem vive inserido em uma comunidade que celebra Jesus com a vida procura
afastar-se de tudo o que atrapalha a esperança que vem de Deus. Esperança se traduz em uma
comunidade que acolhe as ovelhas rejeitadas pela sociedade como um todo, que ajuda a entrar
em harmonia com o divino, que ajuda a não desperdiçar e a se tornar melhor para os outros.
Essa comunidade é já um paraíso terrestre, lugar onde é clara a presença de Deus. Temos que
fazer que todas as comunidades cristãs tornem-se pedaços de paraíso aqui na terra. Se não for
assim, cada vez mais nas nossas comunidades, além das famosas ovelhas perdidas que não
sabemos mais resgatar, também aquelas que até agora se sentiram seguras e protegidas
deixarão de nos seguir.

Aceitar a proposta de Cristo com o nosso sim. Em qualquer época, aderir aos
ensinamentos de Cristo nunca significou paz absoluta, mas paz escolhida. O cristianismo,
mesmo hoje, continua a ser catacumba27. Isso porque, quando vivido verdadeiramente, a
sociedade pode não entender e nem aceitar uma escolha que olha além da nossa existência,
que vai além da nossa humanidade, que precisa da presença de Deus. Se não for encarado
como brincadeira, dizer um sim verdadeiro a esta proposta integral é algo de tirar o fôlego.
Seguir os conselhos de Cristo muda a nossa vida: significa atuar em qualquer campo não por
dinheiro ou conveniência, mas por paixão à mensagem evangélica; significa ajudar sem
pretender algo de volta, apenas entendendo que servir é bom; significa deixar a porta aberta
da nossa vida para que todos possam entrar quando precisarem, mesmo aqueles de quem não
gostamos; significa lutar contra as injustiças para que sejam eliminadas da face da terra,
preparando os outros para a vida eterna; e ainda muito mais.

O Antigo e o Novo Testamento apresentam diferentes pedagogias do amor. Isso se


torna claro quando ouvimos as palavras das bem-aventuranças. No AT, as normas contidas na
lei, além de pedir o amor a Deus sobre qualquer coisa, proibiam fazer o mal. Praticamente,
proibiam o não amar, o não tentar a reconciliação e a paz. Os Evangelhos vão bem mais
além da proibição de tudo o que não é amor. Aconselha-nos, na nossa plena liberdade, a amar
plenamente. Jesus propõe algo de maior: "amem como o meu Pai me ama"28. A leitura dos
Evangelhos, sobretudo das parábolas, ajuda a entender o quanto é grande esse amor do Pai

27
Galerias escavadas no subsolo onde os corpos eram sepultados e – no caso dos cristãos – ficavam aguardando
o tempo onde todos ressurgiriam. Em épocas de perseguição aos cristãos, principalmente no Império Romano,
era também nas catacumbas que eles se escondiam para rezar, celebrar os cultos, escutar a Palavra de Deus e
para fugir dos perseguidores.
28
"Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo. [...] Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros,
assim como eu vos amei." (Jo 16,9.12)
49

para conosco. Partindo desse amor recebido, é uma questão de consciência: aderindo a Cristo,
confirmando o próprio sim a Deus, qualquer cristão deveria se empenhar em restituir o
mesmo amor aos outros, também àqueles que, humanamente falando, não amamos. Para
muitos parecerá complicado e difícil, sentirão em si uma grande fragilidade. Porém, não
estamos sozinhos somente com as nossas forças, não ficamos desamparados, porque temos o
suporte do Espírito Santo.

Jesus, centro e desejo da comunidade cristã. Além daqueles que com Ele
conviveram ou a quem Ele se quis mostrar, ninguém viu, ao vivo, Jesus em carne e osso.
Também, como já lembramos, não temos fotos ou vídeos que nos possam mostrar como Ele é.
Talvez não seja a coisa mais importante saber a cor dos olhos, se tinha barba ou não, se a pele
era escura ou clara etc. Mas, por gerações, os artistas procuraram reproduzir um Jesus o mais
fielmente possível às tradições transmitidas pelas primeiras comunidades de cristãos. A
imagem de Jesus que foi encontrada na catacumba de Comodila, em um dos túneis destinado
às orações da comunidade, sendo ela do V século d.C., é considerada uma das mais fiéis ao
verdadeiro rosto de Jesus. Geralmente, acontece isto: podemos lembrar de uma pessoa ou de
uma história por uma hora, um ano, muitos anos; mas, cada vez que o tempo passa, quanto
mais nos distanciamos daquele evento, a mente vai como que modificando aquela lembrança,
que fica suscetível a alterações e esquecimentos. Podemos facilmente imaginar o que significa
isso com a imagem do Filho de Deus. Quanto mais nos afastarmos do evento Jesus, menos a
representação que teremos será fiel à sua imagem original. É mais provável que uma pintura
de 1.500 anos atrás seja mais fiel do que uma representação de Jesus feita hoje. Enfim, vendo
essa imagem podemos imaginar qual é fisionomia de Jesus que os discípulos tentaram
transmitir aos cristãos do futuro e que depois foi passada de geração em geração. Cada cristão,
tendo encontrado Jesus, deveria dizer como nos Atos dos Apóstolos: "Quanto a nós, não
podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos" (At 4,20). É só vivendo essa afirmação
profundamente que podemos entender a importância da transmissão das primeiras
comunidades que aceitaram seguir o Cristo. Quem pintou essa imagem com certeza queria
trazer Jesus para perto da própria comunidade. Mesmo sendo apenas uma interpretação de
Jesus, queremos entendê-la como uma fotografia da pessoa mais importante da nossa vida;
assim como quem rezava naquelas catacumbas, queremos sentir o Salvador perto de nós.

"Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles"
(Mt 18,20). Essa afirmação quer dizer que, quando nos encontramos para rezar, Ele está
50

conosco, quando nos encontramos para entender melhor a nossa fé, Ele está ao nosso lado. Se
essa presença se torna importante na nossa vida, podemos encontrar as coordenadas para viver
santamente a vida que nos foi doada.

Jesus está pronto a nos abençoar sempre. O que significa abençoar? Significa
"abendiçoar", "bem-dizer"29. Quando alguém reconhece a fidelidade em uma pessoa, é natural
que fale dela, colocando-a nos favores de Deus. Temos que nos acostumar a ficar perto de
Jesus, a aproximar-nos dele para imitá-lo, para caminharmos com Ele. Precisamos encontrar a
sua benção, o seu falar bem de nós. Se Ele falar bem de nós, quem poderá falar mal?30 Ele
está sempre pronto a nos abençoar, está nos aguardando. O nosso aceitar o seu convite é
possível porque Ele não nos deixa sozinhos, quer caminhar conosco. A mão levantada, que
nos lembra a sua condição de Deus encarnado, está à procura de homens e mulheres que se
deixem "capturar" pelo seu olhar.

Sinal da cruz. Desde que se formaram as primeiras comunidades cristãs, o sinal da


cruz foi utilizado para lembrar o amor do Filho de Deus que não teve medo de enfrentar o
mundo e os limites dos homens, porque os amava até o fim. O sinal da cruz, que fazemos
todas as vezes que começamos a rezar, lembra que sobre esta cruz estava um Deus encarnado.
Então, esse sinal tornou-se o ingresso à liturgia dos santos, que abre o nosso olhar à realidade
mais profunda da nossa fé, que é a comunhão concreta, na oração, com a Trindade e com
todos os que a seguem.

Os nomes do Filho de Deus. Jesus, para nós, que acreditamos nas suas palavras, é
aquele que gerações de hebreus aguardavam há séculos, anunciado pelos profetas como
aquele que, enviado por Deus, libertaria o povo oprimido. Estavam aguardando o Messias,
que significa "ungido" em hebraico e que depois foi traduzido em grego com a palavra Cristo.
Em Israel, e também no mundo antigo em geral, os reis eram ungidos com óleo de azeite
como sinal de eleição. Diferentemente dos outros reis, o Messias, Jesus, foi ungido
diretamente por Deus e Espírito Santo. O povo estava aguardava o enviado de Deus, o rei dos
reis, capaz de libertá-los. Para nós, Jesus Cristo é esse rei que, com a sua passagem na terra, já
salvou todos os homens, colocando-se a serviço da humanidade.

29
Segundo o Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, algumas das definições de abençoar são: lançar
bênção a, abendiçoar, desejar bem a, bem-fadar, bem-dizer, exaltar ou louvar (algo ou alguém).
30
"Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8,31b)
51

Com fé podemos fazer esta invocação: "Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tende
piedade de mim, pecador" (CIC, § 435). Essa é a famosa Oração de Jesus, simples e poderosa
ao mesmo tempo, que ajudou por séculos os monges a ficar com Jesus no coração. Podemos
invocá-lo chamando-o pelo nome, Jesus, que significa Deus salva; aclamando-o como o
Cristo ou Messias, o rei dos reis enviado pelo Pai; declarando que Ele é mesmo o Filho de
Deus, porque assim o Pai o quis chamar; colocando-nos a serviço dele, Senhor da nossa vida;
proclamando a sua divindade na encarnação; reconhecendo-nos criaturas dispensáveis frente
ao seu amor transbordante... Acreditar na autenticidade e no profundo significado desses
nomes, relembrá-los frequentemente com fé e deixá-los amadurecer no coração é a maior
declaração de amor que um cristão pode fazer a Deus. O CIC nos lembra disso muito
claramente: "O nome de Senhor significa a soberania divina. Confessar ou invocar Jesus
como Senhor é crer na sua divindade. 'Ninguém pode dizer 'Jesus é Senhor', a não ser pela
ação do Espírito Santo' (1 Co 12, 3)" (CIC, § 455).
52

4.2 DEUS PAI

João 5,17-13

4.2.1 Deus Pai no trono, com Jesus e a Virgem Maria

(Final do século XV). Autor anônimo. Coleção privada. (Anexo F)

Para introduzir a figura de Deus Pai, poderíamos escolher tratar de vários aspectos que
o caracterizam: o amor, a onipotência, a misericórdia, a criação, aspectos que podem ser
tratados em distintos momentos. Escolhemos uma imagem que nos apresenta uma iconografia
clássica de um Deus Pai sentado no trono, indicando sua majestade absoluta. Ao seu lado está
o Filho, Jesus, com todos os sinais da sua paixão, e a Mãe de Jesus, Maria, escolhida entre
todas as virgens para ser instrumento da encarnação de Deus no meio dos homens.

Estamos frente a um quadro de um anônimo alemão do século XV, que nos imerge em
uma teologia romântica que coloca Deus Pais acima de qualquer rei que o homem pode
conhecer. Por isso, está sentado no trono da onipotência e coroado com a mais bela e rica
coroa que já foi vista. A mão direita rege a esfera vermelha, que representa a terra que Ele
domina; depois do sacrifício do Filho, Ele tomou definitivamente nas mãos a situação e pode
continuar o projeto de amor pensado para os homens desde a Criação; as flechas que em sua
mão esquerda confirmam que é Ele que envia. Desde que alguém tentou representar Deus – o
divino por definição, o não representável – em uma imagem, seu rosto é sempre o da
sabedoria do grande ancião, bom, solene, de barba comprida; Ele parece ter o domínio sobre
todas as coisas, sobre tudo aquilo que está acontecendo, não há nada que fique escondido ao
seu olhar, nada que Ele não escute, que aconteça sem seu consentimento.

Os olhos de Jesus estão voltados para o Pai, nenhuma de suas mensagens ou de seus
gestos deixou de estar em conformidade com o Pai. Maria indica com as mãos o Deus que se
serve dos pequenos como ela para fazer grandes coisas. As faixas com as palavras são o
artifício pictórico que indica que existe um diálogo contínuo entre o Pai e o Filho e entre o Pai
e Maria. Quem olha percebe que também cada fiel pode ter esse diálogo direto de amor com o
Pai, como o próprio Jesus no mostrou ensinando-nos a oração do Pai-Nosso. O Espírito Santo
está sempre presente quando estão o Pai e o Filho, e aqui é reconhecido com todo o seu
dinamismo através da imagem da pomba que fica acima de toda a cena.
53

Interessante encontrar também nesta composição os sinais clássicos da iconografia do


Cristo: a coroa de espinhos (aqui bem diferente da coroa do Pai), as marcas do martírio, o
sangue derramado, o manto vermelho que fala de um Deus que se fez homem. Está em
evidência a cruz que Jesus traz sempre consigo, triunfante; mesmo assim, não pode esquecer
as dores, o sofrimento e as feridas, cuja marca indica colocando o dedo na ferimento. Com
esse gesto de amor incondicional, Ele colocou debaixo dos pés todas as dominações, para não
deixar nenhuma dúvida sobre quem tem a autoridade. Por isso, Jesus está apoiado nas colunas
derrubadas, que indicam os palácios dos poderosos. Maria, pronunciando esta verdade no
Magnificat e aceitando ser testemunha deste evento, se reveste de santidade com o manto azul
da realeza.
54

4.3 TRINDADE – ESPÍRITO SANTO

Mateus 28,16-20 – Mateus 3,13-17

4.3.1 Santíssima Trindade ou Ícone dos Três Anjos

(Século XV). Andrei Rublev. Galeria Tretjakov, Moscou, Rússia. (Anexo G)

Este ícone é considerado universalmente o ícone dos ícones, certamente porque e a


síntese de um caminho de conhecimento e compreensão de Deus que os cristãos fizeram ao
longo dos séculos. Foi o resultado do trabalho sério de pesquisa e oração do monge russo
André Rublev, tão inspirado por Deus na realização desta obra que "será declarada como
única maneira teologicamente correta de retratar a Santíssima Trindade pelo Concílio dos
Cem Capítulos de Moscou de 1551"31.

A origem iconográfica deste ícone nasce na antiga tradição das comunidades cristãs,
que, ainda nas catacumbas, representavam o episódio da visitação dos três anjos ao carvalho
de Mambré (Gn 18,1-16). Com o passar dos séculos, foram dadas diferentes interpretações da
misteriosa visitação à tenda de Abraão e Sara. Abraão os acolhe imediatamente chamando-os
de Senhor, mesmo que, no versículo 2, eles tenham sido definidos como "três homens". Entre
as muitas imagens que remetiam à Trindade, essa acolhida de Deus feita por Abraão era a
preferida na Igreja oriental. Ao longo dos séculos, passou por várias maneiras de ser
representada, com ou sem a presença de Abraão e Sara, até chegar a esta síntese de Rublev,
que se tornou a mais famosa e venerada.

Ele elimina as figuras de Abraão e Sara e reduz a imagem ao essencial. A mesa se


transforma em altar com um único elemento, o cálice. A tenda, o monte e a árvore se
transformam em símbolos no fundo, cada um com o próprio significado específico. Os três
anjos se assemelham entre eles, mas não faltam particulares importantes que identificam as
três pessoas. Qualquer elemento do ícone, inserido com consciência e inteligência, fala do
conhecimento de Deus que se aprofundou ao longo dos séculos.

A partir da disposição das figuras dos anjos, ligeiramente alongadas para oferecer um
maior sentido de verticalidade à composição, podemos extrair vários elementos geométricos
que nos indicam significados profundos. O primeiro é o quadrado que contém a cena:

31
"sarà dichiarata come unico modo teologicamente corretto di raffigurare la Santissima Trinità dal Concilio dei
Cento Capitoli di Mosca del 1551."
55

representa a terra aonde Deus, quando quer comunicar-se conosco, deve entrar. Trata-se da
dimensão humana. Ele, que é infinito, deve entrar no finito para comunicar-se conosco.
Dentro do quadrado podemos ver o octógono. Oito é o número escatológico, porque indica o
oitavo dia, aquele que está fora da semana, o primeiro da nova criação. Observando as três
cabeças dos anjos unidas na faixa vertical central, podemos reconhecer o formato de um tau,
uma cruz, fundamento da missão de Jesus. Todas as vezes que um cristão faz sobre o próprio
corpo o sinal da cruz, saúda e chama sobre si a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Podemos ver também o cruzar-se de dois triângulos invertidos32, que lembram o encontro da
realidade do transcendente com o terreno; imagem da tentativa milenária da humanidade de se
aproximar de Deus, mas também da iniciativa de Deus que nunca quis ficar longe dos
homens. Domina sobre todas as outras a figura do círculo, onde podem ser englobados os
rostos, as mãos, os pés, e, sobretudo, os olhares dos três anjos. Procurando-se continuamente,
demonstram um dinamismo divino, estão dentro de uma dança circular, que representa a
harmonia viva e criadora. Vemos isso no movimento das mãos. Os três regem os cetros com a
mão esquerda e abençoam com a direita. O anjo de esquerda, o Pai, abençoa e cria. O do
centro, o Cristo, abençoa e indica as suas duas naturezas. O terceiro, à direita, o Espírito
Santo, abençoa indicando a sua descida no nosso dia a dia em auxílio à nossa vida e, por isso,
é como se afirmasse: "Estou aqui!".

É interessante observar também a dinâmica dos olhares: os três se olham, se procuram.


São olhares de apaixonados, que totalmente se escutam, se comunicam e se amam.
Entendemos que entre eles não há um que é melhor que os outros e que ordena o que fazer; ao
contrário, decidem juntos em unidade profunda. O Espírito abaixa a cabeça em sinal de
consenso, o Filho está em posição de escuta e o Pai, olhando os outros dois, se alegra com as
ações deles. Os três têm o pescoço grande: o sopro vital está neles, é o sopro do Espírito.
Mesmo que esses esquemas geométricos nos ajudem a entender a dinâmica da Trindade, na
realidade não podemos fechá-la nas nossas limitações humanas e terrenas. Ele, mesmo
entrando no nosso "quadrado", na nossa vida, continua sendo sem limites, infinitamente livre
no amor, origem de cada vida e em contínua criação.

O cálice que está no centro da mesa representa a Eucaristia. Dentro do cálice podemos
ver a cabeça do cordeiro que Abraão oferece aos três anjos de Mambré: era o que de melhor

32
Representação da Estrela de David, símbolo do Judaísmo.
56

podia oferecer aos hospedes imprevistos. Aquele cordeiro se tornará depois da cruz o maior
símbolo de Cristo: também Deus, na sua infinita bondade, nos oferece o que tem de mais
precioso. Esta imagem do Filho Cordeiro de Deus é mais evidente no segundo cálice,
delineado pelas formas dos dois anjos laterais que identificam o anjo central com o Filho de
Deus. A parte do cálice que não está fechada é um convite a todos os cristãos a completá-lo
com a própria vida, concretamente com os nossos corpos. Um convite a entrar em comunhão
com a Trindade. Podemos ver ainda outros dois cálices menos evidentes. Um delimitado pela
linha superior do altar: representa o nosso sacrifício cotidiano que pode ser oferecido a Deus,
onde não será desperdiçado e encontrará o verdadeiro sentido. Outro, mais abaixo, é aquele
verde na base do cálice maior que parece um funil: todos os cristãos precisam passar por esta
porta estreita da qual fala o Evangelho. A cor verde lembra a fertilidade da mensagem
evangélica, a esperança de que a planta, que somos nós, dê frutos, se torne para os outros.

Pode-se também fazer uma leitura das cores das vestes dos anjos. Elas não possuem
alterações tonais, a Trindade não tem sombra nenhuma. Todos se cobrem com uma veste azul
que representa a dimensão celeste que se manifesta aos homens. O hábito vermelho que cobre
Jesus recorda a cor da realeza: é o Rei dos reis. Também a presença da estola no seu ombro o
coloca como sacerdote dos sacerdotes. O Pai está envolvido em um veste rosa, cor da Graça.
O verde da veste do Espírito Santo representa a fertilidade, a cor da salvação: o seu
dinamismo torna fértil cada realidade do homem e da Igreja. O Espírito Santo é a pessoa da
Trindade mais próxima da maternidade, a mais feminil, imagem da fertilidade.

Atrás de Jesus podemos enxergar a árvore símbolo do Éden – Jesus é o novo Adão – e
que também pode ser entendida como uma referência à cruz – Jesus como Árvore da Vida –
ou como broto de Jessé – Jesus, salvação da humanidade, enxertado na velha vinha do
judaísmo. À esquerda encontramos o símbolo da Casa do Pai, com a varanda de onde o rei
anunciará a Jerusalém Celeste, a casa da Paz. À direita está a montanha, que na Bíblia é
sempre o lugar do encontro com Deus. Para encontrá-lo, para podermos crescer com Ele,
temos que subir esta montanha, temos que nos envolver e no interessar pelas coisas de Deus.
57

4.4 NATIVIDADE – ENCARNAÇÃO DE JESUS – FESTA DO NATAL

Mateus 2,1-12

4.4.1 Natividade de Jesus

(1405). Andrei Rublev. Catedral da Anunciação, Kremlin, Moscou, Rússia.


(Anexo H)

À primeira vista nos podemos enganar, enxergando nesta composição somente as


imagens do nascimento de Jesus quando, na verdade, como todos os ícones que saíram do
estudo e da oração de Rublev, podemos ver resumida toda a história da salvação. No centro da
imagem está o menino Jesus, o Cristo encarnado, mas é evidente que é Maria, a Theotókos –
que em grego significa "Portadora de Deus" (Mãe de Deus) –, quem ocupa o espaço principal.
Jesus nasceu, e toda a cena se desenrola em torno dele. No alto, à esquerda, os reis magos
estão cavalgando rapidamente, subindo a montanha para procurar o indicado pela estrela. Eles
são símbolo da humanidade que está à procura do paraíso perdido: eles continuam
procurando, sem se cansar, os mistérios de Deus.

Deus está bem presente. Os anjos olham para o alto; eles são, desde sempre, as
testemunhas da presença de Deus. Porém, desta vez aconteceu algo de inimaginável até
aquele momento. Agora não é mais preciso olhar para o alto para ver Deus. Um dos anjos
olha para baixo e indica a gruta para os pastores. Ele anuncia que não é mais necessário subir
ao monte para ver Deus, porque agora Ele desceu do alto para ficar no meio dos homens. Os
pastores representam o povo eleito querido por Deus. Tão querido que Ele se torna o pastor
que tanto aguardavam.

Maria, como reza a tradição da liturgia bizantina, se torna oferta a Deus para operar a
encarnação. Assim se reza na oração do dia do Natal:

O que vos podemos oferecer, ó Cristo, porque por nós nasceis na terra
como homem? Cada uma das vossas criaturas, que são vossas obras, vos
apresenta o próprio testemunho de gratidão: os anjos, o seu canto; os céus, a
estrela; os magos, os presentes; os pastores, a sua admiração; a terra, a gruta;
o deserto, a manjedoura; nós, homens, vos oferecemos uma Mãe Virgem.
(SPIDLIK, 2000, p. 19) 33

33
"Che cosa ti offriremo, o Cristo, perché per noi tu nasci sulla terra come uomo? Ciascuna delle creature che
sono opera tua ti reca, infatti, la sua testimonianza di gratitudine: gli angeli il loro canto, i cieli la stella, i magi i
58

No paraíso, a serpente ofereceu a uma mulher, Eva, a falsa ilusão de poder fazer-se
igual a Deus. Com a encarnação, Maria é a nova Eva, que se oferece para que Deus possa se
tornar homem. O diabo ainda está presente nas vidas das pessoas: embaixo à esquerda,
travestido de pastor, coloca dúvidas no coração de José. Esta cena lembra a eterna dúvida de
qualquer homem. Os demônios continuam colocando dúvidas nos corações: "Será mesmo que
aquele homem é Deus?". Mas foi um anjo em sonho que anunciou a José a natureza divina
deste menino. Aquelas que parecem não ter dúvidas nenhuma são as sábias mulheres que, à
direita da composição, estão cuidando do menino recém-nascido. Como todos os homens que
nasceram e nascerão, Jesus é lavado; com este gesto, as mulheres testemunham que Ele é
também verdadeiro homem. Elas serão as únicas que verdadeiramente poderão testemunhar
sobre o nascimento virginal do Cristo.

A cena em geral não é uma cena de alegria: no ar respira-se tristeza. A gruta parece
uma tumba; a manjedoura, um sepulcro; e as faixas que envolvem a criança são, na verdade,
lençóis mortuários. Praticamente Jesus nasceu para morrer, o destino dele está já marcado
desde o seu nascimento. Maria não demonstra entusiasmo pelo feliz evento. Ao contrário, ela
mergulha na tristeza e o olhar dela procura fugir do menino. Maria pariu um menino
destinado a sofrer e a morrer; por isso, no ícone Ele é colocado no sarcófago. Nos ícones da
ressurreição ficarão somente as bandagem sem o corpo que voltou à vida. A encarnação tem
um fim, que é a ressureição. A Mãe que se ofereceu como porta de entrada à terra agora é
colocada no leito. Também ela segue o caminho indicado pelo Cristo, ela será a primeira a
oferecer-se para compartilhar a dor do seu filho.

Como nos conta o Evangelho de Lucas (Lc 2,7), aquele sarcófago na realidade é uma
manjedoura. Ao lado de Jesus, temos o boi e o asno. Segundo alguns padres exegetas, se Deus
queria de verdade encontrar novamente o homem, tinha que ir ao lugar onde o homem peca.
Desde que Adão se vestiu com peles de animas, o homem encontrou a própria corporeidade
de maneira animalesca, convivendo continuamente com o medo da morte, procurando
continuamente uma maneira para se salvar. Da mesma maneira que os animais, que para
sobreviver precisam encontrar comida na manjedoura, também o homem procura a
sobrevivência, e a procura na manjedoura, no pecado. Para os padres, a este lugar voltaremos
continuamente, o homem volta sempre ao seu pecado. Deus encarnado é deposto na

loro doni, i pastori la loro ammirazione, la terra la grotta, il deserto la mangiatoia; noi uomini ti offriamo una
Madre Vergine."
59

manjedoura porque este é o único lugar ao qual o homem com certeza voltará. Deus
renunciou à sua glória, se rebaixou, para se encontrar com o homem. Por isso, a manjedoura é
também um sarcófago: porque lá se encontra também a morte.

Desde o seu nascimento podemos ver o primeiro anúncio da Eucaristia, da páscoa do


Senhor. Jesus como alimento que se come, que será alimento para a salvação. Como o
alimento se torna parte do corpo de quem o come, também Jesus será parte do seu povo.
"Como o pão é destruído no ato de ser comido, mas por isso se torna causa de sobrevivência,
assim Cristo se deixará destruir, porque somente quando o homem o matar compreenderá o
quanto Deus é bom" (SPIDLIK, 1996, p. 37)34.

4.4.2 Natividade de Jesus

Autor anônimo. (Anexo I)

Neste outro ícone da Natividade podemos encontrar, além dos elementos


iconográficos da natividade que acabamos de ver, também cenas referentes à história relatada
nos Evangelhos que giram em torno do nascimento de Jesus.

No alto, partindo da esquerda, podemos encontrar o profeta anunciando a vinda do


messias, o anúncio do anjo a Nossa Senhora, o casamento de Maria e José, o primeiro sonho
de José no qual o anjo explica a natureza miraculosa da gravidez de Maria e os planos de
Deus, e o acontecimento do censo. Na faixa abaixo podemos enxergar a vinda dos reis magos,
a entrega dos presentes ao menino e a volta deles às próprias terras. Também é representada a
conversa de Herodes com os Magos e com os sábios da corte. Na parte inferior podemos
encontrar toda a raiva de Herodes depois do nascimento de Jesus, a fuga da família de Jesus
ao Egito, a matança das crianças inocentes, o anjo que em sonho anuncia a Jose que pode
voltar a Israel e a volta da Sagrada Família.

34
"Como il pane viene distrutto nell'essere mangiato, ma così è causa di sopravvivenza, così Cristo si lascerà
distruggere, perché solo quando l'uomo lo avrà ucciso comprenderà quanto Dio è buono."
60

4.5 MARIA MÃE DE DEUS

Lucas 1,26-38

4.5.1 Mãe de Deus das Três Mãos

Maria Mãe dos Jovens (Ícone Russa do século XIV). Autor anônimo. Sermig,
Arsenal da Paz, Turim, Itália. (Anexo J) (OLIVERO, 2011)

Com a proclamação no Concílio de Éfeso (431) de Maria Theotókos, Mãe de Deus,


abriu-se à iconografia religiosa a possibilidade de colocar nas imagens também a Mãe junto
com a criança. Nos ícones, Maria sentada no trono indica a criança, o Filho de Deus. É
também conhecida como "Maria, aquela que indica o caminho".

A criança é retratada como um pequeno adulto, com as vestes da realeza e do


sacerdócio. Ela está sentada em posição ereta no braço da Mãe. Está abençoando, já é
salvador da humanidade e traz o rolo do Evangelho na mão: Ele é o Verbo Encarnado. É a
Mãe que o apresenta aos homens. Com a mão direita o mantém e com a mão esquerda o
indica como caminho para os cristãos. Ela olha serenamente nos olhos dos espetadores,
convidando-os a olhar para a criança e não para ela.

Esta Maria Theotókos é particular por Maria ter três mãos. A tradição liga esta
particularidade ao milagre do são João Damasceno, defensor do culto às imagens, que se
tornou o defensor da veneração das imagens contra a tentação iconoclasta. Ao rezar
devotamente frente a um ícone de Maria Mãe de Deus para que lhe fosse restituída a mão
decepada pelos mouros, logo depois do sono acordou com a mão no lugar certo e
perfeitamente operante. A partir daquele momento, a sua paixão por defender as imagens
multiplicou-se ainda mais.

Hoje, este ícone é venerado pelo Sermig - Fraternidade da Esperança no Arsenal da


Paz de Turim como Maria Mãe dos Jovens, em uma igreja que lhe foi especialmente
dedicada35. Ernesto Olivero, fundador do Sermig, enxerga nesta terceira mão uma indicação
de caminho para os jovens no percurso cada vez mais difícil da juventude, mas também um
suporte claro e amoroso de Maria que quer levar todos à casa do Pai. Cada vez mais
precisamos desta mão para enfrentar as dificuldades da nossa época.

35
A história da veneração de Maria Mãe dos Jovens pode ser encontrada no site do Sermig. Disponível em:
<http://www.sermig.org/br/maria-mae-dos-jovens/historia>. Acesso em: 25 jan. 2015.
61

4.6 MORTE DE JESUS

Mateus 27,45-56

4.6.1 Crucificação de Cristo

(1500). Dionisius. Galeria Tretjakov, Moscou, Rússia. (Anexo K)

Quando Jesus é representado crucificado, estamos frente a um momento crucial da


manifestação do amor de Deus. Isso porque o Filho de Deus amou os homens com tal
profundidade, que não teve medo de se entregar nas mãos deles, deixando que lhe fizessem
qualquer coisa. Para os cristãos, esse é verdadeiro amor que precisamos imitar. Com essa
entrega, Ele fez a vontade do Pai, que é fazer que os homens conheçam o amor dele. Na
crucificação, o homem conhece Deus porque entende a qual ponto Deus é capaz de chegar por
amor aos homens. Dois anjos dançam com o Cristo na parte superior da composição. Há ainda
outros anjos abaixo de seus braços. Um introduz a alegoria do Novo Testamento, o outro
afasta a alegoria do Antigo Testamento. Jesus cumpriu as promessas da Nova Aliança.

Estamos fora dos muros de Jerusalém, no alto do Gólgota. Pode-se perceber Jerusalém
no fundo da composição. As cruzes dos ladrões estão vazias. Na tradição oriental, o Cristo é
posto na cruz com a atitude de alguém que está dançando; trata-se de uma dança vitoriosa. Ele
é o primeiro que louva o Pai porque o homem é salvo. É a representação de um corpo sem
nenhuma marca da paixão, não existe sinal de sofrimento; isso porque o artista quis oferecer
ao espectador não um Cristo sofredor manchado pelo sangue, mas o Filho de Deus para ser
contemplado na sua vitória, no cumprimento da vontade do Pai. O corpo dele está se tornando
quase da mesma cor do fundo, o que lembra a ausência do tempo, a eternidade. Quem olha
para esta crucificação deve poder dizer como o centurião do Gólgota "Na verdade, este
homem era Filho de Deus!" (Mc 15,39). Na imagem, o chefe dos centuriões olha fixo para o
alto, mas não enxerga somente o homem que está pendendo da cruz: ele consegue enxergar
algo de espiritual que vai além da sua compreensão. A cabeça enfaixada com um pano branco
indica essa realidade espiritual. Mesmo enxergando com os olhos o que todo o mundo está
vendo, reconhece a dimensão divina que está se mostrando à sua frente e essa visão o
transforma definitivamente.

Existem diferentes maneiras de se colocar frente ao mistério do sofrimento e da paixão


de Cristo. Ao lado do centurião está João que, com a cabeça abaixada e a mão no coração,
parece estar totalmente tomado pela contemplação. Na noite anterior, ele tinha colocado o seu
62

ouvido no coração do Mestre e agora está diante da sua morte. Com o seu coração, ele sente a
dor do coração que tinha conhecido tão bem. Maria, a Mãe de Jesus, que parece estar
profundamente perplexa, é sustentada por sua irmã, por Maria Madalena e por Maria de
Cléofas (Jo 19,25). Ela está olhando o Filho sem palavras e também o Filho a procura com o
olhar. A mão apoiada na face indica a dúvida na virgem, mas não é a mesma dúvida de José
no ícone da natividade – ele duvidava da divindade do menino nascido em Belém, enquanto
Maria fica perturbada pensando neste Deus humilhado na sua humanidade: "este sofrimento
era realmente necessário?". É o próprio Cristo que lhe responde através da sua postura na
cruz. Ele ensina a Maria e às mulheres que se preocupam com ela – e também a todos que
olharem para Ele – a encontrar o sentido salvífico e espiritual do sofrimento, da falência e da
morte.

A cruz está fincada na terra. Uma lenda medieval acreditava que no mesmo Gólgota,
no lugar onde foi colocada a cruz de Cristo, estaria sepultado o crânio de Adão, com três
sementes da árvore do paraíso terrestre na boca. Dessas sementes teria nascido a cruz de Jesus
(ROMANO, 2010). Como todos morreram e foram condenados ao pecado pelo Adão, assim
todos receberão a vida em Cristo (1 Co 15,22). Jesus é o novo Adão e a cruz é a árvore da
vida eterna. É por isso que Gólgota significa "lugar da caveira" e nos ícones é representado
com uma fenda na rocha, com uma caveira que dá origem à cruz.

O ícone pretende ajudar o espectador na procura do significado espiritual do


sofrimento. Quer nos dizer: "quem aceita o caminho do amor, antes ou depois, sofre". O
sofrimento, a fraqueza e a falha são aspectos dos quais os homens querem fugir. Não
suportamos as feridas, a dor e a humilhação. Por isso, ver naquilo que aconteceu no Gólgota
algo espiritual é um percurso da alma que necessita afastar-se do pecado.
63

4.7 JESUS RESSUSCITADO – FESTA DA PÁSCOA

Mateus 28,1-10

4.7.1 Morte e Ressurreição de Jesus

(Ícone russo, século XV). Autor anônimo. (Anexo L)

Como relatam os Evangelhos, são as mulheres as primeiras a chegar ao sepulcro onde


estava o corpo de Jesus. Elas estão levando os unguentos para ungir o corpo do Cristo. É este
gesto de misericórdia que dá o nome à iconografia destes ícones: as mulheres são chamadas
de "Mirofore". Estão presentes Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, Salomé (Mc 16,1) e
Joana (Lc 24,10). Na entrada do túmulo, encontraram um anjo descido do céu, com as vestes
branquíssimas, sentado sobre a pedra que fechava o sepulcro. A indicação é clara: Deus não
tem medo da morte. Trata-se de uma verdadeira teofania, manifestação de Deus. Um
terremoto e o anjo fizeram os guardas romanos ficarem aterrorizados (Mt 28,2-4). Também as
mulheres querem fugir, mas o anjo explica a situação: "Não vos assusteis! Procurais Jesus, o
nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o
puseram!" (Mc 16,6b). O anjo com uma mão indica o alto e com a outra o sarcófago vazio. O
corpo de Jesus não está mais ali, restaram somente as bandagens vazias. Como acontece com
o casulo de uma borboleta, as bandagens ficaram com a marca e a forma do corpo como
testemunho material do que aconteceu: Jesus ressuscitou de forma milagrosa.

Maria Madalena parece dialogar com o olhar com Jesus ressuscitado. Ele lhe parece
indicar a casa do Pai. Ele a indica para todos nós, espetadores. É para lá que Ele deve ir, Ele
vai preparar um espaço para os seus amigos homens. As mulheres chegam da Jerusalém
terrena que mata os profetas enviados por Deus, atrás delas se enxergam os seus muros; mas
todo o movimento da imagem leva o olhar à Jerusalém celeste, que está no alto da montanha e
que deve ser a meta de toda a humanidade.

4.7.2 Ressurreição

(1460). Piero della Francesca. Museu Civico, Sansepolcro, Itália. (Anexo M)

Nesta obra, a figura do Cristo ressuscitado é o centro da composição, os olhos de todos


que colocam diante dele são atraídos pela sua beleza. Jesus não deixa de olhar diretamente
nesses olhos. O autor quis retratá-lo no momento fantástico da volta à vida, no amanhecer do
dia depois do sábado, como contam os Evangelhos. O ressurgido sai do túmulo triunfante,
64

trazendo consigo a bandeira branca com a cruz vermelha que celebra a sua vitória sobre a
morte. Por isso está vestido com uma veste rosa, sinal da soberania sobre toda a terra.

O corpo dele apresenta ainda os sinais da paixão, a ferida na costela parece ainda
sangrar. O espectador o encontra fazendo o passo decisivo que um morto não pode fazer
sozinho: sair do túmulo com os próprios pés; a perna esquerda está pronta para levar todo o
corpo para fora, deixando a morte para traz. Na parte inferior da imagem, quatro guardas
romanos estão dormindo. Eles não vigiaram, como era seu dever, e perderam – mesmo que
estivessem em posição privilegiada, perto do evento – o acontecimento mais importante da
história da humanidade. Eles não poderão testemunhá-lo; ficarão somente com o túmulo
vazio. É claro o contraste entre a humanidade incapaz de ficar acordada e a divindade sempre
vigilante. Mas existe um elemento de esperança. Um deles está apoiado à haste do estandarte
da vitória de Cristo, está diretamente em contato com a divindade, ainda que
inconscientemente. Essa postura pode nos ajudar a entender que, mesmo dormentes, mesmo
na obscuridade, cada homem pode ter esperança na força da ressurreição.

O autor mostra a força renovadora de quem venceu a morte na imagem da natureza no


fundo da tela. Ao lado direito de Jesus, a paisagem é a de uma floresta em pleno inverno
europeu, as árvores não têm nem frutos nem folhas e o restante do espaço parece não ter vida,
está prestes ao falecimento. No lado oposto, ao contrário, a natureza é expressão da força da
primavera, com as árvores verdejantes, prontas a frutificar. A ressurreição de Jesus oferece ao
mundo a possibilidade de uma nova criação, de uma vida nova que tem que ser
experimentada.

4.7.3 Descida aos infernos

(1502). Dionisius. Museu Russo, San Petersburgo, Rússia. (Anexo N)

Neste ícone, Jesus é representado no ato da descida aos infernos logo depois da
ressurreição. Jesus enfrenta a morte não somente ressuscitando e saindo do túmulo, mas
também entrando no império do príncipe do mal, para enfrentá-lo abertamente. Ele entra
nesse mundo caracterizado pela mentira esplendoroso com a veste branca da ressurreição.
Venceu a morte não somente para ele, e sim para resgatar todos os homens que nasceram. A
tradição dizia que, quando Caim se escondeu de Deus, refugiara-se na escuridão da tumba,
lugar onde nada de divino entraria. É o mesmo lugar onde o príncipe da escuridão se esconde
e domina todos aqueles que viram as costas a Deus.
65

Jesus, ao centro da composição, está escancarando as porta do inferno. São duas


tampas de mármore de um caixão. Ele entra vivo no reino da morte. Todos podem cantar
"Onde está, ó morte, a tua vitória?" (1Co 15,55). O reino da morte acabou, não existe mais,
simplesmente porque acolheu um vivo, e não um vivo qualquer, mas a verdadeira Luz. Com a
ressurreição, uma luz eterna ilumina o caminho de quem se deixou tomar pela dúvida, pela
angústia, e que enfim caiu no buraco da morte. Deus não quis se esquecer daqueles que
voltaram as costas a Deus e quiseram esquecê-lo, como algo de que se pudesse prescindir. Ele
chega de braços abertos e com as mãos que procuram os mortos. Adão e Eva são pegos pelos
pulsos e tirados para fora do túmulo. Logo, divididas em duas grandes procissões, todas as
gerações seguem os passos de quem sai, até chegar ao próprio Jesus. Estão retratados os reis,
os profetas, os justos que aguardavam este momento. À esquerda, podem ser reconhecidos
David e Salomão coroados; à direita, João Batista com o rolo da Palavra na mão e Noé com o
modelo da arca. Deus não se esqueceu de ninguém.

Neste momento, todas as tumbas são abertas e um terremoto atinge toda a terra (Mt
27,51-52). Jesus quis se fazer homem para descobrir o esconderijo onde se escondia a
humanidade incapaz de amar. Jesus se entrega nas mãos dos homens porque somente assim
consegue atingi-los profundamente. Cristo toma consigo Adão e Eva para restituir-lhes a
dignidade de filhos de Deus; se foi possível que isso acontecesse com eles, toda a humanidade
já está redimida na ressurreição e voltará ao coração da Trindade, à casa do Pai. É um
momento importante para a história da Salvação. As almas dos justos, confiantes, vestidas de
branco nas duas laterais da gruta, aguardam serem libertadas.

No momento em que os mortos são resgatados por Jesus, dois anjos amarram um
diabo preto como o carvão no fundo da composição. No alto de todo o evento, os anjos
sustentam e adoram a Santa Cruz, clara referência à paixão de Cristo. Ele só podia ressuscitar
se passasse pela morte; o sacrifício do Cristo abriu as portas dos infernos. Os elementos Cruz,
Jesus e a prisão do diabo, colocados centralmente um abaixo do outro, ajudam o espetador a
relacioná-los de maneira evidente.

Estão presentes na imagem as duas esferas da vida espiritual. A esfera da morte está na
gruta onde reina a escuridão, onde governam as leis dos vícios e do egoísmo. Cada demônio
que se escondeu à sombra do diabo representa um vício. Todos estão sendo perfurados pelas
lanças dos anjos que estão na esfera das virtudes, a qual tem Jesus no centro. Esta, a das
virtudes, é radicalmente oposta à esfera do diabo. Quem está nela age à plena luz do Cristo,
66

sem medo de vergonha ou confusão. Cada anjo representa uma virtude cujo nome está escrito
em uma pequena esfera branca. Cada virtude perfura o anjo que representa o vício
correspondente: a humildade derruba a vanglória, a pureza se lança contra a obscenidade etc.
Jesus destrói definitivamente a esfera do mal simplesmente entrando nela: Deus não combate
a escuridão, ela não existe mais. O homem liberto através do milagre da ressurreição pode
viver essas virtudes somente fugindo de todos aqueles que o aconselharão a voltar as costas a
Deus novamente.
67

4.8 JUÍZO UNIVERSAL

Mateus 25,31-46

4.8.1 O Juízo Final

(1431). Beato Fra Angelico. Galeria Nacional de São Marco, Florença, Itália.
(Anexo O)

Esta pintura de Fra Angelico ajuda a imaginar com riqueza de detalhes e elegância o
que poderia acontecer no dia da Parúsia, a segunda vinda de Cristo, o último dia, no qual
todos, segundo a nossa fé, seremos julgados, os vivos e os mortos. Esta pintura foi criada para
ser colocada em um lugar muito visível, o coro36 dos monges de um antigo convento que hoje
não existe mais. Aos monges deveria chegar a mensagem de Jesus: o destino de quem
permanece fiel aos seus mandamentos é a casa do Pai, onde todos o louvam e encontram a
felicidade eterna. Para quem o renega, ao contrário, é preparado um lugar afastado do Pai, um
lugar onde a dor e o mal dominam e não terão fim.

Jesus juiz chega triunfante ao topo da pintura, em uma amêndoa de luz. Em volta dele
os anjos louvam a glória do Cristo: Jesus é a Luz para a qual todos devem olhar. Entre aqueles
que estão com Jesus, são reconhecíveis em primeiríssimo plano: à esquerda, a Virgem Maria,
e à direita, São João Batista. A primeira introduziu o Encarnado na terra, o segundo deu
início, oficiando o batismo dele, à história da salvação. Sentados atrás deles, à esquerda e à
direita, se encontram felizes os santos do Antigo e do Novo Testamento, que participam
juntos da glória do Altíssimo.

Logo abaixo de Jesus, um anjo mantém nas mãos a cruz da redenção e os dois anjos do
Apocalipse anunciam a chegada do Cristo, com trompetes e louvores. O anúncio despertou
todos os mortos da face da terra. Os sepulcros estão vazios, abertos, as tampas estão
escancaradas. Em primeiro plano, temos o sarcófago de Jesus, que está vazio; lembra a
passagem do Filho de Deus na terra e a sua ressurreição. Os anjos e os demônios acabaram de
separar os corpos ressurgidos: à esquerda encontramos os bem-aventurados que rezam e
agradecem o Senhor, à direita estão os danados que estão apavorados pelas torturas que logo
receberão.

36
Lugar específico para a oração comunitária dos mosteiros, onde os monges procuram entrar várias vezes por
dia na liturgia celeste de todos os santos que estão à presença de Deus.
68

As representações do Paraíso à esquerda e do inferno à direita são claras. O paraíso é


visto como um esplendoroso jardim onde tudo é bonito. Como no paraíso terrestre, tem
plantas, flores, águas, é o lugar onde o homem tem tudo e não precisa mais trabalhar para
sobreviver. As almas dos justos são recebidas pelos anjos. Na imagem, muitas delas parecem
ser de religiosos e religiosas, monges e monjas, mas há também leigos que se dedicaram à
construção do Reino de Deus. Cheios de alegria, prontos para entrar na Jerusalém celeste,
dançam em círculo com os anjos naquela que será uma eterna dança de amor junto com Deus.
Da porta da cidade Santa sai a luz que nos foi prometida pela eternidade: somente Deus nos
bastará.

Na parte direita da pintura está representado o inferno. Os demônios empurram com


força e violência aqueles que foram afastados para ficar eternamente longe de Deus. Estão
prontas para eles nove covas de perdição e sofrimento. Cada um será condenado a sofrer a
pena correspondente ao pecado que não soube evitar: quem viveu na preguiça será condenado
a ficar eternamente acordado pelas cobras; quem viveu na luxúria terá serpentes e sapos que
morderão os genitais para sempre; os que foram na terra coléricos se morderão entre eles sem
parar; quem pensou somente em comer, cedendo sempre à gula, ficará sem comer mesmo
com abundância de alimentos à sua frente; quem se deixou guiar pela avareza será condenado
a comer ouro fundido. Além de tudo isso, as chamas e os demônios continuam a torturar cada
alma sem nenhuma piedade. No centro do inferno reina o diabo em pessoa com três faces; as
três bocas mastigam danados que não podem morrer, continuam sendo mastigados e a única
coisa que podem fazer é sofrer. Também aqui no inferno, como no paraíso, encontram-se
pessoas de todas as classes sociais: reis, papas, príncipes, padres, aristocratas e pessoas do
povo.

4.8.2 Visão de João Clímaco

(Século XVI). Autor anônimo, Escola de Novgorod. Museu Russo, São


Petersburgo, Rússia. (Anexo P)

Esta imagem representa alegoricamente o percurso espiritual que São João Clímaco,
contemporâneo de Maomé (século VI d.C.), indicou em seu livro Escada do Céu. Clímaco
significa escada. Esse texto, apreciado pelas Igreja de oriente e do ocidente, propõe os trinta
degraus para subir da terra até o céu, utilizando a escada que o próprio Jesus coloca e sustenta.
Segundo São João Clímaco, Jesus foi o primeiro homem que percorreu perfeitamente estes
degraus, indicou o caminho e agora está perto do último degrau, nas portas do céu, para
69

acolher todos aqueles que enfrentarão este esforço. A escada e a subida até o céu são
tentativas de imaginar a luta espiritual de cada cristão.

O livro foi escrito para os monges. Por isso, no ícone que lembra a visão de São João,
são monges que estão tentando subir os degraus, encorajados pelos anjos fiéis servidores de
Deus. Eles ascendem perigosamente, sem proteção nenhuma. Também os santos que já
conseguiram chegar ao paraíso os encorajam do alto. Em torno dessa escada já perigosa e
escorregadia, demônios alados, os anjos do diabo, insidiam os monges procurando distraí-los
do objetivo. Esforçam-se para fazê-los cair na profundeza do inferno. Somente os que
continuam a olhar para o alto, atraídos por Jesus, que está no final da subida, vão conseguir
não cair. O prêmio final será a acolhida de Jesus, o próprio Cristo. Ele está curvado e não para
de encorajar com fidelidade cada um deles. O Filho do homem, depois de ressuscitar, subiu ao
céu para preparar para todos um lugar na casa do Pai e não quer que ninguém fique de fora.
Preparados estes lugares, agora está à porta do paraíso, junto com sua Mãe Maria e os anjos.
Atrás de Cristo, que salva, está São João Batista, que instituiu o batismo, sacramento de
salvação para todos.

Quem decide começar esse percurso de ascese sabe que vai enfrentar riscos e
dificuldades. Alguns caem, e a queda é sempre algo dolorido; mesmo já em altos níveis de
ascese espiritual, existe sempre o perigo de estar no alto e de repente perder as certezas que
nos acompanharam até aquele momento. Quando essas vertigens surgem, a queda pode ser
feia e destrutiva para quem não encontrar um suporte. Quem cai aceitando os convites dos
demônios tem um espaço reservado na escuridão, representado pela gruta repleta de pessoas
sob a escada.

A escada é um símbolo antiquíssimo na história da humanidade. Na Bíblia, os


encontros com Deus são feitos subindo até uma montanha. Subir quer dizer procurar Deus.
Talvez o encontro mais famoso seja o de Moises que subiu ao monte Sinai para receber as
tábuas dos mandamentos (Ex 24,12-18). Mas o próprio Jesus, muitas vezes, para se encontrar
com o Pai na oração, se refugiava na solidão de uma montanha. Para falar das bem-
aventuranças, subiu ao ponto mais alto para que todos pudessem escutar. A escada em
particular lembra a visão de Jacó, o terceiro patriarca dos judeus, que viu uma escada com
anjos indo e vindo, servindo Deus (Gn 28,12). A partir dessa visão do Antigo Testamento,
São João Clímaco tem uma nova visão, que não se limita a conselhos interessantes somente
para monges, mas também para todos aqueles que querem fazer um percurso de renúncias até
70

chegar a Deus com o coração. Esse é o anuncio que o próprio São João, na imagem, está
proclamando no púlpito. Na pregação, ele está contando a visão da escada aos fiéis reunidos
na Igreja – na realidade, a todos os que lerão o livro. Com a mão indica o caminho da
salvação que pode ter somente uma direção: a subida. Trata-se de um percurso indicativo para
quem quer enfrentar um combate espiritual com o olhar fixo no fim dos tempos. Quem escuta
as suas palavras enxerga imediatamente Jesus curvado aguardando-o no fim da subida da
escada. Este é o segredo: enxergar imediatamente esse Jesus que ama todos. Ele fala no
púlpito de uma igreja: a salvação, o caminho que leva a Deus, nasce e é possível somente na
Igreja. No ícone, essa igreja é representada pela construção arquitetônica no fundo, mas o
grupo que está escutando o santo representa a Igreja viva de Jesus Cristo.
71

4.9 ASCENSÃO – A IGREJA – DISCÍPULOS DE EMAÚS

Lucas 24,36-53 - Lucas 24,13-35

4.9.1 Ascenção do Senhor

(Século XV). Autor anônimo. Candia, Grécia. (Anexo Q)

Este ícone da Ascenção quer ser um ícone cristológico, porque fala de algo que
aconteceu a Jesus, e, ao mesmo tempo, eclesiológico, porque o Cristo que sobe ao céu
"permanece" na terra vivendo na Igreja. É também a expressão da festa da criação que
participa com toda força da subida ao céu do seu Criador. Por isso, assistimos à dança das
rochas e das oliveiras no meio da composição. Cristo é levado pelas forças angelicais à casa
do Pai. Dois anjos sustentam uma esfera que representa o céu espiritual. Jesus é representado
como o ressuscitado vencedor, com as mesmas características do Cristo Pantocrator, com o
rolo do Evangelho na mão esquerda e com a outra abençoando.

Abaixo podemos encontrar dois grupos de apóstolos. O primeiro, à esquerda, mais


movimentado e agitado, simboliza a ação. O segundo grupo, à direita, mais composto,
simboliza a contemplação. A posição dos apóstolos lembra as duas asas de uma ave que quer
voar em direção ao céu. Representa a Igreja que visivelmente está bem plantada na terra
pedregosa, mas que espiritualmente já é o céu na terra. As oliveiras da horta, carregadas de
azeitonas, simbolizam os potenciais frutos espirituais que essa Igreja pode levar ao céu, como
dons de fidelidade à missão confiada por Deus.

Os apóstolos representam a humanidade e estão em torno da Mãe de Deus, coluna e


fundamento da Igreja que une a terra ao céu, os homens às realidades celestes. Nessa Igreja, a
Mãe de Jesus tem uma posição de centralidade; aqui se explica o interesse dos anjos em
protegê-la como algo importante. Como no ícone de Rublev, dos três anjos que representam a
Trindade, no qual a perfeita colocação dos anjos forma um cálice, também nesta imagem os
anjos formam um cálice onde, desta vez, é Maria, a Mãe de Deus, que se torna símbolo do
Povo de Deus para toda a Igreja. Tem uma ideia central: assim como o Filho de Deus
encarnado, precisou de uma mulher para nascer sobre a terra, também os filhos de Deus, todos
os homens, precisam da Igreja para renascer em Cristo. Maria tem a postura do fiel orante e
representa o Povo de Deus em oração.
72

Desde que existe a história, os homens sempre procuraram no céu as respostas para as
próprias dúvidas, procurando os ideais e as belezas que não se encontram na terra. Os anjos
convidam a não olhar mais para o céu. Eles direcionam o olhar dos apóstolos, indicando que
os fiéis devem procurar na humilde serva do Senhor o céu que está na terra. A Igreja é
portadora de todas as virtudes que são necessárias para viver como pessoas que abandonaram
as vestes velhas e se deixaram vestir com as novas trazidas por Jesus. Por isso, cada apóstolo
tem uma veste de cor diferente, cada um representando as diferentes almas e modos de ser que
se encontram no Povo de Deus. Cada um é parte de um corpo que forma a Igreja, possui os
talentos e as virtudes que fazem da Igreja, ao mesmo tempo, um jardim de belezas infinitas e
uma pirâmide, edifício de Deus, com as bases bem firmes na terra.

4.9.2 A Ceia em Emaús

(1601). Caravaggio. National Gallery. Londres, Inglaterra. (Anexo R)

A cena conta a narrativa de Lucas (Lc 24,13-35) do encontro de Jesus com os


discípulos de Emaús e tenta reproduzir uma "fotografia" perfeita do momento no qual os
discípulos reconhecem o Cristo ressuscitado, no momento da bênção do pão.

Quando foi realizada esta obra, Caravaggio era considerado o maior pintor de Roma e
todos os maiores aristocratas o chamavam para trabalhar para eles. A maior característica das
obras de Caravaggio é a capacidade do pintor em utilizar as luzes e as sombras; a sua técnica
revolucionária e original é a colocação das cenas em um fundo obscuro, deixando que seja a
luz a sublinhar os gestos dramáticos e importantes, exaltando-os e oferecendo ao espectador
uma dramaticidade que não pode deixar ninguém indiferente.

Jesus está no centro da composição, é indiscutivelmente o protagonista. Ele é


representado jovem, com os cabelos compridos, sem barba. Parece o Cristo jovem
representado como o Bom Pastor, a promessa da vida eterna, sinal importante para os cristãos
das primeiras comunidades. Ele não pode ser reconhecido porque trata-se de um Cristo
ressuscitado, um homem novo que aparece com todo o seu esplendor. Está vestido de
vermelho, as cores da dor e do sangue, da sua humanidade, mas traz consigo também um
tecido branco no ombro, que lembra a beleza da ressurreição. Uma clara referência de que
Jesus tinha que passar pelo sofrimento da cruz e da morte para ressuscitar e cumprir a vontade
do pai.
73

Se o Cristo não podia ser reconhecido pelo aspecto visível, era bem reconhecível nas
atitudes e nos gestos. Neste quadro, está fazendo o gesto da bênção do pão, e é a partir deste
momento que os dois discípulos, revestidos aqui com os tecidos dos peregrinos do tempo de
Caravaggio, assumem posições e expressões que deixam claro o espanto, o desarranjo
interior. Aqueles discípulos, que estavam indo para longe de Jerusalém, deixando para trás
qualquer esperança, entendem, naquele instante que se tornará a celebração eucarística, que
nada terminou, que tudo o que Jesus tinha prometido estava se cumprindo. No relato, Jesus se
apresentara como um viajante que não tinha um lugar para passar a noite.

Diferentemente do garçom, que fica sem palavra e sem saber o que fazer, os gestos
dos dois peregrinos são bem eloquentes e falam sozinhos. O homem de costas parece não
acreditar no que está vendo. Com o movimento de jogar a cadeira para trás, demonstra querer
enxergar melhor e, aproximando a cabeça, expressa um ponto de interrogação que já tem a
sua resposta. O homem da direita está claramente maravilhado; com os braços, parece imitar a
cruz, lembrando os acontecimentos que acabaram de contar a Jesus durante o caminho e que
acreditavam que Ele desconhecesse. Com essa abertura, parece medir o espaço. O impacto é
tão forte que a mão parece sair do quadro e puxar o espectador para dentro da cena. A mão
direita, aquela perto do Cristo, parece ser desproporcional, mas mostra a intenção do autor em
levar a Cristo o olhar de quem assiste a cena. Na mesa estão presentes o pão e o vinho, que
simbolizam o corpo e o sangue de Jesus em seu sacrifício. O recipiente cheio de fruta
representa tanto a fertilidade de quem se coloca à mesa do Senhor quanto a fragilidade das
coisas materiais, da existência terrena. Por isso, as folhas das uvas estão murchas, os figos e a
romã estão quebrados e a casca da maçã tem buracos.

Nós, como os discípulos de Emaús, somos convidados a reconhecer as nossas


fragilidades humanas e a manter os olhos abertos. Jesus está na nossa vida de todos os dias e
caminha conosco. Porém, temos que reconhecê-lo principalmente na ressureição expressa
pela Eucaristia; quando a comunidade se reúne para oferecer o seu e o nosso sacrifício e para
proclamar a ressurreição do Cristo e o nosso desejo de segui-lo.
74

4.10 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS

4.10.1 Tríptico dos sete sacramentos

(1450). Rogier van der Weyden. Koninklijk Museum, Antuérpia, Bélgica.

(Anexo S)

Neste tríptico completo são representados os sete sacramentos: batismo, confirmação,


penitência e reconciliação, Eucaristia, unção dos enfermos, matrimônio e ordem sacerdotal.
As cenas são colocadas no interior de uma enorme igreja gótica, típica do norte da Europa. É
um convite para que o espectador entre nela e entenda plenamente a profundidade dos
sacramentos. A Igreja é o lugar onde encontramos Deus e onde os fiéis celebram esse
encontro. Aqui os sacramentos são celebrados como sinais sacramentais que ligam os homens
ao amor de Deus.

No painel central, fonte de todos os outros sacramentos, a Eucaristia é o mais


valorizado. Aparece claramente a relação da comunhão com a paixão de Cristo. O sacrifício
de Jesus na cruz, o seu oferecer-se aos homens como cordeiro de Deus, o memorial do
sacrifício do seu corpo e do seu sangue é confiado à Igreja na Eucaristia, até que Jesus volte
na sua glória. A cruz quer lembrar que este sacrifício é um evento histórico que aconteceu
verdadeiramente e que se atualiza efetivamente na mesa eucarística. Ela é enorme, toma a
forma da letra hebraica tau – símbolo do povo de Israel salvo do mal por Deus – e está
inserida majestosamente na enormidade da igreja que, na sua planta cruciforme, é imagem do
crucifixo. Aos pés da cruz, João sustenta Maria como se sustenta uma parturiente no momento
de parir. A presença da Mãe de Jesus aos pés da cruz, na Igreja, gera outros filhos espirituais;
ela se deixa utilizar por Deus como uma porta, da mesma maneira que se prestou a ser
instrumento pela encarnação do Filho de Deus. Por isso, Maria é Mãe de Deus e Mãe dos
cristãos. A imagem é pré-conciliar: o sacerdote, de costas para o povo, está celebrando a
missa no fundo da igreja. Está elevando o corpo de Deus da mesma maneira que Jesus foi
elevado na cruz, mas agora Jesus é elevado como vencedor, como aquele que tira os pecados
do mundo.

Nas outras tábuas, encontramos os outros sacramentos. No painel de esquerda, em


primeiro plano temos o primeiro sacramento da iniciação cristã, o batismo, caracterizado pela
presença do anjo com a veste branca. O sacerdote banha a criança que foi levada pelos pais
até a Igreja para que se torne membro do Povo de Deus. Os padrinhos são testemunhas deste
75

momento e se comprometem a ajudar os pais na educação aos ensinamentos da Igreja para


que a criança possa se tornar um bom cristão. Logo atrás, mais no interior da igreja, abaixo do
anjo amarelo, o bispo ministra o sacramento da confirmação, a crisma. Agora, o homem já
tem capacidade de caminhar com as próprias pernas para a vida no Espírito e é ele que pede e
recebe o Espirito Santo no sacramento que o confirma como instrumento nas mãos de Deus.
No fundo da igreja, no segredo da confissão, um fiel se confessa e recebe o perdão dos
pecados, no sacramento da reconciliação, simbolizado pelo anjo com a veste vermelha.

No painel da direita, temos ilustrados os outros três sacramentos. No fundo, o anjo


marrom indica o sacramento da ordem. O homem, maduro na fé, se coloca a serviço do povo
de Deus, na transmissão da Palavra de Deus, na animação da Sagrada Liturgia, no levar os
sacramentos e no serviço aos mais pobres. No centro, olhados por um anjo azul, um casal se
une em casamento observando o vínculo do sacramento do matrimônio. O padre abençoa essa
união para sempre e as testemunhas são chamadas a ajudar o casal a santificar a vida da nova
família que acabou de nascer. No final, o anjo escuro, quase preto, representa o sacramento
da unção dos enfermos, antigamente chamado de extrema unção. É aquele que está mais perto
do espectador, contraposto ao do batismo, início da vida cristã. Antes ou depois todos os
homens falecem, e é bom sempre ficar vigilantes. Nessa tábua encontramos também a figura
de uma mulher sentada lendo a Bíblia, indicando que todos os sacramentos se fundamentam
na Palavra de Deus.
76

4.11 BATISMO

Mateus 3,13-17 – João 1,29-34

4.11.1 Batismo de Cristo

(Fim do século XVIII). Kostandin Shpataraku. Museu Nacional, Korçë, Albania.


(Anexo T)

A Festa do Batismo de Jesus para o Oriente Cristão é mais importante que a da


Natividade, porque se enxerga nela uma grande teofania na qual se confirma plenamente a
divindade de Jesus. Como relatam os Evangelhos, no momento em que o Cristo desce no rio
Jordão, rebaixando-se (kenosis), e recebe o batismo pelas mãos de João Batista, a voz de Deus
que chega do céu confirma que é Ele o Filho de Deus (Mt 3, 13-17). O raio de luz tripartido é
sinal visível dessa manifestação divina: onde está Jesus estão presentes também o Espírito,
visível na pomba – neste ícone, imaginado com a auréola –, e o Pai, na manifestação das
palavras escritas no interior do raio. Nessa verticalidade, a Trindade aparece na sua ordem
eterna que é salvação para os homens: o Pai por meio do Filho no Espírito.

A descida de Jesus às águas do rio do batismo desde sempre foi interpretada como a
descida ao "sepulcro líquido" do Jordão. Cristo se revela nas margens destas águas que
dividem o Israel e a Jordânia de hoje e que vão até a depressão do Mar Morto. Para os
antigos, o mar e as águas em geral hospedavam os monstros marinhos e nelas residem as
potências do mal; por isso, também os judeus temem navegar. Jesus é rei da natureza e não
teme mandar nas águas.

A centralidade da figura majestosa de Jesus, o raio de luz que sai do alto e a água do
rio que desce exaltam a verticalidade da composição. O rio parece uma fenda que rasga a
montanha em duas e cai diretamente dentro da profundidade da terra, no abismo onde reina a
escuridão. Essa posição de Jesus prefigura a descida nos infernos tendo o mesmo significado:
é através da morte que Jesus salva o homem; Ele é o novo Adão. O Filho de Deus desce ao
abismo mortal, derrota o diabo e todas as forças do mal e sai dele vitorioso.

Jesus domina e santifica as águas; João Batista se dobra sobre Ele e coloca água na
cabeça do Cristo. Os três anjos aguardando no lado oposto ao do Batista estão prontos a
receber o corpo do Cristo, desnudo como no momento da criação, como se já fosse a
Eucaristia. Com o batismo do Cristo celebra-se o início da nova criação, vivificada pela
77

presença de Deus. Ele restaura em si a imagem original do homem, a sua beleza que se tinha
perdido com o pecado de Adão. O machado fincado na árvore à esquerda lembra a todos que
os últimos tempos já chegaram; o acesso ao Reino de Deus com Jesus é reaberto, mas com
uma condição: é preciso seguir o caminho indicado pelo servo de Javé e o batismo é o
primeiro passo.
78

4.12 CRISMA – FESTA DE PENTECOSTES

Atos dos Apóstolos 2,1-13

4.12.1 Pentecostes

(Século XVI). Autor anônimo. Mosteiro Siepche, Demir Hisar, Macedônia.


(Anexo U)

A descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, que acontece cinquenta dias depois
da ressurreição, é a manifestação definitiva da Trindade, que dá início ao motor da Igreja que
se torna como um farol, luminosa e calorosa novidade para a humanidade. A Festa de
Pentecostes é considerada por muitos a fundação da Igreja. A comunidade, reclusa por medo
dos judeus, ao receber o Espírito Santo adquire a maravilhosa capacidade de falar ao coração
dos homens e das mulheres de qualquer cultura e encontram a coragem de pregar o Evangelho
em todos os cantos do mundo.

Como relata o livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-13), estavam presentes os onze
apóstolos que caminharam e participaram dos momentos trágicos dos últimos dias de vida de
Jesus na terra e Matias, sorteado entre outros discípulos para substituir Judas como décimo
segundo. Neste ícone Matias é substituído pela figura de São Paulo. São reconhecíveis os
evangelistas Mateus, João, Lucas e Marcos, porque cada um tem nas mãos um livro que
lembra os escritos do Novo Testamento. Também o Pedro ao lado de Paulo, mantem no braço
o Evangelho. A presença também de Paulo confirma que esta iconografia não quis fazer uma
documentação histórica do acontecimento, mas uma leitura teológica que vê os apóstolos e
missionários como a comunidade que é chamada a anunciar a Palavra de Deus ao mundo
todo. A disposição deles em semicírculo quer representar a comunidade dos fiéis. Serão
aqueles que darão testemunho de Jesus Cristo, com pregações e milagres, mas, sobretudo,
com a vida e, para alguns deles, com o martírio. Os rolos que cada um tem na mão são os seus
escritos. Eles não estarão sozinhos nessa empreitada. Entre Pedro e Paulo existe um espaço
vazio: é o espaço preservado para a presença espiritual de Jesus Cristo, que se faz presente na
vida dos homens através do Espírito Santo que é o consolador, o paráclito (que significa
advogado), o defensor, o intercessor. Aquele espaço não está vazio, mesmo que assim o
pareça.

Línguas de fogo se dividem como jatos de um vulcão e todos os apóstolos recebem


essa bênção espiritual. Esse fogo vem direto do alto: é o Espírito Santo que desce, enviado
79

pelo Pai e prometido pelo Filho. O Espírito é simbolicamente representado como uma pomba,
a mesma pomba que desceu sobre Jesus no momento do batismo no rio Jordão. Agora, a
Igreja comunidade está madura e o Espírito desce para fortificá-la e acompanhá-la no desafio
do anúncio. A comunidade se abre à ação do Espirito e é preservada na unidade, mas também
na particularidade de cada um. Aos apóstolos inflamados pela luz divina se contrapõe a figura
do velho rei que se encontra abaixo da cena. Ele representa alegoricamente o cosmos, o
mundo que até aquele momento vivia nas sombras, prisioneiro do mal e à espera de ser
vivificado pelo Espírito. Com o fogo do Espírito que desce do alto, a figura do cosmos se
coloca em contraste com a escuridão do caos e do pecado. Com o tecido branco ele tenta
recolher o fogo que chega do alto e que se transforma nos rolos das pregações de todos os
cristãos. O cosmos pode ser entendido como a personificação da harmonia cósmica, mas
também como a prefiguração do homem novo restaurado pelo espírito na beleza original.

Todos aqueles que aceitam receber as chamas do Espírito Santo na própria vida se
inserem nesse mistério, pelo qual a Igreja se torna mensageira da manifestação de Cristo para
o mundo. A disposição dos elementos faz entender a construção de uma Igreja onde o Povo de
Deus se reúne e a presença invisível, mas real, de Deus é uma certeza. É aqui que o homem
encontra a salvação. A Igreja se torna o templo vivente, é diferente da construção do templo
de pedra dos judeus; é lugar privilegiado para encontrar Deus neste tempo de passagem pela
terra. É aqui que os fiéis precisam encontrar o modo de colaborar com o Povo de Deus para
levar Jesus a quem não o conhece.

4.12.2 Pentecostes

(Século XV). Autor anônimo. Origem russa. (Anexo V)

Neste ícone, além de todas as caraterísticas da imagem precedente, é clara também a


presença de Maria, a Mãe de Deus, que até o século XVII faltava na iconografia de
Pentecostes. Com o tempo, mesmo que Maria não estivesse presente no relato dos Atos que
fala do acontecimento do Pentecostes (At 2,1-13), foi difícil deixar de imaginar que Maria,
presente no momento da Ascensão, não estivesse presente nesse momento tão importante para
a fundação da Igreja do Povo de Deus. O Bispo Inocêncio (apud TRADIGO, 2004, p. 151)
80

dizia: "Como poderia não estar presente no momento da vinda do Espírito Santo aquela que
concebeu e deu à luz através do Espírito?"37.

37
"Como poteva non essere presente al momento della venuta dello Spirito colei che ha concepito e partorito
mediante lo Spirito?"
81

4.13 EUCARISTIA: COMUNHÃO

Mateus 26, 20-29

4.13.1 Última ceia

(Cerca de 1546). Jacopo Bassano. Galeria Borghese, Roma, Itália. (Anexo W)

Ao longo dos séculos, foram muitas as obras que tentaram imaginar e contar o
momento da instituição da Eucaristia. A mais famosa é A última ceia de Leonardo Da Vinci.
Aqui, decidimos propor a Última ceia de Jacopo Bassano, que encontrou uma maneira de
juntar todos os relatos dessa noite tão importante para a cristandade, seguindo especialmente
os relatos de João. Observando os homens em torno da mesa, logo percebe-se que as palavras
de Jesus não foram compreendidas tão claramente. Os discípulos ficaram sem entender, seus
olhos expressam incredulidade, e por isso perguntam e esperam explicações. Pedro logo se
declara pronto a segui-lo; Tomé, ao contrário, tenta fugir dessa possibilidade. Felipe pede para
ver o Pai e Judas Tadeu fica maravilhado que Jesus por manifestar-se aos discípulos e não ao
mundo. Entre eles, um pergunta ao outro, não podem entender o significado daquelas palavras
pronunciadas por Jesus. Na dinâmica dos gestos e dos olhares respira-se um clima de tensão.

Jesus tinha acabado lavar os pés de cada um dos apóstolos; ninguém deixou de ter os
pés lavados, nem Judas, que o deveria trair. Bem em evidência, logo se enxergam a bacia e o
frasco com água que Jesus utilizou para demonstrar como servir. Judas, o homem com a
camisa verde à direita, tem na mão esquerda a bolsa com o dinheiro; o autor não a coloca em
evidencia, mas deixa que seja o espetador a intuir sua presença mostrando as tiras da bolsa
que contém as trintas moedas. Outros indícios são a presença do gato que aparece ao lado dele
e o seu calcanhar levantado que lembra, de maneira plástica, que ele está prestes a levantar-se
para denunciar Jesus e que o traidor levantará o calcanhar contra o próprio mestre (Sl 41,10).

Mas antes Judas dissimula, não se esconde, representa o próprio papel até o fim. Não
responde a Jesus que tinha acabado de pedir-lhe de fazer logo o que tinha que fazer (Jo
13,27), mas com a máscara da hipocrisia discute ainda com os dois discípulos que estão à sua
frente. O discípulo em pé está bebendo um copo de vinho, o outro indica a mesa eucarística.
Também Judas indica o pão que está perto dele. É o pão do qual Jesus pegou um pedaço para
oferecer ao traidor (Jo 13,26). Judas continua dissimulando e, com a posição da mão, deixa
entender sobre o que todos estão discutindo vivamente à mesa: as duas espécies eucarísticas.
Os únicos que parecem não estar interessados são o próprio Jesus e João, aquele que se define
82

como o discípulo mais amado pelo Senhor (Jo 21,20-24); ele não resiste às notícias e se
abandona nos braços de Jesus, preferindo dormir nos braços do Senhor a procurar a solução
que todos estavam querendo encontrar. Pedro, confuso, pelo gesto da mão esquerda parece
envergonhado e ao mesmo tempo chateado com o homem que está bebendo o vinho todo; mas
na mão direita segura a faca que utilizará no Horto das Oliveiras. Olha para seu irmão André,
que parece não acreditar no gesto daquele que está bebendo. Os discípulos de direita estão em
plena discussão, e Tomé mostra o dedo que colocará na ferida do corpo do Cristo
ressuscitado.

Cristo é o único que olha para o espectador sem desvios. Ele está conosco sempre,
mesmo quando debatemos sobre nossas opiniões diferentes. Ao contrário, nenhum apóstolo
olha para Jesus. O Filho de Deus está preocupado porque parece que ninguém consegue
entender a sua mensagem. Mas os sinais na mesa e na imagem são claros, pelo menos pelo
espectador. A cabeça de cordeiro que está no centro da mesa lembra o rito hebraico da
remissão dos pecados com os animais: Jesus se está colocando como Novo Cordeiro
sacrificial para a remissão de todos os pecados. A laranja no centro da mesa, colocada na
borda, lembra a paixão e a redenção. Há também a particular auréola trinitária, que parece sair
da cabeça de Jesus. Porém, todos os apóstolos renunciaram a entender com a fé o que tinha
acontecido naquela mesa e deixaram de lado a presença do Cristo.

A última ceia de Bassano nos convida a não cometer o mesmo erro de deixar de lado o
Messias à procura do entendimento, e sim a reler com paixão os relatos da instituição da
Eucaristia. Nós homens e mulheres, nós Igreja, podemos ter a tentação de investigar a
substância, a forma e o rito, e de esquecer e não investigar o significado profundo que Jesus
Cristo nos quis passar. Estamos convidados a olhar aquele que, como mostra esta pintura, está
interessado em nos olhar. Temos que nos deixar ajudar pelo Espírito para entender melhor o
valor da Eucaristia: Jesus que nos olha um por um e nos chama a fazer o mesmo com todos os
homens e mulheres que Deus coloca em nossa vida.
83

4.14 EUCARISTIA: SERVIÇO – LAVA-PÉS

João 13, 1-17

4.14.1 Lava-pés

(Século XVI). Autor anônimo. Galeria Tretjakov, Moscou, Rússia. (Anexo X)

Estamos na noite da instituição da Eucaristia. Antes disso, Jesus cumpre um gesto que
deixa todos sem palavras. Jesus sai da mesa, tira o manto, veste a roupa de servo e começa a
lavar os pés dos discípulos presentes.

A imagem é clara. Jesus está em pé, ligeiramente inclinado em sinal de serviço. O


olhar permanece fixo em Pedro, que não entendera a necessidade do gesto. Ele se deixa
convencer, por isso está apontando com a mão direita para a cabeça e com a mão esquerda
para os pés: não somente os pés precisam ser lavados, mas também as mãos e a cabeça (Jo
13,9). Jesus está imortalizado no ato de lavar os pés de Pedro, todos os outros já tiveram os
pés lavados com cuidado e atenção. A maioria dos apóstolos, sentados em uma roda, estão
voltados para o Filho de Deus com os olhares perplexos. Alguns deles estão colocando as
sandálias de volta nos pés, outros estão com os olhares perplexos perguntando-se o
significado daquele gesto.

O Cristo realizou um gesto revolucionário: trocou as vestes que representam a sua


dignidade pelas vestes dos servos, cumpriu uma tarefa que é papel de um escravo, colocou-se
em último lugar. Jesus não tem medo de se abaixar para servir discípulo por discípulo,
demonstrando que não tem medo de se abaixar para servir cada um de nós. Faz-se servo de
cada um de nós para nos indicar o caminho do serviço.

Um dos discípulos que não está olhando para Jesus é Judas; ele estava querendo outro
tipo de messias, parece não entender o sinal da humildade e da brandura do Mestre. Jesus,
mesmo sabendo o que ele estava tramando dentro do coração, quis lavar também os pés dele,
no último ato de misericórdia possível. Jesus não tem medo das nossas fraquezas e até o
último momento se coloca à disposição, como um amigo – mais que isso, como um servo –
procurando ajudar-nos a não fechar o coração.

Este é o testamento de Jesus deixado a todos nós cristãos. Antes de ser entregue aos
romanos e de sofrer de uma maneira terrível, antes de ser entregue nas mãos dos pecadores e
de derramar o seu sangue para nós, com este gesto Ele comunicou a síntese do anúncio da
84

Boa-Nova. Quem quer seguir Jesus e a sua Palavra deve entender que o segredo de quem ama
é amar os outros como o Encarnado nos amou. O recíproco bem-querer é fundamento da
comunidade cristã. Estimar-se, acolher quem está perto e quem está longe, deixar a lógica do
ser melhor que outro e servir são a cola que mantém a unidade na comunidade cristã.

4.14.2 Eucaristia e Lava-pés

Codex Purpureos Rossanensis (Século V). Autor anônimo. Museu Diocesano de


Rossano, Rossano, Itália. (Anexo Y)

No Evangeliário de Rossano podemos encontrar inúmeras miniaturas de cenas dos


Evangelhos. Esta que estamos apresentando nos indica a relação que existe entre a Eucaristia
e o Lava-pés.

Na primeira imagem, Jesus e os doze apóstolos estão em volta da mesa na típica


posição de um jantar entre amigos. Cada discípulo encontra o seu lugar em volta dela. Estão
celebrando a Festa da Páscoa. Jesus está na atitude de abençoar e os discípulos estão atentos e
emocionados. Judas pega o pedaço de pão no prato, como sinal de que é ele que trairá o
Salvador (Mc 14,20). Ao lado, na segunda imagem, Jesus lava os pés dos discípulos, inclusive
de Judas. Jesus tem os quadris cingidos pela toalha e está curvado lavando os pés em uma
clara postura de serviço.

Colocar estas duas imagens na mesma miniatura revela a grande conexão que existe
entre a Eucaristia vivida na liturgia, na comunhão da oração com todos os irmãos e a
Eucaristia como dimensão do serviço, onde cada cristão se coloca a serviço do outro por
amor, sem querer nada em troca. Não podemos separar as duas Eucaristias.
85

4.15 RECONCILIAÇÃO – PERDÃO – UNÇÃO DOS ENFERMOS – FILHO


PRÓDIGO

Lucas 15,11-32

4.15.1 O retorno do Filho Pródigo

(1669). Rembrandt. Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia. (Anexo Z)

Podemos dizer que esta obra é aquela que, mais que qualquer outra, exprime com
intensidade o imenso amor misericordioso de Deus para com a humanidade. Rembrandt
tentou, em vários momentos da sua vida, capturar em uma imagem este momento prodigioso
do pai que acolhe o filho que parecia estar perdido. A parábola do filho pródigo com certeza é
uma das mais lindas parábolas que Jesus nos doa; o amor de Deus é incompreensível para o
homem e a alegria do perdão é algo que não pode ser descrito. É muito provável que
Rembrandt se sentisse necessitado desse amor, talvez por ter vivido os primeiros anos de
popularidade e sucesso como esse filho que quer seguir sua própria vida; mesmo gastando e
vivendo de maneira arrogante, sentia que antes ou depois precisaria desse perdão. No final da
vida, entre sofrimentos e desventuras, sofreu a solidão, falecendo pobre e sem amigos. Este
filho pródigo que temos diante de nós é de 1668 ou 1669, ou seja, de pouco tempo antes da
morte do autor (outubro de 1669). Conhecendo a vida dele, vendo o filho ajoelhado aos pés
do pai amoroso e paciente, com a cabeça mergulhada no peito quase tentando escutar e
convencer o coração dele, difícil não enxergar nele a autobiografia do Rembrandt no final da
sua vida.

O filho volta à casa do pai, não mais vestido suntuosamente com roupas caras, como
quando desperdiçou a parte de herança que lhe era de direito, mas com roupas sujas e
rasgadas. Está frio. Todos têm um manto para se proteger da baixa temperatura, também o pai
o acolhe vestido com um rico manto que lembra ao filho o que ele deixou para trás. O filho
não tem nada para se cobrir; agora, somente o abraço do pai misericordioso o aquece. Os
chinelos, que praticamente não servem mais para nada, contam bem a queda de quem perdeu
tudo, até a dignidade. O pé esquerdo desnudo e cheio de cicatrizes conta os quilômetros
percorridos para voltar à casa do pai. Ele não possui mais nada, é pobre. Tem a cabeça
raspada e não mais os cabelos compridos para serem exibidos. A única coisa que ficou com
ele é a espada que está bem evidente na cintura. Ela representa a casa do pai, emblema da
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própria dignidade e da nobreza da sua família. É a única coisa que ele não vendeu para comer.
Não se esqueceu de quem é filho.

O filho mais velho observa a cena comovente, mas não se deixa envolver pela emoção
da volta do irmão menor. Está claramente rígido, quase ausente, quer ficar fora dessa história.
A composição do quadro se divide em duas partes distintas. A primeira, à esquerda, onde o
pai acolhe o filho, e a segunda, à direita, dominada pela presença do filho maior. No meio
existe uma distância que parece intransponível, uma fratura que dificilmente poderá ser
sanada. O pai e o filho maior têm barba e estão vestidos com o mesmo manto. Isso quer dizer
que, sendo da mesma carne, possuem elementos comuns. Os dois são ligados na imagem pela
luz que ilumina seus rostos, mas são luzes e posturas diferentes. O primeiro tem os braços
abertos, desde o dia em que o filho caçula saiu de casa, prontos a abraçá-lo na sua volta; o
segundo mantém os braços bem escondidos debaixo do manto e as mãos cruzadas junto ao
corpo, excluindo qualquer possibilidade de acolhida, seja material, seja de coração.
Rembrandt evidencia essa diferença iluminando de maneira diferente as mãos dos dois. Uma
luz branca, sem emoção, evidencia a frieza de coração do filho mais velho; uma luz calorosa,
que esquenta e envolve até o espectador, ilumina o abraço do pai. O filho que permaneceu a
vida toda fiel ao pai desta vez não aceita esse ato de bondade, não aceita participar desses
festejos de amor íntimo. A sua maneira de agir o coloca fora da iluminação que o abraço do
pai espalha na cena; ele parece estar na escuridão, obcecado pelo próprio eu e pela sua falsa
justiça.

Mas é o pai a figura mais importante deste quadro. No longo tempo longe do filho,
também ele mudou muito, aprendendo a dar menos valor às coisas materiais. Por isso, o que
brilha não são mais as correntes preciosas ou as coisas que estão à sua volta, mas é o seu rosto
que exprime uma vida vivida plenamente. Quem o enxerga agora não é mais atraído pelas
suas riquezas, mas pela intensidade do seu amor, que ele aprendeu a exercitar com paciência
aguardando o filho desaparecido. Pintando o pai, Rembrandt quer ajudar a entender o
significado da ternura, do perdão e da misericórdia. Ele encarna no pai, com habilidade e
paixão, a realidade espiritual do amor de Deus Pai misericordioso. O que existe de mais
divino é contado através da carne de um pai humano, como qualquer pai na face da terra. Um
homem idoso, com barba e bigode, vestido ricamente, que apresenta todas as limitações que
um homem pode ter, mas em cujos gestos e expressões pode-se ler um amor incondicional,
um perdão pronto e para sempre e uma ausência de rancor – características divinas.
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Mas o centro verdadeiro da pintura são as duas mãos do abraço do Pai. Aqui a luz é
mais potente e todos os olhares, inclusive daqueles que estão fora da cena, estão
contemplando esta maravilha. As mãos deste velho pai são diferentes uma da outra e agem de
maneira diferente também. A mão esquerda é claramente musculosa, forte, que se apoia no
ombro direito do filho como se quisesse sustentá-lo dando-lhe força, a força que ele não tem.
É evidente a sua natureza masculina. A mão direita é gentil, delicada, atenciosa, quer oferecer
carinho, acalmar, consolar; é uma mão feminina, uma mão de mãe amorosa. Por isso, nesta
interpretação de Rembrandt, o pai da parábola do filho pródigo não é somente pai, mas é, ao
mesmo tempo, mãe. Ele exprime com arte a natureza de Deus, na qual estão presentes
plenamente seja a essência do homem, seja a da mulher; seja a paternidade, seja a
maternidade.
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4.16 VOCAÇÃO – PARÁBOLA DOS TALENTOS – ORDEM – MATRIMÔNIO

Mateus 4,18-22

4.16.1 Vocação dos Santos Pedro e André

(Início do século XVII) Caravaggio. Hampoton court, Royal Collection, Londres,


Inglaterra. (Anexo AA)

Para introduzir a questão da vocação, utilizamos duas obras de Caravaggio em que


Jesus escolhe os seus discípulos. Os primeiros serão Pedro e André, pescadores, bons judeus,
sem muito estudo, simples e trabalhadores. O convite de Jesus é direto e claro: "farei de vós
pescadores de homens" (Mt 4,18-20). Eles conheciam a arte de pescar, nasceram praticamente
em um vilarejo de pescadores, mas não conheciam a arte de pescar homens. Somente
aceitando o convite a seguir Jesus poderiam aprendê-la. Deixaram tudo e o seguiram.

Jesus é o protagonista jovem desta cena, muito mais jovem que os pescadores que está
chamando a segui-lo. Com a chamada dos primeiros apóstolos, acaba de começar a sua
caminhada de anúncio da Boa-Nova. Está procurando amigos fiéis que possam acompanhá-lo
nessa empreitada. Com a mão esquerda, Jesus indica aos futuros discípulos o caminho que
devem seguir e logo coloca também o corpo naquela direção, deixando para trás somente o
olhar que captura os dois pescadores. Ele está traçando um caminho que é bem claro para ele,
mas que os seus seguidores descobrirão apenas caminhando, andando com ele.

Em um primeiro momento, os dois escolhidos parecem não entender bem a chamada.


Pedro está ainda colocando o resultado da pesca em ordem com as suas mãos marcadas pelo
trabalho e pelo sol. As vestes devem ter um forte cheiro de peixe e umidade, mas é justamente
ali, no meio daquela humanidade simples, que o Filho de Deus o chamou. Pedro abre os
braços, demonstrando não entender a razão para chamar pecadores a se envolver nesse
trabalho. André, perplexo, também parece lhe perguntar: "Quer realmente a mim?" Jesus faz
uma escolha bem clara: decide procurar os seus seguidores no meio dos mais humildes e
pequeninos.
89

4.16.2 A vocação de São Mateus

(1559). Caravaggio. Capela Contarelli, Igreja de São Luís dos Franceses, Roma,
Itália. (Anexo AB)

A segunda obra de Caravaggio conta a chamada de Mateus (Mt 9,9-13), cobrador de


impostos, considerado impuro porque colaborava com os odiados ocupantes romanos. Não
podemos saber se Mateus estava satisfeito em exercitar esse trabalho ou estava sendo
obrigado pelas circunstâncias, até aquele dia em que Jesus entra na vida dele.

O futuro apóstolo está com os seus amigos em uma espelunca, onde habitualmente
finalizam as tarefas do dia. De repente, abre-se a porta do quarto escuro onde Mateus e os
seus companheiros estavam contando o dinheiro das taxas: é Jesus, com uma proposta
surpreendente. Uma luz quase divina ilumina os homens capturados no momento da chamada
mais incrível do Evangelho. Todas as figuras usam as vestimentas do tempo de autor, dando
à obra mais força de expressão. Também Jesus usa um chapéu típico do século XVIII. O gesto
dele é inconfundível: o dedo indica o homem sentado no centro da mesa. Ele é o chefe. Bem
em evidência podem ser vistos os seus instrumentos de trabalho: o caderno com as anotações
de quem deve ainda pagar e de quem já pagou e a espada (presa à cintura do jovem
colaborador) para impor medo. O dinheiro é o objetivo dele e está à mostra na mesa.

Na imagem, Mateus parece surpreendido pela chamada imprevista; o relato evangélico


nos conta que ele deixará tudo e mudará de vida para se tornar discípulo de Cristo. A vida
cotidiana é interrompida pela intervenção imprevista do divino. Jesus surpreende, não tem
medo de chamar para segui-lo aquele que é conhecido por todos como grande pecador, aquele
que está ainda no pecado, aquele que todos rejeitam porque parece incorrigível. Jesus chama a
todos e somos todos chamados a segui-lo, em qualquer condição de vida que nos
encontremos. Se deixarmos entrar a luz no quarto do nosso coração, não poderemos
permanecer indiferentes e deixar de segui-lo.
90

4.17 BEM-AVENTURANÇAS – MANDAMENTOS

Mateus 5,1-12 – Mateus 22,34-40

4.17.1 O Sermão da Montanha

Beato Fra Angelico (1438-1440). Museu de São Marco, Florença, Itália.

(Anexo AC)

Nas bem-aventuranças podemos encontrar as indicações para viver o caminho da Boa-


Nova. Quem escuta estas palavras de Jesus e consegue colocá-las em prática torna-se síntese e
indicação do amor de Deus.

Neste afresco de Fra Angelico, Jesus, sentado sobre a montanha, está fazendo um
discurso importante para os seus discípulos. Eles entenderam logo que não se tratava de uma
simples parábola. Neste caso, Jesus os convidou a subir uma pequena altura. Quando Deus
chama os homens para escutá-lo no alto de uma montanha, o divino tem sempre algo de novo
e maravilhoso para comunicar. Jesus, Filho de Deus, está na parte de cima da composição
como se tivesse que falar a todos os que estão abaixo, não somente aos apóstolos, mas a toda
a humanidade que o quer escutar. Ele tem a certeza de que, de alguma maneira, esta
mensagem não será jogada fora ou desperdiçada.

Jesus tem na sua mão esquerda o rolo da Palavra de Deus, e com a mão direita indica o
céu onde habita Deus Pai. Ele não está falando sozinho: as palavras estão chegando do céu,
diretamente de Deus. Observando as expressões dos apóstolos, entende-se logo que o discurso
é sério e que vale a pena escutá-lo, levá-lo no coração e praticá-lo na vida. Trata-se da nova
lei que vai substituir a antiga. A velha era fundada sobre o "olho por olho, dente por dente",
porque o povo entendia a justiça como vingança e punição; agora, com a vinda de Jesus,
legislador de uma nova justiça, o amor e a bondade estão na base de uma nova maneira de
viver, inaugurada pela passagem de Jesus na nossa vida. Interessa-nos seguir o caminho dele.
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4.18 ORAÇÃO CRISTÃ – ANO LITÚRGICO – PAI-NOSSO

Lucas 11,1-13

4.18.1 Ícone russo das doze festas litúrgicas

(Século XIX). Autor anônimo. (Anexo AD)

Este ícone nos introduz na questão dos tempos litúrgicos na Igreja. Estão
representadas na mesma imagem doze grandes festas do calendário litúrgico bizantino. Todas
essas festas possuem um fundamento a partir dos acontecimentos relatados no Novo
Testamento e lembram fatos importantes desde a preparação à vinda de Jesus com o
nascimento de Maria, Mãe de Deus, até todos os fatos mais expressivos da passagem do Filho
de Deus na terra.

Partindo da primeira cena à direita, encontramos às doze festas em torno de uma cena
maior no meio da composição. Os acontecimentos em volta da ressurreição e as aparições de
Jesus que se mostrou vivo depois da sua morte aos seus apóstolos são o tema central deste
elemento. Claramente, estes fatos são fundamento de toda a fé cristã e, consequentemente, de
todas as festas que os cristãos celebram. Não teria sentido lembrar e celebrar os outros fatos se
Jesus não tivesse nascido, ressuscitado e subido ao céu.

Partindo do alto e analisando bem cada cena, podemos admirar e lembrar: a Festa do
Nascimento da Mãe de Deus, instrumento do divino para se encarnar; a Apresentação da Mãe
de Deus ao templo; a Anunciação do anjo a Maria; a Natividade, com a Sagrada Família e os
reis magos. Logo abaixo, as quatro cenas centrais nos lembram: a Apresentação de Cristo no
templo; o Batismo de Cristo no rio Jordão; o Ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém
(Domingo de Ramos); a sua Transfiguração. As festas colocadas na faixa inferior são: a
Ascensão do Cristo ao céu; a representação da Trindade, na visitação dos três anjos a Abraão;
a Exaltação da Cruz; a Dormição de Maria.

Examinar cada cena deste ícone pode ser um bom exercício para lembrar algumas
festas que vivemos no nosso ano litúrgico.
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4.19 PALAVRAS DE DEUS – PARÁBOLA DO SEMEADOR

Lucas 8,4-15

4.19.1 São João Evangelista e Prócoro

(1602). Emmanouil Lambardos. Museu dos Ícones, Veneza, Itália. (Anexo AE)

Para falar da importância da Palavra de Deus na vida dos cristãos, introduzamos o


argumento com um ícone que representa a tradicional iconografia dos evangelistas. São João
evangelista neste ícone é lembrado como o Teólogo do Silêncio.

Ele quer representar o momento da revelação do Evangelho. A tradição oriental fala da


pregação de São João na Ásia Menor e do seu confinamento na ilha de Patmos, onde ficou
exilado por vários anos quando Trajano era imperador em Roma. Terminado o exílio, decidiu
voltar a Éfeso. É neste momento que os seus seguidores, que ficaram com ele na permanência
na ilha grega durante exílio, lhe fizeram um pedido surpreendente: "Deixa-nos um escrito que
nos conte o que você conhece de Jesus Cristo, um texto que nos conte as coisas que fazia e
falava o Filho de Deus, o que os Apóstolos ouviram da boca dele, para que todos possamos
fazer o que ele pediu". João se deixou inspirar pelo Espírito Santo e, depois de três dias de
meditação longe de todos, sem comer e beber, desceu do monte, mandou o seu fiel discípulo
Prócoro comprar folhas de papiro e tinta e começou sem demora a ditar-lhe o Evangelho que
todos os cristãos conhecem.

Na imagem, João está em uma gruta junto com Prócoro, inseparável companheiro de
viajem. Lá está recebendo uma iluminação. A gruta parece uma cúpula redonda coroada por
duas pontas de rochas, como se fosse um lugar sagrado preparado para receber aquela que
seria reconhecida Palavra de Deus. O Evangelista está sentado com a postura de quem escuta.
Está voltado para a sua direita e, com a mão perto da orelha, demonstra toda a sua atenção. O
rosto deixa claro que está meditando as coisas que chegam do alto, que somente ele recebe e
pode ouvir diretamente da boca de Deus. Os olhos de João estão voltados para o céu, o lugar
de onde as palavras chegam. A presença de Deus que representa a revelação é clara pelos três
raios de luz visíveis que iluminam a gruta e pela mão de Deus bendizente. João é somente um
instrumento nas mãos de Deus, acolhe a revelação e dita as palavras inspiradas ao discípulo
fiel. Prócoro está sentado ao lado dele em um banquinho no ato de escrever; tem uma única
preocupação: a de não perder nenhuma palavra que sai da boca do mestre. A tradição diz que
a maratona de escutar, ditar e escrever duraria dois dias e seis horas sem parar. Prócoro tem
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apoiado no joelho a primeira folha; acabara de escrever as primeiras palavras do prólogo do


Evangelho de João: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra
era Deus" (Jo 1,1).
94

4.20 JESUS ACOLHE – FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE

Lucas 10,26-37

4.20.1 O Bom Samaritano (de Delacroix)

(1890). Vincent Van Gogh. Museu Kroeller-Muller, Otterlo, Holanda.

(Anexo AF)

Nas pinceladas apaixonadas de Van Gogh, podemos encontrar elementos que nos
apresentam a força do Evangelho. Van Gogh reproduz uma obra de Delacroix oferecendo a
ela um novo dinamismo que envolve também o espectador. De todos os gestos que podiam
ser evidenciados nesta parábola, Delacroix decidiu mostrar o esforço do samaritano que
levanta o desafortunado golpeado pelos bandidos. Os músculos das pernas estão tensos e as
costas encurvadas para aguentar o peso do homem sem forças. O homem socorrido faz de
tudo para se agarrar a ele, e com esse gesto multiplica o seu peso. Além de tudo, a dor cria
convulsões que o fazem gritar e se contorcer, vendo no samaritano a sua única esperança.

Trata-se de um esforço enorme da parte do samaritano; transparece claramente que


não é fácil socorrer esse homem. Talvez, aqueles que fizeram de tudo para não olhar aquela
situação o tenham feito justamente por não querer suportar o peso de tal gesto. Os dois que na
parábola foram citados por Jesus decidiram não parar, não carregar esse peso, dando as costas
ao amor. Eles estão caminhando no lado esquerdo do quadro; são representados pequenos no
caminho que se afasta. Afastando-se, tornam-se cada vez mais insignificantes, ao contrário de
quem fez o que tinha que ser feito: tomado pela compaixão no seu gesto gratuito, torna-se
grande, enorme, um gigante do amor.

Nesta releitura de Van Gogh, é o autor que se coloca no lugar do samaritano, dizendo
aos espetadores que cada um deveria fazer a mesma coisa. Mesmo não conhecendo a
verdadeira fé de Van Gogh, ele demonstra uma intensa sensibilidade com a dor e o sofrimento
dos outros. Nos seus traços ásperos, transmite o peso e a responsabilidade do gesto de amor
incondicional; mesmo carregando o corpo sem forças no cavalo, o peso permanece no ombro
de quem tomou a decisão certa, sinal de que, para ajudar quem está em dificuldade, não é
suficiente socorrer, mas é preciso também carregar sobre de si – ou sobre uma comunidade
unida e aberta aos imprevistos – todas as suas penas, o seu futuro, a sua volta a uma
"normalidade".
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4.20.2 O Bom Samaritano

(1630). Rembrandt. Wallace Collection, Londres. (Anexo AG)

A obra de Rembrandt nos fala do empenho do Samaritano para que o desfortunado


possa se recuperar do ataque. Somos chamados a nos colocar a serviço para a volta à
"normalidade" do homem golpeado pelos bandidos. Ele não agiu somente tomado pela
emoção, mas deu o necessário para o seu sustento do homem a quem ajudava. A cena é bem
clara: o samaritano acabou de chegar ao vilarejo, está conversando com o responsável pela
hospedaria e percebe-se que está pagando do próprio bolso a estadia do homem assaltado.
Assim, o peso do socorro está sendo compartilhado.

Agora, cada um, animado pelo gesto do samaritano, pode se preocupar com a parte
que lhe cabe. Seja trabalhando na hospedaria, seja ajudando os sofredores a chegar à
hospedaria, seja ajudando a descer do cavalo, seja com gestos muito mais humildes. A
atenção e a perseverança do samaritano ajudaram muitas pessoas a fazer a própria parte.
Também a samaritana que está tirando água do poço (Jo 4,4-26) está na composição para
dizer uma coisa clara: nós só poderemos socorrer quem encontramos na nossa vida se
soubermos onde encontrar as forças necessárias para também suportar as consequências da
coerência cristã. Jesus falou muito claramente à mulher samaritana: "quem beber da água que
eu darei nunca mais terá sede, porque a água que eu darei se tornará nele uma fonte de água
jorrando para a vida eterna" (Jo 4,14). É Jesus que precisamos levar conosco para socorrer os
últimos que estão jogados nas sarjetas da vida. O homem que será hospedado naquela casa
precisará de comida, cuidados, remédios, conforto e repouso, mas, sobretudo, precisará que
tudo isso seja feito com o mesmo cuidado com que Jesus faria.

Talvez se olharmos bem este quadro, se conseguirmos entrar dentro dele,


descobriremos que os que precisam ser resgatados das nossas dificuldades, dos golpes duros
da vida, às vezes somos nós. Jesus é o modelo ideal do bom samaritano e temos que crescer
com a nossa fé para sermos cada vez mais como ele. Se não for possível fazermos isso
sozinhos, é necessário dizer um sim comunitário.

O esforço de pesquisa iconográfica realizado neste trabalho pode ser para muitos um
instrumento interessante que ajuda a exprimir as potencialidades que temos nas mãos quando
precisamos ser responsáveis pela formação à nossa fé. Pode interessar a todos os cristãos em
geral, mas de maneira particular aos catequistas, para que cada vez mais se apaixonem pelos
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jovens, pelos meninos e meninas, pelos homens e mulheres que pedem para ser introduzidos à
fé cristã ou desejam continuar um processo de formação permanente. Deve ficar bem claro
que cada pessoa e cada turma merece uma atenção particular; é preciso um esforço de amor e
um exercício de fantasia, mantendo-se nos trilhos propostos pela Igreja. Um percurso ideal de
formação é personalizado, "costurado", uma proposta feita sob medida, capaz de unir
Evangelho, imagens, oração e vida comunitária.
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CONCLUSÃO

Eu estava acompanhando Ernesto Olivero ao Brasil. No avião, sobrevoando o oceano


Atlântico, em plena noite, ele me acordou com os olhos brilhantes, feliz como uma criança
que encontrara um maravilhoso brinquedo que nunca imaginara que pudesse existir. Qualquer
criança pensaria no quanto poderia divertir-se com aquele brinquedo, divertir-se até desmaiar
de cansaço. Ele me falou: "Estou quase chegando lá, a minha ideia está quase pronta. Que
bom!". Seu tom era de maravilha, de agradecimento a Deus. Logo perguntei: "Uma ideia para
fazer o que, Ernesto?" Jogou o olhar por alguns instantes dentro do meu e, sem nenhuma
hesitação nas palavras, falou: "Uma ideia para mudar o mundo!".

Esse é Ernesto Olivero para mim: um cristão como qualquer um que, tendo conhecido
Jesus ressuscitado, quer mudar a si mesmo e ao mundo inteiro. É tão apaixonado que não se
poupa para inventar continuamente situações para que também os outros possam se apaixonar
pelo mesmo amor. Todos deveriam ter essa mesma vontade de testemunhar com os fatos, com
a vida e com a mudança de caráter que Deus existe e pode ser enxergado no mundo por meio
da nossa aceitação desse amor. Acima de qualquer esforço, de qualquer técnica de ensino que
pudermos aplicar e do auxílio de novas mídias e tecnologias, a condição mais importante para
uma evangelização eficaz é a correspondência entre as palavras que se pronunciam e a vida
que comunicamos, resultado do encontro com Cristo. As "palavras" sem essa correspondência
com a vida podem se tornar escândalo e podem obter o resultado contrário ao objetivo inicial:
afastar, às vezes para sempre, os homens do encontro com Deus.

O cristianismo é a história do encontro de Jesus com os homens e do testemunho


contínuo destes últimos que não podem deixar de apresentar Cristo a todos os homens e
mulheres que ainda não o conhecem e também àqueles que, mesmo dizendo-se cristãos, ainda
não o encontraram. Trata-se de um testemunho de pessoa para pessoa; testemunho recíproco
que continua mesmo nas dificuldades, nos limites e nos erros que podemos cometer e que se
torna testemunho comunitário quando todos procuram e conseguem caminhar juntos, tendo
bem claro um objetivo comum: apresentar ao mundo, com a própria vida, Cristo Jesus
Ressuscitado.
98

REFERÊNCIAS

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2012.

APARECIDA. Aparecida: Santuário, 2013.

BAROFFIO, G. B.; CHIERICI, S.; RUSCONI, A. (org.). Arte e Spiritualità nei


monasteri medievali: Rassegna Il canto delle pietre. Lipomo: Cesare Nani, 1995.

BAUMAN, Z. Amor líquido: a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2004.

BENTO XVI. Discurso do papa Bento XVI: Encontro e celebração das vésperas com
os bispos do Brasil. Viagem apostólica de Sua Santidade Bento XVI ao Brasil por
ocasião da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe. Città
del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2007. Disponível em:
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BRAGANTINI, G. A vida de Jesus em ícones: da Bíblia de Tbilise. Tradução de


Silva Debetto C. Reis. São Paulo: Loyola, 2008.

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99

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ANEXOS

ANEXO A: CRISTO PANTOCRATOR

(1546). Teofane di Creta. Mosteiro Stavronikita, Monte Athos, Grécia.


103

ANEXO B: O BOM PASTOR

Cláudio Pastro. Brasil.


104

ANEXO C: REPRESENTAÇÃO DE JESUS

(Século V). Autor anônimo. Catacumba de Comodila, Roma, Itália.


105

ANEXO D: CRISTO COROADO DE ESPINHOS

Cristo coronato di spine (1450). Beato Fra Angelico. Museu de Livorno, Livorno,
Itália.
106

ANEXO E: ROSTO DO HOMEM DO SANTO SUDÁRIO

Turim, Itália.
107

ANEXO F: DEUS PAI NO TRONO, COM JESUS E A VIRGEM MARIA

(Final do século XV). Autor anônimo. Coleção privada.


108

ANEXO G: SANTÍSSIMA TRINDADE OU ÍCONE DOS TRÊS ANJOS

(Século XV). Andrei Rublev. Galeria Tretjakov, Moscou, Rússia.


109

ANEXO H: NATIVIDADE DE JESUS

(1405). Andrei Rublev. Catedral da Anunciação, Kremlin, Moscou, Rússia.


110

ANEXO I: NATIVIDADE DE JESUS

Autor anônimo.
111

ANEXO J: MÃE DE DEUS DAS TRÊS MÃOS

Maria Mãe dos Jovens (Ícone russa do século XIV). Autor anônimo. Sermig,
Arsenal da Paz, Turim, Itália.
112

ANEXO K: CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO

(1500). Dionisius. Galeria Tretjakov, Moscou, Rússia.


113

ANEXO L: MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS

(Ícone russo, século XV). Autor anônimo.


114

ANEXO M: RESSURREIÇÃO

(1460). Piero della Francesca. Museu Cívico, Sansepolcro, Itália.


115

ANEXO N: DESCIDA AOS INFERNOS

(1502). Dionisius. Museu Russo, San Petersburgo, Rússia.


116

ANEXO O: O JUÍZO FINAL

(1431). Beato Fra Angelico. Galeria Nacional de São Marco, Florença, Itália.
117

ANEXO P: VISÃO DE SÃO JOÃO CLÍMACO

(Século XVI). Autor anônimo. Escola de Novgorod. Museu Russo, São


Petersburgo, Rússia.
118

ANEXO Q: ASCENÇÃO DO SENHOR

(Século XV). Autor anônimo. Candia, Grécia.


119

ANEXO R: A CEIA EM EMAÚS

(1601). Caravaggio. National Gallery. Londres, Inglaterra.


120

ANEXO S: TRÍPTICO DOS SETE SACRAMENTOS

(1450). Rogier van der Weyden. Koninklijk Museum, Antuérpia, Bélgica.


121

ANEXO T: BATISMO DE CRISTO

(Fim do século XVIII). Kostandin Shpataraku. Museu Nacional, Korçë, Albania.


122

ANEXO U: PENTECOSTES

(Século XVI). Autor anônimo. Mosteiro Siepche, Demir Hisar, Macedônia.


123

ANEXO V: PENTECOSTES

(Século XV). Autor anônimo. Origem russa.


124

ANEXO W: ÚLTIMA CEIA

(Cerca de 1546.) Jacopo Bassano. Galeria Borghese, Roma, Itália.


125

ANEXO X: LAVA-PÉS

(Século XVI). Autor anônimo. Galeria Tretjakov, Moscou, Rússia.


126

ANEXO Y: EUCARISTIA E LAVA-PÉS

Codex Purpureos Rossanensis. (Século V). Autor anônimo. Museu Diocesano de


Rossano, Rossano, Itália.
127

ANEXO Z: O RETORNO DO FILHO PRÓDIGO

(1669). Rembrandt. Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.


128

ANEXO AA: VOCAÇÃO DOS SANTOS PEDRO E ANDRÉ

(Início do século XVII) Caravaggio. Hampoton court, Royal Collection, Londra,


Inglaterra.
129

ANEXO AB: A VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS

(1599). Caravaggio. Capela Contarelli na Igreja de São Luís dos Franceses,


Roma, Itália.
130

ANEXO AC: O SERMÃO DA MONTANHA

(1438-1440). Beato Fra Angelico. Museu de São Marco, Florença, Itália.


131

ANEXO AD: ÍCONE RUSSO DAS DOZE FESTAS LITÚRGICAS

(Século XIX). Autor anônimo.


132

ANEXO AE: SÃO JOÃO EVANGELISTA E PRÓCORO

(1602). Emmanouil Lambardos. Museu dos Ícones, Veneza, Itália.


133

ANEXO AF: O BOM SAMARITANO (DE DELACROIX)

(1890). Vincent Van Gogh. Museu Kroeller-Muller, Otterlo, Holanda.


134

ANEXO AG: O BOM SAMARITANO

(1630). Rembrandt. Wallace Collection, Londres, Inglaterra.

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