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T H O M A S CARLYLE

HISTÓRIA DA
REVOLUÇÃO FRANCESA

TraduçSo e prefácio de António Ruai

Volume

S.» EDIÇÃO

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THOMAS CARLYLE (1795-1881)

EDIÇÕES MELHORAMENTOS

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TORY O r T H E FRENCH REVOLUTION


Titulo do original Utgléi: H H :
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'lodos os direitos reservados pela


Comp. Melhoramentos de SSo Paulo, Indústrias de Papel
Caixa Postal 8120, São Paulo t N D I C E

Carlyle, o Profeta 7
A História da Revolução francesa 1$
VIII-1962

Parte I: A BASTILHA

l i w o / : MORTE DE LUÍS XV
I — Luís, o Bem-Amado 19
II — Ideais Realizados i 22
III — Viaticum \ 30
IV — Luís, o Inesquecido ....' 33
"A arte de traduzir è um dos fatóres mais importantes
e mais dignos da vida universal."
1 Livro II: A IDADE DO PAPEL
Goethe
I — Astraea Redux 39
II — Petição em Hieróglifos 44
III - Dúvidas 46
IV — Maurepas 49
V — Astraea Redux sem Dinheiro 52
Do mesmo autor, nas Edições Melhoramentos: VI — Sacos de Vento 55
OS HERÓIS (esgotado) VII - Contrato Social 59
VIII - Papel Impresso 61

Livro III: O PARLAMENTO DE PARIS


I — Letras Protestadas 66
II — O Intendente Geral Calonne 70
í ibliot ca Municipal III - Os Notáveis 73
IV — Os Éditos de Loménie 80
Prof. Bento Munho da Eccha Netto V
VI
— Os Raios de Loménie
— Os Enredos de Loménie
84
88
VII — Destruição Mútua 92
• A A
VIII — A Agonia de Loménie 96
IX — Enterro com Fogo de Artifício 105
A M/Ã*m Livro IV: ESTADOS GERAIS

U0H I — Outra Vez os Notáveis 109


II - As Eleições 113
& ■
III — A Temperatura Torna-se Elétrica 119
Noi pedidos telegráficos basta citar o cód. 0-05-089 n fl J T&*' IV — A Procissão 122

Livro V: O TERCEIRO ESTADO


I - Inércia 138
II — Mercúrio De Brézé , 145
III — Broglie, o Deus d a Guerra 151
\ HHMIK AO UVW U*» «MIIACAO « I I K H U W N Í O T * ' ' .

X
ÍNDICE
ÍNDICE S
IV Às Armas 156
V Déem-nos Armas ! 160 Livro III: AS TULHERIAS
VI Assalto e Vitória 166
173 I - Epimênides 332
VII Não é uma Revolta II - O Vigilante 336
VIII Conquistando o Vosso Rei 177
180 III — De Espada na Mão 341
IX O Candeeiro
IV — Fugir ou não Fugir 346
V - O Dia dos Punhais 352
Livro VI: CONSOLIDAÇÃO VI - Mirabeau 358
• VII — Morte de Mirabeau 361
I Fazei a Constituição 185
II A Assembleia Constituinte 190
III A Cambalhota Geral 194 Livro IV: VARENNES
IV Em Bicha '.. 202
204 I — A Páscoa em Saint-Cloud 369
V O Quarto Estado II - A Páscoa em Paris 372
/
III - O Conde Fersen 375
Livro Vil: A INSURREIÇÃO DAS MULHERES IV - Atitude 381
207 V - A Berlina Nova 384
I 1'atrulhotismo
210 VI - O Antigo Dragão Drouet 388
II ó Ricardo, ó meu Rei . . .
214 VII - A Noite das Esporas 391
III Topes Negros
216 VIII — O Regresso 398
IV As Mênades
219 IX - Tiroteio Rijo 400
V O Meirinho Maillard
VI A Versalhes 223-
Em Versalhes 227 Livro V: O PRIMEIRO PARLAMENTO
VII
A Ração Igual 230
VIII I — A Grande Aceitação 405
IX • Lafayette 234
II - O Livro da Lei 411
X ■ As Grandes Entradas 237
III - Avinhão 418
XI De Versalhes '\ . 242
IV - Sem Açúcar 424
V — Reis e Emigrados 427
VI - Os Bandoleiros e Jalés 435
Parte II: A CONSTITUIÇÃO VII — A Constituição não Quer Marchar 438
Livro l: A FESTA DOS CHUÇOS VIII - Os Jacobinos 442
IX - O Ministro Roland 445
I Nas Tulherias 251 X — A Pique-Nationale-Pétion 449
II Na Salle de Manége . . . . 254 XI — O Representante Hereditário 451
III A Parada 265 XII — A Procissão dos Calções Negros 454
IV Jornalismo 271
V Clubismo 274 Livro VI: A MARSELHESA
VI Je le Jure 278
VII Prodígios 281 I — Executivo que não Executa 459
VIII Solene Liga e Pacto 283 II — Marchemos 465
IX Simbólico 288 III — Algumas Consolações para o Género Humano 467
X O Género Humano 290 IV - Subterrâneo 471
XI Como na Idade de Ouro 295 V - Ao Jantar 473
XII Ruído e fumo 300 VI — Os Campanários à Meia-Noite 476
VII - Os Suíços 483
VIII — A Constituição Feita era Pedaços 489
Livro 11: NANCI

I Bouillé 307
309 Parte III: A GUILHOTINA
II Soldos Atrasados e Aristocratas
III Bouillé em M e u 314
Livro I: SETEMBRO
IV Soldos Atrasados era Nanei 317
V O Inspctor Malseigne 321 I — A Comuna Improvisada 497
VI — Bouillé em Nanei 324 II - Danton 507
III Dumouriez 510
IV — Mumbo-Jumbo .. 702
IV — Setembro em Paris 513 V — As Prisões .. 705
V - Uma Trilogia 520 VI •*- Para Acabar com o Terror . 708
VI - A Circular 526 Vil — Derrubados .. 712
VII — Setembro na Argona 533
VIII - Exeunt 541
Livro VII: VINDIMARIO
Livro II: REGICÍDIO I — Decadência , 718
II — La Cabarrus 721
I - A Deliberativa 548 III — Quiberon 725
II - O Executivo 555 IV - O Leão não Está Morto 728
III - Descoroado 559 V — Últimas Agonias do Leão .. 7SI
IV — Quem Perde Paga 561 VI — Arenques Assados .. 736
V — Esticamento das Fórmulas 563 VII — Chuva de Metralha 739
VI — No Julgamento 568 VIII - Finis 744
VII - As Três Votações 574 Sumário cronológico 747
VIII - Place de la Révolution 579 Index .. 761
Livro III: OS GIRONDINOS
I - Causa e Efeito 585
II — Culóticos e Sans-culóticos 590
III — Aumenta a Aspereza 595
IV — A Pátria em Perigo 598
V — O Sans-culotismo Provido 605
VI - O Traidor 608
VII - Em Luta 612
VIII - Em Abraço de Morte'* 614
IX - Extinção 619

Livro IV: O T E R R O R
I - Carlota Corday 624 ,' i
II - Em Guerra Civil 630
III — Retirada dos Onze 633
IV - ó Natureza 637
V — A Espada Implacável 641
VI — Levantados contra os Tiranos : 644
VII — Maria Antonieta . . . 647
VIII - Os Vinte e Dois 649

Livro V: O T E R R O R NA ORDEM DO DIA


I — No Precipício 653
II - Morte 657
III - Destruição : 662
IV Curmanholii Completa 670
V — Como uma Nuvem de Trovões 675
VI - Cumpre o teu Dever ! 678
VII - Quadro de Chamas , , 684

Livra VI: TERMIDOR


I - Os Deuses Têm Sede 688
II — Danton, Nada de Fraqueza , 693
III — As Carroças 697

I
ÍNDICE DAS ILUSTRAÇÕES CARLYLE, O PROFETA
Luis XV - As Caçadas de Luis XV - Luisa de França entre A característica principal de Carlyle é a de profeta. Por isso é obscuro
Detalhe do quarto de Lufs XV — Coroa da sagração de Lu(s XV nos seus pensamentos e na dimensão das suas ideias. Talvez que não
— Espada de Lufs XV — Modelo de carruagem para o filho de
Luís XV entre pudesse ter sido de outro modo. Pois que é um profeta? Um homem
Maria Antonieta e seus filhos — O grande gabinete de Maria An­ que vê muito longe, que se projeta, por assim dizer, fora do tempo.
tonieta entre Nós, prisioneiros do Tempo, confinados num estreito espaço da Doba­
Luís XVI — Caricatura dos emigrantes — Charge sobre a situação doura do Tempo, vemo-nos embaraçados para compreender aquele
das classes antes da Revolução entre
que salta para fora da sua era e que, em face dos acontecimentos pre­
Procissão dos Estados Gerais — Robespierre — Consulta à magia
sobre a Revolução — As indumentárias da época entre sentes, filhos do Passado, prevê e diz quais são os seus frutos. E que
O Juramento do Jogo da Péla — Lambesc penetra nas Tulherias — nos podem antecipar os profetas, senão calamidades? Como são uma
Tomada da Bastilha — Pilhagem das armas no Garde-Meuble . . entre espécie de oráculos, de mensageiros ou intérpretes dos juízos de Deus,
O povo de Paris e a "Primeira Hora da Liberdade" — Festa por pertencem à classe dos místicos.
ocasião da proclamação da Constituição — A noite de 4 de agosto entre 224 e 225
A Galeria dos Vitrais — Caricatura de Maria Antonieta — Lafayette entre 240 e 241 A Inglaterra, que, apesar de ser uma nação religiosa à sua moda,
Lufs XVI trabalhando no Campo de Marte — Festa da Federação nunca foi mística nem inteiramente céptica (mística foi a Judeia, alfo­
— Fouquier-Tinville entre 288 e 289 bre de profetas e a pobre Irlanda, alfobre de missionários) reagiu, por
Alegoria sobre o regime de Robespierre — Mirabeau — A Guarda • isso, a princípio, contra o profeta Carlyle. Fracassaram os seus pri­
Nacional desarma os fidalgos entre 304 e Í05
meiros passos na literatura, não porque não revelasse génio, mas por­
Caricatura do rei Luís — M. Mailly — Prisão de Luís XVI — No­
tícia sobre a fuga do soberano entre 352 e 353 que, numa época de utilitarismo e de progresso vertiginoso, não
A Constituição de 1791 — Membros da Convenção em choque com queriam as classes cultas ser atormentadas com visões tétricas de futu­
os canhões de Henriot — Gravura satírica sobre a Assembleia ras tempestades. O seu primeiro livro Sartor Resartus sofreu críticas
Nacional entre 368 e 3«9
impiedosas e até chocarreiras. Na história literária inglesa nunca se
A Marselhesa — Rouget de Lisle cantando o canto de guerra —
Tomada das Tulherias entre 416 e 417 vira nada de mais original. Parecia obra dum louco. O assunto, a
Monumento aos guardas suíços — A família real na prisão do maneira de o tratar, o título do livro e dos capítulos, as imagens, as
Templo entre 432 e 433 comparações, a linguagem, o estilo, tudo aquilo cheirava a manicômio.
Georgcs Jacques Danton — Robespierre — Luís Saint Just entre 480 e 481 O primeiro homem do mundo que compreendeu a obra foi Emerson,
Último retrato de Luís XVI - Morte de Luís XVI entre 496 e 497 uma espécie de Carlyle americano. Foi a América que revelou à mãe
Assassínio de Maiat — Última mensagem de Carlota Corday — Ma­
ria Antonieta perante o tribunal — Escrito de adeus de Maria
pátria o seu homem como, por assim dizer, pouco depois, lhe revelou
Antonieta entre 544 e 545 outro, Macaulay, cujos Ensaios foram primeiro publicados em volume
Partida dos voluntários de 1792 — Recrutamento durante a Re­ do outro lado do Atlântico.
volução - Batalha de Fleurus entre 560 e 561
Sátira sôbrc a depuração dos Jacobinos — Danton conduzido à Gui­ O inglês é tolerante, devido ao seu caráter e às suas instituições
lhotina — Prisão de Robespierre — Execução dos Girondinos . . entre 608 e 609 políticas e apraz-se com as excentricidades, desde o momento em que
Bonaparte em 1796 — Comissário republicano — A moda feminina entre 624 e 625 estas não penetrem fundo no cerne da sua constituição física e moral.
Mas é sobretudo prático, utilitarista. Se em pleno século dezenove,
na progressiva época vitoriana, Carlyle fizesse muitos discípulos, da
têmpera e das ideias do mestre, a Inglaterra teria de se prevenir e tomar
decerto providências drásticas. Porque o seu edifício social ficaria
muito abalado. Seria coisa terrível que no reinado de uma outra Fairie
Queen, quando a Grã-Bretanha era a única senhora dos mares, domi-
.

8 CARLYLE. O PROFETA CARLYLE, O PROFETA 9

nava três sétimas partes da superfície do globo, se afirmava a primeira idade áurea do capitalismo, desse capitalismo que considerava o ope­
nação do mundo em todos os ramos da atividade humana, com os rário apenas como uma mercadoria, sujeita à lei da oferta e da procura,
seus teares, as suas estradas de ferro, a sua frota, a sua capacidade lançando-o na revolta e na miséria. Por isso Carlyle evocava com sau­
financeira, o seu prestígio universal, que o britânico estivesse volta e dade os tempos medievais, em que o servo gozava da proteção do
meia a ser assediado com terrores, com o Mané, Tecei, Farés do antigo senhor, o qual, se não por espírito cristão, ao menos por interesse
reino da Babilónia. próprio, o não deixava morrer à fome. A liberdade, o voto, o laissez
Carlyle, cuja influência moral foi grande, não fêz propriamente dis­ faire, redundavam nisto: os ricos esmagando os pobres. Por isso, a
cípulos, a não ser Ruskin. E para contrapor ao seu pessimismo, havia aristocracia do dinheiro considerava-a êle a mais vil, a mais baixa, a
o otimismo de Macaulay. mais miserável de todas as aristocracias.
Macaulay, um talento sólido, não genial, era o admirador entusiasta Em plena orgia vitoriana de progresso, era bom que na Inglaterra
do progresso, da civilização em geral e, em especial, da civilização surgisse, de vez em quando, a voz de Carlyle a pressagiar tempestades.
inglesa, fervoroso apóstolo do evangelho democrático, orador nato, É sempre útil ao homem, na embriaguez do seu triunfo, que alguém
advogado nato, que historiava, que citava, que remontava ao passado, lhe lembre as calamidades. Pode assim moderar-se e ficar mais sóbrio.
indo até à Grécia, a Roma, à Judeia, à Babilónia, para demonstrar O otimismo, quando passa de certos limites, é uma intoxicação peri­
que os fatos mais incongruentes, que os acontecimentos mais terríveis,' gosa, que nos torna cegos, imprevidentes. Fará então bem ler as La­
que os erros e os crimes antigos, que o caos de ontem, tudo isso havia mentações de Jeremias.
sido a causa deste meio-dia esplendoroso e radiante do dia de hoje, E foi assim que, de certa época em diante, os ingleses começaram
desta colossal realização em todos os setores, nas artes, nas ciências, a escutar Carlyle. Todavia poucos o liam e ainda menos o entendiam.
nas indústrias, na política-, que era o século dezenove. O grande whig Destacavam-se porém da sua obra um certo número de preceitos morais,
extasiava-se a contemplar uma civilização que para êle era a obra-prima para uso geral. A tradição puritana estava sendo fortemente minada
do género humano. pelo cepticismo, e Carlyle, com a intransigência e obstinação do pres-
Carlyle, esse condenava tudo. O utilitarismo de Bentham e Stuart biterianisrho escocês, vinha avigorá-la. E por isso, passou a ser a maior
Mill, a democracia, o sufrágio universal, a liberdade, a libertação dos influência moral do seu tempo.
escravos, o catolicismo, o judaísmo, o conformismo protestante, o Home Carlyle, no sentido geral da sua vida, foi um apóstolo. Veio ao
Rule da Irlanda, porque para êle, inimigo de fórmulas, só havia uma mundo para dizer o que pensava e a isso sacrificou tudo: repouso,
realidade, o homem, o herói. interesses materiais, conforto e até a boa da esposa. O autêntico herói
O herói, no sentido puramente carlyliano, é coisa difícil de encontrar. como homem de letras é êle. Não procurou o meio mais fácil e mais
Carlyle, andou, porém, sempre à cata dele. Tenta encontrá-lo no Abbot rápido de obter fama. Sujeitou-se a viver bastante tempo nas áridas e
Sansão, em Guilherme, o Conquistador, em Cromwell, em Napoleão (*). geladas montanhas da Escócia, pobre, isolado, para não transigir com
Força a história para encontrar o seu tipo de herói, e se topa com o mundo e com os gostos do mundo. E venceu afinal, não em pro­
qualquer semelhança de herói veste-o à sua moda, como fêz com Fre­ ventos fartos, mas em prestígio e influências.
derico II, que pouco terá de herói na verdadeira acepção carlyliana. São terríveis as crises do Eu em certos indivíduos. Um homem nasce
Mas poder-se-á conceber que Carlyle, neste culto do herói, do homem neste mundo, de temperamento concentrado e um tanto melancólico,
de força, na antecipação do super-homem de Nietzsche, fosse um de inteligência penetrante; é embalado pelas crenças caras de seus
espirito inimigo das mais generosas aspirações humanas, que desejasse maiores, aprende as orações dos lábios de sua mãe, frequenta, em
ver forcas < u : HI.I |><>I toda a parte e os grandes calcando impiedosa­ companhia dos seus, qualquer culto religioso, e com isso vive e entretém
mente os pequenos? Um profeta, um místico como Carlyle não pode o seu espírito infantil até à chamada idade da razão. Nessa idade, sob
desejar senão a dignificação do homem, do homem templo do Deus certas influências e certas leituras, entra de analisar. E com a análise,
vivo que está dentro dele, como êle diz. O que Carlyle queria era
lá se vai tudo embora. Essas crenças tão queridas e tão úteis, espécie
justiça, que os mais fortes governassem os mais fracos com justiça, não
de pára-raios que nos protegia das tempestades de consciência, a broca
acreditando que I democracia, onde não há heróis, pudesse realizar
dl análise ruiu-as. Haverá um período de interregno em que o viço
essa justiça, com o laisset faire e o voto nas urnas. A sua época foi a
da mocidade, a embriaguez da vida, as perspectivas de futuro nos
(•) O livto "Os Hcróli", do mcimo aulor, foi publicado por Edições Melhoramentos. permitam certa tranquilidade, certa euforia transitória e agourenta
CARLYLE, O PROFETA 11
10 CARLYLE, O PROFETA
réncia, a expressiva admiração, a manifesta gratidão do mais novo são
como um estupefaciente. Um dia, porém, chega em que, por qualquer retribuídas pelo carinho, pela solicitude, pela amável condescendência
motivo, devido a qualquer afecção ou desgraça, começa outra analise, do mais velho. Goethe, já no fim, era astro de primeira grandeza.
essa, porém, tremenda: a auto-análise. E depois a interrogação, quando Carlyle, moço, apenas uma esperança que prometia. O poeta alemão
o homem quer conhecer o universo e a posição que ocupa nele. era um coração cheio de simpatia, de humanidade, de afeição. Entre
Então, se o homem não tem o espírito muito povoado de imagens Craigenputtock e Weimar trocaram-se presentes, de retratos, de livros,
novas ou se as velhas se tinham amarrado a algum ancoradouro muito de medalhas, de desenhos de residências, e até Mrs. Carlyle, num gesto
profundo do seu inconsciente, pode voltar ao antigo, à fé que aban­ de feminina gracilidade, mandou um anel dos seus juvenis cabelos,
donou. Mas se, por amplidão de espírito, ou por qualquer* outra solicitando troca. Mas o filósofo de Weimar foi ao espelho, apalpou
circunstância, repudia formalmente todos os cultos existentes, tem de a cabeça e viu apenas alguns fios de prata, que o desolaram e o fizeram
arranjar, se possuir forças morais ou intelectuais para isso, um sistema desistir do intercâmbio. Sempre galã, o grande Goethe.
religioso ou filosófico, ou talvez um sistema em que a filosofia e a Dentre as obras de Carlyle, a melhor, a obra-prima é, por consenso
religião, que não devem ser inimigas, se dêem as mãos. Isto, porém, quase geral, a "História da Revolução Francesa". O seu estilo é épico,
só é para raros. Construir, de vários materiais, uma casa espiritual como convém a um assunto tão tumultuoso e catastrófico. As suas
onde a gente viva, fora das crenças oficiais, isolado das fés alheias, é narrações são relampejantes. As suas figuras são recortadas em traços
tarefa portentosa, só própria de grandes espíritos. Mas continuar na rápidos, fulgurantes. A sua filosofia política é de um grande moralista.
negação é a ruína, é a morte, a loucura ou o suicídio. O livro é, por assim dizer, a refutação da doutrina do super-homem,
Foi por esta crise terrível que passou Carlyle, e foi com a ajuda de porque não há super-homens na Revolução Francesa. Mas creio que
Goethe que a venceu. O escritor narra esta sua depressão no seu estilo i a única obra por onde verdadeiramente se pode compreender o acon­
bizarro do Sartor Resartus. O sistema que Carlyle construiu para uso tecimento dos acontecimentos. Certamente que há nela opiniões muito
próprio, que lhe aquietou as agonias da sua ansiedade, nunca Carlyle discutíveis e até alguns erros. Mas seria bom, para os povos e para
o definiu. Tais coisas são realmente difíceis de definir. O que é curioso cies, que os estadistas e os políticos de todo o mundo a lessem.
é que, divorciado da teologia calvinista, ficou sendo um calvinista
sem teologia, isto é, um homem com todos os prejuízos dos sectários
dessa fé, tormentos e escrúpulos de consciência, aversão ao catolicismo,
intolerância, repugnância pelos judeus, apesar de parecer mais um
profeta do Antigo Testamento do que um adepto cristão.
Mas foi a obra de Goethe que o salvou, da mesma forma que Henry
James, o pai do filósofo americano William James, se salvou em crise
idêntica lendo as obras de Swedenborg. Em temperamento literário
e individual, Goethe e Carlyle pouco tinham de comum. Mas Goethe
volvera da negação para uma concepção mais alta do universo. Mos-
trara-lhe como se podem rejeitar os dogmas gastos sem cair no mate­
rialismo. Custa a compreender como dois espíritos tão diferentes se
compreenderam e amaram, e o mais novo se deixou influenciar tão
profundamente pelo mais velho, a quem chamava o seu benfeitor. O
poeta alemão foi a primeira figura literária do seu tempo. Foi grande
o seu poder nas letras modernas. Mas Carlyle era um puritano tor­
turado e Goethe um sereno pagão. Carlyle foi um inconformista polí­
tico, avesso aos grandes e inadaptável a quaisquer ideias do seu tempo,
e Goethe foi estadista e cortesão. Goethe era de temperamento aven­
turoso, até para o amor, e Carlyle era rígido observante.
O que se não pode negar é que a amizade destes dois homens foi
dignificante para ambos. Nunca se viram, pois Goethe morreu sem
Carlyle possuir meios para o ir visitar a Weimar. Mas a nobre reve-
A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO FRANCESA

Os grandes acontecimentos históricos não se devem inscrever apenas


como um mero registro de fatos e datas, a frio. Já lá vai o tempo em
que se elogiava o historiador imparcial, isto é, aquele que narrava
sem simpatia os acontecimentos. Para se penetrar na essência duma
obra literária, é necessário que o crítico se ponha em comunhão espi­
ritual com o autor, sem se embrenhar numa análise de circunstância,
tal como um examinador de português ou de outra qualquer língua
incapaz de escrever um trecho com alma, com brilho, com estilo, mas
que derrota o aluno, às vezes mais vibrante que o mestre, com a clas­
sificação abstrusa de qualquer complemento oracional. Nas obras his­
tóricas, nos dramas e nas tragédias dos povos, é mister colocar-se o
historiador, não no ponto de vista do seu pensamento político, da sua
educação, da sua ética moral e religiosa, mas no ponto de vista dos
comparsas da ação, atendendo às causas que os impulsionaram, ao seu
temperamento individual e coletivo, às ideias que os moveram, às
circunstâncias* em que se acharam.
É isto o que faz Carlyle na sua História da Revolução Francesa, obra
que, ao parecer de muita gente culta, é a mais compreensiva do grande
cataclismo que assolou e subverteu a França do século XVIII e a
Europa. Carlyle não vê essa grande transformação propriamente como
filósofo, para quem as ideias são tudo e o resto pouco ou nada. O
historiador escocês atém-se aos fatos. Res non verba.
Realmente neste trabalho, que podemos verdadeiramente classificar
de épico, nós vemos como o antigo regime se desmorona. Depois da
preponderância na Europa da corte de Luís XIV, nós vemos a França
conservar essa preponderância, já não pela realeza, degenerada, decré­
pita, gangrenada, sob governos de nobres e cardeais dissolutos, de
concubinas, mas pelo pensamento francês, pela sua literatura e pelo
seu génio. Dá-se o seguinte, um governo que já não governa nada,
nem o pensamento francês, nem a economia, nem as finanças, nem a
nobreza, nem o clero, nem o povo. A França é governada pela sua
literatura e pela sua filosofia. E não só a França como a Europa. O
antigo desacreditou-se tanto, perderam tanto sentido as suas fórmulas,
que toda a gente em França procura o convívio com os filósofos. Nos
salões de Paris, imperam os novos princípios. Tanta força mostram
que até o fidalgo exator e corruto, o Abbé licencioso, o Duque anglo-
maníaco, o próprio irmão do rei, muita e muita desta gente, bons e
A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO FRANCESA 15
14 A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO FRANCESA
Mn d» IH leva a Constituição pela mão, como uma criança conduz
maus, uns por esnobismo outros por aversão a coisas velhas e gastas, Um cego, e quer salvar a monarquia. Danton salva a França das arre-
se inclinam para o lado filosófico. É até prova, não de inferioridade lliri idas de Brunswick.
moral, de que os homens se importam pouco, mas de inferioridade Ahl aparece por fim, um terceiro homem: o jovem general corso,
intelectual e até falta de tom, não conviver com reformadores. Voltaire i|iii iorta o nó górdio da Revolução e que, obreiro do Destino, prepara
teve grandes amigos nos privilegiados. Rousseau eminentes admirado­ | França para ir cair no regime das cartas.
res. Isto é, as ovelhas admiravam os lobos e prepararam-se para a devora. M.is fora destes, o que há? Não há ninguém, ou por outra, há muita
Inconsciência das inconsciências. Fora da França, soberanos absolutos, nte: o povo.
como Frederico II da Prússia, Catarina da Rússia, monarcas que nos Pode dizer-se que o único herói da Revolução Francesa é o povo
seus estados absorviam todo o poder e que nunca podiam pensar em n cês. É êle que tem a intuição genial de tudo, que derruba a Bas-
reparti-lo, acarinhavam os filósofos franceses. I, que institui o Terror, que vence a coligação estrangeira, que
Quer dizer: era um mundo a gritar pela morte, eram os próprios ruba Lafayette, que derruba Dumouriez, que é o herói de Valmy,
condenados a pedir a forca ou o veneno, era uma dissolução geral de |c■iiiappes, que frustra as conspirações da corte no 5 de outubro,
instituições e crenças. despeito dos constitucionais, que vence a monarquia no Dez de
\_ No meio deste desmanchar de feira, quem tinha a França, não digo "MO, a despeito da Legislativa, que abate os girondinos, a despeito
para deter o alude que isso era impossível, mas para efetuar dentro Convenção, que domina a Convenção a despeito dos convencionais.
do poder uma revolução pacífica que, prestigiando a fonte da auto­ Na História da Revolução Francesa de Carlyle há, por assim dizer,
ridade, desse satisfação a algumas das mais instantes reivindicações pú­ único herói: o Povo Francês.
blicas? — Que pusesse termo a algumas das mais revoltantes iniquida­ ANTÓNIO RUAS
des e desigualdades, que repartisse equitativamente os impostos, que
descongestionasse a propriedade, que aliviasse a vida rural, que abolisse
as cartas de prego, e que instalasse um Conselho de Estado composto
dos melhores homens da França que tirasse ao poder executivo a pecha
do absoluto? Luís XVI, homem fraco, passivo, medíocre, que não pos­
suía o ímpeto da ação, que esperava os acontecimentos à espera de
que o guiassem em vez de êle os dominar e guiar. Uma- aristocracia
frívola, parasitária, que em vez de suportar a coroa, era por ela supor­
tada e alimentada. Um clero, sem independência, que em lugar de,
como outrora, ser elemento moral na sociedade, era áulico servil da
realeza, condescendendo com todas as torpezas, para que o deixassem
digerir as côngruas e benesses.
Do outro lado, uma nação descontente, tendo por órgãos do seu
descontentamento um filosofismo enfático e declamador, que apregoava
as mais arrepiantes incongruências, que se estava certo na substância
de sua crítica, nunca o estava nos seus meios de ação e nos remédios
que propunha. Uma burguesia, justamente ávida de conquistas, que
se expressava pela classe que geralmente serve para embrulhar as ques­
tões politicas, a classe dos advogados. Onde havia decerto inteligências
brilhantes, talentos de foro, mas onde não havia homens de realidade.
E todos com um evangelho na cabeça: o de Jean Jacques Rousseau.
Em toda esta galeria de figuras, aparecem-nos dois homens, apenas
dois: Mirabeau e Danton. E ambos corrutos. Homens que verdadeira­
mente se não podem julgar pelas fórmulas usuais. Para os compreen­
dermos, temos de pôr de parte muita coisa que aprendemos, e vê-los
a essa luz intensa do clarão dos incêndios revolucionários. Mas homens:
PARTE I

A BASTILHA

f

Livro I

MORTE DE LUÍS XV

Capitulo 1

LUÍS, O BEM-AMADO

0 Presidente Hénault, observando, a propósito de epítetos reais


ilustres, como é difícil muitas vezes descortinar a razão por que foram
conferidos e mesmo a época em que tiveram origem, aproveita a opor­
tunidade de rematar a sua linguagem simples e oficial com uma ligeira
reflexão filosófica.
"O epíteto de Bien-aimé, diz êle, que Luís XV usufrui, não dará
azo a que a posteridade se detenha na mesma dúvida. No ano de 1744,
enquanto este príncipe se afadigava de um lado para o outro do seu
reino, depois de suspender as suas conquistas da Flandres para correr
em socorro da Alsácia, foi acometido em Metz por doença grave, que
ameaçava cortar-lhe a existência. Ao saber disto, Paris, toda alarmada,
parecia uma cidade tomada de assalto: as igrejas ressoavam com gemi­
dos e súplicas; as orações do clero e do povo eram constantemente
entrecortadas de soluços, Foi por motivo duma dedicação tão cara e
tão terna que Luís XV foi denominado Bien-aimé — título este mais
valioso que todos aqueles que este grande príncipe ganhou 1 .
Assim está escrito em memorial imperecível daquele ano de 1744.
Trinta anos mais vieram e decorreram. E agora "este grande Príncipe"
está outra vez doente. Mas em que diferentes circunstâncias! Nas igrejas
não ressoam gemidos e súplicas. Paris está estoicamente calma. Os
soluços não entrecortam as orações, porque ninguém reza; a não ser,
é claro, os sacerdotes em suas litanias maquinais, lidas ou cantadas a
tanto por hora e insuscetíveis, por isso mesmo, de um tal entrecorte.
O pastor do rebanho francês fora conduzido do Petit Trianon, em
Mtado grave, para a sua cama do Château de Versailles. O rebanho
nbe-0 e não se rala. Quando muito, pode acontecer que na incomen-
lUrável maré da verborreia francesa (que nunca cessa na sua intumes-

1 AIMÍKÍ- Cliionologiquc de 1'Hiaioire de Francc (Parií, 1775), p. 701.

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LUÍS, O BEM-AMADO 21
20 MORTE DE LUÍS XV

cência diária, declinando apenas nas curtas horas da noite) o caso da homem de valor, mas acalmando a sua mundana. Foi desta sorte, que
doença régia surja, de tempos a tempos, como mera notícia banal. Sem d'Aiguillon se ergueu novamente e triunfou; e com êle se ergueu
dúvida, que se fazem apostas quanto ao desenlace; e até há gente que Maupeou, o que baniu os parlamentos, o que relegava um presidente
"se pronuncia ostensivamente nas ruas" 1 . Mas quanto ao resto, quer refratário "para Croe em Combrailles, em sítio de rochas escarpadas,
onde se não podia chegar senão de liteira", a fim de êle aí reconsiderar.
sobre os prados verdejantes, quer sobre os campanários das cidades,
E foi assim que também se ergueu o Abbé Terray, financeiro dissoluto,
continua a radiar o sol de maio após o crepúsculo da noite; e os
que pagava sessenta por cento, a quem certos espirituosos se referiam
homens mexem-se no exercício das suas úteis ou inúteis ocupações,
nos apertões à entrada das casas de diversões: "onde está o Abbé Terray,
como se Luís não estivesse em perigo. para nos reduzir a dois terços!" Deste modo fundaram estes persona­
Madame Dubarry deveria com efeito rezar, se tivesse talento para gens (por autênticas malas-artes) um reinado de Daniel ou um domínio
isso; e o Duque d'Aiguillon, Maupeou e o parlamento Maupeou. Todos encantado da Dubarry, construindo um maravilhoso palácio de Armida,
estes magnatas, alteados nas suas culminâncias, com a França algemada onde habitavam ollmpicamente. O Chanceler Maupeou jogava a cabra-
a seus pés, bem sabem qual é o pedestal da sua grandeza. Toma tento, cega com a encantadora mundana ou a presenteava galantemente com
d'Aiguillon; portaste-te finòriamente, desde o moinho de S. Cast até negros liliputianos; tudo isto para que o rei cristianíssimo gozasse de
Quiberon e o desembarque inglês; "se te não cobriste de glória, atas- invejável paz doméstica, sem se importar do que ocorria lá fora. "O
caste-te pelo menos de farinha!" A Fortuna foi sempre inconstante e meu chanceler é um patife, mas não posso passar sem êle" 1 .
não há cão que não tenha o seu dia.
Maravilhoso palácio de Armida, onde todos se deleitam numa vida
Bastante desolado vegetava o Duque d'Aiguillon, alguns anos antes;
de encantos, embalados pela suave melodia da adulação, deslumbrados
atascado, como dissemos, de farinha. E até de coisa pior. Porque Char-
pelos esplendores do mundo; tudo isto, porém, magicamente suspenso
lotais, o parlamentar bretão, o acusara não somente de poltronice e
por um fio de cabelo. Se o rei cristianíssimo morresse, ou mesmo se
tirania, mas até de concussão; acusações estas a que era mais difícil
começasse deveras a ter medo de morrer! Pois não teve a bela e altiva
responder que abafar sob a influência dos bastidores reais, pois não é
Châteauroux de fugir, de faces lacrimosas e coração em brasa, daquela
possível agrilhoar o pensamento, nem emudecer as línguas humanas.
cena de febre em Metz, muitos anos antes, expulsa por alguns inso­
Foi assim, num eclipse desgraçado, que este sobrinho do Grande Ri-
lentes tonsurados? Voltou depois, apenas a febre e os tonsurados se
chelieu teve de se ofuscar: desprezado pelo mundo, e esquecido ou
sumiram no esquecimento. Também a Pompadour, quando Damiens
mesmo desdenhado pelo resoluto Choiseul, homem rude e orgulhoso.
feriu "ligeiramente a realeza debaixo da quinta costela" e o soberano
E não teve remédio senão conservar-se na Gasconha, a reparar os seus
foi conduzido ao Trianon, por entre gritos e archotes agitados aluci­
castelos2, para talvez vir a acabar ingloriamente, matando caçai Porém,
nadamente, teve de empacotar os aprestos e ficar de prevenção. Con­
no ano de 1770, voltando da Córsega um certo militar jovem chamado
tudo, não partiu, por a ferida se não ter mostrado virulenta. É que
Dumouriez, teve ocasião de observar, com grande desgosto seu, o velho
Sua Majestade tinha fé religiosa; acreditava, pelo menos, no diabo. E
Rei de França, de chapéu na mão, ao lado do seu magnífico faetonte,
ngora, eis que surge terceiro perigo; e quem sabe o que sairá daqui!
prestando homenagem à Dubarry, às vistas do seu exército 8 .
Porque os doutores franzem a testa; perguntam à socapa se Sua Ma-
Muita conclusão comportava um tal acontecimento! E uma delas, jeitade não foi em tempo atacado de bexigas? — e quase asseveram
por exemplo, era que talvez d'Aiguillon pudesse adiar a reparação dos que o foi das más. Sim Maupeou, enruga as tuas sinistras sobrancelhas
seus castelos para, em vez disso, reparar a sua fortuna. Porque, afinal, • espreita através delas com os teus malignos olhos de rato. Um caso
o decidido Choiseul nada mais antevia na Dubarry que uma mundana
de extraordinários atavios; e seguia o seu caminho, como se ela não b lo! Não resta dúvida de que todo o homem é mortal; e que com
existisse. Mas era intolerável! A única causa dos seus amuos, lágrimas, « vida dum mortal se quebra irremediavelmente o talismã mais mila-
enfados e suspiros não terminaria, enquanto La France (era assim que l>iiru i (|nc todo o reinado da Dubarry se precipita, com tumulto, no
ela denominava o seu pajem real) se não resolvesse finalmente a enfren­ •«paço infinito; e vós, como sucede às aparições subterrâneas, desapa-
tar Choiseul; e com aquela "tremura do queixo", natural em tais cir­ ^■fteli totalmente, deixando apenas um cheiro de enxofre!
cunstancias 4 , Luís balbuciou a demissão, despedindo o seu último
^ H l i c todos os que deles dependem talvez orem — a Belzebu ou a
I Memolres de M. !<■ Braenval (Paris. 1805). II. 59-90.
ucr espírito maligno que os queira ouvir. Mas do resto da França
'i A n h u t Young: Traveis during the years 1787-8-9 (Bury St. Edmund/s, 1792). I. 44.
S La vle et lei Mímoirei du General Dumouriez (Parii, 1822), I. 141. lliUllir, Hlslolrr de Pari» (Paris, 1824), VII. 328.
4 Besenval, Métnoire», II, 21.
22 MORTE DE LUÍS XV
IDEAIS REALIZADOS 28

não se evola, como dissemos, nenhuma oração; a não ser de caráter intitulado real, governa verdadeiramente de fato; e diz-se e pensa-se,
cominatório, "expressa abertamente nas ruas". Em castelo algum ou por exemplo, que está prosseguindo nas suas conquistas da Flandres,
palácio, perscrutado pelo Filosofismo esclarecido, se reza; pois nem as quando o certo é que se deixa arrastar para lá como bagagem; e não
vitórias de ROMbach, nem as finanças de Terray, nem mesmo as "ses­ bagagem ligeira, pois cobre léguas de caminho. Porque com êle viaja
senta mil Letres-de-Cachet" (que é a quanto monta o lote de Maupeou) a sua destacada Chateauroux, com as suas chapeleiras e boiões de
convidam a isso. Ó Hénault! Onde pairam as tais orações? De uma tintura a seu lado; e em cada acantonamento, constrói-se para como­
França torturada, mercê de artes diabólicas, por pragas várias; e que didade mútua, um corredor de madeira entre ambos os aposentos. Não
jaz agora, dorida e envergonhada, com o gorgomilo quase sufocado leva somente a sua Maison-Bouche e o interminável Valelaille, mas
pelos pés duma barregã, que orações poderão sair? Será caso para que a sua companhia de comediantes com os armários de papelão, órgãos,
esses esqueléticos maltrapilhos, esse enxame de esfomeados vagabundos, rabecas, tambores, guarda-roupas, despensas (em discussão e disputa
rodopiando em todos os caminhos e encruzilhadas da vida francesa, permanente). Tudo isto em carroças, carros e seges em segunda mão
dirijam preces ao céu? E também os milhões de analfabetos que, na — insuficientes para conquistar a Flandres, mas suficientes para esgotar
oficina e no campo, se extenuam na roda do trabalho, como burros a paciência do mundo. É com séquito tão guizalhado e espaventoso
encabrestados, tanto mais pacíficos quanto mais vendados? Ou aqueles que Luís se movimenta para a consecução das suas conquistas da Flan­
que, no Hospital de la Bicêtre, se amontoam "a oito por cama" aguar­ dres. Uma maravilha digna de ser vista e admirada. Mas era e tinha
dando a final libertação? De espírito obtuso e coração empedernido, sido assim: a algum caturra poderia parecer esquisito; mas, nem por
para eles o grande soberano é quase apenas conhecido como o grande isso, deixava, mesmo para êle, de ser inevitável, hão ilógico.
açambarcador do pão. Se ouvem falar da sua doença, respondem seca­ Porque o nosso é um mundo muito maleável; e o homem a mais
mente: Tant pis pour lui, ou interrogam: Morrerá? dúctil das criaturas. Um mundo que não se apreende, que não se apro­
funda! Qualquer coisa que não somos nós, mas com a qual podemos
Sim, morrerá? É esta agora em toda a França a interrogação magna trabalhar, no meio da qual vivemos — e a qual modelamos miraculosa-
e a grande esperança; e a^única razão por que a doença do rei ainda, mente^ no nosso miraculoso ser, e a que chamamos mundo. Mas se as
de certo modo, interessa o público. próprias rochas e rios (como a metafísica ensina) são, em rigorosa
linguagem, criados pelos nossos sentidos exteriores, quanto mais o não
serão, pelos nossos sentidos interiores, criados todos os fenómenos de
ordem espiritual: Dignidades, Autoridades, Santidades, Satanismos?
Capitulo II Acrescendo, além disso, que os sentidos interiores não têm um caráter
permanente como os exteriores, mas estão continuamente progredindo
IDEAIS REALIZADOS . e mudando! Não extrai o negro de África da madeira e de roupas
usadas (exportadas, por exemplo, por Monmouth Street) o que pre­
Aqui temos nós uma França mudada; e um Luís, também mudado. cisa; e não é destes materiais, habilidosamente conjugados, que fabrica
E ainda mais do que até aqui se viu! À bisbilhotice da História pa- para si próprio um ídolo (Idol, ou coisa que se vê)e lhe chama Mumbo-
tenteiam-se agora, na câmara da agonia de Luís, muitas coisas que Jumbo, ao qual daí em diante ora, de olhos revirados e com temor,
para os cortesãos ali presentes eram invisíveis. Porque é bem certo o e nâo sem esperança? O europeu branco zomba; mas devia antes refletir
aforismo que diz, "cada objeto comporta um número infinito de signi­ e ver se êle no seu país não é capaz de fazer a mesma coisa, um pouco
ficações; os olhos vêem nele apenas o que podem ver". Para Newton tnaU civilizadamente.
e para o seu cão Diamond, que dois universos tão diferentesl Muito
provavelmente, a representação óptica na retina de ambos seria a Era assim, como nós dissemos, nessas conquistas da Flandres, há
mesmal Que o leitor aqui,, ao pé do leito de agonia de Luís, forceje (Cinta anos; mas o caso agora é outro. Porque, no presente, há mais
ver também com os olhos do espírito. i|in in esteja doente, além do pobre Luís; não é só o rei francês, mas
Tempos houve cm que os homens podiam (por assim dizer) de um lambem a realeza que, depois de muitos dares e pesares, está dando
simples mortal como eles, alimentando-o e decorando-o com os neces­ i,i. O mundo acha-se muito transformado, e tanto, que o que
sários adornos até ao limite próprio, fazer um Rei, quase da mesma ii vigoroso mostra-se decrépito e o que não existia começa a
forma que as abelhas; e o que é ainda mais, obedecendo-lhe lealmente ■Tl Conduzidos através do Atlântico, aos ouvidos quase cerrados
depois de feito. O homem assim alimentado e decorado, doravante i ■., Rei pela Graça de Deus, que sons vibram? Sons de um agouro
21 MORTE DE LUÍS XV IDEAIS REALIZADOS 2S

um pouco confuso, mas novos para o século? O porto de Boston regur­ naque náutico; escrevendo e coligindo uma Bibliothèque du Roi, entre
gita de chá indesejável; vai reunir-se o Congresso da Pennsylvania. E cujos livros se encontra o Livro Hebreu! Maravilhosa raça humana;
não tarda muito que em Bunker Hill, a DEMOCRACIA anuncie, construiu tudo isto e quanto engenho não foi preciso! Não chameis,
pela boca mortífera dos canhões e sob a égide da bandeira estrelada, pois, ao passado, apesar de toda a sua tumultuaria perversidade, tempo
que já nasceu e que, como um redemoinho de vento, se não demorará perdido.
a envolver o mundo todol Observai, pois, que de todas as aquisições terrestres do homem, inques­
tionavelmente as mais nobres são os seus símbolos: divinos ou que o
Morrem os soberanos e morrem as soberanias; tudo morre, durando pareçam ser. É sob a influência deles que marcha e luta, seguro da
apenas um pedaço de tempo, um fantasma de tempo, que não obstante vitória, no campo de batalha da vida. A isto é que poderemos chamar
se considera real! Os reis merovíngios, rodando lentamente nos seus os seus ideais realizados. Destes ideais, omitindo outros, sobrelevam
carros de bois através das ruas de Paris, de longa cabeleira ao vento, estes dois: a sua Igreja, ou guia espiritual; e o seu Rei, ou guia tem­
rodavam todos lentamente - para a eternidade. Carlos Magno dorme poral. A Igreja: que significação esta palavra não comporta! Mais rica
em Salzburgo, com o seu cetro ao lado; apenas a lenda espera que êle que Golconda e todos os tesouros do mundo! No coração das mais
desperte. Carlos Martel e o Pepino das pernas tortas! Onde se fixa remotas montanhas, eleva-se a pequena igreja; com os mortos a dormir
agora o vosso olhar ameaçador, onde troa a vossa voz de comando? todos ao redor dela, debaixo das suas lápides brancas, "à espera de
Rolão e os seus lanzudos normandos já não cobrem o Sena de navios; uma feliz ressurreição". Muito duro serias tu, Leitor, se nunca, em
mas navegaram para uma viagem mais longa. O cabelo do Cabeça de qualquer ocasião (à hora fatídica da meia-noite, por exemplo, quando
Estopa (Téte d'étoupes) já não precisa de ser penteado; o Corta Ferro a pequena igreja parece suspensa como um espectro no espaço e o
(TaiUefer) já não pode cortar uma teia de aranha; a astuta Fredegonda nosso ser está como que afundado na escuridão) ela te não povoasse o
e a maliciosa Brunilda deram ao diabo a sua vida briguenta e jazem pensamento de coisas intraduzíveis, que fossem até ao âmago da tua
calmas e frias dos seus delírios mundanos. E nem daquela negra torre alma. Forte foi sempre aquele que possuiu uma igreja, como nós a
de Nesle desce agora pela calada da noite o infortunado amante, até entendemos: çonservara-se ereto, posto estar no centro das imensidades,
às águas do Sena, para se submergir na noite. Porque a dama de Nesle na confluência das eternidades, varonil contudo perante Deus e pe­
já se não preocupa com as aventuras galantes deste orbe nem se impa­ rante os homens; o vago e tempestuoso universo tornava-se-lhe cidade
cienta com o escândalo mundano; a própria dama de Nesle se submer­ firme e pousada segura. Tal é a virtude da crença, contida nesta pa­
giu na noite. Todos se foram, submersos com o ruído que fizeram; e lavra, bem sentida: Creio. Bem fizeram os homens em enaltecer o seu
todas as sucessivas gerações passam e repassam sobre eles, sem que as Credo, levantando-lhe templos majestosos, reverenciando-lhe as hierar­
suas carcaças nada ouçam. quias e sustentando-o com o dízimo dos seus rendimentos. É que valia
E apesar de tudo, não se construiu alguma coisa? Detende-vos (para bem a pena viver e morrer por êle.
não irdes mais longe) nestes fortes edifícios de pedra e em tudo o que E nem mal avisados andaram os guerreiros bárbaros que primeiro
encerram! A cidade lamacenta dos Fronteiriços (Lutetia Parisiorum ou rrgueram o seu mais forte sobre um trono de escudos e que de arma­
Barisiorum) pavimentou-se, espraiou-se por todas as ilhas do Sena, dura tininte e coração fogoso, disseram solenemente: sejas tu o nosso
avassalou largamente as suas margens e ficou sendo a cidade de Paris, reconhecido mais forte! Com tal reconhecido mais forte (bem deno­
empavesando-se algumas vezes com o título de "Atenas da Europa" e minado rei, Kõnning, ou o homem que é capaz) sobrevinha agora
até de "Capital do Universo". Há torres elevadas de pedra, já negras ritplêndido um símbolo para eles — identificado com os destinos do
de um milénio decorrido. Há catedrais e uma crença (ou restos de ■ i n d o ! Um símbolo de governo verdadeiro, a que devia corresponder
uma crença) dentro delas; palácios, um Estado e-uma lei. Vê-se o vapor Obediência leal: a necessidade prima do homem, se êle o soubesse com-
fumegante, expiração incessante de uma cidade viva. Milhares de mar­ ■reender. Um símbolo a que poderíamos chamar sagrado; pois não
telos ferem as bigornas; também existe um trabalho mais miraculoso Rd, na nossa reverência pelo que nos é superior, uma sagração indes-
ainda, que labora silente, não com a mão mas com o pensamento. Éflillvel? Era por isso, e não deixava de ser justo, que ao reconhecido
Como puderam os infatigáveis e habilidosos operários de todos os mis­ ■Mil» forte se lhe concedia direito divino. E certamente que o devia
teres, com a sua arguta cabeça e precisa mão direita, pacificar os ■«ver no mais forte, quer reconhecido ou não — se considerarmos
quatro elementos, de modo a servirem-se deles? Jugulando os ventos m o fêz forte. Foi assim entre confusões e tremendas anomalias.
ao impulso dos seus navios e fazendo das próprias estrelas o seu alma- Ulo de realeza, com a lealdade a circundá-la, nasceu; e cresceu
26 MORTE DE LUÍS XV IDEAIS REALIZADOS 27

misteriosamente, subjugando e assimilando (porque possuía um forte universo de Deus é de Belial e uma mentira; e que o "supremo char­
principio de vida) até dominar o mundo e sobrelevar os fatos da nossa latão" é o hierarca dos homens! Nesta fé dessorante, não vemos nós
existência moderna. E de tal sorte que Luís XIV, por exemplo, pôde gerações inteiras (duas e às vezes três sucessivamente) viver aquilo a
responder ao seu queixoso magistrado com o seu "VEtat c'est moi" que elas chamam vida e desaparecer — sem quaisquer probabilidades
(o Estado sou eu), sem que este, cabisbaixo, lhe ousasse retorquir. Para de reaparecimento?
este conceito de realeza, haviam concorrido vários acidentes e circuns­
Foi em idade tão decadente, ou numa idade que vertiginosamente
tancias: os Luíses onze, com as imagens de chumbo da Virgem na fita
seguia tal caminho, que o nosso Luís nasceu. Temos também de re­
do chapéu e as rodas de tortura e as masmorras cónicas debaixo dos
conhecer que se a monarquia francesa não pudesse, no decurso da sua
pés; os Henriques quarto, com a profecia do milénio social, em que
evolução, ter muitos anos de vida, era Luís, de entre todos os homens,
"a cada camponês não faltaria uma ave na panela" e a prolificidade
o que mais depressa podia acelerar a sua queda. A floração da monar­
desta mui prolífica existência. Maravilhoso! A propósito disto, não
quia francesa, à semelhança do cacto, fêz, portanto, um progresso con­
poderemos nós dizer que na enorme massa do mal, quando êle avança
siderável. Naqueles dias de Metz, ainda conservava todas as suas pétalas,
e cresce, não há sempre uma certa porção de bem, trabalhando subju­
apesar de desbotadas pela regência do Duque de Orléans e pelo go­
gada — trabalhando para a libertação e para o triunfo?
verno de ministros e cardeais dissolutos; mas agora, em 1774, vemo-la
Como tais ideais se realizam e crescem maravilhosamente, de entre despida, com a virtude quase inteiramente extinta.
o caos flutuante e incongruente donde brotam, é o que a História, se
Em desastrosa contingência se encontravam estes "ideais realizados"
nos quiser ensinar alguma coisa, tem de nos dizer. Como eles nascem
cada um de per si e todos! A Igreja, que na sua idade de ouro, sete­
e, depois de longo e tormentoso crescimento, florescem exuberante­
centos anos antes, obrigava um imperador a sofrer uma penitência de
mente, para enfim, rapidamente (porque a floração é breve) começarem
três dias, de pés descalços sobre a neve, há séculos que se vê continua­
a declinar, encarquilhando-se e caindo aos bocados, até desaparecerem
mente definhando; forçada mesmo a esquecer velhos preconceitos e
ruidosa ou silentemente. A florescência dura tão pouco! É como a de
inimizades e a juntar os seus interesses aos da realeza: nesta nova
algumas flores do cacto Secular que, depois de um século de espera,
aparência de força é que jaz o embrião da sua decrepitude. E os dois
se abrem apenas por horas. E é assim que, desde o dia em que o bravio
poderes, dai em diante unidos, terão também de cair juntos. A Sorbona
Clóvis, no Campo de Marte, à vista do seu exército, teve de, em repre­
ainda se congrega, no seu velho palácio; mas apenas mastiga o velho
sália, rachar a cabeça do bárbaro franco com um golpe rápido de
calão académico e já não guia consciência. Para a Sorbona já passou
machado, dizendo-lhe ferozmente: "Foi assim que tu rachaste o vaso
o tempo. Agora, é a Enciclopédia, é a Filosofia, e uma enorme profusão
(o de S. Remi e o meu) em Soissons", até Luís o Grande, com o seu
de escritores, romancistas, dramaturgos e panfletários que se arvoram
UÉtat c'est moi contamos uns mil e duzentos anos. E agora o Luís
em guias espirituais do mundo. O governo temporal do mundo tam­
imediato está agonizando e com êle tanta coisa agonizai — E também
bém se perdeu, ou resvalou para as mesmas múltiplas mãos. Quem é
se o catolicismo, com as suas ligações e lutas contra o feudalismo (mas
que o rei (Homem capaz, também chamado Roi, Rex, ou Diretor)
não contra a natureza e seus benefícios) nos deu a nós ingleses um
agora governa? Os seus próprios monteiros e batedores. E tanto que,
Shakespeare e uma era de Shakespeare, produzindo assim uma floração
quando não há caçadas, diz-se automaticamente "Le Roi ne fera rien"
do catolicismo — não foi sem que -o próprio catolicismo, tanto quanto
(Sua Majestade não fará hoje nada) 1 . Vive ou vegeta assim, como lhe
a lei o podia abolir, tivesse sido abolido aqui.
apraz, sem ninguém ainda o importunar.
Mas que devemos dizer dessas idades decadentes cm que não nasce
Os nobres, da mesma maneira, quase deixaram de guiar ou transviar;
nem floresce nenhum ideal? Quando a .fé e a lealdade têm desaparecido
e «So agora, como o seu amo, pouco mais que figuras de ornamento.
e delas resta apenas um falso eco; quando toda a solenidade se trans­
muda em vã ostentação e. a crença das pessoas na autoridade se tem Já lá vai o tempo em que se assassinavam uns aos outros ou ao seu
tornado uma de duas coisas: imbecilidade ou maquiavelismo? Ah! A rei. Os burgueses, protegidos e animados pelo monarca, haviam cons-
História não pode dar guarida a essas idades; a sua narração tem de li iildo, séculos antes, cidades muradas, dentro das quais exerciam os
ser cada vez mais reduzida, de modo a eliminar-se finalmente dos anais «eus misteres; não permitindo que nenhum barão audacioso vivesse da
da humanidade: riscada como espúria — o que na verdade ela é. Des­ ia. mas mantendo a forca para o impedir. Mas desde aquele pe-
graçadas idades, nas quais, entre todas, é uma infelicidade nascer-se. ilii Fronda que o nobre trocou a sua espada de combate por um
Nascer-se para aprender unicamente por tradição e exemplo, que o
^HBWlrn mr la Vlc privcc de Maric Anioniclle, par Madame Campan (Parii, 186), I, 12.
IDEAIS REALIZADOS 29
28 MORTE DE LUÍS XV
resgate pela sua libertação. As mães começaram a afluir às praças pú­
florete de corte; e agora serve o seu rei como satélite ministerial, divi­ blicas com gritos de desespero; juntam-se multidões excitadas; há mu­
dindo o saque, já não por meios violentos e homicidas, mas implorando lheres angustiadas que, de uma banda para a outra, exageram o fato.
com gentileza e finura. Estes homens chamam-se a si próprios os su­
Uma absurda e horrível fábula se espalha entre o povo: diz-se que os
portes do trono: espécie de cariátides de papelão dourado naquele
médicos receitaram a um grande personagem banhos de sangue infantil
singular ediflciol Quanto ao mais, seus privilégios em todas as esferas
para a restauração do seu, estragado por toda a sorte de sensualidades".
acham-se agora muito reduzidos. A lei que autorizava um senhor ao
voltar da caça, a matar até dois servos e a refrescar os pés nas suas "Alguns dos amotinados", acrescenta Lacretelle com toda a frieza, "foram
entranhas estuantes de sangue, havia caído em completo desuso — e enforcados nos dias seguintes". "E a polícia continuou" 1 . Oh, pobres
mesmo na incredulidade; porque, a despeito do deputado Lapoule maltrapilhosl É este então o vosso grito inarticulado ao céu, como de
acreditar nela pedindo a sua ab-rogação, nós não acreditamos 1 . Nenhum animal mudo e torturado, vindo das maiores profundezas da dor e da
Charolois, nestes últimos cinquenta anos, apesar da sua predileção pelo miséria? E este firmamento azul, como cerrada abóbada de cristal,
tiro ao alvo, se atreveu a derrubar as telhas e os picheleiros e a vê-los apenas reverbera o eco sobre os vossos ouvidos? Terá sido êle que res­
rodar telhados abaixo 2 ; bastava-lhe, para exercício, o tiro às perdizes pondeu mandando-vos "enforcar nos dias seguintes"? Não, nunca! Os
e às aves silvestres. De vistas curtas, a principal preocupação e predi­ vossos gritos são ouvidos no céu. E a resposta virá a seu tempo — numa
leção do fidalgo é vestir elegantemente e comer suntuosamente. Quanto grande e horrorosa tempestade humana, estendendo-se pelo mundo em
à sua depravação e sensualidade, podemos remontá-la às épocas de fora, cujos efeitos e estragos todas as nações hão de sentir.
Tibério e Cómodo. Contudo, não se pode deixar de concordar em Notai, entretanto, como de entre os despojos e lama desta derrocada
parte com Madame la Maréchale. "Creia nisto, senhor; Deus pensará universal vão surgir novos poderes adaptáveis à nova era e identificados
duas vezes antes de condenar um homem de tal jerarquia" 3 . Esta gente com os seus destinos. Além da velha nobreza, oriunda de guerreiros,
devia antigamente, sem dúvida, possuir virtudes e qualidades, porque existe a nova e já reconhecida nobreza da toga, empenhada agora com
senão, não poderiam estar ali. Uma virtude, pelo menos, precisavam
altivez e êxito em lutas aguerridas pela lei. Uma não reconhecida no­
possuir (porque o homem não pode viver sem consciência): a virtude
breza do comércio, bastante poderosa, de algibeiras atafulhadas de
de estarem sempre prontos para o duelo.
dinheiro. E finalmente, a mais influente e a menos reconhecida de
todas, uma nobreza da literatura, sem espada à cinta, sem ouro nos
São estes os pastores do povo francês; e que sucede com o rebanho? bolsos, mas com a "grande e taumatúrgica faculdade do pensamento"
O rebanho, como é inevitável, passa mal, cada vez pior. Não cuidam na cabeça. Surge o filosofismo francês. A quantas reflexões não con­
dele, a não ser para a conveniente tosquia. Mandam-no para trabalhos duzem estas palavrasl Eis aqui, na verdade, o principal sintoma da
públicos não remunerados e exigem-lhe impostos; enviam-no a juncar grande e avassaladora doença. A fé acabou; em seu lugar entrou o
os campos de batalha (denominados campos de honra) com os seus cepticismo. O mal abunda e prolifera: ninguém tem fé para lhe resistir,
corpos, combatendo por causas que não são suas; a marca do seu tra­ para o minorar, começando por o dominar dentro de si próprio. E
balho está em tudo o que o homem possui; mas êle próprio pouco assim êle vai-se acumulando. Enquanto as camadas superiores se ener­
tem ou nada. Não o educam, não o confortam, não o alimentam; vam na ociosidade e na indiferença, e as camadas inferiores definham
estiola-se na espessa bruma do obscurantismo, na esquálida miséria e nu estupidez e na miséria, além da decadência geral, que é uma reali­
degradação. É esta a sorte de milhões de criaturas: peuple taillable et dade, que outra coisa se pode considerar real? Que ninguém pode
corvéable à merci et miséricorde. Revoltam-se certa vez na Bretanha acreditar numa mentira! O filosofismo apenas sabe isto; ah, crê tam­
pela introdução dos relógios de pêndulo, julgando que aquilo tinha bém, e muito principalmente, que não se pode acreditar em coisas
que ver com a Gabelle. Paris necessita de ser limpa periodicamente lUpcrsensuais e espirituais. Que desgraça! Por enquanto, a contradição
pela polícia, e hordas de vagabundos famintos são constrangidos mais duma mentira envolve em si uma certa dose de crença; mas aniquilada
uma vez a errar sobre o espaço — até voltarem. "Durante uma daquelas
limpezas periódicas", diz Lacretelle, "em maio de 1750, a polícia pre­ mentira e a contradição, que restará? Restarão os cinco insaciáveis
tendeu roubar filhos de pessoas respeitáveis, na esperança de exigir lidos e mais o sexto — o insaciável sentido da vaidade. E restará
II a demoníaca natureza do homem — precipitado numa raiva cega,
1 Hisloire tle la Kcvolution Franjai»-, par Deux Amii de la Liberte (Pari«, 1792, 11, 212.
2 Lacretelle. HUtoire <lc France pendam le ISomc Siètle (Pariu, 1819) 1. 271. Lacretelle, m , 155.
3 Dularue, VII. 261.
so MORTE DE LUÍS XV VIATICUM 31

sem freio nem rédeas: perfeitamente selvagem, na posse de todos os- a outrora tão bela filha do guarda-portão está atacada: e Luís XV
instrumentos e armas da civilização. Espetáculo novo na História. não é homem que se possa ludibriar acerca do seu viaticum. Não cos­
É numa tal França, como num paiol de pólvora, ao redor do qual tumava êle catequizar as suas próprias filhas no Parc-aux-cerjs, e orar
um fogo inextinto e agora inextinguível crepita avassaladoramente, que com elas e por elas, para que preservassem a sua ortodoxia? 1 . Fato
Luís está prestes a morrer. Com o pompadourismo e o dubarrisrao, as estranho, não sem exemplo; porque não há animal tão estranho como
suas flôres-de-lis foram vergonhosamente derribadas em todas as terras o homem.
e em todos os mares. A penúria invade a própria fazenda real e os Pelo momento, todavia, se tudo corresse bem, poder-se-ia convencer
impostos já não podem arrebanhar mais. A questão há vinte anos o arcebispo Beaumont a piscar um ôlhol Pois Beaurnont de bom grado
travada com os parlamentos continua de pé. Por toda a parte, se esta- o faria; porque, coisa singular, também a Igreja e toda a esperança
deia a miséria, a desonestidade e a descrença, e aparecem meios sábios, póstuma do jesuitismo agora se prendem à barra da saia desta impudica
de cérebros esquentados, com elixires de longa vida política. É uma mulher. E a força da opinião pública? O rigoroso Christophe de
Beaumont, que passou a vida a perseguir histéricos jansenistas e incré­
hora terrível. dulos não conformistas; e até os seus cadáveres, se não podia pegá-los
São estas coisas, invisíveis para os cortesãos da câmara de agonia de vivos — como é que irá. abrir as portas do céu e dar absolvição com
Luís, que os olhos da História ali descortinam. Fêz vinte anos, no dia o corpus delicti ainda ali nas suas barbas? O nosso Grande Esmoler
de Natal, que Lorde Chesterfield, resumindo o que notara nesta mesma Roche-Aymon, por sua parte, não se importará de dar uma volta à
França, escreveu e enviou pelo correio as seguintes palavras, que se chave do céu para aí entrar um pecador real: mas há outros dignitários
tornaram memoráveis: "Em suma, todos os sintomas, que a História da Igreja; há um confessor do rei, o insensato Abbé Moudon; e o
nos mostra como antecedendo todas as grandes mudanças e revoluções fanatismo e a decência ainda não estão extintos. Afinal, o que há a
nos governos dos povos, existem presentemente e aumentam diaria­ fazer? As portas podem ser bem vigiadas; os boletins médicos ajusta­
mente em França" 1 . dos; e também, como sempre sucede, muito se pode esperar do tempo
c do acaso.
As portas eStão bem vigiadas, sem poderem ingressar criaturas intru­
sas. Na verdade, poucos desejam entrar, porque a infecção pútrida
Capítulo 111 chega até ao Oeil-de-Boeuf; e assim, mais de cinquenta adoecem e dez
morrem! Mesdames les Princesses são as únicas pessoas que se postam
VIATICUM à cabeceira do empestado enfermo, impelidas por piedade filial. As
três princesas, Graille, Chiffe, Coche (Farrapo, Trapo e Bácora, como
Presentemente, porém, a grande questão que se apresenta aos gover­ êle costumava chamar-lhes), são assíduas ali, depois de todos fugirem.
nadores da França é: Dever-se-á administrar a extrema-unção, ou outro A quarta princesa Loque (Rodilha), está, como sabemos, já no con­
viaticum espiritual (a Luís, não à França)? vento, e só pode dar as suas orações. A pobre Graille e as irmãs nunca
É uma questão intrincada. Porque, se a administram, se apenas che­ louberam o que era um pai; tal é, às vezes, a triste situação da gran­
gam a falar nisso, não terá logo, no próprio início da operação, de deza. Apenas ao Débotter (quando a realeza descalçava as botas) elas
desaparecer a, feiticeira Dubarry; para talvez nunca mais voltar, mesmo podiam enfiar as suas enormes saias de balão, cingir a longa cauda em
que Luís se restabeleça? Com ela, desaparece o Duque d'Aiguillon e V(ili;i da cintura, apertar seus mantos pretos de tafetá até ao queixo
companhia e todo o seu palácio de Armida, como se disse, engolidos § Ruim, em pleno traje de gala, entrar majestosamente, receber o beijo
de novo pelo caos, não deixando nada senão um cheiro de enxofre. ic.il no rosto e sair do mesmo modo majestoso para os bordados, para
Mas, por outro lado, que dirão os delfinistas e os choiseulistas? E até » pequenos escândalos, para as devoções e ócios. Se Sua Majestade
que poderá dizer o próprio re"al mártir, se por acaso piorar mortal­ II"". aparecia alguma manhã, com cale preparado por si próprio, e o
mente, sem entrar em delírio? Presentemente, êle ainda beija a mão
'hHoli.i com as filhas à pressa, enquanto os cães se estavam soltando
da Dubarry; é o que nós, da antecâmara, podemos observar; mas depois?
|i>ii.i a caça, era isso recebido como uma graça do céu*. Pobres mulheres
Os boletins médicos dizem aquilo que aos doutores é ordenado, mas
■RIUelucidas e desoladas! Nas correrias loucas que ainda esperam a
sabe-se que são "bexigas confluentes" doença de que, como se murmura,
(VIII, 217); Bescnval, etc.
I, 11-36.
1 Chesterfield'» Letleri, DcJcmbro 25, 175J.
SS MORTE DE LUÍS XV

vossa frágil existência, antes de ela ser esmagada e rompida; quando


fugirdes através de países hostis, por sobre mares tempestuosos, quase
pegadas pelos turco»; e quando, no terremoto sans-culótico, não dife­
renciardes a vossa mão direita da esquerda, que isto ocupe um lugar
sempre seguro na vowa lembrança; porque o ato era bom e carinhosol
Para nós, é um pequeno oásis soalhento, naquele deserto lúgubre, onde
dificilmente achamoi outro.
No entretanto, que deve fazer um cortesão prudente e imparcial?
Em circunstâncias tão delicadas, quando a questão não é apenas de'
vida ou de morte, mas de sacramento, é provável que os mais hábeis
hesitem. Poucos são tão felizes como o Duque de Orléans e o Príncipe
de Conde que podem, com sais voláteis, frequentar a antecâmara do
rei e, ao mesmo tempo, mandar os seus valorosos filhos (Duque de
Chartres, futuro Egalité; Duque de Bourbon, que também virá a ser
Conde e famoso entre os velhos tontos e enamorados) prestar vassala­
gem ao delfim. Para alguns outros, a resolução está tomada: jacta est
alea. O velho Richelieu, quando o arcebispo de Beaumont, acicatado
pela opinião pública, se decide finalmente a entrar na câmara do
enfermo, agarra-o pela sobrepeliz, leva-o a um canto; e ali, com a sua
velha e dissipada cara de mastim e com a mais untuosa veemência,
vemo-lo a protestar (e até, como podemos julgar pela mudança de côr
no rosto de Beaumont, com êxito) "que não devem matar o rei com
um preceito de teologia". O Duque de Fronsac, filho de Richelieu,
segue as pisadas do pai: quando o Cure de Versalhes se põe a rabujar
sobre sacramentos, ameaça-o de "o lançar pela janela fora, se êle su­
gerir tal coisa".
Felizes estes, podemo-lo dizer; mas para os outros, que oscilam entre
duas opiniões, não é enervante? Aquele que quiser compreender ao
que o catolicismo e muita coisa mais tinha agora chegado; e como
os símbolos do mais sagrado se tinham tornado dados de jogo do mais
vil — deve ler a narrativa destes acontecimentos feita por Besenval,
Soulavic e por outros cronistas da corte, daquele tempo. Verá a Galáxia
de Versalhes toda disseminada, agrupada em novas constelações sempre
a mudarem; acenoi e olhares significativos; coscuvilhices, viúvas prin­
cipescas em trajei de seda deslizando misteriosamente, com sorrisos
para esta constelação, suspiros para aquela. Há ansiedades, de deses­
pero ou esperança, em alguns corações; e sobre isto tudo paira a pálida
e arreganhada sombra da morte, cerimoniosamente atendida por outra
sombra arreganhada, a da etiqueta: de vez em quando, o som cavo
dos órgãos da capela, numa toada mecânica, proclama, como numa
espécie de hórrida e diabólica irrisão:
Vaidade das Vaidades, tudo i Vaidade!
Capítulo IV

LUÍS, O INESQUECIDO

Pobre Luís! Para estes, isto é mera fantasmagoria, onde como palha­
ços riem e choram, soltando exclamações falsas e mercenárias; mas
para ti é uma terrível realidade.
Terrível para todos os homens é a morte, de longe chamada rainha
dos terrores. A nossa pequena e compacta habitação de uma existência,
onde moramos queixosos, mas contudo dentro dela, vai passar, em
tenebrosas agonias, para uma região desconhecida de separação, mis­
tério e possibilidades vagas. O imperador pagão pergunta à sua alma:
Para que lugares vais partir? O rei católico deve responder: Para a
barra de julgamento do Altíssimo Deus! Sim, para uma apresentação
dos feitos da vida; liquidação final, com a conta dos atos praticados
pelo corpo: agora, estão concluídos, e ali estão inalterados, mostrando
os seus frutos, enquanto durar a eternidade.
Luís XV teve sempre o mais régio pavor da morte. Não era como
aquele beato Duque de Orléans, avô do Egalité — porque, na verdade,
alguns-dêles tinham um toque de loucura — que honestamente acredi­
tava não haver morte! Êle, se os cronistas da corte podem ser acredita­
dos, levantou-se uma vez, ardendo em desprezo e indignação, contra o
leu pobre secretário, que gaguejava nas palavras, feu roi d'Espagne
(o defunto Rei de Espanha): "Feu roi, Monsieurf" — "Monseigneur",
respondeu apressadamente o trémulo mas esperto serventuário, "c'est
nu titre qu'ils prennent" (é um título que eles tomam) 1 . Luís, como
dissemos, não era tão feliz; mas prevenia-se como podia. Não consentia
que lhe falassem na morte; evitava a vista de cemitérios, de monumen­
to! fúnebres e de tudo o que lhe pudesse provocar a sinistra lembrança.
f, o recurso da avestruz que, perseguida tenazmente, enterra a estúpida
Glbcçn no chão, esquecendo-se que o seu estúpido corpo fica à mostra.
Outras vezes, porém, numa contradição espasmódica, que significa o
rumino, ta ver: fazia parar as suas carruagens de corte e mandava per-
|linliir aos cemitérios "quantas sepulturas novas houve hoje?" apesar
d> IMO causar à Pompadour os mais desagradáveis arrepios. Podemos
Em cima: J. B. Oubry. As caçadas I lltU|finar o pensamento de Luís naquele dia em que, principescamente
de Luís XV: O Encontro no Poçol icntado para a caça, encontrou de repente, numa volta da flo-
do Rei (Floresta de CompiègneM ■Hti de Senart, um camponês esfarrapado com um caixão: "Para
Tapeçaria dos Gobelins (1733-1745M
Palácio de Fontainebleau. O qua-i
dro distingue-se pela ketexa do\ ^ B " — Era para um pobre irmão escravo, a quem Sua Majestade
verde de suas amores e pelo veris-i
mo dos trajes, expressões e gestos.] nival. I, 199.

Mlit. (Uv. FraneMO


Embaixo: Luísa de trança, filhai
de Luis XV. Retrato de ]. Ml
Nattier. Museu de Versalhes.
■ ■ '
LUÍS, O I N E S Q U E C I D O K
MORTE DE LUÍS XV
:ii
Meu! Que filho de Adão podia ter jugulado tantas incoerências em
vira algumas vc/.cs a mourejar naqueles sítios. "De que morreu?" — "De coerência? Podia êle? A fortuna mais cega arremessou-o para o cimo
fome" — o rei deu de esporas ao cavalo1. de tudo: e ali fica a nadar, com tão pouca força sobre aquela maré,
Imaginemos, porém, os seus pensamentos, agora que a morte se lhe como um toro de madeira à tona de água sobre um oceano balançado
prende às fibras do coração, não prevista, inexorávell Sim, pobre Luís, pelos ventos e impelido pela lua. "Que fiz eu para ser tão amado?"
finalmente que a morte te encontrou. Nem os muros do palácio, nem disse êle então. Agora, pode dizer: Que fiz eu para ser tão odiado?
os guardas reais, nem as tapeçarias caras, e nem o formalismo dourado Não fizeste nada, pobre Luís! A tua culpa é precisamente essa, que
do mais rígido cerimonial a puderam afastar: ela aqui está, para te não fizeste nada. Que podia o pobre Luís fazer? Abdicar e lavar as
tirar o teu sopro de vida, e há de tirar-to. T u , cuja existência toda suas mãos, em favor do primeiro que quisesse aceitar! Sabedoria mais
foi até aqui uma quimera e um espetáculo cénico, vais finalmente ser clara não era para êle. Ficou, pois, a olhar dúbiamente, êle o mais
uma realidade: o suntuoso Versalhes submerge-se, como um sonho, no absurdo mortal existente (verdadeiro solecismo encarnado) para o mundo
vazio da imensidade; terminou o teu tempo e todas as suas construções mais absurdo e confuso; onde, afinal, nada parecia tão certo como isto:
desabam com medonho estridor em volta da tua alma: os reinos das Que êle, o solecismo encarnado, tinha cinco sentidos; que havia mesas
sombras abrem as goelas; e ali tens de entrar, nu, sem manto real, e volantes (Tables Volantes, que desaparecem pelo chão dentro, para
esperar a tua sentença! Infeliz homem, quando te viras em lenta agonia, reaparecerem carregadas de novo) e um Parc-aux-cerfs.
no teu leito de enfermo, que pensamentos devem ser os teus! O pur­ Pelo que, pelo menos, se nos apresenta de novo esta curiosidade
gatório e o fogo do inferno, agora ambos possíveis, em perspectiva; histórica: um ser humano, numa posição original; nadando passiva­
em retrospectiva — ah, que coisa fizeste tu que não fosse melhor não mente, como nalgum insondável "pego", para destino que êle em parte
a teres feito; que mortal ajudaste generosamente; de que dor te com­ via. Porque Luís, apesar de tudo, possuía uma espécie de visão. Quando
padeceste? Não te assombrarão nesta hora as quinhentas mil almas, um novo Ministro da Marinha, ou outro qualquer, vinha anunciar a
que se afundaram vergonhosamente em tantos campos de batalha, de lua nova era, a concubina ouvia dos lábios de Sua Majestade à ceia:
Rossbach a Quebec, para que a tua barregã se vingasse dum epigrama? "Sim, êle estendeu a sua mercadoria como os outros; prometeu as coisas
E o teu repugnante harém; e as maldições das mães, e as lágrimas e a mais belas do mundo; nada disso se realiza; êle não sabe com quem
infâmia das filhas? Miserável homem! Fizeste o mal que pudeste: toda lida; verá". Ou então: "É a vigésima vez que ouço isso; a França nunca
a tua existência parece um hediondo aborto e erro da natureza, cujo possuirá uma marinha, creio-o". Como isto é também impressionante:
verdadeiro sentido é difícil de conceber. Terias tu sido um grifo fabu­ "Se fosse tenente da polícia, proibia esses cabrioles de Paris" 1 .
loso, devorador das obras humanas, a arrastar diariamente virgens para
a tua caverna — revestido também de escamas, que nenhuma lança Condenado mortal; pois não é condenação ser um solecismo encar­
podia perfurar: nenhuma lança, a não ser a da morte? Um grifo não nado? Um novo Roi Fainéant, rei que não faz nada; mas com o mais
fabuloso, mas real! Tremendos, ó Luís, devem ser estes momentos para entranho Maire du Palais: não o Pepino das pernas tortas, mas essa
ti. Não perscrutemos mais os horrores do leito de morte de um tal ■purição envolta em nuvens, a despedir fogo, o Espectro da Democracia,
(}ue com um progresso incalculável está avassalando o mundo! Não
pecador. tril Luís, então, pior que qualquer outro ocioso e comilão privado,
E contudo, que nenhum homem, por mais humilde que seja, julgue, il.K|iicles que vemos frequentemente, sob o nome de Homens do Prazer,
com lisonja, que a sua alma se acha livre de mancha. Luís foi um gover­ | i i mvar a diligente criação de Deus, por algum tempo? Mais desgra-
nante; mas tu também o não és? A sua larga França, se para ela olhares inlu. cia! A sua vida-solecismo era vista e sentida por Lodo o mundo
das estrelas fixas (que não são elas próprias ainda infinidade) não é ticntidulizado; a êle o esquecimento infindo não o pode engolfar, tra­
mais larga que a tua estreita casa de tijolos, onde tu procedeste fiel­
gando o em profundezas infindas — nem mesmo durante uma geração
mente ou infielmente.. Homem, "Símbolo da Eternidade aprisionado
OU dum.
no Tempo!" não são as tuas obras, que são todas mortais e infinita­
mente pequenas, as maiores não maiores que as pequenas, mas somente Mudo, seja como fôr, nós observamos, não sem interesse, que "na
o espírito que lhes insuflaste que pode ter valor ou continuação. i. a dama Dubarry sai da câmara do enfermo, com perceptível
Mas reflcti, em todo o caso, que problema de vida este do pobre ião no rosto. É na quarta noite de maio, do ano da Graça
Luís, quando se levantou como Bien-aimé daquele leito de doença em
I I 'Ir Miil.un,- dc IlaiiMct, p. 293, «te.
1 Campan, Ill, 59.
de 1774. O Oeil-de*Boeuf põe-se todo a cochicharl Estará êle então a Moudon, avança ao seu encontro e, de face ansiosa e acidulada, agarra-o
morrer? O que se pode dizer é que a Dubarry parece estar fazendo as pela manga e murmura-lhe ao ouvido. Após o que o pobre cardeal
malas; vagueia chorosa pelos lioudoirs dourados, como a despedir-se. tem de se voltar e declarar audlvelmente "que Sua Majestade se arre­
D'Aiguillon e companhia estão quase a jogar a última carta; contudo, pende de quaisquer motivos de escândalo que possa ter dado (a pu
ainda não dão o jogo por acabado. Mas quanto à controvérsia sacra­ donner); e que tenciona, se lhe assistir o auxílio do céu, evitar os mes­
mental, essa está resolvida, sem precisão de se falar mais nisso; Luís mos — para o futuro!" Palavras estas que foram escutadas por Richelieu
manda chamar o seu Abbé Moudon no decurso da noite seguinte; é com cara de mastim, a fazer-se cada vez mais negro, e respondidas, em
confessado por êle, dizem que no espaço de "dezessete minutos" e pede voz alta, "com um epíteto" — que Besenval se não atreve a repetir.
os sacramentos de sua própria vontade. Velho Richelieu, conquistador de Minorca, companheiro de orgias da
Reparai que, já na tarde desse dia, a feiticeira Dubarry, de lenço mesa volante, perfurador de paredes de salas de dormir 1 , não estará
nos olhos, sobe para a carruagem de D'Aiguillon, rolando nos braços também findo o teu dia?
consoladores da esposa do duque. Foi-se, e o lugar que ocupou não a Ah, os órgãos da capela podem continuar a soar; e o relicário de
conhece mais. Desaparece, falsa feiticeira no espaço! É em vão que Santa Genoveva a ser arreado e elevado de novo — sem efeito. À noite
pairas no vizinho Ruel, pois o teu dia acabou. Fechados te estão para toda a corte, com o delfim e a delfina, assiste na capela: os padres ficam
sempre os portões do palácio real; já não podes, sob as sombras da noite, roucos de cantar as suas "Orações das Quarenta Horas" e os foles sopram
descer com dominó negro, como ave negra noturna, a perturbar o con­ arquejantes. Espetáculo confrangedor! Porque até o céu se escurece;
certo musical da bela Antonieta no parque, fazendo fugir de ti todas precipitam-se furiosas torrentes de chuva com trovões, quase afogando
as aves do paraíso e emudecer os instrumentos musicais1. T u coisa não a voz do órgão; e faíscas elétricas fazem de candelabros a iluminar o
limpa, contudo não maligna, nem indigna de lastimai Que maldição altar. De modo que a maior parte, como nos contam, retirou-se, aca­
foi a tua desde aquela primeira cama de rodinhas (na terra de Joana bada a cerimónia, de passo estugado, em estado de meditação (recuieille-
d'Are) onde tua mãe te gerou, com lágrimas, de um pai incógnito; e ment), pouco dizendo ou nada 2 .
daí por diante, através dàs mais baixas profundezas subterrâneas e por
Durou isto pouco mais de oito dias; a Dubarry já se tinha ido há
sobre as mais altas eminências, da prostituição e da vilania — até ao
quase uma semana. Diz Besenval que toda a gente estava impaciente
cutelo da guilhotina, que rasoura a tua cabeça a soluçar em vão! Fica
que cela fintt; que o pobre Luís terminasse com aquilo. Estamos agora
aí não amaldiçoada, apenas enterrada e extinta; que mais mereces tu?
Luís, entretanto, está muitíssimo impaciente pelos seus sacramentos; a 10 de maio de 1774. O rei não tarda a morrer.
manda mais duma vez à janela, para ver se estão vindo. Conforta-te Este dia 10 de maio irrompe pela câmara repugnante do enfermo;
Luís, com o conforto que podes: estão já a caminho, esses sacramentos. mas sombrio, sem darem ali por êle: porque os que olham para fora
Pelas seis da manhã, ei-los que chegam. O cardeal esmoler-mor Roche- das janelas só vêem trevas; a roda da cisterna move-se discordante sobre
Aymon está aqui em pontifical, com o seu cibório e o seu ferramental: 0 seu eixo; a vida, como um cavalo estafado, está arfando para a sua
aproxima-se da cabeceira do rei; eleva a sua hóstia; murmura ou parece meta. Nos seus apartamentos distantes, o delfim e a delfina estão apron­
murmurar qualquer coisa; e assim (como o Abbé Georgel, em palavras tados para partir, com todos os lacaios e escudeiros de botas e esporas;
que nos ficam na memória o exprime) Luís fêz a sua amende hono- esperando por algum sinal para fugir daquele lugar de pestilência8.
rable a Deus, conforme o entende o jesuíta. Wa, Wa, como o bárbaro Escutail através do Oeil-de-Boeuf, que som chega: som tremendo e
Clotário exclamou, quando a vida se lhe estava extinguindo, "que ■biolutamente como um trovão? É o afluxo de toda a corte, correndo
grande Deus é esse que arrebata a força dos mais fortes reisl"2. i\ compita, a saudar os novos soberanos: Vivam Suas Majestades! O
delfim e a delfina são rei e rainha! Assoberbados por muitas emoções,
A amende honorable, ou desculpa legal, fêz Luís a Deus: — mas
não, se D'Aiguillon o puder impedir, a fará aos homens. A Dubarry 01 dois caem juntos de joelhos, exclamando, de lágrimas a correr: "Ó
ainda paira na sua mansão de Ruel; e enquanto há vida, há esperança.
I ItMnvil, I- 159-72. Genlis; Duc de Lcvis. etc.
O esmoler-mor Roche-Aymon, por isso (pois parece estar no segredo) ' W I I H I , Mcmoircs concernant Maric Antoinctte (Londres, 1809), J. 22.
logo que arruma o seu cibório e aprestos, majestosamente marcha para 1 KipiiKii;i-ii"s ocupar-nos da "vela" belamente teatral, que Madame Campan (I. 79) acen-
'iii ocasião c que soprou no momento da morte. Se se acenderam ou apagaram velas,
fora, como se o trabalho estivesse feito! Mas o confessor do rei, o Abbé i " m Mo grande corno o de Versalhes, ninguém a tal distância poderia afirmar: ao mes
II o, como ciam duas horas numa tarde de maio e essas cavalariças reais deviam estar uns
">* ou seiscentos metros distantes da câmara do enfermo, a "vela" ameaça apagar-se

2 G"ú,Vu
9
r o n e n . . . . Hl... 11b. IV. c p . 21. Í > 'Ir nó». Uca, nn verdade, a arder — na sua fantasia: projetando luz sobre milito
" Mimarias.
:w MORTE DE LUÍS XV

Deus, guiai-nos, protegei-nos; somos demasiado jovens para reinar!" -


Na verdade, demasiado jovens.
Foi assim, entretanto, "com um som absolutamente como o do trovão"
que o relógio do tempo bateu e uma era velha passou. O Luís que
foi, jaz abandonado, uma massa de barro desprezível; abandonado a
algumas pessoas pobres e aos padres da Chapelle Ardente — que se Livro II
apressam a pô-lo "em dois caixões de chumbo, sobre que derramam
abundante espírito de vinho". O novo Luís com a sua corte está ro­ A IDADE DO PAPEL
dando para Choisy, nessa tarde de verão: as lágrimas reais ainda cor­
rem; mas uma palavra mal pronunciada por Monseigneur d'Artois
fá-los rir a todos, e o choro cessa. Volúveis mortais, como dançais o
minuete da vossa vida, sobre abismos sem fundo, separados de vós
por uma película! Capítulo I

ASTRAEA REDUX
Quanto ao mais, as, próprias autoridades assentiram que nenhum
funeral devia ser mais incerimonioso. O próprio Besenval pensa que Um filósofo paradoxal, levando até ao exagero aquele aforismo de
foi bastante incerimonioso. Duas carruagens com dois nobres com fun­ Montesquieu "Feliz do povo cujos anais estão cheios", disse "Feliz do
ções palatinas e um padre de Versalhes; algumas dezenas de pajens a povo cujos anais estão vazios". Não haverá neste dito, insensato como
cavalo, uns cinquenta, palafreneiros; estes com tochas, mas não vestidos parece, algum grão de razão? Porque verdadeiramente, como já se tem
de preto, partem de Versalhes na segunda noite, com o seu ataúde de escrito, "o silêncio é divino" e do céu; e assim em todas as coisas
chumbo. Marcham a grande trote, e não abrandam. Porque as chufas terrestres há também um silêncio que é melhor que qualquer discurso.
[brocarás) dos parisienses * que se postam em duas filas, em todo o Pensai bem: o acontecimento, a coisa de que se pode falar e se pode
percurso até S. Denis, "dando largas ao seu humorismo, a característica registrar não é, em todos os casos, um rompimento, uma solução de
da nação", não os tenham a afrouxar o ímpeto com que vão. Pela continuidade? Nem que seja um acontecimento feliz, êle envolve mu­
meia-noite, as criptas de S. Denis recebem o que lhes pertence; sem dança, provoca perda (de força ativa); e até certo ponto, quer no
que nenhum de todos estes chore; talvez nem a sua desprezada filha, a passado, quer no presente, é uma irregularidade, uma doença. A nossa
pobre Loque, cujo convento está perto. bem-aventurada deveria ser a mais calma perseverança; não o desloca­
Impelem-no para baixo e metem-no no subterrâneo, desta maneira mento e a alteração — se os pudéssemos evitar.
impaciente; a êle e à sua era de pecado, tirania e desvergonha; porque O carvalho cresce silentemente na floresta, uns mil anos; só no seu
surge uma nova era e o futuro promete ser tanto mais brilhante quanto milésimo ano, ao chegar o couteiro com o seu machado, se ouve um
o passado foi vil. eco a ressoar pela solidão; e o carvalho anuncia-se a si próprio quando,
com um estrondo que se repercute ao longe, cai. Como foi também
silenciosa a plantação da glande, trazida no regaço de algum vento
errante! E mesmo quando o nosso carvalho floresceu ou se revestiu de
folhas (o seu acontecimento feliz) que grito de proclamação podia ter
havido? Nem os mais observadores soltariam uma palavra de reconhe­
cimento. Estas coisas não aconteceram, foram lentamente feitas; não
numa hora, mas através da fuga dos dias. Que se poderia dizer delas?
Esta hora parecia absolutamente como foi a anterior, como o seria a
seguinte.
É por isso que em toda a parte o insensato rumor paira não do que
foi feito, mas do que foi mal feito ou desfeito; e a insensata História
(sempre mais ou menos, a sinopse epitomizada do rumor) sabe tão
pOUCO, que valia mais a pena não saber nada. As Invasões do Átila,
40 A IDADE DO PAPEL ASTRAEA REDUX •II

as Cruzadas de Gauthier sem dinheiro, as Vésperas Sicilianas, as Guer­ só para nos revelar o pensamento, mas também para esplendidamente
ras dos Trinta Anos: apenas pecado e miséria; não trabalho, mas impe­ nos ocultar a falta de pensamento! O papel é feito de trapos ou coisas
dimento ao trabalho I Porque a terra, em todos estes momentos, se que outrora existiram; há infinitas excelências no papel. Que admira
vestia anualmente de verde e amarelo com as suas benéficas colheitas; que a mais sábia filosofia, neste período alciônico e inocorrente, pu­
a mão do artificie, o espírito do pensador não descansavam: e por isso, desse profetizar que se estava aproximando, prenhe de trevas e con­
apesar de tudo, e a despeito de tudo, nós possuímos este tão glorioso fusão o acontecimento dos acontecimentos? A esperança anuncia uma
e florescente mundo, sob uma cúpula tão alteada; a respeito do qual, revolução — assim como o tempo luminoso precede os terremotos. Em
a pobre História, pode bem perguntar, com assombro: Donde veio éle? cinco de maio, daqui a quinze anos, o velho Luís não mandará buscar os
Ela sabe tão pouco disso, mas sabe tanto do que o obstruiu, daquilo sacramentos; mas um novo Luís, seu neto, com toda a pompa da França
que o teria tornado impossivell T a l é, porém, por necessidade ou por cheia de admiração e entusiasmo, estará abrindo os Estados Gerais.
insensata escolha, a sua regra e prática; e por isso, aquele paradoxo 0 reinado da Dubarry e dos seus D'Aiguillons desapareceu para
de que "Felizes os povos cujos anais estão vazios", não deixa de ter o sempre. Há um rei jovem, dócil e bem intencionado; uma rainha jovem,
seu lado verdadeiro. bela e generosa, e bem intencionada; e com eles toda a França, por
assim dizer, se torna jovem. Maupeou e o seu parlamento têm de se
E contudo, o que parece mais cabido notar aqui, é que uma calma, sumir na noite espessa; os respeitáveis magistrados, não indiferentes
não de crescimento sem obstruções, mas de inércia passiva, é sintoma à nação, quanto mais não fosse por se terem oposto à corte, descem
de derrocada iminente. Assim como a vitória é silente, assim a derrota. agora sem cadeias das "rochas escarpadas de Croe em Combrailles" e
Das forças opostas, a mais fraca renunciou; a mais forte marcha para de outras partes, e retribuem louvores cantados: o velho parlamento
a frente, sem ruído agora, mas rápida, inevitável: a derrocada e o de Paris reassume as suas funções. Em vez de um torpe bancarroteiro,
aniquilamento não se darão porém sem ruído. Como nasce tudo, e o Abbé Terray, temos agora como superintendente geral, um virtuoso
tem o seu período, mesmo as ervas do campo, seja êle anual, centenal e filosófico Turgot, com toda uma França reformada na cabeça. Pelo
ou milenal! Tudo nasce e morre, cada coisa pelas suas maravilhosas qual, tudo o que estiver errado, nas finanças ou em outra parte, será
leis, à sua maravilhosa feição; as coisas espirituais muito mais maravi­ acertado — tanto quanto possível. Não é como se a própria sabedoria
lhosamente que as outras. Inescrutáveis, para os mais sábios, são estas, tivesse doravante assento e voz no conselho dos reis? Turgot tomou
sem se poderem profetizar ou compreender. Se quando o carvalho se posse com a mais nobre singeleza discursiva; e foi ouvido com a mais
ostenta, na sua forma mais orgulhosamente florida, a nossos olhos, nós nobre confiança real 1 . £ verdade, que o Rei Luís objeta, "Dizem que
percebemos que o seu coração está forte, o mesmo não acontece com nunca vai à missa"; mas a França liberal não gosta menos dele por
o homem; quanto menos com a sociedade, com a nação dos homens! isso; a França liberal responde: "o Abbé Terray ia sempre". O filoso­
Destas pode até afirmar-se que o aspecto superficial, que a sensação fismo vê, pela primeira vez, um sábio (ou até mesmo um filósofo) no
interior de plena saúde, é geralmente ominosa. Porque, na verdade, é governo: secundá-lo-á plauslvelmente em todas as coisas; nem o volúvel
de apoplexia, por assim dizer, e de um hábito pletòricamente pregui­ e velho Maurepas fará obstrução, se facilmente o puder evitar.
çoso do corpo, que igrejas, realezas, instituições sociais, frequentemente
Como são agora "doces" as maneiras; o vício, "perdendo toda a sua
morrem. Triste, quando tais instituições dizem pletòricamente para
deformidade" e tornando-se decente (como as coisas estabelecidas, fa­
si próprias: Descansa, tens a casa arrumada; como o tolo do Evangelho,
zendo regulamentos para si próprias, costumam); tornando-se uma es­
a quem responderam: Tolo, esta noite, vão-te exigir a tua vidai
pécie de virtude "doce"! A inteligência abunda tanto, irradiada pelo
É a paz saudável ou a insanidade ominosa que vigorará em França, engenho e pela arte da conversação! O filosofismo mostra-se jubiloso
durante estes próximos dez anos? Sobre isto o historiador pode passar nos salões brilhantes, conviva nos jantares da opulência a fazer de
ao de leve, sem necessidade de se deter: porque ainda não ocorrem ingénua, com os próprios nobres a sentirem orgulho de se sentarem
acontecimentos, quanto mais realizações. Tempo da mais soalhenta cal­ i seu lado; e prega, elevado por sobre todas as Bastilhas, o próximo
maria; deveremos chamar-lhe, o que toda a gente pensava que era, a milénio. Da distante Fernay, o patriarca Voltaire dá sinal; os veteranos
nova Idade do Ouro? Chamemos-lhe, pelo menos, do papel, que, em Dldcrot, D'Alembert viveram para ver este dia; estes com os seus jovens
muitas maneiras, é o sucedâneo do ouro. Papel de banco, com o qual Marmontels, Morellets, Chamforts, Raynals alegram a mesa especiosa
se pode ainda comprar, quando já não há ouro; papel de livros, res­
plandecente de teorias, filosofias, sensibilidades — esplêndida arte, não 1 Cmli de Turgot: Condorret, Vle de Turgot (Oeuvrea de Condorcet, t. v.), p. 67. A data
é IH il* ignito de 1774.
42 A IDADE DO PAPEI. ASTRAEA REDUX •I:I

de viúvas ricas, de recebedores gerais filosóficos. Noites e ceias de deu­ sato e velho Maurepas merecia outra recompensa. Mas amigos e inimi­
ses! Certamente, o que está de há muito demonstrado vai ser realizado gos, o destino e êle próprio, tudo se combinou para lhe fazer mal.
agora: "a idade das revoluções aproxima-se" (como Jean Jacques es­ No entretanto, a bela e jovem rainha, nos seus salões de cerimónia,
creveu), mas das mais felizes e abençoadas. O homem desperta do seu apresenta-se como uma deusa da beleza, a cinosura de todos os olhares.
longo sonambulismo; expulsa os fantasmas que o assediavam e enfei­ Por enquanto, não se mete nos negócios; não se preocupa com o futuro;
tiçavam. Contemplai a nova manhã que esplende das escarpas do e nem pelo menos, o teme. Weber e Campan 1 descreveram-na, ali den­
Oriente; fugi, falsos fantasmas, dos seus raios de luz; que o absurdo tro das tapeçarias reais, nos brilhantes toucadores, salas de banho,
desapareça inteiramente, abandonando esta terra inferior para sempre. penteadores, e na grande e pequena toilete; com todo um mundo luzido
É a verdade e o Astraea Redux que (na forma do filosofismo) reinarão na espera obsequiosa dum seu olhar. Jovem e formosa filha do tempo,
doravante. Para que fim imaginável foi o homem feito, senão para que coisas não tem o tempo de reserva para ti! Como a mais brilhante
ser "feliz"? Com a vitoriosa análise e o progresso das espécies, aguarda-o aparição da Terra, ela move-se graciosamente, rodeada da grandeza
agora bastante felicidade. Os reis podem tornar-se filósofos; ou então da Terra: uma realidade e, não obstante, uma visão mágica; por que,
os filósofos reis. Que a sociedade seja uma vez justamente constituída meditai, não a submergirá finalmente a inteira escuridão? O seu jovem
pela vitoriosa análise. O estômago que está vazio será cheio; a garganta e brando coração adota órfãos, dota donzelas meritórias, compraz-se
que estiver seca será regada com vinho. O próprio trabalho será a em socorrer os pobres — os pobres que vêm pitorescamente ao seu
mesma coisa que descanso; não doloroso, mas alegre. Os campos de caminho; e estabelece a moda de fazer isso; porque, como se disse, a
trigo, pensar-se-á, não podem gerar sem cultivo, sem que ninguém fique benevolência começa agora a reinar. Na sua Duquesa de Polignac, na
enlameado ou cansado no labor; — a não ser que verdadeiramente a sua Princesa de Lamballe, ela desfruta qualquer coisa quase como
máquina faça tudo? Alfaiatarias e restaurantes gratuitos, podem ins- amizade; agora também, depois de sete longos anos, tem uma criança
talar-se, de vez em quando, como, é que não se sabe ainda. Mas se e em breve até um delfim, muito seus. Pode julgar-se, tanto como se
cada vontade, de acordo com a regra da benevolência, tiver um cuidado julgam as rainhas, feliz num marido.
para todos, então certamente que ninguém deixa de ser assistido, E até
quem sabe se, pela análise suficientemente vitoriosa, "a vida humana E quanto a acontecimentos? Os grandes acontecimentos são apenas
não pode ser indefinidamente prolongada" e os homens libertos da caridosas festas morais (Fêtes des moeurs), com os seus prémios e dis­
morte, como eles já se libertaram do diabo? Seremos então felizes, a cursos; procissões de peixeiras ao berço do delfim; e acima de tudo,
despeito da morte e do diabo. Assim prega o magniloquente filosofismo flertes, seu nascimento, progresso, declínio e termo. Há estátuas de
o seu Redeunt Saturnia regna. neve, erguidas pelos pobres em Inverno rigoroso a uma rainha que
lhes deu combustível. Há mascaradas, amadorismos teatrais, embeleza­
A canção profética de Paris e dos seus filosofantes é bastante audível mentos do pequeno Trianon, compra e reparação de S. Cloud; viagens
no Oeil-de-Boeuf de Versalhes; e esse Oeil-de-Boeuf, ocupado princi­ do Eliseu de Verão da corte para o de Inverno. Há amuos e birras
palmente com uma bem-aventurada mais próxima, só pode responder, das cunhadas sardas (porque os príncipes também são casados); peque­
quando pior, com um polido "Por que não"? O bom e alegre velho nos ciúmes que a etiqueta da corte pode moderar. Em conjunto, a
Maurepas é um primeiro ministro demasiado divertido para contrariar mais frívola e a mais leviana espuma da existência; uma espuma porém
a alegria do mundo. Basta para o dia o seu próprio mal. Ancião jovial, artificiosamente refinada; agradável à vista, se não fosse tão custosa,
solta os seus gracejos e move-se descuidosamente, com a capa bem como aquela que se evola do vinho da Champagnel
ajustada aos ventos, para que possa agradar a toda a gente. O jovem
Monsieur, o irmão mais velho do rei, distingue-se por uma espécie
e simples rei, que Maurepas não pensa importunar com negócios, re-
tirou-se para os seus apartamentos interiores; taciturno, irresoluto, se de engenho e inclina-se para o lado filosófico. Monseigneur d'Artois
bem que com uma pontinha de birra às vezes: finalmente, resolve-se a tira a máscara a uma bela impertinente; em consequência, trava um
fazer um pouco de serralheiro; e assim, sob a direção do Sieur Gamain duelo — quase a escorrer sangue 2 . Possui calções de uma espécie nova
(a quem um dia terá poucas razões de bendizer) está aprendendo a no mundo — uma espécie fabulosa: — "quatro lacaios altos", diz Mer-
manipular fechaduras1. Parece, além disso, que entendia de geografia iomo se o tivesse visto, "sustentam-no no ar para que êle possa
e lia inglês. Jovem e infeliz rei, a sua confiança infantil naquele insen- i.iir na peça de vestuário sem vestígio de rugas; tendo à noite, os

I I uiupaii. I, 100-51. Webcr, I, 11-50.


1 Campan, 1, 125. H llr«in,il, 11, Í82-S30,
PETIÇÃO EM HIERÓGLIFOS -r.
44 A IDADE DO PAPEI.
lindo as mais absurdas leis do trigo; há carestia, real ou até talvez
mesmos quatro servidores, da mesma forma e com maior esforço, de mesmo "fictícia": uma indubitável escassez de pão. E assim, em 2 de
o libertar daquela rigorosa compressão1. Este último é aquele que maio de 1775, estas vastas multidões apresentam aqui, no castelo de
agora, já grisalho e cansado, mora desolado em Gratz 2 , depois de ter Versalhes, em largo estendal da sua miséria, de faces lívidas, com sor­
rematado o seu destino com os Três Dias. De tal sorte, são os pobres
didez e eloquente farrapagem, como se fosse em legível escrita de hieró­
mortais varridos e arremessados de um lugar para o outro.
glifos, a sua petição de agravos. Têm de se fechar os portões do castelo;
mas o rei aparece à varanda e fala-lhes. Viram o rosto do rei; a sua
petição de agravos foi, senão lida, pelo menos olhada. Por resposta,
dois deles são enforcados, numa "nova forca de quarenta pés de altura";
Capitulo 11 sendo os outros dispersados para as suas cavernas — por algum tempo.
É realmente um "ponto" difícil para o governo, lidar com estas
PETIÇÃO EM HIERÓGLIFOS
massas; — mesmo que este fosse o único ponto e problema de governo,
Com o povo trabalhador, as coisas não correm tão bem. Infelizmentel e todos os outros pontos meras ninharias acidentais, superficialidades
Porque há de vinte a vinte e cinco milhões deles, a quem, contudo, e golpes de vento! Porque digam o que disserem as cartas de privilégio,
nós agrupamos numa espécie de obscura unidade compendiosa, mons­ o uso e o costume, a lei comum e especial, as massas contam uns tantos
truosa mas obscura, de há muito chamada canaille; ou mais humana­ milhões de unidades; feitas, segundo todas as aparências, por Deus — a
mente, "as massas". Massas, com efeito: e todavia, se, com um esforço quem, como se proclama, pertence esta Terra. Além disso, o povo não
de imaginação, tu as seguires, por toda a larga França, penetrando é isento de ferocidade; tem nervos e indignação. Basta reparar naquele
nas suas choças de barro, nas suas águas furtadas e antros, verás que sábado a que o velho Marquês de Mirabeau, o azedo amigo dos homens,
as massas consistem todas em unidades. Cada unidade delas tem o seu assistiu, nestes mesmos anos, dos seus aposentos, nas termas de Mont
próprio coração e dores; acha-se coberta com a sua própria pele e se d'Or: "ao descerem os selvagens em torrentes das montanhas, ordena­
a picardes, sangra. Ó purpurada soberania, santidade, reverência; — tu, mos à nossa gente que não saísse. O vigário de sobrepeliz e estola,
por exemplo, cardeal esmoler-mor, com o teu manto de honra, de a justiça de peruca, a Maréchaussée de sabre na mão, guardam o lugar,
pelúcia, que tens as tuas mãos afluentes de dignidades e dinheiro, e que antes de permitir que as gaitas de fole comecem. A dança foi inter­
solenemente estás colocado na tua torre de vigília do mundo, à vista rompida, um quarto de hora depois, pela batalha; os gritos, os guinchos
de Deus, para tais fins — que pensamento: que cada unidade dessas das crianças, dos doentes e de outras pessoas, assanhavam-nos, como a
massas é um homem milagroso, exatamente como tu és; lutando, com ralé faz quando os cães brigam: homens terríveis ou antes animais
visão ou com cegueira, pelo seu reino infinito (esta vida, que êle ferozes, vestidos com casacos de lã grosseira, com grandes cintos de
possui, uma vez só, no meio das eternidades); com uma centelha da couro crivados de pregos de cobre; de estatura gigantesca, realçada por
divindade, aquilo a que tu chamas alma imortal, dentro dele! altos tamancos de madeira (sabots); elevando-se nos bicos dos pés para
Apáticos e melancólicos lutam estes no seu obscuro, afastamento; ver o combate, batendo violentamente os calcanhares em compasso;
com a sua lareira sem alegria, com a sua dieta parca. Para eles, neste esfregando as ilhargas com os cotovelos; suas caras pálidas (figures
mundo, não surge uma era de esperança; e agora talvez- que nem no hâves) cobertas de longos cabelos engordurados; a parte superior do
outro — a não ser a esperança no descanso sombrio da morte, porque rosto tornando-se lívida e a inferior distorcendo-se num riso cruel e
a sua fé também se está desvanecendo. Sem ensino, sem conforto, sem numa espécie de impaciência feroz. E é esta gente que paga a taille!
alimento! Uma geração muda; a sua voz apenas um grito inarticulado: E ainda lhe querem tirar o sal! Vós não sabeis o que estais sugando,
orador, no Conselho do Rei, no fórum do mundo, não têm nenhum ou, o que lhe chamais, governando; aquilo que pelo esguicho da vossa
acreditado. A raros intervalos, (como agora em 1775), põem de parte pena, na sua fria e cobarde indiferença, vós pensais que podeis esfomear
as suas enxadas e martelos; e, com o pasmo da humanidade pensante 3 , sempre com impunidade, sempre, até que venha a catástrofe! Ah, ma­
afluem para aqui e para acolá, perigosos, sem desígnio; e chegam até dame, tal governo de cabra-cega, levado tão longe, acabará numa cam­
mesmo a Versalhes. Turgot está alterando o comércio do trigo, abo- balhota geral (Culbute générale)"1.
1 Mercler, Nouvcau P»rli, III, 147.
2 A. D. 1854. 1 Mémoires de Mirabeau écriís par Lui-même, par son Père, son Oncle et son Fila Adoptif
3 Lacrelelle, Francr pendam le I8eme Sleclr, II, 4(15, Biographie Unlverselle. Turgol (por (1'arij, 1854-5), II, 186.
Durozolr).
4(i A IDADE DO PAPEL DÚVIDAS 47

Indubitavelmente que isto é um sintoma negro numa idade de não ser com lunetas astronómicas. A Igreja na verdade ainda existe,
ouro -- Idade, pelo menos de papel e esperançai Entretanto, não nos mas no estado mais submissivo; absolutamente domada pelo filosofismo,
perturbemos com as tuas profecias, ó azedo amigo dos homens: "há em tempo singularmente curto, porque a hora chegou. Há uns vinte
muito que ouvimos isso e no entanto o velho mundo continua rolando, anos, o vosso arcebispo Beaumont nem queria deixar sepultar os jan-
segundo o seu costume antigo". senistas; o vosso Loménie de Brienne (homem em ascensão, com quem
nos vamos ainda encontrar) podia, em nome do clero, insistir no cum­
primento das leis antiprotestantes, que condenam à morte, por prega­
ção1. E agora ah! nem o próprio ateísmo do liarão de Holbach pode
ser queimado — exceto como fogo para acender o cachimbo, por qual­
Capitulo III
quer indivíduo especulativo privado. A nossa Igreja encontra-se enca­
DÚVIDAS brestada, muda, como um boi mudo; mugindo só por forragem (de
dízimos); contente se os pode obter; ou, com estupor mudo, esperando
Ou será esta mesma idade de esperança, ela própria, um simulacro, a sua próxima ruína. E os vinte milhões de "faces pálidas" e como
como a esperança muitas vezes é? Castelos de nuvens, com arco-íris a marco indicador e guia para eles na sua luta sombria, "uma forca de
cortá-los, bonitos de se verem, de se alcançarem, que pairam sobre as quarenta pés de altural". Certamente uma idade de ouro singular, com
quedas do Niágara? Nesse caso, a vitoriosa análise terá bastante que as suas festas morais, as suas "maneiras doces", as suas instituições
fazer. doces (institutions douces); nada mais significando que paz entre os
homens! — Paz? Ó sentimentalismo filosófico, que tens tu a fazer com
Ah, sim! todo um mundo a refazer, se ela o pudesse ver: trabalho
a paz, quando o nome de tua mãe é Jezabel? Produto sujo duma
para outrem que não para ela! Porque tudo anda mal, desarticulado;
corrução ainda mais suja, tu e mais a corrução estais condenados!
o interior espiritual e o exterior económico; cabeça ou coração, não
há sanidade em nenhum. Com efeito, os males de todas as espécies são
mais ou menos afins e geralmente andam juntos: é uma verdade antiga, No entretanto, é singular como o podre se sustenta tanto tempo,
que, onde quer que haja vkn enorme mal físico, existiu ali, num grau contanto que não se mexa nele com desabrimento. Por gerações intei­
proporcionado, um mal moral que foi o pai e a origem dele. Antes ras, éle continua de pé, "com uma pálida afetação de vida", depois de
de esses vinte e cinco milhões de labutadores apresentarem essa palidez toda a vida e toda a verdade lhe ter fugido: tanto custa aos homens
do rosto que o velho Mirabeau agora observa, numa nação que se abandonar os seus velhos caminhos e, vencendo a indolência e a inércia,
chama a si própria cristã e que chama ao homem irmão do homem — aventurar-se em novos. Grande, verdadeiramente, é o atual; é a coisa
que indizível e quase infinita desonestidade em toda a sorte de gover­ que se libertou dos insondáveis fundos da teoria e da possibilidade e
nantes e guias designados, espirituais e temporais, não se deve ter se apresenta como um fato definido e indisputável, por meio do qual
vindo acumulando, através de longas idades! E continuará a acumu- os homens vivem e trabalham, ou viveram e trabalharam outrora.
lar-se até atingir uma cabeça; porque o primeiro de todos os Evan­ Sabiamente os homens se agarram a êle, enquanto dura; e o deixam
gelhos é que uma mentira não pode durar sempre. com pesar, quando desaba debaixo deles. Arrebatado entusiasta da
mudança, cautela! Consideraste bem o que o hábito faz nesta vida;
De fato, se nós penetrarmos dentro desse vapor rosado do sentimen­ como todo o conhecimento e toda a prática estão maravilhosamente
talismo, da filantropia e das festas morais veremos que atrás dele se suspensos sobre abismos infinitos do desconhecido, do impraticável; e
OCOlta um dos mais tristes espetáculos. Pode perguntar-se: Que laços como o nosso ser todo é um abismo infinito, sobrecupulado pelo hábito,
dos que sempre uniram com felicidade uma sociedade humana, ou a como por uma ténue película de terra, laboriosamente construída?
uniram de qualquer maneira, vigoram aqui? É um povo descrente, com
suposições, hipóteses e sistemas de espuma da vitoriosa análise; que Mas se "todo o homem", como está escrito, "tem dentro de si um
acredita principalmente nisto, que o prazer é aprazível. Fome tem êle louco", que acontecerá com toda a sociedade, que na acepção mais
de todas as coisas doces; é a lei da fome. Mas que outra lei tem? Dentro comum é chamada "o milagre permanente deste mundo?". "Sem a tal
dele ou acim.i il< l<-, propriamente nenhuma! película de terra do hábito", continua o nosso autor, "ou se quiserdes,
sistema de hábitos, numa palavra, modos fixos de atuar e de crer — a
O seu rei tornou-sc um rei papagaio, com o seu governo Maurepas
sociedade não existiria de forma nenhuma. Com eles, ela existe, melhor
girando como o cata-vento, soprado por todas as monções. Acima deles
não vêem nenhum Deus; e nem mesmo olham para o firmamento, a I llnlny <l'Angl«i, Vic de Malesherbes, I, 15-22.
■18 A IDADE DO PAPEI.

ou pior. Aqui também, neste seu sistema de hábitos, adquiridos, reti­


dos de qualquer forma, reside a verdadeira lei codificada e constituição
duma sociedade; o único código, apesar de não escrito, ao qual de
sorte nenhuma pode desobedecer. A coisa a que nós chamamos código
escrito, constituição, forma de governo e o mais, que é ela senão uma
imagem em miniatura e um sumário, redigido solenemente, deste có­
digo inescrito? É — ou antes ah, não é; mas devçria ser e sempre tende
para serl Nesta discrepância no mesmo dialeto: deixai que, por má
sorte, nessa luta sempre constante, a tal ténue película de terra seja
quebrada! As fontes da grande profundura efervescem: fontes de fogo,
envolventes, engolfantes. A vossa película de terra desfaz-se, ficando
submergida; e em vez dum mundo verde e florido, fica um caos de
assolação, em revolvimento louco; o qual tem de novo, com tumulto
e luta, de se fazer num mundo.
Por outro lado, fique isto assente: Onde encontrares uma mentira
que te oprime, extingue-a. As mentiras só existem para serem extin­
guidas; elas esperam e gritam ansiosamente por extinção. Pensa bem,
no entretanto, com que espírito deverás fazer isto: não com ódio, com
violência obstinada e egoísta; mas com claridade de coração, com zelo
sagrado, suavemente, quase com pena. T u não quererás substituir a
mentira extinta por uma nova mentira, que seria uma nova injustiça
da tua parte, a mãe de outras mentiras? Então esta última operação
seria pior do que o começo.
É assim, pois, que neste nosso mundo, que ao passo que possui uma
indestrutível esperança no futuro, possui uma indestrutível tendência
para perseverar no passado, a inovação e a conservação têm de pros­
seguir no seu conflito perpétuo, como podem e sabem. Pelo que, o
"elemento demoníaco", que se oculta em todas as coisas humanas, pode
sem dúvida, uma vez, por exemplo, em mil anos desencadear-sel Mas,
decerto, não devemos nós lamentar que tal conflito — o qual a bem
dizer, é apenas como o conflito clássico de "Amazonas inflamadas de
ódio com Mancebos heróicos" e que termina em abraços — seja geral­
mente tão espasmódico? Porque a conservação, fortalecida por essa
poderosíssima qualidade que reside em nós, a nossa indolência, pre-
serva-se durante longas idades, não apenas vitoriosa, o que ela deve
ser; mas tirânica incomunicativa. Ela considera o seu adversário como
que aniquilado; adversário que jaz, durante todo o tempo, enterrado
como um Encélado que, para conseguir a mais pequena liberdade,
tenha com o seu Etna de revolver toda a Trinácria.
Razão por que, afinal, nós temos também de prestar honras a uma
era de papel; uma era de esperançai Pois que neste mesmo terrível
processo da revolta de Encélado, quando a tarefa, em que nenhum
mortal quer de boa vontade entrar, se tem tornado imperativa, inevi-
MAU REPAS 18
tável — não é mesmo uma bondade da natureza que ela nos acalente
com promessas fagueiras, falazes ou não; e que toda uma geração mer­
gulhe na escuridão de Erebus, alumiada por uma era de esperança?
Bem se tem dito: "o homem tem por base a Esperança; não tem
propriamente outra possessão que a Esperança; esta sua habitação é
chamada o lugar da Esperança".

Capítulo IV

MAUREPAS

Mas agora, entre as esperanças francesas, não é a do velho M. de


Maurepas uma das mais bem fundadas, que espera que éle, por des­
treza, consiga continuar a ser ministro? Ancião ágil, que para todas
as emergências tem a sua graça leve; e que sempre na pior confusão
emerge, como a cortiça, sem se afundarl Pouco se lhe dá da perfectibili­
dade do progresso das espécies, e da Astraea Redux: o que lhe importa
A esquerda: Duflos e Ronde. Coroa da sagração de Luís XV (1772). Museu do I.ouvre.
é que um homem de engenho sutil, à beira dos oitenta, possa no
A direita: Espada de Luís XV em ouro e jade. Museu do Lpwre. assento da autoridade sentir-se a si próprio importante entre os homens.
Chamar-lhe-emos, como a altiva Châteauroux, outrora, "M. Faquinet"
(Diminutivo de patife)? Em dialeto cortesão, é agora chamado "o Nestor
da França". É um tal Nestor governante que a França tem.
No fundo, porém, é talvez embaraçoso dizer onde o governo da
França, nestes dias, está especialmente. Naquele castelo de Versalhes,
nós temos o Nestor, o rei, a rainha, ministros e funcionários, com
rolos de papel atados com fitas: mas o governo? Porque governo é uma
coisa que.governa, que guia; e se preciso fôr, compele. Visível em
França não existe tal coisa. Invisível, por outro lado, êle está: nos
salões filosóficos, nas galerias do Oeil-de-Boeuf, na língua do palrador,
na pena do panfletário. Sua Majestade a rainha aparece na ópera e
é aplaudida; volta para casa toda radiante de alegria. Daí a pouco os
aplausos afrouxam, ou ameaçam cessar; ela fica de coração pesaroso
e a luz do rosto foge-lhe. É a soberania como o pobre Montgolfier;
que, soprado pelo vento popular, se torna grande e sobe; ou mergulha
flácido, se o vento é desviado? A França foi por muito tempo um
"Despotismo temperado por epigramas"; e agora, como parece, os epi­
gramas têm a primazia.
Feliz se daria "Luís, o Desejado" se pudesse tornar a França feliz;
se isso não provasse ser tão trabalhoso e êle soubesse como. Mas há
interminável discrepância em roda dele; tantas reclamações e clamores;
mera confusão de línguas; não reconciliáveis por qualquer homem;
Modelo de uma carruagem />«>« o filho de Luís XV. Museu de Versalhes.
não manejáveis, suprimíveis, a não ser por um homem muito forte e

4 Hist. Rev. Francesa


50 • A IDADE DO PAPEL MAUREPAS -.1

muito sábio; entre os quais um M. de Maurepas, com as suas graças rente; devota da adoração dos heróis. Há nobres que se disfarçam de
leves e oscilações ligeiras, pode apenas subsistir. O filosofismo reclama criados de taberna para conseguirem vê-lo; as mulheres mais encanta­
a sua nova era, significando com isso inumeráveis coisas. E reclama isso doras de F"rança quereriam pôr os cabelos debaixo dos seus pés. "A
não em voz fraca; porque a França, até aqui muda, está agora come­ sua carruagem é o núcleo dum cometa, cuja cauda enche ruas inteiras";
çando também a falar; e fala no mesmo sentido; num som alto, de coroam-no no teatro, com vivas imortais; finalmente, "sufocam-no com
muitas tonalidades; distante, contudo não inexpressivo. Por outro lado, rosas" porque o velho Richelieu recomendara-lhe ópio para os nervos
o Oeil-de-Boeuf que, como o mais próximo, se pode ouvir melhor, e o excessivo patriarca tomara demasiado. A própria rainha pensara
reclama com veemência estridente que a monarquia seja, daqui por em o chamar; mas dissuadiram-na. Que ela, no entanto, medite sobre
diante, uma cornucópia de abundância; da qual os cortesãos leais pos­ o assunto. O sentido da existência deste homem é fanar e aniquilar
sam sacar — para o justo sustentáculo do trono. Que o liberalismo e tudo sobre que a majestade e a adoração se assentam atualmente E
uma nova era, se é esse o desejo, sejam introduzidos; mas que não é isso o que o mundo reconhece nele, com apoteoses, como o seu pro­
se suprimam as mercês reaisl Esta última condição é porém, ah, pre­ feta e orador, que falou sabiamente a coisa que êle ansiava por dizer?
cisamente a condição impossível. Acrescentai apenas que o corpo deste mesmo patriarca beatificado, su­
O filosofismo, como vimos, conseguiu que o seu Turgot fosse feito focado pelas rosas, não pode ser enterrado senão furtivamente. Tudo
intendente geral; e assim haverá inumeráveis reformas. Infelizmente isto, no seu conjunto, é assunto digno de nota; e a França, sem dúvida,
este Turgot só se pôde manter vinte meses. Com uma milagrosa Bolsa está grande (o que os alemães chamam "de boa esperança"): e nós
de Fortunatus no seu tesouro, podia ter durado mais; de fato, todo desejamos-lhe uma hora feliz de parto e um fruto abençoado.
o intendente geral da França, que, nesses dias, quisesse prosperar, devia
primeiro munir-se de tal bolsa. Mas não podemos nós notar também Beaumarchais acaba de concluir agora a sua defesa legal (Mémoires)1;
aqui a bondade da natureza a respeito da esperança? Homem após não sem resultado, para êle próprio e para o mundo. Caron Beaumar­
homem avança confidente para os estábulos de Augias, como se êle chais (ou de Beaumarchais, porque foi enobrecido) nascera pobre, mas
os pudesse limpar; desperíde a sua pequena fração de habilidade nisso, ambicioso, ávido; com talentos, audácia, habilidade; acima de tudo,
com certa alacridade; realiza, tanto quanto é honesto, alguma coisa. com o talento da intriga: homem magro, mas também homem rijo e
Turgot possui qualidades: honestidade, visão interior, volição heróica; indomável. A fortuna e a destreza trouxeram-no para o cravo de Mes-
mas a Bolsa de Fortunatus é que êle não possui. Esperançoso inten­ dames, as nossas boas princesas Loque, Graille e Irmandade. E ainda
dente geral! toda uma Revolução Francesa pacífica pode estar esque­ mais: Paris Duvernier, o banqueiro da corte, honra-o com a sua con­
matizada na cabeça do pensador; mas quem pagará as indizíveis in­ fiança, até mesmo para transações com dinheiro; confiança esta, porém,
demnizações que serão precisas? Ah, isso não é fácil. Logo no princípio, que o herdeiro de Duvernier, pessoa de qualidade, não quis continuar.
êle propõe que o clero, a nobreza, os próprios parlamentos sejam su­ Daqui surgiu um conflito, um processo judicial, no qual o rijo Beau­
jeitos a impostos como o povo! Um grito de indignação e de pasmo marchais, perdendo dinheiro e reputação, é, na opinião do juiz relator
reverbera através de todas as galerias do castelo; M. de Maurepas tem Goezman, do parlamento Maupeou, e de todo um mundo que assiste
de oscilar: o pobre rei, que escrevera poucas semanas antes, "// n'y a indiferente — miseravelmente batido. Na opinião de todos os homens,
que vous et moi qui aimions le peuple" (Só vós e eu é que amamos menos na dêlel Inspirado pela indignação, que faz, senão versos, pelo
o povo), tem de assinar agora uma demissão1; e deixar que a Revolução menos libelos judiciais satíricos, o magro professor de música, com de­
Francesa se realize, pacificamente ou não, como ela puder. sesperado heroísmo, reivindica a sua causa perdida, a despeito do
mundo; combate por ela contra relatores, parlamentos, superioridades,
com ironia leve, com lógica clara, destramente, com vigor inexaurível
A esperança então fica adiada? Adiada sim, não destruída ou dimi­
c recursos, como o mais hábil esgrimista; para o qual, tão hábil êle se
nuída. Não está, por exemplo, o nosso patriarca Voltaire, depois de
mostra, toda a gente agora olha. Três longos anos isso dura, com osci-
longos anos de ausência, a revisitar Paris? De rosto mirrado cqmo uma
I.iiiir fortuna. Afinal, depois de trabalhos comparados aos doze de
múmia, "de enorme peruca à Luís Quatorze, que lhe deixa apenas
ilcs, o nosso invencível Caron triunfa; torna a ganhar a sua causa
dois olhos visíveis, brilhando como carbúnculos", o ancião está aqui 2 .
Que entusiasmo! A escarnecedora Paris tornou-se repentinamente reve- i.iusas; despoja o relator Goezman do arminho judicial, cobrindo-o,
•eu turno, com uma veste perpétua de desonra; e em relação ao
1 Maio de 1778.
2 Fevereiro de 1778. I 1771 li. Viã. Ocuvrei de Beaumarchais; onde se descreve circunstanciadamente íste caso.
52 A IDADE DO PAPEL
ASTRAEA REDUX SEM DINHEIRO 53
parlamento Maupeou (que êle ajudou a extinguir), aos parlamentos
de todas as espécies e à justiça francesa em geral, dá origem a inter­ torna cada vez mais clamoroso, que pode um Maurepas fazer — senão
mináveis reflexões nos espíritos dos homens. Foi assim que Beaumar- oscilar? Esquadras cruzam o oceano; os Gates, Lees, rudes generais
chais, como um Hércules francês magro, se aventurou, impelido pelo ianques, "com barretes de dormir debaixo dos chapéus", apresentam
destino, a penetrar nos reinos inferiores e a vitoriosamente domar lá armas à brilhante cavalaria de França; e a recém-nascida democracia
os cães do inferno. Doravante, têm de o contar entre as notabilidades vê, não sem espanto, "o despotismo temperado por epigramas" com­
da sua geração. bater a seu lado. E assim de fato é. As forças do rei e heróicos voluntá­
rios; Rochambeaus, Bouillés, Lamethes, Lafayettes desembainharam suas
espadas nesta questão sagrada da humanidade; e ainda as hão de
desembainhar em outra parte, da maneira mais estranha.
Capítulo V
Ao largo de Ouessant, fere-se uma batalha naval, no decurso da qual
ASTRAEA REDUX SEM DINHEIRO o nosso jovem príncipe, Duque de Chartes, "se esconde no porão"; ou
teria êle contribuído materialmente, por heroísmo ativo, para a vitória?
Observai, porém, para além do Atlântico! Não amanheceu verdadei­ Ah, por segundos informes, sabemos que não houve vitória; ou se a
ramente o novo dia? A democracia, de fato, nasceu; em nuvens de houve ela pertenceu ao inglês Keppel 1 . O nosso pobre e jovem prín­
fumo, está lutando pela vida e pela vitória. Uma França simpatizante cipe vê os aplausos da ópera transformados em risos escarninhos; e
rejubila com os Direitos do Homem; em todos os salões, que espetáculol não pode ser promovido a grande-almirante — causa para êle de des­
Contemplai o nosso Deane, o nosso Franklin, os plenipotenciários ame­ graças que se podem chamar intermináveis.
ricanos, aqui em pessoa, solicitando 1 : os filhos dos puritanos saxões, Desgraças também para o Ville de Paris, o Leviatã dos navios! O
com o seu velho temperamento saxão, a velha cultura hebraica, o suave inglês Rodney aprisionou-o e levou-o para Inglaterra com o resto; tão
Silas, o suave Benjamim, aqui em tal missão, entre os volúveis filhos frutuosa foi a sua "nova manobra de quebrar a linha do inimigo" 2 .
do paganismo, da monarquia, do sentimentalismo e da mulher escar­ Parece, que, como dizia Luís XV, "a França nunca poderá ter uma
late. Um espetáculo, com efeito; sobre o qual os salões podem cacarejar marinha". O bravo Suffren tem de regressar de Haider Ali e das águas
alegremente — apesar de o Imperador José, perguntado sobre êle, ter indianas, com pequeno resultado; contudo, com grande glória pelas
dado esta resposta, a menos esperada dum filósofo: "Madame, a minha seis não-derrotas; as quais na verdade, com tal cooperação como êle
profissão é ser realista" (Mon métier à moi c"est d'être royaliste). teve, se podem considerar heróicas. Que o velho herói do mar, honrado
Assim pensa também o frívolo Maurepas; mas o vento do filoso­ pela França, descanse agora, nas suas nativas montanhas das Cevenas;
fismo e a força da opinião pública fazem-no andar à roda. No entre­ e despeça fumo, não de pólvora, mas mero fumo culinário, por todas
tanto, enviam-se congratulações e armam-se clandestinamente corsários. as velhas chaminés do castelo de Jalès — que num dia, em outras
Paul Jones equipará o seu Bon Homme Richard: armas, fornecimentos mãos, terá outra fama. O bravo Lapérouse, daqui a pouco, levantará
militares podem ser mandados furtivamente (se os ingleses os não agar­ âncora, para uma filantrópica viagem de descobrimento; porque o rei
rarem); mais uma vez, Beaumarchais, saindo da obscuridade como o sabe geografia8. Mas ah, isto também não terá êxito: o bravo nave­
gigante contrabandista, se torna visível — enchendo, assim, a sua magra gador vai e não volta; os exploradores procuram em mares distantes
bolsa. Mas decerto que, seja como fôr, a França deve ter uma marinha. por êle, em vão. Desapareceu sem rasto na imensidade azul; e apenas
Não será o tempo desse grande objetjvo, agora que essa termagante uma sombra misteriosa de saudade sua, paira por muito tempo em
dos mares tem as mãos ocupadas? Mas o que é verdade é que um todas as cabeças e corações.
tesouro empobrecido não pode construir navios; dado porém o alarma Enquanto a guerra dura, Gibraltar não é capaz de se render; apesar
(que Beaumarchais diz que êle deu), este e outro porto de mar leal, de Crillon e Nassau-Siegen, com os mais hábeis engenheiros existentes,
câmara de comércio, construí-los-ão e oferecê-los-ão: esplêndido^ navios nli estirem e de o Príncipe de Conde e o Príncipe d'Artois terem
para sulcar as águas, um Ville de Paris, Leviatã dos navios. corrido em seu auxílio. Maravilhosas baterias flutuantes com abrigo
E agora quando navios gratuitos de três cobertas se balanceiam anco­ de couro, postas a navegar pelo Pacto de Família, franco-espanhol,
rados, com galhardetes ao vento, e o filosofismo eleuteromaníaco se
I 27 ile Julho, de 1778.
I 1777; Deane um pouco miei; Franklin permaneceu alé 1785. I 11 r 12 de abril de 1782.
> I ile agftito de 1785.
M A IDADE DO PAPEL SACOS DE VENTO 55

desafiam valorosamente os Ingleses; às quais, porém, Gibraltar responde opinião pública e pelos esforços da sua nobre esposa; cora muitos
plutônicamente, com meras torrentes de ferro em brasa — como se o pensamentos dentro dele, como se espera — que, contudo, a sua timidez
rochedo Calpe se tivesse tornado uma garganta do inferno; e profere impede de exteriorizar. O seu Compete Rendu, publicado com per­
um Não tão prenhe de maldições, que toda a gente tem de acredi­ missão real, novo sinal de uma nova era, mostra coisas extraordinárias;
tar nele1. as quais, o que, senão o génio de um Necker-Atlas, pode impedir de
E assim, com esta explosão estrondosa, cessou o barulho da guerra; se tornarem presságios? Na cabeça de Necker também há toda uma
uma idade de benevolência pode esperar, indefinidamente. Os nossos revolução francesa pacífica, à sua moda; e naquela profundeza taci­
nobres voluntários da liberdade regressam, para serem seus missioná­ turna e fátua ou fatuidade profunda, bastante ambição.
rios. Lafayette, como o sem-par do seu tempo, resplandece no Oeil-de- No entretanto, ah, a sua bolsa de Fortunatus não vem a ser mais'
Boeuf de Versalhes; colocam-lhe o busto no Hôtel-de-Ville de Paris. que a antiga "vectigal da parcimônia". E até êle também tem de pro­
A democracia acha-se inexpugnável, incomensurável, no seu Novo duzir o seu projeto de impostos: clero, nobreza devem ser coletados;
Mundo; tem mesmo um pé a erguer-se para o Velho; — e as nossas e as Assembleias Provinciais e o resto — como um mero Turgot! O
finanças francesas, pouco fortalecidas por tal trabalho, não se encon­ moribundo M. de Maurepas tem de oscilar uma outra vez. Que Necker
tram em estado saudável. também se retire; não sem que o lamentem.
Grande na sua posição privada, Necker observa à distância, espe­
Que fazer com as finanças? Eis, na verdade, a grande questão: um
rando a sua oportunidade. Oitenta mil exemplares do seu novo livro,
pequeno mas muito negro sintoma atmosférico, que nenhuma radiação
que êle chama Administration des Finances, vendem-se em poucos dias.
de esperança universal pode eliminar. Nós vimos Turgot jogado para
Foi-se, mas voltará, e mais que uma vez, reconduzido por toda uma
fora da intendência geral, com gritos — por falta de uma bolsa de
nação em aplausos. Singular intendente geral das finanças, que outrora
Fortunatus. Tampouco pôde M. de Clugny desempenhar o cargo; ou
foi escriturário do banco Thelusson!
na verdade fazer qualquer coisa, a não ser despender os seus salários
e atingir um "lugar na .história", onde, como sombra ineficiente o
vemos ainda ali vegetando. Que o assunto se resolva por si próprio!
Possuía o genebrês Necker, então, uma tal bolsa? Êle possuía compe­
tência bancária, honestidade bancária; crédito de todas as espécies, Capitulo VI
porque havia escrito Ensaios premiados pela Academia, lutado pelas
Companhias da índia, dado jantares a filósofos e "arranjado uma for­ SACOS DE VENTO
tuna em vinte anos". Possuía além disso uma taciturnidade e soleni­
dade; de profundeza ou talvez do contrário. Que sensação singular não Assim marcha o mundo, nesta sua Idade do Papel ou Era da Espe­
devia sentir o Celadon Gibbon, namorado perjuro como se mostrara, rança. Não sem obstruções, explosões de guerra, as quais, ouvidas a
cujo pai, conservando muito provavelmente o seu próprio derriço, tal distância, soam quase como uma alegre marcha musical. Como se
"não quis ouvir falar de tal união" ao ver agora a sua abandonada na verdade esse escuro e vivo caos da ignorância e da fome, na força
Demoiselle Churchod sentada nos altos lugares do mundo, como a de vinte e cinco milhões, debaixo dos vossos pés — começasse real­
esposa do ministro, "sem que Necker tivesse ciúmes!"2. mente a tocar!
Uma outra e jovem Demoiselle, que um dia deverá ser famosa como Pelo presente, porém, ponhamos os olhos em Longchamp, agora que
Madame Staèl — brinca agora nos joelhos do autor da "Decadência acabou a Quaresma e a glória de Paris e da França se ostenta, como
e Queda do Império Romano". Madame Necker funda hospitais; dá é costume, todos os anos. Não para assistir às missas das Trevas, mas
solenes jantares filosóficos para animar o seu exausto intendente geral. para se banhar de sol e se mostrar, saudando a jovem Primavera 1 .
Coisas estranhas têm acontecido: pelo clamor do filosofismo, pela intro­ Múltipla, de matiz brilhante, resplandecente de ouro; tudo através do
missão do Marquês de Pezay e pela pobreza a atingir até os reis. E Bois de Boulogne, em longas filas variegadas — como extensas guar­
assim Necker, como um Atlas, sustenta o fardo das finanças, durante nições de flores viçosas, tulipas, dálias, lírios do vale; tudo nos seus
cinco longos anos"; sem salários, porque os recusou; animado só pela vasos movediços (de carruagens magnificamente douradas): prazer dos
olhos e orgulho da vida! Assim rola e dança a procissão, com segurança.
1 Animal Registrr (Dodslcy'), XXV. 258-67. Kl., out., 1782.
2 Cartas de Gibbon, 16 de junho de 1777 e Kgulnics.
8 Até maio de 1781. l Mrnler, Tableau de Paris, II, 51. Louvet, Roman de Faublas, ctc.
56 A IDADE DO PAPEL SACOS DE VENTO 57

de passo firme, como se rolasse sobre diamante e sobre as fundações Vincennes ou Sablons, aparece, num carrinho inglês puxado a quatro,
do mundo, e não sobre mero pergaminho heráldico — sob o qual se flutuando gloriosamente entre as notabilidades e as ignobilidades, um
acha em combustão lenta um lago de fogo. Continuai na dança, ó Dr. Dodd inglês1 — que a forca aguarda breve.
insensatos; não procurastes sabedoria, nem a encontrastes! Vós e vossos O Duque de Chartes era um jovem príncipe de grandes promessas,
pais semearam os ventos, sois vós que colhereis as tempestades. Não como são geralmente os jovens príncipes, mas essas promessas, infeliz­
foi de há muito escrito: A paga do pecado é a morte? mente, desmentiram-se. Com os enormes bens da casa de Orléans, com
o Duque de Ponthièvre por sogro (e agora o jovem cunhado Lamballe
Mas em Longchamp, como em outras partes, nós observamos uma morto por excessos) será um dia o homem mais rico da França. No
coisa; que a dama e o cavalheiro são cada um pajeados por uma es­ entanto, "o seu cabelo está todo a cair, o seu sangue todo estragado" —
pécie de fâmulo humano, chamado Jokei. Um pequeno gnomo ou diabo; por um prematuro transcendentalismo de libertinagem. O seu rosto
apesar de novo, já enrugado; com o seu ar fanado de vicio prematuro, está crivado de empolas; borbulhas negras numa superfície de cobre
de sabicheza, de completa desfaçatez: útil em várias emergências. O polido. Um fracasso muito significativo, este jovem príncipel A sua
nome Jokei (Jockey) vem do inglês; como o diabrete também pensa substância vital queimou-se prematuramente, pouco deixando, a não
que vem. A nossa anglomania, de fato, torna-se considerável; profética ser fumo sujo e cinzas de sensualidades moribundas: o que podia ter
de muita coisa. Se a França tem de ser livre, porque não há de ela, sido pensamento, visão interior e mesmo conduta, já desaparecido agora
agora que a guerra louca está terminada, amar a liberdade vizinha? ou prestes a desaparecer — em obscuridades confusas, entrecortadas de
Homens cultivados, como os Duques de Liancourt, de la Rochefoucault, deslumbramentos aliciadores; em excentricidades estrepitosas, em ativi-
admiram a Constituição Inglesa, o caráter nacional inglês; e querem dades que se podem chamar quase delirantes, ou mesmo semigalvânicas!
importar disso o que puderem. Paris finge rir-se da sua maneira de guiar carros; mas êle não faz
Do que é mais leve, especialmente se é tão leve como o vento, quanto caso desse riso.
menos custosa é a fretagem! O nãoíalmirante Duque de Chartes (não Por outro lado, que dia, não de riso, foi esse, quando êle ameaçou,
ainda d'Orléans ou Egalité) voa dum lado para o outro do Canal, por amor do lucro, pôr mão sacrílega no jardim do Palais-Royal!2 Os
importando modas inglesas; isto êle, unha com carne com o Príncipe tabuleiros das flores têm de ser arrancados; as avenidas de castanheiros
de Gales, está certamente qualificado para fazer. Carruagens e selas, têm de se derrubar e também os bosques, já consagrados pelo tempo,
botas de montar e rédingotes, como chamam aos riding-coats. E até sob os quais as hamadríades da Ópera costumavam vaguear, não ine-
o próprio modo de andar a cavalo, porque não há homem à altura zoráveis para os homens. Paris lamenta-se em voz alta. Philidor, do
do seu tempo que não trote à VAnglaise, erguendo-se nos estribos, seu Café de la Régence, não mais lançará os olhos sobre a verdura;
desdenhoso do antigo método de assento firme, com o qual, segundo os ociosos e os rufiões do mundo onde poderão doravante seguir o rasto
Shakespeare, "a manteiga e os ovos" vão para o mercado. Também, das mulheres? O protesto é em vão. O machado reluz, as árvores sa­
sabe dar sebo às férvidas rodas, este nosso bravo Chartes; não há gradas caem estrondosamente — porque, na verdade, Monseigneur es­
chicote em Paris que seja mais impetuoso e seguro do que o chicote tava falto de dinheiro. As hamadríades da Ópera fogem aos gritos.
não profissional de Monseigneur. Não griteis, vós hamadríades da ópera; não façais como aqueles que
Gnomos jokeis, já nós vimos; mas vejamos agora verdadeiros jóqueis não têm nenhum conforto! Êle circundara o vosso jardim de novos
de Yorkshire, e aquilo sobre que montam e o que adestram: cavalos edifícios e praças: apesar de estreitado, replantá-lo-á, orná-lo-á de re­
ingleses para corridas francesas. Estes, da mesma forma, devemos em puxos hidráulicos, com um canhão que o sol dispare ao meio-dia;
primeiro lugar (sob a providência do diabo) a Monseigneur de Chartes. coisas materiais, coisas espirituais, tais como o homem nunca imaginou
O Príncipe d'Artois também possui o seu estábulo de corredores; e — e no Palais-Royal será outra vez, e mais do que nunca, o Sábado
além disso o mais estranho veterinário: um homem lunático, indivíduo das Feiticeiras e a Casa de Satã do nosso planeta.
de muita perseverança, de Neuchâtel na Suíça — chamado Jean Paul
Marat. Um problemático Chevalier d'Eon, umas vezes de saias, outras Que não tentarão os mortais? Da remota Annonay no Vivarais, os
de calções, é não menos problemático em Londres do que em Paris; irmãos Montgolfier despedem para o ar o seu zimbório de papel, cheio
e dá origem a apostas e a processos judiciais. Belos dias de comunhão de fumo de lã queimada 3 . A Assembleia Provincial do Vivarais vai
internacional! A patifaria e a licenciosidade estenderam e apertaram I Aitrlnns, Gc-íchlchle der menchlichen Narrheit, Dr. Dodd.
as mãos através do Canal, saudando-se mutuamente: na corrida de t! I7BI-2. (Dulaure, VIII. 42S).
I .1 de Junho de 1783.
58 A IDADE DO PAPEL CONTRATO SOCIAL 59

ser convocada neste mesmo dia: os membros da Assembleia aplaudem em muita coisa! Porque afinal, sob a mais estranha vestimenta nova,
e aclamam. Irá então a vitoriosa análise escalar os próprios céus? a velha e grande verdade (visto que não há vestimenta que a possa
Paris sabe do feito, ansiosa e maravilhada; não tarda que Paris veja. ocultar) começa outra vez a ser revelada: Que o homem é aquilo a
Do armazém de papel de Réveillon, na Rue de St. Antoine (um arma­ que podemos chamar uma criatura milagrosa, com milagroso poder
zém célebre) — a nova aeronave de Montgolfier sobe outra vez. Pri­ sobre os homens; e, em conjunto, com uma tal vida nele, e um tal
meiro, só patos e aves domésticas foram elevados para os céus; mas mundo em roda dele, que a vitoriosa análise, com as suas fisiologias,
agora também o serão homens 1 . E até o químico Charles pensa em sistemas nervosos, físicas e metafísicas nunca será capaz de nomear
hidrogénio e seda gomada. O químico Charles, êle próprio, subirá, completamente, e muito menos de explicar. Por isso, em todas as ida­
do jardim das Tulherias, cortando Montgolfier solenemente a corda. des, o charlatão também vem receber a sua parte.
Por Deus, este Charles também vai subir, êle e outro! Dez vezes dez
mil corações palpitam; todas as línguas emudecem de pasmo e medo;
até que um grito, como a voz dos mares, o saúda, na sua rota arrojada.
Paira, míngua ao subir, torna-se apenas um pequeno círculo luminoso Capitulo Vil
— como qualquer turgotina caixa de rapé, a que nós chamamos Tur-
gotine-Platitude ou como qualquer nova Lua diurnal Finalmente, C O N T R A T O SOCIAL
desce, saudado pelo universo. A Duquesa de Polignac, com um séquito,
está no Bois de Boulogne, à espera, apesar de fazer um inverno bru­ Em tal sucessão de singulares cores prismáticas, fluxo após fluxo
moso, no primeiro de. dezembro de 1783. Toda a cavalaria da França, cobrindo o nosso horizonte, amanhece a Era da Esperança em caminho
com o Duque de Chartes à frente, galopa para o receber2. para a sua realização. Dever-se-á duvidar? Porque, na verdade, com
uma era da esperança que se baseia na mera benevolência universal,
Bela invenção, a subir para o céu tão belamente — tão sem governo!
na vitoriosa análise, no vício curado da sua deformidade e, finalmente,
Emblema de muita coisa, e da nossa própria Idade da Esperança, que
nos vinte e cinco milhões de selvagens sombrios, a olhar ao alto, com
subirá, especificamente iluminada, majestosamente, da mesma maneira,
fome e prostração, para esse Ecce-signum "com quarenta pés de altura"
pairando — e caindo onde o destino quiser. Será bom se ela não explo­
— Como não se há de senão duvidar?
dir, como o balão de Pilâtre; ou descer ainda mais tragicamente! — E
Através de todas as épocas, se o que lemos não está errado, o pe­
assim, montados em sacos de vento, querem os homens escalar o Empíreo.
cado foi, é, e há de ser o pai da miséria. Esta terra chama-se a si
Ou observai Herr Doktor Mesmer, nas suas espaçosas câmaras mag­ própria muito cristã e possui cruzes e catedrais; mas o seu sacerdote
néticas. De longa estola, êle se move, reverendo, olhando para o alto, magno é um Roche-Aymon ou um cardeal do colar Louis de Rohan.
como que em êxtase: um antigo hierofante egípcio nesta nova idade. A voz dos pobres, durante longos anos, ascende inarticulada, em
Esvoaça uma música suave, quebrando apropriadamente o silêncio sa­ Jacqueries, motins de cereais; coro dolente de lamentações infinitas
grado. Em volta do seu mistério magnético, que para os olhos são que a Terra não quer ouvir, mas que o Céu ouve bem. Para além
nu mu tinas de água — sustentam-se imóveis, de vara na mão, os círculos dos milhões que são desgraçados, há os milhares que vivem apertados,
da beleza c da moda, cada círculo uma viva e circular Passiflora espe­ infelizes; só as unidades podem prosperar, ou antes, ser as últimas a
rando o sopro magnético e um novo céu manufaturado na Terra. Ó ficar arruinadas. A indústria, toda aperreada e encabrestada, como se
mulheres, ó homens, grande é a vossa fé infiel! Ali avistamos um par­ fosse algum animal de montaria para os caçadores poderosos deste
lamentai Duport, um Bergasse e um D'Espréménil; e também um mundo agarrarem e talharem postas — grita veementemente para estes
químico Hciihollet — da parte de Monseigneur de Chartres. seus guias bem pagos e vigias, não, Guiai-me; mas, Laissez faire, dei-
xai-me sozinha sem o vosso guião! Que mercado tem a industria nesta
Se a Academia das Ciências com os seus Baillys, os seus Franklins, França? Para duas coisas pode haver oferta e procura: para a espécie
os seus I.avoisicis não iniciíoissel Mas interferiu 8 . Mesmer pode em­ mais vulgar de frutos do campo, visto que os milhões querem viver,
bolsar o seu dinheiro ganho <• retirai se. Dcixai-o vaguear silencioso e para as espécies mais finas de objetos de luxo e iguarias — de gosto
pelas margens de Hodcnscc, pela antiga (idade de Constança, a meditar multiforme, desde as melodias da ópera até cavalos de corrida e cor-
ís, visto que as unidades querem divertir-se. No fundo, isto não
1 Outubro e DQvcmbro dl I7tt:t.
2 Lacrcu-llr. I8èmc ShVIr. III. I traduz senão um estado de coisas alucinado.
3 AgÔíto de 1784.


60 A IDADE DO PAPEL PAPEL IMPRESSO BI

Para consertar e refazer isto tudo, nós temos, na verdade, a vitoriosa nada. O coração saudável que uma vez diz para si, "Como estou sau-
análise. Honra à vitoriosa análise! No entanto, fora da oficina e do dávell" já caiu na espécie mais fatal de doença. Não é o sentimenta­
laboratório, que coiía sabemos ter a vitoriosa análise feito até agora? lismo irmão gémeo da hipocrisia, senão uma e a mesma coisa? Não
Descoberta das incoerências, principalmente; destruição do incoerente. é a hipocrisia a matéria-prima do diabo; da qual todas as falsidades,
Desde muito tempc, a dúvida é apenas um meio mago; ela evoca imbecilidades, abominações se corporizam e donde não pode surgir
espectros que não pode apaziguar. Nós teremos "infinitos vórtices de nada de verdadeiro? Porque a hipocrisia é propriamente, de si própria,
lógica de espuma", sabre os quais, primeiro palavras e depois coisas uma mentira duplamente destilada; a refinação duma mentira.
sãb remoinhadas e engolidas. Notai, portanto, que, como bases reco­ E agora, se toda uma nação cai nisso? Em tal caso, eu respondo
nhecidas da esperança, no fundo meros precursores do desespero, estão que infalivelmente ela há de sair dessa anomalial Porque a vida não
estas teorizações perpétuas sobre o homem, o espírito do homem, a é um logro arteiramente ideado ou, de si própria, um logro: é uma
filosofia do govêrnD, o progresso das espécies e coisas semelhantes; grande verdade que tu estás vivo, que tens desejos, necessidades; e
a principal mobília pensante de cada cabeça. O tempo e tantos Mon- nem estas podem subsistir e satisfazer-se com ilusões, mas com fatos.
tesquieus, Mablys, oráculos do tempo, têm descoberto inúmeras coisas: Aos fatos, pensa bem, nós voltaremos: a tais fatos, benditos ou mal­
e não é agora que Jean Jacques promulgou o seu novo Evangelho ditos, que tenhamos capacidade de produzir. O fato mais baixo, o
dum Contrato SocUl; explicando todo o mistério do governo e como menos bendito que conhecemos, sobre o qual os necessitados mortais
êle é contratado e deve atuar — para satisfação universal? Teorias de algum dia basearam suas vidas, parece ser o fato primitivo do cani­
governo! Têm sido sempre assim e o serão, em épocas de decadência. balismo: Eu posso devorar-íe. Que seria se esse fato primitivo fosse
Reconhecei-as, no s;u significado próprio, como processos da natureza, precisamente aquele a que nós (com os nossos melhorados métodos)
que não faz nada em vão; como passos no seu grande processo. No tivéssemos de reverter e dele partir de novo?
entanto, que teoria é tão certa íorao esta: Que todas as teorias, por
mais sérias e pacientemeiite elaboradas que sejam, são, e, pelas pró­
prias condições delas, devem ser, incompletas, duvidosas e até falsas?
T u deves saber que este universo é, o que êle professa ser, um universo Capitulo VIU
infinito. Não tentes engoli-lo, para tua digestão lógica; confessa-te grato,
se ao assentares hjbilidosamente este e o outro pilar fixos no caos, PAPEL IMPRESSO
possas evitar que êle te engula. Que uma nova e jovem geração tenha
trocado o credo céptico. Em que hei de acreditar? por uma fé apaixo­ Numa França tão prática, diga o que disser a teoria da perfectibili­
nada neste Evange.ho da marca de Jean Jacques, é mais um sinal dos dade, não podem faltar descontentes: a vossa prometida reforma é tão
tempos; e que faz prever muita coisa. indispensável; contudo, não aparece. Quem quererá iniciá-la, princi­
piando por si próprio? O descontentamento com o que está em volta
Abençoada seja a esperança! Sempre, em todos os tempos, se profe­
tizou qualquer milénio, milénio de santidade, por exemplo. Mas (o de nós e, ainda mais, com o que está acima de nós continua a aumen­
que é digno de nota) nunca, até esta nova era, se profetizou qualquer tar; procurando até novas efusões.
milénio de mera comodidade e abundância. Em tal profetizada Lubber- De baladas de rua, de epigramas que, desde velhos tempos, tempe­
landia, de felicidades, benevolência e do vício curado da sua deformi­ ram o despotismo, não precisamos de falar. Nem de jornais manuscritos
dade, não confieis, meus amigos! O homem não é aquilo a que se (Nouvelles à la main). Bachaumont e seus colaboradores e adeptos
chama um animal feliz; o seu apetite por coisas doces é tão enorme! podem fechar esses "trinta volumes de maliciosas inconfidências" e
Como é que, neste agreste universo, que tempesteia dentro dele e sobre deixar essa profissão; porque, afinal, se não há liberdade de imprensa,
êle, infinito, sempre a ameaçar, pode o pobre homem encontrar, já há licença. Panfletos, podem vender-se e ler-se sub-reptlciamente em
não digo felicidade, mas existência e terreno para se firmar, se não Paris, mesmo que tragam a marca de "Impressos em Pequim". Nós
fôr couraçando-se de esforço contínuo e paciência? Mal lhe vai, se no temos nesses anos um Courrier de 1'Europe, publicado regularmente
seu coração se não abriga nenhuma fé devota; se a palavra dever per­ em Londres por um De Morande, a quem a guilhotina ainda não
deu para êle a sua significação! Porque, quanto a isto de sentimenta­ devorou. Vai também para ali um impetuoso Linguet, ainda não gui­
lismo, tão útil para chorar sobre romances e em ocasiões patéticas, lhotinado, quando o seu país se tornou demasiado quente para êle e
para outras coisas não vale absolutamente nada; e ainda menos que o» seus irmãos advogados o expulsaram, para ejacular as suas ásperas
G2 A IDADE DO PAPEL PAPEL IMPRESSO 68

diatribes e a Bastille Dévoilée. O loquaz Abbé Raynal vê finalmente foi poluído por hálito sujo, irremediavelmente enquanto tua vida durar.
o seu desejo satisfeito: a sua Histoire Philosophique, com a sua "lubri­ Não mais voltarás a ser amada e lamentada por corações vivos, senão
cidade", inveracidade e enfática declamação eleuteromaníaca (contri­ quando nascer uma nova geração e o teu próprio coração jazer frio,
buída, dizem, pela seita filosófica em geral, porém em nome do Abbé curado de todas as suas dores. Os epigramas, doravante, tornam-se não
e para glória sua) foi queimada pelo carrasco público; e o seu autor agudos e amargos, mas cruéis, atrozes, indizíveis. Naquele 31 de maio
parte para as suas viagens como um mártir. Foi a edição de 1781; de 1786, um miserável cardeal esmoler-mor Rohan, ao sair da Bastilha,
talvez o último livro notável que teve tal consagração do fogo — por é escoltado por multidões que o aclamam: a êle, não amado, e indigno
o carrasco descobrir que isso não servia de nada. de amor; mas homem importante, visto que a corte e a rainha são seus
E também, nos tribunais de justiça, com as suas questões pecuniárias, inimigos 1 .
os seus processos de divórcio, com tudo aquilo em que se pode vislum­ Como a nossa Era da Esperança está obscurecida; e como todo o
brar a vida das famílias, que prenúnciosl Os parlamentos de Besançon céu se torna soturno com sinais de furacão e terremoto! É um mundo
e Aix ressoam, audíveis para toda a França, com os amores e os desa­ condenado: desaparecida toda "a obediência que fazia os homens livres";
tinos de um jovem Mirabeau. Este sob a educação de um "Amigo dos aumentando rapidamente a obediência que os faz escravos — pelo
Homens", tem andado a aprender durante vinte anos, em prisões do menos uns para os outros. Escravos apenas das suas próprias paixões,
Estado, em regimentos em marcha, em águas furtadas germânicas como são eles agora e sê-lo-ão. Escravos do pecado e inevitavelmente também
escritor, e em muitas outras cenas, a resistir ao despotismo: despotismo da dor. Contemplai a massa pútrida da sensualidade e da falsidade,
dos homens e também dos deuses. Como, debaixo deste véu côr-de-rosa em volta da qual adeja tolamente, êle próprio uma corruta fosfores­
da benevolência universal *e da Astrea Redux, é o santuário do lar cência, algum vislumbre de sentimentalismo; e por cima de tudo,
tantas vezes temeroso vazio ou um negro e contencioso inferno na erguendo-se, como a arca da sua aliança, o tétrico gadanho patibular
terra! O velho Amigo dos Homens tem também o seu próprio processo "de quarenta pés de altura", que também agora está quase podre! E
de divórcio; e às vezes, "toda a sua família menos êle" está sob fecha­ acrescentai apenas que a nação francesa se distingue entre as outras
dura e chave: escreve muito acerca da reforma e emancipação do mundo nações pela característica da excitabilidade, com o bem, mas também
e, em seu próprio benefício, precisou de sessenta Lettres-de-Cachet. com o perigoso mal, que a isso anda aliado. Deve-se assim prognosticar
Homem de visão interior com resolução, mesmo com princípios varonis, que estão em perspectiva rebeliões, explosões de extensão desconhecida.
mas tudo isto dentro de um tal elemento, interior e exterior, que êle Há, como Chesterfield escreveu "todos os sintomas que eu tenho encon­
não podia governar, mas somente transviar; com voracidade, rapaci­ trado na História"l
dade: qualidades absolutamente contrárias às mais finas sensibilidades Deveremos nós então dizer: maldito seja o filosofismo, que destruiu
do coração! Loucos, que esperais o vosso verdejante milénio, e nada a religião, aquilo a que êle chamou "extinguir a abominação (écraser
senão amor e abundância, regatos escorrendo em vinho, ventos mur­ Vinfame)"? Malditos sejam antes aqueles que fizeram do sagrado uma
murando música — com todo o alicerce e base da vossa existência a abominação e extinguível; malditos para todos os homens que vivem
chafurdar na lama da sensualidade; a qual, tornando-se dia a dia mais em tal época de abominação do mundo e de destruição do mundo!
espessa, em breve não terá outro fundo, senão o abismo. Não, respondem os cortesãos, foi Turgot, foi Necker, com as suas loucas
Ou considerai aquele arrevezado negócio do colar de diamantes, do inovações; foi a falta de etiqueta da rainha; foi êle, foi ela, foi isso.
purpurado Cardeal Louis de Rohan; o pássaro das prisões sicilianas Amigos! Foi todo o patife que viveu, todo o charlatão que pretendia
Bálsamo Cagliostro; a modista Dama de Lamotte, "com um rosto bas­ estar a fazer e que só estava a comer e a desfazer, em todos os setores
tante picante"; os mais altos dignitários da Igreja valsando, na dança da vida, quer como engraxador quer como senhor soberano, cada um
de Walpurge, com profetas charlatães, gatunos e mulheres públicas; no seu grau, desde o tempo de Carlos Magno e ainda antes. T u d o
todo um mundo invisível de Satã em ostentação, operando continua­ isto (porque, estai certos de que nenhuma falsidade morre; é apenas
mente sob a luz visível do dia. O trono foi trazido a escandalosa colisão semente que tem de crescer) se tem estado acumulando durante milha­
com o potro. A embasbacada Europa murmura sobre o mistério du­ res de anos; e agora eis que chega o dia das contas. E rude será a
rante meses; vê somente mentira a desdobrar-se cm mentira; corrução liquidação: da ira açulada contra o dia da ira. ó meu irmão, não sejas
entre os grandes e os pequenos, gulosidade, credulidade, imbecilidade, lu i harlatão! Morre antes, se queres seguir o meu conselho; só se morre
e força em parte nenhuma a não ser a da fome. Chora bela rainha,
as tuas primeiras lágrimas de desgraça verdadeira! O teu belo nome AUri,Flli (imite
adoptif, Mémoira de Mirabeau, IV, S25 -
Ca(lioitro.
Vid. Carlyle'» Biographical Esíays, Diamond
64 A IDADE DO PAPEL PAPEL IMPRESSO 65
uma vez e ficas livre disso para sempre. Maldita é essa profissão; e Conquistador dum velo de ouro, por contrabando em larga escala;
ela produz maldições, tu não sabes como, longas idades depois que domador de cães do inferno no parlamento Maupeou, e finalmente
tu partiste e que os salários que recebeste estão todos consumidos; e coroado Orfeu no Théâtre Français, Beaumarchais culminou agora,
até, como os sábios antigos escreveram, — através da própria eternidade, reunindo os atributos de vários semideuses. Encontrá-lo-emos mais uma
o que está verdadeiramente marcado no Livro do Juízo de um Deusl vez no curso do seu declínio.
A esperança adiada faz adoecer o coração. E, por ora, como dissemos, Ainda mais significativos são dois livros, publicados na véspera da
a esperança está apenas adiada, não abolida, nem abolível. É muito própria e sempre memorável explosão, e lidos avidamente por todo o
notável e muito impressionante como esta mesma esperança ainda mundo: Paul et Virginie de Saint Pierre e o Chevalier de Faublas de
impele e ilumina a nação francesa através de todos os seus desvairados Louvet. Livros dignos de nota, que podem ser considerados como a
destinos. Porque nós ainda havemos de encontrar a esperança brilhando, fala última da velha França feudal. No primeiro, eleva-se melodiosa­
seja por amável convite, seja por cólera e ameaça. Como uma doce mente, por assim dizer, a lamentação dum mundo moribundo: por
luz celestial, ela brilhou; como uma conflagração vermelha, ela brilha; toda a parte a Natureza sã em conflito desigual com a decadente e
ardendo num azul sulfuroso, através das mais negras regiões do terror, pérfida Arte; não pode escar dela na mais humilde cabana, na mais
ela ainda brilha, sem que de todo se extinga, visto que o próprio remota ilha do mar. A ruína e a morte devem abater a bem-amada;
desespero é uma espécie de esperança. E assim a nossa era tem de ser e o que é mais significativo de tudo, a morte mesmo aqui, não por
chamada ainda da esperança, se bem que no sentido mais triste, — necessidade mas por etiqueta. Que mundo de pruriente corrução se
quando nada resta senão a esperança. mostra visível neste super-sublime de modéstia! No conjunto, porém,
o nosso bom Saint Pierre é musical, poético, apesar de muito mórbido.
Mas se alguém quiser conhecer sumariamente que boceta de Pandora Chamaremos ao seu livro o canto do cisne da velha França moribunda.
está prestes a abrir-se, pode vê-lo naquilo que, pela sua natureza, é o O de Louvet, esse ninguém considera musical. Na verdade, se este
sintoma de todos os sintomas, a literatura sobrevivente do período. O desgraçado Faublas é uma fala de morte, é uma fala debaixo da forca
Abbé Raynal, com a sua lubricidade e a sua enfática declamação, pro­ e de um- bandido que se não arrepende. Desgraçada cloaca de livro;
nunciou a sua palavra; e já a geração que pressurosamente lhe sucede sem nenhuma profundeza nem mesmo a duma cloaca! Que quadro da
responde a outra. Ponde os olhos no Mariage de Figaro de Beaumar- sociedade francesa há aqui? Quadro propriamente de nada, a não ser
chais, que agora (em 1784), após bastantes dificuldades, aparece no
do espírito que o produziu como qualquer espécie de quadro. Con­
palco; e "vai até às cem noites", com a admiração de toda a gente.
tudo, sintoma de muito; e acima de tudo, do mundo que se podia
Por que virtude ou valor intrínseco a peça teve tal êxito, é coisa que
alimentar com êle.
os leitores dos nossos dias não são capazes de perceber; o que porém
perceberão melhor é que ela lisonjeava certas inclinações da época;
que falava o que todos estavam sentindo e ansiavam por falar. Pouca
substância possui aquele Figaro: pequenos tecidos de intrigas, peque­
nos tecidos de sentimentos e sarcasmos; uma coisa magra, estéril; con­
tudo, que se requebra e saracoteia com graça, como através dum
universo inteiramente louco, destramente, com um ar altamente des­
denhoso; e na qual cada um, como se insinuou, e o que constitui o
grande segredo, pode ver alguma imagem de si próprio e da sua posição
e modos. E assim corre as suas cem noites e toda a França corre com
ela em aplausos hilariantes. Se o barbeiro em solilóquio pergunta:
"Que féz Vossa Senhoria para ganhar tudo isto?" e responde: "Teve
apenas o incómodo de nascer" (Vous vous étes dormi la peine de
naitre) — toda a gente tem de rir, e a alegre nobreza anglomaníaca
das corridas de cavalos mais altos que os outros. Porque como podem
os livros pequenos encerrar um grande perigo? pergunta o Sieur Caron
e imagina que o seu leve epigrama pode ser uma espécie de razão.

5 Hitt. R«v. Franceia


LETRAS PROTESTADAS 67

ficas e salões de cultura elegante, tornar-se notável, como amigo do


obscurantismo? Entre os grandes togados de Paris, talvez haja mais
do que um patriótico Malesherbes, cuja regra é a sua consciência e o
bem público; há evidentemente mais do que um fogoso D'Espréménil,
para cujo pensamento confuso qualquer ruidosa reputação, da espécie
Livro 111 de Bruto, pode parecer gloriosa. Os Lepelletiers, Lamoignons têm títu­
los e riqueza; contudo, na corte, só os tratam de Nobksse de Robe.
Há Duports de esquemas profundos; Fréteaus, Sabatiers de língua in­
O PARLAMENTO DE PARIS continente: todos mais ou menos amamentados com o leite do Con­
trato Social. E, quanto à corporação inteira, não é esta oposição
patriótica também uma luta em defesa própria? Desperta, parlamento
de Paris, renova a tua longa campanha! Não foi o parlamento Mau-
Capitulo I peou abolido com ignomínia? Já não tens de recear um Luís XIV,
com o estalido do seu chicote e os seus olhares olímpicos; nem agora
LETRAS PROTESTADAS um Richelieu e Bastilhas. Não, toda a nação está atrás de ti. T u tam­
bém (ó céus!) podes tornar-te um poder político; e com as sacudidelas
Enquanto a indizível confusão se revolve e penetra em toda a parte,
da tua peruca de cabelo de cavalo, sacudir os poderosos e as dinastias,
deixando sair fumo de enxofre através de tantas fendas na superfície,
como um verdadeiro Júpiter com os seus cabelos anelados, de ambrósia.
surge esta questão: através de que fenda se desenvolverá a principal
explosão? Através de qual das velhas crateras-ou chaminés; ou terá
ela, rapidamente, de formar uma nova cratera para si própria? Em O velho e volúvel M. de Maurepas, desde o fim de 1781, tem estado
toda a sociedade há tais chaminés, ou instituições, que servem como às portas da morte: "Nunca mais", disse o bom Luís, "ouvirei os seus
tais: a própria Constantinopla não está sem as suas válvulas de segu­ passos na sala lá de cima"; os seus gracejos leves e as suas oscilações
rança; ali também o descontentamento se pode descarregar em fogo estão a terminar. Não mais a importuna realidade pode ser ocultada
material; pelo número de conflagrações noturnas, ou de padeiros en­ pelo engenho prazenteiro, e o mal de hoje ser destramente deferido
forcados, o poder reinante pode ler os sinais do tempo e mudar de para amanhã. O próprio amanhã chegou; e agora apenas o sólido e
curso de acordo com estes. fleumático M. de Vergennes se senta na cadeira ministerial, em mo­
nótona rotina, como qualquer funcionário rotineiro e pontual (o que
Nós podemos dizer esta Revolução Francesa experimentará primeiro, êle originariamente era); admitindo aquilo que não pode ser negado,
sem dúvida, todas as antigas instituições de escape; porque, por cada e que o remédio venha donde puder vir. Nele próprio, não há remé­
uma destas há, ou pelo menos costumava haver, qualquer comunicação dio; apenas despacho de negócios, burocraticamente, conforme o uso.
com as profundezas interiores; são instituições nacionais em virtude O pobre rei, mais idoso agora, mas nem por isso mais experiente, tem
disso. Mesmo que elas se tivessem tornado instituições pessoais e aquilo êle próprio, com a falta de faculdades que possui, de começar a go­
a que podemos chamar instituições tapadas, em desvio dos seus usos vernar; no que a sua rainha também lhe dará auxílio. Brilhante rainha,
originais, deve, não obstante, o impedimento ali ser mais fraco que com os seus relances rápidos e claros e seus impulsos; claros e até
em outra qualquer parte. Através de qual delas então se dará o rom­ nobres; mas inteiramente superficiais, de uma veemência demasiado
pimento? Ura bom observador poderia tê-lo adivinhado: através dos frívola para tal trabalho! Governar a França é um problema árduo;
parlamentos de justiça; e acima de tudo, através do parlamento de e agora tornou-se quase tão árduo governar até o próprio Oeil-de-Boeuf.
Paris. Porque se um povo angustiado solta os seus gritos, do mesmo modo
Os homens, por mais revestidos que sejam de dignidades, não são c mais audivelmente, os solta uma corte despojada. Para o Oeil-de-
inacessíveis kl influências do seu tempo; especialmente os homens cuja liocuf parece inconcebível como, numa França de tais recursos, a cor-
vida são os negócios; que, cm todas as ocasiões, mesmo que seja atrás liucópia da abundância se tivesse secado: não costumava correr? Não
de bancas de tribunal, estão em contato com as aspirações atuais do obstante, Necker, com a sua política de parcimônia, "suprimiu para
mundo. O conselheiro do pat lamento, o próprio presidente, que com­ i ima de seiscentos lugares"; antes de os cortesãos conseguirem enxotá-lo;
prou o seu lugar com dinheiro contado, para que os seus semelhantes |)lir< imonioso pedante das finanças como foi. E ainda outro pedante
o olhem como superior, como poderá êle, em todas as soirées filosó-
LETRAS PROTESTADAS
08 O PARLAMENTO DE PAUIS es
militar, Saint Gcrniain, com as suai manobras prussianas, com as suas dente d'Ormesson fazer, ou até menos; porque se Joly se conseguiu
noções p r o n t a no te o mérito e não a cota de armas devessem manter além de um ano e dia, d'Ormesson só aguentou meses: até
ser a regra da promoção, desbotou os homens do exército: os mosque­ que "o rei comprou o Rambouillet sem o consultar", o que êle tomou
teiros, com IIIIIII mais, são suprimidos. Este foi também um por uma sugestão para se demitir. E assim, para os fins de 1783, as
dos supressores; e desmontando e sobremontando, fêz muito dano — ao coisas ameaçam ficar paralisadas. Vã paictc a sabedoria humana. Em
Oeil-di r.nciil. Chovem os queixumes; há carestia e há ansiedade; é vão o nosso recém-criado "Conselho de Finanças" lutou, os nossos
uin Ocil i Kocuf transtornado. Besenval diz que, já nestes anos (1781), intendentes de finanças, o intendente geral das finanças: não há infe­
havia uma tal melancolia (tristesse) na corte, comparada com os dias lizmente finanças a dirigir. Fatal paralisia invade o movimento social;
anteriores, que causava grande pena. nuvens, de cegueira ou de escuridão, nos envolvem: estaremos então
nos precipitando nos negros horrores da Bancarrota Nacional?
Não admira que o Oeil-de-Boeuf se sinta melancólico, quando lhe
suprimem os lugares! Com cada lugar que se suprime, fica uma bolsa Grande é a bancarrota: o grande golfo sem fundo dentro do qual
mais leve; e mais do que um coração mais pesado. Pois não empre­ todas as falsidades, públicas e privadas, se afundam, desaparecendo
gava essa gente também as classes trabalhadoras — manufatores, ma­ para onde, desde a primeira origem delas, estavam todas predestinadas.
chos e fêmeas, de rendas, essências, do prazer em geral, todos os que Porque a natureza é verdadeira e não uma mentira. Não há mentira
podiam manufaturar o prazer? Miseráveis economias, nunca sentidas que possais proferir ou empregar, que não se converta, depois de maior
pelos vinte e cinco milhões! Assim segue o rosário, sem que, por ou menor circulação, numa letra sacada sobre a realidade da natureza,
enquanto termine. Poucos anos mais, e os cães de caça ao lobo se­ e que não seja apresentada para pagamento — com a resposta: Não
rão também suprimidos, e os do urso e a falcoaria; os lugares cadu­ há fundos. Pena é que tantas vezes a circulação seja tão longa; que o
carão, como as folhas no outono. O Duque de Polignac, protesta, com burlão primitivo seja tão raras vezes aquele que sofre o castigo final!
o completo silêncio da lógica ministerial, que o seu lugar não pode As mentiras, e a carga de mal que elas trazem, são passadas de uns
ser abolido; depois, galantemente, voltando-se para a rainha, renuncia para outros; transferidas como um fardo de ombro para ombro e de
a êle, visto que Sua Majesíade assim o deseja. Menos cavalheiroso foi categoria social para categoria; e assim sucessivamente, até chegarem
o Duque de Coigny, e contudo, não mais feliz; "Nós envolvemo-nos à categoria mais baixa e mais muda, a qual com enxada e alvião, de
numa séria disputa, Coigny e eu" disse o Rei Luís; "mas mesmo que coração dorido e de sacola vazia, diariamente entra em contato com
êle me batesse, eu não o podia censurar" 1 . A respeito de tais assuntos a realidade e não pode passar o embuste mais adiante.
só pode haver uma opinião. O Barão de Besenval, com aquela fran­ Observai, no entanto, como, por uma justa lei de compensação, se
queza de fala que caracteriza o homem independente, afirma catego­ a mentira com a sua carga (neste redemoinho confuso da sociedade)
ricamente a Sua Majestade a rainha que é "terrível (affreux): uma se afunda cada vez mais para baixo, então em troca a angústia ocasio­
pessoa ao ir para a cama não estar certa de se não levantar pobre no nada por ela sobe cada vez mais para cima. É por isso que, depois de
dia seguinte"; preferível viver na Turquia! É na verdade uma vida longo penar e meia esfomeação desses vinte e cinco milhões, um Duque
de cão. de Coigny e Sua Majestade vêm também a ter a sua "disputa séria".
Tal é a lei da natureza justa, trazendo, apesar de a longos intervalos
Como é singular esta perpétua penúria do tesouro real! E contudo
e nem que seja com bancarrota, outra vez as coisas de volta ao seu
é uma coisa não mais inacreditável do que inegável. Uma coisa dolo­
verdadeiro ponto.
rosamente verdadeira: o cepo em que todos os ministros sucessivamente
tropeçam e caem. Seja por "falta de génio financeiro" ou por qual­ Mas com uma bolsa de Fortunatus na algibeira, que espaço de
quer outra falta, existe a discrepância mais palpável entre receita e tempo não poderá durar qualquer mentira! A vossa sociedade, o vosso
despesa: "precisamos cie lapar (combler) o deficit", quando não, êle lar, o vosso arranjo prático ou espiritual, é inverídico, injusto, ofen­
traga-nos! Este é o duro problema, mais insolúvel, aparentemente, que sivo aos olhos de Deus e do homem. Não obstante, a vossa lareira está
a quadratura do circulo. O Intendente Joly de Fleury, que sucede a quente, a vossa despensa bem abarrotada: os inumeráveis suíços do
Necker, nada pode fazer; nada, senão propor empréstimos, que tardia­ céu, com uma espécie de fidelidade natural, reúnem-se à volta dela;
mente são cobertos; lançar novos impostos, improdutivos de dinheiro, provarão com panfletos e mosquetes que é uma verdade sem mistura
produtivos de clamores e descontentamento. Tão pouco pode o inten- (coisa humanamente impossível), pelo menos uma verdade sadiamente
temperada (como o vento para o cordeiro tosquiado), e que opera
bem. Todavia, a perspectiva muda, quando a bolsa e a despensa ficam
1 Besenval, III, 255-8.
militar, Saint Germain, com as suas manobras prussianas, com as suas dente d'Ormesson fazer, ou até menos; porque se Joly se conseguiu
noções prussianas, como se o mérito e não a cota de armas devessem manter além de um ano e dia, d'Ormesson só aguentou meses: até
ser a regra da promoção, desgotou os homens do exército: os mosque­ que "o rei comprou o Rambouillet sem o consultar", o que êle tomou
teiros, com muita coisa mais, são suprimidos. Este foi também um por uma sugestão para se demitir. E assim, para os fins de 1783, as
dos supressores; e desmontando e sobremontando, fêz muito dano — ao coisas ameaçam ficar paralisadas. Vã paiccc a sabedoria humana. Em
Oeil-de-Boeuf. Chovem os queixumes; há carestia e há ansiedade; é vão o nosso recém-criado "Conselho de Finanças" lutou, os nossos
um Oeil-de-Boeuf transtornado. Besenval diz que, já nestes anos (1781), intendentes de finanças, o intendente geral das finanças: não há infe­
havia uma tal melancolia (tristesse) na corte, comparada com os dias lizmente finanças a dirigir. Fatal paralisia invade o movimento social;
anteriores, que causava grande pena. nuvens, de cegueira ou de escuridão, nos envolvem: estaremos então
nos precipitando nos negros horrores da Bancarrota Nacional?
Não admira que o Oeil-de-Boeuf se sinta melancólico, quando lhe
suprimem os lugares! Com cada lugar que se suprime, fica uma bolsa Grande é a bancarrota: o grande golfo sem fundo dentro do qual
mais leve; e mais do que um coração mais pesado. Pois não empre­ todas as falsidades, públicas e privadas, se afundam, desaparecendo
gava essa gente também as classes trabalhadoras — manufatores, ma­ para onde, desde a primeira origem delas, estavam todas predestinadas.
chos e fêmeas, de rendas, essências, do prazer em geral, todos os que Porque a natureza é verdadeira e não uma mentira. Não há mentira
podiam manufaturar o prazer? Miseráveis economias, nunca sentidas que possais proferir ou empregar, que não se converta, depois de maior
pelos vinte e cinco milhões! Assim segue o rosário, sem que, por ou menor circulação, numa letra sacada sobre a realidade da natureza,
enquanto termine. Poucos anos mais, e os cães de caça ao lobo se­ e que não seja apresentada para pagamento — com a resposta: Não
rão também suprimidos, e os do urso e a falcoaria; os lugares cadu­ há fundos. Pena é que tantas vezes a circulação seja tão longa; que o
carão, como as folhas no outono. O Duque de Polignac, protesta, com burlão primitivo seja tão raras vezes aquele que sofre o castigo final!
o completo silêncio da lógica ministerial, que o seu lugar não pode As mentiras, e a carga de mal que elas trazem, são passadas de uns
ser abolido; depois, galantemente, voltando-se para a rainha, renuncia para outros; transferidas como um fardo de ombro para ombro e de
a êle, visto que Sua Majestade assim o deseja. Menos cavalheiroso foi categoria social para categoria; e assim sucessivamente, até chegarem
o Duque de Coigny, e contudo, não mais feliz; "Nós envolvemo-nos à categoria mais baixa e mais muda, a qual com enxada e alvião, de
numa séria disputa, Coigny e eu" disse o Rei Luís; "mas mesmo que coração dorido e de sacola vazia, diariamente entra em contato com
êle me batesse, eu não o podia censurar" 1 . A respeito de tais assuntos a realidade e não pode passar o embuste mais adiante.
só pode haver uma opinião. O Barão de Besenval, com aquela fran­ Observai, no entanto, como, por uma justa lei de compensação, se
queza de fala que caracteriza o homem independente, afirma catego­ a mentira com a sua carga (neste redemoinho confuso da sociedade)
ricamente a Sua Majestade a rainha que é "terrível (affreux): uma se afunda cada vez mais para baixo, então em troca a angústia ocasio-
pessoa ao ir para a cama não estar certa de se não levantar pobre no nada por ela sobe rada vez mais para cima. É por isso que, depois de
dia seguinte"; preferível viver na Turquial É na verdade uma vida longo penar e meia esfomeação desses vinte e cinco milhões, um Duque
de cão. de Coigny e Sua Majestade vêm também a ter a sua "disputa séria".
Tal é a lei da natureza justa, trazendo, apesar de a longos intervalos
Como é singular esta perpétua penúria do tesouro real! E contudo
e nem que seja com bancarrota, outra vez as coisas de volta ao seu
é uma coisa não mais inacreditável do que inegável. Uma coisa dolo­
verdadeiro ponto.
rosamente verdadeira: o cepo em que todos os ministros sucessivamente
tropeçam e caem. Seja por "falta de génio financeiro" ou por qual­ Mas com uma bolsa de Fortunatus na algibeira, que espaço de
quer outra falta, existe a discrepância mais palpável entre receita e tempo não poderá durar qualquer mentira! A vossa sociedade, o vosso
despesa: "precisamos de tapar (combler) o deficit", quando não, êle lar, o vosso arranjo prático ou espiritual, é inveridico, injusto, ofen­
traga-nos! Este é o duro problema, mais insolúvel, aparentemente, que sivo aos olhos de Deus e do homem. Não obstante, a vossa lareira está
a quadratura do círculo. O Intendente Joly de Fleury, que sucede a quente, a vossa despensa bem abarrotada: os inumeráveis suíços do
Necker, nada pode fazer; nada, senão propor empréstimos, que tardia­ céu, com uma espécie de fidelidade natural, reúnem-se à volta dela;
mente são cobertos; lançar novos impostos, improdutivos de dinheiro, provarão com panfletos e mosquetes que é uma verdade sem mistura
produtivos de clamores e descontentamento. Tão pouco pode o inten- (coisa humanamente impossível), pelo menos uma verdade sadiamente
rada (como o vento para o cordeiro tosquiado), e que opera
bati. Todavia, a perspectiva muda, quando a bolsa e a despensa ficam
1 Besenval, 1IÍ, 255-8.
70 O PARLAMENTO DE PARIS O INTENDENTE GERAL CALONNE 71

vaziasl Se o vosso arranjo era tâo verdadeiro, tâo de acordo com as mir sossegado, certo de que não acordará pobre. A risonha abundância,
vias da oatureia, entlo como $e explica que a própria natureza, com como se conjurada por algum mágico, voltou, derramando contenta­
a sua infinita generosidade, o deixe morrer à fome? Para todos os mento da sua cornucópia, novamente a correr. E notai que suavidade
homens, para todas as mulheres, para todas as crianças, é agora indu­ de maneiras! Um sorriso doce distingue o nosso intendente: a todos
bitável que o vosso arranjo era falso. Então, viva a bancarrota; sempre os homens ele escuta com um ar de interesse e até de antecipação;
justa em grande escala, apesar de nas suas particularidades ser tão esclarece-lhes os seus próprios desejos e concede-os; ou pelo menos,
cruelI Sob todas as falsidades, ela trabalha, minando incessantemente. concede-lhes a promessa condicional deles. "Receio que isto seja assunto
Não há falsidade nenhuma, mesmo que ela chegue ao céu e cubra o difícil", disse Sua Majestade a rainha. — "Madame", respondeu o in­
mundo, que a bancarrota, um dia, não varra, libertando-nos dela. tendente, "se é apenas difícil, far-se-á; se é impossível, terá que ser
feito (se fera)". Homem de mais facilidades ainda. Ao observá-lo no
vórtice dos prazeres da sociedade, que ninguém partilha com mais
gosto, apetece perguntar: Quando trabalha êle? E contudo, o seu tra­
Capitulo II balho, como vemos, nunca está atrasado; e acima de tudo, o fruto do
seu trabalho: dinheiro de contado. Na verdade, um homem de inacre­
O INTENDENTE GERAL CALONNE ditável facilidade: ação fácil, elocução fácil, pensamento fácil. Como,
em convívio ameno, lhe centelham profundos conceitos filosóficos, que
Em tais circunstâncias de tristesse, de obstrução e de apatia mórbida, denotam grande engenho e prodigiosa vivacidade; e nas soirées da
quando, para uma corte exasperada, parece que o génio financeiro rainha, com o peso dum mundo sobre si, êle é o deleite de homens
abandonou os homens, que aparição podia ser mais bem vinda do que c mulheres! Com que vara mágica realiza êle milagres? Com a única
a de M. de Calonne? Calonne, homem de indiscutível génio; mesmo vara mágica verdadeira, a do génio. Os homens chamam-lhe "o Mi­
de génio financeiro, mais ou menos; de experiência em lidar com par­ nistro"; porque, na verdade, quando houve outro assim? As coisas
lamentos e finanças, porque foi intendente em Metz, em Lille e pro­ tortas foram endireitadas por êle, lugares ásperos tornaram-se lisos; e
curador régio em Douai. Homem de peso, ligado com as classes endi­ sobre o Oeil-de-Boeuf derrama-se um sol glorioso.
nheiradas; de nome não manchado — a não ser por algum pecadilho
(de mostrar a carta dum cliente) naquele velho caso D'Aiguillon-La- Mas, mesmo a sério, que ninguém diga que Calonne não tinha génio:
chalotais, já quase esquecido agora. Tem parentes de algibeira recheada, génio para persuadir; e acima de todas as coisas, génio para arranjar
com influência na Bolsa. Os nossos Foulons, Berthiers intrigavam em empréstimos. Com os mais habilidosos processos no emprego de fundos
favor dele: o velho Foulou, que nada mais tem a fazer senão intrigar; secretos, mantém a Bolsa florescente: de modo que empréstimo após
que é conhecido e até visto ser aquilo que se chama um patife; mas empréstimo é coberto logo que se abre. "Calculadores que devem sa­
de riqueza incomensurável; e que, de escrevente de comissariado que ber" 1 calcularam que êle gastou, em extraordinários, cerca de um milhão
outrora foi, pode esperar, pensam alguns, se o jogo der certo, vir a diariamente, o que na verdade perfaz umas cinquenta mil libras ester­
ser ministro, algum dia. linas. Mas não conseguiu êle alguma coisa com isso: a saber, paz e
Tais suportes e escoras tem M. de Calonne; e depois intrinsecamente prosperidade, para a época corrente? O filosofismo murmura e rosna;
tais qualidades! A esperança irradia-lhe do rosto; a persuasão suspende- compra, como dissemos, 80.000 exemplares do novo livro de Necker:
lhe da língua. Para todos os apertos, tem presente o remédio, e fará mas o sans pareille Calonne, no apartamento de Sua Majestade a rainha,
com que o mundo role sobre rddas na sua frente. Em 3 de novembro com o brilhante séquito de duques, duquesas e faces felizes a admirá-lo,
de 1783, o Oeil-de-Boeuf regozija-se com o seu novo intendente geral. deixa rosnar Necker e o filosofismo.
Calonne também ficará sujeito à prova; Calonne, também, da sua
maneira, como Turgot e Necker o fizeram antes, acelerará a consuma­ A miséria surge, pois tais processos não podem durar! A dissipação
ção; espargirá mais um rafa) <le brilhantismo sobre a nossa era da c a cobertura de despesas com empréstimos não são maneiras de tapar
esperança, agora de côr demasiado plúmbea, e levá-la-á à ruína. um deficit. Nem o azeite serve para apagar incêndios; ah, não; so­
mente para os abrandar, não permanentemente! Ao próprio Sans-Pareil,
Grande, volta agora a sei a felicidade de Ocil-dc-Boeuf. A avareza
fugiu das moradas reais; a supressão (essa; o vosso Besenval pode dor- I Brwnval, III, 216.
72 O PARLAMENTO DE PARfS

a que não faltava visão interior, torna-se claro às vezes, e obscuramente


certo sempre, que a sua prática é, por natureza, temporária, dia a dia
mais difícil de prosseguir; que incalculáveis mudanças estão em choco, Capitulo 111
a não grande distância. À parte, do deficit financeiro, o mundo acha-se
totalmente numa tal inclinação para novidades; soltando-se todas as OS NOTÁVEIS
coisas das suas antigas amarras para novas fórmulas e combinações!
Não existe um jokei anão, um tipo de cabeça rapada à Bruto, ou um Aqui temos nós verdadeiramente um sintoma alarmante, visível para
cavaleiro anglomaníaco que não seja presságio de mudança. Que há todo o mundo; que pressagia muito. O Oeil-de-Boeuf murmura dolo­
a fazer então? O dia de hoje, em todo o caso, decorre agradavelmente; rosamente; não estávamos tão bem assim, aplacando incêndios com
azeite? O filosofismo constitucional estremece de alegre surpresa; aguar­
quanto ao amanhã, se amanhã houver, ter-se-á de considerar. Uma
da ansiosamente o resultado. O credor público, o devedor público,
vez subido (por munificência, persuasão, magia do génio) bastante alto
todo o público pensante, experimentam as suas várias surpresas, ale­
no favor do Oeil-de-Boeuf, do rei, da rainha, da Bolsa e, tanto pos­
gres ou tristes. O Conde Mirabeau, que conseguiu embaralhar, melhor
sível, de todos os homens, um intendente Sans-Pareil pode ter esperan­ ou pior, o seu processo matrimonial e outros processos; e que trabalha
ças de se ir movendo através do inevitável, de qualquer modo não agora no elemento mais obscuro de Berlim, compilando Monarquias
imaginado, tão habilmente como outro qualquer. Prussianas, panfletos sobre Cagliostro; escrevendo, com paga, mas não
O que sucedeu foi que, nestes três miraculosos anos, expediente sobre com reconhecimento honroso, inumeráveis despachos para o seu go­
expediente se acumulou; até que agora, com tal acúmulo e altura, a verno — fareja ou descobre mais rica presa, de longe. Como uma águia
pilha tomba perigosamente. E aqui, essa maravilha do mundo, que ou um abutre, ou mistura de ambos, revira as asas para voar para
foi o colar de diamantes, trouxe-a por fim à beira visível da queda. França 1 .
Em tal conjuntura, o génio já não pode mais: subido bastante alto M. de Calonne estendeu uma vara de Aarão sobre a França, mira­
ou não subido, tem de andar para a frente. Mal o pobre Rohan, o culosamente, e está convocando coisas inteiramente inesperadas. A audá­
cardeal do colar, se encontra a salvo nas montanhas do Auvergne, e cia e à esperança alternam-se nele com temores; se bem que o seu
a Dame de la Motte (não a salvo) na Salpêtrière, e esse triste negócio lado valente e sanguíneo tenha a primazia. Ora escreve a um amigo
abafado, o nosso sanguíneo intendente mais uma vez assombra o mundo. íntimo "Je me fais pitié à moi-même" (chego a ter pena de mim
Um expediente, de que se não ouve falar há cento e sessenta anos, foi mesmo); ora convida algum poeta ou poetastro a cantar "esta Assem­
proposto; e por força da sua persuasão (porque a sua sutil audácia, bleia de Notáveis e a Revolução que se está preparando" 2 . Preparando,
a sua esperança e a sua eloquência são sem-par) foi adotado — Con­ certamente; é assunto para ser cantado, — mas só quando a tivermos
vocação dos Notáveis. visto, e o que irá sair dela. Em profunda e obscura intranquilidade,
Que as pessoas notáveis, os governantes atuais ou virtuais dos seus todas as coisas têm até aqui vindo oscilando e ziguezagueando; con­
distritos, sejam convocados de todos os lados da França; que se lhes seguirá M. de Calonne, com esta sua alquimia dos Notáveis, juntar
faça uma verdadeira e persuasiva narração dos patrióticos desejos de tudo outra vez e obter novos rendimentos? Ou desconjuntar inteira­
mente tudo; de modo a não haver mais oscilações e ziguezagueamentos,
Sua Majestade e das desgraçadas impossibilidades pecuniárias; e depois
mas choque e conflito?
esta pergunta: Que devemos fazer? Certamente adotar medidas cura­
tivas; as que a magia do génio revelar; ou aquelas a que, uma vez Seja como fôr, nestes dias curtos e frios, nós vemos homens de peso
sancionadas pelos Notáveis, todos os parlamentos e todos os homens e influência deslizando através do grande turbilhão da locomoção fran­
tenham, com maior ou menor relutância, de se submeter. cesa, cada um na sua linha diversa, de todos os lados da França em
direção ao castelo de Versalhes, aí convocados de par le roi. Ali, a 22
de fevereiro de 1787, reúnem-se e instalam-se: notáveis em número
de cento e trinta e sete, ao contarmo-los, nome por nome 3 : acrescentai
sete príncipes de sangue, e está completa a lista dos Notáveis. Homens

1 lc\\t adoptif, Mémoires tle Mirabeau, t. IV, liv. 4 et 5.


2 Dlographie Unlver«elle, Calonne (por Gulzot).
.1 l.acretelle, JH, 286. Montgalllard, I, J47.
71 O PARLAMENTO DE PARÍS OS NOTÁVEIS 75

de espada, homens de toga; pares, alto clero, presidentes de parlamento: cômputos concordam em representar como "enorme". Este é o epítome
divididos em sete mesas (bureaux); sob a direção dos nossos sete prín­ das dificuldades do nosso intendente: e então os seus meios? Mero
cipes de sangue, Monsieur, D'Artois, Ponthièvre e o resto; entre os Turgotismo; para aí, parece, é que temos de ir finalmente: assembleias
quais é bom não esquecer o nosso novo Duque d'Orléans (pois, desde provinciais; novos impostos; e até, o mais estranho de tudo, nova taxa
1785, já não é de Chartres). Ainda não feito almirante, e dobrando rústica, a que êle chama Subvention Territoriale, da qual nem pri­
agora a casa dos quarenta, com o sangue corrompido e com esperanças, vilegiado nem não privilegiado, nobres, clero, nem parlamentares, fi­
meio cansado de um mundo que está mais que cansado dele, o futuro cará isento!
Monseigneur é muito duvidoso. Vive e digere não em iluminação e Será isto viável? Estas classes privilegiadas estão de há muito acostu­
vista interior, nem mesmo em conflagração; mas, como se disse, "em madas a coletar; a cobrar portagens, tributos e direitos, de todas as
fumo sujo e cinzas de sensualidades moribundas". Suntuosidade e sor­ maneiras, enquanto restava um sou: mas serem elas próprias tributa­
didez; vingança, cansaço da vida, ambição, obscuridade, putrescência; das? Em tais pessoas privilegiadas, no entanto, consistem estes Notáveis,
e em dinheiro esterlino, umas trezentas mil libras por ano. Se este todos, menos uma insignificante fração. O obstinado Calonne não quis
pobre príncipe se desprender um dia das suas amarras da corte, para atender à "composição" ou mistura judiciosa deles; mas escolheu os
que regiões, com que fenómenos, êle não poderá navegar — ou nau-, Notáveis que eram realmente notáveis; confiando, para o seu deside-
fragar! Felizmente-que, por enquanto, "êle pretende caçar diariamente"; ratum, no seu pronto engenho, e na boa fortuna e eloquência que
senta-se ali, visto que tem de se sentar, presidindo ao seu Bureau, com até aí não lhe tinham falhado. Obstinado intendente geral! A eloquên­
um rosto parado de lua cheia, olhos vítreos parados, como se aquilo cia pode fazer muito, mas não tudo. Orfeu, com eloquência que se
tudo fosse mero tédio para êle. „ tornava rítmica, musical (aquilo a que nós chamamos poesia) arrancou
Nós observamos finalmente que o Conde Mirabeau acaba de chegar. lágrimas de ferro do rosto de Plutão. Mas por que feitiçaria de versos
Desceu de Berlim sobre a cena da ação; relanceia aquilo com um 'ou prosa poderás tu, da bolsa de Plutão, arrancar ouro?
olhar rápido e penetrante; percebe que nada tem que fazer ali. Espe­ Nestas circunstâncias, a tempestade que agora se ergueu e começa
rava que estes Notáveis precisassem dum secretário. Realmente pre­ a bramir em volta de Calonne, primeiro nos Sete Bureaux e depois
cisam dum; mas fixaram-se em Dupont de Nemours, homem de menor nas vizinhanças deles, despertada por eles, espalhando-se cada vez mais
fama, se bem que de melhor; o qual, com efeito, como os seus amigos em toda a França, ameaça tornar-se implacável. Um deficit tão enorme!
muitas vezes ouvem, queixa-se duma anomalia, certamente pouco vul­ Desperdício, profusão, são bem claros. Também se insinua peculato;
gar, "de ter de se corresponder com cinco reis"1. A pena de Mirabeau e até Lafayette e outros chegam a falar disso em voz alta, com tentativas
não se pode tornar em pena oficial; não obstante, fica sendo uma de prova. A culpa do seu deficit, o nosso bravo Calonne pretende,
pena. À falta de secretariado, põe-se a denunciar a corretagem de fun­ como é natural, desviá-la de si para os seus predecessores; sem mesmo
dos (Dénonciation de VAgiotage); testemunhando, como é o seu cos­ excetuar Necker. Mas Necker nega veementemente; ao que se segue
tume, por alto ruído, que está presente e ocupado; até que, avisado uma "Correspondência azeda", que também é conduzida para os pre­
por seu amigo Talleyrand, e mesmo secretamente pelo próprio Calonne, los da imprensa.
de que "uma décima sétima Lettre-de-Cachet pode ser emitida contra
No Oeil-de-Boeuf e nos aposentos privados de Sua Majestade, um
êle", escapa-se a tempo para além das fronteiras.
intendente eloquente, com o seu "Madame, se é apenas difícil", tinha
E agora, em suntuosos salões reais, como os quadros daquela época sido persuasivo. Mas ah, a coisa é agora levada para outro lugar. Con-
ainda os representam, os nossos cento e quarenta e quatro Notáveis templai-o, num destes dias tristes, no bureau de Monsieur; ao qual
sentam-sc organizados; prontos para ouvir e considerar. O intendente todos os outros bureaux mandaram deputados. Êle fica de pé, na de­
Calonne atrasou-se muito com os seus discursos, os seus preparativos; fensiva, só, exposto a um fogo incessante de perguntas, interpelações,
contudo, "a facilidade de trabalho" do homem é-nos conhecida. Por objurgatórias dessas "cento e trinta e sete peças de artilharia lógica"
fluência de estilo, lucidez, engenho, largueza de vistas, aquela sua — a que podemos bem chamar bouches à feu, literalmente bocas de
arenga de abertura seria inexcedível, se o assunto não fosse tão tétrico. fogo! Nunca, conforme Besenval, ou quase nunca, um homem fêz tal
Um deficit, a respeito de < ujo cômputo variam as opiniões, sendo o estendal de inteligência, destreza, serenidade, eloquência persuasiva. Às
cômputo do próprio intendente também duvidoso; mas que todos os furiosas investidas de tantas bocas de fogo, êle não opõe nada mais
irado que relances fugazes, domínio próprio e sorrisos paternais. Com
I Dumonl, Sciiivciilr» sui MlrabtMI 1'HÍN, LIM), p. -20.
I mais imperturbável e suave clareza, êle, durante cinco longas horas,
76 O PARLAMENTO DE PARIS OS NOTÁVEIS 77

mantém-se a responder à incessante metralha de ígneas e capciosas écarlez de la question)"1. Riso e lógica; cantos de baladas e panfleta-
perguntas, cominatórias interpelações, em palavras tão prontas como rismo; epigramas e caricaturas: que vento de opinião pública é este
o relâmpago, brandas como a luz. E até ao fogo cruzado; a apartes e — como se a caverna dos ventos se tivesse escancarado! Ao cair da
interpelações incidentais a que, no ardor da peleja rija, êle (por ter noite, o presidente Lamoignon vai furtivamente à casa do intendente;
uma só língua) nâo podia retorquir; a estas êle também se atira, na encontra-o às passadas na sua câmara, como quem está fora de si2. Em
primeira oportunidade; mesmo a estas êle responde 1 . Se a mais suave e fala rápida e confusa, o intendente pede a M. de Lamoignon que lhe
persuasiva eloquência pudesse salvar a França, a França teria sido salva. dê "um conselho". Lamoignon responde candidamente que, a não ser
Responsabilizadíssimo intendente geral! Nos sete bureaux nada mais a respeito da sua própria e antecipada nomeação de guarda-selos, e
há do que oposição: no bureau de Monsieur, um Loménie de Brienne, isso mesmo se servisse de algum remédio, não podia realmente tomar
arcebispo de Tolosa, com um olho, êle próprio, na intendência, agita a responsabilidade de o aconselhar.
o clero; há reuniões, intrigas subterrâneas. Nem de parte alguma de "Na segunda depois da Páscoa", 9 de abril de 1787, data que a
fora vem qualquer sinal de auxílio ou esperança. Para a nação (onde gente se regozija de verificar, porque nada pode sobrelevar a negligente
Mirabeau está agora, de pulmões estentóreos, "denunciando o ágio") o falsidade destas Histoires e Mémoires, — "Na segunda depois da Páscoa,
intendente não fêz até aqui nada, ou menos que nada. Para o filoso­ quando eu, Besenval, cavalgava para Romainville em direção à casa
fismo êle fêz o mesmo que nada — enviou em missão um científico do Marechal de Ségur, encontrei um amigo nos bulevares, que me
Lapérouse, ou qualquer coisa semelhante; e não está êle em "corres­ disse que M. de Calonne estava demitido. Um pouco mais adiante,
pondência azeda" com o seu Necker? O próprio Oeil-de-Boeuf parece vi o Duque de Orléans avançando para mim, de cabeça ao vento (tro­
duvidoso: um intendente prestes a cair não tem amigos. O sólido M. tando à 1'Anglaise), que me confirmou a notícia" 3 . A notícia é ver­
de Vergennes, que com a sua pontualidade fleumática e judiciosa podia dadeira.
ter moderado muitas coisas, morreu precisamente uma semana antes
0 traiçoeiro guarda-selos Miroménil foi-se e Lamoignon é nomeado
de estes pesarosos Notáveis se reunirem. E agora um guarda-selos (Garde
em seu lugar: mas nomeado em seu próprio proveito apenas, e não no
des Sceaux) Miroménil, parece que está fazendo o papel de traidor;
do intendente; porque no dia seguinte, o intendente também teve de
tecendo enredos a favor de Loménie de Brienne! O leitor da rainha,
partir. Ainda pode vegetar perto, mais algum tempo; ser visto no meio
Abbé de Vermont, indivíduo não estimado, é criatura de Brienne, que
dos cambistas e até a trabalhar na intendência, onde muita coisa está
o fêz gente desde o princípio: pode recear-se que êle abra a passagem
por acabar. Mas isso não dura muito. Tão fortemente sopra e estruge
dos fundos e que mime o terreno sob os pés do intendente. O traiçoeiro
a tempestade da opinião pública, da intriga privada, como se viesse
Garde des Sceaux Miroménil, pelo menos, deve ser demitido; Lamoig-
da caverna de todos os ventos, que o enxota (dando-lhe sinal a mais
non, o eloquente Notável, homem firme, com ligações e até com ideias,
alta autoridade) para fora de Paris e da França — por sobre o horizonte,
presidente do parlamento e contudo apostado em reformar os parla­
para a invisibilidade ou para a inteira escuridão.
mentos, não seria êle o guarda-selos ideal? Assim, para si mesmo, pensa
o ativo Besenval; e, à mesa do jantar, transmite essa sugestão ao ouvido Tal destino não o podia impedir a magia do génio. Ingrato Oeil-
do intendente — que sempre, nos intervalos dos seus deveres de hospe­ de-Boeuf! Não fêz êle miraculosamente chover maná de ouro sobre
deiro, o escuta de semblante agradável, mas nada responde de positivo2. vós; de tal modo que, como um cortesão disse, "toda a gente estendia
a mão e eu estendi o meu chapéu?" Êle próprio seria pobre; sem
E que havia de responder? A força da intriga privada e também a recursos, se a viúva de um financeiro da Lorena não lhe tivesse ofere­
força da opinião pública está a tornar-se tão perigosa e confusa! O cido, apesar de já passar dos cinquenta, a sua mão com a rica bolsa
filosofismo escarnece estrondosamente, como se Necker já estivesse que possuía. Obscura daqui em diante será a sua atividade, apesar de
triunfante. A populaça basbaque abre a boca a olhar para as carica­ incansável: cartas ao rei, apelos, prognósticos; panfletos (de Londres)
turas; onde, por exemplo, um rústico é representado a convocar as escritos com a antiga facilidade persuasiva; que porém não persuadem.
aves do seu galinheiro com este discurso de abertura: "Queridos ani­ Felizmente, a bolsa da sua viúva não se esvazia. Uma vez, daqui a um
mais, reuni-vos aqui para que me aconselheis com que molho vos devo uno ou dois, será vista uma sombra dele na fronteira do Norte, ten­
preparar"; e ao responder um galo "Nós não queremos ser comidos", tando ser eleito deputado nacional; mas advertem-lhe que se afaste.
cortam-lhe a palavra com "Vós afastais-vos da questão (Voas vous
1 Reproduzido no Musée de la Caricature (Paris, 1834).
1 Besenval. III. 196. Ileirmal, III, 209.
2 Brx-nval, III, 20S. S ttwnviíl, III, 211.
78 O PARLAMENTO DE PARIS OS NOTÁVEIS 79

Mais obscuro ainda, conduzido sobre distantes terras europeias, num seu próprio corpo está gasto, por grandes excessos) não acha nenhuns;
vago crepúsculo de diplomacia, êle pairará, intrigando a favor dos nem tanto como um plano, mesmo disparatado. Felizmente que Ca-
"Príncipes Exilados" e tendo aventuras; será precipitado na corrente lonne, nas mesmas circunstâncias, tinha um plano 1 O plano de Calonne
do Reno, e quase afogado, salvando porém os seus papéis. Incansável, era tirado dos de Turgot e Necker, por compilação; será esse, por
mas em vãol Em França já não opera milagres; apenas voltará ali adoção, o de Loménie. Não foi em vão que Loménie estudou a obra
para morrer. Adeus, tu fácil e sanguíneo intendente geral, com a tua da constituição britânica; porque professa possuir certa anglomania, a
mão ligeira e impetuosa, tua boca de ouro persuasiva: homens piores seu modo. Por que razão, nesse país livre, um ministro, expulso pelo
tem havido e melhores; mas a ti também foi destinada uma tarefa — parlamento, desaparece da presença do rei, e entra outro, introduzido
de levantar o vento e os ventos; e tu a executaste. pelo parlamento? 1 Certamente que não por mera mudança (que é
Mas agora, enquanto o ex-intendente geral foge empurrado pela sempre dispendiosa); mas para que todos os homens possam tomar
tempestade sobre o horizonte, desta maneira singular, que é feito da parte no que está acontecendo; e assim a luta da liberdade se prolonga
intendência? Está vaga, pode-se dizer; extinta, como a Lua na sua indefinidamente, sem que daí provenha mal.
vazia caverna interlunar. Duas sombras preliminares, o pobre M. Four-
queux, o pobre M. Villedeuil, possuem, em rápida sucessão, um simu­ Os Notáveis, molificados pelas festividades da Páscoa e pelo sacrifício
lacro dela 1 — como a lua nova brilha algumas vezes com uma lua de Calonne, não estão de muito mau humor. Sua Majestade, ainda
velha, obscura e preliminar nos seus braços. Tende paciência, vós no- as "sombras interlunares" estavam no ministério, assistiu a uma sessão
bresl Um novo e efetivo intendente está na forja e até já pronto; só dos Notáveis; e do seu trono fêz jorrar eloquência conciliatória e pro-
faltam as indispensáveis manobras para êle aparecer. O cabeça grande missiva: a rainha ficou esperando a uma janela, até a carruagem voltar;
Lamoignon com o secretário do interior Breteuil e o secretário dos e Monsieur, de longe, batia-lhe as palmas, em sinal de que tudo corria
estrangeiros. Montmorin trocaram olhares; deixai que estes três se bem2. Isso produziu o melhor efeito; oxalá que durasse. Os principais
reúnam e falem. Quem é que se acha forte no favor da rainha e no Notáveis precisam, no entanto, de ser "acarinhados"; o novo lustre de
do Abbé de Vermont? Nao será esse um homem de grande capacidade? Brienn.e, a cabeça grande de Lamoignon não se esquecerão disso:
Ou pelo menos que lutou, nestes cinquenta anos, para que lha jul­ eloquência conciliadora não há de faltar. Em suma, pois, não é inegá­
gassem grande; ora, em nome do clero, pedindo que as penalidades vel que isto de expulsar Calonne e adotar os planos de Calonne, é
de morte contra os protestantes fossem "postas em execução"; ora pa- uma medida que, para produzir o seu melhor efeito, deve ser vista
voneando-se no Oeil-de-Boeuf, como o mais alegre favorito de homens de certa distância, atabalhoadamente — sem um escrutínio minucioso,
e mulheres; respigando mesmo uma boa palavra do filosofismo e dos feito de perto? Numa palavra, que serviço mais obsequiador podiam
Voltaires e D'Alemberts? Que já tem um partido nos Notáveis? Loménie os Notáveis agora prestar do que, de alguma maneira gentil — irem-se
de Brienne, arcebispo de Tolosa! respondem os três, com a mais clara embora? As suas "Seis Proposições" acerca de assembleias provisionais,
e instantânea concórdia; e partem a propô-lo ao rei, "com tal pressa", supressão de Corvées e o mais, podem ser aceitas sem discussão. A
diz Besenval, que M. de Lamoignon teve de pedir uma simarre empres­ Subvention ou imposto rústico, e muita coisa mais, podem mencionar-se
tada, naturalmente qualquer espécie de vestuário necessário para o ato 2 . quase despercebidamente, mesmo nos floreados da eloquência concilia­
tória. Até que por último, no dia 25 de maio do ano de 1787, em
Loménie de Brienne, q u e toda a sua vida "sentiu uma espécie de sessão final solene, rebenta o que podemos chamar uma explosão de
predestinação para os mais altos cargos", obteve-os agora. Preside às eloquência; o rei, Loménie, Lamoignon, tomando a deixa um do outro,
finanças; terá o título de primeiro ministro, é assim realizado o sonho proferem arengas até ao número de dez, além da de Sua Majestade,
da sua longa vida. Mal só foi que empregasse tanto talento e habili­ que duram o dia todo; e isto para que, com uma espécie de antífona
dade para ganhar o lugar; e que para o exercer, lhe reste ao seu dispor coral, ou de repique de sinos, de agradecimentos, de louvores, de pro­
tão pouco talento c habilidade! Olhando agora para bem dentro de messas, os Notáveis sejam, por assim dizer, despedidos com música
si, ao perscrutar ;is qualificações que possa ter, Loménie verifica, não para as suas respectivas moradas. Tinham-se reunido e falado, durante
sem espanto, que quase nada mais possui que vacuidade e possibili­ umas nove semanas: eram os primeiros Notáveis desde os de Richelieu,
dade. Princípios ou métodos, dotes interiores ou exteriores (porque o ii" .mo de 1626.

1 Benriival. 111. 225. I Montgalllard, Hiuoirc de France, I. 410-7.


•I Buenval, III. 224. MIIV.U. III. 220.
80 O PARLAMENTO DE PARIS OS ÉDITOS DE LOMÉNIE Kl

Por alguns historiadores, sentados muito confortavelmente a uma É a bancarrota espiritual, de há muito tolerada; convergindo agora
distância segura, Loménie tem sido censurado por este despedimento para a bancarrota económica, tornada intolerável. Porque, das mais
baixas camadas mudas, a inevitável miséria, como foi predito, se es­
dos Notáveis: não obstante, foram recambiados em devido tempo. Há
tendeu para cima. Em todo o homem há um sentimento obscuro que
coisas, como dissemos, que não devem ser escrutinizadas minuciosa­
lhe prediz que a sua posição de opressor ou de oprimido, é uma po­
mente: sobre carvões incandescentes não se pode caminhar muito de­
sição falsa: todos os homens, em um ou outro dialeto mordaz, como
pressa. Nestes sete bureaux, onde se não podia efetuar nenhum trabalho, assaltantes ou como defensores, têm de dar vasão à intranquilidade que
a não ser que conversa seja trabalho, estavam surgindo as questões está dentro deles. De tal matéria-prima não é feito o bem-estar nacio­
mais complicadas. Lafayette, por exemplo, no bureau de Monseigneur nal nem a glória dos governantes. Ó Loménie, que mundo tão louca­
d'Artois, encarrega-se de proferir mais que uma oração deprecatória mente agitado e assolado, que mundo de cólera e de fome tu, depois
acerca das Lcttres-de-Cachet, liberdade dos súditos, Ágio e coisas pa­ de um esforço que durou uma vida inteira, foste chamado a dirigir!
recidas; e quando Monseigneur tentou reprimi-lo, foi-lhe respondido
que, sendo um Notável convocado para dizer a sua opinião, devia Os primeiros éditos de Loménie são meros paliativos: criação de
dizê-la1. assembleias provinciais, "para repartir os impostos", quando entrarem
Também assim, ao perorar Sua Eminência o Arcebispo de Aix, uma alguns; supressão das Corvèes ou taxa braçal; aliviação da Gabelle.
vez, num tom lamentoso de púlpito, com estas palavras: "O dízimo, Medidas calmantes recomendadas pelos Notáveis, e de há muito recla­
essa oferta de livre vontade da piedade dos cristãos" foi interrompido madas por todos os homens liberais, óleo lançado sobre as águas sabe-se
pelo Duque de la Rochefoucault, com os modos frios e práticos que que produz um bom efeito. Antes de se aventurar em grandes medidas
essenciais, Loménie quer ver se esta singular "efervescência do espírito
aprendera dos ingleses, desta maneira: "O dízimo, essa oferta de livre
' público" decresce um pouco.
vontade da piedade dos cristãos; por via do qual há agora quarenta
mil processos judiciais neste reino" 2 . E até Lafayette, obrigado a con­ Muito conveniente, decerto. Mas, se esta efervescência não fôr daque­
fessar a sua opinião, aventurou-se um dia a propor a convocação duma las que decrescem? Há efervescências que procedem de temerosas tem­
"Assembleia Nacional"! "Vós pedis os Estados Gerais?" perguntou Mon­ pestades e furacões; mas também as há que vêm de ventos subterrâneos
seigneur com um ar de surpresa* ameaçadora. — "Sim, Monseigneur; encurralados, dizem alguns; e até de decomposição interna, de deca­
e ainda melhor do que isso?" — "Registrai-o, ordenou Monseigneur aos dência que se tornou em autocombustão: — como quando, conforme
escrivães3. Registrado, foi-o; e o que é mais, para ser realizado não a geologia netuno-plutónica, o mundo se decompõe todo em atritos
tarda muito. desta espécie e tem de ser então explodido, e feito de novo! Para estas
últimas de nada serve o óleo. O tolo diz no seu coração: Por que é
que amanhã não será como ontem; como todos os dias — que já foram
amanhãs? O homem sábio, olhando para toda a França, moral, inte­
Capitulo IV lectual e económica, vê, "em suma, todos os sintomas que êle tem
encontrado na história" — não decrescíveis com éditos calmantes.
OS ÉDITOS DE LOMÉNIE Não obstante, decresça ou não decresça, tem de se arranjar dinheiro;
e para isso, promulgar outra espécie de éditos, chamados de "tesoura­
E assim regressaram a casa os Notáveis, levando, para todos os cantos ria" ou fiscais. Que fáceis seriam esses éditos fiscais, se se tivesse por
da França, tais noções de deficit, decrepitude, desordem; e dizendo certo que o parlamento de Paris acederia àquilo que eles chamam,
que os Estados Gerais ou haviam de curar isso tudo, ou se não curá-lo, "registrá-los" 1 T a l direito de registro, propriamente de os copiar, — o
matá-lo. Cada Notável, podemos imaginá-lo, é como uma tocha funérea; parlamento de Paris tem-no, por usança antiga; e apesar de ser apenas
desvendando abismos hediondos, que seria melhor ficarem ocultos! O um tribunal de justiça, pode objetar e discutir muito tempo sobre os
mais intranquilo humor se apoderou de todos os homens; e fermenta, mesmos. Daqui, surgem muitas questões: os recursos desesperados de
procurando expandir-se, em panfletos, em caricaturas, em projetos, em Maupeou, e vitória e derrota; questão que dura agora há quase qua­
declamações: vã algazarra de pensamentos, palavras e atos. renta anos. Por isso os éditos fiscais, que de outra sorte seriam assunto
fácil, tornaram-se problemas sérios. Por exemplo, não existe a Subven-
1 Monlgailliird, I. S60.
2 Dumont, Soiiuniu mr Mirabeau, p. 21. tion Territoriale de Calonne, um imposto rústico, universal, sem isen-
3 Toulonnetin, Hiitolre de Frunce depui» U Kévolution de 1789 (Pari», 1803), I. app. 4.

6 Hist. Rev. Francesa


82 O PARLAMENTO DE PARIS OS ÉDITOS DE LOMÉNIE 83

ções — a âncora mestra das finanças? Ou para mostrar, tanto quanto nenhum "estado" seja fornecido. Estados? disse um parlamentar ani­
possível, que uma pessoa não deixa de possuir talento financeiro ori­ moso: "Messieurs, os estados que, na minha opinião, nos devem ser
ginal, o próprio Loménie pode engendrar um Édit du Timbre ou fornecidos, são os ESTADOS GERAIS", após cujo gracejo oportuno
imposto do selo — copiado também, é verdade, mas agora da América. se seguiram risos exuberantes de aprovação. Que palavra para ser pro­
Oxalá que seja mais íeliz em França do que foi alil ferida no Palais de Justicei O velho D'Ormesson (tio do ex-intendente)
A França tem os seus recursos; não obstante, o que se não pode abana a sua judiciosa cabeça; muito longe de se rir. Mas os pátios
negar é que a atitude daquele parlamento é duvidosa. Já entre os exteriores, e Paris e a França, recolhem o dito gracioso; e repetem-no,
Notáveis, naquela sinfonia final do despedimento, o presidente de reecoam-no e propagam-no até que se torna numa toada ensurdecedora.
É evidente que se não pode pensar em registro.
Paris pronunciou-se em tom ominoso. Adrien Duport, deixando o sono
magnético, nesta agitação do mundo, ameaça despertar-se em vigilân­
cia preternatural. Mais superficial, mas também mais ruidoso, há o Há um provérbio piedoso que diz, "para tudo existe remédio, exceto
magnético D'Espréménil, com o seu ardor tropical (nasceu em Ma­ para a morte". Quando um parlamento se recusa a registrar, o remédio,
drasta) com a sua violência confusa e soturna; feita de iluminismo, conforme o costume antigo, torna-se familiar para as pessoas mais sim­
magnetismo animal, opinião pública, Adão Weisshaupt, Harmódio e ples: um leito de justiça. Um mês completo perdeu este parlamento
Aristogiton e todas as maneiras de coisas violentas e confusas: de quem em mero falatório ocioso, e em fúrias e exclamações; o édito do Selo
não pode vir nenhum bem. O próprio pariato está infetado com o sem ser registrado, nem semelhanças; o da Subvenção, nem sequer
fermento. Os nossos pares, em grande maioria, puseram de parte os ainda mencionado. No dia 6 de agosto, que toda a retrataria corpo­
seus alamares, as suas rendas, as suas perucas de saco, e andam agora ração role, em veículos de rodas, até ao castelo de Versalhes, para aí
trajados à inglesa e cavalgam, erguendo-se' nos estribos — da maneira o rei, em seu leito de justiça, lhes ordenar, com os seus próprios lábios
mais esquisita; nada em suas cabeças, senão insubordinação, eleutero- reais, o registro. Podem objetar, em voz sumida; mas têm de obedecer,
mania, oposição ilimitada e confusa. Caso duvidoso, a que não nos para que uma coisa pior e desconhecida lhes não aconteça.
aventuraríamos, se tivéssemos uma bolsa de Fortunatus! Mas Loménie Assim se fêz: o parlamento rolou, à convocação real; ouviu a ex­
esperou todo o junho, lançando nas águas o óleo que tinha; e agora, pressa, ordem real para registrar. Depois do que, rolou de volta, por
aconteça o que acontecer, os dois éditos de finanças têm de sair^ No entre a expectativa silenciosa dos homens. E agora, vede, no dia se­
dia 6 de julho, êle envia o seu imposto do selo e o imposto rústico ao guinte, este parlamento, mais uma vez em sessão no seu próprio Palais,
parlamento de Paris; e, pondo, por assim dizer, a sua própria perna com "multidões inundando os pátios exteriores", não só não registra,
à frente e não a perna que lhe emprestou Calonne, — coloca o imposto mas ( ó portentol) declara nulo tudo o que fora feito na véspera e o
do selo em primeiro lugar. leito de justiça mera futilidade! Na história da França, eis verdadeira­
mente uma nova feição. E ainda mais: o nosso heróico parlamento,
O parlamento, ah, não o quer registrar; reclama "um estado das
achando-se de repente iluminado sobre várias coisas, vem declarar que,
despesas" e "um estado das economias a fazer"; bastantes "estados",
por sua parte, é absolutamente incompetente para registrar quaisquer
que Sua Majestade se vê obrigada a recusarl Levantam-se dicussões;
éditos de impostos — tendo-o feito erradamente, durante estes últimos
abunda a eloquência patriótica; e os pares são convocados. Começa
séculos; que para tal ato só uma autoridade é competente: A Assem­
o leão da Neméia a eriçar o pêlo? Daí evidentemente nasce duelo,
bleia dos Três Estados do Reinol
para o qual a França e o universo podem olhar: com orações; ou pelo
menos com curiosidade e apostas. Paris agita-se com nova animação. Com que profundeza pode o espírito universal duma nação penetrar
Os pátios exteriores do Palais de Justice enchem-se de multidões es­ o mais isolado organismo corporativo; o que admira é que seja com
tranhas, a entrar e a sair; o seu alto zumbido cá fora mistura-se com tais armas, homicidas e suicidas, num duelo político exasperado, que
o estridor da eloquência patriótica lá dentro, e imprime-lhe vigor. O tais organismos corporativos combatam! Mas, seja como fôr, não é
pobre Loménie contempla a distância, pouco confortado; os seus invi­ esta a verdadeira luta mortífera de guerra e de duelo mutuamente
síveis emissários correm dum lado para outro, assíduos, sem resultado. destrutivo, de grego contra grego; para o qual os homens, mesmo que
Assim se passam os dias abafados da canícula, da maneira mais nfto tenham interesse nele, devem olhar com interesse indizível? Mul­
elétrica; e todo o mês de julho. Contudo, no santuário da justiça, nada tidões, como dissemos, inundam os pátios exteriores: inundações de
mais ressoa que a eloqiiência Harmódio-Aristogitona, envolvida pelo nobres eleuteromaníacos vestidos à inglesa, proferindo discursos auda­
zumbido de toda Paris; sem que se faça registro algum e sem que ciosos; de procuradores, de escrivães da Basoche, que estão ociosos
84 O PARLAMENTO DF. PARIS OS RAIOS DE LOMÉNIE 81

nestes dias; de vadio», de jornalistas e de outras classes não descritas - está rolando rapidamente para Troyes na Champagne, "escoltado", diz
rolam tumultuosamente ali. a História, "pelas bênçãos de todo o povo" e até com as reverências
"De três a quatro mil pessoas", esperando ansiosamente as resolu­ desinteressadas dos próprios estalajadeiros e postilhões1. É este o dia
ções (anrlrs) se encontram dentro, aplaudindo com bravos, com o 15 de agosto de 1787.
palmear de seis a oito mil mãos! Belo também é o prémio da eloquên­
cia patriótica, quando o nosso D'Espréménil, o nosso Fréteau ou Sa- Que não bendirá o povo, na sua necessidade extrema! Raras vezes
batier, saindo do seu Olimpo demostênico, silenciada a trovoada dis­ o parlamento de Paris mereceu bênçãos ou as recebeu. Um organismo
cursiva, são saudados, nos pátios exteriores, com uma aclamação de corporativo isolado que, fora das velhas confusões (enquanto o cetro
quatro mil gargantas; e trazidos para casa aos ombros dos seus admi­ da espada estava confusamente lutando para se tornar o cetro da pena)
radores, "com bênçãos", a tocarem as estrelas com as suas sublimes se tinha congregado, melhor ou pior, como fazem os organismos cor­
cabeças. porativos, para satisfazer algum desejo obscuro do mundo e muitos
desejos claros dos indivíduos; e que assim tinha prosperado, no decurso
de séculos, com concessões, com aquisições e usurpações, para chegar
àquilo que nós vemos: uma próspera anomalia social, decidindo plei­
Capítulo V
tos judiciais, sancionando ou rejeitando leis; e além disso, dispondo
OS RAIOS DE LOMÉNIE dos seus lugares e cartórios por venda a dinheiro pronto — método
este que o suave presidente Hénault, após meditação, demonstrará ser
Ergue-te, Loménie de Brienne: isto não é caso para "Lettres de o menos ruim 2 .
Jussion", para fraquezas ou compromissos. T u vês toda a população Em tal corporação, existindo por compra a dinheiro pronto, não
solta e fluente de Paris (tudo aquilo que não é sólido e fixo ao tra­ podia haver excesso de espírito público; o que era natural que hou­
balho) inundar estes pátios exteriores, como um dilúvio altamente des­ vesse era excesso de impaciência em dividir o espólio público. Homens
trutivo; a própria Basoche dos escrivães fala em sedição. As classes de capacete têm dividido isso com a espada; homens de peruca, com
mais baixas, neste duelo de autoridade com autoridade, grego esga­ pena e' tinteiro, também o dividem, e mesmo mais odiosamente que
nando grego, deixaram de respeitar os guardas da cidade: os satélites aqueles, se mais pacificamente; porque o método da peruca é ao mesmo
da polícia são marcados nas costas a giz (o M significa mouchard, tempo o mais irresistível e o mais vil. Por longa experiência, diz Be-
espião); são apupados, perseguidos como ferae naturae. Os tribunais senval, tem-se visto que é inútil demandar pela justiça um parlamen­
subalternos rurais enviam mensagens de congratulação, de adesão. A tar; nenhum funcionário judicial executa um mandado contra outro:
sua fonte de justiça está-se convertendo em fonte de revolta. Os parla­ a sua peruca e a sua toga são a sua panóplia de Vulcano, o seu manto
mentos provinciais observam, com olho apurado, com desejos sofrea­ encantado que o furta aos rigores da lei.
dos, enquanto o seu irmão mais velho de Paris fere batalha: todos os
0 parlamento de Paris pode considerar-se uma corporação não amada;
doze são do mesmo sangue e temperamento; a vitória dum é a vitória
mesquinha, não magnânima, no lado político. Se o rei é fraco (como
de todos.
agora) o seu parlamento ladra-lhe, como cachorro, às canelas, com qual­
E a situação ainda se agrava mais: em 10 de agosto, apresentam quer grito popular da ocasião. Se é forte, ladra na sua frente, atraindo
uma "Plainte" a respeito das prodigalidades de Calonne, e requerem a caça para êle, como seu sabujo chamariz. Corporação injusta; onde
permissão para se "proceder" contra êle. Não registram, mas em vez influências sujas mais duma vez têm produzido vergonhosa perversão
disso, denunciam: dilapidações, peculatos; e sempre com o estribilho de julgamento. Não grita, mesmo até nestes dias, alto por vingança,
da cantiga, Estados Gerais! Não têm as armarias reais nenhum raio o sangue de Lally assassinado? Engodado, enredado, tornado louco
que tu pudesses, ó Loménie, com a tua vermelha mão direita, lançar como o leão na armadilha, o valor teve de se afundar extinto, sob a
no meio desses barris de pólvora demostênicos, mera resina e barulho chicana vingativa. Reparai nesse infeliz Lally, com a sua alma bravia
na sua maior parte - e arrebentá-los, reduzindo-os ao silêncio? Na e triste olhando através do seu rosto bravio e triste; arrastado no
noite de 14 de agosto, Loménie lança o seu raio, ou uma mancheia ignominioso trenó da morte, a sua voz de desespero abafada por uma
deles. Cartas chamadas de selo (de Cachei), tantas quantas precisas, mordaça de madeira! A intrépida alma de fogo que só conheceu pe-
umas cento e vinte, são entregues durante a noite. E assim, na madru­
gada do dia seguinte, todo o parlamento, mais uma vez sobre rodas, 1 A. Innirth, Histoire de 1'Assimblee Constituinte (Int. 73).
V AlnÍRé Clironologique, p. 973.
86 O PARLAMENTO DE PARÍS OS RAIOS DE LOMÉNIE H7

rigos e trabalhos e que, durante sessenta anos, lutou contra a obstrução colisão de corpos duros; mas mais semelhante às primeiras faúlhas dum
do destino e contra a perfídia dos homens, como o génio e a coragem fogo que, se não fôr apagado, se pode tornar uma grande conflagração"1.
no meio da poltronice, da desonestidade e da rotina; sofrendo fiel­ Este bom Malesherbes vê-se novamente no conselho do rei, após
mente e fielmente se esforçando — ó parlamento de Paris, tu recom- uma ausência de dez anos: Loménie quer aproveitar-se disso, se não
pensaste-o com uma forca e uma mordaça! 1 O moribundo Lally legou pelas faculdades do homem, contudo pelo nome que êle tem. Quanto
a sua memória a seu filho; e um jovem Lally se ergueu, pedindo à sua opinião, não a atendem — razão por que êle logo se retira, uma
reparação em nome de Deus e dos homens. O parlamento de Paris segunda vez, novamente para os seus livros e as suas árvores. Em tal
emprega os seus maiores esforços para defender o indefensível, o abo­ conselho do rei, para que pode servir um homem bom? Turgot não
minável; e até, o que é singular, o soturno Aristogiton d'Espréménil o experimentou segunda vez, porque deixou a França e este mundo,
é o homem escolhido para ser o seu intérprete nessa causa! já há alguns anos; e agora não se importa com nenhuma destas coisas.
É tal anomalia social que a França agora abençoa. Uma suja ano­ Circunstância curiosa: Turgot, este mesmo Loménie e o Abbé Morellet
malia social; mas em duelo contra outra ainda pior! Proclama-se que foram outrora um trio de jovens amigos e condiscípulos na Sorbona.
o parlamento exilado "se cobriu de glória". Há questões nas quais o Quarenta anos separara-os assim tão distantes.
próprio Satã, trazendo auxílio, seria bem-vindo; em que o próprio No entretanto, o parlamento reúne-se diariamente em Troyes, à es­
Satã, combatendo rijamente, se poderia cobrir de glória — de uma pera de causas; e adia-se diariamente, por nenhum procurador se apre­
espécie temporária. sentar a pleitear. Troyes é a mais hospitaleira possível; não obstante,
a vida ali decorre monótona. Não há multidões para vos levar aos
Mas que bulício nos pátios exteriores do Palais, quando Paris veri­ ombros, até aos deuses imortais; apenas um patriota ou dois se aven­
fica que o seu parlamento vai a rodar para Troyes, na Champagne; tura tão longe, a recomendar-vos coragem firme. Estais em aposentos
que nada ficou senão alguns mudos arquivistas; e que o trovão demos- mobiliados, longe de casa e do conforto doméstico; mal tendo que
tênico se extinguiu e os mártires da liberdade se foram! Das quatro fazer, a não ser vaguear pelos campos pouco encantadores da Cham­
mil gargantas dos procuradores, dos escrivães da Basoche, da nobreza pagne, ^a ver as uvas a amadurecer, tomando conselhos já consultados
anglomaníaca e de muita outra gente, erguem-se sons confusos de la­ pela milésima vez; presas do tédio, em perigo até de que Paris vos
mentação e ameaças; de cada vez se apinham mais ociosos para ver esqueça. Mensageiros vão e vêm; o pacífico Loménie não se cansa de
e saber; e a ralé, sempre a aumentar em número e vigor, caça mou- negociar, de prometer; D'Ormesson e os membros prudentes mais
chards. Um grande e ruidoso redemoinho rola através destes espaços; velhos não vêem vantagem na luta.
o resto da cidade, fixo no seu trabalho, não pode ainda rolar. Lêem-se Depois dum mês insípido, o parlamento, cedendo e resistindo, faz
audaciosos cartazes; dentro e ao redor do Palais, os discursos são por tréguas, como todos os parlamentos têm de fazer. A taxa do selo é
assim dizer sediciosos. Certamente, o temperamento de Paris está muito retirada; a da Subvention também é retirada; mas, em seu lugar, per­
mudado. No terceiro dia desta efervescência (18 de agosto), vindo Mon- mitem aquilo a que chamam uma "Prorrogação da Segunda Vintena"
sieur e Monseigneur d'Artois, em carruagem de gala, conforme o uso — em si própria uma espécie de imposto rural, mas não tão opressivo
e costume, para fazer expurgar dos registros estes últimos obnóxios para as classes influentes; que incide principalmente sobre a classe
■Arretes e protestos, são recebidos da mais significativa maneira. Mon- muda. Além disso, existem promessas secretas (feitas aos membros mais
sieur, que se julga estar na oposição, é acolhido com vivas e flores: velhos) de que as finanças podem ser reabilitadas por empréstimos.
Monseigneur, pelo contrário, com silêncio, murmúrios, que chegam a Da feia palavra "Estados Gerais" não haverá menção.
assobios e rugidos; e até uma ralé irreverente o comprime em vagas, E assim, em 20 de setembro, regressa o nosso exilado parlamento.
com tanta veemência de assobios, que o capitão das guardas tem de Como D'Espréménil disse, "saiu coberto de glória, mas voltou atascado
dar ordens "Haut les armes" (Alto armas)! — a cuja palavra atroadora de lama (de boue)". Não é assim, Aristogiton; ou se é assim, tu és
e à vista do luzir do ferro, a onda plebeia recua, através de todas as certamente o homem preciso para limpá-la.
saídas, com bastante pressa2. Novos aspectos estes. Na verdade, como
observa o bom M. de Malesherbes, "é uma espécie absolutamente nova I Monlgalllard, I. 373.
de luta, esta com o parlamento; não um ruído passageiro como da

1 9 <lc maio ilr 1760; Bingraphic Univcnellc, Lally.


2 Montgaillard, I. 369. Bescnval, etc.
OS ENREDOS DE LOMÉNIE 89
guarda, de que quando o nosso empréstimo estiver terminado, serão
convocados os Estados Gerais.
Capitulo VI Tal édito liberal de emancipação dos protestantes, por o tempo
estar maduro para êle, custará tão pouco a Loménie, como custou a
OS ENREDOS DE LOMÉNIE pôr em execução as penas de morte. Quanto à promessa liberal, dos
Estados Gerais, pode ser cumprida ou não; o cumprimento ainda de­
Já houve algum infortunado primeiro ministro tão aperreado como mora uns bons cinco anos; e em cinco anos, muita coisa acontece.
Loménie de Brienne? Sustenta nas suas mãos as rédeas do Estado du­ Mas o registro? Ah, aí, verdadeiramente, é que está o busílis! — Con­
rante estes seis meses; e contudo não há nenhuma força financeira, tudo, temos aquela promessa dos parlamentares mais velhos, dada se­
por mais pequena que seja, que o consiga mover, para aqui ou para cretamente em Troyes. Gratificações judiciosas, seduções, intrigas sub­
ali. Floreia o chicote, mas não avança. Em lugar de dinheiro pronto, terrâneas, com o velho Foulon chamado "Ame damneé", alma danada
não há nada senão debates e recalcitrações rebeldes. do parlamento, podem talvez fazer o resto. Quando pior e em maiores
Longe está o espírito público de se ter acalmado; continua a aque- apuros, a autoridade real tem recursos — que não deverá empregar?
cer-se e a fumegar cada vez mais; e nos cofres reais, com tal deficit Se não pode arranjar dinheiro, a autoridade real pode considerar-se
anual sempre a crescer, mal existe a côr do dinheiro. morta; morta daquela mais certa e miserável morte: inanição. Arriscai-
Ominoso prognóstico! Malesherbes, vendo uma França exausta, exas­ vos e ganhai; sem risco, tudo está de antemão perdido! Quanto ao
mais, como nas lutas atléticas, um golpe de estratégia muitas vezes dá
perada esquentar-se cada vez mais, fala em "conflagração"; Mirabeau,
resultado. Sua Majestade anuncia uma Caçada Real para o próximo
sem falar, desceu, como percebemos, de novo a Paris, mesmo na reta­
19 de novembro; e todos aqueles a quem interessa, preparam alegre­
guarda do parlamento 1 , para não deixar mais o seu solo nativo.
mente os seus aprestos.
Para além das fronteiras, vede: a Holanda invadida pela Prússia2;
o partido francês oprimidq, a Inglaterra e o Stathuder triunfantes, com Caçada real, decerto; mas de caça implume de duas pernas! Às onze
desgosto do secretário da guerra Montmorin e de toda a gente. Mas da manhã daquele dia de caçada real, 19 de novembro de 1787, sons
sem dinheiro, nervo da guerra, como do trabalho e da própria existên­ inesperados de trombeta, estrépito de carruagens e de cavalos pertur­
cia, que pode fazer um primeiro ministro? Os impostos rendem pouco; bam o assento da justiça: Sua Majestade vem, com o guarda-selos
este da segunda vintena não se começa a vencer senão no próximo Lamoignon, pares e comitiva, presidir a uma sessão real e mandar
ano, e mesmo assim, com a sua "estrita avaliação" há de produzir mais registrar os éditos. Que mudança, desde que Luís XIV entrou aqui,
discussão que dinheiro. Impostos sobre as classes privilegiadas não con­ de botas altas; e de chicote na mão, ordenou que se fizessem os seus
seguem ser registrados; são intoleráveis até para os próprios gover­ registros — de olhar olímpico, que ninguém se atreveu a contrariar;
nantes; impostos sobre os não privilegiados nada rendem — porque portando-se dessa maneira incerimoniosa, sem estratégia, tanto para
duma coisa já esgotada não se pode tirar nada. A esperança não está a caça como para os registros!1 Para Luís XVI, neste dia, bastar-lhe-ão
em parte nenhuma, a não ser no velho refúgio do empréstimo. os registros; se, na verdade, êle e o dia bastarem para isso.
Enquanto que Loménie, ajudado pela cabeça grande de Lamoignon, No entretanto, com adequadas frases cerimoniosas, a intenção real é
sonda profundamente este mar de perturbações, ocorre-Ihe uma ideia: significada: dois éditos, um para a emancipação dos protestantes e o
Por que não lançar um empréstimo sucessivo (Emprunt Sucessif), ou outro para o empréstimo sucessivo: de ambos os quais éditos o nosso
empréstimo que continuasse a emprestar, ano após ano, tanto quanto leal guarda-selos Lamoignon explicará o teor; e sobre ambos se pede
se necessitasse; por exemplo, até 1792? As dificuldades de registrar tal ao leal parlamento que pronuncie a sua opinião, tendo cada membro
empréstimo seriam as mesmas; nós teríamos então tempo de respirar, privilégio livre de falar. E assim, tendo Lamoignon também pero­
rado convenientemente e concluído com aquela promessa dos Estados
dinheiro com que trabalhar, ou pelo menos com que subsistir. Pro-
Gerais, começa então a música esférica da eloquência parlamentar:
ponha-se, pois, um édito de empréstimo sucessivo. Para conciliar os
explosiva, responsiva, esfera retorquindo a esfera, ela torna-se cada
filósofos, que um édito liberal saia na frente dele, para a emancipação
vez mais ruidosa. Os pares sentam-se atentos; com diversos sentimentos:
dos protestantes; e faça-se uma promessa liberal a guardar-lhe a reta- inimigos dos Estados Gerais; inimigos do despotismo, que não pode
1 Filj adoptif, Mirabeau, IV. L. 8.
2 Outubro de 1787. Momgaillard, I. 374. Bcienval, III. 283. 1 Dulaure. VI. 306.

t
recompensar o mérito e está suprimindo lugares. Mas que é que agita No dia seguinte, uma Lettre-de-Cachet manda D'Orléans meditar
Sua Alteza d'Orléans? A sua rubicunda cabeça de lua cheia meneia-se; consigo próprio no seu Château de Villers-Cotterets, onde, ah, não
o seu semblante acobreado torna-se mais negro, como cobre não lus­ existe Paris algum com as suas alegres necessidades de vida; e nenhuma
trado; nos seus olhos vítreos há inquietação; move-se intranqúilo no fascinante e indispensável Madame de Buffon — esposa leviana de um
seu assento, como se tivesse qualquer intenção. Na plenitude da sua grande naturalista demasiado idoso para ela. Monseigneur, diz-se, não
saciedade, ser-lhe-ia de repente concedido um novo apetite, para qual­ faz nada senão passear de aspecto preocupado, em Villers-Cotterets;
quer novo fruto proibido? Aversão e voracidade; ociosidade que não amaldiçoando a sua estrela. O próprio Versalhes ouvirá os seus lamen­
pode descansar; ambição fútil, vingança, e o não almirantado: — Oh, tos de penitente, tão dura é a sua sorte. Por uma segunda e simultânea
dentro dessa pele empolada, que confusão de confusõesl
Lettre-de-Cachet, o Comadre Fréteau é atirado para a fortaleza de
"Oito correios", no correr do dia, galopam de Versalhes, onde Lo- Ham, entre os pauis normandos; por uma terceira, Sabatier de Cabre
ménie espera palpitante; e galopam outra vez de volta, não com as é levado para o Mont St. Michel, entre as areias movediças da Nor­
melhores notícias. Nos pátios exteriores do palácio, reina enorme zum­
mandia. Quanto ao parlamento, êle tem, sob convocação, de viajar
bido de expectativa; murmura-se que o primeiro ministro perdeu seis
até Versalhes com o seu livro de registros debaixo do braço, e ali
votos durante a noite. E de dentro, nada ressoa senão eloquência fo­
expungir (biffer) o protesto; não sem admoestação e mesmo censura.
rense, patética e até indignada; apelos comoventes à clemência real
para que Sua Majestade se digne convocar imediatamente os Estados Um golpe de autoridade que, espera-se, liquidará o assunto.
Gerais e seja o salvador da França: — entre estes, os do soturno D'Es- Infelizmente, não: é apenas um mero cheiro do chicote para o cavalo
préménil, mas ainda mais os de Sabatier de Cabre e de Fréteau, desde empinado e que o faz ainda empinar-se mais! Quando uma parelha
então chamado Commère Fréteau (comadre Fréteau), são dos mais rui­ de vinte e cinco milhões começa a empinar-se, de que vale o chicote
dosos. Durante seis horas mortais isso dura, desta maneira, sem que de Loménie? O parlamento de nenhum modo aquiesce pacificamente,
a infinita algazarra abrande. pondo-se a registrar o édito protestante, com salutar receio destas três
E assim agora, quando o crepásculo está a cair sobre as janelas, sem Lettres-de-Caehet. Longe disso, começa a discutir as Lettres-de-Cachet
que se veja o fim daquilo, Sua Majestade, a conselho do guarda-selos na generalidade, a sua legalidade, a sua validade; e emite dolorosa
Lamoignon, abre os seus reais lábios mais uma vez para dizer, em objurgação, petição sobre petição, para que os seus três mártires sejam
suma, que é preciso que seja registrado o seu édito do empréstimo. — soltos; não pode, até que o seu pedido seja satisfeito, pensar em exami­
Pausa momentânea e profunda! Vede! Monseigneur d'Orléans levanta- nar o édito protestante mas adia sucessivamente isso "até daqui a uma
se; e com a cara de lua cheia virada para a plataforma real, pergunta, semana" 1 .
com urna delicada graciosidade de maneiras a ocultar indizíveis coisas: Nesta tensão objurgatória, Paris e a França secundam-no, ou antes
"Se isto é então um leito de justiça ou uma sessão real?" Olhares de precederam-no, em tremendos coros. E agora também os outros parla­
fogo incidem sobre êle, do trono e vizinhanças; e a resposta áspera
mentos, abrindo por fim suas bocas, começam a secundar; alguns deles,
de que "é uma sessão"! Nesse caso, Monseigneur pede licença para
como em Grenoble e em Rennes, com ênfase portentosa - ameaçando,
observar que os éditos não podem ser registrados por ordem numa
por represália, de interditar o próprio coletor de impostos2. "Em todas
sessão; e para lavrar, contra tal registro, o seu protesto humilde e
individual. "Vous êtes bien le maitre", (Sois vós quem manda) res- as questões anteriores", como Malesherbes observa, "era o parlamento
ponde-lhe o rei; e em seguida, marcha para fora, escoltado pela sua qúTêxcitava o público; mas agora é o público que excita o parlamento".
comitiva, com o próprio D'Orléans, como de etiqueta, a escoltá-lo, mas
1 Bcscnval, III. 309.
só até ao portão. Feita esta obrigação, D*Orléans regressa do portão, 2 Wcber, I 260.
redige o seu protesto, em frente dum parlamento aplaudente e de uma
aplaudente França. Foi assim que êle cortou as suas amarras com a
corte, lançando-se à deriva, rapidamente, em direção ao caos.

Tu, insensato D'Orléans; Égalité que estás para ser! Tornou-se a


realeza um mero espantalho, sobre o qual tu, atrevido corvo de cabeça
esquentada, possas descer quando queiras picar? Não ainda totalmente.


recompensar o mento e esta supnminuo lugares, mas que c que «tgno No dia seguinte, uma L.ettre-ae-ijacnet manua u u n w m uicunai
Sua Alteza d'Orléans? A sua rubicunda cabeça de lua cheia meneia-se; consigo próprio no seu Château de Villers-Cotterets, onde, ah, não
o seu semblante acobreado torna-se mais negro, como cobre não lus­ existe Paris algum com as suas alegres necessidades de vida; e nenhuma
trado; nos seus olhos vítreos há inquietação; move-se intranquilo no fascinante e indispensável Madame de Buffon — esposa leviana de um
seu assento, como se tivesse qualquer intenção. Na plenitude da sua grande naturalista demasiado idoso para ela. Monseigneur, diz-se, não
saciedade, ser-lhe-ia de repente concedido um novo apetite, para qual­ faz nada senão passear de aspecto preocupado, em Villers-Cotterets;
quer novo fruto proibido? Aversão e voracidade; ociosidade que não amaldiçoando a sua estrela. O próprio Versalhes ouvirá os seus lamen­
pode descansar; ambição fútil, vingança, e o não almirantado: — Oh,
tos de penitente, tão dura é a sua sorte. Por uma segunda e simultânea
dentro dessa pele empolada, que confusão de confusõesl
Lettre-de-Cachct, o Comadre Fréteau é atirado para a fortaleza de
"Oito correios", no correr do dia, galopam de Versalhes, onde Lo-
Ham, entre os pauis normandos; por uma terceira, Sabatier de Cabre
ménie espera palpitante; e galopam outra vez de volta, não com as
melhores noticias. Nos pátios exteriores do palácio, reina enorme zum­ é levado para o Mont St. Michel, entre as areias movediças da Nor­
bido de expectativa; murmura-se que o primeiro ministro perdeu seis mandia. Quanto ao parlamento, êle tem, sob convocação, de viajar
votos durante a noite. E de dentro, nada ressoa senão eloquência fo­ até Versalhes com o seu livro de registros debaixo do braço, e ali
rense, patética e até indignada; apelos comoventes à clemência real expungir (biffer) o protesto; não sem admoestação e mesmo censura.
para que Sua Majestade se digne convocar imediatamente os Estados Um golpe de autoridade que, espera-se, liquidará o assunto.
Gerais e seja o salvador da França: — entre estes, os do soturno D'Es- Infelizmente, não: é apenas um mero cheiro do chicote para o cavalo
préménil, mas ainda mais os de Sabatier de Cabre e de Fréteau, desde empinado e que o faz ainda empinar-se mais! Quando uma parelha
então chamado Commère Fréteau (comadre Fréteau), são dos mais rui­ de vinte e cinco milhões começa a empinar-se, de que vale o chicote
dosos. Durante seis horas mortais isso dura, desta maneira, sem que de Loménie? O parlamento de nenhum modo aquiesce pacificamente,
a infinita algazarra abrande. pondo-se a registrar o édito protestante, com salutar receio destas três
E assim agora, quando o crepúsculo está a cair sobre as janelas, sem Lettres-de-Cachet. Longe disso, começa a discutir as Lettres-de-Cachet
que se veja o fim daquilo, Sua Majestade, a conselho do guarda-selos na generalidade, a sua legalidade, a sua validade; e emite dolorosa
Lamoignon, abre os seus reais lábios mais uma vez para dizer, em objurgação, petição sobre petição, para que os seus três mártires sejam
suma, que é preciso que seja registrado o seu édito do empréstimo. — soltos; não pode, até que o seu pedido seja satisfeito, pensar em exami­
Pausa momentânea e profunda! Vedei Monseigneur d'Orléans levanta- nar o édito protestante mas adia sucessivamente isso "até daqui a uma
se; e com a cara de lua cheia virada para a plataforma real, pergunta, semana"1.
com uma delicada graciosidade de maneiras a ocultar indizíveis coisas: Nesta tensão objurgatória, Paris e a França secundam-no, ou antes
"Se isto é então um leito de justiça ou uma sessão real?" Olhares de
precederam-no, em tremendos coros. E agora também os outros parla­
fogo incidem sobre êle, do trono e vizinhanças; e a resposta áspera
mentos, abrindo por fim suas bocas, começam a secundar; alguns deles,
de que "é uma sessão"! Nesse caso, Monseigneur pede licença para
como em Grenoble e em Rennes, com ênfase portentosa — ameaçando,
observar que os éditos não podem ser registrados por ordem numa
sessão; e para lavrar, contra tal registro, o seu protesto humilde e por represália, de interditar o próprio coletor de impostos2. "Em todas
individual. "Vous êtes bien le maitre", (Sois vós quem manda) res- as questões anteriores", como Malesherbes observa, "era o parlamento
ponde-lhe o rei; e em seguida, marcha para fora, escoltado pela sua que" excitava o público; mas agora é o público que excita o parlamento".
comitiva, com o próprio D'Orléans, como de etiqueta, a escoltá-lo, mas
1 Bcscnval, III. 809.
só até ao portão. Feita esta obrigação, D'Orléans regressa do portão, 2 Weber, I 266.
redige o seu protesto, em frente dum parlamento aplaudente e de uma
aplaudente França. Foi assim que êle cortou as suas amarras com a
corte, lançando-se à deriva, rapidamente, em direção ao caos.

Tu, insensato D'Orléans; Égalité que estás para ser! Tornou-se a


realeza um mero espantalho, sobre o qual tu, atrevido corvo de cabeça
esquentada, possas descer quando queiras picar? Não ainda totalmente.
Morellet fazer; um Rivarol, um desregrado Linguet (bem pagos para
isso) — a esguichar frio!
Agora, por fim, chega a discussão do édito protestante; mas somente
Capitulo Vil
para nova confusão; em panfletos e contra panfletos, aumentando a
DESTRUIÇÃO MÚTUA loucura dos homens. A própria ortodoxia, prostrada como parecia,
tem um representante nesta discórdia. Ela, de novo, na pessoa do Abbé
Que França, nestes meses de inverno do ano de 1787! O próprio Lenfant, "a quem os prelados visitam e congratulam" — faz-se ouvir
Oeil-de-Boeuf está lúgubre, incerto; com um sentimento geral, entre da sua trombeta do púlpito 1 . Ou observai como D'Espréménil, que
os suprimidos, de que era melhor viver na Turquia. Os cães de lobo em todas as coisas tem o seu modo confuso, tira, no momento próprio
da sua arenga parlamentar, um crucifixo do bolso, com a apóstrofe:
estão suprimidos e os de urso também; e o Duque de Coigny e o
"Quereis crucificá-lo outra vez?" A êle, ó D'Espréménil, sem escrúpulo
Duque de Polignac. No pequeno céu do Trianon, a rainha, numa
noite, toma o braço de Besenval e pede-lhe a sua cândida opinião. O — considerando de que material pobre, de marfim e filigrana, êle é feito!
intrépido Besenval — não tendo, como êle pensa, nada de sicofanta A tudo isto acrescentai somente que o pobre Brienne caiu doente;
em si — singularmente lhe declara que, com um parlamento em rebelião tão grande foi a dissipação da sua mocidade pecaminosa, e tão violenta
e um Oeil-de-Boeuf em supressão, a coroa do rei está em perigo; após e incessante é esta agitação da sua velhice insensata. Atormentado,
perseguido com ladridos de tantas gargantas, Sua Eminência, exausto,
o que, coisa singular. Sua Majestade, como que magoada, mudou de
inflamativo (com humeur de dartre) está reduzido a dieta de leite; em
assunto, et ne me parla plus de rim!1.
exasperação, quase em desesperação; com "repouso", precisamente a
A quem, pois, pode de fato falar esta pobre rainha I Em precisão receita impossível, prescrito como indispensável 2 .
de sábio conselho, como nunca nenhum mortal esteve; contudo blo­ Afinal, que pode um pobre governo fazer, senão mais uma vez recuar
queada aqui apenas pela algazarra do caos! A sua habitação brilha ingloriamente? O tesouro do rei está quase chegando às fezes; e Paris
tanto aos olhos, mas a confusão e a negra inquietação obscurecem tudo. "redemoinha num dilúvio de panfletos". De qualquer forma, é preciso
Pesares da soberana, pesares da mulher, pesares sempre a crescer, cada que estes abrandem um pouco! D'Orléans regressa para Raincy, que
vez a envolvem mais. Lamotte, a condessa do colar, fugiu nestes últi­ fica mais perto de Paris e da sua bela e leviana Buffon; e finalmente
mos meses, ou talvez a deixassem fugir, da Salpêtrière. A Lamotte, até para Paris; nem Fréteau e Sabatier estão banidos para sempre. O
com um V (por Voleuse, ladra) marcado cm ambos os ombros, chegou édito protestante é registrado, com júbilo de Boissy d'Anglas e do bom
à Inglaterra; e dali emitirá mentira sobre mentira; profanando o mais Malesherbes; o empréstimo sucessivo, com todos os protestos expun-
alto nome de rainha: meras mentiras desordenadas 2 , nas quais, no seu gidos ou retirados, continua aberto, sem que poucos ou nenhuns o
presente humor, a França avidamente acredita. venham subscrever. Os Estados Gerais, pelos quais o parlamento cla­
mou e agora toda a nação clama, seguir-se-ão "dentro de cinco anos"
Quanto ao mais, é demasiado evidente que o nosso empréstimo su­ — se não fôr, com efeito, mais cedo. Ó parlamento de Paris, que clamor
cessivo não se coloca; pois na verdade, em tais circunstâncias, um foi esse! "Messieurs", disse o velho D'Ormesson, "vós obtereis os Esta­
empréstimo registrado com a expunção de protestos não é provável dos Gerais e arrepender-vos-eis disso". Como o cavalo da Fábula que,
que se coloque. A denúncia das Lettres-de-Cachet, do despotismo em para se vingar do seu inimigo, chamou o homem; o Homem montou-o;
geral, não abranda: os doze parlamentos estão ativos; e os mil e du­ executou rapidamente o inimigo; mas, infelizmente, não quis desmon-
zentos pasquineiros, cantores de baladas e panfletários. Paris está aquilo tar-se! Em lugar de cinco anos, deixai passar três anos, e este clamoroso
que, em linguagem figurada, chamam "inundada de panfletos (regórgé parlamento não só verá o seu inimigo lançado por terra, mas êle pró­
de brochures)"; inundada e sempre a refluir. Dilúvio quente — pro­ prio será cavalgado até ao esgotamento (ou antes, jugulado de pés e
duzido por tantos patriotas escritores, todos no ponto férvido ou de mãos) e arremessado morto na vala.
ebulição; cada escritor, agora na hora da erupção, parecendo um jacto
de um gêiser islandês! Contra isso que pode um judicioso Amigo Sob tais agouros chegamos, porém à primavera de 1788. Por vereda
nenhuma o governo do rei procura passagem para si próprio, sem
1 Besenval, III. 264.
2 Mémoires juuifieatlfi de la Comlcuc de I.amolle (Londres, 1788). Vlc de Jeanne de St. 1 Lacretelle, III. 845. Montgalllard, etc.
Remi^Comtesse de I.amolle, etc. — Vid. Colar de Diamantes (ti/ supra). 2 Besenval, III, 317.
91 O PARLAMENTO DE PARIS DESTRUIÇÃO MÚTUA 98
que seja por toda a parte vergonhosamente rechaçado. Sitiado por à mão, reuni-vos para outra luta. Domar o parlamento, encher os
doze parlamentos rebeldes, que se tornaram os órgãos de uma nação cofres do rei: estas são agora questões de vida ou de morte.
irada, não pode avançar para parte nenhuma; nada pode realizar e Os parlamentos têm sido domados, mais que uma vez. Colocado
nada obter, nem mesmo dinheiro para subsistir; mas tem de perma­ "em picos de rochas escarpadas, onde se não pode chegar senão de
necer no seu assento, naturalmente para ser tragado pelo deficit. liteira", um parlamento torna-se razoável. Ó Maupeou, tu homem atre­
A medida da iniquidade e portanto da falsidade, que se tem estado vido e mau, melhor fora que deixássemos o teu trabalho como o
acumulando durante longos séculos, estará quase cheia? Pelo menos, fizeste! Mas à parte do exílio ou de outros métodos violentos, não
a da miséria está! Das cavernas dos vinte e cinco milhões, a miséria, haverá um método, pelo qual todas as coisas se domam, até os leões?
abrindo caminho para cima e para diante, como é sua lei, já chegou O método da fome! O que, se os rendimentos do parlamento fossem
— até ao próprio Oeil-de-Boeuf de Versalhes. A mão do homem, neste cortados; a saber as suas causas!
sofrimento cego, põe-se contra o homem: não só o baixo contra o Podiam ser criados tribunais menores, para o julgamento de inume­
mais alto, mas também os mais altos uns contra os outros; a Nobreza ráveis causas menores: podíamos chamar-lhes Grands Bailliages. Para
provincial está acirrada contra a Nobreza da corte; a toga, contra a eles, o parlamento, cerceado da sua presa, olharia com desespero ama­
espada; a sobrepeliz, contra a pena. Mas contra o governo do rei, relo; mas o público, amigo da justiça barata, com favor e esperança.
quem não está acirrado? Nem mesmo Besenval, nestes dias. Desse go­ E quanto às finanças, para registro dos éditos, por que não fazer dos
verno todos os homens e corporações de homens se tornaram como nossos dignitários do Oeil-de-Boeuf, dos nossos príncipes, duques, ma­
que inimigos; é o centro sobre o qual infinitas contenções se unem e rechais, uma coisa a que poderíamos chamar Corte Plenária; e ali,
estrondeiam. Que novo, universal e vertiginoso movimento é este; de por assim dizer, fazermos nós próprios os registros? S. Luís tinha a
instituições, arranjos sociais, espíritos individuais, que outrora traba­ sua'corte plenária, dos grandes barões 1 ; muito útil para êle: os nossos
lharam cooperantemente, e que agora se chocam e se ferem em alu­ grandes barões ainda estão aqui (pelo menos o nome deles ainda está
cinada colisão? Fato?inevitável: é a liquidação de um solecismo do aqui); e a nossa necessidade é maior do que a dele.
mundo, consumido afinal> até resvalar na bancarrota do dinheirol E Tal é o plano Loménie-Lamoignon; saudado no conselho do rei,
assim, esta pobre corte de Versalhes, como o solecismo primário ou como um raio de luz em grande escuridão. O plano parece exequível
central, encontra todos os outros solecismos em linha de batalha contra e é iminentemente necessário: se fôr bem executado, os benefícios serão
ela. Acontecimento natural, porque o vosso solecismo humano, seja enormes. Silêncio, pois, e firmeza; ou agora ou nunca! O mundo assis­
êle pessoa ou combinação de pessoas, é sempre, pela lei da natureza, tirá a outra cena histórica; e um homem tão singular como Loménie
inquieto; se descamba para a bancarrota, é até miserável: e como de Brienne ainda como contra-regra.
consentiria o solecismo mais baixo em se recriminar ou se corrigir a Contemplai, pois, um secretário do interior Bréteuil "embelezando
si próprio, enquanto houvesse outro para corrigir? Paris", da maneira mais pacífica, neste esperançoso tempo de Prima­
Estes sinais ameaçadores não aterrorizam Loménie e muito menos vera de 1788; as antigas cavernas e mansardas desaparecem das nossas
o ensinam. Loménie, apesar da sua natureza jovial, não está sem certa pontes; como se para o Estado houvesse também tempo alciônico e
coragem. Não temos nós ouvido falar de criaturas ainda mais joviais, nada que fazer senão embelezar. O parlamento parece estar reconhe­
de canários treinados, que voam alegremente com mechas acesas, e cidamente vitorioso. Brienne nada diz de finanças; ou até diz e manda
disparam canhões, deitando fogo até a grandes paióis de pólvora? Estar imprimir que corre tudo bem. Como isto é tão tranquilamente ocioso
no governo para morrer do deficit não faz parte do plano de Loménie. apesar de o empréstimo sucessivo se não preencher? Num vito­
O mal é considerável; mas não poderá êle removê-lo, não poderá rioso parlamento, o conselheiro Goeslard de Monsabert até denuncia
atacá-lo? Pelo menos, pode atacar o sintoma dele: pode atacar estes aquela "coleta da segunda vintena sob estrita avaliação" e consegue
parlamentos rebeldes, e talvez removê-los. Muita coisa é obscura para que se decrete que a avaliação não será estrita — quanto às classes
Loménie, mas duas coisas são claras: que tal duelo parlamentar com privilegiadas. Não obstante, Brienne sofre tudo, sem arremeter com
a realeza está-se tornando perigoso e mesmo mutuamente destrutivo; Lettres-de-Cachet. Que se passa então?
e acima de tudo, que precisa de arranjar dinheiro. Pensa bem, bravo Risonho é um tal tempo vernal; mas traiçoeiro, de repente! Por
Loménie e tu guardaselos Lamoignon, que tens ideias! Tantas vezes . exemplo: ouvimos murmurar que "os intendentes da província rece-
derrotados, frustrados cruelmente, quando o fruto de ouro parecia estar
1 Monlgaillard, I. 405.


96 O PARLAMENTO DE PARIS
beram todos ordem de estar nos seus postos, num certo dia". E ainda
mais singular: que é que se imprime incessantemente no Château do
rei, à porta fechada a chave? Sentinelas ocupam todos os postos e
janelas; os tipógrafos não podem sair; dormem nas suas oficinas; o
seu próprio alimento é-lhes entregue dentro! 1 Um vitorioso parlamento
fareja novo perigo. DEspréménil monta a cavalo até Versalhes; ronda
em volta da tipografia guardada; espiando, espevitando, tanto quanto
o engenho e a sagacidade de um homem o pode fazer.
Mas com uma mancheia de ouro, -desvenda-se a maioria das coisas.
D'Espréménil desce até ao regaço da Danaé de um tipógrafo, na forma
de "quinhentos luises de ouro". O marido da Danaê contrabandeira
uma bola de barro para fora, que ela entrega ao áureo conselheiro do
parlamento. Amassadas dentro dela, havia provas tipográficas: por
Deus! o édito real da mesma carte plenária de registro próprio; o
daqueles Grandes Bailliages que nos cortarão os nossos processos! Que
devem ser promulgados em França num único e mesmo dia.
É para isto então que os intendentes foram mandados esperar em
seus postos; é isto o que a corte esteve a chocar: o seu maldito ôvo
de cocadriz; e sem se mexer, apesar de provocada, enquanto a ninhada
não saísse! Depressa com isso, ó D'Espréménil, para Paris; convoca
instantaneamente uma sessão. Que o parlamento, que a terra e os
céus saibam tudo! \

Capitulo FUI

A AGONIA DE LOMÉNIE

No dia seguinte, que é o 3 de maio de 1788, o parlamento, surpreso,


reúne-se sob convocação; escuta silencioso o discurso de D'Espréménil,
desenrolando a enorme trapaça. Autêntico ato de traição, de obscuri­
dade satânica, tal como é a prática do despotismo! Denuncia isso, ó
parlamento de Paris; desperta a França e o universo; faz retumbar os
trovões teatrais da eloquência forense que tu possuis. Para ti, ou
agora ou nunca.
O parlamento não se desmente a si mesmo, em tal conjuntura. Na
hora do seu extremo perigo, o leão excita-se primeiro a si próprio,
rugindo e açoitando os flancos. É como procede o parlamento de
Paris. Sob moção de D'Espréménil, faz-se um juramento muito pa­
triótico, de um por todos e todos por um, com todas as gargantas
unidas; — uma excelente ideia nova, que, nestes anos vindouros, não
deixará de ser imitada. A seguir, vem uma ousada declaração, quase

1 Wcber, I. 2Í«.
inm— ■"■' —..—"-

A AGONIA DE LOMÉNIE 97

dos direitos do homem, pelo menos dos direitos do parlamento; uma


invocação a todos os amigos da liberdade francesa, nos tempos pre­
sentes e futuros. T u d o isto, ou a essência disto, é trazido para o papel,
num tom em que um pouco de queixume se mistura com o valor
heróico, para o temperar. E assim, tendo soado o sino de alarma — que
Paris ouve, que toda a França ouvirá; e lançando um tal desafio à
cara de Loménie e do despotismo, o parlamento retira-se depois de
um bom dia de trabalho.
Mas o que Loménie sentiu, ao ver o seu ôvo de cocadiz (tão essen­
cial para a salvação da França) quebrado desta maneira prematura,
imaginem-no os leitores! Indignado, agarra-se aos seus raios (de Cachet
do selo); e emite dois deles: um raio para D'Espréménil; outro raio
para aquele ativo Goeslard, cujo serviço na segunda vintena e "estrita
avaliação" não é esquecido. Tais raios, preparados prontamente de
noite e emitidos com a nova madrugada, cairão sobre o agitado Paris,
produzindo, senão intimidação, pelo menos, estupefação geral.
Os raios ministeriais podem ser emitidos; mas se não ferem? D'Es-
préménil e Goeslard, avisados, ambos eles, como se pensa, pelo canto
de algum pássaro amigo, logram os oficiais de justiça de Loménie e
escapam-se disfarçados, através de águas furtadas, de telhados, para o
seu próprio Palais de Justice: os raios não atingiram o alvo. Paris
(porque o zumbido voa para fora) fica varado de pasmo pouco pro­
metedor. Os dois mártires da liberdade despem seus disfarces; enver­
gam as suas longas togas; e no espaço de uma hora, com a ajuda de
meirinhos e de corredores velozes, vêdel O parlamento reúne-se de
novo com os seus conselheiros, presidentes e até pares. O parlamento
reunido declara que estes seus dois mártires não podem ser entregues
a qualquer autoridade sublunar; além disso que ficam em sessão perma­
nente, sem nenhum adiamento, até que a perseguição tenha cessado.
E assim, com eloquência forense, denúncia e protesto, com os cor­
reios a ir e a voltar, o parlamento, neste estado de explosão contínua
que não cessa de dia nem de noite, aguarda o resultado. A exacer­
bada Paris mais uma vez inunda esses pátios exteriores; referve, em
torrentes mais bravias que nunca, através de todas as vias. Soa uma
algazarra dissonante; jargão como o de Babel, na hora em que a
humanidade foi confundida com mútua ininteligência (como aqui) e
uinda se não havia dispersado!
A cidade de Paris atravessa normalmente as suas épocas diurnas de
trabalho e sono; de noite, a maior parte dos mortais do mundo dor­
mem. Mas aqui, neste redemoinho de palavras, não há sono; em vão
te lança a sua cobertura de escuridão sobre o parlamento. Den-
siioa a voz do martírio invencível, temperada com certo tom de
ume. Fora, há um zumbido infinito de expectativa, um pouco
iii ii. In ando. E assim isso durou trinta e seis horas.

Ilil Hllt. Rtv, francna


98 O PARLAMENTO DE PARIS A AGONIA DE LOMÉNIE 99
Mas escutai! Pela caladl da noite, que tropel é este? Tropel como nas suas cadeiras curuis, de semblante orgulhoso e sereno, aguardando
de homens armados, de infantaria e cavalaria: Gardes Françaises, Gar- a escravidão ou a morte. Tal é o espetáculo sublime que vós, nesta
des Suisses, marchando para aqui em silente regularidade, à luz de hora, ofereceis ao universo (à 1'univers), depois de terdes generosa­
archotes! É o Capitão D'Agoust, despachado de Versalhes; homem de mente" — e assim por diante, como ainda se pode ler 1 .
conhecida firmeza, que uma vez forçou o próprio Príncipe de Conde, Em vão, ó D'Espréménil! Eis de volta este capitão fundido de ferro.
apenas fiiando-o insistentemente, a dar-lhe satisfação e a lutar 1 . Ê êle Despotismo, constrição, destruição bailam nas plumas do seu capa­
que agora, com machado e archotes, está avançando para o próprio cete. D'Espréménil tem de se calar, de heroicamente se entregar, para
santuário da justiça. Ato sacrílego; mas donde poderá vir o auxílio? que não aconteça pior. Goeslard heroicamente o imita. Com emoção
O homem é soldado; .cinge-se apenas às ordens que lhe deram; impas­ muda e falada, eles lançam-se nos braços dos seus irmãos parlamen­
sível, move-se para a frente como uma máquina inanimada.
tares, para um abraço final; e assim, entre lamentações e aplausos de
As portas abrem-se à intimação, não são precisos os machados; porta cento e sessenta e cinco gargantas; entre soluços e despedidas, toda
após porta. E agora escancara-se a porta interior, desvelando os se­ uma floresta de suspiros dos pathos parlamentares — eles são levados
nadores de longa toga, da França: cento e sessenta e sete ao todo, através dos corredores para o portão da retaguarda; onde, ao cre­
dezessete deles pares, ali sentados, majestosos, "em sessão permanente". púsculo da manhã, dois coches com sargentos de cavalaria estão de
Se o homem não fosse militar, fundido de ferro, este espetáculo, este lado à espera. Para eles, têm de subir as vítimas, com as baionetas
silêncio que reecoava o estridor das suas próprias botas, talvez que
por detrás, em ameaça. A pergunta crua de D'Espréménil à populaça,
o fizessem vacilar! Porque os cento e sessenta e sete recebem-no em
"Se eles têm coragem?" é respondida pelo silêncio. Sobem e rodam;
perfeito silêncio; que alguns comparam ao do senado romano sur­
e nem o nascer do sol de maio (é às 6 da manhã) nem o seu poente
preendido por Breno; e outros, a um antro de moedeiros falsos sur­
preendidos pela polícia2. Messieurs, disse D'Agoust, De par le Roi! lhes alegram o coração, pois continuam a rodar para diante; D'Es-
O capitão vem com ordem expressa e tem de cumprir a triste obri­ préménil para as distantes ilhas de Sainte Marguerite, ou Hières (que
gação de prender dois indivíduos: M. Duval d'Espréménil e M. Goes- alguns supõem, se isso é de algum consolo, ser a ilha de Calipso);
lard de Monsabert. Os quais respectivos indivíduos, como .não tem Goeslard para a fortaleza terrestre de Pierre-en-Cize, então existente,
a honra de os conhecer, são por este meio convidados, em nome do perto da cidade de Lião.
rei, a entregarem-se. Profundo silêncio! Zumbido que cresce até um O Capitão D'Agoust pode agora antecipar uma promoção a major,
murmúrio: "Nós somos todos DTspréménilsl" aventura uma voz, que no comando das Tulherias 2 , — e com isto desaparecer da História;
outras vozes repetem. O presidente inquire, se êle empregará violên­ onde, contudo, lhe foi destinada uma tarefa notável. Porque não são
cia? O Capitão D'Agoust, honrado com a comissão de Sua Majestade, somente D'Espréménil e Goeslard que estão redemoinhando para o
tem de executar a ordem de Sua Majestade; preferia de bom grado sul, mas o próprio parlamento tem de marchar imediatamente para
fazê-lo sem violência, mas de qualquer modo tem de executá-la; con­ fora do seu recinto: a inexorável ordem atinge-o em cheio. Arrega­
cede ao augusto senado espaço para deliberar que método eles pre­ çando as suas longas togas, os parlamentares desfilam, todos os cento
ferem. Após o que, D'Agoust, com grave cortesia militar, se retira e sessenta e cinco, através de duas linhas de granadeiros não simpati­
zantes: espetáculo para os deuses e para os homens. O povo não se
pelo momento.
revolta; apenas pasmam e rosnam: também, nós notamos que estes
De que serve isso, augustos senadores? Todas as vias estão cercadas
granadeiros não simpatizantes são Gardes Françaises — que, um dia,
por baionetas fixas. O nosso correio galopa para Versalhes, através
litnpatizarãol Numa palavra, o Palais de Justice é varrido inteira­
da noite orvalhada; mas também galopa de regresso com a notícia de
que a ordem é autêntica, irrevogável. Nos pátios exteriores, pulula mente, as suas portas fechadas; e D'Agoust regressa a Versalhes com
uma população ociosa e inconformada; mas as filas dos granadeiros H chave na algibeira — tendo, como disse, merecido promoção.
de D'Agoust especam-se ali como comportas imóveis; não haverá re­ Quanto ao parlamento de Paris, agora posto na rua, nós, sem re-
volta para os libertar. "Messieurs!" assim falou D'Espréménil, "quando IttlAncia, deixá-lo-emos ali. Os leitos de justiça que êle teve de sofrer,
os gauleses vitoriosos entraram em Roma, que tinham tomado de nu ijiiinzena seguinte, em Versalhes, registrando, ou antes, recusando-se
assalto, os senadores romanos, revestidos da sua púrpura, sentaram-se a registrar, esses recém-chocados éditos; e como se reuniu em restau-

1 Webcr, I. 285.
2 Bcwnval, III. 555. 1 '1'iHiliuiiiron, I. App. 20.
M-iiiuJilllunl, I. 404.
100 O PARLAMENTO DE PARIS A AGONIA DE LOMÉNIE 101

rantes e armazéns para o fim de protestar 1 ; ou pairou desconsolado, até com fuzis — sem que a soldadesca (sinal dos mais ominosos) mostre
de togas soltas, sem saber onde se reunir; até ficar reduzido a formu­ vontade de lutar: "Com o machado sobre a cabeça", o pobre general
lar um protesto, "com um notário"; e no fim de tudo a ficar quieto tem de assinar uma capitulação; comprometer-se a que aquelas Lettres-
(como numa espécie de "férias" forçadas) e a não fazer nada: tudo de-Cachet fiquem sem execução e que o amado parlamento perma­
isto, natural agora, como o enterramento dos mortos depois da ba­ neça onde está. Besançon, Dijon, Ruão, Bordéus não se mostram como
talha, não nos interessará. O parlamento de Paris desempenhou, por deviam! Em Pau, no Bearn, onde o antigo comandante havia fra­
assim dizer, o seu papel; fazendo e desfazendo, até ao limite, mas cassado, ao encontro do novo (um Grammont, nativo dali) sai-lhe uma
não mais, em que êle podia agitar o mundo. procissão de homens da cidade com o berço de Henrique Quarto, o
Paládio da cidade; e conjuram-no, se êle venera esta concha velha
Loménie removeu então o mal? De maneira nenhuma; nem tanto de tartaruga, na qual o grande Henrique foi embalado, a não calcar
como o sintoma do mal; apenas a duodécima parte do sintoma, exas­ aos pés a liberdade bearnesa; e informam-no, além disso, que os ca­
perando as outras onze partes! Os intendentes das províncias, os co­ nhões de Sua Majestade estão todos a salvo — sob a guarda dos fiéis
mandos militares estão nos seus postos, no designado dia 8 de maio; burgueses de Sua Majestade em Pau, e estão agora apontados sobre
mas em nenhum parlamento, se não no único de Douai, estes éditos as muralhas, prontos para o combate 1 .
podem ser registrados. Não assinatura pacífica com tinta; mas atitu­ Desta forma, as vossas Grands Bailliages estão fadadas a ter uma
des arrogantes, derramamento de sangue, apelo para a lei primária infância tormentosa. Quanto à corte plenária, essa expirou literalmente
da força popularl Contra estas Bailliages, contra esta corte plenária, ao nascer. Os próprios cortesãos olharam desconfiados para ela; o ve­
a exasperada Têmis por toda a parte mostra o sobrecenho bélico: a lho Marechal de Broglie recusou a honra de ser seu membro. Assal­
nobreza provincial é do seu partido, e todo aquele que odeia Loménie e tada por uma tempestade universal de ridículo e de execração2, esta
o tempo calamitoso. Com os seus procuradores e meirinhos, ela alista pobre corte plenária reuniu-se uma vez, e nunca uma segunda vez.
e manobra, descendo até à populaça. Em Rennes, na Bretanha, onde Perturbado país! A discórdia assobia estrldulamente, cora línguas bi­
o histórico Bertrand de Moleville é intendente, depois de duelos con­ furcadas de hidra, por toda a parte onde Loménie põe os pés. "Logo
tínuos e mortíferos entre militares e burgueses, passou-se para o com­ que um comandante, um comissário do rei", diz Weber, "entra num
bate nas ruas; para descargas de pedra e de tiros de mosquete: e desses parlamentos para mandar registrar um édito, todo o tribunal
contudo, os éditos permanecem não registrados. Os atribulados bre­ desaparece, deixando o comandante sozinho com o escrivão e o pri­
tões mandam uma representação a Loménie, com uma deputação de meiro presidente. Registrado o édito e saído o comandante, todo o
doze; os quais Loménie, depois de ouvir, fecha a ferros na Bastilha. tribunal regressa para declarar que tal registro é nulo. As estradas
Uma segunda e maior deputação êle encontra, por meio dos seus vi­ reais estão cobertas de Grandes Députations de parlamentos, a ca­
gias, na estrada, e ou os persuade ou os assusta a voltarem para trás. minho de Versalhes, para que o rei expunja os seus registros por sua
Mas agora uma terceira e ainda maior deputação é, com indignação, mão; ou, ao voltar para casa, para encher uma nova página com uma
enviada por muitas estradas: sendo-lhe recusada audiência ao chegar, nova resolução ainda mais audaciosa" 3 .
reúne-se para deliberar; convida Lafayette e todos os patriotas bretões
em Paris a assistir; agita-se e converte-se no Clube Bretão, primeiro Tal é a França deste ano de 1788. Agora, já não uma Idade da
germe da — Sociedade dos Jacobinos2. Esperança, de Ouro ou de Papel, com as suas' corridas de cavalos,
voos de balões e as mais finas sensibilidades d o coração: ah, isso foi-se;
Tantos como oito parlamentos são exilados 3 : outros podem neces­ a sua fulgência dourada empanou-se, escureceu-se desta maneira sin­
sitar desse remédio, mas não é receita sempre fácil de aplicar. Em gular — levedando em tempo preternatural! Porque, como naquela
Grenoblc, por exemplo, onde um Mounier, um Barnave não têm es­ tempestade de Paul et Virginie, de Saint Pierre — "Uma enorme nu­
tado ociosos, o parlamento teve ordem expressa (por Lettres-de-Cachet) vem imóvel (por exemplo, de dor e indignação) circunda todo o hori­
de partir e de se exilar: mas no dia seguinte, em lugar de coches zonte; estende-se desgrenhada como uma massa de algodão, orlada de
escoltados, o sino de alarma repica forte, fatídico; e badala fragoro-
samente todo o dia: bandos de montanheses descem, com machados, I Bninval, III. 348.

1 Wcbcr, I, 299-501
2 A. F. <lr Bertrand-Molcvllle, Mémolreu Pirtlftillen (Parli, 1816), I. eh. I. Mannontel,
Mémoirc», IV. 27.
3 Monlgalllard, I. SOS.
102 O PARLAMENTO DE PARIS A AGONIA DE LOMÉNIE 103

cobre, sobre um céu côr de chumbo". Apesar de continuar imóvel, adiados. Além disso, como Loménie não tem plano para formar ou
partem dela "pequenas nuvens (como os parlamentos exilados e coisas dirigir estes mui desejáveis Estados Gerais, "são convidados pensado­
parecidas) que voam através do zénite com a velocidade de pássaros", res" para lhe fornecer um — por meio de discussão na imprensa pública!
até que por fim, com um grande rugido, todos os quatro ventos se Que podia um pobre ministro fazer? Ainda há dez meses de espera
desencadeiam e todo o mundo exclama: Eis o furacão! Tout le mond em reserva: um piloto em perigo de se afundar jogará fora todas as
s'écria, Voild 1'ouragan! coisas, as suas caixas de biscoitos, a sonda, a barquilha, a bússola e
o quadrante, antes de se jogar êle próprio. É sob este princípio, o
Quanto ao mais, em tais circunstâncias, o empréstimo sucessivo, de afundamento, e pelo incipiente delírio do desespero, que nós expli­
muito naturalmente, permanece não preenchido; e esse imposto da camos o quase miraculoso "convite aos pensadores". Convite ao caos
segunda vintena, pelo menos não sob "estrita avaliação", também não para ter a bondade de construir, desta tumultuosa madeira à deriva,
pode ser cobrado com efeito útil. "Os emprestadores", diz Weber, na uma arca de salvação para êle! Nestes casos, não é um convite, mas
sua veemente maneira histérica, "têm medo da ruína; os coletores de um comando que geralmente pode servir para alguma coisa. A rainha
impostos de serem enforcados". O próprio Clero vira as costas: con­ debruça-se essa noite, pensativa, numa janela, com o rosto virado para
vocados em assembleia extraordinária, não concedem dom gratuito o jardim. O Chef de Gobelet tinha-a seguido com uma obsequiosa
(don gratuit) — senão o do conselho; e em vez de dinheiro, clamam chávena de café; retirando-se enquanto ela bebia. Sua Majestade fêz
pelos Estados Gerais 1 . sinal à Dame Campan para que se aproximasse: "Grand Dieu!" mur­
Ó Loménie de Brienne, com o teu pobre espírito enfermo todo mura ela, com a chávena na mão, "que montão de notícias vão ser
perplexo, e agora "três cautérios" no teu corpo gasto; que estás quase tornadas públicas hoje! O rei concede os Estados Gerais". Depois
a morrer de inflamação, provocação, dieta láctea, dar três vives e ma- erguendo os olhos para o céu (se Campan se não engana) acrescentou:
ladie — (melhor não traduzir) 2 ; e a presidires a uma França com inu­ "É um primeiro rufar de tambor, de mau agouro para a França. Esta
meráveis "cautérios", que também está a morrer de inflamação e do Nobreza há de arruinar-nos" 1 .
resto! Terias feito bem em deixares os bosques verdes de Brienne e
Durante toda aquela incubação da corte plenária, em cujo período
o teu novo castelo em silharia e o que êle continha, por isto? Suaves
Lamoignon parecia tão misterioso, Besenval de vez em quando fazia-
eram aquelas sombras e prados; doces os hinos dos poetastros, as ca­
lhe uma pergunta: se eles tinham dinheiro? E ao dizer-lhe Lamoignon
rícias das Graças muito pintadas 3 : e sempre este e outro filósofo Mo-
(sob a fé de Loménie) que o dinheiro estava garantido, o judicioso
rellet (não se julgando a si próprio nem a ti um falso e duvidoso
Besenval replicava que então tudo estava garantido. Não obstante, o
padre) se podia julgar feliz em fazer os outros felizes: e também (se
fato melancólico é que os cofres reais estão ficando quase literalmente
tu o tivesses sabido!) na Escola Militar perto, aí se sentava, estudando
vazios. Com efeito, além de outras coisas, este "convite aos pensadores"
matemática, um rapaz moreno e taciturno, com o nome de Napoleão
e a grande mudança agora próxima bastam para "deter a circulação
Bonaparte! Com cinquenta anos de esforço e uma luta final de fazer
do capital" e incrementar apenas a dos panfletos. Alguns milhares
levantar os mortos, que mudança fizeste! T u envergaste as vestes do
de luíses de ouro são agora todo o dinheiro ou tudo o que vale di­
teu cargo como Hércules a sua túnica de Nesso. No dia 13 de julho
nheiro que resta no tesouro do rei. Com um novo movimento de
de 1788, desabou, mesmo às portas da colheita, a mais tremenda sa­
desespero, Loménie convida Necker para intendente das finanças! Ne-
raivada; destruindo quase completamente os frutos do ano; que já
cker tem mais que fazer que gerir as finanças para Loménie: com
de outro modo tinham sofrido com a seca. Em sessenta léguas ao
uma recusa seca fica taciturno, aguardando a sua vez.
redor de Paris especialmente, a ruína foi quase total 4 . A tantas outras
desgraças tem de se acrescentar esta da carestia, talvez da fome. Que fará um desesperado primeiro ministro? Apodera-se da caixa
forte do teatro do rei; tinha-se posto a correr uma loteria em bene­
Alguns dias antes desta saraivada, em 5 de julho, e ainda mais deci­ fício dos sinistrados da saraivada; na sua extrema necessidade, Lo­
didamente alguns dias depois dessa data, a 8 de agosto — Loménie ménie também põe a mão neste fundos2. Em breve se tornará impos-
anuncia que os Estados Gerais se devem reunir no seguinte mês de ilvel, de qualquer modo, prover aos gastos correntes do dia. A 16 de
maio. E até este período, isto de corte plenária e tudo o mais, ficarão iigósto, o pobre Weber ouviu, em Paris e Versalhes, pregoeiros, "de
urda, abafada" (voix étouffée, sourdé), balbuciando em tom fa-
1 I.aimih, A»v inli. CÍIIUC. (Introcl.) |>. 87.
•I Monlgaillarcl, 1. « 4 .
3 TU. Mémolrei <le Morellrt. I i impmi, III. 104. 111.
4 Marmonlel, IV. J0. II. ItMrnval, III. J60.
104 O PARLAMENTO DE PARIS ENTERRO COM FOGO DE ARTIFICIO 103

nhoso, através das ruas, um édito respeitante a pagamentos (tal foi ministro, Cardeal Arcebispo Loménie de Brienne! Mortal mais fútil
o título brando que Rivarol arranjou para isso): todos os pagamentos raras vezes foi fadado para fazer tão formidável dano; para ter uma
do tesouro real serão doravante efetuados, três quintos em dinheiro vida tão desprezlvelmente cobiçosa, uma morte tão terrível. Inflamado,
como se deve justamente dizer, de ambição: soprado, como um trapo
e os restantes dois quintos — em papel a vencer juros! O pobre Weber
ardido, à mercê dos ventos, não para este lado, não para aquele lado,
quase desmaiou ao som destas palavras arrastadas, com o seu pressago
mas de todos os lados, em linha reta até uma certa mina de pólvora
tom crocitante; e nunca esquecerá o efeito que sentiu 1 .
que êle incendiou! Lamentemos o infeliz Loménie e perdoemos-lhe;
Mas a impressão sobre Paris, sobre o mundo em geral? Das cavernas e, tanto quanto possível, esqueçamo-lo.
da agiotagem, das eminências da Economia Política, do neckerismo e
do filosofismo; de todas as gargantas articuladas e inarticuladas se
erguem gritos e rugidos, tais como os ouvidos nunca tinham ouvido.
Pode rebentar uma sedição de um momento para o outro! Monseig-
neur d'Artois, influenciado pela Duquesa de Polignac, sente-se obri­ Capitulo IX
gado a procurar a rainha e a explicar-lhe francamente o aspecto
E N T E R R O COM FOGO DE ARTIFÍCIO
da crise.
"A soberana chorou"; o próprio Brienne chorou; porque é agora Besenval, durante estas operações extraordinárias, do pagamento de
visível e palpável que tem de sair. dois quintos em papel e da demissão do primeiro ministro, tinha
Resta-lhe a consolação de que a corte, a quem as suas maneiras e estado de visita à sua circunscrição de comando; e até, nos últimos
garrulices foram sempre agradáveis, lhe tornará branda a queda. O meses, a beber pacificamente as águas de Contrexéville. Regressando
ambicioso ancião já conseguiu que lhe trocassem o seu arcebispado agora, no fim de agosto, em direção a Moulins, e "sem saber nada",
de Tolosa pelo mais rendqso de Sens: e agora, nesta hora de piedade, chega uma noite a Langres; encontra toda a cidade alvoroçada (en
terá um lugar de coadjutor para seu sobrinho (ainda sem a idade grande rumeur). Sem dúvida, alguma sedição, coisa bem comum nestes
devida); uma prebenda de dama do palácio para sua sobrinha; um dias! Todavia, apeia-se; inquire dum "homem regularmente vestido"
regimento para o marido; e para si próprio, um chapéu vermelho o que há? — "O quê?" responde o homem "não ouvistes a notícia?
de cardeal, um Coup de Bois (um lote tirado das florestas reais) e O arcebispo caiu e M. Necker foi chamado; e tudo agora corre bem!"1.
ao todo "quinhentas a seiscentas mil libras de rendimento"; 2 final­ Grande ruído e retumbantes aclamações se fizeram à volta de Ne­
mente, o seu irmão, Conde de Brienne, continuará como Ministro cker, desde "aquele dia em que êle saiu dos aposentos da rainha",
da Guerra. Cingido com tais almofadas e edredãos de benesses, que nomeado ministro. Foi a 24 de agosto: as galerias do Château, os pá­
êle caia agora tão brandamente como puder! tios, as ruas de Versalhes; e dentro de poucas horas, a Capital; e, à
E assim Loménie parte: rico, se títulos da corte e fundos pecuniários medida que a notícia corria, toda a França ressoava com o grito de
o podem enriquecer; mas se não podem, talvez o mais pobre dos Vive le Roi, Vive M. Necker!2 As manifestações em Paris, foram infe­
mortais. "Apupado pelo povo de Versalhes", êle viaja de carruagem lizmente até à desordem! Estouram petardos, foguetes na Place Dau-
até Jardi, e daí para o sul até Brienne — para restabelecimento da phine, em número excessivo. Uma figura de vime (Mannequin d'osier),
saúde. Depois até Nice, até à Itália; mas voltará, vagueando de um com estola de arcebispo, feita emblemàticamente, três quintos de ce­
lado para outro, trémulo, quase cego, despenhado em tempos terríveis: tim, dois quintos de papel, é levada, não em silêncio, à barra do
até que a guilhotina lhe cortará o morrão frouxo da sua existência? julgamento do povo; é condenada, confessada por um falso Abbé de
Ah, pior: porque é abafado ou estrangulado, miseravelmente, de modo Vermont; depois, solenemente consumida pelo fogo, aos pés da estátua
lamentável, antes de ir para a guilhotina! No seu palácio de Sens, de Henrique, na Pont Neuf; com tal explosão de morteiros e de
rudes beleguins jacobinos fizeram-no beber com eles da sua própria aplausos, que o Chevalier Dubois e a sua polícia municipal resolve­
adega, banquetear-se com eles da sua própria despensa; e na manhã ram por fim dar uma carga (mais ou menos ineficiente); e não fal­
seguinte, o desgraçado do velho estava morto. Eis o fim do primeiro taram queimas de guaritas de sentinelas, forçamentos de casas da

I Weber, I. SS9. 1 Bocnval, III. 366.


■Z Weber, I. 341. 2 Weber. I. 342.
Illli O PARLAMENTO UE PARIS ENTERRO COM FOGO DE ARTIFICIO UI7

guarda, e também "cadáveres lançados ao Sena durante a noite", para casa de estampas, é trazido em procissão, empoleirado num pau, com
evitar nova efervescência1. exclamações; — exemplo para ser lembrado.
Os parlamentos têm, pois, de regressar do exílio: A corte plenária, Mas onde principalmente as multidões se reúnem é na Pont Ncuf,
o pagamento dos dois quintos em papel, desapareceram, desfeitos em onde o Grande Henrique, em bronze, se ostenta sublime, no seu ca­
fumo, aos pés da estátua de Henrique. Os Estados Gerais (com um valo. Todos os transeuntes têm de parar em saudação ao rei do povo
milénio politico) são agora certos; e até serão anunciados, com toda e dizer em voz alta: Vive Henri Quatre; au diable Lamoignon! As
a urgência, para o próximo janeiro: e, como o homem de Langres carruagens também têm de parar, todas, sem excetuar mesmo a de
disse, "tudo correrá bem". Sua Alteza d'Orléans. As portinholas são abertas; e Monsieur tem de
Aos olhos proféticos de Besenval, uma outra coisa' se torna evidente: condescender em botar a cabeça de fora e curvar-se; ou então, sendo
que o Amigo Lamoignon não pode continuar a guardar os selos. Nem refratário, a apear-se de todo e a ajoelhar: para Madame, basta uma
êle nem o Ministro da Guerra, Conde de Brienne! O velho Foulon, ligeira ondulação das suas plumas, um sorriso do seu lindo rosto, do
ambicionando o ministério da guerra para si próprio, anda agora for­ lugar onde se senta: e certamente que uma moeda ou duas (para
jando intrigas subterrâneas. Este mesmo Foulon é aquele a quem comprar fusées) não seria desarrazoado, das classes superiores, amigas
chamam âme damnée du Parlement; homem encanecido na traição, da liberdade? Desta maneira, continua isto durante dias; com tais
na opressão, em projetos, tramas e iniquidades; que uma vez, quando chocarrices — não sem algumas violências. A polícia municipal nada
lhe objetaram, a respeito dum seu plano financeiro, "Que fará o pode fazer; a não ser tratar de salvar a pele; porque durante os últimos
povo?" — respondeu, no fogo da discussão "O povo que coma erva"; doze meses, como já vimos, o povo tem-se, por assim dizer, divertido
palavras imprudentes, que voarão ao longe irrevogáveis, e que man­ a caçar os guardas. Besenval na verdade tem à mão os soldados; mas
darão de volta notícias 1 com ordens de evitar o emprego da força, acrescendo que as praças
têm pouca vontade de se mover.
Foulon, para satisfação do mundo, fracassa nesta ocasião; e sempre Na manhã de segunda-feira, começa a explosão de petardos: e agora,
fracassará. Não obstante, isso^ não firma M. de Lamoignon. Não o à meia-noite de quarta, o Mannequin d'osier vai ser enterrado — à
firma porque está condenado, a despeito de ter conferências com o moda antiga. Longas filas de archotes, na sua frente, se movem para
rei; das quais se vê que volta radieux, emitindo raios. Lamoignon é o Hotel Lamoignon; mas "um criado meu" (de Besenval) correu a
odiado pelos parlamentos; o Conde de* Brienne é o irmão do cardeal dar aviso, e chegam soldados. O acabrunhado Lamoignon não .vai mor­
arcebispo. Passa o dia 24 de agosto; e não termina o dia 14 de setem­ rer queimado, nesta noite — nem mesmo daqui a um ano, mas quando
bro sem que eles dois, como antes o seu grande chefe, caiam — numa o fôr será com um tiro de espingarda (por suicídio ou acidente, não
queda preparada suavemente, como a dele. se sabe)1. A Ralé frustrada queima o seu manequim de vime, debaixo
E agora, como se o último peso tivesse sido tirado do seu coração, das suas janelas; "arrebenta com a guarita da sentinela" e desanda:
e a segurança fosse finalmente perfeita. Paris desentranha-se de novo para ir julgar Brienne; para ir julgar Dubois, capitão da polícia. Eis,
em extremo júbilo. A Basoche regozija-se ruidosamente de que tivesse porém, que todas as forças se movimentam: Gardes Françaises, Invá­
tombado o inimigo dos parlamentos; a Nobreza, a Burguesia, o Povo lidos, Patrulha de Cavalaria; e a procissão dos archotes é recebida
também se regozijam. E até, agora, com grande ênfase, a própria com grossa fuzilaria, com carga de baionetas e com cutiladas de sabres.
Ralé, surgindo subitamente das suas profundezas obscuras, se levanta O próprio Dubois faz uma carga com a sua cavalaria especial, a carga
e rejubila — porque mesmo nos seus subterrâneos penetrou o novo mais cruel de todas; "há muitos mortos e feridos". Não sem clamores
Evangelho político, decerto em alguma versão rude. É segunda-feira, e queixas; subsequentes processos criminais e funcionários morrendo
dia 14 de setembro de 1788: a Ralé congrega-se de novo, em grande de pesar!2. E assim, finalmente, dispersa pela metralha, a Ralé é cor­
força, na Place Dauphine; solta petardos, dispara bacamartes, até uma rida até às suas obscuras profundezas e as ruas ficam limpamente
extensão incrível, durante dezoito horas. Estadeiam outra vez uma fi­ varridas.
gura de vime, "Manncquin d'osier"; centro de intermináveis apóstro­ Há século e meio que a Ralé se não aventurava a sair-se desta ma­
fes. E também o retraio de Necker, furtado ou comprado em alguma neira; e não mostrava a sua fisionomia rude e agreste à luz do dia.

I Hiatoirc PutaflMBMlra cie la Réuilulinn l'iam.ai»r; ou .Inumai dct Aaacniblée» Nationalea 1 Hiatoirc de- la Révoluliun par Dcux Aroia de la Liberte, I. 50.
dcpuia 1789 (Paria, 1833 et scq.), I. 253. - I.amctli, Aaaiinblóc Conatltuante, I. (Intrtxlu.) p . 89. 2 Hiatoirc de la Révoltilion par Deux Aroia de la I.iberté, p> 58.

I
108 O PARLAMENTO DE PARIS

Uma maravilha e uma novidade: até agora cabriolando apenas, no


seu desporto desastrado, não sem alguma originalidade; quáte sem
cólera; contudo, no seu enorme riso meio forçado oculta-se uma som­
bra horrível — que poderá desenvolver-se extraordinàriamentel
Todavia, os pensadores convidados por Loménie vão já muito adian­
tados com os seus panfletos: os Estados Gerais, sob um plano ou Livro IV
outro, reunir-se-ão infalivelmente; se não em janeiro, como se esperava,
pelo menos, o mais tardar, em maio. O velho Duque de Richelieu,
moribundo nestes dias de outono, abre os olhos uma vez mais, mur­
ESTADOS GERAIS
murando: "Que diria Luís XIV?" (de quem se njo esqueceu). Em
seguida torna-os a fechar, para sempre, antes que chegue o tempo
calamitoso. -
Capitulo I

OUTRA VEZ OS NOTÁVEIS

A súplica universal vai, pois, ser satisfeital Em dias de perplexi­


dade nacional, sempre que abundava o mal e não havia socorro, foi
este remédio dos Estados Gerais aconselhado por um Malesherbes e
até por um Fénelon 1 ; os próprios parlamentos que o pediram foram
"cumulados de bênçãos". E agora vede que êle nos é concedido; os
Estados Gerais vão verdadeiramente ser uma realidade!
*
Dizer, venham os Estados Gerais, é fácil; dizer de que maneira de­
vem vir, não é tão fácil. Desde o ano de 1614, não se reuniram em
França nenhuns Estados Gerais; todos os vestígios deles desaparece­
ram dos hábitos dos homens. A sua estrutura, poderes, métodos de
trabalho, que nunca haviam sido de qualquer forma fixadqs, torna-
ram-se agora uma vaga possibilidade. Um barro que o oleiro pode
modelar, desta forma ou daquela: digamos antes, os vinte e cinco
milhões de oleiros; porque tantos têm agora, mais ou menos, um voto
nissol Como modelar os Estados Gerais? Eis um problema. Cada enti­
dade corporativa, cada classe privilegiada, cada classe organizada, tem
esperanças secretas, muito suas, neste assunto; e também desconfian­
ças secretas, muito suas, — porque, vede, esta monstruosa classe dos
vinte e cinco milhões, até aqui o rebanho mudo sobre cujo processo
de tosquia estes outros tinham de concordar, está agora também de
esperançasI Cessou ou está a cessar de ser muda; fala por panfletos,
ou pelo menos zurra e grunhe por detrás deles, em uníssono, aumen­
tando espantosamente o seu volume de som.
Quanto ao parlamento de Paris, esse declara-se pela "antiga forma
de 1614". A qual forma tem esta vantagem, que o Tiers Etat, Ter­
ceiro Estado, figurava ali principalmente como mera aparência: a No-

I MimtKatIUid, I. 461.
110 ESTADOS GERAIS OUTRA VEZ OS NOTÁVEIS 111

breza e o Clero tinham apenas de evitar questões entre si próprios tem sido êle até hoje na nossa forma de governo? Nada, Que quer
e decidir sem obstrução o que eles julgavam melhor. Tal foi a opi­ ciei Ser alguma coisa.
nião claramente expressa pelo parlamento de Paris. Mas, sendo rece­ D'Orléans, porque é certo que êle no seu caminho para o caos,
bida por uma tempestade de rugidos e clamores de todos os homens, está no âmago disto — promulga as suas Délibérations1; apadrinha­
tal opinião foi imediatamente soprada pelos ventos; e com ela a po­ das por êle, escritas pelo Laclos das Liaisons Dangereuses; cuja con­
pularidade do parlamento — para nunca mais voltar. O papel do clusão é simplesmente isto: "O Terceiro Estado é a nação". Por outro
parlamento, como dissemos já, estava, por assim dizer, terminado. A lado, Monseigneur d'Artois, com outros príncipes de sangue, publica,
este respeito todavia, há mais que anotar: a proximidade das datas. em solene Memorial ao rei, que se formos a dar ouvidos a tais coisas,
Foi a 22 de setembro que o parlamento regressou das "férias ou do o Privilégio, a Nobreza, a Monarquia, a Igreja, o Estado e o Tesouro
exílio", para ser reintegrado, no meio de ilimitadas manifestações de estão em perigo 2 . Em perigo, verdadeiramente; e contudo, se vós não
júbilo de toda a cidade de Paris. Precisamente no dia seguinte, foi derdes ouvidos, estarão eles fora de perigo? É a voz de toda a França,
que este mesmo parlamento pronunciou a sua "opitTíão claramente este som que se ergue. Múltiplo, incomensurável; como o som das
expressa": e a seguir, apenas vinte e quatro horas depois, vemo-lo águas que se despenham; sábio seria aquele que soubesse o que fazer
"coberto de injúrias"; o seu pátio exterior silvando estridentemente em tal contingência — nem que fosse fugir para as montanhas e
com assuadas, e a glória dele desaparecida para sempre 1 . Uma po­ esconder-se?
pularidade de vinte e quatro horas não era, nesses tempos, concessão Sob tais princípios e com tal ambiente, que resolução poderia to­
pouco comum. mar um governo de Versalhes ideal e previdente? Eis uma questão
Por outro lado, que supérfluo foi aquele convite de Loménie: o bem difícil de responder. Tal governo deveria naturalmente ter sen­
convite aos pensadores! Pensadores e não pensadores, aos milhões, es­ tido muito bem que a sua longa tarefa se estava agora aproximando
tão espontaneamente nos seus postos, fazendo o que lhes dá na gana. do fim; que, sob o disfarce destes Estados Gerais, finalmente inevi­
Formam-se clubes: Société Publicole; Clube Bretão; Clube dos Enrai­ táveis, um novo e onipotente desconhecido de democracia estava co­
vecidos, Clube des Enrames. E ao mesmo tempo, há jantares seletos meçando a surgir; na presença do qual nenhum governo de Versalhes
no Palais Royal; ali se banqueteiam os vossos Mirabeaus, Talleyrands, podia ou devia, exceto em estado provisório, continuar a existir. Para
de companhia com os Chamforts, os Morellets, com Duponts e par­ manter esse estado provisório, tão indizlvelmente importante, seria pre­
lamentares fogosos, não sem objetivol Porque um certo chacal Necke- ciso que empregasse todas as suas faculdades; e assim o desfecho seria
riano, a quem poderíamos nomear, os reúne ali 2 ; ou até talvez faça uma abdicação gradual, pacífica e bem conduzida, e um Domine-
isso pela simples e espontânea determinação de jantar. E quanto a dimittas!
panfletos, em linguagem figurada, "é uma completa nevada de pan­ Isto para um governo de Versalhes ideal e previdente. Mas para
fletos; quase a cobrir de neve as vias públicas do governo!" Agora o atual e irracional governo de Versalhes? Ah! esse é um governo
chegou a vez dos amigos da liberdade; ajuizados e até não ajuizados. que existe ali apenas para seu próprio interesse: sem direito, exceto
0 conde, ou como êle se chama a si mesmo, Conde "d'Aintrigues", o de posse; e agora também sem força. Não prevê nada; não vê nada;
"o jovem fidalgo languedociano", com talvez Chamfort, o Cínico, a não tem tanto como um projeto, apesar de só ter projetos — mas
ajudá-lo, ergueu-se num delírio quase pítico; o mais eminente, entre apenas o instinto de que tudo o que existe tem de lutar para que
tantos eminentes 8 . Insensato e jovem fidalgo languedociano! Êle pró­ continue a existir. Totalmente um vórtice, no qual conselhos vãos,
prio, bem depressa, "emigrando entre os primeiros", tem de fugir alucinações, falsidades, intrigas e imbecilidades redemoinham; como
indignado para além fronteiras, com o Contrato Social no bolso — folhas secas ao capricho dos ventosl O Oeil-de-Boeuf alimenta as suas
para a inteira obscuridade, intrigas não agradecidas, desiluções e morte esperanças irracionais, — e talvez também os seus medos. Visto que
por estilctcl O Abbé Sieyès abandonou a Catedral de Chartes e o «té aqui todos os Estados Gerais fizeram tanto como nada, por que
canonicato c ;is estante» de livros dali; deixou crescer a tonsura e devem estes fazer mais? O povo, na verdade, tem um aspecto peri­
chega a Paris de cabeça secular, da espécie mais obstinada, para fazer goso; mas, apesar disso, não é a revolta, desconhecida há cinco gera­
três perguntas e responder-lhes: Que i o Terceiro Estado! Tudo. Que ções, uma impossibilidade? Os três Estados podem, manejando-os,

1 Weber, I. S47. i WIIMritloni à prendre pour le» Assemblés des Bailliages.


2 Weber. I. S60. Mrinuhr presente au Roi par Monseigneur Comlc d'Arlois, M. le Prince de Conde, M.
S Mímoire iur lei EtatsGénéranx Vid. Montgalllard, I. 457-9. IM il< llmirbon, M. le l>uc d'Enghien, et M. le Prince de Conti (in Hist. Pari. 1. 256.).
SWF

112 ESTADOS GERAIS

pôr-se uns contra os outros; o Terceiro juntar-se-á, como antigamente,


ao rei; ficará ansioso, por mero despeito e interesse próprio, em tri­
butar e vexar os outros dois. Os outros dois serão assim entregues
amarrados nas nossas mãos, para que da mesma forma os tosquiemos.
Após o que, tendo conseguido dinheiro, e estando os três Estados
todos em desavença, demitimo-los e deixamos o futuro seguir como
puderl Como o bom arcebispo Loménie costumava dizer: "Há tan­
tos acasos; e apenas precisamos de um para nos salvar". Sim; e quantos
para nos perder?
0 pobre Necker no meio de tal anarquia faz o que lhe é possível
fazer. Olha para aquilo com face obstinadamente esperançosa; louva
a conhecida retidão do espírito do rei; escuta com certa indulgência o
que se diz da perversidade do espírito da rainha e da corte; publica,
entre proclamações e regulamentos, uma que favorece o Tiers Etat;
mas não resolve nada; paira distante de tudo, aconselhando todas as
coisas a se resolverem por si próprias. As grandes questões, quanto
ao presente, acham-se reduzidas a duas: A representação dupla e o
voto por cabeça. Deverá o povo ter uma "representação dupla", isto
é, possuir tantos membros como a Nobreza e o Clero juntos? Deverão
os Estados Gerais, quando uma vez reunidos, votar e deliberar num
corpo, ou em três corpos separados; "voto por cabeça ou voto por
classe" — ordre como lhe1» chamam? Estes são os pontos de discussão
que agora enchem toda a França de palavrório, lógica e eleuteroma-
nia. Para terminar com ela, Necker pensa consigo se não será melhor
fazer uma segunda convocação dos Notáveis? E resolve-se fazer tal
convocação.
Em 6 de novembro deste ano de 1788, voltaram pois a reunir-se
estes Notáveis, após um intervalo de uns dezoito meses. São os antigos
Notáveis de Calonne, os mesmos cento e quarenta e quatro — para
poupar tempo. Sentam-se ali mais uma vez, nos seus sete bureaux, ao
rigoroso tempo de inverno; o inverno mais rigoroso desde 1709, com
o termómetro abaixo de zero de Fahrenheit, e o rio Sena inteira­
mente gelado1. Frio, carestia e clamor eleuteromaníaco: um mundo
mudado desde que estes Notáveis foram despedidos com música, fêz
em maio um anol Eles verão agora, sob a presidência dos seus sete
príncipes de sangue, nos seus sete bureaux, se poderão resolver os
pontos de discussão.
Com surpresa do patriotismo, estes Notáveis, outrora tão patrióti­
cos, parecem agora iiw linar-se para o trilho errado: para o lado anti­
patriótico. Vadiam na dupla representação, no voto por cabeça: não
há decisão afirmativa; há apenas debates e não com os melhores as­
pectos. Pois, na verdade, nâo pertencem todos estes Notáveis às classes
1 Marmontcl, Mémolra (Londrei 180,1), IV. 8S. Hitt. Pari., rlc.
AS E L E I Ç Õ E S 113

privilegiadas? Clamaram outrora; agora têm seus receios, fazem suas


dolorosas representações; que desapareçam, ineficazes, e não voltem
maisl Desaparecem, depois de um mês de sessão, neste dia 12 de de­
zembro de 1788: os últimos Notáveis terrestres; que não reaparecerão
em qualquer outra ocasião, na história do mundo.
E assim, prosseguindo ainda o clamor e os panfletos; e nada caindo
senão discursos patrióticos, cada vez mais ruidosos, sobre nós de todos
os cantos da França — o próprio Necker, uns quinze dias depois,
antes de o ano estar acabado, tem de apresentar o seu Relatório';
recomendando, a seu próprio risco, essa mesma representação dupla;
e até quase a impondo, tão alto é o seu palavreado e a sua eleuteio-
mania. Que de hesitações e de circunlóquios! Durante estes agitados
seis meses (porque isto começou com Brienne em julho), não se se­
guiu Relatório a Relatório e não voava uma proclamação na cauda
da outra? 2 .
Em cima: Caricatura de emigrantes que fugiram ã Revolução. Contudo, esse primeiro ponto de discussão, como vemos, está agora
resolvido. Quanto ao segundo, o do voto por cabeça ou por ordem,
Embaixo: a cliarge representa a ciasse desprotegida ^suportando as esse infelizmente ainda está em suspenso. Suspende-se, podemos dizê-lo,
classes mais afortunadas, antes da Revolução. O homem que empunha
o azorrague simboliza a nobreza. O que lhe fica atrás, o clero. O
entre as ordens privilegiadas e as não privilegiadas; como um prévio
terceiro, a carga mais considerável, encarna o funcionalismo: estes ho­ troféu de vitória e como uma necessidade de guerra, desde o prin­
mens haviam comprado seus postos e controlavam a magistratura. cípio: e quem quer que ganhe esse troféu de vitória poderá dai em
diante 06tentá-lo como pendão, com os melhores presságios!
Mas finalmente, por meio do édito real de 24 de janeiro 3 , para
uma França impaciente e expectante, torna-se não só indubitável que
os deputados nacionais se devem reunir, mas possível que se comecem
as eleições (porque o regulamento real pouco mais adianta) 4 .

Capitulo li

AS ELEIÇÕES

Arriba, então, e mãos à obra! A palavra de passe real voa atiavés


da França, como através de vastas florestas o ímpeto de um vento
assolador. Nas igrejas paroquiais, nas câmaras municipais, em toda
a casa de convocação, nas Bailliages, nas Sénéchaussées, em qualquer
lugar onde os homens se reúnam; ali, com bastante confusão, se for-
l mam assembleias primárias, para eleger os vossos eleitores; tal é a

"7^~ 1 Rapport fait aii Roi dans son Conscil, le 27 Décembre 1788.
2 5 de julho; 8 de agosto; 23 de setembro, e t c , etc.
S Réglcment du Roi pour la Convocation des Etats-Généraux à Versailles (Reimpresso, com
data errada, in Hist. Pari., I. 262).
4 Réglcmcnt du Roi pour la Convocation des Etats-Généraux a Versaillci (Reimpresso com
erro de data in Hist. Pari, I. 262).

8 Hist. Rev. Francesa


AS E L E I Ç Õ E S 115
114 ESTADOS GERAIS

forma prescrita; depois, para redigir o vosso "Caderno de queixas e quais (reunido em qualquer igreja ou lugar apropriado) escolherá dois
ofensas (Cahier de plaintes et doléances)", das quais não há falta. eleitores. Deputações oficiais andam de distrito em distrito, porque
Com tal virtude opera este édito real de janeiro, ao rodar rapida­ tudo ainda é inexperiente e há intermináveis consultas. As ruas pu­
mente, nas suas malas de couro, ao longo das estradas cobertas de lulam estranhamente de multidões ativas, pacíficas, mas contudo in-
geada, em direção a todos os quatro ventos; como qualquer fiat ou tranqiiilas e loquazes; a intervalos, vê-se o revérbero dos mosquetes
palavra mágica de encantamento; a que tais coisas tanto se assemelham! militares; especialmente em roda do Palais, onde o parlamento, mais
Porque sempre, quando êle soa na "Praça do Mercado", acompanhado uma vez em função, se senta queixoso, quase trémulo.
pelo clangor da trombeta; em presença do Bailio, Senescal ou outro Ativo está o mundo francêsl Nesses grandes dias, qual é o mais
funcionário menor, com seus guardas; ou, nas igrejas de aldeia, é pobre artífice especulativo que não abandona a sua oficina, se não
zumbido depois da prática, "au prône des messes paroysales"; e é re­ para votar, pelo menos para assitir à votação? Em todas as estradas
gistrado, posto no correio e a correr por todo o mundo — vós vedes há muita animação e movimento. Sobre a larga superfície da França,
como este multifário Povo Francês, há tanto tempo refervendo e zum­ sempre e em cada momento, nestes meses de Primavera, quando o
bindo em expectação ansiosa, começa a fermentar e a modelar-se em semeador lança o grão sobre os sulcos, vibram sons de congregação
grupos orgânicos. Os quais grupos orgânicos, por seu turno, se des­ e dispersão, de multidões a delirar, a aclamar, a votar com esfera ou
dobram em grupinhos orgânicos mais pequenos: o zumbido inarticula- por voz que se eleva em discrepância para os ouvidos do céu. Ao
do converte-se em atuação e fala articulada. Por meio de assembleias qual fenómeno político acrescentai este económico, que o comércio
primárias, a seguir por secundárias; por "eleições sucessivas", e infi­ está estagnante e o pão também está encarecendo; porque antes do
nita elaboração e escrutínio, de acordo com os processos prescritos — rigoroso inverno houve, como dissemos, um verão rigoroso, com seca,
as genuínas "queixas e ofensas" serão por fim postas no papel; e a e em 13 de julho, com saraivada destrutiva. Que dia horrível! excla­
legítima representante nacional tomará finalmente conta delas. maram todos, quando aquela tempestade desabou. Ah, no próximo
aniversário dela ainda haverá outra pior 1 . Com tais auspícios está a
Como todo o povo se agita por si próprio, como se tivesse uma França elegendo os representantes nacionais.
só vida; e, no rumor dey milhares de vozes, anuncia que despertou
subitamente do seu longo sono de morte, e que não dormirá dora­
Os incidentes e as particularidades destas eleições pertencem não à
vante maisl O que era há muito desejado chegou afinal; notícias ma­
História Universal, mas à local ou paroquial; por cuja razão não
ravilhosas, de vitória, libertação, emancipação repercutem-se magica­
nos devemos deter aqui com as novas perturbações de Grenoble ou
mente em todos os corações. No coração do homem orgulhoso e forte,
cujas mãos fortes não mais serão agrilhoadas; e ao qual se descerram Besançon, com o derramamento de sangue nas ruas de Rennes e a
continentes ilimitados e inconquistados. E também no coração do can­ conseqiiente marcha para ali dos "Jovens" bretões com o manifesto
sado trabalhador a dias, do pedinte, com a sua côdea umedecida de de suas "Mães, Irmãs e Noivas"2. É a mesma triste história por toda
lágrimas. Pois quêl Para nós também luz a esperança; mesmo até nós a parte, com pequenas variações. Um parlamento reintegrado (como
ela desceu? A fome e os tormentos não serão então eternos? O cereal em Besançon) espantado com este Behemoth dos Estados Gerais que
que nós extraímos da gleba acidentada e, com o esforço dos nossos êle próprio tinha provocado, avança, com menos ou mais audácia,
músculos, colhemos e trituramos e amassamos em pão, não é todo para colocar um espinho no seu nariz; mas ah, é instantaneamente
para os outros, então; nós também comeremos dele e nos encheremos? repelido e completamente destroçado — porque a nova força popular
Notícias gloriosas, (respondem os anciãos prudentes), mas de muita nâo usa só argumentos mas tijolos! Ou então, e talvez combinado
improbabilidadel Assim, de qualquer forma, pode o povo mais baixo, com isto, é uma ordem da Nobreza (como na Bretanha) que anteci­
que não paga impostos em dinheiro e que não tem direito de voto. 1 padamente quer acorrentar o Terceiro Estado, para que êle não com­
apinhar-se assiduamente em volta daqueles que o têm; e a maior bata os antigos privilégios. No qual ato de acorrentar, por mais habili­
parte das salas de assembleia, dentro de portas e fora, apresentam-se dosamente que seja maquinado, não há possibilidade de êxito; porque
0 Behemot-Briareu quebra as correntes, como se fossem varas de cana.
bastante animadas.
Paris, de todas as cidades, é a única que tem representantes; cujo I llíillly, Méuioires, I. S36.
1'niteitallon et Arrêté de» Jcunes Gens de la Ville de Nantes, du 28 Janvicr 1789, avant leur
número é vinte. Paris é dividida em sessenta distritos; cada um dos IUIIIMI iiour Rrnnci. Arrêté des Jcunes Gens de la Ville d'Angcrs, du 4 1'évrier 1789. Arrêté dei
Mfli'", Hocuri, Kpouses et Amantes des Jeunes Citoyens d'Angcrs, du 6 Février 1789 (Reprodu-
llllll l« IIMoiíe 1'arlaiiH-ntaire, I. 290-3).
1 Réglement du Roi (in Hisloire Parlementaire, I. Í67-S07).
116 ESTADOS GERAIS AS ELEIÇÕES 117

Acorrentar? Ah, Messieuril E depois, quanto aos vossos espadins de partes fracionais de homens. O Fils Adoptif indigna-se com fábula
cavaleiro, quanto ao vosso valor e ao vosso juízo de Deus, pensai um tão disparatada 1 — que não obstante foi largamente acreditada na­
momento. Para que serve isso agora? O coração plebeu também tem queles dias 8 . Mas na verdade, se Aquiles, nas idades heróicas, matou
sangue vermelho dentro dele, que não se torna pálido a um olhar, carneiros, por que é que Mirabeau, em idades não heróicas, não podia
> que seja vosso; e "os seiscentos fidalgos bretões, reunidos em medir panos?
, durante setenta e duas horas, no Convento dos Cordeliers, em Mais autênticas são as suas viagens triunfais através daquele per­
Rennes", têm de sair outra vez, mais prudentes do que entraram. turbado distrito, com aclamações populares, archotes flamejantes, "ja­
Porqui ii mocidade de Nantes, a mocidade de Angers, toda a Bretanha nelas alugadas por dois luíses", e guardas voluntárias de cem homens.
se pôs em movimento; com as "mães, irmãs, e noivas", gritando atrás É deputado eleito, tanto de Aix como de Marselha; mas prefere Aix.
deles: Marchai! A Nobreza bretã será melhor que ^eixe o mundo Abriu a sua voz que soa longe, as profundezas da sua alma que soa
louco seguir o seu caminho 1 . longe; pode acalmar (tal é a virtude da palavra falada) os tumultos
de orgulho dos ricos, os tumultos de fome dos pobres; e rudes mul­
Em outras províncias, a Nobreza, com igual boa vontade, prefere
tidões se movem sob êle, como sob a lua as ondas do mar; tornou-se
limitar-se a protestos, a bem redigidos "Cahiers de agravos" e a escri­
um propulsor do mundo, um condutor de homens.
tos satíricos e discursos. Tal é em parte a sua atuação na Provença;
para onde, com efeito, Gabriel Honoré Riquetti, Conde de Mirabeau, Um outro acidente e particularmente nós notamos; e com que dife­
correu, de Paris, para dizer uma palavra oportuna. Na Provença, os rente interesse! É respeitante ao parlamento de Paris, que avança como
privilegiados, apoiados pelo seu parlamento de Aix, descobrem que os outros (apenas com menos audácia, percebendo melhor a sua po­
tais novidades, apesar de perfilhadas" pelo édito real, redundam em sição) para pôr um anel no nariz desse Behemoth dos Estados Gerais.
O digno Doutor Guillotin, clínico respeitável de Paris, escreveu o seu
detrimento nacional; e o que é ainda mais discutível, em prejuízo da
pequeno "Plano de um Cahier de doléances"; pois não tinha êle, com
dignidade da Nobrezal Após o que, tendo Mirabeau protestado re­
o desejo e o engenho que possuía, a mais ampla liberdade de o fazer?
tumbantemente, esta mesma Nobreza, no meio de enorme tumulto
Convida gente para o assinar; após o que o impertinente parlamento
dentro de portas e fora, mcerimoniosamente o expulsa da sua assem­ o intima a prestar contas. Vai, mas com todo o Paris atrás de si; que
bleia. Nenhum outro método, nem mesmo o de duelos sucessivos, faria inunda os pátios exteriores e copiosamente assina o Cahier mesmo
nada com êle, com este homem turbulento, de olhar de fogo. Por ali, enquanto o doutor dentro está dando conta de si mesmo! O par­
isso, é decididamente expulso. lamento apressa-se o mais cedo possível a mandar Guillotin embora,
"Em todos os países", exclama êle ao partir, "os aristocratas têm com cumprimentos; para ser levado para casa em triunfo 3 . Este res­
implacàvelmente perseguido o amigo do povo; e se, por qualquer peitável Guillotin esperamos vê-lo uma vez mais, e talvez só uma vez;
acaso da fortuna, êle nasceu dentro do seu seio, é a êle sobretudo o parlamento, esse, nem uma única vez mais: deixemo-lo submergir-se
que ferem, ávidos de inspirar o terror pela escolha da vítima. Assim sem que o vejamos.
morreu o último dos Gracos pela mão dos patrícios. Mas êle, ao ser
atingido pelo golpe mortal, lançou pó para os céus, conjurando as
No entretanto tais coisas, animosas como são, tendem pouco a ani­
divindades vingadoras, e desse pó nasceu Mário, — Mário menos ilus­
mar o credor nacional ou o credor de qualquer espécie. No meio de
tre por ter exterminado os cimbros do que por ter derrubado em
dúvida portentosa e universal, que certeza pode ser tão certa como
Roma a tirania da Nobreza" 2 . Lançando uma nova mancheia de pó
o dinheiro na bolsa, e como a sabedoria de o guardar lá? A especulação
(poi meio da imprensa) para gerar o que Eôr possível) Mirabeau avança
mii cantil, o comércio de todas as espécies, chegaram, tanto quanto
decidido para o Terceiro Estado.
possível, a uma pausa de estagnação; e a mão do trabalhador fica
Que êle, nesta ocasião, para se insinuar com este Terceiro Estado, pinada no seu peito. Muito terrível, quando agora o rigor das estações
"abrisse uma loja de panos em Marselha", e por algum tempo fosse lambem contribui com a sua parte, e à escassez do trabalho se vem
mercador, nao passa de fábula, sendo para nós uma das muitas ane­ ir a escassez de alimento! No princípio da primavera, correm
dotas memoráveis e chistosas desta era. Mercador mais estranho nunca bom os de açambarcamento, há éditos do rei, petições de padeiros con-
sobraçou uma vara de côvado; nem rasgou tecidos para homens, ou
I Manmlir. de Mirabeau*, V. 807.
1 Hist. Pari. I 287. Deux Amii de la Ltberlé, I. 105-128. ii, Anil-tlii-rViiplc (in Hist. Pari. II. 105), etc.
2 Fila adoptif, V. 256. II I « A m l . rir lu I . l b e r t é , I. 1 4 1 .
118 ESTADOS GERAIS A TEMPERATURA TORNA-SE ELÉTRICA II!)

tra moleiíos; e por fim, no mês de abril, bandos de andrajosos deser­ quer Cahier, se soubessem escrever. A sua compleição entusiástica, o
dados e gritos ferozes de fome! Estes são os tão famosos Bandoleiros brandir das suas clavas não augura bem para ninguém; e menos que
(Brigands), uma quantidade considerável, atualmente existente, de pes- tudo para os ricos manufatureiros do arrabalde de Santo António,
MMi; que por muito tempo refletidas e reverberadas através de tantos com cujos operários confraternizam.
milhões de cabeças, como em espelhos côncavos que multiplicam as
imagens, se convertem num inteiro mundo de Brigands; e que, como
uma espécie de maquinaria sobrenatural, movem maravilhosamente o
F.pos da Revolução. Os Brigands estão aqui: os Brigands estão ali, Capitulo III
o» Brigands estão vindo! Não foi de outro modo quosoou o clangor
do arco de prata de Febo-Apolo, espalhando pestilência e terror pá­ A TEMPERATURA TORNA-SE ELÉTRICA
lido; porque este clangor também era o da imaginação; preternatural;
e êle também se estendeu em incomensurabilidade informe, tendo-se Mas agora também já se encontram em Paris, vindos de todos os
confins da França, os deputados nacionais, com aquilo a que chamam
jeito semelhante à noite!
pouvoirs, ou poderes, nos seus bolsos; à procura de alojamentos em
Mas notai, pelo menos, pela primeira vez, o singular império da Versalhes. Os Estados Gerais vão-se abrir ali, se não no primeiro,
suspeição, nestas terras e nestes dias. Se pobres homens famintos, antes seguramente a quatro de maio, em grande procissão e gala. A Salle
de morrerem, se reúnem em grupos e multidões, como os pobres tor­ des Menus foi toda carpinteirada de novo, embelezada para eles; o
dos e tarambolas fazem no inverno agreste, nem que seja para chilrear seu próprio vestuário foi fixado: houve grande controvérsia, quanto
dolentemente juntos, e para que a miséria olhe para os olhos da à forma dos chapéus, para os deputados do Terceiro Estado, que se
miséria; se homens famintos descobrem, (o que os tordos famintos não ajustou. Constantemente chegam pessoas estranhas: ociosos, indivíduos
podem fazer), uma vez congregados, que não precisam de morrer de várias profissões, oficiais de licença — como o digno Capitão Damp-
enquanto na terra há aliaiento, visto que são muitos e com sacolas martin, com quem esperamos travar conhecimento: todos estes, pro­
vazias têm mãos direitas: em tudo isto, que necessidade há de ma­ cedentes de todas as regiões, vêm ver como as coisas se passam. Os
quinaria preternatural? Para a maior parte da gente, nenhuma; não, nossos comités de Paris, dos sessenta distritos, estão mais ocupados
porém, para o povo francês, numa época de revolução. Estes ban­ que nunca; é agora evidente que as eleições de Paris demorarão.
doleiros (como também os de Turgot, quatorze anos antes) foram to­
dos postos em movimento, alistados, sem rufar de tambor — por Na segunda-feira, dia 27 de abril, o astrónomo Bailly noticia que
aristocratas, por democratas, pelo d'Orléans, pelo D'Artois e pelos ini­ o Sieur Réveillon não está no seu posto. O Sieur Réveillon, "grande
migos da causa pública. Há historiadores ainda hoje, que o pretendem manufatureiro de papel da rue Saint-Antoine", geralmente tão pon­
provar com um argumento: estes bandoleiros, não obstante alegarem tual, não compareceu no Comité Eleitoral; e até nunca mais ali com­
não ter alimentos, preferiam beber, sendo até vistos bêbedos 1 . Fato parecerá. Nesses "imensos armazéns de papel velino", aconteceria
sem exemplo! Mas em suma, não podemos nós predizer que um povo, alguma coisa? Ah, sim! Já não é outra ascensão de Montgolfier, mas
com tal dose de credulidade e de incredulidade (cuja reunião produz o operariado, a ralé e o arrabalde que se estão levantando ali hoje!
a suspeição e geralmente a sem-razão) verá, sob várias formas, os Será verdade que foi ao Sieur Réveillon, outrora também jornaleiro,
imortais combatendo nas suas filas de batalha, sem nunca ter falta que ouviram dizer que um operário podia viver bem com quinze sous
de maquinaria épica? por dia? Uma soma magra! Ou apenas pensaram e creram que o
ouviram dizer isso? Com este longo aquecimento e fricção, parece que
Seja como fôr, os bandoleiros chegaram visivelmente a Paris, em o temperamento nacional se fêz elétrico.
multidões consideráveis2; de faces pálidas, cabelos lisos (a verdadeira Nas profundidades dessas cavernas escuras, nessas cabeças escuras e
compleição do entusiasta), e de andrajos sujos; e também com gran­ nesses escuros corações, quem sabe em que estranha figura se terá
des clavas que eles batem iradamente contra a calçada! Misturam-se modelado o novo Evangelho político; e que "estranha comunhão de
no tumulto eleitoral; desejariam assinar o Cahier de Guillotin ou qual- miseráveis" se não esteja formando! Indivíduos sombrios, em breve
miihiplicando-se em multidões sombrias, e com outras multidões api-
1 Lacrctelle, 18ème Slècle. II. 15.1.
2 Besenval, III. 385, etc. nli.iiiclo-se para ver, sitiam esse depósito de papel, e demonstram, em
120 ESTADOS GERAIS A T E M P E R A T U R A TORNA-SE ELÉTRICA 121

ruidosa linguagem n3o gramatical (dirigida também às paixões) a insu­ Varrida". Com esta resolução enérgica, como era de esperar, o con-
ficiência dos quinze sous por dia. A polícia municipal não os pode Hiin terminou. A vista das mechas acesas, dos estrangeiros SUÍÇOS de
dispersar; surgem gritos e discussões; Réveillon, quase a perder a pa­ dóiniíl vermelho, Saint-Antoine debandou, apressadamente, nas som­
ciência, suplica à populaça, suplica às autoridades. Besenval, agora bras do crepúsculo. H á uma rua obstruída; há "de quatrocentos a
em serviço ativo, comandante de Paris, manda, perto da noite, a rogo i|iiiti!ieutos" homens mortos. O infortunado Réveillon encontra abrigo
instante de Réveillon, uns trinta Gardcs Françaises. Estes limpam a na Bastilha; dali, a salvo por detrás daquele baluarte de pedra, lança
rua, felizmente sem dispararem; e postam-se ali, durante a noite, na queixas, protestos, explicações durante o mês seguinte. O bravo Be­
esperança de que tudo esteja acabado 1 . senval recebe agradecimentos de todas as classes respeitáveis de Paris;
Mas não sucede isso; no dia seguinte é ainda muito pior. Saint- mas não encontra reconhecimento especial em Versalhes — coisa a
Antoine levanta-se de novo, mais sombrio do que nunca; reforçado que um homem de verdadeiro valor já está acostumado 1 .
pelas desconhecidas figuras andrajosas de entusiástica compleição e Mas como se originou esta terrível corrente elétrica e explosão? Foi
grandes clavas. A cidade, por todas as ruas, está afluindo para ali, a D'Orléans! exclama o partido da corte: foi êle, com o seu ouro, que
fim de ver: "duas carroçadas de pedras de calçada que aconteceram alistou esses bandoleiros — certamente de alguma maneira surpreen­
passar por aquele lugar, foram pilhadas, como um verdadeiro presente dente, sem rufar de tambor; arrebanhou-os para aqui, de todos os
do céu". Outro destacamento de Gardes Françaises precisa de ser cantos; para fermentarem e pegarem fogo. O mal é o seu elemento.
enviado, após a resolução, tomada em conselho, de Besenval e do Foi a corte! exclama o patriotismo esclarecido: foi o maldito ouro e
coronel. À seguir, mais outro; mas é com dificuldade, apesar das baio­ os ardis dos aristocratas que os alistaram; açulando-os contra o ino­
netas e ameaça de fuzilaria, que êlés penetram no local. Que espe- cente Sieur Réveillon, para assustar os tímidos e desgostar os homens
táculo! Uma rua barricada, com trastes velhos, com tumulto e uma
que simpatizam com a liberdade.
densíssima aglomeração humana. Um armazém de papel estripado pelo
machado e pelo fogo; alucinação de revolta; descargas de mosquetes Besenval, com relutância, conclui que aquilo partiu dos "ingleses,
respondidas por bramidos,* por projetis miscelâneos, por telhas a cho­ nossos naturais inimigos". Ou, ah, não se poderá atribuir antes a
verem de telhados e janelas — telhas, execrações e homens mortos! Diana,'em figura da Fome? Ou aos gémeos Dioscuros, Opressão e
Vingança; tantas vezes vistos nas batalhas dos homens? Pobres mal­
As Gardes Françaises não gostam daquilo, mas têm de perseverar.
trapilhos, inteiramente cangados, sujos e sombriamente desfigurados;
Todo o dia, isso continua, abrandando e reanimando; o sol está-se
— dentro dos quais, contudo, o alento do Todo-Poderoso instilou uma
afundando, mas Saint-Antoine ainda não cedeu. A cidade corre de
um lado para o outro: ah, o som da mosqúafcria repercute-se nas alma viva! Para eles, é evidente que o filosofismo eleuteromaníaco
distantes salas de jantar de Chaussée d'Antin; e altera o tom da pa­ até agora ainda não cozeu pão; que os homens do Comité Patriótico
lestra ali. O Capitão Dampmartin deixa o seu copo de vinho; e sai farão descer a bitola até ao seu próprio nível e não mais abaixo.
com um amigo ou dois a ver a peleja. Homens sujos rosnam para êle, Bandoleiros ou o que quer que fossem, a coisa foi séria para eles.
com murmúrios de "A bas les Aristocrates" (abaixo os aristocratas); Enterraram os seus mortos com o título de Défenseurs de la Patrie,
e insultam a cruz de São Luís! Acotovelam-no e empurram-no; mas mártires da boa causa.
não lhe varejam os bolsos; pois, na verdade, também no depósito de Ou deveremos nós dizer: a insurreição começou agora o seu apren­
Réveillon não ocorreu o mais leve furto 2 . dizado; e esta foi a sua prova inicial e não inconclusiva? A sua pró­
Ao anoitecer, como aquilo não termine, Besenval toma a sua reso­ xima será uma prova mestra; revelando indisputável mestria a todo
lução: manda sair as Gardes Suisses com duas peças de artilharia. As um mundo espantado. Que essa fortaleza de rocha, o baluarte da tira­
Gardes Suisses têm de partir para lá; intimar aquela turba a disper­ nia, a que chamam Bastilha ou Edtficio, como se não houvesse outro
sar, em nome do rei. Se forem desobedecidos, carregarão as bocas de edifício — olhe para as suas peças!
logo de metralha, à vista de toda a gente; intimarão de novo; mas É desta maneira, com assembleias primárias e secundárias, e Cahiers
se forem outra vc/ desobedecidos, dispararão — e continuarão a dis­ de agravos; com moções, congregações de todas as espécies; com muita
parar "até que o último homem seja desta forma destroçado e a rua trovoada de eloquência espumante, e por fim com ribombo de mos-
quetaria militar — que a agitada França realiza as suas eleições. Ci-
1 Besenval, III. 585-8.
2 £venemenl> qui te sont pasiéi KIUI mei yeux pendam la Revoluilon Franeaisc, par A. H.
Dampmariiii (Berlin, 1799), 1. 25-7. 1 lli-scnval, III. S89.
122 ESTADOS GERAIS A PROCISSÃO 12S
r a n d a n d o e p e n e i r a n d o em g r a n d e confusão, desta m a n e i r a bastante tempo, permanece não resolvido; oscila dúbiamente no espírito de mil
tumultuosa, tem agora peneirado (à exceção d e alguns remanescentes • duzentos homens.
de Paris) os verdadeiros grãos d e trigo d a representação nacional, mil
duzentos e quatorze d e p u t a d o s a o todo; e irá i m e d i a t a m e n t e abrir os Mas agora finalmente o Sol, na segunda-feira de 4 de maio, nasceu;
seus Estados Gerais. indiferente, como se não fosse dia especial. E contudo, se os seus pri-
■Miros raios puderam outrora fazer sair sons de música da estátua
ilc Mcmnon em Tebas, como não haviam de produzir agora sons tão
Comoventes, tão tremulantes, de preparativos e presságios, saídos de
Capítulo IV * [lodos os peitos de Versalhes! O imenso Paris, em todos os concebíveis
b inconcebíveis veículos, está se despejando aqui; de todas as cidades
A PROCISSÃO ^
• aldeias vêm regatos subsidiários: Versalhes é um verdadeiro mar
No primeiro sábado de maio é dia de gala em Versalhes; e segunda- humano. Mas acima de tudo, desde a igreja de São Luís até à igreja
feira, quatro do mês, ainda vai ser um dia maior. Os deputados, na tlr* Notre Dame, há uma vasta e suspensa onda de vida — com espuma
sua maioria, já ali chegaram, arranjando alojamentos; e agora ei-los que se derrama mesmo até aos cimos das chaminés! Porque também
sucessivamente, em longas e cerimoniosas filas, beijando a mão de Dos cimos das chaminés, assim como sobre os telhados, e, em todo
Sua Majestade no Château. O supremo camarista de Brezé não corres­ ■quêle percurso, em postes de candeeiros, tabuletas, em todo o lugar
ponde à expectativa: não podemos deixar de notar que, ao introduzir Viintajoso mas arriscado, se pendura a coragem patriótica; e não há
a Nobreza ou o Clero à ungida presença, êle abre liberalmente ambas [anela onde não esplenda a patriótica beleza: porque os deputados
as portas dobradiças; mas, para os membros do Terceiro Estado, abre CM.Io se congregando na igreja de São Luís para marcharem em pro-
só uma! Todavia, ainda há lugar para entrar; Sua Majestade distribui Bils&o para Notre Dame, a ouvir um sermão.
sorrisos a todos. Sim, amigos, podeis tomar lugar e olhar; em corpo ou em pensa­
mento, toda a França e toda a Europa, podem tomar lugar e olhar;
O bom Luís dá as boas-vindas aos dignos membros, com sorrisos porque este é um dia como poucos. Oh, poderíamos chorar como Xer-
de esperança. Preparou-lhes \ Salle des Menus, a mais larga próximo iantas fileiras cerradas, ali de poleiro, como criaturas aladas, des­
dele; e frequentemente inspecionou os trabalhos, à medida que eles cidas ilo céu: todas cias e as lautas mais que se lhes seguirem, voarão
prosseguiam. Sala espaçosa, com uma plataforma erguida para o trono, Inteiramente de novo para o alto, desaparecendo nas profundezas azuis;
para a corte e para o sangue real; espaço para seiscentos deputados t a memória deste dia ainda será fresca. É o dia de batismo da demo-
do Terceiro, em frente; para trezentos do Clero, dum lado, e trezen­ ■racia; o tempo doente é que a fêz nascer, depois de decorridos os
tos da Nobreza, do outro. Tem galerias ao alto, onde as damas de Meses devidos. O dia da extrema-unção do feudalismo! Um sistema
honor, esplendentes em gase dorée, diplomatas estrangeiros e outros Doiial esgotado, decrépito por trabalhos longos (pois não fêz êle muito;
dignatários debruados a ouro e de folhos brancos, até ao número de pioduziu-vos a vós, e aquilo que vós tendes e sabeis!) — e que com
dois mil, se podem sentar e olhar. Largos corredores a atravessam; e roubos c brigas, chamadas vitorias gloriosas; com depravações e sen-
ao longo da parede interior há uma passagem circular, em toda a ■Ualidadcs, c em suma, com estupidez e senilidade — vai agora mor-
volta. Há compartimentos para os comités, para a guarda, e para Mi e . .-.im, (Diu as convulsões da morte e do nascimento, um novo
vestiário. Realmente, uma nobre mansão, onde a arte da tapeçaria, llilriiu está a nasce]'. Que trabalho, ó terra e réus, que trabalho! 11a-
auxiliada pelas outras belas-artes correlativas, fêz o melhor que pôde; ^ B | | C carnificina, matanças de setembro, pontes de Lodí, retiradas
não faltando ricos panos de carmesim rematados com borlas e fleurs (Ir Moscou, Waterloos, Peterloos, barricas de alcatrão e guilhotinas;
de-lys emblemáticas. desde a presente data, se se pode profetizara uns dois séculos ainda
lutai Dois séculos; talvez não menos; antes de a democracia per-
A sala está pronta: o próprio traje, como dissemos, ficou estabe­
TT *• *uas devidas e muito perniciosas fases de Ckarlatanocracia;
lecido; e os do Terceiro Estado não têm de usar aquele odiado cha­ i Uta mundo pestilencial ter ardido e começar de novo a ficar
péu desabado (chapeau clabaud) mas um não tão desabado (chapeau Ithlr e jovem.
rabattu). Quanto à sua maneira de trabalhar, quando todos vestidos;
ao seu "voto por cabeça ou por ordem" e ao mais - isto, que ainda ■Jubilai no entanto, ó multidões de Versalhes; para vós, de quem
haveria tempo para resolver, e que em poucas horas não haverá já ) isto está oculto, só o fim glorioso é visível. Neste dia, pronun-
124 ESTADOS GERAIS A PROCISSÃO 125

cia-se sentença de morte contra as coisas fingidas; e julgamento de tes — a que ousaremos chamar profética? Podemos subir e ficar ali,
ressurreição, mesmo que ela esteja distante, se pronuncia sobre as reali­ sem receio de cair.
dades. Neste dia, declarn-se em voz alta, como com uma trombeta do Quanto ao mar de vida ou à incomensurável multidão que observa,
Juízo Final, que uma mentira é inacreditável. Acreditai nisso, firmai- ela é infelizmente demasiado obscura. Contudo, se repararmos fixa­
vos nisso, mesmo que não lenhais mais nada em que acreditar, e mente, não se desvelarão ali, visíveis ou presumíveis, figuras sem nome,
deixai que tudo o que se seguir siga. "Não há outro remédio; que não poucas, que nem sempre estarão sem nome! A jovem Baronesa
Deus seja a vossa ajuda!" Assim falou um maior do qu"Ç qualquer de de Staèl — ela evidentemente olha duma janela; entre outras mulheres
vós; abrindo o seu capítulo da História do Mundo. ilustres e mais idosas1. Seu pai é ministro, e um dos personagens de
Contemplai, agora! As portas da igreja de São Luís abrem-se de gala: a seus próprios olhos, o principal. Jovem amazona espiritual,
par em par; e a procissão das procissões avança para Notre Dame! o teu lugar de repouso não está aqui; nem o do teu amado pai: "como
Aclamações cortam o ar: um único brado imenso capaz de prostrar, Malebranche via todas as coisas em Deus, assim M. Necker vê todas
mortos no chão, os pássaros da Grécia. É na verdade um espetáculo as coisas em Necker" — um teorema que não tem demonstração.
imponente, solene. Os eleitos da França, e a seguir a corte da França, Mas onde está a moça de cabelos pretos anelados, a leviana e fo­
vão ali em ordem marcada, a marchar, todos em lugar e traje pres­ gosa Demoiselle Théroigne? Beleza morena e eloquente; que, com as
critos. Os nossos burgueses "de capa preta lisa e gravata branca; a tuas palavras aladas e teus relances, comoverás peitos rudes, inteiros
Nobreza, de manto de veludo, bordado a ouro, de cores brilhantes, batalhões de aço, e persuadirás um Kaiser austríaco — o chuço e o
resplandecente nas suas rendas sussurrantes e na ondeação das suas capacete esperam por ti em devido tempo; e ah, também um colete
plumas; o Clero, de sobrepeliz, alva e outros dos melhores ponti.fi- de forças e longa permanência na Salpêtrière! Melhor que tivesses
calibus: por fim o rei em pessoa e a casa privada do rei, também na ficado no teu nativo Luxemburgo e sido a mãe dos filhos de algum
sua pompa mais ostentosa — mais ostentdsa e última. Uns mil e qua­ homem bravo; mas essa não era a tua tarefa, não era a tua sorte.
trocentos homens soprados em conjunto e procedentes de todos os Do sexo mais rude, como poderemos, sem língua ou com cem lín­
ventos, na missão mais significativa. guas de ferro, enumerar as notabilidades! Não abandonou o Marquês
Sim, naquela silente massa que marcha, há todo um futuro. Ne­ Valadi à pressa o seu chapéu de aba larga de Quaker; o seu grego
nhuma arca simbólica, como os antigos hebreus, carregam estes ho­ pitagórico de Wapping e de Glasgow?2 De Morande, do seu Courrier
mens: contudo, com eles também existe uma aliança; eles também de 1'Europe; Linguet, dos seus Annales, olham ansiosos através do
presidem a uma nova era na história dos homens. Todo o futuro nevoeiro londrino e tornam-se ex-publicistas — para que possam ali­
está ali, e o destino a gerar-se obscuramente sobre êle; nos'corações mentar a guilhotina e receber a sua paga. Está Louvet (do Faublas)
e pensamentos informes destes homens êle palpita ilegível, inevitável. em bicos dos pés? E Brissot, chamado De Warville, amigo dos negros?
Coisa singular: eles têm-no dentro de si; contudo, nem eles, nem qual­ Êle, com o Marquês de Condorcet e Clavière, o genebrês, "criaram
quer mortal, somente o olho em cima pode lê-lo — como êle se desen­ o jornal Moniteur" ou estão prestes a criá-lo. Publicistas hábeis, eles
volverá, em fogo e trovão, de sítios e artilharia de campo; no drapejar devem fazer a narração de um tal dia.
das bandeiras de guerra, na marcha dos exércitos, no clarão de cida­ Não vês tu por acaso, provavelmente bastante baixo e não em lu­
des incendiadas, no grito de nações estranguladas! Tais coisas jazem gares de honra, um Estanislau Maillard, meirinho a cavalo (huissier
ocultas, envoltas e resguardadas neste dia quatro de maio; — digamos à cheval) do Châtelet, um dos homens de mais expediente? Um Capi­
antes, já estavam ocultas em qualquer outro dia desconhecido, de que tão Hulin de Genebra, o Capitão Elie do regimento da rainha; ambos
este é o fruto público e o rebento. Como decerto que maravilhas com aspecto de meio soldo? Jourdan, de suíças côr de tijolo, não
não estão ocultas em todos os dias — tivéssemos nós a visão, que feliz­ ainda de barba côr de tijolo; traficante desonesto de mulas? Êle será,
mente não temos, de as decifrar: pois não é cada dia, o mais insigni­ em poucos meses, Jourdan, o Corta Cabeças, além do mais.
ficante, "a confluência de duas eternidades!" Certamente também, em qualquer lugar não de honra, está de pé
ou se empina esforçadamente, para que êle, apesar de baixo, possa
No entretanto, suponhamos nós também, bom leitor, que, como ver — um mortal muito esquálido e rameloso, a cheirar a fuligem e
agora sem milagre a musa Clio nos permite — tomamos o nosso assento a drogas de cavalo: Jean Paul Marat, de Neufchâtel! Ó Marat, reno-
em algum lugar saliente e olhamos momentaneamente para esta pro­
cissão e este mar de vida; com vista muito diferente da dos assisten- 1 Madame de Stati, Considérations sur la Révolution Françaiie (Londre», 1818), I. 114-91.
2 Foundcn of lhe French Republic (Londrei, 1798), Valadi.
126 ESTADOS CERAIS A PROCISSÃO UB

vador da ciência humana, explicador de óptica; ó tu, o mais notável confusões? É Gabriel Honoré Riquetti de Mirabeau, o propulsor do
dos médicos de cavalos, outrora nos estábulos de Monseigneur d'Artois mundo; o domador de homens, deputado por AixI Conforme observa
— quando tua alma ramelosa olha em frente, através do teu rosto a baronesa de Staèl, êle move-se orgulhosamente, apesar de olhado
rameloso, macerado pela angústia, onde se vincula uma mordacidade de soslaio aqui; e agita a sua negra chevelure, ou juba de leão; como
inclemente, que vês tu em tudo isto? Talvez um raio débil de espe­ se profetizasse grandes feitos.
rança, como o nascer do dia depois de uma noite de Nova Zembla? Sim, leitor, este é o francês típico desta época, como Voltaire o
Ou vês apenas luz sulfúrica azul e espectros; calamittedes, suspeição foi da passada. É francês nas suas aspirações, nas suas faculdades, nas
e vingança sem fim? suas virtudes e nos seus vícios; talvez mais francês que qualquer outro
Do mercador Lecointre, como êle fechou a sua loja de panos ali homem; e intrinsecamente também uma enorme massa de virilidade.
perto e se pôs a caminho, mal precisamos de falar. E nem tão pouco Notai-o bem. A Assembleia Nacional seria inteiramente diferente sem
de Santerre, o sonoro cervejeiro do arrabalde de Santo António. Duas esse homem; e até poderia dizer como o antigo déspota: "A Assem­
outras figuras e só duas, nós assinalamos ali. A enorme e musculosa bleia Nacional sou eu".
figura, através de cujas sobrancelhas negras e de cujo rude rosto acha­ De um clima meridional, de bravio sangue meridional: porque os
tado (figure écrasée) transparece uma energia selvagem como a de Riquettis ou Arrighettis tiveram de fugir de Florença e dos Guelfos,
Hércules ainda não foribundo — a de um advogado necessitado, sem há muitos séculos, estabelecendo-se na Provença; onde, de geração em
recursos, chamado Danton. Notai-o bem. Depois, esse outro, seu ca­ geração, sempre se afirmaram uma raça muito especial: irascíveis, in­
marada de fraco arcabouço e irmão profissional; de longos cabelos domáveis, de golpe pronto, verdadeiros como o aço que usavam; duma
anelados, com rosto de libertino, irradiando maravilhosamente de gé­ intensidade e atividade que às vezes descambava para a loucura, con­
nio, como se uma lâmpada de nafta ardesse dentro dele: essa figura tudo sem a atingir. Um antigo Riquetti, em louco cumprimento de
é Camilo Desmoulins. Indivíduo de infinita agudeza, engenho e até uma promessa louca, acorrentou duas montanhas; e a corrente, com
humor; uma das almas mais vivas e claras de todos estes milhões. T u , a sua "estrela de ferro de cinco raios" ainda se pode ver. Não poderá
pobre Camilo, digam de ti o que disserem, não seria senão falsidade um Riquetti moderno desacorrentar muita coisa e pô-la a derivar — o
afirmar que não és quase digno de amor, tu homem obstinado e tão que também se há de ver?
cintilante na tua ligeirezal Mas a figura musculosa, não ainda fu­ O destino tem trabalho para esta enorme e sombria cabeça de Mira­
ribunda é, como dissemos, Jacques Danton; um nome que será "regu­ beau: o destino velou por êle e preparou-o desde longe. Não foi o
larmente conhecido na Revolução". É o presidente do Distrito Eleito­ seu avô, o forte Col d'Argent (o Pescoço de Prata, como lhe chama­
ral dos Cordeliers de Paris, ou vai sê-lo; e abrirá os seus pulmões vam), derrubado e acutilado com vinte e sete golpes num dia aziago,
de bronze. submergido entre cadáveres na ponte de Casano; enquanto a cavalaria
Não nos deteremos mais com a multidão mista e aclamadora: por­ do Príncipe Eugênio galopava e regalopava por cima dele! Um sar­
que agora, vão desfilar os deputados do povo! gento, ao fugir, cobriu com uma panela do regimento aquela cabeça
amada; e Vendôme, deixando cair o seu binóculo de observação, mur­
Qual destes seiscentos indivíduos, de gravata branca lisa, que vieram murou lamentosamente: "Mirabeau está morto!" Não obstante, não
para regenerar a França, poderemos nós adivinhar que virá a ser seu estava: despertou para a vida e para a milagrosa cirurgia; porque
rei? Porque um rei ou um condutor, eles, como todas as reuniões de Gabriel ainda devia nascer. Com o seu pescoço de prata conservou
homens, precisam de ter: seja qual fôr a sua tarefa, há um homem ereta a sua cabeça cheia de cicatrizes, durante longos anos; e casou; e
que, pelo caráter, faculdades, posição, é o mais apto de todos para produziu o rijo Marquês Vítor, o Amigo dos Homens. E assim, final­
isso; esse homem, que o futuro ainda não elegeu rei, caminha ali mente, no designado ano de 1749, este famigerado homem de rosto
entre os outros. Será aquele com anéis espessos de cabelo negro? Com rudemente esculpido, o nosso Gabriel Honoré, viu a luz do dia: a
a hure, como êle mesmo lhe chama, ou negra cabeça de javali, pró­ mais rude cria de leão jamais gerada daquela raça rude. Como o
velho leão (porque o nosso velho marquês também era felino, muito
pria para ser "sacudida" como augúrio senatorial? Através de cujas
indomável, de temperamento imperioso, muito perverso) olhou espan­
lanzudas sobrancelhas de escaravelho e do seu rosto rudemente escul­
tado para o seu rebento; e determinou educá-lo como nenhum leão
pido, com cicatrizes e pústulas, transparece uma fealdade natural, be­
o tinha sido! É em vão, ó marquês! Esta cria, mesmo que a mates e
xigas, incontinência, bancarrota — e o fogo ardente do génio; como lhe« tires a pele, não aprenderá a puxar ao carro da Economia Poli-
o fogo dum cometa, resplendendo fuliginoso através das mais obscuras
128 ESTADOS GERAIS rt rRULIMAU lia

tica e a ser um Amigo dos Homens; êle não será tu, mas tem de ser velho Mirabeau, que pode ver, mas não quer. Impertinente e velho
e quer ser êle mesmo, outro do que tu. Processos de divórcio, "toda amigo dos homens! É a sua sociabilidade, a sua natureza agregativa;
a família menos um na prisão e sessenta Lettres-de-Cachet", para teu e que agora é a qualidade das qualidades para êle. Nessa luta de
próprio uso, apenas causam espanto ao mundo. quarenta anos contra o despotismo, êle adquiriu a gloriosa faculdade
O nosso infortunado Gabriel, maltratado e maltratante, esteve na do auxílio próprio, sem contudo perder o dom natural e glorioso do
ilha de Rhé? e ouviu da sua torre as vagas do Atlântico; e no castelo companheirismo, de ser auxiliado. União rara: este homem pode viver
de If, ouvindo de Marselha o Mediterrâneo. Estêve-na fortaleza de bastando-se a si próprip contudo, vive também na vida de outros
Joux; e quarenta e dois meses, mal tendo que vestir, no cárcere de homens; pode fazer com que os homens o amem, trabalhar com eles;
Vincennes; tudo com Lettres-de-Cachet do seu pai leão. Esteve nas um rei nato dos homens!
cadeias de Pontarlier (prisioneiro voluntário); foi visto a vadear es­ Mas considerai ainda mais que, apesar de o velho marquês ainda
tuários marítimos (na maré baixa), a fugir da face dos homens. Plei­ rosnar, êle despiu (humé, engoliu) todas as fórmulas; fato que, se nós
teou perante os parlamentos de Aix (para reaver a esposa); com o meditarmos nele, significa muito nestes dias. Este homem não é pois
público empoleirado nos telhados, para ver, visto que não podiam homem de sistemas; é apenas homem de instintos e intuições. Homem
ouvir o ranger dos seus dentes (claque dents, como resmungava o que, não obstante, olha sobranceiramente para qualquer objeto e vê
velho e singular Mirabeau), que não discernia em tão admirada elo­ através dele e conquista-o; porque tem intelecto, tem vontade e força
quência forense nada senão dois maxilares a ranger e uma cabeça para além dos outros homens. Homem não com óculos de lógica; mas
vazia, sonora, da espécie de tambor a rufar. com um alho! Infelizmente sem decálogo, código moral ou teorema
Mas o nosso Gabriel Honoré, em todas estas estranhas peregrinações, de qualquer espécie fixa; contudo não sem uma forte alma viva dentro
que não tem êle visto e experimentadoI Desde sargentos instrutores dele e sinceridade: uma realidade, não uma artificialidade, um embuste!
a primeiros ministros, a livreiros nacionais e estrangeiros, todas as qua­ E assim, tendo lutado "quarenta anos contra o despotismo e despido
lidades de homens êle viu. Todas as qualidades de homens êle cate­ todas as fórmulas", será agora o intérprete duma nação disposta a
quizou; porque no funda é um coração amante, sociável, esse coração fazer o mesmo. Pois não consiste precisamente a luta da França tam­
agreste e indomável: e mais especialmente todas as qualidades de mu­ bém em expulsar o despotismo e em despir as suas velhas fórmulas —
lheres. Desde a filha do meirinho em Saintes até àquela bela e jovem tendo-as achado vãs, gastas, longe da realidade? Ela despirá tais fórmu­
Sophie Madame Monnier, a quem não pôde deixar de raptar - pelo las; — e até ficará nua, se preciso fôr, enquanto não encontrar novas.
que foi decapitado — em efígie! Porque, na verdade, desde que o Para tal obra, de tal maneira, marcha êle, este singular Riquetti
profeta árabe se finou, com grande espanto de Ali, talvez não houvesse Mirabeau. Em rude e fogosa figura, com negros anéis à Sansão debaixo
um tal herói do amor, com a força de trinta homens. Na guerra, do seu chapéu rabattu, êle segue no cortejo. Uma massa ardente e
ajudou a conquistar a Córsega; lutou em duelos, em brigas irregula­ fuliginosa, que não pode ser abafada nem suprimida, sem que encha
res; chicoteou barões e caluniadores. Na literatura, escreveu sobre o toda a França de fumo. E agora respira ar; inflamará toda a sua subs­
Despotismo, sobre Lettres-de-Cachet; sobre assuntos de werthereanismo tância, e também toda a sua atmosfera de fumo, e encherá toda a
sáfico e erótico, obscenidades, profanidades; livros sobre a Monarquia França de chamas. Estranho destino! Quarenta anos de lenta incuba­
Prussiana, sobre Cagliostro, sobre Calonne, sobre as Companhias de ção ígnea com bastante vapor e gases sujos; depois a vitória sobre
Agua de Paris: cada livro comparável, devemos dizê-lo, a um fogo isso; e como uma montanha ardente, êle refulge até ao céu; expelindo
betuminoso de alarma: enorme, fumarento, repentino! A braseira, a durante vinte e três meses resplendentes, em chamas e torrentes de
mecha e o betume eram dele; mas o material, de trapos, de madeira lava, tudo o que está dentro dele, o farol e o prodígio de uma França
velha e de indizível refugo combustível (porque tudo lhe serve) era espantada; — e depois cai esgotado, frio para sempre. Segue o teu
colhido de trapeiros e de cabazes de burros, de todas as descrições caminho, tu enigmático Gabriel Honoré, o maior de todos eles: em
debaixo do céu. Razão por que se tem ouvido bastantes trapeiros todos os deputados nacionais, em toda a nação, não há ninguém como
exclamar: Fora daqui, o fogo é meu! tu e a seguir a ti.
E até considerando isso mais geralmente, raras vezes um homem Mas então se Mirabeau é o maior, qual destes seiscentos poderá
teve tal talento para tomar de empréstimo. A ideia, a faculdade de ser o menor, o mais baixo? Devemos dizer que é aquele homem ansioso,
outro homem, êle pode tornar sua; o próprio homem êle pode fazê-lo magro, de aparência insignificante, abaixo dos trinta, de óculos; seus
seu. "Tudo reflexo e eco (tout de reflet et de reverbere)!" rosna o olhos (quando a descoberto) perturbados, angustiados; de nariz para

9 Hist. Rev. Francesa


ISO ESTADOS GERAIS A PROCISSÃO IS1

o ar, a farejar obscuramente a incerteza dos tempos futuros; e de com­ servem para tapar buracos; os novos para remover o entulho. Não
pleição de côr múltipla e atrabiliária, cujo matiz final talvez seja será verdadeiramente esta a tarefa aqui?
verde-marinho pálido 1 . Esse indivíduo esverdeado (verdâtre) é um Obscuros, informes a esta distância, contudo autenticamente ali, não
advogado de Arras; o seu nome é Maximiliano Robespierre. É filho descortinas tu os deputados de Nantes? Para nós, meras figuras ves­
dum advogado; seu pai fundou lojas maçónicas sob os auspícios de tidas de chapéu largo e capa, mas que trazem na algibeira um Cahier
Charles Edward, o príncipe inglês e pretendente. Maximiliano, o pri­ de doléances com esta cláusula singular, entre outras: "Que os mestres
mogénito, foi frugalmente educado; teve como condiscípulo no colégio cabeleireiros de Nantes não sejam prejudicados com novos irmãos cor­
de Luís o Grande, em Paris, o animoso Camilo Desmoulins. Mas pediu porativos, por o número atual de noventa e dois ser mais que su­
ao nosso famoso cardeal do colar, Rohan, o patrono, que o deixasse ficiente!"1 O povo de Rennes elegeu o rendeiro Gérard, "homem de
partir e resignar em favor dum irmão mais novo. O rígido Max partiu bom-senso e de natural retidão, sem quaisquer letras". Êle caminha
para a paternal Arras; e até chegou ali a ter uma causa judicial e a ali, de passo sólido; único "no seu traje rústico", que usará sempre;
advogar, não sem êxito, "em favor do primeiro pára-raios de Franklin".
sem se importar de mantos e vestuários. O nome Gérard, ou Père
Com um espírito atormentado mas direito, uma compreensão estreita
Gerard, como gostam de lhe chamar, voará longe; levado em intermi­
mas clara e pronta, tornou-se estimado do mundo oficial, que reconhe­
nável ironia; em sátiras realistas, em almanaques didáticos republica­
cia nele um excelente homem de negócios, felizmente livre da marca
do génio. O bispo, obrando por informação, nomeia-o juiz da sua nos2. Este homem Gérard, ao ser-lhe perguntado uma vez o que êle,
diocese; e êle fielmente administra a justiça ao povo; até que, reparai! depois de algum tempo, candidamente pensava deste trabalho par­
um dia chega-lhe um réu, cujo crime merecia a forca; e o rígido lamentar, respondeu: "Penso que há um grande número de patifes
Maximiliano prefere resignar, porque a sua consciência não lhe per­ entre nós". Assim segue o Pai Gérard; sólido nos seus sapatos grossos,
mite a condenação de qualquer filho de Adão à morte. Homem de para onde quer que se dirija.
espírito limitado, com muitos preconceitosi Homem impróprio para E o digno Doutor Guillotin, que nós esperamos ver outra vez? Se
revoluções? Cuja alma pequena, inteiramente transparente, em apa­ o doutor não está aqui, devia estar, vendo-o nós com o olho da pro­
rência, como a cerveja branca, não podia de forma alguma fermentar fecia: .porque na verdade, os deputados de Paris estão um pouco
em virulenta cerveja ácida — a mãe de cada vez mais cerveja ácida; atrasados. Singular Guillotin, respeitável clínico; condenado por um
até que toda a França se tivesse tornado virulentamente acética? É destino satírico à mais estranha glória imorredoura, que jamais arran­
o que vamos ver. cou um obscuro mortal do seu lugar de repouso, do seio do esqueci­
mento! Guillotin pode melhorar a ventilação da sala; em todos os
Entre estes dois extremos do mais grandioso e do mais baixo, tan­ casos de polícia médica e higiene, ser de grande auxílio: mas, acima
tos homens grandes e baixos, deslizam, para os seus diversos destinos, de tudo isto, pode elaborar o seu "Relatório sobre o Código Penal";
naquela procissão! Cazalés, o jovem soldado culto; que será o orador e nele revelar uma máquina de decapitação habilmente inventada, que
eloqiiente da realeza, e ganhará a sombra de um nome. O experiente se tornará famosa, de forma mundial. Eis o produto dos esforços de
Mounier, o experiente Malouet; cuja experiência presidencial parla­ Guillotin, conseguido não sem meditação e leitura, o qual produto a
mentar era breve a corrente dos acontecimentos deixará sem rumo. gratidão popular ou a chocarrice batizam com um nome derivado
Pétion deixou a sua toga e os processos em Chartres, por uma espécie feminino, como se fosse sua filha: La Guillotine! "Com a minha má­
mais violenta de advocacia; não esqueceu o seu violino, por ser amante quina, Messieurs, raspo-vos a cabeça (vous fais sauter la tête) num
da música. Seus cabelos são grisalhos, apesar de novo ainda: convic­ pronto, sem sentirdes dor"; — com o que todos se riem 3 . Infortunado
ções, crenças plàcidamente inalteráveis possui este homem; e talvez, doutor! Durante vinte e dois anos, êle, não guilhotinado, não ouvirá
principalmente, crença em si próprio. O pastor protestante Rabaut senão falar da guilhotina, nada verá senão a guilhotina; e depois,
St. Etienne, um moço magro e franzino, o eloquente Barnave, que morto, deverá errar por longos séculos, como uma alma desconsolada,
ajudará a regenerar a França. Há ali tanta gente môçal Até aos trinta,
no lado mau do Stygio e do Lethes; com um nome que deverá sobre­
os espartanos não permitiam que um homem casasse; mas quantos
viver ao do próprio César.
homens há aqui abaixo dos trinta que vêm, não para produzir um
único cidadão, mas uma nação e um mundo de cidadãos! Os velhos I lllulolre Parlcmentaire, I. 335.
t Aclei d o Apôlrcs (por Pcltier e ouiros); Almanach du Père Gérard (por Collot d'Her-
elc.
1 Vid. De Staél, Coniidérationi (II. I « ) j Barbaroux. Mémolres, etc. !l Miuiiuur, de 1 de dezembro de 1789 (in Hist. Pari.).
A PROCISSÃO 1:1.1
132 ESTADOS GERAIS

Vede o Bailly, também de Paris, consagrado historiador da astrono­ por menos que o sonhassem, para responder a esta pergunta, feita
mia antiga e moderna. Pobre Bailly, como a tua filosofia, serenamente em voz de trovão: Que estais vós fazendo na bela terra de Deus e no
bela, doce e superficial como a claridade da lua, acaba em espessa e seu jardim de trabalho, onde todo aquele que não trabalha esmola
impura confusão — de presidência, mairie, atuação diplomática, tri­ ou rouba? Desgraçados deles e de todos, se apenas podem responder:
vialidade rábida e nos abismos da escuridão eternal Foi na verdade "Recebemos os dízimos, cultivamos a caça!" Observai, no entretanto,
longa a descida que fizeste da celeste Galáxia até ao Drapeau Rouge; como D'Orléans se esforça por caminhar em frente da sua própria
junto àquela fatal montureira, naquele dia infernal, ^Jara ti o último, ordem e misturar-se com o Terceiro Estado. Para êle, há vivats: para
tu hás de "tremer", se bem que apenas de frio, "de froid". A es­ os outros, poucos, apesar de todos ostentarem "chapéus ondulantes de
peculação não é a prática; ser fraco não é assim tão grande desgraça; plumas de recorte feudal" e trazerem espada à cinta; apesar de entre
mas sim o ser mais fraco do que a nossa tarefa. Infeliz dia em que eles estar D'Antraigues, o jovem fidalgo languedociano — e alguns
te montaram a ti, pacífico pedestre, naquele fogoso hipogrifo de uma pares mais ou menos dignos de nota.
democracia; que, repelindo a terra firme e até escoiceando as próprias
estrelas, nenhum conhecido Astolfo pôde ainda cavalgarl Ali se vêem Liancourt e La Rochefoucault, os duques liberais anglo-
maníacos; um filialmente piedoso Lally; um par de Lameths liberais.
Nos deputados do povo há comerciantes, artistas, homens de letras; E acima de todos, um Lafayette, cujo nome será Cromwell-Grandison,
trezentos e setenta e quatro advogados1; e pelo menos, um sacerdote, e encherá o mundo. Muitas "fórmulas" também despiu este Lafayette;
o Abbé Sieyès. A êle também Paris envia, entre os seus vinte represen­ contudo, não todas as fórmulas. Pega-se à fórmula Washington e nela
tantes. Reparei bem nele, nesse homem magro e ligeiro; frio, mas se firmará — suspendendo-se nela, como em segura âncora de proa se
elástico, aramado; instinto com o orgulho da lógica; desapaixonado, suspende e baloiça o calafetado navio de guerra, o qual, depois de
ou com uma única paixão, a do amor-próprio. Se na verdade isso se todas as alterações de tempo bravio e de água, ainda se encontra
pode chamar uma paixão, pois que ela, na sua grandeza concentrada suspenso. Felizmente para êle; seja isso glorioso ou não! De todos os
e independente, parece ter-se sublimado em transcendentalismo; e franceses é o único que tem uma teoria do mundo e espírito reto
sentar-se ali, com uma esf)écie de indiferença parecida com a dos deu­ para se conformar a ela; poderá vir a ser um herói e perfeito caráter,
ses, a olhar desdenhosamente para a paixão em baixol Eis o homem, nem que seja apenas o herói duma ideia. Notemos mais adiante o
com quem a sabedoria morrerá. Este é o Sieyès que será construtor nosso velho amigo parlamentar, Crispim-Catilina d'Esprêmènil. Re­
de sistemas, construtor geral de constituições; e construirá constituições gressou das ilhas do Mediterrâneo fogoso realista, arrependido até à
(tantas quantas precisas) que chegarão até aos céus, mas que infeliz­ ponta dos dedos; de olhar indeciso, cuja luz, dum brilho obscuro
mente cairão antes de se removerem os andaimes. "La Politique", disse anteriormente, bruxuleia agora mortiçamente no castiçal; a quem a
êle a Dumont, "A Política é uma ciência que eu tenho completado Assembleia Nacional não tarda muito, para poupar tempo, "conside­
(achevée)"2. Que coisas, ó Sieyès, com os teus olhos claros e atentos, rará como que num estado de alucinação". Notai, finalmente, aquele
estás tu para verl Mas não seria curioso saber o que Sieyès, agora globular Mirabeau mais novo; indignado por o irmão mais velho estar
nestes dias (porque dizem que ainda está vivo)3, pensa de toda essa entre os do Terceiro: é o Visconde Mirabeau, chamado frequentemente
alvenaria constitucional, na calma reumática da extrema velhice? Pen­ Mirabeau Tonneau (Mirabeau Tonel), por causa da sua rotundidade
sará ainda com o antigo e irrefragável transcendentalismo? A causa e da grande quantidade de bebidas fortes que consome.
vitoriosa agradou aos deuses, a causa vencida agradou a Sieyès (Victa
Catoni). Assim passa processionalmente a nossa Nobreza francesa. Toda na
antiga pompa da cavalaria; e contudo, tão mudada da sua velha po­
E assim, pois, entre vtvats que troam nos céus, e bênçãos de todos sição; jogada muito abaixo da sua nativa latitude, como os icebergs
os corações, deslizou a procissão dos deputados do povo. árticos impelidos para os mares equatoriais, para degelarem rapida­
mente aí! Outrora estes Duces cavaleiros (Duques, como ainda são
A seguir, vem a Nobreza e depois o Clero, a respeito dos quais,
chamados) conduziam efetivamente o mundo — nem que fosse somente
poder-se-ia perguntar "Que vieram especialmente fazer?" Especialmente,
para os despojos das batalhas, onde se encontravam então os melhores
1 Bouillé, Mímoirc» iur la Révolutlon FrnnçaiK (Londrea, 1787), I. 08.
noféus do mundo; além disso, sendo então os mais hábeis condutores,
2 Dumont, Souvenirj «ur Mirabcau, p . 64. tinham a sua parte de leão, esses Duces; que ninguém lhes podia
S A. D. 1834.

I
IM ESTADOS GERAIS A PROCISSÃO 1H

contestar. Mas agora, depois de tantos teares, arados aperfeiçoados, idade — idade do papel e da queima de papel. Considerai o bispo
máquinas de vapor e letras de câmbio terem sido inventados; e quando, Talleyrand e o marquês de Lafayette como o protótipo das suas duas
para as próprias lutas de guerra, os homens alugam sargentos instru­ espécies; e digamos mais uma vez, olhando para o que eles fizeram
tores a dezoito sous por dia — que significação podem ter essas figuras e para o que eles foram, O Tempus ferax rerum!
cavaleirescas incrustadas de ouro, marchando ali "com mantos de ve­ Não foi, em suma, também este infortunado Clero jogado, na cor­
ludo negro, e com chapéus de plumas altas", de recorte feudal? Canas rente do tempo, longe da sua nativa latitude? Uma massa anómala
balouçando ao vento! de homens; dos quais todo o mundo tem já uma obscura compreen­
são de que não pode compreender nada. Foram outrora uma casta
O Clero passa agora; com Cahiers para abolição de pluralidades, sacerdotal, intérpretes da sabedoria, reveladores d o sagrado que está
reclamando a residência dos bispos, melhor pagamento de dízimos1. no homem, um verdadeiro Clerus (ou herança de Deus na Terra):
Os dignitários, podemos observá-lo, marcham imponentes, separados mas agora? — Passam silentemente, com os Cahiers que conseguiram
dos numerosos não dignitários — que, na verdade, nada mais são que redigir; e ninguém exclama: Deus vos abençoe.
o terceiro estado disfarçado em sotainas de clérigo. Aqui, todavia, ape­
sar de por meios estranhos, se cumprirá o preceito, e aqueles que são O Rei Luís com a sua corte vai na cauda: animoso, neste dia de
os maiores (com muito espanto seu) ficarão os menores. Por exemplo, esperança, é saudado com aplausos; e ainda mais Necker, seu minis­
entre muitos, notai aquele plausível Grégoire: um dia o Cure Grégoire tro. Não assim a rainha; a quem a esperança nunca mais sorri com
será Bispo, quando os agora imponentes dignitários andarem vagueando firmeza. Mal-aventurada rainha! Seu cabelo já está grisalho, de muitos
angustiados, como bispos in partibus. Com outro pensamento, notai cuidados e aflições; seu primeiro filho vai morrer nestas semanas; a
também o Abbé Maury, com o seu rosto largo e ousado, com a sua falsidade negra sujou inapagàvelmente o seu nome; inapagàvelmente,
boca em compostura >afetada; olhos cheios, que irradiam inteligência, enquanto durar esta geração. Em lugar de Vive la Reine, vozes insul-
falsidade — e a espécie de sofisma que a gente se admira que se chame tam-na com Vive d'Orléans. Da sua beleza de rainha pouco resta,
sofístico. O mais hábil remendão de couro velho que o faz parecer exceto ® seu porte majestoso; já não gracioso, mas altivo, rígido de
como novo; homem sempre em ascensão; costumava dizer a Mercier: sofrimento reprimido. Com sentimentos muito mistos, nos quais não
"Vós vereis; estarei na academia atites de vós"2. Muito provável, ha- tem parte a alegria, ela resigna-se a participar dum dia que ela espe­
bilíssimo Maury; e até terás um chapéu de cardeal, e arminho e gló­ rava nunca ter visto. Pobre Maria Antonieta; com os teus nobres e
ria; mas ah, também no final — mero esquecimento, como todos nós, prontos instintos; relances veementes, com a tua visão demasiado es­
a seis pés de terra! De que serve isso, remendão de couro velho, nestas treita para a obra que tens de fazer! Lágrimas abundantes esperam
condições? Gloriosa em comparação, é a subsistência que o teu bom o teu destino; prantos dos mais amargos, ternas emoções femininas,
e velho pai ganha a fazer sapatos — talvez com habilidade suficiente. apesar de possuíres o coração de uma filha da imperial Maria Teresa!
Maury não peca por falta de audácia. Trará pistolas, não tarda muito; Tu, mulher predestinada, fecha os teus olhos sobre o futuro!
e aos gritos de morte de "La Lanterne", o candeeiro! — responderá
friamente: Amigos, quereis ver melhor dali?" E assim, em imponente procissão, passaram os eleitos da França.
Alguns para a honra, e rápida e fogosa atividade, a maior parte para
Mas acolá, a coxear um pouco, não vês tu, Leitor, o Bispo Talley-
a desonra; não poucos para a chacina, confusão, emigração e o deses­
rand-Perigord, sua reverência de Autun? Uma frigidez sardónica se pero: todos para a eternidade! Tantas heterogeneidades lançadas jun­
oculta naquela irreverente reverência de Autun. Êle fará e sofrerá tas na cuba de fermentação; para ali, com ação e reação incalculáveis,
coisas estranhas; e certamente virá a ser uma das mais estranhas coisas afinidades eletivas, desenvolvimentos explosivos, fabricarem o remédio
jamais vistas ou o que o serão. Um homem que vive em falsidade e para um moribundo sistema social! Provavelmente a mais estranha
sobre falsidade; coniin!<> não o que se pode chamar um homem falso: reunião de homens, se considerarmos bem, que jamais se congregou
eis a diferença, Será um enigma para as idades futuras, talvez: até no nosso planeta em tal missão. Uma sociedade tão milhentamente
hoje, um tal produto da natureza e da arte só foi possível nesta nossa complexa, pronta para se soltar das suas amarras profundas; e estes
homens, seus governantes e curadores, sem regra de vida para si pró­
1 Htat. Pari. I. S22 7. prios, — a não ser regra de vida de um Evangelho de Jean Jacquesl
2 Mercier, Nouveau Parli.
136 ESTADOS GERAIS A PROCISSÃO l S7

Para os mais sábios deles, aquilo a que devemos chamar os mais sá­ tume, o imitou, os nossos deputados do Terceiro Estado, na sua maio­
bios, o homem é unicamente um acidente debaixo do céu. O homem ria, não sem um pouco de arrogância, cobriram-se da mesma forma,
nâo tem deveres à sua roda; exceto se fôr o dever de fazer uma Cons­ enterrando, até com força, os chapéus na cabeça; ficando de pé aguar­
tituição. Está sem céu acima dele ou inferno abaixo dele; não há dando o resultado 1 .
Deus no mundo. Forte zumbido se segue, entre a maioria e a minoria de Couvrez-
Que outra crença ou melhor se pode dizer que exista nesses mil e vous, Découvrez-vous, (Tire o chapéu! Ponha o chapéu!), a que Sua
duzentos? Crença em chapéus de altas plumas de recorte feudal; em Majestade põe fim, tirando de novo o seu chapéu real.
escudos heráldicos; no direito divino dos reis, no direito divino dos A sessão termina sem qualquer outro incidente ou presságio além
destruidores da caça. Crença, ou o que é pior, meia crença farisaica, deste, com o qual, bastante significativamente, a França abriu os seus
ou ainda pior que tudo, mera afetação maquiavélica de crença — em Estados Gerais.
hóstias consagradas e na santidade de um pobre e velho homem ita­
liano! Não obstante, nessa incomensurável confusão e corrução, que 1 Hi«t. Pari. (I. 356); Merder, Nouveau Pari», ele.

ali luta tão cegamente para se tornar menos confusa e corruta, dis-
cerne-se, como dissemos, um único ponto saliente de uma nova vida:
a determinação fixa e profunda de acabar com os embustes. Deter­
minação que, consciente ou inconscientemente, está fixa; e que se
torna cada vez mais fixa, até que se converte em loucura e ideia
fixa; a qual, corporizada como ali se acha, se desenvolverá rapida­
mente: monstruosa, estupenda, indizível; espetáculo novo durante lon­
gos milénios! Como a luz do céu, que, muitas vezes nesta Terra, se
tem de revestir de trovões e de obscuridade elétrica e descer fundida
em relâmpagos, assoladora* mas purificadora! Não é a própria obscuri­
dade e a sufocação atmosférica que trazem o relâmpago e a luz? O
novo Evangelho, como o antigo, estaria destinado a nascer com a
destruição dum mundo?

Mas como os deputados assistiram à missa de pontifical, ouviram o


sermão e aplaudiram o pregador, apesar de estarem na igreja, quando
êle pregou política; como no dia seguinte, com continuada pompa,
eles são, pela primeira vez, instalados na sua Salle des Menus (não
mais sala de divertimentos) e se tornam em Estados Gerais — os leito­
res podem por si próprios imaginar. O rei do seu estrade, suntuoso
como Salomão em toda a sua glória, corre a vista por toda aquela
majestosa sala, muito emplumada, muito resplandecente; muito luzi­
damente colorida como o arco-íris, nas galerias e nos espaços laterais,
onde a beleza se senta a irradiar influência brilhante." Sobre a sua
face ampla e simples, lê-se a satisfação, como de quem após longa
viagem chega ao porto. Inocente rei! Levanta-se e profere, em tom
sonoro, um discurso oportuno; com o qual, e ainda mais com os
discursos sucessivos de uma hora e duas horas do guarda-selos e de
M. Necker, cheios de nada senão de patriotismo, esperança, fé e de­
ficiência de receitas — nenhum leitor destas páginas será provado.

Observaremos apenas que, quando Sua Majestade, ao terminar o


discurso, pôs o seu chapéu de plumas, e a Nobreza, conforme o cos-
136 ESTADOS GERAIS A PROCISSÃO 187

Para os mais sábios deles, aquilo a que devemos chamar os mais sá­ tume, o imitou, os nossos deputados do Terceiro Estado, na sua maio­
bios, o homem é unicamente um acidente debaixo do céu. O homem ria, não sem um pouco de arrogância, cobriram-se da mesma forma,
não tem deveres à sua roda; exceto se fôr o dever de fazer uma Cons­ enterrando, até com força, os chapéus na cabeça; ficando de pé aguar­
tituição. Está sem céu acima dele ou inferno abaixo dele; não há dando o resultado 1 .
Deus no mundo. Forte zumbido se segue, entre a maioria e a minoria de Couvrez-
Que outra crença ou melhor se pode dizer que exista nesses mil e vous, Découvrez-vous, (Tire o chapéu! Ponha o chapéu!), a que Sua
duzentos? Crença em chapéus de altas plumas de recorte feudal; em Majestade põe fim, tirando de novo o seu chapéu real.
escudos heráldicos; no direito divino dos reis, no direito divino dos A sessão termina sem qualquer outro incidente ou presságio além
destruidores da caça. Crença, ou o que é pior, meia crença farisaica, deste, com o qual, bastante significativamente, a França abriu os seus
ou ainda pior que tudo, mera afetação maquiavélica de crença — em Estados Gerais.
hóstias consagradas e na santidade de um pobre e velho homem ita­
liano! Não obstante, nessa incomensurável confusão e corrução, que 1 Hisl. Pari. ( 1 . 356); Mercler, Nouveau Pari», etc.

ali luta tão cegamente para se tornar menos confusa e corruta, dis-
cerne-se, como dissemos, um único ponto saliente de uma nova vida:
a determinação fixa e profunda de acabar com os embustes. Deter­
minação que, consciente ou inconscientemente, está fixa; e que se
torna cada vez mais fixa, até que se converte em loucura e ideia
fixa; a qual, corporizada como ali se acha, se desenvolverá rapida­
mente: monstruosa, estupenda, indizível; espetáculo novo durante lon­
gos milénios! Como a luz do céu, que, muitas vezes nesta Terra, se
tem de revestir de trovões e de obscuridade elétrica e descer fundida
em relâmpagos, assoladora, mas purificadora! Não é a própria obscuri­
dade e a sufocação atmosférica que trazem o relâmpago e a luz? O
novo Evangelho, como o antigo, estaria destinado a nascer com a
destruição dum mundo?

Mas como os deputados assistiram à missa de pontifical, ouviram o


sermão e aplaudiram o pregador, apesar de estarem na igreja, quando
êle pregou política; como no dia seguinte, com continuada pompa,
eles são, pela primeira vez, instalados na sua Salle des Menus (não
mais sala de divertimentos) e se tornam em Estados Gerais — os leito­
res podem por si próprios imaginar. O rei do seu estrade, suntuoso
como Salomão em toda a sua glória, corre a vista por toda aquela
majestosa sala, muito emplumada, muito resplandecente; muito luzi­
damente colorida como o arco-íris, nas galerias e nos espaços laterais,
onde a beleza se senta a irradiar influência brilhante." Sobre a sua
face ampla e simples, lê-se a satisfação, como de quem após longa
viagem chega ao porto. Inocente rei! Levanta-se e profere, em tom
sonoro, um discurso oportuno; com o qual, e ainda mais com os
discursos sucessivos de uma hora e duas horas do guarda-selos e de
M. Necker, cheios de nada senão de patriotismo, esperança, fé e de­
ficiência de receitas — nenhum leitor destas páginas será provado.

Observaremos apenas que, quando Sua Majestade, ao terminar o


discurso, pôs o seu chapéu de plumas, e a Nobreza, conforme o cos-

i
INÉRCIA 139

Clero tenham precedência sobre eles; e até talvez a própria Majestade.


A tal ponto o Contrato Social e a força da opinião pública nos fêz chegar.
Porque o que é o rei senão o delegado da nação; delegado e contra­
tado (até um pouco restritamente) — numa posição muito especial,
cujo prazo Jean Jacques não fixou?
Livro V Entrando, pois, na sua sala, no dia seguinte, uma massa inorgânica
de seiscentos indivíduos, estes deputados do povo percebem, sem terror,
O TERCEIRO ESTADO que a tarefa tem de ser toda sua. Sua sala é também a sala grande
ou comum para todas as três ordens. Mas a Nobreza e o Clero, parece,
retiraram-se para os seus dois compartimentos distintos ou salas; e
ali estão a "verificar seus poderes", não em conjunto, mas em sepa­
rado. Vão então constituir duas ordens separadas, talvez duas ordens
Capitulo l
que votem em separado? É como se a Nobreza e o Clero já silenciosa­
INÉRCIA mente tivessem estabelecido que realmente são distintasl Duas ordens
contra uma; e deste modo a terceira ordem terá de ficar em minoria
Que a exasperada França, nesta mesma sua Assembleia Nacional, perpétua?
obteve qualquer coisa, e até qualquer coisa de grande, momentoso, Muita coisa pode permanecer não fixada; mas o negativo do não
indispensável, não se pode duvidar; contudo, resta ainda perguntar: fixado é uma coisa fixada: nas cabeças dos chapéus rabattus, na ca­
Especialmente o quê? Uma questão difícil de solver, mesmo para obser­ beça da nação francesa. A dupla representação e tudo o mais até aqui
vadores calmos, a esta distância; totalmente insolúvel para os atores ganho seria, de outro modo, fútil, nulo. Sem dúvida que os "poderes
que nela tomaram parte. Os Estados Gerais, criados e preparados pelo devem ser verificados"; sem dúvida que o mandato, os documentos
esforço apaixonado de toda a nação, estão ali como uma coisa grande eleitorais do vosso deputado, deve ser examinado pelos seus irmãos
e muito elevada. A esperança, cheia de júbilo, exclama em voz forte Deputados e achado válido: são preliminares de tudo. Nem esta ques­
que eles serão uma milagrosa serpente de bronze no deserto; e todo
tão de fazer isso separadamente ou conjuntamente é uma questão vital:
aquele que olhar para ela, com fé e obediência, será curado de to­
mas se levar a isso? Deve-se-lhe resistir; sábia é aquela máxima: Re­
dos os males e de todas as mordeduras de serpente.
sisti no princípio! Mas se a resistência não é aconselhável, se até é
Nós podemos responder que, pelo menos, serão uma bandeira sim­ perigosa, certamente que o melhor e mais natural é uma pausa; essa
bólica, em volta da qual os exasperados e queixosos vinte e cinco pausa, com vinte e cinco milhões atrás, pode converter-se numa grande
milhões, outrora isolados e sem poder, se podem congregar e traba­ resistência. A massa inorgânica de deputados do Terceiro confinar-se-á
lhar - qualquer que seja o seu trabalho. Se a guerra tem de ser o num "sistema de inércia", e pelo presente, permanece inorgânica.
seu trabalho, como não pode deixar de se prever, então será uma
bandeira de guerra (por exemplo, um Gonfalão italiano, no seu antigo
Tal método, recomendável tanto quanto à sagacidade como à timi­
Carroccio republicano); e ostentar-se-á, levada em carro, tremulando
dez, é o que os deputados do Terceiro adotaram; e com destreza e
ao vento, e com língua de ferro estrondeará, anunciando muitos acon­
tecimentos. Coisa de primeira necessidade que, quer na vanguarda cada vez mais tenacidade, persistem nele, dia após dia, semana após
quer no centro, quer guiando ou guiada e conduzida, deve prestar semana. Durante seis semanas, a sua história é da qualidade chamada
à multidão combatente incalculáveis serviços. Durante algum tempo, estéril; a qual, na verdade, como a filosofia sabe, é muitas vezes a
enquanto ela flutua nas primeiras filas e até quando ali fica solitá­ mais frutífera de todas. Estes foram os seus dias calmos de criação;
ria, à espera que a força se reúna em volta dela, este mesmo nacional nos quais se sentaram a incubar! De fato, o que eles fizeram foi não
Carroccio e os repiques sinaleiros que faz, são para nós um assunto fazer nada, duma maneira judiciosa. Diariamente, o corpo inorgânico
principal. se volta a reunir; lamentam não poderem arranjar organização, "ve­
rificação de poderes em comum" e começar a regenerar a França. Se
O presságio dos chapéus postos na cabeça, mostra que os deputados surgirem moções obstinadas, que se reprimam; só a inércia é que é
do Terceiro estão resolutos numa coisa; que nem a Nobreza nem o ao mesmo tempo impunível e invencível.

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INÉRCIA 141
HO O T E R C E I R O ESTADO
rada claramente o método próprio e constitucional da sabedoria dos
A astúcia deve ser enfrentada pela astúcia; a pretensão orgulhosa
antepassados; o que files, os da Nobreza, terão muito prazer em de­
pela inércia, por um tom baixo de lamentação patriótica; baixo, mas
monstrar com uma comissão sua, se os do Terceiro se quiserem encon­
inabrandável, inalterável. Sábios como as serpentes; inocentes como as
trar com ela, comissão contra comissão! Logo na retaguarda disto,
pombas: que espetáculo para a França! Seiscentos indivíduos inorgâ­
chega uma deputação do Clero, reiterando, na sua maneira insidiosa­
nicos, essenciais para a sua regeneração e salvação, sentados ali, nas
mente conciliatória, a mesma proposta. Eis aqui pois um problema
suas bancadas elípticas, suspirando apaixonadamente pela vida, em
complexo. Que dirão os prudentes membros do Terceiro a isto?
doloroso encarceramento como almas à espera de nascer. Proferem-se
discursos eloquentes, que retumbam dentro e fora de portas. O espírito Cautelosa, inertemente, os assisados deputados do povo, considerando
agita-se contra o espírito; a Nação observa com cada vez mais pro­ que files são, senão um Terceiro Estado francês, pelo menos um agre­
fundo interesse. E assim os deputados do povo sentam-se a incubar. gado de indivíduos que aspiram a algum título dessa espécie, deter­
minam, depois de conversarem sobre isso cinco dias, nomear tal
Há conclaves privados, ceias, consultas; o Clube Bretão, Clube de
comissão — apesar, por assim dizer, de irem dispostos a não serem
Viroflay; germes de muitos clubes. Inteiramente um elemento de ruído
confuso, de obscuridade, de ardor colérico; no qual, contudo, o ôvo convencidos: um sexto dia é ocupado em os nomear; um sétimo e um
de Eros, conservado à temperatura conveniente, pode ficar salvo, sem oitavo em combinarem as formas do encontro, lugar, hora, e t c ; de
se partir, até que seja chocado. Nos vossos Mouniers, Malouets, Le- modo que não é senão na noite do dia 23 de maio que a comissão
chapeliers, há saber suficiente para isso; fervor nos vossos Barnaves, da Nobreza .se reúne com a comissão do Terceiro Eslado, aluando os
Rabauts. Às vezes virá uma inspiração do real Mirabeau: este ainda do Clero como conciliadores; e que começa a impossível tarefa de a
de forma alguma é reconhecido como real; e até houve murmúrios convencer. Uma outra reunião, a 25, pôs termo ao assunto: os do
pela primeira vez que o seu nome foi mencionado; mas êle está lu­ Terceiro são inconvencíveis, a Nobreza e o Clero irrefragàvelmente
tando para que o reconheçam. convincentes; as comissões retiram-se, persistindo cada ordem nas suas
No decurso da semana, os do Terceiro Estado chamaram o seu mais primeiras pretensões1.
velho para a presidência e ideram-lhe por auxiliares jovens de pulmões Assim se passaram três semanas. Nestas três semanas, o Carroccio
fortes - podendo assim falar articuladamente; e em palavras audíveis do Terceiro Estado, com o seu Gonfalão visto de longe, esteve firme
de lamentação declaram, como dissemos, que são um corpo inorgâ­ como uma estátua, escarnecendo dos ventos; à espera de ver que força
nico, ansiando por se tornar orgânico. Chegam cartas; mas um corpo se congregaria à sua volta.
inorgânico não pode abrir cartas; e elas ficam na mesa, invioladas. Podemos imaginar os sentimentos da corte; e como um parecer se
O mais velho pode, quando muito, obter para si alguma espécie de chocou com outro parecer, e como uma inanidade muito sonora re­
lista ou registro de nomes, para contar os votos; e esperar o que acon­ demoinhou naquele vórtice aturdido, onde a sabedoria não podia ha­
tecer. A Nobreza e o Clero estão todos noutra parte; contudo, um bitar. A vossa máquina de coletar, habilmente engenhada, foi ajustada;
público ansioso apinha todas as galerias e espaços vazios; o que é de instalada com incrível esforço; e aqui está, com as suas três peças em
algum conforto. Com esforço, determina-se, porém, não que uma de­ contato: as duas rodas ligeiras da Nobreza e do Clero e a sua enorme
putação seja enviada, pois como pode um corpo inorgânico enviar roda mestra do Terceiro Estado. As duas rodas ligeiras giram da ma­
deputações? — mas que certos membros individuais do Terceiro Es­ neira mais suave; mas, circunstância prodigiosa, a enorme roda mestra
tado se introduzam, como que por acaso, na câmara do Clero e depois fica parada, recusa-se a mover 1 Os mais hábeis engenheiros não sabem
na da Nobreza; indo ali dizer, como um fato que eles acidentalmente que fazer. E como trabalhará ela quando começar? Temerosamente,
observaram, que lhes parece que os do Terceiro estão ali à espera meus amigos, e para muitos fins; mas para cobrar impostos ou moer
deles, a fim de verificar os seus poderes. Eis o método mais assisado! a farinha da corte, podemos calcular que nunca. Se nós pudéssemos
O Clero, no meio do qual há uma multidão de não-dignitários, de continuar a cobrar impostos à mão! Não provou ser verdadeiro o
mera gente do povo com sotainas de padres, responde logo, de ma­ presságio de Messeigneurs d'Artois, de Conti, de Conde (chamados o
neira respeitosa, que files estão, e agora ainda mais do que nunca, triunvirato da corte) os da antidemocrática Mémoire au Roi? Eles
no mais profundo estudo dfisse assunto. De modo contrário, a Nobreza, podem abanar reprobativamente as suas cabeças eminentes; podem ba­
em atitude cavalheiresca, comunica, ao fim de quatro dias, que files, ter nos seus pobres cérebros; mas os mais hábeis engenheiros nada
por sua parte, estão todos verificados e constituídos; o que, julgavam
files, os do Terceiro já também estivessem; sendo tal verificação sepa- 1 Dcbatra de 6 de maio a 1 de junho de 1789 (in Hist. Pari. I. 379-422).
l

*
142 O TERCEIRO ESTADO INÉRCIA 143

podem fazer. O próprio Nccker, logo q u e o consultam, começa a ficar descritos sociais (a patifaria refinada do nosso planeta) que redemoinha
azul. A única <oim aconselhável c mandar vir soldados. Novos regi­ sempre no Palais Royal; ou que murmúrio baixo e infinito, que de­
mens < iiiii kii.ilhilo de um terceiro, já chegaram a Paris; pressa se transforma em rugido, vem de Santo António e dos vinte e
oiin i |>.>i (iii marcha; bom será que o comando esteja em cinco milhões em risco de morrer à fomel
mãos seguras. Que seja Broglic o nomeado; o velho JMarechal Duque Há indiscutível escassez de trigo; seja por manejos dos aristocratas,
de Broglie, veterano disciplinador, de moralidade firme de sargento do Duque d'Orléans, ou deste ano; ou pela seca e saraivada do ano
instrutor, daqueles cm quem se pode confiar. passado; na cidade e no campo, o homem pobre olha desolado para
Porque, ah, nem o Clero nem a própria Nobreza são o que deviam uma sorte inclemente. E estes Estados Gerais, que nos podiam trazer
t | "idiam ser, quando ameaçados de fora: inteiros, não divididos. A uma idade de ouro, são forçados a ficar imóveis; sem que os seus
Nobreza, na verdade, tem o seu Catilina ou Crispim d'Espréménil, de poderes possam ser verificados! Todo o trabalho necessariamente pa­
aspecto sombrio, no seu ardor de renegado; o seu turbulento Mirabeau ralisa, quando mais não seja o de fazer moções.
Tonel; mas também tem os seus Lafayettes, Liancourts, Lameths; e No Palais Royal erigiram, aparentemente por subscrição, uma espécie
acima de tudo, o seu D'Orléans, agora definitivamente cortado das de pavilhão de madeira (en planches de bois);1 — muito conveniente;
suas amarras da corte, a sonhar estonteado com as mais altas digni­ onde o seleto patriotismo pode agora redigir reclamações, fazer dis­
dades (pois não é êle um descendente de Henrique Quarto, e poten­ cursos, com conforto, esteja o tempo como estiver. Animadas estão
cialmente herdeiro presuntivo?) na sua viagem para o caos. Do Clero, essas coisas de Satãl Numa mesa, numa cadeira, em todos os cafés,
também, tão numerosos são os Cures, já têm desandado desertores: posta-se um orador patriótico; dentro, uma multidão em roda dele;
dois pequenos partidos: no segundo partido o Cure Grégoire. E até fora, uma multidão a escutar, de boca aberta, através das portas aber­
se fala em que cento e quarenta e nove estão quase a desertar em tas e das janelas; com trovões de aplausos por cada expressão acima
massa, apenas contidos pelo arcebispo de Paris. Parece um jogo perdido. do comum vigor. Na loja de publicações de Monsieur Dessein, perto
Mas não penseis que a França, que Paris, têm estado ociosos em do Palais Royal, não se pode, sem fortes acotovelamentos, chegar ao
todo este tempol Afluem representações de longe e de perto: porque balcão:, cada hora produz o seu panfleto ou ninhada de panfletos;
os nossos deputados do Terceiro já se tornaram bastante orgânicos "houve treze hoje, dezesseis ontem, noventa e dois a semana passada"2.
para abrir cartas; ou, na verdade, para usarem de sofisma para as Pensai na tirania e na escassez; na eloquência férvida, no rumor, nos
abrirI E assim o pobre Marquês de Brézé, camarista supremo, mestre panfletos; na Societé Publicole, no Clube Bretão, no Clube dos Rai­
de cerimónias, ou seja qual fôr o seu título, ao escrever por este vosos; — e vede se toda a taberna, café, reunião social, acidental grupo
tempo sobre qualquer assunto de cerimónia, não vê mal em terminar da rua, em toda a vasta França, não era um Clube de Raivosos!
com um "Monsieur, de vós com sincera dedicação". "A quem se dirige A tudo isto os deputados do povo só podem assistir com uma su­
esta sincera dedicação?" pergunta Mirabeau. "Ao decano do Terceiro blime e dolorosa inércia; reduzidos a ocupar-se "com a sua política
Estado". "Não há homem em França com direito a escrever isso", interna". Posição mais segura nunca deputados ocuparam; contanto
acrescenta êle; o que as galerias e o mundo não se coíbem de aplau­ que a mantenham com habilidade. Que a temperatura não suba muito
dir 1 . Pobre de Brézé I Estes homens têm ainda uma questão mais velha alto; e que não quebre o ôvo de Eros antes de ser chocado, antes
a ajustar contigo; nem tu ainda terminaste a tua missão junto deles. que êle se quebre espontâneamentel Um público ansioso apinha todas
as galerias e espaços vagos; que "não se pode proibir de aplaudir".
Em outro sentido, Mirabeau teve de protestar contra a rápida su­ As duas ordens privilegiadas, a Nobreza, já totalmente verificada e
pressão do seu Journal des Etats Généraux; e vai continuá-lo com constituída, podem encarar o futuro com a cara que quiserem; não
novo título. Em tal ato de audácia, os eleitores de Paris, ainda ocupa­ sem um secreto temor no coração. O Clero, sempre no seu papel con­
dos a redigir o seu Cahier, não puderam deixar de o apoiar, com ciliatório, fêz namoro às galerias e à popularidade das mesmas; mas
uma representação a Sua Majestade: reclamando "liberdade provisória errou o alvo. Uma deputação de padres chega com uma dolorosa men­
de imprensa"; falando até em demolir a Bastilha e em erigir no local sagem acerca da "carestia de cereais" e da necessidade que há de pôr
uma estátua a um rei patriotal Estes são os burgueses ricos; considerai, de parte formalidades vãs e de se deliberar sobre este assunto. Pro­
porém, o que se passa, por exemplo, com essa miscelânea à solta, agora posta insidiosa que, contudo, os do Terceiro (levados a isso pelo verde-
tornada inteiramente eleuteromaníaca, de ociosos, vagabundos e de não
1 11 ■:.(. P a r i , 4 2 9 .
1 Moniteur (in Hiit. Pari. I. 405). I A i l n r Yoinilf, Travei». L. 104.

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1-14 O T E R C E I R O ESTADO MERCÚRIO DE BRÊZÉ 145

marinho Robespierre) destramente aceitam como uma espécie d e insi­ cetro Estado, mas de Assembleia Nacional! São eles então a Nação?
nuação ou mesmo de promessa de que o Clero virá imediatamente Ó triunvirato de príncipes, rainhas, Nobreza e Clero refratários, que
ter com cies a constituir os Estados Gerais, e assim a embaratecer os sois vós agora? Uma questão muito complicada — de difícil resposta
cereais1. Finalmente, no dia 27 de maio, Mirabeau, julgando agora em dialetos políticos vivos.
quase próxima a sua hora, propõe que a "inércia ces«"; que, deixando
Sem se importar com isto, a nossa nova Assembleia Nacional pro­
a Nobreza a sós com a sua intransigência, o Clero seja convidado,
cede à nomeação de um "comité de subsistências"; caro à França,
"em nome do Deus da Paz", a juntar-se ao Terceiro Estado e come­
apesar de pouco ou nenhum cereal poder encontrar. Em seguida, como
çar8. E se a este convite fizerem ouvidos surdos, então veremos! Não
se a nossa Assembleia Nacional estivesse completamente firme sobre
estão cento e quarenta e nove padres prontos a desertar?
as pernas, — põe-se a nomear "quatro outros comités permanentes";
ô triunvirato de príncipes, novo guarda-selos Barentin, ó tu secre­ depois a estabelecer a segurança da dívida nacional e a do imposto
tário do interior Breteuil, Duquesa de Polignac e rainha, que estais anual: tudo em oitenta e quatro horas. Com tal velocidade ela ca­
ansiosos a escutarl O que há a fazer agora? Este Terceiro Estado vai minha: os conjurados do Oeil-de-Boeuf bem podem perguntar a si
pôr-se em movimento, com a força de toda a França atrás dele. A próprios: para onde?
maquinaria do Clero com a maquinaria da Nobreza, que deviam servir
de belos contrabalanços e de dragas, serão vergonhosamente dragados
e pegarão fogo. Que há a fazer? O Oeil-de-Boeuf fica mais confundido
que nunca. Murmúrios e contra murmúrios; uma verdadeira tempes­ Capítulo II
tade de murmúriosl Homens diretivos de todas as três ordens são aí
convocados todas as noites; muitos deles já conjurados; mas podem MERCÚRIO DE BRÉZÉ
eles conjurar isto? O próprio Necker seria agora bem-vindo, se êle
pudesse interferir com êxito. Se agora chegou verdadeiramente a oportunidade de um "deus ex-
machina", há um nodus digno de um. A única questão é, que deus?
Então que Necker interfira; e em nome d o reil Felizmente que a
Será Marte de Broglie, com as suas cem peças de artilharia? Ainda
incendiária mensagem "Deus da Paz" ainda não está respondida. As
não, responde a prudência; tão brando e irresoluto é o Rei Luís. Que
três ordens terão novas conferências; sob este seu ministro patriota,
seja o mensageiro Mercúrio, o nosso supremo camarista De Brézél
talvez se possa curar alguma coisa ou remendar; nós, no entretanto,
fazemos avançar regimentos de suíços e "cem peças de artilharia de No dia seguinte que é a 20 de junho, estes cento e quarenta e nove
campo". Isto é o que Oeil-de-Boeuf, pela sua parte, resolve. curas traidores, já não refreados por Sua Eminência de Paris, desertam
Mas quanto a Necker — Ah, pobre Necker, o teu obstinado Ter­ em massa. Que De Brézé intervenha e faça fechar as portas! Não
ceiro Estado tem só uma primeira e última palavra, verificação em somente haverá uma sessão real, naquela Salle des Menus; mas atè
comum, como garantia da votação e deliberação em comum! A pro­ não se fará lá nenhuma reunião, nenhum trabalho (exceto o dos car­
postas dilatórias de um amigo tão provado, respondem-lhes com es­ pinteiros). O vosso Terceiro Estado, que se intitula a si próprio de
panto. As intempestivas conferências depressa se dissolvem; e o Ter­ Assembleia Nacional, ver-se-á repentinamente expulso da sua sala por
ceiro Estado, agora pronto e resoluto, com toda a gente atrás dele, carpinteiros, desta maneira hábil; e reduzido a nada fazer, nem mesmo
volta para a sua sala das três ordens; e Necker para o Oeil-de-Boeuf, reunir-se ou lamentar-se articuladamente — até que Sua Majestade,
com o caráter de um conjurador desconjurado — próprio apenas para com a sua Séance Royale e novos milagres, esteja preparadol É desta
a demissão8. maneira que De Brézé, como Mercúrio ex-machina, deve intervir; e
Estarão os deputados do povo finalmente com a sua própria força se o Oeil-de-Boeuf se não engana, libertar-nos assim do nodus.
carrilada? Em vez dum decano, têm agora utn presidente: o astrónomo Sobre o pobre De Brézé não podemos deixar de observar que até
Bailly. Carrilada e com vingançal Com eloquência retumbante e tem­ agora não foi feliz em nenhum dos seus tratos com o Terceiro Estado.
perada, levada nas asas dos jornais para todas as terras, eles, neste Há cinco semanas, quando eles beijaram a mão de Sua Majestade,
dia 17 de junho, determinaram que o seu nome já não é o de Ter- os modos que tomou não mereceram senão censura; e depois, a sua
"dedicação sincera", como foi desdenhosamente acolhida! Antes da ceia,
1 Bailly, Mémolre», I. 114. cuta noite, êle escreve ao presidente Bailly uma nova carta, para ser
2 Hist. Pari. I. 41S.
5 Debate», 1 a 17 de junho de 1789 (in Hiil. Pari. I, 422-78). entregue depois da madrugada de amanhã, em nome do rei; carta

10 Hlit. Rtv. Fronctia


146 O TERCEIRO ESTADO MERCÚRIO DE BRÉZÉ 117

que Bailly, contudo, no orgulho do seu cargo, apenas amarrota no de testemunhas olha para eles embaixo, do alpendre de madeira, dos
bolso, como uma letra que não tenciona pagar. telhados e das chaminés vizinhas e marcha para ali de todas as partes,
E assim, na manhã de sábado do dia 20 de junho, arautos de voz com apaixonadas bênçãos articuladas. Arranjam um mesa para escre­
estridente proclamam, pelas ruas de Versalhes, que vai haverSéance ver; algumas cadeiras, se não para se sentarem, ao menos para ficarem
Royale, na próxima segunda-feira; e nenhuma reunião dos Estados de pé sobre elas. Os secretários desenrolam as fitas dos papéis; Bailly
Gerais, até então. Não obstante, nós observamos que o Presidente Bailly, constituiu a Assembleia.
ao saber disto, e com a carta de De Brézé no bolso, se dirige, com a O experiente Mounier, não totalmente estranho a estas coisas, por
Assembleia Nacional atrás de si, para a costumada Salle des Menus, via das rebeliões parlamentares, a que êle assistiu ou de que ouviu
como se De Brézé e os arautos não fossem senão vento. Está fechada, falar, pensa que seria bom, nestas circunstâncias lamentáveis e amea­
essa sala, ocupada por Gardes Françaises. "Onde está o vosso capitão?" çadoras, unirem-se todos por um juramento. Universal aclamação, como
O capitão mostra a sua ordem real: os operários, sente dizê-lo, estão de peitos sufocados a desabafar! O juramento é redigido; pronunciado
todos ocupados em colocar o estrado para a Séance de Sua Majestade; em voz alta pelo Presidente Bailly — e com efeito em tom tão sonoro,
infelizmente não se pode entrar; quando muito, poderão entrar o pre­ que a nuvem de testemunhas, mesmo de fora das portas, ouve-o e
sidente e os secretários para retirar papéis, em risco de serem destruí­ responde estentòreamente a êle. Seiscentas mãos direitas se erguem
dos pelos carpinteiros! O Presidente Bailly penetra com os secretários; com a do Presidente Bailly, para tomar Deus por testemunha que
e volta trazendo papéis. Ah, dentro dè portas, em vez de eloquência eles não se separarão sob ordem de ninguém, mas que se reunirão
patriótica, não se ouve outro barulho senão o dos martelos, das serras em todos os lugares, sob todas as circunstâncias, em qualquer parte
e o sussurro e matracar da mão-de-obra. Profanação sem paralelo! onde se juntem dois ou três, até terem feito uma Constituição. Fazer
Os deputados ficaram agrupados na estrada de Paris, na copada a Constituição, amigos! Eis uma longa tarefa. Seiscentas mãos, no en­
Avenue de Versalhes; queixando-se rijamente da indignidade que lhes tretanto, querem assinar como juraram; seiscentas menos uma: um
fora feita. Os cortesãos, supomo-lo, olham das suas janelas, com riso Abdiel lialista, ainda visível na história por este único ponto de luz,
escarninho. A manhã não está das mais agradáveis: agreste e até a e chamado, simplesmente, "M. Martin d'Auch, de Castelnaudary, no
choviscar um pouco 1 . Mas todos os transeuntes param; e frequenta­ Languedoc". Permitem-lhe que assine ou signifique a recusa; e até o
dores patrióticos das galerias e espectadores de várias sortes aumentam salvam da nuvem das testemunhas, declarando que tem a "cabeça de­
os grupos. Seguem-se, uns após outros, conselhos audaciosos. Alguns sarranjada". Às quatro horas, as assinaturas estão todas colhidas; nova
deputados exasperados propõem que se vá fazer sessão no grande es- reunião é marcada para segunda de manhã, mais cedo que a hora da
cadório exterior em Marly, por debaixo das janelas do rei; porque sessão real. Que os nossos cento e quarenta e nove padres desertores
Sua Majestade, parece, transportou-se para lá. Outros falam em fazer não sejam impedidos: nós reunir-nos-emos "na Igreja des Récollets ou
da Place des Armes, um novo Champ de Mai dos franceses livres; e em qualquer outra parte", na esperança de que os nossos cento e
até de despertar, ao som do patriotismo indignado, os ecos do pró­ quarenta e nove cures se juntem conosco; e agora são horas de jantar.
prio Oeil-de-Boeuf. Chega aviso de que o Presidente Bailly, ajudado
pelo judicioso Guillotin e por outros, encontrou lugar no Jogo da Esta é pois a Sessão do Jogo da Péla, a famosa Séance du Jeu de
Péla da Rue St. François. Para ali, pois, em longas e estendidas filas, Paume; cuja fama se estendeu a todas as terras. E este foi o trabalho
num clamor roufenho, como grous a voar, se dirigem iradamente os de Mercúrio de Brézé, como Deus ex-machina, e o fruto que pro­
deputados do Terceiro Estado. duziu! O riso escarninho dos cortesãos da avenida de Versalhes já
se transformou em lívido silêncio. Imaginava a aflita corte, com o
Estranho espetáculo foi este da Rue St. François, no velho Ver­ guarda-selos Barentin, triunvirato e companhia, que podiam dispersar
salhes! Uma sala de Jogo da Péla despida, como os quadros daquela seiscentos deputados nacionais, prenhes de uma Constituição Nacio­
época no-la apresentam: quatro paredes nuas, a não ser ao cimo, por nal, como tantas aves de galinheiro, prenhes de quase nada — com
uma espécie de alpendre de madeira ou galeria coberta para especta­ a vara branca ou preta dum camarista supremo? As aves de galinheiro
dores; no chão, não agora o passatempo ocioso de jogar bolas com fogem a cacarejar; mas os deputados nacionais arremetem, leoninos;
raquetas, mas o alarido estrondoso de uma representação nacional e com a mão direita erguida, prestam um juramento que faz tremer
indignada, escandalosamente exilada para ali! Todavia, uma nuvem os quatro cantos da França.
O Presidente Bailly cobriu-se de honra, que lhe trará recompensas.
1 Bailly, Mímuiii-s, I. 185-206. A Assembleia Nacional é agora dúplice e trlplicemente a Assembleia
MERCÚRIO DE BRÉZÉ 149
148 O T E R C E I R O ESTADO
goelas à roda deles, e cada um empalidecendo cada vez mais com a
da Nação; não ainda militante, apenas martirizada, mas triunfante;
palidez do outro, podiam muito naturalmente, à formiga, terem deban­
insultada, mas sem poder ser insultada. Paris espraia-se mais uma vez
dado; e assim todo o decurso da história europeia teria sido diferente!
para presenciar "de olhares sombrios", a Séance Royale1; que, por uma
nova felicidade, é adiada para terça. Os cento e quarenta e nove, Mas êle estava ali. Escutai o zumbido profundo daquela régia voz
até com bispos entre eles, todos em massa processional, tiveram livre da selva; lamentosa, baixa, depressa subindo a rugido! Um relance
oportunidade de marchar, e solenemente se juntaram aos do povo, seu incendeia os olhos dos outros; os deputados nacionais têm um
sentados à espera na sua igreja. Os deputados do Terceiro saudam-nos mandato da nação; proferiram um juramento; eles — mas oh! enquanto
com aclamações, com abraços e até com lágrimas 2 ; porque a questão a voz do leão ruge mais forte, que aparição é esta? Aparição do Mer­
agora está se tornando de vida ou de morte. cúrio De Brézé, murmurando qualquer coisa! "Mais alto", exclamam
Quanto à própria Séance, os carpinteiros parece que terminaram o alguns. "Messieurs", repete De Brézé, em voz gritante, "Ouvistes as
estrado; mas tudo o mais está por terminar. Fútil, talvez possamos ordens do rei!" Mirabeau fita-o com o seu olhar de fogo, sacudindo
dizer fatal, foi toda essa cena. O Rei Luís entra através de mares de a sua negra juba de leão: "Sim, Monsieur, nós ouvimos o que o rei
gente, num silêncio muito sombrio, irritado com muitas coisas — por­ foi aconselhado a dizer; e vós, que não podeis ser o intérprete das
que também chove copiosamente. Entra adiante de um Terceiro Es­ suas ordens aos Estados Gerais; vós, que nem tendes posição nem
tado, igualmente em silêncio sombrio, que se molhou à espera debaixo direito para falar aqui; vós não sois o homem para nos fazer lembrar
de pórticos acanhados, e introduzido por portas traseiras, enquanto isso. Ide, Monsieur, ide dizer àqueles que vos mandaram que estamos
a corte e os privilegiados eram introduzidos pela frente. O rei e o aqui pela vontade do povo e que só sairemos à força de baionetas! 1 .
guarda-selos (não se vê Necker) fazem conhecer, não sem enfadonha E o pobre De Brézé sai a tremer da Assembleia Nacional; e também
prolixidade, as determinações da vontade real. As três ordens deverão (a não ser por um pálido incidente, meses depois) finalmente das pá­
votar separadamente. Por outro lado, a França pode esperar consi­ ginas da História.
deráveis bênçãos constitucionais; como é especificado nestes trinta e Infeliz De Brézé, condenado a sobreviver longas idades, na memória
cinco artigos3, que o guarda-selos fica rouco ao ler. Os quais trinta dos homens, desta maneira débil, a tremer com a vara branca! Foi
e cinco artigos, acrescenta Sua Majestade erguendo-se outra vez, se as fiel à etiqueta, que era a sua fé aqui embaixo; mártir ao respeito
três ordens infelizmente não chegarem a acordo para os levar a efeito, das pessoas. Os mantos curtos de lã não podiam beijar a mão de Sua
eu próprio os levarei: "Seul je ferai le bien de mes peuples" o que, Majestade enquanto a beijavam os mantos compridos de veludo. E
sendo interpretado, pode significar: Vós, contenciosos deputados dos
até ultimamente, quando o pobre e pequeno delfim jazia morto e
Estados Gerais, não vos demorareis provavelmente muito tempo por
chegaram umas visitas de cerimónia, não foi êle pontual em anunciar
aqui! Mas, em suma, devem retirar-se agora todos, por hoje, e encon-
ao próprio cadáver d o príncipe: "Monseigneur, uma deputação dos
trar-se, cada ordem no seu lugar separado, amanhã de manhã, para
despacho de negócios. Esta é a determinação da vontade real: enér­ Estados Gerais!" 2 Sunt lachrymae rerum.
gica e clara. E com isto o rei, a comitiva, a Nobreza e a maioria do Mas que faz o Oeil-de-Boeuf, agora que De Brézé ali chega a tremer?
Clero desfilam, como se todo o assunto estivesse satisfatoriamente re­ Despacha aquela mesma força de baionetas? De forma nenhuma. Os
solvido. mares de povo ainda se suspendem multifàriamente, atentos ao que
se está passando; e até se precipitam e rolam, em vagas alterosas, che­
Estes desfilam; por entre mares de gente pesadamente silenciosa. gando aos pátios do próprio Château; porque corre o boato de que
Somente não desfilam os deputados d o Terceiro; que ficam ali em Necker vai ser demitido. E pior que tudo, as Gardes Françaises não
silêncio enevoado, na incerteza da atitude a tomar. Um deles, porém, parecem dispostas a agir: "duas companhias não disparam à ordem
não está incerto; o único que vê e ousai É agora que o rei Mirabeau dada!" 8 Necker, por não ter assistido à Séance, será aclamado, con­
sobe à tribuna e eleva a sua voz de leão. Jamais palavra foi mais duzido a casa em triunfo; e não deve ser demitido. Sua Eminência
oportuna; pois, em tais cenas, o momento é a mãe das idadesl Se dc Paris, por outro lado, tem de fugir com as almofadas do coche
Gabriel Honoré não estivesse ali — podemos bem imaginar como os punidas, devendo a sua vida a um galopar furioso. Os Cardes <lu
deputados do Terceiro) assustados pelos perigos que agora abriam as
I Munllcur (Hiit. Pari. I I . 2 2 ) .
1 Vid. Artur Voung (Traveis. I. 115-18); A. Lamelh, etc. II MmiUMillard, II. 58.
2 Dumont, Souveniri tur Mirabeau, c 4. I l l l . i . Pari. II. 26.
S HUt. Pari. I. 1».
150 O TERCEIRO ESTADO BROGLIE, O DEUS DA GUERRA 151

Corps, que estavam saindo para fora, será melhor entrarem de novo de ceder. D'Espréménil teve o seu último acesso de cólera; Mirabeau
para dentro 1 . Não se pode pensar em mandar baionetas. >» Tonel "quebra a sua espada", fazendo um voto — que era melhor
Em vez de soldados, o Oeil-de-Boeuf manda carpinteiros para remo­ ter cumprido. A "Tríplice Família" está portanto agora completa;
ver o estrado. Remoção inútill Em poucos instantes, os próprios car­ tendo-se o terceiro irmão transviado, a Nobreza, juntado; transviado,
pinteiros cessam de bater no estrado, para arrancá-lo; e ficam de pé, mas perdoável, amaciado, tanto quanto possível, pela doce eloquência
com o martelo na mão, a escutar de boca aberta 2 . O Terceiro Estado do Presidente Bailly.
está decretando que êle é, foi e será nada mais que uma Assembleia E assim triunfa o Terceiro Estado; e os Estados Gerais se constituem
Nacional; e agora, além disso, uma assembleia inviolável, com todos em Assembleia Nacional; podendo toda a França cantar o Te-Deum.
os seus membros invioláveis; e que infame, traidor perante a nação Pela sábia inércia e pela sábia cessação da inércia, grande vitória foi
e réu de crime capital, será toda a pessoa, corporação, tribunal ou ganha. É a última noite de junho: em toda essa noite, não se encontra
comissão, que agora ou daqui em diante, durante a presente sessão nas ruas de Versalhes senão "homens a correr com archotes", com
ou depois dela, se atrever a perseguir, interrogar, prender ou fazer gritos de júbilo. Desde o dia 22 de maio, quando eles beijaram a mão
prender, deter ou fazer deter qualquer membro, etc, etc. "seja quem do rei, até 30 de junho, quando os homens correm com archotes,
fôr que lho ordene"3. Feito isto, podemos terminar com esta refle­ contamos oito semanas e três dias. Durante oito semanas o carrocio
xão confortável do Abbé Sieyès: "Messieurs, vós sois hoje o que nacional aguentou-se de pé, visto de longe, repicando muitos sinais;
fostes ontem". e, tendo-se congregado tantos à roda dele, pode ter esperanças de
Os cortesãos podem barafustar; mas é e fica mesmo assim. A sua se firmar.
explosão bem carregada explodiu ao longo do cano da peça, enchen-
do-os de queimaduras, confusão e de fuligem muito suja! Pobre triun­
virato, pobre rainha; e sobretudo, pobre do marido da rainha, que Capitulo m
tem boas intenções, mas não tem qualquer intenção firmei Loucura
é aquela sabedoria que sóvé sábia inoportunamente. Há alguns meses, BROGLIE, O DEUS DA GUERRA
estas trinta e cinco concessões teriam inundado a França de um júbilo,
que poderia durar alguns anos. Agora são intempestivas, a própria A corte sente-se indignada com a derrota. E agora? Para a outra
menção delas objeto de repulsa; as ordens expressas de Sua Majestade, vez, procederá melhor. Mercúrio desceu em vão; agora chegou a vez
sem valor algum. de Marte. Os deuses do Oeil-de-Boeuf retiram-se para a escuridão do
Toda a França está em ebulição; um mar de pessoas, computado seu nebuloso Ida; e sentam-se ali, modelando e forjando o que pode
em "dez mil", redemoinha "em todo este dia no Palais Royal" 4 . O ser de necessidade, sejam "bilhetes de um novo Banco Nacional", mu­
Clero restante e da mesma forma uns quarenta e oito da Nobreza, nições de guerra, ou coisas para sempre inescrutáveis aos homens.
com D'Orléans entre eles, juntam-se agora aos vitoriosos homens do Nesta conformidade, o que significa este "aparato de tropas?" A
Terceiro Estado; por quem, como é natural, são recebidos "com Assembleia Nacional não pode obter facilidades para o seu comité
aclamações". de subsistências; só sabe que, em Paris, as padarias estão sitiadas; que,
0 Terceiro Estado triunfa, com a cidade de Versalhes a aplaudi-lo; nas províncias, o povo está "a viver de farelo e ervas cozidas". Mas
dez mil pessoas redemoinham todo o dia no Palais Royal e toda a em todas as estradas, elevam-se nuvens de poeira, com a marcha de
França está em bicos dos pés, quase a redemoinhar também! Que o regimentos, com o rodar de artilharia, Pandoras estrangeiras, de feroz
Oeil-de-Boeuf repare nisso. Quanto ao Rei Luís, êle engolirá as suas aspecto: Salis-Samade, Esterhazy, Royal-Allemand; a maior parte es­
trangeiros, em número de trinta mil homens — que o medo chega
injúrias, contemporizará, guardará silêncio; a todo o custo quererá,
a aumentar para cinquenta mil; todos caminhando na direção de Paris
por enquanto, paz. Foi na têrça-feira, 23 de junho, que êle proferiu
e Versalhes! Já, nas alturas de Montmartre, se está cavando e cabou­
aquele peremptório mandato real; e ainda a semana não está acabada,
cando; parecendo que se estão a fazer escarpas e a abrir trincheiras.
já escreve à restante Nobreza obstinada, para que lhe façam o favor A afluência de Paris para Versalhes é detida por uma barreira de
1 llailly, 217.
canhões na ponte de Sèvres. Das cavalariças da rainha, estão peças
2 Hi«t. Farl. II. 23. apontadas para a própria sala da Assembleia Nacional. A Assembleia
3 Montgaillarcl, II. 47. Nacional sente o seu repouso perturbado pelo tropel de soldados, des-
4 Arthur Young, I. 119.
152 O T E R C E I R O ESTADO
I BROGLIE, O DEUS DA GUERRA I5S

filando em número cada vez maior, interminável ou parecendo inter­ Nacional, bruscamente interrompida nos seus labores constitucionais,
minável, pela calada da noite, "sem rufar de tambor, sem palavra pode fatigar o ouvido real com representações e queixas; estes nossos
audível de comando" 1 . Que significa isto? canhões estão devidamente assestados; as tropas acham-se a postos. A
Irão oito ou mesmo doze deputados, os nossos Mirabeaus, Barna- declaração do rei, com os seus trinta e cinco artigos demasiadamente
ves à testa deles, ser subitamente redemoinhados para o castelo de generosos foi proferida, mas não foi atendida; continua, porém, não
Ham, sendo o resto ignominiosamente disperso para os ventos? Ne­ revogada. Êle próprio a efetuará, Seul il fera!
nhuma Assembleia Nacional pode fazer a Constituição, com canhões Quanto a Broglie, tem o seu quartel-general em Versalhes, tudo
assestados para ela das cavalariças da rainha! Que significa esta reti­ como em estado de sítio: escriturários a trabalhar, significativos ofi­
cência do Oeil-de-Boeuf, apenas quebrada por acenos e encolher de ciais do estado-maior, inclinados à taciturnidade; ajudantes de campo
ombros? No mistério dessa nebulosa Ida, que é que eles forjam e
emplumados, vedetas, ordenanças correndo ou pairando. Êle próprio
modelam? — Tais perguntas deve o aflito patriotismo estar a fazer,
se mostra importante e impenetrável; ouve Besenval, comandante de
sem receber por resposta senão ecos.
Paris, que tem vindo repetidamente em serviço, e os seus avisos e
Questões e ecos, de si próprios bastante maus: e agora, principal­ sérios conselhos com sorriso silencioso1. Os parisienses resistem? Mes­
mente, porquanto a provisão anual de alimentos, já de si escassa, que seigneurs respondem desdenhosamente: Como nos tumultos da farinha!
vai de agosto a agosto, está chegando ao fim; de cada vez mais, o Há cinco gerações que se conservam quietas, submetendo-se a tudo.
ano se tornando num ano de fomel Com farelo e ervas cozidas, "os
O seu Mercier declarou, nestes mesmos anos, que uma revolta pari­
bandoleiros" voltam a reunir-se; e, em massas, nas herdades e mansões,
siense era doravante impossível2. Fiquemos firmes ao lado da declara­
rosnam iradamente, Comida! Comida! De nada vale mandar soldados
ção real, de 23 de junho. "Os nobres da França, valorosos, cavalheiros
contra eles; à vista da tropa dispersam, desaparecem como por de­
baixo do chão; para daí a pouco tornarem para novo tumulto e como antigamente, agrupar-se-ão em volta de nós com um só coração;
assalto. Coisa bastante terrível de se ver; mas mais terrível ainda o e quanto àquilo a que chamam Terceiro Estado e a que nós chama­
que se diz, reverberando atravé* de vinte e cinco milhões de espíritos mos canaille de sujos sans-culotes, de velhacos, escrevinhadores e aren-
suspeitosos! Os bandoleiros e Broglie, conflagrações públicas, rumores gadores facciosos — o bravo Broglie, com uma rajada de metralha
preternaturais, estão enlouquecendo muitos corações na França. Qual (salve de canons), se preciso fôr, liquidá-los-á rapidamente". Assim ra­
será o resultado de tudo isto? ciocinam eles, no seu nebuloso Ida; ocultos dos homens e os homens
também ocultos deles.
Em Marselha, há muitas semanas, os habitantes da cidade pegaram
em armas para "suprimir os bandoleiros" e para outros fins. O co­ Boa é a metralha, Messeigneurs, com uma condição: é que o ati­
mandante militar pode considerar o caso como entender. Em outras rador também seja de metal! Mas infelizmente êle é feito de carne;
partes, por toda a parte, não se poderia fazer o mesmo? Dúbiamente, debaixo dos seus dólmãs e suas bandoleiras, o vosso assalariado atira­
na aflita imaginação patriótica, transluz, como última salvação, qual­ dor tem instintos, sentimentos, mesmo até uma espécie de pensamento.
quer obscura ideia de uma Guarda Nacional. Mas imaginai, acima São os seus iguais, osso do seu osso, esta mesma canaille que deve
de tudo, o pavilhão de madeira do Palais Royal! Universal algazarra ser varrida; êle tem irmãos nela, um pai e uma mãe vivendo de farelo
reina ali, como de dissolução de mundos; nesse lugar, bramam as e ervas cozidas. A sua própria amante, ainda não morta no hospital,
vozes loucas, e, que enlouquecem, as do boato; ali, a suspeição olha arrasta-o para o campo da heterodoxia militar; declara-lhe que se êle
vigilante para a pálida e obscura voragem do mundo, discernindo derramar sangue patriota, será renegado pelos homens. O soldado, que
formas e fantasmas, e vendo regimentos sequiosos de sangue acampa­ viu o seu soldo roubado por Foulons rapaces, o seu sangue desperdi­
dos no Champ de Mars; a dispersão da Assembleia Nacional; granadas çado por Soubises, Pompadours, e as portas da promoção fechadas
incendiárias (para pôr Paris a fogo), o louco deus da guerra e o chi­ inexoravelmente sobre si, se não nasceu nobre, — êle mesmo não está
cote sonoro de Belona. Para o homem mais calmo, está-se tornando
isento de queixas contra vós. A vossa causa não é a causa do soldado;
evidente que a batalha é inevitável.
mas, como tudo o indica, apenas a vossa própria e não a de outro
Que é inevitável, silentemente o dão a entender os ares significativos deus ou homem.
de Messeigneurs e Broglie. Inevitável e brevel A vossa Assembleia
t Besenval, I I I . 398.
1 A. Lamcth, Awcmblee Constituante, I. 41. 2 Mercier, Tableau de Pari». VI. 22.
154 O TERCEIRO ESTADO BROGLIE, O DEUS DA GUERRA 155

Por exemplo, o mundo deve ter sabido que ultimamente em Bé- sionados onze não têm mais que deixar cair "pela mão dum individuo",
thune, ao levantar-se um motim por via de cereais, da espécie de que quase à noitinha, uma linha escrita no Café de Foy, onde o patrio­
abundam tantos, quando os soldados estavam em fila e a palavra tismo arenga sonoro na sua mesa. "Duzentos mancebos, depressa cres­
"Fogo" soou — nem um gatilho se moveu; apenas as coronhas das cendo para quatrocentos", com alavancas próprias, rolam para a Abbaye;
espingardas bateram iradamente no chão, ficando os soldados som­ arrombam as portas; e trazem para fora os onze com outras vítimas
brios, com uma expressão dúbia no rosto; — até que agarrados cada militares — para cearem no jardim do Palais Royal; para se hospeda­
um ao braço de um pai de família patriota, debandaram todos, desta rem e dormirem em "camas de campanha", Théâtre des Varietés por
não estarem ainda preparados outros Pritaneus nacionais. Rápida de­
maneira, para serem bem tratados e acarinhados, e verem o seu soldo
liberação! Tão meticulosos foram estes mancebos que, verificando que
aumentado por subscrição!1.
uma das vítimas militares estava detida por verdadeiro crime civil,
Nem os Gardes Françaises, o melhor regimento de linha, têm mos­ reconduziram-na à sua cela, com protestos.
trado ultimamente qualquer prontidão para disparar nas ruas. Vol­ Por que não mandam então vir nova força? Mandaram efetivamente
taram a rosnar da casa de Réveillon; e desde então não queimaram vir nova força militar. E de fato chegou essa nova força, a todo o
uma única escorva; e até, como vimos, nem mesmo ao serem manda­ galope, de sabre desembainhado; mas o povo com toda a diplomacia
dos. Um humor perigoso transparece nestes Gardes. E há neles homens "foi segurando as cabeças dos cavalos"; os dragões embainharam as
notáveis, ou que o virão a serl Valadi, o Pitagórico, foi, outrora, seu espadas e, tirando os barretes em sinal de saudação, ficaram especados
oficial. E até nas próprias fileiras, sob o tricórnio e o tope, que de como meras estátuas de dragões — bebendo depois, ao ser-lhes trazido
cabeças teimosas não poderá haver, com reflexões dentro delas — des­ vinho, à saúde do rei e da nação com a maior cordialidade! 1 .
conhecidas do público! Uma das cabeças mais sólidas, nós discernimos
E agora, perguntemos por outro lado, porque é que Messeigneurs e
ali, sobre os ombros dum certo Sargento Hoche. Lázaro Hoche, eis
Broglie, o grande deus da guerra, ao verem estas coisas, não pararam,
o nome dele; empregado outrora nas cavalariças reais de Versalhes,
e seguiram outro caminho diferente, qualquer que fosse? Infelizmente,
sobrinho de uma pobre verdureira: rapaz hábil, muitíssimo dado à
como dissemos, eles nada viam. O orgulho, que precede toda a queda;
leitura. É agora o Sargento Hoche e não pode subir mais postos; gasta
a cólera, se não razoável, pelo menos desculpável, bem natural, tinham
o soldo em velas de pavio e edições baratas de livros2.
endurecido os seus corações e esquentado as suas cabeças; e por isso,
O melhor, afinal, parece ser isto: fazer recolher estes Gardes Fran­ é com imbecilidade e violência (conjugação infeliz) que se precipitam
çaises a seus quartéis. Assim pensa Besenval e o ordena. Recolhidos ao encontro da sua hora. Nem todos os regimentos são Gardes Fran­
a quartéis, os Gardes Françaises tratam de formar uma "Associação çaises, ou pervertidos por Valadi, o Pitagórico; que venham pois novos
Secreta", num compromisso de não procederem contra a Assembleia regimentos não pervertidos; o Royal-Allemand, Salis-Samade, os suíços
Nacional. Pervertidos por Valadi, o Pitagórico; pervertidos por di­ de Château-Vieux — que sabem combater, mas mal sabem falar, a
nheiro de mulheresl gritam Besenval e muitos outros. Pervertidos por não ser em guturais germânicas; que os soldados marchem e as estra­
aquilo que quiserdes, ou sem precisão de serem pervertidos, contem- das retumbem com os carros de artilharia! Sua Majestade tem de
plai-os, longas filas deles, quebrado o seu recolhimento, a chegar, co­ abrir uma nova Sessão Real, — e milagres a obrar ali! O sopro da
mandados por seus sargentos, no dia 26 de junho, ao Palais Royal! metralha pode tornar-se, sendo preciso, num furacão e numa tempestade.
Saudados com vivas, com presentes, e com saúdes de vinho patriótico; Em tais circunstâncias, antes de as balas incendiárias começarem a
abraçados e abraçantes, declarando por palavras que a causa da França chover, não poderão os cento e vinte eleitores de Paris, apesar de o
é a sua causa! No dia seguinte e nos outros, o mesmo. O que é tam­ seu Cáhier estar de há muito acabado, determinar que se voltem a
bém singular é que, a não ser pelo seu humor patriótico e pela quebra reunir diariamente, como um "Clube Eleitoral?" Reúnem-se primeiro
do seu recolhimento, eles se portam com a mais rigorosa correção3. "num Restaurante" — onde uma grande festa de núpcias", amistosa­
Estão-se tornando um problema, estes Gardes! Onze dos seus cabeças mente lhes cede o lugar2. Mas daí a pouco reúnem-se no Hôtel-de-
já estão na prisão de TAbbaye. Mas isso não faz diferença. Os apri- Ville, no próprio edifício da Municipalidade, Flesseles, preboste dos
156 O TERCEIRO ESTADO .
ÀS ARMASI IÍ7
mercadores, com os seus quatro Echevins (assessores) não pôde impe­ ção à paz pública! Tal voz devia ser afogada nos depósitos da água 1 ;
dir isso, tal é a força da opinião pública. Êle, com os seus assessores se o portador da notícia não tivesse rapidamente fugido. Não obstante,
e os seus vinte e seis conselheiros municipais, todos nomeados de cima,
fazei o que quiserdes, amigos, mas a notícia é verdadeira. Necker
é melhor que fiquem ali quietos, nas suas longas togas; e que consi­
foi-se. Viaja incessantemente para o Norte, em sigilo obediente, desde
derem, de olhos amedrontados, que prelúdio é este de confusão vinda
ontem à noite. Temos um ministro novo: Broglie, o deus da guerra;
de baixo e como files próprios se poderão equilibrar naquilo!
o aristocrata Breteuil; e Foulon, o que disse que o povo podia co­
mer erva!
O rumor, entretanto, avoluma-se, no Palais Royal e em toda a
França. A palidez estampa-se em todos os rostos: tremor confuso e
Capitulo iv fremência, a crescerem em estrondos de trovão, de fúria açulada pelo
medo.
ÀS ARMAS!
Mas reparai em Camilo Desmoulins a sair precipitadamente do Café
E assim decorrem aqueles dias abafados de julho, numa atmosfera de Foy, de rosto sibilino e cabeleira ao vento, com uma pistola em
de suspensão, de dúvida e de presságio. M. Marat, num apaixonado cada mão! Salta para uma mesa; os satélites da polícia estão-no olhan­
conselho impresso, recomenda que se abstenham, acima de tudo, da do; vivo não o levarão, nem eles ficarão vivos, se êle ficar vivo. Desta
violência1. Não obstante, a pobreza esfomeada já está a incendiar as vez, fala sem gaguejar: "Amigos! Devemos morrer como lebres perse­
barreiras da cidade, onde se cobra o tributo sobre comestíveis, cla­
guidas? Como carneiros pegados no aprisco, balindo por misericórdia,
mando por pão.
onde não há nenhuma misericórdia, senão a de uma faca afiada?
A manhã do dia 12 de julho é domingo: as ruas estão todas cheias Chegou a hora; a hora suprema dos franceses e do homem; em que
de editais de tamanho enorme De par le Roi, "convidando os cidadãos o opressor está em face do oprimido e a alternativa é a morte rápida,
pacíficos a permanecer dentro de portas", a não se alarmarem e a ou libertação para sempre. Que tal hora seja bem-vinda! Nós, pa-
não se juntarem em grupòS. Para que é isto? Que significam estes rece-me,'só um grito devemos soltar: Às Armas! Que todo o Paris,
editais de tamanho enorme? E, acima de tudo, o que significa este que toda a França, como a voz dum furacão apenas grite: Às Armas!"
movimento militar: dragões, hússares vindos de todos os pontos para Às Armas! responde o rugir de inúmeras vozes, como se fossem uma
a Place Louis Quinze, com composta gravidade no rosto, apesar de única voz, voz de um demónio bramindo do ar, porque todos os
Mildadot apenas com alcunhas, com apupos e até com projetis?2 Be- olhos se incendeiam, todos os corações se inflamam até à loucura. É
senval está com files. Os seus Gardes Suíços já estão nos Champs com tais palavras ou com outras enérgicas 2 , que Camilo evoca os po­
Elysées, com quatro peças de artilharia. deres dementais, neste grande momento. Amigos, continua Camilo,
Desceram então os destruidores sobre nós? Desde a ponte de Sèvres arranjemos um sinal emblemáticol Topes, que sejam verdes; — a côr
ao distante Vincennes, de Saint-Denis ao Champ de Mars estamos to­ da esperança! — Como nas nuvens de gafanhotos, as folhas verdes das
dos cercados! Alarma, de incerteza ansiosa, penetra em todos os cora­ árvores, fitas verdes das lojas circunvizinhas, todas as coisas verdes são
ções. O Palais Royal converteu-se num lugar de atemorizadas inter­ arrancadas para delas se fazerem topes. Camilo desce da mesa, "sufo­
jeições, silenciosos apertos de mão. Podemos imaginar com que som cado com abraços, molhado de lágrimas; dão-lhe um bocado de fita
doloroso o canhão do meio-dia (que o sol dispara ao cruzar o seu verde e prega-a no chapéu". E agora para a loja de imagens de Curtius;
meridiano) ali ecoou: pressago, como voz inarticulada de condenação 3 . para os bulevares; para os quatro ventos, e não descanseis enquanto
Vêm estas tropas verdadeiramente "contra os bandoleiros"? Onde estão a França não estiver em fogo!
os bandoleiros? Que mistério anda no ar? — Escutai! uma voz humana A França, há tanto tempo agitada e ressecada pelo vento, está pro­
anuncia articuladamente uma notícia tremenda: Necker, Ministro do vavelmente no devido ponto de inflamação. Quanto ao pobre Curtius,
Povo, Salvador da França foi demitido. Impossível, inacreditável! Trai- o qual, sentimos pensá-lo, deve ter sido imperfeitamente pago, não
pode fazer questão por causa das suas imagens. O busto de cera de
1 AVÍJ au Peuplc, ou lei Ministre» devolléi, 1 de julho de 1789 (in Hisi. Pari. II. 37).
2 Bescnval, IH. 411. 1 Hlit. Pari. II. 81.
3 Hist. Pari. II. 81. t Veux Cordelier, par Camille Desmoulins, N.» 5 (reimpresso in Collection dei Mímolrei,
par Baudouin Frèrei, 1'aris, 1825), p . 8 1 .
158 O TERCEIRO ESTADO ÀS ARMASI lOUt

Necker, o busto de cera de D'Orléans, benfeitores da França, cober­ agora que alucinada indignação; repercutindo-se por toda a noite. O
tos de crepe, como em cortejo fúnebre, ou à maneira dos suplicantes grito Às Armas, ruge multipotente: os campanários, com a sua voz
que apelam para o céu, para a terra e para o próprio Tártaro, são de metal, repicam-no, quando o sol se afunda; as lojas dos amieiros
processional mente conduzidos por uma multidão miscelânea. Como são arrombadas, saqueadas; as ruas são um mar vivo em efervescência,
emblemasl Pois que o homem, na verdade, com as suas singulares batidas por todos os ventos.
faculdades imaginativas, pouco pode fazer ou nada sem emblemas: T a l foi a consequência da carga de Lambesc no jardim das Tulhe­
assim os turcos olham para a bandeira do profeta; assim já têm sido rias; não feriu de terror salutar os transeuntes de Charlot; o que fêz
queimados Manequins de verga, e o retrato de Necker igualmente já foi despertar vigorosamente o Delírio e as três Fúrias — que verda­
figurou, elevado num pau. deiramente não estavam em sono profundo! Porque elas demoraram
Desta maneira, eles marcham, uma multidão continuamente a acres­ sempre, essas Eumênides subterrâneas (fabulosas e contudo tão reais)
cer; armados de machados, de paus e instrumentos vários; sombrios, na mais monótona existência do homem; e podem dançar, brandindo
em dissonante algazarra, pelas ruas de Paris. Que todos os teatros se as suas tochas fumarentas, sacudindo o seu cabelo serpentígeno. Lam­
fechem; que toda a dança, quer no chão soalhado, quer na relva besc com o Royal-Allemand pode cavalgar até aos quartéis, com mal­
natural, cessei Em vez dum sábado cristão e duma festa de taber­ dições, como música de marcha; depois, voltar outra vez, como quem
náculos nas guinguettes, será um sábado de bruxas; que Paris tor­ está perturbado de espírito; pois que os vingadores Gardes Françai-
nado rábido, dance — com o demónio por gaiteiro! ses, praguejando, de sobrecenho carregado, avançam para êle, dos seus
quartéis na Chaussée d'Antin; despejam-lhe uma rajada de fogo (ma­
Todavia, Besenval, com cavalaria e infantaria, está na Place Louis tando e ferindo), a que êle não responde, continuando a marchar 1 .
Quinze. As pessoas que se dirigem a casa, ao crepúsculo, procedentes Já não há conferências entre os de chapéus de plumas. Se as Eumê­
de Chaillot ou Passy, e que por ali se demoram um pouco, para na­ nides acordam, sem que Broglie dê ordens, que pode um Besenval
morar ou tomar um gole de vinho, apresentam um aspecto mais triste fazer? Quando os Gardes Françaises, com os voluntários do Palais
do que nunca. Passará poi^ ali a procissão dos bustos? Ei-Ia; eis tam­ Royal, vão em tropel, ávidos de mais vingança, para a própria Place
bém o Príncipe Lambesc a avançar contra ela, com os seus Royal- Louis Quinze, não encontram lá Besenval, nem Lambesc, nem o Royal-
Allemandsl Há tiros e espadeiradas; os bustos são feitos em pedaços Allemand, nem soldado nenhum. Já não há comando militar. No dis­
e ah, também cabeças de homens. Uma procissão espadeirada nada tante bulevar a Oriente, de Santo António, os Chasseurs da Normandia
tem a fazer senão explodir, ao longo das ruas, travessas, avenidas das chegam, cobertos de pó, cheios de sede, após um dia de rija caval­
Tulherias que ela encontra; e desaparecer. Um homem desarmado gada; mas não encontram nenhum chefe de aboletamentos, não sabem
jaz no chão; pelo seu uniforme, um Garde Française; levem-no (ou que fazer nesta cidade de confusões; não podem falar com Besenval,
levem apenas a notícia) morto e a escorrer sangue para o seu quar­ nem tampouco descobrir onde êle está: os Chasseurs têm de bivacar
tel — onde tem camaradas ainda vivos! aqui mesmo, com a sua poeira e a sua sede — a não ser que algum
patriota lhes ofereça um copo de vinho, — e conselhos. Multidões
Mas por que não carregas agora, vitorioso Lambesc, através daquele furiosas circundam o Hôtel-de-Ville, gritando: Armas! Ordens! Os vinte
próprio jardim das Tulherias, por onde os fugitivos se estão escoando? e seis conselheiros municipais com as suas longas togas mergulharam
Por que não mostras também aos passeantes do domingo como o aço no caos da confusão; — para nunca mais emergirem. Besenval está-se
reluz, borrifado de sangue, para que o vão contar, e os ouvidos dos dolorosamente escapando para o Champ de Mars; tem de ficar ali
homens sintam formigueiros? Formigueiros já eles sentem, mas de na mais cruel incerteza: correio após correio parte para Versalhes, sem
outra ordem. O vitorioso Lambesc, nesta sua segunda ou terceira carga, trazer nenhuma resposta, mal se podendo trazer de volta a si mesmo.
consegue apenas derrubar (não chameis a isso acutilar, porque êle Porque as estradas estão todas bloqueadas de baterias e piquetes, com
feria com o plano da -espada) um homem, um pobre mestre-escola, ondas de carruagens detidas para inspeção: tal era a única ordem de
que por ali andava pacificamente; mas foi repelido por barricadas de Broglie. O Oeil-de-Boeuf, ouvindo à distância tão louca desordem, que
cadeiras, por arremessos de "garrafas e copos", por execrações em voz lhe soava quase como invasão, quer, antes de tudo, conservar as suas
de baixo e de soprano. Muito delicada é a posição do sufocador de próprias cabeças sobre os ombros. Um novo ministério com, por assim
tumultos; em que demasiado pode ser tão mau como não-bastante.
Porque cada uma dessas vozes de baixo, e mais ainda cada voz de
soprano, levada a todas as partes da cidade, nada mais despertam 1 Wcber, II. 75-91.
160 O TERCEIRO ESTADO

dizer, apenas um pé no estribo, não pode dar saltos. O louco Paris é


inteiramente abandonado a si próprio.
Que Paris, quando a noite cail Uma cidade metropolitana europeia,
violentamente desprendida das suas antigas combinações e arranjos
para se desconjuntar tumultuosamente, à procura de novos. O uso e
o costume não mais dirigirão nenhum homem; cada um, com aquela
originalidade que possui, tem de começar a pensar; ou de seguir aque­
les que pensam. Setecentos mil indivíduos, de repente, vêem todos os
seus antigos caminhos, antigos modos de atuar e decidir, desaparece-
rem-lhes como debaixo dos pés. E assim eles vão, com terror e clangor,
sem saberem para onde, quer correndo, nadando ou voando — preci­
pitadamente para a nova era. Com clangor e terror: de cima, Broglie
e o deus da guerra impende, com as suas balas de canhão incendiá­
rias; e de baixo, um mundo preternatural de bandoleiros ameaça com
punhais e incêndios. A loucura é a soberana do momento.
Felizrnente, no lugar dos submergidos vinte e seis, o Clube Elei­
toral está-se reunindo; constituiu-se em "Municipalidade Provisória".
No dia seguinte, chamará o preboste Flesselles, com um Echevin ou
dois, para os auxiliarem em muitas coisas. Pelo presente, decreta uma
coisa muito essencial: que se vai imediatamente proceder ao alista­
mento de uma "Milícia Parisiense". Parti, vós chefes dos distritos, a
laborar nesta grande obra; enquanto nós, aqui, em Comité Perma­
nente, ficamos alerta. Que os homens válidos, cada grupo no seu
bairro, fiquem de vigília e guarda, toda a noite. Que Paris goze um
pouco de sono febril; perturbada por tantos sonhos febris "das moções
violentas no Palais Royal"; ou, de vez em quando, acorde em sobres­
salto e vá à janela, no seu barrete de dormir, assistir ao encontro
discordante de patrulhas, mutuamente ininteligíveis; e olhe para os
luzeiros das barreiras distantes, a subirem em línguas de fogo para
a cúpula da noite 1 .

Capitulo V

DÊEM-NOS ARMAS

Na segunda-feira, a enorme cidade acorda, não para o seu trabalho


normal; mas para que diferente atividade! O operário tornou-se em
combatente; tem apenas uma necessidade: a de armas. O trabalho de
todas as profissões parou — exceto o do serralheiro, afanosamente mar­
telando chuços; e, em menor grau, o do cozinheiro, improvisando vitua­ I:m cima: Procissão dos Estados
lhas, porque la bouche va toujours. As mulheres também estão costu- ('•erais, a 4 de maio de tfga, j)e-
wnho de Angustia d,- Saint-Aubin,
1 Deux Amis, I. 267-306. Museu l.ambiurl.

Ki» baixo: Robespierre. Desenho


lnovenienle do gabinete de lime.
Museu de Versalhes.
■ M i
DÊEM-NOS ARMAS II,!

i .nulo topes; — já não verdes, que sendo a côr da D'Artois, provoca a


intervenção do Hôtel-de-Ville; mas de vermelho e azul, as nossas antigas
cores de Paris: estas, uma vez colocadas sobre um fundo do branco cons­
titucional, são a famosa tricolor — que (se a profecia não errar) "dará
a volta ao mundo".
Todas as lojas, a não ser as padarias e tabernas, "estão fechadas": Paris
está nas ruas; refervendo, espumando como um copo de vinho veneziano
dentro do qual se tenha deitado veneno. O sino de alarma, por ordem,
repica loucamente em todos os campanários. Armas, vós eleitores muni­
cipais; tu, Flesselles, com os teus Echevins, dai-nos armasl Flesselles
dá o que pode: promessas falazes, talvez insidiosas, de armas de Char-
leville, ordem de procurar armas aqui, ordem de procurar armas acolá.
Os novos municipais dão o que podem, uns trezentos e sessenta fuzis
avariados, equipamento da polícia municipal: "um homem de taman­
cos e sem casaco, agarra-se logo a um deles e monta guarda". Além
disso, como foi sugerido, dá-se ordem a todos os serralheiros para fabri­
car chuços com toda a alma.

Os chefes dos distritos estão em fervente consulta; os populares patrio­


tas vagueiam alucinados, ávidos de armas. Até aqui, no Hôtel-de-Ville,
Consulta à magia sobre a Revolução de 1789. A feiticeira lê o futuro na flama da trlpode só existia aquela pequena porção de fuzis avariados, como vimos. No
mágica: "Orgulho domado, avareza unida, mérito reconhecido, união das quatro partes do chamado Arsenal, nada mais do que ferrugem, ferro velho e salitre —
mundo". O nobre está perplexo e o tyidre aterrado, enquanto o plebeu aplaude a predição. ficando-se também ao alcance das peças da Bastilha. O depósito de Sua
A esquerda a Calúnia foge. No alto, quatro mulheres dançam uma "ronde" simbolizando
a pai enfim restabelecida nas quatro partes do mundo. (ISibl. Nac, Est.).
Majestade, a que chamam Garde-Meuble, é forçado e saqueado: bas­
tante tapeçaria e adornos, mas de material de combate próprio para
servir, pouca coisa! Dois canhões montados em prata ali há; presente
antigo de Sua Majestade de Sião a Luís Quatorze; a espada dourada do
bom Henrique; armas e armaduras de cavalaria antiga. Todas coisas e
outras como estas, o patriotismo necessitado agarra avidamente, à falta
de melhor. Os canhões siameses seguem rodando, numa missão para a
qual não foram destinados. Entre fuzis avariados, vêem-se lanças de
torneio; capacetes principescos e cotas de malha luzindo no meio de
cabeças com chapéus sujos — imagem duma época em que todas as
épocas e as suas aquisições se tenham de repente misturado confusa­
mente I

Na Maison de Saint Lazare, outrora Casa dos Lázaros e agora Casa


de Correção com padres, não havia vestígio de armas; mas, por outro
lado, trigo em culposa abundância. Fora com êle, para o mercado, nesta
carestia de cereais! Ó Céus, "cinquenta e duas carroças", em longa fila,
mui chegam para o levar à Halle aux Blés! Então é certo que vós reve­
rendos padres tínheis a despensa bem provida; as arcas do toicinho bem
cheias» e os armários da vossa adega repletos de vinhos generosos; vós,
As indumentárias cm trança no tempo da Revolução. Da esquerda para a direita: bispo cinliusteiros exasperadores dos pobres, traiçoeiros açambarcadores do
e pároco, cortesão, nobre de uma região secundária, juit, burguesia e camponeses.
pio!

11 lii» H l i t . R«v. Francesa


162 O TERCEIRO ESTADO DÊEM-NOS ARMAS 163

Vão c o protesto e vã a súplica de joelhos: a Casa de Saint Lazare "encravar as peças". Os próprios suíços, Château-Vieux e os outros, tal­
tem dentro dela o que tem de sair, a despeito de protestos. Contemplai vez que hesitem também em combater.
este espetáculo: Como, de cada janela, ela vomita: meras torrentes de A nossa milícia parisiense, que alguns pensam que seria melhor chamar
mobiliário, de bramidos, de algazarra; as adegas também derramando Guarda Nacional — está progredindo como o coração pode desejar. Pro­
vinho. Até que, como é natural, o fumo se eleva, incêndio ateado dizem metia chegar aos quarenta e oito mil; mas em poucas horas duplica e até
alguns, pelos próprios lazaristas, desesperados de outro meio de salva­ quadruplica aquele número: invencível — tivéssemos nós armas!
mento; e o estabelecimento desaparece deste mundo, em chamas. Notai,
Mas eis as prometidas caixas de Charleville, marcadas Artillerie! En­
não obstante, que sendo aí apanhado um ladrão (mandado ou não
pelos aristocratas), "enforcam-no imediatamente". fim, vamos ter armas! Imaginai a cara pálida do patriotismo, ao encon­
trá-las cheias de trapos, roupa suja e aparas de madeira! ó preboste dos
Reparai também na Cadeia do Châtelet. A cadeia dos Devedores de
mercadores, então como é isto? Nem no convento dos Chartreux, onde
La Force é arrombada de fora; e aqueles que estãos presos por ordem
nos mandaram com ordem assinada, havia ou jamais houve qualquer
de aristocratas saem livres. Ao ouvirem isto, os criminosos do Châtelet
arma de guerra. Pelo contrário, aqui, neste barco do Sena, coberto com
revolvem os seus pavimentos e põem-se na ofensiva com as melhores
perspectivas — se o patriotismo, ao passar por ali, não tivesse disparado encerados (mas descoberto pelo nariz apurado do patriotismo) estão 50
uma descarga para o mundo criminal e não os tivesse feito regressar às quintais de pólvora; não a entrar, mas sub-reptlciamente a sair! Que
enxovias. O patriotismo não se associa com ladrões e assassinos: segura­ pretendes tu, Flesselles? "É um jogo arriscado esse de nos "engodar". O
mente que também o castigo, neste dia, persegue o crime, com sapatos gato brinca com o rato cativo; mas como pode o rato brincar com o gato
terrivelmente velozesl Uns vinte ou quarenta desgraçados, encontrados assanhado, com o assanhado tigre nacional?"
bêbedos no chão, nas adegas de Saint Lazare, são com indignação con­ No entretanto, ó vós serralheiros de avental preto, martelai rijo,
duzidos à cadeia; mas não tendo o carcereiro lugar para eles; e não quanto mais depressa melhor, com braço forte e coração quente. Que
vindo à lembrança outro sítio seguro, enforcam-nos "on les pendit", como este homem e aquele, todos em movimento da cabeça até aos pés, fulmi­
está escrito1. Frase curta v não sem significação, seja o fato verdadeiro nem alternadamente, e manejem o grande martelo até que a bigorna
ou não! ande aòs ziguezagues, sempre a retinir; enquanto, de vez em vez, por
cima de vós, estrondeia o canhão de alarma — porque a cidade tem pól­
Em tais circunstâncias, o aristocrata, o rico não patriota estão fazendo
vora. Fabricam-se chuços; uns cinquenta mil em trinta e seis horas: vede
as malas para partir. Mas não os deixam. Uma força de gente de taman­
se os do avental preto têm estado ociosos! Cavai trincheiras, descalcetai
cos apodera-se de todas as barreiras, incendiadas ou não: tudo o que
as ruas, vós outros, com afinco, homens e mulheres; inundai o chão de
entra, tudo o que procura sair é detido aí e arrastado para o Hôtel-de-
barricadas, pondo em cada uma delas uma sentinela voluntária; empi­
Ville; coches, carroças, baixelas, mobília, muitos sacos de farinha, e até
lhai de pedras duras os peitoris das janelas e os andares altos. Arranjai
depois, rebanhos e manadas atulham a Place de Greve2.
pez a escaldar, pelo menos água a ferver pronta, vós mulheres fracas e
E assim vai rodando o tempo, com rugidos, algazarra e imprecações;
velhas, para derramá-la sobre o Royal-Allemand, com os vossos velhos
tambores a rufar, campanários em repique e pregoeiros de campainha
braços descarnados: e que não faltem com isso as vossas estridentes mal­
na mão, a gritar: "Ouvi, ouvi, que todos os homens marchem para os seus
dições! Patrulhas da recém-nascida Guarda Nacional, com archotes, per­
distritos, para serem alistados!" Os distritos reúnem-se em jardins, em
correm as ruas em toda essa noite; que, afinal estão vazias, porém com
praças abertas; estão-se constituindo em tropas voluntárias. Ainda não
todas as janelas iluminadas por ordem. Espetáculo estranho; como uma
caiu nenhuma bala incendiária vinda do acampamento de Besenval; pelo
(idade dos mortos iluminada a nafta, aparecendo aqui e ali um bando
contrário, estão continuamente afluindo desertores com as suas armas;
de espectros perturbados.
e mesmo agora, alegria das alegrias, às duas da tarde, os Gardes Françai-
ses, depois de serem mandados para Saint Denis e se terem peremptoria­ Ó pobres mortais, como fazeis esta terra amarga uns para os outros;
mente recusado, chegam em massa! É um fato que vale por muitos fatos. eita tremenda e maravilhosa vida, tremenda e horrível, com Satã alojado
Três mil e seiscentos dos melhores homens de combate; com artilheiros cm todos os corações! Tantas agonias e fúrias e lamentações vós tendes
até e canhões! Seus oficiais ficaram sozinhos; nem sequer conseguiram e tendes tido, em todos os tempos: para serem todas enterradas, em silên­
cio tão profundo; e sem que o mar salgado se avolume com as vossas
1 Hist. Pari. II, 96. lágrimas.
2 Duaaulx, Prise de la Bastillc, p. 290.
164 O TERCEIRO ESTADO
DEEM-NOS ARMAS 165
Grande contudo é o momento em que nos chegam notícias de liber­
um homem fatigado por muitas coisas. É irmão daquele Pompignan,
dade; quando a alma, há muito escravizada, se ergue de entre as suas
que meditou lamentavelmente sobre o Livro das Lamentações:
cadeias e esquálida estagnação, mesmo que seja em cegueira e atordoa­
mento, e jura por aquele que a criou, que há de ser livre! O mandamento Savez-vous pourquoi Jeremie
mais profundo e mais sentido, clara ou obscuramente, de todo o nosso Se lamentait toute sa vie?
ser, é ser livre. A liberdade é o único desígnio, a que sábia ou não sabia­ Cest qu'il prévoyait
mente se aspira, de todas as lutas do homem, trabalhos e sofrimentos Que Pompignan le traduirait!
nesta terra. Sim, supremo é um tal momento (se tu, leitor, já a êle assis­
tiste): primeira visão de um Sinai rodeado de chamas, nesta nossa pere­ O pobre Bispo Pompignan retira-se, tendo deixado Lafayette por subs­
grinação pelo deserto — ao qual daqui em diante não falta a sua coluna tituto: este, como vice-presidente noturno, vela sobre uma câmara pouco
de nuvem, de dia, e a coluna de fogo, de noite! É qualquer coisa de povoada e desconsolada, de luzes frouxas — esperando o que as horas
justo e até de muito importante, que quando as cadeias se têm tornado trarão.
corrosivas, envenenadas, — que o homem se liberte da opressão do seu
É assim em Versalhes. Mas em Paris, o inquieto Besenval, antes de
semelhante. Para a frente, pois, enlouquecidos filhos da França; seja para
ir descansar de noite, dá um pulo até ao velho M. de Sombreuil, do
este destino ou para aquele! Em volta de vós não há senão fome, falsi­
Hotel des Invalides, próximo. M. de Sombreuil possui, o que é um grande
dade, corrução e a garra da morte. Onde estais, não há estabilidade.
segredo, uns vinte e oito mil fuzis depositados nos subterrâneos ali; mas
não possui confiança na atitude dos seus inválidos. Neste dia, por exem­
A imaginação pode, imperfeitamente, figurar como o Comandante Be- plo, êle mandou vinte dos seus homens a desmontar esses fuzis, por
senval no Champ de Mars, passou estas dolorosas horas: a insurreição medo de que a sedição deitasse a mão a eles; mas, em seis horas, os
rugindo em toda a volta, e os seus homens sumindo-se! De Versalhes, às vinte só desaparafusaram vinte cães de espingardas (chiens) — cada
mais instantes mensagens, não chega resposta; ou uma vez somente, uma inválido, seu cão! Se lhes dessem ordem para disparar, eles virariam,
vaga palavra de resposta que é pior que nenhuma. O conselho dos ofi­ imagina, êle, as suas armas contra êle próprio.
ciais pode apenas decidir que não há decisões; os coronéis informam-no, Desfortunado velho fidalgo militar, esta é a tua hora, não de gloriai
"a chorar", que não podem contar com os seus homens. Reina incerteza Também o velho Marquês de Launay, da Bastilha, "içou já há muito
cruel: o deus da guerra Broglie senta-se inacessível no seu Olimpo; não as suas pontes levadiças e retirou-se para os seus aposentos"; com senti­
desce revestido de terror, não mostra a sua rajada de metralha; e nem nelas a rondar as ameias, sob o céu da meia-noite, lá no alto, ao revér­
ordens manda. bero de Paris iluminado — às quais, uma patrulha nacional, toma a liber­
No Château de Versalhes tudo verdadeiramente parece mistério: na dade de atirar "sete disparos quase à meia-noite", que não produziram
cidade de Versalhes, se nós estivéssemos ali, tudo é boato, alarma e indig­ efeito1. Este foi o dia 13 de julho de 1789; dia pior, disseram muitos, que
nação. Senta-se ali a augusta Assembleia Nacional, ameaçada de morte; o anterior 13 de julho foi, em que apenas caiu saraiva do céu e se não
tentando desafiar a morte. Resolveu "que Necker leva com êle as sauda­ desencadeou do inferno a loucura, devastando mais alguma coisa do
des da nação". Enviou solenes deputações ao Château, com pedido para que as colheitas!
se retirarem essas tropas. Em vão: Sua Majestade, com grande calma,
convida-nos a estar de preferencia ocupados com o nosso próprio dever Nestes mesmos dias, como a cronologia nos ensina, o velho e fogoso
de fazer uma Constituição! As Pandoras estrangeiras andam a esporear Marquês de Mirabeau jaz prostrado em Argenteuil — não ao alcance do
e a curvetear com ar fanfarrão; com um olho provavelmente também som destas armas de alarma; porque êle propriamente não está ali, mas
na Salle des Menus — se não fosse pelas caras ameaçadoras que enchem apenas o seu corpo, surdo e frio para sempre. Foi sábado de noite que
todas as avenidas ali 1 . Ficai firmes, senadores nacionais: cinosura de um éle, exalando o seu último alento, rendeu ali a alma — deixando um
povo firme, de aspecto sombrio! mundo, que nunca se adaptou ao seu espírito, agora desconjuntado a res­
Os augustos senadores nacionais determinam que haja sessão perma­ valar, aparentemente, para o delírio e culbute générale. Que lhe importa
isso a êle, ao partir seja para onde fôr, na sua longa jornada? O velho
nente, até terminar isto. Considerai, contudo, que o digno Lafranc de
Château Mirabeau demora silencioso, muito distante, na sua rocha
Pompignan, nosso novo presidente, que nomeamos sucessor de Bailly, é
escarpada, naquela "garganta de dois ventosos vales"; agora o pálido
1 Vld. Lameth, Ferrièrcj, ctc.
I Dcux Arali de la Liberte, I. S12.
lG(i O TERCEIRO ESTADO ASSALTO E VITÓRIA 167

espectro desvanecido de um Château: esta enorme desordem do mundo, figura foi de que a resistência seria inútil; que se sangue corresse, maldi­
e a França e o próprio mundo, também se desvanecem, como uma som­ ção para aquele que o derramasse. Assim falou a figura; e desapareceu.
bra sobre um grande e calmo espelho de água; e tudo seguirá como Deus "Nela havia uma espécie de eloquência que impressionou". Besenval
quiser. confessa que a devia ter prendido, mas que não o fêz1. Quem poderia
O jovem Mirabeau, de coração triste, porque êle amava este velho, ser esta figura de olhos em brasa, de fala rápida e curta? Besenval sou-
bravo e impertinente pai; de coração triste e alanceado por tristes preo­ be-o, mas não o diz. Camilo Desmoulins? O pitagórico Marquês de Va-
cupações — afasta-se, pelo momento, da história pública. A grande crise ladi, inflamado "com as violentas moções toda a noite no Palais Royal?"
desenvolve-se sem êle1 . A fama nomeia "o jovem M. Meillar"; 2 depois fecha os lábios acerca dele
para sempre.
Fosse como fosse, vede pelas nove da manhã os nossos voluntários na­
Capitulo VI cionais rolando em longo e largo fluxo para sudoeste, em direção ao
Hotel des Invalides; em busca da única coisa necessitada. O procurador
ASSALTO E VITÓRIA do rei, M. Ethys de Corny, e outros funcionários estão ali; o Cure de
Saint-Etienne du Mont marcha, não pacífico, à testa da sua militante
Mas, para os que vivem e para os que lutam, uma nova manhã, nessa paróquia; os escrivães da Basoche de casacos vermelhos, nós vemo-los
manhã de quatorze, desponta. Sob todos os telhados desta alucinada marchar, agora voluntários da Basoche; os voluntárois do Palais Royal:
cidade está o nodus dum drama, não sem tragédia, precipitando-se para
— voluntários nacionais contáveis por dezenas de milhares; com um cora­
a solução. O alvoroço e os preparativos, os tremores e as ameaças; as
ção e um espírito únicos. Os mosquetes do rei são os da nação; pensai,
lágrimas que brotam de olhos idososl Neste dia, meus filhos, vós deveis
velho M. de Sombreuil se, nesta extremidade, tu os podes recusar! O
comportar-vos como homens. Pela memória dos agravos de vossos pais,
pela esperança nos direitos dos vossos filhos! A tirania impende, de cólera velho M. de Sombreuil bem queria parlamentar, mandar correios; mas
rubra: defesa para vós não há nenhuma, se não fôr nas vossas próprias de nada vale: os muros são escalados, sem que nenhum inválido desfe­
mãos direitas. Neste dia, vós tendes de agir ou morrer. che a arma; os portões têm de ser abertos. O patriotismo avança, através
de todos os compartimentos e corredores; esquadrinhando alucinado por
Desde os primeiros alvores da madrugada que o insone Comité Perma­
nente ouve o conhecido grito, agora tornado quase frenético, amoti- armas. Que subterrâneo ou que buraco pode escapar à sua pesquisa? As
nador: Armas! Armasll O preboste Flesselles ou quaisquer traidores que armas são encontradas; todas guardadas ali, envolvidas em palha, talvez
estejam entre vós, é melhor que pensem nessas caixas de Charleville. com o fim de serem queimadas! Mais voraz do que os leões esfomeados
Somos cento e cinquenta mil; e apenas um homem em três provido de sobre a presa morta, a multidão, com clangor e vociferação, deita as
um chuço! Armas é a única coisa de que necessitamos; com armas somos garras a elas, lutando, empurrando, calcando até prensar, contundir e
uma invencível Guarda Nacional capaz de desafiar os homens; sem quase esborrachar os patriotas mais fracos3. E assim com um barulho
armas, uma ralé para ser varrida com metralha. ensurdecedor muito prolongado e com a mais discordante música or­
Felizmente, correu a notícia, porque não há segredo que possa ser questral, a cena muda; e vinte e oito mil espingardas passam para os
guardado, — que há mosquetes no Hotel des Invalides. Pois é para lá ombros de igual quantidade de Guardas Nacionais, emergidos, por esse
que nós iremos: o procurador do rei M. Ethys de Corny e toda a autori­ meio, da escuridão para uma luz ameaçadora
dade que um Comité Permanente pode emprestar, irá conosco. O acam­
pamento de Besenval é ali; talvez êle não dispare sobre nós; se nos quiser Que Besenval ponha os olhos nesses mosquetes, quando eles passam a
matar, nada mais nos resta que morrer. brilhar! As Gardes Françaises, diz-se, têm os canhões apontados para êle;
O pobre Besenval, ah, com as suas tropas a dissolverem-se daquela prontos a atirar, se necessário fôr, do outro lado do rio 4 . Parado se con­
maneira, não tem a mínima disposição de disparar! Às cinco horas, esta serva êle; "espantado", podemos lisonjear-nos, "do porte altivo (fière con-
manhã, quando êle estava sonhando, olvidoso, na Ecole Militaire, uma tenance) dos parisienses". E agora para a Bastilha, vós intrépidos pari-
"figura" surgiu repentinamente à beira do seu leito; "de rosto um tanto
formoso, olhos em brasa, fala rápida e curta, ar audacioso": foi uma tal 1 Besenval, III. 414.
2 Tableaux de la Révomtion, 1'ri.u- de la Bastitle (ColeçSo de gravuras e retratos, com maté­
figura que abriu as cortinas de Priamo. A mensagem e o conselho da ria impressa, nem sempre inelucidativa — parte da qual se diz ser da autoria de Chamfort).
H
. Deux Amis, I. S02.
I llesenval, III. 416.
1 Fils adoptif, Mirabeau, VI. I. I.
O TERCEIRO ESTADO ASSALTO E VITÓRIA I6S
166
sienses! Dali, ameaça-vos ainda a metralha: para ali todos os pensamentos vem; metralha rija é duvidosa; mas hesitar entre estas duas coisas não é
e passos dos homens volvem agora. decisão nenhuma. Cada vez mais bravia cresce a onda dos homens, tor-
O velho De Launay, como dissemos, afastou-se "para o seu interior", nando-se cada vez mais ruidoso o seu zumbido infinito, em imprecações
logo depois da meia-noite de domingo. Ali permanece desde então, deba- e talvez até em estalos de tiros desgarrados — que, afinal, em paredes
tendo-se, como agora todas as autoridades militares, no mais doloroso de nove pés de espessura, não podem produzir dano. A ponte levadiça
conflito de incertezas. O Hôtel-de-Ville, "convida-o" a deixar entrar sol­ exterior foi descida para Thuriot; nova deputação de cidadãos (é a ter­
dados nacionais, o que é um eufemismo de rendição. Por outro lado, as ceira e a mais ruidosa de todas) penetra por essa via no pátio exterior;
ordens de Sua Majestade são precisas. A sua guarnição compõe-se ape­ e, não conseguindo falas suaves afastar estes, De Launay atira fogo e faz
nas de oitenta e dois velhos inválidos, reforçados por trinta e dois jovens subir a ponte levadiça: um borrifo ligeiro — que incendiou o caos dema­
suíços; as suas muralhas têm, na verdade, nove pés de espessura, e êle siado combustível, transformando-o em caos de fogo avassalador! Rebenta
possui canhões e pólvora de alimentos para um dia. E depois a cidade a insurreição, à vista do seu próprio sangue (pois houve mortes por esse
é francesa e a pobre guarnição, na maior parte, também francesa. Rígido borrifo de metralha), em interminável e contínua explosão de mosque-
e velho De Launay, pensa bem no que vais fazer! taria, alucinação, execração; e em cima, do alto da fortaleza, que um só
canhão, com a sua metralha, ribombe, para nos mostrar o que podemos
Toda a manhã, desde as nove, por toda a parte tem soado o grito: À fazer. A Bastilha é sitiada!
Bastilha! Repetidas "deputações de cidadãos" têm estado aqui, instando
Avante, pois, todos os franceses, que tendes um coração no vosso corpo!
apaixonadamente por armas; que De Launay tem recambiado com falas
Rugi com todas as vossas gargantas, de cartilagem e de metal, vós filhos
suaves, através das vigias. Perto do meio-dia, o eleitor Thuriot de La Ro-
da liberdade; despertai espasmòdicamente qualquer faculdade predomi­
sière consegue entrar; encontra De Launay não disposto à rendição; mais
nante em vós, alma, corpo ou espírito; porque a hora é chegada! Arre­
disposto até a fazer explodir a fortaleza. Thuriot sobe com êle às ameias:
mete, tu Luís Tournay, segeiro do Marais, antigo soldado do regimento
ali se apinham montões de pedras de calçada, de ferro velho e de pro-
do Dauphiné; arremete contra a corrente dessa ponte levadiça exterior,
jetis; com as peças devidamente assestadas; em cada abertura uma peça
apesar de as balas sibilarem em volta de ti! Nunca, em cubo ou pina
— apenas recuada um poucb! Mas fora, reparai, ó Thuriot, como a mul­
de roda, o teu machado desferiu um tal golpe. Força com isso, força até
tidão aflui, desembocando de todas as ruas: o sino de rebate a tanger
aos infernos: que todo o maldito edifício se afunde e que a tirania seja
furiosamente, todos os tambores rufando a gènérale: o arrabalde de Santo
engolida para sempre! Montado, dizem alguns, no telhado da casa da
António a rolar inteiramente para aqui, como um só homem! Tal visão
guarda, ou conforme outros, "sobre baionetas pregadas nos interstícios
(espectral mas contudo real) tu, ó Thuriot, do teu Monte de Visão, con­
da parede", Luís Tournay malha, ajudado pelo valente Aubin Bonne-
templas neste momento: profética de muitas outras fantasmagorias, e
mère (também antigo soldado): a corrente cede, quebra; a enorme ponte
realidades espectrais de sonoridade confusa, que tu ainda não contem­
levadiça desaba estrondosamente (avec fracas). Feito glorioso, mas con­
plaste, mas hás de contemplar! "Que voulez-vous? disse De Launay, empa­
tudo, ah, ainda se está apenas nas defesas exteriores. As oito sombrias
lidecendo à vista de um tal espetáculo, em ar de reprovação, quase de
torres, com a sua mosquetaria dos inválidos, com as suas pedras de calçada
ameaça. "Monsieur", responde Thuriot, crescendo até ao moral sublime,
e bocas de canhão, ainda se ostentam no alto, intatas; — o fosso escanca-
"que quereis dizer com isso? Considerai se eu não poderia precipitar-nos,
ra-se intransponível, com a sua face de pedra; a ponte levadiça interior
a ambos de nós, desta altura" — uns cem pés, sem incluir o fosso murado!
continua de costas para nós: a Bastilha ainda resta a tomar!
Após o que, De Launay se calou. Thuriot mostra-se de um pináculo,
para acalmar a multidão que se está tornando suspeitosa, fremente; em
seguida desce, e parte com protesto e com aviso dirigido também aos Descrever este sítio da Bastilha (reputado um dos mais importantes da
inválidos — nos quais, porém, êle produz apenas uma impressão indis­ História) é coisa que talvez transcenda o talento dos mortais. Pudésse­
tinta e confusa. As suas velhas cabeças não são das mais claras; além mos nós, depois de infinita leitura, chegar a compreender tanto como a
disso, diz-se, De Launay tem sido pródigo em bebidas (prodigue des buis- planta do edifício! Mas há a esplanada aberta, ao fim da Rua de Santo
sons). Eles pensam não disparar — se não lhes dispararem, se puderem António; há os pátios da frente, Cour Avance, Cour de VOrme, a passa­
evitá-lo; mas, em suma, têm de ser consideravelmente governados pelas gem arqueada (onde Luís Tournay agora luta); depois novas pontes leva-
circunstâncias. diças, pontes dormentes, bastiões, muralhas e as oito torres sombrias:
Desgraçado de ti, De Launay, se tu não podes, em tal hora, tomando uma massa labiríntica, elevando-se carrancuda ali, de todas as idades,
qualquer decisão firme, governar as circunstâncias! Falas suaves não ser- desde vinte anos a quatrocentos e vinte; assediada, nesta sua última
170 O T E R C E I R O ESTADO
ASSALTO E VITÓRIA 171

hora, como dissemos, pelo próprio caos a ressurgir de novo! Artilharia Bilha; três carroçadas, para ali transportadas, desfazem-se em fumo
de todos os calibres; gargantas de todas as capacidades; homens de branco, quase a sufocar o próprio patriotismo; tendo Elie, de sobran-
todos os planos, cada homem o seu próprio engenheiro: raras vezes, i> lli is chamuscadas, de fazer recuar uma carroça, e Réole, o "retroseiro
desde a guerra dos pigmeus com os grous, se viu coisa tão anómala. gigante", outra. Fumo como o do inferno; confusão como a de Babel;
O oficial a meio soldo Elie vai a casa vestir a farda; ninguém lhe barulho como o do Dia do Juízo!
prestaria atenção em traje civil: O oficial a meio soldo Hulin está
Corre sangue, alimento de nova loucura. Os feridos são levados para
arengando às Gardes Françaises, na Place de Greve. Patriotas frené­
«anãs da Rua Cerisaie; os moribundos deixam o seu último mandato
ticos apanham as cargas de metralha; trazem-nas, ainda quentes (ou
d* ninguém ceder até que a maldita fortaleza caia. E todavia, ah,
que o parecem estar) ao Hôtel-de-Ville: Paris, vós vedes, vai ser incen­
' há de ela cair? As muralhas são tão grossas! Deputações, em
diada! Flesseles "fica pálido até nos próprios lábios", porque o rugido
da multidão cresce de intensidade. Todo o Paris chegou ao auge da número de três, chegam do Hôtel-de-Ville; o Abbé Fauchet (que fazia
sua excitação; numa vertigem, em todas as suas vias, d e loucura de parte de uma) pode dizer com que sôbre-humana coragem, com que
pânico. Em cada barricada de rua, rodopia, refervendo, um vórtice devotamento 1 , elas hasteiam a bandeira da cidade na passagem ar-
menor, fortalecendo a barricada, visto que só Deus sabe o que está queada; e ficam, a rufar o seu tambor; mas para nenhum efeito. Em
para vir; e todos os vórtices menores se identificam alucinadamente tal barulheira do Dia do Juízo, De Launay não as pode ouvir, não
com esse grande Maelstrõm de fogo que está em ebulição à roda da N atreve a acreditá-la: regressam, com justificada raiva, ainda a zunir-
Bastilha. lhes ao ouvido o silvo das balas. Que fazer? Os bombeiros estão aqui,
cnguichando com as suas agulhetas os canhões dos inválidos, para ume-
E assim tudo referve e ruge. Cholat, o taberneiro, tornou-se arti­ derer os ouvidos das peças; mas infelizmente não podem esguichar
lheiro improvisado. E Georget, do serviço da marinha, recém-chegado tio alto; apenas produzem nuvens de borrifos. Indivíduos de conheci­
de Brest, manobra a peça do Rei de Sião. Caso singular (singular, se mentos clássicos propõem catapultas. Santerre, o sonoro cervejeiro do
não estivéssemos já habituados a casos semelhantes): Georget esteve, arrabalde de Santo António, aconselha antes a que se incendeie o
na noite passada, descansando na sua estalagem; a peça do Rei de edifício, "com uma mistura de fósforo e de óleo de terebintina jor­
Sião também esteve descansando, sem saber nada dele, durante cem rado por meio de bombas de pressão", ó Spinola-Santerre, tens tu a
anos. Não obstante agora, no instante próprio, juntaram-se e tocam mistura já pronta? Cada homem é o seu próprio engenheiro! E con­
música eloquente. Porque, tendo notícia do que ia acontecer, Georget tudo, o dilúvio de fogo não abranda: até mulheres disparam e turcos;
saltou da diligência de Brest e correu. As Gardes Françaises também pelo menos uma mulher (com o seu amante) e um turco 2 . As Gardes
estariam aqui, com verdadeira artilharia: se as muralhas não fossem Françaises chegaram: artilharia verdadeira, artilheiros verdadeiros. O
tão espessas! Do alto da esplanada, e horizontalmente, de todos os meirinho Maillard está atarefado; o a meio soldo Elie, o a meio soldo
telhados e janelas vizinhas, rompe um dilúvio irregular de mosqueta- Hulin bramam no meio de milhares de homens.
ria, sem efeito. Os inválidos estão agachados, disparando num rela­
tivo à vontade, por detrás de pedra; mal mostram, através das seteiras, Como o grande relógio da Bastilha tiquetaqueia (inaudível) ali, no
a ponta do nariz. Na multidão, alguns caem, baleados; mas isso não seu pátio interior, à sua vontade, hora após hora; como se nada de
faz impressão! extraordinário, para êle ou para o mundo, se estivesse passando! Bateu
uma quando o fogo começou; e está agora apontando para as cinco,
Que a conflagração se alastre, pegando-se a tudo que é combustível 1 sem que o fogo abrande. Lá em baixo, nos seus subterrâneos, os sete
As casas da guarda são queimadas e o refeitório dos inválidos. "Um presos ouvem um ruído abafado, como de terremoto; os seus carce­
cabeleireiro exaltado com dois archotes ardentes" incendiava os paióis reiros respondem vagamente.
do arsenal; se uma mulher não corresse a gritar; se um patriota, com Mal te vai a ti, De Launay, com a tua pobre centena de inválidos!
alguma tintura de filosofia natural, lhe não tivesse instantaneamente Hroglie está distante e seus ouvidos são pesados: Besenval ouve, mas
tirado o fôlego (com a coronha da espingarda na boca do estômago), não pode mandar auxilio. Um pequeno destacamento de hússares aven-
derrubado barris e detido o elemento destruidor. U m a donzela for­ lurou-se, em reconhecimento, cautelosamente, ao longo dos cais, até
mosa, agarrada quando fugia nestes pátios exteriores e erradamente à Pont Neuf. "Vimos juntar-nos a vós", disse o capitão; porque a
julgada ser filha de De Launay, vai ser queimada à vista do gover­ multidão parece avassaladora. Um indivíduo baixo, de cabeça grande,
nador; jaz desmaiada numa enxerga: mas outro patriota, desta vez o
bravo Aubin Bonnemère, o antigo soldado, corre a salvá-la. Queima-se I Narrativa de Fauchet (Deux Amis, I. 324).
^ Deux Amis, I. 519: Dusaulx, ctc.
170 O TERCEIRO ESTADO ASSALTO E VITÓRIA 171
hora, como dissemos, pelo próprio caos a ressurgir de novol Artilharia palha; três carroçadas, para ali transportadas, desfazem-se em fumo
de todos os calibres; gargantas de todas as capacidades; homens de branco, quase a sufocar o próprio patriotismo; tendo Elie, de sobran­
todos os planos, cada homem o seu próprio engenheiro: raras vezes, celhas chamuscadas, de fazer recuar uma carroça, e Réole, o "retroseiro
desde a guerra dos pigmeus com os grous, se viu coisa tão anómala. gigante", outra. Fumo como o do inferno; confusão como a de Babel;
O oficial a meio soldo Elie vai a casa vestir a farda; ninguém lhe barulho como o do Dia do Juízo!
prestaria atenção em traje civil: O oficial a meio soldo Hulin está
Corre sangue, alimento de nova loucura. Os feridos são levados para
arengando às Gardes Françaises, na Place de Greve. Patriotas frené­
casas da Rua Cerisaie; os moribundos deixam o seu último mandato
ticos apanham as cargas de metralha; trazem-nas, ainda quentes (ou
de ninguém ceder até que a maldita fortaleza caia. E todavia, ah,
que o parecem estar) ao Hôtel-de-Ville: Paris, vós vedes, vai ser incen­
como há de ela cair? As muralhas são tão grossas! Deputações, em
diada! Flesseles "fica pálido até nos próprios lábios", porque o rugido
número de três, chegam do Hôtel-de-Ville; o Abbé Fauchet (que fazia
da multidão cresce de intensidade. Todo o Paris chegou ao auge da
parte de uma) pode dizer com que sôbre-humana coragem, com que
sua excitação; numa vertigem, em todas as suas vias, de loucura de
devotamento 1 , elas hasteiam a bandeira da cidade na passagem ar­
pânico. Em cada barricada de rua, rodopia, refervendo, um vórtice
queada; e ficam, a rufar o seu tambor; mas para nenhum efeito. Em
menor, fortalecendo a barricada, visto que só Deus sabe o que está
tal barulheira do Dia do Juízo, De Launay não as pode ouvir, não
para vir; e todos os vórtices menores se identificam alucinadamente
se atreve a acreditá-la: regressam, com justificada raiva, ainda a zunir-
com esse grande Maelstrõm de fogo que está em ebulição à roda da
Ihes ao ouvido o silvo das balas. Que fazer? Os bombeiros estão aqui,
Bastilha.
esguichando com as suas agulhetas os canhões dos inválidos, para ume-
E assim tudo referve e ruge. Cholat, o taberneiro, tornou-se arti­ decer os ouvidos das peças; mas infelizmente não podem esguichar
lheiro improvisado. E Georget, do serviço da marinha, recém-chegado tão alto; apenas produzem nuvens de borrifos. Indivíduos de conheci­
de Brest, manobra a peça do Rei de Sião. Caso singular (singular, se mentos clássicos propõem catapultas. Santerre, o sonoro cervejeiro do
não estivéssemos já habituados a casos semelhantes): Georget esteve, arrabalde de Santo António, aconselha antes a que se incendeie o
na noite passada, descansando na sua estalagem; a peça do Rei de edifício, "com uma mistura de fósforo e de óleo de terebintina jor­
Sião também esteve descansando, sem saber nada dele, durante cem rado por meio de bombas de pressão", ó Spinola-Santerre, tens tu a
anos. Não obstante agora, no instante próprio, juntaram-se e tocam mistura já pronta? Cada homem é o seu próprio engenheiro! E con­
música eloquente. Porque, tendo notícia do que ia acontecer, Georget tudo, o dilúvio de fogo não abranda: até mulheres disparam e turcos;
saltou da diligência de Brest e correu. As Gardes Françaises também pelo menos uma mulher (com o seu amante) e um turco 2 . As Gardes
estariam aqui, com verdadeira artilharia: se as muralhas não fossem Françaises chegaram: artilharia verdadeira, artilheiros verdadeiros. O
tão espêssasl Do alto da esplanada, e horizontalmente, de todos os meirinho Maillard está atarefado; o a meio soldo Elie, o a meio soldo
telhados e janelas vizinhas, rompe um dilúvio irregular de mosqueta- Hulin bramam no meio de milhares de homens.
ria, sem efeito. Os inválidos estão agachados, disparando num rela­
tivo à vontade, por detrás de pedra; mal mostram, através das seteiras, Como o grande relógio da Bastilha tiquetaqueia (inaudível) ali, no
a ponta do nariz. Na multidão, alguns caem, baleados; mas isso não seu pátio interior, à sua vontade, hora após hora; como se nada de
faz impressãol extraordinário, para êle ou para o mundo, se estivesse passando! Bateu
uma quando o fogo começou; e está agora apontando para as cinco,
Que a conflagração se alastre, pegando-se a tudo. que é combustível! sem que o fogo abrande. Lá em baixo, nos seus subterrâneos, os sete
As casas da guarda são queimadas e o refeitório dos inválidos. "Um presos ouvem um ruído abafado, como de terremoto; os seus carce­
cabeleireiro exaltado com dois archotes ardentes" incendiava os paióis reiros respondem vagamente.
do arsenal; se uma mulher não corresse a gritar; se um patriota, com Mal te vai a ti, De Launay, com a tua pobre centena de inválidos!
alguma tintura de filosofia natural, lhe não tivesse instantaneamente Broglie está distante e seus ouvidos são pesados: Besenval ouve, mas
tirado o fôlego (com a coronha da espingarda na boca do estômago), não pode mandar auxílio. Um pequeno destacamento de hússares aven-
derrubado barris e detido o elemento destruidor. Uma donzela for­ turou-se, em reconhecimento, cautelosamente, ao longo dos cais, até
mosa, agarrada quando fugia nestes pátios exteriores e erradamente à Pont Neuf. "Vimos juntar-nos a vós", disse o capitão; porque a
julgada ser filha de De Launay, vai ser queimada à vista do gover­ multidão parece avassaladora. Um indivíduo baixo, de cabeça grande,
nador; jaz desmaiada numa enxerga: mas outro patriota, desta vez o
hravn Aubin Bonnemère, o antigo soldado, corre a salvá-la. Queima-se 1 Narrativa de Fauchet (Dcux Amis, I. 324).
2 Dcux Amis, 1. 519; Dusaulx, etc.
172 O TERCEIRO ESTADO NAO Ê UMA REVOLTA 178

de aspecto plúmbeo e turvo, bamboleia-se para a frente, abrindo os detrás das seteiras ou se levantam apenas de coronha no ar; fizeram
seus lábios azuis, porque há senso nele, e grasna: "apeai-vos então e uma bandeira branca de guardanapos: batem a chamade, ou parece
entregai as vossas armas!" O capitão dos hússares é bem feliz em ser que a batem, porque ninguém ouve nada. Os próprios suíços nas bar­
escoltado até às barreiras e despedido sob palavra. Quem era o indi­ reiras parecem cansados de disparar; desesperançados no dilúvio de
víduo atarracado? Os homens respondem: É M. Marat, autor do exce­ fogo: abre-se uma vigia na ponte levadiça, parecendo que alguém quer
lente e pacifico Avis au Peuple! Verdadeiramente grande, ó tu notável parlamentar. Vede o meirinho Maillard, homem expedito! Na sua
médico de cães, é este teu dia de emergência e de nascimento novo: prancha, balouçando-se sobre o abismo daquele fosso de pedra; a pran­
e contudo, deste mesmo dia a quatro anos! Mas deixemos suspensas cha apoiada no parapeito, contrabalançada pelo peso de patriotas —
as cortinas do futuro. êle paira perigosamente: um tal pombo a entrar numa tal arca!
Aguenta-te, expedito meirinho: um homem já caiu e jaz esmagado,
Que irá fazer De Launay? Uma única coisa devia De Launay ter lá muito embaixo, contra a alvenaria! O meirinho Maillard não caiu:
feito: aquilo que disse que ia fazer. Imaginai-o sentado, desde o prin­ destramente, com passo seguro, êle caminha, de palma estendida. O
cípio, com o morrão aceso, com o seu braço ao alcance do paiol de suíço entrega um papel pela vigia; o ousado meirinho agarra-o e volta.
pólvora; imóvel, como um senador romano ou como um poste de can­ Termos da rendição: Perdão, imunidade a todos! São aceitos? "Foi
deeiro de bronze; friamente comunicando a Thuriot e a todos os d'officier, palavra de oficial", responde o a meio soldo Hulin — ou
homens, por um ligeiro movimento dos seus olhos, qual era a sua o a meio soldo Elie, porque não há concordância sobre isto, e os
resolução: Não ferir, sem ser ferido; pois a fortaleza do rei, não podia, termos são aceitos!
nem devia, de modo nenhum, render-se, salvo a um mensageiro do
rei: a vida dum ancião não tem valor, seja ela perdida com honra; A ponte desce e o meirinho Maillard amarra-a, quando em baixo;
mas pensai, vós alvoroçada canaille, que sucederá quando toda a Bas­ entra em cachão o dilúvio: a Bastilha caiu! Victoire! La Bastille est
tilha voar pelos ares! Em tal atitude estatuária, a segurar o morrão, prise!1
nós podemos imaginar como De Launay teria deixado Thuriot, os
vermelhos escrivães da Basoche, o Cure de Saint Etienne e toda a
ralé e escória do mundo a meditar sobre isso. Capitulo Vil
E contudo, êle não o pôde fazer. Já consideraste como cada coração
humano está tão palpitantemente em correspondência com os corações NAO É UMA REVOLTA
de todos os homens; não tens notado quão onipotente é o som de
Por que comentar o que se segue? A foi d'officier de Hulin devia
muitos homens? Como os seus gritos de indignação paralisam a alma
ser cumprida, mas não pôde sê-lo. Os suíços estão alinhados, disfar­
forte; os seus rugidos de injúrias se abrandam quando as injúrias não
são sentidas? O cavaleiro Gluck confessava que o tom fundamental çados com blusas brancas; os inválidos sem disfarce; as suas armas
da mais nobre passagem, numa das suas óperas mais nobres, foi a empilhadas contra a parede. A primeira onda de vencedores, extasia­
voz da populaça que êle ouviu em Viena, gritando para o seu Kaiser: dos por ter passado o perigo de morte, "lança-se em abraços aos ven­
Pão! Pão! Poderosa é a voz combinada dos homens; a expressão dos cidos"; mas novos vencedores avançam e sempre outros, também em
seus instintos, que são mais verdadeiros que os seus pensamentos: é êxtase, mas não de alegria. Como dissemos, era um dilúvio vivo, inun­
isso o que de mais grandioso um homem encontra; entre os sons e as dando temeràriamente: se as Gardes Françaises, no seu modo frio e
sombras que completam este mundo do tempo. Aquele que pode re­ militar, "não tivessem feito um círculo de armas assestadas", a inunda­
sistir a isso, tem a sua âncora em qualquer parte, para além do tempo. ção teria sido suicida, submergindo-se gente às centenas ou aos milha­
De Launay não a tinha. Perplexo, êle oscila entre as duas atitudes; res, no fosso da Bastilha.
tem esperança no meio do desespero e não entrega a sua fortaleza; E assim a multidão invade os pátios e corredores em vagas avassa­
declara que a fará voar pelos ares, pega em morrões para isso, e não ladoras, disparando das janelas — sobre os seus; no frenesi quente do
a faz voar. Infeliz velho De Launay, é a agonia de morte da tua Bas­ triunfo, de dor e de vingança pelos seus mortos. Os pobres inválidos
tilha e de ti! Cárcere, carceragem e carcereiro, todos três, tais como não têm nada de bom a esperar; um suíço, a fugir em blusa branca,
têm sido, devem acabar.
1 HiMoirc de- la Révolution, par Deux Amis de la Liberte, I. 267-306. Bcsenval, III. 410-34
Durante quatro horas rugiu o mundo da loucura: chamai-lhe o Dusaulx, Prise de la Bastille, 291-301. Bally, Mémoires (Collection de Berville et Barrière), I.
174 O 1 I RCE1R0 ESTADO NAOÊ UMA REVOLTA 175

é detido com um golpe mortal. Que todos os presos marchem para Comité Eleitoral? Se êle tivesse mil gargantas de bronze, não basta­
o Hôtel-de-Ville, para serem julgados! — Ah, já a um pobre inválido ria. O Abbé Lefèvre, na abóbada das caves, está negro como Vulcano,
lhe amputaram a mão direita; o seu corpo mutilado é arrastado para "distribuindo cinco mil libras de pólvora", com que perigos, durante
a Place de Greve e enforcado. Esta mesma mão direita, diz-se, desviou quarenta e oito horas! A noite passada, um patriota, bêbedo, insistiu
De Launay do paiol de pólvora e salvou Paris. em sentar-se a fumar na borda dum desses barris de pólvora; e ali
De Launay, "descoberto em casaca cinzenta com faixa vermelha", fumou, sem se importar com o mundo — até que o Abbé "lhe com­
quer matar-se com o estoque da sua bengala. Vai para o Hôtel-de- prou o cachimbo por três francos", jogando-o para longe.
Ville, com Hulin, Maillard e outros a escoltá-lo; marchando Elie na
Elie, na segunda sala, à vista do Comité Eleitoral, senta-se "de es­
frente "com o papel da capitulação na ponta da espada"; por entre
pada desembainhada amolgada em três pontos", de capacete amachu­
rugidos e maldições, por entre empurrões, sendo agarrado e finalmente
cado, porque era do regimento da rainha, de cavalaria; de uniforme
agredidol A escolta é desviada e disseminada; Hulin deita-se exausto
rasgado, com o rosto sujo e chamuscado; comparável, pensam alguns,
sobre um monte de pedras. Desgraçado De Launayl Nunca entrará
a "um guerreiro antigo"; julgando o povo, formando uma lista de
no Hôtel-de-Ville: apenas "o seu rabicho de cabelo ensanguentado,
heróis da Bastilha, ó amigos, não sujeis com o sangue os mais verdes
seguro por uma mão ensanguentada", entrará, como troféu. O tronco,
louros jamais ganhos neste mundo: tal é o estribilho da canção de
a sangrar, jaz nos degraus ali; a cabeça é passeada pelas ruas; maca­
Elie: oxalá que fosse escutado. Coragem, Elie! Coragem, vós eleitores
bramente, espetada num chuço.
municipais! Um sol poente; a necessidade de alimentos e de narrar
O rígido De Launay morreu, exclamando: "ó amigos, matai-me de-
as notícias, trarão calmaria, dispersão: todas as coisas terrenas têm
pressal" O misericordioso De Losme tem de morrer, apesar de a gra­
de terminar.
tidão o abraçar, nesta terrível hora, e querer morrer por êle, sem
resultado. Irmãos, à vossa cólera é cruel! A vossa Place de Greve
Ao longo das ruas de Paris circulam sete presos da Bastilha, levados
está-se tornando a goela dum tigre, cheia apenas de rugidos ferozes e
aos ombros de patriotas; sete cabeças em chuços; as chaves da forta­
de sede de sangue. Um «utro oficial é assassinado; outro inválido
leza e muitas outras coisas. Vede também as Gardes Françaises, no
é enforcado no poste dum candeeiro; com dificuldade, com generosa
seu cadenciado passo militar, marchando para os seus quartéis, com
perseverança, os Gardes Françaises salvam o resto. O preboste Fles-
os inválidos e os suíços benevolamente enquadrados nas suas fileiras.
selles, de há muito com a palidez da morte estampada no rosto, tem
Faz um ano e dois meses que estes homens foram, sem participarem,
de descer do seu assento, "para ser julgado no Palais Royal": ah,
com Breno d'Agoust, ao Palais de Justice, quando o destino venceu
para ser fuzilado, por mão desconhecida, à volta da primeira rual
D'Espréménil; e agora, ei-los que participaram; e participarão. Não
Ó sol poente de julho, como caem, nesta hora, os teus raios obli­
como Gardes Françaises doravante, mas como Grenadiers du centre
quamente sobre os segadores, no meio dos campos pacíficos e arbori­
de la Garde Nationale: homens de disciplina férrea e de humor —
zados; sobre velhas, a fiarem em cabanas; sobre navios, navegando
não sem uma espécie de pensamento neles!
ao longe, no meio do oceano; sobre os bailes na Orangerie de Ver­
salhes, onde damas do palácio muito carminadas estão agora mesmo Na Bastilha, continuam a desabar, ao crepúsculo, pedras silhares;
dançando com oficiais de hússares de dólmãs assertoados; e também os seus arquivos são remexidos. Velhos segredos vêm à luz e o deses­
sobre este pórtico infernal do Hôtel-de-Ville! A Torre de Babel, com pero há muito enterrado encontra voz. Lede esta parte duma velha
a confusão de línguas, sem se lhe acrescentar o manicômio com a carta: 1 "Se, para minha consolação, Monseigneur me permitisse, por
conflagração dos pensamentos, não representa verdadeiramente isto. amor de Deus e da Santíssima Trindade, que eu pudesse ter notícias
Uma floresta de aço em revérberos incendidos, interminável, em frente da minha querida mulher; nem que fosse só o seu nome num cartão
do Comité Eleitoral, aponta os seus raios hórridos contra este e con­ para mostrar que está vivat Seria a maior consolação que eu podia
tra aquele peito acusado. São os titãs em guerra com o Olimpo; e receber; e eu bendiria para sempre a generosidade de Monseigneur".
eles, mal o crendo, venceram: prodígio dos prodígios; delirante, — Pobre preso, que te chamas Quéret-Démery e que não tens outra his­
como não podia deixar de ser. Denúncia, vingança; a chama do triunfo tória — ela está morta, essa tua querida mulher e tu estás morto!
sobre um fundo negro de terror; todas as coisas exteriores, e todas as
interiores soçobrando num naufrágio geral de loucura! 1 Datada: à la Bastille, 7 de Octobre 1752; assinada: Quéret-Démery. Bastille Dévoilée: (n
Linguet, Mémoires aur la Bastille (Paris. 1821), p. 199.
176 O TERCEIRO ESTADO

Faz cinquenta ano» que teu coração dilacerado fêz esta pergunta, para
ser ouvida agora pela primeira vez e recordada durante muito tempo
nos corações dos homens.
Mas eis que se escurece esse crepúsculo de julho; e da mesma forma
Paris, como as crianças doentes e todas as criaturas delirantes, bara­
fusta até cair numa espécie de sono. Os eleitores municipais, espan­
tados de verem as suas cabeças ainda nos seus lugares, vão para casa:
apenas Moreau de Saint Méry, de nascimento e coração tropical e de
frio julgamento, fica, êle e mais dois, em permanência no Hôtel-de-
Ville. Paris dorme; a cidade iluminada irradia para o alto: chocam-se
patrulhas, sem palavra de passe comum; alastram-se rumores, alarmas
de guerra, "quinze mil homens marchando através do arrabalde de
Santo António" que nunca marcharam por ali. Pela confusão do dia,
pode julgar-se a confusão da noite: Moreau de Saint Méry, "antes de
se erguer do seu assento, deu para cima de três mil ordens" 1 . Que
cabeça; comparável à cabeça de bronze do frade Baconl Dentro dela
está todo o Paris. Pronta deve ser a resposta, certa ou errada, porque
em Paris não existe nenhuma outra autoridade. Verdadeiramente uma
cabeça muito fria e clara; por cuja razão tu, ó bravo Saint Méry, em
muitas capacidades, desde augusto senador a escriturário comercial,
livreiro, vice+ei; em muitos lugares, desde a Virgínia à Sardenha,
encontrarás sempre, como um homem bravo, emprego 2

Besenval levantou acapamento, sob as sombras do crepúsculo, "no


meio de grande afluência de povo", que não o molestou; e marcha,
com passo cada vez menos firme, descendo a margem esquerda do
Sena, toda a noite — para o espaço infinito. Citado será o próprio
Besenval para julgamento, para uma difícil absolvição. As suas tropas
do rei, os seus Royal-Allemands partiram para sempre.
O baile de Versalhes e as limonadas terminaram; a Orangerie está
deserta, exceto para as aves noturnas. Em cima, na Salle des Menus,
o vice-presidente Lafayette, de luzes não espevitadas, "com uma cen­
tena de membros, espalhados em mesas à roda dele", senta-se ereto,
vigilante. Neste dia, uma segunda deputação apresentou-se a Sua Ma­
jestade; uma segunda e depois uma terceira: sem nenhum resultado.
Qual será o fim de tudo isto?
Na corte, tudo é mistério, não sem murmúrios de terror; apesar
de vós, mulheres insensatas, sonhardes com limonada e dragonas! Sua
Majestade, conservado em feliz ignorância, sonha provavelmente com
espingardas de dois canos e com as florestas de Meudon. Alta noite.

1 Dusaulx.
2 Biograpbie Universelle, Moreau Saint-Míry (por Fournier-Pescav).
176 O TERCEIRO ESTADO

Faz cinquenta anos que teu coração dilacerado íêz esta pergunta, para
ser ouvida agora pela primeira vez e recordada durante muito tempo
nos corações dos homens.
Mas eis que se escurece esse crepúsculo de julho; e da mesma forma
Paris, como as crianças doentes e todas as criaturas delirantes, bara­
fusta até cair numa espécie de sono. Os eleitores municipais, espan­
tados de verem as suas cabeças ainda nos seus lugares, vão para casa:
apenas Moreau de Saint Méry, de nascimento e coração tropical e de
frio julgamento, fica, êle e mais dois, em permanência no Hôtel-de-
Ville. Paris dorme; a cidade iluminada irradia para o alto: chocam-se
patrulhas, sem palavra de passe comum; alastram-se rumores, alarmas
de guerra, "quinze mil homens marchando através do arrabalde de
Santo António" que nunca marcharam por ali. Pela confusão do dia,
pode julgar-se a confusão da noite: Moreau de Saint Méry, "antes de
se erguer do seu assento, deu para cima de três mil ordens" 1 . Que
cabeça; comparável à cabeça de bronze do frade Bacon 1 Dentro dela
está todo o Paris. Pronta deve ser a resposta, certa ou errada, porque
em Paris não existe nenhuma outra autoridade. Verdadeiramente uma
cabeça muito fria e ^lara; por cuja razão tu, o bravo Saint Méry, em
muitas capacidades, desde augusto senador a escriturário comercial,
livreiro, vice-rei; em muitos lugares, desde a Virgínia à Sardenha,
encontrarás sempre, como um homem bravo, emprego 2

Besenval levantou acapamento, sob as sombras do crepúsculo, "no


meio de grande afluência de povo", que não o molestou; e marcha,
com passo cada vez menos firme, descendo a margem esquerda do
Sena, toda a noite — para o espaço infinito. Citado será o próprio
Besenval para julgamento, para uma difícil absolvição. As suas tropas
do rei, os seus Royal-Allemands partiram para sempre.
O baile de Versalhes e as limonadas terminaram; a Orangerie está
deserta, exceto para as aves noturnas. Em cima, na Salle des Menus,
o vice-presidente Lafayette, de luzes não espevitadas, "com uma cen­
tena de membros, espalhados em mesas à roda dele", senta-se ereto,
vigilante. Neste dia, uma segunda deputação apresentou-se a Sua Ma­
jestade; uma segunda e depois uma terceira: sem nenhum resultado.
Qual será o fim de tudo isto?
Na corte, tudo é mistério, não sem murmúrios de terror; apesar
de vós, mulheres insensatas, sonhardes com limonada e dragonasl Sua
Majestade, conservado em feliz ignorância, sonha provavelmente com
espingardas de dois canos e com as florestas de Meudon. Alta noite,

1 Dusaulx.
2 Biographie Universelle, Moreau Saint-Méry (por Fournicr-Pcscay).
178 O TERCEIRO ESTADO CONQUISTANDO O VOSSO REI 170
desde a guerra americana da liberdade. Após o que, por aclamação, Luís", diz Weber, "não podiam humilhar mais os burgueses de Paris
Lafayette é nomeado. E também, em lugar do traidor assassinado, ou do que parecendo afastar-se com receio de suas vidas". Ah, os bur­
quase traidor, Flesselles, o Presidente Bailly será — preboste dos mer­ gueses de Paris sofrem essa humilhação com estoicismo inesperadol O
cadores? Não: Maire de Parisl Assim seja: Maire de Paris! Maire homem d'Artois foi-se realmente; mas levou êle, por exemplo, a Terra
Bailly, General Lafayette; viva Bailly, viva Lafayette! A multidão d'Artois consigo? Nem mesmo Bagatelle, a sua casa de campo, (que
imensa que está fora de portas, rasga os céus em confirmação. E agora, será usada como restaurante); e nem talvez os calções dos quatro cria­
finalmente, sigamos para Notre Dame a celebrar um Te-Deum. dos, deixando atrás o alfaiate I Quanto ao velho Foulon, anuncia-se
Para a catedral de Notre Dame, em jubilosa procissão, marcham que morreu; pelo menos, fizeram-lhe um "suntuoso funeral", prestan-
estes regeneradores da França, por entre um povo entusiasta, em ati­ do-lhe as honras os cangalheiros, à falta de outros. O Intendente
tude fraternal; o Abbé Lefèvre, ainda enegrecido com os seus serviços Berthier, seu genro, ainda vive, escondido: juntou-se a Besenval, na­
da pólvora, caminha de braço dado com o arcebispo, de estola branca. quele domingo das Eumênides, parecendo tratar os acontecimentos
O pobre Bailly encontra-se com as crianças expostas, mandadas ajoe­ com leveza: e agora está fugido, ninguém sabe onde.
lhar perante êle, e "chora". O Te-Deum, com o nosso arcebispo a
oficiar, não é só cantado, mas tiroteado — com pólvora seca. A nossa Ainda a emigração não está muito longe, com o Príncipe de Conde
alegria é incomensurável, como a nossa angústia ameaçava ser. Paris, pouco para além do Oise, quando Sua Majestade, de acordo com o
com os seus próprios chuços e mosquetes, e com o valor do seu pró­ combinado, porque a emigração também julgou que isso podia ser
prio coração, venceu os verdadeiros deuses da guerra — com satisfação proveitoso — toma uma resolução um tanto ousada: a de visitar Paris
agora, até de Sua Majestade. Um correio, nesta noite, parte em busca em pessoa. Com uns cem membros da Assembleia, com pouca ou quase
de Necker: o ministro do povo, convidado de novo pelo rei, pela nenhuma escolta militar, que êle mesmo despediu na ponte de Sèvres,
Assembleia Nacional e pela nação, atravessará a França entre aclama­ o pobre Luís parte; deixando um palácio desolado, uma rainha em
ções, ao som de trombetas e adufes. lágrimas, com o presente, o passado e o futuro todos tão pouco pro­
metedores para ela.
Vendo o curso dos acontecimentos, os Messeigneurs do Triunvirato Na Barreira de Passy, o Maire Bailly, em grande gala, apresenta-lhe
da Corte, os Messieurs do ministério Broglie, morto à nascença, e as chaves da cidade; arenga-lhe em estilo académico, declara que este
outros que tais, percebem claramente o que têm de fazer: subir para é um grande dia; que no caso de Henrique Quarto, o rei teve de
as carruagens e partir. Fugi, vós Brogles demasiado reais, Polignacs e fazer a conquista do seu povo; mas neste caso mais feliz, é o povo
príncipes de sangue; fugi enquanto é tempol Não pôs o Palais Royal. que faz a conquista do seu rei (a conquisson Roi). O rei, tão feliz­
nas suas últimas "moções violentas" noturnas, um preço específico (sem mente conquistado, segue na sua carruagem, lentamente, no meio dum
mencionar o lugar do pagamento) sobre cada uma das vossas cabeças? povo de aço, todo silencioso, ou gritando apenas Vive la Nation; no
Com precauções, com a ajuda de peças de artilharia e regimentos de Hôtel-de-Ville escuta arengas de Moreau, o das três mil ordens, do
procurador régio M. Ethys de Corny, de Lally Tollendal e de outros;
confiança, Messeigneurs, entre a noite de 16 e a manhã de 17, somem-se
sem saber o que pensar ou dizer de tudo isso. Fica ciente de que é
por várias estradas. Não sem riscol O Príncipe de Conde é seguido
o "Restaurador da Liberdade Francesa" — o que uma estátua sua, a
(ou crê que o é) por "homens que galopam a toda a brida", com
ser erguida no local da Bastilha, testemunhará a todos os homens.
intenção, pensa-se, de o jogarem ao Rio Oise, em Pont-Sainte-Mayence1. Finalmente, mostram-no à varanda, com um tope tricolor no chapéu;
Os Polignacs viajam disfarçados, com amigos, em vez de criados, na sendo então aclamado da praça e da rua, de todas as janelas e telha­
boleia do coche. Broglie experimenta certas dificuldades em Versalhes, dos: e desta forma, regressa no meio de gritos alegres, misturados e
corre riscos em Metz e Verdun; não obstante chega a salvo ao Lu­ por assim dizer consorciados, de Vive le Roi e Vive la Nation; can­
xemburgo, e aí fica. sado, mas a salvo.
Isto é aquilo a que chamam a primeira emigração, resolvida, como
parece, em pleno conclave da corte, em presença de Sua Majestade; Foi no domingo que as balas de fogo estiveram suspensas sobre
sempre pronto, com responsabilidade sua, para seguir qualquer con­ nós, ameaçadoras; é apenas sexta-feira e a "Revolução está sancionada".
selho. "Três filhos da França e quatro príncipes do sangue de São Uma augusta Assembleia Nacional fará a Constituição, e nem Pandora
estrangeira, nem triunvirato doméstico com seus canhões assestados,
1 Webcr, II. 126. nem conspirações da pólvora de Guy Faux (porque também se falou
180 O T E R C E I R O ESTADO O CANDEEIRO 181

nisso); nem qualquer poder tirânico sobre a Terra ou debaixo da e até anos, foi tratada quimicamente; levada abaixo de zero; e agora,
Terra, poderá dizer-lhe: Que fazes tu? — E assim rejubila o povo, agitada pela queda da Bastilha, congela instantaneamente, numa massa
certo agora duma Constituição. O desequilibrado Marquês de Saint- cristalizada, de aço finamente cortantel "Guai a chi la tocca, Ai de
Huruge é ouvido sob as janelas do Château, a murmurar palavras quem lhe tocai"
de traição 1 .
Em Paris, um comité eleitoral, com um novo maire e general, insta
com os operários beligerantes para voltarem ao trabalho. Alentadas
damas do mercado (Dames de la Halle) proferem arengas congratula-
Capítulo IX tórias; depõem "ramalhetes no relicário de Santa Genoveva". Homens
não alistados depositam as suas armas — não tão prontamente como
O CANDEEIRO seria para desejar, e recebem "nove francos". Com Te-deums, visitas
reais e uma revolução sancionada, há tempo alciônico; tempo mesmo
A queda da Bastilha pode dizer-se que abalou toda a França até
de brilho preternatural; depois de varrido o furacão.
aos mais profundos alicerces da sua existência. O rumor destas ma­
ravilhas corre por toda a parte, com a velocidade natural do rumor, Não obstante, como é natural, as ondas ainda se encrespam, sendo
com um efeito julgado preternatural, produzido pelos conluios cons- o seu murmúrio abafado pelos rochedos côncavos. Estamos apenas a
piratórios. Foi D'Orléans ou Laclos, ou seria Mirabeau (não sobre­ 22 do mês, mal passada uma semana desde que a Bastilha caiu, quando
carregado de dinheiro nesta ocasião) que enviaram correios a cavalo subitamente se ouve dizer que o velho Foulon está vivo; e até que
para fora de Paris, a galopar "a toda a brida" pelas estradas em dire- está aqui, desde manhã cedo, nas ruas de Paris: o extorcionário, o
ção a todos os pontos da França? Eis um milagre que nenhum inves­ conspirador, aquele que queria que o povo comesse erva, e que desde
tigador ousará penetrar 2 . princípio foi sempre um mentiroso! É isto mesmo: O simulado "fu­
neral suntuoso" (de algum criado que morreu), o esconderijo em Vitry
Já na maior parte das cidades se constituíram comités eleitorais, perto de Fontainebleau, de nada valeram àquele desgraçado velho.
para lamentar o afastamento de Necker, com arengas e resoluções. Algum criado vivo ou dependente, porque ninguém gosta de Foulon,
Em mais do que uma cidade, em Rennes, Caen, Lião, um povo em denunciou-o à povoação. Camponeses imisericordiosos de Vitry desen-
ebulição já manifestara o seu desagrado pela saída de Necker com terram-no; deitam-lhe as garras como mastins do inferno: Mexe-te,
tijolos e mosquetaria. Mas agora, em todas as portas de cidades em velho infame, para Paris, onde vais ser julgado no Hôtel-de-Ville! A
França, aparecem, nestes dias de terror — "homens", como os homens sua cabeça encanecida, que setenta e quatro anos branquejaram, vai
costumam aparecer; e até "homens a cavalo", visto que o rumor as nua; às costas, ataram-lhe um emblemático feixe de erva; à roda do
mais das vezes viaja montado. Estes homens declaram, de semblante pescoço, puseram-lhe uma grinalda de urtigas e de cardos. Desta ma­
alarmado, que os bandoleiros estão chegando, estão mesmo nas vizi­ neira, preso a cordas, perseguido com maldição e ameaças, tem êle
nhanças; e então — continuam o seu caminho, em outras missões, de se arrastar, com as suas velhas pernas, para a frente: o mais des­
sejam elas quais forem! Após o que toda a população dessas cidades graçado e o menos lamentado de todos os anciãos.
defensivamente corre às armas. A seguir, enviam petições à Assembleia
Nacional e, em tal perigo e terror de perigo, não lhe podem recusar O enfarruscado Santo António e todas as ruas põem em movimento
licença de se organizarem a si próprias: e a população armada torna-se as suas turbas quando êle passa; a grande sala do Hôtel-de-Ville, a
por toda a parte uma Guarda Nacional alistada. Assim corre o rumor, própria Place de Greve, mal podem conter a sua escolta e êle. Foulon
caminhando ao longo de todas as vias, de Paris em fora, para tal fim: não só tem de ser julgado conforme as regras da justiça, como julgado
em poucos dias, alguns dizem que em poucas horas, toda a França onde se encontra, sem qualquer demora. Nomeai sete juízes, vós mu­
até às fronteiras mais distantes, se eriça de baionetas. Singular, mas nicipais, ou setenta e sete; nomeai-os vós próprios, ou então nomeá-
inegável — miraculoso ou nãol — Mas assim como qualquer líquido los-emos nós: mas julgai-o! 1 A retórica eleitoral, a eloquência do Maire
químico, apesar de resfriado até ao ponto de congelação ou mais Bailly é desperdiçada, durante horas, a explicar as vantagens da de­
abaixo, pode ainda continuar líquido; e depois, à mais leve agitação, mora da lei. Demora, e mais demora! Vede, ó Maire do Povo, a
tornar-se imediatamente gelo; assim a França durante longos meses manhã já se consumiu no meio-dia, e êle está ainda por julgar! La-
fayette, mandado chamar com toda a urgência, chega; e fala: Este
1 Campan, II. 46-64.
2 Toulongeon, I. 95; Weber, e l e , etc. I llliinirr P.rlcmcntaire, I I , 146-9.

I
182 O I IÍRCKIRO ESTADO O CANDEEIRO 188

Foulon, homem conhecido, é indubitavelmente culpado; mas não po­ sans-culotismo, com brevidade não legal, "em letras enormes", a re­
derá ter cúmplices? Nilo deveríamos habilidosamente arrancar-lhe re­ dige1. Paris sai ao seu encontro, a bater palmas, com as janelas escan­
velações — !i;i Prilio da Abadia? Foi uma nova luz! O sans-culotismo caradas, com danças, canções de triunfo, como das Fúrias. Por fim,
bate palmas: — mas a este bater de palmas, Foulon (na sua exaustão, com a cabeça de Foulon; esta também vem ao seu encontro, espetada
como a isso a impelia o seu destino) também bate palmas. "Vede! num chuço. Com tal espetáculo, bem podia suceder que o seu olhar
Eles entendem-se um ao outro!" grita o sombrio sans-culotismo, ar­ se tornasse vítreo e que perdesse os sentidos! Não obstante, seja qual
dendo em fúria de suspeição. "Amigos", diz uma pessoa bem vestida, fôr a consciência do homem, os seus nervos são de ferro. No Hôtel-de-
dando um passo à frente, "para que serve julgar este homem? Não Ville, não quer responder nada. Diz que obedeceu a ordens superiores;
tem êle sido julgado nestes últimos trinta anos?" Com vociferações que tem os seus papéis; e que podem julgar e resolver: quanto a si
ferozes, o sans-culotismo agarra-se ao preso com as suas centenas de próprio, não tendo pregado olho nestas duas noites, pede, acima de
mãos; leva-o em turbilhão através da Place de Greve, até à Lanterne, tudo, que o deixem dormir. O teu sono é de chumbo, miserável Ber­
poste de candeeiro à esquina da Rue de la Vannerie, com o desgra­ thier! Os guardas erguem-se com êle, em direção à Abadia. Mas mesmo
çado a implorar amargamente pela vida — aos ventos emudecidos. Só ao limiar do Hôtel-de-Ville, eles são agarrados, arremessados para o
à terceira corda (porque duas se quebraram, com a voz tremulosa do lado, como por um vórtice de braços loucos; e Berthier redemoinha
miserável ainda a implorar) é que a muito custo lá o enforcam! O para a Lanterna. Agarra um mosquete; derriba e fere, defendendo-se
seu corpo é arrastado pelas ruas; a sua cabeça penduram-na num como um leão raivoso; é derrubado, calcado, enforcado, mutilado. A
chuço, com a boca cheia de erva, no meio de exclamações demoníacas^ sua cabeça e até o seu coração, corre a cidade sobre um chuço.
saídas dum povo que comia erva1.
Fato horrível, em terras que tenham conhecido justiça igual para
Certamente se a vingança é uma "espécie de justiça", é de uma todos! Não tão desnaturado em terras que nunca a tenham conhecido.
espécie selvagem! ó louco sans-culotismo, surgiste tu, inesperadamente,
Le sang qui coule, esfil donc si purf pergunta Barnave; querendo
na tua louca escuridão, na tua sujidade andrajosa, como um Encélado,
significar que a força, se bem que por métodos irregulares, teve o
enterrado vivo, debaixo devsua Trinácria? Aqueles que queriam fazer
que lhe pertencia. A ti próprio, ó leitor, quando viras aquela esquina
comer erva, comem-na agora, desta maneira? — Depois de gerações
por tanto tempo gemendo mudas, chegou de repente a tua vez? A da Rue de la Vannerie, e avistas ainda aquele sombrio suporte de
catástrofes tão abissais, e a tão terríveis e instantâneas inversões do ferro velho, não te faltarão decerto reflexões. Ainda ali está, por sobre
centro da gravidade, vão dar todos os solecismos humanos; tanto mais a loja dum merceeiro ou de qualquer outro logista; com um busto
depressa, quanto mais falsos são, e mais procedem das camadas su­ de Luís XIV no nicho abaixo dele — agora não mais no nicho —
periores! ainda se mostra ali, dando uma luz mortiça, de óleo de peixe; tendo
visto mundos naufragados, — sem dizer nada.
Para adicionar ao horror do Maire Bailly e dos seus municipais, Mas para os olhos do patriotismo esclarecido, que nuvem tempes­
chega a notícia de que Berthier também foi preso; e que está a ca­ tuosa foi esta, formando-se de repente em plena radiação de um tempo
minho de Compiègne. Berthier, intendente (digamos coletor de impos­ alciônico! Escuridão de nuvem de Érebo; pressagiando eletricidade
tos) de Paris; sicofanta e tirano, açambarcador de cereais, organizador
latente, sem limite. O Maire Bailly, o General Lafayette resignam
de planos de força contra o povo; é acusado de muitas coisas: não
seus cargos, com indignação; sendo preciso que os lisonjeiem para
é êle genro de Foulon e, por essa única razão, culpado de tudo, nes­
que regressem a eles. A nuvem desaparece, como costumam as nuvens
tas horas, em que o sans-culotismo tem o sangue a ferver? Os estar­
recidos municipais mandam alguns dos seus escoltá-lo, com guardas tempestuosas. O tempo alciônico volta, se bem que com uma côr
nacionais a cavalo. mais cinzenta; com um caráter cada vez mais evidentemente não su­
pernatural.
Ao cair do dia, o desgraçado Berthier, ainda mostrando um sem­
blante de coragem, chega à Barreira, em carruagem aberta, com os E assim, de qualquer modo, sejam quais forem os empecilhos, a
municipais a seu lado; e mais quinhentos cavalarias de sabres desem­ Bastilha tem de ser abolida da Terra; e com ela, o feudalismo, o
bainhados e muitos peões desarmados, não sem barulho! Em volta despotismo e, esperamos também que o malandrismo em geral e todo
dele brandem cartazes, com a sua acusação bem legível, como o
1 "II a volé le Roi e t la France (Êle roubou o rei e a Fiança). Devorou a substância do
|.M\n loi d entravo dos ricos e o tirano dos pobns. Bebeu <> langue dai vlávai e do* orilM.
1 Deux Amis de la Liberte, II. 60-6. Traiu ■ ma pátria". Vid. Deux Amis, II. 67-73.
184 O TERCEIRO ESTADO

o duro tratamento do homem pelo seu irmão homem. Ah, .o malan-


drismo e o tratamento duro nâo são tão fáceis de abolição! Mas
quanto à Bastilha, ela desaba de dia para dia, e de mês para mês;
sendo continuamente derrubadas, por ordem expressa dos nossos mu­
nicipais, as suas pedras silhares e os seus seixos. Grupos de curiosos
vagueiam pelas suas cavernas; contemplam os esqueletos emparedados, Livro VI
as oubliettes, as gaiolas de ferro, os blocos monstros de pedra com
cadeias de loquete. Um dia lobrigamos ali Mirabeau, de companhia
com o genebrês Dumont 1 . Operários e visitantes abrem-lhe reverente­
CONSOLIDAÇÃO
mente alas; lançam versos, flores, no seu trajeto, papéis da Bastilha e
curiosidades na sua carruagem, com vivas.
Publicistas hábeis compilam livros dos Arquivos da Bastilha; daque­
Capítulo I
les que ficaram por queimar. A chave daquela caverna cruzará o Atlân­
tico e ficará na mesa do átrio de Washington. O relógio grande tique- FAZEI A CONSTITUIÇÃO
taqueia agora no aposento particular dum relojoeiro patriótico; já
não medindo horas de pesada monotonia. Desaparecida está a Bastilha, Chegou talvez agora o momento de definir, um pouco mais preci­
o que nós chamamos desaparecida: o corpo, ou a argamassa dela, samente, o que estas duas palavras, Revolução Francesa, devem sig­
suspenso em benigna metamorfose, por séculos vindouros, sobre as nificar; porque, estritamente consideradas, elas podem ter tantas signi­
águas do Sena, como Ponte Luís Dezesseis;2 continuando a alma dela ficações como intérpretes há delas. Todas as coisas estão em revolução;
a viver, talvez ainda >por mais tempo, nas memórias dos homens. em mudança de época a época: neste nosso mundo do tempo não há
propriamente nada mais senão revolução e mutação, e nem mesmo é
Eis onde vós, augustos senadores, com os vossos juramentos do Jogo
concebível nada mais, a não ser isso. Revolução, respondeis vós, signi­
da Péla, o vosso ímpeto e a vossa inércia, nos trouxestes. "E contudo
fica mudança mais rápida. Após o que temos ainda de perguntar: E
Messieurs", como os peticionários alegaram justamente, "vós que fos­
tes salvadores também precisastes de salvadores" — a saber, os bravos como é a rapidez? Com que grau de rapidez, em que pontos especiais
combatentes da Bastilha, muitos deles operários de Paris, homens em deste curso variável, que varia em velocidade, mas que não pode pa­
estreitas circunstâncias pecuniárias! 3 Abrem-se subscrições; formam-se rar sem que o próprio tempo pare, começa e acaba a revolução, cessa
listas, mais exatas que as de Elie; proferem-se arengas. Um corpo de de ser mutação ordinária e outra vez volta a sê-lo? Eis uma coisa que
Heróis da Bastilha, regularmente completo, é organizado; comparável depende de definição mais ou menos arbitrária.
aos Argonautas, esperando durar como eles. Mas em pouco mais dum Para nós próprios, nós respondemos que a Revolução Francesa sig­
ano, o redemoinho das coisas separa-os outra vez e eles submergem-se. nifica aqui a rebelião aberta e violenta, e a vitória da anarquia desa-
Tantos dos mais altos superlativos realizados pelo homem são seguidos prisionada contra a autoridade gasta e corruta; mostrando-nos como
de outros mais altos ainda; e por isso degeneram em comparativos a anarquia quebra os ferros da prisão; surge ebuliente das profundezas
e positivos! O sitio da Bastilha, comparado com o qual, na balança infinitas, e furiosamente arremete, incontrolável, incomensurável, en­
da História, a maior parte dos outros sítios, incluindo o de Tróia, volvendo um mundo; em fases após fases de febre delirante; até que
são mera filigrana, custou, como vimos, em mortos e feridos deses­ tendo o delírio ardido por si próprio, e até que se tenham desenvol­
perados, da parte dos sitiantes, umas oitenta e três pessoas; e da parte vido aqueles elementos de ordem nova que ela continha (visto que
dos sitiados, depois de toda aquela queima de palha, esguichos de toda a força os contém) o incontrolável seja, senão reaprisionado, pelo
água e dilúvio de mosquetaria, um pobre e solitário inválido, rigida­ menos jugulado, e as suas forças loucas compelidas a trabalhar para
mente morto por um tiro (roide-mort) nas ameias!4 A fortaleza da o seu objetivo, como forças sãs e reguladas. Porque assim como as
Bastilha, como a cidade de Jericó, foi derrubada por som miraculoso. hierarquias e dinastias de todas as sortes, teocracias, aristocracias, au­
tocracias, prostitutocracias têm governado o mundo, assim foi desig­
1 Dumont, Souvenirs sur Mirabcau, p. 305. nado, nos decretos da Providência, que esta mesma anarquia vitoriosa,
2 Dulaure, Histoire de Pari». VIII, 434.
J Moniteur, Séance du Samedi 18 Juillet 1789 (in Hist. Pari., II. 137) jacobihismo, sansculotismo, Revolução Francesa, horrores da Revolu-
4 Dunulx, Prise de la Ba»tille, p, 447. ele.
FAZEI A CONSTITUIÇÃO '■'
186 CONSOLIDAÇÃO

ção Francesa, ou aquilo mais que os motins lhe queiram chamar, te­ sua vida não se apoiam mais na insinceridade e numa mentira, mas
nha também a sua oportunidade. A "cólera destrutiva" do sans-culo­ na solidez e nalguma espécie de verdade. Acolhei com satisfação a ver­
tismo: é disto que nós vamos falar, não tendo infelizmente voz para dade mais pobre, mesmo que ela seja assim, em troca do embuste mais
o cantar. rico. A verdade, seja de que qualidade fôr, produz sempre uma ver­
Certamente um grande fenómeno: podemos até dizer, um fenómeno dade nova e melhor; e assim a dura rocha de granito desaba esmiga­
transcendental, que sobrepuja todas as regras e toda a experiência; o lhada no solo, sob as benéficas influências celestes; e cobre-se de ver­
fenómeno primacial do nosso tempo modernol Porque aqui também, dura, com frutos e sombra. Mas quanto à falsidade, a qual, de modo
e muito inesperadamente, se apresenta o antigo fanatismo em nova e aparentemente contrário mas semelhante, se torna cada vez mais falsa
novíssima vestimenta; miraculoso, como todo o fanatismo é. Chamai- — que pode ela, ou que deve ela fazer senão morrer, estando madura,
lhe o fanatismo de "fazer tábua rasa das fórmulas, de humer les for­ decompor-se brandamente ou mesmo violentamente, e voltar para o
mules". O mundo das fórmulas, o mundo reguladamente formado, pai dela — muito provavelmente em chamas de fogo?
que é todo o mundo habitável — deve necessariamente odiar tal fana­ O sans-culotismo queimará deveras; mas o que é incombustível êle
tismo, como odeia a„ morte; e ficar em mortal desacordo com êle. O não pode queimar. Não receeis o sans-culotismo; reconhecei-o pelo que
mundo das fórmulas deve vencê-lo, ou se não pode, deve morrer a êle é, o portentoso e inevitável fim de muita coisa, o começo mira­
execrá-lo, a anatematizá-lo; não obstante, de modo nenhum pode im­ culoso de muita outra. Uma outra circunstância podemos deduzir dele:
pedir que exista e tenha existido. Os anátemas aí estão e aí está a que também procede de Deus. Desde tempos imemoriais, como está
coisa miraculosa. escrito, avançam as Suas obras; na grande profundidade das coisas; ter­
Donde" veio? Para onde vai? Eis a pergunta capital! Quando a idade ríveis e maravilhosas agora, como no princípio: no furacão também
dos milagres jaz obscurecida à distância como uma tradição inacredi­ Êle fala; e a cólera dos homens é feita para O louvar. Mas medir e
tável, e a própria idade dos convencionalismos se torna antiquada; aferir esta coisa incomensurável, o sans-culotismo, e procurar expli­
quando a existência do homem se tem, durante longas gerações, apoia­ cá-lo, reduzindo-o a uma fórmula de lógica vã, não tentes! Muito me­
do em meras fórmulas que rJerderam o sentido no decurso do tempo, nos não deves gritar até ficares rouco, amaldiçoando-o; porque isso,
parecendo que a realidade já não existe, mas só fantasmas de realida­ em todas as medidas possíveis, já foi feito. Como um filho do tempo,
des, é o universo de Deus é principalmente obra do alfaiate e do ta- atualmente existente, olha, com interesse múltiplo e indizível, a maior
peceiro, e os homens são máscaras de tarlatana que andam dum lado parte das vezes em silêncio, para aquilo que o tempo trouxe: para
para o outro a fazer vénias e momices — de repente, a Terra rasga as com isso te edificares, te instruíres, te nutrires a ti próprio, quando
suas entranhas, e por entre um fumo tartáreo e com resplendor de mais não seja para a ti te divertires e satisfazeres, como te é dado.
fulgência ígnea, nasce o Sans-culotismo, monstro de muitas cabeças, a
vomitar fogo, e pergunta: Que pensais vós de mim? Bem podem as Outra questão que a cada novo passo surge na nossa frente, reque­
máscaras de tarlatana reunir-se em defesa, feridas pelo terror, "em gru­ rendo sempre nova resposta, é esta: Onde está especialmente a Revo­
pos expressivos e bem consertados"! É que há, com efeito, amigos, lução Francesa? No palácio do rei, nos manejos do soberano ou da
qualquer coisa de muito singular e muito fatal. Que todo aquele que soberana, nas suas cabalas, imbecilidades e agravos, respondem alguns:
é apenas tarlatana e fantasma atente nisso: pode suceder-lhe verdadei­ a quem nós não respondemos. Na Assembleia Nacional, responde uma
ramente uma grande desgraça; parece-me que a sua existência está a grande multidão mista, de pessoas que se sentam na cadeira do repór­
findar. Desgraçados também de muitos que não são totalmente tarla­ ter; e daí notando quantas proclamações, leis, relatórios, passagens de
tana, mas em parte reais e humanos! A idade dos milagres voltou!
lógica esgrimista, arroubos de eloquência parlamentar parecem notá­
"Contemplai este Mundo-Fênix, em consumação de fogo e em criação
veis adentro de portas, e quantos tumultos e rumores de tumultos, vin­
de fogo: largas as suas asas adejantes; sonora é a sua melodia fúnebre,
dos de fora, se tornam audíveis, produzem volume sobre volume; e
de trovões de batalhas e de quedas de cidades; para o céu sobe a cha­
ma funérea envolvendo todas as coisas: é a morte-nascimento de um chamando-lhe História da Revolução Francesa, orgulhosamente os pu­
mundo! blicam. Fazer o mesmo em qualquer extensão possível, com tantos jor­
nais colecionados, Choix de Rapports, Histoires Parlementaires, como
há, que dariam para encher muitas carroças, seria fácil para nós. Fácil,
Por consequência, como muitas vezes dissemos, parece que de tudo mas sem proveito. A Assembleia Nacional, denominada agora Assem-
isto resulta uma bênção maravilhosa. Esta, a saber: que o homem e a
188
FAZEI A CONSTITUIÇÃO 189
CONSOLIDAÇÃO

bléia Constituinte, segue o seu curso, fazendo a Constituição; mas a prontas à mão, são usurpações, a que os homens não obedecem, mas
Revolução Francesa também segue o seu curso. contra as quais se rebelam e que abolem, no primeiro momento que
se lhes oferece.
Em geral, não podemos nós dizer que a Revolução Francesa se en­
contra no coração e na cabeça de todo o homem francês de fala vio­ A questão das questões seria pois esta: quem é que, especialmente
lenta, ou que pensa com violência? Como os vinte e cinco milhões de para rebeldes e abolidores, pode fazer uma Constituição? Aquele que
franceses, na sua complicada combinação, atuando e contra-atuando, pode refletir a crença geral, quando a há; aquele que pode inspirar
podem dar origem a acontecimentos; sendo acada acontecimento su­ uma quando, como aqui, não há nenhuma. Homem muito raro este,
cessivamente o acontecimento cardeal; e de que ponto de visão esse sempre, em todos os tempos; um homem com um mandado de Deusl
acontecimento pode melhor ser avaliado: isto é um problema. O qual Aqui, todavia, à falta de tal homem supremo e transcendente, o tem­
problema, só a melhor inteligência, procurando luz em todas as fontes po, com a sua infinita sucessão de homens meramente superiores, pres­
possíveis, mudando o seu ponto visual para qualquer lugar onde se tando cada um a sua pequena contribuição, faz muito. A força tam­
possa conseguir visão ou vislumbre de visão, pode dar-se ao trabalho bém (porque, como nos ensinam os filósofos antigos, o cetro real foi
de resolver; e ficar,bem contente se o resolver de qualquer maneira desde princípio qualquer coisa como um martelo, para quebrar aque­
um pouco apropriada. las cabeças que não podiam ser convencidas) em todo o tempo encon­
trará qualquer coisa que fazer. E assim em perpétua abolição e repa­
Pelo que diz respeito à Assembleia Nacional, tanto quanto ela ainda ração, rasgando e consertando, com lutas e discórdias, com um mal
se eleva eminente sobre a França, à maneira de um Carrocio, apesar presente e a esperança e o esforço em busca de um futuro bom, tem
de agora já não estar na vanguarda; a dar ainda sinais para retirada a Constituição, como todas as coisas humanas, de se fazer a si própria;
ou avanço — ela é e continua a ser uma realidade entre outras realidades. ou desfazer-se e submergir-se, consoante ela puder e a deixarem. Ó
Mas, por outro lado,., isso de fazer uma Constituição, é principalmente Sieyès, e vós outros membros de comités, e vós mil e duzentos indiví­
uma quimera e uma fatuidade. Ah, por mais heróico que seja o edi­ duos miscelâneos vindos de todas as partes da França! Qual é a crença
fício do castelo de cartas de Montesquieu-Mably, apesar de saudado da França e a vossa, se por acaso a sabeis? Verdadeiramente que não
por todo o mundo, que interesse pode oferecer? Lançada nesse cami­ deverá haver crença; que todas as fórmulas se devem extinguir. Qual
nho, uma augusta Assembleia Nacional pouco mais é para nós que será, pois, a Constituição que se adapte a isso? Ah, evidentemente que
um sinédrio de pedantes, não dos que moem gerúndios, contudo de uma não-Constituição, uma anarquia — a qual também, em devido
espécie pouco mais proveitosa; e os seus debates sonoros e recrimina­ tempo, vos será concedida.
ções acerca dos Direitos do Homem, do Direito da Paz e da Guerra,
Veto suspensif, Veto absolu, que são eles senão meras maldições de Mas, afinal de contas, que pode fazer uma infortunada Assembleia
pedantes? Que Deus vos confunda com a vossa Teoria de Verbos Ir­ Nacional? Considerai somente isto, que há mil e duzentos indivíduos
regulares! miscelâneos; nenhuma unidade dos quais que não tenha o seu pró­
prio aparelho pensante, o seu próprio aparelho falantel Em cada uni­
Pode-se arquitetar uma Constituição e até bastantes Constituições dade deles há qualquer crença e desejo, diferentes em todos, de que
à la Sieyès: mas a tremenda dificuldade é a de arranjar homens para não só a França deve ser regenerada, mas também de que êle, indivi­
viverem nelas? Se Sieyès pudesse extrair trovões e relâmpagos do céu dualmente, deve fazer essa regeneração. Mil e duzentas forças, separa­
para sancionar a sua Constituição, teria sido bom: mas sem nenhum das, jungidas miscelâneamente a qualquer objetivo, miscelâneamente
trovão? E até, estritamente considerado, não é também verdade que a todos os lados dele; e todas a lutar por sua vidai
sem qualquer sanção celestial, dada visivelmente com trovão ou invi- Ou será a natureza das Assembleias Nacionais em geral, nada fazer,
sivelmente de outro qualquer modo, nenhuma Constituição pode, no com interminável trabalho e barulho? Serão os governos representa­
decorrer dos tempos, valer mais do que o papel em que é escrita? A tivos, na sua maioria, no fundo, também tiranias? Devemos dizer que
Constituição, o conjunto de leis ou hábitos prescritos de atuar, sob os estes tiranos, as pessoas de ambição e contenciosas de todos os cantos
quais os homens vivem, é aquilo que reflete as suas convicções — a sua da nação, se congregam, desta maneira, num lugar; e que ali, com mo­
fé quanto a este maravilhoso universo, e aqueles direitos, deveres e ções e contra moções, com jargão e alvoroço, se paralisam uns aos
capacidades que eles possuem nele; que fica sancionada, portanto, pela outros, como os gatos fabulosos de Kilkenny, produzindo, em resul­
própria necessidade; se não por uma divindade visível, ao menos por tado líquido, zero; governando-se, no entretanto, o país ou guiando-JC,
uma invisível. Outras leis, das quais há sempre grande quantidade por aquela sabedoria, reconhecida ou na maior parte irreconhecida,
190 CONSOLIDAÇÃO A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE 191

que por acaso exista em cabeças individuais, aqui e ali? Mas mesmo Mas, em verdade e seriamente, que podia ter feito a Assembleia Na­
isto seria um grande progresso; porque, outrora, com as suas facções cional? A coisa a ser feita era, como então eles diziam, regenerar a
de Guelfos e facções de Gibelinos, com as suas Rosas Vermelhas e as França; abolir a França antiga e construir uma nova, por meios pa­
suas Rosas Brancas, os partidos costumavam também paralisar toda a cíficos ou forçados, por concessão ou violência. Isto, pela lei da natu­
nação. Alem disso, estes fazem-no agora numa arena muito mais es­ reza, tornou-se inevitável. Com que grau de violência, depende da
treita, dentro das quatro paredes da sua Assembleia, com aqui e ali sabedoria daqueles que a isso presidirem. Com perfeita sabedoria da
uns postos avançados de recolhimento de votos e de barris de vinho; parte da Assembleia Nacional, tudo teria corrido de outro modo; mas
e com línguas, não com espadas. £ não serão estes melhoramentos da se, em qualquer circunstância, a transformação podia ter sido pacífica,
arte de produzir zero, não serão eles grandes? E não há até continentes e não sanguinosa e convulsiva, é uma questão ainda a responder.
felizes (como o Ocidental, com as suas savanas, onde todo aquele que
tem quatro membros voluntariosos acha alimento debaixo dos pés e Concedamos, no entretanto, que esta Assembleia Constituinte con­
um céu infinito por sobre a cabeça) que vivem sem governação? Estas tinua até ao fim a ser alguma coisa. Com um suspiro, ela vê-se inces­
são questões esfíngicas, a que o mundo alucinado da presente geração santemente e forçadamente desviada da sua tarefa infinita e divina de
deve responder, sob pena de morte! aperfeiçoar a "Teoria dos Verbos Irregulares", para tarefas terrestres
e finitas, as quais têm contudo uma certa significação para nós. É a
cinosura da França revolucionária, esta Assembleia Nacional. Todo o
trabalho de governo caiu em suas mãos, ou sob o seu controle; todos
Capitulo II os homens volvem para ela os olhos, à procura de direção. No meio
dessa enorme revolta de vinte e cinco milhões, ela paira sempre alto
A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE como um Carrocio ou estandarte guerreiro, impelindo e impelida, do
modo mais confuso: se ela não pode dirigir muito, parecerá pelo me­
Para uma coisa serve uma assembleia eleita de mil e duzentos mem­ nos que dirige alguma coisa. Emite proclamações pacificadoras, não
bros: destruir. O que na v«rdade é apenas um exercício mais decidido poucas; tom mais ou menos resultado. Autoriza o alistamento de guar­
do seu talento natural para não fazer nada. Não fazendo nada, limi-
das nacionais — para que os bandoleiros não venham devorar-nos e ar­
tando-vos somente a agitação, a debates, as coisas destroem-se por si
rebatem as coleitas não maduras. Envia missões para abafar "eferves-
próprias.
cências"; para salvar homens do Candeeiro. Escuta mensagens congra-
Foi assim e não de outro modo que procedeu uma augusta Assem­ tulatórias que chegam todos os dias às centenas, a maior parte no estilo
bleia Nacional. Tomou o nome de Constituinte, como se a sua missão do Rei Cambises; também petições e queixas de todos os mortais; de
e função fosse a de constituir e edificar; o que, também, com toda a sorte que a queixa de qualquer mortal, se não puder ser reparada, possa
sua alma, ela tenta fazer. Contudo, pela força do destino, pela própria ao menos ouvir-se queixar a si própria. Quanto ao resto, uma augusta
natureza das coisas, estava-lhe destinada precisamente, de todas as fun­ Assembleia Nacional pode produzir eloquência parlamentar; e nomear
ções, a mais contrária a isso. É bastante estranho ver em que evange­ comités, comités da Constituição, de Informações, de Pesquisas e de
lhos os homens acreditam; pois até acreditam em evangelhos de Jean muito mais, o que também enche montanhas de papel impresso: o tema
Jacques! Era a fé inabalável destes deputados nacionais, assim como duma nova eloquência parlamentar, em arroubos oratórios ou em abun­
de todos os franceses pensantes, que a Constituição podia ser feita; dantes tiradas de corrente mansa. E assim, do vórtice devorador para
que eles, ali naquela ocasião, eram chamados a fazê-la. Como é que, dentro do qual todas as coisas vão redemoinhadas e trituradas, emergem
com a tenacidade dos antigos hebreus e dos ismaelitas muçulmanos, lentamente leis orgânicas ou a semelhança delas.
persistiu este povo, em outras coisas tão descrente, tão volúvel, no seu
Credo quia impossibile, enfrentando com êle o mundo armado, tor- Com debates intermináveis, nós obtemos os Direitos do Homem escri­
nando-se fantástico, até heróico, e realizando por êle altos fejtos?l A tos e promulgados: verdadeira base de papel de todas as constituições
Constituição da Assembleia Constituinte, assim como várias outras, de papel. Ficou no esquecimento, exclamam os oponentes, declarar os
sendo impressa e não manuscrita, sobreviverá até futuras gerações, como Deveres do Homem! Esqueceram-se, acrescentamos nós, de formular os
um documento instrutivo e quase incrível da época: o quadro mais Poderes do Homem; uma das mais fatais omissõesl Pois até algumas
significativo da França então existente; ou pelo menos, como o qua­ vezes, como no Quatro de Agosto, a nossa Assembleia Nacional, desper­
dro de pintura que estes homens fizeram dela. tada subitamente por um entusiasmo quase preternatural, realizará in-
192 CONSOLIDAÇÃO A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE 193

teiras massas de trabalho numa só noite. Uma noite memorável, esta do podia, pensa-se apaixonadamente, prostrar o próprio Mirabeau mais
Quatro de Agosto: dignitários temporais e espirituais; pares, arcebispos, velho, se apenas o tentasse1 — o que êle não faz. Finalmente, reparai,
presidentes de parlamentos, cada um excedendo-se ao outro em dedica­ por um momento, no maior, o Abbé Maury, com os seus olhos jesuíticos,
ção patriótica, vêm sucessivamente depor as suas possessões, agora im­ a sua impassível face de bronze, "imagem de todos os pecados cardeais".
possíveis de possuir, no "altar da pátria". Com aclamações cada vez mais Indomável, inextinguível, êle combate com retórica jesuítica, com os
estrepitosas — porque isso ocorreu depois de jantar — abolem dízimos, mais rijos pulmões e coração, pelo trono, especialmente pelo altar e
direitos senhoriais, a gabela, a proteção excessiva da caça; e até privi­ pelos dízimos. Tanto que, uma vez, uma voz estridente exclamou da
légios, imunidades, raízes e ramos do feudalismo; depois decretam um Galeria: "Messieurs do Clero, vós tendes de ser barbeados; mas se vos
Te-Deum para isso; e assim, finalmente, se dispersam às três da manhã, mexerdes muito, apanhais um lanho" 2 .
afrontando as estrelas com as suas cabeças sublimes. Tal noite, nunca 0 lado esquerdo também é chamado o lado D'Orléans; e algumas
antes vista, mas para sempre memorável, foi esta do Quatro de Agosto vezes, derrisòriamente, o Palais Royal. E todavia, tão confuso, real-ima-
de 1789. Miraculosa ou semimiraculosa, como parecem pensar alguns. ginário parece tudo, que "é duvidoso", como Mirabeau disse, "que o
Uma nova noite de Pentecostes, diremos nós, moldada de acordo com próprio D'Orléans pertença a esse mesmo partido D'Orléans". O que
a nova era e a nova Igreja de Jean Jacques Rousseau? Teve as suas pode ser conhecido e visto é que o seu semblante de lua cheia emite
causas e também os seus efeitos. os seus raios, daquele ponto do espaço. Ali, da mesma forma, se senta
o verde-marinho Robespierre, lançando o seu peso leve com decisão,
não ainda com efeito. Puritano e rigorista magro e superficial, êle pre­
De tal maneira trabalham os deputados nacionais, aperfeiçoando a
tende correr com as fórmulas e contudo vive, move-se e tem o seu ser
sua Teoria de Verbos Irregulares, governando a França e sendo gover­
inteiramente envolvido em fórmulas, de uma outra sorte. "Peuple", tal
nados por ela; com fadiga e barulho; cortando cerce antigos e intole­
devia ser, segundo Robespierre, o método real de promulgar leis; "Peu­
ráveis vínculos; e fabricando novos, fiando assiduamente cordas de areia,
ple", esta é a lei que redigi para ti; aceita-la? — o que é respondido,
Representassem os seus labores nada ou alguma coisa, como os olhos de
do lado direito, do centro e da esquerda, por interminável gargalhada 3 .
toda a França estavam reverentemente fixados neles, a História nunca
Contudo, homens argutos prevêem que o verde-marinho pode talvez ir
poderá por muito tempo perdê-los completamente de vista.
longe: "Este homem", observa Mirabeau, "fará qualquer coisa; acredita
Pelo presente, se lançarmos os olhos para dentro daquela sala de As­ em tudo o que diz". O Abbé Sieyès não se ocupa senão de mero labor
sembleia, achá-la-emos, como é natural, "muito irregular". Não menos constitucional; no qual, infelizmente, os seus companheiros de trabalho
de "cem membros se erguem ao mesmo tempo"; não há regulamento são menos dóceis do que deviam ser com um homem que completou a
para se fazerem moções, nem começos de regulamento; a Galeria dos Ciência Política. Não obstante, coragem, Sieyès! Com uns vinte meses
Espectadores tem o direito de aplaudir e até de patear 1 . A nomeação do de labuta heróica, de contradições vindas dos estúpidos, e a Constitui­
presidente, de quinze em quinze dias, não permite muitas vezes que ção será construída; cuja pedra fundamental é recebida com aclama­
êle seja um homem prático, cuja cabeça se mantenha serena por cima ções — digamos antes, cujo papel fundamental, porque tudo aquilo é
das vagas agitadas. Não obstante, como em todas as reuniões humanas, papel. Tu fizeste o que a Terra ou o Céu podiam exigir de ti, tudo o
o semelhante começa a adaptar-se por si próprio ao semelhante; a regra que pudeste. Notai também este trio, memorável por diversas coisas;
perene, Ubi homines sunt modi sunt, mostra-se válida. Há um lado memorável, quanto mais não fosse, porque a sua história está escrita
direito (Côté Droit), um lado esquerdo (Côté Gaúche); sentado à mão num epigrama: "seja o que fôr que estes três tenham em mente", diz-se,
direita do presidente ou à mão esquerda; o Côté Droit, conservador; o "Duport pensa-o, Barnave di-lo e Lameth fá-lo"4.
Côté Gaúche, destruidor. No meio está o Constitucionalismo Angloma-
níaco, ou realismo de duas câmaras, com os seus Mouniers, os seus Lallys Mas o real Mirabeau? Conspícuo entre todos os partidos, erguido acima
— depressa caminhando para a não-existência. Proeminente, no lado e para além de todos eles, este homem cada vez sobe mais. Como muitas
direito, defende e perora Cazalés, o capitão de dragões, eloquente, de vezes dizemos, êle tem um olho, é uma realidade, ao passo que os outros
entusiasmo moderado; ganhando para si a sombra dum nome. Ali tam­ são fórmulas e lunetas. No transitório êle descobre o perene; e encontra
bém barafusta Mirabeau Tonel, o mais jovem Mirabeau, não sem en­
genho; o sombrio D'Espréménil não faz nada senão fungar e ejacular; 1 Biographie Universellc, Espréménil (por Beaulieu).
2 Diciionnairc des Hommes Marquans, II. 519.
S Monileur, N.° 67 (in Hisl. Pari.).
1 Arthur Young, 111. 4 Vid. Toulongeon, I. c. 3.

13 Hist. Rev. Francesa


194 CONSOLIDAÇÃO A CAMBALHOTA GERAL 195

um pouco de pé firme, mesmo no meio de vórtices de papéis. A sua Nos dias de julho, enquanto todos os ouvidos estavam ensurdecidos
fama projeta-se por todas as terras; alegrou o coração do próprio azedo pela queda da Bastilha e os ministros e os príncipes eram dispersos
e velho Amigo dos Homens, antes de êle morrer. Os próprios postilhões aos quatro ventos, parecia que até os próprios criados estavam ansiosos
das estalagens tém ouvido falar de Mirabeau: quando um viajante im­ de ouvir. Besenval, também em fuga para o espaço infinito, mas pai­
paciente se queixa de que a parelha é insuficiente, o seu postilhão res­ rando um pouco por Versalhes, dirigia-se pessoalmente a Sua Majes­
ponde: Sim, Monsieur, os cavalos que vão aos varais são fracos; mas o tade acerca duma ordem sobre cavalos de posta; quando, oh, "o cria­
meu mirabeau (cavalo sota) é excelente, mais mon mirabeau est ex- do de serviço se coloca familiarmente entre mim e Sua Majestade",
cellent1. espichando o seu nariz de tratante, para saber o que era! Sua Majes­
tade, em cólera súbita, voltou-se e deitou a mão às tenazes: "Eu sua­
E agora, leitor, tens de deixar esta ruidosa discrepância de uma As­ vemente o detive; êle pegou-me na mão, em agradecimento; e vi lá­
sembleia Nacional; não sem pena, se possuis espírito de humanidade. grimas nos seus olhos" 1 .
Há ali mil e duzentos irmãos, no centro de vinte e cinco milhões, a Pobre rei; porque os reis franceses também são homens! O próprio
combater tão bravamente com o Destino e uns com os outros; consu­ Luís Quatorze também uma vez deitou a mão às tenazes e até feriu
mindo em luta as suas vidas, como faz a maioria dos filhos de Adão, com elas; mas isso foi com Louvois, e Madame Maintenon correu a
por aquilo que não lhes aproveita. E até se admite, em suma, que acudir. A rainha senta-se a chorar nos seus aposentos interiores, ro­
aquilo às vezes é monótono. "Monótona como a Assembleia de hoje", deada de mulheres fracas: ela está "no auge da impopularidade", re­
disse alguém. "Por q u e datar, Porquoi daterf" respondeu Mirabeau. putada universalmente como o mau génio da França. Os seus amigos
Considerai que são mil e duzentos; que eles não só falam mas lêem e conselheiros familiares fugiram todos; e fugiram, certamente, para a
seus discursos; e que até roubam e tomam de empréstimo discursos para mais desassisada das missões. O Château Polignac ainda se ostenta
lerl Com mil e duzentos oradores fluentes e o seu dilúvio de Noé de arrogante, elevado no seu "altivo e enorme rochedo cúbico", entre
Iugares-comuns, o silêncio pode-nos bem parecer a única bênção da vida. verdejantes planícies e no meio da cintura azul das montanhas do
Mas imaginai mil e duzentos panfletários, a vomitar constantemente Auvergne 2 : mas nenhum duque nem Duquesa de Polignac olham das
panfletos, e sem ninguém para lhes pôr uma mordaça na boca! E nem, suas alturas; fugiram, "foram ter com Necker em Basileia" e não re­
como no Congresso Americano, os arranjos internos parecem perfeitos. gressarão. Que a França visse os seus nobres resistir ao irresistível, ao
Aqui, um senador não possui a sua própria carteira nem o seu jornal; inevitável, com faces de homens em cólera, era um espetáculo triste,
de tabaco (e muito menos de cachimbos) não têm a mínima provisão. não inesperado; mas com a face e senso de crianças amuadas! Esta
A própria conversação deve ser mantida em tom baixo, com interrup­ era a sua peculiaridade: não compreendiam nada, não queriam com­
ção contínua: apenas "notas a lápis circulam livremente em números preender nada. Não se senta, nesta hora, um novo Polignac primo­
incríveis, até junto da própria tribuna" 2 . Assim corre este trabalho, de génito destes dois, a refletir no castelo de Hara 8 , num pasmo de que
regenerar uma nação, de aperfeiçoar a sua Teoria de Verbos Irregulares! nunca se recobrará; o mais confuso dos mortais existentes?
0 Rei Luís tem o seu novo ministério: meras popularidades; o ve­
lho Presidente Pompignan; Necker, reconduzido em triunfo, e outros
que tais4. Mas de que lhe serve isso? Como foi dito, o cetro, todo êle
Capítulo III menos o pau dourado, partiu para outras partes. Vontade, determina­
ção, é coisa que este homem não tem: apenas inocência, indolência,
A CAMBALHOTA GERAL dependendo de todas as pessoas menos de si próprio, de todas as cir­
cunstâncias em que êle podia dominar. T ã o perturbado internamente
Da corte do rei, quanto ao presente, quase nada há a dizer. Silen­ está o nosso Versalhes e as suas obras. Belo, se visto de longe, resplan­
ciosos, desertos estão estes salões; a realeza definha abandonada pelo decente como um sol; visto de perto, mera atmosfera solar, ocultando
seu deus da guerra e por todas as suas esperanças, até que o Oeil-de- a escuridão, o fermento confuso da ruínal
Boeuf recobre novo alento. O cetro fugiu do Rei Luís para a Salle des
Menus, para a Municipalidade de Paris, ou para onde ninguém sabe. 1 Besenval, III. 419.
2 A. Young, I. 165.
1 Dumonl, Souvenira «ir Mirabeau, p." 255. 3 Ano de 18S5.
2 Vid. Dumont ( p . 159-67: A. Young, e l e ) . 4 Montgaillard. II. 108.

190 CONSOLIDAÇÃO
A CAMBALHOTA GERAL 197
Mas por sobre a França, opera-se a mais indisputável "destruição de
Ou esqueceu-se o leitor daquela "aluvião de selvagens", que, à vista
fórmulas"; surgindo, por seu turno, uma transação de realidades. Tan­
do mesmo Amigo dos Homens, desceram das montanhas no Mont d'Or?
tos milhões de pessoas, inteiramente preadas e quase estranguladas com
Faces macilentas de cabelos lisos; formas ossudas, de tamancos altos;
fórmulas, cuja vida, não obstante, pelo menos quanto à digestão e à
com casacos de lã e cintos de couro tachonados de pregos de cobre!
fome, era bastante reall O Céu, por fim, mandou uma colheita abun­ Bamboleavam-se com os pés e batiam compasso também com os coto­
dante: mas que aproveita isso ao homem pobre, quando a Terra com velos, quando a briga e a batalha, que não demorou a principiar, es­
as suas fórmulas se interpõe? A indústria, nestes tempos de insurrei­ tava acesa, gritando ferozmente, com os rostos magros distorcidos num
ção, tem necessariamente de estar dormente; o capital, como de cos­ riso cruel. Porque eles eram obscurecidos e endurecidos: por muito
tume, sem circular, estagnando-se temerosamente em esconderijos. O tempo tinham sido a presa dos homens das sisas e dos impostos; de
homem pobre tem falta de trabalho, e por consequência falta de di­ "escrivães com o frio esguicho da sua pena". A profecia categórica do
nheiro; mas mesmo que tivesse dinheiro, não pode comprar pão com nosso velho marquês, que ninguém quis ouvir, foi que "um tal go­
êle. Seja por conspirações dos aristocratas, por conspiração de D'Or- verno de cabra-cega, a tropeçar constantemente, acabaria pela camba­
léans; seja por causa dos bandoleiros, do terror preternatural, do som lhota geral, une Culbute Générale!"
ecoante do arco de prata de Febo-Apolo, seja por que fôr, os merca­ Ninguém quis ouvir, cada um seguia impensadamente o seu cami­
dos estão escassos de cereal, abundando só em tumultos. Os lavradores nho; e o Tempo e o Destino também caminharam. O governo da cabra-
parecem lentos em malhar o grão; sendo "subornados", ou mesmo sem cega, a tropeçar, chegou ao inevitável precipício. O duro sofrimento,
precisarem de suborno, por os preços estarem sempre a subir, e sem esporeado por escrivães com o frio e cobarde esguicho da sua pena,
talvez serem já tão instados a pagar a própria renda. Nem tampouco, converteu-se numa comunhão de escravos! Porque agora, além de tudo,
o que é singular, as determinações municipais, de que "com tantas têm chegado as mais estranhas e confusas notícias; pelas asas de papel
medidas de trigo deveis vender tantas de centeio" e outras de igual dos jornais de Paris; ou ainda mais portentosamente, onde não há
teor, dão o remédio preciso ao assunto. Dragões de espadas desembai­ jornais 1 , por rumor e conjetura: a opressão não é inevitável; a Bas­
nhadas postam-se em fileir^ entre os sacos de grão, muitas vezes mais tilha jaz prostrada e a Constituição está-se aprontando! A qual Cons­
dragões que sacos1. Abundam motins de farinha, tornando-se em mo­ tituição, se ela é alguma coisa e não nada, que pode ela ser senão
tins de uma côr mais negra. pão para comer?
A fome já era conhecida entre a plebe francesa antes disto; conhe­
cida e familiar. Não os vimos nós, no ano de 1775, apresentarem, de O viajante, "ao subir o monte de rédea na mão", depara com "uma
faces lívidas, rotos e miseráveis, a sua Petição de Agravos; e por res­ pobre mulher"; a imagem, como é a de tal gente, de sofrimento e mi­
posta, conseguiram uma forca de marca nova de quarenta pés de al­ séria; "aparentando sessenta anos de idade, apesar de não ter ainda
tura? Fome e obscurantismo, durante longos anos! Porque revertamos vinte e oito". Têm sete filhos, o seu pobre marido e ela: uma gleba
àquele antigo tumulto de Paris, quando se acreditava que uma grande com uma vaca, que ajuda a fazer o caldo das crianças; e também um
personagem, esgotada pela libertinagem, andava à procura de banhos pequeno cavalo ou garrano. Têm de pagar rendas e foros, e galinhas
de sangue; enchendo as mães, em andrajos, mas com corações vivos a este senhor; sacos de aveia a outro; impostos do rei, contribuição
braçal, côngruas, taxas bastantes; sem terem palavras para exprimir a
dentro deles, as praças públicas com os seus desvairados gritos de Ra­
inclemência da época. Ela ouviu dizer que em alguma parte, de al­
quel — silenciados também pela forca. Faz vinte anos, o Amigo dos
guma maneira, alguma coisa se ia fazer pelos pobres: "Que Deus
Homens (pregando aos surdos) descrevia os camponeses do Limousin
mande isso depressa, porque os direitos e as taxas esmagam-nos (nous
com o seu aspecto de quem anda ferido pela dor (soujfre-douleur), um écrasent)\2.
aspecto para alem do queixume, "como se a opressão dos grandes fosse
como a saraiva e o trovão, uma coisa irremediável, um imperativo da Belas profecias se fazem, mas não se realizam. Tem havido convo­
natureza" 2 . E agora que sucederá se, nalguma grande hora, o choque cações de Notáveis, assembleias, umas a fechar, outras a abrir. Intrigas
de uma Bastilha a cair vos despertar; e se se chegar à conclusão de e manobras, eloquência parlamentar e discussões, grego defrontando-
que é apenas um imperativo de arte, e remediável, reversível! se com grego nas altas regiões, já duram há muito; e contudo o pão
ainda não apareceu. A colheita está segada e enceleirada; todavia,
1 Arlliur Young, I. 129, etc.
2 Fils adoptif, Mémoires de Mirabeau, I. 3G4-94. 1 Arihur Young, I. 137, 150, cie.
2 Vld. Anhur Young, I. 1S4.

■■■
A CAMBALHOTA GERAL 199
198 CONSOLIDAÇÃO
truída"; sem saberem para onde agora hão de girar1. O métayer acha
ainda não temos pão. Acicatados pelo desespero e pela esperança, que. conveniente não ter pressa de pagar a renda. Quanto ao recebedor de
pode o sofrimento fazer senão levantar-se, como foi predito, e produ­ impostos, êle, outrora caçando como um bípede de presa, pode agora
zir a cambalhota geral? acontecer que seja caçado; o tesouro de Sua Majestade não preencherá
Imaginai, então, uns cinco milhões de figuras adultas e assim des­ o deficit este ano: o que muitos pensam é que uma majestade patrió­
carnadas, com as suas faces pálidas (figures hâves); com casacos de lã, tica, sendo o Restaurador da Liberdade Francesa, aboliu a maioria dos
com cintos de couro tachonados de cobre e tamancos altos — erguen- impostos, apesar de, para seus fins privados, alguns fazerem segredo
do-se para fazer, em rugidos da selva, às suas lavadas classes superiores, disso.
depois de longos séculos de descaso, virtualmente esta pergunta: Como Onde terminará isto? No abismo, pode profetizar-se; para onde todas
nos tendes vós tratado; como nos ensinastes, nos alimentastes e nos con­ as ilusões estão, em todos os momentos, convergindo; onde esta ilusão
duzistes, enquanto nós trabalhávamos para vós? A resposta só pode ser agora chegou. Porque se há uma fé, vinda de longe, é esta, como
lida em chamas, sobre um céu de noite estival. Este é o alimento e a muitas vezes temos repetido, que nenhuma mentira pode viver para
conduta que recebemos de vós: Vacuidade — de algibeira, de estôma­ sempre. A própria verdade tem de mudar de vestimenta, de tempos a
go, de cabeça e de coração. Reparai que não há nada em nós; nada tempos; e nascer de novo. Mas todas as mentiras têm sentença de
senão o que a natureza dá aos filhos bravios do deserto: ferocidade e morte escrita contra elas, no próprio tribunal do céu; e, lenta ou ra­
apetite; força alicerçada na fome. Não inscrevestes nos Direitos do pidamente, avançam incessantemente para a sua última hora. "O que
Homem que o homem não deve morrer à míngua, enquanto houver mostra que uma propriedade pertence a um Grand Seigneur" diz o
pão colhido por éle? Isto faz parte dos Poderes do Homem. veemente Artur Young, homem de linguagem clara, "são landes, de­
Setenta e dois Châteaux elevaram ao alto as suas chamas só no Mâ- sertos, estevas: ide à sua residência e encontrá-la-eis no meio duma flo­
connais e no Beaujolais: pare.ce ser este o centro da conflagração; mas resta, povoada de veados, javalis e lobos. Os campos são lamentavel­
ela estende-se ao Delfinado, à Alsácia, ao Lionês; todo o Sudeste está mente amanhados, assim como as casas são cenas de miséria. Ver tantos
a arder. Em todo o Norte, de Ruão a Metz, a desordem campeia: con­ milhões de mãos que querem ser industriosas, inteiramente na ociosi­
trabandistas de sal andam abertamente em bandos armados; as barrei­ dade e' na fome: Oh, se eu fosse legislador da França por um dia, fa­
ras das cidades são queimadas; cobradores de portagens, recebedores zia dar um pulo a estes grandes senhores"2, ó Artur, tu atualmente
de impostos, funcionários públicos põem-se em fuga. "Pensava-se" diz vê-los pular; irás também resmungar com tal espetáculo?
Young, "que o povo, pela fome se revoltaria" e agora vemos que se Durante longos anos e gerações durou isso; mas o tempo chegou.
revoltou. Desesperados párias, que há muito vagueiam sem rumo, ago­ Cérebros parados, a quem não comoviam nem a razão nem os quei­
ra que encontram esperança no próprio desespero, por toda a parte xumes; tinha de os iluminar o clarão do incêndio: não restava outro
se formam em núcleos. Tangem o sino da igreja a rebate: e o povo processo. Reparai nisto e considerai-o bem! A viúva colhe urtigas para
da aldeia apresta-se para a obra 1 . Ferocidade, atrocidade, fome e vin­ a ceia de seus filhos; um Seigneur perfumado, delicadamente repol-
gança: tal é a obra que podemos conceber 1 treado no Oeil-de-Boeuf, tem uma alquimia pela qual lhe extrairá a
Mal vai agora ao Seigneur que, por exemplo, "murou a única fonte terceira urtiga, sob o nome de renda e de lei: tal arranjo tem de aca­
da povoação", que se entronizou sobranceiramente sobre o seu chartier bar. Pois não deve? Mas o mais temeroso é um tal fiml Que aqueles a
e seus pergaminhos; que protegeu a caça, não prudentemente, mas de­ quem Deus, na sua grande misericórdia, concedeu tempo e espaço,
masiadamente! As igrejas e os Capítulos eclesiásticos também são sa­ preparem outro fim mais suave.
queados, sem misericórdia; por terem tosquiado o rebanho demasia­
damente, esquecendo-se de o alimentar. Desgraçada a terra sobre a Algumas pessoas há que ficam pasmadas de os Seigneurs não terem
qual o sans-culotismo, nos seus dias de vingança, pisa grosseiramente feito alguma coisa para se defenderem, isto é, combinando-se e arman-
o seu calçado — calçado de tamancos! Seigneurs de alta linhagem, do-se; porque havia uns "cento e cinquenta mil", todos bastante va­
com as suas delicadas esposas e filhos, tiveram de se "escapar meio lentes. Infelizmente, cento e cinquenta mil, disseminados sobre vastas
nus", sob as sombras da noite: felizes de se virem livres das chamas e províncias, divididos por má vontade mútua, não podiam combinar-
ainda de coisa pior. Encontramo-los nas tables d'hôte das estalagens, se. Os Seigneurs mais altos, como vimos, já tinham emigrado — com
a fazerem sábias ou insensatas reflexões de que a "hierarquia está des-
1 Vid. Young, I. 149, «te.
2 A. Young. I. 12, 48, 84, cie.
1 Vld. Hl*. Pari. II. 2 4 J 8 .
200 CONSOLIDAÇÃO
A CAMBALHOTA GERAL 20]

o propósito de fazerem corar a França. Nem tampouco as armas são valarias da Guarda Nacional e todas as bandas militares do lugar —
agora propriedade exclusiva dos Scigneurs, mas de todo o mortal que N. Necker, de regresso de Basileia! Glorioso como o meridiano; se
tem dez francos para comprar um fuzil em segunda mão. bem que o próprio pobre Necker prevê em parte para onde o con­
duzem1. Um dia altamente culminante, na Municipalidade de Paris,
Além disso, esses esfomeados camponeses, não têm, apesar de tudo,
com vivas imortais, com a esposa e a filha ajoelhadas publicamente a
quatro patas e garras para que vós possais conservá-los permanente­
beijarem-lhe a mão, com o perdão a Besenval concedido — mas revo­
mente na posição de animais. Nem tampouco são de côr preta: são
gado antes do sol posto: um dia altamente culminante, mas depois
apenas Seigncurs não lavados; e um Seigneur, qualquer que êle seja,
dias mais baixos, cada vez mais baixos, até ao mais baixíssimo! Tanta
tem entranhns humanas! Os Seigneurs fizeram o que puderam: alista-
magia há num nome; e na falta de nomes. Como um elmo encantado
ram-se nas guardas nacionais; fugiram, aos guinchos, lamuriando-se ao
de Mambrino, essencial para a vitória, chega este "Salvador da França",
Céu e à Terra. Um Seigneur, o famoso Memmay de Quincey, perto de
ruidosamente aclamado, trombeteado pelo mundo; mas ah, para ser
Vesoul, convidou todos os rústicos da vizinhança para um banquete;
desencantado, vergonhosamente arremessado para fora da liça como
fê-los ir pelos ares, a eles e ao seu Château, com pólvora; e desapare­
uma bacia de barbeiro! Gibbon "teria querido mostrá-lo" (nesta fase
ceu instantaneamente, ninguém sabe ainda para onde 1 . Uns doze anos
de expulsão, neste estado de bacia de barbeiro) a qualquer homem de
depois, voltou; demonstrando que foi por acidente.
solidez, para que não se resolvesse a consumir a sua alma e a tornar-se
Nem as autoridades estão ociosas; apesar de, infelizmente, todas as um caput mortuum por ambição, com bom ou mau sucesso2.
autoridades, municipalidades e o mais se acharem no estado incerto e
transitório, na sua fase de regeneração das velhas formas monárquicas Outro pequeno incidente, nós acrescentamos, e basta: como nos me­
para as novas formas democráticas, sem nenhum funcionário saber ses de outono, o nosso sensível Artur tem sido "incomodado há já
ainda claramente o que é. Não obstante, os maires, antigos ou novos, alguns dias", por tiros, cargas de chumbo e de metal "a matraquear-me
reúnem Marechausées, guardas nacionais, tropas de linha; justiça, da aos ouvidos e a penetrar cinco ou seis vezes na minha sege", por toda
espécie mais sumária, não falta. O Comité Eleitoral de Mâcon, apesar a plebe da região ter saído para fora de casa e andar a matar caça!8.
de ser apenas um comité, dhega a enforcar, em seu próprio proveito, É mesmo assim. No alto dos rochedos de Dover, por sobre todas as
umas vinte pessoas. O preboste do Delfinado percorre a região "com fronteiras da França, aparecem, este outono, dois sinais sobre a Terra:
uma coluna móvel", provido de oficiais de justiça e cordas de enforcar; voos emigratórios de Seigneurs franceses; voos emigratórios de asas de
para forca, qualquer árvore serve, tanto podendo suspender um cul­ caça francesa! Acabada pode dizer-se, ou prestes a acabar, está a con­
pado como "treze" culpados. servação da caça nesta terra; terminada por tempo indefinido. O papel
que ela tinha de representar na História da Civilização está represen­
Desafortunado país! Como o belo dourado e verde do ano fértil e tado: plaudite; exeat!
soalhento está deformado com hórrida negrura: cinzas negras dos Châ-
teaux, corpos negros de homens pendurados! A indústria cessou; não É desta maneira que o sans-culotismo resplandece, ilustrando muitas
se ouvem sons da serra e do martelo, mas do sino de rebate e do coisas; produzindo, sobretudo, como vimos, no Quatro de Agosto, essa
tambor de alarma. O cetro partiu, não se sabe para onde; quebrando- semimiraculosa noite de Pentecostes na Assembleia Nacional; semimi-
se em bocados; aqui impotente, acolá tirânico. As guardas nacionais raculosa, que teve as suas causas e os seus efeitos. O feudalismo é ferido
são inexperientes e de propósitos duvidosos; os soldados são propen­ de morte; não sobre os pergaminhos somente, e com tinta; mas de fato
sos a amotinarem-se: há perigo de que eles também briguem, perigo verídico, pelo fogo; isto é, por combustão espontânea. Esta conflagra­
de que eles se concordem. Em Estrasburgo, houve tumultos: o Hôtel- ção do Sudeste diminuirá; estender-se-á para o Oeste ou para outra
de-VilIe feito em cacos, os seus arquivos espalhados aos ventos; solda­ qualquer parte: extinguir-se, não se extingue, sem que o combustível
dos bêbedos aos abraços a cidadãos bêbedos, durante três dias, e o esteja todo acabado.
Maire Dietrich e o Marechal Rochambeau reduzidos quase ao de­
1 Biographie Universelle, Necker (por Lally Tollendal).
sespero2. 2 Cartas de Gibbon.
No meio de todos estes fenómenos, aparece, no seu trânsito triun­ 3 Young, I. 176.
fante, "escoltado", através de Bélfort por exemplo, "por cinquenta ca-

1 Hiat. Pari. II. 161.


2 Arlur Young, I. H l ; Dampmarlin, Êvénements qui se jont passo» sous mes yeux, I. 105-127.

r
EM BICHA 2(i:t

quetaria, mesmo em igreja ou catedral 1 ; enchendo a Notre Dame do


mais barulhento e fuliginoso Amém, significativo de muitas coisas.
Capitulo IV
Em suma, temos de dizer também que o nosso Maire Bailly, o nosso
EM BICHA novo comandante Lafayette, chamado "Cipião Americano", compra­
ram cara a sua elevação. Bailly move-se em coche dourado, com lacaios
e suntuosidade; andando Camilo Desmoulins e outros a fungar por
Se olharmos agora para Paris, uma coisa se torna demasiado evi­
causa disso. Cipião monta num "cavalo branco", todo ondeante de
dente: que as padarias têm todas as suas Bichas, ou caudas; suas lon­
plumas cívicas, à vista de toda a França. Nenhum deles, porém, faz
gas filas de compradores, dispostos em cauda, para que o primeiro
isso barato, mas em verdade a um preço exorbitante. A saber: o de
vindo seja o primeiro servido — uma vez que a loja se abra! Esta
alimentar Paris e evitar que êle combata. Com os fundos da cidade
espera em cauda, não vista depois dos primeiros dias de julho, torna
uns dezessete mil dos mais miseráveis são empregados a cavar em
a aparecer em agosto. Em devido tempo, vê-la-emos aperfeiçoada pela
Montmartre, a vinte sous por dia, o que lhes compra, ao preço do
prática, até quase constituir uma arte; e a arte, ou quase-arte, de ficar
mercado, quase duas libras de mau pão; eles mostram um semblante
de pé em cauda converte-se numa das características do povo pari­
muito amarelo, quando Lafayette lhes vai arengar. A Municipalidade
siense, distinguindo-o de todos os outros povos, quaisquer que sejam.
trabalha, dia e noite; ela deve produzir pão, uma Constituição Mu­
Mas considerai, quando o trabalho escasseia tanto, como um ho­ nicipal, regulamentos de todas as espécies, freios para a imprensa sans-
mem não necessita apenas de adquirir dinheiro, mas também de ficar culótica; e acima de tudo, pão, pão.
de pé à espera (se a sua consorte é demasiado fraca para esperar e lutar)
durante meios dias rfà cauda, a,té que o consiga trocar pelo ambicio­ Provedores farejam o país de um lado ao outro, com apetite de leões;
nado pão caro e mau! É natural que nestas exasperadas bichas, sur­ apreendem cereal escondido, compram cereal livre; por meios brandos
jam discussões, que algumas vezes exijam o emprego da força e o ou forçados, têm de achar cereais. Tarefa muito ingrata e tão difícil,
derramamento de sangue. Ou, se não há discussões, então surge unâ­ tão perigosa — mesmo que um homem ganhe qualquer coisa com ela!
nime Pange Lingua de queixas contra os poderes existentes. A França Em 19 de agosto, há alimento para um dia 1 . Há queixas de que o pão
iniciou o seu longo Currículo da Fome, mais instrutivo e produtivo está estragado e produz desarranjo nos intestinos: não farinha, mas
que os Currículos Académicos, que se prolonga para além de uns sete gesso de Paris! Quanto ao desarranjo nos intestinos, assim como a "um
laboriosos anos. Como Jean Paul diz da sua própria vida, "o negócio pique na garganta e no palato", uma proclamação municipal aconselha
da fome atingirá grandes alturas". • a que ninguém se importe com isso, ou até a considerá-lo como um
drástico benéfico. O maire de Saint-Denis, tão negro era o seu pão,
Ou considerai, em estranho contraste, as cerimónias de júbilo; por­ foi, por uma população dispéptica, enforcado ali no candeeiro. Os guar­
que, em geral, o aspecto de Paris apresenta duas características: ceri­ das nacionais protegem o mercado de cereais de Paris; a princípio
mónias de júbilo e escassez de alimento. Bastantes procissões percor­ bastam dez, depois são precisos seiscentos2. Grande tarefa para vós,
rem a cidade em júbilo: de mulheres jovens, garridamente ataviadas, Bailly, Brissot de Warville, Condorcet e vós outros!
todas listradas de tricolor, movendo-se a cantar e a tamborilar para o
relicário de Santa Genoveva, a fim de lhe agradecerem a queda da Porque, como se disse há pouco, há também uma Constituição Mu­
Bastilha. Os homens fortes do mercado e as mulheres fortes não faltam nicipal a fazer. Os antigos eleitores da Bastilha, depois de andarem
com os seus ramalhetes e discursos. O Abbé Fouchet, famoso em tais uns dez dias a salmodiarem sobre a sua gloriosa vitória, começaram
obras (porque o Abbé Lefèvre só sabe distribuir pólvora), abençoa o a ouvir perguntar, em tom esplenético: Quem vos pôs aí? Eles tiveram
pano tricolor da Guarda Nacional e faz dele uma bandeira tricolor pois de dar lugar, não sem lamentações e resmungos audíveis ambos
nacional; vitoriosa ou a ficar vitoriosa na causa da liberdade civil e os lados, a um corpo maior, especialmente eleito para esse posto. O
religiosa em todo o mundo. Fauchet, como dissemos, é o homem dos qual novo corpo, aumentado, alterado, depois fixado finalmente no
Te-Deums e das consagrações públicas; às quais, como neste caso da número de trezentos, com o título de representantes da cidade (Repré-
bandeira, a, nossa Guarda Nacional responde com descargas de mos- sentants de la Cammunè) se senta agora ali, devidamente secionado

1 Vid. Hist. Pari. III. 20. Mercler, Nouvenu Pari», etc. 1 Vid, Bailly, Mémoirei, II. 157-409.
2 n,-i. i',,,1. II. 421.
O Q U A R T O ESTADO 205
204 CONSOLIDAÇÃO
tão prenhe de aristocratas, "nada pode fazer", a não ser dissolver-se a
em comités, assiduamente a fazer uma Constituição, em todos os mo­ si própria, dando lugar a uma melhor; que os representantes munici­
mentos em que não anda à busca de farinha. pais pouco mais são do que tagarelas e imbecis, se não forem patifes.
E que Constituição eles têm de fazer; pouco menos de miraculosa; Pobre é este homem; esquálido e habita em sótãos; homem desagra­
uma que "consolide a Revolução"! A Revolução está então terminada? dável aos sentidos, exteriores e interiores; homem repulsivo; e que se
O Ma ire Builly e todos os amigos respeitáveis da liberdade de bom está tornando fanático, possuído de ideias fixas. Cruel lusus da natu­
grado o pensariam. A vossa Revolução, como a geleia suficientemente reza! Não te amassou, ó pobre Marat, a natureza, como num diverti­
fervida, precisa apenas de ser vasada em moldes de Constituição e ali mento cruel, dos seus detritos e de barros miscelâneos e refugados; ar-
"consolidada"? Pudesse ela esfriar, o que é precisamente o ponto duvi­ remessando-te, qual uma madrasta, como uma alucinação, neste alu­
doso ou ate o ponto não duvidoso! cinado século dezoito? Tens aqui trabalho designado; o qual tu farás.
Infelizes amigos da liberdade, a consolidarem uma Revolução! Têm Os trezentos têm chamado à barra Marat e ainda terão que chamá-lo;
de se sentar ali a trabalhar, com o seu pavilhão estendido sobre o pró­ mas êle grunhe sempre resposta suficiente; enfrenta-os sempre ou ilu-
prio caos, entre dois mundos hostis, o mundo superior da corte e o de-os; e não suporta mordaça.
mundo inferior sans-culótico; e açoitados por ambos, laborar doloro­
samente, perigosamente — a fazerem, num esforço sério e triste, "o im­ Carra, "ex-secretário de um Hospodar decapitado" e depois do car­
possível". deal do colar, igualmente panfletário, aventureiro em muitas cenas e
terras, aproxima-se de Mercier, do Tableau de Paris; e de espuma nos
lábios, propõe uns Annales Patrioliques. O Moniteur segue o seu
próspero caminho; Rivarol e Royou não estão ociosos. O abismo atrai
Capitulo V
o abismo: o vosso Domine Salvum Fac Regem fará surgir o Pange
O QUARTO ESTADO Lingua; da mesma forma que há um Ami-du-Peuple, haverá um jornal
amigo do rei, Ami-du-Roi. Camilo Desmoulins nomeou-se a si próprio
O panfletarismo abre cad.a vez mais a sua goela abismal, para nunca Procureur-Général de la Lanterne, procurador geral do Candeeiro; e
mais a fechar. Os nossos filósofos, afastam-se, com efeito, um pouco, combate sem atrocidade, sob um título atroz, publicando semanal­
à maneira de Marmontel, retirando-se em desgosto nos primeiros dias. mente as suas brilhantes Révolutions de France et de Brabant. Bri­
O Abbé Raynal, que no seu domicílio de Marselha se tornara quieto lhantes, dissemos nós; porque naquela escuridão densa do jornalismo,
e grisalho, está pouco contente com esta obra. O último ato literário com o seu monótono ruído, com os seus furores fixos ou intermitentes,
do homem voltará a ser um ato de rebelião: uma Carta indignada à quando cintila algum raio de génio, é certamente de Camilo. A coisa
Assembleia Constituinte, respondida "pela ordem do dia". Da mesma que Camilo toca, êle adorna-a com o seu dedo sutil; a sua luz brota,
forma, o filósofo Morellet também enruga as suas descontentes sobran­ nobre, inesperada, no meio de horríveis confusões; frequentemente é
celhas, por ficar verdadeiramente ameaçado em seus benefícios por digna de se ler a palavra de Camilo, quando nenhuma outra o é. Inex­
esse quatro de agosto. Na verdade, é ir muito longe. É espantoso como plicável Camilo, como tu esplendes com uma luz cadente, rebelada,
essas "figuras pálidas de casacos de lã" não se mostrem tão satisfeitas contudo ainda meio celestial, como a estrela sobre a fronte de Lúci-
com a especulação e com a vitoriosa análise, como nós! ferl Filho da Manhã, em que época e em que terras tu caíste!
Ah, sim. A especulação, o filosofismo, outrora o ornamento e a ri­ Mas em todas as coisas há virtude; apesar de essa virtude não servir
queza dos salões, convertem-se agora em meras proposições práticas, e para "consolidar revoluções". Mil carradas deste panfletarismo e jor­
circulam nas ruas e nas estradas, universalmente, com resultados! Um nalismo estão a apodrecer lentamente nas bibliotecas públicas da nossa
Quarto Estado, de publicistas hábeis, surge, aumenta e multiplica-se, Europa. Arrancadas do grande golfo, como ostras por diversos mergu­
irreprimível, incalculável: novos impressores, novos jornais, sempre lhadores de pérolas bibliomaníacos, elas têm primeiro de apodrecer
cada vez mais (tão prudente é o mundo) e que os nossos trezentos se
ali, para depois o que era pérola, em Camilo ou em outros, ser reco­
avenham e se consolidem como puderem! Loustalot, sob a asa de
nhecido como tal e continuar a sê-lo.
Prudhomme, publicista inferior e espetaculoso, publica semanalmente
as suas Rcvolutions de Paris, duma maneira ácrida e enfática. Ácrido, Nem a discurseira pública declinou, apesar de Lafayette e de suas
corrosivo como a essência da ameixa brava e tia caparrosa é Marat, o patrulhas olharem irritados para isso. Sonoro está sempre o Palais
Amigo do Povo, já com a ideia fixa de que a Assembleia Nacional,

r
206 CONSOLIDAÇÃO

Royal, e mais sonoro ainda o Caie de Foy; tal é a miscelânea de ci­


dadãos e cidadãs que circulam por ali. "De vez em quando", conforme
diz Camilo, "alguns cidadãos se servem da liberdade da prensa para
fins privados; e tanto assim que um ou outro patriota se encontra de­
sapossado do seu relógio ou do seu lenço de bôlsol" Mas quanto ao
resto, na opinião de Camilo, nada pode oferecer uma imagem mais Livro Vil
animada do Fórum Romano. "Um patriota faz a sua moção; se depara
com alguns aprovantes, estes fazem-no subir a uma cadeira e falar. A INSURREIÇÃO DAS MULHERES
Se é aplaudido, prospera e redige; se é assobiado, segue o seu caminho".
Assim se passa ali o tempo, a circularem e a perorarem. O alto e rude
Marquês de Saint-Huruge, homem que tem tido perdas, e têm-nas
merecido, vê-se ali eminente e também escutado. A sua voz ruge como
a dum touro de Basan; voz que afoga todas as vozes, que frequente­ Capitulo 1
mente faz pular os corações dos homens. Desarranjada ou meio desar­
ranjada está a cabeça deste marquês alto; mas não estão desarranjados PATRULHOTISMO
os seus pulmões; o desarranjado e o não desarranjado servi-lo-ão da
mesma forma. Não amigos, esta revolução não é daquela espécie que se consolida.
Não prosseguem os fogos, as febres, os grãos semeados, as misturas quí­
Considerai além disso que cada um dos quarenta e oito distritos micas, os homens, os acontecimentos; todas as incorporações de força
tem o seu próprio comité, falando e fazendo moções continuamente; que trabalham neste miraculoso complexo de forças chamado Uni­
ajudando na busca de cereais, na busca duma Constituição; refreando verso — não prosseguem eles no seu crescimento através das suas fases
e esporeando os pobres trezentos da Municipalidade. Que Danton, com e desenvolvimento naturais, cada um, de acordo com a sua espécie, e
"uma voz que se repercute vdo cimo dos zimbórios", é o presidente dos alcançam o seu ponto máximo, chegando ao seu visível declínio; e fi­
distritos dos Cordeliers, o qual já se tornou um santuário de patrio­ nalmente definham, desaparecem, naquilo a que chamamos morrer?
tismo. Que além dos "setenta mil absolutamente necessitados, a cavar T u d o cresce; não há nada que não cresça e que não progrida até à
em Montmartre", a maioria dos quais receberam passes e foram demi­ sua natural expanSão — uma vez que se lhe dê licença para se desen­
tidos e lançados no espaço "com cinco francos" há uma greve, ou
volver. Observai também que cada coisa cresce com uma rapidez pro­
união, de domésticos sem emprego, que se reúnem para falar em pú­
porcional, em geral, à insânia e insalubridade que existe nela; pois o
blico; e em seguida, uma greve de alfaiates, porque até estes se congre­
crescimento lento e regular, apesar de também terminar na morte, é
gam e falam; e ainda mais, uma greve de operários sapateiros; uma gre­
ve de boticários; tão caro está o pão 1 . Todos estes, tendo feito greve, pre­ aquilo que nós chamamos saúde e equilíbrio.
cisam de falar; geralmente sob o firmamento azul; e votam resoluções; O sans-culotismo, que derrubou a Bastilha, que se muniu de chu­
com Lafayette e as suas patrulhas a vigiá-los suspeitosamente à distância. ços e mosquetes e agora anda a queimar os Châteaux, votando reso­
Infelizes mortais, puxando, arrastando e esganando-se tanto uns aos luções e arengando debaixo de telhados e do céu, pode dizer-se que
outros, para dividirem, de qualquer modo não intolerável, a felici­ nasceu; e pela lei da natureza, tem de crescer. A julgar pela insânia e
dade conjunta do homem nesta terra, quando o lote total a ser divi­ pela insalubridade, tanto de si próprio como do solo e do elemento
dido é um tal "banquete de conchas"! Diligentes são os trezentos; nin­ dentro dos quais se encontra, poder-se-á esperar que a rapidez e a
guém iguala o Cipião Americano na sua maneira de lidar com multi­ monstruosidade do seu desenvolvimento serão extremas.
dões. Mas seguramente todas estas coisas pressagiam mal para se con­ Há também muitas coisas, especialmente todas as coisas mórbidas,
solidar uma revolução. que crescem por jactos e convulsões. A primeira grande convulsão e
jacto de sans-culotismo foi a de Paris conquistar o seu rei; porque a
1 Histoire Parlemcntaire, II. 859, 417. 423. figura de retórica de Bailly foi uma realidade demasiadamente triste.
O rei é conquistado; livre somente sob palavra, com a condição, diga­
mos, de se comportar absolutamente bem - o que, nestas circunstân­
cias, significará infelizmente ausência absoluta de comportamento. Po-
PATRUI.HOTISMO 209
208 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES
Nos fins de agosto, a nossa Assembleia Nacional, no prosseguimento
sição completamente insustentável, essa duma majestade a depender dos seus labores constitucionais, chegou à questão do Veto: deverá Sua
do seu bom comportamento! Ah, não é natural que tudo o que vive Majestade possuir veto sobre as leis nacionais; ou não deverá possuir
se esforce por conscrvar-se vivo? Portanto, o bom comportamento de o veto? Quantos discursos se não pronunciaram, dentro e fora de por­
Sua Majestade não tornará a tornar-se crítico; e assim, a segunda tas; lógica clara e também apaixonada; imprecações, cominações; idos
grande convulsão do sans-culotismo, a de o pôr sob custódia, não pode felizmente, na sua maior parte, para o Limbol Através do cérebro
demorar muito.
desarranjado e dos pulmões não desarranjados de Saint-Huruge, o Pa-
Necker, na Assembleia Nacional, está-se lamentando, como de cos­ lais Royal retumba com o veto. O jornalismo está todo ocupado nisso,
tume, acerca do seu deficit: barreiras e alfândega incendiadas; o coletor
a França ressoa com o veto. "Nunca me esquecerei", diz Dumont, que
de impostos caçado, não a caçar; o tesouro de Sua Majestade, pouco
indo a Paris num destes dias, com Mirabeau, vi pessoas que esperavam
menos de vazio. O remédio está num empréstimo de trinta milhões;
a sua carruagem diante da livraria de Jay, e que se lançaram na frente
depois, em condições ainda mais tentadoras, num empréstimo de oi­
tenta milhões: nenhum dos quais, infelizmente, os agiotas se aventu­ dele, conjurando-o, de lágrimas nos olhos, a não consentir que o rei
ram a cobrir. O agiota não tem pátria, a não ser o .seu próprio negro tivesse Veto Absoluto". Estavam frenéticos. "Monsieur de Comte, vós
charco do Ágio. sois o pai deste povo, deveis salvar-nos; deveis defender-nos contra esses
vilões que querem entregar-nos ao despotismo. Se o rei consegue este
E contudo, nesses dias, para homens que possuem uma pátria, que
veto, já não há precisão de Assembleia Nacional. Ficamos escravos; e
fogo de patriotismo arde em muitos corações, penetrando interior­
acabou-se tudo" 1 . Amigos, se o céu desabar, poderemos apanhar muitas
mente até à própria bolsa! A 7 de agosto, um Dom Patriotique, dá­
diva patriótica de jóias de considerável valor, foi feito solenemente por cotovias! Mirabeau, acrescenta Dumont, era eminente em tais ocasiões;
certas mulheres parisienses; e solenemente aceito com menção hon­ respondeu vagamente, com imperturbabilidade patrícia, e não se com­
rosa: o que imediatamente provoca em toda a gente a imitação e a prometeu a nada.
emulação. Dádivas patrióticas, acompanhadas sempre de certa elo­ Vão deputações ao Hôtel-de-Ville, e os aristocratas da Assembleia
quência heróica, a que o\presidente tem de responder e que a Assem­ Nacional recebem cartas anónimas com a ameaça de que quinze mil,
bleia tem de escutar, afluem de longe e de perto, em tal número, que e algumas vezes, que sessenta mil cidadãos "marcharão para os ilu­
a menção honrosa só pode ser outorgada em "listas publicadas em épo­ minar". Os distritos de Paris estão ativos; assinam-se petições; Saint-
cas determinadas". Cada um dá o que pode; os próprios sapateiros se Huruge parte do Palais Royal com uma escolta de mil e quinhentos
comportam munificentemente; um proprietário rural dá uma floresta; indivíduos, para peticionar em pessoa. Resoluto ou parecendo resoluto
a sociedade elegante dá as fivelas dos seus sapatos, substituindo-as pra­ está o agigantado marquês, e está o Café de Foy; mas também está re­
zenteiramente por cordões. Mulheres decaídas dão o que "economi­ soluto o comandante geral Lafayette. As ruas estão todas bloqueadas
zaram com o amor" 1 . Todo o dinheiro, como Vespasiano pensava, por patrulhas; Saint-Huruge é detido na Barrière des Bons Hommes;
cheira bem. pode rugir como os touros de Basan, mas tem absolutamente de retroce­
der. Os confrades do Palais Royal "circulam toda a noite", e fazem mo­
Atitude bela, e contudo ineficiente! O Clero tem de ser "convidado"
a derreter os seus supérfluos utensílios de igreja, na Casa Real da ções sob o céu aberto, por estarem fechados todos os cafés. Não obstante,
Moeda. E finalmente, até tem de se ordenar, apesar de relutantemente, Lafayette e a Municipalidade impõem a sua vontade; Saint-Huruge é
uma contribuição patriótica, da espécie forçada: que a quarta parte metido numa prisão e o Veto Absoluto transforma-se em Veto Sus­
do vosso rendimento anual declarado, somente por esta vez, seja pago; pensivo, proibição não definitiva, mas para um certo espaço de tempo,
para que assim a Assembleia Nacional possa fazer a Constituição, não e este clamor de desgraça silenciar-se-á, como os outros se silenciaram.
ameaçada pelo menos com a insolvência. Os salários dos deputados, A consolidação conseguiu esta vitória, se bem que com dificuldade;
como foram estabelecidos em 17 de agosto, são apenas de dezoito francos reprimindo o baixo mundo sans-culótico. E assim, a Constituição será
por dia, para cada homem; mas o serviço público tem de ter nervos, feita, com dificuldade, no meio de júbilo e carestia, de dádivas patrió­
tem de ter dinheiro. Para atenuar o deficit; não para preencher ou ticas, de bichas às padarias, de arengas do Abbé Fauchet, com os seus
abafar o deficit, mesmo se vós ou qualquer mortal o pudesse! Porque, fogos de pelotão por Amém! O Cipião Americano mereceu os agrade­
afinal, como ouviram Mirabeau dizer, "é o deficit que nos salva". cimentos da Assembleia Nacional da França. Oferecem-lhe estipêndios
1 Souvenirs sur M i r a b e a u , p. 156.
1 llisi. Pari. II. 427.

14 Hist. Rev. Francesa


■f
210 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES ó RICARDO, Ó MEU REI 211

e emolumentos até uma soma bonita; estipêndios esses e emolumentos Mais do que uma vez no Sinédrio Municipal, e muito frequente­
que, cobiçoso de muitas outras graças que não simples dinheiro, re­ mente nessas conversações sustentadas nas bichas às padarias, se tem
cusa, sem escrúpulo, no seu modo cavalheiresco. ouvido dizer: oh, se o nosso restaurador da liberdade francesa estivesse
Para o homem comum de Paris, no entretanto, uma coisa resta in­ aqui, para que pudesse ver com os seus próprios olhos, não com os
concebível: que agora que a Bastilha está derrubada e a liberdade olhos falsos de rainha e de cabalas, e o seu coração verdadeiramente
francesa restaurada, o trigo continue tão caro. Os nossos Direitos do bom fosse esclarecido! Porque a falsidade ainda o cerca; Duques de
Homem estão votados, o feudalismo e a tirania abolidos; contudo so­ Guiché intrigando com os Gardes du Corps; espiões de Bouillé; novo
mos obrigados a estar em bicha! São os açambarcadores aristocratas? bando de intriguistas, agora que os antigos debandaram. Que significa
Será uma corte ainda fértil em intrigas? Há qualquer coisa de podre esta chegada do Régiment de Flandre, entrando em Versalhes, como
em qualquer parte. sabemos, em 23 de setembro, com duas peças de artilharia? Não é a
E contudo, ah, que se deve fazer? Lafayette, com as suas patrulhas, Guarda Nacional que monta guarda no Château? Não tinham eles
proíbe tudo, até os queixumes. Saint-Huruge e outros heróis do Veto suíços, os Cem-Suiços, os Gardes du Corps? E ainda mais; parece que
estão a ferros. Marat, o Amigo do Povo, foi detido; os impressores de o número dos Guardas do Corpo em serviço foi, por manobra, du­
jornais patrióticos estão ameaçados e constrangidos; os pregoeiros não plicado: o novo batalhão chegou para render a guarda em seu devido
podem gritar, sem que tenham uma licença e uma medalha de chum­ tempo; mas o batalhão rendido não parte!
bo; os azuis guardas nacionais dispersam brutalmente todos os grupos Atualmente, corre um murmúrio entre os círculos superiores bem
e varrem, de baioneta calada, o próprio Palais Royal. Se passardes, informados, ou acenos de cabeça ainda mais significativos que mur­
para os vossos negócios^ pela Rua Turenne, a patrulha, estendendo a múrios, de que Sua Majestade vai fugir para Metz; de um compro­
baioneta, exclama: Segui à esquerda! Ao atravessardes para a Rue misso (de se reunirem a êle) que foi assinado pela Nobreza e pelo
Saint-Benoit, ela exclama: Segui à direita! Um patriota judicioso (como Clero, até à incrível quantidade de trinta ou mesmo sessenta mil pes­
Camilo Desmoulins, neste caso) é obrigado, para não ser incomodado,
soas. Lafayette murmura friamente isso e friamente o assevera ao
a seguir pela valeta. '^
Conde. d'Estaing à mesa do jantar; e D'Estaing, homem dos mais bra­
Ó povo muito sofredor, a nossa gloriosa Revolução está-se evaporan­ vos treme que algum lacaio o tenha ouvido e fica pensativo, sem poder
do em cerimónias tricolores e em arengas de cumprimentosl Destas, dormir toda a noite 1 . O regimento de Flandres, como dissemos, chegou
como Lafayette acremente calcula, "proferiram-se para cima de duas visivelmente. Sua Majestade, dizem, hesita em sancionar o Quatro de
mil em todo o mês passado, e isto só no Hôtel-de-Ville"1. E as nossas Agosto; faz observações de natureza bastante acrimoniosa, sobre os pró­
bocas, vazias de pão, têm de se fechar, para não sermos punidosl O prios Direitos do Homeml Além disso, não vê toda a gente, e as pró­
caricaturista publica a sua gravura emblemática: O patrulhotismo ex­
prias bichas às padarias, nas ruas de Paris um número alarmante de
pulsando o patriotismo, Le Patrouillotisme chassant le Patriotisme.
oficiais de licença, cruzes de S. Luís e outras? Algumas pessoas cal­
Patrulhas obstinadas, longas arengas supérfluas; e escassez de pães mal
culam "de mil a mil e duzentos". Oficiais de todos os uniformes; e até
cozidos, mais semelhantes a tijolos cozidos — que produzem desarranjo
nos intestinos! Onde acabará isto? Na consolidação? um uniforme nunca antes visto: verde listrado de vermelho! Nem sem­
pre se vê o tope tricolor: mas, em nome do céu, que nos podem pres­
sagiar esses topes negros, que alguns usam?
A fome estimula tudo, especialmente a suspeita e a indignação. As
Capitulo II próprias realidades, neste Paris, tornaram-se irreais; fantasmas sobre­
naturais mais uma vez perturbam o cérebro da França esfomeada. Ó
Ó RICARDO, Ó MEU REI vós, homens indolentes e cobardes, gritam vozes estridentes nas bichas,
se tivésseis corações viris, agarraríeis nos vossos chuços e nos vossos
Porque ah, nem o próprio Hôtel-de-Ville está sem apreensões. Até fuzis de segunda mão e trataríeis deste assunto; não permitindo que as
aqui tem sido reprimido o mundo inferior sans-culótico; mas o mundo vossas esposas e filhas fossem vítimas da fome, do assassínio e ainda de
superior da corte? Há sintomas que anunciam que o Oeil-de-Boeuf piorl — Avante, mulheres! O coração dos homens está pesado e triste;
está despertando.
1 Révolutiom de Paris, (citado in Hi»t. Pari. II. 357). 1 Drouillon de Lettre de M. d'E«aing a la Reine (in Hiat. Pari. III. 24).
212 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES O RICARDO, Ó MEU REI 213

o patriotismo expulso pelo patrulhotismo não sabe o que há de re­ juntos, podem elevar-se a um certo grau de fraternidade, entre o copo
solver. e o garfo. O jantar está fixado para quinta-feira, 1 de outubro; e deve
A verdade é que o Oeil-de-Boeuf se reanimou até um certo grau des­ produzir um belo efeito. Além disso, como tal jantar pode ter nume­
conhecido. Um Oeil-dc-Boeuf transformado, com guardas nacionais de rosos convivas, e até ser presenciado por oficiais inferiores e por gente
Versalhes, nos seus topes tricolores, a fazer serviço ali, e com uma corte do povo, para verem e ouvirem, não se poderia obter para esse fim a
toda flamejante de tricolor! Contudo, mesmo com uma corte tricolor, Sala da ópera de Sua Majestade, que tem estado absolutamente silen­
os homens podem reanimar-se. Vós corações leais, Seigneurs desapos­ ciosa desde a visita do Kaiser José? — A Sala da ópera é concedida; o
sados pelos incêndios, reuni-vos em volta da vossa rainha! Com desejos, Salão de Hércules servirá de sala de espera. Não somente os oficiais da
que produzirão esperanças e as quais produzirão tentativas! Flandres, mas dos Suíços, dos Cem Suíços; e até da Guarda Nacional
Porque, na verdade, sendo o instinto de conservação uma lei prima­ de Versalhes, aqueles que professam alguma lealdade, tomarão parte
cial da natureza, que pode uma corte reanimada fazer, senão tentar e no banquete. Será um ágape como poucos.
maquinar — ou será melhor chamar-lhe conspirar, com a prudência E agora suponde este ágape, a parte sólida dele, terminada; e a
e a imprudência que nela residem. Fugirão, escoltados, para Metz primeira garrafa esvaziada. Suponde feitos os usuais brindes leais: à
onde o bravo Bouillé comanda; erguerão o estandarte real: as assina­ saúde do rei, à da rainha com vivas ensurdecedores; e o da Nação
turas do compromisso tornar-se-ão em homens armados. Se o rei não "omitido" ou mesmo "rejeitado". Suponde o champanha a circular,
fosse tão frouxo! O compromisso dos fiéis, se chegar a ser assinado, com discursos valorosos de inspiração vínica, com música instrumental;
terá de ser assinado sem a sua participação. Infeliz rei, que apenas tem e ocas cabeças emplumadas cada vez mais ruidosas, na sua própria va­
uma resolução: a de evitar a guerra civil. Quanto ao resto, êle ainda cuidade, em ruídos que se misturam uns com os outros. A Sua Majes­
caça, tendo abandonado a serralharia; ainda dormita e digere; é barro tade a rainha, que tem um aspecto invulgarmente triste esta noite (o
nas mãos do oleiro. Mal lhe irá a êle, num mundo onde cada um está rei sente-se cansado dum dia de caça), disseram-lhe que este espetá-
tratando de si próprio; onde, como foi escrito, "todo aquele que não culo a animaria. Contemplai-a! Ela entra ali; surgindo dos seus apo­
é martelo tem de ser bigofna"; e "o próprio hissôpo da parede cresce sentos reais, como a lua de entre as nuvens, esta muito bela e infeliz
ali, naquela fenda, porque todo o universo não pôde impedir o seu rainha dos corações; com o real marido a seu lado e o jovem delfim
crescimento" 1 nos braços! Desce dos camarotes, no meio de esplendor e aclamações;
Mas quanto à vinda deste regimento da Flandres, não se pode ela desliza com porte de rainha em volta das "mesas, graciosamente escol­
justificar pelas petições de Saint-Huruge e contínuos tumultos de tada, saudando graciosamente. Seus olhos são cheios de angústia, con­
farinha? Soldados não pervertidos, haja conspiração ou apenas leves tudo de gratidão e altivez, com a esperança da França ao seu peito
elementos de conspiração, são sempre bons. Não foi a Municipalida­ de mãe! E agora, com a banda a tocar, O Richard, o mon Roi, 1'uni-
de de Versalhes (velha instituição monárquica, não ainda refundida vers t'abandonne (Ó Ricardo, ó meu Rei, o universo te abandona) —
em democrática) que instantaneamente secundou a proposta? E nem que podia fazer um homem senão erguer-se à altura da piedade, do
a própria Guarda Nacional de Versalhes, cansada do contínuo serviço valor leal? Que podiam jovens alferes de cabeça emplumada, com
no Château, objetou; apenas o mercador Lecointre, que agora é Major topes brancos burbônicos, dados por mãos belas, flamejando as suas
Lecointre, abanou a cabeça. Sim, amigos, certamente que era natural espadas em honra da rainha, calcando aos pés os topes tricolores, es­
que este regimento da Flandres fosse chamado, visto que se podia calando os camarotes, donde podem vir murmúrios intrusos; vocife­
lançar mão dele. Era natural que, à vista das bandoleiras militares, o rando, saltando e dançando, com ruído, fúria e alucinação, dentro
coração do agrupado Oeil-de-Boeuf se reanimasse; e que as damas de de portas e fora — que podiam eles fazer senão testemunhar o estado
honor e os cavalheiros de honor dissessem palavras lisonjeiras aos de vacuidade e de ímpeto tempestuoso em que se encontravam? Até
dragonados defensores e se felicitassem uns aos outros. Natural tam­ que o champanha e a dança realizam a sua obra e tudo fica silente,
bém, e mera civilidade usual, que os Guardas do Corpo, um regimento horizontal, a dormitar passivamente com sonhos de prémios de batalha!
de fidalgos, convidassem os seus colegas da Flandres para um jantar Um repasto natural; em tempos normais, um ágape inofensivo;
de boas-vindas! — T a l convite, nos últimos dias de setembro, é feito e mas agora fatal, como o de Tiestes; como o dos filhos de Job, quando
aceito. um vento forte sacudiu as quatro paredes da sala do banquete! Pobre
Diz-se que os jantares são o "ato primacial" da comunhão; homens rainha mal aconselhada, com a veemência duma mulher, mas não
que em nada mais podem ter comunhão, podem simpaticamente comer com visão soberana! Era tão natural, contudo tão imprudente. No dia

r
214 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES TOPES NEGROS 215

seguinte, em fala pública de cerimónia, Sua Majestade declara-se "en­ de Foy, na noite deste sábado, vê-se um espetáculo novo, não o último
cantada com a Quinta-feira". do género: uma mulher a discursar em público. O seu pobre homem,
0 coração do Oeil-de-Boeuf ilumina-se de esperança; e de ousadia, diz ela, foi reduzido ao silêncio pelo seu distrito; o presidente e os
que é prematura. As animadas damas de honor, assistidas por Abbés, seus acólitos não o quiseram deixar falar. Pelo que, ela com a sua
costuram "topes brancos"; distribuem-nos com palavras, com olhares, língua afiada tem de falar aqui; denunciando, enquanto tiver fôlego,
a jovens dragonados; os quais em troca, podem beijar, não sem fervor, o barco de Corbeil, o pão de gesso, os sacrílegos jantares da Ópera, os
os belos dedos da costura. Capitães de cavalaria e de infantaria fan- uniformes verdes, os aristocratas piratas e esses seus topes negros!
farroneiam "com enormes topes brancos"; e até um capitão da Guarda Já é tempo, com efeito, de desaparecerem esses topes negros. O pró­
Nacional de Versalhes se adornou com o mesmo, tão feiticeiras foram prio patrulhotismo não os quer proteger. Na parada de domingo de
as palavras e os olhares, pondo de lado o tricolor! Muito justamente manhã, nas Tulherias, o fogoso M. Tassin, esquecendo-se de toda a
o Major Lecointre, ao vê-lo, abana a cabeça com um olhar de severi­ disciplina militar, sai da fileira, arranca um tope negro que ominoso
dade e profere audíveis palavras de ressentimento. Mas eis que um se ostentava ali, e calca-o indignadamente sobre o solo da França. O
fanfarrão, com um enorme tope branco, ao ouvir o major, convida-o próprio patrulhotismo está a concentrar a sua fúria reprimida. Os dis­
insolentemente, uma vez e depois outra, a desdizer-se; e na falta disso, tritos começam a agitar-se; a voz do Presidente Danton reverbera nos
a bater-se em duelo. Isto o Major Lecointre declara que não aceitará, Cordeliers: o Amigo do Povo, Marat, voou a Versalhes e regressou;
pelo menos por quaisquer leis de esgrima conhecidas; não obstante, ave escura, não da espécie alciônica1.
está pronto, de acordo com a mera lei da natureza, com punhal ou E assim o patriota se encontra com o patriota em passeio, neste do­
espada, a "exterminar qualquer vil gladiador" que o insulte a êle ou mingo; e vê a sua sombria preocupação refletida no rosto do outro. A
à Nação; após o que (pois o major está agora puxando pela sua lâ­ despeito do patrulhotismo, que não está tão alerta como de costume,
mina) eles são separados, sem que nenhum sangue se derrame 1 . flutuam grupos deliberativos; grupos nas pontes, nos cais, nos cafés
patrióticos. E sempre que emerge qualquer tope negro, desperta um
coro de. protestos indignados. A bas, Abaixo! Todos os topes negros
são brutalmente arrancados: um indivíduo volta a apanhar o seu; bei-
ja-o, tenta refixá-lo; mas um cento de paus se erguem — e êle desiste.
Capitulo III Pior ainda aconteceu a outro indivíduo; condenado por Plebiscitum
espontâneo ao condeeiro; salvo, com dificuldade, por algum ativo
TOPES NEGROS
Corps-de-Garde. — Lafayette vê sinais de efervescência; e para se pre­
venir, dobra as suas patrulhas, dobra a sua atividade. E assim se passa
Mas imaginai que efeito este repasto de Tiestes e esta ofensa ao
o domingo, 4 de outubro de 1789.
tope nacional devem ter produzido na Salle des Menus; nas famintas
bichas às padarias em Parisl E até parece que tais repastos de Tiestes Sombrio está o coração masculino, reprimido pelo patrulhotismo;
continuam; Flandres deu o seu contra-jantar aos Suíços e aos Cem veemente está o coração feminino, irreprimível. A mulher que discur­
Suíços; e depois, no sábado, em Versalhes vai haver outro. sou em público no Palais Royal não era a única mulher oradora: Os
Sim, aqui conosco há fome; mas além em Versalhes há comida, bas­ homens não sabem o que é a despensa, quando ela fica vazia; somente
tante e até que sobra! O patriotismo tem de fazer bicha, de pé e a as mães de família o sabem. Ó mulheres, esposas de homens que apenas
tremer de fraqueza, insultado pelo patrulhotismo; enquanto que os raciocinam e não agem! O patrulhotismo é forte; mas a morte, pela
sanguissedentos aristocratas, aquecidos com o excesso de boas comedo- fome ou por invasão militar, é ainda mais forte. O patrulhotismo re­
rias, calcam aos pés o Tope Nacional. Poderá ser verdadeira tal enor­ prime o patriotismo macho; mas o patriotismo fêmea? Serão os guar­
midade? E olhai: uniformes verdes listrados de vermelho; topes negros das chamados nacionais capazes de jogar as suas baionetas contra o
— a côr da noite! Iremos ter invasão militar, além da morte pela fome? peito das mulheres? Tal pensamento, ou antes tal obscura e informe
Porque vôdc: o barco de Corbeil, que costumava vir duas vezes por matéria-prima dum pensamento, fermenta universalmente debaixo do
dia, com a sua farinha de gesso, agora só vem uma vez. E a Munici­ barrete de dormir feminino; e, de madrugada cedo, ao mais leve sinal,
explodirá.
palidade está surda; e os homens são indolentes e covardes! No Café

1 Moniicur (ín Mist. Pari. III. 59; Deux Amis, III. 128-41; Cnmpan, I. 70-85, e t c , etc. 1 Jornal de Camilo, Révolulions de Pari» et Brabanl (in Hisl. Pari. III 108).

'
AS MÊNADES 217

vista, não podemos nós compreender porque a maior parte das ba­
talhas se têm tornado tão monótonas? As batalhas, em nossa época,
Capitulo IV são realizadas por mecanismos; com o menor possível desenvolvimento
da individualidade ou espontaneidade humana: os homens morrem
AS MÊNADES agora e matam-se uns aos outros, de maneira artificial. As batalhas,
depois do tempo de Homero, quando elas eram multidões em com­
Se Voltaire, em acesso de humor esplenético, perguntou uma vez a bate, deixaram na sua maioria de ser dignas de se presenciarem, de
seus compatriotas: "Mas vós, Gualches, que inventastes?" eles podem se lerem ou de se rememorarem. Quantas sanguinolentas batalhas mo­
agora responder: A Arte da Insurreição. Era uma arte necessária nestes nótonas não se esforça a História de nos representar, ou até, em tom
últimos tempos tão estranhos; uma arte para a qual o povo francês, roufenho, de cantar! Deverá ela omitir ou negligentemente cantar esta
tão cheio de veemência, tão falho de profundeza, era talvez, de entre única Insurreição das Mulheres?
todas as outras, o mais apropriado. Um pensamento, ou a obscura matéria-prima dum pensamento, es­
A que grau, podemos dizê-lo, de perfeição, não tem este ramo da teve fermentando toda a noite, universalmente, nas cabeças femininas,
indústria humana sido executado em França, dentro do último meio com possibilidades de explodir. No sótão esquálido, na segunda-feira
século! A insurreição, que, segundo o pensamento de Lafayette, era de manhã, a maternidade acorda, para ouvir os filhos a chorar por
"o mais sagrado dos deveres" conta-se agora entre os deveres que o pão. A maternidade joga-se impetuosamente para as ruas, para os mer­
povo francês sabe cumprir. Em outras terras as multidões são massas cados de legumes, para as bichas das padarias; encontra-se ali com
brutas, que rolam para a' frente ccto uma bruta e feroz tenacidade, outras maternidades esfomeadas, em comunhão simpatizante, desespe­
com um calor de ardência devastadora, mas que não emitem relâmpa­ rada. Oh, que infelizes que nós somos! Mas, em vez de fazermos bichas
gos de génio à medida que prosseguem. A multidão francesa, essa, con­ às padarias, por que não vamos aos palácios dos aristocratas, respon­
ta-se entre os fenómenos mais vivos deste mundo. Tão rápida, auda­ sáveis disto tudo? Allons! Reúnamo-nos. Ao Hôtel-de-Ville, a Versa­
ciosa; de vista tão apurada,!» inventiva, pronta para agarrar o mo­ lhes, ao candeeiro!
mento; instinto com vida até na ponta dos dedos! Esse talento, se não Numa das casas da guarda do Quartier Saint Eustache, "uma moça
tivesse outro, de espontaneamente se postar em bicha, distingue, como pega num tambor — pois como é que os guardas nacionais hão de
dissemos, o povo francês de todos os povos, antigos e modernos. disparar sobre uma mulher, e jovem?" A moça pega no tambor; e
Que o leitor também confesse que, considerando bem, talvez poucas marcha, rufando-o, "soltando gritos contra a carestia de cereais". Des­
aparições terrestres sejam mais dignas de ponderação que as multidões. cei, ó mães; descei, vós Judites, vinde buscar o pão e a vingança! As
A multidão é uma genuína explosão da natureza que sai das profun­ mulheres presentes reúnem-se e seguem-na; magotes invadem todas as
didades mais profundas da natureza ou está em comunicação com elas. escadas, forçando todas as mulheres a sair. A força insurrecional fe­
Quando tantas coisas se apresentam em esgares e momices com for­ minina, conforme diz Camilo, assemelha-se à força naval inglesa; há
malidades sem vida, e sob a rígida entretela não se sente nenhum co­ uma universal "leva de mulheres". Damas robustas do mercado, cos­
ração a bater, aqui pelo menos, quando em mais parte nenhuma, se tureiras esbeltas, levantadas com a aurora; solteironas idosas que se
encontra uma sinceridade e uma realidade. Tremei ao vê-la; ou mes­ dirigiam para as matinas; a criada doméstica, com a vassoura da lim­
mo horrorizai-vos perante o seu espetáculo; mas tomai-a em conside­ peza matinal; todas têm de marchar. Erguei-vos, ó mulheres; os indo­
ração. Um tal complexo de forças humanas e individualidades impe­ lentes homens não querem agir; dizem eles que nós próprias é que
tuosamente arremessadas, no seu modo transcendental, para agir e rea­ devemos agir!
gir, sobre os acontecimentos e umas sobre as outras; para realizar o E assim, como neve derretida a rolar das montanhas, porque cada
que lhes é dado realizar! A coisa que farão não é conhecida de ne­ escada de prédio é um arroio derretido, a turba avança tumultuosa,
nhum homem; e muito menos delas próprias. É um fogo de artifício em gritos loucos, em direção ao Hôtel-de-Ville. Tumultuosa; com ou
incomensurável e extremamente inflamável, gerando-se e consumindo- sem música de rufo: porque as mulheres do Faubourg Saint Antoine
se a si próprio. Com que fases, até que extensão, com que resultados também já arregaçaram as saias e com cabos de vassoura, ferros de
êle arderá até se extinguir, a Filosofia e a Lógica conjeturarão em vão. fogão e até pistolas enferrujadas (sem munição) estão afluindo. O ruído
"O homem", conforme tem sido escrito, "interessará sempre ao ho­ da insurreição voa, com a velocidade do som, até às mais distantes
mem; e até propriamente nada mais o interessa". Sob este ponto de barreiras. Pelas sete horas, nesta agreste manhã de outubro, o Hotel-

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218 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES O MEIRINHO MAILLARD 219

de-Ville verá coisas maravilhosas. E até, como que por acaso, já ali que a cortasse. O Abbé Lefèvre cai, de uns vinte pés, a rolar sobre o
se acha uma multidão masculina, apinhada tumultuosamente em volta telhado; e vive ainda por muitos anos, se bem que com "uma tremura
duma patrulha da Guarda Nacional e dum padeiro que foi apanhado nos membros" 1 .
a roubar no peso. Ali mesmo, chegam a descer a corda do candeeiro, E agora, as portas voam em estilhaços sob as machadas; as Judites
de modo que os Municipais são obrigados a fazer evadir o padeiro arrombam a armaria; agarram em espingardas e canhões, em três sacos
defraudador pelas portas traseiras, e até de mandar pedir a todos os de dinheiro, em montões de papelada. Flamejam archotes: em poucos
distritos mais forças. minutos, o nosso magnífico Hôtel-de-Ville, que data de Henrique IV,
Espetáculo grandioso, diz-nos Camilo, foi ver tantas Judites, umas vai ficar, com tudo o que encerra, em chamas I
oito ou dez mil ao todo, ansiosas por ir até à raiz do mall Espetáculo
terrível deve ter sido; dum terror cómico, e absolutamente indomável.
Àquela hora, os trezentos, cansados de vigílias, ainda não estão em
serviço; ninguém o está, à exceção de alguns empregados, uma com­ Capitulo V
panhia de guardas nacionais e M. de Gouvion, o major-general. Gou-
vion combateu na América pela causa da liberdade civil: homem de O MEIRINHO MAILLARD
grande coração, mas fraco de cabeça. Êle está, no momento, no seu
apartamento de trás, acalmando o meirinho Maillard, o sargento da Em chamas, verdadeiramente, — se o meirinho Maillard, ligeiro de
Bastilha, que chegou, com "representações". A acalmação está ainda pé e astuto de cabeça, não regressasse a tempol
incompleta quando aparecem as nossas Judites. Maillard, de sua própria iniciativa, — porque Gouvion e os outros
não concordam com êle, — agarra-se a um tambor; desce as escadas
Os guardas nacionais formam nas escadarias exteriores, de baionetas
do pórtico, tã-tra-lã-tã, batendo rijo, com rufos fortes, a sua marcha:
em riste; as dez mil Judites fazem pressão, irresistíveis; com súplicas,
A VersalhesI Allons, à Versailles. Assim como os homens batem em
de mãos estendidas — apenas para falar ao maire. A retaguarda força-as;
caçarolas ou em braseiras, para recolherem à colmeia as abelhas fu­
e até, lançadas por mãos masculinas à retaguarda, já voam pedras. A
riosas em vôo desesperado; e os desesperados insetos ao ouvirem o
Guarda Nacional não tem senão duas alternativas: varrer a Place de
som, se apinham ao redor, — apenas ao redor duma coisa que os
Greve com artilharia ou então abrir fileiras à direita e à esquerda.
guia, onde não havia nenhuma: assim estas Mênades rodeiam logo o
Abrem; o dilúvio vivo precipita-se, através de todas as salas e gabine­
astuto Maillard, meirinho a cavalo do Châtelet. O machado assestado
tes, até ao cimo do campanário, procurando armas, procurando mai-
pára; o Abbé Lefèvre é deixado meio enforcado; do campanário para
res, procurando justiça; enquanto que, por outro lado, as mulheres
baixo todas se despenham em borbotão. Que matracar de tambor é
mais bem vestidas falam com gentileza aos empregados, mostrando-lhes
esse? Estanislau Maillard, herói da Bastilha, vai-nos levar a Versalhes?
a miséria das suas pobres irmãs; e também a sua triste sorte, achando-se
Bem-vindo sejas, Maillard; abençoado tu acima de todos os meirinhos
até algumas em estado bem interessante1.
a cavalol Marchemos, pois, marchemos!
0 pobre M. de Gouvion fica irresoluto nesta extremidade; homem Os canhões tomados são jungidos a carroças de cavalo, também to­
irresoluto, perturbado, que um dia acabará no suicídio. Felizmente madas. Demoiselle Théroigne, de cabelos negros, com chuço e capacete,
para êle, o meirinho Maillard, homem de recursos, ali estava nesse senta-se numa peça, de olhar altivo e rosto sereno, comparável, pensam
momento, se bem que a fazer representações! Voa para trás, tu astuto alguns, à Virgem de Orléans ou até lembrando Palas Atena 2 . Maillard,
Maillard; procura os teus companheiros da Bastilha e volta depressa cujo tambor rufa sempre, é, com aclamações que rasgam os céus, no­
com eles; e sobretudo, com a tua própria cabeça astutal Porque, vede, meado general. Maillard põe em movimento acelerado a marcha va­
as Judites não encontram nem maire nem municipais; apenas, no cimo garosa, e, num compasso rítmico, num rijo tã-tra-lã-tã, através dos
do campanário, encontram o pobre Abbé Lefèvre, o distribuidor de cais, conduz para a frente, com dificuldade, a sua hoste menádica. Tal
pólvora. A êle, à falta de melhor, suspendem-no ali, à luz pálida da hoste — não marcha em silêncio! Os barqueiros param no rio; todos
manhã, eminente sobre todo o Paris, que rodopia sob os seus olhos os carroceiros e cocheiros fogem; os homens espreitam das janelas —
perturbados — um fim horrível? Não, a corda quebra, como sucede não as mulheres, com medo que as venham buscar. Espetáculo dos
frequentemente com as cordas francesas; ou talvez fosse uma amazona
1 Dnuulx, Ptise de la Bastille, note, p . 281
1 DeUX Aiui«, III. 141-66. 2 Deux Amis, III. 157.

t
218 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES O MEIRINHO MAILLARD 219

de-Ville verá coisas maravilhosas. E até, como que por acaso, já ali que a cortasse. O Abbé Lefèvre cai, de uns vinte pés, a rolar sobre o
se acha uma multidão masculina, apinhada tumultuosamente em volta telhado; e vive ainda por muitos anos, se bem que com "uma tremura
duma patrulha da Guarda Nacional e dum padeiro que foi apanhado nos membros" 1 .
a roubar no peso. Ali mesmo, chegam a descer a corda do candeeiro, E agora, as portas voam em estilhaços sob as machadas; as Judites
de modo que os Municipais são obrigados a fazer evadir o padeiro arrombam a armaria; agarram em espingardas e canhões, em três sacos
defraudador pelas portas traseiras, e até de mandar pedir a todos os de dinheiro, em montões de papelada. Flamejam archotes: em poucos
distritos mais forças. minutos, o nosso magnífico Hôtel-de-Ville, que data de Henrique IV,
Espetáculo grandioso, diz-nos Camilo, foi ver tantas Judites, umas vai ficar, com tudo o que encerra, em chamas!
oito ou dez mil ao todo, ansiosas por ir até à raiz do mall Espetáculo
terrível deve ter sido; dum terror cómico, e absolutamente indomável.
Àquela hora, os trezentos, cansados de vigílias, ainda não estão em
serviço; ninguém o está, à exceção de alguns empregados, uma com­ Capítulo V
panhia de guardas nacionais e M. de Gouvion, o major-general. Gou-
vion combateu na América pela causa da liberdade civil: homem de O MEIRINHO MAILLARD
grande coração, mas fraco de cabeça. Êle está, no momento, no seu
apartamento de trás, acalmando o meirinho Maillard, o sargento da Em chamas, verdadeiramente, — se o meirinho Maillard, ligeiro de
Bastilha, que chegou, com "representações". A acalmação está ainda pé e astuto de cabeça, não regressasse a tempo!
incompleta quando aparecem as nossas Judites. Maillard, de sua própria iniciativa, — porque Gouvion e os outros
não concordam com êle, — agarra-se a um tambor; desce as escadas
Os guardas nacionais formam nas escadarias exteriores, de baionetas
do pórtico, tã-tra-lã-tã, batendo rijo, com rufos fortes, a sua marcha:
em riste; as dez mil Judites fazem pressão, irresistíveis; com súplicas,
A Versalhes! Allons, à Versailles. Assim como os homens batem em
de mãos estendidas — apenas para falar ao maire. A retaguarda força-as;
caçarolas ou em braseiras, para recolherem à colmeia as abelhas fu­
e até, lançadas por mãos masculinas à retaguarda, já voam pedras. A
riosas em vôo desesperado; e os desesperados insetos ao ouvirem o
Guarda Nacional não tem senão duas alternativas: varrer a Place de
som, se apinham ao redor, — apenas ao redor duma coisa que os
Greve com artilharia ou então abrir fileiras à direita e à esquerda.
guia, onde não havia nenhuma: assim estas Mênades rodeiam logo o
Abrem; o dilúvio vivo precipita-se, através de todas as salas e gabine­
astuto Maillard, meirinho a cavalo do Châtelet. O machado assestado
tes, até ao cimo do campanário, procurando armas, procurando mai-
pára; o Abbé Lefèvre é deixado meio enforcado; do campanário para
res, procurando justiça; enquanto que, por outro lado, as mulheres
baixo todas se despenham em borbotão. Que matracar de tambor é
mais bem vestidas falam com gentileza aos empregados, mostrando-lhes
esse? Estanislau Maillard, herói da Bastilha, vai-nos levar a Versalhes?
a miséria das suas pobres irmãs; e também a sua triste sorte, achando-se
Bem-vindo sejas, Maillard; abençoado tu acima de todos os meirinhos
até algumas em estado bem interessante1.
a cavalo! Marchemos, pois, marchemos!
0 pobre M. de Gouvion fica irresoluto nesta extremidade; homem Os canhões tomados são jungidos a carroças de cavalo, também to­
irresoluto, perturbado, que um dia acabará no suicídio. Felizmente madas. Demoiselle Théroigne, de cabelos negros, com chuço e capacete,
para êle, o meirinho Maillard, homem de recursos, ali estava nesse senta-se numa peça, de olhar altivo e rosto sereno, comparável, pensam
momento, se bem que a fazer representações! Voa para trás, tu astuto alguns, à Virgem de Orléans ou até lembrando Palas Atena 2 . Maillard,
Maillard; procura os teus companheiros da Bastilha e volta depressa cujo tambor rufa sempre, é, com aclamações que rasgam os céus, no­
com eles; e sobretudo, com a tua própria cabeça astutal Porque, vede, meado general. Maillard põe em movimento acelerado a marcha va­
as Judites não encontram nem maire nem municipais; apenas, no cimo garosa, e, num compasso rítmico, num rijo tã-tra-lã-tã, através dos
do campanário, encontram o pobre Abbé Lefèvre, o distribuidor de cais, conduz para a frente, com dificuldade, a sua hoste menádica. Tal
pólvora. A êle, à falta de melhor, suspendem-no ali, à luz pálida da hoste — não marcha em silênciol Os barqueiros param no rio; todos
manhã, eminente sobre todo o Paris, que rodopia sob os seus olhos os carroceiros e cocheiros fogem; os homens espreitam das janelas —
perturbados — um fim horrível? Não, a corda quebra, como sucede não as mulheres, com medo que as venham buscar. Espetáculo dos
frequentemente com as cordas francesas; ou talvez fosse uma amazona
1 Dusaulx, PriM de la Bastille, note, p . 281.
1 Dcux Anii», III. 141-66. 2 Deux Amis, III. 157.

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O MEIRINHO MAILLARD 221
220 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES

espetáculos: Bacantes, nesta idade de fórmulasl O Henrique de bronze do chape-chape do tempo chuvoso. Em Meudon, em Saint-Cloud, num
observa, da sua Pont Neuf; o monárquico Louvre, as Tulherias dos lado e noutro, chegam notícias da invasão, e as lareiras, esta noite,
Médicis vêem um dia como jamais houve nenhum. terão assunto. A leva de mulheres ainda continua, porque esta é a
causa de todas as filhas de Eva, mães que são, ou que hão de ser.
E agora Maillard tem as suas Mênades nos Champs Elysées (ou
Toda a dama em carruagem, por mais histérica que se mostre, tem
melhor Campos Tartáreos); o Hôtel-de-Ville pouco sofreu compara­
de se apear, nas estradas lamacentas, e marchar a pé com os seus
tivamente: portas arrombadas; um Abbé Lefèvre, que nunca mais dis­
sapatos de seda1. É assim que, num tempo agreste de outubro, esta
tribuirá pólvora; três sacos de dinheiro, a maior parte do qual (porque
nuvem de cegonhas desasadas avança, através dum pais estupefato.
o sans-culotismo, apesar de esfomeado, não deixa de possuir honra)
Detêm viajantes de todas as espécies; especialmente viajantes ou cor­
será restituído 1 : eis todos os danos. Grande Maillardl Um pequeno
reios procedentes de Paris. O Deputado Lechapelier, no seu traje ele­
núcleo de ordem existe à volta do seu tambor, mas as suas alas flu­
gante, olha pasmado da sua carruagem elegante através dos seus óculos;
tuam como o louco oceano; porque a ralé masculina e feminina está
apreensivo por sua vida; — declara ansioso que é o deputado patriota
afluindo vinda dos quatro ventos. O que guia ali a multidão é apenas
Lechapelier, que presidiu na noite de Pentecostes, e é membro funda­
a cabeça única de Maillard e as suas duas baquetas de tambor.
dor do Clube Bretão. Após o que se erguem retumbantes aclamações
Ó Maillard, quando, desde que existe guerra, teve algum general de viva Lechapelier, e várias pessoas armadas sobem para a carruagem,
tarefa tão árdua na sua frente, como tu tens neste dia? Gauthier sans na frente e atrás, para o escoltar2.
Avoir ainda toca o coração humano; mas Gauthier, pelo menos, tinha
uma sanção, tinha espaço para se mover; e depois os seus cruzados Entretanto, chegam a Versalhes os despachos de Lafayette, notícias,
eram do sexo masculino. T u , neste dia, repudiado pelo Céu e pela ou o ruído vago de rumor por caminhos laterais. Na Assembleia Na­
Terra, és um general de Mênades. A sua fúria inarticulada tu tens, cional, enquanto todos estão ocupados a discutir a ordem do dia,
sob o impulso do momento, de converter em palavras articuladas, em lamentando os repastos antinacionais da Sala da Ópera; que Sua Ma­
atos que não sejam frenéticos. Se falhas nisto de um modo ou de jestade hesite em aceitar os Direitos do Homem e lhes oponha condi­
outro, tens à tua espera, na tua frente, as regiões oficiais com a sua ções e dúvidas, — Mirabeau aproxima-se do presidente, que acontecia
pragmática de penalidades e códigos, enquanto que atrás tens as Mê­ ser o experiente Mounier, e diz-lhe em meia voz de baixo: "Mounier,
nades a fazerem pressão sobre ti. Se as suas irmãs antigas cortaram a Paris marche sur nous." — "Je ríen sais rien!" replica Mounier. "Crede-o
cabeça melodiosa de Orfeu e a arremessaram às águas do Peneu, que ou descrede-o, como quiserdes, mas Paris, repito-o, marcha sobre nós.
não poderão elas fazer de ti — de ti escassamente rítmico, sem música Dai já parte de doente; ide ao Château; dizei-lhes isto. Não há um
nenhuma, a não ser um tambor de pele de carneiro! — Maillard não momento a perder". "Paris marcha sobre nós?" responde Mounier com
falhou. Notável Maillard, se a fama não fosse um acidente e a His­ acento ferino: "Então, tanto melhorl Mais depressa teremos a Repú­
tória uma destilação do rumor, quão notável não serias tul blica". Mirabeau deixa-o, como se deixa um sábio presidente com os
olhos vendados em águas profundas; e a ordem do dia continua.
Nos Campos Elíseos há pausa e flutuação; mas, com Maillard, não
há regresso. Êle persuade as suas Mênades, a reclamarem clamorosa­ Sim, Paris marcha sobre nós; e mais ainda do que as mulheres de
mente armas, que não existem armas n o arsenal; que uma atitude Paris. Mal tinha partido Maillard, quando a mensagem de M. Gou-
desarmada, uma petição à Assembleia Nacional, produzirão melhor vion a todos os distritos e o rebate de sinos e o rufar da générale
efeito; e apressadamente nomeia generalas, capitoas de dezenas e de começam a produzir efeito. Guardas nacionais armados, procedentes
cinqiientenas — e assim, em ordem solta e flutuante, ao ritmo de uns de todos os distritos, especialmente os granadeiros do centro, que são
"oito tambores (tendo largado o seu), com os voluntários da Bastilha as nossas antigas Gardes Françaises, chegam, em rápida sequência, à
formando à retaguarda, mais uma vez se põe a caminho". Place de Greve. "Imenso povo" está ali; Santo António, com chuços
Chaillot, que prontamente cede pães cozidos, não é saqueada; nem e espingardas enferrujadas, precipita-se em chusma, seja bem-vindo ou
as porcelanas de Sèvres quebradas; os velhos arcos da Fonte de Sèvres não. Os granadeiros do centro são recebidos com aclamações. "Não
ecoam sob pés menádicos; o Rio Sena desliza com o seu perpétuo é de aclamações que precisamos", respondem eles sombriamente; "a
murmúrio; e Paris envia de longe o som do sino de alarma e do tam­ Nação foi insultada;-às armas e vinde conosco por ordensl" Ah, então
bor de alarma — inaudível agora, no meio de hostes a vociferar e
1 Deux Amis, IH. 159.
2 Deux Amis, II. 177; Diclionnaire dcs Hommea Marquani, II. 579.
1 Hlat. Pari. III. 310.

"
A VERSALHES 223
222 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES

o vento sopra assimT Patriotismo e patrulhotismo são agora a mesma Eis que agora, também se fazem ouvir, trazidos de longe, gritos dos
coisa 1 mais sinistros; roufenhos, reverberando em murmúrios longos e fero­
Os trezentos reúnem-se; "todos os comités estão em atividade"; La- zes, com sílabas muito parecidas com as de "Lanterne"! Talvez que
fayette está ditando despachos para Versalhes, quando uma deputação o irregular sans-culotismo esteja marchando, por si próprio, com chuços
dos granadeiros do centro se lhe apresenta. A deputação faz a conti­ e até com artilharia. O inflexível Cipião pergunta finalmente, por
nência militar e fala assim, não sem um certo bom-senso: Mon General, intermédio do seu ajudante de campo, aos municipais: Se pode mar­
fomos deputados pelas seis companhias de granadeiros. Não vos jul­ char ou não? Entregam-lhe uma carta, por sobre cabeças armadas;
gamos traidor, mas cremos que o governo vos trai; é tempo de isto sessenta mil rostos incidem fixamente sobre o seu, há quietude ansiosa
acabar. Não podemos virar as nossas baionetas contra mulheres que e nenhum peito respira até que êle leia. Por Deus, o general fica
nos pedem pão. O povo é desgraçado, a fonte de todo o mal está em subitamente pálido! Permitem ou não os municipais? "Permitem e até
Versalhes; precisamos de procurar o rei e trazê-lo para Paris. Temos ordenam" — visto que êle não tem outra alternativa; gritos de apro­
de exterminar o Régiment de Flandre e os Gardes du Corps, que se vação rasgam o firmamento. Às fileiras, então; marchemos!
atreveram a calcar aos pés o tope nacional. Se o rei é demasiado fraco São, como nós calculamos, quase três horas da tarde. Os indignados
para usar a sua coroa, que a deponha. Vós coroareis o filho, nomeareis guardas nacionais talvez tenham, por esta vez, de jantar da mochila;
um conselho de regência e tudo irá melhor 1 . Na face de Lafayette jantados ou não jantados, marcham como um único coração. Paris
desenha-se um pasmo reprovativo; articula-se dos seus lábios cavalhei­ abre as suas janelas, bate palmas, ao ver os vingadores, ao som agudo
rescos; mas em vão. "Meu general, derramaríamos por vós a última dos pífaros e ao rufo dos seus tambores, e ostentando as suas armas,
gota do nosso sangue; mas a raiz do mal está em Versalhes; devemos passarem pelas ruas. A cidade ficará depois pensativa, apreensiva, quase
trazer o rei para Paris; todo o povo o quer, tout le peuple le veut". sem dormir essa noite 1 . Montado no seu cavalo branco, Lafayette, da
O meu general desce a escadaria exterior e arenga: mais uma vez maneira mais lenta possível, vai e vem, arengando eloquentemente ao
em vão. "A Versalhes! A Versalhes!" O Maire Bailly, que mandaram longo das fileiras, até que rola para a frente com os seus trinta mil
buscar através de ondas d#j sans-culotismo, tenta oratória académica, homens. Saint Antoine, com chuços e canhões, já o precedeu; uma
da sua suntuosa carruagem dourada; nada consegue, senão infinitos multidão miscelânea, com todas as armas e sem armas, paira sobre
gritos roufenhos de: "Pão! A Versalhes!" e de bom grado se encolhe os seus flancos e sua retaguarda; a gente do campo mais uma vez
para dentro. Lafayette monta o seu cavalo branco; e de novo arenga fica ansiosamente de boca aberta: Paris marche sur nous.
e torna a arengar, com eloquência, com firmeza, e mostras de indigna­
ção; com tudo, menos persuasão. "A Versalhesl A Versalhes!" E assim
se passa, hora após hora — durante o espaço de meio dia.
0 grande Cipião Americano nada pode fazer; nem sequer esca-
Capitulo VI
par-se. "Morbleu, mon General", exclamam os granadeiros cerrando
fileiras quando o cavalo branco faz um movimento de partida, "vós A VERSALHES
não nos deixareis, ficareis conoscol" Conjuntura perigosa: o Maire
Bailly e os municipais sentam-se a tremer dentro de portas; o meu Mais ou menos neste momento, Maillard fêz deter as suas Mênades
general está prisioneiro, fora. A Place de Greve, com os seus trinta sujas de lama na última colina; e agora Versalhes e o Château de
mil soldados regulares, com todo o bando irregular de Santo António Versalhes, e toda a vasta herança da realeza se abrem aos olhos ma­
e Saint-Marceau, é uma massa ameaçadora de aço polido ou ferru­ ravilhados. Ao longe, à direita, Marly e Saint-Germains-en-Laye; à
gento; todos os corações fixos, com firme obstinação, num objetivo. esquerda, a estrada de Rambouillet; tudo belo; brandamente velado,
Obstinados, firmes estão todos os corações; tranquilo não está nenhum com um certo ar de melancolia, neste dia úmido e sombriol E perto,
— a não ser o do cavalo branco, que escarva ali, de pescoço arqueado, na nossa frente, está Versalhes, o novo e o velho; com essa larga e
a morder sossegadamente o freio; como se nenhum mundo, com as frondosa Avenue de Versailles no meio — majestosamente frondosa,
suas dinastias e eras, não estivesse agora a desabar. O dia brumoso da largura de trezentos pés, como se calcula, com as suas quatro alas
inclina-se para o poente e o grito é ainda: "A Versalhesl" de olmos; e depois o Château de Versailles, terminando em parques

1 Deux Amia, III. 165.


1 Deux Amia, III. 161.

r
224 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES

e jardins de recreio, pequenos lagos, caramanchéis, labirintos, a Mé-


nagerie e o Grande e o Pequeno Trianon. Edifícios muito altos, resi­
dências admiráveis orladas de verdura, onde habitam os deuses deste
mundo inferior; donde, não obstante, se não podem excluir as negras
preocupações; para onde a fome menádica está neste momento avan­
çando, armada de chuços-tirsosl
Sim, Mesdames, acolá onde a nossa reta e frondosa avenida se cruza,
como observais, à direita e à esquerda, com duas avenidas igualmente
frondosas, e vai dar à Place Royale e ao pátio anterior do palácio;
— acolá é a Salle des Menus. É ali que uma augusta assembleia se
senta a regenerar a França. Pátio anterior, pátio grande, pátio de
mármore, pátio penetrando noutro pátio vós podeis discernir em se­
guida ou imaginar; e no extremo limite disso tudo, esse zimbório de
vidro, a cintilar à nossa vista como uma estrela de esperança, é o
Oeil-de-Boeufl Ali, ou em parte nenhuma do mundo, é o pão cozido
para nós. Mas, ó Mesdames, não seria bom uma coisa? Que os nossos
canhões, com Demoiselle Théroigne e todo o aparato de guerra, fos­
sem colocados à retaguarda? A submissão quadra bem a peticionários
de uma Assembleia Nacional; nós somos estranhos em Versalhes —
de onde, bem distintamente, nos chega agora mesmo um som como
o do sino de alarma e da générale! Também não seria mau compor,
se possível, um semblarhe alegre, ocultando as nossas dores; e até
mesmo cantar? A dor, de que os Céus se compadecem, é odienta e
suspeitosa para a Terra. — Assim aconselha o astuto Maillard, ao
arengar às suas Mênades, nas alturas sobranceiras a Versalhes1.
As disposições do atilado Maillard são obedecidas. As sujas insur-
retas sobem a avenida, "em três colunas, no meio dos quatro renques
de olmos, cantando Henri Quatre, com a melodia de que são capazes,
e exclamando Vive le Roi. Versalhes, apesar de os renques de olmos
estarem pingando água, comprime-se de ambos os lados, gritando Vi-
vent nos Pariennes!
Picadores, mensageiros são enviados a Paris, à medida que o rumor
cresce: Sua Majestade, que tinha ido caçar nas matas de Meudon, é
assim felizmente encontrado e trazido. A Générale e o sino de alarma
põem-se a tocar. Os Guardas do Corpo estão já alinhados em frente
dos portões do palácio, de olhos postos na avenida de Versalhes, som­
brios, com os seus uniformes molhados. O Flandres também ali está,
repeso do repasto da Ópera. E também ali se acham dragões desmon­
tados. Finalmente o Major Lecointre e o que pôde reunir da Guarda
Nacional de Versalhes; — devendo observar-se que o nosso coronel,
esse mesmo Conde d'Estaing que não podia dormir, desapareceu da
maneira mais imprópria, sem dar ordens nem munições, supõe-se, para

1 Vid. Hist. Pari. III. 70-117; Deux Amii, III. 166-77, etc.

■r
A VERSALHES 225

dentro do Oeil-de-Boeuf. Os suíços de farda vermelha postam-se den­


tro dos portões, debaixo de armas. Ali também, numa câmara interior,
estão todos os ministros, Saint Priest, o Pompignan das Lamentações
e os outros, reunidos com M. Necker, esperando ansiosos o que está
para vir.
O Presidente Mounier, apesar de ter respondido a Mirabeau com
um tant mieux, e pretendido não dar importância ao assunto, está
bastante apreensivo. Decerto que durante estas quatro longas horas
êle não se tem deitado sobre rosas! A ordem do dia prossegue: que
se envie uma deputação a Sua Majestade para que êle se digne con­
ceder "aceitação pura e simples" daqueles artigos da nossa Consti­
tuição; pois que a aceitação condicionada, com as suas reservas, não
satisfaz nem aos deuses nem aos homens.
T u d o isto é claro. E contudo há coisas mais claras de que ninguém
fala, mas que todos os homens agora vagamente compreendem. Em
todos os rostos se lê a intranquilidade, a desatenção; os deputados
murmuram, saem e entram em desassossego: evidentemente que a or­
dem do dia não é a necessidade do dia. Até que por fim, dos portões
exteriores, vem um sussurro de vozes múltiplas, o vozerio de pessoas
em tropel, grande algazarra feminina e alterações, em sons abafados
pelas paredes; o que testemunha que chegou o momento! Agora, ouve-se
a multidão avançar precipitadamente, em compressão; a seguir, entra
o meirinho Maillard, com uma deputação de quinze mulheres enla­
meadas e a escorrer água, — depois de ter, com inacreditável habili­
dade e com a ajuda de todos os maceiros, persuadido as restantes a
esperar fora. A Assembleia Nacional terá agora de se ver em frente,
cara a cara, da sua augusta tarefa: o Constitucionalismo regenerador
tem diante de si, em carne e osso, um sans-culotismo não regenerado,
a gritar "Pão, Pãol"
O hábil Maillard, traduzindo a fúria feminina em palavras articula­
das, recriminando com uma mão, suplicando com a outra, conduz-se
o melhor que pode; e realmente, sem ser educado para falar em pú­
blico, sai-se bastante bem: Na terrível carestia de cereais, uma depu­
tação de cidadãs, como a augusta Assembleia pode observar, veio de
Paris para peticionar. Há evidentemente conspirações de aristocratas
metidas no assunto; por exemplo, um moleiro foi subornado com uma
nota de 200 libras para não moer — cujo nome é desconhecido pelo
meirinho, mas o fato pode provar-se, pelo menos não se pode pôr em
dúvida. Além disso, parece que o tope nacional tem sido calcado; e
também há ou houve topes negros. Não quererá a Assembleia Na­
cional, a esperança da França, tomar todas as coisas na sua sábia e
imediata consideração?

15 bis Hist. Rev. Francesa


226 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES

E as Mênades esfomeadas, irrepressíveis, gritam: "Topes Negros",


"Pão, Pão," acrescentando: A Assembleia Nacional não fará isso? —
Sim, Messieurs, se uma deputação a Sua Majestade, para a "aceitação Capitulo Vil
pura e simples", parecia conveniente — quanto mais não o será agora,
"para a aflitiva situação de Paris"; para a acalmação desta efervescên­ EM VERSALHES
cia! O Presidente Mounier, com uma deputação arranjada à pressa,
entre a qual nós notamos a respeitável figura do Doutor Guillotin, A este tempo já Palas Atena (na figura de Demoiselle Théroigne)
põe-se imediatamente em marcha. O vice-presidente deve continuar a está a tratos com o Flandres e os dragões desmontados. Ela, e as mu­
ordem do dia; o meirinho Maillard ficará ao lado dele para reprimir lheres mais finas percorrem as fileiras; falam com jocosidade doce;
as mulheres. São quatro horas, com um tempo muito agreste, quando apertam soldados rudes ao seu peito patriótico, abatem os fuzis e as
Mounier sai. carabinas com braços gentis: pode um homem, que seja digno do nome
de homem, atacar mulheres patriotas esfomeadas?
Ó experiente Mounier, que tarde; a última da tua existência polí­
Há quem tenha escrito que Théroigne trazia sacos de dinheiro, que
tica! Melhor te teria sido "dar subitamente parte de doente", enquanto
distribuiu pelo regimento de Flandres: fornecidos por quem? Ah, com
ainda era tempo. Porque, contemplai, a Esplanada, em toda a sua
sacos de dinheiro, raras vezes uma pessoa se senta sobre canhões insur-
vasta extensão, está coberta de grupos de mulheres esquálidas a escor­
recionais. Calunioso realismo! Théroigne tinha somente os ganhos
rer água; de populaça masculina de cabelos lisos, armada de macha­
limitados da sua profissão de mulher infeliz; dinheiro não tinha, ape­
dos, de chuços enferrujados, de velhos mosquetes, de paus ferrados
nas anéis de cabelo preto, a figura de uma deusa pagã e uma língua
(batons ferres, que terminam em facas ou lâminas de espada, uma
e um coração eloquentes.
espécie de instrumento de podar); nada mais parecendo que a revolta
da fome. A chuva cai a cântaros: os Guardas do Corpo caracoleiam No entretanto, Saint Antoine em grupos e bandos está continua­
através dos grupos "no meto de assobios"; irritando e agitando a mul­ mente chegando; molhados, sombrios; com chuços e armas improvisa­
tidão, que apenas é dispersa aqui, volta a reunir-se acolá. dos: conduzidos até aqui por ideia fixa popular. Tantas figuras hirsutas
conduzidas até este ponto, dessa maneira: figuras que vieram para
Inumeráveis mulheres esquálidas bloqueiam o presidente e a depu­ fazer aquilo que não sabem; figuras que vieram para ver isso feito!
tação, insistindo em seguir com êle: não foi propriamente Sua Majes­ Distinguido entre todas as figuras, quem é este homem de complei­
tade, ao olhar da janela, que mandou perguntar, o que nós queríamos? ção magra, com peitoral de chumbo, apesar de pequena; 1 de farta
"Pão e falar com o rei (Du pain et parler au Roi)". Eis a resposta. cabeleira encaracolada, ruiva mas já um pouco grisalha; e com longa
Doze mulheres são clamorosamente acrescentadas à deputação; e mar­ barba da mesma côr? É Jourdan, desonesto traficante de mulas; já
cham com ela através da Esplanada, por entre grupos dispersos, de não traficante, mas modelo dum pintor, faltando hoje ao serviço. Das
Guardas do Corpo a caracolear, e sob uma chuva tremenda. necessidades da arte, provém a sua longa barba ruiva; donde provém
0 Presidente Mounier, acrescido inesperadamente de doze mulheres, o seu peitoral de chumbo (a não ser que êle fosse um bufarinheiro
largamente escoltado pela fome e pela populaça, é êle próprio tomado licenciado com medalha de chumbo) •— talvez que fique para sempre
por centro de um grupo: a deputação e as suas mulheres são dispersas um problema histórico. Outro Saul entre a multidão nós percebemos:
pelos caracoleantes; e reúnem-se de novo com dificuldade, no meio "Pére Adam, Pai Adão", como os grupos lhe chamam; melhor conhe­
cido por nós sob o nome de Marquês Saint-Huruge, homem de voz
da lama 1 . Finalmente os portões são abertos, a deputação entra, com
estentórica; herói do Veto; homem que tem tido perdas e que as
doze mulheres; das quais cinco chegarão a ver o rosto de Sua Majes­
mereceu. O agigantado marquês, saindo do Limbo há poucos dias,
tade. Que o molhado Menadismo, na melhor disposição que puder,
olha peripatèticamente para esta cena, debaixo do seu guarda-chuva,
espera a sua volta. não sem interesse. Todas estas pessoas e coisas, jogadas umas contra
as outras, como nós vemos: Palas Atena, ocupada com o Flandres;
1 Mounier, E*po«é JuMificatií (citado in Dcux Amis, III 185).
guardas nacionais patrióticos de Versalhes, privados de munições e
abandonados por D'Estaing, seu coronel, e comandados por Lecointre,

1 Vid. Wcber, II. 185-231.


228 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES EM VERSALHES :■:.")

seu major; depois os caracoleantes Guardas do Corpo, irritados, desa­ vocado, há muito reprimido. Não se limita a dispersar estas últimas
nimados, com as suas mochilas molhadas; e finalmente este mar flu­ Mênades, mas caracoleando com o seu cavalo, avança e brande, indig­
tuante de esqualidez indignada — não pode isto tudo dar lugar a nado, a espada contra M. Brunout, o comandante forçado; e, tomando
graves ocorrências? calor no ato, vai em sua perseguição; Brunout foge com agilidade,
voltando-se de vez em quando, e até de espada desembainhada. Pe­
Contemplai, porém, as doze deputadas ao regressarem do Château. rante este espetáculo de ira e de vitória, dois outros Guardas do Corpo
Sem o Presidente Mounier, é certo; mas radiantes de alegria, excla­ (pois a ira é contagiosa e para Guardas do Corpo reprimidos é tão
mando "Viva o Rei e a sua Família", Aparentemente as notícias são reconfortante) da mesma forma dão vasão ao seu temperamento; per­
boas, Mesdames? Notícias excelentes! Cinco de nós foram admitidas seguem, brandindo os sabres, fazendo horríveis círculos no ar. De
aos esplendores internos, à real presença. Esta donzela esbelta "Louison modo que ao pobre Brunout nada lhe resta senão recuar com redo­
Chabray, que trabalha em escultura, apenas com dezessete anos de brada agilidade, em acelerado, fileira após fileira; à maneira dos Par­
idade", por ser a que tinha melhor porte e melhores modos, foi quem tos, esgrimindo ao fugir; e acima de tudo, gritando vigorosamente,
nós nomeamos oradora. Para ela e até para todas nós, Sua Majestade "On nous laisse assassiner, Mandam assassinar-nos!"
não se mostrou senão gracioso. E até quando Louison, ao dirigir-se
Que covardia! Três contra um! Nas fileiras de Lecointre soam mur­
ao rei, estava prestes, a desmaiar, êle tomou-a nos seus braços reais;
múrios; gritos ferozes — e por fim tiros. O braço de Savonnières
dizendo galantemente, "Valeu bem a pena (Elle en valút bien la
ergue-se para ferir; mas a bala dum dos homens de Lecointre atinge-o;
peine)". Vede ó mulheres, que rei! As suas palavras foram todas con-
o sabre brandido retine no chão, inofensivo. Brunout salvou-se, tendo
soladoras e prometem: serão mandadas provisões para Paris, se há
acabado bem este duelo: mas o louco rugido de guerra por toda a
provisões no mundo; os cereais circularão tão livremente como o ar;
parte começa a soar!
os moleiros deverão moer, enquanto durarem as suas mós ou serão
castigados, e nada ficará por corrigir que estiver nos poderes dum As amazonas recuam; Saint Antoine aponta o seu canhão (carre­
restaurador da liberdade francesa. gado de metralha); três vezes aplica a mecha acesa; que três vezes se
recusa a pegar; os ouvidos da peça estão molhados; e vozes gritam:
Boas notícias estas; porém, para as molhadas Mênades, demasiado "Arretez, il riest pas ternps encore, Parem ainda não é tempo!" 1 Mes-
inacreditáveisl Mas quanto a fatos? Palavras de consolação — são me­
sieurs les Gardes du Corps, vós tínheis ordem de não disparar; não
ras palavras; que não dão de comer a ninguém, ó miserável povo,
obstante dois de vós coxeiam desmontados e um cavalo está morto.
traído por aristocratas, que corrompem até os teus próprios mensa-
Não seria melhor recuar para fora do alcance dos tiros; e finalmente
geirosl Nos braços reais, Mademoiselle Louison? Nos seus braços? T u ,
desvergonhada gazela, digna dum nome — que não tem nomel Sim, marchar em retirada para o interior? Se ao marchardes assim em reti­
tua pele é macia: a nossa está áspera com trabalhos; e muito molhada, rada, se descarregasse um ou dois fuzis contra estes logistas armados,
a esperarmos aqui à chuva. Não tens crianças em casa a pedir pão; a vaiarem, vangloriosos, poderia alguém admirar-se? Sujos vão esses
apenas bonecas de alabastro, que não choram! Traidora! Ao candeeiro! vossos topes brancos de um tamanho enorme; prouvera a Deus que
— E à pobre Louison Chabray, sem lhe valerem súplicas nem gritos, eles fossem trocados por tricolores! As nossas mochilas estão molhadas,
bela e franzina donzela, vinda dos braços da realeza, põem-lhe uma os vossos corações pesados. Ide e não volteis!
liga à roda do pescoço, e furibundas amazonas em cada ponta; está Os Guardas do Corpo marcham em retirada, como sugerimos, dando
quase a morrer assim — quando dois Guardas do Corpo chegam a e recebendo tiros, sem derramamento de sangue; deixando atrás de
galope, e dispersando indignadamente, salvam-na. As doze mulheres si enorme indignação. Umas três vezes, no crescer da noite, aparecem
descredenciadas voltam à pressa para o Château, para obter "uma res­ alguns a este ou àquele portal; saudados sempre com execrações, com
posta por escrito". o silvo de chumbo. Mal um Guarda do Corpo mostra o seu rosto, é
logo perseguido pela populaça; por exemplo, o pobre "M. de Mon-
Agora, porém, surge um novo surto de Mênades, com M. Brunout, cheton da Companhia Escocesa", dono do cavalo morto, deve a sua
voluntário da Bastilha, como comandante forçado, à testa delas. Estas salvação a uns capitães de Versalhes, que o livram de tiros vomitados
também querem avançar para o portão do grande pátio, a ver o que por mosquetes enferrujados, um dos quais lhe furou o chapéu. No
se passa. A paciência humana, com mochilas molhadas, tem os seus fim, por ordem superior, os Guardas do Corpo, todos menos os que
limites. O Tenente dos Guardas do Corpo, M. de Savonnières, dá,
por um momento, livre vasão ao seu temperamento, há muito pro- I Dcux Amia, III. 192-201.

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estavam de serviço, desaparecem; ou escondem-se, por assim dizer; sobre tantos milhares de assuntos, não se tomam providências nenhu­
marchando, sob a capa da noite, para Rambouillet 1 . mas, de caráter civil ou militar! Lecointre está no Hôtel-de-Ville de
Observamos também que os versalheses têm agora munições; em Versalhes; está ao portão do Pátio Grande, comunicando com os Suí­
toda a tarde, o encarregado oficial não conseguiu encontrar nenhu­ ços e os Guardas do Corpo; está nas fileiras do Flandres; está aqui,
mas; até que, nestes momentos tão críticos, um tenente patriota apon- está acolá: procurando evitar o derramamento de sangue; evitar que
tou-lhe uma pistola ao ouvido, dizendo-lhe que lhe agradecia muito a família real fuja para Metz: e que as Mênades saqueiem Versalhes.
se êle se resolvesse a encontrar algumas — ao que êle logo condescendeu. Ao cair da noite, nós vemo-lo avançar para os grupos armados de
Além disso, o Regimento de Flandres, desarmado por Palas Atena, Saint Antoine, que pairam em atitude demasiado sombria perto da
diz abertamente que não lutará contra os cidadãos; e em sinal de Salle des Menus. Recebem-no num semicírculo; doze oradores por
paz troca cartuchos com os versalheses. O sans-culotismo está agora detrás de canhões, de mechas acesas na mão, com as bocas das peças
verdadeiramente entre amigos; e pode "circular livremente", indignado viradas para Lecointre: quadro digno de Salvador Rosa! Êle pergunta,
com os Guardas do Corpo; queixando-se também consideravelmente em linguagem moderada mas corajosa, que pretendem deveras eles,
com esta sua jornada a Versalhes? Os doze oradores respondem em
de fome.
poucas palavras, que significam muito: "Pão e o fim destas questões.
Du pain, et la fin des affaires". Quando terminarão les affaires, ne­
nhum Major Lecointre, nem nenhum mortal pode dizer, mas quanto
Capitulo VIU ao pão, êle interroga: Quantos sois vós? — Fica ciente de que são
seiscentos, que um pão a cada um bastará; e vai até à Municipali­
A RAÇÃO IGUAL dade para arranjar seiscentos pães.
Estes pães, não os dará uma municipalidade de feição monárquica.
Mas por que tarda Mounier; por que não volta com a sua depu­
Dará antes duas toneladas de arroz — sem se saber se será cru ou
tação? Batem as seis, batem as sete horas e contudo nem Mounier
cozido. Mas quando isto mesmo é aceito, desaparecem os Municipais;
nem aceitação pura e simples.
— subrnergindo-se conforme os vinte e seis de toga comprida de Paris
No entretanto, eis que as Mênades a escorrer água, não já em de­ fizeram; e, sem deixarem o menor vestígio de arroz, em estado cozido
putação mas em massa, se introduzem na Assembleia; interrompendo ou cru, somem-se da História!
ignominiosamente os discursos públicos e a ordem do dia. Nem Mail-
lard nem o vice-presidente conseguem restringi-las, exceto dentro de 0 arroz não chega; a esperança de alimento é frustrada; e até a
largos limites; nem mesmo, a não ser por minutos, o consegue a voz própria esperança de vingança: não foi M. de Moucheton da com­
leonina de Mirabeau, se bem que o aplaudam: pois, a cada passo, panhia escocesa ardilosamente surripiado? Na falta de tudo isto, não
elas interrompem a regeneração da França com gritos de: "Pão; basta se vê o cavalo morto de M. de Moucheton, jazendo ali na Esplanada!
de tantos discursos longos! Du pain; pas tant de longs discours!" — Saint Antoine, ludibriado, esfaimado, lança-se sobre o cavalo; esfola-o,
Tão insensíveis eram estas pobres criaturas a tiradas de eloquência assa-o, com o combustível de paliçadas, de portas, de toda a madeira
parlamentarl de que pode lançar mão — não sem gritaria, e, à maneira dos heróis
Sabe-se que as carruagens reais estão sendo atreladas, como que gregos da antiguidade, estendem as mãos ao repasto delicadamente
para Metz. Carruagens, reais ou não, apareceram de fato nos portões aprontado; tal como podia estar1. Outros grupos rondam ao redor,
traseiros. Chegaram até a apresentar ou apenas a mencionar uma ordem procurando que devorar. O Flandres vai recolher a quartéis; e Le­
escrita da nossa Municipalidade de Versalhes — que é monárquica e cointre também com os seus versalheses — todos menos as vigilantes
não democrática. Porém, patrulhas de Versalhes reconduziram-nas para patrulhas, com ordem de redobrar a vigilância.
dentro, de acordo com as instruções rigorosas do vigilante Lecointre. Assim se adensam as sombras da noite, com tempestade e chuva;
Homem de muitos afazeres é certamente o Major Lecointre, nestas e todos os caminhos ficam escuros. A noite mais estranha vista nestas
horas. Porque o Coronel d'Estaing vagueia invisível no Oeil-de-Boeuf; regiões — talvez desde a noite de São Bartolomeu, quando Versalhes,
invisível ou às vezes com uma visibilidade inconveniente; e depois, como Bassompierre escreve, era um chétif château. Oh, quem nos dera
também uma municipalidade muito lealista precisa de ser vigiada; a lira de um Orfeu para constranger, com o toque de melodiosas cordas,

| WYbcr, ttbi suína. 1 Wi-bcr, Dcux Ami>, etc.


252 A INSURREIÇÃO DAS MULHERES A RAÇÃO IGUAL 2SS

estas massas à ordem! Porque aqui tudo parece desconjuntado, em Mas finalmente, tendo passado este decreto e continuando a desor­
enorme deslocação abismal. Os mais altos, como na derrocada dum dem; com os deputados a eclipsar-se e sem regressar nenhum Presi­
mundo, chegaram a contato com os mais baixos: a plebe da França, dente Mounier — que pode fazer o vice-presidente senão também
sitiando a realeza da França; "paus ferrados", erguidos em volta do eclipsar-se? A Assembleia sob tal pressão cai em delíquio; ou como
diadema, não para o protegerl No meio de imprecações contra os oficialmente se chama, adia-se. Maillard é despachado para Paris, com
antinacionais e sanguissedentos Guardas do Corpo, ouvem-se murmú­ o decreto sobre os cereais, na algibeira; seguindo êle e algumas mu­
rios negros contra o nome da rainha. lheres em carruagens pertencentes ao rei. Para ali já partiu a esbelta
A corte está tremula, impotente; varia com a disposição variável Louison Chabray, com aquela "resposta escrita" que as doze deputadas
da Esplanada, com a côr variante dos rumores de Paris. Rumores voltaram a buscar. Bela sílfide, que tens de viajar através de estradas
crescentes: ora de paz, ora de guerra. Necker e todos os ministros lamacentas, no negrume da noite, com extrema lentidão; muito deves
conferenciam sem resultado. O Oeil-de-Boeuf é uma tempestade de ter de contar, com os teus pobres nervos tão abalados! O Presidente
cochichos: Nós fugimos para Metz, nós não fugimos. As carruagens Mounier não chegou, nem a aceitação pura e simples; apesar de terem
reais tentam de novo sair — apenas para mera experiência; são outra decorrido seis horas com todos os seus acontecimentos; apesar de cor­
vez reconduzidas pelas patrulhas de Lecointre. Em seis horas, nada reio sobre correio anunciar que Lafayette está-se aproximando. Vem
se resolveu; nem mesmo a aceitação pura e simples. com a guerra ou com a paz? É tempo que o Château se resolva a
Em seis horas? Ah, aquele que, em tais circunstâncias, não pode qualquer coisa; que se mostre com vida, se quer continuar a viver!
resolver em seis minutos, pode renunciar à tarefa; por êle já o destino
resolveu. No entretanto, o menadismo e o sans-culotismo deliberam Vitorioso, alegre depois de tal demora, chega por fim e com êle a
com a Assembleia Nacional, cada vez mais tumultuosos ali. Mounier aceitação tão duramente conquistada; que agora, ah, pouco valor tem.
não regressa; a autoridade em nenhuma parte se mostra; a autoridade Imaginai a surpresa de Mounier ao encontrar o seu senado, que êle
da França reside, pelo presente, em Lecointre e no meirinho Maillard. esperava encantar com a aceitação pura e simples, — todo eclipsado;
Eis pois a abominação da desolação, vinda repentinamente, mas desde e em seu lugar, um senado de Mênades! Porque assim como o macaco
longo tempo prevista, como inevitável! Porque, para os cegos, todas de Erasmo arremedava o dono fazendo a barba de Erasmo com uma
as coisas são repentinas. A miséria que, através de longas idades, não lasca de madeira, assim estas amazonas com majestade burlesca, fazem
teve ninguém que falasse por ela, que a ajudasse, ajuda-se agora a um arremedo confuso de Assembleia Nacional. Fazem moções; profe­
si própria e fala por si própria. O seu dialeto, um dos mais rudes, rem discursos; votam resoluções, que, pelo menos, produzem ruidosa
é aquilo que poderia ser, isto. gargalhada. Todas as galerias e bancadas estão cheias; uma dama ro­
Às oito horas, regressa à Assembleia, não a deputação, mas o Doutor busta do mercado senta-se na cadeira de Mounier. Não é sem dificul­
Guillotin comunicando que ela não tarda, e também que há esperan­ dade que Mounier, com a ajuda dos maceiros e de palavras persuasivas,
ças de uma aceitação pura e simples. Êle próprio trouxe uma carta