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Resiliência e luta na defesa da agropecuária

paulista, por Fábio de Salles Meirelles


Publicado em 29/12/2021 11:0519 exibições

Fábio de Salles Meirelles é presidente do Sistema FAESP-SENAR/SP

Em 2021, embora tenha registrado uma produção de grãos de quase 255


milhões de toneladas, sustentado o superávit da balança comercial
brasileira e as exportações de alimentos, biocombustíveis e commodities,
constituindo-se em forte pilar da economia nacional em meio à crise
pandêmica, a agropecuária vivenciou um ano de grande dificuldade. O
Estado de São Paulo, que representa cerca de 20% do setor no País, foi um
dos principais polos de resistência da atividade.

Num cenário ainda marcado pela Covid-19 e seus impactos, os produtores


rurais enfrentaram a dura crise hídrica, majoração tarifária da energia
elétrica, geadas, frio intenso e incêndios provocados pela seca. Diante de
tantos obstáculos, que chegaram a provocar perdas de até 100% em
algumas fazendas, é notável sua resiliência, coragem e eficácia para seguir
trabalhando e provendo, sem interrupção, as distintas cadeias de valores
dependentes da produção do campo. Tal conjuntura também exigiu
mobilização firme, incansável e dedicada da Federação da Agricultura e
Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), em múltiplas frentes de defesa
setorial.

Uma das vitórias nessa luta refere-se ao atendimento, pelo Governo


Federal, do pedido de nossa entidade para estender até 31 de dezembro o
prazo para vacinação dos rebanhos bovinos e bubalinos paulistas contra a
febre aftosa, dando mais fôlego e tranquilidade aos produtores, ante a
dificuldade de compra dos imunizantes. Ainda na cadeia produtiva da
pecuária, comemoramos outra medida pela qual batalhamos muito:
aprovação, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, da lei que
reduz a burocracia para a produção de queijos artesanais, para os quais
também pedimos a isenção do ICMS.

A Federação também se posicionou com muita firmeza frente aos ataques


internacionais à agropecuária brasileira, a começar pelo embargo chinês à
importação da carne, devido a dois casos atípicos isolados de vaca louca,
que acometeram animais velhos e não destinados à produção e que,
conforme atestou a Organização Mundial da Saúde Animal, não
representam qualquer risco. Por isso, solicitamos ao nosso governo a
intensificação dos esforços diplomáticos para a reversão da medida.
Repudiamos a forte pressão nos Estados Unidos, marcada pelo projeto de
um senador e pelo lobby da National Cattlemen Beef Association (NCBA),
pela paralisação das importações da carne brasileira, bem como a absurda
proposta da União Europeia de restringir a importação de nossos produtos
agropecuários, sob alegação de supostos problemas ambientais em nosso
país. Ora, temos uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo
e produtores rurais exemplares em termos de sustentabilidade e proteção
das reservas florestais e de mananciais. Temos demonstrado que, além de
injustificáveis, esses ataques podem ser prejudiciais aos próprios países
detratores e seus povos, que não podem esquecer algo crucial: o Brasil
ocupa o primeiro lugar no ranking de exportadores de carne bovina e de
aves e o quarto lugar nas vendas mundiais de carne suína.

Em outra frente relevante de defesa da agropecuária, considerando que os


recursos do Plano Safra deste ano, embora substantivos, não atendem
totalmente à demanda do crédito rural, os impactos das geadas, incêndios
e crise hidroenergética e os juros mais elevados, encaminhamos uma série
de reivindicações e sugestões ao governo e ao mercado bancário, relativas
ao maior acesso dos produtores a linhas facilitadas de financiamento. Às
instituições financeiras e cooperativas, pedimos a prorrogação de contratos
realizados por parte dos produtores paulistas e que estejam próximos do
vencimento e/ou ampliação dos prazos e do parcelamento de pagamento e
entrega dos produtos.

Ao Governo Federal, preconizamos linha de crédito de recuperação de


cafezais danificados, disponibilizada com recursos do Funcafé, e criação de
outra, com prazo de reembolso e condições facilitadas, para viabilizar a
recuperação da estrutura produtiva e manutenção das atividades
agropecuárias atingidas pelas intempéries. Ao Executivo paulista,
reiteramos a necessidade de suplementação da subvenção ao prêmio do
seguro rural. O número almejado é de R? 100 milhões, praticamente o
dobro do que obtivemos em 2020.

Também ao governo paulista, solicitamos duas providências contingenciais:


prorrogação das parcelas dos financiamentos vigentes com recursos do
Fundo de Expansão do Agronegócio, com a transferência de prestações
vincendas para um ano após a última prestação prevista em contrato; e
criação de linha de crédito emergencial, com verbas do mesmo órgão, para
recuperação da estrutura produtiva e manutenção das atividades
agropecuárias atingidas pelas geadas.

Estamos trabalhando para ampliar a adesão do produtor rural à Nota Fiscal


Eletrônica e a utilização dos créditos do ICMS. Demandamos também
aprimoramento na forma de aproveitamento dos créditos e melhorias
operacionais no sistema E-credRural, o que certamente será uma conquista
importante de nosso setor.

O ano que chega ao fim foi realmente difícil, mas, em contrapartida,


referendou a capacidade de resistência, superação, trabalho e luta do meio
rural. São mulheres e homens corajosos, que jamais esmorecem ante as
adversidades e obstáculos. Por isso, é sempre muito gratificante a atuação
e mobilização permanente de uma entidade de classe dedicada à
representatividade e defesa dessa brava gente e do agronegócio.

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Fonte:

Faesp

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