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Estudo Sobre a Palavra de Deus (Sinopse)

 
Comentário Bíblico
 
do
 
Novo Testamento
 
2ª aos Coríntios

 
Autor
John Nelson Darby

 
Tradutor
Martins do Vale

 
Revisor
Josué da Silva Matos

 
2019
www.boasemente.com.br
www.palavrasdoevangelho.com

 
2ª CORÍNTIOS
 
INTRODUÇÃO
O apóstolo escreve a segunda Epístola aos Coríntios sob a influência
das consolações de Cristo, consolações sentidas no auge da sua angústia na
Ásia, e renovadas, no momento em que escreve a carta, pelas boas notícias
trazidas de Corinto por Tito. Agora, sentindo-se feliz acerca deles, o
apóstolo relata essas mesmas consolações aos Coríntios que, finalmente,
pela graça, delas tinham sido a causa. A primeira carta de Paulo tinha
despertado a consciência dos Coríntios e restabelecido o temor de Deus nos
seus corações e a integridade no seu comportamento. O angustiado coração
do apóstolo revigorava-se ao ouvir essas boas notícias. O estado em que os
Coríntios se encontravam anteriormente tinha-o abatido e tinha afastado um
pouco do seu coração os sentimentos produzidos pelas consolações de que
Jesus o enchera durante as suas provas em Éfeso. Quão variados e
complicados são os exercícios do coração daquele que serve a Cristo e que
vela pelas almas! A restauração espiritual dos Coríntios, dissipando a
agonia de Paulo, tinha renovado em seu coração a alegria dessas
consolações que a notícia do mau comportamento deles tinha interrompido.
Volta em seguida ao assunto dos seus sofrimentos em Éfeso, e desenvolve
de maneira notável o poder da vida de que ele vivia em Cristo.
 
CAPÍTULO 1
 
O apóstolo dirige-se a todos os santos da Acaia, do mesmo modo
que aos da cidade de Corinto, capital daquele país; e, induzido pelo Espírito
Santo a escrever de harmonia com os verdadeiros sentimentos que o
Espírito produzia nele, coloca-se imediatamente no seio das consolações
que enchiam o seu coração, para reconhecer nelas o Deus que as derramava
na sua provada e exercitada alma.
Nada de mais impressionante do que a obra do Espírito no coração
do apóstolo. A mistura de reconhecimento e de adoração para com Deus, de
alegria nas consolações de Cristo e de aflição por aqueles acerca dos quais
se alegrava agora, é de uma beleza que o espírito humano de modo nenhum
saberia imitar. A sua simplicidade e a sua verdade não fazem senão realçar
a excelência e a elevação dessa obra divina num coração humano. Bendito
seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o
Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação,
para que também possamos consolar os que estiverem em alguma
tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados de
Deus.
Porque, como as aflições de Cristo abundam em nós, assim também
a nossa consolação abunda, por medo de Cristo.
Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou,
se somos consolados, para vossa consolação é, a qual se opera suportando
com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; e a nossa
esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das
aflições, assim o sereis também da consolação. Bendizendo a Deus pelas
consolações que tinha recebido, porque a sua participação nos sofrimentos,
mostrando-lhes o caminho ordenado por Deus para os mais excelentes,
encorajava a fé dos Coríntios que sofriam. Paulo derrama nos corações
deles as suas próprias consolações, visto que o encorajamento lhe vem de
Deus, O seu primeiro pensamento — e é o que tem sempre lugar numa alma
que realiza a sua dependência de Deus e que permanece na Sua presença
(ver Gênesis 24) — é de bendizer a Deus e de O reconhecer como sendo a
fonte de toda a consolação. O Cristo, que ele encontrou, não só nos
sofrimentos, mas também nas consolações, volta imediatamente o seu
coração para os bem-amados membros do Seu corpo.
Note-se ao mesmo tempo a perversidade do coração do homem e a
paciência de Deus. No meio dos seus sofrimentos pelo Nome de Cristo, os
Coríntios podiam tomar a sua parte do pecado que desonrava esse Nome, de
um pecado que nem os Gentios cometiam! Mas, apesar desse pecado, Deus
não queria privá-los do testemunho que esses sofrimentos lhes prestavam da
verdade do seu Cristianismo — sofrimentos que asseguravam ao apóstolo
que os Coríntios gozariam das consolações de Cristo, que acompanham os
sofrimentos suportados pelo Nome do Salvador. É reconfortante ver como a
graça se apodera do bem a fim de daí concluir que o mal será seguramente
corrigido, em lugar de desacreditar o bem pior causa do mal. Paulo estava
perto de Cristo, a fonte divina da força.
O apóstolo, após essas palavras encorajantes, apresenta, de uma
maneira experimental, a doutrina do poder da vida em Cristo (1), que tinha
o seu desenvolvimento e a sua força na morte para tudo o que é temporal,
para tudo o que nos liga à antiga Criação, à própria vida mortal.
 
(1) O começo desta Epístola apresenta o poder experimental do que
é doutrinalmente ensinado em Romanos 5, e, nesse aspecto, é muito
instrutivo.
Não vai, porém, tão longe como em Efésios e em Colossenses; o
fruto prático da doutrina é a manifestação do caráter de Deus. No entanto,
em certa medida, temos a aplicação do Que é ensinado em Colossenses.
 
Em seguida aborda quase todos os assuntes de que se tinha ocupado
na sua primeira Epístola; mais volta a eles com um coração aliviado,
embora com a firmeza de quem queria o bem dos fiéis de Corinto e a glória
de Deus, por muito que isso lhe custasse.
Note-se aqui a ligação admirável que há entre as circunstâncias
pessoais dos obreiros de Deus e o trabalho para o qual eles são chamados, e
mesmo as circunstâncias desse trabalho. A primeira Epístola tinha
produzido o efeito salutar a que o apóstolo, sob a direção do Espírito Santo,
a tinha destinado. A consciência dos Coríntios tinha sido despertada, e eles
tinham-se mostrado animados de um zelo contra o mal, proporcionado à
profundeza da sua queda. E sempre assim o efeito da obra do Espírito
Santo, quando a consciência do Cristão que pecou é verdadeiramente
atingida. O coração do apóstolo pode agora abrir-se com alegria à completa
e sincera obediência deles. Entretanto ele próprio tinha passado por provas
terríveis, por provas de tal ordem que chegara a desesperar da sua própria
vida; mas tinha sabido realizar, pela graça, o poder dessa vida em Cristo,
que alcançou a vitória sobre a morte, e podia verter a mãos cheias no
coração dos Coríntios as consolações e a vida que deviam reanimá-los. Há
um Deus que conduz todas as coisas no serviço dos Seus santos, tanto as
dores por que passam, como todo o resto.
Note-se também que Paulo não tem necessidade, como na primeira
Epístola, de começar por recordar aos Coríntios a sua chamada e os seus
privilégios como santificados em Cristo — e rompe em ações de graças a
Deus por todas as consolações recebidas. Apresentamos a santidade,
quando ela falta na prática entre os santos; mas se andam nela, gozam da
presença de Deus e falam do Senhor. A maneira como as diferentes partes
da obra de Deus estão juntamente ligadas no apóstolo, e por seu meio, vê-se
nas expressões que brotam do seu grato coração. Deus consola-o nos seus
sofrimentos, e a consolação é tal que ele pode consolar outros, seja em que
aflição for, porque essa consolação é o próprio Deus derramando no
coração o Seu amor e a Sua comunhão, como gozamos em Cristo.
Se está aflito, é para consolar os outros, em vista de sofrimentos
semelhantes, existentes naqueles que são honrados de Deus, e é pela
consciência que eles estão em uníssono na mesma bendita causa e na sua
relação com Deus (sendo o coração tocado e conduzido a esses afetos por
tal meio).
Se é consolado, é para consolar os outros pelas consolações de que
goza nos sofrimentos. E os sofrimentos dos Coríntios são, para ele, um
testemunho — por grande que tenha sido a fraqueza moral deles — de que
têm parte nessas consolações de que ele próprio goza, tão profundas, tão
reais, e que ele sabe serem de Deus e um testemunho do Seu favor. Que
precioso laço da graça! E quão verdade é que, na nossa pequenez, os
sofrimentos dos obreiros de Deus, por um lado, reanimam o amor a respeito
deles, e, por outro, asseguram o obreiro da sinceridade dos objetos do seu
afeto cristão, apresentando-os de novo no amor de Cristo. A aflição do
apóstolo tinha-o ajudado a escrever aos Coríntios com a dor que convinha
ao estado deles; mas que fé é esta que se ocupa do triste estado dos outros
com semelhante energia e um tão perfeito esquecimento de si mesmo, no
meio de circunstâncias como aquelas em que o apóstolo se encontrava! É
bem certo que toda a sua força estava em Cristo!
O coração de Paulo expande-se agora para com os Coríntios. Vemos
que há nele esse livre jogo dos afetos, que é de grande preço. O apóstolo
conta com o interesse que eles porão na narrativa dos seus sofrimentos. Está
certo de que eles se alegrarão por causa daquilo que Deus lhe deu, do
mesmo modo que ele se alegra neles, como fruto dos seus trabalhos, e que
eles reconhecerão o que ele é. E está contente acerca dos dons que se
desenvolvem nele, por ser devedor às suas orações, de modo que o seu
sucesso no Evangelho fosse para o coração deles como um interesse pessoal
numa coisa que lhes fosse própria. Na verdade, ele podia pedir as orações
deles, porque se tinha conduzido com perfeita sinceridade, especialmente
entre eles. Isso leva-o a explicar aos Coríntios os motivos dos seus
movimentos, aquilo de que ele lhes não tinha falado antes, referindo esses
movimentos aos seus próprios planos e aos seus próprios motivos na
submissão ao Senhor. Paulo é sempre senhor (sob a autoridade de Cristo)
dos seus movimentos, mas pode agora falar livremente daquilo que o tinha
decidido, e dos motivos que o anterior estado dos Coríntios lhe não permitia
comunicar-lhes. Paulo quer satisfazê-los, quer explicar-lhes as coisas de
maneira a demonstrar o seu perfeito amor por eles e a manter ao mesmo
tempo a sua inteira liberdade em Cristo; não queria tornar-se responsável
perante eles do que fazia. É servo deles em afeto, mas livre, porque não
depende senão de Cristo, embora queira, porque serve a Cristo, satisfazer a
consciência deles, se a consciência deles for reta. De resto, a sua
consciência era reta, e não lhes escrevia, senão o que eles sabiam e
reconheciam, e, como esperava, reconheceriam até ao fim — de modo que
eles pudessem glorificar-se nele, como ele se glorificava neles.
Ora, teria havido leviandade nas suas decisões, por ter tido a
intenção de os visitar em primeiro lugar, quando fosse à Macedônia (onde
se encontrava no momento em que escrevia a carta), e uma segunda vez,
quando do seu regresso desse país, como agora lhes dizia? De modo
nenhum: As suas intenções não tinham sido formadas irrefletidamente,
segundo a carne, e logo depois abandonadas. Era o seu afeto por eles que o
tinha feito tardar; era para os poupar que ele adiara ia sua viagem a Corinto.
Não podia suportar a deia de ir, com vara, visitar aqueles que amava.
Note-se de que maneira, mostrando a sua afeição e a sua ternura, o
apóstolo mantinha a sua autoridade; e como, recordando essa autoridade aos
fiéis de Corinto, manifesta toda a sua ternura. Eles tinham necessidade do
exercício dessa autoridade. Não eram Cretenses, talvez, que fosse preciso
repreender severamente; mas havia nelas um relaxamento de moralidade
que exigia delicadeza e cuidados a fim de que eles se não revoltassem, mas
que pedia também autoridade e um freio, com receio de que, deixando-lhes
plena liberdade, não caíssem em toda a espécie de maus caminhos. Mas
Paulo volta imediatamente à certeza de que está em Cristo, base de toda a
sua segurança. Não era preciso esticar demasiado a corda, que ele tinha
tocado ao princípio.
O apóstolo faz sentar a sua autoridade como podendo ter sido
exercida, mas não se serve dela, Era necessário o fundamento do
Cristianismo para colocar o espírito dos Coríntios num estado em que
fossem capazes de se julgarem a si próprios, sensatamente, pois estavam
plenamente dispostos, em consequência dos manejas dos falsos doutores e
devido aos seus hábitos de escolas filosóficas, a separarem-se do apóstolo e,
em espírito, de Cristo. Paulo recondu-los ao fundamento, à doutrina certa,
comum a todos aqueles que tinham trabalhado entre eles. Não quereria dar a
Satanás nenhuma oportunidade de os separar de si (ver capítulo 2:11).
O apóstolo coloca, pois, aqui os grandes princípios da alegria e da
segurança cristãs. Não falo do sangue, única fonte de paz da consciência
perante Deus como Juiz, mas sim da maneira segundo a qual somos
colocados pelo poder de Deus em Sua presença, na posição e no estado em
que esse poder nos introduz, de harmonia com os planos da Sua graça. A
simples certeza estava em Jesus, conforme tinha sido dito. Não havia ali um
sim, e depois um não; o sim ficava sempre SIM — princípio de suma
importância, mas para cujo estabelecimento é necessário o poder e a
firmeza e até mesmo a perfeição e a sabedoria de Deus, porque assegurar e
tornar estável o que não tivesse sido sensato e perfeito não teria,
certamente, sido digno d'Ele.
Notar-se-á também que se tratava de saber se Paulo tinha mudado de
propósito irrefletidamente. O apóstolo diz que não, mas relega para segundo
plano o que pessoalmente lhe dizia respeito, para falar do que mais
preocupa os seus pensamentos — ou seja, de Cristo. Com efeito, para ele, o
viver era Cristo. Havia, porém, uma dificuldade a resolver a propósito da
imutabilidade das promessas de Deus: É que nós não nos encontramos em
estado de sabermos aproveitar do que é imutável, por causa da nossa
fraqueza e da nossa inconstância. O apóstolo resolve essa dificuldade
mostrando a poderosa ação de Deus em graça.
Dois pontos se nos apresentam aqui: O estabelecimento de todas as
promessas de Deus em Cristo, e o nosso gozo do efeito dessas promessas.
Trata-se, como vimos, não só de dizer, de prometer qualquer coisa, mas
também de não mudar as intenções, de não faltar ao que foi dito, de manter
a palavra dada. Ora, tinha havido promessas. Deus tinha-as dado, quer a
Abraão, sem condições, quer a Israel, no Sinai, sob a condição de
obediência. Todavia, em Cristo havia, não apenas promessas, mas sim o
Amém às promessas de Deus, a sua verdade e a sua realização; embora
tivesse havido promessas da parte de Deus, o SIM estava em Cristo e n'Ele
está também o AMÉM. Deus tem estabelecido, deposto, por assim dizer, o
cumprimento de todas as Suas promessas na Pessoa de Cristo: A vida, a
glória, a Justiça, o perdão, o dom do Espírito Santo, tudo está n'Ele. É n'Ele
que tudo é verdadeiro “Sim e Amém”. Não podemos sentir o efeito de
nenhuma promessa, qualquer que ela seja, a não ser em Cristo. Mas ainda
não é tudo: Nós, os crentes, somos os objetos desses planos de Deus.
Eles são por nós para a Sua glória.
Mas, e em primeiro lugar, a glória de Deus é aquela que possui
Aquele que Se glorifica sempre a Si próprio nos Seus caminhos de graça
soberana para conosco; porque é nesses caminhos que Ele manifesta e
mostra o que Ele é.
Por conseguinte, “o Sim e o Amém” das promessas de Deus, o
cumprimento e a realização dessas promessas por nós, para Sua própria
glória, tudo isso se encontra em Cristo.
Ora, como poderemos nós participar em tal, se tudo é por Cristo e
em Cristo? É aqui que o Espírito Santo apresenta a segunda parte dos
caminhos da graça. Nós estamos em Cristo — e estamos n’Ele não segundo
a instabilidade da vontade do homem nem segundo a fraqueza que o
caracteriza nas suas passageiras e mutáveis obras: Aquele que firmemente
nos estabeleceu em Cristo é o próprio Deus.
O cumprimento de todas as promessas está em Cristo.
Sob a lei e sob condições cujo cumprimento dependia da
estabilidade do homem, o efeito das promessas não foi jamais atingido. A
coisa prometida escapava à perseguição do homem, porque o homem devia
estar num estado de espírito capaz de a atingir pela Justiça, e ele não se
encontrava nesse estado. O cumprimento das promessas continuava, pois,
sempre em suspenso. Teria tido o seu efeito, se... Mas o se não cumpria, e o
Sim e o Amém não chegavam.
No entanto, tudo o que Deus prometeu está em Cristo.
O segundo ponto é que essa glória é “por nós” e até que ponto nós
dela gozamos. Deus estabeleceu-nos firmemente em Cristo, em quem
subsistem todas as promessas, de sorte que tudo o que é prometido nós o
possuímos em Cristo. Todavia, não o gozamos como se o tivéssemos em
nossas próprias mãos.
Além disso, o próprio Deus nos ungiu. Por Jesus, temos recebido o
Espírito Santo. Deus quis que compreendêssemos pelo Espírito o que nos é
gratuitamente dado em Cristo. Mas o Espírito é-nos dado também, segundo
os planos de Deus, para outras coisas além de simplesmente
compreendermos os Seus dons em Cristo. Aquele que O recebeu está
selado. Deus marcou-o com o Seu selo, assim como marcou a Jesus com o
Seu selo quando O ungiu, após o Seu batismo por João. Por outro lado o
Espírito torna-Se em nossos corações a garantia daquilo que, mais tarde,
possuiremos plenamente em Cristo. Compreendemos, portanto, as coisas
que nos serão dadas na glória; somos marcados com o selo de Deus, para
dele gozarmos. Dele temos a garantia em nossos corações e as nossas
afeições ali estão comprometidas. Estabelecidos em Cristo, temos o Espírito
Santo que nos sela quando cremos, para nos fazer gozar já neste mundo do
que está em Cristo.

 
CAPÍTULO 2
 
Tendo novamente recordado os cuidados que manifestavam o seu
afeto por eles, o apóstolo exprime a sua convicção de que o que o tinha
afligido a ele, tinha também afligido os Coríntios; e eles bem o tinham
demonstrado pela maneira como tinham tratado o transgressor. Paulo
exorta-os a receberem de novo e a encorajarem o pobre culpado em perigo
de ficar inteiramente acabrunhado pela disciplina exercida a seu respeito
pela totalidade dos Cristãos, acrescentando que, se eles lhe perdoavam a sua
falta, também, ele lhe perdoava. Aliás, não queria que Satanás colhesse
vantagens desse caso de disciplina para semear o desacordo entre ele,
Paulo, e os Coríntios, porque bem sabia ao que o inimigo queria chegar;
conhecia o fim com que Satanás queria servir-se deste caso.
Isto dá a Paulo a oportunidade de mostrar o quanto ele trazia sempre
no seu coração os santos de Corinto. Tendo chegado a Trôade para pregar o
Evangelho de Cristo e tendo-lhe sido aberta uma larga porta, não tinha
podido, no entanto, permanecer ali, porque não tinha encontrado Tito, e,
deixando Trôade, prosseguiu, a sua viagem, dirigindo-se à Macedónia.
Recordar-nos-emos de que, em vez de passar pelas costas ocidentais do
Arquipélago para visitar ia Macedónia, atravessando desse modo Corinto,
para voltar mais tarde pelo mesmo caminho, o apóstolo tinha enviado Tito a
Corinto com a sua primeira carta, tomando ele o caminho da Ásia Menor.
Esta rota, que o fazia costear as costas orientais do Arquipélago, levava-o a
Trôade, aonde Tito devia ir ao seu encontro. Porém, não o tendo encontrado
ali, e preocupado quanto ao caso dos Coríntios, não tinta podido entregar-se
de coração tranquilo à obra que ali se lhe oferecia, e passara adiante para
encontrar Tito.
Tinha-se, pois, dirigido à Macedónia, onde, enfim, o encontrou,
como veremos mais tarde. Mas o pensamento de ter deixado Trôade afeta
sobremaneira a Paulo. Na verdade, é uma coisa séria e muito penosa para o
coração ter perdido uma oportunidade de anunciar a Cristo, e tanto mais que
os habitantes estavam dispostos a recebê-Lo, ou, pelo menos, a ouvir falar
d'Ele. Ter deixado Trôade era bem uma prova da grande afeição que Paulo
nutria pelos Coríntios — e o apóstolo recorda-lhes esta circunstância como
uma grande prova dessa afeição. Consola-se, porém, de ter faltado a essa
obra de evangelização com o pensamento de que, afinal de contas, Deus o
levava como em triunfo e não como tem sido traduzido: “fazendo-o
triunfar”.
O Evangelho que o apóstolo levava com ele, o testemunho de
Cristo, era como o perfume das drogas aromáticas, que se queimavam nas
procissões triunfais, sinal de morte para alguns dos cativos; sinal de vida
para outros. E esse perfume da Boa Nova de Cristo era puro nas suas mãos.
O apóstolo não era como alguns que falsificavam o vinho que
forneciam; trabalhava em integridade cristã perante Deus.

 
CAPÍTULO 3
 
Estas palavras levam o apóstolo a fazer uma exposição sistemática
do Evangelho, em contraste com a lei, que os falsos doutores misturavam
com o dito Evangelho. Paulo introduz esta exposição por meio do mais
comovente apelo ao coração dos Coríntios convertidos por seu intermédio.
Começará ele por falar do seu ministério para de novo se
recomendar a si próprio, ou terá necessidade, como outros, de cartas de
recomendação para eles — ou da parte deles?!
Não!... Eles são, eles, a sua carta de recomendação, a
impressionante prova do poder do seu ministério, prova que ele traz sempre
no seu coração, pronto a apresentá-la em qualquer ocasião. Agora ele pode
dizê-lo, feliz como está, devido à obediência dos Coríntios. E porque
servem eles de carta em seu favor? Porque são, na sua fé, a expressão viva
da sua doutrina. Eles são a carta de recomendação de Cristo, que, por meio
do ministério do apóstolo, foi escrita em tábuas de carne do coração pelo
poder do Espírito Santo, como a lei tinha, sido gravada em tábuas de pedra
pelo próprio Deus.
Esta era a confiança de Paulo a respeito do seu ministério; a sua
capacidade para o ministério da nova aliança vinha de Deus, ministério não
da letra, mas do Espírito, a verdadeira força do desígnio de Deus, tal como
o Espírito o dava — porque a letra, como regra imposta ao homem, mata;
mas o Espírito vivifica, como poder de Deus em graça. É o desígnio de
Deus comunicado ao coração do homem pelo poder de Deus, que dele lhe
dá parte, a fim de que dele aproveite e goze. Ora, o tema deste ministério
manifestava ainda mais fortemente a diferença existente entre si e o
ministério da lei. A lei gravada em pedras tinha sido introduzida com glória,
embora essa lei fosse algo que, como meio de relação entre Deus e os
homens, deveria passar. A lei gravada em pedras era “em ministério de
morte”, porque não se podia viver senão observando-a, e ela não podia ser
ordenada senão assentando sobre esse princípio. Uma lei deve ser guardada;
mas sendo o homem já pecador por natureza e por vontade própria, tendo
desejos que a lei proíbe, uma lei assim não poderia ser senão a morte para
ele — era um ministério de morte. E era também “um ministério de
condenação”, porque a autoridade de Deus intervinha para dar à lei a sanção
da condenação contra toda a alma que a violasse. Era um ministério de
morte e de condenação, porque o homem era pecador.
E notemos aqui que misturar a graça com a lei não muda nada ao
efeito desta, antes pelo contrário, agrava a penalidade que dela resulta,
agravando a culpabilidade daquele que a viola, tanto mais que a viola a
despeito da bondade e da graça; porque a lei é sempre a lei, e o homem era
chamado a satisfazer à responsabilidade em que a lei o colocava: “Riscarei
do meu livro todo aquele que pecar contra mim”, diz o SENHOR a Moisés.
A figura empregada pelo apóstolo (versos 7 e seguintes) mostra que ele se
refere à segunda descida de Moisés do monte Sinai, quando ouviu
proclamar o Nome do SENHOR, misericordioso e fazendo graça (ver
Êxodo 34). A primeira vez que Moisés desceu do Sinai, a sua face não
resplandecia; ele tinha quebrado as tábuas da lei antes de entrar no
acampamento (Êxodo 32).
A segunda vez, Deus tinha, feito passar toda a Sua bondade diante
dele, e a face de Moisés refletia a glória que ele tinha visto, por muito
parcial que tivesse sido. Mas nem sequer este reflexo Israel podia suportar!
Com efeito, como suportar essa glória quando, bem vistas as coisas, ela
julgava os segredos do coração?! Porque, embora a graça mostrada,
poupando o povo, em resposta à intercessão de Moisés, a exigência da lei
era sempre mantida, e cada um devia sofrer por si mesmo as consequências
da sua desobediência.
Assim, o caráter da lei impedia Israel de compreender mesmo a
glória que se encontrava nas ordenanças, como figura do que era melhor e
permanente; e todo o sistema ordenado por intermédio de Moisés estava
velado aos olhos do povo, que caía sob a letra, até mesmo naquela parte da
lei que era em testemunho das coisas que deviam ser ditas mais tarde. E
tudo se processava de harmonia com a sabedoria de Deus, porque dessa
maneira todo o efeito da lei, como introduzida para atuar sobre o coração e
sobre a consciência do homem, era plenamente desenvolvido.
Há muitos Cristãos que fazem do próprio Cristo uma lei, e que,
pensando no amor do Salvador como num novo motivo para os obrigar a
amar, não pensam nisso senão como uma obrigação, como uma enorme
dilatação da medida da obrigação que pesa sobre eles — obrigação a que
eles se sentem sujeitos. Deste modo estão sempre sob a lei e, por
consequência, sob a condenação.
Ora, o ministério que o apóstolo cumpria era outro; era o ministério
da Justiça e do Espírito. Não um ministério exigindo do homem a Justiça,
para que pudesse permanecer na presença de Deus, mais um ministério que
revelava a Justiça. E Cristo era essa Justiça, feito tal da parte de Deus por
amor de nós — e nós somos feitos pela Justiça de Deus n'Ele. O Evangelho
proclamava a Justiça da parte de Deus, em lugar de a exigir do homem
segundo a lei. Ora, o Espírito Santo podia ser o selo dessa Justiça; podia
descer sobre o Cristo Homem, porque Ele era perfeitamente aprovado de
Deus, porque Ele era justo — o Justo.
E o mesmo Espírito pode descer sobre nós, porque somos feitos a
Justiça de Deus em Cristo. Assim, o ministério do apóstolo era o ministério
do Espírito: O poder do Espírito atuava ali. O Espírito era dado quando se
recebia, pela fé, o que nos era anunciado. E com o Espírito recebia-se
também a compreensão dos pensamentos e dos desígnios de Deus, tal como
eram revelados na Pessoa de um Cristo glorificado em quem a Justiça de
Deus era revelada e subsistia eternamente perante Ele.
Portanto o apóstolo, nesta passagem, reúne numa mesma noção
complexa, o pensamento de Deus na Palavra compreendida segundo o
Espírito, a glória de Cristo que ali tinha sido escondida sob a letra, e o
próprio Espírito Santo, que lhe dava a Sua força, que revelava essa glória, e
que, permanecendo e atuando no crente, o tornava capaz de dele gozar. É
por isso que, onde havia o Espírito, havia a liberdade! Já se não estava sob o
jugo da lei, do temor da morte e da condenação. Estava-se em Cristo
perante Deus, estava-se em paz perante Ele, segundo o Seu perfeito amor e
segundo este favor que é melhor do que a vida, e do qual se gozava tal
como ele brilhava sobre Cristo, sem véu! Estava-se ali segundo a graça que
reina pela Justiça. Quando nos é dito, no verso 17: “Ora o Senhor é
espírito”, é feita alusão ao verso 6; os versos 7-16 formam um parêntesis.
Cristo glorificado é o verdadeiro pensamento do Espírito, o qual Deus tinha
precedentemente escondido sob figuras — e eis a consequência prática:
Contemplamos o Senhor sem mistério; podemos contemplá-Lo assim! A
glória da face de Moisés julgava os pensamentos e as intenções do coração,
causava o temor, ameaçando de morte e de condenação o desobediente e o
pecador. Quem poderia permanecer na presença de Deus? Mas a glória da
face de Jesus, a glória de um Homem no Céu, é a prova de que todos os
pecados daquele que vê essa glória estão apagados, porque Aquele que está
nessa glória os levou a todos sobre Si, antes de subir ao Alto, antes de entrar
nessa glória. E nós contemplamos essa glória pelo Espírito que nos foi dado
em virtude de Cristo ali ter entrado. Cristo não “diz, como Moisés:
“Subirei... porventura farei propiciação” (Êxodo 32:30); mas fez a
propiciação — e subiu depois!
É por isso que nós contemplamos essa glória com alegria; gostamos
de a ver! Cada um dos seus raios, que nós vemos brilhar, é uma prova de
que, aos olhos de Deus, os nossos pecados já não existem. Cristo foi feito
pecado por nós; mas agora está na glória! Ora, contemplando assim a glória
com afeto, com inteligência, encontrando nela as nossas delícias, somos
mudados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo poder do
Espírito, que nos torna capazes de realizarmos essas coisas — e delas
gozarmos! Nisto está o progresso do Cristão, e, deste modo, a Igreja torna-
se também a Carta de Cristo.
A alusão feita aos Judeus, no fim do parêntesis, onde o apóstolo
compara os dois sistemas, é das mais impressionantes.
O véu — diz ele — é tirado em Cristo. Agora nada mais está velado.
A gloriosa substância do que estava escondido sob as figuras, existe. O véu
está sobre o coração dos Judeus, quando leem o Antigo testamento. Ora,
todas as vezes que Moisés entrava no tabernáculo, para falar a Deus ou para
O escutar, tirava o véu. Assim — diz o apóstolo — quando Israel se voltar
para o Senhor, o véu será tirado.
Resta apenas uma observação a fazer: “O que permanece” (verso
11) é o assunto de que trata o Evangelho, e não o ministério que o anuncia.
A glória da Pessoa de Jesus Cristo, a substância daquilo de que as
ordenanças judaicas eram simples figuras, nunca passarão.

 
CAPÍTULO 4
 
O apóstolo volta agora ao seu ministério em relação com os seus
sofrimentos, mostrando o que esta doutrina de um Cristo vencedor da
morte, quando é verdadeiramente recebida no coração, nos torna vitoriosos
de todo o temor da morte e de todos os sofrimentos que se ligam ao vaso de
barro em que esse tesouro é transportado.
Tendo recebido o ministério da Justiça e do Espírito, de que Cristo
glorificado, contemplado de face desvelada, é o fundamento, o apóstolo não
só usava de grande elevação de linguagem, mas também não fazia
concessões; a sua fé não vergava perante as dificuldades. Além disso, com a
coragem que, pela graça, esta doutrina lhe dava, ele não escondia nada
dessa glória, não a enfraquecia em nada; não corrompia a doutrina,
manifestando-a tão pura, tão brilhante de claridade como a tinha recebido:
era a Palavra de Deus. E nós recebemo-la do apóstolo tal como ele próprio a
recebera, inalterada, tomando-se assim aprovado e recomendando-se a toda
a consciência de homem perante Deus. Nem todos poderiam dizer o
mesmo...
A glória do Senhor Jesus sobressaía da pregação do apóstolo em
toda a clareza e esplendor com que essa glória lhe tinha sido revelada. Se,
pois, a Boa Nova que ele anunciava estava escondida, não era como no caso
de Moisés.
Agora, não só a glória do Senhor era plenamente revelada, de face
descoberta, em Cristo, mas era também manifestada sem véu na pregação
pura do apóstolo. E eis a ligação estabelecida entre a glória realizada na
Pessoa de Cristo, como resultado da obra da redenção, e o ministério que,
pelo poder do Espírito Santo, agindo no instrumento escolhido do Senhor,
anunciava ao mundo essa glória. Este ministério tomava os homens
responsáveis pela recepção da verdade, da submissão a esse Cristo glorioso
que, do Céu, Se anunciava em graça como tendo satisfeito a Justiça para o
pecador, convidando a vir livremente para gozar do amor e da bênção de
Deus.
Não há outro modo de nos aproximarmos de Deus. Tentar
estabelecer outro, seria pôr de lado e declarar insuficiente e imperfeito o
que Cristo fez e o que Ele é e querer produzir algo melhor do que Ele; mas
isso é impossível, porque o que o apóstolo anunciava ora a manifestação da
glória de Deus na Pessoa do Filho, em relação com a revelação do perfeito
amor e do cumprimento da perfeita e divina Justiça, de modo que a pura luz
era a feliz habitação daqueles que lá entravam pelo meio anunciado pelo
apóstolo.
Não podia haver algo mais, a não ser que houvesse algo superior a
Deus na plenitude da Sua graça e da Sua perfeição.
Portanto, se essa revelação estava escondida, só o estava para
aqueles que estavam perdidos, para aqueles a quem o deus deste mundo
tinha cegado o entendimento, para que a luz da Boa Nova da glória de
Cristo, que é a imagem de Deus, não resplandecesse nos seus corações.
Em vez de “o Evangelho da glória de Cristo”, aparece-nos algumas
vezes traduzido: “o glorioso Evangelho”, mas não é este o sentido do que
está escrito. Vimos já que o fato de Cristo estar na glória, de a glória de
Deus ser vista na Sua face, era o assunto especial do capítulo precedente.
Aqui o apóstolo faz-lhe alusão como sendo o que caracterizava o Evangelho
que ele pregava. Era a prova de que o pecado que Cristo tinha levado estava
inteiramente tirado; era a prova da Sua vitória alcançada sobre a morte, e da
introdução do homem na presença de Deus em glória, segundo os planos do
amor de Deus. Era ao mesmo tempo a completa manifestação da glória de
Deus no homem, segundo a graça, que o Espírito Santo nos mostra, a fim de
nos transformar à mesma semelhança. Era o glorioso ministério da Justiça e
do Espírito que abria ao homem um caminho livre para Deus, um caminho
para entrar com toda a liberdade mesmo dos lugares santos.
Quando Cristo era assim anunciado, como consequência vinha a
alegre aceitação da Boa Nova, a submissão do coração ao Evangelho — ou
então a cegueira por Satanás; porque Paulo não se pregava a si mesmo
(como outros faziam), mas pregava a Jesus Cristo o Senhor, e não se
apresentava Aqueles a quem se dirigia senão como servo deles por amor de
Jesus. Com efeito — e eis aqui um outro princípio muito importante — o
esplendor do Evangelho da glória de Cristo é a obra do poder de Deus que,
pela Sua palavra, fez aparecer instantaneamente a luz do seio das trevas.
Deus tinha resplandecido no coração do apóstolo para fazer brilhar o
conhecimento da Sua própria glória em Jesus Cristo. O Evangelho brilhava
por uma operação divina semelhante àquela que, no princípio, tinha feito
brilhar a luz do seio das trevas por uma simples frase.
O coração do apóstolo era o vaso, a lâmpada onde essa luz tinha
sido acesa para brilhar no mundo, diante dos homens.
O que brilhava era a revelação da glória que resplandecia na pessoa
de Cristo, e que, pelo poder do Espírito de Deus, agia no coração do
apóstolo para que essa glória brilhasse pelo Evangelho diante do mundo. O
poder de Deus operava para a fazer brilhar, como o tinha feito pela frase:
“Haja luz. E houve luz.” Mas o tesouro desta revelação da glória era
deposto nos vasos de barro, a fim de que o poder que atuava nessa
revelação fosse somente o de Deus, e não odos instrumentos. Em todos os
instrumentos se mostrava, a fraqueza que lhes era própria nas circunstâncias
de prova por que Deus — com esse mesmo fim, entre outros — fazia passar
o testemunho. No entanto o poder de Deus manifestava-se de maneira tanto
mais evidente quanto o vaso revelava a sua fraqueza no meio das
dificuldades que encontrada no seu caminho: Prestava-se o testemunho,
fazia-se a obra, produzia-se o resultado mesmo quando o homem estava
abatido e se encontrava sem recursos frente à oposição que era levantada
contra a verdade.
O homem era afligido pela tribulação — era o vaso — mas não
reduzido a zero, porque Deus estava com ele; o homem estava sem meios
de sair da tribulação — era o vaso — mas não sem recurso, porque Deus
estava lá; o homem era perseguido — era o vaso — mas não abandonado,
porque Deus estava com ele; o homem era deitado por terra — era o vaso
— mas não destruído, porque Deus o guardava. Paulo trazia sempre no seu
corpo a morte de Jesus (ele tinha sido feito semelhante a Jesus naquilo que
o homem, como tal considerado, era reduzido a nada) para que a vida de
Jesus, que a morte não podia atingir e que triunfou da morte, fosse
manifestada no seu corpo, por muito mortal que este fosse. Quanto mais o
homem mortal era oprimido, mais evidente se tornava que havia ali um
poder que não era do homem. Era este o princípio, mas espiritualmente
realizado no coração pela fé. Como servo do Senhor, Paulo realizava no seu
coração a morte de tudo o que era vida humana, a fim de que o poder fosse
exclusivamente o de Deus, por Jesus ressuscitado. Mas, a par disso, Deus
fazia-lhe realizar essas coisas devido às circunstâncias pelas quais ele tinha
de passar; porque, vivendo neste mundo, ele estava sempre entregue à
morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus fosse manifestada na sua
carne mortal. A morte operava assim no apóstolo: o que era somente do
homem, da natureza e da vida natural, desaparecia, para que a vida em
Cristo, manifestando-se nele da parte de Deus e pelo Seu poder, operasse
nos Coríntios por seu intermédio. Que ministério! Que prova completa do
coração do homem, que vocação gloriosa para um homem o ser assim
assemelhado a Cristo, ser o vaso do poder da Sua vida pura, e por meio de
uma abnegação absoluta de si mesmo e da própria vida, ser moralmente
semelhante a Jesus! Que posição, pela graça, que conformidade a Cristo!
E era desta maneira que ela passava por um coração de homem para
atingir o coração do homem (o que, com efeito, é da própria essência do
Cristianismo), não, certamente, pela força do homem, mas pela força de
Deus manifestando-se na fraqueza do homem.
É por esta razão que o apóstolo se pode servir das palavras do
Espírito de Cristo nos Salmos: “Cri, por isso falei”.
Quer dizer: Seja por que preço for, a despeito de todo o perigo, de
toda a oposição, eu falei por Deus, prestei o meu testemunho; tive bastante
confiança em Deus para prestar testemunho a Deus e à Sua verdade, fossem
quais fossem as consequências, ainda que eu tivesse de morrer ao fazê-lo.
Quer dizer ainda; Eu agi como o próprio Cristo tem feito, porque sei que
Aquele que ressuscitou a Jesus fará o mesmo por mim e me apresentará
convosco perante a Sua face, nessa mesma glória em que Cristo se encontra
no Céu; e pelo testemunho que prestei a essa glória, eu sofri a morte como
Ele. É necessário saber distinguir entre os sofrimentos de Cristo pela Justiça
e pela Sua obra de amor, e os Seus sofrimentos por causa do pecado.
Quanto aos primeiros, é nosso privilégio partilhá-los com Ele; mas nos
Outros, Ele está só!
O apóstolo diz: “Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, nos
ressuscitará também, por Jesus, e nos apresentará convosco”, porque,
acrescenta ele, segundo o coração e o pensamento de Cristo para com os
Seus: “Tudo isto é por amor de vós, para que a graça, multiplicada por meio
de muitos, faça abundar a ação de graças, para glória de Deus”. E por isso
que o apóstolo se não deixa desencorajar; pelo contrário, se o homem
exterior enfraquecia, o homem interior renovava-se de dia para dia. Porque
a ligeira aflição, que não durava senão um momento ele assim a
considerava, em vista da glória; não era, para ele, senão aflição passageira
desse pobre corpo agonizam-te, produzia, para ele, uma medida eterna de
glória que ultrapassava toda a expressão, mesmo a mais sublime, da
linguagem e dos pensamentos humanos. E essa renovação tinha lugar — e o
desencorajamento não podia apoderar-se dele, sucedesse o que sucedesse —
não no que dizia respeito às coisas que se veem, que são temporais, mas sim
no que dizia respeito às coisas que se não veem, que são eternas. Assim, o
poder da vida divina, com todas as suas consequências, desenvolvia-se na
alma do apóstolo, pela fé. E ele, da parte de Deus, conhecia o resultado
final de tudo.

 
CAPÍTULO 5
 
Não é somente que haja coisas invisíveis e gloriosas: os Cristãos
têm ali a sua parte. Nós sabemos — diz o apóstolo em nome de todos —
que se esta casa terrestre, passageira como é, for destruída (e pouco faltou
para que isso tivesse acontecido a Paulo), temos um edifício da parte de
Deus, uma casa não feita por mãos, eterna, nos Céus.
Preciosa certeza! E ele sabia-o! Os Cristãos sabem-no como sendo
uma parte da sua fé. Nós sabemos (1) — certeza que fazia com que essa
glória, que ele sabia pertencer-lhe, fosse, pelo poder do Espírito Santo, uma
esperança real e prática no seu coração, uma realidade presente pela fé.
 
(1) Este “nós sabemos” é, na verdade, uma expressão técnica, para
dizer o que é a porção dos Cristãos. “Nós sabemos que a lei é espiritual”;
“Nós sabemos que é vindo o Filho de Deus”, etc.
 
Ele via essa glória como uma coisa que lhe pertencia, e de que ele
devia ser revestido. Era por isso também que ele gemia na sua tenda; não,
como tantos fazem, porque os desejos da sua carne não podiam ser
satisfeitos, e a satisfação do coração não se encontrava, para o homem,
mesmo quando esses desejos eram satisfeitos, nem porque ele estivesse
incerto da sua aceitação e não soubesse se a glória era sua ou não, mas
porque o corpo constituía um entrave que tendia a enfraquecer a vida divina
e a privá-lo do pleno gozo dessa glória que a nova vida via e desejava, e que
Paulo via e admirava como sendo sua. Era, para o apóstolo, um fardo esta
natureza humana terrestre. Não representava, para ele, um sacrifício o não
poder satisfazer os desejos dessa natureza, mas era uma pena o encontrar-se
ainda nessa natureza mortal, porque ele via algo de infinitamente melhor.
Não se tratava, porém, que ele desejasse ser despojado, porque via
no Cristo glorificado um poder de vida capaz de absorver e de anular todo o
vestígio de mortalidade; e o fato de Cristo estar no Céu, na glória, era o
resultado desse poder e ao mesmo tempo a manifestação da porção celeste
que pertence aos Seus. Assim, o apóstolo desejava, não ser despojado, mas
sim revestido, e que o que era mortal nele fosse absorvido pela vida, que a
mortalidade que caracterizava a sua natureza humana terrestre
desaparecesse diante do poder de vida que ele via em Jesus e que era a sua
vida. E este poder era de tal ordem que não era necessário morrer. Ora, isto
não era uma esperança que não tivesse por fundamento, senão aquilo que o
desejo, revelado pela visão da glória, pudesse produzir, porque Deus tinha
formado os Cristãos para isso mesmo. Aquele que era Cristão tinha sido
formado com esse fim e não para qualquer outra coisa. Era o próprio Deus
que o tinha formado para essa glória, na qual Cristo, o último Adão, estava
à direita de Deus. Que preciosa segurança!
Que feliz confiança na graça e na poderosa obra de Deus!
Que inefável alegria podermos atribuir tudo ao próprio Deus,
sermos assim assegurados do Seu amor, podermos glorificá-Lo como sendo
o Deus de amor, o nosso Benfeitor, sabermos que é a Sua obra e
descansarmos numa obra assim realizada — a obra de Deus! Não se trata de
descansarmos numa obra feita por nós; mas é — coisa preciosa! — a
consciência que nós temos de que Deus nos fez para isso: “Nós somos a
Sua obra”.
No entanto uma outra coisa era necessária para gozarmos desta
esperança, enquanto não estivermos glorificados de fato. E Deus no-la deu:
é a garantia do Espírito. Assim, temos a glória perante nós; somos formados
para ela pelo próprio Deus e temos a garantia do Espírito até que estejamos
na glória, e sabemos que Cristo venceu de tal maneira a morte que, se o
tempo chegasse agora mesmo, seríamos transformados em glória, sem
passarmos pela morte.
O que é morte em nós seria absorvido pela vida. Tal é, por graça, a
nossa porção no último Adão, pelo poder de vida em que Cristo foi
ressuscitado.
Mas em seguida o apóstolo trata do efeito da vida quanto à porção
natural do primeiro homem caído, da morte e do julgamento, porque o
testemunho aqui é completo. Qual é, pois, o efeito da posse da vida em
Cristo, aplicado à morte e ao julgamento, os dois objetos naturais dos
temores do homem, fruto do pecado? Embora os nossos corpos não estejam
ainda transformados e o que é mortal em nós não esteja ainda absorvido
pela vida, estamos do mesmo modo cheios de confiança, porque, sendo
formados para a glória, e sendo Cristo, que manifestou o poder vitorioso
que lhe abriu o caminho do Céu, a nossa vida, se deixarmos esta tenda e
estivermos ausentes do corpo antes de sermos revestidos da glória, esta
vida, que possuímos, fica intacta; ela tem já, em Jesus, triunfado de todos os
efeitos do poder da morte. Assim, se morrermos, estaremos presentes com o
Senhor, porque andamos pela fé — e não pela vista das excelentes coisas
que esperamos. Por isso preferimos estar ausentes do corpo e estar
presentes com o Senhor. É por isso que procuramos ser-lhe agradáveis, quer
sejamos achados ausentes quer presentes neste corpo, quando Jesus vier
para nos tomar para Si e nos fazer partilhar a Sua glória.
E isto leva-nos ao segundo ponto — o julgamento. Porque é preciso
que sejamos todos manifestados perante o tribunal de Cristo, a fim de que
cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou
mal (versos 9-10). Pensamento feliz e precioso, afinal de contas, por muito
solene que seja; porque, se tivermos realmente compreendido a graça, se
estivermos fundados na graça, se soubermos o que Deus é, que Ele é todo
amor para nós, que Ele é todo luz para nós, nós gostaremos de estar na
plena luz. E é uma preciosa libertação o encontrarmo-nos ali. É um fardo,
um peso no coração o ter algo escondido; mas, embora tenha havido em nós
muitos pecados que ninguém conheça, talvez mesmo pecados que tenhamos
cometido e que não seria proveitoso para ninguém conhecê-los, é um alívio,
se conhecermos o perfeito amor de Deus, sabermos que tudo está em
perfeita luz perante Ele. É o que sucede pela fé, e para a fé, em todos os
casos em que se goza de uma paz sólida. Estamos perante Deus tal como
somos, e encontramo-nos ali tal como estamos, quer dizer, encontramo-nos
ali em nós mesmos, somente pecado, infelizmente, exceto naquilo que o
próprio Deus operou em nós, vivificando-nos. E Deus é todo amor nesta luz
em que nos encontramos, porque Deus é luz, e Ele mesmo Se revela.
Sem o conhecimento da graça, nós temamos a luz, e nem poderia ser
de outra maneira; mas quando conhecemos a graça, quando sabemos que o
pecado foi tirado para todo aquele que vê a glória de Deus e que a ofensa já
não está sob os Seus olhos, gostamos de estar na luz. É uma alegria para nós
e é disso que o coração tem necessidade; ele não pode estar satisfeito se não
estiver nessa luz, quando animado da vida do novo homem. A natureza do
novo homem consiste em amar a luz, em amar a pureza em toda a sua
perfeição, pureza que não admite o mal das trevas e que exclui tudo o que
não for ela mesma. Ora, estar assim na luz e “ser manifestado” é uma só e
mesma coisa, porque a luz tudo manifesta.
Nós estamos na luz pela fé quando a nossa consciência está na
presença de Deus; seremos de harmonia com a perfeição dessa luz quando
comparecermos perante o tribunal de Cristo. Tenho dito — e assim é — que
é uma coisa solene tudo ser julgado de acordo com essa luz, mais é
precisamente disso que o coração gosta, porque — graças sejam dadas ao
nosso Deus — nós somos luz no Senhor.
Mas há mais: Quando o Cristão é assim manifestado, está já
glorificado e perfeitamente semelhante a Cristo — e já não tem nenhum
resto da má natureza em que pecou.
Pode olhar para trás, para todo o caminho pelo qual Deas o conduziu
em graça, o ajudou, o susteve, o guardou de cair, Ele, que não retira os Seus
olhos de sobre o justo.
O Cristão conhece agora como tem sido conhecido. Que história de
graça e de misericórdia! Se agora olho para trás, os meus pecados não
pesam na minha consciência, embora deles tenha horror. Deus deitou-os
para trás das costas. Eu sou a justiça de Deus em Cristo; mas que
sentimento de amor e de paciência, de bondade e de graça!
Como tudo aparecerá então mais perfeito, quando tudo estiver
diante de mim! Certamente haverá um grande ganho quanto à luz e ao
amor, quando dermos conta de nós mesmos a Deus, sem que reste em nós
qualquer vestígio de mal. Seremos então semelhantes a Cristo. E se alguém
temer ver tudo assim colocado diante de Deus é porque — penso eu — não
está ainda liberto quanto à Justiça, quanto a ser Justiça de Deus em Cristo;
ainda não está plenamente na luz. Nós não teremos de ser julgados pelo que
quer que seja: Cristo já pagou por nós.
Mas há ainda outra dela na passagem que estudamos, a saber, a da
retribuição. O apóstolo não fala de um julgamento das pessoas, porque os
santos estão nelas incluídos, e Cristo colocou-se no lugar deles pelo que
concerne ao julgamento: Nenhuma condenação há para os que estão em
Cristo Jesus. Não entram em julgamento, mas todos serão manifestados
perante o tribunal de Cristo, e receberão segundo o que tiverem feito por
meio do corpo. O bem não merece nada; eles receberão pelo bem que
tiverem feito. Foi a graça que o produziu neles; porém, terão a recompensa:
o que fizerem será estimado como sendo deles.
Todavia, se, negligenciando a graça e o testemunho do Espírito nele,
os frutos que o Cristão devia ter produzido foram desviados, ele sofrerá as
consequências. Não é que, em tal caso. Deus o tenha abandonado; não é que
o Espírito Santo não tenha atuado nele, devido ao seu estado; simplesmente,
a ação exercer-se-á na consciência do crente, julgando a carne que a
impediu de dar o fruto próprio da presença do Espírito Santo e da Sua
operação no novo homem. De modo que o Espírito Santo terá feito tudo o
que era necessário em relação ao estado do coração onde Ele permanecia; e
o perfeito plano de Deus acerca da mesma pessoa terá sido cumprido, a Sua
paciência terá sido manifestada, do mesmo modo que a Sua sabedoria, os
Seus caminhos em governação e os cuidados que Ele há por bem tomar de
cada crente individualmente, no Seu amor, pleno de condescendência. Cada
qual terá o seu lugar, segundo o que lhe for preparado pelo Pai; mas o fruto
natural, resultante da presença e da operação do Espírito Santo numa alma
que tem ou que deveria ter tido, de harmonia com as vantagens de que tem
gozado, uma certa medida de luz, esse fruto — digo eu — não terá sido
produzido. Mas o que tem impedido a sua produção será manifestado. Tudo
o que era bem e mal em si mesmo será julgado segundo o julgamento de
Deus, com um sentimento solene do que Deus é, e uma fervorosa adoração
por causa do que Ele tem sido para nós. A perfeita luz será apreciada, os
caminhos de Deus serão conhecidos e compreendidos em toda a sua
perfeição, aplicando a perfeita luz a toda a continuação da nossa vida e dos
caminhos de Deus para conosco, nos quais reconheceremos plenamente que
o amor perfeito e soberano acima de todas as coisas tem reinado com graça
inefável.
Assim, a majestade de Deus terá sido mantida pelo Seu julgamento,
ao mesmo tempo em que a perfeição e a ternura dos Seus caminhos
permanecerão gravados como eterna recordação nas nossas almas. A luz
sem nuvens nem trevas será compreendida na sua própria perfeição.
Compreendê-la é estar nela e dela beneficiar. Ora, a luz é o próprio Deus,
porque Deus é Luz. Que coisa maravilhosa ser assim manifestado!
Que amor este que, na sua perfeita sabedoria e nos seus
maravilhosos caminhos, dominando todo o mal, pôde trazer seres como nós
ao gozo desta bendita luz sem nuvens!
Que amor este que pôde trazer ao gozo desta luz seres que têm o
conhecimento do bem e do mal, prerrogativa natural somente daqueles de
quem Deus pode dizer: “Um de nós”; seres que estavam sob o jugo do mal,
que eles conheciam, e impelidos por uma má consciência para longe da
presença de Deus, a quem este conhecimento pertencia! Sim, que amor este
que introduziu na pura luz seres que tinham nas suas consciências um
testemunho bastante poderoso do que era o julgamento de Deus, para lhes
fazer evitar a Sua presença e para serem infelizes, e nada que os atraísse
para um tal amor, pois só Ele podia trazer o remédio para tanta miséria! Que
amor e que santa sabedoria se encontravam em Deus, para levar tais seres à
fonte do bem, da pura felicidade, onde o poder do bem repele
terminantemente o mal que o bem julga.
Pelo que diz respeito aos injustos, eles terão, no dia do julgamento,
de responder pessoalmente pelos seus pecados, sob uma responsabilidade
que pesa inteiramente sobre eles próprios.
Qualquer que seja a felicidade que sintamos por nos encontrarmos
em perfeita luz — e essa felicidade é completa e divina no seu caráter — é
quanto à consciência que o assunto é apresentado aqui. Deus mantém a Sua
majestade pelo julgamento que executa, como está escrito. “O Senhor é
conhecido pelo Juízo que fez” (Salmo 9:16). Lá, no Seu governo do mundo;
aqui, no Seu julgamento eterno, final e pessoal. E, pela minha parte, eu
creio que é de grande proveito para a nossa alma que tenhamos o
julgamento de Deus sempre presente nos nossos pensamentos, e que o
sentimento da imutável majestade de Deus seja mantido na nossa
consciência por esse meio. Se não estivéssemos sob a graça, isso seria e
deveria ser insuportável; mas a manutenção do sentimento da majestade de
um Deus Juiz não contradiz a graça; pelo Contrário, é somente sob a graça
que ele pode existir de verdade — porque, de outro modo, se não se tratasse
de um homem completamente cego, quem suportaria, por um instante
sequer, o pensamento de “receber segundo o que tivesse feito por meio do
corpo?”...
Mas a autoridade, a santa autoridade de Deus, que se afirma ela
própria no julgamento, constitui uma parte das nossas relações com Ele; e a
conservação desse sentimento de que falamos, associado ao pleno gozo da
graça, forma uma parte das nossas santas afeições espirituais. É o temor do
Senhor; é-o no sentido de que “Bem-aventurado o homem que
continuamente teme” (Provérbios 28:14). Se o pensamento do julgamento
enfraquece o sentimento de que o amor de Deus repousa plenamente,
eternamente sobre nós, deixamos o único terreno possível de qualquer
relação com Deus — a menos que se chame à perdição uma relação.
Mas na doce e pacífica atmosfera da graça, a consciência mantém os
seus direitos e a sua autoridade contra as sobres invasões da carne, e faze-o
pelo sentimento cio julgamento de Deus, em virtude de uma santidade que
não saberia estar separada do caráter de Deus sem negar que Deus existe.
Porque, se há um Deus, Ele é santo. A consciência de que devemos todos
ser manifestados perante o tribunal de Cristo obriga o coração do crente,
aceite de Deus, a procurar agradar ao Senhor em todas as circunstâncias; e,
no sentimento de tudo o que há de solene para um pecador comparecer
diante de Deus, o amor que, necessariamente, acompanha esse sentimento
no coração do crente, impulsiona este a persuadir os outros em vista da sua
salvação, enquanto que ele mantém a sua própria consciência na luz. Ora,
aquele que agora anda na luz, aquele de cuja consciência reflete essa luz,
não a temerá no dia em que ela aparecer na sua glória. Carecemos, de ser
manifestados; porém, andando na luz, no sentimento do temor de Deus,
realizando o Seu julgamento do mal, somos já manifestados perante Deus e
nada impede a doce e segura corrente do Seu amor.
Em consequência disto o comportamento daquele que é manifestado
perante Deus legitima-se por fim na consciência dos outros; é manifestado
como andando na luz.
Portanto, encontramos aqui os dois grandes princípios práticos do
ministério: Primeiro, andar na luz, no sentimento do julgamento solene de
Deus acerca de cada um.
Segundo, estando a consciência, assim pura, na luz, esse sentimento
do julgamento (que não pode, por si próprio, perturbar a alma nem
obscurecer a vista que ela tem do amor de Deus) impulsiona o coração a
procurar, por amor, as almas em perigo desse julgamento. Isto liga-se à
doutrina de Cristo, o Salvador, pela Sua morte sobre a Cruz; e o amor de
Cristo nos constrange, porque vemos que, se um é morto por todos, é
porque todos estavam mortos.
Tal era o estado universal das almas. O apóstolo procura essas almas
a fim de que elas vivam por Cristo em Deus.
Mais isto vai mais longe: Primeiramente, pelo que respeita ao que
era a sorte do homem caído, a morte, é um ganho para o crente: Se está
ausente do corpo, está presente com o Senhor. Quanto ao julgamento,
reconhece-lhe a solenidade, mas não o teme. Ele está em Cristo; será
semelhante a Cristo, e Cristo, perante quem ele deve ser manifestado, tirou-
lhe todos os pecados pelos quais ele devia ser julgado.
O efeito produzido, trazendo-o agora plenamente manifestado na
presença de Deus, é um efeito santificante, estimulando o seu amor para
com os outros. Não é somente pelo temor do julgamento futuro para eles; o
amor de Cristo o Constrange — o amor manifestado na morte. E isto prova
mais do que os atos de pecado, porque conduzem ao julgamento; Cristo está
morto, porque todos estavam mortos.
O Espírito de Deus vai à fonte e à raiz de toda a condição deles, do
seu estado, e não considera somente os frutos de uma má natureza: Todos
estavam mortos. Temos o mesmo e importante ensinamento em João 5:24:
“Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida
eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida”;
saiu, como um ser já perdido, de todo esse estado e dessa condição, e
passou para um outro estado e uma outra condição em Cristo. Isto constitui
um aspecto muito importante da verdade, e a distinção entre esses dois
estados, embora largamente desenvolvida em Romanos, encontra-se
também em várias outras passagens. A obra da manifestação perante Deus
na luz é já verdadeira, pelo que concerne ao termos realizado a luz. Não
posso eu agora, estando em paz, olhar para trás, para ver o que eu era antes
da minha conversão, e para todas as minhas faltas desde a minha conversão,
humilhado, mas adorando a graça de Deus em tudo o que Ele fez por mim,
embora sem um pensamento de temor ou de imputação de pecado? Não me
desperta isto um profundíssimo sentimento de tudo o que Deus é em santa
graça e em amor, em ilimitada paciência para comigo, guardando-me,
ajudando-me e restaurando-me? Tal será o caso, de modo perfeito, quando
formos manifestados, quando conhecermos como temos sido conhecidos.
Para que este ponto se tornasse mais claro — porque ele é
sobremaneira importante — acrescentarei aqui mais algumas observações:
o que encontramos nesta passagem é a perfeita manifestação de todo o que
uma pessoa é e tem sido perante um trono caracterizado pelo julgamento,
sem que a pessoa em questão seja condenada como culpada. Sem dúvida
que, quando o malfeitor recebe segundo o que tiver feito por meio do corpo,
ele é condenado. Mas não nos é dito aqui que ele é “julgado”, porque então
todos deviam ser condenados.
Mas essa manifestação é precisamente o que, moralmente, leva tudo
perante o coração, quando ele é capaz de, por si mesmo, julgar o mal. Se
estivesse sob o julgamento, não poderia fazê-lo; mas, liberto de todo o
temor, na perfeita luz e sim a consolação do amor perfeito — porque lá
onde temos a consciência do pecado, sem que ele nos seja imputado, temos
o sentimento, embora de uma maneira que humilha, do amor perfeito — e
ao mesmo tempo com o sentimento da autoridade e do governo divino,
plenamente demonstrados na alma, tudo é julgado pela própria alma como
Deus o julga, e em comunhão com Ele. E isto é extremamente precioso.
Convém lembrarmo-nos de que, quando comparecermos perante o
tribunal de Cristo, estamos já glorificados. O próprio Cristo veio, no Seu
grande amor, procurar-nos, e mudou o nosso corpo de humilhação, pondo-o
em conformidade com o corpo da Sua glória. Somos glorificados e
semelhantes a Cristo, antes do julgamento ter lugar. E note-se o efeito
produzido em Paulo. Será que o pensamento de ser manifestado desperta
nele a ansiedade ou o temor? De modo nenhum. Ele sabe o quanto o Senhor
deve ter temido; tem-no diante dos olhos, mas, qual é o resultado? Põe-se a
persuadir os outros, que têm necessidade desse temor!...
Há, por assim dizer, duas partes na natureza e no caráter de Deus: A
Sua Justiça, que julga a todos, e o Seu perfeito amor. As duas estão unidas
por nós em Cristo, e são para nós n'Ele. Se, verdadeiramente, realizamos o
que Deus é, ambas terão o seu lugar. Ora, o crente é em Cristo a Justiça que
Deus, no Seu trono, segundo a Sua própria natureza, deve ter perante Ele, se
nós estivermos com Ele e d'EIe gozarmos. Mas Cristo, no tribunal perante o
qual nós estamos, é a nossa Justiça. Ele julga pela Justiça que Ele é, e nós
somos essa Justiça, a Justiça de Deus n'Ele.
É por isso que este ponto (estar perante o tribunal) não pode suscitar
nenhuma questão na alma. Nós adoramos uma tal graça; mas nenhuma
questão é suscitada. E isto não faz senão exaltar o sentimento que nós
próprios temos da graça, fazemos compreendê-la como apropriada ao
homem, tal como ele é, e faze-nos sentir as solenes e terríveis
consequências, se não tivermos a li parte, pois que um tal julgamento há de
ter lugar. É por isso que esta outra e essencial parte dia natureza divina — o
amor — agirá em nós para com os outros; e sabendo o quanto o Senhor
deve ser temido, nós persuadiremos os homens. Assim Paulo (é a
consciência em vista desse tão solene momento) possuía a Justiça que ele
via no Juiz, porque o que julgava era a Sua Justiça; mas então, e em
consequência disso, ele procurava seriamente te com ardor outros para que
eles também fossem salvos segundo a obra que o tinha assim levado junto
de Deus, e é para essa obra que ele se volta (verso 13, etc.). Mas essa vista
do julgamento e da nossa completa manifestação nesse dia tem sobre o
santo um efeito atual de harmonia com a própria natureza do julgamento.
Ele realiza-o pela fé; é manifestado — e não receia sê-lo. Todos os
desígnios passados de Deus para com ele se manifestarão perante ele,
quando estiver na glória; mas ele é manifestado a Deus agora, a sua
consciência é exercitada na luz.
Deste modo o pensamento do tribunal tem um poder atual
santificante.
Note-se o conjunto de poderosos motivos, de princípios de
preeminente importância, que encontramos aqui. Princípios aparentemente
contraditórios, mas que, para uma alma que anda na luz, em lugar de se
contrariarem e de mutuamente se destruírem, se reúnem para darem o seu
caráter completo ao ministro e ao ministério Cristãos.
Primeiramente encontra-se a glória um tal poder de vida que aquele
que o realiza não deseja a morte, porque crê no poder de vida em Cristo o
que pode absorver tudo o que nele é mortal — e vê-o com a certeza de que
dele gozará. O Cristão tem de tal modo a consciência de que possui essa
vida (tendo-o formado Deus para isso mesmo e tendo-lhe dado a garantia
do Espírito) que a morte, se sobrevêm para ele, ela não é senão uma feliz
ausência do corpo para estar presente com o Senhor.
Ora o pensamento de subirmos para Cristo dá-nos o desejo de Lhe
sermos agradáveis, e apresenta Cristo — segundo motivo ou princípio que
forma nesse ministério — como sendo o Juiz que retribuirá a cada um
segundo o que tiver feito por meio do corpo. Aqui, o solene pensamento do
temor que devemos ter de um tal julgamento toma posse do coração do
apóstolo. Que diferença entre este pensamento e o do “edifício da parte de
Deus”, que o apóstolo esperava com segurança; No entanto, este
pensamento não o alarmava, e, no solene sentimento da realidade desse
julgamento, impelia-o a persuadir os outros.
Aqui, porém, é introduzido um terceiro princípio, a saber, o amor de
Cristo tem relação com o estado daqueles que Paulo procurava para os
persuadir. E uma vez que esse amor de Cristo se revelava na Sua morte, ela
é o testemunho comprovativo de que todos estavam já mortos e perdidos.
Assim, encontramos nesta passagem a glória, com a certeza pessoal
de dela gozarmos, e a morte, tornando-se o meio de estarmos presentes com
o Senhor. Em seguida encontramos o tribunal de Cristo e a necessidade de
ao sermos manifestados. E, finalmente, o amor de Cristo, demonstrado na
Sua morte, estando todos já mortos. Como conciliar, como coordenar no
coração esses princípios tão diversos?
O apostolo estava manifestado a Deus; por tal motivo, o
pensamento, de ser manifestado perante o tribunal não produzia, ao mesmo
tempo que a santificação atual, outro efeito sobre ele que não fosse o da
solenidade — porque ele não entrava em julgamento. Mas era, para ele, um
motivo premente de pregar aos outros tem conformidade com o amor que
Cristo tinha manifestado na Sua morte. A ideia do tribunal não enfraquecia
de modo nenhum a certeza que ele tinha de possuir a glória (2).
 
(2) A verdade é que o tribunal é o que mais faz realçar a nossa
segurança perante Deus; porque “como Ele é, nós somos, nós também,
neste mundo”, e, quando Cristo aparecer, nós seremos semelhantes a Ele.
 
A sua alma, na plena luz de Deus, refletia o que se encontrava nessa
luz, a saber, a glória de Cristo elevado (promovido) ao Céu como Homem; e
o amor desse mesmo Jesus era fortificado na sua ativa operação no apóstolo
pela vista do tribunal que esperava todos os homens.
Que maravilhosa combinação de motives nós encontramos nesta
passagem para a formação de tudo aquilo em que Deus se revela, e por que
Ele atua sobre o coração e sobre a consciência do homem! É numa
consciência pura que estas coisas podem ter, todas juntas, a sua força. Se a
consciência não fosse pura, o tribunal obscureceria a glória, pelo menos na
medida em que se tratasse de si próprio, e enfraqueceria o sentimento do
amor de Cristo. De qualquer modo, estaríamos pessoalmente ocupados em
relação com essas coisas, e deveríamos estar. Mas quando a consciência
está pura diante de Deus, ela vê somente um tribunal que não excita
nenhum sentimento de mal-estar pessoal e que, por consequência, tem todo
o seu efeito moral, como um motivo de mais para um andamento sério, e
que empresta uma solene energia à chamada que o amor de Jesus
impulsiona o servo de Deus a dirigir aos homens.
Quanto à medida em que as nossas próprias relações com Deus
entram no serviço que temos de prestar aos outros, para o mostrar, o
apóstolo acrescenta uma outra coisa que caracterizava o seu comportamento
e que era o resultado da morte e da ressurreição de Cristo. Ele vivia numa
esfera completamente nova, numa nova criação que tinha deixado para trás,
como num outro mundo, tudo o que pertencia a uma existência natural na
carne, neste mundo. A verdade que Cristo estava morto para nós
demonstrava que todos estavam mortos e que Ele estava morto para todos, a
fim de que aqueles que vivem já não vivam para si mesmos, mas para
Aquele que por eles morreu e ressuscitou (versos 14-15).
Eles estão em relação com essa nova ordem de coisas em que Cristo
está ressuscitado. A morte é pronunciada sobre todo o resto; tudo é
encerrado sob a morte. Se eu vivo, vivo numa nova ordem de coisas, numa
nova criação, de que Cristo é o tipo e o chefe. Cristo, quanto à Sua relação
cem este mundo, está morto. Tinham podido reconhecê-Lo como o Messias
vivendo sobre a Terra e em relação com promessas feitas a homens vivendo
na carne sobre a Terra, mas o apóstolo já O não conheceu assim. Com
efeito, Cristo, no Seu caráter de Messias, estava morto; e agora,
ressuscitado, tomou um caráter inteiramente novo e celeste.
Por conseguinte, se alguém está em Cristo, pertence a essa nova
criação: é da nova criação. Já não pertence à antiga. As coisas visitas
passaram; eis que tudo se fez novo (versos 16-17). O sistema, ao qual ele
pertence, não é o fruto da natureza humana e do pecado, como tudo o que
nos rodeia neste mundo, segundo a carne. Já considerado como um sistema
moralmente existente perante Deus, nesta nova criação, todas as coisas são
de Deus. Tudo o que ali se encontra é de Deus, d'Aquede que nos
reconciliou Consigo mesmo por Jesus Cristo. Vivemos numa nova ordem
de coisas, um novo mundo, numa nova criação, inteiramente de Deus.
Estamos ali em paz, porque Deus é o centro e a origem dessa nova ordem e
nos reconciliou Consigo mesmo.
E nós gozamos dela, porque somos novas criaturas em Cristo e
porque tudo, nesse novo mundo, Lhe pertence e está em harmonia com esta
nova natureza. Também Deus tinta confiado ao apóstolo um ministério de
reconciliação segundo a ordem de coisas em que Paulo tinha sido admitido.
Estando já reconciliado, e sabendo-o, pela revelação de Deus, que a tinha
realizado para ele, Paulo anunciava agora uma reconciliação de efeito igual
à que ele gozava.
Tudo isto decorria de uma grande e poderosíssima verdade, a saber,
que Deus estava em Cristo. Mas então, para que outros tivessem parte com
ele, e que o apóstolo fosse o ministro da reconciliação, era preciso também
que Cristo fosse feito pecado por nós. E destas duas verdades, uma
apresenta o caráter sob o qual Deus se aproxima de nós; a outra apresenta a
eficácia do que foi operado pelo crente.
A primeira verdade apresentada aqui, em relação com o ministério
do apóstolo, tema destes capítulos, é que Deus estava em Cristo, quando
Cristo estava neste mundo. Não tinha vindo para o julgamento. Deus tinha
descido em amor para o mundo afastado d'Ele. Tal tinha sido o Cristo; Deus
estava n'Ele. Três coisas se ligavam a esta grande e essencial verdade e a
caracterizavam. Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo,
não lhe imputando as suas faltas e pondo no apóstolo a palavra da
reconciliação.
Como efeito desta terceira consequência da encarnação, o apóstolo
toma o caráter de embaixador de Cristo; como se Deus exortasse por seu
intermédio, Paulo suplicava aos homens, em nome de Cristo, que se
reconciliassem com Deus. Mas esta embaixada do apóstolo supunha a
ausência de Cristo: o Seu embaixador agia em Seu lugar. A mensagem era,
de fato, fundada sobre outra verdade de incomensurável importância, a
saber, que Aquele que não conheceu pecado, Deus O fez pecado por nós,
para que n'Ele fôssemos feitos Justiça de Deus (verso 21). Eis aqui o
verdadeiro meio de nos reconciliarmos inteira e plenamente com Deus,
segundo a perfeição de Deus, plenamente revelada. Com efeito, Deus tinha-
nos amado mesmo ali, onde nós estávamos, dando por nós o Seu Unigênito
Filho, que era sem mácula e em Quem não havia nenhum movimento ou
princípio de pecado. E fê-lo (porque o Filho Se ofereceu para cumprir a
vontade do Pai) pecado por nós, para que nós fôssemos feitos n'Ele — que,
nesta condição, O tinha perfeitamente glorificado — a expressão da Justiça
divina ante os principados celestes, por toda a eternidade; para fazer de nós
as Suas delícias pelo que diz respeito à Justiça, “para que n'Ele fôssemos
feitos Justiça de Deus”. O homem não tem Justiça para Deus; Deus fez os
santos, em Jesus, a Sua Justiça. É em nós que esta Justiça divina é vista
plenamente estabelecida, primeiro em Cristo, naturalmente, colocando-O à
Sua direita, e em nós como estando n'Ele. Maravilhosa verdade que, ao seu
resultado em nós, produz as ações de graças e os louvores quando olhamos
para Jesus, verdade perante a qual o coração se cala e se inclina adorando,
cheio de admiração à vista dessas maravilhas de graça (3).
 
(3) Devemos notar que, no verso 20, é preciso omitir os “vos”. Este
verso expõe-nos a maneira como o apóstolo cumpria o seu ministério para
com o mundo.

 
CAPÍTULO 6
 
Paulo tinha dito que Deus exortava por seu intermédio.
Neste capítulo vemos a afeição do apóstolo prosseguir pelo Espírito
essa obra divina, suplicando aos Coríntios que não fosse em vão que, no
caso deles, esta graça lhes tivesse sido concedida; porque “eis aqui agora o
tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação” (1). O apóstolo tinha
falado dos grandes princípios e da origem do seu ministério. Recorda agora
aos Coríntios a maneira como o tinha exercido nas mais variadas
circunstâncias pelas quais ele tinha sido conduzido. O ponto capital do seu
serviço resume-se nisto: ele era ministro de Deus, representava Deus no Seu
serviço.
 
(1) Esta passagem é uma citação de Isaías 49:8, que fala da bênção
que devia ser concedida aos Gentios, quando Cristo fosse rejeitado pelos
Judeus, mas pela obra de Cristo e pela ressurreição.
 
Este fato tornava imprescindíveis duas coisas: Em primeiro lugar
Paulo devia ser impecável em todos os seus atos; em segundo lugar devia
manter esse caráter de ministro de Deus e o exercício do Seu serviço através
de toda a oposição e em todas as circunstâncias pelas quais a inimizade do
coração do homem e as próprias astúcias de Satanás podiam fazê-lo passar.
Mas em tudo e por toda a parte o apóstolo afastava, pelo seu impecável
comportamento, toda a ocasião real de lhe dirigirem censuras — para que
ninguém tivesse motivos para censurar o ministério.
Assim, o seu ministério legitimava-se em tudo como o de um
ministro de Deus. Paulo representava dignamente Aquele em cujo nome se
dirigia aos homens. E fazia-o no meio da perseguição e da contradição dois
pecadores, com uma paciência que bem mostrava uma energia interior, um
sentimento de obrigação perante Deus e uma dependência d'Ele que só a
realização da presença de Deus e do nosso dever para com Ele podem
manter. A consciência da sua posição conservava-se no apóstolo através de
todas as circunstâncias de que de nos fala — e dominava-as. Mostrava-se de
igual modo ministro de Deus em tudo o que podia pô-lo à prova, em pureza,
em bondade e em amor, como vaso de poder — desonrado ou aplaudido —
ignorado do mundo ou conhecido e ocupando um grande lugar aos olhos
dos homens — exteriormente desprezado dos homens e castigado —
interiormente vitorioso, satisfeito, enriquecendo os outros, estando de posse
de todas as coisas! Tem-na aqui a descrição, que nos dá o apóstolo, das
origens e do caráter de um ministério que triunfava das circunstâncias, e
onde se manifestava o poder de Deus num vaso de fraqueza cujo melhor
quinhão era a morte.
O restabelecimento dos Coríntios num estado moral que convinha
ao Evangelho, a par das circunstâncias pelas quais o apóstolo acabava de
passar, tinha permitido a este abrir o seu coração aos Coríntios. Preocupado
até aqui com o seu assunto, com o Cristo glorioso que, tendo realizado a
redenção, o enviava como mensageiro da graça à qual esta redenção tinha
dado livre curso, e tendo falado, de coração aberto, de tudo o que estava
compreendido no seu ministério, Paulo volta agora com afeto aos seus bem-
amados Coríntios, mostrando-lhes que era com eles que ele tinha toda esta
abertura e esta dilatação do coração: “Ó Coríntios, a nossa boca está aberta
para vós, o nosso coração está dilatado: Não estais estreitados em nós; mas
estais estreitados nos vossos próprios afetos” — diz ele (versos 11-12).
Em recompensa dos afetos que transbordavam do seu coração para
com eles, o apóstolo não pede senão a dilatação dos seus próprios corações.
Paulo fala-lhes como a seus filhos; mas serve-se desta terna relação
de pai para exortar os Coríntios a manterem-se na posição em que Deus os
tinha colocado: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis”.
Tendo influencia sobre os seus afetos, e regozijando-se profundamente
perante Deus na graça que os tinha trazido a retos sentimentos, o seu
coração, como que fora dele, é livre de se entregar à alegria que lhe
pertencia em Cristo glorificado; mas, afinal de contas, com serenidade,
quando se tratava dos seus queridos filhos na fé (2), pois procurava
desprendê-los de tudo o que reconhecia a carne, ou implicava que uma
relação que a reconhecia era possível para um Cristão.
 
(2) Que posição abençoada esta a de um homem que, arrebatado de
si mesmo e fora de um estado de calma reflexão, é inteiramente absorvido
em Deus, quando tomado para Ele, e que, com serenidade, se ocupa, com
amor, a procurar o bem dos seus irmãos, os membros de Cristo! De um
homem que, ou fica extasiado na contemplação de Deus e em comunhão
com Ele, ou então é cheio de Deus, e de tal modo que só pensa nos outros
com verdadeiro amor.
 
Procurava desprendê-los de tudo o que renegava a posição de um
homem que tem a sua vida e os seus interesses na nova criação de que
Cristo é o Chefe na glória. Um anjo pode servir a Deus neste mundo, pouco
lhe importando de que maneira, contanto que seja segundo a vontade de
Deus; mas associar-se aos interesses do mundo como dele fazendo parte,
aliar-se aqueles que são governados pelos motivos que influenciam os
homens deste mundo, e assim, por um comportamento comum, mostrar os
Cristãos e o mundo atuando em conjunto, segundo os princípios que
formam o caráter do mundo, seria, para seres celestes, perderem a sua
posição e o seu caráter. O Cristão que tem por quinhão a glória de Cristo, o
Cristão que tem o seu mundo, a sua vida, as suas verdadeiras associações lá
onde Cristo entrou, já não deve — e não pode — como Cristão, colocar-se
sob o mesmo jugo ao lado daqueles que só têm motivos mundanos. Não
podem puxar o carro da vida numa marcha comum. Que comunhão poderia
haver entre Cristo e Belial, entre a luz e as trevas, entre a fé e a
incredulidade? Que acordo poderia haver entre um templo de Deus e os
ídolos?
Os Cristãos são o templo do Deus vivo, que habita e anda no meio
deles. Ele é Deus para eles; eles são povo para Deus. Por conseguinte
devem retirar-se de toda a associação com os mundanos e separar-se deles.
Como Cristãos, devem manter-se à parte, porque são o templo de Deus.
Deus habita no meio deles, anda n meio deles, é o seu Deus.
Portanto, eles têm de sair do mundo e ficar separados — e Deus os
reconhecerá e estará com eles na relação de um Pai com os Seu filhos e as
Suas filhais que lhe são queridos.
Temos aqui — note-se bem — a relação especial em que Deus Se
coloca conosco. As duas relações precedentes com os homens, sob as quais
Deus Se revela, são mencionadas aqui, mas Ele entra agora numa terceira:
A Abraão, Deus revelou-Se como sendo o Todo-Poderoso; a Israel, revelou-
Se como sendo Jeová ou SENHOR; aqui, o Senhor Todo-Poderoso declara
que Ele será por “Pai” para os Seus, para os Seus filhos e para as Suas
filhas. E nós saímos do meio dos mundanos precisamente por isso: não
somos do mundo; somos de Deus. Isto não significa que se saia fisicamente
do mundo, mas sai-se do meio dos mundanos, enquanto estamos neste
mundo, para entrarmos na relação de filhos e de falhas com o Deus e
Senhor Todo-Poderoso.
Na prática, não realizamos essa relação sem sairmos do meio do
mundo. Deus não quer que os mundanos estejam em relação com Ele, como
sendo Seus filhos e filhas.
Eles não entraram nessa posição perante Ele. Deus não quer
reconhecer, como estando em tal posição, aqueles que permanecem
identificados com o mundo, porque o mundo rejeitou o Seu Filho, e a
amizade do mundo é inimizade contra Deus. Aquele que é amigo do mundo
é inimigo de Deus. Permanecer mundano não é ser filho de Deus no sentido
prático. Por isso Deus diz: “Saí do meio deles, e apartai-vos, e... vós sereis
para mim filhos e filhas”. Note-se que não se trata de sair do mundo (é
enquanto estamos no mundo que entramos em relação com Deus), mas sim
de sairmos do meio dos mundanos, para entrarmos na relação de filhos e
filhas, a fim de sermos para Deus filhos e filhais, para sermos reconhecidos
por Ele nesta relação (3).
 
(3) Devemos notar que a passagem nos apresenta dois fatos:
Primeiro, Deus está presente na Assembleia daqueles que são separados do
mundo, e anda no meio deles, como fez com Israel no deserto, após a saída
do Egito; Segundo, os indivíduos que formam a Assembleia entram na
relação de filhos e de filhas.

 
CAPÍTULO 7
 
Mas não é só o ser-se separado para estarmos na posição de filhos e
de filhas que prende a atenção do apóstolo, mas também as legítimas
consequências de semelhantes promessas. Sendo filhos e filhas do Senhor
Deus, o Todo-Poderoso, a santidade é-nos conveniente. Não é só termos de
nos separar do mundo, mas também, estando em relação com Deus,
devemos purificar-nos de toda a imundície da carne e do espírito: a
santidade no comportamento exterior, e, o que é também muito importante,
quanto às nossas relações com Deus, a pureza nos pensamentos; porque
embora os homens não vejam esses pensamentos, a corrente do Espírito é
detida no coração e não haverá dilatação do coração na comunhão de Deus.
Se a presença de Deus é sentida, se a Sua ralação conosco é realizada, a
graça é conhecida, mas Deus não o é quase nada, não o é como Ele
gradualmente Se faz conhecer na Sua comunhão.
O apóstolo volta agora às suas relações com os Coríntios, relações
formadas pela palavra do seu ministério. Tendo exposto com larga cópia de
pormenores o que era, realmente, esse ministério, procura impedir que
sejam quebrados os laços que tinham sido formados por esse ministério
entre os Coríntios e ele próprio, pelo poder do Espírito Santo.
“Recebei-nos em vossos corações. A ninguém agradávamos, a
ninguém corrompemos” — diz ele (verso 2). Pretende não ferir os
sentimentos daqueles que estão restaurados, que se encontram nos seus
antigos afetos para com ele, e, desse modo, na sua verdadeira relação com
Deus. “Não digo isto para vossa condenação”, acrescenta ele, “pois já antes
tinha dito que estais em nossos corações, para juntamente morrermos e
vivermos”. “Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a
minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolações; superabundo
de gozo em todas as nossas tribulações”. O apóstolo não desenvolve agora
os princípios do ministério, mas mostra o coração de um verdadeiro
ministro, mostra tudo o que ele tinha sentido acerca do estado espiritual dos
Coríntios.
Lembramo-nos de que, após ter deixado Trôade, por não ter ali
encontrado Tito, que devia trazer-lhe a resposta à sua primeira carta aos
Coríntios, se dirigiu à Macedónia, sem passar por Corinto. Mas ali já não
teve descanso; foi afligido de todas as maneiras: Por fora, combates; por
dentro, temores. No entanto Deus, que consola os que estão abatidos,
consolou-o também pela chegada de Tito, que ele aguardava com tanta
ansiedade. E não só pela chegada de Tito, mas também pelas boas notícias
que ele levou de Corinto. A alegria do apóstolo dissipou então toda a sua
aflição, porque o seu coração estava a viver e a morrer com eles. Viu os
frutos morais da operação do Espírito Santo nos fiéis de Corinto, viu o seu
desejo, as suas lágrimas, o seu afeto por ele — e o seu coração volta para
eles, para curar, pela expressão do seu amor, todas as feridas que a sua
primeira carta pudesse ter aberto nos seus corações, por muito necessárias
que elas tivessem sido.
Nada de mais comovente do que o conflito havido no coração de
Paulo entre a necessidade que ele tinha sentido, por causa do precedente
estado deles, de lhes escrever severamente e com fria autoridade, e os afetos
que agora, que o efeito desejado tinha sido produzido, Lhe ditavam uma
quase apologia para o sofrimento que ele teria podido causar-lhes. “Se vos
contristei com a minha carta, não me arrependo”, diz ele, embora, na
verdade, já se tivesse arrependido por breves instantes, por ver que aquela
carta os tinha entristecido, ainda que por pouco tempo. Mas agora
regozijava-se, não por eles terem sido entristecidos, mas porque o tinham
sido para arrependimento. Que solicitude!
Que coração para o bem dos santos! Se os Coríntios tinham zelos a
seu respeito, certamente ele lhes tinha dado a ocasião e o motivo. Não tem
descanso até ter notícias deles.
Nada detém a sua ansiedade, nem portas abertas para anunciar a
Palavra de Deus, nem angústias. Tem, talvez, lamentado ter escrito aquela
carta, receando ter-se alienado do coração dos Coríntios. Mas agora,
embora penalizado ainda com o pensamento de os ter entristecido,
regozijasse, não por lhes ter causado tristeza, mas por essa tristeza, segundo
os planas de Deus, ter operado neles o arrependimento.
Escreveu-lhes uma carta de acordo com a energia do Espírito Santo.
Agora, entregue aos afetos do seu coração, vemo-lo, a tal respeito, muito
abaixo do nível da energia da inspiração que tinha ditado a carta, que o
homem espiritual deveria reconhecer como sendo mandamento do Senhor;
o seu coração treme ao pensar nas consequências, enquanto não tem
notícias!... É muito interessante ver a diferença existente entre a
individualidade do apóstolo e a inspiração. Na sua primeira Epístola aos
Coríntios notámos distinção que Paulo faz entre o que ele diz como
resultado da sua experiência, e os mandamentos do Senhor, comunicados
por seu intermédio. Agora aqui encontramos a diferença na própria
experiência. Paulo esquece por um momento o caráter da sua Epístola, e,
propenso às suas afeições, receia ter destruído o laço que o unia aos
Coríntios, pelo esforço que fez para os arrancar do seu desregramento.
Mesmo a forma da expressão de que o apóstolo se serve mostra que foi
apenas por um momento que esse sentimento se apoderou do seu coração.
Mas o fato de ele o ter tido mostra claramente a diferença que existiu entre
o Paulo indivíduo e o Paulo, escritor inspirado.
Mas agora o apóstolo está satisfeito. A expressão desse profundo
interesse que ele nutre pelos Coríntios é uma parte do seu ministério, um
ensinamento precioso para nos mostrar de que maneira o coração entra no
exercício desse ministério.
Ali se vê bem o quão grande é a flexibilidade dessa poderosa
energia do amor para ganhar e enternecer os corações pela oportuna
expressão do que se passa no nosso.
E esta expressão não faltará certamente, quando a ocasião a tornar
justa e natural, se o coração for penetrado pelo afeto; porque um profundo
afeto gosta de se fazer conhecer de quem dele for o objeto, se possível, de
acordo com a verdade dessa afeição. Há uma dor que atormenta o coração;
mas um coração que sente tristeza piedosa está no caminho do
arrependimento (1).
 
(1) A grandeza do coração não fala facilmente de sentimentos,
porque pensa nos outros e não em si mesmo. Mas não receia fazê-lo,
quando a ocasião se apresenta, justamente porque pensa nos outros e há
nos seus afetos uma profundidade de propósito que os faz agir. O
Cristianismo dá a grandeza do coração. Por outro lado, ela é confiante por
natureza — e é o que ganha, e dá, sem mesmo o saber, a influência que essa
grandeza de coração não procura, porque não é egoísta. O apóstolo
mantinha, para o bem deles, a sua verdadeira relação com os Coríntios.
 
Paulo expõe, pois, os frutos dessa tristeza piedosa. Mostra que
espécie de zelo contra o pecado ela tinha produzido, e como os corações
repelem santamente toda a associação com o pecado. Agora, que eles se
tinham moralmente separado, o apóstolo separa também aqueles que não
eram culpados dos que o eram. Já não quer confundir uns com os outros.
Eles tinham-se moralmente confundido, caminhando à sua vontade com
aqueles que estavam no pecado.
Tirando o pecado, eles ficavam fora do mal, e o apóstolo mostra que
fora precisamente tendo em vista o bem deles, e porque se ocupava deles
com grande afeto, que escrevera a sua primeira carta, a fim de testemunhar
da sua preocupação, plena de amor por eles, e de pôr também à prova o
amor deles por ele perante Deus. Por mais triste que tivesse sido o
comportamento dos Coríntios, Paulo tinha assegurado a Tito, encorajando-o
a ir a Corinto, que certamente encontraria ali corações que responderiam a
esse apelo de afeto apostólico. Vemos que ele não tinha ficado desapontado,
e como tinha anunciado a verdade no meio deles, o que tinha dito deles a
Tito tinha-se verificado ser também verdade — e os afetos do próprio Tito
tinham sido poderosamente despertados quando vira esses frutos da graça
nos Coríntios.

 
CAPÍTULOS 8–9
 
No capítulo 8, o apóstolo, de caminho para a Judeia, exorta os
Coríntios a prepararem socorros para os pobres de Israel, enviando-lhes
Tito a fim de que tudo fosse preparado como fruto de boa vontade. Durante
a sua viagem ele tinha falado já dessa disposição dos Cristãos de Corinto,
de modo que outros tinham sido exortados a darem também algo, e agora,
contando sempre com a boa vontade dos Coríntios, e sabendo que eles
tinham começado a juntar um ano antes, não queria correr o risco de ver
desmentido pelos fatos aquilo que ele tinha afirmado. Ele não queria que os
Coríntios fossem sobrecarregados para os da Judeia ficarem à vontade, mas
queria que os ricos viessem ao encontro das necessidades dos irmãos
pobres, para que ninguém passasse fome. Havendo boa vontade, cada um
será aceite de Deus segundo o que tem, e nunca segundo o que não tem.
Deus gosta que demos com alegria, mas cada qual ceifará conforme tiver
semeado.
Em seguida o apóstolo diz que Tito, satisfeito com o resultado da
sua primeira visita e muito afeiçoado aos Coríntios, estava disposto a ir
junto deles para recolher esse outro fruto, que seria uma bênção. Com ele
tinham dois mensageiros das outras Assembleias, encarregados da coleta
feita entre elas com o mesmo fim. Ia um irmão conhecido de todas as
Assembleias, e um outro irmão de comprovada dedicação ao Evangelho,
encorajado ainda pela confiança que ele tinha nos Coríntios. O apóstolo não
queria encarregar-se do dinheiro recolhido sem levar com ele companheiros
responsáveis, para evitar toda a possibilidade de criticas ou censuras,
sempre possíveis em trabalhos deste gênero, tomando cuidado para que
tudo fosse feito com absoluta honestidade, não só perante os homens, mas
também perante Deus. De resto, ele não dizia tudo aquilo como se fosse um
mandamento, mais sim por causa do zelo de outras Assembleias, e também
para demonstrar a sinceridade do amor dos Coríntios.
Recordemos que foi esta coleta que deu a ocasião de tudo o que
aconteceu a Paulo em Jerusalém, do que pós-fim ao seu ministério e o
deteve no seu caminho para Espanha e talvez para outros lugares; e que, por
outro lado, deu a ocasião de o apóstolo escrever as cartas aos Efésios, aos
Filipenses, aos Colossenses, a Filemom, e talvez ainda aquela aos Hebreus.
Quão pouco sabemos do alcance das circunstâncias em que nos
embrenharmos! E mui felizes somes nós por sermos conduzidos por Aquele
que conhece o fim desde o princípio, e que faz mover todas as coisas para o
bem daqueles que O amam.
Terminando essas exortações, para que cada um desse segundo as
suas posses, o apóstolo recomenda os Coríntios à rica bondade de Deus, que
podia fazê-los abundar em todas as coisas, para que eles pudessem, da
mesma forma, multiplicar as suas boas obras, sendo enriquecidos para toda
a liberalidade, de maneira a produzirem em outros, por intermédio dos
serviços do apóstolo e nesta relação, ações de graça para com Deus. Porque,
acrescenta ele, o feliz efeito da vossa caridade prática, exercida em nome de
Cristo, não só supre às necessidades dos santos, pela minha administração
feita em Corinto, mas abunda também em ação de graças para com Deus —
porque aqueles que gozavam dessa oferta louvavam a Deus pelo fato de os
seus benfeitores terem sido levados a confessar o Nome de Cristo e a agir
com esta liberalidade prática para com eles e para com todos. Este
pensamento estimulava-os a orar com grande fervor por aqueles que
proviam às suas necessidades, por causa da graça de Deus manifestada
neles. Deste modo os laços do eterno amor eram fortificados de ambos os
lados — e daí resultava grande glória para Deus. Graças sejam dadas a
Deus — diz o apóstolo — pelo Seu inefável dom! Porque, sejam quais
forem os frutos da graça, é naquilo que Deus deu que nós temos a prova e o
poder dessa graça. E aqui termina o tema da Epístola propriamente dito.

 
CAPÍTULO 10
 
O apóstolo volta agora àquilo que o preocupava, isto é, às suas
relações com os Coríntios e à verdade do seu apostolado, posto em questão
por aqueles que os seduziam e lançavam o desprezo sobre a sua pessoa. Ele
era fraco — diziam eles — quando estava presente, e a sua palavra era
desprezível, e apenas ousado quando estava ausente.
As suas cartas eram graves e fortes, mas a sua aparência pessoal era
fraca! “Eu vos rogo pela mansidão e benignidade de Cristo”, diz o apóstolo,
mostrando assim o verdadeiro caráter da sua própria mansidão e da sua
humildade, quando estava no meio dos Coríntios: “Rogo-vos, pois, que,
quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da
ousadia que espero ter com alguns, que nos julgam como se andássemos
segundo a carne” (versos 1-3). A guerra que ele movia ao mal, encontrava a
sua força nas armas espirituais com as quais ele abatia tudo o que se
levantava contra o conhecimento de Deus. Eis o princípio segundo o qual
ele atuava: Procurava levar à obediência todos aqueles que escutavam a
Deus; depois atuava com severidade contra toda a desobediência, uma vez
que a obediência tivesse sido plenamente estabelecida, e que aqueles que
queriam escutar tivessem sido trazidos à ordem.
Precioso princípio este! O poder e a direção do Espírito atuam em
pleno e com toda a paciência, para trazerem à ordem e a um comportamento
digno de Deus, indo até ao fim nas admoestações da graça, até ao que todos
aqueles que queriam escutá-los e obedecer voluntariamente a Deus fossem
reconduzidos; e em seguida para fazerem valer a autoridade divina em
julgamento e em disciplina, com o peso que juntavam à ação apostólica a
consciência e a ação comum de todos aqueles que tinham sido reconduzidos
à obediência.
Note-se que o apóstolo se apoia na sua autoridade pessoal como
apóstolo, mas que se serve dela usando de paciência (porque ele possui-a
para edificação e não para destruição), a fim de trazer à obediência e à
retidão todos aqueles que quisessem escutar; e guardando assim a unidade
Cristã na sua santidade, reveste a autoridade apostólica do poder da
consciência universal da Igreja conduzida pelo Espírito Santo — enquanto
houver consciência para a Obra.
Em seguida Paulo declara que, tal como é nas suas cartas, assim será
também quando estiver presente, e põe em contraste com o seu próprio
procedimento o daqueles que tiravam vantagem dos seus trabalhos,
seduzindo, para depois o sublevar contra ele, um povo já cristianizado. Ele,
Paulo, ele ia lá aonde Cristo não era ainda conhecido, para levar as almas ao
conhecimento de um Salvador que elas ignoravam. Paulo esperava, pois,
que, quando visitasse os Coríntios, o seu ministério se engrandecesse no
meio deles pelo fortalecimento da sua fé, para que ele pudesse ir mais longe
evangelizar outros lugares que ainda jaziam nas trevas. “Aquele, porém,
que se gloria, glorie-se no Senhor” — diz ele.

 
CAPÍTULO 11
 
Neste capítulo, o apóstolo, transbordando de santo zelo acerca dos
seus queridos Coríntios, leva mais longe os seus raciocínios em relação aos
falsos doutores. Pede aos fiéis que estão em Corinto para o suportarem mais
um pouco, enquanto ele atua como que fora de si, falando de si mesmo.
Tinha-os preparado para os apresentar como uma virgem pura e
casta a um marido, a saber, a Cristo, e receava que alguém corrompesse os
seus sentidos, desviando-os da simplicidade e da pureza acerca de Cristo.
Se os Coríntios tinham recebido doutores no seu meio, se tinham recebido
um outro Jesus, um outro Espírito ou um outro Evangelho, então podiam
bem suportar o que esses doutores faziam.
Mas, certamente, o apóstolo não tinha sido em nada inferior aos
outros nos seus ensinamentos, muito embora o comparassem aos mais
excelentes apóstolos. Tinha ele, porventura, prejudicado os Coríntios, não
recebendo nada das suas mãos (como os novos doutores se gabavam de
fazer), e aceitando dinheiro de outras Assembleias, sem jamais os
sobrecarregar? Ninguém o privaria desse tema de glória nas regiões da
Acaia. Recusou ele receber o que quer que fosse das suas mãos, por não os
amar? Deus o sabia! Não!...
Paulo tinha agido assim a fim de privar os falsos doutores de um
meio de se fazerem valer junto dos Coríntios, pretendendo trabalhar
gratuitamente entre eles, enquanto que o apóstolo teria recebido dinheiro.
Queria tirar a esses doutores a possibilidade de levantarem essa acusação,
porque eles eram falsos apóstolos. Como Satanás se transforma em anjo de
luz, assim os seus instrumentos se fazem ministros de justiça. Paulo pede
ainda que o suportem quando fala como que fora de si Se esses ministros de
Satanás procuravam fazerem-se acreditar como sendo Judeus, pertencendo
à antiga religião de Deus, consagrada pela sua antiguidade e pelas suas
tradições, ele podia fazer o mesmo, ele, Hebreu, nascido de Hebreus,
possuindo todos os títulos para glória, de que os tais se vangloriavam. E se
se tratava de serviço cristão — falando como insensato, diz o apóstolo
(verso 23) — certamente a comparação não deixava de demonstrar onde se
encontrava a dedicação à Obra do Senhor.
Aqui, com efeito, Deus permitiu que essa usurpação na obra do
apóstolo por esses miseráveis homens judaizantes — que se diziam Cristãos
— nos tivesse dado a conhecer alguma coisa dos infatigáveis trabalhos do
apóstolo, prosseguidos no meio de tantas circunstâncias de que,
infelizmente, não temos uma completa descrição. Em Atos dos Apóstolos,
Deus deu-nos a história do estabelecimento da Igreja com os grandes
princípios sobre os quais ela foi fundada, assim como as fases por que
passou ao sair do Judaísmo. O apóstolo terá a sua própria recompensa no
reino de glória — e não falando dos seus trabalhos no meio dos homens.
Todavia, é proveitoso para a nossa fé ter algum conhecimento da dedicação
cristã tal como foi manifestada na vida do apóstolo. Aquela loucura dos
Coríntios foi o meio de que Deus Se serviu para nos dar dela um pequeno
resumo.
Aflições e perigos, por fora; incessantes ansiedades, por dentro; uma
coragem que não se detinha perante nenhum perigo; um amor aos pobres
pecadores e a Igreja que nada fazia esfriar — eis, em simples linhas, o
quadro de uma vida e de uma dedicação tão absoluta que comove o coração
mais insensível. Faz-nos sentir todo o nosso egoísmo e faz-nos curvar os
joelhos perante Aquele que era a fonte viva da dedicação do bem-
aventurado apóstolo, perante Aquele cuja glória inspira essa dedicação.
Todavia, forçado a falar de si próprio, o apóstolo não quer gloriar-se
senão nas suas fraquezas; mas está como que fora da sua obra natural. A sua
vida passada desenrola-se perante os seus olhos; os Coríntios forçaram-no a
pensar nas coisas que ele tinha deixado para trás. Após ter terminado a sua
narrativa e declarado que se gloriaria somente nas suas fraquezas, uma
circunstância que ele tinha esquecido vem-lhe à memória. Nada de mais
natural, de mais simples do que todas essas comunicações.

 
CAPÍTULO 12
 
Será preciso que ele se glorie?... Paulo não encontra nisso nenhum
proveito. Voltava a falar daquilo de que um homem estando na carne — não
podia gloriar-se.
Era o efeito do soberano poder de Deus, no qual o homem não
tomava parte. Era de um homem em Cristo que ele falava. Um tal homem
tinha sido arrebatado ao terceiro céu, ao paraíso; se no corpo ou fora do
corpo, Paulo não tomara nenhuma parte no que se tinha passado. De ser um
tal homem, Paulo podia gloriar-se. Deixava de lado tudo o que poderia
dignifica-lo sobre a Terra; o que o elevava ao Céu, o que lhe dava um
quinhão no Céu, o que estava “em Cristo”, era a sua glória, a alegria do seu
coração, a porção de que ele da melhor vontade se gloriava. Feliz servo do
Senhor, cuja porção em Cristo era em que, pensando nela, ele ficava
contente esquecendo tudo o que poderia exaltá-lo como homem, como diz
noutra passagem acerca da sua esperança: “Para que eu ganhe a Cristo”. O
homem, o corpo, não tomava parte num poder que se não podia apreciar, a
não ser que se fosse arrebatado ao Céu. Mas era de um tal homem que
Paulo queria gloriar-se. Lá, onde Deus e a Sua glória são tudo, separado do
corpo quanto à consciência da sua existência nesse corpo, ele ouviu coisas
nas quais os homens no corpo não poderiam penetrar e nem convinha a um
homem mortal anunciar — coisas que o modo de existência de um homem
no corpo não comportava. E essas coisas tinham produzido a mais profunda
impressão no apóstolo. Elas o fortificavam para o ministério, mas não
podiam ser introduzidas na maneira de compreender e de comunicar que
concerne à condição do homem neste mundo.
Todavia, muitas lições práticas se prendem a essa maravilhosa graça
que foi concedida ao apóstolo. Eu digo “maravilhosa graça” porque, com
efeito, sentimos qual terá sido o ministério daquele que tirava de uma tal
posição a sua força e a sua maneira de ver e de julgar. Que missão
extraordinária esta a deste apóstolo! Mas ele tinha o tesouro num vaso de
argila! Nada pode corrigir a carne! Uma vez regressado à consciência da
sua existência humana na Terra, a carne do apóstolo teria querido tirar
proveito do favor de que ele tinha sido alvo, para o elevar aos seus próprios
olhos, para dizer: “Ninguém mais, além de Paulo, esteve no terceiro céu”.
Mas estar perto de Deus, na glória, como fora do corpo, não sobreleva
ninguém. Ali tudo é Cristo e Cristo é tudo. O “eu” é esquecido. O ter
estado lá é algo de muito diferente. A presença de Deus faz-nos sentir o
nosso nada. A carne pode tirar partido do que fomos lá, quando já lá não
estamos. Mas, ai! O que é o homem?!
Mas Deus vela por nós. Na Sua graça, Ele provê no perigo em que
se encontra o Seu pobre servo. Tê-lo arrebatado até um quarto céu, digamos
assim, não teria feito senão aumentar o perigo. É impossível corrigia: a
carne! A presença de Deus fê-la calar; mas a carne se vangloriará de ter
estado nessa presença — quando já lá não estiver. Para se poder andar em
segurança espiritual é necessário que a carne seja mantida em perigo, tal
como ela é. Devemos ter-nos por mortos, mas a carne tem muitas vezes
necessidade de ser reprimida, para que o coração não seja afastado de Deus
por seu intermédio, e para que ela não entrave a marcha, nem estrague o
nosso testemunho. Paulo recebeu um espinho na carne, para que se não
exaltasse pela abundância e excelência das revelações que tinha recebido.
Sabemos, pela Epístola -aos Gálatas, que esse espinho era algo que
tendia a tornar o apóstolo desprezível na sua pregação — e era assim um
contrapeso inteligível às suas notáveis revelações. Deus deixou a Satanás o
encargo de afligir desse modo o apóstolo, tal como dele Se serviu para a
humilhação de Jó. Por maiores que sejam as graças que nos são concedidas,
é preciso que passemos pelos exercícios ordinários da fé pessoal, exercícios
nos quais somente o coração anda em segurança, quando a carne é refreada
e anulada no sentido prático — ainda que não tenhamos consciência disso
— como parte ativa em nós, quando queremos ser inteiramente para Deus e
pensar n'Ele e com Ele, segundo a nossa medida.
Tal como o Senhor, a respeito do cálice que Ele teve de beber, três
vezes o apóstolo Lhe pediu que o espinho lhe fosse tirado. Mas a vida
divina forma-se na renúncia de nós mesmos, e, no nosso estado de grande
imperfeição, essa renúncia, na prática (verdadeiramente, ela teve já lugar
quando vimos a nossa posição em Cristo), opera-se tem nós, tornando-nos
conscientes da humilhante verdade que esta carne, que nós tanto gostamos
de mimosear, é imprópria para a presença de Deus e para o serviço ao qual
somos chamados. E muito felizes somos nós se essa renúncia se opera por
vias preventivas, em vez de ser por uma queda, como aconteceu com Pedro.
A diferença é transparente: Em Pedro, a confiança em si mesmo misturava-
se com a sua vontade própria, apesar das advertências do Senhor; em Paulo,
embora o seu perigo viesse da carne, as revelações que lhe tinham sido
feitas serviam de ocasião. Se, na presença de Deus, aprendermos a conhecer
a tendência da carne, saímos dela humildemente e escapamos à humilhação.
Mas, de um modo geral (e, em certo sentido, poderíamos dizer
todos), temos de fazer a experiência das revelações que nos elevam a Deus,
seja em que medida for; e é necessário fazer também a experiência do que é
o vaso em que o tesouro dessas revelações é contido, pela pena que ele nos
dá, por causa da consciência do que ele é — não digo por quedas.
Deus, no Seu governo, sabe como reunir os sofrimentos por Cristo e
a disciplina da carne nas mesmas circunstâncias, o que explica Hebreus
12:1-11.
O apóstolo pregava.
Se era desprezado na sua pregação, era pelo Senhor que ele sofria;
porém, o que o fazia sofrer disciplinava a carne e impedia-o de se orgulhar
das revelações que lhe tinham sido feitas e do poder que daí lhe resultava e
com o qual ele expunha a verdade. Na presença de Deus, no terceiro céu,
Paulo sentia bem que o homem nada era e que Cristo era tudo. E ele devia
adquirir a experiência prática disso mesmo neste mundo. É preciso que a
carne seja anulada, ali, onde ela não é nula, pelo sentimento experimental
do mal que está nela — e ela deve vir a ser assim, de modo consciente, nula
na experiência pessoal do que ela é. Porque, o que era a carne de Paulo —
que não fazia senão entravá-lo moralmente na sua obra, afastando-o de
Deus — senão um companheiro importuno e indesejável no seu trabalho?
A supressão da carne, sentida e julgada, era um exercício muito
proveitoso para o coração.
Note-se aqui a feliz posição do apóstolo, como arrebatado ao
terceiro céu. Ele podia gloriar-se de um tal homem, porque o “eu” estava
inteiramente perdido nas coisas com as quais ele estava em relação. Paulo
não se gloriava nas coisas; já não diz: “em mim”. O seu “eu” estava
completamente perdido de vista no gozo das coisas inefáveis que o homem
não podia exprimir quando reentrava na consciência do “eu”. Paulo
gloriava-se de ura tal homem; mas, em si mesmo, visto na carne, ele não se
gloriava senão das suas fraquezas. Por outro lado., não é humilhante pensar
que aquele que tinha gozado de uma revelação tão gloriosa, devesse fazer a
penosa experiência do que é a carne, má, desprezível e egoísta?...
Note-se também a diferença existente entre Cristo e qualquer outro
homem. Cristo pôde encontrar-se sobre o monte, em glória, com Moisés, e
ser reconhecido Filho pelo próprio Pai, e em seguida encontrar-se na
planície em presença de Satanás e da multidão: Embora as cenas sejam
diferentes, Ele e igualmente perfeito em ambas. Encontramos afetos
admiráveis nos apóstolos; e em Paulo, mais particularmente, encontramos
obras, como Jesus tinha dito, maiores do que as Suas; em Paulo
encontramos exercícios de coração e espantosas alturas por graça; vemos,
numa palavra, um maravilhoso poder desenvolvido pelo Espírito Santo
nesse notável servo de Jesus, mas não encontramos nele essa igualdade
constante que existia era Cristo. Jesus era o Filho do homem, que está no
Céu. Aqueles que são como Paulo, são cordas que Deus toca e sobre as
quais Ele produz uma música maravilhosa, mas Cristo é a própria música.
Notemos, enfim, que Cristo Se serve da humilhação, necessária para
reduzir a carne rebelde ao seu verdadeiro nada, a fim de manifestar o Seu
poder na fraqueza do vaso.
Assim humilhados, nós apreendemos a nossa verdadeira
dependência. Tudo o que é de nós, tudo o que constitui o nosso “eu” é um
entrave; a fraqueza é aquilo em que o “eu” é abatido, humilhado, e onde a
fraqueza é realizada. O poder de Cristo cumpre-se nessa fraqueza. Note-se
que isto é um princípio geral. Humanamente falando, a Cruz era a fraqueza;
a morte é o oposto da força do homem; no entanto, foi nela que a força de
Cristo se revelou; foi nela que Ele cumpriu a obra gloriosa da salvação.
Quando aqui se fala de fraqueza, não se trata do pecado na carne,
mas do que é o contrário da força do homem.
Cristo nunca se apoiou, nem um instante sequer, na força humana;
Ele vivia pelo Pai (ver João 6:57), que O tinha enviado. Simplesmente, o
poder do Espírito Santo manifestava-se n'Ele. Paulo necessitava que a sua
carne fosse colocada em fraqueza, para que não tivesse nela o movimento
do pecado que lhe era natural. Quando a carne tem sido reduzida à sua
verdadeira incapacidade pelo que diz respeito ao bem, e isso de maneira
bem evidente, então Cristo pode manifestar nela a Sua força. E esta força
tem assim o seu verdadeiro caráter. E, note-se bem, é este sempre o seu
caráter: “O poder que se aperfeiçoa na fraqueza”.
O bem-aventurado apóstolo podia gloriasse de um homem em Cristo
no Céu, gozando de toda essa beatitude, dessas coisas maravilhosas que
excluem o “eu”, tanto elas estão acima do que nós somos. Gozando delas,
Paulo não tinha a consciência da existência do seu corpo. Quando volta a
estar consciente dele, o que ele tinha ouvido não podia traduzir-se por essas
comunicações que tinham o corpo como instrumento e ouvidos de homem
como meio de compreensão.
Paulo gloriava-se desse homem em Cristo no Céu.
Neste mundo, ele não se gloriava senão no próprio Cristo e naquela
fraqueza que fornecia a ocasião de o poder de Cristo repousar sobre ele — e
era também a demonstração de que esse poder era o poder de Cristo, que
Cristo fazia dele o vaso da manifestação do Seu poder. Ora, isto
concretizava-se por meio de dolorosas experiência. Primeiramente há o
homem em Cristo; depois o poder de Cristo repousando sobre o homem.
Para o primeiro caso, o homem, quanto à carne, nada é; no segundo caso a
carne é julgada e humilhada — tornada fraqueza, para que aprendêssemos
bem o que ela é, e para que o poder de Cristo fosse manifestado.
Há uma impulsão, uma inefável fonte de ministério no Céu. A força
é introduzida na humilhação do homem, tal como ele é neste mundo,
quando o homem é reduzido a nada — o seu verdadeiro valor nas coisas
divinas — e Cristo manifesta nele essa força que não saberia associaria à do
homem nem dela depender, fosse de que maneira fosse.
Se o instrumento era fraco, como alegavam, o poder que tinha
operado devia ter sido, não o seu, mais o de Cristo.
Assim, do mesmo modo como, no princípio da Epístola, tivemos as
verdadeiras características do ministério pelo que concerne aos objetos que
lhe dão esses caráteres, encontramos aqui a sua força prática em relação
com o vaso em que o testemunho e a origem dessa força eram depositados;
apreendemos como esse ministério se exercia pondo um homem mortal em
comunicação com as fontes inefáveis de que o próprio ministério decorria, e
ao mesmo tempo com a energia viva, presente e ativa de Cristo, de modo
que o homem fosse capaz de a exercer, e que não fosse ele, entretanto,
quem realizasse o trabalho na sua força carnal, o que, aliás, era impossível
em si (1).
 
(1) Este capítulo é profundamente impressionante. Nele vemos o
Cristão na mais alta e na mais baixa condição: no terceiro céu, e na
baixeza do pecado efetivo. Em primeiro lugar um homem em Cristo (o que
é verdadeiro acerca de nós todos, em posição; não em visão); o apóstolo
gloria-se de um tal homem, e nós temos também o direito de nos gloriarmos
— quer dizer, de um homem em Cristo, porque quanto ao que ele é em si
próprio, deve ser totalmente aniquilado. Mas gloriar-se de um homem em
Cristo, ou ser aniquilado na carne, não é o poder! O Caminho é a última
coisa para lá chegar; e assim, não sendo nada, o poder de Cristo está com
esse homem, repousa sobre ele e é nesse poder que se encontra a força
necessária para o serviço. O homem em Cristo está no seu próprio lugar —
e Cristo no homem, ou o Seu poder sobre ele é a força para servir. De sorte
que nós temos o que há de mais elevado naquilo que se concebe do
Espírito; temos o que há de mais baixo nas falhas da carne, e o Caminho
do poder aniquilando a carne; temos o poder de Cristo conosco, o poder
prático, enquanto estamos ainda no corpo. Mas há o sentimento da
fraqueza, a falta de proporção entre o que nós somos, quanto ao vaso de
barro, e o que é administrado e de que gozamos. Não se trata simplesmente
do que está mal, mas do vaso de barro que encerra o tesouro.
 
O apóstolo gloriava-se, pois, nas suas fraquezas e nos seus
sofrimentos. Tivera de falar como se estivesse fora de si: Aqueles que
proclamaram a excelência do seu ministério, tinham-no forçado a fazê-lo.
Foi no meio deles que foram dadas as mais impressionantes provas de um
ministério apostólico. Se, aquelas a quem se dirigia, nalguma coisa tinham
sido inferiores às outras Igrejas acerca das provas do seu apostolado, fora
apenas por em nada terem contribuído para o sustento do apóstolo. Ele iria
de novo dirigir-se ao meio deles, e esta prova continuaria ainda a faltar.
Paulo estava disposto a gastar-se pelos Coríntios como um bom pai,
mesmo quando, amando cada vez mais, fosse menos amado. Poderíamos,
talvez, dizer que ele tinha guardado bem as aparências, nada recebendo
deles para si, mas tendo o cuidado de se compensar, servindo-se de Tito
para, por seu intermédio, se aproveitar da liberalidade deles, — mas não!
Os Coríntios sabiam bem que Tito tinha trabalhado no meio deles no
mesmo espírito do apóstolo.
Triste ocupação essa, quando um coração, que está muito acima
desses motivos e dessas maneiras de julgar e de estimar os valores, e
inteiramente penetrado dos motivos divinos e gloriosos de Cristo, se vê
forçado a abaixar-se Aqueles que enchem os corações egoístas das pessoas
a quem ele tem de se humilhar, de corações que estão ao nível dos motivos
que animam e governam o mundo que os rodeia!
Mas o amor deve suportar tudo, e pensar nos outros, se não puder
pensar com eles e eles consigo.
Será, portanto, que o apóstolo tomava os Coríntios por juízes do seu
comportamento? Ele falava perante Deus em Cristo, e somente receava não
encontrar ainda, quando chegasse, muitos daqueles que professavam o
nome de Cristo, andando, no entanto, como o mundo de iniquidade que os
rodeava; receava ser humilhado no meio deles, tendo de se afligir por causa
de muitos que, tendo pecado, não estivessem ainda arrependidos.

 
CAPÍTULO 13
 
Paulo ia a Corinto pela terceira vez e anuncia que toda a questão
seria confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Desta vez
não perdoaria (versos 1-2). Ele diz: “É esta a terceira vez que vou ter
convosco”; e acrescenta: “Como fiz quando estive presente pela segunda
vez; mas agora, estando ausente...”; porque ele tinha estado em Corinto uma
vez, e devia ter passado por lá quando ia à Macedónia, sem, no entanto, o
ter feito, por causa do estado espiritual dos Coríntios. Mas desta terceira vez
agora ele ia e prevenia com antecedência de que, quando fosse, não
perdoaria...
Em seguida o apóstolo termina com o tema do seu ministério,
apresentando um pensamento que deveria confundir inteiramente aqueles
que punham em questão o seu ministério: Se Cristo não tinha falado por seu
intermédio, Cristo não habitava neles; se Cristo habitava neles, Cristo tivera
de falar por seu intermédio, porque ale tinha sido o instrumento usado por
Cristo para a conversão deles. “Visto que buscais uma prova de que Cristo
fala por meu intermédio... Examinai-vos...” (versos 3;5). Os Coríntios de
modo nenhum pensavam que estivessem reprovados pedante o Senhor. Este
raciocínio, ou antes, esta sugestão devia perturbá-los e devolver à sua
própria confusão a sua tola e estúpida oposição e o seu inconveniente
desprezo do apóstolo. Que loucura a deles deixarem-se seduzir por um
pensamento que, sem dúvida, os elevava aos seus próprios olhos, mas que,
pondo em questão o apostolado de Paulo, derrubava necessariamente e ao
mesmo tempo o seu próprio Cristianismo!
As palavras “o qual não é fraco...” do verso 3 até ao fim do verso 4
são um parêntesis que se reporta ao caráter do ministério de Paulo,
conforme os princípios apresentados no capítulo precedente, quer dizer a
fraqueza e o que tendia ao desprezo do lado do homem — o poder da parte
de Deus: Tal como Cristo tinha sido crucificado em fraqueza, e tinha sido
ressuscitado pelo poder divino. Se o apóstolo era fraco, era-o em Cristo; e
vivia em Cristo pelo poder de Deus para com os Coríntios. Ainda que o
mesmo sucedesse com eles, Paulo tinha confiança de que eles sabiam que
ele não era reprovado, e pedia somente a Deus que estes não praticassem o
mal; não para que ele não fosse reprovado, isto é, indigno no seu ministério
— porque se trata aqui de ministério — mas para que eles fizessem o bem,
mesmo que ele fosse como reprovado; porque ele não podia nada contra a
verdade, mas somente pela verdade.
Não era instrutor dos Coríntios no seu próprio interesse, e sentia-se
feliz na sua fraqueza, para que eles fossem fortes, porque o que ele desejava
era a perfeição deles (verso 9). Mas, como tinha dito já, escrevia, estando
ausente, para que, quando estivesse presente, não se visse obrigado a usar
de severidade, de harmonia com a autoridade que o Senhor lhe tinha dado
para edificação — e não para destruição. Ele tinha escrito o que o seu
coração cheio do Espírito Santo e por Ele dirigido o obrigava a dizer. Tinha
esvaziado o seu coração, e agora, fatigado, por assim dizer, do esforço feito,
termina a Epístola por algumas breves palavras: “Regozijai-vos, sede
perfeitos, sede consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz”
(verso 11). Que assim fosse era o que ele desejava para eles; e também que
o Deus de amor e de paz fosse com eles. Fica nesse desejo, exortando-os a
saudarem-se uns aos outros com afeto, do mesmo modo que todos os
santos, e ele também, os saudavam — e ora para que a graça do Senhor
Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo fossem com
eles todos.
 
FIM DOS ESTUDOS NA EPÍSTOLA
2ª CORÍNTIOS.

 
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2ª CORÍNTIOS

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