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Estudo Sobre a Palavra de Deus (Sinopse)

 
Comentário Bíblico
 
do
 
Novo Testamento
 
1ª aos Coríntios

 
Autor
John Nelson Darby

 
Tradutor
Martins do Vale

 
Revisor
Josué da Silva Matos

 
2019
www.boasemente.com.br
www.palavrasdoevangelho.com

 
1ª CORÍNTIOS
 
INTRODUÇÃO
 
A Epístola aos Coríntios apresenta assuntos bem diferentes daqueles
de que nos ocupamos nos estudo da Epístola aos Romanos. Encontramos
nela pormenores de ordem moral e do que diz respeito à ordem interna de
uma Igreja.
O Espírito de Deus manifesta ali a Sua sabedoria de maneira direta a
respeito dessa ordem, sem que seja feita menção de anciãos ou de outros
funcionários da Igreja.
Pelos trabalhos do apóstolo Paulo, tinha-se formado uma numerosa
Assembleia em Corinto (porque Deus tinha ali um grande povo), no meio
de uma população muito corrupta, onde as riquezas e o luxo se juntavam a
uma desordem moral de tal gravidade que o nome daquela cidade se tinha
tornado proverbial. Ao mesmo tempo, ali, como sucedia noutros lugares,
falsos doutores, em geral Judeus, procuravam minar a influência do
apóstolo; isto, por um lado, porque, por outro lado, o espírito filosófico não
deixava de exercer a sua funesta influência — embora Corinto não fosse,
como Atenas, a sua sede principal. A moral e a autoridade do apóstolo
estavam juntamente comprometidas, e todo o estado de coisas ali era dos
mais críticos.
A Epístola fui escrita em Éfeso e dali enviada, aonde as notícias da
deplorável condição do rebanho de Corinto tinham chegado a Paulo, pouco
mais ou menos quando ele se tinha decidido a ir visitar os Coríntios, de
passagem à Macedônia — em lugar de seguir, como tinha feito já, as costas
da Ásia Menor, e depois de visitar os Coríntios uma segunda vez, no seu
regresso dessas regiões. Mas as notícias ora recebidas impedem-no de
executar o seu projeto e, em lugar de ir ter com os Coríntios, na ânsia de
derramar o seu coração no meio deles, prefere escrever-lhes a carta que
agora estudamos. A segunda Epístola aos Coríntios foi escrita na
Macedónia, quando Tito lhe levou boas notícias acerca do feliz efeito desta
primeira.
Os temas agora tratados dividem-se muito facilmente, seguindo a
sua ordem natural:
Antes de censurar os Coríntios pelas suas faltas, o apóstolo
reconhece, e em primeiro lugar (capítulo 1:1-9), toda a graça que Deus lhes
tinha concedido e que continuaria até ao dia de nosso Senhor Jesus Cristo.
Em seguida (capítulos 1:10 até 4:21) Paulo trata a questão das
divisões das escolas de doutrina e das pretensões da sabedoria humana, em
contraste com a revelação e a sabedoria divina.
No capítulo 5 fala da corrupção dos costumes e da disciplina, seja
pelo poder ou pela responsabilidade da Assembleia.
No capítulo 6 ocupa-se dos assuntos temporais e dos processos, e
trata de novo o assunto da imoralidade, questão capital para os Cristãos de
Corinto.
No capítulo 7 o apóstolo considera a questão do casamento (deve o
homem casar-se?), depois a obrigação mútua dos casados — uma vez
casados — e o caso de um marido convertido, não o sendo a mulher; ou o
caso de uma mulher convertida, não o sendo o marido.
No capítulo 8 Paulo responde à questão de se saber se devemos
comer coisas oferecidas aos ídolos.
No capítulo 9 trata do seu apostolado,
No capítulo 10 trata do estado dos Coríntios em geral, do perigo em
que eles se encontravam de serem seduzidos, quer pela prostituição, quer
pela idolatria e pelos festins idólatras, e, ao mesmo tempo, ocupa-se dos
princípios que se ligavam a essas questões — o que introduz a cena.
No capítulo 11 encontramos as questões que se prendiam com o
comportamento dos Coríntios nas práticas religiosas, primeiro
individualmente, e depois (versos 17 e seguintes) na Igreja.
Em seguida, no capítulo 12, trata da prática dos dons, do seu
verdadeiro valor e do fim do seu emprego.
No capítulo 13, exalta o valor comparativo do amor.
Até ao fim do capítulo 14 regula a prática dos dons com os quais ele
comparou o amor.
A doutrina da ressurreição, que alguns negavam, é desenvolvida no
capítulo 15, e especialmente a dos santos.
E enfim, no capítulo 16, Paulo fala das coletas para os pobres da
Judeia, acrescentando algumas saudações e os princípios de subordinação
para com aqueles que o Senhor tivesse suscitado para o Seu serviço, mesmo
onde não houvesse anciãos. É muito importante receber essas direções
imediatamente, da parte do Senhor, fora de uma organização formal, de
modo que a consciência individual e a da Igreja, como corpo, estejam
igualmente comprometidas.
Mas há ainda, relativamente ao caráter e à estrutura da Epístola,
algumas considerações que não devo omitir: O leitor notará, certamente, a
diferença que existe entre a saudação dirigida aos Coríntios e aquela com
que começa a Epístola aos Efésios. A primeira é “à Igreja de Deus... com
todos os que, em todo o lugar, invocam o Nome de nosso Senhor Jesus
Cristo”. É a Igreja professante, supondo os seus membros todos fiéis, tendo
sempre esse caráter, enquanto não forem expulsos, e compreendendo ao
mesmo tempo cada um daqueles que reconhecem Jesus como Senhor — é a
casa. Daí as exortações do capítulo 10, versos 1 a 5.
Na Epístola aos Efésios, o apóstolo escreve: “Aos santos e fiéis”, e
temos ali os privilégios próprios para o corpo. Este caráter da Epístola aos
Coríntios, que abraça toda a Igreja professante e que reconhece uma
Assembleia local como sendo a sua representante no lugar onde ela se
encontra, dá a esta Epístola uma grande importância. Vê-se que se trata da
Igreja professante exterior até ao meio do capítulo 10. Depois disso a
natureza da Ceia do Senhor introduz o tema do corpo de Cristo como um
todo único, assunto este tratado, do ponto de vista dos dons do Espírito, no
capítulo 12.
Nos primeiros versos do capítulo 11 vemos o que é conveniente à
mulher na sua atividade. Depois do verso 17 trata-se do que convém quando
nos reunimos em Assembleia, do que se reporta à Ceia do Senhor e ao
governo de Deus. Os versos 1 a 16 não se aplicam à Igreja. Aliás, a ordem
na Igreja local é o tema geral. Simplesmente, desde o capítulo 1 ao capítulo
10, verso 4, o que está em causa é a Igreja professante — supondo que ela é
sincera, embora possa não o ser. Do capítulo 10, verso 15, ao fim do
capítulo 12, o que está em questão é o corpo. Mas, retomemos o conteúdo
da Epístola desde o princípio:

 
CAPÍTULO 1
 
Paulo era apóstolo pela vontade de Deus, e nesse fato residia a sua
autoridade, embora o mesmo se desse quanto aos outros apóstolos. Fora o
mesmo chamamento, que fez dos de Corinto Cristãos, que fizera dele um
apóstolo. Ao dirigir-se à Igreja em Corinto, junta a expressão característica
de santificados “em Cristo Jesus”, palavras cuja aplicação é evidente,
quando consideramos o conteúdo da Epístola. Em seguida é posta em
relevo a universalidade da aplicação da doutrina e dos ensinamentos da
Epístola, e a autoridade desta sobre todos os Cristãos, onde quer que eles se
encontrem. Felizmente o apóstolo, por maior que fosse a mágoa que lhe
causava o estado espiritual dos Coríntios, pode remeter-se à graça de Deus e
reconhecer assim todas as bênçãos que Deus lhes tinha concedido.
Colocar assim os Coríntios em relação com Deus era aplicar à
consciência deles toda a santidade de Deus e dar ao coração do apóstolo
todo o encorajamento da perfeita graça de Deus a respeito deles. Esta
mesma graça tornar-se-ia numa poderosa força nos corações dos Coríntios,
para que a Palavra produzisse ali os seus efeitos: Em presença de uma tal
graça, deviam ter vergonha do pecado.
Não poderia haver testemunho mais notável do que este que
encontramos aqui, de que devemos contar sempre com a fidelidade de Deus
para com os Seus. A relação com Ele exige santidade. Só poderemos gozar
da Sua presença em santidade, mas esta assenta sobre a fidelidade de Deus.
O comportamento dos Coríntios era mau, como sabemos. O apóstolo não
deixa passar nenhum mal, mas declara que Deus é fiel e que Ele os
confirmará até ao fim, para que eles fossem, não somente salvos, mas
também irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. E começa
então a censura-los. Que maravilhoso testemunho!...
Paulo e o próprio Espírito ligavam assim os Coríntios com Deus; e o
que Deus era nesta relação com eles tinha toda a sua força sobre os seus
corações e sobre as suas consciências. Ao mesmo tempo o emprego de uma
tal arma deveria abrir o coração dos Coríntios a tudo o que o apóstolo tinha
para lhes dizer. É preciso estar bem perto do Senhor para podermos, em
prática, considerar deste modo os Cristãos que procedem mal: Não se trata
de perdoar os seus pecados, e o apóstolo está bem longe de o fazer; mas a
graça leva as próprias consciências dos Coríntios a ocuparem-se do seu
pecado, como pessoas que tinham relações muito preciosas com Deus para
que permanecessem no pecado ou se permitissem praticá-lo.
A Epístola aos Gálatas danos um exemplo notável da confiança que
o conhecimento da graça assim inspira (Comparar capítulos 4:20 e 5:10).
O próprio Deus enriquecia os Coríntios dos Seus dons, e o Seu
testemunho era assim confirmado no meio deles, de medo que não careciam
de nenhum dom, esperando apenas a revelação do Senhor e o cumprimento
de todas as promessas. Dia solene esse, para o qual Deus, que os tinha
chamado, os confirmava na Sua fidelidade, para que eles fossem
irrepreensíveis nesse dia, chamados como eram à comunhão de Seu Filho
Jesus Cristo. Esta curta, mas preciosa exposição da graça e da fidelidade de
Deus serve de base (mesmo quando o estado espiritual dos Coríntios não
permitia ao apóstolo desenvolver este assunto, como o faz na Epístola aos
Efésios) e todas as exortações e a todas as instruções quis Paulo dirige aos
Coríntios, para fortalecer e dirigir os seus vacilantes passos.
O apóstolo dirige-se primeiramente à loucura dos Coríntios, que
faziam dos principais ministros Cristãos e do próprio Cristo simples mestres
de escola! Cristo não estava dividido; os Coríntios não tinham sido
batizados em nome de Paulo; este tinha, com efeito, batizado alguns de
entre eles, mas a sua missão era pregar o Evangelho e não batizar (1) e eram
os capítulos 26:18 e 13:3 e seguinte de Atos que formulavam esta missão —
e não Mateus 28:19.
 
(1) Esta declaração é tanto mais notável quanto é certo Paulo ter
recebido uma revelação especial relativamente a Ceia do Senhor. Mas esta
ordenança tinha relação com a unidade do corpo, que era especialmente o
testemunho do apóstolo. Os doze eram enviados para batizar (Mateus 28).
 
De resto, toda essa sabedoria humana, que os Coríntios admiravam,
não era senão uma simples loucura, que Deus reduz a nada! A pregação da
Cruz é o poder de Deus; e Deus escolheu as coisas fracas, as coisas de nada,
as coisas loucas, segundo o mundo, para aniquilar a sabedoria e a força
deste, a fim de que seja claramente manifestado que o Evangelho é o poder
de Deus. Os Judeus pediam um sinal, os Gregos procuravam a sabedoria —
Deus fazia pregar a Cristo crucificado, escândalo para o Judeu, loucura para
o Grego, mas o poder de Deus para aqueles que são chamados (versos 23 e
24). Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e
aquelas que nada são, para reduzir a nada as que são; porque a Sua fraqueza
é mais forte do que a força do mundo, e a Sua loucura é mais sábia do que a
sabedoria do século: A carne não se glorifica perante Ele. Deus tem que ver
com a consciência, embora em graça, segundo a verdadeira posição do
homem responsável e não Se submete ao julgamento nem aos raciocínios
do espírito humano, absolutamente incompetente em tal assunto — mas que
sai do seu lugar como se pudesse julgar a Deus! Mas, além disso, o Cristão
é muito mais do que o objeto das instruções de Deus: Ele é “de Deus em
Cristo Jesus”. Ele tira a sua vida, o seu ser, a sua posição, da sua qualidade
de Cristão, de Deus; e Cristo é, para ele, da parte de Deus, sabedoria,
justiça, santidade, redenção, tendo o todo em contraste com as pretensões
do espírito humano, com a falsa justiça do Judeu sob a lei, com os meios e a
medida de santidade que esta fornecia, e, enfim, com a fraqueza do homem
de quem Deus tirará os últimos traços da libertação que Ele operará pelo
Seu poder em Cristo no dia em que der os últimos retoques à obra da Sua
graça. Por conseguinte, nós somos de Deus.
Cristo é tudo para nós, da parte de Deus, a fim de que aquele que se
glorifica, se glorifique no Senhor. Curto, mas poderoso testemunho do que é
o Cristianismo nos seus elementos.

 
CAPÍTULO 2
 
Foi neste espírito que, de inicio, Paulo veio aos Coríntios. Ele não
tinha querido conhecer senão a Cristo (1), e Cristo no Seu estado de
humilhação e de depressão, objeto do desprezo dos homens insensatos. A
palavra do apóstolo não tinha o atrativo carnal de uma eloquência artificial,
mas era a expressão da presença e da ação do Espírito e do poder que
acompanhava essa presença. A fé dos Coríntios assentava assim, não sobre
as belas palavras do homem, que um outro, mais eloquente ou mais sutil,
podia eclipsar, mas sobre o poder de Deus, fundamento sólido para as
nossas pobres almas. Bendito seja o Nome do Senhor!
 
(1) Note-se que Paulo não diz, nesta passagem, que ele não quis
conhecer senão “a Cruz” de Cristo, como algumas pessoas — e até mesmo
alguns Cristãos — erradamente afirmam. Paulo não quis conhecer senão
“a Cristo”, em contraste com a filosofia que reinava no meio desses
pagãos, e Cristo sob a forma da maior humilhação, para derrubar o
orgulho do homem. Na exposição que se segue Paulo informa-nos que,
entre os que eram iniciados ao Cristianismo, ensinava a sabedoria, mas a
sabedoria de Deus, revelada por Aquele que sonda as coisas profundas do
próprio Deus. O emprego dado a esta passagem, a que faço alusão, há um
muito deplorável abuso das palavras do apóstolo, um abuso que é feito com
frequência, citando, de resto, a passagem incorretamente.
 
Mas, uma vez a alma instruída e estabelecida na doutrina da
salvação em Cristo, havia uma sabedoria de que o apóstolo falava: Não a
sabedoria do presente século nem dos príncipes deste século que perecem,
e, eram eles, toda a sua sabedoria, mas sim a sabedoria de Deus em
mistério, um conselho secreto de Deus (revelado agora pelo Espírito),
estabelecido no Seu determinado propósito, para nossa glória, antes que o
mundo existisse, conselho que, com toda a sua sabedoria, nenhum dos
príncipes deste mundo conheceu. Se eles o tivessem conhecido, não teriam
crucificado Aquele em cuja Pessoa tudo devia ser cumprido — o Senhor da
glória (verso 8).
O apóstolo não aborda o assunto do mistério, porque devia alimentar
os Coríntios como se fossem meninos. Menciona-o apenas para o pôr em
contraste com a falsa sabedoria do mundo. Mas a maneira como essa
sabedoria é comunicada é importante. O Que nunca tinha chegado ao
coração do homem (2), Deus o revelou pelo Seu Espírito, porque o Espírito
sonda todas as coisas, mesmo as coisas profundas de Deus (versos 9 e 10).
 
(2) Cita-se muitas vezes esta passagem a fim de provar que as
coisas são demasiado grandes para que possamos conhecê-las, mas é uma
citação de Isaías que o apóstolo faz, para demonstrar que o que não podia
ser conhecido naquele tempo (Quando o mal estava lá, e o homem era
tratado segundo o que ele era), é revelado atualmente agora que o homem
está na glória, na pessoa de Cristo, e que o Espírito Santo desceu para
demonstrar que Cristo está lá, na glória! O Cristianismo não é o
Judaísmo!...
 
Só o espírito do homem, que nele está, sabe as coisas que esse
homem nunca tiver comunicado aos outros. Do mesmo modo, ninguém
conhece as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Ora, foi o Espírito de
Deus; que o apóstolo e os outros vasos de revelação receberam, quem
revelou as coisas dadas gratuitamente por Deus, para que eles as
conhecessem (versos 11 e 12). Isto apresenta-nos o conhecimento das
próprias coisas nos vasos de revelação. Em seguida esses instrumentos de
Deus deviam comunicar as coisas — e eles fazem-no, não por palavras que
a arte do homem ensinam, mais sim por palavras que o Espírito (o próprio
Deus) ensinara, comunicando coisas espirituais por um meio (3) espiritual.
 
(3) Não tenho a menor dúvida de que não seja este o sentido da
passagem. O meio era da mesma natureza que a coisa pela qual ele era
empregado (verso 13).
 
A comunicação era pelo Espírito, do mesmo modo que a coisa
comunicada. Mas faltava ainda algo para que os outros possuíssem assa
revelação, isto é, a recepção dessas comunicações.
Esta recepção exige também a ação do Espírito.
O homem natural não as recebe, porque elas se discernem
espiritualmente.
A fonte, o meio de comunicação, a recepção, tudo era, portanto, do
Espírito. O homem espiritual discerne tudo, e não é discernido de ninguém.
O poder do Espírito no homem espiritual torna o julgamento deste claro e
justo, mas dá-lhe motivos e um comportamento ininteligíveis para todo
aquele que não tem o Espírito. Por muito simples que pareça, nada mais
importante do que este ensinamento.

 
CAPÍTULO 3
 
Mas ai!... O estado espiritual dos Coríntios, quer quando o apóstolo
estava entre eles, quer no momento em que lhes escrevia, não era de modo a
que o mistério lhes pudesse ser revelado — triste humilhação para o seu
orgulho filosófico, mas bom remédio!... Eles não eram homens ingênuos;
simplesmente, eram homens carnais, e não espirituais, de sorte que o
apóstolo devia dar-lhes leite em vez de alimento sólido — que só é próprio
para pessoas crescidas.
Aquilo com que eles alimentavam o seu orgulho era a prova mais
cabal desse espírito carnal, ou seja as suas divisões em escolas de doutrinas.
Paulo, sem dúvida, tinha plantado, e Apolo regado; estava bem! Mas só
Deus dá o crescimento.
De resto, o apóstolo tinha posto o fundamento desse edifício de
Deus — a Igreja em Corinto. Outros tinham construído sobre esse
fundamento, tinham continuado a obra da edificação das almas. Mas que
cada um tivesse cuidado! Não havia senão um fundamento — e já estava
posto.
Porém, em relação com ele, podia-se ensinar coisas sólidas, ou
outras que não têm nenhum valor, e, por umas ou por outras, formar as
almas, talvez mesmo introduzir entre os santos algumas almas ganhas por
essas vãs doutrinas. A obra passará, cedo ou tarde, por algum tipo de prova.
Se se trabalhou na obra de Deus com materiais sólidos a obra resistirá;
senão, ela será reduzida a nada. O efeito, o fruto do trabalho será destruído.
Mas o homem que trabalhou será salvo, pois que construiu sobre o
verdadeiro fundamento, visto ter tido uma verdadeira fé em Cristo. Todavia,
o abalo causado pela ruína de tudo o que ele julgava verdadeiro (1), irá até
perturbar a sua própria fé, embora sem a destruir: Ele será salvo como que
através do fogo. O obreiro segundo Deus recebe o fruto do seu trabalho. Se
alguém corrompe o templo de Deus, se alguém introduz algo que destrua as
verdades fundamentais, ele próprio será destruído.
 
(1) Note-se o muito importante ensinamento que aqui nos é dado
relativamente à Igreja considerada como sendo o edifício de Deus. Em
Mateus 16 temos o que Cristo edifica e contra o qual o poder de Satanás
não pode prevalecer.
Este edifício continua a elevar-se até que finalmente fique
concluído. É por isso que em 1 Pedro 2, e em Efésios 2 não é feita menção
de obreiros. As pedras aproximam-se e o edifício cresce. É a própria obra
de Cristo. Ele constrói, e o edifício não está ainda concluído. Aqui (em
Coríntios), é o edifício de Deus; mas há alguém que constrói de modo que a
responsabilidade do homem seja ali introduzida. Há um sábio arquiteto,
que pôs o fundamento. Pode haver obreiros que edifiquem sobre esse
fundamento de ouro, de prata ou pedras preciosas, ou outros que
construam com madeira, feno ou palha. Há mesmo quem corrompa. Em
Efésios 2, há também um edifício que se eleva atualmente, mas o fato é
visto de uma maneira mais abstrata. Em Coríntios, a responsabilidade está
formalmente estabelecida. A confusão feita entre o edifício que Cristo
constrói, ainda não acabado, e o que o homem constrói, entre as promessas
feitas ao primeiro e que nós aplicamos ao segundo, que assenta sobre a
responsabilidade do homem e que é um edifício atual sobre a Terra, esta
confusão é uma das principais fontes de erros Papistas e Puseístas –
(Movimento religioso renovador, promovido pelo teólogo inglês Eduardo
Pusey, que levou para o catolicismo uma fração da Igreja anglicana. O
puseísmo verificou-se na segunda metade do século XIX). – Nada pode
prevalecer contra a obra de Cristo.
O homem pode construir com madeira, feno e palha, e a sua obra
ser destruída, como, de fato, o será.
 
O tema desta passagem é, portanto, o trabalho que se prossegue por
certas doutrinas, sejam elas boas ou sem valor, ou mesmo subversivas da
verdade, e os frutos que esse trabalho produzirá.
E há três casos a considerar:
1º-A obra é boa, assim como o obreiro;
2º-A obra é vã, mas o obreiro é salvo;
3º-Há, enfim, o corruptor do templo de Deus — e então o obreiro é
destruído.
 
Enfim, acrescenta o apóstolo, se alguém quer ser sábio neste mundo,
que se torne estulto, para ser sábio! Deus tem a sabedoria deste mundo por
loucura, e apanhará os sábios na sua própria astúcia.
Também os santos, dizendo que pertenciam a um ou a outro desses
doutores, se colocavam muito abaixo dos seus privilégios. Todas as coisas
eram deles, pois que eram filhos de Deus. “Todas as coisas”, diz o apóstolo,
“são vossas, seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida,
seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós
de Cristo, e Cristo de Deus” (verso 22).

 
CAPÍTULO 4
 
Quanto ao apóstolo e aos seus colaboradores, os Coríntios deviam
considerá-los como administradores, empregados pelo Senhor, e era a Ele
que Paulo se confiava para julgar do seu procedimento. O julgamento que o
homem pudesse trazer sobre ele não lhe importava absolutamente nada; não
se sentia culpado de nada. Todavia, isso não o justificava; no entanto, quem
o julgava (quem o examinava) era o Senhor. E, ao fim e ao cabo, era Ele
também quem dava, a um ou a outro, o que poderia ter valor no serviço.
Paulo tinha achado bem, ao abordar este assunto, mencionar os
nomes de que os Coríntios se serviam nas suas divisões carnais, e aqueles
(especialmente o seu e o de Apolo) de que não podiam servir-se para
pretenderem pôr os outros de lado e elevarem-se a si mesmos. Mas qual era
o real estado das coisas? Os Coríntios desprezavam o apóstolo. Sim, diz ele,
nós temos sido infamados, desprezados, perseguidos em grande aflição;
mas vós, vós tendes estado à vossa vontade, como reis... Esta censura,
fundada sobre as suas pretensões e sobre as críticas que eles próprios
tinham feito ao apóstolo, devia tocá-los ao vivo, se alguma sensibilidade
Lhes restasse. Paulo tinha sido, com os seus companheiros, o lixo do
mundo, pelo amor de Cristo, enquanto que os Coríntios descansavam no
meio do luxo e do bem-estar. E essa era a sua posição no próprio momento
em que lhes escrevia. Prouvera a Deus, diz ele, que vós reinásseis — que o
dia de Cristo estivesse ali — para que nós reinássemos convosco!
Paulo era sensível aos sofrimentos por que passava, suportando-os
com alegria. Ele e os seus companheiros de trabalho eram expostas em
público, da parte de Deus, como que para serem o grande e o último
espetáculo dos jogos maravilhosos de que este mundo era o anfiteatro, para
serem, como testemunhas de Deus, entregues ao furor de um mundo cruel.
A paciência e a doçura eram as suas únicas armas!...
Todavia, Paulo não diria aquilo aos Coríntios para os humilhar.
Advertia-os apenas, como seus filhos queridos — porque eles eram seus
filhos. Embora eles pudessem ter tido dez mil aios, ele próprio os tinha
gerado a todos pelo Evangelho. Que fossem, pois, seus imitadores! Em tudo
isto podemos ver o profundo sentimento de um coração nobre, ferido no
mais alto grau, mas cuja ferida fazia realçar uma afeição que se elevava
acima da sua própria dor. É isto o que distingue, de maneira tão
impressionante, a obra do Espírito Santo no Novo Testamento, como no
próprio Cristo. O Espírito veio ao seio da Igreja, toma parte na sua aflição,
nas suas dificuldades, enche as almas daquilo que verdadeiramente
interessa à Igreja, ajuda-nos nas nossas fraquezas (Romanos 8:26), faz-lhe
sentir à Igreja o que nela se passa; faz-lhe sentir segundo Deus, mas com
coração verdadeiramente humano.
Quem poderia produzir todos esses sentimentos para com os
estrangeiros, senão o Espírito de Deus? Quem teria podido entrar nessas
coisas com toda a perfeição da sabedoria de Deus para atuar sobre o
coração, para livrar a consciência, para formar a inteligência e pô-la em
liberdade, senão o Espírito de Deus?...
No entanto, o vínculo individual do ministério apostólico devia
formar-se e fortificar-se. Era a essência da obra do Espírito Santo na Igreja
unir assim todo o conjunto. Vemos o homem; de outro modo não teríamos
tido Paulo nem os seus queridos irmãos, nem as ternas afeições que
vinculavam Paulo a estes. Vemos o Espírito Santo, que os Coríntios tinham,
sem dúvida, entristecido, agir no apóstolo com divina sabedoria, para dirigir
os Coríntios no reto caminho, com toda a afeição de seu pai em Cristo.
Timóteo, seu filho na fé, e por um coração que amava Paulo como um pai,
podia tomar parte nesta afeição; Paulo tinha-o enviado.
Ele próprio iria dentro em pouco a Corinto. Alguns diziam que não,
e dessa sua afirmação tomavam ocasião de se glorificarem, aproveitando a
ausência do apóstolo, mas ele próprio iria e poria tudo à prova, porque o
Reino de Deus não consistia em palavras, mas em poder. Os Coríntios
desejaram que ele fosse com vara, para castigo, ou com amor e doçura?
(versos 17-21).
Termina aqui esta parte da Epístola; prova admirável de ternura e de
autoridade, de uma autoridade bastante segura de si própria, da parte de
Deus, para tornar o apóstolo capaz de agir com uma perfeita ternura para
com aqueles que lhe eram tão queridos, no desejo de não ser forçado a
exercê-la de outra maneira. As mais poderosas verdades são reveladas nas
comunicações que daí resultam.

 
CAPÍTULO 5
 
O apóstolo começa aqui a tratar dos pormenores do comportamento
e da disciplina, e fala em primeiro lugar da impureza carnal, desenvolvida,
entre os Coríntios, até ao mais elevado grau que uma consciência
empedernida poderia atingir. Aqueles que procuravam exercer a sua própria
influência como doutores, tudo permitiam aos Coríntios. O apostolo
condena sem reservas o estado moral e espiritual deles e regulamenta em
seguida a disciplina.
Cristo tinha sido oferecido como Cordeiro de Páscoa, e eles deviam
celebrar a festa sem fermento, purificando-se do velho fermento, para se
tornarem, de fato, o que já eram perante Deus: Uma massa sem fermento.
Pelo que concerne à disciplina, eis o ensinamento do apóstolo:
Antes de os Coríntios saberem que era seu dever excomungar o malfeitor, e
que Deus lhes tinha confiado esse poder e imposto essa obrigação, o
sentimento moral do mal, pelo menos, deveria levá-los a humilharem-se
diante de Deus e a suplicar-Lhe que tirasse do meio deles o mal ou aquele
que o fazia. Mas, é pelo contrário, eles estavam inchados de orgulho... Por
isso o apóstolo lhes ensina o que era necessário fazer, e reforça as suas
instruções de toda a sua autoridade apostólica. Embora, não estando em
corpo, estava com eles em espírito, quando estivessem reunidos, e estava
com o poder do Senhor Jesus para entregar um tal homem a Satanás, mas
como um irmão, para a destruição da carne, a fim de que o seu “espírito
fosse salvo no Dia de Cristo”. (versos 3-5)
É-nos mostrado aqui, em exercício, todo o poder da Assembleia, no
seu estado normal, unida à energia apostólica e por ela dirigida. Vemos os
membros do Corpo, o apóstolo, vaso e canal do poder do Espírito, e o poder
do próprio Senhor Jesus, Cabeça do Corpo. Ora, o mundo é o teatro do
poder de Satanás. A Igreja, livre do seu poder, é a habitação de Deus pelo
Espírito. Se o Inimigo conseguiu arrastar, pela carne, um membro de Cristo,
de modo tal que esse membro desonra o Senhor, andando segundo a carne,
tal como o mundo, é excomungado, e; pela energia do Espírito, então
exercida no meio deles pelo apóstolo, ele é entregue ao Inimigo, servo,
contra a sua vontade, dos desígnios de Deus (como no caso de Jó), para que
a carne do Cristão, que este não tinha sabido ter para morte e pela qual,
consequentemente, tinha estado, moralmente, sob o poder de Satanás, fosse
fisicamente quebrada e destruída.
Desse modo, o culpado seria libertado das ilusões em que a carne o
tenha cativo, o seu espírito aprenderia a discernir a diferença entre o bem e
o mal e a conhecer o que é o pecado; o julgamento de Deus realizar-se-ia
dentro dele e já não se executaria sobre ele no dia em que esse julgamento
for definitivo para a condenação daqueles que o sofrerem. Esta disciplina
era uma grande graça, embora a sua forma fosse terrível: Apresenta-nos um
maravilhoso exemplo do governo de Deus, que faz da inimizade de Satanás
contra os santos um instrumento da bênção espiritual deles. Temos um claro
ensinamento sobre esse assunto na história de Jó, onde todo o tema é
plenamente desenvolvido: simplesmente, temos aqui algo mais que,
naturalmente, se não encontra na história de Jó, a saber, a prova de que, no
seu estado normal, estando ali o poder apostólico (1), a própria Igreja
exercia esse julgamento sobre o pecador, tendo, pelo Espírito, o
discernimento necessário e a autoridade de Cristo para o fazer.
 
(1) Somente o apóstolo (1 Timóteo 1:20) exerce esse poder acerca
de certos blasfemadores. É o poder e não o dever, e importa saber
distinguir entre ambos. Embora o apóstolo o fizesse aqui, na Igreja, com
ela reunida, diz, no entanto: “Eu já determinei entregar um tal homem a
Satanás”. No verso 13 temos o dever positivo da Igreja, sem que seja
questão de poder especial.
 
Depois, qualquer que fosse a capacidade espiritual da Igreja para
manejar essa espada do Senhor (porque aquilo significa poder), o seu dever
positivo e corrente só é verificado no fim do capítulo.
A Igreja é uma massa sem fermento, considerada no Espírito como
Assembleia, e não sob a relação dos indivíduos que a compõem. É, assim
que é necessário considerá-la, porque é somente no Espírito que ela o é. A
Igreja é vista por Deus como estando perante Ele na sua nova natureza em
Cristo. Tal ela deveria ser também na prática, pelo poder do Espírito, apesar
da existência da carne.
Pela fé, ela deveria ter a carne por morta e nada admitir no seu
comportamento que fosse contrário a esse estado.
A Igreja deve ser “uma nova massa”, mas não o é se tolerar o mal
no seu seio; por conseguinte, deve purificar-se do velho fermento, porque,
nos pensamentos de Deus, ela é sem fermento. Tal é a sua, posição perante
Deus, porque Cristo, a nossa Páscoa, foi sacrificado por nós; devemos, pois,
fazer a festa com o pão sem fermento — fazê-la com sinceridade e com
verdade. Fossem quais fossem os seus dons, os Coríntios não tinham, pois,
razão para se vangloriarem, enquanto o mal se encontrasse no meio deles:
“Um pouco de fermento faz levedar toda a massa” (verso 6). Por outro lado,
o apóstolo adverte-os de que o mal não dizia respeito somente Aquele que
dele era pessoalmente culpado: A Assembleia não estava purificada
enquanto o mal não tivesse sido erradicado (2 Coríntios 7:11). Os Coríntios
não podiam separar-se, da sua vida corrente, de todos aqueles que, no
mundo, andavam na corrupção, porque, nesse caso ser-lhes-ia necessário
saírem do mundo; mas se alguém se chama irmão e anda na corrupção, com
um tal homem nem mesmo se deve comer. Deus julga aqueles que estão
fora da Igreja; a própria Igreja deve julgar aqueles que estão dentro — e pôr
fora todo aquele que puder ser considerado malfeitor.

 
CAPÍTULO 6
 
Os versos 1-11 deste capítulo tratam da questão de atos condenáveis
praticados por irmãos. Era vergonhoso que aqueles que deviam julgar o
mundo e os anjos fossem incapazes de julgar as coisas mesquinhas desta
vida. O apóstolo não quer que os menos capazes na Assembleia sejam
empregados em tal serviço. Aliás, não deveriam eles antes suportar as
injustiças que pudessem fazer-lhes? Mas, em lugar disso, eles próprios
praticavam a injustiça e faziam dano. Ora, certamente, nem os malfeitores
nem os injustos herdarão o Reino de Deus (verso 9). Que maravilhosa
mistura de surpreendentes revelações, de imutável moralidade (qualquer
que fosse, aliás, a divina supremacia da graça), de ordem e de disciplina
eclesiásticas!
A Igreja está unida a Cristo; quando Cristo julgar o mundo e
sentenciar sobre a sorte dos anjos, ela ser-lhe-á associada e tomará parte no
julgamento que Cristo executará, porque ela tem o Seu Espírito e o Seu
pensamento. No entanto, nada de injusto entrará nesse Reino. Com efeito,
como poderia o mal ser julgado por alguém que nele tem o seu prazer?
Portanto os Cristãos — prossegue o apóstolo — não deveriam ter processos
perante os tribunais do mundo, devendo, quando necessário, recorrer à
arbitragem dos irmãos — serviço este que, tendo tão pouco a ver com a
espiritualidade cristã, convinha aos mais prudentes de entre eles. Aliás, o
que era preciso antes de tudo era suportar as injustiças que pudessem ser-
lhes feitas. Mais, seja como for, os injustos não herdarão o Reino.
O Judaísmo, que se comprazia numa santidade carnal, fundada sobre
regras exteriores, por um lado, e, por outro, o espírito do mundo e a
conformidade aos seus caminhos, eis os dois perigos que ameaçavam a
Igreja de Corinto, perigos estes que são, de resto, para o coração do homem,
de todos os tempos e de todos os lugares.
A respeito dos alimentos — Paulo volta agora a esse assunto (versos
12 e 13), a regra é simples: perfeita liberdade, pois tudo é permitido —
verdadeira liberdade, na medida em que se não seja escravo de nenhuma
dessas coisas. O ventre e os alimentos, enquanto em relação um com os
outros, correrão perigo juntos; o corpo tem um destino mais elevado: Ele é
para o Senhor e o Senhor é para ele. Deus ressuscitou a Cristo de entre os
mortos e Ele nos ressuscitará pelo Seu poder. É a isto que o corpo pertence
— e não aos alimentos.
Mas esta doutrina, que o corpo é para Cristo, resolve uma outra
questão, à qual os depravados costumes dos Coríntios davam lugar: Toda a
prostituição é proibida (versos 15 e seguintes). Para nós, com os nossos
hábitos de pensar de Cristãos, a questão é simples e o nosso raciocínio já
está formado; mas para os pagãos era coisa nova. Todavia, o Cristianismo
realça todo o assunto: “Os nossos corpos são os membros de Cristo”. É,
porém, de grande importância uma outra verdade que se liga a este ponto:
Se, pelo casamento, segundo a carne, o marido e a mulher formam um só
corpo, aquele que está unido ao Senhor forma, com Ele, um só espírito! O
Espírito, cuja plenitude está em Cristo, é o mesmo Espírito que habita em
mim e me une a Cristo. Os nossos corpos são os templos do Espírito Santo,
Que verdade tão poderosa, quando nela pensamos!
Além disso, nós não somos de nós próprios, porque fomos
comprados por grande preço — pelo preço do salgue de Cristo, que Se
ofereceu por nós. Por conseguinte, devemos glorificar a Deus nos nossos
corpos, que são d'Ele.
E este poderoso e universal motivo deve governar, sem exceção,
todo o nosso comportamento. A nossa verdadeira liberdade consiste em
pertencermos a Deus. Fazer qualquer coisa para nós próprios é furtá-la aos
direitos d’Aquele que nos comprou para sermos Seus. Tudo o que o escravo
era, tudo o que ele ganhava, era propriedade do seu senhor.
Ele não era senhor de si próprio. O mesmo se dá com o Cristão. Se
assim não for, ele será um miserável servo do pecado e de Satanás. O
egoísmo o governará e o eterno banimento da fonte do amor é o seu fim.
Horrível pensamento!
Mas em Cristo nós somos objetos especiais e os vasos desse amor!
Temos, pois, aqui dois poderosos motivos de santidade: O valor do sangue
de Cristo, pelo qual somos comprados, e o fato de sermos os templos do
Espírito Santo.

 
CAPÍTULO 7
 
O apóstolo prossegue o seu ensino respondendo a uma questão
relacionada com o assunto que acabava de tratar, e expõe aos Coríntios a
vontade de Deus acerca das relações do homem com a mulher. Fazem bem
aqueles que ficam estranhos a essas relações, a fim de andarem com o
Senhor, segundo o Espírito, e para não cederem no que quer que seja às
solicitações da natureza. O próprio Deus instituiu o casamento; desgraçado
de quem diz mal dele. Mas o pecado entrou, e tudo o que diz respeito à
natureza da criação, neste mundo, foi corrompido. Deus introduziu um
poder que está totalmente acima e fora da natureza — o poder do Espírito.
Andar inteiramente de acordo com esse poder é o que há de melhor para o
homem: Andará fora da esfera onde atua o pecado. Mas é raro, por ser
difícil; e abster-se do que Deus ordenou conforme a natureza conduz, na
maior parte dos casos, a pecados positivos.
Portanto, em geral, e por essa razão, cada um deverá ter a sua
própria mulher. Mas, uma vez formada a ligação, o homem já não tem
poder sobre si mesmo. Quanto ao corpo, o marido pertence à mulher, e a
mulher ao seu marido. Se, por consentimento mútuo, se separarem por
algum tempo, a fim de se aplicarem à oração e a exercícios espirituais, a
ligação deve ser imediatamente reconhecida e tomada de novo, para que o
coração, não se dominando a si próprio, não dê ocasião a Satanás de entrar
e mergulhar a alma na angústia, destruindo a sua confiança em Deus e no
Seu amor; e também para que o Inimigo não tente, por meio de penosas
dúvidas (é por causa de, e não por incontinência), um coração que,
aspirando a demasiada elevação, acabe por sucumbir.
No entanto, esta permissão e esta direção que convidam os Cristãos
ao casamento não era um mandamento do Senhor, dado por inspiração, mas
sim o fruto da experiência do apóstolo, experiência esta a que não faltava a
presença do Espírito Santo (1). O apóstolo teria preferido que todos fossem
como ele, mas, sob esse aspecto, cada um tinha o seu próprio dom da parte
de Deus.
 
(1) Note-se que o apóstolo distingue formalmente aqui o que os
incrédulos da escola moderna pretenderiam confundir, a saber, os
pensamentos espirituais de Paulo como homem, e a inspiração. O apóstolo
dá os seus pensamentos e o seu julgamento como homem espiritual,
estando o seu espírito animado e guiado pelo Espírito Santo — e põe isso
em contraste com a inspiração e aquilo que o Senhor diz. O Senhor proveu
admiravelmente em toda a Escritura! (Ver o verso 25).
 
Aos solteiros e aos viúvos o apóstolo diz que seria bom
permanecerem no mesmo estado em que ele próprio se encontra; mas, se
não sabem ou não podem dominar os seus instintos e ficar numa pureza
calma, vale mais casarem-se, pois é mais prejudicial a insubmissão dos
desejos carnais do que os laços do matrimónio.
Quanto ao casamento em si (versos 10 e seguintes), já não se trata
de um conselho ditado pela experiência; o mandamento do Senhor era
categórico: A mulher não devia separar-se do seu marido, nem o marido da
sua mulher. Mas se, porventura, se separassem, os laços matrimoniais nem
por isso seriam quebrados.
Deviam, pois, reconciliar-se ou, pelo menos, não voltarem a casar...
Quando o homem era convertido e a mulher incrédula, ou vice-
versa, o caso tornava-se mais complicado. Segundo a lei, um homem que
tivesse desposado uma mulher de entre os Gentios, por conseguinte, uma
mulher profana ou impura, contaminava-se e devia despedir essa mulher; e
os filhos que tivessem nascido dessa união não tinham nenhum dos
privilégios dos Judeus. Eram rejeitados como sendo impuros (ver Esdras
10:3). Mas, sob a graça, dá-se precisamente o contrário: O marido
convertido santifica a mulher, e a mulher convertida santifica o marido, e os
seus filhos são considerados puros diante de Deus.
Tem parte nos direitos eclesiásticos do progenitor convertido.
É este o sentido da palavra “santo” empregada em conexão com a
questão de ordem e de relação exterior perante Deus, que sugeria a
obrigação que, em semelhante caso, sob a lei, tinha força de despedir
mulher e filhos.
Agora, sob a graça, o Crente não deve despedir a sua mulher
Incrédula; nem a mulher crente, abandonar um esposo incrédulo. Mas se o
homem incrédulo abandonava a sua mulher crente, ou se a mulher incrédula
abandonava o homem crente, o homem ou a mulher crentes ficava
definitivamente livres; isto é, se a mulher incrédula se vai embora, o crente
já não está obrigado a considerá-la como sua mulher, e; do mesmo modo, se
o homem incrédulo se afasta voluntariamente, a crente já não está obrigada
a considerá-lo como marido. Mas nós somos chamados a paz, e não a
procurar uma tal separação, porque, quem sabe se o marido crente não vira
a ser o meio de conversão da sua mulher incrédula, ou a mulher crente o
meio de conversão do seu marido incrédulo? (verso 16), porque nós
estamos sob a graça. Aliás, cada um de nós deve andar segundo o Senhor
lhe tem distribuído (verso 17).
Pelo que diz respeito às ocupações e à posição neste mundo, em
geral, a regra dada aqui consiste em cada um permanecer no estado em que
se encontrava quando foi chamado, mas devendo aí permanecer “com
Deus”, não fazendo nada que não seja para O glorificar. Se, porém, o estado
em si mesmo era contrário à vontade de Deus, é evidente que não se poderia
ali ficar com Ele! Continuar lá seria um pecado. Mas a regra geral consiste
em ficarmos no estado em que nos encontrávamos e nele glorificar a Deus
(versos 15-24).
O apostolo, tendo falado do casamento, dos solteiros e dos viúvos,
responde às questões que também lhe tinham sido postas acerca de pessoas
de um e outro sexo que tinham permanecido virgem (versos 25 e seguintes).
Sobre esse ponto não tinha nenhum mandamento da parte do Senhor. Podia
somente dar a sua opinião como alguém a quem o Senhor tinha concedido a
graça de ser fiel. O apóstolo considerava que era bom permanecer nesse
estado, dadas as condições reais que o mundo se encontrava e as
dificuldades da vida cristã: “Estás ligado à mulher? não busques separar-te;
estás livre de mulher? não busques mulher”, diz ele (verso 27). Se o homem
se casa, faz bem; mas, se não se casar, faz ainda melhor. Aquele que nunca
conheceu mulher, se se casar não peca por causa disso; mas terá aflições na
carne, na vida deste mundo (verso 28).
Note-se que não se trata, nesta passagem, da filha do Cristão, mas
do próprio estado pessoal deste. Se o homem permanece firme e tem poder
sobre a sua própria vontade, está no melhor caminho. Se se casa, faz bem;
se não se casa, faz melhor ainda. E o mesmo se dá com a mulher. E se o
apóstolo dizia que, em sua opinião, isso era melhor, não esqueçamos que ele
tinha o Espírito de Deus. A sua experiência, se não havia mandamento, não
era uma experiência, feita sem o Espírito Santo; era uma experiência de um
homem que (se alguém tivesse o direito de o dizer) podia dizer que tinha o
Espírito de Deus.
De resto, os tempos eram difíceis, e Paulo queria que os homens
casados fossem como se não tivessem mulher; os compradores como se
nada possuíssem; aqueles que se utilizam deste mundo, como se dele não
usassem. O apóstolo deseja vê-los a todos livres de cuidados e sem
distração, para servirem ao Senhor. Se, tendo-se por morto para a natureza,
esse efeito não é produzido, nada se ganha com isso. Os que estão casados
estão preocupados com as coisas deste mundo para agradarem às suas
mulheres e proverem às necessidades dos seus filhos. Pelo contrário, se
gozarmos da calma de um espírito onde a natureza não reclame os seus
direitos com uma força tal que não cheguemos a fazê-la calar, se a santidade
do comportamento e do coração for conservada, numa palavra, se a vontade
da natureza for subjugada e reduzida ao silêncio, servimos o Senhor sem
distrações, vivamos segundo o Espírito e não segundo a natureza, mesmo
nas coisas que Deus instituiu como sendo boas em relação a ela.
Quanto ao escravo, pode consolar-se com o pensamento de que é
libertado pelo Senhor. Porém, dadas as dificuldades que muitas vezes
existem para conciliar a vontade de um senhor pagão, ou mesmo pouco
espiritual, com a vontade de Deus, se o escravo puder ser libertado, deve
aproveitar essa oportunidade.
Embora de passagem, notemos aqui duas coisas: Em primeiro lugar
a santidade que respiram todas essas direções acerca daquilo que toca tão de
perto aos desejos da carne. As instituições de Deus, formadas para o
homem inocente, são mantidas em toda a sua integridade, em toda a sua
autoridade. Elas são, no estado em que o homem se encontra atualmente,
uma salvaguarda contra o pecado ao qual o homem é solicitado pela sua
carne. Mas o Espírito Santo introduz uma nova energia acima da natureza,
que de modo nenhum enfraquece a autoridade da instituição. Se se puder
viver acima da criatura para livremente servir o Senhor isso é um dom de
Deus, é uma graça que se deve aproveitar.
Mas um segundo princípio muito importante sobressai neste
capítulo: O apóstolo distingue claramente entre a sua experiência espiritual,
entre aquilo que o Espírito Santo lhe dava em revelação com os exercícios
da sua vida individual, quer dizer entre a sabedoria espiritual, por muito
elevada que ela fosse, e a inspiração. Sobre certos pontos, não havia
nenhum mandamento da parte do Senhor: Dava o resultado a que tinha
chegado com o auxílio do Espírito de Deus, numa vida de fidelidade
notável, ajudado pelo Espírito, que ele pouco contristava; mas não era um
mandamento do Senhor. O que se encontrava nos seus escritos, sem
excetuar o que vinha por inspiração de maneira direta, devia ser recebido
como mandamento do Senhor (comparar capítulo 14:37, onde ele insiste
sobre este ponto). Por outras palavras, o apóstolo afirma a inspiração
propriamente dita dos seus escritos e quer que eles sejam recebidos como
emanando do próprio Senhor — distinguindo esta inspiração da sua própria
competência espiritual.
Este princípio é de suma importância.
 
CAPÍTULO 8
 
Neste capítulo o apóstolo ocupa-se da questão das coisas oferecidas
aos ídolos, e este tema proporciona-lhe a ocasião de dizer algumas palavras
acerca do valor do conhecimento. Considerado simplesmente como tal, o
conhecimento não tem valor nenhum. Quando pensamos nele como sendo
algo que nós próprios possuímos, não faz senão ensoberbecer-nos; é algo
que existe em mim, é o mau conhecimento!... O verdadeiro conhecimento
Cristão descobre, por intermédio daquilo que é revelado, qualquer coisa em
Deus; Deus, melhor conhecido, cresce para a alma. A coisa conhecida é
algo n’Ele, e não um conhecimento em mim, de que eu me orgulhava.
Aquele que ama a Deus é conhecido por Ele.
Quanto à questão dos alimentos, é o amor que a decide. O simples
fato de ela ter sido suscitada tornava evidente que nem todas as
consciências estavam devidamente esclarecidas pela inteligência espiritual.
Sem dúvida alguma, o ídolo nada é. Há um só Deus, o Pai, e um só Senhor,
Jesus Cristo. Mas se aquele que é forte se assenta num templo de ídolos,
para ali comer, um outro, sendo não esclarecido, será encorajado a fazer o
mesmo, e a sua consciência será infiel e contaminada.
Deste modo, conduzo ao pecado e, tanto quanto isso depender de
mim, faço perecer um irmão pelo qual Cristo morreu — e eu peco contra o
próprio Cristo. Portanto, se a carne for um meio de fazermos tropeçar um
irmão, não a comamos.
Vale mais não a comer do que essa comida servir de laço para ele.
O apóstolo trata aqui do tema dos sacrifícios oferecidos aos ídolos
como de uma questão levantada entre irmão e irmão, pelo que diz respeito
ao estado de consciência de cada um. Ele quer manter, em toda a sua força,
a verdade que, efetivamente, um ídolo não é senão um pedaço de madeira,
de pedra, de gesso ou de metal. E é muito importante colocar a questão
neste campo. Os profetas tinham já falado dos ídolos sob o mesmo ponto de
vista, mas não era ainda toda a verdade a respeito dos falsos deuses, dos
pagãos; havia que explicar a ação de Satanás e dos maus espíritos. É o que
o apóstolo faz mais tarde. Podemos notar, de passagem, a expressão que
encontramos no verso 6: “Para nós, há um só Deus, o Pai... e um só Senhor,
Jesus Cristo”. O apóstolo não trata aqui de questões abstratas acerca da
divindade do Senhor, mas fala das relações dos homens com algo que
estava acima deles e que com eles mantinha certas conexões. Os pagãos
tinham vários deuses e vários senhores, isto é, vários seres intermediários.
Mas não era assim com os Cristãos.
Para estes há o Pai no absoluto da divindade, e Cristo que, feito
homem, tornou, para conosco, o lugar e a relação de Senhor. É a posição e
não a natureza que está aqui em questão. Mas o mesmo se dá no capítulo
12, versos 4, 5 e 6, onde a Palavra faz sobressair o contraste existente entre
o único Espírito de Deus e o número de espíritos que os pagãos conhecem;
entre a sua multidão de deuses e de senhores, e o único Deus e o único
Senhor que os Cristãos reconhecem. Todavia, ninguém estava, de fato, livre
da influência dos falsos deuses sobre ia sua imaginação. Eles ainda
representavam algo para certos Cristãos, talvez mesmo contra a vontade
destes. Tinham consciência dos ídolos, e então, se comiam do que tinha
sido oferecido a esses ídolos, a carne já não era, para eles, algo que tivesse
simplesmente sido dado por Deus, para alimento do homem: A ideia da
existência de um ser real e poderoso tinha lugar no seu coração, ou, pelo
menos, na sua imaginação, e, por isso, a sua consciência estava maculada.
Ora, não se era melhor aos olhos de Deus por se ter comido; e, por outro
lado, comendo, tinha-se posto uma pedra de tropeço diante do nosso irmão.
E, tanto quanto isto concernia ao ato daquele que estava já esclarecido
acerca do nada que era o ídolo, ele tinha-se conduzindo à sua própria ruína,
contaminando a sua consciência e afastando-se de Deus por uma
infidelidade. Era pecar contra Cristo, que também morrera por essa preciosa
alma. E se Deus intervinha para preservar uma alma do efeito da
infidelidade de que ela era culpada, isso em nada diminuía o pecado
daquele que levava o fraco a agir contra a sua própria consciência. Em si,
tudo o que nos separa de Deus nos arruína quanto à nossa responsabilidade.
Assim, aquele que tem o amor de Cristo no seu coração preferirá
não comer nunca carne a fazer o que tornará infiel um irmão e tenderá a
arruinar uma alma resgatada por Jesus.

 
CAPÍTULO 9
 
O apóstolo, como vemos, estava exposto às acusações dos falsos
doutores, que insinuavam que a sua evangelização e os seus trabalhos
tinham um motivo interesseiro e que, aproveitando-se da dedicação dos
Cristãos, se aproveitava dos seus bens. Paulo fala, pois, do seu ministério.
Declara abertamente que é apóstolo, testemunha ocular da glória de Cristo,
tendo visto o Senhor. De resto, se não era apóstolo para outros, era-o para
os Coríntios, pois tinha sido ele o meio da sua conversão. Ora a vontade do
Senhor era que aqueles que pregavam o Evangelho, vivessem do
Evangelho. Além disso, Paulo tinha o direito de levar consigo uma irmã
como sua mulher, como faziam Pedro e os irmãos do Senhor. No entanto,
ele não tinha usado desse direito. Obrigado pelo chamamento do Senhor a
pregar o Evangelho, ai dele, se faltasse a essa ordem (verso 16). A sua
glória consistia em cumpri-la gratuitamente, de maneira a tirar toda a
ocasião Aqueles que dela procuravam aproveitar-se; porque ele, embora
plenamente livre acerca de todos eles, tinha-se feito servo de todos a fim de
ganhar para Cristo tantos quantos pudesse.
Note-se, porém, que era no Serviço que o apóstolo se conformava;
mas não se conformava com o mundo, para fazer cessar o escândalo da
Cruz! Punha claramente a Cruz à frente de tudo que ao mundo dizia
respeito (capítulo 2:2).
Todavia, ao pregá-la, adaptava-se à capacidade religiosa e à forma
dos pensamentos de uns e de outros, a fim de encontrar acesso para a
verdade nos espíritos, e atuava do mesmo modo na sua maneira de viver
entre eles. Não era egoísmo que se poupava sob o pretexto de ganhar os
outros; pela força da sua caridade Paulo fazia abnegação de si próprio em
tudo, para ser servo de todos. Prosseguia esta linha de conduta em todos os
pontos por amor do Evangelho, desejando assim, como ele diz, ter parte
com o Evangelho, porque o personifica como fazendo a obra do amor de
Deus no mundo (verso 23).
Era assim que era preciso correr; e, para o fazer, era preciso negar-se
a si mesmo e refrear a carne. E é, com efeito, o que fazia o apostola. Não
corria de maneira incerta, como faria qualquer outro que não visse o
verdadeiro alvo, ou não o prosseguisse seriamente, como coisa conhecida.
Paulo sabia bem o que prosseguia, e prosseguia-o realmente,
evidentemente, e da maneira que convinha à natureza do alvo que ele
procurava atingir. Cada um poderia ajuizar disso pelo seu comportamento;
Paulo não se divertia como um homem que bate no ar — fácil proeza!...
Procurando o que era santo e glorioso, ele sabia quais as
dificuldades que tinha de superar num combate pessoal contra o mal, que
procurava impedi-lo de vencer. Qual vigoroso atleta, ele recorria aos
extremos e subjugava o seu próprio corpo, que o teria entravado na sua luta.
Havia realidade na sua procura do Céu; não queria tolerar nada do que a tal
se opusesse. Pregar aos outros não era tudo, porque isso podia ele muito
bem fazer e, quanto a si próprio, trabalhar em vão. Podia perder tudo, e,
finalmente, ser ele próprio rejeitado, como obreiro — serão também
pessoalmente, como Cristão. Em primeiro lugar Paulo ara Cristão, e só
depois pregador — e era bom pregador, porque era, acima de tudo, bom
Cristão. Assim porque o princípio do capítulo 10 se liga com o fim do
capítulo 9, outros podiam também fazer profissão de Cristianismo, podiam
ter parte nas ordenanças de iniciação, e, como ele, serem pregadores — e
não serem reconhecidos por Deus!
A advertência que Paulo faz aqui aos Coríntios e um testemunho do
estado, ao qual, pelo menos em parte, a Igreja de Deus estava já reduzida;
advertência sempre útil, mas que supõe que aqueles que têm o nome de
Cristãos e que têm participado nas ordenanças da Igreja já não inspiram
essa confiança que os fazia serem recebidos, sem qualquer objeção por
verdadeiras ovelhas do Senhor.
A passagem distingue claramente entre o fato de terem participado
nas ordenanças cristãs, e a posse da salvação.
Esta distinção é sempre verdadeira, mas não é necessário fazê-la
quando a vida cristã brilha naqueles que têm parte aos privilégios exteriores
da Igreja.

 
CAPÍTULO 10
 
Agora o apóstolo apresenta os caminhos de Deus para com Israel no
deserto como ensinamento a respeito dos Seus caminhos para conosco,
declarando aos Coríntios que as coisas que sucederam a Israel são tipos ou
figuras que servem de exemplo para nós. Isto constitui um princípio
importante, que se deve apreender claramente, para dele aproveitarmos.
Mas não é Israel a figura, e sim o que sucedeu a Israel, os caminhos de
Deus para com ele. As coisas sucederam a Israel. Foram escritas para nossa
instrução, para nós, que nos encontramos no fim das dispensações de Deus.
O que se seguirá será o julgamento final, quando esses exemplos já não
servirem para a vida de fé.
Em seguida são postos dois princípios que tem também uma grande
importância prática. Em primeiro lugar é preciso que aquele que cuida estar
de pé, tenha cuidado não caia (verso 12). Eis aqui a nossa responsabilidade!
Depois, e por outro lado, Deus é fiel, não permite que sejamos tentados
além das nossas forças, e provê um meio de escaparmos à tentação, a fim de
não tropeçarmos.
Depois, em relação com a idolatria, o apóstolo determina que
tenham esse santo temor que evita o que arrasta ao mal, a ocasião de queda
(verso 14). Põe em primeiro lugar este importante princípio: Há associação
e comunhão por meio da mesa em que participamos daquilo que nela está
colocado; nós, Cristãos, sendo muitos, somos contudo um só pão e um só
corpo, no que concerne à participação do mesmo pão na Ceia (versos 16-
17). Aqui o apóstolo chega ao círculo interior, ao corpo de Cristo, à
verdadeira Igreja de Deus, na qual os que a compõem estão unidos num
todo pelo Espírito Santo — união de que a Ceia é a expressão.
Os que em Israel comiam dos sacrifícios participavam do altar, eram
identificados com ele. Do mesmo modo, aqueles que comiam do que era
sacrificado aos ídolos eram identificados com o ídolo a que aquilo era
oferecido. Quereria o apóstolo dizer com isto que o ídolo era alguma coisa?
De modo nenhum; mas, como está escrito om Deuteronômio 32, o
que os Gentios ofereciam, ofereciam aos demônios — e não a Deus. Ora,
deveria o Cristão tomar lugar à mesa dos demônios? A mesa de que os
adoradores dos ídolos participavam, era a mesa dos demônios; a taça, era a
taça dos demônios — princípio assaz importante para a Igreja de Deus.
Alguém pretenderia provocar o Senhor, pondo-O no mesmo nível dos
demônios? Ainda aqui o apóstolo faz alusão a Deuteronômio 32:21. Depois
(versos 23 e seguintes), repete o seu princípio, já anteriormente posto, que
era livre a respeito de tudo, mas acrescentando logo que, por um lado, não
se colocaria sob o poder de nenhuma coisa, e por outro, que, sendo livre,
usaria da sua liberdade para proveito espiritual de todos. Para se poder
seguir esta regra, eis o seu ensinamento: Poder-se-á comer de tudo aquilo
que se vende no mercado, sem problemas de consciência. Mas se alguém
disser: “Isto foi sacrificado aos ídolos”, é uma prova de que esse alguém
tinha consciência do que era um ídolo; portando, em tal caso, o Cristão, por
muito livre que seja, não deve comer daquilo que assim lhe for apresentado,
sobretudo por causa da consciência do outro. Quanto ao que era livre, a sua
liberdade não podia ser julgada pela consciência do outro, porque, como
doutrina, e onde havia conhecimento, o apóstolo confirma a verdade de que
o ídolo nada era; a criatura era simplesmente criatura de Deus. Quanto a
mim próprio, devo evitar a comunhão com tudo o que é falso.
Tenho comunhão com Deus e, nesta comunhão, não podia entrar
nada que não seja verdadeiro. Em lugar de usar da minha liberdade,
preferirei abandoná-la, para não ferir a fraca consciência de outrem. De
resto, em tudo — diz o apóstolo — ainda que se trate somente do comer e
do beber, devemos procurar a glória de Deus e fazer todas as coisas com
esse fim. Não se deve, usar da nossa liberdade, para escandalizar, seja o
Judeu, seja o Grego, seja a Igreja de Deus, seguindo nisso o exemplo do
apóstolo que, fazendo abnegação de si próprio, procurava agradar a todos,
para edificação deles.

 
CAPÍTULO 11
 
Tendo dado essas regras, em resposta a questões de pormenores,
Paulo vai tratar agora do que concerne à presença e à ação do Espírito
Santo, o que introduz também a questão do comportamento que convém aos
Cristãos nas Assembleias.
Note-se aqui como o apóstolo baseia as suas respostas, acerca dos
pormenores, sobre os princípios fundamentais e mais elevados. É o que faz
o verdadeiro Cristianismo com todos os assuntos que aborda (comparar Tito
2:10-14).
Apresenta Deus e a caridade, pondo o homem em relação com o
próprio Deus. Temos disto um impressionante exemplo no relato que se
segue. Tratava-se de dar uma diretriz para as mulheres — e elas não
deveriam orar sem terem a cabeça coberta. Para decidir esta questão, de
simples decência e de conveniência, Paulo expõe a relação dos depositários
da glória de Deus com o próprio Deus, e a ordem da sua relação (1), e
apresenta os anjos aos quais os Cristãos, que lhes estão em espetáculo,
devem mostrar a ordem, segundo o pensamento divino.
 
(1) Em 1 Timóteo 2:11-15, o efeito moral das circunstâncias da
queda é apresentado como dando à mulher o seu verdadeiro lugar na Igreja
em relação ao homem.
 
O cabeça ou chefe da mulher é o homem; o chefe do homem é
Cristo; e o chefe de Cristo é Deus (verso 3). Eis a ordem do poder
remontando até Aquele que é supremo. Em seguida, pelo que diz respeito às
relações da mulher e do homem entre si, o homem não foi feito para a
mulher, mas a mulher para o homem. Depois, pelo que concerne às relações
da mulher com as outras criaturas inteligentes e conscientes da ordem dos
caminhos de Deus, a mulher deve ter a cabeça coberta por causa dos anjos,
espectadores dos planos de Deus na dispensação da redenção e do efeito
que esta maravilhosa intervenção deve ter produzido. A tudo isso a Palavra
de Deus acrescenta noutro lugar (ver a nota precedente), relativamente ao
que aconteceu no Paraíso, que não foi o homem enganado, mas sim a
mulher que, tendo-se deixado enganar, foi a primeira na transgressão. E a
passagem que agora estudamos recorda-nos, em referência à Criação, que o
homem não foi tirado da mulher, e sim a mulher do homem (verso 8). No
entanto o homem não é independente da mulher, nem a mulher é
independente do homem; todas as coisas são de Deus (versos 11-12), Tudo
isto é dito para regular uma questão de modéstia acerca do comportamento
das mulheres, quando, ao orarem, estiverem em presença de outros (2).
 
(2) Não chegamos ainda à questão da ordem na Igreja,
 
O resultado, quanto aos pormenores, é, pois, que o homem devia ter
a cabeça descoberta, porque ele representava a autoridade e estava, sob este
ponto de visita, revestido, quanto à sua posição, da glória de Deus, de que
ele era a imagem; a mulher, pelo contrário, devia ter a cabeça coberta como
sinal da sua sujeição ao homem. Era o sinal do poder ao qual ela estava
submetida. Todavia, nem o homem podia prescindir (passar sem, pôr de
parte (algo); renunciar a, dispensar), da mulher, nem a mulher do homem.
O apóstolo apela enfim ao testemunho fornecido pela ordem da própria
Criação, segundo o qual o cabelo da mulher é a sua glória e ornamento e
mostra, em contraste com o cabelo do homem, que a mulher não foi feita
para se apresentar, perante todo o mundo, com a ousadia do homem. Dada
como um véu, a cabeleira da mulher mostra que a modéstia, a submissão —
uma cabeça coberta, que se esconde assim, nesta submissão e nesta
modéstia — é a verdadeira posição da mulher e a sua glória distintiva. De
resto, se alguém queria ser contencioso, nem o apostolo nem as Igrejas
admitiam como costume que a mulher tivesse a cabeça descoberta (verso
16).
Note-se ainda que, seja qual for a queda do homem, a ordem divina
na Criação não perde nunca o seu valor como expressão do pensamento de
Deus, e é por isso também que, falando do homem, tal como ele é, nos é
dito, na Epístola de Tiago, que o homem foi feito à semelhança de Deus.
Pelo que diz respeito ao seu estado moral, o homem; agora que tem o
conhecimento do bem e do mal, deve nascer de novo, ser criado em justiça
e em verdadeira santidade, a fim de ser a imagem de Deus agora revelada
em Cristo; mas a sua posição no mundo como centro e chefe de todas as
coisas (o que nenhum anjo foi), é o pensamento do próprio Deus, do mesmo
modo que o é a posição da mulher, companheira da glória do homem,
embora a ele submissa. Este pensamento de Deus será gloriosamente
realizado em Cristo, e, a respeito da mulher, na Igreja; mas fica sempre
verdadeiro nas próprias relações, que são a ordem instituída por Deus,
ordem que é sempre justa, porque é divina, porque a ordenança de Deus cria
a verdadeira ordem, embora, sem dúvida, a Sua sabedoria e a Sua perfeição
se manifestem nessa ordem.
O leitor notará, certamente, que esta ordem na Criação, assim como
a ordem estabelecida nos planos de Deus a respeito da mulher, do homem,
de Cristo e do próprio Deus, e o fato de os homens pelo menos os Cristãos,
sob a redenção serem um espetáculo para os anjos (comparar capítulo 4:9),
são assuntos do mais alto interesse, que eu não posso indicar senão de
passagem (3).
 
(3) O primeiro capítulo de Gênesis apresenta-nos o homem tendo na
Criação o seu lugar dado por Deus, o Criador. No segundo capítulo, temos
a sua relação com o Eterno Deus, relação essa em que estava colocado em
perfeita harmonia com Ele; depois temos a relação da mulher com o
homem.
 
Em seguida o apóstolo ocupa-se das suas Assembleias (versos 17 e
seguintes). No verso 2, ele tinha louvado os Coríntios, porque eles se
lembravam do que lhe dizia respeito e guardavam as suas ordenanças, tal
como ele as tinha dado; mas sobre este ponto das suas Assembleias, Paulo
não podia fazer o mesmo: Eles manifestavam um espírito de divisão. Isto
dizia respeito à diferença de condição entre os ricos e os pobres, mas esse
espírito dava ainda lugar, ao que parece, a outras divisões — pelo menos
outras divisões eram necessárias para tornarem conhecidos aqueles que
aram verdadeiramente aprovadas de Deus. Mais essas divisões tinham o
caráter de seitas, isto é, de opiniões particulares, que dividiam os Cristãos
da mesma Assembleia, da mesma Igreja de Deus, em escolas hostis umas às
outras, mesmo quando tomavam a Ceia do Senhor juntos — se se pode
dizer que eles a tomavam juntos! Depois, as invejas, os ciúmes que tinham
estalado entre os ricos e os pobres tendiam a alimentar a separação sectária.
Faço notar que se poderio, apenas dizer que eles partiam o pão
juntos, porque cada um tinha o cuidado de comer a sua ceia antes dos outros
— e alguns tinham fome, enquanto que outros comiam à fartar. E isto não
era, verdadeiramente, comemorar a Ceia do Senhor.
O apóstolo, guiado pelo Espírito Santo, aproveita a oportunidade
para fazer conhecer qual é a natureza e o alcance da ordenança da Ceia.
Podemos notar aqui que o Senhor tinha da do conhecimento desta
instituição ao apóstolo por uma revelação particular. Isto prova o interesse
que tem a Ceia do Senhor (4) e mostra que ela constitui uma parte dos
pensamentos do Senhor quanto ao conjunto do comportamento cristão e que
Ele lhe dá uma grande importância em vista do estado das nossas afeições
espirituais e da nossa condição moral, individualmente consideradas, assim
com as da Igreja.
 
(4) Isto se liga também ao fato de que a Ceia do Senhor é a
expressão da unidade do corpo — verdade esta especialmente confiada ao
apóstolo Paulo.
Por outro lado, ele não tinha sido enviado para batizar. O batismo
era simplesmente a admissão na Casa já formada, e o apóstolo ali entrou,
como outros, por essa via.
 
Na alegria da liberdade cristã, no meio dos poderosos efeitos da
presença do Espírito Santo, do exercício dos dons pelos quais o Espírito se
manifestava na Igreja, a morte do Senhor, o Seu corpo oferecido, eram
recordados e como que tornados presentes pela fé; como base e fundamento
de todos os pensamentos e de todo o culto cristão.
A monte do Senhor, esse ato de amor, esse fato tão simples quão
solene, fraco e nulo na aparência, guardava todo o seu valor: O corpo do
Senhor tinha sido oferecido por nós! — fato imenso, ao qual o próprio
Espírito Santo devia prestar testemunho, e que devia guardar toda a sua
importância no coração do cristão e ser o fundamento e o centro do edifício
da Igreja. Fosse qual fosse o poder que imperasse na Igreja, o coração do
crente era reconduzido a este solene fato: O próprio corpo do Senhor tinha
sido oferecido (5), a boca do próprio Senhor Jesus tinha reclamado a nossa
recordação.
 
(5) Eu não digo “rompido”. Os melhores manuscritos omitem esta
palavra: mas é o memorial de um Cristo entregue à morte, e do seu
precioso sangue vertido por nós.
 
O equilíbrio moral resultante do lugar que tem a ceia do Senhor é
muito importante para os Santos. O poder e o exercício dos dons não
atuavam necessariamente sobre a consciência sobre o coração daquela a
quem eram confiados, e nem sempre o fazem naqueles que gozam a sua
manifestação. E embora Deus esteja lá e a Sua presença seja sentida quando
nos encontramos em bom estado espiritual; é, no entanto, o homem quem
fala e quem atua sobre os outros — é o homem que está em proeminência.
Mas na ceia do Senhor o coração é levado a um ponto em que fica numa
completa dependência, onde o homem nada é, onde Cristo e o Seu amor são
tudo, onde o coração é exercitado e onde a consciência se recorda que deve
ser purificada e que foi purificada pela obra de Cristo — e que
despendemos absolutamente dessa graça. E é preciso não esquecer que as
afeições também ali estão em pleno exercício. As consequências
resultantes, entre os Coríntios, do esquecimento que eles faziam do alcance
da ceia do Senhor confirmavam bem a importância da instituição e
mostravam o quanto o Senhor queria que se lhe prestasse a devida atenção.
O apóstolo vai falar do poder do Espírito de Deus, manifestado nos seus
dons, e dar as regras necessárias para manter a ordem e para prover à
edificação nos casos em que esses dons eram exercidos na Assembleia.
Mas, antes de entrar nesse assunto, Paulo coloca a ceia do Senhor como
sendo o centro moral e o objeto da reunião.
Assinalemos alguns dos pensamentos do Espírito em relação com a
ordenança da ceia. Paulo liga, da maneira mais forte, todas as afeições à
ceia: “Porque eu recebi do Senhor — diz ele — o que também vos ensinei:
que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão...” Foi, pois,
nessa mesma noite, em que Jesus foi traído, que ele deixou este memorial
dos Seus sofrimentos e do Seu amor. Tal como o cordeiro da Páscoa
recordava para Israel a sua libertação do sacrifício que tivera lugar ano
Egito, também a ceia recorda para nós o sacrifício de Cristo. Jesus está na
glória, o Seu Santo Espírito é-nos dado, mas nós devemos lembrar-nos
d'Ele.
Neste memorial, o Seu corpo oferecido é o objeto colocado perante
os nossos corações. Notemos estas palavras: “Fazei isto em memória de
mim”. O Cristo de quem nós nos recordamos não é um Cristo tal como Ele
existe agora; a ceia não é a realização do que Ele é. Isso não seria uma
recordação. O corpo de Jesus está agora glorificado. A ceia é uma
recordação daquilo que Jesus foi sobre a Cruz; o objeto que ali está
representado é um corpo imolado, um sangue vertido — e não um corpo
glorificado.
No entanto este memorial é celebrado por aqueles que estão agora
unidos a Ele na glória, onde Ele entrou. Como ressuscitados e associados
com Ele na glória, olham para trás, para essa obra bendita de amor, e para o
Seu Senhor que, por ela, lhes deu um lugar lá onde Ele está. Bebem também
do cálice em memória d'Ele, cujo sangue foi derramado. Numa palavra: A
Ceia recorda-nos o Cristo, considerado como morto. Mas um tal Cristo já
não existe agora. Cristo ressuscitou e vive eternamente. Glória ao Senhor!...
Note-se também que a Ceia foi instituída para ser a recordação do
próprio Cristo. É o que nos liga a Ele. Não nos recorda somente o valor do
Seu sacrifício, mas liga-nos a Ele próprio; é a recordação que o Senhor nos
dá de Si próprio em circunstância em que o Seu amor se manifestou da
maneira mais comovente e mais perfeita. Depois, se é um Cristo morto que
a Ceia nos recorda, o apóstolo faz-nos ver quem é Aquele que está morto:
Porque todas as vezes “que comerdes este pão e beberdes este cálice
anunciais a morte do Senhor...” (verso 26). Impossível será encontrar algo
mais importante do que isto que estas duas palavras encerram: A morte do
Senhor. Quão sublime é, para nós, este fato: Aquele que se chama o Senhor
está morto! Que imenso amor, que divinas intenções, que eterna eficácia,
que infinitos resultados no próprio Senhor Se entregou por nós! Nós
celebramos a Sua morte!...
Ao mesmo tempo a morte do Senhor representa o fim das relações
de Deus com o mundo na base da responsabilidade do homem — exceto o
julgamento. Essa morte quebrou todos os laços, demonstrou a
impossibilidade de qualquer união entre Deus e o homem como filho do
primeiro Adão. E nós anunciamos essa morte até que o Senhor, que foi
rejeitado, volte para estabelecer de novo laços de associação com os Seus
remidos, com aqueles que O receberem para terem parte nessa união. É esta
verdade tão importante que nós anunciamos na celebração da Ceia do
Senhor. Aliás, o próprio rito é uma declaração que o sangue sobre o qual a
nova aliança é fundada foi já derramado; ela está estabelecida sobre esse
sangue.
Não pretendo ir além do que nos apresente a passagem que agora
estudamos: O alvo do Espírito de Deus não é apresentar aqui a eficácia da
morte de Jesus, mas sim o que liga os nossos corações a Ele, quando nos
lembramos da Sua morte, e o significado do rito, É de um Cristo morto, de
um Cristo traído que nos lembramos. O corpo oferecido está como que
perante os olhos dos assistentes; o sangue derramado do Salvador reclame
os afetos dos seus corações. Somos culpados do desprezo dessas preciosas
coisas, se tomarmos parte no rito de modo indigno (versos 27 e seguintes).
Nesta ordenança da Ceia, o próprio Senhor, da maneira mais comovente e
no próprio momento em que era traído, deteve os nossos pensamentos sobre
o Seu corpo oferecido e sobre o Seu sangue derramado por nós.
Mas se Cristo atrai a atenção do coração sobre os fato que a Ceia
recorda, a disciplina também será solenemente exercida, em harmonia com
esse rito: O castigo de Deus cairá sobre aqueles que desprezam o corpo e o
sangue do Senhor, tornando parte nela levianamente. Por isso muitos de
entre os Coríntios se tinham tornado doentes o fracos e muitos tinham
adormecido — isto é, estavam mortos.
Não se trata de inquirir se somos dignos de participar na Ceia; o que
é censurado aqui é que participemos nela de maneira indigna. Todo o
Cristão — a não ser que um pecado o exclua — é digno de participar da
Ceia, porque é Cristão; mas pode suceder a qualquer Cristão aproximasse
da Mesa do Senhor sem se ter julgado ou apreciar, como deve, o que a Ceia
lhe recorda e o que Cristo relacionou com esta instituição. Agindo assim,
não considerou a diferença existente entre o corpo do Senhor e uma
refeição ordinária, e, não o fazendo, não julgou o mal que estava no seu
coração. Mas Deus não pode deixar-nos assim, na indiferença. Se o crente
se julga a si próprio, o Senhor não o julgará; mais se nós não nos julgarmos,
então o Senhor nos julgará. Todavia, quando o Cristão é julgado, é
castigado pelo Senhor, a fim de que não seja condenado com o mundo
(versos 31-32).
Estes caminhos do Senhor em castigo são atos do governo de Deus,
confiado às mãos do Senhor, que julga a sua própria casa — verdade muito
importante e tão frequentemente esquecida! Sem dúvida, o resultado final
de tudo é sempre segundo os desígnios de Deus, que manifesta nesse
governo toda a Sua sabedoria, toda a Sua paciência e a justiça dos Seus
caminhos. Mas esse governo é bem real. Deus quer o bem do Seu povo,
mas quer também a santidade, um coração cujo estado responda ao que Ele
revelou (e Ele revelou-Se a Si próprio) e um comportamento que disso seja
a expressão. O estado normal do Cristão é a comunhão com Deus, com o
Pai e com Seu Filho Jesus Cristo, segundo o poder do que foi revelado.
Se, na prática, faltamos à santidade, não andamos com Deus, a
comunhão está perdida e bem assim a força para glorificarmos a Deus,
força que não se encontra em nenhuma outra parte, senão nesta comunhão.
Porém, se nos julgarmos, haverá restauração; sendo o coração purificado do
mal ao julgar esse mal, a comunhão é restabelecida.
Mas, se não nos julgarmos, é forçoso que Deus intervenha e que
corrija e purifique pela disciplina — disciplina essa que pode ir até à morte
(ver Jó 34 e 36; 1 João 5:16; Tiago 5:14-15).
Resta-nos ainda uma ou duas observações a fazer: “Julgar-se a si
mesmo” não é expresso no Grego pela mesma palavra que “ser julgado”, no
fim do versículo, que quer dizer “ser julgado pelo Senhor”. A palavra
empregada para exprimir o primeiro desses dois atos é a mesma que é
empregada no verso 29, quando é dito: “Não discernindo o corpo”.
Portanto, o que temos de fazer quando vamos à Ceia não é somente julgar
um mal cometido, mas também discernir o nosso estado espiritual como é
manifestado na luz e andar na luz como o próprio Deus está na luz. É este
andar na luz que nos impede de caminhar no mal, quer em atos quer em
pensamentos. Porém, se nele cairmos, não bastará julgar o ato, é necessário
julgarmo-nos também a nós próprios, julgar o ato do coração, a tendência, a
negligência que nos faz cair no mal, numa palavra, o que não é comunhão
com Deus ou que impede essa comunhão. Foi assim que o Senhor atuou
com Pedro: Não lhe exprobou (censurou ou repreendeu) a sua falta, julgou
a raiz dela.
Aliás, a Igreja deve poder discernir os caminhos de Deus nesses
castigos. Deus age castigando, como vimos em Jó; mas os santos têm o
pensamento de Cristo pelo Espírito de Cristo, e devem discernir a sua
própria condição.
O fundamento e o centro de tudo isto é a posição em que nos
encontramos perante Cristo na Ceia — centro visível de comunhão e
expressão da morte de Cristo, na qual o pecado (todo o pecado) foi julgado.
Ora nós estamos em relação com esse santo julgamento do pecado: é a
nossa porção. Não podemos misturar a morte de Cristo com o pecado. Esta
morte é, quanto à sua natureza e eficácia, e cujo pleno resultado será
manifestado no fim, a total abolição do pecado. Ela é a negação divina do
pecado.
“Cristo está morto ao pecado”, e isto em amor por nós. Esta morte é
a santidade absoluta de Deus tornada sensível e que nos é expressa no que
teve lugar a respeito do pecado. Sob este ponto de vista ela é a dedicação
absoluta de Deus para Sua glória. Levar o pecado ou a negligência ao que
recorda essa morte é profanar a morte de Cristo, que preferiu morrer a
deixar o pecado subsistir diante de Deus. Nós não podemos ser condenados
com o mundo, porque Cristo morreu e porque Ele aboliu o pecado para nós;
mas levar o pecado ao que representa a própria morte de Cristo, onde Ele
sofreu por causa do pecado, é algo que não poderia ser suportado. Deus
reivindica o que é devido à santidade e ao amor de um Cristo que deu a Sua
vida para tirar o pecado. Não podemos, pois, como a carne o sugeriria,
resistir. Seria aceitar o pecado e abandonar a confissão do valor da morte de
Cristo. Examinemo-nos, pois, e vamos à Ceia do Senhor. Restabeleçamos
na consciência os direitos da morte de Cristo, porque tudo está perdoado e
expiado, quanto à culpabilidade, e vamos reconhecer esses direitos como
prova da graça infinita.
O mundo está condenado; o pecado no Cristão está julgado, não
escapa nem à vista nem ao julgamento de Deus. Deus não permite nunca o
pecado. Ele purifica o crente ao castiga-lo, embora o não condene, porque
Cristo levou os seus pecados e foi feito pecado por ele. Por isso a morte de
Cristo forma o centro da comunhão na Igreja e a pedra-de-toque da
consciência. E, pelo que concerne à Igreja, é na Ceia do Senhor que se
encontra a aplicação desta verdade.

 
CAPÍTULO 12
 
A outra parte da verdade relativamente à Igreja em geral e às
Assembleias é a presença e os dons do Espírito Santo. Esta presença e estes
dons estão, do mesmo modo que a Ceia (1), em relação com a unidade; e o
indivíduo é responsável no emprego dos dons que o Espírito Santo lhe
distribuiu, assim como o é também a respeito da ceia.
 
(1) É o que vimos quanto à Ceia, no capítulo 10, verso 17, e o que
vemos, quanto ao Espírito Santo, no capítulo 12, verso 13.
 
É este assunto das manifestações espirituais que o apóstolo trata no
capítulo 12. O primeiro ponto consistia em estabelecer os sinais distintivos
pelos quais se pudesse reconhecer o Espírito de Deus. Havia maus espíritos
que procuravam penetrar no meio dos Cristãos, para falarem ou agirem,
apresentando-se como sendo o Espírito de Deus e, desse modo, tudo
confundirem. Os Cristãos de hoje já quase não creem nesses esforços do
Inimigo.
As manifestações espirituais são, sem dúvida, menos
impressionantes agora do que eram no tempo de que o apóstolo nos fala,
mas Satanás adapta os seus meios de atuação às circunstâncias em que o
homem e a Obra de Deus se encontram, tal como Pedro nos mostra,
falando-nos acerca de um caso análogo: “E também houve entre o povo
falsos profetas, como entre vós haverá, também, falsos doutores” (2 Pedro
2:1). O Inimigo não cessa de atuar. E a proibição de se casarem era
“ensinamento de demônios”, como diz o apóstolo a Timóteo.
Nos últimos dias o poder de Satanás manifestar-se-á com mais vigor
ainda, Deus pode restringir esse poder pela energia do Seu Santo Espírito e
pelo poder da Verdade, mas, não estando refreado, o Inimigo continua ainda
a atuar no tempo presente, enganando os homens, e fazendo uso de tais
meios que é necessário que o homem esteja completamente cego de espírito
para lhes dar crédito. Mas, infelizmente, é o que frequentemente sucede, e é
espantoso ver o que o homem entregue a si próprio, o que o homem que não
é guardado por Deus, pode crer quando o poder do Inimigo está em
atividade. Fala-se muito do sentido comum, fala-se da razão, e são, sem
dúvida, coisas muito preciosas; mas, ao lermos a Escritura, não se pode
duvidar de que seja somente Deus quem no-las dá e no-las conserva.
No tempo dos apóstolos, o Espírito revelava-se por efeitos do seu
poder, que se manifestavam no seio da Igreja e atraíam a atenção do próprio
mundo — e o Inimigo imitava-os. A maior parte dos Cristãos de Corinto
era formada por pobres gentios sem discernimento e estupidamente
conduzidos pelas ilusões do Inimigo. Estavam, por isso, em maior perigo de
voltarem a ser enganados pelos mesmos meios. Quando o homem não está
cheio do Espírito de Deus, deste Espírito que dá força à verdade no sou
coração e limpidez e clareza à sua visão moral, o poder sedutor de Satanás
fascina a sua imaginação. Ama o maravilhoso, mantendo-se incrédulo
quanto à Verdade; falta-lhe o santo discernimento, porque ignora a
santidade e o caráter de Deus, e não tem a estabilidade de uma alma que
possui o conhecimento de Deus e (pode dizer-se) o próprio Deus como seu
tesouro, esta estabilidade de uma alma que, sabendo que tem tudo em Deus,
não sente necessidade de outras coisas, por muito maravilhosas que sejam.
Mas quando o homem não está firmado pelo conhecimento de Deus, o
poder do Inimigo impressiona-o e preocupa-o. Não sabe desembaraçar-se
dele e nem dele se dá conta; é vítima da influência que esse poder exerce
sobre o seu espírito — e a carne compraz-se nisso, porque, sob uma ou
outra forma, a influência do Inimigo dá sempre livre curso à carne.
Durante longo tempo, cegamente conduzidos pelo poder dos maus
espíritos, os Gentios convertidos quase não estavam em condições de os
discernir e de os julgar. E, coisa estranha, esse poder demoníaco tinha uma
influência tal que o homem esquecia a importância do Nome do próprio
Senhor Jesus, ou, pelo menos, esquecia que este Nome não era reconhecido
por esses maus espíritos. Satanás pode transformar-se em anjo de luz, mas
nunca reconhece realmente Jesus Cristo por Senhor. Falará de Paulo e de
Silvano e quererá ter a sua parte com os Cristãos, mas Cristo não é
reconhecido — e, finalmente, é a ruína e a destruição daqueles que o
seguem. Este ponto caraterístico e essencial, Cristo não ser reconhecido
pelo inimigo, fornece, pois, o meio seguro de discernir entre as
manifestações do Espírito de Deus e as dos maus espíritos. Um espírito
impuro não dirá: “Senhor Jesus”, e o Espírito de Deus não pode dizer:
“Anátema a Jesus”. Mas é importa-me notar que, quando o apóstolo declara
que ninguém pode dizer “Senhor Jesus” senão pelo Espírito de Deus, trata-
se de espíritos, e não da conversão nem da necessidade da graça operando
no coração para a verdadeira confissão do Nome de Jesus, necessidade
muito real de resto, mas da qual se não trata aqui (2).
 
(2) O que o apóstolo diz é justamente o contrário do que geralmente
se supõe! Ele declara que, quando se diz: “Senhor Jesus”, não se pode
dizer senão pelo Espírito, — mas ele não fala do coração, e sim dos
espíritos.
 
Agora, para chegar às instruções positivas, nada mais importante,
mais distinto, mais maravilhoso do que a presença do Espírito Santo neste
mundo, no meio dos Cristãos. Ela é, para nós, o fruto da obra perfeita de
Cristo, e em si mesma a manifestação da presença de Deus entre os homens
sobre a Terra. Deus manifesta o Seu poder nas obras da Criação; a Sua
providência e o Seu governo dirigem todas as coisas; mas o Espírito Santo é
a Sua presença neste mundo, o testemunho que Deus dá de Si próprio, do
Seu caráter (3).
 
(3) É uma impressionante verdade esta! A habitação de Deus com
os homens é o fruto da redenção, Ele não habitava com Adão inocente.
Passeava no jardim, mas não habitava ali. E também não habitava com
Abraão...
 
Deus está no meio dos homens para Se manifestar, não ainda em
glória, mas em poder e em testemunho do que Ele é. Cristo, tendo cumprido
a redenção e tendo apresentado a Deus, soberano e juiz, a eficácia da Sua
obra, a Igreja, que é resgatada e purificada pelo Seu sangue e que Lhe está
unida como Seu corpo, torna-Se o vaso deste poder, que atua nos diversos
membros; por isso ela deve manifestar em santidade a força que lhe está
distribuída. Ela é responsável de o fazer. Mas desse modo, quanto ao
exercício do poder, o homem torna-se, de fato, individualmente, o vaso
dessa energia espiritual. É um tesouro que Lhe é confiado. O Espírito é, em
primeiro lugar, o elo de ligação entre a Igreja e Cristo, do mesmo modo que
entre o Cristão e Cristo, é pelo Espírito que a comunhão se realiza e se
mantém; é a primeira função do Espírito. E o homem deve estar no gozo
desta comunhão para realizar o caráter de Deus e discernir a Sua vontade, e
isto segundo o testemunho que Deus tem a intenção de prestar pelo Espírito
descido a este mundo.
Mas se a Igreja se não mantiver nesta comunhão, perde a sua força
como testemunha responsável de Deus sobre a Terra, e, de fato, perde
também a sua alegria e a sua capacidade espiritual. Deus é sempre soberano
para atuar como entende, e Cristo não pode faltar à Sua fidelidade para com
Seu corpo; mas se a comunhão e a dependência faltam, o testemunho
confiado à Igreja já não é prestado de maneira a fazer sentir que Deus está
presente sobre a Terra. A Igreja talvez se não aperceba do seu afastamento
de Deus porque conserva, durante algum tempo, muito do que Deus lhe deu
e que está muito acima de tudo o que era segundo a natureza; mas,
perdendo a força, ela perde também o discernimento do que ela deveria ser.
Mas Deus não se engana, nunca quanto à condição da Igreja. Ele diz: “Tu
abandonaste o teu primeiro amor, Arrepende-te e volte à prática as
primeiras obras; de outro modo, venho a ti e tirarei do seu lugar o teu
castiçal”. Pensamento assaz solene para a Igreja, quanto à sua
responsabilidade, quando refletimos na graça que lhe foi feita, nos frutos
que foram manifestados no princípio e que deveriam tê-lo sido na
continuação, e no poder que lhe foi dado para os produzir.
Os planos de Deus em favor da Igreja têm o seu fim e o seu alvo no
Céu. Eles se cumprirão, sem que a menor coisa falte ao que está
estabelecido nos desígnios de Deus. Tudo o que for necessário pora admitir
os Seus membros na glória, segundo os planos de Deus, Cristo o fará. Os
membros do Seu corpo são resgatados pelo Seu sangue, para serem Seus.
Os caminhos de Deus cumprem-se e manifestam-se na Terra para nosso
ensinamento, na Igreja e nos indivíduos.
Não é somente nos Seus dons que a presença do Espírito de Deus se
manifesta. Ainda antes do Pentecostes houve profecias e milagres, homens
movidos pelo Espírito Santo. O que é atribuído à fé, no capítulo 11 da
Epístola aos Hebreus, é muitas vezes atribuído ao Espírito no Antigo
Testamento. Mas o Espírito tinha sido prometido de uma maneira especial
no Antigo Testamento. A maneira como o Espírito agiu nessa época não foi
nunca a da presença de Deus no meio do povo como o é agora no meio da
Igreja. A glória veio tomar posse do tabernáculo ou do templo. O Espírito
de Deus agia soberanamente fora da Sua casa, e podia estar com o povo,
mesmo quando a glória já lá não estivesse (ver Ageu 2:5, e comparar com o
primeiro e segundo capítulo de Lucas). Mas o Espírito Santo, enviado do
Alto para habitar nos discípulos e na Igreja sobre a Terra, era a
manifestação da presença de Deus na Sua casa, de Deus que está ali pelo
Seu Espírito. E esta presença do Espírito é de tal modo distinto, e tão
claramente verificado como uma coisa conhecida, e realizada pelos
primeiros Cristãos, que demonstrava, em lugar de ser demonstrada (4), que
a Palavra de Deus fala dela como sendo o próprio Espírito Santo. “O
Espírito Santo ainda não fora dado”, diz João no capítulo 7 do seu
Evangelho; “Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo”, dizem os
doze homens a Paulo (Atos 19:2). Não se tratava de saber se havia,
realmente, um Espírito Santo.
 
(4) A mudança que resultou da perda feita pela Igreja da
consciência da presença do Espírito Santo e das manifestações desta
presença é muito impressionante, sobretudo se compararmos a maneira de
ver dos Cristãos dos nossos dias com o que diz a Palavra de Deus (ver
Gálatas 3:2, e a 1 João 3:24). Nessas passagens, a presença do Espírito
Santo não é demonstrada por provas acessórias, por efeitos que esta
presença produz, e pelo estado do coração; pelo contrário, elas mostram
que a presença do Espírito Santo era uma coisa tão sensível e palpável que
era, ela própria, a prova das relações da Igreja e dos Cristãos com Deus.
 
Todo o Judeu ortodoxo acreditava que houvesse; mas tratava-se de
saber se essa presença do próprio Espírito Santo, habitando neste mundo, o
novo Consolador e Guia dos discípulos, de que João Batista tinha falado,
estava realizada.
Se o Espírito Santo tinha descido, a Sua presença era a presença de
Deus no Seu templo espiritual sobre a Terra.
O lugar onde os discípulos estavam reunidos tinha tremido para
mostrar que Deus estava lá; Ananias e Safira tinham caído mortos diante
dos apóstolos, por terem mentido a Deus; Filipe tinha sido transportado,
pelo poder do Espírito, para longe da presença do homem que tinha
recebido o conhecimento de Jesus por meio deste Evangelho.
Tal era a presença do Espírito. Neste capítulo trata-se das
manifestações da presença do Espírito nos dons que se exerciam pela
instrumentalidade dos membros do corpo de Cristo, quer pelo chamamento
e para edificação da Igreja, quer como testemunha para os do exterior.
Antes de entrar nesse assunto, Paulo dá aos Coríntios (que o Inimigo teria
querido enganar inteiramente), instruções que deviam torná-los capazes de
discernirem entre a manifestação do Espírito Santo e a ação de um mau
espírito.
Em seguida fala dos dons.
Ora, não havia diversos Espíritos, como no caso dos demônios; não
havia senão um único e mesmo Espírito — havendo, porém, diversidade de
dons. Isto dá ao apóstolo a ocasião de falar das diversas relações em que os
homens, movidos pelo Espírito Santo, são colocados com Cristo e com
Deus; porque a ordem das relações do homem com Deus, relações essas
cuja energia prática está no Espírito Santo, é o assunto de que ele se ocupa.
Portanto o Espírito, um único e mesmo Espírito, atua neles por diversas
manifestações.
Porém, no exercício desses dons diferentes eles eram apenas
administradores, havendo um só Senhor — Jesus Cristo. O que atuava neles
não era, pois, um poder independente e voluntário. Fosse qual fosse a
energia do Espírito que atuasse neles, não deixavam ao ser servos e
ecônomos (Aquele que se encarrega da administração de uma casa, de um
internato, de um hotel; despenseiro) de Cristo, e deviam agir nesse caráter,
reconhecendo o seu serviço a Senhoria de Cristo. Embora se tratasse de um
poder no homem e, por conseguinte, fosse o homem a atuar; embora fosse
um Homem o Chefe e nós O servíssemos (sendo todavia, Filho de Deus e
Senhor de tudo), era, contudo, Deus quem operava, era um único e mesmo
Deus que operava tudo em todos. Isto não é, propriamente, falar da
Trinidade, que nos é apresentada aqui no Seu caráter próprio, mas é um
único Espírito atuando nos Cristãos, Jesus Senhor, e Deus agindo nos dons.
Assim os dons são as manifestações da energia do Espírito confiada
aos homens, sob a autoridade de Cristo, que é Chefe e Senhor, e os homens
têm de usá-la em serviço do Senhor. Ora, Cristo pensa no que é proveitoso
para a Sua Igreja, pensa nos que são Seus e nas manifestações do Espírito,
sendo dadas para proveito das almas, da Igreja em geral. O apóstolo
assinala vários desses dons, mas recorda-nos ainda que é o mesmo Espírito
que opera em cada caso, distribuindo a cada um segundo Lhe apraz (verso
11). Que o leitor marque bem esta passagem. O apóstolo tinha dito que
Deus operava todas as coisas, e tinha falado dos dons como sendo
manifestações do Espírito.
Ter-se-ia podido supor que o Espírito era uma vaga influência, e que
se devia atribuir tudo a Deus, sem reconhecer um Espírito pessoal; mas as
operações atribuídas a Deus no verso 6, são atribuídas ao Espírito no verso
11, e a Palavra de Deus acrescenta que Ele, o Espírito, distribui a cada um
como Lhe apraz. Não se trata, pois, de um Espírito de uma ordem inferior.
É o próprio Deus que atua ali onde o Espírito Santo opera, mas as operações
nos homens são dons distribuídos segundo a vontade do Espírito. O Espírito
é-nos assim apresentado como atuando pessoalmente nesta distribuição e
segundo a Sua própria vontade. Alguns dos dons de que o apóstolo fala
aqui, exigem que nos detenhamos um pouco mais sobre eles.
A “sabedoria” (verso 8) é a aplicação da luz divina ao que é bem e
ao que é mal, e a todas as circunstâncias por que passamos.
Esta expressão tem uma grande extensão, porque se opera a todas as
coisas sobre as quais temos de formar um juízo. O Espírito Santo provê
alguns de uma maneira particular desta sabedoria — de uma sabedoria
seguindo Deus. Esta sabedoria consiste, por um lado, numa percepção da
verdadeira natureza das coisas e da sua relação entre elas; por outro lado,
consiste na compreensão quanto ao comportamento que nós temos de seguir
a seu respeito.
Vindo de Deus esta sabedoria, guia-nos através das dificuldades do
Caminho, e faz-nos evitar aquilo que nos colocaria em falsa posição perante
Deus e os homens.
O “conhecimento” é a compreensão do pensamento de Deus, tal
como ele nos é revelado.
A “fé” aqui (verso 9), não quer dizer a simples fé no Evangelho;
esta fé não é um dom distintivo que um dos crentes possui e outro não,
como é evidente. A fé de que se trata aqui é a Fé, a energia dada por Deus,
que supera as dificuldades, que se eleva acima dos perigos, que enfrenta
tudo sem se atemorizar.
Os “discernimentos dos espíritos” não são o discernimento do
estado de uma alma, e não tem nada a ver com o estado moral de um
homem: O discernimento de que o apóstolo fala aqui é o dom de discernir,
pela poderosa energia do Espírito de Deus, a ação dos demônios e de a
trazer à luz, se for necessário, em contraste com a ação do Espírito de Deus.
Os outros dons não exigem qualquer observação especial.
Podemos, pois, chegar agora à unidade do Espírito de que o apóstolo
falou e à qual se liga o que ele diz, após ter falado dos dons. O Espírito é o
mesmo, tinha ele dito (verso 4), e opera diversamente nos membros,
segundo a Sua vontade. A importância da personalidade do Espírito e o
imenso alcance da Sua divindade, quando refletimos que é Ele que opera no
homem e pelo homem, são evidentes, especialmente quando notamos que
Ele é o centro e o poder vivo da unidade de todo o corpo, de sorte que os
indivíduos, no exercício dos seus dons, são apenas os membros de um só e
único corpo, divinamente formado pelo poder e pela presença do Espírito.
O apóstolo desenvolve largamente este ponto em relação com a unidade do
corpo, a dependência mutua dos membros e a relação de cada membro com
o conjunto do corpo.
As instruções práticas do apóstolo são fáceis de apreender, mas há,
nos princípios gerais, alguns pontos importantes que será bom destacar. A
unidade do corpo é produzida pelo batismo do Espírito Santo — e a ligação
dos membros dela depende! “todos nós fomos batizados em um só Espírito,
formando um só corpo” (verso 13). A Ceia do Senhor é a expressão desta
unidade. O Espírito produziu-a e é a sua força. Os caráteres distintivos de
Judeu e de Gentio, e todas as outras diferenças, estavam perdidos no poder
de um só Espírito, comum a todos, unindo todos os crentes num só e único
corpo. O apóstolo, no verso 13, fala do batismo do Espírito Santo. Ora, esta
palavra “batismo” recorda ao seu espírito a “Ceia”, o outro rito instituído
pelo Senhor; e fala de serem dessedentados pela unidade de um só Espírito,
fazendo alusão, creio eu, à Ceia do Senhor. Não fala do Espírito Santo; um
único espírito era o estado dos crentes, sendo a palavra empregada em
contraste com um só corpo. Estavam associados em um só corpo e num só
pensamento pelo Espírito no qual eles eram participantes em Cristo.
Não é a fé e nem mesmo a vida que formam a união, se bem que a
fé e a vida pertençam ambas Aqueles que estão unidos: É o Espírito Santo
que a produz. O batismo do Espírito Santo é, pois, o que reúne os Cristãos
num só e único corpo; e são todos feitos participantes de um mesmo
espírito, individualmente animados de um mesmo Espírito.
Há, pois, vários membros, mas um só corpo formado por esses
membros, sendo dependentes um do outro e tendo necessidade um do outro.
Os próprios dons que tinham o maior brilho, tinham, comparativamente, o
menor valor, tal como um homem que reveste e ornamenta as partes menos
honoráveis do seu corpo e deixa a descoberto as mais belas.
Um outro ponto, que o apóstolo assinala, é o interesse comum que
existe entre os Cristãos pelo fato de serem membros de um só e mesmo
corpo (versos 25-26). “Se um membro padece, todos os membros padecem
com ele”, pois não há senão um corpo animado por um só Espírito; do
mesmo modo, “se um membro é honrado, todos os membros se regozijam
com ele”. Esta unidade nos sofrimentos e nas alegrias depende também do
único e mesmo Espírito que une e que anima os Cristãos. Além disso, esse
corpo é o corpo de Cristo: “Vós sois — diz o apóstolo — o corpo de Cristo,
e seus membros em particular”. Note-se também que, embora a Assembleia
de Corinto não fosse senão uma parte do corpo de Cristo, Paulo fala do
corpo inteiro, porque a Assembleia nessa cidade era, segundo o princípio da
sua congregação, o corpo de Cristo como Igreja em Corinto. É verdade que,
no princípio da Epístola, o apóstolo fala de todos aqueles que invocam o
Nome do Senhor Jesus; mas, de fato, ele dirige-se à Assembleia de Corinto,
e a expressão geral, de que ele se serve, mostra que, nos interesses gerais e
no comportamento da Igreja, não se pode separar uma Assembleia local do
corpo inteiro dos Cristãos sobre a Terra. E a linguagem empregada aqui
mostra que, quanto à sua posição perante Deus, os Cristãos de uma cidade
são considerados como representando toda a Igreja, pelo que diz respeito a
essa localidade; não como independentes dos outros, mas sim como unidos
inseparavelmente aos outros, vivendo e agindo, em relação a essa
localidade, como membros do corpo de Cristo e como tal considerados,
porque todo o Cristão formava uma parte desse corpo, e eles, de igual
modo, formavam também uma.
Pelos versos que se seguem vê-se que o apóstolo, mesmo
considerando os Cristãos em Corinto como constituindo o corpo de Crisso
de que eles eram os membros, tem no seu pensamento toda a Igreja, como
sendo a Igreja de Deus. No Novo Testamento não se trata senão de
membros de Cristo, e não de membros de qualquer outra coisa, exceto que
somos os membros uns dos outros, como formando o corpo inteiro. Mas
jamais se trata de membro de uma Assembleia, pois a ideia é diferente da de
membro do corpo. Quando, na Palavra de Deus, se fala de membros, trata-
se de membros de um corpo, tal como o do homem, empregando a palavra
corpo como figura de Cristo. Na Palavra de Deus não se fala nunca de
membros de uma Assembleia, no sentido moderno da palavra. Nós somos
membros de Cristo, por conseguinte, do corpo de Cristo.
Tal eram os Coríntios, tanto quanto esse corpo era manifestado em
Corinto.
Além disso o corpo de Cristo, a Igreja, é considerada aqui como um
todo sobre a Terra. Deus pôs “na Igreja” — diz o apóstolo — apóstolos,
profetas, etc., milagres, curas, línguas (verso 28). É claro que isto é sobre a
Terra, onde, aliás, estavam os Coríntios, e o apóstolo fala da Igreja no seu
conjunto como de um todo. As curas e as línguas não tinham lugar no Céu,
e os apóstolos não eram os de uma Assembleia particular. Numa palavra,
era o Espírito Santo, descido do Alto, que formam a unidade do corpo sobre
a Terra e que ali agia nos dons particulares que distinguiam os membros.
O apóstolo assinala em seguida esses dons, não para dar deles uma
lista formal e completa, mas para marcar a ordem e a importância daqueles
de que fala. As línguas, de que os Coríntios tanto se orgulhavam,
encontravam-se colocadas em último lugar na numeração. Havia, pois, dons
uns mais excelentes do que outros. Devia-se julgar do valor de cada dom
segundo a medida em que eles serviam para edificação espiritual da Igreja.
E devia-se desejar aqueles que tendiam para esse fim.
É interessante notar aqui a diferença entre este capítulo e Efésios 4.
Aqui é simplesmente o poder, e, em certos casos, é dito que os homens
devem guardar silencio, quando o poder está lá. Era o Espírito Santo agindo
como poder.
Em Efésios 4; temos os cuidados de Cristo como Cabeça do corpo.
Não é feita nenhuma menção de dons como sinais de poder. Não se
encontra senão aquilo em que a Igreja está fundada, o que edifica os santos
e faz crescer a Igreja — e há uma promessa de continuidade, até que
cheguemos todos à medida da plenitude de Cristo, porque Cristo não pode
deixar de cuidar do Seu corpo. Mas os dons, como sinais, podem
desaparecer — o que, aliás, já teve lugar. Os apóstolos e os profetas eram o
fundamento, e, nesse sentido, estando posto o fundamento, eles já não
estavam em exercício. Havia, no entanto, algo de mais excelente que todos
os dons: eram as manifestações do poder de Deus e dos mistérios da Sua
sabedoria. O AMOR era a manifestação da própria natureza de Deus.

 
CAPÍTULO 13
 
Poder-se-ia possuir todas as línguas, a profecia, o conhecimento dos
mistérios, a fé que transporta montanhas; poder-se-ia dar todos os nossos
bens para alimentar os pobres, e entregar o nosso corpo para ser queimado,
mas, se não tivéssemos amor, nada seríamos! O amor é a conformidade à
natureza de Deus, a expressão viva do que Deus é, a manifestação de uma
participação na Sua natureza. Tendo amor, atuamos, sentimos segundo a
natureza de Deus.
E este amor manifesta-se em relação com os outros; mas os outros
não são o motivo da sua atividade, embora sejam o seu objeto. O amor tem
a sua origem dentro daquele em quem ele atua; a sua força é independente
dos objetos de que se ocupa — e é assim que ele pode agir, onde as
circunstâncias poderiam produzir no coração do homem a irritação ou o
ciúme. Atua seguido a sua própria natureza, nas circunstâncias em que se
encontra colocado. E, considerando-as segundo essa natureza, as
circunstâncias não atuam sobre o homem que está cheio de amor, exceto na
medida em que fornecem a ocasião da sua atividade e dirigem a respectiva
forma. O amor é o seu próprio motivo; em nós, a participação na natureza
divina é a sua única fonte. A comunhão com o próprio Deus é o que sustém
o amor através de todas as dificuldades que ele terá de enfrentar no seu
caminho. Este amor é o oposto do egoísmo e da preocupação de si próprio
— e exclui-os. O amor procura o bem dos outros, do mesmo modo que
(quanto ao princípio) Deus o procurou para nós em graça (ver Efésios 4:32
e 5:1-2). Que poder extraordinário que é este amor para evitar o mal em si
mesmo, para tudo esquecer, a fim de só praticar o bem! ...
É digno de nota que as qualidades do amor divino são quase
inteiramente de caráter passivo. As oito primeiras indicadas pelo Espírito
Santo são a expressão da abnegação de si próprio. As três que se seguem
marcam a alegria que o amor encontra no bem, o que livra também da
tendência da natureza humana para supor o mal; tendência tão natural ao
coração humano, por causa do mau fundo que se encontra no coração do
homem e do mal de que se faz a experiência neste mundo. Os quatro
últimos caráteres indicados pelo apóstolo mostram a energia positiva do
amor que, fonte de todos os bons pensamentos, crê no bem pela poderosa
força da natureza divina, mesmo quando ele não vê esse bem; e suporta o
mal, quando o vê, cobrindo-o com o manto da sua paciência. O amor não
apregoa o mal, preferindo escondê-lo na profundidade dessa natureza que
ama, profundidade de que jamais se encontrará o fundo, porque o amor não
muda e porque os pensamentos que quereriam produzir o mal e revelá-lo à
luz do dia não encontram nunca lugar nele. Não se encontra ali senão o
amor, ali, onde ele é bem real e onde ele se exerce — porque as
circunstâncias não são senão uma ocasião para o pôr em exercício e o
demonstrar. O amor é sempre amor, e é o amor que se exerce e se
desenvolve! É o amor que enche os pensamentos! Todo o exterior não é
senão um meio de despertar a alma para o exercício do amor, quando ela
permanece nesse amor. E eis aí o seu caráter divino.
Sem dúvida, o tempo do julgamento virá, mas as nossas relações
com Deus são em graça. O amor é já natureza de Deus; é agora o tempo do
seu exercício: Nós representamos Deus sobre a Terra em testemunho.
Em tudo o que nos é apresentado neste capítulo acerca do amor,
encontramos a reprodução da natureza divina — embora o que nos é dito
não exprima senão a renúncia ao egoísmo da carne em nós. Ora, a natureza
divina não muda, e é permanente: o amor permanece, pois, para sempre.
As comunicações vindas da parte de Deus, os meios pelos quais elas
são feitas, o conhecimento tal como nós podemos possuí-lo neste mundo e
segundo o qual não apreendemos senão parcialmente a verdade, embora
toda a verdade nos seja revelada, numa palavra, tudo o que tem o caráter de
ser apenas em parte, passa! Neste mundo apreendemos a verdade por partes,
de modo que não teremos nunca todo o conjunto ao mesmo tempo. O
caráter do nosso conhecimento é de apreender cada verdade apenas em
parte. Por conseguinte, todo este gênero de conhecimento passa; mais o
amor nunca passará. O menino aprende e também se alegra com as coisas
que o divertem; mas, uma vez homem feito, carece de coisas segundo a
inteligência que possui como homem adulto. O mesmo se dá com as línguas
e com os dons para edificação da Igreja. De resto, vem o tempo em que
conheceremos tal como temos sido conhecidos; não pelas comunicações das
verdades a uma capacidade limitada, que só apreendia a verdade por partes,
mas compreendendo a como um todo, na sua unidade.
Ora, o amor subsiste já; a fé e a esperança existem também. Não
somente estas devem passar, mas mesmo agora, neste mundo, o que é da
natureza de Deus é mais excelente do que o que se liga à capacidade da
natureza humana — mesmo quando ela é iluminada por Deus e tem por
objeto a Sua glória revelada.

 
CAPÍTULO 14
 
Os Cristãos são, pois, exortados a prosseguirem e a procuraram o
amor, desejando os dons do Espírito, mas em particular o de profetizar,
porque assim se edifica a Igreja — e é a edificação da Igreja que se deve
procurar; é o que o amor deseja e procura, e o que o entendimento quereria.
Ora, o amor e o entendimento são os dois caráteres de um homem em
Cristo, daquele para o qual Cristo é tudo.
Dois versos deste capítulo 14 exigem um pouco mais de atenção:
são os versos 3 e 6. O primeiro apresenta-nos o efeito, ou antes, a qualidade
do que um profeta diz: não é uma definição. O profeta “edifica, exorta,
consola” ao falar. Estas palavras mostram, no entanto, o caráter daquilo que
o profeta diz. A profecia em si mesma não é de maneira nenhuma a simples
revelação de acontecimentos futuros, embora os profetas tenham revelado
esses acontecimentos, como revestidos do caráter de profetas. Um profeta é
um homem que está em íntima comunicação com Deus, para poder revelar
os Seus pensamentos. Um “doutor” ensinava segundo o que já tinha sido
escrito, explicando assim o seu alcance; mas o profeta, comunicando os
pensamentos de Deus às almas que estavam sob a graça, encorajava-as e
edificava-as.
Em relação ao verso 6, é claro que, falando em línguas (e nós vemos
que os Coríntios, como crianças, gostavam de brilhar na Assembleia pelo
exercício desse dom), o que assim falava não edificava ninguém: não o
compreendiam.
Talvez ele próprio se não compreendesse e fosse apenas um órgão
ininteligente, tendo a impressão de que Deus falava por seu intermédio, mas
o seu entendimento não tirava dali nenhum fruto. Em todo o caso não se
falaria para proveito da Igreja, a não ser que se comunicasse a esta os
pensamentos de Deus.
O apóstolo distingue dois gêneros de comunicações com esse
caráter: a revelação e o conhecimento. Este supõe uma revelação
anteriormente feita e que alguém aproveita, pelo Espírito, para o bem do
rebanho. Em seguida o apóstolo indica os dons, a saber a profecia e a
doutrina, que eram meios de edificar de duas maneiras: pela revelação e
pelo conhecimento. Não é que estes dois últimos termos, a profecia e a
doutrina, sejam equivalentes dos dois primeiros, mas os dois modos de
edificação já indicados cumprem-se por meio desses dois dons. Podia-se
profetizar sem que aquilo que se anunciava fosse rigorosamente uma nova
revelação, embora ali houvesse algo mais do que simples conhecimento.
Podia haver uma aplicação dos pensamentos de Deus, uma chamada
especial da parte de Deus às almas, à consciência, que era algo mais do que
o simples conhecimento, mas que não constituía uma nova revelação. Deus
atuava assim, sem revelar uma nova verdade ou um novo fato. Uma
comunicação toma o caráter de profecia fazendo realçar da Palavra de
Deus, pelo poder do Espírito Santo, o que nela estava escondido e o que,
aplicando-se ao próprio momento, se legitima nas consciências e nos
corações daqueles que são espirituais ou atingidos pelo poder do
testemunho. O conhecimento ou a doutrina ensinam verdades ou explicam a
Palavra de Deus, coisas muito úteis à Igreja; mas não há, necessariamente,
quando se ensina, uma ação direta do Espírito Santo em aplicação aos
assistentes e às circunstâncias do momento, e assim, não há a manifestação
direta da presença de Deus aos homens na sua própria consciência e no seu
próprio coração. Quando se ensina, aquele que é espiritual aproveita do que
é dito; quando se profetiza, mesmo aquele que não é espiritual poderá sentir
a força da Palavra de Deus. Será atingido e julgado — e é assim acerca da
consciência do Cristão. Dividir estas comunicações pela Igreja em
revelação e em conhecimento é uma distribuição perfeita, que abarca tudo.
A profecia e a doutrina estão em íntima relação, mas a profecia abarca
outras ideias além das de revelação, de modo que esta segunda divisão de
meios positivos de comunicações (a profecia e a doutrina) não responde
exatamente aos dois primeiros termos de revelação e de conhecimento.
O apóstolo insiste longamente na necessidade de nos fazermos
compreender, seja quando se fala, seja quando se ora ou se canta. Ele quer
(e a observação é da maior importância para julgar as pretensões que os
homens podem ter de ensinarem pelo Espírito) que a inteligência esteja em
exercício. Paulo não negava que se pudessem falar outras línguas — e o
dom de línguas era de um poder e de uma utilidade evidentes quando
estavam presentes pessoas que não compreendiam a língua que estava a ser
usada.
Mas esse dom era, de um modo geral, algo de inferior, quando o
Espírito Santo não atuava sobre a inteligência daquele que falava, e, por
conseguinte, e por seu intermédio, sobre os outros. A Comunhão das almas,
num assunto comum a todos pela unidade do Espírito, não existia quando
aquele que falava não entendia o que ele próprio dizia.
Nessas condições, o indivíduo que falava não gozava, como vindo
de Deus, daquilo que pretendia comunicar aos outros.
Se os outros o não entendiam, era uma infantilidade pronunciar
palavras sem significado algum para os ouvintes e nem para ele próprio! E
o apóstolo, embora falando muitas línguas, preferia usar linguagem que
todos entendessem — o que, aliás, demonstrava que não era inveja da sua
parte, se falam contra o emprego de línguas estrangeiras, quando ninguém
as compreendia, Paulo falava mais línguas estrangeiras do que eles todos,
mas o seu coração amava as coisas de Deus e gostava de receber do Senhor
a verdade de maneira clara e inteligente; gostava de falar sensatamente com
os outros, e preferia dizer cinco palavras com o seu entendimento a proferir
dez mil numa linguagem desconhecida (versos 18-19).
Que poder maravilhoso, que manifestação da presença de Deus e —
coisa digna da mais profunda atenção — ao mesmo tempo, que
superioridade a toda a vaidade carnal e ao brilho que jorrava sobre um
homem por meio dos dons! Que poder moral do Espírito de Deus neste
amor, que não encontrava nessas manifestações de poder senão
instrumentos para serem empregados para o bem da Igreja e das almas! Era
a força prática deste amor para cujo exercício, como para uma graça
superior aos dons, o apóstolo exortava os fiéis; era o amor e a sabedoria de
Deus dirigindo o exercício do poder divino para o bem daqueles a quem
Deus amava. Que magnifica posição para um homem! Que simplicidade a
graça de Deus dá Aquele que se esquece de si próprio na humildade e no
amor, e que poder nesta humildade!... O apóstolo confirma o seu raciocínio
pelo efeito que produziriam nos estrangeiros que entrassem na Assembleia,
ou nos Cristãos ainda não iluminados, palavras pronunciadas em línguas
que ninguém compreendesse: Torná-los-iam por loucos. A profecia, pelo
contrário, atingindo a consciência deles, fazer-lhes-ia sentir que Deus estava
lá, que estava presente na Sua Igreja.
Os dons espirituais eram abundantes em Corinto. E, após ter
regulado o que dizia respeito às questões imorais, o apóstolo regula o
exercício desses dons. Cada um deles vinha à sua Assembleia com alguma
manifestação do poder do Espírito Santo, na qual, evidentemente, se
pensava mais do que na conformidade com Cristo. No entanto Paulo
reconhecia nessas manifestações o poder do Espírito de Deus — e dá regras
para o seu exercício. Dois ou três podem falar em línguas estrangeiras,
desde que haja intérprete, para que a Igreja seja, com isso, espiritualmente
edificada.
Mas Paulo quer que fale só um de cada vez — pois parece que
falavam muitos ao mesmo tempo. E de igual modo recomenda quanto aos
profetas: Dois ou três poderiam falar, e os outros deveriam julgar se o que
era dito vinha, realmente, de Deus. Se Deus dava capacidade a todos, todos
podiam profetizar; no entanto um de cada vez, a fim de que todos
aprendessem e todos fossem estimulados.
A dependência é sempre boa para os profetas mais dotados. Os
espíritos dos profetas, quer dizer o movimento do poder no exercício dos
dons, estavam submetidas à direção do entendimento moral que o Espírito
Santo dava aos profetas. Estes eram, da parte de Deus, senhores de si
mesmos no emprego desses dons, no exercício desse poder maravilhoso que
atuava neles. Não era um furor divino, como diziam os pagãos da
inspiração diabólica que os arrebatava, porque Deus não podia ser autor de
confusão na Igreja, mas sim de paz. Numa palavra via-se que o poder
espiritual estava confiado ao homem sob a responsabilidade moral —
princípio importante e invariável nos caminhos de Deus. Deus salvou o
homem por graça, quando este faltara à responsabilidade; mas em tudo o
que Deus confia ao homem, seja qual for a divina energia do dom, o homem
é tido por responsável de se servir do que lhe foi confiado para a glória de
Deus, e, por conseguinte, para o bem dos outros e em particular para o bem
da Igreja.
As mulheres devem ficar caladas na Igreja; não lhes é permitido
falar. Devem permanecer na obediência e não dirigir os outros (versos 34-
35). Aliás, a lei usa a mesma linguagem. Seria vergonhoso as mulheres
falarem em público; e se tem perguntas a fazer, podem fazê-las em casa, aos
seus maridos. De resto, por numerosos que fossem os dons que os Coríntios
possuíssem, a Palavra não tinha saído de entre eles e nem tinha vindo
somente a eles. Deviam, pois, submeter-se à ordem universal do Espírito na
Igreja.
Se pretendiam ser conduzidos pelo Espírito, deviam reconhecer — e
isso seria uma prova de que eles eram assim conduzidos — que as coisas
que o apóstolo lhes escrevia eram “mandamento do Senhor”. Afirmação
esta da mais alta importância, posição responsável e muito séria deste
admirável servo de Deus.
Que mescla de ternura, de paciência e de autoridade em Paulo! Ele
deseja que os fiéis venham à verdade e à ordem, conduzidos pelos seus
próprios afetos; não temendo, contudo, se isso for necessário para o seu
bem, valer-se de rara autoridade sem apelo, como falando diretamente da
parte de Deus — autoridade que Deus legitimaria, se o apóstolo, contra a
sua vontade, fosse forçado a servir-se dela. Se alguém desconhecia que ele
escrevia pelo Espírito Santo e com a autoridade de Deus, isso era simples
ignorância, e nada mais; que aquele que era assim ignorante fosse
abandonado à sua ignorância!
Os homens espirituais e simples estariam livres de tais pretensões.
Porque aqueles que estavam verdadeiramente cheios do Espírito Santo
reconheceriam que o que o apóstolo escrevia vinha diretamente de Deus e
era a expressão da sabedoria divina, expressão do que correspondia ao Seu
caráter, porque muitas vezes podemos reconhecer a sabedoria divina, ou
mesmo humana, quando é encontrada, embora não tenhamos sabido
encontrar por nós próprios o caminho dessa sabedoria; ou que, quando o
apreendemos em parte, não tenhamos sabido apresentá-lo com autoridade.
E, no entanto, o homem pretensioso, não possuindo, aos olhos de todos,
senão esse caráter de manifestada e julgada ignorância, encontraria, a sua
humilhação, algo para seu proveito e de que ele tinha necessidade.
Notar-se-á também a importância do que o apóstolo afirma aqui,
pelo que concerne à inspiração divina das Epístolas. O que ele ensina,
quanto aos pormenores da ordem da Igreja, era tão realmente dado por
Deus, vinha tão perfeitamente de Deus, que era “mandamento do Senhor”.
Para a doutrina, temos no fim da Epístola aos Romanos a mesma
declaração, que era pelos escritos proféticos que o Evangelho era
disseminado entre as nações.
O apóstolo resume as suas instruções dizendo que se devia desejar
profetizar não proibir de falar línguas estrangeiras, e que tudo devia ser
feito com ordem e decência (versos 39-40).

 
CAPÍTULO 15
 
Mas outros males tinham encontrado maneira de se introduzirem no
meio dos dons brilhantes que se exerciam no seio do rebanho de Corinto:
Negavam a ressurreição dos mortos. Satanás é ardiloso nos seus caminhos.
Aparentemente, era apenas o corpo que estava em questão, mas, na
realidade, era todo o Evangelho, porque, se os mortos não ressuscitam,
Cristo não ressuscitou, e se Cristo não ressuscitou, os pecados dos fiéis não
são apagados e o Evangelho não é verdadeiro. O apóstolo reserva esta
questão para o fim da sua Epístola, tratando-a depois a fundo.
Em primeiro lugar Paulo recorda o que ele tinha pregado entre os
Coríntios como sendo o Evangelho, a saber, que Cristo morreu pelos nossos
pecados, segundo as Escrituras, e ressuscitou, segundo as mesmas
Escrituras. Esta verdade era, pois, o meio da salvação deles, se nela
perseverassem, a não ser que tivessem crido em vão (verso 2). Era um
fundamento bem sólido para a sua argumentação; salvação dos Coríntios (a
menos que tudo o que eles tinham crido não passasse de uma fábula sem
proveito) dependia do fato da ressurreição e a ela se ligava. Ora, se os
mortos não ressuscitavam. Cristo não tinha ressuscitado, porque Ele tinha
sido morto e bem morto. A primeira coisa que Paulo faz é, pois, estabelecer
o fato da ressurreição de Cristo pelos testemunhos mais completos e mais
positivos, incluindo o seu próprio, pois ele tinha visto o Senhor.
Quinhentas pessoas ao mesmo tempo O tinham visto, das quais a
maior parte vivia ainda para prestaram testemunho desse fato. Note-se, de
passagem, que o apóstolo não pode falar do que quer que seja sem que um
efeito moral se produza no seu coração, porque ele pensa em tudo com
Deus. Assim, nos versos 8-10, recorda o estado das coisas relativamente a si
próprio e aos outros apóstolos, e o que a graça tinha operado.
Tendo assim aliviado o seu coração, Paulo volta ao assunto em
questão. O testemunho era o mesmo, fosse quem fosse que o tivesse
prestado: Todos declaravam que o Cristo tinha ressuscitado (verso 11), e
tudo dependia do fato de que Ele tinha, com efeito, ressuscitado. É este o
ponto de partida do apóstolo. Se — diz ele — o que se pregou entre vós é
verdadeiro, e se o Cristo ressuscitou, como é que alguns de vós dizem que
não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição de mortos, Cristo não
ressuscitou, e, se Cristo não ressuscitou, a pregação das testemunhas de
Cristo é vã, a fé dos Cristãos é vã, e não somente isso, mas essas
testemunhas são falsas testemunhas, porque declararam a respeito de Deus
que Ele ressuscitou a Cristo (versos 12-15). Ora Deus não O ressuscitou, se
os mortos não ressuscitam; e, nesse caso, a fé dos Coríntios era vã.
Permaneciam nos seus pecados; e aqueles que tinham já adormecido em
Jesus, tinham perecido. Ora, se é somente nesta vida que o crente tem
esperança em Cristo, ele é o mais miserável dos homens, pois não faz senão
sofrer, pelo que concerne a este mundo. Demos, porém, graças a Deus,
porque não é assim. Cristo ressuscitou!
Mas não temos aqui somente uma doutrina geral, afirmando que os
mortos ressuscitam: Cristo, ressuscitando, saiu de entre os mortos! A Sua
ressurreição é o efeito do favor e do poder de Deus, intervindo para (1)
ressuscitar de entre os mortos Aquele que, na Sua graça, tinha descido ao
vale da sombra da morte para efetuar e mostrar em Cristo a libertação do
homem do poder de Satanás e da morte; para pôr um selo público na obra
da redenção e, enfim, para fazer resplandecer no homem a vitória alcançada
sobre todo o poder do Inimigo.
 
(1) Cristo pôde dizer; “Destruí este templo e em três dias o
reedificarei”. Ele ressuscitou-Se a Si próprio, porque tinha vida em Si,
porque é Deus quem habita naquele Templo. Mas também nos é dito que
Ele foi ressuscitado pelo Espírito; e é-nos igualmente dito que Ele foi
ressuscitado pela glória do Pai. Mas ali o Senhor é considerado como
homem. Como tal, Ele sofreu a morte — e Deus interveio para que Ele ali
não ficasse. A Sua ressurreição é assim apresentada como obra de Deus,
porque o objetivo não é mostrar a glória da Pessoa do Salvador, mas sim
demonstrar a nossa ressurreição, pois que Ele, homem morto, foi
ressuscitado. Pelo homem veio a morte; pelo homem veio a ressurreição.
Embora demonstrando que Ele era Senhor do Céu, o apóstolo aqui fala
sempre do Cristo — homem.
 
Assim, Cristo saiu de entre os mortos — porque a morte não podia
retê-Lo — e estabeleceu o glorioso principio desta divina e completa
libertação, tornando-Se as primícias dos que dormem, daqueles que, tendo a
Sua vida, esperam o exercício do Seu poder, que os despertará, em virtude
do Espírito que habita neles.
O fato de Cristo ter saído de entre os mortos e os fiéis saírem
também de entre eles pelo poder de Deus dá, evidentemente, um caráter
muito especial à ressurreição: Não só os mortos ressuscitam, mas também
Deus, pelo Seu poder e pelo Seu amor, chama de entre os mortos certas
pessoas, como objetos do Seu favor, e em relação com a vida e com o
Espírito Santo que estão nelas.
Cristo tem um lugar absolutamente particular. A vida estava n’Ele e
Ele é a nossa vida. Ele alcançou a vitória de que nós beneficiamos. Ele é, de
direito, as primícias. E isso era devido à Sua glória. Se Ele não tivesse
alcançado a vitória, nós teríamos ficado para sempre na prisão. Ele próprio
tinha o poder de retomar a vida; mas o grande princípio da ressurreição de
entre os mortos é o mesmo para Ele e para nós. Esta ressurreição não é
somente uma ressurreição dos mortos, mas aqueles que estão vivos segundo
Deus saem do túmulo como objetos do favor divino e pelo exercício do
poder pelo qual Deus quer tomá-los para Si mesmo: Cristo, as primícias;
depois aqueles que são de Cristo, aquando da Sua vinda (verso 23). Nós
somos associados com Cristo em ressurreição. Como Ele; sairemos não
apenas da morte, mas de entre os mortos. Note-se ainda aqui como Cristo e
os Seus são inseparavelmente identificados: Se não ressuscitam, Ele não
ressuscitou! Ele foi tão realmente morto como nós podemos morrer; tomou
em graça o mesmo lugar que nós na morte. Ele foi um homem como nós,
(exceto no pecado), e foi-o tão realmente que, se negarmos a ressurreição
para nós, negamo-la também para Ele — e então faltam o objeto e a
fundação da fé. Esta identificação de Cristo com os homens é de grande
poder e de grande benção para nós: Se os mortos não ressuscitam, então Ele
não ressuscitou, pois foi tão realmente morto como nós o podemos ser.
Esta ressurreição devia vir pelo homem, pois pelo homem viera a
morte (versos 21-22). Sem dúvida o poder de Deus pode fazer voltar os
homens do sepulcro; e Ele, com efeito, os fará voltar, agindo na pessoa do
Filho, a quem todo o julgamento é confiado. Mas isso não será uma vitória
alcançada pela natureza humana sobre a morte, que detinha os homens
cativos; foi uma tal vitória que Cristo alcançou! Ele quis ser entregue à
morte por nós, a fim de alcançar, como homem e para nós, homens, a
vitória sobre a morte e sobre aquele que tinha o império da morte. Pelo
homem veio a morte, pelo homem veio também a ressurreição.
A ressurreição! Gloriosa vitória, triunfo completo!
Por ela saímos do estado em que o pecado e as suas consequências
nos atingiam; o mal não pode entrar lá, aonde somos levados ao sairmos
desse estado. Ficamos para sempre muito além dos limites do seu império.
O pecado, o poder do Inimigo, fica fora desta nova Criação, que é o fruto
do poder de Deus após o mal ter sido introduzido — fruto que o homem,
colocado sob a sua própria responsabilidade, não estragará! É Deus que
mantém esta nova Criação em relação consigo mesmo. Ela depende
inteiramente de Deus.
Dois grandes princípios são postos aqui: Pelo homem veio a morte;
pelo homem veio a ressurreição dos mortos!
Adão e Cristo são apresentados como chefes de duas grandes
famílias: Em Adão todos morrem; cm Cristo todos serão vivificados! Há;
porém, aqui um desenvolvimento da maior importância em relação com a
posição de Cristo nos desígnios de Deus. Um lado desta verdade é a
dependência em que a família se encontra perante o seu chefe: Adão traz a
morte ao seio dos seus descendentes, ao seio daqueles que estão em relação
com ele. A morte é o princípio que caracteriza a história do primeiro Adão.
Cristo, em quem está a vida, traz a vida ao seio daqueles que são Seus.
Comunica-Lhe! A vido é o princípio que caracteriza o último Adão
e os Seus n'Ele. É, além disso, a vida no poder da ressurreição, sem a qual
não teria podido ser-lhes comunicada.
O grão de trigo podia ter sido perfeito em si, mas teria ficado só,
distinto dos pecadores! Mas Ele morreu pelo pecado dos Seus, e agora
comunica-lhes a vida, tendo perdoado todos os seus pecados.
Ora, na ressurreição, há uma ordem, segundo a sabedoria de Deus,
para o cumprimento dos Seus desígnios: Cristo, as primícias; depois,
aqueles que são de Cristo, quando Ele vier. Assim, aqueles que estão em
Cristo são vivificados segundo o poder da vida que está n'Ele: é a
ressurreição da vida! Mas não é toda a extensão da ressurreição que Cristo
adquiriu ao alcançar a vitória sobre a morte, segundo o espírito de
santidade. O Pai deu a Cristo autoridade sobre toda a carne, a fim de que dê
a vida eterna a todos aqueles que Ele Lhe deu. É destes que este capítulo
trata essencialmente, porque o seu tema é a ressurreição entre os Cristãos, e
o apóstolo — o próprio Espírito Santo — gosta de tratar a questão do poder
da vida eterna em Cristo.
Todavia Paulo não pode omitir absolutamente a outra parte da
verdade. A ressurreição dos mortos — diz ele — veio pelo homem. Mas
não fala aqui da comunicação da vida que está em Cristo. Em relação com
esta última e mais íntima parte do seu tema, o apóstolo não aborda a
ressurreição dos malfeitores; mas, após a vinda de Cristo, introduz o fim,
quando Cristo tiver entregado o Reino a Deus, o Pai. O Reino admite o
pensamento do poder de Cristo exercido sobre todas as coisas, pensamento
distinto do da comunicação da vida aos Seus.
Assim, há três passos nos conhecimentos de que é feita menção
aqui:
1º-Em primeiro lugar a ressurreição de Cristo — as primícias;
2º-depois a ressurreição daqueles que são de Cristo, na Sua vinda;
3º-por fim, quando Ele tiver entregado o Reino ao Pai.
O primeiro e o segundo destes acontecimentos são o cumprimento,
em ressurreição, do poder da vida em Cristo e nos Seus.
 
Ora, quando Cristo vier, Ele toma o Reino; toma o Seu grande poder
e age como Rei. Desde a Sua vinda até ao fim é-nos apresentado o
desenvolvimento do Seu poder para sujeitar todas as coisas, tempo durante
o qual todos os poderes e toda a autoridade serão abolidos, porque é preciso
que Ele reine até que todos os Seus inimigos estejam sob os Seus pés. O
último a ser submetido será a morte.
É, pois, aqui, e somente como efeito do poder de Cristo, e não em
relação com a comunicação da vida, que encontramos a ressurreição
daqueles que não são do Senhor, porque a destruição da morte é a
ressurreição deles. Eles são passados em silêncio; somente a morte, tal
como a vimos, já não tem império sobre eles. Cristo, em virtude da Sua
ressurreição, e porque Ele glorificou o Pai, tem o direito e o poder de
destruir o império que exerce a morte sobre eles e de ressuscitá-los. Será a
ressurreição para julgamento. O efeito desse julgamento é-nos declarado
noutra passagem. Quando Ele tiver posto todos os Seus inimigos debaixo
dos Seus pés e tiver entregado o Reino a Deus Pai (porque o Reino não Lhe
é nunca tirado, nem é dado a outro, como sucedia com os impérios
humanos), então o próprio Filho se sujeitará Aquele que Lhe sujeitou todas
as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos (verso 28).
O leitor deve notar que se trata aqui dos desígnios de Deus a
respeito do governo de todas as coisas, e não da natureza de Jesus; deve
notar também que é do Filho como homem que estas coisas são ditas. E o
que acabo de afirmar não é uma explicação arbitrária. A passagem que
estudamos (verso 27) cita o Salmo 8, cujo tema é a elevação do homem à
posição de senhor de todas as coisas, pondo Deus todas as coisas sob os pés
do homem. Nada — diz o apóstolo — é excluído (Hebreus 2), exceto,
necessariamente, como é dito aqui, Aquele que lhe sujeitou todas as coisas.
Quando o Homem-Cristo, o Filho de Deus, cumprir de fato esta
submissão, entregando a Deus Pai o poder universal que Lhe foi confiado e
o Reino mediatorial (mediador) que tinha como homem, cessam os Seus
trabalhos. O Filho fica de novo submisso, como o estava sobre a Terra. Mas
não cessará jamais de ser Um com o Pai. Ele o era, mesmo quando vivia em
humilhação sobre a Terra, dizendo: “Antes que Abraão existisse, eu sou”,
mas o governo mediatorial do homem terá desaparecido, será absorvido na
supremacia de Deus, à qual já não haverá oposição; Cristo tomará o Seu
lugar eterno de homem, chefe de toda a família dos resgatados, sendo Deus
bendito eternamente, Um com o Pai.
No Salmo 2, vemos o Filho de Deus, nascido como homem na
Terra, Rei em Sião, rejeitado quando se apresenta neste mundo; no Salmo 8
encontramos, como resultado da Sua rejeição, o Cristo elevado, como Filho
do homem, a cabeça de tudo o que a mão de Deus fez. Agora aqui, é-nos
apresentado como depondo essa autoridade, que Lhe fora conferida, e
reentrando na posição normal da humanidade, ora posição de um ser
submisso Aquele que tudo Lhe tinha sujeitado. Mas, apesar de tudo, a
natureza divina de Cristo não muda nunca, do mesmo modo que não muda
a Sua natureza humana, exceto a mudança da Sua humilhação em glória. E
Deus será então tudo em todos, e o governo especial do homem na pessoa
de Jesus — Governo ao qual a Igreja está associada (2) — será fundido na
imutável supremacia de Deus, na relação final e normal de Deus com a Sua
criatura. Notar-se-á também que o Cordeiro não aparece no que é dito em
Apocalipse 21:1-8, a propósito deste período.
 
(2) Veja-se a citação deste mesmo Salmo em Efésios 1:20-23.
 
Assim encontramos nos versos 20-28 a ressurreição vinda pelo
Homem — tendo a morte entrado por ele — e a relação dos santos com
Jesus, fonte e poder de vida; a consequência deste poder de vida, a saber, a
ressurreição de Jesus e a dos Seus, no Seu advento, sendo a ressurreição
destes a consequência da sua relação com Ele. Vemos em seguida o poder
sobre todas as coisas confiado a Cristo, o Homem ressuscitado. Vemos
enfim o Reino entregue a Deus Pai, o tabernáculo de Deus com os homens,
e o Homem-Cristo, último Adão, eternamente Homem submisso Aquele
que é Supremo — verdade de um preço infinito para nós. (A ressurreição
dos malfeitores, embora suposta na ressurreição introduzida por Cristo, não
é o objeto direto deste capítulo).
Agora o leitor deve notar que a passagem, que acabamos de
considerar, é uma revelação, onde, pelo Espírito de Deus, o apostolo, tendo
detido os seus pensamentos sobre Jesus e sobre a ressurreição, interrompe
subitamente o fio dos seus raciocínios com esse impulso que o pensamento
de Cristo dá sempre ao seu coração e à sua inteligência, e anuncia todos os
caminhos de Deus em Cristo, em relação com a ressurreição, as relações
dos Seus com Ele nesta ressurreição, e o governo, a dominação que
pertencem a Jesus como ressuscitado; assim como o estado eterno das Suas
relações, como Homem, com Deus.
Tendo comunicado, nos versos 20-28, ao jeito de parêntesis, esses
pensamentos de Deus que lhe tinham sido revelados, o apóstolo retorna a
continuação dos seus raciocínios no verso 29. Esta parte termina no verso
34, após o que Paulo trata da questão que se apresentava, como objeção, a
saber, como ressuscitariam os mortos.
Considerando assim, como um parêntesis, os versos 20-28, que
contém, numa passagem completa em si, uma tão importante revelação, os
versos 29-34 tornam-se muito mais inteligíveis, e algumas expressões que
tanto têm atormentado os intérpretes, ficam com um sentido mais ou menos
determinado. O apóstolo tinha dito (versos 16-18) que, se os mortos não
ressuscitam, os que tinham adormecido em Cristo tinham perecido, e que os
crentes vivos eram de todos os homens os mais miseráveis.
No verso 29 o apóstolo volta a falar sobre esses pontos e refere-se
aqueles que são batizados por causa dos mortos, em relação com a asserção
(afirmação feita por alguns) que, se não há ressurreição, os que tinham
adormecido em Cristo tinham perecido. Se (diz ele, repetindo com mais
ênfase a expressão do verso 16) os mortos absolutamente não ressuscitam,
que farão aqueles que são batizados por causa dos mortos, etc.? Em seguida
o apóstolo mostra até que ponto, se não há ressurreição, ele é, ele próprio,
de todos os homens, o mais miserável, porque a todo o momento estava,
humanamente falando, em perigo de perecer também, tendo de lutar como
que com animais ferozes, morrendo todos os dias. Ser batizado por causa
dos mortos é, pois, tonar-se Cristão em vista, daqueles que adormeceram
em Cristo e mais particularmente em vista daqueles que tinham sido mortos
por Ele; é tomar a sua parte com os mortos, mesmo com um Cristo morto, o
que é o verdadeiro significado do batismo (Romanos 6).
Não havia sentido algum, se os mortos não ressuscitassem. No
capítulo 4 da primeira Epístola aos Tessalonicenses, o assunto, embora se
refira a todos os Cristãos, é considerado da mesma maneira. A palavra
traduzida, nalgumas edições, “pelos” na frase “pelos mortos”, é
frequentemente empregada nestas Epístolas, por “em vista de, por causa de,
em relação com”.
Vimos que os versos 20-25 formam um parênteses; o verso 29
refere-se, pois, ao verso 18.
Os versos 30-32 referem-se ao verso 29, e a explicação histórica
destes últimos versos encontra-se na segunda epístola. (Ver 2 Coríntios 1:8-
9; e 4:8-12). Não penso que o verso 32 deva ser tomado literalmente. A
frase traduzida per “combati contra as bestas” é habitualmente empregada
em sentido figurado para dizer que se está em luta com inimigos ferozes e
encarniçados. Paulo tinha estado quase a perder a vida por causa da
violência dos Efésios. Desesperava mesmo de a salvar, mas Deus o tinha
livrado. Ora, para quê então todos esses sofrimentos, se os mortos não
ressuscitam?
Note-se que, embora a ressurreição demonstre que a morte não
atinja a alma (comparar com Lucas 20:38), o apóstolo não pensa na
imortalidade (3) separada da ressurreição.
 
(3) Note-se que, no Novo Testamento, a mortalidade não é nunca
aplicada a outra coisa que não seja o corpo, e isto exclusiva e
enfaticamente, como quando é dito “esse mortal” e outras expressões
semelhantes. A existência separada da alma, como não morrendo
juntamente com o corpo, é suficiente e claramente ensinada na Escritura, e
não somente para o Cristão (quanto a este, isso é evidente, porque morre
para estar com Cristo), mas sim para todos, como parece, segundo Lucas
20:38; 12:4-5; e o fim do capítulo 16.
 
Deus tem algo a ver com o homem — e o homem é formado de
corpo e de alma. No julgamento, ele prestará contas das coisas feitas em
corpo — e é quando for ressuscitado que ele prestará essas contas. A união
íntima entre a alma e o corpo, por muito distintos que sejam, é que faz a
mola real da vida — é a sede da responsabilidade, o meio do governo de
Deus a respeito da Sua criatura e a esfera em que os Seus caminhos se
desenvolvem. A morte dissolve esta união, e embora a alma sobreviva e
soja feliz ou infeliz, a existência do homem como tal é suspensa.
O julgamento de Deus não é ainda executado; o crente não é ainda
revestido de glória. Assim, negar a ressurreição era negar as verdadeiras
relações de Deus com o homem, era fazer da morte o seu fim, era destrui-lo
como homem — como Deus o considera — e fazê-lo perecer como um
animal (4).
 
(4) Comparar o raciocínio do Senhor na passagem de Lucas, de que
já citei mais acima um versículo.
 
Mas, ai! ... A negação da ressurreição falava ao desejo da carne, de
dar liberdade aos seus vícios. Satanás introduzia essa incredulidade no tema
da ressurreição no coração dos Cristãos por medo das suas relações com
pessoas com as quais o Espírito de Cristo não podia ter comunhão.
Esses Cristãos tinham necessidade e exercitarem a sua consciência e
de serem despertados para que a Justiça ali tivesse o seu lugar. É a ausência
desse exame de consciência que, habitualmente, é a fonte das verdadeiras
heresias.
Faltava em muitos deles o conhecimento de Deus — e essa falta era
a sua vergonha. Que Deus nos concedia a graça de podermos prestar a
devida atenção a isto. É o grande problema, mesmo nas questões de
doutrina.
Mas o espírito de curiosidade do homem quereria ser satisfeito
quanto à maneira como a ressurreição se operará fisicamente. No entanto o
apóstolo não responde a essa curiosidade; antes, reprova ao homem, em
quem ela se encontra, a sua estúpida loucura, que todos os dias tem ocasião
de ver coisas análogas na Criação de que está rodeado. O corpo
ressuscitado, fruto do poder de Deus, será como aprouver Aquele que o dá
de novo para morada graciosa da alma: será sempre um verdadeiro corpo de
homem. Ao mesmo tempo, após ter passado pela morte, ele revestirá o
estado glorioso que Deus lhe preparou. Será um corpo apropriado à criatura
que o possui, mas segundo a vontade suprema d'Aquele que dele a reveste.
Há diversas espécies de corpos; e tal como o trigo não é o simples grão que
se remedia, sendo, no em tanto, uma planta da mesma natureza da do grão
que fora semeado — e nunca outra — assim será com o homem
ressuscitado. Diferente é também a glória dos corpos celestes e a dos corpos
terrestres: uma estrela difere em glória de outra estrela (versos 35 e
seguintes). Não creio que esta passagem diga respeito aos graus de glória no
Céu, mas sim ao fato de que Deus distribui a glória como Lhe apraz.
Simplesmente, são postas em contraste, e bem claramente, a glória celeste e
a glória terrestre, porque haverá uma glória terrestre...
E note-se que não é só o fato da ressurreição que é afirmado nesta
passagem, mas também o seu caráter.
Para os santos será uma ressurreição em glória celeste.
Terão corpos incorruptíveis, gloriosos, vasos de poder, espiritual. O
corpo semeado, como o grão de trigo, para a corrupção, revestira a glória e
a incorruptibilidade (5).
 
(5) O fato da nossa ressurreição em glória é uma prova colateral e
impressionante da plenitude da nossa redenção, e de impossibilidade de
sermos levados a julgamento. Seremos glorificados antes de
comparecermos perante o Tribunal de Cristo. Cristo terá transformado o
nosso corpo de humilhação em conformidade com o corpo da Sua glória.
 
Não se trata aqui senão dos santos “daqueles que são celestes” e em
relação com Cristo, o último Adão. O apóstolo tinha dito que o primeiro
corpo era um corpo “animal”, que a sua vida era a vida da alma vivente;
que, quanto ao seu corpo, o homem participava dessa espécie de vida que
possuem os outros amimais. Todavia, a superioridade da vida que anima
esse corpo é grande, sem dúvida, quanto às suas relações com Deus, na
medida em que foi o próprio Deus que sopros nas suas narinas o espírito da
vida; de modo que o homem está assim, de numa maneira muito especial,
em relação com Ele. É “da Sua raça”, como diz o apóstolo em Atenas;
“Adão, filho de Deus”, diz o Espírito Santo em Lucas; “Feito à semelhança
de Deus”, diz Tiago (3:9). O comportamento do homem deveria ter
correspondido a essa relação, e Deus tinha-se revelado a ele a fim de o
colocar moralmente na posição que convinha ao sopro de vida que ele tinha,
recebido. Quer estivesse livre da morte pelo poder de Deus, que o sustinha;
ou fosse mortal devido à sentença de Quem o tinha formado, o homem era,
pela Criação, feito “uma alma vivente”. Não havia poder vivificante nele
mesmo. O primeiro Adão era simplesmente um homem, “o primeiro
homem, Adão” (verso 45).
A Palavra de Deus não se exprime assim quanto a Cristo, quando,
na passagem que estudamos, fala d’Ele como sendo o último Adão. Cristo
não poderia ser o último Adão sem ser um homem; mas a Palavra de Deus
não diz: “O segundo homem era um espírito vivificante”, mas sim “o último
Adão”, e quando fala d'Ele como segundo homem, acrescenta que Ele era
“do Céu”. Cristo não tinha somente a vida como uma alma vivente. Ele
tinha o poder de uma vida que podia comunicar a vida a outros. Embora
sendo homem sobre a Terra, Ele tinha a vida em Si mesmo — por isso
vivifica quem Ele quer. Todavia, é como “o último Adão”, “o segundo
homem”, o Cristo, que a Palavra de Deus no-Lo apresenta aqui. E não é
somente Deus que vivifica quem Ele quer, mas o último Adão, Cristo,
espiritualmente o Chefe de uma nova Raça, tem em Si mesmo esse poder de
vida. É por isso que nos é dito (porque se trata sempre de Jesus sobre a
Terra): “Ele deu ao Filho ter a vida em Si mesmo” (João 5:26); enquanto
que de nós é dito: “Deus deu-nos a vida eterna; e esta vida está em Seu
Filho. Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não
tem a vida” (1 João 5:11-12).
Todavia, não é primeiro o celestial, mais sim o natural, e só depois o
celestial (verso 46), quer dizer o que tem a vida natural da alma. O que é
espiritual, isto é, o que tem a sua vida do poder do Espírito, vem depois. O
primeiro homem é da Terra; tira, tal como é (tendo Deus soprado nas suas
narinas um espírito ou sopro de vida), a sua origem da terra. Por isso é pó,
como Deus disse: “Tu és pó, e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19). O último
Adão, embora tão verdadeiramente homem como o primeiro, é do Céu.
Na nossa qualidade de pertencentes ao primeiro Adão, somos
herdeiros da sua condição, somos tais como ele; mas na qualidade de
participantes da vida do último Adão, temos parte na glória que Ele possui
como homem, somos tais conto Ele, existimos segundo a Sua maneira de
ser, sendo a Sua vida a nossa vida. E a consequência disto é que, assim
como trouxemos a imagem do terrestre, devemos trazer também a imagem
do celeste (verso 49).
Note-se que o primeiro Adão e o último, ou o segundo Homem, são
considerados, respectivamente, sob o ponto de vista da condição em que
eles entraram quando terminaram as provas que cada um prestou sob a
responsabilidade; e aqueles que estão em relação com um e com o outro
herdam da condição e das consequências da obra daquele a quem
pertencem. Adão caído é o pai de uma raça concebida segundo a sua
imagem, de uma raça caída, culpada, pecadora e mortal. Ele tinha falido,
tinha cometido o pecado e perdido, por isso, a sua posição perante Deus.
Estava longe de Deus quando gerou a raça humana.
Quanto a Cristo, se o grão de trigo caindo na terra mão morre, fica
só; mas, se morre, produz muito fruto. Cristo tinha glorificado a Deus, feito
a expiação pelo pecado, e tinha ressuscitado em justiça. Tinha vencido a
morte e destruído o poder de Satanás antes de Se tornar como espírito
vivificante, o Chefe de uma raça espiritual (6).
 
(6) Não quer dizer que, como Filho de Deus, Ele não pudesse
vivificar em todo o tempo, como efetivamente tem feito. Mas para que
fôssemos feitos participantes com Ele, toda essa obra era necessária — e
foi feita.
Aqui, Ele é considerado como sendo Ele mesmo ressuscitado de
entre os mortos — Ele, o Homem celeste. Desta maneira, tudo é fundado
em justiça divina.
 
A esta raça, unida a Ele, Ele comunica todos os privilégios
pertencendo à posição perante Deus que Ele adquiriu segundo o poder dessa
vida pela qual Ele os vivifica. É de um Cristo ressuscitado e glorificado que
nos traremos a imagem, como trazemos atualmente a imagem de um Adão
caído. A carne e o sangue — e não somente o pecado — não podem herdar
o Reino de Deus (verso 50). A corrupção (e é o que nós somos) não pode
herdar o que é incorruptível.
Isto leva o apóstolo a uma revelação positiva do que terá lugar
quanto ao gozo da incorruptibilidade por todos os santos. A morte é
vencida. Não é necessário que ela se apodere de todos os homens, e ainda
menos que todos passem pela corrupção realizada no fato; no entanto, não é
possível que a carne e o sangue herdem o Reino da glória.
Porém, nem todos dormiremos; alguns haverá que serão
transformados. Os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e os que
ficarmos seremos transformados. O apóstolo diz “nós”, porque a redenção
estando já realizada e Cristo pronto a julgar os vivos e os mortos, ele
considera sempre a vinda de Jesus como uma coisa que está imediatamente
diante dos seus olhos, podendo acontecer a cada instante.
Esta transformação é equivalente à ressurreição, porque o que é
corruptível, se não estiver já feito em pó e em corrupção, revestirá a
incorruptibilidade, e o que e mortal revestirá a imortalidade (verso 53). Vê-
se que se trata aqui do corpo. É no seu corpo que o homem é imortal,
mesmo quando tem a vida eterna e viverá por Cristo e em Cristo. O poder
de Deus formará os santos, estejam eles vivos ou mortos para a herança da
glória.
Note-se bem o que acabamos de dizer. A morte está inteiramente
vencida — anulada no seu poder — para o Cristão.
Ele possui uma vida (Cristo ressuscitado) que o coloca acima da
morte, não talvez fisicamente quanto ao seu corpo, mas espiritualmente. A
morte, como fruto do pecado e do julgamento, perdeu todo o seu poder
sobre a alma do crente. Está de tal modo vencida que há homens que nunca
morrerão. Todos os Cristãos tem Cristo para a sua vida.
Enquanto Ele estiver ausente — e Ele o estará enquanto ficar
sentado no trono de Seu Pai, e a nossa vida escondida com Ele em Deus —
nós sofreremos a morte, fisicamente, segundo a sentença de Deus, isto é, a
alma estará separada do corpo mortal. Quando Cristo Se tiver levantado do
trono do Pai, voltará e exercerá o Seu poder para tomar os Seus para Si,
antes de vir executar o julgamento, a morte já não terá nenhum império
sobre aqueles que viverem ainda; eles não passarão pela morte.
Que os fieis que já dormem no Senhor ressuscitem de entre os
mortos é a prova de um poder inteiramente divino, mais glorioso ainda do
que aquele que criara o homem do pó da terra; que os vivos sejam
transformados demonstra uma perfeição de redenção já cumprida e um
poder de vida em Cristo que não deixou nenhum traço, nenhum vestígio,
nem do julgamento de Deus quanto a eles, nenhum do poder do inimigo,
nem da sujeição do homem às consequências do seu pecado. Todas as
coisas são substituídas por um exercício do poder divino que se manifesta
na absoluta, completa e eterna libertação da pobre criatura culpada,
colocada sob essas consequências, libertação que teve a sua perfeita
manifestação na glória de Cristo. Cristo tinha-Se sujeitado em graça à
condição do homem submetido à morte, por causa do pecado; mas agora
que Ele está ressuscitado e glorificado, a fé tem sempre por certa e
cumprida esta libertação na Sua Pessoa. Mas a ressurreição dos mortos e a
transformação dos vivos serão o seu cumprimento efetivo para todos os
Seus, aquando da Sua vinda.
Que gloriosa libertação esta, operada pela ressurreição de Cristo,
que — sendo o pecado inteiramente apagado, a justiça divinamente
glorificada e cumprida, o poder de Satanás destruído — nos transporta, em
virtude de uma redenção eterna e pelo poder de uma nova vida que aboliu a
morte, a esfera inteiramente nova, onde nem o mal nem nenhuma das suas
consequências podem entrar; e onde o favor de Deus, em glória, brilha
permanentemente sobre nós e para sempre! É o que Cristo nos adquiriu, em
harmonia com o amor eterno de Deus nosso Pai, que no-Lo deu para ser o
nosso Salvador.
É nesse imprevisto momento que nós entraremos nessa cena
ordenada pelo Pai e preparada por Jesus. O poder de Deus realizará essa
transformação num instante: Os mortos ressuscitarão; nós seremos
transformados (verso 52). “A última trombeta” é apenas uma simples alusão
militar, segundo me parece. A tropa esperava a última trombeta como sinal,
para partirem todos ao mesmo tempo.
Na citação de Isaías 25:8, que o apóstolo faz (verso 54), temos uma
notável aplicação da Escritura. Aqui é somente o fato de a morte ser tragada
pela vitória que o apóstolo comprova pelo testemunho do profeta; mas a
comparação com Isaías faz-nos ver que a ressurreição dos fiéis terá lugar,
não no fim do mundo, mas no período em que, pelo estabelecimento do
Reino de Deus em Sião, o véu sob o qual os pagãos têm permanecido na
ignorância e nas trevas será levantado, a Terra inteira será iluminada e o
opróbrio que pesa sobre Israel será tirado. Não digo que esses
acontecimentos tenham lugar no preciso momento da ressurreição, mas tê-
lo-ão, certamente, no mesmo período de tempo.
Esta certeza da destruição da morte dá-nos já uma confiança total,
embora a própria morte ainda exista, — mas ela perdeu o seu aguilhão e o
túmulo a sua vitória!
Tudo é transformado pela graça que, no final, trará esse completo
triunfo; mas a graça mudou desde já completamente o caráter da morte,
revelando-nos o favor de Deus, que no-lo concede; e o cumprimento da
redenção, que dele é a base. Para o crente, que deve por ela passar, a morte
não é senão o ato de deixar definitivamente tudo o que é mortal. Ela já não
traz consigo o terror do julgamento de Deus, nem o do poder de Satanás.
Cristo passou por esses terrores e sofreu a morte, como revestido do caráter
do poder de Satanás e do julgamento de Deus: Destruiu totalmente e para
sempre esse poder, mas fez mais, pois destruiu também a fonte ou origem
desse poder. O pecado aguçava e envenenava esse aguilhão. A lei,
apresentando a consciência a exata justiça e o julgamento de Deus, que
exigiam o cumprimento dessa lei e pronunciavam a maldição sobre quem
não a cumprisse, a lei dava ao pecado a sua força sobre a consciência e
tornava a morte duplamente terrível.
Ora, Cristo foi feito pecado e sofreu a maldição da lei, sendo feito
maldição pelos seus, que estavam sob a lei: Assim, glorificando a Deus
perfeitamente acerca do pecado e acerca da lei nas suas exigências mais
absolutas, livrou-nos completamente do pecado e da lei, e ao mesmo tempo
do poder da morte, de onde Ele saiu vitorioso. Tudo o que a morte pode
fazer-nos é retirar-nos da cena onde ela exerce o seu poder, para nos fazer
entrar naquela outra onde ela não tem poder algum. Deus, o Autor desses
planos de graça que nos livram e nos introduzem gloriosos junto d'Ele,
Deus, em quem está o poder para os cumprir, deu-nos esta libertação por
Jesus Cristo nosso Senhor. Em lugar de temermos a morte, damos graças
Aquele que nos deu a vitória por Jesus Cristo, nosso Senhor.
O grande resultado dessa obra divina será estarmos com Jesus e
sermos como Jesus, vendo-O tal como Ele é.
Enquanto esperamos, trabalhamos no meio da cena onde a morte
exerce o seu poder, onde Satanás se serve dela, quando Deus lhe permite,
para nos deter no nosso caminho, embora, por vezes, no meio de grandes
dificuldades, trabalhamos com inteira confiança, sabendo qual será o
infalível resultado da luta. O Inimigo poderá atravessar-se no nosso
caminho, mas o resultado final será sempre o fruto dos desígnios do nosso
Deus e do Seu poder exercido em nosso favor, segundo o que termos visto
em Jesus, Chefe e manifestação da glória de que gozarão aqueles que Lhe
pertencera.
Para resumirmos o que foi dito, vemos estas duas coisas em Cristo:
Em primeiro lugar o Seu poder sobre todas as coisas, incluindo a própria
morte. Ele ressuscita até os malfeitores! Em segundo lugar, a associação dos
Seus com Ele. Pelo que diz respeito a estes, o apóstolo dirige os nossos
olhares para a ressurreição do próprio Cristo. Ele não só ressuscita os
outros, mas Ele próprio foi ressuscitado de entre os mortos — é as primícias
daqueles que dormem.
Todavia, antes da Sua ressurreição, Ele deu a Sua vida pelos nossos
pecados. Assim, tudo o que nos separava de Deus foi inteiramente banido: a
morte, a ira de Deus, o poder de Satanás, o pecado, desaparecem, tudo que
nos diz respeito, em virtude da obra de Cristo — e é feita por nós esta
justiça, que é o nosso direito à glória celeste. Nada resta do que pertencia à
primeira condição humana, exceto o eterno favor de Deus para conosco,
que trouxera Cristo a este mundo. Assim, a ressurreição em que
participamos é uma ressurreição de entre os mortos, pelo poder de Deus, em
virtude desse favor, em virtude do fato que Jesus era as delícias de Deus e
que, na Sua exaltação, a Justiça de Deus é cumprida. Para nós, é uma
ressurreição fundada na redenção, e da qual gozamos já no poder de uma
vida que traz aos nossos corações, iluminados pelo Espírito Santo, que nos
é dado, o efeito e a força do favor de que Jesus tem gozado e da redenção
que ele realizou. Para os nossos corpos, o seu cumprimento terá lugar, de
fato, aquando da vinda de Cristo.

 
CAPÍTULO 16
 
Sob o ponto de vista da prática, a Igreja de Corinto estava em
miserável estado; e, estando adormecida quanto à Justiça, o Inimigo
procurava extravia-la também quanto à Fé. No entanto, como corpo, ela
guardava os fundamentos da verdade, e quanto ao poder espiritual exterior,
brilhava com grande esplendor. O apóstolo, na sua Epístola, ocupara-se da
desordem que reinava entre os fiéis, mas o seu espírito, até certo ponto,
tinha-se consolado ao cumprir para com eles esse dever de fidelidade,
porque, apesar de tudo, eles não deixavam de ser Cristãos e uma
Assembleia de Deus.
No último capítulo Paulo fala aos Coríntios com esse sentimento,
embora não tenha podido ir a Corinto, como era seu desejo, quando fosse à
Macedónia; e uma segunda vez, ao voltar dessa região. Ele não diz aqui a
razão porque não fora a Corinto, ao dirigir-se à Macedônia; ele fala com
incerteza a respeito da sua estadia naquela cidade, aquando do seu regresso
da Macedônia. Se o Senhor o permitisse — diz ele — passaria algum tempo
com os Coríntios. Na segunda Epístola encontraremos a explicação do que
aconteceu.
No estado espiritual em que os Coríntios se encontravam, o seu
coração não permitia ao apóstolo visitá-los; trata-os, no entanto, com
ternura, como Cristãos ainda bem-amados, dando-lhes direções que
convinham às circunstâncias do momento. Eles deveriam fazer uma coleta
para os santos mais pobres de Jerusalém, como tinha sido combinado com
os outros apóstolos quando Paulo, reconhecido apóstolo dos Gentios,
deixara Jerusalém. E não queria que essa coleta fosse feita à pressa, quando
ele chegasse; mas sim cada um fosse pondo de lado qualquer coisa, todas as
semanas, na medida das suas posses, para tal fim. Depois Paulo enviaria a
Jerusalém as pessoas que os Coríntios designassem, ou ele próprio os
acompanharia, se isso conviesse.
Paulo pensava ficar até ao Pentecostes em Éfeso, onde uma grande
porta lhe tinha sido aberta, e onde havia muitos adversários. Se essas duas
coisas — “a porta aberta” e “a oposição” se harmonizassem isso seria um
bom motivo para ele ficar lá. A “porta aberta” é, da parte de Deus, um
encorajamento que nos obriga a agir; a atividade dos adversários torna isso
necessário, em vista do Inimigo. Uma porta fechada é algo diferente da
oposição: os homens não escutam, quando a porta está fechada; Deus não
atua, para atrair a atenção deles. Mas se Deus atua, a atividade do Inimigo é
uma boa razão para não abandonarmos a Obra do Senhor. Paulo, ao que
parece, tinha já sofrido muito em Éfeso (ver Capítulo 15:32), no entanto,
continuava o seu trabalho.
No estado em que então se encontravam os Coríntios, Paulo não
podia derramar o seu coração acerca dos seus sofrimentos; faze-o, porém,
na sua segunda Epístola, quando a primeira tem já produzido o efeito que
ele desejava.
Mais tarde, devido a um motim suscitado pelos artífices de
ourivesaria, Paulo deixou Éfeso (Atos 19).
Os versos 21 e 22 deste capítulo de Atos dão-nos a conhecer a data
em que o apóstolo escreveu esta Epístola. O perigo de vida em que ele tinha
estado e de que tal a em 2 Coríntios, capítulo 1, tinha procedido esta época,
mas Paulo continuou em Éfeso após isso. No entanto o tumulto fechou-lhe a
porta e fê-lo partir.
Em Atos 19:22 vemos que ele tinha enviado Timóteo para a
Macedónia; nesta Epístola admite a hipótese de Timóteo poder ir até
Corinto, e, se for, quer que os Coríntios o recebera do mesmo modo que o
receberiam a ele, Paulo (versos 10 e 11).
Tinha já exortado Apolo para que fosse até junto deles, pois pensava
que ele poderia ser-lhes útil, como tinha sido ao anteriormente. Paulo não
receava que Apolo lhe tirasse o Lugar no coração dos Coríntios (verso 12),
mas Apolo partilhava os sentimentos de Paulo e não estava disposto a
reconhecer ou a dar ideia de alimentar, com a sua presença, o que impedia o
apóstolo de se dirigir a Corinto — tanto mais que havia ali quem quisesse
servir-se do seu nome para fazerem dele o estandarte de um partido dentro
da Igreja, livre nos seus movimentos, Apolo queria agir segundo o que o
Senhor lhe ordenasse, segundo a vontade do Senhor. Após ter falado de
Apolo, o espírito de Paulo dirige-se de novo para os seus filhos na fé, filhos
queridos do seu coração, fossem quais fossem, aliás, as suas faltas.
Os versos 13 e 14 são o derramamento de um coração que esquecia
essas faltas no desejo ardente de uma caridade que não pensava senão na
bênção deles, segundo o Espírito Santo.
Três Coríntios, Estéfanas, Fortunato e Acaico, tinham-lhe Levado
socorros (versos 17-18); mas não parece que fosse da parte da Assembleia,
nem que fosse algum testemunho do amor dos Coríntios que tivesse
sossegado o coração do apóstolo. Paulo teria querido que os Coríntios se
regozijassem do conforto que ele tinha experimentado pelo que lhe tinha
sido levado; não duvidava de que eles o não amassem o suficiente para não
ficarem tranquilizados, quando ele próprio o estava. A caridade deles não
teria pensado antecipadamente em semelhante testemunho, mas o apóstolo
exprime a sua convicção de que eles teriam prazer ao pensarem que o seu
coração tinha sido confortado.
É comovente ver aqui o amor do apóstolo sugerir o que a graça
devia, de si própria, produzir nos corações dos Coríntios; comunica-lhes o
que, provavelmente, eles não teriam apreendido de outro modo acerca da
caridade ativa de três irmãos da Assembleia. E embora eles não tivessem
tomado parte ativa na oferta, Paulo junta-os em amor à sua alegria. A
chama da caridade comunica-se, elevando-se acima da frieza; atinge o
fundo da vida divina no coração do homem, e, uma vez comunicada, a
alma, que antes não estava abrasada, inflama-se também do mesmo amor.
Encontramos neste capítulo quatro canais ou formas do ministério,
por assim dizer. Em primeiro lugar temos o apóstolo diretamente enviado
da parte do Senhor e pelo Espírito Santo; em segundo lugar temos pessoas
associadas ao apóstolo na sua obra e agindo a seu pedido, e, no caso de
Timóteo, um homem designado pela profecia; em terceiro lugar, um obreiro
independente, instituído em parte por outros (ver Atos 18:26), mas atuando
ali, onde o achava conveniente, segundo o Senhor e segundo o dom que lhe
tinha sido distribuído; e quarto lugar, temos uma pessoa que se entrega ao
serviço dos santos, assim como outras que ajudavam o apóstolo e
trabalhavam. Paulo exorta os fiéis a submeterem-se a tais pessoas e a todos
aqueles que cooperavam na obra e trabalhavam.
Paulo quer também que os Coríntios reconheçam aqueles que
confortaram o seu coração pelo seu serviço e dedicação.
Assim, nós encontramos o princípio simples e importante segundo o
qual todos os melhores afetos do coração se desenvolvem, o princípio que
faz reconhecer cada um segundo a manifestação da graça e do poder do
Espírito Santo nele. O Cristão submete-se Aqueles que se entregam ao
serviço dos santos; reconhece aqueles que manifestam a graça de uma
maneira especial. Não são pessoas oficialmente nomeadas e consagradas
que estão em causa aqui; é a consciência e a afeição espiritual dos Cristãos
que os reconhecem segundo o seu trabalho. Princípio válido em todos os
tempos e em todos os lugares, que não permite que se exija esse respeito,
mas que pede que se preste.
Pode notar-se também que, embora esta Epístola entre em todos os
pormenores do comportamento interior de uma Assembleia, de modo
nenhum se põe a questão dos anciãos nem de pessoas ocupando qualquer
cargo e formalmente estabelecidas. É certo que, de um modo geral, os
havia; mas Deus quis prover na Sua Palavra ao que era necessário para o
funcionamento de uma Assembleia em todos os tempos e em todos os
lugares. E, como vemos, desde os primórdios nos obrigam a reconhecer
aqueles que servem na Assembleia por dedicação pessoal, sem serem
oficialmente estabelecidos. Mas nem a infidelidade geral nem a falta de tais
pessoas impedirão aqueles que obedecem à Palavra de Deus de a seguirem
em tudo o que é necessário para a boa ordem cristã.
Vê-Se, além disso, que, fosse qual fosse a desordem em Corinto, o
apostolo reconhecia os membros da Assembleia como sendo todos
verdadeiros Cristãos: Compromete-os a reconhecerem-se mutuamente pelo
ósculo da paz, expressão universal de amor fraternal. Isto é de tal modo
verdadeiro que pronuncia um anátema solene sobre todo aquele que não
amasse o Senhor Jesus (verso 22). Podia haver desses na Assembleia, mas o
apóstolo não quer de modo nenhum reconhecê-los. Se os havia, que fossem
anátemas. Será que havia em Corinto uma reconhecida mistura de Cristãos
e de incrédulos? Paulo não quer acreditar nisso e envolve-os a todos nos
laços da fraternidade e do amor cristãos (verso 24).
Este último ponto é assaz importante: O estado espiritual da
Assembleia de Corinto podia dar lugar a alguma incerteza acerca do
Cristianismo de certos membros da Assembleia ou a respeito de pessoas em
relação com eles, embora não habitando em Corinto. O apóstolo adverte-os;
mas, de fato, no caso de pecados mais graves, aos quais faz referência nesta
Epístola, nos casos em que a disciplina de Deus se exercia onde a do
homem devia ser aplicada, os culpados são considerados como Cristãos
(ver, para:
1º-advertência, o capítulo 10 desta Epístola;
2º-disciplina do Senhor, ver o capítulo 11:32;
3º-a do homem, ver o capítulo 5:5;
4º-o fato de esse pecador ser Cristão ver 2 Coríntios 2:8).
Por outro lado o apóstolo pronuncia o anátema contra aqueles que
não amavam o Senhor Jesus. A disciplina exerce-se contra o “malfeitor”
chamado “irmão”, contra aquele que se diz Cristão, mas que, na realidade,
não ama verdadeiramente o Senhor. E porque é possível que ali haja alguns,
contra eles vai o mais terrível anátema.
Após a fiel correção de todos os abusos, feita com angústia de
coração, é doce ver o espírito do apóstolo entrar, pela graça, nas alegrias do
amor, nas suas relações com os Coríntios (versos 19, 20, 21, 23 e 24).
O terrível verso 22 não é de modo nenhum inconsequente com o
amor que ditava os outros: ele era ditado pelo mesmo espírito, porque
Cristo era a sua única fonte.
Podemos notar, no verso 21, que Paulo se servia de alguém para
escrever as suas epístolas. Outras passagens o revelam de igual modo. Só a
Epístola aos Gálatas faz exceção. Verificava a exatidão das epístolas
enviadas às Igrejas escrevendo, de sua própria mão, a saudação final.
Mostrava assim a importância que se dava à exatidão do seu conteúdo e
confirmava o princípio de uma verdadeira inspiração. O seu coração
derrama-se no verso 24, e consola-se em poder reconhecer todos os
Coríntios em amor.
 
FIM DOS ESTUDOS NA EPÍSTOLA DE
1ª CORÍNTIOS

 
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1ª CORÍNTIOS

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