Você está na página 1de 114

A missão da Igreja nunca pode se contentar com o mero “ide”; antes, precisa pôr

permanentemente sob os holofotes o vigoroso “fazei discípulos”. Esta obra destaca


exatamente este aspecto basilar da missão: o discipulado, da raiz às folhas. Nesse sentido,
promove uma indispensável reflexão sobre o tutano da fé cristã, contribuindo com o
debate sobre o que somos, para que somos, o que fazemos, por que fazemos e, tudo isso,
em Cristo. Yago Martins está de parabéns por devotar seu cérebro privilegiado e suas
energias a um assunto central da fé, contribuindo para a reflexão acerca da doxa e da
práxis consequentes do discípulo de Jesus. Peço a Deus que este livro cumpra seu papel
missiológico na sua vida, ajudando a conduzi-lo ao centro da piedade divina e a esculpi-lo
um pouco mais à semelhança de Cristo.
Maurício Zágari,
editor, teólogo e autor de várias obras,
como Perdão Total e O Fim do Sofrimento.

O discipulado está no cerne da Grande Comissão, e, neste segundo volume, Yago Martins
expõe, de forma instigante, questões que rodeiam o tema, aplicando, contestando e
ilustrando para o nosso contexto brasileiro. Todo que ler esta obra será atiçado a repensar
suas posições com maior clareza e base bíblica
Vinicius Musselman Pimentel,
fundador do ministério Voltemos ao Evangelho.

Na igreja contemporânea – onde a quantidade de pessoas que você tem, onde a


quantidade de dinheiro que entra e onde a intensa publicidade dos cultos parecem reinar –
o simples chamado para fazer discípulos é frequentemente ignorado. Mas esse chamado é
a essência da Grande Comissão. Em seu livro "Faça discípulos ou morra tentando", Yago
Martins desafia os líderes de igrejas a considerarem a fidelidade dos métodos
predominantes que usamos, enquanto nos inspira a cumprir a comissão exaltadora de
Cristo que temos diante de nós. Minha esperança é que este livro possa encorajar muitos
pastores e líderes à fidelidade bíblica, especialmente em contextos de igrejas que possuem
uma grande necessidade de redefinir seus processos de discipulado.
Jay Bauman,
Pastor fundador da Igreja do Redentor (RJ), fundador e
diretor da rede de plantação de igrejas Restore Brasil e
coordenador nacional do Atos 29 Brasil.

Escrito em linguagem acessível, familiar e, às vezes, coloquial, Faça Discípulos ou


Morra Tentando, de Yago Martins, oferece ao leitor um competente estudo bíblico sobre o
importante tema do discipulado cristão. Yago transmite com muita clareza, e
acertadamente, que no cerne do discipulado cristão está o conhecimento de Cristo e que
“Doutrina é importante, e os verdadeiros discípulos acreditam nas Palavras de Jesus”.
Produzido na esteira de seu primeiro volume Você não precisa de um chamado
missionário, este livro representa uma contribuição muito rica para entendermos o
chamado à Grande Comissão do Senhor Jesus Cristo e, especialmente, o discipulado
cristão.
Tiago J. Santos Filho,
pastor, membro da equipe pastoral da Igreja Batista da
Graça em São José dos Campos, SP; editor-chefe da Editora
Fiel e Diretor Pastoral e Professor de Exposição Bíblica no
Seminário Martin Bucer.

Na sua série A Grande Comissão é bem maior do que você imagina, Yago Martins
procura destacar o valor da ordem de Cristo e do trabalho evangelístico. Para tanto,
analisa textos bíblicos e considera contribuições teológicas de autores evangélicos antigos
e atuais. Vale-se de estilos diversos, do aforístico ao narrativo, do expositivo ao doutrinal.
Procura compartilhar suas experiências pessoais, emprestando concretude ilustrativa ao
“ide” do Senhor.
Dr. Glauco Barreira Magalhães Filho,
diretor do Instituto Pietista de Cultura, professor do
departamento de Direito da Universidade Federal do Ceará,
doutor em sociologia e em doutor em Teologia.
Copyright © 2017 por Yago Martins.
As citações bíblicas foram retiradas da Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação contrária.
É proibida a reprodução deste livro sem prévia autorização da editora, salvo em breve citação.
1a edição: 2017

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


M386f Martins, Yago, 1992 -
Faça discípulos ou morra tentando [recurso eletrônico] : o significado,
a extensão e o selo do discipulado / Yago Martins. — Niterói, RJ : Editora
Concílio, 2017.
recurso digital – (A Grande Comissão é bem maior do que você imagina).
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN: 978-85-93125-03-4
1. Discipulado. 2. Missões. 3. Evangelismo. 4. Grande Comissão.
I. Título. II. Série.
CDD 266
EDITOR
André Venâncio
REVISÃO ORTOGRÁFICA
Jemima Schützer Lasso Santos
CAPA
Argemiro Neto
Richardson Gomes
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO
Yuri Freire
Argemiro Neto

Publicado no Brasil por EDITORA CONCÍLIO


Copyright © 2016 Editora Concílio
www.editoraconcilio.com.br
contato@editoraconcilio.com.br
“[...] fazei discípulos de todas as
nações, batizando-os em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo...”
Mateus 28:19
SUMÁRIO

Introdução à série
Prefácio, por Franklin Ferreira
Agradecimentos

PARTE 1: OS SIGNIFICADOS E MÉTODOS DO DISCIPULADO


1. Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar
2. O grande método de Jesus
3. Você não tem discípulos

PARTE 2: A EXTENSÃO E O CAMPO DO DISCIPULADO


4. Naquele monte, fomos salvos
5. Por todas as nações
6. Acepção de pessoas, racismo e superioridade étnica

PARTE 3: O SINAL PÚBLICO DO DISCIPULADO


7. Devemos batizar ainda hoje?
8. Quem deve ser batizado?
9. Quando devemos batizar?
10. A fórmula do batismo
11. Só pastores podem batizar?

Conclusão

APÊNDICE: Discipulando o seu país

Referências bibliográficas
INTRODUÇÃO À SÉRIE

A Grande Comissão é bem maior do que você imagina é uma série de quatro livros
destinados a expor e aplicar o texto final do evangelho de Mateus. A série se baseia nos
sermões em Mateus 28:18-20 que o autor ministrou repetidamente em igrejas e
congressos por todo o Brasil, e que mais tarde foram transformados na disciplina Análise
de Grande Comissão, oferecida pela Academia de Formação em Missões Urbanas
(AFMU), no Ceará. Dessa forma, o que se segue é fruto tanto da sala de aula quanto do
púlpito eclesiástico, e busca alcançar os públicos típicos de ambos. Membros da igreja
local se verão servidos de um material prático e simples, adequado para suas meditações e
atividades evangelísticas, enquanto pastores e estudantes terão material para suas
pregações e cursos. Nossa oração é para que este esforço ajude os leitores a apreciarem
mais profundamente o fato de que temos toda a autoridade por todos os dias para o ensino
de todas as coisas a todas as nações. Amém.
PREFÁCIO
O SEGUIMENTO DE JESUS CRISTO E O DISCIPULADO

Temos, de fato, sido fiéis ao que o discipulado cristão realmente significa? Podemos dizer
que somos obedientes ao comando de Jesus Cristo para sua Igreja, como aprendemos em
Mateus 28.18-20?
E, aproximando-se Jesus, falou-lhes: Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra. Portanto,
ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo;
ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei; e eu estou convosco todos os dias, até
o final dos tempos. (Almeida Século 21)

Este novo livro de Yago Martins, Faça discípulos ou morra tentando, o segundo da
série “A grande comissão”, é uma importante contribuição à compreensão do discipulado,
construído sobre a admirável afirmação de nosso Senhor Jesus Cristo, proferida antes de
sua ascensão ao céu, quando “assentou-se à direita de Deus” (Mc 16.19).
Esta obra, firmemente estabelecida na Escritura Sagrada, interage a partir de uma
cosmovisão evangélica com a história e cultura brasileiras, além das últimas tendências
teológicas sobre o tema presentes em nosso contexto, sejam populares ou acadêmicas,
para ressaltar a importância do discipulado e a seriedade do seguimento de nosso Senhor
Jesus Cristo. São tratados os significados e métodos do discipulado, a extensão e o campo
do discipulado e o sinal público do discipulado. Como o autor argumenta, na Escritura a
palavra “discípulo” contém a ideia de aluno: do hebraico talmiyd, estudante; do grego
mathetes, aprendiz, pupilo, aluno. Portanto, o discipulado cristão é um modo de vida
aprendido de Jesus Cristo, como ele fala a nós na Palavra de Deus. No apêndice, o autor
interage crítica e provocadoramente com a teonomia e a missão integral.
A forma de o autor argumentar acerca da seriedade do discipulado lembra-me da
famosa obra do mártir luterano do século 20, Dietrich Bonhoeffer, que escreveu em 1937
um clássico sobre o tema: Discipulado. Neste livro, preparado durante os anos de
consolidação de poder do regime nacional-socialista na Alemanha, ele escreveu:
O discipulado é comprometimento com Cristo; por Cristo existir, tem que haver discipulado. [...]
Cristianismo sem Jesus Cristo vivo permanece necessariamente um cristianismo sem discipulado; e
cristianismo sem discipulado é sempre cristianismo sem Jesus Cristo; é uma ideia, um mito.1

Por causa da seriedade do comprometimento que Jesus Cristo exige, nosso Senhor, em
todo o tempo de seu ministério, formou discipuladores que dariam continuidade àquilo
que ele ensinou. Assim, como o discipulado ocupou uma área central da vida de Cristo,
somos lembrados da importância de, aqui e agora, seguirmos o Salvador, com dedicação e
seriedade. E isso se dá ao ouvirmos a voz de Cristo falando-nos exclusivamente por meio
das Escrituras Sagradas inspiradas:
Os discípulos, ao reconhecerem a Cristo, recebiam seu mandamento claro; de sua boca recebiam
instruções a respeito do que fazer; não era esse o grande privilégio daqueles primeiros discípulos?
Não estamos nós abandonando justamente neste ponto decisivo da obediência cristã? Não fala o
mesmo Cristo a nós de modo diverso do que àqueles? Se isso fosse verdadeiro, estaríamos hoje em
situação desesperadora. Mas não é assim. Cristo não fala hoje de modo diferente a nós do que falou
naqueles tempos. Não é verdade que os primeiros discípulos reconheceram primeiramente nele o
Cristo, para depois receberem seu mandamento. Antes, não o reconheceram senão por sua Palavra e
por seu mandamento. Creram em sua Palavra e no mandamento e reconheceram nele o Cristo. Não
havia para os discípulos outro reconhecimento de Cristo a não ser através de sua Palavra clara.2

Jesus Cristo, portanto, gastou grande parte de seu ministério orientando aqueles que
ouviram seu chamado. Tudo o que os discípulos necessitavam saber acerca de sua própria
salvação, devoção e procedimento ético foi ensinado pelo Senhor Jesus. E estes ensinos
foram preservados pelos evangelistas e apóstolo – Mateus, Marcos, Lucas e João – para
que pudéssemos seguir seus passos, sendo discipulados segundo seus ensinamentos
preservados no evangelho quádruplo. Portanto:
O ser humano que foi chamado larga tudo quanto tem, não para fazer algo que tenha valor especial,
mas simplesmente por causa daquele chamado, porque, de outro modo, não pode seguir a Jesus. A
esse ato não se atribui o menor valor. Em si, continua sendo uma coisa absolutamente destituída de
importância, sem merecer atenção. Destruíram-se as pontes e simplesmente caminha-se em frente.
Uma vez chamada para fora, a pessoa tem que abandonar a existência anterior, tem que
simplesmente “existir” no sentido rigoroso da palavra. O que é velho fica para trás, totalmente
abandonado.3

Jesus Cristo se dedicou com zelo incansável a transformar homens comuns em


discípulos. E estes foram comandados a levar outras pessoas a, pela graça de Deus,
seguirem os passos de Jesus Cristo.
Assim sendo, precisamos encarar com seriedade o discipulado, que é “graça preciosa”
que procede de Deus, e rejeitar completamente toda noção de “graça barata”, que desonra
a Cristo e seu chamado:
A graça barata é a pregação do perdão sem o arrependimento, é o batismo sem a disciplina
comunitária, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal.
A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo,
encarnado.
A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o ser humano sai e vende com
alegria tudo o quanto tem; a pérola preciosa, para cuja aquisição o comerciante se desfaz de todos
os seus bens; o senhorio régio de Cristo, por amor do qual o ser humano arranca o olho que o faz
tropeçar; o chamado de Jesus Cristo, pelo qual o discípulo larga suas redes e o segue.4

A graça preciosa conclama pecadores ao arrependimento de seus pecados, e a entrega


completa daquele que foi chamado ao senhorio do rei Jesus Cristo. E o fundamento desta
graça preciosa foi o oferecimento completo de Cristo Jesus como sacrifício voluntário em
lugar de pecadores, em sua morte vicária na cruz – quando conquistou, para estes a justiça
e a vida eterna, graça recebida pela fé somente.
Graça preciosa é a graça como santuário de Deus, que tem que ser preservado do mundo, não
lançado aos cães; e por isso é graça como palavra viva, a Palavra de Deus que Ele próprio anuncia
de acordo com seu beneplácito. Chega até nós como gracioso chamado ao discipulado de Jesus;
vem como palavra de perdão ao espírito angustiado e ao coração esmagado. A graça é preciosa por
obrigar o indivíduo a sujeitar-se ao jugo do discipulado de Jesus Cristo. As palavras de Jesus: “O
meu jugo é suave e o meu fardo é leve” são expressões da graça.5

Que este novo livro de Yago Martins sobre tema tão importante e necessário seja
instrumento de Deus para edificação da igreja e glória de seu poderoso nome!

Franklin Ferreira,
presbítero na Igreja da Trindade e diretor geral e professor
de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário
Martin Bucer, em São José dos Campos, SP

1. Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (São Leopoldo: Sinodal, 2004), p. 21-22.


2. Ibidem, p. 140.
3. Ibidem, p. 21.
4. Ibidem, p. 10-11.
5. Ibidem, p. 11.
AGRADECIMENTOS

Desde a publicação do primeiro volume desta série, algumas coisas mudaram em minha
vida. Os agradecimentos daquela obra se mantêm, obviamente, mas estas mudanças
recentes cobram novos nomes nesta lista. Agradeço, antes de tudo, à Igreja Batista
Maanaim, por ser uma família em torno do evangelho onde posso ver os frutos do esforço
missionário na vida dos redimidos. Agradeço ao Dr. Valberth Veras por ser meu pastor e
meu deão acadêmico, sempre me apontando o caminho da erudição e do amor a Cristo,
assim como sua esposa Renata Veras, por ser pra mim um padrão de fidelidade à família e
ao Reino. Agradeço aos professores Marcelo Berti, do Palavra da Vida, e Fernando
Henrique, do SIBIMA, por auxílios exegéticos que são muito mais que meros auxílios. O
Seminário e Instituto Bíblico Maranata, assim como o Instituto Aubrey Clark, são minha
casa intelectual, onde sou estimulado a amar a Cristo com toda a minha mente. Meus
sinceros agradecimentos a estas instituições. Agradeço a Felipe Cruz e a Rafael Cronje,
amigos fiéis que marcam minha vida com paixão pela verdade e esforço sacrificial pela
edificação da igreja. Agradeço aos amigos da Concílio por dar forma física aos meus
arquivos de texto. O nome de André Venâncio precisa estar em tudo que escrevo, e
sempre há algo roubado dele no que publico. Agradeço a ele e a sua esposa, Norma
Braga, pela mentoria espiritual. Meu bom amigo James Alves também foi um grande
auxílio na transcrição do que compõe a conclusão deste livro. Sua generosidade e esforço
me pouparam considerável trabalho. Sou muito grato. Por fim, agradeço a minha querida
Isa, mulher fiel que me discípula todos os dias.
“Que Euron, seu servo, nasça de novo do mar, como você.
Abençoe-o com sal. Abençoe-o com pedra. Abençoe-o com
aço. Ouça as ondas. Ouça o deus. [...] Que o mar leve suas
loucuras e vaidades. Que o velho Euron se afogue. Que seus
pulmões encham-se de água do mar. Que os peixes comam
as escamas de seus olhos. O que está morto não pode
morrer, mas volta a se erguer, mais forte e resistente.”

Bênçãos do batismo de Euron Greyjoy1

1. Para ser aceito como rei das Ilhas de Ferro, Euron precisa sobreviver a ser afogado durante as bençãos do batismo, no
quinto episódio da sexta temporada de Game of Thrones. Escrito por David Benioff e D.B. Weiss, dirigido por Jack
Bender e baseado nas obras de George R. R. Martin, “The Door” foi transmitido pela HBO no dia 22 de maio de 2016.
1
NUNCA VI, NEM COMI,
EU SÓ OUÇO FALAR
EM BUSCA DE UMA
DEFINIÇÃO BÍBLICA

O conceito de discípulo e discipulador não parecia tão claramente estabelecido na


teologia do Antigo Testamento. O conceito mais utilizado era “servo” (ʿābed, ָ‫)דבֶﬠ‬, mas
o fato é que o princípio de ensino é visível, já que os profetas e sábios ensinavam aqueles
que estavam ao seu redor.1 Na Septuaginta (LXX), tradução para o grego do Antigo
Testamento, os termos usados no Novo Testamento para discípulo/discipulado aparecem
constantemente relacionados ao aprendizado da Torá. No livro de Deuteronômio, onde a
Lei é repetida ao povo de Israel, alguns casos são notáveis: “Então Moisés convocou todo
o Israel e lhe disse: Ouçam, ó Israel, os decretos e as ordenanças que hoje lhes estou
anunciando. Aprendam-nos [mathḗsesthe] e tenham o cuidado de cumpri-los.” (5.1),
“Quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, não procurem imitar
[mathḗsēi] as coisas repugnantes que as nações de lá praticam” (18.9) e “Os seus filhos,
que não conhecem esta lei, terão que ouvi-la e aprender [mathḗsontai] a temer o Senhor,
o seu Deus, enquanto vocês viverem na terra da qual tomarão posse quando atravessarem
o Jordão” (31.13). O discipulado no Antigo Testamento estava fundamentalmente
relacionado ao conceito de ser aluno da Lei de Deus, um aprendiz da Torá. Muito mais do
que ser discípulo de alguém, o judeu era discípulo do que Deus revelou através de Moisés
e dos profetas.
Obviamente, existia um sentido onde podia-se ser discípulo de alguém. Diz em
1Crônicas 25.8: “Então tiraram sortes entre jovens e velhos, mestres e discípulos
[manthanóntōn] para designar-lhes suas responsabilidades”. No entanto, a aprendizagem
significava acima de tudo um aprendizado da Lei. O discípulo se apropriava do
conhecimento do seu mestre comparando-o com a Torá.
O verbo usado por Cristo para “fazer discípulos”, na grande comissão, foi mathēteuō.
Seguindo a tradição judaica para qual Mateus escrevia e pressupunha, esta palavrinha
grega é usada para trazer a ideia de tornar-se pupilo, ser instruído e ensinado2. Quase 80
vezes a palavra grega para discípulo (mathētēs) surge no evangelho de Mateus, quase
todas as vezes como descritivo daqueles que seguiam Jesus (a única exceção é 10:24,25,
que é um ensino sobre a relação de grandeza entre discípulo e mestre). Segundo Greg
Gilbert e Kevin DeYoung, “Mateus focaliza o discipulado” mais “do que os outros
evangelhos”, uma vez que temáticas frequentes neste livro são: “O que os discípulos
creem sobre Jesus? Como eles se comportam? O que eles devem estar dispostos a
abandonar?”. Desta forma, “Não é surpreendente que a Grande Comissão relatada por
Mateus enfatize o discipulado”3. A ênfase da grande comissão mateana no discipulado
não é um mero acidente lexical.
Ao olharmos o evangelho de Mateus, percebemos que o discípulo é basicamente
alguém que acredita no que seu mestre ensina porque é seu mestre que o ensina, e vive
como seu mestre ordena porque é seu mestre que ordena. Segundo John MacArthur, o
significado da raiz do termo para “fazer discípulos” refere-se a “acreditar e aprender, mas
não apenas isto” – se o fosse, Jesus teria usado estas palavras, mas não usou. Mathēteuō,
então, carrega consigo uma bela combinação de significados. “No contexto, está
relacionado a aquele que coloca sua confiança em Jesus Cristo e o segue, vivendo em
contínuo aprendizado e obediência”4, continua MacArthur. Segundo Baido-Essien: “Isso
requer um renovo em nossa maneira de pensar e agir”5. “A expressão ‘façam discípulos’,
põe maior ênfase sobre o fato de que tanto a mente quanto o coração e a vontade devem
ser conquistados para Deus”6, diz Hendriksen. Minha definição favorita é a de John
Broadus, que resumiu muito bem o que isto significa:
Discipular uma pessoa para Cristo é trazê-la para a relação de pupilo e mestre, ‘tomar [s]eu jugo’ de
instrução autoritativa (Mt 11.29), aceitando o que ele diz como verdade, porque ele o diz, e
submetendo-se a suas exigências como certas, porque ele as fez.7

Segundo Cristo, o que tem a casa sobre a rocha é aquele que “vem a mim e ouve as
minhas palavras, e as observa” (Lc 6:47). Quando associa o fazer discípulos a “ensinar a
obediência” (Mt 28:19-20), Jesus está falando de teologia e vida. O crente aprende, mas
aprende a obedecer. Mente e coração. Inteligência e prática. O Cristianismo afeta o todo
do homem.

DISCIPULADO COMO CRENÇA


O verdadeiro discípulo é aquele que, primeiro, aceita o que o mestre ensina, tomando seu
“jugo de instrução autoritativa”, ou seja, aceitando o que ele diz como verdade, porque ele
o diz. Nas palavras de Baido-Essien, “um discípulo não é aquele que faz as coisas de
acordo com sua própria vontade, isto é, um discípulo não dita como as coisas deveriam
ser”. Na verdade, “um discípulo segue instruções e comandos, geralmente a partir de um
instrutor ou um mestre”8. Assim, quem não acredita nos ensinos de Jesus, não é discípulo
de verdade. Por mais que isso soe fundamentalista demais aos ouvidos sensíveis, existem
pessoas que não podem ser consideradas discípulas verdadeiras de Jesus, unicamente por
discordarem da doutrina cristã. Muitas pessoas serão condenadas eternamente por causa
de sua teologia. A doutrina certa não salva, mas a doutrina errada condena.
Infelizmente, ainda existem crentes que pensam que salvação não está relacionada com
doutrina. Muitos dizem que, para ser discípulo, basta crer em Cristo – e eles estão certos.
No entanto, “crer” é muito mais que gostar um pouquinho, achar legal ou ler a Bíblia.
Crer envolve confiança absoluta, tanto na pessoa de Jesus, quanto em seus ditos e ensinos.
Se você acredita em Cristo, você acredita no que Cristo diz. Se você não acredita no que
ele diz, você não acredita na pessoa dele. Ser um discípulo de Cristo inclui acreditar nas
Palavras que ele profere e se apegar aos seus ensinos.
Uma pessoa que frequenta uma igreja, que faz um curso de discipulado e que está
ouvindo sermões semanalmente não é um verdadeiro discípulo se discordar das Palavras
de Jesus. Você pode ter um blog famoso, ser um bom diácono ou um pregador
internacional: se você não tem os ensinos do Senhor como verdade, você estará bem
longe dele. Igrejas fiéis possuem declarações de fé, quer escritas quer não, que
representam seu corpo de doutrina e de crenças fundamentais. Uma igreja local que trata
do processo de conversão como uma fé pessoal na pessoa de Cristo juntamente com a
busca da obediência a padrões morais, mas que não adiciona a isto o entendimento e a
aceitação de certas verdades, está fazendo falsos discípulos de Jesus.
Muita gente esquece que a palavra “fé”, no Novo Testamento, não significa apenas
confiança na pessoa de Jesus, mas também nas doutrinas dele. O termo grego traduzido
por “fé” em nossas Bíblias também significa persuasão e convicção moral, crença em um
corpo de verdades religiosas, e não apenas uma confiança vaga. Se você não acredita no
corpo de doutrinas oriundo das Palavras de Cristo, você não tem fé verdadeira. Como
disse Christopher Baido-Essien sobre os primeiros discípulos, eles “não eram parciais
para com o que os apóstolos ensinaram. Eles não levaram alguns dos ensinamentos e
deixaram para lá aqueles que os faziam se sentirem desconfortáveis”. Em vez disso,
aqueles que iam crendo “dedicaram-se ao que os apóstolos ensinaram”9 – do contrário,
não seriam discípulos de Cristo. É por isso que não estamos exagerando quando nos
esforçamos em defender a veracidade do registro bíblico ante os ataques de teólogos
liberais. Não é por birra teológica, mas por compreender que o discipulado cobra uma
paixão dedicada e uma obediência fiel aos registros do ensino de nosso Senhor.
Você pode crer em Jesus, mas se não crer no que ele diz sobre si mesmo, você possui
uma crença vã: “Se vocês não crerem que Eu Sou, de fato morrerão em seus pecados” (Jo
8:24). Segundo Michael Horton: “O primeiro sinal do discipulado era a aceitação dos
ensinos de Jesus a respeito dele mesmo”10. Existe um relacionamento claro entre a
doutrina e a vida eterna. Morrerão em seus pecados aqueles que tiverem uma crença
errada a respeito de Cristo. A salvação depende de uma compreensão correta acerca dos
pontos centrais da fé cristã. Ainda que o discipulado seja mais do que crença nas palavras
de Jesus, ele nunca será menos do que isso.
Os gálatas, para termos mais um exemplo, tinham um evangelho maldito, amaldiçoado,
condenado, não pelo fato de sua mensagem ser outra, ou por pregar outro que não Jesus
Cristo, mas por adicionar algo a mais à justificação. Doutrina é importante, e os
verdadeiros discípulos acreditam nas Palavras de Jesus. É obvio que todos pecamos, em
algum nível, em nossa teologia – uns mais, outros menos. Não deve existir um único
homem sobre a terra, além de Cristo, que tenha um entendimento total e final de toda a
Escritura, sem nenhuma falha ou deslize. Jesus quer discípulos, não necessariamente
experts. Porém, precisamos tentar, dia após dia, nos focarmos cada vez mais nos ensinos
centrais da Palavra. Se você quer ser um discípulo verdadeiro, meu irmão, leia a sua
Bíblia. Estude a Palavra do Senhor. Dobre-se perante os ensinos de seu Mestre. Tome seu
jugo de instrução autoritativa.
Todo crente fiel deveria ficar ressabiado ao, em meio a um ensino bíblico ou debate
teológico, ouvir alguém dizer: “Não quero estudar tal assunto porque ele não vai
influenciar em nada minha salvação”. Bem, eu concordo plenamente que devemos estar
firmes e unidos naquilo que é central e que possuímos certa liberdade nos assuntos
secundários, mas fico triste ao ver como muita gente gosta de se nivelar por baixo – Jesus
deve ouvir tais afirmativas e interpretar da seguinte maneira: “não quero saber deste seu
ensino, ó Mestre, porque não vai afetar minha aposentadoria nos céus”. Além de
mesquinha, esta é uma afirmação antibíblica. Onde a Escritura nos ordena a ficar apenas
nos assuntos essenciais para a salvação? Quando o salmista diz: “Oh! Quanto amo a tua
lei! É a minha meditação em todo o dia” (Sl 119:97), não parece que ele está nos
indicando a ficar só naquilo que é fundamental para a salvação. Na verdade, a ordem
“crescei no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, dada por Pedro,
indica justamente o contrário.
Se pararmos para pensar bem, se ficamos apenas nos assuntos fundamentais, não há
muita utilidade para uma Bíblia tão grande, nem para tanta leitura ou estudos, nem para
cultos semanais ou congressos e conferências. Aliás, se tivermos que nos ater somente aos
assuntos centrais da fé, este próprio livro não faz sentido. Além do mais, assuntos que não
mudam sua salvação foram escritos para nos ensinar, redarguir, corrigir e instruir em
justiça (2Tm 3:16). Deus intentou que você estudasse, debatesse e cresse em coisas não
fundamentais para sua salvação, pois você não foi chamado por Cristo para viver na corda
bamba do relacionamento mínimo, mas na plenitude do discipulado com Jesus. Tais
coisas mudam sua vida e seu entendimento de Deus. O crente maduro é aquele que
entendeu que cada detalhe da fé possui uma implicação prática, por mais secundária que
determinada doutrina possa parecer. Declarar “Eu sigo Cristo, não doutrinas” é o mesmo
que dizer “eu amo minha esposa, mas odeio quando ela abre a boca”. Ou: “eu quero ter
Cristo como um mestre, mas não quero ouvir o seu ensino”.
Assim, falhamos em nossa obra missionária se não vamos às nações a fim de trazer
homens e mulheres a um relacionamento de aprendizado com Cristo. Estamos levando as
pessoas não apenas a decidirem-se por Jesus, mas a segui-lo também intelectualmente,
crendo em tudo aquilo que ele ensina.

DISCIPULADO COMO OBEDIÊNCIA


O famoso ídolo teen Justin Bieber é cristão. Ele frequenta cultos, é amigo de pastores
famosos, vem de uma família evangélica e usa suas redes sociais para falar de Jesus,
indicar livros cristãos e compartilhar experiências com Deus. Quando esteve no Brasil,
porém, Bieber foi a boates eróticas, saiu com várias mulheres, dormiu com prostitutas, foi
expulso do hotel, pichou um muro, alugou uma casa para mais festas, álcool, drogas e
mais mulheres. Sim, ele é “cristão”, mas com todas as aspas que lhe são devidas.
O segundo ponto da definição correta de “discípulo” é que, além de aceitar os ensinos
de seu mestre, o discípulo deve submeter-se às suas exigências como certas porque ele as
fez. É por isso que “aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou”
(1Jo 2:6). O discípulo é aquele que nega a si mesmo, toma a sua cruz e segue os passos do
Mestre (Lc 14:33). Foi Cristo quem disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra,
verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31), “Basta ao discípulo ser como o seu
mestre” (Mt 10:25) e “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15). Como
disse Dallas Willard: “Os discípulos de Jesus são aqueles que resolveram ficar ao lado
dele para aprender a ser como ele”11. A santidade não é opcional: no crente, ela já vem de
fábrica: “Não é pietismo, legalismo ou fundamentalismo levar santidade a sério. É o curso
normal para aqueles que foram chamados a um santo chamamento por um Deus santo”12.
Toda a nossa busca por santidade nesta vida é uma busca por sermos parecidos com Jesus.
Somos santos porque ele é Santo. Ele é o Mestre e nós somos discípulos buscando ser
como ele.
Tiago, o meio-irmão de Jesus, deixa claro que seremos discípulos pela metade se
apenas crermos em nosso Mestre sem obedecê-lo em tudo: “Sede cumpridores da palavra,
e não somente ouvintes”, senão vocês estarão apenas se enganando, achando que estão
agradando a Deus, sem estar (Tg 1:22). Devemos ouvir e praticar, ao invés de ignorar o
que ouvimos (Mt 7:24,25). É preciso calcular o preço de sermos discípulos de Cristo:
certamente, é uma obediência que nos custará caro (Lc 14:25-33).
Paulo afirma que somos servos de quem obedecemos. Antes, éramos servos do pecado,
por vivermos de acordo com a vontade da carne. Agora, porém, somos servos de Cristo,
uma vez que vivemos de acordo com as Leis de nosso novo Mestre. Se o discípulo
acredita no que o seu senhor diz, então, como coloca o apóstolo dos gentios, vamos nos
entregar de todo o nosso coração a obedecer à doutrina em que dizemos acreditar.
Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a
quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? Mas graças a Deus
que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes
entregues (Romanos 6:16-17).

Lucas escreve que “em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados
cristãos” (At 11:26). Isso sugere que os discípulos dessa cidade tinham uma identidade
forte em seu estilo de vida, pela proclamação do evangelho e pela vida que era
reconhecida como a vida de Cristo, de modo tão claro que era evidente até para os não
cristãos. Os discípulos verdadeiros precisam ser reconhecidos como pessoas que se
assemelham com o seu Senhor.
A. W. Tozer escreveu que “uma heresia extraordinária se desenvolveu em todos os
círculos cristãos – a ideia amplamente aceita de que os seres humanos podem escolher
aceitar a Cristo [...] [e] adiar a obediência que devem a ele como Senhor pelo tempo que
desejarem”13. Ele ainda complementa: “a salvação sem obediência é algo desconhecido
nas Escrituras Sagradas”14. E como diz Willard: “Não poderíamos jamais afirmar de
modo convincente que confiamos num mecânico, médico ou professor cujas orientações
não seguimos”15. Por que o mesmo não se aplica às orientações de Cristo?
Cristo é Aquele que possui toda a autoridade sobre os céus e a terra. A pergunta que
deve ser feita, então, é: “se estamos sujeitos a tal rei, vamos tratar os seus mandamentos
como triviais ou vamos viver sob seu comando como se nossas vidas dependessem
disso?”16. Ao confessar que Jesus é o Senhor, nós indicamos a nossa vontade de nos
submetermos ao seu Senhorio e Autoridade. Então, como nos submetemos à sua
autoridade, vamos mostrar lealdade seguindo suas ordens e instruções. Vamos viver de
acordo com as leis daquele que é Rei e Senhor sobre tudo e sobre todos, ou vamos ignorar
os mandamentos daquele que é nosso dono? Seremos alegres por servi-lo ou veremos isso
com pesar? Nossa busca por santidade é uma busca por nos submetermos ao senhorio de
Jesus. Nas palavras de DeYoung, “a busca por santidade é uma busca por Cristo”17. Não
estamos interessados em sermos santos apenas para abafar nossas consciências, mas como
manifestação de amor a Cristo, que é Senhor sobre tudo e sobre todos.
Entender que sermos discípulos de Cristo requer que obedeçamos a suas ordens diz
muito sobre o modo como lidamos com o pecado. Quando pecamos ou vemos alguém
pecar, não é suficiente confrontá-lo com um mero: “você fez algo errado!”. Assim você
está construindo um moralista, e nada mais – muitos pais erram nisto quando disciplinam
seus filhos, por exemplo. É preciso mostrar para o pecador obstinado que ele tem
desonrado seu Mestre, ignorando os mandamentos de seu Senhor, e sido rebelde Àquele
que merece nossa submissão.
Falar de santidade é algo que faz as anteninhas de muitos crentes modernos apitarem.
Eles dizem que não se relacionam com esse tipo de regrinhas religiosas, mas apenas com
Jesus. Ora, ainda que soe extremamente espiritual dizer que Deus não está interessado em
regras, mas em um relacionamento pessoal com seus filhos, isso não passa de balela
juvenil. Nenhum relacionamento se sustenta sem regras. Casamentos em que cada um
dorme com quem quiser só funcionam em seriados ou na mente pervertida de alguns.
Filhos que não obedecem a seus pais nunca terão um relacionamento íntimo com eles.
Funcionários que não cumprem suas obrigações serão odiados por seus patrões. Se Deus
está interessado em um relacionamento íntimo com seus filhos, isso significa que esses
filhos possuem obrigações e deveres que precisam ser cumpridos em nome do bem-estar
desse relacionamento.
Esta busca por santidade, porém, não é simples. Nem tudo são flores no reino da
santidade. Precisamos esmurrar diariamente nossa carne a fim de seguirmos fielmente
nosso Mestre, como verdadeiros discípulos.
Permitam-me uma ilustração. Eu odeio malhar. Aliás, eu odeio tudo que existe em uma
academia. Dos aparelhos às conversas, das músicas ao lanche. Tudo. O único motivo pelo
qual eu continuo pagando para diariamente gastar uma hora em uma tortura autoinfligida
é evitar o infarto que assola minha família, perder a barriga que, ao contrário de mim, só
cresce na vida e poder continuar comendo toucinho sem dor na consciência. Um dos
problemas de malhar sem vontade é que você sempre acaba cortando uma série aqui ou
pulando um exercício ali. Meus amigos me disseram que vai chegar um momento em que
meu corpo vai liberar endorfina e eu vou começar a gostar do treino, mas já perdi a
esperança de que isso vá acontecer. Vou à academia com o mesmo semblante que uma
ovelha muda vai ao matadouro.
Muitas vezes, nossa luta contra o pecado é parecida com a experiência de um nerd na
academia. Parece que não nos encaixamos nesse negócio de vida santa tanto quanto um
glutão não se encaixa na “geração saúde”. Até conseguimos fazer aqueles exercícios com
os quais temos mais afinidade. Fulano gosta de ler, então leitura bíblica é tranquilo.
Sicrano gosta de cantar, então cantarola hinos enquanto varre o chão. Não tem uma fila de
mulheres na porta de Beltrano implorando pelo seu corpo nu, então ele consegue ser
casto. Porém, deixamos de lado, com certa naturalidade, tudo aquilo que nos parece mais
difícil e sacrificial. Ficamos como aqueles bombados de canela fina: “já malhei perna
demais hoje, posso ir pra casa”. Perdoem-me o clichê, mas precisamos lutar para que nos
exercitemos diariamente na academia da fé, a fim de que Deus fortaleça nossos músculos
espirituais. Acima de tudo, precisamos gostar dessa malhação. Para o filho de Deus, os
mandamentos do Senhor são um prazer, ainda que ele precise de uma ajudinha do
treinador no final da série. Como ouvi Alexandre Mendes dizer, “ser um fiel mecânico é
melhor que ser um infiel natural”.
Você nunca vai ser um bom atleta se lê sobre atletismo, mas nunca pratica o esporte.
Você nunca vai tocar bem se lê sobre violinos, mas nunca pega no instrumento. Você
nunca vai dirigir bem só com as aulas de legislação: você precisa das aulas práticas para
conseguir a habilitação. A Escritura diz que os maduros na fé só o são porque “pelo
exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal” (Hb
5:14). Você não amadurece na fé apenas lendo e estudando a Bíblia, mas pondo seus
ensinamentos em prática. É pelo exercício constante que suas faculdades mentais estarão
aptas para agir de acordo com a Palavra de Deus nas escolhas comuns do cotidiano18.
Aqui nesta terra, por outro lado, Satanás poderá usar nossa luta por sermos santos e
perfeitos em Deus como uma arma contra nós mesmos. Permitam-se um exemplo: eu não
luto judô. Nunca lutei. Mas alguém disse em algum lugar que é uma luta em que qualquer
um pode ganhar de qualquer um, independentemente do tamanho e do peso, apenas
usando a técnica correta. Um dos métodos de, mesmo sendo pequeno, vencer um
brutamontes é usar o peso do adversário contra ele mesmo. Como não adianta um
magricela tentar usar sua força contra alguém maior, o segredo é simplesmente
potencializar os momentos em que o inimigo usa sua força para que ele exagere e acabe
cambaleando com o próprio peso. Quando o grandalhão dá um golpe, o menor desvia dele
e continua puxando o adversário para frente, usando a força que foi empregada contra
aquele que a empregou.
O pecado atua nos crentes de forma parecida. À medida que vamos crescendo na fé,
amadurecendo e nos tornando homens e mulheres cada vez mais fortes contra o pecado,
Satanás vai perdendo sua força em nos tentar e nos levar ao caminho da impureza. Porém,
nestes casos, o Inimigo sabe usar as técnicas do judô como ninguém. O Inimigo de nossas
almas tentará nos levar à lona usando a força que empregamos para esmurrar a própria
carne. Ele não tenta mais se opor à nossa santidade: ele tenta potencializá-la ao máximo,
até nos levar a um legalismo tão rígido que míngua nossa alma. Todo o nosso amor pela
santidade será usado contra nossa própria fé, a fim de que nos relacionemos mais com as
leis que com o Legislador.
Quando não, Satã tentará potencializar outras facetas de nossa santidade. Fazer com
que aproveitemos as bênçãos de Deus ao máximo, até o ponto de nos embriagarmos em
nossa própria liberdade, é uma artimanha comum. Precisamos tomar muito cuidado: a
idolatria começa ao transformarmos os presentes de Deus em deuses substitutos, a ponto
de os usarmos de forma que desonre ao Senhor. O modo como usamos a música, a
comida, a bebida e a beleza – presentes do Senhor – tem sido servo de Deus ou escravo de
Satanás? Talvez o inimigo esteja tentando destruir sua fé, transformando sua liberdade em
libertinagem – isso bem debaixo do seu nariz, e você pode não estar conseguindo
perceber.
Associada à ideia de ser um discípulo, está a de nos tornamos, um dia, um mestre.
Daniel San, algum dia, se tornaria um novo Mestre Miyagi. Todo Padawan quer se tornar
um mestre Jedi. Todo estagiário quer se tornar patrão. No judaísmo, o discipulado era
meramente um meio para um fim. Ser um talmid, um estudante da Lei, não era mais do
que um estágio transitório. O objetivo final do discípulo era se tornar ele próprio um
rabino. Ele esperava o coroamento de seus próprios esforços ao tornar-se como seus
mestres. Assim, ele era guiado a ser perito na Torá. Ao contrário desses exemplos, para o
discípulo de Jesus, o discipulado não é como um primeiro emprego, um estágio visando
uma carreira promissora. O discipulado é em si mesmo o seu ponto de partida e seu
objetivo de chegada. Ainda que venha a tornar-se pastor ou mestre, o discípulo de Jesus
nunca se forma, e nunca deixará de sê-lo.19
Infelizmente, por não aplicarmos corretamente as doutrinas da Queda, da Redenção e
da Consumação ao nosso discipulado, tendemos a acreditar que um dia, nesta vida,
poderemos ser plenamente corretos, a ponto de alcançarmos um nível de espiritualidade
em que chegaremos quase a uma iluminação budista, um tipo de nirvana cristão em que
seremos, no uso mais estrito da palavra, impecáveis. Sim, seremos impecáveis, algum dia,
mas somente quando finalmente formos conformados à imagem de nosso Mestre, sendo
revestidos de sua natureza: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas
promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado
da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (2Pe 1:4). Claro que vamos
crescendo e, como todo bom trainee, vamos ficando mais hábeis no que estamos
aprendendo, mas só seremos perfeitos quando estivermos nos céus, diante de Deus.
Agregar a si virtude é como alimentar-se calmamente. Tornamo-nos melhores garfada a
garfada, e não instantaneamente; e a cada mastigar, mais virtuosos somos. Ninguém se
torna moralmente correto quanto a um defeito em especial ou perito em determinado
assunto apenas ao alcançar a total perfeição. Cada moeda depositada nos faz um pouco
mais ricos, mesmo que o cofrinho ainda possua espaços vazios. Embora só venhamos a
tornarmo-nos perfeitos nos céus, alguma virtude pode ser alcançada nesta terra. Somos
discípulos do Santo, e “Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele
andou” (1Jo 2:6). Cristo possui autoridade sobre céus e terra, e com sua morte e
ressurreição, ele venceu todo o pecado. Nele, podemos encontrar força para vencer nossa
carne e os pecados que nos afligem.
Precisamos, assim, em nosso evangelismo e nossa obediência à Grande Comissão,
preocuparmo-nos não só em conseguir novas decisões por Cristo, mas em fazer pessoas
que são santas. Kevin DeYoung diz que
não estamos pedindo às nações que olhem para os mandamentos de Jesus como se fora uma
interessante tela de Rembrandt. Estamos ensinando as nações a seguirem seus mandamentos. A
Grande Comissão diz respeito a santidade. Deus quer que o mundo conheça Jesus, creia em Jesus, e
lhe obedeça. Não estamos levando a Grande Comissão a sério se não estivermos nos ajudando
mutuamente a crescer em obediência. Mesmo assim, quantos de nós costumamos pensar em
santidade quando pensamos em trabalho missionário? Como é fácil nos contentarmos em conduzir
pessoas a tomarem uma decisão por Cristo em lugar de concentrarmos atenção em fazer discípulos
de Cristo.20

Nós falhamos em nosso processo missionário se não estamos indo às nações trazer
pessoas a um processo de santificação constante a Jesus.
O que é discipulado, então? Podemos dizer que não é um curso, ou revista, ou apostila
ou encontro. O discipulado representa a completude da vida do cristão, na qual ele está
diariamente sendo formado como discípulo de Cristo. Como coloca MacArthur, o
discipulado é a própria vida cristã, e não um programa ou um método21. O discipulado
não é reservado à elite espiritual, mas a todo aquele que é cristão – de fato, ser cristão e
ser um discípulo poderiam ser sinônimos. Você se torna um discípulo a partir do momento
em que acredita em Cristo e é verdadeiramente salvo por ele. O discipulado não é uma
classe, um método ou algo do tipo. Discipulado é a vida cristã como um todo. É o ato de
ser formado como um discípulo de Cristo, diariamente. De fato, o discipulado não é
opcional, como se fosse um estágio da vida cristã. O discipulado representa a própria vida
cristã, como coloca Dallas Willard:
O discípulo de Jesus não é um modelo de luxo nem uma versão “off-road” do cristão comum – com
estofados especiais, acessórios diferentes, design mais avançado e maior potência para percorrer o
caminho reto e estreito. Nas páginas do Novo Testamento, o discípulo se encontra na categoria mais
básica de transporte para o reino de Deus.22

Talvez estejamos confundindo os jovens na fé quando chamamos os estudos de


iniciação ao cristianismo de “discipulado”. Se discipulado fosse a confirmação inicial à
fé, estaríamos usando o termo corretamente. Porém, discipulado é o ato de tornar-se e
continuar sendo discípulo de Cristo, de forma que somos discipulados através da pregação
do evangelho dia após dia, não importando nosso tempo de fé ou os métodos utilizados23.
Quem sabe, Deus seja mais glorificado e a Igreja menos confundida se começarmos a
mudar nossas terminologias.
***
Quem compra um livro sobre a Grande Comissão, deve acreditar que fazer discípulos é
algo importante. Pressupõe-se, então, que tal pessoa já se julga um discípulo de Jesus.
Nós geralmente lemos Mateus 28.18-20 pensando no ato de trazer outros ao discipulado,
mas raramente pensamos que devemos, antes disso, ter sido trazidos ao relacionamento
com Cristo. Nas palavras de Willard, “seu primeiro passo ‘ao ir’ [ou ‘antes de ir’] é, por
assim dizer: Converter-se”24. Como você sabe que já está na fé? Como você sabe que
precisa fazer discípulos, e não tornar-se um? Vivemos em um país onde praticamente todo
mundo acha que é salvo, até ateus dizem que, se Deus existe, vai salvá-los por causa de
suas boas intenções e sinceridade. Como você, que tem este livro nas mãos, sabe que
realmente é salvo por Jesus e que o tem como Senhor?

24. WILLARD. A grande omissão, p. 205.


2
O GRANDE
MÉTODO DE JESUS
DISCIPULADO ORGÂNICO

Tendo definido o que é o discipulado, podemos falar um pouco sobre seu método – e
poucos assuntos provam tão contundentemente que nós vivemos mais preocupados com
técnicas do que com princípios bíblicos como o do discipulado cristão. É fácil encontrar
muitos livros e manuais que tentam ensinar todo tipo de método e modelo revolucionário,
mas é quase uma obra heroica conseguir garimpar um livro que enfatize a pessoa de
Cristo, o mestre de todo bom discípulo. Não é por pouco que este é um assunto que tem
dado muito pano pra manga. Um foco desregulado só gera fotos embaçadas. Esquecermos
o centro da conversa transforma o papo em inutilidade. Falar de formar pessoas à imagem
de Jesus sem ter Cristo como o assunto principal só gera cada vez mais confusão e
confiança na carne. Em relação a este tema, diz-se muito sobre metodologia, mas pouco
sobre os princípios que Jesus lança na Escritura. Fala-se tanto, mas diz-se tão pouco.
Jesus, neste texto da Grande Comissão, não se importou muito com nos ensinar
técnicas de discipulado. Sabemos que devemos levar pessoas cativas à Cristo, com a
pregação genuína do evangelho, mas como fazer isso? O próprio Deus calou a este
respeito. Alguns podem ficar desesperados diante disto, achando que estamos ao léu.
Porém, assim como em uma música, o silêncio também faz parte da canção. Aquilo que
não é dito também significa algo.
Sou levado a crer que, se Cristo decidiu calar-se a respeito de possíveis metodologias
para o discipulado, isso significa que o principal modelo de discipulado é aquele que
acontece independentemente de qualquer modelo. Claro que temos liberdade para
pensarmos em modos de propagar a mensagem da salvação para os que precisam crer e
para bolarmos métodos organizados de ensino na comunidade, mas tudo isso será inútil se
um discipulado que ocorre de forma natural, desamarrado de métodos, não for o solo
onde todas as técnicas põem-se de pé.
A família é um bom exemplo disto. Os filhos não são ensinados principalmente em
momentos formais em que o pai passa 40 minutos de pé em frente à família que o ouve.
Geralmente, é enquanto almoçam, quando estão dentro do carro, durante a lavagem dos
pratos ou enquanto pintam a fachada da casa. O discipulado, normalmente, se dá pela
vivência, de modo orgânico. Na Missão GAP, boa parte do meu trabalho consistia em
almoçar com os voluntários e passar tempo com eles. Tenho certeza de que eu edifiquei
estes jovens mais nos momentos de almoço do que nos treinamentos formais do
ministério. Várias vezes, quando viajei para pregar em congressos de jovens, deixei de
almoçar com o corpo de pregadores para comer quentinha com os que foram ouvir as
pregações. Muitos deles aprenderam mais nesses momentos do que em toda a
conferência. “De acordo com nossa experiência, a maior parte da formação de caráter e
discipulado se dá durante conversas informais”1, dizem Chester e Timmis.
Não estou defendendo esta posição baseado em nada. Imagine que você é o público
primário do livro de Mateus. Você é provavelmente um judeu do primeiro século,
aprendendo sobre a pessoa de Jesus. Você lê todo o livro e, em sua conclusão, a Grande
Comissão é proferida. Ao ler que temos o dever de discipular pessoas, o que será ativado
em seu cérebro ao ter contato com esta informação? O judeu do primeiro século que
acabou de ler o livro de Mateus só tem dois exemplos de discipulado a evocar: o Antigo
Testamento e o exemplo do próprio Jesus.
Como Deus ordena que a Palavra seja transmitida nas famílias israelitas? Não é difícil
encontrarmos o padrão veterotestamentário:
E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos e delas
falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as
atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais
de tua casa, e nas tuas portas. (Deuteronômio 6:6-9)

Comentando este texto, Christopher Wright diz que “a lei deveria ser o assunto de
conversas comuns em lares comuns na vida comum, do café da manhã até a hora de
dormir”2. Isso significa que ser centrado na Palavra não é necessariamente ser centrado
no sermão, embora este seja o principal meio litúrgico pelo qual Deus fala a seu povo e a
principal atuação do pastor em uma comunidade. O sermão é a base, mas não é o centro.
O centro é a Palavra, e a Palavra se move na comunidade também de modo orgânico,
através das pregações diárias que os discípulos transmitem a seus iguais nos momentos
simples da vida comum. Não estou, de forma alguma, diminuindo a importância dos
momentos de ensino formal, mas sim relembrando que a Palavra precisa ir além do
púlpito e tomar conta de todos os aspectos da comunhão cristã. Ser centrado na Palavra
não é menos do que ser centrado no sermão. “Sustentamos”, na verdade, “que ser
centrado na palavra é muito mais que ser centrado no sermão”3. Mike McLernon disse:
Um homem não precisa de um papel oficial numa igreja para realizar um ministério genuíno. Visto
que ele ama a igreja e o povo de Deus, que se preocupa com as alegrias e as tristezas do povo de
Deus e os conduz à compaixão de Deus, então, ele tem um impacto real na igreja. Isto acontece se o
homem serve ou não em uma função “oficial” na igreja.4

Enquanto os indivíduos estão sendo muito bem edificados pelo ministério de seus
pastores, ainda pode haver outras áreas em que eles necessitem de correção e educação na
justiça que eles não obterão através do sermão de domingo, porque este, por sua própria
natureza, não tem como lidar com cada detalhe possível da vida prática. Da mesma forma
que ninguém poderá ser um crente maduro sem leitura bíblica e vida devocional, por mais
que haja excelentes sermões em sua comunidade, ninguém poderá crescer
substancialmente na fé se vive em isolamento da própria igreja local, sem receber ensino
constante dos irmãos mais maduros na fé.
Não podemos viver uma vida eclesiástica que chega cinco minutos depois que o culto
começou e vai embora cinco minutos antes do culto acabar. Verdadeiros mestres dos
magos, surgem no meio do louvor e somem assim que o prelúdio acaba. Como
poderemos praticar o amor se não vivemos em comunhão? Há a necessidade de andarmos
com os irmãos a fim de andarmos com Deus.
Além do Antigo Testamento, aprendemos pelos evangelhos que Jesus ensinava
constantemente enquanto caminhava com seus discípulos deslocando-se de uma cidade
para outra. Havia relacionamento, não apenas discurso. Jesus ensinou nos montes, mas
também nas casas. Os melhores sermões do meu ministério foram pregados na calçada da
igreja. Ser um pastor como Jesus é transmitir verdade de Deus enquanto come pizza
depois do culto de oração. Aprendi com pastores de agenda cheia que é importante
convidar jovens ou seminaristas para sua rotina, seja acompanhando em conferências ou
indo junto pagar boletos no banco, como uma forma de transmitir do evangelho na rotina
diária. O “ensino ao longo do caminho” de Deuteronômio 6, como chamam Steve Timmis
e Tim Chester, é muito frequente no ministério de Jesus:
Ele ensinava enquanto encontrava doentes, respondia às perguntas, comia com as pessoas e andava
pelas ruas. Os capítulos 9 e 10 do Evangelho de Marcos são uma explicação do que significa ser
discípulo de Jesus. E todo esse ensino se dá ao longo do caminho. [...] As pessoas devem aprender a
verdade da justificação não apenas durante uma exposição de Romanos 5, mas ao nos verem
descansar na obra completa de Cristo, em vez de, com ansiedade, tentarmos justificar a nós
mesmos. Elas devem entender a natureza da esperança cristã não apenas durante uma conversa
sobre Romanos 8, mas ao nos verem gemendo em resposta ao sofrimento enquanto esperamos pela
glória. Devem entender a soberania de Deus não apenas durante uma série de sermões sobre Isaías,
mas ao nos verem passar por provações com “pura alegria”! Nossa experiência indica que a maior
parte do aprendizado se dá não por meio de ensinos programados ou cursos de treinamento, mas de
conversas casuais: falando sobre a vida, o ministério e nossos problemas.5

O discipulado orgânico que flui da comunhão cristã acaba andando lado a lado com a
formação de discípulos que podem ser usados como exemplo aos outros crentes. Como
alguém pode aprender o que significa ser discípulo se não puder ver alguém praticando o
discipulado? Como as pessoas podem aprender sobre a necessidade da graça de Deus sem
que testemunhem outro indivíduo, tão imperfeito quanto eles, sendo usado pelo poder da
graça? Certamente, muitas informações podem ser transmitidas, técnicas podem ser
aprendidas e habilidades adquiridas, mas sem relacionamento, o verdadeiro discipulado
não compreenderá todas as dimensões da vida cristã6.
Por exemplo, quando estávamos nos preparando para o casamento, eu e minha esposa
fizemos seções formais de aconselhamento com um de nossos pastores, a fim de
aprendermos sobre a vida de casado. Foram momentos únicos e importantíssimos para
minha vida. No entanto, tais momentos só foram úteis porque, fora dos encontros formais,
eu podia conversar com amigos casados e irmãos já mais velhos que tinham muito o que
me ensinar a respeito da vida a dois. As conversas informais me deram base e conteúdo
para ter mais dúvidas e questões mais profundas para tratar nas seções de
aconselhamento. A existência de momentos de discipulado formal e ausência de interação
orgânica entre os membros da igreja é como um casal que combina namorar toda
segunda, quarta e sexta, mas que nunca tem um momento espontâneo de romance.
Quando ignoramos que o discipulado precisa ocorrer organicamente antes de
programadamente, seremos como agricultores que tentam fazer plantas crescerem
esticando-as com as mãos. Infelizmente, ter momentos marcados para que as pessoas
desabafem e chorem é tão comum nas igrejas brasileiras quanto fruta velha em fim de
feira.
Lembro-me de uma pequena história pessoal que ilustra este ponto. Nos primeiros anos
de minha fé, eu tendia a uma religião legalista, cheia de regras extrabíblicas. Eu era do
tipo sério, com vocabulário culto e certinho. Quando comecei a servir no GAP, eu era do
tipo que só ia pregar de roupa social, mesmo tendo uma sala de aula como campo. Eu
raramente brincava em público. Neste período, comecei a mentorear uma moça, que veio
a se tornar uma grande amiga. Certa feita, esta moça me telefonou e, querendo saber se
não estava incomodando, perguntou: “você está ocupado?”. “Estou só jogando um
pouco”, respondi. Ela disse, meio brincando, meio sério, com uma voz de espanto: “O
quê? Yago Martins... jogando?”. “Ué!?”, respondi, “e você pensa que eu passo o dia
inteiro pregando sobre o muro de casa?”. Rimos e passamos ao assunto da ligação.
Algum tempo depois, esta moça me confessou, inusitadamente, sobre como aquele
telefonema foi importante para a vida dela. Não pelo assunto que tratamos, mas porque
ela percebeu uma faceta minha que antes ela não havia percebido: a humana. Antes, ela
via apenas meu lado “religioso”, ministerial. Observando apenas esta manifestação do
meu caráter, a única que podemos encontrar nos crentes após os cultos, geralmente, ela
achava que este aspecto representava meu eu por completo, e tentava ser assim em sua
completude. Assim, quando ela percebia que precisava, por exemplo, divertir-se, ela
cobrava de si padrões sobre-humanos de seriedade. O convívio normal comigo, como ser
humano, fez com que ela percebesse como viver a vida diante de Deus em todos os seus
aspectos, não apenas o do culto dominical.
Deve ser por isso que Paulo manifesta interesse em enviar Timóteo aos coríntios para
que eles pudessem ter um padrão de vida completa para imitar, complementando as cartas
que eram escritas: “Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. Por esta causa
vos mandei Timóteo, que é meu filho amado, e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os
meus caminhos em Cristo, como por toda a parte ensino em cada igreja” (1Co 4:16-17).
Eles tinham a carta com o ensino, mas não tinham um homem para imitar. Os crentes
precisam de pessoas que vivam completamente diante de Deus e que sejam um padrão de
imitação para os outros. Não basta ter teologia se não temos uma vida que põe em prática
o saber de Deus.
Nós, como cristãos, não temos exemplos claros e regras preestabelecidas para todas as
áreas da vida de forma extensiva. A Bíblia não é um manual com regras para todo detalhe
da vida ou mesmo uma biografia extensiva de alguém que podemos imitar – nesse
sentido, nem Jesus pode ser um exemplo perfeito, já que ele viveu de modo atípico, sendo
Deus-Homem7. Este ponto, diga-se de passagem, é uma das características do
cristianismo a que os autores muçulmanos costumam objetar sobre a fé em Jesus,
alegando que ele parece ter um ministério profético incompleto. Ulfat Aziz Assamad, por
exemplo, diz o seguinte:
Jesus nunca se casou, e por isso não pôde se tornar um marido e um pai ideal. Ele não venceu seus
inimigos, e por isso não teve oportunidade para mostrar como um vencedor deveria se comportar
para com seus inimigos vencidos que não haviam poupado esforços para aniquilar a ele e aos seus
seguidores. Ele não teve seus perseguidores à sua mercê, e por isso não teve ocasião para mostrar a
verdadeira moderação e misericórdia. Jesus não ascendeu ao poder para poder se tornar um modelo
de governante e juiz benevolente e justo. [...] O islam, e não o cristianismo, proporciona uma
orientação completa em todos os aspectos e situações da vida, individual como também social,
nacional assim como internacional.8

De acordo com André Venâncio, é bem natural que o muçulmano possua esta
cosmovisão, uma vez que a vida de Maomé oferece extensivos exemplos de como viver a
vida comum, em seus vários detalhes – o que, devido à ênfase islâmica no que Venâncio
chama de “exterioridade e concretude”, é visto pelo muçulmano como uma das provas da
superioridade de Maomé sobre Cristo9. No entanto, o que o islâmico não consegue
perceber é que a revelação da Escritura tem mandamentos, regras, princípios e verdades
que podem ser aplicadas a absolutamente todas as áreas da vida, do sexo à alimentação,
dos relacionamentos ao pentear o cabelo. O Cristianismo não possui um extensivo Vade
Mecum religioso, no qual só precisaríamos encontrar o artigo certo, observar os incisos,
parágrafos e alíneas onde nosso problema é tratado e, então, praticar as regras
estabelecidas. Porém, a Palavra de Deus é tão dinâmica e extensiva que toca em todas as
questões existenciais e situacionais da vida humana. Nossa Bíblia não possui um molde
preestabelecido, onde precisamos, como crianças do primário, acertar o pino quadrado no
buraco certo do brinquedo. A Escritura é como uma represa que, derramando suas
torrentes, passa pelos locais mais apertados e obscuros, inundando cada centímetro do
campo.
Claro que tal percepção da Escritura não é tão simples de ser observada. Então, diante
da dificuldade que se estabelece sobre como podemos viver nossa vida diária de acordo
com os princípios bíblicos, precisamos de toda a ajuda possível para aplicar toda a
revelação de Deus a todas as áreas da vida – sobre o que falaremos com mais detalhes em
capítulos posteriores. Precisamos de uma igreja onde os crentes possam viver em
comunidade, de forma a ver como cada um está aplicando a Palavra em suas próprias
vidas, para amadurecermos nosso pensamento e termos um mindset cada vez mais
apurado pela Revelação de Deus encarnada na vida cotidiana. Assim como o Logos virou
homem, a teologia precisa virar santidade – em todas as áreas da existência.
Para termos uma igreja onde tudo isso possa ser realidade é necessário, porém, que a
comunidade seja firme e que ame a Palavra. Esse tipo de comportamento não pode ser
introduzido na vida do povo de Deus através de meros programas e apostilas, mas através
de mudanças profundas na raiz do cristianismo da comunidade. Para que os crentes
preguem uns aos outros nos momentos mais comuns da vida, eles precisam ter o coração
cheio da Palavra de Deus, amá-la profundamente e desejar ardentemente compartilhá-la.
Não se obtém este tipo de coisa criando um departamento, mas alimentando o povo de
Deus com a Palavra de Deus, com profundidade e paixão. Verdadeiros discípulos de Jesus
ajudam uns aos outros a serem melhores discípulos de Jesus. Sendo alimentado
constantemente por bom ensino, o povo de Deus deveria ser instruído a passar mais
tempos junto, para que seus membros relacionem-se uns com os outros a fim de
crescerem juntos na fé e no discipulado. Se a Grande Comissão é uma ordem para a Igreja
como um todo, o discipulado não é um projeto de apenas alguns indivíduos previamente
escolhidos, mas para toda a comunidade. Que tal você se isolar menos, ou não passar
mais tanto tempo com entretenimentos solitários, e ir viver uma vida comum com seus
irmãos na fé, a fim de levar a eles o evangelho e receber deles o mesmo evangelho que
edifica o crente e salva o perdido?
Infelizmente, muitas igrejas cobram apenas de seus pregadores o papel de ensinar os
convertidos. Certa feita, um amado, piedoso e preparadíssimo professor disse-me, após
questionar alguém sobre ministério pastoral, que um bom pastor é definido pelas visitas
que faz, e que eu não poderia, no futuro, ficar só pregando à custa de deixar os membros
sem visitas domésticas. Porém, a linguagem bíblica quanto ao ensino público como
responsabilidade do pastor é pungente (2Tm 4.1,2). A pregação púbica é um modo de
propagar-se a mensagem do evangelho e guiar os novos convertidos pelo caminho do
discipulado, sendo o principal meio que o pastor possui para ensinar a mensagem de Deus
ao povo. A missão de discipular é nossa, da igreja como um todo: “ensinando-vos e
admoestando-vos uns aos outros” (Cl 3:16), diz a Escritura.
É por essas coisas que o discipulado à distância, por mais que seja possível, é
deficiente. Se pensarmos bem, as cartas do Novo Testamento foram uma maneira de
discipular os crentes à distância, mas este não era o único contato que eles tinham com
outros cristãos – praticamente todas as cartas são escritas para igrejas locais de crentes
que, além de viverem em comunidade, possuíam presbíteros locais.
É triste perceber que existem muitas comunidades que simplesmente transformam as
técnicas e os métodos de discipulado formal em algum tipo de ídolo. Nunca vi ninguém
ajoelhado ante a uma estátua do discipulado, mas muitos fazem dele um santo milagreiro.
“Como é o discipulado na sua igreja?”, questiona alguém, resoluto. “Ah, os irmãos estão
sempre juntos, cuidando uns dos outros e ensinando a respeito da fé”. Uma resposta como
esta geraria não só desconforto, mas seria um escândalo em muitas comunidades: “Nossa,
mas vocês não usam revistinha?”.
Esse tipo de perspectiva é facilmente identificado no discurso de muitos pastores, que
tentam solucionar todo e qualquer problema da comunidade com mais reuniões de
discipulado, com melhores apostilas, com técnicas superiores. Claro que essas coisas são
todas úteis, mas o que muitos precisam entender é que a Igreja do Senhor não é guiada
pelo discipulado em si, mas por Aquele de quem somos feitos discípulos. Somos guiados
pelo Evangelho, e é o Evangelho que vai solucionar os problemas da igreja. Claro que
podemos lutar por melhores modelos de ensino formal, mas isto só será útil se fluir de
uma comunidade que já compreende, ama e vive à luz do Evangelho. As pessoas
precisam de mais que um curso de algumas semanas. Como diz Jonathan Dodson,
ao contrário do que alguns possam pensar, o discipulado não é o motor da igreja. O evangelho é.
Sem o evangelho, discipulado e igreja falham. Sem a força motriz do evangelho, o discipulado se
transforma em autoajuda religiosa motivada pelo pietismo conservador. A igreja está reduzida a
uma ONG glorificada na qual as pessoas perdem o interesse. Mas o evangelho reativa tanto a igreja
quanto o discipulado! […] O evangelho, e não o discipulado, é central para a igreja. Se fizermos do
discipulado o motor da igreja, logo o nosso tanque vai secar. Porém, quando o evangelho é central,
a igreja recebe tração e os discípulos obtêm profundidade.10

Agora, que fique claro. Não estou defendendo uma ausência de métodos de
discipulado. Podemos usar visitas de casa em casa, estudos bíblicos, aconselhamento,
catecismos, compartilhamento de recursos, mentoreamento, escola bíblica ou o que
estiver à mão para que possamos formar Cristo de modo mais profundo na vida das
pessoas. Meu argumento é que tais técnicas precisam fluir de uma manifestação orgânica
e centrada no Evangelho do povo de Deus. Se não, teremos a forma, a aparência, mas não
a essência, a raiz. O discipulado formal deve complementar o discipulado natural, mas
não substituí-lo. De fato, ele é insubstituível.
Meu desejo é que a mensagem governe os métodos. Neste sentido, a mensagem do
Evangelho deve ter primazia, pois muitas igrejas acham-se enfermas justamente por terem
negligenciado esta mensagem. Quando o método se torna mais importante do que a
mensagem ou quando a mensagem está corrompida pelo método, o resultado positivo
pode ser mais nocivo à igreja do que o fracasso total. Valdeci Santos escreve:
Em resumo, quando alguém compreende os fundamentos teológicos [...], bem como os princípios
bíblicos a serem aplicados neste sentido, cada estratégia aplicada deverá estar em plena harmonia
com eles. De outra forma, as estratégias não serão teologicamente orientadas, e sim escolhidas com
base na motivação pragmática, preferência pessoal ou mesmo na mentalidade imitadora de alguns
líderes que tentam reproduzir em suas congregações a identidade de igrejas ao redor. O problema é
que o resultado não será [...] real, mas apenas refrigérios temporários que poderão resultar em
frustrações e maiores enfermidades. Somente as estratégias teologicamente orientadas poderão
resultar em uma igreja saudável, pois elas refletem as diretrizes divinas para sua igreja neste
mundo.11

1 .CHESTER; TIMMIS. Igreja Total, p. 113.


2. WRIGHT, Christopher. Deuteronomy. Hendrickson, 1996, p. 99.
3. CHESTER; TIMMIS. Igreja Total, p. 112.
4. Apud HARVEY, Dave. Eu sou chamado? A vocação para o ministério pastoral. São José dos Campos, SP: Editora Fiel,
2013, p. 210.
5. Ibidem, p. 115.
6. Ibidem, p. 118.
7. Veja o excelente texto do Dr. Augustus: Jesus Não era Cristão. Disponível em: <http://tempora-
mores.blogspot.com.br/2010/06/jesus-nao-era-cristao.html> Acesso em: 9 nov. 2013.
8. ASSAMAD, Ulfat Aziz. O Islam e o Cristianismo. São Bernardo do Campo: Centro de Divulgação do Islam para a
América Latina, 1991, p. 29, 80.
9. VENÂNCIO. Prolegômenos a toda encrenca futura - parte 2. Op. cit.
10. DODSON, Jonathan. There’s a discipleship crisis in the church today. Disponível em:
<http://theresurgence.com/2011/11/04/theres-a-discipleship-crisis-in-the-church-today>. Acesso em: 10 set. 2013.
11. SANTOS. Revitalização de Igrejas, op cit.
3
VOCÊ NÃO TEM
DISCÍPULOS
OS PERIGOS DO
DISCIPULADO
ANTROPOCÊNTRICO

Você não acreditaria se eu contasse. Dizer isso faz com que o ato de contar essa história
soe ridículo, mas vou contar assim mesmo. Ele era um dos garotos mais velhos do grupo,
de família evangélica e cheio de problemas pessoais. Por diversos motivos, ele odiava
Deus. Ele tinha uma ira contra o Senhor que exalava de seus poros. Constantemente usava
palavrões pesados para se referir ao divino que, segundo ele, abandonara-o. Mesmo
assim, continuava acreditando na existência de Deus. Ele estava convencido de que ia
para o inferno do mesmo modo que um puritano tinha certeza da salvação. Ele preferia
queimar eternamente a servir a um Deus como esse, dizia.
Porém, ele gostava dos amigos que tinha e, por gostar deles, não queria que fossem
para o inferno. Por isso, pregava para a galera da rua, da qual eu fazia parte. Certo dia, ele
convidou um de nós para ir ao culto. Eu me ofereci para ir também e, no domingo
seguinte, estava de mãos erguidas, “aceitando a Cristo”. Por mais icônico que seja, eu fui
salvo através da pregação de um desviado.
Adivinha, então, quem foi nos ensinar os fundamentos da fé, exercer um forte
ministério de discipulado em nossa vida? Isso mesmo, o desviado. Ele, mesmo odiando a
Deus, foi ensinar a mim e aos outros amigos que foram crendo sobre Bíblia, oração, fé,
dons, jejuns, céu, inferno, santidade e vários outros temas que ele julgava importantes.
Você não precisa ser profeta, nem possuir uma pedra ametista para imaginar que algo
daria errado. Com o tempo, nosso pregador, além de ensinar muitas bobagens, começou a
dizer que éramos discípulos dele. Uma vez que ele nos trouxe a Cristo e ele é quem nos
ensinava, então deveríamos obediência ao que ele dissesse, sem questionar. Quando o que
ele nos dizia e os ensinos da igreja entravam em conflito, deveríamos ouvi-lo, já que era
ele quem Deus instituiu como autoridade espiritual sobre nossas vidas. Assim, eu mesmo
passei parte da minha vida de convertido acreditando que precisava ter um homem que
odiava a Cristo como meu mestre espiritual.
Minha igreja local também não ajudava muito. Tendo abraçado algo conhecido como
Modelo de Discipulado Apostólico (MDA), que de apostólico só tem o nome, eles me
diziam, com base em Mateus 28:19, que eu precisava de um discipulador: alguém que ia
cuidar de mim, orar por mim, controlar minha vida e escravizar a minha alma. As
palavras eram mais disfarçadas, mas o sentido era esse mesmo. Então, eu precisei me
tornar discípulo de outro jovem da igreja, previamente escolhido para mim pelo pastor,
que em um sistema hierárquico era discipulado por outro, que era discipulado pelo pastor,
que era discipulado por algum pastor famoso que propagandeava o fato de ter discipulado
gente famosa.
O texto da Grande Comissão, obviamente, não era o único texto-prova para este tipo de
visão. Baseados na verdade bíblica de que existem mestres na igreja (Atos 13.1; Efésios
4.11; Hebreus 5.12; Tiago 3.1) e que devemos nos submeter aos nossos líderes (Hebreus
13.17), uma salada estranha era montada em cima disso. A informação de que João
Batista teve discípulos (João 1.35), então, era a cereja do bolo. A partir disto, foi montado
um modelo de discipulado onde novos crentes deveriam seguir cegamente a liderança
espiritual que, supostamente, Deus instituiu sobre eles, de modo que tais líderes são quase
mediadores sacerdotais entre eles e Deus. Era uma hierarquização piramidal de autoridade
humana, um marketing multinível da fé.1

VOCÊ NÃO TEM DISCÍPULOS


O texto da Grande Comissão, como lemos em Mateus 28, estabelece que Cristo é quem
possui toda a autoridade nos céus e na terra. Ele, Senhor sobre todos, envia sua igreja para
trazer novos pupilos aos pés daquele que tem autoridade. Uma visão de discipulado
centrada na figura do discipulador reparte a autoridade última de Cristo e a divide com
intermediários humanos. Ainda que existam mestres terrenos que nos ensinam o caminho
de Deus, eles são apenas professores, guias e servos que devem nos mostrar, através da
Escritura, o caminho da fé e do arrependimento. Cristo mesmo disse: “Vós, porém, não
sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos” (Mateus
23.8). Quem pensa em si mesmo como alguém que tem discípulos, está competindo com
Cristo. Nós apenas nos edificamos uns aos outros enquanto discípulos dele.
Logo no início do cristianismo, os apóstolos instruíram que presbíteros, bispos e
pastores fossem escolhidos pela igreja a fim de pastoreá-la (Atos 14.23; 20.17,28; 1Pedro
5.1-3; Efésios 4.11; Tito 1.5; 1Timóteo 3.5; 5.17; Hebreus 13.17). Deus instituiu
lideranças em sua igreja, e não devemos achar que uma comunidade local é um samba do
crioulo doido sem ordem institucional. Mesmo assim, a linguagem do discipulado não
cabe a homem algum. Não somos discípulos de nossos pastores. Eles podem ser nossos
discipuladores, mas não são nossos mestres, em sentido último. Somos seus
discipulandos, mas não seus discípulos. Aprendemos dos pastores, certamente prestamos
submissão às suas autoridades, mas tudo dentro dos limites bíblicos para a atuação
pastoral, que não deve ser absoluta, arbitrária ou despótica. Eles não ditam regras. Eles
apenas nos mostram como seguir as regras do supremo pastor, nosso último mestre e de
quem somos discípulos (1Pedro 5.1-4). Os crentes devem até mesmo encontrar em outros
cristãos leigos padrões de boas obras para serem imitados, mas é uma imitação que aponta
para outro. É a tentativa de ser a cópia da cópia a fim de chegar mais perto do original.
Um verdadeiro crente pode dizer: “Você quer ser discípulo de Jesus? Seja meu imitador”.
Ele não pode, porém, é dizer: “Quer ser imitador de Jesus? Seja meu discípulo”.
Com um discipulado antropocêntrico, há a morte da congregacionalidade. Sabemos que
a Grande Comissão de Mateus 28 não é uma ordem para um único indivíduo, mas para a
igreja como um todo. Desta forma, o novo convertido não deve ser lançado na mão de
uma única pessoa que será seu intermediário para Jesus. No meus tempos de discipulado
antropocêntrico, ninguém sequer poderia me repreender por um pecado, aos moldes de
Mateus 18, mas apenas meu discipulador. Ao invés de ser discipulado, então, você é
adestrado como um cavalo selvagem. Você receberá um arreio e uma cela que te formará
não à imagem de Cristo, mas à imagem de algum homem que não sabe separar aquilo que
são preferências e vícios culturais daquilo que é requerimento da Palavra de Deus. Não é
só um perigo, mas é um fracasso certo. Com um discipulado que envolve toda a igreja
local, você está protegido de se tornar simplesmente uma cópia de qualquer pessoa ou
grupo da comunidade. As variedades de visões, práticas e vidas ajudarão o convertido a
saber como aplicar o cristianismo a cada esfera da vida, até mesmo às quais ele ainda não
precisa lidar.
Cristo mesmo estabeleceu sobre quem está a autoridade de ter discípulos: “Toda a
autoridade me foi dada no céu e na terra, [...] portanto, fazei discípulos” (Mateus 28.18-
19). Fazemos discípulos àquele que tem toda a autoridade e poder para convocar
discípulos para si. Quem você pensa que é para tentar ser mestre dos discípulos de Deus?
Na Escritura, é evidente que nos tornamos discípulos e aprendizes de Jesus, e não de
homens. “Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e
irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”, e ainda:
“E qualquer que não levar a sua cruz e não vier após mim não pode ser meu discípulo”
(Lucas 14.2). Ainda que João tivesse discípulos, dentro do contexto da Antiga Aliança,
quando Jesus foi revelado, ele exortou seus seguidores a irem após Cristo: “Este é aquele
que vem após mim, que foi antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar as correias
das sandálias. [...] É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 1.27; 3.30). Na
época de Cristo, o discipulado era comum entre os rabinos. Hoje, Jesus é nosso grande
rabino, tomando a iniciativa de nos convocar para si. Até nos profetas, vemos com
perfeita clareza o ensino de quem devemos ser discípulos: “E todos os teus filhos serão
discípulos do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54.13).

POR UM DISCIPULADO CRISTOCÊNTRICO


O processo de discipulado não pode ser centrado no indivíduo que discípula. Se Cristo é o
dono da autoridade do discipulado, é Cristo e seu evangelho que se tornam o foco e o
instrumento da formação cristã dos novos convertidos.
Nossos métodos de discipulado têm cada vez mais se afastado do espírito da Grande
Comissão. Ao invés de apontar os discípulo ao Cristo como pessoa, num relacionamento
íntimo com a figura do Salvador, criamos metodologias que apontam o homem para
denominações específicas, grupos doutrinários ou estilos de personalidade julgadas
apropriadas a determinado tipo de culto. Nossos métodos precisam ser abalizados pela
centralidade do evangelho.
Então, como isso funciona? É fácil falarmos de ter mais de Cristo no nosso discipulado,
mas nem sempre conseguirmos descrever como isso acontece na prática. A resposta se
encontra sempre no alvo do trabalho discipular, que é a formação de Cristo através da
obra do evangelho. Com o objetivo bem estabelecido, basta trazer todos os métodos e
práticas para o caminho da sujeição à autoridade de Jesus.
Em Discipulado centrado no evangelho2, talvez a melhor obra que temos em português
sobre o assunto, Jonathan K. Dodson deixa claro que o evangelho não é apenas para os
estágios iniciais da fé, mas para todo o processo de discipulado. É em Cristo que o
homem encontra todas as respostas para sua vida cristã. Ao invés de métodos de coaching
religioso, o discipulador precisa trazer o discipulando às cobranças e bençãos daquilo que
aconteceu na cruz. A cruz dá todas as respostas para a vida cristocêntrica. Muitas vezes
baseamos nossa formação religiosa em moralidade barata. “Não faça isso”, “faça aquilo”,
“não pense isso”, “pense aquilo”. Porém, pouco mostramos aquilo que é o poder de Deus
para a transformação do coração que precisa ser iluminado pelo evangelho de Cristo. Não
que faltem aspecto morais no discipulado bíblico, mas devemos sempre ir além disto,
mostrando que é na obra de Jesus na cruz, em nosso resgate, dando perdão e misericórdia,
que somos realmente salvos. Um discipulado cristocêntrico é mais que moralidade, mas
nunca menos.
Quando alguém confessa um pecado sério ou alguma falha moral menos horripilante,
qual nosso primeiro caminho argumentativo? Geralmente envolve convencer o
discipulando de que a Bíblia condena aquela prática, ou mesmo fornecer instrumentos
devocionais para melhorar a espiritualidade, ou quem sabe dar advertências sobre como
aquilo vai prejudicá-lo. Tudo isso pode estar presente em um discipulado bíblico, mas
sozinhos, são elementos que carecem de força. Antes de tudo, aquilo que Jesus fez na
cruz para limpar nosso pecado, apagar nossa culpa e nos dar força através da graça deve
chamar nossa atenção no processo discipular e deve ser elencado na argumentação contra
o pecado.
Isto é tão certo que a configuração do discipulado em Mateus 28.18-20 está relacionado
tanto ao evangelismo quanto ao aprofundamento na fé. Os verbos que se colocam
posteriores à ordem de discipular explicam e desenvolvem o que o discipulado é.
Discipular se dá, então, através do batismo e do ensino. Se o discipulando será batizado,
significa que ele foi formado discípulo num processo de “não era/passo a ser”. Você faz
discípulos trazendo novas pessoas ao discipulado. No ensino de todas as coisas, o
discipulando parece ser um crente que está aprendendo sobre sua vida em Cristo Jesus,
em um processo de “já sou/torno-me mais”. Você faz discípulos aprofundando no
discipulado quem já é discípulo.
Assim, o discipulado não apenas envolve tanto o evangelismo do descrente quanto o
ensino do crente, mas une as duas coisas num único guarda-chuva de prática cristã.
Devemos evangelizar cristãos tanto quanto discipular descrentes. O evangelho que salva o
perdido edifica o salvo, da mesma forma que o ensino bíblico que amadurece o cristão
converte o descrente.

1. Em janeiro de 2015, eu e Felipe Cruz gravamos um vídeo chamado "G12, M12, MDA, Encontro com Deus e outras
heresias", que teve mais de 200 mil visualizações, onde descrevíamos nosso relacionamento com os modelos de
discipulado abusivos destes movimentos. Como meu objetivo não é fazer um histórico detalhado do movimento e de
suas práticas, você pode procurar este vídeo no YouTube caso tenha mais interesse no assunto.
2. Niterói, RJ: Tempo de Colheita, 2015.
4
NAQUELE MONTE, FOMOS
SALVOS
DO JUDEU AO GENTIO

Em 2010, eu passei em um concurso para um emprego temporário no IBGE como


recenseador. Usando boné azul, coletinho ridículo e um computador de mão que atraía
muitos olhares na favela que me designaram no primeiro dia de trabalho, fui de porta em
porta conhecer um pouco da vida dos mais variados tipos de pessoas. Se nos
encontrarmos em algum evento por aí, cobre-me as histórias engraçadas das duas semanas
que aguentei no emprego.
Das várias perguntas que eu precisava fazer aos moradores, a que mais gerava respostas
estranhas era a sobre cor ou raça. Era simples: eu só precisava anotar a autodeclaração de
cor do indivíduo e passar para a próxima questão. O problema é que nosso treinamento
foi muito claro no quesito autodeclaração. Nós não podíamos dar nenhuma dica, mesmo
se perguntados. O resultado era hilário. Era negro se declarando branco, branco se
declarando negro, ruivo se declarando loiro... Segurar o riso, às vezes, dava trabalho.
Quando criado, porém, o nosso planeta não era dividido em raças, povos, nações ou
cores de pele, da maneira como nós conhecemos hoje. O Senhor formou Adão e Eva no
mesmo local e falando a mesma língua. Ele não formou pessoas separadas em vários
locais, mas unas linguística e geograficamente. Falar de etnias seria um anacronismo.
Deus ordenou, então, que homem e mulher povoassem a terra. Isso incluiria a
reprodução e a dispersão dos seres humanos pelo mundo – dispersão esta que acabaria
sendo responsável pela variação étnica e linguística da humanidade. Por incrível que
pareça, Caim, fugido e pecador, foi o primeiro a obedecer ao segundo ponto desta ordem,
indo habitar “na terra de Node, do lado oriental do Éden” (Gn 4:16). Após vários anos,
Deus enviou o dilúvio e acabou com as várias cidades do mundo. Novamente, não
existiam povos ou nações. Noé e sua família eram todos os que existiam sobre a face da
terra. A ordem de Deus, então, se repetiu: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a
terra” (Gn 9:1). Todas as nações que se formaram depois disso vieram da descendência de
Sem, Cão e Jafé (Gn 10).
Mesmo após vários anos, é dito em Gênesis que em toda a terra só havia “uma mesma
língua” e “uma mesma fala” (Gn 11:1). A humanidade, até então, era tão unida e
organizada a ponto de que todos migrassem juntos para “um vale na terra de Sinar” (Gn
11:2). Os homens, então, decidiram se unir para levantar a famosa Torre de Babel, uma
torre que deveria chegar até os mais altos céus. Em resposta a esta afronta ao
mandamento de povoar a terra, separando-se para outras regiões, Deus traz uma confusão
de línguas, fazendo com que os homens não conseguissem mais entender uns aos outros
(Gn 11:6-7). O juízo de Deus sobre os construtores da Torre de Babel marcou o princípio
de uma transição muito importante na história do mundo: a criação de diferentes grupos
linguísticos.
Após algum tempo, Deus chamou para Si um homem chamado Abraão, um
descendente de Sem, a quem Deus já havia prometido a primazia entre seus irmãos:
“Bendito seja o SENHOR Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e
habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo” (Gn 9:26-27). Encontramos, no
livro de Gênesis, Deus repetindo a mesma promessa várias vezes a Abraão:
“Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a
terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu
nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te
amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:1-3); “Quanto a mim, eis a
minha aliança contigo: serás o pai de muitas nações; e não se chamará mais o teu nome Abrão, mas
Abraão será o teu nome; porque por pai de muitas nações te tenho posto; e te farei frutificar
grandissimamente, e de ti farei nações, e reis sairão de ti” (Gn 17:4-6); “Abraão certamente virá a
ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra” (Gn 18:18); “E em
tua descendência serão benditas todas as nações da terra” (Gn 22:18); “E multiplicarei a tua
descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio
dela serão benditas todas as nações da terra” (Gn 26:4).

A intenção do Senhor era deixar evidente sua promessa, de forma que até o nome do
patriarca foi modificado: “E não se chamará mais o teu nome Abrão, mas Abraão será o
teu nome; porque por pai de muitas nações te tenho posto” (Gn 17:5). Em todo o Antigo
Testamento foi sendo repetida a promessa feita a Abraão, de que os outros povos, os
gentios, seriam introduzidos à Aliança e que Abraão se tornaria o pai de uma multidão tão
grande que nunca poderia ser contada.

PRIMEIRO AO JUDEU
O pensamento popular acredita que Cristo, quando veio à terra, tinha como propósito
salvar o mundo inteiro. Decoramos João 3:16 e imaginamos que era óbvio a todos que o
Cordeiro de Deus tiraria o pecado do mundo. No entanto, bem antes de lidar com os
gentios e estender sua obra para todas as nações, Cristo veio para se relacionar com o seu
povo escolhido, sendo seu alvo primordial “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt
10:6). Ele disse: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, de forma
que não era bom lançar o evangelho aos gentios (pão dos filhos lançado aos cachorrinhos,
Mt 15:24-26). Paulo escreveu que o evangelho era “primeiro ao judeu”, e só depois para o
gentio (Rm 1:16). Até a morte e ressurreição de Jesus, sua missão era explicitamente
limitada à Israel. Isso não era apenas uma questão de ênfase: em oposição ao “ide” de
Mateus 28:19, Cristo havia dito “não ide”, em Mateus 10:5 (cf. 15:24) – o próprio Jesus
tornou proibido pregar aos gentios! Segundo David Bosch,
muitas pessoas podem se surpreender ao ouvir dizer que, durante sua vida terrena, Jesus exerceu seu
ministério, viveu e pensou quase exclusivamente dentro da estrutura da fé e da vida judaicas do
século 1. Ele nos é apresentado, particularmente no Evangelho de Mateus, como aquele que veio
para cumprir o que havia sido prometido aos pais e às mães da fé. Não poderia estar imediatamente
claro a seus primeiros seguidores e seguidoras que a porta da fé seria em breve aberta também para
os gentios.1

O caráter explicitamente judaico do evangelho é manifesto nos destinatários principais


do ministério pré-ressurrecional de Jesus. Michael Green diz: “O evangelho cristão são
boas notícias sobre um judeu. Foi pregado por judeus para judeus, no começo”2. Jesus
veio como um Messias judeu e Israel foi o primeiro recipiente do Reino. Não é por pouco
que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4:22).
Desta forma, Jesus estava, aparentemente, caminhando de acordo com as expectativas
do povo de Israel em seu ministério. A respeito de Jesus, os judeus “Criam que sua
missão estava limitada à casa de Israel e que a salvação dos gentios teria lugar por meio
da peregrinação escatológica das nações a Jerusalém, retratada no Antigo Testamento”3.
Ainda que isso tenha acendido seu zelo missionário, Israel acreditava que era a única
nação com a qual Deus se importava. Efeitos devastadores do fracasso espiritual na época
dos reis de Israel e a dor resultante das derrotas e exílios que se seguiram fizeram com
que muito do pensamento judaico se tornasse antigentílico. A literatura de Esdras
insinuava que as outras nações estavam “a ponto de serem vomitadas”. O décimo sétimo
salmo de Salomão é uma ode a fim de que Deus venha “para purificar Jerusalém dos
gentios” que se levantam contra ela. Segundo os autores apocalípticos deste período, com
o reino messiânico vindouro, Deus seria vingado e os gentios incrédulos destruídos4. Para
os israelitas, ao longo da história do Antigo Testamento, só dois povos compunham o
mundo: os descendentes de Abraão e a ralé – e ninguém poderia ser “filho de Abraão” no
sentido mais completo se não tivesse nascido judeu. A Mishná, obra importante do
judaísmo rabínico, orienta que na sinagoga o gentio prosélito deveria orar: “Ó Deus dos
pais deles”. Em privado, ele oraria “Ó Deus dos pais de Israel”5. Michael Green escreve:
A missão do próprio Jesus, creem os judeus, estava restrita à Israel. Como Jesus, eles estão
preocupados com todo o Israel, e, pelo que parece, achavam que isso já era universalismo o
suficiente. Os gentios estariam fora do plano de ação messiânico.6

Assim, não é tão estranho que os discípulos tenham demorado tanto tempo para
compreender o ministério gentílico de Cristo. Alguns estudiosos dizem ser pouco
provável que Jesus tenha mesmo proferido as palavras registradas ao fim do livro de
Mateus, uma vez que os discípulos demoraram tanto para ir ao povo gentio. Porém,
considerando a conjuntura normal do pensamento judaico, é difícil imaginar que os
discípulos tivessem algum dia ido aos gentios a menos que Jesus tivesse proclamado essas
palavras. É evidente a qualquer leitor do Novo Testamento que houve certa hesitação em
pregar o evangelho aos gentios (ver At 10:14,28; 11:1-3,19; Gl 2:11-13). Esse ranço
afetou profundamente a visão que os discípulos tinham da relação entre Deus, os judeus e
os gentios. Em Atos 6, um problema de ordem étnica surge: na igreja primitiva, as viúvas
dos helenistas, que eram judeus gregos, estavam sendo esquecidas na distribuição diária
de alimentos (uma indicação, talvez, de que as mulheres dos judeus “puros” possuíam
primazia quanto ao servir das mesas). Alguns diáconos foram escolhidos para solucionar
este problema de orientação étnica, e Deus acabou levando a igreja a solucionar um
problema étnico muito maior: a pregação para os gentios. Os gentios não estavam por
último só na alimentação, mas também no evangelismo.
Parece-me óbvio que os discípulos ainda esperavam um reino físico pra Israel, mesmo
após a ressurreição, e isso foi um fator determinante para impedi-los de ir a outros povos:
[...] depois de ter padecido, se apresentou vivo, [...] falando das coisas concernentes ao reino de
Deus. [...] Aqueles, pois, que se haviam reunido perguntaram-lhe, dizendo: Senhor, restaurarás tu
neste tempo o reino a Israel? E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o
Pai estabeleceu pelo seu próprio poder. Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir
sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos
confins da terra. (Atos 1:3,6-8; cf. Lc 24:21)

A resposta de Jesus indica que eles não deveriam ficar esperando a implantação de um
reino físico a Israel (o que, de fato, não foi negado que aconteceria), mas sim que eles
deveriam espalhar a mensagem do Reino a todos os povos e nações. Porém, foram
necessários anos de perseguição para que os discípulos de fato fossem pregar a outros
povos – e quando isso começou a acontecer, muitos ficaram escandalizados. O ministério
de Filipe foi tão extraordinário que causou um alvoroço em Jerusalém, de modo que foi
necessário que João e Pedro fossem ao local testificar o trabalho e o que Deus estava
fazendo (At 8:4-24). Pedro teve de ser persuadido a ir ministrar ao gentio Cornélio e foi
confrontado pela igreja em Jerusalém por ter ido pregar a um gentio. Além disso, depois
de vários anos, alguns dos cristãos judeus ainda queriam que os gentios se submetessem à
circuncisão, o que precisou ser duramente confrontado por Paulo várias vezes. Podemos
apontar para muitas ações destes primeiros cristãos judeus que indicam que eles não
compreenderam bem a Grande Comissão. Os apóstolos só fecharam questão a respeito
dos gentios em Atos 15, cerca de dezesseis anos após o Pentecostes. Quando percebemos
o contexto exclusivista judaico do tempo de Jesus, de fato, ficamos espantados com quão
escandalosa foi a ordem proferida no Monte da Galileia7. David Bosch acrescenta:
Nos anos imediatamente subsequentes à primeira Páscoa, o envolvimento missionário da igreja
primitiva permaneceu confinado a Israel, como o estivera o ministério do próprio Jesus. Jerusalém
continuou sendo o centro da nova comunidade, cujos membros seguiram visitando o templo
regularmente. A restauração do povo da aliança de Deus ganhou prioridade; nesta hora final, ele
tinha de ser reunido e renovado [...]. Abandonar Israel agora significaria ser infiel à intenção de
Jesus. Os discípulos tinham “o sagrado dever de proclamar ao Israel apóstata sua última chance de
arrependimento antes da vinda do Filho do homem” [...]. Durante os estágios iniciais, claramente
não havia a intenção de formar uma religião separada. O judaísmo da época exibia um grau de
pluralismo que permitia ao cristianismo judaico existir como um grupo entre muitos sem desfazer
seus elos com o corpo principal. Os membros da comunidade de Jesus continuaram a prestar culto
no tempo e nas sinagogas. A situação só mudou depois da Guerra Judaica e da destruição de
Jerusalém em 70 d.C.8
Wallace diz que “este atraso devia-se, em parte, pelo menos, a seu contexto judaico”9.
Ele diz que, como membros do povo judeu, eles “eram etnocêntricos no evangelismo
(trazendo seus prosélitos prospectivos para Jerusalém)”. Agora, porém, “como cristãos,
eles deveriam ser ektocêntricos, levando o evangelho àqueles que não eram judeus”10.
Ainda que algo da visão majoritária dos judeus tenha sido seguida por Jesus – a
primazia de Israel como objetivo do tratamento divino, por exemplo – Cristo dá vários
prenúncios da ominiuniversalidade do evangelho ao longo do livro de Mateus, e é triste
que os primeiros discípulos não tenham percebido isso como deveriam cedo o suficiente.
Por exemplo, a genealogia que abre o evangelho já traz em seus personagens algumas
figuras gentílicas como ascendentes do Messias. No segundo capítulo, contemplamos a
ironia natalina de Jesus ser perseguido pelo rei de Israel quando foi adorado por gentios
que vieram de longe procurá-lo (Mt 2:2-3,9-11). Jesus vai até Cafarnaum para cumprir
uma profecia de brilhar como luz aos gentios (Mt 4:12-17), elogia a fé do centurião
romano em contraste com a incredulidade de Israel (Mt 8:10) e menciona a vinda de
muitos do Ocidente e do Oriente para se assentar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó (Mt
8:11). O povo de Israel seria condenado pelo povo de Nínive e pela rainha do Sul (Mt
12:38-42). O reino de Deus seria tirado dos maus lavradores e entregues a outros que
simbolizavam o povo gentílico (Mt 21:41), assim como na parábola na qual os que não
foram convidados para o banquete recebem acesso à festa (Mt 22:8-10). Página após
página vemos referências à entrada dos gentios na Aliança.
É bem conhecida a informação de que o evangelho de Mateus foi escrito
principalmente para os judeus. Ireneu de Lyon escreveu que “Mateus publicou também
um evangelho entre os hebreus em seu próprio dialeto”11. Porém, este público alvo não
exclui, mas explica a existência de uma forte temática gentílica. Merrill Tenney diz:
“Embora seja fortemente judaico em caráter, foi escrito também para benefício dos
gentios”12, e Robert Gundry concorda: “Precisamos designar seu evangelho, portanto,
como cristão judaico com uma perspectiva universal”13. Mateus tinha em mente o povo
de Israel quando redigia sua obra, e exatamente por isso decidiu tratar bastante sobre o
relacionamento de Cristo com os gentios. É por isso que “a Grande Comissão não é
simplesmente anexada ao final do Evangelho de Mateus. Pelo contrário, ela leva ao
clímax um dos temas que passa através de todo o livro”14, como diz Carson. Bosch diz:
“Hoje, os eruditos concordam em que todo o evangelho se dirige a estes versículos finais:
todos os fios se entretecem no tecido de Mateus, desde o capítulo 1 em diante, e são
unidos nesta passagem”15. DeYoung e Gilbert concordam, dizendo que a Grande
Comissão de Mateus é bem “mais do que palavras de despedidas aleatórias proferidas por
Jesus”, mas sim “o clímax para o qual tudo aponta”16. O livro de Mateus tem como uma
de suas temáticas principais a rejeição de Israel e a extensão do mandato missionário aos
gentios.
Então, sem diminuir o significado da narrativa da Paixão, a Grande Comissão se torna
o ápice de um dos enredos do evangelho de Mateus. Após a ressurreição de Jesus, algo
mudou no tratamento de Deus com os povos. O Reino veio para os judeus, mas os judeus
não o receberam. Desta forma, cumprindo seu plano eterno, o Reino é retirado de Israel e
entregue aos gentios, o que é evidenciado por Jesus enviar seus apóstolos não mais à casa
de Israel apenas, mas a todos os povos: “fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28:19);
“Ide por todo o mundo” (Mc 16:15). Com tais palavras, o foco missionário do povo de
Deus foi transformado. Jesus não disse: “Ide, portanto, judaíze todas as nações”. A missão
não tem como objetivo trazer os gentios ao povo de Israel, mas ir tanto a Israel quanto aos
gentios para trazê-los a Cristo. Na Grande Comissão, os discípulos são enviados a uma
nova e mais ampla missão: é inaugurada “uma nova época na missão dos discípulos”17.
Como disse Matthew Henry, a ordem de ir a todas as nações “claramente significa que
seja a vontade de Cristo [...] que o pacto da peculiaridade feito com os judeus agora deve
ser cancelado e anulado. Esta palavra derrubou o muro de separação que durante tanto
tempo excluía os gentios”18. Isso, porém, não ocorreu em qualquer lugar. Deus tinha um
palco preparado.
GALILEIA: O MAIS PERFEITO PALCO
PARA A GRANDE COMISSÃO
Mateus registra que “os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus
lhes tinha designado” (Mt 28:16). Além desta, mais três vezes Mateus registra a ordem de
Cristo de encontrar os discípulos na Galileia: “depois de eu ressuscitar, irei adiante de vós
para a Galileia” (Mt 26:32), “Ide pois, imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já
ressuscitou dentre os mortos. E eis que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis.
Eis que eu vo-lo tenho dito” (Mt 28:7) e “Então Jesus disse-lhes: Não temais; ide dizer a
meus irmãos que vão à Galileia, e lá me verão” (Mt 28:10). Este não era um local
acidental de encontro, mas um ambiente planejado pelo próprio Deus.
A Galileia era um grande território semigentílico que engloba as regiões das tribos de
Manassés, Efraim e Benjamim, à região setentrional da Palestina, sendo identificada
como parte da Terra Prometida. Dentre as regiões de Israel, foi a primeira a sofrer
influências estrangeiras. As invasões assíria e caldeia trouxeram uma mescla de povos e a
presença de numerosos pagãos. De acordo com o primeiro livro dos Reis, quando
Salomão estava construindo o templo, a fim de comprar madeira de cedro para o palácio e
o templo, ele entregou 10 cidades da Galileia ao rei de Tiro e Sidon (1Rs 9:11). Desde
então, os judeus que viviam em Jerusalém, na província da Judeia, olhavam com desprezo
a Decápole (palavra grega para 10 cidades) e os judeus que nela viviam. Assim, começou-
se a chamar a região de Galileia das Nações ou Galileia dos gentios (cf. Is 8:22; Mt
4:15).19
Desde o século I a.C., por conta de vários fatores, o elemento judaico voltou a ser
dominante nessa região. Para muitos judeus, a Galileia era como uma terra natal, de forma
que, depois de 70 d.C., sediou até mesmo um centro do movimento Zelote e, depois da
destruição de Jerusalém, a base de importantes acadêmicos judeus. Mesmo assim, embora
a população fosse judaica em sua maior parte, continuando assim por bastante tempo,
devido à localização da província, aberta ao norte e vizinha da Fenícia e Síria, essa
população vivia inevitavelmente em contato com os pagãos dos arredores, alguns dos
quais continuavam estabelecidos em seus territórios. A distância social entre Jerusalém e
a Galileia acabou fazendo com que o dialeto galileu se tornasse diferente da linguagem
pura e sofisticada de Jerusalém. Quando Pedro falou com sotaque galileu, o hebraico que
ele falava foi notado pela empregada e por outros à sua volta (Mt 26:69). A convivência
dos galileus com os pagãos havia influenciado o espírito dos galileus, motivando certo
relaxamento no fervor religioso, que era digno de elogio, ao menos no respeito às
tradições farisaicas, que os galileus encaravam com certa liberdade. Assim, seus irmãos
da Judeia os trataram com desdém. Certa vez, os doutores de Jerusalém disseram a
Nicodemos: “És tu também da Galileia? Examina, e verás que da Galileia nenhum profeta
surgiu” (Jo 7.52). Sobre Cristo, questionavam: “Será que algo de bom pode sair de
Nazaré?” (Jo 1:46). Emmanuel Asi explica que “Historicamente, a Galileia não tinha
importância; politicamente, seu papel era nulo; no que concerne à religião estava longe do
templo. Estava distante de Jerusalém, onde residia o poder político e religioso. Ficava
longe do tempo e do trono”20. A Galileia era uma das regiões onde o conflito judeu e
gentio parecia mais forte.
Apesar de tudo, a Galileia foi o foco da missão e do ministério de Jesus. Era muito
importante em sua vida. Jesus foi concebido, cresceu e educou-se na Galileia. Passou
trinta anos de sua vida lá. Começou a ensinar e pregar na Galileia (Lc 4:14-15; Mt 4:23-
25), e depois da Ressurreição quis que seus apóstolos o encontrassem lá. Apenas os
relatos da infância e as narrativas da Paixão-Morte-Ressurreição situam-se em Jerusalém.
Todas as outras atividades de Jesus, como pregação, ensino e milagres aconteceram na
Galileia. Além disso, todos os apóstolos eram galileus, com exceção de Judas Iscariotes.
A aparição de Jesus neste território semijudaico e semigentílico está simbolicamente
relacionada com a restauração de Israel e a entrada dos gentios na aliança.

A GALILEIA E A RESTAURAÇÃO DE ISRAEL


Os textos de Jeremias 30:1-31:40, Salmo 80 e Malaquias 2:12-13 trazem profecias a
respeito do restabelecimento de Israel como uma monarquia unida sob Davi e Salomão.
Segundo essas passagens, os territórios das tribos de Manassés, Efraim e Benjamim,
separados de Judá desde o oitavo século antes de Cristo e reassentadas por estrangeiros,
pertenceriam novamente à Israel. Jeremias diz: “Ouvi a palavra do Senhor, ó nações, e
anunciai-a nas ilhas longínquas, e dizei: Aquele que espalhou a Israel o congregará e o
guardará, como o pastor ao seu rebanho” (Jr 31:10). O salmista clama ao Senhor:
“Perante Efraim, Benjamim e Manassés, desperta o teu poder, e vem salvar-nos. Faze-nos
voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:2-3). Isso
significa que quando Jeová brilhar sobre Efraim, Benjamim e Manassés e o Messias for
bem sucedido em seu trabalho, Israel será restaurado a seus antigos limites. Zacarias
também profetizou: “Exulta, e alegra-te ó filha de Sião, porque eis que venho, e habitarei
no meio de ti, diz o Senhor. E naquele dia muitas nações se ajuntarão ao Senhor, e serão o
meu povo, e habitarei no meio de ti e saberás que o Senhor dos Exércitos me enviou a ti”
(2:10-11).
Como tais profecias estão relacionadas com nosso estudo? Uma olhada para o mapa
mostra que os territórios de Benjamim e de Efraim estão separados da área tribal de Judá,
compondo justamente uma região que chamamos de Galileia, enquanto Manassés inclui
amplas regiões a leste do rio Jordão. Isso significa que quando o Cristo exaltado passa
diante dos seus discípulos para a Galileia, ele não está apenas voltando para a região onde
começou suas atividades, mas está aparecendo também e principalmente como
representante do Reino de Deus na região dos distritos do norte da Grande Israel, que
antes era inundada com os gentios (2Rs 15:29). A partir deste contexto soteriológico e
escatológico, podemos dizer que o Cristo exaltado, com o anúncio de ir para a Galileia e
as instruções dadas no monte, inicia-se profeticamente a restauração escatológica da
Grande Israel, como profetizado nos textos supracitados.21
Bosch comenta que a igreja primitiva falhou em fazer os judeus sentirem-se em casa,
uma vez que, tendo começado como um movimento religioso que trabalhava
exclusivamente entre os judeus, ela transformou-se em um movimento tanto judeu quanto
gentio, mas tornou-se principalmente gentílico ao ponto de proclamar a mensagem apenas
aos não judeus. Depois da guerra que destruiu o templo de Jerusalém em 70 d.C., o
judaísmo farisaico tornou-se tão xenofóbico que não podia tolerar nada além de uma
abordagem judaica exclusivista. O clima da época fez com que fosse quase impossível
convidar judeus à fé em Jesus. Tristemente, a longo prazo, a “igreja reagiu com uma
atitude antijudaica à posição anticristã do judaísmo”22. Muitos teólogos têm interpretado
isto com naturalidade, como Boris Repschinski, por exemplo, que parece sugerir que em
Mateus 28:19 a missão exclusiva aos judeus dá lugar a uma missão exclusiva aos
gentios23.
A profecia veterotestamentária, no entanto, também fala da restauração de Israel, e não
apenas de sua punição. As maldições e palavras de condenação contra os judeus não
fazem com que eles não devam receber a pregação do evangelho. Palavras assim também
foram proferidas contra os gentios (Mt 10:15; 11:24). Como observa Craig Keener: “A
missão dos gentios estende a missão judaica – não a repõe. Jesus não revoga a missão
para Israel em lugar algum (10:6), mas meramente adiciona uma nova missão revogando
uma proibição anterior (10:5)”24. Assim, “A missão para os gentios não pretende
substituir a missão para Israel, mas confirmar e expandir a todas as nações”25. O próprio
Cristo surge em Mateus como um novo Israel, a fim de cumprir o chamado de pregação
aos gentios (Mt 2:13-15; 3.17-4.11). Devemos entender que a Grande Comissão “não é
uma palavra final de rejeição, mas um urgente chamado ao arrependimento”26 para o
povo judeu – e não só para os judeus: “As nações têm muito que aprender com o erro de
Israel de não confiar em Deus e não acolher um Messias sofredor”27.
A própria estrutura do contexto próximo da Grande Comissão requer uma missão
universal28. A base da missão é uma autoridade que é posta sobre céus e terra, e isso
inclui o povo judeu. De fato, “é tão impossível excluir os judeus da ordem para fazer
discípulos quanto é impossível limitar o poder do Senhor Ressuscitado como sendo sobre
todo o mundo, exceto sobre Israel”29. Além disto, a Missão para Israel em Mateus 10
aponta para depois da Grande Comissão30. Mateus 10:17 fala da perseguição entre os
judeus e entre os reis gentios que se daria no futuro, prenunciando a missão cristã para
esses dois povos. Para Mateus e seus leitores, a missão para Israel continua incompleta. O
evangelho do Reino deve ser pregado para os judeus até que Jesus retorne, assim como
para os gentios. Graças a Deus, não existe evidência histórica para o abandono dos judeus
na igreja primitiva31. Justino Mártir disse que diariamente os judeus eram convertidos e
adicionados à igreja32. Devemos, ainda hoje, orar e trabalhar pela conversão do povo de
Israel.

A GALILEIA E A ENTRADA DOS GENTIOS


Mas o grande palco da Galileia não era o mais perfeito lugar apenas para se estabelecer o
chamado de arrependimento para Israel. O monte onde Cristo se encontra com seus
discípulos também está localizando em um ambiente de forte simbolismo para a entrada
dos gentios na aliança. Nos evangelhos de Marcos e Mateus, o ministério público de Jesus
começa com a proclamação da chegada do Reino: “O tempo está cumprido e o reino de
Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho!” (Mc 1:14; Mt 4:17). Segundo
o registro dos dois evangelistas, imediatamente após este anúncio, a vocação dos quatro
primeiros discípulos às margens da Galileia é relatada (Mc 1:16-20; Mt 4:18-22). Pelo
que tudo indica, essa sequência de acontecimentos não pode ser vista como uma mera
aleatoriedade coincidente em dois Evangelhos. Marcos e Mateus possuíam um propósito
explicitamente missionário em mente quando retrataram a vocação às margens do Lago
da Galileia logo após o anúncio da chegada do Reino. Bosch afirma que pelo menos no
Evangelho de Marcos, o território galileu “é o verdadeiro cenário da pregação de Jesus” e
que “o lago é, para ele, uma ponte dirigida aos gentios”, de forma que tanto Mateus
quanto Marcos estariam pondo um “selo missionário” em seus evangelhos – Marcos, já a
partir do primeiro capítulo33. Pesch comenta: “A missão deles faria os pescadores de seres
humanos atravessarem o lago e irem aos gentios, às pessoas por quem Jesus haveria de
morrer”34.
Por que os evangelistas se esforçariam para deixar isso claro em seus registros e por
que Jesus agiria de tal forma para com este território? Um simbolismo importante
presente na Galileia está no fato de ser um ponto de encontro entre Oriente e Ocidente.
Isso era relevante não apenas para a Palestina, mas para todo o Oriente Médio. Tanto os
romanos e os gregos do ocidente, como os sírios, babilônios e persas que queriam ir ao
Egito por terra tinham que passar através da Galileia. Da mesma forma, para ir ao
Oriente, também os egípcios precisavam cruzá-la. A Galileia servia de rota militar em
tempo de guerra e como fronteira de comércio no tempo de paz35. Poucas regiões naquela
época serviam de ponto de encontro para tantos povos. Tal fato embeleza a profecia de
Isaías, que, segundo Mateus, é pra cumpri-la que Jesus volta à Galileia em determinado
período de seu ministério:
Jesus [...] voltou para a Galileia; e, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima,
nos confins de Zebulom e Naftali, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz:
“A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, junto ao caminho do mar, além do Jordão, a Galileia das
nações; o povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; aos que estavam assentados na
região e sombra da morte, a luz raiou” [Is 9:1]. Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer:
Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. E Jesus, andando junto ao mar da Galileia, viu
a dois irmãos [...] e disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. [...] E
percorria Jesus toda a Galileia [...]. E a sua fama correu por toda a Síria [...]. E seguia-o uma grande
multidão da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia, e de além do Jordão. (Mateus 4:12-25)

A profecia de Isaías foi cumprida na presença de Cristo naquela região, e é este


cumprimento que é evocado quando Cristo ordena que seus discípulos voltem a esta
região a fim de entregar-lhes o mandato de ir a todos os povos. Os povos distantes que
estavam assentados em trevas finalmente veriam a grande luz do Filho de Deus
conclamando-os ao arrependimento.

DE TODAS AS NAÇÕES
Então, naquele monte, Jesus profere as palavras que abrem completa e definitivamente as
portas do evangelho aos gentios. Ao ordenar a pregação do evangelho a todas as etnias, “o
particularismo anterior à ressurreição deu lugar ao universalismo”36. Em Mateus 17:1-9,
os discípulos não podiam falar do que viram no monte, mas agora o tempo chegou
quando eles deveriam contar para todos sobre isso. Como a autoridade de Cristo é
manifesta sobre todas as nações, o cristianismo deve tornar-se uma religião mundial:
Cristo não veio pra salvar apenas certo grupo populacional, mas derramou seu sangue por
gente de todo povo, tribo, língua e nação. Como diz Piper: “O mandamento final de Jesus
é que jamais percamos de vista a abrangência global de sua declaração a respeito da raça
humana. Jesus não é uma divindade tribal. Ele é o Senhor do Universo”37. De fato, todo
joelho se dobrará diante dele, espontaneamente ou não (Mt 25:31,32). Assim, as palavras
de Nosso Senhor devem ser entendidas como uma anulação da antiga maldição que era
posta sobre os gentios e uma consumação das promessas feitas aos povos não israelitas:
Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne [...]. Naquele tempo estáveis
sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo
esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo
sangue de Cristo chegastes perto. (Efésios 2:11-13)

Comentando sobre o rasgar do véu do templo, Carl Trueman diz: “Muitos leitores do
Evangelho veem essa ruptura como a abertura do caminho para entrada no Santo dos
Santos. É mais provável que isso represente o movimento de Deus para fora do Santo dos
Santos”38. Existem pelo menos duas evidências que confirmam esta afirmação. Primeiro,
a estrutura da narrativa deste trecho aponta para isso. Jesus morre, o véu do templo se
rasga em dois e o centurião gentio declara que Jesus era o filho de Deus. Ou seja, “a
crucificação é seguida de graça fluindo aos gentios”39. Marcos insere este incidente do
véu para sublinhar este divisor de águas no plano divino da salvação. Em segundo lugar, o
termo traduzido aqui como “rasgar” (schizein) só é usado por Marcos duas vezes no
evangelho (aqui e com relação ao abrir dos céus no batismo), e isso nos indica alguma
relação entre essas passagens – e o tema comum dos dois textos é a revelação da presença
de Deus em Cristo. Havia uma tradição do período intertestamentário a respeito de Isaías
64:1 (“Oh! se fendesses os céus, e descesses, e os montes se escoassem de diante da tua
face”) que via o romper dos céus como um sinal escatológico que marcaria o retorno do
Espírito Santo após um longo período de ausência40. Marcos parece estar querendo
sinalizar o aprofundamento de um argumento ao usar schizein ao falar do abrir dos céus e
do abrir do véu. No batismo, Deus está novamente presente, com seu povo, falando a ele
através do Filho. No rasgar do véu, Deus está presente também com os gentios, falando
também com todo o mundo por meio de Jesus. Nas palavras de Tomás de Aquino: “Com
a vitória da cruz, Cristo adquiriu para si o poder e o domínio sobre todas as gentes”41, ou
como colocou o apóstolo:
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para
que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e
toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai (Filipenses 2:9-11).

A autoridade de Jesus sobre céus e terra leva-nos necessariamente a todos os povos do


mundo. Como disse Martin Bucer em De Regno Christi: “O Reino de Cristo pertence a
todas as nações. Portanto, não são de Cristo aqueles que não se esforçam para expandir
seu Reino o mais longe que puderem”. O poder do Salvador primeiro nos paralisa, ante
tanta glória, mas, em seguida, nos impulsiona para os povos que nunca ouviram sobre sua
Obra nem Lhe atribuem a glória merecida. O alerta de Newbigin é vívido e real: “A
ordem de discipular todas as nações está no centro do mandato à igreja, e a igreja que a
esquecer, ou a deixar de lado, perde o direito aos títulos de católica e apostólica”42.

PANTA TA ETHNE
A obra redentora de Cristo não aconteceu em um canto remoto do planeta, mas no próprio
centro religioso do mundo (At 26:26), de forma que a notícia de sua morte espalhou-se
rapidamente por todos os povos conhecidos (Cl 1:5,6). Na versão de Lucas, a Grande
Comissão é descrita em termos geográficos, começando “em Jerusalém” (Lc 24:47).
Como o mesmo autor conta no segundo volume de sua obra, o evangelho moveria-se
então à Judeia, Samaria e finalmente aos confins da terra (At 1:8). Esta distribuição
geográfica do evangelho evidenciava que, mesmo sendo proclamada primeiro em regiões
judaicas, a salvação rapidamente deslocaria-se para o território não-judeu. Paulo também
fala do evangelho espalhando-se a partir de uma perspectiva geográfica. Lemos que ele
escreveu em Romanos 15:19 que “desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho
pregado o evangelho de Jesus Cristo”. A partir dos comentários de Paulo, podemos ver
que ele não só retrata o evangelho espalhando-se geograficamente (e, por extensão, às
diversas etnias naqueles espaços geográficos), mas também em termos de representação.
Em outras palavras,
nem toda pessoa literal de Jerusalém a Ilírico tinha ouvido o evangelho pregado por Paulo, mas o
apóstolo já estava movendo-se para novos territórios. O desejo de Paulo de pregar em áreas
completamente não alcançadas (Rm 15:19-20) juntamente com sua confiança de que o evangelho,
uma vez presente, iria espalhar-se (Cl 1:6; 1 Ts 1:8) empurrou-o para um trabalho que se renovava
constantemente.43

Missões começariam em Jerusalém, o tradicional centro do mundo, e irradiariam em


círculos concêntricos até os confins da terra, como de fato aconteceu. Na primeira Festa
das Semanas após a ressurreição de Cristo, os doze começaram a pregar o evangelho entre
os peregrinos da festa judaica (At 2:14-41). Então, Filipe levou os samaritanos para o
âmbito da missão cristã (At 8:4-40). Pedro teve a ousadia de dar o próximo passo,
batizando gentios em Cesareia (At 10:23-48), e Antioquia tornou-se o centro da missão
aos gentios – foi de lá que Paulo e Barnabé começaram a cumprir sua missão gentílica (At
11:19-26).
O foco da Grande Comissão segundo registrada por Mateus, no entanto, não enfatiza a
geografia da proclamação, mas a multietnicidade da mesma. Podemos afirmar isso devido
ao significado da expressão grega panta ta ethne. John Piper já gastou um bom tempo em
sua conhecida obra com a melhor exposição que conheço deste termo, e podemos nos dar
ao luxo de simplesmente reproduzir suas conclusões44. Para o Dr. Piper, e seguimos aqui
seu pensamento, a expressão grega traduzida por “todas as nações” deveria ser entendida
como “todas as etnias” ou “todos os grupos étnicos”. Desta forma, nosso foco missionário
não é o alcance de grupos sociopolíticos, mas sim de grupos etnolinguísticos45. A palavra
“nações não se refere, então, a países como Brasil, México, Alemanha, mas a povos
étnicos, linguísticos e culturais. Como diz Piper: “Em nossos dias, o mandamento de
Jesus de fazer discípulos de todas as nações significaria, por exemplo, fazer discípulos
entre os balúchis do Paquistão, os malinqués da Guiné, os bigis da Indonésia, os was da
China, os somalis da Somália e os dakotas de Mineapolis”46. É por isso que Larry Pate
está certo ao dizer que “Deus tem muito mais interesse pelos homens do que pelas
fronteiras políticas”, uma vez que “temos de ir a todos os povos, não apenas a todos os
países!”47. Timóteo Carriker faz eco a esta ideia:
O culto a Deus como alvo da obra missionária ajuda a entender a própria definição da obra
missionária. Pois a obra missionária enfatiza a prioridade de alcançar povos, ou etnias não
alcançadas. Isto se evidencia na repetida descrição bíblica da tarefa missionária em termos de etnias
(Mateus 24.14; 28.18-20; Romanos 15.19-21). [...]. Que a estratégia bíblica seja de alcançar
especialmente as etnias não alcançadas é claro em Romanos 15.19-21. Para muitos cristãos, talvez
até a maioria, esta estratégia não parece muito lógica. Antes alcançar todos os indivíduos ao nosso
alcance e semelhantes culturalmente a nós, que procurar alcançar representantes de etnias que
podem ser geográfica ou culturalmente distantes. Parece uma questão de mordomia de esforços.48

O ponto do autor é o seguinte: “se fosse pelo amor humano pelo ser humano, nossa
ênfase deveria estar na salvação de indivíduos que estão próximos”, como, de fato, é a
prática mais comum. “O amor a Deus, entretanto, leva a outra conclusão”49: uma ênfase
na prioridade das etnias não alcançadas. Larry Pate faz um questionamento correto:
Deus poderia ter feito muitas coisas a fim de forçar os descendentes de Noé a se espalharem por
toda a terra. Mas ele optou por confundir a sua língua. Ele sabia que, com o passar do tempo, essa
divisão seria a causa de muita incompreensão e conflito entre os seres humanos. Deus também sabia
que as barreiras culturais haveriam de ser grande obstáculo para a difusão do evangelho.50

John Piper, por sua vez, nos dá quatro motivos pelos quais foi do interesse de Deus
criar diferenças linguísticas no mundo e, então, ordenar seus discípulos a alcançarem tais
grupos linguísticos:

1. Há mais beleza e poder de adoração na unidade de culto derivada da diversidade de povos que cantam todas as
partes de um hino a Deus do que no coro que canta uníssono (Salmo 96.3-4);
2. A fama, a grandeza, e o valor dum objeto belo aumentam na proporção da diversidade daqueles que reconhecem
tal beleza;
3. A força, a sabedoria e o amor de um líder magnificam-se na proporção da diversidade de povos que ele inspira
para segui-lo;
4. Ao focalizar todos os grupos humanos do mundo, Deus está subvertendo o orgulho etnocêntrico que se baseia em
alguns atributos distintivos que cada povo gosta de destacar. Ao invés disto, o orgulho etnocêntrico natural de
cada povo dá lugar à graça imerecida de Deus.51

Desta forma, a Grande Comissão não significa que os discípulos devem ir todos juntos
em todos os lugares, mas “dispersarem-se de tal maneira que possam melhor difundir a
luz do evangelho”52. Desta forma, “a interrupção da missão seria o egoísmo
supremamente danador – porque seria privatizar o que pertence a todo o mundo”53. O
alcance da graça salvadora de Cristo assinala a vitória de Cristo sobre todas as barreiras
geográficas, culturais e temporais. A salvação que pregamos é uma salvação comum, livre
das barreiras sociais e étnicas54. De fato, não existem barreiras geográficas, étnicas ou
linguísticas para a graça.

A GRANDE PREDIÇÃO
O modo mais comum de vermos a Grande Comissão é como um mandamento. De fato,
uma vez que é assim que Mateus o registra, devemos obedecer a Cristo esforçando-nos
para comunicar sua glória a todas as nações. No entanto, uma maneira menos usual de
percebermos estas palavras de Cristo é o registrado nas palavras de Lucas. Segundo este,
a Grande Comissão não é apenas uma ordem, mas uma predição. Jesus não nos dá apenas
uma comissão, mas uma declaração sobre os acontecimentos futuros: “Assim está escrito,
e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos,
e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as
nações, começando por Jerusalém” (Lc 24:46-47). Se Marcos e Mateus nos registram
uma Grande Comissão, Lucas nos apresenta uma Grande Predição.
Embora pareça que muitos cristãos estão falhando em obedecer à ordem de Jesus – e
muitos estão mesmo –, o êxito final desta tarefa não está em dúvida. Deus tem garantidos
seus resultados. O triunfo do plano de Deus é certo – e isto não nos é um convite à
preguiça, mas ao esforço (Mt 25:1-46). Somos enviados a obedecer uma ordem cujo
cumprimento é certo. A vitória de Cristo sobre os povos é inevitável. Podemos ter certeza
de que “este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as
nações” (Mt 24:14). Quando você sai para pregar o evangelho às nações, você está
comprando o bilhete premiado. O Senhor mesmo declarou por meio de Malaquias: “Meu
nome será grande entre as nações, desde o nascente do sol até ao poente; e em todo lugar
lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras, porque o meu nome é grande entre as
nações” (1:11). Deus prometeu as nações para seu Filho (Gn 49:10; Dt 32; 43; Jr 16:19;
Dn 7:14; Mq 4:1-4). O reinado do Senhor sobre os povos e a autoridade de Cristo sobre
céus e terra nos dando a certeza de que ele conseguirá aquilo que nos comissionou a fazer
é um tema recorrente nos Salmos de Israel:
“Tu és meu Filho, hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da
terra por possessão” (Sl 2:7-12); “Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor,
e diante dele adorarão todas as famílias das nações. Porque o domínio é do Senhor, e ele reina sobre
as nações” (Sl 22:27-28); “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações;
serei exaltado sobre a terra” (Sl 46:10); “Deus reina sobre as nações; Deus está sentado sobre o seu
santo trono. Os príncipes dos povos se reúnem como povo do Deus de Abraão, porque a Deus
pertencem os escudos da terra; ele é sumamente exaltado” (Sl 47:8-9); “Louvar-te-ei, Senhor, entre
os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações” (Sl 57:9); “Deus se compadeça de nós e nos
abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós, para que se conheça na terra o seu caminho e
entre todas as nações a sua salvação. Louvem-te, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.
Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgas os povos com equidade, e guias as nações sobre a
terra. Louvem-te, ó Deus, os povos; louvem os povos todos” (Sl 67:1-5); “Dominará de mar a mar,
e desde o rio até às extremidades da terra. Aqueles que habitam no deserto se inclinarão ante ele, e
os seus inimigos lamberão o pó [...]. E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o
servirão […]; todas as nações o chamem bem-aventurado” (Sl 72:8-17); “Todas as nações que
fizeste virão e se prostrarão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome” (Sl 86:9); “As nações,
pois, temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra a tua glória” (Sl 102:15); entre outros.

Não apenas os Salmos, mas o livro de Isaías também é repleto de profecias a respeito
do resgate de Deus ser estendido às nações:
“E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será
buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10; cf. Rm 15:12); “Eis aqui o
meu Servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito
sobre ele; ele trará justiça aos gentios [...]. Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela
mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios” (Is 42:1,6; cf. Lc 2:32; At
13:47-48); “Pouco é que sejas o meu Servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os
preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à
extremidade da terra. Assim diz o SENHOR, o Redentor de Israel, o seu Santo, à alma desprezada,
ao que a nação abomina, ao servo dos que dominam: Os reis o verão, e se levantarão, como também
os príncipes, e eles diante de ti se inclinarão, por amor do SENHOR, que é fiel, e do Santo de Israel,
que te escolheu” (Is 49:6-7); “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as
nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10); “Eis que o meu
Servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime. Como pasmaram muitos à
vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura
mais do que a dos outros filhos dos homens. Assim borrifará muitas nações, e os reis fecharão as
suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que eles não
ouviram entenderão” (Is 52:13-15, cf. Rm 15:20-21); entre outros.

As promessas de Deus não eram apenas a respeito da redenção dos judeus, mas
também profetizava a redenção do mundo gentílico. Comentando Isaías 49:6-7, Heber
Carlos de Campos diz:
A salvação que foi anunciada somente aos judeus no Antigo Testamento agora é anunciada, ainda
no [Antigo Testamento], a todas as extremidades da terra. Jesus Cristo é dado para ser a luz também
para os gentios. Estes também haveriam de conhecer a salvação que vem do Senhor. No reinado de
Jesus Cristo, que se inicia já no seu ministério terreno, e que culmina na sua volta, o anúncio aos
gentios é feito porque Satanás não mais retém o poder de enganar as nações (Ap 20:1-6). Agora,
com a chegada do Prometido, a promessa da redenção dos gentios se cumpre, e à medida que o
tempo passa as nações vão recebendo o conhecimento salvador de Jesus, até que a última nação seja
evangelizada, e então, o fim venha (Mt 24:14)55.

Os antigos encontraram nestas palavras força para a pregação. Orígenes escreveu em


Contra Celso que “toda forma de religião será destruída exceto a religião de Cristo;
somente esta prevalecerá. E, de fato, um dia triunfará, quando seus princípios se
apropriarem da mente dos homens mais e mais a cada dia”56. Tertuliano, em sua primeira
Apologia, diz que os “homens gritam que o estado se encontra sitiado; os cristãos estão
nos campos, nos portos, nas ilhas. Lamentam, como quem sofreu uma perda, porque
tantos – sem distinção de sexo, idade, condição de vida ou prestígio – estão abraçando
essa seita”57. Ele diz ao mundo romano ao seu redor:
Acabamos de surgir e, no entanto, já ocupamos todos os lugares que vos pertencem – cidades, ilhas,
castelos, vilas, assembleias, vossos próprios acampamentos, vossas tribos, corporações, palácios,
senado, fórum; deixamos para vós apenas os vossos templos [...]. As vossas crueldades arguciosas
não surtirão nenhum efeito. Quanto mais cristãos vós destruís, mais cresce o nosso número. O
sangue dos mártires é a semente de novos cristãos.58

Não temos motivos para desanimar em nossa obra missionária. A autoridade de Cristo
nos motiva a ir a todos os povos sem medo de fracasso. Temos um grande desafio
geográfico, mas motivados pela autoridade de Cristo, podemos ir por todas as nações,
sabendo que nenhum vale é tão isolado, nenhuma ilha é tão distante, nenhuma floresta é
tão densa, nenhuma montanha é tão alta, nenhuma cidade é tão fortificada e nenhum
deserto é tão hostil. Se Cristo vai à nossa frente, nenhum povo está distante o suficiente
para abalar nossa fé.

46. PIPER. O que Jesus espera de seus seguidores, p. 404.


47. PATE, Larry D. Missiologia: a missão transcultural da igreja. Miami: Editora Vida, 1987, p. 36,37.
48. CARRIKER, Timóteo. Princípios Teológicos para a Ação Missionária Reformada. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/missoes/principios_teologicos_acao_missionaria.htm>. Acesso em: 25 jul. 2014.
49. Ibidem.
50. PATE. Missiologia, p. 31-32.
51. PIPER. Alegrem-se os Povos, p. 227-230.
52. HENRY. Commentary on the Whole Bible Volume V (Matthew to John). Op. Cit.
53. CRAGG, K. The Call of the Minaret. One World, 2000, p. 182.
54. Ibidem.
55. CAMPOS, Heber Carlos de. As duas naturezas do Redentor. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2004, p. 79.
56. Apud WILLARD. A grande omissão, p. 208.
57. Ibidem.
58. TERTULIANO. Apologia. 50.13.
5
POR TODAS
AS NAÇÕES
ALGUMAS TENSÕES ÚTEIS

O livro de Apocalipse (5:9-10) deixa claro que Cristo deseja salvar pessoas de toda “tribo
(file: classificação familiar), língua (glosse: classificação linguística), povo (laos:
classificação racial) e nação (ethne: classificação étnica)1. Metonimicamente, tais
descrições nos dão a entender que Cristo quer a maior variedade possível de pessoas nos
céus, não só etnicamente, mas também em um nível social – porque não? A verdade
quanto ao plano universal de Deus para o macro também tem se aplicado ao micro.
Barreiras sociais, raciais e étnicas precisam ser ultrapassadas diariamente quando
tentamos levar o evangelho para nosso próprio povo. Precisamos evitar um evangelho
monocromático, aplicado apenas a determinado grupo social. Quer de modo étnico, quer
de modo social, o evangelho precisa alcançar todos indistintamente. Como diz Bosch:
O que nos assombra reiteradamente é a inclusividade da missão de Jesus. Ela abarca tanto os pobres
quanto os ricos, tanto os oprimidos quanto os opressores, tanto os pecadores quanto os devotos. Sua
missão consiste em desfazer a alienação e em derrubar muros de hostilidade, em cruzar fronteiras
entre indivíduos e grupos. 2

Se a ordem de Cristo é que discipulemos pessoas de todas as etnias e grupos de forma


indistinta, então algumas tensões precisam ser consideradas para não agirmos com
partidarismo em relação a qualquer povo ou etnia do planeta.

NAÇÕES PRÓXIMAS E DISTANTES


Quando Jesus diz que devemos fazer discípulos de todas as etnias, ao invés de dizer “nas
etnias distantes”, ele está incluindo a nossa própria etnia como alvo da pregação do
evangelho. Se os judeus também deveriam ouvir falar de Cristo, e não só os outros povos,
então a própria etnia dos discípulos estava inclusa na ordem da Grande Comissão. O
mandato não é para que só quem está longe seja salvo. Além do mais, considerando o
modelo missionário representativo de Paulo, o apóstolo esperava que cada igreja local
levasse o evangelho para seu contexto e cultura, pregando para quem estava à sua volta.
Como resume David Bosch: “A diferença entre missões no exterior e no próprio país não
é uma diferença de princípio, mas de alcance”3. Ou, nas palavras de Hesselgrave, não
precisa existir dicotomia entre missões locais e transculturais, uma vez que “nossa tarefa é
tanto/quanto, e não ou/ou”4.
É estranho perceber que muitos cristãos sacrificam-se doando várias quantias em
dinheiro a empreendimentos missionários no exterior – o que, de fato, louva a Deus –,
mas não consideram a urgente necessidade de serem também missionários em sua própria
vizinhança, além da urgência de financiar também missões nacionais e locais. Você já
parou para pensar no que aconteceria se começássemos a ver nossa própria vida como um
empreendimento missionário aos que estão à nossa volta?5
É fácil falar sobre a importância de missões quando achamos que só é possível seguir
nossas próprias palavras se viajarmos para longe de todos, o que não depende
exclusivamente de nós. Uma vez que precisamos de uma igreja que nos envie,
mantenedores que nos sustentem e cursos que nos preparem, podemos elevar a prioridade
do alcance dos perdidos como quem elogia aquilo que não pode alcançar. Ao
percebermos que o campo já está ao derredor e que o único empecilho que precisa ser
transposto para nosso envolvimento evangelístico é nosso próprio pecado não temos
como simultaneamente falar sobre missões e ficar em casa fazendo nada. Amamos, de
fato, sermos confortáveis teóricos de tudo, bradando preguiçosamente nossas santificadas
proposições. O agir, no entanto, põe nossas teorias à prova, põe-nos diante da
possibilidade do fracasso e faz-nos conhecermos nossos próprios limites.
Ser fã de viagens missionárias, mas nunca ir a uma praça falar de Jesus é uma boa
evidência de que você curte mais o “oba-oba” da viagem do que a proclamação do
evangelho aos que se perdem. Falar de missões na África, na Ásia ou na Janela 10/40,
muitas vezes, não é mais que uma boa maneira de não fazer nada, de não deixar o
ministério de teatro, de continuar tendo uma namorada por ano e de não abandonar os
encontros de jovens. Abraçar os grandes sonhos evangelísticos é uma maneira comum de
manter-se limpo da poeira do caminho. Cruzamos o caminho de vários incrédulos durante
nossas vidas, mas as frequentes tragadas de ópio do distanciamento missionário justificam
e absolvem a nossa deslavada ociosidade, roubando o termo de Nelson Rodrigues – que
também falava sobre ser fácil amar a humanidade e odiar o próximo. De fato, há muita
gente apaixonada por missões que nunca abre a boca para expor o evangelho ao colega do
trabalho. Enquanto tagarelamos sobre como queremos alcançar outras nações, nós não
movemos uma palha nem tiramos uma cadeira do lugar. Se você não prega para seu
vizinho, que está perto, como quer que alguém acredite que você quer pregar para o índio
que está longe? Muitas juventudes de igreja estão compostas por jovens que recebem
aplausos fáceis por obras que nunca praticaram. Se você não prega em sua própria cidade,
o seu sonho de ser missionário em outro país não é um sonho de fato. É só uma
alucinação.
Assim como uma tocha que não passa seu fogo adiante está fadada a desaparecer,
muitos crentes estão esfriando na fé por conta de uma cosmovisão pouco missional. É
sempre muito parecido. Você foi a uma conferência impactante, leu um livro sensacional
ou viu alguma pregação chocante na internet, e um fogo ardeu no seu coração. Você
queria morrer por ele e gastar sua vida para a glória do Cordeiro. O problema é que você
não sabia como. Abrir uma igreja? Ser missionário na África? Entrar no seminário? Estas
coisas são trabalhosas e demandam tempo e recursos que não estão a sua disposição.
Você, então, espera no Senhor, e vai esperando, e esperando. Você às vezes ora sobre isso,
conversa com um e outro sobre seus sonhos, mas nunca faz muita coisa a respeito. Você
até tenta virar o fósforo um pouco de lado, na esperança de ainda ter alguma luz, mas o
palito acaba, e tudo o que você consegue é queimar a ponta dos dedos. A paixão se foi.
Se compreendêssemos que o “morrer para o Senhor” pode acontecer a dois quarteirões
de casa, encontraríamos outras tochas para propagar o nosso fogo, e um bom exercício
para nossos músculos espirituais. Existem tantas aventuras nas cidades quantas nas selvas
do Congo. Os perdidos são iguais, ainda que as línguas sejam diferentes. Pegue um
banquinho, uma Bíblia e uma apresentação profunda do evangelho e vá para as ruas
morrer pelo Deus que você diz amar.
Como um amigo plantador de igrejas colocou certa vez, se você disser que vai plantar
uma igreja na África, ainda que não te deem nenhum centavo, você conseguirá muitos
aplausos e tapinhas nas costas, como aplaudem um belo show de aventuras. Diga, porém,
que você pretende plantar uma igreja em sua cidade e muitos espalharão que você só está
querendo “abrir igreja”, fundar ministério, ficar rico, etc. É um tipo de geografia do
sagrado: amamos os confins da terra, mas odiamos Jerusalém. Payne e Marshall colocam
esta questão de uma forma útil:
A autoridade de Jesus não é limitada em qualquer aspecto. Ele é o Senhor e Mestre da minha rua,
dos meus vizinhos, do meu subúrbio, dos meus colegas de trabalho, da minha família, da minha
cidade, da minha nação – e, sim, do mundo inteiro. [...] também temos de ver o fazer discípulos
como nossa tarefa central em nossas casas, nossos bairros e nossas igrejas.6
É claro que precisamos amadurecer os crentes já convertidos e que, em um tempo de
cristianismo nominal, pregar em locais onde já existem igrejas não é uma tarefa vã. No
entanto, isso não é tudo. Nós precisamos também de uma santa angústia quanto aos povos
que nunca ouviram a Palavra do Evangelho. Precisamos ter nossos corações ardendo e
nossas noites insones, desejosos de que cada povo, cada etnia, cada grupo linguístico ouça
que Jesus Cristo é Senhor sobre tudo e sobre todos. Como podemos sentar confortáveis?
Como podemos andar sorridentes? Quem brinca durante um velório se não crianças que
ainda não entendem a gravidade da morte? A ordem de irmos por todas as nações tem
sido cumprida por vários homens, mas a seara é grande; os obreiros, pouquíssimos. Não
digo que devamos viver como ascetas, sempre de semblante caído, sem conseguir viver a
vida comum. No entanto, para a maioria de nós, falta dor e comoção – principalmente
pelo nosso pecado de sermos negligentes com a ordem de irmos aos povos ou apoiarmos
aqueles que tentam ir. No último dia, nossas mãos egoístas estarão manchadas com o
sangue de todos os povos que pereceram por anos, ou milênios, até que um enviado de
Cristo conseguisse levar-lhes a mensagem da salvação. O crescimento físico e numérico
de uma igreja precisa gerar crescimento em seu alcance missiológico: uma igreja que
cresce em recursos precisa “prolongar-se ao exterior”7.
Comentando Atos 1:8, Patrick Johnstone faz uma consideração interessante:
Ele foi estratégico! Não enfatizou uma parte da tarefa em detrimento de outra. Seus discípulos
teriam um ministério apostólico local, em Jerusalém; nacional, em toda a Judeia; étnico em seu país,
para as minorias desprezadas, como as dos samaritanos; e global, em outros países e continentes nos
confins da Terra. Também necessitamos manter esse equilíbrio. A Grande Comissão não inclui
apenas o charme do “distante, muito distante”, mas também a monotonia do evangelismo local nas
próprias ruas e locais onde os crentes moram, e nos perigosos bairros vizinhos que normalmente
procuraríamos evitar. Jesus não estava dando uma gama de alternativas para que se escolhesse uma.
Mas estava mostrando que todo cristão tem uma responsabilidade global, mesmo se o seu chamado
for para um local específico ou distante.8

Nós não podemos escolher apenas o que mais gostamos. Somos proibidos de
negligenciar missões locais em prol dos povos distantes – façamos mais destas, mas sem
negligência daquelas. Não podemos, menos ainda, deixar de lado os povos perdidos em
prol do nosso bairro. Como diz Mark Driscoll, “por que os membros de uma igreja
missional veem a si mesmos como missionários, o ministério deles vai além da igreja
local”. O resultado disso é que uma igreja verdadeiramente missional é uma igreja glocal:
“seus líderes e membros são, ao mesmo tempo, missionários locais e globais”9.

NAÇÕES RICAS E POBRES


A ordem da Grande Comissão não nos ordena ir apenas aos povos pobres, mas a todas as
etnias, indiscriminadamente. Por mais que o esquerdismo teológico e algumas vertentes
da Missão Integral façam parecer – ou declarem explicitamente – que o evangelho é
apenas ou preferencialmente aos menos favorecidos, não podemos aceitar isso em nossa
obra missionária. Locais conhecidos como superiores ou mesmo como pontos turísticos
mundiais ainda são alvos de nossa atuação cristã.
Infelizmente, somos muito viciados em enviar missionários onde o Real é valorizado e
a pobreza é maior que a nossa. Quantos missionários não ostentam o atraso econômico
dos países que lhe interessam como meio de motivar as igrejas a apoiá-los
financeiramente no alcance de tal nação? Como seria a expressão no rosto dos crentes se
nossos slides apresentassem a ponte Golden Gate ou a Torre Eiffel, ao invés das favelas
da Índia? Aposto que o número de contribuições para o Coração Missionário seria ainda
menor.
É fácil encontrar países na Europa onde metade da população se declara ateísta.
Metade! Se isso não é um campo missionário, eu não sei o que é. Um dos motivos
primordiais da ida de Francis e Edith Schaeffer para a Europa foi justamente esse. Como
podemos, então, negligenciar o envio de nossos homens e mulheres para levar Cristo a
tais terras? Precisamos vencer a tentação de julgar mal os que desejam ser missionários
no Primeiro Mundo como sendo missionários de luxo, como jocosamente se referiam a
um amigo que dedicou-se a pregar o evangelho em Israel. Cristo enviou-nos por todas as
etnias, e isso inclui as etnias mais abastadas do que a nossa. Oro por uma Igreja que
pregue aos pobres, mas não ignore os ricos.
Infelizmente, ainda que algumas igrejas locais ignorem a pregação aos mais abastados,
outras ignoram também os mais empobrecidos. Muitos têm perdido a visão de que os
paupérrimos constituem um grupo que precisa ser também alcançado pelo evangelho –
ainda que os dízimos deles sejam pouco relevantes aos caixas da comunidade. Queremos
plantar igrejas em avenidas principais, mas e as favelas? E os bairros que são centros de
prostituição e tráfico de drogas? Será que devemos contentar-nos apenas com ver
seguidores da Teologia Liberal amando aqueles que nada possuem? Conheci certo falso
mestre que, mesmo idoso, decidiu viver como um pobre entre os mais paupérrimos de
São Paulo, comendo o que eles comiam, vestindo o que eles vestiam, dormindo onde eles
dormiam, a fim de levar-lhes o evangelho e conhecer suas necessidades. E os reformados,
os fundamentalistas e todos os arautos da sã teologia, onde estão? Como disse Viv Grigg,
“nós devemos enviar comunidades de homens e mulheres, casais e solteiros, com
compromisso de viver como pobres entre os pobres para pregar o Reino e estabelecer a
igreja nessas grandes favelas”10. Oro por uma igreja que ganhe os ricos, mas não despreze
os pobres.

NAÇÕES URBANAS E RURAIS


A urbanização é uma onda de mudança cultural que tem causado mudanças drásticas no
estilo de vida da sociedade como nada na história. Em 1800, 97% da população mundial
vivia em fazendas ou aldeias com populações inferiores a cinco mil pessoas. Em 1900,
porém, 14% da população já vivia em grandes cidades. Em 1980, 40%. Em 2000, de 50 a
55% das pessoas do mundo já eram completamente urbanas. A população urbana no
Brasil tem seguido ritmo mais acelerado: 31% em 1940 e 68% em 1980. Embora a
urbanização tenha sido primeiro um fenômeno ocidental, hoje ela caminha mais rápido na
África, Ásia e América Latina. Até o ano de 2025, as Nações Unidas estimam que entre
80% e 90% da população latino-americana será urbana11. Johnstone estava certo ao dizer
que “As grandes cidades do mundo são o desafio chave para missões no novo milênio.
[...] [Elas poderiam] ser o dínamo para o crescimento do Reino”12. De fato, “existem mais
pessoas não-evangelizadas na cidade do que nas selvas!”13. Toda esquina, então, é um
ponto de pregação em potencial. Você já parou para pensar que existem praças vazias o
suficiente para que você não precise ficar de politicagem pelos púlpitos da sua
denominação?
Uma das grandes vantagens do evangelismo em grandes centros urbanos está no que eu
chamo de escoamento potencial. Você molha mais fácil o morro de terra se começar a
derramar a água no topo ao invés de na base, pois a água escoa facilmente de cima para
baixo. Começar o evangelismo, a plantação de igrejas ou a obra de missões em um grande
centro urbano faz com que a mensagem do evangelho escoe mais facilmente para as
cidadelas e vilas vizinhas, devido ao seu poder de influência e pelo tráfego constante que
vai da cidade grande para o interior. É mais fácil algo que chega à cidade influenciar os
vilarejos do que algo que acontece nos vilarejos influenciar a vida da metrópole.
Por outro lado, muitas cidades interioranas e muitos vilarejos não terão acesso ao
evangelho a menos que alguém saia de suas ruas asfaltadas para pisar na terra batida. Em
muitas cidades do Norte e do Nordeste brasileiro, um grande número de homens e
mulheres do interior só pisam na capital três ou quatro vezes na vida, geralmente por
motivos médicos. Além disso, se o número de igrejas verdadeiramente bíblicas em
grandes cidades do NO/NE já é sofrível, imagine as condições do interior. Muitos
precisam congregar-se em outras cidades só para conseguir viver em uma comunidade
minimamente saudável. Achar uma igreja local com pregação bíblica e fiel é um desafio
que poucos vencem com êxito. Quem sabe Deus não esteja chamando você para
evangelizar as pessoas longe dos confortos da cidade grande?

NAÇÕES RECEPTIVAS E NÃO-RECEPTIVAS


Uma tensão que também necessita de equilíbrio é o nosso interesse por povos que estão
sedentos pelo evangelho, como usamos em linguagem costumeira, e nações que parecem
solo árido. Algumas pessoas são ávidas por falar de Cristo aos que parecem demonstrar
algum interesse imediato pelo evangelho, mas desistem fácil de quem não lhes dá atenção
no primeiro contato. Outros, antes de tentar ganhar os que já estão demonstrando interesse
por Cristo, preferem ir às áreas mais desafiadoras e difíceis, entendendo que é assim que
Deus será mais glorificado.
Por um lado, precisamos lembrar que Jesus nos ordenou a sacudir dos pés o pó das
cidades que rejeitam o evangelho, passando para outras (Mt 10:11-15), e Paulo, quando
rejeitado pelos judeus, disse: “Esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a
ouvirão” (At 28:28). Gastar tempo demais com certos grupos enquanto outros
demonstram maior receptividade pode ser um mau uso do tempo que Deus nos deu. É
tolice gastar todo o tempo plantando em terra árida se solo adubado está à disposição para
as sementes da graça.
Por outro lado, contudo, vários anos de esforço paciente podem ser o preço necessário
para a receptividade de certo povo ou grupo. Desistir rápido nunca é a melhor maneira de
lidar com os não-responsivos. Quantos de nós não nos convertemos pela insistência de
vários anos de algum amigo ou parente que não se escusava de nos expor a mensagem de
vida eterna? Precisamos de força vinda do alto para sabermos quando é hora de pararmos
e dedicarmo-nos a outro grupo e quando é hora de continuar insistindo para que os
homens venham ao evangelho. Importante, porém, é não deixar nenhum dos dois grupos
sem a mensagem de Cristo. Que não nos acomodemos aos responsivos, mas que também
não nos limitemos ao desafio de pregar apenas para os que parecem mais difíceis.

NAÇÕES ABERTAS E FECHADAS


Muito tem se falado a respeito da Janela 10-40, a região do globo que contém o maior
número de nações fechadas ao evangelho. Jovens de várias denominações oram por esses
países e manifestam, em suas conversas, o desejo de gastarem suas vidas nesses lugares.
Existem ministérios de missões voltados exclusivamente para países que matam e
torturam os que lá se convertem a religiões diferentes da permitida pelo governo. Creio
que nem preciso falar da importância de fazermos coro aos que entregam suas vidas pela
salvação daqueles que padecem sob regimes que lhes impedem a pregação do evangelho.
Porém, podemos gozar da existência de países onde não existe perseguição religiosa,
muitos deles com um número risível de crentes e igrejas. Existem nações que também
necessitam ouvir a mensagem de Cristo, mesmo que o missionário não vá ser morto por
falar dela.
Para um exemplo prático, em Kosovo, que fica nos Bálcãs (antiga Iugoslávia), já há
algumas poucas igrejas, mas mais de 90% da população é muçulmana. Mesmo assim, há
liberdade religiosa e liberdade para se plantar igrejas. Uma necessidade gigantesca! E
ainda que o custo de vida de lá seja baixo e exista uma estrutura boa para se viver e se
educar filhos, poucos missionários brasileiros têm escolhido esse lugar para investirem
suas vidas.

ALCANCE OS POVOS SEM SAIR DE CASA: “TODAS AS NAÇÕES” EM


UM MUNDO GLOBALIZADO
Loren Cunningham conta sobre quando a JOCUM fez um trabalho evangelístico nos
jogos olímpicos de Munique, na Alemanha, em 1972. A justificativa, verbalizada pelo seu
amigo Don, tem muito a nos ensinar:
Acho que seria uma grande oportunidade para termos contato com jovens da Cortina de Ferro, e de
fora dela também, para falar-lhes sobre Jesus Cristo. Levando em conta que teremos os atletas e os
turistas que irão assistir, teremos ali um mundo em miniatura.14

Muito mais do que nos anos 70, existem vários contextos em que podemos encontrar o
mundo em miniatura. A globalização fez com que vários povos e culturas vivessem mais
próximos do que nunca antes na história. Em tempos atuais, os laços étnicos não estão
mais presos à geografia. Um exemplo desse fenômeno é a comunidade brasileira da
cidade de Framingham, nos Estados Unidos, que forma o que se conhece como enclave
étnico: uma concentração geográfica de membros de um grupo étnico que estabelecem
negócios que empregam e servem especialmente aos membros daquele grupo. O número
de comunidades transnacionais no mundo é incontável.
Cada crente brasileiro precisa conhecer sua cidade e encontrar os ambientes onde pode
ter contato com pessoas de outras nações ou culturas. Na Copa do Mundo de 2014, no
Brasil, um grande número de igrejas empreendeu evangelismos aos estrangeiros, no
intuito de que eles retornassem aos seus países de origem com a mensagem da Cruz. Só a
igreja local onde congrego distribuiu mais de 200 mil folhetos em português, espanhol e
inglês. No Ceará, alguns missionários desenvolvem trabalhos com os estudantes da
UNILAB, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. Lá,
eles estão conseguindo evangelizar africanos sem precisar ir a outros países: a economia
de tempo e recursos é impressionante. Quando os alunos voltam aos seus países de
origem, já vão com o evangelho, sendo missionários autóctones para suas próprias
culturas. No interior, nas romarias do Juazeiro do Norte há pessoas de vários países:
americanos, holandeses, suecos e muitos outros. Ir a tais ambientes faz com que o
evangelho possa chegar à Europa sem que se precise movimentar os recursos necessários
para tal. Várias cidades brasileiras possuem bairros inteiros de imigrantes.
Considerando apenas os imigrantes que vivem no Brasil há pelo menos 5 anos e com
residência fixa, o número cresceu 99,4% em dez anos. Segundo o IBGE, o total passou de
143.644 para 286.468 entre 2000 e 2010. O levantamento aponta que os migrantes de
retorno, que voltam aos seus estados de origem, somaram mais de 1,1 milhão de pessoas
entre 1995 e 2000. No período de 2005 a 2010 foi registrado um total de 1,2 milhão de
migrantes de retorno.15 Segundo Ronaldo Lindório, falando no Congresso Nordestino de
Missões (2013), em João Pessoa/PB, mais de 100 países estão representados no Brasil
pelas comunidades de imigrantes, sendo que 27 são de países fechados ao Evangelho. O
que nós estamos esperando? Paul Hiebert diz:
As cidades modernas oferecem um dos maiores desafios para as missões contemporâneas. Nelas
encontram-se pessoas que vão e vêm de todas as partes do mundo. Se seguirmos o exemplo de
Paulo e ganharmos as pessoas da cidade, o evangelho será espalhado para outras áreas urbanas, para
as regiões rurais que dependem delas e, então, para outras partes do mundo. Se Deus está no
controle da história, então deve haver um propósito nesse movimento maciço de pessoas para os
centros metropolitanos. Difundir o evangelho certamente faz parte desse objetivo.16

No seu artigo When the Nations Come to Us: A Mandate for Immigrant Outreach17,
Michael Mahoney defende que a década passada trouxe consigo uma mudança na prática
missiológica. Com o aumento da imigração e das viagens internacionais, surgiu um
potencial evangelístico que não era tão latente em décadas anteriores. Uma vez que “as
nações estão vindo a nós”18, nossas missões são radicalmente transformadas em sua
prática. Se homens e mulheres de diversas culturas vêm ao nosso país várias vezes por
ano, por períodos variados de tempo, se forem ganhos para Cristo e corretamente
ensinados e treinados, tais turistas e imigrantes podem voltar para casa “hábeis para
compartilhar o evangelho com seus amigos e membros da família”19. Mahoney diz que
“se nós respondermos evangelisticamente” à vinda das nações a nós, teremos então “a
oportunidade de criar uma geração de missionários que falam a língua [nativa] e são
completamente financiados [pelos próprios empregos], prontos para voltar para seus
próprios países com o evangelho”20.
Não podemos perder a oportunidade que Deus nos dá através da imigração. Patrick
Johnstone conta que Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim, por sua riqueza,
experimentou uma entrada bastante rápida de imigrantes vindos de toda a África
Ocidental de fala francesa. Embora essa cidade esteja em uma área de florestas, com
poucos muçulmanos nativos, mais da metade dos 4 milhões de habitantes é muçulmana
atualmente. A maioria dos imigrantes chegou sem casa e sem ajuda na cidade, totalmente
desamparados. Os muçulmanos, então, ofereceram temporariamente suas mesquitas até
que os imigrantes encontrassem algum outro lugar para viver. Johnstone conclui: “Os
cristãos estão perdendo a oportunidade porque não estão ali para ajudar esses imigrantes
na hora que precisam”21.
Um conhecido que reside na França decidiu começar um trabalho evangelístico com
estudantes na cidade universitária e turística de Montpellier. Como a forte laicidade
impedia pregações em praça pública e dentro das universidades, ele decidiu criar um
espaço em sua comunidade local para acolher os estudantes do mundo inteiro que, para
estudar nas universidades da cidade, passam pelo menos 3 anos nela. Quando estes alunos
voltam para seus países, então, já possuem as boas novas do evangelho. Um ótimo
exemplo de como aproveitar as novas ondas de imigração para propagar a mensagem do
Reino a todas as nações.

1. LIDÓRIO. Com a mão no arado, p. 40.


2. BOSCH. Missão Transformadora, p. 48.
3. BOSCH. Missão Transformadora, p. 26.
4. HESSELGRAVE. Plantar Igrejas, p. 25.
5. PATRICK. O Plantador de Igrejas, p. 291-292.
6. PAYNE; MARSHALL. The Trellis and the Vine, posição 126-131 (kindle).
7. PAPE, G. (org.). A Missão a partir da América Latina, p. 173.
8. JOHNSTONE. A Igreja é maior do que você pensa, p. 22.
9. ROBERTS JR., Bob. Transformation: How Glocal Churches Transform Lives and the World. Grand Rapids, MI:
Zondervan, 2006. Apud DRISCOLL, Mark; BRESHEARS, Gerry. Igreja Vintage: questões atemporais e métodos atuais. Niterói,
RJ: Tempo de Colheita, 2012, p. 211.
10. GRIGG, Viv. The Cry of the Urban Poor: Reaching the Slums of Today’s Megacities. Monrovia, USA: MARC
Publications, 1992, p. 19. Na segunda metade do século XVII, após a Guerra dos Trinta Anos, aristocratas não
permitiram que seus filhos fossem batizados com a mesma água que havia sido utilizada para batizar crianças
camponesas. Eu não tenho notícia de algo assim acontecendo no Brasil, mas ainda podemos melhorar muito nosso
relacionamento com os mais pobres (MULHOLLAND, Kenneth B. From Luther To Carey: Pietism and the Modern
Missionary Movement. Disponível em:
<http://www.ciu.edu/sites/default/files/Article/2010/11/From%20Luther%20To%20Carey%3A%20Pietism%20and%20
the%20Modern%20Missionary%20Movement/article327_1997_11_kennethmulholland_pdf_13626.pdf>. Acesso em:
26 fev. 2014.).
11. CARRIKER, Timóteo. A visão missionária na Bíblia: uma história de amor. Viçosa, MG: Ultimato, 2005, p. 102; HIEBERT.
O Evangelho e a Diversidade de Culturas, p. 290-291.
12. JOHNSTONE. A Igreja é Maior do que Você Pensa, p. 269.
13. HIEBERT. O Evangelho e a Diversidade de Culturas, p. 292.
14. CUNNINGHAM; ROGERS. Pode falar, Senhor... Estou ouvindo, p. 117.
15. Número de imigrantes cresceu 86,7% em dez anos no Brasil, diz IBGE. Disponível em:
<http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/04/numero-de-imigrantes-cresceu-867-em-dez-anos-no-brasil-diz-ibge.html>.
Acesso em: 20 fev. 2014. A contagem oficial divulgada pela mídia foi de 86,7%, mas isto representa um erro na
matemática da porcentagem de aumento.
16. HIEBERT. O Evangelho e a Diversidade de Culturas, p. 292.
17. In: MACARTHUR, John. Evangelism: how to share the gospel faithfully. Nashville: Thomas Nelson, 2011, p. 251-264.
Infelizmente, este capítulo foi retirado da versão traduzida para português desta obra.
18. Ibid., p. 253.
19. Ibdem.
20. Ibdem.
21. JOHNSTONE. A Igreja é Maior do que Você Pensa, p. 276.
6
ACEPÇÃO DE
PESSOAS, RACISMO E
SUPERIORIDADE ÉTNICA

Jesus, na Grande Comissão, ordena que façamos discípulos de todas as nações. Todas.
Esta ordem diz muito sobre o modo como Deus vê os povos. Ele não faz distinções, não
adiciona poréns, não dá uma lista de prioridades. Ele nos envia aos povos, todos eles, e
só. Um conceito importante que emana desta ordem é que Deus não faz acepção de
pessoas. Por mais que nós só rememoremos este ponto quando em meio a debates sobre
predestinação e livre-arbítrio, este é um verso que fala mais sobre missões do que
costumamos perceber.
O que a Escritura quer dizer quando declara que Deus não faz acepção de pessoas? Isso
significa que Deus não pode predestinar as pessoas para a salvação? Isso tem alguma
coisa a ver com o livre-arbítrio? Isso teria algo relacionado com aquele infame trocadilho,
indicando que Jeová nunca faz assepsia em ninguém? Não, não, e definitivamente, não.
Quando a Escritura fala sobre acepção de pessoas, isso sempre está relacionado a Deus
não ser parcial: Deus não faz distinção entre rico e pobre, homem e mulher, judeu ou
gentio – todos são alvos de seu amor e graça: “Pois o SENHOR [...] não faz acepção de
pessoas, [...] ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Por isso amareis o estrangeiro,
pois fostes estrangeiros na terra do Egito” (Dt 10:17-19); “[Deus] não faz acepção das
pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de
suas mãos” (Jó 34:19); “E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus
não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o
teme e faz o que é justo” (At 10:34,35); “Glória, porém, e honra e paz a qualquer que
pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; porque, para com Deus, não
há acepção de pessoas. Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão;
e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Porque os que ouvem a lei não
são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rm 2:10-
13).
Quando comecei a estudar estas passagens, eu só queria vencer os debates sobre
calvinismo e arminianismo. Eu não imaginava que este estudo influenciaria mais minha
missiologia que qualquer outra coisa. Cristo não faz acepção de pessoas, e isto fala
diretamente sobre a Grande Comissão. Somos ordenados claramente a fazer discípulos
“de todas as nações” (Mt 28:19). Para fins evangelísticos, Cristo não prefere um povo a
outro. Ele não está interessado em uma nação mais do que em outra. Ele tem autoridade
sobre todas as nações, e não faz acepção entre nenhuma delas. Não existe um povo que
Deus ame mais que outro. Não existem superioridades étnicas ou nacionais. Todos os
povos estão necessitados da pregação do evangelho e todos os povos podem ser salvos
por Deus.
No passado, muitos passaram bem distante desta verdade. Os cristãos do início dos
Estados Unidos, por exemplo, acreditavam que Deus havia abençoado seu país de forma
especial, de modo que eles eram o povo escolhido de Deus, o que levou a uma total
amálgama entre o nacionalismo e o vigor religioso. Como Hiebert resume:
Os primeiros americanos acreditavam que Deus estava do lado de seu país, tornando-o diferente dos
outros e melhor que eles. Para aqueles americanos, os objetivos de sua nação e de Deus tornaram-se
um. O colonialismo e as ações militares eram justificados como meio de evangelização do mundo.
Não é de surpreender que em muitas partes do mundo o cristianismo seja comparado ao militarismo
e ao imperialismo.1

Para um exemplo ainda mais sórdido, não faltam fontes bibliográficas (coletadas por
Hill) sobre o modo como a Inglaterra via a si mesma nos séculos XVI e XVII: como a
nação eleita de Deus, totalmente superior a todos os outros povos. Assim como o povo
eleito dos judeus que durante a maior parte de sua história esteve compreendido em dois
reinos, a Inglaterra e a Escócia eram muito frequentemente comparadas a Israel e Judá,
como narra Christopher Hill2. O povo dizia que Deus revelara todas as coisas, como
realmente são, em primeiro lugar, para os seus ingleses3. Eduardo VI orou em 1553: “Oh!
Senhor meu Deus, salve o vosso povo eleito da Inglaterra”4. Em 1559, John Aylmer, em
uma anotação de margem, disse “Deus é inglês”5. Em 1579, John Stubb afirmava que os
ingleses eram o povo eleito e que um eventual casamento de Elizabeth com um príncipe
católico equivaleria a uma hebreia casando-se com um cananita6. No ano seguinte,
Thomas Cartwright mostrava-se grato a Deus porque, “passando por tantas outras nações
[...] ele confiou na nossa nação”, a Inglaterra7. Naquele mesmo ano, John Lyly declarava
que “o Deus vivo é somente o Deus inglês”8. “Deus dá uma atenção especial à
Inglaterra”, escrevia Arise Evans em 1653. Ela diz: “Os eleitos estão apenas aqui, na
Inglaterra”9. Em 1702, Cotton Mather falava da Nova Inglaterra como uma descoberta
secreta de Deus para tornar-se a Nova Jerusalém10.
Quem pensou primeiro na Inglaterra como nação eleita? Christopher Hill diz que foram
muitos os que creditaram esse papel a John Foxe. No entanto, Foxe era, ao menos, tão
internacionalista quanto nacionalista. Outros atribuíam isso a Thomas Brightman, mas
seus escritos não eram fáceis de serem encontrados na Inglaterra até os anos 40, quando a
ideia em questão já estava bem estabelecida. Joseph Mede também era uma
impossibilidade, pois seus escritos milenaristas também não haviam sido publicados na
Inglaterra até 164011. Nenhum grande teólogo ou homem da época, sozinho, pode ter
propagado essa ideia. Tal pensamento provavelmente se propagou de forma natural e
orgânica por meio do povo, como é proposto por Hill. Henrique VIII foi o primeiro
soberano de certa relevância a romper inteiramente com Roma, por razões suas, não
inteiramente teológicas. Os primeiros propagandistas protestantes costumavam associar
Henrique VIII e Eduardo VI com o rei Josias, que destruiu os ídolos. Quando começaram
as perseguições, durante o reinado de Mary I, que era católica, a resistência épica dos
mártires, retratada dramaticamente pelo povo, deu origem a uma lenda inesquecível. A
restauração do protestantismo, sob o reinado de Elizabeth I, foi seguida por outros sinais
dos favores divinos, como a derrota da Armada Espanhola, a inesperada sucessão pacífica
de Jaime I, a união das coroas protestantes e o fracasso da Conspiração da Pólvora. Os
primeiros separatistas, a igreja secreta de Richard Fitz, em 1567-1568, havia visto a
Inglaterra como a Israel que Deus favorecera. Dessa forma, a ideia de que a Inglaterra era
a nação eleita veio com facilidade à mente dos ingleses.12
Este é um dos bons casos nos quais a história pode nos ensinar a lidar com erros do
presente. Ainda que não haja pregações de bons teólogos nacionais falando que o Brasil é
o novo Israel de Deus ou que somos um povo escolhido, existe um clima que favorece
alguma percepção desse tipo, mesmo que em nível bem inferior ao que pode ser
observado na história da Inglaterra. Vários pregadores têm vindo dos Estados Unidos e da
Europa falar sobre como o Brasil é o mais novo celeiro missionário e das maravilhas do
Sul Global como força para as missões. Alguns, mais vigorosos, têm bradado que as
missões não pertencem mais aos de cabelos loiros e olhos verdes.13 Atestarmos o quanto
Deus tem abençoado o Brasil com um verdadeiro avivamento da popularização e
aprofundamento de boa teologia como nunca antes na história de nosso país é uma coisa
que pode nos animar positivamente, fazendo com que Deus seja glorificado, mas também
pode ser perigoso para nossos corações.
Não sei dizer se o Brasil ainda é solo fértil para que noções de superioridade étnica
floresçam, mas não custa nada termos cuidado quanto a este ponto. Não faz muitos anos
que o racismo fazia parte do dia a dia da nossa população. Muitos se espantam quando
percebem que pessoas mais de idade ainda costumam falar dos garotos de axilas
malcheirosas como tendo chêro de nego, mas isso é bobagem quando comparado com o
que os idosos viram em seus tempos de juventude. Por mais que eu acredite que existe
certo exagero no protecionismo racial proposto pelo marxismo cultural brasileiro, não
posso discordar de que o ranço do racismo ainda está presente em muitas pessoas. Basta
sentarmos para conversar com os mais velhos para tremermos ante as histórias que muitos
deles têm para contar a respeito do racismo e do preconceito que ainda era pungente há
poucas décadas. Há apenas cem anos, a obra de Raymundo Nina Rodrigues, médico
formado pela Faculdade de Medicina da Bahia e estudante das culturas afro-brasileiras,
culpava as misturas raciais e culturais de nosso país por todo o atraso e desequilíbrio
social. Ao contrário do que teria acontecido nos Estados Unidos, onde a “direção suprema
da Raça Branca” foi uma garantia de civilização, nossa inferioridade persistiria por um
longo tempo, pois a raça negra no Brasil seria sempre “um dos fatos da nossa
inferioridade”, de modo que a mestiçagem presente no país acabaria “privando-o, por
longo prazo pelo menos, da direção suprema da Raça Branca”14. Tudo isso publicado
apenas cem anos atrás, e com a aprovação de boa parte dos intelectuais da época, como
Sylvio Romero e Euclides da Cunha.
Na verdade, a visão pessimista quanto às “raças”, tão presente nos pensadores da virada
do século XIX, só começou a dar sinais de enfraquecimento nas produções literárias com
o Movimento Modernista, na década de 1920 e com a interpretação inovadora de Gilberto
Freyre, em Casa Grande & Senzala. Mário de Andrade foi na mesma linha, criando o
personagem Macunaíma, em livro homônimo, um herói que reúne ao mesmo tempo as
qualidade das culturas africana, europeia e indígena. Oswald de Andrade escreveu o
Manifesto Antropofágico (que deu início ao Movimento Antropofágico), que tinha por
objetivo a “deglutição” das culturas norte americana, europeia, ameríndia, afro e
oriental15. Ainda que tais homens e seus movimentos mereçam críticas por outros
motivos, eles foram importantes para o abandono de boa parte dos pressupostos racistas
na primeira metade do século passado.
Em 1939, Ary Barroso compôs a famosa Aquarela do Brasil, que louvava a mistura de
cores da nação (“Brasil! / Meu Brasil brasileiro / Meu mulato inzoneiro / Vou cantar-te
nos meus versos...”). Na Copa do Mundo de 1950, quando a seleção brasileira perdeu o
jogo final para a seleção uruguaia, muitos jornais insinuaram que a culpa era dos
jogadores negros, como o goleiro Barbosa e o lateral Bigode – situação esta que só foi
inverter-se nos mundiais de 1958 e 1962, quando a seleção foi campeã graças a jogadores
negros e mestiços, como Pelé, Garrincha, Didi, Djalma Santos e Zózimo16.
Hoje, o racismo declarado contra negros é algo muito mais comedido – e eu arrisco
dizer, considerando as proporções populacionais, quase inexistente. Quando aparece
algum idiota mal-amado postando frases racistas ou bairristas em redes sociais, o povo
brasileiro, em massa, detona o infeliz. Processos sem fim são acionados, a mídia aberta
faz reportagens a respeito e o bocó racista acaba sendo achincalhado até na porta de casa.
Isso revela que o racismo já é visto com péssimos olhos pela grande maioria da sociedade
brasileira. Ninguém consegue expor ser favorável a alguma superioridade étnica sem
quase apanhar na rua. Como disse alguém, uma sociedade em que a maioria das
acusações de racismo é contra humoristas é, com toda evidência, uma sociedade sem
racismo praticamente nenhum. Existe, no entanto, certo histerismo por parte de
movimentos sociais a respeito deste assunto. Como disse certo filósofo:
Os esforços devotados de intelectuais e da mídia para provar que o Brasil é um país racista seriam
desnecessário se o Brasil fosse racista. Ninguém teve de provar cientificamente o racismo da África
do Sul. Quando a prova tem de ser obtida mediante contorcionismos estatístico, o que fica provado
é apenas o desejo incontido que uma certa elite tem de produzir, desde cima, um conflito racial que
jamais brotaria de baixo, espontaneamente, como de fato não brotou.17

Por outro lado, porém, é óbvio que ainda existe racismo no Brasil, mesmo que em
quantidade e intensidade muitíssimo inferiores às que houve em anos passados. Se o
racismo não existisse, não haveria quem fosse achincalhado por isso. Que não sejamos
irresponsáveis. Não podemos negar que existem, mesmo que calados pela evolução de
nossa sociedade, homens e mulheres que creem na própria superioridade étnica. É triste
constatarmos que as ideias de Joseph Arthur de Gobineau, expostas em seu Ensaio Sobre
a Desigualdade das Raças Humanas, de 1853, ainda permeiam o pensamento social de
alguns membros da igreja brasileira. Eu, pelo menos, conheço cristãos devotos que são
declaradamente racistas. Alguns deles frequentam os mesmos ambientes que eu. Quer
queiramos, quer não, há muitos que creem em hierarquias de raças e acham que a
miscigenação pode levar ao colapso da civilização, como propunha o supracitado filósofo
francês. Claro que nossos gostos estéticos são formulados pela nossa criação e pela nossa
cultura, e é certo que alguns povos possuem certos atrasos acadêmicos e sociais, mas
nossa visão a respeito de outras culturas vai muito além de uma mera constatação das
dificuldades nacionais ou de gostos estéticos pessoais. Quando a esposa de um
missionário americano aconselha suas filhas a não casarem-se com brasileiros, pois eles
são todos vagabundos, ela não está evidenciando um conceito de superioridade da raça?
Quando um missionário brasileiro volta do campo deixando claro que não deixa seus
filhos brincarem com as crianças nativas, não é desrespeito étnico que está sendo
demonstrado? Ouvi o relato de um casal que, preparando-se para o campo missionário,
questionou seus pastores: “Mas nossos filhos não vão ter que se misturar, não é?”. Em
outros momentos, vi missionários de volta do campo se referindo aos nativos em termos
depreciativos. Nada mais deplorável.
Não estou dizendo que precisamos casar nossas filhas à força com os nativos ou que
precisamos gostar até dos defeitos das nações que tentamos trazer a Cristo, mas existe
muito preconceito em meio às missões transculturais. Apesar de não o demonstrarem de
modo público, muitos missionários são verdadeiros sacerdotes do racismo. O pior de
tudo, porém, é que o racismo se retroalimenta, de modo que quando um missionário vê
como inferior o povo com o qual está se relacionando, o povo há de perceber tal coisa –
pois ninguém consegue esconder suas discriminações o tempo todo por muito tempo – e
vai se vingar, nem que seja de modo inconsciente. Claro que o racismo pode também ser
oriundo da etnia receptora dos missionários, e não um efeito colateral de seus atos. Mas
quando seus filhos voltarem para casa chorando pelo desprezo das crianças nativas – o
que oramos para que nunca aconteça –, alguma meditação precisa ser feita para analisar
se isso não é o fruto de uma raiz podre, cuja semente foi lançada por eles mesmos. Espero
que os filhos de missionários brasileiros não escrevam algo parecido com as palavras de
John Lie, coreano que sofreu preconceito no Japão quando criança: “As surras
machucavam”, ele disse, “mas o trauma psicológico resultante da exclusão social por
parte de meus colegas machucava muito mais”18.
Rhiannon Lloyd testemunha sobre o tempo em que ministrou uma série de palestras na
África do Sul. Conversando com os moradores, ela ouviu os zulus dizerem que Deus “é o
Deus dos opressores, e favorece os brancos. As igrejas tinham uma placa dizendo
‘proibida a entrada de cães e negros’”. Os mestiços perguntaram: “ele queria que nós
existíssemos ou somos um erro?”. Os índios afirmaram que “Deus não gosta de índios –
por isso nos ocidentalizamos para sermos aceitáveis a ele”. Os africânderes (descendentes
de holandeses) mantiveram sua convicção de que “ele é o Deus da Antiga Aliança, e nós
somos o povo escolhido”. Os ingleses disseram “Deus é um inglês!”19. A ideia de que
Deus tem uma raça ou um povo escolhido não é um erro da antiga Inglaterra, mas algo
presente em muitos campos missionários – ainda existem países que chamam o
cristianismo de “religião dos ocidentais”20. Bruce Nicholls testemunha:
A imagem do cristianismo como uma religião estrangeira, ocidental, exclusiva de homens brancos,
é hoje um dos obstáculos mais sérios à evangelização eficaz na África e na Ásia. O islamismo na
África tem procurado fomentar essa imagem do cristianismo e apresentar sua própria imagem como
uma religião dos negros, algo que pertence à África.21

Nos dias atuais, não é difícil observarmos um tipo de racismo às avessas. Alguns
exemplos são comuns. Segundo Lula, em declaração pública, a crise no Brasil não se deu
“por nenhum negro, por nenhum índio [e] por nenhum pobre”, mas foi “causada,
fomentada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis”22. Oras, se
irracionalmente culpar apenas pessoas de uma cor de pele e uma cor de olhos por algo
que não é culpa só deles não é uma manifestação clara de racismo, eu não sei mais o que
isso é. Lula não é o único exemplo, infelizmente. A ministra Matilde Ribeiro, titular da
Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, considera natural a
discriminação dos negros contra os brancos. Ela diz que “não é racismo quando um negro
se insurge contra um branco”23. Paulo Nogueira, criticando também o Pelé por ter
namorado a Xuxa, diz que Joaquim Barbosa, na época presidente do STF, namorava uma
branca por falta de consciência, alienação, deslumbramento, compensação e alpinismo
social, ignorando completamente a possibilidade da atração física e emocional pelo
simples fato de um negro estar com uma branca24. Como não considerar isso como
praticamente uma proibição do casamento misto, um verdadeiro apartheid matrimonial?
Todos nós já ouvimos falar da Ku Klux Klan (KKK), o nome dado a várias
organizações racistas dos Estados Unidos que apoiam a supremacia branca. Porém,
poucos sabem quem são os Panteras Negras, um grupo americano de racismo contra os
brancos, em uma versão negra da KKK. Para termos uma ideia do nível da coisa, basta
observarmos algumas declarações de Samir Shabazz, líder do grupo, em 2012, em seu
programa de rádio:
Qualquer filme que começar com a morte de um branco, eu estou feito. Como eu disse, eu amo
crimes contra brancos, porque são os melhores crimes, nós vamos dizer “Black Power” para esses
crimes. Você entendeu? Eu amo pessoas negras, e eu odeio a droga dos homens brancos: mulheres e
crianças, avós e tios, tias, a m**** que for. Eu odeio o homem branco. Eu odeio o olhar das pessoas
brancas. Eu odeio o som das pessoas brancas. M****, eu odeio o cheiro das pessoas brancas. Eu
odeio a opressão das pessoas brancas, [...] eu odeio esses brancos de m**** por tudo que eles
fizeram a nós.25

Esses são só alguns exemplos. Embora esse tipo de ideal esteja longe do povo
brasileiro, os movimentos de engenharia social, ligados a grupos de esquerda e
departamentos universitários têm se dedicado a inculcar tal consciência na cabeça do
cidadão brasileiro. Como nós podemos reagir a esse tipo de atitude? A mensagem da
Grande Comissão já nos é suficiente para repensarmos o modo como nos relacionamos
com as variedades étnicas. Uma vez que o evangelho fala de Deus escolhendo pessoas de
toda tribo, língua e nação, então o próprio evangelho é a melhor arma contra o
pensamento racista. O evangelho é daltônico: ele não vê a cor de pele. Quando Kalonda,
chefe dos Kangate, que ficavam ao lado oeste de Babindl, no Congo Central, pediu ao
missionário: “– Fale-me sobre o Deus do homem branco”, a resposta de Paul Long foi
deveras satisfatória: “– O Deus que eu sigo não é o Deus de um homem branco. Ele é o
Pai da Nova Tribo, seu povo. Jesus Cristo é o grande Chefe da Nova Tribo e ele aceita
qualquer um que quiser segui-lo”26.
O crente precisa ter em mente que Jesus não apoia nenhum tipo de Führer que tenta
estabelecer seu povo sobre os outros povos, sua cor de pele sobre as outras cores de pele
ou sua língua sobre a língua dos outros. Comentando a história de Rute e sua inclusão na
genealogia do Messias, John Piper diz:
Deus não estaria nos mostrando que seu coração é para as nações – todas as nações? A glória de
Cristo é que ele veio dentre as nações e morreu pelas nações. Seu sangue foi derramado pelas
nações, e o sangue das nações corria em suas veias. [...] Todos os impulsos etnocêntricos e racistas
são crucificados em Cristo.27

Piper chama nossa atenção para o fato de que, se lermos o livro de Rute de trás para
frente, sabendo de sua conclusão e de seu motivo de ser antes de saber como chegaremos
ao corolário final, ficaremos surpreendidos com que toda a história do livro seja
construída exatamente para incluir uma mulher moabita na linhagem de Davi e do
Messias. Tal intencionalidade é muito bem retratada em Mateus 1:5, em que Rute é uma
das quatro mulheres mencionadas na genealogia de Jesus28. Quando lemos as origens de
Cristo, encontramos não poucos gentios como ascendência do Messias. Rute era uma
moabita, Raabe era uma prostituta cananeia, Tamar era uma habitante comum de Adulão
na terra de Canaã e Bate-Seba era esposa de um hitita. O que Deus fez ao guiar toda a
história de modo a ter mulheres gentílicas na genealogia do Messias foi “plantar a
dinamite que explodiria as fortalezas do etnocentrismo e do racismo”29. Assim como o
sangue que corria nas veias de Cristo era inseparavelmente judeu e gentio, foi derramado
sangue inseparavelmente judeu e gentio para o resgate de judeus e gentios, não de modo
separado, mas como um só povo, salvos por um só sangue – sangue que não era nem
judeu, nem gentio, nem parte judeu, parte gentio, mas sangue multiétnico como um todo.
As missões transculturais são instrumento de transformação social. Ainda que nosso foco
principal seja o discipulado, uma vez que a Grande Comissão possui aspectos
evidentemente contraculturais às sociedades discriminatórias, cumprir tal mandamento
será instrumento de Deus para o bem do mundo. “Missão é a resposta de Deus para
inimizades étnicas, pois é apenas com a pregação do Evangelho que as paredes divisórias
da hostilidade são demolidas”30, como diz Johnstone.
Certa feita, durante um de seus sermões, a família de Jesus tentou entrar em contato
com ele. Alguém que estava ouvindo o discurso do Cristo avisou ao Mestre: “Eis que
estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te” (Mt 12:47). Jesus, porém,
respondeu ao homem com palavras escandalosas: “Quem é minha mãe? E quem são meus
irmãos?” (v. 48). Então, apontando para seus discípulos, completou: “Eis aqui minha mãe
e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é
meu irmão, e irmã e mãe” (Mt 12:49,50). Aqueles que seguem a Cristo, não importando
quem são, são mais nossos irmãos do que aqueles que cresceram ao nosso lado, filhos da
mesma mãe. Com resume Piper: “Um seguidor de Cristo de qualquer grupo étnico é
parente mais próximo de nós do que qualquer parente de sangue que rejeite o Salvador”31.
Como diz Miroslav Volf, evocando a forma da Declaração de Barmen:
Todas as igrejas de Jesus Cristo, espalhadas em diversas culturas, foram redimidas para Deus, pelo
sangue do Cordeiro, para formar uma comunidade multicultural de fé. O “sangue” que as liga como
irmãos e irmãs é mais precioso que o “sangue”, a língua, costumes, lealdades políticas ou interesses
econômicos que as possam separar. Rejeitamos a falsa doutrina de que uma igreja devesse ser leal à
cultura na qual habita e à nação a que pertence acima do compromisso com irmãos e irmãs de outras
culturas e nações, servos do único Jesus Cristo, seu Senhor comum, e membros da nova
comunidade de Deus.32

A multietnicidade da igreja é um testemunho sociológico ao mundo da veracidade do


cristianismo, pois nenhuma estrutura do mundo pode unir pessoas tão diferentes por uma
causa comum e fazê-las viverem em perfeita unidade, apesar de suas diferenças. Cristo
mesmo disse que nosso amor uns pelos outros seria uma prova de que Cristo foi enviado
pelo Pai (Jo 17:20-24). Certo autor foi muito lúcido ao comentar sobre igrejas voltadas
apenas a um grupo social: “Perpetuar a segregação em favor do crescimento numérico,
sob pretexto de que as igrejas segregadas crescem mais depressa, para mim é capitular
diante da pecaminosidade da sociedade, é recusar-se a mostrar uma nova e singular
maneira de vida”33. Bosch escreve que
a Igreja é uma, indivisível, e transcende todas as diferenças. O sociologicamente impossível [...] é
teologicamente possível [...]. [...] a diversidade cultural não deveria de modo algum militar contra a
unidade da Igreja. Tal diversidade de fato deveria servir à unidade, assim dizendo respeito ao bem-
estar da Igreja, enquanto a unidade é parte de seu ser.34

Para a fé cristã, nenhuma cultura é superior à outra per si35. Claro que existem pontos e
práticas de um ou outro povo que são melhores, moral ou pragmaticamente, mas Deus
não cobra mudanças étnicas junto com a conversão. Muitas comunidades cristãs são
tentadas a relacionar o evangelho com sua própria cultura em termos absolutos, tornando
as boas novas estrangeiras a outras culturas e fazendo com que praticamente precisemos
chamar as pessoas a se converterem ao nosso padrão cultural para que se tornem cristãs36.
O historiador Justo González, por exemplo, passou por várias crises de fé por não
conseguir vencer a amálgama que os primeiros missionários criaram ao expor o
evangelho em sua nação. Ele diz que na sua escola
não faltavam professores que diziam que o protestantismo era instrumento do imperialismo ianque,
o qual o utilizava para enfraquecer nossa cultura e, assim, torná-la mais maleável a seus desígnios
[...] Seria possível ser evangélico plenamente, tão evangélico quanto qualquer um dos missionários
que vinham da América do Norte, e ao mesmo tempo ser plenamente latino-americano, tão latino-
americano quanto qualquer um? [...] Por um lado, eu queria ser genuína e plenamente latino-
americano. Mas também era e queria ser evangélico, o que parecia estar irremediavelmente ligado a
uma cultura estrangeira.37

Tais professores eram adeptos de teorias da conspiração? Infelizmente, não. Como


González diz em outra obra:
Ao longo dos séculos, e até o dia de hoje, muitos cristãos fizeram uso, e ainda o fazem, das palavras
de Jesus [na Grande Comissão] para propósitos imperialistas ou lucrativos. Cristãos que, tomando o
mandato missionário como índice de sua própria superioridade, e, com esse sentido estabelecido,
têm destruído culturas e civilizações, estabelecido e defendido regimes despóticos, recorrido às
armas para forçar os mais fracos a crer e justificado o injustificável. Tais desmandos nem sempre
foram cometidos por hipócritas que simplesmente desejavam aproveitar-se da fé cristã. Também
foram cometidos por cristãos sinceros, convencidos de que a expansão de sua fé justificava suas
ações e que com isso serviam a Deus. Convencidos da verdade de sua fé, muitos creram que isso
também era índice da superioridade de sua cultura e, com esse sentido de superioridade, destruíram
nações, violando identidades e oprimindo indefesos.38

É triste saber que tal tipo de crise é frequente em muitas culturas que sofrem devido ao
fato de a fé cristã ter sido confundida com culturas e etnias específicas. No Brasil,
conheço jovens que quase chegaram ao suicídio porque precisavam vestir-se de modos
ligados à cultura europeia e americana, a fim de não serem disciplinados por seus
pastores. Nas palavras de Paul Hiebert, precisamos compreender o mais rápido possível
que o evangelho não é parte de nenhuma cultura específica. O evangelho não pode ser
europeu ou norte-americano, porque tais culturas surgiram mais tarde na história. Ainda
que, de alguma forma, possamos dizer que o evangelho está ligado à cultura judaica da
época neotestamentária, a questão levantada pelos gentios convertidos no livro de Atos
nos deixa claro que ninguém deve tornar-se judeu para tornar-se cristãos. Embora o
evangelho tenha sido entregue, a princípio, dentro do contexto da cultura judaica e deva
ser compreendido dentro desse contexto, as boas novas de salvação representam uma
mensagem entregue dentro daquela cultura, não estando limitado a ela39.
Deus não é um Deus tribal, e sim o Deus do mundo; [...] o evangelho é para todos; [...] a igreja é um
corpo que transpõe as barreiras da etnia, da classe social e do nacionalismo [...]. A igreja também é
chamada para ser um corpo de cristãos que transcenda as diferenças de raça e cultura por meio da
criação de uma nova humanidade. Pode haver diferentes idiomas, mas só há um evangelho. Pode
haver muitas formas de louvor, mas há um só Deus. Pode haver ambientes culturais diferentes, mas
só há uma Igreja.40

Como diz o documento Lumen Gentium (Luz dos Gentios) do Concílio Vaticano II, a
Igreja de Cristo é o instrumento “da unidade de todo gênero humano”41. Apenas na igreja
as várias diferenças humanas podem conviver unidas em amor. Como os ímpios querem
receber os efeitos benéficos do evangelho ao mesmo tempo em que rejeitam o próprio
evangelho, muitos crentes usam meios carnais para suplantar as barreiras étnicas e
sociais, tentando diminuir atributos que de fato nos definem. Quando um grupo de
muçulmanos radicais lançou os ataques contra o World Trade Center, em 2001, o jornal
francês Le Monde publicou uma famosa manchete, intitulada: “Somos todos
americanos”42. Por sua vez, encerrando a narração da história dos 33 mineiros chilenos
que foram resgatados do desabamento da mina de San José, Jonathan Franklin declara,
comoventemente: “Somos todos chilenos”43, referindo-se aos esforços empregados por
países de todo o mundo no resgate daqueles homens. Quando o jogador Daniel Alves foi
alvo de ato racista em jogo do Campeonato Espanhol em abril de 2014, quando lhe
jogaram uma banana durante a cobrança de um escanteio, as redes sociais foram
inundadas com declarações de que “somos todos macacos” – não necessariamente em
uma defesa da teoria darwinista, mas em uma declaração de empatia com a cor negra.
Por mais comovente que seja perceber o interesse de alguns em louvar a suplantação
das barreiras étnicas, não amadureceremos no nosso relacionamento inter-racial
desprezando a existência de povos distintos. Vale considerar que há toda uma tendência
na história cultura do século XX, principalmente entre as vertentes políticas e ideológicas
ligadas à socialdemocracia, que atribui à diversidade cultural e política o posto invejável
de problema número um da humanidade. A ideia de um governo mundial baseado no
controle progressivo da ONU sobre os estados nacionais, tanto pela via jurídica quanto
pela cultural, se fundamenta justamente na maneira como a esquerda moderada (isto é,
não subserviente aos soviéticos e chineses) interpretou os fenômenos políticos do século
XX, em especial as atuações do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães
(“nazismo”) e os fascismos de forma geral: concluiu-se que o nacionalismo é um
problema em si, e fonte de conflitos desnecessários. Para haver paz, prosperidade e
interações construtivas é necessário que as pessoas deixem de ver a si mesmas como
brasileiras, americanas, alemãs etc. e se vejam como cidadãos do mundo. É um esforço de
unidade sem Cristo que não tem como dar certo, pois só sob essa Cabeça é que podemos
manter nossa individualidade como membros. Todo esforço de unidade sem Cristo
termina por suprimir a diversidade.
Nossas diferenças raciais, étnicas e culturais não devem ser ignoradas, mas sim vistas
sob a perspectiva correta e louvadas como frutos da riqueza da manifestação criativa do
Soberano. Deus é a origem de todos os homens, e todos procedemos de Adão e Eva,
nossos ancestrais comuns. Adicionar uma visão correta da Criação à nossa cosmovisão
isenta-nos de tentar levantar subsídios bobos para a unidade dos povos. Já existe uma
unidade que transcende nossa diversidade. Não somos todos americanos ou chilenos:
nossas diferenças existem e não somos aquilo que não somos. O que somos, de fato, é
criaturas de Deus. Em um sentido, Jeová é Pai de todos, sendo a origem de cada homem e
mulher de cada povo e etnia. Como ser racistas, então, se somos todos da mesma raça, a
raça humana, somos todos filhos do mesmo pai comum, o pai Adão, e criados pelo
mesmo Deus, o Soberano Senhor? Decerto, podemos gozar a certeza de que o evangelho
sempre será a melhor ferramenta contra todo e qualquer o racismo.44

AS BENÇÃOS DA MULTIETNICIDADE
Quando temos, mesmo apenas em nível mundial, uma igreja multiculturalizada,
multiétnica, multiambientalizada e multissocializada, onde pessoas de várias culturas,
etnias, ambientes e classes sociais estão vivendo a mesma fé, de acordo com as Leis do
mesmo Senhor e estudando o mesmo Livro, muitas vantagens e bênçãos práticas podem
ser colhidas, muito mais do que haveria se o cristianismo fosse uma religião tribal, ou
apenas de determinada classe social ou de determinado povo.
Uma igreja formada por homens e mulheres de todos os povos possui vantagens
teológicas avassaladoras quando comparada com religiões de elites ou de determinados
povos. Com mais tipos de pessoas, mais tipos de perguntas são feitas, mais tipos de
conflitos se estabelecem e mais respostas precisam ser formuladas. O potencial de avanço
teológico da igreja cresce exponencialmente à medida que novos povos vão sendo salvos
e tendo a mente cativa ao conhecimento de Cristo. Quando o caso Bakke foi apresentado
na Suprema Corte dos Estados Unidos, a Universidade de Harvard enviou uma súmula de
arrazoados defendendo a ação afirmativa em termos que, mesmo duvidosos em questão
de educação, são verdadeiros se relacionados às missões:
Um jovem fazendeiro de Idaho pode trazer para a Universidade de Harvard algo que um estudante
de Boston não tem como oferecer. Da mesma forma, um estudante negro com frequência traz um
aporte que um branco não pode oferecer. A qualidade da experiência educacional de todos os alunos
da Universidade de Harvard depende, em parte, dessa diversidade de antecedentes e expectativas
que os estudantes trazem consigo.45

A história eclesiástica confirma este argumento. A igreja do oriente e igreja do


ocidente, pelos seus próprios modos de pensar, produziram contribuições diferentes para
o pensamento teológico. Enquanto aquela sempre foi mais voltada a formular respostas a
questões mais filosóficas e abstratas, esta deteve-se a produzir sobre temas mais palpáveis
e práticos. Existem problemas urgentes para os africanos que nunca seriam respondidos
pelos brasileiros. Há várias questões teológicas e práticas urgentes para a igreja brasileira
que nunca recebeu o trato necessário pelos americanos. Existem questionamentos
teológicos que só achei em meio aos presidiários, mas nunca em meio aos estudantes.
Ouvi muitas perguntas que só tinham relevância em meio aos idosos, mas que pareciam
irrelevantes aos adolescentes. Hiebert concorda:
Nem todas as culturas são capazes de expressar o âmago do evangelho, mas cada uma também traz
à luz certos aspectos salientes do evangelho que têm permanecido menos visíveis ou mesmo
escondidos em outras culturas. As igrejas em culturas diferentes podem-nos ajudar a entender os
vários lados da sabedoria de Deus, servindo por sua vez como canais para o entendimento de
diferentes facetas da revelação divina, verdade que uma teologia amarrada a uma cultura em
particular pode facilmente desprezar.46

O católico romano Carlos Pape pergunta retoricamente sobre “que riquezas culturais a
alma do Oriente e a alma da África negra poderão trazer ao cristianismo”, e “como
interpretarão os povos oceânicos o conteúdo da fé”47. Ele continua dizendo que os gregos
contribuíram nos ensinando o valor da pessoa; os judeus, o valor da fé; os germanos, o
valor da racionalidade e da liberdade; os eslavos, o valor da interioridade. Dessa forma,
quantas ênfases úteis o contato do evangelho com os povos ainda não alcançados não
poderiam surgir em tempo oportuno?48
Uma igreja formada por homens e mulheres de todos os povos possui mais motivos
pelos quais orar e mais perspectivas diante de Deus em oração. Orações respondidas aos
africanos que nunca seriam nem cogitadas pelos irlandeses ajudam a edificar a fé de todos
os que recebem notícia da intervenção divina. Assim, Deus é mais glorificado pela
possibilidade de servir seu povo em uma gama muito maior de anseios e necessidades que
uma religião tribal nunca possuiria.
Uma igreja formada por homens e mulheres de todos os povos tem várias realidades
diferentes, de modo que as dificuldades específicas de uma ala da igreja nos geram
oportunidades de empatia e serviço cristão a outros irmãos em dificuldades com que não
estamos acostumados. Tornamo-nos, então, uma igreja mais serva e ajudadora, já que
somos constantemente desafiados a sair da rotina e nos envolvermos em áreas nas quais
não estamos acostumados, crescendo, assim, em nosso amor ao próximo.
Uma igreja multinacionalizada dá-nos a benção de podermos perceber as falhas de
outros grupos de forma que uma igreja meramente nacional nunca poderia. Muitos crentes
chineses, quando em igrejas ocidentais, percebem falhas estruturais em nosso cristianismo
que, por estarmos assim acostumados, nunca passariam pela nossa cabeça. Quanto mais
pontos de vista diferentes, mais ajuda temos para vencermos nossos pecados como Igreja.
É na multidão de conselhos que existe segurança (Pv 11:14). Vencermos o racismo e
qualquer partidarismo social não só dará mais glórias ao nome do Senhor, mas também
edificará a Igreja de formas que poucas coisas poderão fazer.

TRADUÇÕES DA BÍBLIA (E UMA PEQUENA PALAVRA SOBRE A


QUESTÃO INDÍGENA)
Se devemos fazer discípulos de todas as nações, devemos levar a Bíblia para as línguas de
todas as nações. Tal pensamento é um interesse antigo. Úlfilas, no século IV, traduziu a
Bíblia para a linguagem nativa dos Godos, um idioma não escrito para o qual ele teve que
criar um alfabeto. Ele foi provavelmente o primeiro ou segundo exemplo do que ocorreu
desde então com centenas de línguas – sua conversão em escrita feita por missionários
cristãos e a tradução, por esse meio, de partes ou de toda a Escritura49. Para Willian
Carey, a tradução da Bíblia era tão importante que se tornou o principal impulso de seu
trabalho missionário. Ele quis deixar os alicerces para igrejas hindus fortes que viriam
através do trabalho de seus sucessores missionários. O impacto da tradução da Bíblia é
mostrado pelo trabalho pioneiro da London Missionary Society, em Madagascar. A LMS
deu prioridade máxima à tradução do Novo Testamento para o Malgaxe. Logo depois,
uma terrível perseguição surgiu por parte da rainha Ranavalona. Os missionários foram
expulsos. Apesar de tudo, a igreja sobreviveu e multiplicou-se50.
Em Atos 2, no Pentecostes, os povos ouviram as grandezas de Deus em suas próprias
línguas, não no aramaico dos pregadores. É certo que podemos afirmar que o cristianismo
não possui uma língua oficial, como o árabe dos muçulmanos ou o latim dos católicos.
Uma tradução do Alcorão não é o Alcorão, mas só uma tradução dele. Uma boa tradução
da Bíblia, porém, é de fato a Palavra de Deus quando transmite corretamente o conteúdo
dos originais. Ao converterem-se ao Islã, muitos precisam aprender o árabe. O
Cristianismo, porém, não é assim. Como diz a famosa frase de Lamin Sanneh: “A língua
original do cristianismo é a tradução”51.
Alguns grupos, quando percebem o esforço financeiro e pessoal que é despedido para
traduzir a Bíblia para um povo, pensam se não seria mais útil simplesmente deixar que
alguns grupos linguísticos acabassem, a fim de traduzir a Bíblia para grupos étnicos
maiores. Gastar 20 anos da vida traduzindo as Escrituras para uma língua que só possui
50 falantes parece algo contraproducente e até tolo. Tal questionamento, porém, ignora
que fazer missões não diz respeito a salvar o maior número de pessoas, simplesmente,
mas sim sobre o nome de Deus ser glorificado pela maior diversidade possível de povos
salvos. Dessa forma, como Cristo tem o interesse em ser glorificado durante toda a
eternidade por gente do máximo de línguas, povos e etnias possível, quando deixamos
que um grupo étnico desapareça, estamos, de alguma forma, diminuindo a glória que
Cristo receberia para sempre. Como vimos no primeiro volume desta série, a glória
ontológica de Deus, relacionada ao seu próprio ser e caráter, nunca aumenta ou diminui,
mas a glória que lhe é atribuída pela Criação aumenta e diminui na medida que suas
criaturas lhe atribuem ou não. Desta forma, aquele que se entrega para salvar grupos
étnicos minúsculos está se entregando para que Jesus receba cada vez mais glória pelos
séculos dos séculos. Assim sendo, a igreja deve estar empenhada em proteger os povos
que caminham para a extinção, lutando para que eles estejam diante de Deus em
adoração, e não excluídos da benção do Cordeiro.
Isso nos diz algo a respeito do modo como o crente brasileiro deve ver a questão
indígena. Obviamente, a Grande Comissão nada diz com respeito aos detalhes deste
embate, mas diz que a Igreja deve lutar pela existência e continuidade dos mais variados
grupos étnicos. Em caso de fagocitose cultural, em que a cultura maior engole a menor, a
preservação da língua e a documentação da cultura menor são fundamentais para que o
grupo étnico continue existindo como tal, mesmo se for incluído na sociedade maior, com
plenos direitos e deveres como cidadão.
Claro que, se determinada tribo voluntariamente desejar abandonar seus hábitos
rudimentares a fim de beneficiar-se dos avanços tecnológicos nacionais, não é papel nem
da Igreja nem do Estado intrometer-se nas mudanças culturais daquele povo. Não é papel
nosso evitar o avanço social por mero protecionismo paternalista52. Além disso, cada
membro de um grupo étnico possui, individualmente, o direito de escolher se deseja ou
não seguir suas tradições culturais e linguísticas. Apresentá-los a outras culturas e
permitir-lhes inter-relacionar-se com o que lhes parecer mais vantajoso é um ato de
bondade, por mais que os multiculturalistas vejam isso como um tipo de assassinato
direitista. O respeito pela cultura do outro não deve dar base para nenhum confinamento
indígena, tão presente no Brasil e tão proposto pelos zoólogos humanos de nossa nação.53
Além do mais, muitos grupos étnicos possuem práticas e aspectos culturais fortemente
ligados ao paganismo, animismo e outras cosmovisões não-cristãs que acabariam sendo
modificados com a pregação do evangelho. Certo amigo lembrou-me de que na Idade
Média, a Igreja Católica Apostólica Romana tentou alcançar as nações usando o modelo
de conquistar e preservar a cultura, mas acabou descobrindo que sua mensagem começou
a ser sincretizada com as religiões locais. Dessa forma, fica muito difícil falar em
preservação total da cultura indígena, uma vez que o próprio evangelho seria um fator
modificador dela. Não defendo o protecionismo atual que vemos sendo infligido sobre as
comunidades indígenas e muito menos a destruição de suas culturas, mas sim que é papel
da igreja zelar para que tais grupos étnicos continuem existindo, quer inseridos quer não
na sociedade maior. O crente que deseja ver Deus receber o máximo de glória por toda a
eternidade lutará pela preservação dos variados grupos étnicos, com sua cultura e
estruturas linguísticas.
De que forma, então, poderíamos caminhar corretamente sobre o fio da navalha que
separa a proteção étnica e o protecionismo exacerbado? A tradução da Escritura pode ser
uma boa resposta. Muitos concordam que se houvesse uma tradução bíblica nas línguas
berberes do Norte da África, o surpreendente desaparecimento da Grande Igreja Norte
Africana, que ocorreu entre a chegada do Islã em 698 e o século XII, poderia ter sido
evitado. O mesmo também se aplica aos povos núbios, antigos habitantes da parte
superior do Nilo, que sucumbiram ao Islã após 1500 anos de fé cristã: as Sagradas
Escrituras nunca foram traduzidas para as línguas núbias54. De fato, é praticamente
impossível conceber uma igreja forte em um povo que não tenha a Bíblia traduzida para
sua própria língua – e mais, é praticamente impossível conceber uma sociedade que dure
pelas eras sem que haja literaturas que preservem as tradições linguísticas de seu povo.
Graças a Deus, as associações missionárias brasileiras podem orgulhar-se
positivamente de sua boa atuação. Em nota, a Associação Nacional de Juristas
Evangélicos diz que “a atuação missionária nas áreas indígenas brasileiras está
historicamente associada à preservação física, social, cultural e linguística desses povos”,
de forma que as ações evangélicas “nas áreas de saúde, educação, subsistência e
preservação linguístico-cultural dos povos indígenas” possui o “reconhecimento do
próprio órgão indigenista oficial, primeiro SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e
posteriormente FUNAI (Fundação Nacional do Índio)”. E continua:
Assim também, na área acadêmica, nossas agências, através de um trabalho meticuloso e abalizado,
metodológica e cientificamente, produziram, nos últimos anos, mais de 600 materiais de cunho
acadêmico-educacional sobre línguas indígenas de povos originários brasileiros, preservando-se,
assim, importante acervo memorial e cultural da nossa nação. Nesse sentido, é de se ressaltar,
também, que as ortografias indígenas que hoje estão em uso foram, majoritariamente, desenvolvidas
por instituições missionárias, num esforço intelectual que, de longe, supera projetos de extensão
acadêmica levados a cabo, com amplo financiamento, em universidade públicas federais ou
estaduais, por exemplo.55

“Se Deus nos ama, porque não fala a nossa língua?”. Foi esta a pergunta que impactou
a vida de William Cameron Townsend, enquanto trabalhava com o povo ckchiquel, na
Guatemala, e o levou a fundar a SIL – Sociedade Linguística Internacional. Se Deus ama
os povos e deseja a conversão das nações, o evangelho precisa ser levado na língua do
povo. Não só nosso amor ao próximo, mas nosso amor pela glória de Deus nos cobra isso.

O EVANGELHO DAS NAÇÕES,


O EVANGELHO PARA AS NAÇÕES
Nem preciso avisar que é sem demagogia que digo isso. Louvo a Deus com muita alegria
pelo Evangelho ser tema de nossas conversas em nossa nação. Louvo a Deus por estarmos
buscando definir o que as boas novas significam e reconheço que os livros traduzidos que
falam sobre o assunto têm ajudado bastante o nosso Brasilzinho de Deus. Porém, creio
que já está na hora de caminharmos para compreensões mais maduras e completas do
Evangelho. Os livros que temos em português que tentam definir o evangelho trazem
úteis e verdadeiros esquemas como “Deus. Homem. Cristo. Resposta”, ou mesmo versões
mais desenvolvidas, como a que desdobra cada um desses pontos em versões cósmica e
pessoal do evangelho. Porém, estas ainda são descrições muito simples. Claro que
precisamos de maneiras simples de expor o evangelho, ainda mais sabendo que estamos
ainda engatinhando neste assunto em nossa nação. Porém, não podemos parar nos
primeiros degraus. A Escritura traz descrições simples e reduzidas das boas novas que são
chamadas de Evangelho, mesmo estas sendo só parte dele. No entanto, a Escritura
também nos apresenta versões longas e bem explicadas do assunto, como os dezesseis
capítulos da epístola aos Romanos. Como escreveu Paul Washer:
Há muito para se estudar hoje a respeito da segunda vinda de Jesus Cristo e da correta interpretação
do livro de Apocalipse. Porém, eu posso lhe assegurar que você entenderá tudo a respeito do livro
de Apocalipse e tudo a respeito da segunda vinda de Cristo no dia em que tudo aquilo acontecer.
Mas eu também posso lhe assegurar que você gastará uma eternidade de eternidades nos céus e
ainda não compreenderá o evangelho de Jesus Cristo totalmente. Isso não é uma matéria básica do
Cristianismo, da qual nos livramos em cinco minutos de aconselhamento e depois partimos para
coisas mais grandiosas. Não há nada mais grandioso na vida cristã do que o evangelho. Nunca
haverá nada mais grandioso do que o evangelho. E não há poder para salvar à parte da clara
proclamação do evangelho.56

Um exemplo do que estou tentando dizer: quantas descrições de evangelho, nas tão
comuns referências que fazemos a ele, incluem a entrada dos gentios na Aliança, em
contraste com a escolha de Israel como povo especial? Pouco se fala deste ponto, mas
Gálatas 3:8 diz que a justificação dos gentios é o evangelho57. Paulo também dedica três
capítulos de Romanos, que tem o evangelho como temática, para desenvolver este ponto
com detalhes. E nós praticamente ignoramos esta parte das boas novas! A entrada dos
gentios na aliança é o evangelho, e isto deveria tomar mais de nossa atenção do que tem
tomado ultimamente. Além disso, a entrada dos gentios na Aliança não diz respeito
apenas ao conteúdo do evangelho, mas também à apresentação dele. Romanos 1:16 traz
algo fundamental quanto a isto: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois
é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do
grego”. O mesmo evangelho que salva o judeu, salva o gentio. Isso significa que não
devemos modificar o conteúdo de nossa mensagem e nem que precisamos de evangelhos
diferentes para cada povo ou nação. Ainda que o formato de apresentação possa mudar, o
conteúdo do evangelho é sempre o mesmo. Como diz Paul Washer, isso significa que
devem ser o exegeta e o teólogo, como intérpretes das Escrituras, que dizem qual o tema
de nossa pregação, e não o antropólogo, o sociólogo, o missiólogo ou o especialista em
crescimento de igreja58. No fim das contas, é a universalidade do evangelho que dá base
para a universalidade da Missão.

46. HIEBERT. O Evangelho e a Diversidade de Culturas, p. 56.


47. PAPE, Carlos. “A Missão no Século XXI e a Responsabilidade das Igrejas da América Latina”, In: PAPE (Org.). A
Missão a partir da América Latina, p. 17.
48. Ibid., p. 17-18.
49. LATOURETTE, Kenneth Scott. First Five Centuries, vol. 1 de A History of the Expansion of Christianity. Grand Rapids:
Zondervan, 1970, p. 204.
50. NEIL, Arthur. Aid us in our strife, Vol. 1. England: Heath Christian Thust, 1989, p. 269-270.
51. Apud RIBEIRO, Braulia. Tradução da Bíblia é etnocentrismo? Disponível em:
<http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/344/traducao-da-biblia-e-etnocentrismo>. Acesso em: 1 abr. 2014. Não
estou dizendo, porém, que todas as traduções são inspiradas ou que os manuscritos não-autógrafos são inerrantes.
Apenas que o conteúdo da Escritura, ainda que traduzida, continua sendo conteúdo da Escritura. Parafraseando a
Segunda Confissão Helvética, a tradução da Palavra de Deus é Palavra de Deus.
52. Sobre como os índios brasileiros foram beneficiados culturalmente pela chegada dos portugueses, ver NARLOCH,
Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. São Paulo: Leya, 2011, p. 50-54.
53. Todo missionário cristão deveria fazer um favor a si mesmo e ler o capítulo “O culto ao multiculturalismo”, em
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar: A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo. Rio
de Janeiro: Record, 2013, p. 189-210. Muito se tem falado sobre o respeito às outras culturas no processo de
catequização, mas pouco tem sido tratado com relação a como podemos ser bondosos a ponto de levar as características
positivas de nossa cultura à cultura do evangelizado.
54. JOHNSTONE. A Igreja é Maior do que Você Pensa, p. 257.
55. ANAJURE e agências evangélicas emitem nota pública sobre a atuação cristã de missões transculturais em terras
indígenas brasileiras e os obstáculos criados pelo Poder Público. Disponível em: <http://www.anajure.org.br/anajure-
e-agencias-evangelicas-emitem-nota-publica-sobre-a-atuacao-crista-de-missoes-transculturais-em-terras-indigenas-
brasileiras-e-os-obstaculos-criados-pelo-governo-federal/>. Acesso em: 24 dez. 2013.
56. WASHER, Paul. O Verdadeiro Evangelho. São José dos Campos, SP: Fiel, 2012, p. 18-19.
57. Metonimicamente, Paulo costuma chamar partes do evangelho de evangelho, sem diferenciá-lo de sua completude.
Por exemplo, em 1 Co 15:1-4 Paulo chama a morte e a ressurreição de Jesus de Evangelho, sendo que isso é apenas
parte do evangelho, mesmo que seja sua parte central e mais importante. Aqui, ele chama a entrada dos gentios na
Aliança também de Evangelho, mesmo sendo apenas parte dele.
58. WASHER. O poder do evangelho e sua mensagem, p. 89.
7
DEVEMOS BATIZAR AINDA
HOJE?

Jesus diz que todo aquele que deseja ser seu discípulo deve ser batizado. Por mais que
essa seja a prática comum da maioria das igrejas cristãs, há quem acredite que o batismo
não se faz importante ou necessário na atualidade. Muitos missionários em países
islâmicos encontram dificuldades para praticar batismos em tempo de perseguição, e
certas agências os instruem a não realizarem tal rito. Outros grupos missionários muito
famosos declaram publicamente não batizarem seus convertidos. Cabe lembrar, no
entanto, que Jesus sabia das dificuldades que surgiriam com a obra missionária, e cada
uma de suas ordens preveem o preço que custaria batizar novos convertidos em tempos de
dificuldade. Tal rito é um mandato que está além dos limites culturais. Fosse na Judeia ou
em Roma, o batismo era praticado por todos os crentes. Ancorado como ele está na
Grande Comissão, ele é um mandato para todas as gerações de discípulos.
Baseando-se principalmente em Hebreus 6:1-3, há quem tente convencer seus leitores
que o batismo nas águas era uma sombra do verdadeiro batismo, no espírito, de forma
que o ritual de imergir (ou aspergir, este não é o ponto) não deveria mais ser praticado
pelas igrejas genuinamente cristãs, como o Apóstolo Miguel Ângelo1. Seu argumento
pode ser resumido em um silogismo simples. Os “rudimentos” eram uma sombra do que
viria até o tempo da reforma de todas as coisas, de maneira que há um chamado bíblico
para deixarmos os rudimentos. O batismo na água, então, seria um destes rudimentos,
mera sombra do verdadeiro batismo no Espírito. Logo, o crente da Nova Aliança deve
deixar de lado o batismo na água.
Para embasar seus argumentos, primeiro, o autor usa Hebreus 9:10 e Colossenses 2:16-
17 como textos-prova para dizer que “Os Rudimentos eram uma sobra do que viria até o
tempo da reforma de todas as coisas”. Estas passagens, porém, sequer usam a palavra
“rudimento”, estando se referindo, ambas, aos aspectos da lei mosaica que não se
relacionam mais com a Nova Aliança. Depois, Ângelo diz que há um chamado bíblico
para deixarmos os rudimentos. Ele acerta ao dizer que devemos deixar os rudimentos
quando cita Gálatas 4:3-5 e Colossenses 2:8.20-23. Estas três perícopes falam dos
“rudimentos do mundo”. A quarta passagem que ele cita, porém, é um caso de falácia
semântica. Citando Hebreus 6:1, ele tenta fazer-nos acreditar que, da mesma forma que
devemos deixar os “rudimentos do mundo”, devemos deixar os “princípios elementares
da doutrina de Cristo”. De fato, a expressão usada pelo autor de Hebreus sequer é
parecida com a expressão de Paulo, fora a presença de qualificadores bem diferentes (“do
mundo”/“da doutrina da Cristo”). O significado de Hebreus 6:1, de fato, nem é parecido
com o dos trechos paulinos. A ordem do autor não é para que abandonemos aquilo que é
princípio elementar de Cristo no sentido de esquecermos, negarmos ou substituirmos, mas
sim de gastar o tempo com outros temas mais importantes, como é deixado claro pelo
próprio autor nos versos anteriores (Hb 5:11-14), ao repreendê-los por ainda estarem nos
assuntos iniciais da fé, ao invés dos assuntos mais profundos. O autor está convocando
seus leitores a avançar no conhecimento de Cristo, e não a negar algo dele.
Por fim, então, o Ap. Dr. Bp. Miguel investe em sua conclusão: “O Rudimento do
Batismo na água era sombra do verdadeiro batismo no Espírito Santo”. Para provar isto,
ele apresenta alguns argumentos amparados por um ou dois textos bíblicos cada um.
Tentando ser o mais breve possível, ignorarei os mais absurdos ou vazios de sentido2.
Segue, então, os que cobram alguma resposta:

“O batismo na água era uma sombra que desaparecia” (Jo 3:25-29,36). O texto-prova, no entanto, nada fala sobre
o batismo em si, sobre alguma suposta natureza transitória do mesmo ou seu tempo de duração. A contenda do
texto é o fato de muitos discípulos de João Batista estarem indo seguir Jesus, e não mais João. Nada nesta
passagem diz a respeito do batismo nas águas ser algum tipo de sombra transitória.
“Jesus não batizava na água” (Jo 4:2). Certo, mas e daí? O texto diz que o Cristo não realizava os batismos, mas
os discípulos deste mesmo Cristo, dando a entender que Jesus estava de acordo com tudo aquilo. Nenhum
discípulo, pelo que o texto indica, parecia estar fazendo batismos na surdina, escondido, para que o Messias não
percebesse. Jesus sabia disto e aprovou isso – se não, o texto indicaria. Jesus não batizar pode estar mais
relacionado à dinâmica do ministério messiânico (muitas viagens e pregações) do que a um desinteresse de Jesus
pelo rito.
“Paulo Testificou: Não me enviou Cristo para batizar” (1Co 1:17). Sim, Paulo foi enviado não para batizar, mas
para pregar, como ele continua dizendo. Porém, poucos versos antes, ele diz: “Dou graça a Deus porque a
nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio [...]. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me
lembro se batizei algum outro” (v. 14-16). Paulo realizou batismos, mesmo tendo sido enviado prioritariamente
para a pregação e o ensino. Chama a atenção, também, que o verso anterior ao usado para dizer que Paulo era
contra o batismo seja Paulo dizendo que batizou algumas pessoas.
“Paulo descartou o batismo na água da lista da igreja” (Ef 4:5). O texto base diz: “Há um só Senhor, uma só fé,
um só batismo”. Não consigo compreender que “lista” é esta ao qual Miguel Ângelo se refere e nada aqui indica
uma cessação do batismo nas águas. Nenhum desses quatro argumentos pode ser provado através da Escritura.

Existe um argumento final, por fim, que cobra um confronto direto com nosso texto da
Grande Comissão. O autor encerra com a seguinte frase: “Deixemos portanto os
princípios elementares, ensinamentos pregados por Cristo nos dias de sua carne”.
Permita-me desenvolver melhor o argumento do bispo. Uma vez que a Nova Aliança só
tem início com a morte e ressurreição de Jesus (“Este cálice é a nova aliança em meu
sangue, que é derramado por vós”, Lc 22:20; “Este cálice é a nova aliança no meu
sangue”, 1Co 11:25), Jesus ainda estava se relacionando com o Antigo Pacto ao
desenvolver seu ministério. Assim sendo, ele deu aos homens várias ordens que não são
obrigações dos crentes modernos, pois eram temporárias e dirigidas especificamente aos
que ainda viviam sobre a antiga dispensação mosaica3. Desta forma, o Miguel Ângelo
parece assumir que os “ensinamentos pregados por Cristo nos dias de sua carne” são
“princípios elementares” que devem ser deixados de lado. Se suas anteninhas de vinil
começaram a apitar, você já percebeu a inconsistência do que foi posto. Como o batismo
nas águas foi um rudimento pregado por Cristo nos dias de sua carne se ele nos dá a
ordem para o batismo também após sua ressurreição, quando a Nova Aliança já estava
consumada? Por mais complicado que seja definir os detalhes disto, é obvio que Cristo
deu ordens oriundas do Antigo Pacto a vários homens, mas podemos ver Cristo
instituindo o batismo após sua morte e ressurreição, o que institui isto como uma
obrigação aos crentes da Nova Aliança de modo inequívoco.
Alguém pode argumentar, também, que o batismo ordenado na Grande Comissão
refere-se aos batismo no Espírito Santo, uma vez que não há referência à água em parte
alguma do texto. No entanto, isto beiraria o absurdo. Sendo Mateus 28:19 uma ordem a
toda a igreja de Cristo, a igreja seria a responsável por levar o Espírito às pessoas, e não o
próprio Deus? O agente do derramamento do Espírito é o Senhor, e não nós mesmos. É
absurdo pensar o contrário. Uma vez que a Grande Comissão é uma ordem escatológica
que se manifestará até o fim dos tempos, e sendo uma ordem para todos os povos, “nós
podemos concluir que o batismo não é apenas um fenômeno isolado, localizado em um
tempo e espaço. Ele é de aplicabilidade permanente”4. Mesmo com todas as dificuldades
que missionários encontram para praticar batismos em países islâmicos5, tal rito é “um
mandato teológico sem limites culturais. Quer na Judeia quer em Roma, o batismo era
praticado. Ancorado como ele está na Grande Comissão [...], ele é um mandato para todas
as gerações”6. O argumento de Miguel Ângelo não subsiste. O batismo nas águas ainda é
uma ordem para a igreja de hoje.
1. ÂNGELO, Miguel. Os Rudimentos da Doutrina de Cristo. Seminário Construindo Uma Casa Sobre a Rocha. Curso de
Teologia da Graça de Deus (Igreja Evangélica Cristo Vive – Missão Apostólica da Graça de Deus, Rio de Janeiro/RJ).
Módulo 03 – Aula 04.
2. A saber: “[O] Batismo nas água [era] para a remissão de pecados” (Mc 1:4); “O batismo no Espírito Santo coloca o
crente morto ao pecado” (1 Pe 2:24; Rm 6:1-2,14); “Todos os crentes foram batizados em Cristo pelo Espírito Santo”
(Gl 3:27; 1 Co 12:13); e “A unção que dEle recebestes permanece” (1 Jo 2:20,27). Nenhum destes argumentos sequer
leva à conclusão de que o batismo nas águas não seja mais requerido da igreja.
3. Em Lucas 1:15, o anjo Gabriel consagra João Batista ao nazireado, conforme Números 6:3. Em Lucas 2:21, Jesus é
circuncidado, obedecendo o disposto em Levítico 12:3. Em Lucas 2:22, Maria se purifica, conforme estabelecido em
Levítico 12:4. Em Lucas 2:23, os pais de Jesus oferecem o sacrifício prescrito em Levítico 12:6-8. Em Mateus 8:4,
Jesus manda um leproso fazer o sacrifício prescrito em Levítico 14. Em Lucas 19:8, Zaqueu se submete duplamente à
pena estabelecida em Êxodo 22:9. Em Mateus 17:24, Jesus paga o imposto estipulado em Êxodo 30:11-16. Em Mateus
26:17, Jesus e os discípulos cumprem o requerido em Êxodo 12:1-27. (LEITE, Túlio Cesar Costa. O Dízimo. Disponível
em: <http://www.monergismo.com/textos/dizimos_ofertas/o-dizimo_tulio.pdf>. Acesso em: 28 fev. 2014.)
4. ERICKSON. Christian Theology, p. 131.
5. Adeptos dos níveis de contextualização C4, C5 e C6 acreditam que o batismo em países islâmicos não é necessário
(BURNS, Barbara Helen (ed.). Contextualização Missionária: Desafios, Questões e Diretrizes. São Paulo, SP: Vida Nova,
2011, p. 143). Sobre a dificuldade de realizar batismos no mundo muçulmano, ver AJAJ, Azar. “Baptism and the Muslim
Convert to Christianity”, St Francis Magazine 6, No 4, 2010.
6. OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo, SP: Vida Nova,
2009, p. 550.
8
QUEM DEVE SER
BATIZADO?

A segunda questão que nosso texto responde é: “quem deve ser batizado?”. Como Mateus
nos diz que fazemos discípulos através de batizá-los, deve ser batizado todo aquele que
desejar ser discípulo de Jesus. Essa visão é conhecida como credobatismo, pois defende
que apenas os que professam fé em Cristo devem ser batizados. O batismo de crentes não
é apenas pregado em Mateus, mas também é constantemente exemplificado no livro de
Atos, em que vemos apenas os que creem sendo batizados (At 8:36; 16:30-33; 18:8), além
da constante ligação entre o arrependimento e o batismo (Mt 3:6,11; Mc 1:4,5; Lc
7:29,30; At 2:38; 19:4; 22:16). Não podemos negligenciar o que é dito na Escritura. É
claramente expresso que os batizados são os que creem: “De sorte que foram batizados os
que de bom grado receberam a sua palavra” (At 2:41) e “Mas, como cressem em Filipe,
que lhes pregava acerca do reino de Deus, e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto
homens como mulheres” (At 8:12).
Quando alguém defende o batismo de crentes, geralmente sua intenção é se opor ao
batismo de crianças (pedobatismo1). Minha intenção, porém, é me opor à visão de que
devemos batizar não qualquer crente, mas apenas os verdadeiramente salvos
(soteriobatismo – eu não inventei o termo, juro). Ainda que ninguém se defina
soteriobatista, existem certos credobatistas e até pedobatistas (quando relacionado ao
batismo de adultos) que defendem que só devemos levar ao rito do batismo aqueles que
dão frutos de salvação, de forma a nos protegermos de introduzir na vida da igreja local
homens e mulheres que não são verdadeiros discípulos, além de diminuir o grande
número de desviados que surgiriam de batizarmos quem não teve tempo de demonstrar
com obras sua fé.
Os que defendem o soteriobatismo, porém, precisam entender que, em última instância,
não temos como saber com certeza se alguém é salvo ou não. Cristo não nos mandou
batizarmos os que dão frutos de salvação, mas os que, após uma completa, profunda e
substancial pregação do evangelho, professam crer em Cristo de modo real. Como disse
Felipe para o Eunuco, “é lícito, se crês de todo o coração” (At 8:37). E como o pregador
testificou se o professante deveria ou não ser batizando? Após uma longa exposição sobre
Cristo através do livro do profeta Isaías, o Eunuco declarava que cria em Cristo (“Creio
que Jesus Cristo é o Filho de Deus”). Isso foi o suficiente: “Mandou parar o carro, e
desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e Filipe o batizou” (At 8:37,38).
Louis Berkhof deixa claro que
quando essa profissão é feita, esta é aceita pelo que ela vale nominalmente, a não ser que tenha boas
razões objetivas para duvidar da sua veracidade. Não lhe compete espiar os segredos do coração e
assim inspecionar a genuinidade de tal profissão. A responsabilidade pesa sobre a pessoa que a faz.2

Algumas pessoas, infelizmente, discordam desta posição. Certo amigo argumentou que,
no Novo Testamento, a decisão por Cristo era muito mais séria do que é hoje, uma vez
que se tornar discípulo significava romper com o judaísmo e ser inevitavelmente
perseguido. Por isso, a chance de haver falsas decisões era mínima. Outro argumentou
que os novos convertidos de antigamente não são os mesmos de hoje, já que, naquele
tempo, só o querer ser cristão já era uma prova de conversão, pelo perigo e renúncia que
isto acarretava. Como tais circunstâncias não são presentes na igreja brasileira de hoje, o
tempo, o estudo pessoal da Escritura e os frutos serviriam de provas da salvação, logo,
necessários para o batismo. Outro usou as seguintes palavras: “A igreja precisa ter uma
estabilidade, uma certeza de que o batizando não se desviará. Então ele precisa meio que
provar através das obras, com o tempo, até que cheguem pra ele e perguntem: porque
você não se batiza?”.
Estes três argumentos merecem alguma resposta. Primeiro, ainda que seja evidente que
o contexto de perseguição diminuísse o número de falsos convertidos, nem todos os
ambientes onde o evangelho era pregado estava sob acirrada guerra religiosa. Além disto,
os milhares de batizados em um único dia de Atos 2 o foram antes da perseguição que
surgiria após a morte de Estevão. Lá, vemos batismos instantâneos em massa fora de um
contexto de perseguição. Em segundo lugar, as renuncias que o evangelho cobra são as
mesmas nos tempos bíblicos e nos dias de hoje. Se os homens modernos não estão cientes
do que precisam deixar para seguir a Jesus, a cultura é dos evangelistas, e não das
mudanças culturais. Por fim, ainda que eu concorde que precisamos proteger nossas
instituições da bagunça que seria ter um fluxo de convertidos intenso, não podemos
solucionar isso pregando que a salvação é pela fé, mas o batismo é por mérito.
A Escritura nunca nos diz que o batismo é para aqueles que podemos crer que sejam
inquestionavelmente salvos, mas para aqueles que professam crer em Cristo. Por medo de
batizar pessoas que não são verdadeiramente salvas, acabamos criando um conceito de
batismo meritocrático, mas isto é algo que vai de encontro com o padrão
neotestamentário. De fato, todos estamos sujeitos a batizarmos falsos crentes. Até Paulo
se enganou sobre a fé de algumas pessoas. Demas, antes cooperador de Paulo, (Cl 4:14;
Fl 1:24), acabou “amando o presente século” (2Tm 4:10). Isso significa que até no Novo
Testamento a possibilidade de termos não crentes no meio da igreja era uma realidade –
ainda que isso não fosse desejado. Se queremos diminuir a presença de falsos crentes no
seio da igreja local, o meio para isso está na disciplina eclesiástica de Mateus 18:15-20,
não em impedir a entrada dos recém confessantes. Nós precisamos usar os meios de Deus,
e não nosso braço de carne. Por mais cômico que pareça, perto da minha igreja local
existe outra comunidade chamada 100% trigo – uma boa ilustração do sentimento que
provavelmente inunda aqueles que só querem batizar os que dão evidência inequívoca de
salvação. Por mais que a intenção seja boa, sempre haverá algum joio nas comunidades
cristãs, não importa se vamos cobrar conhecimentos e disciplinas arcani como requisito
ao batismo.
Creio que teremos menos medo de sermos assolados por um número incontável de
falsos convertidos em nossas comunidades se começarmos a pregar o evangelho de modo
profundo aos perdidos. Muitos de nós, usando a justificativa de estar dando “leite
espiritual”, acreditam que devemos omitir parte da mensagem cristã quando
evangelizamos. Porém, se formos bíblicos e mostrarmos tanto as bênçãos quanto as dores
que provem de viver segundo o Evangelho, podemos crer que o número de falsos
professos diminuirá. Quem, à parte da atuação do Espírito, abraçaria a mensagem de que
“por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (At 14:22)? Essa era
justamente a mensagem dos Apóstolos aos novos professos. Ensinemos os homens a
calcularem o custo, a levarem a Cruz e a morrerem por Cristo. Isso espantará os bodes
mais do que técnicas antibíblicas de postergar o batismo a fim de esperar frutos da
salvação. Jesus mesmo disse que precisamos ensinar os discípulos a guardar “todas as
coisas” que ele nos ordenou (Mt 28:20). Nós não podemos omitir nada da mensagem
evangelística a fim de deixar a pregação mais palatável. Devemos pregar toda a Escritura
para o homem todo!
Ora, se o batismo é um ato público de entrega a Cristo, precisamos sempre estar cientes
de que o batizando compreendeu corretamente o conteúdo da fé, de que ele entendeu a
grandeza da pessoa de Deus e de que ele está profundamente informado da obra de Cristo.
Não há como ser salvo sem o conhecimento do evangelho; logo, devemos duvidar de toda
profissão de fé que não se baseie em um conhecimento real da mensagem de salvação.
Cabe aos evangelistas instruir e conferir estas coisas. Porém, é muito difícil conseguirmos
atestar a salvação de alguém e medir com profundidade o quanto uma pessoa entende do
evangelho. Raramente as coisas são “preto no branco”, como esperamos muitas vezes.
Esperar sempre por conversões miraculosas e santidade prática instantânea é fruto de
quem passa mais tempo assistindo a testemunhos de congressos ditos avivados do que
lidando com convertidos de verdade. O batismo é para quem professa crer.
Não batizamos alguém para que ele seja salvo, nem porque ele deseja vir a ser salvo,
mas porque cremos que ele confessou de modo convincente que já é salvo em Jesus. O
batismo é o sinal do discipulado cristão.

1. Aos mais interessados, deixo o aviso de que não falarei sobre pedobatismo nesta obra, apenas citando esta posição
quando necessário. Faço isto por alguns simples motivos: primeiro, não faz parte de nosso objetivo adentrar neste
debate; segundo, esta questão não é levantada em nosso texto principal; e terceiro, não me sinto preparado para ser uma
voz representativa digna aos companheiros credobatistas neste ponto. É importante deixar claro que, falando de adultos,
é provável que eu e vários pedobatistas estejamos em terreno comum na maioria do que é declarado neste capítulo –
mostrei o manuscrito deste texto a alguns irmãos presbiterianos e poucos deles encontraram alguma grande dificuldade
com o escrito, apesar de discordarem de um ponto ou dois.
2. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p.584.
9
QUANDO
DEVEMOS
BATIZAR?

Parece claro que Jesus põe o ato de tornar-se um discípulo e o ato de ser batizado
intimamente ligados, do que podemos, sem muita dificuldade, inferir que estes atos
deveriam ocorrer temporalmente próximos. “No contexto da Grande Comissão, batismo é
sinônimo [...] de se tornar um discípulo”1, comenta John MacArthur. A ordem de batizar
representa um meio de se fazer discípulos, ao lado do ensino, de forma que ambos
representam a iniciação da caminhada do discípulo, não algo posterior ou até mesmo
postergável. Assim, do mesmo modo como ninguém deveria começar a caminhada cristã
sem ensino, ninguém deveria começar a caminhada na fé sem o batismo. Se nossa análise
do texto está correta, então os pastores que postergam os batismos dos que decidem
caminhar após Cristo estão, por mais duro que isto soe, desobedecendo uma ordem direta
de Jesus.
O texto normativo de Mateus 28:18-20 seria suficiente para provar nosso ponto, mas os
textos descritivos do Novo Testamento também dão testemunhos úteis a respeito deste
ponto. A confissão de pecados estava intimamente ligada ao momento do batismo,
mostrando que o mesmo ocorria quase simultaneamente ao arrependimento (Mt 3:6,11;
Mc 1:4,5; Lc 7:29,30; At 2:38, 19:4). Como o eunuco que foi evangelizado por Filipe em
Atos 8 ficou sabendo a respeito do batismo cristão, uma vez que ele sequer conhecia
Jesus e não entendia bulhufas nem mesmo do livro de Isaías? Ora, o evangelismo de
Filipe incluiu algo sobre o batismo. Quando foi a última vez que você falou sobre isto em
sua apresentação do evangelho? Na igreja primitiva, pelo que parece, o chamado ao
batismo acontecia muito mais cedo do que nos dias de hoje. Existem casos claros de
batismos que ocorreram logo após a conversão: o assustador caso de três mil pessoas que
foram batizadas no mesmo dia que creram (At 2:41); o eunuco que foi batizado por Felipe
no momento em que creu que Cristo era o filho de Deus (At 8:36); Paulo, que recebeu o
batismo no momento seguinte em que recuperou a visão, após seu encontro com Cristo
(At 9:18) e o carcereiro que foi salvo logo após crer (At 16:30-33), por exemplo. Um
olhar levemente atento percebe que o convite ao batismo fazia parte da mensagem inicial
da pregação aos perdidos2.
É obvio, diante disso, que nos tempos do Novo Testamento o batismo era um
equivalente, guardadas as devidas proporções, da moderna confissão pública, o “levantar
a mão e ir à frente”3. Quando alguém se tornava cristão, não ia à frente da comunidade
fazer uma oração. De fato, a pessoa era batizada, imediatamente. Infelizmente, como
algumas igrejas modernas mantém o modelo batismo-show, em que os batismos são
eventos especiais, eles acabam ocorrendo, na melhor das hipóteses, de meses em meses,
quando não uma ou duas vezes por ano. Muitas, se não praticamente todas, têm
substituído o batismo por todo tipo de superstição antibíblica: “Fique em pé se você
decidiu seguir Jesus”. “Venha pelo corredor e me encontre aqui na frente”. “Faça essa
oração comigo”. “Assine esse cartão de voto”. Ou ainda a que talvez seja a pior de todas,
citada por Driscoll e Breshears, e que eu já pude presenciar uma dúzia de vezes: “Todos
fiquem com a cabeça abaixada e os olhos fechados. Se você aceita Jesus como seu
salvador, apenas olhe para mim. Eu verei isso e saberei que você vai passar a eternidade
no céu”4. Chamando o batismo de “O Rito Introdutório da Igreja”, Erickson escreve: “É
quase universalmente aceito que o batismo é de alguma forma conectado com o início da
fé cristã”5.
Ora, se é tão claro no Novo Testamento que o batismo vem cronologicamente logo
depois da confissão de fé em Cristo, sendo a manifestação pública do mesmo, como
podemos não praticar isto hoje em dia? Tudo indica que as coisas foram mudando ainda
cedo na história eclesiástica. O batismo, com pouco tempo, tornou-se algo realizado
apenas por “sacerdotes”, fazendo com que os tanques batismais estivessem presentes
apenas nas grandes sedes episcopais, de modo que o batismo demorava mais para ser
realizado. Em meados do século III, com Tertuliano de Cartago, outras cerimônias
começam a assumir importância no rito batismal, como a imposição de mãos do bispo
acompanhada de oração e unção com óleo6. Junto com isso, o batismo começou a ser
visto como “lavador de pecados”, sendo adiado pelos crentes até uma idade mais velha, o
que foi lamentado por Basílio de Cesareia7. Com o tempo, os candidatos precisavam ser
observados por três anos antes de serem batizados8. Gilmore diz que tal ordenança só era
alcançada por aqueles que haviam alcançado anos de entendimento9.
Estas considerações históricas explicam tudo? Não, obviamente. É fácil perceber que
existem outros erros relacionados a este ponto. Há um problema eclesiológico, por
exemplo. Muitos questionam que, uma vez batizados, os homens possuem voz na igreja
local (pressupondo um governo congregacional). Como dar voz a pessoas sobre as quais
não se tem a certeza de que são cristãos genuínos? Devemos considerar, antes de tudo,
que toda a igreja local deve ser ensinada sobre a autoridade dos presbíteros e dos irmãos
mais velhos na fé. Se os novos convertidos forem ensinados a exercitarem a humildade e
se submeterem à voz de seus líderes, de acordo com as Escrituras, problemas
eclesiológicos poderão ser sanados. Além disto, é meio estranho ao Novo Testamento que
o batismo automaticamente desse tanta voz aos membros recém ingressos à fé nas
questões importantes da igreja. Talvez as comunidades de eclesiologia congregacional
devessem refinar um pouco seus sistemas a fim de restabelecer o padrão bíblico com
relação ao batismo.
Muitos argumentam, também, que não devemos batizar as pessoas muito cedo por
existirem muito falsos cristianismos por nosso país. Alguém me disse que os convertidos
do Novo Testamento já possuíam ciência do padrão da Lei de Deus e do que era requerido
em resposta à tomada de decisão, até mesmo entre os gregos. Uma amiga me disse,
também, que hoje, ao contrário do que existia nos tempos bíblicos, as pessoas não aceitam
o Jesus Verdadeiro, o que faz da Escola Bíblica Dominical um requisito vital para o
batismo. Porém, ninguém está advogando que as pessoas sejam batizadas sem antes
serem ensinadas e terem suas heresias confrontadas com a Cruz. Precisamos conversar
com os que estão sendo evangelizados, a fim de conhecer suas ideias e crenças, deixar
claro que tudo o que ele já ouviu sobre Jesus talvez esteja errado e trazer as verdades
fundamentais do evangelho à tona, denunciando os erros e as heresias à luz da Bíblia.
Além disso, parece que temos uma visão muito ingênua dos tempos bíblicos. Sempre
houve e sempre haverá falsas doutrinas espalhadas pelo mundo. Muitas falsas doutrinas se
espalhavam em meio às igrejas neotestamentárias, e nem por isso lemos ordens para
postergar o batismo. E mais: embora o judeus conhecessem bem a Torá, os povos de
etnias distantes não conheciam o Antigo Testamento tão bem assim, como alguns dão a
entender. Embora usasse a Lei ao pregar aos judeus, Paulo pouco fazia referência a ela
ministrando aos gentios, o que evidencia este ponto.
Às vezes, também, o erro está em cobrarmos do convertido quase um PhD. em
Teologia do Novo Testamento para que ele seja batizado. Claro que os pontos centrais
precisam ser ensinados com profundidade, mas não podemos cobrar que os novos
convertidos dominem temas teológicos complexos, possuam dezenas de versículos
decorados e saibam manusear a Bíblia com precisão. Por que não seguir Hipólito de
Roma, por exemplo, que cobrava nada mais que uma clara afirmação de fé no Credo
Apostólico durante o batismo?10 Temos que orar profundamente para que Deus nos guie
neste sentido. Em um país onde certa igreja impediu uma moça de se batizar por ter se
esquecido de levar a foto 3/4 para a ficha de membro, como podemos esperar a
maturidade para saber quais temas da teologia cristã são centrais e quais são secundários?
Baido-Essien nos faz um alerta severo:
Ao abandonar o batismo, desobedecemos [...] uma ordem direta dada pelo próprio Rei. A ordem é
parte do comando para ir fazer discípulos; não é uma ordem separada ou à parte do comando [...]. A
exigência é de crer e ser batizado. Ninguém pode dizer ao potencial discípulo que acreditou e se
arrependeu quando ele pode ser batizado. Se eu fosse ensinar a um incrédulo o evangelho de Cristo
e ele ou ela viesse a crer, arrepender-se e mostrar isto pela confissão de que Cristo é o Filho de
Deus, o comando é que eu o batize. Não sou eu quem deve determinar quando este novo discípulo
deve ser batizado.11

Creio que preciso deixar claro, diante do que foi dito, que o problema não está
simplesmente em postergarmos o batismo. Acho até mais proveitoso adiar o batismo de
alguém até que ele entenda corretamente a mensagem do evangelho do que batizar quem
não sabe muito bem em que está se metendo. Porém, creio que seria mais bíblico ainda
nos capacitarmos para expor aos perdidos a mensagem básica, porém vasta e profunda, do
evangelho em poucas horas, com clareza e contundência, de tal modo que as pessoas
possam responder corretamente a este ensino. Enquanto não dermos mais corpo teológico
ao nosso evangelismo, será tolice batizar os que professarem crer pouco tempo após tal
ato12. Como alguém respondeu, timidamente, após eu questioná-lo sobre o motivo do
batismo se dar tão rápido no Novo Testamento: “antigamente eles eram mais eficazes do
que nós somos hoje para anunciar as boas novas”. Este é o ponto.
Existe, é claro, um aspecto cultural que precisa ser considerado. Nos tempos bíblicos,
as pessoas não viviam sob o ritmo de produção dos tempos modernos. Nas grandes
capitais brasileiras, você não consegue pregar o evangelho sem antes garantir ao ouvinte
que não vai demorar mais do que trinta segundos. Até aquele que está interessado em
conhecer mais sobre a salvação não encontra espaço nas agendas de trabalho, estudo e
compromissos para fazer um estudo bíblico ou algo do tipo. Naquele tempo, porém, as
coisas pareciam ser mais pacatas – imagine uma cultura onde as festas de casamento
duravam de sete à quinze dias. Como certa missionária disse uma vez, é mais fácil pregar
com profundidade na África que em São Paulo: lá, conseguir sentar com um nativo para
conversar durante quatro horas é até comum.
Na igreja primitiva, os batismos se davam rápido, mas tudo indica que o tempo gasto
com ensino não era pouco, já que eles podiam ensinar o evangelho e suas implicações aos
ouvintes por horas (onde poderíamos encontrar ouvintes para um sermão evangelístico de
doze horas hoje em dia?). O conteúdo do ensino pré-batismo, então, era algo que poderia
ser transmitido em, talvez, algumas boas horas seguidas de ensino – o que em nossos dias
modernos poderia ser abarcado em poucas semanas com aulas de uma ou duas horas.
Ainda assim, creio que precisamos ter um senso de urgência maior do que o que é comum
nos dias de hoje. Por que não ter membros da igreja preparados para introduzir os novos
convertidos à fé que possam revezar por ir diariamente à casa ou ao trabalho do novo
crente a fim de ensiná-lo sobre o cristianismo básico?
Além disto, e aqui precisamos dar o braço a torcer, no período neotestamentário, os que
se convertiam possuíam apenas os apóstolos como fonte de autoridade final, ainda que
existissem lideranças locais. Hoje, não temos autoridades humanas finais para tirar nossas
dúvidas ou ensinar as questões da fé. Isso faz com que os novos convertidos fiquem mais
desnorteados sobre assuntos doutrinários e não compreendam bem o evangelho, muitas
vezes, já que estão ouvindo várias pessoas propondo visões distintas do cristianismo. É
inquestionável que um pouco de tempo a mais possa ser gasto explicando bem o
cristianismo básico àqueles que querem ser batizados – mas nada justifica os extremos de
esperar um ano até o batismo.
Há quem possa pensar, talvez, que porque a palavra batizando-os precede a palavra
ensinando-os em nosso texto base, a pessoa deve ser batizada antes de ser instruída. Este
é um extremo que precisamos evitar, uma vez que “neste tipo de construção gramatical”,
comenta Hendriksen, este modo de ver o texto “seria totalmente errôneo”13. O novo
crente precisa ser ensinado antes e depois do batismo. O Didaquê diz: “Depois de ditas
todas essas coisas, batize”14 – e isto duraria, no período pós-apostólico, alguns dias ou
poucas semanas15. É nossa obrigação ensinar suficientemente sobre o evangelho e a vida
cristã o mais brevemente possível, a fim de que o candidato ao batismo possa obedecer à
ordenança sem muita demora. Percebamos que o problema é mais profundo do que
parece. Precisamos não simplesmente adiantar batismo, mas preparar nossas comunidades
para que cada crente possa expor a fé cristã de modo tão suficiente que os ímpios possam
ser batizados sem esperar tanto. Que possamos chegar a este ponto, em nome de Cristo.
Dessa forma, podemos concordar com John MacArthur, quando ele comenta que o
novo convertido deve ser ensinado da importância de ser batizado “o mais breve
possível”, com o intuito de tornar pública sua obediência ao seu novo Senhor. “O
chamado a Cristo não é apenas um chamado para a salvação, mas um chamado para a
obediência, e o primeiro ato público disto deverá ser o batismo em seu nome”16, diz ele.
Segundo Sproul, quem sugerir que o batismo é desnecessário está desafiando o próprio
mandamento de Cristo17. Assim, a pessoa que está relutante sobre ser batizada é, na
melhor das hipóteses, um crente desobediente, e se ele persistir nessa relutância, temos
razão para duvidar se sua fé é genuína (Mt 10:32-33). Como diz Sproul, o batismo não é
necessário para a salvação, mas é necessário para a obediência18.
Apesar de alguns fazerem disto um cavalo de batalha teológico, o clima geral em nossa
nação é que o batismo é algo desimportante e até descartável. Alegar que ninguém vai
deixar de ser salvo por falta de batismo é o mesmo que defender que ninguém deixará de
ser salvo por falta de oração, ou por falta de leitura bíblica, ou por falta de santificação. O
batismo é um mandamento de Cristo, e mandamentos de Cristo não são desimportantes
ou descartáveis. Novos convertidos que postergam o batismo por não se sentirem
preparados estão postergando a obediência, e negando, em algum nível, a fé. Pastores que
convencem os novos discípulos a só batizarem-se depois de vários meses estão ensinando
as crianças de Cristo a procrastinarem a obediência aos requerimentos do discipulado.
O texto de Marcos, paralelo ao de Mateus 28, diz: “Quem crer e for batizado será
salvo; mas quem não crer será condenado” (Mc 16:16). Do mesmo modo que todo aquele
que chega à fé também deve chegar ao batismo, todo aquele que se recusa a crer também
não chegará a ser batizado, o que explica a omissão do batismo na segunda parte do
versículo. Deste modo, podemos dizer que a crença que resulta em salvação é tornada
pública pelo batismo e a descrença que resulta em condenação é tornada pública pela falta
de batismo. Se o novo crente está relutante para cumprir um simples ato de obediência na
presença de companheiros crentes, ele estará, infelizmente, relutante em permanecer em
Cristo diante do mundo descrente19. Que estes ouçam o que Ananias disse a Paulo: “E
agora por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome
do Senhor” (At 22:16).

1. MACARTHUR. The MacArthur New Testament Commentary, p. 344.


2. O eunuco que foi batizado por Felipe em Atos 8 ainda é meu exemplo favorito. Enquanto ambos conversavam sobre
a correta interpretação do livro de Isaías, o eunuco questiona sobre batismo. Felipe se dá ao trabalho de chegar a um
convite ao batismo mesmo em uma exposição do Antigo Testamento. Cabe lembrar também de Hebreus 6:1-2, onde,
após declarar que o batismo representava um dos assuntos básicos do cristianismo, o autor parece fazer uma progressão
histórica que começa com arrependimento, fé e batismo, indo pelo chamado ao ministério (“imposição de mãos”) e
findando com ressurreição e juízo eterno. O batismo vir logo após o arrependimento e a fé não é uma evidência muito
forte, mas ainda sim menosprezada na questão temporal do batismo.
3. A maioria dos amigos presbiterianos que leram este capítulo concordam com tal ponto, se relacionado apenas ao
batismo de adultos. Não quero entrar na questão do batismo de infantes, onde, segundo os pedobatistas, o que foi dito
aqui não se aplicaria.
4. DRISCOLL; BRESHEARS. Igreja Vintage, p. 106.
5. ERICKSON. Christian Theology, p. 1098-1099.
6. TERTULIANO. De baptism liber. Ver também HINSON, E. Glenn; SIEPIERSKI, Paulo. Vozes do cristianismo primitivo. São
Paulo: Temática & Sepal, p. 67-69; e PORTE, Wilson. “O Batismo na Didaquê”, In: FERREIRA, Franklin. A Glória da Graça
de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2010, p. 443.
7. GILMORE, A. Christian Baptism: A Fresh Attempt to Understand the Rite in Terms of Scripture, History and Theology.
London: Lutterworth Press, 1960, p. 211.
8. SALVADOR, José Gonçalves. O Didaqué ou “o ensino do Senhor através dos doze apóstolos”. São Paulo: Junta Geral de
Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil, 1957, p. 29.
9. GILMORE. Christian Baptism, p. 195-196.
10. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Disponível em:
<http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma.html>. Acesso em: 21 fev.
2014.
11. BAIDO-ESSIEN. Examining the Great Commission, posição 5279-5287.
12. Algumas igrejas locais permitem que pessoas participem da ceia do Senhor mesmo sem terem se batizado ainda,
entendendo que não existe proibição bíblica para isso e que, para participar da comunhão, tudo o que é necessário é ter
fé em Cristo. Esta é uma boa muleta, mas não é mais que isso. Batizar no tempo certo é que soluciona corretamente o
problema.
13. HENDRIKSEN. Mateus, p. 701.
14. Didaqué: A Instrução dos Doze Apóstolos. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/credos/didaque.htm>. Acesso em 3 set. 2013.
15. SALVADOR. O Didaqué ou “o ensino do Senhor através dos doze apóstolos”, p. 22.
16. MACARTHUR. The MacArthur New Testament Commentary, p. 344.
17. SPROUL, R.C. What is Baptism? (kindle), posição 271-272.
18. Ibid., posição 140-141.
19. MACARTHUR. The MacArthur New Testament Commentary, p. 343.
10
A FÓRMULA
DO BATISMO

O quarto ponto que devemos observar é: “em nome de quem é este batismo?”. Mateus
não poderia ser mais enfático: “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” – e não
há como negar o que diz a Escritura. Sabemos que a fórmula trina do batismo foi
constantemente referida na igreja primitiva. No Didaquê, lemos: “No que diz respeito ao
batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”1. Justino, teólogo do
século II, também escreveu: “É em nome do Pai de todos e Senhor Deus, e de Nosso
Senhor Jesus Cristo, e do Espírito Santo que eles recebem a loção na água [batismo]. Esse
rito foi-nos entregue pelos apóstolos”2 e “em nome de Deus, Pai, soberano do universo, e
de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo”3. Tertuliano refere-se à “tríade de
nomes divinos” conjuradas no batismo como “suficiente para fundar nossa esperança”4.
Como diz Moltmann, desde o início do cristianismo, o batismo representava “a práxis da
doutrina trinitária” e o envolvimento dos cristãos na “história trinitária do reino de
Deus”5.
No entanto, muitos fazem alarde pelos aparentes casos de batismo apenas em nome de
Jesus que são vistos no Novo Testamento (At 2:38; 8:16; 10:48; 19:5; ver também Rm
6:3; Gl 3:27), tentando assumir que Cristo é o único nome pelo qual somos batizados.
Existe uma denominação cujo ensino principal é o “batismo em nome de Jesus” em
contraste com o batismo em nome da Trindade6, não em uma tentativa de resgatar uma
fórmula encontrada em Atos, compreendendo que esta é apenas mais uma entre outras
fórmulas, mas sim uma defesa de que esta é a única fórmula litúrgica batismal legítima e
apropriada, estando todas as outras igrejas em erro neste ponto.
Ora, o que responder a isso? É muito fácil percebermos que as menções ao batismo em
nome de Jesus estão apenas em passagens que não tratam da fórmula batismal em si, mas
de atos ou eventos que aconteceram em nome de Jesus. Paulo disse: “E tudo quanto
fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus” (Cl 3:17), e é isto
que vemos em Atos. Se a dita fórmula batismal em nome de Jesus, apenas, é o ensino de
Atos, por que essa fórmula aparece de formas diferentes, ora “Em nome de Jesus Cristo”
(At 2:38), ora “em nome do Senhor Jesus” (At 8:16)? Se essas passagens revelassem
realmente uma fórmula, elas deveriam ser exatamente iguais. O que a Palavra está
dizendo é que as pessoas eram batizadas na autoridade do nome do Senhor Jesus; ou seja,
são passagens descritivas (o que o batismo é), não litúrgicas (as palavras ditas na
cerimônia)7.
No entanto, precisamos entender que Cristo, em Mateus, não está nos ensinando uma
palavra mágica que precisa ser repetida ipsis litteris em todo ato batismal. Como diz
MacArthur, essa “não é necessariamente uma fórmula ritualística” que precisa ser
decorada e recitada. Se assim o fosse, ela seria repetida em todos os registros que
possuímos de batismo. Porém, “é bom que isto seja lembrado em todo ato, como tem sido
usado na história da igreja”8. Há quem diga, até, que o termo “fórmula” não deveria ser
empregado aqui, já que Cristo não está nos dando uma “declaração instituída”. Jesus
deseja, na verdade, que nos recordemos da Trindade no momento do batismo – e tais
palavras nos são úteis para este fim.
Considerada essa questão, cabe-nos perguntar: o que significa ser batizado em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo? As opiniões entre os estudiosos são as mais diversas. A
Vulgata traduziu eis to anoma como in nomine (em nome), o que foi seguido por Lutero,
traduzindo como im Namen. Estas traduções trazem a ideia de ser batizado “na autoridade
do trino Deus”. Outros já consideram essa posição totalmente insustentável. Segundo
Meyer, batizar “em nome de”, no grego, teria o sentido de batizar “em referência a”,
dando a ideia de que quem é batizado em Nome da Trindade está adentrando em uma
comunhão espiritual e em uma dependência ética com o Pai, o Filho e o Espírito,
aceitando-os como credo e confissão9. Louis Berkhof argumenta que a preposição eis
(para dentro de) é mais indicativa de um fim e, portanto, pode ser interpretada no sentido
de “em relação a”, ou “para a profissão de fé em alguém e sincera obediência a alguém”,
o que significa que a pessoa batizada era simbolicamente introduzida no nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo, isto é, tornava-se discípulo da Trindade, entrando num estado
de lealdade a Ela e de comunhão com Ela. Peskette e Ramachandra dizem que “Batismo
‘em nome de’ significa ‘passar a pertencer a... como marca de propriedade de...’. É um
sinal de que o batizado está sob nova direção”10. “Interpretado sob esta luz”, diz Berkhof,
“a fórmula batismal indica que, pelo batismo [...], o participante é colocado num
relacionamento especial com a autorrevelação divina, ou com Deus como ele se revelou e
revelou o que deseja ser para o seu povo”11.
Lars Hartman comenta que “tanto no grego bíblico como nas tradições rabínicas as
expressões com ‘nome’ podem ser um tanto frouxas e ter um peso relativamente
pequeno”12, de modo que, em uma discussão rabínica, pode-se passar de “em nome de x”
para “em x” sem mudar o significado da expressão (ver Lc 21:12 e Mc 13:9b, ou At 10:43
e 13:38). Ou seja, assim como o “batismo em o nome de Jesus” de Atos é um batismo
direta e intimamente relacionado com Cristo (batismo em Cristo) ou, nas palavras de
Leenhardt, “um rito que extrai todo o seu significado da pessoa de Cristo e do
relacionamento estabelecido com ele”13, o batismo “em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo” é um rito completamente relacionado com essa Trindade, extraindo todo o
seu significado do Deus Trino e do relacionamento estabelecido com ele.
As implicações desta análise são interessantes para compreendermos o significado da
fórmula batismal. Desde que W. Heitmüller publicou seu clássico estudo Im Namen Jesu
em 1903, uma opinião comum entre os estudiosos tem sido a de que tal fórmula transmite
a ideia de apropriação, dedicação e submissão. Outra interpretação foi proposta por P.
Billerbeck em 1922, crendo que eis to onoma significa “com respeito a, para o benefício
de, por causa de”. Não é complicado observar que todas estas abordagens produzem
implicações práticas muito semelhantes, apontando para uma condição de pertencer ao
Deus Triúno14.
Quais aplicações pastorais podemos tirar desta nossa breve análise? Antes de tudo,
podemos encontrar uma prova contundente da doutrina da Trindade. Confesso que eu
discordava desta posição e defendia que seria exagerado encontrar mais que uma pequena
indicação da Triunidade de Deus neste texto, mas precisei mudar de opinião. Sem
dificuldade podemos ver que, ou existe uma Trindade, ou temos sérios problemas com o
significado do batismo. Os motivos são simples. Primeiro, o texto é claro em dizer que
somos batizados em “um só nome”15, e não em três nomes. Sabendo que o “nome” é o
equivalente à própria pessoa na linguagem bíblica, como já lidamos há poucos, usar um
só “nome” para falar tanto do Pai, quanto do Filho e do Espírito Santo é uma indicação
clara de que existe uma unidade plural no Ser de Deus. Além disto, e aqui há mais
claridade ainda, se somos batizados para entrar em um relacionamento com Aqueles em
quem somos batizados em nome, somos batizados para entrar em um relacionamento com
o Pai, com o Filho e com o Espírito. Se estes dois últimos não fossem divinos, então
seriamos batizados para viver em relacionamento com Deus e outros dois seres (como o
Espírito Santo seria uma mera “força ativa” impessoal se nos batizamos para nos
relacionar com ele?). Nas palavras de Atanásio: “Se o Filho e o Espírito não são divinos,
então, somos batizados no nome de Deus e de duas criaturas”16. A Trindade é óbvia à luz
de Mateus 28:18-20.
Mais obviamente, compreendemos que o batizado está entrando em um
relacionamento íntimo com a Trindade. Sabendo que “sendo batizado no nome de”
significa “sendo levados a um relacionamento vital com”17, entendemos que o batismo
não é só um rito, mas uma declaração pública da entrada em um novo relacionamento.
Agora, o novo homem será filho de Deus, e como filho, fará parte de uma comunhão
íntima com o Senhor. Ao sermos batizados, nós não apenas “declaramos publicamente
que renunciamos ao demônio, às suas pompas e a seus anjos”18, para usar as palavras de
Tertuliano, mas também adentramos em um relacionamento com o Santo e Soberano
Senhor. Como diz Willard: “Espero que você concorde comigo que ele não estava se
referindo apenas a encharcá-los enquanto proferimos as palavras apropriadas; antes,
‘batizando-os em nome’ se refere a entregá-los, mergulhá-los na realidade da comunidade
trinitária”19. Gundry concorda que “a fórmula [do nome divino] não implica a pronúncia
da expressão trinitária no momento do batismo. Em vez disso, ‘no nome de...’ significa
‘referindo-se fundamentalmente a’”20. Assim, devemos mostrar ao novo convertido a
importância deste ato, a fim de que ele possa ter extrema reverência e alegria quando
cumprir esta ordenança. Gregório de Nazianzo, no século IX, falando aos catecúmenos da
igreja em Constantinopla, deixou bem claro que o batizando está entrando em um
relacionamento íntimo não com qualquer divindade, mas com o Deus Triúno:
Eu vo-lo confio hoje [a profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo]. É por ela que daqui a
pouco vou mergulhar-vos na água e vos tirar dela. Eu vo-la dou como companheira e dona de toda a
vossa vida. Dou-vos uma só Divindade e Poder, que existe Uma nos Três, e que contém os Três de
maneira distinta. Divindade sem diferença de substância ou de natureza, sem grau superior que
eleve ou grau inferior que rebaixe [...]. A infinita conaturalidade é de três infinitos. Cada um
considerado em si mesmo é Deus todo inteiro [...]. Deus os Três considerados juntos [...]. Nem
comecei a pensar na Unidade, e a Trindade me banha em seu esplendor. Nem comecei a pensar na
Trindade, e a Unidade toma conta de mim.21

Por que tanta ênfase de Gregório neste pondo em particular? Por que ele entendeu que
Cristo instituiu um batismo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, e isso
representa mais do que repetir tais palavras durante o rito. Como acontece em muitas
partes da Escritura, a frase “o nome” aqui encarna a plenitude de uma pessoa, abrangendo
tudo o que ele é, tem e representa. Quando ele é batizado, o crente é identificado com
tudo o que Deus é, tem e representa22. Assim, devemos nos esforçar para que o novo
cristão compreenda quem é Aquele que será agora seu Pai, Senhor, Rei e Amigo, para
sempre. “Estas palavras são preferencialmente uma rica e compreensiva afirmação da
maravilhosa união que crentes possuem com toda a Divindade”23, comentou John
MacArthur sobre a fórmula batismal. Ignorarmos a necessidade de lembrar o batizando e
todos os presentes sobre Aquele que está sendo honrado com o ato do batismo seria uma
negligência terrível.
Deste modo, o batizado está comprometendo sua vida à Trindade. Ao ser batizado, o
crente assume que viverá sua vida de acordo com os termos da Trindade Santa. Ele não
mais viverá de acordo com seu próprio padrão de moral, mas de acordo com a moral de
Deus. A frase que segue a ordem de batizar, na Grande Comissão, é o mandamento de
ensinarmos os discípulos a obedecerem tudo o que Jesus instituiu. O fraseado grego nos
dá a ideia de que esta é uma ordem subordinada ao batismo, o que nos indica que certo
ensino ético deve estar relacionado com o ato batismal24. Precisamos mostrar aos novos
crentes que a nova vida deles deverá ser vivida totalmente de acordo com a Palavra do
Senhor. Geralmente, queremos apresentar um cristianismo bobo, raso, superficial e até
mesmo histérico, a fim de prender os novos convertidos na igreja, pois tememos mostrar a
realidade da vida cristã, achando que o novo convertido desistirá de seguir esta vida.
Porém, devemos ensinar tais pessoas a calcular o custo deste ato: “Assim, pois, todo
aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lc
14:28-33).
Eu duvido que seja tal sentimento de comprometimento com Cristo que esteja
aflorando do coração daqueles que realizaram seus batismos em toboáguas25 ou em
momentos que não representam alegria em Cristo pela salvação, mas simples
divertimento adolescente26. O momento do batismo precisa ser alegre, mas,
simultaneamente, precisa cobrar a meditação e a solenidade procedente de estar
entregando a vida em compromisso com a Trindade Santíssima.
Então, não é o tipo de água com a qual batizamos que faz diferença, mas Aquele que é
Senhor do batismo. Muitos cristãos pagam valores muito acima de seus orçamentos a fim
de serem batizados em locais santos, como o Rio Jordão. Muitas agências de turismo
gospel usam a possibilidade de ser batizado no mesmo lugar onde Cristo foi como meio
para alavancar as vendas. “Pessoas do mundo inteiro vão ao rio Jordão para se batizarem
e, assim, encontrar uma identificação maior com Jesus. O batismo representa um novo
nascimento, e muitos escolhem o Jordão como cenário para esta nova fase da vida”,
afirma Ricardo Caro, diretor da Terra Santa Viagens27. Um pastor amigo meu me disse
que crentes já batizados pediam para ele, quando em Israel, para batizá-los no Jordão
(que, diga-se de passagem, anda bem poluído)! Das aberrações que a gente encontra na
internet, o relato a seguir é muito ilustrativo:
Um dia, na Galileia, com a minha mãe, vimos uma placa na estrada – “Baptism Site” [Local de
Batismo]. Entramos para ver e nos deparamos com um galpão turístico, na beira do rio Jordão.
Vendiam diversos souvenirs, [...] Porém o produto mais disputado era o certificado de batismo.
Custava cerca US$ 10 ou algo próximo. Para consegui-lo, além de pagar, era preciso colocar uma
vestimenta branca e entrar no rio para tomar três caldos. Guias de turismo podiam fazer o serviço.
[...] Não sei até hoje se sou católico, ortodoxo, ou qualquer outra denominação cristã. O certo é que,
hoje, tenho um batismo mais bacana que o dos meus irmãos, que foram batizados às pressas na
igrejinha da praia de Juquehy, no litoral norte paulista.28

Por mais bizarra que seja esta citação, muitos crentes agem do mesmo modo, ainda que
com palavras mais santificadas. Janaína Santos, da igreja Renascer em Cristo, que foi à
Israel especialmente para ser batizada, afirmou: “Eu nem sei explicar o que estou
sentindo... Me preparei por 10 meses para estar neste local e ser batizada, mas nada que
eu pudesse imaginar se compara a isso. Me sinto leve, restaurada e muito abençoada!”29.
Ainda que todos já fossem batizados, o grupo de louvor Diante do Trono se batizou
novamente no Jordão, quando lá esteve30. Tais visões a respeito de locais mais sagrados
para o batismo ou de águas mais ungidas não provem de uma teologia correta nem de um
estudo, por mínimo que seja, do texto da Grande Comissão. O que dá a autoridade do
batismo é o Deus Triúno, em nome de quem somos batizados, e não as águas que são
usadas para o rito.
Da mesma forma, não é a fidelidade do ministro que define a validade do batismo, e
sim sob qual autoridade se deu o batismo. Agostinho usava o termo em latim ex opere
operato para expressar que a eficácia do batismo e da Ceia do Senhor dependiam da
manifestação espiritual da graça de Cristo, e não de algum poder intrínseco ao ministrante
das mesmas (o que foi seguido pelos reformadores). Os donatistas afirmavam, por sua
vez, o ex opere operantis (lit. “em função da obra daquele que opera”), defendendo que o
batismo e a Ceia possuíam eficácia das qualidades pessoais do ministro, o que foi seguido
pelos anabatistas. Com base em nosso texto, podemos contemplar a ênfase de Cristo em
sua própria autoridade, e o nome do Deus Trino como o poder final sobre o batismo
cristão.
Muitos temem que, ao permitir que os membros mais maduros da igreja batizem os
novos convertidos, caso os batizadores se desviem na fé ou caiam em pecado, os batismos
percam a validade. Outros acham que apenas os pastores, presbíteros e diáconos possuem
tal autoridade. O erro está em esquecer que a autoridade por detrás do batismo está em
Cristo, que possui todo o poder nos céus e na terra. A integridade do batismo não está sob
a responsabilidade daquele que o administra, nem mesmo daquele que o recebe, mas na
autoridade do Deus Triúno que tem sob Si os céus e a terra. O batismo acontece pela
autoridade de Deus, e não do batizador. O batismo é em nome do Pai, do Filho e do
Espírito, e não em nome de quem molha o novo crente. Se alguém é batizado por um
ministro que depois deixa o ministério e abandona a fé, essa pessoa não precisa ser
batizada novamente. Da mesma forma, o fracasso de quem é batizado em levar uma vida
totalmente exemplar não prejudica o sinal recebido, ainda que a pessoa venha a crer de
verdade só posteriormente. Como disse Mário Persona:
Quando uma pessoa batiza usando a fórmula “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, ou
“em nome de Jesus” no sentido da autoridade recebida daquele que instituiu o batismo, ela está se
valendo de uma autoridade delegada, como ocorre com um embaixador durante a vigência de sua
embaixada. Se o embaixador depois morre, encerra seu tempo de serviço ou até mesmo nega sua
cidadania, os atos que praticou enquanto estava investido daquela autoridade continuam valendo.31

Assim, o batizado está preocupado com a glória do Deus trino. Existem vários
motivos pelos quais um homem possa deixar-se batizar. Na história do cristianismo,
muitos aceitaram ser “cristãos” a fim de conseguir status social ou ajudas governamentais.
No entanto, o verdadeiro motivo para alguém ser batizado está em uma preocupação com
a glória de Deus e com o relacionamento com ele. Quando evangelizamos, devemos
inculcar na mente dos candidatos ao batismo a consciência de que seus motivos devem
ser sempre a glória do Deus Trino.

7. Para uma análise mais contundente dos versos em questão, ver MATOS, Alderi Souza de. “O Batismo ‘Em Nome de
Jesus’ no Livro de Atos: Uma Reflexão Bíblico-Teológica”. Disponível em:
<http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_V__2000__2/Alderi.pdf>. Acesso em: 12
ago. 2012.
8. MACARTHUR. The MacArthur New Testament Commentary, p. 344.
9. MEYER, Heinrich August Wilhelm. Critical and exegetical handbook to the gospel of Matthew. Peabody,
Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1983, p. 528.
10. PESKETTE; RAMACHANDRA. A Mensagem da Missão, p. 160.
11. BERKHOF. Teologia Sistemática, p. 557.
12. HARTMAN, Lars. “Into the Name of Jesus”: A Suggestion Concerning the Earliest Meaning of the Phrase, New
Testament Studies 20. 1974, p. 440.
13. Apud BEASLEY-MURRAY, G. R. Baptism in the New Testament. Wipf & Stock Publishers, 2006, p. 100.
14. MATOS. “O Batismo ‘Em Nome de Jesus’ no Livro de Atos”. Op. Cit.
15. MACARTHUR. The MacArthur New Testament Commentary, p. 344. ERICKSON. Christian Theology, p. 355.
16. Apud FERGUSON, Sinclair. The Trinitarian Devotion of John Owen. Orlando, FL: Reformation Trust, 2014. p. 34.
17. HENDRIKSEN. Mateus, p. 701.
18. TERTULIANO. De Spectaculis. Disponível em: <http://www.newadvent.org/fathers/0303.htm>. Acesso em: 21 fev. 2014.
19. WILLARD. A grande omissão, p. 50.
20. GUNDRY, R. H. Matthew: A Commentary on his Literary and Theological Art. Eerdmans, 1982, p. xxx.
21. NAZIANZO, Gregório. Oratio XL.41: SC 358, 292-294 (PG 36,417). Apud FERREIRA, Franklin. Teologia Cristã: uma
introdução à sistematização das doutrinas. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 70.
22. MACARTHUR. The MacArthur New Testament Commentary, p. 345.
23. Ibid., p. 344.
24. MEYER, Heinrich August Wilhelm. Critical and exegetical handbook to the gospel of Matthew. Peabody,
Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1983, p. 530.
25. Inovação: Batismo nas águas através de toboágua. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?
v=3FAOQCF0T3I>. Acesso em> 31 out. 2013.
26. Batismo Divertido. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=xfoRq7PE-YU>. Acesso em: 31 out. 2013.
27. Para ser batizado no Rio Jordão. Disponível em: <http://www.aeroportojornal.com.br/index.php?
option=com_content&view=article&id=302:para-ser-batizado-no-rio-jordao&catid=15&Itemid=133>. Acesso em: 31
out. 2013.
28. O batismo no rio Jordão pode custar menos de US$ 10, com certificado incluído. Disponível em:
<http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/o-batismo-no-rio-jordao-pode-custar-meno/>. Acesso em: 31 out. 2013.
29. Batismo no Jordão e origem da autoridade apostólica marcam 3o dia da Caravana. Disponível em: <http://josiel-
dias.blogspot.com.br/2013/10/batismo-no-jordao-e-origem-da.html>. Acesso em: 31 out. 2013.
30. A viagem do ministério Diante do Trono a Israel. Disponível em:
<http://www.ifiladelfia.com/portal/noticias_detalhes.php?Codigo=1706>. Acesso em: 31 out. 2013.
31. PERSONA, Mário. Quem pode batizar uma pessoa? Disponível em: <http://www.respondi.com.br/2009/01/quem-pode-
batizar-uma-pessoa.html>. Acesso em: 7 set. 2013.
11
SÓ PASTORES
PODEM BATIZAR?

A última questão a ser tratada é: “Quem deve batizar?”. Considerando que o texto de
Mateus é direcionado a toda igreja de Cristo, podemos crer que é uma verdade simples de
ser crida que o Novo Testamento nos indica que todo cristão pode batizar outro: “E
quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais
discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos)
[...]” (Jo 4:1,2). Franklin Ferreira e Alan Myatt elucidam que “na igreja primitiva era
permitido que qualquer leigo batizado batizasse os novos convertidos; mas, aos poucos, o
privilégio passou a ser reservado apenas aos clérigos”1. B. B. Warfield explica mais sobre
isto:
Parece que o sistema original permitia que qualquer pessoa batizada batizasse os outros; pelo
menos, é impossível afirmar que somente os apóstolos ou aqueles comissionados por eles poderiam
administrar o sacramento (cf. 1 Co 1:14-17; Atos 6:5; 8:12,38). A mesma inferência pode ser
extraída do Didaqué (vii) e de Inácio (Ad Smymmos, VIII, 2).2

O Didaquê, citado aqui por Warfield, quando fala do batismo, traz regras detalhadas a
respeito da ordenança. O(s) autor(es) do documento chega(m) a falar sobre o tipo de água,
a temperatura da água, a quantidade de vezes que a água deve ser derramada na cabeça
sobre a fórmula do batismo, que se requer jejum do batizando e do batizador, além de
falar especificamente dos dias exatos de jejum para aquele que se batizaria. Um
documento que traz, com riqueza de detalhes, ensinos sobre a prática do batismo não
gastar nenhum caractere sequer para discorrer sobre quem deve ser o administrador do
rito nos dá uma boa indicação de que isso não era uma questão de disputa teológica – a
opinião vigente era tida por correta pelo escritor, era virtualmente unânime e ninguém
sonhava propor outra alternativa. Portanto, o silêncio do Didaquê nos dá uma evidência
de que a opinião histórica de que todos os cristãos poderiam batizar era tida por terreno
comum pelo seu autor.
No entanto, com o tempo, o ministro natural do batismo tornou-se o bispo,
principalmente na primeira parte do século II3. Tal visão não foi restrita apenas ao
batismo. Inácio de Antioquia, escrevendo para igrejas que lutavam contra heresias e
convencido de que um líder ortodoxo manteria a pureza da comunidade4, ensinou que a
única celebração válida da ceia do Senhor é aquela que um bispo preside5, que o único
casamento verdadeiramente cristão é o que ocorre com o consentimento dos bispos6, além
de, obviamente, defender que não era correto batizar sem a presença do bispo, ainda que
fosse permitido que leigos realizassem o ritual7.
Uma vez que os Católicos Romanos começaram a considerar o batismo absolutamente
essencial para a salvação e porque acharam cruel fazer que a salvação dependa da
presença ou ausência acidental de um sacerdote, permitiram em casos de emergência que
o batismo fosse ministrado por outros, particularmente por parteiras, mas apenas em casos
extremos. As igrejas reformadas, por sua vez, sempre agiram com base no princípio de
que a ministração da Palavra e a dos sacramentos são entrelaçadamente unidas e que,
portanto, o presbítero docente ou ministro é o único legítimo administrador do batismo8.
O próprio João Calvino escreveu:
Nesta matéria é também preciso saber que é impróprio a pessoas particulares assumirem a
administração do batismo, visto que este é um ofício do ministério eclesiástico, [...]. Pois Cristo não
deu mandamento a nenhum homem ou mulher que ministrasse o batismo; antes, àqueles a quem ele
constituíra apóstolos [...]. As palavras de Cristo são claras: “Ide, ensinai a todos os povos e batizai”.
E se ele não designa a outros como ministros para batizar senão aos que designou para pregar o
evangelho; e se o Apóstolo testifica que ninguém deve usurpar esta honra senão aquele que foi
chamado, como Arão, qualquer que sem vocação legítima batiza, age mal, assumindo o ofício de
outro.9

Não é muito difícil, porém, a despeito de toda admiração pessoal pelo grande João
Calvino, percebermos que, no Novo Testamento e em toda igreja bíblica, o batismo nunca
foi um privilégio de pastores ou bispos ordenados, mas um ato cumprido por todo
evangelista – ordenado ou não. Aqueles que vão pregando o evangelho devem batizar os
novos crentes. Ouvi, certa vez, um relatório missionário de irmãos do sul que precisaram
chamar um pastor da Colômbia para realizar um batismo, pela falta de um pastor que o
fizesse. Por que criar este tipo de regra, se a Escritura não a impõe? Em nenhum momento
a Palavra diz que o batismo precisa ser realizado por pastores. A indicação que temos é de
que os discípulos eram quem o fazia. “Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos”
(Jo 4:2). O próprio Paulo, após ter seu encontro com o Senhor, foi batizado por um
simples discípulo chamado Ananias (At 9:10-18). Não há menção de que Ananias fosse
um presbítero em Damasco, e dizer que ele era um ministro oficial da igreja como profeta
por ter recebido uma visão de Deus, como alguns argumentam, é mais que uma inferência
demasiadamente forçosa. Crendo nisto, teríamos que considerar o Paulo pré-convertido e
Cornélio ainda prosélito judeu como oficiais da igreja cristã, uma vez que receberam
mensagens divinas. Vincent Cheung escreve que
os reformados [...] registraram em algumas de suas confissões que somente pessoas devidamente
ordenadas poderiam batizar [...]. Não existe base bíblica para isso. [...] Por questão de ordem na
igreja, alguns indivíduos, mais provavelmente ministros, são designados a batizar e servir a ceia,
mas isso não significa que somente eles podem fazê-lo [...] ― como se houvesse uma elite entre os
crentes, que é precisamente aquilo a que os reformados dizem se opor. 10

Por que ignorar tal liberdade? Ora, se a ordem da Grande Comissão é entregue à igreja
de Cristo como um todo, como vimos no segundo capítulo, e se o mandamento de batizar
os discípulos está dentro deste mandato, porque o cristão leigo é proibido de obedecer tal
parte do mandamento? Parece óbvio, mas nosso apego cego a certos costumes ainda nos
impede de obedecer às Escrituras.
Como a ordem da Grande Comissão foi entregue a todos os discípulos, como corpo, e
considerando que o batismo não é necessariamente sinal de liderança ou autoridade,
podemos crer que mulheres também são aptas a realizar batismos, como discípulas de
Cristo, até mesmo em igrejas que rejeitam o pastorado feminino. Em igrejas onde o
batismo simboliza algum tipo de liderança eclesiástica daquele que batiza, esta má
compreensão deve ser sanada antes de permitir que mulheres realizem batismos. Claro
que há várias questões contextuais que devem ser pesadas. Igrejas de associações ou
tradições denominacionais mais fechadas podem transformar a vida de novos convertidos
um inferno por considerar seus batismos como inválidos por terem sido guiados por uma
mulher. Seria constrangedor demais que um cristão precisasse ser “rebatizado” porque foi
batizado por uma mulher em sua antiga igreja, ao mudar para uma igreja mais radical
neste ponto.
Há quem argumente que, sendo a ordem de fazermos discípulos uma ordem
comunitária, a ser cumprida pelo povo de Deus coletivamente, os cristãos leigos
cumpririam a Grande Comissão apenas naquilo que lhe cabem, e outros membros do
corpo – no caso, os ministros ordenados – cumpririam outras partes da ordem. Os cristãos
leigos obedeceriam a ordem de batizar, de alguma forma, talvez, confirmando e aceitando
o ato praticado pelos pastores, comunitariamente.
Por mais que eu reconheça a perspicácia desta posição, creio que precisamos de
categorias um pouco mais precisas ao olharmos para nosso texto. Por exemplo, se
dissermos que a ordem do batismo não se aplica a todo crente, porque não dizer o mesmo
quanto ao ir, ao discipular e ao ensinar? Por que aplicar tal análise à ordem de batizar,
mas não a todas as outras ordens? Além do mais, ainda que a Grande Comissão seja uma
ordem corporativa, nós não podemos particioná-la, a fim de aplicar um ponto para
determinado grupo e outro ponto para outro grupo. Uma ordem corporativa será obedecia
por cada indivíduo da corporação de modo completo, ainda que de maneiras diferentes.
Por exemplo, todos os cristãos devem ensinar uns aos outros (Cl 3:16), e mesmo assim
nem todos somos mestres (1Co 12:29; Tg 3:1); todos os cristãos devem ministrar uns aos
outros (1Pe 4:10-11), e mesmo assim nem todos somos separados como ministros (1Tm
3:8-13); todos os cristãos devem ser abundantes no trabalho do Senhor (1Co 15:58), e
mesmo assim Paulo chama a si e a Apolo de “colegas de trabalho”, com referência ao
serviço aos Coríntios (1Co 3:5-9); todos os cristãos devem fazer discípulos e falar aos
outros a respeito de Cristo (Mt 28:19; 1 Pe 3:15), e mesmo assim alguns são identificados
como evangelistas (Ef 4:11). Todos os cristãos cumprem ativamente todos os aspectos da
Grande Comissão, ainda que nem todos sejamos separados integralmente para todos os
aspectos deste serviço. Porque apenas com o batismo isto se daria de forma diferente?
Esta é uma ordem comunitária, mas não há por que dizer que os cristãos leigos “batizam”,
mas sem batizar de fato, quando isto não se aplicaria a nenhum outro ponto da Grande
Comissão.11
Contra o uso de João 4:2 como base para meu argumento (“ainda que Jesus mesmo não
batizava, mas os seus discípulos”), Frank Brito argumenta que “discípulo” é
frequentemente usado no Novo Testamento para se referir somente aos doze apóstolos
(Mt 10:1) e ao grupo estrito dos setenta evangelistas (Lc 10:1), não existindo, assim,
qualquer evidência textual que mostre que eram cristãos comuns que realizavam os
batismos. Desta forma, ele argumenta que aqueles discípulos em especial foram
ordenados oficialmente para serem pregadores do Evangelho: “Eu vos enviei a ceifar
onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho” (Jo 4:33-
38). Ele conclui dizendo que o texto paralelo deixa claro que Cristo estava se referindo a
ministros ordenados: “E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque
andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor. Então, disse aos seus
discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor
da seara, que mande ceifeiros para a sua seara” (Mt 9:36-38).12
No entanto, “discípulo” (μαθητής) aparece 81 vezes em João, e em 74 versículos. Basta
uma leitura simples destes textos para perceber que assumir que isso sempre está ligado
apenas aos apóstolos ou aos 70 é um exagero ou uma transposição indevida de
significado. Escolher justamente o significado mais limitante, sem qualquer argumento
textual, impondo determinada conclusão sobre o texto, é pura e simples arbitrariedade.
Entender, além disso, que o envio que é registrado no mesmo capítulo é um envio para o
ministério formal de evangelista é, novamente, uma imposição sem fundamento. Só no
livro de João, a palavra usada ali para o envio (ἀποστέλλω) também é usada para os
sacerdotes e levitas que foram enviados para perguntar a João quem ele era (Jo 1:19,24;
5:33), para os guardas que foram enviados para prender Jesus (Jo 7:32), para se referir ao
envio das irmãs de Lázaro a avisar Jesus da morte do irmão (Jo 11:3) e ao envio de Jesus
por Anás à presença de Caifás, o Sumo-Sacerdote (Jo 18:24). Dessa forma, ἀποστέλλω
não significa necessariamente um envio formal ao ministério, mas simplesmente um
envio. Não podemos transportar um significado teológico de um termo como se ele fosse
a única possibilidade em seu campo semântico, ainda mais quando o significado sem a
importação sistemático-teológica é o mais natural. No grego, ἀποστέλλω significa
simplesmente “enviar”, e não “enviar formalmente ao ministério episcopal oficializado”.
Além disso, o texto paralelo em nada ajuda a interpretação de Frank. Cristo usa uma
metáfora, dizendo que os perdidos eram como ovelhas desgarradas. Esta é a interpretação
natural do texto. Não há base textual alguma para acreditar que Cristo estava se referindo
a um ministério pastoral ordenado.
Alguns também dizem que, como o batismo está intimamente ligado ao ensino, ele é de
responsabilidade dos mestres da igreja. No entanto, todo cristão é ordenado ao ensino
nesta passagem da Grande Comissão. Não quero dizer que todo crente seja um oficial e
que não deva haver epíscopos nas comunidades, mas sim que, nesta passagem, do mesmo
modo que o batismo é uma ordem dada a todos os crentes, o ensino também o é. Tentar
limitar este para limitar aquele é um fracasso interpretativo rudimentar.
Que eu não seja mal entendido. É obvio que alguns cuidados precisam ser tomados.
Wayne Grudem, após afirmar que “parece não haver necessidade em princípio de
restringir o direito de ministrar o batismo apenas ao clero ordenado”, segue com uma boa
consideração:
já que o batismo é o sinal de ingresso no corpo de Cristo, a igreja [...], parece apropriado que ele
seja feito dentro da comunidade da igreja sempre que possível, de modo que a igreja como um todo
possa alegrar-se com a pessoa batizada e a fé de todos os cristãos daquela igreja seja edificada.
Além disso, visto que o batismo é um sinal de início da vida cristã e, portanto, de uma vida
incipiente na verdadeira igreja, é apropriado que a igreja local reúna-se para dar testemunho desse
fato e receba amorosa e publicamente a pessoa batizada.13

Esta é uma consideração interessante. Além do mais, para o membro comum da igreja
local, não existe necessidade de sair batizando instantaneamente todos os que vão crendo
sem antes telefonar para os líderes da comunidade para que conheçam aquele que creu,
conversem com ele e atestem sua confissão de fé. Em casos de viagens missionárias,
projetos de evangelismo e plantações de igrejas, batizar o convertido pouco tempo após
sua fé ser atestada não seria problemático, uma vez que este é o contexto que
encontramos na Escritura. No entanto, com uma igreja local bem estabelecida, ter o
cuidado pastoral próximo é uma coisa importante. Fora que, muitas vezes, o próprio
pastor pode guiar o momento de batismo, ainda que quem batize o novo crente seja um
familiar, aquele que o evangelizou ou outro cristão maduro. Como diz Grudem, “um
cristão eficaz na evangelização em uma igreja local pode ser uma pessoa adequadamente
designada para ministrar o batismo aos que tiverem aceitado Cristo por meio do seu
ministério evangelístico”14.
Eu fiquei muito emocionado ao ler um relato que Driscoll faz de um culto batismal de
sua comunidade. Nele, enquanto o líder de louvor estava guiando os cânticos, sua filha
mais velha, de idade pré-escolar, veio à frente a fim de ser batizada. Mesmo muito tímida,
ela confiantemente veio diante de uma igreja lotada, com mais de mil pessoas, a fim de
confessar Cristo publicamente, pela primeira vez. O pastor que confirmou o testemunho
da garota subiu ao palco e puxou o pai dela para perto da filha, para que ele mesmo a
batizasse. O pai da garotinha só entendeu o que estava acontecendo quando já estava no
tanque batismal, prestes a confirmar a fé de sua filha. Seu rosto se encheu de alegria e,
então, chorou incontrolavelmente enquanto a beijava e levantava-a para ser batizada. Ao
redor, todos os pais presentes choravam e aplaudiam, em alegria e contrição15.
A pergunta que fiz após ler esse relato foi simples, mas requer uma resposta muito séria
da parte da maioria dos pastores brasileiros: por que tirar isso das pessoas? Por que
impedi-las de batizarem seus filhos, amigos, parentes e evangelizados? Por que arrancar
da mão dos filhos de Deus um direito que o próprio Senhor os entregou? Por que roubar
tanta alegria da igreja? Estas são questões que não devem ser ignoradas. Vi, certa vez, as
fotos de um amigo pastor que batizava seu próprio pai, após anos de evangelismo. Que
cena emocionante! Aquele amigo pôde participar deste belo momento por ser um ministro
ordenado, mas e os outros que não foram chamados por Deus para o episcopado, foram
então proibidos naquilo que a Escritura não os condena?
Claro que também não podemos empurrar tal conceito goela abaixo em nossas igrejas
locais. Um pastor de minha cidade tentou ensinar sua comunidade aos poucos sobre isto,
respeitando seus irmãos, cuidando dos mais velhos, deixando claro o que a Bíblia dizia.
Porém, no dia dos batismos, quando tudo estava organizado para que os irmãos
batizassem seus amigos, parentes e evangelizados, muitos desistiram, pois suas
consciências os acusavam. Temos que ensinar corretamente, mas é importante lembrar
que o pastor ser o único a batizar, por opção da própria comunidade, não é
necessariamente um pecado. É melhor que só o pastor batize do que os irmãos o fazerem
sem ser por fé, o que é pecado (Rm 14:23).
Louvo a Deus pelo fato de que existem igrejas não apenas ao redor do mundo, mas
também em nossa própria nação que usam estes princípios e que permitem que os
membros batizem seus amigos, conhecidos, parentes e evangelizados. Segundo alguns
pastores que interpelei, nenhum problema prático insolucionável tem surgido a partir
disto. Entristece-me muito, porém, que muitos que concordam com tais pontos têm sido
covardes para, pelo menos, propor tal visão a suas comunidades ou aos seus líderes.
Apesar dos exageros e erros presentes em tal movimento, os anabatistas entregavam suas
vidas, literalmente, pelo privilégio de batizarem uns aos outros, cerca de 500 anos atrás.
Hoje, em tempos de total liberdade religiosa no Brasil, tememos a opinião dos outros.
Somos permitidos por Deus, mas desautorizados pelos homens. As imposições de uma
tradição não-bíblica costumam ser os golpes mais fortes da tirania religiosa. Pregadores
que têm levado o evangelho a ambientes distantes e que deixam de batizar os convertidos
por falta de um pastor ordenado não só estão agindo de modo leviano, mas estão
desonrando ao Senhor:
Nós não podemos quebrar a Grande Comissão em partes separadas, obedecendo o que gostamos e
abandonando o que não gostamos. Lembremo-nos de que a obediência parcial ou a obediência
seletiva ainda são desobediência. [...] a formação de discípulos não é completa até a segunda parte
ser cumprida ou guardada como o resto do mandamento. A instrução completa requer que todas as
partes da Grande Comissão sejam guardadas ou compridas. [...] Nós falhamos em fazer discípulos
de Cristo, nosso rei, se apenas educarmos as pessoas sobre ele, sem proceder a batizá-las. Teremos
mantido esta declaração da Comissão apenas parcialmente e, como tal, não temos fielmente e
integralmente realizado a tarefa de fazer discípulos. 16

1. FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 936.
2. WARFIELD, B. B. “Baptism”, In: New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, v. 1. Disponível em:
<http://www.ccel.org/ccel/schaff/encyc/encyc01/articles/baptism.html>. Acesso em: 10 ago. 2012.
3. LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo, volume 1: até 1500 a.D. São Paulo, SP: Hagnos, 2006, p.
155.
4. HAYKIN, Michael A. G. Redescobrindo os pais da Igreja: Quem eles eram e como moldaram a igreja. São José dos
Campos: Editora Fiel, 2012, p. 36.
5. Esmirneanos 8.1
6. Policarpo 5.2
7. LATOURETTE. Uma história do cristianismo, p. 155.
8. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2007, p. 583. Por exemplo: “Há só dois
sacramentos ordenados por Cristo, nosso Senhor, no Evangelho – O Batismo e a Santa Ceia; nenhum destes
sacramentos deve ser administrado senão pelos ministros da palavra legalmente ordenados” (Confissão de Fé de
Westminster, XXVII.IV).
9. CALVINO, João. Institutas, 4:15:20,22.
10. CHEUNG, Vincent. O Cristão e o Casamento Civil. Disponível em:
<http://blogdavidaeterna.blogspot.com.br/2012/10/o-cristao-e-o-casamento-civil.html>. Acesso em: 7 set. 2013.
11. Devo parte da construção deste parágrafo a Vinicius Musselman Pimentel.
12. BRITO, Frank. Quem Tem o Direito de Batizar? (Parte 2). Disponível em:
<http://resistireconstruir.wordpress.com/2013/09/07/quem-tem-o-direito-de-batizar-parte-2/>. Acesso em 10 set. 2013.
13. GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, passim.
14. Ibdem.
15. DRISCOLL; BRESHEARS. Igreja Vintage, p. 114,115.
16. BAIDO-ESSIEN. Examining the Great Commission, posição 1421-1422, 2191-2195.
CONCLUSÃO
FAÇA DISCÍPULOS E MORRA TENTANDO

Na adolescência, eu fui muito impressionado pela biografia do rapper americano 50 Cent.,


intitulada Be rich or die trying, “fique rico ou morra tentando”. Como jovem de periferia,
a ideia de levar a vida em busca de posses ao ponto de morrer na tentativa parecia
emocionante. O rapper estava dizendo que nunca desistiria daquilo que almejava. Ele
viveria a vida inteira olhando para esse alvo. Riqueza ou morte. Pelo que você tem
morrido?
Nós, como igreja, somos chamados por Deus para morrer por muitas coisas. Desde dar
a vida pelos amigos a morrer para esta vida, o discipulado é descrito no Novo Testamento
como uma morte. É em Mateus 16 que Jesus faz o primeiro convite formal ao discipulado
que deixa claro esse aspecto de mortificação:
Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem
quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que
aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em
troca da sua alma? (Mateus 16.24-26)

Jesus está convidando seus discípulos à morte, dizendo que só poderemos ser seu meu
amigo e servo por este mórbido caminho. A estrada para os céus está pavimentada com
negação. Antes de dizer sim para Deus, você precisa dizer não para si. Enquanto Lulu
Santos prega o anti-evangelho, convidando os homens para um caminho onde o que
importa é se aceitar: “Vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir”, o
evangelho de Cristo estabelece que a vida só começa depois que rejeitamos nossos
próprios interesses e vontades. O caminho do discipulado é o caminho do abandono de
nossos próprios desejos. Sua porta de entrada está em dizer não para o que nós somos,
seguindo com o recebimento de um instrumento de morte.
Após a rejeição de si, há a tomada do instrumento de nossa própria mortificação.
Tomamos nas mãos uma cruz. A cruz para nós é um símbolo religioso. Colocamos no
pescoço, nas igrejas, nos símbolos de ministérios, mas a cruz naquela época era um
instrumento de pena capital, usado para a morte dos piores, para aqueles que se rebelavam
contra o estado, que cometiam crimes hediondos. Hoje em dia, seria o equivalente à
cadeira elétrica, ao pelotão de fuzilamento, à forca, à injeção letal e a outros instrumentos
que são usados para morte dos piores criminosos. Jesus está convidando as pessoas a
morrer de forma hedionda. O discipulado é um caminho de morte.
Parece que Jesus não leu Como fazer amigos e influenciar pessoas. Ele não estava
muito preocupado em como apresentar o evangelho de forma bonitinha, sem causar muito
espanto. Jesus já começa com uma mensagem que tanto pra nossa época quanto para
aquela é uma mensagem dura, forte e assustadora. Era uma mensagem que convidava o
homem não para uma vida melhor, não para experimentar uma plenitude de alegria, não
para mais dinheiro, não para um carro do ano e uma casa grande, não para se ver livre dos
problemas interiores e resolver os conflitos do casamento. É uma mensagem de
despojamento de si e de abraço do próprio sacrifício: “Se você quiser vir após mim, diga
não para si mesmo, pegue a sua cadeira elétrica e vem comigo para o calvário”.
Nós adoramos um Deus que foi morto, um Jesus que foi crucificado. Seguimos o
caminho de alguém que foi assassinado injustamente. O chamado para o evangelho num
primeiro momento é para morrer. Não uma morte física, necessariamente, não um suicídio
coletivo como em seitas malucas, mas é uma morte para sua vida terrena, para que
possamos dizer como Paulo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas
Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o
qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2.20). O chamado é para uma
morte, mas uma morte que promete uma outra vida, para que, no caminho de Jesus,
morramos no calvário de Jesus, mas ressuscitemos junto com Jesus. Somos convidados
para abrir mão do terreno para alcançar o divino. Isso é o discipulado: um caminho diário
de morte.
No evangelho de Lucas, Jesus adiciona um importante elemento em seu convite ao
discipulado: “tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23). Esse carregar da cruz
não é um ato passado que a gente faz uma vez na vida, mas um ato frequente, constante e
presente. Você carrega essa cruz agora porque você está sendo mortificado agora. Você
tem seguido aquele que foi crucificado? Todos os dias, a vida do cristão é definida em
termos de morte antes de ser definida em termos de vida. Há uma negação antes da
aceitação. Há o peso de uma lei antes do gozo da graça. Encontrar o evangelho é
encontrar a morte.
É muito bonito ser discipulador. “Ah, eu quero discipular as pessoas no caminho de
Cristo, quero obedecer a grande comissão como está em Mateus 28!”, dizemos. Achamos
que fazer discípulos é uma coisa muito bonita, limpa e agradável. Você leva a pessoa para
a pizzaria, abre a revistinha com um design muito bonito do ministério de comunicação e
então começa a escrever com caneta tinteiro nas lições, conversando, rindo e comendo.
Toda aquela coisa maravilhosa da comunhão e do serviço. De fato, existe muita coisa
maravilhosa no discipulado, muita graça, alegria e gozo, mas também existe um sangue
que precisa ser derramado.
Ao obedecer a grande comissão, você está sendo um comunicador de um convite à
morte para essa vida, e isso cobra de você muito mais que o interesse de apresentar uma
revistinha. Isso cobra que você seja participante dessa morte. Você tem encontrado essa
morte em Jesus, para que você comunique essa morte? Só aquele que abriu mão e se
despejou dessa existência terrena através da fé no filho de Deus é que pode ser um
discipulador de fato. O discipulado cobra daquele que se coloca como instrumento da voz
de Deus para o evangelismo.
Em 2Coríntios 4, Paulo vai falar de seu ministério como discipulador e pregador do
evangelho também em termos de morte. Essa passagem é uma das que mais me
acompanham no ministério. Sempre que as coisas estão indo mal, eu volto para esse texto.
É o capítulo do pastor em depressão. Se você está meio mal e quer desistir de falar sobre
Jesus, esse texto está aqui para você permanecer no ministério. Paulo fala sobre seus
desânimos e sofrimentos, e sobre como o evangelho tem tocado sua vida:
Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de
Jesus se manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues
à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. De
maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. (2Coríntios 4:10-12)

Você quer fazer missões? Quer pregar o evangelho? Quer fazer discípulos? Você terá
que ser um comunicador da morte de Cristo, chamando homens e mulheres a uma morte
que gera vida. Paulo entendia que o seu ministério operava nele morte. O chamado para
missões é um chamado para morrer, mas uma morte que gera vida, uma nova existência.
Paulo sabia que em cada dificuldade do seu ministério, vida era gerada. A cada morte do
seu corpo, que se manifestava até literalmente nas chicotadas, pedradas e naufrágios, ele
sabia que gerava uma vivificação naqueles que estavam debaixo do seu cuidado: “de
forma que em nós opera a morte, mas em vós, vida”. Você quer gerar vida? Vai ter que
encontrar morte em Jesus.
Certa vez, um pastor do meu seminário estava conversando com alguns jovens. Pastor
Tiago Albuquerque, um dos homens mais piedosos que eu tive a graça de conhecer. Ele
acendia em nós o anseio pelas missões. Sempre quando acabava a aula, ele dizia: “E aí,
Yago! Vamos plantar igreja, vamos? Onde é que vamos plantar? Vamos lá...”, e dizia
essas coisas o tempo todo. Agora, ele está nos Estados Unidos fazendo Ph.D. Quando ele
volta de férias e me vê, ele diz: “Yago, que tal Bangladesh? Vamos lá? Em lugar tal tem
dois mil refugiados, vamos lá? Você vai lá, morre em dois anos, mas vive pra Deus”. Ele
era desse naipe. Certa vez, ele estava convidando umas pessoas para missões. Então,
perguntou para um jovem (lembro como se fosse hoje): “Você tá disposto a perder tudo
pelo evangelho?”. A resposta foi: “Mas pastor, eu já perdi tudo pelo evangelho”.
Quando somos chamados a morrer pelo discipulado, não devemos ficar temerosos,
porque já morremos em Jesus. Quem que tem medo da morte? De forma física, todos nós
temos um senso de autopreservação. Mas e na vida espiritual? Muitas vezes, quando você
vive uma vida de medo para as coisas de Deus, é porque você não entendeu que já está
morto. Se você encontrou Jesus, você já morreu. As coisas dessa terra não são mais
valiosas para você. Sua casa, sua reputação, seu cargo na empresa, seu dinheiro, seus
planos e seus sonhos já morreram, já acabaram, já estão na cruz. Você já morreu. Você já
perdeu tudo. O chamado para o discipulado é um chamado para você se apropriar de algo
que já aconteceu na sua vida. Ninguém é tão perigoso quanto um homem que sabe que já
está morto. Nós já morremos no evangelho. Deveríamos ser um perigo para o reino das
trevas. Deveríamos ser pessoas que não titubeiam diante da possibilidade de pregar o
evangelho. Custe emprego, reputação, amigo, cliente ou descanso, se você já perdeu tudo,
se você já morreu na cruz, não há mais barreiras para o serviço de Deus nessa vida.
Talvez você ainda não tenha se apropriado de sua morte. Talvez você ainda não tenha
percebido que está morto. Todos os salvos são zumbis. Todo que encontraram Jesus são
mortos-vivos. Morremos, mas estamos vivos na glória de Jesus. Não temos mais nada. É
só quando você perde todas as esperanças nessa vida que você pode fazer qualquer coisa
para o reino de Deus. Só quando você entende que a sua existência não se resume mais a
isso aqui que você pode fazer diferença no reino presente para trazer glórias ao reino
futuro. Morra. Que opere em você morte para que nos outros opere vida.
Quando você começa no pastorado, sempre são as mesmas perguntas clichê que farão a
você. A primeira é sobre predestinação. A segunda é: “se você pudesse voltar no passado,
o que você diria para você mesmo antes de entrar no ministério?”. Perguntaram isto pra
mim às dúzias no começo da atividade pastoral. A verdade é que eu queria que alguém
tivesse me dito que minha igreja ia me matar. Queria que tivessem me dito que o
ministério ia acabar com a minha vida, que eu ficaria emocionalmente desgastado, que o
serviço dos outros ia cobrar muito daquilo que eu planejava, que eu não teria tempo de
realizar meus sonhos pessoais, que o ministério não seria um passeio de barco em águas
turbulentas, mas um navio de guerra em operação constante, e que isto tudo valeria a pena
num nível assustador quando eu visse vida sendo manifesta na vida dos outros.
“Ah, Yago! Como é lindo o ministério do pastor”. Não, não. Esse é o seu ministério,
essa é a sua vida. Você é um discipulador do reino de Deus. A Grande Comissão é para
você, é uma responsabilidade da igreja. Sobre todos nós deve existir operação de morte
para que em todos nós exista operação de vida. Quando nos recusamos à morte do
evangelho, recusamo-nos a encontrar a ressurreição da graça. Igrejas definham e morrem
porque não abraçam a morte do evangelho uns pelos outros. Se nós fugirmos da operação
da morte, nós fugimos da operação da vida.
É por isso que 1Coríntios 15 é tão importante na vida da igreja. É um capítulo sobre
ressurreição. Paulo está falando sobre a doutrina de que Jesus ressurgiu dentre os mortos.
Falando sobre isso, Paulo fala sobre a importância de nós olharmos para a eternidade e de
ter um cristianismo que olha para o outro lado, que está focado na outra vida: “Mas, pela
graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã;
antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus
comigo” (1Coríntios 15:10).
A partir do momento que Paulo tira os olhos dessa vida e coloca na outra vida, através
da importância da doutrina da ressurreição, Paulo encontra uma graça que não é
inoperante, que o move para o trabalho, que o faz se mexer. A graça não trabalha no ócio
e na preguiça. A graça trabalha na operação das coisas de Deus. Paulo chega a dizer que
trabalhou mais que todos os outros apóstolos porque a graça foi operante nele.
Às vezes, eu pergunto para os meus seminaristas: “Olha, Paulo efetivamente trabalhou?
Está escrito, não é?”. Eles concordam que Paulo trabalhou. Mas Paulo diz em seguida:
“todavia, não eu”. Então os seminaristas bugam da cabeça, têm um ataque nervoso e
ficam na dúvida: “como assim? Paulo trabalhou e Paulo não trabalhou?”. Paulo entendia
que todo o seu trabalho era trabalho da graça, tudo que ele era capacitado para fazer só
existia porque a partir do momento que ele encontrou a morte na cruz de Cristo e
encontrou vida para a ressurreição, tudo aquilo que ele se esforçava por fazer era trabalho
de Deus através de um corpo morto.
Muitas vezes criticaram a igreja por olhar demais para o outro mundo e se esquecer
deste, mas Paulo diz em 1Coríntios 15 que você só esquece desse mundo quando você
para de olhar pro outro mundo. É olhar pro outro mundo que te faz lembrar desse. É tendo
olhos fitos na eternidade para além da tolice dessa vida que você realmente vai trabalhar
nessa vida, que você será atuante nesse mundo presente, que você realmente vai ter peito
para encarar a Grande Comissão, que você não vai ter medo de ir para um país longínquo,
que você não vai ficar nervoso de abrir mão das benesses dessa vida pela obra
missionária.
É muito fácil querermos viver um tipo de cristianismo que é só uma versão um
pouquinho mais bonitinha da vida secular. Você encontra Jesus e para de encher a cara,
para de ir pra balada e para de falar palavrão, e só. Segue a mesma vida do homem sem
Deus, com a adição de alguns fatores morais ali, algumas pitadas de bondade aqui, 10%
do dinheiro no ralo e pronto. “Cristianismo é isso”. Nada poderia ser mais mentiroso.
Deus não encontra o homem perdido e faz uma reforma. Ele não constrói um puxadinho
ou troca o telhado. Ele implode o prédio, cava o alicerce e reconstrói do zero. A vida com
Deus em comparação com a vida sem Deus é a distância da morte para vida.
É por isso que Paulo continua dizendo em 1Coríntios 15, principalmente no verso 19,
que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes
de todos os homens”. Ouvi um professor de economia responder uma pergunta sobre
religião falando que ter religião faz bem, que há pesquisas provando isso, que a dúvida
ateísta gera estresse e a certeza da existência do divino traz paz etc. Paulo me diz o
extremo oposto em 1Coríntios 15. Ele diz que ter religião faz mal, de que ter cristianismo
vai atrapalhar tua vida, que encontrar Jesus vai deixar tua existência terrena mais difícil,
vai te cobrar sacrifício, engajamento financeiro, luta contra o pecado, dedicação na vida
do outro, um crescimento na graça e um abandono daquilo que os homens acham valioso.
A vida cristã só se justifica porque há uma eternidade. Só existe justificativa para o que
fazemos aqui porque a vida não acaba aqui. Se assim o fosse, era melhor estar no cinema,
no churrasco, na balada ou no Netflix assistindo Stranger Things com pipoca. Quando
você encontra uma vida vivida com os olhos para o outro lado, você vai ter que abrir mão
de alguma coisa daqui. Você não vai conseguir ir para todos locais que seus amigos vão,
nem fazer o que eles fazem, nem dizer o que dizem ou experimentar o que experimentam.
Você viverá uma vida que só faz sentido porque tem o outro lado. Se não houvesse céu
como recompensa para nossa vida presente, nós somos os mais dignos de pena dentre
todos os homens. Estaríamos morrendo para nada. Era melhor ficar rico ou morrer
tentando.
O melhor método de discipulado que existe é a morte diária em Jesus. Deus operando
uma morte para o mundo e você transmitindo essa morte para os outros ao seu lado. Os
discípulos entenderam o chamado para a morte, vivendo ao lado de um homem que estava
morto. Eles entenderam como é viver pelo evangelho, vivendo como alguém que vivia
pelo evangelho. Se você quer alguém que faz discípulos, você tem que ser alguém que
vive o discipulado. Não só ser alguém que morre para operar a vida, mas alguém que já
encontrou na morte a operação da vida na sua própria existência.
Faça discípulos ou morra tentando. Melhor: faça discípulos e morram tentando.
Encontre na própria morte o discipulado para a sua vida. Abra mão das coisas dessa vida,
das bobagens dessa terra para se dedicar a gerar vida nos outros. O Cantor Cristão faz
uma releitura do Hino da Independência, cantando: “Brava gente brasileira, longe vá
temor servil. Ou ficar a Pátria salva, ou morrer pelo Brasil”. Será que estamos dispostos a
cantar isso?
Se você já encontrou a morte em Jesus, se já encontrou salvação dos seus pecados, já
foi salvo da ira futura, quero convidá-lo para uma nova morte. Você já encontrou a morte
do discipulado, mas quero que você encontre a morte de discipular. Quero que você se
sacrifique para levar a mensagem do evangelho, no serviço do outro, em cuidar do outro,
em servir ao outro. Jesus se sacrificou para nos dar salvação. Nós devíamos nos sacrificar
para proclamar essa salvação. Talvez custe um pouco do seu descanso, do seu lazer,
algum tempo da sua rotina, mas em níveis últimos, vai lhe custar tudo. De qualquer
forma, vale a pena, porque é na operação da morte que Deus opera a vida.
A promessa é de vida, de existência plena. Achávamos que estávamos morrendo, mas
na verdade estávamos encontrando existência de verdade. Em 1Coríntios 1 diz que a
sabedoria de Deus é loucura para o mundo. Essa morte que encontramos é morte para o
mundo, mas é vida para Deus. Esse convite para morrer é na verdade um convite para
viver. Há vida que não compreendíamos e não achávamos que era vida. Viva através de
encontrar a morte em Cristo Jesus e a proclamar essa morte àqueles que estão a sua volta.
A única igreja que vive de fato é aquele que abraçou profundamente a morte do calvário.
Igrejas morrem porque se esquecem de morrer.
DISCIPULANDO
O SEU PAÍS
TEONOMIA E MISSÃO
INTEGRAL

Um comentário um pouco mais técnico e lateral ao texto ficaria bem colocado como um
apêndice ao livro, uma vez que será do interesse de um público mais restrito de leitores. É
útil à nossa definição de discipulado lidarmos bem com certos abusos acerca da esfera do
discipulado. Ao longo da história, algumas visões teológicas distintas cometeram erros
parecidos quando lidaram com a Grande Comissão. Dente elas, duas são relevantes ao
falarmos a respeito do campo de atuação do ato de discipular. A Teonomia e a Teologia da
Missão Integral são perspectivas distintas a respeito da Escritura que possuem méritos em
suas áreas, mas, às vezes, pecam ao lidar com nosso texto base. Segundo alguns
defensores destas visões, o discipulado não se dá meramente com pessoas, mas com os
países como países.1

TEONOMIA, DISCIPULADO NACIONAL


E O ENSINO DE TODAS AS COISAS
A visão defendida pelo teonomista Stephen C. Perks baseia-se na gramática do texto da
Grande Comissão. Em um livreto publicado pela Kuyper Foundation2, ele argumenta que
devemos discipular não pessoas de todas as nações, mas discipular as próprias nações,
simplesmente. A versão King James, por exemplo, em uma tradução bem literal do texto
grego, diz: “Go ye therefore, and teach all nations” [“Ide, pois, ensinai todas as nações”]
(Mt 28:19). Segundo ele, então, o foco do texto é que as próprias nações devem ser
discipuladas, tornando-se nações cristãs, tendo suas leis e constituições transformadas.
Perks é bem claro sobre o que ele julga ser o significado da Grande Comissão:
Muitas pessoas compreendem a Grande Comissão de forma errada, como um comando para
discipular pessoas de todas as nações. Isto não é o que Jesus ordenou aos seus discípulos. Em vez
disso, ordenou-lhes que discipulem as nações como nações. Ou seja, para fazer as nações cristãs.
[...] A Grande Comissão não nos comanda a sair e discipular indivíduos [...]. Ela nos comanda a
discipular as nações.3

Muitos outros seguem esta visão. Segundo Matthew Henry, a Grande Comissão
significa “que o cristianismo deve estar entrelaçado com as constituições nacionais, que
os reinos do mundo devem se tornar reinos de Cristo e que seus reis devem ser os tutores
da igreja”4. John Peter Lange tem a mesma posição quando diz que “nações, como
nações, devem ser cristianizadas”5. David Chilton afirma que Cristo “deseja de nós o
discipulado das nações – não de alguns indivíduos. [...] Nosso alvo é um mundo cristão,
composto por explícitas nações cristãs”6. Esta seria, então, uma percepção correta do
texto, uma vez que o texto grego fala literalmente de discipular nações, e não pessoas das
nações?
Creio que não. Não discordo que o crente deva influenciar positivamente sua cultura ou
que a conversão de magistrados trará modificações profundas em nossa sociedade e em
nossa política. No entanto, não podemos achar que o fato de as nações serem
influenciadas pela obediência dos discípulos seja o mesmo que elas serem discipuladas
per si. A diferença é sutil, mas é importante entendermos do que a Grande Comissão está
tratando. Não podemos importar nossos sistemas aos textos de modo tão arbitrário, pondo
na boca (ou na pena) dos autores bíblicos ideias que não passaram por suas mentes. A
visão de Stephen C. Perks cria alguns problemas:

1. Gera uma missiologia cultural e politicamente dominadora. Missionários motivados a transformar nações mais
ou tanto quanto fazer convertidos priorizarão manifestações políticas em detrimento da pregação do evangelho,
além de, ao invés de tratarem cada pessoa individualmente para fins evangelísticos, buscarem a nação como um
todo como fim de discipulado. Karl Barth lamentou amargamente que essa visão “tenha infestado o pensamento
missionário e se conectado às fantasias dolorosas dos Cristãos Alemães (Deutsche Christen). Foi uma
inutilidade”7.
2. Gera um problema teleológico quanto ao plano de Deus para as missões. Faz com que acreditemos que o foco
principal de Deus é em países e estados cristãos, e não em convertidos de todas as nações. Isso fará com que
nossa visão teológica da Missão será mais parecida com a visão islâmica, que tem como uma das ênfases
primordiais o desenvolvimento de comunidades políticas pautadas “no que seus devotos entendem ser a vontade
divina, bem como de leis e escolas de jurisprudência diretamente fundadas em sua revelação”8.
3. Gera problemas éticos e morais quanto à vida prática em campo missionário, de modo que nos envolveremos
mais com a formação de políticas e partidos cristãos que com pessoas que seguem a Cristo em toda sua vida. O
missionário poderá, por exemplo, negligenciar o tempo que ele gastaria lidando com uma pessoa em particular
para dedicar-se à formação de um partido político ou para algum projeto de dominação nacional.
4. Gera visões deturpadas acerca das alianças necessárias para a propagação da glória de Deus. O cristão que
coloca o poder político e cultural da igreja ou do cristianismo acima de tudo não hesitará em se associar a
descrentes com agendas políticas parecidas, e acabará sendo tentado a se considerar mais próximo desses aliados
políticos que dos irmãos de verdade que não compartilham de sua agenda. E isso não é um problema para o
teonomista apenas, e sim para qualquer cristão politicamente engajado – Aliás, diga-se de passagem, muitos
teonomistas como Perks não são politicamente engajados, e sim pessoas de forte tendência à abstração e muito
pouco práticas, o que explica algumas características de sua proposta. Por exemplo, muitos cristãos
conservadores brasileiros possuem dificuldades em ver outros conservadores ímpios como estando ao lado de
Satanás, dada a defesa que alguns deles fazem dos valores cristãos e suas críticas ao movimento revolucionário.
5. Gera uma união arbitrária entre Estado e Governo. Há na interpretação de Perks uma falácia pueril no terreno
da filosofia política propriamente dita: a de entender “nação” e “Estado” como sinônimos (pelo menos nas
sociedades que possuem um Estado formalmente constituído). Uma nação é muito mais que seu conjunto de
governantes e instituições políticas. Além disso, em alguns casos, um único Estado pode englobar muitas nações,
como no caso do próprio Império Romano. Mesmo que o texto falasse mesmo em evangelizar nações, as
conclusões politicocêntricas de Perks ainda não estariam justificadas.
6. Por fim, gera problemas doxológicos. Acharemos que Deus será mais glorificado pela manifestação cristã de um
país em suas leis e estruturas do que pela salvação de um único crente, quando, na verdade, a menção da alegria
diante dos anjos de Deus nas Escrituras só é feita por causa do arrependimento de pecadores, não é usada para
nenhuma outra coisa, nem mesmo para a formação de constituições cristãs (Lc 15:10).

Mas que base temos para acreditar que, quando Mateus nos ordena discipular nações,
ele está se referindo às pessoas das nações, como nossas traduções brasileiras trazem, e
não às nações em si mesmas? Tenho pelo menos sete motivos.
Primeiramente, é normal vermos Mateus usar o termo traduzido comumente por
“nações” como referência às pessoas das nações, e não às nações por si mesmas. Por
exemplo: “Em seu nome as nações porão sua esperança” (Mt 12:21, NVI). Todos sabem
que quem tem esperança são as pessoas que compõem a nação, e não as nações por si
mesmas. Jesus disse aos discípulos: “vocês serão odiados por todas as nações por minha
causa” (Mt 24:9), e nós sabemos que quem odeia são as pessoas das nações, e não as
nações por si mesmas. Este uso metonímico, tomando o todo pela parte componente, não
pode ser estranho ao intérprete bíblico. Até hoje em dia é comum usarmos linguagens
coletivistas em nossa missiopraxia para falar de pessoas individuais. Dizer que queremos
“a África pra Jesus” ou “Fortaleza para Cristo” não é errado, mas todos sabemos que
estamos nos referindo aos habitantes da África e aos habitantes de Fortaleza, em uma
usual metonímia, ao usarmos estas expressões.
Em segundo lugar, Mateus não está falando de países, mas de etnias. Não existe em
nosso texto uma referência às nações do modo como entendemos hoje em dia, com
governantes, leis e constituições, mas sim a grupos étnicos e linguísticos, que nem sempre
possuem qualquer organização nacional.
Em terceiro lugar, só poderei concordar com a posição de Stephen C. Perks quando
conseguirem me explicar como fazer para batizar um país. Se o sujeito da frase são as
nações propriamente ditas, como estruturas sociopolíticas, e não as pessoas que
compõem as nações, como se faz para batizar uma nação, uma vez que isso está incluído
na ordem? Se me permitem a piadinha infame, deve ser daí que veio o batismo por
aspersão, já que a última vez que tentaram batizar um país por imersão deve ter resultado
na lenda de Atlântida. Considerando que o batismo expressa um relacionamento com a
Trindade, pessoas precisam ser o foco do texto, e não as nações no sentido político. Perks
tenta responder a esta questão defendendo que o batismo de uma nação se dá por meio da
“submissão ao rito do batismo por aqueles que constituem a nação”9, mas isso é mais que
um tiro no pé: se o batismo das nações se dá por meio de batizar as pessoas das nações,
porque discipular as nações não se daria também por meio de discipular as pessoas das
nações, como as traduções modernas colocam? Não é possível crer que esta é uma
resposta viável. Ironicamente, Martinho Lutero usou esta má interpretação do texto como
prova do pedobatismo, uma vez que as crianças estariam inclusas em “toda a nação”10, o
que é seguido por Ronald Hanko, quando diz que “nações incluem crianças. É impossível
discipular e batizar nações sem também discipular e batizar as crianças que pertencem a
essa nação”11. Usar este tipo de argumento para defender o pedobatismo é uma ofensa aos
bons teólogos reformados e presbiterianos.
Em quarto lugar, a linguagem bíblica para discípulo sempre está relacionada com
pessoas. Uma busca rápida por mathētēs (μαθητής) encontra 268 ocorrências em 252
versos do Novo Testamento. Destas, não consegui encontrar nenhuma referência que nos
leve a crer que o discipulado se dá não em indivíduos, mas em estruturas nacionais. Não
existe uma única ocorrência bíblica de estruturas sociais ou nações per si sendo tidas
necessariamente como discípulas. Como coloca Hal Lindsey, “fazer um discípulo, no
sentido bíblico, é uma coisa individual”12.
Em quinto lugar, lendo outros textos, como os de Apocalipse, fica muito claro que o
objetivo de Deus em alcançar as nações está relacionado com as pessoas, e não com
nações propriamente ditas:
E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque
foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e língua, e povo, e nação;
e para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra. (Apocalipse 5:9-10)
Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as
nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando
vestes brancas e com palmas nas suas mãos; e clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao
nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro. (Apocalipse 7:9-10)
E homens de vários povos, e tribos, e línguas, e nações verão seus corpos mortos por três dias e
meio, e não permitirão que os seus corpos mortos sejam postos em sepulcros. (Apocalipse 11:9)
E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para o proclamar aos que habitam
sobre a terra, e a toda a nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo com grande voz: Temei a Deus, e
dai-lhe glória; porque é vinda a hora do seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e
as fontes das águas. (Apocalipse 14:6-7)
Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso todas
as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos. (Apocalipse 15:4)

Em sexto lugar, o mandado para que se “ensine a obediência” também é relevante. Não
se ensina instituições, leis ou coisas afins. Pessoas ou, no caso aqui discípulos, é quem são
ensinadas. O texto nos apresenta mediante o uso dos verbos que as relações entre Jesus,
os discípulos que o ouviam e os discípulos de nações é de pessoalidade. Portanto, o
domínio semântico dos verbos aqui junto com os participantes do discurso nos levam à
conclusão que nações é uma referência a pessoas, sujeitos e não a instituições, a leis etc.
Por fim, a gramática do texto não nos dá base para a interpretação de Stephen C. Perks.
Em grego, a palavra “nações” tem gênero neutro, enquanto que o pronome na terceira
pessoa “os [eles]”, empregado nos versos posteriores, é masculino. Ao invés de αὐτάς, o
requerido para uma palavra neutra, Jesus usa αὐτοὺς, usado apenas com referência a
palavras masculinas. Para que isso fique mais claro, pode-se tentar fazer uma
equivalência no português, de forma meio grosseira. É como se o texto dissesse:
“discipulando as etnias, batizando-os e ensinando-os”. Isto pode revelar um erro
gramatical básico cometido por Cristo em sua fala, ou por Mateus em seu registro, ou
indica que o pronome usado está apontando para algo diferente das nações por si só,
subtendido no texto. O pronome masculino plural αὐτοὺς estaria se referindo então ao
substantivo masculino plural μαθητας, “discípulo”, que seria implícito no texto. Esta
compreensão sugere que o discipulado deve ser feito com os indivíduos que fazem parte
da nação, em vez de considerarmos as nações per si como objetos de discipulado. Não
somos ordenados a discipular as etnias, mas as pessoas que as compõem. Este fenômeno é
o que se chama de concordância ideológica, ou seja, a concordância não é gramatical, mas
conceitual.13
No entanto, a visão teonomista não possui só este argumento. Os dominionistas
possuem uma abordagem diferente para o discipulado nacional, ainda que alguns
concordem com a apresentada por Perks. Para estes, a Grande Comissão é um texto sobre
o domínio nacional por causa da ordem para que se ensine todas as coisas que foram
ordenadas por Cristo. Eles dizem que, para fazer isso, é necessário que o missionário fale
a respeito da obediência em todas as áreas da vida, incluindo política, economia e
questões sociais em geral. Assim, a sociedade que recebe um missionário e é discipulada,
aprenderia a viver de acordo com a Lei de Deus em todas as esferas da vida, o que
tornaria a nação uma nação cada vez mais cristianizada. O teonomista Kenneth L. Gentry
Jr. escreve: “À medida que o número de convertidos aumenta, estes providencialmente
conduzem todas as instituições, culturas, sociedades e governos à submissão, sob a
autoridade de Cristo”14. Dessa forma, o também teonomista David Chilton lê a Grande
Comissão como um “Mandato Teocrático”15, uma vez que “Os reinos do mundo devem
tornar-se reinos de Cristo”16.
O problema desta visão é um só (que também é um erro cometido por alguns teólogos
da Missão Integral, que será apresentada a seguir), e consiste em ignorar que existe uma
boa distância entre uma das aplicações sistemáticas de um texto e o próprio significado
do texto. Este modo dos teonomistas de observar o texto transforma uma das conclusões
em premissa. É óbvio que, se o número de bons discípulos aumenta, inevitavelmente
surgem mudanças nas estruturas sociais da nação. No Brasil, por exemplo, é a igreja que
segura a moralidade de nosso país. Se não fosse por nós, cristãos, provavelmente já
viveríamos em um caos moral irreversível, até mesmo com infanticídio permitido por lei.
Governantes cristãos, ou de linha conservadora de modo geral, podem abençoar nossa
nação. E, já que devemos discipular indivíduos que participam da sociedade e se
relacionam com ela e, nesta relação, formam a nação, os governantes obedecerão a Deus
com relação às leis também. Obediência não se dá apenas em caráter individual, quer
emocional ou intelectualmente, mas também em relação ao próximo e às instituições à
nossa volta – você obedece em relação a pais, cônjuges, empregados, amigos e
governantes. A ordem de obedecer pressupõe relações e essas relações têm a ver com
tudo o que os mandamentos ordenam. Porém, esta é uma conclusão sistemática que
podemos perceber a partir deste texto, e não algo dito pelo texto em si. Usarmos o
mesmo princípio interpretativo em outras passagens pode elucidar o absurdo: por
exemplo, a ordem de Pedro para que a igreja seja santa em toda a “maneira de viver” (1Pe
1:15) inclui, de fato, não ser um ladrão. Porém, seria uma imposição forçada dizer que
esse é um texto a respeito de roubo. O texto da Grande Comissão inclui, de fato, o ensino
para termos relacionamentos corretos com a política e a cultura de modo geral, mas é uma
ginástica exegética dizer que o texto fala qualquer coisa sobre isso. De fato, a Grande
Comissão fala sobre dominar a cultura tanto quanto a ordem para sermos santos fala sobre
não andarmos embriagados.
Em outro trecho de seu livro, Gentry parece tomar essa posição, quando escreve: “Eu
não estou dizendo que a totalidade da Grande Comissão é direcionada para a renovação
cultural e que tudo o mais é incidental. A influência inicial da Grande Comissão
necessariamente trabalha nos indivíduos, primariamente, salvando-os de seus
pecados”17. Essa seria uma visão muito mais honesta do texto da Grande Comissão do
que a imposição de um sistema político em uma passagem que não fala sobre a questão
teonômica de criar estados cristãos, mas da salvação de indivíduos de todas as etnias.
Infelizmente, este breve disclaimer não condiz com o resto de sua obra nem com a
postura da maioria dos teonomistas brasileiros.
MISSÃO INTEGRAL E MANDATO SOCIOCULTURAL
Após lidarmos com as posições teonômicas de “discipulado nacional”, outra posição
parecida precisa ser posta em pauta: a Teologia da Missão Integral. A interpretação de que
a Grande Comissão é uma ordem para discipular nações, segundo a visão de alguns
defensores da Teologia da Missão Integral, não é baseada em meras questões textuais,
mas em um pressuposto maior, que serviria de chave hermenêutica para uma boa
interpretação da Grande Comissão18. Segundo esta visão, Mateus 28:18-20 deve ser lido
sob as lentes do Mandato Sociocultural, de modo que devemos encontrar neste texto não
uma mera ordem para que cada crente faça discípulos, mas uma palavra de cuidado e
sacerdócio para com toda a cultura, incluindo as esferas governamentais. Dessa forma, a
Grande Comissão não seria um mandamento para o discipulado pessoal – pelo menos,
não apenas –, mas uma ordem para a diakonia , o serviço, com os povos e nações.19
No livro do Gênesis, o relato da Criação nos deixa claro que “o Senhor Deus colocou o
homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gn 2:15). Desta forma, o ser
humano estaria encarregado de cuidar bem do mundo e geri-lo com responsabilidade. Se
a ordem divina a Adão continua se aplicando a toda a humanidade, então todos os homens
continuam responsáveis por cumprir esse mandato de cuidar e cultivar o mundo. A ordem
de Deus é para que os seres humanos dominem, subjuguem, cuidem e cultivem a Criação.
Assim, os homens têm a obrigação diante de Deus de cuidar bem do mundo, cultivando e
gerindo nosso grande jardim. Os crentes devem influenciar positivamente a cultura a sua
volta, produzindo coisas boas e sendo bons mordomos da Terra. Com base nisto, então, a
atuação do cristão vai muito além do serviço religioso, e permeia todas as esferas de
atuação social e cultural. Devemos, como cristãos, cuidar bem da natureza, cuidar bem da
política, cuidar bem da família, cuidar bem do mercado, cuidar bem do entretenimento,
cuidar bem da tecnologia, cuidar bem da religião etc. Este é o conhecido Mandato
Sociocultural: os crentes têm a ordem de cuidar e cultivar positivamente do mundo a sua
volta – não apenas nas questões de religião, mas em todas as áreas da vida.
Isso tem algo a ver com nosso texto? Há quem diga que sim. Segundo Bernard Zylstra,
o mandato missionário de Mateus 28 é basicamente a reprodução ou reafirmação do
mandato cultural de Gênesis20. Stephen McDowell diz: “Certamente a Grande Comissão
inclui o Mandato Evangelístico, de redimir o homem, mas também inclui o Mandato
Sociocultural, o de redimir a terra”21. James K. A. Smith, resenhando um livro de D. A.
Carson, comenta:
Na verdade, o que Carson perde é uma oportunidade de finalmente desfazer o nosso mau hábito de
desconectar o mandato cultural da Grande Comissão. Mesmo aqueles que afirmam ambos muitas
vezes os veem como não relacionados, não conseguindo discernir sua conexão íntima. Mas o que é
o evangelho senão o chamado e convite de Deus para sermos restaurados e renovados como
portadores apropriados da imagem de Deus – que carregam sua imagem através da manifestação do
potencial criador em uma cultura corretamente ordenada?22

Então o cumprimento da Grande Comissão é também o cumprimento do Mandato


Sociocultural, como alguns defendem? Este não é o espaço apropriado para uma longa
discussão a respeito disto, e respostas simplistas como sim ou não são incompletas nesta
questão. Simplificando algo complexo e que precisa ser pensado com rigor, eu diria que a
melhor resposta é sim, mas não completamente.
A primeira parte da resposta para essa pergunta é sim. Deus, no estabelecimento do
Mandato Sociocultural, não determinou nenhuma área específica do Jardim a ser cuidada
e cultivada, mas se referiu a ele todo, em todas as suas esferas. Assim, Adão seria o
responsável não só pelo seu gerenciamento físico, mas também por guiar Eva e todo o
jardim espiritualmente, zelando pela obediência a Deus por todos os homens no Jardim,
transmitindo a ordem de não comer do fruto proibido. Desta forma, existe no Mandato
Sociocultural uma esfera religiosa. Os homens não são ordenados por Deus a gerir e
cultivar o mundo apenas em seus aspectos não relacionados ao transcendente, mas
também em assuntos concernentes ao relacionamento com Deus. O famoso livro de Larry
Crabb, O silêncio de Adão, tem como um de seus argumentos principais a
responsabilidade adâmica de gerir e cuidar da espiritualidade de sua esposa23. Desta
forma, podemos dizer que o ato de proclamar o evangelho aos perdidos é o cumprimento
do Mandato Sociocultural em seu aspecto religioso, mas só. Eu não acredito que este
Mandato seja hoje substituído pela Grande Comissão; assim, ambos são obrigações da
Igreja de Cristo, e nós, como crentes, devemos cumpri-los. Embora outras esferas do
Mandato Sociocultural possam ser obedecidas antes, durante ou depois do evangelismo,
como o cuidado social, por exemplo, o próprio ato de evangelizar é uma das formas de
cumprirmos este mandato, pois assim estaremos gerindo positivamente o relacionamento
dos homens com Deus. Diante disto, podemos dizer que, ainda que ao cumprirmos a
Grande Comissão não cumpramos o Mandato Sociocultural de modo completo ou total, o
cumprimos em sua esfera religiosa.24
A segunda parte da nossa resposta, porém, é que o cumprimento da Grande Comissão
não é o cumprimento completo do Mandato Sociocultural, que é relacionada apenas ao
aspecto religioso deste. Existem dois claros motivos para pensarmos desta forma.
Primeiro, a Grande Comissão não é uma ordem para cuidar e gerenciar a Criação em
todos os seus aspectos, como o Mandato Sociocultural cobra. A Grande Comissão está
relacionada à redenção das almas e seu ensino na verdade. Você pode dissecar o texto de
Mateus 28 à vontade, e não vai encontrar nada ali relacionado a influenciar a sociedade
em suas variadas esferas, nem com toda a boa vontade do mundo. Ainda que Cristo
estabeleça sua autoridade sobre toda a Criação como base e motivação do envio
missionário, os discípulos são enviados apenas para ir e fazer verdadeiros convertidos de
todas as nações, batizando-os e ensinando-os, e não para, diretamente, cuidar e cultivar a
Criação como um todo25. Claro que os novos discípulos devem ser ensinados a cumprir o
Mandato Sociocultural completamente, uma vez que a ordem é que se ensine todas as
coisas aos que vão sendo salvos (Mt 28:20). Porém, o Mandato é algo que deve ser
cumprido pelos discípulos em cada momento da vida, inclusive no próprio ato de
evangelizar, em seu aspecto religioso. Dizer que o Mandato Sociocultural e a Grande
Comissão são a mesma coisa, ou que o cumprimento de um é também necessariamente o
cumprimento do outro é tentar encaixar algo muito mais amplo (o Mandato Sociocultural)
em algo específico (a Grande Comissão). A ordem de Cristo na Grande Comissão é para
discipular, batizar e ensinar, e não para cultivar e gerir a Criação, o que abrange toda as
áreas da vida humana.
O que alguns teóricos da TMI não conseguem fazer é a correta separação entre o
aspecto religioso do Mandato Sociocultural e os outros aspectos. Na Grande Comissão,
Cristo nos enviou com uma mensagem de redenção pessoal, seguida de ensino religioso.
A Missão Integral, em vários de seus segmentos, torna-se uma imposição de todos os
aspectos do Mandato Sociocultural à Grande Comissão, e não uma mera leitura desta
considerando aquele.
Além disso, a Grande Comissão contém – não principalmente, mas inclusive – a
proclamação do Mandato Sociocultural, mas ela não é um cumprimento total do
mandato. Em um exemplo prático, podemos dizer que fazer boas obras ou obras sociais
não é a Grande Comissão, mas sim o viver que flui de quem recebeu a mensagem da
Grande Comissão. O texto em Mateus 28 diz para ensinarmos a obedecer e não para
propriamente obedecermos. Gênesis diz “dominai”, enquanto Mateus diz
(implicitamente) “ensinai a dominar”. Por exemplo, a ordem de ensinar a guardar tudo o
que Cristo ordenou inclui ensinar sobre ser um bom marido, mas é errado dizer que o
texto da Grande Comissão é uma ordem aos homens para serem bons maridos, ou que ele
deva ser interpretado à luz das ordens para sermos bons maridos, e muito menos que
cumprir a Grande Comissão é ser um bom marido. Devermos ensinar que os homens
sejam bons maridos é uma consequência sistemática da relação entre este texto e outras
passagens, mas não o significado próprio da passagem. Claro que devemos ensinar os que
vão sendo salvos a obedecerem ao Mandato Sociocultural, mas isso não significa que
ensiná-los a obedecer tudo seja um cumprimento do Mandato Sociocultural em sua
completude. A confusão dessas duas coisas é o que tem dado base para várias teologias
estranhas ao pensamento de Jesus. Por exemplo, é obvio que se existem mandamentos
bíblicos para que cuidemos bem da Criação, ensinar todas as coisas aos que vão sendo
salvos inclui o ensino sobre o cuidado com a natureza, mas isso é diferente de dizer que a
própria Grande Comissão é uma ordem para nos envolvermos com ecologia. Essa
diferença pode parecer óbvia, mas Luiz Fernando, em seu texto “Missões e Ecologia”,
chega a declarar o seguinte: “As causas da Ecologia e do Meio Ambiente são grandes
oportunidades para a Igreja e para os cristãos proclamarem o Evangelho, enquanto
exercem por meio da Grande Comissão a obediência ao Mandato Cultural”26. Como
alguém consegue ver uma obrigação ecológica no texto de Mateus 28:18-20?
Simplesmente ignorando que não são todas as facetas do Mandato Sociocultural que se
cumprem na ordem missionária de Cristo. Precisamos ouvir a repreensão paulina:
“aprendais a não ir além do que está escrito” (1Co 4:6).
John Stott, defensor da TMI, faz uma declaração forte quando diz que “não apenas as
consequências da [Grande] Comissão, mas também a própria Comissão inclui em si a
responsabilidade social assim como a evangelística, a menos que queiramos ser acusados
de distorcer as palavras de Jesus”27. Para embasar perspectiva tão pungente, Stott usa dois
argumentos. Primeiro, ele argumenta que a Grande Comissão de João diz que somos
enviados como Jesus foi, e que Jesus fez ação social durante o evangelismo, curando os
doentes28. O problema deste argumento é que ele recorta um aspecto do envio de Cristo e
o gruda neste texto como se fosse o que estava na mente do autor ao registrar aquelas
palavras. Além de que, em muitos aspectos, Jesus não pode servir como paradigma
completo para nossa vida Cristã29. Em segundo lugar, ele argumenta que outros
mandamentos além da Grande Comissão incentivam a ação social, como o mandamento
do amor30, um argumento que não lida com o texto da Grande Comissão, o mínimo que é
esperado de quem acusa o discordante de distorcer as palavras de Jesus.
Há quem argumente, diante disso, que a ordem para discipular, em Mateus 28:19, inclui
o ensino pelo exemplo, de forma que estaria implícito aqui um mandamento para a
obediência (ao que seria ensinado), como é expresso por Paulo: “Irmãos, sede meus
imitadores, e atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós [...].
O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o
Deus de paz será convosco” (Fp 3:17; 4:9). Desta forma, a ordem da Grande Comissão
também teria inclusa nela uma ordem para a obediência de tudo aquilo que Cristo
ordenou, para servirmos de exemplo, o que nos faria cumprir a Palavra de Deus em todas
as áreas da vida, e o Mandato Sociocultural estaria incluso nesta ordem. Duas breves
observações são suficientes para mostrar a ineficácia desta consideração.
Primeiro, não podemos incluir o significado teológico de um texto em seu significado
lexical. Se um termo é usado de determinada forma em outras passagens da Escritura, não
podemos presumir que deva ser usado da mesma forma em outros livros. Como dizem, o
contexto é rei. Por exemplo, ainda que a palavra grega usada para o envio (apostellō,
ἀποστέλλω) seja usada para se referir ao envio dos doze apóstolos em Mateus 10:1 e ao
envio do grupo estrito dos setenta evangelistas em Lucas 10:1, não podemos interpretar
que apostellō deva significar o envio formal-ministerial sempre que é usado, ainda que se
tente argumentar desta forma. Mesmo que outras passagens da Escritura determinem que
o ensino e o discipulado devam também ocorrer pelo exemplo, não podemos acreditar que
isso passava pela mente de todos os autores bíblicos em todos os momentos em que
ordenaram o ensino. Como disse Carson (sobre outro assunto, mas que também vale para
o nosso texto aqui): “Argumentar desta forma é confundir a terminologia da teologia
sistemática protestante com a terminologia dos escritores da Escritura”31.
Em segundo lugar, todos os textos bíblicos possuem dupla autoria – e alguns, tripla. A
Bíblia é um livro divino e humano simultaneamente. Deus é o autor de cada palavra, mas
ele usou homens para tal. Por isso, falamos em dupla autoria. No caso do texto da Grande
Comissão, existe ali uma autoria tripla: Deus e Mateus estão registrando as palavras
proferidas por outro. Não podemos exagerar a ênfase na autoria divina do texto à custa de
ignorar a autoria humana. Mateus não entrou em um estado de onisciência quando
registrou as palavras de Jesus e nem Deus soprou as palavras em seu ouvido. Desta forma,
ele não poderia conhecer os conceitos estabelecidos por Paulo para o processo de ensino e
didática dos ministros. Da mesma forma, o significado do termo justificação nas epístolas
de Paulo é diferente do sentido que a mesma palavra possui ao ser usada por Tiago. O
único modo de adicionarmos ao conceito de fazer discípulos a ideia de obedecer todas as
coisas que são ensinadas é provando que este é o modo como Mateus tem usado esta
palavra em seus escritos, o que não pode ser provado32.
Concordo com Michael Horton, quando diz que “A Grande Comissão não é o ‘mandato
cultural’”33, e que “a Grande Comissão é qualitativamente diferente do mandato que Deus
deu a Adão e Eva no Jardim”34. Kevin DeYoung e Greg Gilbert resumem a questão da
seguinte maneira, trazendo um argumento interessante:
Contudo, nós provavelmente deveríamos dizer algo sobre a ideia comum de que o trabalho da igreja
de “fazer discípulos”, isto é, “ensinando-os a obedecer tudo o que tenho ordenado”,
necessariamente significa que a própria igreja, como instituição, deve prover um exemplo ou um
modelo de todas essas coisas. Às vezes, claro, isso é verdade. (...) Por exemplo, deveria a igreja,
como uma instituição, ser um modelo para os seus membros sobre como fazer bons filmes cristãos?
Ela deveria prover o exemplo de como fazer uma boa arte cristã? E que tal uma boa culinária cristã
ou como correr maratonas? Não estamos aqui tentando ser sarcásticos com estas questões. Nós
acreditamos que é um aspecto legítimo para ser abordado. Deveria a igreja como instituição ser
ativamente engajada à política de modo que fosse um modelo ao qual o engajamento cívico cristão
devesse se assemelhar? Não faria mais sentido dizer que a igreja enquanto instituição deve ensinar
cristãos acerca do que Jesus ordenou, e ensinar seus discípulos que eles devem obedecê-lo em cada
área de suas vidas, ao invés de dizer que ela deveria prover um exemplo ou modelo de obediência
em cada instância particular?35

Horton deixa claro que “a Grande Comissão mesma é um mandato muito específico”,
relacionado diretamente a discipular pessoas de todas as nações, batizá-las e ensiná-las a
obediência36. Para alguns, isso é difícil de admitir, mas não existe qualquer referência a
diakonia na Grande Comissão de Mateus. Nada aqui indica que “Salvação é saúde.
Salvação é humanização total”37, como diz René Padilla, um dos grandes líderes
mundiais da TMI. Não estou tentando, de modo algum, refutar a Teologia da Missão
Integral extensivamente, mas apenas mostrar que a Grande Comissão em nada corrobora
tal visão. Se existe algo de político, social ou medicinal na salvação, isto precisará ser
provado por outros textos, pois nada em Mateus 28:18-20 corrobora tal perspectiva.
Horton é perspicaz quando diz que, à semelhança de termos como evangelho e Reino
de Deus, o termo Grande Comissão está se tornando tão elástico e generalista que se
tornou um clichê para qualquer coisa que as igrejas ou os cristãos individuais achem útil
ou valioso empreender no mundo38. Todas essas confusões a respeito do significado da
Grande Comissão é fruto do modo pós-moderno (ou supermoderno, quem sabe) de nossa
leitura. Expressões possuem significados, e devemos respeitar as intenções de Deus em
empreender as exatas palavras que empreendeu.
Estas duas visões que tentam transformar a esfera do discipulado em algo nacional
(Teonomia e TMI) falham em suas apresentações. Podemos concluir, como foi
argumentado ao longo das refutações destas duas visões que o discipulado se dá em nível
pessoal, com pessoas de todas as nações. Não ignoramos os efeitos nacionais da Grande
Comissão, e oramos para que nosso Brasil receba os impactos positivos de uma igreja
forte e saudável, mas não podemos confundir isso com o próprio mandato de Cristo
quando no monte da Galileia. O discipulado é para pessoas, e não para reinos ou nações.
Cabe lembrar, também, que mesmo a Grande Comissão tratando com pessoas
individualmente, os convertidos não se mantêm como meros indivíduos isolados. A
ênfase neotestamentária é que Deus deseja bem mais do que salvar indivíduos. Salvando
estes indivíduos, ele os congrega como um povo, uma vez que encontramos em vários
textos expressões como “povo eleito”, “nação sacerdotal”, “corpo de Cristo” e
“santuário”, que dão um tom coletivo para obra soteriológica. Muito da Missão moderna
sofre o ranço modernista que enfatiza em demasia a experiência individual. Este
individualismo deve ser tratado com cuidado pela cristandade ocidental. O pietismo, nos
séculos passados, e o pentecostalismo, hodiernamente, perderam em muitos aspectos este
senso de comunidade pactual em Cristo, e nossa eclesiologia sofreu algumas perdas, por
causa da ênfase na experiência individual – que possui seu lugar, mas se enfatizada
demasiadamente, compromete aspectos globais da obra soteriológica, que existe de fato,
mas não é tratada por Jesus na Grande Comissão.
EXISTE GRAUS DE PRIORIDADES ENTRE A PREGAÇÃO DO
EVANGELHO E A AÇÃO SOCIAL?
Relutei um pouco em adicionar esta pequena digressão ao livro, mas considerando o
tempo que passamos observando um dos erros da Teologia da Missão Integral quanto a
leitura da Grande Comissão à luz do Mandato Sociocultural, algo torna-se importante de
ser observado. Algo que tem me incomodado bastante na leitura daqueles que defendem
uma imposição do Mandato Sociocultural sobre o significado da Grande Comissão é o
modo como se vê as prioridades entre ação social e pregação do evangelho. Assim como
a Teologia da Prosperidade tem como um de seus pecados centrais tornar aquilo que é
temporal em pé de igualdade com o eterno, muitos teólogos da Missão Integral têm
defendido que ação social e evangelismo possuem fundamentalmente a mesma
importância diante de Deus. René Padilla diz: “Recuso-me, portanto, a cavar uma vala
entre uma tarefa primeira, a proclamação do evangelho, e uma tarefa [...] secundária [a
ação social]”39. Ele também pontua:
[...] não faz sentido nenhum falar de “prioridade da evangelização”! A missão é cristã na medida em
que se orienta para a plena satisfação das necessidades humanas básicas, tanto espirituais como
psicológicas, físicas e materiais, tanto pessoais como sociais, tanto privadas como públicas.40

Antônio Carlos Barro ecoa: “[...] não há prioridade na missão da igreja [...] tanto a
evangelização como a ação social se completam, sem uma priorização entre elas”41. Após
dizer que a igreja “deve deixar de ser proselitista para se tornar dialogal, deve deixar de
ser evangelística para se tornar diaconal”, Ed René Kivitz declara: “Eu acho que igreja
não tinha que ter departamento evangelístico”, no sentido de que deveríamos
simplesmente servir a sociedade42. Vinoth Ramachandra chega ao ponto de dizer que
“tentar classificar [os] ensinos [de Jesus] em uma escala de ‘prioridades’ não é ser seu
discípulo”43. Cheguei a participar, em 2014, de um debate com Jailma Rodrigues sobre
Teologia da Missão Integral, onde arrazoamos por quase duas horas a respeito das
prioridades entre pregação e cuidado social, com ela defendendo visões próximas das
supracitadas44. Diante disto tudo, é-me necessário tecer alguns comentários a respeito do
ponto em questão.
Reconheço que não é possível criarmos uma lista extensa entre os mandamentos de
Jesus, organizando-os por graus de prioridade. Se você me pergunta se é mais importante
orar pelos inimigos ou não transar antes do casamento, eu não saberia responder. Não
existem muitos textos bíblicos que nos fornecem gradações de importância naquilo em
que devemos obedecer ao Senhor. Porém, existem mandamentos que facilmente se
colocam como mais importante que outros. Cristo condena os fariseus por ofereceram
dízimos de todo tipo de hortaliça enquanto negligenciavam “o mais importante da lei”
(Mt 23:23), deixando claro que algumas ordens são mais importantes que outras. O
Senhor não é Deus de desordem, mas de beleza e organização. Ele definiu ordens,
prioridades e graus de importância que devem ser observados na vida cristã.
Ele também está nos deixando claro que existem algumas coisas que devem vir antes
de outras, e que são mais importantes que outras quando declara: “Não andeis cuidadosos
quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto
ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. [...] Mas buscai primeiro o reino de Deus, e a
sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:25,33). Cristo nos deixa
claro que precisamos buscar para nós o Reino antes do que beber, do que comer, do que
vestir e antes do cuidado do próprio corpo. Se isto é verdade para nós, por qual motivo
não seria para aqueles a quem apresentamos o evangelho? Não deveríamos, igualmente,
entender que apresentar o Reino deve vir “primeiro”, como prioridade, do que o pão, a
bebida e o cobertor?45 João retrata um acontecimento que ilustra bem nosso ponto:
A multidão entrou também nos barquinhos e foi para Cafarnaum em busca de Jesus. Ao encontrá-lo
no outro lado do mar, perguntaram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? Jesus lhes respondeu: Em
verdade, em verdade vos digo que me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes do
pão e ficastes satisfeitos. Trabalhai não pela comida que se acaba, mas pela comida que permanece
para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará. Deus, o Pai, o aprovou, pondo nele o seu
selo. Perguntaram-lhe, então: Que faremos para realizar as obras de Deus? Jesus lhes respondeu: A
obra de Deus é esta: Crede naquele que ele enviou. (João 6:24-29)
Os homens iam a Cristo em busca de pão, mas Jesus se recusou a alimentar-lhes o
corpo. A lição era que eles deveriam trabalhar “não pela comida que se acaba, mas pela
comida que permanece para a vida eterna”. Os homens não deveriam buscar
simplesmente alimento para o corpo, que acabaria um dia, mas sim buscar alimentar-se de
Jesus, o que duraria para sempre. Cristo está muito claramente dizendo que o alimento
eterno é mais importante, mais prioritário que o alimento terreno. A aplicação disto em
nosso evangelismo é tão óbvia que me espanta que alguém pense diferente.
Várias são as passagens bíblicas que mostram ser esta vida muito inferior à vida futura,
e que sanar os problemas desta vida é bobagem se comparado com a importância da
glória vindoura, “pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para
nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não
naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se
vê é eterno” (2Co 4:17-18). Fome do homem sem Deus é transitória, mas o inferno para
onde ele vai se não encontrar Jesus durará para sempre. Jesus diz: “Mas ai daquele que
trai o Filho do homem! Melhor lhe seria não haver nascido” (Mt 26:24). Cristo não está
apenas sendo enfático, mas está deixando claro que a ida para o inferno faz com que toda
a vida seja inútil, sem valor. Ter pão, cobertores, saúde e abrigo tornam-se o mesmo que
nada quando o destino eterno é a perdição. Melhor seria ao ímpio morrer de fome e ir aos
céus que encontrar banquetes diários, ser livre da opressão social, mas perecer no inferno.
“Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham
medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mt 10:28). O
sofrimento físico é ruim, mas o sofrimento eterno é pior, e é este sofrimento que deveria
causar mais medo nos homens. “Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e
perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” (Mt 16:26). De
que adianta receber o cuidado social da igreja e continuar indo pro inferno?
Claro que as responsabilidades da Igreja como abençoadora da cultura e cuidadora dos
pobres não podem ser tratadas com desleixo, mas colocá-los em pé de igualdade com o
dever de proclamar a morte e ressurreição de Cristo para a salvação eterna das nações é
absurdo. O pão para o corpo é importante, mas é nada comparado ao pão pra alma. Livrar
alguém da opressão do mal político dá glórias a Deus, mas tirar alguém do reino das
trevas, em sujeição às potestades do ar, para o reino da maravilhosa luz, debaixo da
sombra do Onipotente, é muito superior. Se você encontra alguém que simultaneamente
está baleado no peito, mas possui uma pequena raladura no pé, você o estaria amando ao
dar apenas band-aids para os arranhões? Sim, os problemas sociais devem ser sanados,
mas precisamos reconhecer que os homens estão espiritualmente mortos e estão
caminhando para a desgraça eterna – coisa muito pior que a opressão política, a fome, a
falta de moradia ou de saúde.
É fundamental pensarmos, diante de tudo isto, que existem momentos extremos onde
aquilo que é principal não necessariamente aparecerá cronologicamente anterior ao que é
secundário. Ao saudar uma pessoa a quem quero comunicar o Evangelho com um “boa
noite”, não estou dizendo que a convenção social tem primazia sobre a evangelização,
mas apenas seguindo o melhor fluxo possível para a comunicação. Quando encontramos
um morador de rua morrendo de frio nas madrugadas de inverno, não significa que temos
o cuidado social como mais importante que a salvação da alma ao entregarmos um casaco
antes da mensagem da cruz. Ouvi alguém narrar a respeito de um missionário entre os
Yanomamis, na fronteira com a Venezuela, que encontrou um ambiente onde as mortes
entre os índios eram diárias, pelos mais diversos tipos de doenças. Certa feita, uma
enfermeira ofereceu-se como missionária e passou a compor a equipe naquele campo.
Defronte aquele problema, foi exigido da equipe que todos se envolvessem integralmente
com o cuidado médico dos índios. O que eles tinham em mente era: “lutaremos para
manter os índios vivos, pra lhes pregarmos o Evangelho”. John Stott, também defensor da
Teologia da Missão Integral, defende uma perspectiva bem madura a respeito da questão:
[...] a ação social é uma parceira do evangelismo. Como parceiros, os dois se completam, mas são,
mesmo assim, independentes entre si. Lado a lado, cada um se sustenta por si e possui sua própria
autonomia. Nenhum deles é um meio para o outro, ou mesmo uma manifestação do outro, pois cada
um é um fim em si mesmo. Ambos são expressões do amor genuíno. [...] Não significa que palavras
e atitudes, evangelismo e ação social, são parceiros tão inseparáveis que todos nós devamos nos
engajar em ambos o tempo todo. As situações variam, e o chamado dos cristãos também. Com
respeito às situações, haverá momentos em que o destino eterno da pessoa é a consideração mais
urgente, pois não devemos nos esquecer que os homens sem Cristo estão perecendo. Porém,
certamente haverá outras vezes em que a necessidade material da pessoa será tão premente que ela
não será capaz de ouvir o evangelho se o compartilharmos com ela. O homem que caiu entre os
salteadores precisava, acima de tudo, naquele momento, de remédios e curativos para suas feridas,
não de folhetos evangelísticos nos bolsos! Semelhantemente, nas palavras de um missionário em
Nairóbi, citado pelo bispo John Taylor, “um homem faminto não tem ouvidos”. Se o nosso inimigo
estiver faminto, nosso mandamento bíblico não é evangelizá-lo, mas alimentá-lo (Rm 12.20)! E
existe ainda a diversidade de chamados cristãos, e todo cristão deve ser fiel ao seu próprio chamado.
O médico não deve negligenciar a prática da medicina para evangelizar, nem o evangelista deve se
distrair do ministério da palavra para ministrar às mesas, como os apóstolos logo descobriram (At
6).46

Defendendo, então, a prioridade do evangelismo, Stott conclui:


Qualquer coisa que solape a dignidade humana deve ser uma ofensa a nós. Porém, será que existe
algo tão destruidor da dignidade humana quanto a alienação para com Deus por meio da ignorância
ou rejeição do evangelho? E como podemos sustentar com seriedade que a libertação política e
econômica é tão importante quanto a salvação eterna?47

As palavras de Stott deveriam ser ouvidas por todos os defensores da Missão Integral.
Obviamente, este não é um trabalho inteiro sobre a TMI e não há como lidar com todos os
pontos desta visão missiológica, mas algo pode ser dito com suficiente precisão: não
existe qualquer elemento do texto de Mateus 28:18-20 que dê base para tal perspectiva.
Se você entender que todo o Mandato Sociocultural está incluso na Grande Comissão,
você terá uma visão disforme da missão da Igreja. Como o cientista político Paul
Marshall pontua: “O mandato cultural e o mandato evangelístico não são destinados a se
substituir [...] nem mesmo devemos dizer que estes mandatos devem ser adicionados um
ao outro”48. São mandatos diferentes que não podem ser misturados.
De fato, quando eu estou em campo missionário obedecendo a Grande Comissão, eu
ainda devo obedecer às ordens de não viver embriagado, de não cobiçar a mulher do
próximo e de amar meus inimigos. Não apenas o “missionário” vai a campo, mas o crente
inteiro. Desta forma, o relacionamento entre ação social e pregação do evangelho se dá
unicamente por estas serem duas ordens entregues pelo mesmo Deus às mesmas pessoas.
Se por um lado existe quem ignore uma ordem em detrimento da outra, há quem busque
tanto o correto relacionamento entre ação social e evangelismo que acabe esquecendo que
estas são duas obras diferentes que não são mais inter-relacionadas que qualquer outro par
de mandamentos bíblicos.

20. ZYLSTRA, Bernard. “Thy Word Our Life”, In: OLTHUIS, James H. (et al). Will all King’s Men? Toronto: Wedge
Publishing Foundation, 1972, p. 171.
21. MCDOWELL, Stephen. Completando o Mandato Cultural: Como os Cristãos têm Ajudado a Estabelecer o Reino de
Deus entre as Nações. Disponível em: <http://institutotransforma.org/2010/10/impactante-testemunho/>. Acesso em: 23
dez. 2013.
22. SMITH, James K. A. Christ and Culture and Church and Creation. Disponível em:
<http://www.christianitytoday.com/ct/2008/octoberweb-only/142-21.0.html>. Acesso em 23 dez. 2013. Smith ganhou
dura tréplica de Carson em sua obra Cristo & Cultura: uma releitura (Vida Nova).
23. São Paulo, SP: Vida Nova, 2006.
24. Esta divisão do Mandato Sociocultural em esferas ou aspectos não deveria ser estranha a nenhum de seus
defensores. Quando um homem se envolve com a limpeza de um rio, ele não está cumprindo todo o Mandato, mas
apenas a esfera ecológica do mesmo. Quando um homem se dedica a ser uma voz cristã relevante na advocacia de uma
nação, ele não está cumprindo o mesmo aspecto do Mandato que estaria ao plantar uma árvore.
25. Eu entendo que a autoridade de Cristo sobre céus e terra inclui sua soberania sobre todas as esferas da vida humana.
O problema, ao meu ver, é ignorar (ou não observar apropriadamente) que Cristo aplica esta soberania a atitudes
específicas, que é a ida, o discipulado, o batismo e o ensino. Jesus não aplica sua soberania, neste texto, a nenhuma
outra atitude. O modo como Cristo nos ordena que apliquemos sua soberania em ir às nações é em discipulá-las, em
batizá-las e ensiná-las a obediência. Deve ser óbvio a qualquer leitor atento que seria um uso impróprio do texto aplicá-
lo de outra forma.
26. FERNANDO, Luiz. Missões e Ecologia. Disponível em: <http://www.cidadedeitapira.com.br/portal/?
p=artigosShow&cod=484>. Acesso em: 23 dez. 2013. Grifo nosso.
27. STOTT. A missão cristã no mundo moderno, p. 27.
28. Ibid., p. 27-29.
29. Veja LOPES, Augustus Nicodemus. Jesus Não era Cristão. Disponível em: <http://tempora-
mores.blogspot.com.br/2010/06/jesus-nao-era-cristao.html>. Acesso em 16 jan. 2014.
30. STOTT. A missão cristã no mundo moderno, p. 33-35.
31. CARSON. A Manifestação do Espírito, p. 165
32. É claro que, em determinado nível, a Teologia Sistemática afeta e influencia nossa exegese. Por exemplo, a análise
de várias passagens da Escritura nos ensina que devemos analisar a Escritura como sendo Palavra de Deus. Os vários
estágios da construção teológica sempre devem se retroalimentar. Porém, isso não pode ultrapassar os limites da boa
ciência.
33. HORTON, Michael. The Gospel Commission: Recovering God’s Strategy for Making Disciples (kindle). Posição 1041-
1043.
34. Ibid., posição 1147-1152. Sou tentado a discordar dele, no entanto, quando diz que “a Grande Comissão só é dada à
igreja porque o último Adão cumpriu [o mandato sociocultural]” (ibidem). Não me parece que existe a necessidade de
Cristo ter cumprido escatologicamente os mandatos adâmicos para que a Grande Comissão seja entregue. Essa
replacement missiology que percebe a Grande Comissão como uma substituição para o mandato sociocultural não me
agrada por uma série de motivos, mas aqui não há espaço para discutir com detalhes o relacionamento do crente com as
ordens entregue ao representante federal da humanidade, nem com as continuidades e descontinuidades do mandato
adâmico.
35. A Response to Ed Stetzer’s Review of “What Is the Mission of the Church?”. Disponível em:
<http://thegospelcoalition.org/blogs/kevindeyoung/2011/11/15/a-response-to-ed-stetzers-review-of-what-is-the-mission-
of-the-church/>. Acesso em: 7 jan. 2014.
36. HORTON. The Gospel Commission, posição 1451-1456.
37. PADILLA, C. René. O que é Missão Integral? Ensaios sobre o Reino e a Igreja. São Paulo, SP: Fraternidade Teológica
Latino Americana e Temática Publicações, 1992, p. 34.
38. HORTON. The Gospel Commission, posição 1456-1458.
39. PADILLA. O que é Missão Integral?, p. 52.
40. PADILLA, René. Missão Integral: O reino de Deus e a Igreja. Viçosa: Ultimato, 2014, p. 26.
41. BARRO, Antônio Carlos. “Revisão do marco da missão integral”. In: Missão integral: proclamar o reino de Deus,
vivendo o evangelho de Cristo. Viçosa: Ultimato, 2004. p. 72-89.
42. KIVITZ, Ed René. Uma igreja relevante para o Homem pós-moderno. Disponível em: <http://vimeo.com/53525262>.
Acesso em 24 mai. 2013.
43. RAMACHANDRA, Vinoth. Whose “Priority”? Which Gospel? Disponível em:
<http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/11/20/whose-prioritywhich-gospel/>. Acesso em: 30 ago. 2014.
44. Missão Integral em Debate – Yago Martins e Jailma Rodrigues. Disponível em:
<http://www.afmu.com.br/2014/08/12/missao-integral-em-debate-yago-martins-e-jailma-rodrigues/>. Acesso em 30
ago. 2014.
45. Cláudio Antônio Cardoso Leite e Fernando Antônio Cardoso Leite veem no texto exatamente o oposto do seu
significado, dizendo que “Buscar o reino de Deus em primeiro lugar nos garante o acréscimo de todas as coisas, porque
todas elas são importantes [...]. Sendo assim, a missão da igreja não pode ser somente a de salvar almas ou de
transformar vidas individuais; deve ser muito mais abrangente do que isso” (LEITE, Cláudio Antônio Cardoso; LEITE,
Fernando Antônio Cardoso. “Evangélicos ou Evangelicos? A igreja brasileira entre os exemplos do passado e o dilema
do presente”, In: CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de [org.]. Cosmovisão Cristã e Transformação: Espiritualidade,
razão e ordem social. Viçosa, MG: Ultimato, 2006, p. 22).
46. STOTT. A missão cristã no mundo moderno, p. 32-33. A citação de John Taylor se encontra em For All the World,
Hodder & Stoughton, 1966, p. 37.
47. Ibid., p. 43-44.
48. MARSHALL, Paul. Thine Is the Kingdom. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1986, p. 20.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

A Response to Ed Stetzer’s Review of “What Is the Mission of the Church?”. Disponível


em: <http://thegospelcoalition.org/blogs/kevindeyoung/2011/11/15/a-response-to-ed-
stetzers-review-of-what-is-the-mission-of-the-church/>. Acesso em: 7 jan. 2014.
A viagem do ministério Diante do Trono a Israel. Disponível em:
<http://www.ifiladelfia.com/portal/noticias_detalhes.php?Codigo=1706>. Acesso em: 31
out. 2013.
ADNA, Jostein; KVALBEIN, Hans. The Mission of the Early Church to Jews and Gentiles.
Tübingen: Mohr Sieback, 2000.
AJAJ, Azar. “Baptism and the Muslim Convert to Christianity”, St Francis Magazine 6, No
4, 2010.
ANAJURE e agências evangélicas emitem nota pública sobre a atuação cristã de missões
transculturais em terras indígenas brasileiras e os obstáculos criados pelo Poder Público.
Disponível em: <http://www.anajure.org.br/anajure-e-agencias-evangelicas-emitem-nota-
publica-sobre-a-atuacao-crista-de-missoes-transculturais-em-terras-indigenas-brasileiras-
e-os-obstaculos-criados-pelo-governo-federal/>. Acesso em: 24 dez. 2013.
ÂNGELO, Miguel. Os Rudimentos da Doutrina de Cristo. Seminário Construindo Uma
Casa Sobre a Rocha. Curso de Teologia da Graça de Deus (Igreja Evangélica Cristo Vive
– Missão Apostólica da Graça de Deus, Rio de Janeiro/RJ). Módulo 03 – Aula 04.
ASI, Emmanuel. Deus em Nazaré: a face humana de Deus. São Paulo, SP: Edições
Loyola, 1995.
ASSAMAD, Ulfat Aziz. O Islam e o Cristianismo. São Bernardo do Campo: Centro de
Divulgação do Islam para a América Latina, 1991.
BAIDO-ESSIEN, Christopher. Examining the Great Commission: A Call to Study.
Bloomington, IN: AuthorHouse, 2011.
BARRO, Antônio Carlos. Missão integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o
evangelho de Cristo. Viçosa: Ultimato, 2004.
Batismo Divertido. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=xfoRq7PE-YU>.
Acesso em: 31 out. 2013.
Batismo no Jordão e origem da autoridade apostólica marcam 3o dia da Caravana.
Disponível em: <http://josiel-dias.blogspot.com.br/2013/10/batismo-no-jordao-e-origem-
da.html>. Acesso em: 31 out. 2013.
BEASLEY-MURRAY, G. R. Baptism in the New Testament. Wipf & Stock Publishers, 2006.
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
BOSCH, David J. Transforming Mission: Paradig Shifts in Theology of Mission.
Maryknoll, NT: Orbis, 1991, p. 57. [Bosch, David J. Missão Transformadora: Mudanças
de Paradigma na Teologia da Missão. São Leopoldo, RS: EST, Sinodal, 2002.]
______. “Church Unity Amidst Cultural Diversity”, In: Missionália. Abril de 1982.
Reimpresso no Evangelical Review of Theology 8.2. Outrubro de 1984.
BRITO, Frank. Quem Tem o Direito de Batizar? (Parte 2). Disponível em:
<http://resistireconstruir.wordpress.com/2013/09/07/quem-tem-o-direito-de-batizar-parte-
2/>. Acesso em 10 set. 2013.
BROADUS, John. Commentary on the Gospel of Matthew. Valley Forge: American Baptist
Publications Society, 1886.
BRYM, Robert et al. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo, SP:
Thomson Learning, 2006.
BURNS, Barbara Helen (ed.). Contextualização Missionária: Desafios, Questões e
Diretrizes. São Paulo, SP: Vida Nova, 2011.
BURRAGE, C. Early English Dissenters (1550-1641), vol. I. Cambridge U.P., 1912.
CAMPOS, Heber Carlos de. As duas naturezas do Redentor. São Paulo, SP: Cultura Cristã,
2004.
CARRIKER, Timóteo. A visão missionária na Bíblia: uma história de amor. Viçosa, MG:
Ultimato, 2005.
______. Princípios Teológicos para a Ação Missionária Reformada. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/missoes/principios_teologicos_acao_missionaria.ht
m>. Acesso em: 25 jul. 2014.
CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito: a contemporaneidade dos dons à luz de 1
Coríntios 12-14. São Paulo, SP: Vida Nova, 2013.
CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de (org.). Cosmovisão Cristã e Transformação:
Espiritualidade, razão e ordem social. Viçosa, MG: Ultimato, 2006.
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de
Janeiro, RJ: Record, 2013.
CHEUNG, Vincent. O Cristão e o Casamento Civil. Disponível em:
<http://blogdavidaeterna.blogspot.com.br/2012/10/o-cristao-e-o-casamento-civil.html>.
Acesso em: 7 set. 2013.
CHILTON, David. Paradise Restored: A Biblical Theology of Dominion. Tyler, TX:
Dominion Press, 1994.
COLOMBANI, Jean-Marie. We Are All Americans. Disponível em:
<http://www.worldpress.org/1101we_are_all_americans.htm>. Acesso em: 13 dez. 2013.
CONSTANTINO, Rodrigo. Esquerda Caviar: A hipocrisia dos artistas e intelectuais
progressistas no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Record, 2013.
CRAGG, K. The Call of the Minaret. One World, 2000.
CUNNINGHAM, Loren; ROGERA, Janice. Pode falar, Senhor... Estou ouvindo. Venda Nova,
Mg: Editora Betânia, 1985.
DEYOUNG, Kevin; GILBERT, Greg. Qual a Missão da Igreja? Entendendo a Justiça Social
e a Grande Comissão. São Paulo, SP: Fiel, 2012.
DEYOUNG, Kevin. Brecha em nossa santidade. São José dos Campos, SP: Fiel, 2013.
Didaqué: A Instrução dos Doze Apóstolos. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/credos/didaque.htm>. Acesso em 3 set. 2013.
DODSON, Jonathan. Discipulado Centrado no Evangelho. Niterói, RJ: Tempo de Colheita,
2015.
______. There’s a discipleship crisis in the church today. Disponível em:
<http://theresurgence.com/2011/11/04/theres-a-discipleship-crisis-in-the-church-today>.
Acesso em: 10 set. 2013.
DRISCOLL, Mark; BRESHEARS, Gerry. Igreja Vintage: questões atemporais e métodos
atuais. Niterói: Tempo de Colheita, 2012.
DUBOSE, Francis M. (org.). Classics of Christian Missions. Nashville: Broadman Press,
1979.
EDWARDS, James R. The Gospel According to Mark (Pillar New Testament commentary).
Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2002.
ERICKSON, Millard J. Christian Theology. Grand Rapids, Michigan: Baker Academic,
1998.
FERGUSON, Sinclair. The Trinitarian Devotion of John Owen. Orlando, FL: Reformation
Trust, 2014.
FERNANDO, Luiz. Missões e Ecologia. Disponível em:
<http://www.cidadedeitapira.com.br/portal/?p=artigosShow&cod=484>. Acesso em: 23
dez. 2013.
FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.
FERREIRA, Franklin. A Glória da Graça de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel,
2010.
FRANKLIN, Jonathan. Os 33: a milagrosa sobrevivência e o dramático resgate dos mineiros
no Chile. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
FRIEDRICH, Gerhard. Die formale Struktur von Mt. 28, 18-20. Zeitschrift fü Theologie und
Kirche, Vol. 80, No. 2, 1983.
GENTRY, Kenneth L. The Greatness of the Great Commission: the Christian enterprise in a
fallen world. Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1993.
GILL, John. An Exposition of the New Testament. London: William Hill Collingridge,
1852, Vol. I.
GILMORE, A. Christian Baptism: A Fresh Attempt to Understand the Rite in Terms of
Scripture, History and Theology. London: Lutterworth Press, 1960.
GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick, W. Léxico do Novo Testamento: Grego-
Português. São Paulo: Vida Nova, 1993.
GONZÁLEZ, Justo L. Cultura & Evangelho: o lugar da cultura no plano de Deus. São
Paulo, SP: Hagnos, 2011.
GONZÁLEZ, Justo L.; ORLANDI, Carlos Cardoza. História do Movimento Missionário. São
Paulo: Editora Hagnos, 2008.
GOUVÊA, Ricardo Quadros. Missão Integral: Um Convite à Reflexão. Disponível em:
<http://www.ftl.org.br/index.php?view=article&catid=35:artigos-online&id=127:missao-
integral-um-convite-a-reflexao&option=com_content&Itemid=75>. Acesso em: 23 dez.
2013.
GRAHAM, Billy; PADILLA, C. René et al. A missão da igreja no mundo de hoje. São Paulo:
ABU e Visão Mundial, 1984.
GREEN, Michael. Evangelização na igreja primitiva. São Paulo, SP: Vida Nova, 1989.
GRIGG, Viv. The Cry of the Urban Poor: Reaching the Slums of Today’s Megacities.
Monrovia, USA: MARC Publications, 1992.
GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
GUNDRY, R. H. Matthew: A Commentary on his Literary and Theological Art. Eerdmans,
1982.
______. Robert H. Panorama do Novo Testamento: 3a edição revisada e ampliada. São
Paulo, SP: Vida Nova, 2008.
HANKO, Ronald. Doctrine according to Godliness: A Primer of Reformed Doctrine.
Reformed Free Publishing Association, 2004.
HARTMAN, Lars. “Into the Name of Jesus”: A Suggestion Concerning the Earliest
Meaning of the Phrase, New Testament Studies 20. 1974.
HARVEY, Dave. Eu sou chamado? A vocação para o ministério pastoral. São José dos
Campos, SP: Editora Fiel, 2013.
HAYKIN, Michael A. G. Redescobrindo os pais da Igreja: Quem eles eram e como
moldaram a igreja. São José dos Campos: Editora Fiel, 2012.
HENDRIKSEN, William. Mateus (volume 2). São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2000.
HENRY, Matthew. Commentary on the Whole Bible Volume V (Matthew to John). Christian
Classics Ethereal Library. Disponível em:
<http://www.ccel.org/ccel/henry/mhc5.Matt.xxix.html>. Acesso em: 10 set. 2013.
HESSELGRAVE, David J. Plantar Igrejas: Um guia para Missões Nacionais e
Transculturais. São Paulo, SP: Vida Nova, 1984.
HIEBERT, Paul G. O Evangelho e a Diversidade de Culturas: um guia de antropologia
missionária. São Paulo, SP: Vida Nova, 1999.
HILL, Christopher. A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII. Rio de Janeiro, RJ:
Civilização Brasileira, 2003.
HINSON, E. Glenn; SIEPIERSKI, Paulo. Vozes do cristianismo primitivo. São Paulo:
Temática & Sepal.
HORTON, Michael. The Gospel Commission: Recovering God’s Strategy for Making
Disciples. Grand Rapids: Baker, 2011.
Inovação: Batismo nas águas através de toboágua. Disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=3FAOQCF0T3I>. Acesso em> 31 out. 2013.
JOHNSTONE, Patrick. A Igreja é maior do que você pensa: A tarefa inacabada de
evangelização mundial. Camanducaia, MG: Missão Horizontes, 1998.
JUSTIN. Dialogue With Trypho. 39.1. Disponível em:
<http://www.earlychristianwritings.com/text/justinmartyr-dialoguetrypho.html>. Acesso
em: 23 out. 2013.
KEENER, Craig S. A Commentary on the Gospel of Matthew. Grand Rapids: Eerdmans,
1999.
KING, J. N. English Reformation Literature: The Tudor Origins of the Protestant
Tradition. Priceton U.P., 1982.
KIVITZ, Ed René. Uma igreja relevante para o Homem pós-moderno. Disponível em:
<http://vimeo.com/53525262>. Acesso em 24 mai. 2013.
KLAUBER, Martin I.; MANETSCH, Scott M. The Great Commission: Evangelicals and the
History of World Missions. Nashville, TN: B&H Publishing Group, 2008.
KUYPER, A. Kuyper on missions. Disponível em:
<http://www.allofliferedeemed.co.uk/Kuyper/AK-Missions.pdf>. Acesso em: 18 jan.
2014.
LATOURETTE, Kenneth Scott. First Five Centuries, vol. 1 de A History of the Expansion of
Christianity. Grand Rapids: Zondervan, 1970.
______. Uma história do cristianismo, volume 1: até 1500 a.D. São Paulo, SP: Hagnos,
2006.
LEITE, Túlio Cesar Costa. O Dízimo. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/dizimos_ofertas/o-dizimo_tulio.pdf>. Acesso em:
28 fev. 2014.
LÉON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João I. São Paulo, SP: Edições
Loyola, 1996.
LIDÓRIO, Ronaldo. Com a mão no arado: pensando a vida, cumprindo a missão. Belo
Horizonte: Betânia, 2006.
LIE, John. Multiethnic Japan. Cambridge, MA: Havard University Press, 2001.
LINDSEY, Hal. The Road to Holocaust. Bantam Books, 1990.
LOPES, Augustus Nicodemus. Jesus Não era Cristão. Disponível em: <http://tempora-
mores.blogspot.com.br/2010/06/jesus-nao-era-cristao.html>. Acesso em 16 jan. 2014.
Lula ‘Gente branca, com olhos azuis que gerou crise. Disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=QUUlUj2GDTs>. Acesso em: 23 dez. 2013.
M.Bikkurim, 1.4. Disponível em:
<http://instonebrewer.com/RabbinicTraditions/EngText.php?
StandardRef=Bik.1.4&GotoRef=m.Bik.1.4&Words1UC=&Words2UC=&&Words1HA=
&Words2HA=&Resource=&Reference=>. Acesso em 13 out. 2013.
MCALISTER, Walter. Neopentecostalismo: A História Não Contada. Rio de Janeiro: Anno
Domini, 2012.
MACARTHUR, John. Evangelism: how to share the gospel faithfully. Nashville: Thomas
Nelson, 2011.
______. The MacArthur New Testament Commentary, Matthew 24-28. Chicago,IL:
Moody Publishers, 1989.
MARSHALL, Paul. Thine Is the Kingdom. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1986.
MATHER, Cotton. Magnalia Christi Americana: Or the Ecclesiastical History of New
England, vol. I.
MATOS, Alderi Souza de. “O Batismo em Nome de Jesus no livro de Atos: Uma Reflexão
Bíblico-Teológica”. Fides Reformata, vol.V, n.2, São Paulo, 2000.
MCDOWELL, Stephen. Completando o Mandato Cultural: Como os Cristãos têm Ajudado
a Estabelecer o Reino de Deus entre as Nações. Disponível em:
<http://institutotransforma.org/2010/10/impactante-testemunho/>. Acesso em: 23 dez.
2013.
MEYER, Heinrich August Wilhelm. Critical and exegetical handbook to the gospel of
Matthew. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1983.
Missão Integral em Debate – Yago Martins e Jailma Rodrigues. Disponível em:
<http://www.afmu.com.br/2014/08/12/missao-integral-em-debate-yago-martins-e-jailma-
rodrigues/>. Acesso em 30 ago. 2014.
MOLTMANN, Jürgen. Trindade e reino de Deus: uma contribuição para a teologia.
Petrópolis: Vozes, 2000.
MULHOLLAND, Kenneth B. From Luther To Carey: Pietism and the Modern Missionary
Movement. Disponível em:
<http://www.ciu.edu/sites/default/files/Article/2010/11/From%20Luther%20To%20Carey
%3A%20Pietism%20and%20the%20Modern%20Missionary%20Movement/article327_1
997_11_kennethmulholland_pdf_13626.pdf>. Acesso em: 26 fev. 2014.
Não é racismo se insurgir contra branco, diz ministra. Disponível em:<
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/03/070326_ministramatildedb.s
html>. Acesso em: 23 dez. 2013.
NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. São Paulo: Leya,
2011.
NBP King Samir Shabazz – Whites ‘Should be Thankful We’re Not...Hanging Crackers By
Nooses...Yet’. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=sATUARJdHbc>.
Acesso em: 23 dez. 2013.
NEIL, Arthur. Aid us in our strife, Vol. 1. England: Heath Christian Trust, 1989.
NEWBIGIN, L. International Bulletin of Missionary Reserach. Abril de 1988.
NICHOLLS, Bruce J. Contextualização: uma teologia do evangelho e da cultura. São Paulo,
SP: Vida Nova, 2013.
NOGUEIRA, Paulo. De Pelé a Joaquim Barbosa, é sempre a mesma história. Disponível
em: <http://www.diariodocentrodomundo.com.br/de-pele-a-joaquim-barbosa-e-sempre-a-
mesma-historia/>. Acesso em: 1 jan. 2014.
Número de imigrantes cresceu 86,7% em dez anos no Brasil, diz IBGE. Disponível em:
<http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/04/numero-de-imigrantes-cresceu-867-em-dez-
anos-no-brasil-diz-ibge.html>. Acesso em: 20 fev. 2014.
O batismo no rio Jordão pode custar menos de US$ 10, com certificado incluído.
Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/o-batismo-no-rio-jordao-
pode-custar-meno/>. Acesso em: 31 out. 2013.
OLTHUIS, James H. (et al). Will all King’s Men? Toronto: Wedge Publishing Foundation,
1972.
OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica.
São Paulo, SP: Vida Nova, 2009.
PADILLA, C. René. O que é Missão Integral? Ensaios sobre o Reino e a Igreja. São Paulo,
SP: Fraternidade Teológica Latino Americana e Temática Publicações, 1992.
______. René. Missão Integral: O reino de Deus e a Igreja. Viçosa: Ultimato, 2014.
PAPE (Org.). A Missão a partir da América Latina. Edições Paulinas / Tempo de
Libertação, 1983.
Para ser batizado no Rio Jordão. Disponível em:
<http://www.aeroportojornal.com.br/index.php?
option=com_content&view=article&id=302:para-ser-batizado-no-rio-
jordao&catid=15&Itemid=133>. Acesso em: 31 out. 2013.
PATE, Larry D. Missiologia: a missão transcultural da igreja. Miami: Editora Vida, 1987.
PATRICK, Darrin. O Plantador de Igrejas: O homem, a mensagem, a missão. São Paulo,
SP: Vida Nova, 2013.
PAYNE, Tony; MARSHALL, Colin. The Trellis and the Vine. Kingsford NSW, Australia:
Matthias Media, 2009.
PERKS, Stephen C. The Great Decommission. Taunton: Kuyper Foundation, 2011.
PERSONA, Mário. Quem pode batizar uma pessoa? Disponível em:
<http://www.respondi.com.br/2009/01/quem-pode-batizar-uma-pessoa.html>. Acesso em:
7 set. 2013.
PESCH, Rudolf. “Berufung und Sendung, Nachfolge und Mission: Eine Studie zu Mk 1,
16-20”, Zeitschrift für katholische Theologie 91, 1969.
PESKETTE, Howard; RAMACHANDRA, Vinoth. A Mensagem da Missão: a glória de Cristo
em todo o tempo e espaço. São Paulo, SP: ABU, 2005.
PIPER, John. Alegrem-se os povos: A Supremacia de Deus em missões. São Paulo: Editora
Cultura Cristã, 2001.
______. Doce e amarga providência: sexo, raça e soberania de Deus. São Paulo, SP:
Hagnos, 2012.
______. O que Jesus espera de seus seguidores: mandamentos de Jesus ao mundo. São
Paulo, SP: Editora Vida, 2008.
______. O Racismo, a Cruz e o Cristão: A nova linhagem em Cristo. São Paulo, SP: Vida
Nova, 2012.
RAINER, Thom S.; LAWLESS, Chuck. The Challenge of the Great Commission: Essays on
God’s Mandate for the Local Church. Crestwood, KY: Pinnacle, 2005.
RAMACHANDRA, Vinoth. Whose “Priority”? Which Gospel? Disponível em:
<http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/11/20/whose-prioritywhich-gospel/>.
Acesso em: 30 ago. 2014.
REPSCHINSKI, Boris. The Controversy Stories in the Gospel of Matthew: Their Redaction,
Form and Relevance for the Relationship Between the Matthean Community and
Formative Judaism. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2000.
RIBEIRO, Braulia. Tradução da Bíblia é etnocentrismo? Disponível em:
<http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/344/traducao-da-biblia-e-etnocentrismo>.
Acesso em: 1 abr. 2014.
RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. 2.ed. São Paulo: Editora Nacional,
1935.
SALVADOR, José Gonçalves. O Didaqué ou “o ensino do Senhor através dos doze
apóstolos”. São Paulo: Junta Geral de Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil,
1957.
SANTOS, Almir Rodrigues dos. Paradigma do Discipulado na Eclesiologia Moderna.
Clube dos Autores, 2013.
SANTOS, Amador-Ángel García. Gramática do grego do Novo Testamento. São Paulo, SP:
Edições Loyola, 2008.
SANTOS, Valdeci. Revitalização de Igrejas: Uma Reflexão Teologicamente Orientada.
Disponível em: <http://www.mackenzie.
br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/Fides_Reformata/01_Revi
talizacaoDeIgrejas_UmaReflexaoTeologicamenteOrientada. pdf>. Acesso em: 30 abr.
2013.
SCHAFF, Philip. Commentary on the Holy Scriptures Critical, Doctrinal and Homiletical.
3rd cd.: Grand Rapids: Zondervan, rep. n.d., 1861.
SMITH, James K. A. Christ and Culture and Church and Creation. Disponível em:
<http://www.christianitytoday.com/ct/2008/octoberweb-only/142-21.0.html>. Acesso em
23 dez. 2013.
SPROUL, R.C. What is Baptism? (Crucial Questions #11). Sanford, FL: Reformation Trust
Publishing, 2011.
O’DONNELL, Kelly. Cuidado Integral do Missionário: Perspectivas e práticas ao redor do
mundo. Londrina: Editora Descoberta, 2004.
STOTT, John. A missão cristã no mundo moderno. Viçosa, MG: Ultimato, 2010.
STUBB, The Discovery of a Gaping Gulf. Charlottesville, 1964.
TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento: sua origem e análise. São Paulo, SP: Shedd
Publicações, 2008.
TERTULIANO. De Spectaculis. Disponível em:
<http://www.newadvent.org/fathers/0303.htm>. Acesso em: 21 fev. 2014.
______. O sacramento do batismo: teologia pastoral do batismo segundo Tertuliano.
Petrópolis: Vozes, 1981.
TIMMIS, Steve; CHESTER, Tim. Igreja diária: comunidades do evangelho em missão.
Niterói, RJ: Editora Tempo de Colheita, 2013.
Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Disponível em:
<http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma
.html>. Acesso em: 21 fev. 2014.
TRUEMAN, Carl R. O Imperativo Confessional. Brasília, SF: Editora Monergismo, 2012.
UNIVERSITY OF CALIFORNIA REGENTS v. BAKKE, 438 U.S. 265 (1978). Disponível em:
<http://caselaw.lp.findlaw.com/scripts/getcase.pl?
navby=CASE&court=US&vol=438&page=265>. Acesso em: 25 out. 2013.
VENÂNCIO, Norma Braga. Infanticídio indígena e justificações antropológicas. Disponível
em: <http://normabraga.blogspot.com.br/2010/03/infanticidio-indigena.html>. Acesso
em: 14 dez. 2014.
VENÂNCIO, André. Prolegômenos a toda encrenca futura – parte 2. Disponível em:
<http://andrelv.blogspot.com.br/2012/05/prolegomenos-toda-encrenca-futura-parte.html>.
Acesso em: 16 dez. 2013.
VOLF, M. Exclusion and Embrace: A Theological Exploration of Identity, Otherness, and
Reconciliation. Abingdon, 1996.
WALLACE, Daniel B. Gramática Grega: uma sintaxe exegética do Novo Testamento. São
Paulo, SP: Editora Batista Regular, 2009.
WARFIELD, B. B. “Baptism”, In: New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious
Knowledge, v. 1. Disponível em:
<http://www.ccel.org/ccel/schaff/encyc/encyc01/articles/baptism.html>. Acesso em: 10
ago. 2012.
WASHER, Paul. O Verdadeiro Evangelho. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2012.
______. O poder do Evangelho e sua mensagem. São José dos Campos, SP: Editora Fiel,
2013.
WILLARD, Dallas. A Conspiração Divina: Um roteiro para trilhar no caminho de Deus.
São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2001.
______. A grande omissão: as dramáticas consequências de ser cristão sem se tornar
discípulo. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
WRIGHT, Christopher. Deuteronomy. Hendrickson, 1996.
WRIGHT, David F. “The Great Commission and the Ministry of the Word: Reflections
Historical and Contemporary on Relations and Priorities (Finlayson Memorial Lecture,
2007)”, In: Scottish Bulletin of Evangelical Theology 25, 2007.
Yago Martins é Bacharel em Teologia (Faculdade Teológica
Sul-Americana - Londrina/PR), pós-graduando em Escola
Austríaca de Economia (Centro Universitário Ítalo
Brasileiro - São Paulo/SP) e mestrando em Teologia
Sistemática (Instituto Aubrey Clark - Fortaleza/CE). Pastor
auxiliar na Igreja Batista Maanaim, professor no Seminário
e Insituto Bíblico Maranata e casado com Isa Cavalcante.

@YagocMartins
A Editora Concílio nasceu da amizade de alguns irmãos que foram unidos pela cruz de
Cristo no desejo de disponibilizar mais obras cristãs de qualidade à igreja brasileira.

Facebook Twitter Instagram Telegram

@EditoraConcilio
www.editoraconcilio.com.br
Leia também o primeiro livro da série

Homens e mulheres das mais variadas idades e igrejas sofrem com um problema
muito parecido, a saber, a incerteza quanto ao chamado de Deus. Muitos ficam
desesperados, esperando que alguma manifestação divina, alguma profecia ou algum
anjo de luz lhes diga em que dedicar suas vidas.

De modo claro e libertador, Yago Martins vai na raiz das motiva-ções da obra
evangelística, mostrando as compreensões que mudaram sua vida e transformaram
um garoto tímido em um apaixonado por evangelismo. Você não precisa de um
chamado missionário já abençoou muitas pessoas como pregações em várias igrejas
do Brasil, e agora surge em sua forma escrita para glória de Deus e a edificação da
igreja.
Acesse:
Versão impressa em nossa loja virtual
Versão digital na Amazon.com.br

Você também pode gostar