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F R A T E L L I I N S T I T U T O F R A T E L L I I N S T I T U T O F R A T E L L I

I N S T I T U T O
Grupo de Estudos
I N S T I T U T O

Tanatologia

F R A T E L L I
F R A T E L L I

I N S T I T U T O
I N S T I T U T O

F R A T E L L I
F R A T E L L I

I N S T I T U T O
I N S T I T U T O

F R A T E L L I

APOSTILA DIDÁTICA

I N S T I T U T O F R A T E L L I I N S T I T U T O F R A T E L L I
Sumário:

Módulo 1-

Tanatologia: perspectivas gerais.

Módulo 2-

O processo do luto

Módulo 3:

Desenvolvimento humano e suas relações com a morte

Módulo 4:

Suicídio: a morte velada

Módulo 5:

Espiritualidade e a morte.
Módulo 1
Psicologia: Teoria e Pesquisa
Jan-Abr 2004, Vol. 20 n. 1, pp. 095-096

Notícia: Wilma da Costa Torres (1934-2004):


Pioneira da Tanatologia no Brasil
Maria Júlia Kovács1
Universidade de São Paulo

News: Wilma da Costa Torres (1934-2004):


Pioneer in the Studies about Death in Brazil
Aqueles que amamos nunca morrem, Estas pesquisadoras me receberam com todo carinho e
apenas partem antes de nós. atenção colocando à minha disposição o arquivo contendo a
Amado Nervo bibliografia atualizada sobre Tanatologia disponível naquela
época. Wilma comentava comigo cada obra. E sempre foi
Estamos de luto. Como sabemos, processos de luto assim, disponibilizando seu acervo bibliográfico e pessoal
são iniciados como forma de elaboração a partir da perda com cada um de nós.
de pessoas significativas. Por extensão, uma área do saber Wilma se destacou por ser uma pesquisadora séria,
humano também entra em processo de luto quando perde competente e muito exigente. Além das publicações, parti-
uma pessoa/profissional, que tanto contribuiu para o seu cipou de vários congressos das seguintes áreas: Psicologia
desenvolvimento. Hospitalar, Tanatologia, Psicossomática, Psicologia da Saúde
Wilma da Costa Torres, nascida no Rio de Janeiro, foi e Psico-Oncologia, sendo homenageada em vários deles,
pioneira em nosso meio, desenvolvendo a área da Tanatologia como Presidente de Honra.
(estudos sobre a morte). Como todos os pioneiros, teve As suas palestras se caracterizaram por inúmeras referên-
que desbravar campos ainda desconhecidos e lutar contra cias a autores estrangeiros e nacionais que abordavam o tema
preconceitos. Foi na década de 1970 que surgiram as suas em questão, acrescentando sempre um toque pessoal, valori-
primeiras publicações sobre o tema nos Arquivos Brasileiros zando os pontos sobre os quais deveríamos refletir. Graças a
de Psicologia, envolvendo pesquisas referentes ao desen- Deus, e devo ressaltar que Wilma tinha um forte envolvimento
volvimento do conceito da morte em crianças nos vários espiritual, deixou para seus discípulos vários livros e artigos
estágios, sua principal área de pesquisa. em periódicos, o que torna perene para nós sua significativa
Em 1981, criou o primeiro curso de especialização em contribuição. E para os que a conheceram pessoalmente, fica
Tanatologia no Instituto de Seleção e Orientação Profissional a saudade e a certeza de que as suas sementes germinam em
(ISOP) da Fundação Getúlio Vargas com os seguintes temas: nós o desejo de continuar sua obra.
1) Significado humano, histórico, antropológico e social da Arrolamos, a seguir, algumas de suas principais
morte; 2) Morte e educação; 3) Morte institucionalizada; 4) publicações:
Psicologia do doente terminal. Naquele contexto, desenvol-
veu, também, um setor de documentação e consultoria que Livros e capítulos de livros
chegou a reunir 2.000 fichas em 44 entradas, envolvendo 1999 - A criança diante da morte. São Paulo: Casa do
vários temas relacionados ao luto, suicídio, abordagem do Psicólogo.
paciente terminal, entre outros. 1998 - Algumas contribuições à pesquisa sobre a morte.
Quando o ISOP foi fechado, para tristeza de Wilma, esta Em R.M.S. Cassorla (Org.). Da morte: Estudos
passou a desenvolver a área da Tanatologia na Universidade Brasileiros. (pp. 131-144). Campinas: Papirus (em
Federal do Rio de Janeiro, ministrando disciplinas na gra- colaboração com Wanda Guedes, Terezinha Ebert e
duação e pós-graduação. Criou, então, o Núcleo de Estudos Ruth Torres).
e Pesquisas em Tanatologia destinado ao desenvolvimento 1984 - Educação para morte. Em E. D’Assumpção. Morte e
de pesquisas de iniciação científica, aperfeiçoamento e pós- suicídio: Uma abordagem multidisciplinar (pp. 120-
graduação e a implementação do ensino de Tanatologia nos 126). Petrópolis: Vozes.
diferentes níveis de formação. 1984 - Violência: Um reflexo do medo da morte. Em E.
Tive a grata satisfação de conhecer Wilma Torres em D’Assumpção. Morte e suicídio: Uma abordagem
1982, quando iniciei meus estudos sobre a questão da morte multidisciplinar. (pp. 131-141). Petrópolis: Vozes.
para desenvolver minha dissertação de mestrado. E aí tive o 1983 - A psicologia e a morte. Rio de Janeiro: Fundação
contato pessoal com Wilma, sua irmã Ruth, Wanda Guedes Getúlio Vargas (em colaboração com Wanda Guedes
e Terezinha Ebert, suas companheiras de trabalho no ISOP. e Ruth Torres).

Artigos em periódicos
2002 - O conceito de morte em crianças portadoras de
1 Endereço: Universidade de São Paulo, Laboratório de Estudos sobre a
Morte, Instituto de Psicologia, Av. Mello Moraes, 1721, Cidade Uni- doenças crônicas. Psicologia: Teoria e Pesquisa,
versitária, São Paulo, SP, Brasil 05508-900. E-mail: mjkoarag@usp. br 18(2), 221-229.

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M. J. Kovács

2001 - As perdas do paciente terminal: O luto antecipatório. 1984 - A negação da morte e suas implicações na instituição
Revista Psicologia: Argumento, 19(28), 7-12. hospitalar. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 36
1999 - Hospital: Desafios rumo ao próximo milênio. Revista (4),101-111 (em colaboração com Wanda Guedes).
Psicologia Argumento, 17(25), 53-60. 1983 - Morte como fator de desenvolvimento. Arquivos
1996 - A criança diante da morte. Arquivos Brasileiros de Brasileiros de Psicologia, 35(2), 146-152 (em cola-
Psicologia, 48(1), 31-42. boração com Wanda Guedes, Terezinha Ebert e Ruth
1996 - Morrer com dignidade. Temas em Psico-Oncologia, Torres).
I Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia (1994), 1982 - Violência: Um reflexo do medo da morte. Arquivos
47-50. Brasileiros de Psicologia, 34(3), 146-150 (em cola-
1992 - A morte no contexto hospitalar. Revista de Psicologia boração com Wanda Guedes, Terezinha Ebert e Ruth
Hospitalar, 1(2), 56-59 (em colaboração com Wanda Torres).
Guedes). 1980 - A criança terminal e a intervenção terapêutica do
1990 - A criança terminal: Vivência de luto antecipado. Ar- psicólogo. Arquivos Brasileiros de Psicologia,32(3),
quivos Brasileiros de Psicologia, 42(1), 31-36 (em 418-422 (em colaboração com Wanda Guedes,
colaboração com Wanda Guedes, Terezinha Ebert e Terezinha Ebert e Ruth Torres).
Ruth Torres). 1979 - O conceito de morte na criança. Arquivos Brasileiros
1989 - Atitudes frente à morte: Implicações na formação de de Psicologia, 31(4), 9-34.
equipes profissionais multidisciplinares. Arquivos 1979 - O tabu frente ao tema da morte. Arquivos Brasileiros
Brasileiros de Psicologia, 41(1), 43-72 (em colabo- de Psicologia, 31(1), 53-67.
ração com Wanda Guedes, Terezinha Ebert e Ruth
Torres).
1987 - O psicólogo e a terminalidade. Arquivos Brasileiros
de Psicologia, 39(2), 29-38 (em colaboração com
Wanda Guedes).
1986 - Relação entre religiosidade, medo da morte e atitudes
frente ao suicídio. Arquivos Brasileiros de Psicologia,
38(4), 3-23 (em colaboração com Wanda Guedes, Recebido em 12.04.2004
Terezinha Ebert e Ruth Torres). Aceito em 12.04.2004 n

96 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Jan-Abr 2004, Vol. 20 n. 1, pp. 095-096


Disponível em www.scielo.br/paideia

Desenvolvimento da Tanatologia: estudos sobre a morte e o morrer


Maria Julia Kovács
Universidade de São Paulo, São Paulo-SP, Brasil

Resumo: Este artigo discute os principais temas e pesquisas na área da Tanatologia, estudos
sobre a morte e o morrer. São apresentados os autores pioneiros que escreveram as primeiras
obras de sistematização da Tanatologia entre os quais: Herman Feifel, Robert Kastenbaum e
Elizabeth Kübler-Ross, e os principais temas de estudo: luto, violência e guerra, a morte e a TV,
cuidados a pacientes gravemente enfermos, além da formação de profissionais da área de
saúde e educação para lidar com pessoas vivendo situações de perdas e morte. São feitas
propostas de estudos para o futuro desenvolvimento da Tanatologia em nosso país.
Palavras-chave: Educação em relação à morte. Profissionais da saúde. Cuidadores. Formação
profissional.

Development of Thanatology: studies about death and dying

Abstract: This study discusses the main themes and research related to Thanatology, studies
of death and dying. The pioneer experts who wrote the early works that systematize the area
are presented: Herman Feifel, Robert Kastenbaum and Elizabeth Kübler-Ross, as well as the
main themes of study: bereavement, violence and war, death and TV, palliative care, training of
health and education professionals to deal with people experiencing loss and death. Further
studies to develop Thanatology in Brazil are proposed.
Keywords: Death education. Health professionals. Caregivers. Professional education.

Desarrollo de la Tanatología: estudios sobre la muerte y el morir

Resumen: Este artículo discutí los temas principales, las investigaciones en el área de la
Tanatología y estudios sobre la muerte y el morir. Son presentados los autores pioneros que
escribieron las primeras obras sistematizadas de la Tanatología, entre los cuales: Herman Feifel,
Robert Kastenbaum y Elizabeth Kübler-Ross. Se presentan también las áreas principales de
estudios como: el duelo; la violencia; la guerra; la muerte y la televisión; los cuidados a los
pacientes gravemente enfermos y la formación de profesionales del ámbito de la salud y de la
educación para trabajar con personas que están viviendo situaciones de pérdida y muerte.
También son realizadas propuestas de estudios para el futuro desarrollo de la Tanatología en
nuestro país.
Palabras clave: Educación con relación a la muerte. Profesionales de la salud. Cuidadores.
Educación profesional.
458 Paidéia, 2008, 18(41), 457-468

Neste artigo nos propomos a apresentar alguns propôs o curso Estudos e Pesquisas em Tanatologia
temas da Tanatologia, área de conhecimentos e de com o intuito de promover pesquisas e publicações
aplicação, envolvendo cuidados a pessoas que vivem na área.
processos de morte pela perda de pessoas signifi- Em 1984, foi realizado em Minas Gerais, o I
cativas, processos de adoecimento, em decorrência Congresso Internacional de Tanatologia e Preven-
de comportamentos auto-destrutivos, suicídio, ou por ção do Suicídio, sob coordenação de Evaldo
causas externas, pela violência presente principalmente D’Assumpção, que resultou na publicação da obra
nos centros urbanos. Há dois periódicos fundamen- Morte, suicídio, uma abordagem multidisciplinar
tais para a sistematização da área: Omega Journal (D’Assumpção, D’Assumpção, & Bessa, 1984). Na
of Death and Dying e Death Studies. Outra fonte área da enfermagem cabe destacar os trabalhos de
importante de consulta na área da Tanatologia é a Magali Roseira Boemer e Elizabeth Ranier Martins
Association for Death Education (ADEC), fundada do Valle, docentes da Escola de Enfermagem de Ri-
em 1970 nos Estados Unidos da América do Norte beirão Preto da Universidade de São Paulo.
com os seguintes objetivos: (a) estabelecer redes de Fernandes e Boemer (2005) trazem importante contri-
interação com profissionais que lidam com o tema; buição na questão da educação para a morte no livro
(b) promover encontros, workshops e material es- O tema da morte em sua dimensão pedagógica.
crito para divulgar o assunto; (c) incrementar a edu-
Em Campinas-SP, Roosevelt Cassorla desen-
cação para a morte e o preparo de profissionais para
volveu pesquisa na temática do suicídio. Teve tam-
atuação na área.
bém o mérito de reunir estudos brasileiros sobre o
No Brasil podemos citar como fontes de refe- tema da morte e do suicídio nas seguintes obras: Da
rência: o Laboratório de Estudos sobre o Luto na morte: Estudos brasileiros (Cassorla, 1991a) e Do
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e o suicídio: Estudos brasileiros (Cassorla, 1991b). Em
Laboratório de Estudos sobre a Morte no Instituto de 2007, na Faculdade de Medicina da Universidade de
Psicologia da Universidade de São Paulo, cujos obje- São Paulo (FMUSP), foi criado o Curso de
tivos são muito semelhantes aos da ADEC. A história Tanatologia e Educação para a Morte, coordenado
brasileira trouxe importantes contribuições para o por Franklin Santana Santos, resultando na obra A
estudo da Tanatologia. Em 1980 ocorreu o Seminário arte de morrer: Visões plurais (Incontri & Santos,
A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira, coor- 2007). Trata-se de curso pioneiro na FMUSP. Me-
denado pelo Professor José de Souza Martins, do rece citar que, desde 1986, vem sendo oferecida,
Departamento de Sociologia da Universidade de São em nível de graduação, a disciplina Psicologia da
Paulo. As palestras deste Seminário foram publicadas morte no Instituto de Psicologia da Universidade de
no livro A morte e os mortos na sociedade brasileira São Paulo, como apresentaremos em outra parte
(Martins, 1983), abrindo inúmeras perspectivas para deste texto. Cabe ressaltar que atualmente temos
a compreensão e investigação sobre o tema. um grande acervo de livros e teses sobre o tema da
Wilma Torres foi a primeira psicóloga brasi- morte no Brasil e propostas de disciplinas de gradu-
leira que se dedicou à sistematização da área da ação, pós-graduação e extensão em vários cursos
Tanatologia no Brasil. Criou no Instituto de Pesqui- da área da saúde.
sas Psico-Sociais da Fundação Getúlio Vargas, no
Rio de Janeiro, um acervo de dados bibliográficos Temas em Tanatologia
sobre a área, dividido em vários sub-temas, consti- A seguir apresentamos as questões relevantes
tuindo-se em referência importante àqueles que se na área que surgiram nestes últimos anos. Bluebond-
iniciam nos estudos sobre a morte (Kovács, 2003). Lagner (1987), pesquisadora na área do luto infantil,
Em 1980 coordenou o I Seminário sobre a Psicolo- apontou que desde os anos de 1950 há uma sistema-
gia e a Morte na Fundação Getúlio Vargas no Rio tização da Tanatologia, mas se questiona sobre a real
de Janeiro, cujos resultados foram reunidos no livro contribuição que certo tipo de pesquisas oferecem.
Psicologia e morte. Neste mesmo ano Wilma Torres Muitos estudos tratam de detalhes, isolando alguns
Kovács, M. J. (2008). Desenvolvimento da Tanatologia 459

aspectos do tema da morte, com grande preocupação da ansiedade frente à morte, presente em inúmeros
em definições operacionais. Na década de 1960 hou- artigos. Tal fato pode ter reduzido a profundidade da
ve grandes mudanças na área da Tanatologia, a par- discussão de uma área tão complexa como a
tir dos trabalhos de Kübler-Ross e Saunders Tanatologia, levando a um afastamento de suas di-
(Kovács, 2003, 2007) que revolucionaram o traba- mensões mais profundas (Kastenbaum & Sharon,
lho com pacientes em estágio terminal da doença e 1995). A hipótese dos autores é que poderia estar
trouxeram o tema da morte para discussão pública, operando um mecanismo de defesa nos pesquisadores
desafiando a mentalidade da morte como tema in- que não permitiria a entrada em contato com temas
terdito (Ariès, 1977). envolvendo a subjetividade em relação à morte, o
O grande desenvolvimento da Tanatologia ocor- medo da extinção, da aniquilação, entre outras ques-
reu após as guerras mundiais, com os estudos de tões. Discutem ainda por qual motivo os profissionais
Hermann Feifel que escreveu o clássico The meaning que atuam na área clínica não lêem o que pesquisa-
of death (Feifel, 1959). Esta obra sinaliza o movi- dores escrevem. Uma primeira resposta pode ser
mento de conscientização sobre a importância da dis- porque as pesquisas repetidas e com excessivo zelo
cussão do tema da morte, apesar da ainda existente quanto à precisão dos termos, talvez não respondam
mentalidade de interdição do tema. O livro inclui tex- às questões principais daqueles que cuidam de pes-
tos sobre filosofia, arte, religião, sociologia. Há arti- soas vivendo situações de morte.
gos de vários autores muito conhecidos, entre os quais Passamos a apresentar alguns dos temas atuais
destacamos: Jung, A alma e a morte e Marcuse, A de estudo na área da Tanatologia, os quais longe de
ideologia da morte. Nesta obra, encontram-se tam- pretender esgotar a abrangência da área, apresen-
bém artigos temáticos como o capítulo Trajetórias tam um panorama do que vem sendo pesquisado.
da morte por Glaser e Strauss, e o capítulo Prevenção
do suicídio, de Farberow e Schneidman. Estudos sobre luto
Kastenbaum e Aisenberg escreveram o livro Parkes (1987), grande autoridade na área do
Psychology of Death em 1976, traduzido para o luto, menciona as preocupações atuais nas pesqui-
português com o título Psicologia da Morte sas sobre este tema. Nos estudos dos conceitos bá-
(Kastenbaum & Aisenberg, 1983), que constitui tex- sicos sobre o luto, há os que verificam como perdas
to de referência na área. Kastenbaum é responsável afetam estruturas de significado na vida, já que o
pela primeira sistematização da bibliografia sobre o luto é considerado uma profunda transição existen-
tema e na década de 1970 criou o periódico Omega: cial. Outra área importante de estudo é o efeito dos
Journal of Death and Dying, referência para os processos do luto no sistema imunológico. Dados
estudiosos do tema. epidemiológicos apontam que ocorrem muitas mortes
Nos Estados Unidos, Jessica Mitford (1978) após a viuvez. Vários sintomas psíquicos eram vistos
escreveu American Way of Death, obra que causou como doença física em pessoas em processo de luto,
grande polêmica, traçando um retrato da morte no os médicos eram procurados por pessoas enlutadas
Ocidente, particularmente na América do Norte. Seu que apresentavam sintomas como: depressão, insônia,
texto apresenta o que Ariès (1977) aponta como o anorexia, aumento no uso de álcool e drogas. Atual-
retrato da morte tabu, interdito de uma sociedade. mente muitos destes sintomas são relacionados ao
Muitas das pesquisas nas décadas de 1970 e de 1980 processo de luto e não são mais vistos como patologia,
levaram à consolidação de programas na área da como atestam os estudos de Parkes (1987), Stroebe
Tanatologia. Segundo Bluebond-Lagner (1987), hou- e Stroebe (1987), entre outros.
ve certa estagnação da área pelas exigências e rigor Parkes (1987) refere também pesquisas sobre
metodológico das pesquisas realizadas na década de as diferenças nas respostas do luto, envolvendo ques-
1980, a partir da necessidade de comprovação de tudo tões de gênero. Cita autores que estudam a
o que se dizia. Esta tendência à quantificação pode ter vulnerabilidade e alto risco de mulheres que per-
levado à repetição de certos temas, como a avaliação dem seus filhos. Menciona estudos sobre diferentes
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manifestações emocionais e a realização de rituais em separação, (c) recolher e re-vivenciar as experiências


várias culturas. Parkes, Laungani e Young (1997) pu- com a pessoa perdida, (d) abandonar ou se desligar
blicaram o livro Death and bereavement across the de relações antigas, (e) reajustar-se a uma nova situ-
cultures, no qual abordam os principais temas e rituais ação, (f) reinvestir energia em novas relações.
de várias culturas, entre as quais: a hindu, a budista Entre os fatores que podem causar complicações
tibetana, a judaica, a cristã e a islamita. Kastenbaum no processo de luto, observa-se negação e repressão
(1969) se refere a fatores de risco para luto complica- ligadas à perda e à dor. Estes fatores podem ser
do no caso de pessoas idosas, principalmente quando exacerbados em uma cultura que faz com que as pes-
perdem seus filhos adultos. O número de idosos tem soas se controlem, não se manifestem e que vivam
aumentado e muitos vivem em situação de risco, com como se a morte não existisse. Há também distorções
problemas financeiros, isolados, com doenças graves, que afetam a expressão do luto, como o adiamento,
que podem se agravar com as perdas da vida, consti- inibição ou cronificação do processo. Não há padrões
tuindo o que o autor denominou sobrecarga de luto. que definam quando um ou outro processo está se
Com o prolongamento do tempo da vida muitos pais instalando, porque também devem ser levadas em
estão enterrando seus filhos adultos, e acabam viven- conta a maneira de ser das pessoas e suas formas de
do sozinhos esta perda tão difícil de ser elaborada. lidar com situações de crise. Estes itens são impor-
O luto complicado, antigamente denominado tantes para serem considerados pelos profissionais que
de luto patológico suscita controvérsias. Segundo vão cuidar de pessoas enlutadas, não como um padrão
Parkes (1998), é preciso muito cuidado para não se a ser imposto sobre elas, mas como sinais a serem
classificar precocemente processos de luto como observados. Há uma tendência para “adequar” as pes-
disfuncionais, quando não seguem estágios ou etapas soas, buscando-se normatização, o que não permite
que durante muito tempo foram considerados como que elas possam viver sua tristeza. Podem ocorrer
inerentes a seu processo. Para o autor uma cuidadosa distorções que afetam a expressão do luto, como o
avaliação é necessária em todos os casos. A questão adiamento, inibição ou cronificação do processo.
do luto complicado é um ponto importante para pes- O tipo de morte pode afetar a forma de elabo-
quisas, já que muitos profissionais não estão prepara- ração do luto. Suicídios e acidentes são as mais gra-
dos para lidar com este problema. Segundo Rando ves, pelos aspectos da violência e culpa que
(1992/1993), há conseqüências sérias quando não se provocam. Por outro lado, as mortes de longa dura-
cuida de pessoas que apresentam risco para proces- ção, com muito sofrimento podem também ser
sos de luto complicado. É fundamental: (a) identificar desgastantes. Entre os fatores complicadores deste
fatores de risco; (b) delinear tendências sócio-cultu- processo deve ser considerada a relação anterior com
rais e tecnológicas que possam exacerbá-las; (c) ob- o falecido, principalmente a que envolve ambivalência
servar o que é necessário ser trabalhado para se evitar e dependência, problemas mentais e a percepção da
um luto complicado. falta de apoio social. O luto complicado pode se ma-
Para a autora mencionada anteriormente há nifestar por sintomas físicos e mentais. Em muitos
dificuldades de identificar o que se considera como casos é difícil separar um processo de luto complicado
fatores complicadores. Aponta a necessidade de re- e a presença de problemas mentais. Esta diferencia-
visão de alguns conceitos como luto patológico, ção é fundamental ao se pensar nas formas mais ade-
desajustado, anormal, disfuncional, desviante, entre quadas de cuidado.
outros. A tendência é falar em fatores complicadores Mudanças sociais são responsáveis pelas difi-
do luto, pois retira da pessoa a única responsabilidade culdades de elaboração do luto nos dias atuais. O rá-
pelos problemas. Há circunstâncias anteriores à mor- pido índice de industrialização, urbanização e o avanço
te, na própria situação e após o óbito que podem difi- da técnica médica levaram a uma desvalorização dos
cultar o processo de luto. A autora afirma que alguns ritos funerários. A conseqüência disto é que ao vive-
processos são importantes para elaboração do luto, rem perdas significativas, as pessoas sentem-se sozi-
entre os quais: (a) reconhecer o luto, (b) reagir à nhas, sem saber o que fazer, principalmente quando
Kovács, M. J. (2008). Desenvolvimento da Tanatologia 461

estão distantes de seus familiares, fato comum na programas de cuidados paliativos, os hospices, ga-
atualidade. Nos centros urbanos, houve aumento sig- rantindo-se a especificidade dos trabalhos, que aten-
nificativo da violência, dos acidentes e do abuso de dam às necessidades de cada população. Por
drogas, resultando no aumento das mortes violentas exemplo, em Israel foi criado um serviço de ajuda
e traumáticas, um dos fatores de risco para luto com- para viúvas e viúvos da guerra; na África, as institui-
plicado. A morte escancarada por ser inesperada não ções cuidam dos órfãos da guerra civil. No Brasil,
permite preparo prévio. Envolve múltiplos fatores que citamos o trabalho do Laboratório de Estudos sobre a
podem dificultar a sua elaboração: perdas múltiplas Morte no Instituto de Psicologia da Universidade de
(morte de várias pessoas da mesma família), perdas São Paulo e do Laboratório de Estudo sobre o Luto,
invertidas (filhos e netos que morrem antes de pais e na Pontíficia Universidade Católica de São Paulo.
avós), presença de corpos mutilados, desaparecimento Merece destaque o trabalho de Maria Helena Pereira
de corpos e cenas de violência (Kóvacs, 2003). Franco, coordenadora do Instituto Psicológico de
Mortes lentas, em processos crônicos, tam- Emergências, que oferece cuidados a sobreviventes
bém causam dor e sofrimento. O aumento do tempo e familiares enlutados em catástrofes, como foram
de vida, também daqueles com doenças lentas e os grandes desastres aéreos ocorridos em 2006 e
degenerativas, faz com que se viva longos processos 2007 em nosso país.
de morte, causando desgaste físico e psíquico aos
seus cuidadores, que sofrem com a perda da pessoa Aproximação da morte: cuidado a pacientes no
que conheciam, complicando o processo do luto fim da vida
(Hennezel, 2001). Podem ocorrer sentimentos Uma obra de grande impacto na história da
ambivalentes, tristeza pela perda e raiva pelo aban- Tanatologia é Sobre a morte e o morrer (Kübler-
dono, desejo da morte para alívio do sofrimento, que Ross,1987), que fala sobre o cuidado a pacientes gra-
pode provocar culpa, podendo ser este um fator de vemente enfermos, destacando a importância da
risco para o luto complicado. escuta de suas necessidades e seu sofrimento. Ela é
O luto não autorizado também deve ser mais conhecida pelos estágios (negação, raiva, bar-
pesquisado, como apontaram Corr (1998/1999), Doka ganha, depressão e aceitação) vividos por pacientes
(1989), Casellato (2005). Um exemplo é a morte por que recebem o diagnóstico de doença grave. Na ver-
aids, quando companheiros não podem chorar a mú- dade, a autora fala das reações de pessoas nesta si-
tua perda, porque seus amigos e familiares não sa- tuação. Ela temia que os profissionais se fixassem na
bem da relação entre eles. O aborto é também uma seqüência dos estágios, o que poderia indicar a busca
situação de perda não reconhecida, já que a morte de um padrão ou molde. Entretanto, o fundamental
ocorre antes da vida ser reconhecida socialmente. em sua obra é a proposta de comunicação que a autora
Trata-se de grave engano, pois pode haver intenso apresenta. Infelizmente, foi dada mais importância aos
investimento de amor em uma gravidez com a ex- estágios propostos do que à sua experiência clínica.
pectativa do nascimento do filho. Com o aborto ini- (Kovács, 2003, 2007)
cia-se o processo de luto para elaboração desta perda. Um estudo clássico na pesquisa com pacientes
Um outro exemplo de luto não autorizado é o dos em estágio terminal da doença é o de Hinton (1963),
amantes em situação de adultério, pois sua relação, que verificou altos níveis de desespero e depressão
muitas vezes, não é aceita. Adolescentes, às vezes, em 55% dos pacientes. Foram observados temas
não têm seu luto reconhecido, já que freqüentemente como desligamento das preocupações sociais e a ne-
se isolam ou se retraem dando idéia de que não estão cessidade de cuidado às perdas relacionadas com a
envolvidos com a situação, o que pode aumentar a doença. Glaser e Strauss (1961) pesquisaram os ní-
sua dor, pois o seu sofrimento não é percebido. veis de consciência de pacientes gravemente enfer-
Para o futuro, Parkes (1998) sugere a criação mos sobre a sua doença e a aproximação da morte,
de instituições para prestar cuidados durante o trazendo questões importantes sobre a comunicação
adoecimento e após a morte, o desenvolvimento de com eles. Os autores realizaram estudos em hospitais
462 Paidéia, 2008, 18(41), 457-468

de São Francisco, nos Estados Unidos, com pacientes Schultz e Schlarb (1987) apontam a magnitude
internados, observando sua relação com a equipe de do problema, já que é crescente o número de idosos
saúde. Na chamada consciência fechada, o paciente doentes e pacientes em estágio avançado da doença.
não quer saber de sua doença ou aproximação da As pesquisas na área de cuidados paliativos envol-
morte e o profissional também não fala. Pode tam- vem temas como: agravamento da doença e sinto-
bém ocorrer fingimento mútuo, não deixar que o ou- mas múltiplos e incapacitantes, transmissão de más
tro saiba, o que já se sabe. São apresentadas as notícias, enfrentamento da proximidade da morte, pro-
trajetórias de mortes rápidas, inesperadas, esperadas cesso do luto antecipatório e o luto dos familiares
ou prolongadas. (Kovács, 2003).
O crescente desenvolvimento da medicina e Em 1995, foi realizado o estudo Study to
dos hospitais provocou a transferência do lugar da understand prognosis and preferences for
morte para estas instituições. A invenção de procedi- outcomes and risk of treatment (SUPPORT), cita-
mentos de alta tecnologia como a hemodiálise trouxe do por Lynn (1997), com o objetivo principal de co-
novas questões sobre vida e morte. Uma questão lher informações sobre pacientes em estágio de
muito difícil para os médicos é decidir quais pacientes terminalidade e seus familiares. Esta pesquisa durou
serão encaminhados para Unidades de Terapia In- quatro anos, envolveu 9000 pacientes de cinco hospi-
tensiva (UTI) com possibilidade de serem salvos, e tais de ensino nos Estados Unidos, procurando verifi-
quais não irão, com risco de morte. car a causa do sofrimento na situação da morte. Os
pesquisadores verificaram que 55% dos pacientes
A questão dos transplantes trouxe também re- estavam conscientes nos três dias que antecederam
viravoltas em relação ao momento da morte, dividin- a sua morte, 40% apresentavam dores insuportá-
do-a em duas vertentes: morte clínica e cerebral. veis e 80% tinham fadiga extrema, 63% relataram
Cria-se aí um dilema ético envolvendo o atestado da ter dificuldade para tolerar o grande sofrimento físico
morte para retirada de órgãos, com o coração ainda e emocional relacionado ao agravamento da doença
batendo, o que afeta profundamente o imaginário po- e com o estágio final da vida. O estudo indicou tam-
pular que entende que há vida enquanto o coração bém que 20% das pessoas morrem nas UTIs. Da-
bate, mesmo que o cérebro esteja morto. Com o de- queles que lá estiveram e saíram: 76% relataram
senvolvimento da tecnologia médica os hospitais tor- desconforto, 72% falaram que tiveram muita sede,
naram-se “instituições para a cura”. Novas questões 68% sentiram sono, 63% ansiedade, 56% dor e 52%
sobre vida e morte se apresentam então. O ser hu- raiva. Observa-se, então, um grande índice de sofri-
mano tem direito à vida e também à morte digna, sur- mento, que se torna ainda mais grave para aqueles
gindo a questão: qual é o real papel das Unidades de casos nos quais a doença chegou a um ponto de
Terapia Intensiva? Salvar vidas ou prolongar mortes? irreversibilidade. Nestes casos, medidas invasivas
Vemos na prática médica esta mesma contradição: podem se tornar inúteis. A referida pesquisa trouxe
por um lado, tenta-se prolongar a vida a todo custo e, elementos importantes para a discussão e implantação
por outro, há uma busca para mortes com dignidade. dos programas de cuidados paliativos.
Questões sobre o fim da vida mostram a importância Os estudos sobre crianças e adultos com do-
do entrelaçamento da Tanatologia com a bioética, uma enças em estágio avançado numa abordagem quali-
discussão interdisciplinar. tativa trazem dados importantes sobre os momentos
Uma das áreas que demanda maior profundi- vividos no diagnóstico, no transcorrer da doença e
dade envolve os cuidados a pacientes no fim da vida, tratamento, e no estágio final, envolvendo os senti-
observando suas necessidades, a estrutura de atendi- mentos relacionados com cada fase e as formas de
mento nos hospitais e outros recursos como hospices, enfrentamento utilizadas.
unidades de cuidados paliativos e o cuidado domicili- As primeiras pesquisas nesta área fizeram com-
ar. Inclui temas polêmicos como morrer com dignida- parações entre os cuidados oferecidos em hospitais
de, eutanásia, e o suicídio assistido. convencionais e os programas de cuidados paliativos.
Kovács, M. J. (2008). Desenvolvimento da Tanatologia 463

Os programas de cuidados paliativos oferecem: alter- morte, seus índices de ansiedade, medo e de que modo
nativas de tratamento menos agressivo, melhor con- enfrentam a situação. Entre as principais dificuldades
trole de sintomas, família mais próxima dos pacientes, relatadas estão: como falar com pacientes sobre o
embora com nível maior de estresse e preocupação, agravamento da doença e a possibilidade da morte,
custos menores; menores índices de depressão. Atu- como realizar os procedimentos usuais em pacientes
almente estas diferenças entre modalidades de aten- sem prognóstico de cura e a sensação de impotência
dimento não são tão marcantes e as pesquisas que estas situações provocam. A autora apresenta
passaram a envolver temas como morte com digni- ainda a importância dos cursos sobre a morte e o
dade e as necessidades dos pacientes no fim da vida morrer para estes profissionais, trazendo a possibili-
(Pessini, 2004). dade do auto-conhecimento e a capacitação para lidar
Há dificuldades de pesquisas com pacientes com pacientes próximos à morte. Verificou que alguns
gravemente enfermos. Estudos quantitativos podem cursos para a formação de profissionais de saúde in-
trazer dados para o desenvolvimento da área, mas cluem o tema da morte em uma aula ou módulo. Pro-
podem se tornar inviáveis se demandarem grande põe que sejam criados cursos específicos de
número de pacientes com características semelhantes. Tanatologia, com duração que favoreça, além dos
Por outro lado, pesquisas qualitativas, depoimentos, conhecimentos técnicos, a possibilidade de entrar em
histórias de vida podem trazer de forma mais contato com valores e sentimentos mais profundos.
aprofundada o universo e a percepção de pessoas Na mesma direção da proposta da autora men-
que estão vivendo tão próximas do fim da vida. As cionada, desde 1986 tem sido oferecida uma discipli-
escalas de qualidade de vida podem não trazer toda a na optativa com o título Psicologia da Morte no
dimensão deste momento da existência. O melhor é Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo,
sempre perguntar, ao próprio paciente, se suas ne- com os seguintes objetivos: (a) sensibilizar o aluno
cessidades foram atendidas e ficar atento a como ele para os sentimentos e reflexões sobre os vários pon-
fala de sua própria dor e sofrimento (Kovács, 1998). tos abordados no curso, como por exemplo: suicídio,
Outra área importante de desenvolvimento é a aproximação da morte, perda de pessoas da mesma
de cuidados paliativos a pacientes idosos. É um gran- faixa etária por acidentes, entre outras; (b) apresen-
de desafio cuidar de seus sintomas incapacitantes, tar várias abordagens teóricas sobre a questão da
sendo os mais graves: demenciação, esclerose e con- morte; (c) propor reflexões sobre a prática vivida,
fusão mental, como apontam Py e Burlá (2004). aprendizagem que envolve aspectos cognitivos e
Em duas pesquisas realizadas com pacientes afetivos propiciando buscar o sentido individual e o
portadores de câncer avançado na Unidade de Tra- coletivo. Trata-se da possibilidade de uma constante
tamento da Dor e Cuidados Paliativos no Hospital revisão da atuação do estagiário e do profissional, le-
Amaral Carvalho em Jaú-SP, foi discutido como ava- vando à construção de seu conhecimento.
liar sua qualidade de vida na busca por melhor com- O curso aborda vários temas que poderão ser
preensão de suas necessidades. Questões atuais incluídos ou aprofundados dependendo do interesse dos
ligadas ao cuidado com pacientes com doença avan- alunos. Citamos a seguir aqueles que compõem a base
çada envolvem a discussão sobre a morte com digni- da disciplina Psicologia da Morte (Kovács, 2003): (a)
dade e o direito de escolha da própria morte (Kovács, Retratos da morte no Ocidente: domada, interdita, re-
1998, Kovács, Kobayashi, Santos, & Avancini, 2001). humanizada e escancarada. A visão oriental da morte;
Uma outra área importante de trabalho e de (b) Morte no processo do desenvolvimento humano.
pesquisa nos estudos sobre a morte é a formação e O desenvolvimento do conceito de morte em crianças
preparação de profissionais de saúde para lidar com e adolescentes. A questão da morte na fase adulta e
pacientes com doença grave e seus familiares. Benoliel no envelhecimento. Elaboração psíquica da morte nas
(1987), enfermeira e pesquisadora, aponta questões várias fases do desenvolvimento; (c) Abordagens teó-
importantes para reflexão sobre o tema. Várias pes- ricas do tema da morte; (d) As perdas na existência e
quisas mostraram como profissionais lidam com a o processo do luto. Cuidados psicológicos a pessoas
464 Paidéia, 2008, 18(41), 457-468

enlutadas. Fatores de risco para luto complicado; (e) as metáforas e os eufemismos usados nas notícias e
Comportamentos auto-destrutivos e o suicídio. Pro- reportagens sobre esta guerra provocam algumas
gramas de prevenção do suicídio. Cuidados psicoló- reflexões. Observa-se negação, distanciamento, me-
gicos a pessoas em risco e seus familiares; (f) canismos de desumanização e desensibilização. Não
Pacientes gravemente enfermos. Cuidados no fim da há menção direta da morte, como se ela ocorresse
vida. Programas de cuidados paliativos; (g) Bioética por acidente ou acaso. A ênfase é dada à descrição
nas questões da vida e da morte. Eutanásia, da destruição de locais e equipamentos. Não se usa a
distanásia, suicídio assistido; (h) A questão da morte palavra morte e sim destruição ou eliminação. Os pre-
nas instituições de saúde e educação. O trabalho do juízos são justificados como sendo o preço da guerra.
psicólogo com pessoas vivendo situações de perda e A negação parece assegurar que, ao não se
morte. falar de morte, era como se esta não existisse, con-
firmando a idéia de que dessa forma não se matavam
Tanatologia: violência e guerras civis inocentes, a não ser por acidente. Morriam os
Outra área importante de estudos da Tanatologia “culpados”, aqueles a serviço do inimigo. A alta
é o estudo da violência, presente nas guerras e na teconologia evita mortes, pois são atacados alvos ini-
guerrilha urbana. Fulton e Owen (1987-1988) reali- migos, não se “mata” pessoas. O público vai sendo
zaram um estudo sobre a compreensão da morte no preparado para as mortes “necessárias” da guerra.
século XX. Comparam as concepções de morte da- Procura-se desumanizar os “inimigos”, afirmando que
queles que nasceram antes da Segunda Guerra Mun- as mortes são necessárias visando um objetivo maior.
dial e os que nasceram depois. Os primeiros têm hoje As mortes são causadas pela intransigência dos líde-
mais de 70 anos. Quando nasceram a expectativa de res e não pelos morteiros.
vida não chegava aos 50 anos e muitos morriam de Observa-se, então, um grande paradoxo: a guerra
doença infecciosa em casa. Quem nasceu depois da é promovida, mas se imagina que é possível a troca
Segunda Guerra Mundial já tinha uma expectativa de de morteiros e foguetes, sem que mortes ocorram,
vida de mais de 67 anos e muitos não têm contato por isso são ocultadas quando acontecem. Os mor-
próximo com a morte. As doenças são combatidas teiros e sua capacidade de destruição são espetacu-
com tecnologia avançada e as mortes tornam-se dis- lares, são disparados à noite para não serem vistos
tantes ou invisíveis, ocorrendo, em grande parte, fora pelos envolvidos, mas proporcionam um show para
do lar, nos hospitais. quem assiste pela TV.
Os autores mencionados anteriormente fize-
ram um estudo sobre as mudanças da mentalidade Morte na TV
sobre a morte no século XX, a partir das guerras atu- A TV tem também influência na maneira de
ais. Nas obras de Ariès (1977), observa-se como du- se encarar a morte. Segundo Umberson e Henderson
rante muito tempo as guerras envolviam combates (1992), as estatísticas são alarmantes: as pessoas
entre pessoas, sendo que os soldados morriam como que nasceram na metade do século XX, a primeira
heróis ou anônimos, mas tinham tempo para elaborar geração da televisão, já viram 10.000 homicídios, es-
a morte e realizar os rituais de absolvição e despedida. tupros e outras formas de violência e agressões nesta
A guerra do século XX é diferente, o soldado é des- mídia.
conhecido e anônimo. Não morrem apenas os solda- Com o intuito de oferecer diversão, a TV apre-
dos, mas também civis, mulheres e crianças. Muitos senta programas extremamente violentos, mesmo que
não compreendem as razões das guerras. embalados numa linguagem destinada a crianças.
Umberson e Henderson (1992) realizaram uma Tome-se como exemplo o desenho Tom & Jerry, no
pesquisa interessante sobre a guerra do Golfo, como qual os dois personagens ficam se perseguindo, se
exemplo de guerra do século XX. O que observaram machucando e se destruindo para na cena seguinte
foi ambivalência e a negação da morte, como se fosse aparecerem lépidos, exagerando a idéia infantil de que
possível fazer uma guerra sem mortes. A linguagem, a morte é reversível e que atos de violência não têm
Kovács, M. J. (2008). Desenvolvimento da Tanatologia 465

efeitos duradouros (Kovács, 1992). Por outro lado, ao Fulton e Owen (1987/1988) apontam que pode
trazer cenas de guerra ou violência urbana, como ho- haver um abalo na idéia de imortalidade, quando se
micídios ou acidentes, os veículos de comunicação po- vê tantas mortes e tão próximas, provocando sensação
dem passar a informação de que a violência é natural. de desespero. Para evitar o sentimento de extinção
A TV mostra também as mortes de persona- existencial criam-se personagens que trazem uma
gens importantes. Nos Estados Unidos foi o assassi- idéia de imortalidade, como por exemplo, James Bond,
nato de Kennedy e, no Brasil, a morte de Tancredo que sempre desafia a morte enfrentando a destruição,
Neves e de Ayrton Senna. Nestes casos, a morte é o Super-Homem do século XX/XXI. Reproduz bem
vista pela tela opaca da TV, mas envolve a coletivi- a contradição: a busca da imortalidade e a presença
dade em um processo de luto, o que ficou muito pre- constante da morte na vida e nos meios de comuni-
sente na morte de Diana, princesa de Gales. Os cação. Como se vê, este é um tema importante de
noticiários da TV mostram também imagens de mor- estudo da Tanatologia nos dias atuais.
te de pessoas anônimas, figuras esquálidas, retratos
da pobreza, fome e morte. Neste caso não há indivi- Educação para a morte
dualidade ou privacidade. A câmera foca o rosto das A Association for Death Education and
vítimas ou dos familiares para captar as imagens de Counselling (ADEC), já citada neste artigo, convi-
sofrimento. Uma imagem freqüente, nos anos 1980, dou Stillion, especialista na área de suicídio, para fa-
foi a dos doentes com aids para divulgar o perigo da zer, em 1989, uma retrospectiva dos estudos sobre o
doença, a idéia da morte. Foram expostos rostos e tema da morte desde a sua fundação, em 1976. A
corpos com a justificativa do esclarecimento, mas sem autora retoma a perspectiva da morte interdita e ne-
medir as conseqüências desta exposição. gada e o desenvolvimento de uma medicina funda-
Muitas notícias trazidas pela TV têm caracte- mentalmente ligada à cura em hospitais com alta
rísticas comuns, apresentando cenas e imagens for- tecnologia. Nos Estados Unidos, o cuidado dos cor-
tes, de dor, perda e sofrimento que provocam pos pode ser realizado por estranhos nas funeral
sentimentos intensos, sem permitir tempo para refle- homes, que têm como objetivo maquiar o corpo para
xão e elaboração, sendo seguidas por comerciais ou tornar a morte menos visível.
por assuntos mais amenos. Esta é uma forma de ba-
A TV passa a ser um dos grandes educadores
nalizar a morte, com a idéia de chocar, mas não com-
sobre morte para crianças com cenas de violência
prometer as pessoas, pois a vida deve continuar. Esta
repetidas à exaustão, dificultando a compreensão da
é também a mensagem trazida por certos filmes que
mostram o detalhamento da violência em quadros irreversibilidade da morte, ao trazer, recorrentemente,
demorados e repetidos, eclipsando o significado da a imagem do acidente ou da pessoa viva. Em 2008,
morte. Diferentemente da duração dos noticiários da acompanhamos repetidamente, a tragédia da menina
TV, os filmes não têm a justificativa da falta de tempo Isabella Oliveira Nardoni cuja história de horror trouxe
(Kovács, 2003). às crianças a imagem de pais ou madrastas que po-
dem atirá-las pela janela.
A morte no século XX ocorre freqüente-
mente nos hospitais, principalmente se decorrentes A ADEC promoveu vários encontros, conferên-
de doenças do coração, câncer, derrames e ou- cias, mesas redondas, material escrito, workshops,
tras. A TV exibe, principalmente, a violência e os vídeos sobre temas relacionados à Tanatologia. Fo-
jovens morrendo. É bem verdade que este último ram escritas diretrizes para profissionais, estudan-
tipo de morte vem aumentando de maneira signifi- tes e especialistas foram certificados. A força tarefa
cativa. O que é específico da morte na TV é o seu da ADEC elaborou um catálogo com as principais
caráter de impessoalidade. Não podemos deixar de obras referentes ao tema e os currículos dos cursos
mencionar que há certa fascinação frente à morte, de Tanatologia, além de realizar o levantamento so-
uma necessidade de consumo, que pode ser obser- bre educação para a morte em pré-escolas, em ins-
vado pelo aumento de audiência quando o tema se tituições de ensino fundamental e médio e em
faz presente. universidades.
466 Paidéia, 2008, 18(41), 457-468

Stillion (1989) aponta para a importância de se violência, abuso de drogas e outras situações de risco.
formar educadores habilitados para criar e oferecer É importante, também, abrir espaços de comunica-
cursos de Tanatologia com os mais variados temas. ção sobre a morte para o público leigo e para estu-
O periódico Death Studies é a voz desta Associação dantes e profissionais interessados. Para isso, o
e em conjunto com o periódico Omega: Journal of Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto
Death and Dying, procuram traçar as linhas mes- de Psicologia da Universidade de São Paulo vem
tras das reflexões, pesquisas e práticas profissionais criando recursos áudio-visuais para facilitação da
sobre o tema da morte e da preparação de profissio- discussão sobre o tema. Entre os projetos já desen-
nais competentes. volvidos mencionamos “Falando de morte”, com
Kenneth Doka (1990), um dos tanatologistas quatro filmes: crianças, adolescente, idosos e pro-
mais conhecidos e editor do periódico Omega: fissionais de saúde.
Journal of Death and Dying apresenta uma rela- Entendemos como educação para a morte a
ção de obras clássicas na área da Tanatologia. Em que se faz no cotidiano, envolvendo comunicação,
sua opinião, livros podem ajudar pessoas a lidarem relacionamentos, perdas, situações limites, nas quais
com seus sentimentos diante das perdas da vida, pro- reviravoltas podem ocorrer em qualquer fase do de-
pondo o recurso da biblioterapia. Menciona a obra senvolvimento. Está calcada nos questionamentos, na
clássica Sobre a morte e o morrer de Elizabeth procura do autoconhecimento, na busca de sentido
Kübler-Ross (1987). O livro oferece a um público para a vida, o verdadeiro sentido de aprendizagem
não especializado, o esclarecimento sobre questões significativa. Nunca se trata de dar receitas, respos-
envolvendo o tema da morte. O autor cita obras que tas simples, padrões, normas ou doutrinação, é a bus-
tratam do processo de luto de pessoas conhecidas, ca do sentido para toda a existência.
que relatam sua experiência de perda. Como a socie-
dade não permite, em muitas situações, que as pes- Referências
soas expressem seu pesar ou falem sobre o assunto, Ariès, P. (1977). História da morte no Ocidente (S.
elas podem sofrer intensamente. Muitas pessoas não V. Siqueira, Trad.). Rio de Janeiro: Francisco
sabem se o que estão sentindo faz parte do processo Alves. (Original publicado em 1975)
do luto, imaginando que estejam loucas e que talvez
nunca consigam sair de sua dor. Neste caso, os livros Benoliel, J. Q. (1987). Health care providers and dying
podem ajudar porque, a partir dos relatos apresenta- patients: Critical issues in terminal care. Omega:
dos, poderão observar semelhanças com seus pro- Journal of Death and Dying, 18, 341-363.
cessos vividos, as dificuldades encontradas, além de Bluebond-Lagner, M. (1987). Wither thou goest.
sugestão de estratégias de enfrentamento. A Introduction. Omega: Journal of Death and
biblioterapia pode ser importante auxiliar no processo Dying, 18, 257-263.
de cuidados de pessoas vivendo situações de perda e
morte. Entretanto, a recomendação de livros para este Casellato, G. (Org.). (2005). Dor silenciosa ou dor
fim deve ser feita com muito cuidado. Alguns livros silenciada? Perdas e lutos não reconhecidos
podem ter fortes repercussões para uma pessoa e por enlutados e sociedade. Campinas, SP: Li-
serem irrelevantes ou até danosos para outra, provo- vro Pleno.
cando ainda mais ansiedade. Cassorla, R. M. S. (1991a). (Org.). Da morte: Estu-
Vislumbrando o futuro vemos temas que pre- dos brasileiros. Campinas, SP: Papirus.
cisam de desenvolvimento (Kovács, 2003). Um de-
Cassorla, R. M. S. (1991b) (Org.). Do suicídio: Es-
les é a abordagem da morte nas escolas e preparação
tudos brasileiros. Campinas, SP: Papirus.
de educadores para essa atividade. Esse tema nos
parece fundamental, uma vez que estão aumentan- Corr, C. A. (1998/1999). Enhancing the concept of
do significativamente as mortes de crianças e ado- disenfranchised grief. Omega: Journal of Death
lescentes, por diversas causas, principalmente pela and Dying, 38, 1-20.
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Artigo recebido em 05/05/2008.


Aceito para publicação em 07/10/2008.

Endereço para correspondência:


Profa. Dra. Maria Julia Kovács. Universi-
dade de São Paulo. Instituto de Psicologia. De-
partamento de Psicologia da Aprendizagem, do
Desenvolvimento e da Personalidade. Av. Mello
Moraes, 1721. CEP 05508-900. São Paulo-SP, Bra-
sil. E-mail: mjkorag@usp.br

Maria Julia Kovács é Professora Associada


do Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo, campus São Paulo.
Módulo 2
Estudos de Psicologia 2006, 11(2), 209-216

Morte: uma visão psicossocial

Denise Stefanoni Combinato


Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Paranaíba
Marcos de Souza Queiroz
Universidade Estadual de Campinas

Resumo
A morte faz parte do processo de desenvolvimento humano e está presente em nosso cotidiano. Diferentes
profissionais – especialmente os profissionais da saúde – interagem com o processo de morte e morrer na sua
atividade profissional. Entretanto, além de estarmos inseridos num contexto sócio-histórico de negação da
morte, a formação profissional caracteriza-se pela ênfase nos aspectos teórico-técnicos. Considerando que a
compreensão sobre a morte influencia na qualidade de vida da pessoa e também na maneira como ela interage
na sua atividade profissional com o processo de morte e morrer, procuramos neste artigo fazer uma reflexão
sobre os aspectos psicossociais envolvidos na morte, tendo em vista a sensibilização sobre a importância de
discutir e refletir sobre a morte, considerando-a parte do desenvolvimento humano.
Palavras-chave: morte; desenvolvimento humano; psicologia; psicossocial; ciência

Abstract
Death: a psychosocial view. Death is part of the process of human development and it is present in our daily
life. Different professionals–particularly health professionals–interact with the process of death and dying in
their professional activity. However, in addition to being inserted in a social-historical context of death denial,
their professional formation is characterized by the emphasis upon theoretical and technical aspects. The
understanding of death influences on people’s quality of life and also in the way professional activities related
to death and dying are performed. In this article we present a reflection about death’s psychosocial aspects,
considering the importance of seeing death as part of the human development process.
Keywords: death; human development; psychology; psychosocial; science

E
ste artigo focaliza os principais estudos, em nível na- sua publicação de 1904, A study of death, são abordados os
cional e internacional, que constituem a área de inves- aspectos físicos e psicológicos da morte com o objetivo de
tigação científica denominada tanatologia, que anali- minimizar o sofrimento das pessoas no processo de morte
sa a morte e o morrer da espécie humana. Além de uma preo- (Kovács, 2002).
cupação com o estado de arte deste campo de estudo, o arti- Após a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento
go traz também algumas incursões teóricas, como uma contri- da tanatologia intensificou-se. A obra de Feifel (1959), The
buição para delimitar e ampliar o desenvolvimento desse tipo meaning of death, ao buscar a conscientização sobre a
de investigação. morte em um contexto de proibição sobre o tema, consti-
Um pressuposto teórico fundamental desse artigo assume tuiu um marco importante que caracterizou esse período
que, para o ser humano, o ato de morrer, além de um fenômeno (Kovács, 2002).
biológico natural, contém intrinsecamente uma dimensão sim- Na década de 1960, encontram-se os trabalhos da psiqui-
bólica, relacionada tanto à psicologia como às ciências sociais. atra Kübler-Ross, realizados a partir de suas experiências pro-
Enquanto tal, a morte apresenta-se como um fenômeno impreg- fissionais com pacientes terminais. A obra Sobre a morte e o
nado de valores e significados dependentes do contexto sócio- morrer, publicada em 1969, analisa os estágios pelos quais
cultural e histórico em que se manifesta. A nossa preocupação, passam as pessoas no processo de terminalidade: negação e
aqui, tem como foco principal a civilização ocidental, no interior isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação (Kübler-
da qual dois aspectos serão dirigidos, envolvendo o mundo Ross, 1969/1998).
medieval e a sociedade moderna contemporânea. Segundo a autora, a externalização dos sentimentos pelo
A área de estudos sobre a morte teve como um dos seus paciente e a compreensão desses afetos pelos que o acompa-
pioneiros o médico canadense William Osler (1849-1919). Na nham são fundamentais para a sua aceitação. Essa compreen-
210 D.S.Combinato & M.S.Queiroz

são significa evitar frases do tipo “não fique triste”, entendendo expansiva, indisciplinada, transbordante e preguiçosa, muito
esta tristeza vinculada ao processo de perda de tudo, de todos e diferente da relação fechada, contida e individualizada do
da própria vida pelo qual está passando o paciente. Apesar do mundo burguês, que transformou o corpo humano em instru-
processo de terminalidade, a autora ressalta que persiste em mento de produção e de trabalho. Nesta transformação, o
todos os estágios a esperança. E é justamente essa esperança que causa, hoje, repugnância e temor, causava, no mundo
que dá a sensação de que tudo deve ter um sentido e os fazem medieval, riso, intimidade e familiaridade.
suportar. Isso não significa que os profissionais devam mentir. Com a emergência da modernidade, a fragmentação do
Deve-se apenas fazer sua a esperança do paciente. amálgama indiferenciado das instituições medievais em vári-
No Brasil, merecem destaque os trabalhos de Wilma Tor- as esferas de domínio relativamente autônomas ocorreu em
res que, em 1980, criou o programa pioneiro de Estudos e um processo de diferenciação institucional que, em sintonia
Pesquisas em Tanatologia, na Fundação Getúlio Vargas; os com a análise de Parsons (1974), foi indispensável para a
estudos de Maria Helena Pereira Franco, especialista na área constituição da modernidade. Com o desenvolvimento do
e coordenadora do Laboratório dos Estudos sobre o Luto, capitalismo, a partir do século XVIII, uma preocupação cons-
na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; além da tante foi isolar, separar e impor um conhecimento especializa-
professora Maria Júlia Kovács, do Laboratório de Estudos do e uma disciplina institucional a tipos diferenciados de fe-
sobre a Morte, da Universidade de São Paulo (Kovács, 2002). nômenos. Excluir os mortos dos vivos, neste contexto, pas-
sou a ser um empreendimento fundamental. Uma forte preo-
A morte na civilização ocidental cupação, em toda a época de transição para a modernidade,
Assim como o nascer, a morte faz parte do processo de foi colocar os mortos, juntamente com o lixo, cada vez mais
vida do ser humano. Portanto, é algo extremamente natural longe do meio urbano e do convívio social.
do ponto de vista biológico. Entretanto, o ser humano ca- Com o desenvolvimento das sociedades industriais e o
racteriza-se também e, principalmente, pelos aspectos sim- desenvolvimento técnico e científico da medicina, a partir do
bólicos, ou seja, pelo significado ou pelos valores que ele século XIX, a visão da morte e a interação com o paciente
imprime às coisas. Por isso, o significado da morte varia moribundo modificaram-se ainda mais radicalmente. A revo-
necessariamente no decorrer da história e entre as diferen- lução higienista radicalizou a separação entre vivos e mortos
tes culturas humanas. de tal modo que o convívio entre estas duas condições pas-
Para o homem ocidental moderno, a morte passou a ser sou a ser visto como uma fonte extremamente importante de
sinônimo de fracasso, impotência e vergonha. Tenta-se vencê- perigo, contaminação e doença.
la a qualquer custo e, quando tal êxito não é atingido, ela é A modernidade trouxe também uma mudança fundamen-
escondida e negada. tal na maneira como o ser humano passou a ser compreendi-
Nem sempre foi assim. Durante muitos séculos, por toda do. Em seu processo, emerge o ser humano individualizado
a Idade Média européia, a morte era entendida com naturali- que permitiu ao indivíduo pensar e sentir em si mesmo como
dade, fazendo parte do ambiente doméstico. Rodrigues (1995) um ser autônomo. É importante, nesse sentido, lembrar
analisa este contexto em que morte e vida interagiam Habermas (1984), que mostra que tal condição é exclusiva da
indiferenciadamente no mundo das aldeias e cidades medie- modernidade, não estando presente em qualquer contexto
vais. Nelas, os cemitérios geralmente ocupavam o centro da pré-capitalista.
cidade, dominada pela presença da igreja católica. Enquanto Como já mencionamos, o desenvolvimento do capitalis-
os mortos socialmente importantes eram enterrados no interi- mo transformou o corpo humano em um instrumento de pro-
or da própria igreja, os menos importantes eram enterrados dução. Adoecer nesse contexto significa deixar de produzir, o
em um terreno ao lado. Já os que não possuíam dignidade que significa vergonha da inatividade, que deve ser oculta
social eram enterrados em uma vala comum, que permanecia do mundo social (Pitta, 1999).
permanentemente aberta. Neste espaço, a população transi- Tal condição é especialmente verdadeira entre as classes
tava, fazia comércio, namorava, brincava e participava de fes- trabalhadoras, para quem a saúde identifica-se com a pro-
tas. Os mortos não eram considerados, como hoje, presenças dutividade do corpo, e a doença como uma interrupção nesta
inoportunas, em completa oposição à vida. produtividade, com a conseqüente ameaça à subsistência.
Nesta mesma obra, Rodrigues descreve as chamadas fes- Para as classes mais altas, a saúde pode ser percebida como
tas macabras que ocorriam nessas praças-cemitérios, sempre capacidade de consumir e usufruir do prazer proporcionado
acompanhadas de banquetes e bebedeiras, associadas à cul- pelo corpo (Boltanski, 1979).
tura pagã anteriormente hegemônica. Nessa ocasião, assu- Com o desenvolvimento do capitalismo e advento da
mindo um significado de inversão ritual da ordem estabelecida, modernidade, a morte, que estava presente na sala de visita,
o deboche da estrutura de poder dominante aparecia como desloca-se para o hospital e, em alguns casos, para a Unida-
uma sombra lúdica e caótica, que contrastava com o mundo de de Terapia Intensiva (UTI). Em um ambiente isolado, com
sério e ordenado do cristianismo. Como o carnaval, a tolerân- janelas fechadas, luz artificial, temperatura constante mantida
cia a tais eventos pelo poder constituído permitia que em pelo ar condicionado e equipamentos técnicos, os profissio-
contraste com o caos, a ordem pudesse ser exercida. nais da saúde realizam procedimentos altamente sofisticados
A análise de Rodrigues prossegue no sentido de mostrar com pacientes que se encontram em situações limite entre a
que, no mundo medieval, a relação com o corpo era aberta, vida e a morte (Oliveira, 2002).
Morte: uma visão psicossocial 211

Em tal condição, o paciente é impedido de sentir e ex- O processo de luto era rigorosamente seguido através
pressar suas emoções, destinado a um sofrimento solitário e das roupas pretas, da não participação na vida social, até que
discreto. Isso porque os profissionais – que lidam cotidiana- não acontecesse sua elaboração.
mente com a morte – não estão preparados para lidar com o Atualmente, em nossa sociedade, a presença dos famili-
indivíduo em sua plenitude enquanto ser humano dotado de ares, amigos e vizinhos junto ao moribundo deu lugar ao
1
emoções e valores. Baseada no paradigma positivista , a for- ambiente frio e isolado do hospital; os rituais de morte (extre-
mação e atuação de profissionais na área da saúde tendem a ma-unção, velório na casa da família, procissão fúnebre e
lidar com a doença e a morte do ponto de vista estritamente manifestações de luto) foram substituídos pelas organiza-
técnico (Klafke, 1991; Kovács, 1991, 2002). Em outras pala- ções funerárias, em que o ambiente é neutro e higiênico; pe-
vras, o profissional da saúde é formado para curar a doença e los cortejos fúnebres rápidos e discretos; pelo autocontrole
não para lidar com a pessoa. do indivíduo enlutado, que não pode expressar verdadeira-
De acordo com Pitta (1999), o saber da equipe de saúde, mente suas emoções, a fim de não perturbar outras pessoas
voltado exclusivamente para soluções técnicas, exige uma com algo tão mórbido (Ariès, 1975/2003; Maranhão, 1996).
atitude de negação da morte, na medida em que fornece po- Nesse sentido, a adoção de práticas como a cremação
der ao profissional da saúde e ameniza o sentimento de impo- tem sido cada vez mais utilizada. Além das razões higiênicas e
tência. Nesse sentido, o investimento nos recursos ecológicas, ela é uma maneira de esconder a própria morte.
tecnológicos torna-se uma alternativa de prolongamento da Nas palavras de Ariès (1975/2003), ela se apresenta “como a
vida do paciente para evitar não só o contato com a morte, maneira mais radical de fazer desaparecer e esquecer tudo o
mas a comunicação com a família e os sentimentos mais pro- que resta do corpo, de anulá-lo” (p. 88).
fundos do paciente. O que era vivenciado como um evento familiar passou a
Nesse contexto, nas palavras de Maranhão (1996), reali- ser objeto de vergonha, proibição e repugnância. Na termino-
za-se a “coisificação do homem”, na medida em que se nega logia utilizada por Ariès (1975/2003), a morte domada que
“a experiência da morte e do morrer” (p. 19). existiu até a metade do século XIX foi substituída pela morte
Assim, além de evitar o contato com a morte do outro, o interdita.
profissional evita o contato com as suas próprias emoções
em relação a (sua) morte e o (seu) morrer. A síndrome do A desigualdade na morte
2
esgotamento profissional, ou burn out , é apenas um exem-
plo a que está sujeito o profissional da saúde que lida com o E somos Severinos
sofrimento alheio, sem que esteja, muitas vezes, preparado Iguais em tudo na vida, morremos de morte igual,
para enfrentar tal situação (Seligman-Silva, 2003). da mesma morte, severina: que é a morte de que se morre
Por muitos séculos, a morte obedecia a um ritual que De velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte,
envolvia tanto a pessoa que ia morrer (que pressentia o seu De fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença
fim), como parentes e amigos: É que a morte severina ataca em qualquer idade,
E até gente não nascida).
A morte é uma cerimônia pública e organizada. Organizada João Cabral de Mello Netto, Morte e Vida Severina
pelo próprio moribundo, que a preside e conhece seu protoco-
Apesar de a morte ser o destino de todas as pessoas
lo [...] Tratava-se de uma cerimônia pública [...] Era impor-
indiscriminadamente, a duração da vida e a maneira de morrer
tante que os parentes, amigos e vizinhos estivessem presentes.
são diferentes: dependem da classe socioeconômica em que
Levavam-se as crianças. (Ariès, 1975/2003, p. 34)
a pessoa está inserida.
Nesse momento, tranqüilamente, o moribundo despedia- Atualmente, a esperança de vida ao nascer da população
se das pessoas e designava com quem ficariam seus bens brasileira é de 71,7 anos. Entretanto, comparando esse índice
(Ariès, 1975/2003). entre as regiões do país, constata-se uma diferença de 5,65
Após a morte, os familiares cuidavam para cumprir todos anos entre sul (73,95) e nordeste (68,3) (Instituto Brasileiro de
os costumes: Geografia e Estatística- IBGE, 2006).
A diferença em relação à mortalidade infantil é ainda mais
fechavam as janelas, acendiam as velas, aspergiam água benta
gritante, pois, enquanto nas regiões sul e sudeste, a taxa de
pela casa, cobriam os espelhos, paralisavam os relógios. Os
mortalidade infantil é de 17,8 e 19,5; nas regiões norte e nor-
sinos dobravam. [...] Com os dedos das mãos entrelaçados e
deste é de, respectivamente, 27,4 e 39,5. Ainda é possível
envoltos por um rosário, o defunto ficava exposto sobre uma
comparar a taxa de mortalidade infantil por raça ou cor das
mesa e, durante dois ou três dias, seus parentes e amigos, com
mulheres: na região nordeste, a taxa de mortalidade infantil
vestimentas de luto, desfilavam diante dele para o último adeus.
em mulheres brancas é de 33,6; enquanto em mulheres pretas
(Maranhão, 1996, p. 8)
e pardas é de 46,5 (IBGE, 2006).
A espiritualidade e a religiosidade revelavam-se nos ri- A desigualdade continua mesmo após a morte. Até o
tos e sacramentos da igreja antes (confissão, comunhão e século XVIII, existia a crença de que se a pessoa fosse enter-
extrema-unção) e após a morte (cortejo fúnebre, ritos de puri- rada próxima aos túmulos dos santos ou de suas relíquias,
ficação e passagem conduzidos pelo sacerdote). perto do altar ou no claustro do mosteiro, o defunto tinha
212 D.S.Combinato & M.S.Queiroz

uma intercessão especial dos santos e a garantia da salva- dignificando o homem” (Kovács, 1996, p. 21). Atualmente, ela
ção. Como esses espaços não comportavam todos os mor- é vista como fraqueza e punição, tendo em vista a interrupção
tos, eles eram reservados àqueles que podiam pagar por esse à produção. De qualquer forma, a doença coloca o indivíduo
fim. Enquanto isso, os mais pobres eram envolvidos num em contato com sua fragilidade e finitude; ou seja, ele é afas-
sudário simples e amontoados em fossas que continham en- tado das suas atividades rotineiras, pode sofrer paralisias,
tre 1200 a 1500 cadáveres, sendo fechadas após anos quando mutilações, enfrenta muitas vezes a dor ao longo do trata-
ficavam cheias. Assim, “os defuntos (pobres) conservavam mento e percebe-se enquanto ser mortal.
o seu silencioso anonimato de quando ainda eram vivos” Ao longo do processo de desenvolvimento, convive-se
(Maranhão, 1996, p. 31). com os pólos vida e morte. A passagem de cada fase de vida
A partir da segunda fase da Idade Média, apenas a loca- (infância, adolescência, vida adulta e velhice) caracteriza-se,
lização e o tipo de sepultura não garantiam a vida eterna. O segundo Kovács (1996), por um processo de morte simbólica
testamento, que era destinado à regulamentação da partilha ou morte em vida, na medida em que se perde características
dos bens, torna-se um contrato de salvação. Por meio dele, e atividades de uma fase para iniciar uma outra e atingir, as-
sim, uma nova vida.
o fiel confessava a sua fé, reconhecia seus pecados, reconcili-
Uma outra possibilidade de morte em vida está relaciona-
ava-se com a comunidade; determinava o local de sua sepultu-
da à ausência de poder e controle sobre si e sobre a realidade.
ra, prescrevia as questões relativas ao seu cortejo fúnebre,
Em pesquisa sobre o desenvolvimento da consciência em
luminárias e cultos, e, enfim, pagava à Igreja um dízimo sobre
mulheres moradoras de uma favela, Sawaia (1995) analisa que
o valor de sua herança. (Maranhão, 1996, p. 32)
“desde pequenas, essas mulheres sofrem a falta de amparo
Dessa maneira, a pessoa garantia a sua salvação no céu, externo real (falta de controle absoluto sobre o que ocorre) e
recebia missas e preces de intercessão, além de um cortejo a falta de amparo subjetivo (falta de recursos emocionais para
fúnebre seguido por círios, tochas e trinta e três pobres (anos agir)” (p.158). Se, por um lado, elas vivenciam a miséria e a dor
de vida de Cristo) que recebiam donativos e esmolas. pelas condições de vida, por outro, desenvolveram a consci-
Atualmente, percebemos a diferença de classes entre os ência de que nada podem fazer para mudar essa situação,
mortos na configuração geográfica do cemitério: de um lado, caracterizando um estado de apatia e tristeza passiva ou, como
bairros pobres com sepulturas planas e mal-acabadas; de elas denominam, o tempo de morrer.
outro, bairros ricos com verdadeiros monumentos escritos Assim, pode-se afirmar que existem várias “mortes” em
com letras de bronze. Os enterros seguem a mesma lógica: vida. Embora não ocorra a morte concreta, essas experiências
alguns são velados nas próprias casas – não por opção, mas possibilitam a reorganização e a ressignificação da vida.
por não ter condições financeiras de alugar uma sala de veló- O processo de luto é um outro exemplo de morte em vida
rio; outros recebem anúncios fúnebres em jornais, recebem que se caracteriza por um conjunto de reações diante de uma
dezenas de coroas de flores, são acomodados em “caixões perda. Falar de perda significa falar de vínculo que se rompe,
artisticamente talhados [...] revestidos em cetim almofadado” ou seja, uma parte de si é perdida; por isso, fala-se da morte
(Maranhão, 1996, p. 38). em vida.
Assim, o cemitério caracteriza-se como um reflexo da A expressão de sentimentos, nessas ocasiões, é funda-
nossa sociedade dividido por classes e propriedades. mental para o desenvolvimento do processo de luto. De acor-
do com os estudos de Bowlby (1970/1997), existem quatro
Morte em vida fases do luto que, embora diferenciem na intensidade e dura-
Algumas experiências vivenciadas ao longo do desenvol- ção em cada indivíduo, no geral, seguem um padrão básico:
vimento humano apresentam analogia com a idéia de morte: (1) fase de torpor ou aturdimento, com duração de algumas
separação, desemprego, doença e, até mesmo, acontecimentos horas ou semanas, que pode vir acompanhada de manifesta-
que trazem alegria, mas que provocam algum tipo de ruptura. ções de desespero ou raiva; (2) fase de saudade e busca da
A separação pode ser vivenciada através de vários tipos figura perdida, que pode durar meses ou anos, quando ocor-
de experiências, desde a separação com a figura materna até a re o impulso de buscar e recuperar o ente querido, podendo a
separação de namorados e de casais. Ela envolve aspectos raiva estar presente quando se percebe de fato a perda; (3)
semelhantes ao luto; a diferença é que, na situação de luto, fase de desorganização e desespero, em que as manifesta-
houve a morte concreta de alguém, enquanto, na separação, ções mais freqüentes são o choro, a raiva, as acusações en-
não. Apesar disso, “é preciso matar o outro dentro de si” volvendo pessoas próximas – uma profunda tristeza é senti-
(Kovács, 1996, p. 14). da quando ocorre a constatação da perda como definitiva,
Segundo Kovács (1996, p. 15), “o risco da separação de- podendo ocorrer a sensação de que nada mais tem valor; e (4)
pende da possibilidade de se perder, junto com o perdido, o fase de organização, em que existe a aceitação da perda e a
significado da vida”. É preciso, nesse momento, construir uma constatação de que uma nova vida precisa ser iniciada. A
nova vida – agora, sem o outro; o que significa elaborar a perda, saudade, a necessidade do outro e a tristeza podem retornar
retomar as atividades cotidianas, investir em novas relações. mesmo nessa fase, uma vez que o processo de luto é gradual
A doença também é um tipo de morte. Em outras épocas, e nunca totalmente concluído.
a doença teve uma fase glamourosa (por exemplo: a tubercu- Os determinantes do resultado do processo de luto es-
lose): “a doença era vista como um refinamento, o sofrimento tão relacionados aos seguintes fatores: identidade e papel da
Morte: uma visão psicossocial 213

pessoa que foi perdida; tipo de vínculo existente; causas e terizada pelo biológico, sintetizando assim o denominado
circunstâncias da perda (por exemplo: morte prematura, mor- modelo biomédico:
te violenta, mortes múltiplas, mortes que geram culpa); idade,
O corpo humano é considerado uma máquina que pode ser
gênero, religião e personalidade do enlutado; contexto só-
analisada em termos de suas peças; a doença é vista como um
cio-cultural e psicológico que afeta o enlutado, na época e
mau funcionamento dos mecanismos biológicos, que são estu-
após a perda (exemplo: apoio social); além de estresses se-
dados do ponto de vista da biologia celular e molecular; o papel
cundários (mudanças e crises concomitantes que ocorrem
dos médicos é intervir, física ou quimicamente, para consertar
após a morte) (Parkes, 1998).
o defeito no funcionamento de um específico mecanismo en-
É evidente que a aproximação psicológica que puder in-
guiçado [...] Ao concentrar-se em partes cada vez menores do
cluir tais circunstâncias contextuais, envolvendo uma aproxi-
corpo, a medicina moderna perde freqüentemente de vista o
mação interdisciplinar, terá meios de intervenção mais ade-
paciente como ser humano. (Capra, 1982, p. 116)
quados para lidar com a situação. É evidente também que tal
aproximação exige uma perspectiva mais integradora, centrada Se a medicina contemporânea negligencia os aspectos
no paciente e não no problema ou na doença. Um novo psicossociais do processo saúde-doença, o que dizer sobre a
paradigma científico necessita ser consolidado para dar su- sua concepção de morte?
porte a esta perspectiva, aspecto este que será mais bem Vigotski (1996) afirma que a ciência assimilou muito bem
discutido no próximo tópico. o conceito de vida, mas não conseguiu explicar o de morte:

A ciência e a morte A morte é interpretada somente como uma contraposição


contraditória da vida, como a ausência da vida, em suma, como
Para entender o foco que a sociedade ocidental moderna
o não-ser. Mas a morte é um fato que tem também seu signifi-
projeta sobre a morte é interessante trazer à tona o princípio
cado positivo, é um aspecto particular do ser e não só do não-
histórico e cultural a ele subjacente, através do desenvolvi-
ser; é um certo algo e não o completo nada. (p. 265)
mento da ciência moderna e, em seu interior, do paradigma
científico hegemônico, o positivismo mecanicista. A explicação da ciência sobre a morte (ou sobre o não-
O modelo de ciência hegemônico em nossos dias teve ser) está situada na perspectiva biologicista do modelo
origem no século XVII com Descartes, um filósofo que biomédico, ou seja, “a morte consiste, simplesmente, na para-
visualizou um método de ciência com princípios fundamen- lisação total da máquina-corpo” (Capra, 1982, p. 138).
tais baseado na estrutura matemática. Entendendo a natureza Assim, profissionais de saúde são formados para lidar
como uma máquina perfeita, governada por leis matemáticas, tecnicamente com os fenômenos da doença e da morte. Ou
sua finalidade era indicar o caminho para se chegar à verdade seja, o profissional é formado para curar a doença, combater
científica (Capra, 1982). a morte; e não para lidar com a pessoa doente ou a pessoa
O aspecto fundamental do método de Descartes é a dú- que está morrendo.
vida metódica, a partir da qual tudo deve se submeter, com a Uma perspectiva que surge como uma alternativa a esse
exceção do pensamento, a única base que não é passível de modelo é a abordagem dos cuidados paliativos. Diferente-
dúvida. Portanto, cogito, ergo sum (penso, logo existo). A mente do paradigma de cura da ciência médica, os cuidados
partir daí, Descartes desenvolve o método analítico, que con- paliativos valorizam a qualidade de vida do paciente e, por
siste em decompor o objeto de estudo em partes para, em isso, têm como princípio fundamental o cuidado integral e o
seguida, organizá-lo em sua ordem lógica e matemática. respeito à autonomia do paciente em relação ao processo de
Para Capra (1982), esse método tem sua utilidade princi- morrer.
palmente no desenvolvimento de teorias científicas e na cons- De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS),
trução de projetos tecnológicos. Entretanto, “a excessiva o cuidado paliativo é uma abordagem que tem como objetivo
ênfase dada ao método cartesiano levou à fragmentação da melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares no
realidade, característica do nosso pensamento em geral e das enfrentamento de problemas relacionados a doenças termi-
disciplinas acadêmicas modernas, e levou à atitude generali- nais. Isso é feito através da prevenção e do alívio do sofri-
zada de reducionismo da ciência” (p. 55). mento pelo diagnóstico precoce, avaliação e tratamento da
Essa fragmentação atingiu o corpo humano. Antes de dor e outros problemas físicos, psicossociais e espirituais
Descartes, a medicina preocupava-se com a interação corpo (World Health Organization-WHO, s.d.).
e alma, tratando as pessoas no contexto social e espiritual. Atender a solicitação do paciente, através de uma maior
Com a divisão entre corpo e mente, além da comparação do humanização no tratamento e no cuidado, poderá tornar o
corpo humano a uma máquina, os médicos passaram a se processo de morte menos angustiante e mais digno para o
concentrar no corpo, descuidando dos aspectos psicológi- paciente e, ao mesmo tempo, trazer maior conforto ao profis-
cos, sociais e culturais da pessoa. sional que freqüentemente sente-se frustrado com a percep-
Apesar dos avanços científicos, do surgimento de no- ção de “derrota” diante da morte (Schramm, 2002; Siqueira-
vos métodos e do conhecimento obtido a respeito do proces- Batista & Schramm, 2004).
so saúde/doença enquanto determinação sócio-histórica, o Os cuidados paliativos têm como objetivo, de acordo
paradigma cartesiano ainda prevalece. Continua-se exercen- com a OMS: (1) promover o alívio da dor e outros sintomas de
do um modelo clínico-biologicista, em que a doença é carac- angústia; (2) afirmar a vida e considerar a morte como um
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processo natural; (3) não apressar nem postergar a morte; (4) No caso da morte, em cada tempo e cultura existe um sig-
integrar os aspectos espirituais e psicológicos no cuidado nificado atribuído a ela. Inicialmente, esse significado é exter-
do paciente; (5) oferecer um sistema de suporte que ajude o no ao indivíduo, pertencendo à cultura. À medida que esse
paciente a viver ativamente tanto quanto possível até sua significado é internalizado, transforma-se num instrumento sub-
morte; (6) oferecer um sistema de suporte para ajudar no jetivo da relação do indivíduo consigo mesmo. E assim, o sig-
enfrentamento da família durante a doença do paciente e (7) nificado externo adquire um sentido pessoal para o indivíduo.
utilizar uma equipe profissional para identificar as necessida- Em outras palavras: os conteúdos externos presentes na reali-
des dos pacientes e de suas famílias, incluindo a elaboração dade objetiva têm significados construídos socialmente por
do luto, quando indicado. outras gerações, outros homens. Através da atividade e das
Para o efetivo desenvolvimento dos cuidados paliativos, relações sociais que se estabelece com o meio, o indivíduo
McCoughlan (2004) afirma que, além do compromisso do internaliza esses conteúdos e significados a partir de sua pró-
governo e da provisão de medicamentos essenciais ao trata- pria experiência e história de apropriações (ou seja, sua subje-
mento, é fundamental a educação em cuidados paliativos. tividade). Dessa maneira, o conteúdo que tinha um significado
Essa educação, segundo a autora, envolve a formação de externo passa por uma mediação psíquica e adquire um sentido
pacientes, familiares, comunidade, administradores da saú- pessoal, singular, único para cada pessoa.
de, responsáveis por políticas públicas e, finalmente, os pro- Assim, quando discutimos sobre a dificuldade dos profis-
fissionais da saúde. sionais da saúde em lidar com o paciente terminal em sua
Apesar da necessidade de implantar tais unidades, de- integralidade, devemos analisar essa dificuldade no seu pro-
vemos ressaltar que os cuidados paliativos constituem uma cesso de construção, na sua historicidade e na sua essência;
filosofia de cuidado da pessoa. Esse cuidado, nas palavras processo esse que vai além de uma experiência imediata e da
de Pessini (2004), deve promover “o bem-estar global e a história individual desse profissional. O sentido adquirido so-
dignidade do doente crônico e terminal e sua possibilidade bre a morte e a maneira como o profissional da saúde interage
de não ser expropriado do momento final de sua vida, mas de com o paciente no processo de terminalidade não é algo natu-
viver a própria morte” (p. 204). ral. Se olharmos isoladamente uma interação, na sua aparência
e não na essência, tendemos a classificá-la como natural pelo
seu caráter automático e mecânico como acontece. Entretanto,
Considerações finais
Vygotski (1931/1995) alerta para o problema desse comporta-
Este estudo mostra que a morte é um fenômeno comple- mento “fossilizado” (p. 105) e defende a necessidade de anali-
xo, com implicações profundas, que deve ser compreendida sarmos os fenômenos psicológicos além das características
através de uma perspectiva multidisciplinar. perceptíveis e da experiência imediata. É preciso, portanto, en-
Sem a pretensão de encerrar ou discorrer sobre todas as tendermos o sentido e o fazer do profissional a partir do signi-
perspectivas desse fenômeno, discutimos, nesse artigo, uma ficado de morte atribuído pela cultura, assim como a influência
perspectiva psicossocial da morte, com destaque para o de- dessa cultura na sua formação profissional.
senvolvimento histórico da morte no mundo ocidental, os Parkes (1998) relata que, em uma pesquisa comparativa
diferentes tipos de morte no contexto social e psicológico, e desenvolvida por Burgoine (1988), entre um grupo de viúvas
os cuidados paliativos como uma filosofia de cuidado da pes- da Inglaterra e das Bahamas, essas últimas, que vivem numa
soa em processo de terminalidade. cultura em que as manifestações de luto são incentivadas,
Finalizando essa discussão sobre os aspectos apresentam melhores condições de saúde e menos proble-
psicossociais da morte, faz-se necessário acrescentar a análi- mas psicológicos em relação às mulheres da Inglaterra.
se que Vygotski (1931/1995; Vigotski 1934/2000) faz sobre o Assim, considera-se fundamental para o estudo da mor-
desenvolvimento psicológico do ser humano. De acordo com te, a compreensão da subjetividade em sua totalidade, a partir
a psicologia sócio-histórica, referencial teórico que tem como de seu movimento, contradições e historicidade. Isso signifi-
principal representante o psicólogo soviético Vygotski, o ca compreender o processo histórico que constituiu e cons-
desenvolvimento psicológico está relacionado ao desenvol- titui o fenômeno em estudo (historicidade); a busca da sua
vimento histórico e social da espécie. Assim, as funções bio- essência, a fim de conhecer sua gênese e suas relações dinâ-
lógicas dão condições para o desenvolvimento, mas por si só mico-causais; a captação do movimento, as contradições e a
não garantem a apropriação da cultura e o desenvolvimento transformação do objeto de estudo.
das funções psíquicas superiores (pensamento e linguagem, Num contexto em que o ser humano é fragmentado e a
por exemplo) – funções tipicamente humanas. O desenvolvi- morte é deslocada para o hospital, compreender a subjetivi-
mento humano, portanto, é uma construção histórica e soci- dade no processo de morrer exigiria um esforço por parte da
al; dá-se ao longo da vida do indivíduo a partir de sua inter- educação formal no sentido de humanizar e considerar a
venção no meio (atividade) e da relação com outros homens. integralidade do cuidado para, com isso, tornar os profissio-
No entanto, essa apreensão do mundo externo não acon- nais da saúde mais aptos a lidar com este fenômeno que é, ao
tece passivamente como mero reflexo do meio. A constituição mesmo tempo, físico, psíquico e social.
do fenômeno psicológico se faz numa relação dialética com o Vários estudos mostram que a humanização da morte e
mundo social. do processo de morrer é uma condição que poderia repercutir
Morte: uma visão psicossocial 215

positivamente não só para o doente como também para o Um aspecto importante da postura de Habermas e que
profissional da saúde (Esslinger, 2003; Kovács, 2002; Saloum nos interessa aqui mais especificamente diz respeito ao inevi-
& Boemer, 1999; Vianna & Picelli, 1998). tável isolamento do ser humano no contexto de modernidade
Sabe-se que existem alguns cursos de formação de pro- radical de nossos dias. À medida que as dimensões do siste-
fissionais da saúde no Brasil que oferecem disciplinas sobre ma social tornam-se mais abstratas e impessoais, as decisões
a morte e o morrer (Kovács, 2002). No entanto, não existe uma passam a ser tomadas por especialistas e o indivíduo perde
preocupação com o fortalecimento pessoal do futuro profis- competência comunicativa de controlar e participar das con-
sional para o enfrentamento da morte (Bromberg, 1998). É dições que influenciam a sua própria vida. Em última instân-
muito provável que a ausência dessa preocupação esteja le- cia, tal distorção pode significar a perda da capacidade de
vando muitos desses profissionais à síndrome de burn out, compreender e de se comunicar com o mundo.
como já discutido anteriormente. É evidente que, neste novo paradigma, o papel de
Um dos fatores estressantes associados à prática do pro- humanizar o desenvolvimento da ciência traria às Ciências
fissional da saúde é justamente o contato intenso e freqüente Humanas um papel mais destacado.
com a dor, o sofrimento, a morte e o morrer (Benevides-Perei- No caso mais específico da morte e do morrer, tendo em
ra, 2002b), principalmente quando o profissional não está pre- vista este novo paradigma, caberia à Psicologia reintroduzir,
parado para lidar com tais circunstâncias. Tal condição tem através de uma aproximação científica, os aspectos emocio-
sido descrita como penosa, difícil e altamente ansiogênica nais e simbólicos presentes na manifestação desse fenôme-
(Combinato, 2005; Kovács, 2002; Lopes, 2003; Pitta, 1999). no. Somente assim poderia a Psicologia contribuir com uma
Por isso, o cuidado com o cuidador – seja na formação acadê- assistência de melhor qualidade ao indivíduo, à sociedade e
mica e/ou durante a atuação prática – é fundamental para o ao ser humano diante da experiência da morte.
exercício profissional (Combinato, 2005; Combinato,
Lunardelli, & Garbulho, 2003; Esslinger, 2003; Kovács, 2002;
Referências
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fator de vulnerabilidade ao burnout. In A. M. Benevides-Pereira (Org.),
principal fator que leva o profissional da saúde, principalmente
Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador (pp. 133-
o enfermeiro, a desenvolver distúrbios psicoemocionais, ten-
156). São Paulo: Casa do Psicólogo.
tativas de suicídio, altas taxas de absenteísmo, além da síndrome
Benevides-Pereira, A. M. (2002b). O adoecer dos que se dedicam à cura das
de burn out (Benevides-Pereira, 2002a). O suicídio entre médi- doenças. O burnout em um grupo de médicos. In A. M. Benevides-Pereira
cos é superior ao da população, o que pode ser verificado em (Org.), Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador
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Psico-oncologia no Brasil: resgatando o viver (pp. 186-231). São Paulo: Summus.
Tais iniciativas de humanizar tanto o adoecimento como
Capra, F. (1982). O ponto de mutação. São Paulo: Cutrix.
as atividades do cuidador profissional encontram no
Combinato, D. S. (2005). Concepção de morte e atuação de profissionais da saúde
paradigma mecanicista da medicina um forte opositor. Como
em unidade de terapia intensiva: implicações educacionais. Dissertação de
é demonstrado por Queiroz (2003), este paradigma manifesta- mestrado não-publicada, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
se em associação íntima com a dimensão positivista da ciên- Combinato, D. S., Lunardelli, M. C. F., & Garbulho, N. F. (2005). Re-orienta-
cia, que influencia fortemente o sistema educacional. Este, ção profissional: ressignificando a prática médica no serviço público de
por sua vez, referenda uma atitude em que a morte se manifes- saúde. In M. C. P Lassance, A. C. Pardiso, M. P. Bardagi, M. Sparta, & S.
ta, como vimos, de um modo técnico e “higienizado” de qual- L. Frischenbruder (Orgs.), Intervenção e compromisso social: orientação
quer aspecto emocional e simbólico. profissional: teoria e técnica (Vol. 2, pp. 337-358). São Paulo: Vetor.
O desenvolvimento do saber humano, no entanto, apre- Esslinger, I. (2003). O paciente, a equipe de saúde e o cuidador: de quem é a
senta, no mundo contemporâneo, a possibilidade de transcen- vida, afinal? ... um estudo acerca do morrer com dignidade. Tese de
doutorado não-publicada, Universidade de São Paulo, São Paulo.
der o paradigma positivista mecanicista a partir de uma pers-
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rico da ciência. De acordo com Habermas (1984), tal transcendência em 10 de outubro de 2006, de http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/
teria necessariamente um caráter integrador que, sem negar as populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2005/
conquistas do positivismo, tentaria resgatar um sentido novo indic_sociais2005.pdf.
de totalidade, com um reconhecimento implícito de que, como Klafke, T. E. (1991). O médico lidando com a morte: aspectos da relação médico-
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Notas
1
O paradigma positivista, próprio da ciência moderna, deriva das concepções de Descartes e de Newton, que
procuravam a busca da verdade através da objetividade e neutralidade metodológica. Nesta concepção, tanto o
mundo natural como humano são regulados por leis naturais. Descartes criou a dicotomia corpo e mente, sendo
o corpo humano comparado a uma máquina que tem funcionamento mecânico. Da mesma maneira, Newton
concebeu o universo como um relógio, cujo funcionamento pode ser desvendado. Na área da saúde, esse
paradigma se reflete na concepção de saúde e doença como algo biológico-natural e na valorização excessiva
da intervenção tecnológica como meio de erradicar as doenças e promover saúde (Capra, 1982; Minayo, 2000;
Queiroz, 2003).
2
Burn out: padrão de comportamento e sentimentos que ocorre quando a pessoa está sujeita a fontes crônicas e
intensas de estresse emocional que ultrapassam sua habilidade de enfrentamento. Uma das conseqüências mais
acentuadas de um estado de burn-out crônico é o da barreira que ele impõe entre o profissional e o paciente, ou
seja, quanto mais sofrimento o paciente apresenta, mais indiferente o profissional parece se tornar.

Denise Stefanoni Combinato, psicóloga, mestre em Enfermagem pela Universidade Estadual de Campinas, é
professora assistente na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Paranaíba. Endereço para
correspondência: Avenida Major Francisco Faustino Dias, 148, apto. 16; Paranaíba, MS; CEP 79500-000.
Tel.: (67) 3668-4348. E-mail: denisecombinato@hotmail.com
Marcos de Souza Queiroz, doutor em Sociologia pela Universidade de Manchester, é pesquisador do Centro
de Memória da Universidade Estadual de Campinas e professor do Programa de Pós-graduação em Enferma-
gem da Universidade Estadual de Campinas. E-mail: msq44@uol.com.br ou msq@unicamp.br

Recebido em 08.abr.05
Revisado em 10.abr.06
Aceito em 19.jun.06
Módulo 3
ARTIGOS

Compreensão da morte e desenvolvimento Humano:


contribuições à Psicologia Hospitalar

Understanding Death and Human Development: contributions to


Hospital Psychology

Jean Von Hohendorff


Acadêmico do curso de Psicologia da FACCAT – Faculdades Integradas de Taquara,
Taquara, RS, Brasil

Wilson Vieira de Melo *


Diretor e professor do curso de Especialização em Psicoterapia Cognitivo-
Comportamental da WP - Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental, Porto
Alegre, RS, Brasil
Professor do curso de Psicologia da FACCAT – Faculdades Integradas de Taquara,
Taquara, RS, Brasil

Resumo
Este estudo apresenta uma revisão teórica sobre a compreensão da morte nas
diferentes etapas do desenvolvimento humano com o objetivo de contribuir para o
trabalho de psicólogos hospitalares. Foram realizadas consultas a artigos
indexados na língua portuguesa, além de livros de autores importantes. Foi
possível observar que a morte é compreendida de maneira distinta durante as
fases do desenvolvimento humano, sofrendo influência de alguns fatores, tais
como: cultura, informações e experiências com a situação. Os autores propõem
que a compreensão da morte pode ser vista em um continuum. Além disso, um
quadro no qual foram incluídos os principais aspectos da compreensão da morte é
proposto com vistas a facilitar o entendimento dos resultados deste estudo.
Palavras-chave: Morte, Desenvolvimento humano, Psicologia hospitalar.

Abstract
This study presents a theoretical revision of the way in which death is understood
at different stages of the cycle of life, with view to contribute to hospital
psychology work. In order to construct this research, articles in the Portuguese
language were consulted as well as other works by eminent authors. From this
study it was possible to observe that death is understood in a distinct way during
the phases of life, being influenced by factors such as culture, information and
experiences of the situation. The authors propose that the understanding of death
can be seen in a continuum. Furthermore, a table in which were included the
main aspects of death understanding is presented to facilitate the comprehension
of the results of this study.
Keywords: Death, Human development, Hospital psychology.

480

ISSN: 1808-4281
ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 9, N.2, P. 480-492, 2° SEMESTRE DE 2009
http://www.revispsi.uerj.br/v9n2/artigos/pdf/v9n2a14.pdf
Introdução

O que pode haver de interessante em investigar um tema como a morte?


Atualmente nos deparamos com uma negação acerca desse tema (SILVA,
2003). A sociedade, marcada por um ritmo alucinante, parece ter deixado
de lado o fato de todos nós sermos seres finitos. Assim, o homem tende a
não pensar sobre sua finitude e a das pessoas que o rodeiam. Nota-se um
despreparo no que diz respeito ao enfrentamento dessa situação. Além da
população em geral, esse despreparo está presente em profissionais
ligados à saúde, que têm sua formação voltada para a vida (FIDELIS,
2001).
Sendo a psicologia uma ciência que lida com seres humanos e suas vidas
e, conseqüentemente, com a morte, tal assunto torna-se relevante.
Especialmente, dentro da psicologia hospitalar, é necessário estar
preparado para situações de finitude (KOVÁCS, 1989). O hospital é o lugar
onde as pessoas buscam ajuda para restituir a saúde. Entretanto, a vida
também pode chegar ao seu fim neste local. Atualmente, é cada vez mais
freqüente que a morte venha a ocorrer em hospitais, devido,
principalmente, aos avanços da medicina (OKAMOTO, 2004). Sendo
assim, é imprescindível que o psicólogo que atua neste contexto esteja
preparado.
A maneira como a morte é compreendida é dinâmica ao longo do
desenvolvimento humano. Desde a infância, as pessoas têm contato com
perdas, mas é a partir da adolescência que realmente entendemos o
significado da morte. Na idade adulta evidenciamos tal fato como algo
possível de acontecer, mas é na velhice que sua possibilidade parece ser
mais aceita, uma vez que tal etapa é encarada como última no ciclo de
desenvolvimento humano. Além das variáveis relacionadas com o
desenvolvimento humano, a cultura e as situações de perda que
vivenciamos contribuem para que formemos nossa visão sobre a finitude
humana.
Para um melhor entendimento acerca do assunto, faz-se importante o
estudo sobre a temática. Sendo assim, o presente trabalho tem como
objetivo realizar uma revisão teórica de estudos que abordaram a
temática da compreensão da morte ao longo do desenvolvimento
humano. Com isso, pretende-se aprofundar o conhecimento sobre o tema,
através de reflexões acerca do material coletado.
Para que o objetivo deste trabalho fosse alcançado, foram realizadas
consultas a artigos indexados publicados na língua portuguesa nos bancos
de dados Scielo, BVS-Psi e CNPQ, além de alguns artigos importantes
citados nessas publicações. Os descritores utilizados foram “morte”,
“luto”, “infância”, “adolescência”, “idade adulta”, “terceira idade”,
“velhice”, “idoso”, “psicologia hospitalar”. Os trabalhos que não estavam

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http://www.revispsi.uerj.br/v9n2/artigos/pdf/v9n2a14.pdf
disponíveis na íntegra foram utilizados apenas para consulta do
resumo. Ademais, foram pesquisados livros de autores importantes da
construção da teoria (ALMEIDA, 2000; ASSUMPÇÃO, 2001; BEE, 1997;
BROWN, 2001; ELKIND, 1984; KOVÁCS, 1992; KÜBLER-ROSS, 2005;
PAPALIA; OLDS, 2000).
Após a leitura do material pesquisado, procurou-se construir um texto que
abarcasse a compreensão da morte ao longo do desenvolvimento humano
com vistas a contribuir para aqueles profissionais ligados a área de
cuidados psicológicos, especialmente o psicólogo hospitalar. Para tal,
foram considerados os principais resultados dos estudos investigados.

Considerações sobre a psicologia hospitalar e sua interface com a


finitude humana

Almeida (2000) evidencia que o psicólogo hospitalar tem papel na


humanização dos cuidados com o paciente; no atendimento ao paciente e
sua família; na elaboração da experiência vivida com a hospitalização,
além de atuar junto à equipe de saúde. Além disso, o profissional presente
em hospitais terá que lidar com a morte, pois sendo um profissional de
saúde, tal situação fará parte de seu cotidiano profissional (KOVÁCS,
1989). No que diz respeito ao estudo da morte (tanatologia), Wilma da
Costa Torres foi pioneira. Tal assunto, além de presente no seu cotidiano
profissional, foi tema de estudos, tendo diversas publicações sobre o
assunto (KOVÁCS, 2004). Evidencia-se assim, a importância e a
relevância de se estudar tal assunto, especialmente no que tange aos
profissionais que trabalham em hospitais.
Apesar de a morte ser reconhecida como natural, universal e inevitável, o
homem é incapaz de imaginar a sua própria morte (COSTA, 1999) e, por
isso, na sociedade, a maioria das pessoas tende a evitá-la (KÜBLER-
ROSS, 2005). Tal situação, segundo Silva (2003), contribui para que
ocorra um despreparado para lidar com a finitude humana.
A morte é um acontecimento que faz parte do desenvolvimento e está
presente no cotidiano de todos (COMBINATO; QUEIROZ, 2005), porém
está inserida em um contexto sócio histórico de negação (QUINTANA;
ARPINI, 2002). Vários são os motivos para tal negação. Segundo Bellato e
Carvalho (2005) através dos novos conhecimentos e técnicas adquiridos,
a medicina busca ludibriar a morte, sendo considerado um fato natural
somente na velhice. O modo como a nossa finitude foi e é encarada pelo
homem ao longo do tempo é o tema de um estudo realizado por Araujo e
Vieira (2001), no qual as autoras relatam que na Antigüidade, a morte era
tratada com certo romantismo, embora os mortos fossem temidos e se
procurava mantê-los afastados. Já na Idade Média, o homem convivia de
forma mais harmoniosa com a morte, sem grandes temores e era
permitido que as crianças participassem dos seus rituais. Por fim, nos
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tempos modernos, a morte passou a ser negada e a ser vista como
representação de fracasso e interrupção nos projetos de vida.
Cada vez mais autores procuram mostrar que a morte pode ser encarada
como um acontecimento que faz parte do ciclo vital de todos os seres
(PAZIN-FILHO, 2005; TONETTO; RECH, 2001) e, assim, enfrentá-la de
forma menos temerosa. Cabe aos profissionais de saúde a
responsabilidade de discutir e refletir sobre este assunto para que possam
oferecer subsídios a quem necessite (SOUZA; BOEMER, 2005). Para
profissionais de saúde ou futuros profissionais o assunto abordado neste
texto é uma constante, seja por situações vivenciadas ou pela iminência
delas. Kovács (1989) lembra que a morte deve ser uma preocupação para
a psicologia, embora possa ser evitada em nossa sociedade, a mesma
negação não deveria ocorrer por parte do psicólogo.
Para o psicólogo hospitalar tal tema é ainda mais presente, fazendo-se
necessário o conhecimento sobre o modo como as pessoas reagem
perante a morte. Embora a profissionalização na área da saúde esteja
voltada para uma ênfase na vida (FIDELIS, 2001), a morte sempre estará
presente, necessitando preparo para o auxílio àqueles que a vivenciam.
Assim, é fundamental que o profissional saiba como essa situação é
compreendida durante as diferentes etapas da vida.

A compreensão da morte ao longo do desenvolvimento humano

O ser humano se diferencia por ser o único a ter consciência sobre sua
finitude (MELO; VALLE, 1999), sendo que tal percepção se inicia na
infância, definida como o período que se estende dos zero aos 12 anos de
idade incompletos (PAPALIA; OLDS, 2000). Nunes, Carraro, Jou e Sperb
(1998), realizaram estudo que teve como objetivo investigar como as
crianças elaboram o conceito de morte. Partindo de uma perspectiva
desenvolvimental cognitiva, foi resgatada a teoria de Jean Piaget para
embasar a pesquisa. Os conceitos de irreversibilidade (alguém que morre
não pode voltar a viver), não-funcionalidade (com a morte cessam as
funções vitais) e universalidade (todos os seres-vivos morrem) são
aspectos fundamentais para a obtenção do conceito de morte. Esses são
adquiridos no estágio operatório concreto da teoria de Jean Piaget, no
qual a criança passa a entender a reversibilidade das coisas que a cercam.
Conhecendo a reversibilidade, a criança consegue conceber a
irreversibilidade.
Em pesquisa realizada com crianças de dois a cinco anos vítimas de
câncer, Almeida (2005) constatou que as crianças possuíam inabilidade
para compreender a morte como sendo irreversível. Porém, no estudo de
Nunes, Carraro, Jou e Sperb (1998), realizado com seis crianças entre seis
e sete anos que foram investigadas através de entrevistas e desenhos, foi
possível verificar que tais crianças mostraram compreender a
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ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 9, N.2, P. 480-492, 2° SEMESTRE DE 2009
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irreversibilidade da morte. Cabe salientar que além da influência do
desenvolvimento cognitivo, a experiência da criança com relação à morte
e as representações formais à disposição na cultura também estão
relacionadas com a elaboração do conceito de morte. Tais fatos podem
explicar a diferença constatada entre os estudos.
Torres (2002) buscou investigar a aquisição do conceito de morte em
crianças portadoras de diferentes patologias, comparando-as com crianças
sadias de mesma condição sócio-econômica e mesmo nível cognitivo.
Através do estudo, concluiu-se que há relação entre a aquisição do
conceito de morte e o nível de desenvolvimento cognitivo da criança.
Sendo assim, podemos perceber, dentre os outros fatores relacionados, a
importância do desenvolvimento cognitivo para a compreensão da morte,
fazendo-se necessária a adequação das informações sobre a morte para o
entendimento infantil. Tal fato é citado por Gauderer (1987), pois muitas
vezes os adultos tendem a dar-lhes respostas inadequadas, tais como
“papai do céu levou” ou “foi fazer uma viagem muito longa” (ASSUMPÇÃO,
2001, p. 12).
Segundo Mazorra (2001), a morte de um genitor se caracteriza como uma
das experiências de maior impacto sobre a criança, podendo desencadear
quadros psicopatológicos na idade adulta. Em pesquisa realizada,
Zavaschi et. al., (2002), foram encontrados vários estudos que
evidenciaram a associação entre trauma na infância, tais como a perda de
vínculos afetivos devido à morte de pais ou de irmãos, e depressão na
vida adulta. Franco e Mazorra (2007) realizaram estudo com cinco
crianças de três a oito anos investigando as fantasias dessas crianças e
sua relação com o processo de elaboração e luto de seus genitores. O
estudo obteve a conclusão de que o sentimento de desamparo predomina
na mobilização de fantasias, uma vez que a morte de um ou ambos os
pais gera sentimentos de ameaça à sobrevivência física e emocional da
criança. Dentre as fantasias, estavam a de culpa pela morte do pai/mãe
que tende a dificultar o processo de elaboração dessa perda. Finalmente,
o estudo conclui que através das fantasias é possível conhecer o processo
de elaboração do luto, além da compreensão de sentimentos,
comportamentos e sintomas.
Após a infância, chegamos à adolescência, etapa na qual o jovem se
depara com uma importante tarefa desenvolvimental, a construção de sua
identidade. Nessa etapa da vida o jovem entende o significado da morte,
porém, habitualmente não pensa muito sobre este fato. Rodriguez (2005),
evidencia que os adolescentes possuem dificuldade para pensar na
possibilidade de perder pessoas próximas, chegando a não perceber sua
morte como possível, provavelmente pelos seus sentimentos de
imortalidade e onipotência. Rodriguez e Kovács (2005) relatam que o
jovem se encontra no auge da vida, buscando seu lugar no mundo e
consolidando sua identidade, não sobrando espaço para pensar em sua

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finitude. Por outro lado, Günther (1996), buscando conhecer as
preocupações de adolescentes entre 11 e 18 anos, verificou que 50% ou
mais dos jovens se preocupava, entre outros, com a morte de algum
familiar e com a possibilidade da perda de um amigo (a) próximo (a).
O fato de não pensarem muito sobre o assunto não impede que os
adolescentes percebam as características essenciais da morte, estando
somente afastados emocionalmente dela (KOVÁCS, 1992). Isso porque
estão passando por diversas mudanças e sentimentos acreditando estar
distante da mesma... (RODRIGUEZ; KOVÁCS, 2005). Outro fator que
colabora para que os adolescentes em sua maioria não pensem no
assunto morte é o fato de acreditarem que são invulneráveis. Elkind
(1984) nomeia tal pensamento como fábula pessoal, ou seja, o
pensamento que o adolescente tem de não ser vulnerável aos
acontecimentos vitais. Tal pensamento fica evidente no estudo realizado
por Rodriguez e Kovács (2005), no qual as autoras nos dizem que
comportamentos como o uso de drogas, direção arriscada levando a
acidentes envolvendo adolescentes podem ser explicados pela
necessidade de viver a vida intensamente e, assim, desafiar a morte.
Domingos e Maluf (2003) realizaram estudo com adolescentes,
investigando as experiências de perda e luto nos mesmos. As reações
iniciais (na ocasião da notícia do ocorrido) descritas foram: choque,
descrença, susto ou desespero. No tocante às reações a perdas repentinas
(não esperadas), as reações indicadas pelas respostas dos adolescentes
foram: tristeza, ressentimento, dor, autocomiseração, desespero,
resignação, desorientação, culpa por não ter podido evitar o ocorrido,
raiva e revolta contra o destino. Já as reações descritas para as situações
de perda esperada foram: raiva, isolamento e atitudes agressivas.
Salientamos, conforme o estudo, que a reação depende em grande parte
da proximidade com a pessoa e as circunstâncias da morte. Além disso,
acreditamos que existam reações que podem estar presentes em qualquer
tipo de morte (esperada ou não), tais como: tristeza e dor.
Após ter passado pela adolescência, o ser-humano entra na idade adulta,
etapa na qual a morte vai além dos conceitos de universalidade e
irreversibilidade. Nessa etapa, há um significado social, pois a morte de
uma pessoa acarreta a mudança de papéis e relações na família. Sempre
que uma pessoa idosa vem a falecer, todos os integrantes da família se
movimentam uma etapa acima no sistema de gerações (BEE, 1997), além
de aproximar o adulto de sua própria morte (BROWN, 2001).
No início da idade adulta os indivíduos concluem seus estudos e estão em
meio a suas carreiras profissionais, seus casamentos e, provavelmente,
possuem filhos. Estão ansiosos para viver tudo aquilo que planejaram e
para o qual vinham se preparando. Assim, a morte pode ser encarada
como motivo de frustração. Isso porque a morte nesta etapa faz com que
o adulto se depare com sua finitude em um momento no qual os

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indivíduos lidam com questões do início da idade adulta, tais como os
profissionais e familiares (PAPALIA; OLDS, 2000). Em estudo realizado
com adultos jovens (20 a 30 anos), Zilberman (2002) investigou a
concepção de morte no processo de individuação. Através deste estudo,
foi possível concluir que existe evitação ou temor acerca do tema nos
adultos jovens que se sentiam mais apegados ou dependentes de sua
família. Além disso, constatou-se que a morte de alguém próximo poderia
dificultar o processo de individuação que os adultos jovens vivenciam. Tal
dado evidencia o impacto que a morte tem sobre o ser humano.
Por outro lado, as perdas da idade adulta (não somente a morte), podem
trazer certo crescimento. Melo, Costa, Cardarelli e Moraes (2004)
investigaram a elaboração de perda em mulheres adultas saudáveis,
concluindo que diante das perdas houve possibilidade de fortalecimento,
constituindo-se como uma forma de crescimento, o qual depende da
passagem normal pelo luto. Diante destes dados, os quais evidenciam
formas diferentes de enfrentamento diante da morte, podemos perceber o
quanto tal acontecimento é gerador de diferentes reações, cada uma
acompanhando uma etapa do processo de luto. Desde o temor e evitação
do tema diante da ocorrência de morte até o fortalecimento advindo da
situação, é notável o processo gradativo de assimilação da situação e a
possibilidade de convivência com as perdas durante o desenvolvimento
humano.
Passada a idade adulta, o ser humano se depara com a terceira idade,
etapa do ciclo vital na qual há um número maior de perdas, colaborando
para que o idoso pense mais sobre sua finitude (KOVÁCS, 2005). A perda
de amigos e familiares, perda da sua ocupação, de parte de sua força
física, redução do aparelho sensório e, em alguns casos, perda do
funcionamento cerebral são comuns nesta idade (SILVA; CARVALHO;
SANTOS; MENEZES, 2007). Em decorrência da terceira idade ser uma fase
constituída por perdas, a morte nessa idade, conforme mencionam
Lunardi e Lunardi Filho (1997) pode ser vista como natural e aceitável.
Diante disso, é possível perceber que o tema morte é algo que acompanha
freqüentemente os indivíduos de terceira idade. Bee (1997) nos diz que
na velhice as pessoas tendem a pensar e falar mais sobre o assunto se
comparadas a pessoas de qualquer outra faixa etária. Porém, tal fato não
quer dizer que a temam menos do que pessoas de outras idades
(ROSENBERG, 1992). De acordo com tais evidencias, pode-se pensar que
a possibilidade eminente de morte que acompanha indivíduos nesta etapa
do ciclo vital pode, em alguns casos, ser geradora de angustia. Segundo
Rosenberg (1992, p. 70), “nosso medo da morte não caminha linearmente
com nossa idade”. Frumi e Celich (2006) realizaram uma pesquisa com
cinco idosos acima de 60 anos com o objetivo de conhecer o significado do
envelhecer e da morte para os idosos. Através do estudo, as autoras
puderam perceber que os idosos encaram a morte como uma certeza,

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sendo que tal forma de encarar o assunto parece estar alicerçada em
crenças e valores espirituais, que trazem para o idoso a confiança de uma
vida após a morte. Sendo assim, é notável a importância de alguns
aspectos, tais como a espiritualidade para uma vivência menos temerosa
acerca da morte.
Silva, Carvalho, Santos e Menezes (2007) realizaram um estudo com o
objetivo conhecer a vida do idoso após a morte de um amigo asilado. A
pesquisa foi realizada com 15 idosos residentes em asilos permitindo
concluir que diante da morte de um companheiro, os idosos se disseram
chocados, descrentes, amedrontados, enfurecidos e tristes. Além disso,
diversos sentimentos foram descritos, tais como sensação de vazio, falta
do amigo, saudade, estarrecimento, tristeza, ansiedade, raiva, lembrança
e solidão. O estudo também evidenciou que a morte de um amigo pode
representar aprendizado, uma vez que os idosos entrevistados citaram a
dor, o sofrimento e a agonia como grandes momentos de aprendizado.
Mais uma vez, podemos perceber a diversidade de reações diante da
morte e que estas, independentemente da idade do indivíduo tendem a
ter aspectos em comum, tais como a tristeza e o sofrimento.
Brown (2001) lembra que quanto mais tarde a morte ocorrer no ciclo de
vida, menor será o estresse associado aos familiares e pessoas próximas,
pois a morte numa idade avançada é encarada como algo natural. Porém
a autora lembra que, mesmo que a morte de um idoso seja vista como
parte integrante do ciclo de vida, isso não irá acontecer sem nenhum grau
de estresse. Sem duvida, um fato como a morte, seja ela em qualquer
fase do desenvolvimento humano, é vivenciado com tristeza e estresse.
Tal fato pode ser explicado em parte pelo despreparo que nossa sociedade
tem em lidar com o assunto, necessitando assim, preparo profissional
para auxílio a quem necessite.

Conclusões e Considerações Finais

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Com a realização deste estudo, buscou-se um entendimento geral da
compreensão da morte ao longo do desenvolvimento humano. Através da
leitura de diversos artigos e a busca por embasamento teórico em livros,
foi desenvolvido um quadro explicativo, englobando as quatro etapas do
desenvolvimento humano abordadas, bem como os possíveis fatores que
exercem influência nesta compreensão.
Conclui-se que as crianças até certa idade não são capazes de
compreender os aspectos centrais da morte, e a importância de
disponibilizar informações verdadeiras e adequadas ao entendimento
infantil. Informações verdadeiras no sentido de não ocultar da criança a
ocorrência da morte de alguém próximo, mas sim tornar o fato
compreensível à linguagem da criança. Na adolescência, evidenciamos que
o assunto parece ser ignorado, uma vez que o jovem se considera novo
demais para pensar nesse assunto, acreditando ser invulnerável. Na vida
adulta a possibilidade da morte se concretiza como algo realmente
possível de acontecer, tendo um significado social atribuído. Porém, é
somente na velhice que a morte é encarada como natural. Sendo assim,
acredita-se que é possível ver a compreensão que os indivíduos têm
acerca da morte em um continuum, iniciando pelo desconhecimento
infantil, passando pelo entendimento no final da infância, pela crença
adolescente de que tal evento não venha a ocorrer, seguido da

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compreensão adulta da morte como uma possibilidade real, finalizando
pela naturalidade com a qual o idoso tende a encarar o assunto.
Percebe-se também, a influência de diferentes variáveis sobre a
compreensão que se tem da morte. Os níveis de negação, evitação,
estresse e temor podem contribuir para o distanciamento do assunto, bem
como os avanços médicos, os fatores culturais e os lutos vivenciados ao
longo do desenvolvimento. Todas essas variáveis parecem estar
envolvidas no modo como se encara este assunto. Diante disso, é notável
a inter-relação de diversos fatores quanto à compreensão da morte. Neste
ponto reside a necessidade de se estudar tal assunto, conhecendo cada
vez mais o papel de cada um destes fatores. Dessa forma, acredita-se que
os profissionais da área da saúde poderão estar preparados para tal
situação, podendo oferecer o cuidado necessário nestas ocasiões.
Com relação aos estudos pesquisados para a composição deste artigo, é
notável a predominância da abordagem qualitativa empregada na coleta
de dados. Os participantes da pesquisa geralmente foram pacientes
hospitalizados, familiares ou pessoas que haviam enfrentado situações de
perda e luto. Dessa forma, acredita-se que para a realização de pesquisas
com a temática da morte faz-se necessário o extremo cuidado e zelo para
com os participantes. O assunto morte, como é possível concluir neste
estudo, mobiliza diversos sentimentos e estes precisam de um apoio.
Assim, sugere-se que sempre seja oferecido a estes participantes o
acompanhamento necessário, especialmente, o acompanhamento
psicológico.
Faz-se necessário que haja preparo constante para a atuação profissional.
Tal preparo somente é obtido através de estudos e conhecimentos
específicos sobre o tema. Sugerimos a possibilidade, haja vista a
necessidade, de os cursos voltados à área de saúde oferecerem subsídios
com relação ao tema. De acordo com Boemer, Veiga, Mendes, Valle
(1991), há a necessidade de se educar os profissionais de saúde para o
tema morte, uma vez que essa é uma constante em seu ambiente
profissional.

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Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Rio Grande do Sul, RS.

Endereço para correspondência


Jean Von Hohendorff
Faculdades Integradas de Taquara, Curso de Psicologia, Av. Oscar Martins Rangel, 4500
(RS 115), Taquara, RS, Brasil. CEP: 95600-000
Endereço eletrônico: jhohendorff@gmail.com
Wilson Vieira Melo
WP Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental, Rua Santa Cecília, 1556, Porto
Alegre, RS, Brasil. CEP: 95600-000
Endereço eletrônico: melo@terapiascognitivas.com.br
Recebido em: 24/10/2008
Aceito para publicação em: 04/03/2009
Editor responsável: Adriana Benevides Soares

Notas
*
Doutorando em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS

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As representações da morte e do luto no


ciclo de vida

Representations of death and mourning in the life cicle

Henrique Salmazo da Silva


Mariana Nakajo Zemuner
Pedro Henrique da Silva Rodrigues
Tatiane Barbosa de Andrade
Vanilda Martiniano
Deusivania Vieira da Silva Falcão

RESUMO: O objetivo deste estudo foi investigar as representações acerca da morte e do luto
em diferentes grupos etários. Foram entrevistados 22 sujeitos, incluindo crianças, adultos
jovens, adultos de meia-idade e idosos. Ao grupo de crianças, solicitou-se a elaboração de
desenhos, e os demais participantes foram entrevistados, sendo os depoimentos registrados e
analisados de forma qualitativa sob a análise temática de Minayo (1994). A representação da
morte e do luto foi heterogênea. Para as crianças, a morte foi caracterizada como um evento
não-normativo, representada pela violência urbana e transgressão das normas sociais. Os
adultos jovens conceberam a morte como algo transcendente e o luto como a expressão da
perda. Os adultos de meia idade, por outro lado, sinalizaram o respeito ao processo de luto e
se referiram à morte como finitude, perda de esperança. Já os idosos destacaram a dimensão
da própria finitude.
Palavras-chave: Morte; Luto; Ciclo de vida; Adultos; Idosos.

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
186 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

ABSTRACT: The aim of this study was to investigate representations of death and mourning
in different age groups. We interviewed 22 individuals, including children, young adults,
middle-aged adults and seniors. The group of children, requested the preparation of drawings
and other participants were interviewed, and the statements recorded and analyzed
qualitatively under the thematic analysis of Minayo (1994). The representation of death and
mourning was heterogeneous. For children death process was characterized as a non-
normative event, represented by urban violence and transgression of social norms. The young
adults conceive death as something transcendent and mourning as an expression of loss. The
middle-aged adults, however, signaled respect for the grieving process and referred to death
as finitude, loss of hope. Since the older adults have highlighted the extent of its own finitude.
Keywords: Death;, Grief; Life Cycle; Adults; Older Adults.

Introdução

A consciência da perda e do processo de morrer são atributos essenciais da


humanidade. Por muitos anos, civilizações e filósofos ocidentais se debruçaram em refletir
sobre a temporalidade da vida. A busca pela fonte da juventude eterna, pelo milagroso “el
dorado” e pelas ervas milagrosas que tinham o incrível poder da imortalidade fizeram parte
dos inúmeros mitos e narrativas acerca da possibilidade de remediar a morte (Birren, 1961;
Birren & Schroots, 2001).
Por se tratar de um processo inevitável, a ideia de morte é quase sempre associada a
uma sentença que ameaça o self. Morrer é lidar com a impotência e a falta de controle. Nessa
direção, o processo de morrer evoca medo e emoções negativas por se tratar de uma entidade
desconhecida, configurando-se como parte do destino humano, desafiando a imagem
narcísica, as condutas e as crenças inconscientes de imortalidade (Doll & Py, 2007; Freud,
1915/1917; Pessini, 2001; Py, 2004). Através de técnicas de rejuvenescimento, o corpo pode
ser transformado, mas não se pode evitar que ele morra. Assim sendo, representa, em certa
medida, uma tragédia que impõe a separação definitiva do ciclo vital, o que cria, para muitos,

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
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FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 187

angústia, sofrimento e a reflexão sobre questões como, por exemplo, qual o propósito da
existência humana? Após a morte, não há mais vida?
Nessa perspectiva, a dimensão da finitude e da morte assume implicações sobre
diversos contextos, em especial ao longo do curso de vida, nos ambientes familiares,
assistenciais, de prestação de cuidados e nos próprios veículos de comunicação, divulgando
com certa banalidade os óbitos e os horrores da violência urbana (Py & Train, 2006; Wright
& Nagy, 1994). Segundo Souza (2007), é comum encontrar, nos meios de comunicação em
massa, cenas de morte que denotam imediatismo, comoção e estimulam emoções variadas
entre os telespectadores. Para o autor, vivemos hoje em um paradoxo: ao mesmo tempo em
que a morte encontra-se amplamente divulgada através de filmes e jogos, ela também pode ser
sucumbida entre as instituições, hospitais e asilos.
A morte e o processo de morrer durante séculos vêm se modificando de acordo com as
culturas e as necessidades dos homens em relação aos papéis sociais a que a ele se incorpora.
O historiador francês Philippe Ariès escreveu sobre o tema num livro denominado História da
Morte no Ocidente e depois em dois volumes intitulados O Homem diante da Morte. Ariès
(1977), partindo de registros históricos (fontes literárias, litúrgicas, iconográficas,
testamentárias e epígrafas) apresentou as diferentes formas de se apropriar e ritualizar a
morte. De acordo com o autor, na Idade Média a morte era concebida como uma despedida,
espécie de cerimônia pública em que o moribundo esperava o perdão dos companheiros.
Todos (ex.: parentes, amigos, vizinhos e inclusive as crianças) podiam entrar no quarto e os
rituais de morte eram cumpridos com manifestações de tristeza e de dor. O maior temor era
morrer repentinamente, sem as homenagens cabidas, denominada morte domada.
Em contrapartida, a morte de si mesmo, no final da Idade Média, em torno do final do
século XV, representa a morte como algo repulsivo aos olhos. Passou-se, então, a se
utilizarem caixões de madeira, para esconder o corpo. Nesse período, assim como apresentou
Ariès (1977), o conceito de vida no cadáver, vida na morte, postulava que o indivíduo morto
tinha o poder de curar pessoas doentes, através de secreções do morto, unhas e cabelos, sendo
usados na confecção de remédios. O medo de ser enterrado vivo eclodiu vários ritos e
cerimônias para atrasar os enterros.
Já a morte do outro apresentava uma visão romantizada da morte, surgindo com ênfase
nas representações literárias e artísticas do romantismo no século XIX. Nesse momento, a

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
188 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

morte apareceu como forma de religiosidade e espiritismo, na qual se desejava a fuga, o


reencontro com pessoas queridas, mas, também, um momento de elevação do espírito.
De acordo com o autor supracitado, a morte no século XX assumiu a figura de morte
invertida, tornando-se vergonhosa, algo que deveria ser evitado e que de preferência ocorresse
nos hospitais, instituições e no isolamento. Foi destacada a supressão do luto, em que as
pessoas buscam esconder a manifestação ou a vivência da dor. Para Doll e Py (2007), apesar
de visões contrárias e historiadores que sugerem que todos os modelos históricos e societais
concebem a morte com temor e sofrimento, atualmente o processo de morrer é concretizado,
muitas vezes, por um acordo realizado entre a família e os profissionais.
Este fenômeno, assim como denominou Ariès, pode ser compreendido como a
“domesticação da morte”, tornando o cuidado e o processo de morrer algo público, na qual a
família exerce apenas o papel de expectadora, ou coadjuvante no processo de tomada de
decisões. Tal processo restringe aos familiares e aos doentes o direito de cuidar e ser cuidado
por pessoas próximas, ao mesmo tempo em que cria sentimentos de impotência, tristeza,
frustração e dor que abalam o princípio de onipotência da equipe de saúde, frequentemente
responsabilizados pelo processo de cura dos pacientes (Pessini, 2001; Py, 2004).
Na atualidade, a Tanatologia, o estudo da morte e de seus fenômenos associados, tem
despertado o interesse de alunos e profissionais que participam de cursos e programas de
educação continuada, favorecendo reflexões acerca de como lidar com a morte. Mas nem
todos possuem essa oportunidade, ou temem, e não gostariam de participar de experiências
dessa natureza. E mesmo aqueles que participam ou estudam sobre o tema podem apresentar
dificuldade de encarar a própria morte. Por exemplo, cita-se a escritora Susan Sontag que
escreveu livros sobre doença e morte, tais como, A Doença como Metáfora, e o romance
Death Kit. Ela morreu de câncer, aos 71 anos, sem conseguir aceitar sua condição. Seus
últimos meses foram descritos pelo filho David Rieff, em Nadando em um Mar de Morte –
Memórias de um Filho, no qual mencionou o fato de ela ter sido uma visitante inveterada de
cemitérios e obcecada pela morte, ao mesmo tempo em que tinha pavor desta e não suportava
falar a respeito.
Além da morte por si, vale mencionar que a perda de uma pessoa amada é uma das
experiências mais dolorosas que o ser humano pode sofrer. É difícil para quem a vivencia,
como também para quem a observa, ainda que pelo fato da impotência para ajudar. Por sua
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 189

vez, a palavra luto é utilizada para indicar uma variedade de processos psicológicos
provocados pela perda de uma pessoa amada, quaisquer que sejam os seus resultados. Para a
pessoa enlutada, apenas o retorno da pessoa perdida pode favorecer o verdadeiro conforto
(Bolwby, 1985/2004).
Dentre vários aspectos, deve-se levar em consideração que o processo morrer e a
experiência do luto são experiências pessoais, não existindo um padrão e uma sequência
considerada normal de recuperação. De acordo com Kovács (1992, p. 50), o processo de luto
só estará finalizado, quando existir “a presença da pessoa perdida internamente em paz”,
havendo “um espaço disponível para outras relações”, sendo, portanto, necessário um tempo
para vivenciar o luto, e não para negá-lo.
Partindo dessas informações, os objetivos do presente estudo foram investigar as
representações acerca da morte e do luto em diferentes grupos etários. Dentre outros fatores,
considera-se este tema relevante na medida em que existem poucos profissionais que estão
preparados para lidar com a própria morte e com a morte de seus pacientes. Desse modo,
busca-se contribuir com reflexões acerca da assistência psicogerontológica, apresentando
resultados que possam contribuir para a melhora da atenção oferecida aos idosos, aos
familiares e à população em geral.

Materiais e Método

Participantes

A amostra foi não-aleatória e obtida por conveniência. Foram entrevistados 22


sujeitos, divididos entre seis crianças, com idade variando entre 8 e 12 anos; cinco adultos
jovens, com idade entre 21 a 35 anos; cinco adultos de meia-idade, com idade entre 40 e 59
anos; e seis adultos idosos, com idade superior a 60 anos. Todos possuíam nível
socioeconômico médio e residiam no município de São Paulo (SP). O critério de inclusão foi
a idade cronológica dos sujeitos e já terem ouvido (no caso das crianças), ou passado por
alguma experiência de morte envolvendo amigos e familiares (maior projeção entre os grupos
de adultos jovens, de meia-idade e idosos). A priori, ressalta-se que foram selecionadas
crianças de 8 a 12 anos por apresentarem condições cognitivas necessárias para compreender
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
190 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

as dimensões básicas do processo de morrer (universalidade, irreversibilidade, causalidade e


não-funcionalidade).
Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, segundo as
diretrizes do MS 196/96 e de acordo com a supervisão de uma equipe de docentes do curso de
Gerontologia da EACH/USP. Respeitaram-se os procedimentos éticos de pesquisa e, no caso
das crianças, a participação esteve condicionada à autorização e assinatura dos responsáveis.

Instrumentos

Ao grupo de crianças, solicitou-se a elaboração de desenhos que representassem


objetos, figuras ou eventos que lembrassem a morte e a perda de algum ente querido. Nos
demais grupos, foram realizadas entrevistas abertas com roteiro semi-estruturado.

Forma de Análise dos Dados

Os desenhos e as entrevistas foram analisados qualitativamente. Para as entrevistas,


optou-se pela análise temática de Minayo (1994). Esse tipo de análise possibilita compreender
a teia de significados que um determinado evento pode representar, extraindo informações
valiosas sobre os atributos pessoais, culturais, sociais e sobre as crenças que constroem a
complexidade e multifatoriedade dos fenômenos. Os dados foram categorizados e analisados,
valorizando o depoimento dos sujeitos como ponto de partida para compreensão dos temas
estudados.

Procedimentos para Coleta dos Dados

Neste estudo foram seguidos os parâmetros éticos estabelecidos para o


desenvolvimento de pesquisas com seres humanos. Os participantes do estudo foram
convidados através de contatos informais e breve explicação sobre o tema proposto. As
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 191

entrevistas foram individuais e realizadas na residência dos sujeitos. No caso do grupo de


participantes idosos, as entrevistas foram realizadas em casas de repouso e instituições de
longa permanência (ILPIs). No contato face a face, buscou-se estabelecer um rapport, com o
intuito de facilitar a relação entrevistadora/entrevistada, explicando-se, de modo amplo, os
objetivos gerais da pesquisa e como esta seria aplicada.
Utilizaram-se gravadores para registrar o depoimento dos adultos e anotações para
registrar as explicações das crianças sobre o desenho que confeccionaram. Ao narrar os
significados do desenho, os pesquisadores abriram espaço para as crianças explicarem de
forma livre os símbolos e significados, evitando a elaboração de perguntas sugestivas e que
pudessem interferir nos itens e significados evocados. Para preservar a identidade dos
participantes, seus nomes verdadeiros foram substituídos por nomes fictícios, representados
pelos personagens divinos da mitologia greco-romana.

Resultados e Discussão

A seguir, serão apresentadas figuras desenhadas pelas crianças e frases mencionadas


por adultos jovens e de meia-idade e idosos. Tais conteúdos serão discutidos à luz do
referencial teórico obtido através da revisão de literatura.

A Morte pelo olhar das crianças

As investigações acerca da compreensão da morte pela criança, que se iniciaram com


o trabalho pioneiro de Schilder e Wechsler (1934) e prosseguiram com os estudos de Nagy
(1959), aumentaram na década de 1960, e se intensificaram nas décadas de 1970 e 1980,
chegando a apresentar várias informações sobre o assunto. Apesar de existirem diferenças na
percepção de estudiosos em relação ao conceito de morte, foi sinalizada a importância de que
este seja pesquisado não como um conceito único, mas como um conceito complexo,
multidimensional, que abarca subconceitos, sendo a universalidade, a não-funcionalidade e a
irreversibilidade os três componentes mais investigados (Torres, 2002).

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
192 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

A literatura também aponta que os princípios do desenvolvimento, tais como descritos


por Piaget, são aplicáveis à ideia de morte. As crianças, desde uma idade muito precoce, já
possuem uma representação da morte que vai gradualmente evoluindo, paralelamente ao
desenvolvimento cognitivo (Torres, Guedes, Torres & Ebert, 1991). Todavia, Torres (2002)
destacou que, na maioria dos estudos, apesar da relação encontrada entre o desenvolvimento
cognitivo e o conceito de morte, ainda existe insuficiência na explicação sobre o motivo de
determinada etapa piagetiana ser um pré-requisito para que um nível particular de
compreensão de conceitos abstratos, como o de morte, seja alcançado.
Contudo, mesmo que, em razão de seu nível de desenvolvimento cognitivo, as
crianças ainda não consigam verbalizar o sofrimento advindo com a morte, o trabalho
psicanalítico revelou que estas sofrem o luto, e já são capazes de perceber o que acontece à
sua volta, inclusive a morte. Esta percepção pode mostrar-se simbolicamente por meio de
atividades expressivas como o jogo e o desenho (Aberastury, 1984). Nessa direção, as
crianças participantes deste estudo expressaram, por meio de desenhos livres, os significados
da morte e a representação do processo de morrer. Segue adiante, a figura desenhada por
Métis.

Figura 1
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 193

Observando o desenho realizado por Métis, é possível visualizar a presença de um


personagem que representa simbolicamente a morte, estando vestido de capuz, vestes longas e
pretas. Ao centro do desenho aparece a inscrição: “Morte”. Do outro lado do desenho
localiza-se um outro personagem que está submetido à forca. No topo da forca, surgem as
inscrições: “ladrões”, “forca/morte”. Por meio do discurso proferido pela criança após ter
realizado o desenho, foi detectado que a morte simboliza uma punição aos ladrões, pessoas
que violam as leis e sofrem as consequências, como ir para a prisão nas sociedades ocidentais
e sofrer algum tipo de penalidade física pelos delitos cometidos.
A figura do ladrão também foi apresentada no desenho de Estige (Figura 2, a seguir).
Nesta, verificou-se que a representação da morte ocorre no assalto a um banco, em que polícia
e ladrões trocam tiros e outros personagens gritam: “dinheiro” e “pega ele [sic], pega o
ladrão”. Quando confeccionou o desenho, Estige lembrou-se e verbalizou sobre um episódio
amplamente divulgado na mídia, na qual uma menina ficou paralítica ao receber tiro de uma
bala perdida em frente a um banco em que esperava um ônibus na cidade de São Paulo (SP).

Figura 2

Conforme discutiu Santos (2007), ao contrário de ser um fenômeno prioritariamente


evitado, a mídia se encarrega de atribuir à morte notas de sensacionalismo, comoção,
identificação com os casos e cenas de uma realidade cruel. Outrossim, no desenho de Cratos

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
194 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

(Figura 3, a seguir), a representação da morte revelou-se por meio da presença de um


incêndio, em que muitas pessoas buscavam correr de um prédio em chamas. É visível nos
desenhos de Cratos, Estige e Métis a representação da morte presente no outro (Kovács,
1992), recebendo a atribuição de padrões sociais, de eventos que representam perigo eminente
e situações que podem quebrar vínculos afetivos.

Figura 3

Assim como apresentou Bowlby (1993), as crianças nas primeiras fases do


desenvolvimento, apesar de não compreenderem plenamente os atributos centrais da morte e
do processo de morrer, já são capazes de vivenciar a perda de vínculos afetivos e o desamparo
como experiências temerosas e negativas. Para esse autor, as crianças podem manifestar a
experiência do luto como resposta à ruptura e à quebra desses vínculos que apresentariam
valor de sobrevivência. Nesse sentido, as perdas poderiam ser avaliadas como desamparo,
desencadeando sentimentos de ansiedade pela separação e possivelmente pânico. O desenho
de Bias (Figura 4) ilustrou o processo de ritualização da morte, mostrando a forma como a
personagem representou a perda de um ente querido, provavelmente o marido. Seu filho, ao
lado esquerdo, agarra-se a suposta mãe e chora a morte do pai:
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 195

Figura 4

De acordo com Kovács (1992), o não esclarecimento à criança do falecimento de um


ente querido pode levá-la a sentimentos de culpa em virtude de seu pensamento mágico e de
sua onipotência, por, talvez, ter desejado, em alguma situação, essa morte, ou por ter
vivenciado conflitos com a pessoa. Tal sentimento pode ser minimizado ou até evitado, se for
comunicada à criança a causa real dessa morte.
Nos desenhos de Niké e Zelo (Figuras 5 e 6, respectivamente), a representação da
morte foi desenhada e verbalizada como uma entidade particular da pessoa que está
morrendo. No desenho de Niké, apareceu a inscrição “a morte é uma pessoa morrendo” e
relatou que ao desenhar, lembrou-se de um caso transmitido por uma reportagem televisiva
em que a criança ingeriu um copo de veneno, morrendo em seguida. Já Zelo relatou a
presença de um homem caindo de um prédio, tentando suicídio. Interessante atentar que em
ambos os desenhos, as crianças não utilizaram cores durante a ilustração.

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
196 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

Figura 5

Figura 6

Analisando os dados de um serviço de saúde mental, Santos (2006) detectou que a


queixa de depressão e/ou tentativa de suicídio entre crianças e adolescentes se concentrou em
10,9% dos casos atendidos. Os pacientes com queixa de depressão e suicídio apresentavam o

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 197

seguinte perfil: ter mais de seis anos de idade e, entre os indivíduos de seis a onze anos de
idade, ser do sexo feminino. Os dados de Santos (2006), apesar de restritos ao número
amostral de 129 sujeitos, confirmaram as estatísticas de pesquisas epidemiológicas que
sugerem que as meninas apresentam maior projeção de depressão e/ou tentativa de suicídio,
enquanto os meninos, maior projeção de agressividade e comportamentos agressivos. A
priori, neste estudo, as representações referenciadas por Niké e Zelo podem suscitar a
necessidade de aprofundamento das representações de morte e luto e de que modo essas
questões estão relacionadas ao bem-estar subjetivo dessas crianças.
Percebeu-se que as representações da morte entre as crianças relacionaram-se com o
desenvolvimento cognitivo e afetivo-emocional delas. Entre 6 e 8 anos de idade já é possível
compreender a morte como um evento irreversível (sem possibilidade de volta), universal
(ocorre em todos os seres vivos), que possui relações de causalidade e não-funcionalidade
(perda de funções biológicas e físicas) (Borges et al., 2006). Os dados deste estudo também
corroboraram com os resultados da pesquisa de Nunes et al. (1998), realizado com crianças de
6 e 7 anos. As autoras detectaram que a forma como a morte é apresentada pelas pessoas e
pelos meios de comunicação, especialmente a televisão, é absorvida pelas crianças e
reproduzida nos desenhos através da posição dos corpos (deitado e com os braços abertos), da
violência que gera a morte (tiro, sangue), do próprio ritual (funeral, caixão) e do sofrimento
associado (lágrimas).

A morte e o luto na ótica dos adultos jovens

Analisando os depoimentos obtidos entre os adultos jovens, foi possível observar que,
entre os cinco participantes, três representaram a morte como o começo de uma nova etapa,
uma nova vida. “Alguns pensam que a morte é o fim de tudo! Mas pra [sic] mim, a morte
apenas é o fim de uma etapa e o começo de outra, o começo que foi determinado por tudo que
você fez na vida”. Este trecho do depoimento concedido por Hermes revelou uma tentativa de
mostrar que o ser humano é eterno, soberano frente à morte.
Todavia, a entrevista concedida por Zeus mostrou o quão duvidoso era a morte para
ele quando afirmou: “A morte é o ponto de convergência entre o conhecido, a razão e a
certeza para uma transição incerta, duvidosa e totalmente desconhecida”. Isso indica que,
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
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198 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

apesar de toda a cultura e certezas que o homem possui, este ainda desconhece a morte, mas é
uma das únicas certezas que se tem. Tal afirmativa, também, foi destacada no depoimento de
Helena: “É a única certeza que temos, mas não vivemos em sua função. É o medo de muitos,
mas com toda a ciência em favor da humanidade, não sabemos como reverter esse processo
irreversível”. Contudo, para Morfeu, a morte foi caracterizada em duas palavras: separação e
superação. “Mas o fato é que a morte é um momento de separação, de desapego de alguém
próximo, que foi e é amado por nós, e também nos amou; daí a necessidade de superação, de
suportar a dor e vencer os próprios limites...”
Superar a morte de um ente querido, aceitar que a pessoa que amava não está mais
convivendo com seus membros familiares é insuportável para muitos e, por isso, várias
pessoas procuram respostas em religiões ou buscam conforto da melhor forma possível. A fé
e os preceitos religiosos parecem favorecer a capacidade de superar os sentimentos negativos
e os desafios que o processo de morrer e o luto impõem. Segundo Socci (2006), a
espiritualidade/religiosidade pode ser investigada como “a motivação para a busca de
significado para a vida; ela transcende instituições, ideologias ou rituais” (p. 91).
De acordo com Bowlby (1985/2004), na determinação do curso do luto, ou seja, se
sadio ou patológico, se intenso e mais prolongado, a variável mais influente parece ser a
personalidade da pessoa enlutada, principalmente no que diz respeito à maneira como se
organizam seu comportamento de apego e as formas de reação que utiliza diante de eventos
estressantes. Também é fundamental atentar para as causas e circunstâncias da perda, as
condições sociais e psicológicas do sujeito enlutado no momento em que sofre a perda e
durante meses e anos que se seguem a ela. Desse modo, quanto mais a pessoa que vivencia o
luto dependeu do falecido para obtenção de bens e serviços, incluindo relações sociais
amplas, maior será o dano que a perda traz à sua vida, exigindo maior esforço para a
reorganização de seu dia a dia.
Na presente pesquisa, as representações de luto relatadas pelos adultos jovens foram as
seguintes: “o luto ocorre quando existe um sentimento de perda...”; “é uma espécie de
homenagem em morte ao ente querido ou conhecido”; “um período em que as pessoas
resguardam-se em respeito ao ente querido falecido e até a elas próprias, pois é uma fase de
adaptação dura, difícil e quase que [sic] insuportável!”; “é um período em que lembramos da

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 199

pessoa com muita dor por não tê-la em nosso convívio”; “é a fase pós-morte de um ente
querido, de uma pessoa muito próxima que nos deixou.”
Para este grupo etário, foi possível notar que, apesar da multiplicidade de atributos, a
morte é considerada um evento irreversível, desconhecido e o luto como um ritual e perda a
serem vivenciados. Na visão de Hermes, Helena, Zeus e Morfeu, o luto pode ser
compreendido como a fase em que se busca a aceitação da morte de um ente querido; há uma
espécie de “pesar” que decorre da ruptura de um vínculo afetivo. Caracteriza-se, em um
período marcado por muita dor e saudade devidas ao fato de não se ter mais convivência com
aquela pessoa.
Dados da literatura sugeriram que, entre os jovens, a perda e o processo de morrer
configuram-se como realidade subjetiva e distante, tornando-se mais concreta à medida que se
envelhece (Carstensen, 1995; Domingos & Maluf, 2003; Doll, 2011; Erikson, 1998; Neri,
2006; Py, 2004; Py et al., 2011).

A morte e o luto na perspectiva de adultos de meia-idade

Ao analisar os depoimentos concedidos pelos adultos de meia-idade, no que se refere


às representações sobre a morte e o luto, destacam-se as seguintes falas: “a morte é o final da
passagem na terra” (Baco); “é o fim de tudo pra [sic] gente, mas a pessoa vive na lembrança
das pessoas, porém, é o fim da missão na terra” (Apolo); “a morte é o fim da vida, do sonho.
Final não tem mais volta, é inevitável. Assumir que vai morrer é triste. Acaba com a
esperança.” (Morfeu). “O luto é uma forma de elaborar um sentimento de tristeza” (Baco); “O
luto é um sentimento de perda da pessoa no coração” (Morfeu); “É um respeito à pessoa que
partiu para outra vida” (Thanatos); “O luto não é a roupa, é tristeza, é a falta da pessoa, de
sentir a presença em cada coisa que vai fazer, é algo que vem de dentro, é a saudade” (Apolo).
Semelhantemente aos adultos jovens, os adultos de meia-idade definiram a morte
como um evento inevitável e irreversível e o luto como o processo de elaboração da perda de
um vínculo afetivo. Todavia, acrescentaram em suas representações a ideia de desesperança e
finitude de sonhos e metas. Esses dados confirmaram achados da literatura os quais
sugeriram que, na meia-idade, estágio intermediário entre a vida adulta jovem e a velhice, as
pessoas começam a representar a morte como um atributo do processo do desenvolvimento,
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
200 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

avaliando e estimando as perdas funcionais e físicas associadas ao avanço da idade (Doll &
Py, 2007; Erikson, 1998; Neri, 2006; Py et al., 2011).
Como bem expressou Erikson (1998), a dimensão do tempo e a sucessão dos eventos
de vida possibilitam aos adultos maduros e idosos, uma maior consciência da própria finitude
e uma maior perspectiva da morte. Esse autor, ao descrever o processo de desenvolvimento da
personalidade mediado por estágios de natureza epigenética e psicossocial, afirmou, também,
que no adulto de meia-idade e na velhice as dimensões como a geratividade, a capacidade de
cuidar do outro e a reflexão sobre o final da existência tornam-se mais presentes.
Para os adultos de meia-idade e na velhice, existem dados consistentes da literatura
que sugerem que com a maturidade, as pessoas passam a perceber a finitude como mais
próxima e, ainda, a formar um ponto de vista sobre a morte (Erikson, 1998; Neri, 2006). A
própria velhice remete à noção de finitude e anuncia os limites da temporalidade da vida (Py
& Trein, 2006).

A morte e o luto na perspectiva de pessoas idosas

Pessoas idosas possuem sentimentos mistos sobre a perspectiva de morrer. Problemas


advindos com perdas oriundas da velhice, tais como, as perdas físicas podem diminuir o
prazer e o desejo de viver (McCue, 1995). Conforme apontado por duas das idosas
entrevistadas “eu acho que, muitas vezes, a morte favorece a gente, porque a gente está
sofrendo tanto que a gente mesmo pede a morte” (Minerva). “A morte... não acho nada por
enquanto. No final da vida, só esperamos isso, né?” (Diana).
Segundo Erikson (1998), adultos mais velhos que resolvem a crise final da integridade
versus desespero aceitam tanto o que fizeram com suas vidas como sua morte iminente. Para
Diana e Minerva, a morte recebe atributos de um “descanso eterno”. No caso particular de
Diana, a morte parece se configurar numa espera. Nos depoimentos dos idosos, ao contrário
das narrativas anteriores, fica clara a dimensão da finitude, em consonância com autores como
Carstensen (1995). Em estudo comparativo entre idosos e pacientes terminais jovens e
portadores de HIV, essa autora detectou que, quando idosos e pacientes jovens foram

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 201

comparados com as crenças de finitude, os idosos tenderam a aceitar melhor o final da vida
como uma parte inexorável do desenvolvimento.
Apesar das diferenças entre a aceitação da morte, a autora observou que ambos os
grupos apresentavam características similares no modo como manejavam as relações sociais.
Tanto os idosos quanto os pacientes jovens pareceram priorizar as relações sociais que
originavam maior satisfação e prazer, preferência orientada para o bem-estar emocional.
Diante destes resultados, Carstensen (1995) concluiu que os idosos apresentavam maior
aceitação do processo de morrer e que, com a proximidade da morte, ambos os grupos
priorizaram os aspectos qualitativos e de bem-estar emocional nas relações.
De acordo com Goldstein (1993), a espiritualidade e a religiosidade são uma das
estratégias mais ricas e utilizadas pelos idosos frente ao aumento do senso de finitude ou
proximidade da morte. A crença de transcendência permitiria conforto, sensação de
geratividade, bem-estar psicológico e a crença de continuidade do self, dimensões que
aparecem como positivas na vida adulta madura e na velhice.
Ryff e Keies (1995) apontaram que o bem-estar psicológico no envelhecimento é
construído por seis dimensões chave: a auto-aceitação, relações positivas com os outros,
autonomia, controle sobre o ambiente, propósito na vida e crescimento pessoal. Esse modelo
baseia-se em seis preposições psicológicas positivas, na qual a felicidade e a velhice bem-
sucedida são variáveis imprescindíveis. Os resultados descritos pelas autoras, em estudo
comparativo de idosos e adultos jovens na comunidade americana, foram de que os indivíduos
mais velhos apresentaram valores elevados em quase todas as dimensões, com exceção das
dimensões propósito na vida e crescimento pessoal. Tais resultados reforçaram objetivamente
a sensação de crença na finitude, apresentando implicações diretas sobre o bem-estar
psicológico.
Quanto às representações de luto na velhice, apresentam-se as seguintes verbalizações
das pessoas idosas entrevistadas: “É bobagem, antigamente se usava muito luto, agora não se
usa mais (Diana); “Eu não vou fazer o luto para a pessoa que morreu, eu vou ficar alegre, não
vou me vestir de preto e nem de vermelho. Tem pessoa [sic] que fica um ano andando de
preto [Ele indaga] Morreu, morreu...” (Marte); “O luto é significante, não é só usar roupa
preta, eu nunca usei, mas o luto quer dizer silêncio, rezar para a pessoa que faleceu, não tocar
música e ter todo o respeito” (Afrodite).

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
202 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

Afrodite foi a única entre os idosos que concebeu a ritualização do luto. Para os
demais entrevistados, o luto não era algo necessário. A partir deste discurso, uma questão
surge: por que o luto foi desconsiderado por essas pessoas? Será que a dimensão da própria
finitude os fez distanciar-se das formas de expressar o luto e a perda? A maior possibilidade
de se aproximar da morte e a vivência de perdas significativas nos aspectos físicos, sociais e
familiares afetam a maneira de os idosos expressarem o luto, referenciando menor
necessidade para expressá-lo?
Doll (2011) sugeriu que, na velhice, os idosos podem fazer uso de maior bagagem
emocional para lidar com a morte e com o processo de morrer dos familiares e amigos.
Todavia, apesar de fazer maior uso de recursos socioemocionais aprimorados ao longo da
vida, na velhice os sujeitos apresentam a possibilidade de vivenciar um luto acumulado ou de
perder o suporte instrumental que recebiam dos cônjuges, familiares e amigos. Assim sendo, a
morte pode representar a perda de uma rotina estabelecida há longa data, podendo causar
estranheza para a adoção de novos hábitos de vida.
Percebe-se que, além de fatores socioculturais e religiosos, há aspectos de ordem
individual que podem vir a prejudicar o enfrentamento da morte e do luto, tais como as
experiências que o sujeito teve com a perda de pessoas mais próximas afetivamente. Segundo
Papalia, Olds e Feldman (2006), com a ajuda da rede de suporte social, a maioria das pessoas
que estão de luto é capaz de se conciliar com sua perda e de voltar a viver normalmente.
Entrementes, para algumas, indica-se terapia para perda. Também, embora algumas pessoas
recuperem-se com rapidez após o luto, outras nunca o fazem.

Considerações Finais

A representação da morte e do luto foi heterogênea entre os grupos pesquisados. Em


síntese, para as crianças, a morte caracterizou-se como um evento não-normativo,
representados por elementos que remetiam à violência urbana e punição frente ao desvio de
normas sociais, presentes no cotidiano que vivenciavam, mas ao mesmo tempo distantes da
própria realidade individual. Por sua vez, os adultos jovens conceberam a morte como algo
transcendente e o luto como a expressão da perda. Os adultos de meia idade sinalizaram o
Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida 203

respeito ao processo de luto e se referiram à morte como finitude, perda de esperança. Já para
os idosos, a dimensão da própria finitude se expressou com maior clareza nas narrativas
concedidas.
Apesar dos dados sistematizados, observa-se que não existe um modo único de ver a
morte e o processo de morrer em qualquer idade. As atitudes e tomada de decisões perante ela
refletem sua personalidade e sua experiência e, também, o quanto elas acreditam estarem
próximas de morrer. Assim como o processo de morrer recebe diferentes conotações
históricas e de modelos societários, as formas convencionais de ritualizar a morte podem
desprivilegiar as necessidades das pessoas que atualmente vivenciam o processo de luto. Estes
tipos de ritualizações podem ser múltiplas, compatíveis com a cultura contemporânea e, por
vezes, podem desprivilegiar as formas convencionais de vivê-lo (Doll, 2011; Doll & Py,
2007).
Verifica-se que a reflexão sobre a morte e o luto recebe, entre outros atributos, a
presença de elementos socioculturais, individuais e do ciclo de vida. Aprimorar os
conhecimentos sobre como diferentes grupos etários compreendem a complexidade da morte
e do luto ajuda-nos a aprimorar os achados sobre as representações desses eventos e sobre
como intervir de forma positiva nos contextos da perda e do processo de morrer.
Por fim, cabe mencionar que, o presente estudo apresentou algumas limitações: 1) os
participantes foram selecionados aleatoriamente e por conveniência; 2) a comparação entre
grupos de idades não levou em conta a avaliação longitudinal (estudo de seguimento e
comparativo), o que poderia detectar as mudanças de percepção do mesmo sujeito ao longo
do ciclo de vida; 3) a amostra analisada foi relativamente pequena. É possível que, em
amostras representativas, os dados apresentados revelem outras dimensões e representações
acerca da morte e do luto; 4) estudos transculturais e transgeracionais poderiam revelar dados
adicionais aos apresentados, o que enriqueceria a discussão dos resultados.

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
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204 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

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Recebido em 02/08/2012
Aceito em 12/08/2012
____________________

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
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“Finitude/Morte e Velhice”. Online ISSN 2176-901X. Print ISSN 1516-2567. São Paulo (SP), Brasil:
FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP.
206 Henrique Salmazo da Silva, Mariana Nakajo Zemuner, Pedro Henrique da Silva Rodrigues, Tatiane Barbosa de Andrade,
Vanilda Martiniano & Deusivania Vieira da Silva Falcão

Henrique Salmazo da Silva - Gerontólogo. Bacharel em Gerontologia pela Escola de Artes,


Ciências e Humanidades (EACH/USP). Mestre em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública
da USP.
E-mail: henriquesalmazo@yahoo.com.br

Mariana Nakajo Zemuner - Gerontólogo. Bacharel em Gerontologia pela Escola de Artes,


Ciências e Humanidades (EACH/USP).

Pedro Henrique da Silva Rodrigues - Gerontólogo. Bacharel em Gerontologia pela Escola


de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP).

Tatiane Barbosa de Andrade - Gerontólogo. Bacharel em Gerontologia pela Escola de


Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP).

Vanilda Martiniano - Gerontólogo. Bacharel em Gerontologia pela Escola de Artes,


Ciências e Humanidades (EACH/USP).

Deusivania Vieira da Silva Falcão - Professora Doutora da Universidade de São Paulo -


Escola de Artes, Ciências e Humanidades (USP-EACH). Doutora em Psicologia pela
Universidade de Brasília (UnB). Psicóloga e Mestra em Psicologia Social pela Universidade
Federal da Paraíba (UFPB).
E-mail: deusivaniafalcao@gmail.com

Endereço para Correspondência (remeter a Henrique Salmazo da Silva):


Rua Felipe Bonani, 59. Jd Iguatemi. CEP 08372-040. São Paulo (SP).

Salmazo-Silva, H., Zemuner, M.N., Rodrigues, P.H.da S., Andrade, T.B. de, Martiniano, V. & Falcão, D.V. da S. (2012, ag.).
As Representações da Morte e do Luto no Ciclo de Vida. Revista Temática Kairós Gerontologia,15(4), pp. 185-206,
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Módulo 4
457
CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

ARTIGO

Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores de risco


e de proteção

Suicide: the practice of the psychologist and the principal risk factors and
protective

Yohanna Shneideider Cerqueira


Patrícia Valle de Albuquerque Lima

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015. p. 457 – 471. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs
ISSN: 1807-2526
458
CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

RESUMO

Este artigo procura trazer uma contribuição ao campo da psicologia e áreas


afins a respeito do comportamento suicida. Para tal, com o auxílio de dados
emitidos pela Organização Mundial de Saúde, ele trata dos mais frequentes
fatores de risco e sinais apresentados por pessoas que já se suicidaram ou
tentaram cometê-lo. A partir desses dados, o artigo mostra como o profissional
de psicologia pode estar enriquecendo sua prática com tais informações. Por
fim, serão apresentadas algumas propostas de aplicação ao psicólogo de como
o mesmo pode estar intervindo em uma situação de risco.

Palavras-chave: Suicídio; Fatores de risco; Fatores de proteção; Prática do


psicólogo

ABSTRACT

This article tries to contribute to the field of psychology and related fields
concerning the suicidal behavior. For such, with the assistance of data issued
by the World Health Organization, this article with deals the most frequent risk
factors and signs presented by people who have committed suicide or tried to
do. Based on these data, this paper shows how psychology professional can
empower their practice with such information. Finally, there will be presented
some application proposals of how the psychologist could be intervening in a
situation of risk.

Keywords: Suicide; Risk factors; Protective factors; Practice of psychologist

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015. p. 457 – 471. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs
ISSN: 1807-2526
459
CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

Introdução

O presente artigo pretende servir de auxílio para que o leitor possa identificar
os fatores de risco e os de proteção mais frequentes em alguém com
pensamentos suicida. O conhecimento destes fatores poderá ser uma
contribuição para que o profissional possa estar utilizando tal informação em
sua prática profissional.

Uma das motivações para esta produção aconteceu por ser percebida uma
carência no que diz respeito às produções científicas brasileiras sobre o
suicídio. Essa escassez de informação é encontrada inclusive entre os
profissionais de psicologia, que ao término de sua graduação, tendem a ter
pouco contato, ou nenhum, com informações a respeito do suicídio e de como
lidar com essa situação. Esse déficit acaba não dando um suporte para os
futuros psicólogos em como identificar e dar prosseguimento ao cuidado do
cliente e de si mesmo, em uma situação onde haja risco de suicídio, podendo
inclusive, trazer dificuldades no enfrentamento destes casos.

Buscando uma melhor qualidade nas informações sobre o tema, foi executado
um levantamento bibliográfico dando prioridade a materiais como, cartilhas
produzidas pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e do Ministério da
Saúde, com o intuito de utilizar informações confiáveis que foram obtidas a
partir de pesquisas feitas por tais órgãos. Foram utilizados livros de autores
que estudam o comportamento suicida e autores ligados à abordagem da
Gestalt-terapia.

Inicialmente, a partir de dados da OMS, serão expostos os fatores de risco e de


proteção mais encontrados em pessoas que já cometeram suicídio ou aquelas
que desejaram tirar a própria vida. Será realizada uma reflexão pelas autoras
de qual a importância em conhecer e compreender estes fatores, além dos
sinais que o paciente possa vir a emitir. Pretende-se, com esse artigo, dar
instrumentos ao profissional da área da psicologia para estar trabalhando com
o cliente em questão, através de um olhar gestáltico.

1 - Os fatores de risco e os fatores de proteção mais frequentes em


pessoas com comportamento suicida.

O cuidado com pessoas que almejam se matar é de extrema importância, já


que a cada dia essa população cresce. Segundo dados da OMS (2012, p. 05),
“a cada ano, praticamente um milhão de pessoas morrem por suicídio em todo
mundo”. Estes apenas representam dados registrados, ainda existem casos de
suicídio que entram para a categoria de morte não intencional e as tentativas
de se matar que não resultaram em óbito. Neste caso, é ainda mais difícil se
obter registros confiáveis. Segundo Bertolote e Fleischmann (2004, p. 36),
“sabe-se que a notificação de casos de suicídio pode ser falseada por vários
motivos, religiosos, sociais, culturais, políticos, econômicos, etc.”. Acredita-se
que estas alterações variam “entre 20% e 100%, sempre para menos” (Idem, p.
36). Atualmente “estima-se que o número de tentativas de suicídio supere o

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015. p. 457 – 471. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs
ISSN: 1807-2526
460
CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

número de suicídios em pelo menos dez vezes” (Ministério da Saúde e OPAS –


Organização Pan-Americana da Saúde, 2006, p. 11). Um dos motivos para isso
pode ser, dado que “o suicídio é ainda um tema estigmatizado, o que poderia
induzir a registros de óbito evitando o uso desse termo” (VOLPE; CORRÊA;
BARRERO, 2006, p. 13). Sendo assim:

Se o agente responsável por registrar a causa de óbito estiver


relutante em usar o código para o suicídio, o mais provável é que faça
o registro de uma “morte acidental” ou “por causa indeterminada”.
Outro fator que pode contribuir para a subnotificação é a religião, já
que algumas podem ser extremamente repressoras em relação ao
suicídio (Idem, p. 13).

Apesar das dificuldades em se obter números próximos da realidade, dá para


se ter uma ideia de como são grandes as taxas de suicídio no mundo, tendo
como base registros que já foram realizados. Estima-se que “o número de
mortes por suicídio, em termos globais, para o ano de 2003 girou em torno de
900 mil pessoas” (Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana as Saúde
e Universidade Estadual de Campinas, 2006, p. 07). Além disso, “o suicídio é
uma das 10 maiores causas de morte em todos os países, e uma das três
maiores causas de morte na faixa etária de 15 a 35 anos” (Organização
Mundial de Saúde, 2000). Sabe-se que “a cada 40 segundos uma pessoa
comete suicídio no mundo. A cada 3 segundos uma pessoa atenta contra a
própria vida” (Organização Mundial de Saúde, 2000).

As consequências deste ato são muito grandes, deixando um impacto muitas


vezes a longo prazo naqueles que estão envolvidos de alguma maneira com a
pessoa que cometeu suicídio:

O impacto psicológico e social do suicídio em uma família e na


sociedade é imensurável. Em média, um único suicídio afeta pelo
menos outras seis pessoas. Se um suicídio ocorre em uma escola ou
em algum local de trabalho, tem impacto em centenas de pessoas
(Organização Mundial de Saúde, 2012, p.07).

Em relação ao luto daqueles que ficaram Fukumitsu (2013, p.75) diz, “[...] o
luto por suicídio não é somente um fenômeno que pertence ao território da
pessoa que se mata, mas trata de uma morte que pertence ao coletivo”. Sabe-
se que o impacto ocasionado pelo suicídio, possivelmente permanecerá por
toda a vida dos sobreviventes podendo seus efeitos permanecerem por outras
gerações, isso porque:

Além da necessidade de compreender a morte, surge a redefinição


de seu papel na família. Trata-se de um imenso investimento
emocional, pois a morte da pessoa amada exige um
reposicionamento diante de novos papéis. (FUKUMITSU, 2013, p.
70).

Essa alteração no cotidiano dos sobreviventes pode trazer uma série de


sentimentos:

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015. p. 457 – 471. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs
ISSN: 1807-2526
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CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

O sobrevivente precisa lidar com uma diversidade de fatores


relevantes relacionados ao impacto do ato suicida na família:
sentimentos ambivalentes de alívio e culpa, arrependimento, choque,
autoacusação, raiva, busca de boas lembranças, vergonha,
estigmatização e isolamento, rejeição e falta e busca de sentido –
destacadas ainda as dificuldades para se compreender o porquê
(FUKUMITSU, 2013, p. 78).

Apesar de gerar enormes consequências, grande parte da população sabe


pouco a respeito de como lidar com alguém apresentando uma ideação
suicida, e até mesmo como reconhecer esse tipo de comportamento. O
resultado é uma enorme dificuldade em agir com pessoas em risco, inclusive
por parte de muitos profissionais da área de saúde, que por não haverem
recebido instruções de como manejar essa situação, acabam por acreditar em
mitos, tais como, “os pacientes que falam em suicídio raramente o cometem;
perguntar sobre o suicídio pode provocar atos suicidas” (Organização Mundial
de Saúde, 2000, p. 11).

Outra característica que pode estar presente entre alguns profissionais, é terem
dificuldades em lidar com suas próprias emoções ao se depararem com as
emoções do outro, acarretando uma deficiência na qualidade do tratamento.
Tavares (2001) apresenta uma reflexão a respeito dessa emoção causada ao
se deparar com as questões que englobam a morte. E afirma:

Talvez não seja a morte o nosso pânico, mas a intimidade, ao


admitirmos nossos limites e nossas fragilidades. A instauração da
conspiração do silêncio é uma proteção à dor, que se transforma em
tortura, em frieza, em distanciamento. (p. 28)

Essa difícil experiência pode proporcionar um afastamento entre o cliente e o


profissional que o acompanha, que evita a aproximação para se defender de
seus eventuais sofrimentos que não foram bem elaborados. Desta forma
trabalhar com pacientes que tenham esse perfil pede um maior investimento do
profissional envolvido para que tal situação seja melhor conduzida.

Na grande maioria dos casos de suicídio, foi constatado que o cliente possuía
algum tipo de transtorno mental. É importante que os psicólogos e demais
profissionais da área da saúde estejam atentos, e que busquem um
conhecimento mínimo para que possam encaminhar o paciente devidamente.
Pois, “o suicídio em si não é uma doença, nem necessariamente a
manifestação de uma doença, mas transtornos mentais constituem-se em um
importante fator associado com o suicídio” (Organização Mundial de Saúde,
2000 p. 03).

Os fatores de risco mais frequentes são divididos em “transtornos mentais,


sociodemográficos, psicológicos e condições clínicas incapacitantes”
(Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, Ministério da Saúde;
Organização Pan-Americana de Saúde; Universidade Estadual de Campinas,
2006, p. 15), conforme apresentado abaixo:

Transtornos mentais mais frequentes são:

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CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

Transtornos de humor (ex.: depressão); transtornos mentais e de


comportamento decorrentes do uso de substâncias psicoativas (ex.:
alcoolismo); transtornos de personalidade (principalmente borderline,
narcisista e anti-social); esquizofrenia; transtornos de ansiedade;
comorbidade potencializa riscos (ex.: alcoolismo + depressão)
(Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, Ministério da Saúde;
Organização Pan-Americana de Saúde; Universidade Estadual de
Campinas, 2006, p. 15).

Entre os fatores sociodemográficos, encontra-se o perfil da população que mais


comete suicídio. Estes são:

Sexo masculino; faixas etárias entre 15 e 35 anos e acima de 75


anos; extratos econômicos extremos; residentes em áreas urbanas;
desempregados (principalmente perda recente do emprego);
aposentados; isolamento social; solteiros ou separados; migrantes
(Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, Ministério da Saúde;
Organização Pan-Americana de Saúde; Universidade Estadual de
Campinas, 2006, p. 16).

Existem também os fatores psicológicos de grande incidência nos que tentam


se matar e naqueles que conseguem de fato, nesta categoria destacam-se:

Perdas recentes; perdas de figuras parentais na infância; dinâmica


familiar conturbada; datas importantes; reações de aniversário;
personalidade com traços significativos de impulsividade;
agressividade, humor lábil (Estratégia Nacional de Prevenção do
Suicídio, Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana de
Saúde; Universidade Estadual de Campinas, 2006, p. 16).

E para finalizar as categorias mais presentes no comportamento suicida, estão


as condições clínicas incapacitantes: “doenças orgânicas incapacitantes; dor
crônica; lesões desfigurantes perenes; epilepsia; trauma medular; neoplasias
malignas, Aids” (Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, Ministério da
Saúde; Organização Pan-Americana de Saúde; Universidade Estadual de
Campinas, 2006, p. 16).

De todos estes fatores que foram citados acima, vem sendo percebido que os
mais presentes em alguém que comete suicídio são: “históricos de tentativa de
suicídio; transtorno mental” (Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio,
Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana de Saúde; Universidade
Estadual de Campinas, 2006, p. 17). Por serem fatores frequentes em muitos
pacientes com comportamento suicida, como já foi dito anteriormente, é
importante que o profissional de psicologia saiba perceber a presença de
transtornos mentais e aprenda a lidar com eles. Além disso é importante
investigar se já houve uma tentativa prévia, tanto do cliente quanto de alguém
próximo ao mesmo.

Os fatores acima foram distribuídos em uma forma mais didática com o intuito
de facilitar a visão do leitor, porém, na vida real eles não aparecem de forma
tão simples como aqui. Eles acontecem influenciando e sendo influenciados

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de risco e de proteção.

uns pelos outros, sendo a maneira singular do cliente e como ele lida com
estes fatores que determinará o grau de risco que ele corre. Essa percepção
será facilitada ao olhar para o outro, captando na sutileza de seus gestos e
palavras a mensagem que ele passa daquilo que ele é e o que almeja,
buscando extrair o que há de único nele. Esta ideia acaba sendo resumida por
Dutra (2011, p. 153) quando ele afirma, “o motivo ou motivos que levam
alguém ao suicídio formam-se ao longo da sua história e se revelam nos
sentidos e modos de ser que constituem a sua existência. Por isso esse
fenômeno não escolhe idade, classe social, gênero ou nacionalidade”.

Além dos fatores já citados, existem sinais que podem estar evidenciando uma
possível ideação suicida, tendo em vista que são frequentes nesse tipo de
cliente. São “sinais para procurar na história de vida e no comportamento das
pessoas” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS), 2000) para que
possam representar ou não riscos reais da presença de um comportamento
suicida. Estes são:

1. Comportamento retraído, inabilidade para se relacionar com


a família e amigos
2. Doença psiquiátrica
3. Alcoolismo
4. Ansiedade ou pânico
5. Mudança na personalidade, irritabilidade, pessimismo,
depressão ou apatia
6. Mudança no hábito alimentar e de sono
7. Tentativa de suicídio anterior
8. Odiar-se. Sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou
com vergonha
9. Uma perda recente importante – morte, divórcio, separação,
etc.
10. História familiar de suicídio
11. Desejo súbito de concluir os afazeres pessoais, organizar os
documentos, escrever um testamento, etc.
12. Sentimentos de solidão, impotência, desesperança
13. Cartas de despedida
14. Doença física
15. Menção repetida de morte ou suicídio (ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DE SAÚDE (OMS), 2000).

Para o psicólogo clínico, este conhecimento também pode auxiliar no trabalho


preventivo, já que “a elaboração de estratégias preventivas eficazes depende
do detalhado conhecimento dos fatores de risco, determinantes da morte por
suicídio” (VOLPE; CORRÊA; BARRERO, 2006, p. 12). No momento em que o
profissional desconfia de que algo possa estar acontecendo, o cliente poderá
ser abordado, surgindo a possibilidade do paciente falar de si mesmo, coisa
que muitas vezes ele não consegue em seu cotidiano. Nesse diálogo, é
importante que o ouvinte observe atentamente alguns aspectos do outro, tais
como:

 Estado mental atual e pensamentos sobre morte e suicídio;

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de risco e de proteção.

 Plano suicida atual – quão preparada a pessoa está, e quão


cedo o ato está para ser realizado;
 Sistema de apoio social da pessoa (família, amigos, etc.)
(ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS), 2000).

Quanto às dificuldades encontradas por pesquisadores na hora de se obter


resultados mais precisos dos fatores de risco, se destacam:

A principal dificuldade para estudar mais detalhadamente os fatores


de risco para o suicídio advém de um fato óbvio: como os indivíduos
já faleceram, torna-se impossível obter mais informações diretamente.
Estudos comunitários retrospectivos podem ser realizados através de
entrevistas com familiares e conhecidos do indivíduo, incluindo as
chamadas autópsias psicológicas. Estes estudos fornecem um
quadro rico em minúcias sobre as condições em que se deu a morte,
incluindo o estado emocional da vítima que antecedeu ao óbito. No
entanto, estes estudos ficam sujeitos ao viés de lembrança, ou seja, a
tendência de pessoas ligadas a quem cometeu suicídio relembrar
mais dados positivos (por exemplo mais sintomas psiquiátricos da
vítima) do que os entrevistados de um grupo-controle. Como
resultado, haveria um excesso de fatores de risco estatisticamente
significativos identificados no estudo (VOLPE; CORRÊA; BARRERO,
2006, p. 13).

Desta forma, é fundamental se ter cautela na hora de utilizar tal conhecimento.


Eles são ferramentas que auxiliam na identificação de uma possível ideação
suicida, mas não devem ser vistos de uma maneira rígida, ou seja, é preciso
analisar todo o contexto de vida da pessoa e como ela lida com estes fatores.
Tendo sempre em mente que não necessariamente aquele que apresenta
estes sinais quer cometer o suicídio.

Ao se destacar os principais fatores de risco, não podem ser esquecidos quais


os principais fatores de proteção para o suicídio já que o balanço entre fatores
de risco e de proteção dado por cada pessoa, pode auxiliar na identificação de
uma possível ideação suicida. De acordo com Bertolote (2012, p. 75)

“[...] há evidências suficientemente fortes que demonstram que o


reforço de certos fatores ditos de proteção (ou mesmo sua existência
espontânea) está associado a taxas menores das diversas etapas do
processo de suicídio (ideação, planos e atos) [...]”.

Bertolote (2012) vai separar os fatores de proteção em estilo cognitivo e


personalidade, padrão familiar, fatores culturais e sociais e fatores ambientais.
Entre os fatores presentes em estilo cognitivo e personalidade, ele destaca:
sentimento de valor pessoal; confiança em si mesmo; disposição para buscar
ajuda quando necessário; disposição para pedir conselho diante de decisões
importantes; abertura à experiência alheia; disposição para adquirir novos
conhecimentos; habilidade para se comunicar.

No que diz respeito ao padrão familiar, estarão presentes: bom relacionamento


intrafamiliar; apoio de parte da família; pais dedicados e consistentes.

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de risco e de proteção.

Nos fatores culturais e sociais, estão presente: adesão a valores, normas e


tradições positivas; bom relacionamento com amigos, colegas e vizinhos; apoio
de pessoas relevantes; amigos que não usam drogas; integração social no
trabalho, em alguma igreja, em atividades esportivas, clubes etc.; objetivos na
vida.

Presente nos fatores ambientais, Bertolote vai citar: boa alimentação; bom
sono; luz solar; atividade física; ambiente livre de fumo e drogas.

2 - Uma maneira de como o profissional de psicologia pode utilizar o


conhecimento dos fatores de risco e os fatores de proteção em sua
prática clínica

Muitas pessoas emitem uma mensagem existencial e isso não é diferente com
aqueles com comportamento suicida. Sendo assim, “[...] o fato de as pessoas
conseguirem ou não acabar com suas vidas não descarta a ideia de que, em
ambos os casos, existe uma mensagem existencial.” (FUKUMITSU, 2012, p.
24). E é esta mensagem que deve ser buscada pelo psicólogo ao identificar
tanto os fatores de risco quanto os fatores de proteção, além dos possíveis
sinais que possam se apresentar:

[...] como uma terapia experiencial, a técnica gestáltica exige do


paciente que ele experiencie a si mesmo tanto quanto possa, que ele
se experiencie tão completamente quanto possa, no aqui e agora.
Pedimos ao paciente que se dê conta de seus gestos, de sua
respiração, de suas emoções, de sua voz, e de suas expressões
faciais, tanto quanto dos pensamentos que mais o pressionam.
Sabemos que quanto mais se der conta de si mesmo, mais aprenderá
sobre o que é seu si-mesmo. À medida que experimente os modos
pelos quais se impede de “ser” agora – os meios por que se
interrompe -, também começará a experienciar a si-mesmo que
interrompeu” (PERLS, 2011, p. 76-77).

Cabe ao profissional escutar o que estes sinais querem dizer a respeito do


cliente e ajudá-lo a se perceber. A partir da tomada de consciência do cliente
de seu momento, a autorregulação organísmica - capacidade que o homem
tem de se adaptar da melhor forma possível diante das necessidades que
surgem – responsável por auxiliar o sujeito a encontrar um caminho que o traga
à saúde e irá, muitas vezes como um alerta, emitir determinados sinais que
mostrem que algo não está bem.

[...] quando um cliente expõe um problema, estamos ou devemos


estar atentos ao seguinte, partindo do princípio citado: 1° - o cliente é
um todo; 2° - deve-se prestar atenção a este todo, mesmo quando ele
só fala de uma parte sua; 3° - as duas partes: ele todo e parte dele
continuam presentes ou “por baixo” ou “por detrás”; 4° - ele, como um
todo, se identifica também com a parte que está sendo focalizada, ou
seja sua parte pequena coincide com a sua parte grande; 5° -
finalmente, sua parte grande coincide com sua parte menor
(RIBEIRO, 1985, p. 74).

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de risco e de proteção.

A partir daí o terapeuta vai acompanhar seu cliente na descoberta de como


este comportamento estruturou-se, o significado desse comportamento em sua
vida como um todo que, muitas vezes, encontra-se obscurecido.

É possível ver os fatores de risco e de proteção como figuras em determinadas


situações. Na Gestalt-terapia, o conceito de figura e fundo vai representar a
interação constante na vida de cada um:

“A figura não é uma parte isolada do fundo, ela existe no fundo. O


fundo revela a figura, permite à figura surgir. O que o cliente diz
jamais pode ser entendido em separado, pois a figura “tem” um fundo
que lhe permite revelar-se e do qual ela procede” (RIBEIRO, 1985, p.
74).

De acordo com Perls (1981), o que faz algo se tornar figura, se destacar de um
todo, é o interesse do sujeito. A medida em que os interesses variam, toda a
percepção acaba sendo alterada também. Na psicoterapia,

“é interessante observar que a relação figura-fundo no cliente é


extremamente fluida, isto é, sua organização está em constante
mudança, o que gera no psicoterapeuta a necessidade de também
ele estar em fluidez com o cliente” (RIBEIRO, 1985, p. 75).

A terapia tem o papel de ajudar o outro a perceber-se através do


autoconhecimento, é uma maneira de auxiliar no desenvolvimento da
capacidade de se conhecer no aqui-agora. Para a Gestalt-terapia, o momento
presente é onde tudo acontece:

Estar no aqui e agora é um abrir-se à análise e à informação, viver o


aqui e agora é um experienciar a realidade interna e externa, como
ela acontece, tenha ou não antecedentes que a expliquem ou
justifiquem (RIBEIRO, 1985, p. 79).

E a partir daí, é importante estar com o cliente para ajudá-lo a se dar conta de
si mesmo, para que então ele possa tornar-se ciente de que apenas ele é o
autor de sua própria vida, sendo o detentor do poder de realizar escolhas. E
essa capacidade de decidir o que fazer e o que será melhor para si, inclui a
decisão de viver ou morrer:

O “conscientizar-se” fornece ao paciente a compreensão de suas


próprias capacidade e habilidades O “conscientizar-se” fornece algo
mais ao consciente. Trabalhando, como nós, com o que o paciente
tem, seus meios atuais de manipulação, mais do que com o que ele
não desenvolveu ou perdeu, a “conscientização” dá tanto ao paciente
quanto ao terapeuta a melhor imagem dos recursos atuais do
paciente. Isto porque a “conscientização” só se desenvolve no
presente. Abre possibilidades para a ação. [...] Sem dar-se conta não
há conhecimento da escolha. O “conscientizar-se”, o contato e o
presente são simplesmente aspectos diferentes de um mesmo
processo – a auto-realização. É aqui e agora que nos damos conta de
todas as nossas escolhas, desde pequenas decisões patológicas
(ajeitar um lápis na posição exatamente correta) até a escolha

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CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
de risco e de proteção.

existencial de dedicação a uma causa ou profissão.” (PERLS, 2011,


p. 77-78)

Para que seja possível olhar o cliente de forma mais ampla, é importante que o
psicólogo invista no contato entre ambos. Encorajando o outro para que ele fale
de si sem receio de mostrar quem realmente é. Esta atitude de aceitação do
outro é importante, já que não existe uma forma certa de estar no mundo, isso
varia de acordo com as necessidades de cada um, vai de acordo com quem se
é, deseja e escolhe para si mesmo.

O contato existe não somente na psicoterapia, já que:

Ninguém é auto-suficiente; o indivíduo só pode existir num campo


circundante. É, inevitavelmente, a cada momento, uma parte de
algum campo. Seu comportamento é uma função do campo total, que
inclui a ambos: ele e seu meio. O tipo de relação homem/meio
determina o comportamento do ser humano. Se o relacionamento é
mutuamente satisfatório, o comportamento do indivíduo é o que
chamamos de normal. Se é de conflito, trata-se do comportamento
descrito como anormal. O meio não cria o indivíduo, nem este cria o
meio. Cada um é o que é, com suas características individuais,
devido a seu relacionamento com o outro e o todo. (PELRS, 2011, p.
31)

Contato, de acordo com Yontef (1998, p.18), [...] “é a experiência da fronteira


entre o “eu” e o “não-eu”. É a experiência de interagir com o não-eu enquanto
mantém uma auto-identidade distinta do não-eu”. Isso significa que cada um é
único, ao mesmo tempo em que é influenciado pelo outro e pelo meio externo,
tem o seu “eu” separado pela fronteira que. Segundo Perls (1977, p. 22) “uma
fronteira delimita alguma coisa” permitindo que sua singularidade seja
preservada. Desta forma “eu diferencio entre a experiência aqui e a experiência
lá fora [...]” (PERLS, 1977, p. 23).

Assim como em todos os momentos da vida, na terapia o contato entre


psicólogo e cliente também se faz presente, sendo que na relação terapêutica
dois sujeitos diferentes vão construir algo único. Para que o terapeuta possa
exercer a função de colaborador,

“o Gestalt-terapeuta trabalha engajando-se no diálogo, em vez de


manipular o paciente em direção a um objetivo terapêutico. Um
contato dessa natureza é marcado por aceitação, entusiasmo e
preocupação verdadeira e por auto-responsabilidade” (YONTEF
1998, p. 18).

A partir do momento que isso é compreendido, o terapeuta torna-se um


auxiliador incentivador na descoberta de como utilizar suas potencialidades a
fim de atingir uma vida mais autêntica, ao invés de tentar impor algo que não o
pertence. Esse comportamento possibilita a tomada de consciência por parte
do paciente, facilitando que, através da percepção de sua fronteira ele
discrimine o que é dele e o que pertence ao ambiente externo a ele. Esta
tomada de consciência por parte do cliente faz com que o mesmo perceba que
apenas ele é o responsável pelas escolhas de como lidar com sua vida.

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Para atingir tais objetivos é importante que se abra um canal de comunicação


que apontará o caminho para onde o terapeuta deve direcionar a terapia:

Em Gestalt se afirma que o cliente é sempre figura e o


psicoterapeuta, fundo. O cliente é figura porque é ele que deve surgir
como diferenciado na configuração e porque é sua comunicação que
vai apontar o caminho de uma procura mais ampla (RIBEIRO, 1985,
p. 75).

A partir desta postura, o psicólogo tem a oportunidade de, através deste


contato, possibilitar o aumento da awareness no outro. Segundo Yontef (1998,
p. 215):
Awareness é uma forma de experienciar. É o processo de estar em
contato vigilante com o evento mais importante do campo
indivíduo/ambiente, com total apoio sensorimotor, emocional,
cognitivo e energético.

E será este um dos papéis da psicoterapia: “a psicoterapia é um método para


aumentar a awareness e adquirir responsabilidade e escolher o que é
significativo” (YONTEF, 1998, p. 30). Nessa relação a experiência imediata
será trabalhada, com a ajuda do próprio cliente, já que “[...] o paciente é visto
como um colaborador, aprendendo a auto curar-se” explorando questões como
“o que eu posso fazer para trabalhar isto”? (YONTEF, 1998, p. 21).

É no contato, na relação entre cliente e terapeuta que as mudanças


acontecem. Mas sempre lembrando que “o terapeuta não é aquele que tem o
poder sobre o outro, e sim aquele que motiva e inspira para que o outro articule
suas diversas partes e se organize em relação a si próprio e às suas relações”
(TAVARES, 2001, p. 49). O objetivo da terapia deve ser o de “[...] tornar os
clientes conscientes (aware) do que estão fazendo, como estão fazendo, como
podem transformar-se e, ao mesmo tempo, aprender a aceitar-se e valorizar-
se” (YONTEF, 1993, p. 16). Para que se estabeleça um contato produtivo, é
importante escutar o outro. Já que “ao compartilhar suas ideias suicidas, a
pessoa talvez esteja deixando a chave para que a porta possa ser aberta”
(FUKUMITSU, 2013, p. 60). Ele pode estar pedindo socorro para alguma
situação em sua vida que não consiga lidar muito bem. Apesar das boas
intenções em auxiliar o outro, “estamos aqui para promover o processo de
crescimento e desenvolver o potencial humano. Nós não falamos de alegria
instantânea. O processo de crescimento é um processo demorado” (PERLS,
1977, p. 14) e vai de acordo com o tempo e o caminhar de cada um.
Algo de extrema importância é se ter em mente que este é um trabalho de
parceria com o cliente, respeitando aquilo que cada um é, sem nunca esquecer
de respeitar também a si mesmo.

Somos parceiros existenciais de quem nos propomos a


acompanhar. Quem cuida, não salva e nem abandona, acompanha.
Acompanhar o outro sem se abandonar, atento ao seu próprio bem-
estar e, também, às suas dores (TAVARES, 2001, p. 50).

Segundo Fukumitsu (2013, p. 57): “não é possível salvar. Porém, carrego a


crença de que posso me colocar a serviço de cuidar de meu semelhante,

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de risco e de proteção.

compartilhando seu desespero existencial [...]”. É possível caminhar com ele,


auxiliando que o cliente se torne aware de sua vida e responsável pela mesma.
Como diz Yontef:
As pessoas são responsáveis por suas escolhas morais. A Gestalt-
terapia ajuda o paciente a descobrir o que é moralmente correto, de
acordo com sua própria escolha e valores. Longe de defender o “tudo
bem”, a Gestalt-terapia coloca uma seríssima obrigação para cada
pessoa: avaliar e escolher (YONTEF, p. 33).

Considerações finais

A elaboração deste artigo aconteceu a partir de interesses pessoais que


resultaram no desejo em pesquisas a respeito do suicídio. Foi percebido o
quanto este tema é importante, ao mesmo tempo que pouco debatido, e às
vezes quase desconhecido entre grande parte da população, incluindo
estudantes e profissionais de psicologia. Isto pode ser afirmado, tendo em vista
que no período que este artigo foi produzido uma das autoras encontrava-se
concluindo sua graduação em psicologia, e nunca havia se deparado com o
tema do suicídio em sua formação, sendo necessário buscar este
conhecimento fora da universidade, e mesmo assim, encontrando algumas
dificuldades na hora de obter informações.

Ao decorrer dos estudos, foi aparecendo a vontade de compartilhar este


conhecimento com aqueles que também sentem interesse em aprender mais a
respeito deste assunto. Apesar disso, é importante ressaltar que o suicídio é
um tema muito amplo e ainda há muito que se conhecer a seu respeito. Desta
forma, este artigo se limitou a discutir os fatores de risco e de proteção, em
busca de orientar uma possível postura profissional do psicoterapeuta, sem
pretensões de esgotar o assunto, pelo contrário. O objetivo foi o de iniciar uma
reflexão a respeito do tema do suicídio para que demais autores se interessem
em desenvolvê-lo e também compartilhar suas opiniões a este respeito, o que
poderá enriquecer o conhecimento do psicólogo, principalmente do gestalt-
terapeuta, que se deparar diante de um cliente com histórico de tentativas de
suicídio ou ideação suicida.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ABREU, K. P.; LIMA, M. A. D. S., KOHLRAUSCH, Eglê; SOARES, Joannie


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CERQUEIRA, Yohanna, LIMA, Patrícia – Suicídio: a prática do psicólogo e os principais fatores
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Yohanna Shneider Cerqueira


E-mail: yohanna.cerqueira@gmail.com

Patrícia Valle de Albuquerque Lima


E-mail: ticha.patricia@globo.com

Recebido em 31/07/2014
Aprovado em 13/11/2015

NOTAS

Yohanna Shneider Cerqueira: Psicóloga graduada pela Universidade Federal


Fluminense (UFF) de Rio das Ostras, cursando especialização em psicologia
clínica na abordagem gestáltica no Instituto de Pós Graduação Lusófona Brasil
(IPGL Brasil).

Patrícia Valle de Albuquerque Lima: Mestrado em Psicologia pela UFRJ,


Doutorado em Psicologia Clínica pela UFRJ, Especialista em Psicologia Clínica
pelo CRP, Professora colaboradora do IGT, Supervisora de estágio e
Professora adjunta da UFF, Campus de Rio das Ostras.

Revista IGT na Rede, v. 12, nº 23, 2015. p. 457 – 471. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs
ISSN: 1807-2526
Módulo 5
74413
Brazilian Journal of Development

A espiritualidade no enfrentamento do luto: Compreender para cuidar

Spirituality in the mourning confrontation: Understanding to care


DOI:10.34117/bjdv6n10-025

Recebimento dos originais: 08/09/2020


Aceitação para publicação: 02/10/2020

Raquel de Aguiar Portela


Mestranda em Enfermagem pela Universidade Federal do Maranhão
Instituição: Universidade Federal do Maranhão
Endereço: Av. dos Portugueses, 1966, Bacanga, São Luís – MA, Brasil
E-mail: raquelportela23@hotmail.com

Helder Machado Passos


Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Instituição: Universidade Federal do Maranhão
Endereço: Rua 21 Quadra 13c Casa 43, Planalto Vinhais 2, São Luís – MA, Brasil
E-mail: passos_helder@yahoo.com.br

Santana de Maria Alves de Sousa


Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Instituição: Universidade Federal do Maranhão
Endereço: Av. dos Portugueses, 1966, Bacanga, São Luís – MA, Brasil
E-mail: santanasousa@uol.com.br

Eliana Serra Brugin


Mestranda em Enfermagem pela Universidade Federal do Maranhão
Instituição: Universidade Federal do Maranhão
Endereço: Av. dos Portugueses, 1966, Bacanga, São Luís – MA, Brasil
E-mail: elianabrugin@hotmail.com

Andréa Cristina Oliveira Silva


Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo
Instituição: Universidade Federal do Maranhão
Endereço: Av. dos Portugueses, 1966, Bacanga, São Luís – MA, Brasil
E-mail: silva.andrea@ufma.br

RESUMO
O presente trabalho aduz a reflexões a respeito da espiritualidade como estratégia de enfrentamento
do processo de luto, enfatizando a importância da compreensão e valorização da dimensão espiritual
pelos profissionais de saúde durante à assistência aos enlutados. Trata-se de um estudo descritivo,
sob uma análise reflexiva da literatura com enfoque em importantes referenciais filosóficos que
abordam a morte, o luto e a espiritualidade. Lidar com a finitude da vida de um ente querido é uma
experiência de dor e sofrimento e que leva o indivíduo a desenvolver estratégias a fim de superar as
dificuldades vivenciadas diante do luto. Considerando a espiritualidade como uma das estratégias
individuais benéficas, essa precisa ser respeitada pelos que estão próximos ao enlutado e otimizada
pelos profissionais que acolhem e exercem o cuidado nesse período penoso. Espera-se através deste
trabalho, um despertar dos profissionais da saúde sobre a importância da consciência sobre o

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fenômeno da morte e da espiritualidade de cada pessoa, para que durante a assistência possam
desenvolver um acolhimento mais amplo aos enlutados, valorizando a essência do ser humano e
fortalecendo os cuidados de saúde em um momento de intensa dor emocional.

Palavras-chave: Morte, Luto, Espiritualidade, Assistência à Saúde, Filosofia.

ABSTRACT
The present work leads to reflections about spirituality as a strategy to mourning confrontation
process, emphasizing the importance of understanding and valuing the spiritual dimension by health
professionals during the assistance to people mourning. This is a descriptive study, under a reflexive
analysis of the literature focusing on important philosophical references that approches death,
mourning and spirituality. Dealing with the finiteness of a loved one’s life is an experience of pain
and suffering and that leads the individual to develop strategies in order to overcome the difficulties
experienced in the mourning confrontation. Considering spirituality as one of the beneficial
individual strategies, it needs to be respected by those close to the mourning person and optimized
by professionals who receive and exercise care in this painful period. It is expected through this
work, an awakening of health professionals to the importance of conscience about the phenomenon
of death and spirituality of each person, so that during the assistance they can develop a broader
welcome to the mourning people, valuing the essence of the human being and strengthening health
care in a time of intense emotional pain.

Keywords: Death, Mourning, Spirituality, Health Care, Philosophy.

1 INTRODUÇÃO
Ao longo da história da humanidade, as concepções sobre a morte vêm passando por
transformações, tornando perceptível a relação entre o sentimento consciente e autoconsciente da
existência da vida e a incompreensão da morte, gerando assim um distanciamento pela sociedade
contemporânea e consequentemente, dificuldades em lidar com o desaparecimento definitivo de
alguém que estava vivo (GADAMER, 2011). Esse afastamento da realidade sobre a vida e a morte,
torna a vivência da perda do outro em um momento mais doloroso e difícil de ser suplantado.
A morte do outro configura-se como a vivência da morte em vida, uma morte experenciada
que não é a própria, mas é vivida como se uma parte do seu ser morresse, a parte ligada ao outro
por meio de vínculos (KOVÁCS, 2013).
A partir de então, têm-se início o processo do luto, onde o indivíduo apresenta reações
consideradas normais, em resposta a um stress ocasionado pelo rompimento de uma relação
significativa (PARKES, 1998). Tem uma duração variável e perpassa por intensas expressões
emocionais de pânico e raiva, desejo e busca da figura perdida, desapontamentos repetidos, choros,
profunda tristeza, desespero, mas também pela aceitação da perda definitiva e o entendimento de
que uma nova vida precisa ser recomeçada (KOVÁCS, 2013). Entender e saber lidar com a morte,

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com os sentimentos e reações que dela emergem é fundamental na vivência do processo do luto, de
maneira a percorrer o caminho em direção à superação do sofrimento.
Esse processo torna real o fato da perda, requerendo para tal tempo, atenção e aprendizagens.
Em algumas situações as ausências por morte podem ainda requerer uma abordagem terapêutica
devido ao impacto negativo que eventualmente ocasionam em vários domínios da vida do enlutado
(PARKES, 1998). A necessidade do acompanhamento e apoio profissional demanda um olhar
amplo e singular ao indivíduo enlutado, considerando suas crenças, valores e fortalezas como reais
possibilidades estratégicas para o enfrentamento da morte do ente querido.
Nesse contexto de elaboração do luto, a espiritualidade é apontada como um dos fatores que
exerce influência para uma boa aceitação da morte (PARKES, 1998; KOVÁCS, 2013). Isso se
justifica pelo fato da espiritualidade ser considerada como a essência do ser humano, sendo
caracterizada pela confiança no homem e naquilo que o supera, indo além (HENNEZEL; LELOUP,
2004). Embora possa ser confundida ou às vezes limitada ao sentido religioso, a espiritualidade
transcende esse entendimento e está ligada à profundidade do ser humano, emanando do âmago e
impactando na maneira de se relacionar com as pessoas e enfrentar as adversidades, sendo capaz de
transformar e conduzir as emoções positivamente diante das mais difíceis circunstâncias da vida.
Para o profissional de saúde, conhecer o significado atribuído à espiritualidade e as
convicções das pessoas enlutadas torna-se fundamental para a compreensão de suas necessidades,
valorizando essa dimensão humana que deve estar integrada no cuidado holístico (BOUSSO et al.,
2011; SILVA et al., 2020). Além disso, pensar e colocar em prática a espiritualidade no trabalho em
saúde demanda uma base em conhecimentos científicos, que são essenciais para a prática do cuidado
ao ser humano em todo o ciclo de vida (ARRIEIRA et al., 2018).
Dessa maneira, propõe-se uma reflexão a respeito da espiritualidade como estratégia de
enfrentamento do processo de luto, enfatizando a importância da compreensão e valorização da
dimensão espiritual pelos profissionais de saúde durante à assistência aos enlutados. Espera-se
através deste trabalho, um despertar dos profissionais da saúde sobre a importância da consciência
sobre o fenômeno da morte e da espiritualidade de cada pessoa, para que durante a assistência
possam desenvolver um acolhimento mais amplo aos enlutados, valorizando a essência do ser
humano e fortalecendo os cuidados de saúde em um momento de intensa dor emocional.

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2 MÉTODOS
Estudo descritivo, envolvendo levantamentos bibliográficos baseados em importantes
referenciais filosóficos que abordam temáticas relacionadas a morte, ao luto e a espiritualidade,
como subsídio para as análises reflexivas da literatura.
A partir do conhecimento filosófico é possível explicar e construir ideias, conceitos e
ideologias sobre o mundo e a vida humana, visto que o objeto de análise não consiste em aspectos
materiais, afirmam Pereira et al. (2018). Procedeu-se então, as leituras, análises e reflexões
contextualizadas emergindo os seguintes eixos temáticos: o processo de luto após a morte e as
concepções e influências da espiritualidade.

3 UM OLHAR SOBRE O PROCESSO DE LUTO APÓS A MORTE


Ao pensar na morte como fenômeno da vida, no significado da perda do ente querido e nas
mudanças na dinâmica da vida dos que permanecem neste mundo, percebe-se a importância da
compreensão dessas vicissitudes da vida e do decurso do luto a fim de dar novos sentidos aos
vínculos que não mais existem.
Para Jonas (2004) a morte é o mistério que o ser humano se defronta e que o perturba, visto
que contradiz a compreensão, a explicação natural e a universalidade da vida. Por essa razão, muitos
negam o fenômeno da morte, dificultando sua aceitação como parte inseparável da vida.
Estudos apontam que para entender um fenômeno tão complexo e universal há necessidade
de uma visão multidisciplinar, pois o luto é constituído por fatores biológicos, psicológicos e sociais,
onde suas perdas reais e simbólicas ocorrem ao longo do desenvolvimento do ser humano
(COELHO FILHO; LIMA, 2017).
O indivíduo apresenta significativas reações à perda, na qual a dor e angústia o impele a
volta-se e ir ao encontro do que não mais existe (FUKUMITSU, 2013). Para Kovács (2013),
diversos aspectos podem influenciar no desenvolvimento do luto, como a representação da pessoa
perdida, as causas e circunstâncias da morte, as características de personalidade do enlutado, bem
como os fatores psicológicos e sociais. Essas peculiaridades devem ser perscrutadas e valorizadas,
visto que interferem diretamente na manifestação das emoções e reações diante da morte.
Nesse sentido, inúmeros sentimentos podem ser expressos ou reprimidos, tais como a
tristeza, culpa, ansiedade, impotência, raiva e saudade. Esses sentimentos precisam ser vivenciados
como forma de elaboração da morte, pois negá-los pode desencadear um luto mal elaborado e um
consequente processo patológico (KOVÁCS, 2013).

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Essas emoções estão presentes entre a fase do entorpecimento, o sentir-se imobilizado, fase
da vivência da saudade ou protesto, fase da desorganização e desespero e a fase da recuperação,
considerada como o fim do movimento de elaboração da perda (PARKES, 1998). Mesmo sendo
considerada normal, a vivência do luto é difícil, demandando esforços para reorganização do mundo
interior.
De acordo com Jonas (2004), “[...] toda a reflexão do ser humano primitivo luta contra o
enigma da morte, tentando dar-lhe uma resposta no mito, no culto e na religião”. Através da busca
por essas respostas, o ser humano desenvolve importantes mecanismos na vivência e enfrentamento
do luto.
Essa experiência é, portanto, singular e pode ser elaborada com os recursos existentes no
próprio enlutado, apoiados na família, religião, e no meio social, constituindo-se como elementos
que estão diretamente relacionados à forma como o ser humano vivencia a perda (COELHO FILHO;
LIMA, 2017).
Perder alguém com quem se tem vínculos afetivos é exprimido por uma sensação assoladora
de dor e sofrimento, mas que também pode contribuir com o crescimento pessoal. Esse fato é
demostrado nos relatos de mães que perderam seus filhos, mas que conseguiram perceber que além
dos aspectos negativos, esse acontecimento contribuiu para reflexões, conhecimento,
autoconhecimento, revendo suas visões de mundo e relacionamentos, ficando, pois, evidente a
capacidade humana de lidar com as adversidades (FRANQUEIRA; MAGALHÃES; FÉRES-
CARNEIRO, 2015).
Compreende-se assim que, a experiência do luto ocorre de maneira individual, subjetiva,
sendo que nesse processo de retomada da vida, o indivíduo apresenta estratégias de enfrentamento
no intuito de obter equilíbrio diante dos abalos, alcançando a maturidade e encontrando novos
sentidos para o viver.

4 AS CONCEPÇÕES E INFLUÊNCIAS DA ESPIRITUALIDADE


Ao perder alguém querido, as pessoas passam a buscar um novo sentido para sua vida, onde
a espiritualidade sobrevém como uma possibilidade de esperança, de um sentido da vida universal,
a qual traz conforto e esperança à pessoa (BOFF, 2013).
A espiritualidade refere-se à busca pelo sentido, sendo subjetiva e diferente para cada
indivíduo, estando relacionada ao autoconhecimento e a conexão pessoal a uma força maior e
propósito de vida. Na origem da palavra, espírito deriva do hebraico ruah, significando “sopro”,
estando associado a sopro de vida (SILVA, 2011). Nesse contexto, a espiritualidade como parte

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constituinte do ser humano está relacionada a uma experiência profunda e desempenha um papel
importante ao transcender os sofrimentos, atribuindo sentidos à existência humana.
Para Muller (2004), a espiritualidade é uma expressão para designar a totalidade do ser
humano enquanto sentido e vitalidade, significando viver segundo a dinâmica profunda da vida,
onde o ser humano vai construindo a sua integralidade e a sua integração com tudo que o cerca.
Dessa forma, o ser humano vai dando sentido àquilo que crer, encontrando novas maneiras de
enfrentar as dificuldades e perdas, as quais perpassam também pelas crenças religiosas.
A religião se estabelece como a instituição social que controla os rituais e conhecimentos
associados à morte, atribuindo a Deus ou a forças ocultas não só a causa da perda, mas algumas
vezes, a possibilidade de superação da experiência. Na pesquisa realizada por Bousso et al. (2011)
foi apontado que as crenças e as práticas religiosas podem facilitar ou não o enfrentamento do
sofrimento, destacando que a oração e a convicção de que a vida não termina com a morte auxiliam
nos comportamentos adaptativos. Por outro lado, podem ocorrer sentimento de revolta, raiva de
Deus, questionamento de valores, abalo e reavaliação das crenças, dificultando a suplantação da dor
emocional (FRANCO, 2008).
Embora a religião ou religiosidade não seja capaz de solucionar a situação prontamente, esta
configura-se como uma estratégia de recuperação de forças perdidas durante o sofrimento e que
pode ajudar na renovação das energias para que a pessoa enlutada consiga identificar recursos e
aprenda a lidar com as aflições, dando sentido ao evento da morte, trazendo assim consequências
positivas como o crescimento, regeneração e evolução na vida (BOUSSO et al., 2011).
Dada a importância do compartilhamento da experiência dolorosa da perda de um ente
querido com pessoas que possuem visão religiosa, levou Paula (2005, p.171) a afirmar que “a
existência de um espaço do pesar, com pessoas que professam uma fé e crença religiosa, é um
aparato comunitário para a elaboração do luto”. O suporte e apoio depreendido nesse momento
difícil contribui no processo do luto, fortalecendo a fé e alegrando os corações entristecidos.
No entanto, as práticas da espiritualidade no cotidiano são reveladas não somente em
pensamentos e ações religiosas através da oração, leitura das sagradas escrituras e na participação
nas atividades sociais da igreja, mas também em atividades que não estejam relacionadas à religião,
como na busca de apoio em familiares e amigos e no envolvimento em atividades beneficentes
(SILVA, 2011). Essas práticas, assim como os atos de amor, paciência, perdão e solidariedade,
quando exercidas em momentos de dor emocional podem contribuir para o fortalecimento espiritual,
fé e ânimo na caminhada de superação do sofrimento.

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O sentido da espiritualidade do ser humano pode ser revelada pela forma de viver e de dar
significado aos fatos, trazendo benefícios ao corpo e a mente e assegurando um equilíbrio existencial
ao homem (MULLER, 2004). Equilíbrio esse, importante no enfrentamento das mais diversas
circunstâncias da vida, sejam boas ou ruins, como a perda decorrente da morte.
Quando se trata de término da vida de uma pessoa querida, a espiritualidade auxilia na
expansão da vida, relações de abertura, subjetividade e crescimento, sendo reconhecida como forma
efetiva de amparo no momento difícil do luto (BOFF, 2013). Um olhar diferenciado sobre a morte
e um suporte consolidado na essência do ser humano enlutado por meio da espiritualidade,
promoverá resultados benéficos em sua vida.
Faz-se necessário compreender que a espiritualidade influencia a saúde e a vida de pessoas
enlutadas. Intervenções profissionais nesse sentido, como ouvir, estar presente, propiciar esperança
e dar um direcionamento são exemplos de atitudes voltadas para o cuidado integral (ANGELO,
2010). Valorizando, portanto, as crenças pessoais e a espiritualidade daqueles que as colocam em
prática, inclusive nos momentos de dificuldades e mortes.
A prática da espiritualidade torna os profissionais de saúde mais receptivos às demandas dos
indivíduos, viabilizando um padrão de cuidado mais amplo e humanizado, amparando as
necessidades espirituais das pessoas fragilizadas mediante a finitude da vida (COUGHLIN et al.,
2017). Esse acolhimento integral coopera no enfrentamento do processo do luto e reflete na
qualidade de vida dessas pessoas.
Em uma pesquisa desenvolvida por Arrieira et al. (2018), os profissionais relataram que a
espiritualidade possibilita a promoção de conforto aos indivíduos, onde destacaram a relevância da
força do pensamento positivo num exercício de transcendência, ou seja, de encontrar algo fora de
si, trazendo resultados proveitosos através da promoção de cuidados humanizados.
No entanto, embora os profissionais reconheçam a importância de dar atenção para a
dimensão espiritual, normalmente apresentam dificuldades em conceder esse cuidado,
principalmente pela falta de conhecimento e pelo desconforto em versar sobre o tema
(NASCIMENTO et al., 2016). Compreender a realidade e investir em estratégias para superação
dessas barreiras possibilitará aos profissionais de saúde uma assistência mais abrangente e de
qualidade.
Nesse sentido, encorajar as pessoas enlutadas a encontrar significados para suas experiências
é considerado como um desafio para os profissionais de saúde, que revelam não se sentirem
preparados para lidar com a dimensão espiritual, visto que a formação na área de saúde não tem
militado no sentido de preparar o futuro profissional para cuidar desse aspecto (BOUSSO et al.,

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2011). Nessa perspectiva, torna-se de extrema relevância na formação dos profissionais da saúde
oportunizar momentos reflexivos ou disciplinas que abordem a temática da morte para além dos
aspectos biológicos, mediante conteúdos filosóficos e psicológicos que reforcem a consciência
existencial sobre a morte e possibilidades de enfrentamentos com valorização do ser humano e de
suas particularidades.
O sentido da espiritualidade dos próprios profissionais e a compreensão dessa dimensão
como auxiliadora diante de situações estressantes se torna assim, imprescindível na integração das
práticas de cuidados (ARRIEIRA et al., 2018). Dessarte, proporcionando aos enlutados um apoio
profissional salutar em um momento singular de compreensão da morte, intensa dor, elaboração da
perda e da necessidade de uma nova perspectiva de vida.
Dessa forma, o ser humano ao compreender sobre a finitude da vida e o luto, obtendo o apoio
de profissionais que respeitam e valorizam os sentimentos e a dimensão espiritual, prosseguirá em
um caminho rumo a superação da dor da perda decorrente da morte, onde nesse decurso de empenho
pelo alento e esperança, a espiritualidade surge como uma estratégia efetiva de enfrentamento e
possibilidade de ressignificação da perda e de sua vida.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entender a morte como acontecimento natural da vida torna-se extremamente importante
para o ser humano, tanto para enfrentar a sua finitude como daqueles que fizeram parte da construção
de sua história e estabeleceram fortes elos emocionais em sua trajetória nesse mundo, os entes
queridos.
Ao vivenciar a perda através da morte de uma pessoa amada, possivelmente emergirá no
indivíduo enlutado muitos sentimentos dolorosos, os quais são necessários serem experenciados
como parte do movimento de elaboração da perda e superação do sofrimento.
Não significa dizer que os aprendizados e ensinamentos adquiridos no convívio com a pessoa
falecida deverão ser esquecidos e apagados da memória, mas podem sim, ser lembrados de uma
forma nova e até estarem presentes nas ações e atitudes daqueles que continuam nesse mundo.
Nesse interim, a espiritualidade emerge como uma estratégia de enfrentamento do luto para
o ser humano, contribuindo para sobrepujar esse momento penoso, atribuindo novos significados às
suas vivências com o ente falecido e por fim, ressignificando a sua vida sob uma ótica especial, a
da saudade e das boas lembranças.
Por esse motivo, a consciência sobre a vida, a morte e a dimensão espiritual deve ser
apreendida, compreendida e valorizada pelos profissionais ao prestarem cuidados em saúde para os

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enlutados, visto que o respeito e o apoio frente as crenças pessoais, assim como a valorização da
essência do ser humano poderá ser um diferencial no enfrentamento do processo de luto e um
aspecto facilitador nos movimentos em prol do consolo, do conforto e superação da ausência do
ente querido, acolhendo de maneira ampla os enlutados.

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Boletim Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 39, nº96, p.129 - 140 129

Estudos em psicologia sobre morte,


luto, religião e espiritualidade: uma
revisão da literatura brasileira.
Studies in psychology on death, mourning, religion and spirituality: a review brazilian literature
Estudios en psicología sobre muerte, luto, religión y espiritualidad: una revisión de la literatura brasileña
Sergio Lucas Camara1
Marlise A. Bassani2

Resumo: O objetivo deste estudo é apresentar uma análise sobre a publicação de artigos em psicologia que abordam
religião e espiritualidade em relação à morte e ao luto, a partir de uma revisão da literatura realizada na plataforma
da BVS-Psi. Foram selecionados artigos publicados no Brasil, no período de 2011 a 2016, em periódicos cuja avaliação
Qualis/CAPES correspondesse aos níveis A1, A2, B1 e B2, com a participação de, pelo menos, um psicólogo entre os au-
tores. Nos últimos anos, observa-se um crescente número de pesquisas sobre o tema da morte e do luto em psicologia
no Brasil e, também, um interesse maior pelo tema da religião e da espiritualidade. Entretanto, muitos pesquisadores
que se interessam por estudar morte/luto não se interessam pela religião/espiritualidade, da mesma forma que os es-
tudos em psicologia da religião não se debruçam diretamente sobre o tema da morte e do luto. De um apanhado inicial
de 422 artigos, restaram apenas seis para análise, cujos resultados, entre outros aspectos, apontam a necessidade de
mais estudos que tratem da interface entre psicologia e religião/espiritualidade. Dentro das muitas possibilidades, há
necessidade de conciliar estudos sobre morte/luto com espiritualidade/religião, principalmente na realidade brasileira,
onde a espiritualidade/religião são características fortes da população. O presente trabalho foi realizado com apoio do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - Brasil - Código de Financiamento 001.

Palavras-chave: Morte, luto, religião, espiritualidade.

Abstract: The present study aims to present an analysis of articles on psychology regarding religion and spirituality relat-
ing to death and mourning, based on a literature review carried out on the BVS-Psi platform. Articles published in Brazil
within the period from 2011 to 2016 were selected, from Qualis/CAPES A1, A2, B1 and B2 publications, which had at least
one psychologist as one of the authors. In recent years, there has been an increasing number of psychology researches
concerning death and mourning in Brazil, as well as a greater interest in topics like religion and spirituality. However,
many researchers who are interested in studying death / mourning are not interested in religion / spirituality, in the same
way that studies in religion psychology do not focus directly on death and mourning. From an initial collection of 422
articles, only six remained for analysis, whose results, among other aspects, point to the need of more studies regarding
the interface between psychology and religion / spirituality. Within the many possibilities, there is a need to reconcile
studies on death / mourning with spirituality / religion, especially in the Brazilian reality, where spirituality / religion are
strong characteristics of the population. The present study was financed in part by the Nacional Council for Scientific and
Technological Development (CNPq) - Brazil - Financing Code 001

Keywords: Death, mourning, religion, spirituality.

Resumen: El objetivo del presente estudio  es un análisis sobre las publicaciones de artículos que tratan de religión y espi-
ritualidad con relación a la muerte y al duelo, partiendo de una revisión de la  literatura en la plataforma BVS-Psi, selec-
cionamos artículos publicados en Brasil de 2011 a 2016, en periódicos evaluados por la Qualis/CAPES que corresponden
a los niveles A1,A2,B1 e B2 con la participación de por lo menos un psicólogo entre los autores. En los últimos años se ha
observado en Brasil, un número mayor de investigaciones que tratan sobre la muerte y el duelo en psicología, también
existe un mayor interés en investigar sobre la religión y espiritualidad. Mientras muchos investigadores, que se interesan
en por estudiar muerte/duelo no se interesan por estudiar religión/espiritualidad de la misma manera, que los estudios
en psicología de la religión no profundizan directamente el tema de la muerte y el duelo. De una relación inicial de 422
trabajos catalogados, seleccionamos seis que atendían nuestro objetivo, concluimos que entre otros aspectos existe la
necesidad de generar más estudios que vinculen la psicología religión/espiritualidad. Dentro de las muchas posibilida-
des, está la necesidad de conciliar estudios sobre muerte/duelo con espiritualidad/religión, principalmente en la realidad
brasileña, donde la espiritualidad / religión son características fuertes de la población. El presente trabajo fue realizado
con apoyo de la Consejo Nacional de Desarrollo Científico y Tecnológico (CNPq) - Brasil - Código de Financiamiento 001.

Palabras clave:  Muerte, duelo,  religión, espiritualidad


1
Doutorando em Psicologia Clínica, Núcleo Configurações Contemporâneas da Clínica Psicológica – Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clinica –
PUC/SP, mestre em Teologia, mestre em Psicologia, professor de Teologia. (55) 11-982740921 – sergiolucas40@hotmail.com. ORCID 0000-0002-4384-2190.
2
Professora Titular da PUC/SP, Coordenadora do Núcleo Configurações Contemporâneas da Clínica Psicológica do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psico-
logia Clínica - PUC/SP. ORCID: ID 0000.0003-4886-0301
130 Boletim Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 39, nº96, p.129 - 140

Introdução familiar (Ariès, 2003). Em todo caso, sabemos que o


olhar para o paciente terminal pode despertar inicia-
A crescente produção de artigos em psicologia nos tivas que proporcionam mais alívio e conforto àqueles
últimos anos tem proporcionado a necessidade de que estão morrendo, pois eles nos comunicam muitas
frequentes trabalhos de revisão. A revisão apresenta coisas nessa fase final da vida (Kübler-Ross, 2008) e
várias vantagens, entre as quais, destaca-se a possi- é importante que possamos dar voz às pessoas nessa
bilidade de perceber como alguns temas vem sendo situação e não somente a ela, mas também aos seus
abordados nos estudos. Além disso, o trabalho de re- familiares (Franco, 2016). Logo, não é apenas o doente
visão mostra a frequência de investigações sobre de- terminal que precisa de atenção, os familiares carecem
terminados assuntos e ainda possibilita a identificação de compreensão e apoio, no momento de despedida
de lacunas ainda existentes em torno desses assuntos. e também depois que a morte acontece, pois, eles en-
A proposta desse tipo de trabalho deve considerar que trarão num processo permeado de vários sentimentos
não existe uma única forma de se fazer pesquisa de re- que se mesclam e se substituem, formando o que cha-
visão, o que amplia ainda mais o universo da investiga- mamos de luto (Parkes, 1998). Sobre a atenção aos en-
ção e obriga cada trabalho a uma descrição mais clara lutados, estudos mostram que existem diferentes ma-
sobre o objetivo e, principalmente, sobre o método. neiras de pensar a experiência (Franco, 2010)a questão
No caso do presente trabalho, o interesse foi por pes- das perdas em instituições de saúde, o atendimento ao
quisas sobre morte/luto, que abordam a relação entre enlutado, a morte no contexto escolar, as consequên-
psicologia e espiritualidade/religião. É verdade que o cias psicológicas do abrigamento precoce, as possibi-
tema da morte tem sido alvo de interesse de muitas lidades de intervenção com crianças deprimidas pela
áreas de pesquisa, entre as quais se inclui a psicologia perda e a preservação dos vínculos na separação con-
e, nem por isso, deixa de causar estranheza em algu- jugal.”,”ISBN”:”978-85-323-0708-8”,”language”:”Por-
mas pessoas. O tema da morte sempre esteve próximo tuguês”,”editor”:[{“family”:”Franco”,”given”:”Maria
do nosso cotidiano, ainda que de forma indesejada. Helena Pereira”}],”author”:[{“family”:”Franco”,”gi-
Essa proximidade mostra-se em movimento crescente, ven”:”Maria Helena Pereira”}],”issued”:{“date-par-
principalmente nos tempos atuais, com a explosão de ts”:[[“2010”,1,1]]}}}],”schema”:”https://github.com/
notícias em torno da morte, quer seja pelas guerras em citation-style-language/schema/raw/master/csl-cita-
países distantes, pela violência tão próxima de nós na tion.json”} , assim como não existe uma única forma de
realidade brasileira e até mesmo nos noticiários sobre prestar cuidado a alguém que apresenta dificuldade no
o falecimento de pessoas famosas, com quem construí- processo de elaboração do luto. O luto é uma experiên-
mos, sem que não as conheçamos pessoalmente, uma cia complexa, as lembranças do falecido fazem emergir
relação afetiva. Certamente, a forma como hoje vemos sentimentos importantes que não devem ser despre-
a morte é diferente de como ela era vista décadas atrás, zados ou rejeitados, pois é no contato com esses sen-
o esqueleto vestido de preto com a foice na mão foi timentos que encontramos a possibilidade de elabora-
morto para dar lugar a tantas outras imagens ameaça- ção da perda de forma mais saudável, apesar das dores
doras à vida humana, como a comida rápida e gordu- que a pessoa deverá enfrentar. Nos primórdios da psi-
rosa, o consumo de álcool e drogas, o comportamento canálise encontramos a ideia de que a pessoa enlutada
sexual promíscuo e mesmo a falta de exercícios físicos, tinha necessidade de redirecionar para outros objetos
que se tornam uma temerosa ameaça à vida humana o interesse que alimentava pela pessoa perdida (Freud,
(Bauman, 1998). Com suas várias máscaras o tema da 2012). Com o avanço das pesquisas na área, hoje po-
morte é objeto de interessantes e diversificadas for- demos falar de diferentes formas de vivência do luto
mas de estudo, em diversas áreas da construção do e é importante que profissionais da área da saúde em
conhecimento. Caminhando ao lado desses estudos, e geral, principalmente psicólogos, possam aprofundar
muitas vezes fazendo um entrelaçamento, encontra- o conhecimento sobre o assunto para prestarem um
mos também artigos que tratam do luto, que pode ser serviço melhor àqueles que necessitam de apoio. Nos
classificado basicamente como normal ou complicado. últimos anos, muitos profissionais, ao acompanharem
As atitudes humanas diante da morte se alteram de pessoas enlutadas, já não se apoiam na ideia freudiana
acordo com o contexto social, histórico e cultural. Na de desinvestimento no objeto perdido; ao contrário,
realidade atual, a morte como consequência do adoe- dão suporte para que a pessoa possa entrar em conta-
cimento grave está confinada à uma cama hospitalar, to com a perda, ao mesmo tempo em que também se
quando em outras épocas ela acontecia no ambiente direciona para outras coisas da vida, num movimento
Boletim Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 39, nº96, p.129 - 140 131

de oscilação conhecido como Modelo do Processo Dual em muitos casos, sempre foi uma forma tradicional à
(Stroebe & Schut, 1999). A compreensão do luto na qual as pessoas recorriam, antes mesmo dos avanços
perspectiva do Modelo do Processo Dual vem sendo da psicologia. Entretanto, mesmo podendo contribuir,
adotada na prática clínica de muitos psicólogos no Bra- não devemos ignorar a desconfiança de muitos pesqui-
sil. Trata-se de um processo dinâmico e um enfrenta- sadores, uma vez que nem todos os efeitos da religião
mento adaptativo, que considera o estresse da perda e são positivos. Devemos considerar a possibilidade de
também da restauração. Mas o trabalho do psicólogo, que certas crenças espirituais e religiosas possam pio-
no entanto, não começa apenas após a morte. Desde o rar os problemas apresentados pelo paciente no caso
momento em que uma enfermidade grave se intensifi- de tratamento médico ((Koenig, 2005). Essa preocu-
ca e a ameaça à vida torna-se mais evidente, o grito de pação deve ser extensiva também à prática clínica da
socorro pode ecoar em nossos atendimentos. psicologia. Quando incluímos a religião/espiritualidade
Conforme apontam as pesquisas, psicólogos rece- no atendimento em situação de morte, o cuidado deve
bem pedidos de atendimento quando pacientes, fami- ser ampliado, pois trata-se de uma situação que por si
liares e membros das equipes de saúde são mobilizados mesma exige um preparo de todos os que se dispõem
por sentimentos e sensações perturbadoras (Sebastia- aos cuidados com pacientes gravemente enfermos, ter-
ni & Biaggi, 2016). Psicólogos que trabalham em Uni- minais e também enlutados. Respeitadas as limitações
dades de Terapia Intensiva conhecem bem o impacto de cada pessoa, encontramos muitos religiosos que
emocional da situação, sendo possível a ocorrência do podem oferecer apoio nessa situação, sem pressionar a
óbito do paciente durante a visita dos familiares ou pessoa a sair da experiência de dor. Podemos, portanto,
imediatamente após a visita. Sebastiani e Biaggi (2016) considerar essas duas formas de suporte a pessoas que
ressaltam a Psicoterapia Breve de Emergência, como apresentam grande dificuldade de lidar com a morte de
um método para intervenção psicológica nessas situa- um ente querido: o psicológico e o religioso. Assim sen-
ções, considerando que a ameaça à vida incorre no peri- do, entre os diversos cuidados prestados em situação
go iminente de desestabilização emocional e a atuação de morte, a escuta clínica psicológica pode e deve estar
do psicólogo tem a intenção de obter um grau de alívio atenta às crenças espirituais apresentadas pelo pacien-
o mais rápido possível. Um dos objetivos dessa inter- te. Em muitos casos é possível que o serviço psicológico
venção é utilizar técnicas psicológicas que ampliem a seja compartilhado com o apoio religioso e espiritual
conscientização do paciente diante do ambiente estres- (Kovács, 2007).
sor, levando em conta os recursos internos dos quais A consideração sobre essas duas modalidades de
ele dispõe. Essa situação ilustra bem uma das razões pe- suporte desperta o interesse por estudar as possibi-
las quais a psicologia vem apresentando um movimen- lidades de relação entre psicologia e religião, quando
to crescente de interesse pela temática da morte, cujas o assunto é morte e luto. Contemplando a interface
perspectivas refletem-se em expandir as possibilidades entre essas duas áreas do conhecimento, realizamos
de atuação tanto dos psicólogos quanto de outros pro- este estudo com o objetivo de apresentar um olhar
fissionais da área da saúde. A clareza com que desvela- crítico sobre as publicações de artigos em psicologia
mos cada vez mais a complexidade da situação expõe a que abordam religião e espiritualidade em relação
necessidade de atentarmos para outros atores do cená- à morte ao luto, principalmente na perspectiva do
rio atual que também lidam com a morte e o luto e que cristianismo católico. Afinal, como os estudos em
esses reconheçam o valor desses estudos e relacionem psicologia consideram a religião e a espiritualida-
tais avanços às suas práticas específicas, como é o caso de da pessoa que vivencia uma situação de morte e
das lideranças religiosas, em geral, e especificamente luto? Existem estudos que apresentam essa relação
dos padres católicos que contam com orientações ri- referindo-se especificamente ao catolicismo? Certa-
tuais objetivas para atuação diante da morte. O fato mente, nem todas as pessoas demonstram necessi-
é que o adoecimento grave, a morte e o luto são expe- dade de adentrar na esfera da religião/espiritualida-
riências humanas que em si mesmas demandam muita de quando enfrentam momentos difíceis, mas num
atenção e cuidado para com aquelas pessoas que estão país cuja população se diz maciçamente religiosa, o
emocionalmente envolvidas no evento, quer se trate da quadro é diferente. Embora os dados apresentados
própria pessoa doente dou dos que a ela estão ligados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
por laços afetivos. É nesse contexto que, entre os tipos indiquem um declínio do catolicismo nas últimas
de ajuda a serem ofertados, podemos citar o suporte re- décadas, devemos considerar uma porção bastante
ligioso às pessoas enlutadas (Parkes, 1998). A religião, razoável da população brasileira identificada com o
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cristianismo católico, uma vez que entre os mais de “catolicismo”, “presbíteros”, “sacerdotes” e “Igreja Ca-
80% que se declaram cristãos na população brasilei- tólica”. A busca realizada com os novos descritores
ra, mais de 60% se dizem católicos, conforme o últi- resultou num achado de 422 artigos. Essa descober-
mo recenciamento demográfico, realizado em 2010. ta em princípio parece muito razoável, porém, apesar
da insistência na utilização de palavras que pudessem
Método ampliar a busca de artigos no Brasil que fizessem refe-
rência à denominação católica do cristianismo, na área
Para iniciar o processo de busca pelos artigos de-
sejados, seguimos os passos a partir da definição dos da psicologia, não foram localizadas pesquisas que tra-
descritores a serem utilizados e também de alguns cri- tassem especificamente de uma denominação religiosa
térios de seleção a serem aplicados aos artigos encon- entre as selecionas. Entretanto, com outros objetivos,
trados com esses descritores (Bassani, 2015). A pes- foram identificados na plataforma artigos que abor-
quisa se deu na plataforma on-line da Biblioteca Virtual dam a relação entre psicologia, religião e espirituali-
em Saúde – Psicologia (BVS-Psi), integrada à Scientific dade em diversas expressões religiosas articuladas a
Eletronic Library Online (SciELO). Essa plataforma tem diferentes experiências, mas não à situação de morte.
uma considerável abrangência de publicações e atingiu A partir desse achado foram aplicados, passo-a
altos níveis nos anos de 2015 e 2016, principalmente -passo, os critérios para seleção dos artigos. Primei-
no que se refere à publicação de artigos científicos. ramente, foram selecionados os artigos pelo critério
temporal e restaram 149 artigos publicados entre
1. Coleta de dados e resultados
2011 e 2016. O critério temporal revelou que mais
Inicialmente, foram lançadas as palavras “psico- de um terço dos artigos foram publicados nos últi-
logia”, “religião”, “espiritualidade”, “luto” e “morte”, mos seis anos, o que é extremamente relevante, se
com diversos agrupamentos entre essas palavras. O considerarmos entre os 422 artigos localizados, há
objetivo era localizar artigos publicados no Brasil, es- publicações da década de 1980. Portanto o interesse
critos originalmente em português, que tivessem pelo pelo tema da religião/espiritualidade teve um consi-
menos um psicólogo entre os autores, em periódicos derável crescimento nesses últimos anos. Com a lei-
com avaliação Qualis/CAPES num dos seguintes ní- tura dos resumos, foram selecionados os artigos que
veis: A1, A2, B1 e B2. O critério temporal das publica- apresentavam alguma relação entre as temáticas da
ções correspondeu ao período de 2011 a 2016. Esses morte/luto com a religião/espiritualidade e aplicado
descritores, inicialmente adotados, demonstraram-se o critério de classificação do periódico no qual o arti-
insuficientes para alcançar os objetivos, uma vez que go foi publicado.
a referência à religião/espiritualidade ficava muito Nessa etapa, chamou a atenção a ausência de arti-
abrangente e corria-se o risco de não localizar arti- gos que fizessem referência exclusiva ao cristianismo
gos que utilizassem expressões mais específicas do católico, porém os trabalhos continuaram. O resulta-
cristianismo católico. Foram incluídos novos descri- do da aplicação desses critérios foi um conjunto de
tores e a feita a reformulação dos agrupamentos. As apenas seis artigos para serem analisados, conforme
novas expressões acrescidas foram: “ritual”, “padres”, apresentamos de forma resumida na figura a seguir:

ARTIGO ANO DE QUALIS/CAPES AUTORES REGIÃO DA PESQUISA


PUBLICAÇÃO DO PERIÓDICO
Artigo 1 2012 B2 05 psicólogos Sudeste - SP
Artigo 2 2012 A2 02 psicólogos Nordeste - RN
Artigo 3 2013 A2 02 médicos 02 psicólogos Sudeste - RJ
Artigo 4 2014 A2 01 psicólogo Sudeste - SP
Artigo 5 2014 A1 01 psicólogo 01 estudante Sul - PR
Artigo 6 2015 A1 2 psicólogos Sudeste - SP
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2. Análise dos dados instituições particulares, duas das quais são confes-
sionais católicas. Esses dados levam-nos a pensar no
Para os procedimentos de análise foram defini-
incentivo necessário às instituições particulares para
das três categorias: características de identificação,
pesquisa e publicação, embora os números não sejam
características metodológicas e características de
suficientes para afirmarmos a carência de pesquisa
conteúdo.
nessas instituições. Chama atenção o fato de que os
1a. Categoria de Análise: Características de identificação
trabalhos realizados por pesquisadores vinculados
A primeira categoria de análise, referente à iden-
a instituições confessionais não fazem referência
tificação, foi dividida em cinco subcategorias: autor,
àquela religião específica. Podemos pensar na liber-
local da pesquisa, instituição dos pesquisadores, pe-
dade dada aos pesquisadores como um fator positivo
riódico e fluxo das publicações.
aplicado pelas instituições. Por outro lado, esse dado
a) Identificação dos autores – essa categoria
corrobora para a falta de pesquisas que tratem de
permitiu identificar a parceria realizada na elabo-
questões religiosas ligadas a uma religião.
ração das pesquisas, considerando a importância
d) Periódicos das publicações – com essa cate-
do trabalho multidisciplinar. Além disso, apontou
goria de análise podemos obter informações sobre os
que outros profissionais se interessam pelo tema da
níveis nos quais se encontram artigos que debatem
morte e religião. Dos seis artigos selecionados, qua-
os temas em questão. Certamente quanto mais ele-
tro foram produzidos apenas por psicólogos, os ou-
vado for a classificação do periódico, mais exigências
tros dois contaram com a parceria de um estudante
são impostas para a publicação, dentre a lista com-
de psicologia num e de dois médicos no outro, sendo
posta de oito níveis de qualificação. De acordo com
um dos profissionais médicos, identificado como psi-
o resultado desta pesquisa, podemos dizer que entre
quiatra. O estudante que participou da elaboração de
os autores que se interessam pelo tema da morte/
um artigo está na iniciação científica, mas também
luto e fazem alguma referência à religião/espirituali-
está na área da psicologia. Logo, apenas um dos arti-
dade produzem trabalhos de alto nível, uma vez que
gos teve a participação de outros profissionais, médi-
dos seis localizados, dois se encontram no extrato
cos. Esse dado leva-nos a refletir sobre a importância
mais elevado, A1, três no extrato A2. Essas informa-
do trabalho multidisciplinar entre profissionais da
ções dão otimismo quanto ao nível de publicações
área da saúde, especificamente a psicologia e religio-
sobre o assunto.
sos, uma vez que o tema da religião está entre os in-
e) Fluxo das publicações – nessa categoria po-
teresses da pesquisa.
demos perceber a frequência a publicações e isso
b) Local de realização da pesquisa – com essa
também nos remete a uma visão do quanto o assunto
categoria podemos perceber em que regiões o tema
pode ou não estar na pauta dos interesses de pesqui-
aparece com mais evidência. Das cinco regiões geo-
sadores em determinados períodos. De acordo com
gráficas brasileiras, duas não foram encontradas
os resultados, as publicações se deram durante qua-
como local de produção das pesquisas: a região Nor-
tro anos consecutivos. Não foram localizadas publi-
te e Centro-Oeste. Dois artigos foram produzidos no
cações para o primeiro e último anos do período aqui
Nordeste, um na região Sul e três na região Sudeste,
determinado, 2011 a 2016. Sobre o número de pes-
destacando São Paulo, como único local a produzir
quisas num período, é preciso considerar a influência
mais de um artigo. A ausência de artigos na região
de fatores externos que podem incentivar ou levar a
Norte e Centro-Oeste pode ter várias razões, mas se-
perda de interesse por determinados assuntos. Uma
riam necessárias outras pesquisas que levantassem
pesquisa sobre psicologia e religião no Brasil (Paiva
a situação de realização de trabalhos nessas regiões
et al., 2009) mostra que o decréscimo de publicações
para podermos perceber com mais clareza se nessas
num período específico estava associado à situação
regiões a produção científica é menor que nas demais
política do país. Assim, devemos ter claro que alguns
do país.
assuntos podem atrair o interesse de pesquisadores
c) Instituição à qual pertencem os autores –
numa época e não no momento seguinte, podendo
Uma vez que alguns artigos foram escritos por mais
voltar à pauta em outros momentos. No caso desta
de um autor, foram identificados 14 autores para
pesquisa, levando em consideração a contemplação
os seis artigos selecionados. Esses autores perten-
do aspecto religioso e espiritual, é importante lem-
cem a oito instituições de ensino, sendo cinco vin-
brar que o Conselho Regional de Psicologia de São
culados a instituições públicas e três pertencentes a
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Paulo, sexta região, promoveu durante o ano de 2015 das bases epistemológicas à qual recorrem muitos
uma sequência de seminários sobre psicologia e reli- pesquisadores interessados em assuntos relativos à
gião, com participação de pesquisadores de todo o morte e religião. Chama a atenção a predominância
país. Essa iniciativa resultou num apanhado de mais de pesquisas qualitativas, como uma forma de abor-
de 90 artigos escritos em apenas um ano e que foram dar uma rica compreensão sobre a situação de morte
publicados em três volumes pelo CRP-SP, ao final de e também sobre assuntos ligados à religião. Duas
2016. É possível que entre o material coletado pelo das pesquisas selecionadas (Magalhães, Gonçalves,
CRP, alguns artigos tivessem sido submetidos à pu- Sawaguchi, Taba, & Faria, 2012; Rocha, 2014) não
blicação nos periódicos indexados na plataforma da se definem necessariamente como qualitativas ou
BVS-Psi. No entanto, uma vez que muitos autores se quantitativas, uma vez que são pesquisas teórico-
concentraram nos seminários do CRP-SP, certamen- conceituais, nas quais o interesse se debruça sobre
te esses artigos não foram encaminhados para publi- conceitos, o que não compromete a importância
cação em periódicos e, portanto, não contemplam os das mesmas. Não foram localizadas pesquisas com
critérios de seleção deste trabalho. método misto.
2a. Categoria de análise - Características 3a. Categoria de análise – Características de
metodológicas conteúdo

Nessa categoria analisamos quais pesquisas fo- A análise de conteúdo é muito rica e pode
ram realizadas adotando os métodos quantitativos, oferecer muitas chaves de compreensão de um de-
qualitativos e mistos e também a identificação dos terminado assunto, a partir de olhares diversificados
instrumentos para a coleta de dados. Apenas um dos e específicos. Entre os artigos selecionados nessa
artigos selecionados utilizou o método quantitativo, amostra, o foco de um deles dirigiu-se a equipe de
com aplicação de dois instrumentos, o Inventário profissionais que lidam diretamente com a situação
COPE e a Entrevista Coping Motivacional (Cravinho de morte. Nesse caso, em vez do paciente, o olhar
& Cunha, 2015). Como esperado, no caso da utili- dos pesquisadores voltou-se à equipe de enferma-
zação de instrumentos em pesquisas relacionadas à gem que convive diariamente com a morte fetal
situação de morte, o material utilizado diz respeito (Cravinho & Cunha, 2015). A situação desse artigo,
ao “enfrentamento”. É possível que muitas pesqui- que está entre os selecionados, aproxima-se de ou-
sas quantitativas relacionada à religião e espirituali- tro estudo recentemente desenvolvido no campo da
dade também recorram a instrumentos que refiram bioética, que faz menção ao agir médico em Unidade
ao enfrentamento, ou seja, tudo indica haver uma de Terapia Intensiva Neonatal com crianças extre-
convergência para o enfrentamento entre pesquisas mamente prematuras. O pesquisador desse último
que envolvem a situação de morte, quando fazem re- trabalho faz clara defesa da dignidade das crianças
ferência à religião/espiritualidade, da mesma forma e também do respeito e importância da espirituali-
que pesquisas sobre religião/espiritualidade quando dade dos pais que estão prestes a perder o filho re-
relacionadas à situação de morte, fazem referência cém-nascido (Vale, 2019). A pesquisa sobre o agir
ao enfrentamento, o que, para alguns pesquisadores, médico, embora recente, não se incluiria no escopo
viabiliza a utilização de instrumentos adequados ao do presente trabalho pelo fato de não ter sido desen-
método quantitativo, como os citados acima. Três volvida por algum profissional psicólogo. No entan-
das pesquisas localizadas utilizaram o método qua- to, em ambos os casos, um que relata o impacto da
litativo, sendo que em duas pesquisas (Freitas & Mi- morte nos profissionais de enfermagem e outro que
chel, 2014; Veras & Moreira, 2012) foram utilizadas se debruça sobre a atuação do médico, encontramos
entrevistas fenomenológicas e uma pesquisa (Melo, com clareza pontos convergentes entre situação de
Zeni, Costa, & Fava, 2013) tratou de estudo de caso. morte e religiosidade/espiritualidade, que sinalizam
Esse dado leva-nos a refletir quais abordagens psico- o quanto devemos estar atentos à importância dessa
lógicas são mais utilizadas em pesquisas que tratem relação. Nossa análise de conteúdo percorreu as pro-
tanto o tema da morte/luto, como o tema da reli- duções selecionadas, cujos objetivos são acompanha-
gião/espiritualidade. dos de uma rica produção de conteúdo que amplia e
Considerando muitos artigos que foram descar- aprofunda a compreensão sobre morte, luto, religião
tados por não preencherem todos os critérios de se- e espiritualidade, o que pode ser facilmente observa-
leção, podemos afirmar que a fenomenologia é uma do nos resumos organizados na figura a seguir:
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ARTIGO CONTEÚDO RESUMIDO


Artigo 1 O primeiro artigo apresenta uma reflexão teórico-conceitual sobre alguns proces-
sos e componentes psíquicos de natureza perversa, que estão na base dos ideais
fundamentalistas religiosos. Na perspectiva da metapsicologia, o artigo trabalha os
conceitos de pulsão de morte e pulsão de vida e oferece uma contribuição para se
compreender o comportamento de fundamentalistas religiosos. O conteúdo apresen-
ta relevância para o campo da psicologia social, sociologia, teologia, antropologia e
outros.
Artigo 2 Apresenta uma abordagem sobre as fases do envelhecimento e a morte, de acordo
com o processo de individuação, a partir da amplificação simbólica de imagens dessa
etapa da vida, na perspectiva da Psicologia Analítica. Há uma apresentação das faces
da morte em diferentes culturas e denominações religiosas. Mais especificamente, o
trabalho oferece contribuições para a Psicologia Analítica e evidencia a importância
de se considerar a religião, quando de um atendimento psicoterápico relacionado ao
envelhecimento e à morte.
Artigo 3 Foco nos profissionais de saúde, cujo exercício profissional se dá num contexto em
que a morte é frequente. Essa pesquisa utilizou dois instrumentos: o “Inventário
COPE” e uma “Entrevista de Coping Motivacional”, com o objetivo de estudar o coping
na morte fetal. Os resultados desse trabalho apontam a religiosidade como estratégia
mais utilizada pelos participantes, para enfrentamento da morte. O artigo expõe que
quase 90% dos entrevistados declararam possuir uma religião. As autoras concluem
dizendo que a religiosidade pode estar relacionada à função de busca de apoio social,
ajuda instrumental, conselho, conforto e apoio espiritual.
Artigo 4 Apresenta uma discussão sobre a morte e o morrer, seus significados e diferenças
culturais e a atuação do profissional psicólogo junto aos pacientes e seus respectivos
familiares, no processo de aceitação da morte. Dois casos clínicos ilustram a pesquisa.
A referência à religião/espiritualidade aparece de forma discreta no relato dos casos.
O conteúdo do artigo é muito rico para a atuação dos profissionais de psicologia
quando de um atendimento de adoecimento grave e proximidade da morte.
Artigo 5 Objetivou compreender os sentidos atribuídos à morte pelo sertanejo nordestino em
tratamento de câncer. Foi utilizado como instrumento entrevista fenomenológica,
com sete participantes. Assim como no trabalho junto aos profissionais de saúde,
também nesse, a fé é apontada como principal forma de enfrentamento da morte,
pelos sertanejos. O artigo aponta a sensação de conforto, a partir da religião, em rela-
ção à morte, pois os participantes consideram que a morte faz parte de um caminho
já traçado por Deus. Embora o artigo faça menção a religiosidade e espiritualidade
em situação de adoecimento grave e proximidade da morte, algumas lacunas ficam
expostas, no que refere a explorar mais a dimensão espiritual e religiosa na aceitação
da morte.
Artigo 6 A pesquisa apresenta uma reflexão sobre a vivência do luto materno na contempo-
raneidade. São apontados dez elementos constituintes da vivência do luto materno,
entre os quais está a espiritualidade. Foi utilizada entrevista fenomenológica com três
mães participantes da pesquisa. A importância da espiritualidade é afirmada a partir
do discurso das mães. Na relação entre morte e espiritualidade, são apresentados três
aspectos positivos no processo de elaboração do luto

A análise de conteúdo considerou a forma como a da morte com relação à cultura religiosa. São arti-
religião/espiritualidade foi abordada na relação com gos que apresentam um rico conteúdo e colaboram
a morte/luto. Duas pesquisas aprofundaram as ques- com o processo de psicoterapia, mas não exploram
tões teórico-conceituais. Uma, na perspectiva de en- exatamente a dimensão da espiritualidade e religião
tendimento do fundamentalismo religioso e outra, em situação de morte em si mesma. Três artigos uti-
na perspectiva do envelhecimento e proximidade lizaram instrumentos, o que enfatiza a importância
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de utilização de entrevista, questionários e também a psicologia da religião/espiritualidade, destacamos


testes que possibilitam uma compreensão mais clara inicialmente neste trabalho o recente e crescente in-
sobre a vivência da religião e espiritualidade nas pes- teresse dos pesquisadores psicólogos. Do total inicial
quisas. Nenhum estudo apresentou aspectos negati- de 422 artigos localizados na plataforma da BVS-Psi,
vos da religião/espiritualidade com relação à morte, 149 foram publicados no período de 2011 a 2016,
mas também não houve um aprofundamento dessa ou seja, mais de 35% do material lançado na plata-
dimensão, ela surge mais como um item da entrevis- forma, com os descritores definidos nesta pesquisa.
ta ou questionário, ou mesmo a partir da narrativa Esse dado aponta para um importante crescimento
dos participantes. Do ponto de vista dos pesquisa- de pesquisas relacionadas aos temas aqui destaca-
dores, o assunto foi acolhido, porém não explorado. dos. Ainda sobre esse aspecto, podemos afirmar que
Chamou nossa atenção o fato de a espiritualidade/ algumas expressões são mais utilizadas que outras.
religiosidade surgirem e não serem aprofundadas, o Observa-se que são publicados mais artigos relacio-
que pode estar relacionado ao receio e desconfiança nando “psicologia e morte” (40 artigos), do que com
presentes nos meios científicos, quando o trabalho o binômio “psicologia e luto” (8 artigos). Chama a
esbarra com o transcendente, que é próprio da ex- atenção o fato de a expressão “morte” ou mesmo o
periência espiritual e religiosa. É considerando esse interesse pelo tema da morte seja mais frequente do
possível receio que destacamos o trabalho de Vale que pelo luto. O mesmo também foi observado quan-
(2019), que não se esquiva, mas aborda de forma to ao uso das expressões “religião” e “espiritualida-
clara a importância da dimensão espiritual dos pais de”: foram 39 artigos sobre “psicologia e religião” e
e das crianças internadas na Unidade de Terapia apenas 19 com os descritores “psicologia e espiritua-
Intensiva Neonatal. Esse autor, em referência à Ética lidade”. Em todos os artigos destaca-se a referência
da Virtude, fala que o prematuro extremo, mesmo à dificuldade contemporânea para lidar com a morte,
diante do limite da vida, que parece tão próximo, diferente do comportamento de outras épocas, quan-
continua sendo uma pessoa em todos os seus do o evento era encarado como natural e até espera-
aspectos e o suporte espiritual deve ser garantido do, imerso no ambiente familiar (Ariès, 2003). O des-
como uma resposta à sua necessidade fundamental, locamento do lugar da morte para o hospital, como
como um direito que não pode ser desconsiderado. acontece atualmente, parece não contribuir muito
Também para os pais, devido à perda de significado, para que as pessoas aceitem com mais a situação. De
sentido e esperança, pode-se falar em sofrimento certa forma, podemos pensar num processo de anos,
e crise espiritual, vivenciados como uma sensação no qual naturalmente as pessoas aprendiam a lidar
de abandono por parte de Deus e de tantos com a morte e, nos casos de adoecimento prolonga-
questionamentos profundos sobre as suas estruturas do e grave, a morte era familiar, acompanhada por
de crença que lhe dão força. A espiritualidade deve todos os membros do núcleo. Aos poucos ela foi afas-
ser considerada como um dos sinais vitais, de tada e, principalmente, as crianças e os mais jovens
modo que é importante que o médico seja capaz de
são “poupados” do contato com a debilitação física
identificar e reagir aos aspectos da espiritualidade
extrema e a morte. constitui-se, assim, uma lacuna
que se apresentam na situação. Nesse sentido, o
no aprendizado, não se aprende a lidar com a morte,
autor defende ainda o cuidado espiritual, como
ela é quase reduzida a uma notícia e aos rituais de
parte integrante dos cuidados paliativos, e afirma
sepultamento e cremação, nos quais também se re-
ser fundamental alimentar a fé que aponta para o
pete a atitude protetora de não deixar que todos par-
caminho que responde a ansiedade sobre o destino
ticipem. Em meio a esse processo de aprendizado e
do bebê, a esperança que ajuda a perseverar nesse
“desaprendizado”, surge a proposta de uma educação
caminho e a caridade como necessidade universal
para a morte, que considera todo o contexto atual no
que confia aquele que está morrendo ao amor de
qual ela, a morte, se insere. Um novo aprendizado
Deus. A proposta desse autor, construída no terreno
sobre algo tão antigo quanto a própria existência hu-
da pesquisa cristã, aproxima-se da realidade religiosa
mana, que considera diferentes aspectos da situação,
brasileira, o que a torna relevante neste estudo.
como a dor da mãe que perde o filho, o sofrimento de
Discussão profissionais que estão em constante contato com a
morte, a dificuldade de aceitação daqueles que estão
Entre os muitos dados que chamam atenção nas em fase terminal, bem como de seus respectivos fami-
pesquisas sobre situação de morte, que aproximam liares. Torna-se evidente a necessidade de apoio que
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as pessoas revelam e, às vezes, alguns profissionais experiência humana. Por isso, esse tema foi escolhi-
de saúde também são incompreendidos. A ausência do para o V Seminário Nacional de Psicologia e Senso
de prática religiosa também pode estar relacionada à Religioso, que reuniu pesquisadores de diversas uni-
dificuldade de elaboração do luto. Acreditar num ser versidades brasileiras. Este livro divulga as conferen-
superior que acolhe a pessoa amada, é para muitos o cias, palestras e mesas-redondas acontecidas nesse
conforto suficiente para dar conta da situação e não seminário. Qual a importância da espiritualidade
apenas em relação aos que morreram, mas também para um movimento de emancipação em psicologia
como força necessária para que os enlutados possam e num contexto interdisciplinar? Como vivenciam a
dar continuidade à própria vida. Nesse sentido, uma espiritualidade pessoas de diferentes religiões? Es-
das pesquisas aponta com clareza a religiosidade de sas são algumas das perguntas discutidas aqui.”,”IS-
profissionais de saúde, como sendo uma das grandes BN”:”978-85-349-2399-6”,”language”:”Portu-
bases para suportar a dor. O resgate da escuta da fala guês”,”editor”:[{“family”:”Amatuzzi”,”given”:”Mauro
do moribundo (Kübler-Ross, 2008) é uma atitude Martins”}],”author”:[{“family”:”Ancona Lopez”,”gi-
muito útil que faz bem não apenas àqueles que estão ven”:”Marilia”}],”issued”:{“date-parts”:[[“2005”,7,1]]}}}],”s-
morrendo. É também necessário que profissionais de chema”:”https://github.com/citation-style-langua-
saúde, tendo clareza da irreversibilidade da situação, ge/schema/raw/master/csl-citation.json”} . Isso
não ignorem aquilo que os pacientes querem mani- significa que, mesmo sendo ateu, o profissional de
festar, pois suas dores, angústias, tristeza e tantas psicologia que atende uma situação de morte não
outras emoções vividas nesse momento, podem ser pode menosprezar aquilo que o paciente apresenta
compartilhadas, só é preciso abrir o espaço para esse com referência às suas crenças religiosas. Ainda que
compartilhamento. Nesse sentido, os profissionais algumas práticas religiosas também estejam con-
de saúde, principalmente psicólogos que atuam em taminadas por falhas, que precisam ser filtradas e
hospitais, podem facilitar a realização dos rituais de corrigidas, é importante reconhecer que quem fixa
despedida e ajudar naquilo que for mais significati- o olhar apenas nos erros, deixa de perceber os bene-
vo para o moribundo e seus familiares, sempre com fícios que a prática religiosa proporciona ao paciente
respeito à vontade do paciente terminal e de seus fa- e seus familiares, afinal o paciente quando entra no
miliares. Especificamente sobre religião e espiritua- setting terapêutico, não deixa sua espiritualidade/
lidade, a indicação para que se faça o convite ao líder religiosidade na sala de espera (Pargament, 2011),
religioso da denominação à qual pertence a família e uma vez que a experiência espiritual/religiosa faz
o paciente, pode ser uma forma de trazer algum con- parte do seu ser.
forto para aqueles que se encontram em situação de
morte. Apesar dessa possibilidade, os artigos selecio- Considerações finais
nados não exploraram esse aspecto, o que significa
uma das lacunas existentes nas pesquisas sobre o as- Antes de tudo, devemos recordar que esta pesqui-
sunto. O conhecimento sobre as práticas religiosas sa apresenta um dos olhares possíveis sobre investi-
do paciente e seus familiares é importante, inclusi- gações que articulam religião e espiritualidade com a
ve para que se possa evitar algum comentário des- situação de morte e/ou luto, no campo da psicologia.
pretensioso que ofenda a crença daqueles que estão Muitas outras propostas, somadas a esta podem não
vivenciando a situação, a religião não é algo a mais apenas ampliar o olhar sobre o assunto, mas tam-
na vida das pessoas, mas sim uma parte integran- bém despertar aspectos que podem ser usados na
te de suas vidas e de suas experiências cotidianas intervenção em psicoterapia. A pesquisa mostrou
(Bruscagin, Savio, Fontes, & Gomes, 2008). Além que estudos em psicologia da religião não costumam
disso, é preciso reconhecer que a religião expressa abordar o tema da morte e do luto, sendo o inte-
uma determinada compreensão de sentido de vida resse dos pesquisadores voltado para outros temas
(Ancona Lopez, 2005)”page”:”95-120”,”edition”:”E- nesse campo da psicologia. Por outro lado, também
dição: 1ª”,”source”:”Amazon”,”event-place”:”São Pau- foi percebido que os estudos sobre morte e luto, em
lo”,”abstract”:”Espiritualidade é um tema fundamen- psicologia, não abordam com frequência o tema da
tal em nosso dias. Está relacionado com o equilíbrio religião e da espiritualidade, outros são os aspectos
psicológico e a maturidade humana. Está relacionado mais explorados nos trabalhos localizados nessas
ate mesmo com nossas posições políticas. A psicolo- pesquisas. A partir dos resultados obtidos, podemos
gia não podia se furtar ao estudo dessa dimensão da falar de uma lacuna de pesquisas em psicologia que
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abordem de forma convergente os temas da morte/ de uma breve realização do ritual. Ao se dirigir a um
luto e religião/espiritualidade. Claramente, entre os doente em estado grave, é imprescindível a atenção
artigos selecionados, o tema da morte/luto estava não apenas ao doente, pois muitas vezes seus fami-
em evidência, enquanto o tema da religião/espiri- liares estão ávidos para falar de seus sentimentos e
tualidade aparece de forma secundária. Cada pessoa necessitados de alguém que os escute, de forma aco-
tem seus sistemas de valores e crenças, que muitas lhedora. O mesmo acontece quando ocorre a solici-
vezes não exercem influência na juventude ou na tação para que o religioso compareça a um velório.
maturidade, mas ganham poder no período terminal Não se trata de dizer algumas palavras e aspergir um
da vida (Salles, 2014). Esse autor defende que os pro- corpo com água benta, mas colocar-se inteiramente
fissionais de saúde adotem atitudes de compreensão presente desde a chegada ao velório até o momen-
em relação à crença dos pacientes. O trabalho desse to da partida, inclusive com disponibilidade para
autor da bioética aproxima-se ao de outros pesqui- aqueles que expressam mais necessidade de aten-
sadores da área da saúde como enfermagem e medi- ção, o que deve ser percebido pela sensibilidade do
cina, conforme já evidenciamos anteriormente. Isso religioso. Considerar o estresse próprio da situação
nos leva a refletir sobre a possibilidade de pesquisa- de morte e ter mais clareza do que pode e deve ser
dores da bioética, enfermagem e medicina estarem feito, conduz o padre a uma melhor condição para
mais atentos às questões da espiritualidade e religio- lidar com as diversas manifestações comportamen-
sidade em relação à situação de morte, que se inicia tais durante o atendimento, ainda que a revolta pos-
com o adoecimento grave, do que pesquisadores da sa ser o sentimento mais forte a ser expresso pelas
psicologia. pessoas emocionalmente impactadas na situação. É
Além de percebermos uma grande lacuna na psi- inegável, portanto, a contribuição da psicologia ao
cologia em relação a estudos convergentes das duas agir das lideranças religiosas para um atendimento
áreas temáticas, espiritualidade/religião e morte/ mais completo quando da situação de morte. Por ou-
luto, quando o filtro religioso esbarra no catolicismo tro lado, este trabalho aponta para as possibilidades
brasileiro, a lacuna cresce ainda mais, apesar do ele- de colaboração que a psicologia pode ter ao estender
vado número de católicos no país. Esse dado chama o olhar e as mãos para a esfera da espiritualidade
mais atenção quando consideramos que o cristianis- e religião, especificamente em se tratando da situa-
mo católico dispõe de uma organização ritual apro- ção de morte. Muitas pesquisas são realizadas com
priada à situação de morte, desde o momento em pessoas que se encontram em adoecimento grave,
que a enfermidade se agrava e a possibilidade de fa- o que é muito importante. No entanto, a psicologia
lecimento se aproxima do moribundo, até o período, não pode deixar de estender sua atenção também
não exatamente definido, posterior à consumação aos que ficam após a morte. O olhar clínico da psico-
da morte. Por razões que ainda podem ser investiga- logia para os enlutados pode encontrar na vivência
das essas referências estão ausentes das pesquisas, da espiritualidade/religiosidade do paciente, uma
conforme observamos nas buscas realizadas neste força que potencializa o enfrentamento da situa-
estudo. Emerge, assim, um questionamento sobre as ção. Tanto na prática clínica quanto nas pesquisas,
pesquisas em psicologia sobre morte, luto, religião o tema da religião/espiritualidade merece a atenção
e espiritualidade e o interesse pela mais tradicional da psicologia para uma melhor compreensão daqui-
expressão religiosa no Brasil, o que, certamente, po- lo que está se passando com a pessoa que vivencia a
derá ser abordagem de futuras investigações. Apesar situação de morte, quer seja em relação à vulnerabi-
dessa ausência, destacamos importantes possibi- lidade da sua própria vida ou à experiência de perda
lidades de colaboração que a psicologia oferece aos de um ente querido. A religião pode ser uma pode-
padres para que possam melhorar seu desempenho, rosa estratégia, entre outras, de enfrentamento da
quando solicitados a atender em situação de morte, perda que se relaciona de forma significativa com
uma vez que esses líderes religiosos também podem a resiliência e o importante papel do psicólogo na
apresentar dificuldades na compreensão e no agir prevenção e administração de casos de luto compli-
quando atuam na situação de morte. cado (Tavares & Eugenia, 2016). O trabalho dessas
O conhecimento esclarecido das angústias do autoras aponta a religião como a principal estraté-
paciente terminal, de seus familiares e também de gia de enfrentamento para pessoa com luto normal
profissionais de saúde, prepara o padre para um e a segunda, para casos de luto complicado, em sua
atendimento mais humanizado, que possa ir além pesquisa realizada junto à população mexicana. No
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Brasil, já falamos em educação para a morte, no que conhecidas e permaneceram cristalizadas durante
se refere à formação de profissionais da área da saú- séculos. O ateísmo, mesmo crescente nos tempos
de e educação (Kovács, 2016). Nessa perspectiva, atuais, não supera a identificação das pessoas com
podemos pensar numa mão que se estende também as práticas religiosas e as experiências espirituais.
às lideranças religiosas, que igualmente precisam de No caso do Brasil, o cristianismo, e mais especifica-
atenção específica a respeito de uma educação para mente o catolicismo, além de estarem no imaginá-
a morte, ao passo que também a psicologia pode rio e na vivência religiosa da maioria da população,
aproximar-se criteriosamente da espiritualidade/ pode oferecer grande contribuição às ciências, desde
religião e explorar as contribuições que estas podem que devida e criteriosamente explorados.
oferecer. Ultrapassando o pensamento puramente Enfim, não restam dúvidas quanto à importância
tecnicista e mensurável, as ciências, inclusive a psi- e à necessidade de mais estudos que considerem a
cologia, precisam superar o receio, a desconfiança interface entre psicologia e religião, que abordem a
e o distanciamento da espiritualidade/religião no morte e o luto, pois estamos diante de terreno da
avanço do conhecimento e de possibilidades prá- psicologia com muitas possibilidades de investiga-
ticas que contribuem com o edificante esforço de ção, tendo claro o respeito devido às fronteiras es-
atender às demandas mais profundas do ser huma- pecíficas de cada área. É importante ressaltar a ini-
no, como é o caso dos sentimentos gerados e inten- ciativa do CRP-SP com os seminários de 2015, cuja
samente vivenciados pelas pessoas quando da situa- participação despertou interesse de pesquisadores
ção de morte. A rejeição à religião, espiritualidade em todo o país e o resultado foi um volume conside-
e religiosidade proclamada durante décadas não ex- rável de manuscritos em torno do tema da religião/
tinguiu a experiência religiosa da vida das pessoas. espiritualidade. Apesar disso, ainda são poucos os
Elas, a espiritualidade, a religião e a religiosidade, trabalhos que convergem o tema, aproximando-o da
apenas tomaram formas diferenciadas das que eram situação de morte.

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