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Estudo Espírita da Bíblia

Autoria de Leonardo Vianna


vianna@infolink.com.br

Estudo Espírita da Bíblia – 1


A Serpente
É com muito prazer que acá estamos a inaugurar esta secção da lista, na qual
pretendemos trazer pequenos trechos da Bíblia comentados à luz do
Espiritismo. Pedimos desculpas pelo um dia de atraso, mas isto devemos à
motivos diversos.
Quem já leu os livros do Antigo Testamento, especificamente Gênesis,
conhece aquela passagem da serpente, que fez com que Eva ofertasse a maçã a
Adão.

Gn, 3 1 A Serpente era o animal mais astuto de todos os animais do


campo que Javeh havia feito. Ela disse à mulher: "É verdade que Deus disse
que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?"

Queridos irmãos, não entraremos no mérito de uma serpente ter falado


com uma pessoa, pois a razão automaticamente já nos esclarece sobre isso não
ser possível. Porém, pensemos em porque um animal foi escolhido para
compor esta passagem, e porque uma serpente?

Nas antigas e primeiras expressões religiosas da humanidade, era lugar


comum render culto à objetos, pessoas ou mesmo animais; as pessoas ainda
não estavam devidamente esclarecidas sobre a idéia de "que é Deus". Este fato
ainda se verifica atualmente, na Índia, onde se respeitam as vacas como
sagradas. Mas a serpente... a serpente era um animal especial, pois era um dos
principais cultuados pelas antigas manifestações religiosas. Chegada à hora da
Primeira Revelação, seus autores encarnados precisariam de um modo de
mostrar que Javeh é soberano a todos aqueles seres aos quais eram rendidos
cultos. Isso foi conseguido através desta fábula, que no fundo visa mostrar que
não é correto cultuar a animais ou a quaisquer outros seres, senão a um único
"ser": Deus (se bem que as primeiras idéias sobre um deus único ainda não
eram compatíveis com suas perfeições mais que infinitas).

Mais adiante, no livro de Números, encontramos uma passagem curiosa.

Nm 21 4 Do monte Hor, eles tomaram o caminho para o mar Vermelho,


contornando o território de Edom. Mas o povo não suportou a viagem 5 e
começou a murmurar contra Deus e contra Moisés, dizendo: "Por que nos
tiraste do Egito? Foi para morrermos neste deserto? Não temos nem pão nem
água, e estamos enjoados desse pão de miséria". 6 Então Javeh mandou contra
o povo serpentes venenosas que os picavam, e muita gente de Israel morreu. 7
O povo disse a Moisés: "Pecamos, falando contra Javeh e contra você.
Suplique a Javeh que afaste de nós estas serpentes". Moisés suplicou a Javeh
pelo povo.

8 E Javeh lhe respondeu: "Faça uma serpente venenosa e coloque-a sobre


um poste: quem for mordido e olhar para ela, ficará curado". 9 Então Moisés
fez uma serpente de bronze e a colocou no alto do poste. Quando alguém era
mordido por uma serpente, olhava para serpente de bronze e ficava curado.

A primeira coisa que sobressai à leitura, é o castigo imposto por "Deus".


Mas que não se perca de vista que Javeh é um Espírito Guia do povo de Israel,
e não Deus. E também que os autores encarnados da Bíblia tentaram colocar
Javeh sempre como irado, raivoso, pois como se vê, as pessoas eram muito
rebeldes e ingratas, talvez mais do hoje em dia. Tomada esta premissa,
analisemos o texto e raciocinemos. Como já vimos, na antigüidade havia culto
à serpente, adorada como divindade protetora e curadora. O povo de Israel
assimilou este culto, e como ordem de Javeh. Só que nesta nova fase, da
Primeira Revelação, a serpente deixa ser cultuada com deusa para ser símbolo
da proteção de Javeh.

Mais adiante, no Novo Testamento, lemos o seguinte no livro de João:

Jo 3 14 Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, do mesmo


modo é preciso que o filho do homem seja levantado. 15 Assim, todo aquele
que nele acreditar, nele terá a vida eterna.
E isso Jesus falou para Nicodemos, logo após uma passagem bastante
conhecida dos espíritas. Gente, precisamos estudar mais a Bíblia e descobrir
coisas maravilhosas como estas. Eu nunca vi um espírita citar esta passagem;
esta deveria ser a mais citada. Vejam bem a evolução do pensamento
religioso: primeiro, a serpente é uma divindade curadora. Depois, torna-se
símbolo da proteção de Javeh, o deus único e soberano. Depois ainda, Jesus
declara-se a própria serpente. Assim como o povo de Israel olhava para a
serpente de bronze, - repensando seus atos contra Javeh -, e ficava curado,
olhemos nós para o exemplo de Jesus, repensemos nossos atos e assumamos
nossas responsabilidades diante da obra do Pai, tendo ao nosso lado o suave
afago dos Espíritos do Bem.
Com o advento da Terceira Revelação, as coisas ficaram mais claras
ainda. Se antes a serpente era deusa, depois símbolo de Deus e depois o
próprio Cristo, quem será a serpente de agora? Irmãos, o Consolador
prometido pelo Pai veio trazer a nova serpente. Antes, as víceras desta
serpente estavam esparsas por diversas religiões do mundo, mas agora
convergem numa só Doutrina. Quem é ela? A reencarnação! Olhemos para a
suave e harmônica lei do Pai. Se choramos agora, hemos de rir; se estamos
debilitados física ou mentalmente, hemos de gozar da liberdade de
movimentos; se estamos privados dos gozos materiais, hemos de nos banhar
na maravilhosa fonte dos gozos espirituais. Olhemos para esta serpente,
repensemos nossos atos, sigamos o exemplo de Jesus e assumamos nossas
responsabilidades para com os compromissos assumidos por nós mesmos
frente à obra do Pai.

Estudo Espírita da Bíblia – 2

O Criador

Existe uma coisa que é muito interessante para quem estuda a evolução
da idéia da humanidade sobre Deus, e isso principalmente para os espíritas,
que compreendem de modo mais claro a função da evolução.

Nos primórdios da humanidade, os homens, em geral, tinham uma vaga


intuição sobre o motivo de sua existência e diversos outros fatos para os quais
não viam explicação. É verdade que ainda hoje temos muitas questões não
respondidas, - ou mal compreendidas -, mas naquela época as coisas eram
mais difíceis. Diante de sua fragilidade, os homens viam na força da natureza
a expressão de algo superior, algo de majestoso; e como não tinham noção dos
mecanismos que movem as coisas, trataram logo de atribuir seres
sobrenaturais à execução destas funções: eis aí os deuses. Não tardou para
surgir o culto a estes deuses, como forma de acalmar as forças da natureza
pelas quais cada um era responsável. Algumas civilizações associaram ainda o
culto a animais e até mesmo a homens.

E então, era necessário refinar, evoluir, a forma de culto. Os Espíritos


responsáveis pela Terra deixaram que os homens dessem vazão a seu culto da
forma que lhes era própria, mas agora já estava na hora de começar a
introduzir a idéia de um deus único e onipotente. A primeira tentativa de que
se tem notícia na História, se deu no Egito há cerca de 3360 anos atrás.
Amenófis IV, então faraó do Egito, tentou reformar a religião para diminuir a
crescente autoridade dos sacerdotes, que ameaçavam o poder central. A seara
foi sendo aberta desde que os mais de 300 deuses então vigentes no Egito,
foram sendo personificados em um só: Rá, ou Amon-Rá. Mas a situação ainda
continuava desordenada, com gente ganhando dinheiro em cima da boa fé dos
outros.

Amenófis IV foi coroado faraó do Egito com 15 anos, em meio a uma


panacéia politeísta. Então resolveu fundar o culto a um único deus: Aton. E
Amenófis tomou para si um pseudônimo, Akenaton (que quer dizer "sacerdote
de Aton"). Animado desta idéia, resolveu fundar uma cidade em homenagem a
Aton: Tell el-Amarna, ou Akhenaton, que quer dizer "horizonte de Aton".
Capital do Egito, a esta cidade acudiam pessoas de todas as nações, não para
serem súditos, mas discípulos de Akenaton. Por uma série de motivos, a
cidade foi invadida e Armana deixou de ser a capital do Egito, tendo como
conseqüência a morte de Akenaton, aos 19 anos (e o consequente retorno do
culto a vários deuses). Atualmente, um determinado Espírito afirma que Allan
Kardec foi Akenaton, mas não há evidências deste fato. A seguir, um trecho
dos Hinos de Louvor a Aton, escrito por Akenaton.

Como são múltiplas as coisas que fizeste! / Estão ocultas das faces do
homem. / Ó Deus único , nenhum outro se iguala! / Tu próprio criaste o
mundo de acordo com tua vontade, / Enquando ainda estavas só: / Todos os
homens , gado e animais selvagens / Tudo que na terra caminha sobre seus
próprios pés, / E o que fica nas alturas, voando por suas próprias asas.

Com o fracasso no Egito, uma nova tentativa foi dada, - vejam que ironia da
História! -, a um povo que foi escravizado pelo Egito. José, filho de Jacó
(também chamado Israel), cativou os egípcios com suas previsões dos anos de
seca pelo qual esta terra passaria. Com seu auxílio, o Egito passou firme e
forte pelas dificuldades. Algum tempo depois, José fez com que seu pai,
Israel, e seus irmãos, as doze tribos de Israel (incluindo José), viessem habitar
no Egito. Com o desencarne de José, os israelitas foram lançados à própria
sorte. E eis então que, - com mais uma ironia da História -, Moisés, homem
israelita e criado na corte do Faraó, tornou-se o libertador do povo de Israel e
seu condutor. Toda a história da Bíblia gira em torno desta libertação, do
cativeiro egípcio.
Mas tornemos ao tema do estudo. Já vimos que algumas mudanças foram
tentadas para mudar as noções que o homem fazia da divindade. Do culto a
vários deuses, iniciou-se uma tentativa de introduzir o culto a um único, de
modo sutil e lento. Observando o início da Primeira Revelação, relatado no
Antigo Testamento, podemos ver algumas coisas interessantes. Vejamos um
pequeno trecho:

Gn, 18 1 Depois apareceu o Senhor a Abraão junto aos carvalhos de


Manre, estando ele sentado à porta da tenda, no maior calor do dia. 2
Levantando Abraão os olhos, olhou e eis três varões de pé em frente dele.
Quando os viu, correu da porta da tenda ao seu encontro, e prostrou-se em
terra, 3 e disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-
te que não passes de teu servo.

Ex, 3 2 E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio


duma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se
consumia; 3 pelo que disse: Agora me virarei para lá e verei esta maravilha, e
por que a sarça não se queima. 4 E vendo o Senhor que ele se virara para ver,
chamou-o do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés! Respondeu ele: Eis-me
aqui.

E passagens como estas se amontoam no Antigo Testamento. A


passagem do capítulo terceiro de Êxodo merece um destaque especial, pois é
quando Moisés é chamado pela primeira vez para servir à Primeira Revelação.
Como se vê nos trechos, apesar de os homens já fazerem uma idéia mais justa
de um deus único, ainda O confundem com seus própios enviados. Ou seja, de
certa forma continuaram a manter o culto a vários deuses, mas tratando-os
como se fossem um só (o que guarda certa semelhança com Amon-Rá...). Mas
notemos que ainda aqui os Espíritos responsáveis pela Terra não interferiram
nisso, mas resolveram deixar as coisas como estavam... aos poucos, os
israelitas iriam amadurecendo suas idéias sobre o Criador.

Diante de toda esta perspectiva, eis que houve o prenúncio da Segunda


Revelação... e observemos mais algumas passagens pertinentes ao estudo de
hoje:
Jo 12 28 Pai, glorifica o teu nome. Veio, então, do céu esta voz: Já o tenho
glorificado, e outra vez o glorificarei. 29 A multidão, pois, que ali estava, e
que a ouvira, dizia ter havido um trovão; outros diziam: Um anjo lhe falou. 30
Respondeu Jesus: Não veio esta voz por minha causa, mas por causa de vós.

Lc 1 28 E, entrando o anjo onde ela estava disse: Salve, agraciada; o


Senhor é contigo. 29 Ela, porém, ao ouvir estas palavras, turbou-se muito e
pôs-se a pensar que saudação seria essa. 30 Disse-lhe então o anjo: Não temas,
Maria; pois achaste graça diante de Deus.

Lc 1 12 E Zacarias, vendo-o, ficou turbado, e o temor o assaltou. 13 Mas


o anjo lhe disse: Não temais, Zacarias; porque a tua oração foi ouvida, e
Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João;

Vejam que agora, na Segunda Revelação, os anjos não são mais


instrumentos de temor e nem confundidos com o própio Criador; agora, os
anjos estão claramente delineados como os agentes da Obra do Pai. E eis que
o maior dos emissários do Criador que já passaram pela Terra, Jesus, veio
habitar entre nós. Mas ainda a estagnação do povo foi respeitada; e Jesus
passou a ser adorado como o próprio Deus. Essa idéia é absurda, bem o
sabemos, mas vejamos o progresso: antes, todos os anjos eram tidos como
parte de Deus, e agora, só Jesus o é. Isso é uma grande evolução.

Mas a Igreja teve culpa nisto, ao unir o "útil ao agradável". Vendo que a
última moda das religiões politeístas era adorar a Deus como trino, formado
de três entidades, deu um jeitinho e trouxe esta idéia para o cristianismo. E foi
daí que nasceu esta idéia de adorar a Deus como Pai-Filho-Espírito Santo: a
Trindade. Certa vez, ao debater esta questão da Trindade com um amigo
protestante, ele contra-argumentou: "ora, no Antigo Testamento a palavra
"Deus" foi traduzida do hebraico elohim, que é uma palavra no plural... logo,
há mais de uma pessoa em Deus". Oh, homens! Vós não haveis jurado para o
Cristo de largar casa e família para segui-lo? Pois bem, largai antes as idéias
pré-concebidas e provenientes de visão pequena e egoísta, e sigais apenas ao
Cristo, vosso irmão e cooperador na Obra do Pai! Jesus não era Deus, assim
como vós também não O sois. Se na Primeira Aliança Deus aparece como
vários, é porque os homens viram anjos julgando ver Deus... se na Segunda
Aliança Deus aparece como três, e Jesus como Deus, é porque os homens
ainda não estavam desprovidos desta idéia de deuses e semi-deuses, e ainda
cooperou a funesta má vontade da chamada Igreja do Cristo, que está longe de
o ser... mas e na Terceira Aliança?

O Livro dos Espíritos 1. O que é Deus? - Deus é a inteligência suprema ,


causa primária de todas as coisas.

Pois bem! Aí está! E vejam que esta foi a primeira resposta dada pela
Terceira Aliança, no frontispício de O Livro dos Espíritos, para exatamente
corrigir este erro histórico que a "santa igreja" tanto cooperou em manter.
Vejamos a evolução da idéia sobre o que é Deus... o homem já pensou que
haviam vários deuses... já pensou que poderia haver Hum havendo vários... já
pensou que poderiam haver Três em Hum, parafraseando o famoso shampoo...
o homem já pensou tanta coisa... pensou coisa demais. Mas eis que agora vem
a Doutrina Espírita para mostrar que Deus é um só, e que seus emissários não
se confundem com O própio, mas antes já encarnaram e em sua maioria já
passaram pelas mesmas dificuldades que nós. Deus é um só, acima de todas as
definições humanas, muita além de todos os elogios que se possa querer fazer
a Deus... ao mesmo tempo que parece tão longe, Deus está muito mais perto
de nós do que possamos imaginar...

De tudo o que fica, resta a seguinte pergunta: "sabendo Deus que todas estas
dificuldades iriam se apresentar, por que não auxiliou Akenaton a levar
adiante sua missão no Egito?". A resposta é muito simples. Os egípcios
tinham Ciência, mas não tinham Moral. Deus preferiu ver Sua Moral se unir à
Ciência milhares de anos depois da revelação de Moisés, com o Espiritismo,
do que ver sua revelação diminuida à mera estimuladora de vaidade em povos
orgulhosos, tais como o Egito. É bem verdade que os israelitas em muito se
orgulharam de ser "o povo escolhido", e foi por isso que disse o Cristo: "Bem-
aventurados os humildes de Espírito, porque deles é o Reino dos Céus"

Estudo Espírita da Bíblia – 3

A Criação
Primeiramente, comecemos lendo um pequeno trecho do Antigo Testamento;
o frontispício da Primeira Revelação, a página primeira da série de revelações
que culminou na Revelação Espírita:

Gn 1 No princípio criou Deus os céus e a terra. 2 A terra era sem forma e


vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava
sobre a face das águas. 3 Disse Deus: haja luz. E houve luz. 4 Viu Deus que a
luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. 5 E Deus chamou à luz dia,
e às trevas noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

6 E disse Deus: haja um firmamento no meio das águas, e haja separação entre
águas e águas. 7 Fez, pois, Deus o firmamento, e separou as águas que
estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E
assim foi. 8 Chamou Deus ao firmamento céu. E foi a tarde e a manhã, o dia
segundo. 9 E disse Deus: Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo
do céu, e apareça o elemento seco. E assim foi. 10 Chamou Deus ao elemento
seco terra, e ao ajuntamento das águas mares. E viu Deus que isso era bom. 11
E disse Deus: Produza a terra relva, ervas que dêem semente, e árvores
frutíferas que, segundo as suas espécies, dêem fruto que tenha em si a sua
semente, sobre a terra. E assim foi.

Irmãos, vejamos a grandiosidade desta passagem, quão digna e nobre de ser


tida como da mais alta relevância para os espíritas. Nesta passagem, vimos
particularmente três interpretações. Cuidaremos aqui de duas delas, pois uma
interpretação, a de caráter científico, já está devidamente esflorada em A
Gênese, de Allan Kardec.

Queridos irmãos, vejamos o caráter evolutivo demonstrado pela passagem da


Criação. Dos elementos mais simples e grosseiros, a criação vai gradualmente
evoluindo até chegar ao homem... isso tem algo de familiar? Pois bem! Eis o
princípio da evolução, material e espiritual, enunciado há milênios atrás! A
Bíblia deve ser tomada em alta conta pelos espíritas. Observemos: o princípio
que esteve presente em grãos de terra a muito tempos atrás, já passou por
incontáveis reinos da natureza, já foi formiga, tigre, macaco... após alcançar
um dado período, e passar por algumas fases que só a Deus é dado conhecer, o
princípio inteligente se humaniza... e se torna Espírito, apto a encarnar nos
seres humanos. Que tem isso de humilhante? Nada, pois eis que até a Bíblia
anuncia este princípio! Pelo contrário, olhando as coisas pelo ponto de vista da
evolução, vemos que tudo em a natureza se dá em harmonia. Para quem
desejar mais informações sobre a evolução do princípio inteligente, estas
podem ser encontradas no capítulo XI da parte II de O Livro dos Espíritos.

Olhando ainda por uma outra visão... vejamos uma coisa interessante. Deus
disse: haja luz, e houve luz; Deus disse: ajuntem-se num só lugar as águas..., e
assim foi; Deus disse: produza a terra..., e assim foi. Agora, interpretemos isto
no âmbito moral; haverá coisa mais bela e digna da excelsa perfeição do Pai?
Deus não criou as coisas, propriamente falando; ele disse para que houvesse, e
houve. Queridos irmãos, assim é com todos nós. Desde que somos criados,
enquanto Espíritos, o Pai deseja que estejamos sempre caminhando para o
Bem, incessantemente; mas nos dá o livre-arbítrio, e não interfere. Assim é,
que por nossa própria vontade, escolhemos ficar no início da estrada
evolutiva, enquanto poderíamos estar bem mais à frente... mas o Criador é
benévolo. Deus quer que todos os seus filhos gozem da felicidade divina,
proveniente da depuração de nossas primitividades... mas deixa a nós o mérito
de trabalhar para isso. Afinal, de que serviria ao homem ser apenas um joguete
nas mãos de Deus? Aliás, foi exatamente a visão contrária que imbuiu os
judeus da idéia de que foram eleitos por Deus, e esta idéia patrocinou muitas
de suas "guerras santas"... esta idéia animou até mesmo alguns apóstolos do
Cristo, e ainda anima indivíduos de algumas igrejas "cristãs" da atualidade.
Caros irmãos, todos os filhos de Deus estão propensos a gozar da felicidade
dos Bons; basta que assumamos nossas responsabilidades, e tenhamos o firme
propósito de operar mudanças em nosso caráter. Não nos aborreçamos com as
dificuldades que irão se nos apresentar... tenhamos sempre em mente que
estamos caminhando para perto do Pai, e que os Espíritos benévolos estarão
sempre ao nosso lado, nos ajudando a remover as pedras da estrada.

Estudo Espírita da Bíblia - 5

A Escada de Jacó

Ao ler o livro de Gênesis, donde se pode notar um desencadeamento de fatos


que culminam na Primeira Revelação, nota-se uma passagem singular e
provida de muita significação. Tal passagem é aquela conhecida como "A
Escada de Jacó". Mas antes de adentrarmos ao tema, conheçamos melhor o
protagonista do estudo de hoje.
Jacó foi filho de Isaac e neto de Abraão. Isaac tomou a Rebeca como esposa.
Sendo esta infértil, pediu a Deus pela sua gravidez e tendo relações, Rebeca
gerou a gêmeos: Esaú e Jacó. Importante ressaltar que a Bíblia nos narra, de
modo alegórico, que as crianças lutavam dentro dela. Rebeca foi então
consultar a Javeh, para saber o motivo disto. E disse Javeh que em seu ventre
haviam dois povos inimigos; e ainda que o mais velho (Esaú) serviria ao mais
novo (Jacó). A situação é tão crítica que, após o nascimento de Esaú, nasce
Jacó, segurando o calcanhar do primeiro.

Diante desta alegoria, cabe buscar seu fundamento. Os judeus pensavam que
um indivíduo poderia pecar até mesmo antes de nascer, ainda no ventre
materno. E consultando a História, vemos que Jacó foi precursor dos israelitas,
e Esaú dos edomitas, dois povos que mais tarde vieram a ter muitos atritos.
Como provavelmente o escritor desta passagem vivenciou a guerra entre os
dois povos, ele buscou colocar os dois irmãos como inimigos desde o ventre
materno, tentando justificar a inimizade que se deu mais tarde, entre os dois
povos. Mas a convivência de Jacó com Esaú também foi bastante turbulenta.

Esaú foi homem rude e caçador, enquanto Jacó era uma pessoa mais
"educada". Mas essa "educação" não passava de verniz, pois Jacó foi homem
ambicioso e queria a qualquer custo o direito à primogenitura (pertencente a
Esaú), a fim de poder ter direito aos bens de seu pai. Isaac tinha preferência
por Esaú, e Rebeca por Jacó.

As escrituras nos contam que ao menos uma vez Jacó tentou fazer "armações"
com Esaú para tomar seu direito à primogenitura. Então, Isaac ficou velho e
prestes a morrer, e deu a Esaú a incumbência de preparar seu prato predileto, e
assim a benção seria sua. E então saiu Esaú para caçar. Rebeca, tendo ouvido
a conversa, tramou com Jacó para que ele recebesse a benção. E assim foi.
Jacó enganou a seu pai Isaac, então cego, e recebeu a benção. Chegando Esaú
com a caça, preparou o prato de seu pai e o levou até ele. Mas seu pai lhe
disse, emocionado, que não poderia lhe dar a benção, visto que só havia uma
benção a ser dada e isto já havia ocorrido. Esaú soltou grande grito e chorou
copiosamente, implorando a benção de seu pai. E então Esaú começou a odiar
Jacó, tendo tramado matá-lo assim que se desse a morte de Isaac. Rebeca
ouviu rumores da trama de Esaú, e ordenou a seu filho Jacó que fugisse para
junto de seu tio Labão e tomasse uma de suas filhas como esposa.

E neste exato ponto começa o estudo de hoje. Acompanhemos agora as


escrituras:
Gn 28 10 Partiu, pois, Jacó de Beer-Seba e se foi em direção a Harã; 11 e
chegou a um lugar onde passou a noite, porque o sol já se havia posto; e,
tomando uma das pedras do lugar e pondo-a debaixo da cabeça, deitou-se ali
para dormir. 12 Então sonhou: estava posta sobre a terra uma escada, cujo
topo chegava ao céu; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela; 13
por cima dela estava o Senhor, que disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão
teu pai, e o Deus de Isaac; esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e à
tua descendência; 14 e a tua descendência será como o pó da terra; dilatar-te-
ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul; por meio de ti e da
tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. 15 Eis que estou
contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra;
pois não te deixarei até que haja cumprido aquilo de que te tenho falado. 16
Ao acordar Jacó do seu sono, disse: Realmente o Senhor está neste lugar; e eu
não o sabia. 17 E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro
lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus. 18 Jacó levantou-se de
manhã cedo, tomou a pedra que pusera debaixo da cabeça, e a pôs como
coluna; e derramou-lhe azeite em cima. 19 E chamou aquele lugar Betel;
porém o nome da cidade antes era Luz. 20 Fez também Jacó um voto,
dizendo: Se Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e
me der pão para comer e vestes para vestir, 21 de modo que eu volte em paz à
casa de meu pai, e se o Senhor for o meu Deus, 22 então esta pedra que tenho
posto como coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente
te darei o dízimo.

Nesta passagem, pela primeira vez, Javeh promete ao patriarca dos israelitas o
selamento de sua aliança para a conquista da terra prometida, fato este que só
se deu sob o comando de Josué, que sucedeu a Moisés. Mas não é
necessariamente este o nosso foco de estudo, hoje. Nosso foco de estudo é o
sonho de Jacó.

A famosa escada já foi alvo de muitos comentários, até mesmo, e


principalmente, por parte dos chamados "iniciados". Mas coube à Terceira
Revelação realizar a sua interpretação de modo racional e de acordo com as
perfeições do Pai. De acordo com a Doutrina Espírita, o homem é criado
simples e ignorante, tendo sua primeira encarnação como um exercício para
demonstrar suas tendências boas ou más, as quais se encontram então em
estado de "neutralidade". Dependendo de sua conduta durante esta encarnação,
e de acordo com a manifestação de suas tendências, conforme o livre-arbítrio,
escolhe o homem a posição em que estará na grande escala da evolução, "a
escada de Jacó". Mas... onde está Deus nesta escada? Voltemos ao texto: "13
por cima dela estava o Senhor...". Quão profunda e objetiva é esta passagem!!!
Poderia ter se dito que Deus está no topo da escada, mas eis que se disse que o
Senhor está por cima dela! Quão justa idéia se fez, num lapso de lógica que
tanto faltou aos homens, querendo fazer de Deus uma pessoa! Deus não está
no topo da escada, mas acima dela, pois eis que Deus é é eterno, imutável,
imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom; nem mesmo
podemos dizer que é o infinito, pois o "infinito" é Sua criação. Mas nem por
isso se diga que o Senhor está longe de nós, ao contrário; o Criador não se
confunde com sua criação, mas está perto de nós e em todos os lugares. Jacó,
tendo visão pequena, julgou ser naquelas terras a Casa de Deus, seu templo.
Mas este erro foi suavemente corrigido pelo Cristo, quando disse que cada um
de nós é um templo. Ou seja, não somos nós o Pai, mas sim cada um um
templo dedicado ao Criador, ao qual cuja melhor oferta se pode oferecer é o
Amor, e a melhor forma de tirar a poeira destes templos é com a vassoura da
reforma íntima.

Só sobra uma dúvida, que sobre muitos deve estar a pairar. Qual o significado
dos anjos subindo e descendo a escada? Podem os seres retrogradar? Poderia
um ser de luz à base da escada retornar e um parasita de plantas, disforme, se
tornar? Não, não pode, e isso jamais ocorrerá. Com maestria Kardec destruiu a
base da crença na metempsicose, crença oposta a lógica. Mas então, como se
explica a subida e descida dos anjos? Retirai pois o véu da letra que mata e
enxergais de acordo com o Espírito que vivifica. Tais anjos são os mesmos
seres que vós sois, e tendo galgado um conhecimento intelecto-moral maior, já
estão mais próximos da felicidade e dos gozos prometidos pelo Paracleto da
Verdade. Ao descer a escada, não estão a retrogradar; estão a cumprir suas
afáveis missões dadas pelo Criador, e seres primitivos estão a ajudar. Errado,
seria pois, se o Criador abandonasse seus filhos menores, e não permitisse que
os maiores fossem lhes ajudar.

Importante também é notar a palavra do Cristo, que ao encontro dos votos de


Jacó vão se chocar. Disse Jacó: "Se Deus for comigo e me guardar neste
caminho que vou seguindo, e me der pão para comer e vestes para vestir, 21
de modo que eu volte em paz à casa de meu pai, e se o Senhor for o meu
Deus, 22 então esta pedra que tenho posto como coluna será casa de Deus; e
de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo". E eis que disse o
Paracleto (in Lc, 14): "26 Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a
mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser
meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser
meu discípulo". Não se pode negociar com o Criador, e nem com Jesus. Ou se
assume as responsabilidades pertinentes a um discípulo do Bem, ou é melhor
ficar do jeito que está. E ainda sobre o "suborno" a Deus, que é o dízimo, disse
Jesus (in Mt, 10): "8 Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os
leprosos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai". O reino
dos céus se conquista em Espírito e Verdade, com Amor, e não com riquezas
materiais.

Ah, e quase ia me esquecendo. Ainda podemos tirar mais algumas lições da


história de Jacó. Lembram-se que Jacó foi um homem ambicioso e
mesquinho? Pois bem, a corrigenda chegou rápido. Assim que chegou à casa
de seu tio Labão, comprometeu-se a servir sete anos em troca de se casar com
sua prima Raquel. Findos os sete anos, Labão lhe enganou e lhe deu por
mulher sua prima Lia, e pelas duas teve de servir por mais sete anos. Mas...
por que "sete"? De acordo com os mistérios bíblicos, sete é o número da
perfeição. Desta forma, nossos erros recaem sobre nós não para nos castigar,
mas para que sejamos nós perfeitos. O causa da encarnação não é sofrer, mas
evoluir.

Um forte abraço a você, leitor,

Leonardo Vianna

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