Você está na página 1de 83

1.

MATRIZES DE CONTEÚDOS

 SENTIDOS 12 • Livro de Testes • ASA 1


1. MATRIZES DE CONTEÚDOS

Matrizes de Conteúdos 3

Testes de Avaliação* 11

Testes de Avaliação 1 12
Testes de Avaliação 2 16
Testes de Avaliação 3 20
Testes de Avaliação 4 24
Testes de Avaliação 5 28
Testes de Avaliação 6 32
Testes de Avaliação 7 36
Testes de Avaliação 8 40
Testes de Avaliação 9 45
Testes de Avaliação 10 49
Testes de Avaliação 11 53
Testes de Avaliação 12 58
Testes de Avaliação 13 63
Testes de Avaliação 14 68

Cenários de Resposta 73

*Grelhas de correção disponíveis, em formato editável, ®Excel, em

2  SENTIDOS 12 • Livro de Testes • ASA


TESTES DE AVALIAÇÃO N.OS 1 e 2 (pp. 12 e 16), Fernando Pessoa, poesia do ortónimo
Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA EXPRESSÃO
LITERÁRIA E GRAMÁTICA ESCRITA

Teste nº 1 Teste nº 1 Teste nº 1


Item A Valor aspetual Texto de opinião
Fernando Pessoa, Funções sintáticas
poesia do ortónimo Classes/subclasses
+ de palavras
Item B Mecanismos de coesão
Luís de Camões, Orações subordinadas
Rimas Formação de palavras

Teste nº 2 Teste nº 2 Teste nº 2


Item A Processos fonológicos Texto de opinião
Fernando Pessoa, Classes/subclasses
poesia do ortónimo de palavras
+ Mecanismos
Item B de coesão
Eça de Queirós, Reprodução do
Os Maias discurso no discurso
Tipologia Orações subordinadas
de itens Funções sintáticas

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50

COTAÇÃO 100 50 50 200


TESTES DE AVALIAÇÃO N.OS 3 e 4 (pp. 20 e 24), Fernando Pessoa, heterónimos e Bernardo Soares
Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA ESCRITA
LITERÁRIA E GRAMÁTICA

Teste nº 3 Teste nº 3 Teste nº 3


Item A Valor lógico dos Texto expositivo
Álvaro de Campos conectores
Orações subordinadas
Item B Funções sintáticas
Padre António Vieira Valor modal
Formação de palavras
Teste nº 4
Item A Teste nº 4
Bernardo Soares Formação de palavras Teste nº 4
+ Funções sintáticas Apreciação crítica
Item B Classes de palavras
Alberto Caeiro Mecanismos
de coesão
Orações subordinadas

Tipologia
de itens

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50

COTAÇÃO 100 50 50 200


TESTES DE AVALIAÇÃO N.OS 5 e 6 (pp. 28 e 32), Fernando Pessoa, Mensagem
Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA ESCRITA
LITERÁRIA E GRAMÁTICA

Teste nº 5 Teste nº 5 Teste nº 5


Item A Sinais gráficos de Texto de opinião
Fernando Pessoa, pontuação
Mensagem Funções sintáticas
Orações subordinadas
Item B Mecanismos de
Luís de Camões, Coesão
Os Lusíadas Valor aspetual
Valor modal
Teste nº 6
Item A Teste nº 6 Teste nº 6
Fernando Pessoa, Classes/subclasses Texto expositivo
Mensagem de palavras
Funções sintáticas
Item B Orações subordinadas
Luís de Camões, Formação de palavras
Os Lusíadas Sinais gráficos de
Tipologia pontuação
de itens Valor modal

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50

COTAÇÃO 100 50 50 200


TESTES DE AVALIAÇÃO N.OS 7 e 8 (pp. 36 e 40), Contos
Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA ESCRITA
LITERÁRIA E GRAMÁTICA

Teste nº 7 Teste nº 7 Teste nº 7


Item A Orações subordinadas Texto de opinião
“Sempre é uma Funções sintáticas
companhia”, de Sequências textuais
Manuel da Fonseca Valor aspetual
Valor lógico dos
Item B articuladores
Cesário Verde Formação de palavras
Relações lexicais/
semânticas entre
palavras

Teste nº 8 Teste nº 8 Teste nº 8


Item A Orações subordinadas Texto de opinião
“George”, de Maria Funções sintáticas
Judite de Carvalho Valor modal
Formação de palavras
Item B Mecanismos de
Tipologia Antero de Quental coesão/referentes
Sequências textuais
de itens
Classes de palavras

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50


COTAÇÃO 100 50 50 200

TESTE DE AVALIAÇÃO N.os 9 e 10 (p. 45 e 49), Poetas contemporâneos


Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA ESCRITA
LITERÁRIA E GRAMÁTICA

Teste nº 9 Teste nº 9 Teste nº 9


Item A Relações lexicais/ Texto de opinião
Eugénio de Andrade semânticas entre
palavras
Item B Funções sintáticas
Antero de Quental Orações subordinadas
Mecanismos de coesão
Valor modal
Valor temporal

Teste nº 10 Teste nº 10 Teste nº 10


Item A Mecanismos de coesão Apreciação crítica
Miguel Torga Funções sintáticas
Valor dos conectores
Item B Formação de palavras
Poesia trovadoresca Orações subordinadas
Valor modal

Tipologia
de itens

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50


COTAÇÃO 100 50 50 200

TESTE DE AVALIAÇÃO N.OS 11 e 12 (pp. 53 e 58), Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis
Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA ESCRITA
LITERÁRIA E GRAMÁTICA

Teste nº 11 Teste nº 11 Teste nº 11


Item A Valor modal Texto de opinião
José Saramago, Valor aspetual
O ano da morte Mecanismos de coesão
de Ricardo Reis Funções sintáticas
Etimologia
Item B Relações lexicais/
Cesário Verde semânticas entre
palavras

Teste nº 12 Teste nº 12 Teste nº 12


Item A Sinais gráficos de Apreciação crítica
O ano da morte pontuação
de Ricardo Reis Funções sintáticas
Orações subordinadas
Item B Mecanismos de coesão
Poetas do século XX, Processos fonológicos
Manuel Alegre Valor modal
Tipologia Dêixis
Valor temporal
de itens

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50


COTAÇÃO 100 50 50 200

TESTE DE AVALIAÇÃO N.OS 13 e 14 (p. 63 e 68), Saramago, Memorial do convento


Domínios e GRUPOS Cotação /
Conteúdos pontos
I II III
EDUCAÇÃO LEITURA ESCRITA
LITERÁRIA E GRAMÁTICA

Teste nº 13 Teste nº 13 Teste nº 14


Item A Processos fonológicos Síntese
José Saramago, Orações subordinadas
Memorial do convento Valor aspetual
Modos de relato do
Item B discurso
Padre António Vieira Mecanismos de coesão
Funções sintáticas
Etimologia

Teste nº 14 Teste nº 14 Teste nº 14


Item A Dêixis Apreciação crítica
José Saramago, Orações subordinadas
Memorial do convento Intertextualidade
Sequências textuais
Item B Etimologia
Fernão Lopes, Valor temporal
Crónica de D. João I
Tipologia
de itens

II
Escolha múltipla 1. a 7. 35
(7 itens x 5 pontos)

II
Resposta curta 8., 9. e 10. 15
(15 pontos)

I–A
60
1. a 3.
(3 itens x 20 pontos)
Resposta restrita
I–B
4. e 5.
40
(2 itens x 20 pontos)

Resposta extensa (30 + 20) 50


COTAÇÃO 100 50 50 200
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Um piano na minha rua...


Crianças a brincar...
O sol de domingo e a sua
Alegria a doirar...
5
A má goa que me convida
A amar todo o indefinido...
Eu tive pouco na vida
Mas dó i-me tê-lo perdido.

10 Mas já a vida vai alta


Em muitas mudanças!
Um piano que me falta
E eu nã o ser as crianças!
25-2-1917

Fernando Pessoa, Poesia do Eu (ediçã o de Richard Zenith),


Porto, Assírio & Alvim, 2014, pp. 102-103.

1. Indique o local, o tempo e a situação registados pelo sujeito poético na primeira estrofe.

2. Descreva o estado de espírito do sujeito poético, confrontando-o com o experienciado no passado.

3. Refira, justificando à luz das aprendizagens realizadas, o tema predominante no poema.


2. TESTES DE AVALIAÇÃO

Leia o soneto.

Ditoso seja aquele que somente


se queixa de amoras esquivanças;
pois por elas nã o perde as esperanças
de poder n’algum tempo ser contente.

5 Ditoso seja quem, estando ausente,


nã o sente mais que a pena das lembranças;
porqu’, inda que se tema de mudanças,
menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado


10 onde enganos, desprezos e isençã o
trazem o coraçã o atormentado.

Mas triste quem se sente magoado


d’ erros em que nã o pode haver perdã o,
sem ficar n’alma a má goa de secado.

Luís de Camõ es, Rimas (texto estabelecido e prefaciado por Á lvaro J. da Costa Pimpã o),
Coimbra, Almedina, 2005, p. 138.

4. Divida o soneto em duas partes lógicas, justificando essa segmentação.

5. Explore o valor expressivo da anáfora presente nos versos 1, 5 e 9.

GRUPO II

Responda às questões. Na resposta aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

A quarta revolução

A quarta revoluçã o industrial está aqui, mesmo quando nã o percebida porque encoberta no
velho lodo de um Mundo desigual, onde a pobreza extrema se agrava e as alteraçõ es climatéricas
bradam a desordem de um modelo de desenvolvimento insustentá vel, do qual as migraçõ es
massivas e desesperadas sã o um sinal, entre outros. Mas a “revoluçã o” está aqui e agora, na sua
5 mutabilidade permanente, na vertiginosa capacidade de adaptaçã o e integraçã o, unindo polos
longínquos do Planeta, comunicando na mesma língua, à velocidade da Internet, uma fabriqueta do
Burundi com um escritó rio de Manhattan.
Na base da quarta revoluçã o industrial está a transaçã o acelerada e cada vez mais direta do
conhecimento e da inovaçã o tecnoló gica para a economia, serviços, administraçã o e governo das
10 sociedades (países, instituiçõ es, aldeias,..) inserindo alteraçõ es radicais no modo de organizaçã o dos
mercados e do trabalho, a uma escala mundial, sistémica e total.
O Fó rum Econó mico Mundial, reunido este ano em Davos, prevê que sejam extintos cinco
milhõ es de postos de trabalho nos pró ximos anos. Há funçõ es e trabalhos que rapidamente se
tornarã o irrelevantes e obsoletos face a novos processos mais avançados de produçã o, novas
15 necessidades e estilos de vida. Mas, de igual modo, há novas profissõ es a nascer de forma
surpreendentemente rá pida.
Como nos situamos neste processo? De que modo podem um país, uma instituiçã o, uma pessoa,
serem nele atores reivindicando para si o estatuto de sujeito − que interfere na decisã o, no seu
sentido e rumo − e nã o mero elo anó nimo da cadeia produtiva? Ou seja, que tipo de revoluçã o
20 desejamos, nos seus fins e meios?
O conhecimento e a inovaçã o, em si, nã o conhecem cores políticas ou preconceitos ideoló gicos.
Pelo contrá rio: sã o filhos do pensamento criativo, da liberdade. Mas o mesmo poderemos dizer da
sua aplicaçã o? Da forma fluída e irresponsá vel como fluem, transformados em mercadorias sem
barreiras éticas ou compromissos contratualizados?
25 A verdade é que precisamos de pensar no futuro que queremos, para fazermos no presente as
açõ es que o constroem.
Uma das ideias utó picas mais recorrentes na filosofia política ou na literatura é o sonho de um
futuro, onde liberto pelo saber das tarefas mais duras, o homem poderia gozar o lazer, usufruindo
num É den feliz uma relaçã o de paz com a Natureza.
30 Nã o há É den no Mundo dos homens. Temos de nos governar e a crítica é a arma indispensá vel de
toda a construçã o.
Rosá rio Gambô a, in JN, ediçã o online de 07 de outubro de 2016 (consultado em novembro de 2016).

1. A quarta revolução industrial relaciona-se com


(A) a transação rápida e direta do conhecimento e da inovação tecnológica.
(B) a capacidade imutável e vertiginosa de adaptação e de integração.
(C) a transformação social e a desordem ao nível do desenvolvimento.
(D) o aumento da riqueza e a diminuição da pobreza num mundo global.

2. Na atualidade, assiste-se a profundas transformações ao nível


(A) da estratificação das sociedades.
(B) dos mercados e do trabalho.
(C) das transações à escala mundial.
(D) da visão economicista dos governos.

3. A simbiose homem-natureza é
(A) uma ideia concretizável no futuro.
(B) possível no jardim do Éden.
(C) uma utopia veiculada pela literatura e pela filosofia.
(D) uma tarefa dura, mas concretizável pelo saber.

4. A forma verbal presente em “onde a pobreza extrema se agrava” (l. 2) tem um valor aspetual
(A) perfeito.
(B) iterativo.
(C) habitual.
(D) genérico.

5. O segmento “Na base da quarta revolução industrial” (l. 8) desempenha a função sintática de
(A) sujeito.
(B) predicativo do sujeito.
(C) modificador do grupo verbal.
(D) modificador apositivo do nome.

6. A forma verbal “se tornarão” (ll. 13-14) pertence à subclasse dos verbos
(A) copulativos.
(B) transitivos predicativos.
(C) transitivos indiretos.
(D) intransitivos.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

7. A conjunção “Mas” (l. 15) assegura a coesão


(A) lexical.
(B) referencial.
(C) interfrásica.
(D) frásica.

8. Classifique a oração “que sejam extintos cinco milhões de postos de trabalho nos próximo anos”
(ll. 12-13).

9. Indique o referente do pronome “que” (l. 26).

10. Identifique o processo de formação da palavra “saber” (l. 28).

GRUPO III

O desenvolvimento do conhecimento e das tecnologias, responsável por aquilo que se designa por
“quarta revolução industrial”, parece não estar a ser canalizado para o bem da Humanidade.
Escreva um texto de opinião, de 170 a 200 palavras, no qual defenda um ponto de vista sobre o modo
como o ser humano usa os conhecimentos e os avanços tecnológicos na sociedade.
Fundamente o seu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustre cada um deles
com, pelo menos, um exemplo significativo.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Contemplo o lago mudo


Que uma brisa estremece.
Nã o sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

5 O lago nada me diz,


Nã o sinto a brisa mexê-lo.
Nã o sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos


10 Na á gua adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha ú nica vida?
4-8-1930

Fernando Pessoa, Poesia do Eu (ediçã o de Richard Zenith),


Porto, Assírio & Alvim, 2014, pp. 204-205

1. Comprove que o “lago” é o ponto de partida para uma análise introspetiva, levada a cabo pelo
sujeito poético.

2. Explicite de que modo se podem articular as temáticas “sonho e realidade” e “a dor de pensar”.

3. Evidencie o recurso à personificação e explique a sua expressividade.


B

Leia o excerto.

Carlos pensara em arranjar um vasto laborató rio ali perto no bairro, com fornos para trabalhos
químicos, uma sala disposta para estudos anató micos e fisioló gicos, a sua biblioteca, os seus
aparelhos, uma concentraçã o metó dica de todos os instrumentos de estudo...
Os olhos do avô iluminavam-se ouvindo este plano grandioso.
5 – E que nã o te prendam questõ es de dinheiro, Carlos! Nó s fizemos nestes ú ltimos anos de Santa
Olá via algumas economias...
– Boas e grandes palavras, avô ! Repita-as ao Vilaça.
As semanas foram passando nestes planos de instalaçã o. Carlos trazia realmente resoluçõ es
sinceras de trabalho: a ciência como mera ornamentaçã o interior do espírito, mais inú til para os
10 outros que as pró prias tapeçarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitá rio: desejava
ser ú til. Mas as suas ambiçõ es flutuavam, intensas e vagas; ora pensava numa larga clínica; ora na
composiçã o maciça de um livro iniciador; algumas vezes em experiências fisioló gicas, pacientes e
reveladoras... Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de
aplicaçã o. “Alguma coisa de brilhante”, como ele dizia: e isto para ele, homem de luxo e homem de
15 estudo, significava um conjunto de representaçã o social e de atividade científica; o remexer
profundo de ideias entre as influências delicadas da riqueza; os elevados vagares da filosofia
entremeados com requintes de sport e de gosto; um Claude Bernard que fosse também um Morny...
No fundo era um diletante.

Eça de Queiró s, Os Maias: episódios da vida romântica (fixaçã o de texto Helena Cidade Moura) Lisboa,
Livros do Brasil, 28.a ed., capítulo IV.

4. Mostre que, tal como Fernando Pessoa, Carlos também sonhou e os seus sonhos não se concreti-
zaram.

5. Justifique a afirmação “Os olhos do avô iluminavam-se ouvindo este plano grandioso.” (l. 4).

GRUPO II

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Ainda o apanhamos!

O suplemento Atual do ú ltimo Expresso traz um artigo extremamente interessante de Carlos


Reis, intitulado “Os Maias depois de Eça”. Carlos Reis é, sem dú vida, um dos maiores especialistas
contemporâ neos da obra de Eça de Queiró s e coordena a ediçã o crítica das suas obras, em curso na
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, sendo autor de vá rios textos definitivos sobre o romancista.
5 O propó sito evidente do artigo é o de “legitimar” (o que talvez nã o fosse tã o necessá rio quanto
isso...) a iniciativa que o Expresso tomou ao convidar seis notá veis autores a escreverem uma
“continuaçã o” do romance queirosiano até 1973, ano da fundaçã o do semaná rio.
A questã o fulcral parece ser a de saber se Os Maias sã o um romance “definitivamente ‘fechado’” e
o que é que explica a sua fulgurante permanência no câ none, para além de leituras mais ou menos
10 superficiais a que a obra foi dando lugar durante mais de cem anos. E Carlos Reis afirma que “Os
Maias parecem ter sido escritos para serem continuados”, apontando passagens que poderiam
indiciá -lo e vendo em Carlos Fradique Mendes, na esteira de Antó nio José Saraiva, a
consubstanciaçã o de um prolongamento de Carlos da Maia.
Sem estar inteiramente de acordo com Carlos Reis, acho que a ideia de propor a continuaçã o da
15 obra de Eça constitui um desafio interessantíssimo quer para os autores quer para os leitores. Nã o
estou inteiramente de acordo com o professor de Coimbra porque, na ú ltima pá gina do romance, a
célebre exclamaçã o de Carlos da Maia e de Joã o da Ega, “– Ainda o apanhamos!”, enquanto se
esfalfam a correr para o americano, de modo a nã o faltarem ao jantar combinado no Bragança, nã o
envolve apenas o desmentido da conversa que eles acabam de ter sobre a falta de sentido de
20 qualquer esforço: reduz também a tragédia amorosa e familiar por que Carlos passou a uma mera
trivialidade e está nisso uma poderosa manifestaçã o, tanto da ironia de Eça, como do cinismo
comportamental que ele confere a essas duas personagens.
Ora, partindo desta leitura, parece-me que seria difícil conceber uma continuaçã o, nã o obstante
a obra parecer suficientemente “aberta”... Todavia, nada há que a impeça: a ideia em si é aliciante e
25 há precedentes ficcionais com Os Maias e outras obras de Eça, sem falar em adaptaçõ es ao teatro e
ao cinema: por exemplo, em Madame, Maria Velho da Costa põ e em cena Maria Eduarda,
personagem de Eça, e Capitu, personagem de Machado de Assis, ocorrendo-me também, embora
neste caso sem relaçã o direta com Os Maias, o romance Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa,
que em 1997 “prolonga” a correspondência de Fradique Mendes, fazendo-o reviver e escrever em
30 exó ticas paragens.
Vasco Graça Moura, in DN, ediçã o online de 31 de julho de 2013
(consultado em janeiro de 2017, com supressõ es).

1. O texto tem marcas de


(A) exposição sobre um tema.
(B) discurso político.
(C) memórias.
(D) artigo de opinião.

2. A ideia de dar continuação a Os Maias


(A) merece algumas reservas a Vasco Graça Moura.
(B) foi do professor Carlos Reis e de mais seis autores.
(C) entusiasmou o autor do texto e os envolvidos na iniciativa.
(D) nasceu da natureza do romance, já que a obra é aberta.

3. Para o autor do texto parece difícil dar continuidade a Os Maias


(A) recordando adaptações falhadas do romance.
(B) embora acabe por aceitar essa possibilidade.
(C) porque a forma como termina é conclusiva.
(D) dada a inexistência de outros finais ficcionais.

4. Os processos fonológicos que se verificam na evolução de opera para “obra” (l. 3) são
(A) prótese e epêntese.
(B) síncope e sonorização.
(C) crase e apócope.
(D) dissimilação e sinérese.

5. O termo sublinhado em “saber se os Maias” classifica-se como


(A) conjunção subordinativa condicional.
(B) conjunção subordinativa completiva.
(C) pronome possessivo.
(D) pronome pessoal.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

6. Ao utilizar o nome “Carlos Reis” (l. 14) e “o professor de Coimbra” (l. 16), o autor assegura a coesão
(A) interfrásica.
(B) temporal.
(C) lexical.
(D) frásica.

7. A utilização das aspas em “Ainda o apanhamos” (l. 17), justifica-se por se tratar de uma
(A) citação.
(B) opinião de uma autor do texto.
(C) frase em discurso indireto livre.
(D) frase em discurso direto.

8. Classifique, delimitando, as orações presentes em “que a ideia de propor a continuação da obra de


Eça constitui um desafio interessantíssimo” (ll. 14-15).

9. Indique o referente do pronome pessoal presente em “Todavia, nada há que a impeça” (l. 24).

10. Identifique a função sintática do constituinte sublinhado em “põe em cena Maria Eduarda” (l. 26).

GRUPO III

Tal como Vasco Graça Moura reconhece, são muitas as adaptações cinematográficas ou teatrais de
obras literárias.
Num texto de opinião, de 170 a 250 palavras, refira-se à importância ou à transgressão decorrentes
dessas adaptações, utilizando, no mínimo, dois argumentos e, pelo menos, um exemplo significativo,
para cada um deles, de modo a defender convenientemente o seu ponto de vista.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Nã o estou pensando em nada


E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É -me agradá vel como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verã o quente do dia.

5 Nã o estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma pró pria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
10 O fluxo e o refluxo da vida...

Nã o estou pensando em nada.


Só , como se me tivesse encostado mal
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
15 É que, no fim de contas,
Nã o estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada.
6-7-1935
Á lvaro de Campos, in Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
(ediçã o de Richard Zenith), Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 425.

1. Caracterize o sujeito poético, considerando o estado emocional em que se encontra.

2. Explique o sentido dos versos 6 e 7.

3. Refira a expressividade decorrente do emprego da anáfora presente em “Não estou pensando em


nada” (v. 5).
B

Leia o excerto. Se necessário, consulte a nota.

Ah Peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto melhor me fora nã o
tomar a Deus nas mã os, que tomá -Lo tã o indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos
reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razã o, e o vosso instinto melhor
que o meu alvedrio. Eu falo, mas vó s nã o ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vó s
5 nã o ofendeis a Deus com a memó ria; eu discorro, mas vó s nã o ofendeis a Deus com o entendimento;
eu quero, mas vó s nã o ofendeis a Deus com a vontade. Vó s fostes criados por Deus, para servir ao
homem, e conseguis o fim para que fostes criados: a mim criou-me para O servir a Ele, e eu nã o
consigo o fim para que me criou. Vó s nã o haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante Dele
muito confiadamente, porque O nã o ofendestes; eu espero que O hei de ver; mas com que rosto hei
10 de aparecer diante do Seu divino acatamento, se nã o cesso de O ofender? Ah quase que estou por
dizer que me fora melhor ser como vó s, pois de um homem que tinha as mesmas obrigaçõ es, disse a
Suma Verdade1 que melhor lhe fora nã o nascer homem: Si natus non fuisset homo ille. E pois os que
nascemos homens, respondemos tã o mal às obrigaçõ es de nosso nascimento, contentai-vos, Peixes,
e dai muitas graças a Deus pelo vosso.

Padre Antó nio Vieira, Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate),
tomo II, vol. X, Lisboa, Círculo de Leitores, 2014, pp. 164-165.

_____________
1
Deus.

4. Indique duas razões justificativas da inveja que o orador diz ter dos peixes.

5. Apresente duas estratégias argumentativas utilizadas neste momento textual.

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

Ser mais com menos

Se aquilo que possui traz danos à sua vida, a solução é simplificar e adotar princípios
minimalistas.

Por trá s de cada grande decisã o há sempre uma histó ria. Imagine alguém que, aos 28 anos,
atinge o topo do sucesso no mundo empresarial e, nessa mesma altura, fica sem o casamento e
5 perde a mã e, questionando-se entã o acerca do que realmente conta na sua vida. Ou coloque-se na
pele de um jovem executivo exemplar, confrontado com o seu despedimento.
Dois cená rios que podiam fazer parte da sinopse de um filme. Mas nã o sã o. Aconteceram mesmo
a dois amigos de infâ ncia. Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus tinham a mesma idade quando
passaram pelo avesso do sonho americano. Foi entã o que decidiram simplificar: reduziram ao
10 mínimo os há bitos de consumo, venderam ou doaram tudo o que nã o acrescentasse valor ao seu
quotidiano e as vidas deles mudaram. Tornaram-se mais ricas. O lema de Os Minimalistas, que
vivem em Missoula, no Estado de Montana, pode resumir-se a três ideias-chave:
− “Viver com menos é mais”
− “Desapegue-se e siga em frente”
15 − “Ame as pessoas e use as coisas porque o contrá rio nã o funciona”.
Parece fá cil mas nã o é. Eles explicam tudo numa conferência TED e no documentá rio lançado
este ano e intitulado Minimalism: A Documentary About the Important Things. Porque é que nã o é
fá cil? Por ser preciso passar à prá tica e confiar que vai valer a pena. Por ser preciso reprogramar a
ideia que se tem de abundâ ncia.
15 O emprego milioná rio, a casa à altura com carro a condizer e outros sinais exteriores de riqueza
podem parecer uma meta cativante que todos querem alcançar (e que eles alcançaram). Só que,
pouco tempo antes de a vida ter surpreendido Joshua e Ryan, já eles tinham percebido que manter
esse estilo de vida nã o lhes dava a satisfaçã o sonhada. E, para infelicidade de ambos, o consumo
compulsivo só ampliava a sensaçã o de vazio e os níveis de stresse, medo, desgaste e depressã o. Em
20 síntese, nã o era Vida. Nã o os tornava mais livres nem lhes fazia sentido. Seis anos passados, a dupla
tem um site, um blog, um podcast, alguns livros e mais de quatro milhõ es de seguidores.

Clara Soares, in Visã o, ediçã o online de 23 de novembro de 2016 (consultado em dezembro de 2016).

1. Nos dois parágrafos iniciais, referem-se


(A) duas situações hipotéticas.
(B) dois casos verídicos.
(C) hipóteses de vida distintas.
(D) soluções para minimizar danos.

2. Com a expressão “avesso do sonho americano” (l. 9), pretende-se salientar


(A) as dificuldades surgidas na vida dos dois amigos.
(B) a nacionalidade dos dois amigos de infância.
(C) a pobreza que se abateu sobre os americanos.
(D) a realidade de muitos jovens americanos.

3. De acordo com o sentido do texto, ser “minimalista” é


(A) mais fácil do que parece.
(B) a filosofia de vida dos pobres.
(C) mais complicado do que parece.
(D) alhear-se de tudo e de todos.

4. O termo “Se” que inicia o texto tem valor


(A) reflexo.
(B) recíproco.
(C) apassivante.
(D) condicional.

5. A oração subordinada presente na frase “Imagine alguém que, aos 28 anos, atinge o topo do
sucesso no mundo empresarial” (ll. 3-4) é
(A) adverbial consecutiva.
(B) adjetiva relativa restritiva.
(C) adjetiva relativa explicativa.
(D) substantiva completiva.

6. O segmento frásico sublinhado “coloque-se na pele de um jovem executivo exemplar, confrontado


com o seu despedimento” (ll. 5-6) desempenha a função sintática de
(A) complemento oblíquo.
(B) complemento direto.
(C) modificador do grupo verbal.
(D) modificador restritivo do nome.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

7. A afirmação “Dois cenários que podiam fazer parte da sinopse de um filme” (l. 7) exemplifica a
modalidade
(A) epistémica com valor de certeza.
(B) epistémica com valor de probabilidade.
(C) deôntica com valor de obrigação.
(D) deôntica com valor de permissão.

8. Indique o valor lógico do articulador que introduz o último período do primeiro parágrafo.

9. Classifique a oração “que vivem em Missoula” (ll. 11-12).

10. Identifique o processo de formação da palavra “ideias-chave” (l. 12).

GRUPO III

Viver a vida de forma minimalista foi a opção dos dois jovens cuja desgraça os fez apreciar a vida de
forma diferente.

Num texto de 170 a 200 palavras, produza um texto expositivo sobre o modo como podemos ou
devemos viver, considerando as consequências decorrentes da nossa opção de vida.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto. Se necessário, consulte a nota.

Paira-me à superfície do cansaço qualquer coisa de á ureo que há sobre as á guas quando o sol
findo as abandona. Vejo-me como ao lago que imaginei, e o que vejo nesse lago sou eu. Nã o sei como
explique esta imagem, ou este símbolo, ou este eu em que me figuro. Mas o que tenho por certo é
que vejo, como se de facto visse, um sol por trá s de montes, dando raios perdidos sobre o lago que
5 os recebe a ouro escuro.
Um dos malefícios de pensar é ver quando se está pensando. Os que pensam com o raciocínio
estã o distraídos. Os que pensam com a emoçã o estã o dormindo. Os que pensam com a vontade
estã o mortos. Eu, porém, penso com imaginaçã o, e tudo quanto deveria ser em mim ou razã o, ou
má goa, ou impulso, se me reduz a qualquer coisa indiferente e distante, como este lago morto entre
10 rochedos onde o ú ltimo do sol paira desalongadamente.
Porque parei, estremecem as á guas. Porque refleti, o sol recolheu-se. Cerro os olhos lentos e
cheios de sono, e nã o há dentro de mim senã o uma regiã o lacustre 1 onde a noite começa a deixar de
ser dia num reflexo castanho escuro de á guas de onde as algas surgem.
Porque escrevi, nada disse. Minha impressã o é que o que existe é sempre em outra regiã o, além
15 de montes, e que há grandes viagens por fazer se tivermos alma com que ter passos.
Cessei, como o sol na minha paisagem. Nã o fica, do que foi dito ou visto, senã o uma noite já
fechada, cheia de brilho morto de lagos, numa planície sem patos bravos, morta, fluida, hú mida e
sinistra.

Bernardo Soares, Livro do desassossego, Ediçã o de Jeró nimo Pizarro, Lisboa, Tinta da China, 2014, pp. 461-462.

_______________
1
relativo a “lago”.

1. Comprove a presença de um registo descritivo e reflexivo como uma das marcas deste texto.

2. Interprete a metáfora do lago, tendo em conta a referência aos raios de sol.

3. Identifique um recurso expressivo presente no segmento “Os que pensam com o raciocínio estão
distraídos. Os que pensam com a emoção estão dormindo. Os que pensam com a vontade estão
mortos.” (ll. 6-8), explicitando o seu valor.
B

Leia o poema.

II

O meu olhar é nítido como um girassol.


Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trá s...
5 E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que teria uma criança se, ao nascer,
10 Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a grande novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,


Porque o vejo. Mas nã o penso nele
15 Porque pensar é nã o compreender...
O mundo nã o se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu nã o tenho filosofia: tenho sentidos...


20 Se falo na Natureza nã o é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,


25 E toda a inocência é nã o pensar...

Alberto Caeiro, “O guardador de rebanhos”, Fernando Pessoa,


Poesia dos Outros Eus (ed. de Richard Zenith), Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pp. 35-36.

4. Explicite a importância do olhar, relacionando-o com o modo como Caeiro encara a Natureza.

5. Comprove a defesa da filosofia do “não pensar”, característica deste heterónimo.


GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

Ver o filme? Já li o livro…

A ligação entre cinema e literatura é bem antiga, e nem sempre corre bem. Na próxima
semana, estreia em Portugal o filme Uma história americana, de Ewan McGregor, realizado a
partir do romance Pastoral americana, de Philip Roth. O que se perde pelo caminho?

5 No prefá cio do seu romance O negro do narciso, publicado em 1897, Joseph Conrad escrevia algo
como isto: “o objetivo que eu tento atingir é, pelo poder da palavra escrita, fazer o leitor ouvir,
sentir e, acima de tudo, ver”. É uma frase que nã o só sublinha o poder da literatura como tem
inspirado um batalhã o de realizadores, ao longo da histó ria do cinema, a transformar grandes
romances em filmes. Fazendo, literalmente, ver e ouvir o que outros, antes deles, escreveram. É ,
10 muitas vezes, um trabalho armadilhado… E ao longo do tempo foi nascendo a convicçã o de que a
grande literatura resulta, demasiadas vezes, em filmes falhados. A frase “Ah, mas o livro é muito
melhor…” tornou-se um lugar-comum.
A discussã o, muito prá tica e académica, é velha, e nã o faltam exemplos para sustentar diversas
teorias. O tema vem agora a propó sito da adaptaçã o para cinema de um dos mais celebrados
15 romances do escritor norte-americano Philip Roth, Pastoral americana.
McGregor guiou-se por vá rias regras clá ssicas, by the book, da adaptaçã o de um romance ao
cinema. No seu site, o guionista português Joã o Nunes explicita algumas, a partir da sua experiência
pessoal, começando por uma constataçã o mais ou menos ó bvia: “é preciso cortar, eliminar muita
coisa, porque afinal a literatura é uma forma muito mais ‘livre’ do que o cinema”. McGregor passou
20 no teste da “dissecaçã o e simplificaçã o”, mas falhou ao manter o espírito das pá ginas assinadas por
Philip Roth.
Muitos dos mais celebrados filmes de Alfred Hitchcock baseiam-se em romances, quase sempre
livros menos conhecidos e celebrados do que os filmes a que deram origem. Na longa entrevista
que o cineasta britâ nico deu ao realizador francês François Truffaut, aproveitou para explicar um
25 pouco do seu método: “O que eu faço é ler a histó ria só uma vez e se gostar da ideia bá sica esqueço
tudo sobre o livro e começo a criar cinema. Hoje, seria incapaz de contar a histó ria que Daphne du
Maurier escreveu no seu conto Os pássaros. Só o li uma vez, e muito rapidamente.”
Talvez esta fleuma britâ nica, de mestre, seja o segredo certo para manter o “espírito” das obras,
fazendo cinema sem tentar filmar literatura.

Pedro Dias de Almeida, in Visão, nº 1236, de 10 a 16 de outubro de 2016 (com supressõ es).

1. Com a afirmação “É, muitas vezes, um trabalho armadilhado…” (ll. 9-10), o autor deixa claro que
fazer a adaptação de obras literárias ao cinema é

(A) uma tarefa inglória para o realizador.


(B) uma tarefa por vezes votada ao fracasso.
(C) um trabalho fascinante, mas desgastante.
(D) uma forma de afirmar o poder da literatura.

2. A afirmação “a literatura é uma forma muito mais ‘livre’ do que o cinema” (l. 19) demonstra que a
literatura
(A) confere ao leitor uma maior liberdade na medida em que a leitura não implica o confinamento a
um determinado lugar.
(B) é uma forma de expressão mais acessível do que o cinema.
(C) permite ao leitor maior criatividade, tendo por base a leitura que realiza.
(D) possibilita o tratamento de temas mais variados do que o cinema.
3. A frase “McGregor passou no teste da ‘dissecação e simplificação’, mas falhou ao manter o espírito
das páginas assinadas por Philip Roth.” (ll. 19-21)
(A) significa que McGregor sintetizou o conteúdo da obra de Philip Roth, mas realizou um bom filme.
(B) destaca a qualidade cinematográfica e literária de ambas as obras.
(C) comprova a importância da ligação da literatura e do cinema.
(D) produz um juízo de valor negativo relativamente à obra cinematográfica em causa.

4. O método usado por Alfred Hitchcock, que garantiu o êxito de tantos dos seus filmes
(A) consistia em adaptar fielmente a obra literária que lhe servia de base.
(B) constava da leitura rápida da obra literária, que esquecia logo, assim que concebia o filme.
(C) baseava-se na filmagem de cenas que retirava de obras literárias.
(D) era partilhado pelo realizador francês François Truffaut.

5. O processo de formação da palavra “site” (l. 17) é


(A) empréstimo. (C) amálgama.
(B) truncação (D) acrónimo.

6. O sujeito da forma verbal “baseiam-se” (l. 22) é


(A) “filmes de Alfred Hitchcock”
(B) “Muitos dos mais celebrados filmes de Alfred Hitchcock”
(C) “Muitos filmes”.
(D) sujeito subentendido.

7. O termo sublinhado em “para explicar um pouco o seu método” (ll. 24-25) classifica-se como
(A) conjunção subordinativa completiva. (C) conjunção subordinativa final.
(B) preposição. (D) locução prepositiva.

8. Classifique a oração “que o cineasta britânico deu ao realizador francês François Truffaut”. (l. 24)

9. Identifique a função sintática desempenhada pelo constituinte sublinhado em “O que eu faço é ler a
história só uma vez”. (l. 25)

10. Indique o antecedente do pronome pessoal presente em “Só o li uma vez”. (l. 27)

GRUPO III

Redija uma apreciação crítica de uma obra literária que tenha lido e da sua adaptação para o cinema.
Como sugestão, poderá apresentar o seu ponto de vista relativamente ao excerto do Filme do
desassossego proposto na página 103 do manual, adaptação da obra de Bernardo Soares, cujos
fragmentos conhece.
O seu texto deverá conter entre 130 a 170 palavras.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Ocidente

Com duas mã os – o Ato e o Destino –


Desvendá mos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o facho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.

5 Fosse a hora que haver ou a que havia


A mã o que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a ousadia
Da mã o que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal


10 A mã o que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mã o que o conduziu.
Fernando Pessoa, Mensagem
(ed. Fernando Cabral Martins),
Porto, Assírio & Alvim, 2012, p. 56.

1. Demonstre a interdependência e a importância do Ato e do destino na realização das descobertas.

2. Interprete o simbolismo das mãos na consecução do objetivo de afastar o véu.

3. Integre, justificadamente, o poema na estrutura da obra a que pertence.


2. TESTES DE AVALIAÇÃO

Leia as estâncias 99 e 100 do canto V de Os Lusíadas.

[99] À s Musas agardeça o nosso Gama


O muito amor da pá tria, que as obriga
A dar aos seus1, na lira, nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga;
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope nã o tem por tã o amiga
Nem as filhas do Tejo2, que deixassem
As telas d’ ouro fino e que o cantassem.

[100] Porque o amor fraterno3 e puro gosto


De dar a todo o Lusitano feito
Seu4 louvor, é somente o pros[s]uposto
Das Tá gides gentis, e seu respeito.
Porém nã o deixe, enfim, de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito5:
Que, por esta ou por outra qualquer via,
Nã o perderá seu preço e sua valia.

Luís de Camõ es, Os Lusíadas


(leitura, prefá cio e notas de A. Costa Pinhã o),
Lisboa, Instituto de Camõ es, MNE, 2000, pp. 237-238.

_____________
1
À família de Vasco da Gama ou aos portugueses, consoante as interpretaçõ es.
2
Tá gides.
3
De irmã o (as Tá gides sã o aqui consideradas irmã s dos Portugueses).
4
Devido.
5
Vontade.

4. Confirme que os portugueses são o povo eleito e protegido.

5. Explicite o apelo expresso pelo poeta nos últimos quatro versos da estância 100.

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

“O que em mim sente está pensando” é uma afirmaçã o de Fernando Pessoa que implica uma
complementaridade ou acordo entre o pensamento e a emoçã o. Ela exprime, dentro do contexto do
nosso Modernismo, uma reaçã o ao subjetivismo nã o raro levado ao extremo quando, nas primeiras
décadas do século passado, muitos poetas nã o se furtavam a um derramamento emocional que se
5 diria vindo do Ultrarromantismo. Sem dú vida que, conforme nos aproximamos dos nossos dias, a
situaçã o vai-se tornando diferente. Mas a “intelectualizaçã o das emoçõ es” e a “emocionalizaçã o das
ideias”, a que Pessoa também se referia, nã o deixa de estar presente quando é sobre a poesia que se
reflete.
Jorge de Sena esteve sempre atento a esta questã o. Ele pertence a uma geraçã o, geraçã o essa
10 onde sobressaem Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade ou Carlos de
Oliveira, cuja obra começa a ser publicada nos anos 40, mas que ganha toda a sua força nas décadas
seguintes. Depois de Poesia 1, que inclui todos livros de Sena publicados em vida do autor, sai agora
Poesia 2 que colige a sua obra poética pó stuma. Ficam, assim, recolhidos finalmente todos os
poemas de Jorge de Sena, numa ediçã o preparada por Jorge Fazenda Lourenço.
15
Considerada na sua totalidade, a poesia de Sena manifesta uma força expressiva que vai ao
encontro de um lirismo especulativo onde logo vêm à superfície tensõ es dramá ticas muito
marcadas, como ele disse, por “um comprometimento humano da poesia pura”. Há na sua escrita
um sentido extremamente lú cido – porque a poesia de Sena é também pensada – que se torna
vigilante, muitas vezes voltada para uma realidade angustiante e adversa.
20 Talvez seja a partir deste tó nus que se terá desenvolvido uma certa direçã o que ganha corpo
neste segundo volume agora publicado. Poesia 2 estende-se por 900 pá ginas e obedece a uma
ordenaçã o cronoló gica que principia numa juvenília, seguida de um alargado conjunto de outros
poemas cuja escrita corresponde ao tempo de publicaçã o dos seus livros, desde Peregrinação até
Exorcismos e Conheço o Sal, mas que nã o foram incluídos neles. Há ainda outros conjuntos de
25 poesias, nomeadamente as que correspondem ao livro pó stumo Dedicácias e vá rios novos inéditos.
Diga-se desde já que esta Poesia 2 assume um cará ter que se diria mais documental, por vezes
quase memorialístico, na medida em que muitos dos poemas sã o uma direta ou espontâ nea reaçã o a
momentos de natureza circunstancial ou uma transposiçã o desabusadamente temperamental que
se tornam extremamente cortantes, cruzando-se com um confessionalismo por vezes amargo e
30
desencantado.

Fernando Guimarã es, in Visão, ediçã o online de 17 de setembro de 2015


(consultado em outubro de 2016).

1. O verso pessoano citado, no contexto modernista, pode ser interpretado como


(A) expressão da complementaridade entre razão e emoção.
(B) reação ao subjetivismo romântico que urgia extinguir.
(C) uma crítica aos poetas ultrarromânticos do século XIX.
(D) subjacente à produção poética de Jorge de Sena.

2. No texto dá-se especial ênfase


(A) à poesia modernista, e em particular à de Fernando Pessoa.
(B) ao retrocesso percecionado na nova publicação de Jorge de Sena.
(C) ao livro que colige a poesia póstuma de Jorge de Sena, Poesia 2.
(D) à obra da geração a que pertenceram Jorge de Sena e Ruy Cinatti.

3. De acordo com o que se afirma nas linhas 15 a 17, a poesia de Jorge de Sena mantém
(A) alguma proximidade com a de Fernando Pessoa.
(B) um caráter totalmente inovador em relação à da sua geração.
(C) uma grande proximidade com a lírica romântica, de caráter subjetivo.
(D) muitos pontos de contacto com a produção lírica dos românticos.

4. O recurso ao travessão duplo (l. 18) justifica-se dado que aí se introduz


(A) um facto distinto do que é dito anteriormente.
(B) um comentário de Jorge de Sena.
(C) uma ideia contrária à expressa antes.
(D) uma justificação para a expressão anterior.

5. O constituinte “tensões dramáticas muito marcadas” (ll. 16-17) desempenha a função sintática de
(A) complemento direto.
(B) sujeito.
(C) predicativo do sujeito.
(D) complemento oblíquo.

6. A oração “que ganha corpo neste segundo volume agora publicado” (ll. 20-21) é subordinada
(A) substantiva relativa.
(B) adverbial consecutiva.
(C) adjetiva relativa restritiva.
(D) substantiva completiva.
2. Testes de Avaliação

7. O nome “livros” (l. 23), relativamente aos títulos enumerados, é um elemento que garante a coesão
(A) lexical.
(B) interfrásica.
(C) referencial.
(D) temporal.

8. Indique o valor aspetual configurado no segmento “Ficam, assim, recolhidos […] Jorge Fazenda
Lourenço” (ll. 13-14).

9. Identifique a modalidade expressa na afirmação “Talvez seja a partir deste tónus que se terá
desenvolvido uma certa direção” (l. 20).

10. Indique o referente do elemento sublinhado em “nomeadamente as que correspondem ao livro


póstumo” (l. 25).

GRUPO III

O uso do pensamento ou da razão é uma faculdade inerente ao ser humano que o pode impedir de viver
a vida ou, pelo menos, de não saber passar por ela sem pensar. Essa atitude pode trazer-lhe benefícios
mas também prejuízos.

Escreva um texto de opinião, de 200 a 300 palavras, no qual apresente o seu ponto de vista sobre os
comportamentos humanos resultantes do uso excessivo da razão ou da emoção, referindo os aspetos
positivos e/ou negativos daí decorrentes.

Fundamente a sua opinião recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustre cada um deles com, pelo
menos, um exemplo significativo.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,


Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer −
5 Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fá tuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.


Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
10 (Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Valete, Fratres.

Fernando Pessoa, Mensagem (ed. Fernando Cabral Martins),


Porto, Assírio & Alvim, 2012, p. 91.

1. Caracterize Portugal de acordo com o conteúdo do poema, fundamentando com citações textuais
pertinentes.

2. Descodifique a simbologia do título, relacionando-o com o conteúdo do poema.

3. Explicite a funcionalidade do último verso.


2. TESTES DE AVALIAÇÃO

Leia as estâncias 145 e 146 do canto X de Os Lusíadas.

[145] Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho


Destemperada e a voz enrouquecida,
E nã o do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Nã o no dá a pá tria, nã o, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũ a austera, apagada e vil tristeza.

[146] E nã o sei por que influxo de Destino


Nã o tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os â nimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vó s, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio só lio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.

Luís de Camõ es, Os Lusíadas (leitura, prefá cio e notas de A. Costa Pimpã o)
Lisboa, Instituto Camõ e , MNE, 2000, p. 476.

4. Identifique, justificadamente, um eixo temático comum aos dois textos (grupo I A e B).

5. Sintetize o lamento do sujeito poético.

GRUPO I

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

A importância estratégica do mar para Portugal


Portugal confronta-se hoje com uma conjuntura internacional marcada por dois fatores
principais: a globalizaçã o e o aprofundamento da integraçã o europeia, inevitá vel com o
alargamento da Uniã o aos países do Leste da Europa.
A globalizaçã o, um fenó meno evolutivo, vem exigindo uma abertura cada vez maior da nossa
5 economia, e significa mais concorrência externa e mais homogeneidade cultural dos países e regiõ es
do mundo. O aprofundamento da Uniã o Europeia e o seu crescimento para as á reas interiores do
continente europeu acaba por traduzir-se numa versã o à escala regional (europeia) e muito mais
acelerada da globalizaçã o, pelo menos, na medida em que também significa mais concorrência
externa e que, até certo ponto, implicará maior uniformidade cultural na Europa.
10 Geograficamente o nosso país torna-se ainda mais periférico face a um epicentro europeu mais
longínquo e desviado para Leste.
Esta posiçã o periférica, física mas também psicoló gica, é incontorná vel e acarreta custos
políticos e econó micos. Por isso, o presente acentuar do “síndroma” deveria despertar-nos e levar-
-nos a repensar o posicionamento de Portugal no sentido, nã o de perspetivarmos uma via de
15 sentido ú nico que desagua sempre no centro do continente europeu, muitas montanhas e rios
depois, mas no sentido de analisar o posicionamento geoestratégico nacional no seu todo – e logo
incluindo o oceano que nos rodeia – para dele procurar beneficiar.
Na ló gica de procurarmos beneficiar da localizaçã o geográ fica nacional, torna-se necessá rio
redescobrir um país que é uma parcela da costa ocidental atlâ ntica da Europa, que é um país quase
20 arquipelá gico, projetado sobre o oceano, e que é um país de fronteira entre três continentes:
Europa, Á frica e América.
Para além desse “reposicionamento”, é também expectá vel que o desenvolvimento do país passe
por investir em á reas de especializaçã o que deem resposta à competitividade acrescida no quadro
global em geral e no quadro europeu em particular.
25 Finalmente, face à referida envolvente internacional atual, é ainda apropriado encontrar
mecanismos de reforço de uma imagem nacional, aqui entendida simultaneamente como “marca”
distintiva do país no exterior, mas também como perceçã o que os portugueses têm de si pró prios
enquanto país e naçã o. Se o país nã o interiorizar e nã o conseguir projetar uma marca distintiva,
tornar-se-á inevitavelmente cada vez menos relevante no panorama internacional.

Tiago de Pitta e Cunha, A importância estratégica do mar para Portugal, in Nação e Devesa – Portugal e o Mar,
revista do Instituto Nacional de Defesa, nº 108, verã o de 2004, p. 43 (com supressõ es).

1. Atualmente colocam-se ao nosso país desafios que implicam


(A) a consciência da necessidade de interagir quer a nível mundial quer a nível europeu.
(B) o reconhecimento das vias marítimas como elo entre a Europa e o resto do mundo.
(C) o desenvolvimento da sua intervenção junto dos países de Leste.
(D) a promoção da autossuficiência em termos económicos.

2. O autor do texto aponta como caminho possível


(A) a seleção da Europa como único parceiro de desenvolvimento.
(B) a redescoberta do mar como ligação ao velho continente.
(C) a consciência da localização geográfica do país como fronteira com três continentes.
(D) os contactos urgentes com os países de Leste.

3. O desenvolvimento do país pode ainda centrar-se


(A) na construção de uma imagem de marca.
(B) na redefinição da nossa situação na Europa.
(C) na comercialização de produtos genuinamente portugueses.
(D) na consolidação de meios que promovam a competitividade e a imagem nacional.

4. A forma verbal “torna-se” (l. 10) pertence a um verbo


(A) copulativo.
(B) transitivo indireto.
(C) transitivo predicativo.
(D) intransitivo.

5. A função sintática do pronome em “despertar-nos” (l. 13) é


(A) sujeito.
(B) complemento direto.
(C) complemento indireto.
(D) complemento oblíquo.

6. O processo de formação do termo “geoestratégico” (l. 16) decorre da


(A) derivação não afixal.
(B) conversão.
(C) composição morfológica.
(D) composição morfossintática.
7. O segmento “que nos rodeia” (l. 17) integra uma oração subordinada
(A) adverbial concessiva.
(B) adjetiva relativa restritiva.
(C) adjetiva relativa explicativa.
(D) adverbial consecutiva.

8. Justifique o emprego dos dois pontos na linha 2.

9. Indique o valor modal expresso na frase “o presente acentuar do ‘síndroma’ deveria despertar-nos
e levar-nos a repensar o posicionamento de Portugal” (ll. 13-14).

10. Indique a classe/subclasse do constituinte sublinhado em “é também expectável que o desenvolvi-


mento do país passe por investir em áreas de especialização” (ll. 22-23).

GRUPO III

Os três textos lidos apresentam diversas perspetivas sobre Portugal.

Escreva um texto expositivo, entre 170 e 200 palavras, no qual apresente as características geográficas,
culturais e turísticas da nação portuguesa.

Planifique previamente o seu texto, considerando as seguintes orientações:


– estrutura tripartida (introdução, desenvolvimento e conclusão);
– discurso objetivo e elucidativo;
– uso da 3ª pessoa;
– seleção vocabular criteriosa, articulação coerente, correção linguística, sintática e ortográfica.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Depois, o sol desanda para trá s da casa. Começa a acercar-se a tardinha. Batola, que acaba de
dormir a sesta, já pode vir sentar-se, cá fora, no banco que corre ao longo da parede. A seus pés,
passa o velho caminho que vem de Ourique e continua para o sul. Por cima, cruzam os fios da
eletricidade que vã o para Valmurado, uma tomada de corrente cai dos fios e entra, junto das telhas,
5 para dentro da venda.
E o Batola por mais que nã o queira, tem de olhar todos os dias o mesmo: aí umas quinze
casinhas desgarradas e nuas; algumas só mostram o telhado escuro, de sumidas que estã o no fundo
dos có rregos. Depois disso, para qualquer parte que volte os olhos, estende-se a solidã o dos campos.
E o silêncio. Um silêncio que caiu, estiraçado por vales e cabeços, e que dorme profundamente. Oh,
10 que despropó sito de plainos sem fim, todos de roda da aldeia, e desertos!
Carregado de tristeza, o entardecer demora anos. A noite vem de longe, cansada, tomba tã o
vagarosamente que o mundo parece que vai ficar para sempre naquela magoada penumbra. Lá vêm
figurinhas dobradas pelos atalhos, direito à s casas tresmalhadas da aldeia. Nenhuma virá até à
venda falar um bocado, desviar a atençã o daquele poente dolorido. Sã o ceifeiros, exaustos da faina,
15 que recolhem. Breve, a aldeia ficará adormecida, afundada nas trevas. E Antó nio Barrasquinho, o
Batola, nã o tem ninguém para conversar, nã o tem nada que fazer. Está preso e apagado no silêncio
que o cerca.
Ergue-se pesadamente do banco. Olha uma ú ltima vez para a noite derramada. Leva as mã os à
cara, esfrega-a, amachucando o nariz, os olhos. Fecha os punhos, começa a esticar os braços. E abre
20 a boca num bocejo tã o fundo, o corpo torcido numa tal ansiedade, que parece que todo ele se vai
despegar aos bocados. Um suspiro estrangulado sai-lhe das entranhas e engrossa até se alongar,
como um uivo de animal solitá rio.
Quando consegue dominar-se, entra na venda, arrastando os pés. E, sem pressentir que aquela
noite é a véspera de um extraordiná rio acontecimento, lá se vai deitar o Batola, derrotado por mais
25 um dia.

“Sempre é uma companhia”, in Manuel da Fonseca, O fogo e as cinzas, Lisboa, Editorial Caminho, 2011, pp. 150-151.

1. Descreva o espaço físico e social em que se desenrola a ação, tal como é perspetivado por Batola.

2. Enuncie três traços caracterizadores dos habitantes de Alcaria, fundamentando a resposta com
citações textuais pertinentes.

3. Identifique o recurso expressivo presente na expressão “Carregado de tristeza, o entardecer


demora anos” ”(l. 11), comentando o seu valor simbólico.
B

Leia as seguintes estrofes de um poema de Cesário Verde

Homens de carga! Assim as bestas vã o curvadas!


Que vida tã o custosa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mã os gretadas,
5 Para que nã o lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas


Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas:
Listrõ es de vinho lançam-lhe divisas,
10 E os suspensó rios traçam-lhe uma cruz!

D’escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,


Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
10 Toda abafada num casaco à russa.

D’onde ela vem! A atriz que eu tanto cumprimento;


E a quem, à noite, na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
10 Caminha agora para o seu ensaio.

“Cristalizaçõ es”, in Cesá rio Verde, Cânticos do Realismo. O livro de Cesário Verde
(coord. Carlos Reis, introduçã o e nota biobibliográ fica de Helena Carvalhã o Buescu),
Lisboa, INCM, 2015.

4. Identifique e caracterize os tipos sociais referenciados.

5. Explicite os sentimentos do sujeito poético expressos nas frases exclamativas dos versos 1 e 2.

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

O lápis já não é o que era


Volto ao excelente filme Eu, Daniel Blake. A propó sito de um pormenor (será?) na cena final da
despedida do carpinteiro. Lá estavam os fiéis amigos, os jovens vizinhos que representavam a nova
geração com novos sonhos e novos pesadelos, a funcionária da Segurança Social que, ali, simbolizava a
coragem e o afeto de ter coração e de se ser solidário, desafiando as normas e os regulamentos (e, por
5 isso, é repreendida pela chefe). E a mãe solteira que acompanhara Daniel na sua ú ltima tentativa para
ver o seu processo de invalidez deferido. É ela que abre um papel amarrotado escrito por Blake e no qual
exprimiu a sua paradoxalmente serena e inconformada revolta diante do jú ri de reavaliação. O essencial
está no que lá escreveu, o pormenor no modo como o manuscreveu. Com um singelo lápis.
O lápis, o velho companheiro de vida de tantas pessoas, é o lado antigo e oposto da face
10 superlativamente nova de vidas subordinadas à miríade de instrumentos tecnoló gicos. Não se trata aqui
de uma visão reacionária ou conservadora face ao progresso material e comunicacional. Haverá, por certo,
alguma nostalgia no detalhe do lápis. Mas o que representa, essencialmente, é um dualismo funcional e
geracional que pode conduzir a uma insuportável exclusão de uns e a uma pretensa superioridade de
outros, que, não raro, não sabem o que é um lápis ou essa “união de facto” do lápis encimado por uma
15 borracha, nunca escreveram com uma caneta de tinta permanente, ignoram o que seja um compasso e
quase erradicaram a prática (física e intelectual) de manuscrever.
Evidentemente que o progresso técnico é uma importante condiçã o necessá ria para o
desenvolvimento, mas nunca será , só por si, uma condiçã o suficiente se à s tecnologias nã o estiverem
associados o bem comum, a justiça social e geracional, o respeito pelo outro.
20 Na era da “cidadania eletró nica”, os “netizens” sã o, hoje, uma expressã o eloquente do saber mais
democratizado (embora, neste contexto, sempre me lembre do que escreveu Jean Guitton: “se o livro
tivesse sido inventado depois do computador teria sido uma grande invenção”). Mas quantas vezes,
ao lado desse progresso, vamos deparando com uma acrescida aridez relacional, em alguns casos
mesmo com uma diferente expressã o da solidã o, senã o mesmo de isolamento e abandono. Nas
25 situaçõ es mais extremadas, de um lado um novo cá rcere, do outro uma velha exclusã o.

Antó nio Bagã o Fé lix, in público, ediçã o online de 13 de dezembro de 2016


(consultado em novembro de 2016, com supressõ es).

1. A referência ao filme Eu, Daniel Blake justifica-se


(A) por ser um filme sobre as novas tecnologias.
(B) já que se trata de um filme sobre a solidariedade.
(C) uma vez que o texto é uma reflexão sobre a importância da evolução tecnológica.
(D) porque um pormenor de uma cena é o mote para o desenvolvimento do texto.

2. No texto apresenta-se uma perspetiva pessoal de discordância relativamente à


(A) multiplicidade de instrumentos tecnológicos à disposição das novas gerações.
(B) inutilidade de antigos objetos de escrita nos tempos modernos.
(C) discrepância de saberes entre as gerações mais novas e as mais antigas, o que pode criar falsos
juízos sobre competências.
(D) atitude dos mais novos face aos saberes rudimentares dos mais antigos.

3. O autor é da opinião que


(A) paralelamente ao desenvolvimento tecnológico, definham as relações interpessoais.
(B) as novas tecnologias funcionam como uma prisão para os mais velhos.
(C) a maior aptidão tecnológica das novas gerações é proporcional ao incremento nas relações pessoais.
(D) a utilização crescente do computador leva os mais jovens a abandonar os mais idosos.

4. No contexto em que surge, o termo “miríade” (l. 10) pode ser substituído por
(A) idealização.
(B) virtualidade.
(C) imensidade.
(D) centena.

5. A oração subordinada presente no segmento “que representavam a nova geração com novos
sonhos e novos pesadelos” (ll. 2-3) designa-se subordinada
(A) adjetiva relativa restritiva.
(B) adjetiva relativa explicativa.
(C) substantiva relativa.
(D) adverbial consecutiva.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

6. O segmento “por Blake” (l. 6) desempenha a função sintática de


(A) predicativo do sujeito.
(B) complemento agente da passiva.
(C) modificador da frase.
(D) modificador do grupo verbal.

7. O último parágrafo do texto constitui uma sequência dominantemente


(A) descritiva.
(B) dialogal.
(C) explicativa.
(D) argumentativa.

8. Refira o valor aspetual configurado no complexo verbal do segmento “ao lado desse progresso,
vamos deparando com uma acrescida aridez relacional” (l. 23).

9. Indique o valor lógico do articulador “se” (l. 18)

10. Indique o processo de formação do termo “netizens” (l. 20)

GRUPO III

Ao contrário do que seria de supor, por se tratar de redes sociais, a utilização deste meio de
comunicação e interação tem vindo a acentuar a timidez, o isolamento e a solidão entre as pessoas,
sobretudo as mais jovens.

Num texto de opinião, bem estruturado, com um mínimo de 200 e um máximo de 300 palavras,
apresente o seu ponto de vista sobre o tema atrás enunciado.

Fundamente a sua opinião recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustre cada um deles com, pelo
menos, um exemplo significativo.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto.

Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a
obrigassem a demorar-se mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para partir,
para chegar. Mesmo para estar onde estava.
Os pais nã o sabiam compreender esse desejo de liberdade, por isso se foi um dia com uma velha
5 mala de cabedal riscado, nã o havia outra lá em casa. Mas prefere nã o pensar nos primeiros tempos.
E as suas malas agora sã o caras, leves, malas de voar, e com rodinhas.
A outra está perto. Se houve um momento de nitidez no seu rosto, ele já passou, George nã o deu
por isso. Está novamente esfumado. A proximidade destró i ultimamente as imagens de George, por
isso a vai vendo pior à medida que ela se aproxima. É certo que podia pô r os ó culos, mas sabe que
10 nã o vale a pena tal trabalho. Param ao mesmo tempo, espantam-se em uníssono, embora o espanto
seja relativo, um pequeno espanto inverdadeiro, preparado com tempo.
− Tu?
− Tu, Gi?
Tã o jovem, Gi. A rapariguinha frá gil, um vime, que ela tem levado a vida inteira a pintar, primeiro
15 à maneira de Modigliani, depois à sua pró pria maneira, à de George, pintora já com nome nos
marchands das grandes cidades da Europa. Gi com um pregador de oiro que um dia ficou, por tuta e
meia, num penhorista qualquer de Lisboa. Em tempos tã o difíceis.
− Vim vender a casa.
− Ah, a casa.
20 É esquisito nã o lhe causar estranheza que Gi continue tã o jovem que podia ser sua filha. Quieta,
de olhar esquecido, vazio, e que nã o se espante com a venda assim anunciada, tã o subitamente, sem
preparaçã o, da casa onde talvez ainda more.
− Que pensas fazer, Gi?
− Partir, não é? Em que se pode pensar aqui, neste cu de Judas, senão em partir? Ainda não me fui em-
25 bora por causa do Carlos, mas... O Carlos pertence a isto, nunca se irá embora. Só a ideia o apavora, não é?
− Sim. Só a ideia.
− Ri-se de partir, como nós nos rimos de uma coisa impossível, de uma ideia louca. Quer comprar
uma terra, construir uma casa a seu modo. Recebeu uma herança e só sonha com isso. Creio que é a
altura de eu...
30 − Creio que sim.
− Pois não é verdade?
− Ainda desenhas?
− Se não desenhasse dava em maluca. E eles acham que eu tenho muito jeitinho, que hei de um dia
ser uma boa senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita, tudo isso com muito jeito para
35 o desenho. Até posso fazer retratos das crianças quando tiver tempo, não é verdade?
− É o que eles acham, não é?
− A mãe está a acabar o meu enxoval.
− Eu sei.

Maria Judite de Carvalho, “George” in Conto português. Séculos XIX-XXI – Antologia crítica, vol. 3
(coord. Maria Isabel Rocheta, Serafina Martins), Porto, Ediçõ es Caixotim, 2011, pp. 115-120.
1. Explicite duas perspetivas de vida presentes no texto.

2. Demonstre que Gi é uma recordação de George e não uma figura fisicamente real.

3. Aponte as razões que levaram Gi a terminar o relacionamento com o namorado, fundamentando a


resposta com citações textuais pertinentes.

Leia o seguinte poema.

O palácio da ventura
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por só is, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palá cio encantado da Ventura!

5 Mas já desmaio, exausto e vacilante,


Quebrada a espada já , rota a armadura…
E eis que sú bito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:


10 Eu sou o Vagabundo, o Deserdado
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…


Mas dentro encontro só , cheio de dor,
Silêncio e escuridã o – e nada mais!
Antero de Quental, Poesia completa (org. e pref. de Fernando Pinto do Amaral),
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001, p. 248.

4. Demonstre que o tom eufórico da composição alterna com o tom disfórico.

5. Identifique o recurso expressivo do verso 2 da primeira estrofe, explicitando o seu valor simbólico.
GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

A solidão é o que resta da impossibilidade da partida

O islandês Jó n Kalman Stefá nsson (n. 1963) escreveu uma trilogia – Paraíso e Inferno (2013),
A Tristeza dos Anjos (2014), e agora O Coração do Homem, todos publicados pela Cavalo de Ferro – e
cuja açã o decorre em vá rios lugares da costa islandesa, em finais do século XIX, em pequenas
comunidades piscató rias na orla de uma baía que, dizem, é “tã o larga que a vida nã o a consegue
5 atravessar”. O frio, o gelo, a escuridã o, as tempestades sombrias, o vento e o mar á rtico, parecem
acompanhar todos os pensamentos das personagens. Como se ao lado dos peixes e dos
companheiros afogados que lhes habitam os sonhos, e lhes acenam na madrugada com barbatanas
em vez de mã os, houvesse sempre lugar para um contrapeso que os prendesse à cruel realidade.
Vivem em aldeias submersas na miséria, na fome, nas doenças, nas duríssimas condiçõ es
10 climá ticas – lugares onde tudo parece ter sido negado aos habitantes, menos o amargo sofrimento.
Como se Stefá nsson quisesse aventurar-se em descobrir quanto sofrimento é que afinal o coraçã o
humano consegue suportar, e fá -lo amparado pelas vozes fantasmagó ricas dos mortos. Escrever
sobre quã o difícil é estar vivo.
Mais do que histó rias em que os gritos dos mortos se misturam com os dos vivos, compondo um
15 coro trá gico que nã o cessa de evocar a inevitá vel desolaçã o da existência, a irremediá vel solidã o dos
homens, esta trilogia é sobretudo um hino ao poder redentor das palavras e também da amizade.
Toda a trilogia parece querer sublinhar esse poder salvífico da palavra.
Os romances da trilogia ambientam-se naquela singular atmosfera de elementos naturais
ferozes e opressivos, de uma Natureza nã o subjugada pelo Homem (de fogo e de vento, de gelo e de
20 rios indomá veis), tã o característica da Islâ ndia, e que ao mesmo tempo nos remete sempre para a
memó ria lírica do mito, para um tempo dominado por uma sombria e avassaladora solidã o onde
ecoam as sagas e os seus heró is trá gicos. Essa solidã o é um elemento essencial em O Coração do
Homem (bem como nos outros dois volumes da trilogia).
O volume agora publicado, O Coração do Homem, poderia ser lido como uma espécie de
25 manifesto (em forma de romance) sobre a fragilidade da vida, e também sobre como por vezes
permitimos que a vida estagne, que se torne mais difícil.
O leitor segue a tristeza e privaçã o, a vida e a morte, acompanhando as descobertas do rapaz, e
os três livros podem ser entendidos como uma espécie de trilogia de “romances de formaçã o”, mas
que ao mesmo tempo se misturam com “livros de viagem” através de uma natureza hostil, de
30 enormes paisagens desoladas, austeras e terrivelmente frias, que os homens enfrentam rudemente
de maneira quase obstinada até à exaustã o.
Com o autor islandês atravessamos o desespero silencioso da condiçã o humana, numa despu-
dorada cartografia afetiva das nossas angú stias. E também de muitos dos nossos demó nios.

José Rico Direitinho, in Público, ediçã o online de 07 de outubro de 2016


(consultado em novembro de 2016, com supressõ es).
1. O texto lido pertence ao género “apreciação crítica” porque
(A) se expõe, argumentando, características da obra de um escritor.
(B) se trata de um texto narrativo sobre um tema, escrito em linguagem objetiva e na terceira pessoa
do singular.
(C) se faz um comentário crítico sobre um escritor e a sua obra, o seu interesse e a sua consistência,
usando uma linguagem valorativa.
(D) se argumenta em favor da obra de um autor islandês.

2. A obra em apreço
(A) versa diversos temas dos aldeãos islandeses do século XIX.
(B) tem como cenário as costas islandesas e as suas inóspitas características geográficas.
(C) elogia os homens atormentados por seres ferozes e opressivos.
(D) conta uma história de pescadores islandeses atormentados por fantasmas de mortos.

3. O Coração do homem é o terceiro livro de uma trilogia


(A) sobre a desesperança e a fragilidade da condição humana.
(B) que conta a vida miserável de um rapaz pescador.
(C) de obras sobre relatos de viagens na Islândia.
(D) sobre o modo como devemos lidar com os demónios.

4. O segmento sublinhado em “tão larga que a vida não a consegue atravessar (ll. 4-5) integra uma
oração subordinada
(A) substantiva relativa.
(B) adverbial concessiva.
(C) adjetiva relativa restritiva.
(D) adverbial consecutiva.

5. O segmento “que lhes habitam os sonhos” (l. 7) desempenha a função sintática de


(A) sujeito.
(B) modificador do nome restritivo.
(C) vocativo.
(D) modificador do nome apositivo.

6. A frase “Toda a trilogia parece querer sublinhar esse poder salvífico da palavra.” (l. 17) configura a
modalidade
(A) epistémica com valor de probabilidade.
(B) deôntica com valor de obrigação.
(C) apreciativa.
(D) deôntica com valor de permissão.

7. O processo de formação de palavras do termo “cartografia” (l. 33) é


(A) parassíntese.
(B) derivação por sufixação.
(C) composição morfológica.
(D) composição morfossintática.

8. Transcreva o referente do pronome presente no segmento “que a vida não a consegue atravessar”
(ll. 4-5).

9. Indique o tipo de sequência dominante nas linhas 9-10.

10. Refira a classe de palavras a que pertence o termo “que” (l. 30).
GRUPO III

A busca da felicidade e a necessidade de realização pessoal têm sido, desde sempre, dois dos projetos
nos quais o ser humano coloca mais premência.

Num texto de opinião, bem estruturado, com um mínimo de 200 e um máximo de 300 palavras,
apresente o seu ponto de vista sobre esta temática.

Fundamente a sua opinião recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustre cada um deles com, pelo
menos, um exemplo significativo.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o poema.

Apenas um corpo

Respira. Um corpo horizontal,


tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigá vel.

5 Amorosamente toco o que resta dos deuses.


As mã os seguem a inclinaçã o
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.


10 Aguarda um relâ mpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,


uma mú sica sobe,
15 ergue-se do sangue,
prolonga outra mú sica.

Um novo corpo nasce,


nasce dessa mú sica que nã o cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
20 debaixo do meu corpo desvelado.

Eugé nio de Andrade, in Poesia de Eugénio de Andrade,


s/l, Fundaçã o Eugénio de Andrade, 2000, p. 75.

1. Esclareça o significado das mãos referidas na segunda estrofe.

2. Explique o valor simbólico dos termos “rio” e “sol”, relacionando-o com o conteúdo da estrofe.

3. Interprete a referência à música nas últimas estrofes do poema.


B

Leia o poema. Se necessário, consulte a nota.

Poema VII

Oh! o noivado bá rbaro! o noivado


Sublime! aonde os céus, os céus ingentes1,
Serã o leito de amor, tendo pendentes
Os astros por dossel e cortinado!

5 As bodas do Desejo, embriagado


De ventura, afinal! Visõ es ferventes
De quem nos braços vai de ideias ardentes
Por espaços sem termo arrebatado!

Lá , por onde se perde a fantasia


10 No sonho da beleza; lá , aonde
A noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá , no seio da eterna claridade,


Aonde Deus à humana voz responde,
É que te havemos de abraçar, Verdade!

Antero de Quental, Poesia completa


(org. e pref. de Fernando Pinto do Amaral),
Lisboa, Publicaçõ es Dom Quixote, 2001, p. 263.

_____________
1
Enormes; desmedidos.

4. Esclareça o sentido da forma deítica “Lá” (v. 9), em paralelismo anafórico nos tercetos, caracteri-
zando o espaço que poderá retratar.

5. Identifique o recurso expressivo que inicia e finaliza o soneto, explicitando o seu valor semântico.

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto de Manuel S. Fonseca, editor da obra de Jorge de Sena.

Amor pela literatura

Este livro, reunindo o carteio de Jorge de Sena e Eugénio de Andrade, publicado embora pela
Guerra e Paz Editores, nã o é da Guerra e Paz por ser inteiramente de um grande editor, José da Cruz
Santos, figura maior do meio editorial português há mais de meio século. Foi ele quem dinamizou a
organizaçã o deste livro, trabalhando sucessivamente com Jorge Fazenda Lourenço, que anotou
5 todas as cartas, e com Isabel de Sena, que agora passou a ser responsá vel pela conservaçã o,
divulgaçã o e publicaçã o de Jorge de Sena.
Mas José da Cruz Santos nã o é apenas um editor externo desta obra. Nas cartas de Eugénio e de
Sena multiplicam-se as referências – tã o elogiosas – à sua açã o de editor e à sua sensibilidade
poética. Dele diz Sena, numa carta a Eugénio, enviando-lhe um volume de traduçõ es: “Passá-lo-ás
10 depois ao Cruz Santos, a quem Deus e Mercúrio deem vida, saúde e dinheiro.”
Foi Cruz Santos, num gesto de confiança que muito me toca, que decidiu entregar-me, e à Guerra
e Paz, a missã o desta publicaçã o, que agora chega às livrarias. Reú ne uma correspondência de cerca
de trinta anos, de 1949 a 1978. Por estas cartas e postais passa Portugal. As grandes batalhas
literá rias, os conflitos estéticos, o rumor pesado da Academia contra o qual Eugénio e Sena se
15 batem, mas também a vida política, a falta de liberdade, a explosã o dela no 25 de abril, as esperanças
e as frustraçõ es que se lhe seguiram, que Eugénio, primeiro denuncia: “… a esquerda revolucionária já
está a ser aproximada pelos bem pensantes do país, incluindo os comunistas, da mais sinistra reação” e a
que logo Sena responde “… revolução, que cada vez me parece mais um conluio de continuistas e de
arranjistas, com alguns revolucionários parvos pelo meio, e muitos demagogos a agarrar os tachos com
20 muita pressa…” de tudo isto há testemunho, vibrante, nestas cartas.
Esta é também, e sobretudo, a Correspondência de uma profunda e íntima amizade. Sã o cartas
de amor pelo tã o emocionado amor que Sena e Eugénio têm pela literatura, pelo labor poético, pela
forma como cantam e procuram a luz que cega da Beleza que pode haver num verso.

Manuel S. Santos, Jornal de letras, artes e ideias, Ano XXXVI, nº 1203, de 9 a 22 de novembro de 2016.

1. A frase “Mas José da Cruz Santos não é apenas um editor externo desta obra.” (l. 7) significa que
(A) Cruz Santos ajudou a Guerra e Paz na presente publicação.
(B) foi ele o impulsionador desta publicação, organizando-a.
(C) Cruz Santos foi incumbido de o fazer por Jorge de Sena.
(D) parte da correspondência lhe é dirigida.

2. Com a expressão “Por estas cartas e postais passa Portugal”(l. 13), o autor pretende destacar
(A) a importância da obra como documento literário e sociopolítico da época.
(B) a relevância desta obra para a compreensão dos movimentos estéticos portugueses.
(C) os géneros textuais que a obra abarca.
(D) a importância de que, na época, se revestia a correspondência escrita.

3. O título do texto justifica-se pelo facto de se tratar de uma obra que


(A) revela o amor dos dois escritores pela literatura em geral.
(B) revela o amor dos dois escritores pela literatura em geral e pela poesia em particular.
(C) demonstra a amizade que uniu estas duas figuras, fruto do amor que ambos tinham pela poesia.
(D) demonstra o amor de Jorge de Sena e do editor Cruz Santos pela literatura.

4. A expressão “agarrar os tachos” (l. 19) é sinónima de


(A) poupar dinheiro para fazer frente às adversidades.
(B) tentar cativar alguém para a causa revolucionária.
(C) defender a igualdade de oportunidades para todos.
(D) procurar cargos bem pagos e atrativos.

5. O constituinte “José da Cruz Santos” (ll. 2-3) desempenha a função sintática de


(A) sujeito.
(B) predicativo do sujeito.
(C) modificador apositivo do nome.
(D) vocativo.

6. A oração “que anotou todas as cartas” (ll. 4-5) é subordinada


(A) adjetiva relativa explicativa.
(B) adjetiva relativa restritiva.
(C) substantiva completiva.
(D) subordinada adverbial causal.

7. O referente do pronome pessoal integrado na forma verbal “Passá-lo-ás” (l. 9) é


(A) “um editor externo”.
(B) “um volume de traduções”.
(C) “editor”.
(D) “um editor externo desta obra”.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO
8. Indique a modalidade expressa na afirmação “Foi Cruz Santos, num gesto de confiança, que muito
me toca […] que agora chega às livrarias.” (ll. 11-12)

9. Refira o processo de coesão assegurado pelo pronome pessoal “lhe”, em “enviando-lhe” (l. 9).

10. Identifique a relação temporal que se estabelece entre as ações referidas no segmento frásico pre-
sente na questão anterior.

GRUPO III

Redija um texto de opinião, de 200 a 300 palavras, sobre a importância da amizade e do amor enquanto
sentimentos estruturantes da felicidade individual.

Fundamente o seu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos e ilustre cada um deles
com, pelo menos, um exemplo significativo.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o poema.

S. Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,


A navegar num doce mar de mosto,
Capitã o no seu posto
De comando,
5 S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
10 É num antecipado desengano
Que ruma em direçã o ao cais divino.

Lá nã o terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
15 Doiros desaguados
Serã o charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarã o prolongar os horizontes
20 Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima


Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
25 E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

“Diá rio IX [1964]”, in Miguel Torga, Antologia poética,


Lisboa, Publicaçõ es Dom Quixote, 2014, p. 352.
1. Explique o sentido dos três últimos versos da primeira estrofe, relacionando-o com o verso 8.

2. Identifique o recurso expressivo presente no verso 14, explicitando o seu valor semântico.

3. Comprove que o apego à terra é uma ideia que percorre todo o poema.

Leia a seguinte cantiga de amigo. Se necessário, consulte a nota.

Sedia-m’eu1 na ermida de San Simió n


e cercaron-mi-as ondas que grandes son.
Eu atendend´2 o meu amigu´! E verrá?

Estando na ermida, ant’3 o altar,


5 cercaron-mi-as ondas grandes do mar.
Eu atenden[d´ o meu amigu´! E verrá?]

E cercaron-mi-as ondas que grandes son:


non ei4 [i] barqueiro nen remador.
Eu [atendend´ o meu amigu´! E verrá?]

10 E cercaron-mi-as ondas do alto mar:


non ei[ ]i barqueiro nen sei remar.
Eu aten[dend´ o meu amigu´! E verrá?]

Non ei i barqueiro nen remador:


morrerei [eu], fremosa, no mar maior.5
15 Eu aten[dend´ o meu amigu´! E verrá?]

Non ei [i] barqueiro nen sei remar:


morrerei eu, fremosa, no alto mar.
Eu [atendend´ o meu amigu´! E verrá ?]

Mendinho, B 852/V 438

Mercedes Brea (coord.), Lírica profana galego-portuguesa,


Santiago de Compostela, Xunta de Galicia, 1996.

_____________
1
Estava eu.
2
Esperando.
3
Diante.
4
Tenho.
5
Alto.

4. Refira o assunto da cantiga.

5. Caracterize o estado de espírito do sujeito da enunciação.


2. TESTES DE AVALIAÇÃO

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

Pensar o ambiente

“Ambiente é uma á rea ao mesmo tempo fascinante e deprimente.” Esta duplicidade, só


aparentemente paradoxal, define em grande medida o registo em que se desenvolve o pensamento
de Sofia Guedes Vaz ao longo das pá ginas do seu ensaio “Ambiente em Portugal”, recentemente
editado pela Fundaçã o Francisco Manuel dos Santos.
5 Sofia Guedes nã o trai a expectativa dos leitores que querem obter no seu ensaio uma informaçã o
geral, em escrita clara e lú cida, sobre o estado do ambiente no nosso país. Essa tarefa é realizada
tanto no plano histó rico como num plano analítico. A autora identifica as principais etapas de
formaçã o da consciência ambiental, o papel dos movimentos sociais, a construçã o das primeiras
instituiçõ es e políticas pú blicas, sem esquecer de passar em revista o atual estado do ambiente do
10 país, seguindo o fio condutor dos macroindicadores (da á gua e resíduos, à s alteraçõ es climá ticas e
mar). Mas aquilo que considero mais criativo neste livro reside na perspetiva crítica em que ele está
perspetivado. A autora confessa-se em movimento de aprendizagem constante num domínio de
grande complexidade. Nã o hesita em chamar a atenção para consensos mitoló gicos e potencialmente
anestesiantes, como o da “sustentabilidade”. E sobretudo insiste na tarefa de alargar a reflexão sobre a
15 transição ambiental a á reas tã o inovadoras como o teatro, o humor, a arte, a literatura, o cinema, sem
esquecer o papel das ciências.
O ambiente fascina, pelo desafio enorme da sua compreensã o. Pela sua perturbante
complexidade, que nos percorre o corpo e a alma, envolvendo todas as faculdades. O ambiente
deprime, porque o que está em jogo é demasiado alto para perdermos a batalha da transiçã o. Mas o
20 combate trava-se no meio de um espesso nevoeiro de incerteza. Sabemos o que devemos fazer. Mas
nã o sabemos mais nada.

Viriato Soromenho Marques, in Jornal de Letras, Artes e ideias, ano XXXVI, nº 1203, de 9 a 22 de novembro de 2016
(com supressõ es).

1. A “duplicidade” a que o autor se refere no início do texto tem a ver com


(A) o facto de se tratar de um tema desafiante, mas gerador de frustrações.
(B) o facto de se tratar de um paradoxo.
(C) a atitude da investigadora e a reação do leitor.
(D) a atitude da investigadora e das instituições que gerem o ambiente.

2. Na opinião de Soromenho Marques, Sofia Guedes


(A) fornece aos leitores informação relevante e credível, mas redutora, porque se debruça apenas
sobre a água, os resíduos, as alterações climáticas e o mar.
(B) informa sobre o estado do ambiente no nosso país, mas admite que se encontra ainda num
processo de aprendizagem.
(C) elabora um estudo acessível, em linguagem clara, mas ignora a questão da sustentabilidade
ambiental.
(D) dá a conhecer outras das suas paixões, como é o caso do teatro, da arte, da literatura e do cinema.

3. A referência a “Sofia Guedes Vaz” (l. 3), “Sofia Guedes” (l. 5) e “A autora” (l. 7) configura a coesão
(A) lexical. (C) interfrásica.
(B) referencial. (D) frásica.

4. O constituinte sublinhado no segmento frásico “Sofia Guedes não trai a expectativa dos leitores…”
(l. 5) desempenha a função sintática de
(A) complemento direto. (C) sujeito.
(B) complemento do nome. (D) modificador.
5. O referente do determinante possessivo em “sua compreensão” (l. 17) é
(A) “ambiente”. (C) “complexidade”.
(B) “desafio”. (D) “compreensão”.

6. Na frase “que nos percorre o corpo e a alma” (l. 18) encontra-se


(A) um sujeito, um complemento direto e um complemento indireto.
(B) um complemento direto e um complemento indireto.
(C) um complemento direto, um complemento indireto e um complemento oblíquo.
(D) um sujeito e um complemento direto.

7. O conector usado em “Mas não sabemos mais nada.” (ll. 20-21) tem um valor de
(A) consequência. (C) conclusão.
(B) adição. (D) oposição.

8. Indique o valor modal expresso na frase “Ambiente é uma área ao mesmo tempo fascinante e
deprimente.” (l. 1).

9. Identifique o processo de formação da palavra “incerteza” (l. 20).

10. Classifique a oração subordinada na frase: “Sabemos o que devemos fazer.” (l. 20)

GRUPO III

A observação do mundo que nos rodeia e a capacidade de refletir sobre


ele leva-nos a apreciá-lo melhor.

Redija um texto de apreciação crítica da pintura de Claude Monet, de


150 a 180 palavras, atentando aos seguintes aspetos:
− contraste claro/escuro;
− fusão humano/natureza;
− sensações sugeridas pelo espaço e pelas figuras humanas.

Mulheres no jardim, 1866-67,


Claude Monet, Museu d’Orsay.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia com atenção o excerto de O ano da morte de Ricardo Reis. Se necessário, consulte as notas.

Ricardo Reis aconchega a gabardina ao corpo, friorento, atravessa de cá para lá, por outras
alamedas regressa, agora vai descer a Rua do Século, nem sabe o que o terá decidido, sendo tã o
ermo e melancó lico o lugar, alguns antigos palá cios, casas baixinhas, estreitas, de gente popular, ao
menos o pessoal nobre de outros tempos nã o era de melindres, aceitava viver paredes meias com o
5 vulgo, ai de nó s, pelo caminho que as coisas levam, ainda veremos bairros exclusivos, só residências,
para a burguesia de finança e fá brica, que entã o terá engolido da aristocracia o que resta, com
garagem pró pria, jardim à proporçã o, cã es que ladrem violentamente ao viajante, até nos cães se há
de notar a diferença, em eras distantes tanto mordiam a uns como a outros.
Vai Ricardo Reis descendo a rua, sem nenhuma pressa […], e agora nesta rua, apesar de tã o
10 sossegada, sem comércio, com raras oficinas, há grupos que passam, todos que descendo vã o, gente
pobre, alguns mais parecem pedintes, famílias inteiras, com os velhos atrá s, a arrastar a perna, o
coraçã o a rasto, as crianças puxadas aos repelõ es pelas mães, que sã o as que gritam, Mais depressa,
senã o acaba-se. O que se acabou foi o sossego, a rua já nã o é a mesma, os homens, esses, disfarçam,
simulam a gravidade que a todo o chefe de família convém, vã o no seu passo como quem traz outro
15 fito ou nã o quer reconhecer este, e juntamente desaparecem, uns apó s outros, no pró ximo cotovelo
da rua, […]. Diante de Ricardo Reis aparece uma multidã o negra que enche a rua em toda a largura
[…]. Ricardo Reis aproxima-se, pede licença para passar, […] alcançou o meio da rua, está defronte
da entrada do grande prédio do jornal O Século, o de maior expansã o e circulaçã o, a multidã o alarga-
se, mais folgada, pela meia-laranja que com ele entesta, respira-se melhor, só agora Ricardo Reis
20 deu por que vinha a reter a respiraçã o para nã o sentir o mau cheiro, ainda há quem diga que os
pretos fedem, o cheiro do preto é um cheiro de animal selvagem, nã o este odor de cebola, alho e
suor recozido, de roupas raro mudadas, de corpos sem banho ou só no dia de ir ao médico, qualquer
pituitá ria1 medianamente delicada se teria ofendido na provaçã o deste trâ nsito. À entrada estã o
dois polícias, aqui perto outros dois que disciplinam o acesso, a um deles vai Ricardo Reis
25 perguntar, Que ajuntamento é este, senhor guarda, e o agente de autoridade responde com
deferência, vê-se logo que o perguntador está aqui por um acaso, É o bodo2 do Século, Mas é uma
multidã o, Saiba vossa senhoria que se calculam em mais de mil os contemplados, Tudo gente pobre,
Sim senhor, tudo gente pobre, dos pá tios e barracas, Tantos, E nã o estã o aqui todos, Claro, mas
assim todos juntos, ao bodo, faz impressã o, A mim nã o, já estou habituado, E o que é que recebem, A
30 cada pobre calha dez escudos, Dez escudos, É verdade, dez escudos, e os garotos levam agasalhos, e
brinquedos, e livros de leitura, Por causa da instruçã o, Sim senhor, por causa da instruçã o, Dez
escudos nã o dá para muito, Sempre é melhor que nada, Lá isso é verdade, Há quem esteja o ano
inteiro à espera do bodo, deste e dos outros, olhe que nã o falta quem passe o tempo a correr de
bodo para bodo, à colheita, o pior é quando aparecem em sítios onde nã o sã o conhecidos, outros
35 bairros, outras paró quias, outras beneficências, os pobres de lá nem os deixam chegar-se, cada
pobre é fiscal doutro pobre, Caso triste, Triste será , mas é bem feito, para aprenderem a nã o ser
aproveitadores, Muito obrigado pelas suas informaçõ es, senhor guarda, À s ordens de vossa senhoria,
passe vossa senhoria por aqui, e, tendo dito, o polícia avançou três passos, de braços abertos, como
quem enxota galinhas para a capoeira, Vamos lá, quietos, não queiram que trabalhe o sabre.

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, 21ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 2013, pp. 87-88, 90-91.

_____________
1 2
Membrana mucosa que reveste as cavidades nasais. Distribuiçã o solene de alimentos, e, por extensã o, de dinheiro e roupas, a
necessitados.
1. Demonstre que neste excerto se assiste a uma deambulação geográfica.

2. Explicite de que forma o bodo do Século a que Reis assiste espelha o Portugal de 1936.

3. Evidencie a relação intertextual que se pode estabelecer com Cesário Verde.

Leia os excertos de “Num bairro moderno”, de Cesário Verde.

Dez horas da manhã ; os transparentes E, como um feto, enfim, que se dilate,


Matizam uma casa apalaçada; Vi nos legumes carnes tentadoras,
Pelos jardins estancam-se as nascentes, Sangue na ginja vívida, escarlate,
E fere a vista, com brancuras quentes, Bons coraçõ es pulsando no tomate
5 A larga rua macadamizada. 40 E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.
[…] […]
Como é saudá vel ter o seu conchego, E enquanto sigo para o lado oposto,
E a sua vida fá cil! Eu descia, E ao longe rodam umas carruagens,
Sem muita pressa, para o meu emprego, A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
Aonde agora quase sempre chego Descolorida nas maçã s do rosto,
10 Com as tonturas d’uma apoplexia. 45 E sem quadris na saia de ramagens.
[…]
E rota, pequenina, azafamada, E pitoresca e audaz, na sua chita,
Notei de costas uma rapariga, O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Que no xadrez marmó reo d’uma escada, D’uma desgraça alegre que me incita,
Como um retalho de horta aglomerada, Ela apregoa, magra, enfezadita,
15 Pousara, ajoelhando, a sua giga. 50 As suas couves repolhudas, largas.
[…]
Subitamente, – que visã o de artista! – E, como as grossas pernas d’um gigante,
Se eu transformasse os simples vegetais, Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
À luz do sol, o intenso colorista, Carregam sobre a pobre caminhante,
Num ser humano que se mova e exista Sobre a verdura rú stica, abundante,
20 Cheio de belas proporçõ es carnais?! 55 Duas frugais abó boras carneiras.
[…]
Lisboa, verã o de 1877
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgâ nico, aos bocados. “Num bairro moderno”, in Cesá rio Verde, Cânticos do
Achava os tons e as formas. Descobria Realismo. O livro de Cesário Verde, Lisboa, INCM, 2015.
Uma cabeça numa melancia,
25 E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dã o o azeite,


Negras e unidas, entre verdes folhos,
Sã o tranças d’um cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
30 E os cachos d’uvas – os rosá rios d’olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante


Nas posiçõ es de certos frutos. E entre
As hortaliças, tú mido, fragrante,
Como d’alguém que tudo aquilo jante,
35 Surge um melã o, que me lembrou um ventre.
4. Identifique, comentando o seu valor semântico, o recurso expressivo presente em “E fere a vista,
com brancuras quentes, / A larga rua macadamizada” (vv. 4-5).

5. Explique, justificando com elementos textuais, por que razão se pode afirmar que neste poema se
assiste à transfiguração poética do real.

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia atentamente o texto.

Campo ou cidade?

O mito da natureza

Até que ponto será o mundo rural sinó nimo de bem-estar e a grande urbe uma fá brica de stress
e de solidã o? A ecopsicologia está a mudar as noçõ es preconcebidas sobre estas duas opçõ es de
vida.
Em novembro [de 2010], morria Joã o Manuel Serra, mais conhecido como “o senhor do adeus”,
5 o homem que acenava a toda a gente que passava de noite pela praça do Saldanha, em Lisboa. Foi
depois da morte da mã e que esta figura popular da capital teve consciência da solidã o urbana, o que
o levou a “dar as boas-noites” à s pessoas e a acenar aos condutores, todas as noites, até à s três da
manhã . O fenó meno da solidã o urbana – assim como o nú mero de pessoas que morrem sozinhas
nas cidades – sempre foi um motivo de interesse para os psicó logos. Bibb Latané e John Darley, da
10 Universidade do Estado do Ohio, estudaram, há décadas, aquilo que designaram por “efeito de
espetador”: quanto mais pessoas observam um incidente, maior a probabilidade de nenhuma
intervir. A responsabilidade dilui-se na multidã o, e nenhuma testemunha de uma tragédia se sente
obrigada a dar uma mã o. Todas esperam que as restantes o façam.
Segundo estes especialistas, recorremos a três estratégias mentais para nã o metermos prego
15 nem estopa: assumimos que a vítima é responsá vel pelo que está a acontecer, desconfiamos, no caso
de nos abordar, das suas intençõ es, e sobrestimamos a probabilidade de ter alguma relaçã o com o
atacante, quando se trata de uma agressã o. Torna-se mais fá cil enganarmo-nos a nó s pró prios com
estes argumentos se vivermos em centros muito populosos, pois nã o conhecemos, geralmente, a
pessoa afetada nem as suas circunstâ ncias. Podemos ser egoístas sem nos sentirmos culpados. Daí a
20 imagem de ausência de solidariedade gravada no imaginá rio coletivo.
Nos ú ltimos anos, porém, a noçã o de metró pole como local inó spito está a ser reavaliada. Muitos
especialistas defendem que os anteriores estudos focavam sobretudo aspetos circunstanciais, sem
dados reais que confirmassem essa visã o dantesca. Atualmente, trabalha-se com dados mais globais.
Segundo a ecopsicologia, os meios rurais e urbanos sã o, simplesmente, habitats distintos que
25 potenciam diferentes capacidades. Em princípio, nenhum dos dois é melhor do que o outro.
Stanley Milgram, psicó logo teó rico da Universidade de Yale, falecido em 1984, foi um dos
primeiros a adotar esta perspetiva. A tese que defendia propunha que a maior diferença entre os
dois â mbitos é o nível de estimulaçã o. Assim, segundo Milgram, a cidade bombardeia-nos com uma
torrente de mensagens sensitivas que ultrapassa a capacidade humana de processar informaçã o.
30 Isto é: há demasiadas coisas e nã o podemos dar atençã o a tudo. Por isso, colocamos em
funcionamento um mecanismo de adaptaçã o: ignorar tudo o que nã o seja relevante.

Superinteressante, nº 162, outubro de 2011, ediçã o online (consultado em novembro de 2016).


1. Segundo o autor do artigo,
(A) é um facto incontornável que o mundo rural é sinónimo de bem-estar e que a vida urbana
promove o stress e a solidão.
(B) as atitudes de João Manuel Serra demonstram que o fenómeno da solidão é transversal à vida
urbana e rural.
(C) há muito que a ecopsicologia mantém a mesma visão sobre as diferenças entre a vida rural e a
urbana.
(D) estudos recentes têm vindo a provar que a vida rural e urbana são diferentes e, por isso,
potenciam experiências também elas diferentes.

2. O “efeito de espetador”, mais visível (ll. 10-11), nos meios urbanos do que nos rurais, resulta do
facto de as pessoas
(A) que assistem a um incidente se sentirem coagidas a intervir.
(B) não intervirem em incidentes por estarem sempre à espera que outros o façam.
(C) sentirem mais solidariedade pelo próximo nesse ambiente.
(D) se deixarem mais facilmente enganar pelas vítimas de um incidente.

3. A modalidade configurada em “A ecopsicologia está a mudar as noções preconcebidas sobre estas


duas opções de vida” (ll. 2-3) é
(A) epistémica (valor de probabilidade).
(B) epistémica (valor de certeza).
(C) apreciativa.
(D) deôntica (valor de permissão).

4. O valor aspetual da forma verbal presente em “o homem que acenava a toda a gente” (l. 5) é
(A) perfetivo.
(B) imperfetivo.
(C) genérico.
(D) habitual.

5. No contexto em que surge, a palavra “esta”, em “esta figura” (l. 6), funciona como
(A) deítico.
(B) mecanismo de coesão referencial.
(C) mecanismo de coesão temporal.
(D) mecanismo de coesão interfrásico.

6. O segmento sublinhado em “O fenómeno da solidão urbana” (l. 8) desempenha a função sintática de


(A) modificador do nome apositivo.
(B) modificador do nome restritivo.
(C) complemento do nome.
(D) complemento do adjetivo.

7. No contexto em que surge, a palavra “inóspito” (l. 21) significa


(A) hostil.
(B) suspeito.
(C) ideal.
(D) habitável.
8. Sabendo que rural provém do étimo latino RURE- que significa “campo”, explique o significado literal
do adjetivo português.

9. Escreva duas frases que evidenciem o campo semântico da palavra “capital” (l. 6).

10. Identifique o referente retomado pelo pronome pessoal sublinhado em “o façam” (l. 13).

GRUPO III

Escreva um texto de opinião, entre 170 e 200 palavras, sobre as vantagens/desvantagens da vida rural e
urbana, tomando partido por uma dessas opções.
Planifique previamente o seu texto, considerando as seguintes orientações:
– estrutura tripartida (introdução, desenvolvimento e conclusão);
– explicitação de um ponto de vista (discurso valorativo);
– inclusão de argumentos e respetivos exemplos;
– seleção vocabular criteriosa, articulação coerente, correção linguística, sintática e ortográfica.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia com atenção o excerto de O ano da morte de Ricardo Reis. Se necessário, consulte a nota.

Ricardo Reis nã o saiu para jantar […]. Já passava das onze horas, desceu ao jardim para olhar os
barcos uma vez mais, deles viu apenas as luzes de posiçã o, agora nem sequer sabia distinguir entre
avisos1 e contratorpedeiros. Era o ú nico ser vivo no Alto de Santa Catarina, com o Adamastor já nã o
se podia contar, estava concluída a sua petrificaçã o, a garganta que ia gritar nã o gritará , a cara mete
5 horror olhá -la. Voltou Ricardo Reis para casa, certamente nã o vã o sair de noite, à ventura, com risco
de encalhe. Deitou-se, meio despido, adormeceu tarde, acordou, tornou a adormecer, tranquilizado
pelo grande silêncio que havia na casa, a primeira luz da manhã entrava pelas frinchas da janela
quando despertou, nada acontecera durante a noite, agora que outro dia começara parecia
impossível que alguma coisa pudesse acontecer. Recriminou-se pelo despropó sito de dormir
10 vestido, só descalçara os sapatos e tirara o casaco e a gravata, Vou tomar um banho, disse, baixara-
se para procurar os chinelos debaixo da cama, entã o ouviu o primeiro tiro de peça. Quis acreditar
que se enganara, talvez tivesse caído qualquer objeto muito pesado no andar de baixo, um mó vel, a
dona da casa com um desmaio, mas outro tiro soou, as vidraças estremeceram, sã o os barcos que
estã o a bombardear a cidade. Abriu a janela, na rua havia pessoas assustadas, uma mulher gritou, Ai
15 que é uma revoluçã o, e largou a correr, calçada acima, na direçã o do jardim. Ricardo Reis calçou-se
rapidamente, enfiou o casaco, ainda bem que nã o se despira, parecia que adivinhava […]. Quando
Ricardo Reis chegou ao jardim havia já muitas pessoas, morar aqui perto era um privilégio, nã o há
melhor sítio em Lisboa para ver entrar e sair os barcos. Nã o eram os navios de guerra que estavam a
bombardear a cidade, era o forte de Almada que disparava contra eles. Contra um deles. Ricardo
20 Reis perguntou, Que barco é aquele, teve sorte, calhou dar com um entendido, É o Afonso de
Albuquerque. […]
Durante toda a tarde, Lídia nã o apareceu. Na hora da distribuiçã o dos vespertinos Ricardo Reis
saiu para comprar o jornal. Percorreu rapidamente os títulos da primeira pá gina, procurou a
continuaçã o da notícia na pá gina central dupla, outros títulos, ao fundo, em normando, Morreram
25 doze marinheiros, e vinham os nomes, as idades, Daniel Martins de vinte e três anos, Ricardo Reis
ficou parado no meio da rua, com o jornal aberto […]. É quase noite. Diz o jornal que os presos
foram levados primeiro para o Governo Civil, depois para a Mitra, que os mortos, alguns por
identificar, se encontram no necrotério. Lídia andará à procura do irmã o, ou está em casa da mã e,
chorando ambas o grande e irrepará vel desgosto.
30 Entã o bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir já prontos os braços para recolher a
lacrimosa mulher afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que
aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que a Lídia tinha um irmã o na Marinha,
Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa
cadeira. Anoitecera por completo. […]. Fernando Pessoa tinha as mã os sobre o joelho, os dedos
35 entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que nã o
tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha
para uns meses, Lembro-me. Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata,
levantou--se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o
debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera
da Lídia, Eu
40 sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmã o, Nã o lhe posso valer, E esse
livro, para que é, Apesar do tempo que tive, nã o cheguei a acabar de lê-lo, Nã o irá ter tempo, Terei o
tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o
livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma pá gina suja, Já me custa ler, disse, mas
mesmo assim vou levá -lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa,
45 Fernando Pessoa ainda observou, Você nã o trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que nã o se usa lá .
Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pá lidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes.
Entã o vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor nã o se voltou para
ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a
terra espera.

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, 21ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 2013, pp. 573-575, pp. 580-582.

_____________
1
Navios de guerra, pequenos e velozes.

1. Exponha a situação política de Portugal em 1936, baseando-se no excerto e no conhecimento que


possui da obra.

2. Identifique, explicando o seu sentido, as relações intertextuais estabelecidas com Camões.

3. Explique a metáfora subjacente ao título do livro que Ricardo Reis faz questão de levar consigo.

Leia o poema.

Trova do vento que passa


A António Portugal

Pergunto ao vento que passa Se o verde trevo desfolhas


notícias do meu país pede notícias e diz
e o vento cala a desgraça 15 ao trevo de quatro folhas
o vento nada me diz. que morro por meu país.

5 Pergunto aos rios que levam Pergunto à gente que passa


tanto sonho à flor das á guas por que vai de olhos no chã o.
e os rios nã o me sossegam Silêncio – é tudo o que tem
levam sonhos deixam má goas. 20 quem vive na servidã o.

Levam sonhos deixam má goas Vi florir os verdes ramos


10 ai rios do meu país direitos e ao céu voltados.
minha pá tria à flor das á guas E a quem gosta de ter amos
para onde vais? Ninguém diz. vi sempre os ombros curvados.
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

25 E o vento nã o me diz nada 45 Ninguém diz nada de novo


ninguém diz nada de novo. se notícias vou pedindo
Vi minha pá tria pregada nas mã os vazias do povo
nos braços em cruz do povo. vi minha pá tria florindo.

Vi meu poema na margem E a noite cresce por dentro


30 dos rios que vã o pró mar 50 dos homens do meu país.
como quem ama a viagem Peço notícias ao vento
mas tem sempre de ficar. e o vento nada me diz.

Vi navios a partir Mas há sempre uma candeia


(Portugal à flor das á guas) dentro da pró pria desgraça
35 vi minha trova florir 55 há sempre alguém que semeia
(verdes folhas verdes má goas). cançõ es no vento que passa.

Há quem te queira ignorada Mesmo na noite mais triste


e fale pá tria em teu nome. em tempo de servidã o
Eu vi-te crucificada há sempre alguém que resiste
40 nos braços negros da fome. 60 há sempre alguém que diz nã o.

E o vento nã o me diz nada “Praça da cançã o [1965]”, in Manuel Alegre,


30 anos de poesia (prefá cio de Eduardo Lourenço),
só o silêncio persiste.
Lisboa, Publicaçõ es Dom Quixote, 1997, pp. 74-75.
Vi minha pá tria parada
à beira de um rio triste.

4. Apresente a situação denunciada pelo sujeito lírico neste poema, tendo em conta o contexto
histórico da sua escrita. Justifique a sua resposta com elementos textuais.

5. Analise a estrutura métrica, estrófica e rimática do poema.

GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia atentamente o texto.

Se a liberdade tivesse dono era uma ditadura

“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas,
os estados capitalistas e o estado a que chegá mos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o
estado a que chegá mos” foram as ú ltimas palavras de Salgueiro Maia à s suas tropas antes da partida
rumo a Lisboa na madrugada de 25 de abril de 74.
5 Ontem comemorá mos mais um aniversá rio da Revoluçã o dos cravos, celebrá mos o 42º ano que
vivemos em liberdade, recordá mos um dos momentos de maior coragem e açã o cidadã que a nossa
pá tria já conheceu.
Na “casa da democracia” ouvimos o Presidente da Repú blica apelar ao diá logo, à procura de
maior consenso político entre os partidos, apelou a menos campanha eleitoral e a mais realismo na
10 açã o. Curiosamente, ou nã o, um discurso oportuno, proferido por um Presidente que é cada vez
mais o Presidente de todos os portugueses, mas que acaba por repetir os apelos presidenciais já
feitos no passado, mas agora com outro tipo de “aceitaçã o”.
O discurso presidencial provocou diferentes sensaçõ es aos vá rios grupos parlamentares, de
apoio ou repú dio, conforme cada pará grafo. No fundo, foi um discurso sem preferências partidá rias,
15 mas sobretudo com vá rios recados ao governo mas também à oposiçã o, que cada um tentou
interpretar à sua maneira. Os recados foram dados, o caminho definido, a democracia continua viva.
Um fator que teima em marcar esta, como anteriores cerimó nias, pelo seu protesto ou apoio,
tem sido a participaçã o ou nã o dos “capitã es de Abril” nas cerimó nias oficiais na Assembleia da
Repú blica. Na verdade, alguns capitã es, mas em particular o presidente da Associaçã o 25 de Abril,
20 teimam em confundir o seu preconceito ideoló gico com a pró pria democracia, violando
constantemente aquilo porque lutou Salgueiro Maia, o grande capitã o de Abril, eleiçõ es livres e
funcionamento pleno do sistema democrá tico.
A humildade de Salgueiro Maia, o seu cará ter e o seu espírito de missã o em funçã o do interesse
nacional, mas jamais em funçã o da sua crença ideoló gica, fazem dele o verdadeiro heró i símbolo da
25 nossa democracia e da nossa liberdade. É por respeitar as instituiçõ es democrá ticas e os resultados
da democracia, que Salgueiro Maia, mas jamais Vasco Gonçalves ou Otelo, tem o significado que tem
para a nossa histó ria.
A terminar, nã o podia deixar de relatar aqui a oportunidade que me foi dada de participar na
mais emocionante cerimó nia que testemunhei nestas comemoraçõ es anuais, a homenagem que o
30 Presidente da Repú blica, a autarquia e a cidade de Santarém prestaram a Salgueiro Maia na terra
que o adotou como o seu mais ilustre habitante. Marcelo fez questã o de estar presente para de
forma simples, bonita e muito honesta, no meio do povo, junto à viú va de Salgueiro Maia, a
Professora Natércia Maia, homenagear o nosso heró i. Jamais esquecerei o momento, simples, mas
cheio de significado, em que a sua neta Daniela leu um poema que terminou dando a mã o ao seu avô
35 personificado na está tua que tornou eterna a sua presença física, porque da memó ria jamais se
sumirá , na capital da liberdade.

Obrigado, Capitã o Salgueiro Maia!

Duarte Marques, in Expresso, ediçã o online de 26 de abril de 2016


(consultado em novembro de 2016, adaptado e com supressõ es).

1. Neste texto, o autor


(A) relata objetivamente a cerimónia das comemorações do 25 de Abril.
(B) emite uma opinião valorativa sobre o discurso do Presidente da República.
(C) elogia a atitude dos “capitães de Abril”.
(D) critica a homenagem feita pelo Presidente da República a Salgueiro Maia.

2. Na opinião de Duarte Marques, Salgueiro Maia


(A) não deveria ter estado presente nas cerimónias do 25 de Abril.
(B) assume, na história portuguesa, um papel tão preponderante como Vasco Gonçalves.
(C) é o grande responsável pela democracia e a liberdade em Portugal.
(D) violou a própria democracia por causa dos seus preconceitos ideológicos.

3. O uso de aspas nas primeiras linhas do texto justifica-se


(A) por se usar o discurso indireto.
(B) por se tratar de uma citação.
(C) pela ênfase dada às palavras proferidas.
(D) por se declarar um facto.

4. O segmento “Meus senhores” (l. 1) desempenha a função sintática de


(A) sujeito.
(B) predicativo do sujeito.
(C) vocativo.
(D) complemento oblíquo.

5. A oração presente em “que a nossa pátria já conheceu” (ll. 6-7) classifica-se como subordinada
(A) adverbial comparativa.
(B) adverbial consecutiva.
(C) substantiva completiva.
(D) adjetiva relativa restritiva.
6. Em “No fundo, foi um discurso sem preferências partidárias, mas sobretudo com vários recados ao
governo” (ll. 14-15), o vocábulo sublinhado contribui para a coesão gramatical
(A) temporal.
(B) referencial.
(C) frásica.
(D) interfrásica

7. O processo fonológico ocorrido na passagem de LIBERTATE- para “liberdade” (l. 25) é


(A) sonorização.
(B) palatalização.
(C) vocalização.
(D) metátese.

8. Identifique a modalidade presente em “Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que
chegámos” (ll. 2-3).

9. Classifique os deíticos presentes em “Ontem comemorámos mais um aniversário da Revolução dos


cravos” (l. 5).

10. Refira a relação temporal que se estabelece entre o segmento seguinte e o momento de
enunciação “Jamais esquecerei o momento” (l. 33).

GRUPO III

Elabore uma apreciação crítica da imagem apresentada, entre 150 a 200 palavras, atendendo aos
seguintes aspetos, entre outros, que deve previamente planificar:
− descrição sucinta da imagem;
− intencionalidade;
− relação da imagem com O ano da morte
de Ricardo Reis;
− comentário valorativo.

Censura, wordpress.com
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia com atenção o excerto de Memorial do convento.

Uma vez por outra, Blimunda levanta-se mais cedo, antes de comer o pã o de todas as manhã s, e,
deslizando ao longo da parede para evitar pô r os olhos em Baltasar, afasta o pano e vai inspeccionar
a obra feita, descobrir a fraqueza escondida do entrançado, a bolha de ar no interior do ferro, e,
acabada a vistoria, fica enfim a mastigar o alimento, pouco a pouco se tornando tã o cega como a
5 outra gente que só pode ver o que à vista está . Quando isto fez pela primeira vez e Baltasar depois
disse ao padre Bartolomeu Lourenço, Este ferro nã o serve, tem uma racha por dentro, Como é que
sabes, Foi Blimunda que viu, o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou,
Tu és Sete-Só is porque vês à s claras, tu será s Sete-Luas porque vês à s escuras, e, assim, Blimunda,
que até aí só se chamava, como sua mã e, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que
10 o batismo foi de padre, nã o alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os só is e as luas
abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde está s, Sol aonde vais.
Quando calha, vem o padre Bartolomeu Lourenço experimentar aqui os sermõ es que compô s,
pela bondade do eco que as paredes têm, o bastante apenas para ficar redonda a palavra, sem a
ressonâ ncia excessiva que encavala os sons e acaba por empastar o sentido. Assim é que deviam
15 soar as imprecaçõ es dos profetas no deserto ou nas praças pú blicas, lugares sem paredes ou que as
nã o têm pró ximas, e por isso inocentes das leis da acú stica, está a graça no ó rgã o que profere a
palavra, nã o nos ouvidos que a ouvem ou nos muros que a devolvem. Porém, esta religiã o é de
orató rio mimoso, com anjos carnudos e santos arrebatados e muitas agitaçõ es de tú nica, roliços
braços, coxas adivinhadas, peitos que arredondam, reviraçõ es dos olhos, tanto está sofrendo quem
20 goza como está gozando quem sofre, por isso é que nã o vã o os caminhos dar todos a Roma, mas ao
corpo. Esforça-se o padre na orató ria, tanto mais que logo ali está quem o ouça, mas, ou por efeito
intimidativo da passarola ou por frieza egoísta dos auditores, ou por faltar o ambiente eclesial, as
palavras nã o voam, nã o retumbam, enredam-se umas pelas outras, parece impró prio que tenha o
padre Bartolomeu Lourenço tã o grande fama de orador sacro, ao ponto de o terem comparado ao
25 padre Antó nio Vieira, que Deus haja e o Santo Ofício houve. Aqui ensaiou o padre Bartolomeu
Lourenço o sermã o que foi pregar a Salvaterra de Magos, estando lá el-rei e a corte, aqui está
provando agora o que pregará na festa dos desponsó rios de S. José, que lho encomendaram os
dominicanos, afinal nã o lhe desaproveita muito a fama que tem de voador e extravagante, que até os
filhos de S. Domingos o requestam, de el-rei nã o falemos, que sendo tã o moço ainda gosta de
30 brinquedos, por isso protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras nos mosteiros e as vai
emprenhando, uma apó s outra, ou vá rias ao mesmo tempo, que quando acabar a sua histó ria se hã o
de contar por dezenas os filhos assim arranjados, coitada da rainha, que seria dela se nã o fosse o
seu confessor Antó nio Stieff, jesuíta, por lhe ensinar resignaçã o, e os sonhos em que lhe aparece o
infante D. Francisco com marinheiros mortos pendurados dos arçõ es das mulas, e que seria do
35 padre Bartolomeu Lourenço se aqui entrassem os dominicanos que o sermã o lhe encomendaram, e
dessem com esta passarola, este maneta, esta feiticeira, este pregador a burilar palavras e talvez a
esconder pensamentos, que esses nã o os veria Blimunda nem que jejuasse um ano inteiro.

José Saramago, Memorial do convento, 53ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 2013, cap. IX, pp. 121-123.
1. Explique a simbologia associada aos nomes Sete-Sóis e Sete-Luas.

2. Estabeleça o contraste entre a relação do rei e da rainha e de Baltasar e Blimunda, justificando a sua
resposta com elementos textuais.

3. Explique por que razão se pode afirmar que o padre Bartolomeu Lourenço é uma figura contro-
versa.

Leia o excerto seguinte do “Sermão de Santo António aos peixes”. Se necessário, consulte as notas.

Vos estis sal terrae (Mt 5).


“Vó s”, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, “sois o sal da terra”; e chama-lhes sal
da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupçã o, mas
quando a terra se vê tã o corrupta como está a nossa, havendo tantos nela, que têm ofício de sal, qual
será, ou qual pode ser a causa desta corrupçã o? Ou é porque o sal nã o salga, ou porque a terra se
5 nã o deixa salgar. Ou é porque o sal nã o salga, e os Pregadores nã o pregam a verdadeira doutrina; ou
porque a terra se nã o deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhes dã o, a nã o
querem receber; ou é porque o sal nã o salga, e os Pregadores dizem uma coisa, e fazem outra; ou
porque a terra se nã o deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o
que eles dizem; ou é porque o sal nã o salga, e os Pregadores se pregam a si, e nã o a Cristo; ou
10 porque a terra se nã o deixa salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.
Nã o é tudo isto verdade? Ainda mal!
Suposto pois que, ou o sal nã o salgue, ou a terra se nã o deixe salgar; que se há de fazer a este sal,
e que se há de fazer a esta terra? O que se há de fazer ao sal, que nã o salga, Cristo o disse logo: Quod
si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras, et conculcetur ab
15 hominibus [Mateus 5, 13]. Se o sal perder a substâ ncia, e a virtude, e o Pregador faltar à doutrina, e
ao exemplo, o que se lhe há de fazer é lançá -lo fora como inú til, para que seja pisado de todos. Quem
se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a nã o pronunciara? Assim como nã o há quem seja
mais digno de reverência, e de ser posto sobre a cabeça, que o Pregador, que ensina, e faz o que
deve; assim é merecedor de todo o desprezo, e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra,
20 ou com a vida prega o contrá rio.
Isto é o que se deve fazer ao sal, que nã o salga. E à terra, que se nã o deixa salgar, que se lhe há de
fazer? Este ponto nã o resolveu Cristo Senhor nosso no Evangelho; mas temos sobre ele a resoluçã o
do nosso grande Português Santo Antó nio, que hoje celebramos, e a mais galharda, e gloriosa
resoluçã o, que nenhum Santo tomou. Pregava Santo Antó nio em Itá lia na cidade de Arimino, contra
25 os Hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento sã o dificultosos de arrancar, nã o
só nã o fazia fruto o Santo, mas chegou o Povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe
nã o tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande Antó nio? Sacudiria o pó dos
sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas Antó nio com os pés descalços nã o podia fazer
esta protestaçã o, e uns pés, a que se nã o pegou nada da terra, nã o tinham que sacudir. Que faria
30 logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a
prudência, ou a covardia humana; mas o zelo da gló ria divina, que ardia naquele peito, nã o se
rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o pú lpito, e o auditó rio, mas nã o
desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias, deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a
altas vozes: “Já que me nã o querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes”. Oh maravilhas do
35 Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar, e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a
concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as
cabeças de fora da á gua, Antó nio pregava, e eles ouviam.

Padre Antó nio Vieira, Obra completa (dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate),
tomo II, vol. X, Lisboa, Círculo de Leitores, 2014, pp. 137-138.

4. Explique a intencionalidade da estrutura paralelística e anafórica presente no primeiro parágrafo do

texto.

5. Evidencie a intenção persuasiva e a exemplaridade do discurso de Vieira.


GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia atentamente o texto.

Todos os sermões

Mais do que um livro de pregaçã o, que o pró prio nã o quis fazer, os Sermõ es do padre Antó nio
Vieira estã o cheios de referências biográ ficas. A inveja e a ingratidã o da pá tria, a defesa dos índios e
dos judeus, a missionaçã o e a diplomacia exercidas pelo jesuíta do século XVII estã o presentes ao
longo desta obra, que a partir de hoje terá uma nova ediçã o crítica a “Sermã o de Santo Antó nio aos
5 Peixes”, “Sermã o do Bom Ladrã o”, “Sermã o da Sexagésima”. Peças ditas e escritas pelo padre
Antó nio Vieira, exemplos eloquentes da orató ria barroca. Sim? Sim e nã o. A ediçã o crítica dos
Sermõ es, tal como o padre jesuíta os organizou no século XVII, permitiu trazer ao de cima uma
faceta até agora menos vista: os Sermõ es, cujo primeiro volume é hoje apresentado, relacionam-se
mais com a vida pessoal de Vieira do que pareciam. Por exemplo, dã o conta das perseguiçõ es e
10 maus-tratos que o jesuíta sofreu na sua pró pria pá tria.
Padre jesuíta, missioná rio, defensor dos índios e dos judeus, diplomata, perseguido pela
Inquisiçã o, mas que obteve do papa Clemente X a suspensã o do Tribunal do Santo Ofício em
Portugal, Antó nio Vieira nasceu a 6 de fevereiro de 1608 em Lisboa. Aos seis anos, o pequeno
Antó nio vai para a Baía, no Brasil, aos 15 entra no noviciado jesuíta e, um ano depois, é encarregue
15 de escrever o relató rio anual da missã o para o geral da Companhia de Jesus.
Ordenado padre em 1633, com 25 anos, já dois anos antes começara a fazer sermõ es. Desde cedo
reproduz, na sua pregaçã o, as causas em que se empenhava: a defesa dos índios e dos judeus, os
vícios da pá tria − a inveja nacional era violentamente criticada −, a oposiçã o à escravatura (tema em
que hesita por vezes).
20 Autor de 203 sermõ es (204, incluindo um texto que alguns consideram apenas um comentá rio)
e 700 cartas, muitas das quais relativas a missõ es diplomá ticas, Vieira vê-se perseguido pela
Inquisiçã o por defender os judeus. Em 1649, o Santo Ofício quer expulsá -lo dos jesuítas. O apoio do
rei D. João IV, que pedira ao missionário ajuda diplomática na causa da restauração da independência,
adia os intentos dos inquisidores. Em 1660, depois da morte de D. Joã o e com o pretexto da
25 publicaçã o de Esperanças de Portugal, V Império do Mundo, é instaurado um processo ao padre
jesuíta: Vieira é “escandoloso”, “ofensivo”, “fá tuo com sabor a heresia e injurioso para a Igreja”,
acusam. Interrogado em 1662, é preso no domicílio a partir de 1665. A sentença inquisitorial
mandava que fosse “privado para sempre da voz ativa e do poder de pregar”.
Em 1668, com a subida de D. Pedro ao trono, Vieira é libertado e inicia uma batalha pela
30 supressã o da Inquisiçã o em Portugal. Argumenta junto do papa Clemente X que a instituiçã o
portuguesa é mais violenta que a espanhola. Consegue a suspensã o por alguns anos, até que
Clemente XI permite a restauraçã o.
A vida de missioná rio, viajante incansá vel, combatente feroz da Inquisiçã o, diplomata, estratego
político ou defensor dos mais desprotegidos, está presente ao longo dos sermõ es de Vieira. Um dos
35 mais notó rios temas pessoais, recorda Arnaldo Espírito Santo, está referido logo na rubrica (a
introduçã o) do “Sermã o de Santo Antó nio aos Peixes”, de 1652: “Este sermã o (que todo é alegó rico)
pregou o autor três dias antes de se embarcar ocultamente para o Reino, a procurar o remédio da
salvaçã o dos índios, pelas causas que se apontam no Sermã o da Sexagésima.”
No “Sermão de Santo Antó nio”, de 1670, Vieira dizia que “sem sair [de Portugal] ninguém pode ser
40 grande”. E acrescentava: “Nascer pequeno, e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu
Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra: para
morrer, toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer, o mundo.”
Assim foi. A 18 de Julho de 1697, na Baía, morreu Vieira no mundo. Tinha 89 anos e uma vida cheia.

Antó nio Marujo, in Público, ediçã o online de 6 de fevereiro de 2008 (consultado em dezembro de 2016, com supressõ es).
2. TESTES DE AVALIAÇÃO

1. A nova edição dos Sermões do padre António Vieira


(A) foi publicada sem o consentimento do autor.
(B) é uma mera reprodução de outras edições anteriores.
(C) é uma novidade no que diz respeito à abordagem do pendor biográfico dos sermões.
(D) não privilegia a dimensão biográfica dos sermões do padre António Vieira.

2. O padre António Vieira


(A) tornou-se jesuíta em Portugal, tendo optado, depois, por ser missionário no Brasil.
(B) servia-se dos seus sermões para denunciar as causas que defendia.
(C) foi perseguido pela Inquisição, mas nunca sofreu qualquer punição por ser protegido pelos reis
portugueses.
(D) não conseguiu concretizar o seu desejo de morrer em Portugal.

3. O recurso expressivo presente em “Para nascer, pouca terra: para morrer, toda a terra” (ll. 41-42) é a
(A) personificação.
(B) sinestesia.
(C) hipálage.
(D) antítese.

4. Os processos fonológicos ocorridos na passagem de PATER para padre, são


(A) assimilação e metátese.
(B) sonorização e assimilação.
(C) sonorização e metátese.
(D) palatalização e sonorização.

5. A oração “cujo primeiro volume é hoje apresentado” (l. 8) classifica-se como subordinada
(A) substantiva completiva.
(B) adjetiva relativa restritiva.
(C) adjetiva relativa explicativa.
(D) substantiva relativa.

6. O valor aspetual da forma verbal presente em “que pedira ao missionário ajuda diplomática na
causa da restauração da independência” (l. 23) é
(A) perfetivo.
(B) imperfetivo.
(C) habitual.
(D) genérico.

7. O modo de relato do discurso presente em “Nascer pequeno, e morrer grande, é chegar a ser
homem […]” (l. 40) é
(A) discurso direto.
(B) discurso indireto.
(C) discurso indireto livre.
(D) citação.
8. Identifique o mecanismo de coesão verificado entre os termos “padre António Vieira” (ll. 1-2) e
“jesuíta” (l. 3).

9. Indique a função sintática desempenhada pelo segmento sublinhado em “Peças ditas e escritas pelo
padre António Vieira” (ll. 5-6)

10. Sabendo que a palavra eloquente deriva do verbo latino loquor, que significa ‘falar’, apresente duas
outras palavras que mantenham o mesmo étimo.

GRUPO III

Faça a síntese do texto presente no grupo II, reduzindo-o a um quarto da sua extensão, ou seja, a cerca
de 175 palavras.
GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

Leia o texto. Se necessário, consulte as notas.

Foram as ordens, vieram os homens. De sua pró pria vontade alguns, aliciados pela promessa de
bom salá rio, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afetos também, à força quase
todos. Deitava-se o pregã o nas praças, e, sendo escasso o nú mero de voluntá rios, ia o corregedor
pelas ruas, acompanhado dos quadrilheiros 1, entrava nas casas, empurrava os cancelos dos quintais,
5 saía ao campo a ver onde se escondiam os relapsos, ao fim do dia juntava dez, vinte, trinta homens,
e quando eram mais que os carcereiros atavam-nos com cordas, variando o modo, ora presos pela
cintura uns aos outros, ora com improvisada pescoceira, ora ligados pelos tornozelos, como galés ou
escravos. Em todos os lugares se repetia a cena, Por ordem de sua majestade, vais trabalhar na obra
do convento de Mafra, e se o corregedor era zeloso, tanto fazia que estivesse o requisitado na força
10 da vida como já lhe escorregasse o rabo da tripeça 2, ou pouco mais fosse que menino. Recusava-se
um homem primeiro, fazia mençã o de escapar, apresentava pretextos, a mulher no fim do tempo, a
mã e velha, um rancho de filhos, a parede em meio, a arca por confortar, o alqueive 3 necessá rio, e se
começava a dizer as suas razõ es nã o as acabava, deitavam-lhe a mã o os quadrilheiros, batiam-lhe se
resistia, muitos eram metidos ao caminho a sangrar.
15 Corriam as mulheres, choravam, e as crianças acresciam o alarido, era como se andassem os
corregedores a prender para a tropa ou para a Índia. Reunidos na praça de Celorico da Beira, ou de
Tomar, ou em Leiria, em Vila Pouca ou Vila Muita na aldeia sem mais nome que saberem-no os
moradores de lá , nas terras da raia ou da borda do mar, ao redor dos pelourinhos, no adro das
igrejas, em Santarém e Beja, em Faro e Portimã o, em Portalegre e Setú bal, em É vora e Montemor,
20 nas montanhas e na planície, e em Viseu e Guarda, em Bragança e Vila Real, em Miranda, Chaves e
Amarante, em Vianas e Pó voas, em todos os lugares aonde pô de chegar a justiça de sua majestade,
os homens, atados como reses4, folgados apenas quanto bastasse para nã o se atropelarem, viam as
mulheres e os filhos implorando o corregedor, procurando subornar os quadrilheiros com alguns
ovos, uma galinha, míseros expedientes que de nada serviam, pois a moeda com que el-rei de
25 Portugal cobra os seus tributos é o ouro, é a esmeralda, é o diamante, é a pimenta e a canela, é o
marfim e o tabaco, é o açú car e a sucupira5, lá grimas nã o correm na alfâ ndega. E se para isso
tiveram tempo, quadrilheiros houve que se gozaram das mulheres dos presos, que a tanto se
sujeitaram as pobres para nã o perder os seus maridos, porém desesperadas os viam depois partir,
enquanto os aproveitadores se riam delas, Maldito sejas até à quinta geraçã o, de lepra se te cubra o
30 corpo todo, puta vejas a tua mã e, puta a tua mulher, puta a tua filha, empalado sejas do cu até à
boca, maldito, maldito, maldito. Já vai andando a récua 6 dos homens de Arganil, acompanham-nos
até fora da vila as infelizes, que vã o clamando, qual em cabelo, ó doce e amado esposo, e outra
protestando, ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice
minha, nã o se acabavam as lamentaçõ es, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase
35 movidos de alta piedade, enfim já os levados se afastam, vã o sumir-se na volta do caminho, rasos de
lá grimas os olhos, em bagadas caindo aos mais sensíveis e entã o uma grande voz se levanta, é um
labrego de tanta idade já que o nã o quiseram, e grita subido a um valado que é pú lpito de rú sticos, Ó
gló ria de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe
o quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou por morto.

José Saramago, Memorial do convento, 53ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 2013, cap. XXI, pp. 400-402.
_____________
1
Soldados que faziam a ronda das ruas. 2 Ter idade avançada. 3 Terra que se lavra e se deixa em pousio, para que descanse. 4 Animais
quadrúpedes. 5 Árvore leguminosa do Brasil. 6 Fileira de bestas de carga.
1. Demonstre de que forma este excerto espelha a prepotência e a megalomania do rei D. João V,
contextualizando-o na estrutura da obra.

2. Justifique a relação de intertextualidade estabelecida com o episódio do “Velho do Restelo” de


Os Lusíadas.

3. Explicite a importância da personagem povo em Memorial do convento.

Leia o excerto seguinte do capítulo 148 da Crónica de D. João I. Se necessário, consulte as notas.

Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos

Na cidade nom havia triigo pera vender, e se o havia, era mui pouco e tam caro que as pobres
gentes nom podiam chegar a ele; ca 1 valia o alqueire quatro livras; e o alqueire do milho quarenta
soldos; e a canada2 do vinho tres e quatro livras; e padeciam mui apertadamente, ca dia havia i que,
ainda que dessem por uũ pam ũ a dobra, que o nom achariam a vender; e começarom de comer pam
5 de bagaço d’azeitona, e dos queijos 3 das malvas e raizes d’ervas, e doutras desacostumadas cousas,
pouco amigas da natureza; e taes i havia que se mantiinham em alféloa4. No logar u5 costumavom
vender o triigo, andavom homẽes e moços esgaravatando a terra; e se achavom alguũ s grã os de
triigo, metiam-nos na boca sem teendo outro mantimento; outros se fartavom d’ervas, e beviam
tanta agua, que achavom mortos homeẽs e cachopos jazer inchados nas praças e em outros logares.
10 Das carnes, isso meesmo, havia em ela grande mingua 6; e se alguũ s criavom porcos, mantiinham-
se em eles7; e pequena posta de porco, valia cinco e seis livras, que era ũ a dobra castelã a; e a galinha
quareenta soldos; e a duzia dos ovos, doze soldos; e se almogá veres 8 tragiam alguũ s bois, valia cada
uũ sateenta livras, que eram catorze dobras cruzadas, valendo entom a dobra cinco e seis livras; e a
cabeça e as tripas, ũ a dobra; assi que os pobres per mingua de dinheiro, nom comiam carne e
15 padeciam mal; e começarom de comer as carnes das bestas, e nom soomente os pobres e
minguados, mas grandes pessoas da cidade, lazerando 9, nom sabiam que fazer; e os geestos
mudados com fame10, bem mostravom seus encubertos padecimentos. Andavom os moços de tres e
de quatro anos pedindo pam pela cidade por amor de Deos, como lhes ensinavam suas madres, e
muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lagrimas que com eles choravom que era triste
20 cousa de veer; e se lhes davom tamanho pam come ũ a noz, haviam-no por grande bem. Desfalecia o
leite aaquelas que tiinham crianças a seus peitos per mingua de mantiimento; e veendo lazerar seus
filhos a que acorrer nom podiam, choravom ameú de sobr’eles a morte ante que os a morte privasse
da vida. Muitos esguardavom as prezes 11 alheas com chorosos olhos, por comprir o que a piedade
manda, e nom teendo de que lhes acorrer, caíam em dobrada tristeza.
25 Toda a cidade era dada a nojo 12, chea de mezquinhas querelas, sem neuũ prazer que i houvesse:
uũ s com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo dos atribulados; e isto nom sem
razom, ca se é triste e mezquinho o coraçom cuidoso 13 nas cousas contrairas que lhe aviinr podem,
veede que fariam aqueles que as continuadamente tam presentes tinham? Pero 14 com todo esto,
quando repicavom, neuũ nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus ẽmigos15.

Fernã o Lopes, in Teresa Amado (apresentaçã o crítica), Crónica de D. João I de Fernão Lopes
(textos escolhidos), ed. Revista, Lisboa, Editorial Comunicaçã o, 1992, cap. 148.

____________
1
porque. 2 Antiga medida para líquidos. 3 bolbos. 4 melaço cristalizado. 5 onde. 6 falta. 7 viviam deles (dos porcos). 8 negociantes de gado.
9
passando fome. 10 fome. 11 preces. 12 tristeza, aborrecimento. 13 preocupado. 14 contudo. 15 Inimigos.

4. Faça a contextualização deste excerto na estrutura da obra.

5. Demonstre de que forma o excerto evidencia a consciência coletiva do povo.


GRUPO II

Responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.

Leia o texto.

Ser português

Nunca fomos coletivamente capazes de fazer deste pequeno país à beira-mar plantado o oá sis de
prosperidade que os poetas afirmaram sermos; mas somos o povo que vem de longe e continua cá .
Mas quem sã o os portugueses? O que sã o, como sã o, quem sã o?
Quem somos?
5 Portugal dos mitos, das tradiçõ es laboriosamente inventadas (na asserçã o clá ssica de Eric
Hobsbawm), raízes identitá rias ancoradas em passados sem má cula. Uma fortíssima invençã o, aliá s,
com Afonso Henriques e Camõ es e Gama, um país de heró is, que o arrancaram à atraçã o centrípeta1
de Castela e o libertaram da presença ameaçante dos “mouros” (como se o tivessem feito sozinhos),
uma imagem que se quis Universal porque escorada na imortal saga dos Descobrimentos. Raízes
10 (lusitanos), heró is (Dom Henrique), mitos (o Encoberto), feitos universais (as caravelas), um
Império (ultramar) e uma língua que é global. Que é a pá tria, como escreveu outro poeta.
E neste Portugal mirífico, Estado-naçã o “inventado”, perguntam-se os portugueses, que sã o
quem verdadeiramente interessa, o que falta cumprir para que se cumpra o essencial: a promessa
afinal tã o antiga, tã o profeticamente inevitá vel, do Quinto Império. Mas o Império que buscamos,
15 sejamos entre nó s sinceros e diretos, nã o é o de um novo poder territorial ou dominaçã o sobre
outros, mas antes a promessa de um país (pelo menos) pró spero e justo. Só isso: um país onde os
portugueses vivam com a tranquilidade de se saberem capazes de se alimentar e alimentar os seus;
em que o desemprego nã o seja mais do que uma figura da ciência econó mica e um espantalho do
passado; e no qual todos caibam, uns ricos outros remediados, sem fossos profundos a separá -los,
20 desigualdades que ameaçam rasgar o frá gil tecido social da naçã o.
Um país que nã o existe. Sejamos outra vez sinceros connosco pró prios: que nunca existiu. Os
portugueses, que sã o quem interessa, sabem ler para além dos mitos fundadores e sabem por isso
que Portugal, a nossa velha naçã o lusitana, foi quase sempre pobre; e que, quando cornucó pias 2
ocasionais fizeram cair sobre o país especiarias orientais, ouro de minas gerais ou fundos
25 estruturais, foi sempre para alimentar vaidades de reis fracos, presunçõ es de elites besuntadas de
pó -de-arroz, pomposidades para estrangeiro ver, rotundas e viadutos escusados. Nunca
verdadeiramente para criar as estruturas indispensá veis ao desenvolvimento harmonioso e ao
bem-estar geral das pessoas – que sã o quem interessa.
Mas o mais extraordiná rio de tudo, o que gostaria de sublinhar hoje é a forma como esta gente,
30 os portugueses, as pessoas que verdadeiramente interessam, vivam dentro ou vivam fora, nasçam
cá ou morram lá , continuam a acreditar neste país de poetas. Da saudade que é a um tempo dor e
prazer. A acreditar no futuro de si pró prios. O mais extraordiná rio é o amor pela pá tria – o patrio-
tismo que salta das gargantas a qualquer pretexto e canta o orgulho de ser português.
Nunca fomos coletivamente capazes de fazer deste pequeno país à beira-mar plantado o oá sis de
35 prosperidade e equilíbrio que os poetas e os fazedores de mito, seja prometeram, seja (pior)
afirmaram sermos; mas somos o povo que vem de longe e continua cá , distante dos centros onde
convergem os cabedais e a fama, um povo (outra vez, porque é verdade) resiliente e teimoso, que
existe, resiste e persiste; temos direito a ter orgulho em nó s, em sermos portugueses, sem nunca
esquecer o que está por fazer e que é muito.

Paulo de Almeida Sande, in Observador, ediçã o online de 16 de junho de 2016,


(consultado em dezembro de 2016, com supressõ es).

____________
1
Fontes de abundâ ncia.
2
Que procura o centro.
1. Segundo o autor do texto,
(A) o povo português não defraudou as expectativas dos poetas.
(B) a imagem que o povo português traçou da sua história é exagerada.
(C) o povo português acredita estar a viver a idade do Quinto Império.
(D) o povo português vive numa situação de pobreza nunca antes observada.

2. Na opinião de Paulo Almeida Sande,


(A) o país nunca soube investir devidamente os seus recursos financeiros.
(B) apesar da existência de reis vaidosos e caprichosos, era feita uma boa gestão dos bens públicos do
país.
(C) o investimento em redes viárias era indispensável para o desenvolvimento harmonioso da nação
portuguesa.
(D) Portugal oferece boas oportunidades para quem vive no país e para quem o visita.

3. Para o autor do texto,


(A) Portugal nunca será o oásis de prosperidade e de equilíbrio que os poetas e os fazedores de mito
prometeram.
(B) o povo português é orgulhoso.
(C) os portugueses devem ser patriotas mas, simultaneamente, ter consciência das imperfeições do
país.
(D) é um mito que o povo português seja resiliente e teimoso.

4. Na frase “Nunca fomos coletivamente capazes de fazer deste pequeno país à beira-mar plantado o
oásis de prosperidade que os poetas afirmaram sermos” (ll. 1-2) estão presentes deíticos
(A) espaciais, temporais e pessoais. (C) pessoais e espaciais.
(B) pessoais e temporais. (D) espaciais e temporais.

5. A oração presente em “o que falta cumprir” (l. 13) classifica-se como subordinada
(A) adjetiva relativa restritiva.
(B) substantiva completiva.
(C) adverbial causal.
(D) adverbial concessiva.

6. O tipo de intertextualidade verificado em “o que falta cumprir para que se cumpra o essencial” (l. 13) é
(A) citação.
(B) paródia.
(C) alusão.
(D) plágio.

7. A sequência textual que predomina no texto é


(A) narrativa.
(B) descritiva.
(C) dialogal.
(D) argumentativa.

8. Sabendo que “povo” (l. 2) provém do latim POPULU-, indique duas outras palavras que integrem o
mesmo étimo.

9. Classifique as palavras “mácula” (l. 6) e mancha quanto ao étimo de que provêm, sabendo que o
termo latino macula- os originou.

10. Refira a relação temporal que se estabelece entre o enunciado seguinte e o ponto de referência
textualmente criado: “E neste Portugal mirífico, Estado-nação “inventado”, perguntam-se os
portugueses, que são quem verdadeiramente interessa, o que falta cumprir para que se cumpra o
essencial”. (ll. 12-13).
GRUPO III

Faça uma apreciação crítica, de 150


a 200 palavras, da imagem apresen-
tada, atendendo aos seguintes as-
petos, que deve previamente pla-
nificar:
– descrição sucinta da imagem;
– simbologia das personagens;
– intencionalidade;
– relação da imagem com
Memorial do convento;
– comentário valorativo.

Caricatura do Zé povinho
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

CENÁRIOS DE RESPOSTA TESTE DE AVALIAÇÃO 2 (p. 16)


GRUPO I
TESTE DE AVALIAÇÃO 1 (p. 12)
1. É ao observar o lago, a realidade concreta, que o
GRUPO I
sujeito se evade através do pensamento e inicia uma
A
reflexão de índole existencial. Questiona o modo de ser
1. O sujeito poético, em jeito de evocação, convoca um
feliz e a irrealização dos sonhos nos quais fundou a sua
domingo solarengo e a sua rua, aquela onde morou e
vida e, portanto, não viveu porque a construiu com base
onde as crianças brincavam alegremente, tal como se
nos sonhos. Esta ideia depreende-se dos dois últimos
pode ver ao longo da primeira estrofe.
versos (“Por que fiz eu dos sonhos / A minha única
2. No presente, o “eu” sente-se magoado, triste, inse-
vida?”) que constituem uma espécie de lamento e de
guro, mas certo de que a vida pouco lhe deu e nem esse
autorreprovação. Por isso, mesmo inserido numa
pouco soube aproveitar. Por isso, as transformações por
realidade física concreta, o “eu” não encontra aquilo
que passou fazem-no valorizar o tempo da infância que,
que o motive e o faça sair da angústia existencial em
por corresponder à inconsciência, se pode associar à
que vive. Por isso lamenta o ter vivido uma vida
alegria de viver à despreocupação, que contrastam com
fundada em sonhos.
a racionalização excessiva no presente.
2. Logo na primeira quadra surgem duas realidades
3. O poema tem como tema “a nostalgia da infância”,
distintas: a do lago (física e concreta) e a do “eu” que
uma vez que todo ele se baseia na reflexão que o “eu”
pensa, sendo esta a sobrepor-se à primeira, uma vez
adulto, no presente, faz sobre o passado, o tempo que
que afirma “Não sei se penso em tudo / Ou se tudo me
viveu, mas de que não disfrutou e que teria sido
esquece”, onde claramente se percebe que o
marcado pela alegria só alcançada por quem vive sem
pensamento perturba a razão e os sentimentos, facto
consciência ou sem noção da realidade.
que remete para a dor de pensar. Já na última estrofe, o
B
relevo é dado ao sonho, expressando-se aí a ideia de
4. O soneto pode dividir-se em duas partes, sendo que a
que a vida do sujeito poético foi feita de sonhos que o
primeira corresponde às três primeiras estrofes e a
impediram de viver: a realidade acabou por conflituar
segunda à última. Ao longo das duas quadras e do
com o sonho, fazendo com que os sentimentos
primeiro terceto, o sujeito poético chama “ditoso”, ou
disfóricos se apossassem deste “eu” que revela
seja, feliz, àquele que sofre por amor, saudade, engano
desconforto, tristeza e angústia por não saber viver.
ou indiferença, dado que para estes males poderá ainda
3. A personificação é visível em vários versos já que são
haver remédio. Porém, na segunda parte, o “eu” afirma
atribuídas características humanas ao lago, à brisa e à
que isso não acontecerá com ele, sendo a sua dor
água. Assim, expressões como “o lago mudo” (v. 1),
maior, por resultar de erros seus e para os quais não
“uma brisa que estremece” (v. 2) ou “água adormecida”
haverá solução.
(v. 10) são ilustrativos deste recurso expressivo,
5. A anáfora está ao serviço da enumeração das
sugerindo o modo como o sujeito poético perceciona a
situações avaliadas como mais positivas pelo sujeito
realidade física que o rodeia. Ao mesmo tempo, permite
poético. Assim, reforça a ideia de que todos os outros
perceber o alheamento dos elementos naturais
sofredores sentirão uma dor bem mais leve do que a
face ao estado de espírito do “eu”, parecendo até
sua, porque, ao contrário do “eu”, todos podem ter a
contribuir para acentuar ainda mais o negativismo que
esperança de alterar a dor.
o domina.
GRUPO II
B
1. (A); 2. (B); 3. (C); 4. (C); 5. (B); 6. (A); 7. (C)
4. Carlos da Maia, depois da formatura em medicina,
8. Oração subordinada substantiva completiva.
tem, efetivamente, vários sonhos, como se percebe no
9. “as ações”.
primeiro parágrafo do excerto. Porém, também se
10. Conversão.
infere que “As semanas foram passando” e as
GRUPO III
“resoluções sinceras de trabalho” que trazia foram-se
Introdução – Definição do ponto de vista a defender: o
dissipando e sendo substituídas pelas preocupações de
ser humano usa a tecnologia para o bem
decoração luxuosa porque, no fundo, Carlos era um
comum.
diletante, ou seja, alguém que se dispersa por várias
1º argumento – os avanços científicos ao iniciativas sem concretizar nenhuma.
serviço do bem-estar das populações. Sendo assim, podem estabelecer-se aproximações entre
Ex: novas técnicas e aparelhos usados no Carlos e Pessoa, porque também este sonhou em
diagnóstico ou tratamento de doenças demasia e não concretizou os seus sonhos.
até agora incuráveis; 5. A afirmação traduz a adoração de Afonso da Maia
Desenvol- 2º argumento – os avanços científicos ao pelo neto e é reveladora do orgulho e da satisfação que
vimento serviço da comunicação entre as pessoas os projetos de Carlos lhe proporcionavam, vendo nestas
e do desenvolvimento económico e social. iniciativas uma força e uma vontade de agir, de triunfar
Ex: desenvolvimento de tecnologias que que não vira no seu filho Pedro. É como se o velho
permitem um contacto mais fácil entre as realizasse os seus sonhos através do neto que criara e
pessoas a nível social (redes sociais) ou a educara segundo os seus princípios.
nível laboral (plataformas que permitem o II
trabalho ou a aprendizagem à distância). 1. (D); 2. (A); 3. (B); 4. (B); 5. (B); 6. (C); 7. (A)
8. “que a ideia / de propor a continuação da obra de Eça
Conclusão – Necessidade de usar as tecnologias para o / constitui um desafio interessantíssimo” e são ambas
bem comum. subordinadas substantivas completivas.
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

9. O pronome pessoal “a” refere-se a “uma continua- 8. Valor disjuntivo ou alternativo.


ção”. 9. Subordinada adjetiva relativa explicativa.
10. Complemento oblíquo. 10. Composição morfossintática.
III GRUPO III
Introdução – Tendência para adaptações de obras Introdução – obrigação de cada um aproveitar a sua
literárias e razões subjacentes. passagem pelo planeta, respeitando as opções dos
outros.
1º argumento: vantagens das adapta-
Desenvolvimento – as sociedades capitalistas e o incen-
ções – contacto mais aliciante e motiva-
tivo ao consumo; as dificuldades económicas de muitos
dor
cidadãos e o aumento da pobreza em países desen-
Exemplo: versão cinematográfica e tea-
volvidos,…
tral de Os Maias para o público escolar
Conclusão – a opção por determinado estilo de vida é
Desenvol- 2º argumento: desvantagens decorren-
uma decisão pessoal ainda que esta seja condicionada
vimento tes das adaptações – alteração do com-
pela sociedade em que nos inserimos.
teúdo e consequente interpretação erra-
da
Exemplo: a novela brasileira baseada no TESTE DE AVALIAÇÃO 4 (p. 24)
romance queirosiano ou a versão cine- GRUPO I
matográfica de A tempestade A
1. Configura-se um registo descritivo nos momentos em
Conclusão – Os aspetos ficcionais ou a fidelidade à obra que se referem os elementos da Natureza (montes, sol,
não reduzem o valor à obra, mesmo que adaptada. rochedos), como acontece no 1º parágrafo, ou mesmo
no final, com o recurso à múltipla adjetivação na
TESTE DE AVALIAÇÃO 3 (p. 20) caracterização do lago); daí decorre um registo reflexivo
GRUPO I de caráter existencial, marcado pelo recurso ao verbo
A ser, de que é exemplo o segmento “Um dos malefícios
1. O sujeito poético sente-se bem, feliz, por não estar a de pensar é ver quando se está pensando.” e todo o 2º
pensar em nada, afirmando que isso é “ter a alma parágrafo. No entanto, é através do presente do
própria e inteira” e “viver intimamente”. Refere ainda indicativo, inicialmente, e depois, do pretérito perfeito,
que tem uma dor nas costas e “um amargo de boca” na que o leitor tem acesso à evolução do estado de espírito
alma, o que não o impede de se sentir liberto, apenas do enunciador, pois estes tempos verbais permitem a
porque, naquele momento, não está a pensar em nada. apresentação de pequenos eventos alinhados
2. Os versos referidos são reveladores da satisfação do temporalmente (Paira-me – parei – refleti – cerro –
“eu” por não pensar, o que lhe permite sentir a alma escrevi – cessei).
liberta, ou seja, sentir-se despreocupado. Estes versos 2. O lago representa a componente emocional do
deixam antever que o pensamento atormenta a alma e sujeito − inicialmente recebe os raios de sol, mas, de
esta só é em sentida como inteira, liberta, se o seguida, passa a ser um “lago morto”; a evolução desta
pensamento não atormentar o sujeito poético, tal como reflexão representa a passagem para um estado de
acontece no momento da enunciação. alma de inquietação e angústia, ilustrado no último
3. Com esta anáfora, consegue acentuar-se o estado de parágrafo.
ataraxia em que o “eu” se encontra e reforçar o prazer 3. Para além da repetição paralelística da construção
que advém de não usar o pensamento, sugerindo que o “os que…”, está presente uma gradação (“… estão
pensar atormenta o sujeito poético e, por isso, o não distraídos… estão dormindo… estão mortos”), que põe
estar pensando naquele momento é motivo de grande em destaque a oposição entre o “eu” e os outros.
satisfação e algo incomum, que o levam a reforçar B
positivamente esse atual estado de espírito. 4. No poema defende-se a primazia do olhar, do ver:
B “Creio no mundo como num malmequer, / Porque o
4. Os peixes são alvo da inveja do orador uma vez que vejo.” (vv. 13-14), o que se coaduna com a valorização
se revelam superiores a ele em quase tudo, destacando- da Natureza por parte deste heterónimo. Por isso, o
se o facto de não ofenderem a Deus, nomeadamente poema apresenta um caráter deambulatório: “Tenho o
porque não têm razão, não têm memória e não têm costume de andar pelas estradas / Olhando para a
vontade. Por outro lado, cumprem o fim para que foram direita e para a esquerda” (vv. 2-3). É através dos
criados por Deus (servir os homens), enquanto o orador sentidos, sobretudo da visão, que o poeta acede à
não cumpre o fim para que foi criado (moralizar os felicidade que a Natureza lhe proporciona: ”Se falo na
homens, impedindo-os de pecar). Natureza não é porque saiba o que ela é, / Mas porque
5. Em termos de estratégias argumentativas, a amo, e amo-a por isso” (vv. 20-21).
destacam--se as construções frásicas paralelísticas e 5. O poeta defende a preponderância dos sentidos
anafóricas (“eu lembro-me, mas vós não ofendeis a sobre o pensamento: “Eu não tenho filosofia: tenho
Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis sentidos...” (v. 19), o que o leva a concluir: “Amar é a
a Deus com o entendimento”), as interrogações, através eterna inocência, / E toda a inocência é não pensar...”.
das quais se capta a atenção do auditório, a que se Esta atitude é confirmada pelo facto de se referir
associa também o uso do vocativo, que permite sempre ao pensar através de vocabulário de conotação
identificar o interlocutor do orador. negativa: “Porque pensar é não compreender...” (v. 15),
GRUPO II “(Pensar é estar doente dos olhos)” (v. 17), aliando,
1. (B); 2. (A); 3. (C); 4. (D); 5. (B); 6. (A); 7. (B). neste caso, o pensamento à ideia de doença.
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

Grupo II
1. (B); 2. (C); 3. (D); 4. (B); 5. (A); 6. (B); 7. (A) 1º argumento – quem vive pelo
8. Oração subordinada adjetiva relativa restritiva. sentimento ou emoção pode ser mais
9. Sujeito. feliz
10. “(n)o seu conto ‘Os pássaros’”. Desenvol- Ex: Caeiro recusa o pensamento e até
Grupo III vimento Fernando Pessoa procura libertar-se dele
Introdução: o diálogo entre diferentes formas de 2º argumento – quem racionaliza em
expressão artística é potencialmente benéfico e enri- excesso vive em sofrimento
quecedor do ponto de vista cultural. Ex: Pessoa e a temática da dor de pensar
Desenvolvimento: a articulação entre cinema e literatura
pode ou não ser bem conseguida; apresentação de um Conclusão – Aliar a razão e a emoção permitirá alcançar
caso de sucesso ou de um caso de fracasso e as o equilíbrio.
respetivas razões justificativas (argumentos).
Conclusão: necessidade de valorização da arte em geral, TESTE DE AVALIAÇÃO 6 (p. 32)
independentemente de casos em que a articulação GRUPO I
cinema/ literatura possa desvirtuar a obra literária. A
1. O país encontra-se numa crise de identidade e de
TESTE DE AVALIAÇÃO 5 (p. 28) fragmentação (“tudo é disperso, nada é inteiro”), num
GRUPO I estado de desalento e de indefinição, onde a ausência
A de sentido e de força anímica imperam (“ninguém sabe
1. Sem a ação do homem, o Ato, e a intervenção de Deus, que coisa quer”). Destacam-se as ausências de brilho e
o Destino, os Descobrimentos não teriam ocorrido. Tal de alma (“fulgor baço”, “brilho sem luz”) capazes de o
como se evidencia no poema, Deus teve de erguer “o “rejuvenescer”.
facho trémulo e divino” para iluminar o Homem e, deste 2. O título remete para um estado de falta de clareza e
modo, afastar o “véu” que ocultava o desconhecido. indefinição. O conteúdo do poema, além de
Assim, os portugueses foram protagonistas no desven- desenvolver esta ideia, enuncia as razões pelas quais o
dar o desconhecido graças à Ciência e à Coragem (“a estado de Portugal pode ser considerado “nebuloso”:
alma a Ciência e corpo a Ousadia”) de que se muniram. falta de vontade e de ânimo dos seus habitantes.
2. As mãos representam simbolicamente o Ato e o 3. Atendendo ao caráter exortativo, tratar-se-á de um
Destino e é graças a elas que o mistério é desvendado. apelo e de um incentivo à ação. Perante a constatação
Com efeito, se uma das mão, remete para a intervenção do estado de “tristeza” em que Portugal se encontra, o
divina na ação do homem português; a outra relaciona- sujeito poético exorta à ação, pois é chegada a hora de
se com a ação do Homem que age, desbravando o os portugueses despertarem e transformarem o “fulgor
caminho agora iluminado pela força do Destino. baço” em brilho claro.
3. O poema “Ocidente” integra-se na Parte II de Men- B
sagem, intitulada “Mar Português” onde se apresentam 4. A caracterização do estado anímico de Portugal (e
os heróis envolvidos nos Descobrimentos e que dos portugueses) é o tema comum aos dois textos.
adquirem uma dimensão mítica na conquista do mar. Embora separados por quatro séculos, ambos traçam o
Esta segunda parte tem uma epígrafe latina (“Possessio mesmo retrato do país: sem iniciativa, abatido e
Maris” – posse do mar) que justifica plenamente a desgostoso. Interessante caracterização desta “tristeza”
inserção do poema “Ocidente” nesta parte. anímica é apresentada na obra camoniana através da
B tripla adjetivada: “austera, apagada e vil”. Contudo, os
4. Na estância 99 faz-se referência ao amor que as dois textos defendem a tese de que o estado deveria
musas têm à pátria e na 100 também se afirma que as ser outro: enquanto no poema camoniano se reconhece
deusas têm pelos portugueses um amor fraterno, “um ledo orgulho e geral gosto/que os ânimos levanta”,
colocando em paridade os lusitanos, ou seja, na Mensagem invoca-se a chegada da hora da
atribuindo-lhes o mesmo caráter divino. Assim, esta mudança!
aproximação das deusas aos portugueses pode ser lida 5. O eu lírico lamenta o esforço e a persistência para
como sinal de eleição do povo português. elevar o nome de Portugal e dos portugueses, já que
5. Os versos sintetizam toda a reflexão do poeta na qual esses, que são objeto de louvor, são “gente surda e
critica o facto de os portugueses desprezarem as artes. endurecida”. Lamenta que os que deveriam incentivar a
Daí que o poeta sinta necessidade de animar aqueles criação e a arte não o façam, uma vez que estão
que, perante a atitude de indiferença pelas artes, preocupados com a sua própria ambição e ganância.
possam deixar de empreender ações gloriosas. Por isso, GRUPO II
incentiva-os a não esmorecer porque as grandes obras 1. (A); 2. (C); 3. (D); 4. (A); 5. (B); 6. (C), 7. (B)
nunca perderão o seu valor. 8. Introduz uma sequência enumerativa.
GRUPO II 9. Modalidade deôntica com valor de obrigação.
1. (A); 2. (C); 3. (A); 4. (D); 5. (B); 6. (C); 7. (A) 10. Conjunção subordinativa completiva.
8. Valor perfetivo. GRUPO III
9. Epistémica com valor de probabilidade. Resposta de caráter pessoal; no entanto, o aluno pode
10. “poesias”. abordar/desenvolver os seguintes tópicos:
GRUPO III − situação geográfica de Portugal e vantagens daí
Introdução – Diferentes formas de viver: pela emoção decorrentes para o desenvolvimento turístico: o mar,
ou pela razão as praias, o relevo…;
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

– tradições seculares, monumentos grandiosos, um- progressivamente, se vão isolando e perdendo a


seus…; vontade de conviver fisicamente.
– gastronomia; Conclusão – ler o que os outros escrevem e responder-
– recetividade e simpatia das gentes. lhes, a maior parte das vezes com símbolos, não é um
ato de comunicação, pois não permite o conhecimento
TESTE DE AVALIAÇÃO 7 (p. 36) do outro nem o seu abraço, por exemplo, em
GRUPO I momentos de dor.
A
1. A ação desenrola-se num espaço semidesértico, num TESTE DE AVALIAÇÃO 8 (p. 40)
lugarejo muito pobre (“casinhas desgarradas e nuas”); GRUPO I
os campos áridos não trazem mais-valias em termos A
sociais, “plainos sem fim” e “desertos”. Além disso, a 1. A perspetiva de vida ambicionada por George é
vida é um constante marasmo, influenciado também oposta à dos pais. A primeira evidencia uma ânsia de
pela ausência de perspetivas (“Um silêncio que caiu, viajar, correr o mundo; a personagem não vê com bons
estiraçado por vales e cabeços, e que dorme olhos “criar raízes” naquela vila; esta maneira de pensar
profundamente”, l. 9). não é bem vista pelos pais, por essa razão, a mãe está a
2. As “figurinhas” que regressam “dobradas” dos fazer o enxoval de Gi. Além disso, a vocação da jovem
campos trazem ainda, “exaustos da faina”, a postura para a pintura é vista como uma arte para a qual “ela
que durante todo o dia mantiveram para desempenhar tem jeitinho”, mas nada mais do que isso.
as suas funções laborais; além do cansaço, não apresen- 2. O modo como é descrito o “aparecimento” da figura
tam sequer vontade de conviver, já que ninguém “virá remete-nos para a “elaboração” mental de alguém, com
até à venda falar um bocado”; por fim, as “trevas” que recurso à memória: a figura aparece ora nítida ora
envolvem a aldeia remetem para a tristeza e para a dor esfumada. Por outro lado, a referência ao pregador de
da sua vida monótona e sem ambição. oiro usado por Gi, que “ficou por tuta e meia num
3. A personificação do tempo, apresentado como uma penhorista” é uma evocação da vida difícil de George
personagem, ajuda a caracterizar a vida “triste” dos quando abandonou a vila. Finalmente, a ausência de
ceifeiros; a morosidade da passagem do tempo eviden- determinante possessivo para o nome “mãe”, na frase
cia o estado psicológico e a monotonia que envolve o “A mãe está a acabar o meu enxoval”, permite concluir
dia a dia lento, repetitivo e rotineiro destas pessoas. que se trata da progenitora de ambas as figuras.
B 3. A divergência no modo de pensar existente entre Gi e
4. São referenciados dois tipos sociais que se opõem; o namorado, Carlos, leva-a a terminar o namoro. O
por um lado, “o povo”, classe trabalhadora, represen- noivo tinha um sonho que se opunha ao de Gi; queria
tado pelos cavadores, cuja vida se pode considerar “comprar uma terra, construir uma casa a seu modo”, o
difícil e “custosa”, em virtude da posição a que que contrariava a vontade da jovem de partir,
continuamente estão sujeitos para desempenhar a sua determinação que o namorado não compreendia, daí a
atividade; por outro lado, a “atriz”, cuja caracterização sua afirmação “Creio que está na altura de eu…”.
se opõe à dos cavadores, é uma figura “fina”, protegida B
do frio por um casaco “à russa” que a agasalha. 4. Os primeiros versos evidenciam a euforia, o entusias-
5. As frases exclamativas revelam por parte do “eu” mo e exaltação do sujeito poético que acredita poder
lírico, simultaneamente, perturbação, em virtude da encontrar a felicidade desejada, percorrendo o
constatação do sofrimento e da vida difícil da classe “mundo” noite e dia, “por desertos, por sóis, por noite
trabalhadora, que compara com seres irracionais pela escura”. No entanto, “naufraga” durante o percurso,
dureza do trabalho; revelam também simpatia e embora recupere o ânimo quando avista o “palácio
gratidão, porque enaltecem o seu esforço e a sua encantado da Ventura”. Nos dois últimos versos do
resignação. poema é notório o abatimento e a frustração, fruto da
GRUPO II desilusão provocada pela sua incessante busca.
1. (D); 2. (C); 3. (A); 4. (C); 5. (A); 6. (B), 7. (D) 5. Trata-se de uma enumeração e evidencia as
8. Iterativo. dificuldades que o sujeito lírico tem encontrado ao
9. Condicional. longo da sua busca. Esta ideia é reforçada pela carga
10. Empréstimo. semântica negativa dos termos “desertos”, “noite” e
GRUPO III “escura”, o que reforça a dificuldade e ingratidão
Introdução – A comunicação via internet é um ato daquela empresa.
solitário, que não implica a proximidade física, nem a GRUPO II
saída de casa. 1. (C); 2. (B); 3. (A); 4. (D); 5. (B); 6. (A); 7. (C)
Desenvolvimento – Interagir através da escrita não é 8. “uma baía”.
espontâneo nem imediato; entre a receção de uma 9. Descritiva.
frase e a resposta ou comentário a essa frase existe um 10. Pronome relativo.
lapso de tempo que permite a reflexão, o que implica GRUPO III
que o contacto visual e a comunicação não-verbal se Introdução: a vontade e a necessidade de o ser humano
percam (por não existirem), gerando solidão. encontrar situações de conforto e de motivação para a
A timidez de muitos jovens e a ausência deste tipo de sua vida.
comunicação vai-os inibindo e debilitando no que se Desenvolvimento: a importância da felicidade − na
refere ao contacto com os outros, que, esfera pessoal – a nível das relações humanas e da vida
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

familiar influencia o modo como se reage às adversida- 2. Trata-se da hipálage, pois verifica-se uma transposi-
des; ção de sentido, na medida em que se atribui o
− na esfera profissional − propicia um desempenho das deslumbramento aos olhos e não a quem observa.
tarefas com mais facilidade, o que condiciona o modo Desta forma, intensifica-se a beleza da Natureza
como se veem os desafios e a superação de obstáculos. descrita ao longo do poema.
Conclusão: a perceção de que somos felizes reflete-se 3. O recurso a vocabulário de valoração positiva perten-
no modo como encaramos a vida e nos níveis de cente ao campo lexical da Natureza é uma constante no
produtividade e de serenidade que evidenciamos. poema (“penedos”, “doce mar”, “ondas”, “socalcos”,
“vinhedos”, “terra”, “rosmaninho”). Além disso, a
TESTE DE AVALIAÇÃO 9 (p. 45) expressividade das metáforas enfatiza a beleza que se
Grupo I pretende destacar: “navio de penedos”, “doce mar de
A mosto”, “charcos de luz envelhecida”.
1. As mãos movimentam-se em direção ao peito e B
tremem de desejo; poderão, por isso, ser entendidas 4. A composição tem como assunto o encontro amo-
como símbolo desse desejo, e representantes da união roso, que não chega a acontecer. A donzela encontra-se
física dos amantes. na ermida, aguardando a chegada do amigo que tarda.
2. Tendo em conta a simbologia erótica da água (“Um 5. A donzela está ansiosa e preocupada, pois sente-se
rio interior”), o sentido remete para a presença ansiada só, em perigo, cercada pelas ondas, sem ninguém que
(“aguarda/Aguarda”) de um outro corpo, em harmonia, venha socorrê-la, chegando a antever a própria morte.
ideia subjacente à referência ao sol-luz. Grupo II
3. A referência à música sugere o movimento ritmado 1. (A); 2. (B); 3. (A); 4. (C); 5. (A); 6. (A); 7. (D)
dos corpos (“Se encosto o ouvido à sua nudez, / uma 8. Modalidade apreciativa.
música sobe”), indiciando a harmonia da relação 9. Subordinada substantiva completiva.
amorosa, ideia reforçada pelo facto de se destacarem 10. Derivada por prefixação.
no poema as formas verbais “respira”, “aguarda”, Grupo III
“nasce”, esta última aliada à música: “nasce, / nasce (Proposta de produção escrita)
dessa música que não cessa”, o que poderá sugerir o A pintura representa uma cena primaveril em que se
progresso/evolução dessa união. destacam as figuras femininas, num ambiente natural,
B colhendo flores no jardim.
4. “Lá” conota o indefinido, mas é apresentado como É de realçar o pormenor das flores nas mãos das figuras
um espaço de felicidade, beleza e luz. A sua repetição humanas, dos trajes, nomeadamente dos vestidos volumo-
no início dos tercetos sugere o desejo de alcançar a sos e bordados, a sombrinha, o chapéu, o laço no cabelo, a
“verdade”. sugerirem o estatuto social elevado das personagens.
5. Trata-se da apóstrofe, que transmite a ideia de O contraste evidenciado entre o tom escuro da
determinação e que confere ao soneto um caráter Natureza e a tonalidade clara dos vestidos permite
circular, o que poderá significar que o poeta está destacar as figuras humanas e, simultaneamente, um
próximo de encontrar as respostas que procura. ambiente agradável O quadro sugere a harmonia entre
Grupo II o ser humano e a Natureza.
1. (B); 2. (A); 3. (B); 4. (D); 5. (C); 6. (A); 7. (B)
8. Modalidade apreciativa. TESTE DE AVALIAÇÃO 11 (p. 53)
9. “a Eugénio”. Grupo I
10. Relação de anterioridade. A
Grupo III 1. A deambulação geográfica é visível no facto de
Resposta de caráter pessoal. Poderão, no entanto, ser Ricardo Reis ir percorrendo as ruas da cidade de Lisboa,
referidos os seguintes aspetos: ao mesmo tempo que se detém na observação de
Introdução: contributo das vivências afetivas para a alguns aspetos, deixando transparecer as suas
felicidade e realização do indivíduo. impressões (“atravessa de cá para lá, por outras
Desenvolvimento: alamedas regressa, agora vai descer a Rua do Século,
− a amizade e o amor combatem a solidão e atenuam o nem sabe o que o terá decidido, sendo tão ermo e
sofrimento em situações pessoais difíceis (exemplo…); − melancólico o lugar, alguns antigos palácios, casas
sentimentos que contribuem para uma visão do mundo baixinhas, estreitas, de gente popular”).
mais positiva e integradora, que beneficia a pessoa em 2. Em 1936, vigorava em Portugal a ditadura de Salazar.
si e aqueles com quem se relaciona (exemplo). Nesta época, no geral, o povo vivia com escassos
Conclusão: reforço do ponto de vista veiculado. recursos e, muitas vezes, em situações de extrema
miséria. Assim sendo, a pobreza era uma realidade
TESTE DE AVALIAÇÃO 10 (p. 49) instalada no país, sendo que, para fazer face a esta
Grupo I situação, organizavam-se eventos de caridade, como é o
A caso do bodo do Século, a que Ricardo Reis assiste,
1. Perante a beleza da terra duriense, pela qual se sente onde foi distribuída uma esmola a mais de mil pobres.
atraído, S. Leonardo ruma em direção à eternidade com 3. A intertextualidade com Cesário é evidente não só no
a certeza de que essa vida eterna (“cais divino”) será um facto de, à semelhança do poeta, também Ricardo Reis
desencanto. Esta ideia dá continuidade ao verso ir deambulando pela cidade de Lisboa e registando as
anterior em que manifesta a saudade da terra que vai suas impressões e sensações, mas também é percetível
deixar. na alusão ao poema “Num bairro moderno” quando o
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

narrador, a propósito dos desequilíbrios sociais, afirma por Oliveira Salazar. O regime controlava quaisquer
“ai de nós, pelo caminho que as coisas levam, ainda opositores à sua ideologia, recorrendo à censura e à
veremos bairros exclusivos, e só residências, para a opressão, através da então criada Polícia de Vigilância e
burguesia de finança e fábrica, que então terá engolido Defesa do Estado. Neste excerto, estamos perante uma
da aristocracia o que resta, com garagem própria, das tentativas de revolução protagonizada por um
jardim à proporção, cães que ladrem violentamente ao conjunto de marinheiros, nos quais se incluía o irmão de
viajante, até nos cães se há de notar a diferença, em Lídia, mas que rapidamente foi abortada pelas forças
eras distantes tanto mordiam a uns como a outros”. repressoras, que se serviram, para o efeito, de
Além disso, o facto de o narrador denunciar a miséria bombardeamentos aos barcos revoltosos a partir do
do povo remete também para muitos dos poemas de forte de Almada.
Cesário Verde, como “O sentimento dum ocidental”. 2. A primeira relação intertextual estabelecida com
B Camões surge a propósito da estátua do Adamastor que
4. Trata-se da sinestesia, uma vez que estamos perante se ergue no Alto de Santa Catarina. Através da alusão e
a confluência de sentidos diferentes (a visão – da descrição do gigante, o narrador pretende, por um
“brancuras” – e o tato – “quentes”), que serve aqui para lado, denunciar o estado de latência e inércia de
destacar a acentuada perceção sensorial do sujeito Portugal (e daí estar “concluída a sua petrificação”, l. 4)
lírico, que se serve de todos os sentidos para captar a e, por outro, indiciar já o fracasso da tentativa de
realidade à sua volta. revolta iminente por parte dos marinheiros, que
5. A transfiguração poética do real é visível no facto de acabará por ser travada por um regime repressivo (“a
o sujeito lírico partir de uma realidade concreta – o garganta que ia gritar não gritará”, l. 4). No final, volta a
cesto de hortaliças da vendedeira – transformando-a e aludir-se ao grito preso do Adamastor como estando
recriando-a, quando decide (re)compor os vegetais com prestes a fazer ouvir-se, metáfora de um tempo de
a forma de um corpo humano (“Se eu transformasse os mudança que se espera e cuja ideia é corroborada
simples vegetais, […] / Num ser humano que se mova e também através da alteração do verso de Camões –
exista / Cheio de belas proporções carnais?!” (vv. 19- “Onde a terra se acaba e o mar começa” – para – “Aqui,
-20). Assim, dando asas à imaginação e adotando uma onde o mar se acabou e a terra espera” (ll. 48-49).
atitude surrealista, o sujeito lírico descobre nos vários 3. O título do livro acaba por refletir o estado labiríntico
elementos existentes na giga “um novo corpo orgânico, vivido por Ricardo Reis ao longo do tempo em que
aos bocados” (v. 22). esteve em Lisboa e em que tentou singrar como figura
Grupo II autónoma. Mas a verdade é que, não tendo encontrado
1. (D); 2. (B); 3. (B); 4. (D); 5. (B); 6. (C); 7. (A) saída nem conseguindo dar um rumo à sua vida, facto
8. O que é próprio ou relativo ao campo. que implicaria forçosamente que passasse a adotar uma
9. A capital de Portugal é Lisboa. / É de capital atitude ativa, Ricardo Reis acaba por desistir e opta por
importância valorizarmos a nossa História. seguir Fernando Pessoa em direção à morte.
10. “dar uma mão.” B
Grupo III 4. O sujeito lírico denuncia a opressão vivida em
Introdução: apresentação sucinta da tese (preferência Portugal, durante a época de ditadura (“Silêncio − é
por uma das opões de vida – urbana ou rural) e explici- tudo o que tem / quem vive na servidão”, vv. 19-20).
tação sumária das diferenças entre a vida urbana e a Esta situação, que ele classifica como uma desgraça que
vida rural (positiva e/ou negativa). assola o país (“e o vento cala a desgraça”, v. 3), afeta
Desenvolvimento: fundamentação da opinião com sobretudo o povo, que sofre grandes carências (“Eu vi-
argumentos e exemplos. Poderão ser abordados, entre te crucificada / nos braços negros da fome”, vv. 39-40),
outros os seguintes aspetos: ao mesmo tempo que contribui para a estagnação do
• nos meios urbanos: país (“Vi minha pátria parada / à beira de um rio triste”,
− as pessoas têm acesso a um conjunto muito mais vv. 43-44) e para a submissão da população (“em tempo
variado de dispositivos, infraestruturas (como hos- de servidão”, v. 58). No entanto, como o próprio sujeito
pitais e universidades…) e acontecimentos (cultu- lírico declara “há sempre alguém que resiste / há
rais, desportivos..); sempre alguém que diz não”, versos que funcionam
− a vida é mais stressante, decorrente de uma concen- como metáfora da esperança de que os resistentes ao
tração muito grande de pessoas, o que potencia, por regime possam um dia triunfar.
exemplo, um maior afluxo de trânsito; 5. Trata-se de uma trova, constituída por 15 quadras,
• nos meios rurais: todas elas com versos heptassilábicos (redondilha maior).
− as pessoas têm uma vida mais saudável, uma vez A rima é sempre cruzada, exceto na sexta estrofe, em que
que, à partida, estão inseridas num ambiente o primeiro e o terceiro versos são brancos.
menos poluído; Grupo II
− há menos empregos disponíveis, sobretudo em 1. (B); 2. (C); 3. (B); 4. (C); 5. (A); 6. (D); 7. (A)
determinadas áreas. 8. Deôntica (valor de obrigação).
− há mais solidariedade e convívio. 9. “Ontem”, deítico temporal; “comemorámos”, deítico
Conclusão: retoma da posição defendida e fecho. temporal e pessoal.
10. Posterioridade.
TESTE DE AVALIAÇÃO 12 (p. 58) GRUPO III
Grupo I Sugere-se a seguinte abordagem:
A Introdução: a imagem representa uma mão a segurar
1. Em 1936, vivia-se em Portugal um sistema ditatorial um lápis com o qual vai escrevendo numa folha em
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

branco. No entanto, os seus movimentos são limitados, pregador apresenta, em posição antagónica, as duas
pelo facto de estar algemada. únicas possibilidades e respetivas justificações para o
Desenvolvimento: Destacar os seguintes aspetos: facto de a terra se apresentar tão corrupta: ou os
− a imagem denuncia a falta de liberdade de expressão, pregadores (“o sal”) não estão a cumprir com a sua
a manipulação das palavras, o controlo total, a missão ou os fiéis (“a terra”) não estão a adotar a
opressão; doutrina que lhes é transmitida.
− o tom cinzento remete para a ideia de obscurantismo, 5. A intenção persuasiva é visível através de vários
de silenciamento, de censura. mecanismos, como a assunção da primeira pessoa do
Conclusão: a imagem adequa-se, assim, perfeitamente plural, como forma de o pregador se irmanar com o
ao enredo de O ano da morte de Ricardo Reis, já que, na interlocutor (“mas quando a terra se vê tão corrupta
obra, é recorrente a convocação de situações que como está a nossa”, ll. 2-3); o levantamento de
espelham a censura que vigorava durante a ditadura de questões para as quais são apresentadas possibilidades
Salazar, refletida, por exemplo, no silêncio que se abate de resposta ou o uso de recursos expressivos como a
sobre a cidade de Lisboa ou a manipulação dos jornais, anáfora, a antítese ou a gradação que contribuem para
tantas vezes lidos por Reis. um discurso eloquente (“Começam a ferver as ondas,
começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores,
TESTE DE AVALIAÇÃO 13 (p. 63) os pequenos”, ll. 35-36). Já a exemplaridade decorre do
GRUPO I facto de Vieira, para melhor fundamentar a sua posição
A e conferir autoridade, se socorrer de palavras proferidas
1. O par espelha a plena completude existente entre o por Cristo ou do exemplo de Santo António.
casal, visível no contraste Sol (símbolo do dia, da força Grupo II
física, do trabalho)/Lua (símbolo da noite, do 1. (C); 2. (B); 3. (D); 4. (C); 5. (C); 6. (A); 7. (D)
transcendente, do mundo onírico). Reflete ainda a ideia 8. Coesão lexical (por substituição).
de renovação e de totalidade, inerente ao número sete 9. Complemento agente da passiva.
e que, no caso do casal, se traduz no facto de ambos 10. Locução, locutor, loquaz.
representarem não só a comunhão total e perfeita mas Grupo III
também de remeterem para a ideia de transgressão e Proposta de síntese:
mudança relativamente ao regime absolutista e A última edição dos Sermões do Padre António Vieira
inquisitorial vigente. expõe uma nova faceta na sua abordagem – a do
2. Enquanto a relação de Baltasar e Blimunda se pauta pendor biográfico evidenciado nos textos.
pela espontaneidade, cumplicidade e intimidade resul- Nascido em Lisboa, Vieira foi para o Brasil ainda em
tantes da vivência de um amor profundo e verdadeiro criança e, mais tarde, entrou no noviciado jesuíta. Aos
(“Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, 23 anos já fazia sermões, que espelhavam as causas que
enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde defendia. Uma delas, a da defesa dos judeus, valeu-lhe
estás, Sol aonde vais”, ll. 10-11), o rei e a rainha revelam a perseguição do Santo Ofício que queria expulsá-lo dos
ter uma relação estritamente protocolar e convencional, jesuítas, mas o rei D. João IV conseguiu protegê-lo. No
sem amor, nada mais sendo do que um casamento de entanto, após a morte do monarca, Viera foi preso no
conveniência. Desta feita, o rei mantém relações domicílio, tendo sido libertado três anos mais tarde,
extraconjugais e a rainha tenta ultrapassar a sua frus- com a ascensão de D. Pedro ao trono. Nessa altura,
tração, recorrendo aos serviços religiosos e sonhando, de inicia uma luta contra a Inquisição em Portugal. Muitos
forma libidinosa, com o cunhado (“de el-rei não falemos, destes aspetos da sua vida, a par de outros, estão
que sendo tão moço ainda gosta de brinquedos, por isso presentes nos sermões do Padre, como, no “sermão de
protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras Santo António aos peixes”, onde o autor confessa a sua
nos mosteiros e as vai emprenhando, uma após outra, ou luta pela salvação dos índios.
várias ao mesmo tempo, que quando acabar a sua Acabou por morrer aos 89 anos, na Baía, longe de
história se hão de contar por dezenas os filhos assim Portugal, fazendo assim jus às palavras usadas no
arranjados, coitada da rainha, que seria dela se não fosse “sermão de Santo António”, de 1670.
o seu confessor António Stieff, jesuíta, por lhe ensinar (175 palavras)
resignação, e os sonhos em que lhe aparece o infante D.
Francisco com marinheiros mortos pendurados dos TESTE DE AVALIAÇÃO 14 (p. 68)
arções das mulas”, ll. 29-34). GRUPO I
3. Apesar de ser padre e pertencer a uma classe social A
conivente com um regime absolutista e promotora do 1. Os eventos relatados acontecem no seguimento da
obscurantismo e da perseguição, através do Santo decisão do rei em inaugurar o convento no dia em que
Ofício, Bartolomeu Lourenço distancia-se desses completasse 41 anos, facto que revela quer a sua
princípios da Igreja Católica. Está disposto a concretizar vaidade quer a sua megalomania e prepotência já que,
um projeto que poderia ser considerado uma heresia apesar de saber que o estado em que a construção se
aos olhos da Inquisição, contando, para isso, com a encontrava não permitia tal resolução, o rei, que reunia
ajuda de elementos que, à partida, estariam em si todos os poderes, impõe o seu desejo e ordena
condenados à fogueira, como Blimunda, ou que eram, que sejam enviados para Mafra todos os homens
em termos sociais, marginalizados, como era o caso de válidos dos quatro cantos do reino, forçando-os a isso,
Baltasar. muitas vezes de forma violenta, sobretudo em relação
B aos que se recusavam a ir. Assiste-se, assim, ao desfile
4. É através da estrutura paralelística e anafórica que o de dezenas de homens arrancados às suas terras e
3. CENÁRIOS DE RESPOSTA

famílias, agrilhoados e obrigados a cumprirem o capri- 5. A consciência coletiva é visível no facto de o povo se
cho de um rei. manter unido e em uníssono defender a mesma causa:
2. Esta relação intertextual é uma forma de o narrador a soberania da nação. Assim sendo, estavam sempre
ridicularizar e estabelecer um contraste entre a situação todos disponíveis para forte e corajosamente
que está a descrever e a que ocorre em Os Lusíadas. defenderem a cidade (“quando repicavom, neuũ nom
Assim, embora nos dois casos surja a voz de um velho a mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus
contestar o acontecimento a que está a assistir, são ẽmigos”, l. 29), apesar de as muitas privações por que
grandes as diferenças entre as duas situações. De facto, estavam a passar, dada a escassez de alimentos.
enquanto, na epopeia camoniana, um velho experiente Grupo II
e de aspeto venerando se insurge contra uma empresa 1. (B); 2. (A); 3. (C); 4. (A); 5. (B); 6. (C); 7. (D).
grandiosa de um reino em expansão e, embora a sua 8. População, populismo, popular
voz seja discordante, não há qualquer censura ao seu 9. Palavras divergentes.
discurso. no caso de Memorial do convento, o narrador 10. Simultaneidade.
serve-se de forma jocosa de um labrego para condenar Grupo III
uma situação que nada tem de grandiosidade, pelo Resposta aberta, classificada segundo os critérios do
contrário, que é um símbolo da prepotência e da exame nacional.
opressão. neste caso, a voz do velho é abafada com a Sugere-se o plano seguinte:
sua morte, o que reflete a época de obscurantismo em Introdução – A imagem representa a figura do Zé
que se vivia. Povinho – metáfora das classes mais desfavorecidas
3. Na conceção de Saramago, o povo é o verdadeiro portuguesas – que, como se tratasse de um cavalo,
protagonista da sua obra. Por isso, quer prestar-lhe o carrega às costas um homem imponente e pesado, bem
tributo e a homenagem que a História lhe nega. Faz vestido e de charuto na boca – símbolos de riqueza – ao
questão de, simbolicamente, tentar nomear todos os mesmo tempo que é conduzido e chicoteado por um
homens envolvidos na construção do convento, outro homem representativo do poder.
percorrendo as letras do alfabeto, não se coibindo de Desenvolvimento – Destacar os seguintes aspetos:
denunciar as atrocidades, o sofrimento infligido e os A imagem denuncia a exploração e a tirania infligidas ao
sacrifícios por que tiveram de passar os verdadeiros povo por parte dos mais poderosos, que revelam uma
obreiros desta empresa megalómana, elevando-os atitude de supremacia e prepotência.
assim à categoria de heróis. Conclusão – A imagem adequa-se, assim, perfeitamente
B ao enredo de Memorial do convento, obra em que é
4. Este excerto decorre durante o cerco da cidade de denunciada a opressão e a repressão exercida sobre os
Lisboa por parte do exército castelhano, que entrou em mais desfavorecidos por parte de D. João V – um rei
Portugal para combater contra o Mestre de Avis, como déspota que se serviu do seu povo para concretizar um
forma de reivindicar a coroa portuguesa. Por questões capricho.
de legitimidade e tendo em conta o testamento de D.
Fernando, o reino português deveria ser entregue,
assim que tivesse idade para isso, ao neto, filho de D.
Beatriz e de Juan de Castela.

Você também pode gostar