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Edição: 08/2021

NESTA EDIÇÃO

Trabalho Colaborativo
Interdisciplinaridade
Multidisciplinaridade
Mais de um componente..Sim!
E suas múltiplas possibilidades

Você já pensou na possibilidade de abordar, dentro de uma


mesma proposta pedagógica, mais de um componente
curricular? Seria possível, por exemplo, trabalharmos o tema
“Cartografia” (presente no componente de Geografia),
vinculado às técnicas de desenho imersas no componente
de Arte, ou até mesmo os aspectos da escala, dialogando
com os conceitos de Proporcionalidade e / ou Sistema de
Medidas do componente de Matemática?

Esses avanços pedagógicos não só são possíveis, como


também são potentes, e é exatamente sobre isso que
refletiremos no nosso (In)Formação Pedagógica deste mês...
Buscando romper com a divisão hermética dos componentes,
o educador espanhol Jurjo Torres Santomé traz discussões
importantes para pensarmos em projetos interdisciplinares
dentro da sala de aula. Trataremos sobre as diferenças entre o
Inter, o Pluri, o Multi e o Transdisciplinar, além de
apresentarmos como esses conceitos são correlacionados
dentro das nossas coleções, o papel do educador frente a esses
processos e algumas dicas para uma melhoria de referenciais,
que poderão ser usadas nos planejamentos e em outra
vivências pedagógicas. Vamos juntos?
Atualmente, um dos grandes desafios da Educação é o de
pensar em estratégias e em soluções que viabilizem os
processos de aprendizagem. Quando pensamos em inovação,
no campo educacional, algumas abordagens pedagógicas,
como a de poder articular mais de um componente ao mesmo
tempo, despertam a nossa atenção, pois temos o intuito de
proporcionar experiências únicas para os estudantes.

Para que tal objetivo seja mais bem esclarecido, apresentamos


quatro definições de abordagens pedagógicas que convergem
e divergem em muitos sentidos: a multidisciplinar, a
pluridisciplinar, a interdisciplinar e a transdisciplinar.
Multidisciplinaridade
Sistema de um só nível e de objetivos múltiplos; nenhuma cooperação.

Modelo de Jantsch (1979)

A Multidisciplinaridade surge a partir da fragmentação


de um tema específico em mais de um componente
curricular simultaneamente, mas é caracterizada por
não propor reais interações entre os conteúdos e os
componentes abrangidos. O objetivo, aqui, é trabalhar o
tema com visões diferenciadas em cada componente
curricular, extinguindo o foco da articulação e dos
ganhos colaborativos, além de manter os métodos e as
teorias dentro de uma única perspectiva, cada uma
com a sua respectiva especificidade.
Pluridisciplinaridade
Sistema de um só nível e de objetivos múltiplos; cooperação sem
coordenação.

Modelo de Jantsch (1979)

A Pluridisciplinaridade é caracterizada como um


sistema de um só nível e de objetivos múltiplos, em que
ocorre a cooperação sem a coordenação. Nesse caso, há
uma troca entre os componentes curriculares, mas
apenas um deles se destaca, já que os outros servem de
apoio para o enriquecimento do primeiro. Ainda que o
trabalho não seja sistematizado, o objetivo é estudar o
tema de um dos componentes pelo ângulo de vários
outros. Assim, a conexão é estabelecida em prol de um
propósito maior, o qual, intrinsecamente, está ligado a
um componente curricular específico.
Interdisciplinaridade
Sistema de um só nível e de objetivos múltiplos; cooperação sem
coordenação.

Modelo de Jantsch (1979)

Interdisciplinaridade é um conceito que se refere ao


processo de ligação existente entre duas ou mais
disciplinas, a partir de algo que é comum entre elas.
Durante o processo, essas áreas trocam
conhecimentos e enriquecem, ainda mais, as
possibilidades. Como resultado, há um novo saber,
menos fragmentado e mais dinâmico.

Quer saber mais?


Transdisciplinaridade
Sistema de dois níveis e
de objetivos múltiplos;
coordenação com vistas a
uma finalidade comum
entre os sistemas.

Modelo de Jantsch (1979)

O termo Transdisciplinaridade foi citado inicialmente por


Jean Piaget, no I Seminário Internacional sobre Pluri e
Interdisciplinaridade, realizado na Universidade de Nice
(França), em 1970, quando ele propôs uma reflexão sobre o
tema. Mais tarde, em Arrábida (Portugal), no ano de 1994, a
UNESCO produziu a Carta da Transdisciplinaridade durante
o Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade. Esse
documento foi imprescindível para a definição do termo,
pois discorre sobre questões que motivam o exercício da
transdisciplinaridade e sobre as condições que caracterizam
a abordagem. Trata-se de um nível bem superior e complexo
de integração contínua e ininterrupta dos conhecimentos, o
qual conhecemos hoje. Neste caso, não há mais
componentes curriculares segmentados , e sim o propósito
da vida e do conhecimento como uma relação complexa
entre os diversos saberes, os quais, nessa perspectiva,
garantem a mesma importância. É um processo dialógico,
em que as relações entre os componentes não estão mais
em foco, já que não são mais importantes.
A interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade
não implicam a eliminação dos componentes
curriculares, uma vez que se preza pelo diálogo
entre eles, para que seja possível estabelecer
ligações de convergência, de complementaridade
e interconexões entre os saberes.
Interdisciplinaridade é o “intercâmbio mútuo e a
integração recíproca de várias ciências”, segundo
Piaget. O pensador suíço dizia, também, que a
interdisciplinaridade era um dos caminhos para se
alcançar a transdisciplinaridade — um estágio em
que não há fronteiras entre as disciplinas.
Ao propor um outro modo de construção do
conhecimento, em que há uma interação mais
direta entre professores e estudantes, cria-se um
espaço para a integração dos estudos com as
vivências dos estudantes e outras realidades a ser
pensadas. Dessa forma, a transdisciplinaridade
também colabora para uma aprendizagem mais
significativa pelo fato de colocar o aprendiz em
uma posição ativa, na qual ele exercita as próprias
ideias e opiniões, além das habilidades de
pesquisa e de comunicação.

Além disso, as estratégias interdisciplinares e


transdisciplinares favorecem o desenvolvimento
do trabalho colaborativo entre diferentes áreas do
conhecimento, propiciando o desenvolvimento de
habilidades ao considerar as especificidades e a
diversidade de sujeitos envolvidos no processo de
aprendizagem. Assim, o uso dessas estratégias
permite um maior acolhimento e a valorização
das especificidades dos estudantes, estimulando
os múltiplos interesses e as diversas habilidades
de cada um.
Interdisciplinar
Interação entre dois ou mais componentes. Ou seja,
quando estes componentes inter-relacionam seus
conteúdos para aprofundar em determinado campo do
conhecimento.

Transdisciplinar
Grau máximo de relações entre os componentes. Uma
visão mais global dentro de um todo. É uma abordagem
mais complexa, em que a divisão por componentes deixa
de existir.

Pluridisciplinar
Existência de relações complementares entre os
componentes mais ou menos semelhantes. Diz respeito ao
estudo do objeto de um componente por meio dos outros,
integrando o conhecimento.

Multidisciplinar
Organização mais tradicional de conteúdos. Acontece
quando um tema é abordado por diversas disciplinas, sem,
contudo, haver relação direta entre elas.
Esclarecendo os pontos:
qual é a abordagem da BNCC?
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) relaciona as aprendizagens
essenciais e orgânicas que todos os estudantes devem desenvolver ao
longo da Educação Básica. Nesse sentido, essas aprendizagens estão
abarcadas no desenvolvimento de habilidades e de competências que
dão o suporte para a construção dos currículos. Por conseguinte, os
currículos devem ser diversos, de modo a fomentar a evolução do
desenvolvimento cognitivo e a possibilitar o trabalho inter e
transdisciplinar.

A BNCC, portanto, designa aos sistemas de ensino e às comunidades


escolares a decisão sobre a “organização interdisciplinar dos
componentes curriculares” e o fortalecimento “da competência
pedagógica das equipes escolares para adotar estratégias mais
dinâmicas, interativas e colaborativas em relação à gestão do ensino e
da aprendizagem.” (Brasil, 2018).

A essa via, a BNCC preconiza, a partir do desenvolvimento de


habilidades e de competências, a elaboração de currículos integrados,
conectados e dialógicos. Assim, a perspectiva pedagógica é a de que
as áreas do conhecimento não sejam compartimentalizadas e
fragmentadas, e sim que ocorra uma interlocução entre os
componentes curriculares e a construção dos conhecimentos, de
forma interligada. Logo, é por esse viés que o conceito de
interdisciplinaridade dialoga com a BNCC e com as competências
gerais de aprendizagem ao longo do percurso escolar. Ou seja, a visão
interdisciplinar permite entender a realidade, investigar, levantar
hipóteses, defender ideias (com respeito a si e ao outro) e
contextualizar a aprendizagem com as necessidades e com os
interesses dos estudantes, favorecendo a tomada de decisões
pautadas na ética.
Além disso, as próprias competências gerais da BNCC já são, por si só,
direcionadoras de uma necessidade de interlocução entre as diversas
habilidades. Assim, as habilidades, mesmo que estejam atreladas a um
determinado conteúdo, são fundamentais para a construção de um
currículo integrador, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio.

Isso posto, para a Educação Infantil, por exemplo, temos as habilidades


organizadas por campos de experiências. No Ensino Fundamental, elas
são organizadas em unidades temáticas e em objetos de
conhecimento. Já no Ensino Médio, as habilidades são relacionadas a
competências específicas por áreas do conhecimento. Essa disposição
e esse arranjo permitem a integração curricular dos diversos
componentes curriculares.

1. Conhecimento. 10. Responsabilidade e


cidadania.
2. Pensamento científico, 9. Empatia e cooperação.
crítico e criativo. Social

3. Repertório cultural. Intelectual Afetivo 8. Autoconhecimento e


autocuidado.

4. Comunicação.
Simbólico Físico 7. Argumentação.

5. Cultura digital. 6. Trabalho e projeto


de vida.
E o papel do professor?

O professor não conecta apenas o estudante aos


conhecimentos acadêmicos da própria área do conhecimento.
Ele é responsável, também, por incentivar os estudantes a
relacionar as diversas áreas e a criar pontes onde foram criadas
divisões (justificáveis, claro, mas não definitivas).

Sabemos que a forma escolar é, ainda hoje, influenciada por


pensadores do contexto da Reforma Protestante e da
Contrarreforma Católica (XVI-XVII), momento em que diversos
escritores buscaram estruturar a escola e pensá-la para todos.
Nesse contexto, temos pensadores como Comenius e
Descartes, que influenciaram a estrutura que temos hoje
relacionada à divisão de anos / séries, bem como a organização
do estudo fragmentado em partes representadas por
componentes curriculares, as quais foram pensadas com o
intuito de respeitar as fases de desenvolvimento dos
estudantes e de facilitar o ensino e a aprendizagem.
Esses modelos, contudo, não
ignoravam a interligação entre
anos / séries e áreas do
conhecimento, reconhecendo
neles a representação do todo
evidenciado pelas escolhas
curriculares que embasaram a
trajetória escolar das crianças e
dos jovens até a fase adulta.

Em virtude dessa forma escolar


consolidada, o professor tem o
importante papel de ultrapassar o
próprio campo do conhecimento,
buscando conexões com as
demais áreas e criando
oportunidades de atividades e de
projetos que possam fornecer aos
estudantes a compreensão da
realidade de forma inter, pluri,
multi ou transdisciplinar. Essa
divisão nos permite, dessa forma,
compreender de maneira
processual e didática, os objetos
do conhecimento, enxergando-os
como pertencentes à experiência
humana, como uma única
realidade, com múltiplas
possibilidades de interpretação.
Projetos interdisciplinares dentro
da Coleção
A arquitetura pedagógica da Coleção Bernoulli, da Educação
Infantil ao Ensino Médio, permite o trabalho com projetos
interdisciplinares e busca dialogar com as necessidades e com a
vida do estudante, garantindo a ampliação da compreensão dele
de mundo, por meio de textos contextualizados, significativos e
interessantes, de recursos visuais claros e atrativos, além de
propostas de atividades desafiadoras. As seções organizam as
intencionalidades pedagógicas, sendo representadas por ícones
no livro do estudante e pela descrição dos objetivos de
aprendizagem propostos em cada uma delas no manual do
professor. Além disso, elas podem possibilitar a articulação entre
as diversas áreas do conhecimento, contribuindo para o processo
de aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades cognitivas e
socioemocionais dos estudantes.

Os conhecimentos acadêmicos são articulados com os saberes e


com os potenciais educativos do contexto, permitindo que, dentro
e fora dos muros da escola, os estudantes experimentem
aprendizagens situadas em comunidades de prática, de
construção, de conhecimento e de cultura, ou seja, grupos de
aprendizagem em que todos se sintam confiantes para colaborar,
errar, expressar-se e criar conhecimentos juntos.

No entanto, o trabalho interdisciplinar e entre os componentes


não deve ser visto como uma superação dos componentes
curriculares, e sim conforme propõe Follari (1995), como uma
etapa superior dos componentes, a qual se constitui como um
recorte mais amplo do conhecimento em uma determinada área.
Esse recorte tem o objetivo de possibilitar o aprofundamento do
estudo, uma vez que é uma pauta metodológica legítima e
necessária, porém demonstra-se insuficiente para garantir a
formação integral dos indivíduos. Sabendo disso, fica o
questionamento: o que é preciso, então, para colocar esse trabalho
em prática?
Abaixo, apresentamos alguns exemplos
retirados das nossas soluções
pedagógicas da Educação Infantil ao
Ensino Médio.

ENSINO
EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL
INFANTIL ANOS
INICIAS

ENSINO
FUNDAMENTAL ENSINO
ANOS MÉDIO
FINAIS
SELECIONAMOS ALGUNS CONTEÚDOS QUE CONTRIBUIRÃO
PARA ENRIQUECER AINDA MAIS SEUS CONHECIMENTOS

Para ampliar a análise acadêmica sobre a


Interdisciplinaridade, sugerimos o e-book de
mesmo título, elaborado pelo Grupo de
Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade
LEIA
(GEPI), da PUC-SP.
LEIA
Leia na íntegra

Livro: Interdisciplinaridade e
Transdisciplinaridade

Por meio de diferentes olhares,


os autores fomentam uma
reflexão sobre as definições de
Interdisciplinaridade e de
Transdisciplinaridade. Além
disso, é apresentada uma
percepção sobre a presença
dessas abordagens nos projetos
LEIA político-pedagógicos das
instituições educativas e nos
fundamentos filosóficos -
antropológicos, gnosiológicos,
teleológicos e metodológicos -
da prática educativa.
O artigo apresenta os termos Interdisciplinar
e Transdisciplinar de forma sócio-histórica,
partindo dos múltiplos sentidos que os
envolve. São apresentados alguns
LEIA pesquisadores do tema e os aspectos
contidos na diversidade cultural que
envolvem definições múltiplas, conceitos
LEIA variados e resultados diversos, quando se
trata da formação de professores.

Leia na íntegra

Multidisciplinaridade, Pluridisciplinaridade,
Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade:
o que seria cada um deles? Vamos sanar essa
dúvida para usar com mais propriedade cada
ASSISTA um desses termos?

ASSISTA ASSISTA
FIQUE DE
FIQUE DE olho
Okho

Vamos falar sobre interdisciplinaridade a partir da experiência de


professores de diferentes estados? Venha fazer esse giro e registre
as preciosas dicas presentes neste vídeo!

Assista na íntegra
Na Plataforma Meu Bernoulli, temos o Banco de Projetos da Educação
Infantil, com projetos que envolvem experiências para crianças de 0 a 5
anos. Entendemos que o trabalho deve estar pautado na interação e nas
brincadeiras. Portanto, sugerimos a metodologia de projeto para
propiciar o desenvolvimento da capacidade criativa, curiosa e
comunicativa das crianças. Trabalhar com projetos é dar voz e ouvir o
que as crianças questionam, o que pensam e como elas constroem o
processo de aprendizagem. Para acessar os projetos, a equipe gestora
(diretor/mantenedor/coordenador) deverá entrar no Bdrive, acessar
“Arquivo” e digitar “Banco de Projetos”, no campo “Pasta”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA FILHO, Naomar de. Transdisciplinaridade e saúde


coletiva. Ciência & saúde coletiva, v. 2, p. 5-20, 1997.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum


Curricular. Brasília, 2018.

FAZENDA, Ivani Catarina. Integração e interdisciplinaridade no


ensino brasileiro: efetividade ou ideologia. São Paulo: Loyola,
1979.

JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e Patologia do saber.


Rio de Janeiro: Imago, 1976.

MORIN, Edgar. Educação e complexidade, os sete saberes e


outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2005. Ensaios. São Paulo:
Cortez, 2005.

Sabedoria Política. Interdisciplinaridade e


Transdisciplinaridade. Disponível em:
<https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/interdisciplina
ridade-e-transdisciplinaridade/>. Acesso em: 28 out. 2021.

Secretaria da Educação Fundamental. Brasília, 2017. Disponível


em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/>. Acesso em: 28
out. 2021.
Qual o maior desafio encontrado para
a integração curricular?

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