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REGIONALIZAÇÃO: FATO E FERRAMENTA *

Ana Clara Torres Ribeiro

Ajustando lentes
Inicialmente procuramos definir ângulos de leitura do seminário
que contemplassem o fenômeno – a regionalização – e as diferentes
formas assumidas por seu questionamento durante o evento. Por
outro lado, também buscamos esclarecer diretrizes analíticas da
síntese aqui apresentada. Tais diretrizes encontraram abrigo na
diferença entre a regionalização como fato, que independe da ação
hegemônica do presente, e a regionalização como ferramenta desta
ação na atual conjuntura. Convém esclarecer, ainda, que
entendemos por ação hegemônica aquela conduzida pelas forças
econômicas e políticas que dominam o território brasileiro,
expressivas da aliança entre agentes externos e internos e condutora
de numerosas e difusas ações subalternas ou subalternizadas. Na
contra-face dos desígnios da ação hegemônica, temos tanto as
formas de resistência, por vezes em confronto apenas com agentes
secundários, como dinâmicas sociais que escapam aos mecanismos
de controle que garantem a expansão da territorialidade dominante.

A regionalização como fato


O estudo da regionalização como fato, expressiva da gênese e
da estruturação de regiões, depende da reconstrução histórica dos
múltiplos processos que movimentaram e limitaram a ação
hegemônica, como tão exemplarmente demonstrado por Francisco
de Oliveira em Elegia para uma re(li)gião: Sudene, Nordeste,
planejamento e conflito de classes. É exigida, neste estudo, a

* Agradecemos a Ester Limonad a atenta leitura das primeiras anotações deste texto e as
valiosas contribuições recebidas para a sua revisão.

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consideração do dinamismo econômico e das relações de classe na


sociedade brasileira, assim como da evolução histórica do aparelho
de governo. Trata-se da reflexão simultânea da estrutura espacial
e da dinâmica sócio-econômica e político-jurídica da formação social
brasileira. As práticas sociais, afinal, dependem das circunstâncias
e das condições (materiais e imateriais) que enfrentam. Da mesma
forma, estas práticas encontram limites associados à dinâmica da
totalidade, em contínua e instável configuração. São os limites,
intrinsecamente relacionados à técnica, que constroem fronteiras e
que informam sobre a natureza dos projetos que conduziram a ação
hegemônica, em seu confronto com outras ações: dos agentes que
disputaram seus conteúdos ou aquelas que, tantas vezes apenas
na escala do cotidiano, opuseram-se à sua (desejada ilimitada)
afirmação.
Desta maneira, a regionalização como fato encontra-se vinculada
aos jogos dinâmicos da disputa de poder, inscritos nas diferentes
formas de apropriação (construção e uso) do território. A pesquisa
desta regionalização, que depende de articulações espaço-temporais
de longo curso, exige, como tantas vezes defendido por Milton
Santos, o apoio metodológico da periodização (Cf Santos e Silveira,
2001; Ribeiro, 2001). Este apoio é indispensável à própria
compreensão de sentidos da ação: hegemônica e de resistência e/
ou autônoma. Aliás, a periodização ao mesmo tempo precede e
resulta da interpretação de fatos. Ilumina, portanto, a decantação
histórica das condições que possibilitam dizer da existência de
homogeneidades nas relações sociais de (re)produção e na
hierarquia político-espacial da sociedade brasileira.
É a longa sedimentação de processos que emerge, por exemplo,
na idéia de civilização associada a determinadas produções, como
demonstram a civilização do açúcar na obra de Gilberto Freyre (1937;
1946) e a civilização do milho no trabalho clássico de Antonio
Cândido, Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira e a
transformação dos seus meios de vida. Neste estudo, aliás, são
belamente reconstruídas e analisadas tanto a resistência das práticas
tradicionais como a transformação que ameaça estas práticas. A
tensão entre conservação e mudança / modernização manifesta-se
na dissolução dos elementos culturais de modos de vida autônomos,
pela intervenção dos elementos, desigualmente atuantes na área
estudada, da forma dominante (urbano-industrial). Portanto, a
análise de região correlata à regionalização como fato mobiliza
interpretações que tocam, profundamente, as condições
historicamente construídas da reprodução social. Com esta
afirmação, desejamos, somente, valorizar remetimentos mais

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amplos, culturais e históricos, da questão regional, sem que


esqueçamos que a regionalização como ferramenta sempre
sustentou a ação hegemônica. Como compreender de outra maneira
a cartografia da colonização?

Regionalização como ferramenta


No livro antes citado, Francisco de Oliveira demonstra os elos
existentes entre a regionalização como fato e a regionalização como
ferramenta, quando esta última assume a forma-conteúdo,
historicamente determinada, do planejamento conduzido pelo
Estado. Ambas regionalizações produzem e expressam a questão
regional e, portanto, a região como espaço herdado e como dinâmica
política plena. Aliás, após a rica contribuição de Pierre Bourdieu
(1989) à reflexão das regiões, sabemos que a própria
homogeneidade relativa, que caracteriza a unidade analítica e prática
da região, resulta de simplificações e reduções estratégicas,
relacionadas à arregimentação de forças sociais e a táticas
discursivas: lutas por poder e prestígio, influências científicas e
difusão desigual do conhecimento técnico. A regionalização, como
fato e como ferramenta, envolve ideologia e recursos político-
administrativos.
Levantamos, neste texto, a possibilidade de que as duas faces
da questão regional – a construída pela regionalização como fato e
a que expressa a regionalização como ferramenta – são, em geral,
desigualmente valorizadas pelos campos disciplinares e correntes
de pensamento que constróem, atualmente, a problemática do
território. É esta desigualdade que explica, ao nosso ver, os diferentes
registros discursivos do seminário. Não se trata, apenas, de recortes
temáticos mas, também, de escolhas analíticas e opções teóricas,
como exemplificam os trabalhos que manifestam influências da
geoeconomia, da geografia cultural ou da antropogeografia.
Evidentemente, não se trata, aqui, de um exercício de classificação
de textos / autores mas, de observar tendências que possam ser
úteis à reflexão crítica do presente.
A difusão do denominado, por Milton Santos (1994), meio técnico-
científico informacional e as recentes transformações na produção
e na organização dos mercados, dependentes deste meio,
expressam a presentificação (Santos, 1996), cada vez mais
impositiva, tecnicamente informada e onipresente. Rompem-se as
seguras fronteiras disciplinares e as barreiras espaço-temporais que
protegiam os ritmos da regionalização como fato, sugerindo que o
desenho do seminário correspondeu a uma correta opção. Como

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preservar em escaninhos seguros, por exemplo, a geopolítica e a


antropogeografia? Numa conjuntura marcada pela transformação
da eficácia em meta política; pela mutação da cultura em
mercadoria; pela imposição do agir instrumental e estratégico e
pelo desvendamento contínuo de contextos de inovação, a
regionalização como ferramenta adquire extraordinário destaque,
o que explica a sua utilização pelos agentes econômicos
hegemônicos, desestabilizando a estrutura espacial do país.
Porém, a relevância da regionalização como ferramenta depende
do conhecimento da regionalização como fato, já que desta advém
recursos essenciais tanto à vida como ao lucro. Dela, também
dependem as resistências sociais à ação hegemônica, o que traz a
obrigação do enfrentamento do enigma da regionalização
democrática, ou seja, da socialização do direito de estabelecer
fronteiras e divisões. Nesta direção, a geografia, aberta ao diálogo
com outras ciências sociais, encontra-se convidada, como
demonstrado no seminário, a rever algumas das suas heranças e,
ainda, a contribuir nas articulações socialmente justas da
regionalização como fato com a regionalização como ferramenta.
É nesta direção que podemos reler, por exemplo, o livro de Bertha
Becker Geopolítica da Amazônia: a nova fronteira de recursos,
predominantemente dedicado ao estudo dos atores políticos e
agentes econômicos capazes de construir estrategicamente o
território adequado à realização dos seus desígnios. Trata-se de
uma obra dedicada à análise da regionalização como ferramenta e,
em consonância com a época em que foi elaborada, de uma
ferramenta retida em mãos do Estado. Já no trabalho desta
coletânea, a autora registra transformações na questão regional,
trazidas pela resistência social, pelo esgotamento do nacional
desenvolvimentismo e pela pressão ambientalista internacional e
nacional.
Nos movimentos do presente, a região como ferramenta é
disputada pelo Estado, pelas corporações e pelos movimentos
sociais, sendo também contestada nos conflitos territoriais,
relacionados à afirmação, em diferentes escalas, de novos sujeitos
e redes sociais, o que pode ser melhor apreendido em áreas de
fronteira. Nestas áreas, a complexidade assume, por vezes, a
fisionomia da questão ambiental e, como demonstra José de Souza
Martins em Fronteira: a degradação do Outro nos confins do humano,
as dimensões profundas das lutas interétnicas e entre tempos
históricos. Nos confrontos entre as denominadas frente de expansão
e frente pioneira, este autor reconhece os custos sociais da expansão
do capitalismo no país e a destruição de tradicionais modos de vida.

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Nesta obra, José de Souza Martins constrói sintonias com os


dominados e excluídos e também denuncia a destruição do Outro.
Ao citar os trabalhos de Bertha Becker e José de Souza Martins,
pretendemos recordar tensões discursivas, opções temáticas e
desafios analíticos que foram tratados, citados ou tangenciados
nos trabalhos debatidos durante o seminário. Afinal, a intenção
propositiva do evento encontra-se exposta em seu título, o que
possibilita a formulação das seguintes perguntas: Qual é a nova
regionalização desejável? Quem a defenderá? Na busca de
tratamento para estas perguntas, julgamos pertinente aproximar-
nos, da forma mais detalhada possível, dos trabalhos debatidos.

O fenômeno da regionalização
A noção de regionalização é nitidamente polissêmica. O termo
refere-se, mais do que à efetiva existência de regiões, à capacidade
de produzí-las, o que inclui o acionamento de ideologia, com apoio,
por exemplo, em dados da paisagem, valores culturais
compartilhados ou critérios político-científicos que legitimem
fronteiras e limites. O reconhecimento de regiões fundamenta-se,
como afirmado por Pierre Bourdieu (op cit), na naturalização de
relações sociais, baseada em processos que ocultam diferenças e
interesses. Atualmente, talvez seja justo dizer que a acirrada disputa
entre agentes da regionalização dificulta a, até recentemente, segura
preservação deste ocultamento. Emergem assim perguntas do tipo:
Para que regionalizar? Indagação realizada por Ester Limonad** na
abertura do seminário, a partir da história do planejamento. Esta
pergunta também surge na contribuição de Cláudio Egler, quando
valoriza as dimensões institucionais da questão regional.
É necessário salientar que a estratégica conjugação entre
regionalização como fato e regionalização como ferramenta, trazida
pela presentificação, envolve as seguintes mudanças, identificadas
no seminário:
1. aumento da reflexividade e da influência da ação
instrumental na formulação da questão regional, o que traz,
como assinala Egler, mudanças significativas nos arranjos
institucionais responsáveis pela regionalização;
2. intensificação dos vínculos entre território, economia e
política, conforme propõe Rogério Haesbaert ao ressaltar
as diferentes modalidades de territorialização da ação social.

** Na primeira citação dos autores, serão apresentados nomes completos e, a seguir,


apenas o último sobrenome.

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Com estes elementos, podemos dizer que, realmente, a


problemática da regionalização possui duas faces, instavelmente
conectadas. Na primeira, regionalizam-se atores, interesses e
instituições e, na segunda, atores, interesses e instituições
reconhecem, valorizam e formalizam regiões. O reconhecimento
destas faces, mutuamente condicionadas, estimula o retorno à
tradicional (e angustiante) questão: o que é, afinal, uma região?
Qual é a mais útil e correta definição de região? Estas perguntas
assombraram geógrafos, planejadores e outros cientistas sociais
até o momento de sua secundarização nos estudos do território. O
que explica esta secundarização? Um caminho de resposta a esta
indagação é oferecido pela própria escolha temática do seminário:
não mais a região e, sim, a regionalização. O que significa esta
troca temática?
É impossível, nos limites deste texto, ensaiar a resposta a essa
última pergunta. Podemos, no entanto, elencar alguns processos
que talvez ajudem a refletir a alteração temática registrada. São
eles: (1) – o atual predomínio do pensamento estratégico, do qual
o chamado planejamento estratégico é uma das manifestações mais
instrumentais; (2) – o nível de desnaturalização alcançado na
questão regional, cujas causas encontram-se em mudanças na ação
hegemônica e nas reivindicações sociais que visam o resgate de
identidades culturais desvalorizadas pela modernização; (3) – a crise
do planejamento territorial implementado pelo Estado, em
decorrência da globalização da economia, da reestruturação
produtiva e da disputa da ação planejadora por grandes agentes
econômicos e agências multilaterais de desenvolvimento; (4) – os
avanços na técnico-ciência, que modificam a identificação de
recursos e conteúdos da inovação.
Podemos dizer, com base nos processos citados, que a região
expressa a área formada pela articulação entre verticalidade (ordens,
comandos) e horizontalidade (cooperação, conflitos locais, cotidiano)
(Santos, 1996); entre fluxos e estrutura sócio-espacial; entre
identidade / homogeneidade e a identificação, pela consciência
social, do que é diferente ou oposto. A região corresponde ao extenso
de uma forma social (Santos, 1986), ao corpo de relações sociedade-
natureza, incluindo: organização social, cultura e decisão política.
Nesta direção, Roberto Monte-Mór contribui, para a compreensão
atualizada da região, ao tratar a forma sócio-espacial e articular
rede urbana e região na Amazônia.
Devemos acrescentar que os termos organização, cultura e
política precisam ser acompanhados de complementos que
explicitem conteúdos societários da própria região e, portanto, dos

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atos que a originam: empresarial, popular, étnica, progressista,


regressiva, oligárquica, administrativa. A região converte-se, assim,
em uma expressão espacial dos interesses e das práticas de distintos
agentes e, também, da influência exercida por diferentes esferas
da vida coletiva. Com esta definição (provisória) de região, cabe
indagar: o que é regionalizar? Quais são os atos que permitem a
regionalização progressista? Quais são as regionalizações que devem
ser recusadas, por serem portadoras de destruição de modos de
vida e do acesso a recursos indispensáveis à reprodução social?
Em resposta a estas últimas perguntas, parece-nos possível
adiantar, mesmo que a grosso modo, que o ato regionalizador
compreende a institucionalização de fronteiras e limites, com vistas
à implementação de uma determinada ação: analítica, política,
econômica, enfim social. Trata-se da definição do cenário, do
contexto e da escala correspondentes aos objetivos da ação,
implementada ou pretendida. Regionalizar envolve: espaço – tempo
- ação social e, portanto, sujeitos e conflitos sociais.
O reconhecimento do tempo é, sem dúvida, indispensável à
compreensão da ação, como antes dito com relação à periodização.
Em defesa do tempo e do compromisso com a indissociabilidade
entre forma e conteúdo, temos a contribuição de Monte-Mór, que
destaca, no estudo da região, a heterogeneidade multi-temporal e
as combinações sócio-espaço-temporais. Quase em consonância
com este autor, Sandra Lencioni alerta-nos para os diferentes tempos
nos lugares. Haesbaert, por sua vez, relaciona espaço-
temporalmente presença–presente (presença aqui-espacial;
presença agora-temporal), abordando o diálogo entre a
cogniscibilidade do espaço e do tempo e ressaltando os ritmos
territoriais. Na referência à relação espaço-tempo-ação social, o
cotidiano foi valorizado por Jorge Barbosa; a relação entre território
e movimento foi reconhecida por Ivaldo Lima e a relação espacial
entre dinamismo e estagnação foi tratada por Limonad.
De fato, regionalizar pressupõe poder, de duas naturezas
distintas: em primeiro lugar, o poder de criar e estabelecer formas
espaciais. E, em segundo lugar, o poder de institucionalizar (e
garantir permanência a) estas formas. Enquadram-se, aí, tanto a
própria construção da região, como apresenta Egler, quanto as
diferentes regionalizações que permitem a sua consolidação, como
assinala Limonad.
Mas, o que é poder? Max Weber (1997) propõe, como uma das
dimensões essenciais do poder, aquela que corresponde ao poder
de dispor (de terras, funcionários, técnicas, recursos de

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convencimento, armas). Com esta orientação, seria possível indagar:


Quem detém o poder de dispor? Como se manifesta, cultural e
juridicamente, este poder? A partir de Marx (1968), por sua vez,
torna-se possível realizar a decomposição analítica do poder:
econômico, político, religioso, militar, administrativo, cultural, social.
Esta decomposição, correspondente à dinâmica histórico-concreta
das classes sociais, orienta a análise de conjuntura que, por sua
vez, permite apreender sentidos da ação. Desta orientação, surgem
novas perguntas: Qual tipo de poder sustenta qual regionalização,
ou melhor, quais normas de partição? Como a luta de classes
inscreve-se na regionalização?
Lembramos que o exercício do poder, em todos os momentos da
vida coletiva, pressupõe a espacialização de processos, de ações:
da reprodução da família à reprodução da totalidade social. A
interpretação das dinâmicas sócio-espaciais, da questão regional e
das regionalizações exige análise da natureza do poder envolvido
nos atos da regionalização, o que traz à tona a necessidade de
resgatar o debate sobre o papel do Estado, como afirma Becker.
Em contraste com momentos anteriores da questão regional,
manifestam-se, atualmente, as seguintes tendências:
· a sua radical desnaturalização – as regionalizações conduzidas
pelas características topológicas, topográficas e fisiográficas
cederam lugar àquelas relacionadas ao monitoramento da ação
do homem;
· a sua renaturalização – a absorção da questão ambiental nos
processos de regionalização implica, por vezes, na construção
de consensos alimentados pela citação de determinantes
naturalizados da vida social;
· a sua tecnificação – à medida em que ganham importância as
redes materiais e imateriais – como assinalam Leila Dias, Lencioni,
Limonad, Egler e Monte-Mór–, os atos regionalizadores
alimentam-se do acesso à informação excepcional;
· a sua instrumentalização – a regionalização tem sido utilizada
de forma crescentemente precisa em processos estratégicos de
tomada de decisão, o que informa sobre a sua relevância na
ação instrumental.
· a sua exatidão – relacionada à desnaturalização da questão
regional, a exatidão significa a tecnificação do próprio ato
regionalizador, o que modifica sentidos políticos da região e,
também, a interação entre discurso técnico e senso comum.
· a sua matematização (logística) – a região surge, também, como
sistema de movimento (Dias). Devemos ressaltar, neste ponto,

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as possibilidades de controle dos fluxos oferecidas pela


informática.
Os vínculos entre regionalização e ação estratégica possuem
distintos significados para diferentes atores sociais, conforme
explicitado a seguir.
Para o Estado, a regionalização guarda os seguintes sentidos
fundamentais: (a) - a determinação da qualidade da relação mantida
com agentes econômicos, incluindo as apropriações estratégicas
de recursos territorializados e as articulações com forças políticas
com capacidade de formular a questão regional (Becker); (b) – a
determinação da relação com a sociedade, sobretudo no que
concerne à distribuição espacial de investimentos, a prestação de
serviços e a busca de legitimidade no exercício do poder, como
estuda a geografia eleitoral (Cf Souza et al, 2002); e (c) – a
determinação da relação com os atores sociais e forças políticas, o
que inclui pactos associativos que sustentam o alargamento de
fronteiras (ex: Mercosul) (Becker).
Para as grandes corporações, a regionalização representa: (a) -
a garantia de acesso excepcional a recursos raros; (b) – a
possibilidade de influenciar a atuação de governos; (c) − a criação
de complementaridades indispensáveis à produção; (d) − o controle
territorial que assegura investimentos e lucratividade, reduzindo a
incerteza característica do mercado globalizado; (e) − o alcance de
condições (únicas) de produção, mediante o uso monopolista do
território. Por fim, para a ação empresarial em geral, a regionalização
significa: criação de nichos de mercado e possibilidade de determina-
ção de regras para a organização do trabalho e do consumo.
Já para os atores sociais, a regionalização representa
simultaneamente: (a) – uma indispensável informação nas relações
sócio-espaciais diárias, na medida em que atos cotidianos reiteram
(ou questionam) a configuração espacial dos lugares. Deste ângulo,
a regionalização envolve a problemática do espaço vivido (Cf Ribeil,
s/d); (b) − um roteiro para a contínua (re)construção da memória,
incluindo a influência exercida pelo imaginário social e os desafios
de sua transgressão e (c) − uma condição estratégica na resistência
à forma social dominante, na construção de alianças políticas e em
lutas por recursos territorializados.
De fato, as atuais características do ato regionalizador podem
ser associadas aos impulsos da hiper-modernidade, o que impõe a
valorização analítica dos elos entre regionalização e racionalização
das relações sociais. Por outro lado, a regionalização, no atual período
histórico, envolve a permanente disputa, entre atores sociais e
agentes econômicos, por recursos que permitam garantir a

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preservação das fronteiras desejadas. Desta luta, resulta a


redefinição das arenas e dos atores da regionalização, na medida
em que crescem os confrontos entre atos regionalizadores e não
apenas entre regiões (Said, 2003).
Conforme antes afirmado com base em José de Souza Martins
(op. cit.), agudizam-se os conflitos entre diferentes experiências
espaço-temporais, ou seja, entre territorialidades. Neste sentido,
acrescentamos que a regionalização da hiper-modernidade convive
com os espaços herdados de sucessivas modernizações e da pré-
modernidade e, assim, com questões regionais preservadas pela
memória política. Este convívio significa o confronto entre
racionalidades de diferentes idades, como demonstram as
territorialidades indígena e quilombola, em geral omitidas no debate
político do pacto federativo. Becker oferece outro exemplo do
confronto entre racionalidades ao citar a água, um recurso cuja
disputa tem sido agudizada. De fato, a hiper-modernidade, portadora
da racionalização extrema da vida, também faz emergir, com sua
radicalidade, a lembrança de antigos caminhos da resistência; a
presentificação de passados ocultos e o resgate estratégico de
memórias ancestrais.

Identificando questões e resultados


Sem dúvida, os trabalhos apresentados estimulam a renovação
da análise espacial. A observação dos elos entre temas e opções
analíticas sugere alguns parâmetros que articulam dois ou mais
textos. Apresentamos estes parâmetros a seguir, preferindo citá-
los, por sua natureza metodológica, na forma de grandes perguntas:

I. Por que os estudiosos do espaço resistem à exclusiva orientação da hiper-


modernidade?
A resistência à hiper-modernidade, ao avanço do capitalismo
globalizado, expressa compromissos com o conhecimento do
território e a valorização do espaço banal, especialmente relevante
para a ação não-hegemônica (Santos, 2000). Estes compromissos
envolvem o reconhecimento do complexo, assim como a oposição
às forças econômicas que buscam o alisamento dos lugares, a
desapropriação de bagagens culturais e a redução de diferenças
identitárias.
Trata-se da resistência à matematização do mundo, encontrada
em tantas partições do território conduzidas por exclusiva ênfase
na economia. É contra as partições que omitem a sociedade que
precisam ser valorizados a circulação e o intercâmbio. Porém, não

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basta realizar o exame dos fluxos. É necessário, também, considerar


as rugosidades (Santos, 1996), o peso especifico das práticas sociais
e a totalidade dos elementos que asseguram a reprodução da vida.
Dias contribui neste sentido ao relacionar a lógica dos territórios à
lógica das redes: rodoviária, bancária, financeira, de
telecomunicação. Também Monte-Mór chama a atenção para a
relevância da análise da modernidade no Brasil, que comporta
múltiplas (re)criações de práticas tradicionais.

II. Por que a análise espacial exige a análise do poder?


A compreensão do poder inclui a reflexão, como tantos já
afirmaram, dos micro-poderes e, ainda, dos instrumentos e
mecanismos que definem, de forma instável, os limites (que são
sistêmicos) da totalidade social. Nas prática de poder, encontram-
se elementos imprescindíveis à análise da ação e ao estudo de homo-
geneidades parciais que apóiam a formulação da questão regional.
Há que ser considerado, em acréscimo, que o conhecimento just in
time do território adquire crescente relevância nas formas
contemporâneas de exercício do poder. Não se trata apenas de
conhecimento, mas, sobretudo, de fatores da ação estratégica. Os
instrumentos do poder e as resistências sociais dependem,
incisivamente, de domínio das características únicas dos lugares e
de sua articulação a processos transescalares (Vainer, 2001).
Estes elementos aparecem no trabalho de Dias, quando chama
a atenção para o papel do Estado na afirmação da burguesia e na
configuração da sociedade de classes no Brasil. Com especial ênfase,
a questão do poder também surge na contribuição de Haesbaert,
quando trata os fluxos e a compressão espaço-tempo. Este autor
chama a atenção para os custos sociais do desencaixe espaço-
temporal, que corresponde à difusão de um emaranhado de
geometrias do poder. Estes processos geram desigualdade e
exclusão; complexidade crescente da mobilidade social e espacial e
configurações regionais que reproduzem relações de poder
profundamente desiguais.

III. Por que a reflexão do espaço envolve o enfrentamento da problemática


da escala?
Em primeiro lugar, reconhecemos que as práticas sociais criam
e expressam escalas. Em segundo, reportando-nos ao antes
exposto, enfatizamos que o poder manifesta-se através de escalas
e, também, da sua articulação ou transpasse (Vainer, op cit). As
concretas condições das lutas por hegemonia surgem em alianças

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que são simultaneamente escalares e de classe. Afinal, apenas o


acesso a diferentes escalas de poder viabiliza ações que corroem
outras hegemonias, enfraquecendo atores políticos e destruindo
agentes econômicos. Enfim, a pesquisa da regionalização evidencia
a importância da escala como método e como instrumento de poder.
Nesta direção, para Dias, a análise da fragilização de regiões
históricas depende da identificação de forças econômicas e políticas
e do reconhecimento dos seus interesses em diferentes escalas.
Lencioni, por sua vez, enfatiza a relevância da escala na construção
de conceitos (espaços metropolizados e espaços não-
metropolizados). A escala ainda aparece nos textos: de Limonad,
como necessária para ao estudo da divisão internacional do trabalho;
Haesbaert, associada à experiência multirregional e Barbosa,
quando questiona a efetiva configuração da escala mundial.
A problemática da escala comparece em quase todos os trabalhos
desta coletânea. Esta presença indica que a regionalização impõe a
sua observação e/ou proposição em diferentes escalas, como afirma
Antonio Carlos Galvão, e, como indica Lima, a análise da articulação
das escalas local e regional, à medida que não é impossível tratar o
local sem relacioná-lo a outras escalas e nem refletir o regional sem
observação de especificidades locais. São estas características do
presente que exigem, para Limonad, a percepção da complexidade
das interações sócio-espaciais. Resultam das interações entre local
e regional, novas escalas territoriais de poder, como demonstram
as referências realizadas por Lima e Barbosa às associações (inter)
municipais, ao supra-local e às escalas insurgentes.

IV. Por que a análise do espaço incorpora a problemática das fronteiras?


Na observação do fenômeno da regionalização, é necessário
valorizar, de início, o movimento das fronteiras; a movimentação
nas fronteiras e a sua seletiva porosidade. Em segundo lugar, surge
a necessidade de reflexão da natureza das fronteiras e do seu
desenho como barreira econômica, jurídica, política, cultural e social.
Dias, nesta direção, esclarece vínculos entre a relativização das
fronteiras − sua desregulação e fluidez − e as redes sócio-técnicas,
demonstrando ser impossível refletir o movimento da totalidade
sem análise dos deslocamentos das fronteiras regionais. É este
deslocamento que conduz à transformação escalar das regiões.
Finalmente, há que considerar mudanças, em curso, na própria
natureza das fronteiras. Ou seja, as fronteiras, conforme Haesbaert,
tornam-se mais complexas, ganhando novas configurações, e, como
diz Barbosa, adquirem novas qualidades. Becker e Lima também

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registram a (re)construção do espaço de fronteira e sugerem a


existência de limites na contínua expansão da fronteira no país.

V. Por que o estudo do território exige a análise da ação social?


A região e a regionalização aparecem, historicamente, como
mediação e meio para a proposição e implementação da ação social.
Como afirma Limonad, a delimitação de regiões obedece a injunções
políticas, o que impede pretensões de neutralidade no ato
regionalizador, em qualquer escala. Este ato, tantas vezes
apresentado como somente técnico, decorre de uma ampla gama
de ações e agentes, usualmente pouco (re)conhecidos.
Conforme Dias, o ato regionalizador corresponde a intuitos de
mudança escalar da ação; à construção de novas unidades de ação
e a alianças entre atores. Quanto aos agentes envolvidos na nova
regionalização, são destacadas, nos trabalhos aqui reunidos, as
intervenções do Estado; a atuação de empresas e instituições (Dias);
a ação dos oligopólios (Lencioni) e a presença dos agentes da
compressão espaço-tempo (Haesbaert). Galvão acrescenta, no
estudo da ação, outras escalas de poder, como a representada pelos
estados, afirmando a necessidade de forte articulação dos entes da
federação frente aos desafios do desenvolvimento. Nesta direção,
enfatiza, como também faz Becker, diferenças entre a nova Política
Nacional de Desenvolvimento Regional, do governo federal, e as
anteriores concepções de desenvolvimento regional.
Em direção aos vínculos entre ato regionalizador e ação social,
Dias trata os elos entre rede e sujeito da ação, valorizando a análise
de antigas e novas arenas. Nestas últimas, manifestam-se empresas
globais, governos e, como propõe Limonad, setores dominantes
locais, orientados por diretrizes instrumentais da nova regionalização
(Lima). Resultam, das mudanças no ato regionalizador, novas formas
espaciais (diferenciações sub-regionais), valorizadas nos textos de
Becker, Egler e Lima.
Egler, ao tratar o Sudeste, reconhece o valor da análise
institucional e enfatiza: os condicionantes instrumentais do
desenvolvimento regional; o atual fortalecimento dos governos
estaduais e os novos regionalismos. Valoriza, ainda, as diferenças
sub-regionais, associadas à intensificação dos conflitos, como
exemplificam a luta pela reforma agrária e o confronto entre MST e
UDR. Por outro lado, Lima, no estudo da Amazônia, analisa
transformações nos usos do espaço regional, ressaltando o território
em movimento e a formação de redes políticas territorializadas.
Trata, ainda, da constituição de arenas políticas que correspondem
a pactos locais regionalmente projetados.

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No que concerne aos conflitos entre agentes econômicos e


sujeitos sociais, Haesbaert trata a problemática da desterritoriali-
zação; as práticas e os significados humanos do espaço; a
multiterritorialização e a interação territorial. Nesta direção, Galvão
enfatiza a importância do engajamento de atores sociais nas decisões
territoriais e destaca o debate das contrapartidas econômicas e,
sobretudo, sociais. Barbosa cita, ainda, os obstáculos ao engajamen-
to dos atores sociais nas definições territoriais, acentuando que os
obstáculos à participação política constituem um dos fundamentos
essenciais da desigualdade.

VI. Por que a análise do espaço não se distancia do estudo da modernização?


No debate da modernização – do avanço do capitalismo em todas
as esferas da vida social –, precisam ser consideradas as relações
entre:
a) a modernização e os conteúdos técnicos do território, nos seus
vínculos com a distribuição espacial das atividades econômicas
e da população, como exemplificam a metropolização do território
(Lencioni) e a organização da produção. Como diz Limonad, a
flexibilidade da produção conquista território. A urbanização
concentrada e delimitada, da fase anterior do capitalismo, tem
sido substituída por uma urbanização mais fluida, extensiva,
flexível (Monte-Mór). Esta urbanização surge esgarçada, como
concebe Limonad, numa escala que ultrapassa os limites das
cidades. Neste mesmo sentido, Dias analisa conteúdos das redes
técnicas e da modernização e Lencioni valoriza, analiticamente,
a cisão territorial da produção.
b) a modernização e a ação planejada (e planejadora). Trata-se
do confronto entre princípios e práticas na configuração do
espaço, que atende a determinados interesses, e da intervenção
nas relações sociedade - natureza. O texto de Monte-Mór
contribui nesta linha de reflexão através de análise da
modernização sócio-espacial, reconhecendo suas relações com
a reestruturação produtiva e características do modernismo.
Também Galvão, ao abordar a modernização, faz sobressair os
vínculos entre inovação, visão sistêmica de recursos e agregação
de valor. Já Barbosa destaca a modernização limitada da
sociedade brasileira e a falta de cidadania, enquanto Egler aborda
o tema da modernização a partir da nação.
c) a modernização e a administração – as formas atuais de
organização do espaço e das atividades econômicas exigem
novos modelos de gestão nas fábricas (Lencioni e Limonad) e
na administração municipal e metropolitana. Egler contribui,

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no exame deste tema, ao assinalar os obstáculos à difusão de


inovações, enquanto Limonad alerta-nos para processos como
a terceirização, que modificam a organização do trabalho.

VII. Por que a análise espacial necessita grandes investimentos nas tarefas
teóricas e conceituais, que são também de método? A ideologização do
presente.
Na análise da regionalização, existem difíceis tarefas teóricas,
relacionadas às mediações entre fenômenos aparentemente
descolados uns dos outros. Estes fenômenos integram a
racionalidade e a reflexividade contemporâneas, que atualizam
relações técnicas e sociais de produção. Na análise do presente,
torna-se relevante o retorno à história, como demonstram Dias,
Monte-Mór, Lencioni, Barbosa e Egler. Este retorno também favorece,
como demonstra Limonad, a observação crítica da retórica
regionalista e, como apresenta Lencioni, a reflexão do complexo
fenômeno da desindustrialização.
Ganha destaque, atualmente, a problemática da produção social
do espaço através do entrelaçamento, em distintas escalas, de
processos de diferentes idades. Este entrelaçamento impõe a
consideração dos conceitos de rede e de representação, tratados
por Dias. A região ressurge através de novos ordenamentos dos
fluxos, como Egler exemplifica ao citar os conceitos de bacia urbana
x rede urbana. Nesta direção, Lencioni desenvolve a reflexão da
produção social do espaço através da análise de processos
complexos, tais como os que expressam a desconcentração e a
descentralização industriais. Monte-Mór, por sua vez, examina o
entrelaçamento de processos na urbanização extensiva e no espaço
social regional. Nestes investimentos analíticos, evidencia-se a
necessidade de construir reais híbridos teórico-empíricos, tais como
as noções de cidade-região e território-rede (Lencioni), que buscam
dar conta da nova dinâmica da expansão da mancha urbana (Egler).

VIII. Por que a reflexão do espaço exige a análise da face contemporânea


do capitalismo?
Atualmente, a regionalização adquire características da ação
hegemônica, ou seja, dos traços estratégicos desta ação. A nova
produção mudou a escala das interações sociais, difundiu o meio
técnico-científico informacional e alterou relações técnicas e sociais
de produção. Também mudou conteúdos das leituras hegemônicas
do território, cada vez mais instantâneas. Estas leituras têm
permitido a redução dos contextos que concentram condições de

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produção realmente excepcionais. Assim, ao mesmo tempo em que


a produção globaliza-se, os controles da inovação e da gestão
tornam-se mais precisos e seletivos. Quanto à problemática da
regionalização, ganham destaque três grandes eixos orientadores
da reflexão da produção social do espaço.
1. o aumento da velocidade nas trocas mercantis e nos fluxos
informacionais altera a composição das alianças entre agentes
econômicos e atores políticos. Estas alianças, apoiadas pela
técnica, correspondem à ação hegemônica e significam, como
tratado por Dias, a afirmação de novas alianças regionalizadoras,
que redesenham os contornos, multiescalares e instáveis, da
produção.
2. as transformações na forma dominante de produção exigem o
controle da inovação e das relações entre firmas. No exame
destas condições, alinham-se os trabalhos referidos aos
processos produtivos e à aplicação das tecnologias de
comunicação e informação (Limonad); às exigências do capital
produtivo e financeiro internacional (Monte-Mór) e, ainda, à
dispersão territorial correspondente à oligopolização da indústria
e dos novos serviços (Lencioni).
3. na atual fase do capitalismo, o exame do ato regionalizador
inclui a observação da divisão internacional do trabalho
(Limonad); dos impactos da compressão global (Haesbaert);
da construção da mundialidade que corresponde às
necessidades das corporações (Barbosa) e, enfim, dos circuitos
globalizados de valorização do capital (Galvão)
Nestas diversas abordagens de tendências do capitalismo,
destacamos as relações estabelecidas, pelos textos, entre: regionali-
zação e conquista de hegemonia no mercado mundial; regionalização
e urbanização dispersa; regionalização e inovação; regionalização
e transnacionalização do território; regionalização e centralização
do capital; regionalização e dispersão territorial da produção.

Indicações de método
No conjunto dos trabalhos, identificamos outros desafios de
método. Citamos, de início, a crise do pensamento dicotômico, que
restringia o recurso à dialética. Haesbaert destaca, nesta direção,
as dinâmicas abertas e inconclusas, ao mesmo tempo em que
valoriza invariantes da reflexão do espaço: superfícies, pontos, linhas
e malhas, nós e redes.
Em sua apreensão do mundo-mundializado, Barbosa, por outro
lado, contrapõe indicadores e conceitos e, também, indicadores e

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relações sociais, procurando caminhos para o pensamento crítico


comprometido com a redução das desigualdades. Haesbaert,
envolvido nesta busca, assinala obstáculos à representação do
espaço globalizado, questionando a real amplitude da atual crise
das representações espaciais. Até que ponto a crise paradigmática
associa-se a uma verdadeira crise de representação?
Os trabalhos valorizam pares de conceitos que orientam a
interpretação de relações entre agentes, atores e escalas. Estes
pares apóiam a periodização e a escolha de objetos / temas. Porém,
não constroem claras dualidades e nem correspondem a nítidos
antagonismos. Expressam, com mais facilidade, a idéia de
hibridação. Como considerar o espaço, sem a dimensão temporal
(tempo ⇔ espaço)?; a forma, sem os processos (forma ⇔
conteúdo)?. Da mesma maneira, como tratar a ação, sem desvendar
as suas metas (projeto ⇔ projeção}?; os comandos da nova
economia, sem a cooperação (fragmentação⇔integração?; a
estrutura, sem contextos (estrutura⇔estruturação?; a dinâmica
social, sem a superação do imediato (espaço social ⇔ espaço
abstrato)?; a ação, sem determinantes estruturais?
(estrutura⇔ação)?; as descontinuidades, sem o tratamento da
totalidade (sistema ⇔ elemento)?; compressão espaço-tempo, sem
a dispersão (fixos⇔fluxos)?

Algumas observações finais


Diversas questões relacionadas à regionalização remetem,
diretamente, aos temas da agenda política. Nesta direção,
destacamos a ênfase na formulação da questão espacial (Monte-
Mór e Egler); nas relações sociais de produção e na dinâmica
territorial do capital. Com Becker, enfatizamos, neste momento,
mudanças nas relações centro-periferia e o aumento da desigualdade
na escala mundial. No mesmo sentido, valorizamos, com Barbosa,
os vínculos entre regionalização e ampliação da concentração da
renda e da riqueza, especialmente neste período de redução do
trabalho e do emprego.
Nos atuais conflitos sócio-espaciais, estão envolvidas agentes
com diferentes escalas de ação, o que transforma as resistências
(Monte-Mór); expressa o confronto entre lógicas / racionalidades
(Dias) e esclarece a relevância da regionalização insurgente (Lima).
Indubitavelmente, os conflitos estão presentes nos sentidos do
urbano (Monte-Mór, Becker, Lencioni e Egler) e nas diferenças entre
regiões históricas e regiões administrativas ou produtivas. Por
exemplo: Quais são os rebatimentos territoriais das parcerias
público-privadas? Como estas parcerias interferem na regionalização
do desenvolvimento?

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Perguntamos, então, se os paradigmas tradicionais da


regionalização foram, de fato, superados e, também, sobre a idéia
de desenvolvimento que deve conduzir as práticas de regionalização
implementadas pelo Estado. Estas perguntas, apesar de
excessivamente simples, precisam ser repetidas para que afirme-
se a regionalização democrática e assim aconteça, no país, uma
partição mais generosa e justa de recursos.
Os textos desta coletânea, dedicados, como salientam os
organizadores deste livro, a espacialidades expressivas de
transformações na economia – o Sudeste, onde a urbanização
alcança a prática totalidade do território e conquista novos contornos,
e a Amazônia, onde a urbanização gera novas formas espaciais −,
demonstram ser indispensável a pesquisa multiescalar da produção
e das condições de vida. É urgente o aprofundamento do exame
das conseqüências da reorganização ministerial do governo
brasileiro, no que concerne à organização do espaço. Como articular
o enfrentamento da problemática social às mudanças territoriais
trazidas pela política de integração nacional? Como tratar as
dimensões regionais da nova urbanização e da política urbana?
Enfim, assinalamos que permanece aberta a questão central da
escolha da unidade empírica e analítica que permita a reflexão íntegra
da região ⇔ regionalização. Afinal, a seleção desta unidade
determina o desvendamento ou ocultamento da dinâmica sócio-
territorial. O entrelaçamento de processos, veloz e eficaz,
recomenda a consideração simultânea da nova urbanização e da
nova industrialização, o que aponta para carências conceituais a
serem tratadas nos híbridos acima indicados. Esforços de
conceituação precisam ser dirigidos, com especial insistência, à
urbanização (Becker). Trata-se da manifestação de segmentações
internas ao urbano: a urbanização da urbanização ou a
hiperurbanização (Lencioni); a urbanização extensiva do território
(Monte-Mór) e a tendência à (sub)urbanização (Limonad).
Por outro lado, os textos também sugerem a necessidade de
esforços de conceituação relacionados aos fluxos dependentes das
redes e sistemas técnicos. Um caminho a percorrer seria, talvez, a
rigorosa distinção entre as antigas redes − canais de irrigação do
território − e as redes atuais, marcadas por sua função de conduto
da nova industrialização e dos comandos da economia mundializada.
Estas redes viabilizam diferentes sistemas de ação (Santos, 1996),
sendo necessário considerar, através dos seus usos, o teor da
cooperação que efetivamente sustentam e o tipo de dinamismo
territorial que provocam. Afinal, trata-se, em ambos tipos de redes,
do direcionamento da dinâmica social e, assim, das energias sociais,
inclusive as utópicas.

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