Você está na página 1de 5

METODOLOGIA E PESQUISA DO TRABALHO ACADÊMICO:

DO DESAFIO À PRÁTICA

Maria Ângela Sena Rabelo

Conhecer, meu senhor, é saber quê. E o quê. Não é só constatar. Pois sim. Constatar qualquer um constata. Basta olhar, sentir, apalpar. Pode-se tocar o mundo com os olhos ou ver com os dedos pelo só observar. Fácil. Conhecer dessa forma é captar o 'por fora de tudo'. O que está fora das plantas, do homem, da sociedade, do Estado, das palavras. A ciência diz que precisa conhecer. Quer saber, pois, o "por dentro" ou "para além" do por fora. Por isto, as causas, a essência. Já disse: o concreto por detrás do aparente, a regularidade no irregular, a identidade na diferença. Isto, Senhor, são caminhos do conhecimento sábio.

Neidson Rodrigues

A Metodologia Científica, acoplada ao currículo básico de cursos superiores, é a disciplina que aborda o problema da natureza do conhecimento e do método científico. Mas é, sobretudo, um desafio para educadores e acadêmicos, em vista dos objetivos a que se propõe. Afinal, segundo Ruiz (1996), "os cientistas já estão trabalhando com o intuito de promover o avanço da ciência para a humanidade; os estudantes ainda estão trabalhando para o crescimento da sua ciência". Ambos, no entanto, devem trabalhar cientificamente. Na visão do referido autor, ao estudante compete obedecer princípios estabelecidos pela metodologia científica e adquirir, não só a capacidade de conhecer as conclusões que lhe são transmitidas, mas a habilidade de reconstituir, de refazer as diversas etapas do caminho percorrido pelos cientistas. Não seria por demais a exigência dessa necessidade de percorrer o caminho trilhado pelos cientistas? Ora, se considerarmos que os trabalhos desenvolvidos pelos alunos têm um caráter didático e, como tal, são valiosos meios de aprendizagem, pois ensinam, exercitam, treinam e capacitam o estudante a refazer, cientificamente, caminhos já percorridos, a resposta será negativa. E tais atividades serão, afinal, parte de um processo que possibilita ao aluno observar o fato, explorá-lo criticamente, estabelecer hipóteses, problematizar a realidade, investigar fontes, situando-o, concretamente, no plano da pesquisa científica. Mas Metodologia Científica é sobretudo um desafio porque é a disciplina que procura atender às expectativas em relação ao que é oferecido aos alunos no curso de Metodologia Científica e o que se espera do desempenho deles na produção de trabalhos científicos e "uma grande variedade de rótulos na classificação dos mesmos" (SALOMON, 1973). A tarefa é aprender a pôr ordem nas próprias idéias e ordenar os

Revista da FADOM, n. 13.

56

dados, uma experiência de trabalho metódico – que implica uma atividade racional, visando à sua elaboração sistemática, nos procedimentos racionais e lógicos seguidos pelo homem na busca de solução ou soluções para um problema qualquer que afete seu conhecimento. Colocado dessa forma, pode parecer por demais complicado ou pomposo o procedimento que se deve seguir, quando o aluno deveria, por exemplo, "fazer apenas uma pesquisa" (atividade que, equivocadamente, no universo escolar e/ou acadêmico tem se devotado à reprodução pura e simples, desarticulada de qualquer componente crítico). No entanto, em termos práticos, podem ser relacionadas, de forma bem concisa, as orientações básicas para elaboração de trabalhos científicos em nível de graduação:

técnicas de leitura;

técnicas de estudo e apontamento;

referência Bibliográfica;

elaboração de trabalhos universitários.

A saber, seriam esses os procedimentos considerados fundamentais para o hábito de lidar com os trabalhos acadêmicos. Mas não o seriam suficientes para a aquisição de hábitos exigidos pela pesquisa científica que, em tese, devem orientar o aluno durante todo o período acadêmico. Explica-se: afinal, a disciplina parece restrita ao primeiro semestre do curso, e a tendência é que os "hábitos" sejam diluídos e, quem sabe, mesmo "esquecidos" ao longo do curso. Isso, se não considerarmos também, no cotidiano da escola e no contexto da prática educativa, o propósito da disciplina de auxiliar os demais professores na orientação e na avaliação dos trabalhos propostos aos alunos. E, então, a exigência dos procedimentos ditos metodológicos ou científicos é posta em xeque. Os trabalhos correspondem às expectativas? Ou menos: atendem a um mínimo de organização ou de sistematização do pensamento? E, sendo assim, no que toca ao corpo docente, também a avaliação desses trabalhos se perfaz de forma metódica, nas demais disciplinas, de modo que o acadêmico possa perceber a necessidade prática (ou pragmática?) daquela "matéria" que parece restrita ao campo da normalização pura e simples? Em que lugar se situa a interdisciplinaridade? Essas questões, obviamente, suscitam uma reflexão crítica para toda e qualquer prática, a qual esse artigo procura corresponder, evidentemente limitando-se à questão da manipulação do conhecimento segundo os pressupostos da referida metodologia. É certo e a prática tem nos mostrado isso, que os alunos se ressentem diante de uma exigência intelectual mais rigorosa. Em verdade – e em grande parte – resistem mesmo a ela. Daí, a inevitável normalização preceituada pela Metodologia Científica, o que inclui as normas da ABNT, para a produção de trabalhos científicos ou acadêmicos é, muitas vezes, tida como "rigorismo" apenas, o qual se pode burlar (e muitos, muitos o tentam) com o mais ingênuo empirismo que, no mais puro estilo São Tomé, leva os

RABELO, Maria Ângela Sena. Metodologia e pesquisa do trabalho acadêmico: do desafio à prática. Revista da FADOM, Divnópolis, n. 13, p. 55-59, 1º semestre de 2003.

Revista da FADOM, n. 13.

57

"acadêmicos", honradas as exceções, a somente acreditar ou levar em consideração algo que esteja amparado em evidências claras, ou em pragmatismos (mal) resolvidos na seguinte questão: de que isso me serve e para que tanta exigência? Sob esse prisma, a Metodologia Científica pode ser vista como mero adestramento ou disciplinação, ou simples codificação de normas que presidem a confecção de um simples artigo, como regras semelhantes que se aplicam, por exemplo,

à pecuária ou à culinária e, bastaria, então, "obedecer" um procedimento para o trabalho

"dar certo", ou simplesmente, transformar em prática "administrativa burocrática" um trabalho que, espera-se, seja elaborado com teores mínimos de atitude científica. Para além disso, sem se ater à qualidade do ensino e, por conseguinte, ao nível dos acadêmicos formados pelas instituições de ensino superior no Brasil, Ruiz (1996, p.15), em sua Metodologia Científica nos propõe examinar essas "diretrizes aptas

a instrumentar o universitário para que possa, em qualquer situação, tirar maior proveito

do tempo dedicado a aulas, a reuniões de grupos, a leituras, a planejamentos e a desenvolvimento de pesquisa, em suma, a seu empenho em crescer culturalmente." E, segundo o mesmo autor:

Cumpre que o universitário não transfira a outrem ou a circunstâncias externas a responsabilidade sobre seus êxitos ou fracassos na vida estudantil. Diríamos que o universitário já está quase em condições de ser um autodidata na universidade. Assuma a responsabilidade de seu curso, adote uma forma correta de conduta em sua vida de estudo, discipline sua mente à luz de diretrizes já fartamente confirmadas pela existência, firme hábitos adequados a seu propósito de crescimento cultural, desenvolva seu espírito crítico e de discernimento, aprenda a raciocinar segundo os padrões de correção lógica, e pode estar certo de que chegará a grandes alturas na subida para as honras e responsabilidades da cultura em nível superior. E que a utilização da

Metodologia Científica possa contribuir para isso [

]

Sob essa perspectiva, seria então pedir demais aos nossos acadêmicos que assumam uma atitude científica ao manipular o conhecimento – aqui entendida como uma curiosidade saudável com que se buscam as evidências para uma base sólida do conhecimento? Portanto, que percebam a Metodologia Científica não apenas como um conteúdo a mais, mas como ações e/ou procedimentos aplicados ao real, uma vez que, na formação cultural e acadêmica do aluno não está em jogo apenas a acumulação de informações e o domínio de certas habilidades, mas a capacidade de manipular e operar o real. E no estágio de um curso superior, o sentido disso é óbvio: afinal, estão em questão o treinamento, a apreensão de conteúdos, o saber sistematizado, pois o que se persegue é a profissionalização (LIMA, 1986). Esse fato, evidentemente, se une aos objetivos de um curso superior em que

o processo escolar está um tanto quanto restrito ao treinamento profissional (aquisição de habilidades) e não especificamente a uma pedagogia para eclosão das potencialidades e competências que se requer no ensino fundamental e médio – e, aí

RABELO, Maria Ângela Sena. Metodologia e pesquisa do trabalho acadêmico: do desafio à prática. Revista da FADOM, Divnópolis, n. 13, p. 55-59, 1º semestre de 2003.

Revista da FADOM, n. 13.

58

sim, ressentimos, parece inexistir, por parte dos educadores, o "senso" da cientificidade do processo educativo. (Por falar nisso, quão incisivo é o desafio de explicar o que seja "método científico" para um aluno que chega ao curso superior, por exemplo, sem saber empregar, adequadamente, normas de concordância e apresentar, através da linguagem escrita, um pensamento coerente.) Essa evidência nos sugere que, aliada ao investimento qualitativo na formação e no aperfeiçoamento profissional, seja a Metodologia Científica aplicada e difusa na prática educativa desde o ensino fundamental, não como conteúdo específico – pois correria o risco de se tomar "mais um" e "muito cansativo, por sinal". Mas que se o faça a partir do conhecimento e da aplicação das respectivas metodologias que orientam as demais disciplinas como, por exemplo, a Língua Portuguesa e apontam embasamentos teóricos para as abordagens dos conteúdos e as estratégias utilizadas na prática, que permitam aos alunos, numa formação de base, a apreensão e a construção próprias de novos conhecimentos. Essa práxis, entendemos, deve permear a formação/orientação dos educadores, o mais cedo possível. Justamente para que o aluno, ao adentrar o universo acadêmico do curso superior, possa estar, senão familiarizado com um mínimo de organização dos dados da realidade, mais apto a corresponder, com prontidão, à tutela de seu próprio conhecimento e, por conseqüência, de sua formação. Daí, portanto, resta concluir que as "exigências" postas pela Metodologia Científica não se reduzem ao seu próprio universo. A perspectiva é, antes, interdisciplinar. Afinal, os conhecimentos ali adquiridos ganham aplicação prática para o acadêmico nas demais disciplinas com que lida. Mas é justamente esse fator que não deve prescindir da avaliação criteriosa que os demais professores devam dedicar aos trabalhos produzidos pelos alunos. E a avaliação aqui não se reduz ao simples gesto de penalizar a desconformidade segundo essa ou aquela regra. É preciso que o acadêmico perceba que seus trabalhos "fazem sentido" para aquele que o avalia – e esse , sob o ponto de vista de um leitor crítico, não deve reduzir a avaliação a fórmulas preestabelecidas de textos, marcada pela rubrica do "certo" ou "errado", mas utilizá-la como forma de instigar ao aperfeiçoamento da produção acadêmica. Sobretudo, que o trabalho implique numa reflexão crítica da parte dos envolvidos – educandos e educadores – e reflexão crítica supõe exercício permanente de uma "atitude filosófica", isto é, o estado daquele que evita o senso comum, as idéias prontas, a reprodução e se dedica a uma problematização conseqüente da realidade e dos dados que a compõem, justamente porque é sujeito e agente dela e pode, portanto, alterá-la e transformá-la para além do mundo acadêmico e de suas "exigências".

RABELO, Maria Ângela Sena. Metodologia e pesquisa do trabalho acadêmico: do desafio à prática. Revista da FADOM, Divnópolis, n. 13, p. 55-59, 1º semestre de 2003.

Revista da FADOM, n. 13.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

59

BERNARDO, Gustavo. Redação inquieta. Belo Horizonte: Formato, 2000.

LIMA, Lauro de Oliveira. Educação e a lei dos três estados ou a cientificidade do processo educativo. Revista Pedagógica, 19-30, jul/ago 1986.

RODRIGUES, Neídson. Filosofia

para não filósofos. São Paulo: Cortez, 1998.

RUIZ, João Álvaro. Metodologia científica – guia para eficiência nos estudos. São Paulo: Atlas, 1996.

SALOMON, Délcio Vieira. Como fazer uma monografia. Belo Horizonte: Interlivros, 1973.

RABELO, Maria Ângela Sena. Metodologia e pesquisa do trabalho acadêmico: do desafio à prática. Revista da FADOM, Divnópolis, n. 13, p. 55-59, 1º semestre de 2003.