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Questão de aula – Educação Literária

Letras em dia, Português, 10.° ano

Nome: N.º: Turma:

Avaliação: O professor:

Fernão Lopes, Crónica de D. João I


Lê atentamente o excerto do capítulo 11 da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes.

Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o


Meestre, e como aló foi Alvoro Paaez e muitas gentes com ele.
As gentes que esto ouviam, saiam aa rua veer que cousa era; e começando de falar uũs
com os outros, alvoraçavom-se nas voontades1, e começavom de tomar armas cada uũ como
melhor e mais asinha2 podia. Alvoro Paaez que estava prestes e armado com ũa coifa 3 na
cabeça segundo usança daquel tempo, cavalgou logo a pressa em cima duũ cavalo que anos
5 havia que nom cavalgara; e todos seus aliados com ele, braadando a quaes quer 4 que achava
dizendo:
– Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre, ca filho é del-Rei dom Pedro.
E assi braadavom el e o Page indo pela rua.
Soarom as vozes do arroido5 pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o Meestre; e
10 assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficara em logo 6 de marido, se moverom
todos com mão armada, correndo a pressa pera u 7 deziam que se esto fazia, por lhe darem
vida e escusar morte. Alvoro Paaez nom quedava8 d’ir pera alá, braadando a todos:
– Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê.
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom
15 cabiam pelas ruas principaes, e atrevessavom logares escusos 9, desejando cada uũ de seer o
primeiro; e preguntando uũs aos outros quem matava o Meestre, nom minguava 10 quem
responder11 que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da Rainha.
E per voontade de Deos todos feitos duũ coraçom com talente 12 de o vingar, como13 forom
aas portas do Paaço que eram já çarradas 14, ante que chegassem, com espantosas palavras
20 começarom de dizer:
– U matom o Meestre? que é do Meestre? quem çarrou estas portas?
LOPES, Fernão. 1980. Crónica de D. João I (textos escolhidos; apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para
análise literária de Teresa Amado). Lisboa: Seara Nova/Editorial Comunicação (pp. 96-97)

1. alvoraçavom-se nas voontades: encolerizavam-se; 2. asinha: depressa; 3. coifa: parte da armadura que cobria a cabeça; 4. quaes
quer: quaisquer, todos; 5. arroido: ruído, algazarra; 6. logo: lugar; 7. u: onde; 8. quedava: parava; 9. escusos: escuros, recônditos;
10. minguava: faltava; 11. responder: respondesse; 12. talente: desejo, vontade; 13. como: assim que; 14. çarradas: cerradas, fechadas.

1. Contextualiza os acontecimentos narrados no excerto.

2. Apresenta uma explicação para que Álvaro Pais refira a filiação do Mestre de Avis: «acorramos ao
Meestre, ca filho é del-Rei dom Pedro.» (l. 6).

3. Comprova que as gentes da cidade funcionam enquanto personagem coletiva.

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Questão de aula – Educação Literária
Letras em dia, Português, 10.° ano

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Fernão Lopes, Crónica de D. João I

1. O Pajem do Mestre de Avis cumpre as indicações que lhe são dadas de ir pela cidade gritando que estavam a matar
o Mestre e pedindo que as pessoas o fossem socorrer. Chegado à casa de Álvaro Pais, também este e seus aliados se
juntam à estratégia e vão pelas ruas apelando à ajuda do povo.

2. Ao referir que o Mestre era descendente de D. Pedro, estabelece-se a sua ligação à realeza, sendo esta uma
estratégia para legitimar as ações e o estatuto do Mestre de Avis. Estas palavras comprovam a parcialidade de Fernão
Lopes.

3. As gentes da cidade unem-se nas ações e são movidas pelo mesmo objetivo: «se moverom todos com mão armada»
(ll. 9-10), «por lhe darem vida e escusar morte» (l. 10-11), «A gente começou de se juntar a ele» (l. 13). A expressão
«todos feitos duũ coraçom» (l. 17) ilustra na perfeição a união das vontades e emoções do povo, que funciona como um
corpo onde bate um mesmo coração, uma só vontade.

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