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FOCO E Desenvolvimento

no Antigo Testamento
CARLOS OSVALDO CARDOSO PINTO
www.hagnos.com.br
© 2006 por Carlos Osvaldo Cardoso Pinto Todos os direitos desta edição reservados para:
Revisão Editora Hagnos
João Guimarães Av. Jacinto Julio, 27
Regina Aranha 04815-160 - São Paulo, SP
1ª edição – julho - 2006 (11) 5668-5668
Gerente editorial hagnos@hagnos.com.br
Juan Carlos Martinez www.hagnos.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso


Foco e desenvolvimento no Novo Testamento / Carlos Osvaldo Cardoso Pinto. – São Paulo :
Hagnos, 2008.
ISBN 85-89320-83-9
Bibliografia.
1. Bíblia. A. T. - Crítica e interpretação
2. Bíblia. A. T. - Teologia
3. Bíblia. A. T. Pentateuco - Teologia I. Título
05-7034 CDD-221.6
Índices para catálogo sistemático:
1. Antigo Testamento : Teologia 221.6
AGRADECIMENTOS
Como muitos estudantes de teologia, minha percepção dos livros do Antigo
Testamento durante os anos iniciais de estudo, era fragmentária e fragmentada.
A atenção era voltada para passagens específicas (geralmente extraídas a fórceps de
seus contextos maiores) e raramente se estendia a mais do que um breve tema genérico
quando se tratava do assunto dos livros sagrados. Os estudos para o mestrado em
teologia no Seminário Teológico de Dallas me despertaram para a percepção do
conceito de gênero intrínseco de peças literárias. Diretamente responsável por isso foi o
Dr. Elliott E. Johnson, que me apresentou aos livros de Edward D. Hirsch -
fundamentais para solidificar a crença na unidade e no propósito literário-teológico de
cada livro das Escrituras. Muito obrigado, Dr. Johnson, pelo investimento e pela
paciência com que suportou meus apartes e questionamentos.
Os estudos para o doutorado, também em Dallas, me apresentaram a duas lendas vivas
da exposição bíblica, J. Dwight Pentecost e Stanley D. Toussaint. Esses queridos
mestres trabalharam e moldaram minhas tentativas ainda inseguras de macro-exposição
de livros inteiros (tanto no Antigo quanto no Novo Testamento). Devo a eles o impulso
de concentrar nessa área a minha atenção durante os estudos no doutorado. Muito
obrigado, mestres, pelo desafio que suas vidas representam.
Na preparação de minha dissertação de doutorado, o Professor Donald R. Glenn me
desafiou a investigar mais a fundo a questão da estrutura literária dos livros do Antigo
Testamento, particularmente Isaías. Por indicação dele encontrei nos artigos e no livro
de David A. Dorsey - The Literary Structure of the Old Testament 1 - o ímpeto para
investigar e valorizar a estrutura como parte da mensagem de cada livro do Antigo
Testamento. Obrigado, Prof. Glenn por me questionar constantemente e me aperfeiçoar
em raciocínio e conclusão.
Por fim, minha querida família merece minha constante gratidão. Pais que me
permitiram o estudo, esposa que encorajou nas horas de desânimo com a lentidão do
processo autoral, e filhas que alegraram o ambiente (e me massagearam os ombros
enquanto enfrentava o computador), vocês todos são bênçãos de Deus em minha vida.
Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, Ph.D.
Natal 2005

1
Este livro permeia toda a investigação de Foco e Desenvolvimento, de tal modo que é
mais prático registrar aqui minha dívida para com Dorsey, do que citar, a cada livro, a sua
influência sobre esta obra. Apesar de discordâncias ocasionais, recomendo fortemente The
Literary Structure of the Old Testament a todo estudante das Escrituras.
PREFÁCIO
O autor deste volume oferece ao estudante sério das Escrituras uma riqueza de
material com o qual aprofundar seu estudo, de modo a compreender o que cada autor
bíblico queria comunicar a seus leitores.
Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento oferece a seus leitores material de
apoio de tal ordem que o livro estudado pode ser bem entendido em seu contexto
histórico e literário. A seguir, desenvolve o pensamento do autor em vista a mensagem
que ele desejou comunicar a seus leitores. Oferece a seguir um esboço sintético de cada
livro; esse esboço é de tal modo detalhado que o leitor pode, com facilidade, seguir a
linha de raciocínio do autor bíblico.
Fruto de anos de estudo e ensino do Antigo Testamento, Foco e Desenvolvimento, traz
as marcas de investigação cuidadosa e de uma compreensão acurada tanto da forma
quanto da mensagem e da teologia da revelação inicial de Deus.
Este volume oferecerá os alicerces de um estudo constante do texto do Antigo
Testamento. Conquanto não seja um comentário das Escrituras, conduz o leitor a um
conhecimento mais integral da Palavra de Deus, e complementa os comentários já
existentes. Eu recomendo Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento como uma
ferramenta valiosa para o estudo da Bíblia Sagrada.
J. Dwight Pentecost
Professor Catedrático Emérito de Exposição Bíblica
Seminário Teológico de Dallas
INTRODUÇÃO
Esta obra é fruto de muitas influências e de uma visão de vida - equipar expositores.
Ela reúne características de obras de introdução, de história bíblica, e de comentários.
Sua ênfase não é resumir em um esboço temático cada livro do Antigo Testamento, e
sim oferecer uma percepção de como cada mensagem foi estruturada e desenvolvida.
É nesse sentido que a palavra Argumento foi usada nesta obra. Além disso,incluí nos
argumentos de alguns livros, uma breve exposição de como Deus é ali apresentado.
O leitor logo descobrirá que alguns livros foram objeto de atenção especial, recebendo
tratamento teológico mais completo. Isso reflete ênfases particulares em meu ministério
de ensino no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Dediquei mais espaço ao livro de
Salmos, para o qual ainda espero publicar um complemento, por assim dizer, com os
esboços sintéticos de cada um dos poemas hebraicos.
O objetivo de Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento não é o púlpito (i.e., não
é um livro de esboços de sermão), mas o escritório, particularmente aquelas longas
horas em que buscamos, como expositores, tornar nossas a história em que cada livro se
insere e a mensagem que ele comunica.
Assim, Foco e Desenvolvimento é dedicado aos homens e mulheres que, em contextos
de igreja, lar ou escola, buscam expor a Palavra de Deus com integridade e esmero, para
a salvação de vidas e a edificação da Igreja.
ABREVIATURAS
AB Anchor Bible
ARA Versão Revista e Atualizada de Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil
BASOR Bulletin of the American Society of Oriental Research
BDB F. Brown, S. R. Driver, and C. A. Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament
BHS Biblia Hebraica Stuttgartensia
BKCOT Bible Knowledge Commentary—Old Testament
BSac Bíblia Sacra
DITAT Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento
EBC Frank E. Gaebelein (ed. geral) Expositor‘s Bible Commentary
GKC Gesenius‘ Hebrew Grammar, ed. E. Kautzsch, tr. A. E. Cowley
GTJ Grace Theological Journal
HALOT Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament
JBL Journal of Biblical Literature
JETS Journal of the Evangelical Theological Society
JSOT Journal for the Study of the Old Testament
JSOTSup Journal for the Study of the Old Testament—Supplement Series
KJV Versão Autorizada Inglesa de 1611.
LXX Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento
NCB New Century Bible
NICOT New International Commentary on the Old Testament
NIDOTTE Wilhelm van Gemeren (ed. geral) New International Dictionary of Old Testament
Theology and Exegesis
NVI Nova Versão Internacional
OTL Old Testament Library
SCB Série Cultura Bíblica
TDOT G. J. Botterweck and H. Ringgren (eds.), Theological Dictionary of the Old Testament
TM Texto Massorético
VT Vetus Testamentum
WBC Word Biblical Commentary
WTJ Westminster Theological Journal
Índice
agradecimentos
prefácio
introdução
abreviaturas
Uma abordagem teológica do pentateuco
O argumento de Gênesis
Esboço sintético
O argumento de Êxodo
Esboço sintético
O argumento de Levítico
Esboço sintético
O argumento de Números
Esboço sintético
O argumento de Deuteronômio
Esboço sintético
O argumento de Josué
Esboço sintético
O argumento de Juízes
Esboço sintético
O argumento de Rute
Esboço sintético
O argumento de 1 Samuel
Esboço sintético
O argumento de 2 Samuel
Esboço sintético
O argumento de Reis
Esboço sintético
O argumento de Crônicas
Esboço sintético
O argumento de Esdras
Esboço sintético
O argumento de Neemias
Esboço sintético
O argumento de Ester
Esboço sintético
O argumento de Jó
Esboço sintético
O argumento de Salmos
Lamento do indivíduo (LI)
Lamento da nação (LN)
Louvor declarativo do indivíduo (LDI)
Louvor declarativo da nação
Salmos de louvor descritivo
Salmos didáticos
O argumento de Provérbios
Esboço sintético
O argumento de Eclesiastes
Esboço sintético
O argumento de Cântico dos cânticos
Esboço sintético
O argumento de Isaías
Esboço sintético
O argumento de Jeremias
Esboço sintético
O argumento de Lamentações
Esboço sintético
O argumento de Ezequiel
Esboço sintético
O argumento de Daniel
Esboço sintético
O argumento de Oséias
Esboço sintético
O argumento de Joel
Esboço sintético
O argumento de Amós
Esboço sintético
O argumento de Obadias
Esboço sintético
O argumento de Jonas
Esboço sintético
O argumento de Miquéias
Esboço sintético
O argumento de Naum
Esboço sintético
O argumento de Habacuque
Esboço sintético
O argumento de Sofonias
Esboço sintético
O argumento de Ageu
Esboço sintético
O argumento de Zacarias
Esboço sintético
O argumento de Malaquias
Esboço sintético
Bibliografia
Uma abordagem teológica do
PENTATEUCO
Importância do assunto
O Pentateuco aparece em primeiro lugar em todos os arranjos do cânon do Antigo
Testamento. Isto confirma a premissa de que esses cinco livros são fundamentais para o
estudo e a compreensão de todos os demais. A teologia presente nas narrativas,
prescrições e discursos desses cinco documentos oferece padrões ou modelos (não
moldes) pelos quais as estruturas teológicas dos demais livros devem ser observadas e
formuladas.
NECESSIDADES DESTE ESTUDO
É necessário ao estudante de teologia do Antigo Testamento possuir um conhecimento
mínimo do contexto histórico e da forma literária dos documentos que o compõem.
Idéias pré-concebidas sobre o Pentateuco e divulgadas tanto na esfera popular quanto na
acadêmica tornam ainda mais imperioso tal conhecimento.
Contexto histórico
A Bíblia afirma direta e indiretamente que seus cinco primeiros livros foram escritos
por Moisés (cf. Êx 17.14; Nm 33.1, 2; Dt 31.9; 2 Rs 21.8; Mt 19.7). Israel estivera
escravizado no Egito por mais de 400 anos e fora submetido a uma massacrante
lavagem cerebral politeísta. Nada, a não ser a revelação divina, seria capaz de quebrar a
crosta de paganismo que envolvia não apenas a história do povo israelita, mas a própria
cosmogonia e uma filosofia da história.
Os livros receberam sua forma mosaica final nas campinas de Moabe, por volta do ano
1445 a.C., pouco antes de Israel entrar na terra de Canaã e assumir sua plena condição
como nação independente.
Sem dúvida, Moisés foi mais que um autor. Ele foi o sintetizador de tradições orais (e
quem sabe escritas) que remontavam ao tempo dos patriarcas. Seus cinco livros deram a
Israel a perspectiva divina sobre o surgimento do universo e da nação israelita, bem
como sobre o papel que ela desempenharia no plano de Deus. Tais noções eram
fundamentais na hora crítica em que Israel se defrontaria com a mais idólatra e imoral
das antigas culturas do Oriente Médio.
Forma literária
Apesar de constituir uma unidade em seu propósito fundamental de instruir o povo
israelita quanto a suas origens e razão de ser (conferir o nome hebraico dado à coleção,
Lei ‫ּתֹורה‬
ָ , tôrâ, os cinco livros de Moisés são muito mais do que simples lei. A parte
estritamente legal do Pentateuco limita-se a porções de Êxodo 20–40, Levítico e
porções de Números. Deuteronômio, embora contendo material legislativo, é
formalmente identificado com os tratados de suserania do segundo milênio a.C., que
continham (como acontece com Deuteronômio) uma seção de preceitos pactuais.1 O
restante é narrativa didático-teológica. O fim desse material didático-teológico é
fornecer a Israel uma visão do mundo e uma filosofia de história.
PRESSUPOSIÇÕES DESTE ESTUDO

1
Para um tratamento da data de Deuteronômio veja Gleason L. Archer, Merece Confiança o
Antigo Testamento?, pp. 283-293 e J. A. Thompson, Deuteronômio. Introdução e Comentário,
Série Cultura Bíblica.
A respeito de Deus
É necessário pressupor a existência de Deus como ser eterno, independente e coerente
em Seu caráter e propósito. Deus se comunicou de forma inteligível, coerente e
compatível com a condição humana (isto é cultural e historicamente localizado, apesar
de supra-histórica em sua validade).
A respeito da revelação
A revelação tem como propósito dar a conhecer Deus e Seu propósito. Esta revelação
é proposicional, pois é necessário à criatura mais do que perceber o evento (ou o ciclo
de eventos), mas entender seu verdadeiro significado; é necessário à criatura saber mais
do que o nome de seu Criador, mas também entender Seus propósitos. Por essa razão, o
Pentateuco contém narrativa (evento) e interpretação (lei ou discurso).
A respeito de um centro
Há décadas os teólogos bíblicos contendem com a idéia de um centro teológico que
abranja toda a teologia do Antigo Testamento (os mais famosos são aliança e
promessa).2 Sem pretender lançar uma nova idéia que suplante todas as demais, esta
obra entende que é mais sensato seguir o exemplo de Georg Fohrer e propor não um
único centro (como num círculo), mas dois focos (como numa elipse) que sirvam como
lentes para o estudo da teologia vétero-testamentária. Fohrer propôs os conceitos de
domínio de Deus e comunhão com Deus como seus focos.
Os focos que proponho nesta obra são semelhantes, e enfatizam uma preocupação com
o conceito do reino mediatório de Deus na história. Assim, conforme o gráfico abaixo,
os focos são a restauração da soberania mediada de Deus e o bem estar da criatura
debaixo da autoridade de Deus para a Sua glória.
Estes conceitos são amplos o suficiente para englobar as idéias de promessa e aliança,
bem como outras de caráter específico (e.g., Yahweh, o Deus guerreiro, proposto por
Tremper Longman) e outras mais gerais (a idéia tradicional do dispensacionalismo, a
glória de Deus, e a do calvinismo, salvação).
Antigo Testamento
Recuperação da soberania mediada
Bem estar da criatura sob a autoridade e para glória de Deus
Esta idéia reflete a prioridade lógica e cronológica do relato da criação em Gênesis 1 e
2,3 bem como o conceito importantíssimo da autoridade mediada que permeia todo o
Antigo Testamento. Sob este ―guarda-chuva teológico‖ se enquadram quatro linhas de
ação (um modus operandi divino) que serão examinadas particularmente nos livros
históricos do Antigo Testamento.
1. A Permissão do Mal
2. O Juízo contra o Mal
3. Libertação do Juízo para/por os Eleitos
4. Bênção dos Eleitos
O argumento de
2
O leitor fará bem em consultar três obras importantes em português sobre o assunto.
Gerhard Hasel, Teologia do Velho Testamento; Walter Kaiser, Teologia do Antigo Testamento;
e Ralph Smith, Teologia do Antigo Testamento. Os três autores dedicam considerável espaço
em suas obras ao debate sobre o centro teológico do Antigo Testamento.
3
Veja Eugene H. Merrill, “Covenant and the Kingdom. Genesis 1-3 as Foundation for Biblical
Theology”, Criswell Theological Review 1 (1987), pp. 295-308.
GÊNESIS
Questões introdutórias
TÍTULO
O título português do livro é derivado do título adotado pela versão grega do Antigo
Testamento, a chamada Septuaginta − Γένεζιρ (genesis), palavra encontrada em
Gênesis 2.3, βίβλορ ηῆρ γενέζεωρ (biblos tēs geneseōs, ―livro da geração‖). Os
israelitas, por sua vez, usam como título a primeira palavra do livro, ‫( ב ְֵּראשִׁית‬berēʾsîṯ,
―no princípio‖).
―Gênesis‖, a despeito de não ser um título abrangente para a totalidade do conteúdo do
livro, serve razoavelmente bem ao propósito do livro, pois este pretende ser um livro de
origens. Primeiramente, apresenta a origem do mundo; depois, a origem da raça humana
e de seu conflito com o mal; por último, embora muito importante, a origem da
linhagem eleita de Abraão, por meio da qual todas as nações do mundo seriam
finalmente abençoadas.
DATA E AUTORIA
A autoria mosaica de Gênesis (na verdade, de todo o Pentateuco) foi indisputável até a
segunda metade do século 18, quando Jean Astruc detectou o que considerou ser duas
fontes literárias distintas, rotuladas de J (que representava o Jahvista) e E (que indicava
o Elohista) devido à incidência de diferentes palavras hebraicas para referir-se a Deus.
Uma estratificação crescente produziu um grande número de teorias com respeito à
origem do Pentateuco, com o acréscimo de outras duas fontes ―claramente definidas‖
nos 100 anos que se seguiram à proposta de Astruc. Essas outras duas fontes receberem
os rótulos de D (que representava o Deuteronomista) e P (que indicava a fonte
Sacerdotal [do alemão priesterlich]).
A ordem particular em que esta hipótese das fontes ou Hipótese Documentária
estabeleceria seu domínio sobre a moderna erudição foi iniciada por K. H. Graf em
1866 (Ph, E, J, D, Pl), depois modificada de modo a dar a P sua forma unitária e a J sua
prioridade cronológica por A. Kuenen (1869), e depois popularizada por Julius
Wellhausen, em 1876, em uma obra que combinava a teoria documentária com uma
visão evolucionista da religião de Israel.
Refutações da hipótese documentária vieram não apenas de eruditos conservadores,
mas também de estudiosos de persuasão liberal. Um dos mais influentes foi o trabalho
de Hermann Gunkel, na área da crítica da forma, no qual deu-se mais ênfase ao
desenvolvimento de cada unidade oral até a chegada a sua presente forma escrita, bem
como a formas literárias paralelas na literatura do Oriente Médio antigo. A combinação
dessas ênfases fez diminuir a distinção entre os supostos documentos J, E, D e P.
Argumentos conservadores contra a hipótese documentária incluem:
(1) seu raciocínio circular em presumir a impossibilidade de revelação sobrenatural e
usar a própria pressuposição para negar as evidências de tal revelação;
(2) a evasão de textos que contrariam a hipótese proposta, usando o artifício de
atribuir a redatores posteriores ou a interpolações aquelas passagens que conflitam com
a teoria;
(3) sua rejeição deliberada do Antigo Testamento como evidência arqueológica,
mesmo quando a arqueologia de maneira constante confirma afirmações bíblicas outrora
contestadas (a existência de Belsazar, dos heteus [hititas], dos horeus [hurrianos]);
(4) sua negação de que um autor israelita qualquer pudesse usar vários nomes para
referir-se a Deus, quando em todo o Oriente Médio antigo divindades sumérias, egípcias
e cananitas eram designadas por dois ou mais nomes diferentes sem qualquer sugestão
de multiplicidade de autores em tais textos;
(5) uma recusa obstinada em aceitar a possibilidade de que um homem educado na
corte mais sofisticada de sua época pudesse ler e escrever, quando escravos semitas
trabalhando nas minas egípcias de turquesa, no Sinai, gravavam seus registros nas
paredes de seu local de trabalho; e
(6) particularmente em Gênesis, as muitas referências a costumes arcaicos que seriam
conhecimento natural para um autor no segundo milênio a.C., mas os quais um autor no
primeiro milênio a.C. dificilmente poderia conhecer, mesmo se privilegiado por uma
notável tradição oral durante um período de mais de mil anos (e.g. geração de filhos por
meio de uma serva, a validade de testamentos orais pronunciados no leito de morte, o
direito de herança para o filho que tivesse a posse dos ídolos domésticos).
Tais fatores, com arcaísmos significativos de vocabulário e indicações de
conhecimento pessoal da geografia, da cultura e do vocabulário do Egito,4 apontam para
a autoria mosaica do Pentateuco, e de Gênesis em particular. Significativamente, os
autores do Novo Testamento e o Senhor Jesus Cristo afirmam unanimemente Moisés
como o autor do Pentateuco (cf. Mt 19.4-8; Mc 12.26; Jo 7.19; At 3.22; Rm 10.5).
Negar essa autoria equivale a atribuir erro a Jesus e a Seus apóstolos.
Assim, a autoria de Gênesis é atribuída a Moisés, mais provavelmente durante a
jornada do Egito para Canaã, com o uso de fontes que tivesse à disposição, quer orais
quer escritas, debaixo do ministério orientador do Espírito de Deus
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Forma
Moisés certamente endossaria a idéia de que o meio é a mensagem, pois Gênesis
comunica tanto por meio de sua forma quanto por meio de seu conteúdo.
No que diz respeito à forma, esse livro de origens contém os ―relatos‖ do trato de
Deus com dez grupos ou entidades diferentes. Esses relatos são marcados pelo uso da
palavra hebraica ‫[ ּתֹולְּדֹות‬tôleḏôt] (cf. 2.4; 5.1; 6.9; 10.1;11.10; 11.27; 25.12; 36.1, 9;
37.2). Cada uma dessas seções relata o que aconteceu à(s) pessoa(s) mencionada(s), ou
a seus descendentes (e.g., o ‫ ּתֹולְּדֹות‬dos céus e da terra [2.4] descreve o que finalmente
aconteceu ao universo recém-criado; o ‫ ּתֹולְּדֹות‬de Tera [11.27] trata particularmente de
seu filho Abraão).
Os primeiros cinco ‫ ּתֹולְּדֹות‬formam o que é comumente chamado de história primeva,
que se estende da criação do universo à chamada de Abraão (2.4–11.26), quando
Yahweh definiu mais claramente o foco de Sua obra redentora (e restauradora de Sua
soberania), ao trazer à luz o povo de Sua aliança.
Os outros cinco ‫ ּתֹולְּדֹות‬tratam da história patriarcal, o desenvolvimento histórico da
aliança inicial entre Yahweh e Abraão por intermédio das linhagens escolhidas de
Isaque e Jacó (11.27–50.26).
Moisés, em ambas as divisões, usou o artifício literário de alistar primeiro a linhagem
ou genealogia do indivíduo ou grupo que fora, por uma razão ou outra, deixado de lado
no processo revelatório, restaurador e redentor de Yahweh. Assim, a genealogia de
Caim (4.17-24) precede a de Sete (4.25, 26); as linhagens de Jafé e Cão (10.1-8)
aparecem antes da de Sem (10.21, 22); a genealogia de Ismael (25.12-15) antecede a de

4
Gleason L. Archer, Merece Confiança o Antigo Testamento?, pp. 120-121
Isaque (25.19), e a de Esaú (36.1-10) precede a de Jacó (37.2). Este arranjo deliberado e
harmonioso é uma evidência notável de unidade de composição.
Estilo
O livro de Gênesis é, primariamente, narrativa em prosa, com passagens poéticas
ocasionais, das quais a bênção de Jacó (49.2-27) é a mais elaborada. A prosa exibe
ritmo e paralelismo (como no relato da criação, no capítulo 1), quiasma (como na
narrativa da Queda, em que o pecado, o questionamento e o juízo seguem-se em ordem
inversa; ou na estrutura espelhada do relato da torre de Babel, no capítulo 11, em que
encontramos narrativa, discurso, verso eixo, discurso, narrativa), e vários exemplos de
paronomásia (e.g., Caim é destinado a ser um ―errante‖ [‫נָד‬, nāḏ em hebraico] e acaba
se estabelecendo na terra de Node [ֹ ‫נד‬
ֹ , nōḏ, que significa ―vagar, errar‖ em hebraico].
Encontram-se ainda em Gênesis diversos exemplos de etimologias populares (os
―trocadilhos‖ contidos nos nomes de pessoas, como Jacó e Perez).
Outra característica literária marcante é a predominância do número sete e seus
múltiplos. Os 7 dias da criação, as sete gerações da genealogia de Caim, os 70
descendentes dos filhos de Noé, a promessa sétupla a Abraão, os 7 anos de abundância e
escassez no Egito e os 70 membros da família de Jacó ilustram amplamente este fato. O
número 10 também parece ser importante, já que há dez ‫ ּתֹולְּדֹות‬e dez gerações nas
genealogias dos capítulos 5 e 11.
Todos estes detalhes de estilo refletem uma elaboração cuidadosa, não o trabalho
aleatório de composição a partir de fontes diversas e contraditórias, conforme proposto
pelos críticos documentais e da forma.
Mensagem
É quase um ato de atrevimento tentar resumir um livro de cinqüenta capítulos em um
único parágrafo, mas tal resumo da mensagem do livro é importante como ferramenta
para trabalhar com passagens isoladas sem perder a noção do todo.
Reconhecendo que qualquer tentativa hermenêutica é aberta a críticas e melhorias, fica
aqui a mensagem proposta por este autor para o livro de Gênesis:
A eleição e separação de Israel como povo pactual de Deus deram-se em um
contexto de conflito entre o propósito benevolente do Criador e a vontade rebelde
das criaturas, a quem Ele pune em justiça e restaura em amor.
A teologia de Gênesis
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Deus é poderoso
O poder e a majestade de Deus manifestam-se primeiramente em Seu trabalho de
criar, ordenar o universo e torná-lo habitável para o homem (caps. 1 e 2). Seu poder
também se evidencia nas forças cataclísmicas que Ele reúne e desencadeia para julgar a
humanidade pecadora (caps. 6–8), na maneira simples, mas engenhosa, pela qual Ele
dispersa a geração pós-diluviana devido à desobediência à ordem divina para que se
espalhassem e enchessem a terra (cap. 11).
O poder de Deus é mais sutilmente demonstrado na capacitação a Abraão e Sara para
que, mediante a fé, gerassem a semente prometida depois de ambos haver passado o
estágio reprodutivo (caps. 18, 21).
Em contraste com isso, vê-se o poder devastador da ira de Deus no juízo contra
Sodoma e Gomorra (cap. 19). As palavras de José para seus irmãos em Gênesis 50.19-
21 demonstram o ponto de vista mosaico sobre o poder de Deus à luz da história da
nação. O que o homem pecador tenciona para o mal, Yahweh é mais do que capaz de
suplantar para Seus propósitos de bênção e bem-estar para o povo de Sua aliança.
Deus é justo
A justiça de Yahweh reflete-se não tanto em declarações sobre Seu caráter quanto nos
meios simples e diretos pelos quais Ele julga a falta de conformidade do homem com o
padrão de conduta prescrito pelo Criador. Tal é o caso com Seu padrão de avaliar o
relacionamento do homem com Ele no jardim (2.16), no julgamento imediato contra a
rebelião do homem (3.8-19), em seu trato severo (mas paciente) com o crime de Caim e
as justificativas pessoais apresentadas por este (4.1-16), no juízo do Dilúvio contra um
mundo cuja inclinação e ações estavam em flagrante violação de Seu caráter (6.1-7), na
destruição de Sodoma e Gomorra por sua depravação e seu estilo de vida egoísta (19.1-
29), assim como em juízos individuais contra homens como Er e Onã (38.6-10).
Deus é gracioso
A graça de Deus lança uma luz brilhante sobre algumas das páginas mais sombrias da
história humana. Quando Sua bondade original foi desprezada no jardim do Éden em
troca da independência que as criaturas queriam Dele, foi Deus quem tomou a iniciativa
de buscar o homem (3.8, 9), de prometer a vitória definitiva sobre a serpente pela
semente da mulher (3.15) e de remediar a nudez e a vergonha do primeiro casal (3.21).
Quando a corrupção engolfou a humanidade, Noé [..] achou graça aos olhos do
Senhor (6.8), e quando as águas do Dilúvio ameaçavam destruir os sobreviventes, Deus
lembrou-se de Noé (8.1).
A graça intensifica-se quando o pacto de Yahweh com a humanidade se focaliza em
Abraão e sua linhagem. Ló é preservado pela graça (19.1-31), Isaque é poupado pela
graça (cap. 22), Jacó é escolhido por graça (25.19-23; cf. Rm 9.11, 12), assim como
toda a família patriarcal é libertada da corrupção e miscigenação em Canaã pela
provisão graciosa que Yahweh lhes faz de José como vice-regente do Egito (caps. 37-
50).
Deus é singular
Há muito que se reconhece em Gênesis uma forte veia polêmica. Israel, depois de 430
anos no Egito, com seu politeísmo grosseiro, e a caminho para Canaã, com sua
cosmogonia perversa e religião imoral, precisava entender seu Deus corretamente para
não cair presa do animismo e da idolatria.
Assim, Gênesis 1 e 2 apresentam Yahweh como o Deus transcendente que existia
antes do universo e dele não dependia para coisa alguma. Ele é senhor absoluto das
forças do universo como o sol e a lua, as águas caóticas do oceano primevo, sobre as
fontes e cursos de água, e mesmo sobre os grandes animais marinhos. Todos esses
elementos tinham alguma conotação mitológica entre os povos do Oriente Médio
antigo, particularmente entre os sumérios e os cananeus.
A narrativa do Dilúvio, que tem paralelos nos épicos sumérios de Gilgamés e
Atrahasis, estende o tom polêmico ao descrever não um deus caprichoso e vingativo,
que destrói a humanidade devido ao desconforto e à falta de sono causados pelo barulho
dos homens, mas Yahweh, um Deus cujo caráter santo e propósitos benevolentes para
com o homem eram menosprezados e violados pela conduta pecaminosa da
humanidade. Além disso, revela um Deus cuja sabedoria permite ao homem escapar ao
juízo por meio de uma embarcação realmente capaz de suportar as intempéries do
Dilúvio, em contraste com outras versões antigas do evento, que descrevem
embarcações totalmente incapazes de navegar e preservar a vida.5
A singularidade de Yahweh aparece em cores ainda mais brilhantes no fato de que Ele
é um Deus que, apesar de transcendente e todo-poderoso, busca um relacionamento com
Suas criaturas e a elas Se revela. Ele estabelece alianças (cf. 9.8-17; 15.9-21; 17.1-27) e
garante seu cumprimento ao prover e proteger milagrosamente a semente que havia
prometido (18.13-15; 22.15-18; 25.21).
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
O plano de Deus na história inclui Seu decreto de permitir o mal, Sua promessa e/ou
ação de julgar o mal, o livramento do mal por meio de uma semente escolhida e o
decreto de abençoar os eleitos a quem libertou. O livro de Gênesis é a sementeira de
todas essas idéias nas Escrituras, e elas encontram expressão genuína nesse livro em que
as grandes divisões da humanidade são estabelecidas de acordo com seu relacionamento
para com o Deus que Se auto-revela.
O decreto de permitir o mal
É forçoso admitir que esse decreto é uma inferência das narrativas de Gênesis. No
entanto, é preciso admitir que embora Deus jamais aceite responsabilidade pela prática
do mal, Ele implicitamente afirma ser o autor da possibilidade do pecado pelo simples
fato de ter oferecido ao homem uma condição de obediência (2.8, 9, 15-17) pela qual a
santidade de que o homem era dotado como criatura pudesse ser exercida e
desenvolvida. A presença de um animal que se rebela contra sua posição na Criação e
permite tornar-se um agente de uma vontade oposta à de Deus é indicação de que o mal
espreitava à porta da perfeita criação divina, mas não fora de Seu conhecimento ou
autoridade (cap. 3).
Assim, um conflito se estabelece, o qual envolverá perenemente a semente da mulher
e a semente da serpente. Caim e Abel e, depois, Caim e Sete são parte deste conflito,
que se alarga e aprofunda a ponto de incluir toda a humanidade em Gênesis 6. Depois
do Dilúvio, o conflito irrompe uma vez mais na linhagem da semente, originando a
maldição sobre os cananeus.
Em última análise, este é um conflito entre a vontade rebelde das criaturas e a vontade
soberana do Criador, conforme evidenciado na torre de Babel, em que o orgulho
humano procura suplantar as intenções divinas para a humanidade na terra.
O fator de desapontamento, que Moisés sem dúvida queria que seus leitores
percebessem para levá-los a depender de Yahweh, demonstra-se na maneira pela qual o
mal se insinua na linhagem escolhida, primeiro com o incidente de Agar, depois com as
trapaças de Jacó e a alienação de Esaú, e finalmente com os vários incidentes de
perversão moral, de desonestidade e de ódio dentro do clã de Jacó. Por meio de todas
essas circunstâncias, Yahweh apontava para Si mesmo como a única esperança de
vitória sobre o mal, pois os patriarcas, na tarefa de dominar o mal, haviam sido tão
falhos quanto Adão, Caim e Noé (cf. Gn 4.7).
A promessa/ação de julgar o pecado
Esta linha do plano mestre de Deus encontra seu início no chamado proto-evangelho
de Gênesis 3.15. Exegeticamente falando, todavia, pode-se argumentar que a própria
criação, conforme descrita em Gênesis 1, é um ato de juízo e redenção.

5
No Épico de Gilgamés, o herói Utnapishtin supostamente escapa à destruição no Dilúvio
em uma embarcação de formato cúbico, totalmente incapaz de flutuação estável e de
dimensões insuficientes para a verdadeira preservação da vida.
O triunfo prometido da semente da mulher é o tema central, cujo cumprimento é
sempre aguardado no desenvolvimento do livro e, no entanto, jamais se realiza, mesmo
quando as possibilidades de escolha da semente se limitam a uma das famílias no clã de
Jacó.
O juízo de Deus contra o pecado aparece em todo o livro, desde as maldições
pronunciadas no jardim do Éden até à disciplina criativa imposta por José a seus irmãos
trapaceiros. Tal juízo, todavia, é sempre temperado com a misericórdia restauradora de
Yahweh, por meio da qual Suas criaturas caídas encontram graça e esperança.
Libertação do juízo para os/pelos eleitos
Vários incidentes em Gênesis ilustram esta parte do programa divino na História. O
nascimento de Sete (4.25) em substituição a Abel aparece como o primeiro exemplo,
resultando na preservação do verdadeiro culto a Deus no contexto de uma civilização
pagã desenvolvida pelos descendentes de Caim (4.16-24).
O evento seguinte é a chamada de Noé do meio de uma geração incuravelmente
corrupta, para que fosse o agente da preservação da raça humana do juízo universal do
Dilúvio (6.8).
Quando a população da terra pós-diluviana se recusa a obedecer aos mandamentos de
Deus e é julgada com a divisão das línguas, a chamada de Abraão (11.27–12.3) oferece
uma nova fase no plano redentor de Yahweh, que é desenvolvido por meio de Isaque e
Jacó, cuja descendência é salva da miscigenação corruptora com os cananeus pagãos
por meio do agente final de libertação em Gênesis, José (a quem o próprio Faraó
reconhece como um homem capacitado por Deus [41.38]).
Uma vez que o livro termina com o registro da morte de José e de seu sepultamento no
Egito, Moisés tencionava que seus leitores percebessem que a saga da Semente da
mulher ainda não acabara e que a tarefa de libertar o mundo do mal seria passada a
outros instrumentos, até que a verdadeira Semente surgisse na História.
O decreto de abençoar os eleitos
Gênesis começa com uma progressão do caos (Gn 1.2) à bênção, à medida que toda a
criação divina é pronunciada boa, e o homem, como governante mediatório de Deus, é
abençoado com vitalidade e fertilidade com as quais deve encher a terra e desfrutar
Deus e Sua criação (1.28-31).
A partir da Queda, bênção e maldição coexistem, nunca pacificamente, e o mal
progride a ponto de quase eliminar a possibilidade de bênção. A essa altura, Yahweh
intervém graciosamente e seleciona Noé como o canal pelo qual a bênção divina fluirá
para uma humanidade renovada (apesar de ainda corrupta).
Gradativamente, o decreto de abençoar vai adquirindo forma mais definida. Sem é
declarado herdeiro de um relacionamento especial com Yahweh (9.26), e sua linhagem
é escolhida para receber e mediar a bênção. Essa linhagem passa por Éber a Terá, e
deste a Abraão (11.20-26). A essa altura, chega-se a um ponto culminante, e uma
promessa específica de bênção é anunciada (12.1-3); essa promessa é depois ampliada
como uma aliança de concessão real (15.9-21) e uma aliança de suserania e vassalagem
(17.1-27), que prendem a bênção de Yahweh à semente de Abraão, primeiro como
recipiente, e depois como canal (cf. 12.3).
Argumento básico
DESENVOLVIMENTO
Devido à natureza do livro de Gênesis, em que uma narrativa altamente estruturada é
parte integrante da mensagem do livro, esta seção será breve, deixando a parte mais
substancial do desenvolvimento para o próprio esboço sintético.
Gênesis é verdadeiramente um livro de origens. Moisés tinha como objetivo oferecer
aos israelitas não apenas um conhecimento de seu passado nacional, mas uma percepção
de como esse passado se conectava à história primeva da humanidade e até mesmo à
origem do universo. O propósito do livro é promover confiança em Yahweh, o Deus da
aliança, demonstrando como a nação devia ao Seu fiel amor sua existência e
preservação ao longo dos séculos como o veículo pelo qual o conflito básico, iniciado
no jardim do Éden, finalmente terminaria, e a humanidade seria abençoada.
O elemento chave no desenvolvimento de Gênesis é a expressão ‫( ּתֹולְּדֹות‬hebraico
para ―gerações‖ ou ―relato‖), em torno da qual as narrativas e seus temas teológicos são
estruturados.
O registro da história primeva da humanidade indica como a Criação caiu de uma
posição de bênção e acabou sob maldição e juízo divinos, estando em contínua
necessidade de redenção do pecado.
A criação do cosmos a partir do caos primevo revela Yahweh como o soberano Deus
Criador, cujos propósitos benevolentes para com o homem incluem comunhão com Ele
e governo sob Sua autoridade (1.1 − 2.3).
Quando o homem rejeitou sua posição de criatura moralmente dependente sob a
autoridade de Deus, sofreu alienação do Criador e trouxe a maldição divina sobre toda a
Criação (2.4 − 3.24).
A história da civilização reflete uma crescente degeneração da conduta humana no
conflito entre as duas sementes. Tal degeneração acabou por provocar um juízo divino
de dimensões planetárias, no qual apenas a graça de Deus preservou um remanescente
(4.1 − 9.17).
O relato dos descendentes de Noé revela como a humanidade uma vez mais
abandonou uma posição de bênção pactual sob a autoridade de Deus e colocou-se em
uma condição de degradação, rebeldia e maldição (9.18 − 11.26).
O registro da história patriarcal de Israel indica como Yahweh selecionou uma
linhagem dentre a humanidade e comprometeu-Se com ela em aliança com o propósito
de trazer a lume, por meio dessa linhagem, a redenção do pecado que prometera no
jardim do Éden.
A narrativa dos descendentes de Terá descreve como o estabelecimento da Semente
prometida por Deus foi marcado por um conflito com o mal, no qual Deus finalmente
triunfou à medida que Abraão aprendeu a confiar no Deus das promessas (11.27 −
25.11).
A genealogia de Ismael apresenta o desenvolvimento da promessa divina de que
Abraão teria uma descendência inumerável (25.12-18).
O relato dos descendentes de Isaque reflete o crescimento do mal dentro da família
escolhida à medida que o engano toma o lugar da fé como sua característica principal
(25.19 − 35.29).
A seguir, o relato dos descendentes de Esaú indica como ele foi abençoado enquanto
ainda estava em Canaã, e como seu clã cumpriu a predição de Isaque ao conquistar a
terra de Seir (36.1-43).
O relato dos descendentes de Jacó indica como a graça de Yahweh preservou a família
pactual da corrupção externa e da dissensão interna por intermédio de José e de sua
peregrinação para o Egito (37.1 − 50.26).
Assim, o livro registra a história do homem desde o seu glorioso princípio no Éden até
a narrativa bem pouco elogiosa da família escolhida, que deve enfrentar o conflito com
o mal, mas que com mais freqüência é derrotada pelo mal do que o derrota. Moisés
incorporou ao seu livro tanto uma sensação de frustração quanto um sentimento de
esperança de que surja algo ou alguém capaz de enfrentar adequadamente e, por fim,
vencer o mal, sendo, desse modo, capaz de cumprir as promessas da aliança.
Ele ofereceu também o contexto da necessidade de um meio de regular a vida sob a
promessa, um tema que será retomado em Êxodo e Levítico.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
A eleição e separação de Israel como povo pactual de Deus deram-se em um
contexto de conflito entre o propósito benevolente do Criador e a vontade rebelde
das criaturas, a quem Ele pune em justiça e restaura em amor.
PARTE I – HISTÓRIA PRIMEVA (1.1 − 11.26)
O registro da história primeva da humanidade mostra como a criação caiu de uma
posição de bênção para estar sob maldição e julgamento divinos, em constante
necessidade de redenção do pecado.
I. A criação do cosmos a partir do caos primevo revela Yahweh como o soberano Deus
Criador, cujos propósitos benevolentes para com os homens incluem a comunhão com
Ele e o domínio sob Sua autoridade (1.1 − 2.3).
A. Deus soberanamente traz o cosmos à existência a partir do caos primevo (1.1, 2).
1. O ato de criação de Deus é resumido (1.1).
2. O ato de criação de Deus foi assegurado por Seu Espírito, a despeito da presença do caos (1.2).
B. Deus soberanamente cria um universo habitável por meio de Sua poderosa palavra de criação
(1.3-31).
1. Deus soberanamente dá ordem e forma o universo nos três primeiros dias de Sua obra (1.3-13).
• Deus soberanamente cria a luz e a separa das trevas [primeiro dia] (1.3-5).
• Deus soberanamente cria a atmosfera terrestre e faz separação entre as águas da atmosfera e a
hidrosfera [segundo dia] (1.6-8).
• Deus soberanamente cria dois habitats distintos para a vida, formando os mares e a terra seca
[terceiro dia] (1.9-13).
2. Deus soberanamente traz a plenitude e a harmonia ao universo nos últimos três dias de Sua
obra (1.14-31).
• Deus soberanamente cria os luminares celestes para regular o tempo e as estações na terra [quarto
dia] (1.14-19).
• Deus soberanamente cria a vida animal no mar e nos ares, e a abençoa com fertilidade [quinto dia]
(1.20-23).
• Deus soberanamente cria a vida na terra e a vida humana como sua expressão máxima,
abençoando-as com a fertilidade [sexto dia] (1.24-31).
• Deus soberanamente cria os animais terrestres, de acordo com suas espécies (1.24, 25).
• Deus soberanamente cria o Homem como Seu governante representativo na terra e abençoa a
humanidade com a fertilidade e com provisões em abundância (1.26-31).
C. Deus soberanamente celebra Sua obra completa e abençoa a criação com o descanso, à
medida que separa para Si mesmo o sétimo dia (2.1-3).
II. A rejeição pelo homem de sua posição de criatura moralmente dependente de Deus dá
lugar à alienação do Criador e à maldição divina sobre toda a Criação (2.4 − 3.24).
A. Resumo - Esse é o relato do que aconteceu à perfeita criação de Deus (2.4).
B. O homem é criado por Deus e suprido com condições ideais nas quais deve servir como
governante representativo de Yahweh (2.5-17).
1. A terra, embora já abençoada com a fertilidade, ainda não havia desenvolvido todo seu
potencial quando Deus criou o homem (2.5, 6a).
2. O homem é criado da terra e recebe sua existência distinta do soberano Deus (2.7-14).
• O homem é colocado em condições ideais para cumprir seu papel de governar sobre a criação de
Deus em Seu lugar (2.8-14).
• O jardim do Éden possuía um ecossistema perfeito de suporte à vida, incluindo a árvore da vida
(2.8, 9).
• O jardim do Éden foi colocado em uma região rica e produtiva (2.10-14).
3. A vida do homem como governante representativo de Deus no Éden deveria ser governada pela
obediência a um simples mandamento, que ofereceria uma vida significativa e impediria
a morte (2.15-17).
C. As condições ideais do homem são coroadas pela provisão divina de comunhão que nivelam
sua esfera de existência como criatura (2.18-25).
1. Deus permite que o homem descubra que a autoridade sem a comunhão não é Seu ideal para a
humanidade (2.18-20).
2. Deus oferece comunhão ao formar da própria substância humana uma companheira que o
homem reconhece como perfeitamente adequada para partilhar de sua vida de serviço a
Deus (2.21-23).
3. O ponto culminante da Criação é a união íntima do Homem e da Mulher sem medo ou
remorsos (2.24, 25).
D. O homem, devido à violação do mandamento de Deus, passa da perfeita comunhão e serviço
para um medo e sofrimento paralisante (3.1-7).
1. A serpente é apresentada como contraste à inocência do primeiro casal (3.1a; cf. 2.25).
2. A escolha do homem é crer nas insinuações da serpente acerca das motivações de Deus e agir
em rebelião contra Ele (3.1b-6).
• A serpente levanta perguntas provocativas acerca do mandamento de Deus (3.1b).
• A mulher responde de forma imprecisa à pergunta (3.2, 3).
• A serpente nega abertamente a realidade da penalidade e a racionalidade do preceito (3.4, 5).
• O primeiro casal age em rebelião ao comer o fruto, conforme proposto pela serpente (3.6).
3. As conseqüências imediatas da aquisição do conhecimento do bem e do mal foram o medo e a
culpa consciente, que o homem e a mulher tentaram eliminar por seus próprios recursos
(3.7).
E. O confronto entre o soberano Criador e a criatura rebelde resulta em tentativas humanas de
justificação de si mesma e justos julgamentos divinos, que combinam a maldição no
presente e a libertação no futuro (3.8-19).
1. O temor da presença de Deus devido à vergonha de estar nus faz Adão e Eva tentarem se
esconder (3.8).
2. O homem e a mulher admitem sua culpa, mas não sem antes tentarem se escusar, ao transferir a
culpa pelo ocorrido (3.9-13).
3. Deus lança um julgamento justo sobre as criaturas em uma combinação de maldição no
presente com libertação no futuro (3.14-19).
• O julgamento para a serpente foi sua degradação física e a promessa de que o conflito iniciado no
Éden continuaria até o triunfo final da Semente da mulher (3.14, 15).
• O julgamento para a mulher foi o aumento de suas dores e sofrimentos na gravidez e no casamento
(3.16).
• O julgamento para o homem foi uma maldição sobre a terra, que tornaria a provisão para a vida
um processo doloroso que só terminaria com a morte (3.17-19).
F. A provisão divina para o pecado do homem incluía peles para cobrir sua vergonha e
impedimento de chegar à árvore da vida em um estado pecaminoso (3.20-24).
1. Adão, por meio do nome que deu a sua esposa, demonstra a fé em Deus (3.20).
2. O Deus soberano provê (por meio de sacrifício) peles de animais para substituir a tentativa fútil
do homem de parecer justo diante de Deus e declarar-se inocente (3.21).
3. O Deus soberano toma providências para evitar que o homem pecaminoso tenha acesso à vida
eterna enquanto debaixo de maldição (3.22-24).
III. A história da civilização reflete uma degeneração crescente do comportamento humano
no conflito entre as duas descendências que resulta em um julgamento divino sobre toda
a terra, onde a graça preserva um remanescente (4.1 − 9.17).
A. A primeira geração pós-Queda produz uma sociedade que é tão ímpia quanto próspera (4.1-
24).
1. O iniciador dessa geração pós-Queda é um indivíduo renegado social e religiosamente, cujo
coração é cínico e cujas mãos são sangrentas diante de Deus (4.1-16).
• Caim desenvolve uma atitude socialmente vindicativa quando sua oferta é rejeitada e a de seu
irmão é aceita por Yahweh (4.1-5).
• Caim desenvolve uma atitude espiritualmente cínica à medida que mata traiçoeiramente seu irmão,
a despeito da clara advertência de Deus contra o poder destrutivo do pecado (4.6-9).
• Caim recebe uma punição justa de expulsão da terra habitável, combinada com uma provisão
misericordiosa de proteção contra vingança de sangue (4.10-16).
2. O desenvolvimento da linhagem de Caim ocasiona um progresso social às custas do valor da
vida humana (4.17-24).
• Caim introduz a cidade como entidade social em desafio à punição de Deus e em memória do filho
que propagou sua linhagem (4.17, 18).
• Lameque insere a primeira corrupção do casamento (bigamia) em uma sociedade que cresceu em
tecnologia e em desprezo pela vida humana (4.19-24).
– Lameque insere a prática da bigamia (4.19).
– Os descendentes de Lameque inserem avanços culturais básicos que tornam a vida mais fácil (4.20-
22).
– Lameque mostra grande desprezo pela vida humana e vangloria-se de excessiva vingança (4.23, 24).
B. A segunda geração pós-Queda produz uma linhagem cuja mais significativa reivindicação é
preservar a religião correta ao adorar a Yahweh (4.24-26).
C. O registro da linhagem de Adão por meio de Sete demonstra o efeito da maldição e a
esperança de libertação da mesma, conforme ilustrada pelo traslado de Enoque e pelo
nascimento de Noé (5.1-32).
1. Adão, feito à imagem de Deus, gera um filho em sua imagem pecaminosa e morre (5.1-5).
2. A dominância da morte marca os efeitos da maldição, até mesmo sobre a linhagem piedosa
(5.6-20).
3. O traslado de Enoque antes da morte, devido à comunhão pessoal com Deus, demonstra a
realidade da esperança de libertação da maldição (5.21-24).
4. Lameque, descendente de Enoque, demonstra esperança de libertação da maldição no
nascimento de seu filho, a quem ele dá o nome de ―descanso‖ [Noé] (5.25-31).
5. Os filhos de Noé são citados por último no relato, sem dados genealógicos, como indicativo do
fim de um ciclo da história humana (5.32; cf. também os três filhos de Lameque na
genealogia de Caim).
D. A reação de Yahweh à difusão do mal na terra foi o julgamento universal do Dilúvio,
abrandado por Sua graça, por meio da qual uma família e animais representativos foram
preservados para a continuidade de Sua promessa (6.1 − 9.17).
1. A dispersão e a profundidade do mal sobre a terra alcançam tal limite, que Yahweh anuncia
Sua decisão de exterminar a humanidade (6.1-8).
• A forma exagerada e egoísta com que a humanidade buscava o prazer e a fama trouxe à tona o
anúncio da retirada da proteção de Deus sobre a humanidade (6.1-4).
• A reação de Deus frente à completa depravação da humanidade foi de tristeza e justo juízo, bem
como de favor imerecido a um indivíduo (6.1-8).
2. A destruição eficaz da vida terrena é consumada por um Dilúvio universal, a partir do qual uma
família e animais representativos são salvos, de acordo com a graça de Deus, para
reassegurar Seu domínio sobre a terra por meio do homem (6.9 − 8.22).
• Noé, um homem justificado pela graça, foi divinamente instruído para preparar uma arca à luz da
ameaça divina de destruir a humanidade corrupta e violenta (6.9-22).
– O caráter de Noé o distinguia da corrupção geral da raça (6.9-12).
– As instruções de Deus a Noé foram para que preparasse uma grande embarcação e reunisse animais
representativos para preservar a criação da completa extinção no Dilúvio que viria
(6.13-22).
• A destruição da terra ocorreu por meio da ação das águas atmosféricas, de superfície e
subterrâneas, enquanto a graça de Deus preservou Noé dentro da arca (7.1-24).
– Noé obedece às instruções de Deus ao colocar sua família e os animais dentro da arca (7.1-9).
– Deus protege o remanescente dentro da arca, enquanto as águas em cima e embaixo exterminam
toda a vida na terra (7.10-24).
• A renovação do domínio de Deus sobre a terra é consumada quando Noé obedece à Sua ordem de
sair da arca e repovoar a terra expurgada sob uma nova aliança (8.1-22).
– Deus remove gradualmente as águas que utilizou para julgar a humanidade (8.1-5).
– Noé espera pacientemente por indícios de que a terra estivesse novamente habitável (8.6-14).
– Noé obedece às instruções de Deus para esvaziar a arca e retomar a vida na terra (8.15-19).
– A intenção de Deus de não destruir novamente a humanidade por meio das águas é anunciada em
resposta ao sacrifício de adoração de Noé (8.20-22).
3. A instituição de uma nova ordem vem por meio de uma aliança entre Deus e Noé, pela qual
eles tornam-se responsáveis por povoar a terra e exercer domínio benevolente sobre ela,
e Deus garante a preservação da terra (9.1-17).
• Deus abençoa Noé e sua família e prescreve novas regras com respeito à vida na terra (9.1-7).
– Noé e seus filhos são abençoados com a fertilidade (9.1).
– Noé e seus filhos recebem novas regras de alimentação (9.2-4).
• Deus exige respeito pela vida humana feita à Sua imagem, ao proibir o assassinato, instituindo a
pena capital para tal crime (9.5-7).
• Deus faz um pacto de nunca mais destruir a terra por meio das águas, e escolhe o arco-íris como
Seu sinal (9.8-17).
IV. O relato dos descendentes de Noé revela como mais uma vez a humanidade passou de
uma posição de aliança de bênção sob a autoridade de Deus para um estado de
degradação, rebelião e maldição (9.18 – 11.26).
A. O conflito entre as duas sementes irrompe de novo na família de Noé, à medida que Cam
desonra seu pai e traz uma maldição para sua linhagem, enquanto Sem e Jafé desfrutam
a bênção de Noé (9.18-29).
1. Uma descrição dos três filhos de Noé os relaciona à futura população do mundo (9.18, 19).
2. A reação irreverente de Cam à vergonha causada pela embriaguez de seu pai trouxe uma
maldição sobre sua linhagem, de acordo com o caráter que ele transmitiria a ela (9.20-
25).
3. A resposta de Noé à reação de reverência de Sem e Jafé para com sua vergonha foi abençoá-los
com o domínio e um relacionamento especial com Yahweh (9.26, 27).
4. Um resumo da vida de Noé após o Dilúvio demonstra os efeitos sucessivos da maldição
original [i.e., morte] (9.28, 29).
B. O relato dos filhos de Noé descreve como seus descendentes se dividiram na população do
mundo [partes desse capítulo são cronologicamente subseqüentes a 11.1-9] (10.1-32).
1. Uma tríplice genealogia é apresentada em uma referência ao Dilúvio (10.1).
2. Os jafetitas estabeleceram-se na Eurásia (10.2-6).
3. Os camitas estabeleceram-se na África, Arábia e Palestina, com uma presença também
importante nos primeiros estágios de civilização no Crescente Fértil (10.7-20).
4. Os semitas estabeleceram-se no Crescente Fértil e na região próxima ao mar Cáspio (10.21-31).
5. Um resumo da lista é apresentado (10.32).
C. A tentativa unificada da humanidade de resistir à ordem de Deus de se espalhar por toda a
terra, por meio da construção de uma cidade para celebrar sua própria glória, é
subvertida por Deus por meio da confusão da linguagem (11.1-9).
1. A humanidade estabelecera-se em uma única região, Sinear, e vivia unida por falar uma única
língua (11.1).
2. O orgulho humano leva os homens a construir uma cidade grandiosa, com uma torre magnífica,
de forma a ratificar que aquele local seria sua habitação imutável e que seu destino
pertencia a eles mesmos (11.2-4).
3. A resposta do Senhor ao perigo imposto pela unidade humana em rebelião e pelo orgulho é a
subversão de sua unidade, por meio da confusão do diálogo humano, e a dispersão dos
homens por toda a terra (11.5-8).
4. Babel foi o local onde Deus reduziu o orgulho humano a mero barulho, e a unidade humana, à
dispersão (11.9).
D. O relato dos descendentes de Sem completa a genealogia revelacional de Sete [apresentada
em 5.1] (11.10-26).
PARTE II - HISTÓRIA PATRIARCAL (11.27 − 50.26)
O registro da história patriarcal de Israel mostra como Yahweh escolheu uma
linhagem de entre os homens e Se comprometeu com ela em uma aliança, para trazer,
por meio dessa linhagem, a prometida redenção do pecado.
I. O relato dos descendentes de Terá descreve como a instituição da Semente prometida de
Deus por intermédio de Abraão foi truncada pelo conflito com o mal, mas finalmente
triunfou quando Abraão aprendeu a confiar no Deus das promessas (11.27 − 25.11).
A. O relato da mudança de Terá de Ur para Harã introduz a família pela qual Yahweh
estabeleceria a linhagem prometida (11.27-30).
B. A resposta de Abrão ao chamado e às promessas de bênção de Yahweh foi obedecer à ordem
e romper com sua família e com sua tradição pagã (12.1-9).
1. As bênçãos prometidas por Yahweh a Abrão exigiam o abandono de sua terra e família, e a
viagem a uma terra desconhecida (12.1-3).
• A exigência de Yahweh é uma clara ruptura com o passado de Abrão, como um pré-requisito para
a bênção (12.1).
• A promessa a Abrão são grandes bênçãos pessoais que fariam dele uma bênção para outros (12.2).
• A promessa a Abrão é que ele será o canal de bênçãos universais (12.3).
2. A resposta de Abrão à exigência e às promessas de Yahweh é o rompimento dos laços de
família e a viagem para Canaã, onde ele publicamente adora seu Deus recém-
encontrado (12.4-9).
• Abrão muda-se com todos seus bens de Harã para Canaã (12.4, 5).
• Abrão peregrina em Canaã, a terra que o Senhor promete lhe dar (12.6, 7).
• Abrão se identifica com Yahweh ao adorá-Lo publicamente durante sua peregrinação (12.8, 9).
C. O compromisso de Abrão de crer nas promessas de Yahweh é colocado à prova quando
conflitos com o mal surgem em Canaã (12.10 − 14.24).
1. A mentira de Abrão a Faraó, em virtude da beleza de Sarai, devido ao medo de morrer põe em
risco a promessa, uma vez que ela teria sido tomada por Faraó, exceto pela intervenção
de Yahweh (12.10-20).
• A mudança de Abrão para o Egito foi causada pela fome em Canaã (12.10).
• A falta de fé e a preocupação consigo mesmo motivaram Abrão a utilizar-se do engano para se
proteger por causa da beleza de Sarai (12.11-13).
• O plano humano de Abrão fracassa quando Faraó toma Sarai para seu harém, sem negociações
formais (12.14-16).
• A intervenção soberana de Yahweh evita a perda de Sarai para Faraó e utiliza um rei estrangeiro
para repreender a Abrão (12.17-20).
2. A desavença de Ló com Abrão pelos direitos de pastagem faz com que cresça a fé do patriarca,
quando este renuncia a seus direitos e recebe as promessas renovadas de Deus (13.1-
18).
• Abrão volta do Egito bastante rico, mas ainda fiel em sua adoração e proclamação de Yahweh
(13.1-3).
• Os rebanhos de Abrão e Ló crescem demais na terra, trazendo tensão e conflito entre seus servos
(13.4-7).
• Abrão cresce em fé ao abrir mão do direito de ter a primeira escolha na terra para Ló, que, de
forma egoísta, escolhe o Vale do Jordão (13.8-13).
• Abrão cresce em fé e em seu testemunho de Yahweh ao receber a confirmação da promessa divina
de dar-lhe Canaã, como também uma descendência incontável (13.14-18).
3 A promessa divina de abençoar a Abrão e aqueles que o abençoarem é confirmada por meio da
vitória sobre o conflito e a sábia escolha da bênção espiritual em lugar das riquezas
terrenas (14.1-24).
• Um conflito internacional afeta a Abrão, à medida que seu sobrinho Ló é capturado por reis da
Mesopotâmia que atacaram vassalos rebeldes na região do Jordão (14.1-12).
• Abrão obtém uma grande vitória sobre os reis da Mesopotâmia, libertando seu sobrinho e
recuperando os despojos de guerra com a ajuda de seus aliados cananitas (14.13-16).
• Ao ser confrontado com a escolha entre a bênção espiritual de Melquisedeque, rei de Salém, e a
recompensa material de Bera, rei de Sodoma, Abrão opta pelas bênçãos espirituais, em
reconhecimento à fonte de sua vitória (14.17-24).
D. A fé justificadora triunfa essencialmente na obediência às exigências da aliança de Deus, a
despeito da perda de espaço no conflito entre a engenhosidade humana e o adiamento
soberano de Deus quanto à Semente prometida a Abrão (15.1 − 17.27).
1. Abrão é encorajado pela promessa e pela aliança de Deus, mesmo quando sua fé justificadora
vacilava à luz da demora da Semente prometida (15.1-21).
• A queixa de Abrão acerca da incompatibilidade da bênção de Deus e sua falta de filhos é
respondida por uma promessa renovada de que seu filho natural seria seu herdeiro e
daria origem a uma descendência incontável (15.1-5).
• A fé real de Abrão já o havia trazido a uma posição de justiça diante de Yahweh (15.6).
• A resposta de Yahweh ao pedido de uma prova por parte de Abrão, aquele que creu, é a concessão
de uma aliança como garantia de que a promessa de herdar Canaã seria cumprida depois
de um período de provação em meio à escravidão, enquanto outros propósitos divinos
são consumados em Canaã (15.7-21).
– Uma ordem divina para preparar-se para uma aliança solene é a resposta ao pedido de uma prova do
cumprimento da promessa por parte de Abrão (15.7-11).
– Um período de prova em meio à escravidão ocorrerá para a semente de Abrão enquanto outros
propósitos de Deus são cumpridos em Canaã (15.12-16).
– Yahweh assume incondicionalmente a total responsabilidade pelo cumprimento das promessas da
terra e define seus limites (15.17-21).
2. A confiança na promessa divina cede espaço à engenhosidade humana, à medida que a fé
vacila no conflito entre a vontade de Abrão e Sarai e o soberano adiamento da promessa
de Yahweh, que impõe a presença do fracasso na fé na vida daqueles que deixaram de
confiar completamente nEle (16.1-16).
• A esterilidade prolongada de Sarai a induz a racionalizar a promessa e a encorajar Abrão a formar
para eles uma família por meio de sua serva egípcia Agar (16.1-4a).
• A conseqüência da tentativa engenhosa de Sarai para evitar o adiamento da promessa divina é o
conflito na família da fé (16.4b-6).
• A volta de Agar ao serviço submisso na casa de Abrão, depois de ter sido abençoada por Yahweh,
é Sua forma de manter visível o fracasso na fé àqueles que deixaram de confiar
completamente nEle (16.7-16).
3. A fé justificadora triunfa sobre a demora prolongada da promessa por meio de uma aceitação
obediente das mudanças e das responsabilidades contidas na aliança ampliada (17.1-27).
• A responsabilidade de Abrão para com Yahweh, à medida que Ele confirma Sua promessa, é a
obediência fiel ao Deus que muda o nome do patriarca como forma de garantia de
cumprimento da promessa (17.1-8).
• A forma de Yahweh avaliar a fidelidade de Abraão para com a promessa foi a instituição da
circuncisão (17.9-14).
• A mudança específica do nome de Sarai, feita por Yahweh, garante que ela e seu filho, não
Ismael, seriam o canal da promessa divina, a despeito da bênção de Yahweh sobre
Ismael (17.15-22).
• A circuncisão de todos os homens na casa de Abraão em aceitação obediente ao mandamento da
aliança mostra o triunfo da fé (17.23-27).
E. As recompensas da fé no cumprimento iminente da promessa e da comunhão intercessória
diante de Yahweh são contrastadas com as reprovações causadas por atitudes de
incredulidade em Sodoma e Gerar (18.1 − 20.18).
1. A visita de Yahweh a Abraão traz a recompensa de sua fé, com o anúncio da iminência do
nascimento de seu filho, por meio de Seu poder irresistível, a despeito de um resíduo de
desconfiança em Sara (18.1-15).
2. A intercessão de Abraão a favor de Ló, seu sobrinho afastado, destaca a justiça e a misericórdia
de Yahweh e a posição privilegiada que a fé conquistara para o patriarca (18.16-33).
3. O fim lamentável da vida insípida de Ló por meio da destruição de Sodoma é agravado pela
completa vergonha inserida permanentemente nos descendentes de Ló em razão de sua
origem impura [isto realmente serve como contraste para a pureza de Israel, cuja
origem foi uma promessa divina] (19.1-38).
• A manifestação de graça de Yahweh para com Sodoma é veementemente recusada pelos
habitantes licenciosos e é aceita apenas de forma relutante por Ló, o homem sem
convicções (19.1-14).
• A vergonha de Sodoma sobrevive nos descendentes de Ló, fruto da união de filhas incrédulas com
seu pai transigente (18.15-34).
4. O lapso egoísta de Abraão ao recorrer ao engano em vez da fé, quando confrontado novamente
com uma possível situação de perigo devido a Sara é remediado por uma nova
intervenção divina em favor de Sara, em vista de seu status privilegiado perante
Yahweh (20.1-18).
• Abraão coloca em risco a promessa, de forma egoísta, ao negociar sua esposa em busca de
segurança pessoal (20.1, 2).
• Yahweh providencialmente impede que Abimeleque cometa adultério e prescreve ressarcimento
ao profeta Abraão e a oração deste em favor do rei (20.3-7).
• As desculpas pouco convincentes de Abraão recebem a repreensão merecida por Abimeleque, à
medida que o rei pagão faz a restituição por Sara, e Deus cura toda sua casa, em
resposta à oração de Abraão (20.8-16).
F. A plena recompensa da fé vem quando chega a Semente, que assume seu lugar de direito em
um lar seguro, assimila uma lição sobre dependência, adquire uma porção de terra em
Canaã e acha uma noiva (21.1 − 24.67).
1. A plena recompensa da fé vem quando a Semente nasce de forma miraculosa e torna-se
membro da família da promessa (21.1-7).
2. A plena recompensa da fé vem quando a Semente assume seu lugar de direito por meio da
expulsão do filho concorrente, a quem Yahweh abençoa graças a Abraão, e por meio de
um tratado de paz entre Abraão e os filisteus (21.8-21).
3. A plena recompensa da fé vem quando a Semente assimila uma lição de dependência quando
Deus prova Abraão, pedindo o sacrifício de Isaque no monte Moriá (22.1-19).
4. A plena recompensa da fé vem quando Abraão adquire um túmulo em Canaã como prenúncio
de plena posse no futuro (23.1-20).
5. A plena recompensa da fé vem quando Eliézer, o servo, acha uma esposa para a Semente
dentre os parentes de Abraão em Harã (24.1-67).
• A solene responsabilidade de prover continuidade para a família pactual em Canaã é confiada a
Eliézer, o servo de confiança de Abraão (24.1-9).
• A direção de Deus, buscada em notável fé por Eliézer, culmina com o encontro entre ele e Rebeca,
em Harã (24.10-27).
• O relato de sua missão por Eliézer recebe aprovação da família de Rebeca (24.28-54a).
• A reação favorável de Rebeca e a bênção de sua família garantem o sucesso da missão de Eliézer
(24.54b-60).
• Isaque e Rebeca encontram-se e casam-se (24.61-67).
G. A continuidade da bênção prometida é garantida por Abraão antes de sua morte, como
também é demonstrada pelo Senhor depois disso (25.1-11).
1. A promessa divina de que Abraão se tornaria pai de muitas nações cumpre-se em sua velhice
por meio de Quetura, sua segunda esposa (25.1-4).
2. A linhagem prometida e a herança são designadas para Isaque, ao passo que os outros filhos
recebem provisão e são encaminhados para outros lugares (25.5, 6).
3. A morte de Abraão em honra e paz e seu sepultamento por seus dois filhos coroam uma vida de
crescimento na fé (25.7-10).
4. Deus abençoa Isaque depois da morte de seu pai (25.11).
II. A genealogia de Ismael apresenta o desdobramento da promessa divina de uma semente
inumerável para Abraão (25.12-18).
III. O relato dos descendentes de Isaque reflete o crescimento do mal dentro da família
escolhida, à medida que o engano toma o lugar da fé como sua característica principal
(25.19 − 35.29).
A. A transferência do direito de primogenitura de Esaú para Jacó conforme predito a Rebeca
não foi obtida por meio de fé, mas de oportunismo (25.19-34).
1. A família de Isaque é estabelecida por fé e seu desenvolvimento é apresentado como revelação
de Deus (25.19-26).
• A oração de Isaque em favor de sua esposa garante a sucessão da linhagem da Semente (25.19-
21).
• A revelação divina quanto ao futuro da Semente é que o filho mais novo terá precedência sobre o
mais velho (25.22, 23).
• O nascimento e a concessão dos nomes aos gêmeos refletem o pronunciamento soberano de
Yahweh sobre o destino deles (25.24-26).
2. Jacó, por meio de oportunismo, obtém o direito de primogenitura de seu irmão espiritualmente
insensível (25.27-34).
• Uma divisão torna-se visível na família à medida que os filhos chegam à idade adulta (25.27, 28).
• Jacó usa o oportunismo para roubar o direito de primogenitura de seu irmão espiritualmente
insensível (25.29-34).
B. O conflito entre o engano e a fé acha expressão na vida de Isaque apesar da confirmação
divina da bênção prometida (26.1-33).
1. O precedente do engano em lugar da fé acha-se também na vida de Isaque, apesar de ter
confiado nas promessas pactuais de Yahweh, ao receber a ordem de permanecer em
Canaã durante uma fome (26.1-11).
• Yahweh reconfirma a Isaque Suas promessas pactuais e exige que ele permaneça em Canaã
durante um período de fome (26.1-6).
• Isaque recorre ao engano durante sua peregrinação em Gerar para proteger a si mesmo (26.7-11).
2. A fé encontra vitória e traz as bênçãos pactuais de prosperidade e paz a despeito de oposição
feroz por parte dos vizinhos de Isaque (26.12-33).
• A bênção de Yahweh repousa sobre Isaque, que se torna rico e forte a ponto de provocar a inveja
dos que o cercam (26.12-14).
• A confiança de Isaque em Yahweh, em uma disputa sobre terra e água, demonstra a fé pactual pela
entrega de seus direitos (26.15-22).
• A confiança de Isaque no Deus que Se revelou na aliança é recompensada com um tratado de paz
com os filisteus e com abundante provisão de água em Beer-Seba (26.23-33).
C. A intrusão do mal na família pactual fica evidente quando a bênção patriarcal é obtida não
por meio de fé, mas por meio de um engano que racha a família (26.34 − 28.9).
1. O intenso descaso de Esaú para com a aliança demonstra-se no fato de ter tomado para si
esposas cananitas (26.34).
2. A maldade instala-se na família pactual à medida que Isaque tenta abençoar Esaú em desafio ao
oráculo do nascimento, e Rebeca antecipa-se a Yahweh armando um esquema enganoso
para que Jacó receba a bênção (27.1-45).
• A determinação de Isaque em abençoar Esaú manifesta-se quando o patriarca pensa que chegou o
tempo de sua morte (27.1-5).
• A determinação de Rebeca para que Isaque abençoe Jacó faz que ela e Jacó criem um plano
enganoso para arrancar a bênção de Isaque (27.6-17).
• Jacó recebe a bênção ao enganar seu pai, mentindo para ele em palavra e ação (27.18-29).
• Esaú arranca de seu pai espantado uma antibênção, enquanto se desespera pela nova mentira de
Jacó (27.30-40).
• O conflito estabelece-se à medida que Esaú faz planos de matar Jacó, e Rebeca traça uma
estratégia para preservar seu filho favorito enviando-o para Harã (27.41-45).
3. O subterfúgio de Rebeca, quanto às esposas de Esaú, oferece a Jacó não apenas o escape da ira
de seu irmão, mas também a plena bênção da aliança abraâmica (27.46 − 28.5).
• O subterfúgio de Rebeca foi encobrir o conflito entre seus filhos com sua agonia em razão de suas
noras cananitas (27.46).
• A reação de Isaque ao problema apresentado por Rebeca foi enviar Jacó a Harã com a plenitude da
bênção abraâmica (28.1-5).
4. O arrependimento tardio de Esaú, quanto ao seu estilo de vida profano, demonstra-se em sua
tentativa de reconquistar o favor do pai casando-se com uma mulher do clã abraâmico
(28.6-9).
D. A intervenção soberana de Yahweh na vida de Jacó garante o cumprimento das bênçãos
abraâmicas, a despeito da fraqueza de sua fé no conflito de sagacidade com Labão
(28.10 − 32.2).
1. A manifestação pessoal de Yahweh, assim como Seu compromisso de abençoar Jacó com a
plenitude das bênçãos abraâmicas, traz uma resposta de adoração e fé reticente,
demonstrada quando Jacó erige um memorial em Betel (28.10-22).
• A manifestação de Yahweh acontece em uma visão em que anjos conectam o céu e a terra, e as
promessas pactuais são garantidas pelo próprio Yahweh (28.10-15).
• A resposta de Jacó incluiu adoração reverente e um compromisso condicional de servir a Yahweh
(28.16-22).
2. Yahweh soberanamente prepara situações para que Jacó aprenda que as bênçãos divinas são
obtidas por fé, e não por engano, ao colocá-lo em contato com o ardiloso Labão (29.1 −
31.55).
• A chegada de Jacó a Harã é soberanamente preparada para trazê-lo a um contato imediato com sua
parentela (29.1-14).
• Jacó prova de seu próprio remédio do engano quando os arranjos para seu ingresso na família de
Labão pelo casamento são tingidos pelo engano e ele, inadvertidamente, casa-se com
Lia, depois de ter trabalhado 7 anos por Raquel, e vê-se forçado a trabalhar ainda outros
7 por sua favorita (29.14b-30).
• A divina promessa de fertilidade é cumprida a Jacó, ainda que em um contexto de ciúme e
conflito, em que a fé e a engenhosidade humana colidem freqüentemente (29.31 −
30.24).
– Yahweh estende misericórdia a Lia, a esposa desprezada, concedendo-lhe fertilidade, em contraste
com a esterilidade de Raquel (29.31-35).
– A competição ciumenta entre as duas esposas provoca o uso das respectivas servas como mães de
aluguel, primeiro em favor de Raquel, e depois, de Lia (30.1-13).
– Superstição e conflito distorcem a vida familiar de Jacó à medida que as duas esposas competem
pela atenção do marido (30.14, 15).
– Yahweh renova Sua misericórdia em favor de Lia, que aprendera a confiar em Deus em meio à
humilhação, concedendo-lhe outros filhos (30.16-21).
– Yahweh concede misericórdia a Raquel quando ela abre mão de ardis e, em fé, pede-Lhe um filho
(30.22-24).
• A promessa divina de prosperidade cumpre-se para Jacó, ainda que em um contexto de conflito
entre a determinação de Jacó em ser bem-sucedido e a determinação egoísta de Labão
em continuar a tirar proveito de seu genro, as quais Yahweh controla de modo a cumprir
Seus propósitos (30.25-43).
– A frustração de Jacó com a falta de benefícios materiais em seu trabalho para Labão vê-se em seu
pedido para voltar a Canaã (31.25, 26).
– O desejo de Labão de beneficiar-se ainda mais de seu genro leva-o a fazer concessões aparentes ao
pedido de ―reajuste salarial‖ por parte de Jacó (31.26-34).
– A desonestidade de Labão destrói as chances humanas de prosperidade para Jacó, que recorre à
superstição para poder superar a esperteza de seu sogro (31.35-42).
– O resultado do conflito foi a prosperidade de Jacó e o declínio de Labão (31.1-43).
• A promessa divina de proteção cumpre-se para Jacó, mesmo quando sua prosperidade atraiu a
suspeita e a ira de Labão e seus filhos (31.1-55).
– A decisão de Jacó de fugir secretamente de volta para Canaã foi causada pela suspeita e ira de
Labão e recebeu a aprovação de Yahweh (31.1-21).
◦ Ressentimento crescente e aprovação divina dão a Jacó uma razão para sair de Harã (31.1-3).
◦ O apoio unânime de suas esposas encoraja Jacó em seus planos (31.4-16).
◦ A fuga de Jacó envolve segredo e engano, pois Raquel ousadamente rouba os terafins, reivindicando
para seu marido, Jacó, a posição de legítimo herdeiro de Labão (31.17-21).
– Yahweh soberanamente impede os desígnios assassinos de Labão contra Jacó ao adverti-lo para não
fazer mal a seu genro (31.22-24).
– A incapacidade de Labão de provar suas acusações contra Jacó (graças à mentira de Raquel) coloca-
o em desvantagem, forçando-o a aceitar um acordo de paz (31.25-55).
◦ As acusações de Labão contra Jacó são culminadas com a acusação de roubo (31.25-30).
◦ A mentira de Raquel impede que Labão encontre os valiosos terafins, salvando assim sua vida e a de
toda a família (31.31-35).
◦ Jacó apresenta contra-acusações de desonestidade e exploração, que teriam sido impedidas apenas pela
intervenção soberana de Yahweh (31.36-42).
◦ Jacó e Labão celebram um pacto igualitário de não-agressão em que tomam Yahweh como testemunha
(31.43-55)
3. A confirmação que Yahweh oferece de Sua bênção sobre Jacó, quando este retorna a Canaã, é
uma nova aparição de anjos (32.1, 2).
E. A volta de Jacó para Canaã, realizada sob a bênção de Yahweh, ocorre enquanto o patriarca
ainda luta contra os efeitos de escolhas antigas, de recorrer ao engano e não à fé, tanto
na vida pessoal quanto na vida familiar (32.3 − 35.29).
1. A reação de Jacó à aparente ameaça de vingança por parte de Esaú revela uma fé ainda fraca e
atormentada pela tendência de recorrer ao suborno e ao engano para alcançar seus
objetivos (32.3-21).
• Jacó primeiro reage em pânico quando sua mensagem a Esaú parece provocar uma reação
agressiva (32.3-8).
• Jacó recorre a uma oração pactual, reivindicando a proteção de Yahweh à luz de Sua ordem para
que voltasse a Canaã (32.9-12).
• Jacó recorre ao suborno, que ele vê como a maneira mais eficaz de apaziguar seu irmão (32.13-
21).
2. A vitória pessoal da fé sobre o engano na vida de Jacó acontece quando, em sua luta contra o
mensageiro divino, ele é forçado à plena dependência de Deus (32.22-32).
• Sozinho junto ao ribeiro Jaboque, Jacó enfrenta um inimigo inesperado que luta contra ele e o
deixa aleijado, ao deslocar seu quadril (32.22-25).
• O significado da luta de Jacó contra o mensageiro divino é a mudança de seu caráter, de
enganador em herói, cuja nova marca será a dependência de Deus (32.26-29).
• O reconhecimento de que aquele que o atacara era Deus e que tinha escapado milagrosamente leva
Jacó/Israel a dar ao local o novo nome de Peniel (32.30, 31).
• A associação religiosa do incidente é oferecida pelo autor (32.32).
3. A reconciliação de Jacó com Esaú demonstra que Yahweh de fato lhe concedera proteção e que
sua exagerada depreciação de si mesmo é um resquício de seu antigo padrão enganoso
de conduta (33.1-20).
• Jacó deprecia a si mesmo perante Esaú, que oferece perdão sem assumir uma posição de
superioridade ao apenas relutantemente aceitar o vultoso presente de Jacó (33.1-11).
• Jacó recorre novamente aos ardis quando declina seguir com Esaú até Seir, sem dúvida em razão
de ainda não conseguir crer que Deus mudara o coração de seu irmão (33.12-17).
• O resultado final da chegada de Jacó a Canaã é seu estabelecimento, mais uma vez, próximo a
Siquém, onde ele compra um campo e constrói um altar (33.18-20).
4. Engano e violência apresentam-se como a marca registrada dos filhos de Jacó à medida que
reagem exageradamente às ameaças de corrupção e miscigenação com os cananeus
(34.1-31).
• O estupro de Diná por Siquém, um líder dos heveus, cria uma situação tensa para a família de Jacó
(34.1-3).
• Engano e desvalorização do sinal da aliança foram usados pelos filhos de Jacó para vingar o
estupro de sua irmã e dar a impressão de que aceitavam a proposta dos heveus para uma
união dos dois clãs (34.4-24).
• O uso traiçoeiro da violência contra os incapacitados siquemitas reverte a situação planejada por
estes, mas torna Israel e sua família personae non gratae naquela região (34.25-31).
F. A plena apropriação das bênçãos pactuais por Jacó exige seu retorno a Betel, onde ele
cumpre seu antigo voto, consagra sua família e experimenta tanto a alegria da chegada
de um novo filho quanto a perda de sua amada esposa Raquel (35.1-29).
1. Jacó retorna a Betel por ordem de Yahweh e ali reconsagra a si mesmo e a sua família,
experimentando proteção sobrenatural contra a indisposição de seus vizinhos (35.1-7).
2. A passagem da geração pactual anterior é indicada pela morte da ama de Rebeca (35.8).
3. A renovação da promessa de bênçãos pactuais a Jacó por parte de Yahweh enseja a celebração
do ritual da aliança pelo patriarca naquele local (35.9-15).
4. A volta de Jacó a Betel traz, ao mesmo tempo, a alegria de ver a complementação de sua
família e os traumas da morte de Raquel e da usurpação de Rúben (35.16-22a).
• O nascimento de Benjamim completa a família de Jacó (35.16-18).
• A morte de Raquel é marcada pela construção de uma coluna memorial próximo a Belém (35.19,
20).
• A relação sexual de Rúben com Bila significa sua tentativa de roubar de Jacó a autoridade sobre a
família (35.21, 22).
5. Os doze filhos de Jacó formam a comunidade da aliança abraâmica (35.22a-26).
6. A transição da aliança é consumada com a morte de Isaque e seu sepultamento por seus dois
filhos (35.27-29).
IV. O relato dos descendentes de Esaú indica como ele foi abençoado enquanto ainda estava
em Canaã e como seu clã cumpriu a predição de Isaque conquistando Seir (36.1-43).
A. Esaú, ou Edom, tornou-se um clã rico e poderoso enquanto Jacó vivia em Harã, mas mudou-
se para Seir quando Jacó retornou a Canaã (36.1-8).
B. A família de Esaú, ou Edom, estabeleceu-se em clãs na terra de Seir (36.9-19).
C. Chefes horeus e suas tribos foram conquistados pela família de Esaú (36.20-29).
D. Uma dinastia real foi estabelecida em Edom muito antes da monarquia ser instituída em
Israel (36.31-43).
V. O relato dos descendentes de Jacó indica como a graça de Yahweh preservou a família
pactual da corrupção externa e da dissensão interna por intermédio de José e de sua
peregrinação para o Egito (37.1 − 50.26).
A. A família pactual reage negativamente às indicações divinas de que um dia José se tornaria
seu líder e receberia honrarias da parte deles (37.1-36).
1. Os irmãos de José criam e cultivam um profundo ódio a ele em razão da relação especial entre
ele e seu pai (37.1-11).
• Os irmãos odeiam José porque ele passava a Jacó informações negativas a respeito deles (37.1, 2).
• Os irmãos odeiam José em razão do padrão pactual de escolher o filho mais novo como favorito
(37.3, 4).
• Toda a família irrita-se com José em razão da impressão de superioridade comunicada pela
descrição de seus sonhos (37.5-11).
– O primeiro sonho de José sugere que seus irmãos se prostrarão perante ele (37.5-8).
– O segundo sonho de José sugere que toda a família um dia lhe renderá homenagens (37.9-11).
2. O ódio dos irmãos de José culmina em uma conspiração bem-sucedida de vendê-lo como
escravo e enganar a seu pai, fazendo-o crer que José fora morto por um animal
selvagem (37.12-36).
• A circunstância que desencadeou a conspiração foi outro relatório de José a Jacó (37.12-17).
• A intenção assassina original foi desencorajada por Rúben, que na verdade salvou a vida de José
(37.18-24).
• Engano e cobiça decidem o destino de José, que acaba por ser vendido a uma caravana de
ismaelitas, para desespero de Rúben (37.25-30).
• O engenhoso ardil arquitetado pelos irmãos para enganar Jacó convence o patriarca e causa-lhe
contínua tristeza (37.31-35).
• José é colocado junto ao centro do poder no Egito (37.36).
B. A narrativa da vida familiar de Judá oferece um vislumbre da corrupção externa à qual
estava exposta a família pactual em seu contato com os cananeus, bem como da
soberania de Yahweh em preservara Sua linhagem escolhida (38.1-30).
1. O isolamento de Judá da família pactual levou-o a casar-se com uma mulher cananita, em
afronta aos padrões da aliança (38.1-5).
2. A perversidade dos filhos de Judá impediu que gerassem uma descendência por intermédio de
uma mulher cananita chamada Tamar (38.6-10).
3. Judá engana Tamar, deixando de cumprir a promessa de dar-lhe seu terceiro filho em
casamento (38.11-14).
4. O plano de Tamar para corrigir o mal que lhe fora feito alcança um fim justo por fins
desonestos (38.15-26).
5. O nascimento dos filhos de Judá e Tamar reproduz o padrão pactual de escolha da semente,
com o filho mais novo recebendo precedência sobre o mais velho [oferecendo assim um
lembrete sobre José] (38.27-30).
C. O programa divino de abençoar a família pactual por intermédio de José permitiu que ele
chegasse a uma posição de poder no Egito devido a sua fidelidade, mesmo em meio à
punição injusta e abandono (39.1 − 41.57).
1. A fidelidade de José como trabalhador é honrada com a posição de administrador na casa de
Potifar (39.1-6).
2. A fidelidade de José demonstra-se quando ele foge da tentação de cometer adultério e, assim,
violar a confiança de Yahweh e de seu senhor (39.7-12).
3. Uma falsa acusação de tentativa de estupro pela esposa de Potifar leva José à prisão onde a
graça de Yahweh e Sua fidelidade lhe asseguram respeito e sucesso (39.13-23).
4. Os sonhos de dois servos reais, que estavam na mesma prisão onde José estava, dão a ele a
oportunidade de demonstrar sua capacidade, que é temporariamente esquecida por seu
beneficiário, o copeiro real (40.1-23).
• O padeiro e o copeiro de Faraó são enviados para a prisão, e José é designado para servi-los (40.1-
4a).
• A resposta de José à angústia dos oficiais em virtude de seus sonhos é a certeza de que Deus pode
oferecer a interpretação (40.4b-8).
• A interpretação de José para os dois sonhos realiza-se, mas seu pedido de libertação é ignorado
pelo copeiro real (40.9-23).
5. Yahweh soberanamente eleva José a uma posição de liderança no Egito, quando este interpreta
os sonhos de Faraó e oferece conselhos sensatos quanto ao futuro (41.1-57).
• Dois sonhos consecutivos de Faraó para sua total frustração, ficam sem interpretação na corte real,
(41.1-8).
• O chamado de José para interpretar os sonhos geminados de Faraó (em resposta à indicação do
copeiro real) é bem-sucedido e garante a ele o privilégio de tornar-se vizir, governador,
do Egito (41.9-57).
– A capacidade de José para interpretar sonhos é mencionada a Faraó pelo copeiro (41.9-13).
– José vem da prisão para o palácio, e Faraó relata-lhe seus sonhos (41.14-24).
– José interpreta os sonhos como revelação de Deus referente ao Seu plano para o Egito – 7 anos de
fartura seguidos por 7 anos de privação – e aconselha Faraó a encontrar um
administrador para que este elabore um programa que possa salvar o Egito da extinção
(41.25-36).
– Yahweh exalta José a uma posição de honra, inferior apenas à de Faraó, e provê-lhe uma família,
cujos filhos têm nomes que refletem seu compromisso com Yahweh (41.37-52).
– As sábias decisões de José quanto ao estoque de grãos asseguram alimento suficiente para o Egito e
para as nações circunvizinhas nos anos de fome (41.53-57).
D. A interação entre José e seus irmãos no Egito foi o meio pelo qual Yahweh expurgou da
família pactual a contenda e o engano que prejudicavam sua unidade e ameaçavam sua
própria sobrevivência (42.1 − 45.28).
1. O contato inicial de José com seus irmãos serviu para sensibilizar a consciência deles quanto ao
irmão vendido, fazendo-os pensar na justiça retributiva (taliônica) de Deus (42.1-38).
• A fome afeta a família pactual de modo que os dez irmãos são enviados ao Egito para comprar
alimento (42.1-5).
• O duro tratamento dispensado aos dez irmãos por José, acusando-os de ser espiões e exigindo a
custódia de Simeão como garantia de seu retorno com Benjamim, produz neles a
primeira percepção de culpa e de justiça retributiva (42.6-26).
– José acusa os dez irmãos de ser espiões e demanda que um deles fique como refém até seu retorno
com Benjamim (42.6-20).
– Sentimentos de culpa caem sobre os dez irmãos com respeito a seu modo de tratar José anos antes
(42.21-26).
• A perplexidade domina os dez irmãos quando percebem que seu dinheiro lhes fora devolvido e
que Jacó se mantinha irredutível na exigência de que Benjamim descesse ao Egito
(42.27-38).
2. O segundo contato de José com seus irmãos tem como propósito colocar à prova sua lealdade
mútua, especialmente sua devoção a Jacó, revelada por meio de Benjamim (43.1 −
44.34).
• A fome contínua em Canaã força Jacó a ceder aos veementes apelos de Judá e permitir que
Benjamim desça ao Egito (43.1-14).
• O tratamento de honra dispensado por José aos irmãos, não aceitando a devolução da prata,
restaurando Simeão e levando-os para a sua própria casa, causa-lhes suspeitas (43.15-
25).
• A reverência dos irmãos perante José cumpre a predição contida no primeiro sonho, colocando
José em posição de abençoar seu irmão mais novo (43.26-30).
• O tratamento preferencial dispensado por José a Benjamim tem o propósito de intensificar a
conexão entre seus casos e a prova a que submeterá seu irmão (43.31-34).
• A realidade do cuidado dos irmãos por Benjamim é provada na acusação forjada contra
Benjamim, de que é ladrão, levando-os a reconhecer a mão de Deus em juízo contra eles
(44.1-17).
• A veemente defesa de Judá em favor de Benjamim convence José de que a inimizade terminara
(44.18-34).
3. Quando José revela sua identidade a seus irmãos, oferece-lhes a percepção clara de como a
soberania de Yahweh superara seus maus propósitos contra ele e capacitara José a
cumprir seu papel divinamente designado, o qual Jacó é convidado a conhecer de perto
(45.1-28).
• A emocionada revelação de José enfatiza a necessidade de perdão mútuo à luz dos soberanos
propósitos de Deus em levá-lo para o Egito (45.1-8).
• A exigência de José aos irmãos é um relatório verdadeiro e completo a Jacó, de modo que ele
tenha motivação para vir ao Egito para ali enfrentar os 5 anos de fome restantes (45.9-
15).
• O relatório e as provas materiais apresentadas pelos irmãos convencem Jacó a descer ao Egito
(45.16-28).
E. A mudança da família pactual para o Egito garante sua sobrevivência física, sua pureza racial
e sua preservação espiritual (46.1 − 47.27).
1. A mudança de Jacó para o Egito é sancionada por Yahweh em uma visão em Beer-Seba (46.1-
4).
2. Todo o clã de Jacó desce ao Egito, em um total de setenta pessoas (46.5-27).
3. O encontro de Jacó com José foi uma reunião alegre e emotiva (46.28-30).
4. As instruções de José a sua família sobre como se comportar diante de Faraó visam a obter
todos os benefícios que ele poderia lhes oferecer (46.31-34).
5. José apresenta seu pai e cinco de seus irmãos a Faraó e obtém os privilégios esperados por eles
no Egito: boa terra, isolamento racial e preservação espiritual (47.1-12).
6. A sábia administração de José no Egito garante a sobrevivência do reino e a preservação de seu
próprio clã (47.13-27).
F. Jacó faz provisões para a continuidade da aliança e sua ligação permanente com a terra de
Canaã (47.28 − 48.22).
1. A exigência de Jacó a José é um voto solene de que seus restos mortais sejam enterrados em
Canaã (47.28-31).
2. Jacó concede o direito de primogenitura a José ao reconhecer os filhos deste como igualmente
herdeiros da aliança (48.1-7).
3. Jacó abençoa os filhos de José de acordo com o padrão pactual, dando prioridade ao filho mais
novo (48.8-20).
4. Jacó reafirma a José o retorno de seu clã a Canaã e designa seu único pedaço de terra como
herança à família de José (48.21, 22).
G. A bênção patriarcal profética de Jacó a seus filhos define o futuro daquele grupo na história
e na geografia de Israel (49.1-28).
1. Jacó convoca todos os seus filhos para receber sua bênção e seu testamento (49.1, 2).
2. Rúben perdeu o direito de primogenitura por buscar seus direitos de forma ilícita (49.3, 4).
3. Simeão e Levi seriam dispersos em razão de sua violência contra os siquemitas (49.5-7).
4. Judá recebe a promessa de autoridade e honra entre seus irmãos (49.8-12).
5. Zebulom viverá junto ao mar e se envolverá no comércio (49.13).
6. Issacar terá vida tranqüila, mas finalmente será sujeito a trabalhos forçados (49.14, 15).
7. Dã trará livramento na batalha apesar de seu tamanho pequeno (49.16-18).6
8. Gade será atacado, mas contra-atacará (49.19).
9. Aser terá uma terra agradável e produtiva (49.20).
10. Naftali desfrutaria liberdade e agilidade (49.21).
11. José será próspero e valente, um príncipe entre seus irmãos, graças à bênção do Deus de seu
pai (49.22-26).
12. Benjamim será valente e conquistará vitória (49.27)
13. Resumo: estas são as bênçãos de Jacó (49.28).
H. O relato das mortes de Jacó e José retratam a realidade do não cumprimento das promessas
pactuais e da esperança de retorno a Canaã debaixo da bênção de Deus (49.29 − 50.26).
1. O sepultamento de Jacó em Canaã aponta para a esperança de plena posse da terra onde os
patriarcas foram enterrados (49.29 − 50.14).
• Jacó dá instruções quanto a seu sepultamento e morre (49.29-33).
• José consegue esmerada preparação egípcia para o embalsamamento do corpo de Jacó e convoca
um longo período de luto (50.1-3).
• José recebe de Faraó permissão para ir a Canaã com seus irmãos para sepultar Jacó (50.4-6).
• José vai à frente de seus irmãos e de oficiais egípcios no cortejo fúnebre de seu pai (50.7-14).
2. O medo de represálias por parte de José depois da morte de Jacó preocupa desnecessariamente
os dez irmãos, já que José entendia que Yahweh havia soberanamente sobrepujado o
mal com o bem (50.15-21).
3. José, depois de uma vida longa e produtiva, expressa a esperança pactual de voltar a Canaã
com seu povo, ainda que depois de morto (50.22-25).
4. O corpo embalsamado de José foi preservado no Egito, na expectativa do cumprimento da
aliança (50.26).
O argumento de

6
Gerhard Von Rad, Genesis, pp. 426-427.
ÊXODO
Questões introdutórias
TÍTULO
O título hebraico desse livro é ‫השְּמֹות‬
ַ ֹ‫( ְּו ֶאלֵה‬weʾellē ss emôṯ) ―estes são os nomes
de‖, a frase de abertura do texto hebraico. Uma vez que a mesma frase ocorre em
Gênesis 46.8 em conexão com a lista da família de Jacó, as palavras iniciais de Êxodo
(o título hebraico) indicam que êxodo deve ser visto como uma seqüência, uma
continuação da ―saga‖ nacional apresentada em Gênesis.
Os tradutores gregos da Septuaginta escolheram o título Ἔξοδορ (exodos), ―uma
partida‖, o que também se encaixa bem com o principal incidente histórico do livro, a
saída de Israel do Egito. O autor judeu Fílon de Alexandria, as versões siríacas e as
traduções latinas retiveram o título, que, na maioria das versões modernas, foi
preservado em sua forma transliterada.
DATA E AUTORIA
Há abundante evidência de que Moisés foi o autor do livro de Êxodo. Passagens como
17.14; 24.4; e 34.27 claramente afirmam isso. Além do mais, Josué 8.31 faz referência
ao mandamento de Êxodo 20.25, conforme ―escrito no Livro da Lei de Moisés‖. Ainda
mais importante, o Senhor Jesus Cristo fez referência a passagens de Êxodo como se
tivessem de fato sido escritas por Moisés (Mc 7.10; 12.26).
O texto indica que o autor estava muito bem familiarizado com os eventos e os lugares
mencionados no livro. Detalhes como a forma, a cor e o sabor do maná (16.31), o fato
de que os filisteus ocupavam a faixa litorânea entre o Egito e Canaã (13.17) e a menção
de animais e plantas encontrados na península do Sinai e próximo a ela (25.5) sugerem
que o autor de Êxodo foi contemporâneo dos eventos que descreveu.
Alguns dos argumentos empregados na defesa da autoria mosaica de Gênesis também
se aplicam a Êxodo, particularmente com respeito ao uso de fontes por Moisés (cf.
introdução a Gênesis já mencionada).
A questão da data, uma vez aceita a autoria mosaica, dependerá da data preferida para
a saída do Egito. Este autor prefere a data recuada em torno de 1445 a.C. para o êxodo
pelas seguintes razões:
(1) os dados da Bíblia apontam para uma data mais antiga, uma vez que a construção do templo
foi iniciada em 966 a.C. (data historicamente segura), e isso ocorreu 480 anos depois de
os israelitas terem saído do Egito [1 Rs 6.1];
(2) de igual modo, a referência de Jefté a uma ocupação israelita da Transjordânia por trezentos
anos (Jz 11.26) aponta para um êxodo no século 15 a.C.;
(3) a descrição de Faraó que primeiro oprimiu a Israel como um ―rei que não conhecera a José‖
sugere que ele era um dos hicsos, povo asiático que invadira o Egito no século 17 a.C. e
que poderia, como uma minoria invasora, corretamente avaliar Israel como ―maior e
mais poderoso‖ do que eles mesmos, palavras que não fariam sentido nos lábios de um
verdadeiro rei egípcio;
(4) Pitom e Ramessés, as cidades construídas pelos israelitas (Êx 1.11), não contêm artefatos da
18ª dinastia, como seria de esperar se Amoses, primeiro Faraó do Novo Rsino, tivesse
sido o rei opressor de Êxodo 1;
(5) embora Ramsés II tenha sido um ―Faraó construtor‖ e tenha tido um longo reinado, capaz de
acomodar o longo exílio de Moisés, Midiã, seu sucessor Merneptá, teve um reinado
muito curto (apenas catorze anos) para acomodar os 38 anos de peregrinação dos
israelitas, e ainda ter confrontações militares com eles em Canaã (cf. a Estela de
Merneptá);1
(6) a evidência arqueológica na Palestina parece favorecer uma conquista no século 15, conforme
indicado pelas descobertas de J. Garstang, em Jericó, 2 pelas escavações de G. L.
Harding, na Jordânia, 3 e por estudos recentes de J. J. Bimson.4
Assim, Êxodo teria sido escrito durante o período da peregrinação de Israel no deserto.
Os acontecimentos que compreendem a maior parte do livro, capítulos 12 – 40, cobrem
o período de um ano, desde a partida do Egito até a consagração do tabernáculo.

CONTEXTO HISTÓRICO
A data recuada do êxodo, adotada nesta obra, oferece um contexto tanto de grandeza
como de domínio mundial para o Egito.
A expulsão dos invasores hicsos havia sido iniciada pelos faraós da 17ª dinastia,
começando com Sekenenre (c. 1610 a.C.), e foi completada por Amoses (1570-1545
a.C.), o fundador da décima-oitava dinastia.
Nomes importantes dessa dinastia são Tutmoses I (1524-1502 a.C.), que conduziu
expedições militares para o sul (Núbia) e para o norte (Crescente Fértil), chegando até o
rio Eufrates, a famosa rainha Hatshepsut (1502-1480 a.C.) e seu sucessor, o grande
guerreiro Tutmoses III (1502-1448 a.C.). Hatshepsut é uma candidata ao título ―filha de
Faraó‖, a mulher que teria salvo Moisés das águas do Nilo (Êx 2.5-10); ela era uma
mulher resoluta e capaz, o verdadeiro poder do Egito (em lugar de seu marido, o
pusilânime Tutmoses II) até por volta de 1480 a.C., quando Tutmoses III assumiu o
poder.
Esse reinado começou quando Moisés teria cerca de quarenta anos de idade, assim
oferecendo outra indicação, sem contradizer os dados históricos, de que uma data
recuada para o êxodo encaixa-se melhor com os dados bíblicos (cf. Êx 7.7; At 7.23).
Tutmoses III levou o Egito ao zênite de seu poder, chegando às margens do Eufrates e
ali derrotando o reino de Mitani, o que estendeu o domínio egípcio por mais de três mil
quilômetros, do rio Orontes ao Alto Nilo.
Tutmoses III foi sucedido por seu filho Amenófis II (1448-1422 a.C.), que manteve
controle sobre a Palestina. Na cronologia aqui aceita, Amenófis II teria sido o Faraó do
êxodo. Confirmação adicional para essa proposta encontra-se no fato de que seu
sucessor não foi seu filho mais velho, mas Tutmoses IV (1422-1413 a.C.), mais
conhecido pela famosa ―Estela do Sonho‖, em que fala de uma visão em que um deus
lhe revelara que herdaria o trono apesar de não ser o primogênito de Amenófis II.
O sucessor de Tutmoses IV foi seu filho Amenófis III (1413-1377 a.C.), um grande
construtor que, no entanto, não conseguiu manter o domínio egípcio na Palestina. De
seu reinado e do reinado de seu filho datam as famosas Cartas de Amarna, que
descrevem os distúrbios causados na Palestina pelos hapiru/habiru, uma possível
(embora não totalmente provada) indicação da invasão sob o comando de Josué.
O sucessor de Amenófis III foi seu filho Amenófis IV (1377-1358 a.C.), que tentou
introduzir no Egito um monoteísmo (mais corretamente uma monolatria) centrado no

1
J. B. Pritchard, ed. ANET, pp. 376-378.
2
J. Garstang, The Story of Jericho, p. 126.
3
G. L. Harding, The Antiquities of Jordan, p. 17.
4
J. J. Bimson, Redating the Exodus and the Conquest. Sheffield. JSOT Press, 1978.
disco solar, chegando a mudar seu nome teofórico para Akhenaton. O controle egípcio
sobre a Palestina diminuiu significativamente durante seu reinado, assim oferecendo o
alívio necessário para que Israel conduzisse sua guerra de conquista em Canaã.
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Forma
Ao contrário de Gênesis, Êxodo não possui um arranjo literário fácil de perceber. O
livro contém três narrativas (caps. 1–18, 32–34 e 39.32 − 40.38) e duas seções legais
(19.1 − 31.18 e 35.1 − 39.31), caracterizando assim os interesses histórico e legal que
deram a Israel sua estrutura nacional básica.
A característica literária mais notável do livro é o uso da estrutura dos tratados de
suserania do segundo milênio na composição da aliança de Yahweh com Israel. O bem–
conhecido capítulo que contém os Dez Mandamentos é estruturado como um tratado de
suserania, com um preâmbulo (20.2a), um prólogo histórico (20.2b), e as estipulações
pactuais (20.3-17), desenvolvidas no chamado Livro da Aliança. Êxodo 25.16, 21
indica que outro elemento dos tratados de suserania estava presente na ocasião, a
provisão para a preservação do tratado.
Outra característica literária notável de Êxodo encontra-se no relato das nove
primeiras pragas, em que os seguintes elementos estão presentes:

Pragas 1–3 Pragas 4–6 Pragas 7–9 Padrão narrativo


Água feita em Enxames de Saraiva sobre a
Moisés aparece perante
sangue moscas colheita
Faraó junto ao rio.
[7.14-24] [8.20-32] [9.13-35]
Rãs cobrem a Peste nos Gafanhotos
Moisés comparece perante
terra do Egito animais cobrem a terra
Faraó (na corte real?)
[8.1-15] [9.1-7] [10.1-20]
Piolhos cobrem a Úlceras no Trevas cobrem a
Gesto simbólico de Moisés
terra do Egito gado e no povo terra do Egito
e Arão longe de Faraó
[8.16-19] [9.8-12] [10.21-29]
A questão de proporção merece ser observada, pois embora Êxodo 12.41 afirme que o
período de cativeiro egípcio havia durado 430 anos, os primeiros doze capítulos cobrem
um período relativamente curto anterior à libertação, e os capítulos 19 a 40 cobrem um
período de menos de um ano (19.1; 40.17). Isso demonstra que os eventos relacionados
à aliança e ao estabelecimento do tabernáculo são a preocupação central do livro.
Estilo
O livro de Êxodo consiste, meio a meio, de literatura narrativa e literatura legal. A
narrativa pertence ao gênero mais amplo conhecido como ‫ּתֹורה‬ ָ (tôrâ, instrução),
merecendo assim a descrição feita por George Knight de ―um ensaio teológico em
forma de narrativa‖.5 O mesmo Knight chama Êxodo de ―saga‖, em contraste com
―lenda‖ e ―mito‖, pois o livro preserva ―memórias históricas de acontecimentos que
detonaram as emoções do povo que os experimentou‖.6

5
George A. F. Knight, Theology as Narration, p. ix.
6
Knight, Theology as Narration, xii. Infelizmente, o mesmo autor afirma que esses eventos
não são necessariamente reais (p. ix) e que não sabemos quando eles aconteceram (p. xii) –
um exemplo do efeito esquizofrênico do método histórico-crítico.
A presença da narrativa da quebra da aliança nos capítulos 32 a 34 tem seu valor
estilístico, porque, ao interromper a cadência ordenada das leis e preceder a descrição
metódica do tabernáculo e sua construção, dramatiza a extrema necessidade que Israel
tinha da presença santa e santificadora de Yahweh em seu meio, para impedir que a
horda de escravos libertos do Egito deixasse de existir antes mesmo de constituir-se em
nação.
Mensagem
Êxodo é um livro de libertação e estabelecimento. Nessa porção das Escrituras, a
aliança estabelecida em Gênesis entre Yahweh e os patriarcas transforma-se na história
de Israel, a nação, à medida que Yahweh irrompe no tempo e no espaço para libertar
Israel da escravidão e estabelecê-lo como nação com a posse permanente de Canaã e a
presença de Deus em seu meio. Sob essa ótica, o autor propõe a seguinte mensagem
para o segundo livro de Moisés.
A preservação do relacionamento entre Yahweh e Israel como nação escolhida
exigia a libertação do povo do cativeiro e sua obediência corporativa a Ele
mediante as estipulações da aliança mosaica.
A teologia de Êxodo
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Se Gênesis foi a sementeira para os conceitos que resumiam a concretização dos
propósitos de Deus na história humana, Êxodo poderia ser retratado como o veio do
qual se extraíram todas as pepitas teológicas do Antigo Testamento no que diz respeito
ao caráter de Deus e ao Seu relacionamento com o povo escolhido. As constantes
referências dos profetas ao livro e seus eventos são prova suficiente desta afirmação. No
livro de Êxodo, alguns dos atributos e manifestações mais marcantes de Deus são os
seguintes:
Deus é soberano
Exemplos desta afirmação são numerosos em Êxodo. O crescimento numérico dos
israelitas sob opressão (1.12), a sobrevivência de Moisés e sua adoção pela filha de
Faraó (2.10), bem como a flagrante obstinação de Faraó, são exemplos que antecedem
ao êxodo. Mais tarde, o afogamento do mais poderoso exército da terra (15.1-10) e a
provisão sobrenatural para as necessidades do povo (15.22–16.18) revelam em grande
escala o poder e a autoridade de Yahweh. Também em uma micro escala, Sua soberania
se manifesta, com o diminuto maná que não caía no Sábado (16.26, 27) e apodrecia
quando deixado sem cozinhar do sexto para o sétimo dia!
Deus é santo
Isto se vê no fato de que o próprio solo em que Sua auto-revelação acontece é
declarado santo (3.5). A santidade de Deus é demonstrada no caráter moral de Sua
aliança e na separação e obediência exigidas de Seu povo (19.6). A Lei oferecia uma
expressão verbal da santidade de Deus, ao passo que o tabernáculo oferecia uma
expressão visual da mesma, com o valor crescente dos materiais e a acessibilidade
decrescente à medida que se aproximava da sede da glória residente ‫שקִׁינָה‬ְּ (seqînâ),7 o
Santo dos Santos.
Deus é justo
A santidade divina manifesta-se em justo juízo contra aqueles que violam a expressão
de Seu caráter e vontade, quer revelada oralmente perante Faraó, quer gravada em

7
Alan R. Cole, Êxodo. Introdução e Comentário, p.23.
placas de pedra. Mesmo Moisés, em sua crença relutante, incorre na ira santa de
Yahweh (4.14). Os exércitos do Egito são afogados pela manifestação da ira de Yahweh
(15.8-12), e o povo da aliança é severamente disciplinado quando seu comportamento
viola as recém-outorgadas ‫( דְּ ב ִָׁרים‬deḇārîm), ―Palavras‖ que resumiam a vontade moral
de Yahweh para o Seu povo (32.7-10, 25-35).
A justiça de Deus é, assim, relacionada a Seu zelo (20.4; 34.14). O caráter santo de
Deus e Sua reputação perante o mundo não podem ser tratados levianamente.
Deus é apaziguável
As idéias da justiça e da ira de Deus podem comunicar a impressão de que não há
esperança para o indivíduo ou grupo que deixe de cumprir Seus padrões. O termo
apaziguável aqui empregado intencionalmente para indicar a interação da ira santa e da
graça misericordiosa de Yahweh.
Mesmo Faraó, o gentio e idólatra, reconhece que o Deus irado dos escravos hebreus
pode ser abordado em busca de misericórdia (cf. 10.16, 17). No incidente famoso por
sua obscuridade, Zípora, intuitivamente, percebe que a ira de Yahweh contra Moisés
devia-se à desobediência em relação ao mandamento de circuncidar todo macho
israelita (cf. Êx 4.24-26 e Gn 17.12-14). Apaziguar a Deus naquela situação específica
era questão de praticar aquilo que fora por muito tempo adiado por Moisés
(possivelmente porque os midianitas não costumavam circuncidar os seus filhos).
Quando Israel pecou gravemente em idolatria e imoralidade, o furor da ira de Yahweh
(32.9, 10) teria consumido toda a nação, a não ser pela humilde intercessão de Moisés
(32.11-14). Mais adiante, o livro de Levítico apresentará em intrincados detalhes a
maneira precisa pela qual um israelita crente se aproximaria de Yahweh para obter
propiciação. Este ato de tornar Deus favorável nunca foi um simples suborno em Israel;
Deus impunha as condições e oferecia os meios; Israel tinha apenas de responder em
fé.8
Deus é auto-existente
A revelação concernente ao nome Yahweh (3.13-15) é o centro de uma prolongada
polêmica entre os estudiosos. O próprio sentido da expressão ‫הי ֶה‬ ְּ ֶ‫( ֶא ְּהי ֶהֹ ֲאשֶרֹא‬ʾe ye
ʾăšer ʾe ye ), eu sou o que sou, é debatido. A opinião deste autor é que ali Deus não
introduziu um nome novo, pelo menos no que diz respeito ao sentido denotativo da
palavra, pois o tetragramaton já fora usado em Gênesis 4. A novidade estava no sentido
conotativo, pois Yahweh, o Deus que sempre era e seria, entrava na História para
demonstrar que ―se lembrava‖ de Seus compromissos passados. Cole afirma tal
realidade ao dizer que ―Israel não foi deixado, como aconteceu a outras nações,
especulando sobre os problemas quanto à existência e natureza dos deuses. Seu Deus
era um ‗Deus que está presente‘, ativo na História, e que se revelou em palavra e ação‖.9
As implicações possíveis dessa frase, ainda enigmática depois de 3.500 anos, são a

8
Propiciação é o termo técnico para o apaziguamento de uma divindade. Biblicamente, este
conceito significa que Deus se torna propício (ou seja, favorável) ao pecador que, em fé,
apresenta o sacrifício exigido pela santidade de Deus. O Novo Testamento apresenta o
sacrifício de Jesus como propiciação suficiente para os pecados de todo o mundo (cf. 1 Jo 2.2).
9
Cole, Êxodo, p. 21.
soberania de Yahweh em revelar-Se ao homem e a singularidade de Yahweh como o
Deus que realmente existe.10
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
O plano quádruplo de Yahweh para a História inclui Seu decreto de permitir o mal,
Sua promessa e/ou ação para julgar o mal, a libertação do mal para os/pelos eleitos, e o
decreto de abençoar os eleitos. Êxodo oferece certa continuidade e certa diferença em
relação à maneira em que Gênesis tratou esses temas.
O decreto de permitir o mal
Êxodo tem várias circunstâncias nas quais Deus permite que o mal tenha livre curso
até que Seus propósitos sejam alcançados. O livro começa com a família-que-virou-
nação sendo oprimida, um mal que Deus permite para finalmente fazê-los voltar a Ele
como seu Deus pactual, de acordo com a promessa feita a Abraão (cf. Gn 17.7). Mesmo
o fardo adicional lançado sobre os trabalhadores israelitas devido à obstinada oposição
de Faraó ao pedido mosaico de ―férias coletivas‖ foi mais tarde interpretado pelo
salmista como um meio divino de preparar Seu povo para desfrutar a vida na Terra
Prometida (cf. Sl 105.37).
A atitude do coração de Faraó está intimamente ligada ao decreto divino de permitir o
mal. A presciência divina das negativas de Faraó (3.19) não elimina o exercício da
vontade pessoal do monarca ao manter Israel sob cativeiro, antes a confirma em
obstinada incredulidade até que o Egito esteja maduro para o juízo e Israel pronto para o
livramento (cf. Rm 1.28).
Na ocasião em que a Lei está sendo outorgada, Israel chafurda no culto imoral que
absorvera durante sua permanência no Egito (cap. 32; cf. 1Co 10.7), mas mesmo este
incidente é permitido por Deus para purificar Israel e melhor prepará-lo para ser o Seu
povo pactual.
A promessa e/ou ação de julgar o mal
Esta é, verdadeiramente, a ênfase da primeira parte do livro. As parteiras tementes a
Deus, ao desobedecer Faraó e manter vivos os meninos israelitas, agem em Seu lugar, e
Ele abençoa sua fidelidade (apesar de não aprovar seus métodos).
A chamada de Moisés é o ato inicial pelo qual a promessa patriarcal de retorno a
Canaã será cumprida (3.8-10; cf. Gn 15.12-16). Seus atos milagrosos servem não apenas
como libertação para Israel, mas também como juízo divino sobre o mal da idolatria
egípcia, cujos ídolos e deuses animísticos são humilhados perante o Deus de Israel
durante as pragas e nas águas do mar dos Juncos. Tais atos são o cumprimento, a curto
prazo, de promessas encontradas nos primeiros capítulos do livro (cf. 3.8, 20-22; 6.1, 6-
8).
Outro elemento dessa ação divina de julgar o mal, embora indiretamente, é a
promulgação do Código da Aliança, cuja primeira parte se encontra em Êxodo. A vida
sob a promessa seria assim regulada e o mal julgado de acordo com o caráter de
Yahweh, conforme manifesto na Lei.
Libertação do juízo para os/pelos eleitos

10
Veja J. P. Hyatt, Exodus, New Century Bible, pp. 75-81, para um tratamento abrangente
deste problema. O falecido estudioso judeu Umberto Cassuto chama a atenção para a idéia de
que o nome implica a presença constante de Deus com Seu povo, conforme sugerido pelo
contexto, pois no versículo 12 Yahweh afirma a Moisés, Eu serei contigo. Verificar a discussão
da passagem em U. Cassuto, Commentary on Exodus, p. 38.
Moisés aparece no livro como o instrumento de Deus para a libertação, preparado por
Deus em toda ciência e conhecimento do Egito, como também ensinado na escola da
humildade nos áridos sertões de Midiã e do Sinai.
Em certo sentido, Moisés não pertencia à linhagem profeticamente designada para
trazer a semente escolhida (cf. Gn 49.10). Sendo, contudo, um descendente de Abraão,
estava qualificado para continuar a missão mais genérica de trazer bênção a todas as
famílias da terra, o que de fato fez primariamente por seu papel como Legislador.
Êxodo lança a base teológica sobre a qual os conceitos de salvação no Antigo
Testamento foram desenvolvidos. O conceito básico era a idéia de libertação ‫נָצַל‬
(nāṣ l, 3.8), que descreve o ato de retirar Israel do Egito. Um termo menos freqüente é
‫( גַָאל‬gāʾ l, 6.6; 15.13), traduzido por diferentes formas do verbo ―redimir‖ ou ―remir‖,
que fala ao mesmo tempo de pagamento e relacionamento. O Deus que se relaciona em
aliança, Yahweh, é Aquele que providenciou a redenção por meio do cordeiro pascal.
Esta redenção será mais tarde o padrão com o qual Isaías descreverá a futura restauração
de Israel em termos de um segundo êxodo (cf. Is 43.1).
O decreto de abençoar os eleitos
Exemplos desta parte do propósito de Deus estão geralmente ligados às revelações
prévias de seu plano concernente a Israel, primariamente às promessas de Gênesis
15.12-21. Assim, Êxodo 3.8, 20, 22 e 6.1, 6-8 referem-se a manifestações divinas
anteriores e a promessas pactuais de dar a Israel a terra de Canaã.
Em última análise, Êxodo contemplava a redenção definitiva, constituída não apenas
de libertação do Egito, mas do estabelecimento na terra (15.17), e no exercício da
soberania de Yahweh como rei (15.18). Para experimentar plenamente tais bênçãos,
Israel teria de honrar a aliança feita no Sinai, tornando-se assim ―propriedade peculiar‖
de Yahweh entre as nações (19.5). Isto não era uma substituição da aliança abraâmica,
mas uma definição mais focalizada das condições sob as quais essas bênçãos seriam
desfrutadas pela semente de Abraão.
Êxodo 19 é importante também por apresentar a maneira pela qual a segunda parte da
bênção abraâmica seria cumprida. Obedecendo à aliança, Israel se tornaria um ―reino de
sacerdotes‖, sendo, desse modo, o canal pelo qual a bênção da soberania restaurada de
Deus se estenderia a todas as nações.
Argumento básico
PROPÓSITO E DESENVOLVIMENTO
Êxodo é um livro de livramento e estabelecimento. Nessa porção das Escrituras, a
aliança estabelecida em Gênesis com os patriarcas, à medida que Yahweh irrompe no
tempo e no espaço a fim de libertar Israel do cativeiro e estabelecê-lo como nação com
uma regra de vida para a existência em Canaã e com a presença de Deus em seu meio,
transforma-se na história de Israel.
O propósito do livro é promover obediência fiel a Yahweh, o Deus da aliança,
relatando Sua atividade no livramento de Israel do cativeiro (caps. 1−18), oferecendo-
lhe uma regra para a vida sob a promessa (caps. 19−31) e fazendo-Se presente em seu
meio (caps. 32−40).
O livro começa com Israel sob a opressão dos Faraós da 18ª dinastia (cap. 1). Em meio
a um pogrom (genocídio), nasce um bebê que Deus protege da morte e coloca no
próprio palácio de Faraó para fazer dele o libertador de Seu povo (2.1-10). Ao buscar
identificar-se com seu povo, Moisés vê-se rejeitado por Israel e perseguido por Faraó;
começa assim seu período de treinamento em Midiã (2.16-22).
A certa altura de sua permanência em Midiã, Moisés foi até o monte Sinai, onde
Yahweh Se manifestou a ele como o Deus pactual que estava prestes a intervir em favor
de Seu povo sofrido e sofredor (2.23−4.17).
Embora extremamente relutante a princípio, Moisés é persuadido a voltar ao Egito
como representante de Yahweh com uma dupla missão: revelar a Israel a nova maneira
pela qual Yahweh se relacionaria com a nação, como ―Eu sou o que sou‖, o Deus que
faz aliança, e para exigir que Faraó liberte os israelitas.
Seu retorno ao Egito é marcado, conforme Yahweh predissera, pela oposição de
Faraó, uma vez que o propósito de Yahweh era demonstrar-Se superior aos falsos
deuses do Egito, educando assim Israel no monoteísmo depois de quatrocentos anos de
exposição ao crasso politeísmo no Egito (5.1 − 11.10). Este objetivo foi alcançado por
uma série de calamidades que atingiram o Egito em um intervalo de aproximadamente
um ano, esfrangalhando a economia do império egípcio e expondo a impotência dos
deuses egípcios (confira a relação entre as pragas e os deuses do Egito no esboço
exegético).
Embora algumas dessas pragas estejam presentes em certo ciclo natural, os episódios
do êxodo claramente extrapolam os fenômenos naturais, não apenas devido a sua
intensidade, mas também em virtude de sua miraculosa cessação (e.g. 8.30, 31), além do
fato de que uma área do Egito permaneceu livre de pragas, a terra de Gósem, onde os
israelitas tinham suas casas.
Faraó, a quem Deus levantara para resistir a Sua vontade e usar para demonstrar Seu
poder, voltou atrás em suas promessas várias vezes, até ser confrontado com a décima
praga – a morte dos primogênitos (11.1−12.36). Enquanto os israelitas celebravam sua
milagrosa preservação por meio do sangue do cordeiro da Páscoa (12.1-13), a morte
espalhou seu sinistro manto por todo o Egito, fazendo com que os egípcios
―subornassem‖ os israelitas para que saíssem de sua terra (12.33-36).
O cumprimento das promessas feitas a Abraão aconteceu depois de quatro gerações
―abraâmicas‖ (12.37-42). Ainda assim, as doze tribos que saíram do Egito eram pouco
mais do que uma turba, cujo número poderia chegar a dois milhões (12.37),
extremamente necessitada de identidade nacional, religiosa e social.
Os primeiros dias fora do Egito trouxeram Israel a uma situação impossível de
resolver, com a cavalaria egípcia em seu encalço e o mar dos Juncos (mar Vermelho?
Grande Lago Amargo?) adiante deles. Ali, a capacidade de Yahweh de livrar Seu povo
foi colocada a uma prova definitiva e demonstrou ser verdadeira (14.1-31). Sob a
liderança de Moisés, Israel marchou a pé pelo leito do mar enxuto, ao passo que os
egípcios foram tragados pelas águas turbulentas do mar. O primeiro hino de louvor de
Israel, em celebração de seu livramento, foi entoado a seu Deus Guerreiro. (cap. 15).
Na rota previamente prometida até o Sinai, a falta de preparo de Israel, bem como sua
falta de vontade de crer em Yahweh, ficaram evidentes em suas freqüentes
murmurações em razão de temporárias faltas de água e de alimento. Fielmente, Yahweh
proveu água em Mara (15.22-27), codornizes e maná no deserto de Sim (cap. 16), água
em Massá (17.1-7), e vitória contra Amaleque (17.8-16). Uma provisão especial surge
com a pessoa e o conselho de Jetro, sogro de Moisés, cujas palavras sábias moldaram o
que viria a ser o sistema judicial de Israel (cap. 18).
Assim, a preservação do relacionamento com Israel exigia que a turba que saíra do
Egito recebesse um código de leis que a ajudasse a tornar-se nação. Isso significava
legislação religiosa, ética e civil. A legislação é apresentada em forma resumida nas Dez
Palavras, ou Dez Mandamentos (20.1-21), que se desdobram no Livro da Aliança, no
qual as implicações religiosas, éticas e civis das Dez Palavras são desenvolvidas
(20.22−23.33).
Esse ―Livro da Aliança‖ regula vários relacionamentos sociais de um modo que
ressalta a santidade de Deus e a santidade da vida humana. A nação concorda em
obedecer aos regulamentos propostos, e a Aliança é ratificada por meio de sacrifícios e
da aspersão do sangue (24.1-11).
Os capítulos 25 a 31 contêm informações detalhadas sobre a estrutura portátil que
abrigaria o culto de Israel e seria a sede da gloriosa presença de Yahweh entre Seu
povo. Doações voluntárias seriam solicitadas (25.1-9) e a capacitação divina seria
oferecida aos artífices para o intrincado trabalho (31.1-11). Ao final deste manual de
especificações arquitetônicas, Moisés recebeu os sinais visíveis da aliança, as duas
tábuas de pedra (31.18; cf. a prática de guardar uma cópia do tratado de suserania no
templo da divindade nacional).
A despeito desse cenário de grandeza, no sopé da montanha, a aliança recém-
celebrada já fora quebrada por um povo acostumado a deuses visíveis, e tão duro de
coração que não acreditava em Yahweh, apesar dos muitos milagres que presenciara
(32.1-6). Idolatria e imoralidade grosseiras provocam o caos no acampamento de Israel,
em reação ao qual Moisés intercede com Yahweh em favor do povo e da própria
reputação divina (32.7-14). No entanto, Moisés, quando confrontado ele mesmo com a
cena, arde com ira santa e, em consonância com os atos da nação, quebra as tábuas da
aliança (32.15-19).
Depois de disciplinar os idólatras com a ajuda dos levitas (que assim se recuperam do
ato infame de seu ancestral em Siquém, cf. Gn 34), Moisés uma vez mais intercede por
Israel, suplicando a Yahweh que Sua presença não seja retirada do meio do povo (33.12,
13, 15, 16). Graciosamente, Yahweh restaura a aliança e revela-Se a Moisés (34.1-9),
dando-lhe atestação pública de seu papel, ao fazer com que o rosto de Moisés reflita
algo da glória divina, como mediador em nome de Yahweh (34.29-35; cf. 2 Co 3.7, 13).
Por fim, o cenário está pronto para a construção do tabernáculo. Por meio de
contribuições fiéis (35.1-19), da capacitação divina (35.30−36.7) e da conformidade ao
padrão divino dado a Moisés, o tabernáculo foi completado no primeiro dia do mês de
Abibe de 1445 a.C. A inspeção oficial de Moisés certificou que a construção e sua
mobília, bem como as vestes sacerdotais, estavam de acordo com as especificações
divinas, e a cerimônia de dedicação aconteceu (a dedicação dos sacerdotes é descrita em
Levítico 8 e 9).
O ponto culminante do livro é a descida da nuvem da glória de Yahweh sobre o
tabernáculo, que é, nesse momento, cheio da ‫שקִׁינָה‬ ְֹּ , a glória residente de Yahweh
(40.34, 35). A turba de escravos agora tem um código de leis, um ministério sacerdotal
para interceder perante Deus e direção divina para a sua jornada em direção até a Terra
Prometida (40.36-38). As promessas feitas aos patriarcas foram preservadas e acham-se
a caminho de sua plena fruição.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
A preservação do relacionamento entre Yahweh e Israel como nação escolhida
exigia a libertação do povo do cativeiro e sua obediência corporativa a Ele
mediante as estipulações da aliança mosaica.
PARTE I – LIBERTAÇÃO DE ISRAEL DA ESCRAVIDÃO
A preservação do relacionamento entre Yahweh e Israel exigia a libertação do povo do
cativeiro no Egito (1.1−18.27).
I. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía Sua permissão para a
opressão do Egito e preparo de um líder capaz (1.1−4.31).
A. A preparação de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía Sua permissão para a
opressão do Egito (1.1-22).
1. A promessa abraâmica de uma descendência inumerável é cumprida no Egito quando setenta
pessoas se transformam em muitos milhares (1.1-7).
2. Os Faraós (Hicsos) começam a empregar os israelitas como sua maior força de trabalho
escravo nos projetos de construção da região do Delta (1.8-14).
3. O crescimento ímpar dos israelitas leva os Faraós a tentar o genocídio (1.15-22).
• A primeira tentativa de genocídio falha porque as parteiras hebréias temiam mais a Deus do que a
Faraó (1.15-21).
• A segunda tentativa de genocídio faz da eliminação dos recém-nascidos israelitas do sexo
masculino, uma campanha nacional (1.22).
B. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía a preparação de um líder capaz
(2.1−4.31).
1. O nascimento e a proteção sobrenatural de Moisés lhe trouxeram, ao mesmo tempo, uma
criação hebraica e instrução na corte egípcia (2.1-10).
2. A preparação de Moisés para a liderança exigia um ―treinamento no deserto‖ de Midiã por
quarenta anos (2.11-22).
• A preparação de Moisés incluía a rejeição da sua primeira tentativa de providenciar livramento
(2.11-14).
• A preparação de Moisés incluía a ruptura com a vida e costumes egípcios, quando Faraó
(Tutmoses III) tentou matá-lo por traição (2.15).
• A preparação de Moisés incluía a adoção de um estilo de vida nômade, como homem casado e
pastor em Midiã (2.16-22).
3. A resposta de Yahweh à opressão crescente aos israelitas foi Sua revelação a Moisés e o
chamado para que ele se tornasse o libertador de Israel (2.23−4.17).
• O conhecimento da situação de Israel e Seu cuidado para com eles levam Yahweh a agir (2.23-
25).
• O chamado de Moisés para se tornar o libertador de Israel acontece em Horebe, onde Yahweh Se
manifesta a ele como o Deus da aliança. (3.1-10).
– A singularidade de Yahweh é revelada na extraordinária visão da sarça ardente (3.1-3).
– Yahweh Se apresenta como o Deus da aliança patriarcal, preocupado e envolvido com Seu povo
para cumprir Suas promessas feitas a esse povo (3.4-9).
– Moisés é designado como enviado de Deus a Faraó para libertar os israelitas (3.10).
• O chamado de Moisés para se tornar o libertador de Israel é confirmado quando Yahweh refuta
decisivamente suas inadequadas objeções (3.11−4.17).
– A auto proclamada incapacidade de Moisés é negada pela presença de Yahweh com ele (3.11, 12).
– O suposto anonimato de Yahweh é negado por Seu relacionamento anterior com os patriarcas, o
qual Ele validará cumprindo Suas promessas apesar da resistência de Faraó (3.11-22).
– A esperada desconfiança de Israel é esvaziada com a doação de três sinais confirmatórios [vara-
serpente, lepra, água-sangue] (4.1-9).
– A alegada falta de eloqüência de Moisés é superada pela inclusão de Arão como seu porta-voz
(4.10-17).
4. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía trazer Moisés de volta ao Egito
como um líder plenamente qualificado conforme a aliança abraâmica (4.18-26).
• Moisés parte de Midiã com sua família e ordens específicas quanto a seu papel no Egito (4.18-23).
• A ameaça de Yahweh contra a vida de Moisés por sua negligência quanto à circuncisão mostrou a
realidade do perigo que Moisés carregava para o Egito (4.24-26).
5. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía um elo espiritual entre Moisés,
Arão e os anciãos, na confiança de que seu Deus amoroso lhes traria alívio (4.27-31).
II. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía a completa humilhação do
Egito e seus deuses diante Dele, e a preservação de Israel para a hora e lugar da
concretização da aliança (5.1−18.27).
A. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía a completa humilhação do
Egito e seus deuses diante Dele (5.1−11.10).
1. As confrontações entre Moisés e Faraó resultaram em crescente endurecimento do coração do
monarca e dificuldade na vida dos israelitas (5.1 − 7.13).
• Faraó replica com desdém e zombaria ao primeiro pedido de Moisés para uma ausência
temporária a fim de prestar culto a Yahweh (5.1-5).
• Faraó aumenta a carga de trabalho alegando ser preguiça a razão dos israelitas para essa novidade
religiosa (5.6-18).
• O desânimo de Moisés diante da rejeição israelita de seus esforços para libertá-los é refutado pela
garantia de Yahweh em usá-lo, com a ajuda de Arão, para tirar Israel do Egito conforme
a aliança (5.19 − 7.7).
– Os capatazes israelitas culpam Moisés pelo aumento de sua carga de trabalho (5.19-21).
– A queixa impaciente de Moisés quanto à demora de Yahweh é refutada pela confirmação das
promessas abraâmicas (6.1-8).
– Moisés refuga diante da ordem de Yahweh para falar a Faraó, argumentando que o rei não dará
ouvidos a um orador fraco e que seus próprios escravos não se dispõem a fazê-lo (6.9-
12).
– A linhagem de Moisés e Arão é apresentada para demonstrar a legitimidade de suas reivindicações
como líder do povo da aliança (6.13-27).
– Yahweh provê Arão como porta-voz de Moisés e promete confirmar sua mensagem diante de Faraó
e dos egípcios com sinais e maravilhas (6.28−7.7).
• A segunda confrontação de Moisés com Faraó produz maior endurecimento do rei apesar da
autoridade divina demonstrada por Arão sobre os magos da corte (7.6-13).
2. A completa humilhação do Egito vem por meio de uma série de dez julgamentos com os quais
Yahweh demonstra Sua superioridade sobre os deuses do Egito (7.14−11.10).
• A praga das águas transformadas em sangue revelou a autoridade de Yahweh sobre o Nilo, o rio
que sustentava a vida do Egito (7.14-24).
• A praga das rãs revelou a superioridade de Yahweh sobre a deusa Heqt e produziu o primeiro ciclo
de permissão-negação por parte de Faraó (8.1-14).
• A praga dos piolhos revelou a superioridade de Yahweh sobre Set, o deus do deserto [poeira?] e
levou os magos a admitir a intervenção divina (8.16-19).
• A praga das moscas revelou a superioridade de Yahweh sobre o deus Uatchit, estabeleceu a
distinção entre Israel – a nação a ser libertada – e o Egito –, a nação a ser julgada, e fez
Faraó repetir sua falsa promessa de permissão (8.32).
• A praga da peste nos rebanhos egípcios demonstrou a superioridade de Yahweh sobre Ápis, o
deus-touro, e Hathor, a deusa-vaca, ao preservar o gado dos israelitas (9.1-7).
• A praga das úlceras nas pessoas e no gado demonstrou a superioridade de Yahweh sobre Ísis, a
deusa da cura, sobre Sekhmet, deusa dos remédios, e sobre Sunu (deus da peste),
incapacitando os magos que se opunham a Moisés e Arão (9.8-12).
• A praga da saraiva revelou a superioridade de Yahweh sobre Nut [deus do céu], Osíris [deus das
colheitas e da fertilidade] e Set [deus das tempestades], inspirando temor de Deus em
alguns oficiais egípcios, em contraste com a renovada dureza de Faraó (9.13-35).
• A praga dos gafanhotos revelou a superioridade de Yahweh sobre Nut e Osíris e evidenciou o
profundo descontentamento na corte do Egito com a política obstinada de Faraó, que o
levou a violar sua promessa mais uma vez (10.1-20).
• A praga das trevas revelou a superioridade de Yahweh sobre Ra e Hórus, divindades do sol, e
sobre Nut, deus do céu, produzindo uma confrontação final entre Moisés e Faraó
(10.21-29).
• A anunciada praga da morte dos primogênitos revelaria a superioridade de Yahweh sobre Min,
deus da reprodução, sobre Ísis, a deusa da cura, e sobre o herdeiro de Faraó,
considerado divino pelos egípcios, quebrando por fim a obstinada resistência do
monarca quanto à libertação de Israel (11.1-10).
B. O programa de Yahweh para a libertação de Seu povo incluía a celebração do livramento por
meio de um sacrifício vicário na ocasião em que o juízo divino definitivo (a décima
praga) era sentido em todo o Egito (12.1-36).
1. As instruções para escapar do juízo da morte dos primogênitos envolvem o sacrifício vicário de
um cordeiro cujo sangue, esfregado nos umbrais das portas, assinalaria a proteção
divina contra a morte naquela casa, onde a Páscoa havia sido celebrada (12.1-13).
2. As instruções para a celebração do livramento oferecido por Deus incluíam uma festa de sete
dias de duração [a festa dos pães ázimos] depois da Páscoa (12.14-20).
3. A celebração da Páscoa é descrita e prescrita como um memorial perpétuo (12.21-28).
4. O cumprimento das predições divinas de libertação do Egito com a riqueza da terra acontece
quando Yahweh mata todos os primogênitos do Egito (12.29-36).
• A morte dos primogênitos criou o caos em todo o Egito (12.29, 30).
• Faraó anuncia sua decisão de deixar os israelitas partir sem qualquer restrição (12.31, 32).
• Os egípcios encorajam os israelitas a partir, dando-lhes objetos de valor, como Yahweh prometera
(12.33-36).
C. O programa de Yahweh para libertação de Seu povo incluía a partida definitiva do Egito e
demonstrações convincentes de Seu poder de proteger e suprir Seu povo (12.37 −
18.27).
1. Israel deixou o Egito em direção ao mar dos Juncos sob o impacto da redenção de Yahweh e da
obrigação de viver como nação consagrada (12.37 − 13.22).
• As estatísticas da libertação apontam para o cumprimento das alianças pactuais (12.37-42).
• As instruções sobre a Páscoa são reafirmadas para beneficiar os semitas não-israelitas que
participaram do êxodo (12.43-51).
• O fato da consagração nacional de Israel a Yahweh deve ser regularmente comemorado por duas
cerimônias relacionadas, à consagração dos primogênitos e à celebração da Páscoa e dos
pães ázimos (13.1-16).
• A partida definitiva de Israel do Egito exigia sua saída por uma rota não-egípcia, de modo que o
povo não perdesse o ânimo (13.17-22).
2. Yahweh oferece provas convincentes de Seu poder de proteger Seu povo usando o mar dos
Juncos para destruir os exércitos de Faraó que saíra em perseguição de Israel (14.1-31).
• A lição definitiva de Yahweh quanto a Seu poder e soberania envolveu trazer as tropas de um
Faraó endurecido contra o que parecia ser uma multidão desorientada (14.1-9).
• A lição definitiva de Yahweh quanto a Seu poder e soberania envolveu a resposta de fé por parte
de Moisés para superar a visão distorcida que o povo tinha de sua situação (14.10-14).
• A lição definitiva de Yahweh quanto a Seu poder e soberania envolveu a provisão de uma parede
de proteção e um caminho de percurso através do mar dos Juncos para o livramento de
Seu povo (14.15-22).
– Yahweh prometeu prover um meio de escape para Israel através do mar e assim glorificar a Si
mesmo nos egípcios (14.15-18).
– Yahweh proveu proteção colocando a coluna de nuvem e a coluna de fogo entre os dois
acampamentos (14.19, 20).
• A lição definitiva de Yahweh quanto a Seu poder e soberania envolveu a destruição do exército de
Faraó nas águas do mar dos Juncos (14.23-31).
– Yahweh proveu proteção para Israel ao evitar um ataque egípcio pela presença da coluna de nuvem
(14.23-25).
– Yahweh destruiu os exércitos do Egito fazendo retornar as águas do mar dos Juncos (14.26-30).
– Israel respondeu a seu milagroso livramento com fé em Yahweh e respeito por Moisés (14.31).
3. O livramento sobrenatural oferecido por Yahweh, o divino Guerreiro de Israel, é celebrado por
Moisés e Miriã (15.1-21).
• O cântico de Moisés louva Yahweh por Seu milagroso livramento e celebra o estabelecimento
seguro de Israel em Canaã sob a autoridade de Yahweh de acordo com Seu plano (15.1-
18).
– O cântico de Moisés exalta Yahweh, o Guerreiro divino, por Seu livramento milagroso, que O
coloca acima de qualquer outro poder, humano ou divino (15.1-12).
– O cântico de Moisés celebra o estabelecimento seguro de Israel em Canaã sob a autoridade de
Yahweh de acordo com Seu plano (15.13-18).
• O cântico de Miriã ecoa o cântico de Moisés ao exaltar Yahweh por aniquilar os exércitos de
Faraó no mar (15.19-21).
4. A jornada do mar dos Juncos ao Sinai é marcada pela provisão fiel de Deus a despeito das
atitudes lamentáveis de Israel (15.22 − 18.27).
• Yahweh fielmente provê água potável e promete bem-estar como recompensa pela obediência
depois da nação extravasar sua frustração contra Moisés pelas águas amargas de Mara
(15.22-27).
• Yahweh fielmente provê codornizes e maná em resposta à murmuração do povo pelos alimentos
de sua escravidão no Egito (16.1-36).
– Yahweh responde à murmuração do povo demonstrando Sua glória e prometendo provisões
abundantes (16.1-12).
– A provisão de Yahweh vem sob a forma de codornizes e maná (16.13-16).
– Instruções para reunir, guardar e preparar o maná são oferecidas ao povo, com atenção ao descanso
do Sábado (16.17-32).
– Um hômer de maná foi mais tarde guardado na arca como memorial da provisão de Yahweh (16.33-
36).
• Yahweh pacientemente proveu água saída da rocha para o povo a despeito de sua obstinada
murmuração contra Ele e Moisés (17.1-7).
• Yahweh oferece a vitória sobre o traiçoeiro Amaleque por meio da intercessão de Moisés durante
a batalha (17.8-16).
• Yahweh oferece conselho sábio, por meio de Jetro, de modo a tornar a vida mais fácil para Moisés
e a justiça mais prontamente disponível ao israelita como indivíduo (18.1-27).
– Jetro traz a família de Moisés de volta para ele, de Midiã até o Sinai (18.1-6).
– A reação de Jetro ao relato dos milagres de Yahweh em favor de Israel por Moisés é de gratidão e
adoração (18.7-12).
– Jetro oferece a Moisés a valiosa ferramenta da delegação para poupar a ele e à nação a agonia de
longas esperas durante os julgamentos civis (18.13-27).
PARTE II – A ALIANÇA DE ISRAEL COM YAHWEH NO SINAI
A preservação do relacionamento entre Yahweh e Israel exigia a obediência
corporativa da nação a Yahweh por meio da aliança do Sinai (19.1 − 40.38).
I. Israel é constituído uma nação sob a aliança com Yahweh por meio da propagação do que
foi revelado no Sinai (19.1 − 31.18).
A. O compromisso da nação, em obedecer ao estipulado na aliança a ser dada no Sinai,
sobreveio quando o povo foi confrontado com os grandes feitos de Yahweh contra o
Egito e Sua extraordinária teofania no Sinai (19.1-25).
1. Os detalhes cronológicos e geográficos da revelação sinaítica são estabelecidos (19.1, 2).
2. Yahweh conclama um compromisso nacional decisivo para que Israel possa desfrutar um
relacionamento especial com Ele (19.3-8).
• Israel será possessão exclusiva de Yahweh (19.5)
• Israel será reino de sacerdotes de Yahweh (19.6a).
• Israel será nação santa de Yahweh (19.6b).
• Israel responde entusiasticamente ao desafio de Yahweh (19.7).
3. A manifestação de Yahweh, como o Deus da aliança, demonstraria Sua extraordinária natureza
e a santificação necessária para entrar em aliança com Ele (19.9-25).
• A manifestação de Yahweh a Israel exigia cerimonial de purificação e reverência quanto ao
próprio lugar da manifestação sob pena de morte (19.9-15).
• A manifestação de Yahweh a Israel revelou Sua tremenda natureza e Sua inacessibilidade (19.16-
25).
B. A vontade moral de Yahweh para o povo da aliança é resumida em Dez Palavras, às quais o
povo reage com temor e admiração (20.1-21).
1. O papel de Yahweh como libertador lhe dá o direito de exigir a obediência de Israel (20.1, 2).
2. As Dez Palavras resumem os relacionamentos que Israel deveria ter com Yahweh e entre si
como povo da aliança (20.3-17).
3. Israel reage em temor e admiração à manifestação direta de Yahweh no Sinai (20.18-21).
C. Regulamentações civis e religiosas são dadas à nação da aliança no ―livro da aliança‖ (20.22
− 23.33).
1. Prólogo – O culto de Israel deve refletir a glória e a santidade de Yahweh em vez de exaltar o
homem e outros deuses (20.22-26).
2. Leis sobre os relacionamentos entre senhores e servos demonstram a importância do amor e
respeito (21.1-11).
3. Leis sobre homicídio e ameaça à vida enfatizam o alto valor que a vida humana deveria ter em
Israel (21.12-17).
• Certas ofensas graves deveriam ser punidas com pena de morte, exceto o homicídio não
intencional (21.12-14).
• Tentativas de parricídio ou matricídio são punidas com a morte (21.15).
• Seqüestro e venda de seres humanos são punidos com a morte (21.16).
• Amaldiçoar os pais é punido com a morte (21.17).
4. Leis sobre ferimentos físicos enfatizam o alto valor dado ao bem-estar físico do povo da aliança
(21.18-32).
• Leis casuísticas tratam dos ferimentos provocados pelo homem (21.18-27).
• Leis casuísticas tratam dos ferimentos causados por animais (21.28-36).
5. Leis sobre propriedade e danos a ela causados enfatizam a necessidade de cuidado mútuo e
importância da restituição (22.1 − 22.15).
• Leis casuísticas tratam do roubo (22.1-4).
• Leis casuísticas tratam do dano por negligência (22.5).
• Leis casuísticas tratam do dano por fogo (22.6).
• Leis casuísticas tratam do dano por desonestidade (22.7-15).
6. Leis de direitos humanos revelam o propósito de Yahweh de que toda a vida de Israel refletisse
Sua santidade (22.16-31).
• Leis casuísticas tratam de reparação por estupro (22.16, 17).
• Leis apodícticas exigem execução por feitiçaria, bestialidade e idolatria (22.18-20).
• Leis apodícticas exigem compaixão por membros carentes da sociedade sob pena de ira divina
(22.21-24).
• Leis casuísticas exigem generosidade e compaixão em negócios entre israelitas (22.25-27).
• Leis apodícticas exigem submissão a Deus e às autoridades em uma vida de consagração (22.28-
31).
7. Leis relativas à administração da justiça revelam o cuidado de Yahweh para que a verdade e a
justiça fossem dispensadas igualmente a todos (23.1-9).
• Leis apodícticas exigem veracidade e imparcialidade na corte (23.1-3).
• Leis casuísticas exigem ação humanitária independente dos relacionamentos envolvidos (23.4, 5).
• Leis apodícticas exigem eqüidade, honestidade e hospitalidade a todo o povo, independente do seu
status social (23.6-9).
8. Leis sobre festas religiosas destacam o desejo de Yahweh em ter prioridade na vida do Seu
povo (23.10-19).
• Leis apodícticas exigem a observância de períodos de descanso para a terra a cada sete anos e para
o povo a cada sete dias em obediência solícita a Deus (23.10-13).
• Leis apodícticas exigiam do israelita do sexo masculino a participação em três festividades
religiosas anuais (23.14-17).
• Leis apodícticas regularizavam as ofertas para que práticas pagãs não fossem adotadas em Israel
(23.18, 19).
9. Epílogo – A observância zelosa das estipulações da aliança confirmaria a conquista de Canaã e
a bênção de Deus com prosperidade e fertilidade ali (23.20-33).
• O Anjo protetor de Yahweh iria adiante de Israel, fazendo conquistas para a nação, se esta
permanecesse fiel a Yahweh (23.20-23).
• A fidelidade exclusiva a Yahweh garantiria a bênção na terra e o triunfo absoluto sobre as nações
que habitavam Canaã (23.24-31).
• Yahweh proíbe alianças e coabitação com pagãos em Canaã (23.32, 33).
D. A ratificação da aliança traz Israel a um relacionamento nacional de obediência a Yahweh
(24.1-11).
1. O povo se compromete solenemente com os termos da aliança (24.1-4a).
2. O acordo da aliança é celebrado com sacrifícios e ratificado após a leitura de seus termos
(24.4b-7).
3. A aspersão do sangue dos sacrifícios sela a aliança para a nação (24.8).
4. A aceitação dos representantes da nação diante da presença teofânica de Yahweh sela a aliança
por Seu lado (24.9-11).
E. Leis cerimoniais foram transmitidas a Moisés para regulamentar o culto e serviço sacerdotal
em Israel (24.12 − 31.18).
1. Prólogo – Moisés é convocado à presença de Yahweh no alto do Sinai para receber maiores
instruções quanto à vida de Israel na aliança (24.12-18).
2. O plano de Yahweh para manifestar Sua presença entre o povo exige a dedicação dos bens de
Israel para a construção de um tabernáculo divinamente planejado (25.1-9).
3. As instruções para a construção do tabernáculo revelam a glória e a santidade de Yahweh em
Seu governo teocrático sobre Israel (25.10 − 27.21).
• A arca do pacto e seu propiciatório são descritos e apresentados como o lugar onde o testemunho
da aliança seria guardado e Yahweh Se manifestaria a Israel (25.10-22).
• A mesa dos pães da presença é descrita e apresentada como o lugar onde Israel se consagraria a
Yahweh e se declararia dependente de Sua provisão (25.23-30).
• O candelabro é descrito (25.31-40).
• As cortinas internas e externas e a coberta externa do tabernáculo são descritas e sugerem a pureza
e a separação exigida pela presença de Deus ali (26.1-14).
• A estrutura de madeira do tabernáculo é descrita e indica a sua portabilidade (26.15-30).
• O véu interior do tabernáculo é descrito e situado na estrutura (26.31-35).
• A cortina na entrada do tabernáculo é descrita (26.36, 37).
• O altar de bronze para as ofertas queimadas e seus utensílios são descritos (27.1-8).
• O pátio é descrito quanto a seu material e medidas (27.9-19).
• O óleo do candelabro deve ser provido pelos israelitas para o uso dos sacerdotes (27.20, 21).
4. As instruções quanto aos ministros e seus serviços evidenciam a santidade que Yahweh exige
de Seus servos (28.1–29.46).
• A família sacerdotal é designada e os materiais para suas vestimentas são alistados (28.1-5).
• As vestimentas do sumo sacerdote são descritas quanto a seu material, forma e função (28.6-39).
– A estola sacerdotal é descrita com ênfase nas duas pedras com os nomes das tribos gravados (28.6-
14).
– O peitoral é descrito com ênfase nas doze pedras gravadas com os nomes das tribos e no Urim e no
Tumim (28.15-30).
– A túnica da estola sacerdotal é descrita com ênfase nos sinetes que sinalizavam a continuidade do
ministério diante da presença de Yahweh (28.31-35).
– O diadema dourado do turbante é descrito e apresentado como um lembrete da necessidade de
santidade perante Yahweh da parte de Israel (28.36-38).
– A túnica e o turbante são descritos (28.39).
• As vestes dos sacerdotes regulares são descritas quanto a seu material e sua função (28.40-43).
• A cerimônia necessária para a ordenação de Arão e seus filhos ao sacerdócio aponta para a
absoluta necessidade de pureza em seu serviço (29.1-46).
– As ofertas são apresentadas (29.1-3).
– A purificação pessoal dos sacerdotes é prescrita (29.4-9).
– A oferta pelo pecado por Arão e seus filhos é descrita (29.10-14).
– A oferta de consagração por Arão e seus filhos é descrita, com ênfase na aplicação do sangue nas
partes especificadas de seus corpos (29.15-30).
– O procedimento para a consagração de sacerdotes e do tabernáculo é apresentado em detalhes
(29.31-43).
– A promessa de Yahweh quanto aos sacerdotes consagrados e ao tabernáculo é que eles ministrarão
ao imanente Deus de Israel (29.44-46).
5. Objetos e materiais usados para o culto são descritos quanto a sua forma e função (30.1-38).
• O altar do incenso é descrito quanto a seu material, função e lugar no tabernáculo (30.1-10).
• O serviço no tabernáculo deve ser sustentado por um imposto do censo, cobrado sobre todos os
israelitas do sexo masculino (30.11-15).
• O lavatório é descrito quanto a seu material e função de preservar vidas (30.16-21).
• O óleo da unção é descrito quanto a sua composição e função consagradora (30.22-33).
• O incenso é descrito quanto a sua composição e função no culto (30.34-38).
6. A capacitação divina equipa um grupo de artesãos para realizar o trabalho necessário para a
construção do tabernáculo (31.1-11).
7. O Sábado é prescrito para Israel como o sinal da aliança mosaica e como um dia separado para
Yahweh perpetuamente, com base em Seu descanso após a Criação (31.12-17).
8. Epílogo − Yahweh dá a Moisés a forma visível da aliança, as duas tábuas de pedra (31.18).
II. Israel perde seu direito a um relacionamento pactual com Yahweh devido a sua
infidelidade em idolatria, mas esse direito é restaurado em virtude da graça divina por
meio da intercessão de Moisés (32.1 − 34.35).
A. A idolatria de Israel com deuses semelhantes aos do Egito quebra sua aliança com Yahweh e
traz a ira divina sobre a nação (32.1 − 33.6).
1. A idolatria e a imoralidade que a acompanha surgiram em razão da incerteza quanto ao destino
de Moisés e da familiaridade com os ídolos do Egito (32.1-6).
• A exigência de um deus visível surgiu devido à incerteza quanto ao destino de Moisés, depois de
um longo período no alto do Sinai (32.1).
• A idolatria e a imoralidade que se seguiu à fabricação do bezerro de ouro são provenientes da
familiaridade com os ídolos e os rituais egípcios (32.2-6).
2. A justa ira de Yahweh contra a idólatra Israel, que quebra a aliança com Ele, é desviada pela
intercessão de Moisés, fundamentada na aliança (32.7-14).
• Yahweh condena Israel à luz de seu caráter (32.7-10).
• A intercessão de Moisés, baseada no caráter de Yahweh e em Sua aliança com os patriarcas, evita
o derramamento da justa ira divina sobre Israel (32.11-14).
3. A justa ira de Moisés contra a idolatria de Israel o levou a destruir os símbolos da aliança, a
demolir o ídolo e a denunciar quem o fizera (32.15-24).
• A justa ira de Moisés contra a idolatria de Israel o levou a destruir as tábuas da aliança, uma vez
que aquilo que simbolizavam já havia sido quebrado pelo povo (32.15-19).
• A justa ira de Moisés contra a idolatria de Israel o levou a demolir o ídolo, forçando Israel a
provar o seu próprio pecado (32.20).
• A justa ira de Moisés contra a idolatria de Israel o levou a denunciar a irresponsabilidade de Arão,
que fizera o ídolo (32.21-24).
4. A disciplina contra a idolatria de Israel significou a perda da vida para alguns e a perda da
presença imediata de Yahweh para todos (32.25 − 33.6).
• Os levitas, na eliminação de três mil pessoas, foram os instrumentos do zelo de Yahweh (32.25-
29).
• A intercessão de Moisés não impede que Yahweh acrescente uma praga ao castigo pela idolatria
(32.30-35).
• A presença imediata de Yahweh não estaria mais com o povo devido a seu pecado e obstinação na
prática do mal (33.1-6).
B. A graciosa resposta de Yahweh à intercessão de Moisés em favor de seu povo concede o
benefício de Sua presença imediata com o líder, e a possibilidade deste ter um
vislumbre da glória pessoal de Yahweh (33.7-23).
1. O relacionamento íntimo entre Moisés e Yahweh, manifesto na Tenda do Encontro, permitiu a
intercessão pelo povo de modo pessoal (33.7-11).
2. Yahweh respondeu graciosamente à dupla petição de Moisés pela continuação de Sua presença
e pela manifestação de Sua glória (33.12-23).
• O pedido insistente de Moisés foi que o favor prometido por Yahweh se traduzisse na
permanência da presença divina com Israel, por amor à própria reputação divina (33.12,
13, 15, 16).
• A paciente resposta de Yahweh é que Ele reverterá Sua ameaça e permanecerá imediatamente
presente entre o Seu povo (33.14, 17).
• O desejo de Moisés de ver a glória manifesta de Yahweh seria satisfeito apenas parcialmente, por
amor à vida do profeta (33.18-23).
C. A aliança de Yahweh com Israel é graciosamente restaurada, à medida que Ele Se revela a
Moisés, renova Suas exigências para com o povo e ratifica Moisés como Seu servo
autorizado (34.1-35).
1. A aliança de Yahweh com Israel é graciosamente restaurada, à medida que Ele Se revela a
Moisés (34.1-9).
• Yahweh ordena a Moisés que prepare novas tábuas de pedra nas quais Ele reescreveria Suas
exigências de forma tangível (34.1-4).
• Yahweh revela Seu caráter como o Deus pactual de Israel (34.5-7).
• Moisés suplica a Yahweh Sua presença imediata entre a nação (34.8, 9).
2. A aliança é renovada e suas estipulações resumidas com ênfase para o aspecto ritual (34.10-
26).
• Israel deve permanecer obediente a seu Deus que operava milagres em seu favor (34.10, 11).
– Israel não deve fazer alianças com nações pagãs, pois isso a levaria à idolatria (34.12-17).
– Israel deve ser uma nação consagrada, dedicando seus primogênitos e suas primícias em culto
regular anual, sem adotar práticas rituais pagãs (34.18-26).
3. Yahweh ratificou Moisés como Seu servo autorizado ao permitir que sua face refletisse
temporariamente a glória divina (34.29-35).
III. O término do tabernáculo permitiu a Yahweh manifestar a Sua presença entre Seu povo,
cumprindo assim as Suas promessas e as expectativas pactuais de Israel (35.1 − 40.38).
A. As exigências para a continuidade no estabelecimento da vida pactual era a fidelidade na
guarda do Sábado e a provisão generosa de materiais e talentos necessários para a
construção do tabernáculo (35.1-29).
1. Moisés anuncia a renovação da aliança e exige que o povo seja fiel na guarda do Sábado, o
sinal da aliança (35.1-3).
2. Moisés solicita que o povo contribua com seus bens e capacidades para construir o tabernáculo
(35.4-19).
3. O povo respondeu generosamente ao prover a matéria-prima e bens manufaturados para a
construção do tabernáculo (35.20-29).
B. As pessoas a quem Yahweh capacitara para executar o trabalho receberam o material e a
mão-de-obra necessários para realizar a tarefa (35.29 − 36.7).
C. Instruções mosaicas sobre as diversas partes do tabernáculo e seus objetos são fielmente
executadas como o Senhor ordenara a Moisés (36.8 − 39.43).
1. A estrutura geral é terminada conforme ordenado (36.8-38).
2. O mobiliário interno é completado conforme ordenado (37.1-29).
3. O mobiliário externo é completado conforme ordenado (38.1-20).
4. A estimativa oficial do material empregado por Bezaleel e Aoliabe é apresentada (38.21-31).
5. As vestes sacerdotais são terminadas conforme ordenado (39.1-31).
• A estola sacerdotal é terminada (39.1-7).
• O peitoral é terminado (39.8-21).
• Outros itens da indumentária sacerdotal são terminados (39.22-31).
6. O tabernáculo e as vestes sacerdotais são aprovados e abençoados depois de uma inspeção
oficial por Moisés (39.32-43).
D. O relacionamento entre Yahweh e Israel, Seu povo pactual, atinge sua expressão plena com
a presença da glória divina no tabernáculo no primeiro dia do mês de Abibe, 1445
a.C.(40.1-38).
1. Moisés levanta o tabernáculo de acordo com as instruções de Yahweh (40.1-16).
2. Moisés mobilia o tabernáculo de acordo com as instruções de Yahweh (40.17-33).
3. A glória de Yahweh enche o tabernáculo e Israel torna-se uma nação dirigida diretamente pela
presença de Deus (40.34-38).
O argumento de
LEVÍTICO
Questões introdutórias
TÍTULO
O título do terceiro livro do Pentateuco é, de certa forma, equivocado, uma vez que o
adjetivo grego λεςιηικόν (leuitikon), usado pelos tradutores da Septuaginta como título
para o livro, significa ―aquilo que diz respeito aos levitas‖, que quase não são
mencionados no livro. As traduções latinas e das diversas línguas ocidentais
preservaram o título grego por meio de simples transliteração.
O título hebraico é ‫( ַוֹט ִׁק ְָּרא‬w yyiqrāʾ, ―e ele [Yahweh] chamou‖), a primeira palavra
do Texto Massorético. O título em si não é descritivo, mas oferece indícios do alto
conteúdo revelacional do livro, no qual Yahweh fala diretamente a Moisés e/ou Arão
nada menos do que 38 vezes.
DATA E AUTORIA
Embora Moisés nunca seja mencionado em Levítico como autor do livro ou de partes
dele, em contraste com Êxodo, por exemplo, seu nome aparece várias vezes como
recipiente de revelação direta de Yahweh (cf. 1.1; 4.1; 6.1; 7.22; 8.1 etc.).
Há várias razões contextuais pelas quais Moisés deveria ser considerado o autor. Em
primeiro lugar, o material em Levítico dá continuidade natural ao conteúdo dos
capítulos finais de Êxodo, dedicados ao tabernáculo. Isto é confirmado pela cláusula
inicial do livro (uma seqüência narrativa introduzida por um pretérito com waw
consecutivo, 1.1). Em segundo lugar, o material contido no livro foi revelado no Sinai
(7.37; 26.46; 27.34). Em terceiro lugar, a única seção histórica em Levítico (8.1 −
10.20) segue-se logicamente à cerimônia de consagração de Êxodo 40, em que a ênfase
recaía sobre o tabernáculo, ao passo que em Levítico recai sobre os sacerdotes. Em
quarto lugar, a natureza literária do capítulo 26 complementa o padrão do tratado de
suserania encontrado nas porções legislativas de Êxodo, uma vez que provê a parte
relativa às bênçãos e maldições do ―documento‖.
Além do mais, o Senhor Jesus Cristo, quando fez referência à lei das ofertas para a
purificação da lepra como aquilo que ―Moisés ordenou‖, atribuiu uma porção de
Levítico a Moisés (cf. Mt 8.4; Mc 1.44 e Lv 14.2-32).
Evidências arqueológicas, recentemente descobertas, quanto à natureza e à forma de
códigos legais da metade do segundo milênio a.C. na Fenícia e na Mesopotâmia
terminaram de esvaziar os já fracos argumentos em favor de uma composição recente de
Levítico pelos editores das supostas fontes H [Código da Santidade] e P [Fonte
Sacerdotal].1
A data do livro é praticamente a mesma de Êxodo, uma vez que um intervalo de um
mês e meio pode ser postulado entre a consagração do tabernáculo em Êxodo 40.17 (1
de Nisã, 1445 a.C.) e a partida de Israel do monte Sinai (20 de Iyyar, 1445 a.C.). A
comunicação das leis e normas a Moisés deve ter ocorrido durante o ano que o povo
passou ao pé do monte Sinai, enquanto o tabernáculo estava sendo construído.
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Forma

1
Gleason L. Archer, Merece Confiança o Antigo Testamento?, p. 269.
Levítico é quase que exclusivamente literatura legal. A não ser pelos capítulos 8 a 10,
o livro contém regulamentos sobre os aspectos rituais da vida de Israel, não apenas
aqueles imediatamente ligados ao culto, mas também alguns que lidavam com situações
do cotidiano e sua influência sobre a participação do indivíduo ou de um grupo na
adoração a Yahweh. Levítico, assim como Êxodo, inclui tanto leis apodícticas (o
capítulo 19 é o principal exemplo) quanto casuísticas (o capítulo 13 é um exemplo
marcante deste tipo de legislação).
Archer oferece evidências arqueológicas da natureza e forma dos códigos legais do
segundo milênio a.C. na Fenícia e na Mesopotâmia, as quais indicam a necessidade de
aceitar uma autoria mosaica para Levítico, em vez de postular fontes mais recentes
como o código H (de Holiness, ―santidade‖) e P (de Priestly, ―sacerdotal‖).2
Estilo
Um artifício literário interessante no livro de Levítico é a descrição das diversas
formas de sacrifício, seguida pela legislação referente a sua execução, quando o mais
esperado seria que a forma e a função para cada tipo de oferta fossem dados em
conjunto.
O uso de fórmulas introdutórias para seções específicas do livro é outro traço literário
marcante desse livro. Assim, nos capítulos 1 a 3, a expressão ‫( ק ְָּרבָן‬qorḇān, ―oferta‖) é
predominante; nos capítulos 4 e 5 (até 6.7 na versão portuguesa), a expressão-chave é
‫( ְּונִׁ ְּסלַחֹלֹו‬wenisl ḥ, ―e ser-lhe-á perdoado‖). Nos capítulos 6 a 17 (a partir de 6.8 em
português), a fórmula mais usada é ‫ֹאתֹּתֹורת‬ ַ ‫( ז‬zōʾṯ ṯôr ṯ, ―esta é a lei de‖), e por fim
nos capítulos 18 a 26, o indicador literário comum é a frase ‫( ֲאנִׁיֹיהוהֹאֱלהֶֹיָך‬ʾăn’ y w
ʾĕlō eyḵā, ―Eu sou o Senhor teu Deus‖).
A presença de tais fórmulas literárias em Levítico, de maneira alguma, deve ser
entendida como prova de diferentes fontes literárias ou documentos não-mosaicos.
Indica apenas que Moisés, embora sem impor um padrão literário uniforme ao livro,
certamente valeu-se dos padrões literários mais apropriados para o propósito de cada
seção. G. J. Wenham observou bem que ―é importante destacar a natureza especulativa
de todas as tentativas de descobrir fontes em Levítico‖.3
Mensagem
A mensagem de Levítico precisa ser entendida à luz da situação histórica em que o
livro foi apresentado a Israel, durante o ano que transcorreu entre a chegada ao monte
Sinai e a partida em direção a Canaã, enquanto o tabernáculo estava sendo construído.
Era de esperar que o Deus que oferecera projetos tão minuciosos para cada peça do
tabernáculo, no qual habitaria entre Seu povo, oferecesse igualmente instruções
detalhadas para o culto que possibilitaria a Israel aproximar-se dEle.
À luz do contexto histórico em que o livro foi escrito, pode-se atribuir heuristicamente
4
o seguinte propósito ao livro de Levítico:

2
Gleason L. Archer, Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento?, pp. 269-270.
3
G. J. Wenham, The Book of Leviticus, New International Commentary on the Old
Testament, 7.
4
Esta palavra deriva-se do grego euJrivskw e denota o processo de tentativas para chegar à
descoberta de um conceito ou idéia.
Promover reverência nacional e individual à santidade de Yahweh, apresentando
as condições que permitem a Israel aproximar-se dEle e preservar a Sua presença
santa entre o povo escolhido.
A ênfase gritante do livro é a santidade de Yahweh e a exigência daí derivada de que
Israel seja santo em todos os seus relacionamentos, tendo em vista sua vida como povo
da aliança em Canaã. De fato, em certo sentido, Levítico completa Êxodo ao apresentar
uma lista de bênçãos e maldições (cap. 26), que era uma característica dos já famosos
tratados de suserania. A primeira parte do livro revela o projeto divino para que Israel se
achegue a Yahweh (caps. 1–7). Um breve interlúdio histórico revela os riscos de violar
a santidade de Deus (caps. 8–10). A segunda parte trata dos meios pelos quais Israel
desfrutaria comunhão com Yahweh, rejeitando a vida pregressa no Egito e o estilo de
vida que os aguardava em Canaã (cf. 19.27-31).
A mensagem do livro é a seguinte:
A presença santa de Yahweh entre Seu povo exige purificação regular por meio de
sacrifícios apropriados e separação nacional de toda sorte de impureza.
A teologia de Levítico
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Em contraste com Gênesis e Êxodo, em que as narrativas produziam farto material dos
quais se poderiam derivar traços subjacentes do caráter divino ou de princípios divinos
de ação, Levítico tem um mínimo de narrativa e um máximo de legislação. Estes, no
entanto, oferecem percepções significativas da pessoa e do caráter de Deus em Seu
relacionamento com o povo e na provisão que faz para que a comunhão pactual seja
preservada.
Deus é santo
O versículo-chave do livro é um mandamento límpido de Yahweh. Sereis santos,
porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo (19.2). Santidade significa separação de
alguma coisa para um propósito ou uso. No caso de Yahweh, significa Sua separação do
mal em toda e qualquer de suas formas. O objetivo dessa legislação, como também a
razão da narrativa chocante da morte de Abiú e Nadabe, no capítulo 10.
Assim, a comunhão desejada (ou melhor ordenada) por Yahweh com Seu povo
dependia da assimilação de Seu conceito de santidade pelos israelitas. Esse conceito era
radicalmente oposto ao uso do termo ‫( ק ֹדֶ ש‬qōḏeš, ―santidade‖) pelos cananeus, para
quem ser ‫( קָדֹוש‬qāḏôš, ―santo‖) significava envolver-se com as formas mais
degradantes de imoralidade, como ser prostituto ou prostituta cultual.
Israel, ao buscar os padrões divinos de santidade, teria de deixar para trás a forma de
ser ‫( ח ֹל‬ḥōl, ―comum‖ ou ―profana‖), ir além da forma neutra de ser ֹ ‫ָהר‬
ֹ ‫( ט‬ṭā ōr,
―limpo‖), para chegar à vida de identificação positiva com a pureza, a vida ‫שה‬ ָ ‫קְּדֹו‬
(q ḏôs , ―santa‖). Em muitos casos, a santidade era relacionada ao status cerimonial na
e
comunidade, e o indivíduo e, até mesmo, toda a comunidade poderiam precisar
progredir da forma de vida mais baixa, ‫טמֵא‬ ָ (ṭāmēʾ, ―impura‖), para cima, em direção
ao perdão e aceitação de Yahweh.
Deus é imanente
O propósito de Deus, expresso nas palavras de Êxodo 25.8, era viver entre o Seu povo.
As instruções detalhadas concernentes ao lugar de Sua manifestação, oferecidas em
Êxodo, são seguidas de instruções igualmente detalhadas sobre como preservar o
privilégio de Sua presença, encontradas em Levítico.
Outras nações do Oriente Médio antigo compartilhavam o conceito de ter a divindade
nacional habitando no meio do povo. Israel, todavia, se destacava entre elas por
desfrutar a presença de Yahweh por meio de um culto puro – cerimonial e eticamente
puro – de modo a refletir o caráter santo de seu Deus.
Outro aspecto merece ser observado, pois além da presença gloriosa manifestada
acima da arca da aliança no Santo dos Santos, havia uma presença geral, santificadora,
que afetava e impunha exigências sobre a religião de Israel (caps. 21–24), sobre os
padrões de comportamento sexual (caps. 18 e 20), e sobre as relações interpessoais
(caps. 19 e 25) dos israelitas.
Deus é gracioso
Em Levítico, nove vezes a frase ‫( = ְּונִׁ ְּסלַחֹלֹו‬wenisl ḥ lô, ―e ser-lhe-á perdoado)
apresenta a maravilhosa realidade de que Deus havia providenciado o perdão para
algum tipo de deficiência (4.20, 26, 31, 35; 5.10, 13, 16, 18; 6.7). Isso aponta para o fato
de que havia uma eficácia espiritual nos sacrifícios que Yahweh graciosamente
planejara e revelara a Israel.
Uma vez que Seu propósito não era simplesmente libertar Israel do caos e da
desordem da escravidão corporal no Egito, mas também do caos e da desordem de uma
vida dominada pelo pecado, pela doença e pela morte, o sistema sacrificial transmitido à
nação por Moisés englobava cada aspecto da vida e fazia provisão para impurezas
morais e cerimoniais por meio do princípio de expiação vicária (i.e., substitutiva). O
perdão de Yahweh sempre foi gratuito, mas nunca barato, já que sempre envolveu a
entrega de uma vida em lugar de outra, com o benefício sendo apropriado mediante a fé.
O ponto culminante da graça de Yahweh na vida da nação ocorria no chamado (―Dia
da Expiação‖ (‫ִּׁפורים‬
ִׁ ‫יֹוםֹ ַהכ‬, o tradicional yôm ḵ ippûrîm, cf. 23.27), quando os
pecados de todo o ano eram expiados e, figurativamente, ―despachados‖ para o deserto,
removidos da vista da congregação. O retorno do sumo sacerdote do Santo dos Santos
significava que Yahweh havia graciosamente estendido a Sua presença e proteção sobre
a nação por mais um ano.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
Levítico não contém muitos elementos narrativos por meio dos quais seja possível
estabelecer como se dá a atividade de Deus na História. O decreto de permitir o mal fica
implícito nas descrições dos sacrifícios e das deficiências espirituais que os motivavam,
bem como nas longas listas de alimentos e práticas proibidos, que revelam tanto a
alienação da criatura de seu Criador quanto a alienação entre criatura e criatura.
O juízo contra o mal transparece no sistema de expiação vicária, em que vida é preço
de vida diante de um Deus santo e justo. O incidente dramático de Nadabe e Abiú serve
para indicar, de maneira clara, a importância da absoluta fidelidade às estipulações da
aliança, mesmo àquelas que parecessem mais banais. O contexto sugere os crimes de
usurpação de autoridade, insubordinação à legislação pactual e possível embriaguez, um
contraste marcante com o ideal de santidade exigido de quem se propunha a servir
perante Yahweh. Encontra-se o mesmo rigor nas maldições contra a desobediência
pactual prometidas em 26.14-39.
O livramento por meio da semente escolhida não recebe grande ênfase em Levítico,
em que apenas a restauração da nação, depois do castigo pela desobediência (26.40-45),
pode ser diretamente relacionada a esta linha do plano mestre de Yahweh.
A bênção aos eleitos, por fim, transparece no desfrute da Terra Prometida e da
comunhão com Yahweh por meio da obediência pactual (26.1-13). Israel possui a
certeza, todavia, de que Deus jamais a abandonaria, nem descartaria as promessas
pactuais feitas a Abraão (26.44, 45).
OUTROS ASPECTOS TEOLÓGICOS IMPORTANTES EM LEVÍTICO
O papel dos sacrifícios em Levítico
A questão da eficácia dos sacrifícios mosaicos tem sido por longo tempo discutida,
mas sem uma resposta definitiva que agrade a todos os lados do debate.
Por amor à brevidade, é melhor afirmar o seguinte com respeito aos sacrifícios
mosaicos.

1. Os sacrifícios foram meios suficientes e necessários dados por Deus para que Israel
mantivesse comunhão com Ele. Sua significância eterna está além de seu próprio
escopo, dependendo da provisão maior feita por Deus em Cristo.
2. Os sacrifícios tinham uma natureza dupla, pois operavam tanto na esfera pactual
nacional quanto na esfera individual.
3. Os sacrifícios mosaicos eram válidos na esfera pessoal apenas quando motivados
por fé em Yahweh, como o Perdoador de pecados, em uma atitude de obediência a Sua
revelação.
4. Os sacrifícios eram aceitos sem a necessidade de fé pessoal na esfera de
participação cerimonial na comunidade da aliança.5
5. Os sacrifícios eram limitados em seu escopo e eficácia a atos pecaminosos e a culpa
deles decorrente até a ocasião em que eram oferecidos, mas não tinham qualquer
eficácia contra a culpa imputada ou a natureza pecaminosa.
6. Pecados premeditados ou violações deliberadas das estipulações pactuais não
podiam ser expiados por sacrifícios regulares, e seu perdão era questão exclusiva da
graça divina em resposta ao arrependimento, operando por meio da provisão do Dia da
Expiação.
7. A eficácia dos sacrifícios era derivativa, sendo confirmada por Deus na base do
sacrifício perfeito que seria oferecido na cruz do Calvário.
Estas sete afirmações respondem adequadamente os pontos de vista de teólogos
―radicais‖ que adotam uma visão evolutiva da religião de Israel e, muitas vezes,
referem-se ao sistema sacrificial como ―a religião do açougue‖, supostamente um
anacronismo politeísta que os profetas eticamente mais avançados de datas posteriores
passariam a denunciar. Tal visão do sistema sacrificial deve ser rejeitada pelos
argumentos a priori que apresenta e pela sua falta de visão contextual, pois não
percebem que os profetas condenam não um ritual errado, mas uma atitude errada para
com Deus e para com o ritual por Ele ordenado. Elas corrigem, ainda, uma opinião
extremamente comum entre os conservadores, de que os sacrifícios meramente cobriam
[com apelos etimológicos ao verbo hebraico ‫( ָכפַר‬ḵāp r, ―cobrir‖)] os pecados
anteriores à cruz, mantendo a culpa em suspenso até que o perfeito sacrifício fosse
oferecido. Este ponto de vista não entende apropriadamente as inequívocas garantias de
perdão nos capítulos 4–6 e nas descrições do Dia da Expiação (caps. 16 e 23).

5
Os sacrifícios cumpriam uma função civil, relacionando cada israelita a Deus como um
cidadão da teocracia (cf. Ex 19-20), e uma função espiritual, relacionando cada israelita crente
a Deus mediante a fé e concedendo-lhe as bênçãos de justificação e salvação eterna (com base
na obra completa de Cristo). A julgar pelas freqüentes exortações proféticas, a vasta maioria
dos israelitas, ao longo da conturbada história da nação, contentou-se com a primeira função,
de modo que apenas um “remanescente” tinha ligação espiritual com Yahweh, o Deus da
aliança.
As festas religiosas de Israel
Levítico 23 é o capítulo chave quanto aos festivais religiosos em Israel do ponto de
vista do adorador (Números 28 e 29 tratam das mesmas festas do ponto de vista dos
sacerdotes que as celebravam). O número das festas varia de acordo com os
comentaristas, mas para preservar o número sete, este autor fez distinção entre Páscoa e
pães ázimos e considerou Primícias uma festa separada. Assim, havia quatro festas
durante a primavera (aproximadamente entre março e junho), e três festas durante o
outono (todas concentradas em setembro-outubro).
Algumas das festas religiosas de Israel tinham paralelos nas religiões pagãs das nações
circunvizinhas, particularmente as festas relacionadas à colheita. Em Israel, todavia, a
pessoa única de Yahweh dava sentido especial a cada uma das festas, pois elas
relembravam, cada uma a sua maneira, o caráter e as ações de Yahweh em favor de
Israel.
A Páscoa o celebrava como o grande Redentor; os pães ázimos celebravam a Sua
Santidade e a separação entre o velho pão (estilo de vida) e o novo (cf. 1 Co 5.8). Nas
Primícias, Yahweh era celebrado como o Provedor (o primeiro molho de cevada
simbolizava a esperança de uma colheita farta).
Pentecostes (ou mais exatamente a Festa das Semanas) era uma celebração ligada às
Primícias, o mesmo tema de provisão, mas desta vez pela alegria com o término da
colheita de cereais.
As festas de outono eram três, todas celebradas no mesmo mês, Tisri, equivalente a
setembro-outubro. A Festa das Trombetas iniciava o ano civil com descanso e
sacrifícios recordando o favor de Yahweh para a nação durante o ano anterior. O Dia da
Expiação celebrava Yahweh como o Purificador da nação, o qual afastava de Israel a
Sua própria ira santa contra o pecado. A última festa fixa (‫מֹועֵד‬, môʿēḏ) era a alegre
Festa dos Tabernáculos, que celebrava Yahweh como Sustentador e Guia na
peregrinação. O quadro a seguir resume as festas fixas de Israel.

Festa Referênc
Data da festa
fixa ia
Mês
Mês romano Dia
judaico
14 Páscoa Lv 23.5; Dt
Abibe
15 Pães 16.2
(Nisã) Março-Abril
16 ou ázimos Êx 23.14-17;
Primeiro
21 Primícias Lv 23.9-14
Semanas
Sivã Lv 23.15-22
Maio-Junho 6 (Pentecoste
Terceiro Dt 16.9-12
s)
Trombetas Lv 23.23-35
1
Tisri Setembro- Expiação Lv 23.26-32
10
Sétimo Outubro Tabernácul Lv 23.33-44;
15-21
os Dt 16.13-15
FESTAS FIXAS DE ISRAEL

A tipologia do sumo sacerdote


Teólogos e comentaristas conservadores não são concordes quanto à natureza e função
da tipologia. Abusos passados produziram certa aversão ao próprio termo. Apesar disso,
a maioria poderia endossar a seguinte definição:
Um tipo é uma realidade especial do Antigo Testamento que, apoiada em uma
promessa e reordenada por Deus, serve como ilustração específica de uma verdade
revelada no Novo Testamento.
Devido à instituição divina e ao papel que desempenhava no perdão de pecados na
dispensação mosaica, o sistema tipológico israelita tornou-se solo fértil para
identificações tipológicas, às vezes infundadas. A título de exemplo, e sem procurar
estabelecer moldes tipológicos, o quadro a seguir apresenta uma visão tipológica da
pessoa e obra do sumo sacerdote, um tipo indiscutível por ser assim usado no Novo
Testamento.

O sumo sacerdote de Israel O nosso sumo sacerdote


1. Arão foi chamado por Deus dentre os 1. Jesus foi chamado por Deus dentre os
homens de Israel. homens de Israel (Hb 5.4, 10).
2. Devia ser capaz de condoer-se dos que erram2. Orou derramando lágrimas por outros e
e dos ignorantes (Hb 5.2). por si (Hb 5.7).
3. Exibia vestes imaculadas. 3. Exibia caráter imaculado.
4. Entrava anualmente no Santo dos Santos, não
4. Entrou no próprio céu (Hb 9.24).
sem derramamento de sangue.
5. Fazia expiação completa oferecendo o 5. Fez expiação definitiva oferecendo o
sangue de um bode. próprio sangue.
6. Sacrificava pela nação de Israel e por si 6. Sacrificou-se pelo mundo inteiro (1 Jo
mesmo. 2.2), não por si mesmo.
7. Apresentou-se como oferta única e
7. Fazia ofertas anuais, repetidas.
eterna (Hb 9.25).
O SUMO SACERDOTE COMO TIPO DE CRISTO

Argumento básico
PROPÓSITO
Promover reverência nacional e individual a Yahweh em Sua santidade apresentando
as condições para que Israel se aproximasse d‘Ele e preservasse Sua presença santa
entre o povo.
DESENVOLVIMENTO
A ênfase maior do livro é a santidade de Yahweh e a conseqüente exigência de
santidade por parte de Seu povo. O significado básico dessa santidade é a separação em
um sentido físico, mas com evidentes conotações morais e cultuais no livro.
Levítico é obviamente parte de um pacote revelador, iniciado em Êxodo 20, em vista
da relação de bênçãos e maldições encontradas no capítulo 26. O livro prescreve as
condições para que Israel desfrutasse a presença e a bênção de Deus; várias passagens
sugerem que a legislação já contemplava a vida de Israel na Terra Prometida
(particularmente, os capítulos 25 e 26).
A primeira parte do livro revela a maneira escolhida por Deus para que Israel se
aproximasse Dele, o sistema sacrificial. Vida por vida é o princípio subjacente em cada
sacrifício, os consagratórios (capítulos 1 e 2), os voluntários (capítulo 3) e os
expiatórios (capítulos 4.1 – 6.7). Instruções específicas para a celebração de cada um
desses sacrifícios aparecem nos capítulos 6.8–7.38.
O sistema sacrificial é inaugurado nos capítulos 8 a 10, em que Arão e seus filhos são
consagrados por Moisés. Uma terrível tragédia acontece e serve para revelar quão
seriamente Yahweh lidava com a questão da santidade e a separação do pecado (10.1-
7).
A segunda parte do livro descreve a maneira pela qual Israel experimentaria
comunhão com Yahweh, ou seja, andando em santidade, separados das antigas práticas
abomináveis do Egito e das futuras práticas abomináveis de Canaã, para onde Yahweh
os levaria (19.27-31).
Israel deveria primeiramente separar-se de toda forma de impureza. Esses
regulamentos, a maior parte deles relacionada ao âmbito físico, comunicavam a
necessidade da nação viver de modo diferente de seus futuros vizinhos (11.1–16.34).
Regulamentos sobre dieta e higiene revelavam o cuidado de Yahweh pela saúde e
bem-estar de Seu povo, ao mesmo tempo em que retratavam o alto valor da vida e seu
custo expresso em sacrifícios substitutivos. A dramática necessidade de purificação era
suprida pelo Dia da Expiação, a cerimônia anual por meio da qual os pecados não-
identificados da nação eram perdoados com base no sangue derramado (16.1-34). Nesse
dia crucial, fazia-se expiação pelo sumo sacerdote, pelo tabernáculo, pelo altar e pelo
povo, e um bode (designado pela palavra Azazel [‫ ֲעז ָאז ֵל‬, ʿăzāʾzēl], provavelmente
derivada das palavras hebraicas para ―bode‖ [‫עֵז‬, ʿēz] e ―partir‖ [‫ ָעז ַל‬, ʿāz l)6 levava
simbolicamente os pecados da nação para o deserto; essa complexa cerimônia permitia
que Israel desfrutasse a presença de Yahweh por mais um ano.
Não é de espantar, assim, que a descrição do Dia da Expiação seja seguida por uma
divisão menor dedicada à importância crucial do sangue na vida de Israel (17.1-16).
Essa segunda parte continua com a aplicação desde o princípio de santidade ou de
separação até os relacionamentos interpessoais na comunidade da aliança. A primeira
área em que Israel deveria se distinguir era a área sexual (18.1-30), o que em si não é
surpreendente, à luz da extrema corrupção do estilo de vida dos cananeus. Incesto (18.6-
18) e perversão (18.19-23), em suas diversas formas, eram proibidos em Israel.
O versículo chave do livro, 19.2, aparece em uma divisão do livro em que o caráter
santo de Yahweh é aplicado a uma variedade de áreas da vida, tanto religiosas (19.3-8)
quanto seculares (19.9-18). Santidade era um assunto tão vital para Israel que, quando
Israel estivesse na Terra Prometida, a pena capital era a medida necessária para garantir
sua busca (capítulo 20).
Uma vez que, em grande parte, a vida de santidade de Israel dependia da qualidade
moral de seus sacerdotes, dois capítulos são especialmente dedicados aos padrões para
suas qualificações e conduta (21.1–22.33).
A santidade também dependia, por parte de Israel, da lembrança constante de sua
relação pactual com Yahweh, e este era um dos principais propósitos das santas
convocações, as festas do calendário religioso de Israel. Elas recordavam eventos
passados e apontavam profeticamente para a consumação das promessas pactuais de
Israel no escathon (capítulo 23).
A punição de um homem que havia blasfemado por amaldiçoar a Yahweh oferece um
segundo exemplo da natureza crucial da santidade, ou conformidade aos padrões de
Deus (24.10-23).
À medida que Yahweh antevê a entrada de Israel em Canaã e a conquista da Terra
Prometida, Ele descreve o tipo de comportamento que será coerente com Seu caráter
santo (25.1–27.34). Os princípios do descanso sabático e do resgate (ou redenção)
deveriam governar o uso e a propriedade da terra e da vida humana, pois tanto a terra

6
Veja o artigo sobre esta palavra no DITAT, pp. 1099-1100 para uma compreensão das
várias opções interpretativas existentes.
quanto a vida pertencem a Yahweh (capítulo 25). A promessa das bênçãos da aliança e a
ameaça das maldições da aliança eram designadas a motivar Israel à santidade (capítulo
26). A santidade de Yahweh era de tal ordem que mesmo aquilo que fosse votado a Ele
acima e além das exigências da aliança não podia ser tratado levianamente (capítulo 27).
Esse capítulo, considerado por muitos uma porção deslocada da Escritura, realmente
oferece o ápice adequado a essa revelação do caráter santo de Yahweh. Ele é digno de
muito mais do que tudo que temos, e o que a Ele alguém consagra, não deveria ser
levianamente tomado de volta.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem:
A presença santa de Yahweh entre Seu povo exige purificação regular por meio de
sacrifícios apropriados e separação nacional de toda sorte de impureza.
PARTE I – A MANEIRA APROPRIADA PARA SE APROXIMAR DE YAHWEH
A presença santa de Yahweh entre Seu povo exige purificação regular por meio de
sacrifícios apropriados (1.1 − 10.20).
I. Os sacrifícios regulares no culto de Israel oferecem os meios para consagração, comunhão
e perdão no relacionamento do povo com Yahweh (1.1 − 7.38).
A. O meio apropriado para expressar consagração a Yahweh eram as ofertas consagratórias
(1.1−2.16).
1. A natureza divina das instruções é afirmada (1.1).
2. As circunstâncias das instruções são indicadas – a apresentação de sacrifícios (1.2).
3. O holocausto ou oferta queimada (‫עֹלָה‬, ʿōl ) era um ato voluntário de adoração que expressava
a consagração do ofertante no contexto de uma busca do favor divino (1.3-17).
• A cerimônia do holocausto de gado bovino envolvia... (1.3-9).
– ... um animal macho sem defeito (1.3a).
– ... a apresentação do animal à porta do tabernáculo (1.3b).
– ... a imposição das mãos do ofertante sobre o animal indicando a substituição (1.4).
– ... o abate, o esfolamento, a divisão e a lavagem das entranhas do animal pelo ofertante (1.5a, 6, 9a).
– ... a aspersão do sangue, a disposição dos pedaços do sacrifício sobre o altar, e a cremação desses
pedaços pelo sacerdote (1.5b, 7, 8, 9b).
– ... a aceitação da oferta por Yahweh (1.9c).
• A cerimônia do holocausto de gado ovino ou caprino envolvia ... (1.10-13).
– ... um carneiro ou cabrito sem defeito (1.10).
– ... o abate, o esfolamento, a divisão e a lavagem das entranhas do animal pelo ofertante (1.11a, 12a,
13b).
– ... a aspersão do sangue, a disposição dos pedaços do sacrifício sobre o altar e a cremação desses
pedaços pelo sacerdote (1.11b, 12b, 13b).
– ... a aceitação da oferta por Yahweh (1.13c).
• A cerimônia do holocausto de aves envolvia... (1.14-17).
– ... uma rola ou um pombinho (1.14).
◦ ... o abate da ave, o derramamento do sangue, a remoção das entranhas, a abertura e a cremação da
carcaça pelo sacerdote (1.15-17a).
◦ ... a aceitação da oferta por Yahweh (1.17b).
4. A oferta de cereais (‫ ִׁמנְּחָה‬, minhâ) era um ato voluntário de adoração que expressava a devoção
do ofertante a Yahweh (2.1-16).
• O ritual da oferta de grãos não tostados envolvia... (2.1-3):
– ... a mistura de farinha, azeite e incenso pelo ofertante (2.1).
– ... a apresentação da oferta ao sacerdote (2.2a).
– ... a cremação de parte da oferta pelo sacerdote e a separação de uma porção maior para ser
consumida pelos sacerdotes (2.2b, 3).
• O ritual da oferta de grãos tostados envolvia... (2.4)
– ... a preparação de bolos ou pães –cozidos, grelhados ou assados – de farinha misturada com azeite,
mas sem fermento (2.4-7).
– ... a apresentação da oferta ao sacerdote (2.8).
– ... a cremação de parte da oferta pelo sacerdote e a separação de uma porção maior para ser
consumida pelos sacerdotes (2.9, 10).
• As especificações para a oferta de cereal incluíam a proibição de agentes de fermentação, como o
fermento e o mel, e o uso obrigatório de sal, uma recordação da aliança (2.11-13).
• O ritual da oferta de grãos das primícias envolvia... (2.14-16):
– ... a mistura de espigas esmagadas de grãos recém-colhidos com azeite e incenso [a apresentação aos
sacerdotes está implícita] (2.14, 15).
– ... a cremação da parte memorial pelo sacerdote [a separação da porção sacerdotal está implícita]
(2.16).
B. O meio apropriado para expressar a comunhão com Yahweh era a oferta pacífica (ֹ‫זֶבַח‬
‫ש ָלמִׁים‬
ְּ , zeḇ ḥ šelāmîm), um ato voluntário de adoração que expressava a gratidão e o
louvor do ofertante a Yahweh por ter recebido Seu favor (3.1-17).
1. O ritual da oferta pacífica de gado bovino envolvia... (3.1-5):
.... um animal perfeito, macho ou fêmea (3.1).
.... a imposição de mãos sobre o animal e seu abate pelo ofertante (3.2a).
.... a aspersão do sangue do animal sobre os lados do altar pelo sacerdote (3.2b).
.... a separação das vísceras nobres e da gordura pelo ofertante (3.3, 4).
... a cremação da porção memorial pelo sacerdote (3.5a).
.... a aceitação da oferta por Yahweh (3.5b).
2. O ritual da oferta pacífica de gado ovino envolvia... (3.6-11):
• .... um animal perfeito, macho ou fêmea (3.6).
• .... a imposição de mãos sobre o animal e seu abate pelo ofertante (3.7, 8a).
• .... a aspersão do sangue do animal sobre os lados do altar pelo sacerdote (3.8b).
• .... a separação das vísceras nobres e da gordura pelo ofertante (3.9, 10).
• .... a cremação da porção memorial pelo sacerdote (3.11).
3. O ritual da oferta pacífica de gado caprino envolvia... (3.12-16):
• .... um [animal perfeito] macho (3.12a).
• .... a imposição de mãos sobre o animal e seu abate pelo ofertante (3.12, 13a).
• .... a aspersão do sangue do animal sobre os lados do altar pelo sacerdote (3.12b).
• .... a separação das vísceras nobres e da gordura pelo ofertante (3.14, 15).
• .... a cremação da porção memorial pelo sacerdote (3.16a).
• .... a aceitação da oferta por Yahweh (3.16b).
4. A ordenança relativa à gordura animal é que, como o sangue, não deveria ser consumida em
Israel, uma vez que deveria ser dedicada a Yahweh, sempre que os israelitas
oferecessem seus sacrifícios (3.16c, 17).
C. O meio apropriado de buscar o perdão de Yahweh em Israel eram as ofertas expiatórias (4.1
− 6.7).
1. O contexto para a oferta pelo pecado (‫חחָאת‬ ַ , ḥ ṭṭāʾṯ) é definido por Yahweh – pecados
involuntários (4.1, 2).
2. A oferta pelo pecado era o meio divinamente prescrito pelo qual um israelita buscava perdão
para os pecados involuntários de comissão e omissão e para as impurezas cerimoniais
(4.3 − 5.13).
• A oferta pelo pecado de um sacerdote ungido era um novilho perfeito e envolvia... (4.3-12):
– ... a apresentação da oferta, a imposição de mãos sobre o animal e seu abate (4.3, 4a).
– ... a aspersão do sangue sacrificial diante do véu (4.5, 6).
– ... a aplicação do sangue sacrificial às pontas do altar de incenso (4.7a).
– ... o derramamento do sangue sacrificial à base do altar do holocausto (4.7b).
– ... a cremação das vísceras nobres e da gordura sobre o altar (4.8-10).
– ... a remoção do restante do novilho para um lugar fora do arraial, onde seria incinerado (4.11, 12).
• A oferta pelo pecado por toda a comunidade era similar à do sacerdote, com os anciãos da
comunidade impondo as mãos sobre o animal [e fazendo a declaração de perdão] (4.13-
21).
• A oferta pelo pecado de um líder do povo era um bode sem defeito e envolvia... (4.22-26):
– .. a imposição de mãos sobre o animal e seu abate pelo ofertante (4.22-24).
– ... a aplicação do sangue sacrificial às pontas do altar do holocausto pelo sacerdote (4.25a).
– ... o derramamento do sangue sacrificial à base do altar do holocausto (4.25b).
– ... a cremação de [vísceras nobres e] gordura sobre o altar do holocausto [a remoção da carcaça está
implícita] (4.26a).
– ... declaração de perdão (4.26b).
• A oferta pelo pecado por um israelita comum poderia ser uma cabra ou ovelha perfeita e envolvia
os mesmos passos da oferta pelos pecados de um líder (4.27-35).
• As circunstâncias que exigiriam uma oferta pelo pecado são definidas – omissão de testemunho,
contaminação cerimonial e votos precipitados – com a forma prescrita de sacrifício (5.1-
6).
• A oferta pelo pecado para israelitas muito pobres era duas rolas ou dois pombinhos e envolvia...
(5.7-10):
– ... a morte da primeira ave e o derramamento de seu sangue (5.7-9).
– ... a cremação da segunda ave de acordo com as regras do holocausto (5.10).
• A oferta pelo pecado para os israelitas paupérrimos era um décimo de um efa de farinha, sem
azeite ou incenso, uma porção da qual seria queimada, ficando o restante para o
sacerdote (5.11-13).
3. A oferta pela culpa (‫ ָאשָם‬, ʾāšām), sempre um carneiro sem defeito, era o meio divinamente
prescrito pelo qual um israelita buscava perdão para os pecados involuntários nos quais
era necessário fazer restituição (5.14 − 6.7).
• Uma oferta pela culpa e a restituição com acréscimo de 20% eram necessárias para a pessoa que
tivesse deixado de cumprir um dever religioso no qual estivesse envolvido um valor
monetário (5.14-16).
• Uma oferta pela culpa [sem restituição especificada] era necessária para a pessoa suspeita de ter
violado algum mandamento divino (5.17-19).
• Uma oferta pela culpa e a restituição com acréscimo de 20% eram necessárias no caso de violação
de direitos de propriedade por meio de fraude ou engano (6.1-7).
D. Informações técnicas adicionais sobre os procedimentos nas diversas ofertas são oferecidas
para os sacerdotes (6.8 − 7.38).
1. Informações adicionais sobre o holocausto prescrevem a remoção das cinzas, a vestimenta
adequada para o sacerdote e a necessidade de manter o fogo aceso sobre o altar (6.8-13).
2. Informações adicionais sobre a oferta de cereais regulam os locais e os participantes do
consumo da porção não-queimada da oferta e exigem que uma oferta dedicatória de um
sacerdote tem de ser totalmente queimada (6.14-23).
3. Informações adicionais sobre a oferta pelo pecado regulam seu consumo e a extensão de sua
santidade (6.24-30).
• Ofertas pelo pecado cujo sangue não tinha sido levado para o interior do tabernáculo podem ser
consumidas pelo sacerdote oficiante e por seus filhos dentro do pátio (6.24-26, 29).
• A santidade da carne da oferta pelo pecado é tal que tudo que ela tocar terá de ser purificado ou
destruído (6.27, 28).
• Ofertas pelo pecado, cujo sangue tinha sido levado para o interior do tabernáculo, deveriam ser
totalmente queimadas (6.30).
4. Informações adicionais sobre a oferta pela culpa regulam sua queima e seu consumo (7.1-7).
• Ofertas pela culpa devem ter seu sangue aspergido em torno do altar (7.1, 2).
• Ofertas pela culpa devem ter toda sua gordura e vísceras nobres queimadas (7.3-5).
• O restante da oferta pela culpa pode ser comido pelo sacerdote oficiante e sua família dentro do
pátio do tabernáculo (7.6, 7).
5. Informações variadas sobre as ofertas dedicatórias regulam a entrega da pele dos holocaustos e
a porção não-queimada das ofertas de cereais ao sacerdote oficiante (7.8-10).
6. Informações adicionais detalham três tipos diferentes de ofertas pacíficas e as exigências de
pureza para participar delas (7.11-21).
• A ‫( ּתֹודָ ה‬tôḏ ), ou oferta de gratidão, que expressa gratidão e louvor pela bondade de Yahweh,
exigia o acompanhamento de ofertas de cereais e o consumo dentro de 24 horas (7.11-
15).
• O ‫( נֶדֶ ר‬neḏer), ou oferta votiva, e a ‫( נְּדָ בָה‬neḏāḇ ), ou oferta voluntária, permitiam o consumo da
carne até o segundo dia, mas exigiam sua cremação ao terceiro dia (7.16-18).
• A natureza santa das ofertas pacíficas exigia total pureza cerimonial dos que delas comiam, sob
pena de eliminação da comunidade para os infratores (7.19-21).
7. Informação adicional sobre a natureza das ofertas proibia o consumo de gordura animal, tanto
de animais domésticos quanto de caça, e de sangue [sob pena de eliminação da
comunidade] (7.22-26).
8. Informação adicional sobre o compartilhar das ofertas pacíficas prescrevia a porção que caberia
ao sumo sacerdote e a sua família (7.27-36).
• O ofertante deveria remover a gordura e as vísceras nobres a ser queimadas e o peito deveria ser
movido perante Yahweh (7.28-30).
• O peito deveria ser movido perante Yahweh, como oferta simbólica, e entregue à família
sacerdotal maior [ou clã] oficiante (8.31, 34).
• A coxa direita deveria caber ao sacerdote oficiante e à sua família imediata (8.32, 33).
• A ocasião e a origem desses regulamentos são apresentadas (7.34-36).
9. Um resumo e uma conclusão apresentam a origem divina das instruções sobre os sacrifícios
(7.37, 38).
II. Os incidentes na inauguração do sacerdócio aaarônico revelam que Yahweh aprova o
sistema, mas abomina um ministério arrogante e independente Dele (8.1 − 10.20).
A. Os incidentes na inauguração do sacerdócio aaarônico revelam que Yahweh aprova o
sistema (8.1 − 9.24).
1. A inauguração do sacerdócio aaarônico envolvia a consagração dos sacerdotes, oficiada por
Moisés sob a direção de Yahweh (8.1-36a).Os materiais necessários à cerimônia e as
pessoas que serviriam como testemunhas foram reunidos conforme prescrito (8.1-5).
• A consagração dos sacerdotes envolvia sua purificação por Moisés (8.6).
• A consagração dos sacerdotes envolvia sua paramentação de acordo com o padrão prescrito (8.7-
9).
• A consagração dos sacerdotes envolvia sua unção [bem como a do tabernáculo] (8.10-13).
• A consagração dos sacerdotes envolvia as ofertas dedicatórias (8.14-29).
– Moisés ofereceu um novilho como oferta pelo pecado de acordo com o padrão prescrito (8.14-17).
– Moisés ofereceu um carneiro como holocausto de acordo com o padrão prescrito (8.18-21).
– Moisés apresentou uma oferta de ordenação para representar a total dedicação dos sacerdotes a
Yahweh e a Seu ministério (8.22-29).
◦ A oferta de ordenação envolveu o sacrifício de um segundo carneiro e a aplicação de seu sangue às
orelhas, mãos e pés dos sacerdotes, indicando sua dedicação total (8.22-24).
◦ A oferta de ordenação envolvia a cremação das porções removidas tanto do carneiro quanto do pão
consagrado (8.25-28).
◦ O peito da oferta de ordenação foi reservado para Moisés (8.29).
• A consagração dos sacerdotes envolvia uma aspersão renovada com sangue e azeite (8.30).
• A consagração dos sacerdotes envolvia sua reclusão nos limites do tabernáculo por sete dias, um
sinal de separação para Yahweh (8.31-36).
2. O sacerdócio aarônico é inaugurado com a primeira série de sacrifícios oferecidos em favor do
povo (9.1-24).
• As instruções de Moisés a Arão exigiam uma série completa de sacrifícios e continham a
promessa da manifestação de Yahweh (9.1-4).
• A explanação feita por Moisés à assembléia sobre os procedimentos sacrificiais continha uma
promessa da manifestação de Yahweh aos israelitas (9.5, 6).
• A primeira oferta arônica consistiu de uma oferta pelo pecado e um holocausto em favor de Arão
(9.1-14).
• A segunda oferta arônica consistiu de uma oferta pelo pecado, um holocausto, uma oferta de
cereais e uma oferta pacífica em favor do povo (9.15-21).
• Moisés e Arão abençoaram o povo enquanto a oferta pacífica ainda não tinha sido cremada (9.22,
23a).
• A aceitação divina das ofertas [e do sistema] demonstra-se na manifestação da glória e na queima
completa do sacrifício pelo fogo (9.23b, 24).
C. Os incidentes na inauguração do sacerdócio aarônico revelam como Yahweh abomina um
ministério arrogante independente Dele (10.1-20).
1. O sacrilégio de Nadabe e Abiú, ao trazer fogo não-autorizado para dentro do Lugar Santo, é
castigado com pronto juízo por Yahweh (10.1-3).
2. Moisés dá instruções aos sacerdotes sobre como enterrar seus mortos e como reagir à tragédia
inesperada (10.4-7).
3. Arão recebe instruções de Yahweh quanto à necessidade de abstinência entre os sacerdotes para
que cumpram adequadamente seu ministério (10.8-11).
• Os sacerdotes deveriam abster-se de vinho e bebida forte (10.8, 9).
• A abstinência era necessária para que os sacerdotes oferecessem julgamentos corretos e
ensinassem a Lei de Deus de maneira exata (10.10, 11).
4. Moisés repete a instrução sobre a porção sacerdotal nas ofertas da nação como um todo para
assegurar que isso fosse feito de maneira certa em um dia como aquele (10.12-15).
5. A não-observância das instruções prescritas irrita Moisés, mas sua ira é controlada à luz do
sofrimento de Arão pela morte de seus filhos (10.16-20).
PARTE II – A MANEIRA APROPRIADA DE ANDAR NA PRESENÇA DE YAHWEH
A presença santa de Yahweh entre o Seu povo exige separação nacional de toda sorte
de impureza e a consagração obediente de toda a vida a Ele (11.1–27.34).
I. A presença santa de Yahweh entre o Seu povo exige separação nacional de toda sorte de
impureza (11.1–16.34).
A. A presença santa de Yahweh entre o Seu povo exige a observância de regras estritas de
pureza (11.1–15.33).
1. Israel tinha de observar estritas leis dietéticas (11.1-47).
• Animais terrestres considerados limpos eram os que tinham cascos fendidos e ruminavam (11.1-
8).
• Animais aquáticos considerados limpos eram os que tinham barbatanas e escamas (11.9-12).
• Animais voadores considerados impuros eram os carnívoros [aves que comem carniça] (11.13-17).
• Insetos considerados limpos eram os que se movem aos saltos, em vez de se arrastar (11.18-23).
• O consumo de animais impuros e o contato corporal com a carcaça de qualquer tipo de animal,
puro ou impuro, produziam contaminação cerimonial que exigia purificação ritual
(11.24-43).
• As leis dietéticas de Israel deveriam refletir a consagração nacional a Yahweh, seu santo Deus
Redentor (11.44-48).
2. Israel tinha de observar a separação cultual das mulheres, depois que dessem à luz, devido às
secreções corporais associadas ao parto (12.1-8).
• O período de impureza cultual para uma nova mãe era de quarenta dias no caso do nascimento de
um filho e de oitenta dias no de uma filha (12.1-5).
• A regra para a nova mãe era trazer uma oferta pelo pecado e um holocausto para a sua purificação
cultual (12.6-8).
3. Israel tinha de observar medidas estritas de purificação e reclusão para pessoas e objetos que
exibissem sinais de contaminação nos tecidos ou superfícies (13.1–14.57).
• A presença de afecções de pele atestada por um sacerdote exigia purificação ou reclusão da pessoa
envolvida (13.1-46).
– Diversas afecções da pele deveriam ser inspecionadas por um sacerdote para determinar a presença
de doença infecciosa da pele (13.1-8).
– A presença de carne viva determinava a natureza infecciosa da doença e a necessidade de reclusão
para seu portador (13.9-17).
– A presença de pústulas e a natureza de suas cicatrizes exigiam o exame por um sacerdote para
determinar a condição e o tratamento (13.18-23).
– As seqüelas de queimaduras de pele precisam ser examinadas para determinar a condição e o
tratamento (13.24-28).
– A presença de feridas no couro cabeludo ou na área do queixo exigia exames quinzenais para
determinar a condição e o tratamento (13.29-37).
– A presença de manchas esbranquiçadas na pele não acarretava contaminação cerimonial (13.38, 39).
– A presença de calvície acompanhada de feridas avermelhadas era um sinal de doença infecciosa e
acarretava contaminação cerimonial (13.40-44).
– O tratamento de pessoas diagnosticadas como impuras incluía reclusão fora do acampamento, vestes
e conduta de luto, e a exigência de avisar outras pessoas da condição (13.45, 46).
• A presença de mofo persistente em um artigo qualquer, quando um sacerdote assim determinasse,
exigia sua destruição (13.47-59).
• Regulamentos para a purificação de pessoas com doenças infecciosas da pele incluíam sacrifícios
expiatórios e dedicatórios depois do certificado sacerdotal de pureza (14.1-32).
– A cerimônia das duas aves retratava a expiação efetuada e a libertação da condição vergonhosa
(14.1-7).
– A restauração dos plenos privilégios cultuais envolvia a prova da cura, a aplicação do sangue
expiatório e do óleo da consagração, como também a dedicação pessoal (14.8-32).
• Regulamentos de purificação de casas afetadas por mofo incluíam a inspeção sacerdotal, a
remoção e substituição do material contaminado, como também a mesma cerimônia de
purificação exigida para doenças de pele (14.33-53).
• Um resumo encerra a seção (14.54-57).
4. Israel tinha de observar regras estritas de higiene corporal para manter a pureza cerimonial
(15.1-33).
• Fluxos ou emissões masculinas exigiam lavagem ritual e sacrifícios apropriados (15.1-18).
– Emissões corporais constantes [diarréias?] tornavam os homens cerimonialmente impuros e exigiam
lavagem, quarentenas de sete dias e ofertas expiatórias e dedicatórias para a purificação
(15.1-15).
– Emissões ocasionais de sêmen tornavam os homens [e suas parceiras] cerimonialmente impuros por
um dia, exigindo lavagem para a purificação (15.16-18).
• Fluxos femininos, tanto menstruais quanto crônicos, exigiam lavagem ritual e sacrifícios
apropriados para a purificação (15.19-30).
1. O sangue menstrual tornava as mulheres cerimonialmente impuras por sete dias e exigia
lavagens para elas, para aqueles com quem tivessem contato e para qualquer objeto que
usassem (15.19-24).
– Hemorragias crônicas tornavam as mulheres cerimonialmente impuras e exigiam lavagem,
quarentenas de sete dias, como também sacrifícios expiatórios e dedicatórios para a
purificação (15.25-30).
• O propósito desses regulamentos de higiene corporal era manter o povo de Israel e o santuário de
Yahweh cerimonialmente limpos (15.31-33).
B. O Dia da Expiação era a provisão divina para uma remoção periódica eficaz da impureza e
da culpa de Israel por meio de um sacrifício vicário (16.1-34).
1. Os requisitos para o Dia da Expiação incluíam o tempo apropriado, os sacrifícios apropriados e
vestimentas apropriadas para o sumo sacerdote (16.1-10).
• Arão, sob pena de morte, só podia comparecer no tempo indicado por Deus (16.1, 2, 29).
• Arão precisava trazer sacrifícios expiatórios e dedicatórios por si mesmo e deveria usar as vestes
sagradas de linho branco (16.3, 4).
• Arão precisava trazer sacrifícios expiatórios e dedicatórios pelo povo (16.5).
• Arão precisava primeiro oferecer expiação por si mesmo e sua família (16.6).
• Arão deveria selecionar os animais para a oferta pelo pecado em favor do povo (16.7-10).
2. O ritual para o Dia da Expiação exigia expiação pelo sumo sacerdote oficiante, pelo
tabernáculo e pela nação (16.11-22).
• Arão apresentou uma oferta pelo pecado (novilho) por si mesmo e sua família e aspergiu o sangue
dessa oferta diante do propiciatório [a tampa da arca] no Santo dos Santos (16.11-14).
• Arão apresentou uma oferta pelo pecado (bode) pela nação e aspergiu o sangue dessa oferta diante
do propiciatório [a tampa da arca] no Santo dos Santos (16.15-17).
• Arão ofereceu expiação pelo altar esfregando sangue do novilho e sangue do bode sobre as pontas
do altar e aspergindo o sangue sete vezes sobre ele (16.18, 19).
• Arão fez confissão pelos pecados da nação enquanto impunha as mãos sobre o bode emissário
(Azazel) e depois enviou para o deserto o animal que levava simbolicamente os pecados
de Israel (16.20-22).
3. O ritual para o Dia da Expiação exigia a rededicação do sumo sacerdote e da nação por meio de
sacrifício (16.23-28).
• Arão precisava purificar-se e trocar suas roupas (16.23, 24).
• Arão precisava oferecer os holocaustos por si mesmo e pela nação (16.25).
• O homem que havia conduzido o bode emissário ao deserto precisava ser purificado (16.26).
• O restante das ofertas pelo pecado precisava ser descartado e seu portador precisava ser purificado
(16.27, 28).
4. O ritual do Dia da Expiação é resumido e sua natureza e propósito são declarados (16.29-34).
II. A presença santa de Yahweh entre Seu povo exigia uma visão correta da singularidade dos
sacrifícios instituídos por Moisés e da importância do sangue como um substituto [= em
favor de e em lugar de] para a vida (17.1-16).
A. Animais domesticados só poderiam ser sacrificados no tabernáculo para evitar a idolatria
(17.1-7).
B. Animais domesticados só podiam ser oferecidos em holocausto no tabernáculo (17.8, 9).
C. O sangue nunca deveria ser comido deliberadamente e seu consumo, em animais que
morreram naturalmente, tornava cerimonialmente impuro quem os comia (17.10-16).
III. A presença santa de Yahweh entre Seu povo exigia um padrão de santidade para cada
relacionamento da vida de Israel (18.1 − 22.23).
A. A vida do povo de Israel deveria exibir santidade na conduta sexual em contraste com as
nações vizinhas (18.1-30).
1. O padrão de Yahweh para Israel era para que esta fosse uma nação diferente de seus vizinhos
(18.1-5).
2. Uniões incestuosas, em suas diversas formas, eram totalmente proibidas em Israel (18.6-18).
3. Perversões sexuais, em suas diversas formas, eram totalmente proibidas em Israel (18.19-23).
• Relações sexuais durante o período menstrual eram proibidas (18.19).
• O adultério era proibido (18.20).
• O envolvimento com o pervertido e o homicida, assim como o culto a Moloque, era proibido
(18.21).
• O homossexualismo era proibido (18.22).
• A bestialidade era proibida (18.23).
4. O desfrute das bênçãos divinas em Canaã dependia da obediência à exigência de santidade por
parte de Yahweh (18.24-30).
B. A vida do povo de Israel deveria exibir santidade em relacionamentos interpessoais devido
ao caráter de Yahweh (19.1-37).
1. As exigências colocadas sobre Israel procediam do caráter santo de Yahweh, seu Deus (19.1,
2).
2. Israel deveria exibir santidade honrando os pais, temendo exclusivamente a Yahweh,
guardando o sábado, rejeitando a idolatria e obedecendo às exigências sacrificiais (19.3-
8).
3. Israel deveria exibir santidade em relacionamentos interpessoais (19.9-18).
• Os israelitas deveriam ser generosos no uso de suas propriedades e de sua produção agro pastoril
(19.9, 10).
• Os israelitas deveriam evitar furto e desonestidade na comunicação (19.11, 12).
• Os israelitas não deveriam se envolver em opressão ou maus-tratos aos menos favorecidos (19.13,
14).
• Os israelitas deveriam buscar a verdadeira justiça e respeitar a pessoa humana (19.15-18).
4. Israel deveria exibir santidade preservando os decretos de Yahweh em diversas áreas da vida
(19.19-37).
• Distinções entre espécies animais e vegetais deveriam ser preservadas (19.19).
• A pureza sexual deveria ser preservada a despeito da condição social das pessoas envolvidas
(19.20-22).
• Frutos deveriam ter tempo para se desenvolver antes de ser oferecidos ao Senhor ou consumidos
pelo povo (19.23-25).
• Israel nunca deveria comer sangue (19.26).
• Israel deveria evitar as práticas religiosas que caracterizavam as religiões cananitas (19.27-31).
• Israel deveria mostrar respeito pelos idosos (19.32).
• Israel deveria mostrar bondade aos estrangeiros (19.33, 34).
• Israel deveria refletir o caráter de Yahweh em sua honestidade nos negócios (19.35-37).
C. Israel deveria exibir santidade executando as punições prescritas por Yahweh (20.1-27).
1. A adoração a Moloque deveria ser punida com a morte por apedrejamento (20.1-5).
2. Recorrer a médiuns e espiritualistas era passível de morte (20.6).
3. A fidelidade aos decretos de Yahweh era prova de santidade (20.7, 8).
4. Amaldiçoar os pais deveria ser punido com a morte (20.9).
5. Relações sexuais proibidas são passíveis de morte (20.10-21).
6. A fidelidade aos decretos de Yahweh tornaria Israel uma nação santa e evitaria o exílio longe
da Terra Prometida (20.22-26).
7. O mediunismo e o espiritismo deveriam ser punidos com a morte (20.27).
D. Os sacerdotes deveriam viver como um supremo exemplo de santidade e dedicação em Israel
(21.1–22.33).
1. Os sacerdotes deveriam viver vidas sem contaminação (21.1-9).
• Deveriam viver vidas que não fossem contaminadas pela morte, exceto nos casos de sua família
imediata (21.1-4).
• Deveriam viver vidas que não fossem contaminadas pela desfiguração (21.5).
• Não deveriam permitir que eles mesmos e suas famílias fossem contaminados por prostituição
(21.6-9).
2. O sumo sacerdote deve ser o exemplo máximo de pureza e separação (21.10-15).
• Ele não deveria permitir-se qualquer contaminação por morte nem exibir luto de maneira visível
(21.10-12).
• Ele só deveria se casar com uma virgem para não contaminar o sacerdócio (21.13-15).
3. Sacerdotes fisicamente deficientes não poderiam participar dos deveres sacerdotais, embora
lhes fosse permitido participar do sustento sacerdotal (21.16-24).
4. A conduta sacerdotal com respeito às coisas sagradas deveria ser tal que honrasse a santidade
de Yahweh (22.1-16).
• Sacerdotes com algum tipo de contaminação cerimonial não deveriam participar das ofertas
sagradas (22.1-9).
• Sacerdotes não deveriam permitir que qualquer pessoa fora de sua família imediata partilhasse
refeições cerimoniais (22.10-16).
5. A natureza das ofertas sagradas e a atitude dos sacerdotes para com elas deveriam trazer honra
à santidade de Yahweh (22.17-33).
• Nenhum animal defeituoso poderia ser ofertado a Yahweh, exceto no caso das ofertas voluntárias
(22.17-25).
• Animais ainda muito novos não deveriam ser oferecidos a Yahweh (22.26-28).
• Ofertas de gratidão deveriam ser totalmente consumidas no dia em que fossem apresentadas
(22.29, 30).
6. Os sacerdotes deveriam guardar obedientemente as ordens de Yahweh de modo a vindicar Sua
santidade diante do povo (22.31-33).
IV. A presença santa de Yahweh entre o Seu povo exigia a observância meticulosa de Suas
festas religiosas (23.1-44).
A. O Sábado deveria ser desfrutado como um dia sagrado (23.1-3). É o sinal da aliança mosaica
(Êx 31.13-17) e aponta para o descanso oferecido ao crente por Cristo (Hb 4.1-11).
B. A Páscoa deveria ser celebrada no dia 14 de Nisã, abrindo o calendário litúrgico de Israel
(23.4, 5). Recapitulava a redenção do Egito (Êx 12.1-30), e contemplava a redenção
realizada por Cristo (1 Co 5.7).
C. A festa dos pães ázimos deveria ser celebrada entre os dias 15 e 21 de Nisã com assembléias
e sacrifícios públicos (23.6-8). Recapitulava a saída apressada do Egito (Êx 13.1-10) e
contemplava a comunhão pura com o Messias (1 Co 5.7, 8).
D. A Festa das Primícias deveria ser celebrada na Terra Prometida no dia 16 de Nisã com a
apresentação de um molho de espigas de cevada e sacrifícios dedicatórios (23.9-14).
Antecipava as generosas colheitas que Yahweh lhes daria em Canaã; contemplava a
ressurreição de Cristo, que é um penhor da ressurreição do crente (1 Co 15.20, 23).
E. A Festa das Semanas deveria ser celebrada no dia 6 de Sivã com ofertas de cereais,
holocaustos e uma oferta pelo pecado em favor da nação (23.15-21). Antecipava a
alegria pela plena colheita de grãos; contemplava a plena fruição das bênçãos espirituais
do povo de Deus em Pentecostes (At 2.1-4).
F. A Festa das Trombetas deveria ser celebrada no dia 1 de Tisri com um dia de descanso e um
holocausto buscando o favor de Yahweh para com a nação (23.23-25).
G. O Dia da Expiação deveria ser celebrado no dia 10 de Tisri com um dia de descanso e jejum,
e os sacrifícios prescritos [cf. Lv 16] (23.26-32). Retratava a necessidade de purificação
eficaz do pecado; contemplava a propiciação efetuada por Cristo sobre a cruz (Hb 9.7;
10.3, 19-22) e a futura aceitação de Sua oferta por Israel (Zc 12.10s.).
H. A Festa dos Tabernáculos (Cabanas) deveria ser celebrada entre os dias 15 e 21 de Tisri,
com ofertas dedicatórias e a permanência em abrigos temporários para recordar a
peregrinação no deserto (23.33-44). Recapitulava a peregrinação no deserto e
contemplava a futura alegria de Israel no reino messiânico (Zc 14.16).
V. A presença santa de Yahweh entre o Seu povo exigia provisão suficiente dos elementos de
culto e uma rápida punição para aqueles que menosprezassem Aquele que era o objeto
da adoração de Israel (24.1-23).
A. Israel deveria prover fielmente pão e azeite, os elementos necessários para o funcionamento
apropriado do culto a Yahweh no Tabernáculo (24.1-9).
B. Israel deveria prevenir fielmente uma atitude hostil ao culto a Yahweh, punindo rapidamente
os que menosprezavam Yahweh e faziam pouco caso de Sua reputação (24.10-23).
1. O caso que estabeleceu o precedente foi o de um meio-israelita que amaldiçoou a Yahweh
(24.10-12).
2. A punição prescrita era a morte por apedrejamento (24.13-16).
3. A destruição da vida humana é um ataque ao valor de Yahweh, sendo, portanto, punida com a
morte (24.17-23).
VI. A presença santa de Yahweh entre o Seu povo exigia o uso da Terra Prometida de
maneira compatível com Seu caráter (25.1 − 27.34).
A. As atividades de Israel na terra deveriam ser governadas pelos princípios do descanso
sabático e da redenção (25.1-55).
1. Um descanso para a terra, sem atividade agrícola por um ano a cada sete, seria um ato de
dedicação a Yahweh (25.1-7).
2. Cada qüinquagésimo ano deveria ser observado como um tempo de redenção, tanto para a terra
quanto para os que dela viviam (25.8-55).
• O Dia da Expiação de cada sétimo ano sabático marcava o início de um tempo de redenção e
reciclagem na terra (25.8-12).
• A propriedade deveria ser devolvida à família que originalmente a possuía (25.13-34).
– Transações comerciais que envolvessem a terra deveriam ser conduzidas com o Jubileu em vista
(25.13-17).
– A necessidade de provisões para o ano do Jubileu ficaria por conta de Yahweh (25.18-23).
– A base da redenção da terra era o fato de que toda ela pertencia a Yahweh (25.24-34).
• Israelitas que tivessem perdido seu direito à terra ou à liberdade deveriam ser libertados e ter a
terra a eles restituída no ano do Jubileu, pois ambas pertenciam a Yahweh (25.35-55).
B. A conduta de Israel deveria ser governada pelas cláusulas pactuais de bênção e maldição
impostas por Yahweh, seu suserano (26.1-46).
1. O compromisso de Yahweh para com Israel era o de abençoar a nação por sua obediência
pactual (26.1-13).
• A obediência de Israel poderia ser resumida em lealdade religiosa e observância pactual (26.1, 2).
• As bênçãos da obediência eram a produtividade, a paz, o poder e a presença de Yahweh (26.3-13).
2. A ameaça de Yahweh a Israel era amaldiçoar a nação por desobediência pactual (26.14-39).
• A desobediência de Israel poderia ser resumida no não cumprimento das leis escritas de Deus
(26.14, 15).
• As maldições pela desobediência eram a doença, a infertilidade, a fraqueza, a invasão, a fome, a
destruição e, por fim, o cativeiro (26.14-39).
3. O consolo de Yahweh a Israel era que Sua bênção renovada estaria disponível para a nação
mediante arrependimento nacional (26.40-46).
C. Atos de dedicação voluntária a Yahweh além dos requisitos da aliança nunca deveriam ser
considerados opcionais (27.1-34).
1. Pessoas que fossem dedicadas a Yahweh tinham seu valor especificado para a redenção de
acordo com a sua idade (27.1-8).
2. Animais dedicados a Yahweh não podiam ser substituídos e seu preço de redenção seria 120%
de seu valor real (27.9-13).
3. Casas dedicadas a Yahweh poderiam ser resgatadas por 120% do seu valor estimado (27.14,
15).
4. Campos dedicados a Yahweh tinham seu valor estabelecido de acordo com a proximidade do
Jubileu e, se não fossem resgatados a 120% de seu valor, por fim reverteriam para o
sacerdócio (27.16-25).
5. Aquilo que a Lei já definia como consagrado a Yahweh não podia ser votado ou resgatado
(27.26-33).
D. A origem divina destes regulamentos mosaicos é uma vez mais declarada (27.34).

O argumento de
NÚMEROS
Questões de introdutórias
TÍTULO
O título hebraico desse livro é ‫במִׁדְּ בַר‬
ְּ (bemiḏb r, ―no deserto de‖), uma alusão à
localização da maior parte dos acontecimentos nele registrados. O título grego, Ἄπιθμοί,
que sobrevive no título em português, enfatiza os dois recenseamentos nele registrados
(que estão longe de ser o elemento mais importante do livro).
Embora tradicionalmente se pense que o livro descreve as peregrinações de Israel
durante os quase 40 anos que se seguiram ao estabelecimento da aliança no Sinai,
Números é praticamente omisso quanto àquele período. É provável que apenas os
incidentes relacionados a Corá e o questionamento do sacerdócio aarônico pertençam ao
período do deserto. Em certo sentido, os 38 anos e meio que Israel passou entre a
incredulidade de Cades e as planícies de Moabe não são considerados na história da
revelação divina a Israel.
Números serve ao propósito de demonstrar como Deus age em fidelidade para com a
Sua aliança, apesar da resistência obstinada do povo escolhido. O decreto divino de
conceder a terra de Canaã a Israel será cumprido, ainda que seja (sob a ótica humana)
retardado pela incredulidade e infidelidade da própria nação.
De outro lado, Números indica-nos como Deus usou o deserto para preparar uma
geração disposta a confiar Nele e cumprir a Sua vontade em plena dependência. O
breve, mas eloqüente, discurso de Josué e Calebe, em 14.7-9, resume bem o conteúdo
do livro. Yahweh agradou-se de um povo que não se agradou Dele, e que, por essa
razão, perdeu o privilégio de ver cumprida a promessa em sua geração.
DATA E AUTORIA
Os argumentos em favor da autoria mosaica de Números estão ligados aos de Gênesis,
Êxodo, e Levítico (veja na página anterior). O livro tem forte apoio nas tradições judia e
cristã, com base em repetidas ocasiões de comunicação entre Yahweh e Moisés (1.1;
2.1; 4.1 etc.), e na extrema familiaridade de seu autor com os detalhes da narrativa.
Objeções à autoria mosaica originam-se no louvor à humildade de Moisés (12.3) e no
relato detalhado da jornada de Balaão e de seu contato com os moabitas, bem como em
sua teologia ―avançada‖. Em resposta a tais objeções, argumenta-se que no contexto de
inspiração sobrenatural, o elogio da humildade de Moisés não é incompatível com a
autoria humana de Moisés, pois revelaria a visão que Deus tinha dele. De outro lado,
uma doutrina conservadora da inspiração não ficaria abalada pela inserção de um
comentário editorial (provavelmente por Josué) sobre a atitude do grande líder. Além
disso, as narrativas de Balaão e Balaque exigiam revelação especial, o que só constitui
problema para os que a rejeitam a priori. Por fim, a teologia de Balaão não reflete um
monoteísmo avançado, mas um misticismo sincrético, típico de uma pessoa que
ganhava a vida lidando com divindades e demônios, mas que foi usada por Deus para
enunciar coisas que estavam muito além de sua compreensão.
A data naturalmente englobaria o período em que Israel vagou entre o Egito e Canaã.
Uma vez que o capítulo 26 apresenta Israel nas planícies de Moabe, o livro deve ter sido
escrito por volta de 1405 a.C., antes da importante transição na liderança, de Moisés
para Josué. A notação cronológica em Deuteronômio 1.3 indica que os últimos
discursos de Moisés foram pronunciados por volta de janeiro-fevereiro de 1405 a.C.
Números, portanto, deve ter recebido sua forma mosaica final pouco antes disso.
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Forma
Dos cinco livros de Moisés, Números é o mais difícil de analisar e esboçar, devido à
natureza extremamente variada de seu conteúdo e ao arranjo aparentemente desconexo
de seu material. Mesmo um comentarista razoavelmente conservador sente-se
justificado ao dizer que, embora o material de Números seja ―indispensável‖, ele não vê
necessidade de afirmar a significância independente para o livro de Números.1 Ronald
Allen, definitivamente um conservador, só com alguma relutância abre mão das aspas
ao se referir ao livro de Números.2
1
A. Noordtzij, Numbers, BSC, p. 11.
2
Ronald B. Allen, “Numbers” em The Expositor’s Bible Commentary 2:668-671.
As questões de unidade e estilo parecem estar relacionadas primariamente ao
propósito do livro e à observação clara de seu conteúdo. O livro foi obviamente escrito
da perspectiva da segunda geração de israelitas liberados do Egito, e para o benefício
dessa geração, que teria o privilégio de participar do cumprimento das promessas
relativas à terra, mas que acabara por demonstrar em Baal-Peor as mesmas fraquezas da
geração anterior. Números estimulava a fé e a dependência em Yahweh como os meios
de evitar outro desastre tipo Cades-Barnéia, agora que Canaã jazia além do Jordão.
Assim, o aspecto formal de duas genealogias e o vasto espaço de 38 anos entre elas
oferece tanto um sentido de diferença quanto uma sensação de continuidade entre as
duas gerações.
A natureza aparentemente incoerente e a falta de ligação imediata entre as diversas
partes do conteúdo do livro não provam a ausência de unidade. Muito da legislação
contida em Números provavelmente desenvolveu-se de acordo com as necessidades
surgidas nas peregrinações pelo deserto, oferecendo assim uma espécie de código
adicional que complementou a legislação contida em Êxodo e Levítico.
A estrutura, dentro da qual este material tão variado se aglutina, é difícil de perceber
quanto à unidade. Alguns comentaristas preferem olhar o livro sob o ponto de vista
geográfico;3 outros, como Smick e Allen, preferem uma estrutura cronológica (1.1–
25.18 e 26.1–36.13).4 Embora seja atraente, esta posição não percebe que o material que
supostamente diz respeito à primeira geração foi, de fato, experimentado pela segunda
(20.1-13).
Uma proposta melhor seria a de incorporar as duas percepções da estrutura, sem exigir
que qualquer das duas tenha supremacia no desenvolvimento do livro de Números. [O
gráfico a seguir oferece uma idéia da natureza híbrida da forma de Números, bem como
seu papel no conjunto que é o Pentateuco.]

Código
Lei Tratado Tratado
sacerdotal
Resumo
Nm 1-10, 15, 18,
Os Dez Mandamentos Deuteronômio 1–31
19, 26-36
Êx 18 Lv 27
Histór Narrativas Narrativas Passagem
História primeva
ia épicas épicas de liderança
Abraão, Isaque,
Acontecimentos que Jacó, José, Forma Literária
levaram à formação do povo Moisés A Busca da Josué
de Israel O herói real é Terra Prometida
Yahweh
Êx 32–34
Nm 10–14
Gênesis 1–11 Gn 12 Êx 18 Dt 32–34
Nm 16;17; 20-
25
Estilo

3
G. B. Gray, A Critical and Exegetical Commentary on Numbers, ICC, pp. xxvi-xxix; W. S.
LaSor et al, Introdução ao Antigo Testamento, pp. 108-109.
4
E. Smick, “Numbers”, Wycliffe Bible Commentary, pp. 111-112, e R. B. Allen, “Numbers”,
Expositors Bible Commentary, 2:675.
Números combina história e legislação de uma maneira única, mas, ao utilizar tríades,
obedece a um estilo que aparece em outros livros do Pentateuco. Há três locais de
revelação (Sinai, Cades e as planícies de Moabe), três incidentes de murmuração, os seis
oráculos de Balaão (divididos em dois grupos de três) e a lista de paradas durante a
peregrinação de Israel pelo deserto (42 nomes dispostos em três grupos distintos. 33.3-
9; 33.10-36; 33.37-49).5
Em certo sentido, Números segue um princípio estabelecido em Gênesis, de que a
história avança linearmente ao percorrer ciclos de acontecimentos. Aqui, o silêncio
quanto à vida da primeira geração no deserto sugere a continuidade do seu fracasso,
enquanto que a informação concernente à segunda geração demonstra que, à parte da
graça de Yahweh, ela continuaria na mesma trajetória de incredulidade e rebeldia.
À luz disso, a narrativa das profecias de Balaão ganha maior importância, pois ele é o
instrumento pelo qual Yahweh afirma que as promessas feitas a Abraão seriam
cumpridas, a despeito das falhas das duas gerações do êxodo.
A teologia de Números
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Deus é imanente
Números enfatiza, de muitas maneiras, a presença constante de Deus entre Seu povo e
com ele. A nuvem que cobria o tabernáculo demonstrava que Yahweh não era um Deus
distante e inacessível, mas que permanecia entre o povo, mesmo em face de suas
freqüentes falhas. Balaão, vidente pagão e teólogo involuntário, afirmou que o Senhor
seu Deus é com ele, no meio dele se ouve a aclamação dum rei (23.21). Igualmente, os
cananeus reconhecem o fato (14.14), mas Israel constantemente desprezava essa
realidade tão preciosa. Vale também lembrar que essa presença se manifestava em graça
(Arca, Dia de Expiação), mas também em ira e disciplina (11.25; 16.19, 42; 20.6).
Deus é poderoso
Enquanto que em Gênesis o poder de Deus é visto em sua força criativa e destrutiva, e
em Êxodo é demonstrado por Sua soberana intervenção nos fenômenos da natureza, em
Números ele se encontra na provisão sobrenatural para uma população enorme (cf. 11.4-
6, 31-35; 20.1-13) e nos meios incomuns pelos quais Yahweh disciplina os pecados de
Seu povo. Todos eles estão relacionados a manifestações da ira divina por intermédio de
fenômenos raros como a abertura da terra, o florescer da vara de Arão e a cura pelo
olhar para uma serpente de bronze.
Deus demonstra ira
Com esta expressão, quer-se dizer que Yahweh se levanta em ira santa contra
violações e violadores de Seus justos padrões morais e pactuais (e.g, contra Arão e
Miriã [12.9], contra a nação incrédula em Cades [14.10-12], contra o violador do
Sábado [15.32-35] e contra o próprio Moisés [20.12,13]). Se termos como essencial e
secundário aplicam-se a Yahweh, o Deus eterno, podemos dizer que a ira divina é um
atributo ―secundário‖, a manifestação terrena de sua santidade ou verdade ofendidas.
Essa ira, embora ―tardia‖ em sua manifestação, é tão segura quanto as misericórdias e as
promessas da aliança.
Uma das questões principais levantadas pelo livro de Números gira em torno deste
atributo. ―Podemos nós, como nação, sobreviver à ira de Yahweh, uma vez que tantos e
tão grandes sucumbiram diante dela?‖. Balaão traz a resposta, às vezes crítica, às vezes

5
Consultar Gordon J. Wenham, Números. Introdução e Comentário, SCB, pp. 16-21.
cômica, mas correta na predição de que a promessa patriarcal ainda era válida e ainda
seria cumprida (cf. 23.20 e 24.9).
Deus é misericordioso
A despeito dos repetidos fracassos da geração do Êxodo e das falhas da geração do
deserto às portas da Terra Prometida, Yahweh repetidamente manifestou a Sua
misericórdia, isto é, Sua aquiescência para com a intercessão feita por Moisés (e Arão)
para que Ele poupasse a Israel a porção merecida da justa ira de Deus. Assim acontece
no caso de Miriã (12.9-15), com toda a nação em Cades (14.10-20), depois da rebelião
de Corá (16.41-50) e no episódio das serpentes, próximo a Edom (21.4-8).
Mesmo a legislação outorgada depois que a aliança mosaica havia recebido sua forma
mais completa revela a misericórdia de Yahweh. Com uma taxa de mortalidade de pelo
menos quarenta adultos por dia, a provisão da água purificadora (Nm 19) era crucial
para a continuidade da vida civil e religiosa, removendo a contaminação do pecado
representado pela morte.
Deus é fiel
Talvez o mais notável atributo divino encontrado no livro de Números é a fidelidade
demonstrada por Yahweh para com o Seu povo errante. Ele mantém Sua promessa
incondicional aos patriarcas, a despeito das sucessivas falhas do povo em se conformar
às promessas condicionais de bênção encontradas na aliança sinaítica.
Balaão, o adivinho pagão, é o agente involuntário na revelação do compromisso
divino de não apenas abençoar Israel de maneira geral, mas de conceder-lhe todo o
espectro das bênçãos prometidas a Abraão.
Dentro do tema da fidelidade de Yahweh, há um elemento de polêmica contra falsos
deuses no inclusio que é formado pela mensagem de Balaque a Balaão (... porque eu sei
que será abençoado aquele a quem tu abençoares, e amaldiçoado aquele a quem tu
amaldiçoares, 22.6) e pelo terceiro oráculo de Balaão (Benditos os que te abençoarem,
e malditos os que te amaldiçoarem, 24.9). O servo de deuses falsos não pode
amaldiçoar o povo do Deus verdadeiro, e Ele repete a promessa divina a Abraão (Gn
12.3). Na Sua fidelidade, Yahweh sobrepuja o poder de reis e nações para estabelecer
Israel segundo a promessa.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
O livro de Números oferece um exemplo fascinante do desenvolvimento do propósito
quádruplo de Deus de permitir a existência do mal, de julgar o mal e triunfar sobre ele
em favor da semente escolhida, ou por meio dela, e de oferecer bênção aos eleitos e, por
intermédio deles, a toda humanidade.
O decreto de permitir o mal
A cada nova geração, Yahweh confronta os homens com sua inclinação congênita
para o mal. Israel recebeu testes no deserto e, lamentavelmente, fracassou na maioria
deles. Cades-Barnéia foi o teste crucial, por haver revelado o problema principal de
Israel, sua incredulidade e o conseqüente menosprezo a Deus (14.23). Baal-Peor foi o
outro lado desses parênteses de fracasso, revelando o resultado último da incredulidade
e do menosprezo a Deus, que são a idolatria e a imoralidade mais grosseiras. Estes dois
incidentes, como registrados por Moisés, deveriam ter servido de advertência a gerações
futuras, que evidentemente não a levaram a sério.
A promessa e/ou a ação de julgar o mal
Esta linha de ação divina é particularmente evidente em Números. Cada um dos
fracassos de Israel teve o seu necessário julgamento que, embora não fosse
necessariamente proporcional ao pecado que o causara, revelava o zelo de Deus para
com Sua santidade. O simples fato de que a geração que haveria de entrar em Canaã foi
julgada com maior severidade (24 mil mortes em Baal-Peor contra 14.700 na rebelião
de Corá. cf. Nm 16.49) indicam que Deus não trata o pecado levianamente e está
determinado a puni-lo.
Números também indica que há uma relação entre a extensão da ira de Deus e a
intercessão de Seus servos. Isto não equivale a dizer que a oração, por si só, altera as
decisões divinas ou encurta a disciplina de Yahweh; significa, outrossim, que soberania,
misericórdia e santidade se combinam no exercício da punição e nos meios pelos quais
ela exaure seu curso rapidamente na vida de alguns e se estende por 38 anos na vida da
grande maioria.
Números também indica que o perdão não significa isenção das conseqüências do
pecado, que são parte do juízo geral contra o pecado. Dois exemplos marcantes desse
princípio são a lepra temporária de Miriã e a proibição de que Moisés entrasse em
Canaã.
Libertação do mal para/pelos eleitos
Esta linha da atividade divina não se apresenta explicitamente em Números, embora
possa ser inferida de dois incidentes específicos.
Depois do relatório dos espias em Cades, Josué e Calebe destacaram-se como o
remanescente fiel a quem Deus escolhe para herdar a Sua bênção (14.26-38).
A outra ocorrência surge no quarto oráculo de Balaão (24.15-19), em que foi
profetizada a aparição de um indivíduo que exercerá autoridade (24.17 usa as palavras
estrela e cetro; 24.19 fala de um dominador) e destruirá os inimigos de Israel. A
associação com a bênção de Jacó e com o sonho de José aponta para um conceito de
Rei-Conquistador-Salvador que judeus e cristãos têm, por longos séculos, considerado
davídico-messiânico.
O decreto de abençoar os eleitos
De uma perspectiva pactual, esta linha de atividade divina limita-se mais aos oráculos
de Balaão. Isso significa que Números, em suas divisões, narrativas e legais, não
acrescenta novas promessas ao estoque já em poder de Israel. No entanto, tão gritantes
haviam sido os fracassos das gerações passada e presente que foi necessário reafirmar as
promessas passadas à medida que Canaã se aproximava.
Números 23.19, 20 é um começo digno, já que afirma o compromisso imutável de
Yahweh para com os recipientes de Sua aliança. Em suma, Balaão promete crescimento
numérico (23.10), segurança (23.21-23), vitória (21.24), prosperidade (24.5-7), poder
real (i.e., de rei, 24.7b), conquista (24.8, 9) e a ascensão de um dominador poderoso
(24.17-19). Essas promessas constituem uma reafirmação impressionante das promessas
abraâmicas, que Deus anunciou soberanamente, mediante um relutante profeta pagão, a
um povo que não a merecia. A fidelidade de Deus brilha em meio aos dias escuros do
deserto, iluminando os portais de Canaã.
Temas debatidos em Números
BALAÃO, PROFETA DE DEUS OU ADIVINHO PAGÃO?
A figura mística e misteriosa de Balaão, pela participação nefasta que teve na história
de Israel apesar de parecer tão associado ao Deus da aliança, tem intrigado crentes de
todas as épocas. Este breve estudo procurará definir o verdadeiro caráter de Balaão.
Sua origem e contexto religioso
Balaão era natural de Petor, na Mesopotâmia, localidade próxima à cidade de Mari.
Descobertas arqueológicas revelam que existia na região um elaborado sistema
profético, cujas atividades se assemelhavam às do ganancioso vidente da narrativa de
Números.
A História nos mostra que, na época de Moisés, havia bastante contato entre a
Mesopotâmia e o Egito (o reinado de Amenófis II), de modo que não é de estranhar a
aparente familiaridade de Balaão com o nome e as atividades de Yahweh e Seu povo
escolhido, Israel (cf. a atitude de uma mulher irreligiosa como Raabe [Js 2]). O fato de
Balaão demonstrar conhecimento detalhado sobre Yahweh não aponta tanto para sua
ligação pessoal com Ele quanto para a soberana capacidade divina de utilizar até mesmo
a rebeldia humana para cumprir Sua vontade.6 Quando Números é visto sob a ótica do
exercício da soberania divina, apesar da obstinada resistência humana, Balaão serve
como o exemplo par excellence de tal princípio.
Para os mais determinados, que consideram Balaão um ―crente que perdeu sua
salvação‖, vale observar que ele jamais é designado como um ‫( נָבִׁיא‬nābî ʾ, profeta),
mas como um ‫( קֹסֵם‬qōsēm, ―adivinho‖), uma pessoa a quem os israelitas deviam
rejeitar totalmente (cf. Dt 18.10). O fato de Deus ter-se revelado a ele em sonhos não o
torna um profeta legítimo, pois o mesmo aconteceu a reis pagãos como Abimeleque (Gn
20.3) e Nabucodonozor (Dn 4), em relação aos quais não há, nem pode haver, qualquer
reivindicação profética.
Sua participação no drama de Números
Balaque, rei de Moabe, apavorado com a ameaça israelita, busca os serviços
profissionais de Balaão. A obtenção de vantagens sobre outras pessoas por intermédio
da mágica era prática comum no Oriente Médio antigo (cf. a prática de despachos e
trabalhos contra inimigos nos cultos afro-brasileiros).
Balaão, embora advertido por Yahweh contra a atividade proposta por Balaque, cede à
ganância e insiste em ir. Yahweh o adverte contra seus motivos nefastos, mas permite
que Balaão acompanhe os dignitários moabitas, pois em Sua soberania os usaria para
revelar Seu imutável desígnio quanto a Israel, naquela que é uma das profecias mais
abrangentes do Antigo Testamento.
O famoso incidente da mula é outro ingrediente (até humorístico) desse drama de
rebeldia versus soberania. Que a mula tenha falado (sem possuir cordas vocais capazes
disso) só é problema para aqueles que descrêem do poder sobrenatural de Deus. O mais
notável é que Balaão tenha demorado tanto a perceber que a mula era uma ilustração de
sua própria obstinação contra a vontade revelada daquele Deus em Quem não
acreditava, mas a Quem respeitava.
É interessante notar que os temores que levaram Balaque a convocar Balaão eram
infundados, pois, como parentes distantes dos israelitas, os moabitas nada tinham a
temer (cf. Gn 19.26-37; Dt 2.9). Reais ou não, tais temores acabaram por unir Balaque
(―devastador‖) e Balaão (―devorador‖) contra Israel.
É impossível deixar de notar dois contrastes marcantes na narrativa de Balaão. O
primeiro é a diferença entre a atitude da geração do Êxodo – que recuou diante de um
inimigo já derrotado – e a dos moabitas – que viam Israel como um inimigo invencível.
O outro contraste é aquele entre a tentativa humana de subverter aquilo que Deus
estabelecera séculos antes, sua aliança com Abraão, e a firmeza da vontade do Deus que
se comprometera unilateralmente (Gn 15.9-21) a dar aquela terra a Israel.

6
Isto não significa que todo conhecimento de Balaão a respeito de Yahweh tenha
acontecido depois de sua vinda para Canaã. Sendo uma pessoa envolvida com mágica e rituais
politeístas, Balaão tinha o dever e a necessidade de conhecer as divindades nacionais de sua
região. Vale a pena lembrar que os ancestrais de Israel, a quem fora dada a revelação inicial
sobre Yahweh, eram arameus, provenientes da região em que Balaão vivia. Sua informação
insuficiente (apesar de correta) sobre Yahweh acabou por levá-lo a ignorar a verdade por amor
às riquezas.
A verdadeira natureza de Balaão surge, entretanto, depois de suas três tentativas
frustradas de amaldiçoar o povo. Privado da recompensa prometida por Balaque, ele
recorre aos estratagemas da miscigenação sócio-religiosa para tentar roubar a Israel o
privilégio do cumprimento da aliança. Por tal perfídia, seu desejo expresso em Números
23.10 não se cumpriu. Seu ato em Baal-Peor revela quão vago e impessoal era seu
conhecimento do Deus de Israel e o transforma no modelo do falso profeta (cf. 2 Pe
2.15; Jd 11; Ap 2.14).
Conteúdo e significado de seus oráculos
Conforme já mencionado, os oráculos de Balaão servem ao propósito de demonstrar à
geração do deserto que Yahweh não abriria mão de Suas promessas mesmo em face de
38 anos de rebeldia e incredulidade. Assim, Balaão está intimamente ligado à aliança
abraâmica.
O quadro a seguir resume a ligação entre esses dois focos de revelação no AT.

Orácu Referênc Paralelo em


Promessa
lo ia Gênesis
1 23.1-12 Crescimento Numérico Gênesis 12.2
2 23.13-26 Segurança e vitória Gênesis 15.1, 14
3 24.1-9 Prosperidade e poder real Gênesis 17.6, 16
4 24.15-19 Dominador e príncipe Gênesis 49.10
5 24.20 Ruína de Amaleque Gênesis 12.3
Cativeiro para quenitas, assírios e hebreus
6 24.21-24 Gênesis 12.3
(cf. Eber)
AS CIDADES DE REFÚGIO (NM 35.5-34)
Entre muitos povos do oriente havia um costume de destacar certos locais, geralmente
de natureza cultual, como refúgios nos quais criminosos poderiam buscar proteção,
escapando assim à pena devida a seus crimes. Em Israel, o tabernáculo não poderia ser
utilizado com tais propósitos (cf. Êx 21.14 e o incidente em que Joabe se agarra ao altar
em busca de escape da condenação imposta por Salomão a pedido de Davi, 1 Rs 2.28-
33).
As cidades de refúgio serviam a um duplo propósito: evitar que o homicida não-
intencional fosse morto pelo vingador de sangue (um parente próximo do morto) e
evitar que a terra ficasse cerimonialmente poluída pelo derramamento de sangue (que
seria agravado, caso não houvesse meio de impedir a vingança indiscriminada).
Como era necessária a morte para expiar a morte, o homicida culposo (havia várias
instruções para determinar a culpabilidade de uma morte) deveria se apresentar à cidade
de refúgio mais próxima, ali ter seu caso julgado pelos anciãos e, caso fosse constatada
a natureza não dolosa do homicídio, ali permanecer até a morte do sumo sacerdote, que
seria uma expiação simbólica para a vida do homicida.
O sistema das cidades de refúgio ilustra de maneira interessante a obra de Cristo: em
primeiro lugar, a cidade em si ilustra a proteção oferecida contra as conseqüências do
pecado; em segundo lugar, a morte do sumo sacerdote aponta para a expiação definitiva
obtida por intermédio da morte de Jesus Cristo na cruz.
O PROBLEMA DOS GRANDES NÚMEROS DOS CENSOS
Muitos comentaristas de Números reagem de maneira violenta contra as estatísticas
contidas nos livros. Wenham apresenta um bom resumo dos problemas levantados,
embora fique a dever boas soluções.7 Segue-se a lista de problemas e respostas
compatíveis com uma doutrina evangélica da inerrância das Escrituras.
1. A simples sobrevivência de dois milhões de pessoas no Sinai por 40 anos seria impossível.
A provisão divina descrita no Pentateuco (se aceita pelo intérprete) seria suficiente. De
mais a mais, os israelitas não trafegaram tão intensamente pelo deserto quanto poderia
parecer. Cades parece ter sido um acampamento permanente durante bastante tempo.
2. Os totais parecem discrepantes quando comparados entre si. O número de primogênitos
(3.43) obrigaria cada família a ter 27 filhos (e talvez outras tantas filhas), o que seria
impossível. Se, todavia, o número mencionado em 3.43 (22.273) referir-se apenas aos
primogênitos nascidos entre o Êxodo e a separação dos levitas (um espaço de 2 anos),
os números são muito coerentes.
3. Alguns textos sugerem que Israel não tinha gente suficiente para povoar Canaã. Wenham
cita Êxodo 23.29 e Juízes 18.16. Todavia, Êxodo 23 menciona apenas que a terra ficaria
desolada se os demais habitantes fossem subitamente eliminados. As provas materiais
trazidas pelos espias sugeriam que Canaã tinha capacidade para sustentar grande
multidão e, ao que tudo indica, algum tempo se passaria antes que os israelitas se
adaptassem à vida de agricultores. Quaisquer dois milhões de pessoas morreriam de
fome em qualquer lugar sem técnicas de agricultura. Além disso, o texto de Juízes 18.16
não fala que os seiscentos eram a totalidade dos guerreiros de Dã. Significativamente,
Wenham não leva em conta Juízes 20.16, em que a cidade de Gibeá tinha um batalhão
de canhotos que constava de setecentos homens!
4. Wenham sugere, por fim, um arredondamento dos números, baseado no arredondamento
das centenas, mas a natureza especulativa de tal argumento é sua própria refutação.
Outras tentativas de emprestar significados simbólicos e até astrológicos aos números
esbarram na própria engenhosidade. Um argumento final é que nenhuma das pretensas
explicações consegue explicar satisfatoriamente as estatísticas referentes aos levitas.
5. Conclusão – Este autor manteve uma luta íntima por muitos anos com referência aos
grandes números de Números e não pôde até agora perceber qualquer outra solução a
não ser aceitar literalmente as estatísticas mosaicas. Quaisquer valores atribuídos à
palavra hebraica ‫( ֶאלֶף‬ʾelep, ―mil‖), ou mesmo à modificação de sua vocalização, são
incapazes de produzir números coerentes. Até que evidência realmente sólida seja
apresentada, é exegética e teologicamente sadio aceitar os números de Números
literalmente.
ARGUMENTO BÁSICO
Mensagem
Apesar de sua forma ser ainda mais fluída que a dos livros que o precederam na
coleção mosaica, o livro de Números tem uma mensagem específica. Tomando por base
uma divisão tríplice do livro (Preparação no Sinai, 1.1–10.10; Peregrinação no
Deserto, 10.11–22.1; Preparação na Transjordânia, 22.2–36.13), esta é a mensagem
proposta para o livro:
O estabelecimento de Israel como nação na Terra Prometida sob a autoridade de
Yahweh foi adiado devido à incredulidade do povo e de sua rebeldia contra os
líderes designados por Deus.
PROPÓSITO

7
Wenham, Números, SCB, pp. 64-71.
Encorajar uma vida nacional organizada, ao demonstrar como a incredulidade e a
rebelião contra Yahweh trouxeram uma disciplina divina severa que retardou o
cumprimento da promessa na terra.
DESENVOLVIMENTO
O livro de Números é uma obra histórica cujo tema principal é o estabelecimento de
Israel e a forma com que foi desnecessariamente retardado em virtude de uma geração
inteira, devido à disciplina divina contra a descrença e a rebelião da nação. Ainda assim,
a ênfase de seu autor não está nas falhas da geração do êxodo, da qual ele registra
apenas alguns exemplos, mas na certeza do plano de Yahweh para Israel, retardado, mas
não destruído pela rebelião humana contra Ele.
Isto é demonstrado pela inclusão de dois censos no livro. O mesmo número geral no
Sinai e em Moabe sugere aos leitores que a falha em atingir o alvo de estabelecer-se em
Canaã não ocorreu devido à falta de poder divino, ou à perda de força numérica, mas
apenas à incredulidade de Israel. Os 38 anos entre Cades-Barnéia foram
verdadeiramente um vácuo na Heilsgeschichte (história da salvação), uma vez que o
programa de Deus foi, por assim dizer, interrompido graças à incredulidade humana. A
inclusão das narrativas de Balaão, entretanto, mostram que tal atraso não significava o
fim das promessas. Deus não voltará atrás, mesmo em face à persistente incredulidade
humana, no que Ele prometera sob juramento (Gn 22).
Esta incredulidade mostrou-se várias vezes na forma de murmuração contra Yahweh,
Seus caminhos e Seus líderes escolhidos. O quadro abaixo resume estes
acontecimentos:

11.1-3 Reclamações acerca das dificuldades na jornada


11.4-6 Reclamações acerca do maná
12.1, 2 Arão e Miriã murmuram contra Moisés
14.2-4 O povo murmura contra Moisés e Arão em Cades
14.27-
O povo murmura contra Yahweh
29
16.1-
Corá e seus aliados murmuram contra Arão
11
O povo murmura contra Moisés e Arão devido à morte de Corá e seus
16.41
aliados
17.5,
Nova murmuração contra Arão
10
A obstinada falta de fé na provisão e proteção de Yahweh trouxe a disciplina pactual,
o desencadeamento da ira divina contra a rebelião humana. As passagens que se seguem
contêm manifestações da ira de Yahweh: Números 11.1, 10, 33; 12.9, 10; 14.11-20;
16.46, 47. A demonstração mais surpreendente da ira divina, entretanto, foi a rotina de
morte entre Cades e Moabe. Pressupondo números literais para o censo e que apenas os
homens necessariamente teriam morrido (seiscentas mil pessoas) no curso de 14.508,
teria havido uma média de quarenta enterros por dia! Não é de admirar que Moisés
tenha escrito: Pois somos consumidos pela tua ira [...]. Quem conhece o poder da tua
ira ? (Sl 90.7, 11).
Parece melhor dividir o livro de Números em três partes: Preparação no Sinai (1.1–
10.10), Peregrinação no deserto (10.11–22.1), e Preparação na Transjordânia (22.2–
36.13).
A primeira parte contribui para o propósito, ao demonstrar que Israel era militarmente
capaz de atingir seu objetivo e tornar-se uma verdadeira nação em termos de
organização civil, com um posicionamento peculiar para a batalha e para a paz (caps. 1
e 2). Isto prossegue na contagem e designação de trabalho para os Levitas, separados
para o Senhor de entre as tribos de Israel (caps. 3 e 4). A nação não era apenas
militarmente capaz, ela estava ritualmente preparada.
A seção seguinte aborda a necessidade de pureza da nação. As leis no capítulo 5 falam
acerca da separação daquilo que é impuro (5.1-4), da restituição dos males cometidos
(5.5-10) e da infidelidade conjugal (5.11-31) e, assim, lida com questões fundamentais
na vida de uma comunidade (saúde pública, confiança e honestidade pública, como
também unidade familiar). O capítulo seguinte descreve os votos do nazireado, uma
provisão para aqueles que queriam dedicar-se ao Deus de Israel de alguma forma
especial. O capítulo 6 termina com a bem conhecida bênção aarônica, que é uma forma
apropriada de encerrar um capítulo que descrevia aqueles que queriam se identificar
inteiramente com Yahweh, porque Seu próprio desejo é colocar Seu nome sobre os
israelitas.
Os capítulos 7–10.10 fornecem-nos as últimas referências históricas ao Sinai, quando
os príncipes de Israel consagram suas ofertas voluntárias na dedicação do tabernáculo
(Nm 7.1-89;cf. Êx 40.17-33), as lâmpadas são acesas dentro do Lugar Santo (Nm 8.1-4),
os levitas são consagrados para obra do Senhor (8.5-26) e a Páscoa é celebrada em dois
estágios (9.1-14). À medida que os israelitas se preparam para marchar, o autor informa
seus leitores que aquela jornada era uma questão da liderança direta de Yahweh por
meio de uma coluna de nuvem/fogo (9.16-23). Isso ilustra a figura ideal que deveria ter
prevalecido, e que teria levado Israel até Canaã em apenas 10 dias de caminhada a partir
do Sinai. A referência das trombetas de prata é necessária para indicar que, além do
direcionamento divino, Israel não era apenas uma multidão indisciplinada, mas também
possuía uma organização humana que a tornou uma nação.(10.1-10).
A segunda parte do livro mostra com que freqüência e quão intensamente Israel foi
reprovado nos testes dados por Deus no deserto e, por meio de sua incredulidade e
desobediência, desperdiçou a concretização das promessas da aliança naquela geração.
Os capítulos 11 a 14 descrevem a atitude predominante de desrespeito para com Deus
causado pelo problema básico de Israel, a incredulidade. Israel reclamou acerca das
dificuldades da jornada pelo deserto (11.1-3), trazendo um julgamento de fogo; eles
murmuraram devido à falta de carne (11.4-35), influenciados pela multidão semítica que
havia deixado o Egito com eles. O resultado foi uma dura lição sob a forma de punição
por seus próprios desejos, depois de desprezar a provisão fiel de Deus. Talvez tenha
sido nesse ponto que Moisés implementou, com certa medida de incentivo divino, o
sábio plano criado por Jetro com respeito à organização do povo (cf. Êx 18). A
aprovação divina aparece quando alguns dos designados para o cargo de juiz começam
a profetizar.
Miriã e Arão murmuram contra o papel de Moisés como líder (12.1-16), trazendo
sobre si ira e disciplina, direcionada contra Miriã, uma vez que ela foi quem instigou a
conspiração. Essa seção serve ao propósito do livro, ao mostrar que a ingratidão e o
desrespeito não se limitavam ao povo comum, mas atingia até mesmo os líderes mais
proeminentes da nação.
Por fim, a nação rejeita o desafio de Yahweh de confiar Nele para a conquista de
Canaã (13.1–14.45). O relato dos espias deu à nação uma oportunidade definitiva de
confiar em Yahweh para o impossível; também provou que a terra da promessa era tudo
aquilo que as pessoas esperavam, e mais ainda. Ainda assim, a nação rejeitou o relatório
minoritário da fé e rebelou-se contra Yahweh e Seus líderes escolhidos (14.1-4, 10a). O
Novo Testamento toma esse incidente como uma exortação para os crentes da Nova
Aliança, alertando-os para que não endureçam seus corações em incredulidade, para não
desperdiçar as bênçãos e a recompensa divinas (Hb 3.15-19). Nem mesmo seu
arrependimento demorado e o desejo de seguir em frente poderiam levá-los a Canaã; os
amalequitas foram os primeiros a executar o juízo de Yahweh (14.39-45). As areias do
Sinai e do tempo os seguiriam.
O capítulo 15 apresenta exigências antigas para uma nova situação (15.1-21),
padronizando os sacrifícios ao contexto da Terra Prometida. O exemplo do homem que
violou o Sábado aponta para a condição da geração do Êxodo, que havia pecado com os
olhos bem abertos; assim como uma violação deliberada da aliança deveria ser punida
com a morte (15.32-36), sua clara rebelião em Cades seria punida. Israel precisava de
lembretes de seus privilégios e responsabilidades, e a nova lei das borlas nas roupas
providenciou isso (15.37-41).
A próxima ameaça a uma vida ordeira perante Yahweh surgiu com a rebelião de Corá.
Essa foi uma tentativa de subverter a hierarquia, com o pretexto de absoluta igualdade
dentro do povo de Deus (16.3). O juízo divino rapidamente atingiu Corá e seus
associados, quando a terra consumiu Corá e os líderes rubenitas associados com a
revolta (16.25-34), e o fogo do Senhor (vindo da arca?) matou 250 dos que se
intitularam ―sacerdotes‖, os quais começaram a contestar a Arão (16.35). A revolta de
Israel foi tão feroz contra Yahweh, que eles ignoraram o perigo e dirigiram-se contra
Moisés e Arão no dia seguinte. O resultado foi a morte de 14.700 pessoas, no que foi a
demonstração mais surpreendente do desagrado de Yahweh para com aquela geração. A
incredulidade e o desrespeito para com Deus (16.30b) apenas levaram a uma tragédia
maior.
A necessidade de uma prova maior da hierarquia de Yahweh para uma vida ordeira
surgiu quando Arão foi vindicado diante das outras tribos (17.1-13). Esse conflito, por
sua vez, leva a instruções detalhadas acerca do trabalho dos levitas (18.1-32). Portanto,
o autor vinculou seus temas religiosos a acontecimentos que representavam a
necessidade que Israel tinha de informação ou correção. O mesmo vale para o capítulo
19, que contém a legislação acerca da purificação causada pela morte, uma necessidade
óbvia à luz da alta taxa de mortalidade naqueles 38 anos.
A última seção, nessa segunda parte, lida com os últimos acontecimentos da geração
do Êxodo. Um ciclo completo completara-se e a nação se encontrava novamente em
Cades. Ali, Miriã morreu e foi sepultada (20.1).
Ali, Israel mais uma vez cometeu um erro, com talvez o último remanescente da
geração do Êxodo, ao dar voz a sua amargura contra Deus pela falta de água (20.2-5).
Cedendo à ira e ao orgulho, Moisés (e Arão, por associação) puxa para si mesmo a
honra de suprir água da rocha, incorrendo na disciplina de Yahweh (20.6-13).
A partir de Cades, Israel contornou o território de Edom, ao sul do mar Morto e
chegou ao monte Hor, onde Arão morreu e foi sepultado (20.22-29). A condução de
Eleazar ao sumo sacerdócio foi um sinal de que a nova geração estava assumindo seu
lugar.
Esta foi uma época de vitória, quando Israel derrotou Arade (21.1-3), mas também de
derrota, à medida que a nova geração provou que era feita do mesmo material da
anterior, pois murmurava contra suas condições na época crítica de marchar junto às
fronteiras de Edom, uma região bastante inóspita. O ciclo de disciplina e libertação se
desenrola novamente, com a aparição de serpentes venenosas e a cura por meio da
intercessão e uma renovada oportunidade de confiar em Yahweh (21.4-8). Pode haver
uma polêmica contra os rituais pagãos em que serpentes são adoradas como símbolos de
vida. O Senhor Jesus utilizou esse acontecimento para ilustrar Sua morte substitutiva e a
necessidade de responder em fé a Sua oferta de salvação (Jo 3.14).
Depois desse acontecimento, a caminhada foi retomada, muito provavelmente em um
passo acelerado. A água foi providenciada, e o povo, que aparentemente se arrependeu
de verdade de sua murmuração perto de Edom, cantava com alegria. Depois disso, veio
a conquista dos amorreus que viviam ao leste do Jordão, na terra que eles haviam
conquistado aos Moabitas (cf. Jz 11.14-27). Siom de Hesbom e Ogue de Basã foram
derrotados e sua terra foi conquistada por Israel. As promessas aos patriarcas estavam
prestes a se tornar realidade.
A terceira parte do livro contribui para o propósito de Números ao demonstrar como
Yahweh permaneceu fiel a Suas promessas e como o povo, até mesmo a nova geração,
continuava ingrata e inclinada ao pecado, mesmo depois de testemunhar a disciplina de
Deus por 39 anos. Esses últimos capítulos também fornecem informação acerca do
estabelecimento de Israel na terra, assim como um novo censo, a provisão para a
mudança de liderança, o ensaio para as leis de sacrifício e acordos para a distribuição da
terra ao leste do Jordão, a proteção para as pessoas acusadas de homicídio não doloso,
como também as situações complexas de herança.
O ciclo de Balaão (22.2–24.25) contribui para o propósito de confirmar o status de
Israel perante Yahweh, a despeito do grande atraso causado pela incredulidade da
nação. Também serve como uma polêmica contra os deuses das nações que Israel
haveria de enfrentar na batalha não muito depois que fossem conhecidos esses
acontecimentos.
O profeta contratado, conhecido por sua eficácia como lançador de maldições (22.6), é
persuadido por essa divindade recém-chegada, Yahweh, a concordar e ir com o
mensageiro de Balaque, sob a condição de apenas dizer aquilo que Yahweh lhe
revelasse. Seu conflito emocional é evidenciado no episódio do diálogo com a mula. O
amor de Balaão pelo ―prêmio da injustiça‖ (2 Pe 2.15) acabaria finalmente por levá-lo a
renunciar a seu conhecimento inicial com Yahweh e a se posicionar ao lado dos
inimigos de Israel (Nm 31.8, 16).
Suas profecias, alugadas pelo rei de Moabe, acabaram reforçando as promessas de
Yahweh a Abraão. Seus tópicos incluem o crescimento numérico de Israel (23.10),
segurança (23.21-23), vitória (21.24), prosperidade (24.5-7), poder monárquico (24.7b),
conquistas (24.8, 9) e o surgimento de um poderoso governante (24.17-19). É
teologicamente sadio afirmar que Moisés recebeu o conteúdo dos oráculos de Balaão
por meio de inspiração, mas também é possível que Balaão tenha sido capturado com os
midianitas e passado a informação para Moisés.
O contraste entre a glória e o triunfo prometidos por Balaão e a cena trágica dos
israelitas envolvidos com prostituição cultual no capítulo 25 é impressionante. Esse
incidente forma um inclusio sombrio com a tragédia do bezerro de ouro em Êxodo 32.
Embora a idolatria do Egito tivesse sido deixada para trás, a praga de Canaã, o
baalismo, apresentou-se em toda a sua hediondez pela primeira vez, e a nação sucumbiu
a ele.
Os capítulos 26 a 30 lidam com questões relacionadas à vida na terra. Um novo censo,
realizado depois que a praga havia dizimado a tribo de Simeão (cf. 25.14; 26.14; e 1.23),
revela que o poderio militar de Israel permanecera intacto ao longo de seus vários anos
e peregrinação, graças à misericórdia de Yahweh. Apesar disso, 26.64 fala, em alto e
bom som, acerca do poder da ira de Yahweh, uma vez que nenhum dos 603.550 homens
de guerra da geração do Êxodo estava vivo quando o segundo censo foi realizado.
A questão do direito de herança para as mulheres (27.1-11) vem naturalmente depois
das orientações para a divisão da terra (26.52-65). Depois disso, veio a orientação
acerca da sucessão de Moisés (27.12-23); Josué seria um líder civil e militar, com
Eleazar como seu braço direito.
A vida espiritual deveria ser regulada na Terra Prometida, e as ofertas sazonais, ou de
acordo com o calendário, tinham um papel importante nisso. Essa regulamentação
complementa aquela de Levítico, não apenas nas exigências de ofertas dedicatórias
adicionais, mas na inclusão das libações ou ofertas de bebida, algo que a geração do
Êxodo não poderia apresentar no deserto (28.1–29.40). Uma vez que os votos estavam
freqüentemente relacionados às ofertas, um capítulo acerca de votos não está fora de
lugar aqui (30.1-15). De forma interessante, a igualdade garantida às mulheres no
capítulo 27 é equilibrada pela subordinação imposta pelo capítulo 30.
O capítulo 31 lida com a última campanha militar de Moisés, da dedicação dos
midianitas à destruição (mais provavelmente a parte desse povo que vivia mais perto do
caminho de Israel, uma vez que eles reaparecem em grande número cerca de 250 anos
depois em Juízes 6). O incidente serve como um claro padrão a ser seguido depois da
invasão; uma guerra sem quartel e sem trégua contra as nações insidiosamente idólatras
era o único meio de proteger Israel do avanço trágico do paganismo.
O capítulo 32 lida com o pedido de Rúben, Gade e metade de Manassés para que
possam se estabelecer na terra conquistada aos amorreus (32.1-5). Moisés pressentiu o
início de uma nova Cades-Barnéia e repreendeu os líderes das duas tribos e meia (32.6-
15). O compromisso das tribos de ajudar a seus irmãos na conquista do lado oeste
(32.16-19) abriu a porta para o acordo e o estabelecimento deles nessa porção de terra
(32.20-42).
Os capítulos 33 a 36 olham para trás e para diante. No capítulo 33, o itinerário das
viagens de Israel desde o Egito é apresentado; acampados nas planícies de Moabe, Israel
recebe a ordem de erradicar os cananeus (ou sofrer seu fim inglório sob a disciplina de
Yahweh). A divisão justa da terra entre as tribos devia ser feita de acordo com a
proporção da população das tribos (33.53,54). Para auxiliar em um empreendimento
como esse, as fronteiras oficiais da Terra Prometida são dadas em 34.1-12, e os
―homens que deverão distribuir a terra‖ são relacionados pelas tribos (34.16-29).
Uma vida ordeira em Canaã exigia uma distribuição apropriada da terra para os servos
do povo, os levitas, e isto é abordado em 35.1-5. O restante do capítulo lida com a
questão crítica da vida humana, seu valor e a necessidade de reprimir o derramamento
de sangue. As cidades de refúgio (35.6-28) e a legislação acerca da pena capital (35.29-
34) representam um primeiro passo rumo à solução.
O livro termina com uma observação feliz, mas aparentemente irrelevante, à medida
que a lei ordena que as herdeiras deveriam casar-se dentro de seus clãs para preservar a
posse da terra com a família. Este gesto de solidariedade e fidelidade serve como um
reflexo menor da fidelidade e solidariedade do próprio Yahweh para com o objeto de
Sua aliança. O livro encerra com Israel em Moabe, e Moisés é declarado o ministro
aprovado de Yahweh em favor de Israel.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
O estabelecimento de Israel como nação perante Yahweh na Terra Prometida é
retardado pela incredulidade e rebelião contra Ele e contra os líderes por Ele
escolhidos.
PARTE I - PREPARAÇÃO NO SINAI (1.1–10.10)
I. Israel é organizado logisticamente para seu tempo de caminhada e acampamento no deserto
(1.1–4.49).
A. O poderio militar de Israel é avaliado (1.1-54).
1. A ordem e as orientações para o censo vêm de Yahweh (1.1-16).
• Deveria ser feito no Sinai e deveria incluir cada homem com mais de vinte anos de idade (1.1-3).
• Deveria ser coordenado por Moisés com a ajuda de um homem de cada tribo (1.4-16).
2. Os resultados do censo indicam como Israel havia crescido de status, passando de um clã a
uma nação (1.17-46).
3. A tribo de Levi foi separada para o serviço de Yahweh no tabernáculo (1.47-54).
B. O acampamento de Israel é organizado de acordo com as doze tribos, com o tabernáculo
como seu centro (2.1-34).
1. O tabernáculo deveria ocupar a posição central com as tribos acampadas ao seu redor (2.1, 2).
2. A leste do tabernáculo (e os primeiros a marchar) ficaram as tribos de Judá, Issacar e Zebulom
(2.3-9).
3. Ao sul do tabernáculo (e os segundos na ordem de marcha) ficaram as três tribos de Rúben,
Simeão e Gade (2.10-16).
4. O tabernáculo deveria ocupar o centro do acampamento, cercado pela tribo de Levi (2.17).
5. A oeste do tabernáculo (e os terceiros na ordem de marcha) ficaram as três tribos de Efraim,
Manassés e Benjamim (2.18-24).
6. Ao norte do tabernáculo (e os últimos na ordem de marcha) ficaram as três tribos de Dã, Aser e
Naftali (2.25-31).
7. O acampamento de Israel foi organizado de acordo com as orientações de Yahweh por meio de
Moisés (2.32-34).
C. A posição e o papel especial dos levitas são definidos em um censo especial (3.1–4.49).
1. Os levitas são apontados como assistentes dos sacerdotes de Arão, no lugar dos primogênitos
de Israel (3.1-13).
2. Os levitas são contados de acordo com seus clãs e recebem suas tarefas principais (3.14-37).
• A idade para contagem no censo foi estabelecida em um mês (3.14-16).
• Os clãs principais são apresentados (3.17-20).
• O clã dos gersonitas continham 7.500 homens e foi incumbido de cuidar da cobertura do
tabernáculo (3.21-26).
• O clã dos coatitas continham 8.600 homens e foi incumbido de cuidar da mobília do tabernáculo
(3.27-32).
• O clã dos meratitas continham 6.200 homens e foi incumbido de cuidar da estrutura do
tabernáculo (3.33-37).
3. Moisés, Arão e suas famílias recebem um lugar dentro do acampamento próximo ao
tabernáculo, como ministros especiais de Israel ali (3.38).
4. A provisão é suprida para a redenção dos primogênitos de Israel que excederam o número dos
levitas (3.39-51).
5. As responsabilidades de cada clã são alistadas (4.1-33).
• A responsabilidade dos coatitas era transportar a mobília do tabernáculo depois de ter sido
―empacotada‖ pelos sacerdotes (4.1-20).
• A responsabilidade dos gersonitas era embalar e transportar as cortinas e coberturas do
tabernáculo (4.21-28).
• A responsabilidade dos meratitas era embalar e transportar a estrutura do tabernáculo (4.29-33).
6. O número de levitas com idade para servir (30–50) de acordo com seus clãs é fornecido (4.34-
49).
II. A importância da pureza e dedicação a Yahweh é declarada em uma legislação específica
antes da nação partir do Sinai (5.1–6.27).
A. A sociedade de Israel precisa ser caracterizada pela pureza em todos as esferas de
relacionamento (5.1-31).
1. O acampamento deveria ser mantido limpo para permanecer ritualmente puro (5.1-4).
2. O acampamento deveria ser mantido moral e economicamente limpo, por meio da confissão e
restituição (5.5-10).
3. O acampamento deveria ser mantido matrimonialmente limpo pela aplicação da lei do ciúme,
que preservaria a estrutura familiar em Israel (5.11-31).
• A suspeita de infidelidade conjugal deveria ser tratada dentro do contexto da comunidade da
aliança (5.11-14).
• O ritual prescrito envolvia a invocação de uma maldição pelo sacerdote, cujo resultado seria a
esposa culpada sofrer aborto e a esposa inocente não sofrer qualquer dano (5.15-26).
• O resultado do ritual restauraria a unidade conjugal ou sujeitaria a mulher culpada à penalidade da
lei (5.27-31).
B. A devoção a Yahweh no serviço (tornar-se um nazireu) deveria ser expressa por um estilo de
vida de separação maior para Ele, de acordo com Suas condições (6.1-27).
1. As condições para assumir um voto de separação eram a abstinência de produtos da vinha, do
corte de cabelo e de qualquer contato com cadáveres (6.1-8).
2. A contaminação acidental devido ao contato com um cadáver requeria cerimônias especiais de
purificação e a renovação do voto (6.9-12).
3. O cumprimento de um voto temporário deveria ser marcado por cerimônias especiais (6.13-21).
• As ofertas de expiação, dedicação e de comunhão deveriam ser realizadas (6.13-17).
• O cabelo deveria ser raspado e cerimonialmente queimado com a oferta da comunhão (6.18).
• Uma parte da oferta da comunhão deveria ser movida perante Yahweh e dada ao sacerdote (6.19-
21).
4. A bênção sacerdotal era a forma prescrita por Yahweh de demonstrar Seu compromisso para
fazer de Israel sua nação devotada (6.22-27).
III. Os últimos preparativos de Israel para a viagem incluem a dedicação nacional e o
desenvolvimento de um sistema de pronta resposta à orientação de Yahweh (7.1–10.10).
A. A dedicação nacional a Yahweh deveria acontecer antes que a viagem recomeçasse (7.1–
9.14).
1. Os líderes das tribos consagram a Yahweh as ofertas voluntárias da nação à medida que o
tabernáculo é consagrado (7.1-83).
2. Os objetos e animais consagrados são apresentados a Yahweh à medida que o tabernáculo é
dedicado (7.84-89).
3. A montagem das lâmpadas tornou o tabernáculo totalmente funcional (8.1-4).
4. Os levitas foram oficialmente consagrados a seu ministério de apoio no tabernáculo (8.5-26).
• A consagração envolvia lavagem e raspagem cerimonial, a oferta de expiação e dedicação e a
apresentação solene diante de Yahweh e da nação (8.5-14).
• A consagração dos levitas a Yahweh significava o serviço vicário no tabernáculo, em favor das
doze tribos (8.15-22).
• Os levitas deveriam servir no tabernáculo por 25 anos, começando [seu aprendizado] com a idade
de 25 anos [e no serviço aos 30] (8.23-26).
5. A Páscoa deveria ser observada em lembrança da libertação de Israel do Egito (9.1-14).
• A Páscoa é observada no dia 14 de Nisã, de acordo com a ordem de Yahweh (9.1-5).
• A provisão é feita para uma Páscoa alternativa para aqueles que estavam cerimonialmente impuros
na ocasião oficial (9.6-14).
B. Um sistema de orientação divina e pronta resposta da nação é desenvolvido (9.15–10.10).
1. A orientação divina era dada por meio de uma coluna de nuvem/fogo que pairava sobre o
tabernáculo (9.15-23).
2. A reação nacional era direcionada por toques claros de duas cornetas de prata, que também
indicavam as ocasiões especiais na vida de Israel (10.1-10).
PARTE II - PEREGRINAÇÃO NO DESERTO (10.11–22.1)
O fracasso da geração do êxodo em alcançar a totalidade das bênçãos da aliança na
Terra Prometida ocorreu devido à incredulidade e ao desprezo para com Yahweh.
I. Israel se desloca em sua ordem de marcha sob a bênção de Yahweh, do Sinai até Parã, com
a ajuda de Hobabe (10.11-35).
A. A data [20 de Iyyar de 1444 a.C.] e o itinerário da primeira marcha são fornecidos (10.11-
13).
B. A ordem de marcha segue a distribuição do acampamento de Israel, com o tabernáculo sendo
desmontado, transportado e armado antes da chegada do povo (10.14-28).
C. A perícia de Hobabe no deserto é requerida (10.29-32).
D. A direção era fornecida pela arca do Senhor, à medida que Moisés invocava a proteção
militar de Yahweh durante o dia e a Sua presença durante a noite (10.33-36).
II. A deserção de Israel em Cades-Barnéia e sua rejeição por Yahweh foram o auge de vários
episódios de incredulidade e ingratidão (11.1–14.45).
A. As primeiras reclamações acerca das dificuldades da viagem foram punidas com fogo por
um Deus irado, em Tabera (11.1-3).
B. A ingratidão para com a provisão de Yahweh leva à murmuração, que o Senhor pune depois
de dar a provisão a um líder sobrecarregado e a um povo difícil de suportar (11.4-35).
1. A insatisfação é gerada pela multidão semítica que havia deixado o Egito com Israel, ao
desejarem sua versão das provisões que os egípcios davam aos escravos (11.4, 5).
2 A provisão que Israel desprezou é descrita (11.6-9).
3 A queixa justificada de Moisés acerca da frustrante tarefa de liderar um povo tão rebelde é
ouvida e atendida por Deus com a provisão de um ―conselho de anciãos‖ e a garantia de
que Ele supriria o desejo pecaminoso (11.10-30).
• A frustração de Moisés foi causada pela constante rebelião de Israel e por seu sentimento de
incapacidade (11.10-15).
• A resposta de Yahweh a Moisés foi para que ele separasse um ―conselho de anciãos‖ com quem
pudesse dividir as responsabilidades da liderança (11.16, 17).
• A resposta de Yahweh ao pedido do povo foi a promessa de carne suficiente para fazê-lo detestá-
la, a despeito da incredulidade de Moisés (10.18-24a).
• A capacitação sobrenatural de Yahweh aos anciãos deu a Moisés a certeza da resposta divina
(11.24b-30).
• A punição de Yahweh para a cobiça do povo foi uma praga, enquanto eles engoliam Sua provisão
miraculosa e abundante (11.31-35).
C. O desprezo para com a liderança divina por meio de Moisés fez com que Miriã e Arão
desafiassem sua autoridade em rebeldia à autoridade de Yahweh (12.1-16).
1. O desprezo pela escolha dos seus cargos por Yahweh leva Miriã e Arão a murmurar contra
Moisés, sob o pretexto de seu casamento com a mulher etíope (12.1, 2).
2. O caráter de Moisés era tal que ele não defendeu sua própria causa (12.3).
3. O próprio Yahweh tomou a defesa de Seu servo, comparando a natureza superior do privilégio
de Moisés, a despeito da natureza comum de seus ministérios (12.4-8).
4. O juízo de Yahweh sobre esse ato de ingratidão e arrogância foi limitado a um período
simbólico de lepra sobre Miriã, graças à intercessão de Moisés (12.9-16).
D. A incredulidade de Israel atinge seu auge e gera uma rejeição divina sobre a geração do
Êxodo, à medida que o povo escolhe não confiar em Yahweh para a conquista de
Canaã, a despeito de Seu histórico de milagres em favor dele (13.1–14.45).
1. O relato dos doze espias faz um último teste da disposição de Israel de confiar que Yahweh
cumpriria Suas promessas (13.1-33).
• Doze espias são nomeados para investigar a terra por ordem de Yahweh (13.1-15).
• A missão de 40 dias compreendia um trabalho de inteligência geográfica, militar e agrícola da
terra de Canaã (13.17-25).
• O relato da exploração se deteve no perigo da invasão, a despeito dos esforços de Josué e Calebe
para contrabalançar o pessimismo exagerado da maioria incrédula (13.26-33).
2. A rebelião causada pela incredulidade e desprezo de Israel por Yahweh traz o juízo da perda
irreversível das promessas relativas à terra para a geração do Êxodo (14.1-45).
• Israel reage à notícia negativa com desprezo assassino para com Deus e com os líderes que
tentaram encorajar uma reação de fé (14.1-10a).
• A resposta de Yahweh à rebelião é a proposta de destruir aquela geração e de um novo começo
com os fiéis (14.10b-12).
• A intercessão de Moisés dá a Israel uma trégua da ameaça de imediata retribuição de Yahweh
(14.13-21).
– O apelo foi feito com base na reputação de Yahweh (14.13-16).
– O apelo foi feito com base no caráter de Yahweh (14.17-19).
– Yahweh anuncia o abrandamento de sua ameaça de punição imediata (14.20, 21).
• A punição de Yahweh compreendeu a exclusão da geração do êxodo de Canaã e a morte dos
espias incrédulos (14.22-38).
– A geração do êxodo não entraria em Canaã em razão de sua rebelião (14.22-25).
– Toda a geração do êxodo morreria no deserto, com exceção de Josué e Calebe (14.26-35).
– Os dez espias incrédulos morrem de uma praga (14.36-38).
• O arrependimento tardio de Israel por sua conduta incrédula traz apenas o desgosto adicional em
uma tentativa de conquista sem a bênção de Yahweh (14.39-45).
III. A culpa de Israel por sua rejeição deliberada para com o melhor que Yahweh lhe
oferecera é realçada pela legislação a ser instituída em Canaã e pela pena capital
obrigatória para a quebra intencional das regras da aliança, da qual Israel deveria
sempre se lembrar (15.1-41).
A. As ofertas suplementares de bebida ou grãos deveriam ser trazidas com as ofertas normais
em Canaã, com sua quantidade variando de acordo com o tamanho da oferta principal
(15.1-16).
B. O primeiro pão de cada colheita deveria ser consagrado a Yahweh (15.17-21).
C. Os pecados não intencionais, coletivos ou individuais, exigiam sacrifícios de expiação e
dedicação (15.22-29).
1. O pecado não intencional coletivo exigia sacrifícios maiores (15.22-26).
2. O pecado não intencional individual exigia um sacrifício menor (15.27-29).
D. O pecado intencional, equivalente a blasfemar contra Yahweh, não era passível de expiação
e deveria ser punido com a morte, conforme ilustrado por aquele que violasse o Sábado
(15.30-36).
E. A necessidade de Israel de sempre se lembrar das exigências da aliança, desistindo da cobiça
pessoal, é a razão para a ordem de vestir borlas nas extremidades das roupas (15.37-41).
IV. O desprezo contínuo de Israel para com Deus se manifesta em uma rebelião político-
religiosa contra Moisés e Arão, seus líderes divinamente escolhidos, com conseqüências
desoladoras para o povo (16.1–17.13).
A. A rebelião contra Moisés e Arão foi tanto política quanto religiosa em sua origem e nos
motivos alegados (16.1-14).
1. Os instigadores da revolta foram um levita [religioso] e alguns rubenitas [político] (16.1, 2).
2. Os motivos alegados para a revolta eram tanto religiosos quanto políticos, conforme visto na
resposta de Moisés (16.3-15).
• A alegação de Corá de que Moisés e Arão haviam monopolizado de forma indevida a liderança
em Israel baseia-se na premissa mal aplicada de que todo o Israel é santo (16.3).
• A resposta de Moisés a isso foi uma convocação para um desafio por meio do fogo e a denúncia
da tentativa enganosa de Corá tomar para si o sacerdócio (16.4-11).
• A acusação insolente de Datã e Abirão é de que a liderança ineficiente de Moisés era a causa da
condenação de permanecer no deserto; de modo que ele não tinha o direito de
permanecer como líder (16.12-14).
• A resposta de Moisés a essa acusação foi de direcionar sua ira para Yahweh e protestar a Ele a
inocência de sua motivação (16.15).
B. A rebelião é abreviada pelo juízo sobrenatural de Yahweh sobre os líderes e os sacerdotes
por eles delegados depois que a intercessão poupou a nação de uma completa destruição
(16.16-40).
1. A prova de fogo é realizada com os 250 sacerdotes delegados contra Moisés e Arão (16.16-18).
2. A proposta de Yahweh de uma punição nacional é evitada pela intercessão de Arão e Moisés
(16.19-22).
3. O juízo sobrenatural de Yahweh sobre Corá e seus associados de acordo com a palavra de
Moisés não deixa dúvida acerca da falsidade de suas reivindicações (16.23-34).
4. O juízo sobrenatural de Yahweh sobre os 250 sacerdotes delegados justifica a Arão, dando uma
lição visual sobre o alto custo da rebelião (16.35-40).
C. A rebelião atinge todo o povo e a punição destrói uma multidão antes que a intercessão
interrompa seus efeitos mortais (16.41-50).
1 O povo responsabiliza Moisés e Arão pela morte dos rebeldes, desprezando a intervenção de
Deus (16.41).
2. A ira de Yahweh irrompe em juízo e é interrompida pela intercessão sacerdotal de Arão (16.41-
48).
3. O número de mortes da revolta popular é de 14.700 pessoas (16.49, 50).
D. Arão é vindicado como verdadeiro sacerdote de Yahweh por meio de um sinal miraculoso
em uma competição entre todas as tribos (17.1-13).
1. A proposta de Yahweh para cessar a controvérsia é uma competição quanto ao poder de
produzir vida (17.1-7).
2. Arão é vindicado quando sua vara floresce e torna-se um símbolo do perigo de rebelião (17.8-
11).
3. O medo do juízo de Yahweh finalmente leva os israelitas ao bom senso (17.12, 13).
V. Uma nova legislação é apresentada à luz dos acontecimentos perturbadores com relação à
rebelião de Corá (18.1–19.22).
A. À luz da controvérsia entre sacerdotes e levitas, uma legislação acerca dos deveres e
privilégios de cada classe é incorporada (18.1-32).
1. Arão e sua família, com a ajuda de alguns levitas, recebem a responsabilidade pelo santuário,
seu funcionamento e proteção (18.1-7).
2. Os suprimentos normais por meio do sistema sacrificial, como também eventuais conquistas de
guerra são prometidos a Arão e sua família, em vista de não possuírem propriedades em
Israel (18.8-20).
3. Os levitas, que fazem os serviços domésticos no tabernáculo, viveriam às custas de todos os
dízimos, uma vez que também não possuíam terras (18.21-32).
B. O grande número de mortes resultantes da rebelião de Corá levou à instituição de legislação
acerca da purificação pelo contato com cadáveres (19.1-22).
1. A purificação pelo contato com um cadáver exigia um sacrifício de uma novilha sem defeito
fora do acampamento (19.1-4).
2. A purificação pelo contato com um cadáver exigia a queima da novilha e a preservação de suas
cinzas (19.5-10).
3. A purificação pelo contato com um cadáver exigia a aspersão da pessoa contaminada com a
água das cinzas no terceiro e sétimo dias de isolamento (19.11-13).
4. A lei exigia a purificação com as águas das cinzas por diversas situações nas quais um contato
primário ou secundário com cadáveres acontecia, com a excomunhão pela
desobediência (19.14-22).
VI. A volta de Israel para Cades encerra o ciclo de punição e estabelece o estágio de
preparação para a conquista de Canaã (20.1–22.1).
A. Miriã morreu e foi sepultada em Cades, depois que os israelitas completaram o ciclo de
peregrinação (20.1).
B. A nova murmuração de Israel contra Yahweh levou Moisés a um orgulho pecaminoso e a
roubar de Yahweh a glória devida a Ele por suprir Seu povo (20.2-13).
1. A murmuração pela falta de água continua a mesma depois de 38 anos de disciplina divina
(20.2-5).
2. A provisão graciosa e paciente de Yahweh exigia que Moisés falasse àquela rocha, que daria a
água necessária (20.6-8).
3. O ato de arrogância de Moisés trouxe honra sobre si mesmo e sobre Arão ao bater duas vezes
na rocha (20.9-11).
4. A disciplina de Yahweh foi a exclusão de Moisés e de Arão de Canaã (20.12, 13).
C. Edom recusa o pedido de Israel para passar pelo meio de seu território [forçando, portanto,
Israel a caminhar ao longo do lado sudoeste do mar Morto] (20.14-20).
1. O pedido de seguir pela estrada do rei é rejeitado, a despeito de seu apelo de fraternidade
(20.14-17).
2. O pedido de seguir pela estrada do rei e pagar pela água consumida é respondido com uma
demonstração militar por parte de Edom (20.18-20).
3. Israel decide seguir por uma rota mais longa (20.21).
D. A disciplina de morte de Yahweh antes de Canaã vem sobre Arão, à medida que os israelitas
chegam ao monte Hor, onde o sumo sacerdócio é transferido a seu filho, Eleazar (20.22-
29).
E. A primeira vitória militar da fase de conquista de Israel acontece contra Arade, que é
consagrada à destruição (21.1-3). Isso implica em uma mudança nos planos,
marchando em direção norte e tentando entrar em Canaã pelo sul.
F. A punição das serpentes venenosas contra a nova murmuração de Israel, possivelmente
motivada por uma nova mudança de percurso (para o sudeste, novamente), ensina a
Israel uma lição de dependência para com Yahweh (21.4-9).
1. A queixa de Israel mostra o contínuo desprezo da nação por Deus e por Sua provisão (21.4, 5).
2. A reação de Yahweh à murmuração contra o pão do céu é a experiência da morte no deserto
por meio das serpentes venenosas (21.6).
3. A intercessão de Moisés dá a Israel um meio de escapar da morte, ao confiar em Yahweh
quando olhasse para o símbolo de seu pecado, uma serpente de bronze (21.7-9).
G. Israel desloca-se com sucesso por Moabe, onde encontra água, e chega à fronteira do
território dos amorreus (21.10-20).
H. Os reis amorreus são derrotados por Moisés e Israel conquista o território deles (21.21-35).
1. O ataque de Siom contra os israelitas transforma-se em derrota e seu território é destruído
(21.21-31).
2. O ataque de Ogue contra os israelitas se transforma em derrota e seu território é destruído
(21.32-35).
I. A peregrinação disciplinar de Israel se encerra nas planícies de Moabe, para além do
Jordão, perto de Jericó, à vista da Terra Prometida (22.1).
PARTE III – PREPARAÇÃO NA TRANSJORDÂNIA (22.2–36.13)
O compromisso de Yahweh em estabelecer Israel na Terra Prometida é demonstrado
na proteção contra maldições, punição por traição, nas provisões para a vida e para a
vitória e na preparação para a ocupação.
I. O compromisso de Yahweh em estabelecer Israel na Terra Prometida é demonstrado na
proteção contra maldições (22.2–24.24).
A. O medo que Moabe tinha de Israel leva Balaque a pedir ajuda a um adivinho da Mesopotâmia,
chamado Balaão, conhecido por ser eficiente em suas predições de destino (22.2-20).
• O medo de Moabe é motivado pelo triunfo devastador de Israel sobre os amorreus (22.2-4).
• Os primeiros mensageiros de Balaque relatam a situação e pagam os honorários (22.5-7).
• A revelação de Yahweh a Balaão de que Israel não podia ser amaldiçoado porque era uma nação
abençoada faz com que ele rejeite os mensageiros de Balaque (22.8-13).
• Os próximos mensageiros de Balaque têm êxito em levá-lo a Moabe, depois que Deus permite que
ele vá apenas na condição de ser somente Seu porta-voz (22.14-20).
B. As emoções conflitantes de Balaão são confrontadas por Yahweh, quando Seu anjo corrige o
profeta pagão por meio de sua jumenta (22.21-35).
1. A aparição do anjo para a jumenta antes que Balaão perceba Sua presença revela a cegueira do
coração do adivinho (22.21-27).
2. O acontecimento incomum de uma jumenta falar sacode Balaão em sua duplicidade espiritual
quando o anjo ordena que ele fale apenas o que recebeu de Yahweh (22.28-35).
C. Balaão é recebido com grandes honras por Balaque, mas anuncia sua condição como porta-
voz de Deus (22.36-41).
D. Os oráculos de Balaão confirmam as antigas bênçãos de Yahweh para Israel, em lugar de
amaldiçoar a nação escolhida (23.1–24.24).
1. O trabalho de Balaão é precedido de um ritual de adivinhação (23.1-6).
2. O primeiro oráculo de Balaão confirma a promessa de crescimento de Israel, como um povo
separado (23.7-12).
3. A nova tentativa de Balaque de amaldiçoar Israel leva ao segundo oráculo de Balaão, no qual
ele confirma a promessa de segurança e triunfo para Israel (23.13-26).
4. A terceira tentativa de Balaque de amaldiçoar a Israel leva ao terceiro oráculo de Balaão, no
qual ele confirma as promessas a Israel de prosperidade e vitória diante dos reis (23.27–
24.9).
5. A irritação final de Balaque por sua incapacidade de amaldiçoar a Israel leva Balaão ao quarto
oráculo, no qual ele prediz a vinda de um poderoso governante em Israel, que
conquistará Moabe e Edom (24.10-19).
6. Os últimos três oráculos de Balaão descrevem a derrota definitiva das outras nações que teriam
contato com Israel (24.20-25).
II. O compromisso de Yahweh em estabelecer Israel na Terra Prometida é demonstrado na
punição que elimina os culpados de traição à aliança (25.1-18).
A. A violação da aliança em Israel por meio da adoração idólatra imoral a um Baal midianita
traz a ira de Yahweh sobre eles (25.1-3).
B. O juízo de Yahweh exigido pela aliança é uma praga que cessaria apenas com a execução
dos líderes da traição (25.4, 5).
C. O zelo de Finéias em punir o pecado patente de um líder simeonita traz sobre ele o
reconhecimento nacional, pois seu ato fez com que a praga, depois de matar 24 mil
pessoas, cessasse (25.6-15).
D. O juízo de Yahweh sobre os midianitas exige que Israel os extermine como a inimigos em
razão de sua tentativa enganosa para destruir a Israel (25.16-18).
III. O compromisso de Yahweh em estabelecer Israel na Terra Prometida é demonstrado nas
provisões para a vida e para a vitória (26.1–30.16).
A. O censo da nova geração mostra que Yahweh foi fiel ao preservar Israel durante todas as
peregrinações pelo deserto (26.1-51).
B. A terra de Canaã deveria ser distribuída por sorteio às tribos purificadas por sorteio, de
acordo com suas populações, com exceção dos levitas (26.52-65).
C. A legislação para assegurar que as mulheres possam preservar a linhagem de seu clã, ao
herdar a porção de terra de seus pais mortos, é instituída (27.1-11).
D. A provisão de um novo líder é feita na pessoa de Josué, que levará Israel até Canaã (27.12-
22).
1. Moisés é relembrado da razão da perda de seu privilégio com respeito a Canaã (27.12-14).
2. Josué é escolhido em resposta à solicitação de Moisés, com a exigência de que parte da
autoridade seja transmitida imediatamente (27.15-21).
3. Josué é oficialmente comissionado como o novo líder (27.22, 23).
E. Um novo conjunto de instruções é dado para o funcionamento do sistema sacrificial na terra
(28.1–29.40).
1. As ofertas diárias, representando a consagração de Israel a Yahweh, eram duas ofertas
queimadas com ofertas complementares de cereais e vinho (28.1-8).
2. A oferta de Sábado exigia quatro ofertas queimadas e seus acompanhamentos (28.9, 10).
3. As ofertas da Lua Nova exigiam uma oferta pelo pecado e dez animais perfeitos para os
holocaustos, com o devido acompanhamento de cereais e vinho (28.11-15).
4. As festas religiosas exigiam ofertas especiais além das ofertas diárias (28.16–28.40).
• As ofertas especiais na Páscoa e pães ázimos incluíam holocaustos diários de dez animais, com o
devido acompanhamento de cereais e vinho, além das ofertas diárias (28.16-25).
• As ofertas especiais na Festa das Semanas exigiam uma oferta pelo pecado e dez holocaustos com
seu devido acompanhamento de ofertas de cereais, além dos sacrifícios normais (28.26-
31).
• As ofertas especiais na Festa das Trombetas incluíam uma oferta pelo pecado e nove animais para
os holocaustos, com seus acompanhamentos de ofertas de cereais, além dos sacrifícios
diários e da lua nova (29.1-6).
• As ofertas especiais no Dia da Expiação incluíam uma oferta pelo pecado, mais nove animais para
os holocaustos, com seu acompanhamento de oferta de cereais, além dos sacrifícios
diários normais e de expiação (29.7-11).
• As ofertas especiais na Festa dos tabernáculos incluem uma escala descendente para o número de
holocaustos [de 29 no primeiro dia até 23 no sétimo dia] com seu devido
acompanhamento de ofertas de cereal e bebida, além dos sacrifícios normais (29.12-40).
F. Os votos individuais ao Senhor devem ser levados a sério pela comunidade israelita (30.1-
16).
1. O voto de um homem era inviolável (30.1, 2).
2. O voto de uma filha solteira poderia ser anulado por seu pai (30.3-5).
3. O voto de uma mulher casada poderia ser anulado por seu marido (30.6-8).
4. O voto de uma mulher viúva ou divorciada é inviolável (30.9).
5. A responsabilidade do marido é de agir prontamente no caso da anulação de um voto da esposa,
ou ele será responsabilizado por aquele voto (30.10-16).
IV. O compromisso de Yahweh em estabelecer Israel na Terra Prometida é demonstrado na
preparação para a ocupação (31.1–36.13).
A. Israel recebe a ordem de destruir os traidores midianitas em uma guerra santa, preparando-se
para entrar em Canaã (31.1-54).
1. Midiã é destruída de acordo com a ordem de Deus (31.1-18).
• O propósito da guerra contra Midiã é vingar a honra de Yahweh em Israel (31.1-6).
• A vitória de Israel sobre Midiã foi completa, incluindo o inconstante Balaão (31.7-12).
• A execução de todos os homens e de todas as mulheres não-virgens foi exigida pelo risco de uma
nova contaminação (31.13-18).
2. A batalha contra Midiã ofereceu a oportunidade de reforçar as leis acerca da purificação após
uma batalha (31.19-24).
• O homem que tivesse matado na batalha ou mesmo tocado um cadáver tinha de seguir o processo
de sete dias de purificação para ele mesmo e para seus prisioneiros (31.19, 20).
• Os objetos capturados deveriam ser cerimonialmente purificados por meio do fogo ou da água da
purificação (31.21-24).
3. A batalha contra Midiã ofereceu a oportunidade de reforçar as leis acerca da divisão dos
despojos de guerra (31.25-54).
• A totalidade dos despojos seria dividida pela metade entre os guerreiros que lutaram e o resto do
povo (31.25-27).
• Os guerreiros deveriam contribuir com 1/500 de seus despojos para o Senhor (31.28, 29).
• Os israelitas deveriam contribuir com 1/50 de seus despojos para o serviço dos levitas (31.30, 31).
• Os números referentes ao despojo de Midiã são apresentados (31.32-47).
• Os oficiais do exército que destruiu Midiã ofereceram uma oferta considerável para o tabernáculo
(31.48-54).
B. O estabelecimento de duas tribos e meia é autorizado como parte do cumprimento da
promessa, desde que as tribos orientais permaneçam fiéis à aliança e ajudem seus
irmãos a conquistar o outro lado (32.1-42).
1. A razão para o pedido de estabelecimento na Transjordânia é a adaptabilidade daquela região
para a criação de gado (32.1-5).
2. A ira relutante de Moisés reflete o perigo de outra Cades na vida de Israel (32.6-15).
3. O compromisso das tribos orientais com a conquista de toda a Canaã ganha a aprovação de
Moisés e as autoriza a estabelecer suas famílias antes de continuar caminhando com o
restante do exército (32.16-32).
4. A herança das tribos orientais é descrita (32.33-42).
C. O registro do fracasso de Israel nos seus 40 anos de peregrinação no deserto fornece um
pano de fundo e a motivação para obedecer aos mandamentos de Yahweh acerca da
conquista (33.1-56).
1. A rota de peregrinação de Israel é apresentada (33.1-49).
• Do Egito ao Sinai (33.1-15).
• Do Sinai até Cades (33.16, 17).
• De Cades para o deserto e a volta a Cades (33.18-36).
• De Cades até Moabe (33.37-49).
2. Os mandamentos de Deus para Israel, para não sofrer a punição divina, eram de expulsar
totalmente os habitantes, destruir radicalmente sua religião e dividir a terra de forma
apropriada (33.50-56).
D. As instruções relativas à divisão da terra cobrem a definição de suas fronteiras, a provisão
para os levitas e a legislação acerca das cidades de refúgio (34.1–35.34).
1. As fronteiras da Terra Prometida são definidas e os líderes para dirigir a distribuição são
nomeados (34.1-29).
2. A herança dos levitas compreendia 48 cidades espalhadas por Canaã, das quais seis deveriam
servir como cidades de refúgio (35.1-34).
• A provisão para os levitas é fornecida em Israel por meio das cidades dos levitas (35.1-6).
• Seis das cidades dos levitas serviriam de cidades de refúgio, para impedir a contaminação da terra
com derramamento de sangue em casos de homicídio não doloso (35.7-15).
• Os assassinos não tinham provisão para sua proteção (35.16-21).
• As provisões acerca das cidades de refúgio e a punição de crimes capitais revelam a santidade da
vida aos olhos de Yahweh e Sua preocupação por uma terra descontaminada de crimes
(35.22-34).
E. A instrução acerca do casamento das herdeiras dentro de seus próprios clãs revela o desejo
de Yahweh pela estabilidade dentro da comunidade de Israel em Canaã (36.1-12).
1. A regulamentação normal do casamento torna-se uma preocupação, pois ele pode alterar a
posse da terra se uma herdeira se casar fora de sua tribo (36.1-4).
2. O caso das filhas de Zelofeade, de que herdeiras poderiam se casar apenas dentro de seu
próprio clã para evitar a instabilidade (36.5-9), é transformado em lei.
3. As filhas de Zelofeade submetem-se à legislação (36.10-12).
F. Epílogo – As últimas instruções de Moisés em Moabe foram dadas por Yahweh (36.13).
O argumento de
DEUTERONÔMIO
Questões introdutórias
TÍTULO
O título hebraico deste livro é ‫ ֶאלֵהֹהַדְּ ב ִָׁרים‬, (ʾellē ḏdeḇārîm) (―estas são as
palavras‖) e aponta para a revelação final recebida pelo grande legislador de Israel
quando a nação se aproximava de seu objetivo de entrar na Terra Prometida. O título em
português é uma transliteração do título grego, dado pelos tradutores da Septuaginta,
Δεύηεπορ νόμορ (deuteros nomos), que significa ―segunda lei‖. O nome não é
apropriado, pois derivou-se de uma tradução errada de 17.18, em que a expressão ֹ‫שנֶה‬ ְּ ‫ִׁמ‬
‫ַּתֹורהֹהַזא ֹת‬
ָ ‫( ה‬mišne ṯtôr zzōʾṯ) deveria ter sido traduzida por ―uma repetição
desta lei‖.
Apesar deste detalhe técnico, o título é em parte correto, pois se Deuteronômio não é
uma segunda lei em espécie, é ainda, em parte, repetição, em parte, expansão, em parte,
condensação e, em parte, adaptação de legislação anterior tendo em vista um novo Sitz
im Leben (―situação de vida‖) na história da nação.
AUTORIA E DATA
Deuteronômio tem sido um dos livros mais atacados com respeito à autoria mosaica
nos últimos 150 anos. Apesar de Deuteronômio dar evidência de que foi escrito por
Moisés (cf. 1.5; 31.9, 24), apesar de o Antigo Testamento (veja 1 Rs 8.53; 2 Rs 14.6) e o
Novo Testamento (cf. Mt 19.7, 8; At 3.22, 23; Rm 10.19) afirmar Moisés como seu
autor, apesar de as tradições hebraica e cristã apoiar maciçamente a autoria mosaica, os
críticos racionalistas, a partir do século 19, têm afirmado que Deuteronômio é uma
―fraude piedosa‖, produzida no século 7 a.C.por reformistas de Judá, que teriam usado o
livro para dar ímpeto às reformas religiosas de Josias, legitimizando e impondo
Jerusalém como o único santuário aceitável em Israel. Afirmam que o tal ―livro da lei‖
mencionado em 2 Reis 22 era um documento recente, impingido à nação como obra
mosaica.
Observações mais recentes levaram alguns a adotar a idéia de que Deuteronômio pode
ter sido o resultado das reformas de Josias, não a causa delas, ao passo que outros
argumentam a favor de uma origem no reino do Norte, com base em supostas
semelhanças entre Deuteronômio e Oséias, enquanto uma proposta mais radical sugere
que o livro é pós-exílico.1 A ampla divergência quanto às datas e a incerteza
generalizada quanto ao que constituía o ―livro da lei‖, mencionado em 2 Reis 22,
apontam para a falta de confiabilidade de tais teorias.
Os eruditos, mais recentemente, ―afirmam que muito do material de Deuteronômio é
bem mais antigo do que o século 7 a.C. e muitos insistiriam em um tipo de
reformulação editorial bem mais recente que o sétimo século‖.2 O mesmo autor admite

1
LaSor et al, Introdução ao Antigo Testamento, p. 126.
2
B. S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture, pp. 205-206.
que ―o estado altamente fluido da pesquisa não dá sinais de encaminhar-se para um
consenso‖.3
Em resposta a tais idéias, parece claro que se Deuteronômio foi uma ―fraude piedosa‖
projetada para legitimar Jerusalém como santuário único, seu autor fez um péssimo
trabalho, pois a cidade jamais é mencionada no livro. Ao contrário, Deuteronômio
prescreve a construção de um altar no monte Ebal, na região de Samária, rival de
Jerusalém, e a celebração da renovação da aliança ali!
Moshe Weinfeld, que argumentou em favor de uma data no século 7 a.C. com base em
semelhanças entre os tratados assírios de suserania,4 não foi capaz de apresentar
evidências que contradissessem três observações sobre o assunto: (1) os tratados antigos
mencionavam testemunhas divinas entre as estipulações e maldições, ao passo que
tratados do primeiro milênio não o fazem; (2) a ausência do prólogo histórico nos
tratados do primeiro milênio contrasta com o uso que Deuteronômio faz de tal prólogo,
como os documentos do segundo milênio; (3) documentos mais antigos contêm a
divisão dedicada às bênçãos, ao passo que documentos mais recentes não o têm.
Assim, não se ofereceu ainda explicação razoável para o fato de que Deuteronômio se
assemelhe tanto aos tratados de suserania do segundo milênio a.C., e não aos do
primeiro milênio, período em que os críticos tentam localizar o livro.5
A autoria mosaica e uma data no início de 1405 a.C.(cf. Dt 1.3) são aqui adotadas com
a ressalva de que houve um mínimo de atividade editorial, provavelmente ainda no
tempo de Josué (cf. Dt 2.10-12 e o relato da morte de Moisés cf. Dt 34).
UNIDADE
O conceito da unidade de Deuteronômio é um corolário da autoria mosaica. Quanto
mais o indivíduo se afasta da autoria mosaica, tanto menos verá a unidade do livro.
Os argumentos usuais contra a unidade são: a) a alternância entre a segunda pessoa do
singular e a segunda pessoa do plural nos verbos, pronomes e sufixos pronominais no
hebraico, e b) a duplicação de títulos e introduções. Um provável arranjo do livro de
acordo com tal ponto de vista seria o seguinte:

O deuteronômio Passagens na segunda pessoa do singular nos capítulos 5 a 26


original mais partes do capítulo 28.
Expansões do capítulo 28 e inclusão do capítulo 30 depois da
Primeira adição
destruição de Jerusalém (586 a.C.).
Inclusão da moldura histórica (capítulos 1–3; 4; partes de 31 e
Segunda adição
34.
Passagens na segunda pessoa do plural e capítulos 27 e 29 são
Terceira adição
acrescentados.
Quarta adição Inclusão dos capítulos 32 e 33; adições ao capítulo 31.
O uso alternado de verbos e pronomes no singular e no plural é facilmente explicado
pela natureza sermônica do material, como também pela liberdade de expressão de que
3
Ibid, p. 208.
4
Moshe Weinfeld, Deuteronomy and the Deuteronomic School, pp. 59-157.
5
Verificar Kenneth Kitchen, Ancient Orient and Old Testament, pp. 95ss., em que o autor
inglês refuta os argumentos recentes de Moshe Weinfeld, que tentou provar a semelhança
com os tratados de suserania encontrados na Assíria. O livro de Deuteronômio se assemelha
mais aos tratados hititas da metade do segundo milênio a.C.
o orador pode fazer uso. Além disso, é de esperar que um documento forjado, no qual
o(s) autor(es) tem (têm) de esconder seu estilo, fosse mais coerente do que uma obra
original.
As várias introduções ou títulos (1.1; 4.44; 6.1; 12.1) podem apontar para sumários
iniciais, ou prévias, das divisões que se seguem, também adequado à tendência dos bons
oradores para enfatizar a natureza e origem dos assuntos que desejam comunicar a sua
audiência.
Estudos sobre os tratados de suserania do Oriente Médio no segundo milênio a.C.
influenciaram muitos a adotar um respeito maior por uma autoria mosaica, única, de
Deuteronômio. Assim, combinando conteúdo exortativo com a forma estruturada do
tratado de suserania, Moisés conseguiu uma descrição, explicação e imposição
hortatória do conteúdo mais essencial da revelação pactual e das leis da aliança, com
enfática proeminência dada ao princípio espiritual da lei e ao seu cumprimento, com um
desenvolvimento adicional da organização eclesiástica, judicial, política e civil, que
tinha como propósito fornecer um alicerce permanente para a vida e o bem-estar do
povo na terra de Canaã.6
CONTEXTO HISTÓRICO
O contexto histórico é praticamente idêntico ao de Números, com a adição de alguns
incidentes adicionais:

15 de Nisã, 1445 a.C. Israel deixa o Egito (Êx 12.37)


15 de Sivã, 1445 a.C. Israel acampa junto ao monte Sinai (Êx 19.1).
1 de Nisã, 1444 a.C. O tabernáculo é levantado no Sinai (Êx 40.17).
8 de Nisã, 1444 a.C. Arão e seus filhos são consagrados (Lv 9.1).
14 de Nisã, 1444 a.C. A Páscoa é celebrada no Sinai (Nm 9.4).
1 de Iyyar, 1444 a.C. O censo de Israel é ordenado (Nm 1.1, 2).
14 de Iyyar, 1444
A Páscoa adicional é celebrada (Nm 9.11).
a.C.
20 de Iyyar, 1444
Israel parte do Sinai (Nm 10.11).
a.C.
Nisã 1406 a.C. Israel chega ao deserto de Zim (Nm 20.1; 33.36-38).
1 de Ab, 1406 a.C. Morte de Arão (Nm 33.36).
Outono de 1406 a.C. Israel conquista a Margem Leste dos amorreus (Nm 21.21-35).
1 de Shebat, 1405
Moisés profere o primeiro sermão deuteronômico (Dt 1.3).
a.C.
? de Adar, 1405 a.C. Moisés morre no monte Nebo (Dt 34.5-8).
14 de Nisã, 1404 a.C. Os israelitas comem a Páscoa em Canaã (Js 5.10-12).
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Forma
Em nenhum outro livro do Pentateuco a forma literária é tão significativa para a
determinação da mensagem e a compreensão da teologia quanto em Deuteronômio. O
fato de o livro estar disposto segundo os padrões dos tratados de suserania revela que
uma das preocupações do autor foi enfatizar o caráter e as ações de Deus, como
autoridade suprema, e as responsabilidades de Israel, como vassalo, bem como as
promessas que Yahweh se obrigava a cumprir a favor de Israel caso o povo escolhido

6
C. F. Keil e F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, 1:3:270
permanecesse fiel ao compromisso assumido no Sinai, o qual Deuteronômio evocava e
atualizava.
Os dois quadros a seguir estabelecem uma comparação entre o tratado de suserania
típico do segundo milênio a.C.e Deuteronômio.

Deuteronômio Tratados de suserania do segundo


Título (1.1) milênio
Preâmbulo Histórico (1.1-5) Título
Prólogo Histórico (1.6–4.43) Prólogo Histórico
Estipulações da Aliança (4.44–26.19) Leis e Estipulações
Renovação da Aliança, Bênçãos e Maldições Colocação do Documento
(27.1–29.1) Leitura do Documento
Resumo das Exigências da Aliança (29.2– Invocação das Testemunhas
30.20) Bênçãos e Maldições
Provisão para a Transição (31.1–34.12) Sanções da Cerimônia de Votos
Em Deuteronômio, as estipulações da aliança foram divididas em estipulações gerais
(5.1–11.32) e específicas (12.1–26.19). As provisões para a transição, que nos tratados
seculares lidavam com a continuidade da lealdade do vassalo para com o herdeiro do
suserano, descrevem a herança espiritual de Josué, os papéis de mediador da aliança e
de representante da nação, que até esse momento haviam pertencido a Moisés (31.1-8).
Em lugar das sanções da cerimônia dos votos, Deuteronômio contém as bênçãos de
Moisés sobre as doze tribos, as quais foram consideradas proféticas e tinham a força
legal de um testamento (33.1-29). O livro termina com o obituário de Moisés, algo
necessário para dar validade ao testamento espiritual (34.1-12; cf. Hb 9.16, 17).
Mensagem
Deuteronômio foi a fonte maior das exortações proféticas para que Israel fosse fiel a
Deus. Os profetas bíblicos entenderam bem a mensagem do livro, que foi:
Um amor leal a Yahweh, expresso em obediência à aliança, é o requisito essencial
para a prosperidade e a permanência na Terra Prometida.
A teologia de Deuteronômio
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Eugene Merrill indicou que Deus utilizou, como principal instrumento para Sua auto-
revelação, Seus atos poderosos, eventos históricos que a comunidade da fé pôde
reconhecer como divinos. Ele afirma: ―Enquanto que no Antigo Testamento o ato
fundamental de Deus é a própria criação, aqui o assunto é menos cósmico; o foco de
Deuteronômio não são as preocupações universais de Deus, mas Seus propósitos
especiais para Seu povo‖.7
Essa concentração no relacionamento suserano-vassalo sem dúvida contribuiu para
que Deuteronômio se tornasse um favorito entre o povo de Israel, o livro mais citado,
tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O Senhor Jesus citou Deuteronômio para
triunfar sobre Satanás (Mt 4.1-11) e para defender Sua autoridade messiânica, ao definir
qual a parte mais importante da Lei (Mt 22.34-40).
O livro é a fonte de exortações proféticas no Antigo Testamento, o parâmetro pelo
qual a sociedade de Israel era medida e, na maioria das vezes, condenada. Acima de

7
Eugene H. Merrill, “A Theology of the Pentateuch”, em A Biblical Theology of the Old
Testament, p. 63.
tudo, porém, Deuteronômio foi fundamental para a geração que crescera no deserto e
precisava pensar corretamente a respeito de Yahweh, para obedecer-Lhe na hora crítica
da conquista e desfrutar as bênçãos divinas na Terra Prometida.
Yahweh está próximo
Este conceito é apresentado quando Israel recebe a ordem de obedecer aos decretos de
Yahweh (cap. 4). A proximidade de Deus é relacionada tanto à oração quanto à
obediência, de modo que Israel pudesse entender que a presença de glória de Yahweh
em seu acampamento, ou melhor, agora na terra, tornava-O acessível em graça e
misericórdia apenas quando a obediência era o estilo de vida da nação.
A proximidade de Yahweh era entendida por intermédio das teofanias, que
―contribuíam para a Sua aura de majestade e poder e, portanto, persuadiam o povo de
Sua dignidade e autoridade‖ 8. Quase sem exceção, essa manifestação se dava por meio
de fogo e escuridão (cf. 1.33; 4.11, 2, 33, 36; 9.10, 15; 33.2). O fogo falava de poder e
imanência, da possibilidade de Yahweh ser conhecido, ainda que parcialmente. A
escuridão lembrava que Ele ainda era um Deus misterioso, que o homem era incapaz de
absorver e controlar. Em boa linguagem teológica, Yahweh era o Deus absconditus.
Yahweh é singular
O famoso dito hebreu ‫( שְּ מַעֹיִׁש ְָּראֵלֹיהוהֹאֱֹלהֵינוֹיהוהֹ ֶאחָד‬šem ʿyiśrāʾēl ʾăḏōnāy
ʾĕlô ênû ʾăḏōnāy ʾeḥāḏ, ―Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor‖), o
credo compacto de Israel (6.4), tem sido de há muito objeto de grande debate. Alguns
entendem o versículo como uma afirmação da unidade de Deus (que Ele é um),
enquanto outros falam de sua unicidade (que Ele é um só). Os hebreus, entretanto,
tinham mais em vista a singularidade de Deus (isto é, que Ele não tinha igual); seu Deus
era um Deus único, sem igual, sem paralelo, que jamais poderia ser igualado,
comparado ou emulado. Esse versículo parece ter sido um antídoto, ou melhor, uma
vacina contra o sincretismo que infestava Canaã. Não havia possibilidade de associação
entre Yahweh e Baal; Yahweh era singular e nenhuma confusão se deveria fazer entre
Ele e os falsos deuses das nações que circundavam Israel.
Sob outro ângulo, Deuteronômio 4.15-19 distingue Yahweh de Sua criação. Em 10.14,
Deus é designado como possuidor dos corpos celestes adorados pelos vizinhos pagãos
de Israel. Deuteronômio 12.4 proíbe a adaptação, a contextualização, por assim dizer, de
Yahweh e Seu culto às práticas corruptas e corruptoras dos cananeus (cf. ainda 12.29-
32). O sincretismo na adoração levaria inevitavelmente à confusão com respeito à
natureza e caráter de Yahweh, e isto à corrupção moral, que acabaria por trazer a
disciplina prevista na aliança.
Yahweh é ciumento
Este atributo divino manifesta-se mais claramente quando se trata de repartir com
qualquer outro deus seu lugar peculiar de devoção no coração de Seu povo. O capítulo 4
indica que desde o principio Yahweh admoestara Israel a não tratar levianamente Seu
zelo por Sua honra e reputação. A idolatria era zombaria contra Yahweh e exigia castigo
e correção. Sua muita bondade era equilibrada por um zelo que não admitia competição
pela lealdade de Seu povo (cf. 4.24; 5.9; 6.15; 13.2-10; 29.20). O ciúme de Yahweh é
um subproduto direto de Sua singularidade (4.35; 6.4), e Israel não podia se beneficiar
de sua relação peculiar com Yahweh enquanto negava a singularidade do Deus ao Qual
alegava estar relacionado em aliança.
Yahweh é amoroso

8
Ibid., p.64.
O amor é um conceito crucial em Deuteronômio, como também é o elemento que
mantém a aliança em funcionamento. O amor tem sua origem em Yahweh (4.37) e foi
expresso em um ato volitivo pelo qual Yahweh determinou relacionar-se a um povo e,
sem qualquer mérito da parte desse povo (cf. 7.7-11; 10.14-22), ativamente concretizar
aquilo que serviria para o seu bem último. Isso incluía tanto libertação quanto disciplina
(cf. 4.20 e 8.5), tanto promessa quanto preceito (7.11-16).
O amor de Yahweh por Israel é descrito como um relacionamento entre pai e filho (cf.
1.31), bem à maneira em que eram redigidos os tratados entre suseranos e vassalos no
antigo Oriente Médio (cf. 2 Rs 16.7). Particularmente importante neste contexto era a
palavra hebraica ‫חסֶד‬ ֶ [ḥeseḏ] (―amor leal‖), um termo característico da aliança que
significa a fidedignidade pactual de Yahweh, o Deus que graciosamente se
comprometeu com o bem de Seus escolhidos (cf. 5.10; 7.9, 12; 33.8).
Este relacionamento exigia uma resposta volitiva que podia, como tal, ser ordenada
(6.5; 10.12; 11.1, 13), um amor que se expressava em obediência aos mandamentos de
Yahweh (6.1, 17; 7.11; 8.1) e envolvia a pessoa como um todo (6.5) e toda a
comunidade (29.17[18]; cf. Hb 12.15). A mesma reação foi exigida pelo Senhor Jesus
Cristo. ―Se me amardes, guardareis os meus mandamentos‖ (Jo 14.15).
Yahweh disciplina Seu povo
O livro de Deuteronômio está repleto de referências à disciplina divina. A própria
experiência de Moisés, resultado de seu ato de arrogância, é relatada diversas vezes
como prova inquestionável de que Israel não escaparia ileso caso se desviasse do
caminho pactual que fora apresentado à nação. Bênção (às vezes identificada como
vida) e maldição (ou morte) eram alternativas que Yahweh não apenas previu, mas
preordenou para Israel, prevendo cativeiro e exílio (caps. 4 e 28), mas também
restauração (4.29-31).
É importante observar, mais uma vez, que essa disciplina não é uma fúria caprichosa
em operação, mas a conseqüência de um acordo feito entre as duas partes de uma
aliança. Os termos da disciplina estavam relacionados às bênçãos propostas na aliança,
as quais eram a posse da terra e uma vida de fertilidade e produtividade ali. A
imutabilidade do caráter de Yahweh era a garantia de que ambas, bênção e disciplina,
aconteceriam, dependendo da resposta de Israel. Aquela geração, como também cada
geração subseqüente em Canaã, precisava obedecer aos preceitos da aliança mosaica
para desfrutar os benefícios temporais da aliança abraâmica. Caso contrário, seu destino
seria a disciplina de Yahweh.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
Por não conter trechos significativos de narrativa histórica, Deuteronômio não se
presta muito à análise das quatro linhas de intervenção divina na história, tendo em vista
o cumprimento do plano de restaurar a soberania mediada de Yahweh (cf. Gn 1.16-28).
Mesmo assim, traços desses temas encontram-se no livro, ao lado de outros aspectos
mais proeminentes.
A permissão do pecado
Embora haja referências esparsas sobre a presença do mal em Israel e entre os
habitantes de Canaã, a quem Israel desapossaria, é no capítulo 4 que mais fortemente se
percebe a realidade de que Yahweh soberanamente decide permitir o mal (incredulidade
e idolatria) e determina a punição e a restauração de Seu povo escolhido.
A promessa/ação de julgar o pecado
Yahweh, ao fazer a promessa da posse da terra a Abraão (Gn 15), afirmou que ainda
não se enchera a medida da iniqüidade dos moradores de Canaã. Mais de cinco séculos
depois, em Deuteronômio 7 a hora do ajuste de contas chegou para os cananeus e seus
vizinhos. O juízo severo seria administrado pelos israelitas invasores sob a forma de um
‫( ח ֶֶרם‬ḥerem, ―anátema‖ ou ―edito de aniquilamento‖), a destruição completa de algo ou
alguém como um ato de adoração a Yahweh (cf. 7.2).
Um detalhe que precisa ser observado é que o plano divino incluía um cronograma
relativamente extenso (7.22, 23), que, conforme a onisciência de Yahweh, antevia não
apenas a resistência dos cananeus, mas a própria incapacidade dos israelitas de confiar
plenamente em Yahweh para essa conquista.
O decreto de livramento para os/pelos eleitos
Em Sua função de suserano e com o compromisso assumido de fazer valer as
promessas feitas aos patriarcas, Yahweh liga o livramento para os eleitos com a sua
atividade disciplinadora. A libertação é parte do compromisso pactual para qualquer
ocasião histórica em que Israel, por ter rompido sua parte no acordo, venha a sofrer as
disciplinas da aliança e, reconhecendo seu erro, volte-se a Yahweh em arrependimento e
fé. Em Deuteronômio, Yahweh aparece como o Deus poderoso para salvar e desejoso
de assim fazer (4.34, 37; 5.15; 6.21,22; 7.19).
O decreto de abençoar os eleitos
Deuteronômio apresenta Yahweh como o Deus Redentor (5.6; 6.21-23; 7.8; 8.14;
13.5-10), que abençoa Seu povo com a libertação, e como o Deus Guerreiro (1.4, 30,
42; 2.15, 21, 22; 3.2, 3, 21, 22; 5.15; 7.1, 2; 9.3-5), que sai à frente de Seu povo e em
benefício deste realiza poderosos feitos, especialmente a conquista de Canaã (ainda fato
futuro, ao tempo em que o livro foi escrito).
A conquista da terra não era a única maneira pela qual Deus abençoaria Seu povo. As
conseqüências de uma vida obediente às estipulações da aliança seriam fartura e
fertilidade incomuns na Terra Prometida (6.10, 11; 7.13-15; 8.7-10; 11.14, 15; 14.29;
15.4, 6; 28.3-6, 11, 12; 29.5, 6), com abundância de chuvas, colheitas fartas, saúde e
vitalidade.9
OUTROS TEMAS TEOLÓGICOS IMPORTANTES EM DEUTERONÔMIO
O código israelita de direitos humanos
Enquanto os códigos legais nas nações circunvizinhas davam pouco ou nenhum valor
à santidade e à qualidade da vida, a legislação da aliança, vinda do Autor da vida,
garantia a Israel um lugar único entre as nações, com um padrão que mesmo hoje é
difícil verificar na prática.
O quadro a seguir resume a legislação israelita sobre a vida humana.

1. A pessoa humana tinha valor altíssimo. O assassinato era um ataque contra a vida e
o autor da vida, merecendo, portanto, a pena capital (19.1-13, especialmente 11-13).
2. Calúnia e perjúrio eram ofensas capitais, porque ameaçavam a integridade de
indivíduos e comunidades (19.15-21).
3. A condição de mulher era importante, e a mulher não devia ser violada em sua
personalidade e nos direitos que lhe cabiam no papel social para ela estabelecido (21.10-
17; 23.17; 21.25-29).
4. A dignidade humana não deveria ser perdida devido à pobreza (15.7-11), perda
temporária da liberdade (15.12-15), seqüestro (24.7), ou castigo corporal excessivo
(25.1-3).

9
Estudiosos da geografia e do clima da Palestina têm observado que tais condições
prevaleceram de maneira notável durante os reinados de Davi e de Salomão, decrescendo
depois. A correlação entre Deuteronômio e os livros de Samuel será enfatizada no tratamento
da literatura histórica.
5. Todo israelita era merecedor de salários decentes (24.14, 15), julgamentos justos
(16.18-20; 25.1), participação nas colheitas (23.24, 25; cf. Lv 19.9, 10), e posse da terra
segundo seu clã (19.14; cf. Lv 25.13-17).
6. O casamento devia ser protegido pela pureza pré-nupcial (22.13-21, 23, 24) e pela
fidelidade conjugal (21.10-17; 24.1-4). A instrução familiar sobre Yahweh e a Lei (6.5-
25) era a base da estabilidade nacional, que tinha prioridade sobre laços familiares
(21.18-21).
7. O meio-ambiente era propriedade de Yahweh e uma bênção a ser administrada com
respeito à terra (22.9; cf. Lv 25.4, 5, 23, 24), às plantas (20.19, 20) e aos animais (22.6,
7).
O CÓDIGO ISRAELITA DE DIREITOS HUMANOS

A continuidade da aliança
Duas partes do livro dizem respeito à continuidade da aliança entre Yahweh e Israel.
Nos capítulos 27 a 30, freqüentemente chamados de ―A Aliança Palestiniana‖,10 essa
questão visa a participação do povo, mas é atacada com a celebração de uma cerimônia
de ratificação a ser celebrada em Canaã (27.1-26; cf Js 8). Nessa cerimônia, as doze
tribos invocariam sobre si as maldições contidas no capítulo 28 (os itens mencionados
no capítulo 27 servem como amostra). Ali, Moisés define o que Israel podia esperar em
caso de desobediência à aliança, ratificada nos capítulos 29 e 30, para que Israel entre
em Canaã como povo compromissado com Deus.
A última grande divisão do livro lida com a continuidade da aliança do ponto de vista
de liderança. Ali Yahweh faz provisão para a continuidade da aliança sob uma nova
liderança (31.1-29) e sob a bênção do mediador original (31.30–33.29).
A bênção profética de Moisés resume a história futura da nação ao afirmar que a
inclinação natural de Israel para o mal o levaria a quebrar a aliança e a perder suas
bênçãos até que Yahweh o restaurasse a uma glória sem par, depois de discipliná-lo
com extremo rigor (31.30–32.47).
A bênção de Moisés o relaciona a Jacó, que também abençoara profeticamente as doze
tribos em seu leito de morte. Essa divisão termina com uma eulogia a Yahweh, o grande
herói do livro de Deuteronômio, por Sua condescendência em Se relacionar com Israel
(33.1-5) e por Seu caráter único, que garante o triunfo final de Israel (33.26-29).
Uma comparação entre as bênçãos de Jacó e de Moisés

Ordem na Ordem na
Ordem de Característica na Característica na
bênção de bênção de
nascimento bênção de Jacó bênção de Moisés
Jacó Moisés
Rúben 1 Impetuosidade 1 Fecundidade
Simeão 2 Violência - -
Levi 3 Violência 3 Aprovação divina
Judá 4 Domínio 2 Ajuda divina
Dã 7 Juízo torcido 9 Vigor e fúria
Naftali 10 Eloqüência 10 Bênção de Deus
Estratégia e
Gade 8 8 Fartura e coragem
coragem

10
Ou “Palestina”. Basicamente estes capítulos são uma aplicação da Aliança Mosaica ao
novo Sitz im Leben da nação na terra de Canaã.
Aser 9 Fartura 11 Fartura e segurança
Issacar 6 Força e serviço 7 Alegria
Zebulom 5 Comércio 6 Saída para o mar
José 11 Fecundidade 5 Fartura
Benjamim 12 Valentia 4 Proteção divina
Argumento básico
PROPÓSITO
Preparar Israel para desfrutar a prosperidade e permanência na Terra Prometida pelo
encorajamento do amor nacional a Yahweh por meio da obediência à Sua vontade,
conforme revelada na aliança.
DESENVOLVIMENTO
O livro começa com um preâmbulo (1.1-5), o qual apresenta Moisés como o mediador
da aliança e as circunstâncias (históricas e geográficas) em que essa mediação acontece.
Seguindo o padrão dos tratados de suserania, o prólogo histórico (1.6–4.43) apresenta
uma visão geral do relacionamento entre Yahweh, o Suserano, e Israel, o vassalo. Isso é
feito para o benefício da nova geração, cuja experiência com os eventos importantes de
Êxodo 12 a Números 25 não havia sido suficientemente profunda para oferecer uma
visão clara de quão admirável era o Deus de Israel e quanto a nação devia a Ele.
Assim, a jornada do Sinai (Horebe) e o estabelecimento do sistema jurídico de Israel
são recontados em 1.6-18. O restante do capítulo 1 é dedicado ao estrondoso fracasso da
geração do Êxodo após a missão dos doze espias (1.19-33). A incredulidade, primeiro
(1.34-40), e a independência presunçosa, depois (1.41-46), contra Yahweh liquidaram
Israel.
Assim como em Números, os 38 anos de peregrinação no deserto são rapidamente
mencionados (2.1-3). Os versículos seguintes descrevem os eventos relacionados ao fim
daquele período, quando Israel se aproxima da região do mar Morto, onde as nações
aparentadas (Edom, Moabe e Amom) deveriam ser respeitadas (2.4-23).
As vitórias militares de Israel sobre os amorreus, nas quais a geração do deserto
certamente teve grande parte, são recapituladas em 2.24–3.11. A distribuição dos
territórios amorreus às tribos da Transjordânia (3.12-20) é um elemento importante no
prólogo histórico já que ele oferece uma garantia tangível de que as promessas
certamente se cumpririam para aquela geração. De outro lado, a proibição da entrada de
Canaã por Yahweh para alguém tão grande quanto Moisés (3.21-29) é um forte
argumento em favor da perseverança em obediência, à qual Israel é exortado no capítulo
4.
A parte final do prólogo histórico é a exortação de Moisés (4.1-14) para a geração do
deserto, à luz do poder assombroso da ira de Deus que haviam experimentado em
primeira mão em Bete-Peor (4.1-4). Outras razões para a obediência são a proximidade
de Yahweh e a natureza justa das leis que Israel dEle recebera (4.8).
A maior ameaça à obediência seria a idolatria, tão dominante em Canaã e tão
corruptora em sua influência que levaria Israel a abandonar a aliança e a sofrer sua
disciplina (4.15-31). Israel é relembrado da profundidade e amplitude de seus
privilégios como incentivo final à obediência (4.32-40).
Em vez de olhar 4.41-43 como um pedaço de legislação fora de lugar, como faz a
maioria dos comentaristas, é melhor ver essa passagem como uma nota cronológica para
indicar exatamente quando esses discursos foram pronunciados. O segundo discurso, as
estipulações da aliança, dadas a Israel na época em que a terra a leste do Jordão foi
distribuída às duas tribos e meia.
Após uma nota introdutória (4.44-49), os capítulos 5 a 26 contêm as obrigações
impostas a Israel em virtude de seu consentimento em tornar-se vassalo de Yahweh.
Essas são divididas normalmente em estipulações gerais ou básicas (caps. 5–11), sendo
relacionadas à necessidade de obediência a Yahweh e às estipulações específicas ou
detalhadas (caps. 12–26), as quais se relacionavam à forma ou ao modo da obediência.
Em resumo, os capítulos 5–11 dizem a Israel o da obediência a Yahweh, e os capítulos
12–26 dizem como.
A primeira parte dessa divisão contém a reiteração dos Dez Mandamentos (5.1-21) e
um anúncio histórico sobre o pedido da nação para que Moisés agisse como mediador
da aliança (5.22, 33). O requerimento fundamental é de que a nação corresponda à
singularidade de seu Deus com devoção singular a Yahweh (6.1-8), apegando-se a Ele
enquanto desfrutam a prosperidade (6.10-12), afastando-se de outros deuses (6.13-19) e
passando o conhecimento e temor de Yahweh às futuras gerações (6.20-25).
O caráter de Deus e Sua escolha amorosa por Israel são apresentados como as razões
por que Israel deveria se abster de associação política, social e religiosa com os
habitantes de Canaã; na verdade, eles deveriam ser banidos (em hebraico, ‫ח ֶֶרם‬, 7.1-10).
A exortação à obediência cuidadosa é levantada em 7.11, com a motivação das bênçãos
da aliança – fertilidade, produtividade, saúde, vitória e paz, desde que a pureza da nação
diante de Yahweh fosse mantida (7.11-16). A obediência de Israel dependia da fé, e a fé
fundamentava-se no registro histórico dos grandes atos de salvação e julgamento do
passado (7.17-26).
No capítulo 8, Israel é prevenido contra o pecado da independência. Os 40 anos no
deserto tinham como objetivo ensinar a Israel como ser humilde e dependente do
Senhor para sua própria sobrevivência e também como reagir à disciplina paternal de
Yahweh (8.1-5). Esquecer os grandes milagres do deserto e presumir que pela sua
própria força eles haviam conquistado Canaã finalmente levariam à amnésia espiritual,
depois à idolatria e finalmente ao exílio da Terra Prometida (8.6-19).
A história era importante porque oferecia, por si mesma, todas as provas necessárias
para preservar Israel, quando chegasse a Canaã, do orgulho. A perversidade dos
cananeus e a promessa aos patriarcas foram as razões para a conquista (9.1-6); a
tragédia das grandes traições no Sinai (9.7-22) e em Cades-Barnéia (9.23-29), de outro
lado, provia provas suficientes da teimosia de Israel. A história, é verdade, também
oferece esperança no fato de que, apesar dessa infidelidade, Yahweh graciosamente
restaurou o status de Israel como Seu povo da aliança apresentando uma nova versão de
seu código de leis (10.1-6), consagrando a tribo de Levi ao ministério (10.7-9) e
considerando a intercessão ampla e intensa de Moisés (10.10, 11).
A última parte das estipulações gerais começa reiterando as exigências essenciais,
Temas o Senhor teu Deus, […] andes em todos os Seus caminhos, e o ames, e sirvas ao
Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, […] guardes os
mandamentos do Senhor, e os seus estatutos (10.12, 13), dando razões por que Israel
deveria fazê-lo: a escolha de Israel por Yahweh apesar do contraste entre a grandeza
deste e a insignificância daquele é a primeira razão (10.14, 15), seguida pelo caráter
santo, misericordioso e admirável de Yahweh (10.16-21) e pela Sua fidelidade às
promessas (10.22).
Os poderosos feitos do passado recente de Israel, tanto no Egito quanto no deserto
(11.1-7), são dados como motivação para a observância cuidadosa das prescrições (que
Moisés finalmente apresentará) para conseguir novas bênçãos relacionadas à Terra
Prometida e não se deixar enredar pela idolatria e suas terríveis conseqüências (11.8-
17). Fica claro, quando vemos as instruções quanto ao testemunho constante – seja oral,
seja escrito, seja visual – da natureza e significado dos mandamentos de Yahweh, que
essa obediência não viria facilmente (11.18-25). Israel precisaria de uma educação
ininterrupta através de suas gerações.
As estipulações gerais são concluídas com a seguinte escolha diante de Israel:
obediência que leva à vida e desobediência que leva à morte. Essa escolha é tão séria
que a nação foi instruída a transformá-la em um recurso visual de proporções
gigantescas em uma cerimônia de renovação pactual no monte Ebal e no monte Gerizim
(11.26-32).
As estipulações específicas (12.1–26.19) são relacionadas ao propósito do livro por
oferecer as diretrizes minuciosas pelas quais Israel poderia garantir fidelidade individual
e nacional que asseguraria prosperidade e alegria na Terra Prometida. A primeira área
da vida pactual a ser tratada era a religiosa ou cultual. Assuntos relacionados à adoração
são compreendidos entre 12.11 e 16.17.
Antes que Israel pudesse adorar a Yahweh condignamente era necessário remover o
perigo do sincretismo destruindo os ídolos cananeus e profanando seus ‫( בָמֹות‬bāmôṯ),
os lugares altos de culto (12.1-4). A adoração prestada por Israel deveria centralizar-se
no local designado por Yahweh (12.5-7). A maneira imperfeita de adorar que
prevalecera nos 40 anos de peregrinação deveria dar lugar aos rituais completos
prescritos por Moisés (12.8-14). Já que a vida em Canaã seria consideravelmente mais
abastada que no deserto, Israel deveria ser alertado de que essa nova abundância não
deveria degenerar-se em glutonaria irrestrita (e na idolatria em geral associada a ela). O
sangue continuaria a ser sagrado, derramado no chão, nunca ingerido, como memorial
do alto valor da vida aos olhos de Yahweh (12.15-25).
A limitação do sacrifício e da consagração a um lugar único visava poupar Israel dos
rituais horríveis praticados pelos cananeus e suas terríveis conseqüências; associação ou
mesmo curiosidade no presente poderia significar enredar-se no futuro (12.26-31).
Tão grande era o fascínio da idolatria que mais um capítulo é dedicado a alertar Israel
contra ele. O fascínio da idolatria deveria ser evitado e punido, vindo de fonte religiosa
(13.1-5), ou mesmo familiar (13.6-11). A pronta punição é o melhor freio para a
idolatria. Mesmo comunidades inteiras não deveriam ser poupadas em caso de idolatria,
já que seu pecado seria a fonte da ira de Yahweh (13.12-18).
Os capítulos 14 e 15 apresentam uma variedade de leis rituais e sociais com vistas a
representar a totalidade do código de leis contido em Êxodo e Levítico. A santidade de
Israel como povo de Deus deveria preservá-lo das práticas cerimoniais dos cananeus
como laceração ou raspagem do alto da cabeça, associada aos rituais do luto (14.1-3). A
conexão dos três primeiros versículos com a lista de alimentos proibidos poderia ser
cultual, se bem que não se exclui a possibilidade de razões fisiológicas. A lista de
Deuteronômio (14.4-21) é mais representativa do que exaustiva, e a razão por trás
dessas restrições, mais uma vez, é a posição privilegiada de Israel como nação santa de
Deus.
O compromisso de Israel com Yahweh deveria ser demonstrado em sua fidelidade em
usar o dízimo para propósitos religiosos, tanto o sustento do pessoal ligado ao culto
quanto coisas necessárias à adoração e à comunhão apropriadas (14.22-27). Particular
atenção era dada aos dízimos socialmente orientados, que deveriam beneficiar os
levitas, como também os menos favorecidos e os estrangeiros (14.28, 29).
O amor fiel a Yahweh deveria ser mostrado em generosidade para com as pessoas
carentes à luz da certeza das ricas provisões divinas (15.1-18). Perdão das dívidas e
empréstimos generosos deveriam ser a marca de Israel sob a aliança mosaica (15.1-11)!
Isto é seguido pelo mandamento de libertar os escravos hebreus ao final do sexto ano de
serviço (15.12-18). As razões para esse procedimento eram gratidão a Yahweh pelo
livramento do Egito e fé que Ele abençoaria a obediência. Uma última demonstração de
gratidão e confiança seria a oferta de animais primogênitos perfeitos a Yahweh (15.19-
23).
A próxima parte encoraja fidelidade exigindo observância cuidadosa às festas
prescritas (16.1-17). Cada israelita do sexo masculino deveria vir ao santuário central
(ainda a ser indicado) a fim de celebrar as festas da Páscoa (16.1-8), das Semanas (16.9-
12) e das Cabanas (16.13-17). Isso não significa que as outras festas tivessem sido
abolidas, apenas que estas três festas exigiam peregrinação ao local que Yahweh
escolheria (16.6).
Mudando do sagrado para o secular, se tal distinção pode ser feita em Israel, Moisés
encoraja amor fiel ao expor as leis que deveriam controlar a vida civil de Israel (16.18–
25.19).
Os juízes e seus deveres são tratados primeiro, em 16.18-20, já que eles eram o
primeiro modo de governo civil estabelecido sob a aliança. Em seguida, Moisés trata
com a idolatria e suas implicações civis (16.21–17.7). Tanto o sincretismo (16.21)
quanto a idolatria explícita são igualmente abomináveis diante de Yahweh e dos juízes,
e Israel, após investigação apropriada e confirmação de duas testemunhas, deveria fazer
valer a pena de morte para a erradicação do mal (17.7). Juízes deveriam trabalhar em
estreita conexão com os sacerdotes e sob a instrução destes, quando uma resolução clara
não pudesse ser discernida na esfera civil (17.8-13).
No programa de Yahweh para Israel havia provisão para a monarquia. O critério para
um rei fiel é que ele deveria ser israelita, não deveria procurar poder militar,
engrandecimento por meio de alianças políticas, ou impostos excessivos, mas
submissão à ‫ּתֹורה‬
ָ (tôrâ), a instrução de Yahweh (17.14-20).
Já que os levitas e sacerdotes tinham papel tão crucial na vida de Israel, é apropriado
que as leis, concernentes ao sustento e à oportunidade de trabalho no santuário central,
apareçam junto às instruções sobre o futuro rei (18.1-8).
A condenação de práticas abomináveis é apropriadamente colocada entre o ministério
dos levitas e sacerdotes e a dos profetas (18.9-13). As práticas alistadas aqui,
examinadas por ambos os tipos de líderes, seriam evitadas em Israel. Moisés focaliza
particularmente a adivinhação, a tentativa de predizer ou controlar o futuro usando
magia, associada muitas vezes à profecia (18.14-22). A promessa de Yahweh era de
levantar um profeta que seria mediador, como Moisés (18.15, 17, 18), e Sua prescrição
era de que profetas que proclamassem a si mesmos profetas ou profetas idólatras
deveriam ser eliminados.
O conjunto seguinte de leis (19.1-21) trata de questões judiciais. A legislação
concernente às cidades de refúgio (19.1-13) lida, na verdade, com a questão maior da
santidade da vida e com a questão subordinada da vingança do sangue. Israel deveria
punir homicidas dolosos (assassinos) e proteger os homicidas culposos (crimes não-
intencionais). Um versículo lida com a importante questão da propriedade da terra
(19.14). A apropriação fraudulenta de marcos de propriedade era um crime contra o
qual o próprio Yahweh tomaria medidas punitivas (cf. Pv 23.10, 11).
O parágrafo final desse conjunto (19.15-21) lida com o número e o caráter de
testemunhas. O perjúrio era crime punido com a famosa lex talionis, a lei da retribuição
(v. 21), de modo que Israel deveria levá-lo a sério.
Uma das características importantes da aliança era o compromisso de Yahweh em
lutar por Israel em suas guerras. O capítulo 20 oferece diretrizes para a guerra, que
incluem o estímulo à fé pelo (sumo) sacerdote e os critérios para identificar e excluir
soldados com potencial para causar problemas (20.1-9). O importante papel designado
aos sacerdotes aqui sugere uma vez mais que a conquista não foi um mero conflito
humano, mas a ação de Yahweh fazendo a guerra em favor de Seu povo.
As nações que ficavam fora do perímetro de Canaã deveriam receber condições de
rendição (i.e., trabalhos forçados, 20.10, 11) e, caso estas fossem recusadas, deveriam
sofrer cerco e eliminação dos homens (20.12-15). Em Canaã, todavia, cidades seriam
consignadas ao ‫( ח ֶֶרם‬ḥerem), o decreto divino de aniquilamento, de modo a não
contaminar a pureza de Israel com suas influências idólatras. Ao envolver-se em uma
guerra, Israel deveria agir com sabedoria, evitando a devastação completa de regiões,
cuidando das árvores frutíferas e usando apenas árvores não-frutíferas para implementos
bélicos (20.19, 20).
O último conjunto de preceitos (21.1–25.19) lida uma vez mais com regras civis ou
sociais. O assassinato era uma mancha no tecido da vida social de Israel, e suas
conseqüências malignas deveriam ser evitadas por meio de um sacrifício simbólico por
meio do qual a responsabilidade (mas não a culpa) por um homicídio não resolvido
fosse aceita pelos anciãos de uma comunidade (21.1-9).
Os direitos da mulher capturada (21.10-14), os direitos do primogênito em uma
sociedade crescentemente complexa (21.15-17) e o dever paterno de levar seu filho ao
tribunal por sua conduta pecaminosa (21.18-21) formam um código doméstico de
conduta, bem alinhado com as ênfases domésticas do discurso do ‫שמַע‬ ְּ (šem ʿ) no
capítulo 6 (cf. 6.4 s.).
Seguem-se diversas leis (22.1–25.19), que delineiam a base ética para a conduta social
de Israel. Os israelitas deveriam ser mutuamente benevolentes (22.1-4), como também
deveriam manter os sexos distinguíveis por meio de vestes características (22.5). O
respeito à vida deveria ser demonstrado para com a mais ínfima criatura, até chegar ao
homem, a forma mais importante de vida (22.6-8). O princípio da separação deveria se
manter evidente na proibição de misturas em áreas como agricultura (22.9,10) e
vestuário (22.11, 12).
O casamento era altamente valorizado por Yahweh, e Israel deveria refletir esse valor.
Assim, tanto o sexo pré-conjugal quanto acusações infundadas entre os cônjuges eram
passíveis de punição (22.13-21). O adultério era punido com morte tanto do homem
quanto da mulher (22.22), bem como a fornicação com uma mulher comprometida no
contexto da cidade (22.23,24), uma vez que sugeria o chamado mútuo consentimento.
No caso de um encontro sexual fora dos limites da cidade, em que o estupro era a
situação mais provável, a mulher teria o benefício da dúvida (22.25-27). Relações
sexuais com uma jovem não comprometida eram passíveis de multa e, nesse caso, o
casamento era obrigatório (22.28, 29). Por fim, o incesto era claramente proibido com
base na santidade de Yahweh e na santidade de Israel, dela derivada (22.30).
Os dois parágrafos seguintes lidam com pureza ou limpeza. Certas pessoas ficavam
permanentemente excluídas da participação na assembléia, como os emasculados (por
atos religiosos), os filhos de prostitutas cultuais, os moabitas e os amonitas (23.1-6).
Egípcios e edomitas, todavia, teriam acesso à assembléia de Israel depois de três
gerações (23.8). Regras sanitárias de pureza durante a guerra santa foram oferecidas não
apenas para garantir um ambiente livre de doenças, mas também para demonstrar, pela
higiene e limpeza, o caráter santo de Yahweh (23.9-14).
O último, e bem longo, conjunto de leis lida com o tópico maior de harmonia social
como um subproduto do amor leal a Yahweh demonstrado pela obediência (23.15–
25.19). Em 23.15-24, as leis lidam com o asilo a escravos estrangeiros, a proibição da
prostituição cultual em Israel, a limitação dos juros cobrados a estrangeiros, o pronto
cumprimento dos votos e o respeito pela propriedade alheia no desfrute da hospitalidade
e generosidade de outros.
Leis concernentes ao casamento proíbem a promiscuidade conjugal, como o divórcio e
o novo casamento constantes (24.1-4), e prescrevem um período de um ano para o
ajuste conjugal, durante o qual nenhum compromisso social adicional seria colocado
sobre o novo marido (24.5).
O respeito à vida e a garantia de condições decentes para o seu desfrute são o tema
que dá coesão ao próximo grupo de leis (24.6–25.12). Apodícticas em natureza, elas
protegem a propriedade individual limitando a cobrança de juros e penhoras (24.6, 10-
13), exortam ao cuidado com a legislação relacionada à saúde (24.8, 9), condenam a
exploração do trabalhador (24.14, 15), garantem justiça igual a todos os membros da
sociedade (24.16-18) e propõem uma provisão generosa da sociedade para com os
necessitados (24.19-22). As leis casuísticas que se seguem (25.4 é uma exceção) lidam
com a dignidade da vida humana (25.1-3), com o valor da vida humana e da linhagem
individual (25.5-10), e o cuidado para com a integridade pessoal e, talvez o ―recato
feminino‖ (25.11, 12).11 Essa divisão termina com uma proibição clara da desonestidade
nos negócios (25.13-16) e com uma ordem nacional de que Amaleque, que se tornara
para Israel a epítome da traição, seja destruído (25.17-19).
O capítulo 26 conclui o segundo discurso (as estipulações da aliança) indicando duas
cerimônias pelas quais os israelitas reconheceriam publicamente sua dívida para com
Yahweh (a oferta das primícias, 26.1-11) e seu compromisso com Ele em fé (a
apresentação dos dízimos do terceiro ano, 26.12-15). A ordem de Yahweh a Israel era a
obediência integral de coração a Seus mandamentos em resposta ao compromisso
divino de ter Israel como Seu povo particular, com todos os privilégios inerentes a essa
condição (26.16-19).
O terceiro discurso de Moisés é a ratificação da aliança, ocasionalmente chamado de
aliança palestiniana, basicamente a aplicação da aliança mosaica ao novo Sitz im Leben
da nação (27.1–30.20).
O capítulo 27 contém a ratificação da aliança, que é antecipada na Transjordânia, mas
descrita da perspectiva da conquista (efetivamente concretizada em Josué 8). Israel
deveria erigir um memorial de seu compromisso para assim melhor obedecer às leis que
Yahweh lhe dera (27.1-4). Isto deveria ser seguido pela construção de um altar e pela
participação nacional em uma refeição de comunhão, celebrando a aliança (27.5-8). As
doze tribos deveriam depois participar de uma proclamação de bênçãos e maldições
representativas sobre os montes Ebal e Gerizim (27.9-26; somente as maldições estão
aqui alistadas).
No capítulo 28, Moisés, como o grande mediador, confronta Israel com as opções da
aliança: a obediência traria a bênção (28.1-14), ou seja, fertilidade, produtividade,
vitória em combate, respeito de outras nações, ciclos agrícolas normais e plena
prosperidade. A desobediência à aliança, no entanto, traria disciplina divina e ruína
nacional (28.15-68), ou seja, esterilidade, doença, seca, derrota, caos social, zombaria
de outras nações, falta de sentido na vida e frustração pelo esforço inútil, pragas, exílio,
pobreza, canibalismo e expulsão da Terra Prometida.
Os capítulos 29 e 30 constituem a verdadeira renovação da aliança antes da entrada em
Canaã, uma vez que Israel precisaria entrar na terra como nação pactual. Em 29.1-9,
Moisés relembra a Israel as misericórdias passadas de Yahweh, explicando a seguir o
significado da cerimônia da qual participariam (29.10-15), enfatiza a necessidade da
obediência individual e sua importância (29.16-22) e retrata as terríveis conseqüências
de uma negligência arrogante para com os preceitos revelados na aliança de Yahweh
(29.23-29). A onisciência de Yahweh lhe permite traçar o curso da história de Israel e
predizer a ruína e a restauração depois da derrota e do exílio (30.1-10). Esses versículos

11
P. C. Craigie, The Book of Deuteronomy [O livro de Deuteronômio], NICOT, p. 316.
cobrem as páginas da história, passada e futura, da conquista de Canaã ao
estabelecimento do reino messiânico.
A divisão final do terceiro discurso é um encorajamento ao povo, demonstrando que o
que Yahweh havia exigido deles não estava além de sua capacidade de alcançar ou
perceber (30.11-14). Assim, a escolha estava perante a nação: Yahweh era sua vida, por
meio de amor leal expresso em obediência; a apostasia significaria morte, destruição
prematura e expulsão da Terra Prometida. O discurso termina com uma exortação
vibrante − escolhe, pois, a vida (30.15-20).
A última divisão principal do livro trata da continuidade da aliança e do testamento
espiritual de Moisés para a nação (31.1–34.12). Assim como o tratado secular suserano
fazia provisões para a contínua vassalagem a seu herdeiro real, Yahweh ordenou a
Moisés que conduzisse Josué ao papel de mediador, uma vez que a aliança teria de ser
renovada depois da conquista de Canaã (31.1-8, 23). Os sacerdotes e levitas teriam a
responsabilidade de ler a aliança perante a assembléia na Festa das Cabanas, a cada
sétimo ano (ano sabático), para manter sua memória viva para toda geração (31.9-13).
A despeito de tais provisões, Moisés foi avisado por Yahweh de que Israel, de fato,
abandonaria sua lealdade (30.14-18) e que Yahweh tomaria providências para que Israel
ficasse sem desculpas. Essas providências incluíam um cântico (31.19-22; 31.30–32.43)
e a colocação de uma cópia da aliança junto à arca do pacto, como testemunho contra a
obstinada desobediência de Israel (31.24-29).
Este cântico funcionaria como ―parte do testemunho à renovação da aliança; sempre
que os israelitas o cantassem, dariam testemunho de sua compreensão dos termos plenos
e das implicações da aliança, bem como de sua concordância com os mesmos‖. 12 A
mensagem do cântico é basicamente idêntica à da divisão que continha as bênçãos e as
maldições pactuais:

A natureza inconstante de Israel o levará a quebrar a aliança e a perder suas bênçãos até
que Yahweh o restaure com maior glória após discipliná-lo com profundo sofrimento.

O cântico contém uma invocação de testemunhas (32.1, 2), uma declaração de louvor
a Yahweh, a Rocha fiel (32.3, 4), a denúncia da infidelidade de Israel (32.5, 6), a
recapitulação dos primeiros dias de Israel sob a proteção de Yahweh (32.7-14) e de seus
últimos dias alienado Dele (32.15-18) e a proclamação de maldições contra os infiéis
(32.19-35) e de bênçãos sobre os fiéis por meio do julgamento e da restauração
soberanos executados por Yahweh (32.36-43). O cântico foi ensinado a Israel na
presença dos dois mediadores − o que terminava sua obra e o que estava prestes a
começar a sua (32.44-47).
Depois de ser avisado de sua morte iminente (32.47-52), Moisés pronuncia sua bênção
profética sobre as tribos. Este é o seu testamento espiritual, que estaria em vigor para
Israel depois de sua morte, servindo como um complemento para a bênção patriarcal de
Jacó (Gn 49). A introdução dessa bênção-testamento oferece louvor a Yahweh por Seu
compromisso com Seu povo como Rei, a despeito de Sua glória e majestade anteriores
(33.1-5); a seguir, Moisés pronuncia uma bênção sobre cada tribo (33.6-25) e celebra o
caráter peculiar de Yahweh, o Deus que garante o triunfo final de Israel (33.26-29).

12
Craigie, Deuteronomy, p. 373
A nota fúnebre de Moisés, mais provavelmente escrita por Josué, descreve sua visão
de Canaã (34.1-4), sua morte, seu sepultamento (34.5-8), sua sucessão por Josué (34.9)
e sua singularidade como profeta e mediador da aliança (34.10-12). Uma era se
encerrava, e o dia do cumprimento de antigas promessas estava raiando.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
Amor fiel a Yahweh expresso em obediência à aliança é o requerimento essencial
para a prosperidade e a permanência na Terra Prometida.
PARTE I
O mediador e as circunstâncias nas quais a aliança era renovada são apresentados (1.1-
5).
I. A renovação da aliança aconteceu nas planícies de Moabe, a leste do Jordão (1.1).
II. A renovação da aliança aconteceu após 40 anos de peregrinação por caminhos no deserto,
que levariam aproximadamente 11 dias para ser percorridos. (1.2, 3).
III. A renovação da aliança aconteceu após as primeiras vitórias dos amorreus, a leste do
Jordão (1.4, 5)
PARTE II - O PRIMEIRO DISCURSO DE MOISÉS – PRÓLOGO HISTÓRICO
O relacionamento entre Yahweh, o Suserano, e Israel, o vassalo, subsistiu
historicamente graças à fé e ao poder de Yahweh, apesar da rebeldia e do fracasso de
Israel (1.6–4.43).
I. A história de Israel, desde o Sinai até Cades-Barnéia, demonstra a rebeldia da nação e como
isto provoca a ira de Yahweh (1.6-46).
A. Yahweh cuidou de Israel por intermédio de Moisés e dos chefes, quando a nação marchou
para Canaã em obediência a Seu comando (1.6-18).
B. O fracasso de Israel em conquistar a terra de Canaã deve-se à relutância em confiar no Deus
que os livrara maravilhosamente e suprira suas necessidades (1.19-33).
C. A ira de Yahweh foi provocada pela incredulidade de Israel e sua presunçosa independência
(1.34-46).
1. A ira de Yahweh foi provocada pela incredulidade de Israel quanto a Sua capacidade de lhes
dar a terra (1.34-40).
2. A ira de Yahweh foi provocada pela presunçosa independência de Israel quando eles tentaram
invadir Canaã sem Sua aprovação (1.41-46).
II. A peregrinação de Israel no deserto culmina com a conquista dos amorreus e seus
territórios, após a desobediência em que até mesmo Moisés fora punido (2.1–3.29).
A. A peregrinação de Israel no deserto sob os cuidados de Deus os levou à fronteira com Edom,
Moabe e Amom, cujos territórios eles deveriam evitar (2.1-23).
1. Israel não deveria interferir com os belicosos edomitas (2.1-8).
2. Israel não deveria mexer com os moabitas já que seu território não fazia parte da Terra
Prometida (2.9-18).
3. Israel não deveria mexer com os amonitas já que seu território não fazia parte da Terra
Prometida (2.19-24).
B. Os triunfos militares de Israel sobre os amorreus e a possessão da sua terra foram uma
garantia de que as promessas divinas se concretizariam para aquela geração (2.24–3.20).
1. Os triunfos militares de Israel sobre os amorreus foram uma garantia de que as promessas
divinas se concretizariam naquela geração (2.24–3.11).
• O triunfo de Israel sobre Siom, rei de Hesbom, foi um presente de Yahweh (2.24-37).
• O triunfo de Israel sobre Ogue, rei de Basã, foi também um presente de Yahweh (3.1-11).
2. A possessão do território amorreu por Israel foi uma garantia de que as promessas divinas se
concretizariam para aquela geração (3.12-20).
• Os territórios dos amorreus foram divididos entre as tribos de Rúben, Gade, e Manassés (3.12-17).
• Os exércitos de Rúben, Gade e Manassés foram convocados a ajudar as outras dez tribos até que
se completasse a conquista (3.18-20).
C. A proibição de Moisés entrar em Canaã é o ápice da disciplina sobre a geração do êxodo e
abre caminho para Josué e a geração que obedecerá a Yahweh (3.21-29).
III. A exigência fundamental colocada pela aliança de Yahweh sobre Israel é a obediência
completa diante da idolatria desenfreada que certamente ameaçaria o usufruto da Terra
Prometida (4.1-43).
A. A obediência às exigências da aliança era encorajada com base no caráter de Deus
manifestado em Seus atos (4.1-14).
1. A obediência às exigências da aliança era encorajada com base na tremenda ira de Yahweh
demonstrada em Bete-Peor (4.1-4).
2. A obediência às exigências da aliança era encorajada com base na proximidade de Yahweh
com Seu povo, evidenciada por Sua justa revelação (4.5-8).
3. A obediência às exigências da aliança era encorajada, pois a memória tenderia a esquecer um
Deus que, apesar de tremendo, não poderia ser visto (4.9-14).
B. A obediência às exigências da aliança devido à insensatez e à punição da idolatria (4.15-31).
1. Israel, por ser o povo de propriedade exclusiva do invisível Deus Criador, deveria se abster da
idolatria dos cananeus (4.15-20).
2. Israel deveria abster-se da idolatria dos cananeus devido à punição zelosa da ira de Yahweh
sobre o pecado, como a vida de Moisés evidenciara (4.21-24).
3. Israel deveria abster-se da idolatria dos cananeus, pois ela, por fim, traria a perda da terra até
que a nação se arrependesse de seu pecado (4.25-31).
C. Obediência às exigências da aliança era encorajada em virtude dos privilégios singulares que
Israel havia recebido (4.32-40).
1. Israel deveria obedecer por ter recebido o incomparável privilégio da revelação do Deus
Criador (4.32-34).
2. Israel deveria obedecer por ter presenciado o poder incomparável do Deus das promessas
(4.35-38).
3. Israel deveria obedecer, pois o Deus a que servia era o único Deus de todo o universo, que
poderia lhe dar vida e prosperidade duradoura (4.39, 40).
D. Nota cronológica: O primeiro discurso de Moisés foi dado quando ele separou as cidades de
refúgio a leste do Jordão, Bezer, Ramote e Golã (4.41-43).
PARTE III - O SEGUNDO DISCURSO DE MOISÉS – ESTIPULAÇÕES DA
ALIANÇA
A aliança de Israel com Yahweh exige amor fiel demonstrado em exclusiva devoção a
Ele como Deus, e obediência a Seus mandamentos como seu padrão de vida na Terra
Prometida (4.44–26.19).
Introdução
O contexto cronológico e geográfico da renovação da aliança de Israel com Yahweh é
dado: após Israel ter derrotado os amorreus e esperado junto a Bete-Peor, pelo momento
certo para entrar em Canaã (4.44-49).
I. Estipulações Gerais A aliança de Israel com Yahweh exige amor fiel demonstrado em
exclusiva devoção a Ele como Deus (5.1–11.32).
A. O resumo da aliança divina mediada por Moisés em Horebe é encontrado nos Dez
Mandamentos (5.1-33).
1. A aliança com a qual Israel deve se comprometer foi dada à geração do deserto por Yahweh
por intermédio da mediação de Moisés (5.1-5).
2. As Dez Palavras estabelecem os relacionamentos básicos dos israelitas com seu Deus e seus
concidadãos (5.6-21).
• O relacionamento básico dos israelitas com Yahweh era de santa admiração e de reverência
exclusiva (5.6-15).
• O relacionamento básico dos israelitas com seus concidadãos era de amor e de mútuo respeito
(5.16-21).
3. A obediência aos preceitos da aliança dados por Moisés era necessária, porque a mediação de
Moisés em Horebe não foi apenas solicitada pelo povo, mas também aprovada por
Yahweh (5.22-33).
B. O requerimento mais fundamental de Israel é que a nação faça jus à singularidade de
Yahweh com extraordinária devoção a Ele (6.1-25).
1. A devoção de Israel a Yahweh deveria ser expressa em amor, constante observância e
recordação de Seus mandamentos (6.1-9).
2. A devoção de Israel a Yahweh deveria ser expressa em lealdade em tempos de prosperidade
(6.10-12).
3. A devoção de Israel a Yahweh deveria ser expressa em apartar-se de outros deuses (6.13-19).
4. A devoção de Israel a Yahweh deveria ser expressa na transmissão do Seu conhecimento e
temor às futuras gerações (6.20-25).
C. A exigência de Yahweh para que Israel se abstivesse de qualquer associação com os
habitantes de Canaã a fim de herdar, pela fé obediente, as promessas da aliança, é
baseada em Seu caráter e Sua escolha amorosa de Israel (7.1-26).
1. Israel deve evitar qualquer associação política, social ou religiosa com os cananeus (7.1-10).
2. A motivação para a obediência cuidadosa são as bênçãos da aliança – fertilidade,
produtividade, saúde, vitória e paz (7.11-16).
3. A obediência de Israel dependia da fé alicerçada nos registros históricos dos atos de Yahweh
(7.17-26).
D. O esquecimento deve ser evitado, pois ele leva à independência que produz a disciplina de
Yahweh (8.1-20).
1. Israel deve se lembrar de como Yahweh os humilhara no deserto para lhes ensinar a depender
Dele (8.1-5).
2. O resultado do esquecimento seria a presunção que por sua vez leva à idolatria (8.6-18).
3. O resultado maior do esquecimento seria, portanto, destruição semelhante à dos cananeus
(8.19, 20).
E. Congratular-se pela conquista de Canaã deve ser corrigida com uma visão apropriada da
história de Israel (9.1–10.11).
1. As verdadeiras razões para a conquista de Canaã eram a iniqüidade dos cananeus e a promessa
de Deus aos patriarcas (9.1-6).
2. As tragédias históricas do Sinai e Cades-Barnéia provaram que Israel era uma nação obstinada,
que nunca conquistaria Canaã por seus méritos (9.7-29).
• O Sinai e a tendência de Israel para a idolatria (9.7-22).
• Cades-Barnéia demonstrou a incredulidade crônica de Israel (9.23-29).
3. Mesmo assim, a história traz esperança, em virtude da graça de Yahweh, manifestada
repetidamente apesar da infidelidade de Israel (10.1-11).
• A restauração das tábuas da lei quebradas prova a graça restauradora de Yahweh (10.1-6).
• A consagração da tribo de Levi ao ministério prova a misericórdia de Yahweh (10.7-9).
• A consideração de Yahweh pela intercessão de Moisés por Israel prova Sua fidelidade à promessa
(10.10, 11).
F. A resposta de Israel ao privilégio de estar em aliança com Yahweh, o espantoso Deus das
promessas, é temê-Lo humildemente e amá-Lo obedientemente para sempre (10.12–
11.32).
1. Os requerimentos básicos da aliança são o temor humilde e o amor obediente (10.12, 13).
2. As razões para temer e amar a Yahweh são apresentadas (10.14–11.32).
• A escolha de Israel por Yahweh, apesar de Sua grandeza e da insignificância deles, é motivação
para o temor humilde e o amor obediente (10.14, 15).
• O caráter santo, misericordioso e espantoso de Yahweh é motivação para o temor humilde e o
amor obediente (10.16-21).
• A fidelidade de Yahweh às promessas patriarcais é motivação para o temor humilde e o amor
obediente (10.22).
• Os poderosos feitos de Yahweh no passado recente de Israel, no Egito e no deserto, são motivação
para o temor humilde e o amor obediente (11.1-7).
• A promessa de novas bênçãos em Canaã é motivação para Israel abster-se da idolatria e de suas
terríveis conseqüências (11.8-17).
3. A escolha certa entre a vida e a morte exigiria a necessidade de testemunho constante em
cerimônias de renovação da aliança (11.18-32).
II. Estipulações Específicas Os mandamentos de Yahweh a Moisés suprem os meios pelos
quais Israel poderia avaliar o amor fiel, nacional e individual, que asseguraria
prosperidade e aprazimento na Terra Prometida (12.1–26.19).
A. A vida religiosa de Israel deve ser caracterizada por máxima pureza em adoração, rejeitando
a idolatria e apegando-se aos preceitos morais, sociais e cultuais de Yahweh (12.1–
16.17).
1. O culto prestado por Israel deveria concentrar-se em um santuário central para evitar a
contaminação com o culto sincrético pagão de Canaã (12.1-32).
• A pureza do culto de Israel deveria depender da destruição sumária dos centros religiosos em
Canaã (12.1-4).
• O culto prestado por Israel deveria ser centralizado no lugar escolhido por Yahweh, com ritual
completo prescrito no código levítico (12.5-14).
• O culto prestado por Israel não deveria degenerar-se em festivais de glutonaria, como os rituais
dos cananeus, decorrentes da opulência da vida em Canaã (12.15-25).
• O culto prestado por Israel deveria se concentrar em um lugar único para evitar associação com
rituais pagãos e suas terríveis conseqüências (12.26-31).
2. A sedução penetrante da idolatria deve ser combatida e punida por ser fonte da ira de Deus
(13.1-18).
• A idolatria deve ser combatida, mesmo se vier de fonte religiosa (13.1-5).
• A idolatria deve ser combatida e prontamente punida, mesmo se vier de fonte familiar (13.6-11).
• A expansão da idolatria deve ser interrompida, mesmo se acarretar a destruição de uma
comunidade inteira (13.12-18).
3. As leis de pureza cerimonial e social enfatizam o caráter e conduta santos esperados de Israel
(14.1–15.23).
• Os israelitas não deveriam se desfigurar como os cananeus em virtude de sua santa vocação (14.1,
2).
• A separação de Israel para Yahweh exige que eles reflitam Sua santidade, abstendo-se de
alimentos imundos (14.3-21).13
• Israel deveria dedicar os dízimos de suas colheitas e animais para a manutenção do sistema
religioso (14.22-27).
• Os israelitas deveriam consagrar o dízimo do terceiro ano para beneficiar os levitas e pessoas
carentes da sociedade – viúvas, órfãos e estrangeiros (14.28, 29).

13
Para divisão detalhada de alimentos limpos e imundos, veja p. 110.
• Os israelitas deveriam demonstrar seu amor fiel a Yahweh sendo generosos com os
desafortunados (15.1-18).
– Dívidas deveriam ser perdoadas a cada 7 anos (15.1-6).
– Empréstimos deveriam ser generosos à luz da abundante provisão de Yahweh (15.7-11).
– Os servos dos israelitas deveriam ser libertos no sétimo ano com suprimentos suficientes para
recomeçar a vida (15.12-18).
• Os israelitas deveriam consagrar seus animais primogênitos perfeitos para o culto a Yahweh
(15.19-23).
4. Israel deveria demonstrar amor fiel a Yahweh observando cuidadosamente as festividades
prescritas (16.1-17).
• Todo israelita do sexo masculino deveria vir anualmente ao santuário central para celebrar a
Páscoa (16.1-8).
• Todo israelita do sexo masculino deveria vir anualmente ao santuário central para celebrar a Festa
das Semanas (16.9-12).
• Todo israelita do sexo masculino deveria vir anualmente ao santuário central para celebrar a Festa
dos Tabernáculos (16.13-17).
B. A vida civil de Israel deve ser caracterizada pela obediência à Torá de Yahweh, respeitando
a vida humana, a individualidade, a família e o ambiente (16.18–25.19).
1. Os juízes a ser nomeados devem manter justiça e imparcialidade em suas decisões (16.18-20).
2. Sincretismo, completa idolatria e culto negligente devem ser rejeitados (16.21–17.1).
3. A idolatria deve ser punida com a morte se propriamente comprovada por pelo menos duas
testemunhas (17.2-7).
4. Líderes civis e religiosos devem cooperar em casos de decisões difíceis (17.8-13).
5. Os planos de Yahweh para o governo de Israel pedem um rei obediente à Sua Torá (17.14-20).
• O futuro rei de Israel deve ser israelita (17.14, 15).
• O futuro rei de Israel não deve buscar fama ou bens econômicos (17.16, 17).
• O futuro rei de Israel deve ser submisso à Torá de Yahweh (17.18-20).
6. Israel deve apoiar e obedecer líderes verdadeiramente espirituais, porém rejeitar inteiramente
os charlatões espirituais (18.1-22).
• Os levitas e sacerdotes devem ser propriamente apoiados e encorajados em suas tentativas de
servir (18.1-8).
• Os promotores de rituais abomináveis devem ser eliminados de Israel (18.9-13).
– Qualquer meio de predição ou controle do futuro deve ser rejeitado (18.9-11).
– Israel não deveria se envolver com práticas abomináveis a Yahweh (18.12, 13).
• Os profetas deveriam ser julgados pela exatidão de suas predições e sua dedicação exclusiva a
Yahweh (18.14-22).
– Yahweh deveria dar a Israel outro profeta, como Moisés, cujas palavras seriam ouvidas pela nação
(18.14-19).
– Profetas presunçosos que desviam o povo devem ser eliminados (18.20-22).
7. Os processos judiciais de Israel valorizavam a santidade da vida e da propriedade privada
(19.1-21).
• O estabelecimento de cidades de refúgio era designado para prevenir vinganças de sangue em
casos de mortes não dolosas(19.1-10).
• Assassinatos premeditados deveriam ser punidos com morte (19.11-13).
• A propriedade privada deveria ser respeitada (19.14).
• Qualquer julgamento deveria ter ao menos duas testemunhas que estariam sujeitas à lex talionis
(19.15-21).
8. As guerras de Israel deveriam ser executadas em fé, pureza e sabedoria (20.1-20).
• As guerras de Israel deveriam ser executadas em fé sob o encorajamento do (sumo) sacerdote e
liberação de soldados potencialmente problemáticos (20.1-9).
• As guerras de Israel deveriam ser executadas em pureza, demonstrando misericórdia às cidades ao
redor de Canaã, enquanto os cananeus eram todos sujeitos ao banimento divino, para
que estes não fizessem Israel desviar-se espiritualmente (20.10-18).
• As guerras de Israel deveriam ser executadas com sabedoria para a preservação do ambiente
(20.19, 20).
9. As leis sociais de Israel refletem o cuidado de Yahweh com a pureza na vida individual,
familiar e social (21.1–25.19).
• As leis sociais de Israel refletem o cuidado de Yahweh com a vida individual (21.1-21).
– As más conseqüências do assassinato em uma comunidade exigiam um sacrifício simbólico por um
crime não resolvido em seu meio (21.1-9).
– A mulher prisioneira de guerra tinha o direito à liberdade se seu seqüestrador, após casar-se com ela,
a rejeitasse (21.10-14).
– O filho primogênito não deveria ser privado de seus direitos à herança em favor de outro filho
preferido da esposa (21.15-17).
– Os pais tinham o dever de trazer filhos indisciplinados, pecadores, à corte para julgamento e, por
fim, execução (21.18-21).
• As leis sociais de Israel refletem o cuidado de Yahweh pela vida ética (21.22–22.12).
– Criminosos executados não devem permanecer expostos de um dia para o outro, para que a terra não
fosse profanada [por indevida publicidade do crime?] (21.22, 23).
– Israelitas devem ser mutuamente humanos em todas suas transações (22.1-4).
– Israelitas devem fazer diferenciação dos sexos pela maneira como se vestem (22.5).
– Israelitas deveriam respeitar a vida, desde a mais insignificante criatura até a mais importante (22.6-
8).
◦ A vida animal deveria ser protegida da ganância humana (22.6, 7).
◦ A vida humana deveria ser protegida de negligência (22.8).
◦ Israelitas deveriam exibir o princípio da separação em suas atividades diárias e estilo de vida (22.9-
12).
• A vida familiar de Israel deve refletir o cuidado de Yahweh com o relacionamento conjugal
(22.13-30).
– Sexo pré-conjugal por uma mulher comprometida e acusações conjugais infundadas deveriam ser
punidos (22.13-21).
– Adultério deveria ser punido com morte para os dois envolvidos (22.22).
– Fornicação na cidade com uma mulher comprometida deveria ser punida com morte para as duas
partes envolvidas (22.23, 24).
– Estupro de uma mulher comprometida no campo significava morte para o estuprador (22.25-27).
– Fornicação com uma virgem não comprometida acarretaria multa e casamento obrigatório (22.28,
29).
– Promiscuidade dentro da família era proibido (22.30).
• A vida em Israel, como assembléia e exército de Yahweh, deveria ser governada pela pureza
(23.1-14).
– Povos de origem impura deveriam ser mantidos fora do ajuntamento religioso de Israel (23.1-6).
◦ Homens castrados por motivos religiosos deveriam ser excluídos (23.1).
◦ Filhos de prostitutas cultuais deveriam ser excluídas (23.2).
◦ Amonitas e moabitas deveriam ser excluídos (23.3-5).
◦ Edomitas e egípcios podem ser admitidos após três gerações (23.6-8).
– Leis sanitárias para campos de guerra garantem um ambiente livre de doenças e cerimonialmente
limpo (23.9-14).
• A harmonia social de Israel seria conseqüência do amor fiel e obediente a Yahweh (23.15–25.19).
– Israel deveria ser um abrigo para escravos gentios fugitivos (23.15, 16).
– Prostituição cultual era totalmente proibida em Israel (23.17, 18).
– Juros deveriam ser cobrados apenas de estrangeiros, não de israelitas (23.19, 20).
– Votos feitos a Yahweh deveriam ser feitos frugalmente e cumpridos prontamente (23.21-23).
– Israelitas deveriam respeitar as propriedades uns dos outros e usufruir de mútua generosidade
(23.24, 25).
– Pureza e estabilidade matrimonial deveriam ser protegidas (24.1-5).
◦ Promiscuidade conjugal por meio de divórcio e novo casamento constantes era proscrita (24.1-4).
◦ Um período de adaptação e fardo social menor era prescrito a homens recém-casados (24.5).
• Israel deve respeitar a vida e garantir condições decentes para ela (24.6–25.12).
– Os israelitas deveriam proteger a moradia do indivíduo e manter-se discretos como credores (24.6,
10-13).
– O seqüestro deveria ser punido com morte (24.7).
– Os israelitas devem ser cuidadosos com a legislação relacionada à saúde (24.8, 9).
– Os israelitas devem abster-se de explorar seus empregados (24.14, 15).
– A justiça deveria ser igualmente administrada a todo membro da sociedade (24.16-18).
– Os israelitas deveriam fazer provisão generosa para os necessitados da sociedade (24.19-22).
– As punições não devem ser severas a ponto de rebaixar a condição humana (25.1-3).
– O trabalho deveria ser propriamente recompensado (25.4).
– A vida humana e a linhagem de cada um deveria ser tão valorizada que a falha em assumir o
casamento por levirato traria estigma social (25.6-10).
– A discrição feminina deveria ser preservada ao máximo (25.11, 12).
– A honestidade deveria governar todas as transações entre os israelitas (25.13-16).
– Amaleque, epítome da deslealdade, deve ser aniquilado por Israel (25.17-19).
C. A resposta de Israel ao chamado de Yahweh a um compromisso total expresso por
intermédio da consagração das primícias e dos dízimos do terceiro ano (26.1-19).
1. O reconhecimento por Israel de sua gratidão a Yahweh deveria ser expresso pela oferta das
primícias (26.1-11).
2. O compromisso de Israel com Yahweh em fé, deveria ser expresso pela apresentação dos
dízimos do terceiro ano (26.12-15).
3. A convocação de Yahweh a Israel era para total compromisso em resposta a Seu compromisso
de fazê-lo Seu povo (26.16-19).
PARTE IV - TERCEIRO DISCURSO DE MOISÉS – RATIFICAÇÃO DA ALIANÇA
Israel é formalmente confrontado com a responsabilidade de obedecer aos
mandamentos da aliança que Yahweh lhes trouxe ao coração para que usufruíssem as
bênçãos patriarcais na Terra Prometida (27.1–30.20).
I. A ratificação da aliança deveria ser celebrada quando Israel entrasse em Canaã conforme
instruções de Moisés (27.1-26).
A. Israel deveria erigir uma pedra memorial, visível e legível, de seu compromisso em obedecer
os mandamentos de Yahweh (27.1-4).
B. Israel deveria erigir um altar memorial e promover uma refeição comunitária nacional para
celebrar a aliança (27.5-8).
C. As tribos de Israel deveriam se envolver na proclamação de exemplos de bênçãos e de
maldições nos montes Gerizim e Ebal (27.9-26).
1. As tribos que proclamariam as bênçãos se colocariam no monte Gerizim (27.9-12).
2. As tribos que proclamariam as maldições se colocariam no monte Ebal (27.13).
3. Os exemplos de maldição são enumerados com a sanção nacional (27.14-26).
II. As opções diante de Israel sob a aliança eram obediência para desfrutar as bênçãos de
Deus, ou desobediência para sofrer o castigo de Deus (28.1-68).
A. Obediência à aliança levaria Israel a ser líder das nações, usufruindo fertilidade,
produtividade, vitória, respeito dos gentios e prosperidade dados por Deus (28.1-14).
B. Desobediência à aliança levaria Israel ao vexame entre as nações, sofrendo infertilidade,
doença, seca, derrota, caos social, desprezo e, por fim, exílio dados por Deus (28.15-
68).
III. Israel é convocado a prestar juramento pela aliança de Yahweh antes de entrar em Canaã
(29.1–30.20).
A. As misericórdias de Yahweh na história de Israel são revistas como base para exortação à
obediência (29.1-9).
B. A aliança assumida por Israel é o cumprimento das antigas promessas e é extensiva a futuras
gerações (29.10-15).
C. A obediência individual aos requerimentos da aliança é importante ao bem-estar da nação
como um todo (29.16-22).
D. A negligência evidente dos mandamentos de Yahweh trará conseqüências desastrosas sobre
a nação e sua terra (29.23-29).
E. Yahweh soberanamente adverte Israel de seu futuro fracasso, mas promete plena restauração
após arrependimento e disciplina (30.1-10).
F. Israel é encorajado a obedecer aos mandamentos de Yahweh, pois o que Ele exige não está
acima de sua capacidade de obter ou perceber (30.11-14).
G. A exortação final, à luz da importante escolha apresentada pela aliança, foi para que
escolhessem a vida (30.15-20).
PARTE V - CONTINUIDADE DA ALIANÇA
Provisão é feita para a continuidade da aliança sob nova liderança e sob a bênção de
seu mediador original (31.1–33.29).
I. Provisão é feita para a continuidade da aliança sob nova liderança (31.1-29).
A. Moisés induz Josué à função de mediador para garantir a continuidade da aliança após a
conquista da Terra Prometida (31.1-8, 23).
B. Moisés comanda sacerdotes e levitas a renovar o conhecimento da aliança por meio de
leitura pública em todo ano sabático (31.9-13).
C. Moisés fez provisões para tornar Israel indesculpável se a nação falhasse e quando isso
acontecesse, como Yahweh tinha advertido (31.14-29).
1. Moisés e Josué foram advertidos do fracasso de Israel (31.14-18).
2. Moisés foi instruído a compor uma canção designada a instruir Israel sobre a necessidade de
obedecer (31.19-22).
3. A colocação de uma cópia da aliança junto da arca servia de testemunha contra Israel (31.24-
29).
II. Provisão é feita para a continuidade da aliança sob a bênção de seu mediador original
(31.30–33.29).
A. Cântico profético-didático de Moisés: A natureza inconstante de Israel o levará a quebrar a
aliança e a perder suas bênçãos até que Yahweh o restaure com maior glória após
discipliná-lo com profundo sofrimento (31.30–32.47).
1. Testemunhas são chamadas a atestar a grandeza de Yahweh e a natureza inconstante de Israel
(32.1-6).
• Moisés chama o céu e a terra como testemunhas (32.1, 2).
• Moisés atribui louvor a Yahweh, Rocha fiel (32.3, 4).
• Moisés denuncia a infidelidade de Israel (32.5, 6).
2. Uma recapitulação da história de Israel atesta a bondade e a fidelidade de Yahweh (32.7-14).
3. Uma visão profética do futuro de Israel confirma a natureza rebelde da nação e seu amor pela
idolatria (32.15-18).
4. Moisés proclama maldições aos infiéis e bênçãos aos fiéis por intermédio do julgamento e da
restauração soberanos de Yahweh (32.19-43).
• Maldições são proclamadas contra os infiéis infratores da aliança (32.19-35).
• Bênçãos são pronunciadas sobre os remanescentes fiéis (32.36-43).
5. A canção é ensinada à nação na presença de seus líderes, tanto do que partia quanto do que
começava seu serviço (32.44-47).
B. Diante da notícia definitiva de sua morte, Moisés abençoa a nação como um segundo Jacó
(32.48–33.29).
1. Moisés recebe a notícia final de sua morte (32.48-52).
2. Moisés pronuncia sua bênção profética sobre as doze tribos (33.1-29).
• Yahweh é louvado por Sua condescendência em Se comprometer com Israel apesar de Sua
grandeza (33.1-5).
• As doze tribos são abençoadas conforme as bênçãos da aliança (33.6-25).
• Yahweh é celebrado por Seu caráter extraordinário, o que garante o triunfo final de Israel (33.26-
29).
PARTE VI - EPÍLOGO – NOTA SOBRE O FUNERAL DE MOISÉS
O final doce-amargo da gloriosa vida de Moisés está registrado (postumamente) como
o final da era do êxodo (34.1-12).
I. O único contato de Moisés com a Terra Prometida foi um vislumbre da montanha de
Moabe (34.1-4).
II. A morte de Moisés aconteceu em Moabe, fora de Canaã (34.5-8).
III. Moisés foi sucedido por Josué, apesar de nunca igualado por ele (34.9-12).

O argumento de
JOSUÉ
Questões introdutórias
TÍTULO
Este livro recebe seu título do nome do personagem central da narrativa, Josué, filho
de Num, um efrateu nascido no Egito, a quem Moisés havia preparado para ser seu
sucessor, e que efetivamente liderou Israel na conquista da Terra Prometida. O título
hebraico é ‫ע‬ַֹ ‫ש‬
ֺ ‫( י ְּהֹו‬ye ôsu ʿ), enquanto a LXX usa a forma helenizada Ἰηζοῦρ (Iēsous).
DATA E AUTORIA
A tradição talmúdica sustenta que Josué foi o autor do livro, e a nota de sua morte foi
registrada por Eleazar, filho de Arão. O último versículo teria sido acrescentado por um
editor mais recente. O conteúdo do livro sustenta tal tradição.
Por duas vezes Josué ordena que se façam registros escritos dos eventos recentes da
história israelita (18.8 e 24.25). A isso deve-se acrescentar narrativas pessoais como a
descrição da reação dos cananeus à travessia do Jordão por Israel (5.1-6).
Além disso, o autor demonstra notável conhecimento de nomes arcaicos de
localidades em Canaã (e.g. Baalá para Quiriate-Jearim [15.9], Quiriate-Arba para
Hebrom [15.13], e Quiriate-Saná para Debir [15.49]). Com exatidão histórica, a toda
prova, ele indica que Sidom era a mais importante cidade dos fenícios (cf. 13.4-6;
19.28), o que seria improvável se o autor tivesse vivido depois do século 12 a.C.,
quando a supremacia passou para Tiro.
A HISTORICIDADE DO LIVRO
Teorias sobre a não-historicidade do relato bíblico em Josué estão relacionadas,
inicialmente, à data da invasão israelita. Há duas linhas de argumento: a primeira
sustenta que jamais houve uma invasão pelos israelitas, e sim várias ondas de imigração
por uma população racialmente mista designada pelo nome genérico de habiru/hapiru,
em meio à qual se achavam os israelitas.1 Uma variação desta teoria argumenta que
houve realmente duas invasões: uma no século 15 a.C. [associada à figura semilendária
de Moisés] e outra no século 13 a.C. [associada à figura mais histórica de Josué],
quando já havia um segmento da população israelita na terra.2
O segundo argumento é de natureza arqueológica. Especialistas nesse campo afirmam
que a ausência de provas de destruição em massa de cidades por volta da virada do
século 14 a.C. exige uma data na segunda metade do século 13 a.C. para os eventos
ligados ao livro de Josué.
Há boas razões para rejeitar tais argumentos. Em primeiro lugar, a identificação dos
israelitas com os habiru/hapiru é muito tênue. Os israelitas se distinguiam claramente
dos habiru/hapiru (cf. 1 Sm 13.6, 7), embora tal distinção não fosse óbvia para os
escribas da correspondência de Tell-el-Amarna. Essas cartas sugerem que os
habiru/hapiru atacaram cidades contra as quais Israel não guerreou, pelo menos de
acordo com o registro bíblico. As cartas que podem ser ligadas a localidades
mencionadas na narrativa bíblica não apresentam conflito com a evidência das
Escrituras, servindo-lhe, ao contrário, de suplemento. Merrill afirma que ―não há nada
na correspondência de Amarna ou no Antigo Testamento que milite contra uma data de
conquista no começo do século 14 a.C.‖3
A alegada falta de evidência arqueológica para uma conquista de Canaã no século 14
a.C. conforme descrita na Bíblia se origina de duas pressuposições equivocadas. A
primeira é a de que Israel levou a cabo uma guerra de extermínio e destruição
sistemática durante a conquista, uma teoria obviamente negada pelo relato bíblico (cf. Js
10.19). Apenas três cidades foram designadas de fato como ‫( ח ֶֶרם‬ḥerem), alvo de
destruição cerimonial, Jericó, Ai, e Hazor. Enquanto Jericó e Ai não oferecem provas
conclusivas para qualquer das teorias, as evidências obtidas em Hazor apontam para
uma destruição no século 14 a.C.4
Além disso, a pressuposição de que a evidência de destruição no século 13 a.C., que
parece ser inequívoca, é resultado da conquista israelita é infundada, pois não há
documentos literários que provem que os habitantes de tais cidades fossem cananeus ou
que seus atacantes fossem israelitas. Artefatos não-literários poderiam ter sido
preservados de um grupo de ocupantes para outro, no caso de uma conquista anterior
por Israel (cf. Dt 6.10, 11), e a própria destruição se coaduna com a violenta opressão
sofrida pelos israelitas de parte de seus vizinhos durante o período dos juízes (cf. Jz 5.7,
8; 6.2).

1
Martin Noth, History of Israel, pp. 64-84.
2
H. H. Rowley, From Joseph to Joshua, pp. 109-163.
3
Eugene H. Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, p. 106.
4
J. J. Bimson, Redating the Exodus and the Conquest, pp. 185-200.
Outro argumento contra a historicidade de Josué está relacionado ao elemento
sobrenatural contido em sua narrativa, particularmente na queda das muralhas de Jericó
e no ―mais longo dos dias‖ na batalha de Gibeão.
A despeito dos virulentos ataques de Kathleen Kenyon e outros eruditos à teoria de
que as muralhas de Jericó ruíram para fora em algum momento do começo do século 14
a.C., esta permanece como a melhor opção arqueológica e confirma o relato de Josué.5
O dia prolongado descrito em Josué 10 tem sido objeto de muito debate. Críticos
radicais do AT descartam a narrativa como uma importação de mitologia pagã redigida
em linguagem poética e hiperbólica; estudiosos mais conservadores tentam (a) mitigar o
elemento sobrenatural da passagem, argumentando que o verbo hebraico
tradicionalmente traduzido por ―parou‖ realmente significa ―ficou quieto‖ (i.e.,
―escurecido‖ ou ―menos quente‖);6 ou (b) provar que a passagem exige um
retardamento real no tempo.
Esta última posição parece encaixar-se melhor com os dados do texto sem exigir
explicações etimológicas incomuns. Cientificamente ela envolve uma intervenção
divina na mecânica celeste, o que não chega a ser problema para uma fé humilde.
Relatórios científicos (não documentados, infelizmente) citados por Bernard Ramm
atestam que astrônomos computaram a falta de um dia no relógio astronômico da terra,
e que tal dia foi situado na época de Josué.7 Outra teoria conservadora sugere que Deus
alterou o ângulo de refração da atmosfera terrestre, assim permitindo ao sol ficar visível
por mais tempo.8
O mais provável é que o ponto de vista adotado pelo leitor de Josué 10 será ditado
pelas pressuposições que trouxer para o texto.
CONTEXTO HISTÓRICO
Tomando por base uma data no século 14 a.C. para a conquista de Canaã, descobrimos
que a cronologia divina foi perfeita. A Palestina encontrava-se em um vácuo de poder
que duraria por mais de um século.
O império hitita ainda não havia adotado sua política imperialista (que surgiu com
Suppiluliumas [1377-1358 a.C.]); os hurrianos, do reino de Mitani, estavam limitados
ao extremo norte da Síria, e os egípcios, da 18ª dinastia, perdiam aos poucos seu
controle sobre Canaã, como demonstram as cartas de Amarna. A Assíria permanecia na
obscuridade, e sua ascensão ao status de potência mundial só aconteceria dois séculos
depois. O cenário fora preparado por Yahweh para que Seu povo invadisse Canaã e
tomasse posse da terra que lhe fora prometida séculos antes.

5
John Garstang defendeu essa teoria no livro The Story of Jericho e oferece como prova
arqueológica a presença de escaravelhos (amuletos em forma de tais insetos) com o cartucho
[símbolo] de Amenófis III (1413-1377 a.C.) e a completa ausência de tais objetos com o
símbolo de faraós posteriores (Story of Jericho, p. 120). Bimson, Redating, oferece
confirmações de outras fontes.
6
Robert Dick Wilson, “Understanding ‘The Sun Stood Still’ ”, Princeton Theological Journal,
16 (1918): 46-54, republicado em Classical Evangelical Essays in Old Testament Interpretation,
editado por Walter C. Kaiser, Jr., pp. 61-67.
7
Bernard Ramm, The Christian View of Science and Scripture, p. 159.
8
Karl F. Keil e Franz Delitzsch, Commentary on the Old Testament, 2:112.
Os habitantes de Canaã eram uma mistura de raça com população amorita (chamados
na Bíblia de ―amorreus‖), que habitavam o sul e a região montanhosa, e os cananeus,
que ocupavam a parte norte da Palestina. Essa população era de religião politeísta,
sofisticada em arte e cultura e bem protegida por cidades-Estado muradas, que, a
despeito de guerras ocasionais, costumavam unir-se contra inimigos comuns.
A estrutura social que se pode depreender da evidência arqueológica consistia de uma
pequena minoria de nobres cananeus e oficiais egípcios vivendo às custas de uma
imensa maioria, cujo destino era a mais abjeta pobreza. Tais circunstâncias iluminam a
escolha dos gibeonitas, que preferiram lançar sua sorte com os invasores a manter uma
lealdade simbólica ao Egito, que era o único beneficiário de tal acordo.9
O cenário religioso de Canaã era muito variado. A religião dos cananeus era baseada
em dois conceitos. O primeiro era o de que as forças da natureza eram expressões da
atividade divina; o segundo era o princípio do reencenamento, ou seja, de que a
prosperidade e o bem-estar dependiam de uma identificação ritual apropriada com as
atividades dos deuses, de modo a assegurar o exercício de seus poderes criativos que
sustentavam a vida em uma sociedade agrária. O culto das principais divindades, Baal,
Asera, e Anate envolvia prostituição cultual e apelava à natureza depravada do homem.
Uma vez que Baal era considerado o Deus da chuva, adorá-lo era uma garantia de
boas colheitas para os cananeus. Como estes haviam permanecido entrincheirados nas
terras mais férteis de Canaã, uma dedução natural para o israelita médio era que Baal
cuidava melhor de seus adoradores do que Yahweh. O baalismo tornou-se uma religião
muito atraente por essas duas fortes razões.
É claro que uma religião tão corrupta, que era adaptável a ponto de produzir um Baal
levemente diferente em cada localidade, se espalhava como um câncer na sociedade em
que existia e contaminava cada segmento da vida. A religião cananita foi, sem dúvida, a
principal justificativa para o ‫( ח ֶֶרם‬edito de aniquilamento) imposto sobre os habitantes
de Canaã. A presença de tal depravação sócio-religiosa foi certamente uma das razões
pelas quais Josué celebrou duas renovações da aliança em menos de 40 anos, 10
deixando bem claro a ambas as gerações os perigos que as rondavam e as possibilidades
de vitória pela obediência (caps. 8 e 24).
CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS
Forma
O livro de Josué divide-se em três partes claramente definidas em seu estilo e
conteúdo. A primeira parte (caps. 1–12) é uma narrativa resumida das atividades
militares que resultaram na conquista da Terra Prometida. O primeiro parágrafo do
capítulo 1 e o capítulo 12 indicam que a conquista foi parte integrante do processo que
começara com Moisés e culminaria com Josué e seu triunfo sobre os reis de Canaã.
Estrategicamente colocado nesse contexto está o encontro de Josué com o capitão das
hostes de Yahweh (5.13-15), que indica que a guerra para a conquista da terra de Canaã
era, fundamentalmente, uma atividade de Yahweh.
Os capítulos 12 a 22 alistam, de maneira quase monótona, a divisão da terra entre as
tribos, pontilhada aqui e ali por acontecimentos que ressaltam a fidelidade de Yahweh
para com Seus fiéis (a conquista e posse de Hebrom por Calebe, 14.1-15) e a
necessidade de unidade espiritual entre as tribos (o episódio do altar erigido pelas tribos
da Transjordânia).

9
Siegfried Schwantes, A Short History of the Ancient Near East, p. 160.
10
Eugene H. Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, pp. 139, 149
Os dois capítulos finais adquirem um estilo sermônico ligado à renovação da aliança
sob forma de tratado de suserania, com o capítulo 23 contendo uma exortação nacional
de Josué, o mediador, a título de introdução, e o capítulo 24 renovando o compromisso
de lealdade devida a Yahweh, o suserano, por Israel, o vassalo.
O epílogo do livro, que contém a nota obituária de Josué, traz uma nota de confiança
ao relatar a colocação dos restos mortais de José no sepulcro adquirido por Abraão
quase 600 anos antes do desaparecimento da geração de Josué (24.25-27). Esse
incidente demonstra a fidelidade de Yahweh no cumprimento de Suas promessas e
sugere que Israel seria bem-sucedido desde que se mantivesse leal ao Deus que os
trouxera em segurança até ali.
Mensagem
A conquista de Canaã e o estabelecimento do povo de Israel na Terra Prometida
aconteceram de acordo com as promessas pactuais de Yahweh, baseados em Seu
poder, por meio da fé obediente da nação.
A teologia de Josué
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Yahweh é poderoso
Três incidentes específicos são usados pelo autor do livro para destacar o poder de
Yahweh como a causa fundamental do sucesso de Israel: a travessia do Jordão, a queda
das muralhas de Jericó, e o prolongamento do dia durante a batalha de Gibeão. Cada um
desses acontecimentos tem uma conotação polêmica, já que envolviam forças naturais
supostamente sob controle dos deuses cananitas. O uso de estratégias claramente
contrárias à lógica humana (no caso bem conhecido de Jericó e no caso da inutilização
dos cavalos e carros de guerra na batalha contra Hazor, 11.6-9) ressalta o fato de que a
capacidade bélica de Israel estava não em seus exércitos, mas no poder de seu Deus, que
lutava por ele.
Yahweh é fiel
O livro abre com a garantia divina de que Sua fidelidade capacitaria Josué para a
tarefa de substituir Moisés e conquistar a terra. Os memoriais erguidos no Jordão e as
suas margens demonstravam que Israel percebia a fidelidade de Yahweh como a razão
de sua chegada à Terra Prometida (4.3-9, 18). A construção do altar no monte Ebal
(8.30-35) reforça tal convicção, principalmente por sua associação geográfica com o
local onde Abraão primeiro recebeu a promessa de posse da terra (Gn 12.6, 7) e Jacó
enterrou seus ídolos ao voltar de Padã-Arã para Canaã (Gn 33.18-20; 35.1-4).
Outros dois memoriais encontrados nesse livro indicam que Israel entendia seu triunfo
como resultado da fidelidade de Yahweh: o altar das duas e meia tribos (22.24, 25) e a
estela erigida por Josué (24.26, 27).
Fiel em todas suas aparições nas Escrituras, Calebe é o troféu da fidelidade de
Yahweh em sua corajosa conquista da terra dos anaquins. O poder de Deus em vencer
os mais temíveis inimigos (gigantes) é ressaltado no triunfo de Calebe, que tinha 85
anos ao empreender a sua conquista.
O resumo deste tema em Josué encontra-se nos capítulos 11.15, 16 e 23.14, 15, em
que se enfatiza não apenas a fidelidade de Deus em realizar as bênçãos, mas também o
castigo pela infidelidade da nação.
Yahweh odeia o pecado
Uma das figuras usadas para Yahweh no Pentateuco é a de um guerreiro (Êx 14.4;
15.3; Dt 3.22). No livro de Josué a figura ganha contornos ainda mais evidentes com a
manifestação do ‫צבָאֹיהוה‬ ְּ ֹ‫( שַר‬ś r ṣeḇāʾ ʾăḏônāy, príncipe da hoste do SENHOR), que é
entendido como uma cristofania (5.13; 6.5).
A atividade de Yahweh como o líder de Israel no campo de batalha precisa ser
entendida como Sua vindicação da santidade divina ofendida por vários séculos devido
ao estilo de vida depravado dos cananeus. O câncer moral que se instalara em Canaã
nascera na tenda de Noé, após o dilúvio (Gn 9.20-27), e se perpetuara no caráter e na
conduta dos descendentes de Cão (a maldição corporativa de Noé foi lançada contra o
neto, porque ele haveria de reproduzir o caráter profano do pai).
Depois de séculos em que os testemunhos piedosos de Abraão e Melquisedeque foram
ostensivamente rejeitados e toda sorte de maldade se tornara lugar-comum, Yahweh
lançou-se à luta contra os cananeus e usou os israelitas para eliminar do mundo uma
sociedade corrupta e corruptora.
A prova de que tal tratamento não era cruel, arbitrário e caprichoso é que o pecado de
Israel foi punido com igual severidade (Js 7), de modo que a santidade de Deus ficasse
evidente a todos, israelitas e cananeus. Outra prova é que a misericórdia divina podia se
estender a não-israelitas, desde que, pela fé, se colocassem sob a mão de Yahweh
(diretamente no caso de Raabe e indiretamente no caso dos gibeonitas).
Josué percebeu claramente que a absoluta santidade de Yahweh tornava impossível a
Israel adorá-lo sem incorrer em falhas, que haveriam de suscitar a ira disciplinadora do
Deus da aliança (24.19, 20). Em certo sentido, Josué profetizava os acontecimentos
trágicos do livro de Juízes e apontava para a necessidade de uma provisão ainda maior
que a oferecida pela lei mosaica.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
O livro de Josué apresenta uma série de incidentes que realça a intervenção de Deus
na História – tempo e espaço – para o cumprimento de Seu propósito maior, a
restauração de Sua soberania mediada sobre a criação. O estabelecimento de Israel em
Canaã era parte integrante desse processo, como já fora prometido aos patriarcas e
reiterado a Moisés, quando da saída do povo do Egito (Êx 15.17, 18).
A permissão do pecado
O episódio mais marcante é certamente o pecado de Acã, que combinou ganância com
hubris,11 presumindo ser capaz de melhor prover suas necessidades ou desejos do que
Yahweh. A visão de que Yahweh obteria glória, mesmo por meio de tal situação,
aparece em Josué 7.19. O efeito corporativo de uma transgressão individual ressalta a
razão pela qual Yahweh, no final do livro, se mostra tão severo em Suas exortações
contra o pecado da infidelidade. O temor que o próprio Josué sentiu (8.1), indica que
mesmo uma tragédia desse porte tem seu efeito benéfico, quando o povo de Deus leva a
sério Sua santidade e o zelo que Ele tem por Seu nome.
Outro episódio que ressalta esse aspecto do propósito de Deus é a trama dos
gibeonitas, levianamente aceita por Josué e pelos anciãos de Israel (9.1-27). Este foi o
primeiro de vários enclaves cananitas que restariam entre os israelitas, e que Deus usaria
para pôr à prova o coração de Seu povo (cf. Jz 1.19-36; 2.1-3, 20-23).
A promessa/ação de julgar o pecado
Mais uma vez é o incidente de Acã que fornece o principal exemplo da ação divina
contra o pecado. A verdade é que, se levarmos em conta Gênesis 15.16, todo o livro é
um exemplo dessa ação.

11
Termo usado com freqüência em comentários teológicos, que indica uma mescla de
arrogância e precipitação.
A circuncisão dos israelitas ao atravessar o Jordão é um episódio que revela o
empenho de Yahweh em remover barreiras de pecado e desobediência que impeçam
Seu povo de desfrutar plenamente as bênçãos que Ele deseja lhes conceder. A geração
que no deserto fora privada da participação formal na aliança abraâmica precisava,
agora, no momento mais crítico de sua breve estada na Terra Prometida, aprender o
sentido da dependência de Yahweh. A desobediência e alienação, características de
Israel no Egito, foram ali extirpadas simbolicamente e o povo foi preparado para
desfrutar as bênçãos das duas alianças (Js 5.1-12).
A determinação divina de punir o mal é reforçada pela exortação final de Josué quanto
ao perigo da miscigenação com os cananeus, que acabaria por produzir o castigo pactual
de expulsão da Terra Prometida (23.12, 13).
O decreto de livramento para os eleitos e por eles
Em meio aos predestinados à destruição, em Canaã, uns poucos viveram por ter
lançado Sua sorte com o povo de Deus.
Raabe e sua família escaparam à destruição maciça de Jericó (caps. 2 e 6) e os
gibeonitas escaparam duas vezes à destruição completa, uma vez por meio de mentira e
engano, e outra pela fidelidade que um voto em nome de Yahweh impusera a Israel
(caps. 9 e 10).
O decreto de abençoar os eleitos
Essa determinação divina aparece sempre atrelada à obediência aos preceitos da
aliança contidos na lei de Moisés (1.6-8; 23.6-8). Josué, o líder do povo, seria
abençoado se perseverasse na observância da Lei, e igualmente toda a nação se
beneficiaria se mantivesse Yahweh como o único objeto de sua devoção.
O exemplo individual de Calebe se destaca no livro de Josué, como prova de que a
fidelidade a Yahweh, mesmo em meio à dúvida e à oposição, acabaria tendo
recompensa fiel e gratificante (14.6-15).
Argumento básico
PROPÓSITO E DESENVOLVIMENTO
O propósito de Deus para essa fase de Sua revelação era completar a formação de
Israel como Seu povo escolhido, divinamente governado por Deus sob a lei Mosaica, e
ocupando a Terra Prometida a eles. Em consonância com isso, o propósito desse livro é:
Demonstrar que a conquista de Canaã e o estabelecimento de Israel ali aconteceram de
acordo com as promessas pactuais de Deus, fundamentadas em Seu poder, por
intermédio da fé obediente do povo sob a liderança de Josué.
Este propósito é obtido, no livro, da seguinte maneira: nos capítulos 1 a 12, o autor
demonstra como a ocupação da terra foi precedida pela preparação divina de Israel e de
seu líder para a conquista militar, e como esta foi executada sob Seu poder, por meio da
coordenação hábil e obediente de Josué.
Os capítulos 1 a 5 apresentam a preparação espiritual necessária ao líder, Josué, e seu
povo. Josué é apresentado em um deliberado paralelo com Moisés, de modo a indicar a
legítima continuidade entre eles e a aprovação divina de sua missão. Assim, Josué é
exortado, para que seja bem-sucedido na tarefa que o aguarda (1.1-9), a depender da lei
proveniente de Deus e transmitida por Moisés. Ele, de maneira semelhante a Moisés,
envia espiões para investigar a terra (2.1-24), e é autenticado por Yahweh ao abrir as
águas do rio Jordão, aumentadas pelas chuvas da primavera e pelo degelo próximo a
suas fontes (3.1 – 4.14). Ele, como Moisés, exige que o povo se consagre (3.5) e
encontra-se com o Mensageiro Divino na terra santa (5.13-15).
Enquanto tudo isso acontece, Josué é o instrumento de Deus na preparação do povo
para sua tarefa. Ele exige sua santificação (3.5), estabelece um memorial da maravilhosa
provisão de Deus junto ao Jordão (4.1-9, 19-24), estabelece aquela geração como
herdeiros legítimos da aliança abraâmica, por meio da circuncisão (5.1-9), e encerra a
―era do deserto‖, dirigindo Israel em sua primeira refeição com os ―frutos da terra‖
(5.10-12). A preparação divina do líder e do povo restaura a unidade e a vitalidade
espirituais da comunidade sob a proteção da aliança abraâmica, apoiada pela lei
mosaica.
Os capítulos 6 a 12 contêm o relato das principais campanhas militares por meio das
quais Deus entregou o controle efetivo da Terra Prometida ao Seu povo, usando a
capacidade militar de Josué como ferramenta obediente de Seu soberano poder.
O encontro de Josué com o príncipe do exército do Senhor, no capítulo 5, abriu
caminho para a plena revelação da estratégia de Yahweh com respeito a Jericó. Embora
Josué mereça crédito por um plano geral brilhante, capaz de cortar a força de seus
inimigos ao meio, atacando primeiro a parte central de Canaã, o registro não deixa
dúvidas de que a vitória se deveu à intervenção de Yahweh. Em 5.1 isso já fica claro,
mas 5.14 indica que a batalha não pertence a Josué, sendo antes o conflito pessoal de
Yahweh com os deuses de Canaã (assim como as pragas haviam sido uma polêmica
contra os deuses do Egito; a arqueologia sugere que o deus da lua era uma das
divindades adoradas em Jericó).
A estratégia do cerco de Deus foi singularmente projetada para deixar claro que o
triunfo se deveria a Sua intervenção, não ao poderio de Israel. A exigência da presença
da arca à frente dos exércitos de Israel tinha como objetivo retratar a soberania de Deus
sobre Seu povo e a presença de Seu poder como garantia da vitória de Israel (cf. 6.2).
A proclamação de um ‫ח ֶֶרם‬, a dedicação cerimonial, para Jericó (6.18, 21) aponta
tanto para a necessidade de identificar Israel claramente como um povo separado das
contaminações de Canaã e dos juízos divinos prometidos a Abraão cerca de 500 anos
antes (cf. Gn 15.16), quanto para a dedicação de toda a terra a Yahweh, com Jericó, por
assim dizer, servindo como as primícias integralmente dedicadas a Yahweh.
O capítulo 7 registra quão cedo a desobediência humana se imiscuiu e como uma ação
errada de um indivíduo pode afetar toda uma nação, porque a mesma justiça divina que
exige o extermínio dos ímpios cananeus não tolera a presença do pecado entre Seu
povo.
Por causa da ganância e da mentira de Acã (7.1), Israel foi derrotado em Ai (7.2-5)
quando a nação confiou na própria força e não no poder de Yahweh. O desfecho dessa
derrota foi a humilhação da liderança de Israel à luz da possibilidade de que Yahweh
tivesse abandonado Seu povo. A isso se segue a revelação divina do problema com a
nação (7.6-15). O Senhor soberanamente revela Acã como o culpado pela derrota (7.16-
21), e ele é julgado e executado por ter roubado a Yahweh (7.22-26).
Os temores de Josué se mostraram infundados no capítulo 8, em que Yahweh assegura
o general de Sua presença, do triunfo sobre os inimigos e dos despojos para o povo
[talvez a inserção deste detalhe na narrativa revele um pouco de ironia] (8.1-3). Israel
ataca Ai, cujo rei, excessivamente confiante, lança um contra-ataque generalizado,
acabando por ver-se vítima de uma emboscada. Os moradores de Ai e os moradores de
Betel, que tinham vindo em seu socorro, foram exterminados e a espinha dorsal de
Canaã caiu sob o domínio israelita (8.3-29).
Josué, provavelmente, pensou que devido a toda a situação causada por Acã esse seria
o momento ideal para relembrar a Israel seus deveres pactuais para com Yahweh, uma
vez que a nação pudera ver tanto as bênçãos da obediência quanto os trágicos resultados
da desobediência. A ordem de Moisés sobre a renovação da aliança (Dt 27.12-26) foi
cumprida na região de Siquém (um lugar de muitas associações patriarcais; cf. Gn
33.19), sobre os montes Ebal e Gerizim (8.30-35).
A menção dos estrangeiros que andavam no meio deles (8.35b) pode indicar uma
inversão cronológica entre os capítulos 8 e 9, já que isso explicaria a facilidade com que
os siquemitas, etnicamente relacionados aos gibeonitas (ambos os grupos eram heveus),
permitira que Israel se reunisse pacificamente próximo ao seu território. Se os
gibeonitas já tivessem feito aliança com Israel, esta frase em 8.35b faria sentido e a
facilidade de acesso à região montanhosa de Efraim estaria explicada. Esta proposta
também tornaria a renovação da aliança ainda mais urgente aos olhos de Josué. Uma
confirmação adicional dessa teoria poderia estar em 10.1b, em que os gibeonitas são
descritos como pessoas que estavam no meio deles (i.e., dos israelitas). A presente
ordem teria se originado na necessidade de manter o relato do engano dos gibeonitas
(cap. 9) perto de suas conseqüências políticas e sociais, a coalizão dos reis do sul e a
campanha militar de Josué na parte meridional de Canaã.
Josué, embora enganado pelos gibeonitas (9.1-15), manteve o compromisso nacional
(possivelmente uma aliança de proteção),12 impondo apenas a punição de serviço braçal
aos gibeonitas (9.16-26).
A segunda campanha militar de Josué foi dirigida contra o sul de Canaã, e ofereceu
provas ainda mais dramáticas de que as vitórias eram resultado direto da intervenção
milagrosa de Yahweh.
O controle da região central por Israel e a traição dos gibeonitas foram as causas dessa
aliança dos reis de cidades-Estado, comandada por Adoni-Zedeque, de Jerusalém. A
decisão de atacar Gibeão foi sua maneira de retaliar contra a traição dos gibeonitas, mas
também um modo de desafiar a presença de Israel (10.1-4).
Pressionados pelos reis amorreus, os gibeonitas, encorajados pela promessa divina de
vitória na batalha (10.8), pedem, conforme oferecido por Josué, ajuda a Israel, conforme
seu tratado (10.5-8). Depois de uma noite de marcha subindo uma serra, Israel
confrontou a coalizão dos amorreus no vale de Aijalom, perto de Gibeão, lutando contra
um inimigo já em completa confusão por causa da soberana intervenção de Yahweh,
que lançou uma chuva de granizo de proporções incomuns (10.9-11), provocando o,
muito debatido, dia longo (10.12-15), por meio do qual os israelitas tiveram um período
adicional de luz solar para perseguir o inimigo.
A captura e a execução dos cinco reis da coalizão (10.16-26) e do rei de Maqueda
(10.27, 28) abriu as portas do sul de Canaã, que foi conquistada seguindo uma estratégia
tipo ―bomba de nêutron‖, dizimando a população e preservando as cidades para a futura
ocupação israelita, obedecendo assim à exigência pactual quanto ao ‫( ח ֶֶרם‬10.29-43).
A terceira campanha foi precipitada por outra coalizão, liderada por Jabim (título
dinástico), rei de Hazor, a maior cidade do norte de Canaã. Essa coalizão reuniu
representantes de, praticamente, todos os grupos étnicos e representou uma ameaça
muito mais séria para Israel, pois seus exércitos incluíam carros de guerra
[provavelmente do tipo empregado nessa época e mais tarde pelos hititas, que são
mencionados como membros da coalizão].
Depois de receber a garantia da vitória, que precedeu cada envolvimento militar de
Israel, exceto no primeiro ataque a Ai, Josué atacou o inimigo que havia se reunido em
Merom (lago Hule, 11.6-9). A ordem divina de destruir os carros de guerra e jarretar os
cavalos tinha como propósito manter a dependência de Israel em Yahweh, e foi
obedecida ao pé da letra (cf. 10.6 e 9, com 2 Sm 8.3).
Sua vitória em Merom foi seguida por operações de rescaldo na região norte (11.10-
15), eliminando a população e preservando as cidades, com exceção de Hazor, que foi

12
Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, p. 113, n. 51
queimada e arrasada (11.11). O autor toma cuidado em fazer uma meticulosa distinção
entre cidades que foram fisicamente destruídas, como Hazor, e as que foram passadas
ao fio da espada, que foram objeto do ‫ ח ֶֶרם‬militar, ou seja, a eliminação da população
(cf. 11.12, 13).
A parte final do capítulo 11 apresenta um resumo dos feitos militares de Josué na fase
de conquista (11.16-24). A eliminação dos anaquins em 11.21 é relacionada aos feitos
de Calebe na região de Hebrom, e pode explicar a origem dos gigantes, mais tarde
associados aos filisteus.
Alguns questionam o versículo 11.23 como uma avaliação excessivamente otimista
das campanhas de Josué. A mensagem do versículo, todavia, e sua perfeita
harmonização com o versículo 13.1, em que a idéia é estabelecer o domínio efetivo
sobre a terra, é que o versículo 11.23 fala que Josué estabeleceu a supremacia militar de
Israel sobre toda a Canaã, ainda que não tivesse ganhado controle efetivo de cada cidade
ou vila. A suserania das cidades-Estado havia sido quebrada e Israel estava estabelecido
em Canaã. O capítulo 12 resume esse fato alistando os nomes dos reis conquistados
(12.1-24).
A segunda parte do livro trata primariamente da distribuição da terra. Yahweh, o Rei
conquistador, agora distribuirá Sua terra para Seu povo (13.1– 22.34). A seção inicial
(13.1-7) acontece por volta de 1398 a.C., possivelmente onze anos antes da morte de
Josué (c. 1387 a.C.). Aparentemente Israel permanecera acampado em Gilgal por algum
tempo para que se tomassem as medidas necessárias para garantir a ocupação da terra.
A terra ocupada pelos filisteus ao longo da costa de Canaã não foi afetada pelas
campanhas de Josué, bem como a região dos fenícios e o Líbano. A despeito disso, uma
vez que essa terra pertencia ao território prometido na aliança abraâmica, Josué recebe a
instrução de designar sua conquista a tribos individuais.
A divisão começa com a terra designada para as duas e meia tribos que ficaram além
do Jordão – Rúben, Gade e a meia tribo de Manassés (13.8-32). A divisão da terra a
oeste do Jordão foi feita pela liderança religiosa, militar e civil da nação, provavelmente
usando o método de Urim e Tumim (14.1-5). A inserção de Calebe, neste ponto da
narrativa (sua atuação fora insinuada em 11.21s.), tem o propósito de enfatizar a
fidelidade de Yahweh e a fé ousada de Calebe, o binômio que tornou possível a
conquista (14.6-15). Segue-se a herança de cada tribo a oeste do Jordão: Judá (15),
Efraim (16), e Manassés (17), cuja atitude tíbia oferece um contraste notável para a fé
ousada de Calebe. O processo foi retardado por alguma razão e as tribos tiveram de ser
reconvocadas para a distribuição continuar (18.1-10). A herança de Benjamim vem
primeiro (18.11-28), seguida pela de Simeão (19.1-9), Zebulom (19.10-16), Issacar
(19.17-23), Aser (19.24-31), Naftali (19.32-39), e Dã (19.40-48). A herança de Josué é
definida quando o processo é encerrado (19.49-51).
De acordo com as especificações de Moisés (cf. Nm 35.6-34), seis cidades foram
designadas como cidades de refúgio, três de cada lado do Jordão. Essas cidades serviam
como uma forma incipiente de sistema legal, oferecendo uma espécie de tribunal
superior para os casos de homicídio (20.1-9).
A provisão seguinte visa os levitas, que são intencionalmente espalhados entre as
tribos em 48 cidades (21.1-42).
O tema básico do livro é retomado em 21.43-45. A conquista fora obra de Yahweh, de
acordo com a promessa feita aos patriarcas, sem ser contestada por inimigos
decisivamente derrotados. Assim, as duas e meia tribos orientais recebem permissão de
voltar para seus territórios, há muito conquistados (22.1-5). Quando de sua volta,
levantam um altar próximo ao Jordão, na margem ocidental, provocando assim a ira das
demais tribos, que viram em tal ato uma quebra da aliança (22.6-12). Por meio de uma
delegação liderada por Finéias, filho do sumo sacerdote Eleazar (22.13-20), as nove e
meia tribos expressam seu desagrado. As tribos orientais negam ter quebrado a aliança
(22.21-29), explicando a natureza de seu altar e afirmando sua unidade com as demais
em sua fé em Yahweh. Assim, a unidade de Israel é preservada (22.30-34). A
preocupação dos israelitas leva à renovação da aliança nos capítulos 23 e 24, pois na
obediência contínua do povo repousava a certeza da contínua ocupação da terra (23.1–
24.33).
A despedida de Josué (23.1-16) reitera a fidelidade de Yahweh, exorta a nação à
obediência sob a ameaça da maldição pactual e adverte contra futuras violações,
fechando o capítulo com outra referência à fidelidade de Yahweh, em uma bela
estrutura de inclusio, cujo propósito é motivar uma resposta de lealdade por parte do
povo.
O capítulo 24.1-27 apresenta a renovação da aliança para a nova geração de Israel.
Deuteronômio contém alguns elementos formais do tratado de suserania, embora de
forma condensada. O livro termina com a morte de Josué e sua geração e com o enterro
apropriado dos restos mortais de José, um sinal de que o retorno e o estabelecimento de
Israel tinham sido realizados de acordo com os planos de Yahweh (24.28-33).
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
A conquista e o assentamento em Canaã aconteceram conforme as promessas da
aliança de Yahweh, fundamentada em Seu poder, por meio da fé obediente de
Israel.
I. A conquista da terra por Israel é resultado da preparação, por Yahweh, de um líder e do
povo para uma campanha militar baseada em milagres acionados por fé ousada (1.1 –
12.24).
A. Yahweh prepara Josué e o povo para a tarefa de conquistar Canaã ao restaurar a vitalidade
espiritual e a unidade da nação (1.1– 5.15).
1. A primeira parte da preparação de Israel é o estabelecimento de um fundamento apropriado de
lealdade para o líder e para o povo (1.1-18).
• A divina missão de Josué é assumir o lugar de Moisés em plena obediência à lei a fim de produzir
o cumprimento das promessas feitas a Israel (1.1-9).
• A cobrança de Josué ao povo é que esteja preparado para marchar e querer participar, até o fim, do
processo da conquista da terra (1.10-15).
• A resposta do povo a Josué é dedicar a ele a mesma lealdade que devotavam a Moisés (1.16-18).
2. A missão dos espiões prepara Israel ao mostrar que o inimigo já estava emocionalmente
derrotado e que havia um elemento solidário (2.1-24).
• O ato de fé demonstrado por Raabe, ao proteger os espiões, revela a existência de uma minoria
solidária às reivindicações de Israel em Canaã, pois a reputação de Yahweh os
precedera (2.1-13).
• O pedido confiante de Raabe encoraja os espiões, que lhe prometem proteção (2.14-21).
• O relatório dos espiões traz a Josué o encorajamento de saber que Yahweh já havia prometido que
ele seria invencível (2.22-24).
3. A travessia do Jordão prepara o povo para identificar aquela geração com o poder miraculoso
demonstrado por Deus na libertação de Israel do Egito (3.1 – 4.24).
• Os israelitas eram exortados a estar preparados espiritual e cerimonialmente para participar da
intervenção miraculosa de Yahweh (3.1-5).
• Yahweh promete a Josué reconhecimento do povo em resposta à manifestação de Seu poder,
enquanto os sacerdotes carregavam a arca (o trono de Yahweh) para as águas
transbordantes do Jordão (3.6-8).
• A travessia do Jordão demonstrará aos israelitas a certeza de seu triunfo futuro sobre os residentes
de Canaã (3.9-13).
• A miraculosa travessia do rio a pé e em seco tem como testemunho um memorial como lembrança
do grande poder demonstrado por Yahweh em favor de Seu povo (3.14 – 4.13).
• Josué é vindicado como líder semelhante a Moisés, quando Yahweh reproduz Seu milagre
libertador em favor da geração de Canaã (4.14-24).
4. A participação do povo nos símbolos das duas alianças de Israel identifica-os como herdeiros
das fiéis promessas de Yahweh (5.1-12).
• A circuncisão prepara Israel para a conquista da terra ao identificar a geração do deserto como
herdeira da aliança abraâmica (5.1-9).
• A celebração da Páscoa e a participação do fruto da terra ligam a geração do deserto tanto ao
livramento por Moisés quanto às promessas àquela terra (5.10-12).
5. A manifestação do príncipe do exército do Senhor prepara Josué ao relembrá-lo de que sua
guerra era, na verdade, a guerra de Yahweh, cuja presença exigia reverência (5.13-15).
B. Yahweh guia e capacita os exércitos de Israel à conquista militarmente bem-sucedida de
Canaã, sob a liderança obediente e habilidosa de Josué (6.1– 12.24).
1. A campanha central deu a Israel controle sobre o miolo de Canaã, enquanto ensinava o poder
de Yahweh à nação e a necessidade de absoluta lealdade à aliança (6.1 – 8.34).
• A destruição de Jericó demonstrou o poder de Yahweh e o valor da obediência fiel a Sua palavra
(6.1-27).
– Yahweh garante a Josué uma vitória dada por Deus e o instrui sobre a estratégia contra Jericó (6.1-
5).
– As instruções de Yahweh para a batalha são transmitidas ao povo e executadas fielmente sob a
liderança de Josué (6.6-19).
– Jericó é destruída conforme o ‫ ח ֶֶרם‬de Yahweh e só a família de Raabe escapa devido ao juramento
dos espiões (6.20-25).
– A destruição de Jericó traz a maldição de Josué sobre seu território e sua fama percorre a terra (6.26,
27).
• Uma infração de lealdade à aliança, causada pela ganância e pelo engano de um indivíduo, remove
a bênção de Yahweh trazendo derrota militar e vergonha, até a eliminação do pecado
(7.1-26).
– A infração de Acã de lealdade à aliança, por meio de ganância e engano, removeu as bênçãos de
Yahweh da campanha militar (7.1).
– Israel age com autoconfiança e sofre derrota vergonhosa em Ai (7.2-5).
– A humilhação da liderança de Israel, à luz da derrota, leva à revelação de Yahweh quanto à natureza
do problema, violação do ‫ח ֶֶרם‬, a qual deveria ser punida (7.6-15).
– A descoberta de Acã e sua disciplina pactual, por seu roubo sacrilégio, removem o aborrecimento de
Yahweh com Israel (7.16-26).
• O renovado favor de Yahweh para Israel efetua vitória completa contra Ai e sua aliada, Betel,
conforme Sua promessa (8.1-29).
– Yahweh garante a Josué Seu favor e vitória sobre o próximo inimigo (8.1, 2).
– A estratégia de Josué para capturar a cidade por meio de emboscada, conforme a promessa de
Yahweh, dá resultado (8.3-19).
– Os exércitos de Ai e sua aliada, Betel, são destruídos e Israel toma os despojos antes da cidade ser
queimada (8.20-29).
• A aliança com Yahweh é renovada nas colinas de Efraim, como uma lembrança mais concreta da
necessidade de obediência por Israel (8.30-35).
2. A campanha do sul deu a Israel controle sobre o sul de Canaã, apesar do erro da nação em
estabelecer um tratado com Gibeão (9.1 – 10.43).
• Gibeão se desliga de uma coalizão militar anti-Israel e consegue escapar da destruição por meio de
engano e diplomacia (9.1-15).
• Gibeão é entregue à escravidão pactual como condição para Israel manter seu tratado
irresponsável (9.16-26).
• A coalizão dos cananitas vinga-se de Israel atacando Gibeão, na esperança de atrair Josué para a
batalha aberta (10.1-5).
• Josué responde aos rogos dos gibeonitas e derrota a coalizão, conforme as promessas de Deus de
provisão para a vitória (10.6-15).
– Josué, encorajado pela garantia de vitória dada por Yahweh, honra o tratado ao socorrer Gibeão
(10.6-8).
– Josué derrota a coalizão quando Yahweh desbarata os inimigos com uma chuva de granizo e o dia
prolongado (10.9-15).
• A conquista do sul de Canaã continua quando os reis dos amorreus são capturados e executados
como prova do triunfo total de Yahweh sobre a terra (10.16-27).
• A conquista do sul de Canaã se completa quando Israel conquista todas as maiores cidades,
conforme a promessa de invencibilidade a Josué feita por Yahweh (10.28-43).
– As cidades da Sefelá13 são conquistadas (10.28-35).
– As cidades das colinas são conquistadas (10.36-39).
– As cidades do Negebe são conquistadas (10.40, 41).
– O sucesso da campanha é atribuído a Yahweh quando Israel retorna em triunfo a Gilgal (10.42, 43).
3. A campanha do norte garantiu o controle israelita sobre toda Canaã, apesar do esforço de
guerra maciço dos cananitas contra Israel (11.1-15).
• Uma enorme coalizão é feita por Jabim, rei de Hazor, em resposta aos relatórios dos triunfos de
Israel no sul (11.1-5).
• A garantia de vitória dada por Yahweh encoraja Josué em um ataque direto ao inimigo, em
Merom, em que depende de Deus em vez de tecnologia militar (11.6-9).
• O triunfo no norte é assegurado pela destruição de Hazor, e a captura de cidades grandes e
despojos abundantes (11.10-15).
4. A conquista de Canaã, em cumprimento às promessas de Yahweh, de acordo com Sua
soberania, é resumida (11.16 – 12.24).
• A conquista é apresentada como resultado da soberana intervenção de Yahweh, conforme Sua
promessa (11.16-23).
• As vitórias na Transjordânia, sob a liderança de Moisés, são recitadas (12.1-6).
• As vitórias em Canaã, sob a liderança de Josué, são recitadas (12.7-24).
II. A distribuição da terra entre as tribos de Israel segue a designação de Yahweh, como
Soberano sobre a terra e o povo (13.1 – 22.34).
A. Yahweh instrui Josué quanto à terra a ser conquistada e à divisão do território subjugado
(13.1-7).
B. Os territórios de duas e meia tribos, na Transjordânia, são confirmados (13.8-33).
1. O território total é descrito (13.8-14).
2. O território de Rúben é definido (13.15-23).
3. O território de Gade é definido (13.24-28).
4. O território de Manassés é definido (13.29-33).
C. A herança de Calebe é escolhida como testemunho da fidelidade de Deus e da recompensa
pela fé obediente (14.1-15).

13
Pequena faixa de terra de relevo variável entre a planície costeira e as montanhas.
1. O processo de distribuição é revisto (14.1-5).
2. Calebe corajosamente reivindica a região montanhosa do sul de Canaã como sua possessão
fundamentado na fidelidade de Yahweh e em sua fé obediente (14.6-12).
3. Yahweh honra a fé demonstrada por Calebe, dando-lhe a região de Hebrom (14.13-15).
D. Os territórios das nove e meia tribos são definidos (15.1 – 19.48).
1. A herança de Judá é definida com menção do território a ser conquistado (15.1-63).
2. A herança de Efraim é definida com menção do território a ser conquistado (16.1-10).
3. A herança da meia tribo de Manassés é definida e suas reivindicações respondidas (17.1-18).
• O território é delineado (17.1-11).
• O território a ser conquistado é mencionado (17.12, 13).
• As reivindicações territoriais de Manassés são apresentadas e respondidas com um desafio à ação
pela fé (17.14-18).
4. O estabelecimento do tabernáculo, em Siló, supre a ocasião para que as sete tribos restantes
inspecionem e possuam a terra que Yahweh lhes atribuíra soberanamente por
intermédio de Josué (18.1-10).
5. A herança de Benjamim é definida (18.11-21).
6. A herança de Simeão é definida e sua relação com Judá estabelecida (19.1-9).
7. A herança de Zebulom é definida (19.10-16).
8. A herança de Issacar é definida (19.17-23).
9. A herança de Aser é definida (19.24-31).
10. A herança de Naftali é definida (19.32-39).
11. A herança de Dã é definida (19.40-48).
E. A herança de Josué é definida, assim que o processo de distribuição tribal termina (19.49-
51).
F. As cidades de refúgio são estabelecidas, conforme as especificações prévias de Yahweh a
Moisés (20.1-9).
1. As regulamentações de Moisés quanto às cidades de refúgio e seu papel em Israel são descritas
(20.1-6).
2. As seis cidades de refúgio são designadas (20.7-9).
G. Quarenta e oito cidades são designadas, na Transjordânia e Canaã, como cidades levíticas
(21.1-42).
H. A conquista e distribuição, como produto da fidelidade e soberania de Yahweh, são revistas
(21.43-45).
I. Uma ameaça à unidade da nação recém-estabelecida é afastada quando as tribos do leste
votam em permanecer religiosa e politicamente alinhadas aos seus irmãos do oeste
(22.1-34).
1. A causa do problema foi a construção de um altar pelas tribos do leste no caminho para suas
terras recebidas de herança (22.1-10).
2. Uma impressão errada em relação à natureza de tal altar levou as tribos do oeste a quase
declararem guerra contra seus irmãos do leste (22.11, 12).
3. A preocupação das tribos do oeste quanto à aparência de infração da aliança foi expressa por
uma delegação de todas as tribos liderada por Finéias (22.13-20).
4. O veemente voto de aliança religiosa e política vindo das tribos do leste, e a elucidação da
natureza de seu altar, restauram a harmonia em Israel (22.21-34).
III. A necessidade de Israel de contínua observância pactual para manter a ocupação da terra
leva Josué a renovar a aliança ante a nova geração de Israel (23.1 – 24.33).
A. O desafio pessoal de Josué ao povo é para que Israel prove fidelidade em sua obediência
diante da fidelidade de Yahweh (23.1-16).
1. A fidelidade de Yahweh é invocada como o alicerce da presente condição de Israel (23.1-5).
2. A exigência do momento é a fidelidade de Israel em seu compromisso com Yahweh e Sua
aliança (23.6-11).
3. As maldições da aliança são invocadas como motivação para o povo permanecer fiel, agora que
a partida de Josué se aproxima (23.12-16).
B. A aliança de Israel com Yahweh é renovada, no lugar sagrado de Siquém, para benefício da
nova geração de Israel (24.1-27).
1. O preâmbulo apresenta o suserano, Yahweh, e sua associação histórica com o vassalo, Israel
(24.1, 2).
2. O prólogo histórico relembra os muitos atos de fidelidade do suserano ao vassalo (24.3-13).
• A chamada e as bênçãos de Yahweh a Abraão e aos patriarcas são relembradas (24.3, 4).
• O ato de libertação por Yahweh do cativeiro no Egito é relembrado (24.5-7).
• As vitórias de Yahweh, na Transjordânia, em favor de Israel são relembradas (24.8-10).
• A conquista de Canaã para Israel, feita por Yahweh, é relembrada (24.11-13).
3. As estipulações da aliança enfatizam obediência exclusiva a Yahweh e adoração a Ele à luz de
Seu santo zelo para com Israel (24.14-24).
• Israel é obrigado a demonstrar lealdade exclusiva a Yahweh (24.14, 15).
• Israel aceita prontamente a obrigação (24.16-18).
• Josué adverte contra o perigo de assumir tal fardo levianamente, mas o povo reafirma sua
determinação (24.19-21).
• Josué invoca o testemunho coletivo da nação de seu compromisso com Yahweh e exige a entrega
de quaisquer ídolos existentes como prova de lealdade (24.22-24).
4. A colocação do testemunho da aliança em Siquém sela o relacionamento entre aquela geração e
Yahweh (24.25-27).
C. A morte de Josué e de seus contemporâneos encerra a era da conquista com uma nota de
confirmação, já que os restos mortais de José são enterrados na Terra Prometida e a
conquista de Canaã como prova da fidelidade e poder de Yahweh (24.28-33).
O argumento de
JUÍZES
Questões de introdutórias
TÍTULO
Esse livro recebe seu título dos homens (e da mulher) que, sob a direção espiritual e
capacitação militar de Yahweh, mediaram a teocracia durante o período entre a morte de
Josué e a coroação de Saul como o primeiro rei de Israel. O nome hebraico do livro é
‫שפ ֹטִׁים‬
ְּ (šōpeṭîm), e o nome grego é κπιηαῖ (kritai), ambos significando ―juízes‖.
DATA
O livro oferece pelo menos uma indicação clara de sua data de composição, a frase
várias vezes repetida, naqueles dias não havia rei em Israel (18.1; 19.1), indica uma
data entre a inauguração da monarquia (c. 1050 a.C.) e a divisão do reino ao tempo de
Roboão (c. 930 a.C.), já que apenas Israel é mencionado.
Além disso, Juízes 1.21 menciona Jerusalém como uma cidade controlada pelos
jebuseus, o que aponta para uma data no começo do reinado de Davi. É verdade que um
editor mais recente poderia ter preservado material mais antigo tal como o encontrara,
mesmo depois do tempo de Davi, mas a prática comum sugere uma data em cerca de
990-970 a.C., uma vez que Gezer ainda era uma cidade cananita quando o livro foi
escrito; 1 Reis 9.16 nos informa que Gezer foi capturada pelo Faraó e dada a sua filha
como presente por ocasião de seu casamento com Salomão (c. 970 a.C.).
Uma passagem problemática no que tange à data de Juízes é 18.30, onde se lê: E
Jônatas, filho de Gérson, ... ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo dos danitas, até
o dia do cativeiro da terra. Se este versículo fosse uma referência à primeira invasão
assíria em 732 a.C., a redação final do livro estaria bem distante dos eventos reais. Isso,
no entanto, não é necessário, já que as muitas guerras de fronteira enfrentadas por Israel
poderiam perfeitamente ter produzido o tipo de situação em que Dã, a tribo mais
setentrional, teria sido de tal modo dominada por invasores que parte de sua população
tivesse sido levada em cativeiro, caracterizando assim um exílio parcial.1
AUTORIA
A determinação da autoria do livro é uma questão bem mais difícil que a de sua data.
O Talmude afirma que Samuel foi seu autor, mas isto é muito difícil de provar. Quem
quer que tenha sido o autor de Juízes fez uso de diversas fontes originadas nas várias
tribos de Israel (e.g., o cântico de Débora do norte, a saga de Gideão do centro, e o ciclo
de Jefté das tribos orientais).
A perspectiva teológica do autor em demonstrar a infidelidade de Israel às
estipulações da aliança tem o tom de uma denúncia profética, mas não pode ter sido
escrito por qualquer das duas pessoas que aparecem no livro como profetas, Débora
(5.4) e um anônimo (6.7), pois ambos viveram muito no início do período para
testemunhar seus acontecimentos posteriores. Assim o autor pode ser associado com a
escola de profetas que já existia ao tempo de Samuel (1 Sm 10.9). Embora o autor ou
editor final tenha o cuidado de apontar o pecado de todos os segmentos da população
israelita, o fato de destacar os benjamitas como o supra-sumo da maldade em Israel (Jz
19 – 21) pode apontar para uma propaganda anti-Saul como elemento menor do
propósito final do livro, e situá-lo no começo do reinado de Davi.
CRONOLOGIA DE JUÍZES
O período dos juízes apresenta alguns desafios cronológicos devido aos limites
impostos por certas datas ―fixas‖ do Antigo Testamento. Uma dessas datas é 966 a.C.
como o quarto ano do reinado de Salomão (cf. 1 Rs 6.1), que define a data de 1445 a.C.
para o Êxodo. A outra data fixa está em Juízes 11.26, em que Jefté afirma que Israel
habitou 300 anos em Hesbom ... as cidades que estão ao longo do Arnom.
A soma total das opressões e juizados é de 410 anos, período longo demais para se
encaixar entre 1405 a.C. (a chegada de Israel a Canaã) e o começo do reino de Saul (c.
1050 a.C.). Várias propostas têm sido apresentadas e debatidas. A cronologia adotada
aqui presume a data de 1445 a.C. para o Êxodo, 40 anos no deserto, 7 anos para a
conquista, e 20 anos entre a divisão da terra e a morte de Josué e sua geração (o que dá
aos anciãos uma vida média de 100 anos). Presume ainda que a datação mencionada por
Jefté é exata, que a opressão amonita seguiu-se ao juizado de Jair, que a opressão sob
Jabim aconteceu nos anos finais do juizado de Eúde, e que partes de anos são contadas
como anos inteiros.2

1
Gleason L. Archer, Merece confiança o Antigo Testamento?, p. 309
2
A cronologia de Juízes é extremamente complexa e ninguém detém o monopólio da
verdade. As datas aqui propostas são contestadas por conservadores (e.g. Eugene H. Merrill,
História de Israel no Antigo Testamento, pp. 149-154.) e liberais (e.g. John Bright, Uma História
de Israel, pp. 222ss.). Em defesa do rápido surgimento da apostasia e da opressão deve-se
apresentar o fato de que o primeiro juiz foi genro de Calebe, que por volta de 1400 a.C. tinha
85 anos de idade. A data de 1360, para o início do período dos juízes, proposta por Merrill,
Os juízes de Israel e seus juizados
Juízes Tribo Anos de juizado Opressor Anos de opressão Texto
Otniel Judá 40 Arameus 8 3.7-11
Benjami
Eúde 80 Moabitas 18 3.12-30
m
Sangar Filisteus 3.31
Débor
Efraim 40 Cananeus 20 4–5
a
Gideã Midianita
Manassés 40 7 6–8
o s
Tola Issacar 23 10.1, 2
Jair Manassés 22 10.3-5
10.6–
Jefté Manassés 6 Amonitas 18
12.7
Ibzã Judá 7 12.8-10
Elom Zebulom 10 12.11, 12
Abdo
Efraim 8 12.13-15
m
Sansã
Dã 20 Filisteus 40 13 – 16
o
Uma cronologia do periodo de Josué e dos juízes
Acontecimentos Datas
Divisão da terra 1398
Tempo até a morte de Josué e anciãos 1398-1378
Opressão por Cusã-Risataim (arameus) 1378-1371
Libertação e juizado de Otniel 1371-1332
Opressão por Eglom (moabitas) 1332-1315
Libertação e juizado de Eúde 1315-1236
Juizado de Sangar
Opressão por Jabim (Cananeus) [vinte anos
Libertação e juizado de Débora (e Baraque) 1236-1197
Opressão pelos midianitas 1197-1191
Libertação e juizado de Gideão 1191-1152
Usurpação de Abimeleque 1152-1150
Juizado de Tola
Eventos do livro de Rute 1150-1128
Juizado de Jair 1120-1107
Opressão dos amonitas
Juizado de Eli (1 Sm 4.18) 1107-1089
1105-1066

faria Otniel ter iniciado seu juizado com cerca de 70 anos e terminado aos 110 anos, o que não
é impossível, mas pouco provável.
Libertação e juizado de Jefté 1089-1084
Juizado de Ibzã 1084-1077
Juizado de Elom 1077-1068
Juizado de Abdom 1068-1061
Opressão dos filisteus 1089-1050
Juizado de Sansão 1070-1051
Juizado de Samuel 1066-1041??
CONTEXTO HISTÓRICO
Depois da invasão inicial de Canaã por Israel, sob a liderança de Josué, boa parte da
terra ainda ficou por ser efetivamente controlada por Israel. Embora o domínio das
cidades-Estado sobre cada região de Canaã tivesse sido quebrado, os israelitas
permitiram que algumas delas fossem reocupadas pelos antigos habitantes, o que
explica as muitas descobertas arqueológicas que indicam destruições perto da virada do
século 12 a.C.
O problema de Israel era a constante falta de lealdade a Yahweh, seu Deus pactual,
acompanhada de falta de fé em Sua capacidade de cumprir Suas promessas pactuais.
Como resultado, Israel, pouco depois da morte de Josué (c. 1387 a.C.), começou a
sincretizar sua religião com a dos vizinhos cananeus, adorando Baal e Astarote (Jz
2.13), em um círculo vicioso de corrupção, desobediência, opressão, livramento e
apostasia renovada.
Durante esse período, a suserania do Egito sobre Canaã continuou, a despeito do
declínio geral ao tempo da 19ª dinastia. É plausível argumentar que os períodos de
―descanso‖, sob a liderança dos juízes, coincidiram com tempos de maior controle
egípcio sobre as principais rotas comerciais e militares ao longo da planície costeira e
do vale de Esdrelom. Por estar mais confinados às regiões montanhosas (cf. 1.19), e por
não possuir qualquer grande centro urbano sob seu controle, os israelitas eram
suficientemente inconspícuos para não ser notados pelos egípcios, cuja maior
preocupação, naquela área, era o crescimento da influência hitita. Tal opinião não
significa menosprezar o trabalho dos juízes, mas simplesmente reconhecer que, uma vez
mais, Yahweh, o Deus de Israel, operava Seu plano para Seu povo, exercendo controle
soberano sobre os rumos das nações.
Foi durante esse período que os Povos do Mar começaram suas invasões na Ásia
Menor, onde finalmente viriam a destruir o império hitita, e em Canaã, onde uma de
suas levas se radicou ao longo da costa e passou a ser identificada com os filisteus da
parte final do livro de Juízes. Sangar, um dos juízes, pode ter tido confrontos, no início
do período dos juízes, com alguns desses filisteus migrantes, que marchavam ao longo
do litoral, da Cilícia ao Egito (cf. Jz 3.31).
A natureza da vida de Israel durante esse período tem sido objeto de muito debate. No
passado, alguns estudiosos (Martin Noth e seus seguidores) defenderam a existência de
uma anfictionia entre as tribos, mas o cenário de uma federação tribal frouxamente
organizada, mal capaz de reunir seus membros em uma emergência de guerra (cf. Jz
5.16, 17), se encaixa melhor no livro do que uma liga bem organizada de cidades-
Estado, conforme exibida pelos filisteus.
Em relação ao papel do juiz, este aparentemente se dividia em duas categorias – a
liderança carismática, evidenciada em tempos de crise nacional, e a magistratura civil
ou judicial, por meio da qual a vida diária da nação era regulada. Essas duas áreas de
serviço não eram mutuamente exclusivas (cf. Débora, Gideão, e Jefté). Estudos recentes
propõem que os chamados juízes menores faziam parte, em Israel, do processo de
transição de governo tribal para governo citadino em Israel.
FORMA LITERÁRIA E MENSAGEM
A primeira característica literária do livro de Juízes é o contraponto entre o prólogo e
o epílogo, com o primeiro retratando o que deveria ter sido a vida ideal de Israel sob a
teocracia e os primeiros sinais de perigo contra esse ideal,3 e o último descrevendo quão
profunda fora a queda de Israel em relação ao nível de vida que Yahweh tencionara para
Seu povo, queda essa devida à falta de fidelidade da nação e, em última análise, à falta
de uma liderança espiritual permanente e confiável (cf. o refrão: naqueles dias não havia
rei em Israel; cada um fazia o que achava mais certo).
O epílogo deixa claro que os problemas de Israel não eram externos; os capítulos 17 a
21 demonstram que os piores inimigos de Israel eram internos.
A segunda característica literária do livro é a descrição cíclica do fracasso de Israel
sob a forma pré-monárquica da teocracia. A apostasia é seguida pela disciplina, que
acaba por se tornar uma ameaça à sobrevivência da nação. Nesse ponto, Yahweh
intervém (às vezes, em resposta ao arrependimento e aos clamores do povo),
apresentando um libertador e proporcionando um período de bênção sob as provisões da
aliança.
O gráfico à página 211 representa essas três dimensões do livro de Juízes, os
chamados Ciclos 3-D (desvio, disciplina , desafogo), indicando, de dentro para fora, os
ciclos do processo usado por Deus para levar Israel à percepção de que a teocracia
mediada precisava ser instaurada de maneira central.
O estudo das diversas narrativas do livro indica estilos distintos (como entre as
histórias de Gideão e Sansão),4 o que sugere que houve uma coletânea de tradições
localizadas e mais antigas, mas não a preocupação em harmonizar estilos e formas
literárias (cf. o poema de Débora [5] e o apólogo de Jotão [9.7-20]). O autor-editor final
habilmente retrata Sansão como o último juiz e usa a cena final de sua carreira como um
triste retrato de Israel. Cego por causa de seu pecado, o povo sofre as dramáticas
consequências de sua desobediência à chamada divina, que são ilustradas nos capítulos
17 a 21. Dessa maneira, forma e conteúdo parecem sugerir que o propósito primário do
livro é demonstrar a Israel sua necessidade de uma liderança espiritual e política
unificada que o mantenha fiel à aliança e apto a desfrutar as bênçãos nela prometidas.
Mensagem
O fracasso da teocracia no período dos juízes deveu-se à infidelidade de Israel à
aliança e à falta de uma liderança espiritual e política permanente.
A teologia de Juízes
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Yahweh é justo
Embora Juízes pinte um quadro sombrio da vida de uma nação que se afastou dos
preceitos de vida exigidos por seu Deus, tal quadro serve para realçar a justiça de

3
Alguns dos acontecimentos descritos no capítulo 1 de Juízes são certamente
contemporâneos de eventos do livro de Josué, isto é, ocorreram antes da morte do líder da
conquista.
4
Para um exame mais profundo da questão da composição do livro veja a introdução do
comentário de Juízes, por Artur Cundall (Juízes e Rute: Introdução e Comentário, SCB).
Yahweh em fazer cumprir as maldições de Sua aliança.5 Pode-se afirmar, fundamentado
em Juízes, que Yahweh prefere sofrer em Sua reputação a permitir a idéia de que Seu
caráter santo seja violado sem conseqüências.
Yahweh é soberano
O autor de Juízes menciona diversas causas pelas quais Israel não foi capaz de
efetivamente possuir toda a terra de Canaã (armamento superior dos cananeus [1.19];
determinação dos cananeus [1.27]; e pura apostasia [2.2, 11-13]). A razão principal,
todavia, parece ser a determinação soberana de Yahweh em utilizar o remanescente
cananita para provar (e reprovar) as gerações subseqüentes à conquista (3.1-4). Essa
perspectiva dupla é típica da mentalidade teocêntrica de Israel, embora pareça
contraditória a nossos olhos ocidentais.
Em Juízes, duas linhas de ação revelam essa faceta do caráter de Yahweh. A frase, e
os entregou nas mãos de, que traduz as expressões hebraicas ‫בי ָד‬ ְּ ֹ‫( ַוט ִׁתְּ נֵם‬w yyṯnēm
bey ḏ) e ‫( ַוט ִׁ ְּמכ ְֵּרםֹ ְּבי ָד‬wayymkerēm bey ḏ), [2.15 e 3.8; 4.2; 10.7], tira do campo
meramente sócio-político as constantes opressões a que Israel foi sujeito, e coloca-as em
uma esfera maior, que abrange céus e terra.
Em contrapartida, a expressão ‫ע‬ ַֹ ‫( ַוטָקֶםֹיהוהֹמֹושִׁי‬w yyāqem ʾădōn y môšîaʿ, ―e
Yahweh suscitou um libertador‖) indica que também a solução dos problemas de Israel
tinha sua origem no Deus que soberanamente atraía de volta Seu povo rebelde.
Embora apenas Otniel e Eúde sejam assim designados, a comissão de Débora, de
Gideão e de Jefté, todos péssimos candidatos do ponto de vista humano, indica a
determinação divina de utilizar o que menos teria mérito próprio, para melhor
evidenciar Seu poder. De igual modo, o nascimento sobrenatural de Sansão prova a
intervenção soberana de Yahweh em favor de Seu povo (compará-lo ao nascimento de
Samuel e comparar as condições espirituais impostas a cada um é um estudo
interessante).
Yahweh é misericordioso
Em cumprimento às estipulações da aliança, Yahweh disciplinou o Seu povo rebelde,
mas isso não O tornou insensível ao seu sofrimento e à possibilidade de que viesse a ser
exterminado pelos que o oprimiam. A constância da misericórdia de Yahweh é mais
comovente que a irracionalidade e cegueira de Israel. Juízes prova que a misericórdia de
Yahweh nunca é sobrepujada pelo pecado do homem, e que o penitente sempre
encontrará um Deus de braços estendidos a recebê-lo.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
O modelo de teologia bíblica aqui proposto inclui quatro linhas de ação: o decreto
divino de permitir o mal, Sua promessa e/ou ação em julgar o mal, a libertação do mal
para uma semente escolhida e/ou por meio dela, e o decreto de abençoar os eleitos.
A permissão do mal
Naturalmente a passagem em que tal decreto é mais evidente se encontra em 3.1-4,
que resume as muitas causas ―humanas‖ para o fracasso de Israel na conquista absoluta
da terra. O Deus que haveria de produzir o bem maior da monarquia teocrática,
―suportou com paciência‖ a irresponsabilidade humana, e a utilizou soberanamente para
atingir seus fins. De igual modo, as flagrantes deficiências dos juízes, mesmo quando

5
Thomas L. Constable indica que há uma tensão equilibrante entre as alianças abraâmica e
mosaica em Juízes, com a primeira garantindo a sobrevivência na terra, e a segunda exigindo a
disciplina que incluía a perda do controle sobre Canaã (“A Theology of Joshua, Judges, and
Ruth” em Biblical Theology of the Old Testament, editado por Roy B. Zuck, p. 102.)
influenciados pelo Espírito de Deus (cf. Sansão e Gideão), indicam que a presença do
elemento humano nos planos de Deus, longe de limitá-los ou prejudicar sua
concretização, acaba por confirmá-los em seus matizes de graça e poder.6
A promessa/ação de julgar o mal
Juízes é a ilustração deste aspecto do propósito de Deus no Antigo Testamento. O
ciclo de desvio-disciplina-desafogo revela que essa atividade divina se aplica não
apenas a Seu povo em pecado, mas também aos instrumentos humanos que Yahweh
utiliza para discipliná-lo (cf. Is 10.5, 12s.).
O objetivo central da ação judicial de Yahweh é a idolatria sincrética a que Israel se
entregou à medida que conviveu com as nações que viviam em Canaã e que contaminou
até mesmo a família do grande legislador Moisés. Nada menos que a severidade
prometida na lista de maldições de Deuteronômio 28 poderia ter impedido a implosão
da teocracia.
A libertação do mal através de uma semente escolhida
Muitos exemplos de ―eleição‖ para serviço se acham em Juízes, mas os dois mais
marcantes são os de Gideão e Sansão. Ambos envolveram uma manifestação do anjo do
Senhor e uma capacitação especial do Espírito Santo para a tarefa a cumprir.
Nos dois casos, todavia, a narrativa deixa claro que as possibilidades inerentes aos
propósitos divinos foram, de alguma forma, tolhidas pela inadequação dos escolhidos
em relação à plenitude das funções que lhes foram dadas. Gideão, humilde a princípio,
assume uma atitude orgulhosa ao arrogar-se em sacerdote (quer usando uma estola
sacerdotal quer erguendo uma imagem de ouro, 8.24-28) e ao arrogar-se rei, apesar de
rejeitar a coroa.7
Sansão, por seu turno, desperdiçou a capacitação sobrenatural que lhe fora concedida
pelo Espírito, violando cada uma das imposições de seu voto de nazireu e vivendo uma
vida de sincretismo moral, que refletia o sincretismo religioso de seu povo.
Apesar dessas deficiências, de tal modo era eficaz a vocação para o cumprimento dos
propósitos libertadores de Deus, que foram mais os que matou na sua morte do que os
que matara na sua vida (16.30).
Isso não significa que Deus transija com o mal, pois o preço de tal negligência para
com o privilégio recebido foi a completa ruína da família, no caso de Gideão, e a
humilhação e morte inglória, no caso de Sansão.
O decreto de abençoar os eleitos
Este aspecto do propósito de Deus, em Juízes, fica confinado aos períodos em que o
povo se coloca sob a liderança de um juiz e a terra desfruta paz (i.e., Israel retém sua
soberania). Em geral, todavia, retrata uma nação que se alienou de Yahweh e das
bênçãos inerentes à obediência a Ele. A expectativa de Israel é retratada na visão
sincrética de Mica e sua mãe, que viam em uma imagem a representação de Yahweh e
confundiam as falsas promessas da idolatria cananita com as perspectivas de glória
contidas na aliança (cf. Jz 17.2, 13).

6
Para um exame mais detalhado da questão da aparente incoerência entre a presença do
Espírito de Deus e a baixa qualidade ética dos juízes veja Cundall, Juízes, pp. 42-45. Uma
discussão mais completa do assunto se acha em Leon J. Wood, The Holy Spirit in the Old
Testament, pp. 39-40.

7
A arrogância do ex-juiz transparece no nome dado a seu filho bastardo, El#m#yb!a&
(ʾăḇîmeleḵ , “meu pai é rei”). Gideão parece ter mudado de idéia quanto à oferta que lhe fora
feita pelos homens de Siquém.
Argumento básico
PROPÓSITO E DESENVOLVIMENTO
Os propósitos do livro estão ligados a suas características literárias. A primeira dessas
características é o contraponto entre o prólogo e o epílogo, em que o primeiro retrata o
que a vida ideal teria sido sob a teocracia e os primeiros sinais de perigo contra esse
ideal, e o último descreve quão fundo Israel descera em relação ao nível de vida que
Yahweh planejara para Seu povo. As causas dessa situação lamentável foram a falta de
liderança espiritual confiável e permanente (cf. o refrão, naqueles dias não havia rei em
Israel; cada qual fazia o que parecia bem aos seus olhos). O epílogo indica que os
problemas de Israel não eram externos; os capítulos 17 a 21 indicam que os piores
inimigos de Israel estavam dentro de suas fronteiras.
A segunda característica literária é a descrição cíclica do fracasso espiritual de Israel
no período pré-monárquico da teocracia. O desvio espiritual é seguido pela disciplina,
que ameaça a própria sobrevivência da nação, e, nesse ponto, Yahweh intervém
trazendo o desafogo (algumas vezes em resposta ao arrependimento e ao clamor do
povo), apresentando um libertador e oferecendo um tempo de bênção sob as provisões
da aliança.
Assim, o propósito principal do livro parece ser demonstrar a necessidade de Israel de
uma liderança espiritual unificada que mantenha a nação fiel à aliança, desfrutando
assim suas bênçãos.
Esse propósito é alcançado parcialmente quando o autor apresenta a nação em seu
apogeu, não mais sob a liderança de Josué, mas ainda vencendo os inimigos e
conquistando território cananeu (1.1-36). A passagem em que o Anjo do Senhor
repreende as tribos reunidas não pode ser situada precisamente no tempo, mas serve o
propósito de indicar que as sementes da desobediência já estavam presentes no início do
período, ou, talvez, no período entre a morte de Josué e a morte dos anciãos da geração
do deserto (2.1-5). A segunda metade do prólogo passa do ideal para o real, à medida
que a nação sucumbe à pressão de conformidade aos grupos que a cercavam – grupos,
que Deus soberanamente determinara manter na terra, para pôr à prova a lealdade de
Seu povo a Ele (2.20 – 3.5). A apostasia e a idolatria aqui apresentadas serão
ciclicamente desdobradas ao longo do livro, bem como o juízo divino que se segue a
elas.
A parte central (e maior) do livro cumpre o propósito ao apresentar sete ciclos de
Desvio-Disciplina-Desafogo, nos quais se revela a incapacidade inerente da nação de
confiar em Deus e obedecer a Ele. A soberania de Yahweh sobre as nações é
demonstrada à medida que Ele as traz contra Seu próprio povo; em contrapartida, a
graça mais que suficiente de Yahweh pode ser vista quando Ele ouve o clamor dos
israelitas arrependidos, dá-lhes o livramento e um período de paz e prosperidade.
Esses ciclos 3-D (3.6–16.31) sempre iniciam com uma volta ao pecado. Esse pecado,
principalmente de natureza religiosa, possivelmente causado pelo apelo ao baalismo em
uma sociedade agro pastoril e pelo constante problema de casamentos mistos entre os
israelitas e os povos vizinhos (3.6, 7). O pecado trouxe a desintegração da sociedade e a
opressão dos inimigos, que somente o arrependimento e a busca a Deus pela obediência
poderiam superar.
O primeiro ciclo registrado é o da invasão dos arameus (3.6-11), que foi causada pelo
conhecido binômio esposas estrangeiras – deuses estranhos (3.6, 7). Oito anos de
opressão, sob o jugo dos arameus (3.8), colocaram Israel de joelhos (3.9), e Yahweh
supriu livramento por intermédio de Otniel (3.9, 10). A soberania de Yahweh sobre as
nações é enfatizada como a causa da vitória de Otniel e do período de repouso que se
seguiu (3.10, 11).
O segundo ciclo registrado envolveu o ataque e a opressão dos moabitas, inimigos de
Israel ao leste (3.12-30). Dessa vez, a disciplina envolveu especificamente o pagamento
de tributo (3.17) e reivindicações territoriais contra a terra de Israel (cf. 3.19, em que a
palavra ―ídolos‖ pode indicar marcos de propriedade moabitas). O livramento envolveu
a morte do rei moabita por Eúde, um benjamita canhoto que, sob pretexto de comunicar
uma mensagem secreta dos deuses, assassinou Eglom em sua residência real temporária,
próximo a Gilgal (3.16-25).
O juizado de Sangar não é descrito em detalhes. A julgar pela ausência do costumeiro
ciclo e pelo tempo de opressão, Sangar deve ter sido capacitado temporariamente para
realizar atos militares de livramento. O fato de ele ser mencionado antes do registro da
morte de Eúde sugere que ele agiu durante o período de repouso de 80 anos resultante
do juizado de Eúde. Nesse começo do período dos juízes é bem provável que os filisteus
que Eúde matou não fossem os guerreiros estabelecidos do tempo de Sansão, mas
bandos de mercenários dos Povos do Mar, descendo da Síria, ou mesmo da Ásia Menor,
talvez até mesmo veteranos de guerra que tivessem lutado no exército hitita do rei
Muwattalis na famosa batalha de Qadesh, contra os exércitos egípcios de Ramsés II
(1296 a.C.).
O ciclo seguinte é mais diretamente relacionado às tribos do Norte e sua causa pode
ter-se manifestado durante o juizado de Eúde, no sul. Hazor, que Josué tinha destruído a
fogo (Js 11.11), havia reconquistado a primazia ao norte de Canaã e seu rei, Jabim
(título dinástico) oprimiu Israel por 20 anos (Jz 4.2, 3). O pedido de Israel por
livramento foi respondido de modo incomum, pois o juiz que Deus escolheu usar foi
uma mulher, uma profetisa chamada Débora, que já servia como líder civil na tribo de
Efraim (4.4). Todo esse ciclo (caps. 4– 5) é permeado por ironia à medida que, à vista
da falta de fé em Israel, aprouve a Deus usar a fé vibrante de duas mulheres para
derrotar os inimigos de Seu povo e envergonhar definitivamente os homens que
deveriam ter liderado a nação. A despeito da superioridade militar que lhe conferiam
suas numerosas carruagens de guerra (4.3), os cananeus foram desbaratados por
Baraque (com um pequeno contingente de tribos voluntárias, cf. 5.14-18, 23) quando o
Senhor lançou as forças da natureza contra o poderoso exército de Sísera (5.20, 21). O
general foi morto por uma mulher, que era estrangeira residente em Israel, cujos
ancestrais eram queneus (ou quenitas). Após essa derrota, Jabim perdeu o controle sobre
o norte de Canaã e as tribos do Norte sacudiram seu jugo completamente (4.23, 24). O
magnífico cântico de Débora celebra a grande vitória (5.1-31).
O novo ciclo trouxe uma nova ameaça, bandos devastadores de midianitas, os quais
usavam camelos domesticados para a batalha, o que perturbava os israelitas de tal
maneira que nenhuma resistência era possível (6.1-5). Esta ameaça era muito mais séria
que todas as anteriores, porque desintegrava os ciclos de vida de Israel (6.2).
Outro elemento novo é a indicação de que Deus repreendera os israelitas (quando
estes reclamavam com Ele, 6.6) por intermédio de um profeta anônimo (6.7-10). Além
do mais, essa passagem contém a segunda manifestação do Anjo do Senhor no livro.
Sua aparição parece coincidir com as crises mais perigosas de Israel (2.1-4, o perigo da
apostasia; 6.11-24, o perigo da fome; 13.1-23, o perigo da escravidão por domínio
tecnológico). A manifestação de Yahweh foi seguida por um direcionamento posterior,
que incluiu a destruição do altar de Baal na cidade natal de Gideão (6.25-32), uma
demonstração de condescendência para com a diminuta fé de Gideão (6.33-40), a
formação de um exército (7.1-3) e sua redução a um tamanho compatível com a
grandeza do milagre de Deus (7.4-8a), de modo que o livramento fosse visto como um
ato direto de Deus (7.8b-25).
A conseqüência social do livramento, efetuado por Gideão, foi uma refrega entre
tribos vizinhas por causa dos despojos de guerra e ajuda nas operações de rescaldo
(7.24–8.21); a conseqüência religiosa foi o aumento da corrupção, pois Gideão, depois
de recusar tornar-se rei (8.22, 23), usou despojos de guerra para criar uma estola
sacerdotal, que provavelmente o identificou como rival dos sacerdotes do Tabernáculo
oficial em Siló (8.24-27), e contribuiu para intensificar a inclinação natural de Israel
para a idolatria (8.28-33). A conseqüência política foi o desejo do filho bastardo de
Gideão, Abimeleque (―meu pai é rei‖ ou ―pai de um rei‖), de reinar em Israel. Sua
ambição trouxe conseqüências trágicas (cap. 9) – assassinatos na família (9.1-6),
rebelião (9.26-41), e luta fratricida no meio de um povo que mal podia se sustentar
diante de seus inimigos externos (9.42-57). Outro toque de ironia é que agora mulheres
israelitas matam guerreiros israelitas, não mais generais inimigos.
Depois da tragédia de Abimeleque, dois juízes ―menores‖ agiram para restaurar Israel.
Tola, da tribo de Issacar, serviu em Efraim (10.1, 2), ao passo que Jair, da tribo de
Manassés, julgou na região de Gileade, a leste do Jordão (10.3-5). Seus juizados
precederam a opressão amonita que assinalou o trigentésimo aniversário da presença de
Israel em Canaã. O ciclo trouxe sofrimento incomum, porque agora o sul de Israel
estava sofrendo ataques conjugados de leste e oeste, pelos amonitas e pelos filisteus
respectivamente (10.6-18).
Depois de 18 anos de opressão, Israel foi liberto por um homem de má reputação, mas
de grande valor militar, um gileadita chamado Jefté. Primeiramente, ele tentou a
abordagem diplomática (11.12-28), mas os amonitas não aceitaram seus argumentos. O
famoso (para alguns, infame) voto de Jefté foi seguido por sua ampla vitória sobre os
amonitas (11.29-33).
Depois de cumprir o seu voto (11.34-40), Jefté teve de lidar com o problema crescente
da rivalidade tribal e desfechou um rude golpe contra os efraimitas, que uma vez mais
estavam causando problemas na hora da divisão dos despojos de uma guerra da qual
não tinham participado (12.1-6).
É importante observar que embora tenha havido vitória sobre os inimigos, não há aqui
registro de um período de paz resultante. A apostasia corroera profundamente a vida da
nação, roubando-lhe as bênçãos da aliança.
É durante o período da opressão amonita que precisa ser situado o juizado de Eli, que
ocorreu na região mais protegida da serra de Efraim. Os, praticamente, contemporâneos
de Eli foram Ibzã (12.8-10), Elom (12.11, 12), que serviram no Norte, e Abdom, um
efraimita (12.13-15). Estes últimos tiveram um ministério paralelo aos juizados de
Samuel e Sansão.
O juizado de Sansão parece ter ocorrido durante a opressão dos filisteus (1088-1048
a.C.). Seu nascimento foi anunciado por ninguém menos que o Anjo do Senhor (13.1-
24), que impôs a condição de que ele fosse um nazireu por toda a vida (13.5a) e fez a
promessa que Sansão começaria a livrar Israel das mãos dos filisteus (13.5b). A
irregularidade da vida espiritual de Sansão certamente impediu que realizasse muita
coisa benéfica para Israel, mas ele incomodou os filisteus o suficiente para impedir que
eles solidificassem seu domínio ao sul de Israel até que a monarquia surgisse e
trouxesse alívio definitivo para esse problema. Seus fracassos espirituais incluem casar-
se com uma estrangeira (14.1-4), envolver-se com uma prostituta (16.1-31) e quebrar
repetidas vezes seu voto de nazireu. Seus feitos de valor estavam mais relacionados a
brigas pessoais com os filisteus (15.1-20; 16.22-31) do que a ações de natureza militar,
envolvendo exércitos. O uso, por Yahweh, de um homem tão instável como Sansão é
um testemunho tanto de Seu cuidado por Israel quanto da degradação corrente, naquela
época, em Israel. A cena final da carreira de Sansão é um triste retrato de Israel, cego
em (por) seu pecado e sofrendo conseqüências dramáticas por isso.
A terceira parte do livro tem como propósito destacar quão profunda era a necessidade
que Israel tinha de um meio mais eficiente de mediar a teocracia. Assim, os capítulos 17
a 21 retratam para o leitor a degeneração da vida espiritual, moral, social e política de
Israel. A extinção é prevista pelo autor à luz da anarquia sóciopolítica-espiritual que
reinava em Israel (17.6; 18.1; 19.1; 21.25).
O episódio de Mica (17.1–18.31) revela a corrupção da verdadeira religião por meio
do sincretismo (17.1-5), a corrupção do sacerdócio (17.6-12), o desprezo pelas
instruções divinas quanto à divisão da terra (18.1-31), e a completa dissolução das
instituições israelitas, que se evidencia no fato do neto de Moisés tornar-se o sacerdote
idólatra da tribo mais apóstata de Israel, a tribo de Dã (18.30, 31). Este último fato
indica quão cedo a apostasia se estabelecera.
O macabro episódio do levita e sua concubina (19.1-29) destaca, com ironia quase
igualmente macabra, o fato de que Israel descera ainda mais fundo que os cananeus em
sua imoralidade e insensibilidade para com a vida humana (cf. 19.11s. e 19.22, 24, 25),
alcançando profundeza comparável apenas à de Sodoma (cf. Gn 19.8).
A conseqüência desse incidente foi a guerra civil, com todas as tribos marchando
contra Benjamim (20.1–21.25). Benjamim tomara o partido dos criminosos de Gibeá
(20.13-16), depois de uma delegação nacional os ter confrontado com o crime (20.1-12).
Após duas derrotas humilhantes (20.17-28), os israelitas praticamente aniquilaram os
benjamitas (20.29-46), deixando apenas um bando experiente de seiscentos guerreiros
(20.46) que tinham sido excomungados de Israel. A percepção do risco de extinção da
tribo de Benjamim (21.1-7) motivou ações ainda mais comprometedoras pelas tribos
remanescentes, para corrigir sua punição excessiva contra seus irmãos e oferecer-lhes
esposas (21.8-24). Este evento também deve ter acontecido no início do período dos
juízes, em vista dos números que a tribo de Benjamim foi capaz de colocar em campo
ao tempo da monarquia unida (cf. 1 Cr 12.29). Esse incidente é o anticlímax adequado
para um livro cujo movimento é uma espiral descendente, e cujo clima é, em geral,
lúgubre, com pequenos vislumbres da graça de Deus. O livro aponta a necessidade
daquilo que o próprio Yahweh produziria – o estabelecimento da monarquia davídica
como o agente escolhido por Deus para mediar a teocracia.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
O fracasso da teocracia no período dos juízes foi causado pela infidelidade de
Israel à aliança e à falta de liderança espiritual e política permanente.
PARTE I – O CONTEXTO DO FRACASSO DA TEOCRACIA DE ISRAEL (1.1–3.5)
I. A vida de conquista e descanso que Israel conhecera até aquele momento foi perdida,
porque a nação deixou de confiar em Yahweh para o término das conquistas individuais
das tribos (1.1–2.9).
A. A conquista de Judá foi incompleta, apesar de seus sucessos iniciais (1.1-20).
B. Benjamim não conseguiu eliminar os jebuseus (1.21).
C. As duas divisões da casa de José fracassaram em sua tentativa de conquistar seus territórios
(1.22-29).
D. As demais tribos, a oeste do Jordão, não conseguem derrotar seus inimigos e aceitam uma
convivência arriscada com seus vizinhos pagãos (1.30-36).
E. O fracasso na expulsão dos antigos habitantes de cada território tribal é denunciado por Deus
como uma desobediência que terá graves conseqüências (2.1-5).
II. A vida de conquista e descanso que Israel conhecera até aquele momento foi perdida,
porque a nação abandonou sua lealdade ao Deus da aliança e mergulhou na idolatria das
nações que Yahweh usou como provas para a lealdade espiritual de Israel (2.6–3.6).
A. A lealdade de Israel a Yahweh sobreviveu apenas poucos anos após a morte de Josué, pois
os valores espirituais não foram transmitidos à geração seguinte (2.6-10).
B. A desobediência e a deslealdade de Israel a Yahweh lançaram a nação em um círculo vicioso
de pecado e punição que, a despeito da graciosa intervenção divina, sugou a vitalidade
da nação e sua capacidade de compromisso espiritual (2.11-19).
C. A disciplina de Yahweh sobre Israel consistiu em abandonar a nação ao seu destino militar e
usar as nações circunvizinhas para testar e punir Seu povo (2.20–3.6).
PARTE II – OS CICLOS DO FRACASSO DA TEOCRACIA DE ISRAEL (3.6–
16.31)
I. A opressão sob os arameus trouxe 8 anos de disciplina, a libertação por Otniel e um
descanso de 40 anos (3.7-11).
II. A opressão dos moabitas trouxe 18 anos de disciplina, a libertação por Eúde e um
descanso de 80 anos (3.12-30).
III. O assédio temporário por bandos de migrantes filisteus foi mitigado pelos atos de bravura
de Sangar (3.31).
IV. A opressão dos cananeus trouxe 20 anos de disciplina, a libertação por Débora e Baraque
e um descanso de 40 anos (4.1–5.31).
A. Yahweh ofereceu libertação incomum por meio de milagres na natureza e pela ação de
mulheres na batalha (4.1-24).
B. Yahweh é louvado por Sua libertação incomum em uma ocasião em que o auxílio humano
era insuficiente (5.1-31).
V. A opressão dos midianitas trouxe 7 anos de severa disciplina, a libertação por Gideão e um
descanso de 40 anos (6.1–8.32).
A. As condições causadas pelos midianitas, como agentes da disciplina de Deus, ameaçavam
subverter a vida em Israel (6.1-6).
B. O clamor de Israel por ajuda produziu uma resposta cáustica de um profeta de Deus (6.7-10).
C. O chamado de Gideão revela a resposta compassiva de Yahweh para Seu povo,
superficialmente arrependido (6.11-24).
D. O primeiro ato de libertação, de Gideão, é eliminar a idolatria em sua cidade natal (6.25-32).
E. Os preparativos de Gideão para a batalha incluem convocar um exército e provocar coragem
entre a tropa (6.33-40).
F. O exército de Gideão é reduzido a um número compatível com a capacidade divina de
libertar Israel sobrenaturalmente (7.1–8.21).
1. Yahweh exige que o exército seja reduzido para que Israel perceba a verdadeira fonte de sua
libertação (7.1-8).
2. Yahweh encoraja Gideão, demonstrando que Ele já havia quebrado o espírito dos inimigos
(7.9-14).
3. Yahweh provoca o pânico divino entre os midianitas em conjunção com a estratégia de Gideão
(7.15-25).
4. Gideão lida com a dissensão interna e a inveja tribal enquanto realiza a limpeza final dos
inimigos (8.1-21).
G. Os triunfos de Gideão foram diluídos pela armadilha espiritual que ele armou para Israel
com sua estola sacerdotal dourada (8.22-32).
VI. A usurpação de Abimeleque, em Siquém, foi o castigo doméstico de Yahweh pelo
retorno de Israel à idolatria (8.33–10.5).
A. Israel retornou ao baalismo e instituiu um culto idólatra no local em que a aliança de
Yahweh tinha sido renovada (8.33-35).
B. Abimeleque assume prerrogativas reais ao eliminar os filhos legítimos de Gideão e fazendo-
se coroar rei em Siquém (9.1-6).
C. Jotão, o filho mais novo de Gideão, age como porta-voz de Deus ao invocar uma maldição
sobre Siquém e Abimeleque por sua violação da lealdade à aliança (9.7-21).
D. O ímpio reinado de Abimeleque chega a um fim trágico quando Yahweh instiga rebelião
contra ele em Siquém e Tebes, onde ele sofre morte vergonhosa (9.22-56).
E. O mal causado por Abimeleque é parcialmente reparado pelos juizados de Tola (em Efraim)
e Jair (de Gileade) (10.1-5).
VII. A opressão dos amonitas trouxe 18 anos de disciplina, a libertação por meio de Jefté,
sem trazer qualquer descanso (10.6–12.7).
A. Israel cai novamente em ampla e profunda idolatria (10.6).
B. Yahweh responde, submetendo Israel à opressão combinada dos amonitas (a leste) e dos
filisteus (a oeste) (10.7-10).
C. Os clamores de Israel em busca de libertação encontram Yahweh mais exigente em Sua justa
ira, mas ainda compassivo diante do verdadeiro arrependimento (10.11-16).
D. A busca de Israel por um libertador produz Jefté, um líder capaz, mas com reputação
suspeita (10.17–11.11).
E. A tentativa de Jefté de obter liberdade por meio de negociação com os amonitas fracassa
(11.12-28).
F. O triunfo de Jefté sobre os amonitas segue-se a um voto intempestivo, que ele leva até o fim,
para sua grande agonia (11.29-40).
G. A libertação proporcionada por Jefté não traz descanso e sim a luta entre as tribos por causa
do contínuo anseio de Efraim pela preeminência (12.1-7).
VIII. A opressão dos filisteus trouxe cerca de 40 anos de severa disciplina, a libertação
parcial por Sansão, sem trazer qualquer descanso (12.8; 16.31).
A. Três juízes ―menores‖ ministraram durante a opressão dos filisteus (12.8-14).
1. Ibsã julgou em Belém, no começo da opressão dos filisteus (12.8-10).
2. Elom julgou no norte, fora da área de influência dos filisteus (12.11, 12).
3. Abdom julgou em Efraim, em uma ocasião em que a opressão dos filisteus ainda não atingira
aquela região (12.13, 14).
B. O nascimento de Sansão é anunciado pelo Anjo do Senhor como uma resposta ao clamor de
Israel por alívio da opressão dos filisteus (13.1-25).
1. O nascimento de Sansão é anunciado (13.1-7).
2. Os pais de Sansão recebem instruções sobre sua criação como nazireu (13.8-23).
3. Sansão nasce e é abençoado com a presença do Espírito de Yahweh (13.24, 25).
C. Yahweh usa Sansão como Seu instrumento a despeito de sua inconstante carreira espiritual
(14.1–16.31).
1. O casamento de Sansão provoca seu primeiro conflito direto com os filisteus (14.1–15.20).
• O casamento frustrado de Sansão o faz buscar vinganças pessoais contra comunidades filistéias
(14.1–15.8).
• A entrega de Sansão aos filisteus, por seus compatriotas danitas, resulta em mais um massacre de
seus inimigos (15.9-20).
2. A paixão incontida de Sansão pelas mulheres acaba por levá-lo a um conflito definitivo com os
príncipes filisteus (16.1-31).
• A aventura de Sansão com uma prostituta, em Gaza, gera o primeiro esforço organizado para
eliminá-lo (16.1-3).
• O envolvimento emocional de Sansão com Dalila oferece aos príncipes filisteus a oportunidade de
capturá-lo, quando ele irresponsavelmente menospreza seu chamado e seus privilégios
(16.4-22).
• Um Sansão humilhado vinga-se dos filisteus, quando Yahweh capacita seu inconstante servo a
desferir um golpe final contra os inimigos de Seu povo (16.23-31).
PARTE III – CENAS DO FRACASSO DA TEOCRACIA DE ISRAEL (17.1–21.25)
I. A apostasia espiritual de Israel e sua adoração paganizada a Yahweh são ilustradas pelos
episódios de Mica, seu ídolo e os danitas (17.1–18.25).
A. O episódio da idolatria sincretista de Mica revela a confusão espiritual de Israel e a
degeneração de sua liderança religiosa (17.1-13).
B. O episódio da migração dos danitas revela o desprezo nacional pelas ordens divinas de
possuir os territórios designados a cada tribo, bem como a inclinação constante da nação
para a idolatria (18.1-31).
1. A migração dos danitas revela sua indisposição de confiar em Yahweh para a conquista de seu
território divinamente designado (18.1-11).
2. A usurpação, pelos danitas, do santuário sincrético de Mica revela a inclinação constante de
Israel para a idolatria (18.12-31).
II. A degeneração moral e social de Israel é ilustrada pelos episódios de atrocidade em Gibeá
e pela guerra nacional contra Benjamim (19.1–21.25).
A. O estupro coletivo e o assassinato de uma mulher de Benjamim, em Gibeá, demonstram que
Israel descera ainda mais fundo que seus vizinhos pagãos em sua degeneração moral
(19.1-30).
B. A insensibilidade dos benjamitas com a atrocidade em Gibeá provocou uma ação disciplinar
excessiva contra a tribo, que praticamente a extinguiu (20.1-48).
C. O suprimento de esposas para os sobreviventes benjamitas ilustra o subterfúgio espiritual e a
desintegração social de Israel (21.1-24).
D. A avaliação do período demonstra a necessidade que Israel tinha de mediação centralizada
da teocracia (21.25).
O argumento de
RUTE
Questões introdutórias
TÍTULO
O título desse breve livro é o nome de seu personagem principal, uma mulher moabita
chamada Rute. A etimologia desse nome é incerta, embora esteja freqüentemente ligado
à palavra hebraica ‫( ְּרעות‬reʿûṯ), que significa ―amizade, companheirismo‖.
DATA E AUTORIA
A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel.1 Embora isso seja possível, pois
Samuel e Davi foram parcialmente contemporâneos, não é muito provável, pois exigiria
uma data de composição durante os anos em que Davi viveu como fugitivo. Tal ocasião
era extremamente imprópria para incluir uma mulher moabita na genealogia de um
aspirante ao trono. O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador,
comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na
constituição da árvore genealógica real.
Eruditos de linha mais radical defendem uma data bem mais recente para o livro,
argumentando que o uso de tradições deuteronômicas aponta para uma data posterior ao
reino de Josias (640-609 a.C.). Outros, engajados com o aspecto político da teologia da
libertação, defendem uma data pós-exílica, argumentando que o autor usou a narrativa
para combater o nacionalismo extremado de Esdras e Neemias e a exploração dos ―sem-
terra‖ pelos nobres de Judá.2 Uns poucos autores têm defendido a data de composição
no início da monarquia,3 o que é coerente com o conhecimento do período em que a
história acontece, como também com a ausência do nome de Salomão na genealogia.

1
Talmude, Baba Bathra, p. 14b.
2
Veja especialmente as obras de Carlos Mesters sobre Rute (Ed. Vozes), em que a
contextualização do livro é feita de maneira soberba, mas às custas da exatidão histórica e
hermenêutica, impondo uma análise contemporânea aos participantes da história de Rute.
3
Ronald Hals, The Theology of the Book of Ruth; Edward F. Campbell Jr., Ruth, The Anchor
Bible; Arthur Cundall e Leon Morris, Juízes e Rute: Introdução e Comentário, SCB, que oferece
extensa discussão dos argumentos lingüísticos e conclui que nenhum deles exige uma data
pós-exílica.
Um argumento significativo para uma data mais recuada é a atmosfera amistosa nas
relações entre Israel e Moabe, algo impensável depois da cruel servidão imposta aos
moabitas pelo reino do Norte.
CONTEXTO HISTÓRICO
A narrativa tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de
apostasia e, conseqüentemente, caos moral e social em Israel. Em consonância com as
maldições da aliança, uma fome assolou a terra, forçando uma família efratita a migrar
para a terra vizinha de Moabe.
O livro relata os eventos que constituiriam o curso normal de uma família migrante. A
segunda geração casa com membros da sociedade receptora e a migração dá lugar ao
assentamento e à aculturação.
Soberanamente, porém, Yahweh intervém e usa a tragédia para atingir alvos mais
elevados na história, oferecendo um contraste notável de fé, lealdade e graça ao estado
lastimável do povo escolhido durante aquela era.
FORMA LITERÁRIA E MENSAGEM
O livro de Rute segue o gênero novela, uma história breve, altamente artística em
estilo e estrutura. Nessa história, um enredo desenvolve-se em certo número de
episódios até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem
emular.4
O autor de Rute emprega de maneira notável o recurso da simetria, usando exatamente
o mesmo número de palavras (71) nas cenas inicial e final. Igualmente eficaz é o uso do
contraste (plenitude-esvaziamento, agradável-amarga, altruísmo-egoísmo) e do
suspense, já que o desfecho antecipado e desejado pelo leitor permanece indeterminado
até o último ato. Seja quem for, o autor de Rute conseguiu, com rara felicidade,
combinar narrativa, história e Heilsgeschichte, exaltando as virtudes de lealdade pactual
tanto em Yahweh quanto nos personagens principais, Rute e Boaz. Como já se disse,
―seus personagens vivem, amam e relacionam-se de modo a aparecer como a
personificação do conceito hebraico de ‫( צְּדָ ָקה‬ṣeḏāq ), ―justiça‖, ―integridade‖,
ilustrando em termos concretos a vida sob a aliança de Deus‖.5
Com arte e sutileza, o autor mantém incógnito o ator principal do drama, o próprio
Yahweh, que opera em coincidências e planos essencialmente humanos, como os passos
incertos de uma moabita em terra estranha e o plano arriscado de uma viúva
esperançosa.
A mensagem do livro de Rute, conforme entendido por este autor, leva em conta os
fatores mencionados e a inclusão da genealogia de Davi no final do livro, um final que
seria inexplicável a não ser que o autor quisesse demonstrar a dimensão maior da
intervenção divina na vida de indivíduos que são leais à aliança. Esta é a mensagem de
Rute:
A soberania e a bondade de Yahweh transformam a tragédia individual em bênção
nacional por meio da fé pujante de uma mulher gentia e de um israelita compromissados
com a aliança.
4
E. F. Campbell Jr., “The Hebrew Short Story: Its Form, Style and Provenance”, em A Light
unto My Path, eds. H. Bream, R. Heim e C. Moore, pp. 83-101.
5
William LaSor, D. A. Hubbard e F. W. Bush, Old Testament Survey: The Message, Form, and
Background of the Old Testament, p. 614. A tradução desta obra em português, Introdução ao
Antigo Testamento, baseada na segunda edição inglesa, não contém esta seção do artigo
original.
A teologia de Rute
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Yahweh é soberano
O princípio teológico subjacente ao livro de Rute é o desenrolar do propósito soberano
de Deus por meio de instrumentos humanos.6 Isso é feito de modo diferente de outros
livros do Antigo Testamento, em que Yahweh intervém mais abertamente por meio de
sonhos, declarações proféticas, aparições ou atos milagrosos. O paralelo mais notável é
o livro de Ester, em que o nome de Deus sequer é mencionado.
Em Rute, a soberania de Yahweh é ressaltada por sua presença nas duas breves
orações contidas no capítulo 2, nas quais Boaz expressa o desfecho do livro em relação
a Rute, reivindicando-o de Yahweh (2.12), e Noemi o faz em relação a Boaz (2.20).
Outros episódios que sugerem a soberania de Yahweh são a morte dos filhos de Noemi,
que fornecem a Rute a oportunidade de conhecer pessoalmente Yahweh como o seu
Deus, a menção da casualidade humana do encontro de Rute e Boaz, um notável
artifício literário do autor, destinado a produzir no leitor a sensação inversa, causalidade
divina, e a reversão da sorte de Noemi e Rute, da viuvez e esterilidade em Moabe para a
vida em família e a concepção (1.4, 5 e 4.13-15).
Em Rute, Yahweh intervém soberanamente para levar adiante a promessa feita a
Abraão, a saber, de lhe constituir uma numerosa descendência (Gn 12.2), promessa que
foi ampliada na bênção de Jacó a Judá, de cuja família viria o cetro sobre Israel (Gn
49.10). A genealogia no final do livro sutilmente liga as alianças abraâmica e davídica
como a indicar que Yahweh soberanamente interveio aqui como no caso de Judá e
Tamar, de cuja união surgiu a mais importante família em Israel.
Yahweh é misericordioso
Constable sugeriu de modo sucinto que o livro de Rute mostra a preferência divina de
trabalhar em indivíduos e por meio deles, os quais outras pessoas considerariam
material improvável.7 Rute é a epítome dessa situação, pois, além de mulher, é viúva,
não tem filhos e é moabita! Estava assim excluída da participação na aliança, segundo a
lei de Moisés, e sem quaisquer perspectivas humanas, como a própria Noemi quis fazê-
la perceber. A experiência de Rute demonstra que Yahweh sempre esteve disposto a
receber quem se achegasse em fé evidenciada por compromisso, a despeito de sua
origem étnica ou religiosa. Quem se aproxima de Yahweh como crente, nEle encontrará
aceitação e realização.
A misericórdia de Yahweh demonstra-se no conceito de redenção, pelo qual os
carentes e desprotegidos vinham a desfrutar os recursos e a proteção de um parente,
alguém que tivesse amor ao próximo e lealdade à aliança suficientes para motivá-lo a
uma ação resgatadora. A esse parente dava-se o nome de ‫[ גֹואֵל‬gôʾēl], (―resgatador‖), e
a atividade de Boaz, no livro de Rute, ilustra a extensão da divina redenção (ou resgate)
àqueles que, como Rute, ―que outrora não [eram] povo, e agora [são] povo de Deus‖ (1
Pe 2.10).
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
A permissão do mal
A fome, enviada por Yahweh como disciplina contra Seu povo, é o elemento de
tragédia que Ele utiliza para abrir as comportas de Sua graça. Igualmente, as mortes do

6
W. S. Prinsloo, “The Theology of the Book of Ruth”, Vetus Testamentum 30 (1980):330-41.
7
Constable, “Theology of Joshua, Judges and Ruth”, p. 111.
marido e filhos são instrumentos para que Noemi venha a conhecer o verdadeiro
significado da plenitude (cf. 1.20, 21). Em escala menor, a falta de compromisso do
resgatador mais próximo é um mal que culmina com a perfeita solução para os
problemas de Noemi e Rute, o descanso verdadeiro na provisão de Yahweh.
A promessa/ação de julgar o mal.
Esta linha de ação não se apresenta no livro de Rute, exceto talvez na disciplina
nacional mencionada em 1.1. Alguns expositores preferem estender essa disciplina às
mortes de Elimeleque e seus filhos, mas o texto não oferece sustento a essa tese. É fato
que a tradição judaica considera a morte dos rapazes uma punição por ter deixado Judá,8
mas tal razão não encontra eco na teologia mosaica. Uma ligeira possibilidade de
significado judicial na morte de Malom e Quiliom acha-se em Deuteronômio 4.27.
A libertação do mal por meio de uma semente escolhida
Boaz é o instrumento usado para esse resgate, seguindo o padrão milenar do levirato
(do latim levir, ―cunhado‖), em que a família era preservada pela união matrimonial de
um irmão do morto com a cunhada. Esse costume, já conhecido na era patriarcal (cf. Gn
38), foi ampliado em Israel para incluir a posse da terra (Dt 25; Lv 25).
O livro de Rute apresenta um aspecto mais pessoal e feminista da questão, trazendo a
lume o resgate de uma existência de futilidade e frustração pessoal e social na vida de
Noemi e Rute para uma vida de descanso (esta deveria ser a tradução da palavra tanto
em 1.9 [heb. ‫מְּנוחָה‬, menûḥ ], em que a ERA traz ―sejais felizes‖, quanto em 3.1 [heb.
mānôaḥ], em que a ERA traz ―lar‖). Embora o paralelo não seja absoluto, há uma
semelhança intrigante com a observação de Paulo em relação às mulheres cristãs serem
―salvas‖ pela geração de filhos que venham a ser bons cristãos (1 Tm 2.15).
O decreto de abençoar os eleitos
A soberana (e incógnita) atuação de Yahweh transforma a vida de uma mulher
desiludida e desamparada em canal de bênção para toda a nação pactual (evidente na
genealogia davídica, ao fim do livro). Rute edifica sobre as promessas abraâmicas de
uma grande nação e de que reis viriam da semente de Sara. Boaz e Rute, especialmente
focalizados em relação à bênção de Yahweh, são os canais pelos quais Noemi fora
abençoada com o descanso e a plenitude personificados em Obede (4.15).
Argumento básico
PROPÓSITO E DESENVOLVIMENTO
O propósito do livro é demonstrar a soberana fidelidade de Yahweh a Suas promessas
de bênção à medida que Ele, por meio da fé e da lealdade pactual de dois heróis
improváveis, transforma a tragédia individual e familiar em bênção nacional de que o
povo tanto carecia. Nesse sentido, o livro servia como motivação para a fé e a
dependência entre os israelitas.
O livro é estruturado de tal modo que pode ser esboçado de acordo com cada um de
seus personagens principais, ou até mesmo de acordo com vários personagens em
contraponto. Embora Rute, em certo sentido, seja o personagem principal, a frase-chave
do livro (4.17) relaciona o ato generoso de Deus a Noemi, cuja tragédia original
precipitou toda a história.
A primeira parte abre-se com a ameaça da fome pairando sobre Israel, provavelmente
em um dos ciclos de desobediência − disciplina − desafogo, típicos do período (e do
livro) dos juízes. A migração era um recurso bastante comum (cf. os três patriarcas), e
Moabe ainda não se tornara o inimigo ferrenho condenado pelos profetas.

8
Talmude, Baba Bathra, p. 91a.
A história de Elimeleque e sua família, no entanto, tem um lado sombrio ao indicar
que o Deus de cuja ira a família foge é ainda mais temível do que se pode supor, pois
Suas maldições se estendem além das fronteiras da terra onde Seu povo habita. Morte
prematura e esterilidade são sinais do desprazer divino em todo o Antigo Testamento.
Não é à toa que Noemi se queixa de que a mão de Yahweh se voltou contra ela (1.13).
Deixada apenas com suas duas noras sem filhos, Noemi se prepara para retornar a
Belém, (em hebraico ‫בֵיתֹ ֶלחֶם‬, bêṯ leḥem, ―casa de pão‖), onde uma vez mais há
fartura de pão (‫ ֶלחֶם‬, leḥem), porque Yahweh visitou Seu povo em graça (1.6). Assim, o
autor oferece indícios de que a fome anterior tinha sido uma visitação em ira, como
também de que Seus propósitos estão sendo cumpridos nas esferas nacional e
individual.
Diante da alternativa de permanecer em casa e manter padrões sociais e religiosos
conhecidos, Orfa abandona a lealdade prometida à sogra e escolhe o caminho mais fácil
(1.15), ao passo que Rute, por amor a Noemi e Yahweh, opta pelo árduo caminho da
pobreza, da viuvez e da solidão (1.8, 9) que a sogra lhe apresenta. Seu compromisso
para com Noemi revela a profundidade de seu compromisso para com o Deus de Noemi
(1.16-18).
Apesar disso, a clara luz do amor de Rute não é suficiente para dissipar as sombras de
rejeição que Noemi sente ter sofrido por parte de Yahweh (1.19-21). O autor acrescenta
um raio literário de esperança que brevemente vara as nuvens do desespero de Noemi:
sua chegada a Belém ―coincide‖ com o começo da colheita de cevada (meados de abril),
um tempo de renovação e esperança para toda a comunidade, para a qual Noemi e Rute
haviam se mudado (1.22).
Os raios ficam cada vez mais claros à medida que o autor apresenta Boaz, um homem
de posses e de caráter, que também é parente de Elimeleque (2.1). Esta é mais uma
colocação literária que oferece ao leitor um gostinho da provisão de Yahweh para com
Noemi, que claramente se materializa quando Rute casualmente entrou justo na parte do
campo de Boaz (2.3), depois de pedir à sogra licença para recolher espigas, conforme
indicava a legislação mosaica (2.2).
A provisão divina é exibida de forma ainda mais ampla na bondade de Boaz com Rute
(2.8-16), oferecendo proteção (2.8, 9), encorajamento (2.11-13) e provisão especial
(2.14-16). Suas palavras oferecem um contraste salutar para a lúgubre predição de
Noemi em Moabe, e a sensação de solidariedade a que Rute passara a ter direito em
virtude de seu compromisso com Yahweh como seu deus pessoal (cf. 1.16, 17).
Quando o segundo capítulo termina, Rute acha-se empregada com todos os direitos e
capaz de prover para si e para sua sogra também (2.17-23). Confrontada com tais
evidências, o ceticismo de Noemi dá lugar ao júbilo e à esperança, especialmente à
medida que a possibilidade de redenção desponta no horizonte (2.20). Sua fé em
Yahweh retoma um pouco da vitalidade que outrora possuíra ao ver a tragédia
transformada em triunfo.
O terceiro capítulo contém a maior parte do elemento de suspense do livro, devido às
muitas possibilidades de que o casamento, esperado e tramado, não viesse a acontecer.
Noemi esperara até que a colheita tivesse terminado para aproveitar a oportunidade de
confrontar Boaz com sua necessidade de redenção por meio do casamento levirato (3.1-
4).
Embora não haja razões evidentes para que se duvide da nobreza das intenções de
Noemi,9 o próprio contexto histórico em que o livro se insere sugere grande e grave
9
Vários comentaristas recentes sugerem que a intenção foi desde o princípio provocar um
incidente sexual que coagisse Boaz a agir em favor das duas mulheres, e que a ação proposta
perigo moral, uma vez que, naqueles dias, a imoralidade era endêmica em Israel. Os
leitores precisam, por um momento, contentar-se com a descrição de Boaz como um
‫[ גִׁבֹורֹ ַחי ִׁל‬giḇbôr ḥ yil] e esperar que Rute não reproduza o comportamento de sua
ancestral, a filha mais velha de Ló.
À medida que a cena noturna se desenrola, de acordo com o plano de Noemi (3.6-9), o
caráter de Rute é vindicado, e ela é identificada como uma ‫חי ִׁל‬ ַ ֹ‫[ ֵאשֶת‬ʾešeṯ ḥ yil]
(3.11); Além disso, Boaz declara sua disposição de agir como resgatador (3.12, 13).
Aqui o autor cria um belíssimo efeito literário usando a palavra hebraica ‫ ( ָכנָף‬ānāp;
―asa‖), no pedido de Rute, ecoando assim o voto de proteção divina que Boaz proferira
no capítulo 2, à luz da fé que Rute demonstrara em Yahweh (cf. 2.12).
Superada a ameaça moral, um último obstáculo permanece diante de Noemi e Rute.
Boaz, sério candidato ao título de solteirão mais cobiçado de Belém, não é seu parente
mais próximo. O privilégio pertence, antes dele, a outro homem (3.12, 13).
A cena noturna termina com Boaz mandando Rute de volta para a casa de sua sogra,
cedo o suficiente para que a reputação de Rute não seja manchada (3.14) e com
provisões suficientes para deixar seu compromisso evidente aos olhos de Noemi (3.15).
Assim, Yahweh remove das mãos de Noemi as rédeas de seu destino, que ela tentara
arrancar às mãos divinas.
Ao final do capítulo, Rute compartilha com Noemi os eventos da noite, e a anciã
expressa sua confiança de que a questão será resolvida de um ou de outro modo (3.16-
18)
O capítulo 4 oferece a protelada solução da trama, à medida que Boaz confronta seu
parente com a necessidade existente (4.1-8). A maneira pela qual Boaz apresenta o caso
trai um interesse pessoal, uma vez que ele alude primeiro à compra da terra de
Elimeleque, uma proposta tentadora para qualquer israelita, tanto assim que o parente
mais próximo se dispõe a aceitá-la (4.4). Isso levanta a questão do levirato, que era
menos atraente em vista das responsabilidades adicionais e dos riscos que envolvia (por
exemplo, problemas na futura partilha das terras; 4.5, 6).
Uma vez que, de acordo com o costume da época, o ―contrato é assinado‖, Boaz
anuncia publicamente sua decisão de desempenhar o papel do resgatador em ambas
situações − compra da terra e casamento levirato (4.7-10). Assim, esse parágrafo
espelha a cena inicial de Noemi, Rute e Orfa nas planícies de Moabe. Orfa e o parente
anônimo optam pela via fácil do não compromisso e da vida sem fé, ao passo que Rute
e Boaz escolhem o caminho mais árduo do compromisso e da dependência.
As expectativas que tinham motivado Elimeleque a migrar e que haviam escapado a
Noemi por toda sua vida – prole e prosperidade – são agora invocadas, por toda a
comunidade, sobre Boaz e Rute (4.11, 12).
O livro termina com a concretização das esperanças de Noemi por meio de Boaz e
Rute (4.13-16). Suas palavras amarguradas, em Moabe, foram dramaticamente
revertidas pelo Senhor (cf. 4.14, 15 e 1.12, 13); sua tragédia pessoal foi transformada
em triunfo, mas isso é coisa pequena para o Senhor. O pequeno bebê, que se tornou a
alegria de Noemi, seria parte do plano soberano de Yahweh de trazer a Israel o homem
segundo Seu coração, o rei de que a teocracia em Israel sentira tanta falta durante os
dias sombrios dos juízes.

por Noemi e executada por Rute tenha sido descrita com um eufemismo para não ferir
sensibilidades. No entanto, toda a linguagem usada por Boaz e Rute e a identificação dela
como “mulher de valor” vão contra tal proposta.
Com esse propósito e de acordo com o voto expresso pelos anciãos, o autor apresenta
a genealogia de Davi, começando com Perez, ancestral de Davi que também nascera de
um ―casamento‖ levirato. A bênção da redenção que o Messias traria já se fizera
presente, em microcosmo, na história dos membros de Sua genealogia.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
A soberania e bondade de Yahweh transformam tragédia individual em bênção
nacional por meio da fé pujante de uma mulher gentia e um israelita
compromissado.
I. A soberania e bondade de Yahweh usam tragédia nacional e pessoal para oferecer a Rute a
escolha da fé (1.1-22).
A. O desgosto soberano de Yahweh com Seu povo durante o período dos juízes leva
Elimeleque e sua família a Moabe, onde esta é atingida por uma tragédia (1.1-5).
1. A fome, na época dos juízes, leva Elimeleque e sua família a Moabe (1.1, 2).
2. A tragédia atinge a família com a morte de Elimeleque em Moabe (1.3).
3. A rebelião contra a lei se instala quando os filhos se casam com mulheres moabitas (1.4).
4. A soberania de Yahweh intervém com disciplina, removendo os filhos e deixando três viúvas
que têm de buscar seu sustento sozinhas em Moabe (1.5).
B. A visitação misericordiosa de Yahweh a Seu povo oferece a Noemi a oportunidade de voltar
a sua terra e a Rute a chance de colocar sua fé Nele (1.6-18).
1. A notícia de dias melhores em Israel dispõe Noemi a retornar para lá (1.6).
2. O desejo de Noemi de que suas noras fiquem em Moabe, onde a vida pode ainda lhes trazer
realização, esbarra na determinação delas em ficar com a sogra (1.7-10).
3. O quadro sombrio apresentado por Noemi da vida com uma pessoa sob a ira de Yahweh
dissuade Orfa, mas fortalece a resolução de Rute em ficar com Noemi, seu povo e seu
Deus (1.11-18).
C. A bondade de Yahweh é questionada por Noemi em seu retorno a Belém, enquanto o povo
se admira do seu estado deplorável (1.19-22).
1. Belém agita-se com a chegada de Noemi em tal estado de miséria (1.19).
2. O ressentimento de Noemi contra o tratamento divino é demonstrado por meio de sua mudança
de nome (1.20, 21).
3. A chegada de Noemi e Rute acontece em uma época de esperança e fartura, em contraste com
sua desesperança e pobreza (1.22).
II. A soberania e bondade de Yahweh oferecem as circunstâncias nas quais Noemi e Rute
encontram apoio e sustento por meio do ato de fé resoluta de Rute (2.1-23).
A. Uma misericordiosa provisão legal, que Rute se dispõe a aproveitar, como também um
misericordioso fazendeiro que vai além dos termos da lei, são os meios de Yahweh
prover as duas mulheres necessitadas (2.1-16).
1. Boaz, que se tornará instrumento de Deus, é apresentado como parente de Noemi e homem de
caráter (2.1).
2. Rute se oferece para respigar, a fim de prover para ela e sua sogra (2.2, 3a).
3. A presença e diligência de Rute entre os respigadores no campo de Boaz é notada pelo
fazendeiro (2.3b-7).
4. Boaz encoraja Rute a participar dos privilégios de serva enquanto ela aproveita dos benefícios
da colheita fundamentada em seu amor leal por sua sogra (2.8-11).
5. Boaz expressa seu desejo de que Deus recompense seu ato de fé (2.12).
6. A resposta humilde de Rute provoca, na hora da refeição e à tarde, maior gentileza em Boaz
(2.13-16).
B. A abundante provisão de Yahweh, por meio da generosidade de Boaz e do trabalho de Rute,
motiva Noemi a voltar a crer em Sua soberania e bondade por meio da redenção (2.17-
23).
1. O amplo suprimento de comida e gentileza da pessoa que a provê acendem a alegria em Noemi
(2.17-19).
2. A condição de Boaz, como possível resgatador, desperta em Noemi a esperança de uma saída
para sua presente situação de angústia (2.20).
3. O convite de Boaz a Rute para se juntar aos servos é aprovado por Noemi (2.21, 22).
4. Rute mantém sua promessa a Noemi enquanto a vida se torna menos ameaçadora e mais estável
(2.23).
III. A soberania e bondade de Yahweh mantêm a expectativa de fé quando os planos
humanos de se apropriar do prêmio da fé encontram obstáculos inesperados (3.1-18).
A. Noemi instrui Rute sobre como reivindicar Boaz como seu resgatador em um plano arriscado
(3.1-5).
B. Rute arrisca seu futuro e sua reputação para buscar redenção, conforme o plano de Noemi
(3.6-9).
1. Rute põe em prática o plano de Noemi como fora instruída por ela (3.6-8).
2. Rute apresenta seu pedido e confronta Boaz com sua expectativa de redenção (3.9).
3. Boaz elogia Rute pela natureza tolerante de seu amor e compromete-se a realizar seu pedido,
desde que o parente mais próximo se negue a fazê-lo (3.10-13).
4. Rute volta para casa com expectativas não realizadas, mas com prova do amor leal de Boaz,
mantendo viva a esperança (3.14-18).
IV. A soberania e bondade de Yahweh garantem os canais necessários, os quais estão
dispostos a premiar a confiança de Rute para finalmente reverter a tragédia de Noemi
em bênção nacional (4.1-22).
A. A recusa do parente mais próximo em exercer plenamente suas obrigações de resgatador
oferece a Boaz o privilégio de fazê-lo (4.1-6).
1. Boaz informa o parente próximo da oportunidade de redimir a propriedade de Noemi, o que ele
se dispõe a fazer (4.1-4).
2. Boaz informa o parente próximo da necessidade de se casar com Rute como parte do ―pacote
redentor‖, o que o homem não se dispõe a fazer (4.5, 6).
B. Conforme o costume da época, o parente próximo abre mão do direito de redenção, que é
solenemente recebido e anunciado por Boaz (4.7-10).
C. O ato de fidelidade pactual de Boaz é louvado pelos líderes de Belém, que invocam as
bênçãos correspondentes à histórica fecundidade dada por Deus em Israel (4.11, 12).
D. A união de Rute, a fiel, e Boaz, o compromissado, traz os meios divinamente arranjados para
mudar a tragédia individual de Noemi em bênção nacional na linhagem davídica (4.13-
22).
1. A união de Rute e Boaz provê um filho, o qual as mulheres de Belém vêem como o meio de
realização na vida de Noemi, dado por Deus por meio de sua excelente nora (4.13-15).
2. Noemi assume o cuidado de seu neto, a quem as mulheres de Belém vêem como filho dela
(4.16, 17).
3. Bênção nacional é encontrada no descendente do ―filho‖ de Noemi, o rei Davi, cuja genealogia
é dada como testemunho da bondade soberana de Deus (4.18-22).
O argumento de
1 SAMUEL
Questões introdutórias
TÍTULO
Os dois livros de Samuel recebem o nome do homem que proporcionou a transição
entre o período tumultuado dos juízes e a centralização do governo de Israel sob Saul e
Davi. O título na Biblia Hebraica Stuttgartensia é ‫( שְּמואֵל‬šemûʾēl).
Considerando a referência feita por Josefo de que as Escrituras judaicas continham 22
livros,1 como também a maneira natural em que 2 Samuel dá continuidade à narrativa
do desastre nacional no monte Gilboa, pode-se ver prontamente por que os judeus
mantiveram, por longo tempo, esses dois livros como a unidade que compunham
originalmente.
Quando as Escrituras do Antigo Testamento foram traduzidas para o grego, os judeus
de Alexandria reuniram Samuel e Reis, sob o título de Βαζιλείων (b sileiōn, ―Dos
reinos‖) e subdividiram a coleção em quatro livros. Ainda hoje as igrejas ortodoxas
gregas se referem a 1 e 2 Samuel como 1 e 2 dos Reinos. Os judeus, somente após
dezesseis séculos de cristianismo, dividiram o livro de Samuel, na edição Bomberg do
Antigo Testamento, datada de 1517.
DATA E AUTORIA
A evidência interna indica que o livro foi escrito durante o período da monarquia
dividida. Assim, 1 Samuel 27.6 diz: Então lhe deu Aquis naquele dia a cidade de
Ziclague; pelo que Ziclague pertence aos reis de Judá, até o dia de hoje. Uma vez que
não há qualquer referência à queda de Samaria, tal silêncio é tomado como indicação de
que o livro foi escrito entre 931 e 722 a.C. O plural ―reis de Judá‖ indica que a forma
final do livro deve ser mais recente do que o reino de Asa, que foi o terceiro rei de Judá.
Primeiro Crônicas 29.29, 30 sugere que houve uma seqüência cronológica nos
registros preservados por Samuel, Natã e Gade. Fora isso, não há qualquer outra
indicação de autoria. Uma tradição judaica, preservada no Talmude (Baba Bathra 14b),
que atribui a obra (na verdade, 1 e 2 Samuel) ao juiz-sacerdote-profeta só pode ser
explicada pelo fato de que a figura de Samuel domina boa parte do primeiro volume.
Sua morte, no capítulo 25, torna impossível a ele ter terminado sequer o primeiro livro.
O uso de fontes fica evidente com a menção ao livro dos Jasar em 2 Samuel 1.18.
Assim, registros proféticos, anais da corte e uma coletânea de canções sobre feitos
militares heróicos foram combinados (talvez por algum profeta da corte real) para
produzir uma história dos primórdios da monarquia israelita.
Essa história, embora não tão ―propagandística‖ quanto Crônicas, tem uma lição a
ensinar e uma perspectiva bem peculiar da História que narra. Embora a teoria de que o
livro foi obra de um ―deuteronomista‖, que escreveu bem no início da história da
nação,2 deva ser rejeitada, o autor de Samuel claramente interpretou a história de sua
nação da perspectiva da aliança deuteronômica, alinhando-se assim com os profetas
posteriores, cujos escritos foram colocados com sua obra no cânon judeu.
CONTEXTO HISTÓRICO

1
Flávio Josefo, Contra Apionen, 1:8.
2
Veja Ronald E. Clements, “The Deuteronomistic Interpretation of the Founding of the
Monarchy in I Sam VIII”, Vetus Testamentum 24 (1974):398-410, que se espelha na teoria
proposta por Martin Noth em 1943, no seu Überlieferungsgeschichtliche Studien, onde
argumentava também a favor da idéia de duas tradições conflitantes quanto à monarquia.
Veja também a introdução de I & II Samuel, OTL, de H. W. Hertzberg.
No campo das relações internacionais, os eventos descritos nos livros de Samuel são
contemporâneos de um período de generalizada fraqueza política e militar no Oriente
Médio. A Assíria enfraquecera consideravelmente os pequenos reinos hititas que
haviam sobrevivido à destruição do Império Hitita pelos Povos do Mar (c. 1200 a.C.) e
chegara a tomar a Babilônia durante o reinado de Tiglate-Pileser I. Após sua morte
(1078 a.C.), porém, o império recém-formado começou a perder sua força e quase não
sobreviveu ao ataque das hordas de arameus que migravam pela Mesopotâmia.3
Mitani, o reino dos hurrianos, que por muito servira como Estado-tampão entre os
hititas e os assírios, já havia perdido seu esplendor (c. 1400-1350 a.C.) e não tinha mais
força política na região.
Os arameus, que gradativamente se infiltravam no norte da Palestina, ainda não
haviam começado a consolidar-se em um reino, o que só viria a acontecer por volta da
segunda metade do século 10 a.C.
Também o Egito estava enfraquecido na época; já não tinha qualquer influência sobre
a Palestina desde os dias de Merneptá (1234-1220 a.C.) e não voltaria a tê-la até a
Dinastia XXII , com Sisaque I (964-933 a.C.), que invadiu a Palestina e impôs tributo a
Roboão. Isso deixara os Povos do Mar, que haviam se estabelecido ao longo da costa da
Palestina, como o único obstáculo sério para a formação e expansão do império
israelita.
Primeiro Samuel retrata os dias em que os filisteus oprimiram Israel, ao passo que 2
Samuel narra a derrota definitiva dos filisteus perante Davi. Esse vácuo de poder
permitiu a Israel tornar-se, no reinado de Davi e Salomão, a primeira nação, militar,
econômica e culturalmente, do Oriente Médio. O quadro a seguir apresenta um resumo
da cronologia do período:
c. 1200 a.C. Os Povos do Mar invadem a Palestina
c. 1100 a.C. Nascimento de Samuel
c. 1080 a.C. Nascimento de Saul
c. 1051 a.C. Saul ungido rei em Israel (1 Sm 10.1)
1040 a.C. Nascimento de Davi
1025 a.C. Davi ungido rei por Samuel (1 Sm 16.1-13)
1011 a.C. Morte de Saul; Davi coroado em Hebrom (1 Sm 31; 2 Sm 2)
1004 a.C. Davi coroado rei sobre todo Israel (2 Sm 4– 5)
992 a.C. Incidente com Bate-Seba (2 Sm 11)
991 a.C. Nascimento de Salomão
980 a.C. (?) Censo (2 Sm 24)
971 a.C. Morte de Davi; Salomão coroado rei (1 Rs 2:10, 11)
FORMA LITERÁRIA E MENSAGEM
Os livros de Samuel apresentam uma grande variedade de técnicas literárias e uma
tremenda complexidade no que diz respeito à maneira pela qual foram compostos.
Childs resume a situação atual da literatura samuelina como de perplexidade diante
das dificuldades inerentes à estrutura dos livros e da diversidade de abordagens
hermenêuticas de que se valem os estudiosos para tentar entender 1 e 2 Samuel como
literatura.4
3
Veja Samuel Schultz, A História de Israel no Antigo Testamento, p. 113.
4
Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture, pp. 270-271.
Levando em conta a moldura pactual (aliança deuteronômica) utilizada pelo autor de
Samuel, as seguintes características são importantes para construir uma teologia bíblica
desses livros:
Contraste
Uma das mais notáveis técnicas literárias de 1 Samuel é o uso de contrastes para
tornar óbvia sua mensagem. Em geral, os contrastes que estabelece têm como ponto de
referência a aliança deuteronômica, especialmente quando trata de obediência e
recompensas. Assim, encontramos o contraste inicial entre Ana e Penina, em que a
última despeja seu desprezo sobre a primeira devido a sua infertilidade, ao passo que
Ana demonstra fé em Yahweh, em vez de na fertilidade em si. Ana termina
recompensada, não com a simples concepção, mas com a honra de ter dado à luz o filho
que haveria de reverter a destino sombrio da nação.
Bem visível também é o contraste entre Samuel e os filhos de Eli. Enquanto o jovem
Samuel serve ao Senhor, os dois sacerdotes servem a si mesmos e desprezam o culto a
Yahweh (cf. 1 Sm 2.17, 18). Sua obediência à aliança foi recompensada com honra e
longevidade, enquanto que a imoralidade escandalosa e a ganância gritante de Hofni e
Finéias teve como recompensa a morte prematura e a infâmia permanente.
Um exemplo final, entre muitos, é o contraste chocante entre Jônatas e Saul, seu pai.
Saul relutou em confiar no Senhor para a vitória (1 Sm 13.8s.), ao passo que Jônatas foi
audaz em sua fé (14.6). Saul esperou as coisas acontecerem em Gibeá (13.8-13),
enquanto Jônatas fez as coisas acontecerem em Micmás (14.1-14). Saul não se
preocupou com o bem-estar do povo (14.24), mas Jônatas o fez (14:29-31). Saul foi
inconstante em sua devoção a Yahweh (passim), ao passo que Jônatas perseverou em
sua lealdade. Por fim, em um contraste que acabaria por determinar o destino de ambos,
Saul não reconheceu a indicação de Davi como vinda de Yahweh (20.31), enquanto
Jônatas altruistamente reconheceu que Davi tomaria o lugar que caberia a ele, Jônatas,
como sucessor de Saul no trono de Israel (18.4; 23.17).
Justaposição de personagens
Esse recurso literário é parcialmente relacionado ao contraste, mas difere em dois
pontos: (a) a justaposição de personagens traz consigo uma das ênfases teológicas que o
autor deseja firmar na mente dos leitores, ou seja, que a lealdade à aliança é essencial
para o desfrute de vitalidade e prosperidade no contexto da teocracia, tanto na
monarquia quanto fora, na confederação tribal; e (b) o motivo da inversão de sorte
destaca-se mais claramente do que quando simples contrastes são empregados.5
Assim, em cada uma das quatro divisões principais do livro podem ser encontradas
justaposições de personagens ligadas a exemplos de inversão de papéis, no esquema
geral de inversão de sorte. Por exemplo:
JUSTAPOSIÇÃO DE PERSONAGENS EM 1 SAMUEL 1-7

Ana, a humilde, Penina, a orgulhosa


Samuel, o dedicado, Hofni e Finéias, os degenerados
VERSUS
O Senhor (a Arca) Dagom (a estátua)
Povo de Bete-Semes Povo de Quiriate-Jearim

5
Veja John A. Martin, “The Literary Quality of 1 and 2 Samuel”, Bibliotheca Sacra 141:562
(abril-junho 1984):131-44. Um livro muito útil no estudo das narrativas bíblicas é Ele Nos Deu
Histórias (He Gave Us Stories), de Richard L. Pratt, Jr., especialmente o capítulo 6.
Nos três exemplos humanos citados, a questão da atitude apropriada para com Deus
vem à tona. Em certo sentido, o cântico de Ana oferece um tema que colorirá a
justaposição dos personagens: os humildes são exaltados, os orgulhosos, humilhados.
JUSTAPOSIÇÃO DE PERSONAGENS EM 1 SAMUEL 8-12

Filhos de Samuel, líderes Saul, líder


corruptos carismático
VERSUS
Saul, líder em
Samuel, líder em decadência
desenvolvimento
No gráfico acima, a justaposição de personagens focaliza a incapacidade dos filhos de
seguir o exemplo do pai, como também a necessidade de liderança fidedigna, conforme
percebidas pelo próprio povo. No caso de Samuel, a justaposição não se deve tanto a
uma falha em seu caráter, mas à percepção falha que os israelitas tinham de que o
representante de Yahweh precisava ser uma figura político-militar, e não mais um líder
civil-religioso.
JUSTAPOSIÇÃO DE PERSONAGENS EM 1 SAMUEL 13-15

Saul, o inconstante Samuel, o inflexível


VERSUS
Saul, o vacilante Jônatas, o valente
Na divisão retratada acima, os fracassos de Saul são contrastados com a notável
fidelidade e valor de seu filho e com os rigorosos padrões exigidos por Samuel – uma
vida de humildade e obediência perante Yahweh. Nos dois itens ele é pesado e achado
em falta.
Na divisão final, o maior número de personagens envolvidos dificulta a análise. Saul
tem seu declínio agravado, tanto espiritual quanto social e politicamente, pela ascensão
de Davi. Apesar disso, o próprio Davi tem como ―sombra‖ a figura eticamente
irrepreensível de Jônatas, que arrisca a vida para permanecer fiel à verdade, enquanto
Davi recorre à mentira. De outro lado, o profundo temor de Davi a Yahweh aparece no
contraste entre a disposição malévola de Saul contra ele (que era ungido do Senhor) e a
benevolência de Davi contra o maior obstáculo a suas prerrogativas de rei, Saul, o
perseguidor implacável.
O autor insere magistralmente a narrativa de Nabal e Abigail para demonstrar, por
meio deles, a perspectiva para todo Israel; quem se colocasse ao lado de Davi, o homem
segundo o coração de Deus, seria abençoado; quem se opusesse a ele perderia a
vitalidade (e, às vezes, a vida).
JUSTAPOSIÇÃO DE PERSONAGENS EM 1 SAMUEL 16-31

Saul, o monarca Davi, o herói em


rejeitado , ascensão
Jônatas, o amigo leal Davi, o fugitivo ardiloso
Saul, o vingativo Davi, o perdoador
Abigail, a esposa VERSUS Nabal, o marido insensato
sensata
Saul, ocultista Samuel, despenseiro de
disfarçado oráculos
Davi, fortalecido no
Saul, ferido de morte
Senhor
Os capítulos finais oferecem duas justaposições importantes no argumento do livro.
Os caminhos de Saul e Samuel voltam a cruzar-se, mas não da maneira que o rei
desejava. Em contraste com a determinação do velho rei em escapar ao juízo de
Yahweh contra ele, está a determinação de Samuel em fazer valer a palavra divina de
rejeição ao monarca infiel.
Assim, apesar dos ingentes esforços do rei, sua vitalidade se esvai na batalha de
Gilboa, enquanto Davi é duas vezes libertado de uma situação crítica (em Gate e em
Ziclague), e ele reconhece que foi Yahweh que o libertou delas. Na maioria dos casos
de justaposição de personagens surge um conflito que é resolvido a favor da pessoa que
permanece fiel a Yahweh e Sua aliança. Isso confirma a tese do autor de que a
fidelidade à aliança é condição sine qua non para o sucesso da teocracia em Israel.6
Quiasma
A utilização dessa técnica literária poderia ser a marca registrada do autor de Samuel,
já que os quiasmas predominam aqui e em 2 Samuel. Apenas um exemplo será
necessário aqui, já que muitos outros serão fornecidos na discussão de 2 Samuel.
Em 1 Samuel, um problema espinhoso é a atitude exata de seu autor em relação à
monarquia. A aplicação da teoria wellhauseniana de fontes a 1 Samuel produziu uma
fonte pró-monarquia e uma fonte antimonarquia, que o editor final não se teria dado ao
trabalho de conciliar. Essa visão do livro foi contestada por estudiosos em todas as
gamas do espectro teológico.7
Correndo o risco de adicionar lenha à fogueira, este escritor acredita que o autor de
Samuel tinha uma perspectiva negativa da monarquia, conforme entendida pelo povo,
uma panacéia político-militar que curaria todos os males sociais da nação.
Tinha, porém, uma visão positiva da monarquia como um instrumento que Yahweh
usaria para efetivamente exercer Seu governo sobre Seu povo. Para isso, Israel teria de
manter uma atitude correta em relação à aliança deuteronômica, que regulava a vida na
terra. Assim, em um arranjo quiástico, o dilema monárquico é apresentado e resolvido.

Samuel adverte a nação quanto às conseqüências sociais de seu


NEGATIV 8.1- pedido e anuncia sua futura tristeza pela decisão. Condena a
O 22 colocação de esperança em um líder humano à revelia de
Yahweh.
Samuel unge Saul como ‫( נָגִׁיד‬nāḡîd, príncipe, líder militar) e
POSITIV 9.1 –
10.16 lhe promete o ‫ מְּלוכָה‬m lûḵ , reino) em obediência à ordem
e
O
divina de atender ao povo. Aprovação ativa.
Samuel confronta o povo com Sua ingratidão pactual e
NEGATIV 10.17
apresenta a diferença entre as visões divina e humana da
O -27
monarquia. Condenada a perspectiva errada dos israelitas.

6
Martin, “Literary Quality”, p. 144.
7
Archer representa o lado mais conservador Merece Confiança o Antigo Testamento?, pp.
319-20; Ralph Klein, que tem uma boa análise da situação, representa uma posição mediana (1
Samuel, WBC, pp. xxviii-xxxii), e Brevard S. Childs representa o lado mais liberal. Ele afirma que
“uma profunda confusão em metodologia ainda se observa, especialmente com respeito ao
nível em que o leitor deve ler o material e o propósito da formulação final da tradição. O
resultado é que as opções se tornam quase infindáveis, com pouca perspectiva de chegar a
uma decisão entre teorias rivais” (Introduction, p. 271).
POSITIV 11.1- Saul é aprovado e vindicado como ‫( ֶמלְֶך‬meleḵ). Aprovação
O 15 ativa.
Samuel defende a fidedignidade de Yahweh revendo a história
NEGATIV 12.1-
da aliança e oferece um sinal do desprazer divino. Condenação da
O 25
rejeição da aliança e, por fim, da usurpação pelo rei.
Mensagem
Considerando: 1) os fatores de natureza literária expostos; 2) a clara demonstração do
desfavor divino para com a atitude de arrogância dos que presumem que uma posição de
liderança é suficiente para garantir sucesso individual ou corporativo dentro da teocracia
(e.g., Hofni e Finéias, Saul); e 3) a natureza transitória da instituição da monarquia em
Israel no período coberto pelo livro, esta é a mensagem proposta por este autor para 1
Samuel:
Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia em Israel revelam
que a sobrevivência e segurança da nação não dependem da monarquia em si, mas
de um monarca cujo coração seja humilde e confiante perante o Deus da aliança.
A teologia de 1 Samuel
A proposição mencionada na página anterior fornece indícios quanto à teologia não
apenas de 1 Samuel, mas de ambos volumes. Juntos, 1 e 2 Samuel servem para dar à
nação, mais especificamente a seus líderes, uma visão apropriada da monarquia nos
limites de sua categoria mais ampla, a teocracia.
O conceito (várias vezes mencionado ou sugerido) de que o rei estava sujeito às
estipulações da aliança, conforme interpretadas pelos profetas, indicava claramente que
a monarquia nunca seria o último foro da vida israelita. A autoridade última e,
conseqüentemente, a lealdade última cabiam sempre a Yahweh, e transferi-las para um
rei humano era tão mau quanto oferecê-las a um deus pagão. Essa íntima ligação entre a
idolatria do Estado e o paganismo pode ser vista em 1 Samuel 12.
De outro lado, todo o livro de 1 Samuel conduz o leitor à direção da monarquia
davídica como o agente escolhido por Yahweh para dar continuidade à teocracia (=
soberania mediada) na história, seguindo as linhas prolepticamente traçadas no cântico
de Ana – humildade e dependência de Yahweh trazem vitalidade e permanência,
enquanto que a auto-suficiência condena os indivíduos e a nação ao fracasso.8
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Sua soberania
É quase impossível deixar de perceber este tema nos livros de Samuel, e seus
exemplos mais luminosos ocorrem no primeiro volume. A intervenção em favor de Ana
e sua contínua fertilidade, depois de Samuel ter sido efetivamente dedicado a Yahweh,
são o primeiro exemplo da capacidade divina de controlar a vitalidade do indivíduo em
resposta à fé humilde.
Talvez a demonstração mais dramática da soberania de Yahweh surja na narrativa da
arca (1 Sm 4 – 6). Ao contrário do que pensam alguns comentaristas que a consideram
uma narrativa isolada inserida ao acaso no texto, 9 essa divisão demonstra não só a

8
Cf. as observações de Ralph Klein, 1 Samuel, WBC, pp. 119-20.
9
Hertzberg, I & II Samuel, p.46, afirma: “A segunda divisão principal dos livros de Samuel
não tem ligação direta com a primeira ... conclui-se corretamente que a segunda divisão teve,
originalmente, existência independente”. A questão da “origem independente” da narrativa
superioridade de Yahweh sobre os deuses com quem Israel flertava (supondo que eles
concediam vida melhor aos povos à volta), mas também a necessidade de uma atitude
correta em relação ao culto em Israel. Yahweh soberanamente remove aqueles que se
consideravam acima dos requisitos da lei (cf. 3.34; 4.10, 11), soberanamente humilha
Dagom, lançando o ídolo por terra diante da arca da aliança e quebrando sua cabeça e
mãos como sinal da impotência de Dagom diante de Yahweh, soberanamente pune os
filisteus com uma praga devastadora, ensinando-os que Ele não é um mero amuleto ou
fetiche a ser carregado como troféu de batalha, mas o verdadeiro Deus do universo.
Ainda em Israel, essa soberania é apresentada no caso dos moradores de Bete-Semes e
Quiriate-Jearim, em que os primeiros sofrem por sua atitude profana em relação à arca,
e os últimos são abençoados por sua reverência.
A soberania divina é exercitada de acordo com as bênçãos e maldições estipuladas na
aliança. O arrependimento nacional, sob a liderança de Samuel, trouxe a vitória (7.3-12)
e o alívio (temporário) da opressão dos filisteus (7.13). O padrão operacional de
Yahweh fica claro: O Deus soberano abençoará a nação enquanto esta permanecer
humilde e for conduzida por um indivíduo escolhido por Ele.
Mesmo quando o povo interveio com seu pedido de um rei, a soberania de Yahweh
superou a vontade humana, demonstrando Seu desprazer em relação à visão
antropocêntrica dos israelitas, mas suprindo um líder que haveria de comprovar a
verdade de Sua advertência (1 Sm 8; 12.18).
Os dois incidentes mais conhecidos do livro também apontam para a soberania de
Yahweh: o combate entre Davi e Golias (17) e a entrevista de Saul com a médium de
En-Dor (28). No primeiro incidente, a confiança em Yahweh é soberanamente
recompensada com a vitória, a despeito da força e experiência militar do adversário. No
segundo, Deus usa Samuel para demonstrar a inutilidade dos esforços desesperados de
Saul para escapar ao soberano veredicto divino de tirar de sua dinastia o trono de Israel.
Sua lealdade pactual
Embora a palavra ‫חסֶד‬ ֶ (ḥeseḏ, ―amor ou lealdade pactual‖) seja usada apenas uma vez
no livro, com referência a Yahweh (20.14), o conceito permeia o livro. Aqueles que se
humilham, os que confiam em Yahweh para a realização do impossível, e aqueles que
se alinham com o ungido de Yahweh são objeto de Seu ‫חסֶד‬ ֶ . Ana, o povo de Quiriate-
Jearim, Samuel, Saul (no início do reinado), Jônatas e Abigail são exemplos marcantes.
A lealdade pactual, todavia, opera nos dois sentidos. As maldições sobrevêm aos que
arrogantemente rejeitam a direção de Yahweh em suas vidas. Os exemplos principais
são Eli e seus filhos, os moradores de Bete-Semes, Saul (do meio para o fim do reinado)
e Nabal.
Jônatas é a aparente contradição. Apesar de aparecer no livro como a epítome da
lealdade, ele encontra uma morte trágica em Gilboa. A razão de tal fato se acha em
outro princípio relacionado à aliança – o da solidariedade corporativa. A rejeição
pessoal de Saul também significou a rejeição corporativa de sua família. Jônatas anteviu

não invalida o fato de que o autor tem para ela uma função importante e um significado
especial no todo de sua obra. Hertzberg retrata o perigo de darmos excessiva atenção aos
detalhes e perdermos a visão do todo.
esse fato, mas não previu que seu filho, e não ele mesmo, seria o beneficiário da
lealdade pactual de Davi (20.12-15; 41-42).10
Esse conceito da lealdade pactual de Deus tem por referencial não apenas a aliança
deuteronômica, mas também a abraâmica, que subjaz o propósito aparente do autor em
descrever o funcionamento da aliança deuteronômica na história da nação.
Sua imutabilidade
Primeiro Samuel é um campo de batalha para a doutrina da imutabilidade de Deus. O
conceito aparece, primeiramente, nas narrativas da transição teocrática nos capítulos 8 a
12, em que o porta-voz de Yahweh parece vacilar entre a aprovação e a rejeição da
monarquia. Essa aparente contradição foi tratada anteriormente (pp. 259, 260) e aqui
basta mencioná-la. A rejeição divina não relacionava-se ao conceito de monarquia em si
(uma antiga expectativa israelita, cf. Gn 49.10), mas ao conceito popular de um rei fac
totum, que viesse a ser a garantia humana de uma vida segura para Israel, em Canaã. A
monarquia seria o instrumento escolhido, mas a fonte das bênçãos da aliança só poderia
ser o doador da aliança.
Outra passagem controvertida é o relato, no capítulo 15, da rejeição de Saul, em que o
autor parece afirmar, com um canto da boca, que Deus mudará de idéia em relação à
escolha de Saul como rei (15.10, 35), e, com o outro, parece afirmar categoricamente a
imutabilidade divina (15.29). Essa aparente contradição é explicada satisfatoriamente
pelo uso de linguagem antropomórfica.11A mudança em um procedimento visível é
explicada como uma mudança emocional na pessoa de Deus, quando, na realidade, é o
desenvolvimento de Seu propósito imutável que incluía novos meios, instrumentos e
direções, dando assim ao autor humano das Escrituras a impressão de que o plano de
Deus havia sido alterado.
Deus e o incidente de En-Dor
Este famoso incidente é uma constante fonte de perplexidade para cristãos e opositores
do cristianismo. Estes últimos buscam nele apoio para práticas como mediunismo e
incorporação de espíritos (o chanelling da Nova Era), e ignoram as proibições claras
contra tais práticas no restante da Escritura. Os primeiros procuram eliminar a aparição
real de Samuel, argumentando que não há uma identificação positiva de Samuel e dando
a entender que este incidente é apenas um caso de charlatanismo por parte da médium e
de equívoco da parte de Saul.12

10
Mefibosete, o filho aleijado de Jônatas, foi realmente favorecido com a lealdade pactual
de Davi, mesmo depois de vários incidentes em que a rejeição de Saul continuou a afetar seus
descendentes (cf. 2 Sm 9.1-12; 19.24-30; 21.1-14).
11
Hertzberg oferece uma explicação alternativa. Ele diz: “Deus não está escravizado às suas
próprias decisões, mas é de tal modo todo-poderoso que é senhor também de suas decisões.
Assim como ele leva em conta nas suas decisões a ação humana, de modo que a onipotência
jamais significa que o homem seja privado de sua responsabilidade, assim, também, a eleição
do rei não é irrevogável” (I & II Samuel, p.126. A explicação deixa no ar a possibilidade de
mudança no decreto de Deus, que não é parte essencial de Seu ser, mas reflete seu caráter
totalmente sábio. Apesar de amenizar a idéia de “arrependimento”, a alternativa me parece
insuficiente.
12
Um tratamento popular do assunto é o livreto Saul e a Médium de En-Dor, de Gilberto
Stevão. Hertzberg circunda o problema propondo que a leitura do texto precisa ser emendada,
o que na prática significa eliminar o elemento sobrenatural da narrativa (I & II Samuel, p. 218-
Tais abordagens ignoram, em primeiro lugar, o artifício literário do autor em pôr Saul
à busca de Samuel, no início e no fim de sua carreira. Dessa maneira, ele espera
impressionar seus leitores com a rejeição total de Saul. A menção ao manto (28.14) e a
referência ao reino ser arrancado das mãos de Saul (28.17) são alusões claras a 1
Samuel 15.27, 28, ocasião em que a fatídica promessa fora feita. A mensagem desta
perícope é clara: Saul já passou do ponto em que o retorno é possível e, assim, não há
mais esperança para ele. Nem os vivos nem os mortos podem ajudá-lo a escapar do
juízo de Yahweh. Esta passagem indica que a obediência a Deus não pode ser
determinada pela conveniência humana: os que escolhem adiar a obediência à espera de
uma ocasião mais favorável podem vir a lamentar para sempre tal escolha.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
As quatro linhas de ação de Deus na história, por meio das quais Ele opera para
restabelecer Sua soberania mediada sobre o universo, estão presentes em 1 Samuel pelo
menos uma vez, e a maioria se manifesta mais de uma vez.
A permissão do mal
O primeiro exemplo desta linha de atividade de Deus é a conduta escandalosa dos
filhos de Eli (2.12-17), cuja distorção do culto para fins egoístas, quando a arca é
capturada pelos filisteus, por fim se volta contra eles mesmos. É possível dizer o mesmo
dos filhos de Samuel, cuja ética distorcida e indulgente contrasta dramaticamente com a
conduta inatacável de seu pai como juiz (8.2, 3; cf. 12.3). Há ainda, é claro, Saul e sua
conduta progressivamente rebelde, contra Yahweh e as exigências de Sua aliança (13.7-
14; 15.1-23), e maldosa, contra Davi, seu sucessor escolhido por Deus. O exemplo mais
chocante dessa ação de Deus é a permissão para que Samuel retorne dentre os mortos
para confirmar a rejeição definitiva de Saul (cap. 28).
A promessa/ação de julgar o mal
Estas promessas, em termos de exaltação dos humildes e queda dos arrogantes, estão
contidas no cântico de Ana (2.1-10). Em todo o livro, encontramos o tema na ameaça
profética contra a casa de Eli (2.27-36) e em seu macabro cumprimento (4.1-12). O
mesmo tema resplandece no triunfo da arca sobre os deuses dos filisteus (caps. 4–6), na
execução de Agague por Samuel (15.32, 33), na remoção do Espírito de Yahweh de
Saul devido a sua rebeldia (16.14), e na derrota final do rei pelas mãos dos filisteus
(cap. 31).
A libertação do mal para/por uma semente escolhida
Esta linha de ação divina tem seu primeiro exemplo na narrativa do nascimento de
Samuel e em sua gradativa capacitação para servir como o agente divino de libertação
(caps. 1–3, 7). Saul desperdiça sua oportunidade de tornar-se o instrumento escolhido
por Deus, a despeito de agir assim por algum tempo (caps. 11, 14–15 [em que, todavia,
Jônatas desempenha o papel mais positivo]). Davi torna-se a semente escolhida, e, após
poucos parágrafos, o autor demonstra a disposição do jovem pastor em cumprir tal
papel como também sua capacidade de agir como libertador (cap. 17; cf. 18.7, 14). A
despeito de falhas éticas, que o autor não faz qualquer questão de esconder, Davi

219). Klein
(1 Samuel, p. 270s.) e Eugene Merrill (“1 and 2 Samuel”, The Bible Knowledge Commentary, OT
Edition, pp. 435-454) preferem o ponto de vista de que foi realmente Samuel quem apareceu.
As notas da Bíblia Shedd, de autoria de Frederico Vitols, apresentam uma batelada de
argumentos aparentemente convincentes contra a possibilidade de Samuel ter aparecido. Em
um exame mais cuidadoso, verifica-se que as evidências foram ajustadas para se conformarem
a uma teoria predeterminada.
permanece como o principal libertador de Israel, à medida que Saul vai desaparecendo
de cena devido à sua conduta autodestrutiva. Quando o livro termina, com a família de
Saul dizimada, Davi aparece como a única alternativa para que Israel sobreviva como
nação livre.
O decreto de abençoar os eleitos
Esta quarta linha de ação divina não é muito proeminente em 1 Samuel, pois sua
aparição aguarda a plena manifestação de Davi como o regente escolhido de Yahweh, o
rei cuja casa Ele promete estabelecer para sempre. Apesar disso, há indícios presentes
em 2.9, 10, quando Ana antevê a bênção de Yahweh sobre os humildes e a escolha de
um ‫ח‬ ַֹ ‫( ָמשִׁי‬māsîah, i.e., ―Ungido‖), como também na promessa do profeta anônimo a Eli
(2.35), em que Yahweh promete abençoar e estabelecer a casa de Seu sacerdote fiel
(promessa cumprida em Zadoque).
Duas outras linhas de ação divina aparecem com importância no desenvolvimento do
livro e, embora possam ser encaixadas nas quatro linhas tradicionais, contribuem de
maneira especial para a mensagem do livro e merecem ser destacadas.
Yahweh age como o grande inversor da sorte
Esta atividade, que já foi considerada anteriormente (p. 257), é esboçada no cântico de
Ana (2.1-10). Em todo o livro, o destino dos pobres, dos desprezados, dos humilhados e
dos amargurados é modificado de acordo com sua fidelidade à aliança, que é prova de
sua fé em Yahweh. Davi, obviamente, é o exemplo maior de tal atividade. Sua constante
recusa em tomar a história nas próprias mãos (eliminando Saul) demonstra sua fé na
promessa divina feita por intermédio de Samuel, bem como na capacidade divina de
estabelecê-lo como regente da monarquia teocrática que seria o meio de Yahweh dirigir
Seu povo, Israel.
Yahweh age como o estabelecedor da monarquia
Não há dúvida na mente deste autor de que o plano de Yahweh para a teocracia
incluía, desde o princípio, a monarquia. As provisões mosaicas (Dt 17) o indicam, e o
cântico profético de Ana revela o que pode ter sido a sensação predominante entre o
povo durante o período dos juízes – Israel precisa de um rei!
É desnecessário postular inserções editoriais ou autoria recente para o cântico. Uma
mulher guiada pelo Espírito foi usada para expressar uma verdade divina − que Deus
realizaria, no futuro, maravilhas em favor de Seu povo. A questão de Ana ter composto
o salmo ou ter apenas recitado um salmo já existente é totalmente irrelevante.13 O que o
autor do livro quer comunicar é que Deus tinha Seu plano traçado, e a estratégia correta
para realizá-lo.
Por duas vezes, entretanto, Yahweh traria Seu povo ao ponto de total quebrantamento
e quase aniquilação, em que Israel reconheceria a necessidade de se humilhar perante
Ele, de se comprometer com Ele (este é um dos propósitos da narrativa da arca), e de
depender de Sua superioridade sobre outros deuses (7.2-4) e de Sua soberania sobre o
povo da aliança (isto é feito por meio dos discursos de Samuel sobre o tipo de
monarquia que Israel teria e deveria ter).
Argumento básico
DESENVOLVIMENTO
13
Veja os comentários de Hertzberg (I & II Samuel, p. 29-30) sobre a falta de ligação entre o
salmo e a história de Ana. Ele evidentemente não percebeu a ligação crítica entre o cântico e a
experiência de Ana e a maneira em que eles resumem a experiência de outros personagens do
texto de 1 e 2 Samuel.
O livro começa com uma cena típica da vida israelita − a peregrinação anual ao
tabernáculo, naquela ocasião situado em Siló. A apresentação de Elcana e sua família
serve para indicar algumas das condições existentes. Havia uma medida de piedade e de
conformidade às exigências da aliança mosaica, mas também havia evidência de
descaso com a mesma, como a bigamia de Elcana e a esterilidade de Ana, uma sugestão
sutil de que Israel não desfrutava a plenitude das bênçãos pactuais prometidas por
Yahweh.
Nessa ocasião em particular (c. 1100 a.C., por volta do tempo da opressão amonita na
Transjordânia), o juizado e o sacerdócio estavam concentrados na mesma família. Eli
era o juiz e seus filhos ministravam como sacerdotes.
A corrupção espiritual e moral da família sacerdotal contrasta com a piedade
demonstrada por Ana. Esse contraste abre caminho para a dramática convulsão que
Israel experimentaria durante os anos finais do juizado de Eli e a mocidade de Samuel.
Os filisteus em breve levariam Israel à beira da ruína, mas também ao arrependimento e
ao reavivamento.
Os primeiros sete capítulos de 1 Samuel descrevem os preparativos divinos para o
estabelecimento da monarquia como o instrumento da autoridade teocrática de Yahweh,
retratando a provisão de um genuíno líder espiritual que guiaria a nação de volta a Deus
e que a levaria ao longo da transição de uma desconjuntada confederação tribal a uma
monarquia centralizada. Esse líder viria de uma família levítica (cf. 1 Cr 6.22-26) que
vivia na região montanhosa de Efraim.
Antes que isso pudesse ser realizado, era necessário descartar a liderança corrupta que
empurrava Israel em direção ao abismo. Da angústia e frustração de uma mulher estéril,
Yahweh proveu o filho cujo nascimento assinalava o início de Sua intervenção. O
cântico de louvor de Ana, em resposta a sua petição, ressaltou o tema da obra de Deus
durante o período histórico coberto pelo livro – o uso dos humildes para desarraigar os
orgulhosos, bem como a recompensa dos obedientes em contraste com a ruína dos
arrogantes (2.1-10).
O jovem Samuel é contrastado com os indignos Hofni e Finéias pelo fato de ministrar
ao Senhor, enquanto os dois irmãos ministram a si mesmos (2.11-17); além disso, no
fato de que Deus deixa de comunicar-se com os dois desajustados, ao passo que fala
diretamente com Samuel (3.1-14), que se torna nacionalmente reconhecido como um
homem de Deus (3.19-21), ao passo que os filhos de Eli são objeto da ira de Yahweh e
têm suas mortes profetizadas como castigo divino por seus pecados e em conseqüência
direta da apatia espiritual de seu pai (2.27-36).
A essa altura, os filisteus começaram a ameaçar a existência de Israel como nação. A
despeito dos atos heróicos de Sansão (c. 1070-1050 a.C.), a opressão, que começou por
volta de 1090 a.C., cresceu em intensidade e chegou ao ponto de ebulição quando a arca
do pacto foi capturada (cap. 4). Essa captura foi claramente uma lição de que Yahweh e
a adoração a Ele não podem ser tratados apenas como um fetiche ou talismã e ser
desprezados e ignorados a nosso bel-prazer, ou invocados apenas quando surge uma
crise. Assim, o ministério público de Samuel como juiz-sacerdote começou em uma
época totalmente desfavorável.
Com a súbita eliminação tanto do juiz quanto dos sacerdotes, a pergunta perplexa da
jovem viúva pairava como uma sombra sobre Israel: Onde está a glória?. Os capítulos 5
e 6 respondem essa pergunta, demonstrando aos filisteus que sua vitória retumbante não
se devera à superioridade de seus deuses, mas à soberana permissão de Yahweh. Esses
capítulos foram incluídos no livro como a interpretação que o próprio autor fazia da
história, indicando que Yahweh ainda era capaz de cumprir Suas promessas pactuais e
garantir a sobrevivência e a segurança de Israel, desde que a nação se conformasse aos
Seus termos.
A narrativa da maldição contra os filisteus e sua percepção da superioridade de
Yahweh sobre Dagom ressalta a necessidade que os israelitas tinham de dar atenção
adequada a Yahweh e sua adoração, tão grosseiramente negligenciada durante o período
dos juízes. É difícil evitar uma relação entre a ―simpatia‖ empregada pelos filisteus (6.1-
12) e a frustrada tentativa de conduzir a arca a Jerusalém, no reinado de Davi, após duas
gerações (2 Sm 6.1-9; observar a semelhança no método de transporte). Percebe-se o
contraste entre as atitudes errada e correta nos destinos de Bete-Semes, cujos moradores
violam a arca e são punidos (6.18-20), e da casa de Abinadabe, que é abençoada (6.21–
7.1; cf. 2 Sm 6.3).
A divisão seguinte descreve as provisões temporárias de livramento e disciplina por
meio das quais Yahweh tencionava demonstrar a Israel que a presença de um rei poderia
trazer o desastre definitivo a Israel caso o monarca não satisfizesse as expectativas
divinas (7.2–15.35).
Inicialmente, Yahweh supriu livramento temporário dos inimigos mais prementes, os
filisteus, e ofereceu orientação na pessoa de Samuel, que haveria de conduzir a nação na
escolha de seu primeiro rei (7.2–10.8).
A primeira medida de Samuel como juiz é reconduzir Israel à lealdade a Yahweh (7.2-
6). A isso seguiu-se um milagroso triunfo sobre os filisteus, que os humilhou de tal
modo que, por toda uma geração, os israelitas tiveram descanso de seus inimigos a oeste
(7.7-14). O ministério de Samuel concentrou-se primariamente na área central de Israel,
em um circuito que incluía Betel, Mizpá, Ramá e Gilgal (7.15-17).
Alguns anos depois do grande triunfo,14 quando Samuel já transferira parte de seus
deveres judiciais para seus filhos, Joel e Abias, o descontentamento popular com o
desempenho destes levou a nação a solicitar um rei (8.1-4). O que Samuel percebeu
como rejeição pessoal, Deus rotulou como rejeição nacional de Sua autoridade imediata
sobre a nação e, ainda assim, ordenou ao venerando juiz que acedesse ao pedido do
povo (8.5-22), mas não sem antes oferecer à nação uma visão realista da vida sob o
domínio de um monarca humano. A decisão soberana de Deus incluía não apenas Sua
resolução prévia de estabelecer a monarquia como canal da teocracia, mas também
estabelecê-la de tal modo que Israel provasse fracasso e juízo antes de conhecer graça e
glória. Os capítulos seguintes demonstram isso claramente.
A subdivisão seguinte delineia a escolha de Saul, um benjamita, como o primeiro rei
de Israel. Saul é uma pessoa simples desde o princípio, um jovem fazendeiro
procurando jumentas perdidas. No entanto, Yahweh soberanamente o conduz a Samuel
e leva o juiz a ungir o jovem fazendeiro como rei (9.1–10.8). Sinais confirmatórios são
oferecidos e a missão do primeiro rei é delineada – livrará o meu povo da mão dos
filisteus (9.16). Isso significa que os inimigos a oeste estavam novamente reunindo suas
forças para atacar Israel; indica também a dramática medida do fracasso final de Saul
(cf. cap. 31).
A escolha de Samuel, confirmada pelos sinais prometidos e por Urim e Tumim (10.9-
22), recebeu aclamação popular, mas com certa dose de ceticismo. O novo rei e o povo

14
A vitória em Ebenézer marcou o fim da opressão dos filisteus, mais provavelmente por
volta de 1048 a.C. A nota cronológica em 7.2 deve se referir ao tempo entre a chegada da arca
e Quiriate-Jearim e o arrependimento e triunfo de Israel sobre os filisteus. A escolha do
primeiro rei de Israel provavelmente aconteceu por volta de 1043 a.C.
foram confrontados com os regulamentos de Yahweh, que Samuel colocou diante do
Senhor em Mispá ([novo local do Tabernáculo?]; 10.26).
A aprovação de Saul seria conquistada a duras penas, enfrentando e derrotando os
amonitas, que ameaçavam Jabes-Gileade, na Transjordânia. A liderança carismática foi
demonstrada em sua convocação a todas as tribos (11.6-8), e em sua capacidade militar
demonstrada em sua contundente vitória sobre os amonitas (11.9-11). Sua atitude
humilde demonstrou-se na maneira como ele impediu que o povo vingasse a honra do
rei contra seus detratores (11.12, 13).
Assim, percebendo que a posição de Saul como rei estava segura, Samuel convoca a
nação a colocar essa nova entidade civil sob a autoridade real de Yahweh sobre Israel
(11.14–12.25). A escolha de Gilgal para essa cerimônia não foi acidente, mas uma
tentativa deliberada de relacionar a nova fase da história de Israel às cerimônias de
renovação da aliança ao tempo de Josué (Js 5.1-12) e no começo do período dos juízes
(Jz 2.1-5). O discurso de despedida de Samuel invoca o Senhor como testemunha
perante o povo quanto à sua integridade como guardião da aliança (12.1-5), descreve os
atos de lealdade pactual de Yahweh com Seu povo (12.6-11) e critica o povo por sua
miopia espiritual em exigir um rei e relegar Yahweh a um papel secundário (12.12-17).
Acrescentando ação à palavra, ele pede ao Senhor que confirme suas palavras, o que
Deus faz enviando chuva em meio à estação de seca (12.18, 19). A cerimônia termina
com a promessa de Samuel de continuar cuidando da nação e da bênção do Senhor,
desde que o povo e seu rei permaneçam fiéis à aliança. Caso isso não ocorra, ambos –
povo e rei – serão destruídos (12.20-25).
A última seção dessa divisão revela o fracasso de Saul, pois não se adequou aos
padrões de obediência e compromisso exigidos dele. O resultado disso foi a rejeição de
sua linhagem (13.1–15.35). Os erros de Saul incluíram sua usurpação religiosa ao
assumir prerrogativas sacerdotais (13.5-15), diante da demora de Samuel e da crescente
pressão dos filisteus. Saul foi culpado do mesmo tipo de superstição que os israelitas
tinham exibido ao tempo dos filhos de Eli, talvez por ter sido influenciado por conceitos
de monarquia sacramental, bastante comuns no antigo Oriente Médio.
A situação lastimável de Israel, despreparado para o combate corpo a corpo, por falta
de tecnologia em ferro, e desmoralizado pelas incursões de pilhagem dos filisteus
(13.16-22), só recebe alívio por meio da fé ousada de Jônatas, herdeiro presumido de
Saul (13.23–14.14), que se tornou o instrumento pelo qual o santo terror de Yahweh se
apoderou do exército dos filisteus, permitindo que os israelitas devastassem seus
inimigos (14.15-23). As deficiências de Saul, no entanto, ameaçaram até mesmo seu
filho em seu momento de maior triunfo, pois, em sua ansiedade pela vitória, o rei fez
um voto precipitado que prejudicou a eficácia de seu exército, colocou em perigo a vida
de seu herdeiro e provocou o pecado do povo (14.24-46). Essa subseção oferece um
resumo histórico dos feitos de Saul como guerreiro (14.47–48), informações sobre sua
família e sobre a incipiente organização de seu reino (14.49-51).
A última gota d‘água para Saul foi seu desafio ao ‫( ח ֶֶרם‬ḥerem) imposto por Yahweh
sobre os amalequitas (15.1-9). Ao ser confrontado por Yahweh, em relação ao fracasso
de Saul, Samuel vacilou quando recebeu a ordem de anunciar a rejeição do monarca
diante do desprazer de Yahweh, mas finalmente acedeu (15.10-23). Samuel disse que a
obediência contrariada de Saul era equivalente à rebelião, que ele igualou às práticas
pagãs. A rejeição das ordens de Yahweh significava a rejeição de Saul como rei.
Embora um adiamento tivesse sido obtido, em vista de um arrependimento que era ao
mesmo tempo sincero, superficial e tardio, a posição privilegiada de Saul como ungido
do Senhor, dotado do Espírito Santo, teve um fim melancólico.
A terceira divisão do livro descreve os preparativos divinos para o estabelecimento da
monarquia por meio da mudança de foco de Saul para um outro homem ungido, Davi, a
quem Yahweh treinaria em dependência e humildade a fim de fazer dele um homem
segundo Seu coração (16.1–26.25).
Duas vinhetas delineiam o caráter do jovem selecionado para ocupar o lugar de Saul,
como rei de Israel. Ele primeiro aparece como o menos provável devido aos padrões
mundanos, sendo, no entanto, eleito por Deus com fundamento em atributos espirituais
invisíveis (16.1-13). Essa unção e capacitação são contrastadas com a deterioração
espiritual e emocional de Saul, à medida que o Espírito de Yahweh se afasta do
pusilânime monarca para repousar sobre o íntegro rapaz (16.13, 14). Ironicamente, o
último é chamado ao lado do primeiro para prover alívio das crises de desespero e
paranóia que afligiam o rei (16.15-23). A imagem que se comunica de Davi é o de uma
pessoa sensível e submissa.
A segunda vinheta apresenta Davi, em uma hora bastante crítica da história de Israel,
como um jovem homem de fé, confrontando o experiente campeão filisteu, Golias, e
derrotando um adversário muito mais forte por amor a Yahweh e com base no Nome
que Golias havia profanado (17.1-58). Sua vitória nesse combate individual
representativo permitiu que Israel, uma vez mais, repelisse a ameaça dos filisteus e fez
de Davi um herói nacional. Isso aproximou-o ainda mais de Saul, que aparentemente o
dispensara de seus serviços musicais durante a campanha militar (cf. 16.21 e 17.53-58).
Essa vinheta apresentou Davi como um indivíduo corajoso e confiante, zeloso pela
reputação de Yahweh.
A divisão seguinte retrata Davi em uma situação diferente, na maioria das vezes
tentando escapar do traiçoeiro Saul, desfrutando uma amizade pactual com Jônatas, o
herdeiro presumido de Saul, vários anos mais velho do que ele. Também apresenta Davi
como líder militar eficiente, capaz de atrair seguidores, de aceitar repreensões, de
perdoar o mal e, sobretudo, como um homem que permitia que Yahweh operasse em
Seu próprio calendário, mostrando, ao mesmo tempo, graça e generosidade para com
seu inimigo declarado.
A presença de Davi na corte de Saul provocou duas reações totalmente diversas. O
herdeiro do trono – Jônatas – provavelmente já com cerca de 40 anos nessa ocasião,15
claramente reconheceu Davi como futuro rei e procurou o bem-estar futuro de Davi sob
a forma de uma aliança, que aparentemente garantia sua bondade a Davi no período
entre a unção e a coroação (cf. 18.1-4).
A aclamação popular a Davi provocou o ciúme de Saul (18.5-9). O ciúme progrediu
para uma tentativa de homicídio (18.10, 11), que deu lugar a subterfúgios e traição
(18.12–19.17). As intenções assassinas de Saul foram evitadas por seus filhos, Jônatas e
Mical – ele por meio de uma confrontação honesta, e ela por uma mentira clara. Emerge
daí o padrão de que qualquer tentativa de eliminar Davi falhará, uma vez que o próprio
Yahweh o conduz em sucesso (18.28-30).
A vida na corte de Saul tornara-se impossível para Davi, como Jônatas percebeu com
grande tristeza (20.1-4). Depois de Saul ter abusado verbalmente de Jônatas e até ter
tentado matá-lo por tomar o partido de Davi (20.5-34), os dois amigos despedem-se em
grande tristeza, mas também com o compromisso mútuo de manter os laços de lealdade
pactual (20.35-42). Davi, o herói, será, a partir desse momento, Davi, o fugitivo.
A fuga de Davi começa em Nobe, onde ele enganosamente obtém alimento e a espada
de Golias; apesar disso, com o fim de ensinar-lhe uma lição de dependência, o Senhor

15
E. H. Merrill, História de Israel, pp. 324-326.
permitiu que um dos servos de Saul testemunhasse o incidente (21.1-9). Em seu medo,
Davi fugiu para a terra dos filisteus, buscando refúgio com Aquis, rei de Gate. Ali
descobre que sua reputação o havia precedido [evidentemente o serviço de inteligência
dos filisteus já identificara Davi como um líder emergente em Israel] (21.10, 11), e uma
vez mais usa de mentira para escapar a uma situação perigosa (21.12-15). Mesmo o
homem segundo o coração de Deus precisa tempo para ter suas falhas de caráter
expostas e corrigidas..
O próximo passo de Davi foi retornar a Judá, para a caverna de Adulão, aparentemente
um refúgio natural bem protegido, próximo a Queila. Ali sua família reuniu-se a ele,
bem como outros homens perseguidos por Saul. A presença do profeta de Deus sugere
que um movimento organizado pró-Davi estava em formação em Israel. O bando, que
crescia, migrou para Moabe, onde Davi deixou seus pais para protegê-los de retaliações
de Saul, e daí se deslocou para a fortaleza (literalmente Massada), de onde o bando foi
para a floresta de Herete por causa de uma proclamação profética (22.1-5).
A paranóia assassina de Saul levou-o, a seguir, a eliminar praticamente todo o clã
sacerdotal residente em Nobe (22.6-23), no que constituiu, por um lado, a sua alienação
prática de qualquer vestígio de lealdade a Yahweh e, por outro, o cumprimento da
maldição divina contra a casa de Eli (cf. 2.31). Abiatar, o único sobrevivente, fugiu para
onde Davi se escondia. Assim, o futuro rei tinha o apoio de ambos os ofícios – o
profético e o sacerdotal.
A presença de Abiatar demonstrou ser valiosa desde o início, quando Davi teve de
tomar uma decisão quanto a dar assistência a Queila, que estava sendo atacada pelos
filisteus, (23.1-6). A perseguição de Saul ficava cada vez mais severa, o que fez Davi
vagar pelo sul de Judá (23.7-29). Traição e ingratidão marcaram o tratamento que Davi
recebeu de seus compatriotas, e seu único consolo foi uma visita surpresa de Jônatas
(23.15-18). Um encontro fatal foi evitado, no último minuto, pelas notícias de que os
filisteus, que, sem dúvida, estavam se aproveitando da falta de cuidado do rei com a
segurança nacional, estavam atacando cidades desprotegidas (23.26-28).
Depois de experimentar a libertação oportuna de Yahweh, Davi teve oportunidade de
demonstrar sua lealdade pactual com o ungido do Senhor. Em uma caverna na região de
En-Gedi ele poupou a vida de Saul e confrontou o rei com sua lealdade (24.1-15). As
emoções superficiais de Saul, em um momento de lucidez, permitiram que o rei se
arrependesse temporariamente de seu ódio e reconhecesse o direito de Davi à sucessão
(24.16-20). Essa subdivisão termina com o voto de lealdade pactual de Davi com a
linhagem de Saul (23.21, 22).
A subdivisão seguinte apresenta Davi em mais uma faceta de seu caráter. Yahweh
usou o incidente de Nabal para tornar Davi passível de ser ensinado e paciente, à
medida que Abigail sabiamente impede que Davi derrame sangue sem necessidade. A
recusa de Nabal em mostrar gratidão a Davi por suas atividades contra a pilhagem e em
favor dos pastores, no Carmelo, serve como paralelo para a recusa de Saul em aceitar
Davi como o escolhido de Deus. Mesmo a escolha de nomes oferece a mensagem dessa
parte do livro – oposição a Davi é pura insensatez. Abigail percebe isso e, por fim, é
acolhida na família de Davi e no círculo da bênção de Deus (25.1-41).
A última subdivisão dessa divisão contém a confrontação final entre Davi e Saul,
graças à intriga dos zifeus (26.1). Uma vez mais, Davi defronta-se com a possibilidade
de eliminar a fonte de sua angústia e com o estímulo a assim fazer, mas respeita a
santidade do rei em Israel e afasta-se apenas com um símbolo de vingança (26.2-12).
Saul uma vez mais reconhece a inocência de Davi e eles separam-se em paz (26.13-25)
depois que Davi faz um apelo emocionado para que Saul permita que Yahweh resolva
qualquer divergência que exista entre eles.
A divisão final do livro é altamente dramática em seu conteúdo, apresentando de
maneira tocante a remoção de Saul e a lição definitiva de dependência que Davi
aprenderia.
Davi, entendendo que as promessas de Saul só durariam até seu próximo episódio de
depressão e paranóia, considerou melhor sair de Israel e fugir para a Filístia (27.1). Em
minha opinião, este é um ponto muito baixo para Davi em sua vida de fé, em que uma
vez mais ele recorre a meios enganosos para alcançar seus fins.
Parece, em vista da linguagem empregada em 26.5 e 12, que Davi colocou a si mesmo
e a seus homens a serviço de Aquis, como um vassalo (Merrill pensa que Davi jurou
vassalagem a Aquis assim que subisse ao trono de Israel; Uma História de Israel).
Embora, do ponto de vista humano, o ardil montado por Davi tenha sido altamente bem-
sucedido, conquistando-lhe o favor de Aquis e dos moradores de Judá (pois mantinha
segura sua fronteira sul; cf. 27.5-12), ele foi uma clara demonstração do tipo de
autoconfiança que Yahweh teria de remover. A oportunidade apresentou-se quando os
príncipes dos filisteus reuniram seus exércitos para a guerra contra Israel e Aquis exigiu
que Davi o acompanhasse na batalha. A engenhosidade de Davi o pusera em uma
posição incômoda – a de guarda-costas do inimigo de sua nação (28.1-3).
Esses ardis de Davi são contrastados com os ardis de Saul, à medida que o rei,
desesperado, busca algum tipo de reforço religioso para uma situação alarmante (28.3-
6). Quando uma resposta divina lhe foi negada, Saul recorreu à bruxaria em sua
tentativa de provocar uma resposta sobrenatural favorável, independente de que fonte.
O pedido do rei para que Samuel aparecesse é soberanamente concedido por Yahweh
a fim de apresentar, sem sombra de dúvida, a rejeição definitiva de Saul (28.7-19). Veja
a página 264 para um comentário sobre a natureza desse incidente. A suprema e trágica
ironia na vida de Saul reflete-se no fato de que assim como seu reino foi prometido no
contexto de uma refeição oferecida pelo representante de Yahweh (9.21-24), o anúncio
de sua derrocada também aconteceu no contexto de uma refeição, preparada por uma
serva de Satanás. À medida que Saul sai de cena, o leitor fica com a impressão de que
Israel fechou um círculo, de volta ao ponto em que, 90 anos antes, a nação tinha sido
quase aniquilada pelos filisteus. Essa impressão é consumada pela menção a Afeque, o
mesmo local do encontro do exército das cinco cidades dos filisteus (29.1).
Uma vez mais a cena muda para focalizar Davi entre os filisteus, com o propósito de
mostrar como Yahweh – ao mesmo tempo – o livrou de ser pego no lado errado de uma
batalha contra o povo escolhido de Deus (29.1-11), e o disciplinou por meio de um
ataque amalequita contra Ziclague (30.1-31).
No primeiro incidente, os outros quatro senhores filisteus rejeitaram a presença de
mercenários israelitas entre as tropas de Aquis; talvez a memória de desertores apiru (cf.
14.21) tivesse reforçado suas suspeitas em relação a Davi (29.4, 5), e Aquis foi forçado
a dispensar seu bando mercenário (29.6-11).
Davi, no entanto, ao voltar para sua base em Ziclague, encontrou a cidade em ruínas,
depois de um ataque dos traiçoeiros amalequitas, que tiraram partido da mobilização
geral dos exércitos para o norte e pilharam a região sul (30.1-5). O incidente fez Davi
finalmente cair em si diante de Yahweh, quando seus homens se voltam contra ele e
falam em executá-lo. O ponto de virada acha-se na última frase de 30.6: Mas Davi se
fortaleceu no Senhor seu Deus. É digno de nota que a primeira ação de Davi, depois de
se arrepender e reencontrar sua força espiritual, foi buscar a direção divina, em vez de
confiar em sua capacidade e engenhosidade (30.7-10). Yahweh, graciosamente,
permitiu que ele e seus homens recuperassem todas as suas posses e as suas famílias
(30.11-25). Davi, depois de voltar, sabiamente dividiu o despojo com o povo do sul de
Judá, um gesto generoso (embora não totalmente altruísta), que lhe conquistou o favor
do povo de Judá (30.26-31).
O último capítulo do livro apresenta o destino inevitável de Saul e de seus seis filhos,
incluindo o nobre Jônatas, na batalha contra os filisteus. Saul morre por suas próprias
mãos, e as esperanças que Israel ainda tivesse de segurança e proteção morrem também
com ele. O corpo e as armas de Saul são expostos publicamente em Bete-Seã (31.8-10;
outro indício de que um ciclo se completou). O livro termina com o relatório do
sepultamento de Saul após um ato heróico de lealdade pactual por parte dos homens de
Jabes-Gileade (31.11-13). O cenário estava pronto para o estabelecimento da verdadeira
monarquia em Israel
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia em Israel revelam
que a sobrevivência e segurança da nação não dependem da monarquia em si, mas
de um monarca cujo coração seja humilde e confiante perante o Deus da aliança.
I. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia incluíam a provisão de um
líder genuíno em um momento em que o poder de Deus não poderia ser dispensado à
nação em virtude das violações pactuais durante o período dos juízes (1.1–7.1).
A. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam a providência de um
líder de transição, o afastamento da liderança corrupta da nação e o julgamento pactual
da idolatria e das superstições recorrentes do povo (1.1–4.22).
1. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam a providência de um
líder de transição (1.1–3.21).
2. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam o afastamento da
liderança corrupta da nação e o julgamento pactual das repetidas idolatrias e
superstições do povo (4.1-22).
B. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam a revelação de que Ele
ainda é capaz de cumprir as promessas da Sua aliança e suprir a sobrevivência e a
segurança a Israel (5.1–7.1).
1. A presença poderosa da arca entre os filisteus demonstra a superioridade de Yahweh aos deuses
pagãos (5.1-12).
2. As circunstâncias sobrenaturais do retorno da arca a Israel demonstram Seu poder de
amaldiçoar e abençoar, conforme Sua aliança (6.1–7.1).
II. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam suprimento
temporário de livramento e censura para que a nação soubesse que o fracasso real traria
as maldições pactuais sobre toda a nação (7.2–15.35).
A. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam livramento
temporário dos inimigos e o comando de um líder de transição na escolha do primeiro
rei (7.2–10.8).
1. O ministério nacional de Samuel, em tempo de crise, compreendia a renovação do
compromisso da nação a Yahweh e afastamento dos opressores filisteus (7.2-17).
2. O ministério nacional conclusivo de Samuel compreendia prover direcionamento para a nação
em seu pedido de um rei (8.1-22).
3. A intervenção soberana de Yahweh leva Samuel a ungir Saul como o primeiro rei de Israel
(9.1–10.8).
B. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam confirmação pública e
a aprovação nacional do primeiro rei em um local de renovação pactual (10.9–12.25).
1. A escolha divina de Saul foi confirmada reservadamente por sinais miraculosos e publicamente
por sortes (10.9-26).
2. A escolha divina de Saul foi confirmada militarmente por uma vitória estrondosa contra os
amonitas (11.1-13).
3. A escolha divina de Saul foi religiosamente confirmada pela celebração de uma cerimônia de
restabelecimento da aliança na qual rei e povo foram confrontados com a necessidade
de permanecer fiéis a Yahweh para sua sobrevivência como nação (11.14–12.25).
C. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia implicavam o fracasso de um
rei cujo coração não estava totalmente comprometido com o Deus por ele representado
diante da nação (13.1–15.35).
1. Saul fracassou como rei quando usurpou prerrogativas sacerdotais na tentativa de controlar o
destino de uma batalha (13.1-15).
2. Saul fracassou como rei quando arriscou seu exército e a vida de seu filho por meio de seus
votos precipitados e de seu gênio intempestivo (13.16–14.46).
3. O papel e o desempenho de Saul como rei são descritos e avaliados (14.47-52).
4. Saul fracassou como rei quando menosprezou a ira santa de Yahweh e escolheu a obediência
seletiva em vez de completa (15.1-35).
III. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam o treinamento de
Seu ungido para que ele se tornasse um homem segundo o coração de Deus (16.1–
26.25).
A. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam a unção e a exposição
de um homem cujo valor provinha de um coração comprometido em vez, de simples
aparência externa (16.1-23).
1. Davi foi ungido por Samuel em resposta à indicação de Yahweh, de que o coração daquele
jovem era dedicado a Ele (16.1-13).
2. Davi conquistou reconhecimento quando foi trazido à corte de Saul para ajudar o rei a se
recuperar dos ataques de melancolia e mal-estar causados por um espírito maligno
(16.14-23).
B. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam o reconhecimento de
Seu ungido como herói militar nacional (17.1-58).
1. A ocasião para o reconhecimento nacional de Davi foi a renovação das hostilidades entre Israel
e os filisteus (17.1-3).
2. O meio para o reconhecimento nacional de Davi foi seu triunfo de fé sobre o campeão filisteu,
que blasfemara contra Yahweh (17.4-58).
C. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam a moldagem de Seu
ungido por meio de humilhação e hostilidade de seus superiores e circunstantes (18.1–
26.25).
1. A preparação de Davi para reinar incluía reações conflitantes na corte, desde amizade dedicada
e admiração até suspeita, ciúmes e ódio (18.1-16).
2. O relacionamento de Davi com Saul deteriorou quando o rei usou de engano e subterfúgio na
tentativa de eliminar seu rival protegido por Deus, usando aqueles que amavam Davi
(18.17–19.24).
3. A preparação de Davi para reinar exigia fugir constantemente de Saul, para que o Senhor lhe
ensinasse dependência Dele em vez das engenhosidades humanas (20.1–26.25).
• Davi e Jônatas separam-se com profunda tristeza após a última tentativa de reconciliar Saul com
seu capitão (20.1-42).
• Davi recorre a engano para poder fugir despercebido (21.1-9).
• A engenhosidade de Davi volta-se contra ele ao tentar encontrar abrigo com Aquis, rei de Gate
(21.10-15).
• Davi junta um bando de israelitas descontentes, enquanto foge de Saul, no deserto da Judéia (22.1-
5).
• O engano anterior de Davi o alcança quando Saul dizima uma cidade de sacerdotes por
cooperarem com ele (22.6-23).
• Davi experimenta o livramento de Yahweh, tanto de filisteus quanto de Saul, quando vagueia com
seu bando no sul de Judá (23.1-29).
• Davi demonstra dependência em Yahweh ao perder uma oportunidade de matar Saul em En-Gedi
(24.1-22).
• Davi aprende dependência na intervenção de Deus quando Abigail o impede de derramar sangue
desnecessariamente daqueles que insensatamente se opõem a ele (25.1-44).
• Davi demonstra dependência em Yahweh, mais uma vez, ao abrir mão da segunda oportunidade
de matar Saul (26.1-25).
IV. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam o afastamento de
Saul como maior obstáculo, para que Davi se apropriasse do papel a ele designado
(27.1–31.13).
A. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam uma lição final de
dependência para Davi, que vacila na fé e uma vez mais recorre ao engano quando
busca refúgio entre os filisteus (27.1–28.2).
B. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia incluíam a rejeição final de
Saul e a promessa de que sua descendência não herdaria o trono (28.3-25).
1. Saul não consegue encontrar apoio divino para sua campanha militar pelos meios
convencionais da aliança (28.3-6).
2. Saul recorre à feitiçaria para conquistar apoio divino por meio de Samuel (28.7-14).
3. Samuel confirma a mensagem de maldição que pairava sobre a cabeça de Saul desde o
incidente amalequita (28.15-25).
C. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam o livramento de Davi
das dificuldades causadas pelos filisteus e sua disciplina, por meio do ataque amalequita
contra Queila (29.1–30.31).
1. Davi é liberto da traição contra seu povo pela desconfiança dos reis filisteus (29.1-11).
2. Davi é disciplinado pelo Senhor por meio do ataque amalequita contra sua base de operações
(30.1-5).
3. Davi encontra força em Deus para superar a crise e recuperar sua base de poder ao sul de Judá
(30.6-31).
D. Os preparativos divinos para o estabelecimento da monarquia exigiam a redução de Israel ao
estado de caos político nas mãos dos filisteus (31.1-13).
1. Saul e seus filhos encontram morte desonrosa na batalha e Israel é disperso e aterrorizado
(31.1-7).
2. O corpo de Saul é desonrado pelos filisteus, porém recuperado e sepultado apropriadamente
pelos gileaditas (31.8-13).

O argumento de
2 SAMUEL
Questões introdutórias1
DATA
A julgar pela evidência interna, os livros de Samuel devem ter recebido sua forma
final algum tempo depois do reinado de Asa (cf. 1 Sm 27.6) e antes da queda do reino
do Norte (fundamentado em um argumento de silêncio). Em termos de data, eles se
situam entre 911 e 722 a.C.
UNIDADE
A crítica radical dividiu o livro em um número variado de documentos,com a ênfase
recaindo, atualmente, em uma redação ―deuteronomista‖. Apesar de ser inegável o uso
de fontes na composição dos livros de Samuel (cf. a evidência desse fato em 1 Cr
29.29), também é inegável que a narrativa exibe uma coesão notável, como fica
evidente pelo uso deliberado de repetição e quiasma como técnicas literárias.2 De igual
modo, as inúmeras tentativas de divisão do livro em documentos originais são de tal
modo contraditórias que comprovam a falácia da tese original.
A presente ênfase na análise literária da narrativa bíblica trouxe à luz a notável
unidade dos dois livros de Samuel.3 Narrativas individuais, que previamente haviam
sido tratadas como pedaços isolados (embora muito elaborados) de tradição, são agora
vistos como parte de uma unidade dotada de propósito historiográfico, magistralmente
organizada por um consumado narrador (contador de histórias).
Assim, a narrativa passa naturalmente da cena sangrenta do monte Gilboa (1 Sm 31)
para as notícias chocantes da morte de Saul trazidas a Ziclague, oitenta quilômetros ao
sul, onde provocam um lamento emocionado por parte de Davi pela morte de Saul e,
especialmente, de Jônatas.
Vários motivos ou temas importantes entrelaçam-se ao longo dos dois volumes,
apontando para sua unidade. Consideraremos aqui os mais significativos.
Inversão da sorte
O principal motivo, dentre os diversos em 2 Samuel, é o da inversão da sorte. Em 1
Samuel, isso foi visto no declínio de Eli e seus filhos, em contraste com Samuel. Esse
incidente de inversão da sorte foi seguido pelo de Samuel (cujos filhos não imitam sua
fidelidade) e Saul, cujo breve sucesso dá lugar à ascensão de Davi, enquanto o monarca
paranóico leva a si mesmo, sua família e seu povo à beira do caos e da ruína.
Esse mesmo motivo é sobejamente ilustrado na vida do próprio Davi em 2 Samuel.
Sua carreira meteórica – de um mero vassalo dos filisteus à posição de grande
edificador de um império – é contrabalançada pela sua queda vertical depois de seu
hediondo pecado duplo no episódio Bate-Seba (2 Sm 11).
Culto e liderança
Outro motivo unificador é o relacionamento entre o culto (em especial a arca do
pacto) e a liderança de Israel. Em 1 Samuel, a família de Eli se mostrou culpada de

1
Uma vez que as principais questões relativas à autoria e data já foram discutidas na
introdução a 1 Samuel, o conteúdo desta divisão será limitado ao mínimo.
2
O estudo mais notável dessas técnicas literárias em Samuel é a obra de J. P. Fokkelman,
Narrative Art and Poetry in the Books of Samuel. King David, é o primeiro volume a ser
publicado de uma coleção que se propõe a analisar literariamente os livros de Samuel.
3
Veja Robert Alter, The Art of Biblical Narrative e David M. Gunn, The Story of King David:
Genre and Interpretation.
tratar com menosprezo o culto a Yahweh (1 Sm 2.12-17, 22-25) e a arca com
superstição grosseira (1 Sm 4.1-5). Por tais crimes, toda a linhagem foi amaldiçoada.
Saul negligenciou ostensivamente a arca e o culto, chegando ao extremo de chacinar
85 sacerdotes durante sua insana perseguição a Davi. Ele, igualmente, perdeu sua
vitalidade e, por fim, seu reino.
Em marcante contraste, 2 Samuel apresenta Davi como um rei cônscio da importância
da arca. Ele sabe quão crucial é a adoração realizada conforme o padrão da aliança
mosaica. Assim, ele apóia o culto a Yahweh entusiasticamente, dança de alegria perante
a arca e concede-lhe um lugar de destaque em sua capital recém-conquistada. Quando
confrontado com a necessidade de fugir de Jerusalém, recusa-se a carregá-la como um
amuleto (2 Sm 15.24-26), como fora feito no passado. Sua casa, portanto, é estabelecida
de acordo com a aliança de Deus.
Em 1 Samuel, as aparentes desventuras da arca servem para demonstrar que Yahweh
tinha pleno controle sobre a história de Israel, que Ele podia facilmente sobrepujar os
deuses dos filisteus, e retinha as bênçãos da aliança meramente devido ao pecado do
povo. Em 2 Samuel, a narrativa referente à arca indica, um tanto obliquamente nos
incidentes de Uzá e Obede-Edom (6.8-11), que 70 anos depois da primeira batalha de
Ebenézer o poder de Yahweh de amaldiçoar e abençoar permanecia intacto e funcional,
se indivíduos ou coletividades desprezassem a Deus ou confiassem Nele.
A graça de Yahweh
Em toda a obra (1 e 2 Samuel), mas especialmente em 2 Samuel, a graça de Deus
brilha em Sua preservação da monarquia a despeito do fracasso gritante de seus
representantes máximos. A conduta de Davi, digna de morte, é perdoada. Seu orgulho
ao numerar o povo recebe a sentença mais leve possível devido à graça de Deus. A
desintegração de sua família e seu reino é adiada por toda uma geração (cf. 1 Reis
11.12) na graça de Deus, conforme Sua aliança (2 Sm 7).
A questão de como a graça opera é vista no equilíbrio entre os temas da prosperidade e
do julgamento em 2 Samuel. Deus estabelece o reinado de Davi nos capítulos 1 a 8.4
Nos capítulos 11 a 24 (e até mesmo em 1 Rs 1 e 2), Deus impede a implosão da
monarquia davídica, que teria sido o resultado do pecado de Davi e do ―efeito-dominó‖
nas vidas de seus filhos e servos. Parece que o autor queria comunicar a seus leitores
originais que mesmo Davi, o ideal monárquico em Israel, não estava imune aos efeitos
devastadores da quebra da aliança. Apesar disso, mesmo em meio ao juízo e em
consonância com as estipulações da aliança, vê-se a intervenção graciosa de Deus na
escolha de uma semente em Salomão (passando por cima dos filhos mais velhos) e na
seleção de um local para a manifestação permanente de Sua glória (o que ocorre no
contexto do maior perigo enfrentado pela nação durante o reinado de Davi, 2 Sm 24).
A ênfase do autor na lealdade pactual de Yahweh também nos ajuda a entender o
término do livro. Em vez de retratar Davi em seus últimos dias, senil e incapaz de
resolver a luta fratricida pelo trono,5 2 Samuel termina com um retrato de corpo inteiro
de Davi, um homem capaz de pecado grave, mas inigualável em seu arrependimento e
desejo de agradar a Deus, dando de seus recursos para assegurar a posse do local em
que a manifestação gloriosa de Yahweh a Israel seria preservada, quando a semente
escolhida por Deus, seu filho Salomão, construísse o Templo.
4
Os capítulos 9 e 10 devem ser colocados dentro do intervalo cronológico de 1 a 8. Cf. 2 Sm
8.12. Veja Eugene Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, pp. 256-262.
5
Assim pensa Hertzberg, I & II Samuel, p. 416. Para uma opinião contrária veja J. Alberto
Soggin, Introduction to the Old Testament, p. 184.
FORMA LITERÁRIA E MENSAGEM
As duas últimas décadas testemunharam um interesse crescente em estudos literários
das narrativas do Antigo Testamento. Estudos de narrativas isoladas como The
Succession Narrative [A narrativa da sucessão], de R. N. Whybray, The Ark Narrative
[A narrativa da arca], de A. F. Campbell, e Absalom, Absalom! [Absalão, Absalão] de
C. Conroy estão agora complementados pela imponente obra de J. P. Fokkelman,
Narrative Art and Poetry in the Books of Samuel [A arte narrativa e a poesia nos livros
de Samuel], cujo primeiro volume publicado trata da vida de Davi e ocupa nada menos
que 517 páginas! Os padrões literários revelados por tais estudos podem certamente
contribuir para uma melhor compreensão da mensagem desses dois livros. A seguir
encontramos uma breve discussão das características literárias mais importantes de 2
Samuel.
O CARÁTER HERÓICO DA NARRATIVA
Leland Ryken sugere que a vida de Davi emula, em qualidade literária, as narrativas
de Homero (Ilíada) e Virgílio (Eneida).6 De fato, o Davi encontrado nos livros de
Samuel desempenha vários ―papéis‖, como Ulisses e Enéias dos épicos grego e latino.
Ele é pastor, guerreiro, fugitivo, rei, marido, amigo, pai e líder religioso.
Em 2 Samuel, seu papel principal é o de rei, um papel em que sua personalidade rica e
complexa é plenamente revelada, elevando-se às alturas com louvor a Deus por Sua
bondade e precipitando-se nas profundezas do pecado, em absoluto desprezo à bondade
pactual de Yahweh.
Como Ulisses, ele é retratado como rei, guerreiro, marido e pai. Sua marca registrada é
a lealdade pactual, mas, quando falha nessa área, seu mundo desaba a sua volta, em
todos os seus papéis: seu reino divide-se, sua família desintegra-se, sua destreza na
guerra esvai-se (cf. 21.16,17). É somente a infalível bondade pactual de Deus que
impede o colapso definitivo do império de Davi.
A exposição de sua fraqueza moral, algo sem paralelo na literatura heróica pagã, tem
uma função didática: seu papel como rei fazia dele um representante oficial do povo e
um modelo do que os homens em Israel, reis ou lavradores, deviam ou não fazer. A
maior parte desse propósito didático se realiza negativamente, pela apresentação de
exemplos de pecado e desordem que o leitor é implicitamente motivado a evitar.
Técnicas literárias empregadas em 2 Samuel
O segundo livro de Samuel apresenta várias técnicas literárias que aumentam o caráter
e o impacto didático da narrativa. Estes são os mais importantes:
QUIASMA
Este autor vê o padrão quiástico geral em que 1 e 2 Samuel foram organizados como o
mais notável. Idealmente, o esboço dos livros deveria seguir o seguinte arranjo:
A. A nação é salva do colapso pela graça de Deus, mediada por Samuel (1 Sm 1–9).
B. A nação estremece em razão da insensibilidade de Saul (1 Sm 10–31).
C. A nação enfrenta divisão e extinção (2 Sm 1–4).
C’. A nação experimenta unificação e expansão (2 Sm 5–10).
B’. A nação estremece como resultado da cobiça de Davi (2 Sm 11–21).
A’. A nação é salva do colapso pela graça de Deus mediada a Davi (2 Sm 22–24)
Dois exemplos de quiasma, no próprio livro de 2 Samuel, acham-se nos chamados
apêndices (caps. 21–24), que alguns entendem como adições.7 O propósito dessa
6
L. Ryken, The Literature of the Bible, p. 60.
7
Otto Kaiser, Introduction to the Old Testament, p. 153.
divisão, todavia, é realçar a fidelidade de Yahweh à aliança, indicando alguns agentes
dessa fidelidade e ilustrando-as com dois exemplos do tema teológico castigo-libertação
(veja quadro na página seguinte).
A. Tema teológico de pecado-castigo-livramento (21.1-14)
B. Agentes divinos de vitória (21.15-22).
C. Cântico de louvor pela bondade de Deus (22.1-51)
C’. Cântico de louvor pela aliança divina (23.1-7)
B’. Agentes divinos de vitória (23.8-39)
A’. Tema teológico de pecado-castigo-livramento (24.1-24)
J. P. Fokkelman fornece um grande número de padrões quiásticos para as diversas
divisões do texto (que ele chama de cenas). Um de seus exemplos, relacionado ao Ato
III (2 Sm 15–20), forneceu a base para o seguinte quiasma (quadro a seguir).
A. Revolta liderada por Absalão (15.1-12)
B. Davi foge; procissão fúnebre (15.13-31)
C. Davi encontra Husai, seu agente secreto (15.32-37)
D. Davi encontra Ziba: Mefibosete traidor? (16.1-14)
E. Davi encontra Simei: maldições (16.5-13)
F. Debate: Husai e Aitofel (16.15–17.4)
G. Relato: Jônatas e Aimaaz (17.15-22)
Batalha na Transjordânia (17.24–18.8)
Joabe mata Absalão (18.9-18)
G’. Relato: Aimaaz e o cusita (18.19–19.1)
F’. Debate: Davi-Joabe (19.2-16)
E’. Davi encontra Simei: súplicas (19.17-24)
D’. Davi encontra Mefibosete: alega inocência (19.25-31)
C’. Davi encontra Barzilai: representante na corte (19.32-41b)
B’. Davi retorna: secessão de Sebna (19.41c–20.3)
A’. A revolta é superada por Joabe (20.4-22)
Essa estrutura, bastante complexa e elaborada, é um argumento válido para a unidade
original do texto. Nenhuma colagem de fontes poderia reproduzir tal engenhosidade
literária.
A crença na inspiração das Escrituras encontra ainda maior valor para tais técnicas,
pois elas nos revelam um Deus que não Se preocupa apenas com a verdade, mas
também com a beleza estética.
REPETIÇÃO
Este recurso literário desempenha um papel importante nos livros de Samuel. O autor,
cuidadosamente, estabeleceu paralelos significativos entre eventos históricos e usou-os
para comunicar sua visão do controle de Yahweh sobre a história. Além dos casos mais
óbvios das narrativas da arca e da sucessão, esse padrão repetitivo ocorre nas narrativas
de Davi versus Isbosete e Davi versus Absalão (2 Sm 2-4; 15-20), conforme mostra o
quadro abaixo:
• A. Um rei rival é ungido em Hebrom (2:1-7; 15:7-12).
• B. O rei exilado foge para Maanaim (2:8-11; 15:13--17:29).
• C. Israel luta contra Israel (2:12-32; 18:1--19:43).
• D. Insurreição (4:1-12; 20:1-22)
Outros exemplos dessa técnica seriam o adultério de Davi e a cena de incesto em
11.1–12.25 e 13.1–14.33, em que a abundância de detalhes chega a ser chocante.
Embora o padrão dos paralelos não seja uniforme, essa técnica serve notavelmente bem
ao propósito de demonstrar causalidade na história, bem como para mostrar que os
pecados de indivíduos e grupos acabam por alcançar aqueles que os cometeram.
AMBIGÜIDADE
Leo Perdue sugere que o autor de 2 Samuel criou intencionalmente ambigüidade em
torno de Davi, para que o livro refletisse uma ambigüidade nacional em relação à
instituição da monarquia.8 Embora haja um elemento de ambigüidade no caráter de
Davi e no sentimento do povo, que descobriu tarde demais que um ‫( ֶמלְֶך‬meleḵ, ―rei‖)
era muito mais do que tinham pedido (um ―líder militar‖ do tipo ‫נָגִׁיד‬, nāḡîḏ), essa
canāḡîḏracterística do texto é tendenciosamente exagerada por muitos eruditos, que
acabam por apresentar Davi como um ―homem segundo o coração de Satanás‖.9
Um exemplo mais valioso da técnica literária da ambigüidade é Joabe, um homem
cuja lealdade a Davi não conhece limites e que, no entanto, mata o rebelde Absalão
contra as ordens de Davi.
Joabe é um personagem que despreza a lei divina, pois é capaz de assassinar Abner em
Hebrom, uma cidade de refúgio (3.27), mas que, no calor da batalha, invoca a bênção de
Deus sobre si mesmo e seu exército (10.12). Nesse mesmo paradoxo de caráter, Joabe
não hesita em abandonar um companheiro de armas ao inimigo, conforme ordenado por
Davi (11.14-21), mas admoesta o rei quando este se propõe a realizar o censo do povo,
invocando (muito ironicamente) Yahweh como a verdadeira força do exército de Israel.
Joabe é ambíguo, ao passo que Davi é um personagem multifacetado, dominado, em
última análise, por um traço de conformidade à vontade e ao caráter de Deus (cf. 1 Sm
13.14). No entanto, Joabe, com sua ambigüidade, contribui com um toque de grandeza à
partitura, sendo ocasionalmente o instrumento solitário com o qual o Grande
Compositor sustenta o tênue tema da monarquia.
Insinuação
Dois incidentes menores na vida de Joabe indicam o uso de insinuação para revelar
um possível problema que o general tentou solucionar. Protestando contra a negociata
de Davi com Abner, Joabe parece sugerir que a motivação real de Abner era sua sede de
poder. Joabe teria razão? A insinuação fundamenta-se no incidente de Abner com a
concubina de Saul (3.7-11), já que nos livros de Samuel e também em 1 Reis 1 e 2,
relações sexuais com uma concubina real eram vistas como um gesto de reivindicação
do trono. O autor sutilmente criou suspense, que acabaria tendo sua resolução em
assassinato.
Mais tarde, quando Davi ordena a morte de Urias, a mensagem de Joabe em relação ao
cumprimento das ordens contém uma sutil indicação de que Davi se tornara vítima do
conhecimento íntimo que Joabe tinha de seu caráter e planos.
Parece, a este autor, que a morte fria de Absalão (por vingança? Ou para benefício da
monarquia?) só aconteceu porque o pragmático general, Joabe, sabia que Davi tinha
conhecimento que ele estava informado sobre a morte de Urias, que fora tramada pelo
rei. Tais indícios tornam ainda mais pungente a avaliação, feita por Davi em 3.39, de

8
L. Perdue, “Ambiguity in 2 Samuel”, Journal for the Study of the Old Testament 30
(1984):67-84.
9
J. C. Vanderkam oferece o melhor exemplo dessa linha de pensamento, que vê
propaganda política de um partido davídico por todo o livro de Samuel, que teria sido escrito
para apagar as falhas de caráter do rei. Veja “David’s Complicity in the Deaths of Abner and
Eshbaal: A Historical and Redactional Study”, Journal of Biblical Literature 99 (1980):521-39.
Joabe e seus irmãos: Como é difícil lidar com esses homens, os filhos de Zeruia!
(paráfrase deste autor). Essas palavras mostraram-se realmente verdadeiras até o fim de
sua vida!
Mudanças no papel do autor
Isto significa que o autor passa de um narrador avarento, cujo prazer parece ser
esconder os detalhes (e.g., no adultério de Davi com Bate-Seba), para um cuidadoso
informante de detalhes aparentemente insignificantes (e.g., Tamar preparando a massa e
assando o pão para Amnom, seu irmão, antes que ele a estuprasse). De igual modo, ele,
às vezes, expressa um julgamento moral contra os personagens e suas ações (cf. 11.27),
ao passo que, outras vezes, utiliza as palavras dos próprios personagens para avaliar
determinado incidente (cf. as palavras de Tamar a Amnom em 13.12,13). Essa técnica
acrescenta cor à narrativa e reflete o talento literário e a sensibilidade do autor de
Samuel à reação dos leitores.
Mensagem
O estabelecimento da monarquia por Yahweh é operado conforme Sua lealdade
pactual que castiga com justiça e sustenta com graça uma nação enfraquecida pelo
pecado de seus líderes.
À luz dessa mensagem e da apresentada na página 260 para o livro de 1 Samuel,
propõe-se a seguinte mensagem para a obra completa:
A vitalidade da teocracia depende da graça restauradora de Yahweh, concedida à
nação e seus representantes depois de ser disciplinados por abandonar a fidelidade
a Deus e à aliança deuteronômica.
A teologia de 2 Samuel
O estudo de 2 Samuel demonstrou, até aqui, que um narrador magistral queria
comunicar verdade espiritual a seus leitores e reforçar alguns conceitos teológicos.
O fato de poucas de suas avaliações ser explícitas não diminui o impacto teológico de
sua obra, desde que o leitor esteja alerta para técnicas literárias como as já mencionadas:
insinuação, ambigüidade, recapitulação, quiasma e repetição.
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Yahweh é gracioso
A graça de Deus jamais é mencionada explicitamente no livro, mas permeia toda a
narrativa. Ela é mais claramente demonstrada nos dois eventos-chave do livro: o
estabelecimento da aliança davídica e o pecado de Davi com Bate-Seba.
No primeiro evento (7.1–17), a graça fica evidenciada na maneira pela qual Deus
assume o cuidado de Davi (e, por meio dele, de toda a nação). Em vez de permitir que
Davi Lhe construa uma casa (que O tornaria, de alguma forma, devedor ao rei), Yahweh
promete abençoar Davi de tal forma que tudo que seus descendentes pudessem oferecer
a Ele seria apenas uma ínfima resposta àquela demonstração inicial do (‫חסֶד‬
ֶ ) divino. O
amor leal de Yahweh não é o fruto do amor leal do homem, mas a causa.
A graça criativa de Yahweh também é vista na elevação de um humilde pastor à
condição de grande rei (7.9), a quem vassalos prestarão homenagem. O próprio Davi
demonstra sur presa diante de tal demonstração (7.19).
A graça de Deus também brilha em perdão, pelo fato de que o hediondo crime de
Davi, embora jamais tolerado, é perdoado. Adultério e homicídio premeditado são
tratados não conforme a Lei Mosaica, que prescrevia a pena capital para ambos (Lv
20.10; Êx 21.14), mas de acordo com a graça que detecta o arrependimento e a
confiança no caráter misericordioso de Yahweh. Essa mesma graça non ex opera é
demonstrada no capítulo 24, quando o castigo divino é suspenso antes que o anjo
exterminador chegue a Jerusalém. Embora haja envolvimento humano em intercessão,
esta não é apresentada como a causa do ato divino de libertação, mas como seu mero
(embora importante) instrumento.
Yahweh é severo
A contrapartida da graça é a severidade (cf. Rm 11.22). Em Sua santidade, Deus não
permite que se zombe de Sua pessoa ou de Seu caráter. Portanto, o desprezo de Saul
pelo Senhor e Sua aliança (e.g. Arca, gibeonitas) é punido pela justiça divina sobre seus
descendentes que, com a exceção de Mefibosete, morrem violentamente ou são
submetidos à vergonha da esterilidade (cf. Mical, no capítulo 6).
As mesmas conseqüências do pecado estão presentes, de maneira chocante, na vida de
Davi. As ondas de choque de seu pecado fragmentam os sonhos de sua família de
maneira quádrupla (de ―conformidade‖ com seu julgamento em 2 Sm 12.6): o filho de
seu adultério morre, com Amnom, Absalão e Adonias. Pelo estupro de Bate-Seba (o
leitor não é informado de como ela reagiu no incidente), não apenas sua bela filha é
violada, mas suas concubinas tornam-se objeto do exibicionismo de Absalão, em sua
ousada tentativa de tomar o trono de Israel.
A vida de Davi é prova clara de que o perdão espiritual não garante isenção da
vergonha, do sofrimento e da tristeza, que invariavelmente acompanham o pecado em
suas muitas formas. Yahweh escolheu perdoar a culpa sem poupar-lhe as
conseqüências.
Um exemplo final da severidade de Yahweh se acha na narrativa da arca em 2 Samuel
6. Uzá, apesar de bem-intencionado, estava agindo fundamentado em uma mentalidade
humana e supersticiosa. Davi e seus homens tinham instruções mosaicas bem claras
sobre como transportar a arca. O método que escolheram sugere uma tentativa de
duplicar o sucesso dos filisteus 70 anos antes. No entanto, para surpresa de Uzá, e
consternação tardia de Davi, a presença santa de Yahweh e o respeito obediente devido
a Ele não podem ser tratados com leviandade.
Yahweh é soberano
A maioria das referências à soberania de Yahweh está centralizada na pessoa de Davi.
Pacientemente, ele espera que Yahweh torne realidade a promessa de ser o rei ungido de
Israel, buscando a direção do Senhor (2.1,2) e esperando um pedido unificado das doze
tribos.
A soberania de Yahweh talvez apareça na esterilidade de Mical, depois de sua repulsa
ao entusiasmo de Davi diante da arca do Senhor. A despeito das causas de tal
esterilidade (uma intervenção sobrenatural ou a simples recusa, por parte de Davi, em
manter relações sexuais com ela – o que certamente seria a sorte mais amarga), a
soberana rejeição divina da linhagem de Saul foi assim efetuada.
O respeito que Davi tinha pela soberania de Yahweh transpira no relato da barragem
de ofensas que Simei dispara contra o rei deposto (16.5-14). Davi, quando lhe é
oferecida a possibilidade de livrar-se de tal incômodo físico e moral, recusa o gesto de
lealdade de Abisai, aludindo à possibilidade de que o próprio Yahweh tivesse
soberanamente ordenado as ações de Simei (cf. 16.10).
Confiança semelhante subjaz em seu pedido para que Deus transtorne o conselho de
Aitofel. Sua crença, todavia, não o impediu de empregar os serviços de Husai e de
estabelecer uma rede de espionagem na corte de Absalão.
Embora 2 Samuel não apresente um quadro claro da escolha davídica de um sucessor,
indícios da soberana escolha divina de Salomão podem ser encontrados no relato de seu
nascimento (cf. 12.24). O menino, da inevitável vergonha associada ao passado recente
de sua mãe, foi alçado à posição de escolhido (amado; cf. Ml 1.2, 3). Jedidias, seu nome
alternativo, derivado da mesma raiz verbal que o nome ―Davi‖, sugere que a mensagem
de Natã a Davi tinha algo a ver com a escolha divina de Salomão como herdeiro do
trono (cf. 1 Rs 1.13,30; 1 Cr 21.9,13). Assim, em certo sentido, a chamada ―narrativa da
sucessão‖ deveria chamar-se ―narrativa da eliminação‖, pois nela Deus vai
soberanamente afastando os candidatos impróprios, enquanto opera, simultaneamente,
as terríveis conseqüências do pecado de Davi.10
Uma última demonstração da soberania de Yahweh surge no capítulo 24, quando é
creditada a Ele a origem do censo. Primeiro Crônicas atribui tais pensamentos a
Satanás, que seria o agente designado soberanamente por Yahweh. O fato notável é que
Yahweh soberanamente administra o uso satânico do orgulho e ambição humanos para
punir algum pecado nacional não identificado (24.1) e produzir o bem maior na clara
definição do local onde Seu culto ficaria centralizado e a unidade religiosa da nação
seria obtida.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
Dentro do propósito quádruplo de Deus de permitir a existência do mal, de julgar o
mal, de vencer o mal em favor de uma semente escolhida, ou por meio dela, e de
conceder Sua bênção aos eleitos, o livro de 2 Samuel opera como o elemento de
focalização. Presumindo que a monarquia já havia sido definida como o agente
temporário de Deus em Israel (a despeito da falha grotesca de Saul), Yahweh julga o
mal dentro da nação e liberta Seu povo escolhido (disciplinando Davi e removendo
candidatos indignos ao trono), ao garantir a Israel não apenas alívio de opressões
estrangeiras, mas domínio sobre antigos inimigos, de modo que a nação possa desfrutar
a plenitude das bênçãos da aliança.
O desenvolvimento da aliança abraâmica
Segundo Samuel oferece um desenvolvimento da aliança abraâmica ao focalizar
aquela promessa de que reis procederiam dos patriarcas (cf. Gn 17.6,16; 35.11). A
profecia implícita de que um rei viria (cf. Dt 17.14s.) sugere que a monarquia operaria
conforme o duplo âmbito das duas alianças prévias.
Isto parece claro em 2 Samuel 7.14: Se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de
homens, e com açoites de filhos de homens. A promessa a Judá (Gn 49.10) garantia a
natureza perpétua da promessa feita à linhagem de Davi; as ameaças da aliança
deuteronômica garantiam o inevitável resultado do pecado na vida de qualquer
representante individual da linhagem.
A aliança davídica floresce, por assim dizer, da semente prometida a Abraão, que é
ampliada para incluir uma casa ou dinastia (7.12,13a), um trono eterno (7.13b-15, 16b)
e um reino eterno (7.16a). Essa promessa complexa surge tecnicamente sob a forma de
uma aliança de doação real, um ―contrato‖ pelo qual um soberano graciosamente
concedia um benefício, normalmente sob a forma de terra ou feudo, a um vassalo, quer
por serviços prestados quer por pura generosidade e amor do soberano.11

10
“Merrill (História, p. 262)”, situa o início de uma co-regência entre Davi e Salomão por
volta de 973 a.C., dois anos antes da morte de Davi.
11
Para maiores detalhes sobre essa forma de pacto veja Moshe Weinfeld, “The Covenant of
Grant in the Old Testament and in the Ancient Near East”, Journal of the American Oriental
Society 90 (1970): 184-203. Uma passagem paralela importante é o Salmo 89, que interpreta
em forma de hino o oráculo entregue por Natã (veja especialmente Sl 89.27, em que a
natureza eterna do pacto é enfatizada e testemunhas celestiais são invocadas).
A aliança também se baseia em Gênesis 49.10, que assegura que o direito de reinar
sobre Israel pertencerá a Judá; a partir desse ponto, a promessa afunila-se até chegar à
casa de Davi, antecipando assim o reino de Cristo.
2 Samuel 7 tem várias implicações escatológicas, das quais as mais importantes são:
a) Israel deve ser preservado como nação; b) Israel, por fim, reconquistará pleno
controle da terra oferecida a Abraão; e c) o Grande Filho de Davi retornará
corporalmente e estabelecerá o reino davídico.
Sacerdócio da ordem de Melquisedeque em 2 Samuel
As traduções modernas de 2 Samuel 8.18, não apenas em português, mas também em
inglês, evitam uma questão significativa, mas problemática, ao dar um significado geral
à palavra hebraica ‫ ( כֹהֵן‬ō ēn, ―sacerdote‖). Ao fazerem isso, seguem uma antiga
tradição, já que tanto o livro de Crônicas quanto a Septuaginta fizeram o mesmo para
evitar a palavra problemática. Duas outras referências complicam o problema: 2 Samuel
20.26 e 1 Reis 4.5.
A maioria dos comentários consultados (com exceção de 2 Samuel, de P. R. Ackroyd
[CBC]), considera, a priori, que era impossível que os filhos de Davi tenham oficiado
como sacerdotes (o sentido normal da palavra ‫)כֹהֵן‬. Essa posição, porém, ignora uma
forte tradição de sacerdócio real no Antigo Testamento. As ações de Davi, em 2 Samuel
6, seriam absolutamente absurdas (oferecer sacrifícios, abençoar o povo etc.) a não ser
que ele estivesse convicto de que, em virtude de sua captura de Jerusalém e do papel
real que ali exercia, estava capacitado a exercer os privilégios que haviam precipitado a
ruína de Saul e sua dinastia (cf. gesto semelhante de Saul em 1 Sm 13).
A isso deve somar-se o fato de que Davi afirmou que o rei ungido de Israel seria
também um sacerdote da ordem de Melquisedeque (Sl 110). À luz da promessa de 2
Samuel 7, não é de estranhar que ele tenha designado funções sacerdotais para seus
filhos. Tal designação sugere que Davi estivesse esperando para muito breve a promessa
do surgimento de Seu Filho maior e que por isso organizou o culto de maneira que seus
filhos desempenhassem os mesmos papéis sacerdotais que, por um curto período de
tempo, ele desempenhara.
O fato de ter havido, por algum tempo (977-959 a.C.), dois focos no culto israelita
(um em Gibeão, onde estava o tabernáculo, e outro em Jerusalém, onde estava a arca)
pode ter contribuído para essa diversificação sacerdotal (cf. 2 Sm 6.17; 1 Rs 3.4,5).12
Que tal esperança ainda ardia em Israel depois de séculos de desilusão fica evidente na
profecia de Zacarias (6.9-14) e na tentativa dos hasmoneus de combinar os do os dois
ofícios (rei e sacerdote). Esses líderes, embora tenham conseguido (alguns, até certo
ponto, mas João Hircano, totalmente) acumular as duas funções, não se qualificavam
para cumprir a profecia de Salmo 110, pois eram primariamente sacerdotes, e apenas
secundariamente governantes seculares, já que não pertenciam à linhagem de Davi.

A objeção que pode ser feita é que 2 Samuel 20.26 e 1 Reis 4.5 não apóiam essa tese
proposta, já que os homens nela mencionados não são filhos de Davi. Todavia, é bem
possível que, dadas as condições caóticas durante e após a rebelião de Absalão, Ira, o
jairita, tenha funcionado como sacerdote real interino, com autoridade derivada de sua

12
Hertzberg, I & II Samuel p. 294, sugere, ao citar o exemplo de Juízes 17:5, que era
aceitável à mentalidade israelita que os filhos do patrono de um santuário oficiassem como
sacerdotes. A. A. Anderson, 2 Samuel, WBC, p. 137-138, sugere que o arranjo foi temporário,
mas não fornece maiores explicações.
indicação por Davi. Poderia se dizer o mesmo de Zabude , embora ele possa ter sido
sobrinho de Salomão, já que seu pai, de resto desconhecido, chamava-se Natã. O fato de
outros filhos de Davi se sentirem capacitados para tal função pode ser observado
quando Adonias ofereceu sacrifícios por ocasião de seu frustrado ―golpe de Estado‖ (1
Rs 1.19).
Outra objeção possível à posição aqui proposta é que ela faria Davi dependente de um
sacerdócio jebuseu, pagão, cujo lugar ele teria assumido ao conquistar a cidade. Tal
idéia é negada contextualmente pelo profundo ódio que Davi devotava aos jebuseus;
também é duvidoso que assumisse uma posição de tal sincretismo religioso depois da
violenta punição a Uzá, no caso do transporte da arca. É melhor postular uma tradição
israelita de sacerdócio real, iniciada com a figura mística de Melquisedeque, que teria
sido gradativamente reforçada pelas figuras quase monárquicas de Moisés e Samuel e
que fora ambicionada por Gideão, com sua estola sacerdotal (cf. Jz 8.22-27). O fato de
Saul jamais ter tomado Jerusalém, fazendo de Gibeá sua capital, pode ser uma razão a
mais para que seu ato sacerdotal tenha sido considerado inaceitável diante de Yahweh.
Dentro do esquema divino de intervenção na história para restaurar Sua soberania
mediada, a linha de revelação centrada em Melquisedeque ocasionalmente converge
com o fluxo maior da atividade divina por meio das instituições de Israel.
Essa convergência na pessoa de Davi, rei de Jerusalém, parece, a este autor, o
fundamento do uso de Melquisedeque no livro de Hebreus, cujo autor defende a
superioridade de Jesus Cristo sobre o judaísmo.13
Argumento básico
DESENVOLVIMENTO
O livro tem sido dividido em cinco partes que oferecem uma visão de como Yahweh
operou em graça para preservar a monarquia davídica e impedir que desabasse sob o
peso de suas deficiências.
Essas cinco partes giram em torno do evento crucial da vida de Davi – sua dupla
quebra da aliança no adultério com Bate-Seba e no assassinato de Urias (11.1–12.31).
Antes disso, o leitor encontra o estabelecimento do reino de Davi (1.1–8.18) e um
retrato do sucesso de Davi debaixo da bênção de Deus (9.1–10.19). Depois do pecado, o
leitor encontra a deterioração da monarquia, devido às conseqüências do pecado de
Davi (13.1–20.26), e, no contexto do fracasso humano, um retrato da preservação de
Israel debaixo da graça de Deus (21.1–24.24).
O livro começa com a narrativa de como Yahweh estabeleceu Davi como único
regente ao promover a queda da dinastia de Saul (1.1−4.12). Davi, que lamentou sincera
e poeticamente as mortes trágicas de Saul e Jônatas (1.1-27), demonstrou uma sábia
indisposição de assumir o reino prematuramente, permitindo que as circunstâncias
operassem juntamente e produzissem o clima adequado para uma reivindicação do trono
do Israel unificado (2.1–3.5). Esse clima surgiu quando Abner, que era a coluna dorsal
do reino de Isbosete, rompeu com o filho de Saul e fez uma proposta política a Davi. A
despeito das circunstâncias estranhas da morte de Abner, pelas mãos de Joabe, Davi
percebe o caminho aberto à sua frente, mais ainda quando revoltosos assassinam
Isbosete.

13
O ponto de vista aqui defendido é oposto, de maneira mais absoluta, ao de C. F. Keil e F.
Delitzsch, The Books of Samuel, p. 368-369. C. E. Armerding defende o sacerdócio dos filhos de
Davi em “Were David’s Sons Really Priests?” em Current Issues in Biblical and Patristic
Interpretation, editado por G. Hawthorne.
Davi desassociou-se de ambos crimes. No caso do assassinato de Abner, lamentou
verbalmente sua morte e censurando (tibiamente) a Joabe, e no caso de Isbosete,
mandou executar os dois irmãos assassinos, Recabe e Baaná (3.6–4.12).
A seguir, Davi foi estabelecido como regente único pelo pedido de todas as doze
tribos (5.1-5), e pela conquista de uma nova capital (5.6-12), e pela formação de uma
grande família [futuros herdeiros] (5.13-16). O estabelecimento do reino prosseguiu em
bases militares (por meio de vitórias arrasadoras sobre os odiados filisteus [5.17-25]),
em bases religiosas (com o transporte da arca para Jerusalém [6.1-23]), e em bases
pactuais (pela promessa divina de um trono e um reino eternos [7.1-29]), e por meio de
extensas conquistas militares sobre as nações circunvizinhas (8.1-18).
A divisão seguinte oferece um vislumbre da vida sob o governo de Davi. O incidente
com Mefibosete ilustra o exercício de lealdade pactual por Davi (9.1-13), ao passo que o
triunfo sobre os amonitas mostra a lealdade pactual de Davi sendo desprezada pelos
vizinhos de Israel (e antigos aliados de Davi), como também a heróica conquista contra
as forças combinadas de diversos inimigos. O cenário, até aqui, é ideal, mas logo o
pecado o arruinará.
A divisão central do livro retrata a quebra da lealdade pactual pelo próprio Davi, por
meio de adultério, mentira e assassinato (11.1-27). Davi, apesar de ter conseguido
esconder seus pecados dos homens, não conseguiu escapar ao olhar penetrante de
Yahweh, cujo juízo sobre o pecado do rei é anunciado pelo profeta Natã (12.1-23).
Mentira, abusos sexuais e assassinato passariam a fazer parte da vida familiar de Davi
como conseqüência de seu pecado (12.10-12). Além disso, o fruto de sua união adúltera
morreria (12.14-23). No entanto, mesmo em meio ao juízo, a graça manifesta-se no fato
de a vida de Davi ser poupada (12.13), sua vitalidade ser mantida pelo nascimento de
um outro filho a quem Yahweh ama (i.e., escolhe; 12.24,25) e a vitória obtida no campo
de batalha (12.25-31).
A quarta divisão descreve a parca sobrevivência da monarquia devido à desintegração
da vida familiar de Davi e a quebra, entre as tribos, da lealdade a ele. O problema inicial
manifestou-se quando os pecados sexuais de Davi foram emulados por seu primogênito,
Amnom, contra sua meio-irmã Tamar (13.1-19). A isso se seguiram o assassinato de
Amnom por Absalão (13.20-29) e um período de hostilidade e separação entre Davi e
seu herdeiro presumido (13.30–14.33), que só chegou ao fim por meio da atuação
ambígua de Joabe.
A revolta de Absalão traz consigo o ápice do castigo divino, à medida que a lealdade
da nação é solapada (15.1-12) e o rei é forçado a fugir de Jerusalém (15.13−16.14). A
despeito do cenário sombrio, a lealdade pactual de Yahweh ainda está em operação, e a
contra-revolta de Davi em Jerusalém (15.30-37) consegue deter Absalão e, ao impedir
que o plano de Aitofel se concretize, reduzir a eficácia de seu exército (16.15–17.23).
Quando finalmente os exércitos de pai e filho se defrontam, o resultado é favorável ao
pai (17.24–18.8), e o filho é executado por Joabe, contrariando as ordens do próprio
Davi (18.9-18). As profundas emoções de angústia e remorso de Davi, em conseqüência
do incidente, provocam reação de desespero, que Joabe repreende em público para
evitar uma absoluta quebra de lealdade entre o povo (18.24–19.8).
O resultado final da revolta de Absalão é uma nação em tumulto, com um governo
desmoralizado, aceito pelas tribos por falta de melhor opção (um contraste marcante
com a popularidade inicial de Davi; 19.9-39), e um coup d’état que quase dá certo
devido à insurreição no exército real (19.40–20.13), mas que fracassa simplesmente
porque a nação já não encontra sentido para a luta (20.14-22).
Essa seção do livro termina com a reorganização do reino, dessa vez sem a
participação dos filhos de Davi (20.23-26).
Em vez de ver a última divisão como um ―apêndice‖, é melhor vê-la sob o mesmo
ângulo dos capítulos finais de Juízes, o de um apanhado da vida sob a monarquia
davídica com ênfase na lealdade pactual.
Em 21.1-14, descobrimos que antigas quebras de lealdade pactual têm efeitos que
estão presentes na administração divina da história. De outro lado, os feitos heróicos de
Davi e seus valentes contra os filisteus relembram a promessa divina de libertação dos
inimigos, que previamente Israel não conseguira derrotar (21.15-22).
O registro das palavras de louvor declarativo de Davi, em 22.1-51 e 23.1-7, enfatiza
como o rei percebia que Yahweh era o responsável por sua preservação até chegar ao
trono e que também garantiria o cumprimento último das promessas pactuais a sua
família e povo.
A menção dos grandes libertadores de Israel e dos leais servos de Davi ilustra como
Yahweh usa instrumentos humanos para cumprir Suas promessas (23.8-39). O incidente
com o censo mostra como, até mesmo, a húbris humana (24.1-9) pode ser um
instrumento da atividade graciosa de Yahweh, uma vez que, depois de Sua disciplina ter
sido administrada (24.10-14), Ele usou as circunstâncias para prover o local em que Sua
aliança com a dinastia davídica seria visivelmente manifestada (24.15-25).
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
O estabelecimento da monarquia por Yahweh é operado conforme Sua lealdade
pactual que castiga com justiça e sustenta com graça uma nação enfraquecida pelo
pecado de seus líderes.
I. O estabelecimento da monarquia elaborado por Deus tira Davi do exílio para um governo
exclusivo sobre uma Israel unida e segura (1.1–8.18).
A. Deus estabelece Davi como único governante ao realizar a ruína da dinastia de Saul (1.1–
4.12).
1. As reações de Davi diante da morte de Saul revelam sua indisposição de buscar o trono
inapropriadamente (1.1-27).
• O suposto assassino de Saul é executado como prova do respeito de Davi pela pessoa ungida por
Deus (1.1-16).
• A dor e lamento de Davi revelam o profundo apreço que ele tinha por Saul e, especialmente, por
Jônatas (1.17-27).
2. A abordagem cautelosa de Davi ao governo revela sua indisposição de buscar o reino
prematuramente (2.1–3.5).
• Em resposta à direção de Deus, Davi volta a habitar em território israelita e é coroado rei de Judá
(2.1-7).
• A dinastia de Saul é preservada precariamente em Isbosete pelo esforço de Abner, general de Saul
(2.8-11).
• Segue-se uma guerra civil com Davi assegurando o controle sobre os descendentes de Saul (2.12–
3.1).
• O crescimento de Davi é ilustrado e medido pela expansão de sua família (3.2-5).
3. As circunstâncias cooperam para trazer Davi ao governo exclusivo sobre Israel por
consentimento de toda a nação (3.6–4.12).
• Abner abandona Isbosete, por este temer ser usurpado por seu general (3.6-11).
• Abner faz um acordo, com Davi, de devolver as tribos do norte e sela esse acordo devolvendo a
esposa de Davi, Mical, filha de Saul (3.12-16).
• Abner convence os anciãos de Israel a apoiar Davi, resolvendo assim a questão com Davi (3.17-
21).
• A morte de Abner, nas mãos traiçoeiras de Joabe, deixa Davi perplexo e revoltado, apesar de
relutante em punir Joabe (3.22-39).
• O assassinato de Isbosete deixa Davi como único candidato ao trono, mas ele se desassocia desse
crime executando os assassinos (4.1-12).
B. O governo exclusivo de Davi sobre Israel é assegurado por Deus para o bem de Seu povo
(5.1-16).
1. O governo exclusivo de Davi é estipulado pelas lideranças tribais (5.1-5).
2. O governo de Davi é realçado pela conquista, estabelecimento de nova capital e
reconhecimento internacional (5.6-12).
3. O governo de Davi é (supostamente) promovido por maior número de filhos (5.13-16).
C. O governo de Davi é estabelecido em terreno militar, religioso e pactual (5.17–8.18).
1. O governo de Davi é estabelecido em terreno militar por uma dupla vitória, dada por Deus,
contra os odiosos filisteus (5.17-25).
2. O governo de Davi é estabelecido em terreno religioso ao trazer a arca para Jerusalém, o novo
centro sagrado da nação (6.1-23).
• A primeira tentativa de trazer a arca fracassa devido à superstição e irreverência, apesar das boas
intenções (6.1-11).
• A segunda tentativa, feita em obediência à lei, traz a arca a Jerusalém e enche Davi de alegria e
entusiasmo, apesar da reação fria de Mical (6.12-23).
3. O governo de Davi é estabelecido no terreno pactual pela promessa divina de um trono e um
reinado eternos (7.1-29).
• O governo de Davi não será estabelecido pelo que ele pode fazer por Deus (7.1-7).
• O governo de Davi será estabelecido pelo que Deus fará por ele (7.8-17).
• Davi reconhece o estabelecimento divino de seu reino com ações de graças (7.18-29).
4. O governo de Davi é estabelecido em terreno militar por contínua vitória sobre as nações
circunvizinhas (8.1-18).
• Filístia é derrotada e sujeitada (8.1).
• Moabe é dizimada e anexada (8.2).
• Zobá é derrotada (8.3,4).
• Damasco é derrotada e sujeitada (8.5-8).
• Hititas (Hamate) alinham-se a Davi como reino vassalo (8.9-12).
• Edom é dizimada e anexada (8.13,14).
• O governo estabelecido é organizado em pequena escala (8.15-18).
II. O governo de Davi é marcado por amor leal e justiça unidos à valente conquista (9.1–
10.19).
A. O exercício de amor leal por Davi, no governo, é exemplificado por seu procedimento
anterior com Mefibosete (9.1-13).
1. A aliança de Davi com Jônatas foi honrada no modo como o rei supriu as necessidades de
Mefibosete (9.1-18).
2. O procedimento de Davi com Mefibosete o manteve em Jerusalém, assim prevenindo a
insurreição (9.9-13).
B. O exercício, por Davi, de amor leal e justiça em valente conquista é exemplificado em seu
procedimento com os amonitas (10.1-19).
1. O amor leal de Davi é rejeitado de modo ultrajante pelos amonitas (10.1-5).
2. A bravura de Davi culmina em grande vitória contra os amonitas e seus temíveis aliados, os
arameus (10.6-19).
III. A monarquia divinamente estabelecida é abalada por uma deliberada dupla violação da
aliança por Davi, que precipitou o julgamento de Deus, mas não obliterou Sua graça
(11.1–12.31).
A. Davi comete adultério com Bate-Seba (11.1-5).
B. Davi tenta acobertar seu comportamento vergonhoso para escapar de suas terríveis
conseqüências (11.6-13).
C. Davi planeja o assassinato de seu leal soldado Urias para eliminar sua culpa perante a
sociedade (11.14-27).
D. Yahweh anuncia severa punição que se estende à família de Davi e todo seu reino (12.1-23).
1. O pecado de Davi é comoventemente denunciado pelo profeta Natã e encontra condenação no
próprio julgamento do rei (12.1-15).
2. O julgamento de Deus começa com a morte da criança, fruto de seu adultério, um golpe para a
vitalidade de Davi (12.16-23).
E. A graça de Deus é vista na restauração da vitalidade de Davi e em sua vitória após seu
arrependimento e perdão (12.24-31).
1. A graça de Deus é vista na continuação da vitalidade – o nascimento de um filho amado pelo
Senhor (12.24,25).
2. A graça de Deus é vista na vitória final sobre os amonitas e sua sujeição (12.26-31).
IV. A monarquia mal sobrevive à deterioração causada pelas conseqüências decorrentes do
pecado de Davi (13.1–20.26).
A. O adultério de Davi é punido vicariamente no estupro de Tamar por Amnom (13.1-19).
B. O assassinato, provocado por Davi, é punido vicariamente na morte de Amnom nas mãos de
Absalão (13.20-33).
C. Uma próxima ruptura na estabilidade nacional acontece quando o relacionamento de Davi
com seu aparente herdeiro se deteriora (13.34–14.33).
1. Absalão foge para a propriedade de seu avô e fica ali por 3 anos (13.34-38).
2. Davi é convencido, por Joabe, que trazer Absalão de volta do exílio é preferível a enfrentá-lo
(13.39–14.24).
3. A longa exclusão de Absalão da vida na corte, após voltar a Jerusalém, proporciona as
sementes amargas para sua rebelião, apesar de Davi finalmente aceitá-lo (14.25-33).
D. O ápice da punição divina vem com a rebelião de Absalão, a fuga de Davi para fora de
Jerusalém e a guerra civil (15.1–18.33).
1. Absalão subverte a estabilidade nacional jogando as tribos do norte contra Israel, alegando que
seus interesses não eram considerados pelo rei (15.1-6).
2. A rebeldia de Absalão expulsa Davi de Jerusalém sob insultos de alguns e expressões de amor
de poucos (15.7–16.14).
• Absalão angaria apoio contínuo de algumas tribos do norte e de alguns cortesãos e consultores de
Davi (15.7-12).
• Davi sai de Jerusalém escoltado por sua guarda pessoal (15.13-18).
• Itai, o giteu, demonstra sua lealdade a Davi em um momento de total rejeição do rei (15.19-23).
• Davi rejeita a oferta sacerdotal de se fazer acompanhar pela arca em seu exílio de Jerusalém
(15.24-29).
• A lealdade de Husai opõe-se à traição de Aitofel em Jerusalém (15.30-37).
• Ziba se aproveita do julgamento emocionalmente prejudicado de Davi para se fazer de aliado,
acusando falsamente Mefibosete de traição (16.1-4).
• Simei, parente de Saul, amaldiçoa Davi, que humildemente evita a morte de Simei nas mãos de
seu zeloso oficial, Abisai (16.5-14).
3. O reinado de Absalão é abreviado porque a graça de Deus opera em favor de Davi, mesmo
enquanto ele é disciplinado (16.15–18.33).
• Absalão consuma sua usurpação ao tomar publicamente o harém de Davi, cumprindo assim a
ameaça de Natã (16.15-23).
• Absalão perde a chance de derrotar seu pai ao desprezar o conselho sábio de Aitofel em favor da
bravata de Husai, em cumprimento à oração de Davi (17.1-23).
• Davi é encorajado pelo apoio dos amigos da Transjordânia quando as batalhas decisivas se
aproximam (17.24-29).
• O exército mal preparado de Absalão é derrotado pelos veteranos experientes de Davi, na floresta
traiçoeira (18.1-8).
• Absalão é morto por Joabe (contra as ordens de Davi) e a rebelião cessa (18.9-23).
• O profundo remorso de Davi a respeito de todo esse acontecimento e a morte desonrosa de seu
filho desencadeiam uma reação de desespero (18.24-33).
E. A fase final da disciplina divina foi o estado de inquietação constante que se seguiu à revolta
de Absalão (19.1–20.22).
1. A explosão emocional do remorso de Davi é veemente e sabiamente repreendida pelo
pragmático Joabe, que percebeu o perigo de colapso nacional (19.1-8).
2. A perplexidade nacional ajuda Davi, ao trazer as tribos de volta para si por falta de melhor
opção (19.9-15).
3. A volta de Davi ao poder gera reações conflitantes entre o povo [um corte transversal na nação]
(19.16-39).
• Simei solicita misericórdia e a recebe (19.16-23).
• Mefibosete demonstra sua inocência e recebe de volta a metade de suas terras (19.24-31).
• Barzilai fica em Maanaim e recomenda seu filho como parte do novo séquito de Davi, uma
demonstração de apoio da Transjordânia (19.32-39).
4. A restauração de Davi alimenta uma disputa, em relação às reivindicações do governo, entre as
tribos do norte e Judá (19.40-43).
5. Um secessionista canalha tenta um golpe de Estado ao norte, mas a nação está muito fraca e
nada inclinada a segui-lo (20.1-22).
• Sebá, filho de Bicri, atrai descontentamento ao norte (20.1-3).
• As negociações de Davi com Sebá se atrasam com a insurreição de seu próprio exército devido a
uma rixa entre Amasa e Joabe (20.4-13).
• Sebá, filho de Bicri, é entregue pelo povo de Abel e de Bete- Maacá, e uma paz precária é
restaurada (20.14-22).
F. O reino é reorganizado após o tumulto, mas dessa vez sem a participação dos filhos de Davi
(20.23-26).
V. A lealdade à aliança opera, com julgamento e graça, para manter uma nação normalmente
autodestrutiva (21.1–24.25 [Seção em forma quiástica]).
A. A lealdade à aliança opera com julgamento sobre a violação do trato gibeonita feita por Saul,
mas em graça ao preservar Mefibosete por amor a Jônatas (21.1-14).
B. A lealdade à aliança opera com graça, ao conceder vitória a Israel sobre inimigos poderosos
e anteriormente invencíveis (21.15-22).
C. As misericórdias da aliança com Deus são revistas nos salmos de Davi, em ações de graças
(22.1-51).
1. Deus supre segurança, libertação e força (22.1-3).
2. A libertação dada por Deus foi poderosa e providencial (22.4-20).
3. As graciosas dádivas de Deus são fundamentadas na justiça e humildade da aliança (22.21-30).
4. A capacitação de Deus concedeu vitória completa sobre os inimigos (22.31-49).
5. A fidelidade de Deus motiva a adoração pública de Davi (22.50,51).
C‘. O último pronunciamento de Davi exalta Yahweh como o justo preservador da aliança
(23.1-7).
B‘. A lealdade pactual opera em graça suprindo grandes libertadores e servos fiéis (23.8-39).
A‘. A lealdade pactual opera com julgamento sobre o húbris de Davi, na contagem do povo, e
em graça poupa Jerusalém, o foco da atividade salvadora de Yahweh (24.1-25).
1. O censo é organizado e executado (24.1-9).
2. Davi é confrontado com as opções da punição divina (24.10-14).
3. Julgamento e graça misturam-se quando a punição é enfrentada e quando Davi escolhe um
lugar de holocausto ao Senhor, cessando assim essa punição sobre Jerusalém (24.15-
25).

O argumento de
REIS
Questões introdutórias
TÍTULO
Os dois livros de Reis compreendem, na verdade, uma única obra literária, que a
tradição judia preservou como uma unidade chamada ‫( ְּמ ָלכִׁים‬melāḵîm, ―reis‖). Essa
obra foi dividida em duas partes pelos tradutores da Septuaginta, uma tradição
continuada pela Vulgata e outras traduções. Uma edição judaica de 1448 foi a primeira
Bíblia hebraica a apresentar a divisão de Reis.
As antigas versões relacionavam Samuel e Reis, por meio do título, em uma tentativa
de refletir o tema básico comum, a história da monarquia em Israel. A Septuaginta
chama-os de Primeiro a Quarto dos Reinos, enquanto a Vulgata usa a palavra ―Reis‖ e
mantém a divisão em quatro partes.
A presente divisão de Reis é bastante arbitrária, pois divide ao meio o reinado de
Acazias, o ministério de Elias e o período de aliança entre os reinos de Judá e Israel.
DATA E AUTORIA
Reis é uma obra anônima e não há certeza quanto à autoria. O livro dá evidências de
uma origem profética devido a suas freqüentes referências a profetas, nomeados ou
anônimos, tanto em Israel quanto em Judá. Outra razão para afirmar-se uma origem
profética é a ênfase em profecia e cumprimento (cf. 1 Rs 8.20 [2 Sm 7.13]; 1 Rs 12.15
[11.29-39]; 2 Rs 23.16-18 [1 Rs 13.1-3] e outras oito passagens).
Uma tradição judaica, preservada no Talmude,1 atribui a obra ao profeta Jeremias,
uma possibilidade lógica, já que ele foi o profeta mais destacado da parte final do
período pré-exílico.2 As várias ocorrências da expressão ―até o dia de hoje‖ sugerem

1
Baba Bathra 15a.
2
John Gray afirma que a maior parte dos livros de Reis é de origem pré-exílica, com alguma
atividade editorial durante o exílio (I & II Kings, OTL, p.7).
que o autor foi uma pessoa que vivia em Judá nos anos cruciais da deterioração daquele
reino. Não é historicamente impossível que Jeremias e/ou Baruque, seu colega e
secretário, tenha(m) escrito até mesmo o epílogo sobre a reabilitação política de
Joaquim (‫י ְּהֹוֹיכָ ִׁין‬, ye ôyāḵîn, ―Yahweh estabelece‖).
As semelhanças entre o epílogo de Jeremias (cap. 52) e os capítulos finais de Reis
sugerem que ambos têm uma fonte comum. Uma vez que Jeremias 51.64 contém um
cólofon que diz: Até aqui são as palavras de Jeremias, e como o capítulo 52 tornou-se
parte do livro, há uma boa probabilidade que Baruque, ―editor associado‖ de parte do
livro (cf. Jr 36.18,36), tenha sido responsável pela inclusão do último capítulo e pela
edição final do livro de Reis.
Quem quer que tenha sido o autor de Reis, ele certamente fez uso de fontes. Três são
mencionadas com freqüência: o livro de crônicas de Salomão, o livro de crônicas dos
reis de Israel e o livro de crônicas dos reis de Judá. Não há certeza se tais fontes eram
registros oficiais das cortes, que teriam de alguma forma sobrevivido à invasão e exílio,
ou se eram registros proféticos, mantidos por uma sucessão aparentemente ininterrupta
de profetas de Yahweh, em Israel e Judá.
Um argumento a favor dessa última posição é a presença de observações desairosas e
negativas aos governantes, algo notável por sua ausência em ―diários oficiais‖. Além
disso, o livro de Crônicas contém evidências de que os profetas de Judá mantinham um
registro de acontecimentos históricos (cf. 2 Cr 20.34; 26.22).
A data final de compilação deve ser colocada por volta de 550 a.C., à luz do epílogo,
que relata a reabilitação de Joaquim por Evil-Merodaque (Amel-Marduque ) em 561
a.C.
CONTEXTO HISTÓRICO
Reis cobre um período de 410 anos, da morte de Davi (971 a.C.) à restauração de
Joaquim (561 a.C.). Nesse período, o foco de poder no Oriente Médio se deslocou
várias vezes. No início do livro, Israel era esse foco, que finalmente passou à Assíria e,
finalmente, à Babilônia. Ocasionalmente, o Egito e a Síria (‫א ֲָרם‬, ʾărām) tornavam-se
focos temporários de atenção internacional devido a seu freqüente relacionamento com
Israel (cuja história era sempre a lente pela qual os acontecimentos no Oriente Médio
eram observados e analisados).
O quadro seguinte retrata os períodos de dominação de cada império e os
representantes principais durante os períodos de hegemonia (área hachurada).

Os reinos do oriente médio antigo entre 971 e 561 a.C.


Sír
Israel Assíria Babilônia Egito
ia
Salomão
(971-931)
Hadade-Nirari II
(909-889)
Assurnasirpal
II (883-859)
Bene-
ACABE Salmaneser
Hadade
(874-853) III (858-824)
I
JEROBOÃO
II
(793-753)
Azarias
(792-740)
Tiglate-Pileser
PECA (752-
III Rezim
732)
(745-727)
Salmaneser V
(726-722)
Sargão II (722-
705)
Ezequias Senaqueribe Merodaque-
Tiraca
(729-686) (704-681) Baladã
Josias Nabopolassar Neco II
(640-609) (625-605) (609-593)
Jeoiaquim
(608-598)
Joaquim Nabucodonozor
(598-597) (605-562)
Zedequias
(597-586)
Os reinos gêmeos de Judá e Israel surgiram como resultado da infidelidade de
Salomão à aliança deuteronômica, que ao longo do livro serve como um termômetro
espiritual para a nação e seus governantes. As causas ―humanas‖ para a divisão foram a
excessiva taxação imposta a todas as tribos por Salomão, para que pudesse sustentar seu
mega-estado.
Como a união já vinha enfraquecida desde os dias das revoltas de Absalão e Sebá,
filho de Bicri, o benjamita (cf. 2 Sm 20), a exploração econômica e social (trabalho
forçado), durante o reinado de Salomão, precipitaram a crise no início do reinado de
Roboão. O que fora um grito de revolta no caso de Sebá (Não temos parte em Davi, nem
herança no filho de Jessé; cada um para à sua tenda, ó Israel; 2 Sm 20.1) acabou por
se tornar o refrão popular do movimento secessionista de Jeroboão (Que parte temos
nós em Davi? Não temos herança no filho de Jessé! Às tuas tendas, ó Israel; 1 Rs
12.16).
Como indicou Homer Heater,3 sempre houve duas forças em operação em Israel. A
força centrífuga era a a tendência das tribos buscarem sua existência independente,
como nos períodos da conquista e dos juízes, e essa força manifestou-se quando,
desiludidos com os rumos da monarquia, os israelitas reivindicaram um alívio da
centralização e do que viam como uma exploração das demais tribos pela tribo de Judá.4
De outro lado, a força centrípeta era de natureza religiosa, pois o povo estava
fortemente ligado ao santuário central e ao sacerdócio levítico, que se achavam
centralizados em Jerusalém, desde o tempo de Davi. Esse laço tornara-se ainda mais
forte com a construção do magnífico templo de Salomão. Tirando proveito da força
centrífuga, latente desde o tempo dos juízes, Jeroboão percebeu que seria necessário

3
Homer Heater, “A Theology of Samuel and Kings”, em Biblical Theology of the Old
Testament, editado por Roy Zuck, p.117.
4
Veja a boa análise da situação feita por John Bright, História de Israel, pp. 289-296, 303-
307.
anular o efeito aglutinador da religião, e por isso, com a nova (e supostamente menos
estatizada) monarquia, criou um novo culto, que, além de pôr de lado a adoração a Deus
em Jerusalém, pretendia ser um ‗yahwismo‘ sincrético,5 com sacerdócio próprio,
calendário diferente e dois santuários, em Betel, ao sul, e Dã, ao norte. Essa estrutura de
dois poderes e duas religiões dentro de uma mesma etnia gerou conflitos político-
econômicos e religiosos que contribuíram para agravar o problema espiritual de
desobediência à aliança e apressar o desaparecimento da monarquia como agente da
teocracia na história.
CRONOLOGIA DE REIS
Os problemas no ajuste de todos os dados históricos conhecidos com as informações
contidas nas Escrituras são considerados insuperáveis por alguns estudiosos.6

Israel Judá
Jeroboão 931-910 Roboão 931-913
Nadabe 910-909 Abias 913-911
Baasa 909-886 Asa 911-870
Elá 886-885
Zinri 885
Onrí 885-874
Acabe 874-853 Josafá 873-848
Acazias 853-852
Jorão 852-841 Jeorão 848-841
Jeú 841-814 Acazias 841
Atalia 841-835
Jeoacaz 814-798 Joás 835-796
Jeoás 798-782 Amazias 796-767
Jeroboão II 793-753 Azarias 792-740
Zacarias 753
Salum 752
Menaém 752-742 Jotão 750-731
Pecaías 742-740
Peca 752-732 Acaz 735-715
Oséias 732-722 Ezequias 729-686
Manassés 696-642
Amom 642-640
Josias 640-609
Jeoacaz 609
Jeoaquim 608-598
Joaquim 598-597

5
William S. LaSor et al. sugerem que o culto de Jeroboão era originalmente a Yahweh, mas
que os bezerros de ouro, concebidos como o trono da divindade (como a arca o era no
Tabernáculo, cf. Sl 99.1) logo foram associados com os deuses de Canaã, principalmente Baal,
que tinha por um de seus símbolos um touro (Introdução ao Antigo Testamento, p. 214).
6
E.g. Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament As Scripture, pp.294-300.
Zedequias 597-586
UMA CRONOLOGIA DO LIVRO DE REIS

A cronologia sugerida na página anterior deriva-se, em sua maior parte, de dados da


famosa obra de Edwin Thiele, The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings [Os
números misteriosos dos reis hebreus] e de sua atualização por Leslie McFall.7
FORMA LITERÁRIA E MENSAGEM DE REIS
Reis não possui a complexa estrutura literária de Samuel. Seu plano é mais simples e
consiste basicamente em estabelecer contrastes e comparações ao que o autor/editor
percebia como os padrões máximos de fidelidade e infidelidade a Yahweh e Sua
aliança, Davi e Jeroboão.
Isso não significa que não haja arte ou teologia na maneira em que as narrativas e
avaliações foram ordenadas no livro. Reis possui um propósito didático, que cumpre
sem recorrer às distorções ou exageros típicos das crônicas reais de outras nações do
antigo Oriente Médio,8 pois os reis de Israel e Judá são retratados como indivíduos
sujeitos a fracassos morais, políticos e militares.
O propósito mais amplo do livro era oferecer às gerações exílica e pós-exílica uma
explicação coerente para o fato do povo escolhido por Yahweh ter-se reduzido a um
punhado de escravos na Babilônia, bem como uma esperança diante de tal fracasso.
Para atingir esse propósito, o autor/editor dá atenção mais detalhada a certos eventos e
personagens, particularmente àqueles que demonstram mais claramente que o fracasso
temporal da monarquia teocrática não se deveu a alguma falta de poder ou falha de
caráter de Yahweh, mas pela falta de conformidade do povo à aliança assumida no Sinai
e renovada nas campinas de Moabe.
Um dos fatores que demonstram essa proposta é a proporção. Levando-se em conta
que o livro cobre um período de 410 anos em 47 capítulos, vemos que a descrição dos
40 anos do reinado de Salomão cobre onze capítulos, dos quais nada menos que quatro
são dedicados à construção e dedicação do templo. Praticamente, três capítulos são
dedicados à ascensão e ao reinado de Jeroboão, que durou 22 anos. Os ministérios de
Elias e Eliseu, que juntos duraram cerca de 40 anos, merecem nada menos que 19
capítulos, em que muitas vezes a narrativa é extremamente detalhada. Em contraste,
Onri, que fundou a terceira dinastia de Israel e edificou Samaria, e que foi tão
importante aos olhos de seus contemporâneos, a ponto de Israel ser freqüentemente
mencionada em inscrições do OMA como ―a casa de Onri‖, merece apenas um
parágrafo.
Outro fator literário que orienta o leitor a essa dupla percepção de fracasso e esperança
em relação ao tema fundamental que é a monarquia teocrática, é o uso de um recurso
chamado inclusio, que consiste em utilizar o mesmo tema como uma espécie de

7
Embora não seja a última palavra no assunto e padeça de algumas pressuposições
inaceitáveis, o sistema proposto por Thiele (a prática de co-regências, diferentes métodos de
datar os reis em Israel e Judá, a existência de reinos rivais no Norte e considerações relativas
aos calendários civil e religioso) reduziu significativamente os problemas e produziu certa
medida de consenso entre estudiosos evangélicos. Leslie McFall retrabalhou o sistema de
Thiele com pressuposições mais bíblicas e propôs um modelo ainda mais próximo do que os
autores bíblicos tinham em mente (“Has the Chronology of the Hebrew kings been finally
settled?”, Themelios 17:1 (out.-nov. 1991): 6-11.
8
John Walton, Ancient Israelite Literature in Its Cultural Context, p. 117.
parênteses para indicar que o todo está tratando do mesmo assunto ou deve ser olhado
da mesma perspectiva teológica. Este parece ser o alvo da inclusão da luta fratricida no
início do livro (que mostra que a divisão interna e a intriga palaciana não puderam
anular a aliança davídica) e da inclusão da reabilitação de Joaquim como epílogo do
livro (que mostra que nem mesmo destruição e exílio puderam extinguir a esperança de
que a linhagem davídic a viesse a produzir o Filho de Davi, cujo trono seria eterno).
Dois discursos contidos no livro focalizam o tema da observância à aliança e das
conseqüências de sua desobediência. O primeiro, que focaliza o templo como meio de
expressão da lealdade mútua exigida pelo pacto deuteronômico, está contido na bênção
e oração de Salomão (1 Rs 8.12-61). Esse discurso era importante, porque a inauguração
do Templo marcou, de maneira efetiva aos olhos do povo, a total integração da vida de
Israel como monarquia teocrática. O segundo discurso vem do próprio autor/editor (2
Rs 17.7-23), ao explicar a causa do cativeiro das dez tribos do Norte, creditado à falta
de lealdade pactual (17.15). Prolepticamente, o autor/editor avança até o cativeiro
babilônico ao comentar sobre Judá e seu exílio (17.19,20). De outro lado, a oração do
rei na dedicação do templo, fundamentada em Deuteronômio 4 e 28, já acenava, sim,
com a possibilidade do cativeiro, mas também com a restauração, que o autor/editor
deixa em germe na reabilitação de Joaquim (25.27-30).
O livro de Reis também se vale de quiasma como técnica literária para enfatizar sua
mensagem e chamar a atenção do leitor para incidentes cruciais na demonstração do
fracasso pactual de Israel. Os quadros abaixo apresentam o esquema quiástico geral do
livro e a visualização das narrativas de Eliseu como agente tanto do juízo quanto da
misericórdia pactual de Yahweh.9
A A dinastia de Davi continua com Salomão: glória de Jerusalém, templo construído (1 Re 1.1
− 11.43)
B Ascensão do reino do norte: os primeiros sete reis (1 Re 12.1 − 16.34)
C O Profeta Elias e a dinastia de Omri (1 Re 17.1 − 2 Re 1.18)
D Centro: Os milagres de juízo e de misericórdia de Eliseu (2 Re 2.1 − 8.6)
C’ O Profeta Eliseu e a dinastia de Omri (2 Re 8.7 − 13.25)
B’ A queda do reino do Norte: os últimos sete reis (2 Re 14.1 − 17.41)
A’ A dinastia davídica termina: ruína de Jerusalém, templo destruído (2 Re 18.1 − 25:30)
OS MILAGRES DE JUÍZO E MISERICÓRDIA DE ELISEU (2 RS 2.1-4.37)
A Poder sobre a morte (2.1-12a)
B Eliseu e os filhos dos profetas depois de uma morte (2.12b-18)
C Águas são feitas saudáveis em Jericó (2.19-22)
D Morte dos jovens zombadores em Betel (2.23-25)
C’ Água é suprida em Moabe (3.1-27)
B’ Eliseu e os filhos dos profetas depois de uma morte (4.1-7)
A’ Poder sobre a morte (4.8-37)
A Comida sanada durante a fome (4.38-41)
B Milagre da multiplicação dos pães (4.42-44).
C Eliseu cura o general sírio (5.21-27)
D O machado é recuperado (6.1-7)
C’ Eliseu cega os soldados sírios (6.8-23)

9
As simetrias nesses quiasmas são por vezes apenas gerais, ligadas a algum tema comum,
provavelmente utilizadas também para tornar a narrativa mais memorizável. Observar o
exemplo dos dois ciclos de milagres de Eliseu.
B’ Provisão milagrosa durante a fome (6.24-7.20)
A’ Mulher sunamita ajudada durante a fome (8.1-6)
Um aspecto literário curioso em Reis é o uso de polêmica para buscar a vindicação do
yahwismo contra a religião estatal de Acabe e Jezabel, o baalismo. Primeiro Reis 17 e
18 refletem um cuidado do autor/editor em demonstrar que Yahweh ―jogou no campo
do adversário‖ e venceu o conflito dos deuses.10
À luz dessas observações, a seguinte mensagem é proposta para o livro de Reis (1 e
2):
A infidelidade nacional para com as alianças deuteronômica e davídica trouxe o juízo
deliberado de Yahweh sobre a monarquia teocrática depois de várias demonstrações de
Sua paciência e misericórdia em virtude das promessas davídicas que aguardavam um
cumprimento final.
A teologia de Reis
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Yahweh é apresentado no livro de Reis primariamente como o Deus das alianças. Ele
é o mesmo Deus que Se revelou a Israel no Sinai (cf. 1 Rs 19), e que agora Se mostra
fiel nas demonstrações de misericórdia e na execução da justiça de acordo com as
promessas da aliança.
Yahweh é santo
Este atributo é visto mais freqüentemente no julgamento contra os que violam os
preceitos da aliança mosaica do que em declarações formais encontradas no texto. Reis
é, ao lado de Juízes, o exemplo principal da justiça de Yahweh, isto é, de Sua santidade
em ação. Assim, o juízo contra Salomão vem porque a santidade e a singularidade de
Yahweh são ofendidas por sua tolerância com a idolatria e posterior adesão a ela (1 Rs
11). De igual modo, Jeroboão perde a bênção de Yahweh e traz maldição sobre sua
dinastia em razão de suas perversões idólatras, que se tornaram o padrão pelo qual Israel
media o mal.11
Talvez o exemplo mais dramático do zelo de Yahweh por Sua santidade é o do
homem de Deus que foi morto por um leão por não obedecer estritamente à ordem que
havia recebido (1 Rs 13.11-33). O exemplo mais conhecido, é claro, é a confrontação
entre Elias e os profetas de Baal (18.16-40), em que a santidade e a singularidade de
Yahweh foram magnificamente vindicadas.
Yahweh é gracioso
Ele demonstra Seu amor leal a Seus servos (1 Rs 8.22), derrama copiosamente riqueza
e sabedoria (3.12-14), restringe o julgamento à vista do arrependimento do mais vil
pecador (21.28,29), cura estrangeiros e revela-lhes Seu caráter (2 Rs 5.1-19a), como
também não abre mão de Seus propósitos graciosos mesmo quando Seu profeta sugere
que um Israel crivado de pecados chegou ―ao fim da picada‖ pactual (1 Rs 19.9-18).
As profundezas da graça de Yahweh encontram-se, todavia, em Sua preservação da
linhagem davídica, mesmo em face da mais grosseira idolatria e infidelidade moral.

10
Um estudo magistral da polêmica anticananita em Reis é The Stories of Elijah and Elisha,
de Leah Bronner. Veja ainda George Saint-Laurent, “Light from Ras-Shamra on Elijah’s Ordeal
upon Mount Carmel”, em Scripture in Context, editado por Carl D. Evans, pp. 123-139.
11
A promessa feita a Jeroboão é marcadamente distinta daquela que feita a Davi. Seu
caráter era eminentemente condicional (1 Rs 11:38), em contraste com a aliança de doação
real feita a Davi (2 Sm 7:8-16, especialmente os versículos 15 e 16).
Salomão (1 Rs 11.35), Abião (15.4) e até mesmo o piedoso Ezequias (2 Rs 20.12-21)
são exemplos de tal graça preservadora expressa nos termos das promessas
incondicionais das alianças abraâmica e davídica.
Yahweh é fiel
A fidelidade divina já é reconhecida por Salomão como o elemento chave em sua
subida ao trono e na construção do templo (1 Rs 8.20). Falhas humanas subseqüentes
não invalidam as promessas de Deus, assim como a presença de nuvens escuras não
invalida a realidade do sol. De fato, como Gerhard von Rad sugeriu, ―a crítica
parcialmente destrutiva dos reis de Judá e Israel teve assim seu aspecto positivo e o
deuteronomista serviu-se dela para preservar de qualquer alteração ou usurpação, o que,
em sua opinião, era o verdadeiro sentido da profecia de Natã‖.12
O epílogo sobre a reabilitação de Joaquim é uma indicação clara da fidelidade pactual
de Yahweh. Além disso, o Deus que chama para Si a responsabilidade de cumprir Suas
alianças é também fiel em preservar um remanescente para o qual tais promessas
venham, por fim, a tornar-se realidade (cf. 1 Rs 19.18). Uma nota de solene advertência
é que essa fidelidade às promessas inclui as promessas de juízo. Mesmo a profunda
conversão e devoção de um Josias é incapaz de deter a maré da ira pactual de Yahweh
contra o entulho idólatra e imoral acumulado por um Manassés (2 Rs 23.26), cuja
influência acompanhou Judá até o dia nove de abril de 586 a.C., quando Nabucodonozor
destruiu Jerusalém.13
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
O decreto da permissão do mal
No livro de Reis o mal aparece na luta espiritual pelo coração dos reis, primariamente
os da linhagem de Davi, que são confrontados com a escolha de seguir os passos de seu
ilustre antepassado ou os caminhos tortuosos da idolatria, quer em sua versão conforme
Jeroboão, quer na versão baalística. Outras forças do mal são a guerra entre os reinos
(Norte-Sul) e, no plano político da teocracia, a subserviência a potências estrangeiras
com vistas à segurança e à sobrevivência da nação, muitas vezes às custas dos tesouros
sagrados de Israel. Tal prática foi condenada veementemente pelos profetas como
adultério pactual.
A ação divina em julgar o mal
Essa atividade assumiu formas diversas em Reis. O mal em Israel e Judá foi muitas
vezes purgado por meio de invasão e opressão estrangeira (Yahweh usou egípcios,
sírios, moabitas, filisteus, assírios e babilônios para isso). No plano interno, o juízo foi
mediado por profetas (Elias e Eliseu) e reis (Jeú, que desmantelou o aparato estatal
baalista montado por Acabe e Jezabel [2 Rs 9 e 10] e Jeoás, que puniu o idólatra e
arrogante Amazias; cf. 2 Cr 25.14).
A promessa de libertar do mal
É essa promessa que garante a subsistência de Judá na época do cisma de Jeroboão (1
Rs 11.12,13), no tempo da apostasia de Abias (15.4,5), no tempo da trama diabólica de
12
G. von Rad, Teologia do Antigo Testamento, 1:332
13
Este elemento corporativo que não se manifestou nos Juízes e esteve tão presente em
Samuel e Reis é fonte de inquietação para von Rad, Teologia 2:333. A diferença entre os
períodos está ligada à escolha do povo e ao fato de que uma vez assumida a autoridade real, a
misteriosa identidade corporativa entrava em ação. Além disso, Israel de fato assumira o estilo
de vida cananeu e trouxera, com isso, sobre si a ira santa do Deus que pronunciara um <r#j#
(ḥerem, “edito de aniquilamento”) contra Canaã.
Atalia para eliminar a linhagem de Davi (2 Rs 11.1), e no quase aniquilamento de Judá
durante a invasão de Senaqueribe (19.24; 20.6).
O decreto de abençoar os eleitos
Essa linha de ação divina está presa à aliança davídica, que, no livro, é mais notável
pelo fracasso de seus representantes; isso mantém acesa na mente do leitor a questão de
quando viria o Filho de Davi, tão esperado. O propósito divino de restabelecer Seu
governo por intermédio de um rei davídico exigia o surgimento de alguém maior do que
Davi. Mesmo seus descendentes mais piedosos, Ezequias e Josias, fracassaram na tarefa
de vencer o mal (cf. Gn 4.7). A linhagem davídica é preservada no cativeiro, e os
leitores chegam ao fim do relato insatisfeitos com o resultado, mas esperançosos quanto
ao futuro, aguardando a aparição do Filho de Davi e do pleno cumprimento da aliança.
Temas teológicos em Reis
CULTO E PROFECIA COMO INSTRUMENTOS DA TEOCRACIA
O culto
Uma grande parte da teologia do Antigo Testamento gira em torno do culto mosaico e
do lugar onde este era realizado. A própria nação só ganhou tal status quando o
tabernáculo foi inaugurado e a presença de Yahweh tornou-se visível ao povo. Com a
entrada em Canaã, tornou-se necessário definir claramente o que era um culto aceitável,
principalmente pelas semelhanças conceituais e verbais entre o yahwismo e as religiões
dos cananeus.
Uma aparente tensão, que existiu desde o começo da habitação em Canaã, foi a
centralização do culto exigida em Deuteronômio 12, 14 e 16 e a existência dos famosos
‫( בָמֹות‬bāmôt, ―altos‖), em que todo Israel, dos camponeses aos monarcas, adorou. A
ala liberal da erudição fez dessa aparente tensão uma tensão real e a base de sua datação
recente para Deuteronômio e outras partes do AT. Talvez seja mais apropriado aceitar a
idéia proposta por M. H. Segal de que Deuteronômio não insistia em um lugar único,
mas em que o lugar fosse divinamente aprovado (i.e., não fosse um local de culto
sincrético).14 Isso explicaria a nota crítica em relação a alguns reis: ―Os altos, porém,
não foram tirados‖ (1 Rs 15.14; 22.44).
Quando o templo foi construído, Israel partiu de uma premissa básica, a de que o
templo não poderia conter ou limitar Yahweh, que era universal e onipresente (cf. 1 Rs
8.27). O templo era o local de Sua manifestação em glória, beleza, santidade e justiça,
onde o desfavorecido e explorado podia buscar ajuda (8.21). A universalidade de
Yahweh era vista no fato de o estrangeiro poder orar a Ele, caso tivesse se identificado
com Seu povo (8.41-43), e no fato de que a oração de Israel no Exílio seria ouvida se
dirigida ao templo (8.46-51). Certamente essa passagem é a base da ação de Daniel
quando confrontado com o edito de Dario (Dn 6) e com o fato dos 70 anos de cativeiro
preditos por Jeremias estarem se cumprindo (Dn 9). Essa prática permanece na
mentalidade islâmica.
Infelizmente, com o passar dos séculos, a confiança foi desviada Daquele que habitava
no templo para o Templo em si, o mesmo erro que Israel praticou em relação à arca (1
Sm 4). Jeremias foi o profeta que mais veementemente atacou tal hierolatria (cf. Jr 7).
A profecia
O movimento profético teve em Samuel seu ―fundador‖ oficial. A ―escola de
profetas‖, ainda incipiente e ―carismática‖ em 1 Samuel 10, aparece mais organizada e
―teológica‖ nas narrativas de Elias e Eliseu.

14
M. H. Segal, “The Book of Deuteronomy”, Jewish Quarterly Review 48 (1957-8):315-51.
Os profetas aparentemente desfrutavam uma condição implicitamente aceita pela
nação, que os colocava acima dos reis. Isso pode ser creditado ao fato de que Moisés era
visto como o profeta por excelência e que servira de intermediário entre Yahweh e
Israel. A etimologia da palavra hebraica ‫( נָבִׁיא‬nāḇîʾ) é incerta, mas é certo que em Reis,
os profetas ungem e repreendem reis, dão conselho baseado em revelação divina15 e
acompanham os exércitos à guerra (Odede e Eliseu são dois exemplos) como porta-
vozes de Deus.
Elias e Eliseu são dois casos peculiares no movimento profético em Reis, pois
cumprem uma função sócio-político-religiosa singular, a de ministrar a graça pactual de
Yahweh na resistência ao baalismo e no desmantelamento do aparato religioso criado
para sustentar essa falsa religião.
Enquanto o ministério de Elias foi primariamente de julgamento, o de Eliseu foi de
misericórdia, o que fornece um paralelo marcante aos ministérios de João Batista e de
Jesus.
Argumento básico
TEMAS E DESENVOLVIMENTO
Embora o autor ou editor final de Reis não tenha registrado nenhum tema específico
para a obra, uma leitura cuidadosa sugere que seu propósito foi de oferecer a seus
leitores uma história avaliativa da monarquia teocrática por meio das lentes das alianças
de Israel, possivelmente provendo uma resposta para a inevitável pergunta, Como o
povo escolhido de Yahweh acabou cativo na Babilônia?
A ênfase que o livro oferece demonstra que isso é verdade. Os reis e seus reinos
recebem atenção apenas na proporção de sua fidelidade ou distanciamento da aliança e
interações ocasionais com os profetas, os porta-vozes de Yahweh. Ezequias e Josias são
exemplos dessa tendência positiva, enquanto Manassés exemplifica a segunda. Acabe e
Elias fornecem o melhor exemplo da interação, freqüentemente conturbada, entre rei e
profeta. As pessoas às quais um historiador secular dedicaria um estudo mais detalhado
são meramente mencionadas porque suas contribuições políticas não foram
acompanhadas por padrões espirituais significativos (assim como Onri).
Isto é visto também nos padrões estabelecidos para avaliar cada rei. Davi, o homem
segundo o coração de Deus, é consistentemente apresentado como protótipo de devoção
a Yahweh e a Sua aliança, enquanto Jeroboão é a epítome de infidelidade por todo o
livro.
Reis é obviamente uma obra de origem profética, uma vez que o livro é coberto de
referências a profecias anunciadas e cumpridas (cf. 1 Rs 8.20; 12.15; 2 Rs 23.16-18).
Portanto, o livro oferece uma alta visão da soberania de Yahweh na história de Seu povo
e das nações ao redor.
Essa mistura, entre profecia e lembrança da aliança, possivelmente contribui para o
final incomum do livro. Uma vez que o juízo prometido na aliança tinha sido cumprido
conforme profetizado, a nação no exílio deveria continuar confiando que a bênção
prometida finalmente se tornaria realidade, conforme sugerido pela reabilitação do rei
exilado Joaquim (2 Rs 25.27-30).
O livro consiste de três partes principais e um epílogo. A primeira parte lida com a
monarquia unida sob o domínio de Salomão (1 Rs 1-11). A segunda parte lida com a

15
É verdade que Natã dá precedente para vermos que o profeta era, ocasionalmente, o
amigo do rei que dava conselhos baseados em opinião pessoal e bom senso. Sem dúvida, Isaías
exerceu tal papel em relação a Ezequias, e Jeremias em relação a Zedequias.
monarquia dividida, compreendendo um período de rivalidade entre os reinos gêmeos
de Israel e Judá (1 Rs 12.1–16.28), um período de cooperação entre os dois reinos (1 Rs
16.29-2 Rs 8.29) e um período renovado de conflito até o fim do reino do Norte (2 Rs
9.1–17.41). A terceira parte mostra a história decadente do sobrevivente reino de Judá
até seu cativeiro na Babilônia (18.1–25.26). O epílogo anuncia a esperança de
restauração pela sobrevivência e reabilitação da descendência davídica na Babilônia (2
Rs 25.27-30).
O livro de Reis começa com uma visão interna de uma intriga da corte entre um Davi
idoso e seus possíveis sucessores. Até certo ponto, 1 Reis continua a ―narrativa de
sucessão‖ [ou ―eliminação‖] iniciada em 2 Samuel. O conflito destrutivo persegue a
dinastia de Davi, conforme Natã havia predito (2 Sm 12.10). Portanto, Adonias, o
quarto filho de Davi e o próximo na linha de sucessão, começou a armar a usurpação do
trono, como seu meio-irmão Absalão o fizera (1.5,6; a redação dessa seção sugere o
fracasso). Adonias, em sua preparação para a esperada batalha de poder na corte, obteve
o apoio de Joabe e Abiatar (1.8-10), dois antigos aliados de seu pai e a (inocente?)
participação de seus irmãos mais novos no que parece ter sido uma cerimônia particular
ou velada.
A natureza alarmante do projeto de Adonias dá início a uma manobra combinada de
Bate-Seba, Benaia e Natã (e Zadoque) para garantir a subida de Salomão ao trono, uma
manobra que finalmente encontrou a aprovação de Davi e teve rápida execução (1.14-
40).
Quando a notícia da coroação de Salomão chegou ao banquete de Adonias, o pânico
estabeleceu-se e os usurpadores em potencial buscaram refúgio no tabernáculo.
Salomão concedeu proteção provisória a Adonias diante do reconhecimento deste
quanto aos direitos reais de seu irmão (1.38-53).
Não há indicação precisa de quanto tempo se passou entre os acontecimentos do
capítulo 1 e as instruções de Davi a Salomão (2.1-9). É possível que uma co-regência
tenha ocorrido nesse ponto. Em todo caso, as instruções de Davi concentram-se na
obediência à lei mosaica como condição para desfrutar as promessas incondicionais da
aliança davídica (2.1-4). Outras instruções lidam primariamente com a tarefa de
Salomão em remover a oposição a seu trono ao exercer justiça retributiva contra as
pessoas desleais e de demonstrar lealdade pactual àqueles que haviam permanecido com
ele em seu momento de necessidade (2.5-9). Essa seção termina com uma declaração
resumida da vida de Davi e de como Salomão estabeleceu seu poder (2.10-12).
Salomão seguiu as ordens de seu pai ao pé da letra (2.13-46). Adonias foi executado
depois de ter cometido o erro de pedir Abisague como esposa, pedido no qual Salomão
percebeu uma reivindicação indireta ao trono (2.13-21).
Abiatar, um dos sacerdotes de Davi, foi mandado para o exílio em Anatote (2.26,27);
Joabe, que inicialmente havia se posicionado ao lado de Adonias, foi executado no
tabernáculo do Senhor, onde havia inutilmente procurado refúgio (que não era
concedido no caso de homicídio deliberado, 2.28-35). Simei, que fustigara Davi à época
de sua fuga de Jerusalém, recebeu graça por um pouco de tempo, mas também foi
eliminado por ter violado os limites a ele impostos (2.36-46a). Assim, o reino tornou-se
seguro por intermédio de Salomão (2.46b).
A terceira seção dessa divisão segue descrevendo como as bênçãos da aliança de
Yahweh vieram repousar sobre Salomão (3.1-28). Apesar disso, a bênção é precedida
por uma indicação velada de problemas que se seguiriam (3.1-3). A força política de
Salomão foi suficiente para fazer com que o faraó (Siamun, 978-959 a.C.) lhe desse sua
filha em casamento, situação muito incomum no Egito; essa informação é um indício do
envolvimento futuro de Salomão com a idolatria, devido a suas mulheres estrangeiras
(cap. 11). Em segundo lugar, os sempre presentes altos, centros de adoração sincrética,
são mencionados aqui, quando o templo ainda não existia; mais tarde, eles competiriam
com o templo pela fidelidade religiosa de Israel.
O compromisso de Salomão para com Yahweh foi demonstrado em seu pedido por
sabedoria, quando o Senhor lhe apareceu em Gibeom, aonde ele havia ido para oferecer
sacrifícios (3.4-15). A evidência da bênção de Deus sobre ele segue-se em 3.16-28, em
que uma sabedoria incomum é demonstrada no famoso incidente das duas prostitutas e
o bebê. Com isto, Salomão ganhou o respeito de seu povo (3.28).
A descrição da bênção de Deus continua na descrição do ―gabinete‖ e dos oficiais de
Salomão (4.1-19); a estrutura era similar à do sistema de Davi, mas tornou-se
progressivamente complexa, à medida que a sofisticação da corte cresceu e as demandas
para sua manutenção chegaram a proporções nacionais (4.20-28). Isso foi sustentado
por uma prosperidade, paz e produtividade incomuns em toda a história de Israel (4.25).
Um elemento final dessa bênção divina foi o desenvolvimento do próprio Salomão
como pessoa (4.29-34). Sua sabedoria tornou-se insuperável, seu conhecimento era
enciclopédico e sua fama universal.
A seção seguinte descreve os preparativos para a construção do templo (cap. 5) e sua
efetiva conclusão (cap. 6 e 7.13-51), assim como a construção do majestoso palácio de
Salomão (7.1-12). A bênção de Yahweh foi pronunciada sobre o templo e sobre seu
construtor e seu povo, desde que a nação mantivesse a aliança sobre a qual o templo
havia sido construído e dedicado (cap. 8 e 9).
As duas seções finais dessa primeira divisão retratam e resumem o restante do livro. O
capítulo 10 contém uma descrição da grande glória sob o domínio de Salomão, em que
a paz e a prosperidade são garantidas pela obediência à promessa e fidelidade a
Yahweh. O capítulo 11, entretanto, pinta um quadro em que Salomão pratica apostasia
grosseira e idolatria. O pecado do rei teve repercussões nacionais devido a seu papel
representativo, e os problemas começaram a aparecer tanto dentro quanto fora do reino,
com reinos-satélite se rebelando (11.14-25) e uma revolução se formando no Norte
(11.26-28). A resposta divina a essa infidelidade foi a ruptura nacional (aqui o tema de
misericórdia por amor a Davi é apresentado pela primeira vez, 11.12,13; cf. 2 Rs 20.6),
com a maior parte da nação separando-se do governo davídico.
A segunda parte do livro começa com a tola decisão de Roboão de manter o sistema
de impostos pesados e trabalhos forçados de Salomão (12.1-15), precipitando, assim, a
ruptura que já se armava havia bastante tempo no Norte (12.16-24; cf. 12.16 e 2 Sm.
20.1).
Em uma tentativa de reforçar sua posição, Jeroboão ignorou a exigência de obediência
a Yahweh (cf. 11.37,38) e instituiu um sistema religioso rival (12.26-33), que
permaneceria, por todo o livro como a medida final de conduta infiel para um rei. O
juízo sobre Jeroboão foi pronunciado por um profeta, cuja morte ilustrou a completa
loucura em desprezar os mandamentos de Yahweh (13.1-32).
A tentativa de Jeroboão de fugir à maldição de Yahweh sobre sua família apenas
trouxe mais condenação. O fracasso e a punição final de Israel foram prometidos pelo
mesmo profeta que havia trazido as notícias de sua elevação à realeza (cap. 14).
Os dois primeiros reis da dinastia davídica na monarquia dividida foram
predominantemente maus, apesar de seu sucesso contra Jeroboão. Jerusalém foi
saqueada uma vez (14.25-28), como resultado de uma crescente rebelião. A situação em
Judá degenerou-se por 20 anos, até que Asa restaurou o verdadeiro culto a Yahweh
(15.9-15). Mesmo Asa, entretanto, não manteve sua confiança em Yahweh, confiando
antes em alianças políticas (12.16-24), um precedente lamentável freqüentemente
seguido pelos reis que vieram depois.
Durante o reinado de Asa sobre Judá, Israel viu a elevação e a queda de cinco reis
maus. Nadabe, herdeiro de Jeroboão (15.25-27), foi assassinado por Baasa (15.28–
16.7), cujo filho, Elá, foi assassinado por Zinri depois de um breve reinado de 2 anos
(16.8-10). A carreira real de Zinri durou apenas sete dias, depois dos quais ele cometeu
suicídio, para não ter de se render a Onri, cujo contragolpe instituiu a primeira dinastia
estável de Israel, depois de eliminar Tibni, um rival na luta pelo trono (16.21-26). Onri
instituiu a nova capital de Israel, Samaria, e gravou um nome para si mesmo na história
do Oriente Médio Antigo, em que Israel era freqüentemente chamado de ―a casa de
Onri‖. Ao casar seu filho Acabe com uma princesa dos sidônios, Jezabel, Onri trouxe
para dentro de Israel as sementes do mal que finalmente destruiriam não apenas sua
dinastia, mas toda a nação.
O segundo período da era da monarquia dividida começa com Acabe, que chegou ao
trono em 874 a.C. Seu reino foi contemporâneo ao ministério do enigmático Elias, o
profeta não-conformista de Yahweh.
Era uma época de profunda apostasia religiosa, de constante conflito militar com o
reino emergente de Aram (ou Síria) e de uma aliança preocupante entre Israel e Judá,
que beneficiou o primeiro e quase arruinou o último, tanto espiritual quanto
politicamente.
O livro dispensa atenção especial ao conflito entre o yahwismo, representado por
Elias, e o baalismo, representado por Jezabel e seus profetas da corte. O capítulo 17
registra o triunfo de Yahweh em reter a chuva, que era supostamente a prerrogativa de
Baal. O capítulo 18 contém a confrontação entre a verdadeira divindade, Yahweh, que
respondeu com fogo, e Baal, supostamente o deus do trovão [fogo do céu], que
permaneceu impotente apesar das micagens de seus profetas (18.25-29). O povo, agindo
sob as ordens de Elias, matou 450 profetas de Baal.
O baalismo, embora ferido, ainda não estava morto. Agora, o papel de Elias era ungir
aqueles que completariam a tarefa. Ele foi comissionado para fazer isto em Horebe, o
monte de Deus. Ali, Yahweh lhe assegura que, apesar de sua visão pessimista do plano
de Deus, Israel ainda não fora posto de lado, e Deus continuaria agindo de acordo com
Sua aliança, estendendo a misericórdia e trazendo a disciplina para Seu povo (19.1-18).
O primeiro dos novos escolhidos de Deus, Eliseu, é chamado para o serviço e torna-se o
discípulo mais próximo de Elias (19.19-21).
As experiências de Acabe, com a graça e o poder de Yahweh, na batalha não são
suficientes para sobrepujar sua perspectiva de vida humanística e fazê-lo obedecer, já
que ele fracassa em matar o rei arameu (ecos literários do incidente de Saul e Agague,
cf. 1 Sm 15), à luz de um possível tratado de cooperação contra o crescente poder da
Assíria (20.1-34). Assim, um profeta anônimo anuncia sua condenação vinda de
Yahweh (20.35-43).
A culpa de Acabe, já demonstrada nos reinos religioso e político, é manifestada, a
seguir, também no reino moral, à medida que ele age tibiamente, de acordo com o
esquema de Jezabel, para matar Nabote e tomar sua propriedade (21.1-28).
O juízo de Yahweh finalmente recai sobre Acabe no campo de batalha contra o
mesmo rei que ele havia deixado de matar. Acabe, aliado a Josafá, de Judá, e disfarçado
de soldado comum, tenta fugir da severa denúncia e ameaça trazida por Micaías, mas
um disparo ―a esmo‖ o matou (22.1-40).
Enquanto Israel ―coxeia entre dois pensamentos‖, Judá permanece fiel a Yahweh
debaixo do governo de Jeosafá, cujo reino é avaliado positivamente à luz de sua posição
religiosa, apesar de suas associações militares e políticas com os reis da dinastia de Onri
(22.41-50), o que traria terríveis conseqüências para seus sucessores.
As formas como Yahweh tratou com a dinastia de Onri atingiriam outros dois reis, os
filhos de Acabe. O primeiro, Acazias, foi um pagão convicto, cuja busca de um oráculo
junto a deuses estranhos trouxe sua condenação final, feita por Elias (1 Rs 22.51–2 Rs
1.18). Seu sucessor e irmão, Jorão, tem seu maior crédito no arrebatamento de Elias
durante seu reinado (2.1-12). Eliseu é depois atestado como herdeiro profético por uma
série de milagres (2.13-25), que introduz um ministério caracterizado por
demonstrações freqüentemente imerecidas da misericórdia de Yahweh.
A primeira delas vem em escala nacional, quando Israel, Judá e Edom se reúnem para
combater uma revolta de Moabe. A intervenção de Eliseu garante o suprimento
inesperado de água para os exércitos aliados, que impõem uma derrota decisiva, mas
não definitiva a Messa, rei de Moabe (3.1-27).
A seguir, ele estende a misericórdia de Yahweh a uma série de pessoas necessitadas
em Israel e a nações próximas. Entre elas estão uma viúva endividada (4.1-7), uma
mulher sunamita generosa (4.8-37), alguns profetas subnutridos (4.38-41) e discípulos
de profetas em necessidade (4.42-44). O bem conhecido incidente da cura de Naamã
(5.1-27) demonstra que até os gentios estavam mais dispostos a confiar em Yahweh e
em Seus servos do que os próprios israelitas, como também eram mais sensíveis à
loucura da idolatria do que os reis de Israel. A misericórdia de Yahweh foi estendida a
um discípulo profético cuja liberdade foi posta em perigo pela perda de uma ferramenta
cara (6.1-7), como também a toda nação, quando Eliseu frustra os ataques dos arameus
sobre Israel (6.8-23).
A demonstração mais notável da misericórdia veio quando os habitantes de Samaria
estavam recorrendo ao canibalismo durante um cerco dos arameus. Miraculosamente
confundidos por Yahweh, os assaltantes fugiram e deixaram suas provisões abundantes
para o povo; a incredulidade desdenhosa, entretanto, é punida com morte quando o
alívio já estava à vista (6.24–7.20).
A tolerância do ministério de Eliseu é vista na forma como influenciou reis de ambos
os lados das linhas de batalha, influenciando decisões judiciais e ungindo reis
estrangeiros e israelitas (8.1-15; cf. 9.1-10).
O destino dos reinos gêmeos permaneceu entrelaçado sob o domínio dos sucessores de
Jeosafá. Jorão, que se casou com a filha de Acabe (8.16-24), e Acazias, que se uniu a
seu tio Jorão no conflito contra os arameus e na morte diante da ira assassina de Jeú
(8.25-29; cf. 9.27,28).
A terceira fase do período da monarquia dividida, período de conflito renovado entre
os dois reinos, foi inaugurada com a unção de Jeú, o terceiro instrumento de juízo de
Yahweh contra a dinastia de Onri (9.1-10). O reinado de Jeú foi marcado por uma
carnificina, em que ele evidentemente foi além daquilo que era esperado dele (cf. Os
1.4). Jeú eliminou sistematicamente a família de Acabe, incluindo Jezabel, e aumentou
sua lista de vítimas ao adicionar Acazias e membros da família real de Judá (9.11–
10.17). Sua reforma espiritual, entretanto, cessou com seu desmantelamento do
baalismo (10.18-28): em lugar de remover as abominações originais estabelecidas por
Jeroboão, ele permitiu que eles permanecessem como a religião oficial de Israel (10.29-
31). Foi aí que os arameus começaram a conquistar grandes porções do território
israelita (10.32-35).
Enquanto isso, em Judá, a sobrevivência da linhagem de Davi e o cumprimento da
aliança davídica foram ameaçados pela sede de poder de Atalia, a única sobrevivente de
Onri, a rainha-mãe em Jerusalém. Sua tentativa mortífera de assegurar o trono para si
mesma incluiu a matança de todos os seus netos (11.1), mas fracassou apenas porque o
filho mais novo de Acazias foi resgatado e protegido no templo até que um coup d’état,
6 anos mais tarde, o estabeleceu como rei, (11.1-16). O sucesso espiritual inicial de Joás
foi mais tarde manchado por ter recorrido a articulações políticas às custas do templo,
que tinha reformado no começo de seu reinado (11.17–12.21). Ele foi o primeiro rei em
Judá a morrer em conseqüência de um golpe palaciano.
Em Israel, a situação deteriorou-se rapidamente durante o reinado de Jeoacaz, cujo
exército insignificante não podia sequer proteger o povo dos saqueadores arameus.
Apenas a soberana intervenção de Yahweh na história salvou Israel da extinção, quando
Hadade-Nirari III da Assíria, infligiu perdas pesadas aos arameus (13.1-9).
Jeoás, apesar de sua aceitação passiva da idolatria institucionalizada, recebeu a dádiva
da vitória sobre os arameus (enfraquecidos pelos assírios), conforme a última profecia
de Eliseu (13.10-25).
O começo do século 8 a.C. também foi favorável a Judá, em que o rei Amazias obteve
uma importante vitória sobre Edom (14.1-7). Infelizmente, Amazias escolheu continuar
sua campanha contra Israel, o que resultou no triunfo de Jeoás e no saque a Jerusalém
(14.8-14). A insatisfação com essas condições levou a outro golpe palaciano, desta vez
contra Amazias (14.15-22).
À medida que transcorria o século 8, o declínio de assírios e arameus abriu a porta
para a expansão de Israel e Judá. Assim, tanto Jeroboão II (14.23-29) quanto Azarias
(14.21-22; 15.1-6) desfrutaram reinos prósperos, embora suas posições religiosas
fossem diferentes. Uzias (nome alternativo de Azarias) teve um bom começo, decaindo
no final (cf. 2 Cr 26), enquanto Jeroboão II seguiu a tradição idólatra de seus
antecessores e iniciou uma opressão intolerável dos ricos sobre os pobres (cf. as
acusações de Oséias e Amós).
Depois desse retorno temporário às dimensões e à riqueza de Salomão, Israel entrou
em uma espiral descendente, com seis reis e quatro ―dinastias‖ em 31 anos, com apenas
um filho herdando o reino de seu pai (e um reino dividido!). Zacarias, o último rei da
dinastia de Jeú, reinou apenas por 6 meses (15.8-12) e foi morto por Salum, que ficou
apenas um mês no trono, antes de ser deposto por Menaém (15.16-22). À essa altura,
dois reis adversários assumiram o comando em Israel; Menaém, um rei pró-Assíria
(15.19-22), e Peca, que foi parte de uma coalizão anti-Assíria, e que tentou pressionar
Judá a se juntar a ela (15.37, 38).
Menaém foi sucedido por seu filho, Pecaías (15.23-26), que foi assassinado por Peca.
Assim, a facção anti-Assíria desfrutou autoridade exclusiva em Israel por 8 anos, depois
dos quais um conspirador patrocinado pela Assíria, Oséias, assassinou Peca e tomou o
trono como um títere da Assíria.
Judá, nesse ínterim, havia entrado em um período de 10 anos de co-regência entre
Azarias e Jotão, que finalmente assumiu o trono e teve um reinado espiritualmente
estável e materialmente próspero (15.32-38). Seu filho Acaz uniu-se a ele no trono por 5
anos, período em que os ataques siro-efraimitas contra Judá aconteceram (15.37, 38),
provavelmente, devido à inclinação pró-Assíria de Acaz.
Quando chegou ao trono, Acaz se revelou um completo idólatra. Ele encheu Jerusalém
com abominações e se vendeu aos assírios, apesar das exortações de Isaías (Is 7). Ele
partilhou seu trono, por 14 anos, com seu filho Ezequias. Oséias, o último rei de Israel,
durante esses 14 anos, trocou sua lealdade para com Salmaneser V, da Assíria, por uma
aliança com Osorcom IV, do Egito, o que trouxe os exércitos assírios contra ele. O
monarca traidor tinha trazido sobre seu povo infiel a punição havia muito anunciada
pelos profetas. A invasão e o cerco iniciados por Salmaneser (17.1-5) terminaram com
seu sucessor, Sargão II, que levou cativo o remanescente para a Assíria (17.6). Uma
nota editorial explica as razões para o cativeiro (17.7-23) e fornece informação acerca
de como o sincretismo perverso de Israel encontrou aceitação junto ao povo que se
estabeleceu ali depois do exílio (17.24-41).
A terceira parte do livro cobre os últimos 143 anos da monarquia teocrática, quando
Judá foi o único reino israelita.
Depois da morte de seu pai apóstata, Ezequias buscou uma política vigorosa de
reforma religiosa (18.1-4; cf. 2 Cr 29 e 30), que foi longa o bastante para reformar a
adoração, mas não tão profunda a ponto de mudar a atitude (cf. as acusações de profetas
como Isaías e Miquéias). Promoveu também uma política anti-Assíria que o colocou
como cabeça da coalizão ocidental contra Senaqueribe. Essa política anti-Assíria está
ligada a dois outros incidentes no reino de Ezequias (cf. Is 36–39), preservados fora de
sua ordem cronológica para mostrar melhor o comportamento esquizofrênico dos reis da
linhagem de Davi, que, às vezes, confiavam em Yahweh e, outras vezes, recorriam a
alianças políticas.
Ezequias, por volta de 702 a.C., ficou muito doente e, em face de de seu pedido,
recebeu mais 15 anos de vida (20.1-11). Logo depois disso, Merodaque-Baladã, o
ardiloso líder caldeu que tentou libertar a Babilônia da dominação Assíria, enviou
mensageiros para persuadir Ezequias a se unir a ele. O fato de Ezequias orgulhosamente
ter mostrado suas vastas riquezas (20.12, 13) sugere que 1) algum tipo de pacto
defensivo foi estabelecido; e 2) essa visita aconteceu antes da invasão de Senaqueribe,
pois Ezequias havia limpado os cofres da nação para pagar o imposto e se livrar do
monarca assírio (18.13-16).
Em sua batalha contra os egípcios e filisteus, Senaqueribe não se esqueceu da
insolência de Ezequias. Nem mesmo o imposto substituiria o prazer da rendição, que o
monarca assírio tentou conseguir ao enviar seu oficial-chefe para submeter Jerusalém à
base de ameaças (18.17-37). Ezequias, temporariamente aliviado pela movimentação
militar de Tiraca, o príncipe real etíope, logo foi confrontado com uma carta insolente
(19.9-13) e um exército invasor. Quando ele levou o assunto a Yahweh, a resposta veio
da boca de Isaías, a saber, que Jerusalém seria poupada e os assírios levantariam o cerco
(19.14-34). A libertação veio por meio de uma intervenção angelical, destruindo a maior
parte das tropas assírias. Desmoralizado, Senaqueribe voltou para a Assíria e ali morreu,
assassinado por dois de seus filhos (19.35-37).
Manassés, que por 10 anos partilhou o trono com Ezequias, não partilhava de
nenhuma de suas convicções religiosas, e reintroduziu as antigas práticas pagãs que seu
pai havia removido (21.1-6). Para tornar as coisas ainda piores, até erigiu um poste para
Asera dentro do templo, trazendo assim a ira inevitável sobre Judá (21.7-18). Reis não
relata seu cativeiro, arrependimento e restauração (2 Cr 33.12-19)
Seu filho Amom continuou com a abominável tradição e viu o fim de seu reino em um
conflito palaciano entre duas facções, os oficiais (provavelmente um partido anti-
Assíria), e ―o povo da terra‖ (mais provavelmente a nobreza proprietária de terras e
defensora do status quo).16
O jovem Josias foi o último rei independente de Judá e o que chegou mais próximo do
modelo, Davi. Ele também buscou uma reforma religiosa, primeiro no templo (22.1-7)
e, depois, por meio da leitura de uma cópia da Torá recentemente descoberta (22.9-20),
na prática e nas atitudes da liderança e do povo. Josias renovou a aliança (23.1-3) e saiu
por todo o Israel eliminando os centros pagãos de adoração e seus sacerdotes (23.4-20).
O ápice dessas reformas foi a celebração da maior Páscoa já vista (23.21-23).
Josias, entretanto, não estava acima de reprovação. Talvez ao pensar em reafirmar a
independência de Israel, dentro das fronteiras do reino de Salomão, Josias tentou deter
Neco II, do Egito, que esperava fornecer ajuda aos assírios sitiados em Harã (23.28-30).

16
cf. J. Bright, Uma História de Israel, p. 426.
Sua atitude aparentemente orgulhosa custou a ele sua vida e a Israel seu rei mais
promissor.
Começando com Jeoacaz, todos os últimos reis de Judá foram marionetes do Egito ou
da Babilônia. Jeoacaz foi deposto pelo faraó Neco (23.31-33) e substituído por seu
irmão Jeoiaquim (23.34–24.7), que primeiro foi vassalo do Egito (608 a.C.), e depois da
Babilônia. Jeoiaquim rebelou-se e teve seu país invadido pelos babilônios (605 a.C.).
Ele morreu como rei-marionete e seu filho, Joaquim, que tentou mudar sua lealdade, foi
capturado e levado para a Babilônia após um reinado de 3 meses (24.8-16).
O último rei de Judá seguiu os mesmos passos de lealdade dividida e causou o cerco
final de Jerusalém, seu saque e o cativeiro de seu povo (24.17–25.21).
Nem mesmo a permanência de um pequeno remanescente empobrecido foi possível
porque o governador escolhido foi morto por um príncipe nacionalista. Os poucos
israelitas remanescentes, mais uma vez incapazes de confiar em Yahweh, partiram, com
medo, para o Egito (25.22-26; cf. Jr 42 e 43).
O epílogo do livro é fornecido por um incidente aparentemente não relacionado às
narrativas anteriores − a reabilitação de Joaquim, na Babilônia, 37 anos após sua prisão
(25.27-30). A grande ênfase do livro nas alianças, entretanto, tanto a Mosaica quanto a
Davídica, sugere fortemente que esse parágrafo possui insinuações profundas de
esperança messiânica, as quais os exilados levariam consigo de volta para Jerusalém.

ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
A infidelidade nacional para com as alianças deuteronômica e davídica trouxe o
juízo deliberado de Yahweh sobre a monarquia teocrática depois de várias
demonstrações de Sua paciência e misericórdia em virtude das promessas
davídicas que aguardavam um cumprimento final.
PARTE I –A MONARQUIA UNIDA (1 RS 1–11)
O reinado de Salomão abriu caminho para a convulsão nacional à medida que ele
passou gradualmente da sabedoria e lealdade à aliança para a insensatez e a apostasia.
I. O reino de Salomão é estabelecido e prospera de acordo com as promessas da aliança (1.1–
4.34).
A. A transição de Davi para Salomão é implementada como cumprimento da aliança davídica
(1.1–2.12).
1. A transição de Davi para Salomão é ameaçada pela usurpação de Adonias, nos últimos dias de
Davi (1.1-10).
2. A transição de Davi para Salomão é preservada pela coroação apressada de Salomão em
resposta à ameaça de Adonias (1.11-40).
3. A transição de Davi para Salomão é confirmada pela submissão de Adonias e o perdão de
Salomão (1.41-53).
B. A transição de Davi para Salomão é assegurada depois da morte de Davi, quando Salomão
elimina as possíveis ameaças a sua autoridade (2.13-46).
1. Adonias é eliminado quando faz uma reivindicação indireta ao trono, ao pedir a mão de
Abisague, a última concubina de Davi (2.13-25).
2. Abiatar é isolado do centro de decisão ao ser exilado em Anatote (2.26,27).
3. Joabe é eliminado devido a sua quebra, recente e antiga, de confiança (2.28-35).
4. Simei é eliminado em razão da ameaça que constituía como parente de Saul e inimigo
declarado de Davi (2.36-46).
C. A bênção da aliança sobre o reinado de Salomão é evidenciada por seu comprometimento
para com Yahweh, como também pela sabedoria divina garantida a ele graças ao pedido
que fizera (3.1-28).
1. A situação político-religiosa da monarquia é apresentada como uma antecipação do futuro (3.1-
3).
2. O compromisso de Salomão com Yahweh e Seu povo é recompensado com suprimento
generoso de sabedoria e riquezas (3.4-15).
3. A capacitação divina de Salomão para governar é reconhecida por todas as nações por meio do
caso das duas prostitutas (3.16-28).
D. A bênção da aliança sobre o reinado de Salomão é evidenciada por sua administração sábia,
pela riqueza de seu reino e por seu grande conhecimento e sua reputação (4.1-34).
1. A bênção da aliança sobre o reinado de Salomão é evidenciada por sua sábia administração
(4.1-19).
2. A bênção da aliança sobre o reinado de Salomão é evidenciada pela riqueza de seu reino (4.20-
28).
3. A bênção da aliança sobre o reinado de Salomão é evidenciada por seu grande conhecimento e
sua reputação (4.29-34).
II. A construção do complexo do templo confirma Salomão como herdeiro da dinastia de
Davi e das promessas e bênçãos da aliança (5.1–9.28).
A. Salomão obtém os recursos humanos e materiais para a construção do templo (5.1-18).
1. Seu tratado político-comercial com Hirão, de Tiro, assegurou o trabalho de peritos em madeira
(5.1-13).
2. O recrutamento forçado de trabalhadores israelitas forneceu a força de trabalho para a
construção (5.14-18).
B. Salomão constrói o magnífico Templo, no qual Yahweh promete habitar entre Seu povo
como cumprimento das promessas da aliança davídica (6.1-38).
1. A data do começo das obras é registrada [966 a.C.] (6.1).
2. As dimensões do prédio são fornecidas (6.2-10).
3. A presença da bênção de Deus no templo é prometida com base na obediência de Salomão à
aliança (6.11-13).
4. O interior do prédio é descrito (6.14-36).
5. A data de conclusão é registrada [959 a C.] (6.37, 38).
C. Salomão constrói um palácio magnífico para a sede de seu reino (7.1-12).
1. O tempo gasto em sua construção é especificado (7.1).
2. A área residencial (?) do palácio é descrita [a casa do bosque do Líbano] (7.2-5).
3. Os prédios administrativos (?) são descritos (7.6-8).
4. O acabamento utilizado no palácio é descrito (7.9-12).
D. O esplendor do Templo é ilustrado pelo trabalho em metal, intrincado, de seus utensílios
(7.13-51).
1. Hirão, o artífice principal de Salomão, é apresentado (7.13, 14).
2. As colunas majestosas, Jaquim e Boaz, são descritas (7.15-22).
3. O gigantesco tanque de bronze é descrito (7.23-26).
4. Os dez carrinhos de bronze são descritos (7.27-40).
5. Um resumo dos utensílios externos é fornecido (7.40b-47).
6. Os utensílios de ouro utilizados dentro do templo são descritos, com os presentes de Davi para
o tesouro do templo (7.48-51).
E. A cerimônia de dedicação confirma a bênção de Yahweh sobre o Templo e revela Salomão
como aquele que receberia as promessas feitas a Davi (8.1–9.9).
1. A arca do pacto é trazida para dentro do lugar santíssimo como sinal de continuidade entre o
templo e o tabernáculo (8.1-9).
2. A presença de Yahweh e Sua aprovação do novo templo são evidenciadas quando a nuvem da
glória divina encheu o local (8.10,11).
3. A oração de dedicação de Salomão revela sua compreensão do templo como sinal definitivo do
cumprimento individual da aliança davídica e como o lugar da misericórdia de Yahweh
para com Seu povo, Israel (8.12-53).
• A adoração de Salomão revela sua compreensão do templo como sinal definitivo do cumprimento
individual da aliança davídica (8.12-21).
• A oração de dedicação de Salomão revela sua compreensão do templo como o lugar da
misericórdia de Yahweh para com Seu povo, Israel (8.22-53).
4. A bênção de Salomão sobre o povo revela sua percepção da necessidade de uma intervenção
divina contínua, para manter Israel fiel à aliança, para experimentar a bênção (8.54-61).
5. Salomão e todo Israel celebram exultantes a inauguração da era do templo como a bondade de
Yahweh sobre Seu povo (8.62-66).
6. A resposta de Yahweh à dedicação do templo é a exortação de Salomão, como herdeiro de
Davi, a manter-se fiel à aliança mosaica para que toda a nação possa desfrutar suas
bênçãos e evitar as penalidades (9.1-9).
F. O sucesso de Salomão nas áreas econômica, de construção e comercial, dá evidências da
bênção de Yahweh sobre Seu fiel regente da aliança (9.10-28).
II. A visita da rainha de Sabá fornece a confirmação internacional das bênçãos excepcionais
de riqueza e sabedoria dadas por Yahweh a Salomão (10.1-29).
A. A sabedoria e a riqueza dadas por Deus a Salomão surpreendem a rainha de Sabá (10.1-9).
B. Salomão e a rainha de Sabá trocam presentes em sinal de lealdade mútua (10.10-13).
C. A imensa sabedoria e riqueza de Salomão superam todos os outros reis e atraem riquezas
maiores para Israel (10.14-25).
D. O sucesso de Salomão como comerciante de mercadorias na região do Oriente Próximo foi
um meio de acumular sua grande riqueza (10.26-29).
IV. ―O abandono da lealdade à aliança por Salomão‖ levou ao declínio individual e nacional,
conforme predito na aliança davídica (11.1-43).
A. A desobediência de Salomão à aliança, na aquisição de várias esposas estrangeiras, resultou
em seu abandono de Yahweh (11.1-4).
B. A união de Salomão às esposas estrangeiras o levou a patrocinar uma idolatria grosseira em
Jerusalém (11.5-8).
C. A apostasia de Salomão contra a aliança trouxe sobre Israel o juízo de um reino dividido
(11.9-13).
D. A apostasia de Salomão contra a aliança trouxe sobre ele uma revolta militar em seus reinos
satélites e uma revolta social ―em Israel‖ (11.14-28).
1. Hadade lidera uma revolta em Edom (11.14-22).
2. Rezom funda um reino rival em Damasco (11.23-25).
3. Jeroboão provoca uma rebelião (11.26-28).
E. A apostasia de Salomão será finalmente punida com a divisão do reino por meio da
instrumentalidade de Jeroboão, de acordo com a mensagem do profeta Aías (11.29-40).
1. A mensagem de juízo é ilustrada pela capa nova do profeta (11.29, 30).
2. A divisão do reino é explicada a Jeroboão, que foge para o Egito para ganhar tempo e salvar
sua vida (11.31-39).
PARTE II - A MONARQUIA DIVIDIDA (1 RS 12 – 2 RS 17)
A história da teocracia dividida realça o poder destrutivo da apostasia em Israel e a
intervenção misericordiosa de Yahweh em favor de Judá, por amor a Davi.
I. A história do início da monarquia dividida registra uma época de conflito entre a ―Israel, o
reino idólatra, e Judá, o reino vacilante‖ (12.1–16.28).
A. A arrogância e insensibilidade de Roboão aos pedidos justos de seu povo provocaram a
ruptura da monarquia teocrática (12.1-24).
1. Roboão despreza com arrogância o conselho dos anciãos para aceitar os pedidos do povo (12.1-
7).
2. Roboão ameaça tolamente o povo com medidas mais cruéis e impostos mais pesados, seguindo
o conselho de seus companheiros de corte (12.8-15).
3. A [frágil] unidade de Israel desmorona quando as tribos do norte se separam e escolhem
Jeroboão como seu novo rei (12.16-20).
4. A guerra civil é impedida pela ordem de Yahweh por meio do profeta Semaías (12.21-24).
B. Jeroboão procura solidificar sua posição ao instituir, em Israel, uma religião apóstata rival
(12.25-33).
1. Jeroboão estabelece dois centros religiosos em que a idolatria sincrética toma o lugar da
adoração a Yahweh (12.25-30).
2. A substituição do sacerdócio e das festas completa a alienação religiosa de Judá (12.31-33).
C. A tentativa de Jeroboão de construir seu reino sobre o alicerce da idolatria é condenada, e
um profeta de Judá promete a punição (13.1-34).
1. Jeroboão é advertido do perigo que estava correndo por meio de um mensageiro autorizado por
Yahweh (13.1-10).
2. O homem de Deus é punido por sua infidelidade, como lembrança da intolerância de Yahweh
para com a desobediência a Sua vontade (13.11-32).
3. A insensibilidade espiritual de Jeroboão faz com que ele persista em suas práticas religiosas
malignas (13.33,34).
D. A palavra profética de Aías pronuncia a sentença para a casa de Jeroboão e a vinda de
maldições da aliança sobre a nação devido à idolatria introduzida pelo rei (14.1-20).
1. Jeroboão busca uma palavra profética verdadeira acerca da saúde de seu filho (13.1-5).
2. A mensagem de Aías a Jeroboão prenuncia o fim da primeira dinastia de Israel e a ruptura da
nação no cativeiro, além do Eufrates (14.6-16).
3. A morte do filho de Jeroboão confirma a veracidade da profecia de Aías (14.17,18).
4. O reinado ímpio de Jeroboão é resumido (14.19,20).
E. O reinado de Roboão [931-913 a.C.] é marcado pela apostasia e punido com uma invasão do
Egito (14.21-31).
1. O reinado de Roboão é marcado pela apostasia (14.21-24).
2. Roboão é punido com uma invasão de Sisaque, do Egito (14.25-28).
3. É apresentado um resumo do reinado de Roboão e suas guerras com Israel (14.29-31).
F. O reinado de Abião [913-911 a.C.] dá continuidade à apostasia espiritual e aos conflitos de
fronteira com Israel (15.1-8).
1. Abião reproduz os pecados de seu pai, pois faltou-lhe o compromisso de Davi para com
Yahweh (15.1-5).
2. A guerra entre as duas dinastias continuou no reinado de Abião (15.6-8).
G. O reinado de Asa [911-870 a.C.] traz uma reforma espiritual, mas também a subserviência
política a uma nação estrangeira (15.9-24).
1. O reinado de Asa começou com uma ampla reforma religiosa que eliminou praticamente a
idolatria em Judá (15.9-15).
2. O reinado de Asa inaugurou a prática de buscar auxílio político e militar de nações estrangeiras
nas guerras de Judá contra Israel (15.16-22).
3. Um resumo-avaliação do reinado de Asa é apresentado (15.23-24).
H. O reinado de Nadabe sobre Israel [910-909 a.C.] é encurtado, de acordo com a palavra de
Deus, pela rebelião de Baasa (15.25-32).
1. Nadabe seguiu o mesmo caminho idólatra de seu pai, Jeroboão (15.25,26).
2. A rebelião de Nadabe e seu assassinato foram o cumprimento da palavra profética de Deus por
meio de Aías (15.27-30).
3. Um resumo-avaliação do reinado de Nadabe é apresentado (15.31,32).
I. O reinado de Baasa sobre Israel [909-886 a.C.] deu continuidade às práticas idólatras de
Jeroboão e foi sentenciado pela palavra profética de Yahweh (15.33–16.7).
1. O reinado de Baasa é descrito como continuação idólatra dos caminhos de Jeroboão (15.33,34).
2. A palavra de condenação de Yahweh e remoção da dinastia de Baasa vieram por intermédio do
profeta Jeú (16.1-7).
J. O reinado de Elá sobre Israel [886-885 a.C.], conforme a palavra de Deus, é encurtado pela
rebelião de Zinri (16.8-14).
1. O reinado de Elá é resumido (16.8).
2. A rebelião de Zinri, conforme a palavra de Deus, elimina o devasso rei Elá e todos os de sua
casa (16.9-14).
K. O reinado de Zinri sobre Israel [7 dias em 885 a.C.] foi encurtado por uma contra-revolução
promovida por seu superior, Onri (16.15-20).
1. A reação do povo à rebelião de Zinri e ao seu curto reinado foi proclamar Onri como rei rival
(16.15,16).
2. Zinri comete suicídio em lugar de se render a Onri depois de perder a guerra civil (16.17-20).
L. O reinado de Onri sobre Israel [885-874 a.C.] foi marcado por uma continuidade da idolatria
e o estabelecimento de uma nova capital (16.21-28).
1. Onri, após um período de 4 anos de guerra civil contra Tibni, adquire a supremacia e o reinado
sobre Israel (16.21, 22).
2. Onri muda a capital de Israel, de Tirza para Samaria (16.23, 24).
3. Onri dá continuidade ao padrão de idolatria estabelecido por Jeroboão (16.24-28).
II. A continuação da monarquia dividida traz um período de aliança entre Israel e Judá, que
beneficia o primeiro e quase arruína o último (1 Rs 16.19–2 Rs 8.29).
A. O reinado de Acabe sobre Israel [874-853 a.C.] inaugura um período de conflito religioso
entre o baalismo e o jeovismo e de conflitos territoriais entre as monarquias aliadas e
Aram [Síria] (16.29–22.40).
1. A subida de Acabe ao trono marcou o início do baalismo como a religião da corte em Israel
(16.29-34).
2. Elias aparece como profeta vencedor de Yahweh contra o baalismo e a corrupção espiritual em
Israel (17.1–19.21).
• Elias prediz uma seca mandada por Deus para convencer Israel de que Ele, e não Baal, é o
verdadeiro Deus (17.1–18.19).
– Elias prediz a seca (17.1).
– Elias, como prova do poder de Yahweh, é sustentado de forma miraculosa durante a seca (17.2-16).
◦ Pássaros impuros o alimentam (17.2-7).
◦ Pessoas impuras o sustentam (17.8-16).
– Elias, para provar que Yahweh é Deus, restaura a vida de uma criança gentia no território de Baal
(17.17-24).
– Elias confronta Acabe com sua culpa pela desesperadora condição espiritual e física de Israel (18.1-
18).
– Elias lança um desafio profético para escolher a religião que estabeleceria a questão da divindade
em Israel (18.19).
• O desafio de Elias contra o baalismo gera uma prova rica e poderosa de que Yahweh é o único
verdadeiro Deus e elimina praticamente o baalismo como religião da corte (18.20-46).
– Elias desafia o povo a uma decisão definitiva acerca de sua lealdade espiritual por meio de uma
prova de fogo (18.20-24).
– Os profetas de Baal falham miseravelmente em produzir evidências da divindade e poder de Baal
(18.25-29).
– Elias recebe a resposta milagrosa de Yahweh, por meio do fogo, e prova Quem é o verdadeiro Deus
em Israel (18.30-39).
– O povo elimina os profetas de Baal em resposta à ordem de Elias (18.40).
– Yahweh responde ao arrependimento de Israel suprindo chuva abundante por meio da oração de
Elias (18.41-46).
• A reação apreensiva de Elias à ameaça de Jezabel contra sua vida é contraposta pela garantia de
Yahweh, a saber, de Sua preservação de um remanescente e de uma comissão renovada
(19.1-21).
– A reação de Elias à ameaça de Jezabel contra a sua vida é fugir com medo para Horebe (19.1-7).
– Yahweh revela-Se a Elias no monte Horebe e ouve a queixa de Elias (19.8-14).
– Yahweh dá a Elias comissão tripla para, em Israel, ungir os instrumentos Dele para a disciplina
contínua à aliança (19.15-17).
◦ Elias recebe a ordem para ungir Hazael como o próximo rei da Síria (19.15).
◦ Elias recebe a ordem para ungir Jeú como rei de Israel (19.16a).
◦ Elias recebe a ordem para ungir Eliseu como seu sucessor profético (19.16b).
– Yahweh assegura a Elias que havia preservado um remanescente fiel (19.18).
– Elias obedece a Yahweh e chama Eliseu para ser seu sucessor como profeta (19.19-21).
3. Uma série de vitórias esmagadoras, para reforçar a superioridade de Yahweh sobre outros
deuses, foi concedida a Israel sobre os arameus, mas falha em garantir a supremacia de
Israel sobre Aram devido à desobediência de Acabe (20.1-43).
• Israel derrota de forma milagrosa os arameus que haviam levantado um cerco em Samaria, de
acordo com uma promessa profética (20.1-21).
• O novo ataque dos arameus contra Israel e um triunfo dado por Deus são preditos por um profeta
(20.22-28).
• Israel derrota completamente os arameus nas planícies, em uma clara demonstração do poder de
Yahweh sobre os deuses arameus (20.29,30).
• Israel fracassa em garantir a supremacia sobre Aram, por causa da desobediência de Acabe à
ordem de Yahweh para matar Bene-Hadade II (20.21-34).
• O juízo é pronunciado contra Acabe por seu fracasso em obedecer às ordens de Yahweh (20.35-
43).
4. A culpa de Acabe é somada a sua complacência com a trama cruel de Jezabel, de tomar posse
da terra de Nabote (21.1-29).
• O desejo de Acabe pela vinha de Nabote é frustrado pela recusa deste em vender a propriedade
(21.1-4).
• A intervenção de Jezabel assegura a propriedade para Acabe por meio do falso testemunho e do
assassinato de Nabote e de seus herdeiros (21.5-16).
• A confrontação de Elias com Acabe promete o emprego da lex talionis pelo sangue derramado de
Nabote (21.17-24).
• Apesar de seu registro vergonhoso, seu arrependimento acerca desse pecado deu-lhe uma pequena
trégua da punição de Deus (21.25-29).
5. O juízo de Yahweh chega a Acabe em Ramote-Gileade de acordo com a profecia de Micaías
(22.1-40).
• Israel e Judá unem forças para guerrear contra os arameus (22.1-4).
• Os profetas da corte de Acabe predizem, unanimente, a vitória (22.5-12).
• Micaías explica a fonte da previsão de vitória e prediz a derrota de Israel (22.13-28).
• Acabe morre na batalha, conforme predito, apesar de seu esquema astucioso que quase custou a
vida de Jeosafá (22.29-38).
• Um resumo do reinado de Acabe é apresentado (22.39,40).
B. O reinado de Jeosafá sobre Judá [873-848 a.C.] foi positivo no ―plano‖ espiritual devido a
sua luta contra a idolatria, apesar de sua aliança militar com a casa de Acabe (22.41-50).
C. O reinado de Acazias sobre Israel [853-852 a.C.] dá continuidade à tradição do baalismo e
sofre o juízo de Yahweh, conforme anunciado por Elias (1 Rs 22.51–2 Rs 1.18).
1. O reinado de Acazias é avaliado (22.51-53).
2. Elias confronta Acazias por sua idolatria, ao buscar os oráculos de Baal-Zebube e promete o
juízo de Deus contra o rei (2 Rs 1.1-8).
3. Elias pede fogo do céu para demonstrar mais uma vez quem é o Deus e Soberano sobre Israel
(1.9-16).
4. Acazias morre sem um herdeiro, e seu irmão Jorão toma o trono (1.16-18).
D. A tocha da liderança profética é passada de Elias para seu discípulo, cuja nova posição é
autenticada por meio de vários milagres (2.1-25).
1. Eliseu acompanha seu mestre quando Elias visita as escolas dos profetas antes de sua partida
(2.1-6).
2. Eliseu pede o papel de liderança profética, quando Elias se prepara para partir (2.7-10).
3. Eliseu assiste a partida de Elias e recebe o poder que ele reconhecia em Elias, a verdadeira
força de Israel (2.11,12).
4. A nova posição de Eliseu é autenticada pelos poderes miraculosos que ele demonstra (2.13-25).
• A abertura do Jordão reproduz o último milagre de Elias (2.13,14).
• Seu conhecimento acerca do paradeiro celeste de Elias é justificado contra a insistência dos outros
profetas em procurar seu antigo líder (2.15-18).
• A cura das águas ao redor de Jericó prova o poder e a fidelidade de Yahweh em favor de Seu povo
(2.19-22).
• A morte dos rapazes perto de Betel prova o poder de Yahweh para julgar aqueles que desprezam a
Ele e a Seus servos (2.23-25).
E. O ministério de Eliseu revela a misericórdia de Yahweh para com Seu povo durante um
tempo de incerteza espiritual e agitação política (3.1–8.15).
1. Eliseu ministra a uma coalizão de Israel-Judá-Edom em sua batalha contra Moabe, que se
rebelara contra Israel (3.1-27).
• O contexto do ministério é a revolta de Moabe contra Israel durante o reinado de Mesa, em
Moabe, e o reinado parcialmente reformado de Jorão (3.1-5).
• Os exércitos aliados de Israel, Judá e Edom são ameaçados pela falta de água (3.6-10).
• Eliseu promete a provisão de água e vitória na batalha (3.11-20).
• Os moabitas são derrotados, mas a vitória de Israel não é completa (3.21-27).
2. Eliseu estende a misericórdia de Yahweh a várias pessoas necessitadas em Israel (4.1-44).
• Uma viúva endividada tem seus recursos limitados multiplicados para evitar a escravidão de seus
filhos (4.1-7).
• Uma mulher sunamita generosa recebe a promessa de um filho e a bênção da restauração de sua
vida (4.8-37).
• Profetas carentes são supridos com comida durante uma época de privação e morte (4.38-41).
• A oferta dos primeiros frutos de um homem piedoso é multiplicada para uma centena de
discípulos dos profetas (4.42-44).
3. Eliseu estende a misericórdia de Yahweh para um general arameu, mostrando, portanto, o
poder e a universalidade de Deus (5.1-27).
• O general desinformado busca ajuda para sua lepra com o rei de Israel (5.1-7).
• Naamã obedece com relutância ao aparentemente desinteressado Eliseu e é curado de sua lepra
(5.8-14).
• Naamã corajosamente declara o que Israel havia praticamente negado a singularidade de Yahweh
como Deus (5.15).
• Eliseu recusa o presente de Naamã para que o general conheça melhor o caráter gracioso de
Yahweh e fortalece a fé incipiente de Naamã (5.16-19).
• A cobiça de Geazi o desqualifica como discípulo e traz sobre ele a vergonha da lepra (5.20-27).
4. Eliseu estende a misericórdia de Yahweh a um discípulo de profeta, cuja liberdade havia sido
comprometida pela perda do ferro do machado emprestado (6.1-7).
5. Eliseu demonstra a misericórdia de Yahweh para todo Israel ao frustrar as estratégias de guerra
dos arameus e ao exigir um tratamento humano para eles, como prisioneiros (6.8-23).
• Eliseu revela a Jorão as estratégias a ser empregadas pelo rei de Aram (6.8-12).
• Eliseu cega e captura uma companhia de arameus a quem ele traz a Samaria para um confronto
com Jorão e uma demonstração da misericórdia de Yahweh (6.13-23).
6. Eliseu prediz a prosperidade durante um cerco dos arameus, que é milagrosamente levantado
(6.24–7.20).
• Bene-Hadade II cerca Samaria até o ponto de seus habitantes praticarem o canibalismo e acusarem
a Eliseu de causar tamanha miséria (6.24-33).
• A predição de Eliseu de abundância no dia seguinte é desprezada por um comandante do exército,
que deixa de desfrutar as misericórdias de Yahweh (7.1-20).
– Yahweh utiliza os socialmente rejeitados para descobrir e anunciar a verdade de Sua vitória
humilhante sobre os inimigos (7.3-11).
– Yahweh utiliza as provisões dos arameus para entregar os bens necessários para a sobrevivência de
Samaria (7.12-16).
– O oficial incrédulo perde sua vida, quando o povo sai descontrolado de Samaria para comprar trigo
mais barato e o atropela (7.17-20).
7. O ministério de Eliseu teve influência sobre os negócios internos de Israel e Aram (8.1-15).
• A influência de Eliseu sobre os negócios internos de Israel é vista na forma como seu
relacionamento com a sunamita influencia a opinião do rei em favor dela (8.1-7).
• A influência de Eliseu sobre os negócios internos em Aram é vista no papel decisivo que ele teve
ao determinar o sucessor de Bene-Hadade II (8.8-15).
F. O reinado de Jorão sobre Judá [848-841 a.C.] é um tempo de apostasia espiritual e perda
territorial para a nação (8.16-24).
1. O casamento de Jeorão com Atalia, filha de Acabe, precipitou Judá em direção ao baalismo
(8.16-18).
2. Edom e Libna se revoltam contra Judá (8.19-24).
G. O reinado de Acazias sobre Judá [841 a.C.] foi marcado pela subserviência a seu tio Jorão,
de Israel (8.25-29).
1. O reinado de Acazias é avaliado (8.25-27).
2. Acazias une-se a seu tio na batalha contra os arameus em Ramote-Gileade (8.28).
3. Acazias visita seu tio ferido em Jizreel (8.29) e ali ele é ferido pelo rebelde Jeú, morrendo em
Megido (cf. 9.27-29).
III. A fase posterior da monarquia dividida presenciou a renovação das hostilidades entre
Judá e Israel, até a destruição de Samaria (9.1–17.41).
A. Jeú é ungido rei e comissionado para executar o juízo de Yahweh sobre a casa de Acabe
(9.1-10).
B. O reinado de Jeú sobre Israel [841-814 a.C.] é marcado por expurgos sangrentos, nos
cenários tanto político quanto religioso, com um sucesso apenas parcial em remover a
idolatria de Israel (9.11–10.36).
1. Jeú aproveita a oportunidade para a revolta e assassina o ferido rei Jorão (I) e seu sobrinho, o
rei Acazias (J) (9.11-29).
• Jeú assegura o apoio dos oficiais do exército (9.11-13).
• Jeú mata Jorão e cumpre a profecia retributiva acerca de Nabote e Acabe (9.14-26).
• Jeú mata Acazias devido a sua associação familiar e política com Jorão (9.27-29).
2. Jeú cumpre a profecia de Elias ao destruir completamente a família e os associados de Acabe
(9.30–10.17).
• Jeú mata Jezabel em Jizreel e as profecias sobre ela são cumpridas (9.30-37).
• Jeú executa os setenta descendentes de Acabe em Samaria em uma proposta nacional para o trono
(10.1-11).
• Jeú mata os parentes judeus de Acazias devido a sua associação com Jeorão e Jezabel (10.12-14).
• Jeú garante o apoio do não-conformista Jonadabe, elemento conservador na sociedade em Israel
(10.15,16).
• Jeú mata todos os parentes e aliados de Acabe em Samaria (10.17).
3. Jeú, ao desmantelar a estrutura do baalismo em Israel, cumpre o propósito religioso de Yahweh
para ele (10.18-28).
• Jeú se fez passar por um adorador ardente de Baal para atrair os sacerdotes e profetas a Samaria
(10.18-22).
• Jeú executou todos os que promoviam o culto a Baal e destruiu o templo de Baal (10.23-28).
4. A reforma espiritual incompleta, de Jeú, manteve Israel em um estado de violação da aliança,
pelo qual eles foram punidos com a perda de território para os arameus (10.29-36).
C. A tentativa de Atalia, uma descendente de Onri, de assegurar o trono de Judá para si mesma
foi frustrada por um golpe de Estado político-religioso encenado pelo sacerdote Jeoiada
em favor do príncipe coroado Joás (11.1-21).
1. Atalia tenta usurpar o trono em face da agitação política causada pelos assassinatos reais de
Jeú, em Israel (11.1).
2. O plano assassino de Atalia falha, porque o filho mais novo de Acazias, Joás, é levado para
fora do palácio e escondido em segurança no Templo (11.2,3).
3. Jeoiada, o sacerdote, coordena a revolta e encena a coroação do rei-menino Joás (11.4-12).
4. A reação fraca e fútil de Atalia não consegue evitar sua execução pelos homens leais a Davi
(11.13-16).
5. O sacerdócio e o povo entram em uma aliança para manter a lealdade a Yahweh e à casa de
Davi (11.17-21).
D. O reinado de Joás sobre Judá [835-796 a.C.] é marcado por um zelo inicial à aliança e
subseqüente declínio espiritual (12.1-21).
1. Joás reina sob a instrução de Jeoiada em seus primeiros anos no trono (12.1-3).
2. Joás demonstra sua lealdade à aliança ao reparar o templo (12.4-16).
3. O declínio espiritual de Joás é visto em sua falta de confiança em Yahweh e descuido para com
o templo (12.17,18).
4. O declínio espiritual de Joás é confirmado pela conspiração de dentro do palácio que trouxe um
fim a sua vida e a seu reinado (12.19-21).
E. O reinado de Jeoacaz sobre Israel [814-798 a.C.], levou Israel a uma pesada opressão pelos
arameus, da qual o arrependimento do rei trouxe um livramento temporário (13.1-9).
1. A conformidade de Jeoacaz com a adoração idólatra manteve Israel sob a opressão dos arameus
(13.1-3).
2. O arrependimento de Jeoacaz trouxe um livramento temporário da pressão dos arameus por
meio de um libertador [provavelmente Hadade-Nirari III (810-783 a.C.), que atacou
Damasco em 806 e 804 a.C.] (13.4,5).
3. A persistente idolatria de Israel, entretanto, manteve a nação em uma situação militar
lamentável e precária (13.6-9).
F. O reinado de Jeoás sobre Israel [798-782 a.C.] presenciou uma medida de recuperação por
meio do ministério gracioso de Eliseu (13.10-25).
1. Um resumo-avaliação do reinado de Jeoás é fornecido (13.10-13).
2. O ministério de Eliseu de encorajamento por meio de garantias de vitórias é admitido pelo rei
Jeoás, pelo seu reconhecimento do profeta como a verdadeira força de Israel (13.14-19).
3. O poder de Yahweh foi demonstrado por meio de Eliseu, mesmo depois de sua morte, em uma
ilustração do poder de Deus em restaurar Israel, conforme havia predito o profeta
(13.20,21).
4. Jeoás vence a opressão dos arameus e recupera o território perdido, conforme a profecia de
Eliseu e com as promessas da aliança abraâmica (13.22-25).
G. O reinado de Amazias sobre Judá [796-767 a.C.] foi marcado por instabilidade devido às
falhas pessoais do rei (14.1-22).
1 Amazias vinga a morte de seu pai em um expurgo palaciano (14.1-6).
2. O orgulho de Amazias por sua vitória sobre Edom leva-o a desafiar Joás, de Israel, à batalha,
com conseqüências desastrosas para Judá (14.7-14).
• Amazias derrota completamente os edomitas (14.7).
• Amazias desafia orgulhosamente Joás para a batalha por meio de uma tentativa aparente de um
casamento de aliança (14.8-10).
• O confronto militar entre Israel e Judá termina em derrota, humilhação e saques em Judá (14.11-
14).
3. Um resumo dos reinados interdependentes de Joás e Amazias é apresentado (14.15-18).
4. Amazias é assassinado em outro golpe palaciano e é substituído por seu filho Azarias [Uzias]
(14.19-22).
H. O reinado de Jeroboão II sobre Israel [793-753 a.C.; 9 anos de co-regência com Joás] é
marcado por uma idolatria contínua e uma expansão política incomum, garantida por
Deus [em uma época de fraqueza para Aram e a Assíria] (14.23-29).
1. Jeroboão manteve a tradição idólatra iniciada por seu homônimo da antiguidade (14.23,24).
2. Jeroboão expandiu as fronteiras de Israel para os limites implantados por Davi, de acordo com
a palavra profética de Jonas (14.25).
3. O êxito de Jeroboão foi a última demonstração divina de misericórdia pactual para com Israel,
antes da última punição (14.26,27).
4. Um resumo do reinado de Jeroboão é apresentado (14.28,29).
I. O reinado de Azarias sobre Judá [792-740 a.C.; 25 anos de co-regência com Amazias] foi
marcado por progresso material e estabilidade espiritual (15.1-7; também em 14.21,22).
1. Azarias expandiu as fronteiras de Judá e restabeleceu o acesso ao comércio marítimo enquanto
manteve o status quo religioso (15.1-4).
2. Azarias foi castigado com lepra, o que levou seu filho, Jotão, à co-regência até a morte do rei
(14.5-7).
J. O breve reinado de Zacarias sobre Israel [6 meses em 753 a.C.] cumpre a promessa de Deus a
Jeú de uma dinastia de quatro gerações (15.8-12).
K. O reinado de Salum sobre Israel [um mês em 752 a.C.] é encurtado pela sangrenta revolta de
Menaém (15.13-16).
L. O reinado de Menaém sobre Israel [752-742 a.C.] foi espiritualmente mal e sobreviveu à
intervenção da Assíria mediante o pagamento de tributos pesados a Tiglate-Pileser III
(15.17-22).
M. O reinado de Pecaías sobre Israel [742-740 a.C.] foi espiritualmente mal e terminou em um
golpe de Estado, dirigido por Peca, oficial do exército [e rei rival] (15.23-26).
N. O reinado de Peca sobre Israel [752-732 a.C.; 12 anos como rei rival, a leste do Jordão]
manteve o status quo da idolatria, como também foi marcado pelo primeiro exílio dos
israelitas, na Assíria, e terminou em um golpe de Estado dirigido por Oséias
[provavelmente apoiado pela Assíria] (15.27-31).
O. O reinado de Jotão sobre Judá [750-735 (ou 731) a.C.] foi marcado pelo status quo religioso
e por uma pressão político-militar da coalizão entre arameus e israelitas (15.32-38).
P. O reinado de Acaz sobre Judá [735 (ou 731)-715 a.C.] foi marcado por uma absoluta
apostasia e crescente incômodo das nações estrangeiras (16.1-20).
1. Acaz fez o contrário do que Davi havia feito e submeteu Judá a um aumento persistente do
paganismo (16.1-4).
2. A disciplina divina vem por meio da invasão de Judá pelos arameus e israelitas (16.5,6).
3. A reação de Acaz à disciplina divina é saquear o templo para comprar a proteção dos vassalos
com Tiglate-Pileser III (16.7-10).
4. O contato com os assírios, em Damasco, leva Acaz a uma idolatria ainda maior e à rejeição de
Yahweh e de Sua aliança (16.11-20).
Q. O reinado de Oséias sobre Israel [732-722 a.C.] mantém grande parte do mal moral e
espiritual dos reinados anteriores e sofre invasão e destruição dos assírios (17.1-6).
1. Oséias manteve o status quo de idolatria (17.1,2).
2. Oséias quebrou seu tratado de vassalo com Salmaneser V ao aliar-se a Osorcom IV, do Egito, e
isto trouxe o cerco e a destruição de Samaria, como também o exílio para a nação (17.3-
6).
R. As causas para a destruição e o cativeiro de Israel são apresentadas (17.7-23).
1. Israel foi punido por sua apostasia e idolatria (17.7-12).
2. Israel foi punido por não atentar para os alertas divinos dados por meio dos profetas (17.13,14).
3. Israel foi punido por violar as estipulações da aliança mosaica (17.15-17).
4. Judá foi afetada pelas práticas idólatras introduzidas em Israel depois da ruptura inicial das
tribos (17.18-23).
S. O sincretismo religioso que havia caracterizado o reino do Norte perpetuou-se na população
mista transplantada para a Palestina pelos reis assírios (17.24-41).
1. Israel foi repovoada com pagãos de outras nações conquistadas (17.24-26).
2. Uma cultura vagamente jeovista é instituída em Betel, pelos assírios (17.27, 28).
3. Os novos moradores de Samaria combinam a adoração de suas divindades nacionais com o
jeovismo distorcido de Israel (17.29-33).
4. Os novos moradores de Samaria perpetuam o fracasso de Israel em viver dentro das
estipulações da aliança (17.34-41).
PARTE III – O REINO ÚNICO DE JUDÁ
A história da monarquia independente de Judá retrata um declínio espiritual constante,
interrompido por dois reavivamentos que conseguem apenas retardar a avalanche de
disciplina pactual contra a nação (18.1–25.26).
I. O reinado de Ezequias sobre Judá [729-686 a.C.] chega perto do ideal divino de
dependência e obediência exigido pela aliança davídica (18.1–20.21).
A. O início do reinado de Ezequias revela seu desejo de adorar a Yahweh de maneira
apropriada e de, diante da ameaça da Assíria, depender Dele para a sobrevivência da
nação (18.1-12).
1. Ezequias remove todos os focos de idolatria e sincretismo em Judá (18.1-4).
2. Ezequias confia em Yahweh e rebela-se contra a suserania assíria adotada por seu pai (18.5-7).
3. Ezequias subjuga os filisteus, antigos inimigos de Judá (18.8).
4. A destruição do reino do Norte pelos assírios serve como contraste para a prosperidade de
Ezequias (18.9-12).
B. O confronto de Ezequias com Senaqueribe revela seu crescimento em fé, e o poder de
Yahweh de livrar, ao final, aqueles que confiam nEle e O obedecem (18.13–19.37).
1. Ezequias vacila na fé diante da invasão assíria, e recorre à costumeira política de pagar tributo,
saqueando o tesouro do templo para o pagamento do tributo (18.13-16).
2. O desejo de Senaqueribe de aumentar seu controle sobre toda a Palestina leva-o a fazer um
cerco contra Jerusalém, a despeito do pagamento do tributo, em uma tentativa de induzir
Ezequias a entregar a capital (18.17-37).
• O embaixador assírio procura intimidar Judá à submissão ao mostrar a incapacidade do Egito em
fornecer ajuda militar (18.17-21).
• O embaixador assírio tenta intimidar Judá à submissão ao apontar, conforme ele considerava, a
aparente incoerência de confiar em Yahweh, um deus cujos altares o rei havia acabado
de destruir (18.22-25).
• O embaixador assírio, ao mostrar que as nações que tentaram resistir foram destruídas com seus
deuses, tenta forçar Judá à submissão pelo medo (18.26-37).
3. A dependência de Ezequias em Yahweh é recompensada pelo repentino recuo do exército
assírio, de acordo com a promessa de Isaías, o profeta (19.1-9).
• Ezequias pede que Isaías ore pelo remanescente de Israel (19.1-4).
• Isaías promete que Senaqueribe levantará o cerco devido a um rumor [de guerra] e, por fim, será
forçado a voltar para sua terra (19.5-7).
• Movimentos das tropas de Tiraca, o jovem príncipe etíope, perturbaram Senaqueribe o suficiente
para que ele levantasse o cerco temporariamente (17.8,9).
4. A dependência de Ezequias em Yahweh alcança êxito em sua reação de fé à carta ultrajante de
Senaqueribe e ao cerco renovado (19.10-19).
• A carta blasfema de Senaqueribe declara a incapacidade de Yahweh em salvar Judá da destruição
(19.10-13).
• Ezequias confiantemente entrega a questão a Yahweh e pede um livramento miraculoso (19.14-
19).
5. A resposta graciosa de livramento, dada por Yahweh, é prometida por meio de Isaías com base
em Sua reputação e da aliança davídica, por meio da qual a fé que Ezequias tinha o
tornou elegível (19.20-34).
6. Senaqueribe, de acordo com a promessa, recua depois de perder 185 mil soldados e sofre
parricídio da Assíria (19.35-37).
C. Ezequias tem a fé colocada à prova e recompensada por meio de sua doença terminal e
recuperação milagrosa (20.1-11).
1. A doença de Ezequias é anunciada por Isaías como terminal (20.1).
2. A oração de Ezequias pela cura é ouvida e, por meio de Isaías, respondida por Yahweh (20.2-
7).
3. O pedido de Ezequias por um sinal é aceito e realizado (20.8-11).
D. Ezequias vacila na fé quando ele faz uma aliança com Merodaque-Baladã, da Babilônia,
contra a Assíria, um pecado pelo qual Judá pagaria alto preço no futuro [essa passagem
e a precedente são cronologicamente anteriores à invasão assíria (e talvez a causa dela)]
(20.12-20).
1. Ezequias recebe regiamente os enviados da Babilônia [um sinal de aliança com a Babilônia
contra a Assíria] (20.12,13).
2. Isaías confronta Ezequias com sua quebra de confidência em relação ao fato dos companheiros
de hoje serem os conquistadores de amanhã (20.14-18).
3. Ezequias regozija-se de forma egoísta por sua paz temporária (20.19).
E. Um resumo dos feitos de Ezequias é fornecido (20.20, 21).
II. Nos reinados perversos de Manassés e Amom a idolatria e a corrupção moral tomam conta
de Judá (21.1-26).
A. O reinado de Manassés sobre Judá [696-642 a.C.; 10 anos de co-regência com Ezequias]
reintroduz, de formas variadas, a idolatria e traz a inevitável ira de Yahweh contra
Jerusalém (21.1-18).
1. Manassés reintroduz, de formas variadas, a idolatria em Judá (21.1-9).
• O baalismo é instituído como sanção real (21.1-5).
• O espiritismo e os sacrifícios humanos são instituídos (21.6).
• O templo foi profanado pela prática de adoração de Asera (21.7-9).
2. A sentença de morte de Yahweh é dada para Judá pelos profetas, devido às abominações de
Manassés, das quais a nação não conseguiria se recuperar (21.10-18).
• A destruição e o saque são preditos para Jerusalém e Judá devido à corrupção de Manassés (21.10-
15).
• O reinado de Manassés é avaliado como um período de corrupção definitiva para Judá (21.16-18).
B. O reinado de Amom sobre Judá [642-640 a.C.] foi marcado pela mesma corrupção espiritual
de Manassés e terminou em um golpe de Estado (21.19-26).
1. Amom dá continuidade à corrupção idólatra de seu pai (21.19-22).
2. O reinado de Amom termina em um golpe palaciano, em que seus oficiais e os nobres
proprietários de terras se confrontaram (21.23-26).
III. O reinado de Josias sobre Judá [640-609 a.C.] dá à nação uma trégua da ira divina devido
à profunda devoção do rei a Yahweh e da fidelidade em restaurar a verdadeira religião
em Israel (22.1–23.30).
A. A devoção de Josias a Yahweh foi demonstrada pela forma como ele buscou reparar o
templo e comprometeu-se em obedecer às ordens do recém-encontrado livro da lei
(22.1-20).
1. Josias ordena o reparo do templo e dá as provisões para isso (22.1-7).
2. Josias reage com vergonha e humilhação quando o livro da lei recém-encontrado é lido em sua
presença (22.8-13).
3. A palavra profética para Josias é de que o juízo é certo, embora sua reação humilde tivesse
causado uma breve trégua na ira divina para com Judá (22.14-20).
B. A reação de Josias à mensagem de Hulda foi impor as cláusulas da aliança em escala
nacional (23.1-25).
1. A aliança foi oficialmente renovada em Jerusalém (23.1-3).
2. Uma cruzada contra o paganismo é executada por toda Judá e na província assíria, que era o
reino do Norte (23.4-20).
• Jerusalém é purificada de Baal e da adoração a Asera (23.4-7).
• Judá é purificada de seus vários centros de paganismo (23.8-14).
• O altar original de idolatria, erigido por Jeroboão em Betel, é profanado, conforme a profecia
(23.15-18).
• Samaria é purificada de seus altos infames e de seus sacerdotes (23.19,20).
3. O ápice do novo compromisso de Josias com Yahweh, por toda Judá, é a celebração da Páscoa
(23.21-23).
4. O compromisso total de Josias em erradicar a falsa religião de Judá, de acordo com a aliança,
fez com que ele fosse inigualável entre os reis de Israel (23.24,25).
C. O reinado piedoso de Josias foi incapaz de evitar o juízo de Yahweh sobre a Judá,
mergulhada em pecado, e terminou em tragédia devido à intervenção imprudente contra
o Egito (23.26-30).
IV. A história da rebelião de Judá contra Yahweh termina, de forma melancólica, com os
reinados dos reis títeres (23.31–25.26).
A. O reinado de Jeoacaz sobre Judá [3 meses em 609 a.C.] foi encurtado por Neco II, do Egito,
que impôs o domínio egípcio sobre Judá (23.31-33).
B. O reinado de Jeoiaquim sobre Judá [608-598 a.C.], como punição de Deus, foi marcado pela
continuidade do mal e por uma mudança do domínio do Egito para a Babilônia (23.34–
24.7).
1. Jeoiaquim paga o tributo ao faraó (23.34-37).
2. A Babilônia sujeita, por 3 anos, a palestina Judá (24.1).
3. A revolta de Judá traz invasão e deportação como punição contra seus pecados [605 a.C.]
(24.2-7).
C. O breve reinado de Joaquim sobre Judá [3 meses no inverno de 598-597 a.C.] deu
continuidade à tradição de maldade de seus antecessores e terminou com uma invasão e
cativeiro para a família real (24.8-17).
1. A política anti-Babilônia de Joaquim resultou na segunda invasão de Nabucodonozor, em Judá
[597 a.C.]. e captura da família real (24.8-12).
2. Jerusalém e o templo são saqueados e o melhor da nação é levado para a Babilônia (24.13-17).
D. O reinado de Zedequias sobre Judá [597-586 a.C.] culmina uma longa história de pecado e
termina com a destruição de Jerusalém e do templo, de acordo com a palavra de
Yahweh (24.18–25.21).
1. Zedequias deu continuidade à tradição de maldade de seus antecessores, na qual Yahweh havia
confirmado Judá (24.18-20a).
2. A conseqüência da rebelião de Zedequias contra a Babilônia [588 a.C.] foi o cerco final de
Jerusalém (24.20b–25.2).
3. O cerco terminou com a captura da família real e com sua punição pelos babilônios (25.3-7).
4. O destino de Jerusalém e de seu povo foi destruição, morte e deportação (25.8-21).
• A cidade foi destruída [agosto de 586 a.C.] (25.8-11).
• Todos, exceto os mais pobres do povo, foram levados cativos para a Babilônia (25.12).
• Os tesouros e utensílios do templo foram levados embora como despojo (25.13-17).
• Oficiais civis e religiosos foram executados (25.18-21).
E. A permanência de Judá na terra é impossibilitada pela rebelião contra o governante indicado
da Babilônia (25.22-26).
1. Um príncipe nacionalista mata o governante subserviente apontado pela Babilônia (25.22-25).
2. O remanescente pobre foge para o Egito (25.26).
V. Epílogo – A esperança de cumprimento das promessas feitas a Davi sobrevive na Babilônia,
onde um herdeiro de Davi dá sobrevida à monarquia e é reabilitado por Evil-Merodaque
(25.27-30).
O argumento de
CRÔNICAS
Questões introdutórias
TÍTULO
Os dois livros atualmente conhecidos como 1 e 2 Crônicas eram originalmente um
único documento nas Escrituras hebraicas. O título hebraico era (‫הטָמִׁים‬ ַ ֹ‫ דִׁ ב ְֵּרי‬diḇrê
yyāmîm), que pode ser traduzido como ―os eventos (ou fatos) dos dias (ou anos)
(passados)‖. A expressão hebraica é encontrada várias vezes em 1 e 2 Reis para
descrever os anais ou registros da corte dos reis de Israel e Judá (e.g. 1 Rs 15.7,23;
22.46).
Os tradutores da Septuaginta implicaram, com o nome que adotaram para essa obra,
Παπαλειπόμενα Paraleipomena, que Crônicas registrou coisas omitidas em Samuel e
Reis, algo que é apenas parcialmente verdade. O livro foi dividido em dois, pela
primeira vez, pelos mesmos tradutores gregos.
O título em português é derivado do título em latim, dado por Jerônimo, Chronicon
totius divinae historiae, [Uma crônica do todo da história sagrada]. O título da Vulgata
foi abreviado em versões modernas para ―Crônicas‖.
DATA E AUTORIA
Como a maioria da literatura histórica hebraica, Crônicas é uma obra anônima. Grande
parte da tradição hebraica atribui a obra a Esdras, o levita e escriba do século 5 (Baba
Bathra 15a). Como o livro enfatiza o lugar da comunidade levítica dentro da nação e
parece indicar a prioridade de Israel como uma comunidade adoradora que herdou as
promessas feitas à monarquia pré-exílica, Esdras parece ser o melhor candidato à honra
de ter escrito Crônicas. O fato de que o final de Crônicas é encontrado praticamente em
verbatim no parágrafo de abertura de Esdras sugere laços muito íntimos entre as duas
obras, inclusive autoria comum.
O livro certamente situa-se no período entre o decreto real para reconstruir o templo,
emitido por Ciro em 539 a.C. (2 Cr 36.22, 23; cf. texto de Ciro em ANET, p. 316) e a
reconstrução dos muros de Jerusalém, por Neemias em 445 a. C, visto que seria
inconcebível que um evento tão significante fosse omitido em um livro em que a
vitalidade da teocracia é tão fortemente enfatizada. Assim, parece que uma data por
volta da metade do século 5 a.C. é o período mais provável para a composição de
Crônicas. Isso leva em conta a referência a apenas duas gerações, além de Zorobabel em
3.17-21, não seis, como propõem alguns estudiosos, que favorecem uma data no século
4 para o livro, (cf. R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament [Introdução ao
Antigo Testamento], p. 1154-5).
Fontes
É inquestionável que o autor de Crônicas usou fontes; há abundantes evidências de
que ele o tenha feito. Fontes especificamente mencionadas são ―livro das crônicas do rei
Davi‖ (1 Cr 27.24), ―livro dos reis de Israel‖ (2 Cr 20.34), ―livro dos reis de Judá e de
Israel‖ (2 Cr 16.11), as palavras de Samuel, Natã e Gade (1 Cr 29.29), de Aías e Ido (2
Cr 9.29), Semaías (2 Cr 12.15), Jeú (2 Cr 20.34) e até de escritos canônicos de profetas
como Isaías (2 Cr 26.22).
A questão de como essas fontes são usadas é, como Childs indicou, muito mais
complexa (Introduction to the Old Testament as Scripture [Introdução ao Antigo
Testamento como Escritura], p. 645-647). Estudiosos modernos praticamente rejeitaram
as opiniões extremas de Wellhausen, que pensa que muito do material de Crônicas foi
uma invenção excessivamente zelosa de seu autor, mas ―permanecem divididos sobre
como explicar os acréscimos, se são fontes novas e separadas, ou tradição oral
independente, ou ainda uma edição expandida, com forma canônica, de Samuel-Reis‖
(IOTS, p. 456).
O cronista, qualquer que tenha sido o uso que fez de suas fontes, foi evidentemente
muito seletivo, pois mesmo o registro histórico limitado de Samuel-Reis não é
totalmente usado e apenas um pouco do material que não se encontra lá está aqui, em
Crônicas. Seu propósito, porém, não é meramente suprimir material danoso (visto que
ele inclui material um tanto repugnante em sua narrativa de alguns reinados); ele parece
disposto a correr o risco de fazer seu próprio material menos compreensível por sua
maneira de selecionar material (ele alude, por exemplo, ao período mercenário de Davi
com os filisteus sem qualquer menção prévia da perseguição de Saul contra ele, 1 Cr
12.19s.).
Assim, o que encontramos em Crônicas é o uso criativo e seletivo de fontes, sem ser
inventivo ou supressivo, programado para imprimir na comunidade pós-exílica o fato de
que eram herdeiros das promessas davídicas, pelas quais deviam esperar em humilde
obediência e esperança.
CONTEXTO HISTÓRICO
A comunidade israelita, no exílio, manteve por um tempo a crença teimosa de que
Jerusalém logo estaria livre do jugo babilônio e de que os que estavam no cativeiro
retornariam. Foi apenas depois do golpe definitivo em 586 a.C. que a realidade da
ameaça de Jeremias, de um longo exílio, realmente se consolidou.
Quando Joaquim, o rei exilado, foi solto da prisão e recebeu um lugar de honra na
corte de Evil-Merodaque [Amel-Marduque] (560 a.C., 37 anos depois de sua captura
por Nabucodonozor; cf. 2 Rs 25.27-30), uma pequena fagulha de esperança acendeu-se
entre os exilados judeus. Essa se transformou em fogo quando Ciro assinou seu decreto
de libertação em 539 a.C., e um remanescente de cerca de cinquenta mil pessoas
retornou sob a liderança de Sesbazar e Josué a fim de reconstruir o templo.
Os primeiros esforços foram frustrados por oposição externa e falta interna de
compromisso e fé. O templo foi terminado 21 anos depois que seus alicerces foram
lançados por Zorobabel (Ed 3.1-5), mas a condição espiritual da comunidade judaica
deixava muito a desejar. Um clima de apatia parecia dominar o povo, o que levou ao
desânimo e cinismo em relação a Yahweh e Seu programa para a nação (cf. Ml 1).
Nesse contexto, o autor de Crônicas insere sua visão da história de Israel e estabelece
suas implicações para a comunidade pós-exílica.
TEMAS TEOLÓGICOS
O autor de Crônicas escreveu com a segunda geração da comunidade pós-exílica em
mente. Ao ligar, por meio das genealogias, sua versão da história de Israel à história
primitiva, ele tenta fornecer uma visão abrangente do plano de Deus para Seu povo
baseada em quatro parâmetros, a saber, o desenrolar da aliança deuteronômica (com
ênfase na retribuição), o desenrolar da aliança davídica (com ênfase na graça), a
crucialidade da revelação legal e profética de Deus e a continuidade da teocracia por
meio da adoração no templo.
O desdobramento da aliança deuteronômica
Os fracassos de Israel (ou Judá) em cumprir a fidelidade exigida pela aliança mosaica,
conforme expressado em Deuteronômio, é um tema freqüente em Crônicas, o qual é
muitas vezes associado a punições similares às prescritas em Deuteronômio 28. Assim,
o saque de Jerusalém por Sisaque (2 Cr 12.5s.) é interpretado como uma retribuição
direta pela infidelidade (12.1,2); a doença e morte de Jorão, com a invasão de Judá, são
atribuídas à intervenção de Yahweh contra a ―prostituição religiosa‖ do rei (2 Cr 21.12-
20). Na história, em 2 Cr 15.2-7; 16.7-9; 19.2,3; 24.20; 25.15,16; e 34.24-28, são
encontradas outras ilustrações dessa perspectiva. O sucesso dos chamados ―bons‖ reis
também está ligado à lei e à obediência a ela (2 Cr 14.2-7; 17.3-9; 24.6, 9; 30:15,16; e
34.19-21, 29-33).
O desdobramento da aliança davídica
A ênfase em Davi e sua dinastia é evidente pelo lugar preponderante que ocupam nas
genealogias. O autor claramente pretendia demonstrar que a aliança registrada em 2
Samuel 7, que ele cuidadosamente reproduz em 1 Crônicas 17, mantivera sua validade
ao longo da história da monarquia dividida, tanto no aspecto da bênção quanto no
disciplinar (Asa e Jeosafá são os dois reis que recebem tanto louvor quanto crítica do
autor, assim ilustrando as duplas promessas de 2 Samuel), e, nesse ponto, dava a
esperança de qual comunidade pós-exílica derivaria sua força enquanto esperava pelo
cumprimento total das bênçãos exemplificado nos reinados dos descendentes fiéis de
Davi.
Esses reis (Salomão, Asa, Jeosafá, Ezequias e Josias) não são idealizados como
perfeitos, mas são seletivamente apresentados como retratos do padrão messiânico
estabelecido por Davi, um rei cujo coração era compromissado com Yahweh de tal
modo que buscava a piedade e a fidelidade à aliança de Deus em seu reinado, sendo
depois recompensado com triunfo militar, livramentos milagrosos e prosperidade
material (cf. as bênçãos na aliança palestina ou deuteronômica).
Mais relevante ao Sitz im Lebem de sua comunidade é o cuidado do autor em
identificar cada um desses ―bons‖ reis com alguma avaliação do esforço deles em
assegurar a adoração apropriada ligada ao templo salomônico, a casa de Yahweh e a
expressão tangível da teocracia para o Israel pós-exílico. Isto está de acordo com as
palavras da aliança davídica: ―Este edificará uma casa ao meu nome‖ (2 Sm 7.13; cf. 1
Cr 17.12).
A crucialidade da revelação profética
Ao longo de sua obra, o cronista destaca a delicada questão do relacionamento entre o
trono e os profetas, que funcionavam como guardas da mais importante herança de
Israel – a aliança com Yahweh.
Os profetas, que em Reis são vistos apenas como portadores de mensagens orais,
aparecem em Crônicas como profetas escritores (na obra, a única menção a Elias é uma
carta escrita ao rei Jorão, de Judá, cf. 21.12-15). Reis que atendem às exortações
proféticas têm sucesso (Davi, Asa, Jeosafá, Ezequias, Josias e até os duvidosos Roboão
[2 Cr 12.6] e Amazias [25.7-10]), enquanto aqueles que as rejeitaram trouxeram para si
o perigo e a destruição final (Jorão, Joás, Amazias, Manassés e Zedequias).
Dessa maneira, um padrão já implícito nos livros de Samuel, a saber, que a monarquia
de Israel devia estar sujeita a Yahweh por meio do ministério profético (cf. Samuel e
Natã), encontra sua plena expressão em Crônicas, sendo resumido nas palavras de
Jeosafá: Tenham fé no Senhor, o seu Deus, e vocês serão sustentados; tenham fé nos
profetas do Senhor e terão vitória (2 Cr 20.20, NVI). A força do paralelismo é óbvia,
especialmente em suas implicações para a comunidade pós-exílica; assim como as
antigas promessas foram cumpridas literalmente, as promessas pendentes serão
finalmente cumpridas em favor de uma geração obediente de israelitas.
A continuidade da teocracia por meio da adoração no Templo
Uma das ênfases mais importantes na história do cronista é a eleição de Levi como a
tribo que ministraria diante do Senhor (1 Cr 15.2; cf. 23.24-32), de Jerusalém, como o
lugar onde Sua adoração poderia ser conduzida (2 Cr 6.6, 34-38; 33.7), e do templo,
como o lugar onde Seu nome habitaria (2 Cr 7.12-16).
A centralidade do culto como expressão da soberania de Yahweh sobre Israel é vista
também na quantidade de material dedicado a sua descrição, desde o tempo dos
preparativos de Davi para a construção do templo e para o funcionamento de seu ritual
(1 Cr 21.1– 26.19; 28.1 – 29.9) até a construção e dedicação do edifício por Salomão (2
Cr 2.1 – 7.10) e o zelo reformador de Joás (24.4-13), Ezequias (29.3-36), e Josias (34.3-
13), mesmo em relação ao decreto de Ciro (36.23). A intenção óbvia é de participar à
comunidade pós-exílica que eles eram herdeiros das promessas centradas em torno
daquele edifício, o justo Filho de Davi e o trono eterno.
PADRÕES LITERÁRIOS E EXEGÉTICOS
O uso de genealogias
Levando-se em conta que o propósito do cronista era fornecer à comunidade pós-
exílica uma visão abrangente do plano de Yahweh para Israel ao longo da história, a
presença de genealogias não é surpreendente. Mentes ocidentais podem vê-las como um
apêndice à obra, mas, para o autor, elas eram parte integrante da história sacra; de certa
forma, os homens eram a mensagem!
O elemento-surpresa, porém, é a presença de genealogias primitivas, visto que Israel
olhava para Abraão, no passado, como seu ponto de partida. A inclusão de uma
genealogia começando em Adão, porém, teria servido até melhor ao propósito, já que
demonstrava que Israel era o plano de Deus desde o princípio, enquanto acrescentava
uma dimensão universal ao propósito da existência de Israel. É uma sutil lembrança de
que as promessas abraâmicas, sobre as quais a nação fora fundada, tinham como
propósito fazer Yahweh conhecido por todo o mundo, como também fazer de Israel uma
bênção para todas as nações (cf. Gn 12.3).
As genealogias, em Crônicas, além de todo esse propósito teológico, proporcionam
informação familiar que é, de certo modo, relevante para a autopercepção da
comunidade (cf. 1 Cr 7.14-19, a informação da origem parcialmente araméia dos
gileaditas). Nessa área, as genealogias, em Crônicas, servem ao propósito especial de
destacar aquelas tribos, clãs e indivíduos que mais significantemente influenciaram a
história israelita (cf. a ênfase em Judá e Levi, e a negligência total a Dã e Zebulom),
como também fornecem informação sobre por que outros foram impedidos de se tornar
canais da bênção de Yahweh (5.1,2).
Elas também têm uma função política, mais diretamente relacionada à distribuição de
terras, que era importante enquanto os refugiados buscavam se assentar em suas antigas
propriedades familiares.
Um elemento religioso importante também está envolvido: estabelecer posição e cargo
entre os levitas e sacerdotes (6.1-30; 9.10-34). Isso era particularmente importante para
a preservação do sacerdócio racialmente puro, como evidenciado em Esdras 2.61-63.
Um propósito final era manter os números exatos em estatísticas de alistamento
militar, como se encontra em 1 Crônicas 5.1-21, especialmente o versículo 18.
Há evidência de que o cronista foi seletivo e interpretativo no uso das genealogias
disponíveis, alterando, às vezes, a ordem cronológica correta a fim de enfatizar um
indivíduo ou uma família (cf. a família de Samuel em 6.22-27).
Assim, embora o quadro das genealogias não esteja absolutamente claro, há luz
suficiente para o leitor atento perceber como o cronista as usou para realçar sua
abordagem teológica à história de Israel.
Harmonização
O termo harmonização é usado aqui não para indicar alteração do texto ou das fontes
disponíveis (cf. as observações de Childs sobre isso, IOTS, p. 648), mas para o ajuste
real de narrativas anteriores ao propósito do livro.
Isso muitas vezes aparece como suplementação, ou seja, o acréscimo de detalhes
retidos em tradições além das preservadas no Texto Massorético. Por exemplo, a
referência aos levitas como portadores da arca (1 Cr 15) está ausente em 2 Samuel 6, em
que a ligação arca-levitas não era relevante para o propósito do autor.
Seleção
O cronista, visto que seu propósito era lidar com a história do remanescente fiel de
Israel, sistematicamente omite o reino do Norte ou refere-se a ele em tons condenatórios
(cf., por exemplo, o discurso de Abias em 2 Cr 13.4-12). Mesmo Elias, grande campeão
do jeovismo, é raramente mencionado, porque a maior parte de sua atividade estava
relacionada à luta contra o baalismo, no Norte.
O cronista, ao omitir material ofensivo, principalmente no caso de Davi e Salomão, é
freqüentemente acusado de adornar a história de Israel. A acusa-ção surge
principalmente de um entendimento errado de seu propósito. Ele não está tentando
reescrever a História, mas buscando interpretá-la à luz de novas realidades enfrentadas
pelo Israel pós-exílico. Assim, é omitido muito do que não é relevante para seu
propósito de ligar a comunidade adoradora do século 5 a.C. à aliança davídica pré-
exílica. De modo significativo, muito do que se encontra em Samuel e Reis é retido,
apesar de ser danoso à imagem de vários reis (e.g., o pecado de Davi em fazer o censo
do povo) e certos elementos, que Reis e Samuel não registraram, são acrescentados (e.g.
a profana aliança de Asa, com os arameus, contra Israel; cf. 1 Cr 16.7-10 e 1 Rs 15.16-
22, e seu fracasso em confiar em Yahweh em relação a sua doença; cf. 1 Rs 15.23 e 2 Cr
16.12).
O cronista, dessa maneira, está isento das acusações de suprimir informações (que
estavam plenamente disponíveis, afinal de contas, em Samuel e Reis); ele usou a
informação seletivamente para pintar um retrato de Davi como o ideal messiânico de
Yahweh, pelo qual outros reis davídicos foram medidos. Assim, mesmo o mais perverso
de todos, Manassés, é capaz de genuíno arrependimento, uma marca do homem segundo
o coração de Deus.
Tipologia
Childs resume bem a técnica empregada, quando escreve: ―...Faz-se uso de palavras-
chave e expressões estereotipadas para trazer à consciência do leitor outros exemplos do
mesmo padrão dentro de todo o espectro das Escrituras oficiais‖ (IOTS, p. 651).
Assim, as palavras que se encontram na condução de Josué à liderança (Js 1.9) estão
também nos lábios de Davi quando passa o bastão real a Salomão (1 Cr 22.13). De
maneira semelhante, Abias, Asa, Jeosafá e Ezequias enfrentam perigo iminente com
uma oração ou afirmação que reconhece a insuficiência deles e a suficiência de Yahweh
(cf. 2 Cr 13.12; 14.11; 20.12; 32.8), em um esforço consciente de refletir a confiança e
fé que Davi tem Yahweh.
O cronista lida também com os eventos de tal maneira que a continuidade se torna
óbvia a um leitor atento. Davi, como Moisés, é muito bem-sucedido como iniciador,
mas é incapaz de alcançar seu sonho de vida (construir o templo e entrar em Canaã); em
ambos casos uma proibição divina indica que seus sucessores realizariam o que eles
haviam começado (cf. 1 Cr 22.5-13; Dt 31.2-8). Tanto Salomão quanto Josué são
conduzidos a seus cargos de modo particular e público (22.6; cf. Dt 31.23 e 28.8; cf. Dt
31.7). Assim como o tabernáculo, o plano do templo veio do próprio Deus (1 Cr 28.11-
19; cf. Êx 40.35).
As ofertas voluntárias coletadas por Moisés (Êx 25.1-7) e Davi (1 Cr 29.1–9)
encontram correspondência histórica nas reformas de Josias (2 Cr 34) e, por implicação,
nos esforços pós-exílicos para reconstruir o templo. Assim, a tipologia cumpre o
propósito de estabelecer continuidade e motivar a fidelidade no presente.
Argumento básico
DESENVOLVIMENTO
Como já foi mencionado, Crônicas dá à comunidade pós-exílica uma interpretação
teológica da história nacional na qual a aliança davídica, o ministério levítico no templo
e um sentido estrito da ação retribuidora da aliança de Deus têm papel predominante. O
propósito da obra era provocar apoio para a teocracia em sua forma existente, isto é,
motivar a fidelidade à lei e a esperança nas promessas messiânicas escatológicas da
aliança.
Os livros de Crônicas são geralmente divididos em quatro partes. A primeira parte
consiste de genealogias de Adão a Davi, com ênfase específica nas linhagens davídica e
levítica (1 Cr 1–9). A segunda parte lida com o reinado de Davi, com ênfase especial em
seu papel de estabelecer os procedimentos e as pessoas que regeriam a adoração no
templo (1 Cr 10–29). A terceira parte descreve o reinado de Salomão, concentrando-se
em sua atividade como construtor do templo e na glória e esplendor de seu reinado,
fornecendo um retrato do que Israel poderia ter sido se seus reis tivessem permanecido
fiéis à aliança (2 Cr 1–9). A quarta parte traça a história (o declínio) do reino de Judá
(i.e., a linhagem davídica) desde 931 a.C. até 586 a.C., com um epílogo de esperança à
luz do decreto de Ciro para reconstruir o templo em Jerusalém (2 Cr 10–36).
O livro inicia-se com o registro de genealogias primitivas, ou seja, de Adão a Abraão,
com ênfase natural na linhagem de Sem (1.1-27). O padrão seguido pelo autor é
interessante pelo fato de que tanto os primeiros treze nomes (1.1-4) como os últimos dez
são listados sem termos de parentesco (1.24-27), sugerindo assim uma visão unificada
do propósito de Deus. Linhagens subsidiárias são inseridas entre a linha de revelação de
Deus.
Esse padrão também é seguido nas genealogias do período patriarcal (1.28 – 2.2), em
que, mais uma vez, a listagem de indivíduos de menor reputação precede a daqueles que
foram encarregados de levar adiante a linha de revelação de Yahweh. Uma lista
detalhada dos reis e chefes edomitas ilustra quão cuidadosamente os registros eram
guardados, mesmo no caso de uma nação estrangeira (1.43-54; talvez esses registros
tivessem sido capturados no tempo em que Davi conquistou Edom).
Seguem-se as genealogias do período tribal (2.3 – 9.1) que enfatizam fortemente as
linhagens de Judá e Levi, à luz de sua primazia na história da teocracia. Judá é a
primeira tribo a ser mencionada (2.3-54; 4.1-23), com uma inserção para a linhagem
davídica (3.1-24), que assim é colocada bem no centro da tribo cujo papel,
profeticamente descrito, era de exercer autoridade entre seus irmãos (Gn 49.10). Simeão
é citado, a seguir, em virtude de seus laços geográficos e políticos com Judá (4.24-43).
A linha genealógica é depois controlada pelo padrão geográfico de conquista e
assentamento, em que as tribos transjordânicas são alistadas antes das outras nove.
Rúben é a primeira (5.1-10), com uma nota explanatória a respeito de sua perda dos
direitos de primogenitura (v. 1,2). A seguir, vem Gade (5.11-22) e a meia-tribo de
Manassés (5.23-26).
A genealogia para a tribo de Levi reflete, em sua extensão (6.1-81), a importância que
o cronista atribui a ela no desenvolvimento da teocracia de Israel.
A próxima tribo alistada é Issacar (7.1-5), seguida pela versão resumida da linhagem
de Benjamim (7.6-12); a genealogia de Naftali (7.13, uma mera lista dos netos de Jacó)
não vai além da lista em Números 26.48, que pode sugerir uma perda dos registros no
período assírio. Estas são seguidas por Manassés e sua linhagem (7.14-19), uma
passagem cheia de problemas textuais. A seguir, vem Efraim (7.20-29), com ênfase na
linhagem de Josué, e Aser (7.30-40), uma genealogia relacionada ao militarismo.
O capítulo 8 contém um tratamento aprofundado da tribo de Benjamim,
provavelmente mencionado devido a sua associação íntima com Judá, antes e depois do
exílio, e também em razão de seu papel na instituição da monarquia em Israel (8.1-40).
Uma lista enfatiza a linhagem de Saul por meio de Jônatas (8.29-39), que é repetida
com omissões mínimas em 9.35-44.
O registro genealógico termina com uma nota em 9.1. É interessante notar que o
cronista enfatiza a totalidade do registro, embora duas tribos estejam ausentes de seu
rol, Dã e Zebulom. A perda de registros contemporâneos fornece uma explicação
natural para tal omissão.
A primeira seção termina com um resumo dos membros da comunidade pós-exílica
(9.1-34). Mais uma vez, o autor, nessa seção, dá especial atenção às pessoas ligadas ao
culto.
A seguir, vem a revisão da linhagem de Saul (9.35-44), servindo provavelmente como
uma dobradiça entre as seções ―clerical‖ e histórica, ou até fornecendo um contraste (em
10.1-13) para o brilho do reino davídico. O reinado de 32 anos de Saul é omitido, e o
único registro de sua vida é o relato de sua morte, a qual o autor atribui à infidelidade à
palavra de Deus (10.13).
O relato da monarquia teocrática começa abruptamente com a coroação de Davi, em
Hebrom, pelas doze tribos (11.1-3), omitindo assim a guerra civil entre Davi e Isbosete,
que, é claro, seus leitores conheceriam do relato em 2 Samuel. O primeiro ato público
significante de Davi é a captura de Jerusalém (11.4-9), uma manobra associada a sua
ascendência como rei poderoso, conforme demonstrado pela impressionante lista de
heróis associados a ele (11.10 – 12.40).
Os detalhes do reinado de Davi, fornecidos pelo cronista, estão concentrados em sua
associação com o culto. A narrativa da malsucedida tentativa de trazer a arca para
Jerusalém (13.1-14) é seguida pelos sucessos de Davi nas esferas política, familiar (a
introdução de Salomão) e militar (14.1-17), como também pela mudança bem-sucedida
da arca para Jerusalém, onde um novo tabernáculo fora construído (15.1-3). Para o
cronista, esse evento tinha significado especial, visto que expressava a relação íntima
entre Davi, os levitas e o culto, bem como dava um retrato claro de que todo o Israel
aprovava a adoração a Yahweh sediada em Jerusalém (15.4-25). Davi aparece em sua
capacidade sacerdotal (15.26 – 16.3; cf. ―O argumento de 2 Samuel‖, pp. 293-294) e
também como o patrocinador e organizador do sistema cultual de Israel (16.4-6, 37-43).
As festividades, que incluíam sacrifícios (16.1,2), refeições comunitárias e presentes
reais (16.3), foram concluídas com louvor e exaltação a Yahweh (16.7-36).
O capítulo 17 contém o relato da aliança davídica, a manobra graciosa de Yahweh que
ecoou o desejo divinamente implantado em Davi de construir uma casa duradoura para
o Deus de Israel em Jerusalém (17.1,2). As promessas de Yahweh, transmitidas por
Natã, o profeta, incluíam a construção da casa de Davi (17.3-10), como também a
provisão de casa, trono e reino duradouros a um de seus descendentes (17.11-15). A
verbalização da promessa tornou possível a qualquer nova geração fornecer o Filho
esperado. A resposta de Davi em louvor é relatada em 17.16 e versículos subseqüentes.
Os próximos três capítulos descrevem os triunfos militares de Davi, aqui apresentados
como o transbordar natural da aliança e as condições necessárias para um período de
descanso, no qual a casa do Senhor poderia ser construída (cf. H. G. M. Williamson, 1 e
2 Chronicles [1 e 2 Crônicas], NCBC, p. 138). A incipiente organização do reino
(18.14-17) é rodeada por vitórias sobre a Filístia e Moabe (18.1,2), Arã (18.3-12) e
Edom (18.13), como também por triunfos sobre os exércitos unidos de Amom e Arã
(19.1 – 20.3) e sobre os gigantes filisteus (20.4-8).
O cronista escolheu, de todos os fracassos davídicos claramente relatados em Samuel,
incluir aquele diretamente relacionado à adoração em Israel, o senso militar que levou à
compra de uma porção de terra na qual o templo seria depois construído (21.1 – 22.1).
Yahweh, em resposta à húbris de Davi (21.1-8), propõe uma escolha entre três
punições, das quais Davi escolhe a peste (21.9-13). A destruição de Jerusalém é evitada
pela confissão e intercessão de Davi (21.14 – 22.1), em meio dos quais ocorreu uma
transação comercial, na qual um vassalo jebuseu vende sua propriedade a Davi (21.18-
27), onde um altar é construído e holocaustos são oferecidos. As discrepâncias
observadas entre 2 Samuel 24 e 1 Crônicas 21 são facilmente explicadas. Em relação à
ação de Davi, ela claramente teve sua origem nos propósitos eternos e soberana
permissão de Yahweh, sendo levada a cabo por Satanás por meio do orgulho pessoal de
Davi; em relação ao preço pago, a discrepância está no custo da eira (2 Sm) e no valor
de toda a propriedade (1 Cr). O relato termina com a decisão de Davi de edificar o
templo ali (22.1).
A próxima seção lida com os preparativos de Davi para o templo. Ele fornece
materiais (22.2-5), persuade seu filho a levar a obra adiante (22.6-16) e estimula os
nobres de Israel a assistir Salomão na tarefa (22.17-19).
Após os preparativos, segue-se a escolha de pessoal para o templo (23.2 – 26.32), com
uma lista iniciada pela menção de Salomão como herdeiro do trono (23.1),
demonstrando, assim, os laços íntimos que a monarquia e a adoração tinham para o
cronista em sua visão da história de Israel. Os levitas são listados de acordo com seus
clãs (23.3-6), gersonitas (23.7-11), coatitas (23.12-20) e meraritas (23.21-23), seus
deveres também são descritos (23.24-32).
A organização religiosa de Israel envolve, a seguir, a divisão dos descendentes de
Arão em 24 ordens de serviço no santuário (24.1-19), e os versículos restantes do
capítulo dão maiores detalhes da divisão dos levitas (24.20-31).
Davi prescreveu tanto o número quanto a divisão dos cantores (25.1-31) e a divisão
dos porteiros (26.1-19), estabeleceu oficiais financeiros para lidar com ofertas no local
do templo (26.20-28) e magistrados para julgar assuntos da vida civil e religiosa (26.29-
32), nas várias províncias de seu reino.
O capítulo 27 está mais preocupado com a organização militar do reino. Davi parece
ter estabelecido uma infantaria de 288 mil homens, em que talvez 24 mil estivessem
prontos para o serviço em um esquema de rodízio mensal. O capítulo dá o nome de cada
―general‖ (27.1-16), os líderes de cada tribo (27.16-22) e os problemas associados com
o censo (27.23, 24). O panorama da gestão de Davi termina com uma lista de oficiais
civis, tanto para as posições de ―secretário‖ (27.25-31) quanto as de ―gabinete‖ (27.32-
34).
Os últimos dois capítulos de 1 Crônicas descrevem a transição de Davi para Salomão.
Eles diferem do relato de 1 Reis não porque o cronista esteja tentando pintar Salomão
com cores mais favoráveis, mas porque a ênfase é diferente. Reis enfatizou, até mais do
que Samuel, os efeitos degenerativos do pecado. Crônicas retrata os efeitos
preservadores da graça. Estes, na verdade, coexistiram no intervalo entre 1 Reis 1 e 2,
que pode ter sido longo o suficiente para que uma transição ocorresse.
Davi, em 1 Crônicas 28.1-10, se dirige aos líderes de Israel; em 28.11-19, ele entrega
os planos do templo para Salomão, depois encarrega o filho (28.20,21) de levar adiante
a visão da construção do templo, pede contribuições de Israel para o projeto (29.1-9) e
oferece sua oração final de ação de graças (29.10-20). Salomão é publicamente
reconhecido como rei (29.21-25), e Davi morre em paz e honra (29.26-30).
A terceira parte da obra apresenta a história do rei Salomão (2 Cr 1.1 – 9.31). A
primeira seção explica a origem de sua sabedoria e riqueza – um compromisso com
Yahweh evidenciado em sua escolha por sabedoria (1.1-17).
A seção seguinte lida com os projetos de construção de Salomão, especialmente a
construção e dedicação do templo (2.1 – 7.22). O processo de construção ocupa os
capítulos 2 a 4, destacando os trabalhadores (2.1,2), a ajuda recebida de Hirão (2.3-17),
a própria construção (3.1 – 4.22). Os capítulos 5 a 7 descrevem a dedicação do templo,
com o transporte de tesouros e artigos religiosos ao templo (5.1-14), com ênfases óbvias
à arca (5.2-10) e às cerimônias de dedicação (6.1 – 7.22). Estas incluíram a bênção de
Salomão a Deus e ao povo (6.1-11), sua oração de consagração pela casa (6.12-42), o
sinal de aprovação de Yahweh por meio do fogo no altar e a nuvem no edifício (7.1-3),
a oferta de sacrifícios (7.4-7) e a celebração da Festa das Cabanas com a dedicação do
templo (7.8-11). Esse retrato jubiloso chega ao ápice com o aparecimento pessoal de
Yahweh para Salomão como confirmação da aliança davídica (7.12-22).
A seção final dessa terceira parte pinta um retrato idealista de Salomão como o
protótipo do rei messiânico, sem menção a suas falhas (8.1 – 9.31). O autor enfatiza as
habilidades administrativas de Salomão (8.1-16), sua crescente fortuna (8.17, 18) e sua
notória reputação de sabedoria e riqueza (9.1-28). A referência a outros relatos do
reinado de Salomão (9.29-31) claramente indica que o cronista não tinha intenção de
distorcer a História, mas de motivar sua geração recontando as glórias associadas à
obediência à Lei.
A última divisão da obra lida com o progressivo declínio da teocracia sob a linhagem
davídica, com seu cativeiro em Babilônia e a restauração nacional pela intervenção da
Pérsia (2 Cr 10.1 – 36.23). Ao longo dessa seção, o padrão é expor tanto a obediência
quanto a desobediência, com seus resultados previstos na aliança – bênção e punição.
Mesmo o piedoso Josias traz decadência para si mesmo ao deixar de dar ouvidos a Deus
(35.22), e mesmo o totalmente perverso Manassés encontra graça no arrependimento
(33.10-13).
Os capítulos 10 a 12 concentram-se em Roboão como o rei sob cujo reinado as tribos
do Norte se separam, começando dinastia e adoração rivais. A arrogância de Roboão
contra as reclamações de seu povo (10.1-11) impulsionou a ruptura da monarquia
(10.12-19). Um confronto militar (11.1-12) por pouco não virou guerra civil, evitada
apenas por uma ordem pessoal de Yahweh; isso permitiu que muitos no reino do Norte,
especialmente os levitas, migrassem para o sul e se assentassem em Judá (11.13-17).
Sucessos iniciais (11.18 – 12.1) são seguidos de apostasia, que trouxe uma invasão de
Sisaque (Sesonque I, do Egito) e o saque dos tesouros de Jerusalém (12.1-12). Roboão
foi seguido por seu filho Abias.
O relato do reinado de Abias é bastante positivo, visto que enfatiza sua vitória sobre
Jeroboão, que foi uma virtude à fidelidade de Judá a Yahweh (13.1–14.1). O relato de 1
Reis apresenta um retrato mais negativo.
Asa, o terceiro rei de Judá recebe uma avaliação mista do cronista (14.2–16.14).
Positivamente, ele removeu a idolatria (14.1-5), defendeu a nação (14.6-8) e confiou em
Yahweh para uma notável vitória sobre o general etíope Zerá (14.9-15). Sua fidelidade à
aliança feita com Yahweh (15.1-15) foi além de sua afeição filial (15.16, 17) e
enriqueceu a vida religiosa de Judá (15.18, 19). Sua guerra de fronteira com Baasa, de
Israel (16.1-6), porém, fez com que sua confiança em Yahweh vacilasse, pelo que ele
foi repreendido (16.7-9) e contra o que se rebelou (16.10,11). Sua quebra de lealdade foi
punida com doença, e ele morreu em estado de apostasia (16.12-14).
Quatro capítulos são dedicados ao reinado de Jeosafá, um rei que agiu prudentemente
e mostrou temor a Yahweh e respeito pela Lei (17.1-19). Seu relato negativo está
relacionado a uma aliança profana com o idólatra Acabe, de Israel (18.1-3), a qual foi
condenada por Yahweh (18.4-22), que ameaçou sua vida (18.28-34), e pela qual Jeosafá
é repreendido por Jeú, o vidente (19.1-4). Esse problema de alianças profanas apareceria
novamente em 20.35-37, dessa vez no campo comercial. Jeosafá, excetuando isso, é
apresentado como rei modelo, ao dar atenção à instrução de seu povo na Torá (19.5-11)
e em sua confiança em Yahweh em uma situação de crise, quando Judá foi invadido por
tropas vizinhas (20.1-34).
O retrato real seguinte é sombrio, não só em virtude de um primeiro caso de
fratricídio, mas também devido ao matrimônio profano entre um herdeiro davídico e
uma princesa da casa de Onri (21.1-7). O juízo veio na forma de perda territorial (21.8-
11), repreensão profética, doença e morte divinamente induzida, assim como
sepultamento sem honras reais (21.12-20).
O curto reinado de Acazias foi marcado por corrupção espiritual e perigo político de
assimilação pelo reino do Norte devido à grande influência da dinastia de Onri, cuja
presença, sem dúvida, era promovida pela ímpia Atalia (22.1-4). A aliança profana de
Acazias com Jorão, de Israel, finalmente o envolveu na matança conduzida por Jeú
(22.5-9).
Nesse ponto, a própria sobrevivência da linhagem davídica estava por um tênue fio
quando Atalia tentou um golpe de Estado para assumir o trono de Judá (22.10). Essa
conspiração maléfica foi frustrada com a preservação de Joás, um príncipe real, pelo
sumo sacerdote Jeoiada e sua esposa (22.11, 12). Um contra golpe de Estado bem-
sucedido, liderado por Jeoiada, devolveu um herdeiro davídico ao trono (23.1-15). A
verdadeira adoração é restaurada (23.16-21) e um reinado que honrava a Deus se segue
durante a tutela de Jeoiada sobre Joás (24.1-14). A morte de Jeoiada é um momento
decisivo para Joás, cujo reinado ruiu em virtude de sua idolatria e ingratidão (24.17-26).
Joás oferece um contraste gritante com Jeosafá, que praticou e pregou obediência aos
profetas (20.20).
Joás é seguido por Amazias, cujo reinado começa no caminho certo e é recompensado
com triunfo militar (25.1-13). Sua apostasia com deuses edomitas (25.14-16) levou-o ao
orgulho auto-suficiente e à derrota diante de Joás, de Israel (25.17-24). Amazias foi
morto em um golpe no palácio em Laquis (25.25-28).
O reinado de Uzias retrata a constante tensão enfrentada pelos reis de Judá: ser
submisso à instrução divina por intermédio dos profetas e sacerdotes ou buscar a própria
independência. Uzias, que começou bem, religiosa e militarmente, sob a instrução de
Zacarias (26.1-15), mas passou de seus limites e foi atacado de lepra (26.16-21),
morrendo como um exilado (26.22, 23).
Jotão, que já agira como vice-regente sob Uzias, subiu ao trono e foi abençoado com
conquistas e prosperidade graças a sua fidelidade ao Senhor (27.1-9).
Acaz foi notório por sua grande idolatria (28.1-4). Tal apostasia foi severamente
punida por Deus com repetidas invasões por uma coalizão siro-israelita (28.5-15), pelos
edomitas e pelos filisteus (28.20, 21). Sua crescente aflição apenas aumentou a idolatria
e a apostasia, a ponto de banir o culto a Yahweh no templo (28.25). Para o cronista,
Acaz tornou-se o cúmulo do mal, o único rei para o qual nenhum fator justificador é
apresentado. Como Jorão, ele não é considerado digno de sepultamento real.
Em contraste, seu filho Ezequias foi um rei notável em todos os aspectos (29.1–
32.33). Ele se esforçou muito para restaurar o templo e o culto a Yahweh (29.1-36). Ele
celebrou a Páscoa não só para os fiéis em Judá, mas buscou incluir israelitas do Norte
que haviam sobrevivido à conquista assíria (30.1-20) e encorajou o povo a celebrar e se
regozijar no Senhor (30.21-27). Seguiu-se um reavivamento que levou à remoção de
centros idólatras tanto em Judá quanto no restante do reino do Norte (31.1).
Ezequias também encorajou o apoio ao culto de Yahweh (31.1-10) e organizou um
sistema para o uso apropriado dos fundos (31.11-19). O cronista não podia deixar de
notar a relação de causa e efeito entre sua fidelidade a Yahweh e a prosperidade
experimentada (31.20, 21).
Entretanto, a fidelidade raramente deixa de ser provada. A ascendência da Assíria
trouxe o perigo da conquista, mas Ezequias reagiu com sabedoria, preparando-se para o
cerco tanto material quanto espiritualmente (32.1-20). As hordas militares da Assíria
foram enfrentadas pelos guerreiros que oravam a Yahweh (32.20) e uma poderosa obra
de livramento foi operada em favor de Judá (32.21-23). A bênção adicional de
recuperação física de uma morte certa (32.24), porém, fez surgir o orgulho espiritual e
perda de comunhão com Yahweh (32.25, 26). Seu reinado é apresentado como um
tempo de bênção em todas as áreas e seu sepultamento oferece um forte contraste ao de
seu pai (32.27-33).
Manassés, que partilhara o trono com seu pai por vários anos, agiu para desfazer muito
do bem realizado por Ezequias. Ele reintroduziu e encorajou a idolatria (33.1-10), e isso
foi apresentado pelo cronista como a causa real de sua captura e aprisionamento pelo rei
assírio (possivelmente Assurbanipal, 33.11). Seu arrependimento ocasionou seu
livramento e retorno a Jerusalém (33.12, 13), onde ele buscou desfazer toda sua obra
idólatra passada (33.12-20) Manassés fornece um forte exemplo para a comunidade pós-
exílica, especialmente à luz da avaliação negativa que ele recebe em Reis.
Infelizmente para Judá, as raízes do mal já estavam firmadas e floresceram de novo
durante o reinado de Amom. Este, idólatra como seu pai, mas diferente dele, endurecido
além da possibilidade de arrependimento, reinou por apenas dois anos antes de cair sob
um golpe palaciano (33.21-25).
O último rei bom de Judá foi Josias, outro yahwista compromissado e reformista
ardente. Ele, cedo em sua juventude, promoveu reformas (34.1-7), inclusive a reforma
do templo, onde o livro da lei foi encontrado (34.8-28). Sua reação à Palavra do Senhor
foi um apelo nacional para renovar a aliança (34.29-33), que culminou com celebrações
incomuns da Páscoa e festa dos pães ázimos (35.1-19). Mesmo o piedoso Josias, porém,
não era irrepreensível. Josias, incumbindo-se de retificar a política internacional, foi ao
encontro da morte em um confronto militar com Neco II, do Egito, em Megido (35.20-
26).
Os últimos reis de Judá merecem apenas uma nota passageira do cronista, pelo fato de
que o destino da nação já fora selado. Jeoacaz reina apenas 3 meses e é deposto por
Neco (36.1-3). Jeoiaquim, seu irmão, foi capturado por Nabucodonozor (depois
devolvido a Jerusalém onde morreu pouco antes da segunda invasão dos caldeus). Seu
reinado foi considerado ―abominável‖ (36.5-8).
Ele foi seguido por seu filho Joaquim, cujo breve e perverso reinado foi reduzido por
outra invasão babilônia (597 a.C.). Ele foi levado ao exílio e permaneceu na Babilônia
até sua morte (36.9, 10).
O último rei de Judá foi Zedequias, filho de Josias, que seguiu os passos tortuosos de
seus predecessores e liderou a apostasia religiosa dos últimos anos do reino (36.11-14).
Isso resultou, finalmente, na captura e destruição de Jerusalém, com a aparente remoção
da teocracia (36.15-22).
O livro, contudo, termina com um epílogo de esperança e de continuidade, quando
Ciro, o conquistador da Babilônia, proclama um edito autorizando que o templo, o
maior símbolo da presença e do reinado de Yahweh sobre Israel, seja reconstruído
(36.22, 23). As bênçãos e punições de gerações passadas fornecem, portanto, motivação
para a comunidade pós-exílica andar nos caminhos de Yahweh e esperar pelo
cumprimento das gloriosas promessas da aliança davídica.
ESBOÇO SINTÉTICO
Mensagem
As bênçãos partilhadas pela linhagem davídica como recipientes da promessa
ainda estão disponíveis para o remanescente restaurado, se eles esperarem pelo
total cumprimento da aliança davídica em fiel obediência.
I. Genealogias resumem o plano de Deus para Israel, da história primitiva até a inauguração
da linhagem davídica (1 Cr 1.1–9.44).
A. A genealogia primitiva, por meio de Abraão, estabelece o elo entre a semente da revelação e
Israel (1.1-27).
B. A genealogia patriarcal fornece a distinção entre as linhagens teocrática e não-teocrática de
Abraão (1.28–2.2).
1. As linhagens básicas de descendência abraâmica são apresentadas (1.28).
2. A linhagem não-teocrática por meio de Agar é apresentada (1.29-31).
3. A linhagem não-teocrática por meio de Quetura é apresentada (1.32,33).
4. A linhagem teocrática por meio de Sara é apresentada (1.34).
5. As linhagens básicas de descendência por meio de Isaque são apresentadas (1.34).
6. A linhagem não-teocrática por meio de Esaú é apresentada (1.35-54).
7. A linhagem teocrática por meio de Jacó é apresentada (2.1,2).
C. Genealogias tribais estabelecem a importância de Judá, Levi e Benjamim para o
desenvolvimento da teocracia (2.3–9.1).
1. A geração de Judá (2.3-55).
2. A linhagem de Davi (3.1-24).
3. Outros clãs importantes em Judá (4.1-23).
4. A genealogia de Simeão (4.24-43).
5. A genealogia de Rúben (5.1-10).
6. A genealogia de Gade (5.11-22).
7. A genealogia de Manassés, na Transjordânia (5.23-26).
8. A genealogia de Levi (6.1-81).
• As famílias de Gérson, Coate e Merári (6.1-30).
• Levitas e suas designações davídicas (6.31-48).
• As gerações de Arão (6.49-53).
• Os assentamentos levíticos em Israel (6.54-81).
9. A genealogia de Issacar (7.1-5).
10. Uma genealogia parcial de Benjamim (7.6-12).
11. A família de Naftali (7.13).
12. A genealogia de Manassés ocidental (7.14-19).
13. A genealogia de Efraim (7.20-29).
14. A genealogia de Aser (7.30-40).
D. Uma segunda genealogia parcial de Benjamim traz a história tribal até Saul e o início da
monarquia teocrática (8.1–9.1).
E. Uma lista contemporânea de recenseamento determina a origem dos atuais herdeiros das
promessas e responsabilidades da teocracia (9.1b-34).
II. A história do reinado de Davi esboça o padrão de bênção e disciplina para a linhagem no
contexto de seu relacionamento com o templo e o culto a Yahweh (1 Cr 10.1–29.30).
A. O fracasso de Saul em introduzir a teocracia monárquica deveu-se a sua incapacidade de
obedecer a Deus (10.1-14).
B. Davi passa de chefe regional a poderoso monarca quando Deus lhe dá sucesso em todos os
seus empreendimentos iniciais (11.1–12.40).
1. Davi é aclamado rei em Hebrom (11.1-3).
2. Davi captura a cidade real de Jebus (11.4-9).
3. Homens valentes se unem a Davi e o ajudam em suas conquistas (11.10–12.40).
C. O sucesso de Davi como rei é ligado a sua atitude apropriada em relação ao culto a Yahweh
(13.1–22.1).
1. A primeira tentativa de Davi para trazer a arca para Jerusalém fracassa em virtude da falta de
conformidade à Lei (13.1-14).
2. Davi tem sucesso em todos os aspectos de seu reinado (14.1-17).
• Ele é internacionalmente reconhecido (14.1,2).
• Ele constrói uma dinastia ao seu redor (14.3-7).
• Ele obtém vitórias militares (14.8-17).
3. A arca é finalmente trazida a Jerusalém e temporariamente alojada em um lugar digno (15.1–
16.43)
4. O desejo de Davi de honrar a Deus encontra um veículo divino no estabelecimento de uma
aliança de bênção para ele e sua casa (17.1-27).
• O homem propõe, Deus dispõe (17.1-10).
• A aliança de graça de Deus excede em muito as expectativas e os planos humanos (17.11-15).
• A resposta de Davi é louvor a Yahweh (17.16-27).
5. As conquistas militares de Davi garantem a segurança da teocracia monárquica (18.1–20.8)
• Vitória sobre a Filístia e Moabe (18.1, 2).
• Vitória sobre Arã (18.3-8).
• Consagração dos espólios a Yahweh (18.9-12).
• Vitória sobre Edom (18.13).
• Davi estabelece uma administração incipiente sobre o reino (18.14-17).
• Vitória sobre Amom e Arã (19.1–20.3).
• Vitória sobre os gigantes filisteus (20.4-8).
6. O orgulho de Davi, ao recensear o povo de Israel, traz punição, mas também bênção final
(21.1–22.1).
• Davi cai em tentação e pede um recenseamento militar (21.1-8).
• Confrontado com a escolha de punições, Davi escolhe a peste (21.9-13).
• A peste em Jerusalém é evitada pela confissão e intercessão de Davi no lugar comprado para o
local de expiação (21.14–22.1).
D. A provisão generosa de recursos de Davi garante a construção e operação do templo por seu
sucessor (22.1–27.34).
1. Davi fornece materiais para o templo (22.2-5).
2. Davi persuade seu filho a aceitar a tarefa de construir o templo (22.6-16).
3. Davi estimula os líderes a auxiliar Salomão na tarefa (22.17-19).
4. Davi organiza o pessoal para culto e manutenção do templo (23.1–26.32).
• Os levitas responsáveis pelo templo são registrados e organizados (23.1-32).
• Os sacerdotes são registrados e divididos em ordens (24.1-19).
• Outros levitas são registrados (24.20-31).
• Os músicos são registrados e divididos em ordens (25.1-31).
• Os porteiros são registrados e divididos em ordens (26.1-19).
• Os levitas encarregados dos depósitos do templo são designados (26.20-32)
5. Davi organiza a infantaria e a administração civil, fornecendo assim um fator estabilizador para
o reino (27.1-34).
E. Os últimos atos de Davi visam preparar Salomão e a nação para a gigantesca obra de
construir o templo (28.1–29.30).
1. Davi admoesta os líderes da nação à luz da graça e promessa de Deus (28.1-8).
2. Davi entrega os planos para o templo a Salomão (28.11-19).
3. Davi apela ao povo para doar generosamente para o projeto (29.1-9).
4. Davi oferece ações de graças e intercessão (29.10-20)
5. Davi abençoa Salomão e prepara sua coroação (29.21-25)
6. A morte honrosa de Davi é descrita dentro de um comentário sobre a natureza de seu reinado
(29.26-30).
III. A história do reinado de Salomão enfatiza a realidade das bênçãos partilhadas sob a
aliança davídica (2 Cr 1.1–9.31).
A. O compromisso de Salomão com Deus lhe garante riqueza e sabedoria para governar Israel
(1.1-17).
B. Salomão cumpre fielmente a responsabilidade de construir o templo (2.1–7.22).
1. Salomão leva a cabo a construção do templo (2.1–4.22).
• A mão-de-obra é obtida por meio de alistamento (2.1, 2).
• Os peritos são fornecidos por Hirão de Tiro (2.3-17).
• A construção é efetuada de acordo com o plano minuciosamente detalhado de Davi (3.1–4.22).
2. Salomão dedica o templo a Yahweh, diante do povo (5.1–7.22).
• O templo é adornado com os tesouros acumulados por Davi (5.1).
• O templo é aprovado por Yahweh por meio da demonstração de Sua glória sobre a arca
recentemente transportada (5.2-14).
• A dedicação envolveu bênção, orações, sacrifícios e celebração nacional (6.1–7.11).
• A dedicação recebe a resposta divina da confirmação da aliança (7.12-22)
C. As atividades de Salomão como rei garantem bênção e prosperidade a Israel (8.1–9.31).
1. As habilidades administrativas de Salomão são celebradas (8.1-16).
2. A grande riqueza de Salomão é reconhecida (8.17,18).
3. A reputação de Salomão é merecida, mas insuficiente para sua grandeza (9.1-28).
4. Nota bibliográfica no reinado de Salomão (9.29-31).
IV. A história do reino de Judá traça seu humilhante declínio de potência mundial a nação
escravizada, em que Deus restaura a esperança pactual em misericórdia e fidelidade à
aliança (2 Cr 10.1–36.23).
A. O reinado de Roboão (10.1–12.16)
1. É dividido em razão da arrogância dele (10.1-19).
2. É preservado de uma guerra fratricida (11.1-5).
3. É fortalecido militar e politicamente (11.6-23)
4. É punido por sua infidelidade (12.1-16).
B. O reinado de Abias (13.1–14.1)
1. É ameaçado por Jeroboão (13.1-4).
2. É vindicado na palavra e na batalha (13.5-20).
3. Foi registrado por Ido, o profeta (13.21–14.1).
C. O reinado de Asa (14.2–16.14)
1. Começa com singela dedicação a Yahweh e confiança Nele, que levam Asa a grandes triunfos
(14.2-15).
2. É abençoado com harmonia, paz e prosperidade (15.1-19).
3. É enfraquecido pela falta de total confiança em Deus, o que leva a alianças profanas (16.1-12).
4. Termina em total apostasia (16.13, 14).
D. O reinado de Jeosafá (17.1–21.1)
1. Torna-se grande por meio da fidelidade (17.1-19).
2. É ameaçado por uma aliança profana (18.1-34).
3. Recupera sua bênção por meio do arrependimento e da obediência (19.1-11).
4. É fortalecido na crise por meio da fé (20.1-34).
5. É avaliado à luz de sua obstinação em buscar alianças profanas (20.35–21.1).
E. O reinado de Jorão (21.2-20)
1. Começa mal com ganância e assassinato (21.2-7).
2. É enfraquecido por rebelião entre os Estados vassalos (21.8-11).
3. É abreviado por meio de doença, segundo a palavra profética (21.12-20).
F. O reinado de Acazias (22.1-9)
1. É marcado por apostasia religiosa e alianças políticas profanas (22.1-4).
2. É abreviado pela intervenção de Jeú (22.5-9).
G. Atalia tenta usurpar o reino de Judá (22.10-12)
H. O reinado de Joás (23.1–24.27)
1. Começa depois de um golpe liderado por Jeoiada (23.1-21).
2. Agrada a Deus durante o tempo de regência de Jeoiada (24.1-14).
3. Cai em idolatria e suas conseqüências depois da morte de Jeoiada (24.17-24).
4. Termina com um golpe (24.25-27).
I. O reinado de Amazias (25.1-28)
1. Começa na direção certa, mas com motivação fraca para servir ao Senhor (25.1-10).
2. É recompensado com triunfo militar (25.11-13).
3. Torna-se presa de idolatria insidiosa (25.14-16).
4. É arruinado por uma guerra desastrosa contra Israel (25.17-24).
5. Termina com um golpe (25.25-28).
J. O reinado de Uzias (26.1-23)
1. Prosperou sob a direção de Zacarias (26.1-15).
2. Sofre uma queda porque Uzias abusou das prerrogativas reais (26.16-21).
3. Foi abreviado devido à lepra induzida pelo pecado (25.21-23).
K. O reinado de Jotão (27.1-9)
1. Prosperou em virtude de sua fidelidade a Yahweh (27.1-4).
2. Expandiu-se militarmente em razão de sua firme obediência a Yahweh (27.5, 6).
3. Bibliografia sobre Jotão (27.7-9).
L. O reinado de Acaz (28.1-27)
1. É cercado por invasões inimigas por todos os lados, devido a sua idolatria intransigente (28.1-
21).
2. Provoca a suspensão do culto a Yahweh devido à crescente idolatria do rei (28.22-25).
3. Traz para ele um sepultamento desonroso longe dos sepulcros reais (28.26, 27).
M. O reino de Ezequias (29.1–32.33)
1. Promove reavivamento e reforma religiosa devido a seu compromisso com Yahweh (29.1-36).
2. É caracterizado por uma tentativa de chamar o povo de volta a Yahweh por meio da celebração
da mais solene Páscoa como celebração da renovação da aliança (30.1-27).
3. Promoveu a erradicação da idolatria (31.1).
4. Organizou a administração dos recursos do templo (31.1-19).
5. Prosperou por conta da fidelidade dele (31.20, 21).
6. Obteve improvável vitória contra a Assíria por meio da visão, da fé e da engenhosidade de
Ezequias (32.1-23).
7. Foi ameaçado pela concessão de Ezequias ao orgulho e à aliança com a Babilônia (32.24-33).
N. O reinado de Manassés (33.1-20)
1. Foi marcado por profunda idolatria em todos os aspectos (33.1-10).
2. Foi interrompido pelo cativeiro na Babilônia, sob um rei assírio [provavelmente Assurbanipal]
(33.11).
3. É restaurado por conta de arrependimento e confissão (33.12,13).
4. Experimenta uma retirada de centros idólatras (33.12-20).
O. O reinado de Amom (33.21-25)
1. Foi breve e perverso (33.21-23).
2. Terminou com um sangrento golpe de Estado (33.24,25).
P. O reinado de Josias (34.1–35.27)
1. Foi caracterizado, no início, por reformas (34.1-7).
2. Foi marcado pela influência do livro da lei recém-encontrado (34.8-28).
3. Trouxe renovação da aliança (34.29-33).
4. Incluiu, em todo Israel, a celebração da Páscoa (35.1-19).
5. Foi abreviado em Megido em virtude do envolvimento orgulhoso e desnecessário na política da
guerra contemporânea (35.20-27).
Q. O reinado de Jeoacaz (36.1-4)
1. Foi escolhido pela nobreza da terra (36.1, 2).
2. Foi deposto por Neco depois de 3 meses (36.3, 4).
R. O reinado de Jeoiaquim (36.5-8)
1. Foi estabelecido por Neco (36.5).
2. Foi marcado por perversão moral (36.5b, 8).
3. Foi interrompido pelo cativeiro na Babilônia (36.6,7).
S. O reinado de Joaquim (36.9, 10)
1. Foi marcado por perversão moral (36.9).
2. Terminou em deportação para a Babilônia (36.10).
T. O reinado de Zedequias (36.11-14)
1. Foi marcado por perversão moral impenitente (36.1-12).
2. Foi marcado por intriga política (36.13).
3. Foi marcado por grande perversão religiosa (36.14).
U. A destruição de Jerusalém (35.15-21)
1. O povo foi responsável por seu destino devido a sua insensibilidade espiritual às exigências
divinas de arrependimento (36.15,16).
2. Os babilônios foram o instrumento divino para o desmantelamento da teocracia monárquica
(36.17-20).
3. Violações da aliança em relação ao descanso sabático determinaram a duração do cativeiro
babilônio (36.21).
V. O decreto de Ciro permitindo a reconstrução do templo fornece a continuidade necessária
para a renovação da teocracia, tanto com sua esperança de bênçãos messiânicas quanto
com lições passadas de disciplina na aliança (36.22,23).

O argumento de
ESDRAS
Questões introdutórias
TÍTULO
O livro recebe seu título de um de seus principais personagens, o sacerdote e escriba
judeu Esdras, nome provavelmente derivado da palavra hebraica ‫( ֵעז ֶר‬ʿēzer), que
significa auxílio.
Os massoretas trataram Esdras e Neemias como um único livro, com estatísticas de
versículos dadas apenas no final de Neemias. Versões antigas tinham diferentes nomes
para esses dois livros, perpetuando um enigma que as obras extra canônicas
identificadas com Esdras ajudaram a agravar. A tabela a seguir sintetiza o problema:

Versão Esdras Neemias e.c. 1 e.c. 2

e.c. 1 E.C. 1 é uma obra composta contendo 2 Crônicas 35 e 36, Esdras inteiro e Neemias
8.1-12, mais material extra canônico.

e.c. 2 E.C. 2 é uma obra apocalíptica escrita em grego, mas existente apenas em uma
tradução em latim.
MT Esdras Neemias
LXX Esdras B Esdras A
Vulgata 1 Esdras 2 Esdras 3 Esdras 4 Esdras
KJV Esdras Neemias 1 Esdras 2 Esdras *
DATA E AUTORIA
Embora a autoria do livro não seja disputada, devido ao uso da primeira pessoa em
partes da narrativa (7.27–9.15), seu conteúdo indica uma variedade de fontes que Esdras
compilou e editou. Mesmo a narrativa em terceira pessoa pode apontar para o sacerdote-
escriba, visto que o fenômeno é comum no Antigo Testamento.
As principais fontes do livro foram memórias pessoais de Esdras (7.27–9.15),
documentos oficiais, como o edito de restauração de Ciro, dado em aramaico, em 6.3-5
(com uma versão em hebraico em 1.2-4), a carta de Artaxerxes a Esdras (7.12-26), a
correspondência entre Tatenai e Dario (5.7-17; 6.6-12), e a carta de Reum e Sinsai a
Artaxerxes I (4.8-22). Pressupondo a contemporaneidade de Esdras e Neemias e a
posição proeminente do último na corte persa, o acesso a tais documentos não seria um
problema.
Além destes, há uma gama de listas: os exilados que retornaram com Zorobabel (2.1-
70; também encontrada em Neemias 7.7-72), chefes de família que retornaram com
Esdras (8.1-14), homens que haviam se casado com mulheres estrangeiras (10.18-44), e
artefatos religiosos que Ciro devolveu a Sesbazar (1.9-11). Essas listas devem ter sido
guardadas nos arquivos do Templo, ou talvez tenham sido preservados pelo governador,
visto que muito da vida judaica era regulada pelos persas (cf. Ne 11.23; 12.22).
A data de Esdras é motivo de debate com muitos estudiosos rejeitando a cronologia
bíblica tradicional, alguns propõem a chegada de Esdras mais tarde, no ano 398 a.C., no
sétimo ano do rei Artaxerxes II.1 Outros mantêm os acontecimentos no reinado de
Artaxerxes I, pedindo por uma emenda textual em Esdras 7.7, 8 para que diga
trigésimo-sétimo ao invés de sétimo, assim situando a chegada de Esdras a Jerusalém
em 428 a.C.2
A principal razão para rejeitar o ponto de vista tradicional relatado no texto bíblico é a
aparente contradição entre a imagem de Esdras como um reformador bem-sucedido e a
presença dos mesmos problemas no tempo de Neemias. As reações violentas de
Neemias aos problemas de divórcio e do Sábado (capítulo 13) seriam supostamente
injustificáveis se Esdras tivesse, 26 anos antes, firmemente resolvido o problema por
meio de uma aliança (Ed 10.3) (sendo os anos 458 para as reformas de Esdras e 432
para as de Neemias).
Ainda assim, tais obstáculos são em sua maioria artificiais. A natureza cíclica da
lealdade espiritual de Israel é um fato bem estabelecido no Antigo Testamento e
meramente manifestou-se novamente depois do exílio. Contudo, as reações de Neemias
eram justificadas à luz da aliança renovada durante sua gestão (cf. Ne 10.30-39).
Outros argumentos incluem: (a) suposta existência dos muros no tempo de Esdras, à
luz de 9.9 (... nosso Deus [...] para nos dar um abrigo em Judá e em Jerusalém.). Isso,
porém, mal chega a ser uma objeção, visto que a menção ao muro em Judá claramente
indica que Esdras usava linguagem figurada. Além do mais, a palavra usada por Esdras

* *Versões em inglês, às vezes, se referem a isso como 4 Esdras.


1
Otto Eissfeldt, The Old Testament: An Introduction, p. 554.
2
John Bright, Uma História de Israel, p. 545
não é a palavra normal para ―muro‖ usada em Neemias; (b) Esdras era um
contemporâneo de Joanã, filho de Eliasibe, que era o sumo sacerdote no tempo de
Neemias (cf. Ne 12.10,11, 22). Contudo, o Eliasibe mencionado em Esdras 10.6 não é
chamado de sacerdote, e a relação entre os dois é diferente, filho em Esdras e neto em
Neemias.
CONTEXTO HISTÓRICO
Esdras contém a continuação de Reis (e Crônicas), à luz da promessa de restauração
anunciada pelos profetas (cf. especialmente Jeremias 25.11,12, onde 70 anos de
cativeiro são mencionados). A captura de Babilônia por um monarca iluminado e
magnânimo desencadeou a série de eventos que culminaria com a consagração do
segundo templo, 70 anos e alguns dias depois da destruição de Jerusalém por
Nabucodonozor. A tabela a seguir resume o período pós-exílico no que diz respeito às
Sagradas Escrituras.

Panorama histórico do período pós-exílico


Data [Evento] Texto
Ciro conquista a Babilônia. Seu reinado oficialmente começa em Dn
539
Nisã, em 538. 5.30,31
Ciro faz um decreto para os judeus retornarem e reconstruírem o
538 templo (cf. a profecia de Jeremias; 25.11-12; 29.10. Veja também Ed 1.1-4
Ed 6.3-5).
49.897 judeus voltam a Judá sob o domínio de Sesbazar e
Ed 2;
537 Zorobabel. O altar é reconstruído. A festa dos tabernáculos é
3.1-6
celebrada.
Ed 3.8-
536 São lançados os alicerces do Templo. A oposição paralisa a obra.
12
536- A obra do templo é negligenciada. Atrasos econômicos; secas
Ag 1−2
520 em Judá.
530- Morre Ciro (530). Cambises, em 525, sobe ao trono e conquista
522 o Egito. Cambises morre na Palestina, em 522.
Dario I toma o poder depois de derrotar pseudo-Esmerdis. De
522
522 até o começo de 520, ele esmaga rebeliões no império.
Ag 1−2
Ageu exorta o povo a arrepender-se e continuar a obra do
520 Ed 5.1–
Templo. Oficiais persas assediam os judeus.
17
Zacarias encoraja o povo a reconstruir o Templo. Suas profecias
519 Zc 1−8
messiânicas acendem as esperanças dos judeus.
Dario faz um decreto legalizando a construção e liberando Ed 6.1-
518
fundos persas de impostos provinciais para reconstruir o Templo. 12
O templo é concluído, pouco mais de 70 anos depois de sua
515 Ed 6.15
destruição pelos babilônios.
Ed 6.19-
515 Os judeus celebram a Páscoa e pães ázimos, em Jerusalém.
22
490 Dario ataca a Grécia. Os persas são derrotados em Maratona.
Xerxes (Assuero) sobe ao poder. Ele planeja uma vingança
486 Et 2.16
contra a coalizão grega que derrotou seu pai.
483 Xerxes dá uma festa de 6 meses para seus oficiais. Heródoto Et 1
indica que isso é preparação para a invasão da Grécia. A rainha
Vasti é deposta.
O exército de um milhão de homens de Xerxes é rechaçado
480 pelos gregos, em Platéia. Sua força naval é aniquilada na baía de
Salamis.
Ester é escolhida, para substituir Vasti, como a principal rainha
479 Et 2.16
da Pérsia.
Et 2.21-
478 Mardoqueu descobre uma conspiração para assassinar Xerxes.
23
Hamã planeja a destruição de todos os judeus no Império Persa.
Et 3.7
Na véspera da Páscoa, Xerxes assina o decreto permitindo o
474 Et
genocídio contra os judeus. A data marcada é 13 de Adar (fev. –
3.12,13
mar. 473).
Et 7.1-
Ester expõe o genocídio de Hamã e Xerxes ordena sua execução.
10
474 Um novo edito feito dá aos judeus o direito de defender a si
Et 8.1-
mesmos e suas propriedades.
17
Et 9.1-
Os judeus se defendem e derrotam seus agressores. O edito é
473 19 Et
estendido por mais um dia, em Susã. A festa de Purim é instituída.
9.20-32
464 Artaxerxes I (Longimanus) segue Xerxes ao trono.
Sob o decreto de Artaxerxes, Esdras lidera um grupo de cerca de
458 Ed 8.31
1.700 homens de volta para Jerusalém.
Ed 7.8-9
458
Esdras e o grupo chegam a Jerusalém com presentes dos judeus Ed 8.31-
(jul-
babilônios para o templo. Casamentos mistos são dissolvidos. 36
ago)
Ed 9–10
A tentativa dos judeus para reconstruir os muros é frustrada por
Ed 4.7-
c. 450 vizinhos e pelo decreto de Artaxerxes. Estragos feitos por
23
samaritanos são possíveis.
Agitação na satrapia Trans-Eufrates sob a liderança do general
449
persa Megabizus.
446 Neemias recebe, em Susã, notícias da situação deplorável de
Ne 1.1-
(nov.- Jerusalém. Ele jejuou, lamentou e orou, confessando pecado e
11
dez.) clamando as misericórdias da aliança de Deus para com Israel.
446 Neemias pede permissão para ir à Judéia para reconstruir os
(mar.- muros de Jerusalém. Artaxerxes lhe concede dispensa e o título de Ne 2.1-8
abr.) governador de província.
445 Neemias viaja para Jerusalém, determina o que precisa ser feito Ne 2.9-
(primave
ra)
e começa a reconstruir os muros da cidade. 18
445
Os muros de Jerusalém são terminados depois de 52 dias de
ago.- Ne 6.15
trabalho.
set.
A primeira gestão de Neemias, como governador. Neemias, além
445-
de reconstruir o muro, institui reformas sociais e religiosas. Ne 8−12
432
Jerusalém é repovoada e seus muros são consagrados.
Neemias retorna a Susã, onde permanece por período
432 desconhecido. Hanâni, seu irmão, pode ter servido como Ne 13.6
governador durante sua ausência.
Malaquias profetiza contra a negligência religiosa e declínio
Malaqui
c. 430 moral, avisando sobre o juízo e chamando Israel ao
as
arrependimento.
Neemias, em seu retorno de Susã, efetua várias reformas
religiosas e sociais. Sua segunda gestão termina algum tempo Ne 13.4-
430
antes de 409-408, quando certo Bigvai é registrado como 29
governador de Judá.
PANORAMA HISTÓRICO DO PERÍODO PÓS-EXÍLICO

Como a tabela acima indica, a situação em Judá permanecera instável por várias
razões. Não só eram os judeus incapazes (ou não estavam dispostos a) promover uma
total restauração, que exigia pureza espiritual e compromisso com Deus evidenciados
pela construção do templo, mas também as nações vizinhas os pressionavam a manter
seu estado de negligência pactual.
Além disso, na metade do século 5, o desassossego político cobriu a região com a
revolta do general Megabizus. O retorno de Esdras foi politicamente útil para
Artaxerxes, pois ajudaria a aliviar algumas das tensões na região. O capítulo 7 indica
que Esdras apresentara um pedido formal ao rei, cuja resposta é a carta encontrada em
7.11-26. Mais uma vez, como era muitas vezes o caso, a mão de Deus se movia na luva
da História para cumprir o Seu soberano propósito.
OBJEÇÕES CRÍTICAS À HISTORICIDADE DE ESDRAS
Dúvidas são levantadas sobre a identidade de Sesbazar, que aparece para liderar o
retorno no capítulo 1, apenas para desaparecer a partir do capítulo 2. Alguns estudiosos
identificaram Sesbazar com Zorobabel, visto que ambos agem como um governador (cf.
5.16; Ag 1.14) e diz-se que ambos lançaram os alicerces do templo (cf. 5.16 e 3.10).
Mesmo assim, visto que Sesbazar é identificado, em 1 Crônicas 3.18, como o filho de
Jeoiaquim (supondo que este e Senazar sejam a mesma pessoa), e Zorobabel é
mencionado no versículo 19 como o neto de Jeoiaquim por intermédio de Sealtiel.
Zorobabel deve ter sido sobrinho de Sesbazar, e provavelmente o próximo na fila da
linhagem davídica. Zorobabel nunca é chamado de ―o príncipe de Judá‖ como era o
caso com Sesbazar, o que dá maior apoio ao ponto de vista de que eles são dois líderes
distintos do Judá pós-exílico.
O título de Ciro, em Esdras 1.1, é indicado como anacronismo. Não obstante isso,
nada menos do que ―dezoito autores diferentes em dezenove documentos diferentes …
com referência a seis monarcas persas‖ (Archer, Merece Confiança o Antigo
Testamento?, p. 471) usam o título rei da Pérsia. Semelhantemente, o título rei da
Assíria (6.22) é apresentado como evidência da imprecisão histórica do autor. A razão
para esse título surpreendente, quase cem anos depois da queda do Império Assírio, jaz
nas conotações emocionais e espirituais que ele traz à cerimônia que, de certo modo,
marcou o fim do exílio de Israel.
O argumento mais complexo contra a historicidade de Esdras é centrado em torno do
capítulo 4, que supostamente mistura os reis da Pérsia até a História perder o sentido.
Argumentando a partir da ordem em que os reis são mencionados no capítulo, os
críticos afirmam que Esdras (ou o verdadeiro autor) tinha Ciro (539-530) seguido por
Xerxes (485-465) e este por Artaxerxes (465-424), e este último por Dario , cujo
reinado foi de 522-485 a.C. Essa objeção não considera a menção de Dario, em 4.5,
quando o assunto ainda é a reconstrução do templo, e o fato de que 4.6-23 lida
topicamente, não cronologicamente, com a oposição, que encontrou seu ápice nas
tentativas dos judeus para reconstruir os muros de Jerusalém. O versículo 4.24 começa o
assunto do relato de Esdras, a reconstrução do templo, que é o fundamento de seu
ministério.
Uma última objeção lida com as discrepâncias entre Esdras, Neemias e o apócrifo 1
Esdras. A tabela a seguir indica as diferenças.

Categorias Esdras Neemias 1 Esdras


Homens de Israel 24.144 25.406 25.947
Sacerdotes 4.289 4.289 5.288
Levitas, cantores, porteiros 341 360 341
Servos do templo e servos de Salomão 392 392 372
Homens de origem incerta 652 642 642
TOTAL 29.818 31.809 32.600
As visíveis diferenças entre esses números e o total de 49.979 pessoas, de acordo com
Esdras 2.64, não são facilmente resolvidas. Alguns acham que elas apontam para o
número de mulheres e crianças, que é visivelmente pequeno, mas ajudaria a entender a
constante tendência a tomar esposas estrangeiras. Esse escritor prefere ver os dez a doze
mil homens que faltam como representantes das tribos, no Norte, não identificadas aqui
por falta de identificação de cidade e clã.
Assim, Esdras suporta tais ataques e permanece uma testemunha histórica confiável da
restauração judaica no final do século 6 e metade do século 5 a.C.

A teologia de Esdras e Neemias


Antes de iniciar a consideração da teologia de Esdras e Neemias, é relevante notar que
o parágrafo inicial do livro é uma repetição literal da conclusão de 2 Crônicas.
Sem entrar na discussão da identidade do autor (ou autores) dessas obras, esse fato
singelo sugere que há uma continuidade temática entre as duas obras, além da óbvia
continuidade histórica. Há também uma preocupação com a visão que os exilados que
voltaram a Judá para reconstruir a comunidade da aliança tinham de seu Deus e do
processo histórico em que estavam envolvidos.
As obras (Crônicas, Esdras e Neemias) procuram inculcar esperança, alertando para
seu custo, que era a restauração do culto e da adoração em um templo reconstruído,
operado por meio de um sacerdócio puro em uma cidade restaurada como comunidade
de adoradores.
A PESSOA E O CARÁTER DE DEUS
Yahweh é um Deus universal
A destruição de Jerusalém fora um rude golpe para as convicções israelitas na
grandeza peculiar de Yahweh. Como poderia ter sido Ele derrotado pelos deuses da
Babilônia? Os profetas e os historiadores de Israel se encarregaram de demonstrar que
não era assim. Esdras e Neemias contribuem para isso ressaltando que Yahweh não era
um Deus localizado e limitado às fronteiras de Judá ou Israel.
Ele é freqüentemente chamado de ―o Deus do céu‖ (‫ש ַמט ָא‬ ְּ ֹ‫ ֱאלָה‬, ʾĕlā šem yyāʾ, Ed
6.9-10; ‫אֱֹלהֵיֹהַ ָש ַמי ִׁם‬,  ʾĕlô ê ššām yim, Ne 2.4) o que aponta tanto para Sua
transcendência quanto para Sua presença com Seu povo, mesmo quando este se
encontrava espalhado por ―todas as nações debaixo do céu‖.
Ele é, além disso, o Deus cujo louvor excede a capacidade humana de exaltação. Ele é
o criador do próprio céu e o exército dos céus (uma alusão velada às divindades astrais
dos povos circunvizinhos) se prostra diante de Sua grandeza (Ne 9.6).
Yahweh é soberano
Quase que um corolário da característica acima mencionado, esse atributo fica
evidente na maneira em que tanto Esdras quanto Neemias atribuem seus triunfos em
todas as esferas à intervenção de um Deus que tem poder acima de reis e tiranos
terrenos.
É Ele quem estabelece o reinado de Ciro e move o coração de Ciro para que este
autorize o retorno dos israelitas exilados a sua terra natal (Ed 1.2-4). É ainda Ele quem
interfere junto aos reis da Pérsia para permitir e financiar a reconstrução do templo (Ed
6.8-12; 7.27,28) e dos muros de Jerusalém (Ne 2.4, 20).
Vê-se ainda a soberania no direcionamento que Yahweh oferece ao povo, sua atitude
para com a terra dos antepassados e o que constituía o ressurgir da comunidade da
aliança. Ele, em Esdras 1.5, move o espírito do povo, ajuda pessoalmente Esdras e os
que com ele voltaram (Ed 7.6; 8.18) e Neemias (2.8). Conforme Esdras (5.5) e Neemias
(4.14) testemunham, nem mesmo os inimigos mais declarados dos israelitas escapam à
soberana mão de Yahweh. Ele, em sua soberania, se mostrava grande e terrível (Ne
9.32), um Deus a ser levado a sério por um povo que raramente o fazia.
Yahweh é fiel às alianças
Esdras e Neemias, ainda que vivessem em meio a um povo volúvel, que prontamente
esquecia de seus compromissos assumidos diante de Deus, testemunharam a fidelidade
de Deus.
Em Esdras 7, a consciência da fidelidade de Yahweh às promessas (bênçãos e
maldições) da aliança leva o escriba à angústia diante da maneira leviana de Israel tratar
as estipulações pactuais em relação ao casamento misto. Esdras, quando afirma: ―Ó
Senhor Deus de Israel, justo és!‖ (9.15), tem em mente a maneira fiel com que Deus
cumpriu as ameaças de castigo contra Israel, e também a preservação de um
remanescente que retornasse a Judá (9.13).
Neemias 9, que contém uma tocante recapitulação da história israelita, relembra a
fidelidade na conquista e ocupação da terra (9.19-25) e na repetida restauração de Israel
em seus muitos episódios de arrependimento efêmero (9.26,27).
Yahweh é gracioso
A melancólica situação do povo de Judá depois da volta do exílio é o pano de fundo
adequado para uma consideração realista da graça de Yahweh. Esdras e Neemias, ainda
que as gloriosas expectativas proféticas aguardassem sem cumprimento maior, viam a
simples presença de um remanescente em Jerusalém como o penhor de algo ainda
maior. Em suas orações intercessórias (Ed 9 e Ne 9), encontramos as expressões mais
claras dessa convicção.
Esdras 9.8,9 menciona não apenas a preservação do remanescente, mas o favor que
este encontrara aos olhos dos reis da Pérsia. Ali, Yahweh é identificado como um Deus
misericordioso (o hebraico usa o substantivo ‫חמָה‬ ִׁ ְּ‫[ ּת‬teḥinn ], derivado do verbo ‫ָחנַן‬
[ḥān n]),3 e ―bondoso‖ (o hebraico usa a expressão ‫חסֶד‬ ֶ ֹ‫ ַוט ַטֹ ָעלֵינו‬, [w yy ṭ ʿ lênû
ḥeseḏ ]) cuja conotação específica é a lealdade pactual de Deus ao responder aos
3
Na maioria de seus usos, hN`j!T= indica “súplica por favor divino” e assim pode apontar
aqui não apenas a graça de Deus mas a graça como resposta à oração. Cf. DITAT, p. 497.
pedidos de alívio de uma comunidade que se vê ainda como escrava dos gentios, mas
tem um pé fincado na fidelidade de Deus ao amor eletivo que separou Israel como povo
escolhido.
Em Neemias 9, a graça de Deus se revela uma vez mais no atendimento aos rogos dos
israelitas sob a disciplina da aliança (9.27,28). Neemias emprega a palavra ‫חמִׁים‬ ֲ ‫ַר‬
[r ḥămîm], termo mais antropomórfico, que indica as entranhas de uma pessoa e está
associado a respostas benevolentes motivadas por emoção.4
No versículo 31, Neemias combina os adjetivos ‫( ָרחום‬rāḥûm) e ‫( חָנון‬ḥānûn), que
formavam a confissão de fé básica de Israel, desde o Sinai (cf. Êx 34.6, em que a ordem
é inversa), e que combinados falam da graça misericordiosa, condescendente e paciente
de Yahweh, incansável em Sua benevolência para com Seu povo pactual. O contexto
dessa passagem é uma renovação da aliança, o que deveria levar-nos a considerar a
expressão ―fiel à Tua aliança e misericordioso‖ (heb. ‫חסֶד‬ֶ ‫שֹומֵרֹ ַהב ְִּׁריתֹ ְּו ַה‬, [sômēr
ḇb rîṯ w ḥeseḏ]), em Neemias 9.32, como uma hendíade, que poderia ser
e e
traduzida ―que guardas com amor leal à aliança‖, apontando, mais uma vez, para as
contínuas manifestações da graça de Yahweh para com Israel.
A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS
As quatro linhas de ação de Deus, na História, por meio das quais Ele opera para
restabelecer Sua soberania mediada sobre o universo, estão claramente presentes em
Esdras e Neemias.
A permissão do mal
Ambos os autores ressaltam que o mal que sobreveio ao povo de Israel fora predito e
permitido por Deus. Na verdade, em uma típica expressão da cosmovisão judaica, o
castigo que sobreveio à nação foi atribuído diretamente a Deus (Ne 9.27; Ed 5.12),
ainda que agentes humanos o tivessem executado. A tolerância divina para com o
pecado em Seu povo (Ne 9.16-18, 26) nunca poderia ser interpretada como indiferença
ou ignorância.
O decreto de punir o mal
As duas grandes orações intercessórias de Esdras e Neemias ressaltam que Yahweh
ativamente se envolveu na punição às diversas quebras de lealdade pactual do povo de
Israel, desde o bezerro de ouro (Ne 9.18) até os dias sombrios, quando profetas eram
mortos, e a idolatria grassava no final da história de Judá (Ne 9.26).
Esdras via a punição do mal em Israel como um continuum que vinha desde os
antepassados e era, na verdade, a marca registrada da nação (Ed 9.7), pois o alívio era
temporário (9.8) e a punição menor que a merecida (9.13).
O decreto de libertar os eleitos
Novamente, uma profunda consciência da intervenção libertadora de Yahweh perpassa
as duas obras. Desde o decreto de Ciro (Ed 1) até à superação das estratégias e intrigas
dos samaritanos e outros vizinhos (Ed 4; Ne 4; 6) a percepção era a de que Yahweh agia
para devolver ao Seu povo uma medida de liberdade, que lhe permitisse experimentar a
bênção divina na terra da aliança.
Pode parecer, pelo palavreado da oração de Esdras, que o escriba-sacerdote tinha uma
visão negativa da situação em que Israel se encontrava em sua época, mas palavras
como ―um pequeno alívio em nossa escravidão‖ (Ed 9.8) e ―somos escravos‖ (9.9)
devem ser entendidas no contexto maior das promessas pactuais a Abraão e Davi.

4
Cf. DITAT, s.v. <j^r*, p. 1419.
Esdras reconhecia que a intervenção era divina, e que era apenas o prenúncio de coisas
maiores. A própria continuação do versículo indica que ele via a volta da comunidade
pós-exílica e seu estabelecimento em Jerusalém e arredores como um renascer. Além do
mais, as intervenções soberanas de Deus na história persa recente (cf. Ed 5.5)
demonstravam que Seu povo podia continuar contando com Sua graça libertadora em
seu favor.
O decreto de abençoar os eleitos
Tanto Esdras quanto Neemias entenderam que a continuidade da bênção para o
remanescente dependia de uma resposta de fé manifesta em obediência. Como uma
comunidade de adoradores, centrada no templo e não em um trono davídico, Israel só
garantiria sua bênção guardando-se puro. Por isso, tanto o sacerdote quanto o
governador se empenharam muito em preservar a pureza racial − não por mera
xenofobia, mas pelo receio da xenolatria − do efeito corruptor dos casamentos na
adoração da comunidade. O exemplo de Salomão, por cuja idolatria Israel fora privado
das bênçãos no passado, deveria falar alto aos ouvidos da comunidade pós-exílica (Ed
9.10-14; Ne 13.23-27). A disposição benevolente de Yahweh deveria ser correspondida
com amor não dividido e com repugnância evidente pelos deuses dos vizinhos pagãos.
Argumento básico
PROPÓSITO E DESENVOLVIMENTO
Todos os livros históricos do período pós-exílico partilham o propósito de demonstrar
como Israel fez a transição de uma entidade política, onde a teocracia era mediada
através da linhagem davídica, para uma comunidade adoradora que, embora
permanecesse como povo de Deus, não era mais o canal mediador do reinado Dele na
terra.
Esdras compartilha desse propósito descrevendo o restabelecimento de Israel como
uma comunidade adoradora na Terra Prometida e como isso exigia um reavivamento da
verdadeira religião da aliança.
Esse propósito aparece nas duas grandes divisões do livro. A primeira parte (Ed 1.1–
6.22) mostra os esforços da nação para reconstruir um templo e uma cidade das cinzas
da destruição de Nabucodonozor. Embora a primeira parte desse plano tenha sido
realizada depois de muita oposição e atraso, duas coisas não se realizaram. A cidade não
foi construída e a nação não retornou à plenitude de seu relacionamento com o Deus da
aliança. Esdras 7.1–10.44 traz o relato da tentativa de um homem para restaurar a
verdadeira identidade religiosa de Israel por meio da renovação da aliança e exclusão de
influências estrangeiras. Neemias lida com a reconstrução da cidade e com o dejà vu, a
necessidade de verdadeira lealdade a Jeová e Sua aliança.
O livro inicia-se com o decreto de Ciro que permitiu que os judeus voltassem a
Jerusalém e reconstruíssem o templo. Esdras tem o cuidado de indicar que tal decreto
está de acordo com o plano soberano de Jeová anunciado por Jeremias (cf. 1.1; Jr
25.11,12). Os judeus reagem com entusiasmo ao decreto, embora apenas 49.897 acabem
atendendo ao chamado para retornar a Jerusalém. Esses, porém, o fizeram motivados
por Jeová (1.5). A ajuda financeira dos judeus, na Babilônia, foi generosa e Ciro
revelou, mais uma vez, a verdade das profecias de Isaías sobre ele (Is 41.1-4; 44.24-28)
ao devolver os utensílios do templo (1.7-11). O capítulo 2 contém o registro dos
exilados que voltaram. A lista aparece com algumas mudanças em Neemias 7.6-73.
Mudanças nos nomes podem ser explicadas por variações na ortografia ou dois nomes
para a mesma pessoa. Diferenças nos números somam cerca de 20% do total, mas essas
podem ser atribuídas a um diferente sistema de anotação numérica empregado pelos
judeus por volta do século 5 a.C. (como é demonstrado nos papiros de Elefantina) que
teria aumentado a possibilidade de erros de cópia. Um artigo interessante sobre esse
assunto foi escrito por H. L. Allrik, ―The Lists Of Zerubbabel and the Hebrew
Numerical Notation‖ [―As listas de Zorobabel e a notação numérica hebraica‖], BASOR
136 (dez. 1954):21-7. A lista de localidades indica quão fortemente os judeus se
apegavam a suas ligações familiares e tribais.
O capítulo 3 descreve os esforços iniciais para restabelecer a vida religiosa de Israel,
começando com o erguer do altar (3.1-3) e a celebração da Festa dos Tabernáculos
(3.4), que olhava para trás, para a provisão de Deus, e para a frente, para a plenitude de
Seu governo teocrático sobre Israel. Os versículos 5 e 6 indicam que a normalização da
vida religiosa da nação dependia da construção do templo e que os atos religiosos
realizados durante os primeiros dias do retorno, embora aceitáveis pelo Senhor, eram de
natureza provisória. O restante do capítulo 3 concentra-se no lançamento dos alicerces
do templo, em relação aos recursos disponíveis (3.7), às pessoas envolvidas (3.8,9), e às
diferentes respostas emocionais ao novo projeto (3.10-13).
No capítulo 4 encontra-se o primeiro relato de como a oposição ao projeto
divinamente prometido, e apoiado pelo rei, surgiu cedo no período pós-exílico e se
susteve por todo o século, começando com a chegada dos exilados em Jerusalém. Os
samaritanos buscaram se juntar aos judeus na reconstrução, com a explicação de que
eles também eram adoradores de Jeová (4.1,2). A resposta dos judeus pode parecer
muito bitolada, mas, na verdade, refletia um zelo pela pureza que logo se perderia (cf.
Ed 9 e 10) em detrimento da fé e da bênção de Israel. A total rejeição em 4.3 trouxe o
assédio tenaz em 4.4,5 (mais 4.24–6.12), que só seria vencido 20 anos depois, quando o
templo finalmente foi terminado (6.13-18). O restante do capítulo 4 (v. 6-23) é uma
síntese da oposição que o programa de Deus para a restauração de Israel enfrentou das
nações vizinhas e dos ingênuos oficiais persas na satrapia de Abar-Nahara (ou Trans-
Eufrates). Os detalhes lidam com a tentativa dos judeus de reconstruir Jerusalém, que
foi frustrada por intrigas samaritanas e também pela explosiva situação política, por
volta de 450 a.C. Esse incidente torna, ainda mais notável, a petição de Neemias ao rei,
visto que ele teve a audácia de pedir que Artaxerxes revertesse um decreto anterior (cf.
4.17-23).
O capítulo 5 dá o contraponto a essa oposição humana, introduzindo o ministério dos
profetas de Deus, Ageu e Zacarias, que despertaram o espírito do povo e seus líderes a
fim de reconstruir o templo (5.1,2) após 15 anos de inércia espiritual e inanição civil (cf.
Ag 1). A oposição, dessa vez, veio de outros lugares, os oficiais persas da província de
Abar-Nahara, cujo tratamento das evidências é muito mais honesto do que o dos
samaritanos (4.7-16). Esdras tem muito cuidado ao indicar como a soberania de Jeová
preservou o ímpeto construtor, enquanto a oposição perdia sua força devido ao atraso
em levar e trazer a correspondência para a Pérsia (5.5b) e na verificação, por Dario, do
decreto de Ciro e sua decisão de apoiá-lo plenamente. Assim, Esdras conclui a descrição
desse período crucial com os dois decretos reais que fizeram valer na terra o que Deus já
decretara no céu, a restauração de Seu povo como Sua comunidade adoradora, em
Jerusalém.
A cobertura de Esdras do primeiro retorno e suas repercussões termina em tom festivo
com a narrativa do término e da consagração do templo (6.13-18), com o
restabelecimento completo do culto e a celebração da Páscoa e dos pães ázimos (6.19-
22). A menção a essas duas festas é importante, pois liga essas circunstâncias ao Êxodo,
tanto no aspecto libertador quanto no purificador. A referência ao monarca persa, como
rei da Assíria, também pode ser um jeito deliberado de indicar que agora o cativeiro de
Israel terminara (esse escritor prefere o intervalo entre 586 e 515 como os 70 anos
preditos por Jeremias), visto que os assírios o tinham iniciado em 732 a.C., quando as
tribos do Norte foram levadas cativas por Tiglate-Pileser III.
A segunda porção do livro (7.1–10.44) fala de um segundo retorno, liderado por
Esdras, um sacerdote zadoquita e escriba (7.1-5), cujo coração fora preparado por Deus
para estudar, praticar e ensinar a Lei de Deus, em Israel (7.10). O capítulo deixa
implícito o pedido de Esdras a Artaxerxes por autorização para voltar à Judéia e
ministrar a lei de Deus ao seu povo. A resposta do rei, contudo, amplia a missão de
Esdras consideravelmente, de renovar o culto (7.14-20) para a designação de
magistrados e juízes (7.25) e o reforçar a lei com todas as despesas pagas pela tesouraria
persa (7.21,22).
É bem possível que uma das razões predominantes para Artaxerxes mandar Esdras de
volta com tais poderes era aumentar seu controle sobre uma situação politicamente
volátil. A abrangência da missão de Esdras pode explicar o aparente atraso em sua
exposição da Lei de Deus ao povo, registrado apenas em Neemias 8, uns treze ou
catorze anos depois de sua chegada em Jerusalém. A reação de Esdras ao decreto de
Artaxerxes é de alegria e louvor fervorosos (7.27,28a). O sucesso na corte o motivou a
buscar apoio para seu plano entre seus compatriotas (7.28b).
A necessidade de revitalizar o culto na pátria deve ter sido relatada a Esdras, na
Babilônia, assim como a necessidade de reparar os muros foi relatada a Neemias (Ne
1.2,3). Seu relato do retorno inclui uma lista dos que retornaram (8.1-14), seu
recrutamento de levitas e servos do templo (8.15-20; o pequeno número de levitas pode
ser devido às melhores chances de ganhar a vida na Babilônia, onde eles não estariam
confinados a trabalhos religiosos banais), a oração de Esdras por proteção durante a
longa e perigosa jornada, especialmente à luz da grande quantidade de prata e ouro que
estariam carregando de volta à Palestina (8.24-30). A viagem e os eventos da chegada
de Esdras a Jerusalém perfazem o restante do capítulo 8 (v. 31-36).
Esdras, 4 meses depois de sua chegada (por volta de dezembro de 458 a.C.), percebe
quão profunda é a necessidade de reformas religiosas em Israel. A descrição do
problema de casamentos mistos (9.1,2) é intencionalmente expressa para trazer à
memória as antigas associações pecaminosas de Israel com os antigos habitantes de
Canaã (a continuidade do tema está presente em Esdras e em Neemias também).
A reação de Esdras (9.3,4) expressou profunda angústia e choque com o estado
espiritual de sua nação. Essa forma específica de pecado consistentemente seduzia os
judeus do período pós-exílico e seus efeitos devastadores podem ser vistos na corrupção
espiritual (por meio de sincretismo idólatra) e degeneração social da colônia judaica em
Elefantina, no Egito. Essa tentativa sutil de diluir a identidade nacional israelita é ainda
outro contraponto no complexo processo do restabelecimento de Israel como
comunidade adoradora de Jeová.
A reação de Esdras, porém, vai além do lamento pessoal público (a menção do
sacrifício vespertino sugere que tenha acontecido no templo, cf. 9.5 e 10.1, onde o
templo é mencionado). A oração de confissão de Esdras (9.6-15) enfatiza a mesmice
básica do estilo de vida pecaminoso dos israelitas quando comparada às gerações
anteriores (9.6,7), a bondade de Jeová apesar da culpa deles (9.8,9) e o assumir a culpa
de sua geração que repete os pecados antigos com total ciência da condenação de Deus
sobre tais práticas (9.10-15; cf. Dt 11.8,9).
Tão profunda tristeza teve seu contágio espiritual, como é evidente na reação do povo
que assistiu à cena e ouviu sua oração. A proposta de romper casamentos racialmente
mistos veio do próprio povo, assim como a sugestão de que Esdras deveria coordenar
um esforço nacional para corrigir esse erro (10.1-4). Esdras, mesmo mantendo o luto,
obteve a lealdade dos líderes religiosos e de ―todo o Israel‖ (mais provavelmente através
de líderes representantes) para a aliança proposta por Secanias. Ele, enquanto isso,
permaneceu em jejum secreto e em oração pela triste situação (10.5,6).
Medidas eficazes para lidar com o problema incluíam uma convocação geral sob
penalidade de perda de propriedade e excomunhão da comunidade religiosa (9.7,8). A
assembléia se reuniu sob o inclemente clima de dezembro e votam, com dissensão
mínima, dissociou-se da influência estrangeira criada por seus casamentos racialmente
mistos (10.9-16). Procedimentos adequados foram estabelecidos e com a chegada do
ano 457 a.C. os tribunais matrimoniais começaram a investigar cada caso. Os processos
legais se completaram em 4 meses (10.16b,17).
O livro termina com a lista de ofensores no ―escândalo‖ dos casamentos mistos
(10.18-44), começando com a equipe religiosa (10.18-24) até a plebe de Israel (10.25-
44). Um total de 111 nomes são dados, o que não indica um problema social traumático
com milhares de órfãos vagando pelo campo, como querem insinuar alguns que, às
vezes, acusam Esdras (e Neemias) de xenofobia e racismo excessivos. As prováveis
centenas de crianças foram entregues a suas mães e, muito provavelmente, retornaram
com elas para suas terras de origem, as nações vizinhas. Isso estaria de acordo com
relatos bíblicos (Gn 21.14) e extra-bíblicos de padrões do Oriente Médio (cf. código de
Hamurábi).
A reforma estava encaminhada e, por enquanto, a identidade nacional fora preservada.
Duas observações vêm a calhar nesse ponto. Primeiro, o que se encontra em Esdras e
Neemias não tem nada a ver com o exclusivismo judeu posterior, que negava aos
gentios os privilégios que os judeus deveriam tornar disponíveis para o mundo. Essas
mulheres gentias expulsas foram mandadas embora com base em sua recusa de, como