Revista da Abordagem Gestáltica versão impressa ISSN 1809-6867

Rev. abordagem gestalt. v.15 n.1 Goiânia jun. 2009

ARTIGOS

A Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa são enfoques fenomenológicos?

Are Gestalt-therapy and Person Centered Approach therapy phenomenological approaches?

La Terapia Gestáltica y el Enfoque Centrado en la Persona son enfoques fenomenológicos?

Virginia Moreira Universidade de Fortaleza Endereço para correspondência

RESUMO A questão sobre o fato de serem ou não a Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa enfoques fenomenológicos é controvertida no cenário contemporâneo da psicologia humanista no Brasil. Em 1991, Luis Claudio Figueiredo publicou um livro sobre as matrizes do pensamento psicológico, onde estas duas abordagens não são consideradas fenomenológicas. Este artigo tem como objetivo contribuir para esta discussão estabelecendo um diálogo entre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalt-terapia com as matrizes psicológicas tal como concebidas por seu autor.

11). Terapia gestáltica. This article intends to make a contribution to this discussion by establishing a dialog between the Person Centered Approach and Gestalt. Por meio de um diálogo entre os escritos dos criadores da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e da Gestalt-terapia (GT) &– Carl Rogers e Frederick Perls &– e das matrizes do pensamento psicológico propostas por Luis Cláudio Figueiredo. Gestalt-terapia. RESUMEN La cuestión sobre el hecho de que sean o no la Terapia Gestáltica y el Enfoque Centrado en la Persona enfoques fenomenológicos es controvertida en el senario contemporáneo de la psicología humanista en Brasil. como matrizes do pensamento psicológico. Luis Claudio Figueiredo published a book about the main stream psychological thoughts. Introdução Luis Cláudio Figueiredo. no seu livro Matrizes do Pensamento Psicológico (1991) trata da crise permanente em que se encontra a psicologia para desenvolver. En 1991. Abordagem centrada na pessoa. Person centered approach. em sua leitura da história da psicologia nestes seus mais de cem anos. in which both approaches are considered not phenomenological. Palabras-clave: Fenomenología.Palavras-chave: Fenomenologia. Gestalt-therapy. ABSTRACT The matter of whether the Gestalt-Therapy and Person Centered Approach are phenomenological approaches is controversial in the contemporary scenario of humanistic psychology in Brazil. estableciendo un diálogo entre el Enfoque Centrado en la Persona y la Terapia Gestaltica con las matrices psicológicas tal como concebidas por su autor. Keywords: Phenomenology. Esses diferentes modelos e interesses. Este artículo tiene como objetivo de contribuir para esta discusión. Enfoque centrado en la persona. tendo em vista a diversidade de posturas metodológicas “em persistente e irredutível oposição” (p. no Brasil: a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalt-terapia são abordagens fenomenológicas? . donde estos dos enfoques no son considerados fenomenológicos. em nossos dias. que originam uma variedade de modelos e “seitas”. In 1991. Luis Claudio Figueiredo publicó un libro sobre las matrices del pensamiento psicológico. são denominados por Figueiredo (1991).se como ciência independente.Therapy with the psychological main streams as conceived by the author. este artigo tem como objetivo discutir uma questão bastante polêmica nas psicologias humanistas.

sendo o objetivo da psicoterapia libertar esta energia e dar-lhe campo para atualizar-se. substituem a inteligência conceitual pela intuição e destacam o fluxo de um élan vital... É na matriz vitalista e naturista que Figueiredo insere as várias correntes das psicologias humanistas (entre elas. segundo Figueiredo (1991). Figueiredo (1991) trata do humanismo romântico como preconizado por “seitas” que proliferam a cada dia nas grandes metrópoles e são importadas para o Brasil. receptivos. originando “seitas” psicológicas “unificadas pelo anti-racionalismo. a reeducação e a solução de problemas e mesclando a figura do psicólogo com a do guru ou do mago. mas felizmente a intuição é possível. Os vitalistas priorizam a vida espiritual. o criativo. mas que. capazes de funcionar como participantes e observadores dos processos vitais. indivíduos confiantes nos próprios sentimentos e engajados no . o que supõe uma compatibilidade entre a autêntica realização do individuo e a felicidade coletiva. o espiritual etc. nas matrizes românticas humanistas. Assinala que a mística da liberdade. do vitalismo energético e da autorrealização aparecem metaforicamente como o “orgon da energia cósmica” nos humanismos de Carl Rogers e de Maslow. por sua vez. Sempre com uma forte pitada de ironia. com a genuína vida comunitária. tudo o que fora excluído das matrizes cientificistas: o qualitativo. Figueiredo (1991) assinala que a autoatualização estaria identificada. que reconhecem a especificidade do objeto da psicologia como ciência independente &– atos e vivências do sujeito e seu significado para ele &–. identifica o otimismo que caracteriza o pensamento de Rogers e de Perls no que se refere a uma visão de natureza humana na qual “a inteligência é limitada. “carecem completamente da segurança que as de índole cientificista de uma forma ou de outra ostentam” (p. prometendo a cura. a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers e a Gestalt-terapia de Frederick Perls e colaboradores). Por outro lado. Lembra que. 11).Matrizes do Pensamento Psicológico Figueiredo (1991) divide o pensamento psicológico em duas grandes matrizes que. tomando partido em favor da vida e contra a razão.” (p. 2) As escolas e os movimentos psicológicos gerados por matrizes “românticas” ou “pós-românticas”.. e. encontramos duas matrizes: a matriz vitalista e naturista (na qual se inserem a ACP e GT) e as matrizes compreensivas (onde se inserem as fenomenologias-existenciais). A matriz vitalista e naturista recolhe. 33). 131). que tendem a desconhecer a especificidade do objeto da psicologia em favor de uma imitação pretensamente bem sucedida e convincente das ciências naturais. 32). o que pode levar à extinção da psicologia como ciência independente para tornarse uma disciplina biológica. para Rogers. sem defesas. por outro lado. mas permanece presa à divisão entre razão e vida. se subdividem em outras submatrizes: 1) As escolas e os movimentos psicológicos que têm sua origem em matrizes de pensamento cientificista. présocial e pré-simbólica” (p. assinalando que esta matriz “está profundamente enraizada no senso comum da prática psicológica e nas representações sociais da psicologia” (p. pela mística da vida autêntica. a psicoterapia deve facilitar a emergência de indivíduos abertos à experiência. Como parte das matrizes românticas e pós-românticas.

133) porque renega a racionalidade e o impulso crítico. Figueiredo (1991) define três grandes linhas: o historicismo idiográfico.. fantasioso e suave” (p. Criada para buscar a fundamentação do conhecimento. deve ser procurado ao lado da consciência pura. 33). Figueiredo (1991) acrescenta que a antropologia fenomenológica existencialista proporciona o modelo de sujeito que será investigado pelas ciências humanas empíricas. de uma fenomenologia da consciência pura. A fenomenologia (ciência eidética) procura descrever a essência do algo visado pela consciência.. dito de outra forma. Ainda segundo Figueiredo (1991).. 36). ou seja. a fenomenologia é. ou. A existência é um modo de ser que se projeta para o futuro (o homem como projeto de Sartre). mas os fenômenos. quando trata da fenomenologia. uma reação ao imperialismo mecanicista. Aqui. sem ambição de rigor e regido pela intuição delicada dos sentimentos. Essas várias correntes existencialistas unificamse. a fenomenologia surge com Edmund Husserl como uma critica à legitimação naturalista do conhecimento: (. a fenomenologia é considerada por Figueiredo (1991) como herdeira do Iluminismo. uma tentativa de superação. que tem como cerne a idéia do sujeito responsável por suas escolhas. está na origem dos existencialismos. realizando o seu destino. iluminista e. com o intuito de descrever e elaborar as categorias analíticas da existência concreta. é visado por ela como pura essência. a fenomenologia é um antirromantismo. Os objetos nesta disciplina não são os eventos naturais.. Na medida em que tem como objetivo o esclarecimento do homem como sujeito constitutivo da experiência e da reflexão do mundo. Assim. 37). vinculado a uma situação. que terão influências mais diretas nas várias abordagens psicológicas do que as correntes provenientes da filosofia fenomenológica propriamente dita. pois se diferencia das matrizes românticas. no desvelamento do projeto existencial que subjaz a todas as suas ações” (p.). confluindo com outras tradições filosóficas e literárias. sendo unificadas por visarem a experiência humana inserida no universo cultural. 133). ao contrário.processo de ser e de tornar-se pessoas. Reconhecendo que o vitalismo representa. (p. portanto. tanto do cientificismo quanto do historicismo. eminentemente românticas “na sua acepção mais vulgar de belo. Figueiredo se refere à fenomenologia do primeiro Husserl.. segundo sua leitura. pois transpira as melhores intenções. Figueiredo conclui que “o vitalismo reduz-se a uma pura ideologia sem qualquer valor cognitivo” (p. a fenomenologia da consciência transcendental. Nesta medida. A consciência para a fenomenologia seria uma pura intencionalidade: sempre consciência de algo. do sujeito transcendental (. historicamente. aquela do idealismo transcendental. entendendo a fenomenologia como “um dos coroamentos da tradição filosófica racionalista. que não tem uma essência pré-definida. que mantêm a mesma separação entre . na explicitação dos horizontes implícitos que conferem sentidos a seus atos e vivências conscientes. para Figueiredo (1991). Em termos das contribuições desta matriz. contribuindo no sentido de explicitar que a compreensão do indivíduo são ou doente. ou o mundano de Merleau-Ponty). “implica na reconstrução do seu mundo. Já nas matrizes compreensivas. as vertentes fenomenológicas existenciais enfatizam que o homem é um ser no mundo (como o Dasein de Heidegger. anti-romântica” (p. Como matrizes do pensamento psicológico. estas três matrizes se inserem numa problemática instaurada pelo romantismo: a problemática da expressão.) o fundamento. Como matriz compreensiva. aquilo que se dá à consciência. ao abolir crenças ou preconceitos mal fundados. o estruturalismo e a fenomenologia..

à Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa. com a qual ele teve um contato mais direto por meio da teoria organísmica de Goldstein. Fome e Agressão: Uma Revisão da Teoria e do Método de Freud. Psicanalista de origem. Köhler. Perls ampliou as bases da Gestalt-terapia. um tanto quanto radicais. numa inflação inconsequente da subjetividade. dialogando com ela. na África do Sul. na antiga Tchecoslováquia. nasceu em Berlim. cujo subtítulo foi eliminado na edição norte-americana de 1969 e reintroduzido na tradução de Georges Boris para a primeira edição brasileira (Perls. ideologias pararreligiosas por conta da divulgação de uma experiência única. publicados postumamente com o título de A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia (Perls. tanto as matrizes românticas &– vitalistas e naturistas (representadas. Tais ideologias legitimam. que fugia da concepção psicanalítica freudiana onde as resistências eram entendidas como anais. da mística de uma liberdade de escolha individual e do seu indeterminismo: “no altar desta nova religião será colocado o ‘indivíduo’ e a ‘liberdade’ e outras imagens do gênero. até seus últimos escritos. da teoria organísmica de Goldstein. um severo crítico da psicanálise. 2002). Parece possível dizer que Perls foi. onde Goldstein estudava as conseqüências comportamentais de tais lesões a partir das noções básicas da Psicologia da Gestalt de Wertheimer. Para Figueiredo (1991). 38). Estas posições de Figueiredo (1991). A partir daí se dá o surgimento da Gestalt-terapia enquanto uma proposta diferenciada da psicanálise de Freud. da Psicologia da Gestalt. no bojo de sua origem eminentemente critica da psicanálise. 1981). Era médico e sua proposta psicoterapêutica sofreu várias influências. aqui. desde sua fria recepção no congresso de 1936. 1984. Boris. especificamente. Segundo Boris (2002). Perls teve como um de seus fundamentos principais a Psicologia da Gestalt. sem que se coloque com seriedade uma análise das condições concretas que poderiam permitir sua realização” (p.sujeito e objeto que marca as matrizes cientificistas (e contra a qual elas se insurgiram) na medida em que abole a cisão sujeito-objeto. criador da Gestalt-terapia. irredutível e intransferível. rompendo com a tradição clássica de que temos órgãos isolados. como dão a entender Araújo (2002) e Frazão (2002). 1942/2002). embora não se tratem de totais inverdades &– vemos na enorme proliferação de vertentes contemporâneas das psicologias humanistas tanto trabalhos consistentes e fundamentados como outros que são passíveis da leitura de Figueiredo &– serão discutidas aqui no que se refere. em sua opinião. pela Abordagem Centrada na Pessoa e pela Gestalt-terapia) &– quanto as matrizes pós-românticas compreensivas (representadas pela fenomenologia) produzem. muitas vezes com alguns enganos. o retraimento do sujeito sobre si mesmo. numa família judaica. frequentemente. Perls esteve preso à psicanálise até o fim de sua vida. da filosofia existencial e do zenbudismo (Tellegen. apesar de conhecer parte das obras de Wertheimer. Uma revisão ampliada deste trabalho foi publicada em 1942. Com base nesta concepção. em 1893. como sua obra seminal: Ego. tomando por objeto não mais funções . acima de tudo. fosse por admiração ou por ressentimento de Freud. da análise de caráter de Reich. Gestalt-Terapia e Fenomenologia Frederick Perls. Koffka e Lewin. Goldstein propôs a concepção de organismo como um todo. onde Perls apresentara um trabalho sobre Resistências Orais. de quem foi assistente no Instituto de Soldados Portadores de Lesões Cerebrais. embora ligada a esta. tais como da psicanálise. Köhler e Koffka.

1979. mas o organismo como um todo em seu funcionamento (Tellegen. 1979. que. que continuam a operar em termos da velha cisão corpo/mente. As bases da Gestalt-terapia são. a idéia de homem responsável por suas escolhas. Os Pensadores. 30). herdada de Husserl via . no seu livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Com relação à crítica que faz Figueiredo de que esta abordagem se mantém presa ao pensamento dualista cartesiano. Dessa forma. a Gestalt-terapia. e a filosofia de Merleau-Ponty (1945) na sua perspectiva organísmica. 1992b). 1984. a característica básica da consciência. É interessante lembrar que tais bases fenomenológicas apontadas por Loffredo (1994).) parece sofrer do pragmatismo característico desta sociedade. Um dos princípios da Psicologia da Gestalt afirma que existe uma tendência à organização que se atualiza na dinâmica figura-fundo. da filosofia dialógica de Buber (1974). 1994).. não são reconhecidas por Figueiredo (1991). portanto. se propõem a ir além de uma visão cindida em partes ou funções e buscam uma perspectiva mais integrada e holística de ser humano. Também Perls (1981). a fenomenologia proporciona a metodologia básica de todas as abordagens existenciais. 1995) dentre outros gestalt-terapeutas. parece possível encontrar no conceito de campo. Os Pensadores.” (p. um conceito central na psicoterapia de Perls (1977. daí o termo gestalt. que. por sua vez. 1980). a concepção de dasein de Heidegger (Col.. 1980). Segundo Boris (1992a). que elimina uma interpretação causal entre mente e corpo (Boris. que significa configuração. a abordagem gestáltica pretende captar como ocorre um dado fenômeno. Perls (1979) afirma: “nós somos organismos. a inseriu na matriz vitalista e naturista. 2005). como crítico externo da Gestaltterapia. Os Pensadores. Loffredo. 21). 1981 e 1942/2002) trata do ser humano como capaz de realizar as categorias básicas da existência humana. que. os conceitos de encontro e de relação. aprendizagem etc. passando a enfatizar a divulgação da Gestalt-terapia como uma criação sua e negligenciando teoricamente suas raízes filosófico-metodológicas: “assim. Os Pensadores.. provenientes da abordagem fenomenológica de campo. 1995). Nesta proposta. quando Perls (1977. Perls imigrou para os Estados Unidos. 1978). possivelmente influenciada por Kierkegaard (Col. mantendo-se presas à concepção de causalidade. originado da Psicologia da Gestalt.psicológicas isoladas. presente na Psicologia da Gestalt. em seu livro Escarafunchando Fritz.o em sua totalidade e buscando detectar em função de quê se estrutura o todo.. tomando. Tellegen (1984) e Boris (1992a. assim como as matrizes cientificistas. é fundamental a concepção de campo organismo-ambiente. Mas é com seu conceito de limite de contato que Perls (1981) mergulha mais fundo sua proposta psicoterapêutica na idéia de campo fenomenal. derivando na noção de contato. 24). 1979) e Nietzsche (Col. para a Gestaltterapia. “o homem não é uma criatura puramente racional” (p. e na própria teoria organísmica de Goldstein idéias que. 1989).. 1994. Assim. Holanda & Faria. estrutura. Os Pensadores. a incorporação da noção de intencionalidade. critica explicitamente as escolas tradicionais de psicoterapia. Boris indica possíveis influências existenciais e fenomenológicas na Gestalt-terapia de Perls: a crença na subjetividade. Segundo ele. Ainda assim. constitui a situação psicológica. se inspira na fenomenologia de Husserl (Col. Agora podemos ver como suas ações mentais e físicas estão entrelaçadas” (p. relação estrutural ou todo significativo (Loffredo. herdada de Sartre (Col. entre elas. No entanto. em psicoterapia. particularmente nos anos 60” (Boris. tais como percepção. justamente. de Husserl (Col. a maioria de suas obras da fase norteamericana (. o conceito de campo unificado “nos dá um instrumento para lidar com o homem global. ao contrário de buscar as causas ou os porquês. 1981 e 1942/2002). 1978). tema. em 1946. princípio que foi utilizado por Goldstein em seus estudos da relação organismo-meio com portadores de lesões cerebrais. Os Pensadores.

Loffredo. 1979. 36-37). Para Perls. Perls (1981) critica as psicologias que (. tal como assinala Figueiredo. É possível. segundo Figueiredo (1991). 38). Assim. por exemplo. Perls (1981) descreve a neurose como “a doença que surge quando o indivíduo. Neste caso. afirmar que Perls criticava uma visão dualista na psicologia. como sugere Figueiredo (1991). embora o estilo controvertido de Frederick Perls possa dar margem a possíveis associações com a figura de um guru. estabelece problemas de situações que. inserindo-a nesta matriz. por exemplo. o que ocorreria nas matrizes românticas. Apesar de Perls defender constantemente que a interação organismo-meio deve ser entendida de modo plural. De fato. englobando aspectos biológicos. é possível também observar que seu pensamento se mantém preso ao dualismo consciente versus inconsciente. 1981. (Perls. 1981. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Por outro lado. 1981. nesta mesma obra: “os psicólogos que mantêm uma concepção dualista do homem o vêem operando como forças opostas que partem o indivíduo em pedaços. como o faz Figueiredo (1991). esta necessidade de uma causalidade simples.. Uma segunda característica criticada por Figueiredo (1991) como própria das matrizes vitalistas e naturistas. neste sentido. quando discute. a idéia de holismo e a influência do pensamento oriental. 1977.. presentes nos escritos de Perls (1977. de alguma forma. interrompe os processos contínuos da vida e se sobrecarrega com tantas situações incompletas que não pode prosseguir satisfatoriamente com o processo de viver” (p. faria parte de seu pensamento. 1994). 1942/2002) como sustentação da sua visão de homem integrado. que. pp. Frederick Perls foi tudo menos uma figura tradicional. Ainda nesta sua obra mais amadurecida. No entanto. portanto. que a Gestalt-terapia tem uma visão dualista de ser humano.) dividiram a experiência em interior e exterior e então se defrontaram com a pergunta insolúvel de se o homem é regido por forças de fora ou de dentro. fortemente presentes na Gestalt-terapia de Frederick Perls. possivelmente. “o estudo do modo que o ser humano funciona no seu meio é o estudo do que ocorre na fronteira de contato entre o indivíduo e seu meio. que. 1984. esta questão merece pesquisas mais aprofundadas que esclareçam este tema. indicaria a forte influência de Goldstein em todo o seu pensamento. 1942/2002). acaba se desenvolvendo fortemente em torno de um eixo biologicista (Tellegen. psicológicos e socioculturais. a partir da idéia de vida enquanto um fluxo contínuo. bem como das demais assim chamadas psicologias humanistas. Perls. 31). o que.)” (Perls. 31). Talvez Figueiredo o faça um tanto preconceituosamente.. 1979. No entanto. . Seu estilo agressivo e atrevido é uma marca em toda a sua trajetória profissional. neste aspecto. Ou. se posiciona radicalmente contra a cisão sujeito-objeto. nós os vemos como aspectos de uma mesma coisa (.Psicologia da Gestalt. é a idéia de autoatualização. mais adiante. em seu estilo sempre um tanto quanto estouvado. entre as quais encontraríamos a Gestalt-terapia. já que os pressupostos da teoria organísmica de Goldstein envolvem diretamente a idéia de que o organismo tem um movimento natural para o crescimento e a autorrealização. Figueiredo parece ter razão. a grande maioria de seus exemplos de tal interação são metáforas digestivas e fisiológicas. É neste limite de contato que ocorrem eventos psicológicos” (p. marcada pela eterna crítica à psicanálise. Ainda em sua obra póstuma. seu livre trânsito em experiências e pensamentos menos ortodoxos não faz da Gestalt-terapia uma “seita”. É questionável afirmar. esta omissão do campo total. na realidade são indivisíveis (p. O vitalismo e o naturismo referidos por Figueiredo (1991) encontram-se. o que seria uma característica básica das matrizes românticas.. Este tipo de abordagem.

. por exemplo. Binswanger. 33). de Holanda & Faria (2005) onde a ênfase fenomenológica por meio do diálogo com vários pensadores fenomenológicos e existenciais (entre estes. que se insere. certamente ela é apontada na atual produção teórica da área no Brasil. Perls (1977) critica pensadores existencialistas que deveriam. 1942/2002). uma conotação fortemente existencial. raramente mencionando a fenomenologia como possível influência ou base metodológica de seu trabalho. como a “mística da liberdade” (p.. conforme Figueiredo (1991). Ainda que a liberdade de escolha mencionada por Perls possa ser compreendida. 1979) em grande parte de seus escritos. do protestantismo. eles dirão que são não conceituais.). juntamente com a Logoterapia. do socialismo. um terceiro aspecto assinalado por Figueiredo (1991) vale ser mencionado: o homem como responsável por suas escolhas. Por outro lado. Sartre. 1995). de fato. O mais provável é que o pragmatismo norte-americano tenha tido uma importância considerável no desenvolvimento de sua proposta.. Seja como for. apresentadas por Perls (1973/1981. 38). a noção de presença em Heidegger (1989) e Binswanger (1947/1971. tal como se pode encontrar nas obras Fenomenologia e Gestalt-terapia. Ainda que Frederick Perls tenha pouco explorado seus fundamentos filosóficos. Buber. talvez sua função tenha sido. em que Perls referese mais explicitamente à fenomenologia. 38). com a fenomenologia” (p. 33). De fato. Tal idéia pode ser encontrada em Perls (1981). mas se olharem os indivíduos verão que todos emprestaram seus conceitos de outras fontes: Buber. característica da matriz vitalista e naturista. Assim. e o próprio Perls (1977) tenha afirmado considerar a Gestalt-terapia como um dos três tipos de psicoterapia existencial. tal como observa Boris (1992a. do judaísmo. na linguagem. Se vocês olharem os existencialistas. “a de abrir pistas para quem quisesse segui-las” (p. se não foi explicitada a base fenomenológica da Gestalt-terapia em Perls. na matriz compreensiva pósromântica. Este tema merece. idéia marcante no existencialismo. Nietzsche e Merleau-Ponty) potencializa novos caminhos para uma compreensão fenomenológica e existencial dos conceitos da Gestalt-terapia originalmente formulados por Frederick Perls. embora sejam possíveis muitas aproximações entre a Gestalt-terapia e a Fenomenologia Existencial. 1981.) o que é importante é que a Gestalt-terapia é a primeira filosofia existencial que se apóia em si própria (. esta é uma das raras passagens. em sua obra. estar libertos de conceitos externos: “o existencialismo deseja se libertar dos conceitos e trabalhar com o princípio da ‘presentificação’ (awareness). o funcionamento de fuga do contato do neurótico: “perdeu a liberdade de escolha. o que inseriria a Gestalt-terapia mais na matriz compreensiva pósromântica do que na matriz vitalista e naturista. 45). tanto que não é pouco freqüente o engano de se considerar a Gestalt-terapia uma psicoterapia constituída por uma série de técnicas. Possivelmente. Na verdade. de Müller. sem dúvida. de Victor Frankl e a Daseinanálise.Finalmente.. em suas palavras. Husserl. Tillich.Granzotto & Müller-Granzotto (2007) e Gestalt-terapia e Contemporaneidade. (. Heidegger. 1956/1972) seria sinônima de presentificação ou de awareness. ao descrever. segundo ele. o que não é o objetivo deste artigo. o próprio Perls deu margem a tais enganos. como assinala Tellegen (1984). na psicanálise e assim por diante (p. . 1977. tal afirmação tem. de Ludwig Binswanger. tal como considerado por Perls (1977. não pode selecionar meios apropriados para seus objetivos finais porque não tem a capacidade de ver as opções que lhe estão abertas” (p. sem dúvida. um estudo mais cuidadoso e aprofundado no que se refere a tal concepção na obra desses pensadores.

. 1983. Na medida em que esta vertente se fortalece. enfatizando a situação imediata ao invés do passado do indivíduo e tomando a própria relação psicoterapêutica como uma experiência de crescimento. É possível observar. etc.A tradição fenomenológica da Gestalt-terapia brasileira já se desenvolve há alguns anos. 3) voltar-se a um trabalho de experimentação sistemática pra descrever com acuidade a estrutura dos fenômenos implicados. em dezembro de 1940. podendo ser ilustrada na síntese de Loffredo (1994) das principais características do método fenomenológico. a proposta rogeriana assumiu. em 1987. que causou uma grande polêmica entre os espectadores. 4) Fase coletiva (1970-1987) (Moreira. 77). etc. 2001. diversas fases do pensamento rogeriano. Wood. 2) buscar insight dentro da estrutura própria ao todo fragmentado que é o campo experiencial da percepção. 1987). até chegar à atual denominação &– Abordagem Centrada na Pessoa &– que. Abordagem Centrada na Pessoa e Fenomenologia A Abordagem Centrada na Pessoa foi criada pelo psicólogo norte-americano Carl Rogers como uma proposta inovadora de psicoterapia a partir de uma palestra proferida na Universidade de Minnesota. mais vulnerável a acusações como a de ser utilizada como “seita”. Cury. colocando-se entre parênteses pré-concepções estranhas a este vivido imediato. no livro Psicoterapia e Consulta Psicológica (Rogers. que identifica uma proliferação de versões contemporâneas da Abordagem Centrada na Pessoa após a morte de Carl Rogers. poderíamos acrescentar uma quinta fase: 5) Fase pós-rogeriana (a partir de 1987 até os dias atuais). sobre Novos Conceitos em Psicoterapia. 5) estar imbuído da ‘atitude fenomenológica’. Encontramos. tais como educação. segundo Rogers (1983b). nos Estados Unidos. 2) Terapia Centrada no Cliente (1950-1957). 3) Terapia Experiencial (1957-1970) (Hart & Tomlinson. Com base na análise de Segrera (2002). partindo de uma proposta de atendimento clínico (aconselhamento e psicoterapia) se amplia a outras áreas. é a denominação mais abrangente e que descreve melhor sua teoria. ao longo dos anos. Essas idéias foram publicadas. 4) buscar insight no próprio processo de awareness. Terapia Centrada no Cliente. várias denominações: Aconselhamento Não-Diretivo. criando condição de existência do mundo e dando-lhe sentido (p. presentes na Gestaltterapia &– na opinião desta autora &– a partir da Psicologia da Gestalt: 1) dar ênfase à experiência imediata aqui-e-agora. A evolução da denominação expressa um movimento na teoria rogeriana. que. 1970. A palestra versava sobre conceitos que tinham como base o impulso individual para o crescimento e para a saúde. colocando maior ênfase nos aspectos emocionais do que nos intelectuais. Ensino Centrado no Aluno. uma apropriação dos conceitos da fenomenologia para a descrição da Gestalt-terapia que potencializa uma compreensão fenomenológica da Gestalt-terapia. grupos. 1973). deixa para trás uma compreensão meramente tecnicista da Gestaltterapia. que têm sido descritas como: 1) Psicoterapia Não-Diretiva (1940-1950). . A partir de então. 2007) ou Inter-Humana (Holanda. assim. na argumentação de Loffredo. que supõe ser a consciência sempre ‘consciência de’. 1998).

Rogers teve contato com a teoria de Dewey.. positiva está baseada. A tendência atualizante é. Por intermédio de Kirkpatrick. 16). quanto na ênfase pragmática da experiência. definida como “um fluxo subjacente de movimento para uma realização construtiva de suas possibilidades intrínsecas (. Em 1942. trata-se de um potencial natural de crescimento pessoal inerente à pessoa.. todo organismo tem uma tendência para desenvolver suas potencialidades de forma positiva. p. seu professor de filosofia da educação na Universidade de Columbia. 1978.. que “a abordagem centrada na pessoa baseia-se em uma premissa que a princípio pareceu arriscada e incerta: uma visão de homem como sendo. quando afirma: “deve haver uma disposição para aceitar a criança como ela é (. p. ao longo de toda a sua obra. que teve profundas repercussões em seu pensamento.. Desta forma. e. de 1957. tem a pessoa como centro das preocupações. que se desenvolve sob condições facilitadoras. 63). que fez de Carl Rogers o mais renomado psicoterapeuta dos Estados Unidos. 1976. por algum motivo não esteja fluindo naturalmente em uma direção positiva. um organismo digno de confiança” (Rogers. 38) &–.. 1983a) se inserem na matriz vitalista e naturista. Ou seja. tanto na compreensão do significado do crescimento como processo contínuo. A confiança no potencial da pessoa encontra-se presente no pensamento rogeriano desde o início de sua carreira. em sua própria experiência clinica. O trabalho do psicoterapeuta. o país do pragmatismo por excelência. Cavalcante Jr. É bem verdade que. (2008) lembra que o pragmatismo foi criado por Peirce. p. do professor ou do facilitador de grupos é favorecer que a tendência atualizante possa se desenvolver por meio de atitudes facilitadoras &– empatia. como é sugerido pela própria denominação. Rogers se referiu à sua experiência pessoal como fonte de seus escritos &– “não posso fazer mais do que tentar viver segundo a minha própria interpretação da presente significação da minha experiência. fundamentalmente. sempre se perguntando “se funciona”. definida como intrínseca e inerente à pessoa. 1977a). seu foco se manteve o mesmo ao longo de toda a sua vida: a Abordagem Centrada na Pessoa. congruência e aceitação positiva incondicional: “a terapia (. foi esta ênfase pragmática. o que situa seu pensamento na corrente funcionalista pragmatista norte-americana. A teoria rogeriana tem como postulado fundamental a tendência atualizante. 1976. 17).) uma tendência natural para o desenvolvimento completo” (p. p. Rogers propôs a confiança no indivíduo como uma característica da consulta psicológica (Rogers. quando essa tendência se viu bloqueada” (Rogers. segundo Rogers. 247). explicitando posteriormente. 2007). 1976. o conceito central sobre o qual está construída a Abordagem Centrada na Pessoa (Moreira. ao trabalhar com crianças.) e dar-lhe liberdade para tentar soluções próprias para os seus problemas” (Rogers. ele afirma que é a sua experiência que mostra que os clientes são fundamentalmente bons. Para Rogers (1977).. o homem é considerado como seu próprio arquiteto (Moreira. Segundo Cavalcante Jr (2008).” (Rogers.. como uma tendência inerente à pessoa (Rogers. Trata-se da tendência atualizante. havendo William James resgatado sua dimensão experiencial. 1979).Ainda que os interesses de Carl Rogers tenham se modificado. A idéia de que a natureza humana é. em . em 1939.. 2001. ou ainda. 2001. as concepções de Rogers (1979.) desempenha um papel extremamente importante na libertação e no processo de facilitação da tendência do organismo para um desenvolvimento psicológico ou para a sua maturidade. em essência. o que torna significativa a polêmica se seu pensamento é fenomenológico ou não. a psicoterapia teria como objetivo facilitar o desbloqueio da tendência atualizante quando esta &– que é intrínseca e inerente ao ser humano &–. Assim. portanto. 2007). Desde o seu conhecido artigo A note on the nature of man. tal como formulada por Figueiredo (1991).

que tenha tido a oportunidade de conhecê-lo ou de trabalhar com ele pessoalmente. terá certeza de que. em nenhum momento. Rogers. ou seja. No entanto. Trata-se de uma tendência evolutiva para uma maior ordem. dado que seu modelo de ciência era eminentemente positivista. quando. entendida como a ciência de sua época e de seu momento histórico cultural. quando sugere que (. que assumamos a atitude observadora e descritiva [sendo a descrição o ponto de partida da fenomenologia para a compreensão da experiência vivida?] do naturalista. em sua fase tardia. nos cristais.. 2007). Critica a utilização de tais critérios de êxito psicoterapêutico. aliado ao seu contexto histórico. a experiência subjetiva o levara a criar uma proposta inovadora de psicoterapia. os escritos de Rogers parecem bastante fenomenológicos. Rogers (1983a) afirma (. o conceito de tendência atualizante e. Provavelmente seu estilo pragmático. Assim. nunca prometeu qualquer cura.. tipicamente norte-americano. para serem reconhecidas como “científicas”. 1976. p. posteriormente. ao contrário do que afirma Figueiredo com relação às abordagens psicológicas que se inserem na matriz vitalista e naturista. se angustiava. contribuindo para o desenvolvimento da psicoterapia e da compreensão do ser humano. denominada de “fase coletiva” ou “fase interhumana” (Holanda.. o conceito de tendência formativa do último Rogers (1983a) que amplia esta tendência positiva ao universo como um todo. Além disso. não deixam qualquer margem de dúvida quanto à inserção de seu pensamento na matriz vitalista e naturista. Rogers sofreu. 1998.) existe uma tendência formativa no universo que pode ser rastreada e observada no espaço estelar. afirmando que “o conceito de cura é totalmente inadequado. quando deixa de trabalhar como psicoterapeuta e passa a se interessar prioritariamente por grupos e pela resolução de conflitos internacionais de ordem coletiva. de fato. principalmente. 203). p. para um modo de conceber e . ainda que se possa considerar Carl Rogers um mestre do pensamento compreensivo contemporâneo. criador de seitas ou algo do tipo. onde metodologias qualitativas não eram consideradas cientificas. uma maior complexidade. com o difícil dilema entre pessoa e ciência (Rogers. como cientista. não é possível afirmar que ele faça parte da matriz compreensiva fenomenológica. Na espécie humana.. Portanto. precisaram ser desenvolvidas como investigações positivistas.. profundamente interessados em ajudar o outro. 1976. [e aqui volta a assumir sua vertente naturalista. que. 1976). na vida orgânica mais complexa e nos seres humanos. o impediu de buscar metodologias qualitativas mais apropriadas para seus estudos clínicos.” (Rogers..algumas passagens. na época. durante toda a sua vida. apenas quantitativas. ele ou qualquer membro de sua equipe de trabalho de La Jolla teve alguma pretensão de ser guru. haja vista que. colocando entre parênteses idéias préconcebidas?].. para ele. No entanto. Moreira. O compromisso rogeriano com a ciência (mesmo que ingênuo e positivista) torna sem sentido a acusação de Figueiredo (1991) ao relacioná-lo à figura de um guru. Não contou com o método fenomenológico ou outro método qualitativo em suas pesquisas pioneiras em psicoterapia. Carl Rogers e seus colegas eram os mais modestos e sérios dos profissionais e estavam.) nos aproximemos dos fenômenos com o mínimo de pré-conceitos possível [em uma atitude de redução fenomenológica. nos micro-organismos.. Por exemplo. essa tendência se expressa quando o indivíduo progride de seu início unicelular para um funcionamento orgânico complexo. tal como formulada por Figueiredo (1991). quem leu a obra de Rogers mais a fundo e. Ao contrário. 110). presa da objetividade. uma maior inter-relação. mesmo se soou fenomenológico no início de sua afirmação] (Rogers.

em harmonia e unidade com o sistema cósmico no qual se inclui a espécie humana (p. em resposta à insistência dos seus alunos. para uma consciência transcendente. pois mais baseada em sua própria experiência do que em qualquer corrente existencialista. 1998). Seu contato com Gendlin. ele voltou a se distanciar de uma fenomenologia clínica na década de 1980. A partir do trabalho com Gendlin (1970). A utilização de termos como “consciência transcendente”. ainda que Rogers tenha adotado um direcionamento fenomenológico na década de 1960. passou a ser entendido com base em um movimento universal igualmente construtivo &– a tendência formativa &– a partir das descobertas da física e da biologia (Holanda. possivelmente. em sua fase coletiva ou inter-humana (1970-1987). Entre eles. ou “o bom da vida é interior e não depende de fontes externas” (p. derivou na abordagem experiencial. 1998. Rogers fez as primeiras alusões à filosofia existencial e fenomenológica.de sentir abaixo do nível de consciência. 1972. na sua fase experiencial. que. o conceito de campo fenomenal. A idéia de uma abordagem centrada na pessoa está associada à concepção de uma pessoa “interior”. com a qual tomou contato tardiamente a partir da leitura de Buber e de Kierkegaard. 2001. 1990. 2007). contribuiu para que Rogers passasse do positivismo lógico para uma orientação existencialista. 1989. Em pesquisa que analisou as intervenções clínicas rogerianas nas décadas de 1940. tal como pode ser encontrado na citação acima. Rogers sentiu-se atraído pela ênfase na experiência como conceito fenomenológico-existencial. em La Jolla. como sua primeira tentativa de elaborar teoricamente a relação terapeuta-cliente. 2007). no entanto. Amatuzzi. no Center for Studies of the Person. fundada por Gendlin. “cristais” ou “sistema cósmico”. Em 1961. de fato. o filósofo . 1960 e 1980 mostra-se que. então. na Califórnia. se destacam os que buscam relacionar os pensamentos de Rogers e de Buber (Boris. em sua fase experiencial. 2007). 67). na primeira edição do livro Terapia Centrada no Cliente (1975). a não ser que eliminemos os estímulos externos” (p. Introduziu. 1987. uma abordagem fenomenológica (Spiegelberg. Rogers reconheceu seu dilema entre o positivismo lógico e a abordagem existencial. É importante lembrar que apenas em 1951. o conceito vitalista e naturista de tendência atualizante. haja vista que Rogers adotou tal denominação tardia e incidentalmente e nunca tentou praticar. Nesta fase. A visão dualista apontada por Figueiredo (1991) como característica da matriz vitalista e naturista é evidente ao longo de toda a obra rogeriana até em seus escritos mais recentes. “espaço estelar”. de fundamentação teórico-epistemológica em filósofos fenomenológicos e/ou existenciais. para um conhecimento consciente do organismo e do mundo externo. uma vertente atual da Abordagem Centrada na Pessoa. 1987. 50). explicitamente. por parte de psicoterapeutas humanistas brasileiros. não ter estudado a filosofia existencial. cuja ativação era o foco de sua proposta de psicoterapia. provavelmente deu lugar à crítica de Figueiredo (1991) aproximando-a das chamadas terapias alternativas. Não é rara a busca. 2001. publicados em Um Jeito de Ser. considerar toda a psicologia rogeriana como fenomenológica seria um exagero evidente. já no debate público realizado entre Buber e Rogers (1965). em seu livro Tornar-se Pessoa.. Moreira.. Cury. que proliferam na contemporaneidade. experiencial.) parece que em nosso mundo interior está sempre ocorrendo algo que absolutamente não conhecemos. Moreira. Holanda. Rogers declarou. pois se manteve preso à idéia de pessoa “interior” como centro (Moreira. intencionalmente. No entanto. posteriormente. onde Rogers (1983a) utiliza os termos “interior” e “exterior”: “(. 2001. 105).

ou no pragmatismo de Perls ao afirmar que sua proposta parte dele mesmo &– se insere na matriz vitalista e naturista. a interpretações eventualmente um tanto preconceituosas de suas teorias. 2005. 2007). 2005) é um engano. Justo & Holanda. Fonseca. 2004. 1998. 1989. dá lugar a reflexões interessantes. 1991. mas realizam um caminho próprio). tal como formuladas originalmente por seus criadores. Nietzsche. essas iniciativas devem ser encaradas como desenvolvimentos contemporâneos de psicoterapeutas “pósrogerianos” (que partem de seus pensamentos. em outros &– em especial no que se refere ao conceito de campo organismo-ambiente. como Kierkegaard. na fase coletiva ou interhumana de Rogers (1970-1987). ainda que partam de seu pensamento. 2009). propostas por Luis Claudio Figueiredo (1991). Dutra. na medida em que assumiram uma direção fenomenológicoexistencial. Moreira. a Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa representam contribuições fundamentais para o desenvolvimento da psicoterapia hoje. talvez possamos pensálas como os “múltiplos contornos” que Merleau-Ponty (1960) identifica em sua filosofia com base na pintura de Cézanne (Moreira. própria do pensamento fenomenológico-existencial. assume. Frederick Perls e colaboradores e Carl Rogers. em certos momentos &– na compreensão da vida como um fluxo positivo. além de Buber. Tanto Perls quanto Rogers. 2006. que rompe com o pensamento dualista. A Abordagem Centrada na Pessoa. que podem contribuir para a sempre polêmica e atual discussão: elas são abordagens fenomenológicas? Este artigo mostra que tal classificação em termos de matrizes psicológicas não pode ser adotada rigidamente nem considerada definitiva. Belém. o que não ocorreria na relação psicoterapêutica (Amatuzzi. Heidegger. discordando de Rogers por conta da mutualidade que se verifica nesta última. 2007. Moreira. com as matrizes do pensamento psicológico. reforçando o conceito de tendência atualizante que se amplia no conceito de tendência formativa. A Gestaltterapia de Perls.. é possível considerar que as fenomenologias existenciais passaram a ter um papel fundamental em muitas das vertentes atuais da Abordagem Centrada na Pessoa. Parece possível buscar afinidades entre as bases filosóficas fenomenológicas e/ou existenciais e o pensamento rogeriano como é desenvolvido na atualidade. em suas obras inovadoras no campo da psicoterapia. 1998.Ponty. Husserl. Moreira. Tais vertentes “pósrogerianas” contemporâneas. Holanda. Sartre. 2001. 2006. seu caráter pragmático e naturalista. mas não devemos nos iludir de que tais filósofos tenham influenciado a teoria rogeriana original. não se pode esquecer. 2007). Afirmar que a fenomenologia influenciou a Abordagem Centrada na Pessoa (Gobbi et al. .existencial negou que a relação psicoterapêutica fosse um exemplo de relação EuTu. ou quando critica o dualismo nas psicologias &– parece se inserir na matriz compreensiva. o que caracteriza a matriz vitalista e naturista. cada um a sua maneira. bem como de diversos outros (Advíncula. o que nunca foi um empreendimento do próprio Rogers. Gobbi. Missel. Mais do que tentativas de fundamentação teórico-epistemológica de tais psicoterapeutas brasileiros. ao buscar fundamentação em filósofos fenomenológicos e/ou existenciais. Messias & Cury. passaram a ter vida própria nestes mais de 20 anos após a morte de Rogers. Considerações Finais O diálogo da Gestalt-terapia e a da Abordagem Centrada na Pessoa. possivelmente dão margem. 2008. que em sua fase experiencial (1957-1970) se aproximou da fenomenologia via ênfase no conceito de experiência a partir da influência de Gendlin (Messias & Cury. No entanto. Merleau. 2001. No entanto. 2007).

D. Buenos Aires: Amorrortu. (2002). (1992a). 11-18). 69-75. (2004).UNIFOR. G. Fome e Agressão”. 7(2). Ou quem sabe a atitude pragmática. Tendência atualizante e vontade de potência: um paralelo entre Rogers e Nietzsche. Boris. G. L. Perls. Prefácio à edição brasileira. As várias faces de “Ego. Dissertação de Mestrado. Binswanger. Introduction à l´analyse existentielle. Belém. que tanto tem. Paris: Les Édtions Minuit. Revista de Humanidades . O processo de cooperação na psicoterapia de grupo em GestaltTerapia. (1989). (1995). 2009). ainda. exatamente como uma tentativa de se livrar das acusações de tais abordagens serem teorias alternativas pouco sérias. São Paulo: Summus. 9 (7). 5 (1). Quem sabe esse movimento aconteça. Boris. (1991). L. C. 7 (5). tanto de Rogers quanto de Perls. seja em Rogers e se desenvolve fundamentado na fenomenologia existencial em Heidegger. 111-124. que parte do pensamento humanista. Boris.UNIFOR. na direção de uma aproximação ou mesmo de um desenvolvimento contemporâneo de uma abordagem humanista. 45-52. (1992b). (1971). Uma reflexão acerca da consistência teórica das psicoterapias humanistas.Terapia. Recife. ainda que ambas humanistas). (1987). Em F. Binswanger. Campinas: Papirus. Abordagem centrada na pessoa: um olhar contemporâneo. G. M. G. Sobre Fritz Perls e “Ego. Ego. Tres formas de la existência frustrada. Fritz Perls: centenário de nascimento (1893. (2002). Buber e assim por diante. Perls. Universidade Federal do Ceará.fenomenológica (Moreira.É importante observar um movimento similar. (1972). G. Dissertação de Mestrado. Gestalt-Terapia e filosofia: onde e como nos perdemos? Como nos (re)encontraremos? Revista de Humanidades . O resgate da fala autêntica. 201-214. Fome e Agressão”. G. Revista de Humanidades . (1990). Fortaleza. Boris. no Brasil. (Originalmente publicado em 1947). . seja baseado em Perls. Ego fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud (pp. 19-33). 34-39. Araújo. não dê conta da clínica psicológica. diga-se de passagem. Revista de Psicologia. a aprender sobre o Lebenswelt (mundo vivido). Amatuzzi. Psicologia: Terapia e Pesquisa. tanto na Gestalt-terapia quanto na Abordagem Centrada na Pessoa. Universidade Católica de Pernambuco. ao desenvolverem suas teorias com base em suas próprias práticas (bem diferentes não apenas em estilo como em teoria. Em F.1 Referências Advíncula. São Paulo: Summus. Abordagem Centrada na Pessoa e Gestalt. (Originalmente publicado em 1956). isto é. Boris. I. fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud (pp. Merleau-Ponty.UNIFOR.1993). Boris. G. 12 (10).

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