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Osteoartrites

Autores
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Jamil Natour
Publicação: Out-2005

1 - Quais os outros nomes usados como sinônimo de osteoartrite?

Artrose, osteoartrose, doença degenerativa articular. Os pacientes confundem bastante estes


nomes com o de outras doenças e, sobretudo, com a palavra artrite, que simplesmente
significa junta inflamada.

2 - O que é osteoartrite?

É o distúrbio osteoarticular mais freqüente, caracterizado pela destruição da cartilagem


articular, modificações no osso subcondral e sintomas como dor, crepitação e edema articular.

3 - Quais as características patológicas da osteoartrite?

Elas podem ser divididas em precoces e tardias:

Precoces

Edema da cartilagem articular, afrouxamento da estrutura colágena da matriz extracelular,


síntese aumentada de proteoglicanos pelos condrócitos, aumento das enzimas de degradação,
como as metaloproteases, e diminuição dos inibidores destas enzimas.

Tardias

Destruição enzimática de proteoglicanos maior que sua produção pelos condrócitos, diminuição
da quantia de proteoglicanos, afilamento e amolecimento da cartilagem, fissura da cartilagem,
reparação insuficiente, exposição do osso subcondral. O osso subcondral exposto passa a
sofrer maior pressão do líquido sinovial, podendo surgir cistos, remodelação óssea,
microfissuras e compactação, formando a esclerose subcondral e osteófitos.

4 - Quais as características clínicas da osteoartrite?

• dor articular,

• piora da dor com atividade, melhora com repouso,

• rigidez matinal de curta duração (poucos minutos),

• rigidez protocinética (no início do movimento),

• aumento do volume articular,

• instabilidade articular,

• diminuição da amplitude de movimento articular,

• atrofia da musculatura periarticular,

• crepitação,

• derrame articular.

1
Professor de Reumatologia da Universidade Federal de São Paulo

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5 - O que é crepitação?

Rangido, estalido ou som de moagem produzido pela articulação com cartilagem irregular que
se atrita com uma superfície semelhante.

6 - Quais as articulações mais acometidas pela osteoartrite?

São elas:

• interfalangeanas distais das mãos,

• interfalangeanas proximais das mãos,

• primeira carpo-metacarpeana (rizartrose),

• articulação acrômio-clavicular,

• quadris,

• joelhos,

• primeira metatarsofalangeana dos pés,

• articulações zigoapofizarias da coluna cervical e lombar.

7 - Quais as articulações menos acometidas pela osteoartrite?

São elas:

• metacarpofalangeanas,

• punhos,

• cotovelos,

• articulação gleno-umeral,

• tornozelos.

O envolvimento dessas articulações pode sugerir uma causa secundária para a osteoartrose

8 - Quais os achados laboratoriais na osteoartrite?

São inespecíficos. Não ocorrem alterações das provas inflamatórias, nem surgem auto-
anticorpos. O liquido sinovial apresenta alta viscosidade, sendo amarelo claro, com poucos
leucócitos, ausência de cristais e cultura negativa.

9 - Quais os achados radiológicos na osteoartrite?

Os principais são:

• diminuição da interlinha articular decorrente do afilamento da cartilagem,

• esclerose subcondral,

• osteofitose,

• cistos subcondrais grandes (geodes).

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10 - Qual a classificação da osteoartrite?

• Primária ou idiopática

• Secundária

11 - Qual a epidemiologia da osteoartrite primária?

A incidência aumenta com a idade e ela é mais comum em mulheres. Cinqüenta a 80% das
pessoas com mais de 65 anos têm evidencia radiográfica da doença. Estima-se que 2% a 3%
da população adulta tenha osteoartrite sintomática.

12 - O que são os nódulos de Heberden e de Bouchard?

São nódulos articulares ósseos (osteófitos), chamados de nódulos de Heberden quando


localizados nas articulações interfalangeanas distais, e de Bouchard, quando localizados nas
interfalangeanas proximais. Podem ocorrer desvios das falanges. São mais freqüentes em
mulheres e têm caráter familiar.

13 - Quais os fatores de risco para a osteoartrite?

São eles:

• obesidade,

• hereditariedade na osteoartrite de mãos,

• idade,

• trauma articular prévio,

• mecânica articular anormal (joelhos varos ou valgos, por exemplo),

• tabagismo.

14 - Obesidade predispõe a osteoartrite?

O assunto é controverso na literatura, mas parece que sim para joelhos, mas não para quadris.

15 - Esporte predispõe a osteoartrite?

Lesão articular prévia e uso repetitivo da articulação predispõem ao desenvolvimento de


osteoartrite. Então, esportes de impacto com traumas articulares freqüentes estão relacionados
ao desenvolvimento desta enfermidade.

16 - O que é osteoartrite erosiva?

É um tipo de osteoartrite primária das mãos que ocorre mais freqüentemente em mulheres
acima dos 50 anos, na qual os fenômenos inflamatórios são mais evidentes e constantes,
levando a deformidades mais exuberantes. Estes casos são freqüentemente diagnosticados
erroneamente como artrite reumatóide.

17 - O que é DISH (do inglês, diffuse idiophathic skeletal hyperostosis – ossificação


ligamentar idiopática)?

Também conhecida como doença de Forestier, ela é freqüentemente confundida com


espondilite anquilosante e artrose na coluna vertebral. Não apresenta alteração cartilagínea ou
inflamação em sua evolução. Localiza-se freqüentemente em zonas de solicitação mecânica,
sendo assintomática, salvo no Japão, onde é causa de estreitamento do canal medular
cervical, levando a compressão medular sintomática.

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18 - Qual a diferença entre osteoartrite primária e secundária?

A secundária tem a mesma característica clínica da primária, exceto por apresentar um fator
etiológico identificável, podendo ter distribuição articular diferente. Sempre que nos deparamos
com osteoartrite de localização pouco habitual, devemos buscar uma doença subjacente.

19 - Quais os principais exemplos de osteoartrite secundária?

• trauma,

• distúrbios congênitos (Legg-Perthes-Calvé, luxação congênita de quadril, acetábulo


plano congênito, etc),

• escoliose,

• varo ou valgo,

• hipermobilidade,

• doenças metabólicas (hemocromatose, hemoglobinopatias, ocronose, etc),

• neuropatias (diabetes, sífilis, etc),

• doenças inflamatórias articulares (artrite reumatóide, espondilite anquilosante,


pioartrite, etc),

• doenças por cristal (condrocalcinose, gota).

20 - Quais medicamentos auxiliam no tratamento de pacientes com osteoartrite?

Os analgésicos simples e os antiinflamatórios não-hormonais (AINH) são as medicações mais


utilizadas no manejo destes pacientes, devendo-se tomar cuidado com o uso prolongado de
AINH e mesmo analgésicos em pessoas que geralmente são idosas.

Com o intuito de frear a degradação da cartilagem, tem-se proposto o uso de muitos


medicamentos que, no entanto, não têm comprovação definitiva de seus papéis nestes casos.
Assim, são usados glucosamina, condroitina, cloroquina, diacereína, capsaicina tópica, etc.

21 - Quais as infiltrações articulares utilizadas no tratamento da osteoartrite?

São dois os tipos de infiltrações realizadas:

• infiltrações intra-articulares com corticóides e/ou radioisótopos para as articulações


com inflamação evidente,

• viscossuplementação.

22 - Qual corticosteróide é utilizado nestas infiltrações?

Todo tipo de corticosteróide de depósito pode ser usado, mas os melhores resultados são
obtidos com a triancinolona hexacetonida. Mesmo infiltrações realizadas três a quatro vezes
por ano não aceleram a degradação da cartilagem articular.

23 - Como funciona a viscossuplementação?

Na verdade este nome não reflete bem os fenômenos articulares que se passam após sua
injeção. Apesar de manter-se de maneira fugaz no espaço intra-articular, ela traz benefícios de
meses para alívio dos sintomas. Este alívio, no entanto, é limitado e não ocorre em todos os
pacientes.

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24 - Quando seriam indicadas as infiltrações radioisotópicas?

Quando existe atividade inflamatória articular não controlada por um curto período de
antiinflamatório não-hormonal (AINH) e por infiltração com triancinolona hexacetonida, ou
ainda, quando a recorrência após estes tratamentos é precoce. Os produtos mais usados são
yitriun, rheniun e herbiun, dependendo do tamanho da articulação.

25 - Quais as indicações cirúrgicas na osteoartrite?

As cirurgias podem ser preventivas, para corrigir uma deformidade, antes ainda do surgimento
da doença, como é o caso dos grandes varismos e valgismos. Podem ser realizadas, ainda,
sinovectomias cirúrgicas nas artropatias inflamatórias ou artroplastias, após a destruição
articular.

26 - Quais as articulações que são mais freqüentemente substituídas por próteses?

Sobretudo quadris e joelhos, menos freqüentemente e com resultados menos brilhantes,


ombros e metacarpofalangeanas (na artrose secundária).

27 - Quais as indicações de próteses em articulações com artrose?

A prótese está indicada quando, após tratamento clínico adequado, o comprometimento


funcional e/ou a dor trazem grande limitação e perda da qualidade de vida. Este julgamento
deve ser do paciente, devidamente orientado e esclarecido pelo médico, em relação ao
procedimento e aos resultados.

28 - Como é a reabilitação do paciente com osteoartrite?

A reabilitação depende da fase em que se encontra a doença e da articulação acometida. São


fundamentais medidas de proteção articular, recebendo o paciente orientação quanto as
maneiras de executar e organizar suas tarefas, com ou sem auxílio de órteses, que
proporcionem um menor estresse mecânico articular. Medidas simples, como evitar sacolas
que são carregas pelos dedos com osteoartrite ou o uso de bengalas, podem ser bastante
úteis.

Também as técnicas de conservação de energia ajudam os pacientes. As atividades da vida


diária, quando devidamente planejadas, podem ser executadas com menor custo energético,
aumentando as possibilidades dos pacientes. Assim, por exemplo, planejar quantas vezes é
realmente necessário subir escadas até o andar superior da casa pode permitir que uma dona
de casa não seja obrigada a parar suas atividades no meio do dia. Medidas como esta
diminuem fadiga, dor e aumentam o rendimento.

Adaptações também são importantes e auxiliam nas medidas de proteção articular e de


conservação de energia. Simples calçadeiras, por exemplo, podem diminuir sintomas de um
paciente com nódulos de Heberden e Bouchard. Vasos sanitários e cadeiras mais elevadas
melhoram a independência de pacientes com osteoartrite de quadril ou joelho.

Ainda, a fisioterapia é fundamental para ganho de amplitude de movimento, reforço muscular,


treino de marcha, propriocepção e melhora funcional. Exercícios terapêuticos são fundamentais
e podem ser realizados na água.

Essas intervenções devem ser planejadas para cada indivíduo, de acordo com suas
necessidades e com o acometimento articular.

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29 - Quais são outras medidas úteis para alguém com osteoartrite?

• perda de peso,

• repouso articular nas fases mais dolorosas,

• esportes adequados,

• órteses (talas para os dedos, cintas, colares, bengalas, muletas, palmilhas, etc).

30 - Quando está indicado o uso de bengalas e de muletas?

As bengalas e muletas são úteis para proteção articular e diminuição da dor, sobretudo em
casos de osteoartrite de joelhos e quadris. Este assunto não está devidamente estudado pela
literatura, mas recomendam-se bengalas apoiadas no membro superior contralateral à
articulação acometida com comprimento que mantenha o cotovelo em ângulo de 30 graus
durante o apoio. A bengala deve ser leve, preferencialmente com cadarço para o punho. Para
proteger as mãos, podem ser usadas muletas tipo canadense, com apoio no antebraço.

Devemos considerar que o uso de qualquer órtese, inclusive de bengalas, aumenta o consumo
de energia, tornando a marcha mais lenta, porém menos dolorosa. Existe grande resistência
por parte dos pacientes, mas elas podem ajudar qualquer indivíduo com osteoartrite
sintomática de joelho ou quadril.

31 - Qual o quadro clínico da osteoartrite de quadril?

A osteoartrite primária manifesta-se geralmente pela dor, insidiosa no início,


caracteristicamente na região da virilha, podendo estender-se para nádega e coxa. Não é
incomum o paciente queixar-se apenas de dor em joelho homolateral. Segue-se diminuição da
amplitude de movimentos e disfunção, que pode chegar à parada da deambulação. A posição
antálgica em flexão pode levar a bloqueio articular nesta posição e impedir o ortostatismo.
Posicionamento articular nas fases mais dolorosas é fundamental para evitar essas posições
viciosas definitivas.

32 - Qual o quadro clínico da osteoartrite de joelho?

Como no quadril, tem início geralmente insidioso e é referida no próprio joelho.


Freqüentemente é mais dolorosa ou apenas dolorosa nos primeiros passos ao sair da posição
de repouso. Pode ter períodos mais inflamatórios, nos quais o derrame articular é detectado
clinicamente. As deformidades, instabilidades e posições em flexão podem comprometer a
marcha e mesmo impedir a posição ortostática. As crepitações e a diminuição da amplitude de
movimento são freqüentes.

33 - Qual o quadro clínico da osteoartrite de mãos?

As dores de caráter mecânico, ligadas ao movimento, e o surgimento dos nódulos de Heberden


e Bouchard caracterizam a doença. Também é freqüente o acometimento da primeira carpo-
metacarpeana, chamada de rizartrose. Períodos inflamatórios mais dolorosos são comuns e as
deformidades trazem problemas estéticos. Dificilmente leva a alterações funcionais
importantes.

34 - Qual o quadro clínico da osteoartrite da primeira metatarsofalangeana?

O halux rigidus é bastante doloroso, mas sem alterações estéticas maiores, com grande
diminuição da amplitude de movimento articular, que é dolorosa. A articulação pode aumentar
de volume e períodos de artrite são comuns.

O halux valgus manifesta-se pelo valgismo e rotação do dedo, podendo ser doloroso ou não,
levando freqüentemente a problemas estéticos. É piorado pelo uso de salto alto e sapatos
apertados.

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35 - Qual o quadro clínico da osteoartrite na coluna vertebral?

Com o aumento da sensibilidade dos exames de imagem, os fenômenos degenerativos


articulares são detectados mais precocemente, muitas vezes não tendo significado clínico.
Existe uma baixa correlação entre o quadro clínico e os achados dos exames de imagem na
coluna vertebral. As alterações nos exames de imagem podem ser valorizadas apenas à luz do
quadro clínico, obtido em uma consulta médica bem feita.

Geralmente assintomática, a degeneração articular na coluna vertebral pode levar a diferentes


síndromes. As dores de origem discal geralmente pioram com a flexão e têm irradiação
regional próxima, salvo quando existe compressão radicular. A osteoartrite zigoapofisária pode
levar a síndrome facetária (antigo nome destas articulações), caracterizada por dor com
irradiação locorregional, simulando radiculalgia atípica, piorando com a extensão. Também o
acometimento zigoapofisário pode levar à síndrome do canal estreito, caracterizada por
claudicação intermitente, piorando progressivamente com a marcha, obrigando o paciente a
parar a distâncias cada vez menores, manifestando-se por fadiga ou dor, difusa ou radicular,
nos membros.

36 - Leitura recomendada

Towheed TE, Hochberg MC, Shea BJ, Wells G. Analgesia and non-aspirin, non-steroidal anti-
inflammatory drugs for osteoarthritis of the hip (Cochrane Review). In: The Cochrane Library,
Issue 2, 2005. Oxford: Update Software.

Towheed TE, Maxwell L, Anastassiades TP, Shea B, Houpt J, Robinson V, Hochberg MC,
Wells G. Glucosamine therapy for treating osteoarthritis (Cochrane Review). In: The Cochrane
Library, Issue 2, 2005. Oxford: Update Software

Bellamy N, Campbell J, Robinson V, Gee T, Bourne R, Wells G. Intraarticular corticosteroid for


treatment of osteoarthritis of the knee (Cochrane Review). In: The Cochrane Library, Issue 2,
2005. Oxford: Update Software.

Watson M, Brookes ST, Faulkner A, Kirwan J. Non-aspirin, non-steroidal anti-inflammatory


drugs for treating osteoarthritis of the knee (Cochrane Review). In: The Cochrane Library, Issue
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Towheed TE, Hochberg MC, Judd MG, Wells G. Acetaminophen for osteoarthritis
(CochraneReview). In: The Cochrane Library, Issue 2, 2005. Oxford: Update Software.

Bellamy N, Campbell J, Robinson V, Gee T, Bourne R, Wells G. Viscosupplementation for the


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2005. Oxford: Update Software

Little CV, Parsons T, Logan S. Herbal therapy for treating osteoarthritis (Cochrane Review). In:
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Brosseau L, Gam A, Harman K, Morin M, Robinson VA, Shea BJ, Tugwell P, Wells G, de Bie
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