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Sumário

Apresentação

I – Títulos relacionados aos privilégios de Nossa Senhora

II – Títulos relacionados a fatos históricos na vida de Nossa


Senhora

III – Títulos relacionados às virtudes de Nossa Senhora

IV – Títulos relacionados aos lugares de devoção ou aparição


de Nossa Senhora

Bibliografia

Índice
Apresentação

E Maria disse: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito


exulta de alegria em Deus meu salvador, porque olhou para sua
pobre serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-
aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas
aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se
estende, de geração em geração, sobre os que o temem” (Lucas
1,46-50).
Maria, cheia de graça, glorifica ao Senhor e, inspirada pelo
Espírito Santo, proclama as maravilhas realizadas em sua vida.
Anuncia que “todas as gerações a proclamarão bem-aventurada”.
Hoje, no século XXI, podemos verificar que ao longo da história
muitas manifestações relacionadas à pessoa de Maria, mãe de
Deus e nossa, foram registradas. Muitas nações e cidades foram
consagradas a Nossa Senhora. Em diversas ocasiões ela apareceu
exortando os cristãos a retomarem o seguimento de Cristo. Muitas
dessas manifestações são conhecidas mundialmente, como as
aparições de Lourdes e Fátima, por exemplo.
Em cada lugar que as graças de Deus, por meio de Maria, foram
derramadas, um novo título foi atribuído a Nossa Senhora, como
prova de agradecimento e confiança na sua maternal intercessão.
Assim apresentamos 101 títulos de Nossa Senhora na devoção
popular, fruto das publicações feitas, desde 1996, pelo Pe. Roque
Vicente Beraldi, cmf, na coluna “Maria na devoção popular”, da
Revista Ave Maria. Limitamo-nos a esses títulos, pois jamais
esgotaremos as atribuições de amor, carinho e agradecimento que o
Povo de Deus faz à Mãe de Jesus.
Distribuímos os títulos em quatro capítulos relacionados aos
privilégios, aos fatos históricos, às virtudes e aos lugares de
devoção ou aparição de Nossa Senhora.
Elevamos nossa gratidão, pois Deus na sua imensa misericórdia
jamais deixará de manifestar sua bondade aos seus amados, pois
Ele, por meio de Maria, enviou seu Filho ao mundo para que o
mundo seja salvo por Ele (cf. João 3,17). Assim compreendemos
que a intercessão de Maria é um meio pelo qual muitos se voltam
para o amor misericordioso de Deus, encontrando em Jesus a razão
do seu viver.
I – Títulos relacionados aos privilégios de
Nossa Senhora
Neste capítulo conheceremos alguns títulos sobre os privilégios
de Nossa Senhora. A imaculada conceição, a maternidade, a
virgindade, a assunção e todos os demais privilégios são
concedidos a Maria pelos méritos de Cristo. Reconhecendo essas
prerrogativas de Maria nós louvamos e exaltamos o nome de Jesus,
pela sua misericordiosa e redentora ação na humanidade.

1 Anunciação de Nossa Senhora


Pela história da salvação, sabemos que no livro do Gênesis
encontra-se o princípio da promessa messiânica: “Porei ódio entre ti
e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a
cabeça…” (3,15). Mais tarde, Jeremias, transmitindo ao povo os
oráculos do Senhor, afirma: “Dias virão em que farei brotar de Davi
um rebento justo que será rei e governará com sabedoria e exercerá
na terra o direito e a equidade” (23,5). E repete: “nesses dias e
nesses tempos farei nascer de Davi um rebento justo que exercerá
o direito e a justiça na terra” (33,15). Ainda mais, Zacarias,
transmitindo a promessa, fala: “Eis que farei vir o meu servo
Rebento” (3,8). Rebento (gérmen) é a parte da semente de que se
forma a planta. Aqui a Escritura emprega o termo como símbolo do
salvador prometido. A ânsia pela chegada desse alegre momento da
vinda do redentor era uma constante nos profetas. Assim, Isaías
(45,8) desabafa: “Que os céus enviem o seu orvalho lá das alturas,
e as nuvens derramem o justo como chuva salutar; abra-se a terra e
brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça”. Esse
veemente anelo crescia sempre mais, a ponto de lermos no livro dos
Salmos (6,5): “Voltai, Senhor, livrai minha alma, salvai-me pela
vossa bondade”.
Não se duvida de que também Maria estivesse em oração
implorando a vinda do salvador. Eis que de repente aparece diante
dela o enviado de Deus, que a saúda: “Ave, cheia de graça, o
Senhor é contigo”. Ela se espanta! O mensageiro a tranquiliza! O
anjo lhe diz que foi escolhida e agraciada por Deus, e acrescenta:
“Conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor lhe
dará o trono de seu pai, Davi; e reinará eternamente…” (Lucas
1,30). Gabriel lhe garante que tudo será preparado pelo Espírito
Santo, e que ela manterá a virgindade, e que o menino que vai
nascer será chamado Filho de Deus. Maria responde: “Eis aqui a
serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra”. Aceita o
convite. O arauto celeste se afasta. No mesmo instante o Filho de
Deus é concebido no seio puríssimo de Maria. É a indizível
humildade que Deus assume e para a Virgem de Nazaré a mais
elevada dignidade que se pode imaginar: ser mãe de Deus feito
homem! Admirável mistério!
Os primeiros escritores cristãos são unânimes em afirmar que a
Encarnação de Jesus é o maior de todos os mistérios e encerra
todos os demais. Vai além da inteligência humana. Nele refletem-se
todas as perfeições divinas: a misericórdia, a caridade, a sabedoria.
Nenhuma criatura humana jamais conseguiria aplacar o desgosto de
Deus pela desobediência original e descobrir e propor esse
maravilhoso modo de restabelecer a amizade entre Deus e a
criatura. É a infinita bondade de Deus para com a humanidade que
revela essa misericórdia e essa caridade divinas. Deus Pai, para
salvar o mundo, envia o Filho unigênito. Este desce do céu e se faz
homem para desagravar o Criador. O Espírito Santo prepara o corpo
que será ofertado como vítima da salvação. Estão realizados os
desejos dos profetas, dos patriarcas. Por isso São Paulo exclama
(Ef 2,7): “Ele demonstrou, assim, pelos séculos futuros a imensidão
das riquezas de sua graça, pela bondade que tem para conosco, em
Jesus Cristo”. Eis o que lhe é anunciado: será mãe de Deus feito
homem para remir a humanidade.
Assim, continuamos anunciando a imensidão das riquezas da
graça divina pela bondade que Deus tem para conosco em Jesus
Cristo, vindo ao mundo por meio da Virgem de Nazaré, nossa Mãe.
A Maria, pois, toda honra, toda glória, porque nos trouxe a plena
alegria!

Oração
Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à
humanidade a salvação eterna, fazei-nos sentir sempre a sua
intercessão, pois ela nos trouxe o Autor da vida, que convosco vive
e reina, na unidade do Espírito Santo. Amém.

2 Imaculado Coração de Maria


O coração pode ser visto como um órgão do corpo dos seres
vivos que bombeia sangue para todas as partes do organismo a fim
de levar elementos necessários para a conservação da vida e
recolher os detritos deixados por eles.
O coração é também considerado o centro das emoções. Ele
transmite sentimentos da alma tais como afeto, rancor, desejos e
principalmente o amor.
Nas Escrituras Sagradas encontramos muitas dessas
manifestações.
O livro sagrado do Gênesis (50,17ss.) conta de quando José se
despediu de seus irmãos, que o haviam vendido como escravo aos
ismaelitas, os quais lhe repetiram as palavras de Jacó: “‘Peço-te que
esqueças o crime de teus irmãos, o pecado e a maldade que
usaram contra ti; nós te pedimos, também, que perdoes esta
iniquidade aos servos do Deus de teu pai’. Ouvindo isso, José
chorou”. Depois de ter dirigido a eles palavras consoladoras, José
“falou-lhes com doçura ao coração”.
No Deuteronômio (6,5) encontramos o mandamento dos
mandamentos: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração
e de toda a tua alma e com toda a tua força”.
Muitíssimas outras expressões indicam o coração como centro
afetivo.
O sacerdote francês São João Eudes (nascido em Ri [Orne] em
14 de novembro de 1601 e falecido em Caen em 19 de agosto de
1680) foi quem praticamente empregou a palavra “coração” como
sinônimo de amor. Por isso é considerado o precursor da devoção
aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, pregoeiros do amor, que
ele tanto divulgou.
Houve muitos santos que engrandeceram a Mãe de Deus,
falando sobre suas prerrogativas. Porém, concentrando-as no
coração, foi só a partir de São João Eudes que apareceram
escritores sagrados que o fizeram. Entre eles brilha Santo Antônio
Maria Claret. Ele, de um modo todo especial, propagou a devoção
ao Coração de Maria. Depois da declaração do dogma da
Imaculada Conceição por Pio IX, em 1850, acrescentou a palavra
“Imaculado” ao Coração. Como arcebispo da ilha de Cuba, escreveu
uma carta pastoral convidando o clero e o povo da arquidiocese a
venerar a santa Mãe de Deus com o título do Imaculado Coração de
Maria. Fundou a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado
Coração de Maria, que tem por finalidade santificar todas as
pessoas por meio da devoção ao Imaculado Coração de Maria e
converter os pecadores, empregando todos os meios possíveis.
Respondendo a uma carta de uma senhora devota que desejava
crescer no amor divino, escreveu:
Acabo de receber a vossa prezadíssima carta, na qual me
solicitais que vos diga alguma coisa para crescerdes a cada dia na
devoção ao Imaculado Coração de Maria. Não me podíeis pedir
nada mais agradável. Gostaria que todos os cristãos tivessem fome
e sede desta devoção. Amai, amai muito Nossa Senhora! Costuma
Deus conceder à pessoa dons especiais conforme a missão que lhe
confia. Uma vez que elegeu Maria para ser Mãe, Filha e Esposa do
próprio Deus, e, ao mesmo tempo, Mãe dos homens, podemos
imaginar a grandeza de coração e o oceano de graças de que foi
enriquecida.
Podemos contemplar sob dois aspectos: o coração humano e o
coração espiritual. O coração espiritual é o seu amor e a sua
vontade.
Efetivamente, o Coração de Maria não foi apenas membro vivo
de Jesus Cristo pela fé e pela caridade, mas também origem e fonte
de sua humanidade. Além disso, foi templo do Espírito Santo e
muito mais ainda: do sangue virginal do seu Imaculado Coração o
Espírito Santo formou a santíssima humanidade do Verbo
encarnado. Por conseguinte, o Coração de Maria é o símbolo de
todas as virtudes e, de modo especial, da sua excelsa caridade para
com Deus e os homens. O Coração de Maria é, hoje, um coração
vivo, sublimado ao cume da glória, trono de graça e misericórdia.
Por isso, em Maria, depois de Jesus, devemos pôr a nossa
confiança e esperar dela a nossa salvação eterna. Feliz o que
invoca Maria, o que confia no seu Imaculado Coração: alcançará o
perdão dos pecados, por numerosos e graves que sejam, e a graça
de entrar na glória do Céu.

Oração
Deus misericordioso ouve as súplicas de teus servos; e, já que
nesta solene celebração reconhecemos o Coração puríssimo de
Maria, tua serva, como nossa mãe e nossa rainha, concede-nos
que, servindo ao Senhor e aos irmãos aqui na terra, mereçamos ser
recebidos no reino eterno. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

3 Mãe da Divina Providência


Santo Antônio Maria Zaccaria, preocupado com a renovação da
vida cristã do povo, em 1530, fundou uma congregação religiosa de
sacerdotes, denominada Clérigos Regulares de São Paulo. Seus
colegas cofundadores foram Bartolomeu Ferrari e Tiago Morígia,
cuja espiritualidade baseia-se em São Paulo, e cultuam Maria sob
título de Nossa Senhora Mãe da Divina Providência. Os primeiros
religiosos, na cidade de Milão, na Itália, construíram um oratório
junto à igreja dedicada a São Paulo e São Barnabé. Os fiéis que a
frequentavam foram chamados de “barnabitas”.
Em 1677, por ordem do papa Alexandre VII, um arquiteto que
dirigia as obras de embelezamento da cidade de Roma, ofertou uma
pintura aos barnabitas, para substituir um afresco que se quebrara
durante as reformas. Era uma pintura de Scipione de Gaeta, pintor
da escola de Rafael. Essa pintura representa Nossa Senhora
usando na cabeça um véu fino e transparente. Segura a mãozinha
do Menino Jesus, sem auréola, significando a humanidade
pecadora. Se foi uma lástima danificar-se a primeira imagem de
Maria, por outro lado o fato proporcionou o encontro de outra bela
pintura da Mãe da Divina Providência.
Os padres barnabitas se propuseram a divulgar a devoção a
Nossa Senhora Mãe da Divina Providência por todo o mundo.
Primeiramente essa pintura foi colocada no altar do Oratório situado
no primeiro andar da casa, onde os religiosos se reuniam
habitualmente para orar. Foi o barnabita, padre Pietro Maffetti,
pároco de São Carlos, que em 1732 teve a ideia de colocar o
quadro de Nossa Senhora para a veneração dos fiéis, na Igreja de
São Carlos ai Catinari em Roma. Para tal empreendimento, foi
encarregado o irmão barnabita, Pietro Valentini, de fazer uma
reprodução do original. No dia 12 de julho de 1732, o quadro foi
colocado num pequeno corredor que servia de passagem aos
religiosos que do convento se dirigiam à igreja. Sob o quadro, padre
Maffetti mandou escrever: “MATER DIVINAE PROVIDENTIAE”, Mãe
da Divina Providência.
Essa devoção, muito aceita, foi elevada a confraria e aprovada
pelo papa Bento XIV em 25 de setembro de 1744, e a arquiconfraria
no dia 16 de julho de 1839, pelo papa Gregório XVI. No Brasil, os
padres barnabitas chegaram e deram início a essa devoção de
confiança em 1903. Existe um município homenageando esse título
da virgem, “Providência”, localizado na Diocese de Leopoldina.

Oração
Ó Deus, que destes o Espírito Santo aos Apóstolos quando
perseveraram em oração com Maria, a Mãe de Jesus, concedei-nos
por sua intercessão e sua providência que não nos faltem os meios
materiais e espirituais para bem vos servir e irradiar a glória do
vosso nome em palavras e exemplos. Por Cristo, Senhor nosso,
Amém.

4 Nossa Senhora da Conceição


Todos sabemos que formar o embrião pela fecundação do óvulo
é conceber. Este ato é chamado de “conceição”.
No Jardim do Éden, quando Adão e Eva explicaram a Deus por
que tinham comido do fruto proibido, nesse diálogo Deus “ficou
sabendo” que a serpente (o demônio) havia enganado os nossos
primeiros pais. Foi o primeiro pecado, a desobediência, por isso se
chama original. Então sentenciou, dizendo: “Porei ódio entre ti e a
mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça”
(Gênesis 3,15). “O Senhor Deus os expulsou [Adão e Eva] do jardim
do Éden… e colocou ao oriente Querubins armados de uma espada
flamejante para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis
3,23). Todo o gênero humano concebido pelo primeiro homem e
pela primeira mulher herdou a mesma condenação. Em primeiro
lugar, ela significa a perda da amizade divina, ou seja, da graça, o
que se chama “pecado original”. Maria ficou livre dessa mancha
putrefata do pecado, pois foi idealizada à parte, para contribuir na
redenção de toda a humanidade. Mas quem poderia conhecer esse
privilégio de Maria sem uma revelação divina? Os exegetas,
sobretudo os denominados Santos Padres do início da fé cristã,
interpretaram aquelas palavras da Sagrada Escritura como
promessa de um salvador e que sua mãe não seria afetada pela
serpente, símbolo do pecado. Neste mesmo sentido, aplicaram a
Maria as palavras do livro de Ester: “Não morrerás, porque nossa
ordem não concerne senão ao comum do povo” (15,13). Também os
dizeres do Cântico dos Cânticos registram: “Como o lírio entre
espinhos, assim é minha amiga entre as jovens” (2,2).
Aplicaram ainda a ela outras palavras do Cântico dos Cânticos:
“És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti” (4,7).
Igualmente é assim definida: “És um jardim fechado, minha irmã,
minha esposa, uma nascente, uma fonte selada” (Cântico dos
Cânticos 4,12).
O livro do Eclesiástico nos diz: “aquele que me criou repousou
sob minha tenda” (24,12), e o Salmo proclama: “Do alto, Deus
estendeu a mão e me pegou, retirou-me do seio das grandes águas”
(17,17). As palavras de Maria após a saudação de Isabel resumem
as suas grandezas: “porque fez em mim grandes coisas o Todo-
Poderoso, e santo é o seu nome” (Lucas 1,49).
Depois que Constantino liberou o cristianismo das perseguições
romanas, os fiéis tiveram mais tempo para meditar a Palavra de
Deus e foram descobrindo essas maravilhas. Assim foi em todo o
mundo. Sentimentos pessoais e declarações de Concílios
enalteciam as grandezas de Maria. São Jerônimo escreveu: “Não há
virtude, esplendor e graça que não brilhem na Virgem”.
São Bernardo, o cantor melífluo de Maria, afirmou: “Deus soube
escolher a mãe que ele sabia ser conveniente e conhecia que lhe
seria agradável… Maria, no instante da sua conceição, foi mais
amada por Deus do que todos os santos, pois que era amada como
sua futura mãe”.
Tais elogios não se referem apenas às virtudes internas, mas
também aos dons externos, a ponto de São Dionísio Areopagita,
que conhecera pessoalmente Maria, exclamar diante da sua beleza
extraordinária: “Eu a teria adorado como deusa, se a fé não me
dissesse ser ela uma criatura…”.
Depois de muitas polêmicas o papa Pio IX proclamou o dogma
da Imaculada Conceição, em 8 de dezembro de 1854.
É Maria, a mãe de Jesus, que recebe em todo o orbe os mais
variados títulos, como estamos apresentando neste livro, que
cumpre sua própria profecia: “Todas as gerações chamar-me-ão
bem-aventurada”.
É por isso que ela encontra sempre nos corações humildes a
mais fagueira receptividade. São palavras de Santo Antônio Maria
Claret, fundador dos missionários Filhos do Imaculado Coração de
Maria: “Converte-me em instrumento dócil do teu amor materno,
para te suscitar novos filhos pelo Evangelho”.

Oração
Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho,
pela Imaculada conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo
pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até
vós purificados também de toda culpa por sua materna intercessão.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito
Santo. Amém.

5 Nossa Senhora da Glória


O povo denomina Nossa Senhora da Glória a prerrogativa de
Maria celebrada pela liturgia em 15 de agosto. Os cânticos e
orações glorificam a Mãe de Deus com o título de Assunção de
Nossa Senhora ao céu. Em muitos lugares chamam-na Nossa
Senhora da Boa Morte. Não é para menos! Assim como a Mãe de
Deus deixou esta terra, quem não quer sair deste mundo cheio de
cruzes e dores e ser glorificado num trono eterno de paz e
felicidade? Não é pois de admirar que São Francisco de Assis,
devoto sincero de Maria, saudasse a morte dizendo: “Bem-vinda
sejas, minha irmã morte”. Suárez, grande teólogo, exclamava no fim
de sua vida: “Nunca pensei que fosse tão doce o morrer”. Santo
Antônio Maria Claret repetia com fervor: “Desejo morrer e derramar
todo o meu sangue por amor e reverência de Maria Virgem, Mãe de
Deus”.
Os perversos amigos de satanás que espumam de raiva contra
Deus, seus anjos e santos negam a incomensurável graça de ela ter
sido elevada com o corpo e a alma para o empíreo celeste. As
almas mesquinhas jamais compreenderão tal grandeza. Repetem
mil vezes que não consta na Bíblia… Eles não têm capacidade de
refletir com um raciocínio puro e perfeito tudo o que uma verdade
contém. Mas nem por isso deixa de ser verídica a gloriosa assunção
de Maria aos céus!
Todo mundo se alegra e venera a grande Mãe de Deus por esse
dom. Desde os primórdios da era cristã, depois que o imperador
Constantino decretou a liberdade de culto, os cristãos puderam
refletir e saborear as belezas contidas nas palavras de Jesus: “Eu
sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, mesmo que esteja
morto, viverá”. Ressuscitar quer dizer voltar à vida como era antes
da morte. Logo, nós que verdadeiramente cremos em Cristo
viveremos para sempre!
No livro do Gênesis, lemos sobre Henoc: “Deus o levou” (5,24).
O segundo livro dos Reis narra que “Elias subiu ao céu num
turbilhão” (2,11). Os exegetas explicam o sentido desses verbos
como “elevar – da terra”… Ora, se Henoc, que andou com Deus, por
ser seu amigo, e Elias, seu profeta, foram arrebatados e levados ao
céu, o que dizer sobre Maria, que foi Mãe do Filho de Deus?
O título de Assunção de Nossa Senhora (e posteriormente,
Glória e Boa Morte) é o mais antigo que se conhece. Remonta ao
ano 430. Mesmo sem base histórica, nada contradiz a tradição. Os
sequazes do heresiarca Nestório, patriarca de Constantinopla (428),
cuja doutrina reconhecia duas pessoas em Cristo Jesus, e por isso
separam-se da Igreja, festejavam a Assunção de Nossa Senhora.
São Gregório de Tours ( † 573) foi o primeiro a falar sobre a
Assunção corporal de Maria ao céu. O papa Sérgio I (687-701)
ordenou que se fizesse uma procissão no dia da festa. No século X
apareceram escritores aconselhando prudência no assunto. Eles
tinham mais em conta provas históricas e não as razões teológicas.
Colocadas essas bases, foi banida qualquer dúvida. Agora, em todo
o mundo cantam-se hinos de louvor a Maria assunta ao céu, depois
que o papa Pio XII proclamou no ano santo de 1950 o dogma da
Assunção, conhecida também como Nossa Senhora da Glória.
Significativa é a lenda que narra São Tomé estar ausente quando
Maria deixou a terra. Três dias depois ele quis ver pela última vez
aquele rosto que tanto consolo lhe havia proporcionado. Ao abrir o
túmulo o encontram vazio! Adornavam-no flores de perfume
desconhecido. Ouviam-se vozes e sons angelicais… Os apóstolos
compreenderam que Deus havia antecipado sua ressurreição,
fazendo-a entrar triunfante na glória celeste. Espero um dia
encontrar-me cantando louvores à Trindade Santa e a Vós, ó Mãe
querida, na glória eterna, onde creio estais com alma e corpo agora
e para sempre.

Oração
“Eu quereria ter todas as vidas dos homens para empregá-las no
serviço da Mãe de Deus. Quereria ter todas as vidas dos santos e
santas do céu para amar a santíssima Virgem Maria com aquele
perfeitíssimo amor com que eles presentemente a amam. Desejo
com todo o meu coração que todos os reinos, nações, homens,
mulheres e crianças conheçam, amem, sirvam e louvem a Maria
Santíssima com aquele fervor com que o fazem os cortesãos do
céu. Desejo morrer e derramar todo o meu sangue por amor e
reverência de Maria Virgem, Mãe de Deus. Desejo que Jesus me
conceda a graça e a fortaleza de que preciso para que todos os
meus membros sejam atormentados e cortados um a um por amor e
reverência de Maria, Mãe de Deus e também minha” (Santo Antônio
Maria Claret).

6 Nossa Senhora das Dores


Quanto à origem, não se duvida de que os primeiros cristãos,
certamente, terão dado a Maria condolências pelos sofrimentos que
Jesus padeceu, ao ser preso e condenado injustamente, por ter sido
coroado de espinhos, ter carregado a cruz até o Calvário e sido
crucificado. Ela permaneceu ao pé da cruz quando seu Filho morreu
pela salvação da humanidade! Estas recordações são feitas
sobretudo na Sexta-feira Santa. Em muitos lugares se faz a
procissão do Senhor morto levado no esquife, dando-se o encontro
com a imagem de Nossa Senhora das Angústias, ou Soledade. Na
semana maior não se faz menção aos sofrimentos nas outras
passagens dolorosas da vida de Maria.
O título de Nossa Senhora Das Sete Dores inclui também os
momentos angustiosos para a Mãe de Jesus no decorrer dos seus
dias.
Na comemoração feita no dia 15 de setembro, a liturgia nos
apresenta as dores que Maria suportou. São elas:
A primeira dor foi quando o velho Simeão, ao receber Jesus na
apresentação no templo, disse a Maria: “Uma espada traspassará
tua alma a fim de serem revelados os pensamentos de muitos
corações” (Lucas 2,35). Podemos avaliar a amargura que Maria
suportou antevendo a agonia de Cristo?
A segunda dor é narrada por São Mateus referindo-se ao
desterro no Egito. O Anjo disse a José: “Levanta-te, toma o menino
e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise, porque
Herodes vai procurar o menino para o matar” (Mateus 2,13-14). É
possível imaginar os sofrimentos de uma jovem mãe vendo seu filho
em perigo de vida, sujeitando-se às intempéries e asperezas de
uma longa viagem?
A terceira dor lembra a perda do menino Jesus. “Acabados os
dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em
Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem”. Ao encontrá-lo
Maria disse: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu
andávamos à tua procura, cheios de aflição” (Lucas 2,46-48).
A quarta dor recorda os cruciantes momentos em que Jesus, a
caminho do Calvário, sofre escárnios e quedas ouvindo algazarras
daquele mesmo povo ao qual o Salvador tinha feito tanto bem! Sua
fraqueza foi tanta que tiveram de obrigar Simão de Cirene que
ajudasse Jesus a carregar a cruz (Lucas 23,26). Sentiu-se
esmagada como sob peso de todo o mundo.
A quinta dor Maria sofreu quando, no meio de dois ladrões, seu
Filho querido, pregado na cruz pela salvação da humanidade, com
grande brado falou: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”, e
dizendo isto expirou (Lucas 23,46). Sentiu-se morrer com ele…
A sexta dor que traspassou a alma de Maria, como uma espada,
aconteceu no momento em que o corpo sagrado do Deus feito
homem foi descido da cruz, e certamente o terão posto sobre os
joelhos de Maria, como a tradição acredita. Michelangelo a retratou
esculpindo a maravilhosa estátua da Pietá. Depois o sepultaram
(Mateus 27,60).
A sétima dor de Maria a acompanhou quando, após o
sepultamento do corpo sagrado de Jesus, ela se sentiu só, em
profunda soledade, ansiando antes ter sido sepultada com seu
Filho.
Esta devoção às sete dores de Maria, de início popular, foi
difundida pelos padres passionistas e servitas, e o papa Pio VII a
introduziu na liturgia universal.

Oração
Ó Deus, quisestes que a dolorosa Mãe do Salvador participasse
na obra da salvação (Lucas 2,33-35), e quando o vosso Filho foi
exaltado ela esteve junto à cruz, sofrendo com ele. Dai à vossa
Igreja, unida às dores de Maria e na paixão de Cristo, participar da
ressurreição do Senhor, que convosco vive e reina, na unidade do
Espírito Santo. Amém.

7 Nossa Senhora das Graças


Depois de considerar o título Nossa Senhora da Graça,
consideremos agora o título no plural: Nossa Senhora das Graças.
De onde e quando surgiu essa devoção? Encontra-se no plural
porque demonstra os inumeráveis favores que a Mãe de Deus
derramou sobre a humanidade sofredora.
Conta-nos a história que uma noviça das Irmãs Filhas da
Caridade rezava na capela do convento em Paris, no dia 27 de
novembro de 1830. Era a véspera do primeiro domingo do Advento.
Até a hora ficou registrada, cinco e meia da tarde. Seu nome,
Catarina Labouré. Nossa Senhora lhe apareceu em forma de
medalha oval. Permanecia sobre o globo terrestre, do qual era
visível apenas a metade. A serpente, figura do pecado, estava
sendo esmagada com os pés. Sua veste era alvíssima. Um manto
azul descia da cabeça ao calcanhar. Seus braços estendidos, com
as mãos abertas para a frente, despediam raios brilhantes sobre o
mundo. Ao mesmo tempo ouviu a voz celeste: “Estes raios são o
símbolo das graças que Maria Santíssima alcança às pessoas que
oram”. Rodeando a oval aparição, liam-se as palavras douradas: “Ó
Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”.
No outro lado da medalha destacava-se a letra “M” encimada por
uma cruz. Por baixo do monograma de Maria, viam-se os corações
de Jesus, coroado de espinhos, e de sua Mãe Santíssima,
traspassado por uma espada. Uma coroa de estrelas rodeava estes
símbolos.
Depois da visão, veio o pedido: “Manda cunhar medalhas como
este modelo. As pessoas que a levarem consigo receberão grandes
graças”.
De início o diretor espiritual, padre Aladel, pensou tratar-se de
ilusão da noviça, considerou-a até rebelde e presunçosa. Mas, só
em 1832 conseguiu autorização do arcebispo de Paris, dom Quelen,
para ser feita a medalha. O diretor espiritual de Catarina mandou
cunhar a medalha, que por sinal trouxe grandes bênçãos ao povo.
Por ser medalha, o povo chamou a devoção de Nossa Senhora da
Medalha Milagrosa, ou Nossa Senhora das Graças, ou ainda Nossa
Senhora Medianeira de todas as graças.
Quem não se anima a procurar Jesus por meio de Maria? São
inúmeras as graças que o povo cristão recebe desta santa mãe.
Pecadores se convertem. Pessoas que já trilham o bom caminho se
santificam mais rapidamente. De ninguém jamais se ouviu dizer que
tivesse recorrido a Maria e sido por ela desamparado, como já
lembrava São Bernardo.

Oração
Santíssima Virgem, eu creio e confesso vossa Santa e Imaculada
Conceição, pura e sem mancha. Ó puríssima Virgem Maria, por
vossa Conceição Imaculada e gloriosa prerrogativa de Mãe de
Deus, alcançai-me de vosso amado Filho a humildade, a caridade, a
obediência, a castidade, a santa pureza de coração, de corpo e de
espírito, a perseverança na prática do bem, uma santa vida e uma
boa morte. Amém.

8 Nossa Senhora do Despacho


Continuando a pesquisa sobre os títulos da Mãe de Jesus,
encontramos “do Despacho”, que também aparece mais completo
em Nossa Senhora do Bom Despacho, evocação muito antiga no
mundo cristão, sobretudo em Portugal. A proteção com que Maria
sempre amparou seus devotos terá contribuído para a expansão do
filial e o carinhoso agradecimento do povo fiel para enriquecê-la com
mais este título. Despacho pode ter vários significados, tanto o de
uma nota que um juiz lança num requerimento, deferindo-o ou
indeferindo-o, como o da nomeação para um cargo oficial. Pode
significar rapidez na execução de trabalhos ou negócios. A
diplomacia chama de despacho uma carta ou um ofício que um
ministro envia a outro contendo resoluções de interesse público. O
termo despacho é empregado também em feitiçaria, macumba,
mandinga, aplicado a acontecimentos sem explicação, e que se
atribuem a artes diabólicas, bruxos ou magos na magia negra. O
sentido, porém, aplicado a Maria difere radicalmente! É conseguir a
graça da conversão para quem vive no pecado, a pedido de
fervorosos devotos. Deus “despacha” as preces de Maria em favor
de quem implora pela salvação dos pecadores, pois foi para livrar-
nos da condenação que Cristo nos remiu. Os estudiosos de Maria
retrocedem na história até o momento da Anunciação, quando, ao
levar a mensagem divina, o anjo Gabriel esperou seu “despacho”
favorável: “Faça-se em mim segundo a sua Palavra”. Em 1707, frei
Agostinho de Santa Maria (agostiniano) escrevia: “O Divino Espírito
Santo comunicou à Mãe de Deus, na Encarnação do Divino Verbo, a
maior graça que ela podia conter, e isto para que ela tivesse diante
de Deus o maior valimento que uma pura criatura pudesse ter. É
propriedade da graça deixar-nos aceitos por Deus, quando nos faz
santos; e como era necessário que a Mãe dos pecadores pudesse
negociar com o seu Fiat o despacho da Encarnação (em que estava
o remédio dos homens), o Espírito Santo lhe comunicou a maior
graça: ‘O Espírito Santo virá sobre ti’. No Convento de Santo
Agostinho, em Lisboa, veneram-se várias efígies milagrosas de
Maria, entre elas a imagem da Rainha dos Anjos, com o título de
Bom Despacho. Era grande a devoção popular a essa imagem. Era
diante dela, também, que o missionário das Índias São Francisco
Xavier, SJ, rezava enquanto permaneceu na capital portuguesa,
antes de viajar para o Oriente. Os frades agostinianos trouxeram
para o Brasil esta devoção, sob o título de Nossa Senhora do Bom
Despacho. E incentivaram todos a praticar a devoção a Nossa
Senhora. Frei Agostinho ainda dizia: “Tem-se visto como os devotos
alcançam felizes resultados quando, nos seus problemas, pedem
proteção à Senhora do Bom Despacho”. Fruto dessa piedade,
certamente, é o nome do município denominado “Bom Despacho”,
na Diocese de Luz, no Estado de Minas Gerais.

Oração
Maria Imaculada, Senhora do Bom Despacho, apresentai a Deus
eterno nossas humildes preces, suplicando que derrame sua graça
em nossos corações, para que conhecendo, pela mensagem do
anjo, a Encarnação de Jesus, cheguemos por sua Paixão e Morte à
glória da Ressurreição. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de
Deus, que com o Pai vive e reina na unidade do Espírito Santo,
Amém.

9 Nossa Senhora do Monte


Esta invocação de Nossa Senhora do Monte tem várias origens,
dependendo do local onde capelas ou santuários se encontram
dedicados à Mãe de Deus. A mesma coisa se diga quanto à
representação da imagem, porque seu nome é mais procedente da
região onde se venera e não título litúrgico.
Desdobra-se ainda em várias subdenominações, como Nossa
Senhora do Monte Bérico, do Monte Calvário, do Monte Serrat, do
Monte Carmelo e outros.
Aqui, destacamos apenas Nossa Senhora do Monte, sem
subdivisões.
Por este motivo a imagem apresenta-se ou representando Maria
de pé nas colinas ou pairando sobre as nuvens. Suas mãos ficam
unidas postas em prece. Há imagens que demonstram o Menino
Jesus nos braços de Maria, ambos sem coroa. Na capital
portuguesa, no templo a ela dedicado, na imagem num só bloco,
tanto a mãe quanto o menino encontram-se coroados.
Há muitos lugares onde se venera Nossa Senhora do Monte. Em
Portugal, há diversos templos, como no bispado de Vizeu; em
Mogoalde, a narrativa popular conta que ali Nossa Senhora
apareceu entre grandes carvalhos; também em Lisboa levantou-se
um templo após a reconquista aos mouros no século XII.
Na ilha da Madeira há uma lendária igreja dedicada a Nossa
Senhora do Monte, construída em 1470.
Os monges beneditinos receberam como doação e incumbência
cuidar de uma capela na cidade de Olinda, no Recife, em 1596. Eles
construíram, bem mais perto da vila, uma hospedaria num local
chamado Viradouros. Tornou-se casa de repouso onde as pessoas
podiam contemplar as belezas da paisagem. O novo templo era de
estilo barroco, simples, contendo um campanário e duas sacadas,
formando um lindo conjunto.
As festas que lá se realizavam, no dia 31 de dezembro, eram
piedosas e ornadas ricamente, demonstrando o fervor do povo. Os
peregrinos elogiavam tais comemorações, tanto com a decoração
como com a iluminação feérica. Para Deus, por meio de Nossa
Senhora da Conceição, tudo era fausto, suntuosidade e
deslumbramento!
Tendo em vista tal crescimento, os jesuítas construíram lá seu
primeiro colégio, dirigido pelo padre Manoel da Nóbrega. Os padres
franciscanos, os carmelitas e de outras congregações, tanto
masculinas como femininas, acorreram para dar atendimento ao
povo na sua singeleza e na sua piedade.
Não só pelas belezas naturais, mas pelo progresso que
aumentava cada vez mais, essa região era frequentemente
cobiçada pelos piratas. Para fazer-lhes frente e derrotá-los, o
donatário Duarte Coelho construiu um “forte com uma torre de pedra
e cal que serviu de baluarte invencível contra os ataques dos índios,
piratas e aventureiros daquele tempo”.
A cidade de Salto, no estado de São Paulo, tem Nossa Senhora
do Monte como padroeira.

Oração
Ó Deus, que nos destes a Santa Virgem Maria para amparar-nos
como mãe solícita, concedei aos povos que se alegram com sua
proteção sob o título de Nossa Senhora do Monte crescer
constantemente na fé e alcançar o desejado progresso no caminho
da justiça e da paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo. Amém.

10 Nossa Senhora dos Anjos


Perto de Paris havia uma floresta espessa, misteriosa,
considerada um lugar perigoso.
Em 1212, alguns negociantes procedentes de Anjou, afoitos,
resolveram verificar o que realmente lá existia. Empreenderam uma
excursão e penetraram no recôndito da mata.
Não tardou que bandidos, saindo de seus esconderijos,
assaltassem os imprudentes visitantes, roubando o que levavam.
Depois de maltratá-los, os prenderam em árvores, condenados a
morrer de fome e abandonados, já que dificilmente alguém se
arriscaria a chegar até aqueles sinistros e lúgrubes recantos.
Tais excursionistas permaneceram nesse lastimoso estado
durante um dia e uma noite inteiros. Sentindo que jamais alguém iria
passar por ali que pudesse libertá-los, imploraram a proteção de
Maria, Mãe de Jesus, prometendo erguer uma capela naquele lugar
se conseguissem sair ilesos.
Horas depois, apareceu um jovem que os libertou. Ao mesmo
tempo, mostrou uma fonte de cristalina água ali perto, onde antes
não havia. O moço jamais voltou a ser visto.
Agradecidos por esse favor, os comerciantes reconheceram
tratar-se de uma assistência operada por intercessão de Nossa
Senhora e se apressaram a cumprir a promessa de construir a
capela prometida. Deram-lhe o nome de “Dos Anjos” porque
julgaram que realmente um espírito celeste os teria visitado e
desamarrado da árvore.
O povo sabedor do acontecido acorreu confiante. Muitas
pessoas doentes que se lavavam na fonte milagrosa conseguiam
notória recuperação de saúde. Estes fatos vieram confirmar para
eles a procedência celeste da aparição angélica, para a glória divina
e a honra da Santíssima Virgem.
Os fiéis visitantes aumentavam cada vez mais. A pequena
capela não comportava a imensa multidão que acorria em busca de
lenitivo para suas angústias e dores. Foi necessário ampliar o
recinto sagrado, e em 1655 Nesmond, presidente do Parlamento de
Paris, lançou oficialmente a primeira pedra para a construção de
uma igreja bem maior. A tempo da construção foi de oito anos, e no
dia 8 de setembro de 1663, festa da Natividade de Maria, a
inauguraram.
A Revolução Francesa, com seu espírito antirreligioso, destruiu
essa igreja. A piedade cristã e filial, porém, em homenagem à Mãe
de Deus, reconstruiu-a com muitos melhoramentos.
A imagem venerada nos dias atuais procede do século XIII.
Ainda hoje são muitos os peregrinos que a visitam no seu
santuário. Desde a aparição do anjo que desatou os homens das
árvores, doentes são curados ao tomar a água que brota da fonte.
No dia 8 de setembro, Natividade de Nossa Senhora, realiza-se
a lembrança anual do fato, seguida de dez dias de festejos
comemorativos da inexplicável ocorrência.
É a grata manifestação de agradecimento à Mãe celeste por
atender de modo admirável seus servos que a invocam em
situações difíceis e penosas. Eis mais um título de amor e confiança
à nossa protetora.
Aprendamos a lição! Por causa da ignorância e do egoísmo, que
tudo pervertem, as preces de muitos poderão parecer não atendidas
do modo desejado, porém, se preciso for, Deus até mandará seu
Anjo e fará que seus servos encontrem meios de solucionar os
problemas temporais e, principalmente, conseguir a salvação
eterna.

Oração
Maria Imaculada, que foste constituída Rainha dos Anjos, e por
eles elevada ao céu, em corpo e alma, dá-me, eu te suplico, uma
terna devoção ao meu Anjo da Guarda para que ao chegar o
momento de me apresentar ao juízo de Deus eu possa alegrar-me
com a sua companhia.
Anjo santo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou
a piedade divina, sempre me rege e guarda, governa e ilumina
Amém.

11 Nossa Senhora Imaculada


Todos os títulos que a piedade cristã dedica à mãe de Jesus
referem-se a Maria Imaculada. Sua profecia: “chamar-me-ão bem-
aventurada”, cada vez mais se aviva nas devoções populares.
Porque, devido ao pecado, Deus idealizou uma criatura especial,
sem mancha de fraqueza, para gerar aquele que redimiria a
humanidade. Ela foi prometida: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre
a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça” (Gênesis 3,15).
Este é o modo oriental de dizer que ela era livre do pecado – ou
seja, imaculada.
Na história bíblica, a condenação registrada por escrito por
Assuero contra os judeus, pela qual todos os israelitas deveriam ser
trucidados, é aplicada como figura da mãe de Deus, como narra o
livro de Ester (15,13): “O rei disse: ‘Não morrerás, porque nossa
ordem não concerne senão ao comum do povo”, não à rainha. Os
estudiosos da Bíblia veem um símbolo: a rainha estava livre da
condenação. Aplicando o significado, quer dizer: Maria é Imaculada.
Assim também os exegetas entendem o Salmo 45,5 como
referindo-se a ela: “O Altíssimo santificou o seu tabernáculo”.
No mais santo idílio, o Cântico dos Cânticos (4,7) se refere à
mãe de Deus: “És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em
ti”.
Ainda no mesmo livro sagrado (2,2) compara: “Como o lírio entre
os espinhos, assim é minha amiga entre as jovens”.
Nas visões fantásticas de São João contidas no livro do
Apocalipse, chega a luz de Maria (12,1): “Apareceu em seguida um
grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos
seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas”.
Bem falou São Dionísio Areopagita: se a fé não lhe dissesse que
ela era criatura, ele a teria adorado como deusa, por ser tão bela
aos olhos mortais. Também o vemos no Cântico dos Cânticos
(4,12): “És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma
nascente fechada, uma fonte selada”.
Porque nela se realizou a palavra de Isaías (7,14): “uma virgem
conceberá e dará à luz um filho”.
Assim compreenderam os grandes santos do passado, como
Santo Ambrósio: “Não admira que pela mãe comece a obra daquele
que vinha remir o mundo, para que ela, haurindo gratuitamente, por
primeiro, o fruto da salvação, por intermédio dela se preparasse a
salvação de todos”.
Agradeçamos a Deus por nos ter dado por mãe a tão linda, pura
e misericordiosa Maria.

Oração
Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho,
pela imaculada conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo
pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até
vós purificados também de toda culpa por sua materna intercessão.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito
Santo. Amém.
12 Nossa Senhora Mãe da Igreja
Em 1966, precisamente no dia 17 de abril, o cardeal dom Agnelo
Rossi, então arcebispo de São Paulo, instalou com todos os
requisitos do direito canônico a Paróquia Nossa Senhora Mãe da
Igreja. Foi confiada aos Padres Oblatos de Maria Imaculada.
Era uma maneira de pôr em prática as recomendações do Santo
Padre, o papa Paulo VI. No encerramento da 3a Sessão do Concílio
Ecumênico Vaticano II, ele dizia: “Para a glória da Santíssima
Virgem, e para nosso conforto, proclamamos Maria Mãe da Igreja,
isto é, de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores
que a chamam de Mãe Amorosíssima; e querendo que com esse
título suavíssimo a Virgem seja doravante honrada e invocada por
todo o povo cristão”.
Já em 1748, em 27 de setembro, na bula Gloriosae Dominae (Da
Gloriosa Senhora), o papa Bento XIV comparava: assim como o
filho leva a fisionomia de sua mãe, assim também se deve descobrir
em Maria Santíssima a prefiguração da Igreja. Assim como na
geração a mãe transmite aos filhos sua semelhança, assim na Igreja
se deve notar nos filhos os traços cristãos…
Na sequência de suas palavras, Paulo VI confirmava dizendo: “o
título não é novo para a piedade dos cristãos porque justamente
com esse nome de Mãe é que a Igreja e os fiéis costumam dirigir-se
a Maria. Ela é ao mesmo tempo Mãe e tipo da Igreja”. No passado
cooperou na obra da salvação, quando, respondendo ao anjo
Gabriel – faça-se –, se tornou mãe de Cristo, nosso Redentor. Na
vida ministerial de Jesus, bem no começo, maternalmente se
apresenta dizendo: “eles não têm vinho”, e imolando-se junto com
seu Divino Filho, pregado no patíbulo, recebe de Jesus o encargo:
“Eis aí teu filho”.
Não parou no Calvário: na Ascensão de Jesus, juntamente com
os apóstolos, permaneceu em oração, preparando-os para o
Pentecostes. Criatura como nós, foi privilegiada em alma e corpo, a
ponto de São Dionísio Areopagita dizer: “Conheci pessoalmente a
Maria Mãe de Jesus, e era de uma beleza tal que eu a teria adorado
como deusa, se a fé não me dissesse ser ela também criatura”…
Tudo isso pela sua Imaculada Conceição e sua Maternidade Divina.
Sua vida foi igual a de todos os contemporâneos, com
preocupações, trabalhos e afazeres. Foi verdadeiramente apóstola,
realizando em sua vida neste mundo a figura do verdadeiro
discípulo de Cristo. No século V, Santo Agostinho observava: “Pela
sua caridade, Maria colaborou para o nascimento dos fiéis, que são
os membros da Igreja”.

Oração
Senhor Jesus Cristo, nós te rogamos que agora e na hora de
nossa morte interceda por nós ante tua clemência a bem-
aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, nossa Mãe, cuja alma
sacratíssima foi transida por uma espada de dor em tua paixão. Tu
que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amém.

13 Nossa Senhora Mãe de Deus


No tempo das perseguições aos cristãos pelos imperadores
romanos, aqueles praticamente não tinham tempo para meditar e
enfronhar-se nas verdades contidas nos santos evangelhos. Tinham
de estar atentos para não ser descobertos pelos pagãos. Muitas
vezes se encontravam nas catacumbas para rezar. Depois que
Constantino promulgou o decreto de liberdade aos seguidores de
Cristo, aí sim puderam meditar e descobrir as belezas contidas na
Sagrada Escritura. Uma delas foi reconhecer que Maria era a Mãe
de Deus. Nestório presidia o patriarcado de Constantinopla; ele
ensinava que Maria não era mãe de Deus, mas somente do Cristo
humano. Havia sim duas naturezas distintas, mas Ela só era mãe do
homem. Não poderia ser chamada Mãe de Deus. São Cirilo
levantou a voz contra Nestório que, empedernido na sua opinião,
deu origem à polêmica na época nesse sentido. Depois de muitas
discussões aqui e acolá a respeito, o papa São Celestino convocou
um Concílio, no ano 431, na cidade de Éfeso. Nesse Concílio
predominou a doutrina da Maternidade Divina de Maria. Os
contrários a esse nobre título, não aceitando a ideia defendida a
favor, foram considerados hereges.
O povo acompanhava os trabalhos do Concílio e ao tomar
conhecimento da resolução final com altas vozes proclamava a
Maternidade Divina de Maria, cantando: “Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Desse
dia em diante a oração do Anjo, “Ave Maria, cheia de graça, o
Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres e bendito é o
fruto do vosso ventre, Jesus”, foi completada com a segunda parte
proferida pelo povo.
Daquela data em diante, no mundo todo, Maria foi aclamada
Mãe de Deus. No linguajar antigo português, em muitos lugares
conserva-se a expressão “Madre de Deus”.
Conta-se que em Portugal a esposa do rei dom João II, a rainha
dona Leonor, queria colocar uma imagem de Maria na capela de um
convento. Enquanto procurava uma efígie que fosse condigna, eis
que apareceram dois jovens de belo aspecto oferecendo uma linda
imagem. O preço pedido, porém, era muito alto e não havia
possibilidade de adquiri-la. Os rapazes deixaram-na para que se
estudasse a possibilidade de comprá-la ou não. Voltariam no dia
seguinte, ou para receber o pagamento, ou para buscar a imagem
de volta. Acontece que nunca mais voltaram. Daí a conclusão de
que os jovens eram anjos que trouxeram uma imagem não feita por
mãos humanas. A imagem foi colocada no altar da capela do
convento, que foi denominado “Madre de Deus”. A imagem mostra
Maria e São José adorando o Menino Jesus, figura que
principalmente no tempo de Natal aparece nos cartões de votos de
felicidades natalinas.
No estado do Maranhão, no Brasil, há uma igreja com a
invocação de Madre de Deus, em São Luís. O capitão Manuel da
Silva Serrão foi seu fundador.
Também na ilha de Cururupeba, junto das costas da barra de
São Salvador, na Bahia, há outra igreja, “adornada de ricas
pinturas”, dedicada à Madre de Deus.

Oração
Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à
humanidade a salvação eterna, dai-nos contar sempre com a sua
intercessão, pois ela nos trouxe o Autor da vida. Por nosso Senhor
Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

14 Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças


Que significa a palavra “mediador?” Pois é: “aquele que intervém
para estabelecer um acordo, uma reconciliação, entre duas ou mais
pessoas”. Mediador de paz, por exemplo.
Na história das religiões este termo significa um ser intermediário
entre Deus e o mundo ou entre Deus e o homem, pelo qual o
homem pode entrar em contato com a divindade. Todas as religiões
que reconhecem a divindade como uma pessoa admitem a
existência de mediadores.
No Antigo Testamento, como pondera o doutor A. van den Born,
que apresenta Deus como agindo no mundo e no homem, de modo
concreto, antropomórfico e pessoal, não há muito lugar para um
mediador (cf. 1Samuel 2,25). No entanto, encontramos mediadores
humanos em Abraão, entre as cidades pecadoras e Javé, que
queria aniquilá-las: “Abraão aproximou-se e disse: ‘Fareis o justo
perecer com o ímpio? Talvez haja 50… 40… 30… 20… justos’ – ‘Em
atenção aos vinte justos – não destruirei’… e Abraão replicou: ‘Que
o Senhor não se irrite se falo ainda uma última vez! Que será se lá
forem achados dez?’. Deus respondeu: ‘Não a destruirei por causa
desses dez’” (Gênesis 18,22-33).
Em Gênesis 20,7 Deus diz a Abimelec: “Devolve agora a mulher
deste homem [Abraão], que é profeta, e ele rogará por ti para que
conserves a vida” (Abraão mediador).
O Novo Testamento nos apresenta Jesus Deus e homem, que
cumpre seu múnus de mediador, sobretudo no alto da cruz, quando
diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Jesus foi
constituído, pois, o mediador dos mediadores. Observemos o que
diz o Apóstolo dos Gentios. São Paulo apóstolo, na sua carta a
Timóteo, no capítulo 2, versículo 5, diz: “Porque há um só Deus e há
um só mediador entre Deus e os homens”. A carta aos Hebreus
também nos descreve: “Ao nosso Sumo Sacerdote, entretanto,
compete ministério tanto mais excelente quanto ele é mediador de
uma aliança mais perfeita, selada por melhores promessas”
(Hebreus 8,6).
Jesus é o Mediador entre Deus e nós porque nos trouxe os
frutos da Redenção. Ele escolheu doze entre os discípulos para
colaborarem com ele. São os apóstolos. Todo aquele que for justo,
mesmo neste mundo ainda, é um dos mediadores. Principalmente
no céu, com maior eficácia, intercederá pelos mortais diante do
trono de Deus. São inumeráveis os mediadores a interceder pela
salvação da humanidade. Todo cristão está chamado a rogar pelos
pecadores.
De um modo especial, pois, quem duvidará que Maria exerce
também o múnus de Medianeira? Quem desconhece o acontecido
no casamento realizado em Caná da Galileia?
O papa Leão XIII diz: “Após ter Maria servido de intermediária no
mistério da Redenção, era desígnio de Deus que continuasse
igualmente sendo intermediária das graças que esse mistério faria
correr em todos os tempos”.
Se Maria colaborou com seu Filho Jesus na vida temporal, muito
mais agora que se encontra na glória celeste tem poder para
interceder pela humanidade. Maria tem sobre os inimigos, mundo,
demônio e carne, poderosa força para interceder por nós para que
cantemos com ela a vitória final.
Santo Tomás de Aquino ensinava que Jesus Cristo é o único
mediador entre Deus e a humanidade, mas que isso não impede
que outros mediadores colaborem com ele. – Principalmente Maria.
Na bula Inefabilis Deus, o papa Pio IX pronuncia o termo
medianeira. O papa Leão XIII também emprega a palavra
medianeira quando fala sobre o Rosário. O papa Pio X, em 1904 na
encíclica Ad Diem illum, citando a bula Inefabilis Deus, aponta Maria
como “medianeira poderosíssima e advogada de todo o mundo”.
Bento XV, em 1921, instituiu uma festa mariana em que Maria é
apresentada como “Medianeira de todas as graças”. Na encíclica
Redemptoris Mater, o papa João Paulo II confirma que Jesus é o
mediador entre Deus e o homem e Maria é a medianeira.
O Brasil possui um município com o nome de Medianeira (estado
do Paraná, Diocese de Foz do Iguaçu) em homenagem à Mãe de
Deus.
Podemos nos alegrar, pois temos no céu uma poderosa
intercessora.

Oração
Ó Mãe de bondade e misericórdia, santa Virgem Maria, eu, pobre
e indigno pecador, a ti recorro com todo o afeto do meu coração
implorando a tua piedade. Assim como estiveste de pé junto à cruz
do teu Filho, também te dignes assistir-me, não só a mim, pobre
pecador, como a todos os que necessitam de um auxílio especial
para se voltarem a Deus. Isto te pedimos porque exerces o múnus
de Medianeira com teu Filho Jesus, Redentor da humanidade.
Amém.

15 Nossa Senhora Rainha


Desde toda a Antiguidade os povos todos do orbe escolheram
seus dirigentes para que eles se preocupassem com seus súditos e
não tivessem outra incumbência, procurando o bem-estar de todos.
A palavra que expressava esse cuidado foi “rei”, extraída do verbo
latino regere, que significa guiar, orientar. Aquele que assumia esse
encargo era o “rei”, da palavra latina rex. O rei estava investido de
poder absoluto.
Supunha-se uma dedicação total. Tanto por parte do soberano
como da população, com uma obediência onímoda, que envolvia
tudo e de todas as maneiras. Por isso mesmo quem assumia este
dever merecia também respeito, obediência e dedicação. Sua
companheira por sua vez era chamada rainha.
Nas Sagradas Escrituras, no primeiro livro de Samuel, capítulo 8,
lemos que o povo israelita solicitou um rei. Este pedido desagradou
a Deus, porque disse: “não é a ti que eles rejeitaram, mas a mim,
para eu não reinar sobre eles” (1Samuel 8,7). Como que
desfazendo tal rejeição, os seguidores de Cristo o escolheram como
guia supremo, no sentido verdadeiro, tanto corporal como,
principalmente, espiritual. Cristo Salvador, recuperando a soberania
das almas, tornou-se Rei do Universo e constituiu sua santa Mãe
Rainha dos Céus e da Terra.
Portanto, Maria é Rainha Universal. Rainha dos vivos e dos
mortos. Rainha das flores e virtudes, Rainha dos anjos e dos santos,
Rainha dos patriarcas e profetas, Rainha dos apóstolos e mártires,
Rainha dos confessores e virgens. Rainha coroada com o diadema
mais puro e brilhante sobre toda criatura, a Imaculada Conceição.
Renato Baron, em Scio (Vicenza, Itália), em 1985, quando
completava seus 53 anos, fazendo sua oração diante de uma
imagem de Nossa Senhora, na igreja de São Martinho, viu a
imagem mover-se, e ela se apresentou como Rainha do Amor.
Em Medjugorge, em 24 de junho de 1981, a Senhora começou a
aparecer a seis jovens. A mais velha tinha 17 anos e o mais novo
10. Quatro meninas e dois rapazes. Mirjana perguntou: “Como te
chamas?”, e ela disse: “Eu sou a Bem-aventurada Virgem Maria,
Rainha da Paz”.
O símbolo real mais notório é a coroa. Muitos papas coroaram
Maria declarando-a Rainha em diversas nações, como no Brasil,
Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira principal, assim
declarada no dia 16 de julho de 1930 por Pio XI.

Oração
Ó Maria, Rainha dos céus e da terra. Eu a venero repleto de amor
e gratidão. Sois cheia de graças para o bem da humanidade. A vós
recorro e sob o peso dos meus pecados prostro-me aos vossos pés.
Não desprezeis minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus feito
homem, mas dignai-vos acolhê-las propícia. Assim seja!
II – Títulos relacionados a fatos históricos
na vida de Nossa Senhora
Não podemos esquecer que Maria, estando hoje na glória, viveu
as dificuldades que nós vivemos. Passou por angústias, teve de
fugir para o Egito para proteger Jesus, sofreu aos pés da cruz,
quando viu seu Filho sendo crucificado. Hoje ela nos consola e nos
indica que devemos seguir Jesus: o Caminho, a Verdade e a Vida
(cf. João 14,60).

16 Nossa Senhora Anunciada


Foi em Setúbal, Portugal, que apareceu a devoção a Maria com
o título de Anunciada. Este nome parece provir do anúncio que uma
senhora fez ao deparar com uma pequena imagem representando a
Mãe de Deus.
O fato se deu deste modo:
Certa mulher acostumava procurar lenha para cozinhar. Numa
das vezes, ao acender o fogo, colocava os gravetos para alimentar
as chamas. Um deles caiu fora. Sem suspeitar de nada, a anciã
recolocou-o no fogão. Novamente o graveto saltou longe, jogado por
uma força invisível. Isso aconteceu umas três vezes, o que
despertou a curiosidade daquela velhinha. Pegou a vareta para
examinar de perto o que estava forçando o graveto saltar. Observou
tratar-se não de um cavaco qualquer, mas de uma pequena imagem
da Mãe de Deus, incrustada naquele pau miúdo, medindo,
aproximadamente, “um terço de palmo”, conforme relato de José
Custódio Vieira da Silva.1
Atônita com a descoberta, saiu às pressas para “anunciar” às
vizinhas o fato prodigioso! Foi assim que surgiu o nome. As
piedosas companheiras foram ver a Senhora Anunciada.
Esta tradição, que passa de pais a filhos, encontra-se registrada
no Cartório da Confraria de Nossa Senhora da Anunciada. Ocorreu
no tempo dos reis dom Sancho II ou dom Afonso III, por volta dos
anos 1235 a 1250.
Entre os acontecimentos mais notórios ocorridos por intercessão
de Nossa Senhora da Anunciada está a chuva abundante que caiu
imediatamente depois do término de uma procissão de penitência.
Havia dois anos a seca vinha sacrificando toda a região, “tinha
reduzido as terras a seixos e esterilizado os poços, fontes e rios,
com insanável descômodo de todos os viventes”.
Tanta repercussão causou esse “milagre” que muitas
celebridades solicitaram o ingresso na Irmandade. Entre elas
encontram-se os nomes de dom João III e dom Sebastião.
A imagem recebeu outros nomes: Senhora da Água; Senhora
Pequenina; Senhora Angelical. O mais conhecido é Anunciada.
Em dias determinados a imagem era exposta à veneração dos
fiéis, em agradecimento pelo generoso amparo com a chuva
abundante.
Celebra-se em 25 de março.

Oração
Maria, Mãe de Deus! Humildemente imploramos vossa
intercessão para alcançarmos a graça de compreender que vosso
Filho Jesus é a fonte de todo eterno bem, infinitamente maior que a
mais abundante chuva, símbolo da vossa bondade. Amém.
Nossa Senhora Anunciada, rogai por nós!

17 Nossa Senhora Aquiropita


A palavra Arquiropita é formada por três elementos, dois do
idioma grego: A, que significa não, e Kiro, mão. O terceiro é pitta, do
italiano, pintada. O sentido, pois, do termo Aquiropita é “não por
mão (humana) pintada” (ortografia moderna, em lugar de Achiropita)
A tradição narra que o imperador de Constantinopla chamado
Maurício, no ano 580, autorizou ao eremita santo Efrém a
construção de uma igreja em homenagem a Nossa Senhora na
cidade de Rossano, na Calábria, Itália. O cunhado do imperador,
Filipico, que na época era o governador daquela cidade, se
responsabilizou pela pintura interna e de uma tela da imagem de
Maria, uma vez fosse concluído o templo. Os pintores iniciaram o
trabalho com entusiasmo, pondo em prática toda a sua arte e a sua
experiência em preparar a tela e delinear a figura da Mãe de Deus.
Só que todo o trabalho desenvolvido durante o primeiro dia
desapareceu na manhã seguinte, completamente apagado. Filipico
ordenou que se montasse guarda noturna, pois julgou tratar-se de
pessoas maldosas que desejavam aborrecê-lo, bem como o
imperador, por questões políticas. Durante a noite seguinte, a
sentinela ficou de plantão. Eis que “uma noite apareceu uma
belíssima senhora que falou com o vigia e pediu para entrar no
santuário. E como ela demorasse para sair, preocupado, ele entrou
e não encontrou mais aquela senhora, mas viu que estava pintada
no fundo da parede interna do templo urna lindíssima imagem de
Nossa Senhora. Ao saber disso, o povo acorreu àquele local e,
entre lágrimas e cantos, aclamou: “Aquiropita! Aquiropita!…), o que
significa imagem não pintada pela mão do homem.
Seja lenda ou história, o fato é que desde o século XII, em
Rossano, esta devoção passou a ser oficialmente celebrada no dia
15 de agosto. Até hoje, no mundo inteiro há somente duas igrejas
dedicadas a Nossa Senhora Aquiropita. Uma na Itália (e é uma
catedral), outra a Paróquia Nossa Senhora, no bairro da Bela Vista
(Bixiga), em São Paulo.
Ali, anualmente realizam-se grandes festejos em homenagem a
Nossa Senhora.
Aos cuidados dos padres da Congregação da Divina Providência
(obra de dom Orione), a matriz possui uma cópia autêntica da
imagem que existe em Rossano. Os migrantes italianos vindos da
Calábria a trouxeram e divulgaram a devoção.
Como sempre, não faltam devotos que agradecem favores
concedidos pela Mãe de Jesus. Tais narrativas são vistas por
incrédulos como fantasias populares e a elas não dão a mínima
importância! Porém, o sentido patente é a maneira tão inesperada
como Deus chama todos ao caminho da salvação. Deus, o artista
que criou as maravilhas do universo e pode transmitir poderes
extraordinários a quem o seguir, depositou no Coração de Maria
imensa ternura pelos filhos espirituais, e Ela tudo faz para atraí-los
ao aconchego do seu amor e levar cada um até a pátria celeste.2

Oração
Virgem Santíssima, Mãe de Deus e nossa Mãe Aquiropita, volvei
o vosso olhar piedoso para nós e para as nossas famílias. Através
dos séculos, pelos milagres e pelas aparições, mostrastes ser
Medianeira perene de graças. Tende compaixão das dificuldades em
que nos encontramos e das tristezas que amarguram a nossa vida.
Vós, coroada Rainha, à direita do Vosso Filho, cheia de glória
imortal, podeis auxiliar-nos. Tudo o que está em nós e em volta de
nós receba as vossas bênçãos maternais. Rainha Aquiropita,
prometemos dedicar-vos toda a nossa vida para a honra do vosso
culto e a serviço de nossos irmãos. Solicitamos de vossa maternal
bondade os auxílios em nossas necessidades e a graça de viver sob
a vossa constante proteção, consolados em nossas aflições e livres
das presentes angústias. Com confiança podemos repetir que não
recorre a Vós inutilmente aquele que Vos invoca sob o título de
Aquiropita. Amém.

18 Nossa Senhora da Candelária


Nas ilhas Canárias, entre os habitantes de Tenerife, África, antes
mesmo de os espanhóis chegarem, os nativos encontraram uma
imagem. Pastores levavam diariamente as ovelhas a regiões ricas
em pastagens. Perto havia uma gruta onde protegiam os rebanhos
das intempéries. Um dia, entretanto, por mais que os pastores
forçassem, os animais se recusavam a entrar. Eles, pois,
desconfiados e cautelosos, foram ver o que estava acontecendo e
impedindo o rebanho de entrar. Viram, então, uma imagem de uma
bela senhora, desconhecida por eles. Ao voltarem a suas casas,
contaram o fato a todas as pessoas. Levadas pela curiosidade,
acorreram para ver o prodígio. Depararam com algo nunca visto,
porque, além da imagem, encontraram velas acesas pairando no ar,
sem que algo as sustentasse. Ouviam, também, harmoniosos
cânticos. Os nativos ainda não conheciam o cristianismo. Mesmo
sem compreender, prestaram culto, honrando a imagem daquela
linda mulher que desconheciam. No século XV, um cristão lá
desembarcou, soube do misterioso caso e o explicou ao povo.
Quando os padres da Companhia de Jesus lá se estabeleceram,
não tiveram dificuldades em transmitir a fé cristã àquela gente, já
devota de Maria. Por causa das velas, antigamente conhecidas por
“candeias”, foi fácil ao povo simples ligar o fato a Nossa Senhora
das Candeias ou da Candelária. Como sempre, fatos como esse
contribuíram para que o nome de Nossa Senhora se espalhasse
pelo mundo, com mais um título.

Oração
Maria, mãe de Cristo, a Luz do mundo, mostrai-nos sempre o
caminho da verdade e da vida para que, seguindo Jesus, não
andemos jamais nas trevas do pecado, mas sejamos iluminados
pela Luz que não se apaga. Amém.

19 Nossa Senhora da Graça


Dom João Lencastre foi designado governador do Brasil em
1694. Devoto de Maria Santíssima, encomendou-se a Nossa
Senhora da Graça. Durante nove anos exerceu uma ótima
administração.
Mas como lhe chegou o título Nossa Senhora da Graça?
Com floreadas lendas, narra-se que Diogo Álvares, perseguido
de morte pelos índios, alvejou um pássaro, atirou com seu arcabuz
e o abateu. Arcabuz é uma arma de fogo que provoca um estouro
horrível. Com aquele estrondo, espantou os índios tupinambás, que
queriam matá-lo. Assim, não só escapou de ser morto pelos
aborígines, mas foi honrado e respeitado. Ficou conhecido com a
alcunha de Caramuru, ou seja, o homem do trovão.
Mais tarde casou-se com a filha do cacique, chamada
Paraguaçu. Ela foi batizada com o nome de Catarina Alves.
Entre os anos 1525 e 1527, Paraguaçu narra que teve um
sonho, que se repetiu na mesma noite. Pareceu-lhe estar numa
imensa praia onde estava um navio estraçalhado. Havia muitas
pessoas náufragas por ali. Todas molhadas com roupas
esfarrapadas, tiritando de frio e, pior ainda, com muita fome. Entre
essas pessoas havia uma mulher muito linda com um menino nos
braços.
A pedido da esposa, Diogo foi verificar se realmente havia
náufragos naquela região, desde a entrada da Barra até o rio Verde.
Nada encontrou, nem vestígios de naufrágio. Entretanto, Paraguaçu
continuou a ter seus sonhos e novamente Caramuru saiu para ver
se encontrava sinais de catástrofe. Desta vez, na palhoça do índio
Boipeba, deparou com uma imagem de Nossa Senhora com o
Menino Jesus, encontrada na praia. Paraguaçu reconheceu ser a
que havia visto no sonho. Para satisfazer sua esposa, perto da sua
casa Diogo mandou construir uma capela de pau a pique, onde
colocou a imagem. Chamou-a de Nossa Senhora da Graça. Isto,
primeiro, por ela ter revelado em sonhos o paradeiro da imagem.
Lembrou-se depois, e se comentava entre o povo, que lá pelo ano
de 1362 também havia ocorrido um naufrágio em que as vítimas
tinham se salvado pela intercessão de Nossa Senhora da Graça.
Mais tarde, Diogo Álvares construiu outra capela com pedra e
cal, e bem mais tarde, em 1770, ela foi reedificada. Julga-se que
seja a Igreja da Graça, na aldeia da baía de Todos os Santos, a
primeira construída em nossa pátria e que ainda se encontra em
funcionamento.
Muitas mercês foram sempre concedidas aos fiéis desde o
encontro da imagem. Muitas vezes socorreu a náufragos. A lenda
conta ainda que quando havia algum naufrágio por perto as vestes
da imagem apareciam úmidas…
Diogo Álvares, doou essa igreja aos padres beneditinos. É nela
que se encontram sepultados os restos mortais da piedosa
Paraguaçu.
O renomado pintor Manuel Lopes Rodrigues decorou essa igreja,
cujo forro recebeu a concretização do sonho. Pode-se ver Nossa
Senhora sentada em nuvens, segurando o menino Jesus vestido de
branco, posto no joelho esquerdo. Paraguaçu, com os braços
cruzados no peito, aparece de joelhos olhando a imagem.

Oração
Fazei, ó Deus, que ao celebrarmos a memória da Senhora da
Graça possamos também, por sua intercessão, participar da
plenitude dos vossos dons. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso
Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

20 Nossa Senhora da Luz


Na época da invasão dos mouros na Europa, mais
particularmente em Portugal, lá por volta do ano 1453, um senhor
chamado Pedro Martins, nascido em Carnide, dirigia-se a Algarve
para cuidar de uma propriedade de sua esposa e de outros bens.
Foi capturado pelos sarracenos e remetido ao norte da África. Tudo
fez para se livrar do cativeiro. Nada, porém, acontecia de bom.
Vendo que da parte dos homens não conseguia nada, dirigiu-se à
Santíssima Virgem, a Consoladora dos Aflitos e Esperança dos
Desesperados. Nas palavras de São Bernardo: “Nunca jamais se
ouviu dizer que quem recorresse a vós fosse desamparado”;
também o senhor Pedro Martins pode ser incluído na lista dos
beneficiados. Durante trinta dias sonhou com Maria Santíssima e
com ela mantinha terno diálogo. No último dia, ela lhe disse que na
manhã seguinte ele estaria livre em Carnide. Ele devia levar, porém,
uma incumbência. Era recuperar uma imagem dela escondida perto
de uma fonte de um lugar chamado Machado. O ponto exato seria
indicado por uma luz fora do comum. Realmente! Sem saber como,
Pedro Martins se encontrou livre na sua terra natal. Em princípio
nem queria acreditar ao ver-se em Carnide, e livre! Julgava estar
sonhando! Felizmente, era realidade! Pedro Martins ouvia as
narrativas do povo sobre uma luz estranha que havia algum tempo
vinha aparecendo perto da Fonte do Machado. Ouviu falar também
que gente de todos os lugares já tinha ido lá para contemplar a luz
estranha que todas as noites brilhava perto da Fonte do Machado.
Ninguém soube explicar o que seria esse fenômeno. Então o senhor
Pedro compreendeu que tinha sido escolhido por Maria Santíssima
para restabelecer o culto daquela imagem, como havia sonhado
estando no cativeiro na África. Repleto de alegria e muito grato,
liberto milagrosamente da escravidão muçulmana, procurou logo pôr
em prática o desejo de Nossa Senhora: que a imagem fosse
encontrada e posta à veneração do povo piedoso.
Convidou alguns parentes. Certa noite todos foram ao local. A
luz desconhecida brilhava e movia-se até parar num determinado
ponto, onde carpiram, retiraram algumas pedras e encontraram a
imagem de Nossa Senhora, Rainha do Céu e da Terra. Com
certeza, temendo que a imagem fosse profanada pelos sarracenos,
alguém a teria escondido naquele lugar, convicto de que algum dia a
encontrariam. Foi o que aconteceu.
Quando se espalhou a notícia do encontro da imagem indicada
por uma luz desconhecida, a afluência do povo foi imensa. Todos
queriam conhecer o senhor Pedro, vidente e descobridor da efígie
marial. Este imediatamente começou a construção da capela. O
bispo de Lisboa soube do acontecido e ele mesmo se ofereceu para
o lançamento da primeira pedra. Mais tarde, em 1596, um magnífico
templo substituiu a pequena ermida, e naquele ano a festa de Nossa
Senhora da Luz começou a ser celebrada. Todos queriam custear
as despesas.
Entre as pessoas que disputavam financiar os festejos
encontrava-se a senhora Teresa de Jesus Corte Real.
Em 1755 um terrível terremoto destruiu a cidade de Lisboa e
arredores. Dona Teresa, tendo se refugiado numa capela de Nossa
Senhora com todos da família, fez uma promessa: se chegasse ao
Brasil, propagaria a devoção a Nossa Senhora da Luz. Tendo
alcançado a graça, estabeleceu-se em Diamantina, Minas Gerais.
Hoje no Brasil há a Diocese de Luz, sufragânea de Belo Horizonte.
De lá, a devoção a Nossa Senhora da Luz se espalhou, sobretudo
em Paranaguá, Curitiba e Pinhais, cidades que têm Nossa Senhora
da Luz como padroeira.

Oração
Ó Senhora da Luz, iluminai meus passos para que caminhando
nos passos de Jesus possa agradá-lo na terra, para louvar-vos
eternamente no céu. Amém.

21 Nossa Senhora da Medalha Milagrosa


É impossível resumir numa página de toda a beleza da Medalha
Milagrosa. Desdobrarei em duas partes o histórico desta
eficacíssima devoção.
Catarina Labouré nasceu em 2 de maio de 1806, em Fainles
Moutiers, na Cote d’Or, na França. Entre onze irmãos, era a nona
filha. Seu pai chamava-se Pedro Labouré. Quando Catarina contava
apenas nove anos, sua mãe faleceu. Ofereceu-se então para cuidar
de dois de seus irmãos menores.
Sentiu vocação para a vida religiosa, e aos 24 anos ingressou na
Congregação das Irmãs da Caridade, fundada por São Vicente De
Paulo.
Herdando a simplicidade de uma família de lavradores,
continuou perfazendo com humildade o noviciado. Unida com Deus,
noviça ainda, era devota da Santíssima Virgem, a quem escolhera
por Mãe desde que, pequenina, ficara órfã.
Na sua inocência, ardia em desejos de ver Nossa Senhora, e
muito insistia ao seu anjo da guarda que lhe alcançasse tal graça.
Não foi debalde que ela tanto persistiu. Era a noite de 18 para 19
de julho de 1830. Catarina dormia tranquilamente. De súbito,
acordou ouvindo a voz de uma criança que a chamava dizendo:
“Todo mundo agora está dormindo, vem depressa à capela, a
Virgem Maria a espera”. Catarina se levantou apressada e,
acreditando naquelas palavras, foi e viu a Santíssima Virgem. A
Mãe de Deus se dignou conversar com ela por algumas horas,
anunciando-lhe o que em breve aconteceria, enchendo-a de
carinhos e consolação. Estas visões continuaram a se repetir até 27
de novembro, noite em que aconteceu a mais importante das
aparições. No sábado antes do primeiro domingo do Advento, na
oração na capela situada na chamada rue Du Bac, em Paris, na
França, a Virgem Santíssima, Rainha do Céu, se mostrou a ela. Eis
como Catarina expõe o episódio:
A Virgem Santíssima estava de pé sobre um globo, vestida de
branco aurora, com feitio que se diz à Virgem, isto é, subido e com
mangas justas; um véu branco cobria-lhe a cabeça. Um manto azul
prateado lhe descia até os pés; o cabelo em tranças, seguro por
uma fita adornada de uma renda. Pousava sobre o globo. O rosto
bem descoberto e de uma formosura indescritível. As mãos
elevadas até a cintura sustentavam outro globo, figura do mundo,
rematado por uma cruzinha de ouro; a Senhora toda estava rodeada
de tal resplendor que era impossível fixá-la; o rosto iluminou-se de
radiante claridade no momento em que com os olhos levantados
para o céu oferecia ao Senhor esse globo. De repente os dedos se
cobriram de anéis e pedrarias preciosas de extraordinária beleza.
Deles se desprendiam raios luminosos para todos os lados,
envolvendo a Senhora em tal esplendor que já se lhe não via a
túnica nem os pés. As pedras preciosas eram maiores umas,
menores outras, e os raios luminosos proporcionais também. O que
então experimentei e aprendi naquele momento é impossível
explicar.
Como estivesse ocupada em contemplá-la, a Virgem Santíssima
baixou para mim os olhos e uma voz interior me disse no íntimo do
coração: “Este globo que vês representa o mundo inteiro, e em
especial a França e cada pessoa em particular”.
Aqui não sei exprimir o que descobri de beleza e brilho nos raios
tão resplandecentes. A Santíssima Virgem acrescentou: “Eis os
símbolos das graças que derramo sobre as pessoas que mas
pedem”.
Então o globo que tinha nas mãos desapareceu e, como se
estas não pudessem com o peso das graças, viraram-se para a
terra na atitude graciosa reproduzida na Medalha.
Formou-se então em torno da Virgem um quadro um pouco oval,
onde em letras de ouro se liam estas palavras: “Ó Maria, concebida
sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”.
Ouvi então uma voz que me dizia: “Mande cunhar uma Medalha
por este modelo; as pessoas que a trouxerem receberão grandes
graças, mormente se a trouxerem ao pescoço. Hão de ser
abundantes as graças para as pessoas que a trouxerem com
confiança”.
No mesmo instante o quadro pareceu voltar-se e a irmã viu no
verso a letra “M”, encimada por uma cruz, com um traço na base e
por baixo do monograma de Maria os dois corações de Jesus e de
Maria. O primeiro cercado por uma coroa de espinhos, o segundo
atravessado por uma espada. Conforme a tradição oral, comunicada
pela vidente, uma coroa de doze estrelas cerca o monograma de
Maria e os corações. A mesma irmã disse ainda que Maria calcava
aos pés uma serpente de cor esverdeada com pintas amarelas.
Passaram-se dois anos sem que os superiores eclesiásticos
decidissem o que deviam fazer. Depois do inquérito canônico, foi
cunhada a Medalha por determinação do senhor arcebispo de Paris,
monsenhor de Quélen. Logo a devoção começou a espalhar-se com
muita rapidez pelo mundo inteiro, acompanhada sempre de
prodígios e milagres extraordinários, reanimando a fé quase extinta
em muitos corações, produzindo notável restauração da vida
religiosa, das virtudes, sarando corpos e convertendo as almas.
Entre outros prodígios, é célebre a conversão do judeu Affonso de
Ratisbonne, acontecida depois da visão que ele teve na igreja de
Santo André delle Frate. A Santíssima Virgem lhe apareceu como
está representada na Medalha Milagrosa.
O papa Gregório XVI foi o primeiro a aprovar e abençoar a
Medalha, confiando-se à proteção de Maria, e a conservava junto ao
crucifixo. O seu sucessor, o Pontífice da Imaculada, Pio IX, gostava
de dá-la como uma prenda particular da sua benevolência pontifícia.
Não admira, pois, que com tão alta proteção e à vista de tantos
prodígios se propagasse rapidamente a devoção à Medalha
Milagrosa. Só no espaço de quatro anos entre 1832 e 1836, o
fabricante Vechette, que foi incumbido de cunhar a Medalha, vendeu
dois milhões delas em ouro e prata. Dezoito milhões em cobre. Em
Paris, onze fabricantes venderam mais outras tantas. Em Lyon,
quatro cunhadores venderam o dobro, e em várias outras cidades
da França e do estrangeiro foi fabricado e vendido um número
incalculável de Medalhas. De 1836 para cá, quantas Medalhas
Milagrosas terão sido cunhadas e distribuídas ao povo?
Graças a esta difusão prodigiosa, foi se radicando mais e melhor
entre o povo cristão a crença na Imaculada Conceição de Maria e a
devoção a tão excelsa Senhora. A apoteose sublime da definição
dogmática em 1854 foi preparada por meio da devoção à Medalha
Milagrosa. A Santíssima Virgem, em aparições subsequentes, falou
a Catarina Labouré sobre a fundação de uma Associação de Filhas
de Maria, aprovada depois pelo papa Pio IX, em 20 de junho de
1847. Foi enriquecida com indulgências. Hoje está espalhada pelo
mundo inteiro e conta com mais de 150.000 associadas.
Em 1894, o papa Leão XIII instituiu a festa da Medalha Milagrosa
em 23 de julho. Em 2 de março de 1897 encarregou o cardeal
Richard, arcebispo de Paris, de coroar em seu nome a imagem da
Imaculada Virgem Milagrosa presente no altar-mor da Capela da
Aparição, o que foi feito em 26 de julho do mesmo ano. Hoje a festa
é celebrada no dia 27 de novembro. Muitas dioceses têm-na como
titular principal e padroeira diocesana.
Muitas outras manifestações de gratidão foram feitas pelos
papas, que sempre enriqueceram mais aos que por meio da
Medalha Milagrosa veneram a Mãe de Deus, levando seu divino
Filho no coração.

Oração
Ao celebrarmos, ó Deus, a gloriosa memória da Santa Virgem
Maria sob o título de Medalha Milagrosa, concedei-nos, por sua
intercessão, participar da plenitude de vossa graça. Por nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Amém.

22 Nossa Senhora das Angústias


Na época da invasão dos mouros na Península Ibérica, foram
muitos os acontecimentos que ocorreram após a expulsão dos
islamitas da Espanha. Por exemplo: os reis católicos, ao
reconquistar Granada, unindo suas forças com o povo,
empenharam-se na construção de uma igreja à qual deram o nome
de Nossa Senhora das Angústias, provavelmente porque haveria
muitos participantes da irmandade com esse nome. Concluído o
templo, passaram para a segunda etapa: conseguir uma imagem
para a igreja. Procuraram então escultores que pudessem executar
uma obra que representasse o semblante de Maria Santíssima, a
mãe sofredora vendo seu Filho pregado na cruz. Certo dia, pela
tarde, o zelador da igreja viu que uma senhora vestida de luto e dois
jovens que a acompanhavam, um de cada lado, estavam ajoelhados
diante do altar em oração. Isso era frequente. Por isso passou
despercebido. Somente mais tarde observou que a prece começara
a ficar longa, mas continuou seu trabalho. Ao anoitecer, os dois
jovens se retiraram e não foram mais vistos. A senhora permanecia
rezando, imóvel. O vigilante quis compreender a dor da senhora que
estaria talvez rezando pelo marido ou pelo filho falecido. Esperou
mais um pouco e depois, vendo que ela se conservava imóvel,
chegou perto a ela dirigiu-se: “Senhora, devo fechar a igreja. Peço a
fineza de retirar-se”.
Não houve sinal algum. Parecia estar absorta na oração. Não se
mexeu, nem respondeu.
Em vista disso, o zelador correu para comunicar o fato aos
responsáveis diretos pelo templo. Queria saber como agir para fazer
a mulher deixar a igreja para fechá-la. Eles foram ver o que estava
acontecendo. Esperaram mais um pouco para que a mulher
terminasse as súplicas. Mas nada! Ela prosseguia imóvel. Já era
muito tarde, e diante daquela situação um deles levantou o véu que
cobria a cabeça da piedosa dama e ficou estupefato: uma imagem!
A misteriosa senhora era uma escultura!
O assombro tomou conta de todos! Eis a imagem que
procuravam. Demonstrava a mais profunda tristeza da mãe que vê
seu filho morto. Lágrimas nos olhos e olhando para o infinito!
Representava vivamente o sofrimento! Esculpida em madeira de lei.
Não é de admirar que todos tenham corrido a espalhar a notícia,
que alvoroçou o povo. Em pouco tempo a igreja ficou apinhada de
gente, a rezar, chorar e pedir graças. Não faltaram depois
acontecimentos extraordinários, demonstrando a procedência divina
daquela estátua. De todo lado vinham romeiros a suplicar a
proteção de Maria. Diante desse maravilhoso fato, todos queriam
cuidar da igreja cuja padroeira ficou conhecida com o nome de
Nossa Senhora das Angústias. Ninguém achou explicação para o
fato. Nenhum escultor conhecido se identificou como o artífice da
imagem. Famosos artistas foram unânimes em afirmar a perfeição
incrível do trabalho retratando divinamente o semblante doloroso de
Maria Mãe Imaculada, contemplando, supostamente, seu filho
pregado na cruz.

Oração
Senhora Mãe de Jesus, desde as palavras do velho Simeão
vossa alma se encheu de angústias, compreendendo que a vida
toda seria um imenso mar de dores. Nós, os degredados filhos de
Eva, suplicamos compreender os males do pecado, que tanto
padecimento causam ao vosso coração. Quando Jesus menino
ficou no templo, pela perda do filho querido, vossas lágrimas nos
façam chorar nossas maldades. No encontro com Jesus, dirigindo-
se para o Calvário, quando vossa aflição foi indescritível, por ela não
tenhamos medo de carregar nossa cruz, aliviando vossa agonia.
Sobretudo no último momento de Jesus, quando com imenso
desconsolo vistes vosso filho dizer “Pai, por que me
abandonastes?”, e depois o acolhestes sem vida nos vossos braços,
fazei que sintamos profunda amargura de ter ofendido a Deus.
Ajudai-nos, Senhora, para que choremos nossos pecados. Amém!

23 Nossa Senhora de Belém


Constantino, denominado o Grande, com a vitória que alcançou
contra Maxêncio em 306, tornou-se imperador de Roma. Pelo Édito
de Milão, publicado no ano 313, ele deu a liberdade aos cristãos, até
então perseguidos de morte. Em 330, mandou construir uma igreja
no lugar onde tinha estado a gruta do nascimento de Jesus. Ali se
encontram mosaicos representando profetas e ancestrais do Senhor
e uma imagem de Maria, no estilo bizantino, que ficou conhecida por
Santa Maria de Belém.
Peregrinos de diversas partes do mundo visitaram essa igreja e
sentiram nascer em si a gratidão pelo presente incomensurável que
ela nos deu. Entre eles, monges e religiosas de Portugal,
igualmente, espalharam entre o povo essa devoção. Basearam-se
principalmente na estrela que orientou os reis magos até a gruta do
natal, onde encontraram Jesus, Maria e José. Eles incentivaram a
todos que olhassem a Mãe de Deus como a indicadora de quem era
o Salvador.
A devoção se espalhou com muita rapidez. Até dom Henrique, o
infante que foi rei de Portugal, a cultivou. Denominado “o
Navegador”, construiu uma escola (Sagres) para preparar marujos
que singrassem as águas do mar e pudessem descobrir novas
terras, porque estava convencido da sua existência no outro lado do
oceano. Colocou-a sob a proteção de Nossa Senhora de Belém.
Fazia questão de que todos os navegantes ficassem sob esse
amparo. Realizava-se uma pomposa cerimônia antes de cada
partida dessas incursões. Assim o fizeram Vasco da Gama, Pedro
Álvares Cabral e outros. Os descobridores levaram para as novas
terras a devoção a Nossa Senhora de Belém.
Em nosso país, foram muitos os devotos. Podemos contar vários
municípios que receberam o nome de Belém. A começar pela
capital do Pará, mas também no estado de Alagoas; o Ordinariato
Militar (Pará); Belém de Maria e Belém de São Francisco, em
Pernambuco; Belém do Brejo do Cruz, na Paraíba; Belém do Piauí,
Belém do Solimões e outros.
Não é necessário dizer que não seriam tantas as escolhas do
nome em sua homenagem se não fossem a piedade reinante e a
filial confiança em Maria.
Suplicam a proteção de Nossa Senhora de Belém aqueles que
se dedicam a orientar pessoas, para que, assim como a estrela
guiou os magos até que encontrassem Jesus, também Maria nos
envie do céu uma luz que nos guie até Ele.

Oração
Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à
humanidade a salvação eterna, dai-nos contar sempre com a sua
intercessão, pois ela nos trouxe o autor da vida. Por Nosso Senhor
Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

24 Nossa Senhora de Jerusalém


Na praça diante do Palácio de Gominhães, na região de Caldas
de Vizela, Distrito e Arquidiocese de Braga, em Portugal, na região
dos Guimarães, num lugarejo chamado Cardal encontrava-se uma
capela construída por ordem de dona Maria Fogaça. No retábulo
principal colocara a imagem de Nossa Senhora de Jerusalém. O
povo chamava-a também de Nossa Senhora de Cardal,
identificando-a com o nome do local.
Este título de Nossa Senhora de Jerusalém é um dos primeiros
que a piedade cristã primitiva dedicou a Maria Santíssima.
Ao iniciar suas caminhadas missionárias seguindo a ordem de
Jesus (Marcos 16,15: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a
toda criatura”), os apóstolos certamente teriam pedido a Maria
Santíssima sua proteção para obterem êxito nos trabalhos
apostólicos. Os primeiros fiéis teriam repetido muitas vezes o que
vai narrado nos Atos dos Apóstolos (12,5): “Pedro estava assim
encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus”.
Podemos piamente acreditar que Maria estivesse no meio daqueles
primeiros fiéis, elevando a Deus Pai, de quem era filha, a Jesus,
Deus Filho de quem era mãe, e ao Divino Espírito Santo, de quem
era esposa fiel, preces fervorosas pelo êxito das pregações
Podemos ainda acreditar que, estando em longínquas plagas,
teriam aproveitado portadores para enviar notícias das maravilhas
operadas por meio deles ao povo que se convertia para Cristo. O
ponto de referência não poderia ser outro senão a Senhora de
Jerusalém.
O espírito de confiança e amor se espalhou por todos os
seguidores de Jesus. Assim nos atesta Santo Elredo, abade no
século XII, que nos deixou a seguinte exortação: “Aproximemo-nos
da esposa do Senhor, aproximemo-nos de sua Mãe, aproximemo-
nos de sua ótima serva. Tudo isto é Maria! Mas que faremos? Que
presentes lhe ofereceremos? E se pudéssemos, ao menos, dar-lhe
de volta o que por justiça lhe devemos?! Nós lhe devemos honra,
nós lhe devemos serviço, nós lhe devemos amor, nós lhe devemos
louvor. Honra, porque é Mãe de nosso Senhor. Quem não honra a
mãe sem dúvida alguma despreza o filho. E a Escritura diz: ‘Honra
teu pai e tua mãe’ (Deuteronômio 5,16). Então, irmãos, que
diremos? Não é ela nossa mãe? Sim, ela é verdadeiramente nossa
mãe. Por ela nascemos, não para o mundo mas para Deus” (Liturgia
das Horas).
Sabe-se que foi célebre esse santuário de Nossa Senhora de
Jerusalém, com romarias e festas no último domingo de julho.

Oração
Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à
humanidade a salvação eterna, fazei-nos sentir sempre a
intercessão da Senhora de Jerusalém, pois ela nos trouxe o Autor
da vida. Que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo.
Amém.

25 Nossa Senhora de Nazaré


Quanto ao nome, todos conhecemos sua origem, que é bíblica:
“Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia,
chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado
José” (Lucas 1,26).
Esta jovem, que mereceu atrair os olhos de Deus pela sua
pureza conhecida só por Deus mesmo, pode ser merecedora de
todos os encômios pela sua total dedicação. Ela participou dos
planos divinos de salvação para o bem da humanidade. Em todas
as partes do mundo, ela é a receptora dos agradecimentos, os mais
cordiais produzidos pela alma humana. Ela que, saindo das mãos
divinas, toda pura e imaculada, conservou sua beleza de alma e
corpo a ponto de levar São Dionísio Areopagita a exclamar que “a
teria adorado como deusa se a fé não dissesse ser ela também
criatura”. Entre os variadíssimos modos de engrandecer essa divina
jovem estão os títulos que de norte a sul, de leste a oeste os
corações elevam ao Criador. Nunca será suficiente tudo quanto
nasça dos corações agradecidos para elogiar e engrandecer a Mãe
de Deus. Nem por isso se deixa de proclamar alto e bom som o que
se pode fazer em homenagem a ela.
Não cabe nas páginas de um livro o que se eleva até os céus em
agradecimento por todos os benefícios que ela tem derramado a
todos.
Em Portugal, lá por volta do ano 1867, escrevia Pinho Leal: “Hoje
que as santas crenças dos nossos pais estão tão abaladas e até
escarnecidas pelos livres-pensadores, como é doce, como nos
alegra a alma ver essas crenças sempre vivas e sempre inabaláveis
no coração do nosso povo! Como é consolador, neste século de
corrupção e iniquidade, chamado por ironia século das luzes,
vermos, não só conservadas, mas ainda progredindo, entre os
verdadeiros devotos, essa devoção e a piedade! Debalde os antros
ignóbeis onde se gera e pretende propagar o ceticismo, vomitam
sobre a face da Terra toda a casta de sofismas, calúnias e
ignomínias”. Que paire sobre todas essas imundícies a devoção à
Mãe de Deus, Nossa Senhora de Nazaré.
No Brasil, falou-nos dom Mário, arcebispo de Belém do Pará, em
maio de 1946: “A devoção à Virgem Santíssima de Nazaré afirma e
reafirma inegavelmente os profundos sentimentos religiosos do povo
paraense. O Círio é todos os anos uma exaltação desses
sentimentos. A esplendorosa Basílica de Nazaré, na policromia dos
mármores, mosaicos e vitrais, é um círio sempre iluminado de
fulgores inefáveis. Nada mais agradável, pois, do que conhecer a
história da devoção, do Círio e da basílica”.
A devoção a Nossa Senhora de Nazaré veio de Portugal em
linha reta, trazida pelos jesuítas portugueses. A imagem é
portuguesa. O Círio foi fundado por um luso, o senhor Francisco de
Sousa Coutinho. Uma vela grande de cera é levada em procissão
de ação de graças de uma igreja para outra. O uso de velas e
artefatos de cera também veio de Portugal. Tanto os portugueses
como brasileiros se entrosaram de tal forma que aqueles, integrados
no Pará, acabam sendo mais paraenses do que lusos. Embora
originária de Portugal, mas com bases históricas aqui no Brasil, a
devoção a Nossa Senhora de Nazaré foi de tal forma aclimatada
entre nós que se tornou especificamente amazonense. Anualmente
milhares de pessoas participam da procissão em homenagem à
Virgem Santa.

Oração
Ó Mãe de bondade e misericórdia, santa Virgem Maria de Nazaré,
eu, pobre e indigno pecador, a ti recorro com todo o afeto do meu
coração, implorando a tua piedade. Assim como recebeste as
doações dos magos, te dignes assistir-me não só a mim, mas a
todos os teus devotos, círios vivos em tua honra. Por Cristo Senhor
nosso. Amém.

26 Nossa Senhora do Desterro


Com o nome de Nossa Senhora do Desterro, Maria, Mãe de
Jesus, pode ter sido invocada desde os primeiros anos da vida da
Igreja. O título é baseado na fuga que São José e Maria tiveram de
fazer às pressas porque Herodes tinha mandado matar todos os
meninos na cidade de Belém. Pensava exterminar Jesus, com medo
de que Ele fosse usurpar-lhe o trono terreno. Os pormenores
daquele acontecimento podem ser lidos no evangelho de São
Mateus, nos capítulos 1 e 2.
O povo criou imaginosas lendas sobre a viagem da Sagrada
Família ao Egito. Lembro-me de que quando criança, no catecismo,
minha professora contava algumas dessas histórias: o Egito era um
país pagão, tinha muitos ídolos. À medida que a Sagrada Família
passava perto de algum deles, a estátua do deus caía por terra!
Outras: descansando à sombra de uma tamareira, os galhos se
inclinaram até à altura das mãos para que São José pudesse
apanhar as tâmaras… Durante a viagem pediram pouso numa casa;
a mulher ofereceu água para lavarem os pés e banhar o menino
Jesus; em seguida, Maria teria dito à mãe do menininho, que estava
leproso: “Lave também você seu filho nesta mesma água”; a mulher
assim o fez e o menino ficou curado da lepra. A professora dizia
ainda que aquele menino mais tarde se tornou ladrão. Foi
condenado a morrer na cruz. E foi ele que pediu a Jesus: “Senhor,
lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. E Jesus lhe
respondeu: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. A tradição conservou
seu nome: São Dimas.
Estas lendas demonstram a piedade popular e a confiança
depositada na mãe de Deus, invocada sob o título de Nossa
Senhora do Desterro.
Os artistas perpetuaram a representação de Nossa Senhora do
Desterro em várias cenas; uma delas mostra São José com o
bastão numa das mãos e com a outra segurando um jumento; neste
vêm Maria, sentada de lado sobre o animal, e o Menino Jesus,
amparado nos braços da Mãe. Na cidade de Batatais, em São
Paulo, Cândido Portinari, o grande pintor brasileiro, deixou um dos
quadros mais lindos, A fuga para o Egito, que pode ser visto na
matriz do Senhor Bom Jesus da Cana Verde.
Em várias partes do mundo encontram-se nas igrejas pinturas
que lembram o fato. Na Itália é venerada sob o nome de Madona
degli Emigrati. Certamente, Maria terá derramado o bálsamo da paz
aos que por necessidade tiveram de deixar sua pátria e em outros
países procurar o próprio sustento.
Aqui no Brasil também são vários os lugares com essa
denominação. Há capelas e igrejas onde existem pinturas que
lembram o desterro da Sagrada Família. Na Bahia funcionava o
convento Nossa Senhora do Desterro, onde se recolhiam as
senhoras que desejavam dedicar-se à vida consagrada. O templo
com o mesmo nome era famoso pelas ricas alfaias.
No Rio de Janeiro acha-se o convento de Santa Tereza no Morro
do Desterro, lugar onde os franceses foram vencidos no tempo da
invasão, na colonização do Brasil.
Vila do Desterro foi o nome primitivo da cidade de Florianópolis,
que teve seu nome mudado para o atual em homenagem ao
marechal Floriano Peixoto. Nesta cidade se encontra uma escultura,
em tamanho natural, que representa a fuga para o Egito, talhada em
tília, madeira de árvore ornamental, trabalho do escultor Gehard
Demetz.
No Brasil há três municípios com o nome de Desterro, um na
Paraíba e dois em Minas Gerais, Desterro de Entre Rios e Desterro
do Melo.
Muitas foram as demonstrações de maternal proteção de Maria
em socorro aos seus devotos exilados, assim como muitos foram os
benefícios. Diz-se que o historiador brasileiro padre Simão de
Vasconcelos conseguiu a cura de sua doença considerada incurável
por ter se colocado sob a proteção de Nossa Senhora do Desterro.

Oração
Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança
nossa, salve! A vós bradamos, os filhos de Eva. Por vós
suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois,
advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e
depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso
ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria. Rogai
por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das
promessas de Cristo. Amém!

27 Nossa Senhora do Egito


Este título de Maria, Nossa Senhora do Egito, é uma variação do
nome Desterro. Quando José e Maria levaram o menino Jesus ao
Templo, o velho Simeão disse dele: “Eis que este menino está
destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos
homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições. E
uma espada transpassará a tua alma, a fim de serem revelados os
pensamentos de muitos corações” (Lucas 2,34-35).
Estas palavras penetraram bem fundo no coração de Maria, e
ela as levou por toda a vida, tendo presentes os sofrimentos de seu
filho divino, até o último suspiro na cruz.
Não demorou muito para começar o sofrimento. Após a
adoração dos reis magos e as palavras do velho Simeão, São
Mateus diz em seu evangelho: “Depois de sua partida [dos reis
magos] um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse:
‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, e fica lá
até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o
matar’” (Mateus 2,13).
Supomos que imediatamente São José teria comunicado a Maria
a ordem e sem perda de tempo fugiram. Não consta que ela tenha
perguntado: para o Egito? Tão longe? Deixar o templo do Deus
verdadeiro para um país pagão, dos ídolos? Que submeteu o povo
israelita à escravidão? Nada importa! O que é preciso é salvar a
vida do menino Deus.
Não há desânimo pelos incômodos de uma tal fuga: a longa
distância, o caminho desconhecido e lamacento, o tempo invernal,
com ventos neves e chuvas. Calcula-se que a caminhada tenha
durado uns trinta dias!
A Sagrada Família habitou no Egito, em Matarieh ou Heliópolis,
com muita pobreza. O presente dos magos, (ouro, incenso e mirra),
de grande valor, que aliviaria em muito a aspereza da viagem,
teriam deixado para os necessitados de Belém, não os levando
consigo.
A permanência no Egito deve ter durado uns sete anos, como diz
Santo Tomás de Aquino. Durante esse tempo, São José, com seu
trabalho incansável de carpinteiro, sustentou Maria e Jesus menino.
Concluído o tempo do exílio, e morto Herodes, o anjo apareceu
em sonhos a São José dizendo-lhe: “Levanta-te, toma o menino e
sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que
atentavam contra a vida do menino” (Mateus 3,20).
Jesus já estaria com sete anos. Grande demais para viajar no
colo de Maria e José, mas pequeno demais, também, para caminhar
uma distância tão longa. Imagina-se o quanto sofreu a Sagrada
Família.
No decorrer dos dias, as pessoas que se viam nas mesmas
circunstâncias da Sagrada Família suplicavam à Mãe de Deus,
lembrando-lhe as agruras passadas no Egito. Buscavam alívio e
força para também suportar os sofrimentos decorrentes de inúmeras
dificuldades que as conduziam a exílios injustos. Assim fazem os
desamparados, os sem-terra, os excluídos pelos poderosos da terra.
Aprendamos de Maria exilada no Egito a abraçar as cruzes
representadas pelos sofrimentos desta vida, porque sem elas não
viveremos neste mundo!
Perpetuando a lembrança e o agradecimento pelos favores
concedidos existem em várias partes do orbe capelas consagradas
a Nossa Senhora do Egito.

Oração
Maria, senhora do desterro, assim como salvastes a vida
ameaçada do menino Jesus, livrando-o da tirania do perverso
Herodes, e enfrentastes as penúrias do exílio vivendo no Egito,
ajudai-me a suportar as contrariedades desta vida para saber fugir
do pecado e dos pecadores que insistem em tirar a vida de Cristo.
Assisti-me com vosso auxílio na caminhada para a eternidade, a fim
de que possa um dia na pátria dos bem-aventurados amar convosco
nosso Salvador perseguido. Amém.

28 Nossa Senhora dos Inocentes


Quem não conhece o sangrento episódio narrado por São
Mateus no capítulo 2 de seu evangelho, versículos 13 a 19? Ele
trata do Massacre dos Inocentes e da Fuga de São José e Maria,
mãe de Jesus, para o Egito. Eis o que aconteceu: “Depois de sua
partida [dos reis magos], um anjo do Senhor apareceu em sonhos a
José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o
Egito e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o
menino para matar’. José levantou-se durante a noite, tomou o
menino e a sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a
morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera
pelo profeta: ‘Eu chamei do Egito meu filho’” (Oseias 11,1).
Pode-se imaginar a dor e a grande aflição que sofreram o
adotivo pai de Jesus e a sua mãe? Este é um fato que inspirou
muitos artistas, que deixaram estampadas cenas horríveis de
soldados herodianos arrancando bebês das mãos de suas mães e
os degolando impiedosamente!
Herodes mostrou-se grande inimigo de Jesus, enquanto as
inocentes crianças que ainda não sabiam falar, trucidadas,
morreram para Jesus viver. Humano que também era, de que modo
Jesus se manifestaria em gratidão por terem sido aqueles meninos
impiedosamente sacrificados?
O santo rei da Boêmia e Hungria, Ladislau, ainda menino, foi
visitar os soldados do exército. Os militares o receberam com
intensa alegria e até ofertaram alguns presentinhos, pronunciando
palavras de total dedicação. O pequeno rei a tudo agradecia,
comovido. Entre eles, porém, apareceu um soldado que disse:
“Nada tenho para ofertar, mas quero que vejas as cicatrizes dos
ferimentos que suportei em tua defesa e de teu pai. Elas mostram
todo meu amor e toda minha fidelidade, muito mais que presentes”.
Ao contemplá-las, e ouvindo palavras tão comoventes, o pequeno
rei, além de o abraçar, deu-lhe todas as moedas que conservava na
sua bolsa particular, demonstrando sumo agradecimento pela
dedicação daquele bravo soldado.
O que teriam feito a divina mãe e seu esposo àqueles inocentes
mortos para que Jesus vivesse? Pela Liturgia, a santa mãe Igreja,
em 28 de dezembro, comemora e agradece às sofridas mamães a
perda dos inocentes e queridos filhinhos. Anualmente em todo orbe
terrestre cantam-se hinos de louvor e agradecimento, além da glória
celeste que receberam e na qual já vivem eternamente. Lembrando
os acontecimentos narrados no evangelho de São Mateus, há em
Santarém, Portugal, uma creche denominada Nossa Senhora dos
Inocentes, conforme narra o padre Manuel Nunes, que foi o primeiro
historiador das aparições de Fátima.

Oração
Ó Deus, os Santos Inocentes proclamam vossa glória, não por
palavras, mas pela própria morte; dai-nos que testemunhemos com
uma vida santa o Criador que nos remiu. Por Cristo, Senhor nosso.
Amém.

29 Senhora da Consolação
Entre os sentidos da palavra consolação encontramos diversos
significados, como aliviar, animar, confortar, oferecer lenitivo, entre
outros. São sinônimos. Considerando filosoficamente, sob o olhar
psicológico, é um estado da alma que, por sua vez, não pode ser
visto de modo independente da teologia, por se tratar de experiência
religiosa. A base em que se apoia é o pressuposto inato na alma de
tender à felicidade, para a qual Deus nos criou. Santo Agostinho nos
deixou o incomparável pensamento: “Criastes-nos para vós, Senhor,
e o nosso coração estará irrequieto enquanto não descansar em
vós”. Ele não se refere à felicidade mesquinha, sensual, mas sim a
algo muito grande, sem fim, tanto no espaço como no tempo. Sendo
as pessoas capazes desses tão elevados anseios, podem superar
as aflições temporais e sensíveis esperando por situações melhores
e duradouras. A impressão que fica na alma quando encontra tais
objetivos e pode se apoiar neles é o que, popularmente, se entende
por consolação. Após a ascensão de Jesus ao céu, os discípulos
caíram em desânimo. O que fazer sem o Mestre? Daí o papel
importantíssimo da presença de Maria para encorajá-los. Nos
momentos difíceis, nas perseguições que já eram sentidas, o medo
atingia os seguidores de Cristo. Não se pode duvidar de que Maria
tenha ficado na terra ainda mais tempo do que Jesus, para acalmar
os seguidores preocupados, fracos de ânimo e encorajar os
apóstolos a levar a boa-nova da fé. Era nela que todos encontravam
a paz e o estímulo para os trabalhos e sacrifícios. Por isso, a
tradição crê que já em vida Nossa Senhora era considerada a
“consolação” de todos no sofrimento. Mesmo após ter sido
declarada rainha do céu e da terra, os primeiros cristãos
continuaram a chamá-la de “A Consolação. Os padres agostinianos
espalharam essa devoção por todo o mundo, certamente por
saberem da grande aflição de Santa Mônica, ao ver seu filho,
Agostinho, desgarrado da Igreja. Conseguiu sua conversão por
intermédio de Maria. Esta lhe trouxe a consolação e a paz, com a
volta de seu filho a Cristo. Maria continua a conseguir para nós a
paz de espírito se a ela recorremos nos momentos difíceis. Mas não
esperemos que cheguem as dificuldades! Invoquemo-la confiantes,
sempre.

Oração
Ó Mãe de Deus, enviai a consolação celeste, porque a vós
bradamos os filhos de Eva. Por vós suspiramos, gemendo e
chorando neste vale de lágrimas, Eia, pois, advogada nossa, esses
vossos olhos misericordiosos a nós volvei e, depois deste desterro,
mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó
piedosa, ó doce sempre virgem Maria.
III – Títulos relacionados às virtudes de
Nossa Senhora
Nossa Senhora é auxiliadora, é humilde, é mulher de fé, de
esperança e de caridade. Não conseguiremos evocar todas as
virtudes de Maria, mas anotamos aqui alguns títulos relacionados
com a excelência da sua vida no cumprimento da vontade de Deus.
Maria é para nós modelo de verdadeira seguidora de Cristo.

30 Divina Pastora
Nossa Senhora é agraciada com o agradável título, muito
sugestivo, de Divina Pastora. A iconografia de Nossa Senhora
Pastora é muito variada. Artistas a representaram com trajes
apropiados, usando um chapéu de abas largas. O cajado, símbolo
da profissão pastoril, ora está na mão direita, ora na esquerda.
Também há imagens que a representam tendo nos braços o menino
Jesus, afagando ovelhinhas entre as muitas que rodeiam a
cuidadosa e delicada pastora.
O pintor brasileiro Cândido Portinari deixou um afresco na casa
de descanso do barão de Savedra que mostra a delicadeza e a
doçura de Maria, com o epíteto de Divina Pastora.
O pastoreio era uma profissão quase obrigatória entre os povos
antigos, porque as famílias, em grande parte, possuíam seus
rebanhos, mesmo que fossem pequenos, que necessitavam ser
protegidos contra os ataques de animais ferozes e até de ladrões.
A Escritura Sagrada faz inúmeras referências ao pastoreio. Inicia
com a narração de Gênesis 4,2, onde consta que Abel era pastor.
No livro dos Números lemos (14,33): “seus filhos guardarão os seus
rebanhos…”. Tão espalhada era essa profissão que os profetas
também a utilizaram para falar do Messias. Tornouse, então, um
termo messiânico. Vejamos o que escreve Isaías (40,11): “… como
um pastor, vai apascentar seu rebanho, reunir os animais dispersos,
carregar os cordeiros nas dobras de seu manto, conduzir
lentamente as ovelhas que amamentam”. Muitas outras passagens
escriturísticas fazem menção ao pastoreio. O nome pastor foi
utilizado também no sentido metafórico, sendo aplicado desde
tempos imemoriais ao rei, como se pode ver em Homero, que o
chama de “pastor dos povos”.
Dizem que em Sevilha, na Espanha, um capuchinho de nome
frei Isidororo, certamente para amenizar as arguras que o pastoreio
acarreta, e para animar os desanimados, teria iniciado e propagado
a devoção a Nossa Senhora Divina Pastora, apresentando-a como
modelo. Pelos idos de 1703, eram numerosos os pastores, e o frade
queria difundir entre eles paciência, piedade e a convicção de que o
ofício era uma nobre ocupação. Eles podiam contar com o exemplo
e a proteção de Maria, que exerceu a missão pastoral de orientar e
animar os primeiros cristãos.
Com essa iniciativa, também nós nos sentimos seguros, porque,
como amável pastora, ela nos indica o caminho certo da oração que
nos faz encontrar Jesus.

Oração
Divina Pastora, Maria, levai-me a Jesus, o Bom Pastor, para que
nada me falte. Fazei-me repousar em verdes pastagens. Conduzi-
me junto às águas refrescantes. Restaurai as forças de minha alma.
Levai-me pelos caminhos retos, por amor ao nome de Jesus. Ainda
que atravesse o vale escuro, que eu nada tema, pois estais lá
comigo. Que o vosso bordão e o vosso báculo sejam o meu amparo.
Amém.

31 Nossa Senhora Auxiliadora


Conhecemos a ganância que dominou Napoleão I. Por volta de
1809, ele aspirava submeter ao seu domínio não só o mundo
político, mas também a Igreja e seus bens.
O papa Pio VII não aceitou sujeitar a Igreja às suas exigências
descabidas. Diante dessa insistência orgulhosa, o Papa se viu
forçado a lançar a excomunhão contra o imperador da França.
Violentamente, o chefe da Igreja Católica foi aprisionado em
Savona e depois conduzido ao castelo de Fontainebleau. Ali o Papa
ficou incomunicável. Ninguém podia se aproximar. Retiraram-lhe até
o breviário. A alimentação era insuficiente. Os maus-tratos só não
fizeram Pio VII sucumbir porque Deus queria tirar maior bem para a
sua Igreja. Todos os fiéis cristãos elevavam suas preces ao céu. O
próprio papa, colocando-se sob a proteção de Maria, suplicando seu
eficaz auxílio, fez voto de coroar a sua imagem em Savona quando
recuperasse a liberdade.
Sem que alguém previsse, os soldados napoleônicos foram
vencidos pelo exército dos aliados em 1813, em Leipzig. Todas as
nações pressionavam o mandatário francês, que teve de ceder à
pressão do mundo. Libertou o Sumo Pontífice. Restituiu os bens da
Igreja e foi obrigado a assinar a abdicação, no mesmo castelo onde
ele mantivera retido o Papa.
Pio VII imediatamente dirigiu-se à cidade de Savona e cumpriu
seu voto de coroar a imagem de Maria.
Acompanhado por imensa população, que elevava suas
entusiásticas aclamações, o Papa fez a entrada triunfante em Roma
no dia 24 de maio de 1824.
Para comemorar este acontecimento e agradecer a grande
proteção da Mãe de Deus, ele instituiu neste dia a festa de Nossa
Senhora Auxiliadora, mandando que fosse celebrada anualmente.
São João Bosco, exímio educador da juventude, colocou-se – e
também toda a sua obra – sob a proteção de Nossa Senhora
Auxiliadora. A congregação Salesiana, continuadora do espírito do
grande santo, mantém a fervorosa devoção filial a Maria.

Oração
Ó Maria, Virgem poderosa. Tu, grande e ilustre defensora da
Igreja. Tu, auxílio maravilhoso dos cristãos. Tu, terrível como
exército ordenado em batalha. Tu, que, só, destruíste toda heresia
em todo mundo. Ah! Nas nossas angústias, nas nossas lutas, nas
nossas aflições, defende-nos do inimigo; e na hora da morte acolhe
a nossa alma no Paraíso. Amém (composta por São João Bosco).
32 Nossa Senhora da Claridade
Na França há uma pequena cidade praiana chamada Perros-
Guirec, capital do cantão das Costas do Norte, banhada pelo mar da
Mancha. Localiza-se a uns dez quilômetros de Lannion. Abriga
poucos milhares de habitantes. Os seus quatro ou cinco quilômetros
de praia convidam a agradáveis banhos de mar. Destaca-se ainda
pelo porto de pesca da Mancha. Entre outros atrativos, encontra-se
ali desde o século XVI a capela de Notre Dame de la Clarté, ou
Nossa Senhora da Claridade.
A tradição diz que a origem dessa denominação provém de
alguns pescadores que certa noite se encontravam em alto-mar
lançando suas redes. Levantou-se grande tempestade. O barco já
estava em perigo de naufrágio. Os marinheiros, depois de verem
baldados seus esforços, invocaram a proteção de Maria, a rainha
dos mares. Prometeram construir uma capela na praia para
perpetuar o amparo se conseguissem se salvar. Não demorou e
uma claridade misteriosa iluminou o porto. Guiados por essa luz,
para lá se dirigiram sãos e salvos. Apressaram-se a cumprir a
promessa.
No dia 15 de agosto é celebrada lá a festa de Nossa Senhora da
Claridade, tendo em vista a Assunção de Maria, com sua entrada
triunfal na glória iluminada por luz que não se apaga.
Ainda hoje a capela é muito visitada, principalmente por pessoas
que sofrem da vista, implorando a cura de doenças dos olhos.
Agradecem também porque Maria deu à luz Cristo Jesus, nosso
Salvador.
Nas peregrinações a gente piedosa canta hinos de louvor. Eis as
vésperas da Senhora da Luz:

1) Ó florão da humana raça,


virginal Mãe de Jesus,
tu, aos filhos da desgraça,
vens fazer filhos da luz.

2) Já trazendo a realeza
ao nascer do rei Davi,
vês crescer tua nobreza,
quando Deus nasce de ti.

3) Tua luz venceu a treva


do pecado original,
transformando os filhos de Eva
em nação sacerdotal.

4) Tua prece nos consiga


de Deus Pai pleno perdão,
e, calcada a culpa antiga,
a divina comunhão.

5) Ao Deus trino, Virgem pura,


erga o homem seu louvor;
restaure a criatura,
dando à luz o Criador.

Oração
Senhor Deus, que pela claridade extraordinária mostrou aos
pescadores o caminho do porto, fazei também que na luz que é
Jesus, nascido da Virgem Maria, encontremos a salvação. Por
Cristo, Senhor Nosso. Amém!

33 Nossa Senhora da Esperança


Podemos dizer que o título Nossa Senhora da Esperança
sempre existiu. Em todos os tempos, fiéis confiantes invocaram
Maria solicitando auxílios para superar as dificuldades cotidianas. A
base dessa confiança do povo é ela ter sido mãe do Cristo
Redentor, fonte de toda graça. Ciente da generosidade materna de
Maria, a Igreja dirige-se a ela com a mesma esperança. Pela liturgia
invoca a Mãe de Deus sob vários oragos. No decorrer dos séculos,
essa esperança, nunca desiludida, consolidou-se muito mais ainda.
Foi na França que os fiéis cristãos, experientes da proteção da
humilde virgem de Nazaré, ergueram um santuário sob esta
invocação, Senhora da Esperança, na cidade de Mezières, no
longínquo século X, exatamente no ano 930.
Quando o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral, este
trazia consigo uma pequena e linda imagem de Nossa Senhora da
Esperança. Desde a alvorada de sua existência nossa pátria viu a
luz da vida sob os esplendores da Virgem da Esperança, hoje
concretizada na devoção a Nossa Senhora Aparecida. No
Congresso Eucarístico do Rio de Janeiro, em 1955, essa imagem
retornou ao Brasil. Atualmente é venerada numa capela na cidade
de Belmonte, em Portugal.

A devoção se espalhou pelo mundo afora.


Fatos extraordinários selaram a confiança dos fiéis na Mãe de
Jesus.
Corria o ano de 1871 quando, esmagadas pelo peso da guerra
prussiana, que gerava fome, e no mais rigoroso inverno, as
populações confiantes rezavam esperando sua proteção. Até o
bispo fez uma promessa a Nossa Senhora da Esperança, pedindo
seu amparo ao povo francês, tão sofrido naquela sanguinolenta e
terrível guerra.
No dia 17 de janeiro um menino de doze anos chamado
Eugênio, ao entardecer, viu uma senhora no telhado da sua casa.
Seu pequeno irmão José, de dez anos, também viu. O pai e a mãe
não a viam, e esta até pôs os óculos para enxergar melhor. Outras
pessoas também nada viam. Pensaram tratar-se de ilusão infantil.
Após o jantar, a bela imagem continuava no mesmo lugar e os
meninos afirmavam vê-la. Exclamavam: “Como é linda!”. Foram
chamados então o padre e a irmã Vitaline, que era professora
daquelas crianças; também eles nada viram. Porém, duas inocentes
meninas internas que acompanhavam a irmã a viram perfeitamente.
Além disso, puderam contemplar como apareceram escritas estas
palavras: “Rezai, meus filhos, Deus vos atenderá dentro em breve.
Jesus se deixa enternecer”. Dez dias depois deste acontecimento foi
assinado o termo do fim da guerra entre a França e Alemanha. Este
fato provocou muito interesse em toda a região. O bispo de Laval
(cidade da França, departamento de Mayenne) ordenou rigoroso
estudo sobre tais aparições e finalmente reconheceu sua
autenticidade, autorizando o culto da Mãe de Deus sob o título de
Nossa Senhora da Esperança de Pontmain.
No México, conforme narra a tradição, alguns lavradores
encontraram uma árvore cuja raiz formava uma imagem. Cheios de
contentamento, levaram-na ao pároco, que admirado da perfeição
dos traços a colocou num dos altares da igreja. Construiu-se uma
capela, mas depois de algum tempo a imagem foi levada
definitivamente para a matriz, onde o povo a venerava e fazia suas
preces na esperança de ver seus problemas resolvidos. Chamavam
a imagem de Nossa Senhora da Raiz da Esperança. Por
autorização do papa Leão XIII, o arcebispo do México, delegado
pontifício, coroou a imagem.
Havendo eucaristia, e amparados por mãe tão carinhosa,
podemos esperar confiantes e jamais seremos confundidos.

Oração
Graças te damos, Pai Santo, porque deste à Virgem Maria um
coração sábio e dócil, sempre disposto a te agradar, um coração
novo e humilde, para nele gravar a lei da Nova Aliança, um coração
sensível e puro, que a fez digna de conceber virginalmente teu
Filho, um coração firme e disposto a suportar todas as provações e
toda a dor, um coração firme na fé e na esperança da ressurreição
de teu divino Filho. Dá-nos igualmente um coração sábio e dócil,
novo e humilde, sensível e puro, firme e disposto a imitá-la para
trabalhar com perseverança pela salvação do mundo. Amém. (Santo
Antônio Maria Claret)

34 Nossa Senhora da Estrela


Mais uma história vinda de Portugal do tempo dos mouros.
A lenda narra que lá por volta do ano 711, dom Rodrigo foi o
último rei visigodo da Espanha, por ter sido derrotado pelos
sarracenos. Toda a Península Ibérica foi dominada pelos árabes.
Para evitar profanação por parte daqueles fanáticos, dom
Rodrigo determinou que a imagem da Virgem santíssima fosse
escondida. Tão bem a ocultaram que séculos se passaram sem que
ninguém a descobrisse.
Quando a sede do conselho Portalegre em Portugal e a vila de
Marvão se libertaram dos mouros, houve então liberdade e seus
habitantes puderam dedicar-se à piedade e ao trabalho honesto.
Um jovem pastor cuidava de ovelhas nos arredores do povoado,
nas proximidades de um desfiladeiro. Certo dia, à noitinha, deparou
com uma desconhecida luminosidade. Primeiro ele pensou ser
alguma estrela que começava a aparecer no céu. Aproximou-se
para ver melhor o inusitado acontecimento. Mas ao chegar perto a
gruta estava toda iluminada e dentro encontrava-se uma imagem de
Nossa Senhora que tinha uma coroa feita de estrelas. Ninguém
estava lá, e por isso mesmo ele estranhou a luz que clareava o
ambiente.
Espantado, correu para a vila e chamou o povo. Este acorreu
pressuroso e prostrou-se para agradecer a Deus aquele
maravilhoso encontro, que era a vinda da Mãe de Deus para estar
com eles!
Com grande regozijo levaram a imagem para a igreja, mas por
três vezes, em dias consecutivos, a imagem foi encontrada
novamente na gruta. Os habitantes entenderam que era vontade da
Mãe de Deus que fosse construído ali um santuário, para louvor a
Deus.
Através dos séculos a figura de Nossa Senhora coroada com
doze estrelas é uma interpretação antiga do Apocalipse, que diz
“Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher vestida
do sol, a lua debaixo dos seus pés, e na cabeça uma coroa de doze
estrelas” (12,11).
Em vários pontos do orbe surgiram templos com esta invocação,
em honra a Deus pelos inumeráveis dons concedidos a Maria, a
Mãe de Jesus. Em Lisboa é conhecida a primeira basílica da
Estrela, a ela dedicada, erguida pela rainha dona Maria I (Jacinto
dos Reis, em Invocações de Nossa Senhora em Portugal).
Há outras imagens dedicadas a Nossa Senhora da Estrela. Os
pescadores e marujos veneram Nossa Senhora Estrela do Mar.
O papa Júlio II deu ao rei dom Manuel, de Portugal, como valioso
presente, uma imagem de Maria tendo nos braços Jesus recém-
nascido, e porque estava coroada com uma coroa de prata dourada
deram-lhe o nome de Nossa Senhora das Estrelas.
Conhece-se, outrossim, Nossa Senhora, Estrela da Manhã.
Ultimamente, em janeiro de 2003, o papa João Paulo II, na
alocução mariana na Solenidade da Epifania aos fiéis na praça de
São Pedro, numa ligeira pincelada recordou os mistérios
acrescentados na recitação do Rosário e disse: “As profecias
antigas comparam o futuro Messias com um astro celeste. Este
emblema foi também atribuído a Maria: se Cristo é a estrela que
conduz a Deus, Maria é a estrela que leva até Jesus” (L’Osservatore
Romano, nº 2, 11 de fevereiro de 2003).
Os antigos navegadores guiavam-se pelos astros. Em alto-mar
imploravam a proteção de Maria e cantavam:

1) Estrela dos mares,


Cujos reflexos
Em meus olhos
Da infância
Tanto luziram,

2) Lembra-te, ó Mãe,
Quantas vezes
Aos teus pés
Rezei a “Salve”.

3) Hoje te saudamos,
Mãe carinhosa,
Cujos reflexos
Em meus olhos
Da infância
Tanto luziram.

Oração
Estrela dos Mares, fulgurante Maria, brilha no céu da minha vida
para que eu chegue ao porto da salvação guiado pelo esplendor da
tua pureza e pelo brilho das tuas virtudes, agora e sempre. Amém!

35 Nossa Senhora da Fé
É comum entre o povo considerar a fé a manifestação do bom
conceito e da confiança que se tem em uma pessoa. Exemplo: ter fé
no médico, ter fé no motorista e outros exemplos semelhantes. Há
pessoas que imaginam a fé como a crença que se dá aos fatos pela
autoridade daquele que falou ou pela fama pública. Também
consideram a fé uma palavra empenhada ou uma promessa que se
faz a alguém com solenidade. Estar seguro de que determinada
coisa é certa.
O Catecismo da Igreja Católica esclarece: “Pela fé, o homem
submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus.
Com todo o seu ser, o homem dá seu assentimento a Deus
revelador” (nº 143). Adesão do entendimento a uma verdade
revelada, pela autoridade do testemunho de Deus. Esta é a
definição da primeira das virtudes teologais. Notemos, pois, dois
elementos: a matéria da fé, que deve ser uma verdade revelada, e o
motivo específico dessa verdade, que é o testemunho infalível de
Deus.
A fé é a virtude fundamental do cristianismo. É conhecimento e
uma luz sobrenatural com que, sem ver, cremos no que Deus diz e a
Igreja nos propõe.
Ninguém mais do que Maria assentiu à revelação de Deus.
Ainda o Catecismo da Igreja Católica lembra: A Virgem Maria realiza
da maneira mais perfeita a obediência da fé. Na fé, Maria acolheu o
anúncio e a promessa trazida pelo anjo Gabriel, acreditando que
nada é impossível a Deus (Lucas 1,37) e dando o seu assentimento:
“Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”
(Lucas 1,38). Durante toda a sua vida, e até a última provação,
quando Jesus, seu filho, morreu na cruz, sua fé não vacilou. Maria
não cessou de crer “no cumprimento” da Palavra de Deus. Por isso
a Igreja venera em Maria a realização mais pura da fé. Pelo
exemplo que Maria dá ao mundo é que o povo fiel lhe aplica o belo
título de Nossa Senhora da Fé. Confirmam-no as igrejas dedicadas
a ela em muitas nações, principalmente na França, na Bélgica, na
Itália, em Portugal e no Brasil.
Os padres da Companhia de Jesus (jesuítas) tornaram-se
grandes divulgadores da devoção a Maria sob o título de Nossa
Senhora da Fé. Em 1644, na capela da comunidade jesuítica de
Salvador, havia uma imagem assim denominada. Era um ícone
esculpido em madeira, com aproximadamente um metro e vinte
centímetros, toda revestida de prata. Hoje, infelizmente, está
desaparecida. A festa celebrava-se no segundo domingo da
Páscoa.
Na sacristia da catedral de Salvador há uma imagem de Nossa
Senhora da Fé trazida de Portugal em 1608.
Na oratório denominado São José dos Carpinteiros, em Lisboa,
há também uma linda imagem de Nossa Senhora da Fé.
No distrito e arquidiocese de Braga, no país luso, encontra-se
um santuário dedicado a Nossa Senhora da Fé. Seus habitantes
piedosamente desabafam dizendo: “A mais querida taumaturga dos
povos de Vieira”, e a ela recorrem nos momentos mais amargos da
sua vida. Na mesma arquidiocese, no povoado de Pinheiro, há uma
capela de mesmo nome. Na paróquia de Vilarinho de Castanheira,
também se diz que houve uma antiga capela da qual era titular
Nossa Senhora da Fé.

Oração
Maria, Nossa Senhora da Fé, assim como os apóstolos disseram
a Jesus: “aumenta-nos a fé” (Lucas 17,5), renovamos este pedido
para que por vossa intercessão a nossa fé seja ao menos como o
grão de mostarda e possamos merecer as graças de amar-vos e
convosco amar a Deus e servi-lo para sempre. Amém.

36 Nossa Senhora da Guia


É frequente nas cidades do litoral encontrarem-se capelas ou
mesmo igrejas dedicadas a Nossa Senhora da Guia. Explicase
facilmente este fato, porque os navegantes a consideravam sua
padroeira. A ela se dirigiam antes de suas viagens, suplicando êxito
nos trabalhos e feliz retorno.
Guia por quê? Baseando-nos no evangelho de Lucas, Maria e
José, além de fornecer nutrição corporal, ensinaram ao menino
Jesus os primeiros passos. Como homem, ele aprendeu atitudes de
pessoa honrada responsável. Mais tarde, quando percorria os
rincões de Nazaré e outras cidades na evangelização do povo,
empregou palavras de paz e amor que ouvira no aconchegante lar
da sagrada família. Enquanto São José trabalhava como carpinteiro,
foi Maria que, principalmente, transmitiu a Jesus, Deus feito homem,
os princípios da honradez. Na Grécia chamavam-na de “Odigítria”,
que traduzindo ao português quer dizer “guia”, “aquela que conduz”.
Se Maria foi escolhida por Deus Pai para orientar a Deus Filho,
feito homem, muito mais nós nos devemos deixar orientar, pois ela
nos encaminhará ao ponto final da existência. Assim pensavam os
pescadores que, confiantes na mãe de Deus, suplicavam não só a
salvação eterna, mas também a salvação temporal.
A devoção a Nossa Senhora da Guia é bastante difundida, a
ponto de ela ser considerada padroeira, além de até mesmo dar
nome a cidades ou paróquias.
O povo devoto dirige-se a Maria com a seguinte oração:

Oração
Ó Maria Santíssima, eu vos louvo e bendigo porque aceitastes
gerar em vosso seio puríssimo, por obra do Espírito Santo, Jesus, o
filho de Deus, Salvador do mundo, tornando-vos a Mãe e a primeira
discípula daquele que veio para ser a luz de todos os povos, o
Caminho, a Verdade e a Vida.
Vós que levastes Jesus, ainda em vosso seio, para santificar
João Batista no seio de sua mãe Isabel; vós que protegestes o
Menino Jesus em seu nascimento, o amamentastes e lhe
ensinastes os primeiros passos: protegei as criancinhas e guiai
todas as mães, para que elas ensinem seus filhos a amar e seguir
Jesus.
Ó Virgem bendita, guiai todos os meus passos, protegei-me em
todos os perigos e livrai-me de todo mal. E em todas as
circunstâncias de minha vida mostrai-me Jesus, que é o Caminho
que me conduz ao Pai, a Verdade que me liberta e a Vida que me
salva.
Ó Virgem Santíssima, Nossa Senhora da Guia, abençoai e guiai
o nosso papa, o nosso bispo, o clero e todo o povo de Deus.
Convertei os pecadores e fazei que todos os homens e mulheres
conheçam Jesus Cristo, nele creiam e nele tenham a salvação.
Amém.

37 Nossa Senhora da Humildade


Na visita que fez à sua prima Isabel, depois de ouvir a saudação
dela, Maria apregoou com seu hino: “A minha alma engrandece o
Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque
olhou para a humildade de sua serva” (Lucas 1,46). No versículo 48
completa: “eis que de hoje em diante todas as gerações me
chamarão bem-aventurada”.
A começar pela Santíssima Trindade: o Pai a louva porque a
escolheu para mãe de seu Filho redentor. O Filho a enaltece com
terno amor filial, porque pela encarnação no seio de Maria fez a
vontade do Criador. O divino Espírito Santo a glorifica por vê-la
esposa puríssima cooperando na redenção do gênero humano.
A Igreja não cessa de louvá-la por inúmeros lindos hinos que a
engrandecem.
Toda a humanidade, por sua vez, louva a Maria por saber que
ela é criatura como nós, e colaborou com a Santíssima Trindade
trazendo-nos seu Filho divino, pela nossa salvação eterna.
Centenas e centenas de títulos honram Maria por este grande
mistério. Tudo o que há de mais nobre, puro, santo e de valor a
humanidade emprega para manifestar seu afeto, seu carinho e sua
gratidão a Maria. Ouro, prata, pedras preciosas foram oferecidos
como prova de imensa gratidão. Literatos redigem obras de valor
artístico e imensurável. Músicos compõem melodias meigas, cheias
de arte, afeto e carinho. Escultores produzem as mais lindas
esculturas daquela que reúne em si toda a beleza.
Nossa Senhora da Humildade, na igreja da Misericórdia, da Vila
de Arcos de Valdevez, na Arquidiocese de Braga, em Portugal –
ignora-se o escultor e a origem – é representada por uma imagem
talhada na madeira, esculpida com uma perfeição delicada. De
tamanho natural, demonstra a mulher perfeita. Suas mãos estão
levantadas como suplicando algo de um Ser invisível. Sua
formosura celeste! Mostra grande modéstia e soberana majestade.
Quem a olha sente uma reverente e profunda veneração. Está
adornada com um lindo manto de seda. Uma coroa de prata enfeita
sua cabeça. Diante de toda essa grandeza, não nos acanhemos de
nos dirigir a ela como o fazem seus devotos. Não ficaremos
confundidos! Assim nos fala frei Agostinho de Santa Maria: “Não me
admiro do título de Humildade, com que a Rainha dos Céus, a
Imperatriz do mundo e Mãe de Deus quer ser invocada, porque do
muito que Ela agradou ao Altíssimo pela sua profunda humildade
Ele a levantou à maior grandeza, escolhendo-a sua Mãe”.

Oração
Senhora de grandeza imensa, pela vossa humildade fazei-me
reconhecer que nada sou, nada posso, nada mereço para atrair a
misericórdia divina, e que possa cantar para sempre convosco as
glórias de Jesus, que vive com Deus Pai e Deus Espírito Santo para
sempre. Amém.

38 Nossa Senhora das Mercês


Conhecendo as dificuldades existentes para libertar alguém que
fosse capturado e feito escravo, as pessoas que gozavam de
liberdade voltaram-se para Deus, o único que, onipotente, podia
fazer voltar à liberdade roubada! Conhecidos os sofrimentos dos
cativos, quer parentes, quer desconhecidos, esses devotos
fundaram uma sociedade beneficente para resgatar os infelizes que
caíam nas garras dos sarracenos. Eis os seus fundadores: São
Pedro Nolasco e São Raimundo de Penaforte, em 1223. Tornou-se
mais conhecida em 1696.
Convictos de que a Mãe de Jesus sempre obteve favores à
humanidade, colocaram o nome na confraria de Nossa Senhora das
Mercês.
Lembra de quando os piratas do Mediterrâneo procuravam
marinheiros cristãos e mercadores para fazê-los escravos sob o
domínio dos mouros na África.
O significado da palavra “mercês ou mercedes” é comum, ou
seja, um benefício que alguém faz a outra pessoa, recompensa por
algum serviço permanente ou trabalho. Significa ainda graça, favor,
disposição favorável para com alguém, indulgência, benignidade
etc. Em nosso caso era para conseguir a liberdade dos cativos,
feitos escravos. Era como remissão de pena, concedida por graça,
favor e indulgência da Santíssima Virgem. As atividades dos seus
devotos era muito grande. Eles conseguiram resgates de milhares
de cativos na África.
Entre as levas de pessoas que vinham ao Brasil após seu
descobrimento, encontravam-se também os padres da Congregação
da Santíssima Trindade. Eles foram os protagonistas em espalhar a
devoção a Nossa Senhora das Mercês.
Onde as Confrarias de Nossa Senhora das Mercês mais
floresceram naquele tempo foi na chamada capitania de Minas
Gerais. Os negros e outros cativos procuravam filiar-se a essa
Confraria. Entre eles a denominação de Nossa Senhora das Mercês
se tornou particularmente querida aos seus corações, porque lhes
dava esperanças de conseguir a liberdade. As irmandades de
Nossa Senhora das Mercês logo tomaram uma feição de utilidade
pública, assistência social e proteção. Com o decorrer dos anos, as
pessoas que já tinham conseguido a liberdade se reuniram
formando outras irmandades, agora com o nome de Nossa Senhora
do Rosário, suplicando o resgate das almas do Purgatório, também
cativas do sofrimento.
As irmandades que foram sendo fundadas nas diferentes partes
do mundo, assim como as de Minas Gerais, tinham de se filiar à
irmandade-mãe, que se encontrava em Lisboa, no Convento da
Santíssima Trindade. Era essa a orientação que os frades da
Santíssima Trindade inculcavam por todas as partes. Entre eles
encontrava-se frei Francisco de Menezes, que também lutou na
guerra dos Emboabas. Foi cabo de guerra contra os franceses em
1710.
Assim fala Augusto de Lima Júnior em sua História de Nossa
Senhora em Minas Gerais: “Começaram os negros a formar suas
irmandades nas próprias igrejas paroquiais, mas logo se viam
forçados, pelas impertinências dos Irmãos do Santíssimo
Sacramento, a fabricar suas ermidas de taipa e capim, que logo
transformavam em capelas filiais, algumas de grande beleza. Com o
tempo formou-se uma separação curiosa. Enquanto os negros
cativos se formavam nas irmandades do Rosário, os pardos cativos,
que os havia muito, se organizavam sob o manto da Senhora das
Mercês, onde muitos brancos de condição humilde se lhes foram
juntar”.
Continuando suas observações, escreve: “As Vilas de Ouro
foram, pois, sede de numerosas confrarias das Mercês, que muito
lutaram para que elas obtivessem os privilégios da confraria de
Lisboa”.
E ainda: “Os pretos escravos que faziam parte das Irmandades
do Rosário e das Mercês de Lisboa tinham o privilégio de se
resgatar, desde que fossem alguns de seus membros vendidos para
fora do território metropolitano. Lutaram muito por obter tal regalia e
nessas tentativas passaram quase todo o século dezoito,
atravessaram o dezenove e o Império, e somente às vésperas da
proclamação da República pôde a princesa Isabel dar-lhes aquilo
que era de direito e que criminosamente se lhes negava”.
Na história de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil,
encontramos a linda narração do escravo preto Zacarias, que fugiu
de uma fazenda do Paraná e acabou sendo capturado no vale do
Paraíba. Foi caçado e capturado por um famoso capitão do mato; ao
ser levado de volta, preso por correntes nos pulsos e nos pés, ao
passarem perto da capela de Nossa Senhora Aparecida, pediu
permissão para rezar diante da imagem. Rezou com tanta devoção
que as correntes milagrosamente se romperam, deixando-o livre.
Diante do ocorrido, seu senhor acabou por libertá-lo. Nossa Senhora
é a mesma, seja qual for seu título!
Se isso acontece com a escravidão pessoal, quanto mais Nossa
Senhora nos livrará da escravidão diabólica! (repito: seja pelo título
que for), mas principalmente sob a invocação de Nossa Senhora
das Mercês.
Oração
Maria, Mãe bondosa, assim como livrastes Jesus da morte na
perseguição de Herodes, livrai-me também, e a todo mortal, não só
da humana, mas principalmente da escravidão diabólica. Assim
seja!

39 Nossa Senhora de Lepanto


Lepanto é uma cidade marítima da Grécia, na província de
Acarnânia, junto ao estreito de mesmo nome que liga o golfo de
Patras ao golfo de Corinto. Era uma baía medíocre, mas no passado
muito próspera.
Os muçulmanos tentavam dominar toda a Europa e tinham como
alvo exterminar o nome cristão por meio da força armada. Por sua
vez, o Santo Padre convocou os cristãos a lutar contra essa
avalanche destruidora da Igreja. Dando o exemplo, pôs-se à frente,
e com orações contínuas, sobretudo o santo Rosário, implorava aos
céus que o nome de Jesus prevalecesse.
Acorrendo ao chamado do Sumo Pontífice Pio V, as nações
católicas, sob o comando de dom João da Áustria, obtiveram em
1571 uma vitória espetacular contra os turcos. Estes inicialmente se
precipitaram contra a frota cristã e pareciam ter vantagem, quando
numa reviravolta na batalha naval, ao cântico “Deus salva”, os
marinheiros da cruz afrontaram a morte combatendo como
verdadeiros heróis. Exterminaram os infiéis após umas doze horas
de sangrenta batalha.
Puseram a pique doze navios de guerra da época, com todo o
material bélico da sua frota.
Os muçulmanos tiveram baixa de mais de trinta mil homens. O
mais importante, entretanto, além de impedir o domínio anticristão,
alvo dos sarracenos, o exército cristão libertou vinte e cinco mil
escravos aprisionados nos porões dos navios turcos.
Ticiano perpetuou este fato por meio de um esplêndido quadro,
Alegoria da Batalha de Lepanto. Estava com 94 anos quando
idealizou esse quadro, que se encontra no Museu Real de Madri.
No mesmo instante da vitória, estando reunidos o papa e os
cardeais na sala do consistório, de repente ele se levantou, abriu a
janela, olhou para o céu e falou: “Deixemos os negócios: vamos dar
graças a Deus pela vitória que acaba de conceder ao exército
cristão”. Este acontecimento foi atestado como verdadeiro e
inclusive consta no processo de canonização de São Pio V.
Em sinal de agradecimento filial, o Santo Padre São Pio V
acrescentou na ladainha de Nossa Senhora a invocação: “Auxílio
dos cristãos, rogai por nós” Instituiu também a festa de Nossa
Senhora da Vitória.
Estes acontecimentos são lembrados em 7 de outubro, dia em
que se realizaram as maravilhas de Deus sob a proteção da
Santíssima Virgem.
Além de com o título Nossa Senhora da Vitória, o povo cristão
homenageia a Mãe de Deus com o de Nossa Senhora de Lepanto.
Essa vitória sobre os inimigos de Deus nos anima a não
temermos as investidas do mundo, do demônio e da nossa própria
carne, que armam batalhas demoníacas, lembrando das palavras de
São Paulo: “Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito,
e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros” (Gálatas
5,17).

Oração
Senhor Deus dos exércitos, que destroçaste o exército do Faraó
afogando-o no mar e que aniquilaste tantos outros com o sopro do
teu poder, assim como reduziste a nada os inimigos do teu povo
escolhido rezando o Rosário em Lepanto, faze que por meio de tua
querida Filha, Esposa do Divino Espírito Santo, Mãe de teu Filho
Redentor, consigamos sempre dominar nossos inimigos espirituais,
guardando-nos sob o amparo perpétuo de Nossa Senhora da
Vitória, Maria. Amém.

40 Nossa Senhora Desatadora de Nós


Na cidade de Augsburg, na Alemanha, por volta do ano 1700, o
responsável pela igreja de St. Peter Am Perlach encarregou um
pintor chamado Johann Schmittner de pintar um painel
representando a Santíssima Virgem.
O pintor procurou inspirar-se lendo vários escritores,
principalmente patrísticos. Nessa pesquisa encontrou em Santo
Ireneu, bispo de Lyon no século III, uma comparação da atitude da
primeira mulher, Eva, com a restauração por Maria, Mãe de Jesus, o
Redentor. O texto dizia: “Eva, por sua desobediência, atou o nó da
desgraça para o gênero humano; Maria, por sua obediência, o
desatou”.
Todos sabemos que do pecado vieram todos os males sobre a
humanidade.
Quem no decorrer da sua vida não encontrou ou ainda enfrenta
contrariedades? O povo compara esses acontecimentos com os nós
em cordões, linhas, fios ou cordas. É preciso que sejam
desembaraçados para se continuar o trabalho.
Ciente desse problema, o pintor idealizou o painel contendo
Maria, a Imaculada Conceição, entre o céu e a terra. O Espírito
Santo derrama seus dons, suas luzes sobre a Santíssima Virgem.
Sua cabeça está coroada com doze estrelas. Um anjo, do lado
esquerdo da pintura, oferece uma fita com vários nós, grandes e
pequenos, próximos ou mais afastados. Maria os desata e vai
entregando a fita sem nós no lado direito a outro anjo. Estes nós
simbolizam o pecado original e nossos pecados cotidianos.
Impedem a graça de frutificar nas nossas vidas. No lado direito da
pintura, embaixo, aparece um cão, provavelmente uma alusão ao
livro de Tobias (capítulos 6 e seguintes). Lembra o casamento com
Sara, que já havia se casado com sete maridos, os quais morreram
todos na noite de núpcias. O anjo Rafael explica o porquê das
mortes e aconselha Tobias a orar. Volta são e salvo para casa.
O painel também nos inspira a nos dirigir a Maria para nos ajudar
a tirar todos os males e aflições que nos escravizam, dando-nos a
verdadeira liberdade.
Não demorou muito que o painel fosse logo conhecido em todo o
mundo.

Oração
À tua proteção recorremos, santa Mãe de Deus. Não desprezes
as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livra-nos sempre
de todos os perigos, desatando todos os nós em nossas vidas, ó
Virgem gloriosa e bendita, senhora nossa, advogada nossa;
reconcilia-nos com teu Filho, recomenda-nos teu Filho, apresenta-
nos a teu Filho. Amém.

41 Nossa Senhora do Amparo


Sabemos pela história da Igreja que nos primeiros trezentos
anos após a ascensão de Jesus ao céu os cristãos se preocuparam
com a própria existência, por força das perseguições romanas.
Realizavam os cultos às escondidas, muitas vezes nas catacumbas.
Por isso, era impossível aprofundar as belezas contidas nas
palavras dos evangelistas.
Constantino I, denominado também “o Grande”, nasceu em
Naissus no ano 274. Na véspera de uma batalha na luta pela
sucessão, ele teve um sonho no qual lhe pareceu ver um escudo
com uma cruz, e ouviu uma voz que dizia: “Com este sinal
vencerás”. Ele mandou, então, pintar nos escudos dos seus
soldados o símbolo da salvação. Realmente venceu. Tornou-se
imperador no ano 306. Foi consagrado protetor da nova religião,
com sua vitória sobre Maxêncio, junto às muralhas de Roma. No
ano 313 decidiu definitivamente que o cristianismo fosse a religião
do Império. Pelo Édito de Milão, os adeptos da nova fé ficavam
livres para praticar a sua religião em público sem perseguições.
Essa liberdade trouxe a grande vantagem de poderem meditar
mais sobre o conteúdo das palavras de Cristo. Entre elas, a doação
de sua Mãe Maria como nossa mãe espiritual, quando, pregado na
cruz, olhando para São João, que nos representava, lhe disse: “Eis
tua mãe”. Ora, toda mãe verdadeira protege os filhos.
Conforme narra a lenda, os cristãos quiseram representar essa
incumbência para sempre. A pedido de Nicodemos, São Lucas
pintou e esculpiu Maria ao pé da cruz, recebendo o mandato de ser
mãe de todos, representados por São João.
Ao evangelizar a Península Ibérica, São Tiago levou consigo a
pintura para homenagear a Mãe de Deus e nossa. Daí se explica a
grande devoção popular à Mãe de Deus que em todos os tempos
reina em toda aquela região. Muitos santuários foram construídos
para veneração daquela que Jesus nos deixou por mãe.
A devoção do povo não demorou em perpetuar a grande
bondade de Cristo em nos dar Maria como protetora. Referindo-se
aos seus cuidados maternos, todos queriam colocar-se sob seu
“amparo”. Assim, pessoas, vilas e cidades foram postas sob o
manto de Maria, representando a proteção celestial da mãe do
Salvador e nossa.
No Brasil há três municípios com o nome de Amparo: um no
estado de São Paulo; outro no estado de Sergipe, Amparo de São
Francisco; e outro no estado de Minas Gerais, Amparo da Serra.
No decorrer dos séculos esse amparo foi simbolizado de
diferentes maneiras, tal como Maria cobrindo com seu manto os
seus devotos. Outro modo de apresentá-la foi representá-la
sentada, segurando com a sua mão esquerda o Menino Jesus, de
pé sobre os seus joelhos, e com a mão direita em sinal de bênção
aos que a invocam. Também se encontra uma imagem onde ela
está de pé, com Jesus deitado no braço esquerdo enquanto a sua
mão direita afaga o menino, que, por sua vez, nu, quer significar
nossa extrema pobreza necessitada da proteção materna.

Oração
A piedade do povo humilde eleva à Mãe de Deus suas preces e
seus cânticos, como esta linda canção:

Ó Maria, ó Mãe pia


Salvadora do mortal
amparai-me e guiai-me
Para a pátria celestial
Quem por vós, fervente chama
Até na guerra, acha paz
Pois vosso nome luz derrama
Gozo e bálsamo eficaz
Com os anjos de Maria,
As grandezas celebrai
Inundados de alegria
Seus louvores publicai.
Nossa Senhora do Amparo,
Rogai por nós!

42 Nossa Senhora do Bom Conselho


Genazzano, perto de Roma, na Itália, é uma cidade pequena,
mas célebre desde tempos imemoriais. O clima é ameno. Os
jardins, sempre floridos. Suas lindas rosas mereceram que os
antigos celebrassem nela a festa das flores. Porém, o que mais a
engrandece é ser portadora de um relicário de grande valor.
A tradição afirma que no século XV, na cidade de Scutari, na
Albânia, encontrava-se uma linda imagem de Maria Mãe de Deus.
Quando os turcos e maometanos começaram a perseguir os
cristãos e destruir suas igrejas, espontaneamente a imagem evadiu-
se do seu santuário e apareceu em Genazzano.
O padre Ambrósio da Cori fez um relato sobre esta devoção e
diz que “em 1467, sem intervenção humana, miraculosamente,
apareceu na igreja uma bela imagem de Nossa Senhora”.
Quanto ao nome, Nossa Senhora do Bom Conselho, crê-se
piamente que tem seu início desde o tempo dos apóstolos, quando
eles se dirigiam a Maria suplicando orientações para os seus
empreendimentos. O povo fiel continuou a fazer o mesmo,
implorando à Mãe de Deus diretrizes para agir sempre bem.
Confirma esta crença um fato que levou o povo a procurar Nossa
Senhora com mais confiança. Dizem que, estando a igreja de
Genazzano em reformas, durante o pontificado do papa Paulo II
(1464-1471), exatamente no dia 25 de abril de 1467, festa da
padroeira, uma nuvem em forma de coluna baixou levemente,
encostou numa das paredes mais altas do templo e, quando se
dissipou, apareceu pintada em afresco uma imagem de Nossa
Senhora do Bom Conselho. Os sinos começaram a repicar por si
sós, como que chamando a atenção pelo acontecimento
extraordinário. Tal fato atraiu muitos peregrinos, entre eles dois
albaneses dos quais até se conservam os nomes: Solavis e Georgi.
Estes dois devotos, que sabiam do desaparecimento da imagem, ao
ouvir o prodígio, atravessaram a “pé enxuto” o mar Adriático,
dirigiram-se a Genazzano e reconheceram a imagem na igreja.
Há um afresco do pintor P. Piatti adornando o belo e
arquitetônico santuário que perpetua esta maravilhosa travessia dos
peregrinos. Alguns papas também peregrinaram até lá. Assim
fizeram Urbano VIII, que visitou o Santuário em 21 de outubro de
1630; também Pio IX, em 15 de agosto de 1864, festa da Assunção
de Nossa Senhora; Leão XIII inseriu na Ladainha de Nossa Senhora
a invocação: “Mãe do Bom Conselho, rogai por nós!”; o pontífice
João XXIII lá esteve presente em 25 de agosto de 1959.
No Santuário de Genazzano foi que se deu a abertura do Ano
Mariano (1987-1988) e a divulgação da encíclica Mãe do Redentor.
O papa João Paulo II nomeou a Mãe do Bom Conselho padroeira do
Sínodo Mundial dos Leigos.
Quem não precisa de uma boa orientação para decidir nos
momentos importantes?

Oração
Maria, Mãe de Deus e minha, assim como os apóstolos e santos
se dirigiram a vós solicitando inspiração para suas decisões
importantes, também eu recorro a vós. Assisti-me no momento
crucial em que me encontro. Iluminai a minha mente, inspirai o meu
coração, dirigi a minha vontade, guiai os meus passos em tudo
como vos agrada. Não desprezeis minha súplica, ó Mãe do
Salvador, mas dignai-vos acolhê-la piedosamente. Assim seja.

43 Nossa Senhora do Capítulo


São Francisco de Assis frequentemente reunia os seus
confrades para tratar de assuntos referentes ao andamento da sua
principiante ordem religiosa. No início, lia-se um capítulo da Bíblia.
Depois da aprovação da ordem, acrescentava-se também um trecho
das Regras, roteiro de vida dos franciscanos. Com o tempo, os
confrades se acostumaram com esse modo de proceder e no
momento da reunião diziam: “Vamos ao capítulo”. Tal costume se
espalhou pelo orbe inteiro, e até hoje outras congregações
religiosas, quando têm suas assembleias, chamam-nas de Capítulo.
Esta sala de reuniões em geral é mais espaçosa e adornada com
pinturas, telas, flores e até imagens no ambiente claustral. Foi num
ambiente assim que se deu a história do nascimento de mais outro
título da Mãe de Jesus.
Por volta de 1216, os franciscanos se dirigiram a Portugal para lá
se estabelecerem. Dom Afonso II, que residia em Coimbra, os
recebeu, e a rainha dona Urraca adotou-os como filhos. Facilitou a
construção de um convento. Na sala dos capítulos havia uma
imagem de Nossa Senhora segurando o menino Jesus no braço
direito.
Certo noviço recebeu ordem do seu guardião de permanecer
diante dessa imagem não só em penitência por uma transgressão
cometida, mas também implorando a Nossa Senhora que
manifestasse qual era a oração que mais agradava a ela. Havia
ainda a exigência de não se retirar sem a resposta pedida. O jovem
religioso aquiesceu, permanecendo de joelhos um dia inteiro a
solicitar essa graça. À noite deu-se o fato maravilhoso! Maria, pela
imagem, respondeu ao humilde noviço, dizendo: “Vai, filho querido,
diz ao guardião que o canto que mais me agrada é o hino Gloriosa
Domina (Gloriosa Senhora). Para que todos acreditem vou mudar
esse meu Infante Jesus, que até agora tive no braço direito, eu o
passo para o braço esquerdo”. Depois de agradecer a Maria por
tamanha graça alcançada, o piedoso jovem franciscano foi levar a
informação pedida pelo guardião. Todo o convento se alvoroçou e
correu à sala do Capítulo para certificar-se da veracidade do
acontecimento, e viram o Menino mudado, sendo evidente o
testemunho da verdade deste evento os sinais que ficaram no lugar
em que tinha estado o Menino.
Para comemorar este prodígio, aos sábados, após a oração da
noite, toda a comunidade, com velas acesas nas mãos, vai à sala do
Capítulo para cantar o hino Gloriosa Domina. Esta é a origem da
denominação Nossa Senhora do Capítulo.

Oração
Senhor Deus, que a palavra divina contida nos capítulos dos livros
sagrados sirva para nós de caminho, verdade e vida. Seja o elo de
união entre os povos, como Jesus pediu: “Pai santo, guarda-os, a
fim de que sejam um como nós” (João 17,11). Que a semente diária
lançada no coração de cada fiel brote e produza cem por um em
virtudes e frutos de bem-estar, para que, fortalecidos por esse
alimento celeste nossas vozes vigorosas, cantem hinos de eterno
louvor, que vos agradem em todo o sempre. Amém.

44 Nossa Senhora do Equilíbrio


Entregaram-me um folheto escrito em italiano com uma efígie de
“S. MARIA DO EQUILÍBRIO”, contendo a seguinte observação: “da
qual não existe data, porque desde a manhã até à noite é invocada”.
Um pequeno histórico relata que em 1967, no verão, um monge,
ao rezar pela manhã, esforçava-se para se concentrar. Mas, com
insistência, vinha-lhe à mente a palavra “equilíbrio”. Mais tarde,
durante o dia, organizando documentos e objetos de arquivo,
deparou com uma pequena placa de bronze que representava uma
pessoa em posição de prece, com a inscrição “Santa Mãe do
Equilíbrio”.
Vendo nesses fatos algo mais que coincidência, pediu ao irmão
Armando Panniello que reproduzisse a efígie, colorindo-a para dar
mais vida à estampa. Esta veneranda imagem encontra-se na
abadia cisterciense de Frattochie, em Roma, encarregada de
divulgar a devoção.
Conta-se que Paulo VI recebeu uma cópia dessa pintura e cheio
de satisfação disse: “Santa Maria do Equilíbrio! Ah! É dela que nós
precisamos”.
O folheto contém uma longa prece, que reproduzimos:

Oração
Virgem Mãe de Deus e dos homens, Maria. Nós te pedimos o
dom do equilíbrio cristão, necessário à Igreja e ao mundo de hoje.
Livra-nos do mal e de nossas mesquinharias; salva-nos dos
compromissos e conformismos; mantém-nos longe dos mitos e
ilusões, do desânimo e do orgulho, da timidez e da autossuficiência,
da ignorância e da presunção, do erro e da dureza de coração. Dá-
nos a tenacidade no esforço, a calma no fracasso, a coragem de
recomeçar, a humildade no sucesso.
R: Abre nossos corações para a santidade.
Dá-nos uma perfeita simplicidade, um coração puro, o amor à
verdade e ao essencial, a força de nos empenharmos sem calcular,
a lealdade de reconhecer nossos limites e de aceitá-los. Concede-
nos a graça de saber acolher e viver a Palavra de Deus. Dá-nos o
dom da oração.
R: Abre os nossos corações para Deus.
Nós te pedimos o amor à Igreja, assim como teu Filho quis, para
participar nela e com ela, em fraterna comunhão, com todos os
membros do povo de Deus, da salvação de nossos irmãos. Infunde-
nos compreensão e respeito, misericórdia e amor para com o povo.
R: Abre nossos corações para os outros.
Mantém-nos firmes no compromisso de viver e aumentar o
equilíbrio, que é esperança e fé, sabedoria e retidão, espírito de
iniciativa e prudência, abertura e interioridade, dom total, amor.
Santa Maria! Nós nos recomendamos à tua ternura. Amém!

45 Nossa Senhora do Faial


O que é faia? A botânica nos diz ser uma árvore da família das
fagáceas, de casca lisa e de cor cinzenta; sua madeira é rígida e de
consistência fina; apresenta folhagem verde-escura e produz flores
estaminadas, sem pétalas e unissexuadas. Os frutos são do tipo de
nozes triangulares, doces, comestíveis, que se formam em cachos
pendentes, de invólucro externo espinhoso, como a castanha, o
pinhão, a noz. Encontra-se em muitos lugares, principalmente na
ilha da Madeira, onde é muito cultivada.
Utiliza-se esta árvore como símbolo de virtudes, como a fé, pela
sua maciez, e a fortaleza, pela contextura da madeira. Por ser de
folhagem escura, lembra as dificuldades da vida, mas que produzem
frutos doces. Assim, na vida espiritual, figura as lutas, as tentações,
os problemas que, ao ser superados, produzem a paz, simbolizada
pelos frutos saborosos.
Conta-se que numa chácara naquela região os jesuítas
construíram o colégio São João de Brito, na estrada da Torre ao
Lumiar. Lá plantaram dezenas de faias, possivelmente para ensinar
aos seus alunos as virtudes das quais essas árvores são
recordações.
Como os símbolos e propriedades da faia são muitos e eficazes,
por causa dessa multiplicidade de qualidades, também se aplica a
Maria esse honroso título como Mãe benigna, plena de virtudes,
espelho da Justiça de Deus, que é equânime e misericordioso. Por
isso, na região denominada Porto da Cruz perpetuaram a filial
devoção construindo um Santuário dedicado a Nossa Senhora do
Faial.
Nas múltiplas homenagens que se elevam a Maria, dizemos:
horto fechado e jardim viçoso. Podemos encontrar entre os lírios e
plantas ornamentais também as faias, engrandecendo com mais um
título a Mãe de Deus.

Oração
Ó Maria, prado ameníssimo das delícias divinas, horto fechado e
jardim viçoso: prostrado aos vossos pés, ofereço-vos a flor espiritual
deste dia e por meio dela vos peço me alcanceis a graça de
participar da fragrância de vossas formosas virtudes, plantando-as
todas em meu coração. Derramai sobre ele o orvalho da divina
graça a fim de que, frutificando em graça e santidade, possa depois
merecer a eterna glória. Assim seja.

46 Nossa Senhora do Livramento


A origem da devoção a Nossa Senhora do Livramento é
adornada por floreios literários. O verídico, no entanto, é que a
devoção popular foi registrada em diversas localidades. Na
Arquidiocese de Braga, em Portugal, consta que na igreja da Ordem
Terceira de São Francisco naquela cidade se encontra a imagem de
Nossa Senhora Libertadora das Almas do Purgatório. Padre Jacinto
dos Reis afirma que é mencionada na Grande enciclopédia
portuguesa e brasileira.
Diz-se também que a origem verdadeira vem desde os tempos
da história de Alcácer-Quibir. Nessa batalha, com a morte de dom
Sebastião, foram aprisionados todos os nobres que não queriam
aceitar nem render homenagem aos conquistadores, podendo até
pagar com a vida. Entre eles encontrava-se Rodrigo Homem de
Azevedo, que era um dos mais dedicados defensores de sua pátria
portuguesa e não aceitava as ordens do duque de Alba, enviado
pela Espanha para submeter o povo.
A esposa de Rodrigo encomendou o caso à Santíssima Virgem,
da qual era devota. Durante nove dias orou fervorosamente,
imaginando o risco de vida em que se encontrava seu marido.
Terminada a novena, ela teve um sonho no qual lhe pareceu ver
Nossa Senhora, que lhe dizia com estas palavras ou semelhantes:
“Não te preocupes. Eu o livrarei. Mas quando puderes edifica uma
igreja, para que meu Filho seja glorificado aqui”.
Sem saber como, seu marido simplesmente foi libertado, quando
outros nobres foram executados! Seus amigos o felicitaram. Por ter
recebido graça tão extraordinária, em agradecimento, ele mandou
esculpir uma imagem conforme a descrição da esposa de como a
viu no sonho: “Vestido branco. Os cabelos loiros soltos. O Menino
Jesus no braço esquerdo, e a mão direita em sinal de amparo. E
porque Nossa Senhora disse ‘Eu o livrarei’, deu-lhe o nome de
Nossa Senhora do Livramento”. Construiu uma capela que foi
inaugurada com procissão concorrida e crianças vestidas de anjos e
santos.
Os piedosos portugueses trouxeram esta devoção ao Brasil. Na
Arquidiocese de São Paulo há a Paróquia de Nossa Senhora da
Livração. Dois municípios foram agraciados com este simpático
nome, um na Arquidiocese da Paraíba e outro na Diocese de São
Luís de Cásseres, no Mato Grosso. Este último narra uma lenda
mantida pela tradição. Diz que um desconhecido, entre outras
mercadorias, carregava na sua carrocinha uma imagem de Nossa
Senhora. Num determinado lugar o animal estancou e não houve
quem o pudesse mover. Retiraram a imagem e o animal andou.
Tornaram a colocar a imagem na carrocinha e outra vez o animal
empacou. Isto se repetiu várias vezes. Os moradores interpretaram
que Nossa Senhora queria permanecer naquele lugar. O
desconhecido continuou seu caminho e desapareceu. Nunca mais
ninguém o viu. O povo construiu uma capela, depositando no altar a
linda imagem. Mais tarde a ermida se transformou em exuberante
templo.

Oração
Mãe amorosa, permanecei em mim como num templo adornado e
acolhedor. Nossa Senhora do Livramento, livrai-me de todo mal.
Reinai em minha alma, mostrando-me nos vossos braços a Jesus.
Amém.

47 Nossa Senhora do Milagre de Ratisbonne


Nos Atos dos Apóstolos, no capítulo 9, São Lucas narra a
conversão de Saulo de Tarso, que de perseguidor da Igreja de
Cristo se tornou o apóstolo de Jesus, Paulo, depois que teve a visão
no caminho de Damasco. Sua conversão encheu de pasmo os
primeiros cristãos!
Caso semelhante se deu em Roma. Era o dia 20 de janeiro de
1842. Um jovem de 27 anos de idade, chamado Afonso Ratisbonne,
judeu, ateu, entrou na igreja de Santo André Delle Frate,
unicamente para esperar seu amigo Teodoro de Bussière, que era
católico. Este conseguiu apenas que o moço levasse sobre o peito,
a contragosto, a Medalha Milagrosa de Nossa Senhora. Seria
apenas como enfeite, porque o jovem ateu não queria saber de
rezar, nem sequer a linda prece composta por São Bernardo de
Claraval: “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria”. Era só por enfeite
mesmo que estava usando a medalha. Mas um fato inesperado
aconteceu. É Ratisbonne quem nos relata:
“Eu estava na Igreja de Santo André Delle Frate fazia pouco
tempo quando, de repente, senti algo inexplicável; levantei os olhos
e tudo estava turvo. Toda luz havia se concentrado numa única
capela. Do centro desta irradiação apareceu, de pé, sobre o altar,
brilhante, cheia de majestade e meiguice, a Virgem Maria. Raios
luminosos jorravam de suas mãos, exatamente como representado
na Medalha Milagrosa. Ela fez sinal com a mão para que eu
ajoelhasse. Uma força irresistível me empurrou em sua direção. Ela
parecia dizer: ‘muito bem’, mas não precisou falar, porque eu
compreendi tudo”.
Chorando, Ratisbonne estava transtornado. Levado por uma
forte emoção, incapaz de se expressar, exclamava: “… eu vi Maria,
eu a vi eu a vi”, e suplicava: “Leve-me a um padre”.
Ratisbonne, iluminado por luzes extraordinárias, abriu-se ao
mistério da fé.
Fez um breve retiro espiritual, rezou bastante, meditou muito na
sua dureza de espírito até então e na bondade divina sobre ele e
sua gente, nunca agradecida por ter sido o povo eleito para levar o
nome de Deus aos confins da terra. Depois de receber instrução
religiosa suficiente, foi batizado no dia 31 de janeiro daquele ano de
1842. Comungou pela primeira vez e no mesmo dia foi crismado.
Continuou recebendo instrução religiosa. Estudou teologia. Foi
ordenado sacerdote em 1848. Neste dia acrescentou “Maria” a seu
nome em sinal de agradecimento pela graça recebida.
Ao considerar tal acontecimento, todos passaram a dizer: “É
obra de Nossa Senhora do Milagre”!
Fixou residência na Palestina, dedicando-se aos catecúmenos
judeus convertidos ao cristianismo. Juntamente com seu irmão,
Teodoro, também convertido, que fundou a Congregação de Nossa
Senhora do Sion. Todos se dedicam a procurar a conversão dos
judeus. Os colégios denominados “De Sion” existentes em muitas
cidades fazem parte desse apostolado.

Oração
A oração de São Bernardo que Ratisbonne, antes de sua
conversão, não queria rezar:
Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que jamais se ouviu dizer
que algum daqueles que tenha recorrido à vossa proteção,
implorado vossa assistência, reclamado vosso socorro fosse por vós
desamparado. Animado, eu, com igual confiança, a vós, ó Virgem
entre todas singular, como a mãe recorro e de vós me valho, e
gemendo sob o peso dos meus pecados me prostro a vossos pés.
Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus feito
homem, mas dignai-vos ouvir propícia e me alcançar o que vos
rogo. Assim seja.

48 Nossa Senhora do Perpétuo Socorro


Supõe-se que o simpático título de Perpétuo Socorro, que de
tempos imemoriais se aplica a Nossa Senhora, tenha sido originado
das palavras de Jesus na cruz, quando no-la deu por mãe na
pessoa de São João: “Eis aí teu filho”. É semelhante ao nome de
Nossa Senhora do Amparo, ambos com o espírito de confiança.
De todos os lugares onde se encontre uma pessoa que tenha
conhecido a passagem tão consoladora que nos coloca sob a
proteção de Maria – “Eis aí tua Mãe” –, sobem, igualmente, aos
céus hinos e louvores mil, como explosão de alegria e
agradecimento pela visível bondade da Mãe de Deus.
Neste contexto, homenagens especiais destacaram a ilha de
Creta. Havia lá um lindo quadro representando a mãe bondosa. Um
inescrupuloso comerciante roubou esse tesouro e levou-o para
Roma. No início da viagem, porém, uma terrível tempestade impedia
o navio de zarpar rumo à Itália. Desconhecendo a preciosa pérola
escondida no meio das mercadorias, os passageiros fizeram
promessa a Deus por meio da Santíssima Virgem (certamente de
homenageá-la) e assim o mar amainou-se e a viagem foi tranquila.
Tendo chegado a Roma, o sacrílego ladrão morreu arrependido.
Várias pessoas tiveram conjuntamente sonhos nos quais Maria
mesmo se denominava Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Também por meio deles se descobriu o esconderijo da pintura
milagrosa. Ela foi confiada aos padres agostinianos, na igreja de
São Mateus. Em 27 de março de 1499, depois de uma fervorosa
procissão, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi solenemente
entronizada no referido templo de São Mateus.
Mais tarde, perseguições e outras causas fizeram que os filhos
de Santo Agostinho abandonassem o templo, que em 1812 fora
destruído. Antes, eles tomaram cuidado de esconder e deixar bem
seguro quadro tão precioso. Por isso, algum tempo depois, a
devoção caiu no esquecimento.
O pintor devia ser exímio mestre nos pincéis: a perfeição dos
traços é admirável. A pintura deve ter sido executada no século XIII
ou no século XIV. O artista parece ser grego, como indicam as letras
das inscrições.

Interpretação do quadro
Nossa Senhora: com o braço esquerdo, Maria sustenta o Menino
Jesus. A imagem contém na cabeça uma auréola. Um manto azul
escuro cobre a cabeça e os ombros. A túnica é vermelha com friso
dourado. O fundo do quadro também é cor de ouro. Com letras
gregas aparece sobre a imagem a indicação “Mãe de Deus”.
Menino Jesus: a cabeça tem uma auréola. A túnica é verde, seu
manto amarelo. Está de pé no lado esquerdo de Nossa Senhora.
Olha para os símbolos da paixão que os Anjos São Miguel e Rafael
sustentam. Suas mãos seguram a mão direita de Nossa Senhora,
insinuando pedido de proteção. A sandália do pé esquerdo está
desamarrada. Sobre os seu ombros veem-se as letras gregas que
significam “Jesus Cristo”.
A expressão: o olhar triste e ao mesmo tempo doce de Maria nos
incita à compaixão e à confiança, parecendo dizer-nos: sou a Mãe
do Perpétuo Socorro.
O olhar do Menino Jesus quer nos indicar o quanto é horrível o
pecado, deduzido pelos símbolos da sua paixão, nos quais ele fixa
seus olhos.
São incontáveis os títulos que adornam Maria Mãe de Jesus,
como que para se adaptar a todos os gostos. Têm um único
objetivo: sermos gratos a Jesus que morreu para nos dar o céu.
Agradeçamos-lhe do fundo da alma por esse heroico ato de
amor e por nos ter dado por Mãe Nossa Senhora. Salve Maria do
Perpétuo Socorro!

Oração
“Junto à cruz de Jesus permaneciam de pé sua Mãe, a irmã de
sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena” (João
19,25).
Ó santíssima Virgem Maria! Para inspirar-nos uma confiança
sem limites, tomaste o dulcíssimo nome de Mãe do Perpétuo
Socorro: eu te suplico que me socorras em todo tempo e todo lugar,
nas minhas tentações, nas minhas dificuldades, em todas as
misérias da vida, até nas minhas quedas se tiver a infelicidade de
ofender Cristo Jesus, sobretudo no transe da morte. Concede-me,
Mãe amorosa, o pensamento e o costume de recorrer sempre a ti,
porque estou certo de que, se for fiel ao invocar-te, será fiel em
socorrer-me. Obtém-me, pois, esta graça das graças, a graça de
suplicar-te sem cessar com a confiança de um filho para que
obtenha teu perpétuo socorro e a perseverança final. Abençoa-me,
ó terna e cuidadosa Mãe, e roga por mim, agora e na hora de minha
morte. Amém.

49 Nossa Senhora do Rosário


Já houve muita celeuma quanto ao “criador” da devoção ao
Santo Rosário. Opositores apresentaram muitos argumentos contra
a fundação dessa instituição, hoje, porém, pouco ou nada importa
quem tenha criado a devoção denominada “Rosário”. A tradição,
entretanto, demonstra que se trata de um modo de rezar muito
aceito pela Santíssima Virgem, como ela mesma declarou quando
convidou os pequenos pastores de Fátima a rezar o Rosário.
Cada Ave-Maria simboliza uma flor, uma rosa espiritual ofertada
a Maria, daí o nome Rosário.
A tradição mais popular indica ser São Domingos de Gusmão,
fundador da ordem dos Padres Pregadores (dominicanos), o
aplicador dessa devoção, para substituir a recitação dos salmos,
que naquele tempo, por volta de 1206, ajudou muito o povo superar
a heresia dos albingenses.
Os albingenses formavam uma seita religiosa surgida no século
XI em Albi, no sul da França. O papa Inocêncio III ordenou contra
eles uma Cruzada em 1209. Orientados por Simão de Montfort,
fizeram uma guerra de extermínio que só acabou com a extinção da
seita em 1229.
Como retaguarda estavam os Padres Pregadores, chefiados por
São Domingos de Gusmão, incentivando o povo à oração.
Conta-se também que, em virtude do diminuto resultado dos
missionários, São Domingos se dirigiu a Maria implorando meios
para conseguir maior número de convertidos. Pensa-se que foi a
própria mãe de Jesus que inspirou a “montagem” da devoção.
Recordemos que a língua oficial era o latim, mas o povo já havia
se dividido em muitos idiomas e desconhecia a língua do Lácio. A
Sagrada Bíblia, conforme a tradução apresentada em latim por São
Jerônimo, só passava nas mãos dos religiosos, ficando o povo sem
a possibilidade de rezar os salmos.
Neste ambiente, sem imprensa para se publicarem elementos
que facilitassem a leitura e as preces, é que São Domingos recebeu
a mensagem para essa criação. Ensinou o povo rezar de uma
maneira simples e fácil, que não demandava despesas. Substituiu
os 150 salmos por 150 ave-marias, que são as palavras com que o
anjo Gabriel saudou a Mãe de Deus. Na oração oficial da Igreja,
chamada “Ofício divino”, antes de cada salmo se lê um incentivo à
meditação chamado “antífona”. São Domingos substituiu a antífona
pelo Pai-Nosso. Estas duas orações (Pai-Nosso e Ave-Maria)
vieram do céu, pois foi Cristo que ensinou aos discípulos o Pai-
Nosso, e a Ave-Maria foi pronunciada pelo anjo na saudação. O
povo acrescentou o “Santa Maria, Mãe de Deus”, depois que o
Concílio de Éfeso proclamou esse título bem merecido à Virgem de
Nazaré. Por causa da divisão em três partes de 50 salmos cada,
passou-se com frequência a chamar também de devoção do Terço.
Observe-se que no começo, para contar o número de orações
rezadas, o povo utilizava pedrinhas ou grãos. Posteriormente
também o comércio começou a forjar correntes douradas, prateadas
ou até de madrepérolas. O efeito da recitação do Rosário, porém,
não depende da riqueza do material de que seja feito o colar ou a
corrente.
O Rosário é uma oração essencialmente evangélica, pois nas
“antífonas” são anunciados os mistérios da vida de Cristo. Somente
nos dois últimos se meditava a morte, ou Assunção de Nossa
Senhora aos céus, e a coroação de Maria Santíssima na glória
celeste.
A distribuição dos mistérios da vida de Cristo para meditação era
a seguinte:

Primeira parte – Mistérios gozosos


1º. Mistério: a anunciação do anjo a Maria, que fora escolhida para ser
Mãe de Deus; depois da aceitação de Maria houve o milagre da
Encarnação do Filho de Deus no seio imaculado da Santíssima
Virgem.
2º. Mistério: a Visita de Maria a sua prima Santa Isabel.
3º. Mistério: o nascimento do Menino Jesus, em Belém.
4º. Mistério: a apresentação do Menino Jesus no Templo.
5º. Mistério: o encontro do Menino Jesus no Templo entre os doutores.

Segunda parte – Mistérios dolorosos


1º. Mistério: Oração e agonia de Jesus Cristo no horto.
2º. Mistério: Jesus preso, condenado injustamente, amarrado numa
coluna e flagelado.
3º. Mistério: Jesus é coroado de espinhos.
4º. Mistério: Jesus carrega a cruz a caminho do Calvário.
5º. Mistério: Jesus no Calvário é despido, pregado na cruz, morto e
sepultado.

Terceira parte – Mistérios gloriosos


1º. Mistério: a Ressurreição de Jesus.
2º. Mistério: a Ascensão de Jesus aos Céus.
3º. Mistério: a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos e Maria
Santíssima.
4º. Mistério: a Assunção ao céu de Maria Santíssima em corpo e alma.
5º. Mistério: Nossa Senhora é coroada Rainha dos Céus e da Terra.

Notava-se uma lacuna nos mistérios, porque a vida pública de


Jesus não entrava na série de pontos para meditação. Foi o papa
João Paulo II que acrescentou cinco cenas da vida do divino mestre,
que são:

Quarta parte – Mistérios de Luz


1º. Mistério: o Batismo de Cristo.
2º. Mistério: a transformação da água em vinho, nas bodas de Caná.
3º. Mistério: anúncio do Reino e convite à penitência.
4º. Mistério: a transfiguração de Cristo.
5º. Mistério: a instituição da sagrada Eucaristia e do sacerdócio.

Quem continua a praticar a devoção do Rosário integral todos os


dias agora soma 200 ave-marias e 20 pai-nossos. Quem deseja
parcelar as meditações tem a divisão apresentada pelo próprio papa
João Paulo II:

Mistérios gozosos: nas segundas-feiras e sábados.


Mistérios dolorosos: nas terças e sextas-feiras.
Mistérios gloriosos: nas quartas-feiras e domingos.
Mistérios de luz: nas quintas-feiras.

É bom conhecer mais sobre a devoção do santo Rosário, os


bens espirituais e temporais que Deus concede aos devotos de
Maria Santíssima que o rezam diariamente. São maravilhosas as
graças concedidas aos perseverantes devotos do santo Rosário.

Oração
Nós, vossos servos, vos pedimos, Senhor, gozar sempre de
saúde de alma e de corpo. Pela intercessão da gloriosa sempre
Virgem Maria, livrai-nos das tentações e tristezas neste mundo e
dai-nos um dia gozar das alegrias do céu. Por Jesus Cristo, Nosso
Senhor.

50 Nossa Senhora dos Desamparados


Infelizmente, sempre houve excluídos em todos os tempos e
lugares. O próprio Jesus disse: “pobres, sempre os tereis no meio
de vós”. É evidente que ao falar assim nosso Mestre e Salvador não
queria que eles existissem, mas por causa da dureza do coração
humano isso iria acontecer. Porém, fazê-los sofrer, aproveitando da
sua situação, é muito pior ainda.
Diz-nos a tradição que, andando por uma rua de Valência, na
Espanha, cidade onde vivia, um padre de nome Jofre deparou com
rapazes que maltratavam um demente, o qual, em momentos de
acesso de loucura, atacava os transeuntes. Nada podendo fazer
naquele momento, o padre teve a ideia de organizar uma confraria
que protegesse os desamparados da sociedade. Recebeu o apoio
de muitas pessoas, que então foram consideradas os primeiros
confrades.
A obra cresceu e foi ampliado o campo de trabalho. Para os
peregrinos montaram uma hospedaria, onde podiam encontrar
refúgio. Para os doentes, construíram um hospital, ao lado do qual
levantaram uma capela. Dedicaram-na a Maria, Mãe de Jesus, sob
o título Nossa Senhora dos Desamparados. Procuraram uma
imagem que fosse apropriada, para colocá-la no altar. Não
encontrando nenhuma que representasse a ideia, abriram uma
concorrência pública, dando a possibilidade de que algum peregrino
artista se oferecesse para esculpir uma imagem que simbolizasse
os fins da confraria. Entre os peregrinos, dois, que se diziam
escultores, se ofereceram para modelar a imagem. Pediram um
lugar isolado. Somente uma senhora cega, esposa de um dos
confrades, também paralítica e que cuidava da hospedaria, tinha
acesso ao recinto onde os dois peregrinos esculpiam a imagem.
Depois de três dias, apresentaram pronta a efígie de Nossa Senhora
dos Desamparados. Os escultores desapareceram! Ninguém soube
de onde vieram nem para onde foram! O mais admirável é que a
mulher cega e paralítica ficou completamente curada.
Este fato singular alarmou a população, que começou a visitar a
imagem esculpida milagrosamente, e traziam seus doentes para
invocar a proteção de Nossa Senhora dos Desamparados. Muitas
curas de doenças declaradas incuráveis foram realizadas,
aumentando assim a devoção dos valencianos.

Oração
Maria, mãe terna e compassiva! Não nos deixeis expostos aos
tantos males que assolam a humanidade. Que sejamos curados da
cegueira que não deixa ver vosso Filho Salvador. Livrai-nos da
paralisia espiritual que nos impede de acolher carinhosamente os
mais necessitados. Olhai-nos com vossos meigos olhos, ó Senhora
dos Desamparados. Assim seja!

51 Nossa Senhora dos Emigrantes


A palavra “emigrar” provém do verbo latino emigrare, que
significa mudar-se, sair de, desalojar-se, mudar de residência. O
significado mais comum é deixar um país para estabelecer-se em
outro, permanentemente ou não. Os motivos que levam as pessoas
a emigrar podem ser sociais, econômicos, políticos. Quando alguém
emigra o faz ou por sua própria iniciativa, ou obrigado pelas
circunstâncias. Sobretudo, emigra-se para encontrar condições mais
favoráveis de vida. É um direito que assiste aos menos favorecidos
pela natureza. Obrigar alguém a migrar, porém, é uma injustiça.
Seja qual for a causa, os emigrantes lembram os primeiros que
deram o exemplo: Abrão. Ele saiu de Ur e foi para Harã (Gênesis
11,29). “O Senhor disse a Abrão: ‘Deixa tua terra, tua família e a
casa de teu pai, e dirige-te à terra que eu te mostrar…” (Gênesis
12,1-5). E ainda: Rebeca disse ao seu filho Jacó: “Escuta-me, pois,
meu filho: vai, foge para junto de Labão, meu irmão em Harã; fica
em casa dele algum tempo, até que se acalme a cólera do teu
irmão” (Gênesis 27,43-44).
A fila de emigrantes ao longo dos séculos é interminável. Os
emigrantes levam consigo o que podem, tanto de material como de
cultura. Esta, enraizada nos seus corações, sobretudo serve como
recordação benfazeja e conforto que amainam os corações
daqueles que vivem longe da pátria. Como é belo assistir a
folguedos, bailados, ouvir canções que surgem de vozes saudosas.
As levas de homens, mulheres, crianças que procuram melhoria
de vida em outros países sobressaem pela devoção a Nossa
Senhora. Por motivo de estar os acompanhando na caminhada, foi
enriquecida com mais um sugestivo título, Nossa Senhora dos
Emigrantes.
Uma vez estabelecidos nos países que os acolhem, continuam a
demonstrar a filial confiança a Maria, sob diferentes invocações:
Nossa Senhora de Caravaggio, Aquiropita, para os italianos, Nossa
Senhora do Monte Serrat para um grupo de catalães, Nossa
Senhora do Pilar para espanhóis, Nossa Senhora de Lourdes para
franceses, Nossa Senhora de Fátima para os portugueses e muitos
outros.
O que brilha intensamente, sem ofuscar a visão, é serem
devotos de Maria.
Oremos para que quantos emigrantes houver pelo mundo afora
continuem constantes na devoção a Maria para verem aliviadas
suas mágoas em sua vida longe de sua terra natal, mas sob a
proteção de Nossa Senhora.

Oração
Deus, que ordenastes a Abrão sair da casa dos seus pais para
residir na terra que lhe mostrastes, e a José salvar a vida do menino
Jesus fugindo para o Egito (Mateus 2,14), amparai-nos em nossa
peregrinação neste mundo para que cheguemos um dia à Pátria
celeste, onde cantaremos sem cessar vossas glórias com Maria, a
Senhora dos Peregrinos. Amém.

52 Nossa Senhora dos Favores


O livro Despertador Marial foi escrito por dom José de Barzia e
Zambrana, bispo de Cádis, do Conselho de Sua Majestade, na
Espanha. A publicação data do século XVII. Ele contém 37 sermões,
todos dedicados a Maria, Mãe de Deus, sob diversas invocações.
Um deles é dirigido a Nossa Senhora dos Favores. Cremos que
existiriam naquele tempo muitos devotos de Nossa Senhora sob
essa denominação.
Miguel Monescal faz um elogio dessa obra dizendo: “… serve
para excitar mais vivamente nos ânimos católicos a profunda
veneração que todos devemos à Senhora que mereceu ser mãe de
Deus”.
No mundo inteiro há designações que no fundo têm o mesmo
objetivo. Uma delas é Nossa Senhora Medianeira de todas as
Graças. São Bernardo ponderou: “É da vontade de Deus Pai que
recebamos tudo por meio de Maria”.
Deus quis subordinar a vinda de Jesus, nosso Redentor, ao
“Sim” da Santíssima Virgem, por isso a convidou por meio do Anjo.
Comemoramos este fato na festa da Anunciação.
Quando os apóstolos estavam reunidos no Cenáculo, às súplicas
de Maria, Cristo, no Pentecostes, enviou o Divino Espírito Santo,
que pairou sobre eles na aparência de chamas de fogo.
Tendo, pois, cooperado com sua Maternidade divina na
Encarnação de Jesus e por seus sofrimentos até ao pé da cruz, ela
colaborou na Redenção e mereceu ser cooperadora, também, na
aplicação dos frutos da salvação feita continuamente pelo Altíssimo
às criaturas.
“Pela Comunhão de dores e união de vontade entre o Cristo e
Maria”, diz Pio X, ela mereceu tornar-se despenseira de todos os
benefícios que Jesus nos adquiriu por seu sangue” (Ad Diem Illum
Laetissimum, encíclica de 2 de fevereiro de 1904).
“É permitido afirmar”, diz o papa Leão XIII, que segundo a
vontade de Deus coisa alguma nos é dada sem passar por Maria,
de tal sorte que, como ninguém pode aproximar-se do Pai todo-
poderoso a não ser por meio de seu Filho, desta forma ninguém
pode achegar-se ao Cristo senão por meio de Maria” (Octobri
Mense, encíclica de 22 de setembro de 1891). Esta doutrina
demonstra a mediação do Filho de Deus, subordinando-lhe a de sua
Mãe Santíssima.
Outros títulos que incentivam a esperança dos devotos são:
Medianeira de Todas as Graças, Perpétuo Socorro e outros. Todos
se irmanam ao de Nossa Senhora Dos Favores, e ainda ao de
Nossa Senhora das Mercês. Mercês podem significar graça, indulto,
perdão ou remissão de culpa. Também significam bom acolhimento,
benevolência, indulgência, benignidade, amparo benéfico. Os títulos
tornam-se entre si praticamente sinônimos.
Alegra-nos a missão da Mãe de Deus, que é mostrar e levar-nos
a Cristo, e ele a Deus.

Oração
Santíssima Virgem Maria! Para inspirar-me confiança sem limites
na tua proteção, assumes inúmeros títulos, entre eles Senhora dos
Favores. Por favor, eu te suplico que me socorras em todo tempo e
todo lugar, em minhas tentações, dificuldades e, sobretudo, no
momento de minha morte, para que eu obtenha a perseverança
final. Amém.

53 Nossa Senhora dos Mártires


Eis mais um título glorioso com que a piedosa nação portuguesa
nos brinda. Era época em que Portugal estava sob o domínio dos
sarracenos. O primeiro monarca daquele país, dom Afonso
Henriques, com mágoa, via no céu de Lisboa o tremular da bandeira
maometana com sua lua. Veio-lhe então o veemente desejo de
libertar sua idolatrada pátria do jugo muçulmano. Não seria uma luta
por vaidade, muito menos por orgulho. Era um vibrante anelo de
libertar seu povo do jugo de infiéis. Quando mais alimentava esses
desejos, eis que ao passear pela praia viu aproximarem-se
esquadras formadas de ingleses, alemães e franceses que
rumavam para a Terra Santa e pretendiam resgatá-la do poder dos
bárbaros. Certamente, foi pela providência divina que chegaram às
praias portuguesas.
Dom Afonso procurou saber quem eram os tripulantes.
Certificou-se de que se tratava de uma Cruzada. Convidou os
chefes, com seus soldados, para libertar a terra lusa. Estes
aceitaram, tendo como comandante o general Guilherme da Longa
Espada.
A luta foi renhida, e mesmo com grande reforço enviado pelos
inimigos da fé cristã estes foram derrotados. O rei português e os
aliados da Cruzada conseguiram a vitória. O regozijo foi maior
quando se soube que uma linda imagem de Nossa Senhora, a
verdadeira Estrela do Mar, era levada pelos cruzados.
Na entrada gloriosa dos soldados de dom Afonso com os seus
aliados foram novamente auxiliados pela Santíssima Virgem, que os
protegeu até tomarem posse da sede da monarquia dos lusos, cujas
portas lhes foram gloriosamente abertas, no dia 25 de outubro de
1147. Esse dia ficou memorável, e nele todos se prostraram diante
da nova Judite, sua vencedora e libertadora, representada naquela
imagem. Saudaram-na, agradecidos, como haviam feito os antigos
moradores de Betânia, glorificando a vencedora de Holofernes: “Tu
és a glória de Lisboa, a alegria dos seus habitantes, a honra do
povo português”.
Nessa batalha aconteceu que alguns soldados perdessem a vida
e por isso foram chamados pelos sobreviventes de mártires, aqueles
que deram a vida por Cristo.
Libertada Lisboa do bárbaro jugo pela poderosa proteção de
Maria Santíssima, o rei tratou, zeloso, do bem-estar daqueles
generosos cruzados que tanto o haviam ajudado na conquista de
Portugal.
Repleto de gratidão, dom Afonso Henriques reconheceu no feliz
resultado do conflito a proteção visível da Santíssima Virgem e, não
se esquecendo dos mortos, procurou um lugar apropriado em que
pudessem ser sepultados os corpos daqueles a quem a piedade dos
fiéis já chamava de mártires, por terem dado com a vida um
testemunho da sua fé.
Em solene demonstração plena, cabal de sua gratidão, mandou
construir uma capela e depois um grande santuário em
homenagem, honra e ação de graças à Santíssima Virgem,
atribuindo o êxito da luta à proteção da Mãe de Jesus. O povo
chamou-o de Santuário de Nossa Senhora dos Mártires.

Oração
Prefácio da Virgem Maria: “Na verdade, é justo e necessário, é
nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar,
proclamando as vossas maravilhas na perfeição de todos os santos.
Celebrando a memória da Virgem Maria, proclamamos ainda mais a
vossa bondade, inspirando-nos no mesmo hino que ela cantou em
vosso louvor. Na verdade fizestes grandes coisas por toda a terra e
estendestes a vossa misericórdia a todas as gerações, quando,
olhando a humildade de vossa Serva, nos destes, por ela, o
Salvador da humanidade, vosso Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso.
Amém!”.

54 Nossa Senhora dos Navegantes


Quem visita Porto Alegre em 2 de fevereiro depara com uma
grande solenidade aquática, a de Nossa Senhora dos Navegantes.
Os açorianos de Porto dos Casais a levaram para lá. Inúmeros
barcos e canoas sulcam o rio Guaíba participando de um dos
cortejos mais animados e festivos de toda a cidade. Outras cidades
marítimas também realizam festejos em homenagem à Mãe de
Deus, pedindo a proteção no desempenho da busca do sustento de
suas famílias, na profissão da pesca. Abrindo a procissão aquática
vai o barco no qual impera a Senhora Rainha dos Mares. É
representada de pé numa barca, com o Menino Jesus nos braços,
segurando na mão direita um ramo de flores. Em outros lugares a
festa é celebrada nos dias 12 a 15 de agosto, a Assunção de Nossa
Senhora aos céus. Após a missa solene, o povo se dirige ao cais
para participar do cortejo aquático. Entoam cânticos e hinos de
louvor com orações à padroeira. Com suas embarcações
enfeitadas, percorrem quilômetros, sempre ovacionados pelo povo
que se aglomera nas margens dos rios. Chegando ao fim do trajeto,
voltam ao ponto de partida e as embarcações que estiverem melhor
adornadas recebem um prêmio.
Desde tempos imemoriais a Mãe de Jesus é chamada também
Estrela dos Mares. Veneravam-na principalmente os homens do
mar, tendo em vista os grandes perigos que a travessia dos oceanos
apresentava e a precariedade das embarcações daquela época.
Esta a causa principal que levava os marujos a manter uma imagem
de Nossa Senhora na “capela” ou nalgum nicho ou lugar de
destaque nos navios, cuidando para não se apagar uma pequena
lâmpada, acesa em sua homenagem.
Os navegantes portugueses e espanhóis desenvolveram grande
e piedosa devoção a Maria Santíssima. Cristóvão Colombo,
genovês, a serviço da Coroa espanhola, descobriu a América. Ele
deu o nome de “Santa Maria” a uma de suas caravelas. Pedro
Álvares Cabral carregava consigo uma imagem denominada Nossa
Senhora da Esperança. Não era raro encontrar invocações escritas
em diversos lugares das embarcações. Tudo demonstrava filial
devoção e confiança na Rainha dos Mares.
Como preparação para as viagens, no tempo das grandes
navegações, os marujos confessavam-se, participavam da santa
missa e recebiam a sagrada Eucaristia, porque tinham a certeza de
iniciar a viagem, mas não sabiam se iriam voltar.
No Rio Grande do Sul, Nossa Senhora dos Mares é chamada
Nossa Senhora dos Navegantes, festejada em 2 de fevereiro com
procissões em várias cidades. Na capital, Porto Alegre, é feriado, e
é uma festa muito bonita com procissão por rio e terra. A imagem é
muito bonita. É uma grande riqueza a variedade de títulos de Nossa
Senhora. O cantor Roberto Carlos tem uma canção que diz
expressamente: “Todas as Nossas Senhoras são a mesma Mãe de
Deus”.

Oração
Senhor, que andaste sobre as águas salvando o apóstolo Pedro
do naufrágio e também acalmaste a tempestade quando os
discípulos imploraram, espero confiante que acalmarás as
tempestades da minha vida, o que peço por intercessão de Maria, a
Senhora dos Navegantes. Amém.

55 Nossa Senhora dos Prazeres


A tradição narra que lá pelo século XIV já se conhecia o título de
Nossa Senhora dos Prazeres, mas foi somente dois séculos depois
que esse culto tomou mais impulso.
No século XVI, como que para despertar a devoção adormecida
do povo, foi encontrada uma imagem da Santíssima Virgem numa
fonte existente na propriedade dos condes de Alcântara, em
Portugal. Daquele encontro em diante a água apareceu com a
virtude curativa. Os doentes que dela bebiam ficavam curados de
suas doenças. Posteriormente, a Senhora apareceu a uma inocente
menina pedindo que fosse dizer aos pais e vizinhos que naquele
lugar edificassem uma capela. Ela queria que o povo, ali, honrasse
a Deus, recordando as passagens de alegria em que ela
permaneceu na terra, praticando os afazeres maternos ao cuidar do
Deus Menino.
Diante dos milagres que amiúde aconteciam, os condes de
Alcântara não duvidaram da veracidade do pedido. Concluída a
construção, a imagem foi entronizada no altar para o culto público.
Esta imagem era esculpida em alabastro e pintada com bordaduras
de ouro. Era tão linda e perfeita que o povo dizia ter sido feita por
mãos angelicais. Representava o Menino Jesus nos braços da
Virgem, e aos seus pés encontravam-se sete flores, representando
suas sete maiores alegrias durante a sua vida neste século.
Havia um noviço da ordem Franciscana que homenageava a
Santíssima Virgem com uma coroa de flores naturais. Certamente
em agradecimento por essas homenagens, a Senhora se
manifestou a ele, indicando que assim como se celebravam as suas
dores ela queria que também fossem lembrados os momentos de
alegria, e indicou-os: 1) a anunciação do anjo Gabriel; 2) a
saudação de Santa Isabel; 3) o nascimento do Menino Jesus, seu
Divino Filho, em Belém; 4) a visita dos reis magos; 5) o encontro de
Jesus no templo; 6) a primeira aparição de Cristo Ressuscitado; 7)
sua coroação e exaltação como Rainha do céu e da terra, após sua
assunção aos céus. Ela mesma se manifestou indicando o nome da
nova devoção: Nossa Senhora dos Prazeres.
O historiador frei Agostinho de Santa Maria afirmou que o
primeiro país a festejar as Alegrias de Nossa Senhora foi Portugal,
cujo culto mariano remontava aos anos 1300.
Como breve ilustração, no Brasil ergueram-se templos em
homenagem e agradecimento à Senhora dos Prazeres,
sobressaindo o que foi construído no monte dos Guararapes, perto
de Recife, no estado de Pernambuco, em comemoração à vitória
contra os corsários holandeses que queriam fazer da nossa pátria
colônia daquele país. Nessa batalha, que foi não só patriótica, mas
também religiosa, pois os batavos eram calvinistas, lutaram
heroicamente André Vidal de Medeiros, Henrique Dias, Felipe
Camarão. Noutros estados também foram construídos outros
templos, como se pode observar em Alagoas, em Santa Catarina e
nas cidades de Diamantina e Lavras Novas, em Minas Gerais.

Oração
Venho a ti, ó meu Jesus, para agradecer, juntamente com Maria,
tua santíssima e minha Mãe, todos os momentos de paz e alegria
que por meio dela recebi. Os instantes de alegria que a fizeram
sublimar-se e aceitar outros momentos difíceis no decorrer dos dias
sejam também para mim incentivo para não me apegar aos
prazeres deste mundo, mas para me animar no caminho dos
verdadeiros prazeres celestiais. Amém.
IV – Títulos relacionados aos lugares de
devoção ou aparição de Nossa Senhora
Deus na sua infinita bondade sempre se manifesta à sua
criatura, através das mais variadas mediações. Um modo de se
manifestar tem sido as aparições de Nossa Senhora, que nos traz
palavras de conforto e de conversão. Em diversos lugares e
contextos históricos Maria, pela sua comunhão com Cristo, se
manifestou conclamando o povo a se voltar para o Senhor,
aconselhando a fazer o que Ele disser (cf. João 2,5).

56 Nossa Senhora Altagrácia


Embora não se tenha conhecimento de quando começou a ser
venerada a Santíssima Virgem com este sugestivo título, é certo,
porém, ser muito difundido, sobretudo na iha dominicana.
Pouco depois de conquistada a ilha pelos espanhóis, esse culto
era difundido por todos os recantos.
Conta-se que certo comerciante residente em Duey (hoje se
chama Salvaleão), no Seybo, devendo fazer seus negócios na
cidade de São Domingos, recebeu o encargo de sua filha de trazer-
lhe uma estampa de Nossa Senhora Altagrácia. O homem
realmente procurou nas poucas livrarias existentes, nas igrejas,
entre pessoas relacionadas com o clero e até com o arcebispo.
Porém, embora conhecessem o culto, desconheciam a imagem de
Santa Maria Altagrácia. Muito aborrecido por não ter encontrado a
estampa, voltava para casa sem poder atender a sua filha. No
caminho, encontrou um velho de brancas barbas. Este agradeceu a
oferta de aproveitar a condução e nas conversas ficou sabendo do
motivo de seu aborrecimento, ou seja, não ter encontrado a imagem
de Nossa Senhora Altagrácia. Inteirando-se do acontecimento, o
velho abriu suas sacolas e tirou uma tela enrolada, na qual havia a
pintura tão desejada, que representava Maria, Mãe de Deus,
contemplando o Menino Jesus deitado numa manjedoura. Mais ao
lado estava São José, envolvido no seu manto, também
contemplando o Deus infante. No alto da tela um foco de luz com
seus raios iluminava a face do Menino Deus.
Chegando em casa, o pai entregou à sua filha a preciosa
encomenda, a imagem que lhe dera o desconhecido idoso, que
também havia desaparecido.
No local de sua residência foi construído mais tarde um templo
chamado Santuário de Higüey. A tela foi colocada no altar-mor e é
visitada por muitas romarias e cultos diários. O encontro miraculoso
da imagem de Nossa Senhora atraiu inúmeras visitas de diversas
partes do orbe.
Altagrácia se tornou nome de destaque. Em 1876, o rei Afonso
XII condecorou João Alés Escobar, ex-governador civil de Cuba,
com o título de marquês de Altagrácia.
Também na Argentina, em Catamarca, há um riacho com o nome
de Altagrácia, bem como duas aldeias.
Nossa Senhora de Altagrácia é considerada padroeira da
República Dominicana.

Oração
Ó Deus, que multiplicais os títulos de glória de Maria Santíssima,
fazendo que sua profecia, “chamar-me-ão bem-aventurada”, se
realize em todo o mundo, fazei que sejamos beneficiados por ela,
nós que a louvamos com o sugestivo título de Altagrácia. Amém.

57 Nossa Senhora Aparecida


Qual é o brasileiro que desconhece a história do encontro da
imagem de Nossa Senhora Aparecida? Daquela programada visita
do conde de Assumar, quando a Câmara do município de
Guaratinguetá quis homenageá-lo com um lauto almoço? Como os
pescadores quiseram colaborar, oferecendo peixes para enriquecer
o cardápio? Para isso, primeiro foram lançar redes e nada
conseguiram. Depois, encontraram o corpo de uma imagem
decapitada. Numa outra tentativa apareceu a cabeça de uma efígie
enegrecida pelo efeito das águas do fundo do rio Paraíba. A pesca
em seguida tornou-se milagrosa. Por isso, os humildes pescadores
acolheram-na, colocaram-na num oratório, prestando-lhe filial
homenagem. Daí por diante a devoção cresceu tanto que hoje
existe uma basílica na cidade que leva o nome de Aparecida do
Norte. O que nem todos conhecem são as homenagem que se
prestam à Mãe de Deus a partir de 1717.

Cronologia
1834 –– Começa a construção do templo, hoje chamado Basílica
velha. Depois de várias vicissitudes chega-se ao fim da obra no ano
de 1888.
1893 – A cidade de Aparecida do Norte é elevada a curato
independente. O primeiro vigário foi o padre Claro Monteiro do
Amaral, morto em 1901 pelos indígenas numa viagem de
catequese.
1895 – A basílica é entregue aos cuidados dos padres
redentoristas.
1900 – Na passagem do século, aproximadamente 1.200
romeiros de São Paulo oferecem um rico estandarte bordado. Do
Rio de Janeiro, também 1.200 romeiros oferecem um valioso cálice.
1904 – Num altar montado na praça, e com trono dourado, é
feita a coroação pontifícia da imagem, pelo cardeal dom Joaquim
Arcoverde.
1908 – A Santa Sé concede ao Santuário o título de Basílica
Menor.
1909 – O arcebispo de São Paulo sagra oficialmente a Basílica.
1910 – As relíquias de São Vicente Mártir chegam de Roma.
1917 – Bicentenário do encontro da imagem. Grande festa.
1929 – Jubileu de Prata da coroação da Imagem. Celebrase o
Segundo Congresso Mariano de Aparecida.
1930 – (16 de julho) O papa Pio XI publica um motu proprio
declarando Nossa Senhora Aparecida “Padroeira Principal” de todo
o Brasil. A proclamação ocorre em 31 de maio de 1931.
1949 – A Comissão Pontifícia de Arte Sacra do Vaticano aprova
a planta para a Nova Basílica, que mede 172 metros de
comprimento por 168 de largura, possui naves de 40 e uma cúpula
de 70 metros, com uma torre de 100 metros. O formato é de cruz
grega. A área total de construção, 18 mil metros quadrados. O altar
da imagem fica no cruzamento das naves sob a cúpula.
1953 – (5 de setembro) Publica-se o Decreto da Santa Sé
fixando a festa litúrgica de Nossa Senhora Aparecida para o dia 12
de outubro.
1954 – De 4 a 7 de setembro realiza-se no bairro do Ipiranga, em
São Paulo, o Primeiro Congresso Nacional da Padroeira, encerrado
no dia 8 na praça da Nova Basílica em Aparecida. Em 12 de
outubro: lançamento da pedra fundamental da Nova Basílica.
1955 – (11 de novembro) dá-se início aos trabalhos da
construção.
1957 – No dia 3 de maio celebra-se a primeira missa em Brasília.
O cardeal dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta leva a
Imagem de Nossa Senhora Aparecida a Brasília.
1958 – É criada a Arquidiocese Metropolitana de Aparecida.
1964 – (18 de abril) O cardeal dom Carlos Carmelo Vasconcelos
Motta é nomeado primeiro arcebispo de Aparecida.
1965 – Dom Carlos Carmelo publica a primeira Pastoral da
Arquidiocese. Início da Cruzada Mariana da Padroeira através do
Brasil, com a finalidade de promover a difusão do catolicismo e
propagar o Terço em Família.
1967 – Em 15 de agosto, o Santo Padre, o papa Paulo VI, envia
a “Rosa de Ouro”, que fora oferecida no dia 5 de março em
homenagem a Nossa Senhora Aparecida.
1980 – No dia 4 de julho, visita do Santo Padre João Paulo II.

Oração
Ó minha Senhora, ó minha Mãe, eu me consagro todo a ti, e em
prova de minha devoção para contigo, eu te consagro neste dia os
meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu ser. E porque
assim sou teu, ó boa e incomparável Mãe, guarde-me e protege-me
como coisa e propriedade tua. Amém.
58 Nossa Senhora Caacupê
Entre as belezas naturais com que Deus enfeitou o Paraguai,
encontramos a localidade de Caacupê. Além dos encantos que
atraem as pessoas, a região se tornou palco das atenções divinas;
vejamos a sua história.
Lá por volta do ano 1600, alguns índios mbayaes perseguiam um
índio guarani, simplesmente por ele pertencer a um grupo maior e
dominante, e principalmente por ter se convertido ao cristianismo.
Queriam matá-lo. Tendo fugido, escondeu-se nas folhagens de uma
grande árvore. Praticamente se viu encurralado. Em tais
circunstâncias, colocou-se sob a proteção da Santíssima Virgem,
prometendo, se ficasse livre, esculpir uma imagem da Imaculada.
Inexplicavelmente, viu-se libertado. Os perseguidores se retiraram.
Vendo-se salvo, pôs-se a cumprir sua promessa. Com a madeira
daquela mesma árvore esculpiu duas imagens da Imaculada. Uma
menor, para alimentar sua própria devoção, e outra maior, para a
igreja de Tobati.
Os críticos em arte de madeira declararam que se trata de uma
obra artística genial e de grande beleza.
Nada mais se sabe da imagem maior, além de que foi saqueada,
e também do índio que a esculpiu tão devotamente. Mesmo sem
saber muito daquele a quem devemos essa obra de inspiração
divina, nossa fé nos diz que já está há muito compartilhando o céu
com nossa Mãe celestial. Quem pode negar que esteja intercedendo
por nós que ainda permanecemos neste mundo?

Oração
Santíssima Mãe de Deus e nossa, desde o vosso santuário de
Caacupê, cobri com vosso manto protetor todo vosso devoto,
principalmente os do Paraguai. Intercedei por nossos pais,
benfeitores, pelos desvalidos e todos os que necessitam de perdão
e misericórdia. Protegei nossa santa Mãe, a Igreja, e alcançai luz
aos magistrados para que façam justiça e haja paz entre os
homens. Depois da graça especial que pedimos, alcançai-nos
também a graça maior na perseverança em nossa fé e no vosso
amor para assim merecer a realização da promessa que nosso
Senhor Jesus Cristo nos fez quando disse: “Aquele que perseverar
até o fim se salvará”. A vós, pois, Mãe querida, clamamos para que
nos obtenhais tão singular favor. Amém.

59 Nossa Senhora D’Ablon


Na França, a cidade de Ablon é banhada pelo Sena, que
percorre 800 quilômetros até desembocar no canal da Mancha.
Suas águas acolheram a imagem de Nossa Senhora, que,
furiosamente, foi lançada no rio pelos celerados iconoclastas, seita
que não acolhe a veneração de imagens. Mas os fiéis, querendo
manifestar sua gratidão a Maria Mãe de Jesus, mandaram esculpir
outra que representasse Maria com a mão direita abençoando e
com a esquerda afastando uma espada em chamas. A fé do povo
mais aumentava quando se colocava sob a proteção de Maria.
Os fiéis de localidades vizinhas, imitando a piedade daquela
gente, passaram a também visitar a imagem considerada milagrosa,
tendo em vista a proteção visível que dela provinha. Diziam: “Vamos
visitar nossa Senhora d’Ablon”. Mais um glorioso título!
Durante a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, Paris foi
atrozmente danificada, bem como outras cidades, entre elas Ablon,
onde os fiéis, ao ouvir o alarme da presença dos aviões de
bombardeio, corriam para os esconderijos. Lá ficavam rezando em
voz alta, e repetiam confiantes: “Nossa Senhora d’Ablon, protegei-
nos, rogai por nós!”.
Ninguém deles jamais ficou ferido, e sempre todos foram salvos.
Porém, fora desta paróquia e nos arredores contaram-se as vítimas
às centenas.
É sob esta invocação que os fiéis suplicam à Mãe de Deus, e até
corre entre o povo o refrão popular: “Em Ablon, ninguém morre pelo
ferro e pelo fogo”. Há também uma piedosa crença entre os seus
habitantes de que na cidade de Ablon ninguém morre
repentinamente, o que já foi constatado há muitos anos. Diz-se que
o padre Lassaily, pároco, confirmou esta verdade.
Seja o título que for que se dê a Maria, Mãe de Jesus, é certeza
que ela não deixará desiludido a quem nela confia. Foi também o
que São João Berckmans respondeu a quem lhe perguntou qual era
a devoção mais agradável a Maria: “Qualquer uma, desde que seja
sincera e perseverante”.
A oração de São Bernardo fidelissimamente continua a produzir
os seus efeitos, em especial quando, por intercessão de Maria, se
pede a Deus uma vida pura e santa para se apresentar diante da
divina majestade.

Oração
Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer
que algum daqueles que recorreram à vossa proteção, imploraram a
vossa assistência e demandaram o vosso socorro fosse por vós
preterido. Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, ó Virgem
entre todas singular, como a Mãe recorro, de vós me valho e,
gemendo sob o peso de meus pecados, me prostro a vossos pés.
Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus
humanado, mas dignai-vos de as ouvir propícia e de me alcançar o
que vos rogo. Amém.

60 Nossa Senhora da Abadia


Em grande parte, os títulos dedicados a Maria procedem de
nomes dos lugares onde essa devoção principiou. Assim foi também
com o de Nossa Senhora da Abadia.
Os sarracenos invadiram a península ibérica por volta do ano
883. Os monges de um convento denominado Mosteiro das
Montanhas, perto da cidade de Braga, para não serem mortos,
tiveram de fugir. Porém, não podendo levar consigo a imagem da
Virgem, decidiram escondê-la. A imagem representava Maria na
assunção ao céu. Chamava-se também Nossa Senhora da Glória.
Muitos anos depois que os mouros foram rechaçados da
Espanha e de Portugal, alguns eremitas começaram novamente a
procurar lugares mais tranquilos para se dedicar à oração e à
penitência. Assim, conta-se que Pelágio Amado foi morar com um
ermitão numa pequena capela que havia não muito longe de Braga.
Certa noite, ambos viram uma luz especial na floresta próxima. O
clarão se repetiu outras vezes. Resolveram, pois, verificar o que era
que produzia aquela intensa luz. Foram e descobriram a imagem de
Nossa Senhora escondida na montanha. Cheios de alegria, fixaram
naquele lugar a sua choupana. O arcebispo de Braga ficou sabendo
do acontecido e visitou a imagem encontrada. Determinou, depois, a
construção de uma igreja no lugar. Outras pessoas também se
uniram aos dois e formaram novo mosteiro, que popularmente o
povo chamou de Abadia. A notícia se espalhou pela divulgação dos
milagres a ela atribuídos, e os fiéis, em procissão, iam agradecer a
Nossa Senhora da Abadia os favores recebidos por sua intercessão.
Quando o marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal
e das colônias, em grande parte os frades franciscanos foram
ocupando seus postos, e também eles propagavam a devoção à
Santíssima Virgem da Assunção. As pessoas de origem portuguesa
que residiam naquela terra também se acostumaram a chamar de
Abadia esses conventos. Até mesmo povoados e cidades eram
agraciados com esse nome, porque todos queriam estar sob a
proteção de Nossa Senhora. No Brasil há um município denominado
Abadia dos Dourados, no estado de Minas Gerais, Diocese de Patos
de Minas. Tem como padroeira Nossa Senhora da Abadia.

Oração
Senhora, mãe de Deus, que no cenáculo, após a ascensão de
Jesus ao céu, presidistes as orações suplicantes dos apóstolos para
a vinda do Divino Espírito Santo. Agora, que estais no paraíso, à
frente dos coros dos anjos e santos, presidi, também, Senhora
nossa rainha, toda a nossa vida, orientando-nos para a pátria
celeste, onde desejamos estar convosco cantando, eternamente, as
glórias de Jesus. Amém.

61 Nossa Senhora da Ajuda


No estado da Bahia há um morro chamado Porto Seguro, perto
da cidade de mesmo nome. No século XVI, os jesuítas que lá
trabalhavam, tendo à frente o padre Francisco Pires, resolveram
construir um templo em honra de Maria Santíssima. Ninguém queria
colaborar, dado o fato de ser aquele um monte de difícil acesso.
Então, os próprios religiosos iniciaram a construção. Escavaram os
alicerces. Nos arredores não havia rios e nem fontes de onde se
pudesse retirar a água necessária para fazer a argamassa e
levantar a igreja, por isso tiveram de abrir uma valeta de
aproximadamente um quilômetro e meio para trazê-la de um açude
existente no sítio de um colono. No início, nada contra. Depois,
porém, vendo que a retirada de água era grande, o colono se
assustou e, supondo que aquilo poderia prejudicar a irrigação de
suas lavouras, negou o fornecimento.
Diante da impossibilidade de conseguir água para a construção
da igreja, sentiram todos grande aflição e muito desânimo. Mas,
encorajados pelo padre Francisco Pires, resolveram celebrar uma
missa implorando a graça de conseguir água.
Com todo o fervor, participaram da celebração sagrada, na
esperança de que Maria providenciasse meios para que se
conseguisse a água necessária.
Qual não foi a alegria de todos quando, ao final da santa missa,
viram que junto às raízes de uma árvore existente no pátio em frente
às obras jorrava em abundância água pura. Entenderam ser aquela
a resposta ao pedido confiante do povo e dos missionários. Na
mesma hora, cheios de gratidão, cantaram o Te Deum, hino em
ação de graças, e resolveram dar o nome ao templo de Nossa
Senhora da Ajuda. Para confirmar a origem celeste do fato, o padre
José de Anchieta narra que muitos milagres foram operados com o
uso daquela água, curando muitos tipos de doenças.
Quem já foi a Porto Seguro, na Bahia, terá observado que a
Igreja de Nossa Senhora da Ajuda é uma das mais belas do Brasil,
e lá se venera a Mãe de Deus com muito fervor. Nossa Mãe, como
sempre, continua a derramar de seu Coração Imaculado copiosas
graças, sobretudo espirituais.
Somente um coração sem fé poderá ficar insensível às ternuras
de Maria Santíssima, sempre pronta a ajudar seus filhos que lutam
na vida cheia de cruzes a cada passo. O mistério do sofrimento tem
mais sentido quando se consideram as dores da Mãe de Jesus
desde o seu nascimento até o Calvário, onde Maria solidariamente
manteve-se de pé junto ao seu filho pregado na cruz.

Oração
Virgem Maria! Para inspirar-nos uma total confiança, concedestes
inumeráveis favores aos vossos devotos. Eles vos honram com
variados títulos, que demonstram a gratidão dos seus corações. Eu
vos suplico que me ajudeis em todo tempo e todo lugar a vencer as
tentações, a resistir às minhas fraquezas, a superar minhas
dificuldades e sobretudo a manter-me fiel na hora da morte.
Concedei-me, Mãe amorosa, o pensamento e o costume de recorrer
sempre a Vós, porque estou certo de que, se for fiel a Deus e
invocar a vossa ajuda, estareis pronta a ajudar-me. Obtende-me
pois a graça de alcançar a perseverança final. Abençoai-me, Mãe, e
rogai por mim, agora e na hora de partir desta vida. Amém.

62 Nossa Senhora da Cabeça


A Andaluzia é uma região no sul da Espanha. O rio Guadalquivir
rega suas terras, deixando-as muito férteis, e por isso mesmo são
muito procuradas pelos pastores. Aqui e acolá se encontram
admiráveis monumentos de arte, recordação do domínio árabe. A
uns quarenta quilômetros dali fica a Serra Morena, que é formada
por vários montes. Entre eles sobressai o denominado “Cabeça”,
por ser o mais belo e altaneiro. Nessas plagas acha-se a
cidadezinha de Andújar, que foi palco da seguinte história:
Filho de um casal piedoso, João Alonso de Rivas era um pastor
cujo braço direito havia sido amputado. Juntamente com outros
colegas, ele conduzia suas ovelhas para pastar naquelas áreas.
Sempre que podia, separava-se dos outros companheiros para se
dedicar a longas orações e meditar na bondade criadora de Deus.
Certa vez, dirigiu-se à montanha para rezar. Ouviu uma campainha
soando. Não deu importância. Julgou ser ilusão, porque dificilmente
alguém iria até àqueles penhascos. Por ser de difícil acesso,
certamente, durante o domínio árabe, temendo a profanação por
parte dos mouros, cristãos piedosos teriam posto ali uma imagem
de Nossa Senhora, num esconderijo. Em 1227, no dia 12 de agosto,
ele viu uma luz brilhante, forte, no monte “Cabeça”. Levado pela
curiosidade, correu entre espinheiros e capinzais para ver de perto o
que estava acontecendo. Chegando lá, encontrou uma fogueira que
nada queimava. Viu a belíssima imagem de Nossa Senhora.
Amarrada num galho de árvore estava a campainha. Caiu de joelhos
e ficou algum tempo em êxtase. Voltando a si, João Alonso falou à
imagem: “Fostes vós, ó minha Mãe, que me atraístes à vossa
presença, para divulgar vossas maravilhas. Que devo fazer para
que isto se cumpra?”. Uma doce voz que parecia vir do céu lhe
disse: “Não temas João, servo de Deus… Vai à cidade de Andújar e
dize a quantos encontrares que chegou o tempo de cumprir-se a
vontade de Deus, que se construa neste lugar um templo, onde
grandes prodígios serão realizados em bem daqueles que crerem”.
João se predispôs a cumprir o desejo de Maria. Ela continuou,
dizendo-lhe: “Em testemunho desta verdade, o teu braço é
restituído”.
Realmente! Ele viu seu braço restabelecido, como se nunca
tivesse sido amputado!
Não cabendo em si de alegria, João Alonso assim fez. As
pessoas do povo, vendo que ele estava com o braço restabelecido,
acreditaram, e com o pároco à frente, após uma solene procissão,
entronizaram a imagem da Mãe de Deus, com o título de Nossa
Senhora da Cabeça.

Oração
Ó Deus, que revelastes coisas ocultas e escondidas para vossa
glória e bem dos fiéis, fazei que também tenhamos sempre elevados
pensamentos sobre vós, assim como a Mãe de Jesus, que,
simbolizada pela altitude do monte “Cabeça”, maravilhosamente
demonstrou a sublimidade do vosso amor pelas criaturas. Amém.

63 Nossa Senhora da Caridade


Membro dos missionários Filhos do Imaculado Coração de
Maria, conhecidos entre o povo como claretianos, o padre Felix
Alexandre Cepeda, magistralmente, escreveu o livro América
Mariana, no qual se lê a resumida história:
Entre os muitos colonizadores vindos à América encontra-se
Alonso de Ojeda. Certa ocasião, navegando perto da Ilha de Cuba,
naufragou. Alguns passageiros morreram. Porém, a maior parte da
tripulação se salvou. Entre os poucos objetos que puderam levar
achava-se uma pequena imagem de Nossa Senhora fixada numa
pequena tábua, na qual estava escrito: “Eu sou a Virgem da
Caridade”. Durante muitos dias os náufragos caminharam ilha
adentro. Encontraram uma aldeia de nativos. Estes, mesmo sendo
selvagens, acolheram a todos com fidalguia. Ojeda procurou
agradar ao cacique. Para perpetuar a incomensurável graça de
terem se salvado, construíram uma capela a Nossa Senhora da
Caridade. Alonso Ojeda, como pôde, transmitiu aos índios a
doutrina cristã e o papel de Maria na vida de Jesus e na nossa. Com
o correr dos anos pode ter havido alguma enchente que carregou a
imagem rio afora, até desembocar no mar.
João Moreno, que teria seus dez anos, juntamente com João e
Rodrigo Joyos, tinham ido à baía de Nipe para recolher sal das
salinas. O mar estava agitado. Os três jovens esperavam que as
águas se acalmassem. Durante o trabalho viram a imagem boiando.
O mais admirável é que ela estava inteiramente seca, apesar do
mar revolto!
Levaram-na consigo. Apresentaram-na ao povo, que, admirado,
prestou louvores à Mãe de Deus. Organizaram uma procissão e
entronizaram a imagem na vila do Cobre, numa capela construída
para esse fim. Em 1703 ergueram um templo que até hoje recebe
romeiros de todos os lados da ilha de Cuba, das Antilhas e de
outros recantos do orbe. São atraídos pelos favores que lá se
recebem.
O dia em que se relembra o fato é 8 de setembro, a natividade
de Nossa Senhora.

Oração
Maria, cheia de amor a Deus e a nós, nas borrascas da vida,
simbolizadas pelo mar revolto nas salinas de Nipe, consiga-nos a
graça de ficar ilesos nas tentações, vós que sois a Virgem da
Caridade, santa Mãe de Jesus, que com o Pai e o Espírito Santo
reinam por todos os séculos. Amém.

64 Nossa Senhora da Escada


Em Lisboa, no Rocio – povoado do conselho de Abrantes,
Santarém, Portugal –, havia uma capela dedicada à Senhora da
Conceição. Estava construída no alto de uma colina. Para o acesso
a ela havia 31 degraus. Por isso o povo denominou-a Nossa
Senhora da Escada.
A essa capela as pessoas se dirigiam em procissão para
agradecer benefícios ou solicitar graças.
Os pescadores imploravam a proteção da Imaculada, não só
para fins religiosos, deixando lá seus ex-votos e fazendo
promessas, mas também para os seus trabalhos e para suas redes,
e ali procuravam abrigo para descansar.
Em cumprimento de um voto dom João I mandou erigir bem
perto dali o grandioso mosteiro de Santa Maria da Vitória, conhecido
também como da Batalha para lembrar o triunfo decisivo de Portugal
contra dom João I de Castela em 14 de agosto de 1385. Tão
importante se tornou esse lugar que ganhou o nome de região da
Batalha. Nesse encontro bélico praticaram-se prodígios de valor. O
pequeno exército português pôs em debandada o exército inimigo,
quatro ou cinco vezes maior. Foi um glorioso acontecimento da
história portuguesa, em memória do qual o rei construiu o grandioso
mosteiro. Vulgarmente, ele designa o local onde se deu a batalha de
Aljubarrota.
Ao ter notícia da vitória, o povo em massa se dirigiu à capela de
Nossa Senhora da Escada para agradecer a grande graça.
Assim como na antiga lei os inimigos do povo de Israel foram
símbolo das hostes malignas, seja esta vitória confirmação do
amparo de Maria Santíssima sobre nós nas lutas da santificação
pessoal e da santificação de todos os povos que a ela se
recomendam. Bem podemos lembrar o livro sagrado – Cântico dos
Cânticos – quando diz: “Quem é esta que avança como a aurora,
formosa como a Lua, brilhante como o Sol, terrível como um
exército em ordem de batalha?” (Ct 6,9). Somos convidados a fazer
parte deste exército, que tem por finalidade a glória divina e a
santificação das gentes sob o amparo de Maria Imaculada.
No Brasil há uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Escada,
no município de Guararema, feita de taipa de pilão e pau a pique,
engrandecendo a arquitetura religiosa e datada do século XVII.

Oração
Concedei-nos, Senhor, a nós que militamos sob o estandarte da
Virgem, aquela plenitude de fé em vós e de confiança em Maria que
nos assegurem a conquista do mundo. Dai-nos uma fé viva,
animada pela caridade, que nos leve a praticar as nossas ações
unicamente por amor de vós. Amém.

65 Nossa Senhora da Europa


O território compreendido entre o mar Glacial Ártico, ao norte, o
oceano Atlântico, a oeste, os mares Mediterrâneo, Negro, Cáspio,
com a cordilheira do Cáucaso, os montes Urais e o rio Ural a leste,
constitui uma das partes do mundo, denominada Europa. Embora
seja a menor, foi considerada a mais civilizada e povoada
relativamente à sua extensão.
A Mauritânia era uma antiga região da África setentrional,
localizada entre Tunísia, Argélia e Marrocos. Seus habitantes, não
batizados, que não professavam a fé cristã, eram chamados de
mouros ou sarracenos. Na Idade Média dava-se também este nome
aos árabes. Eles invadiram a África e pelo estreito de Gilbraltar a
Europa.
Em 1492 os mouros foram derrotados pelos espanhóis, que não
suportaram o jugo estrangeiro. Em comemoração àquela epopeia
esculpiram uma linda imagem de Nossa Senhora, a quem atribuíram
a vitória.
No extremo meridional da Espanha, onde se localiza o estreito
de Gibraltar, entre a Espanha e o Marrocos, encontram-se os
montes de Abila e Calpe. Estes montes foram chamados
posteriormente de colunas de Hércules – o mais célebre dos heróis
da mitologia grega. Ali no Calpe ergueram um santuário para
perpetuar a gratidão popular à Mãe de Deus, a Senhora da Europa.
Dom Giovanni Montini, futuro Papa, que tomaria o nome de
Paulo VI, quando arcebispo de Milão abençoou uma estátua da
Virgem Maria da Europa, a qual estava destinada a ser instalada no
alto do pico de Campodoline, a uma altura de 1.800 metros, como
sinal da bênção espargida sobre o povo europeu.
Houve romarias e até um selo comemorativo impresso em 1966,
para engrandecer a padroeira.
Mais uma vez vemos cumprida a profecia de Nossa Senhora,
que disse: “Chamar-me-ão Bem-aventurada”. Por que tanta
distinção? Do mesmo modo como houve profecias e muitas figuras
anunciando Jesus, também de Maria são encontrados prévios
anúncios e posteriormente sinais. É que Nossa Senhora teve grande
importância no plano da salvação e consequentemente na religião
cristã. É por esse motivo que Deus nosso Senhor fez que ela,
juntamente com Cristo, fosse anunciada e prefigurada no Antigo
Testamento e engrandecida na era cristã. Ela continua a amparar
aqueles que convictamente proclamam Jesus Salvador. Para
merecermos sua contínua proteção dirijamos-lhe a seguinte oração:

Oração
Senhor Deus todo-poderoso, que nos fizeste chegar ao começo
deste dia, salva-nos hoje com o teu poder, para não cairmos em
nenhum pecado e fazermos sempre a tua vontade, como fez Maria,
padroeira da Europa e do Mundo, para que nossos pensamentos,
palavras e ações sejam de teu agrado. Amém.

66 Nossa Senhora da Fonte Santa


A piedade religiosa na França conserva uma tradição cheia de
significados. De norte a sul se contam históricas peregrinações
mariais. Entre elas se acham as que se fazem a Nossa Senhora da
Fonte Santa. Há uma capela numa montanha situada a uma altitude
de aproximadamente de 1.230 metros, e para chegar até lá
palmilha-se um caminho íngreme e perigoso, na região de
Périgueux (pedra preta duríssima), capital do departamento de
Dordogne.
Dizem que uma jovem chamada Maria Galvani frequentava
aquelas alturas para orar e fazer penitência. Certo dia, durante sua
reza, teve uma visão. Nossa Senhora lhe pedia para que naquele
lugar fosse construída uma capela. Para convencê-la da veracidade
do pedido, lá, bem no alto da montanha, Nossa Senhora fez brotar
uma fonte borbulhante de água fresca e cristalina. A notícia logo se
espalhou. O povo admirado de que naquele lugar árido e tão alto
pudesse surgir uma fonte viva, e mais ainda movido pela
curiosidade, subiu até lá para verificar o miraculoso manancial.
Constatando a verdade, aclamou-o como Fonte Santa. A jovem
comunicou o fato ao padre da aldeia vizinha, que acolheu a moça e
lhe presenteou com uma pequena imagem de Nossa Senhora, de
cerca de trinta centímetros de altura. Foi o início da edificação do
oratório. O dia da aparição foi em 2 de julho, e nessa data,
anualmente, se recorda o fato com grandes festejos.
A única preocupação da santa mãe Maria é levar-nos a Jesus. O
encargo de seu Filho sagrado, no alto da cruz – eis aí o teu filho –,
ela o cumpriu enquanto vivia neste mundo, e agora não poupa
desvelos para fazer que todos se voltem para Deus. Proporciona
ocasião para isso. Galgar uma montanha de 1.230 constitui
oportunidade para praticar a penitência, purificação necessária para
que a alma se torne branca como a neve e se aformoseie com o
manto das virtudes. São Bernardo, em louvor a Maria, canta: “Deus
a quis também humilde, donde proviesse o manso e humilde de
coração que iria mostrar a todos o necessário e salubérrimo
exemplo destas virtudes. Concedeu, pois, à Virgem a fecundidade, a
ela a quem já antes inspirara o voto de virgindade e lhe antecipara o
mérito da humildade. Esta Virgem régia, ornada com as joias das
virtudes, refulgente pela dupla majestade da alma e do corpo, por
sua beleza e formosura conhecida nos céus, atraiu sobre si o olhar
dos anjos. Até atraiu sobre si a atenção do Rei, que a desejou e
arrebatou das alturas até si o mensageiro celeste”. Quem não se
anima a louvar a Deus por nos ter dado Mãe tão insigne, cujas
gentilezas levaram Santo Antônio Claret a chamá-la de mamãe?
Quem se recusará a praticar as virtudes para fazer parte daquele
magnífico e harmonioso coral cujo som de uma só nota extasiou
São Francisco de Assis?

Oração
Alegro-me, santa Mãe Maria, por mais um título honroso com que
a cristandade a adorna. Agradeço os incentivos para seguir Cristo,
seu Filho Redentor. Minha gratidão pela oportunidade de fazer
penitência, já que não vivi na inocência no decorrer dos meus anos.
Que eu faça parte do coral celeste que pela eternidade, com sua
presença carinhosa e materna, cantará louvores a Deus. Amém.

67 Nossa Senhora da Lapa


Uma menina chamada Joana, muda de nascença, por volta de
1498, brincava perto de uma gruta na rochosa encosta da região de
Quintela, Portugal. O califa mouro de Córdoba, por volta do ano 983,
invadira essa grande extensão territorial, destruindo cidades, vilas e
tudo o que encontrava. Perseguia, sobretudo, os cristãos. As
religiosas beneditinas do convento em Aguiar da Beira também
sofreram a invasão. Foram acorrentadas e conduzidas prisioneiras.
Algumas, porém, conseguiram escapar. Esconderam nessa gruta
uma pequena imagem de Nossa Senhora. Nos seus folguedos, a
pequena Joana, penetrando no esconderijo, deparou com a imagem
escondida. Pensando ser uma boneca levou-a consigo para brincar.
Sua mãe, porém, irritada, não observando de perto do que se
tratava, atirou a imagem no fogo. A menina muda, na mesma hora
recuperando milagrosamente a fala, protestou contra a atitude da
mãe, que no mesmo instante ficou com seu braço direito paralisado.
Espantada, a mãe seguiu a menina, que foi lhe mostrar o lugar onde
havia encontrado a imagem. Inteirando-se da realidade, na mesma
hora a mãe recuperou os movimentos do braço. Mãe e filha se
ajoelharam para agradecer a Deus por meio de Maria Santíssima as
maravilhas que acabavam de presenciar. A vizinhança, sabendo do
acontecido, acorreu pressurosa para louvar a Deus e pedir graças.
Todos diziam: Nossa Senhora da Lapa. Diante dos maravilhosos
milagres acontecidos, não demorou muito tempo para construírem
sobre a rocha uma belíssima igreja, que até os dias correntes atrai
numerosa concorrência de peregrinos, não só da população local
como dos povos circunvizinhos.
A devoção a Nossa Senhora da Lapa foi trazida ao Brasil pelos
portugueses. Principalmente na Bahia e no Rio de Janeiro a
devoção se espalhou por muitos outros lugares. No Paraná,
encontramos o município da Lapa, com a paróquia de mesmo nome.
Nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo também há o bairro
Lapa. A arte cristã representa Nossa Senhora da Lapa por meio de
uma linda jovem de pé entre nuvens. Permanece de mãos postas
em atitude de oração. Está rodeada de esplendores. Uma corroa
adorna sua cabeça como rainha do céu e da terra, e a pomba que
paira sobre ela é figura do Divino Espírito Santo.
Lapa, podemos dizer, não é um lugar! É viver junto a Maria. É
como subir a rocha firme e escutar a Deus, que mostra seus
caminhos não imaginados e esparge suas sementes.
Aos pés de Nossa Senhora da Lapa, Virgem do Formoso Amor,
à Virgem de todos os títulos em todo o mundo, títulos que a honram
por ser Mãe de Deus e nossa, elevamos a oração.
Com seus modos de estar presente e agir entre o povo, Maria
demonstra a todos nós que nossa missão não é tarefa só para as
periferias, mas abrange todo o mundo. Alerta o povo para entender
que na Igreja todos somos instrumentos da missão que nos leva até
Deus. O Concílio Vaticano II observava: “A missão é uma iniciativa
de Deus, que, num movimento de amor, sai de si mesmo e vem ao
encontro do mundo, ao nosso encontro, para nos salvar, libertar,
curar, dar-nos vida”. “De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu
seu Filho único para que todo aquele que nele crer não pereça. Pois
Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o
mundo seja salvo por ele” (João 3,16-17).
Maria, Rainha dos Apóstolos, não tem outro escopo a não ser
levar as almas a Cristo Jesus.

Oração
Senhora, Mãe Maria, que, mantendo o coração ardendo de amor
por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, empregais todos os
meios para atrair o povo ao aconchego divino, dai que pelo título de
Lapa tomemos consciência de que somos templos do Deus vivo,
para adorná-lo com as virtudes da fé, da esperança e da caridade,
de valor maior que pedras preciosas. Amém!

68 Nossa Senhora da Penha de França


A história narra que o grande rei Carlos Magno desbaratou os
mouros numa alta serra existente ao norte da Espanha chamada
Penha de França.
Por voltas do ano 1434, um frade francês de nome Simão Vella
teve um sonho: nele, viu que no alto de um monte havia uma
imagem cercada de luz acenando a ele como que o chamando. Foi
tão viva a visão do sonho que ao acordar ele resolveu ir à procura
desse monte. Depois de muito caminhar – cinco anos –, perto de
Salamanca, em um penedo mais alcantilado, ajudado por pastores
da região, deparou com a desejada imagem. Levou-a para o
Convento dos Dominicanos daquela cidade, onde foi posta à
veneração pública. Pouco depois Simão Vella faleceu, contente por
ter encontrado a imagem, grande tesouro para o povo daquela
região.
Muitos milagres aconteceram, como testemunhando o seu
aprazimento ao culto que lhe votaram sob o título de Nossa Senhora
da Penha de França, nome do lugar onde a imagem foi encontrada.
Em toda a Espanha e em Portugal ficou muito conhecida essa
nova devoção a Nossa Senhora da Penha de França. Inúmeras
peregrinações e romarias se sucederam, vindas de todas as
regiões.
Jerônimo de Mendonça narra como se espalhou a recente
devoção. Havia em Lisboa um entalhador chamado Antônio Simões,
que, tendo participado da expedição de dom Sebastião na África,
movido pelo espírito de aventura, fez-se soldado no exército que se
formou para a reconquista pretendida pelo infortunado monarca
português. A expedição não foi feliz, e nela perdeu a vida o próprio
rei. Um dos poucos que escaparam da carnificina de Alcácer Kibir
foi o entalhador acima indicado, que conhecendo o desespero da
escravidão entre os infiéis fez uma promessa a Nossa Senhora,
Mãe de Deus. Se ficasse livre, ele faria com suas próprias mãos
sete imagens que distribuiria pelos conventos e igrejas de Lisboa
que delas necessitassem. Antônio Simões efetivamente teve
liberdade, e sem perda de tempo pôs-se a cumprir sua promessa.
Deu diferentes nomes às seis primeiras imagens, e não lhe ocorria
nome para a sétima. O padre Inácio Martins, jesuíta, lhe sugeriu o
nome de Nossa Senhora da Penha de França. Assim o fez, e
entregou a imagem à capela das Vitórias, aos cuidados dos filhos de
Santo Inácio.
Nesta ocasião, uma grave epidemia se alastrou em Lisboa.
Corria o ano de 1598. Do mesmo modo que em Castela, também
em Lisboa recorreram à intercessão da Santíssima Virgem.
Sabendo que o entalhador havia feito uma capela, o Senado da
Câmara fez um voto de construir um grandioso templo, com alfaias
e meios de culto à Senhora da Penha de França, se ficassem livres
da terrível peste. Além disso, todos os anos realizariam uma devota
procissão desde a cidade até a ermida, levando os estandartes. A
peste foi extinta. A Câmara cumpriu o voto e construíram o
magnífico santuário e mais um convento anexo para os Eremitas de
Santo Agostinho zelarem pelo culto.
O papa Clemente VIII concedeu privilégios ao templo de Nossa
Senhora da Penha de França. Anualmente, milhares de peregrinos
visitavam a nova casa da Virgem Santa.
Foi numa dessas ocasiões que um devoto, subindo a montanha,
vencido pelo cansaço, deitou-se numa grande pedra e adormeceu.
Uma serpente aproximou-se para picá-lo. Porém, subitamente um
lagarto saltou sobre ele, despertando-o em tempo de se livrar da
cobra. Por esse motivo, as imagens de Nossa Senhora da Penha
tem aos seus pés o peregrino, a cobra e o lagarto.
Levada pelos portugueses, a devoção a Nossa Senhora da
Penha de França espalhou-se por muitas cidades e nações. No
Brasil também se encontram paróquias, capelas, templos e regiões
em homenagem à Mãe de Deus, com o nome de Penha de França.
Nas Arquidioceses de Florianópolis (Santa Catarina) e Cascavel
(Paraná) há dois municípios com o nome Penha, cuja padroeira é
Nossa Senhora da Penha de França.
A fértil imaginação popular revestiu esses fatos com lendas que
o povo devoto sabe purificar.
Oração
Ó Maria, Mãe de Deus feito homem, recorremos a tua proteção.
Não desprezes nossas súplicas em nossas necessidades, em
especial livre-nos da serpente infernal do pecado, ó Virgem gloriosa
e bendita, senhora nossa, advogada nossa, reconcilia, recomenda e
apresenta-nos a teu Filho. Que sejamos firmes na fé simbolizada na
Penha de França. Amém.

69 Nossa Senhora da Salete


No sul da França, nos Alpes, na montanha da Salete, pode-se
divisar um lindo panorama. Lírios dos Alpes, margaridas, miosótis e
outras flores de exótica aparência são o que se encontra enfeitando
aquele ambiente. Seus campos cobertos de verde e abundante
relva eram preferidos pelos pastores daquela região. No dia 19 de
setembro de 1846, há quase dois séculos, dois pequenos pastores,
chamados Maximino e Melânia Salvat, levaram o gado para pastar
naqueles campos ricos de ervas alimentícias para os animais.
Depois de tomarem sua refeição, ambos se recostaram nas
sombras das árvores para descansar. Enquanto descansavam, os
animais começaram a subir pelo monte. Quando se aperceberam,
os pequenos pastores correram para encontrá-los e reuni-los
novamente.
Nestas atividades, no fundo do vale, Melânia viu uma forte luz,
que brilhava como o sol. Admirada, ela chamou seu companheiro.
Naquele instante o clarão se abriu. Ambos viram uma bela senhora
sentada numa pedra. Os cotovelos estavam apoiados nos joelhos.
Escondia o rosto com as mãos. Denotava muita tristeza.
As crianças ficaram muito assustadas, mas a bela Senhora logo
lhes falou para acalmá-las: “Não tenham medo. Vou anunciar-lhes
uma grande novidade”. Ao ouvir estas palavras, as crianças se
tranquilizaram e correram para junto dela. A Senhora trazia na
cabeça um diadema e no peito um crucifixo. Ela chorava muito e ao
mesmo tempo disse que “o braço de seu Filho estava muito pesado
por causa dos pecados dos homens. Não estou podendo sustentá-lo
e vejo-me forçada a deixá-lo cair”. Em seguida anunciou dias
amargos para os franceses e toda a humanidade. Pediu às crianças
que rezassem bastante. Mesmo que fosse um Pai-nosso e uma
Ave-Maria. Afirmou que somente a conversão dos homens poderia
evitar as desgraças que os ameaçavam. A Santíssima Virgem
terminou de falar com estas palavras: “Pois bem, meus filhos, deveis
comunicar isto a todo o povo”. A Senhora se dirigiu para o planalto.
Seus pés mal roçavam a relva. Maximino quis colher algumas flores
para depositar aos pés de Maria, mas ela sumiu repentinamente.
As crianças voltaram para casa à noite e contaram o que tinham
visto. Falaram também do recado para a construção de um templo.
Sofreram muito por causa da descrença de muitos e do interesse
de outros. Tanto diante das autoridades eclesiásticas como do poder
civil.
Logo que o povo piedoso ficou sabendo, já no dia 21 de
setembro, começou a fazer peregrinações e muitos milagres
ocorreram daí para frente.
No Brasil, a devoção a Nossa Senhora da Salete principiou
juntamente com o início do século XX, quando os saletinos, fugindo
da perseguição religiosa na França, se instalaram em várias cidades
brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza.

Oração
Lembra-te, ó puríssima Virgem Maria, que jamais se ouviu dizer
que deixaste de socorrer e consolar a quem te invocou, implorando
a tua proteção e a tua assistência; assim, pois, animado com igual
confiança na Mãe amantíssima, ó Virgens das virgens, a ti recorro,
de ti me valho, gemendo sob o peso de meus pecados,
humildemente, me prostro aos teus pés. Não rejeites as minhas
súplicas, ó Virgem da Salete, mas digna-te ouvi-las propícia e
alcançar-me a graça de crescer no amor divino. Amém.

70 Nossa Senhora de Almudena


Almudena é uma palavra de origem árabe, almud, que significa
peso. Na Espanha, nos arredores da antiga cidade de Madri, perto
das muralhas, havia um mercado. No tempo da invasão islamita,
funcionava ali um comércio. Nas feiras espalhadas por todos os
recantos das grandes metrópoles, como hoje, pesavam-se
mercadorias para compra e venda. Daí o termo usual almudena, ou
seja, lugar das pesagens.
A tradição narra que, submetido ao domínio muçulmano, o povo
cristão escondera uma imagem de Nossa Senhora para evitar que
fosse profanada. Acreditavam que ela havia sido levada para a
Espanha pelo próprio São Tiago. Três séculos depois, quando o rei
Afonso conquistou Madri, expulsando os mouros, a primeira coisa
que determinou foi a purificação do templo dedicado à Mãe de
Deus. Não tendo mais a imagem, o monarca providenciou que se
pintasse uma tela. Ao que se dizia, foi artisticamente trabalhada, e
como havia uma flor na mão de Maria passaram a chamá-la de
Nossa Senhora da Flor. Esse quadro ocupou o lugar da imagem até
que fosse encontrada a verdadeira. Tendo conhecimento de que,
pelo respeito à mãe de Deus, os cristãos haviam escondido a
verdadeira imagem, o rei Afonso fez um voto de procurá-la com toda
a diligência.
Para pedir o auxílio da própria Virgem Maria, organizou-se uma
passeata penitencial de rogativas. Os fiéis percorreram as ruas da
povoação, suplicaram, confiantemente, que Deus desse a conhecer
o lugar onde pudesse ser encontrada a imagem de Nossa Senhora.
Enquanto percorriam a periferia da cidade cercada por muros, o
cortejo de súplica passou em frente do lugar exato onde a imagem
estava escondida, a muralha ruiu por si mesma e deixou em
evidência a figura esbelta, maternal e bondosa da Imaculada
Conceição, como que sorrindo para o povo. O que mais chamou a
atenção foi que, ao fecharem o esconderijo, duas lamparinas que
haviam sido deixadas acesas permaneceram ainda brilhando. Assim
se contava, e assim conservaram-se a tradição e a devoção popular.
O que foi que fez que o fogo dessas lâmpadas permanecesse
ardendo durante trezentos anos, sem que alguém as alimentasse
com azeite? Pode-se imaginar a explosão de alegria do povo ao
presenciar esse acontecimento! A gratidão dos fiéis foi incontida.
Aclamações, lágrimas, hinos de louvor ecoaram por todos os lados!
Essa maravilha que os fiéis acabavam de presenciar não podia ficar
esquecida. O rei Afonso mandou que o lugar da muralha, onde
estivera oculta por trezentos anos aquela imagem da Mãe de Deus,
fosse recondicionado como capela e que se pusesse uma outra
imagem semelhante no local, para que fosse lembrada para sempre.
A imagem verdadeira foi solenemente entronizada no templo, e
recebeu desse dia em diante o nome de Nossa Senhora de
Almudena, porque assim era denominado o lugar onde esteve
escondida, perto do mercado mouro. Como sempre, não demorou
muito para o povo de Madri sentir os efeitos de sua piedade. Foram
muitos os favores recebidos. Novos ataques dos mouros para
reconquistar a cidade foram facilmente rechaçados pelos
madrilenos, com visível proteção marial.
Eis aí mais uma demonstração bondosa da Mãe de Deus em
benefício do povo fiel. Só não compreende quem não quer! Não há
maior cego que aquele que não quer ver… Dos humildes e
pequenos, Deus ouve as preces. Incentivos para nossa piedade não
faltam. Abrimos nossa mente para nos convencer de que para Deus
nada é impossível? Colocamo-nos sob o manto desta Mãe celeste
ou como a criança nos braços maternos confiamos em sua
proteção?

Oração
Maria, mãe de Deus, assim como a vossa imagem ficou oculta
dentro da muralha, iluminada miraculosamente, como se crê, pelas
duas lâmpadas sem que alguém as alimentasse com azeite, fazei
que eu conserve sempre acesa a fé em vosso Filho Jesus, e que ela
arda com perseverança no amor. Como os fiéis em Madri tiveram,
tenha eu a fortaleza para resistir aos vossos inimigos e que não
possam profanar a pureza de minha alma. Como vós, seja meu
coração puro para poder cantar convosco eternamente as glórias
divinas. Amém.

71 Nossa Senhora de Bolonha


A portuária cidade de Bolonha (Boulogne, ou Boulogne-sur-Mer),
no norte da França, é palco de grandiosas manifestações de
fervorosa devoção a Maria.
Todos os anos, no dia 15 de agosto, há uma grande procissão.
Sai da igreja rumo ao mar, passando por ruas enfeitadas com redes
de pescadores, cordas de amarras de navios e flores. Uma
barquinha guia o préstito marítimo em homenagem à padroeira.
Leva a Nossa Senhora que recebe o nome da cidade. É dita
também padroeira dos marujos.
A origem dessa devoção está adornada com descrições
lendárias, pois principia em 636. Conta-se que naquela época
cristãos de Jerusalém e Antioquia, para impedir que a imagem da
mãe de Deus com o menino ao colo fosse profanada pelos
sarracenos, foram até o mar Mediterrâneo, colocaram a imagem
num pequeno barco e o deixaram à deriva. Nada mais havia dentro
da pequena embarcação. O que admira é que, maravilhosamente,
chegou ao porto bolonhense. A efígie foi recolhida com grandes
festas e entronizada na igreja da cidade, que lhe deu o nome de
Nossa Senhora de Bolonha.
No tempo de Henrique VIII (1544), soldados ingleses assaltaram
a cidade e levaram a milagrosa padroeira como troféu. Porém, uma
peste (que eles pensaram ter sido castigo pelo roubo) fez que
devolvessem a imagem ao seu trono na França.
Mais tarde, 1767, protestantes franceses queriam destruir a
imagem, mas não conseguiram. Enterraram-na, então, perto do
castelo de Houvault. Depois, retiraram-na de lá e a jogaram num
poço. Dizem que ainda hoje ele existe. Seu proprietário se
converteu à fé católica e devolveu a imagem à sua sede.
Em novo ataque, em 1793, os hereges, apoderando-se da efígie
sagrada, a destruíram. O povo fiel só encontrou depois uma das
mãos, que ainda hoje é venerada pelos peregrinos.
Em 1814, um sacerdote da cidade de Paris foi para Bolonha.
Colocou um fac-símile da imagem milagrosa no seu trono real.
Reconstruiu o santuário, que foi elevado a catedral, consagrada em
1866.
Podemos considerar os acontecimentos adversos com a imagem
de Nossa Senhora de Bolonha como lição para encararmos as
contrariedades da vida, para purificação de nossas almas e como
oportunidade de enriquecimento espiritual. Assim, depois de todas
as vicissitudes, reinaremos como ela, que de novo reina não só em
Bolonha, mas no mundo, Maria, Mãe de Deus.

Oração
Querida mãe de meu Jesus e minha, ensinai-me a suportar as
dificuldades da vida, como padecestes os sofrimentos profetizados
por Simeão quando lhe disse: “uma espada traspassará tua alma”
(Lucas 2,35). Que as provações deste mundo não me amedrontem,
para que eu possa alcançar vitória sobre elas e reinar convosco nos
céus para sempre. Amém.

72 Nossa Senhora de Bonária


A ilha da Sardenha, pertencente à Itália, tem como capital
Cagliari, cidade portuária situada no sul. Próxima a esta encontra-se
uma colina onde se respira um ar puro pela aragem que
continuamente sopra. O povo chamou este recanto de Bonária,
palavra que traduzida significa bons ares.
Foi nessa colina que a congregação dos Irmãos da Misericórdia,
em 1330, fundou um convento, o primeiro na Sardenha.
Dizem que, partindo da Espanha, um navio mercante dirigia-se a
Cagliari. Quando já se avistava o porto, uma tremenda tempestade
desabou, pondo em risco a vida dos tripulantes. Para aliviar o peso
do cargueiro, o comandante resolveu, então, que toda mercadoria
fosse lançada ao mar. Entre ela encontrava-se uma espécie de baú
cujo conteúdo era desconhecido. Ninguém sabia como fora parar lá.
Mas naquela hora não havia tempo para se discutir sobre isso.
Também ele foi jogado ao mar. Fato admirável! Assim que o baú
tocou as águas marítimas, a tempestade cessou como por encanto.
O comandante decidiu recuperar a enigmática mercadoria. Contudo,
não houve quem a pudesse retirar do mar. Ao mesmo tempo, assim
como impelida por uma força invisível, boiou até o porto de Cagliari,
em frente à igreja de Bonária. Dois irmãos do convento da
Misericórdia facilmente recolheram e abriram a caixa. Para espanto
de todos, encontraram uma imagem com 56 centímetros de altura
representando Nossa Senhora, que segura o Menino Jesus no
braço esquerdo. Os rostos de Jesus e Maria são muito expressivos
e ternos. A roupa é carmesim. O manto, azul escuro. A mão direita
está em posição de segurar alguma coisa; mais tarde puseram-lhe
uma vela. O Menino, por sua vez, sustenta na mão esquerda um
globo terrestre e a direita está abençoando.
O fato prodigioso desse aparecimento da imagem da Mãe de
Deus logo se espalhou. Toda a população queria ver a imagem. A
notícia atraiu muitos peregrinos para contemplar de perto a imagem
de Nossa Senhora de Bonária. Um novo título à Mãe de Deus. Hoje,
é a padroeira da Sardenha e Cagliari. Nos nossos dias romeiros
ainda continuam a visitar a imagem milagrosa.
A devoção se tornou popular. No batismo, muitas meninas
recebem o nome da padroeira.

Oração
Senhor nosso Deus, concedei-nos sempre saúde de alma e
corpo, e fazei que pela intercessão de Nossa Senhora de Bonária
sejamos libertos do naufrágio do pecado e das tristezas presentes e
gozemos as alegrias eternas. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso
Filho, que governa o mundo na unidade do Espírito Santo. Amém.

73 Nossa Senhora de Bonate


No mundo inteiro, durante o mês de maio, o povo devoto adorna
o altar de Maria, mãe de Jesus. Em 1944, no dia 13 do mês de
maio, na cidade de Bonate, Diocese de Bérgamo, na Itália, várias
crianças colhiam flores para depositar aos pés da Virgem Maria.
Num dado momento, as meninas que acompanhavam a colega de
nome Adelaide Roncali, de apenas 10 anos, viram que ela estava
imóvel, olhando para o alto, como que alheia a tudo. Não
respondendo aos chamados, as amigas se espantaram e foram
correndo dizer à mãe de Adelaide que “ela tinha morrido em pé”.
O que havia acontecido, porém, é que Nossa Senhora aparecera
a Adelaide. Estava vestida de branco. Espargia luz. Cobria-lhe um
manto azul. Maria tranquilizou-a e lhe disse: “Não temas, eu sou a
Madona. Seja boazinha e eu voltarei até você”. O êxtase se repetiu
mais 13 vezes, em duas etapas, de 13 a 21 e depois de 28 a 31 de
maio. Assim como em Lourdes, Fátima, Salete e outros lugares,
Nossa Senhora aconselhou a oração, sobretudo a reza do terço
meditando os mistérios da vida de Jesus. Insistia na penitência. Que
se acabasse com a impureza e a blasfêmia. Que as mães
deixassem de pecar, porque seus pecados eram muito prejudiciais à
humanidade…
Como sempre, a notícia logo correu. Muita gente queria se
beneficiar das aparições, implorando curas. Conta-se que mais de
um milhão de peregrinos se concentrou no local. Umas duzentas
pessoas proclamaram que estavam curadas.
O bispo de Bérgamo constituiu uma comissão de médicos que
estudou cada caso e indicou apenas setenta. Entre eles encontrou-
se um cego vítima de combate na guerra que ficou curado
repentinamente.
Empolgado por mais essa grande manifestação de carinho
materno, o povo proclamou sua gratidão a Maria, dando-lhe mais
um título: Nossa Senhora de Bonate.

Oração
Senhor nosso Deus, concedei-nos sempre saúde de alma e
corpo, e fazei que pela intercessão de Nossa Senhora de Bonate
sejamos libertos de todo pecado e, livres das tristezas presentes,
gozemos as alegrias eternas. Por Cristo Senhor nosso. Amém.

74 Nossa Senhora de Buglose


Na época do anticlericaismo na França, Joana D’Albret
determinou a destruição de todas as capelas rurais, alegando que
apenas serviam para promover superstições.
Perto da cidade de Dax, a uns doze quilômetros,
aproximadamente, beirando o rio Adour, havia um oratório onde se
venerava uma imagem de Nossa Senhora. Os fiéis que
frequentavam aquele lugar de oração, sabendo que a igrejinha
estava condenada à destruição, correram e retiraram a imagem,
escondendo-a perto de uma fonte onde o gado diariamente ia
dessedentar-se. Assim, a linda efígie foi salva do incêndio.
O tempo passou. A lenda conta que uns cinquenta anos depois,
o gado que pastava nas imediações da fonte lambia a imagem da
Mãe de Deus. Alguém que passava por ali viu o fato. Logo deu o
alarme e o povo, acorrendo em massa, formou o novo título com
duas palavras de origem grega, buglose, língua de boi. Em francês
resultou langue de boeuf.
Luís XIII restaurou a antiga capelinha destruída pelo fogo. Mais
tarde substituíram-na por um grande edifício de três naves,
contendo um carrilhão com 64 sinos. Consagrou-se o novo título de
Buglose quando coroaram a imagem em 1866. Os padres de São
Vicente de Paulo cuidaram desse templo durante quase um século.
A fonte passou a ser considerada milagrosa, como
demonstravam os inumeráveis favores recebidos pelos que
tomavam aquela água admirável.
Na festividade do nascimento de Nossa Senhora, 8 de setembro,
desde a novena preparatória e no mês de maio dedicado a Maria, e
sua oitava, realizavam-se peregrinações ao Santuário de Nossa
Senhora de Buglose.

Oração
Ó Deus, que quisestes que vosso Filho Jesus nascesse na gruta
de Belém, aquecido pelos animais na estrebaria, e também que por
meio de um boi a imagem de Maria fosse encontrada para benefício
dos devotos, dai-me a graça de valorizar toda criação animal, pois
tudo demonstra que é muito bom para evidenciar o carinho com que
tratais a humanidade, e por meio das criaturas chegar até vós para
vos louvar eternamente. Amém.

75 Nossa Senhora de Caravaggio


Na Itália, província de Bérgamo, encontra-se a cidade
denominada Caravaggio. Michelangelo e Polidoro Caldara deram-
lhe fama mundial, pelas maravilhosas pinturas que deixaram como
herança à humanidade.
Porém, muito mais fama recebeu aquela cidade se considerada
a narrativa seguinte:
Giannetta Vacchi, com 32 anos de idade, era cruelmente
maltratada pelo seu marido, Francisco Varoli. Ela, porém, muito
devota de Maria, honrava-a aos sábados, suplicando a conversão
do marido, jejuava e procurava imitar a Mãe de Deus. No dia 26 de
maio de 1432, depois de horríveis maus-tratos, ferida, sozinha, foi
obrigada a colher feno para os animais. Sem revoltar-se, confiando
em Deus, dirigiu-se ao pasto, distante uns cinco quilômetros, para
cumprir sua pesada tarefa. Depois de várias horas de esforços, já
no fim do dia, sem energias para concluir seu trabalho, não podendo
levar o capim de uma só vez antes do anoitecer, apavorava-se pela
lembrança da crueldade do esposo se não cumprisse o encargo
recebido. Nesta angústia, olhou para o céu e orou: “Senhora minha,
ajudai-me. Só vós podeis vir em meu socorro”. Ia continuar ainda
sua prece quando viu uma senhora nobre e venerável, majestosa e
de porte gracioso. Um véu branco cobria-lhe a cabeça, caindo sobre
os ombros cobertos por um manto azul, e queria conversar.
Giannetta, não a conhecendo, disse: “Senhora, não tenho tempo a
perder; meus jumentos estão esperando pelo feno”. A mulher,
porém, a tranquilizou, fê-la ajoelhar-se, tocou-lhe suavemente no
ombro e falou: “Filha querida, o mundo, com suas iniquidades,
provocou a ira de meu divino Filho Jesus. Intercedi pedindo a
conversão dos pecadores. Deus se aplacou. Procura fazer que o
povo reze e faça penitência, jejue, honre-me aos sábados e guarde
os dias santificados, como gratidão por essa singularíssima graça,
de aplacar a Deus. Vai manifestar a minha vontade a todos”.
Giannetta, reconhecendo ser a Mãe de Jesus que lhe falava,
redarguiu: “Minha Senhora celeste, quem acreditará nas minhas
palavras?”.
Em resposta Maria disse: “Com sinais evidentes confirmarei tuas
palavras”. Depois de abençoá-la, desapareceu.
Giannetta beijou o lugar onde Maria pousara e viu maravilhada,
impressas no solo, as pegadas virginais de Nossa Senhora. Correu
imediatamente para comunicar o acontecido. As pessoas
comprovaram a veracidade das palavras de Giannetta. Correram
para o local. Encontraram também uma fonte de água milagrosa,
com a qual houve curas prodigiosas.
Logo as romarias se multiplicaram. Vários templos foram
seguidamente construídos, cada vez maiores, como penhor de
gratidão à Mãe de Deus. A devoção se espalhou pelo mundo. Aqui
no Brasil encontra-se até um município com esse nome, no Rio
Grande do Sul. Eis mais um título, “Nossa Senhora de Caravaggio”,
que honra Maria e recorda às pessoas que devem fugir do pecado e
fazer penitência pelos já cometidos.

Oração
Senhor nosso Deus, concedei-nos sempre saúde de alma e
corpo, e fazei que, pela intercessão de Nossa Senhora de
Caravaggio, libertos das tristezas presentes, gozemos as alegrias
eternas. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

76 Nossa Senhora de Ceuta


Dom João I de Portugal, em 14 de agosto de 1385, conseguiu
uma das mais gloriosas vitórias para o seu país, a liberdade.
Naquela batalha, de Aljubarrota, ocorreram grandes prodígios, pois
o pequeno exército português venceu o de Castela, cinco vezes
maior. Animado com o prestígio da vitória, dom João juntou outros
milhares de soldados e muitos fidalgos e partiu do Tejo para a
conquista da Mauritânia, em 1415. Lá havia uma cidade chamada
Ceuta, porto do Mediterrâneo situado em frente a Gibraltar, onde os
portugueses venceram os mouros, que dominavam todo o norte
africano e o sul da Espanha. Para agradecer à Santíssima Virgem
pelo milagroso amparo, dom João colocou um rico e trabalhado
cetro real na mão direita da imagem de Nossa Senhora, na igreja de
Ceuta, entregando-lhe simbolicamente o comando das tropas
portuguesas vitoriosas. Na realidade, aquelas vitórias foram
importantíssimas para Portugal, pois marcaram o começo das
grandes navegações.
O Museu Histórico do Rio de Janeiro conserva outra imagem de
igual nome, toda de marfim, também com um cetro na mão direita,
oferecido por Pedro de Menezes, um dos fidalgos que haviam lutado
valorosamente nas batalhas de Aljubarrota e na Mauritânia.
O infante dom Henrique, mais tarde chamado “O Navegador”,
construiu em Sagres a famosa Escola de Navegação. Fala-se que
uma das recomendações recebida pelos marujos era a devoção a
Maria, protetora dos navegantes. Conhece-se uma canção popular
que pode ter nascido naquela época e chegou até nós, com este
teor: “Estrela dos mares, / nas noites escuras, / ó Mãe, vos
saudamos. / Lembrai-vos, mãezinha, / ó Virgem de luz, / no mar e
em batalha, / co’amor no coração. / Em todos os meses, / em
nossos altares, / olhai as agruras. / Mostrai-nos Jesus!/”.

Oração
Ó Maria, estrela dos mares, poderosa como um exército em
ordem de batalha, guiai-nos pelas estradas da vida e protegei-nos
para que jamais naufraguemos nas tempestades dos mares bravios,
nem sejamos derrotados pelo pecado. Por Cristo, vosso Filho e
Senhor nosso. Amém.

77 Nossa Senhora de Chartres


A capital do departamento Euro-e-Loir, na França, é a cidade de
Chartres, Muito antiga, ela provém dos tempos dos romanos, que
dominaram a região céltica. O nome era “Carnutum” (lugar santo).
Os celtas, quer para proteger sua fé, quer para aproveitar uma gruta
natural, montaram nela um lindo templo subterrâneo. O imperador
César determinou que ali fosse o centro das celebrações religiosas
pagãs druidas. Nos primeiros séculos, os cristãos que ali chegaram
tiveram que praticar a religião em catacumbas. Os seguidores de
Jesus aproveitaram essa abóbada sob a terra para dela fazer,
também, o centro de suas reuniões. Essa “igreja”, dedicaram-na à
mãe de Deus, porque no templo céltico havia uma estátua
representando uma senhora coroada com folhas de carvalho.
Segurava um menino nos braços, com a mão direita levantada em
sinal de abençoar e a mão esquerda segurando uma bola. Vendo
uma extraordinária semelhança com Maria, Mãe de Jesus, os
franceses a chamaram de Notre-Dame sous Terre (Nossa Senhora
debaixo da Terra). Uma fonte cristalina borbulhava no seu interior.
Chamando-se a cidade Chartres, prevaleceu este nome, certamente
para facilitar aos peregrinos o encontro do lugar. Durante a
Revolução Francesa, queimaram a imagem. No século XIX, uma
nova imagem foi colocada e até os dias de hoje recebe grande
veneração de fiéis e peregrinos. Existe uma lenda que fala terem os
sacerdotes celtas enviado uma mensagem a Nossa Senhora
enquanto vivia na terra, dizendo que eles lhe rendiam homenagem
com o nome de Nossa Senhora de Chartres. O certo é que hoje a
igreja de Chartres é catedral, considerada a mais antiga da França,
porque foi construída antes do nascimento de Cristo. Trata-se de
uma obra de arte que, juntamente com a riqueza, constitui uma das
mais lindas e célebres igrejas do mundo. São numerosas e
frequentes as peregrinações a esse templo subterrâneo.

Oração
Maria, Senhora nossa, que sob inúmeros e variados títulos sois
invocada pelos cristãos, atendei a nossas súplicas, para que
possamos crescer sempre no amor a Jesus, vosso Filho e Senhor
nosso, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo. Amém.

78 Nossa Senhora de Chiquinquirá


A mais de dois mil metros de altitude, na Colômbia, na região
dos Andes, encontra-se a cidade de Chiquinquirá, no estado de
Boyacá. O seu significado na língua indígena é “lugar de neblinas e
pântanos”.
A partir de 1560 é que se tem conhecimento da sua história.
Para afervorar os índios e os colonizadores, os padres dominicanos
espanhóis encomendaram uma tela de Nossa Senhora, que foi
posta à veneração numa capela. Depois de algum tempo, um
colecionador adquiriu o quadro. A capela ficou sem a pintura por
alguns anos. Entretanto, sem se saber como o primitivo desenho foi
encontrado. A própria imagem se renovou. Tal fato pode ser
considerado o primeiro de uma série de outros que foram
acontecendo atribuídos a milagres de Nossa Senhora de
Chiquinquirá. Daí em diante o quadro passou a ser chamado de
“Renovação”. Suas medidas são um metro e dez de altura por um
metro e vinte e cinco centímetros de largura. Em volta do quadro
são vistas placas com os símbolos da pátria, das dioceses da
Colômbia e dos Dominicanos.
Os pintores foram os índios coca. No quadro, os olhos da
Santíssima Virgem estão semiabertos; o rosto é de cor branco
pérola; a face está voltada para o Filho divino; tem um véu branco
na cabeça que cai formando pregas; na mão direita segura um
cetro; a mão esquerda segura um rosário; o menino segura com a
mão direita um cordão que vem das patas de um pássaro; Santo
André apóstolo e Santo Antônio de Pádua estão cada um de um
lado de Nossa Senhora.
Esta pintura representa a mais antiga arte religiosa da Colômbia
do período colonial e inaugurou uma nova iconografia do Rosário.
A tela de algodão superou muitas vicissitudes, ocorridas num
lapso de tempo que abrange uns 450 anos. Pensa-se até que tenha
servido para secar o trigo ao sol.
No dia 26 de dezembro de 1586, por volta das 9 horas da
manhã, passando em frente da capela, disse à sua mãe Miguel, um
menino de 4 anos: “Mãe, olhe a Mãe de Deus que está no chão”.
Ela viu então a Santíssima Virgem espargindo um resplendor
celestial que enchia toda a capela. Depois disso dirigindo-se a uma
outra a Maria Ramos, que ali estava, disse-lhe em voz alta: “Olhe,
olhe, senhora, que a Mãe de Deus desceu de seu lugar e está ali de
pé sobre o teu assento, e parece que está se queimando”. Dona
Maria voltou o olhar para o altar e viu com assombro a
transformação que havia se operado na pintura, “tão lúcida e
renovada de cores alegres e celestiais que era uma glória vê-la”.
A notícia logo se espalhou. De todas as partes começou a afluir
gente, uns atraídos pela curiosidade, outros em busca de algum
milagre. A informação não tardou a chegar aos ouvidos da
autoridade eclesiástica, que ordenou primeiro uma informação em
Chiquinquirá e depois um processo em Tunja.
Em 9 de janeiro de 1910, o papa Pio X, concedeu a coroação da
pintura de Nossa Senhora de Chiquinquirá. Ela foi coroada solene e
canonicamente em 9 de julho de 1919 na catedral de Bogotá, na
presença do presidente da República e de autoridades eclesiásticas,
civis e militares.
Em algumas ocasiões a imagem foi levada à cidade de Bogotá,
distante uns cem quilômetros ao sul, para implorar a Deus a paz ou
o fim de epidemias. A última trasladação com esse fim se realizou
em 1999.
O Santuário de Chiquinquirá está confiado aos padres
pregadores, mais conhecidos como dominicanos.
O papa João Paulo II visitou aquele santuário em 1986.

Oração
Ó incomparável Senhora do Rosário de Chiquinquirá, Mãe de
Deus! Rainha dos anjos, advogada dos pecadores, refúgio e
consolação dos aflitos e atribulados, Virgem Santíssima, repleta de
poder e de bondade, lança sobre nós um olhar favorável, para que
sejamos socorridos por ti, em todas as dificuldades que
encontramos. Amém.

79 Nossa Senhora de Copacabana


Há na Bolívia uma aldeia denominada Copacabana, próxima ao
povoado de Carangas. Os primeiros evangelizadores espanhóis que
chegaram com Francisco Pizarro, por volta de 1530, estabeleceram-
se naquele país para levar o conhecimento de Cristo aos nativos.
Além de ser a primeira cidade a receber os ensinamentos cristãos,
tornou-se também centro dos trabalhos apostólicos na Bolívia e no
Peru.
Entre os catequizandos encontrava-se um senhor chamado
Francisco Tito Yupanqui, que pertencia à nobreza indígena e depois
tornou-se cristão fervoroso. Ele procurou também converter ao
cristianismo seus familiares. Para isso, fez um voto de adquirir uma
imagem de Nossa Senhora, pedindo que ela alcançasse tal graça,
para ele importantíssima.
Naquela época era muito difícil obter imagens de santos. Na
América não havia ateliê para fabricar imagens. Buscar na Europa
era impossível, quer pela demora do correio de então, quer pelos
custos das mercadorias.
Diante dessas dificuldades, que atrasavam em muito a aquisição
da imagem, ele mesmo resolveu esculpir uma, procurando
concretizar um sonho que teve. Pareceu-lhe ver uma senhora
envolta em luz intensa, coberta por um manto que chegava até os
pés. Tinha no braço esquerdo um menino que apoiava a sua
cabecinha no seio materno. A mão direita segurava uma vela.
Yupanqui entendeu o sonho como sendo o modo como ela
queria ser esculpida: Senhora das Candeias.
Sem habilidade para esculpir, mesmo assim pôs mãos à obra, já
que não havia escultor habilitado por toda a região. Era lógico, pois,
que o resultado fosse insatisfatório. A imagem que ele formou não
demonstrava as feições delicadas que vira no sonho, nem inspirava
devoção. Apresentada ao bispo, este não a aprovou, nem autorizou
sua veneração, por não suscitar piedade nos fiéis. Pelo contrário,
até poderia ocasionar desrespeito, zombaria e crítica.
O inexperiente escultor, no entanto, não desanimou. Fez
penitências, jejuns e orações, suplicando insistentemente à mãe de
Deus que o ajudasse na confecção daquela efígie. Seria para
engrandecê-la e converter muita gente para Cristo.
Yupanqui redobrou suas penitências e orações, tentando
melhorar sempre a imagem de Maria, Mãe de Deus.
As dificuldades eram grandes. O desânimo o assaltou e ele
quase desistiu da ideia. Reconheceu que suas mãos inábeis jamais
iriam confeccionar a imagem que ele imaginara, convencendo-se de
que havia tido uma ideia infantil…
Porém, como narra uma lenda, aconteceu que, em 1582, um
inusitado frio assolou toda a região e ameaçava destruir a safra. Os
gêneros de primeira necessidade iriam faltar. A população antevia
grande desgraça para o povoado. Estava muito distante e sem
condições de comunicação com os grandes centros populacionais.
A comunidade local, então, propôs que fossem feitas procissões e
preces públicas implorando a ajuda celeste para impedir a
irreparável desgraça.
Foi quando certo conterrâneo de Yupanqui, chamado Afonso
Viracocha, ofereceu-se para custear o transporte da imagem para
Potosi, onde ela seria dourada. Esse feito iria dar um aspecto de
maior valor àquela imagem que, embora imperfeita, simbolizava a
devoção popular. Fundariam, depois, uma Confraria denominada
Nossa Senhora da Candelária.
A imagem foi muito bem embalada para resistir aos choques.
Quando o dourador a recebeu e abriu a caixa, encontrou-a
prejudicada e com avarias, mas verificou, por outro lado, que era de
uma beleza extraordinária, de majestade imponente. Sua aparência,
nobre. As feições e olhos meigos inspiravam devoção, infundiam
respeito e confiança. Comoviam a alma e os corações mais
endurecidos…
Diante dessa maravilhosa transformação, brotou a piedosa lenda
de que dois anjos retocaram a imagem, imprimindo nela uma
singular beleza, sobretudo nos rostos da Mãe e de seu filho Jesus.
Pode-se imaginar o alvoroço que tal descoberta provocou entre o
povo, que acudiu em massa para agradecer a Deus e louvar a
Virgem com o Menino, sob o título de Nossa Senhora das Candeias
de Copacabana.
São inúmeras e extraordinárias as graças alcançadas por
intermédio de Nossa Senhora de Copacabana.
Essa devoção espalhou-se também na Colômbia e em outros
lugares.
No Brasil, é famosa a praia de Copacabana, no subúrbio do Rio
de Janeiro, que tem o mesmo nome da padroeira e é orago
paroquial.

Oração
Virgem Mãe afável, assim como aperfeiçoastes a vossa imagem
em Copacabana, fazei o mesmo com a nossa alma para que, santa
e ilibada, possa ser oferecida no templo do Deus vivo, iluminada
pela luz que é vosso Filho Cristo, nosso Redentor. Amém!

80 Nossa Senhora de Czestochowska


Uma lenda narra que São José construiu uma mesa. Sobre ela,
São Lucas pintou um quadro de Maria. Trata-se de uma antiga
imagem de Nossa Senhora, que é venerada ainda nos tempos
atuais, por um culto constante e muito fervoroso. Há historiadores
que relatam ter sido essa imagem levada a Jerusalém. Santa
Helena a presenteou ao imperador Constantino para adornar uma
das salas de seu palácio. No decorrer do tempo, essa pintura ficou
esquecida. Encontrada mais tarde, passou por vários proprietários,
até que a Mãe de Deus manifestou sua vontade de permanecer na
cidade de Czestochowska. O príncipe Wladislavo, que a possuía,
quis levá-la do castelo de Belz para Olsztyn. Entretanto, os animais
atrelados ao carro que iria conduzi-la não podiam se mexer. Não
houve força humana que os movesse do lugar. Porém, assim que a
imagem foi retirada do carro para ser colocada no seu devido trono,
os animais puderam caminhar!
Este acontecimento chamou a atenção do proprietário, que a
deixou definitivamente na cidade, e também do povo piedoso, que
passou a venerar a imagem com verdadeiro amor filial.
Na Casa de Nossa Senhora de Loreto, que foi, miraculosamente,
trasladada de um lugar para outro, encontra-se uma relação dos
objetos que constituíam a mobília nela contida e uma observação
que diz: “A mesa da Virgem Maria acha-se na Polônia, na cidade de
Czestochowska”.
Quando o reformador Jan Huss (1373-1415), religioso checo,
espalhou sua doutrina herética, seus sequazes invadiram o
Convento Santuário onde se encontrava o quadro. Entre o que
destruíram estava o arquivo. Perderam-se muitos documentos sobre
a primitiva história do milagroso quadro de Nossa Senhora de
Czestochowska, como o povo piedoso começou a chamá-lo. Mesmo
sem documentos escritos que pudessem comprovar a história inicial
do quadro, o povo continuava participando de romarias, e por volta
de 1782 já se contavam uns seiscentos mil fiéis.
A Igreja considera o dia 7 de setembro de 1382 como o da
instalação da milagrosa imagem na montanha de Jasna Gora. Esse
acontecimento tem outras festividades para perpetuá-lo.
Nossa Senhora de Czestochowska é padroeira da Polônia e
recebe milhares de fiéis e peregrinos.
Oração
Santa Mãe Maria, padroeira da Polônia, fortaleça-nos a fé para,
mesmo sob perseguições, dores e sofrimentos, que intrepidamente
consigamos professar a doutrina de Cristo, seu filho Jesus, agora e
sempre. Amém.

81 Nossa Senhora de Fátima


Quem ainda não ouviu falar de Nossa Senhora de Fátima? Pode
haver alguém que não saiba por que essa cidadezinha de Portugal é
conhecida no mundo inteiro? Pode! Quem são eles? Ao contar a
parábola do mendigo Lázaro, Jesus pôs nos lábios de Abraão
respondendo ao rico: “‘Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-
nos!’ O rico replicou: ‘Não, pai Abraão, mas se for a eles algum dos
mortos, arrepender-se-ão’. Abraão respondeu-lhe: ‘Se não ouvirem
a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda
que ressuscite algum dos mortos’” (Lucas 16,29-31). Nós podemos
dizer o mesmo daqueles que, de coração endurecido, o fecham.
Não deixam Jesus morar na alma, tomar posse do coração, por
meio de Maria, sua mãe. O único desejo dela é que Deus seja
conhecido, amado e servido. O que é fechar o coração? É rejeitar o
salvador. É não permitir que ele entre na alma. É ter os olhos
vendados pelas paixões. Assim turvados, eles não podem ver as
maravilhas que se operam na pequena cidade portuguesa. Eles não
compreendem o ridículo de dizer que toda aquela gente que vai a
Fátima sofre de uma sugestão coletiva. Não querem entender que
os fiéis que peregrinam, em multidão, à cidadezinha lusa e a outros
lugares onde nossa Senhora apareceu lá se apresentam para
agradecer por dons recebidos de Deus. Como no casamento em
Caná Jesus transformou a água em saboroso vinho, assim hoje
Jesus esparge dons e riquezas espirituais a pedido de sua mãe
quando lhe diz: “Eles não têm vinho! (João 2,1-12).
Em Vila Nova de Ourém, distrito de Santarém, na terra de
Camões, é que se localiza Fátima. Na época tinha mais ou menos
uns dois mil e quinhentos habitantes.
Três pequenos pastores, Lúcia, de 10 anos, seus primos
Francisco, de 8, e a irmãzinha deste, Jacinta, de 7, eram de famílias
moradoras em Ajustrel, lugarejo da freguesia de Fátima. Saíam com
frequência para pastorear. Conduziam os rebanhos ora para um, ora
para outro lado. O terreno de propriedade dos pais de Lúcia servia
de pastagem para as ovelhas. Encontravamse também nesse lugar
algumas árvores, entre elas azinheiras, que os botânicos classificam
ser do gênero dos carvalhos e das cupulíferas. Havia ainda
carrasqueiras, que são arbustos de caule duro e ramos esguios.
Podem ser comparadas à vegetação rara e áspera da caatinga no
Nordeste do Brasil.
Em 13 de maio de 1917 as crianças levaram as ovelhas para um
lugar chamado Cova da Iria, distante uns três quilômetros de
Fátima.
De repente encontraram uma senhora. As crianças mesmas
descreveram a visão: “Sobre a copa verdejante de uma
carrasqueirinha, eis que nos aparece uma linda donzela de uns 18
anos, mais resplandecente que o sol, e de uma beleza divina!
Trajava um vestido branco como a neve, preso só ao pescoço por
um cordão de ouro, o vestido descia até aos pés, que descansavam
sobre uma nuvem, mal roçando as copas verdes da carrasqueira.
Cobria-lhe a cabeça um manto também branco e circundado de
ouro, quase do mesmo comprimento do vestido. Tinha as mãos
erguidas à altura do coração, na postura de quem reza, e da mão
direita pendia-lhe um lindo rosário de contas brancas e brilhantes,
rematadas por uma cruz de prata. O rosto, de traços puríssimos e
infinitamente delicados, estava cercado de uma auréola de brilho
indescritível, apresentando uma leve sombra de tristeza”.
Toda história de Fátima é maravilhosa. Numa página torna-se
impossível relatar os muitos fatos lá ocorridos. O leitor poderá
completar seus conhecimentos sobre aquela solicitando às livrarias
católicas catálogos sobre escritos a respeito e verá quão admirável
é o amor de mãe que transparece na visão dos pastores. Inteirar-se-
á melhor da recomendação de Maria de conseguir mais facilmente a
glória celeste com a recitação do Rosário.
Maria é nossa mãe. Ela cumpre seu encargo recebido de Jesus
crucificado: “Eis teu filho”! São João representava toda a
humanidade. Quando o calor da piedade se esfria, ela chama a
atenção de maneira tão maravilhosa!
Oração
Virgem santíssima, que em Fátima dignastes estampar aos três
pastorinhos a grande riqueza de graças que se pode alcançar com a
recitação do Santo Rosário, ajudai-nos a valorizar sempre mais esta
oração bíblica, a fim de que com a meditação das passagens da
vida, morte e ressurreição de Cristo, alcancemos mais facilmente a
glória celeste. Assim seja.

82 Nossa Senhora de Guadalupe


No seu livro América mariana, o claretiano padre Felix Alexandre
Cepeda descreveu longamente a história de Nossa Senhora de
Guadalupe.
Os índios astecas eram idólatras. Quando os espanhóis se
estabeleceram no México, constataram que os aborígines estavam
envolvidos em horríveis sacrifícios humanos. As vítimas eram
prisioneiros de guerra. Esse era o ambiente.
No dia 9 de dezembro de 1531 um piedoso índio chamado João
Diego (teria uns 48 anos) se dirigia para a igreja de Santiago
Tlaltelolco para participar da santa missa. Naquela madrugada
escutou desconhecidos cânticos de aves. Era a região de Tepeiac.
Admirado, olhou para cima do monte de onde lhe parecia virem as
melodias. Notou então lá em cima uma nuvem branca luminosa e
um arco-íris. Sentiu um arrebatamento e uma alegria inexplicáveis.
Ouviu a voz delicada de uma mulher que o chamava pelo próprio
nome e pedia para que se aproximasse. O índio subiu a toda pressa
a encosta daquele monte e viu numa claridade intensa uma senhora
formosíssima. Suas vestes brilhavam muito e transformavam em
pérolas os rochedos em volta. Falando em língua mexicana lhe
disse: “Meu filho, a quem amo ternamente. Aonde vais?”. “Vou
participar da santa missa.” A mulher lhe replicou: “Eu sou a sempre
Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus feito homem. É meu desejo
que façam aqui uma igreja. Como tua Mãe e dos demais, mostrarei
clemência amorosa. Pela compaixão que tenho dos índios e de
todos os que me amam e me procuram, atenderei a seus pedidos
para lhes dar consolo e alívio. Deves ir à cidade do México, falar
com o bispo para que se construa aqui uma igreja. Diga que sou eu
que te envio. Narrarás tudo o que viste e ouviste neste lugar. Por
tudo que fizeres neste sentido, agradecer-te-ei e te prestigiarei”.
O índio se prostrou e prometeu executar aquelas ordens. Falou
com o senhor bispo, dom João de Sumárraga. Contou-lhe a
aparição e fez o pedido de ser erguida a igreja. O bispo, prudente, o
recebeu com benevolência e admiração. Ouviu a narrativa do índio,
mas supôs que podia ser sonho ou ilusão. Despediu-o e disse que
voltasse outro dia, porque ia deliberar sobre o assunto.
Desconsolado e triste, o índio compreendeu que o bispo não lhe
dera crédito. Sua missão fora sem êxito.
Voltou para sua casa e, ao passar por Tepeyac, encontrou
novamente a Santíssima Virgem. Ao vê-la, o índio se prostrou a
seus pés e falou: “Minha querida Rainha, fiz o que me mandaste…
mas senti que não me deu crédito. Podia ser fantasia minha. Pediu-
me que voltasse outro dia… Suplico-te que encarregues uma
pessoa nobre e de importância, digna de respeito e em quem se
possa acreditar. Se me afastei do respeito que lhe devo, perdoa,
minha Rainha, o meu atrevimento”. A Santíssima Virgem ouviu
benignamente o índio e depois renovou o pedido, dizendo que
voltasse ao bispo e dissesse que era ela quem estava pedindo a
construção do templo. O índio prometeu voltar e trazer a resposta. O
bispo realmente o recebeu, convenceu-se da sua sinceridade. Mas
precisava de um sinal. Ao chegar em casa encontrou seu tio
enfermo. No dia seguinte, não compareceu ao local da aparição,
porque devia buscar remédio e padre para administrar os
sacramentos ao tio moribundo.
A Santíssima Virgem foi ao seu encontro, ouviu a preocupação
do índio. Disse-lhe que o tio já estava curado. Fosse ao alto do
morro buscar o sinal. Ele encontrou rosas louçãs e perfumosas
naquele lugar árido e seco. A Santíssima Virgem mandou que
recolhesse quantas rosas pudesse conter no seu manto como se
fosse uma mochila. Diego levou-as ao bispo, que se convenceu
definitivamente da vontade de Maria. Notou com grande admiração
que no manto do índio havia aparecido o ícone cuja perfeição os
cientistas ainda hoje disputam e examinam.
A própria Virgem indicou o nome com que desejava ser
conhecida: “Santa Maria de Guadalupe”.
De todos os recantos e das cidades circunvizinhas acorriam para
verificar os acontecimentos. A devoção cresceu muito e se tornou
conhecida pelo mundo inteiro.
No dia 12 de outubro de 1895, o arcebispo coroou a maravilhosa
imagem de Nossa Senhora de Guadalupe.

Oração
Ó Deus, que nos destes a Santa Virgem Maria para amparar-nos
como Mãe solícita, concedei aos povos da América Latina, sob o
título de Guadalupe, que hoje se alegram com sua proteção, crescer
constantemente na fé e alcançar o desejado progresso no caminho
da justiça e da paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo. Amém.

83 Nossa Senhora de Guarachico


No arquipélago das ilhas Canárias, a maior delas é Tenerife.
Encontra-se ao noroeste da África. Além de vinhas, seus habitantes
cultivavam ainda laranjais. Um grande grupo, porém, vivia do
comércio de frutos do mar. Guarachico é um lugarejo perto do porto
de Santa Cruz. Em certa ocasião, alguns pescadores que lá
residiam encontraram na praia uma imagem de Nossa Senhora.
Levaram-na em procissão para a igreja paroquial de Sant’Ana.
Muitas histórias e lendas se formaram em torno dessa imagem.
Entre elas é tradição de que sob a proteção dessa imagem, nesse
exato lugar, os portugueses iniciaram suas aventuras marítimas dos
descobrimentos de novas terras. Dizem até que dom Afonso IV, de
Portugal, pretendeu do papa Clemente VI a posse das terras que
fossem encontradas. A carta deste pedido data de 1345. A
autenticidade desse fato é discutida.
Contam também que a imagem acompanhou as navegações. Os
marujos aportaram na ilha do Fogo. Nesta ilha a imagem
desapareceu, como por encanto. Houve depois um grande incêndio
que tudo destruiu. Mais tarde os marinheiros voltaram para Tenerife
e reconheceram que a imagem que havia desaparecido na ilha do
Fogo agora estava sendo venerada no convento de São Francisco
de Vila Franca. De onde viera e quem a levara para lá, ninguém
sabia.
O que faz que Maria seja amada, glorificada em todo o mundo?
Por que o povo simples ama sem restrições a Mãe de Deus? Santo
Agostinho se fazia esta pergunta: “Por que amo?”, e respondia:
“Amo porque amo”. Não encontrava palavras para explicar o amor.
O amor não nasce de uma avaliação racional. O amor é um impulso
do nosso ser, de agradecimento, de complacência para com a
pessoa amada. “Maria, és toda bela”, canta a Igreja, “e a mancha
original não existe em ti”. Do mesmo modo como o espelho reflete a
luz do sol, assim a beleza da alma de Maria era refletida no seu
exterior, a tal ponto de Dionísio Areopagita exclamar: “Maria era tão
linda que, se a fé não me dissesse que ela era criatura, eu a teria
adorado como deusa”.
De fato! Maria foi retratada no decorrer da história pelos pintores
e escultores como figura feminina de uma beleza física
extraordinária, transmitindo sempre a pureza, a bondade e a doçura
através dos seus gestos, da nobreza do seu porte e da ternura do
seu olhar. Bernardete, a simples camponesa, de Lourdes, dizia: “A
Senhora da gruta de Massabièle era linda e seu sorriso encantador
deixava-me deslumbrada”. Não só por esses puros encantos
corporais, mas sobretudo pelos bens espirituais que Maria nos
concede, dando-nos seu Filho Jesus, o Salvador, redobremos de
amor à Virgem e jamais ficaremos decepcionados.

Oração
Deus todo-poderoso, pela intercessão de Maria, nossa Mãe,
socorrei os fiéis que se alegram pelos dons a ela concedidos e com
sua proteção, livrando-os de todo mal neste mundo e dando-lhes a
alegria do céu. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo. Amém.

84 Nossa Senhora de Loreto


A casa onde Nossa Senhora residia ficava em Nazaré, cidade da
Palestina. Foi nessa casa que o arcanjo Gabriel anunciou a Maria
que ela tinha sido escolhida para ser a Mãe do Salvador. São José
também ali morava. E Cristo até completar 30 anos, antes do
Batismo. Os apóstolos veneraram essa casa, que foi transformada
em igreja. Para evitar que as intempéries prejudicassem essa
preciosíssima relíquia, Santa Helena, mãe do imperador
Constantino, que deu liberdade aos cristãos, por voltas do ano 313
mandou construir um magnífico templo para servir de redoma que
protegesse a humilde casa da Sagrada Família.
No século XIII, os muçulmanos do Egito invadiram a Palestina,
destruíram o templo protetor, ficando a Casa de Nazaré sujeita a
toda profanação. O próprio Deus se encarregou de livrar a Casa de
Nazaré desse grande perigo. Foi nessa data, ao redor de 1291, nos
dias 9 e 10 de maio, que a casa desapareceu de Nazaré e foi vista
na Dalmácia, num lugar chamado Raunitza, entre Fiume e próximo
de Tersato (Hilíria). Era um lugar onde antes não havia sequer uma
choupana. A admiração cresceu quando pessoas que tinham
visitado a casa em Nazaré confirmavam ser a mesma que agora
aparecia na Dalmácia. Essa prodigiosa notícia logo espalhou-se.
Multidões queriam ver o maravilhoso acontecimento. Observava-se
que o terreno era irregular para sustentar uma casa sem alicerce.
O pároco, enfermo havia três anos, também foi visitar a tão
falada casa. Maior foi seu espanto quando sua doença, considerada
incurável, sumiu como por encanto. Declarou que Nossa Senhora
lhe havia aparecido e dissera que essa era a casa de Nazaré, onde
Jesus tinha sido concebido por obra do Divino Espírito Santo. Pode-
se imaginar a alegria do povo fiel vendo o pároco são de uma
enfermidade incurável e ouvindo a narrativa de ser aquela a casa
onde Jesus se fizera homem?
Para tirar dúvidas, o governador da Dalmácia enviou uma
comissão de quatro pessoas a Nazaré para colherem informações a
respeito, sobretudo se os alicerces tinham ficado lá na Palestiina.
Os delegados confirmaram a veracidade: só os alicerces haviam
ficado lá. Tinham as mesmas medidas da casa que apareceu em
Raunitza. Estavam convencidos de se tratar da mesma casa na
localidade a que alude São Lucas (1,26): “o Anjo Gabriel foi enviado
por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré…”.
Essa grande novidade não durou muito tempo! Mais duas vezes
aquela casa foi levada para outros lugares.
Alguns anos depois, em 10 de dezembro de 1294, a casa foi
vista próxima de Roncanati, cidade da Itália, província de Macerata,
entre Potenza e Musone, num lugar onde havia um bosque de
loureiros. Provavelmente foi deste lugar que surgiu o nome de
Loreto, pois além das árvores do local a proprietária se chamava
Laureta. Alguns pastores que guardavam suas ovelhas durante a
noite, vendo aquele prodígio, o aparecimento de uma casa num
lugar antes ermo, iluminada por uma luz estranha, quiseram ver de
perto aquele fenômeno. Aproximaram-se e, admirados, constataram
os objetos existentes e passaram a noite em oração. Levaram a
notícia à cidade e o fato ocasionou romarias, demonstrando a fé do
povo, que foi favorecido por milagres e graças extraordinários.
O ignominioso inimigo da humanidade não deixou de se
aproveitar da multidão piedosa para favorecer a cobiça de ladrões e
outros males, diminuindo, por causa disso, o concurso de fiéis. O
papa Sixto V, no século XVI, fundou a Ordem Militar dos Cavalheiros
de Loreto, para proteger toda a região contra os criminosos. Como
não podia deixar de ser, houve até pessoas católicas que relegaram
o fato a uma simples lenda.
Finalmente, nos fins de 1295 deu-se a última trasladação. A casa
se encontra no centro da cidade, num local plano. Ao redor do
templo foi se formando a cidade que tomou o nome de Loreto.
Novamente se construiu um templo-redoma, e a Casa de Loreto
passou a ser assim chamada, dando nome à cidade.
Todas essas quatro trasladações da Casa de Loreto
ocasionaram muitas romarias de fiéis, que aos poucos foram
adornando a igreja com preciosos presentes.
Não só a Casa de Loreto recebeu romarias de diversas partes do
mundo, como também a devoção se espalhou por muitas regiões.
Em Lisboa essa devoção de origem italiana mantém o culto em
Portugal, sendo orago da paróquia de Juromenha, na Arquidiocese
de Évora. Os sacerdotes são italianos. No Brasil, em Jacarepaguá,
o padre Manuel de Araújo construiu em 1664 uma igreja dedicada a
Nossa Senhora de Loreto.
Nossa Senhora de Loreto é a padroeira dos aviadores.
Oração
Ó Maria, Virgem Imaculada e nossa Mãe Santíssima, prostrados
em espírito junto à vossa Casa santa que os Anjos transportaram
sobre a colina de Loreto, humildemente elevamos nossa prece. Em
atenção de vossa imaculada conceição e da visita do anjo, que
disse: “Bendita sois entre as mulheres”, suplicamos vossa proteção
para que jamais ofendamos a Jesus e possamos subir às alturas do
amor divino. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

85 Nossa Senhora de Lourdes


Quem não conhece o título materno de Nossa Senhora de
Lourdes?
Haverá alguém que ignore o admirável feito da aparição de
Maria Santíssima a Bernardete Soubirous? Na França, nos altos
Pireneus, num lugarzinho chamado Lourdes, Bernardete,
juntamente com sua irmã e outra menina, catava gravetos para
acender o fogo e cozinhar o alimento das refeições. No dia 11 de
fevereiro de 1858, à margem do rio Gave, perto da pedreira de
Massabielle, ouviu um ruído como se fosse uma rajada de vento
mais forte. Olhando para cima na encosta, numa das reentrâncias
viu uma mulher de beleza extraordinária. Um resplendor
deslumbrante a rodeava. Estava de pé, trajando vestido e véu. Tanto
um como outro eram brancos como a neve. Trazia uma faixa azul na
cintura. Lindas rosas ornavam seus pés. Nas mãos segurava um
Rosário, passando suas contas entre os dedos. Bernardete,
encantada com a visão, retirou seu Rosário da sua bolsa, ajoelhou-
se e também se pôs a rezar. Depois dessa primeira aparição
seguiram-se mais dezessete. Logo o povo ficou sabendo e cada vez
mais se aglomerava para contemplar Bernardete, que parecia mais
um anjo do que ela própria.
Numa das aparições, a Santíssima Virgem pediu que fosse
construída naquele lugar uma capela onde se pudessem fazer
procissões penitenciais.
Como sempre em casos semelhantes, consideraram-na
impostora, fingida. Até pessoas religiosas injuriaram-na. A polícia
fez longos interrogatórios.
Porém, as inúmeras curas extraordinárias ali acontecidas
convenceram as autoridades de se tratar de um caso verídico.
Contam-se inúmeros casos de curas corporais e principalmente
espirituais realizadas por intercessão de Maria Santíssima ocorridas
não só em Lourdes mesmo, mas em muitas partes do mundo. Os
povos reconheceram a veracidade das aparições de Nossa Senhora
à jovem Bernardete.
Como demonstração da veracidade de sua aparição, lembramos
os milagres de cura graças à água recolhida da fonte nascida
naquele momento, naquele lugar, e que jorra água milagrosa até
hoje.
No dia 11 de fevereiro de 1862, o bispo de Tarbes aprovou o
culto a Nossa Senhora de Lourdes.
Pode-se imaginar a quantidade de mulheres que em
homenagem à Mãe de Deus colocaram o nome de Maria de
Lourdes em suas filhas?
Encontram-se também instituições e numerosos colégios
denominados “Nossa Senhora de Lourdes”.
De todos os lugares do orbe terrestre seguiram peregrinações
para ver com os próprios olhos os recantos onde a humilde
jovenzinha Bernardete Soubirous teve a grande missão de ser
intermediária entre o povo e a santa Mãe de Cristo.
Também em Lourdes, Maria, respondendo à menina, que
perguntou quem ela era, disse: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

Oração
Ó Senhor, nós suplicamos que pela gloriosa Virgem Maria, sob a
invocação de Nossa Senhora de Lourdes, fortalecidos por sua
intercessão, possamos chegar a Cristo, que convosco vive e reina
para sempre. Amém.

86 Nossa Senhora de Lujan


A maioria das nações venera Maria Santíssima sob um
determinado título. Na Argentina é Nossa Senhora de Lujan. Este
nome é de um rio que, além de ser importante em outros aspectos,
tem sua maior importância em ter dado nome à padroeira daquela
nação. Por quê? A história conta que na fazenda chamada
Sumampa, o seu piedoso proprietário, um português, queria
construir uma capela dedicada a Nossa Senhora. Não encontrando
imagens na cidade próxima de onde morava, Córdoba del Tucuman,
nem nas cidades vizinhas, escreveu a um amigo, conterrâneo seu,
que morava no Brasil, para que lhe enviasse uma estatueta de
Maria Imaculada. O amigo enviou-lhe não uma só, mas duas
imagens, ricas esculturas da Imaculada Conceição. Acomodou-as
bem em dois caixotes e por mar as enviou. Estes chegaram no porto
de Buenos Aires. Daí para o interior da Argentina seguiram em
carros de bois, que, junto com outros carreteiros, levavam também
mercadorias. Depois de três dias de jornada, passaram a noite
numa pequena povoação de nome Lujan. Ali, outro amigo, também
português, de nome dom Rosendo Oramas, acolheu os viandantes.
Pela manhã seguinte prepararam os carros para continuar a viagem.
Enquanto os carreteiros seguiram viagem normalmente, os bois do
carro que levava as imagens não conseguiam tirar o carro do lugar!
Fizeram de tudo. Até espancaram os pobres animais. O carro,
porém, permanecia como que cimentado no chão. Uma força
invisível o prendia!
Perguntaram ao carreteiro o que levava de tão pesado. Ele
respondeu que nada de especial. Nada havia sido acrescentado ao
carro. Nenhuma mercadoria tinha sido posta, e conseguira chegar
até aquela pousada desde o porto de Buenos Aires. Só ali é que
empacaram! Entre as encomendas havia dois caixotes com uma
imagem cada um. O fato chamou a atenção do vizinhos, que foram
se aglomerando para ver o que estava sucedendo. Um dos
circunstantes sugeriu que tirassem os caixotes para ver o que
aconteceria. De fato! Coisa admirável! Os bois espontaneamente
começaram a andar, levando os carros. Ainda por sugestão do
mesmo circunstante, recolocaram o caixote e outra vez o carro
estancou.
Ao verificar esse miraculoso acontecimento, que de maneira tão
extraordinária se manifestava, compreenderam que era vontade de
Deus que a imagem permanecesse ali. Abriram o caixote e
encontraram a efígie da Imaculada artisticamente trabalhada e
ricamente adornada. Entusiasmados, deram o nome de Nossa
Senhora de Lujan, para a lembrança do lugar onde aconteceu o
prodígio.
Muito alegres por terem presenciado aquele fato admirável,
levaram a imagem até a fazenda de dom Rosendo, depositando-a
no oratório. Depois foi construída uma capela onde o povo prestava
culto à Santíssima Virgem, agora com o nome de Nossa Senhora de
Lujan.
Os prodígios cresceram. Por toda Argentina se comentava o
acontecido. Construíram depois uma majestosa basílica. De toda a
América Latina muitas romarias se sucederam.
Em 1887 a imagem de Nossa Senhora foi coroada solenemente.
Em 1930, Nossa Senhora de Lujan foi declarada padroeira da
Argentina. Em 1936, os fiéis do país vizinho presentearam o Brasil
com uma imagem que está exposta ao culto de veneração na igreja
de Ipanema, matriz de Nossa Senhora da Paz.
A outra imagem foi levada para a fazenda Sumampa, onde é
venerada sob o sugestivo título de Nossa Senhora da Consolação.

Oração
Ó Senhor, nós suplicamos que pela gloriosa Virgem Maria, sob a
invocação de Nossa Senhora de Lujan, fortalecidos por sua
intercessão, possamos chegar a Cristo, que convosco vive e reina
para sempre. Amém.

87 Nossa Senhora de Luxemburgo


Luxemburgo, antigo estado da Confederação Germânica, foi
dividido em Luxemburgo belga, cuja capital era Arlon, e em grão-
ducado de Luxemburgo, pequeno estado neutro, cuja capital era a
cidade de mesmo nome. Sua fama provinha do fato de seu nome
proceder de família ilustre e por ter dado vários imperadores à
Alemanha e muitos homens de guerra. Esse nome ficou famoso,
servindo até para engrandecimento de muitos lugares, por exemplo
o Palácio de Luxemburgo, em Paris, que abrigava o Senado e um
Museu de Pinturas Célebres. Tinha na frente um jardim encantador.
Porém, Luxemburgo adquiriu maior fama ainda pela devoção a
Maria Santíssima. Um tanto distante dessa cidade havia um
mosteiro. Em frente dele, uma grande cruz. Em 1624, exatamente
no dia 8 de dezembro, em que se celebrava a festa da Imaculada
Conceição, o padre Brocquart, jesuíta, colocou no cruzamento dos
braços dessa cruz uma imagem de Maria Imaculada. O povo gostou
da ideia e começou a venerar aquele símbolo da fé como Maria Mãe
das Dores, por ter permanecido ao pé da cruz onde seu Filho-Deus
expirava pela salvação da humanidade.
Em 1626, Luxemburgo foi assolada por uma peste que fez
muitas vítimas. O povo fez romarias a Nossa Senhora de
Luxemburgo, nome que aplicaram à imagem fixada na cruz
redentora. Diante dessa piedade, a peste acabou.
A fé do povo simples aumentou quando o padre Brocquart,
também atacado pela peste, fez um voto a Nossa Senhora de
Luxemburgo e ficou completa e repentinamente curado.
As autoridades eclesiásticas estudaram cuidadosamente alguns
fatos e outras curas, declarando a presença milagrosa do poder
divino por meio daquela cruz com a imagem de Nossa Senhora
Imaculada, em Luxemburgo. Diante dessa declaração, a piedade do
povo a Maria Santíssima cresceu mais ainda.
A cruz com a imagem ficava ao relento. Compreenderam, então,
a necessidade de construir uma capela naquele lugar. Foi o que
fizeram, e em 5 de agosto de 1627 trasladaram solenemente a cruz
com a imagem. Todos a conheciam como Nossa Senhora de
Luxemburgo.
O grande número de pessoas que peregrinavam àquele local
bendito cresceu muito. Iam para agradecer favores, suplicavam
outros.
Os ex-votos se multiplicaram. Príncipes e imperadores também
foram agradecer favores e deixaram suas ricas ofertas em sinal de
gratidão. Basta ver os ricos e preciosos vestidos confeccionados
artisticamente com que vestem a pequena imagem de madeira de
Nossa Senhora de Luxemburgo.
Numa das revoluções políticas havidas na região, destruíram a
capela. Até que foi bom, pois elevaram outra, umas cem vezes
maior. Mais tarde, porém, a imagem de Nossa Senhora de
Luxemburgo, com a Cruz salvadora, foi entronizada na Catedral de
Luxemburgo, aos cuidados dos padres jesuítas.

Oração
Santa Mãe, Maria, que permanecestes ao pé da Cruz Salvadora,
para remir com Cristo a humanidade, dai-me a graça de poder levar-
vos no meu coração, entrelaçada com a Cruz de Cristo, para
manifestar minha gratidão pelo dom da salvação que espero. Ó Mãe
de Luxemburgo, atendei-me. Amém.

88 Nossa Senhora de Macau


O povo da nobre nação portuguesa serviu de exemplo a todo o
mundo no culto à Mãe de Deus. Em todas as possessões territoriais
e descobertas geográficas realizadas pelos marujos da nação lusa
sempre levaram juntamente a devoção a Maria Santíssima.
Também na região de Macau (China) encontramos abundantes
narrativas dessa piedade. Possessão portuguesa na Ásia, ocupada
desde 1557, estava dividida em dois Conselhos: o de Macau e o de
Taipa e Coloante. O clima era o melhor de todas as cidades da
China, sendo recomendada até como estação de inverno. Macau
possuía um Liceu Central de Ensino, uma Escola Comercial. A
instrução primária era ministrada em vinte e cinco escolas. Possuía
ainda bons edifícios, um seminário, um teatro chinês e a Gruta de
Camões, onde, segundo a tradição, o insigne poeta luso escreveu
alguns cantos dos Lusíadas.
Apetrechos piscosos usados no Oriente eram guardados
cuidadosamente num Museu de Barcos e Aparelhos de Pesca. A
Diocese de Macau foi instituída pelo papa Gregório XIII, em 23 de
janeiro de 1576, e abrangia a ilha de Timor e as igrejas cristãs de
Málaca e Cingapura, e ainda as ilhas adjacentes. O nome completo
era Santo Nome de Deus de Macau.
Foi a este lugar paradisíaco que dois doutores portugueses, dos
quais a tradição conservou os prenomes, Miguel e Paulo, foram
enviados pelo próprio imperador para tratar de assuntos referentes à
monarquia. Eram piedosos, e o povo mesmo reconhecia que eles
mereciam o título de Colunas da Fé. Esta era a opinião tanto dos
nativos como dos cristãos lá existentes.
Aconteceu que o doutor Paulo adoeceu gravemente. Certo de
estar nas últimas, encomendou-se a Nossa Senhora, esperando o
fim! Ele mantinha em seu quarto uma imagem de Maria, de quem
era muito devoto. Desenganado, preparava-se para morrer.
O doutor Miguel, porém, muito aflito, demonstrando grande
confiança na Mãe de Deus, pôs-se em oração e, acendendo velas,
prostrou-se por terra. Orava solicitando mais com lágrimas do que
com palavras a cura de seu colega moribundo. Ainda neste estado
de sofrimento, o doutor Paulo levantou-se e contou que acabara de
ver Nossa Senhora entrar no quarto, cercada de muita luz,
acompanhada de muitos anjos, e lhe dissera que a doença havia
desaparecido. Ele estava curado. Chegou também o médico, que o
examinou confirmando estar ele em perfeito estado de saúde.
Podemos imaginar a grande alegria do doutor Miguel e depois de
todo o povo ao constatar o milagre.
A igreja de Nossa Senhora de Macau foi elevada à categoria de
catedral.

Oração
Deus de misericórdia, socorrei a nossa fraqueza para que, ao
celebrarmos a Memória da Virgem Imaculada Mãe de Deus sob o
título de Macau, possamos, por sua intercessão, ressurgir de nossos
pecados. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

89 Nossa Senhora de Montserrat


Mais um caso ocorrido na época dos sarracenos. Narra a história
que os mouros, com toda a fúria devastadora, atravessaram o
estreito de Gibraltar e invadiram a Espanha. Conhecidos como
iconoclastas, eram destruidores de toda imagem religiosa que
encontravam. Os fiéis cristãos, para não verem a de Maria
Santíssima profanada, entre outras, procuraram lugares para
esconder as suas preciosidades. Viram que na Catalunha, perto de
Barcelona, havia um maciço monte que por lembrar um serrote, a
ferramenta dos carpinteiros, foi denominado Montserrat. Ele
continha grutas e cavernas de difícil acesso. Numa delas
encontraram um ótimo esconderijo. Nele puseram a venerada
imagem de Maria Mãe de Jesus, cientes de que muito dificilmente
os bárbaros lá entrariam.
O tempo passou. A linda imagem enegreceu-se. Depois de uns
duzentos anos, já expulsos os invasores, ninguém mais vivia que
pudesse providenciar o retorno do venerável ícone mariano. A
própria Virgem então, de um modo extraordinário, o revelou.
Apascentando rebanhos, alguns pequenos pastores
aproximaram-se do esconderijo onde permanecia a imagem e viram
de repente estrelas mais reluzentes que o sol. Ao mesmo tempo
ouviram vozes angelicais que os extasiavam. Era um sábado do
mês de abril. O fato se repetiu por várias semanas. Sem entender o
que estava acontecendo, eles relataram aos seus patrões aquilo
que tinham experimentado. Estes procuraram o pároco. O cura de
almas, por sua vez, comunicou ao senhor bispo. O antístite
comunicou-se com o prefeito de Barcelona e ambos foram verificar
o que estava acontecendo. Com dificuldade, chegaram à gruta e
encontraram a linda imagem enegrecida pelo tempo e depositada
num recanto. Mostrava-se sentada, com o menino Jesus no regaço,
a mão direita erguida no ato de abençoar. Plenos de satisfação,
organizaram uma romaria para levar a imagem até Manresa, onde
seria venerada por muito mais pessoas. Chegando ao local onde
hoje se ergue o célebre Santuário, o carro que transportava a
imagem estancou e não houve quem pudesse removê-lo. O prelado
entendeu que era ali o local em que Nossa Senhora queria
estabelecer o seu trono. Colocaram-na numa capela ali perto e
começaram as maravilhas que atraíram gente de todas as partes.
Nesse lugar foi construído um Santuário, confiado aos monges
beneditinos, que se encarregam de propagar a devoção.
Os milagres ocorriam numerosos. Houve curas de cegos. Mudos
falavam. Principalmente pecadores se convertiam!
O nome Montserrat se espalhou por todo o mundo. Em Portugal
há muitas capelas e altares dedicados a Nossa Senhora de
Montserrat. Até estabelecimentos comerciais receberam esse nome.
Também no Brasil a devoção a Nossa Senhora do Montserrat se
espalhou por muitos lugares. Na cidade de Santos, por exemplo, foi
construído um Santuário em 1610 que também está aos cuidados
dos beneditinos. Contam-se inúmeros favores operados por
intercessão de Nossa Senhora de Montserrat. Assim comprovam os
ex-votos, agradecimentos por graças recebidas. Inclusive
imprimiram um Manual do Devoto de Nossa Senhora de Montserrat.
Hoje encontra-se também o nome atualizado para Monte Serrate.

Oração
Ó Deus de misericórdia, socorrei a nossa fraqueza e concedei-
nos ressurgir dos nossos pecados pela intercessão da Mãe de
Jesus, sob o título de Nossa Senhora de Montserrat, por Cristo
Nosso Senhor. Amém.

90 Nossa Senhora do Brasil


Entre as flores muito apreciadas pelo povo em geral estão as
rosas. De variados matizes, aveludadas umas, lisas outras, todas
são formadas de muitas pétalas. Assim os títulos que adornam a
Mãe de Deus, nas mais variadas partes do orbe terrestre.
Eis mais um glorioso nome que certamente deve agradar muito a
Maria: Nossa Senhora do Brasil.
Na cidade de Nápoles, na Itália, havia uma igreja dedicada a
Santo Efrém. Conservava-se ali uma imagem de Maria, Mãe de
Jesus, que os frades capuchinhos, desde Caravelas, Bahia,
enviaram para lá por volta de 1829.
Um grande incêndio destruiu completamente aquele templo;
todavia, a imagem enviada do Brasil ficou intacta. O povo fiel
frequentador do culto que diariamente se praticava naquela casa de
oração passou a chamar o ícone milagroso de Nossa Senhora do
Brasil.
Em 1841 a imagem foi coroada em meio a grandes festividades.
As graças insignes e numerosas recebidas como resposta às preces
devotas comprovam ser muito agradável à Virgem de Nazaré a
veneração com mais um glorioso epíteto nascido do profundo amor
a ela consagrado.
No Brasil veneramos a Mãe de Deus com o saudável nome de
Aparecida. Em Nápoles, como Nossa Senhora do Brasil. O
importante não é o nome, mas a devoção. Que Ela nos mostre onde
falhamos no amor a Jesus, para merecermos o amparo celeste. Os
antigos israelitas, porque não foram fiéis a Deus, Deus os deixou na
sua dureza de coração. Abramos, nós, a devoção verdadeira para
merecermos extirpar os males que nos afligem, ao quais por certo
são fruto de falta ou de devoção imperfeita!

Oração
Ó Deus de misericórdia, assim como a imagem da Mãe de Deus ficou
intacta no incêndio ocorrido na igreja de Santo Efrém, em Nápoles, na
Itália, apagai o ímpeto das nossas paixões, socorrei a nossa fraqueza e
concedei-nos ressurgir de nossos pecados pela intercessão de Maria, cuja
memória celebramos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo. Amém.

91 Nossa Senhora do Cabo da Boa Esperança


Em Portugal há um rio denominado Cabo, na região de Leiria.
Ele desliza lentamente, passa pelas Caldas da Rainha e desemboca
na lagoa de Obidos. Vê-se também ali um rochedo com o mesmo
nome de Cabo. O rio é muito piscoso. A tradição narra que certo
pescador viu uma luz estranha que parecia se mover como que
convidando-o a segui-la. O pescador curioso foi caminhando para
ver o que produzia aquela claridade até chegar nos rochedos do
cabo Espichel, onde encontrou uma imagem de Nossa Senhora que
segurava o Menino Jesus nos braços.
O homem, que era muito devoto de Maria, correu logo e com
grande alegria espalhou a notícia. O povo acorreu sem demora para
ver o caso que considerava milagroso. Imediatamente passaram a
cultuar a Mãe de Deus com novo título: Nossa Senhora do Cabo.
Dizem que dom João V foi muito devoto de Nossa Senhora do
Cabo e, quando enfermo, desde as janelas do palácio, contentava-
se em olhar para a direção do local onde, ao lado da pequena e
primitiva capela comemorativa do fato, fora construído um lindo
Santuário. Este tem três portas e duas torres.
Acredita-se também que o manto da imagem foi bordado pela
rainha dona Maria I.
Como sempre, surgiram as romarias. A mais notória que ainda
subsiste é a de Caparica.

Oração
Senhora Mãe de Deus, cuja imagem foi encontrada nos
penhascos do rochedo Cabo, em Portugal, significando a solidez da
devoção e a confiança em vossa proteção, com humildade pedimos,
concedei-nos que sejamos verdadeiramente seguidores de Jesus
para participarmos dos eternos e celestes louvores a Deus Pai,
Deus Filho e Deus Espírito Santo. Amém.

92 Nossa Senhora do Caminho


Na província de Leon, na Espanha, encontra-se uma imagem
esculpida em madeira procedente do século XIV que representa
Nossa Senhora das Dores, tendo Jesus morto sobre seus joelhos.
Mede aproximadamente 85 centímetros. Desde o antigo reino de
Leon até hoje, o povo tem profunda devoção à Mãe de Deus sob o
título Nossa Senhora do Caminho.
A origem deste nome é narrada pelo pastor de ovelhas chamado
Simão Gomes Fernandes. Ele fez juramento da sua narrativa na
forma acostumada na época e diante do fato ocorrido não houve
dúvidas, e por isso a população toda se prostra reverente diante da
Mãe de Deus, suplicando a sua proteção e o seu auxílio.
No dia 2 de junho de 1505, Simão pastoreava suas ovelhas no
lugarejo denominado Vila da Rainha, aproximadamente a uns cinco
quilômetros da cidade de Leon.
Aproveitando seu tempo, como de costume, Simão começou a
rezar o terço. Neste momento ele teve uma visão: a Santíssima
Virgem trazia nas mãos uma escultura e entregando-a lhe disse: “Vá
à cidade e comunique ao bispo que faça colocar neste local
decentemente esta imagem, pois meu Filho a quer aqui para o bem
de toda esta terra”. Assombrado por ter visto Nossa Senhora, e
como que saindo de um êxtase, Simão, com voz entrecortada,
respondeu: “Como darão crédito à mensagem sem prova alguma?”.
Como faziam os pastores naquela época, Simão trazia presa na sua
cintura uma sacola contendo pedrinhas e atiradeira (ou funda).
Nossa Senhora mesma pediu a funda e uma pedrinha. Com ela
atirou uma e falou: “Diga ao bispo que venha ver, e onde a pedrinha
caiu encontrará uma pedra tão grande que será o sinal do local
onde meu Filho e eu queremos que seja construído um templo e se
coloque a imagem. O bispo não duvidará que sou eu quem te
envia”. A visão se desvaneceu. Caindo em si, Simão procurou o
bispo, que em visita ao local com seu séquito encontrou uma grande
pedra, gigantesca, um verdadeira rocha, num lugar que toda gente
conhecia como uma planície apenas. Com esse tão evidente sinal,
tomadas as providências, o senhor bispo ordenou a construção de
uma capela. Por estar perto da estrada real, o povo passou a
chamá-la de Nossa Senhora do Caminho. Estes fatos e muitos
outros depois tiveram uma ressonância muito grande, que
provocaram o aumento considerável da frequência dos fiéis. Foi
necessário substituir a ermida por um grande templo, que a senhora
Joana de Loca incluiu sob o patronato real.

Oração
Ó Deus, quisestes, quando o vosso Filho foi exaltado, que sua Mãe
estivesse de pé, junto à cruz, sofrendo com ele. Dai à vossa Igreja, unida na
paixão de Cristo, participar da ressurreição do Senhor, tendo-o sempre
como caminho, verdade e vida. Pelo mesmo Senhor Jesus Cristo que
convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

93 Nossa Senhora do Carmo


Na Palestina há muitas montanhas. Sobressaindo em altura
encontra-se o denominado monte Carmelo (552 metros).
A palavra “Carmelo” procede do hebraico “Karmel” e significa
pomar. Abreviadamente, também se diz “Carmo”. Lugar ameno. Aí
os profetas erguiam suas vozes de louvor a Deus. Pensavam estar
mais próximos do céu em razão da altitude. Nesse recanto aprazível
morava o profeta Elias e outros eremitas, denominados também
“carmelitas”. Foi desse local que uma nuvenzinha procedente do
mar cobriu a terra seca, desfazendo-se em copiosa chuva que
irrigou toda a região, fecundando-a inteiramente (1Reis 18,42). Era
símbolo da abundante chuva espiritual de graças que o Messias iria
trazer aos povos. Antecipadamente, louvava-se aquela que ia ser a
Mãe do Enviado, o Messias. Por isso, prestavam culto de respeito à
futura Mãe do Salvador.
Venerada desde os primeiros carmelitas, a tradição acredita que
o profeta Elias fundou esta ordem por volta do ano 895 antes de
Cristo. Esta instituição judaica aparecida no tempo de Samuel foi
mantida por Eliseu e outros profetas. Era muito semelhante às
existentes nos primórdios do cristianismo. Uma capela foi construída
no monte Carmelo. Houve muitas peregrinações nos séculos III e IV.
Libertos das perseguições romanas, muitos eremitas cristãos
professaram uma vida semelhante à dos monges nos primeiros
anos do cristianismo.
São Cirilo de Constantinopla traçou o histórico dos carmelitas até
a tomada da Palestina pelos muçulmanos, por volta do ano 639. Os
religiosos foram perseguidos pelos sarracenos. Por causa disso
fugiram para a Europa, onde também não foram bem aceitos.
Segundo o padre Rushe, historiadores modernos fixaram em
1155 a fundação da ordem nos moldes atuais e que deveria chamar-
se apenas Ordem da Virgem Maria. O povo devoto, porém,
posteriormente, passou a chamá-la de “Ordem de Nossa Senhora
do Carmo”.
Em 1245, São Simão Stock fora eleito superior geral da ordem.
Considerando o estado lastimável em que se encontrava a
multissecular agremiação religiosa, sentindo a falta de vocações,
dirigiu-se à Mãe de Deus e implorou com fervorosas preces que
protegesse a Ordem do Carmo, destinada a cantar suas glórias: “Ó
Virgem Maria, tomai nossa defesa, e mostrai que sois nossa Mãe!”.
No dia 16 de julho de 1251, em Cambridge, ela lhe apareceu.
Segurava nas mãos o escapulário, e, entregando-o, lhe disse:
“Querido filho, recebe este escapulário como sinal da minha
confraria e prova do privilégio que obtive para ti e para todos os
carmelitas. É um sinal de salvação, um escudo nos perigos, um
penhor de paz e aliança eterna. Quem morrer revestido deste
escapulário será preservado do fogo eterno”.
Como sempre, Maria cumpriu suas promessas. Prova desse
amparo celeste é que a paz voltou, ainda hoje subsistem os
carmelitas, alvos de grande simpatia, e o povo agradecido brinda
com mais um sugestivo título a Mãe de Deus: “Nossa Senhora do
Carmo”.

Oração
Venha, ó Deus, em nosso auxílio a gloriosa intercessão de Nossa
Senhora do Carmo, para que possamos, sob sua proteção, subir ao
monte que é Cristo, que convosco vive e reina, na unidade do
Espírito Santo. Amém.

94 Nossa Senhora do Líbano


Na cordilheira asiática, com 130 quilômetros de extensão,
famosa pelos seus lindos cedros, onde se encontram montes
elevados, que chegando até a 3 mil metros de altitude, onde
também vivem densas populações, abriga-se o Líbano, país cuja
capital é Beirute. A tradição respeita grandemente São Maron, que
no século V presenteou o povo libanês com um conjunto de leis civis
e religiosas que formam o rito maronita. O povo conserva piedosa
devoção a Nossa Senhora do Líbano. Desde os primórdios do
cristianismo, os ancestrais conviveram com os apóstolos. A sagrada
Bíblia, no livro de Isaías, nos fala: “o Líbano cairá com seus altos
cedros” (19,34). E ainda: “a glória do Líbano lhe será dada” (Isaías
35,2). Entre outros ditos, ainda encontramos no Cântico dos
Cânticos: “Vem do Líbano, esposa minha, vem do Líbano e serás
coroada…” (4,8).
O patriarca Elias Pedro Haayeck construiu um monumento a
Nossa Senhora do Líbano em 1910. Ali há um santuário para onde
milhares de fiéis peregrinam não só do Oriente, mas de toda a
Europa. Isto porque os milagres e favores dispensados por meio de
Maria Santíssima sob o título de Nossa Senhora do Líbano são
numerosos. Essa construção foi comemorativa do cinquentenário
das aparições da Virgem em Lourdes.
O cardeal Ranconi, futuro papa João XXIII, foi em 1954
designado por Pio XII para coroar a imagem de Nossa Senhora do
Líbano em comemoração ao cinquentenário daquela construção.
Para que os peregrinos pudessem chegar mais facilmente ao
local do templo foram construídos vários teleféricos. Deles se
podiam contemplar muitas belezas naturais e da amplitude
panorâmica.
Também no Brasil Nossa Senhora do Líbano é muito venerada,
devido à grande colônia libanesa aqui residente. Dom Sebastião
Leme, então cardeal e arcebispo do Rio de Janeiro, convidou os
padres libaneses a se estabelecerem na capital do Brasil, na época,
e em 1931 ele inaugurava um templo e um colégio construídos em
homenagem a Nossa Senhora do Líbano. Sempre a devoção à Mãe
de Deus, sob diferentes títulos, tem crescido.
Em várias cidades se encontram capelas ou igrejas em
homenagem a Nossa Senhora do Líbano, como em Porto Alegre,
São Paulo, Juiz de Fora e outras.
Os artistas representaram Nossa Senhora do Líbano em pé, com
os braços abertos, como provocando um abraço cordial. Aparece
vestida de branco, túnica que lembra a pureza imaculada, e com um
manto azul, que simboliza a pátria de morada eterna, o céu.

Oração
Lembra-te, ó puríssima Virgem Maria, que jamais se tem ouvido
que deixaste de socorrer e consolar a quem te invocou, implorando
a tua proteção e a tua assistência; hoje, pois, animado com igual
confiança, como Mãe a ti recorro, de ti me valho, gemendo sob o
peso de meus pecados, humildemente, me prostro a teus pés. Não
rejeites as minhas súplicas, ó Virgem, Senhora do Líbano. Mas
digna-te ouvi-las propícia e me alcançar a graça que te peço.
Amém. (São Bernardo)

95 Nossa Senhora do Mosteiro


Na Diocese da Guarda, em Portugal, na prefeitura de Almeida,
encontra-se a capela de Nossa Senhora do Mosteiro.
Os templários mantinham lá um mosteiro, tão antigo como a
própria nacionalidade portuguesa, e Maria era muito venerada pelo
povo com várias denominações, como Nossa Senhora da Era,
Nossa Senhora do Souto e também Nossa Senhora das Neves.
Conforme a região, celebrava-se no dia 5 ou 15 de agosto, festa da
Assunção de Nossa Senhora, de acordo com as narrativas de frei
Agostinho de Santa Maria.
Na prefeitura de Valença, distrito de Viana do Castelo, na
Arquidiocese de Braga, também em Portugal, encontrava-se um
mosteiro dos frades franciscanos de Nossa Senhora do Mosteiro, da
Província de Conceição, fundado por Diogo Aires, com freis Pedro e
Gonçalo. Foi durante o ano de 1382.
Vê-se de norte a sul, de leste a oeste como Maria Imaculada é
engrandecida. Lugares, circunstâncias provam como a devoção
popular acata com verdadeiro carinho a proteção divina por meio da
escolhida genitora de Cristo feito homem.
A profecia da Mãe de Deus, “todos me chamarão bem-
aventurada”, se cumpre em todos os rincões do orbe e em plena
manifestação, sem carência de tempo e lugar.
Nenhum ser humano recebeu o dom divino com tanta
intensidade e de modo tão completo como Maria. Ela foi saudada
pelo Anjo como a cheia de graça (cf. Lucas 1,28), aquela que está
repleta do dom de Deus, do favor divino. Sobre ela virão o Espírito e
o Poder de Deus – o Espírito Santo virá sobre ti e o Poder do
Altíssimo vai te cobrir com sua sombra (cf. Lucas 1,35).
O povo piedoso reconhece visivelmente a proteção dessa mulher
criada por Deus para nos trazer seu Filho celestial, que abriu as
portas da pátria eterna.
A rainha Ester, como nos diz a Sagrada Escritura, intercedeu por
seu povo ameaçado de morte. Em semelhança a esse fato, Deus
quis associar o dom de sua graça à intercessão de Maria por seu
povo, que somos nós.
Maria se encontra revestida desse manto de intercessora, que
lhe concede um lugar privilegiado na piedade popular, na confiança
do nosso povo simples. Não é sem motivo que ela é chamada Mãe
da Divina Graça. Chegam a ser comoventes a devoção das
pessoas, a confiança do povo simples e humilde na proteção de
Maria. Impressiona e comove observar os milhares de romeiros que
oram com fé ardente, confiança e simplicidade diante das imagens
de Maria, seja qual for o seu título. É tocante o espetáculo de
ternura, inocência e emoção com que as crianças fazem a coroação
da imagem de Maria nas celebrações do mês de maio em
muitíssimas igrejas no mundo. Os pobres e os humildes sabem, no
seu íntimo, que Maria tem por eles aquela solicitude materna
especial com que acompanhou a Jesus em sua vida terrena.
Maria é modelo e guarda de nossa vida interior, na qual se
enraíza e cresce em nós a graça de Deus. Ela vela sobre essa vida
divina em seus filhos, sobre esse dom misterioso e santificante da
graça, defendendo-nos das insídias demoníacas que dele quer nos
privar levando-nos ao pecado. Mas, se caímos no pecado, Ela, que
é chamada de Refúgio dos Pecadores, nos acolhe e com carinho
materno nos reconduz à amizade com Deus, à nossa abertura à
ação do Espírito Santo em nós.
É tão bela aquela oração que aprendemos na infância:

Oração
Por vossa Imaculada Conceição, ó Maria, livrai-me de todo
pecado! Fazei puro meu corpo e santa a minha alma! Amém.

96 Nossa Senhora do Pilar


Quando Jesus pediu para os discípulos se reunirem na Galileia
para as últimas recomendações, disse-lhes: “Foi me dado todo
poder no céu e na terra. Ide, pois, ensinai todas as gentes,
batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei. Eu
estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mateus 28,17-
20). Podemos supor que os apóstolos terão se reunido para fazer a
distribuição dos trabalhos missionários. Cada apóstolo recebeu uma
região à qual levar o nome de Cristo. Na hora da partida terão
solicitado as bênçãos de Maria Santíssima como verdadeira Mãe.
São Tiago recebeu a incumbência de levar o nome do Salvador
às províncias romanas da Espanha. Como certamente os outros
apóstolos o fizeram, ele foi solicitar as bênçãos maternais a Maria
Santíssima. Conforme uma forte tradição narra, ela teria dito a ele:
“Vai, meu filho, cumpre a ordem de teu Mestre e por Ele te rogo que
naquela cidade da Espanha em que maior número de almas
converteres à fé edifiques em minha memória um templo no lugar
que então indicarei”.
São Tiago, pois, seguiu para a região espanhola denominada
Península Ibérica. Pregou o nome de Jesus em muitas cidades.
Depois foi a Saragoça, que fica à margem do rio Ebro. Seu trabalho
foi coroado de êxito. Entre os convertidos contavam-se oito rapazes
que passaram a ajudar o apóstolo Tiago. À noite reuniam-se para
orar.
Conta-se que certa noite, depois de suas orações, foi repousar e
acordou com vozes angelicais cantando a Ave-Maria. Ele se
ajoelhou e em seguida viu a Mãe de Deus sentada num pedaço de
coluna de mármore. A Mãe de Deus convidou-o para se aproximar e
lhe mostrou o lugar onde queria que fosse edificada a sua igreja, e
disse-lhe que conservasse aquela coluna e a colocasse no altar do
templo, pois aquele pilar permaneceria ali até o fim do mundo.
O apóstolo agradeceu à Mãe de Deus pelo imenso favor daquela
aparição.
Na realidade o que houve foi uma bilocação, pois a Santíssima
Virgem vivia ainda e sua vida se estendeu por mais uns onze anos.
Ajudado pelos oito rapazes, iniciou logo a construção de uma
capela, colocando o pilar na parte superior do altar. A ermida estava
voltada para o rio Ebro. Futuramente elevou-se ali uma grande e
majestosa basílica em Saragoça, em honra da Rainha do Céu,
existente ainda hoje.
Com o decorrer dos anos, formou-se a devoção a Nossa
Senhora do Pilar, que se espalhou logo por todo o país. Hoje é
venerada como padroeira da Espanha.
Os carmelitas espanhóis, instalados na Bahia desde 1690,
trouxeram a devoção ao povo brasileiro. Daí se propagou por
diversas cidades, como Olinda e Recife, Itamaracá, São João del
Rei, Curitiba.
Merece especial destaque o monumento em homenagem a
Nossa Senhora do Pilar erigido por Pascoal Marques de Almeida em
Salvador, Bahia, em 1743. Trata-se de um pilar oitavado que possui
na parte superior um oratório quadrangular adornado com azulejos
barrocos protegido por um gradil. No interior do oratório encontra-se
uma imagem de Nossa Senhora do Pilar, com uma lâmpada de
azeite acesa constantemente, conservada pelos devotos.
A igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto, Minas
Gerais, é uma das edificações católicas mais conhecidas entre as
que foram erguidas durante o Ciclo do Ouro.

Oração
Maria, Mãe da esperança, caminhai conosco! Ensinai-nos a
anunciar o Deus vivo, ajudai-nos a dar testemunho de Jesus, o
único Salvador, tornai-nos serviçais com o próximo, acolhedores
com os necessitados, obreiros de justiça, construtores apaixonados
de um mundo mais justo; intercedei por nós que agimos na história,
certos de que o desígnio do Pai se realizará. Por Cristo, vosso Filho.
Amém.

97 Nossa Senhora dos Eremitas


Contemporâneo de Carlos Magno, que no ano 800 foi coroado
pelo papa Leão XIII imperador do Ocidente, viveu também
Meinrado, de família nobre. Foi educado pelos monges beneditinos.
Vestiu o hábito dessa ordem religiosa.
Naquele tempo era possível alguém se retirar para um lugar
ermo, afastado das cidades, providenciar o próprio sustento e, longe
do bulício do mundo, dedicar-se mais à oração. Chamavam-no de
eremita.
Assim fez Meinrado. Ele ganhou uma imagem de Nossa Senhora
e, levando-a consigo, instalou-se no monte Etzel, na Suíça. Ali
construiu sua morada e um oratório onde depositou a imagem.
Mesmo naquele deserto ele era procurado por leigos e religiosos
para ouvir seus conselhos. Permaneceu nesse estado de vida
durante 33 anos. Dois ladrões observaram que era grande o número
de peregrinos que visitavam o eremita. Imaginaram que ele teria
muito dinheiro. Certo dia, o assaltaram e mataram para roubar.
Pensavam encontrar imensa riqueza. Porém, como nada havia,
decepcionados, fugiram.
A capela, porém, continuou a ser visitada por peregrinos. Estes
propagavam as graças recebidas de Nossa Senhora por meio de
seu servo Meinrado. Então, o número de visitantes aumentou. Foi
necessário construir uma igreja. Ao lado levantou-se também um
mosteiro da ordem dos beneditinos.
Ao longo dos anos houve períodos difíceis, como a guerra contra
a Suíça, a Revolução Francesa, perseguições, opressões e
destruições.
Mais tarde foram reconstruídos o mosteiro e o templo, que
receberam muitas dádivas de pessoas devotas.
Quando prontos, o bispo de Constança, São Conrado, foi
convidado para consagrar o novo templo. Corria o ano de 948. No
dia determinado, dizem que o próprio Cristo Jesus apareceu e
consagrou-o, em lugar do antístite.
Respeitamos a crença popular na referida lenda. É certo que a
Abadia da Ordem de São Bento de Einsiedeln é uma das maiores
da Suíça, com centenas de monges.
São Meinrado continua ainda lembrado. Foi por causa dele que
surgiu a devoção popular de Nossa Senhora dos Eremitas.

Oração
Deus, que levastes o povo escolhido ao ermo (Salmo 106,4) e,
por Cristo, convidastes os discípulos a descansar um pouco num
lugar deserto (Mateus 6,31), fazei-nos como eremitas transformando
o nosso coração em templo agradável, onde, longe do alarido
mundano, Jesus permaneça, como no seio da Virgem Maria, a
Senhora dos Eremitas. Amém.
98 Nossa Senhora dos Trinta e Três
Não houve acontecimento especial que sugerisse o título
aparentemente raro. Nada que servisse de causa a não ser a ordem
natural dos acontecimentos. Após as lutas políticas de
independência, no dia 14 de junho de 1825, os libertadores, em
número de 33, se reuniram na vila de Flórida, no Uruguai, para
realizar o Congresso de mesmo nome que declarou a
independência da Província Oriental do Uruguai e também a união
com as Províncias Unidas do Rio da Prata.
Publicada a Declaratória, os congressistas se dirigiram a uma
capela existente perto dali, onde havia uma imagem da Imaculada
Conceição, trazida de Vila Velha, onde se encontrava antes. A
imagem, de origem guarani, do século XVIII, pequenina, era
entalhada em madeira. Foi confiada a Antônio Diaz, índio de São
Domingos de Soriano.
Em ação de graças pelos êxitos alcançados, houve o canto do
Te Deum, hino oficial da Igreja Católica.
Em 1894, o primeiro arcebispo de Montevidéu, Mariano Soler,
determinou que se colocasse diante da imagem da Santíssima
Virgem uma pedra de mármore com a inscrição onde se lê:
“Diante desta imagem os trinta e três inclinaram sua bandeira e também os
convencionais da independência a invocaram”.

Por ter se salvado de um naufrágio, bem como sua família, em


1857, Manoel Oribe presenteou à Santíssima Virgem dos Trinta e
Três uma coroa de ouro. Afirmava que a Santa Virgem lhe havia
concedido essa graça e sempre se dirigia a ela.
Em 8 de março de 1961, o papa João XXIII concedeu a graça da
Coroação da Santíssima Virgem dos Trinta e Três, a pedido de
monsenhor Umberto Torna. Em 21 de novembro de 1961, o mesmo
papa declarou solenemente Nossa Senhora dos Trinta e Três
padroeira do Uruguai.
Em 25 de agosto de 1975, o poder Executivo do Uruguai
declarou monumento histórico a Catedral de Flórida e a Imagem da
Santíssima Virgem dos Trinta e Três.
Na primeira visita de João Paulo II ao Uruguai, a imagem da
Virgem dos Trinta e Três presidiu o altar onde o papa celebrou a
santa Missa, no mês de abril de 1987. O mesmo ocorreu na
ordenação de treze sacerdotes em Flórida em 8 de maio de 1988.

Oração
Ó Virgem Santa, que jamais se ouviu dizer que algum daqueles
que tenham recorrido à vossa proteção, implorado o vosso socorro,
sem distinção de raça ou idade, fosse por vós desamparado.
Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, Virgem das virgens,
como a mãe recorro. E gemendo sob o peso dos meus pecados
prostro-me aos vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó
Mãe do Filho de Deus feito homem, mas dignai-vos acolhê-las
propícia. Amém.

99 Nossa Senhora Lampadosa


À primeira vista parece estarmos lidando com um jogo de
palavras, como se “lampadosa” fosse sinônimo de candeias ou luz,
mas não. Na realidade, porém, tal nome se refere à ilha Lampadosa,
do arquipélago das ilhas Pelágias, no mar Mediterrâneo. Sua
extensão é de cerca de 20,12 Km2. Administrativamente, está sob a
jurisdição da província da Sicília, Agrigento. Hoje, a ilha possui
aproximadamente uns cinco mil habitantes. Lá a Itália mantém uma
colônia penal.
Nossa preocupação, porém, não é refletir sobre a situação e o
estado geográfico de Lampadosa, mas sim lembrar que ela forneceu
seu nome a uma região na cidade do Rio de Janeiro. Alguns
escravos negros transferidos daquela ilha para o Brasil trouxeram
de lá uma imagem de Nossa Senhora do Rosário.
Os escravos negros formaram uma Confraria de mesmo nome,
que construiu uma capela tosca, onde depositaram a imagem da
Santíssima Virgem. Tendo vindo de Lampadosa, o povo começou
chamá-la de capela da Lampadosa. Ali os escravos encontravam
lenitivo para as suas dores e os seus sofrimentos. Algum tempo
depois (1748) receberam como doação um terreno no chamado
Campo da Polé e ali levantaram outra igreja. Mesmo assim, ainda
não passava de um pequeno templo muito acanhado. Dizia-se:
“Uma capela indecente e muito pobre, que deveria ser demolida em
respeito à mesma religião”.
Os tempos passaram e a Confraria foi transformada em Ordem
Terceira. Esta remodelou o templo, que na época se tornou moderno
e acolhedor. Os cronistas daquele tempo narraram que ao ser
levado para o cadafalso Tiradentes passou por essa igreja, onde
participou da santa missa. Aí, certamente, terá suplicado forças para
suportar os tormentos da morte na forca.
Anualmente celebrava-se uma festa em honra de Baltasar, um
dos reis magos, que se uniu a Melquior e Gaspar para que juntos se
dirigissem a Belém e adorassem o Menino Jesus. São Mateus
narra: “Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do
rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a Jerusalém.
Perguntaram eles: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de
nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (Mateus
2,1-2). Os seus nomes chegaram até nós pela tradição, pois as
Escrituras apenas dizem “magos”. Os entendidos supõem que
deveriam ser sábios, astrônomos ou astrólogos.
O mais importante é que Lampadosa serviu para dar à
Santíssima Virgem mais um título: Nossa Senhora Lampadosa.
Muitos escravos negros conheceram a Mãe de Jesus através dos
diversos títulos pelos quais em muitas partes do mundo os cristãos
lhe prestam culto. Os artistas representaram esse culto realçando
ou o nome do lugar, ou o do fato, ou o das pessoas protagonistas no
evento. Assim, são bem conhecidos os títulos Fátima, Penha,
Lourdes e agora Lampadosa.
A veneração aos santos, rejeitada pelos iconoclastas, como
fizeram por volta dos anos 730, provocou graves perseguições.
Aquele estado de coisas durou por mais de um século. São
Germano de Constantinopla, Santo André de Creta, São João
Damasceno e outros expuseram a própria vida e defenderam a
prática da veneração das imagens, e de um modo especial do
mistério da Encarnação, porque negar que Jesus Cristo seja
representado e lembrado em pinturas é o mesmo que negar que Ele
tenha tido um aspecto corporal e que o Filho de Deus fosse
realmente Filho de Maria. O segundo Concílio de Niceia, realizado
de 24 de setembro a 23 de outubro de 787, decidiu sobre a
iconoclastia, declarando que há sentido e liceidade na
representação em imagem ou pinturas de santos e do mistério da
Encarnação e da Eucaristia.

Oração
Ó Deus, que não fazeis acepção de pessoas, ajudai-nos para que
todos sejamos um como sois com Cristo e o Espírito Santo.
Fortalecei em nós a fé que os apóstolos tiveram para seguir de todo
o coração o Salvador e fazei que pelas preces de Maria vossa Igreja
se torne sacramento de salvação para todos os povos. Amém.

100 Senhora das Lágrimas de Siracusa


No dia 21 de dezembro de 1953 o semanário oficioso do
Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou a notícia de que na
reunião rotineira dos bispos da Sicília, realizada em Magheria
(Palermo, Itália), havia sido narrado o acontecimento ocorrido em
Siracusa das lágrimas que uma imagem do Imaculado Coração de
Maria derramara nos dias 29, 30 e 31 do mês de agosto e também
no primeiro dia de setembro daquele ano (1953). Os testemunhos
unânimes foram suficientes para que se aceitasse a legitimidade do
acontecimento. O próprio arcebispo de Siracusa, dom Heitor
Baranzini, fez as narrativas.
Antônia Iannuzo, como de costume, rezava diante da imagem do
Imaculado Coração de Maria. Ao terminar, notou que os olhos da
santa estavam cheios de lágrimas. Pensou ser ilusão. Olhou melhor.
Não! Não era ilusão! Eram lágrimas, mesmo, verdadeiras! Seu
marido foi ver. Seus parentes também. Todos viram os olhos da
imagem lacrimejando! As lágrimas corriam pela face.
A cidade toda se alvoroçou. Depois foi a Itália inteira! Em
seguida a Europa. Por fim, o mundo de norte a sul acorreu para ver
o prodígio! Peregrinações de todo tipo. A pé, de carro, de trem.
Estes multiplicaram seus horários cinco vezes mais do que de
costume, para atender à demanda. Uns foram levados pela piedade;
outros acorreram com espírito de crítica; não faltaram mesmo
também aqueles que se apresentaram por curiosidade. Era imensa
a multidão. Muitas pessoas piedosas, freiras e padres ficaram horas
se revezando para tocar rosários e outros objetos na imagem que
chorava. Formou-se um “Comitê da Virgem que chora” para
examinar os casos miraculosos. Faziam-se interrogatórios rigorosos.
Os médicos, designados pelas autoridades eclesiásticas e civis,
consideraram extraordinários mais de trezentos casos. Francisco
Cotzia e Leopoldo La Rosa, abalizados químicos, examinaram um
centímetro cúbico de lágrimas e constataram que “o líquido
recolhido revela a mesma composição e a mesma densidade de
lágrimas humanas”.
Mas por que tudo isso? Para quem tem fé, não há perguntas.
Para quem não tem fé, não há respostas! Padre Marcelo Rossi
ponderou: “O grande problema que muitos católicos enfrentam é
não saber o quanto são amados por Deus”. Há pessoas que talvez
estejam esperando que Cristo apareça a elas como apareceu a São
Paulo no caminho de Damasco. Se Cristo não aparece diretamente,
não creem. Não sabem o tesouro que desprezam. Deus oferece seu
amor a todos, mas somente aqueles que o aceitam se beneficiam
com sua riqueza (frei Anselmo Fracasso).
É para renovarmos a fé que Maria, nossa mãe celeste, realiza
tais acontecimentos, que deixam atônita a ciência, sem poder
compreendê-los. Tomás de Kempis nos afirmou: “O amor é capaz
de tudo e realiza muitas coisas, e sobrepuja qualquer sentimento,
enquanto quem não ama fenece”.
Em todas as aparições nossa Mãe celeste continua sempre a
incentivar as almas a que não pequem e façam penitência,
sobretudo as mães, porque seus pecados são particularmente
prejudiciais à humanidade; a que todos se livrem dos pecados
contra a pureza, porque eles provocam nojo a Deus; contra a
blasfêmia daqueles que culpam o Criador pelos males do mundo
como se ele fosse o causador das misérias que assolam o universo;
a que os consagrados a Deus vivam a consagração caminhando
para a perfeição. “Um dia o amor será o juiz de vossas obras.
Esmeraivos em amar a Deus como Ele deseja ser amado. Deixai de
lado vosso valor pessoal” (São João da Cruz).
Oração
Perdoai, ó Deus, nossos pecados e salvai-nos pelas lágrimas da
Virgem Maria, que nos ensina a chorar as nossas ofensas, uma vez
que não podemos agradar-vos apenas com os nossos méritos. Por
nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

101 Virgem da Guanabara


Em todos os recantos do nosso imenso Brasil encontram-se
vestígios da devoção popular a Maria, Mãe de Cristo Jesus.
O pintor paulista A. Paim Vieira reproduziu, com pinceladas
mestras, o carinho e o respeito do povo brasileiro à mãe do
Salvador da humanidade. Ele perpetuou essa devoção popular em
quadros de Virgens e Madonas. Inspirou-se nos variadíssimos
caracteres da etnografia brasileira. “Desde o branco europeu até o
negro, passou pelo índio e por todas as nuanças da mestiçagem.”
Entre eles encontramos o belo quadro da Virgem da Guanabara.
Para indicar a devota e íntima relação entre o brasileiro e a Santa
Mãe, figurou a jovem comum tanto nas grandes cidades como no
interior. A linha dos olhos, a cor da pele, os cabelos, os traços do
nariz, a sua atitude, a fusão de várias raças – tudo se encontra
delineado no quadro. As alegres vestes com leves cores indicam o
espírito do meio ambiente, incluindo a festiva e luminosa natureza.
Como pano de fundo, brilha em panorâmica vista a baía de
Guanabara, as favelas, as avenidas, um misto de bairros opulentos
e região comercial.
A pintura apresenta uma jovem meiga, cândida e piedosa. Não
falta a gigantesca imagem de Cristo no Corcovado, como indicando
o último e definitivo ponto de chegada.
Para Ele todos nós caminhamos, e Maria nos mostra como
conseguir. Como ela, separada para colaborar no plano divino da
redenção, também devemos dirigir a Deus as qualidades que
recebemos. Devemos nos ligar a toda a criação, unindo-nos numa
só voz, cantando com o Salmo 18: “Os céus publicam a glória de
Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”.
O quadro é um incentivo à virtude. É o Espírito Santo que nos
transformará do mesmo modo como modelou Maria, aumentando a
sua beleza natural com a divina graça. Deslumbrante seria a Mãe de
Deus a ponto de ocasionar a quem a conheceu pessoalmente,
Dionísio Areopagita, exclamar: “Maria era tão linda que eu a
adoraria como deusa se a fé não me dissesse ser ela também
criatura!”.
Maria é cheia de graça, por isso se santificou. Com a ajuda de
Maria, também nós podemos nos santificar. Para isso, jamais
faltarão seus auxílios. Importa mantermos a fidelidade fortalecida
pela generosidade. A seu exemplo, digamos: “Faça-se em mim
segundo a tua palavra” (Lucas 1,18).
Ela nos dá o exemplo ao cumprir a missão que recebeu de Deus.
Colaborou na redenção das almas pela sua humildade. Ela é
modelo santo: pela fé, pela esperança e pela caridade.

Oração
Deus de bondade e amor, ao celebrarmos a memória da Mãe de
Deus, sob o título de Virgem da Guanabara, possamos também por
sua intercessão participar da plenitude da vossa graça. Por nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Amém.
1 Nota: Estas informações foram enviadas de Setúbal, Portugal, pelo Pe. Manuel Leal,
CMF.
2 Informações prestadas pelo padre Antônio Aparecido da Silva, pároco de Nossa Senhora
Aquiropita, rua 13 de Maio, 478; CEP: 01327-000; Bela Vista – São Paulo (SP).
Bibliografia
ADUCCI, E. Maria e seus gloriosos títulos. Lar Católico, 1958.

ÁLEM. J. Diário de Maria – cenas do Evangelho narradas pela mãe de Deus. São
Paulo: Ave Maria, 2009.

BIBLIOTECA Nacional. Rio de Janeiro, 1991.

CASALDÁLIGA, P. e ALVES J. Senhora do Século XX. Lisboa: Reinado, 1965.

CLÉNET, B. Gloire a Notre-Dame Reine de France. Montréal: Granger Frères, 1945.

ELEN, E.P. Advocaciones de La Virgen. Barcelona, Buenos Aires: Argos, 1950.

Enciclopédia Universal Ilustrada. Euroreu-americana. Madrid: Editorial Espasa, 1927.

FERRAZ, O. Maria, Mãe de Deus – títulos que honram Nossa Senhora. Curitiba: Novo
Rumo, 2003.

GAMBARINI, A. Devocionário a Nossa Senhora dos Prazeres e à Divina


Misericórdia. São Paulo: Ágape, 2008.

LIMA VAZ, J.C. Louvor a Maria – Comentários sobre as invocações da Ladainha de


Nossa Senhora. São Paulo: Loyola, 2005.

LIMA, A. História de Nossa Senhora em Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa


Oficial, 1956.

MEGALE, M.B. Invocações da Virgem Maria no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2008.

O ROSÁRIO – São Paulo: Ave Maria, 2009.

REIS. J. Invocações de Nossa Senhora em Portugal – de aquém e além-mar – e seu


Padroado (Cinquentenário das Aparições de Fátima). Lisboa, 1967.

RIBEIRO FILHO, A. História de Nossa Senhora do Rocio. Curitiba: Vicentina, 1977.

SAAVEDRA, J.L.G. Nossa Senhora de Copacabana – na Bolívia e no Brasil. Rio de


Janeiro: Biblioteca Nacional, 1991.
SEABRA, P. O Retrato de Nossa Senhora. Petrópolis: Vozes, 1954.

VILAS BOAS, M.M. Nossa Senhora de Nazaré e sua Basílica em Belém do Pará.
Belém: Siqueira, 1946.
Índice
Sumário

Apresentação

I – Títulos relacionados aos privilégios de Nossa Senhora


Anunciação de Nossa Senhora
Imaculado Coração de Maria
Mãe da Divina Providência
Nossa Senhora da Conceição
Nossa Senhora da Glória
Nossa Senhora das Dores
Nossa Senhora das Graças
Nossa Senhora do Despacho
Nossa Senhora do Monte
Nossa Senhora dos Anjos
Nossa Senhora Imaculada
Nossa Senhora Mãe da Igreja
Nossa Senhora Mãe de Deus
Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças
Nossa Senhora Rainha

II – Títulos relacionados a fatos históricos na vida de Nossa Senhora


Nossa Senhora Anunciada
Nossa Senhora Aquiropita
Nossa Senhora da Candelária
Nossa Senhora da Graça
Nossa Senhora da Luz
Nossa Senhora da Medalha Milagrosa
Nossa Senhora das Angústias
Nossa Senhora de Belém
Nossa Senhora de Jerusalém
Nossa Senhora de Nazaré
Nossa Senhora do Desterro
Nossa Senhora do Egito
Nossa Senhora dos Inocentes
Senhora da Consolação

III – Títulos relacionados às virtudes de Nossa Senhora


Divina Pastora
Nossa Senhora Auxiliadora
Nossa Senhora da Claridade
Nossa Senhora da Esperança
Nossa Senhora da Estrela
Nossa Senhora da Fé
Nossa Senhora da Guia
Nossa Senhora da Humildade
Nossa Senhora das Mercês
Nossa Senhora de Lepanto
Nossa Senhora Desatadora de Nós
Nossa Senhora do Amparo
Nossa Senhora do Bom Conselho
Nossa Senhora do Capítulo
Nossa Senhora do Equilíbrio
Nossa Senhora do Faial
Nossa Senhora do Livramento
Nossa Senhora do Milagre de Ratisbonne
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
Nossa Senhora do Rosário
Nossa Senhora dos Desamparados
Nossa Senhora dos Emigrantes
Nossa Senhora dos Favores
Nossa Senhora dos Mártires
Nossa Senhora dos Navegantes
Nossa Senhora dos Prazeres
IV – Títulos relacionados aos lugares de devoção ou aparição de Nossa
Senhora
Nossa Senhora Altagrácia
Nossa Senhora Aparecida
Nossa Senhora Caacupê
Nossa Senhora D’Ablon
Nossa Senhora da Abadia
Nossa Senhora da Ajuda
Nossa Senhora da Cabeça
Nossa Senhora da Caridade
Nossa Senhora da Escada
Nossa Senhora da Europa
Nossa Senhora da Fonte Santa
Nossa Senhora da Lapa
Nossa Senhora da Penha de França
Nossa Senhora da Salete
Nossa Senhora de Almudena
Nossa Senhora de Bolonha
Nossa Senhora de Bonária
Nossa Senhora de Bonate
Nossa Senhora de Buglose
Nossa Senhora de Caravaggio
Nossa Senhora de Ceuta
Nossa Senhora de Chartres
Nossa Senhora de Chiquinquirá
Nossa Senhora de Copacabana
Nossa Senhora de Czestochowska
Nossa Senhora de Fátima
Nossa Senhora de Guadalupe
Nossa Senhora de Guarachico
Nossa Senhora de Loreto
Nossa Senhora de Lourdes
Nossa Senhora de Lujan
Nossa Senhora de Luxemburgo
Nossa Senhora de Macau
Nossa Senhora de Montserrat
Nossa Senhora do Brasil
Nossa Senhora do Cabo da Boa Esperança
Nossa Senhora do Caminho
Nossa Senhora do Carmo
Nossa Senhora do Líbano
Nossa Senhora do Mosteiro
Nossa Senhora do Pilar
Nossa Senhora dos Eremitas
Nossa Senhora dos Trinta e Três
Nossa Senhora Lampadosa
Senhora das Lágrimas de Siracusa
Virgem da Guanabara

Bibliografia

Índice
© 2012 by Editora Ave-Maria. All rights reserved.
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Tel.: (11) 3823-1060 • Fax: (11) 3660-7959
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ISBN: 978-85-276-1388-0
Capa e ilustração: Rui Cardoso Joazeiro
Edição digital: julho 2012

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua


CRB-8/7057
Beraldi, Roque Vicente
101 títulos de Nossa Senhora na devoção popular / Roque
Vicente Beraldi. – São Paulo: Editora Ave-Maria, 2012. 208 p.
600kb; epub
ISBN: 978-85-276-1388-0
1. Nossa Senhora – títulos 2. Mariologia I. Título.
CDD 232.91

Índices para catálogo sistemático:


1. Nossa Senhora: títulos 232.91
2. Mariologia 232.91

Diretor Geral: Marcos Antônio Mendes, CMF


Diretor Editorial: Luís Erlin Gomes Gordo, CMF
Gerente Editorial: J. Augusto Nascimento
Editor Assistente: Valdeci Toledo
Preparação e Revisão: Maurício Leal e Denise Katchuian Dognini
Diagramação: Ponto Inicial Design Gráfico e Editorial
Produção Gráfica: Carlos Eduardo P. de Sousa
Arquivo ePub produzido pela Simplíssimo Livros
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na orla do manto de Jesus, foi curada. Com o intuito de aproximar
essa mulher "misteriosa" à nossa vida, apresentando uma mulher
que nos aponte o caminho de uma vida em Cristo, Pe. Luís Erlin nos
narra a história em primeira pessoa, para que os leitores consigam
"sentir" as dores dessa mulher, dores essas que se parecem com
dores de tantas mulheres e homens que adoecem no corpo ou nos
afetos. O romance nos levará a muitas reflexões e nos mostrará o
olhar misericordioso de Deus, que não hesita em curar, em acolher,
em amar a quem quer que seja.

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