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Intelectuais mediadores
[Orgs.] Angela de Castro Gomes e Patrícia Santos Hansen
Intelectuais
mediadores

UERN/FAFIC/OHi
Grupo de Pesquisa
História do Nordeste:
3ocl«d«d« • CulUca

Pro)«to PIBIC 2014/2016


Chamada Universal CNPq 2014
A captura do olhar do outro...
Angela de Castro Gomes e
Patrícia Santos Hansen (Orgs.)

Intelectuais
mediadores
Práticas culturais e ação política

V edição

UERN/FAFIC/DHi
Grupo de Pesquisa
História do Nordeste:
Soci*d§d« f Cultura

Pfojeto Pliic 2014/2016


Chamada UfllverMl CNPq 2014
A captara dooihêrdQ - *•"'*

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
Rio de Janeiro
Copyright © das organizadoras Angela de Castro Gomes e Sumário
Patrícia Santos Hansen, 2016

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

148 Intelectuais mediadores: práticas culturais e ação política


/ organização Angela Maria de Castro Gomes, Patrícia
Santos Hansen. - 1a ed. - Rio de Janeiro: Civilização APRESENTAÇÃO - Intelectuais, mediação cultural e projetos
Brasileira, 2016.
políticos: uma introdução para a delimitação do objeto
488 p.
de estudo 7
ISBN 978-85-20-01304-5 Angela de Castro Gomes e Patrícia Santos Hansen
1. Historiografia. 2. Mediação. L Gomes, Angela Maria de
Castro. H. Hansen, Patrícia Santos. PARTE I - TRAJETÓRIAS E PROJETOS

CDD: 907.2 1. A vulgarização científica nas obras de Louis Figuier e suas


16-33119 CDU: 82-94 traduções no Brasil 41
Kaori Kodama
2. A Livraria Garnier e a tradução e edição de livros para
Todos os direitos reservados. É proibido reproduzir, armazenar a infância (1890-1920) 66
n ou transmitir partes deste livro, através de quaisquer meios, sem Patrícia Tavares Raffaini
prévia autorização por escrito.
3. Aventuras e desventuras de uma autora e editora portuguesa:
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Ana de Castro Osório e suas viagens ao Brasil 92
Portuguesa. Angela de Castro Gomes
Direitos desta edição adquiridos pela 4. Mestres das primeiras letras como mediadores culturais:
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA escolas rurais e usos da escrita em povoados indígenas
Um selo da
do México no século XIX 12,1
EDITORA JOSÉ OLYMPIO LTDA.
Rua Argentina, 171 -Rio de Janeiro, RJ-20921-380-Tel.: (21) Gabriela Pellegrino Soares
2585-2000 5. Orbelino Geraldes Ferreira e a "escola ativa": tradição
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Impresso no Brasil
2016
Apresentação
PARTE z - LUGARES E MÍDIAS Intelectuais, mediação cultural e projetos políticos:
6. Ramiz Galvão e o projeto de uma biblioteca nacional 177 uma introdução para a delimitação do objeto de
Ana Paula Sampaio Caldeira estudo
7. Circuitos da mediação intelectual no Brasil e na Argentina:
literaturas nacionais e trocas culturais transnacionais 216 Angela de Castro Gomes e Patrícia Santos Hansen
Eliana Dutra
8. A Ordem Nova de Marcello Caetano: uma revista do
integralismo lusitano na crise da Primeira República
Portuguesa (1925-1926) 262
Francisco Palomanes Martinho
9. Universidade do Ar: Jonathas Serrano e a formação dos
professores de história pátria pelas ondas do rádio 289
Giovane José da Silva
Há algumas décadas observa-se o crescimento do interesse acadé-
PARTE 3 - LEITURAS E RESSONÂNCIAS mico por questões relacionadas às propriedades e à eficácia do uso
10. De Tibicuera a Floriano Cambará: as mediações de Eriço de diferentes mídias e linguagens na comunicação de ideias aos mais
Verissimo (1930 a 1960) 331 variados públicos. Na historiografia, indícios de tal crescimento
Mara Cristina de Matos Rodrigues estão presentes em referências teóricas, metodologias e objetos de
11. Editoração, sociabilidades intelectuais e mediação cultural: pesquisa, como, por exemplo, no narrativismo de Hayden White e
a ação dos prefaciadores na publicação das obras completas Frank Ankersmit, na história do livro e da leitura de Roger Chartier
de Rui Barbosa - (1939/1949) 366 e Robert Darnton, na história dos intelectuais de Jean François
Luciano Mendes de Faria Filho Sirinelli e Michel Trebitsch, na chamada história conectada, na
12. A Defesa Nacional de Olavo Bilac, entre o patriotismo cívico história global, entre outras perspectivas e autores. Também surge
republicano dos anos 1910 e o autoritarismo militar dos nos debates sobre a história do tempo presente e naqueles acerca das
anos 1960 403 relações entre história e memória, destacando-se o trânsito da noção
Patrícia Santos Hansen de "usos do passado", para citar somente alguns. O destaque mais
13. Prefigurações da paisagem historiográfica: revistas, coleções recente talvez seja aquele conferido às chamadas história pública
e mediação 436 e história digital, que vieram impulsionar e tornar mais urgentes
Giselle Martins Venâncio as reflexões sobre tais assuntos. No campo da teoria da história,
14. Interfaces entre a história da educação e a história social e Herman Paul (2014) reconhece duas fortes tendências que dizem
política dos intelectuais: conceitos, questões e apropriações 464 respeito a estas questões e que convergem, segundo o autor, para
Libânia Nacif Xavier uma agenda de pesquisas em termos de "relações com o passado".
São elas "um interesse na história além dos limites da academia
SOBRE os AUTORES 487
INTELECTUAIS M E D I A D O R E S
APRESENTAÇÃO

e um desejo de superar a polarização teórica que caracterizou o funções, produtos e modos de operar—sempre sociais e políticos -, que
campo nas últimas décadas".1 lhe correspondem em diferentes tempos e espaços. Delimitando nosso
Palavras e termos cada vez mais frequentes no vocabulário das enfoque, recortamos práticas de mediação cultural, especificamente
humanidades, de uma maneira geral, também demonstram a bus- desenvolvidas por sujeitos históricos identificados como intelectuais.
ca de conceitos e categorias para compreender as práticas e meios No caso, intelectuais que atuam, exclusiva ou paralelamente, como
comunicativos envolvidos na produção cultural, assim como os mediadores culturais. Assumimos, então, de partida, que em função
respectivos produtos, em particular quando se quer observar sua de nossa escolha estes sujeitos serão aqui nomeados como intelectu-
ocorrência entre sujeitos pertencentes a diferentes matrizes culturais. ais mediadores ou, simplesmente, mediadores culturais, sendo seus
Tal é o caso do uso de alguns conceitos amplamente disseminados diversos tipos de açao, estudados nos diferentes capítulos, designados
na gramática das ciências humanas e sociais, como: negociação, como atividades ou práticas de mediação cultural. Opção, portanto,
circularidade, apropriação, transferências culturais, zona de contato, associada ao recorte teórico-metodológico do livro, que se concentra
recepção, entrelugar e outros. O mesmo ocorre com a retomada de em estudos de caso de práticas de mediação cultural desenvolvidas
conceitos mais antigos, que passam a designar operações culturais por intelectuais. Essa afirmação, aparentemente simples, exige, ao
com novos sentidos, adquiridos ou ampliados por seus usos meta- menos, dois esclarecimentos complexos.
fóricos ou metonímicos, como os de leitura, hibridismo, tradução, O primeiro deles é o de que reconhecemos que as práticas de
mestiçagem e sincretismo. mediação cultural podem ser exercidas por um conjunto diversifi-
Ainda que algumas dessas denominações acabem por se sobrepor cado de atores, cuja presença e importância nas várias sociedades e
parcialmente em seus significados e usos, e que, por vezes, a existência culturas têm grande relevância, porém, nem sempre reconhecimen-
de semelhanças faça com que a opção por uma ou outra seja tomada to. No que diz respeito às relações com o passado, esse é o caso,
apenas por modismo ou "disputa de rótulos", os termos escolhidos por exemplo, dos chamados "guardiões da memória** familiar,
não são neutros nem poderiam ser utilizados como sinónimos em encarnados em pessoas idosas ou em um membro da família que
todas as ocasiões. Muitos, como se verá nos capítulos que se seguem, estabelece como seu objetivo "produzir", de maneira mais ou menos
são utilizados para descrever e analisar práticas singulares, as quais, informal, um arquivo de documentos ou de relatos sobre a história
de um modo ou de outro, inscrevem-se como formas específicas de dessa família. Isso pode ocorrer igualmente em grupos sociais de
mediação cultural.2 várias naturezas, nos quais indivíduos se dedicam a "colacionar"
Este livro tem como objetivo explorar o potencial analítico dessa objetos e a produzir relatos memoriais, escritos ou registrados em
categoria abrangente para a produção historiográfica, por meio de outro suporte, com alguma circulação entre o grupo, além de certa
estudos nos quais é possível vislumbrar a variedade das práticas, permanência no tempo. Outros mediadores culturais podem ser iden-
tificados nos leitores, contadores de histórias, guias de instituições,
pais e outros agentes educadores encarregados da socialização de
1 No original: uan interest in history beyond the academy and a desire to overcome the
theoretical polarization that hás characterized the field in past decades" (Paul 2014). crianças e jovens em diversas situações. Tais mediadores, de enorme
2 A discussão teórica acerca da "mediação" para o estudo das sociedades (no caso chamadas relevância na construção de identidades culturais de indivíduos e
"de massas") vem ganhando destaque no debate académico, em particular nas áreas das
Ciências da Comunicação e dos Estudos Culturais desde o livro Dos Meios às Mediações de comunidades, geralmente não são identificados e não se identificam
Jesus Martín-Barbero (Escosteguy 2001; Dantas 2008; Martin-Barbero 1997). pela categoria de intelectual.
APRESENTAÇÃO
INTELECTUAIS M E D I A D O R E S

O segundo esclarecimento, por conseguinte, remete à questão de dos sujeitos históricos à História, inclusive e com destaque, para o
se procurar delinear o conceito de intelectual com o qual operamos que nos interessa: os intelectuais. A partir daí, não se tratou mais
e, mais especificamente, ainda que de forma ensaística, o que poderia de lidar com os intelectuais como coadjuvantes de uma história das
ser chamado de um intelectual mediador. ideias, abstrata e isolada, alheia às condições de sua produção social
As dificuldades são imensas, a começar pelo próprio conceito de e, como decorrência, das vivências de seus produtores. Também não
intelectual, cuja história demonstra seus contornos sempre fluidos. A têm acolhida abordagens centradas nos talentos individuais desses
literatura sobre o assunto costuma datar o nascimento do intelectual produtores. Estes, quando surgiam, eram concebidos como os "gé-
contemporâneo na França, devido ao surgimento do neologismo no nios" que explicavam as mudanças, ao invés de terem eles que ser
manifesto proposto por Émile Zola, no decurso do Caso Dreyfus, explicados para o melhor entendimento das mudanças culturais e
entre 1898-1899. Então teria se dado a conscientização desses sujeitos sociais. Do mesmo modo, não eram mais personagens de uma história
pela reivindicação de um "poder simbólico e uma identidade coletiva das mentalidades, eminentemente coletiva e serial, que não deixava
sancionados pela aparição de um novo termo" (Charle 2012: 142). espaços para individualidades, até porque elas, teoricamente, eram
Nesse sentido, os intelectuais seriam uma categoria socioprofissional supérfluas, não sendo bem-vindas.
marcada, quer pela vocação científica, no dizer weberiano, ou pela Assim, uma abordagem da história dos intelectuais, que exige
especialização que lhes confere "capital cultural" e "poder simbóli- reflexão sobre a própria categoria em sua historicidade e complexi-
co", nos termos de Bourdieu, quer pelo gosto da polémica, inclusive a dade, está associada ao desenvolvimento do que se tornou conhecido
política. Na acepção mais ampla que aqui consideramos, são homens como história cultural e, afiliada a esta, como "nova" história política
da produção de conhecimentos e comunicação de ideias, direta ou - ambas, não por acaso, com reconhecimento e compartilhamento
indiretamente vinculados à intervenção político-social. Sendo assim, internacional também datados do fim do século XX. Assim, vale
tais sujeitos podem e devem ser tratados como atores estratégicos nas ressaltar que ocorre, de um lado, um "desencantamento" da figura
áreas da cultura e da política que se entrelaçam, não sem tensões, do intelectual como génio, fator explicativo de transformações cultu-
mas com distinções, ainda que historicamente ocupem posição de rais, científicas e artísticas, tratamento que, justifícadamente, gerava
reconhecimento variável na vida social. suspeitas entre historiadores. De outro, aumentam os esforços para a
Contudo, a própria categoria, assim como uma abordagem do construção de novas categorias ou para uma retomada de categorias
"meio intelectual" por ela orientada, tem história e compartilha- com sentidos renovados, que pudessem enriquecer o tratamento dado
mento recentes, que podem ser datados das décadas finais do século a esses sujeitos históricos nomeados como intelectuais. Tais categorias,
XX. Uma das razões desta emergência tardia foram as desconfianças contudo, não podiam ser mais consideradas universalmente válidas
que pairaram - alimentadas pela Escola dos Annales e pelos estru- e, principalmente, não podiam ser reduzidas, anacronicamente, ao
turalismos de diversos tipos - sobre a história política, em especial que se pensa sobre os intelectuais, no momento em que a análise é
a batizada de história do tempo presente. Ambas sob suspeita de realizada pelo historiador ou cientista social.
vários "pecados", como o do individualismo, do subjetivismo, do Nessa direção, diversas contribuições vieram da sociologia, da
elitismo, do presentismo etc. Somente nas décadas de 1980/90, com antropologia, da literatura, além da história. Basta lembrar o conceito
as críticas a tais modelos explicativos macrossociais e deterministas, de habitus de Erwin Panofsky e o de configuração de Norbert Elias,
são abertas novas possibilidades de análise mais propícias ao retorno ambos reinventados por Bourdieu, que a eles agrega o conceito de

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S APRESENTAÇÃO

campo (político, cultural), muito influente e compartilhado, ainda sujeitos. Além disso, ela prioriza as preocupações com as dinâmicas
que polémico e também sujeito a ajustes pelo próprio autor.3 Assim, de produção dos bens culturais, sendo, portanto, fundamental atentar
questões como a das condições de produção político-social de ideias para os fenómenos de sua "mediação". Eles se tornam absolutamente
tornam-se absolutamente relevantes, ao lado da importância das estratégicos, pois, se a história cultural voka-sc para processos socio-
tradições intelectuais, dos paradigmas vigentes em dado contexto culturais de produção e alteração de significados pelos diversos sujeitos
cultural, bem como das linguagens e do vocabulário (científico e históricos, é imprescindível compreender as dinâmicas de circulação,
artístico) disponíveis, além das sensibilidades compartilhadas por comunicação e apropriação dos bens culturais, que, por princípio te-
indivíduos e grupos de intelectuais. O que se deseja destacar, nesse órico, sempre envolvem mudanças em seus sentidos ou, dito de outra
grande movimento, é a centralidade que as variáveis culturais passam forma, naqueles presentes nas intenções de seus produtores.
a assumir para a compreensão do mundo ou da "visão de mundo" dos Tal perspectiva é essencial ao projeto deste livro, pois permite, ao
intelectuais, cada vez mais pensados em articulação com seus pares mesmo tempo, refletir sobre os fenómenos, as atividades, as práticas
e com a sociedade mais ampla. Ou seja, como sujeitos conectados de circulação e de apropriação de bens culturais, o que necessaria-
entre si, com genealogias e passados imaginados, além de em diálogo mente põe em questão a comunicação de seus sentidos, rompendo
com as questões políticas e sociais de seu tempo. com uma dicotomia muito sólida que separa e hierarquiza dois
Com tais categorias e propostas de análise não há como se postu- processos culturais e duas figuras neles envolvidos. O primeiro se
lar que as ideias são "estruturas mentais", que podem ser reificadas, refere ao processo de "criação ou produção" de bens culturais, que
ganhando "vida própria" e tornando-se a-históricas. A figura do remete à figura do intelectual classificado como "produtor original
intelectual, como sujeito pensante e agente, ganha centralidade e con- ou criador", geralmente tratado por autor, artista, inventor, cientista
cretude. Os intelectuais têm um processo de formação e aprendizado, etc. Enfim, um sujeito concebido como responsável pela constituição
sempre atuando em conexão com outros atores sociais e organizações, da chamada cultura erudita, alta cultura, ou também identificado de
intelectuais ou não, e tendo intenções e projetos no entrelaçamento forma coletiva, como integrante de grupos inovadores e movimentos
entre o cultural e o político. Nessa acepção, o conceito de intelectual de vanguarda, que produzem alterações percebidas como bruscas e
é, como todos os conceitos políticos e sociais, fluido e polissêmico profundas no ambiente artístico ou científico, muitas vezes obtendo
(Koselleck 2004). Não obstante, demonstra ser de grande proveito e reconhecimento a posteriori. O segundo envolve os processos de
potencial para a reflexão teórica enquanto categoria de análise, o que acesso e recepção desses bens culturais, por grupos sociais de tama-
fica evidente pelos diversos autores que dele se aproximam a partir nhos os mais variados, sobretudo se considerarmos a diversidade de
de variadas perspectivas. suportes desses bens, que vão da palavra falada e escrita, passam
A despeito das diferenças, pode-se considerar praticamente con- pelos impressos e pelo audiovisual, e chegam aos meios digitais.
sensual entre tais autores que a história cultural se interessa pelas Esses públicos, mais ou menos heterogéneos e segmentados, seriam
operações de apreensão da realidade social, priorizando os sentidos alcançados por outro tipo de figura intelectual, comumente nomeada
assumidos por essa realidade, em função dos pontos de vista de seus como divulgador ou vulgarizador, e percebida como atuante numa
sujeitos históricos, ou seja, das percepções cognitivas e afetivas desses esfera cultural que costuma ser definida em contraposição à primeira:
não é erudita, não é original, não é científica, não é alta cultura e,
Cf. Chartier (1990), cap. III. às vezes, "não é séria".

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S APRESENTAÇÃO

A questão da mediação cultural obviamente não se reduz a essa seus autores, mas igualmente nas práticas de apropriação que envol-
dicotomia, como se poderá perceber pelos estudos contidos neste vem os processos de recepção/consumo pelos públicos. Os seus usos
livro. Entretanto, este é um problema que diz respeito a uma parte criam sentidos que emergem no trânsito dos bens culturais entre
significativa dos trabalhos que abordam a temática - e importa diferentes grupos sociais, através do tempo e do espaço. Em outras
observar que tal classificação dos fenómenos culturais já vem sendo palavras, os significados e valores atribuídos aos bens culturais,
apontada, questionada e rejeitada de várias maneiras e com fortes no marco do conceito de apropriação, podem ser encontrados no
argumentos teóricos. Um deles é o que envolve a própria discussão processo de produção - o qual, vale lembrar, também resulta de
da categoria de público, que tem importantes desdobramentos, já apropriações da parte de seus produtores -, nas "senhas" por eles
que, frequentemente, remete a um público considerado seleto, erudi- inscritas, que devem funcionar como chaves de interpretação, e,
to e iniciado, por um lado, ou a um público popular, não iniciado, finalmente, na sua apropriação pelo receptor "final", sendo assim,
para não dizer inculto, pouco qualificado, por outro. Contudo, tal eminentemente, mutantes e múltiplos.
categoria foi retomada, e não é mais pensada como indicadora de Tal proposta, ao lado de outras, implode qualquer dicotomia
algo preexistente, um público que "está lá", em algum lugar físico ou rígida entre pares opostos, como alta vs. baixa cultura; cultura eru-
social, à espera da mensagem, do produto cultural, para simplesmen- dita vs. cultura popular; cultura séria vs. cultura de entretenimento
te "recebê-lo". O público passa a ser considerado, ele mesmo, uma ou comercial etc. Do mesmo modo, acaba com esquemas analíticos
criação dos processos de produção e circulação de bens culturais. Ou que apostem em ações modernizadoras ou civilizatórias fundadas em
seja, os públicos, nessa acepção, são produzidos pela interpelação dos concepções instrumentais do saber ou do poder transformador de
processos comunicativos, constituindo-se em um dos resultados da um bem cultural, a exemplo do poder atribuído aos livros e ao saber
dinâmica dos mercados (nichos) e dos meios, sejam eles mais estreitos ler e escrever, barreiras internacionais, durante muito tempo, para o
(como o público de pares académicos) ou incontáveis (no caso dos acesso à cidadania política.
usuários da internet). Os estudos de recepção cultural reforçam essa abordagem, ao
No que se refere às dinâmicas que presidem ao deslocamento dos insistir que não há sujeito ou público passivo, e não importa idade,
suportes dos produtos culturais e de seus significados nas sociedades, género, grau de instrução, condições socioeconômicas, acesso à in-
entre grupos e indivíduos, uma das mais importantes contribuições formação etc. Todo leitor, ouvinte, espectador, aluno etc. reeíabora
foi dada pelo conceito de apropriação cultural, presente no traba- os significados dos bens culturais de que se apropria, em função de
lho de Roger Chartier, em amplo diálogo com outros autores. Esse sua experiência de vida, no sentido que esta categoria ganhou com
conceito evidencia que, apesar de os significados dos bens culturais os trabalhos de E. P. Thompson. Toda recepção, como na poesia de
não poderem ser reduzidos às intenções de seus autores/criadores, Oswald de Andrade, é antropofágica. Convergindo com essas refle-
também não é possível ignorar tais intenções, pois elas deixam xões, pode-se adicionar a noção de "brecha", proposta por Michel
marcas nos produtos culturais e devem ser levadas em consideração de Certeau, a qual sugere que, no mesmo movimento em que um
nas análises de história político-cultural, que tenham como foco os sujeito histórico parece aderir a certa mensagem político-cultural,
intelectuais. Sendo assim, o que o conceito de apropriação traz de ele pode estar subvertendo-a de variadas maneiras. Quer dizer, o
mais rico é a ideia de que os sentidos dos bens culturais não estão receptor, nada passivo, é um sujeito que, simultaneamente, pode
unicamente inscritos neles mesmos, nem nos projetos/intenções de aderir e subverter os sentidos de uma mensagem, por estratégias de

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INTELECTUAIS MEDIADORES APRESENTAÇÃO

seleção e usos, dialogando, na maioria das vezes sem saber, com as pobrecedoras das dinâmicas culturais e contrastantes com o muito
intenções dos "criadores". que já se sabe sobre apropriação cultural.
Trazida pela consolidação e compartilhamento de abordagens Trata-se de enfrentar um quase paradoxo. Se os estudos de história
fundadas em categorias como apropriação cultural e recepção ativa cultural defendem que todos os sujeitos históricos são produtores de
por parte de sujeitos, que se constituem em variados públicos, essa sentidos de forma lata (não há receptor/consumidor/leitor/especta-
dissolução de fronteiras trouxe desdobramentos enriquecedores para dor que seja passivo), e havendo, é certo, aqueles identificados como
o tratamento dos bens culturais. Contudo, arriscamos a dizer que intelectuais criadores de bens culturais, por que os mediadores não
não produziu impactos similares para se pensar a questão dos sujeitos estariam incluídos nessa mesma dinâmica de produção de sentido e
históricos responsáveis pela produção e circulação desses bens cultu- de valor? Por que seus esforços, buscando colocar os bens culturais
rais. Nesse caso, continua sendo comum a utilização de dicotomias em contato com grupos sociais mais amplos, formando públicos,
entre autores/criadores/inovadores do saber e divulgadores/difusores/ "criando" novos produtos culturais ou novas formas de comunicação
vulgarizadores, que não só separam os processos culturais correlatos e aproximação de produtos culturais conhecidos, são vistos de forma
como hierarquizam os intelectuais neles envolvidos. É exatamente tão desvalorizada e até negativa?
sobre esse difícil problema que os autores deste livro se propõem a Certamente não é difícil aventar razões para tanto, a começar
refletir. pelas disputas travadas nos meios intelectuais por reconhecimento,
É fácil perceber como a figura do intelectual mediador - pois é autoridade, posições e públicos. Mas acreditamos que é necessário
assim que escolhemos nomeá-lo em geral, para abarcar as demais pesquisar casos específicos e diversos, para se compreender tal con-
designações - pode ser entendida como a de um mero transmissor. tradição. O fato é que, apesar da atividade de mediação cultural ser
Quer dizer, como a de alguém que conduz uma mensagem ou pro- considerada indispensável e incontornável, em qualquer sociedade
duto cultural de um lugar a outro, de um tempo para outro, de um - a educação talvez seja sua melhor expressão -, com frequência o
código cultural para outro, sem nada acrescentar ou transformar intelectual mediador-que a ela dedica tempo, esforços e tem sempre
criativamente. Esse sujeito, no mais das vezes, costuma ser visto como um projeto político-cultural -, sobretudo quando exclusivamente de-
alguém que não agrega valor ao produto cultural em questão. Mais dicado à mediação, não é nem mesmo reconhecido como intelectual,
ainda, é percebido como tendo "apenas" o papel de "simplificar" ou sendo negligenciado nas análises e considerado de valor secundário,
"didatizar" algum conteúdo, informação etc. No caso, ações sempre quando não supérfluo.
tomadas em sentido negativo, retirando, ao invés de contribuir, com Os autores que contribuem para este livro investigam esse tema, em
novos e distintos valores e significados culturais. O próprio termo recortes espaço-temporais distintos, em grupo ou individualmente, há
vulgarizador, originário de vulgus, parcela do populus crescente- bastante tempo. As abordagens são provenientes de diferentes áreas,
mente ameaçadora na moderna sociedade de massas, inscreve no tais como: a história do livro, a história da educação, a história da
vocabulário tal rebaixamento constitutivo da atividade de mediação historiografia, a história das ciências, os estudos biográficos etc. A
cultural. É valioso reter esse ponto, pois, é nosso objetivo começar interlocução entre os colaboradores, e com outros colegas interes-
a trabalhar, através de estudos de caso, com esses processos de me- sados na temática, teve início mais sistemático com um número de
diação cultural e com os agentes nele envolvidos - os mediadores participantes de uma mesa no Congresso Luso-Brasileiro de His-
—, insistindo em não incorrer na retomada dessas dicotomias, em- tória da Educação em 2012; a seguir, em um Simpósio Temático,

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INTELECTUAIS MEDIADORES APRESENTAÇÃO

realizado durante o Simpósio Nacional de História da ANPUH em se dedica à comunicação com públicos externos às comunidades
2013; continuou numa mesa da SHARP, ocorrida no Rio de Janeiro, de experts, tem que aprender a ser mediador. Ele se aperfeiçoa nas
no mesmo ano; e, por fim, em outro Simpósio Temático durante o atividades de mediação e no uso de linguagens e estratégias com
encontro regional da ANPUH-Rio, em 2014. Nesse tempo fomos a sua experiência e com aquela acumulada ao longo do tempo.
amadurecendo nossas questões, até que nasceu a ideia e o plano de Ou seja, ele se torna um profissional especializado em atingir um
organização deste livro. O convite das organizadoras foi dirigido a público não especializado. Esse é o caso dos intelectuais tratados
um conjunto de colegas, alguns podendo aceitar, outros não. Em um nos capítulos "A vulgarização científica nas obras de Louis Figuier
primeiro momento, solicitamos o envio de propostas dos textos; em e suas traduções no Brasil", de Kaori Kodama; "A Livraria Garnier
seguida, reunimos versões preliminares dos capítulos, que circularam e a tradução e edição de livros para a infância (1890-1920)", de
previamente e foram apresentados em um workshop, "Intelectuais Patricia Tavares Raffaini; "Aventuras e desventuras de uma autora
Mediadores: práticas culturais e ação política", realizado na Univer- e editora portuguesa: Ana de Castro Osório e suas viagens junto
sidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em agosto de ao público luso-brasileiro", de Angela de Castro Gomes; "Mestres
2014. Nele, todos os colaboradores tiveram a oportunidade de com- das primeiras letras como mediadores culturais: escolas rurais e
partilhar e debater, com os demais, seus textos cm primeira versão, o usos da escrita em povoados indígenas do México no século XIX",
que se constituiu em experiência muito enriquecedora. Por fim, após de Gabriela Pellegrino Soares e, de maneira menos óbvia, "De
revisões e acréscimos, apoiados nas sugestões e questões colocadas Tibicuera a Floriano Cambará: as mediações de Eriço Veríssimo
durante o workshop, os capítulos em versão final foram enviados às (1930 a 1960)", de Mara Cristina Rodrigues.
organizadoras para a montagem deste volume. Contudo, esse tipo de prática com a qual mais frequentemente são
Talvez um dos ganhos deste trabalho conjunto não pareça assim associados os intelectuais mediadores, não esgota outras formas/ativi-
tão surpreendente, considerando aquilo que a bibliografia discutida dades de mediação cultural. Praticam-se ações de mediação também
anteriormente já propôs como reflexão teórica ou corno resultado de em trocas ou "transferências" intelectuais diversas, mais ou menos
investigações sobre objetos específicos, realizadas em outros contex- simétricas, entre círculos académicos de diferentes regiões e países.
tos. Entretanto, consideramos relevante que, a partir de um conjunto Nesses casos, nem sempre o intelectual mediador aparece de forma
tão diversificado de casos analisados por diferentes ângulos, como são evidente ou como responsável direto por um bem cultural, com crédito
os que constituem os capítulos a seguir, seja possível demonstrar que público ao seu nome, ainda que um exemplo desse tipo de mediação/
o intelectual que atua como mediador cultural produz, ele mesmo, interlocução pudesse ser dado pela tradução de textos políticos ou
novos significados, ao se apropriar de textos, ideias, saberes e conhe- científicos. Mas, como se poderá constatar pelos estudos aqui apre-
cimentos, que são reconhecidos como preexistentes. Com esses outros sentados, esse intelectual muitas vezes ocupa um cargo estratégico
sentidos inscritos em sua produção, aquilo que o intelectual "mediou" numa instituição cultural, pública ou privada, numa associação ou
torna-se, efetivamente, "outro produto": um bem cultural singular. organização política, ou atua desde um lugar privilegiado numa rede
Ou seja, o intelectual mediador, neste aspecto específico da de sociabilidades, de onde protagoniza projetos de mediação cultu-
produção e atribuição de sentidos aos bens e práticas resultantes de ral de enormes impactos políticos. Exemplos desse tipo de intelectual
sua atividade, não se distingue do intelectual "criador". Podemos mediador aparecem nos textos, "Ramiz Galvão e o projeto de uma
pensar, inclusive, como o mediador cultural, em especial aquele que biblioteca nacional", de Ana Paula Sampaio Caldeira; "Circuitos da

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S APRESENTAÇÃO

mediação intelectual no Brasil e na Argentina: literaturas nacionais da educação e a história social e política dos intelectuais: conceitos,
e trocas culturais transnacionais", de Eliana Dutra; e "A Ordem questões e apropriações", de Libânia Nacif Xavier.
Nova de Marcello Caetano: uma revista do integralismo lusitano na Obviamente, o destaque dado aos intelectuais mediadores a
crise da Primeira República Portuguesa (1925-1926)", de Francisco partir do compartilhamento de características comuns e/ou de seu
Palomanes Martinho. envolvimento com certos tipos de atividade de mediação cultural não
Outro grupo, ainda, compartilha características com os dois an- objetiva sugerir a criação de uma classificação, pois, não esgota as
teriormente descritos, por usufruir de posições/lugares estratégicos, práticas intelectuais a que os mesmos indivíduos possam se dedicar
talvez com uma relação menos "umbilical15 com os projetos mais e, muito menos, abrange todas as formas de mediação cultural ex-
circunstanciais, em relação aos quais são estudados aqui. Não casu- perimentadas por intelectuais. Além disso, os aspectos nos quais se
almente, eles se tornam responsáveis por edições, coleções, autoria baseia o enquadramento apresentado não permitem estabelecer fron-
de prefácios, comemoração de efemérides, entre outros produtos teiras rígidas e simplificadoras. Trata-se apenas do reconhecimento
culturais dessa natureza, que podem ser dirigidos a públicos mais incipiente das possibilidades de aplicação da categoria analítica que
intelectualizados ou não. Esses sujeitos estão representados nos ca- aqui privilegiamos para um universo de objetos de investigação muito
pítulos "Editoração, sociabilidades intelectuais e mediação cultural; mais heterogéneo e complexo.
a ação dos prefaciadores na publicação das obras completas de Rui Os conjuntos citados também não coincidem totalmente com a
Barbosa (1939-1949)", de Luciano Mendes de Faria Filho; e em "A distribuição dos capítulos no livro, que obedece a outro critério.
defesa nacional de Olavo Bilac, entre o patriotismo cívico republicano Ele se divide em três partes: "Trajetórias e Projetos"; "Lugares e
dos anos 1910 e o autoritarismo militar dos anos 1960", de Patricia Mídias"; e "Leituras e Ressonâncias". A lógica de organização
Hansen. Eles se dedicam às práticas de mediação cultural entre dife- dos capítulos procurou distinguir a maior ênfase conferida pelos
rentes tempos, entre os intelectuais/autores e suas ideias - nos casos autores a estes aspectos no tratamento de seus temas, ainda que,
aqui estudados coincidentemente contemporâneos no passado -, e o na maioria das vezes, as abordagens atravessem esses limites. Daí
tempo presente das respectivas práticas de mediação empreendidas. reforçarmos o critério da "ênfase" e assumirmos que os textos
O último conjunto de capítulos tem como especificidade lidar com incluídos numa parte dialogam muito bem com os de outra, con-
intelectuais mediadores que dirigiram suas ações para a formação de forme o gosto do leitor.
profissionais em sua própria área de especialidade, objetivando dis- Consideramos, então, que os intelectuais mediadores podem ser
seminar práticas e saberes que seriam responsáveis por circunscrever tanto aqueles que se dirigem a um público de pares, mais ou menos
campos disciplinares e conferir uma identidade a seus membros. Esses iniciado, como a um público não especializado, composto por amplas
tipos de mediação são analisados nos textos: "Orbelino Geraldes parcelas da sociedade. Dessa forma, podem ser os que se dedicam
Ferreira e a escola ativa: tradição pedagógica e prescrição didática a um público de corte determinado como o escolar, o feminino, os
no Portugal de meados do século XX", de Joaquim Pintassilgo; sócios ou membros de uma organização ou comunidade étnica, pro-
"Universidade do Ar: Jonathas Serrano e a formação dos professores fissional, por exemplo; ou a um público abrangente e heterogéneo,
de história pátria pelas ondas do rádio", de Giovane José da Silva; como o de um periódico de grande circulação- Em muitos casos
"Prefigurações da paisagem historiográfica: revistas, coleções e me- o intelectual mediador necessita de um grande empenho para se
diação", de Giselle Martins Venâncio; e "Interfaces entre a história especializar em escrever/falar/fazer/gerir/organizar livros e revistas,

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S APRESENTAÇÃO

instituições culturais, programas de rádio e televisão, cinema, ex- entre outros, concentravam as atenções dos mediadores culturais.
posições, livros infantis etc. A partir das primeiras décadas do século XX, o som e a imagem
Essa maneira de entender e trabalhar com os intelectuais mediado- avançam e revolucionam os processos comunicativos, especialmen-
res traz implicações. Uma delas é atentar que ele pode perfeitamente te através da fotografia, do rádio e do cinema. O texto impresso
acumular diversas funções e posições ao longo de sua trajetória pro- passa então a dividir espaço e a dialogar com esses novos meios
fissional. Isto é, uma pessoa pode ser, ao mesmo tempo, um cientista audiovisuais, que são considerados instrumentos decisivos para um
renomado e a figura principal de uma série de TV sobre o tema de maior alcance de público, inclusive, um público que não dominasse
suas pesquisas, que, assim, podem ser divulgadas para um amplo pú- o saber ler e escrever. São conhecidas, internacionalmente, as espe-
blico. Isso aumentaria o conhecimento das pessoas sobre a matéria e ranças depositadas nessas mídias, que passam a ser identificadas
estas poriam em prática cuidados com a saúde, a alimentação, o meio como tendo imenso poder transformador, como já ocorrera com o
ambiente etc. Do mesmo modo, um autor de livros académicos pode livro e os periódicos.
se dedicar a escrever livros de divulgação cultural ou livros escolares/ Do mesmo modo, são conhecidas as desconfianças e mesmo o
didáticos, que não deixam a dever ao rigor de sua ciência, assumindo temor que despertam entre setores intelectuais, temerosos que tecno-
somente outros suportes e linguagens, por se dirigirem a outros lei- logias que permitam amplo acesso ao produto cultural pudessem
tores. Quer dizer, diferentes intenções e públicos produzem outros descaracterizá-lo, banalizá-lo. Por isso, não foi incomum que, de
tipos de bem cultural. O que se quer sublinhar com tais exemplos é um lado, intelectuais saudassem a propaganda de livros, o cinema,
que um mesmo intelectual pode ser "criador" e "mediador"; pode ser o rádio, as revistas em quadrinhos etc., enquanto outros alertassem
só "criador" ou só "mediador"; ou pode ser "mediador" em mais de para os perigos da "comercialização" da cultura, que representaria
um tipo de atividade de mediação cultural, sendo seu valor conferido sua perda de "qualidade". Após a Segunda Guerra Mundial, assiste-se
pelo reconhecimento de seu trabalho, quer pelo público, quer pelo a uma nova grande transformação com o aparecimento da televisão
próprio campo intelectual com o qual dialoga. Essas opções não e, décadas depois, das mídias digitais, principalmente com o advento
devem ser consideradas posições fixas, do mesmo modo que não há da internet, a "rede das redes". As alterações nas dinâmicas comuni-
identidades profissionais ou pessoais fixas e imutáveis. cativas trazidas pela internet são profundas, o que absolutamente não
A figura do mediador cultural é, assim, desafiadora, não só significa o desaparecimento das mídias anteriores. Porém, a mediação
por questões teóricas constitutivas de sua atividade intelectual, cultural é mais uma vez impactada e desafiada a trabalhar com essas
como igualmente pelas numerosas possibilidades de funções que novas tecnologias, que alcançam e mobilizam um público incontável
pode exercer ao mesmo tempo e através do tempo. Isso porque a e tornam-se linguagem incontornável para crianças e jovens.
"profissionalização ou especialização" de um mediador pode estar Tais mudanças e inovações nos vetores culturais impactam o mun-
relacionada a variáveis culturais e econômico-sociais muito visíveis, do intelectual como um todo, mas têm efeitos específicos sobre as
como as mudanças das tecnologias disponíveis para o exercício da práticas culturais e os projetos políticos de mediação cultural. Porém,
comunicação social mais alargada, para citar um exemplo. Quando retomando o que já observamos, estudos sobre mediação e mediadores
os mais importantes vetores culturais da mediação eram os im- culturais ainda não são tão presentes na reflexão historiográfica. Por
pressos, quando a imprensa era o meio técnico mais avançado, os isso, consideramos interessante percorrer brevemente, mesmo com os
livros, jornais, revistas, manuais escolares e livros infantojuvenis, riscos decorrentes de se apresentar um panorama demasiadamente

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superficial, algumas das contribuições com as quais dialogamos, e lectuais, e atentando sempre para sua dupla face cultural e política.
alguns conceitos utilizados nos capítulos deste livro. O estudo de trajetórias, individuais ou coletivas, não se faz sem a
Entre tais contribuições avultam aquelas que se desenvolveram no articulação às redes e lugares, cuja construção e ação devem ser
Instituí d'Histoire du Temps Présent (IHTP), de Paris, a partir dos analisadas para a compreensão das intenções e ações desses atores.
anos 1980/90, mais especificamente a chamada história dos intelec- Do mesmo modo, não se faz sem referência à geração uma segunda
tuais. Entre esses autores estão: Jean François Sirinelli, Jean Pierre categoria fundamental à história dos intelectuais, que se caracteriza
Rioux, Michcl Trebitsch, entre outros. Com a proposta de realizar uma não como um "grupo de idade", mas principalmente como um grupo
história cultural e política, centrada na agência de sujeitos dedicados de formação, em que vivências comuns de acontecimentos ou de cri-
à produção e difusão de bens simbólicos, o IHTP consagrou uma ses (não só políticos) marcam esses intelectuais, independentemente
abordagem histórica que identifica esses atores como pertencentes a de seu conhecimento interpessoal. Ainda segundo essa abordagem,
um "meio intelectual" que se conforma por "redes e lugares", onde "períodos de tranquilidade" também podem dar origem a gerações,
se constróem práticas relacionais específicas, que dão abrigo às ideias nesse caso, na maioria das vezes, mobilizadas pela ânsia por mudanças
e valores. Ou seja, os intelectuais, como atores político-sociais, são culturais. Vale sublinhar, no entanto, que as gerações, assim como
analisados a partir de uma categoria central para tal abordagem que as tradições, não são postuladas como chaves explicativas de grupos
é a de sociabilidade intelectual.4 A sociabilidade intelectual é enten- intelectuais, mas ao contrário, como fatores que devem ser identifi-
dida como uma prática constitutiva de grupos de intelectuais, que cados e analisados para melhor compreensão das sociabilidades de
definem seus objetivos (culturais e políticos) e formas associativas - grupos. Ou seja, elas não explicam; elas devem ser explicadas, para
muito variáveis e podendo ser mais ou menos institucionalizadas -, que a dinâmica organizacional e os "microclimas" intelectuais dos
para atuar no interior de uma sociedade mais ampla. Nessas redes grupos sejam apreendidos pelo historiador.
e lugares dominam tanto dinâmicas organizacionais, que conferem Nesse aspecto, é inevitável remeter à aproximação com o concei-
estrutura ao grupo e posições aos que dele participam; como o com- to de campo, tal como proposto por Bourdieu e, ao mesmo tempo,
partilhamento de sentimentos, sensibilidades e valores, que podem frisar a distinção que é buscada por autores que seguem esse tipo
produzir solidariedades, mas igualmente competição. de abordagem.5 Os próprios autores que postulam esse tratamento
Nessa abordagem, os intelectuais estão sempre imersos nas so- reconhecem que cie possui uma dimensão "arqueológica", presente
ciabilidades que os situam, inspiram, demarcam e deslocam através nas tradições e solidariedades de "origem" do indivíduo/grupo; uma
do tempo/espaço. Justo por isso, a proposta de se fazer uma história dimensão "genealógica", evidente na centralidade da categoria de
dos intelectuais incorpora outras duas categorias fundamentais. A geração, tal como é ressignificada, ou seja, minimizando a variável
primeira é a de trajetória intelectual, em que o percurso profissional idade; e, por fim, uma dimensão "geográfica", que aparece no ma-
dó intelectual é acompanhado tendo em particular consideração os peamento dos lugares e redes de sociabilidade. Nessa conformação,
vínculos que estabelece com matrizes, tradições e genealogias inte- no conceito de campo avultam as estratégias e lutas por posições, em
deslocamentos que se fazem "dentro" de um campo de batalha. Não
se trata, porém, de negar tais disputas, que certamente ocorrem. Mas
4 Exemplar dessa proposta é Lês Cahiers de L'IHTP, n° 20, mars 1992, "Sociabilites inte-
lectuelles: lieux, milieux et réseaux", dirigido por Nicole Racine e Michel Trebitsch, Centre
National de La Rechcrche Scientifíque. 5 Trebitsch (1992), entre outros.

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a tentativa, ao se privilegiar as categorias de meios (milieux), redes estar encarnados no mesmo indivíduo, embora isso possa, também,
(réseaux) e lugares (lieux) intelectuais, é destacar uma perspectiva muitas vezes não acontecer. O que é possível distinguir, portanto, são
histórica que acompanhe a formação e transformação dessas formas as práticas culturais e os projetos políticos com os quais um intelec-
associativas e, com destaque, os usos que os intelectuais delas fazem, tual (individualmente ou em grupo) atua em determinado contexto,
e que podem ser múltiplos e variáveis. Se tal cuidado teve resultados constantemente de forma múltipla. Há risco, porém, nas apropriações
efetivos na utilização que a historiografia internacional fez desses dessas denominações que, utilizadas como formas de "rotular" os
conceitos é algo difícil de avaliar, sobretudo porque o próprio conceito intelectuais como criadores/autores ou mediadores/divulgadores, não
de campo, bem como o de habitus, foi reelaborado por Bourdieu, aprofundam uma discussão sobre elas e, facilmente, implicam juízos
adquirindo maior flexibilidade, digamos, e menos rigidez cartográfica. de valor ou hierarquias, que podem replicar disputas vivenciadas pelos
Tais (re)formulações tornaram possível uma série de apropriações, próprios intelectuais, buscando defender posições já estabelecidas
combinando, por exemplo, o conceito de campo cultural e o de redes e/ou resistindo às ameaças de "rebaixamento", que visualizam no
de sociabilidade intelectual. "mercado", nas inovações tecnológicas etc.
Nessa abordagem, dois aspectos são particularmente valiosos para Essa ressalva é necessária, na medida em que a história dos intelec-
serem ressaltados no que diz respeito à questão teórica da mediação tuais que atuam como mediadores culturais demonstra o menor valor
cultural. O primeiro deles é a contribuição trazida pelo entendimento que tanto pares quanto eles próprios, sobretudo no caso daqueles que
de como os intelectuais podem ser definidos. Como sujeitos históri- também produzem bens simbólicos de alcance mais restrito, atribuem
cos, que se envolvem na produção cultural de bens simbólicos, reco- aos produtos da atividade de mediação. Porém, o que pretendemos
nhecidos por comunidades de pares como inovadores, constituindo demonstrar é que nem mesmo o intelectual mais especializado em
um "pequeno mundo intelectual". Logo, um conjunto mais restrito atividades de mediação cultural ou a elas exclusivamente devotado
que pode ser considerado uma elite intelectual. Mas também, numa tem, por definição, menor valor político e cultural. Isso porque en-
acepção mais ampla e numerosa, estariam os intelectuais mediadores, tendemos que esse valor político e cultural, possuindo historicidade,
cuja atenção primordial se volta para práticas culturais de difusão pode e deve ser compreendido como decorrente de muitas variáveis,
e transmissão, ou seja, práticas que fazem "circular" os produtos incluindo diferentes tipos de poder, que vão desde a autoridade da
culturais em grupos sociais mais amplos e não especializados. Tais opinião especializada e institucionalizada, à disseminação de repre-
intelectuais seriam aqueles voltados para a construção de representa- sentações atuantes sobre o senso comum.
ções que têm grande impacto numa sociedade, sendo estratégicos para A segunda contribuição, que pode ser ilustrada por trabalhos
se entender como uma série de novos sentidos são gestados a partir como o de Espagne (1999), de Bénat-Tachot e Gruzynski (2001),
da recepção dos bens culturais; de como tais bens transitam entre é devedora dessa concepção de intelectuais, mas se beneficia, em
grupos sociais variados; de como a esfera da cultura se comunica, especial, da categoria de geração, para enfatizar a centralidade dos
efetivamente, com a esfera social. processos de "transmissão ou transferência cultural". Um primeiro
Essa abordagem, de fato, faz distinções analíticas entre os sujeitos aspecto a merecer destaque é o fato de esta mediação cultural se fazer
históricos identificados como pertencentes ao "meio intelectual", mas, também no interior desse "pequeno mundo", isto é, entre os próprios
a princípio não os hierarquiza, nem estabelece fronteiras rígidas entre intelectuais (vivos ou mortos). Dito em outras palavras, há práticas
eles. O intelectual "criador" e o "mediador" podem muitas vezes de mediação cultural que se exercem para intelectuais "autores",

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INTELECTUAIS MEDIADORES APRESENTAÇÃO

por intelectuais "autores/mediadores", vínculando-os, positiva ou Charle - como passeurs, uma palavra cuja tradução em português
negativamente, a legados ou heranças, que são assim reforçados não é fácil. Os passeurs correspondem, em sentido forte, ao que
por adesão ou rejeição, através do debate académico. Um segundo estamos chamando de mediadores culturais.
aspecto é que essa "transmissão cultural** envolve, por excelência, Charle é muito rápido nas reflexões teóricas sobre o que são esses
intenções e projetos políticos de intelectuais que objetivam o es- homens duplos (1992: 73). Uma das poucas considerações que faz
praiamento das ideias e valores que defendem, pela sociedade mais visa distingui-los do que chama de intermediários culturais. Segundo
ampla. Dessa forma, suas propostas podem ser compartilhadas, seu argumento os "intermediários" diferem dos "homens duplos",
consolidadas e "enquadradas" em memórias coletivas, no sentido na medida em que só seriam reconhecidos pelos sujeitos pertencen-
que os "processos de enquadramento da memória" ganham nas tes a um dos níveis culturais considerados, os quais, mesmo sem
reflexões de Michael Pollak (1989). Esse ponto é valioso por rela- explicitação, podem ser identificados como sendo o da cultura "alta/
cionar claramente práticas de mediação cultural e construção de erudita" (etc.), e o da cultura "baixa/popular" (etc.). Enquanto os
memórias de grupos sociais e comunidades, inclusive nacionais, homens duplos se reconhecem e são reconhecidos como "homens
incidindo fortemente em processos de construção de identidades. de cultura", pertencentes a esses dois níveis, os "intermediários" só
Daí o particular interesse de muitos mediadores na elaboração de seriam reconhecidos por um deles, justamente aquele com o qual
produtos culturais que atinjam públicos mais jovens - os "cidadãos mantêm contato. Isto é, os "intermediários" são "homens de cultura"
do futuro" -j por via da instituição escolar ou não, e que reforcem no nível da difusão e transmissão cultural, constituindo um estrato
narrativas identitárias, as quais contribuem para a formação de diferenciado dos "homens duplos". Estes sustentam sua identidade de
culturas políticas que defendam valores por eles acreditados. "homens de cultura", quer no nível "mais alto", da criação de bens
Embora o elenco não seja numeroso, há outros importantes culturais, quer como transmissores culturais, um nível que, segundo
autores cuja produção, datada principalmente da década de 1990, a construção da reflexão, está sendo concebido como "mais baixo"
enriquece as reflexões sobre intelectuais e mediação cultural. É o e apropriado aos "intermediários".
caso de Christophe Charle e de sua proposta de utilização do conceito Portanto, em nossa leitura, se Charle chama de passeurs aos "ho-
de homens duplos. Para o autor, o enfrentamento do problema dos mens duplos" e aos "intermediários culturais", estes últimos não têm
mediadores é uma questão de maturidade para a história cultural, o mesmo status dentro desse conjunto, que fica, assim, hierarquiza-
não sendo casual o diagnóstico de ser esse um nível de análise muito do. Ou seja, há quem seja mais passeur que outros. Há aqueles que
negligenciado (Charle 1992: 73-85). Contudo, a própria designação sempre são reconhecidos como "homens de cultura", e há os que só
* homens duplos - traz uma ambiguidade que lhe é constitutiva, ou mantêm tal identidade em um nível cultural "menos nobre", digamos
seja, não deve encontrar solução. Isso ocorre, pois, para Charle, os assim. Uma caracterização que as formulações de praticantes da
homens duplos são aqueles que pertencem, ao mesmo tempo, a dois história dos intelectuais quer recusar, afirmando que os mediadores
níveis culturais frequentemente analisados como separados. Por culturais são intelectuais cujas práticas culturais e projetos políticos
isso, eles são pensados como "pontes", estabelecendo uma ligação têm especificidades, mas não menos valor. Perspectiva, aliás, que,
entre tais níveis: servindo como "meio de passagem". Em outras vale lembrar, é coerente com os esquemas classificatórios da antro-
palavras, "conectando" efetivamente esses níveis, sem lhes tirar as pologia cultural, nos quais a diversidade e a diferença não implicam
especificidades. Por isso, são também nomeados - não somente por em desigualdade de valor.

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Para além desse aspecto, o texto de Charle é ainda muito estimulan- isto é, ele permite que esses intelectuais conheçam aquilo que é mais
te para se pensarem as relações entre inovações técnicas, aparecimento ou menos aceitável e apreciável, em determinado momento e lugar,
de instituições (como a escola) e de vetores culturais (impressos, rádio, por amplas parcelas da sociedade. Assim, ele estaria representando
TV, meios digitais), de um lado; e as possibilidades de práticas de essa sociedade para meios culturais mais restritos e elitistas (de "alta
mediação cultural, criando novas especialidades e profissões, de outro. cultura"), por definição. Nesse sentido, estamos diante de uma abor-
Esses processos são muito dinâmicos, de tal modo que, quanto mais dagem que enfrenta a questão da recepção, privilegiando a análise
as sociedades se mediatizam, mais a figura dos mediadores ocupa a dos agentes e dos mecanismos que propiciam a existência de relações
cena político-social. Em alguns casos, lembra o autor, os mediadores entre grupos sociais distintos, por meio de novas formas culturais.
ganham tal visibilidade que são vistos, eles mesmos, como os "ver- Uma reflexão que pode ser operacional, sobretudo quando algumas
dadeiros" inovadores culturais. Posição que, de fato, podem ocupar, práticas de mediação cultural são colocadas em tela, o que avança em
já que, como se disse, um intelectual pode ser autor e divulgador de quantidade e qualidade, a partir do século XIX, assumindo feições
um bem cultural. Porém, ele pode não acumular essas funções, o que insuspeitas desde meados do XX.
não o minimiza, apenas o qualifica, mas pode, em muitos casos, o Em outros termos, também bastante estimulantes, o recurso à
incomodar, o que certamente não é casual. categoria de passeurs é feito por autores que observam dinâmicas
Um último aspecto contemplado no texto de Charle, para o qual de transferências culturais, embora enfocando "transferências" que
chamamos atenção, é bastante interessante e diz respeito à forma ocorrem entre espaços politicamente delimitados. Tal é a proposta
de compreensão do papel político-social do mediador. O autor su- de Michel Espagne (1999) e de Serge Gruzinski6, já referidos. Nes-
gere que suas práticas sejam interpretadas por meio da categoria de ses casos a problematização é posta em relação aos modos como se
representação política, a nosso ver, não abandonando o seu sentido operam os "contatos" e "misturas" entre elementos de culturas dis-
simbólico nem a sua dimensão descritiva. Ou seja, o representan- tintas. Trata-se de identificar os complexos fenómenos que resultam
te político tem a função, como em todo processo de representar, de processos identificados como noção polissêmica e "mestiçagem"
de tornar presente o ausente. Na política, trata-se de apresentar - carregada de sentidos negativos.
publicamente uma coisa, uma pessoa ou um grupo (dos associados Embora com um recorte muito diferente, há nestes trabalhos uma
de uma instituição até o povo de uma nação), tornando-o visível e interessante convergência com o tipo de questões que este livro en-
compreensível para uma audiência/público. A representação política frenta, em especial a preocupação em como entender os mecanismos
torna operacional a expressão e ação de sujeitos históricos que, de e identificar os agentes responsáveis pelas "pontes e passagens", que
outra forma, teriam muitas dificuldades para se fazer ver, ouvir, fa- se estabelecem entre diferentes códigos culturais. É com essa finali-
lar. Para Charle, o mediador seria ele mesmo um tipo específico de dade que Espagne e Gruzinski se utilizam da categoria de passeurs,
representante político e, ainda por isso, um "homem duplo". Nessa afirmando que eles podem ser individuais e coletivos, desenvolvendo
posição, ele divulga para o público novas tendências e descobertas práticas culturais que abarquem desde o contexto da experiência
da arte e da ciência, por exemplo. Quer dizer, ele representa, por
meio de sua ação mediadora, a "alta cultura" para a sociedade mais
é Há vários trabalhos desse autor que poderiam ser citados. Escolhemos o livro: Bénat-
ampla. Ao mesmo tempo, para os "produtores/criadores/autores", -Tachot, Louise e Gruzinski, Serge. Passeurs culturels: mécanismes de métissasge, Presses
ele acompanha, registra e indica os gostos e interesses do público; Universitaires De Marne-La-Vallé, 2001, Avant-Propos e Introduction.
INTELECTUAIS MEDIADORES APRESENTAÇÃO

colonial do Novo Mundo americano, até os momentos em que im- complexos, assentados nas ideias de seleção e escolha cuidadosas;
peram as mídias audiovisuais e digitais da virada do século XX para de uma depuração que torna precisos os sentidos mais importantes
o XXI. Dessa forma, os passeurs ou mediadores culturais, como os daquilo que se deseja comunicar, o que demanda competências e
estamos chamando, têm existência em espaços e temporalidades muito vivências específicas e especializadas.
variadas, atuando por meio de práticas e projetos políticos variados, Para aqueles que trabalham, como neste livro, com diversas prá-
em temas igualmente variados. ticas e projetos de mediação político-cultural, o que implica, neces-
Além dessa referência para pensar a figura do mediador, as abor- sariamente, em lidar com diversos tipos de mediadores através do
dagens centradas nos processos de transferências culturais contribuem tempo, esse é um valioso estímulo para pensar. Os mediadores, sejam
com pelo menos duas outras propostas interpretativas de enorme indivíduos ou grupos, estão integrados em redes que se constituem
valia. Uma delas é justamente a que busca romper dicotomias, neste em espaços propícios ao surgimento de novas maneiras de pensar
caso, aquelas presentes entre os poios que estão sendo aproximados. e sentir. Assim, se a categoria de vanguarda tem um forte vínculo
Nos exemplos comentados, porque se está tratando de trocas entre com a inovação, na lógica da interpretação que aqui defendemos, a
nações, estão as línguas, os costumes etc., que só teriam sentido categoria de mediação, ao "inventar" um produto híbrido, resultado
quando remetidos a uma base cultural comum. Ora, para esses au- dos processos de trocas culturais, também produz algo novo, que
tores, as operações de transferência ou mediação cultural, ao fazerem igualmente traz impactos político-sociais. Porém, enquanto a ação
comunicar entre si esses poios, estão "misturando ou mestiçando" da vanguarda quer produzir uma ruptura com paradigmas (estéticos,
seus elementos e sentidos e, de tal maneira, criando novos sentidos científicos etc.), provocando, com frequência, estranhamento, surpresa
integrantes de um terceiro produto/código cultural, que não é mais e até indignação - o que resulta na necessidade de um tempo de apren-
nenhum daqueles outros dois. O grande poder da transferência, dizagem por parte do público -, para a compreensão e apreciação do
passagem ou mediação cultural é precisamente o de criar algo novo, novo produto cultural, os caminhos da "inovação" mediadora são
"intercultural"; quer dizer, algo que se comunica com mais de um outros. Isso ocorre porque eles resultam dos objetivos políticos que
espaço ou grupo sociocultural, sendo um "terceiro elemento". orientam as práticas mediadoras, distantes da experimentação van-
Devido a esse poder de criação, vários estudiosos consideram que guardista, já que orientados pelo estabelecimento de "comunidades
os passeurs em suas estratégias interpretativas realizam deslocamentos de sentidos" entre códigos culturais.
semânticos, desestabilizando sentidos consolidados e demonstrando Talvez, para usar um termo do vocabulário weberiano, seja possível
que as fronteiras culturais não são um limite fixo, rígido e claro. O pensar no mediador como um agente que produz a "rotinização" de
mediador, nessa perspectiva, é o criador de algo híbrido, mas não no significados de bens culturais. Tal atividade tem como premissa, mui-
sentido negativo (desorganizador, impreciso, até impuro). Muito ao tas vezes, fazer com que seus produtos sejam "recebidos/consumidos"
contrário, esse produto "misturado", percebido como aquele capaz em larga escala, utilizando para isso suportes de grande circulação
de estabelecer uma comunicação com novos públicos, apresentar (nos quais se misturam com anúncios publicitários), tudo variando
uma complexidade que não deve ser minimizada ou banalizada. ao longo do tempo/espaço. O sucesso de público desses bens cultu-
Além disso, o trabalho do mediador, mesmo quando entendido como rais, vistos com suspeita pela "alta cultura", é parte integrante de
"simplificação/didatização" de códigos, linguagens e conhecimen- seus objetivos e especificidades. Mas é compreensível essa suspeição,
tos, nada tem de fácil. O simples adquire uma gama de significados aliás, muito compartilhada. Ela é uma pista e um indicador de como

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o mundo intelectual "estranha" e, por isso, hierarquiza as práticas de século de "contundente" crítica teatral (O Globo, Segundo Caderno
mediação. Desse ponto de vista, elas são classificadas como trabalhos 2015:1-3). Saudada como um património das artes cénicas, ela não
menores, desde sua origem, contaminada pela possível, senão inevi- era atriz, definindo-se como uma amante do teatro que queria levá-lo
tável, sobreposição de interesses mercadológicos. Nessa apreciação ao público, quer pela leitura de peças (inclusive pela tradução), quer
classificatória, tais produtos guardam sempre conotações negativas, pela crítica na imprensa de espetáculos a que assistia. Ela mesma se
pois visariam apenas agradar ao gosto de um público, geralmente dizia uma espectadora, que gostava de teatro. Sua morte foi consi-
entendido como "inculto", pertencente a uma maioria ou "massa", derada a morte de uma geração de homens e mulheres que faziam e
por premissa próxima do "mau gosto" e da ciência "deturpada, fal- viviam do e pelo teatro; como o fim simbólico de um tempo do teatro
sificada". Daí ser comum a associação entre baixa qualidade de um brasileiro, que vivia em sua imponente figura de mediadora cultural.
produto cultural e seu grande sucesso comercial, sobretudo se seu Respeitada, sua crítica era ansiada e temida, o que evidencia o imenso
público pertencer às camadas menos favorecidas ou escolarizadas, poder que um mediador cultural pode angariar.
o que é traduzido por expressões como produto de entretenimento, É com atenção a esta complexidade que os intelectuais mediado-
popular, industrial, massificado etc., e não "verdadeiramente" cul- res e suas práticas são tratados neste livro, sem desvalorizações ou
tural, científico ou artístico. hierarquizações provenientes de preconceitos que possam persistir no
Um dos desafios deste livro, por meio de seus estudos de caso, é senso comum ou no ambiente académico em relação a tais objetos
questionar essas percepções que, se nascem no "pequeno mundo in- de estudo. Nosso objetivo, ao enfocar as relações entre intelectuais e
telectual" dos "criadores" de bens simbólicos, desejosos de distinção mediação cultural, é contribuir para o alargamento dos limites que
em face do alargamento da categoria de intelectual com a presença costumam circunscrever as reflexões sobre a categoria intelectual,
dos mediadores, são ainda muito compartilhadas. além de desenvolver e testar as potencialidades das categorias de
Entre os mediadores, alguns, em especial, dão a ver o tipo de cone- intelectual mediador e de mediação cultural para a historiografia, ao
xão de que se encarregam. Em geral, são aqueles que têm ocupações serem confrontadas com diferentes problemas e fontes de pesquisa.
profissionais muito emblemáticas de formas de mediação cultural que, Agradecemos aos autores a riqueza de suas reflexões e aos colegas in-
em alguns casos, podem chegar a assumir sentido metonímico. Os terlocutores que participaram dos encontros que deram origem a este
tradutores, por exemplo, que encarnam a "passagem" de um código livro, especialmente a Ana Lúcia Cunha Fernandes, Carina Martins,
cultural a outro, através da reinvenção de um bem cultural em outra Marcelo Magalhães e Ana Waleska Mendonça. Acreditamos que
língua. O tradutor é tão emblemático do trabalho de mediação, que os capítulos que se seguem, analisando de forma aprofundada uma
se poderia dizer que o mediador cultural é um "tradutor em sentido diversidade de trajetórias intelectuais e práticas de mediação cultural,
lato" de conteúdos, valores, sensibilidades etc. Outros casos muito permitirão ao leitor uma observação privilegiada. Esperamos, com
representativos são os educadores e os críticos (de literatura, música, isso, descortinar horizontes para a continuidade dessa empreitada,
cinema, televisão, teatro e artes plásticas), que aproximam seus pú- cheia de desafios e possíveis contribuições para vários campos de
blicos dos bens culturais, fazendo-os conhecê-los de antemão. estudos, que desejem entender como cultura e sociedade constróem
Por uma dessas coincidências da vida, no momento em que escre- seus diálogos, através do tempo e espaço.
vemos esta introdução, recebemos a notícia do falecimento de Bárbara
Lisboa e Rio de Janeiro, maio de 2015.
Heliodora, grande dama do teatro brasileiro pela pena de mais de meio

34
INTELECTUAIS M E D I A D O R E S
APRESENTAÇÃO

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36 37
PARTE i Trajetórias e projetos
1. A vulgarização científica nas obras de Louis Figuier
e suas traduções no Brasil
Kaori Kodama

Introdução

Louis Figuier é possivelmente um nome pouco lembrado no Brasil.


Não obstante figurar junto a Camille Flammarion e Júlio Verne
como um dos maiores expoentes da vulgarização das ciências no
século XIX, sua evocação soa menos conhecida do que a destes
últimos. Ainda assim, pode-se dizer que ele foi um dos mais ativos
publicistas no cenário editorial francês de seu tempo, e sua obra
foi disseminada em diferentes países dos dois lados do Atlântico.1
Seu almanaque UAnnée sáentifique, fundado em 1857, prosseguiu
mesmo após sua morte, em 1894, dirigido por Émile Gautier até
1912, e seus livros, que abordaram temas de ciências para o gran-
de público, somam dezenas de títulos. Muitas razões podem ser
atribuídas à parca lembrança desse autor, apesar de ter tido uma
vasta produção até inícios do século XX. É bem possível que um

1 A pesquisa on-Iine na ferramenta Endnote ultrapassou os mil e duzentos exemplares de


títulos de Louis Figuier, em países da América do Norte e Europa, contando ainda com alguns
volumes em bibliotecas na Ásia, como na da Universidade de Tóquio.

41
A V U L G A R I Z A Ç Ã O CIENTÍFICA NAS O B R A S OE LOUtS FIGUÍER...

dos motivos para seu relativo esquecimento seja o fato de que Fi- dução, recepção e circulação, ganhava formas e justificativas novas,
guier esteve por demais identificado com um projeto de divulgação próprias da era industrial, ultrapassando o circuito dos savants c
das ciências hoje considerado ultrapassado. Convém, no entanto, alcançando a materialidade da vida cotidiana da população. As
refletir sobre os significados de sua atividade, cuja repercussão no traduções dos livros de Figuier para o português chamam a atenção
Brasil pode ser acompanhada através das traduções de alguns de para a presença de uma forma específica de se divulgar a ciência, e
seus livros, como: Os sábios ilustres (1869), As grandes invenções permitem indagar sobre aspectos da cultura científica nos últimos
antigas e modernas (1873) e O homem primitivo (1883), traduzidos, decénios do século XIX.
respectivamente, por Augusto Emílio Zaluar, António Plácido da O presente capítulo tem como objetivo tecer algumas considera-
Costa e Manoel José Felgueiras e publicados por editoras luso- ções sobre o que se convencionou considerar vulgarização científica
-brasileiras. a partir das obras de Louis Figuier, dando destaque às traduções
Louis Fíguier pode ser considerado um autor representativo do em língua portuguesa editadas no Brasil e em Portugal, entre 1869
momento de crescimento do público da ciência e de surgimento de e 1883. Um olhar mais detido sobre algumas estratégias do vulga-
formas da ciência para o consumo, em livros, jornais, peças de tea- rizador em relação aos conteúdos de ciências por ele transmitidos,
tro, entre outros, que ocorrem durante o século XIX na França (Fox bem como as próprias concepções sobre as relações entre público
2012). A segunda revolução industrial trouxe uma nova ordem na qual e ciência, permite estabelecer os nexos entre a vulgarização das
a vida material passou a ser ditada por novas capacidades técnicas, ciências e uma narrativa contida na história das ciências que se fez
que se apresentaram de forma eloquente nas feiras internacionais canónica até a primeira metade do século XX, repercutindo, por sua
inauguradas com a Exposição Universal da Indústria em Londres, vez, certos usos da história oitocentista, em particular da história
1851. Ao mesmo tempo, tanto a ampliação da Instrução Pública na nacional. Nesse sentido, é possível entender a figura dos vulgarizado-
França como o crescimento do mercado editorial para livros didáticos res - pensando aqui tanto nos autores quanto nos tradutores - corno
e paradidáticos (Mollier 2008) ensejaram o processo em que surgiu disseminadores de uma forma de pedagogia conduzida em contextos
a figura do vulgarizador profissional. nacionais e que salienta principalmente a indagação sobre o público
O vulgarizador é, portanto, um ator social e um mediador cul- ou sobre o "povo*5.
tural datado. Historiadores das ciências e os estudos sobre a public
understanding of Science têm mapeado essa atividade, vigente na
cultura científica da segunda metade do século XIX até a Primeira Vulgarização como mediação de mão única
Guerra Mundial (Raichvarg e Jacques 1991; Bensaude-Vincent
2008; Béguet 1990; entre outros). Na perspectiva desses autores, a De forma bastante genérica, o ato de comunicar ou de "traduzir" a
"vulgarização científica", enquanto uma prática específica da difu- ciência para um público de não especialistas nasce em conjunto com
são do conhecimento científico tem sua era de "esplendor", a partir o próprio processo de especialização do conhecimento científico. Os
da década de 1850, em função das atividades de editores e autores, autores Raichvarg e Jacques (1991) ponderam que a "ambição de
incluindo entre eles Louis Figuier. A denominação "vulgarizador" traduzir para aqueles que não compreendem imediatamente o que
também se reporta a um espaço e tempo específicos: ela se torna tem sido dito na linguagem da ciência" pode ser encontrada em obras
corriqueira na França, no momento em que a ciência, em sua pro- variadas, ao longo do tempo. Ela estava presente, por exemplo, em

42 43
INTELECTUAIS M E D I A D O R E S V U L G A R I Z A Ç Ã O CIENTÍFICA NAS O B R A S DE LOUIS FíGUlEft...

Fcmtenelle, no livro Entretiens sur Ia pluralité dês mondes (1686),2 pelas expressões vulgariser* e vulgarisation de Ia Science, no espaço
O livro foi escrito em prosa simples, na forma de um diálogo entre francês, e na Inglaterra, pela expressão popularization of science. Se
um filósofo e uma marquesa, em que ele apresenta a ela ideias sobre ambos os termos indicavam as ações de disseminação e divulgação da
o sistema heliocêntrico e as conjecturas sobre outros mundos habita- ciência para o grande público/ a particularidade do termo francês -
dos (Raichvarg e Jacques 1991). Contudo, se as ações que têm como cuja tradução circulou no Brasil a partir da década de 1870 - assume
finalidade "traduzir" a ciência para o círculo dos não especialistas características que induzem a uma reflexão sobre suas implicações,
são parte da separação entre esses dois públicos, os usos e significados Pois, como ressaltou Bensaude-Vincent, o termo vulgarização não é
dessas práticas - denominadas como vulgarização, popularização e neutro, e supõe uma transposição ou uma tradução da ciência a um
divulgação - são mais datáveis, posto que surgem entre novos "es- público que é predefinido e marcado essencialmente por uma "falta"
pecialistas", que se dedicaram à atividade de comunicar a ciência a (Bensaude-Vincent 2010).
um público amplo e não formado por pares.3 O vulgarizador teria claro por projeto educar e levar às camadas
Mas a prática da vulgarização científica é geralmente reconhecida não esclarecidas o conhecimento científico numa via de mão única,
como marca de um tempo, cujas fases de sucesso e declínio podem ser pressupondo que seria necessária a autoridade dos cientistas profis-
acompanhadas através de determinadas "configurações das relações sionais para que essa tradução7 fosse validada ante o grande público,
entre sociedade e ciência", como nos termos de Bensaude-Vincent É nesse ponto que também se observam os limites dessa concepção
(2009: 360). De fato, apesar das controvérsias existentes sobre o comunicativa da ciência. Em primeiro lugar, porque o termo vulga-
surgimento desses termos,4 é possível precisar que as ações que as- rização, apontado como um neologismo por Littré, nunca deixou
sumiram de forma inequívoca a prática vulgarizadora, defendendo de supor sua relação com a origem da palavra latina vulgus e com a
lemas como "ciência para todos" e "ciência popular", ganharam "vulgata" da Bíblia, lembrando a conotação negativa das palavras
terreno na França entre as décadas de 1850 e 1880, vulgaire e vulgarité, discutidas por madame de Staèl, no período
Desde a segunda metade do século XIX, as diferentes iniciativas
de agentes - escritores, jornalistas, professores, editores, desenhistas
e tradutores, entre outros - que buscavam "tornar comum" e fazer
J Na definição do Dictionnaire éncydopedique universel contenant tous lês mots de Ia lan-
conhecer a ciência a um público abrangente, ficaram conhecidas
gue française et résumen 1'ensemble dês connaissances humaines à Ia fin du X/Xe siècle...
Tome 8 (T-Z), de Camille Flammarion (1894-1898), é possível encontrar a seguinte definição
para o verbo "vulgariser": "Rendre vulgaire, faire connaítre, faire comprendre au plus grand
nombreuse science, une découverte, une docrtrine, etc. De toutes parts on s'efforce de vu!-
2 É possível encontrar a tradução, Conversações sobre a pluralidade dos mundos, datada de gariser Ia science. II se chargea de vulgariser cette doctrine." A ambiguidade existente entre
1841 na biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. o "fazer conhecer para um número maior uma ciência, uma descoberta, uma doutrina" e
3 Nos limites deste trabalho, não será possível desenvolver as distinções e o emprego desses
o tornar vulgar era assim apontada nas definições da vulgarização científica pelos próprios
termos, longamente debatidos por divulgadores das ciências, jornalistas e historiadores das Yulgarizadores.
ciências. Como atenta Bensaude-Vincent, vulgarizaíion identifique, na França, e science * Luisa Massarani (1998) salientou que a denominação "divulgação científica" teria predo-
popularization, na Inglaterra, surgem no século XIX, designando uma configuração deter- minado no Brasil como atividade que se desenvolve plenamente no século XX.
7 O uso da palavra "tradução" chama a atenção para as implicações diversas contidas na
minada das relações entre público e ciência.
4 No catálogo da exposição promovida pelo Musée d'Orsay cm 1994, Bruno Béguet afirma ideia de que a ciência é inseparável da comunicação. Essa discussão pode ser acompanhada
que a expressão apareceria na década de 1840, principalmente sob a pluma de Auguste em autores que buscam apontar a não neutralidade da passagem de conteúdos, em perspec-
Comte (Béguet, 1990: 5). Uma boa síntese e análise da vulgarização científica está na tese tivas que tratam das ciências tanto como circulação de conhecimento (Secord 2004), como
de Moema Vergara (2003). construção cidadã (Bensaude-Vincent 2009, 2010).
A V U L G A R I Z A Ç Ã O CIENTÍFICA NAS O 8 R A 5 DE LOUIS F1GUIER...

pós-revolucionário.8 Esse aspecto já era debatido pelos próprios com o crescimento do mercado editorial, impulsionado pelas reformas
vulgarizadores, como Camille Flammarion, e é bastante discutido da instrução pública. Nesse aspecto, a vulgarização se apresentava
por aqueles que estudam a divulgação e a comunicação das ciências. principalmente como uma prática pedagógica particular, associada
Moema Vergara, por exemplo, salienta que "vulgarizar", por estar ao exercício da "sedução" (Raichvarg e Jacques 1991).
ligado à palavra vulgus em oposição ao populus - ou os cidadãos na Todos, os chamados vulgarizadores agregaram qualificações como
Roma clássica - pode ter sido um elemento para a lembrança dessa "amável", "delicada" e "divertida" sobre a ciência a ser comunicada,
conotação negativa frente à expansão do conceito de cidadania em demonstrando alguma semelhança no modo de abordar a ciência, ou,
fins do século XIX e durante o XX. ao menos, uma sensibilidade em comum. A ciência dos vulgarizado-
Sob o risco de ser desqualificada, a tarefa da vulgarização não res não deveria cansar ou ser enfadonha, sendo necessários recursos
poderia ser autónoma frente ao modelo de autoridade exercida pelos como uma prosa fácil e fatos diversos que despertassem o interesse e
cientistas. Estão entre os fatores que marcaram as fragilidades do a curiosidade; narrativas que incluíssem o conhecimento do passado
projeto vulgarizador as tensões do desenvolvimento da especiali- da ciência e dos cientistas; e também belas ilustrações.
zação, por um lado, e a ampliação da cidadania, por outro. Entre Figuier, portanto, não esteve sozinho neste movimento e fez parte
os elementos desse desenvolvimento, pode-se destacar o próprio de uma geração formada nas ciências, e que se dedicou à publiciza-
processo da institucionalização das ciências, cuja profissionalização ção de conteúdos sobre ciência para o grande público, como Camille
dos cientistas garantiria "sua autonomia e sua autorregulamentaçao" Flammarion, o abade Moigno, Gaston Tíssandier, Victor Meunier,
(Vergara 2008), ao mesmo tempo que fomentava a especialização e Henri Leveneux, entre outros. Como eram esses novos "especialistas"
o distanciamento entre o conhecimento produzido pelos cientistas da vulgarização científica?
e o público leigo. A conscientização dessa condição de afastamento A trajetóría profissional de Louis Figuier parece ser emblemática.
- própria da modernidade -, por parte de setores letrados, justifi- Seguindo o caminho corriqueiro de cientistas de seu tempo, como
cava o surgimento da figura do vulgarizador que, na busca de uma seu próprio tio Jean Figuier, professor de química na Escola de
manutenção dos ideários iluministas de difusão das luzes, traria Farmácia de Montpellier. Louis Figuier formou-se em Medicina na
o elo entre ciência e público vis-à-vis uma sociedade em contínuo mesma instituição e buscou posteriormente uma posição em Paris
aperfeiçoamento. na Faculdade de Medicina, no que teria falhado. Em 1850, torna-se
Em segundo lugar, porque a vulgarização no oitocentos até início doutor em ciências físicas pela Faculdade de Toulouse e retorna a
do século XX, feita por aqueles que viviam desse empreendimento, Paris em 1853, concorrendo ao cargo de professor na Faculdade de
necessitava vivamente de um público-consumidor, que se expandia Medicina. Não obtendo o cargo, torna-se em seguida professor na
Escola Superior de Farmácia. Colaborando com periódicos científicos
do momento, Figuier confronta-se em polémicas com Claude Bernard
8 É Madame de Staèl, em De Ia littérature, quem introduz pela primeira vez o neologismo
vulgarité: "Je sais bien que cê mot Ia vulgarité n'avait pás encore été employé; mais je íe sobre a função glicogênica do fígado, o que o teria levado a abandonar
crois bon et nécessaire" (Staél 1991: 281). Em meio ao momento pós-revolucionário que a carreira científica. Aconselhado por François Arago, eminente figura
via desaparecer a República das letras do Antigo Regime, Madame de Staèl refletia sobre a
necessidade de afirmar a liberdade na literatura, a única a possibilitar o florescimento do bom do republicanismo francês e promotor do movimento de instrução
gosto, preservado do despotismo da opinião, da imitação e dos modos grosseiros. Tal sentido popular dos conhecimentos científicos, Figuier passaria a se dedicar
de vulgaire, como sinónimo de mau gosto, seria fruto da contradição gerada pela dissemi-
nação da alta cultura e pela busca da eliminação da distinção. V. Madame de Staèl (1991). à vulgarização (Raichvarg e Jacques 1991: 59; Cardot 1993: 8).

47
tNTELECTUAIS MEDIADORES A V U L G A R I Z A Ç Ã O C I E N T Í F I C A NAS O B R A S D£ LOUIS F I G U I E R . . ,

Em 1851, começou a publicar a Exposition et histoire dês principa- a uma ciência particulars no caso, a química. O propósito do Année
les découvertes scientifiques9 e criou, em 1856, o UAnnée scientifique Scientifique se justificava dessa forma:
et industrielle, almanaque ou "repertório anual de ciências práticas",
que noticiava os novos inventos no campo das ciências aplicadas. O Parecia-me que aplicando a ideia destes resumos anuais ao conjunto
almanaque dirigido por Figuier durou até o ano de 1912 e se tornou das ciências úteis renderiam um serviço imenso. Deveríamos nos
um dos modelos mais bem-sucedidos da vulgarização científica do endereçar, por este meio, à massa inteira do público que, no geral
desprovida dos conhecimentos científicos, tem necessidade de se
período, ao dar centralídade às notícias relativas aos novos artefatos
manter a par das novas descobertas.10
tecnológicos do mundo moderno. Como explicou em sua introdução
escrita no aniversário de vinte anos da publicação, o Année scientifi-
Em sua concepção, uma publicação que atendesse às "gentes do
que foi um projeto apresentado ao editor Louis Hachette que, desde
mundo" (gens du monde) deveria mante-las informadas das novas
seu início, visou um público não especialista. conquistas das ciências aplicadas, fornecendo de antemão uma tria-
Seu relato sobre o projeto é interessante para refletir sobre a gem do que os periódicos científicos, por sua linguagem técnica e
concepção editorial e a ideia de público que ela envolvia. Conta excessiva especialização, não poderiam lhes prover. Pode-se também
que, em uma manhã, cerca de vinte anos antes, encontrara o célebre acrescentar que o Année Scientifique beneficiou-se dos grandes even-
editor Louis Hachette, e que lhe propôs dar início a uma publicação tos de celebração das conquistas materiais da civilização europeia que
no começo de cada ano, em formato Charpentier, como então se foram as feiras internacionais. Num ambiente propício à exaltação
denominavam as coleções. Ela seria um espaço consagrado a dar dos produtos da indústria, Figuier participou, na imprensa, publi-
um panorama das descobertas e dos trabalhos alcançados durante cando folhetins durante a Exposição Universal em Paris, em 1855.
o ano precedente, não das ciências puras, cujo campo seria infinito, Este material viria a ser uma primeira amostragem que o auxiliaria
mas das ciências práticas, cuja esfera era tida como mais limitada e a organizar os conteúdos dos primeiros números do anuário. Como
mais acessível. A publicação tinha como modelo o periódico alemão o próprio autor apostara com o seu editor, o almanaque tornou-se
Jahrsbericht, no qual se resumiam os progressos anuais das ciências, rapidamente um sucesso. No espaço de três meses, a tiragem inicial
em particular a fisiologia e a química. Na França, já havia este género pulou de 3.000 para 6.000 exemplares. Em três anos, eram 8.000
de publicações, tais como os Rapports annuels dês progrès dês scien- exemplares, e em 1877, eram impressos 15.000 (Cardot 1993: 26).
ces chimiques, do sueco Berzélius, o Repertoire annuel de chimie, A profícua atuação deste autor parece estar na capacidade que teve
do químico Francês Millon, e o Annuaire de chimie, de Charles em estabelecer, desde o início do projeto editorial, o seu público-alvo e
Gerhardt, que rivalizava com as ideias da publicação de Berzélius. de bem definir os objetivos de sua atividade. Tais textos, como notou
Mas como ressaltava Figuier, tanto o Rapports annuel sur lês progrès Béguet, deveriam visar ao prático, o aplicado, o histórico, o curioso
de Ia chimie, como o Repertoire... de Millon se reportavam somente e o maravilhoso a um só tempo (Béguet 1994:20). Fabienne Cardot,

1 "II me sembla qu'en appliquant 1'idée de cês resumes annuels à 1'ensemble dês sciences
9 O almanaque UAnnée Scientifique, assim como outras publicações de Figuier encontram- usuelles, on rendrait un servisse immense. On devaits'adresser, par cê moyen, à Ia masse tout
-se no site da biblioteca nacional francesa Gallica, e encontram-se disponíveis on-Iine. Ver entière du public, qui, tout dépourvu qu'il soit de connaissances scientifiques, a pourtant
a revista em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/cb326950838/date. besoin d'être tenu au courarit dês nouvelles découvertes" (Figuier 1877: 9).
INTELECTUAIS MEDIADORES A VULGARIZAÇÃO C I E N T Í F I C A N A S O B R A S DE LOUIS FIGUIER...

em um catálogo para a exposição sobre Figuier ocorrida em Nímes, Para Figuier, entranhava-se na criança o "senso da loucura, da men-
classificou sua produção escrita em alguns tipos. Entre elas se encon- tira, do absurdo, do impossível com deuses, semideuses e um quarto
tram: como as obras gerais de vulgarização, em que constam livros de deuses, diabinhos, fadas, silfos, duendes, espíritos bons e maus,
como Lês Merveilles de Ia Science (1867-1870) e Lê Savant du foyer encantadores, magos e diabretes".
(1864), e o almanaque L*Année scientifique^ obras especializadas de
vulgarização, como Histoire dês plantes (1880) e UHomme primitif Numa época em que a inteligência é como cera mole, ela toma e
(1870); publicações científicas; teses na área de química e farmácia; conserva as mais falsas impressões, enquanto que ela, virgem ainda
obras paracientíficas, nas quais tratou de ideias do espiritismo; além de de todo o conhecimento, é ávida por adquiri-lo, nós a distorcemos,
peças teatrais. Entre estas últimas, encontram-se textos que tematiza- a aniquilamos desenfreadamente, e nos espantamos que esta inte-
ram viagens científicas como o Lês Six parties du monde; bem como ligência, que esta cera macia e dócil, conserve mais tarde a marca
indelével dos absurdos que nela gravamos.11
a vida e obra de inventores e cientistas, como Keplcr e Gutenberg.
Essa diversificação de suas iniciativas o fez emblema do ideário da
Em idade tão tenra, não seria possível evitar que sua alma não se tor-
"ciência para todos". Outro destaque que merece atenção são os livros
nasse presa fácil da ignorância, das superstições, e das vacilações do
para escolas primárias. Figuier, assim como outros vulgarizadores
espírito público - como em sua opinião era o socialismo. Os primeiros
de seu tempo, se engajou na venda de livros a baixos custos, como o
livros da infância não deveriam assim superexcitar a inclinação ao
Lês Merveilles de Ia science, a 10 centavos.
maravilhoso já presente na criança. Ao contrário, devido à propensão
natural dos homens à imaginação, não seria demais trazer na idade
tenra a formação a contemplação sábia e arrazoada do mundo na-
Educação popular e da mocidade através do conhecimento
tural e técnico através do olhar da ciência, levando tanto ao jovem
científico e o papel do discurso histórico
como à população trabalhadora a "diligência honesta de um espírito
correto, firme e esclarecido" (Figuier 1872: 3). Os primeiros livros
Como salientado, as obras de Louis Figuier surgiram na esteira do
da infância, portanto, não deveriam fortalecer tal inclinação, mas,
projeto intelectual da "instrução divertida", procurando falar a um
sim, consolidar a razão.
público constituído tanto por crianças como por trabalhadores.
Figuier por outro lado reconhecia que não seria possível mutilar
Porém, a ênfase de suas obras encontra-se menos na fantasia e na
da alma humana seu aspecto maravilhoso, donde toda poesia e lite-
diversão e mais na transmissão de conteúdos precisos da ciência.
ratura teriam fundamento. Retirada essa parcela da alma, continuava
Figuier geralmente defendia seu ideário sobre a vulgarização nas
no prefácio, a geração criada unicamente sob os auspícios da razão
suas introduções e prefácios, como no que escreveu para La Terre
seria desprovida de todo ideal, toda imaginação e sentimento. Tal
avant lê déluge (1872). Para o autor, o primeiro livro que se deveria
colocar nas mãos da criança deveria ser sobre a História Natural, ao
invés dos livros de contos e fábulas, como de La Fontaine. Para Figuier, 11 Tradução livre do autor: "A une époque ou ['intelligence est commc une cire molle, qui
estórias como a do Gato de Botas, Os doze trabalhos de Hércules ou prend et conserve lês píus faibles impressions, lorsque, vierge encore de toute connaissance,
a Pele de Asno somente alimentariam no espírito infantil mentiras elle est avide d'en acquérir, on Ia fausse, on Ia brise, comme à plaísir, et I'on s'étonne que
cette intelligence, que cette cire molle et docile, conserve plus tard Ia marque índélébiíe dês
perigosas, inclinando-o ao misticismo e às concepções quiméricas. absurdités quel'on y a gravées" (Figuier 1872: 3).

50 51
INTELECTUAIS MEDIADORES A V U L G A R I Z A Ç Ã O CIENTÍFICA NAS O B R A S DE LOU1S FIGUIER...

geração seria uma coleção de máquinas de calcular. Porém, a capaci- hoje em dia e em toda a parte a ciência tem penetrado na vida co-
dade imaginativa não se esvairia do espírito humano, pois seria parte mum. É portanto indispensável familiarizarmo-nos desde a infância
constitutiva da inteligência, e se alimentaria de novos conhecimentos, com as ciências que tantos serviços nos prestam no decurso da vida
(Figuier 1884: 5-6).
o que deveria ser provido pelo conhecimento científico. Era assim
exigido preencher a inteligência com princípios exatos e precisos,
nutri-la de "verdades incontestáveis". Lembrava ainda na obra Lês Merveilles de Ia Science que o conheci-
Figuier encarnava desse modo o ideário da "educação para todos", mento científico não era mais, como havia sido meio século antes, um
na qual a formação através dos conteúdos passados pela aquisição dos tipo de "luxo intelectual" ou simples complemento de uma educação
conhecimentos científicos, desde a criação da imprensa por Gutenberg distinta.
ao microscópio, seria parte de uma pedagogia maior, que incluía o As maravilhas técnicas e científicas modernas mostradas por
próprio ethos da ciência12 na formação de toda a sociedade e sua Figuier eram apresentadas na chave da instrução divertida, mas num
preparação para um mundo futuro, uma utopia científica. Destes caminho distinto do fantástico e da ficção encontrados nas obras de
ensinamentos, acreditava, não só se beneficiariam crianças, como Júlio Verne. A preocupação de Figuier era sobretudo a de educar pela
também jovens e os trabalhadores urbanos e camponeses. ciência, uma vez que entrava em ação o mediador capaz de "simplifi-
Também na advertência em que introduz As grandes invenções car" a linguagem por demais árida da ciência para um público jovem
antigas e modernas,™ defendia a vantagem que haveria em substituir ou para adultos não especialistas. O aspecto "curioso" promovido
o ensinamento "moral" dos contos e mitos tradicionais pela exposição pelas novas descobertas deveria ser restrito enquanto instrumento
das invenções científicas (antigas e modernas): para a verdadeira instrução ou, como escrevia no prefácio de La Terre
avant lê déluge, a curiosidade prestava-se como "flores" jogadas no
Como até hoje as obras destinadas à mocidade tem tido por assunto caminho da aprendizagem das ciências duras (Figuier 1872: 5).
a moral, a história ou contos instrutivos somente, pareceu-nos que a As ilustrações que acompanhavam seus livros e revistas, mais do
exposição elementar das grandes invenções científicas e industriais que um recurso de mero auxílio, tornavam-se um elemento constitu-
antigas e modernas, daria o mesmo resultado com mais vantagem. tivo da própria linguagem da vulgarização científica, ao criar para as
(...) Os mancebos, findos os seus estudos, encontrarão, em qual- obras uma estética própria. Em diversos livros de Figuier é possível
quer das carreiras que seguirem, aquilo que constitui a matéria do ver o postulado das "ciências positivas" inspirado em Comte, ao
presente livro. O operário das fábricas, o cultivador no campo, buscar tocar os sentidos dos leitores através de gravuras as conquistas
o empregado, o comerciante, terão de recorrer constantemente à científicas, tornando-as acessíveis ao mesmo tempo objetivas e claras,
máquina a vapor, à eletricidade, ao gás de iluminação etc., porque através da difusão visual do conhecimento. Trata-se assim de uma
importante chave da apropriação por parte do leitor dos conteúdos
12 Aqui nos reportamos à ideia de ethos da ciência tal como Merton analisa sobre as insti-
narrados pelo texto.
tuições: o univcrsalismo, comunismo, desinteresse e ceticismo organizado (Merton 2013: Como assinala Béguet, entre pedagogia e divertimento, tratava-
185). Ainda que estejamos falando de um público fora das instituições, tornam-se valores
que se repercutem nos discursos dos que visam a formação das classes trabalhadoras, como
-se também de uma "educação pelos olhos", já presente em parte na
defendia Figuier. cultura iluminista dos espetáculos e experimentos científicos, e que se
13 Segundo Fabienne Cardot, Lês grandes inventions anciennes et modernes, de 1861, ganhou
12 reimpressões até 1863, e desse ano até 1905, conheceram 14 edições (Cardot 1993: 22).
acentua durante o século XIX sob formas que variaram das revistas e

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livros ao teatro e às projeçÕes luminosas (Béguet 1994: 39). Figuier foi descobertas das ciências naturais com as sagradas escrituras, quan-
um dos pioneiros nas edições que acompanhavam belas ilustrações, do a teoria darwiniana já se tornava posição majoritária entre os
sendo elas um chamariz sedutor do empreendimento vulgarizador. cientistas. Esse posicionamento mais convencional e religioso, como
Para a realização das ilustrações, no entanto, o desenhista - ele mesmo sugere Robert Fox, poderia se coadunar com a larga aceitação e
um especialista - precisava ter conhecimentos específicos dos objetos consumo de seus trabalhos (Fox 2012: 206). De fato, apesar dessas
científicos retratados, agregando as mais recentes informações em posições o tornarem conservador do ponto de vista da nova ciência
cada área científica. Em diversas introduções o autor explicava como evolutiva, certamente também obteve apoiadores, como o próprio
as ilustrações eram feitas a partir da observação de espécies e coleções tradutor desse livro para o português, o professor Manoel José
encontradas nos jardins botânicos ou nos museus de história natural. Felgueiras. No "Prefácio do tradutor", escrito em 1882, Felgueiras
O livro La Terre avant lê déluge, por exemplo, contém trinta vistas assim se manifestava:
ideais de paisagens do mundo antigo, com 316 figuras e oito cartas
geológicas coloridas. No prefácio, explica que o desenhista Édouard ...n'este apreciável livro resolve o seu ilustrado autor o grave proble-
Riou, conhecido por também colaborar com as obras de Júlio Verne, ma pale ontológico da origem do homem, de um modo plenamente
imitava uma publicação que havia sido feita em torno de 1850 pelo satisfatório e irrefutável, destruindo pela base, à vista de exemplos
diretor do Jardim Botânico de Viena, o doutor Unger, executando e de fatos incontroversos, as erradas teorias dos que modernamente
desenhos de paisagens representando as vistas da Terra durante cada têm pretendido filiar degradantemente a nossa espécie no macaco
período geológico, reunindo as plantas e animais que seriam próprios (Figuier 1883: 2).
a cada um dos períodos retratados. Da mesma forma, em UHomme
primitifde 1870, eram retratadas quarenta cenas da vida do homem É interessante lembrar que tanto Flammarion como Figuier ficaram
primitivo desenhadas por Émile Bayard. Nessas cenas, é possível conhecidos pela aproximação com Allan Kardec e o espiritismo. No
ver as representações de como teriam sido os "usos e costumes" em caso de Figuier, as especulações sobre a vida e a alma após a morte
épocas geológicas distintas, numa fase da vida humana "antes da estão presentes no livro Lê Lendemain de Ia mort (1871), publicado
história", como na expressão do autor. No livro, estão representadas um ano após a perda de seu único filho. Em O homem primitivo,
cenas imaginárias de mulheres e homens em um banquete funerário defendeu a ideia de que os fatos científicos não haviam contestado
ou caçando na "época do mamute", mas também encontram-se re- até então de maneira contundente a inexistência da criação divina.
tratados os objetos dos mais variados achados arqueológicos, como Essa sua crença, contudo, não se opunha à prática da compilação e
arpões, lanças de sílex e esqueletos encontrados em grutas. atualização de novas informações e resultados que obtinha de pes-
Cabe aqui dizer que nas três obras sobre as origens do homem e quisas nas variadas áreas da ciência de sua época, fomentando assim
a pré-história, La Terre avant lê déluge (1863), UHomme primitif constantemente seu papel de mediador entre a ciência academicamente
(1870), Lês Races humaines (1872), Figuier defende o criacionismo, produzida e os leigos.
no qual, em última instância, a origem do homem e do mundo se Voltada para a sociedade de massas que era engendrada na Eu-
devem às mãos do criador. Figuier refutava veementemente a ideia ropa no século XIX, o discurso dos vulgarizadores elaborava-se
de que a espécie humana teria se originado dos macacos, e afirmava como uma prática pedagógica, na qual a história da ciência - uma
a ocorrência do dilúvio bíblico. Buscava em sua obra conciliar as história universal e nacional ao mesmo tempo -, com seus heróis

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e suas conquistas na sucessão progressiva e cumulativa no tempo pelo imperador, as conferências proferidas em francês angariavam
histórico, ocuparia um papel central. Não obstante a continuidade um público de elite que passou a incorporar também a presença de
de boa parte desse ideário na produção posterior da divulgação mulheres (Freitas 2002: 57). Talvez a mais conhecida manifestação
científica ao longo do século XX, pode-se dizer que, no campo das atividades vulgarizadoras tenha sido as Conferências da Glória,
editorial, o sucesso da fórmula dos vulgarizadores não manteve o ocorridas entre 1873 e 1889, e retomadas em 1891, que introdu-
mesmo vigor após a virada do século, sendo observável uma baixa ziam ao público leitor debates sobre a teoria da seleção natural de
nas tiragens nos anos anteriores à Primeira Guerra, na Europa. Os Darwin e Wallace, e questões em assuntos como a higiene e a raça
textos dos vulgarizadores não geravam mais o entusiasmo que nas (Fonseca 2008; Carula 2012). Outras iniciativas anteriores podem
décadas anteriores, e cada vez mais as obras de conteúdos cientí- ser citadas, como as Conferências Populares do Atheneu Sergipense,
ficos se afastavam do interesse de um público de elite, enquanto a iniciadas por António Cândido da Cunha Leitão em 1871, em Ara-
"difusão do conhecimento" para todos tornava-se um papel legado caju, com vistas à instrução popular, e que deveria propagar o gosto
às escolas oficiais (Béguet 1994: 19). pela discussão científica, feita de modo "ameno, fácil e instrutivo"
O movimento intelectual da "educação para todos" e seu de- (Bastos 2011). Os autores Massarani e Moreira sugerem ter havido
clínio na Europa acompanha, como foi dito, o período de auge um adensamento dessas atividades divulgadoras de 1860 até a pe-
e decadência dos vulgarizadores. Através de atividades como as núltima década do século XIX, quando teria ocorrido uma redução
conferências populares em voga entre as décadas de 1860 e 1870, de tais ações (Massarani e Moreira 2010: 118). Desde as décadas
formulava-se uma das faces do ideário civilizatório do "concerto de 1870 e 1880, como salientou Moema Vergara, o termo "vulga-
das nações" que esteve presente no Brasil. Desde meados do século rização científica" já era utilizado no Brasil, como na publicação de
XIX, adensava o número de revistas que propunham disseminar Augusto Emílio Zaluar intitulada O Vulgarizador (Vergara 2008:
temáticas científicas para um público de leitores não especialistas, 140). Este mesmo autor tornou-se um dos tradutores de escritos de
visando projetar sobre ele uma ciência de caráter nacional.14 Tal Louis Figuier para o português, o que nos faz refletir sobre o papel
era o intuito de publicações como a Revista Popular, surgida entre dos mediadores entre ciência e sociedade através da circulação de
1859 e 1862, editada pela Garnier (Venâncio 2013). As conferências textos de vulgarização em contextos nacionais distintos.
públicas, ainda que não fossem propriamente populares, datam da
década de 1860. Segundo Freitas, as conferências teriam começado
com a vinda de Louis Agassiz, em 1865, com a chegada da Expedição Circulação das obras de Figuier através
Thayer. A partir de um convite feito pelo Colégio Pedro II e apoiado das traduções para o português

A circulação das obras de Figuier pode ser auferida através das


14 As revistas científico-literárias que tematizavam as ciências e a localidade possuem uma
trajetória mais íonga, tal como O Patriota (1813-1814). Dentro do ideário saído das Luzes, O traduções em diferentes línguas. Ao nos depararmos com a difusão
Patriota, que forjava também um modelo das ciências ditas "úteis" (Kury 2007), constituiu-se e o número de versões em outras línguas de seus livros, talvez seja
como um espaço de circulação e divulgação de conhecimentos, sobretudo a partir de "arenas"
de interlocução criadas na revista, como era o caso das resenhas (Ferreira 2009). Contudo, possível dimensionar aspectos de uma internacionalização da cultura
creio ser possível marcar aqui a novidade da introdução da palavra "popular" para designar da ciência do período. As traduções podem igualmente nos auxiliar
as iniciativas de disseminação de temáticas com conteúdos científicos para o público, a partir
da segunda metade do século XIX. a refletir, a partir das localidades, como o ideário da vulgarização

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ou de uma certa forma de popularização da ciência15 íncorporou-se cãs populares. No caso argentino e chileno, por exemplo, Domingos
nos projetos nacionais de modernização. As traduções nos permitem Sarmiento adaptou e traduziu para seu projeto Bibliotecas Populares
observar como circularam conhecimentos sobre as ciências para uma a Exposición e historia de los descubrimientos modernos., pela Júlio
certa cultura científica, entendendo as diferentes motivações, usos e Belín e Cia, em 1854,17 Em 1867, a importadora e livraria de Madri
significados do ideário da "ciência para todos" que emerge na segunda Gaspar y Roig editava Los grandes inventos: antigos y modernos-,
metade do século XIX. em Ias ciências, Ia indústria y Ias artes, traduzida por Manuel M,
Não seria demasiado lembrar que o vasto alcance das obras dos Flamant. Em português, a primeira tradução conhecida é a da obra
vulgarizadores está vinculado ao desenvolvimento dos empreendi- Os sábios illustres. Christovão Colombo, em 1869, por Augusto
mentos editoriais em diferentes países,16 Tal teria sido o sucesso das Emílio Zaíuar, editor do jornal O Vulgarizados O livro foi publicado
obras de vulgarização, que Figuier menciona em um dos prefácios por Oliveira & Companhia Editores, no Rio de Janeiro. Também
do UAnnée Scientifique haver sido alvo de plágios. Assim, acusou o se traduziu, no período, As grandes invenções antigas e modernas
vulgarizador italiano Bruno Besso de ter publicado em seu próprio nas sciencias - Obra para uso da mocidade, que seria editada no
nome o livro de sua autoria Lês Grandes inventions anciennes et Porto, pela Livraria Internacional de Ernesto Chardron, em 18733
modernes, em italiano. Pelos tratados internacionais da época, o autor por António Plácido da Costa. A editora Garnier publicou Depois
não teria direito de reivindicar a autoria sobre as traduções, passados da morte, ou a vida futura segundo a sciencia em 1877, traduzido
dois anos da edição do original. De todo modo, obras posteriores de por Ferreira de Araújo. Na sequência, ainda encontramos traduzidas
Figuier foram traduzidas em italiano, com as devidas credenciais, tais na década seguinte para o português As raças humanas (1881), por
como Vita e costumi degli animali. I mammiferi, e Vita e costumi Abílio Lobo, e O homem primitivo (1883), pelo já citado professor
degli animali. Rettili, pesei e animali articolati, de 1881. portuense, Manoel José Felgueiras. Ambas as traduções foram edi-
As traduções de Figuier ocorreram em diferentes línguas e em tadas pela Empreza Litteraria Luzo-Brazileira em Lisboa.
diferentes países. Houve traduções para o inglês, sueco, espanhol, O próprio tradutor Augusto Emílio Zaíuar pode ser tomado como
italiano e português, em geral, confluindo com o movimento das um exemplo de mediador da cultura científica que se fortalecia entre
conferências públicas científicas e os projetos de criação de bibliote- os intelectuais brasileiros nos anos finais do Império, fazendo circular
no país diversas correntes de pensamentos ligados ao cientificismo,
15 Devemos considerar ainda que a vulgarização/popularização da ciência é também ela pane
materialismo e evolucionismo, em suma, ao "bando de ideias novas"
constitutiva da ideologia que conformou certa maneira hegemónica de se conceber a ciência e a que se referiu Sylvio Romero. Nascido em Lisboa, Zaíuar muda-se
sua transmissão, como na crítica levantada por Kostas Gavroglu (2012), cujo sentido sempre
frisou uma via única do "centro" para a "periferia".
para o Rio de Janeiro, vindo a falecer em 1884. Ele é autor da ficção
16 Numa pesquisa rápida das obras vertidas para o inglês, foi possível verificar que, de 1866 Doutor Benignus (1876), considerada por muitos o primeiro livro
a 1873, ao menos seis títulos de Figuier foram traduzidos pela editora D. Appleton & Co. de
Nova York: The World before íhe Detuge (1866); The Vegetable World: a history ofplants de ficção científica escrito no Brasil ou, na definição de Zaíuar, um
with their botanical descriptions and peculiar properties (1867); Mammalia. Their various "romance científico". O livro introduz ideias darwinistas, levando
orders and habits (1870); The Human Race (1872); Reptiles and Birds. A popular account
of their various orders, with a descriptíon ofthe habits and economy ofthe most interesting ao púbíico-leitor de romances assuntos como a seleção natural e a
(1873), e The Insect World: a popular account ofthe orders ofinsects. A description ofthe evolução (Waizbort 2012). Zaíuar foi avaliador da Instrução Pública
habits and economy of some of the most interesting species (1872). Outras obras ainda
foram vertidas na Inglaterra, como o The Ocean World (1872) e The Primitive Man (1876)
no mesmo período. 17 Não encontrei a obra, tão someete referências sobre ela, cf. Yoacham (2010: 106-146).
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e lente da Escola Pública Normal (Duarte 2010), e sua forte ligação 2011:59). Figuier, através de seus textos, ao mesmo tempo que possibi-
com a causa da instrução pública torna possível compreender suas litava a maior disseminação de uma cultura científica por um "método"
iniciativas como editor de O vulganzador (1877). A revista, sem dú- histórico dominante, também reforçava o próprio discurso engendrado
vida, tinha inspiração nas publicações dos vulgarizadores franceses, pela nascente disciplina da história das ciências.
em particular, Figuier. Alguns textos de O vulgarizador possibili- Essa estratégia de cativar o público através da história dos per-
tam ressaltar as semelhanças entre o tradutor e o autor, como, por sonagens ilustres para a ciência pode ser encontrada em Viés dês
exemplo, o artigo da revista que apresenta o microscópio de Nachet, savants illustres: depuis Vantiquité ju$qu*au dix-neuvième siècle,
cujos primeiros modelos haviam sido criados em torno da década de publicado por Figuier como coleção, entre 1866 é 1870. Dividida
1850. Assim como no texto de Figuier, a apresentação do "invento" em 5 tomos, contemplava os títulos Savants de Vantiquité (1866),
ao grande público incluía expressões como o maravilhoso "mundo Savants du moyenâge (1867), Savants de Ia renaissance (1868), Sa-
dos infinitamente pequenos", bem como mencionava os modelos do vants du XVI? siècle (1869) e Savants du XVHP siècle (1870). É do
microscópio - o simples e o composto - e citava Zacarias Jansen segundo tomo que Zaluar extraiu a tradução em português de Os
como inventor do primeiro modelo, que teria sido criado em 1590. sábios ilustres- Cristóvão Colombo. Seguindo uma escrita clara, e
Essa narrativa demonstra bem como a história das invenções e dos de maneira bastante fiel ao original em francês, o livro apresenta a
inventores se tornava parte do método da vulgarização. vida do navegador genovês contada por Figuier, baseada nas diversas
A geração que surgia nos anos finais da Monarquia e iniciais da biografias e textos então disponíveis, como de Bartolomeu de Lãs
República, no Brasil, veria, através de autores e livros, ser tecida uma Casas e de Fernando Colombo.
pedagogia particular, na qual a ciência teria papel fundamental. A exal- Em outras palavras, "a ciência ensinada pela história", tal como
tação da ciência e do cientismo presente nesses livross que constituíram encontrada nos textos de Figuier, formulava o conjunto de temáti-
parte de uma cultura político-cicntífica, entretanto, não era possível cas e sínteses presentes na história da ciência canónica, engendrada
sem o instrumento que fosse capaz de generalizá-la: um discurso da em fins do século XIX e início do XX. O mote de uma história que
própria história que reforçava, como parte constitutiva de sua narrativa, conta e ensina a ciência e seus valores estava presente igualmente,
a exemplaridade dos grandes homens, no modelo de Plutarco (Enders como escreve Heizer, no espírito de outras ações, como as exposições
2000). Assim, se a escrita histórica oitocentista assumia os contornos universais. As ciências, contadas pela história, seriam um aprendi-
da veracidade, segundo o modelo das ciências naturais, a vulgarização zado do caminho da razão que iria do simples ao complexo, sem ser
das ciências não pôde prescindir do próprio discurso historiográfico enfadonha ou cansativa (Heizer 2009: 4). Esta era uma espécie de
oitocentista, então em curso no Brasil, engendrado sobretudo no "utopia científica", que todos os mediadores da cultura científica do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Como ressaltou período buscariam defender.
Oliveira, "entre os sócios do IHGB, a biografia era exaltada tanto por Nos textos dos vulgarizadores, os cientistas passavam a ser con-
sua capacidade de tornar vivos os personagens e as épocas históricas sagrados como heróis nacionais, cujo peso e medida se dava pelas
quanto pela força persuasiva de suas lições. Tratava-se, portanto, de conquistas legadas ao mundo e seu alcance universal. Um exemplo
um género de escrita que atendia aos imperativos mais imediatos do de como esse culto às personalidades científicas se constrói pode ser
programa da historia magistra vitae: fixar os nomes e exemplos do encontrado no UAnnée Scientifique, que passa a incorporar em suas
passado, oferecendo-os à imitação dos leitores no presente" (Oliveira publicações o necrológio dos cientistas falecidos a cada ano.

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INTELECTUAIS MEDIADORES A V U L G A R I Z A Ç Ã O CIENTÍFICA NAS O B R A S DE LOUIS FlGUlE*..,

A valorização do conhecimento científico vincula-se nas obras Fontes


de Figuier à própria narrativa histórica, num modelo que conhece-
mos como a perspectiva chamada de "internalista" das ciências. O Figuier, L. (1872) La Terre avant lê déluge. [Dessinées par Riou, 30 vues
desenvolvimento científico, visível por avanços e conquistas de seus idéale de paysages de Pancien monde. 316 autres figures et 8 cartes
agentes, são indissociáveis das histórias e biografias de génios, cujo géologiques coloriées e J. Gauchard], Paris: Librairie Hachette.
(1873) As grandes invenções antigas e modernas nas sciencias.
exemplo de vida deveria auxiliar a formar novos "cidadãos**. Assim
Obra para uso da mocidade. Trad. António Plácido da Costa. Porto:
como na história política oitocentista, a ciência dos vulgarizadores
Livraria Internacional de Ernesto Chardron.
era contada por grandes feitos (as invenções) e por grandes homens.
(1869) Os sábios ilustres. Christovão Colombo. Trad. Augusto
Os modelos exemplares deveriam comprometer o jovem c os não
Emílio Zaluar. Rio de Janeiro: Oliveira & Cia.
especialistas com os valores próprios da ciência, ensinados a partir
(1877) "Causerie avec lês souscripteurs de UAnnée scientifique."
das virtudes daqueles dedicados ao trabalho científico. VAnnée scientifique et industrielle. Tables dês vingt premières volumes
De forma curiosa, um exemplar do livro de Figuier encontrado (1857-1877). Paris: L. Hachette et cie., 1877,1-21. Disponível em: http://
na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, mostra, em sua materia- gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k2011067.zoom.langPT.r=UAnnée%20
lidade, esse enlace das histórias nacionais e da cultura científica. Na scientifique%20et%20industrieíle. Acesso em: 17/4/2014
contracapa do exemplar de As grandes invenções antigas e modernas Flammarion, C. (1894-1898) Dictionnaire encyclopédique universel con-
nas sciencias indústria e artes, de 1873, está a dedicatória ao então tenant tous lês mots de Ia langue française et résumant l'ensemble
aluno Afonso feita pela professora Thereza (?) de Amaral, datada de dês connaissances humaines à Ia fin du XIXe siècle... Tome 8 (T-Z)
novembro de 1890. Com uma caligrafia bem delineada, ela escreve: Paris: Flammarion. Disponível em: http://catalogue.bnf.fr/ark:/l2148/
cb30439970h. Acesso em: 5/8/2015.
Afonso, guarda esse livro como uma lembrança de quem se orgulha
de ter desenvolvido um pouco tua grande inteligência pela qual
muito espera nossa Pátria; bem o procurarás imitar as virtudes e a Bibliografia
força de vontade dos grandes vultos que aí se apresentam. É o desejo
de quem te estima sinceramente, tua professora, Th. P. de Amaral. Bastos, M. H. C. (2011) "Glórias à educação: Manoel Francisco Correia
Novembro de 1890. e as Conferências Populares (1873-1890). In; Leite, J. L.; Alves, C.
(Orgs.). Intelectuais e a história da Educação no Brasil: poder, cultura
A dedicatória da professora deixava como mensagem a força persua- e políticas. Vitória: Edufes.
siva das lições dadas pela ciência moderna - que exortava à imitação Béguet, B. (Org.) (1990) La Science pour tous, 1850-1914. Paris: Biblio-
dos grandes cientistas e inventores - e indicava, no ato de oferecer a thèque du Conservatoire National dês Arts et Métiers.
obra ao aluno, a retribuição à pátria que este deveria dar através do Bensaude-Vincent, B. (2010) "Splendeur et décadence de Ia vulgarization
seu aprendizado. Seria necessário ter mais dados aqui sobre Afonso, «cientifique." Questions de communication, 17. Disponível em: http://
sua trajetória escolar e atuação profissional no início da era republi- questionsdecommunication.revues.org/368. Acesso em: 17/1/2015.
cana brasileira, mas ao menos a intenção do caminho que ele deveria (2009) "A Historical Perspective on Science and its 'others"*. Isis,
seguir ficava ali registrada. vol. 100, n. 2 (junho 2009), 359-368.

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revista." Fénix - Revista de História de Estudos Culturais, ano 6, n.
3 (jul./ago./set.).

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A LIVRARIA GARNIER E A T R A D U Ç Ã O E EDIÇÃO DE LIVROS PARA A INFÂNCIA

rialidade do que seu conteúdo. É o caso de um dos livros que iremos


analisar. História de um bocadinho de pão, de Jean Mace, que aparece
junto a dois outros livros muito diferentes em termos de conteúdo:
Aventuras de João Paulo Choppart e Aventuras de Roberto, ambos
de Louis Desnoyers, dentro da "Biblioteca das Famílias". Os três
volumes estão listados no Catálogo da Garnier de 1905, com o preço
de 10$000 réis, o mais alto preço na seção de obras para crianças,
em encadernação in 8° luxuosa, ilustrados, possuindo cerca de 350
2. A Livraria Garnier e a tradução e edição páginas cada. O fato de um dos livros, o de Jean Mace, ser voltado
de livros para a infância (1890-1920) à explicação da fisiologia humana e os de Louis Desnoyers serem
Patrícia Tavares Raffaini divertidas aventuras, não parece ter sido um empecilho para que o
editor os reunisse na mesma coleção. Aliás, tal conjunto parece indicar
que a separação por coleções era feita pela materialidade específica
dos livros e não por seus conteúdos. Nesse mesmo Catálogo encon-
tramos ainda 61 outros títulos, em diversos formatos, ilustrados ou
Nas páginas dos catálogos da Livraria Garnier da primeira década não, destinados a crianças e jovens. Já no Catálogo da mesma casa
do século XX encontramos um grande número de livros destinados editorial para os anos de 1911 e 1912 essa quantidade aumenta, pois
às crianças e jovens, em sua maioria livros destinados ao estudo e à os mesmos livros continuam a venda e a eles se somam alguns outros,
escola. No entanto, chama a atenção a separação feita pelo editor como os Álbuns ilustrados de Benjamin Rabier.
em coleções especiais de livros que por sua materialidade e conteúdo Em sua grande maioria os livros editados para crianças por Garnier
parecem estar mais voltadas ao entretenimento. Assim, encontramos são obras clássicas como Fabulas de La Fontaine, Contos de Perrault,
dentro da seção "Primeiras letras, alfabetos, leituras elementares" Contos de Mme Auínoy, Contos de Grimm, Contos de Schmid, e
uma "coleção infantil" composta por 12 álbuns com gravuras colori- narrativas de autores franceses do século XIX, hoje já esquecidos,
das custando cada $800 réis. E ainda "Álbuns ilustrados" que podem mas que naquele momento alcançavam um enorme sucesso de vendas
ser considerados os antecessores das histórias em quadrinhos, nos na França. É o caso dos livros que serão aqui analisados: História
quais aparecem histórias ilustradas em cores, como A Viagem do Alto de um bocadinho de pão e Chiquinho. O editor B. L. Garnier, assim
Mandarim Ka-Lt-Kó e de seu fiel secretário Pa-Tchu-Lt de Eugène lê como seu sucessor H. Garnier eram empreendedores experientes.
Mouel, e Os amores do Sr. Jacarandá de Rodolphe Topffer ao preço Investiam na tradução de textos que seguramente fariam sucesso no
de 3$000 a 7$000 réis. Já a seção "Leitura, redação e estilo" parece ainda incipiente mercado editorial brasileiro. Mas há também alguns
ser dedicada a crianças e jovens que já possuem maior domínio da autores brasileiros na seção destinada aos jovens leitores, como: Inês
leitura, e a classificação de "Livros para prémios" parece evidenciar Sabino, Melo Morais Filho, Figueiredo Pimentel e Victoria Colonna.
que seriam livros a serem dados como presente aos jovens leitores. Uma ausência que pode ser notada no Catálogo da Garnier e no de
A forma de organização dos livros em coleções, ou "bibliotecas", outras editoras brasileiras, no mesmo período, é a de livros ingleses
como são muitas vezes chamadas, parece considerar mais sua mate- e norte-americanos. Apesar de fazerem muito sucesso em seus países

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dc origem, autores do final do século XIX e início do XX, como ensino obrigatório, laico e gratuito para ambos os sexos, ideias que
Lewis Caroíl, J. M. Barrie, Kenneth Grahame, Beatrix Potter, Mark se concretizaram sob a reforma de Jules Ferry. Pouco tempo antes,
Twain, ou o italiano Cario Collodi, só receberam traduções no Brasil em 1862, enquanto era professor de um pensionato feminino, ajudou
a partir das décadas de 1920 e 1930. Essa ausência talvez possa ser a criar a Sociedade de Bibliotecas Comunais do Alto-Reno, que em
compreendida pela enorme influência da cultura francesa em nosso pouco mais de três anos foi responsável pela criação de 83 bibliote-
meio editorial, mas mereceria ser mais bem investigada. cas populares e serviu de estímulo para a criação dessas instituições
Pretendemos neste trabalho analisar duas obras francesas editadas por toda a França. Defendeu o direito de voto das mulheres, bem
e traduzidas pela Garnier no mesmo ano, 1873: História de um boca- como o direito de se candidatarem a cargos políticos. Além disso,
dinho de pão de Jean Mace; e Chiquinho. Enciclopédia da infância, escreveu diversas obras para crianças e jovens e foi o fundador, em
de G. Bruno. Buscaremos, assim, fazer uma breve reflexão sobre as 1864, junto a J. P. Hetzel e Júlio Verne, da Magazin d' Education et
ideias que chegavam ao Brasil por meio da tradução e edição de livros de Recreation, revista voltada ao público infantojuvenil, que veiculou
para crianças na última década do século XIX e nas duas primeiras em capítulos os principais textos de Verne, dele mesmo e também
do XX. Gostaríamos também de refletir sobre o papel de mediador de outros autores. Em 1883, principalmente devido a sua luta pela
tanto do editor como do tradutor. O editor, no caso dessa pesquisa, educação, Jean Mace foi eleito pela assembleia nacional francesa
B. L. Garnier, realizava a escolha do que deveria ser traduzido, em senador irremovível.
que formato o livro apareceria, designava também o tradutor da obra, História de um bocadinho de pão ou Histoire d'une buchée de
e o formato pela qual seria traduzida - de forma fiel ou adaptada. pain, seu primeiro livro para o público infantojuvenil foi publicado
Os tradutores, que nesse período muitas vezes não assinam a tradu- pela primeira vez na França, em 1861, pela casa editorial de Jules
ção, tinham a incumbência de transpor a mensagem de um idioma Pierre Hetzel. O volume, assim como outros de sua autoria, foi inspi-
ao outro. Aqui cabe a observação de que o tradutor, assim como o rado em seu trabalho como professor no Pensionato do Petit Château,
editor, pode ser visto como um intelectual mediador, na medida em localizado em Beblenheim, na Alsácia, onde lecionou para moças
que transmite um saber cunhado por outro, mas, ao mesmo tempo, diversas matérias, como ciências naturais, astronomia e aritmética, de
atua como criador, pois em última instância são dele as escolhas, 1851 até o final de sua vida. Ele próprio nos conta que havia econo-
as palavras e as construções feitas. Lembremos também que, nesse mizado mil francos para pagar a publicação de seu livro e procurou
processo de mediação, o tradutor atua não somente transmitindo um para isso Hetzel, um antigo colega do Colégio Stanislas. O editor, no
determinado conhecimento, mas age exercendo pressões renovadoras entanto, ao ler a obra decidiu publicá-la à própria custa. Rapidamente
sobre as estruturas de construção linguísticas de seu país. o livro se tornou um grande sucesso e, cinco anos depois, em 1866,
ela recebia sua 18a edição francesa. No final do século XIX, já havia
sido traduzido para diversas línguas.
Fisiologia para crianças? No Brasil, História de um bocadinho de pão recebeu pelo menos
duas edições, ambas feitas pela casa de B. L. Garnier. A primeira,
Pouco conhecido no Brasil, Jean Mace (1815-1894) teve um papel por volta de 1873, foi impressa no Brasil, na Typographia Franco-
fundamental na reforma do sistema educacional francês, tendo -Americana, que havia sido fundada havia pouco tempo por Garnier.
sido, em 1866, o fundador da Ligue de 1'enseignement, a favor do Essa edição não traz nenhuma ilustração e utiliza um papel de

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qualidade inferior. Dela encontramos três exemplares no acervo do A segunda edição em português de História de um bocadinho de
Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Segundo pão foi impressa em Paris em 1897, mais de vinte anos depois. Nela,
Wilson Martins, a tradução do livro de Jean Mace foi feita em 1873 assim como na primeira, não consta número de edição, estando tam-
por Alfredo d'Escragnolíe Taunay. No entanto, os exemplares tanto bém ausente qualquer informação sobre a tradução. Temos somente
da primeira quanto da segunda edição não trazem indicação do tra- a informação, também presente na primeira edição, de que o livro
dutor e não foi possível verificar a procedência de tal afirmação, já havia sido traduzido da 32a edição francesa, o que talvez trouxesse
que Martins não cita sua fonte. Mas há indicativos de que a tradução para a obra certa legitimidade, pois se já havia tido em França tantas
poderia ter sido feita pelo autor de Inocência. Nesse período, Taunay edições, deveria ter suas qualidades. Porém é interessante notar que
era professor da cadeira de Mineralogia e Geologia da Escola Militar, não há a indicação de que seria uma segunda edição brasileira. O
e seu conhecimento da língua francesa era notório, não só por ser sua texto continua o mesmo, mas essa segunda edição é materialmente
língua materna, como por ter publicado em francês o livro A retirada muito diferente da primeira, sendo ricamente encadernada, com
da Laguna narrando os episódios vivenciados por ele na Guerra do acabamento dourado nas páginas, tendo 13 ilustrações e papel de
Paraguai. Taunay também tinha contato com o editor Garnier, como qualidade muito superior ao usado anteriormente.
constatamos pelo recibo assinado em dezembro de 1871, por meio do Nos catálogos da Livraria Garnier para os anos de 1903 a 1906 en-
qual ficamos sabendo que Taunay não só vendeu ao editor oitocentos contramos essa edição luxuosa e cara na seção intitulada "Biblioteca
exemplares de Mocidade de Trajano, que havia impresso na Typo- das Famílias", mas o livro de Jean Mace aparece também em versão
grafia Nacional, como também os direitos autorais dessa obra1. Os mais barata em uma outra seção: "Ensino Intuitivo", em formato
anos de 1871 a 1874 são para Taunay de grande atividade literária, menor, in-18, disponível em brochura, por 3$000, e encadernado,
publicando nada menos que cinco volumes: Mocidade de Trajano, por 4$000. O catálogo ainda informa que o livro foi "aprovado pelo
Inocência, Lágrimas do coração, Histórias brasileiras e Retirada conselho superior de instrução pública e adotado para o uso das es-
da Laguna. Além disso, outra possível indicação do relacionamento colas municipais do Distrito Federal". História de um bocadinho de
entre Taunay e o editor era o fato de que seu tio, Teodoro Maria pão é o único dos livros voltados à infância publicados pela Garnier
Taunay, cônsul francês, era um dos poucos amigos de B. J. Garnier que recebe edições tão diferentes. Infelizmente nenhum exemplar em
(Hallewell 1985). Se Alfredo d'Escrangnolle Taunay foi mesmo o formato in-18 foi encontrado e dele só temos as informações presentes
tradutor de História de um bocadinho de pão, isso poderia nos re- no catálogo.
velar uma preocupação do editor Garnier em garantir a qualidade Para fazermos o trabalho comparativo utilizamos as versões di-
da tradução. Como se pode ver no livro impresso, o texto prima por gitalizadas encontradas no Acervo Gallica, da Biblioteca Nacional
ser minuciosamente fiel ao original em francês, mas não deixa de da França. Nesse acervo existem quatro exemplares da obra, sendo:
tecer uma narrativa fluida, envolvente, usando expressões em língua uma primeira edição de 1861, em brochura e sem ilustrações; uma
portuguesa que fazem com que a leitura seja clara e prazerosa, algo 30a edição, provavelmente de 1872, também sem ilustrações; um ter-
fundamental para o público leitor a que se dirigia. ceiro exemplar de 1867 no qual falta o número da edição, ilustrado;
e um último sem data e sem número de edição, também ilustrado,
que provavelmente é de 1865 e que possui um extenso catálogo da
1 Documento disponível na Biblioteca Nacional Digital: http://objdigital.bn.br/acervo_digita!/
div_manuscritos/Iiteratura/mss_I_07_09_029_001.pdf. casa Hetzel ao final. Nesse catálogo encontramos um importante

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texto feito pelos editores e uma lista das obras publicadas pela casa desde belas edições ilustradas e encadernadas luxuosamente, como
editorial com ilustrações. O livro Histoire d'une bouchée de pain faz História de um bocadinho de pão, vendida a 10$000, como títulos
parte da coleção Bibliothèque d'Édueation et de Récréation, o edi- mais baratos como Contos de Schimd a 1$000, assim como também
tor o classifica como um livro voltado à educação, não deixando de Hvros ilustrados, como os de Topffer e de Benjamin Rabier, vendidos
ressaltar os aspectos que fazem com que sua leitura seja prazerosa. É de 5$000 a 7$000, As escolhas feitas parecem indicar que, apesar
interessante notar que esse volume está classificado no catálogo junto do reduzido mercado de leitores no período, o que fazia com que as
a outros como os de Júlio Verne, também considerado educativo, edições demorassem anos para serem vendidas, o editor apostava em
como o próprio editor explicita: "O que o Sr. Mace faz pela ciência uma diversidade de formatos, que poderiam alcançar diversos segmen-
natural, o Sr. Júlio Verne faz pelos estudos geológicos, astronómicos tos da população. Percebemos também que livros de muito sucesso
e geográficos." Ainda nesse catálogo o livro aparece como sendo na França não demoravam tanto a receber traduções no Brasil, e isso
adequado para "jeunes filies etjeunes gens", ou seja, para jovens de acontecia também com aqueles voltados ao público infantojuvenil.
ambos os sexos. Essas traduções eram encomendadas a literatos competentes,
No Brasil B. L. Garnier começou publicando a obra sem ilus- conhecidos e com textos já publicados. José Paulo Paes nos relata
trações e em brochura, em 1873, talvez para avaliar se o mercado que Júlio Verne foi traduzido por Afonso Celso, e diversas obras
aceitaria ou não um livro infantojuvenil de mais de 300 páginas que da Garnier eram traduzidas pelo ensaísta e crítico literário Nelson
não era um romance, ou uma aventura de puro entretenimento. A Vítor (Paes 1990). Hallewell, citando Ernesto Senna, nos informa
iniciativa deve ter alcançado algum sucesso, pois cinco anos depois, que Garnier pagava na década de 1870 cerca de $400 réis por mil
em 1878, ele publica no mesmo formato, brochura sem ilustrações, palavras, o que seria o equivalente a 250$000 ou 280$000 por um
outro livro de Jean Mace: Os servidores do estômago, ainda so- volume como os de Júlio Verne (Hallewell 1995). No entanto um re-
bre a fisiologia humana e dos animais. Em edição de 1897, o livro cibo emitido por Visconti Coaracy em 1887 nos revela uma quantia
História de um bocadinho de pão mantém o texto anterior, mas é muito superior a esta, como vemos no documento conservado pela
impresso em Paris como Garnier fazia com praticamente todos os Biblioteca Nacional. Nele, vê-se que Coaracy recebeu 42$000 pela
livros desse período. Publica então uma edição luxuosa, com ilus- tradução de Tia Ursula, de Georges Ohnet.1 Esse livro, publicado
trações, encadernação e corte dourado. Essa edição permanece no em francês sob o título de Lê malheur de Tante Ursule, possui
catálogo durante toda a primeira década do século XX. O editor, cerca de 16.000 palavras, assim o editor teria pago ao tradutor por
no entanto, não deixa de publicar uma versão mais barata para uso volta de 2$625 por mil palavras. Vivaldo Coaracy em suas memó-
escolar. Já o segundo livro de Mace, Os servidores do estômago^ rias comenta que o pai foi o tradutor de quase todas as obras de
apesar de ser praticamente uma continuação do primeiro, parece G. Ohnet para a Garnier, durante os últimos anos de 1880. Além
não ter recebido uma nova edição, assim como também não aparece de ter traduzido vários outros autores, foi também editor, tendo
em catálogo no formato antigo. organizado a primeira edição das Obras completas de Fagundes
Ao analisarmos os catálogos da casa editora de B. L. Garnier Varela (Coaracy 1959).
da primeira década do século XX juntamente com os exemplares
impressos encontrados por essa pesquisa, vemos que ele editava
1 Documento disponível na Biblioteca Nacional Digital: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/
obras infantis para um público diversificado. Encontramos a venda div_manuscritos/literatura/mss_I_07_09_Oll.pdf.
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Ao compararmos as edições brasileiras e francesas de História animal. Não há nenhuma ilustração em que apareçam estruturas
de um bocadinho de pão com as do Acervo Gallica percebemos que fisiológicas ou algo similar, o que foge de um padrão esperado para
as capas das brochuras são muito mais simples, enquanto as enca- um livro didático. Outro aspecto interessante é que o autor constrói
dernadas utilizam papel marmorizado e couro. Em sites de venda sua narrativa dialogando com uma menina, que poderia ser a que
de livros raros, encontramos capas similares à da Garnier, como aparece em todas as ilustrações. No entanto, pelo conteúdo e pela
as feitas em vermelho ou azul e dourado nas edições encadernadas forma do texto, imaginamos que ele é endereçado ã uma jovem de
da Hetzel para as obras da coleção Viagens extraodinárias de Júlio catorze ou quinze anos, enquanto a menina retratada pelo ilustrador
Vcrne. Capas como essas foram utilizadas em grande parte dos livros parece ter apenas cinco ou seis anos. A personagem retratada por
para crianças e jovens pela editora de B. L. Garnier, e se comparada Froelich se parece com a que esse mesmo ilustrador desenhava para
aos livros publicados no mesmo período por outras editoras como outros livros da editora, principalmente para os da série Lili, volta-
a Livraria do Povo, de Pedro Quaresma, mostram que se tratava de da a um público bem mais novo, escrita pelo próprio Hetzel sob o
uma publicação sofisticada e diferenciada. pseudónimo de P. J. Stahl.
O ilustrador é o mesmo nas edições francesas e brasileiras: o artista Ao compararmos os textos verificamos que a tradução em portu-
dinamarquês Lorenz Froelich (1820-1908), responsável pelas ilus- guês é fiel ao texto original, praticamente literal. Como já foi dito,
trações de grande parte dos livros da Editora Hetzel. As ilustrações, o tradutor, provavelmente Taunay, realizou um trabalho impecável,
tanto na obra francesa como na brasileira, estão inseridas no texto em construindo uma narrativa fluida e clara. Os capítulos são os mes-
momentos semelhantes, possuem a mesma qualidade e são em mesmo mos, com os mesmos parágrafos, nada é suprimido na edição em
número, treze no total. No entanto, ao lermos o texto percebemos português. Alguns poucos termos usuais no período nos causam hoje
certa discrepância entre o que está sendo narrado e as ilustrações. O certo estranhamento, como "azote", que atualmente traduziríamos
livro discorre sobre a fisiologia humana, em uma primeira parte, e a como nitrogénio, mas na tradução de 1873 segue a nomenclatura
fisiologia dos animais, em uma segunda. O autor pretende elucidar francesa e não a inglesa.
como ocorre o processo de digestão, daí o título. Mas em nenhum A narrativa é estruturada em capítulos, que recebem do autor a
momento as ilustrações ajudam a compreender esse processo. Elas denominação de "cartas", mas que de forma alguma se assemelham
mostram uma pequena menina de cinco ou seis anos em algumas a um modelo usual de cpistolografia. São antes capítulos escritos
atividades, como segurando uma vela, correndo com o irmão. E como de uma forma muito coloquial, nos quais o autor disserta sobre
se houvesse certo pudor de mostrar a fisiologia humana a crianças e como se dá o processo de digestão, e explica o funcionamento de
jovens. Assim, em dado momento da narrativa, quando Jean Mace diversos órgãos humanos. Na segunda parte, faz o mesmo sobre os
nos fala de aspectos da respiração, do oxigénio e do diafragma, a animais. No decorrer dessas explicações ele cita exemplos, recor-
imagem mostra a menina correndo com o irmão (p. 64). De fato, re a histórias que deveriam fazer parte do repertório escolar dos
o ilustrador se refere a um momento no qual o escritor explica por jovens da época, como a da fábula de La Fontaine "Os membros
que a menina se sente tão cansada e com falta de ar quando corre e o estômago" e o apólogo de Menênio. Aqui, como em diversos
perseguindo o irmão. outros pontos da obra, a posição política de Jean Mace fica evidente.
Por todo o texto, as ilustrações sempre se referem a detalhes O autor, filho de um condutor da companhia Lafitte et Caillard,
da narrativa, e não ajudam a compreender a fisiologia humana ou que estudou no prestigiado colégio Stanislas por ter conseguido

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a concessão de uma bolsa de estudos, deixa claro sua visão de tece comentários pessoais e engraçados sobre ele mesmo, como quando
mundo. Assim ocorre ao comentar que acredita ser o apólogo uma começa a discorrer sobre um assunto paralelo: "Fui já repreendido
"brincadeira desengraçada" pois Menênio esquece que antes de o por pessoas as quais não faltava de todo a razão, e que me censu-
estômago (senado romano) receber a comida ela é triturada pelos ravam por perder tempo a parolar disto e daquilo outro." (p. 37)
dentes (trabalhadores). Ou então: "(...) confesso que não desgosto de pensar quanto as três
Essa postura política, também presente em outros autores do pe- quartas partes de nossos atuais homens notáveis hão de fazer rir
ríodo que apoiaram a Revolução de fevereiro de 1848, fica clara em as criancinhas que viverem daqui a duzentos anos. É que o tempo
várias passagens do livro. Logo no início, descrevendo a produção de é muito vingativo, e reduz muitas coisas e pessoas as suas legítimas
alimentos que chegam à menina pelo café da manhã, o autor coloca proporções." (p. 92)
de forma bem direta: Em algumas passagens deixa explícito como o conhecimento da
ciência na época era limitado e aproveita para tecer comentários
Não valia a pena começar a contar-lhe esta bela história, se, de vez sobre sua visão de mundo. Um exemplo disso é o trecho no qual
em quando, não lhe tirássemos as consequências morais. E qual é não consegue explicar como o sangue, que nutre todos os órgãos, se
a consequência moral da história de hoje? (...) Esse campônío, do transforma em pele, ossos, unha, olhos e outros tecidos. "O que se
qual porventura escarnece, rindo da sua blusa de grosseiro estofo e conclui daqui, minha menina? Duas coisas. Primeira: que não enten-
dos seus tamancões, foi quem trouxe com sua calosa mão o que a demos nada disto, o que a equipara com o maior sábio do mundo.
menina come. Muitas vezes é para a servir que enegrecem e se sujam
Segunda: que o nosso corpo é um milagre permanente, um milagre
as grosseiras mãos, em que recearia tocar, do operário de mangas
que bebe, come, passeia (...) Deus habita nele."(p. 103) Mais à frente
arregaçadas, (p. 18)
no texto Mace deixa claro que Deus seria esse:
Em outro momento da obra observa:
O Deus bondoso não está tão longe da menina, como lhe parece.
Não é um ente fantástico, exilado no seio desse espaço infinito, que
o trabalho manual é para nós uma condição excelente de existência,
os homens chamam céu, para dar-lhe um nome. Se a mão do oni-
um aumento de vida, uma superioridade, e que não se deve por
potente se estende assim até os mais recônditos escaninhos do seu
conseguinte olhar muito sobranceiramente os que ganham o pão,
corpo, a voz dele fala também em seu coração, e cumpre escutar-lhe
como se costuma dizer, com o suor do rosto (...) porque o trabalho
o que ele diz. (p. 104)
engrandece quem o aceita, e constitui uma verdadeira nobreza
física, (p. 172)
Já no final do livro, quando aborda a nutrição das plantas, volta a
veicular ideias peculiares sobre Deus, os seres humanos, os animais
E continua: **O trabalho manual não rebaixa, enobrece. Desprezá-lo é
e toda a natureza. "Agora que estou a acabar lembro-me ter-lhe dito
apoucar-se e privar-se de uma das glórias e das alegrias da vida." (p. 173)
que a menina era um templozinho, em que Deus manifestava inces-
No entanto, a escrita de Mace não se apoia demasiadamente nas
santemente a sua presença ativa por um milagre permanente. Pode
colocações morais. É antes leve e agradável, mesmo tendo em vista
agora considerar uma árvore mais que um pedaço de madeira que
o assunto tratado, o que talvez ajude a explicar o enorme sucesso
dá sombra. Deus também lá dentro está." (p. 343)
que a obra alcançou. Em muitos momentos da narrativa, o autor

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Em muitos momentos da narrativa, principalmente na segunda Idade Média se submeteram de bom grado à digestão, deixaram-ss
parte, dedicada à fisiologia dos animais, o autor comenta sobre as dissolver e morrer, para renascerem mil vezes mais fortes e vigoro-
semelhanças entre as diversas classes de animais e o ser humano e sas. Sabe também por que motivo a Alemanha, terror das crianças
como esse conhecimento pode transformar a visão que os homens têm que aprendem geografia, com uma população mais numerosa, mais
dos animais. Sobre a criação da Sociedade de Proteção dos Animais, esclarecida incontestavelmente e mais moralizada, com legiões de
fundada na França em 1845 e declarada de utilidade pública em 1860, homens eminentes em todos os ramos, não progride como a França,
o autor afirma: "Ora, o melhor arrazoado que se pode imaginar a embora ela o negue? É porque a Alemanha se compõe de pequenas
sociedades indigestas, que se têm até hoje rebelado contra os esforços
favor do direito do animal a proteção é a viagenzinha que vamos
do tempo para dissolvê-las; é porque todas querem conservar a sua
empreender através das classes dos animais." (...) "Comecemos pelo
forma pessoal, e reagem contra a fusão nesse quimo nutritivo, único
cavalo, por exemplo, um dos que mais vezes precisam que o protejam." capaz de dar força e vida ao coração de um povo. (p. 66)
(p. 210) É também com o objetivo de fazer o leitor pensar no direito
dos animais à vida que insere no texto uma passagem do romance Ao tecer essas analogias entre os processos fisiológicos e a constituição
Tristam Shandy, na qual Uncle Toby, ou Tio Tobias na tradução bra- das nações, o autor deixa clara sua visão de superioridade francesa em
sileira, recusa-se a matar uma mosca, deixando claro para o leitor que termos de soberania nacional, apesar de colocar a população alemã
a citação tinha um propósito. "Citei o Tio Tobías, que não era para como superior em termos morais e culturais. A nação só poderia ser
aqui chamado, para ter o ensejo de lhe dar a ler dez linhas de Sterne, forte e progredir se fosse una, se as diversidades existentes nas várias
que eu desejava que todas as crianças vissem." (p. 307) Um pouco províncias fossem superadas, em prol de uma nacionalidade única
mais à frente volta a mencionar a Sociedade Protetora dos Animais: e centralizada.
Em alguns momentos da narrativa, percebemos a visão peculiar
Quando ouvir dizer que a Sociedade Protectora dos Animais se que Jean Mace tinha sobre a criança e a infância. Para ele a natureza
encarrega de desagravar algum boi ou algum carneiro, vítimas é na criança uma força imperativa e deve ser assim compreendida.
de barbaridades, não se ponha a rir antes do tempo à custa dela. Ao contrário do que poderíamos esperar de um livro de meados do
Essas humildes espécies protegeram a nossa em seus princípios e
século XIX, o autor não pensa que a criança deva ser severamente
lembre-se também que o progresso das sociedades começou por
moldada e sugere que professores levem em consideração essa natureza
um rebanho, (p. 243)
ao lidar com seus alunos. Como podemos ver no trecho a seguir, no
qual compara as crianças aos passarinhos, na agitação causada por
Em alguns momentos, o autor tece também considerações sobre a
um coração que bate mais rápido e assim aquece o sangue:
constituição das nações, criando paralelos com o processo de digestão,
evidenciando uma visão bastante peculiar: As criancinhas, que verdadeiramente são os pássaros chilreadores
dos nossos lares, e cujo sangue é também propulsor muito mais
(...) sabe a menina por que razão a França está hoje em dia tão enérgico do que o nosso, fazem muitas vezes o mesmo nessas gran-
robusta e vigorosa. Goza de tanta influência no mundo, e obriga des gaiolas chamadas escolas, e talvez os mestres não se zangassem
os seus próprios rivais a olharem continuamente para ela? É por- tanto com elas se pensassem em tudo. Convenho que é bom acos-
que os milhares de pequenas sociedades de que se compunha na tumar desde logo esses inquietos ruinzões [sic] a não se deixarem

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dominar, como verdadeiros pardais, pelos impulsos completa mente de France par deux enfants. Escrito no contexto da derrota francesa
animais do sangue; mas também é preciso contemporizar, como na guerra franco-prussiana, esse livro alcançou enorme popularidade.
se diz, com eles, e saber deixar meio aberta a porta da gaiola em Estima-se que, de 1880 a 1910, tenha atingido a cifra de 8 milhões
ocasião oportuna, (p. 262) de exemplares vendidos em solo francês. Apesar de não ter sido tra-
duzido no Brasil, provavelmente por se tratar de uma obra em que
Essa visão sobre a infância e como deveria ser o ensino se assemelha a geografia e história francesa serviam de elemento para fortalecer
com a que aparece no livro Francinet, de G. Bruno. O livro, escrito pela o nacionalismo, frente à retirada do exército alemão do território
autora francesa Augustine Fouillée (1833-1923) sob o pseudónimo G. francês, serviu de modelo e inspiração para a obra Através do Brasil
Bruno, teve sua primeira edição na França em 1869, obtendo um enor- de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, publicada em 1910.
me sucesso de público. Cinco anos após seu lançamento, em 1874, já No Brasil, Francinet, traduzido por Chiquinho, Enciclopédia da
estava na sétima edição, provavelmente em virtude de ter sido premiado Infância, teve sua primeira edição em 1873, isto é, apenas quatro anos
pela Academia Francesa, pela Sociedade para Instrução Elementar e após a primeira edição francesa. A tradução, extremamente fiel ao
aprovado pelas bibliotecas escolares e escolas da cidade de Paris, como texto original, foi feita por Victoria Colonna,2 que colaborava desde
vemos impresso em seu frontispício. Ao compararmos as ideias de 1868 no Jornal das Famílias, também editado pela Garnier, com
Jean Mace e Augustine Fouillée sobre a infância e a educação temos pequenas narrativas ficcionais, contos e alguns textos que tratavam
algumas semelhanças: as crianças são vistas como tendo uma opinião de assuntos cotidianos. Foi também a tradutora de um romance que
ativa, sendo capazes de fazer perguntas inteligentes, tecer comentários narrava episódios da guerra franco-prussiana: O espião prussiano,
e estabelecer comparações muito perspicazes. Mas existem também lançado em 1872 pela mesma editora. Publicou pela casa de B. L.
alguns distanciamentos. Na obra História de um bocadinho de pão, Garnier, em 1877, o livro de sua autoria As manhãs da avó, em que
o autor vê a educação como forma de aprimoramento pessoal. Para a constrói a história de uma avó já doente, que ao contar histórias
menina, a quem as cartas são dirigidas, o conhecimento possibilitará aos netos transmite, por meio delas, diversos ensinamentos morais e
a capacidade de ser mais justa, de ser melhor mãe, de compreender também práticos. Em muitas dessas histórias, assim como no livro
como as maravilhas da natureza a aproximam de Deus. Já na obra de A. Fouillée, encontramos a valorização do trabalho e do estudo
Francinet, a autora deixa claro em inúmeras passagens que a educa- como formas de ascensão social. Em certa medida, As manhãs da
ção e o conhecimento levam ao progresso material, possibilitando às avó parece ter sido inspirado em Chiquinho, apesar de ser totalmente
camadas mais pobres a ascensão social. ambientado na cidade do Rio de Janeiro.
Para realizar essa análise utilizamos o original em francês de
Francinet em sua sétima edição, de 1874, obra encadernada, sem
Chiquinho. Noções elementares de moral, ilustrações e a comparamos com a segunda edição brasileira, fei-
indústria, comércio e agricultura ta pela Garnier em 1881, também encadernada sem ilustrações,

Alguns anos depois da publicação de Francinet, em 1877, Augustine


Fouillée, usando o mesmo pseudónimo G. Bruno, escreveu ainda 2 O pseudónimo usado por essa autora remete à poetisa italiana do século XVI; infelizmente
não foi possível identificá-la em nenhum dicionário bibliográfico, Sacramento Blake acredita
outro texto que obteve ainda mais sucesso que o primeiro: Lê Tour ser pseudónimo de uma "distintíssima escritora brasileira".

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existente no acervo do Real Gabinete Português de Leitura no Rio da necessidade de instrução dos operários; do papel da mulher na
de Janeiro. As duas edições são, comparadas ao livro História de família, entre outros temas divididos em 121 pequenos capítulos.
um bocadinho de pão, muito mais simples, feitas em papel mais Os temas abordam muitos assuntos, em sua maioria versam sobre
barato e encadernação em papel cartonado. Chiquinho aparece no economia, a agricultura, a indústria e o comércio, a partir do relato
catálogo da Garnier de 1903 na seção "Leitura, redação e estilo", de histórias de inventores e outros personagens históricos, que pos-
estando em sua 4a edição ao preço de 3$000 réis. É interessante sibilitam também a veiculação de conhecimentos morais.
notar que o nome da tradutora aparece em letras maiores que o da No capítulo XL temos, por exemplo, a explicação dada pelo
autora, corno forma de chamar atenção talvez porque o público já professor sobre as três formas de propriedade, a propriedade de si
a conhecesse do Jornal das Famílias. Outro detalhe interessante é a mesmo, a propriedade de bens móveis e de bens imóveis. Nesse trecho,
indicação do número da edição, que praticamente não existe em Chiquinho fica surpreso ao constatar que, além da propriedade de si
outro livro da seção. Se pensarmos no restrito mercado para livros mesmo, do seu trabalho e de sua inteligência, possuí também alguns
infantojuvenis, no período, quatro edições de uma obra é algo sig- bens móveis como seu canivete e seus tamancos. Mais à frente, no
nificativo, mesmo em trinta anos. Logo abaixo do nome do livro capítulo XLV, o livro aborda um tema que deve ter gerado certo mal-
vemos uma descrição pouco usual no catálogo: "É este o melhor -estar aos leitores brasileiros das décadas de 70 e 80 do século XIX.
livro de leitura que se pode oferecer aos meninos e meninas, tanto O capítulo intitulado "A primeira das propriedades é a propriedade
pela grande abundância de conhecimentos úteis, que sob a forma de si mesmo. A injustiça da escravidão" tem como epígrafe o trecho:
mais singela aí se encontram, como pela simplicidade da forma, "O homem é sagrado para o homem. O homem é uma pessoa não
acessível a todas as inteligências." uma coisa, isso quer dizer que ele é racional e livre, à imagem e
Chiquinho nos conta a história de um menino de nove anos, que semelhança de Deus. Ele pertence naturalmente a ele mesmo, não
começa a trabalhar em uma manufatura de algodão para ajudar a podendo jamais ser propriedade de alguém."
mãe viúva a sustentar a família. Seu trabalho consiste em moer o ín- Em seguida, o professor começa a dissertar sobre o fato de que os
digo usado para o tingimento dos tecidos. Sua história se transforma homens nem sempre compreenderam que seus verdadeiros interesses
quando avisa o proprietário da manufatura, Sr. Clartan, do início de devem sempre estar de acordo com a justiça, e quando isso não ocorre
um incêndio, salvando assim toda a fábrica. Como recompensa, Sr. trazem consequências negativas para toda a sociedade. Afirma então:
Clartan dá à mãe do menino uma soma considerável em dinheiro, "A forma mais odiosa de violência e roubo, depois do assassinato, é a
reduz seu trabalho para quatro horas diárias e permite que ele assista escravidão." Explica assim aos alunos que a escravidão foi utilizada
às lições dadas por um professor particular a seus netos, Angelina em muitos períodos da história da humanidade, como na Antiguidade
e Henrique. Esse enredo se desenvolve pelas primeiras cinquenta entre os egípcios, os romanos, e ao narrar os horrores que ela possibi-
páginas do livro, sendo que as mais de trezentas subsequentes são litava motiva a pergunta de Angelina: "A escravidão não existe mais,
destinadas às lições que o preceptor, Sr. Edmundo, dá às três crianças. não é professor?" Na resposta, Sr. Edmundo deixa claro o papel de
Nessas lições, as perguntas feitas pelas crianças são o que motiva as seu país: "A França, sempre acessível aos sentimentos generosos, foi
aulas do professor. Assim, fala-se das desigualdades sociais; do pro- a primeira a abolir a escravidão em suas colónias, já há 24 anos. A
gresso material que as novas invenções tecnológicas possibilitam; da Dinamarca, a Inglaterra, a Holanda imitaram seu exemplo." Relata
divisão dos trabalhos nas indústrias; das descobertas científicas; então que a escravidão havia deixado de existir havia pouco tempo

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nos Estados Unidos da América do Norte. E que ela "ainda hoje existe extrema importância a criação de mais de 1.500 escolas para homens
em algumas regiões menos civilizadas", (p. 117) e mulheres afrodescendentes, no segundo ano após a emancipação, e três
Nesse momento da narrativa, a tradutora não deixa de fazer uma anos mais tarde já existirem mais de 4.000. O professor dá destaque a
nota de rodapé, a única de todo o livro, na qual tece o comentário: essa iniciativa relembrando que nos Estados Unidos da América, antes
"Felizmente também o Brasil entrou em nova e esplêndida época de da abolição, existiam, em alguns estados do Sul, leis que proibiam
civilização, promulgando a lei de 28 de setembro de 1871, que deter- o ensino das primeiras letras aos escravos. Em muitos momentos da
minou a liberdade de todos os filhos de mulheres escravas, nascidos narrativa a autora revela, de forma muito clara, sua opinião sobre a
depois dessa memorável data." (p. 117) É interessante notar que a educação. Nesse sentido, aproxima-se do pensamento de Jean Mace,
tradutora não consegue deixar de se colocar, tecendo a única nota valorizando o ensino laico e gratuito para meninos e meninas pobres
de todo o livro. Ela, assim como o editor, poderia ter suprimido essa ou ricos, brancos ou negros.
única frase - a de que a escravidão ainda existia em regiões menos No capítulo LVII a autora enfatiza a ideia de que a educação pode
civilizadas -, optando por deixar o texto mais suavizado aos leitores remediar as injustiças sociais. O capítulo assim se inicia: "Não se
brasileiros. No entanto, ela escolhe ser fiel ao texto original e mantém esqueçam, crianças, que a ciência e a instrução são também capital.
a dura crítica à escravidão, o que nos revela suas opiniões sobre essa Elas são as economias morais da humanidade", (p. 157) Passa então
instituição, ao mesmo tempo que informa ao leitor que, no Brasil, o a dissertar sobre a importância do trabalhador abandonar maus há-
primeiro passo para a abolição estava dado, já que não nasceriam bitos como a bebida e o tabaco e se aprimorar por meio do estudo e
mais escravos em terras brasileiras. da leitura. Chiquinho então pergunta como o trabalhador pode ler se
Apesar de ainda termos escravos, a civilização não tardaria a não possui o dinheiro para comprar livros. Aqui então o professor fala
chegar, na opinião da tradutora. No livro, As manhãs da avó, de sobre as Bibliotecas Populares, citando inclusive a biblioteca fundada
autoria de Victoria Colonna, a questão também aparece um tanto em Beblenheim, Alsácia, e as bibliotecas populares do Alto-Rcno. O
quanto suavizada, pois a avó faz a crítica à escravidão chamando-a texto, contudo, não menciona Jean Mace, que foi o fundador tanto
de "feia chaga", mas em seguida comenta que em terras brasileiras da biblioteca mencionada quanto da liga de bibliotecas do Alto-Reno.
os proprietários de escravos eram "mais humanos" do que no mundo É quando Sr. Edmundo aproveita para elogiar os operários que, após
antigo. Como não foi possível definir quem seria de fato a tradutora, o trabalho, se dedicam a passar algumas horas em uma biblioteca ou
e como o único exemplar da obra encontrado é a segunda edição de levam o livro para casa para lerem para suas famílias. Pede então a
1881, ficamos sem saber se a tradutora ainda era viva e se fez alguma Chiquinho que não esqueça os bons exemplos, dedicando-se sempre
modificação em sua nota, posteriormente à abolição da escravatura, ao trabalho e ao estudo.
nas edições subsequentes. Diante de tais considerações, podemos imaginar o estranhamento
No capítulo seguinte ao texto sobre a escravidão, temos a narração dos leitores brasileiros, pois, não só éramos totalmente desprovidos
da história de Abraham Lincoln e da Guerra Civil Norte-Americana. de bibliotecas públicas, como o índice de analfabetismo era superior
Ao narrar os acontecimentos a autora dá grande destaque ao fato de a 80% da população, pelo censo de 1872, realizado um ano antes da
Lincoln ser proveniente de uma família pobre e só conseguir chegar tradução do livro, índice esse que foi mantido no mesmo patamar por
ao mais alto posto político, o de presidente dos Estados Unidos, por quase vinte anos, como nos informa o censo de 1890 (Carvalho 2012).
meio do estudo. Assim também mostra que, além da abolição, foi de No entanto, vemos ressonâncias dessas ideias no livro, As manhãs

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da avó, quando o neto Benjamín se queixa à avó de que gostaria de Apesar de longa, a citação nos revela em primeiro lugar que a au-
estudar e ler mais sobre história natural, mas não pode comprar livros tora coloca Chiquinho como uma criança capaz de fazer reflexões
devido a sua pobreza. A avó então explica que, quando ele começar a acuradas sobre os movimentos sociais. As crianças em sua obra
trabalhar, poderá ser assinante da "Bibliotheca Fluminense"3 e tomar aparecem como capazes de estabelecer relações, tecer críticas e
emprestados os livros que desejar. chegar a conclusões muito peculiares. Assim, temos a veiculação
Voltando ao livro Chiquinho, depois de um curto capítulo dedi- de ideias sobre como a sociedade poderia se transformar de forma
cado aos impostos, e como as nações devem utilizá-los para o bem democrática, por meio do voto. Este é o meio que aparece como
público, o professor fala sobre o voto e os eleitores. Primeiro tece uma correto no discurso, não só do professor, mas também das crianças,
longa explicação sobre como os eleitores votam em deputados e estes Não podemos deixar de lembrar que o livro foi escrito no contexto
votam as leis que regem a nação. Nesse momento, no capítulo LXX- da tumultuada eleição de 1869, na França. Por meio do diálogo entre
XIV, reflete sobre a importância do estudo e do conhecimento, pois Chiquinho e seu professor, a autora veicula suas ideias sobre como
sem ele os eleitores "escolheriam seus deputados às cegas (...) e nessas as transformações sociais deveriam acontecer em uma sociedade
condições o voto em lugar de ser útil à prosperidade do país só traria democrática. No Brasil podemos imaginar como esse trecho pode
obstáculos", (p. 242) Em seguida à explicação de como funcionava ter sido recebido, pelo menos junto ao diminuto público leitor do
o sistema representativo francês, a autora coloca a seguinte reflexão: período, já que desde 1870 tínhamos um Partido Republicano. É
também interessante apontar que a autora não tece nenhum comen-
Chiquinho havia escutado tudo aquilo com grande atenção. Como tário sobre o sufrágio feminino.
era uma criança inteligente, e as questões que estavam em jogo lhe Sobre a exclusão das mulheres do direito de voto, temos alguns
interessavam particularmente, apesar de sua pouca idade, ele fez debates, capítulos à frente; "O papel da mulher na família" e "His-
em seguida uma reflexão muito razoável: - Senhor, disse-o [sic] que tória de Sophie Cerniam", O ponto de partida é a pergunta feita
os trabalhadores e pobres escolhem seus deputados assim como os
também por Chiquinho ao professor; "Porque em todas as histórias
ricos, e eles colaboram também para que se façam as leis da justiça
que o senhor nos contou são sempre os homens quem inventaram
que regulam os destinos das sociedades?
tudo e nunca as mulheres?" (p. 321). E ele prossegue sua fala com-
Sr. Edmundo: - Certamente, meu rapaz, isso é incontestável.
Chiquinho: — Não existem mais pobres e trabalhadores que ricos? parando sua capacidade com a de Angelina e de Henrique, consta-
Sr. Edmundo: - Sim, meu amigo, isso é evidente. tando que, dos três, ela é a mais rápida para compreender tudo e
Chiquinho: - Então, senhor, os trabalhadores têm então a certeza para responder melhor. Sr. Edmundo pede então a Angelina que
de terem, se quiserem, mais deputados para representá-los que os explique qual o motivo que explicaria a razão de as mulheres não
ricos. Por que então existem pessoas que gostariam de desorganizar serem inventoras. A menina então diz; "me parece que para inven-
a sociedade pelas revoluções, sob o pretexto de a transformar, já que tar as coisas é necessário se ocupar delas (...) seria engraçado ver as
é mais fácil de mudar as leis votando? (p. 243) mulheres aprendendo mecânica e matemática" (p. 321). O professor
então explica que; "O papel da mulher na sociedade não é o mesmo
3 A "Bibliotheca Fluminense" era um gabinete de leitura sediado no Rio de Janeiro que tinha que o do homem,, A vida da mulher é mais interior, e sua influência
em seu acervo mais de 30.000 livros, em varias línguas e de diversas áreas do conhecimento sobre a sociedade se exerce de uma maneira quase invisível. Isso não
que poderiam ser lidos mediante a subscrição mensal. No acervo do Real Gabinete Português
de Leitura encontramos um catálogo dessa biblioteca de 1866. quer dizer que seu papel seja menor e sua influência pequena, ela é
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somente mais escondida" (p. 321). Em seguida, conta às crianças a se transformam em menina, desse quinhão que se transforma em
história de Sophie Germain, matemática e física francesa, e também gato, e dessa erva que se transforma em boi" (p. 10).
a de Madame Dacier, tradutora de livros clássicos gregos e latinos. Essas narrativas sobre a ciência procuravam evitar a tecnicidade
Ou seja, por meio da fala do professor, a autora deixa claro que as e um vocabulário que pudesse dificultar a leitura e afastar o jovem
mulheres possuem a mesma capacidade intelectual que os homens, e leitor dos livros. Pretendiam, por meio de uma linguagem fácil e
finaliza com a seguinte frase: "Isso não quer dizer, minhas crianças, acessível, combater as superstições populares, divulgando o recente
que todas as meninas devem aprender latim, grego e se ocupar de altas avanço do conhecimento científico. As novas descobertas científicas
matemáticas. Eu quis somente mostrar que todas elas são capazes de e avanços tecnológicos são vistos como admiráveis e, ao contrário
aprender as coisas mais difíceis." (p. 326) do que se poderia imaginar, aproximam o homem de Deus. Ou seja,
Em seu livro, História de um bocadinho de pão, Jean Mace não por meio do conhecimento, o homem compreendia melhor o mundo
chega a escrever sobre o papel da mulher na sociedade, mas toda a e se aproximava do divino.
obra é feita a partir de lições dadas a uma menina. Como o autor O que dois livros escritos para crianças por autores franceses
trabalhou em um colégio para moças durante quase toda sua vida, poderiam nos dizer sobre as ideias que circulavam no Brasil de
e sempre lutou por um ensino obrigatório, laico e gratuito para am- final dos oitocentos? Afinal, não estávamos assim tão distantes
bos os sexos, podemos imaginar que sua visão sobre as mulheres se do que era considerado o centro de produção cultural da época.
Livros que faziam enorme sucesso na França eram traduzidos e
assemelhava à de Augustine Fouillée.
estavam disponíveis no Brasil, não muito tempo depois de terem
Algumas características aproximam os dois autores e seus livros.
sido lançados em seu país de origem. Além disso, chegavam a ter
Eles foram escritos com objetivos e formatos semelhantes, que também
várias edições, como no caso de Chiquinho. Assim, em edições de
eram partilhados por outros autores do período. Pierre Kahn, na obra
luxo ou em edições mais baratas, crianças e jovens leitores brasi-
La leçon dês choses. Naissance de l 'enseigment dês sciences á 1'école
leiros podiam ter acesso às ideias mais recentes sobre descobertas
primaire, nos mostra como a partir de 1860 uma série de livros come-
científicas, novas invenções, formas de organização e transformação
ça a circular na França com o objetivo de difundir os conhecimentos
económicas e sociais. Apesar de incipiente, principalmente fora das
científicos. Grande parte dessa produção era destinada a crianças e
grandes capitais, a circulação de obras impressas colocava jovens
jovens e pretendia instruir divertindo, como os romances científicos leitores em contato com ideias da ciência moderna, mesmo que em
e geográficos de Júlio Verne. Vários autores, principalmente editados um ambiente de leitura ainda rarefeito.
por Hetzel, também tinham esse objetivo, como Faraday, que escreve Esses dois livros também nos revelam que o papel dos editores era
Histoire d'une chandelle^ sobre química, Flamarion com Histoire du fundamental. Eles atuavam como mediadores culturais estratégicos,
ciei, sobre astronomia, entre outros. pois faziam a escolha do que deveria ser traduzido, quem traduziria
Nessa perspectiva a natureza é vista como ainda mais maravilho- e em que formato o livro apareceria. A escolha cuidadosa de quem
sa do que as fadas, possibilitando assim que o leitor se divirta e se faria a tradução também evidencia a importância dada pelo editor
deslumbre com essas narrativas. Logo no início de História de um à qualidade do que seria publicado. Ao fazerem traduções precisas e
bocadinho de pão, Jean Mace afirma: "Convenha que não há muitos fiéis dos textos escolhidos pelo editor, os tradutores possibilitavam
contos de fada mais maravilhosos do que a história desses doces que que crianças e jovens brasileiros tivessem acesso a textos de grande

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INTELECTUAIS MEDIADORES A L I V R A R I A GARN1ER E A TRADUÇÃO E EDIÇÃO DE LIVROS PARA A INFÂNCIA

sucesso, publicados originalmente na França, faziam circular novos pinheiro, A. S. (2007) "Para além da amenidade: o Jornal das Famílias
termos e novas ideias sobre a natureza e a ciência. Na casa editorial (1863-1878) e sua rede de produção." Tese de doutorado. Campinas:
de B. L. Garnier e de seu sucessor H. Garnier as escolhas parecem Unicamp.
ter se pautado no que seria mais vendável seguindo os parâmetros Ricoeur, P. (2011) Sobre a tradução. Belo Horizonte: Editora UFMG.
franceses. Contudo, não devemos esquecer que dentro dessa escolha Steiner, G. (2005) Depois de Babel: questões de linguagem e tradução.
Curitiba: UFPR.
havia também outra que se referia à visão de mundo na qual se acre-
Taunay, A. E. (2004) Memórias, São Paulo: Iluminuras.
ditava e que se pretendia divulgar.

Fontes e bibliografia

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lescência. Rio de Janeiro: José Olympio.
Damazio, S. (1996) Retraio social do Rio de Janeiro na virada do século.
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Dutra, E. de F. (2010) "Leitores de além-mar: A editora Garnier e sua
aventura editorial no Brasil.** In: Bragança, A.; Abreu, M. Impresso no
Brasil: dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Unesp.
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UFMG. vol. 43,189-208.
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Maretti, M. L. L. (2006) O visconde de Taunay e os fios da memória. São
Paulo: Unesp.
Paes, J, P. (1990) Tradução., a ponte necessária: aspectos e problemas da
arte de traduzir. São Paulo: Ática.

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A V E N T U R A S E D E S V E N T U R A S DE UMA A U T O R A E EDITORA...

recebendo atenção particular de nossas autoridades políticas. Assim,


se o Brasil possuía uma prática de apresentar-se em exposições dessa
natureza desde a primeira delas, que se realizou em Londres no ano de
1851, não poderia deixar de participar desse evento com significados
tão particulares. O governo brasileiro procurou construir um pavi-
lhão monumental, ocupando 1.300 metros quadrados e explorando
fartamente nossas mais conhecidas e propagadas belezas naturais e
3. Aventuras e desventuras de uma autora e editora riquezas culturais. A Expo-98 era um acontecimento universal, mas
era especialmente cara a Portugal e ao Brasil, ligados e não separados
portuguesa: Ana de Castro Osório
por um oceano. Os organizadores, portanto, quiseram chamar a
e suas viagens ao Brasil
atenção para tudo o que, de ambos os lados do Atlântico, fortalecesse
Angela de Castro Gomes os vínculos históricos entre esses dois países considerados "irmãos".
Foi nesse contexto e como uma gota desse oceano que o livro
Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil, da intelectual
portuguesa Ana de Castro Osório, ganhou urna edição comemorati-
va. Ela foi feita pelo Instituto Piaget de Lisboa, sendo organizada e
Ana de Castro Osório vai à Expo-98 prefaciada por Fernando Vale, professor especializado em literatura
infantil e ligado aos dois países: estudara Letras na Universidade
Em fim de maio de 1998 inaugurou-se em Portugal a Exposição de São Paulo e na de Lisboa. Vale justificou sua escolha como uma
Internacional de Lisboa ou, como se tornaria conhecida, a Expo-98. pequena homenagem a Ana de Castro Osório: "por [ela] ter defen-
Anunciada como a última das exposições universais do século XX, dido e promovido constantemente o intercâmbio luso-brasileiro"
reuniu 146 países e 14 organizações de todos os continentes, sendo (Vale 1998: IO).1
visitada, durante os quatro meses em que esteve aberta, por cerca de Para o prefaciador, que escreve em fins do século XX, a autora
11 milhões de pessoas. Seguindo a tradição desse tipo de exposições, (1872-1935) é "dotada de grande talento narrativo". Era, na verdade,
cada país participante construiu um pavilhão e, através dele, mostrou- uma bem-sucedida continuadora da obra de João de Deus, um dos
-se para o mundo. Inovando a tradição, a Expo-98 diferenciou-se das mais importantes intelectuais da educação de Portugal, no início do
mostras anteriores ao escolher um tema específico para o evento: Os século XX, no que dizia respeito à criação de uma literatura nacional
oceanos: um património para o futuro. dirigida às crianças, estivessem elas dentro ou fora da escola. Portan-
O fato de a exposição ter ocorrido em Lisboa e tomado como tema to, Ana era uma pioneira da literatura infantil portuguesa, marcada,
os oceanos, além de ter sua organização entregue à Comissão para na época, não só por uma dimensão nacionalista, como pelo que se
as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, tornou-a um chamava de uma pedagogia maternal. Seus livros foram traduzidos
acontecimento muito especial para o Brasil. Devido a esse perfil, ela para o francês, o italiano e o espanhol, sendo ela também tradutora
se articulou ao circuito dos preparativos para as Comemorações dos
500 anos do Descobrimento do Brasil, a ser festejado no ano 2000, 1 Trabalhamos com um exemplar dessa edição comemorativa.

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de muitos contos maravilhosos da tradição europeia, como os de portuguesa, justificando a homenagem a ela prestada em 1998, era
Andersen e os de Grimm, como assinala Fernando Vale. o fato de a autora e editora ter-se dedicado, através da literatura,
Como se vê por essa breve apresentação, Ana é destacada como à construção de um intercâmbio luso-brasileiro, escrevendo para
escritora, tradutora e também editora de seus livros, o que nos crianças e adultos dos dois lados do Atlântico.
interessa muito, uma vez que ela combina, como poucos, os traços Tal intenção, que se tornou um verdadeiro projeto (Velho 1994),
do que Jean François Sirínelli considera atributos dos intelectuais desenvolveu-se ao longo de sua trajetória intelectual e materializou-
produtores de bens simbólicos, como os escritores, e dos intelectuais que -se, particularmente, em alguns livros, entre os quais um volume que
chama de mediadores culturais, como é o caso dos editores e tradu- reuniu um conjunto de conferências proferidas quando de sua viagem
tores, entre outros (Sirinelli 1986: 2003). Ana é, assim, exemplar, por ocasião das comemorações do Centenário da Independência do
pois atua de forma sistemática, por cerca de três décadas, escrevendo Brasil, não por acaso, intitulado A grande aliança (Osório 1924).
livros sobre temas políticos (o divórcio e a Primeira Guerra Mundial, Um livro expressivo de seus objetivos, que se desdobraram em outras
por exemplo) e organizando coleções de literatura infantil, que ela iniciativas, especialmente as dirigidas às crianças, visando "um lúcido
mesma edita, ocupando-se de sua distribuição em Portugal e, mais relacionamento com os fatos histórico-culturais que deviam servir
interessante, também no Brasil. Ou seja, ela possui um projeto para unir Portugal e Brasil" (Vale 1998). Foi devido ao perfil de Ana,
político-cultural cujo foco é o público infantil e feminino (as mães uma intelectual que se dedicou a alcançar um grande público leitor
e mulheres), que deve ser educado nos valores republicanos e na- entre os falantes de português, estivessem em Portugal, no Brasil ou
cionalistas. Algo que entende pode ser executado numa dimensão nas colónias africanas, que houve especial interesse na reedição de um
transnacional, uma vez que Portugal e Brasil partilham a mesma livro, escrito em meados dos anos 1920, cuidadosamente planejado
língua e um rico conjunto de tradições culturais, a começar por uma para atingir os leitores mirins dos dois lados do Atlântico: Viagens
história que liga os dois países, além de um amplo e diversificado aventurosas de Felício e felizarda ao Brasil. Este livro foi publicado
conjunto de manifestações folclóricas. pela editora Lusitânia, de sua propriedade, em 1923, com ilustrações
Essa intelectual, portanto, foi bastante atuante no cenário cultural de A. Joudain. Aliás, as ilustrações são uma questão fundamental
e político português de início do século XX, inclusive, porque foi uma no projeto político-pedagógico defendido pela autora, que falava de
republicana e feminista militante. Contudo, nesse cenário, esteve longe uma "educação pelos ouvidos e pelos olhos", conforme a tradição
de ser exceção ao priorizar a literatura infantil, considerando-a peça iluminista. Assim, os livros de Ana costumavam ser bem ilustrados,
fundamental para inovações no campo político-educacional. O tema pois ela considerava o diálogo entre texto e imagem - o que hoje
da modernização e da nacionalização da educação era um dos pontos chamamos de intertextualidade - fundamental para atrair a atenção
importantes da propaganda republicana em Portugal, quando a mo- dos "petizes". Algo que já se fazia em diversos outros países europeus,
narquia entrava em uma grave crise de legitimidade. Uma escalada em especial, segundo ela, na Inglaterra. Joudain, como Fernando
que, ganhando força na virada do século XIX para o XX, acabou Vale informa, era um belga, que viveu em Portugal nos anos 1920,
desembocando na instalação do novo regime, em 1910. Ao lado de dedicando-se à ilustração de livros infantis, à pintura e à caricatura.1
Ana estavam outros autores e, vale destacar, várias mulheres, que
escreveram para crianças nesse período. Assim, o que singularizava
1 Vários ilustradores trabalharam nos livros de Ana, como por exemplo, Juíião Machado,
Ana, nesse rol de autores de uma literatura infantil "verdadeiramente" Conceição e Silva, Alfredo de Morais, Rachel Carneiro e Hebe Gonçalves.

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Assim, a reedição do livro, de "leitura informativa, formativa e sua nomeação como cônsul em São Paulo, em 1911. Tal fato foi
recreativa", era uma justa homenagem a Ana de Castro Osório e uma fundamental na vida intelectual de Ana, já que ela se mudou com
"interessante história de viagens e de muita aventura", bem ao sabor o marido e seus dois filhos para o Brasil, onde viveu até 1914. O
infantil (Vale 1998: 13-14). Ou seja, no fim do século XX, Felício e .período de estada foi curto e seu retorno se deu em circunstâncias
Felizarda iriam, mais uma vez, viajar rumo ao Brasil, atravessando o trágicas, pois Paulino ficou doente e morreu no Brasil. Assim, ela
Atlântico. Se da primeira vez a viagem não foi tão aventurosa, uma voltou viúva para seu país, onde foi morar em Lisboa, até sua morte,
vez que a década de 1920 não foi favorável a projetos que buscavam em 1935. Porém, embora tenha vívido em São Paulo por poucos anos,
divulgar uma literatura infantil portuguesa no Brasil, talvez a virada consideramos que essa foi uma experiência decisiva para o decurso
do século XX para o XXI trouxesse à autora e a seus personagens de suas iniciativas como escritora e editora.
mais alegrias. Era, com certeza, o que se pretendia, atualizando-se, Ana de Castro Osório é uma intelectual razoavelmente reconhe-
em contexto histórico inteiramente diverso, a proposta de tornar a cida e estudada em Portugal. Os trabalhos a ela dedicados têm se
literatura infantil um meio para unir os dois países "irmãos", que concentrado no campo da literatura, especialmente da literatura
falavam português. infantil, em função de sua contribuição pioneira, antes assinalada.
Na história, eles continuam pouco numerosos, privilegiando basi-
camente sua atuação como líder feminista. Nesse caso, seus textos
A grande aliança: escrevendo e editando livros e ações tiveram grande repercussão, especialmente em dois pontos:
para crianças que falam português na luta por uma lei do divórcio, que foi aprovada,3 e na defesa do
direito de voto à mulher, que não foi acolhida e se tornou uma das
Ana de Castro Osório, como se disse, foi uma escritora, tradutora e razões das críticas de Ana aos republicanos e ao novo regime. Aliás,
editora, que se engajou nas causas do republicanismo e do feminismo sua trajetória como republicana não é tão invulgar, pois tem início
em Portugal de fim do século XIX e início do XX, exatamente quando com um grande engajamento, desdobrando-se para uma crescente
ruía a Monarquia e ascendia a República.2 Tanto que ela se casou, desilusão e chegando a alguma simpatia com o salazarismo (após
em 1898, com um republicano, Paulino Gomes de Oliveira, que era 1926), provavelmente, estimulada pelos filhos.
jornalista, poeta e escritor. Ele se envolveria no levante revolucioná- Porém, além desses campos de militância, Ana, como seu marido,
rio de janeiro de 1908, ocorrido no Porto, tendo assim que se exilar também era maçom. Os vínculos entre Maçonaria e República em
no Brasil durante algum tempo. Aliás, cm 1908 fundou-se a Liga Portugal são fortes e evidentes, não podendo ser minimizados. Pode-se
Republicana das Mulheres Portuguesas, o que mostra como o repu- dizer que eles marcam o republicanismo português, o que significa que
blicanismo em Portugal teve significativa adesão do sexo feminino. a Maçonaria era uma rede de sociabilidade política e intelectual muito
Mas Paulino já estava de volta ao solo português quando da pro- ativa para a promoção das ideias republicanas. Muitos republicanos
clamação da República e são esses vínculos políticos que explicam eram maçons, grandes lideranças da Maçonaria. Por isso, o que nos
importa destacar é o fato de Ana ser mulher, o que chama a atenção

2 Trabalhamos com mais vagar com a trajetória de Ana de Castro Osório e seus esforços
para ter seus livros infantis adotados nas escolas brasileiras em Gomes (2014). Parte do que 3 Após colaborar com o presidente Afonso Costa na elaboração da lei do divórcio de 1911,
se segue beneficia-se desse capítulo de livro. ela publicou um livro, intitulado A mulher no casamento e no divórcio.

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para a presença de mulheres dentro de uma instituição marcada pelo Nos estudos biográficos dedicados a essa intelectual (Esteves 1997;
segredo e pelo domínio masculino. Em 1907, foi iniciada na seção Medeiros 2003; Osório 1935), registra-se sempre que, em 1897, ela
feminina da Loja Humanidade, tornando-se, posteriormente, sua montou uma editora: a Livraria Editora Para Crianças, em Setúbal,
presidente. Tudo leva a crer que sua ligação com a Maçonaria não se onde vivia. Voltada à publicação de uma coleção de livros infantis, a
desfez durante o tempo em que passou no Brasil. Quando retornou, editora lançava uma iniciativa pioneira, pois, no lastro da pedagogia
em 1915, o que é um tanto surpreendente, fundou uma loja feminina de João de Deus, reunia histórias maravilhosas e contos da tradição
- a Carolina Angelo -, da qual foi Venerável, com o nome Leonor portuguesa. A coleção Para Crianças concentrou grande parte dos
da Fonseca Pimentel. esforços de Ana, particularmente nas décadas de 1890 e 1900. Para
Portanto, Ana participava de várias redes de sociabilidade política se avaliar o tamanho do empreendimento, vale assinalar que foram
e intelectual em Portugal, o que certamente facilitou sua vida no lançados nada menos que 18 volumes, merecendo destaque o volume
Brasil, ainda mais sendo esposa de um cônsul português. Justamente de 1903, Contos tradicionais portugueses, uma coletânea organi-
por sua trajetória intelectual abrir tantas possibilidades de análise, zada inteiramente a partir de histórias da tradição oral portuguesa,
a proposta deste capítulo é destacar sua face de escritora e editora recolhidas e adaptadas pela própria autora e editora.4 Um feito que
de literatura infantil e privilegiando a análise de apenas um livro. merece observação, uma vez que aponta para o fato de ela estar
Ou seja, nosso foco é a militância de Ana como promotora de uma envolvida diretamente - mesmo que com todas as limitações que se
"grande aliança" entre Brasil e Portugal, com destaque através possa reconhecer aos procedimentos da época -, em um trabalho
da escrita de livros infantis que pudessem atravessar o Atlântico. de recolha de contos da tradição oral como o faziam os chamados
Defende-se que ela foi descobrindo as possibilidades desse projeto intelectuais folcloristas.
ao longo dos anos 1910, para o que foi decisiva sua mudança para O trabalho com o folclore, em fim do século XIX e início do XX,
o Brasil, em 1911. Porém seu retorno a Portugal não o interrompe, era reconhecido como um tipo de conhecimento fundado em proce-
apenas o redireciona. dimentos científicos advindos da etnografia, que consistia em recolher,
Para essa intelectual, os fundamentos dessa "grande aliança" eram para salvaguardar, os costumes de um povo, fossem eles festas, lendas,
a língua e as tradições comuns existentes entre os dois países, e estes práticas alimentares, musicais, de vestuários, contos etc. Portanto,
deviam ser propagados pelos mais modernos métodos pedagógicos, tratava-se de "sistematizar", em linguagem "culta", um imemorial
tendo-se como principal vetor cultural os livros para crianças (Sirinelli conjunto de saberes populares, transmitido basicamente pela orali-
2003; Gomes 1999, 2014). Contudo, vale insistir, esse projeto não dade e repetição, de geração a geração, que permanecia "vivo" no
era restrito às crianças; ele alcançava os adultos, com destaque as imaginário das populações "simples", principalmente as rurais. Esse
mulheres e mães. A moderna pedagogia maternal de Ana seguia projeto, que muitas vezes se organiza em movimento, mobilizando
várias estratégias, podendo ser exercida através de múltiplos temas, intelectuais internacionalmente, tem como objetivo "salvar" o pa-
personagens e géneros literários (ensaios políticos, romances, litera- trimónio cultural "popular", entendido como algo singular, típico
tura infantil). Ou seja, ela aliava, com pesos equivalentes, a dimensão e tradicional de certos grupos sociais nacionais. Tendo eclodido
de produtora de bens culturais, àquela de mediadora cultural, que
desejava, pela leitura, instruir de forma prazerosa dois segmentos de * Na coleção Para Crianças os volumes 3, 4, 8,12,13 e 14 são Contos tradicionais portu-
público que tão bem se articulavam: mulheres e crianças. gueses; os volumes 2, 6 e 7 são Contos maravilhosos.

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em vários países europeus no século XIX, o chamado movimento própria editora se ocupava de sua divulgação, distribuindo alguns deles
folclorista se vinculava ao pensamento conservador, exprimindo uma em escolas e instituições que atendiam a infância. Portanto, os livros
reação aos excessos desnacionalizadores do universaíismo iluminista eram escritos para serem lidos dentro ou fora das escolas, não assumindo,
ou cientificista, mas mantendo com ele fortes conexões, em particu- necessariamente, o modelo de manuais. Tudo indica que fizeram bastante
lar, no que se refere à crença na educação como ideal de progresso e sucesso, evidenciando não só o trabalho de Ana como criadora de uma
aperfeiçoamento humanos. literatura infantil portuguesa como também sua açao como tradutora
O importante, no caso, é deixar claro que o trabalho literário e adaptadora de contos maravilhosos, que circulavam na Europa. Mas
e editorial de Ana se insere nesse contexto mais amplo, que faz a ela também foi autora das histórias de alguns desses fascículos, como é
conexão entre folclore e educação. Quer dizer, que defende que o o caso de Os animais (voL 10) e As boas crianças (vol. 9).
amor à pátria, valor central à educação nacional de qualquer país, No início dos anos 1910, Ana era uma escritora com crescente
pode ser mobilizado pelo conhecimento das tradições culturais de reconhecimento no campo literário, muito conectado ao político e
seu "povo". Dessa forma, o passado imemorial (e sentimental) de uma educacional. Em 1904, talvez o seu livro de maior sucesso, A minha
nação está presente e vivo nas manifestações folclóricas, que preci- Pátria, foi aprovado como prémio escolar em concurso do Minis-
sam ser recolhidas e salvaguardadas. Por isso, o povo e a infância tério do Reino, o que foi um autêntico "acontecimento biográfico1*,
precisariam ser aproximados, o que se faria, de forma muito eficaz, quando examinamos sua trajetória pessoal e profissional. Porém ela
por uma literatura "para crianças", que explorasse tais manifestações conseguiu mais do que isso, pois, certamente devido ao exílio de seu
culturais tradicionais. O trabalho de recolha e salvaguarda do folclore marido no Brasil, teve alguns de seus livros aprovados e comprados
era, assim, uma verdadeira missão para tais intelectuais, já que ele era pela Instrução Pública dos estados de Minas Gerais e de São Paulo.
entendido como uma das mais legítimas fontes de patriotismo pelo Uma lição de História, impresso pela Livraria Editora Para Crianças
seu alto valor moral e educativo. em 19095 tem uma chamada especial na folha de rosto, logo abaixo
Porém, é bom assinalar que Ana, participando desse esforço in- do título: "Aprovado para leitura e prémios escolares pelo Conselho
telectual maior, defendia, na época, uma tese considerada polémica. Superior de Instrução Pública do Estado de Minas Gerais." Em pes-
Ela consistia em postular que também o "maravilhoso", além do quisa no Fundo da Secretaria do Interior e Justiça de Minas Gerais,
tradicional, possuía valor pedagógico, devendo ser utilizado, com encontramos documentação que comprova as negociações encetadas
proveito, na educação infantil. Nesse sentido, Ana defendia que a entre o marido de Ana e o governo mineiro com referência a esse
imaginação das crianças deveria ser aproveitada de forma ampla, livro, bem como a outro, Os nossos amigos, atestando sua importação
negando que o uso das histórias maravilhosas, de bichos, fadas etc., e circulação na rede de escolas públicas desse estado.5 Por isso, em
pudesse ser prejudicial ao aprendizado. O lúdico podia ser muito suas segunda c terceira edições, Os nossos amigos tem a observação
bem cultivado, fazendo com que os ensinamentos morais e cívico- de aprovação nas escolas de Minas Gerais e também de São Paulo,
-patrióticos fossem transmitidos de forma a interessar às crianças e "para leituras correntes e lições de coisas" (Osório 1922).
a despertar seu gosto para a leitura.
Os livros da coleção Para Crianças eram fascículos pequenos, escritos
! O estado de Minas Gerais passara por uma reforma do ensino primário sob o governo João
em linguagem clara e com apresentação gráfica bem cuidada, onde se
Pinheiro, que implantou os Grupos Escolares e investiu na preparação de professores. Para se
destacava o trabalho de ilustradores competentes. Segundo consta, a ter uma ideia, em 1909, momento que tratamos, 16 grupos escolares foram criados no estado.

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Por conseguinte, quando ela viajou para o Brasil, não era uma des- secretário do Interior em São Paulo, no governo Washington Luís,
conhecida como autora de livros infantis. Com competência, aprofun- datada de 1923. Ana se encontrava no Brasil em razão das come-
dou seus vínculos com uma rede de políticos e intelectuais estratégicos, morações do Centenário e aproveitava para cuidar de seus interesses
aproveitando os contatos prévios, estabelecidos por Paulino. Não é autorais. A carta merece ser citada pelo teor das considerações que
casual, por exemplo, que foi convidada de honra, juntamente com o faz sobre seu projeto de escrever para as crianças brasileiras.
marido, no II Congresso Brasileiro de Instrução Pública Primária e
Secundária, sediado em Belo Horizonte (o primeiro ocorrera em São São Paulo, 9-34923
Paulo), em 1912, sendo os únicos estrangeiros presentes no evento,
no qual ela pronunciou três conferências. Seus trabalhos estiveram Ex. Sr. Dr. Alarico Silveira
sob a responsabilidade de cinco comissões, cada uma com 12 nomes, Secretário de Interior de S. Paulo
o que aponta para a quantidade de teses apresentadas c de palestras
proferidas. Sem a menor dúvida, essa foi uma oportunidade de ouro Deixe VS que em primeiro lugar venha agradecer-lhe a honra de se
fazer representar na minha conferência, que outro mérito não teve
para propagar suas modernas ideias pedagógicas e fortalecer seu
senão o de mostrar a sinceridade do meu afeto pelo grande país e
projeto de escrita de uma literatura infantil dirigida a leitores luso-
especialmente por este estado de São Paulo do qual me considero
-brasiíeiros. Provavelmente, o resultado mais importante das relações
quase uma filha de adoção. (...) e pela fé que tenho no futuro da nossa
estabelecidas por Ana, enquanto estava no Brasil - e não apenas grande aliança, (...). Como tenho que seguir para o Rio no princípio
devido ao Congresso de 1912 -, foi a publicação, em São Paulo, do da próxima semana, venho pedir a VS a fineza de me dizer se me
livro Lendo e aprendendo, em 1913, pela Empresa de Propaganda autoriza a apresentar na Direção da Instrução os livros de leitura que
Literária Luso-Brasileira. Nesse momento, seu marido ainda era tive a honra de lhe mostrar e se devo fazer qualquer requerimento para
cônsul e, como de praxe, na folha de rosto do livro, vem o registro: que os aprovados continuem nas escolas e os novos sejam apreciados
"Livro ilustrado para leitura. Aprovado para Escolas Primárias do pela respectiva comissão.
Estado de S. Paulo."6 Hoje aproveitei o dia para um novo episódio na vida de meus
Já nos anos 1920, Ana teria outro de seus livros adotado em São "bonecos" Felício e Felizarda, pois visitei com o maior interesse a
Paulo. Trata-sc de O livrinho encantador, editado em Lisboa, pela esplêndida instituição que é a Hospedaria dos Imigrantes, levando
editora Lusitânia, em 1922, e em segunda edição de 1923, depois de também um dos chefes da seção artística do Comissariado Português
aprovado para escolas primárias desse estado. Um dado que evidencia na Exposição, que veio a esta cidade a meu pedido. Aguardando
a circulação de seus livros no Brasil para além das décadas de 1900 as ordens de VS, será para mim um grande prazer poder servir de
alguma coisa para as boas relações luso-brasileiras. Quando nos der
e 1910, e o valor dos contatos políticos que fizera e continuava culti-
a honra de uma visita a nossa velha Pátria (...).
vando, após seu retorno a Portugal. É o que evidencia sua correspon-
dência, onde encontramos carta dirigida ao Sr. Dr. Alarico Silveira, Com a maior consideração da (vossa sempre amiga),
Ana de Castro Osório7

6 Trabalhamos com uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal, O escritório dessa editora
ficava situado na Rua S. Bento, 21- 2°, não se tendo mais dados desse empreendimento, nem
se sabendo se ele se ligava à colónia portuguesa em São Paulo, como é possível imaginar. 7 Espólio da família Castro Osório, ESP N12-6, Biblioteca Nacional de Portugal.

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Ana procurou aproveitar ao máximo essa sua estada no Brasil, in- investir numa literatura infantil luso-brasileira. Em dezembro de 1919,
sistindo na possibilidade de manter seus livros já adotados e até de Thristão Magalhães, um amigo e fiel correspondente, escreve do Rio,
aumentar o número deles, no que é bem-sucedida com O livrinho contando as novidades. Ele informa que seus livros da Coleção Para
encantador (Osório 1922). Porém o mais importante é o fato de ela Crianças faziam sucesso, e que eram usados para prémios escolares,
revelar que estava em pleno processo de elaboração de sua próxima pelos professores: "pela singeleza dos contos, a modicidade dos preços
criação, que tratava da viagem de seus "bonecos" ao Brasil. Tal via- de venda e o bom trabalho de impressão e encadernação".8 Por isso,
gem, portanto, beneficiava-se diretamente quer de sua experiência de julgando que a amiga tinha como "ganhar dinheiro" nesse filão, su-
moradora de São Paulo nos anos 1911-14, quer de seus deslocamentos gere algumas temáticas que considera fecundas para sua propaganda
pelo Brasil, quase uma década depois. Por fim, é importante lembrar luso-brasiíeira, embora com uma cuidadosa observação: "Não estou a
que as conferências que realizou no Brasil, nessa oportunidade, foram dar-lhe capítulos de trabalho; ofereço-lhe somente a espécie de escrito
reunidas em livro publicado pela Lusitânia, em 1924, sob o título de de que V. Exa., levando-o a efeito, dará a verdadeira orientação." Os
A grande aliança. assuntos sugeridos são vários, traduzindo quase uma linha editorial,
voltada especialmente ao público infantil brasileiro. As intenções de
aproximar os dois países são claras e o meio escolhido era a destruição
Um novo projeto de coleção: literatura infantil de preconceitos para a construção de uma sólida amizade. Por isso,
e relatos de viagens entre os títulos possíveis, Magalhães enumera:

Foi triste o retorno de Ana de Castro Osório a Portugal em 1914. "A jornada de Cabral" (género Minha Pátria, que tratará de apagar a
Viúva, com dois filhos, teve que morar com os pais em Lisboa, na v versão do acaso na descoberta do Brasil); os "Deputados brasileiros
Rua do Arco do Limoeiro, n. 17,1°. O mesmo endereço onde come- ; em Lisboa" (conterá considerações sobre o valor intelectual dos ho-
çou a funcionar a Lusitânia Editora Limitada, novo empreendimento mens que, saídos do Rio, se salientaram nas cortes de Lisboa), "Um
que passou a comandar. Tudo indica que a editora não tardou a ser português brasileiro" (apreciações sobre José Clemente [Pereira],
que aproveitarão à demonstrativa de que o português não prejudica
montada, o que mostra que ela era uma mulher forte e de iniciativa.
., o Brasil); "As duas Repúblicas" (num espírito em que se acentue
Suas atividades literárias, nunca interrompidas desde 1897, quando
como o 15 de novembro entusiasmou aos republicanos de Portugal
da fundação da Editora Para Crianças, evidenciam como seu projeto
e o 5 de outubro repercutiu magnificamente no Brasil, despertando
de escrita era indissociável do de edição. Assim, desde 1897 até sua o máximo necessário estreitamento das relações luso-brasileiras);
morte, em 1935, Ana sempre atuou como autora e editora, predo- "Raça esforçada" (a vida laboriosa do português no Brasil, o único
minantemente, de seus próprios livros. Além disso, é também logo emigrante que entra no território para aí formar família, expandir
que retorna, em 1915, que funda a loja maçónica feminina, da qual a raça (...); "Um herói português no Paraguai" (a vitória de Barroso
se tornou Venerável. Ou seja, ela procura recompor, com rapidez, no Riachuelo) etc.
sua rede de sociabilidade política e intelectual, criando dois espaços
estratégicos de ação, nos quais tinha posição de comando.
Mais uma vez sua correspondência é preciosa para se acompanhar 8 Espólio da família Castro Osório, ESP N12-135, Biblioteca Nacional de Portugal. As
sua trajetória, sobretudo no que diz respeito a suas intenções de citações seguintes são dessa carta.

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Como se vê pela carta, seus livros da coleção Para Crianças estavam nada, continuando a adotar os mesmos livros "mal adaptados e mal
circulando nas escolas do Rio, ainda em 1919.0 que cia recebe como preparados (...) que lhe vinham da antiquada instrução monárquica";
sugestão do amigo é, claramente, o projeto de uma nova coleção livros que não correspondiam "por forma alguma, às modernas ideias
de literatura cívico-patriótica, explorando temas que colocassem c exigências pedagógicas". Assim, o concurso de 1920 era tardio,
em cena os vínculos entre Brasil e Portugal. Algo, que parecia bem mas muito bem-vindo e, a ele, Ana apresentava cinco livros. Quatro
pensado, se considerarmos que, em 1922, o Brasil comemoraria o deles eram conhecidos, já tendo sido adotados em Portugal, no Bra-
Centenário da Independência. Porém uma consulta à produção da sil ou nos dois países: A minha pátria, O livrinho encantador, Os
autora mostra que ela não seguiu as indicações do amigo. Mas não nossos amigos, Lendo e aprendendo e, por fim, Viagem aventurosa
porque se afastasse da ideia de elaborar livros destinados às crianças de Felício e Felizarda.
brasileiras e fazê-lo sob a forma de coleção. Na verdade, parece que A novidade que nos interessa é o último título, apresentado como
seu projeto era outro e dele nos podemos aproximar através de um proposta de livro de leitura para a quinta classe. Na parte específica
longo e precioso documento: a Memória justificativa, apresentada para sua justificativa, fica-se sabendo que ele envolvia um projeto
à Comissão encarregada de julgar livros escolares para o concurso maior, do qual pelo menos dois volumes são mencionados. Quer di-
aberto pela Direção Geral, em 7 de abril de 1920.9 zer, verificamos que, mesmo antes de viver no Brasil, Ana começou a
Ana inicia a Memória anunciando sua satisfação, pois havia dez desenvolver a ideia de criar outra coleção de livros, de características
anos esperava ver a República abrir um concurso desse tipo. Ele bem diferentes de Para Crianças. Seriam livros de literatura infantil,
tardara, pois entendia que "não [se] constrói uma sociedade, nem explorando as narrativas de viagens e aventuras. Géneros literários
se reforma uma Pátria se as crianças não forem, desde os primeiros que cresciam e se afirmavam, em especial na Europa, desde a segunda
anos, dirigidas, instruídas e disciplinadas para um alto fim de gran- metade do século XIX, fazendo sucesso entre as crianças. Os indícios
deza e idealismo superior", o que não se faria sem a produção de para tanto estão no fato de ela informar que essa era a segunda vez
livros adequados à instrução infantil. Segundo ela, "um dos erros que apresentava a Viagem aventurosa de Felício e Felizarda. A pri-
da Monarquia constitucional, talvez o que mais fundamentalmente a meira fora justamente no concurso de 1909, no qual, apesar de não
abalou e fez cair foi a falta de compreensão da sua missão educativa". ter sido aprovado, recebeu um bom parecer do relator:
Apenas nos últimos tempos, o regime monárquico impulsionara a
instrução, resultando daí "o movimento simpático que produziu as De todo o ensino que se ministra na escola primária é, sem dúvida, o da
festas escolares, plantação de árvore, distribuição de livros de prémios, geografia aquele que bem tratado, mais fere a sensibilidade da criança.
criando, enfim, um interesse e um entusiasmo pela escola primária, Escolheu a autora esta disciplina para assunto das suas "Aventuras
que a República não soube manter", de Felício e Felizarda1*. E, com efeito, ela que conhece como poucos a
Ana sabia bem do que falava, pois ela mesma fora premiada em psicologia infantil, trata (...) o assunto com mão de mestre. Está certa
1909 (um ano antes da República), em um concurso desse tipo. Porém, de agradar aos leitorezinhos (...). Razão não lhe falta. Nesses últimos
desde então e de forma lamentável, a escola primária esteve abando- tempos ninguém como D. Ana de Castro Osório tem mimoseado a
infância com uma coleção tão volumosa quanto interessante.10

9 Espólio da família Castro Osório, ESP N12-14, Biblioteca Nacional de Portuga!. Todas
as citações seguintes são desse documento. Idetn, p. 7.

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Ela mesma continua historiando o curso dessa iniciativa. Como o livro de António de Souza Mello, que lhe escreve de Curitiba em maio de
não fora aceito na época, ela o deixou de lado, dedicando-se a outros 1924, portanto, após a publicação do volume, o que ele certamente
trabalhos. Sua vinda para o Brasil fortaleceu a ideia original, mas não sabia.11 De início, felicita-a pelo êxito da viagem ao Brasil, que lhe
também a fez entender que era necessário modificá-la e melhorá-la rendera a aprovação de livros escolares pelo estado de São Paulo, além
para que se constituísse em um "conjunto educativo" de maior valor. da aquisição, pelo estado do Rio (talvez Distrito Federal), de exem-
É por tal razão que cia escreve à Comissão, em 1920: "A minha pos- plares para prémios escolares. Lamenta, apesar das promessas feitas,
terior estada no Brasil fez com que fosse completamente modificada não ter conseguido nada de concreto em seu estado, comentando que
a parte referente à viagem realizada àquele país, representando tudo "os negócios da instrução no Brasil estão muito descuidados e deles
quanto nele digo à observação direta e o estudo pessoalmente feito." não se trata com a atenção que merecem". Finalmente, informa que
Na verdade, a Memória justificativa não anexa os livros, sendo despachou pelo Correio um pacote de postais ilustrados do Paraná,
impossível dizer exatamente como ela apresentou "o" ou "os" exem- com vistas de Curitiba e de trechos da estrada de ferro que a liga ao
plares da(s) Viagem(ns). Quer dizer, ela menciona a "parte referente" mar. Há também fotos de pinheiros e de indústria de madeira, que ele
à viagem ao Brasil, mas não deixa claro se essa parte é todo um livro espera sejam aproveitadas no livro de viagem de Felício e Felizarda.
ou não. É possível que sim, mas acreditamos que o livro não existia, Encerra a carta pedindo que, logo que o livro fique pronto, ela lhe
ainda, como tal, estando em processo de elaboração. Isso porque são envie quatro exemplares, para que possa entregar aos jornais e eles
dois os livros escritos por Ana, ambos consultados para este capítulo. "falarem a respeito".
Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Polo Norte> em cópia Porém o ano era o de 1924, tempos de modernismos e nacionalis-
do original aprovado oficialmente como livro de leitura, com ilus- mos no Brasil. Dessa forma, embora Felício e Felizarda tenham viajado
trações de Milly Possoz, e que estava pronto, embora não impresso, ao "país irmão", o que sucedeu aos bonecos não foi o imaginado pela
em 1920. E Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil, autora. Aliás, o ano de 1925, como se verá, não seria nada venturoso
cuja primeira edição é de 1923, pela Lusitânia. Fernando Vale tem para Ana; bem ao contrário.
toda razão, quando, em sua nota ao leitor de 1998, diz que Ana não
perdeu tempo, e logo após a viagem ao Polo Norte, colocou Felício
e Felizarda em novo "percurso aventuroso", dessa feita ao Brasil. Felício e Felizarda e suas viagens
De toda a forma, o que nos interessa destacar é que Ana já plane- nem tão aventurosas ao Brasil
java uma espécie de coleção de narrativas de viagens para crianças
desde 1909. Porém ela só se dedica ao projeto com maior afinco após Nos primeiros anos da década de 1920, Ana de Castro Osório, uma
a morte do marido e retorno a Portugal. Como vimos por sua carta a reconhecida escritora de literatura infantil em Portugal, cujos livros
Alarico da Silveira, ainda está escrevendo o volume sobre o Brasil em eram adotados também no Brasil, resolveu publicar o género de nar-
1922-23, beneficiando-se das novas observações realizadas em sua rativas de viagens para crianças, com a clara intenção de organizar
viagem por ocasião das festas da Independência. Mas Ana usa mais uma nova coleção de literatura infantil, agora com selo da Lusitânia.
do que a própria experiência e observação para obter informações
para seu livro. Procura mobilizar sua rede de correspondentes, com 11 Espólio da família Castro Osório, ESP N12-136, Biblioteca Nacional de Portugal. Todas
o objetivo de receber material que a pudesse inspirar. Esse é o caso as citações seguintes são desse documento.

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Como se viu, a ídeía não era nova. Por isso, é bom lembrar que intelectual como ela - escritora de literatura infantil, com projeto
Ana veio para o Brasil em 1911, quando o maior sucesso nacional político-cultural republicano - não tivesse se dado conta da imensa
desse género já estava circulando. Era Através do Brasil, de Manoel circulação de Coração e Através do Brasil^ morando em São Paulo
Bonfim e Olavo Bilac, publicado em 1910, em Paris, com uma tiragem entre 1911 e 1914. Como já mencionado, tudo indica que Ana pla-
de 4.000 exemplares (Lajolo 2000; Botelho 2002). O livro foi tão nejava se dedicar às narrativas de viagens voltadas para o público
bem aceito pelas crianças e pelas escolas que, em 1913, ganhou uma infantil, antes mesmo de vir para o Brasil. Mas é razoável supor que,
nova edição. Os dois autores eram intelectuais ligados à educação e, enquanto aqui morou, observou tanto a escassez da literatura infantil
Bilac - o príncipe dos poetas brasileiros - tinha outros livros muito e escolar brasileira, como o interesse que os "romances de formação"
bem acolhidos, como Contos pátrios, em parceria com Coelho Neto. despertavam no mercado de livros. Porém, como ela mesma explica,
Também vale recordar que esse não foi o primeiro "romance de só depois de retornar a Portugal e assentar sua vida, pôde dedicar-se
formação" a ganhar milhares de leitores infantis no Brasil republicano. a esse projeto.
Esse tipo de literatura infantojuvenil, direcionado às crianças em idade Ele realmente se efetivou, tendo sido publicados pela Lusitânia dois
escolar, era sucesso internacional, na medida em que seguia as crenças volumes: Viagens aventurosas de Feltcio e Felizarda ao Polo Norte
ilumínistas no crescente aperfeiçoamento individual, via educação, (inscrito no concurso de 1920, no original, e aprovado para leitura
combinando-as com os ideais românticos de autoconhecimento, como em 1922)12 e Viagens aventurosas de f elido e Felizarda ao Brasil,
elemento fundamental para uma melhor aprendizagem de valores e publicado em 1923 e só ganhando nova edição em 1998, quando da
habilidades durante a infância. Os "romances de formação" tinham Exposição Internacional de Lisboa (Osório 1998a). Como se trata
como grande referência o Lê tour de France, publicado em 1877 e de uma série, é impossível examinar o segundo livro sem passar pelo
que havia se tornado modelo em toda a Europa. Outro clássico desse primeiro, em que os personagens são criados e apresentados ao leitor.
tipo, que nos interessa mais de perto, foi Cuore, de autoria do italiano Ou seja, é preciso contar a história do começo. Quem são Felício e
Edmondo D*Amicis, publicado em 1886. Ele chegou ao Brasil rapida- Felizarda? Por que eles são viajantes? E para que eles são viajantes?
mente, tendo sido traduzido pelo historiador João Ribeiro e publicado Tudo começou numa noite de festa na Vila da Beira. Noite alegre,
em 1891, portanto, apenas um ano após a proclamação da República. em que praticamente todos os habitantes estão reunidos, conver-
Voltado a despertar o amor das crianças pela nova pátria italiana, foi sando, comendo e vendo fogos de artifício. Praticamente todos,
outro grande sucesso do género, por sua simplicidade e imaginação. pois, Pedrito teve que ficar em casa, devido a uma perna quebrada.
Quem o publicou no Brasil foi a Livraria Francisco Alves do Rio de Seu pai e seus irmãos saíram, mas sua mãe ficou lhe fazendo com-
Janeiro, que, desde o início da Primeira República, se tornou uma casa panhia, ao lado da velha Joana, dona da cozinha da casa. Pedrito
editora "especializada" em literatura cívico-patriótica. Essa editora está injuriado com sua situação e reclama com a mãe, que se ocupa
tinha concorrentes de peso, mas no mercado de literatura infantil, de costurar umas roupinhas de bonecos, para ajudar uma pobre
onde amavam as editoras Quaresma e Garnier. No caso de Coração, viúva que os vende na feira. Pedrito questiona a mãe, que lhe diz
os dados são de que, em 1894, o livro estava na quarta edição e, em ser essa a melhor forma de auxílio, pois não humilha, já não vem
1920, já alcançara a 31a edição (Gontijo 2009).
Embora não se tenha encontrado documentação que comprove
12 Não conseguimos consultar nenhum exemplar impresso desse livro. Trabalhei com uma
o contato de Ana com esses dois livros, é difícil imaginar que uma cópia digital, pertencente à Biblioteca Nacional de Portugal e com a segunda edição de 1998.

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INTELECTUAIS MEDIADORES

quentinhas - Felício e Felizarda. A partir de então, eles passarão a


sob a forma de dinheiro. As roupinhas bem bonitas e cuidadas que
ser os narradores e os principais personagens das histórias. Mas os
fazia tornavam os bonecos mais atraentes, facilitando sua venda.
bonecos só viajam, para que Pedrito possa recontar o que viveram e
Teresa, a viúva, ficava satisfeita e grata.
aprenderam para muito mais gente.
O tom moral é dominante. A ajuda da mãe, personagem central
Não poderia ser mais clássica a situação criada pelo livro, que bate
da história, está clara: não é uma esmola e se faz pelo trabalho. A
na tecla do gosto pelo relato de viagem quando se está em situação
"pedagogia maternal" de Ana domina, de imediato, a narrativa, que
sedentária, ainda mais no caso de crianças, que vivem do movimento
continua com as tentativas da mãe de contornar o aborrecimento
e da agitação. Tanto nas aventuras ao Polo Norte como na viagem
do filho. É preciso fazer o tempo passar de forma mais interessante,
ao Brasil - anunciada ao final do primeiro livro - todos os topoi
quando se está preso a uma cadeira. É preciso usar a imaginação,
da literatura de viagem estão presentes: o momento da partida, as
como as crianças que vão brincar com os bonecos. Pedrito hesita,
paisagens e cenários maravilhosos, os riscos que se deverá enfrentar
porém acaba com dois bonecos na mão e algumas ideias na cabe-
e, finalmente, o retorno, ao mesmo tempo desejado e indesejado. E
ça. A mãe sugere que ele lhes dê nomes; primeiro passo para lhes
como os bonecos são exploradores, mas não deixam de ser turistas,
dar vida. Afinal, poderiam ser "nosso par de França", numa clara
em especial no Brasil, há toda uma permanente preocupação em man-
referência ao conhecido Lê tour de France. O menino concorda e
dar notícias através de postais, sistematicamente enviados a Pedrito;
escolhe nomes de bom agouro: Felício c Felizarda. E o que fariam,
como em tomar cuidadosas notas em cadernos de viagens, para que
pergunta à mãe? O que você quiser, responde ela. Ah, então serão
o menino pudesse melhor acompanhar as observações realizadas c as
viajantes infatigáveis, que irão narrar suas aventuras! Excelente, vi-
experiências vividas. Isso tudo, para além dos novos amigos encontra-
bra a mãe, para de imediato perguntar: mas vão viajar apenas para
dos. Aliás, várias vezes tal recomendação é lembrada, já que Pedrito
se divertir ou vão ser exploradores de novas terras e conhecimentos?
quer escrever um livro com base nas notas tomadas pelos bonecos.
Pedrito volta a pensar, enquanto a mãe pondera que "nenhum povo
Esse é um ponto a se notar: os protagonistas das viagens são bo-
tem direito a orgulhar-se mais de viagens de descobertas e explora-
necos e não crianças, como em outros "romances de formação". São
ções, que o português". E isso não só no passado dos séculos XV e
bonecos falantes e que sabem escrever, como Pedrito e todas as crianças
XVI. Também no século XX, foram os portugueses que fizeram a
deveriam saber. Como bonecos, não sentem frio ou calor; não têm
travessia do Atlântico pelos ares, diz ela se referindo, sem citar, ao
fome etc., embora tenham sentimentos e inteligência. Como bonecos,
feito de Gago Coutinho, ocorrido em março de 1922, no contexto
para a tranquilidade do coração de Pedrito e dos leitores, são imortais,
do centenário da Independência do Brasil. A essa altura Pedrito está
podendo enfrentar qualquer perigo. A despeito disso, a imaginação que
animado, com a viagem de seus bonecos exploradores, que iriam ao
cria os bonecos viajantes é a mesma que, lhes dando vida de gente,
Polo Norte. Sim, queria um lugar bem diferente e perigoso. Afinal,
faz com que se possa por eles temer. Enfim, a emoção de uma viagem
seus novos amigos são bonecos e, como tal, imortais. Porém ocorre
poderia ficar comprometida sem os sobressaltos e apertos "reais" de
algo surpreendente. Pedrito, ao mesmo tempo que sabe que são bo-
seus personagens fictícios, principalmente quando imaginários.
necos, dá-sc conta de que está aflito por eles e pelo que vão passar
A viagem ao Brasil, empreendida no segundo livro, deveria ser
em suas viagens. A mãe sorri satisfeita. É mesmo assim Pedrito: são
menos perigosa. Afinal, esse era um país onde se falava a mesma
os feitos da imaginação, que ao lado dos da natureza e da ciência
língua e onde havia uma história e muitas tradições em comum. Ao
nos surpreendem. Assim, nascem - ganhando nomes e roupinhas

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menos, até a Independência do Brasil, que foi uma espécie de reco- bonecos também vão a São Paulo, como não poderia deixar de ser0
nhecimento da maioridade da nacionalidade brasileira: filhos fortes e Viajam de vapor, cujo destino é a Argentina. Descem em Santos^
adultos devem ser capazes de viver as suas vidas. Ou seja, tudo muito onde porto e praia impressionam. Porém é a cidade de São Paulo e
"natural" nessa independência, representada como sem conflitos, que o interior do estado que ganham destaque. São Paulo, apresentado
comemorava cem anos quando o livro é publicado. como a "terra dos bandeirantes", ou melhor, a terra dos bravos e
Para vir ao Brasil, Felício e Felizarda pegam um navio= Viajam aventureiros portugueses que entraram pelo interior do que seria o
de terceira classe; note-se bem. Nada de luxos. Muitos imigrantes., Brasil. A cidade encanta os bonecos, pelos monumentos, pelo Museu
não só portugueses, eram seus companheiros: pobres de se ver, em do Ipiranga, pelo Teatro Municipal e,,, pela Escola Normal da praça
uma mistura de sentimentos e possibilidades. Portanto, o "olhar" da República. Verdadeiro palácio da educação, mesmo havendo muita
para ver e registrar está presente desde o embarque, como critério gente que não sabe ler no Brasil.
da verdade do testemunho. O percurso é: Dakar, Olinda, Salvador Enfim, o Brasil é uma terra fantástica, grande e fértil. Mas também
e Rio de Janeiro. Como viajantes modernos e exploradores atentos, tem muitos problemas, como o português naturalista, o sr. Sampaio,
os bonecos se encantam com os periquitos em Pernambuco e com explica a Feíício e Felizarda. Mesmo assim, os brasileiros exploravam
a arquitetura da Bahia, onde sobressaem os azulejos portugueses; sua agricultura e cuidavam da exportação, coisa que Portugal não
herança da "grandiosidade dos colonizadores". Mas o Rio é o des- fazia. Não fazia e, por isso, não crescia, ficando sempre amesquinha-
tino e a entrada na baía de Guanabara não poderia fugir à regra do. Lição meio amarga a ser aprendida, antes do retorno ao Rio e a
dos inúmeros e inúmeros relatos de viajantes: a beleza é tão grande, Lisboa. A viagem de volta é feita muito a contragosto para Felizarda.
que até os bonecos, que não respiram, ficam sem fôlego, como que Ela queria conhecer mais a bela cidade do Rio. Mas o tempo passa
sufocados. No Rio hospedam-se em um hotel e em casa de amigos e Pedrito esperava ansioso. É verdade que tinham mandado postais.
de Pedrito, que logo lhes explicam que não há essa história de cobras Porém as notas dos cadernos é que seriam o recheio do livro plane-
e macacos na cidade. Puro preconceito, certo? Há tanto para ver, jado. Os animais, as plantas e frutas; as paisagens e a arquitetura,
que é preciso escolher: o Corcovado, o Jardim Botânico, a igreja da tudo, tudinho registrado pelos olhos e pelas palavras, como os bons
Glória, a enseada de Botafogo, a floresta da Tijuca. No Rio ficam exploradores, ainda que também turistas, faziam.
maravilhados com a natureza tropical e também com as palmeiras Enfim, o Brasil de Felício e Felizarda segue a tradição das narra-
imperiais. Interessante, anota Felício. O D. João, de triste figura em tivas de viagem conhecidas por Ana e vividas por ela mesma. Aqui e
Portugal, é festejado no Brasil como alguém que fez muito pelo país e ali, observações sobre os laços que uniam os dois países e até sobre
até por sua independência... Sem maiores explicações e inquietações, como Portugal podia aprender com o Brasil. Os bonecos transitam
essa observação é feita no livro. muito bem nas ruas, no trem e nos navios. Fazem amigos, muitos dos
Mas Felício e Felizarda não ficam só na cidade do Rio de Janeiro. quais da colónia portuguesa. São bonecos muito falantes e também
Fazem viagem de trem a uma fazenda de café no interior do estado, muito educados dentro de princípios morais: não ser preconceituoso,
onde conhecem uma porção de frutas: carambolas, abios, abacates não ver os pobres como espetáculo, ajudar sem humilhar, observar
e jabuticabas... Contudo, nada impressiona mais do que a árvore do bem; anotar, colecionar etc.
pão, que, segundo lhes contam, salvou muita gente da fome. Boa Bonecos falantes como personagens são uma opção interessante,
oportunidade para colecionar folhas e colocá-las nos cadernos. Os mas não surpreendente. A literatura infantil conhecia de sobra bichos

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falantes que interagiam com humanos e se transformavam, muitas não está examinando "nenhum negócio verdadeiramente editorial"
vezes, em humanos ou vice-versa. Conhecia também o Pinóquio, um e, por tal razão, não pode fazer nada do que Ana propõe. Explica
famoso boneco de madeira. Aliás, nos anos 1920, a literatura infan- que sua casa editorial, com mais de 500 edições de sua propriedade,
til brasileira estava prestes a conhecer uma boneca falante que seria nunca vendeu um só livro em Portugal, "e nem procura fazê-lo, pois
ímbatível: a Emília. Muito diferente dos bonecos de Ana e também é tempo perdido". E finaliza como se escrevesse um epitáfio: "Tenho,
dos personagens infantis de autores como Cecília Meireles, todos bem por isso, a impressão que o Brasil e Portugal caminham em direçoes
comportados, Emília era danada! Era uma criação de Monteiro Lobato, contrárias e nunca mais se entenderão. (...) E disponha deste seu
que escreveu seu primeiro livro, Narizinho arrebitado, ainda naquela cordial admirador, Monteiro Lobato."13
década, publicando-o por sua própria editora, a Revista do Brasil. Lobato era bom de previsões; mas não acertou todas... Nesse caso,
Porém, foi só em 1931, em edição revista pelo autor e inaugurando elas não se confirmaram, muito ao contrário. É o que algum tempo
uma das mais importantes coleções dedicadas ao público infantojuvenil depois constata a poetisa, educadora e também estudiosa do folclore
da Companhia Editora Nacional, de São Paulo, que Emília ganhou o Cecília Meireles, em carta a Fernando de Azevedo, de 1934, rela-
Brasil. Ela e Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia e todo tando sua estada em Portugal (Pimenta 2008). Entre outros aspectos
o sítio do Pica-Pau Amarelo. Pensando bem, Felício e Felizardo não da vida cultural, chamou sua atenção a popularidade dos livros de
eram páreo para ela e sua turma. Só que Ana não sabia nada disso... Lobato e o quanto ele era lido e conhecido. Uma aproximação que se
Assim, logo depois de publicar as Viagens aventurosas de Felício e estreitaria nos anos 1940, quando os governos de Oliveira Salazar e
Felizarda ao Brasil, Ana, idosa e já adoentada, tenta um contato com Getúlio Vargas - ambos sob um Estado Novo - assinaram o Acordo
este também editor e escritor de literatura infantil. Ela lhe manda uma Cultural Luso-Brasileiro. Firmado entre o Departamento de Imprensa
carta, em 1925, sobre um possível negócio entre as duas editoras, que e Propaganda (DIP) e o Serviço de Propaganda Nacional (SPN), em 4
poderia beneficiar a ambas. Fala de seus livros, alguns conhecidos de setembro de 1941, sugestivamente às vésperas da comemoração do
e adotados em escolas brasileiras de Minas Gerais e São Paulo, há Dia da Independência do Brasil, ele estabelecia: trocas de emissões de
décadas. Destaca o recente livro de viagens ao Brasil de seus bonecos, rádio, de documentários cinematográficos e de informações, além da
bem como aquele em que reuniu as conferências que proferiu em sua publicação de livros e da realização de estudos, com destaque sobre
própria viagem, em 1922/23: A grande aliança. Certamente não podia o folclore luso-brasileiro.
adivinhar que, justamente em 1925, a Companhia Editora Monteiro Enfim, sinal de novos tempos nas relações culturais entre Brasil
Lobato fechava suas portas para dar origem à Companhia Editora e Portugal. Tanto que, no ano de 2013, chamou nossa atenção o
Nacional, fundada com Octalles Marcondes Ferreira. Ana, como lançamento de mais um livro da turma da Mônica, famosíssima
Lobato, ia mal financeiramente, e a situação política da República personagem de Maurício de Souza, tão danada como a Emília. O
portuguesa, pior ainda. autor é, sem dúvida, outro mestre na criação de histórias infantis,
Não por acaso a carta de resposta de Lobato é arrasadora, não dessa feita, na linguagem dos quadrinhos. O livro, intitulado, Uma
deixando sequer um fio de esperança para a portuguesa se agarrar. viagem a Portugal, tem a coautoria de José Santos c é ilustrado por
De cara, ele anuncia que sua editora encontrava-se, naquele momento,
fora do mercado, "ocupada em imprimir obras já em domínio público,
13 Espólio da família Castro Osório, ESP N12-132 e 131, cartas de Ana a Lobato e de Lobato
dramalhões (...) únicas coisas que o Brasil lê". A seguir, informa que a Ana, respectivamente, Biblioteca Nacional de Portugal.

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Emy Acosta. Grande, colorido, atraente, o livro é muito bonito e faz Bibliografia
justiça a seu subtítulo; "as diferenças do português falado no Brasil
e em Portugal". De fato, todo ele é um grande e interessante glossá- Botelho, A. (2002) ^Aprendizado do Brasil: a nação em busca dos seus
rio (às vezes um pouco extenso), que explora como as duas línguas portadores sociais". Campinas: Unicamp.
"irmãs" têm lá suas diferenças, e como elas podem ser motivo de Catroga, F. (2010) "Pátria, nação e nacionalismo". In: Sobral, J. M. e Vala,
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Lisboa/São Paulo: Bertrand/Difel.
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Esteves, J= (1997) "A coleção Castro Osório: Ana de Castro Osório (1872-
livro de 2013. António está mais para guia turístico e explicador da
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complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. culturais: escolas rurais e usos da escrita em
povoados indígenas do México no século XIX1
Gabriela Pellegrino Soares

A historiografia dedicada ao tema da Revolução Mexicana (1910-


1917) e ao período que se seguiu a ela, de reorganização do Estado
Nacional, costuma apresentar, como um divisor de águas na história
cultural do país, o projeto de promoção do maestro rural alentado
pelo ministro da Educação, José Vasconcelos, entre 1921 e 1924,
Vasconcelos concebeu várias estratégias para levar professores mis-
sionários aos confins do território mexicano e aos vastos contingentes
populacionais indígenas espalhados pelas diferentes regiões, fazendo
da instrução elementar a nova prioridade na esfera das políticas
educacionais.
Pouco a pouco, a primeira leva de maestros misioneros foi dando
lugar a professores com um perfil mais profissional, incumbidos de

1 Agradeço ao CNPq e à FAPESP o apoio financeiro concedido a esta pesquisa. Agradeço a


Rosalina Rios e Juan Leyva, que acolheram o embrião deste trabalho no colóquio "Contac-
tos entre cultura letrada e iletrada en grupos populares de siglo XIX", realizado na Unam
em 2010. O colóquio deverá dar origem ao livro Voz popular, saberes no oficiales. Humor,
protesta, disidencia y organización desde Ia escuela, Ia calle y los márgenes, México, siglo
XIX (Issue, Unam).

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modelar os jovens alunos e suas famílias segundo as concepções da Como veremos, há uma profusão de documentos indicando a mo-
nova sociedade que se queria fundar. Dentre outros meios, as revis- bilização de pueblos, em diferentes regiões do Vice-Reino da Nova
tas El Maestro e El Libro y el Pueblo, criadas por José Vasconcelos Espanha, em prol da presença de um professor. Mais ainda, de um
e mantidas por seus sucessores à frente da Secretaria de Educação professor apto a ensinar o catecismo, o espanhol e o alfabeto. Esse
Pública, procuraram orientar a atuação dos professores e conferir tipo de petição judicial seguiu sendo recorrente no século XIX. Por
maior unidade e articulação à tarefa de estabelecer a escola laica e essa razão, embora a escola primária estivesse muito longe de uni-
gratuita, cumprindo o princípio constitucional de 1917. Ao mesmo versalizar-se antes das políticas de massa levadas a cabo nas décadas
tempo, publicaram-se em grandes tiragens, para distribuição gratuita, que se seguiram à Revolução, sustentamos a concepção de que esse
coleçõcs de livros como Lãs lecturas clásicas para ninos e Lãs lectu- foi um horizonte presente para as populações rurais e indígenas em
ras clásicas para mujeres, destinadas a circular para além do espaço contextos anteriores.
escolar e a se fazer incorporar ao repertório cultural e às práticas Tal perspectiva vem ganhando vulto nos últimos anos graças a
cotidianas das famílias. um conjunto de pesquisas monográficas, e também graças a esfor-
Sobre as concepções de Vasconcelos relativas à integração cultural ços pioneiros de quantificação em cenários mais amplos. Destaco
e social da população indígena, há uma vasta produção académica que como exemplo o instigante trabalho de Dorothy Tanck de Estrada
vou me eximir de retomar aqui. Trabalho com a premissa, todavia, de a respeito do número de escolas em funcionamento nas comuni-
que levar a educação ao campo constituiu uma resposta às tensões e dades indígenas da Intendência de México^ na região central do
aos anseios que vieram à tona nos anos da Revolução, particularmente Vice-Reino da Nova Espanha, em fins do período colonial. No ano
na zona rural. Ao mesmo tempo, desenvolvo a hipótese segundo a de 1808, contavam com a instituição 457 pueblos^ dos 1.252 que
qual o envio pelo Estado de professores aos pueblos - termo que no estavam sob sua jurisdição, reunindo um total de 950 mil índios,
mundo hispano-americano indicava a condição jurídica corporativa em sua maioria de língua náhuatl (Tanck de Estrada 1996: 44).
reservada aos índios integrados a comunidades, com a posse coletiva O fato de muitas dessas escolas funcionarem já há muitos anos
da terra - representava uma forma de corresponder a uma antiga explica que, às vésperas da independência, houvesse núcleos de
demanda das populações indígenas e mestiças no México.2 índios alfabetizados.
Ao mesmo tempo, não é possível deixar de chamar atenção para
os casos, mesmo que excepcionais, de indivíduos que encontraram
2 Criada no primeiro século de colonização espanhola na América, a estrutura dos pueblos brechas para receber educação formal em meio a uma realidade desfa-
indígenas, também chamados de comunidades ou Repúblicas de índios, sobreviveu oficial-
mente até meados do século XIX, quando teve lugar, no México independente, uma Reforma vorável. A biografia de Benito Juárez, advogado, futuro presidente da
Liberal. A Reforma Liberal aboliu a posse comunitária da terra no país e anulou os princípios República e protagonista da Reforma Liberal mexicana, representa o
que definiam juridicamente o pueblo como uma corporação - ou seja, uma coletividade
responsável pelo recolhimento do tributo indígena e do dízimo, pelo usufruto da terra, percurso emblemático de um índio zapoteco que, muito jovem, fugiu
pelo apelo aos tribunais, ou seja, pela relação entre seus vecinos, ou moradores, e o mundo da casa do tio no pueblo de San Pablo Guelatao para buscar instrução
externo ao pueblo. Contudo, muitas das práticas sociais que caracterizavam os pueblos se
perpetuaram no México de fins do século XIX e do século XX. O termo também continuou na cidade de Oaxaca. Juárez teve a sorte de ser abrigado por António
a ser empregado de forma generalizada pela sociedade e pelos governantes, embora, no plano Salanueva, franciscano, encadernador de livros, que lhe conseguiu,
jurídico, o vocabulário precisasse ajustar-se aos princípios liberais fundados sobre o indivíduo
e a propriedade privada. Ao mesmo tempo, na medida em que as distinções étnicas deixaram entre muitas coisas, um assento como aluno no Colégio Seminário da
de ter um peso jurídico, ganhou força o uso do termo camponês (campesino) para referir-se cidade. A base adquirida nessa instituição permitiu que o estudante
ao índio ou mestiço vinculado, em graus variados, à produção agrária de autossubsistência.

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passasse a uma carreira laica, como preferia, quando, em 1821, foi Embora não seja possível ignorar os nexos entre escrita e poder
aberto em Oaxaca o Instituto de Ciências e Artes.1 estabelecidos ao longo da História, na perspectiva desenvolvida por
Na pesquisa que embasa este texto, porém, prevaleceu a busca por Goody, considero que essa associação possa ser matizada. Na tra-
indícios dos caminhos socialmente menos excepcionais, com base nos jetória das populações indígenas, do México do século XIX, ficam
quais se delineou a permeabilidade das fronteiras entre os repertórios nítidas as imbricações que se produziram entre a oralidade e a escrita
letrados e as populações indígenas. Vale lembrar nesse sentido, como em diferentes esferas do cotidiano das comunidades.
vem sublinhando em suas pesquisas Elsie Rockwell, que a apropria- Este capítulo analisará o papel desempenhado pelos maestros
ção das letras ocorre sempre de forma contextualizada e, portanto, rurales na difusão de determinadas ferramentas culturais e políticas
subordinada às práticas culturais específicas de cada grupo. A escola
que ajudaram a definir sentidos, práticas e dinâmicas da participa-
representa apenas um dos agentes - e não o mais importante - que
ção camponesa na Revolução Mexicana. Os professores são aqui
atuam no processo de difusão social das letras (Rockwell 2007).
entendidos como mediadores culturais ou passeurs, que ajudam a
A perspectiva da autora se contrapõe a linhas de interpretação
conformar, a partir de suportes materiais disponíveis e de relações
sobre as relações entre o mundo da oralidade e o mundo da escrita,
sociais que se estabelecem em contextos históricos específicos, a
sustentadas por estudos clássicos como The interface between the
circulação e os modos de apropriação de determinadas ideias e
written and the oral, do antropólogo britânico Jack Goody. A obra
lança luz sobre a forma pela qual os processos de introdução das práticas.2 Trata-se de agentes atuantes em zonas de fronteira socio-
letras em sociedades ditas tradicionais da África e da Ásia afetaram cultural, as zonas de contato entre códigos culturais letrados (ainda
as dinâmicas sociais que singularizavam as mesmas. Goody concebeu que rudimentarmente dominados) e institucionalmente legitimados
a escrita "como meio ligado inerentemente ao pensamento abstraio (pela escola, pelo sistema judicial, pelos órgãos administrativos...),
e descontextualizado", cujo uso "possibilita (...) toda uma série de e populações camponesas com língua maternas indígenas e marcas
desenvolvimentos sociais e cognitivos" (Goody 1987: 164). Com culturais associadas à oralidade.3
efeito, o autor estabelece uma oposição rígida entre as sociedades Reconhecendo a importância de aspectos próprios de longa du-
de tradição oral e as sociedades letradas, sublinhando a tese de que ração na abordagem desse tema, lançaremos luz sobre dimensões
a difusão social do conhecimento letrado conduz à desvalorização que conformaram essas fronteiras culturais e políticas permeáveis
do conhecimento transmitido oralmente, o que carrega uma série de no passado, antes de nos concentrarmos no caso da escola rural dos
implicações sociais e políticas. pueblos de Anenecuilco e Villa de Ayala, em Morelos, nas últimas
décadas do século XIX e no alvorecer do século XX.

1 Lembro o argumento apresentado por Lawrence Stone em um artigo intitulado "Literacy


and Education in England: 1640-1900", de que, na Inglaterra desse período, a estratificação
social era o que definia a estrutura educativa, uma vez que cada nível de educação formal
era orientado segundo as necessidades específicas de cada camada da sociedade, com o claro
propósito de reforçar as distinções de classe e de reduzir a mobilidade social. Stone coloca que 1 Sobre o tema dos mediadores culturais, ver entre outros Chartier e Hébrard (1995); Chartier
a educação dada às crianças de cada grupo em geral correspondia aos requisitos da posição (1996), Espagne (1999).
social que herdariam no futuro. A brecha que o autor identifica na rigidez deste sistema é o 3 O conceito de "zona de contato" foi proposto por Mary Louise Pratt para enfocar as
que ele chama de sponsered mobiltty, que permitia a uns poucos talentosos, por meio de uma dinâmicas de poder, de trocas e de transculturação estabelecidas a partir do contato entre
bolsa de estudos, ultrapassar os limites impostos ao seu grupo (Stone 1969: 73). colonizadores e colonizados na América (Pratt 1999).

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S
M E S T R E S D A S P R I M E I R A S L E T R A S COMO M E D I A D O R E S C U L T U R A I S

Pueblos indígenas e maestros rurais


à independência do México, para que as comunidades contassem
com professores, favoreceu a participação dos vecinos nos assuntos
Desde 1550, a Monarquia espanhola legislou sobre o ensino do cas-
escolares:
telhano aos índios, ou seja, o ensino da doutrina cristã em espanhol.
Estas resoluções foram incorporadas na Recompilación de lãs Leyes existia o costume de manter os professores não com fundos eclesi-
de índias de 1680. Entre 1685 e 1693, o monarca determinou que as ásticos, e sim com dinheiro das caixas das comunidades e dos pais
caixas das comunidades deveriam fornecer os fundos para os salários de família. Esta forma de financiamento serviu como base rpara o
dos professores (Staples 2005). Acrescentou que se devia ensinar a ler estabelecimento de escolas municipais, baixo o regime da Constitu-
e a escrever em castelhano. Esses princípios foram reiterados durante ción de Cádiz e no México independente. A transferência dos fundos
toda a época colonial. De acordo com Pilar Gonzalbo Aizpuru, comunitários às prefeituras constitucionais cumpriu-se a partir do
dia 7 de abril de 1821 quando a Diputación Provincial de Nova
a educação como evangelização foi fundamento da política americana Espanha declarou: "a Diputación chegou à conclusão de que em
da Coroa espanhola. Como justificativa legal e legitimação moral, a muitos pueblos onde há ayuntamientos que carecem completa mente
cristianização dos índios era uma medida imprescindível, recomen- de recursos para responder pelo salário de um professor de escola e
dada pelas autoridades civis e levada à prática pelos membros do onde, antes do sistema constitucional, os salários eram pagos pela
clero secular e das corporações religiosas. (...) A realidade material comunidade, era admissível que se continuasse com essa prática.*
das necessidades económicas e o afã de lucro dos particulares incor- (Lockhart 1998: 98-119)
poraram um novo elemento às preocupações pela educação popular:
a exigência de trabalhadores com um nível mínimo de capacitação Os arquivos judiciários e administrativos do estado de Oaxaca, para
para seu desempenho nas nascentes empresas agrícolas, pecuárias e destacar uma das delimitações espaciais da pesquisa que desenvol-
mineiras. Deste modo a educação pôde conjugar interesses públicos vo, guardam incontáveis pastas com processos relativos às pressões
e privados, religiosos e profanos (Gonzalbo Aizpuru 2000: 14). exercidas por comunidades indígenas na passagem da época colonial
à independente, em defesa do acesso especialmente das crianças à
Ao lado do ensino da doutrina cristã, a difusão da língua castelhana instrução elementar.5
tornou-se assunto relevante nas escolas elementares que se improvi- Como exemplo, cito o caso da República dei Comum y Natural
savam nos pueblos (Idem: 15). Isso não significa que a aprendizagem dei Pueblo de Cabecera de San Pablo de Ayutla, distrito de Villa Alta,
da leitura e da escrita em castelhano tenha se convertido em uma em Oaxaca, que em 1809, conjuntamente com um pueblo vizinho,
meta efetivamente perseguida por todos os maestros rurais. Por outro
lado, é fato que a alfabetização, pouco a pouco, se converteu em uma 3 Sobre as despesas das comunidades indígenas em educação, ver Staples, A., op. cit. O
demanda dos próprios pueblos indígenas.4 estado de Oaxaca representa um cenário propício para abordarmos esta temática, devido à
importância demográfica das populações de origem indígena na sua formação social -em fins
Trabalho com a hipótese de que a solução encontrada pela mo- do século XVIII, era uma das intendências com os índices mais significativos de população
narquia espanhola, que se manteve nas primeiras décadas posteriores indígena, 88,3 % contra 6,3% de espanhóis e 5,3% de mestiços e mulatos. As estruturas
comunais seguiram existindo no período posterior à independência e, reacomodadas, depois
da Reforma Liberal. Dos 16 grupos étnicos que ocuparam o território, zapotecos e mixtecos
eram majoritários e predominavam ainda nas duas regiões do estado que analiso: as chama-
4Sobre o processo de formação dos povos indígenas no período colonial ver, por exemplo, das Serra (mais zapoteca), ao norte da cidade de Oaxaca, e Mixteca Alta (mais mixteca), no
Lockhart (1998: 98-119). noroeste do estado. Cf. Reina Aoyama (2004: 103)

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S MESTRES DAS P R I M E I R A S LETRAS COMO MEDIADORES CULTURAIS

dirigiu uma petição ao více-rei reclamando a substituição de um comprueba Ia imposibilidad, que experimentan annualmente estos
professor encarregado de ensinar a doutrina cristã e a ler, cujo salário pueblos, ai querer cambiar de escribano. (...) Por otra parte, como a
sufocava a população sem que se alcançassem bons resultados com os estos indígenas se lês obliga a contraher matrimonio en una edad muy
alunos,6 Em 1811, a mesma República de San Pablo deAyutla voltou pequena {...), lês es indispensable abandonar Ia ensenanza primordial,9
a dirigir-se à Sua Alteza e à Real Audiência do México para reclamar
do professor que lhe fora designado, que além de custar muito para O autor do documento finaliza recomendando que os pueblos dedi-
a comunidade, deixava a desejar no preparo dos alunos, O prefeito cassem uma "siembra comunal dei fruto mas valioso*', para produzir
do pueblo solicitava um novo mestre de primeiras letras, capaz de "fondos destinables a Ia educadón primaria de estos indígenas", a fim
ensinar a doutrina crista e a língua de Castela em idioma zapoteco.7 de estabelecer "Ia ensenanza mutua en Ias cabeceras de Parroquia", e
No transcurso do século XIX as demandas educacionais manifes- que se obrigasse "a los padres de família a que entreguen a sus hijos
tadas por inúmeras comunidades indígenas de Oaxaca às autoridades por dos o três anos". O suscritor assim finaliza o informe: "no dudo
coloniais encontraram amparo na legislação adotada pelo Estado que a Ia vuelta de veinte [sic] habrá, sino desaparecido, disminuido ai
mexicano após a independência, embora, na prática, persistissem as menos, Ia brutal ignorância de estos indígenas, dignos de Ia atención
dificuldades para um desempenho satisfatório dos maestros. de V. E.M. E encerra o documento com a fórmula "D/os y libertad",
Em um relatório relativo às escolas primárias de Villa Alta, na tal como se usava no período.10
Serra Norte, dirigido em 1839 ao governador do departamento, o Mesmo que as autoridades procurassem soluções para um quadro
subscritor, José Maria Paulo, fez um balanço pessimista da situação: de escolarização primária insuficiente, os pueblos indígenas continua-
ram praticando sua tradicional intervenção nos assuntos educacionais.
Según los informes que he podido adquirir, se permitió a Ias munici- Processos como os movidos pelo pueblo de San Pablo de Ayutla,
palidades de esta demarcación haccr el nombramiento de Preceptores, em fins da época colonial, repetiram-se durante todo o século XIX,
sin masaprobacion, que Ia de los Párrocos respectivos, y siguiendo expressando diferentes motivações que levavam os vecinos a apelar
esta antigua costumbre, están en posición de hacerlo hasta Ia época às instâncias responsáveis para resolver problemas que afetavam o
presente. Es sabido que antes de Ia independência se procuraba por funcionamento escolar.
nuestros dominadores mantener a los megicanos en Ia estupidez e Em um documento do distrito da Villa Alta com data de 19 de
ignorância, y sea por esta causa, o por otra cualquiera, Io cierto es, agosto de 1864, enquadrado pelas fórmulas da "nova era", Indepen-
que en Ias escuelas no se ensena mas que a cantar en zapoteco y en un dência y Reforma, subscrito por António, de sobrenome ilegível na
corrompidissimo castellano Ia doctrina cristiana dei Padre Ripalda,
assinatura, dava a boa-nova:
y que poços son los que aprenden a leer. Ninguna ecsageracíón hay
en decir que de mil educandos solo aprenderán ciento a buscar el
Tengo el honor de comunicar para el que sirva hacerlo ai Gobernador
Catón Censorino8 y íectura impresa, y veinte Ia manuscrita. Así Io
dei Estado, que ai encargo dei Gobierno político de ese Distrito no
existia en esta población un establecimiento de educación primarial
6 AHJ, Oaxaca, Villa Alta, Civil, 0038, 0014,1809.
7 AHJ, Oaxaca, Villa Alta, Civil, 0039, 001,1811.
8 Trata-se da obra El sábio Catón. Avisos y ejemplos dei sábio Catón Censorino Romano. 9 Archivo General dei Estado (AGE), Fondo Gobernación, Sección Gobierno de Distritos,
No México há uma edição impressa por Pedro da Rosa e uma reimpressão feita em Puebla Serie Villa Alta, Subserie Instrucción Pública, ano 1839.
no ano 1815. Cf. Castaneda, Galvan Lafarga e Martincz Monctezuma (2004: 47). 10 íbidem.

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"

INTELECTUAIS MEDIADORES MESTRES D A S P R I M E I R A S L E T R A S COMO M E D I A D O R E S C U L T U R A I S

[ilegível] que considerando que es cl primer a Ia vez de Ia autoridad Ia mandado edifique una casa para cl espresado establecimiento, como
protección de este ramo el que subscribe y los LL Juez de 1a Instancia en efecto esta comenzada Ia obra; pêro Senor Ortiz ha dicho que esa
y cura párroco contribuímos cada mês con seis pesos, y cuatro que nueva edificación tambien lê corresponde a su curato por hallarse en
dá el Ayuntamiento de sus escasos fundos; sea conformado con ese el mismo citio (...).12
escaso sueldo el L. Ramón Castaneda, inter se lê proporciona otro
mejor; y en Ia manana dei dia 16 actual sea abierto Ia Escuela donde Restou ao preceptor, naquele momento, transferir o pueblo vizinho
concurren ya más de cuarenta ninos.11 de Salinas e lá receber os alunos de Sogocho.
Do mesmo modo que outros pueblos desse distrito, Sogocho tinha
O documento finalizava solicitando apoio ao governador para cons- uma longa relação com a instituição escolar. Um quadro produzido
truir uma cadeia, já que o salário do "preceptor de primeras letras" em 1843, considerando o "estado en que se manifesta el numero de
já estava assegurado, como resultado da mobilização das autoridades ninos y ninas que concurren a Ias escuelas de los respectivos pueblos
locais. de este Distrito: asícomo el de almas que cada uno de ellos tiene, el
Em 26 de maio de 1885, seis cidadãos do pueblo de Sogocho,
cual se forma en cumplimiento de Ia circular dei Superior Gobierno
distrito de Villa Alta, na região da serra do estado de Oaxaca, subs-
dei Departamento"?3 calculava em 108 meninos e 102 meninas os
creveram um extenso documento, reclamando necessidades de escola,
alunos da escola de Sogocho. Entretanto, o número superava consi-
professores e ensino. O documento também apontava uma disputa
deravelmente as médias de meninos e meninas ocupantes dos bancos
envolvendo o padre daquela paróquia. Os signatários dirigiram-se
escolares em outros pueblos, aproximadamente 20, 30, ou 60 da
às autoridades
cada sexo.14
con el objecto de tratar sobre el estado que guarda actualmente el O documento de 26 de maio de 1885, no entanto, expressava
establecimiento de Ia instrucción primaria dei pueblo de Sogocho, tensões que foram características, sobretudo das últimas décadas do
a ese efecto espuso el citado e presidente: que habiendo notado Ias século XIX, envolvendo os temas educacionais, produto das tentativas
graves dificuldades que se pulsabán en dicho establecimiento, en e transformações que promoviam a laicização do ensino.
virtud de que en aquella población no hay localidad para Ia escuela A vitória militar e política dos liberais, após os confrontos com
pues para eso se tiene que hacer uso de una de Ias piesas de Ia casa os conservadores católicos e o Império de Maximiliano de Habsbur-
curatal, pêro como el cura Don Pedro Ortiz impide absolutamente go (1864-1867), criou as bases para um Estado decidido a fazer da
que Ia ensenanza continue en esa localidad, por alegar de serie educação um instrumento para formação do espírito cívico e subor-
necesaria Ia casa curai para su habitación a Ia vez que tenga que
dinação da Igreja. As referências ilustradas nas quais se fundavam
concurrir algun asunto de su ministério, por Io cual ha habido algu-
nas diferencias entre el preceptor y el citado cura ai grado de haberío
as novas diretrizes educacionais encontraram defensores entusiastas
despojado dei establecimiento, de cuyos hechos tiene ya conocimiento entre aqueles que, em todo o território mexicano, tinham apoiado a
el S. Juez de 1a. Instancia de este Distrito (...}; sin embargo de que Ia causa liberai.
autoridad politica de dicho distrito (...) para evitar ese tropieso ha
12 AGE, Gobernación, Gobierno de Distritos, Villa Alta, Instrucción Pública, ano 1885.
13 AGE, Gobernación, Gobierno de Distritos, Villa Alta, Instrucción Pública, ano 1843.
AGE, Gobernación, Gobierno de Distritos, Villa Alta, Instrucción Pública, ano 1864. 14 Ibidem.

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INTELECTUAIS MEDIADORES

Como resultado de um choque aberto com a Igreja que remontava Ao longo do século XIX, inúmeros catecismos políticos, alguns
a fins do século XVIII, o processo de laicização da educação nem reunidos na Coleção Lafragua, foram editados por impressores me-
sempre se levou a cabo. De acordo com Anne Staples: xicanos e postos em circulação nas escolas e fora delas (Suárez de Ia
Torre 2003).
A doutrina cristã, base do ensino colonial, começou a misturar-se A ascensão de Porfirio Díaz ao poder, em 1876, marcou o início
com outra instrução, a cívica, desde tempos da Ilustração. Ganhou de uma era de maiores intervenções do Estado nos temas referentes
corpo formal na Constituição Política da monarquia espanhola de à educação, com o objetivo de torná-la laica. O Estado passou a
1812, que ordenava o ensino do catecismo religioso e do civil, ou seja, patrocinar a produção de livros escolares conformes com o ideário
os direitos e obrigações do homem. Estavam tão entrelaçados seus oficial, ocupando espaços que por muitos séculos foram monopo-
conceitos que ninguém concebia uma contradição nem uma oposição lizados pela Igreja. Ao mesmo tempo, o Estado empenhou-se em
entre um e outro. Os deveres para com Deus e a Igreja correspondiam definir parâmetros e procedimentos para regulamentar e controlar
aos devidos aos pais, ao Estado e ao rei (Staples 2000:142).
o exercício da docência.
No âmbito federal, a década de 1880 viu intensificarem-se os
Com a emancipação política do México e a derrocada dos anseios debates em torno de uma legislação que pautasse as políticas de
imperiais de Agustín de Iturbide, contudo, os catecismos políticos - ampliação e uniformização da escola primária. Tiveram papel des-
ou seja, os textos em geral dirigidos ao público escolar, que seguiam tacado neste contexto Joaquín Baranda, nesse momento ministro de
o formato de perguntas e respostas, característico dos catecismos Justiça e Instrução Pública, e Enrique Rébsamen, diretor da Escola
cristãos - receberam uma crescente ênfase secularizadora. O Cate- Normal de Xalapa (capital do estado de Veracruz) e reformador da
cismo de urbanidad civil y cristiana, de Mariano Galván Rivera, educação pública em diferentes estados. Também, finalmente, Justo
conviveu com a Cartilla social, de José Gómez de Ia Cortina, pu- Sierra, autor, entre outros, de livros de História nacional, futuro
blicada em 1833. criador da Universidade Nacional de México (mais tarde UNAM)
e primeiro titular da Secretaria de Instrução Pública e Belas-Artes,
A cartilha de Gómez de Ia Cortina deu o salto rumo ao secular. Re- criada em 1905.
toma a ideia do contrato social de Rousseau para explicar o porquê A obrigatoriedade da educação primária e as concepções educativas
da sociedade civil; funda sua criação nas necessidades humanas, predominantes no período se condensaram na Ley de Instrucción
deixando de lado as espirituais. Fala de segurança e tranquilidade,
Pública de 1888 e nos Congressos de Instrução Pública que se reali-
da gostosa convivência como razão para reunir-se em sociedade.
zaram a partir desse momento - o primeiro deles aberto em dezembro
(...) Longe está Gómez de Ia Cortina de um mundo hierarquizado
de 1889. O modelo estabelecido por Jules Ferry na França da Terceira
por natureza ou mesmo por caridade. Sua escala moral se compõe
de talento, instrução, virtude, valor, bens de fortuna e educação. A República inspirava a fórmula da escola gratuita, obrigatória e laica.
aristocracia do mérito, esclarece o autor, é secular em sua formação. Além disso, discutiram-se nestes âmbitos metodologias de ensino,
Salvo os bens da fortuna, os demais requisitos se podem adquirir parâmetros para a formação de professores e para os livros escolares
mediante o esforço individual (Idem: 144). por se adotar. O Estado mexicano procurava, dessa maneira, definir
formas para controlar e uniformizar as atividades educacionais que já
se vinham desenvolvendo em diferentes estados. As políticas federais

13? 133
INTELECTUAIS M E D I A D O R E S M E S T R E S D A S P R I M E I R A S LETRAS COMO M E D I A D O R E S C U L T U R A I S

negociavam com práticas tradicionais e soluções encontradas no âm- y yo acudiendo a esa solicitud con que se me ha honrado, me he
bito estatal ou municipal, em um palco ainda disperso e heterogéneo. puesto a Ias ordenes de este Ayuntamiento, como amigo, siempre de
Por volta de 1907, como descreveu Elsie Rockwell, Ia iíustración y de progreso y más en tratándose de Ia ninez de mi
pueblo y hoy me ofrezco a Ias de usted, suplicándole se sirva ponerlo
as escolas representavam um mundo cultural que havia se separado da en conocimiento dei Superior Gobierno dei Estado, a fin de que, si
Igreja Católica já antes da Reforma. Este motivo não impedia ensinar Io tiene a bien favorecerme con este empleo, se digne extenderme el
a doutrina, por insistência dos habitantes de muitos pueblos (...). Em despacho correspondiente. / Abril 15 dei 1895.15
algumas cabeceiras, tinham-se erguido imponentes construções de
pedra, que integravam a escola, a intendência e a cadeia. Em outros Apesar dos esforços organizativos levados a cabo durante o Porfiriato,
lugares, o estabelecimento escolar continuava nos anexos da paróquia as dificuldades para a universalização e o bom funcionamento da es-
ou do convento, espaços que tinham sido tomados pelas autoridades cola primária persistiam. Um relatório sobre as escolas do distrito de
do distrito ou definidos pelas autoridades tradicionais. Em vários Huajuapan de León, dirigido às autoridades em 18 de abril de 1895,
pueblos, estava-se construindo a escola quando começou a revolução expressava o desnível existente entre aquelas instituições estabeleci-
(...). Em outros, era um projeto pendente, que se agregava ao volume das nas cabeceiras de municípios, sobretudo as escolas reservadas a
de demandas que levantou o movimento armado (Rockwell 2007:43). meninos, e as escolas de pueblos menores:

Em Tlaxcala, a maioria dos professores nomeados nos pueblos tinha Por Io que dejo expresado se verá que Ias dos escuelas de Ia cabecera
terminado somente o ensino primário. Segundo Rockwell, é possível funcionan perfectamente sin que haya motivo de queja por apatia,
que, naquele tempo, "este nível de educação proporcionasse conhe- negligencia o otra causa de parte de los preceptores (...) Con esto creo
cimentos suficientes para um bom desempenho como auxiliares dos haber llenado ío referente á Ias escuelas principales.
diretores das escolas primárias ou, com a experiência adquirida, Pasaré á Ias de Ia Villa de Tezoatlán de Segura y Luna.
como diretores encarregados dessas escolas" (Idem: 18). O certificado Existen en esta localidad dos escuelas, una para ninos y otra
não constituía um requisito fundamental para contratar um professor. para ninas: separadamente trataré de cada una por creerlo así in-
Em contrapartida, seu trabalho era permanentemente controlado pe- dispensable ai objeto. La escuela de ninos lleva apenas un ano de
los habitantes do lugar e pelos membros dos conselhos de vigilância estar dirigida por el preceptor Herminio Merino que con general
nomeados pelos alcaides. aplauso de Ia población mostro en el próximo pasado ano que sus
alumnos aprovecharon el tiempo satisfactoriamente, no obstante
No distrito de Huajuapan, em Oaxaca, por exemplo, as comu-
haber tenido todo el ano de estúdio y no servir el establecimiento
nidades continuavam procurando soluções locais para assegurar a
sino solamente un preceptor porque no ha sido posible conseguir
presença de um professor, esperando apenas a aprovação das ins-
un ayudante que pudiera encargarse de uno o más anos escolares
tâncias formais: como Io era de justicia.
Penoso me será tratar de Ia Amiga de ninas, pues no querría tener
Macario Arellano profesor de primeras letras, ante usted respectuo- en este mi humilde trabajo que consignar nada desagradable, (...) La
samcnte comparece y dice que: el ciudadano Presidente, en unión de
algunas personas principales de Ia población se dignaron hablarme
11AGE, Gobernación, Sección Gobierno de Distritos, Huajuapan, Instruccíón Pública, ano
sobre que si me convendría dirigir Ia escuela de nifios de este pueblo, 1895.

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M E S T R E S D A S P R I M E I R A S L E T R A S COMO M E D I A D O R E S CULTURAIS
INTELECTUAIS MEDIADORES

Senorita Preceptora, Jesus Rodríguez, acaso por Ia poça ayuda que um bom desempenho e, sim, que criasse as condições necessárias
los vecinos lê prestan, Ia falta de, elementos útiles y muebles para para estimular e controlar os professores.
el establecimiento habrán hecho que fracasen sus trabajos y por esa Nos lugares onde os maestros rurais trabalharam com decisão e
razón no tiene siquiera Ia aceptación de Ia pluralidad. Ya he dado en energia - como sabemos por alguns registros -, desempenharam um
otra vez cuenta ai Superior Gobierno dei Estado Ias poças alumnas papel que superou a tarefa de proporcionar um contato rudimentar
que concurrén á esa Amiga, Ia irregularidad de su asistencia y por com os conteúdos da escola primária. Foram peças importantes na
último, como reunido todo eso á Ia poça puntualidad para abrir los necessária mediação para o uso das letras, cujo sentido estas popu-
cursos en cada ano de parte da Ia Senorita Preceptora {...). lações reconheciam e mobilizavam.
Estas escuelas principales que existen en el Distrito, quedando otro
grupo de Ias de 3a. clase que pertenecen á los pueblos de Tequíxtepc,
Chazumba, Ayuquililla, Miltepec, Huajolotitlán, Zacatepec, Ama-
Professores de primeiras letras em Anenecuilco,
titlán, San Jorge 16(...).
estado de Morelos

O maestro de Zapoquila, por exemplo, estava obtendo com seus


Entre os anos 1870 e o início da Revolução Mexicana, em 1910, a
alunos bons resultados nos exames anuais. Outros pueblos^ em con-
difusão da escola e dos materiais de leitura se nutriu dos projetos
trapartida, sofriam com a dificuldade para encontrar pessoas que
públicos de modernização nacional. Durante o Porfiriato, cujo
tivessem "conocimientos indispensables" para servir em uma escola,
início remonta a 1876, o governo cercou-se de um seleto grupo de
que aceitassem cobrar "el bajísimo salário de 15 pesos" e viver em
intelectuais positivistas - os chamados Científicos -, incumbido de
"pueblos tan miserables em los cuales solo se comen tortillas":
traçar o caminho do progresso mexicano e de legitimar as políticas
**No se trata de disculpar a los preceptores morosos", conclui
oficiais.
o autor do relatório, senão de compreender o sacrifício que faziam
A Gabino Barreda coube a organização da educação nacional.
indo viver naqueles pueblos e sustentando uma dupla luta contra os
Tratava-se de estruturar um ensino homogéneo e centralizado para
pais e as autoridades do lugar, que "no comprenden los resultados
todo o país. Sua maior realização foi no âmbito da educação secun-
benéficos de Ia instrucción de sus hijos"}7
dária, com a criação da Escola Nacional Preparatória, que formaria
Ao observar a questão pela ótica do professor, e não da comuni-
quadros para as carreiras profissionais e contribuiria "para cimentar
dade, como ocorre em boa parte das fontes analisadas neste capítulo,
o único meio de conciliar a liberdade com a concórdia e o progresso
o incógnito inspetor ilumina um problema característico das escolas
com a ordem" (Prado: 103). A educação primária ficou especialmente
rurais oitocentistas - o da resistência de muitos pais a enviar aos
a cargo dos estados, os quais se confrontaram com a missão de tornar a
bancos escolares meninos que os ajudavam em tarefas agrícolas e
escola obrigatória a crianças em boa medida oriundas de meios rurais
domésticas. Atribuindo ao professor a grande responsabilidade de
e indígenas (Bazant 1999).
fazer avançar a missão educacional, o documento terminava apelando
Em Morelos, no ano de 1872, passadas as turbulências que o
ao Estado para que não desistisse das escolas que não apresentavam
México vivera, que culminaram na guerra de resistência ao império
de Maximiliano de Habsburgo, o governador do estado, Francisco
w Ibidem. O nome do signatário está ilegível no documento.
17 Ibidem. Leyva, decretou a obrigatoriedade da educação em todo o estado. Na-

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INTELECTUAIS MEDIADORES MESTRES DAS P R I M E I R A S LETRAS COMO MEDIADORES CULTURAIS

quele mesmo ano, os pueblos vizinhos de San Miguel de Aneriecuilco 1870. No ano de 1871, o professor Epigmenío Vara, com honorários
e de Villa de Ayala organizaram-se para contratar um preceptor que de dois pesos semanais, seguido do cidadão Pedro Zapata.
levasse adiante a tarefa antes assumida por moradores locais, Pedro Em outubro de 1872, foi nomeado preceptor Mónico Ayala, que
Zapata e, em seguida, Francisco Zapata. permaneceu no cargo por algum tempo. Don Mónico era filho de
Minha principal fonte sobre o assunto, neste momento inicial, é Francisco Ayala, capitão que se insurrecionou contra os espanhóis
um pequeno texto escrito por Jesus Sotelo Inclán e publicado nos em Mapastlán, futura Villa de Ayala, para apoiar a causa indepen-
Cuadernos Zapatistas no ano de 1979. Nele encontrei perspectivas dentista do padre José Maria Morelos. A adesão à luta lhe custou
afinadas com muitas das questões que eu vinha delineando a partir a morte da mulher, Justa Zapata, atingida por disparos durante a
da leitura de processos judiciais movidos por comunidades indígenas invasão da casa onde morava a família, enquanto amamentava um
no século XIX, os quais levantei em arquivos do estado de Oaxaca. filho. Pouco depois, Francisco e os filhos mais velhos foram fuzilados
Para discuti-las, Sotelo Inclán baseou-se em informações preciosas e e tiveram os corpos exibidos, pendurados em árvores na entrada da
raras que sobreviveram nos arquivos de Morelos. cidade de Yautepec. Sobrevivente, o bebé foi mais tarde agraciado
com uma pensão por Vicente Guerrero, sucessor de Morelos à frente
Entre os numerosos papéis do destruído Arquivo de Anenecuilco, do exército de libertação.
que por milagre conseguiram salvar-se, há alguns que dão notícia Mónico Ayala trabalhou por um tempo em negócios do tabaco,
concreta sobre vários maestros que atuaram em relação direta com mas inclinou-se ao ensino e fundou uma escola em Toluca. Logo
os povoadores do lugar, naquelas ocasiões em que estes tiveram passou a Metepc e formou-se professor do sistema lancasteriano,
necessidade de formular escritos sobre a reclamação de suas terras.
muito difundido na época. Por volta de 1868, decidiu voltar à região
No padrão de vecinos, levantado em 19 de setembro de 1799, para
onde nasceu. Conta Sotelo Inclán que fez um discurso à população,
demonstrar que Anenecuilco era sim um pueblo formal e habitado
por pessoas que tinham necessidade de terras, apareceu no final da
pedindo respeito à Constituição de 1857 e lembrando quanto sangue
lista Don José Maria Sánchez, Maestro de Escuela. (...) Por que esse e sacrifício havia se derramado para que ela pudesse triunfar.
maestro aparecia na lista? Seguramente porque havia sido chamado Mónico Ayala Zapata - sobrenome que herdara da mãe - pediu
a assessorar os demandantes de terras. (...) Em julho de 1807, Don ao município de Villa de Ayala o posto de preceptor, que lhe foi con-
Rafael António de los Santos, governador em funções, e outros go- cedido com o salário de vinte pesos mensais. Creio ser interessante
vernadores passados e a comunidade do pueblo apresentaram, em sua reproduzir o inventário que registra os bens da escola de Ayala no
querela contra a fazenda que detinha seus terrenos, um texto escrito ano de 1877:
que não assinaram por não saber; quem assinou por eles, ua ruego y
encargo", foi o maestro de escuela Juan de ias Casas. (...) Dois exemplares de Mom/, velhos. Um regulamento do interior
É muito provável que ele mesmo tenha escrito o documento, ou da escola. Um exemplar do orçamento da escola do ano 76. Uma
colaborado em sua confecção. (...) (Sotelo Inclán 1979: 8). cartilha lancasteriana. Três pautas, uma servível e duas inservíveis.
Doze cartazes de silabação. Oito gramáticas novas. Sete gramáticas
De acordo com Sotelo Inclán, há notícias documentadas de vários quase inservíveis. Quatro geografias novas. Quatro em uso. Catorze
professores que ensinaram na escolinha do pueblo no contexto das livros segundos novos. Sete livros segundos em uso. Duas aritméticas
políticas educacionais fomentadas pelos liberais a partir de década de novas.

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INTELECTUAIS MEDIADORES MESTRES DAS P R I M E I R A S LETRAS COMO M E D I A D O R E S CULTURAIS

Seis idem em uso. Dezesseis silabários de San Vicente novos. Entre os alunos de Don Mónico estiveram Eufemio Zapata, de 12
Quinze, idem, velhos em uso maltratados. Dezoito idem inser-víveis. anos, e dois de seus irmãos. Don Mónico durou vários anos em seu
Móveis: uma mesa de duas varas e um quarto de largo e dois de vis- posto, e entregou a escola a seu sucessor em 1879, não sem deixar
tas. Outra idem emprestada da igreja. Um banco também da mesma profundamente arraigado o exercício da participação e da discussão
igreja. Dois pedaços de viga emprestados da igreja. Uma tabla em em. temas tão diversos como as leis, a história, os números e a escrita
que se colocam os livros, também da igreja (Idem: 11). (íbidem).

Além disso, em obediência à lei de 1877, a escola reunia documentos Embora Mónico Ayala ultrapassasse, nesse período, os sessenta anos,
do registro civil, relativos a nascimentos, casamentos e óbitos. Nada deu ânimo e vigor ao ensino, do qual ele mesmo era uma lição viva,
muito diferente, afinal, do que ocorria em outras escolas de pueblos, pois ligava as novas gerações à luta pela independência.
às quais cada criança trazia seu banquinho, para sentar-se diante de Seis anos mais novo que o irmão Eufemio, Emiliano Zapata pas-
uma viga em que apoiariam os silabários e outros livros que espora- sou a frequentar a escola do pueblo quando tinha por volta de sete
dicamente lhes enviavam os órgãos públicos responsáveis. anos, em meados da década de 1880. A essa altura, o professor era
A escola de Anenecuilco, no entanto, tinha uma condição privilegia- Emílio Vara, idoso, de olhos azuis, barba e bigode... Francisco Franco,
da. De acordo com Alicia Hernández Chávez, Mónico Ayala, colocou- primo e companheiro de bancos escolares de um dos grandes ícones
-se à frente de uma escola bem montada - três portas arejavam a sala da Revolução Mexicana, conta que Don Gabriel enviou Emiliano
de aula, onde mais de vinte crianças distribuíam-se em sete bancos à escola "para tirá-lo do sol e para que aprendesse um pouco", ao
(Hernández Chávez 1991: 78). Para os estudos, os alunos dispunham mesmo tempo que ajudava a família trabalhando no campo.18
de uma mesa grande, lousas, compêndios de história do México, um Essa prática era comum entre os alunos das escolas rurais. Ainda
livro de aritmética para cada criança e os silabários de San Vicente. que sobre os pais pesasse a ameaça de multa caso seus filhos se ausen-
tassem da escola, os índices de frequência eram irregulares e muitos
Os homens de 1911, que eram crianças em 1879, lembravam que o alunos acabavam repetindo várias vezes a mesma série. O significado
maestro guardava nas gavetas da mesa grande um exemplar da car- disso era relativizado, porém, pela estrutura multisserial das escolas e
tilha lancasteriana e outro exemplar do orçamento geral do estado,
além das listas de assistência e outras anotações. Seu professor lhes
ensinou a história do México, que era do que todos mais gostavam. 1! Emiliano Zapata foi eleito chefe do pueblo de Anenecuilco, no estado de Morelos, em
Junto com a história de seus heróis lhes falou das novas Constituições 12 de setembro de 1909. Nessa época, a comunidade vinha perdendo, sucessivamente, os
por que haviam lutado seus pais, e todos aprenderam aritmética, pleitos nos tribunais contra fazendeiros locais que avançavam sobre suas terras. Os quatro
anciãos que até então integravam o Conselho do pueblo decidiram dar lugar a pessoas mais
moral e gramática. Na escola se discutia muitíssimo. Seu preceptor jovens, consideradas mais habilitadas a negociar com os líderes políticos da região. A famí-
lhes dizia com orgulho que ele ensinava com o sistema lancasteriano, lia Zapata tinha uma longa tradição de prestígio político em Anenecuilco. Nos anos 1860,
José Zapata, provavelmente irmão de seu avô, apoiara Porfírio Díaz organizando um clube
que, segundo lhes explicou, consistia em que todos participassem secreto em seu apoio na comunidade. Manteve correspondência clandestina com seu antigo
ativamente e discutissem as afirmações do professor. A essa escola chefe a fim de buscar assegurar proteção às terras do pueblo contra as fazendas açucareiras.
Nos primeiros anos dos 1900, a proteção esperada de Porfírio Díaz estava claramente com-
assistiam 19 meninos e três meninas, alguns de Ayala e outros de prometida. Com o início da Revolução, Emiliano Zapata ofereceu apoio ao líder nacional
Anenecuilco, o que era pouco usual, pois em geral separavam-se os do movimento, Francisco Madero. Como se sabe, porém, deposto Díaz alguns meses mais
meninos das meninas, ou simplesmente nem se enviavam as meninas. tarde, Zapata rompeu com Madero ao perceber que as demandas camponesas não seriam
contempladas pelo novo governo.

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INTELECTUAIS MEDIADORES

pelas chances remotas de que a criança desse continuidade aos estudos Natural de Villa de Ayala, Montano frequentou a escola primá-
atendendo à chamada primária superior^ que compreendia dois anos ria Guillermo Prieto, na cidade de Cuautla, poucos quilómetros ao
de curso a partir da conclusão da primária elementar. norte de seu pueblo. Ao concluí-la, tornou-se professor da escola
Emílio Vara não contrastava com Don Mónico. Ensinava bem a de Tepalcingo e em seguida de Jonacatepec. Retornou então à Villa de
História e os artigos da Constituição de 1857, que seus familiares Ayala, na condição de diretor da escola. Era uma figura conhecida
defenderam na guerra contra os franceses. As aulas de Don Emílio e prestigiada no pueblo, sempre disposto a professar suas ideias nas
iam ao encontro das experiências que os alunos ouviam narrar os convivências da praça central.
habitantes mais velhos do pueblo. O avô de Emiliano Zapata, José Algum tempo mais tarde, foi promovido à escola de Yautepec.
Salazar, ficara preso no sítio de Cuautla. Seus tios haviam ajudado Em março de 1911, estava de volta à Villa de Ayala, desta vez para
Porfírio Díaz a escapar dos imperiais quando esses passaram por
conclamar a população a aderir à Revolução. Nos meses seguintes,
Anenecuilco. Iam ao encontro, também, dos embates políticos que
se tornaria um colaborador próximo de Emiliano Zapata. Quando o
os camponeses do estado de Morelos enfrentavam no final do século
general decidiu recusar a paz proposta por Francisco Madero e lutar
XIX, em pleno Porfiriato, com o avanço de grandes fazendas sobre
pelas demandas dos pueblos do centro e do sul do México, coube a
terras comunitárias.
Otilio Montano, acredita-se, dar forma escrita aos argumentos que
Abraço a hipótese de que a experiência da geração que mais tarde
compuseram o Plano de Ayala,
responderia ao chamado de Francisco Madero contra Porfírio Díaz e,
um ano mais depois, em novembro de 1911, apoiaria o Plano de Ayala Quando em 1914, após a derrocada de Victoriano Huerta, instau-
de Emiliano Zapata, foi marcada pela experiência compartilhada na rou-se o governo da Convenção Revolucionária de Aguascalientes, o
escola de Don Mónico e Don Emílio. Não se trata de sustentar que professor assumiu o posto de ministro da Instrução Pública. Como a
a escola foi responsável pela formação de uma geração revolucioná- guerra prosseguiu, todavia, não houve tempo para políticas arrojadas.
ria, mas de que representou uma instância importante no tradicional Em 1917, Montano encerrou a vida executado por ordem de Zapata,
diálogo entre as populações comunitárias e os mediadores letrados, a quem foi acusado de trair.
os quais, de diferentes maneiras, eram chamados a instrumentalizar os Já foi sublinhado por diferentes historiadores o papel desempe-
pueblos nos confrontos políticos com o mundo externo (por vezes, nhado por intelectuais que, no curso da Revolução Mexicana, se
também, nos confrontos entre habitantes de um mesmo pueblo). integraram aos movimentos de origem popular, imprimindo neles
No caso de Anenecuilco, a prática vinha de longe. Sotelo Inclán suas próprias marcas ideológicas. Não é essa a discussão que interessa
nos oferece uma lista de maestros identificados em documentos da a este capítulo,
comunidade, dentre os quais Juan de Ias Casas, que em 1807 assina Parece-me sim fértil pensar que professores de primeiras letras
- e possivelmente formula - um escrito, "a ruego y encargo de los como Mónico Ayala e Otilio Montano representaram mais um canal
índios", que não o sabem. Foi com essa perspectiva que Emiliano por meio do qual os pueblos indígenas travaram contato com a escrita
Zapata, alçado à liderança política do seu pueblo^ aproximou-se de e a leitura e incorporam usos que lhes pareceram estratégicos em
diferentes homens de letras, como o livreiro e vendedor de periódicos, contextos específicos. Desta vez, reforçar os princípios do comunita-
Pablo Torres Burgos, e o professor e ex-diretor da Escuela de Ninos rismo indígena e conferir publicidade e autoridade a um documento
de Villa de Ayala, Otilio Montano. que definia o lugar desses grupos no contexto da Revolução. Afinal,
INTELECTUAIS MEDIADORES M E S T R E S DAS P R I M E I R A S L E T R A S COMO MEDIADORES CULTURAIS

vejamos na trajetória do Plano de Ayala - segundo a versão oficial articulavam o universo da oralidade ao universo da escrita, buscan-
zapatista, dentre as muitas que já se produziram - as imbricadas do responder a finalidades específicas de comunicação. Se os chefes
relações entre leitura e escrita. indígenas escutaram a leitura do plano, respeitando a tradição das
assembleias que deliberavam sobre assuntos dos pueblos, sua assi-
Segundo esta versão, Zapata se incomodou porque os jornais da ca- natura formalizaria a aceitação do documento. Ao mesmo tempo, a
pital haviam dito que suas incursões do mês de outubro em Morelos publicação em um jornal da capital levaria a mensagem de Zapata
e no Distrito Federal tiveram como único objetivo o saque. E pediu a e seus comandados aos heterogéneos interlocutores de todo o país,
Montano que traçasse um programa para demonstrar que os zapatis- que não estavam ao alcance da palavra falada.
tas não eram simples bandidos. Aconselhados pelos chefes principais, O trânsito entre a oralidade e a escrita constituiu, ao longo de
Montano e seus assistentes redigiram uma versão provisória. Em prin- séculos, um caminho importante para que as populações indígenas
cípios de novembro, Zapata a examinou e a elogiou, mas considerou interagissem com as dinâmicas sociais e políticas introduzidas pelas
que já não era necessária por causa do pacto que ia estabelecer com novas elites, coloniais e nacionais. Os professores primários, ao lado
Robles Domínguez. Quando as negociações fracassaram, Zapata e
de outros mediadores, foram figuras-chave no processo de aproximar
Montano fugiram para as montanhas de Puebla (...). Ali redigiram
repertórios culturais letrados e a produção de textos escritos aos usos
a versão final. As ideias eram as que segundo Zapata constituíam
significativos para a afirmação dos pueblos e de seus habitantes em
consenso entre seus chefes; a expressão formal foi, sobretudo, de
Montano. Quando o terminaram, Zapata reuniu todos os chefes da meio às teias de poder e de tensões sociais em que estavam envolvidos.
zona, e em um pequeno povoado próximo de Ayoxustla leu o Plano Não por acaso, os maestros de primeras letras também marcaram
para que assinassem. Zapata depois se transferiu para o quartel- seu lugar na cena em que os camponeses irromperam na Revolução.
-general nas montanhas de Morelos, nas proximidades de Huautla, E sobre o terreno dessa longa história de expectativas, vivências e
onde um sacerdote copiou, à máquina, vários exemplares do Plano. frustrações caminhariam mais tarde os professores enviados por José
Zapata os enviou às embaixadas da cidade do México e a seu agente Vasconcelos.
principal na capital, Gildardo Magana. Disse a esse último que sus-
pendesse as conversações com o maderismo e que tratasse de publicar
o "importante documento". De todos os editores metropolitanos, só Fontes
Bonilla, do Diário Del Hogar, perguntou a Madero se podia publicá-
-lo. "Sim - disse Madero -, publique para que todos conheçam esse AH], Oaxaca, Villa Alta, Civil, 0038, 0014,1809.
louco Zapata". E assim o fez, em 15 de dezembro, em uma edição AHJ, Oaxaca, Villa Alta, Civil, 0039, 001,1811.
dobrada que rapidamente se esgotou (Womack 1997: 389-390). Archivo General dei Estado (AGE), Fondo Gobernación, Sección Gobierno
de Distritos, Serie Villa Alta, Subserie Instrucción Pública, 1839.
O Plano trazia as marcas semânticas (reforma, justiça, lei, liberdade...) AGE, Gobernación, Gobierno de Distritos, Villa Alta, Instrucción Pública,
de outros documentos revolucionários e, em particular, do jornal 1864.
liberal Regeneración, que Zapata e Montano conheciam e que os AGE, Gobernación, Sección Gobierno de Distritos, Huajuapan, Instrucción
Pública, 1895.
correios lhes fazia chegar da capital. Os caminhos de elaboração e de
Soteío Inclán, J. (1979) "La escuela de Anenecuilco". Cuernavaca, Morelos,
divulgação do Plano de Ayala sugerem uma reflexão sobre usos que
Cuadernos Zapatistas.

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INTELECTUAIS MEDIADORES MESTRES D A S P R I M E I R A S LETRAS COMO M E D I A D O R E S C U L T U R A I S

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O R B E L I N O G E R A L D E S F E R R E I R A E A "ESCOLA ATIVA'

que diz respeito à legitimação de uma dada norma pedagógica. As


publicações de Orbelino Ferreira dão bem conta da forma como a
pedagogia nacionalista se apropriou de um conjunto de autores e de
ideias em circulação internacional para as transformar num sincretis-
mo pedagógico, esvaziado de projeto de transformação social, e num
tecnicismo visando a eficiência didática (Pintassilgo e Pedro 2012).
Em síntese, este capítulo tem como principais objetivos os seguin-
5. Orbelino Geraldes Ferreira e a "escola ativa": tes: 1) Analisar a produção teórica e intervenção educativa de um
tradição pedagógica e prescrição didática intelectual de meados do século XX, tendo em conta a influência
simultânea dos valores conservadores c dos princípios da "escola ati-
no Portugal de meados do século XX
va"; 2) Refletir sobre o caráter prescritivo das propostas pedagógicas
Joaquim Pintassilgo e didáticas sistematizadas na sua produção, tendo em vista a forma-
ção de professores; 3) Captar a forma como esse autor se apropriou,
ao tempo, das correntes pedagógicas em circulação internacional e
dos seus autores de referência, para além das imagens construídas
sobre o campo pedagógico em outros países, designadamente no
Este texto toma como ponto de partida o percurso biográfico de caso do Brasil.
Orbelino Geraldes Ferreira (1914-1965), professor do ensino pri- Utilizaremos como fontes o conjunto da vasta produção, tanto em
mário, formador de professores, autor de manuais, designadamente livros como em artigos, de Orbelino Ferreira.
de didática, de artigos e de ensaios sobre educação, um dos quais
contendo o relato de uma viagem pedagógica ao Brasil. Do ponto
de vista ideológico, as posições de Orbelino Ferreira estão muito A trajetória de Orbelino Geraldes Ferreira:
próximas da ortodoxia salazarista, por exemplo, no que se refere ao um educador e as suas circunstâncias
culto da pátria e do império. Estamos, de alguma maneira, perante
um "intelectual orgânico" do regime autoritário e divulgador de al- Orbelino Geraldes Ferreira nasceu no dia 18 de julho de 1914 em Vila
gumas das suas principais referências axiológicas. Do ponto de vista Nova de Foz Côa, no Norte interior de Portugal, junto ao rio Douro.
pedagógico, Orbelino Ferreira mostra-se um adepto das concepções Era filho de professores e também se dedicou ao ensino primário e à
da chamada "escola ativa", entendida aqui como uma interpretação formação de professores. Diplomou-se pela Escola Normal Primária
católica c conservadora dos postulados da Escola Nova. Como autor de Coimbra e exerceu a atividade de professor nas Escolas de Santa
de manuais de grande circulação para a formação de professores, Ovaia, em Oliveira do Hospital e em Vila Nova de Tazem, até 1943,
Orbelino Ferreira desempenhou um importante papel na fixação de ano em que, com 29 anos, é nomeado professor de Didática Especial
uma tradição pedagógica e na prescrição de um conjunto de práticas e de Legislação e Administração Escolares, na Escola do Magistério
aos futuros professores. As obras e o seu autor ocuparam, assim, Primário de Lisboa. A escola estava em fase de reabertura, depois da
nos anos 40 e 50 do século XX, um importante lugar de poder no suspensão de inscrições decretada em 1936 por Carneiro Pacheco,

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELINO G E R A L D E S FERREIRA E A 'ESCOLA ATIVA'

o emblemático ministro da Educação Nacional da fase inicial do Fora do âmbito estritamente pedagógico, dirigiu a publicação de
Estado Novo. Essa suspensão tinha sido aproveitada pelo regime um guia turístico, Portugal é assim!... Álbum turístico de Portugal
autoritário para reorganizar as Escolas do Magistério Primário, delas inteiro (1949), na qual contou com a colaboração de Domingos
extirpando os últimos vestígios da pedagogia republicana. Quando Evangelista, outro dos arautos da pedagogia nacionalista. Publicou
Orbelino Ferreira inicia suas funções, acabava de ser promulgado uma comunicação que tinha sido apresentada ao II Congresso da
um novo plano de estudos (1942), bem como os programas que lhe Mocidade Portuguesa, realizado em 1956 em Lisboa, escrita num
davam substância (1943) e no qual se inclui, como disciplina char- tom acentuadamente crítico e que parece premonitório em relação
neira, a Didática Especial (Pintassilgo, Mogarro e Henriques 2010). ao seu afastamento próximo da instituição e na qual expressa o seu
Orbelino Ferreira permanecerá no cargo cerca de 15 anos. Em 1958 patriotismo exacerbado, a que deu o significativo título de Badaladas
é transferido, por motivos disciplinares, para a Escola do Magistério (por Deus, pela Pátria...) (1957). Foi, finalmente, coautor, com Pedro
Primário de Vila Real. Veio a falecer em Lisboa no dia 13 de janeiro Pires e Mário Oliveira, de uma produção que nos causa alguma estra-
de 1965 (Nóvoa 2003). nheza, designadamente pela violência crua das fotografias exibidas:
Entre a sua vasta produção podemos encontrar, no terreno dos Braseiro da morte (diário dos primeiros 150 dias do terrorismo nas
manuais de apoio à formação de professores, as Notas de didática terras de Angola) (1963), no qual o radicalismo das suas posições em
especial (em colaboração com José Maria Gaspar), de 1944, Legis- defesa do colonialismo fica claro.
lação e administração escolares (também em colaboração com José
Maria Gaspar), de 1945, e Didática prática, de 1953, obras utilizadas
como compêndios na Escola do Magistério Primário de Lisboa, nas A adesão ao regime autoritário e aos valores do salazarismo
disciplinas de Didática Especial e Legislação e Administração Escolar.
Além das obras referidas, é autor de outros livros, como Tradição A adesão de Orbelino Geraldes Ferreira à ideologia e aos valores do
pedagógica portuguesa, de 1952, que compila um conjunto de textos salazarismo, bem como a sua militância intelectual em prol do Es-
de sua autoria publicados na revista Educação, ou Brasil Pedagógico, de tado Novo são dados incontornáveis do seu percurso biográfico. As
1953, um livro que retrata, através de um conjunto de apontamentos convicções católicas estão, igualmente, muito presentes em todas as
e notas, uma viagem pedagógica realizada por Orbelino Ferreira ao suas publicações, inclusive as de natureza mais técnica, impregnando
Brasil e a forma como o autor analisa uma série de fatores ligados à os seus discursos. As concepções pedagógicas e didáticas são, pois,
política educativa e ao campo pedagógico brasileiro. indissociáveis da sua inspiração axiológica e do seu posicionamento
Publica ainda, entre 1949 e 1951, outros artigos na revista Edu- político. Sendo esse fato bem mais claro nas suas outras publicações,
cação e, também, no jornal O Educador, como a página intitulada não deixa de marcar presença nos compêndios, como acontece em Di-
"Magistério Primário", na qual assinava com o seu nome e também dática prática. No prefácio que antecede a obra, diz o autor o seguinte:
sob o pseudónimo de Maria Santarina. A maioria dos seus escritos
na imprensa pedagógica versa sobre temas de metodologia e didática, Mas não podemos deixar de referir a preocupação que nos animou
designadamente em áreas como a aritmética, a leitura, a escrita, a de colher as melhores abonações nos pedagogos e didatas que mais
defendem a espiritualidade educativa que se impõe insuflar na "escola
ortografia, a geografia, a história, o desenho, os trabalhos manuais
nova" do resgate, honrando a Deus, à Pátria e à tradição lusíada, a
ou a moral cristã.

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INTELECTUAIS MEDIADORES O R B E L I N O G E R A L D E S F E R R E I R A E A 'ESCOLA ATIVA"

única trilogia que nos parece aceitável, pela grandeza que encerra O ensino da História assume, nesta ótica, que é a do salazarismo,
como fim e destino da Nação Portuguesa (...). Fizemos, portanto, uma vocação explicitamente política e ideológica, a de contribuir
um livro de "Didática Prática", profundamente cristão, de teorias para a formação de portugueses profundamente imbuídos dos valores
arejadas, num vasto programa em que cada qual pode colher a cul-
da Pátria e do Império e tendo Deus como referência permanente,
tura necessária para beneficiar a sua técnica, qualquer que ela seja,
A expansão portuguesa surge, a esse olhar, como o momento maior
que as técnicas são pessoais e intransmissíveis (Ferreira 1953b: 8}..
de uma narrativa teleológica que vê a Pátria como entidade predesti-
nada e coloca o Império sob a proteção divina. Em Badaladas (Por
Assumindo, como veremos, a herança de uma certa Escola Nova, a
Deus, pela Pátria) o autor procura aprofundar a caracterização desse
que está mais próxima da "espiritualidade educativa" a que se refere,
patriotismo ardente, que é o seu, ao afirmar: "A Pátria sente-se, não
Orbelino Ferreira enquadra-a no "resgate" que pretensamente estava
se define (...). O nosso conceito de Pátria arrancou-se à tradição, à
a ser protagonizado por António de Oliveira Salazar no seu papel
comunidade de sentimentos e ideais e à unidade geográfica e moral
de salvador da Pátria. Deus e a Pátria, dois dos termos da mais que
da vida comum dos portugueses" (Ferreira 1956:30). A nossa relação
glosada trilogia salazarista, estão aqui igualmente presentes, ainda
com a Pátria é, pois, afetiva e intuitiva, não intelectualizada.
que associados, não à família, como no mais conhecido cartaz da
É o intenso patriotismo de Orbelino Ferreka que está também na
série "A Lição de Salazar", mas a um enraizamento mítico na his-
base de uma curiosa publicação na área do turismo, por ele dirigi-
tória, por via da expressão "tradição lusíada". Com sinceridade, o
da, a obra Portugal é assim!... Álbum turístico de Portugal inteiro.
autor confessa ter escrito um livro "profundamente cristão", não
Segundo a sua própria explicação,
deixando de afirmar, também, que o compôs com "teorias arejadas".
Temos aqui, assim, uma primeira entrada na peculiar relação que
Com a publicação do álbum turístico "Portugal é assim!...", apenas se
Orbelino Ferreira procura estabelecer entre tradição e inovação. pretendeu fixar alguns curiosos motivos paisagísticos, etnográficos,
O patriotismo exacerbado do autor está particularmente presente, artísticos e históricos de Portugal inteiro, na patriótica intenção de
com alguma naturalidade, na parte da obra dedicada à didática da afervorar nos portugueses ausentes o amor à terra onde nasceram
História. Aí são atribuídos ao ensino da História, entre outros, os e à qual se encontram ligados pelo coração e pelo sangue (Ferreira
seguintes objetivos: 1949: 7).

Criar nas gerações um verdadeiro culto pelo que é seu, através do ConcÍuiu-se esta obra que há de tornar-se como viva expressão do
orgulho gerado pelo conhecimento de pertencer a uma Pátria de muito amor que temos às coisas da nossa querida Pátria - tão linda,
gigantes, que civilizou mundos e desvendou os segredos dos mares, tão saudosa, tão nobre, tão progressiva! Tudo se deve [largas estra-
rasgou sertões em todas as direções e espalhou o nome de Portugal das, magníficas pousadas,...], manda a verdade e a honra dizê-lo, ao
por todas as latitudes (...). Capacitar o futuro cidadão dos deveres Estado Novo (Idem: 333).
que, como célula da Pátria, lhe incumbem na defesa e valorização
do nosso vasto Império, servindo-o na ideia de Deus, que foi a maior Ou seja, a divulgação, feita nesta obra, das riquezas turísticas de
alavanca usada na construção desse mesmo Império (Ferreira 1953b: Portugal obedece, fundamentalmente, a finalidades de natureza
438-439). patriótica. O autor ainda aproveita, na linha dos cartazes "A lição
de Salazar", que fazem o contraponto entre um passado de miséria

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELÍNO GERALDES FERREIRA E A "ESCOLA ATIVA'

e ruínas e um presente de obras e modernização, para atribuir ao encontramos aqui também uma certa valorização da obediência e da
Estado Novo os louros pela renovação das infraestruturas do país hierarquia, igualmente valores centrais do salazarismo.
que facilitam o desenvolvimento do turismo. É essa mesma atitude que é recomendada aos professores em for-
A sacralização da Pátria e a defesa intransigente do Império, mação. O professor deve ser funcional em relação ao Estado, deve
entendido como parcela indiscutível da Pátria, está igualmente servi-lo sem reservas. Em Notas de didática especial, escritas em co-
muito presente no panfleto Braseiro da morte, escrito por Orbelino laboração com José Maria Gaspar, sugere-se aos futuros professores
Ferreira, em colaboração com Pedro Pires e Mário Oliveira, como o cumprimento estrito dos programas: "Não discutimos o programa:
reação aos episódios violentos que marcaram o início da guerra cumprimo-lo" (Gaspar e Ferreira 1944: 288). Ao professor, funcio-
colonial no Norte de Angola em 1961. As palavras e as imagens nário e servo do Estado, recomenda-se, a este respeito, prudência,
presentes na obra são, como já notamos, de uma agressividade disciplina e respeito pela hierarquia: "De passagem se frisa, contudo,
pouco comum e são igualmente expressão de um racismo e de um que não deve ser o professor oficial a discordar. Uma boa disciplina
reacionarismo primários. de funcionário impõe-Ihe o dever de servir o Estado (que lhe paga)
como ele quer ser servido" (Idem: 349). Para além da eficiência di-
Amando a Pátria como todos a amamos e servimos, os três compu- dática, impõe-se uma adesão clara ao regime: "Para isso necessita o
semos este grito altivo da nossa Razão, da nossa Fé e, sobretudo, de professor tanto de saber Didática como de ter convicções" (Idem: 302).
agradecimento aos que nos não esqueceram. Oferecendo a Salazar e
ao Ministro do Interior Português que vive e sente na alma a amar-
gura da tragédia (Pires, Oliveira e Ferreira 1963: 17). Um ideal católico de educação integral

Por isso dizemos com a voz dos nossos mortos, que é a voz do sangue, Orbelino Geraldes Ferreira apresenta-se como um defensor da ideia
ao negro assassino e, por ele, aos donos da sua alma e da sua von- de educação integral. Em Badaladas ele chega a afirmar que o pro-
tade, que é nossa a terra morena e escaldante de Angola (Idem: 44). blema mais grave a enfrentar é o da "formação integral do 'Homem'"
(Ferreira 1956: 16). A educação integral surgiu historicamente, na
Note-se que esta obra foí publicada em 1963, dois anos antes da morte verdade, como tema transversal a correntes pedagógicas de natureza
de Orbelino Ferreira. A punição que conduziu ao seu afastamento diversa. Para nos situarmos apenas no último século e meio, podemos
da Escola do Magistério Primário de Lisboa, cinco anos antes, não recordar os exemplos da "pedagogia moderna" da segunda metade
pôs em causa, como se pode ver, o seu posicionamento político e a do século XIX, da Escola Nova das primeiras décadas do século XX,
sua adesão à ditadura. Orbelino Ferreira continua a atuar como um da "pedagogia libertária", do movimento "scout" nas suas diversas
intelectual do regime. A absoluta fidelidade ao mesmo e a Salazar é versões ou da "escola ativa" de inspiração católica, que evolui a partir
proclamada de forma clara em vários momentos, como no exemplo dos anos 30 do século XX e onde se inclui o educador que aqui nos
que se segue retirado das já citadas Badaladas: "Desde que me conhe- ocupa. São, em todos os casos, interpretações diferentes desse secular
ço sempre servi o mesmo 'Chefe' e a mesma política, como soldado ideal, o de educar os futuros cidadãos, o ser humano em geral, em
raso, obediente e honesto" (Ferreira 1956:28). Para além da presença todas as dimensões da sua vida e do seu ser. Quais são essas dimen-
do "culto do Chefe", algo que une o regime ao fascismo e ao nazismo, sões? Qual o seu fundamento? É aqui que as correntes enunciadas

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ORBELINO GÊRALOeS FERREIRA E A "ESCOLA ATIVA"

se separam. Qual a perspectiva de educação integral perfilhada por O projeto de educação integral não deixa, por outro lado, de conter
Orbelino Ferreira? Recorramos às suas próprias palavras: em si. como vários autores têm notado, uma ambição de controle e de
intervenção totalizante na vida do escolar. Como o nosso educador
A educação deve ser integral e harmónica e fazer despertar no aluno assinala, a escola "é um centro onde se governam, dirigem e educam
o sentimento moral e religioso (Ferreira 1953; 60). crianças. Governar é prever; dirigir e educar é vigiar e corrigir"
(Idmi 69).
Tal educação não dispensa e antes exige a objetiva cultura dos sen-
timentos moral, estético e religioso, negados por certa "pedagogia
materialista", humanamente vaga de sentido (Idemi 66).
Ser "bom professor": entre a "ciência"
Educação integral é aquela que corresponde absolutamente ao de- e a "arte", a "preparação" e a "vocação''
senvolvimento de todas as faculdades do indivíduo, harmónica e
simultaneamente (Idem, p. 70). As referências religiosas estão, igualmente, muito presentes nos escri-
É este [a religião] o fundamento da moral e eleva-se muito acima das tos de Orbelino Ferreira dedicados à formação e ao perfil pessoal dos
coisas terrenas e mortais para conduzir o homem a Deus (...). Não pode, professores. Não obstante esse fato, as dimensões técnica e científica,
sem isso, ser-se integralmente educado ou sequer instruído (Idem: 72). assim como a valorização de uma formação de natureza profissionals
são permanentemente sublinhadas, embora muitas vezes mescladas
Na interpretação do próprio autor, a educação integral inclui a edu- com outras dimensões. Como nos afirma o próprio autor,
cação física, a educação estética,, a educação intelectual, a educação
moral e a educação religiosa. O que é mais específico, neste caso, é Um bom professor não se improvisa, assim como não se improvisa
o destaque que é dado à educação religiosa, claramente ausente da uma boa lição. Esta requer cuidada meditação, boa escolha de ma-
interpretação de outras correntes. Complementarmente, merece aqui terial concretizador, linguagem apropriada, oportunidade e muita
destaque o fato de a educação moral surgir impregnada de religião, paciência, compreensão e carinho. Exige preparação e exige voca-
ao contrário do que acontecia nas interpretações laicas da educação ção - arte e ciência - cuja simbiose faz o bom professor {.„). Saber e
integral. À semelhança destas últimas, e tendo em vista o desiderato saber ensinar - é o conjunto que define um bom mestre. A ciência é
último da educação integral, é previsto um conjunto muito diversifi- fácil de adquirir, porque é relativamente acessível a todas as menta-
cado de práticas educativas que foram integrando o património das lidades; difícil é saber ensinar - transmitir essa ciência aos alunos,
"tradições de inovação" que percorreram o século XX: com clareza, simplicidade e eficácia. Nem todos os grandes sábios
conseguem ser bons mestres. Não pode haver bons mestres que não
As excursões, as festas escolares, os jogos, um discurso, uma decla- sejam sábios... (Ferreira 1953b: 103).1
mação, a jardinagem, a construção plástica de mapas geográficos, o
desenho, os trabalhos manuais, a música, as marchas, a correspon- Não é bom professor quem quer. Para sê-lo, necessita de capacidade
dência interescolar, a caixa escolar, etc. oferecem uma infinidade de e habilidade: preparação e prática, ciência e vocação (Idem: 121).
elementos de cultura cujos instrumentos de transmissão são essas
próprias atividades, selecionadas, coordenadas e doseadas pelo pro-
fessor (Ferreira I953b: 28). 1 A ênfase é do original.

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INTELECTUAIS MEDIADORES O R B E L I N O G E R A L D E S F E R R E I R A E A -ESCOLA ATIVA'

Esta sequência articulada de citações é particularmente significati- questões essenciais no esforço que vimos empreendendo para carac-
va relativamente ao pensamento do autor sobre como se forma um terizar o pensamento pedagógico de Orbelino Ferreira, e da corrente
professor e o que é ser professor. Analisemos em detalhe cada uma em que ele, de alguma maneira, se insere, vamos procurar dar-lhes
das ideias aí contidas. Comecemos por destacar as afirmações de que mais alguma atenção.
"um bom professor não se improvisa" ou "não é bom professor quem Na sequência de uma longa tradição, presente na generalidade
quer", que representam uma declaração inequívoca em prol da forma- dos manuais de formação de professores desde o final do século
ção profissional. De resto, como formador de professores, ele próprio XIX, a pedagogia e a didática apareciam, em geral, definidas
um professor experiente, não seria de esperar outra opção, mesmo simultaneamente como "ciência" e "arte" da educação ou do
quando ela não foi seguida pelo regime de que ele era um arauto, ensino. Uma formulação que remete, por um lado, para o caráter
como no caso da figura das regentes escolares, na verdade, professo- científico dos princípios em que elas se fundamentavam, algo que
ras sem qualquer formação, ou dos chamados "cursos relâmpago" vem sendo afirmado desde a transição para o século XX, e, por
de 1940, quando se encontravam encerradas, por ordem de Carneiro outro lado, para a dimensão eminentemente prática de que se
Pacheco, desde 1936, as Escolas do Magistério Primário e a falta de reveste a sua aplicação ao trabalho do professor, o que justifica o
professores se começava a fazer sentir. O "saber ensinar", para usar uso da designação "arte", que aproximava a profissão dos ofícios
os termos do autor, exige "preparação" e esta exige "ciência", a qual tradicionais. Isso explica a valorização da "prática", mas, também,
implica "o conhecimento dos progressos das ciências auxiliares da dos elementos afetivos presentes na relação pedagógica, e que são
Pedagogia (Psicologia Escolar, Higiene Escolar, Sociologia, Didática lembrados pelo autor, como sejarn "paciência", "compreensão* e
etc.)" (Ferreira 1953b: 22). "carinho". Igualmente na linha de uma antiga tradição é atribuí-
É interessante a articulação que Orbelino Ferreira faz entre o "sa- do um lugar central à noção de "vocação" que não parece, nesta
ber" e o "saber ensinar". O "saber" não é desvalorizado, bem pelo perspetiva, contradizer as outras categorias usadas nos excertos em
contrário, embora num primeiro momento possa parecer, quando ele análise para definir como se chega a "bom professor": "ciência",
diz que "a ciência é fácil de adquirir"; mas convém ter em conta que "preparação" ou "prática".
ele acrescenta o seguinte: "não pode haver bons mestres que não sejam
sábios". A importância de uma boa formação na área de docência, Todavia, diz Teobaldo de Miranda, não devemos esquecer, apesar de
seja ela científica, humanística ou artística, está, pois, fora de dúvida. certas opiniões contrárias, que a característica essencial do educador,
Não obstante, o que surge mais enfatizado é, sem dúvida, o "saber a qualidade suprema de que depende toda a sua eficiência educativa,
ensinar", aquilo que é, verdadeiramente, mais específico da formação é a vocação, sinal misterioso com que Deus assinala o sentido de cada
de um professor. Como, com propriedade, diz o autor: "nem todos vida humana na economia espiritual do universo. Naqueles que fo-
os grandes sábios conseguem ser bons mestres". Essa competência ram destinados à obra pedagógica, a vocação traduz-se pelo amor ao
pode-se aprender, na sua ótica, mas não só, como veremos a seguir. educando, pela compreensão instintiva da sua personalidade, e pela
Regressando aos termos do autor, para além de "preparação" é neces- capacidade de promover o seu aperfeiçoamento (...). Mas ponhamos
sária a "vocação", para além da "ciência" é necessária a "arte". É a no nosso espírito que temos de ser bons professores, ou então renun-
ciemos a tempo à profissão. E, se é certo que as vocações nascem com
"simbiose" dessas dimensões que faz o "bom professor" ou, noutras
os indivíduos, também é verdade que muito pode fazer a vontade no
palavras, "é o conjunto que define um bom mestre". Como estas são

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELINO GERAIDES F E R R E I R A E A " E S C O L A ATIVA'

sentido de uma autoeducação que supra as deficiências naturais do Embora não deixe de estar presente, na formulação do autor, um certo
indivíduo. Ora a vida do professor requer um constante aperfeiçoa- registro prescritivo sobre o que é ser "bom professor", e que surge
mento de faculdades e atualização de cultura (Ferreira I953b: 11-12). articulado a exemplaridade de que a sua figura se reveste na relação
com os seus alunos, amplamente referida, também é verdade que ele
Na verdade, os discursos dos professores, mesmo quando já imbuídos admite maneiras diferentes de se chegar a tal estado.
da retórica profissional, como é o caso, convocam, em permanência e
na longa duração, a tradicional categoria de "vocação". Neste caso, Cada professor tem uma técnica pessoal, sua, pessoalíssima em todos
mesmo entendendo-a como inata, o autor não deixa de sublinhar a os aspectos, à qual se prendem condições especiais de trabalho, de
importância de um constante "aperfeiçoamento", aquilo que chama- ordem, de disciplina (Ferreira 1953 b: 22).
ríamos hoje formação permanente ou contínua. Ou seja, a "vocação",
na sua ótica, não basta. A resistência desta noção à crítica e à erosão A técnica de ensino tem de ser pessoal e aprendê-la cada qual, com a
ajuda, embora, dos elementos que têm de informá-la e que a Didática,
do tempo teve que ver com o fato de ela ser considerada, nas repre-
Geral e Especial, aponta. Depois, a boa prática, a prática consciente e
sentações dos professores, essencial para a construção da identidade
cuidadosa, faz o que os livros e os mestres não podem fazer (Idemi 140).
profissional, por ser uma noção que legitimava e enobrecia a causa
do ensino, revestindo-a de uma certa sacralidade. É essa vontade
A admissão de uma pluralidade, contextualizada, no que diz res-
legitimadora e sacralizadora que torna compreensíveis as abundantes
peito a um exercício profissional modelar, articula-se, como vimos,
referências ao que poderíamos definir pela expressão "amor pedagó-
com a valorização da dimensão prática, experiencial, do que é ser
gico" (evocando, aqui, entre outros, Adolfo Lima):
professor e formar-se como tal. A construção dos discursos profis-
sionais passou, assim, também, pela sublimação da "boa prática". É
A lei fundamental do professor é o amor espiritual - disse Kerschens-
o trabalho do professor, no terreno, diríamos nós hoje, que permite o
teiner (...). Não há melhor teste nem meio mais seguro de orientar
domínio da "técnica de ensino", sendo a apropriação deste "índice
a ação docente do que tratar com amor as crianças (...). A criança é
técnico", a construção desta "eficiência prática" (IdemúQ4), para
adorável na sua candura, simplicidade e beleza moral, mesmo quando
nos parece o contrário. Amá-la é qualidade que o professor terá de
usar outras expressões do autor, uma construção pessoal. O que não
possuir (Ferreira 1953b: 13-15). significa que o professor não tenha de recorrer, como já vimos, aos
contributos especializados, neste caso à didática, seja ela geral ou
especial. O reconhecimento de uma certa distância entre a "teoria"
A construção de referências profissionais identitárias implica, entre
e a "prática", e a prevalência relativa desta, fica muito claro, entre
outras estratégias, o recurso a um olhar idealizado e apaixonado
outros, no seguinte excerto:
sobre a criança/aluno, neste caso na linha da pedagogia naturalista.
É a criança a razão de ser do professor e o que dá sentido ao seu
Fomos professores em bem diversas localidades portuguesas, sempre
trabalho. O amor às crianças é o eixo central de uma, então embrio- idealistas da pedagogia mas sempre acorrentados à rudeza viva duma
nária, deontologia docente. Sendo uma referência tradicional, não briosa prática escolar, e sabemos que uma coisa é a psicologia e outra
deixa de ser curiosa a sua recuperação recente, de que é exemplo o a criança, que uma coisa é a didática e outra, por vezes diferente, a
inspirador trabalho de Christopher Day (2004), O prazer de ensinar. exigência do trabalho escolar (Ferreira I953b: 56).

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O R B E L I N O G E R A L D E S F E R R E I R A E A "ESCOLA A T I V A '

Fazendo um balanço parcelar, gostaríamos de recordar e sublinhar A idade física e mental dos alunos requer diferenciação nítida na
uma das ideias presentes no discurso de Orbelino Ferreira. O enten- quantidade e qualidade da motivação. Esta deve ser, dum modo gerai,
dimento do que é ser, mesmo no plural, "bom professor" implica inversamente proporcional àquela. Inventar dificuldades desperta-
aquilo a que o autor designa por "simbiose", ou seja, a convocação doras da alma dos alunos é provocar neles o interesse pela solução.
de um conjunto diversificado de categorias, conjunto esse aparente- É um rumo oposto ao da hoje encardida pedagogia antiga que era
mente paradoxal, e no qual se mesclam elementos como a ciência, indiferente à atitude do aluno ante o assunto da aprendizagem. É
a técnica, a profissão, a arte, o amor e a vocação, entre outros. To- preciso não cair no erro oposto (Ferreira I953b: 57).
dos esses elementos representam, na verdade, como metáforas que
procuram aproximar-se, de alguma maneira, da complexidade de Esta última afirmação remete-nos, exatamente, para a busca de
que se reveste, no passado como no presente, o trabalho docente. "meio-termo" entre duas posições, opção que caracteriza muitas das
Um olhar redutor, que crie uma dicotomia estrita entre o que pare- propostas desta corrente. Ao abordar uma das didáticas especiais, a
ce surgir como tradição e aquilo que se apresenta como inovação, didática da História, o autor critica duramente o chamado "método
não nos permite captar o caráter multifacetado que foi assumindo catequético", por ser essencialmente memorista:
o processo histórico de construção da profissão e, em particular, as
Ainda hoje se abusa muito deste método {...). Pode afirmar-se que
representações e discursos que vão sendo produzidos para afirmar
com esta técnica nada mais se consegue do que encher a memória
uma determinada identidade profissional e a sua deontologia própria
do aluno de datas e fórmulas (...). É uma memorização mecânica,
(Burke 2007; Escoiano Benito 2011; Hansen 1995; Pintassilgo 2011;
inconcebível, abstrata que ficou fora das normas por que se rege a
Tom 1984; Woods 1999). escola nova, cujos meios e processos giram à volta da criança para
facilitar-lhe o seu trabalho discente, de acordo com as exigências da
vida moderna e pondo em jogo apenas as suas faculdades (Ferreira
Uma dídática assente na tradição 1953b: 462-463).
dos métodos intuitivos e ativos
Não deixa de estar presente, aqui, o tal contraste entre uma "peda-
Não obstante o contexto fervorosamente conservador, nacionalista gogia antiga" e uma "pedagogia nova" a que já nos reportamos. O
e católico em que se insere e que perfilha, Orbelino Ferreira subs- professor de didática da Escola do Magistério Primário de Lisboa
creve, com uma relativa naturalidade, muitas das ideias e práticas surge, ao mesmo tempo, como um paladino da "tradição", como
propostas pela tradição renovadora que se desenvolve, inspirada em na sua já referida Tradição pedagógica portuguesa, e um defensor
Rousseau, na transição do século XIX para o século XX e que teve de algumas das principais teses da Escola Nova. São abundantes as
como momento mais prestigiado o representado pela Educação Nova. referências nos textos de Orbelino Ferreira que nos remetem para
Se é bem verdade que o papel do autor de Emílio é considerado "ne- esta última ideia.
fasto" (Ferreira 1953b: 10), também está fora de dúvida que o autor
incorpora parcialmente a dicotomia típica da retórica inovadora, ao O ensino deve ser ativo; deve provocar e manter constantemente a
criticar, muitas vezes, uma suposta "pedagogia antiga", como acon- atividade do aluno e estimulá-lo a produzir por si, tornando pessoal
tece no capítulo dedicado à motivação da aprendizagem: o trabalho (...). O ensino deve ser "graduado", isto é, proporcionado

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELINO G E R A L D E S FERREIRA E A "ESCOLA ATIVA"

sempre às atuais forças intelectuais dos alunos, em relação com a Portanto precisemos: a atividade pessoal do aluno para História deve
idade e os conhecimentos já adquiridos. O ensino deve ser "intuiti- entender-se, não como atividade meramente manual, defendida por
vo", quer dizer, baseado em dados sensíveis e dirigir-se, tanto quanto muitos pedagogos, mas atividade desejada para exercícios constantes
possível, aos sentidos ou à imaginação antes de chegar à inteligência de observação, comparação e expressão (Idem: 472).
(Ferreira 1953b: 61-62).
Como é visível, somos aqui confrontados com muitos dos lugares-
[Forma] Socrática - é a forma usada pelo professor quando, por per- -comuns da Escola Nova como a defesa dos métodos intuitivos e
guntas habilmente formuladas, pretende levar o aluno a descobrir por ativos, a colocação do aluno no centro do processo de aprendizagem
si a verdade, capacitando-o de que realmente o saber é elaborado e uma atenção às fases do seu desenvolvimento. O professor sendo
por ele. É uma forma especificamente pedagógica, pela atividade visto como um inspirador e guia da atividade dos alunos, a (re)desco-
em que põe todas as faculdades do aluno. Porque com ela a própria berta do saber por parte destes mesmos alunos, a voga e centralidade
criança dá à luz e verdade chama-se-lhe forma socrática, heurística
do interrogatório dito socrático, entre outras. O autor procura, no
ou inventiva (Idem: 78),
entanto, defender-se em relação a interpretações mais radicais destas
teses, ao chamar a atenção para aplicações que possam desvirtuar as
Merece especial referência o primeiro [processo intuitivo], sem dúvida
"lições de coisas", para o risco de se assumir uma concepção redutora
a base de toda a atividade escolar e fonte inesgotável de interesse
(...). O processo intuitivo é aplicado sobretudo nas chamadas lições da noção de atividade, reduzindo-a à atividade manual ou para o
de coisas. É segura base da progressiva abstraçao e tem sério funda- desprezo votado a atividades educativas essenciais.
mento psicológico. Exige prudente aplicação, para se não desvirtuar Como já foi dito, Orbelino Ferreira, e com ele todo um grupo de
(Idem; 94-95).2 educadores nacionalistas e católicos que marcaram profundamente,
entre os anos 1930 e 1960, as concepções prevalecentes no seio das
O mesmo se dá com a didática moderna, que modificou completa- instituições de formação de professores, procuraram encontrar
mente a atitude do mestre durante a lição. Esta há de permitir um uma espécie de ponto de equilíbrio, de justo "meio-termo", entre a
trabalho de aprendizagem feito pela própria criança, ficando apenas ideologia conservadora que os inspirava e, em alguns casos (como
ao professor a função de guiar, estimular e dirigir as atividades dos no de Orbelino Ferreira), uma militância ativa em prol das posi-
seus alunos (Idem: 104). ções do regime autoritário, e a influência pedagógica e didática da
"tradição de inovação" que chega até eles. Recusando o laicismo,
A escola nova embora exagerando, por vezes, o conceito de escola prevalecente na fase republicana da nova pedagogia, bem como o
ativa, porque despreza atividades fundamentais, conta no número
que consideravam ser o idealismo e o radicalismo de algumas das
das suas descobertas esta - a transformação da atividade lúdica da
teses dos principais autores do movimento, este grupo não deixa de
criança em atividade discente, criadora, elaboradora do saber. Para ela
assumir, sem preconceitos, o essencial das propostas metodológicas
a lição "ou é ativa ou não é lição" (...). Os conhecimentos sugerem-se,
não se impõem. As conclusões são ativamente deduzidas, não são
de uma corrente que passa a ser designada, cada vez mais, como
passivamente aceites (Idem: 129-130). "escola ativa".

2 A ênfase é do original.

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELINO G E R A L D E S F E R R E I R A E A 'ESCOLA ATIVA"

Por uma "escola ativa, mas com base na tradição" sente, por exemplo, no compêndio de José Maria Gaspar e Orbelino
Geraldes Ferreira, neste caso a conjugação entre uma "escola ativa"
Não obstante o que atrás ficou dito, em particular no que se re- e uma "escola cristã" e "nacionalista", noutras palavras, entre o
fere à defesa de uma "escola ativa", é muito nítida, igualmente, a "progresso" e a "tradição".
importância que a noção de tradição tem para Orbelino Ferreira e
não apenas no sentido a que nos reportamos no tópico anterior. Na Somos, como pode inferir-se deste trabalho, por uma escola ativa,
obra Tradição pedagógica portuguesa, compilação de um conjunto tradicionalista, cristã e constantemente progressiva. Somos por uma
de artigos antes publicados na imprensa educativa, o autor procura escola portuguesa (...) escola ativa não pode ser sinónimo de escola
exatamente traçar um esboço retrospectivo dessa tradição, segundo laica (...). Somos por uma escola com base na tradição porque só
ele, genuinamente portuguesa: "De muito longe vem a tradição peda- assim poderemos conseguir obra pedagógica experimentalmente
nacionalista e cristã (Gaspar e Ferreira 1944: 389-391).
gógica nacional, que em mosteiros e conventos, abadias e paróquias
medievais, ensinando Deus e Pátria, firmaram a Família portuguesa"
A citação anterior representa uma excelente síntese das perspectivas
(Ferreira 1952: 26). Um dos grandes erros da etapa precedente do
pedagógicas prevalecentes durante boa parte do período salazarista
pensamento pedagógico tinha sido esquecer essa tradição e basear
e que tem uma expressão clara no conteúdo da pedagogia e das
toda a açao educativa nas ideias provenientes do estrangeiro. Então,
didáticas tal como são ensinadas nos contextos de formação de
"só um modelo nos servia, só um exemplo nos impulsionava: o mo-
professores que são as Escolas do Magistério Primário. Continuam
delo e o exemplo estrangeiros (...). Só era bom o que se podia rotular
a ser aceitas muitas das propostas metodológicas desenvolvidas
como tendo origem em Rousseau, Claparède, Dewey ou Pestalozzi"
no quadro da modernidade pedagógica, designadamente por via
(Ferreira 1952: 9). Quais tinham sido os principais "erros" da "ve- da Escola Nova, mas esvaziadas do projeto de transformação
lha 'escola nova'", para utilizar a paradoxal expressão de Orbelino social que lhes estavam subjacentes. A "escola ativa" decorrente
Ferreira? Eles consistiram em "deixar crescer a infância em liberdade dessa reinterpretação surge como perfeitamente conciliável com
plena" (Ferreira 1952: 18 e 21) e "apagar a ideia de autoridade na as tradições católica e patriótica e, em particular, passível de ser
Escola e na Família" (Ferreira 1956:19), concretizada no quadro de um regime autoritário (o Estado Novo)
Ao demarcar-se dessa interpretação da Escola Nova, Orbelino e de uma ideologia conservadora (o salazarismo). As disciplinas
Ferreira afirma fazer profissão de fé numa "pedagogia nova" para de Didática (Didática Geral, em associação com a Pedagogia, e
um "Portugal novo" (Ferreira 1952: 14). Na verdade, a pedagogia Didáticas Especiais), herdeiras da pedagogia científica da transição
difundida nas Escolas do Magistério Primário no período salazarista para o século XX, aprimoram os seus procedimentos técnicos e a
procura operar uma espécie de "casamento de conveniência" entre a preocupação com o rigor do trabalho pedagógico, ao mesmo tempo
herança da Escola Nova, extirpada das suas teses mais radicais e da que abraçam os valores de um projeto pedagógico que se procura
sua habitual inserção ideológica e social, e alguns dos pressupostos de legitimar na tradição ao mesmo tempo que recusa os valores da
uma pedagogia católica e adaptada aos novos tempos conservadores modernidade liberal.
e mesmo autoritários. A admissão da possibilidade de conciliar estas
duas opções, ainda que aparentemente antagónicas, está muito pre-

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ORBELINO GERALOES F E R R E I R A E A " E S C O L A ATIVA'
INTELECTUAIS MEDIADORES

Se nos lembrarmos que o próprio Orbelino Ferreira não recusa


Um olhar surpreendente sobre o "Brasil pedagógico"
essas influências, ainda que circunscritas ao terreno didático, convém
que acrescentemos que é a questão da fundamentação religiosa da
Na linha da tradição das primeiras décadas do século XX, em que as
pedagogia que aqui está principalmente em causa. Segundo o educa-
viagens de educadores portugueses a outros países foi uma constante,
dor português, estamos perante uma educação "em que não entram
tendo em vista a observação de outras realidades pedagógicas e, em
os valores morais e religiosos" (Idemi 38); "falta ali a 'Educação
particular, de instituições educativas modelares, Orbelino Ferreira
Religiosa e Moral'", sendo essa "uma das principais razões do avil-
também realizou uma viagem pedagógica ao Brasil, no início dos anos
tamento do caráter brasileiro" (Idem: 205); "a palavra de 'Deus' tem-
1950, em período que não identifica de forma precisa. O educador
-se banido do cérebro e do coração do povo brasileiro" (Idem: 212).
publicou em 1953 uma espécie de relatório dessa viagem, a que deu
Assim sendo, "uma campanha séria de educação no Brasil sê-lo-ia
o título de Brasil pedagógico. O itinerário incluiu Rio de Janeiro, São
se começasse pela entronização de Cristo nos corações" (Idem: 213).
Paulo, Santos e Belo Horizonte. Ao contrário do que era habitual nos
A perspetiva com que é ensinada a História nas escolas brasileiras
relatos deste tipo de viagens, o olhar de Orbelino Ferreira sobre o
merece-lhe igualmente um comentário amargo:
Brasil, e não só no que respeita ao campo educativo, é extremamente
crítico. O autor reconhece ter-se decidido por essa viagem atraído
Nem sempre os professores são cuidadosos neste ramo de ensino,
pela "ampla literatura pedagógica" que nos chegava desse país e pelas
deixando de apresentar aos alunos a grandeza duma história que,
notícias sobre a "experimentação escolar" que aí se viveria e afirma
para sê-lo, terá de partilhar os feitos heróicos dos portugueses nave-
ter aprendido muito com a missão, mas essa aprendizagem tem um gadores e colonizadores. Os missionários são quase esquecidos e um
sentido diferente do que era mais comum: "Aprendi muito nesta via- ou outro vulto da liberdade, como Tiradentes, é sempre aproveitado
gem (...) e aprendi sobretudo a valorizar o que é nosso. Nós somos, para enxovalhar Portugal. O próprio programa classifica de "opres-
realmente, melhores, no campo pedagógico e literário. Nada do que são" a dominação portuguesa (Idem: 157).
vi me assombrou" (Ferreira 1953a: 8 e 14).
O olhar sobre o campo pedagógico brasileiro é particularmente Mas nem tudo é negativo aos olhos de Orbelino Ferreira. Por exem-
crítico. Uma das coisas que desagradou ao nosso autor é o fato de, plo, a visita ao Instituto de Educação do Distrito Federal, por ele
na sua ótica, quase todos os educadores brasileiros defenderem "pelo próprio considerado "um estabelecimento modelo", deixou-lhe uma
menos a neutralidade do ensino" e, em alguns casos, o próprio "lai- impressão francamente positiva: "Tudo ali me deu a sensação de um
cismo pedagógico". Mesmo os que se lhe afiguram "menos radicais", estabelecimento bem dirigido" (Idem: 23 e 25).
como Lourenço Filho ou Theobaldo Miranda dos Santos, defendem Se as viagens pedagógicas foram usadas, mais frequentemente,
"um nacionalismo pedagógico muito materialista e incaracterístico, como estratégia para a modernização pedagógica dos países dos
eivado do espírito democrático em que assenta toda a vida brasilei- viajantes, por via do contato com experiências educativas exempla-
ra" (Ferreira 1953a: 38). Segundo o seu diagnóstico, isso deve-se à res e como fonte de inspiração para as reformas a fomentar nesses
influência no Brasil coevo do que designa por americanismo: "No mesmos países, a viagem pedagógica empreendida por Orbelino
campo pedagógico, é flagrante a influência americana, sobretudo da Ferreira, num contexto já bem diferente, aparenta ter como principal
corrente avançada, na escola brasileira", em particular a dos "discí- desiderato a reafirmação da bondade do caminho que estava a ser
pulos e colaboradores de Dewey" (Idem: 211).

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELINO GERALDES FERREIRA E A 'ESCOLA ATIVA"

,
traçado pela política educativa do salazarismo. O olhar de Orbelino A noção de "meio-termo", de alguma maneira presente em algumas
Ferreira sobre a realidade brasileira é francamente negativo, precon- das concepções apresentadas, serve igualmente para definir aspectos
ceituoso mesmo, e quase tudo lhe parece melhor em Portugal. O seu importantes dessa pedagogia. De meío-termo se pode falar, na verda-
espírito, conservador e católico, habituado aos horizontes estreitos de, em relação à apropriação que autores e professores como Orbelino
da ditadura nacional, pela qual batalhava, teve dificuldade em aceitar Geraldes Ferreira fazem da herança da Escola Nova, combinando-a
e compreender um mundo tão diverso, social e culturalmente, como com a tradição da pedagogia católica. Os discursos são esvaziados
era o representado pelo Brasil de então. das teses mais radicais e dos projetos de transformação social sub-
jacentes a algumas das correntes do movimento, sendo enfatizada a
sua dimensão técnico-científka.
Considerações finais A construção da disciplina de Didática Especial nos currículos da
formação de professores é parte integrante desse sincretismo pedagó-
O percurso anterior procurou captar, a partir do exemplo de um dos gico. O lugar central por ela ocupado representa, igualmente, uma
principais autores de manuais de formação de professores dos anos vontade de sedimentar uma certa tradição docente, vista como "arte
1940 e 1950, Orbelino Geraldes Ferreira, as perspectivas pedagó- de ensinar", e os rituais a ela associados, parcialmente decorrentes do
gicas prevalecentes durante boa parte do período salazarista e que "tato pedagógico" do mestre. À volta da Didática Especial reúne-se
têm uma expressão clara no conteúdo das disciplinas de pedagogia uma plêiade notável de educadores e de formadores de professores
e de didática, em particular no que diz respeito à Didática Especial, que constróem a sua identidade profissional tendo como referência
tal como são ensinadas nos contextos de formação de professores do o discurso didático, considerado especializado, e a fundamentação
então chamado ensino primário que são as Escolas do Magistério pedagógica compósita proveniente da Escola Nova na sua interpre-
Primário, ideia esta já presente noutros estudos (Mogarro 2001, tação católica e conservadora. O campo das Didáticas permitiu a
2006; Nóvoa 1987; Toledo e Mogarro 2011). preservação de uma certa memória pedagógica, a construção de uma
Em termos gerais, continuam a ser aceitas muitas das propostas identidade disciplinar e o aprofundamento duma cultura profissional
metodológicas desenvolvidas no quadro da modernidade pedagógica, dos professores, designadamente no que se refere a este nível de ensino.
designadamente por via da Escola Nova, mas esvaziadas do projeto de
transformação social que lhes estavam subjacentes. A "escola ativa"
decorrente dessa reinterpretação surge como perfeitamente conciliável Fontes
com as tradições católica e patriótica e, em particular, passível de ser
concretizada no quadro de um regime autoritário (o Estado Novo) e de Ferreira, O. G. (1957) Badaladas (por Deus, pela Pátria...). Lisboa: Edição
uma ideologia conservadora (o salazarismo). As disciplinas de Didática, do autor.
herdeiras da pedagogia científica da transição para o século XX, apri- (1953a) Brasil pedagógico (notas de uma viagem de estudo, crítica
moram os seus procedimentos técnicos e a preocupação com o rigor aos programas de ensino primário do Brasil etc.). Lisboa: Associação
do trabalho pedagógico, ao mesmo tempo que abraçam os valores de Académica da Escola do Magistério Primário de Lisboa.
um projeto pedagógico que se procura legitimar na tradição ao mesmo (1953b) Didáctica prática. Lisboa: A Ninfa de Alvalade.
tempo que recusa os valores da modernidade liberal e democrática. (1952) Tradição pedagógica portuguesa. Lisboa: A Ninfa de Alvalade.

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INTELECTUAIS MEDIADORES ORBELINO G E R A L D E S FERREIRA E A "ESCOLA ATIVA'

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172 173
PARTE? Lugares e mídias
6. Ramiz Galvão e o projeto de uma
biblioteca nacional
Ana Paula Sampaio Caldeira

Diariamente, dezenas de pessoas visitam o prédio da Biblioteca Nacio-


nal (BN) do Rio de Janeiro. Após se identificarem, muitos dos leitores
se dirigem à primeira sala, conhecida por todos como "Obras Gerais",
localizada logo na entrada da instituição. Consultam os catálogos,
fazem o pedido, escolhem uma mesa e começam a sua leitura. Poucos
certamente repararam que presa à porta de entrada daquela seção
existe uma placa informando ao visitante que ela tem, na verdade, um
nome. Chama-se "sala Ramiz Galvão". A tabuleta serve como uma
homenagem a um enérgico diretor que esteve à frente da Biblioteca
Nacional (BN) durante doze anos. Benjamin Franklin Ramiz Galvão,
mais conhecido no meio intelectual de sua época simplesmente pelo
seu sobrenome, foi chamado para administrar aquela casa em 1870
e só saiu de lá em 1882, quando convocado para ser tutor dos netos
de d. Pedro II. Antes, porém, promoveu uma série de mudanças que
visavam modernizá-la, tornando-a efetivamente um lugar de pesquisa
e de investigação.
Embora pouco conhecido se comparado a outros intelectuais
da segunda metade do século XIX e início do XX, Galvão foi um
personagem bastante atuante em sua época, especialmente por estar

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S R A M I Z G A L V À O E O PROJETO DE UMA B I B L I O T E C A N A C I O N A L

ligado a algumas das principais instituições culturais do Império e da tituição pode ser considerada um dos momentos de inflexão em sua
República. Nascido em 1846, na cidade de Rio Pardo, Rio Grande do trajetória, na medida em que significou sua "estreia" no mundo das
Sul, veio para a corte no início dos anos 1850. Aplicado aos estudos, letras. Como diretor, ele foi responsável por formular e pôr em prá-
foi aluno do Colégio Pedro II, onde obteve o diploma de bacharel tica um projeto de instituição que estava fortemente associado a um
em Letras e exerceu, mais tarde, a função de professor. Formou-se em projeto de nação. Além disso, desenvolveu ali algumas de suas mais
Medicina em fins dos anos 1860, mas clinicou por pouco tempo, expressivas produções intelectuais, em especial a publicação dos Anais
dedicando-se mais à docência e à atuação em espaços como a BN da Biblioteca Nacional e a organização da Exposição de História do
e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), onde entrou Brasil. Para melhor trabalhar esses aspectos, dividiremos esse texto
como sócio em 1872. Em 1928, tornou-se membro da Academia em três partes. Na primeira, faremos um rápido panorama da sua
Brasileira de Letras (ABL), coroando a trajetória de um intelectual atuação como bibliotecário e destacaremos também quem eram os
que viveu longos 92 anos. outros intelectuais que compunham a sua equipe e que o ajudaram a
Os desafios de se estudar um personagem com uma biografia realizar os projetos que tinha para a BN. Em seguida, analisaremos
como a de Ramiz Galvão residem em dois aspectos principais. Um os Anais da Biblioteca Nacional, obra-símbolo da sua administração,
deles é justamente a sua longevidade: tendo iniciado no mundo das buscando perceber que projeto de biblioteca estava associado à sua
letras muito jovem, continuou bastante ativo na velhice, presidindo produção. Por fim, evidenciaremos as relações que a BN manteve com
a ABL e atuando como orador do Instituto e diretor de sua revista. outras instituições culturais da época que, assim como ela, passaram
Assim, é preciso considerar os momentos de inflexão em sua biografia, por um processo de modernização que caminhava paralelamente ao
os deslocamentos nas redes de sociabilidade em que estava imerso, esforço de construção de uma memória nacional e de uma imagem
além das próprias mudanças políticas do país sentidas por alguém do país no Brasil e no exterior.
que viveu tanto tempo, como o fim da Monarquia, o estabelecimento
do regime Republicano e até mesmo a chamada Revolução de 1930.
O segundo aspecto se refere ao tipo de atuação de um intelectual O bibliotecário da Biblioteca Nacional
com as suas características. Ramiz não foi exatamente um escritor de
ensaios e livros que tivessem suscitado grandes debates em sua época. Em 1882, quando teve de abandonar seu posto de diretor da Bi-
Sua obra foi de outra natureza, englobando trabalhos como a edição e blioteca Nacional para tornar-se preceptor dos príncipes imperiais,
publicação de catálogos, dicionários, textos e documentos históricos; Ramiz Galvão reuniu todos os funcionários e fez um pequeno dis-
o planejamento de exposições e eventos; a redação de relatórios; a curso, expressando seu sentimento pelo espaço que dirigiu durante
presença em comissões, dentre outras. Ele atuou fortemente como um doze anos. Naquele momento, ele sabia o quanto sua administração
difusor de conhecimentos e como alguém com grande capacidade de representou para a instituição e não deixou de se referir às mudanças
articulação, podendo ser considerado, tomando-se a categoria de Jean que ajudou a promover:
François Sirinelli, um intelectual mediador (Sirinelli 1998: 259-80).
Partindo desses pontos, escolhemos analisar aqui um período Com o concurso do vosso zelo chegamos enfim ao estado presente, o
específico na trajetória de Galvão: aquele em que atuou como diretor qual, se não é o melhor que se pudera desejar, representa todavia um
enorme melhoramento em todos os ramos de serviço, que encontrei
da Biblioteca Nacional. Entendemos que sua passagem por essa ins-

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INTELECTUAIS MEDIADORES R A M I Z G A L V Ã O E O PROJETO DÊ UMA B I B L I O T E C A N A C I O N A L

em 1870. Muito resta ainda por fazer-se, e muito mais quisera eu ter transitavam] por nosso país, e dar-lhes uma ideia elevada da nossa
obtido a bem de uma repartição amada, que absorveu os melhores civilização". Assim, para o deputado e literato, a BN não era "lugar
dias da minha mocidade e toda a soma de patrióticos esforços que para os moços se habilitarem, mas para se remunerar os talentos
jamais um cidadão dedicou ao serviço de seu país (Galvão 1882).
.feitos" (Alencar 1871: 55).
Se Ramiz não era um "talento feito" quando assumiu a institui-
De fato, a direção da Biblioteca Nacional o absorveu quando jovem,
ção, certamente por meio dela passou a ocupar urn espaço respei-
uma vez que assumiu a instituição com apenas 24 anos. Foi chamado
tável no ambiente letrado de sua época. AH, estabeleceu vínculos
para substituir o erudito frei Camilo de Monserrate, que esteve à
com importantes eruditos brasileiros, como Varnhagen, Francisco
frente da BN por dezessete anos e, segundo Ramiz Galvão, entregou-a Ramos Paz e Ladislau Netto. Pôde também estreitar relações com
num estado de total decrepitude. A situação difícil não se devia a um livreiros e bibliotecários de fora do país, especialmente à medida que
descaso do religioso, que insistentemente solicitava melhorias para a BN estabelecia uma política de troca de materiais com instituições
a instituição, mas aos parcos recursos disponíveis e às constantes
europeias e americanas. Nesse movimento, manteve contato, por
negativas que recebia do Ministério do Império, ao qual estava su-
exemplo, com Ferdinand Denis, bibliotecário da Bibliothèque de
bordinada, diante dos pedidos que fazia (Galvão 1868-1882). Saint-Geneviève, e Vicente Quesada, diretor da Biblioteca Nacional
Quando Ramiz assumiu o posto de bibliotecário, o momento era de Buenos Aires, além de livreiros e bibliófilos de diversos países.
outro. Ele pôde contar com o apoio do Governo Imperial, que, na No entanto, a importância da Biblioteca Nacional em sua biografia
época, estava bastante interessado na modernização das instituições não se deve somente ao fato de ter propiciado sua inserção numa
culturais brasileiras, tendo investido em espaços como o Arquivo extensa rede de sociabilidade intelectual. Na verdade, seu nome está
Público e o Museu Nacional, além da própria Biblioteca Nacional. diretamente ligado a um projeto maior, de reformulação da biblioteca.
Em sua administração, conseguiu introduzir algumas mudanças
Entendemos reformulação aqui em dois sentidos. Primeiramente, no
substanciais, reestruturando aquela Casa e dando a ela novas fun- que se refere ao cotidiano de trabalho, à constituição de uma rotina
ções. Temos poucas notícias sobre o contexto de sua nomeação para de serviço e à organização interna da instituição. Já nos primeiros
o cargo de bibliotecário. Mas, ao que tudo indica, a escolha teve a anos de sua gestão, Ramiz Galvão conseguiu angariar junto ao Mi-
chancela do imperador, que já conhecia o jovem Ramiz desde a sua
nistério do Império recursos para a reforma de seu edifício (situado,
entrada como aluno do Colégio Pedro II. À época, ele também já à época, na rua da Lapa), a ampliação do horário de funcionamento
havia publicado alguns trabalhos, como O púlpito no Brasil, sobre e a instalação da iluminação a gás em todo o prédio.
oratória sacra, bem como sua tese de conclusão do curso de Medici- O segundo sentido que podemos conferir a esse processo de refor-
na. No entanto, naquela ocasião, ainda era considerado apenas um mulação da BN refere-se à construção dessa instituição como lugar
jovem promissor, c isso fez com que sua nomeação fosse recebida de referência para os intelectuais do período. Neste sentido, Ramiz
com críticas por alguns. Esse foi o caso de José de Alencar, cujo foi responsável por dois movimentos importantes. Primeiramente,
discurso pronunciado em 1871 na Câmara dos Deputados destacava por tentar trazer os homens de letras de sua época para dentro
o desejo de ver à frente da instituição "um homem conhecido pela daquele espaço. Afinal, segundo ele, a BN deveria ser frequentada
sua vasta erudição", com uma "reputação firmada*1 e ilustração por um público seleto, composto por estudiosos. Além disso, ele
suficiente para "receber dignamente os sábios estrangeiros que buscou sintonizá-la com os debates intelectuais de seu tempo e com

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INTELECTUAIS MEDIADORES R A M I Z G A L V A O E O P R O J E T O DE UMA B I B L I O T E C A N A C I O N A L

o que havia de mais moderno em matéria de ciência histórica. A de urn ano fora, coletando documentos e observando as bibliotecas
BN inseriu-se, portanto, no esforço de entender o Brasil, conhecer europeias. Quando voltou, em 1874, atuou efetivamente na forma-
o seu território, a sua população, a sua geografia e o seu passado. ção de uma equipe de trabalho. Sob o argumento da necessidade
E essa sintonia se dava, sobretudo, a partir de sua atuação como de organizar os novos catálogos da biblioteca, conseguiu junto ao
intelectual mediador, o que envolvia, por exemplo, a edição de obras Ministério do Império a contratação efetiva de Vale Cabral. Um feito
e documentos que evidenciassem os "tesouros" desconhecidos do que Ramiz considerou "o ponto de partida para o renascimento da
acervo da instituição. Não por acaso, o período em que administrou seção de manuscritos dessa repartição" (Galvão 1875: 9),
a BN ocupou um papel central na constituição da sua memória, Nesse mesmo ano, ao que tudo indica, João Saldanha da Gama
na medida em que, em função da sua atuaçao, foi considerado, o foi contratado como chefe de seção de Impressos e Cartas Geográ-
"bibliotecário perfeito" e o "patrono dos bibliotecários" brasileiros ficas e José Zeferino de Menezes Brum tomou posse como chefe
(Fonseca 1963: 35). da seção de Iconografia (Galvão 1874). Em 1876 e 1879, a equipe
Ainda que certas mudanças na rotina da biblioteca já viessem se de trabalho do bibliotecário ganharia seus dois últimos grandes
processando desde a nomeação de Ramiz Galvão, foram os novos reforços: Alexandre Teixeira de Melo e, como já sinalizamos, João
estatutos, formulados em 1876, que organizaram oficialmente seu Capistrano de Abreu. Não por acaso, os relatórios da segunda me-
funcionamento interno, estabelecendo diretrizes para questões como tade da década de 1870, apesar de ainda destacarem os problemas
o empréstimo de livros e a divisão das seções. Também foi por meio da Casa, mostram um diretor muito mais otimista e satisfeito. O
desse documento que se normatizou o primeiro concurso para a número de funcionários havia aumentado substancialmente e a qua-
contratação de um oficial,1 ocorrido em 1879, e que acabou trazendo lidade deles tornava possível executar as mudanças que planejava
Capistrano de Abreu para os quadros da biblioteca. Este, entretanto, para a instituição, levando a cabo um empreendimento editorial
foi o último a se somar a uma equipe "de peso" que Ramiz já vinha como os Anais da Biblioteca Nacional. Convém ressaltarmos alguns
formando desde os seus primeiros anos à frente da instituição. dados acerca da vida desses homens, suas ligações com a Biblioteca
Até 1873, a BN contava com oito funcionários (três oficiais, Nacional e seu diretor, além das afinidades e rivalidades construídas
quatro jornaleiros e um guarda), cujas funções muitas das vezes se no interior desse microcosmos.
misturavam, cabendo a um mesmo empregado, na ausência de outro, Alfredo do Vale Cabral, primeiro desse seleto grupo a entrar para
atender ao público, limpar os livros e atuar como guarda da institui- os quadros da instituição, foi um funcionário-chave na realização
ção (Galvão 1875: 5). Mas foi nesse mesmo ano que a BN recebeu dos projetos da BN. Nascido em Salvador, Bahia, em 1851, chegou
um de seus principais reforços: Alfredo do Vale Cabral. Sua entrada ao Rio de Janeiro em 1870 (Blake 1970, vol. 1: 62-3). Foi traba-
ocorreu devido à viagem que Ramiz fez à Europa naquele momento, lhando na BN que ele construiu uma sólida relação de amizade com
o que demandava a contratação de um empregado provisório para Capistrano de Abreu e também com Alexandre Teixeira de Melo,
ajudar nos afazeres diários da biblioteca. Ramiz passou pouco mais com quem desenvolveu alguns projetos intelectuais em conjunto,
.como a publicação da Gazeta Literária. Parece, no entanto, que
as relações mais próximas e de maior afinidade se davam realmen-
1 Com a reforma realizada por Ramiz Galvão, a BN passou a se organizar em seções, cada te com Capistrano, em cujas cartas é possível perceber as trocas
uma com um chefe. Mas se manteve o cargo de oficial da biblioteca, que auxiliava os chefes
de seção e fazia o atendimento ao público. intelectuais e a amizade construída entre eles. Esse é o caso das

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INTELECTUAIS MEDIADORES RAMIZ GALVÂO E O PROJETO DÊ UMA BIBLIOTECA NACIONAL

missivas em que conta um episódio particular, bastante conhecido, entre 1895 e 1900, ocuparia a direção da BN, chegando também a
envolvendo a identidade de Antonil. O historiador lembra que, participar de algumas importantes instituições culturais da épocas
ainda nos tempos em que trabalhou no Colégio Ateneu, se deparou notadamente o IHGB e a ABL (Blake 1970, vol. 4: 271-3).
com esse autor, que desconhecia. Já na Biblioteca Nacional, teria Personagem um pouco mais discreto, mas igualmente importante
perguntado a Vale Cabral se o conhecia. Este teria sugerido que na equipe de Ramiz Galvão, foi José Zeferino de Menezes Brum.
procurasse alguma coisa nos livros de Inocêncio, Rivera c Varnha- Nascido em 1825 em Vila de São Francisco, Bahia, ele também seguiu
gen. Tempos mais tarde, relendo Cultura e opulência do Brasil por o curso de medicina existente naquela província. Já na Corte, atuou
suas drogas e minas, Capistrano teria desvendado o enigma. Como como médico no hospital da Misericórdia e foi membro da Academia
ele mesmo conta: Nacional de Medicina (Blake 1970, vol. 5:237). Na BN, sua função
era cuidar dos livros, imagens e estampas que compunham a seção
Levantei-me, fui ao Cabral, que estava escrevendo na mesa de que de Iconografia da instituição, onde permaneceu até sua morte, em
agora lhe redijo essa carta e disse-lhe: V. vai ficar furioso. - Por quê? 1894. Nos Anais da Biblioteca Nacional, as contribuições de Menezes
Porque afinal vou descobrir quem é o nosso Antonil. -Nesse caso vou Brum se dão justamente acerca dos assuntos relacionados ao acervo
ficar é alegre. Da mesa do Cabral fui à estante em que se encontrava imagético da instituição.
a Bibliothèque dês Écrivains de La Compagnie de Jesus de Backer,
Outro membro da equipe era João Saldanha da Gama, que contou
abri o volume VII, que contém o índice geral, e remeteu-me para o
com uma boa dose de relações pessoais para angariar um posto na
volume VI, p. 14. Abri-o, e, apenas li as primeiras linhas, corri para
a mesa do Cabral. - Cabral! Cabral! Achei! (...) Não precisa dizer
instituição, pois era não só cunhado de Galvão, como seu amigo desde
que foi um dia de delírio. Jantamos juntos, tomamos cerveja juntos, os tempos de Colégio Pedro II. Também por meio da influência do
conversamos até meia-noite e [nos] separamos à contrecoeur. Que diretor da BN teria conseguido o cargo de bibliotecário no Mosteiro
bom tempo aquele, em que a descoberta de um anónimo bastava para de São Bento em outra ocasião (Alencar 1889:144-5). Após a saída de
coroar de rosas um dia. Vimos logo que, de João António Andreoni, Galvão, assumiu o posto de diretor da Casa.
era anagrama ou coisa que o valha de André João Antonil (...) (Abreu Enquanto trabalhou na biblioteca, Capistrano de Abreu pôde
1893: 144-5). conhecer de perto João Saldanha da Gama, mas parecia não nutrir
muita simpatia pela sua figura. Ao compará-lo com Ramiz Galvão,
Embora as relações de proximidade fossem maiores entre Capistrano dizia que, enquanto este "foi grande diretor", "Saldanha da Gama,
e Vale Cabral, Teixeira de Melo era outro interlocutor intelectual que lhe sucedeu, não prestava (...)" (Abreu 1917: 67). As desavenças
importante daquela dupla. Entre os três havia troca de informações entre os dois aconteceram em virtude da publicação da obra História
e planos de publicação. Desse grupo formado por Capistrano, Vale do Brasil, de frei Vicente Salvador. Ela acabou entrando para o acervo
Cabral e Teixeira de Melo, esse último era o mais velho, tendo uma da BN em 1881, como doação do livreiro João Martins Ribeiro à
diferença de vinte anos em relação aos demais. Nascido em Campos, Exposição de História e Geografia do Brasil, um dos maiores em-
Rio de Janeiro, mantinha com Ramiz um ponto de contato: a for- preendimentos de Ramiz na direção da instituição. A questão era
mação em medicina. Entretanto, diferentemente deste, clinicou por que Capistrano, Vale Cabral e Teixeira de Melo tinham planos de
alguns anos, até se mudar, em 1875, para a capital e, no ano seguin- publicá-la, mas enfrentaram forte resistência por parte de Saldanha
te, ser nomeado para a chefia da seção de manuscritos. Mais tarde, da Gama, que chegara mesmo a dificultar o acesso do grupo a certos

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INTELECTUAIS MEDIADORES
R A M f Z G A L V Ã O E O PROJETO DE UMA B I B L I O T E C A N A C I O N A L

documentos, quando ocupou o cargo de diretor da instituição (Abreu à trajetória desses intelectuais uma regularidade e uma coerência
1886: 104; Oliveira 2013: 74-5). inexistentes. É comum olharmos para um autor como Capistrano
Se essas desavenças já existiam no período em que Galvão dirigia como se ele tivesse sido, desde sempre, um "notável historiador",
a biblioteca, isso a documentação consultada não nos permite dizer.
desconsiderando sua trajetória e todo o processo que o consagrou
O fato é que as tensões, provavelmente existentes, não impossibili- (Gontijo 2007).
taram certa coesão do grupo no desenvolvimento dos projetos da
Capistrano permaneceu no cargo de oficial até 1883, quando
instituição. No caso dos Anais da Biblioteca Nacional, por exemplo,
saiu para assumir a função de professor de História e Corografia
com exceção de Capistrano de Abreu, todos os demais publicaram
do Brasil no Colégio Pedro II. José Honório Rodrigues destaca a
estudos em algum dos volumes editados durante a gestão de Ramiz
importância da passagem pela Biblioteca Nacional na formação de
As contribuições de Alfredo do Vale Cabral e Alexandre Teixeira de
Capistrano, considerando aquele espaço uma espécie de laboratório
Melo verdadeiramente saltam aos olhos. Trabalhando em conjunto
em que pode se debruçar sobre o principal material do historiador:
na seção de Manuscritos, eles eram, ao que parece, os "homens de
as suas fontes (Rodrigues 1954: XXXIX-XL). Para além do signi-
confiança" do diretor e suas atuações foram fundamentais para levar
adiante a edição dos Anais. Vale Cabral era, sem dúvida, o campeão ficado da BN na própria atividade intelectual e historiográfica de
de publicações naquele periódico. Somente nos três primeiros volu- Capistrano, convém ressaltar como se formou ali um grupo que,
mes dos Anais (de 1876 a 1878), publicou nove textos de sua autoria. apesar das querelas internas, parecia muito sintonizado com a cons-
Mas Teixeira de Melo também alcançou uma produtividade ímpar, trução de um projeto de biblioteca que buscava, concomitantemente,
assinando, nesses mesmos três volumes, oito estudos. Em conjunto, servir a um público leitor e manter-se em sintonia com os métodos
os dois ainda desenvolveram o Catálogo da Seção de Manuscritos, modernos de escrita da história e de organização de acervos. Ou
que veio a público nos volumes 4 e 5 dos Anais. seja, tomando a própria expressão cunhada por José Honório Ro-
Dos funcionários que ocupavam os principais cargos da BN, drigues, talvez a BN não tenha sido um laboratório somente para
Capistrano é aquele cujo trabalho parece ter deixado menos mar- Capistrano. Esse significado pode ser estendido para todo o núcleo
cas, especialmente na publicação dos Anais, onde não há nenhuma fundamental que compunha o quadro de funcionários da BN na
produção sua nos volumes editados durante a gestão de Ramiz. Mas época, inclusive, para Ramiz Gaívão, que também ali se formou
é preciso considerar que ele só entrou para os quadros da BN em como historiador, muito mais do que no IHGB, onde atuou efeti-
1879, o que significa dizer que, efetivamente, só teria participado vamente apenas durante a República. Se a BN era o "laboratório da
da edição do 6° volume em diante. No entanto, justamente por se História", Ramiz e seu grupo eram os "especialistas" que o faziam
tratar de alguém como Capistrano, que viria a se tornar um dos funcionar, que testavam possibilidades, desenvolviam projetos e
mais representativos historiadores de sua geração, essa ausência colocavam em prática procedimentos. Mais do que organizar um
de produção parece significativa e nos permite pensar no próprio acervo, eles se empenharam em formar tal acervo, estabelecer uma
trabalho de enquadramento de sua memória (Pollak 1989; 1992). ordem aos rastros do passado e pô-los a serviço de alguém, a saber,
Embora seja lembrado sempre a partir da sua imagem de autor de o profissional da história.
obras fundamentais da historiografia brasileira, é preciso conside-
rar como essas memórias são historicamente construídas, dando

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Os Anais da Biblioteca Nacional como estratégia editorial Já Biblioteca Nacional brasileira (Galvão 1875: 44). Mas a viagem
não serviu apenas para isso. Ela trouxe ainda um saldo bastante
Em 1873, Ramiz Galvão foi enviado à Europa pelo Governo Imperial positivo para o acervo da instituição, enriquecido com vários livros
para compor a comissão que representaria o Brasil na Exposição e catálogos comprados de livreiros europeus. Algumas coleções de
Universal de Viena. Em janeiro do ano seguinte, recebeu a notícia revistas científicas e literárias, já existentes na BN, também pude-
de que a estada se prolongaria por mais alguns meses. Ele tinha sido ram ser completadas a partir da aquisição de determinados volumes
incumbido de procurar documentos, especialmente manuscritos, faltosos. Sabemos que mais de duas mil obras foram adquiridas por
relativos ao Brasil, nos arquivos europeus. Semanas após receber o meio de compra, dentre as quais constavam documentos referentes à
aviso, Ramiz não tardou em comunicar aos seus superiores os fru- história do Brasil. Segundo Pires de Almeida, somente nessa viagem
tos que colhia em sua viagem. Em um documento datado do dia 7 foram gastos cerca de doze contos de réis na compra de manuscritos,
de fevereiro de 1874, ele explica que, depois de visitar as bibliotecas de imagens, monografias e catálogos (Almeida 1897: 10).
Viena, Munique, Berlim, Milão, Florença, Roma, Londres e Paris, O projeto de procurar, comprar e reunir documentos relativos ao
restavam apenas as de Zurique e Lisboa: passado nacional parece, no entanto, que não terminou aí. Mesmo
após o retorno do bibliotecário de sua viagem à Europa, é possível
Em todas elas depois de haver estudado a parte relativa à organiza- perceber em seus ofícios o interesse em localizar e adquirir materiais
ção, que é, como V. Exa. sabe, o ponto capital da minha comissão, sobre a história do país que estivessem nas mãos de particulares ou
tive sempre o cuidado de indagar da existência de documentos rela- em acervos estrangeiros. A aquisição de documentos e o enriqueci-
tivos ao Brasil, e posto que não fosse grande a minha colheita neste mento do acervo eram elementos importantes no projeto de sintonizar
particular tive todavia a fortuna de encontrar alguma coisa de que
a BN com as instituições estrangeiras e também com os métodos e
tomei nota c que tencionara comunicar a V. Exa. (...)- Aqui mesmo
procedimentos que moldavam a moderna ciência da História. Como
em Paris, onde atualmente me acho ultimando as compras de livros
lembra Maria da Glória de Oliveira, no processo de constituição desta
de que fui encarregado, encontrei na Biblioteca Nacional um bom
número de manuscritos portugueses, dos quais estou fazendo uma disciplina, estabeleceram-se determinadas "obrigações do historia-
lista que julgo não será destituída de interesse. Em Zurique não é de dor**, isto é, procedimentos e técnicas que passavam a caracterizar
esperar que ache documentos deste género, mas em Lisboa os haverá esse ofício. Uma delas seria justamente a tarefa de definir a autoria
em grande cópia, e por isso resolvi já demorar ali a minha estada dos documentos e a origem das fontes. Da mesma forma, o texto
além do prazo que me fora necessário e suficiente para visitar a sua do historiador precisava obedecer a algumas regras, em especial a
biblioteca pública (Gaívão 1874a). referência aos documentos de época. Assim, "o texto configura-se
como historiográfico por sua construção desdobrada e estratificada de
A viagem de Ramiz Galvão pela Europa originou alguns benefícios referências a outros textos - crónicas, documentos -, estabelecendo-se
para a Biblioteca Nacional. Um deles foi a sua própria reestruturação, sempre como um saber do outro" (Oliveira 2006:11). Como se sabe,
a partir da observação e estudo do funcionamento de suas congéneres a história não estava definida como campo autónomo nessa época, e
europeias. O contato com instituições como a Biblioteca Nacional os eruditos que se dedicavam a esse saber circulavam também por um
de França e o Museu Britânico causou profundo impacto no diretor amplo espaço de conhecimentos, que envolvia a etnologia, a geogra-
da BN, que se espelhou nelas para a construção dos novos estatutos fia, a literatura e o estudo de línguas indígenas, por exemplo. Esses

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intelectuais-historiadores, por sua vez, possuíam como elemento de todos os títulos precioso. Convém que se vá conhecendo e dando
legitimação e distinção de seu trabalho a pesquisa documental, isto o devido valor à primeira biblioteca instituída no Brasil e que em
é, a tarefa de criticar, reunir, consultar e copiar documentos.2 Sem riqueza está a par de suas irmãs do Velho Mundo. Na Europa, os
documentos não haveria a possibilidade de escrita da História. Ramiz livros preciosos que possuem os estabelecimentos literários são em
geral conhecidos, não só por seus catálogos impressos, como pelas
mostrava-se muito sintonizado com esse debate, especialmente quando
incessantes investigações de amadores e curiosos, que a todos os mo-
ele buscava angariar recursos para a compra de coleções estrangeiras
mentos invadem a biblioteca em busca do que há de mais raro sobre
e nacionais: os documentos, segundo ele, eram essenciais para se esta ou aquela matéria. Entre nós, porém, se dá o contrário: ninguém
escrever a história das nações, especialmente de uma nação como o se importa de conhecer e ainda mesmo de ter notícia dos livros que
Brasil, cujo passado parecia tão nebuloso aos olhos do historiador nos dizem respeito, livros que, em falta de documentos autênticos,
(Galvão 1879).3 são a base principal de nossa história (Cabral 1873).
Cremos que é nesse contexto que deve ser entendido o trabalho de
Galvão à frente da BN. Seu interesse abrangia não apenas a organização A comparação que aparece no texto entre a BN do Rio de Janeiro
do acervo, como também a localização de obras cuja existência ainda e suas congéneres europeias é muito presente não só nas notícias
não era plenamente reconhecida, a compra e aquisição de documentos publicadas, mas também nos ofícios, cartas e relatórios escritos por
e a disponibilização desse material. É justamente esse último objetivo Ramiz durante o período em que presidiu aquela Casa. Mas esse
que gostaríamos de começar a analisar. O primeiro veículo de divul- discurso possui algumas nuances. Certas vezes a BN era entendida
gação do acervo foram os jornais da época, como O Globo, o Jornal como um projeto, que, no futuro, conseguiria alcançar as grandes
do Comércio e a Gazeta de Notícias. A cada nova descoberta de uma instituições de pesquisa do Velho Mundo. Em outras, destacava-se
imagem, manuscrito, ou autoria de uma obra, Ramiz Galvão e seus a riqueza de seu acervo, que a colocava num patamar de igualdade
auxiliares (especialmente Alfredo do Vale Cabral) enviavam notícias, em relação aos centros europeus. No entanto, um elemento parece
acompanhadas sempre de um pequeno estudo, à redação de um des- não levantar dúvidas em Ramiz Galvão ou em seus funcionários: o
ses periódicos. Logo em suas primeiras linhas, essas notas buscavam fato de não se ter por aqui o afã das pessoas em se debruçar sobre
chamar a atenção dos leitores "estudiosos", não somente para as esses "tesouros". Assim, podemos entender essas notas em jornais
descobertas, como também para o trabalho realizado dentro da BN, como uma estratégia para a construção de uma boa imagem da bi-
além de convidar o público a reconhecer o valor daquela instituição: blioteca, tornando-a uma presença na cidade. Certamente, o público
desses periódicos era bastante amplo e nem todos esses leitores te-
No espontâneo encargo que tomamos de fazer conhecer o público riam interesse em frequentar os salões da BN. Tampouco era desejo
estudioso os livros concernentes ao Brasil, que guarda a Biblioteca de Ramiz tê-los por lá. Antes, queria ver naquela Casa um público
Nacional do Rio de Janeiro, damos notícia de mais um achado, por seleto de especialistas (Galvão 1876). Entretanto, num momento em
que as instituições culturais do Império passavam por um processo
2 Sobre o assunto, ver: Gomes (1996); Grafton (1998); Farge (1989), Cczar (2003 e 2007). de modernização, era importante "marcar lugar", isto é, fazer com
3 Convém lembrar que uma importante aquisição para a Biblioteca Nacional foi feita
ainda em 1873, quando foi comprada a biblioteca de Manoel Ferreira Lagos, composta de que o nome da BN circulasse nos principais jornais da época, sem-
3.475 volumes, 231 manuscritos e cerca de 2 mil folhetos publicados no Brasil e em países pre associado ao laborioso serviço de seus funcionários e à posse de
estrangeiros. Faziam parte desta coleção as Memórias de Alexandre Rodrigues Ferreira. Em
1878, a BN adquiriu, a partir de um leilão, a Coleçao dos marqueses de Castelo Melhor. "tesouros" literários e iconográficos inigualáveis.

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R A M I Z GALVÃO E O PROJETO DE UMA BIBLIOTECA NACIONAL

Apesar da entrada de novos manuscritos e imagens na biblioteca e características. Por isso, vale percorrer os tomos dessa publicação
da aquisição de muitas obras, as seções encarregadas de cuidar deste para verificarmos que textos e documentos ganhavam suas páginas
tipo de documento permaneciam vazias. A baixa frequência no setor e constituíam a "riqueza" de seu acervo.
de manuscritos era alvo de muitas lamentações de Ramiz Galvão, O primeiro tomo é certamente um dos mais importantes, na
que via seus leitores serem atraídos pela "literatura amena" de sua medida em que pretende mostrar um projeto que não se esgotaria
época, em detrimento de obras mais especializadas. Diante deste num só exemplar e que teria, portanto, forças para seguir em frente.
quadro, algumas perguntas se colocam: se a seção de Manuscritos, Isso porque muitos dos estudos publicados ali serão discutidos ou
bem como a de Iconografia, eram pouco frequentadas, se não havia completados nos tomos seguintes. Além disso, no primeiro livro é
o afã do público pelos seus materiais, se não existia interesse pela possível perceber claramente os principais objetivos dessa publicação,
investigação, por que divulgar o acervo em jornais? Mais ainda, que já se iniciava formando um cânone das principais coleções de
por que juntar esforços na edição de outro veículo, específico para documentos da BN do Rio de Janeiro, documentos que ainda hoje
a publicação de documentos e difusão de estudos, como foram os servem como referência quando falamos da instituição.
Anais da Biblioteca Nacional* Com o objetivo de buscarmos uma A análise deste volume nos fornece algumas chaves para compreen-
resposta para estas questõesj cremos que vale a pena analisarmos der qual o significado dessa publicação. O objetivo mais explícito
com mais cuidado os volumes que compõem os Anais, destacando pode ser encontrado nas "Advertências preliminares" do primeiro
o que era publicado em suas páginas e os principais objetivos desta tomo, onde Ramiz Galvão explica que os Anais eram destinados à
publicação. divulgação das "riquezas literárias" da biblioteca, até então esquecidas
O primeiro volume dos Anais foi impresso em 1876. De acordo e ignoradas pelos "próprios nacionais". No periódico, deveriam ser
com os estatutos da biblioteca, essa publicação ficava a cargo do inseridos inéditos preciosos, notícias de livros raros, estampas curiosas
bibliotecário (Galvão 1877:2). Ao longo da administração de Ramiz e também "trabalhos bibliográficos sobre os mais célebres escritores e
Galvão, foram impressos nove volumes, sendo o último deles dividido amadores nacionais" (Galvão 1876a: VII). Logo no primeiro volume
em dois tomos, destinado ao Catálogo da Exposição de História do figuram notícias e artigos sobre alguns conjuntos documentais que
Brasil. Os exemplares eram impressos pela Tipografia Leuzinger e foram eleitos para representar o que havia de melhor nas estantes da
Filhos e variavam entre 400 e 600 páginas. Os fascículos traziam al- biblioteca, como a coleção Diogo Barbosa Machado, as cartas do
gumas raras imagens e saíam, cada um, a dois mil-réis, com assinatura padre José de Anchieta, além da coleção camoniana e a de Alexandre
anual a seis mil-réis, podendo ser adquirido nas mais frequentadas Rodrigues Ferreira. Todo esse acervo era não apenas descrito e classi-
livrarias da corte, como a Garnier e a Laemmert, além da própria ficado, mas vinha acompanhado de estudos feitos pelos funcionários
tipografia. Os Anais são, a nosso ver, uma das produções que me- da própria instituição, o que evidencia um olhar sobre o documento
lhor caracterizam a atuação de Ramiz como intelectual mediador, já com uma finalidade científica e a opção da revista em publicar não
na medida em que, por meio desse veículo, ele se comunicava com só fontes, mas também análises e estudos. Quem abre o primeiro tomo
o público especialista que tanto queria para a instituição, ao mesmo dos Anais da Biblioteca Nacional é a famosa Coleção Diogo Barbosa
tempo que dava visibilidade à BN, fazendo-a dialogar com outros Machado, que recebeu um importante estudo feito por Ramiz Galvão.
espaços. Assim, acreditamos que a edição dos Anais seja fundamen- Mas todos os funcionários que compunham a equipe de Galvão à
tal para pensarmos no tipo de atuação de um intelectual com suas época participaram com textos próprios nessa publicação.

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Entretanto, ao lermos os artigos dispersos ao longo deste e de ou- sintomática, uma vez que se encontram divididos em duas partes, a
tros volumes, podemos perceber, de forma mais ou menos explícita, de "códices relativos ao Brasil" e a de "códices estranhos ao Brasil".
que havia outros objetivos envolvidos na edição daquele periódico, Como era de esperar, os textos relativos ao Brasil abrem o catálogo,
além da divulgação dos "tesouros" da biblioteca e da publicação que começa pelos documentos que se referem ao país como um todo,
de estudos. Um deles é sinalizado por Alfredo do Vale Cabral no passando, em seguida, àqueles que tratam de suas partes, isto é, suas
terceiro volume dos Anais, impresso em 1877. Este fascículo traz capitanias ou províncias, e aos que têm relação com a questão dos
a publicação de um manuscrito de Luiz D'Alincourt, militar por- limites territoriais.
tuguês que presidiu numerosas comissões por regiões brasileiras Documentos do passado, além de descobertos (ou talvez "encon-
ao longo do século XIX. Neste documento, D'AÍincourt oferece trados") no acervo da BN, passavam a ser publicados, ficando dispo-
algumas informações acerca da província do Mato Grosso.4 Para níveis a todos aqueles que estivessem dispostos a escrever a história do
Vale Cabral, tratava-se de informações relevantes sobre um espaço país ou de suas partes. Vale ressaltar, no entanto, que essa história,
pouco conhecido, escritas não por um compilador de relatos, mas de acordo com o projeto dos Anais, deveria ser feita especialmente a
por uma testemunha ocular. partir de documentos manuscritos, cujo grau de veracidade poderia
Em um artigo publicado num dos jornais da época, Vale Cabral ser medido pelo investigador a partir da crítica histórica. Tratava-
certa vez dissera que a BN carecia de documentos autênticos, base -se de uma história escrita por meio de fontes entendidas como
para se escrever a história do país (Cabral 1873). Ao se deparar com capazes de fornecer um acesso direto a uma experiência passada.
o manuscrito D'Alincourt, ele encontrava um desses "documentos Assim, de acordo com Teixeira de Melo, a publicação de textos
autênticos" necessários para revelar a história da nação. Em primeiro como esses nos Anais era uma forma de "prestar um serviço aos
lugar, o manuscrito descrevia um espaço pouco conhecido, mas já futuros historiadores de nossas coisas" (Melo 1876b: 247).
compreendido como parte dessa "comunidade imaginada" chamada Mas, como sabemos, a escrita da história, da maneira como a en-
Brasil. Em segundo lugar, tratava-se de um testemunho em primeira tendemos hoje, não se aplicava totalmente àquele momento. Aspectos
mão, o que lhe dava mais legitimidade, uma vez que D'Alincourt viu dos mais diversos interessavam aos letrados da época, tendo em vista
e escreveu aquilo que observou. Dentro da lógica em que o documen- o livre trânsito entre os saberes. Todos esses interesses estavam con-
to é percebido como condição de possibilidade para se conhecer o templados nos documentos e textos publicados nos Anais. Em seus
passado, entende-se o interesse dos Anais em publicar textos como fascículos, era possível ter acesso a manuscritos referentes a fatos,
esse, que possibilitavam saber mais sobre o país, seu território e seu batalhas e personagens da história do Brasil (era o caso das canas
passado histórico. de Anchieta, publicadas nos três primeiros volumes dos Anais, que
Documentos relacionados ao Brasil também lotavam as páginas remetiam ao passado da colonização, mas também da notícia de um
do 4° e do 5° volumes dos Anais da Biblioteca Nacional, reservados manuscrito existente sobre a Guerra dos holandeses no Brasil ou ainda
à publicação do catálogo dos manuscritos existentes na BN. A pró- de um estudo sobre o inconfidente Cláudio Manoel da Costa); conhe-
pria maneira como os manuscritos foram classificados já nos parece cer a geografia, a natureza e a população de certas regiões do país
(como o já citado Mato Grosso); e ter contato com os estudos sobre
4 Trata-se do manuscrito intitulado "Resultado dos Trabalhos e indagações estatísticas da a língua tupi e as obras escritas neste idioma. É importante esclare-
província do Mato Grosso". cer que, já no primeiro volume dos Anais, foi publicada uma notícia

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do trabalho desenvolvido na BN por Vale Cabral, que reunia tudo Mas se os Anais eram frutos de um trabalho em equipe, a quem
o que se referia à língua tupi existente nas Memórias de Alexandre cabia exatamente a tarefa de selecionar o que seria publicado nesse
Rodrigues Ferreira. No segundo volume do periódico, foi publicado periódico? É nesse sentido que a figura de Ramiz Galvão se torna tão
um estudo sobre palavras tupis e guaranis vulgarmente conhecidas. importante, na medida em que ele combinava as práticas de criação
O objetivo parecia simples, mas era curioso: mostrar como esses vo- e mediação no momento em que estava à frente dessa revista, uma
cábulos deveriam ser escritos e dar-lhes a sua verdadeira etimologia. vez que pensar a figura do intelectual mediador não significa excluir
Por fim, o 6° e o 7° volumes da publicação foram totalmente dedicados atividades de criação. Antes, serve como categoria analítica que nos
a um "precioso manuscrito em língua guarani" composto no século permite compreender as diversas formas como um intelectual age como
XVIII e destinado à conversão dos gentios: a Primeira catequese articulador e difusor de conhecimento. Nos tomos dos Anais da Biblio-
dos Índios selvagens, do padre Montoya, traduzido pelo especialista teca Nacional, Ramiz foi autor de alguns importantes estudos. Mas,
Batista Caetano Almeida Nogueira. paralelamente a essa atividade "criadora", ele atuou como mediador,
Em um momento em que os campos da história e da literatura na medida em que era o responsável pelo "ato editorial" (Ouvry-Viai
entrecruzavam-se, podemos imaginar que a publicação de docu- 2007: 72). Coube a ele angariar recursos para a publicação, escolher
mentos e estudos nos Anais da Biblioteca Nacional ajudavam não a equipe com quem trabalharia e coordená-la. Foi ele também que
apenas aos "historiadores de nossas coisas", mas servia também assinou o texto inaugural da revista e dirigiu a publicação enquanto
como fonte de estudo e inspiração para criações literárias. O próprio esteve à frente da BN, sendo, portanto, responsável por escolher o
Nogueira, tradutor de Montoya, diz pretender com seu trabalho que devia ou não ser publicado ali. Ou seja, passava por suas mãos
prestar um serviço à literatura, "evitando que nos seus romances a cuidadosa tarefa de selecionar, dentro do volumoso acervo da BN,
o índio apareça com falar de outro mundo, inverossímeis e não aquilo que seria considerado importante para o avanço dos estudos
naturais" (Nogueira 1879: XII). Entre os literatos do oitocentos, históricos e literários no país. O volume VI dos Anais traz informações
o estudo das línguas indígenas tornava-se matéria obrigatória. esclarecedoras da tarefa de edição desempenhada por Galvão. Trata-se
Segundo Ivana Stolze Lima, "os escritores elegeram a língua tupi de uma introdução escrita por Batista Nogueira, autor que traduziu
para representar a nacionalidade da literatura e enxertavam nos o manuscrito guarani publicado naquele volume. Nela, ao dedicar o
poemas e romances palavras em tupi, algumas até recriadas pelos trabalho ao diretor da BN, Nogueira nos fornece indícios de como
escritores" (Lima 2009). Se a língua indígena, era, como dizia Ramiz interferia no trabalho de tradução e edição do documento:
Alencar, a chave de entrada para formar uma imagem poética do
selvagem, entender as particularidades de sua vida e de seu pensa- Por esse motivo, pedi permissão a V. para apresentar antes da tra-
mento, podemos imaginar que o trabalho de Ramiz Galvão e sua dução um pequeno esboço gramatical, resumido de um estudo mais
equipe com a publicação dos Anais da Biblioteca Nacional pudesse extenso sobre o abaneenga, e nesse esboço procurei compendiar as
ter como objetivo, além de mostrar as grandezas e tesouros da BN, regras gerais e exatas dadas pelas gramáticas dos padres catequistas,
ajudar na constituição de uma história e de uma literatura brasilei- aos quais em última análise também pertencem os escritos existentes
ras, definindo os documentos necessários seja para escrever sobre (...). Em seguida à tradução, conforme o que concordamos, irá uma
o passado nacional, seja para compor aquilo que representaria a espécie de vocabulário das dicções que figuram no manuscrito (...)
(Nogueira 1879: XIV. Grifos nossos).
originalidade de nossa literatura.

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A citação parece deixar claro como as escolhas na forma de apresen- Certamente os Anais estavam muito próximos da publicação do
tação do texto e tudo o que dizia respeito à edição do manuscrito e instituto nesse sentido. No entanto, cremos que podemos encontrar
que pudesse servir ao público (esboço gramatical e vocabulário, por ainda uma terceira função envolvendo os Anais, que acaba por lhe
exemplo) foram previamente acordadas com Ramiz, que controlava conferir um sentido particular: o de promover dentro e fora do país a
a forma como aquele documento deveria chegar ao leitor. Tendo em própria Biblioteca Nacional, dando legitimidade ao trabalho realizado
mente o público específico para o qual se destinava aquele periódico, ali dentro e construindo sua imagem como espaço de saber e inves-
Galvão trabalhava controlando não só o que deveria ser publicado, tigação que, inclusive, permitia ao Brasil acompanhar o movimento
mas também como deveria ser publicado. O público certamente era científico9 literário e histórico das nações mais adiantadas.
pequeno, mas tinha um efeito multiplicador, ou seja, diante de um Em 1877, por exemplo, o diretor redigiu um ofício endereçado à
projeto editorial bem cuidado, como deveria ser o dos Anais, pode- Secretaria de Estado e Negócios do Império. Nele, o bibliotecário
ria se fazer propaganda da própria publicação e de todo o trabalho contava que acabara de ver a publicação dos trabalhos da Assem-
desenvolvido na BN. bleia Legislativa, onde constatou que seriam reduzidas as despesas,
Assim, é possível perceber como os Anais podiam servir a diver- bem como o número de funcionários da BN. Diante de tal situação,
sos fins. Primeiramente, à constituição de um cânone das grandes Galvão diz que se sentiu obrigado a escrever um documento rela-
coleções existentes na BN. Eles se tornaram também um veículo de tando tudo o que foi feito pela BN durante a sua direção. Dentre as
publicação de estudos e de divulgação de documentos selecionados melhorias e as vitórias citadas, lá estavam; em destaque, os Anais
com cuidado, na medida em que eram tidos como fundamentais da Biblioteca Nacional, Foi justamente essa publicação que deu a
para elucidar pontos importantes acerca do passado nacional, e de Ramiz um dos argumentos finais utilizados para que a verba da
instrumento para se comporem cenários e personagens em obras de biblioteca fosse mantida.
literatura. Como lembra Ivana Farreia, os arquivos nesse momento, Assim, no ofício ao ministro do Império, o bibliotecário transcre-
tanto na Europa quanto no Brasil e em outros espaços da América, ve o trecho de uma carta enviada a ele por Ferdinand Denis, além
ganhavam novos contornos e funcionalidades: se até o século XVIII de uma notícia escrita pelo literato português Luciano Cordeiro no
eles eram usados de forma instrumental, para resolver contendas jornal Comércio Português, ambas elogiando não apenas o funcio-
políticas, a partir do oitocentos eles se tornavam imprescindíveis namento da Biblioteca Nacional, mas especialmente exaltando a pu-
para o trabalho teórico. Desde então, houve um esforço não só em blicação. Ramiz é categórico em afirmar que, cessando as aquisições
organizá-los e inventariá-los, mas em abri-los ao público, facilitando de livros e documentos, interrompendo a elaboração de catálogos e
a sua difusão, o que era feito de forma muito eficaz pelos periódicos cancelando a publicação dos Anais, "deixaríamos de acompanhar o
(Farreia 2013: 92). movimento científico, literário e artístico dos países mais adiantados"
Evidentemente, cabe lembrar que antes da edição dos Anais, o Ins- (Galvão 1877). Assim, os Anais constituíam uma porta de entrada
tituto Histórico e Geográfico Brasileiro já fazia circular, desde 1839, e de reconhecimento do Brasil entre os países tidos como modelos.
a Revista do IHGB, dedicada, entre outros, à publicação de docu- A cada novo volume impresso, exemplares eram enviados a diversas
mentos históricos, o que se coadunava com os objetivos primordiais instituições, como a já citada Bibliothèque de Saint Geneviève, a
da instituição, que eram os de coletar, organizar, hierarquizar e Biblioteca de Paris, ou ainda algumas congéneres norte-americanas,
divulgar os documentos essenciais para escrever a história do Brasil. como a Biblioteca da Filadélfia e a Biblioteca do Congresso Norte-

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INTELECTUAIS MEDIADORES

-Americano (Galvão 1878a). Na esteira do reconhecimento externo, década de 1870 representou a reformulação de diversas instituições
vinha também o prestígio interno, por meio de notícias enaltecedoras de saber brasileiras. Assim, pensar esse processo de reorganização
nos jornais, na formação de uma opinião pública reconhecedora da da BN significa considerá-lo nas suas relações com outros espaços
modernização da BN e no aumento de verbas pelo Ministério do similares e requer também compreender a atuaçao dos agentes que
Império (Galvão 1876b). estavam na direção desses espaços. São pessoas investidas de autori-
Antes de terminarmos este tópico e passarmos ao seguinte, gosta- dade para formular e executar projetos políticos e intelectuais e que
ríamos de voltar às questões já levantadas, e que podem ser resumidas estavam diretamente envolvidos com o problema da construção da
na seguinte pergunta: por que este esforço em divulgar o acervo da nação brasileira.
BN em veículos como jornais e em editar os Anais se seções como a Das instituições de saber existentes durante o Segundo Reinado,
de Iconografia e Manuscritos permaneciam com suas salas vazias? o IHGB era, efetivamente, um espaço de destaque, por se constituir
Partindo do que discutimos até aqui, cremos que a resposta pode ser como o núcleo de uma grande teia na qual se concentravam médi-
encontrada na maneira como, naquela época, o Brasil era entendido cos, juristas, engenheiros, poetas, romancistas e professores. Seus
dentro do "concerto das nações", isto é, pelo lugar que o Brasil, país membros atuavam em diversos outros lugares que, por sua vez,
recém-independente, ocupava frente às nações "já consolidadas". Esse mantinham com o IHGB uma relação de simbiose (Bosisio 2014:
lugar era sempre percebido no horizonte da promessa, do jovem país 110-111). Vários são os estudos que analisam o papel desse instituto
que, espelhando-se na velha Europa, se realizaria num futuro. Ao e sua importância na formação de uma história nacional. Um dos
mesmo tempo em que este discurso compreendia a história da nação primeiros trabalhos nesse sentido foi desenvolvido por Manoel Sal-
brasileira dentro da lógica do progresso, ele fornecia um papel e uma gado Guimarães ainda nos anos 1980 (Guimarães 1988). Já nesse
função à BN, A imagem que esses veículos divulgavam corrobora momento, o autor atentava para a importância daquela Casa no
a ideia de que, enquanto o Brasil caminhava como nação, Ramiz e processo de disciplinarização da história no Brasil que, ao contrário
sua equipe agiam na BN, atuando para a formação de um público dos países europeus, não ocorreu nos quadros das universidades, mas
estudioso, para a divulgação dos documentos para se escrever a a partir da fundação de uma academia Mde escolhidos", ligada de
história do país e contribuindo para os futuros estudos nacionais. forma muito próxima aos interesses do Estado Imperial. Partidário
Resta-nos, no entanto, perceber de que forma esse projeto de biblio- de uma história teleológica e partilhando ainda da preocupação
teca formulado por Galvão se relacionava com os objetivos de outras muito própria da Historia Magistra Vitae de tomar do passado
instituições de seu tempo. exemplos para as gerações do presente e do futuro, o IHGB tinha
como um de seus papéis fundamentais localizar as fontes para se
escrever a História do Brasil. Para tanto, tinha a sua revista trimes-
A Biblioteca Nacional e suas relações tral como um dos lugares privilegiados para o cumprimento desse
com outras instituições objetivo (Guimarães 1988).
Esse cuidado em relação às fontes e a concepção de que, antes de
Como vimos até o momento, a gestão de Ramiz Galvão inseriu a se preocupar em escrever a História do Brasil, era necessário coligi-
Biblioteca Nacional num processo de modernização. Mas, certa- -las e organizá-las é algo que aparece claramente nos textos funda-
mente, a BN e seu diretor não estavam sozinhos nesse movimento. A dores do instituto. De acordo com Temístocles Cezar, na primeira

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metade do oitocentos, quando foi fundada a academia, ainda não desses intelectuais que circulavam por ambas as instituições. Assim,
havia muito clara e delimitada a identidade e o papel do historiador. a atividade diplomática, exercida por alguns membros do IHGB,
No entanto, os textos da primeira geração de membros do IHGB mantinha-os em contato com arquivos nacionais e estrangeiros, o
buscaram pensar essas questões, definindo alguns elementos fun- que dava a eles uma atuação bastante prática, na medida em que, de
damentais que caracterizariam o trabalho de seus historiadores. posse dos documentos, passavam a interferir em questões políticas
Esse é o caso, por exemplo, do discurso inaugural de Januário da envolvendo o Brasil e outros países. Algo que também lhes permitia
Cunha Barbosa, que atribuía aos participantes do instituto a tarefa fazer aquilo que era a tarefa maior do historiador na época: coletar
de trabalhar em equipe, estabelecer uma periodização para a his- e copiar fontes e enriquecer os arquivos da Secretaria e do próprio
tória nacional, organizar eventos, hierarquizar fontes e mostrar às IHGB, constituindo um acervo documental para se escrever a his-
nações cultas que os brasileiros também prezavam pelas glórias de tória do Brasil (Bosisio 2014: 110). Ou seja, havia aí uma relação de
sua pátria (Cezar 2004). articulação entre os objetivos das duas instituições e o trabalho de
Em outro texto fundador dos estudos históricos no Brasil, o de seus membros.
Karl Friederich von Martius, é possível perceber algumas diretrizes Convém ressaltar que esse "trabalho em conjunto" não envolvia
dadas pelo escritor bávaro para aqueles que se dedicariam à tarefa de somente o IHGB e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, visto que
escrever a história do Brasil. A importância dos documentos também os membros do Instituto atuavam em diversos outros espaços, como
foi ressaltada, assim como a necessidade dos estudos linguísticos e o Museu Nacional, a BN e o Colégio Pedro II - escola que, criada
a finalidade de tornar o Brasil visível para os próprios brasileiros em conjunto com o IHGB e o Arquivo Público, era uma difusora
(Von Martius 1843). Textos como esse e o de Januário da Cunha do projeto civilizatório das elites imperiais (Mattos 1994). Era co-
Barbosa eram largamente conhecidos, lidos e debatidos no Instituto, mum, portanto, que uma mesma pessoa, ao longo de sua trajetória,
tornando-se referências para os académicos, à medida que concebiam circulasse atuando em mais de uma instituição cultural do Império.
o trabalho em arquivo e a busca por documentos originais como Como não podemos esquecer, Ramiz era um caso exemplar nesse
uma das etapas mais importantes de sua atividade. Destaca-se, nesse sentido: foi aluno e professor do Colégio Pedro II, diretor da BN
sentido, a figura de Varnhagen, que integrou diversas comissões para e membro do Instituto, estando familiarizado com suas leituras e
coletar fontes e, mesmo por conta própria, aproveitou suas atribuições propostas e, em especial, com a preocupação quanto à aquisição de
como diplomata para investigar os acervos de instituições europeias documentos históricos.
e latino-americanas (Cezar 2007). Importante, portanto, é ressaltar a existência de uma rede de
O caso de Varnhagen é interessante, pois é exemplar da própria instituições nas quais o esforço de construir um património docu-
relação que o IHGB mantinha com outras instituições imperiais, mental brasileiro seria comum, pois compartilhavam da tarefa de
como o Ministério dos Negócios Estrangeiros, que englobava tan- coletar e organizar documentos. Isso porque, como já dito, dentro
to a Secretaria de Estado quanto as carreiras diplomáticas. Como dos padrões da escrita da história oitocentista, cada vez mais esse
lembra Rafael Bosisio, dos 27 membros fundadores do Instituto tipo de material se tornava imprescindível para o conhecimento do
Histórico, sete tiveram algum vínculo com o ministério, sendo que passado. Assim, ser historiador, nessa época, perpassava determi-
quatro deles chegaram a ocupar a posição de ministros. Gonçalves nadas práticas que envolviam a pesquisa em arquivos, a transcrição
Dias, Manuel Ferreira Lagos e Varnhagen, por exemplo, são alguns e divulgação de documentos e a própria difusão do conhecimento

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R A M I Z GALVÃO E O PROJETO DE UMA B I B L I O T E C A NACIONAL

histórico, considerando difusão num sentido amplo. Isto é, tanto a e dos governos provinciais, emitir certidões para o governo e para
partir de empreendimentos editorais como a Revista do IHGB e os o público em geral e encarregar-se da concessão de patentes e
Anais da Biblioteca Nacional (nos dois casos, uma difusão para os privilégios" (Guimarães 2002; 55-6). Assim, desde sua fundação, o
pares), como também para o grande público, a partir, por exemplo, Arquivo teria encontrado grandes dificuldades para desempenhar o papel
de veículos como jornais, obras literárias e mesmo o teatro. de lugar de preservação da documentação do Estado brasileiro e de
Em relação a essa questão, Armclle Enders destaca a influência da espaço de auxílio à pesquisa histórica. Isso poderia ser explicado,
Revolução Francesa na dramaturgia e como esse impacto foi sentido segundo Célia Costa, a partir da herança patrimonial legada por
no Brasil, especialmente a partir da montagem de peças "históricas", Portugal à sua ex-colônia, em especial, a "política de sigilo", que
capazes de, por meio da ficção, transportar o público para outras dificultava a recolha e dísponibilizaçao dos documentos. Além disso,
épocas, ensinando a ele sobre os personagens e episódios marcantes do criado em conjunto com o IHGB, o Arquivo Público disputava com
passado nacional. Também aí estavam envolvidos diversos membros ele a função de instituição construtora da memória nacional. Nessa
do IHGB, como Gonçalves de Magalhães, Porto-Alegre e o próprio disputa, saía em desvantagem, pois o Instituto Histórico contava com
Varnhagen, autores de algumas peças teatrais de cunho histórico. mais recursos, com um grau de autonomia muito maior e um grupo
Como lugar de legitimação do saber e do fazer historiográfico, a de membros com considerável influência política. Por fim, enquanto
agremiação também mantinha relações estreitas com o Conserva- o IHGB e o Museu Nacional lidavam com os aspectos mais cultu-
tório Dramático Brasileiro, instância que servia como uma espécie rais da formação da nacionalidade (como a questão da língua, da
de censura às obras teatrais, pois muitos dos membros do Instituto raça, dos costumes e dos mitos que fundavam a nação), ao Arquivo
também atuavam ali. Embora estivessem sabidamente lidando com cabia uma tarefa mais voltada à manutenção da unidade política e
obras de ficção, havia por parte deles o cuidado com a veracidade administrativa (Costa 2000: 11-12). No entanto, a partir de 1870,
histórica, que deveria aparecer no acerto dos figurinos, dos roteiros especialmente sob a administração de Joaquim Pires Machado Por-
e dos cenários, por exemplo (Enders 2014: 113). tela (1827-1907), a instituição passou por uma série de mudanças,
Nesse sentido, o IHGB de fato assumia um caráter nuclear, pois que englobavam a reorganização de seu acervo e a maior abertura
seus membros atuavam em diversas outras instituições e se constituíam ao público (Lourenço 2014).
como autoridades naquilo que dizia respeito ao conhecimento histó- Os relatórios ministeriais atestam a reforma da instituição a partir
rico e sua difusão. O Instituto era, por assim dizer, "a menina dos de 1876, quando foram feitos novos regulamentos, criando a seção ju-
olhos" do governo imperial e contava com o peso político de muitos diciária, que passava a se somar às outras três já existentes: legislativa,
de seus integrantes, o que dava àquela agremiação uma situação finan- histórica e administrativa. Além disso, o documento regulamentava
ceira muito confortável (Guimarães 1988). Mas o mesmo não podia os concursos para novos funcionários, criava um espaço destinado
ser dito em relação a outros espaços, como a Biblioteca Nacional, o a aulas de diplomática e instituía a figura do cronista, que deveria
Museu Nacional e o Arquivo Público. Sobre a primeira, nos referimos escrever a história oficial do Brasil e suas efemérides sociais e políti-
até aqui. Assim, vale a pena analisarmos os outros dois casos, que cas. Para Mariana Lourenço, a partir dos novos estatutos, o Arquivo
guardam similitudes com o da BN. passava a desempenhar mais claramente a função de colaborar para
O Arquivo Público foi fundado em 1838, tendo uma função mais a escrita da história nacional, além de abrir-se para a sociedade,
cartorial, de "recolher documentos oficiais da administração central facilitando a consulta ao seu acervo (Lourenço 2014: 51-52).

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INTELECTUAIS MEDIADORES RAMIZ GALVÃO E O PROJETO DE UMA BfBUOTECA NACIONAL

Foi também na década de 1870 que o Museu Nacional entrou numa Ao contrário do LHGB, o Museu Nacional, a BN e o Arquivo Público
nova fase, em especial sob a direção de Ladislau Neto (1838-1894), tinham que percorrer um caminho muito mais árduo para conseguir â
que assumiu a chefia da Casa cm 1875.5 É interessante percebermos atenção do Estado Imperial e obter recursos para melhorias estruturais
como havia uma proximidade muito grande nas formas de ação de e o aumento do acervo. A década de 1870 foi crucial para essas três
Ladislau Neto, Joaquim Portela e Ramiz Galvão, que partilhavam últimas instituições, na medida em que passaram por processos de re-
demandas semelhantes quanto à necessidade de elevação do número formulação institucional, tendo de definir os seus papéis e a relação que
de funcionários, de renovação de seus quadros, de criação de um mantinham umas com as outras e com o público. No caso do Museu
periódico e, especialmente, em relação à urgência de mais verbas Nacional, seu acervo e seus interesses se voltaram mais para assuntos
(Agostinho 2014: 22). Podemos dizer que Ramiz representou para ligados à antropologia, botânica, etnografia, mineralogia, geografia
a BN aquilo que Neto foi para o Museu, e Portela, para o Arquivo: e paleontografia. A BN, o Arquivo e o IHGB, por seu turno, eram
o agente que dialogava com as instâncias superiores do Império e espaços que se tocavam mais efetivamente, em especial porque todos
que conduziu um processo de reorganização dentro da instituição, estavam interessados em aumentar os seus acervos de documentos
abrindo-a para a sociedade. históricos. Partindo dos relatórios do Império e das correspondências
Nesse período, Ladislau Neto sintonizou o Museu com o que havia que o diretor da BN mantinha com o IHGB, o que percebemos é que
de mais moderno em matéria de ciências da natureza e, assim como havia certa sintonia entre as duas instituições, não fazendo parte dos
aconteceu na BN e no Arquivo, criou uma rotina de serviços por planos de Ramiz rivalizar com o Instituto Histórico, que possuía um
meio da constituição de um regulamento interno posto em execução papel muito significativo e central na construção de urna identidade
também a partir de 1876. Ou seja, foi nesse ano, num processo de nacional. Pelo contrário: ambas as instituições, em diálogo, possibili-
modernização das instituições imperiais, que essas três instituições tariam a escrita de uma história nacional e promoveriam o Brasil para
puderam se reorganizar internamente. No caso do Museu Nacional, os brasileiros e os estrangeiros. Nesse contato e na circulação pelos
também foram criadas novas seções em função das concepções cien- dois espaços, as relações mantidas no interior do Instituto poderiam
tíficas com as quais se procurava dialogar, como o positivismo, o fortalecer os projetos de Ramiz na BN.
E quanto ao Arquivo Público? Nesse caso, as relações pareciam ser
naturalismo e a evolucionismo. Fixaram-se regras para a elaboração
mais distantes. Houve certamente momentos de contato entre as ins-
de concursos públicos e estreitou-se o diálogo entre a instituição e
tituições. Um deles, por exemplo, foi durante a Exposição de História
o público, especialmente a partir do oferecimento de cursos de an-
e Geografia do Brasil, em que a BN pôde contar com o empréstimo
tropologia e botânica. A partir de então, o Museu também passou a
de alguns materiais por parte do Arquivo (Portela 1881). Além disso,
ter uma publicação própria, a revista Archivos do Museu Nacional.
em 1874, quando o Arquivo dava os primeiros passos para sua reor-
Vale lembrar ainda o intercâmbio que Ladislau Neto manteve com
ganização, é a Ramiz Galvão que o Ministério do Império pede que
outras instituições de ciências naturais estrangeiras, com as quais
sejam procurados documentos para enriquecer o acervo daquela Casa:
estabeleceu um sistema de permuta e de troca de materiais (Agosti-
nho 2014: 16-41). Tenho tomado providências não só para que se recolham ao Arquivo
Público todos os documentos, existentes em nossas repartições, que
s Sobre a trajetória de Ladislau Neto, ver: Lopes (2009); Agostinho (2014). nele devem existir, como também para se adquirirem, em original

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INTELECTUAIS MEDIADORES R A M I Z GALVÃO £ O PROJETO DE UMA B I B L I O T E C A NACIONAL

ou por cópia, os que porventura se achem em países estrangeiros, ministérios, instituições e intelectuais que estavam à frente delas.
e possam interessar-nos. Deste trabalho encarreguei o diretor da É justamente aí que vale a pena destacar o papel fundamental de-
Biblioteca Pública, aproveitando sua estada na Europa (Ministério sempenhado por homens como Ramiz Galvão, Joaquim Portela e
do Império 1875: 99). Ladislau Neto, na medida em que se envolveram em diversas práticas
de mediação cultural, como viagens, organização de exposições,
De acordo com Lourenço, a incumbência dada a Ramiz teria edição de periódicos e documentos, dentre outras que permitiram
sido ideia do próprio Portela, que queria aproveitar a presença de que suas instituições passassem a se organizar como lugares de
Galvão na Europa para ampliar seu acervo (Lourenço 2014: 49). produção científica. Assumindo as instituições quase ao mesmo
No entanto, não fica muito claro que critérios eram utilizados para momento, eles possuíam elementos em comum, como a atuação
escolher os documentos que seriam destinados ao Arquivo e à Bi- em outros espaços de saber, notadamente o IHGB. No entanto,
blioteca e podemos presumir que certa dose de interesses pessoais suas trajetórias se separam, a partir do momento em que Ramiz
e institucionais por parte de Ramiz Galvão poderiam definir esses sai da Biblioteca Nacional e é nomeado aio dos príncipes. Se a sua
rumos. Não por acaso, Portela vai se preocupar com essas questões, escolha para se tornar professor do futuro imperador poderia ser
buscando diferenciar o Arquivo - o lugar de guarda de documentos entendida como um coroamento dos serviços prestados à BN e ao
- da Biblioteca, espaço que, para ele, seria destinado exclusivamente Império, ela também pode ser percebida como um anticlímax em
à recolha e guarda de livros (Lourenço 2014: 58-59). No entanto, sua trajetória. Isso porque significou abandonar a BN no momento
essa divisão era mais um desejo do que a realidade. O fato era que em que ela se encontrava em seu auge, ou seja, justamente quando
a Biblioteca Nacional, no seu projeto de se estabelecer como um a instituição alcançava um lugar de destaque entre as instituições
espaço de pesquisa e investigação histórica, investiu bastante na culturais do Império, recebendo, inclusive, reconhecimento inter-
aquisição de fontes de época, recebendo recursos ministeriais para nacional. Portanto, quando Ramiz, como intelectual, ocupava um
isso e rivalizando, portanto, com o Arquivo Nacional. Ao contrá- lugar de referência no ambiente letrado da época. Diferentemente
rio deste, seus estatutos já previam a publicação de um periódico do diretor da BN, Portela e Ladislau Neto ainda dirigiram "suas"
que servisse como veículo importante de divulgação da própria instituições por mais de 25 anos cada um, consolidando seus pro-
instituição, ajudando-a a se configurar como espaço produtor de jetos modernizadores.
conhecimento, na medida em que publicava não só documentos,
como também estudos realizados especialmente pelos funcionários
da Casa. Significativamente, o Arquivo Público só conseguirá um Considerações finais
empreendimento editorial desse tipo dez anos depois e, mesmo
assim, mais concentrado na publicação de peças do acervo do que Nesse texto, buscamos ressaltar, fundamentalmente, dois elementos
de estudos (Lourenço 2014: 164). principais. Um deles refere-se ao projeto de biblioteca construído
No entanto, o que nos interessa ressaltar é justamente esse pro- por Ramiz Galvão, projeto esse que tinha como seu carro-chefe a
cesso de reorganização das instituições imperiais que visava, em publicação dos Anais da Biblioteca Nacional. Galvão se esforçou
última instância, sintonizar o país com a modernidade científica. no sentido de promover a BN dentro e fora do país, dando legiti-
E isso foi feito numa ação conjunta que envolvia o Estado, seus midade ao trabalho ali realizado. Dessa forma, a BN tornou-se um

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INTELECTUAIS MEDIADORES R A M I Z G A L V Ã O E O P R O J E T O DE UMA BIBLIOTECA NACIONAL

espaço de saber e investigação e uma instituição que buscava ajudai Alencar, J. (1871) Discurso proferido na sessão de 1871 da Câmara de
o Brasil a acompanhar o movimento científico, literário e histórico Deputados. Rio de Janeiro: Tipografia Perseverança.
Alencar, M. (1954) Carta a Capistrano de Abreu. 6 de outubro de 1899. In;
das nações mais adiantadas. Assim, os Anais foram concebidos
Rodrigues, J. H. (Org.) Correspondência de Capistrano de Abreu. vol.
como uma porta de entrada e reconhecimento do Brasil entre os
1. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 144-145.
países tidos como modelo. Coordenando uma equipe especializada,
Arquivo Nacional. Ofícios do bibliotecário da Biblioteca Nacional. 1868-
Ramiz assumiu, de fato, o papel de difusor de conhecimentos e de 1882. 5v. MSS.
um homem de ação, na medida em que, diferentemente da figura Biblioteca Nacional. Correspondência ativa e passiva de Ramiz Galvão.
dos bibliotecários que o antecederam, sintonizou a instituição com MSS.
o mundo exterior. Biblioteca Nacional. Relatório referente ao 1° semestre do ano de 1878.
Nesse sentido, o segundo ponto que merece destaque é o papel MSS. Cabral, A. V. (1873) Investigações. O Globo, 1° de março de
de Ramiz como "referente organizacional", para usar a expressão de 1873.
Sirínelli. Ele atuou enfaticamente no trabalho de seleção, edição e (1877) Resultado dos trabalhos e indagações estatísticas da pro-
divulgação de documentos para a escrita da história nacional, orga- víncia do Mato Grosso. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro,
nizando projetos e mobilizando pessoas. Por isso, Ramiz pode ser vol. 3, 69-70.
percebido como um mediador cultural - pois trabalhou dirigindo e Galvão, R. (1874a) Ofício de 7 de fevereiro de 1874. Ofícios do bibliotecário
gerindo instituições, articulando agremiações e redes de sociabili- (1873-1876). Arquivo Nacional. MSS.
(1874b) Ofício de 3 de abril de 1874. Ofícios do bibliotecário
dade, montando exposições e realizando projetos - e também como
(1873-76). Arquivo Nacional. MSS.
editor, na medida em que selecionava e publicava documentos sobre
(1876a) Advertência preliminar. In: Anais da Biblioteca Nacional,
os quais esperava que outros historiadores se debruçassem e produ-
Rio de Janeiro, vol. l, p. VII.
zissem estudos. Era dessa forma que Ramiz atuava como historiador
(1876b) Relatório dos fatos ocorridos na Biblioteca Nacional no
no final do século XIX. segundo semestre de 1876. Ofícios do bibliotecário (1877-1879). Ar-
quivo Nacional. MSS.
(1876c) Relatório circunstanciado dos trabalhos executados na
Fontes Biblioteca Nacional no ano próximo passado de 1875 e no primeiro
semestre de 1876. Biblioteca Nacional. MSS.
Abreu, C. (1954) Carta ao barão do Rio Branco. 25 de novembro de 1886. (1877) Ofício de 15 de agosto de 1877. Correspondência ativa e
In; Rodrigues, J. H. (Org.) Correspondência de Capistrano de Abreu. passiva de Ramiz Galvão. 1877. Biblioteca Nacional. MSS.
vol. 1. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 104. (1878a) Ofício de 15 de junho de 1878. Correspondência ativa e
(1954) Carta a Guilherme Studart. 18 de junho de 1893. In: passiva de Ramiz Galvão. Biblioteca Nacional. MSS.
Rodrigues, J. H. (Org.) Correspondência de Capistrano de Abreu. vol. (1878b) Relatório referente ao 1° semestre do ano de 1878. Biblio-
1. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 144-145. teca Nacional. MSS.
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Rodrigues, J. H. (Org.) Correspondência de Capistrano de Abreu. vol. Ministério dos Negócios do Império pelo Dr. Benjamin Franklin Ramiz
2. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 67. Galvão em 31 de dezembro de 1874. In: Ministério do Império. Relatório

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INTELECTUAIS MEDIADORES RAMIZ GALVAO E O PROJETO DE UMA BIBLIOTECA NACIONAL

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tempos. Belo Horizonte: Autêntica.

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Esses aspectos estarão, como veremos, no cerne da análise, pon-


tual, que pretendemos empreender neste texto sobre os circuitos da
mediação intelectual entre e/ou no Brasil e Argentina, tomando como
base os trânsitos entre a Revista Brasileira e a revista argentina La
Biblioteca, ambas ancoradas na onipresença do modelo editorial e na
autoridade intelectual do famoso periódico francês: a Revue dês Deux
Mondes. Esta revista, conhecida dos estudiosos por ter instituído, no
7. Circuitos da mediação intelectual no Brasil século XIX, um modelo matricial (Louè 2002:57-68), um arquétipo
para as grandes revistas literárias, enciclopédicas e de cultura, teve
e na Argentina: literaturas nacionais e trocas
grande circulação em toda a Europa c na América Latina e, para
culturais transnacionais
o que nos interessa aqui, no Brasil (Dutra 2015) e na Argentina. A
EHana Dutra Revue fixou uma característica chave para esse género de revistas
nos oitocentos, de grande interesse para este texto: a vocação inter-
cultural. Sua leitura pelos homens de letras desses dois países e sua
presença inspiradora de temas e debates acolhidos pelos editores da
Revista Brasileira e da revista La Biblioteca foi, no nosso entender,
Revistas de Cultura e Experiências Intelectuais:
fator importante de abertura e de indução de espaços de diálogo en-
A Revista Brasileira e a revista La Biblioteca
tre ambas, e da concretização de possíveis interações entre as elites
culturais desses dois países com as elites estrangeiras, e, em especial,
No século XIX a circulação das revistas de cultura escreveu páginas
entre as elites intelectuais brasileiras e argentina. Estes espaços, assim,
importantes da expansão da chamada civilização da imprensa: a
se revestiram de um caráter transnacional e transcultural.
abertura cosmopolita dos circuitos intelectuais, o engajamento na
modernidade literária, a inserção nas dinâmicas de construção das No caso da Revista Brasileira é possível perceber muitas afinida-
identidades culturais. Não há hoje quem duvide do status de instru- des e aproximações com a Revue dês Deux Mondes, sobretudo num
mento de mediação e socialização cultural dessas revistas, tampouco determinado período - entre 1895 e 1899 - da longa trajetória dessa
da sua condição de espaço material de formação, intervenção e debate revista no qual foi dirigida pelo crítico literário e escritor brasileiro
para as literaturas nacionais e estrangeiras. Entretanto, analisar o José Veríssimo, e cuja exploração extrapola os limites deste capítu-
fenómeno das mediações culturais através das revistas de cultura lo.1 Convém esclarecer que o período de José Veríssimo à frente da
impõe cuidados com alguns aspectos cruciais, dentre eles a atenção Revista Brasileira coincide com aquele em que o homem de letras,
aos possíveis contextos de mediação, mas, sobretudo, aos movimentos
de construção de novas espacialidades e temporalidades, advindos das 1 Tomamos a decisão de estabelecer aqui nessas páginas iniciais apenas alguns poucos
contrastes entre a Revista Brasileira, na fase José Veríssimo, e a Revue dês Deux Mondes,
experiências nesses contextos; à existência de mediações da recepção; no período em que esta estava sob a direção de Ferdinand Brunetière. Um aprofundamento
aos processos simultâneos de engendramento das identidades e das dessa aproximação está no texto "Lês Revues de Cultures au Brésil dês Huit Cents. Transits
alteridades culturais, de um lado, e, de outro, dos alinhamentos com et appropriations. Lê cãs de ta Revue dês Deux Mondes et de Ia Revista Brasileira", apresen-
tado no colóquio internacional "Crossings. Travessias. Traversées", organizado no âmbito
as culturas hegemónicas; e por fim, a busca da autonomia cultural. do grupo internacional de pesquisa La Circulation Transatlantique dês Imprimes

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escritor e também crítico literário argentino Paul Groussac dirigiu A primeira durou de 1857 a 1861, e ao nome Revista Brasileira
a revista La Biblioteca, 1896-1898. Nessa época a Revue dês Deux vinha acrescentado o complemento Jornal de Ciências, Letras e Ar-
Mondes estava sob a direção de um dos mais eminentes críticos lite- tes. Sua característica principal era uma fisionomia mais científica e
rários franceses, Ferdinand Brunetière, cujos escritos, dentro ou fora técnica, o que a colocou em um patamar bastante diferente das fases
da Revue dês Deux Mondes, foram uma referência para os leitores subsequentes. Já a segunda vigorou três anos, entre 1879 e 1881.
latinos da Revue e os admiradores da cultura francesa. Conhecida como fase Midosi, por causa do nome do seu diretor,
Não nos surpreendemos ao verificar que José Veríssimo - crítico Nicolau Midosi, o qual se reuniu com um grupo de jornalistas e
literário, homem de letras de grande reputação no Brasil de sua época, "amadores das boas letras", assim definidos por José Veríssimo, tal
simpatizante do positivismo e do naturalismo literário, leitor da Revue como Balduíno Coelho, Franklin Távora, Moreira Sampaio, Borges
dês Deux Mondes, como a maioria das pessoas cultivadas no Brasil, Carneiro e Cândido Rosa, que então assumiram a responsabilidade
apreciador dos escritos de Brunetière, admitia que a Revista Brasileira pela publicação. Um dos seus principais objetivos era a ilustração dos
tinha como alvo se colocar em paralelo, ou no mínimo se aproximar do leitores, conforme se verifica no artigo da direçao no seu primeiro
nível de qualidade da revista francesa, a qual ele também considerava tomo.3 Publicada em números mensais, organizados em tomos tri-
um modelo de referencia internacional no campo editorial. mestrais, tamanho in-oitavo, seu número de páginas variava entre
De fato, a Revista Brasileira buscou essa aproximação no que 500 e 600.
concerne ao seu objetivo, os temas, os artigos, as citações, as recen- Nesse período algumas similitudes com a Revue de Deux Mondes
sões etc. E podemos facilmente verificar que a estrutura da revista eram já visíveis, a exemplo de sua atração sobre os homens de letras
se parece muito com a da Revue dês Deux Mondes: seu tamanho, e a emulação do talento literário desses, fato admitido por José
a disposição gráfica, a divisão dos assuntos, a difusão preferencial Veríssimo, que foi, nesta fase, um dos principais colaboradores da
através de assinaturas, algumas vezes a temática dos artigos e a con- revista da qual viria a ser posteriormente diretor. Durante a gestão
vergência seja dos temas, seja das opiniões de seus colaboradores. de Midosi a Revista Brasileira contou com a colaboração dos mais
Mas, sobretudo, o que a Revista Brasileira mais conservou foi o estilo notáveis homens de letras de então, a exemplo de Machado de Assis,
de trabalho intelectual pelo qual assegurou espaço para a publicação de Sylvio Romero, Souza Bandeira, Alfredo Taunay, Capistrano de
ensaios, de romances, de obras sobre história, de textos de juristas e, Abreu, Ramiz Galvão, entre vários outros, tendo acolhido em suas
sobretudo, de crítica literária. páginas capítulos do livro de Sylvio Romero, História da literatura
Para situar os que não conhecem ainda a Revista Brasileira, é brasileira-, o célebre romance Memórias póstumas de Braz Cubas, de
importante explicar que, apesar da sua longa existência e da perma-
nência de seu nome, sofreu, sobretudo durante o século XIX, forte 3 "O povo brasileiro (...) não está ainda preparado para consumir o livro, substancial ali-
solução de continuidade, tendo passado por três fases diferentes com mento das organizações viris e fortemente caracterizadas. Faltam-lhe as condições de gosto,
instrução, meios, saudáveis direções de espírito, sem as quais não se pode cumprir a livre
longas interrupções.2 obrigação que equipara o artesão ao capitalista, o operário ao literato, o pobre ao milioná-
rio - a de comparar, ler e entender verdades ou ideias coligidas em um volume, cuja leitura
demanda largo fôlego e que o estudo requer tempo de que o povo em geral não dispõe. A
revista, transição racional do jornal para o livro, ou antes laço que prende estes dois géneros
2 Interrupções de 18 e 14 anos, respectivamente. Depois da terceira fase que se finda em de publicações, afigura-se-nos por isso a forma natural de dar ao nosso povo conhecimentos
1899, a última no século XIX, a Revista Brasileira só será publicada de novo, em contexto que lhe são necessários para ascender a superior esfera, no vasto sistema das luzes humanas.
e perspectiva diversos, em 1934. Revista Brazileira. Artigo da Direçao. Ano I, Tomo I, junho de 1879, p. 5.

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Machado de Assis; o José de Alencar, livro escrito por Araripe Júnior, da vida nacional, muito embora ressaltando seu caráter apartidário,
entre outros. Deve-se destacar ainda que a revista, nesse período, não afirmava não pretender que a Revista Brasileira ficasse alheia a essa
se furtou a publicar artigos de debate, a exemplo do mais candente reorganização. Diante dissos declarava a posição "Republicana, mas
dos temas políticos da década de 80 dos oitocentos: a questão da profundamente liberal" da revista, disposta, segundo ele, a acolher
emancipação dos escravos. controvérsias "que não se achem em completo antagonismo com a
A terceira fase, designada como fase José Veríssimo, de 1895 a inspiração de sua direção". Na afirmação da sua autoridade como
1899, foi no nosso entendimento um momento distintivo de sua editor, Veríssimo não descuidou de salientar que a revista seria uma
trajetória, aliás, bastante particular. Foi nesse período que a revista tribuna aberta à manifestação livre das opiniões, mas, ressaltando
contou com a maioria dos colaboradores da chamada fase Midosi e que para "os que tenham alguma cousa que dizer e saibam dízê-la".
outros de igual reputação, a exemplo do filólogo João Ribeiro, e o Portanto cabia a ele decidir sobre o dito e a pertinência do que era
papel da Revista Brasileira se afirma de forma bastante inequívoca dito nas colaborações encaminhadas.
no engajamento da construção de uma cultura intelectual identitá- Não por acaso, o Veríssimo editor fez questão de enfatizar que a
ria, cujo elemento central se focou no esforço de afirmação de uma Revista Brasileira, em nova fase, guardou com suas gloriosas anteces-
literatura brasileira. soras apenas o laço dos mesmos ideais, quais sejam, o de servir, com
Embora admitamos a existência de pontos de contato entre as fases "dedicação e sinceridade, à causa da cultura nacional" (Veríssimo
Midosi e Veríssimo, este, no seu texto de apresentação no primeiro 1895:1-2). É evidente, portanto, a disposição de Veríssimo, como
tomo de 1895 (Veríssimo 1895: 1-2), o qual inaugura sua presença editor, de estabelecer uma separação, um corte mesmo entre ele e seus
como diretor da Revista Brasileira, já deixa claras as novas coordena- antecessores, inaugurando assim um novo momento para a Revista,
das editoriais da publicação em pontos bem explicitados. O primeiro que ficava submetida aos objetivos do editor, ao seu papel de media-
deles é o objetivo de "dar ao pensamento brasileiro, em todas as suas ção, à sua sensibilidade intelectual, à sua interpretação da atividade
variadas formas, um meio de expansão", o que significa admitir a editorial. Este papel do editor é ainda mais marcante e vivível no caso
existência de um lastro, ou melhor, de um movimento intelectual em das revistas enciclopédicas e de cultura, como a Revista Brasileira,
curso no Brasil do final dos oitocentos. Sua perspectiva é que a Revista que, tal como a Revue dês Deus Mondes, realizava um trabalho de
Brasileira, sob sua orientação, fosse o "centro de convergência e de recolhimento e de reunião de informações dispersas (Regníer 1994:
irradiação das manifestações da vida espiritual". 294),4 os quais organizavam suas rubricas: a poesia, o romance, o
Ainda que em sintonia com Midosi admitisse que a revista era teatro, as ciências, a filosofia, a medicina, as viagens, os estudos da
um veículo mais eficiente que o livro e o jornal, a perspectiva de arte e da literatura, a crítica, a história, a economia, as questões
José Veríssimo é menos pedagógica e de formação do que a de seu políticas da ordem do dia, a evolução política e social.
antecessor, sobretudo por pretender que a revista tivesse uma fun- Ao mobilizar todo esse conjunto, organizado trimestralmente, tam-
ção social, qual seja, a de congregar os estudiosos da vida nacional, bém in-oitavo e em torno de 400 e 500 páginas, a Revista Brasileira
criando e estreitando laços entre os escritores do país, uma vez que buscou ampliar seus diálogos com outros interlocutores, incluindo
suas vozes nos âmbitos das letras, ciências e artes seriam "os órgãos
do sentir e do pensar nacionais". Consciente de que a publicação da * Segundo o autor, uma revista atua dessa forma propondo um "fo«r d'horizon, pour
revista coincidia com um período de "reorganização política e social" assurer un panorama p/ws large".

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seus vizinhos latino-americanos. Mas ela o fez a partir de seu espaço, de 246-249). De toda forma, suas páginas se tornaram um instrumento
seu lugar no interior de um processo em curso, depois de 1870, de cons- de legitimação e consagração dos escritores, o que será assumido e
trução e de transformações das tradições nacionais em alinhamento realizado posteriormente de forma plena e continuada pela ABL.
com os ideais republicanos. Portanto esses diálogos com o estrangeiro,
que fazem parte, neste contexto particular, do que Werner (1994:4-26) Por seu lado a revista La Biblioteca foi dirigida entre 1896 e 1898
chamou de "comércio cultural das nações", se deram no interior do pelo não menos prestigioso Paul Groussac, diretor entre 1885 e 1929,
projcto intelectual da Revista Brasileira,, nucleado, na fase Veríssimo, da Biblioteca Nacional. Como vemos, sua presença à frente de La
na formação de uma consciência da nacionalidade e na construção de Biblioteca se deu durante um período quase coincidente com aquele
uma literatura nacional. José Veríssimo levou para a Revista Brasileira que José Veríssimo dirigiu a Revista Brasileira. Membro importante
sua condição de engajamento pela cultura nacional alinhado com "um e ativo da intelectualidade argentina, imigrante de origem francesa e
bando de ideias novas" que chegavam ao Brasil de sua época, tal como que durante toda a sua vida intelectual guardou forte ligação com
foi expresso por Sylvio Romero (1926: XXIII-XXIV). a cultura do seu país de origem, escritor, ensaísta, crítico literário
Nesta perspectiva a Revista Brasileira tomou posição a favor da e musical, historiador, Paul Groussac planejou, tal como expressou
ideologia da nacionalidade literária: fez da crítica literária sua mo- no texto de abertura da revista, também intitulado La Biblioteca
dalidade discursiva principal, e tal como seu inspirador Ferdinand (Groussac 1896: 5-8), que essa seria uma publicação mensal de his-
Brunetière fez na Revue dês Deux Mondes, como nos lembra Loué tória, ciência e arte, de trabalhos inéditos e - segundo seu desejo e/
(2003: 42), utilizou a crítica como "arma de combate e modalidade ou afirmativa protocolar, como era comum aos editores de revista
essencial de sua expressão pública". E a Revista Brasileira se trans- à época - independente em termos científico, literário, político e
formou assim em um espaço legítimo e autorizado de crítica e de filosófico. Também no formato in-oitavo, periodicidade mensal, e
outorga de prestígio intelectual, e legitimou a Academia Brasileira organizada em volumes quadrimestrais, La Biblioteca possuía em
de Letras como o lugar por excelência da literatura. torno de 600 páginas e circulou em várias capitais onde tinha repre-
Não por acaso, as relações entre José Veríssimo, a Revista Brasileira sentantes: Lima, Rio de Janeiro (F. Briguiet), Montevidéu, Assunção,
- no período em que ele a dirigiu - e a Academia Brasileira de Letras Santiago do Chile, Cidade do México, Madri, Paris.
(ABL), da qual ele foi um dos membros fundadores em 1897, foram O entendimento do seu organizador do que seria o espírito geral
bastante estreitas. Aliás, o endereço disponibilizado aos leitores e co- da revista, com grande proximidade com o da Revista Brasileira
laboradores da Revista Brasileira na fase José Veríssimo era ponto de c expresso no texto de abertura anteriormente mencionado, era o
reunião dos escritores envolvidos com o projeto de criação da ABL.5 "da crítica mais imparcial e ampla, do bem entendido liberalismo,
E num artigo em que José Veríssimo rebateu uma crítica da revista estranho a toda preocupação estreita de seitas, partido ou círculo".
francesa Revue dês Revues à Revista Brasileira, ele insistiu em dizer Seu pedido aos colaboradores era o de atenderem a quatro exigências
que "a Revista Brasileira não é órgão oficial nem oficioso da Acade- definidas por ele como "correção e compostura da forma, unidas
mia Brasileira, que possui, aliás, no seu Boletim, o seu órgão oficial. à sinceridade de fundo e à sólida informação". A expectativa de
A Revista é apenas órgão dos seus colaboradores" (Veríssimo 1898: descobrir e estimular escritores e novelistas adormecidos justificaria
La Biblioteca como um periódico realizador da melhor propaganda
Segundo informações do www.academia.org.br/revistabrasileiray intelectual da Argentina.

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Tratava-se de uma revista, pelo menos em tese, de caráter institu- da revista La Biblioteca. A saída encontrada foi prever a colaboração
cional. Entretanto, no texto que abre o seu primeiro tomo, Groussac de "homens de pensamento e escritores de valia, residentes em outras
afirma a condição de La Biblioteca como revista subvencionada, mas repúblicas sul-americanas", ou que já viviam na Argentina, de forma
nega que se tratava de uma "publicação oficial". Enquanto publicação a que "se coadune este intercâmbio de ideias e comuns aspirações, a
de iniciativa da direção da Biblioteca Nacional, contava, segundo ele, criar o vínculo solidário e fraternal que as declarações e os protocolos
com "a cooperação espontânea do Congresso argentino". Sugerindo procuram de maneira vã".
a existência de polémicas sobre o status da revista e o papel do então Valendo-se de imagens organicistas tão a seu gosto, expõe seu
diretor da biblioteca na sua direção, já no nascimento da revista La otimismo de que a revista conquistasse leitores dizendo que "a neces-
Biblioteca, Groussac frisou no editorial, que ele nomeia de prefácio, sidade cria o instrumento" e que "não raro a presença inesperada de
em nota acrescida ao final do texto do primeiro número, que a deci- um órgão novo determina e estimula a função". Daí a sua crença na
são de a cada número publicar documentos inéditos, pertencentes ao cooperação intelectual que o levaria a acreditar que "não era impossí-
fundo de manuscritos da biblioteca, não se deveu a nenhum tipo de vel que ao longo do tempo responda o público ao nosso chamamento,
"imposição governativa". Mas, ao contrário, a uma aquiescência à e que encontremos para nossas páginas a audiência e o concurso me-
solicitude da revista mesma, propiciando, então, uma troca completa recidos". E colaboradores de peso não lhe faltaram, dentre os quais
de favores: "realizando, com este traço de liberalismo, um traço de Ernesto Quesada, Bartolomé Mitre, Leopoldo Lugones, Ricardo
liberalidade". Gutiérrez, Manuel Cané, Rubén Darío, Nicolás Aveilaneda, Martin
Definindo a revista como um organismo, em consonância com a Garcia Mérou, Carlos Pellcgrini. La Biblioteca também publicou es-
tradição cientificista/organicista europeia tão em voga na segunda critos históricos de Vicente Fidel López e de personagens famosos da
metade dos oitocentos nos países latino-americanos, Groussac se história e da vida intelectual argentina, como Juan Bautista Alberdi,
inquietava com o destino da revista cuja existência, segundo suas Domingo Faustino Sarmiento e Esteban Echeverría.
palavras, "depende por igual de suas qualidades próprias e do meio Polemista combativo, de pena afiada, Paul Groussac antes, durante
em que deveria atuar". Ciente de que a revista, para se justificar, pre- e depois de La Biblioteca se envolveu em inúmeros debates com auto-
cisava ser "interessante e útil", admitia que era igualmente necessário res e obras, dentre os quais se podem contabilizar nomes de grande
que se aproximasse dela um grupo de leitores, e afirmava que estas envergadura intelectual e política da Argentina, tais como: Miguel
eram, de saída, algumas das objeções que o projeto da revista teria Cainés, Bartolomé Mitre, José Manuel Estrada, José Ingenieros,
encontrado. Sua inquietação com os leitores advinha da percepção de Leopoldo Lugones, entre outros (Bruno 2011:107-146). Estas polé-
que uma publicação como La Biblioteca estava distante "da impro- micas6 têm sido avaliadas como uma das estratégias utilizadas por
visação diária e noticiosa". Neste ponto Groussac aludia claramente Groussac para posicionar-se no campo intelectual argentino.7 Seu
aos jornais e implicitamente definia o patamar da "linhagem de
produções" à qual La Biblioteca estaria vinculada. A essas objeções, 6 Também sobre Paul Groussac, sua atuação intelectual na vida cultural argentina e como
que ele se dispunha a enfrentar com coragem e com a esperança polemista, em particular suas polémicas com Sarmiento, ver as interessantes análises de
Mariano Siskind e Paul Groussac em Lacra (2010).
de que o primeiro número da revista serviria para "debilitá-las", 7 Siskind desconsidera, em contraste com Paula Bruno, as motivações pessoais do autor, a
se somaria a possível dificuldade de não se encontrar na Argentina favor da tese de que as polémicas de Groussac buscaram estrategicamente formatar os espaços
literários e historiográficos daquele campo intelectual, especialmente a partir de seu posto
número suficiente de colaboradores para prover os números mensais de direção na Biblioteca Nacional no Brasil.

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perfil, no tocante ao estilo de suas contundentes polémicas e conten- foi ocupado, a partir de 1900, por outra publicação importante,
das, sobretudo as literárias, o aproxima no Brasil mais até de Sylvio também sob a direção de Paul Groussac: os Anales de La Biblioteca
Romero do que de José Veríssimo, polemista c publicista importante Nacional* que manteve relações próximas e de cooperação com a
de cuja ação editorial vamos nos aproximar neste texto, Tanto ele, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Tesier 2004: 60). Neste epi-
segundo seus estudiosos, como Sylvio Romero e José Veríssimo vão sódio, Groussac foi acusado de exorbitar nas acusações a Norberto
se valer da polémica como um instrumento de atuação e de ação Pinero e no desrespeito à autoridade constituída - afinal Pinero
política no espaço público. O diagnóstico feito para a Argentina exercia funções diplomáticas na altura da contenda - e também de
em torno de Groussac não é muito diferente do realizado no Brasil cm se valer da revista La Biblioteca, órgão da Biblioteca Nacional, como
torno de José Veríssimo e Sylvio Romero (Ventura 1991), afinal na se fora sua propriedade. La Biblioteca, depois deste episódio, só
perspectiva da época "cabia à polémica contribuir para o processo teve sua publicação retomada muitos anos mais tarde, por iniciativa
de seleção e depuração das obras e dos escritores" (Ventura 1991: de Jorge Luis Borges, quando este assume, em 1937, a direção da
80). Não obstante a motivação personalista que, segundo Ventura, Biblioteca Nacional.
era "uma forma de se enfatizar retoricamente sua individualidade Tal como a Revista Brasileira, La Biblioteca também se inspirou
[adversários] e originalidade" (Ventura 1991: 78). na Revue dês Deux Mondes, tanto na sua estrutura de organiza-
No tocante a Groussac, não por acaso, o escritor Jorge Luis Borges, ção, na forma física, quanto no projeto editorial. O escritor Rubén
quando da morte de Groussac em 1929, escreveu que ele possuía "a Darío chegou a afirmar "Líz Biblioteca^ es (...) nuestra Revue dês
santa cólera da inteligência" e que "teve um prazer desinteressado Deux Mondes" (Bruno 2011). Daí que a Revue dês Deux Mondes,
pelo desdém. Seu estilo se acostumou a depreciar, creio que sem maior como uma espécie de eminência parda, cimentou de forma decisiva as
incómodo para quem o exercia" (Borges 1974:233-234). A confirmar semelhanças entre La Biblioteca e a Revista Brasileira: a topografia
esse juízo de Borges estão suas críticas ao grande escritor e homem de interesses, certas escolhas e preferências temáticas a exemplo das
político Faustino Sarmiento, a quem não poupou ao designá-lo como questões científicas e culturais, a perspectiva erudita e civilizatória, a
"um tipo excepcional, rara mescla de elevação e vulgaridade" (Bruno natureza ambígua, por vezes tensa com a presença da cultura francesa,
2001: 119). E foi mais longe ao associar Sarmiento aos personagens na sua oscilação entre a atração, o culto, e a rejeição. Ao mesmo tempo
cujos traços e ação política ele mais combateu, ou seja, o bárbaro e se pode notar em ambas a valorização das abordagens especializadas
o ditador, chamando-o de "Facundo Quiroga da literatura", o "Juan e científicas, tal como no campo da crítica literária e das ciências,
Manoel de Rosas da intelectualidade" (Bruno 2001: 120). a exemplo da ciência histórica, e a presença insidiosa de referências
O mesmo estilo se manifestou na contenda com o escritor c his- aos autores franceses, a exemplo de Taine, Renan, Daudet, Victor
toriador Norberto Pinero. A polémica com este último (Teslcr 2004: Hugo, Brunetière, Bourget, Flaubert, Zola, os irmãos Goncourt, e
41-49), de natureza claramente historiográfica, se deu através de um vários outros, a qual atravessou boa parte dos artigos de crítica e os
estilo de prosa designada por Borges de "mortal e punitiva" (Borges importantes debates sobre a literatura brasileira e argentina.
1974: 233). Esta polémica acabou sendo mortal para um dos mais Na mesma trilha de atuação de José Veríssimo no Brasil, à frente
caros projetos de Groussac, pois esteve na base da interrupção, po- da Revista Brasileira, Paul Groussac fez de La Biblioteca um espa-
liticamente estratégica e por iniciativa do próprio Paul Groussac, da ço essencial para o desenvolvimento da vida intelectual argentina.
publicação da revista La Biblioteca (Tesier 2004: 41-49). Seu lugar Ambas foram ao mesmo tempo lugares de prestígio, legitimação

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e consagração intelectual e de afirmação da profissionalização da cão, de feição, a nosso ver, transnacíonal, instrumentalizado pelas
atividade literária. Como as suas demais congéneres, essas revistas, revistas e seus editores.
enciclopédicas e de cultura foram um instrumento de formação de Alguns textos da Revista Brasileira foram nosso ponto de parti-
opinião, de educação dos leitores, fonte de informação e, enfim, um da preferencial e nos serviram de guia para, de forma exploratória,
vetor de circulação e de trocas culturais com a Europa - sobretudo localizarmos e capturarmos esses contrastes, assim como os esforços
via a Revue dês Deux Mondes - e a América Latina. Tanto uma de contato e as iniciativas concretizadas. Um artigo, de 1895, de
quanto outra foram instâncias de construção e representação dos Mário Alencar, filho do escritor José de Alencar, intitulado "Letras
"autores", de comunicação e legitimação da literatura e também de americanas", destinado a apresentar ao leitor brasileiro um texto de
programas político-culturais nacionais. Também foram instâncias Bartolomé Mitre, publicado com este mesmo nome na revista La
de visibilidade de conteúdos e tendências intelectuais, bem como Biblioteca; um artigo, publicado em duas partes, também no ano de
exerceram a mediação de obras literárias, ensaios, crítica literária, 1895, "Um literato argentino. D. Martin Garcia Mérou", de autoria
resenhas bibliográficas, antologias, os quais conformaram instân- do visconde de Taunay; uma longa conferência de Graça Aranha,
cias discursivas na formação de um cânone de leitura e de tradição proferida no Ateneo de Buenos Aires sobre o tema "A literatura atual
literária. Sem desconhecer a instabilidade e a mobilidade das rela- no Brasil", publicada na Revista Brasileira em 1898. E para ampliar
ções múltiplas entre os textos e seus leitores, e as também múltiplas esse contraste, e nos limites deste texto, uma rápida passagem sobre
apropriações possíveis, é inegável que essas revistas operaram uma algumas partes do livro El Brasil Intelectual. Impressões e Notas
forma de transação dessas obras com o mundo social, nacional, de Literárias, de 1900, de Martin Garcia Mérou, o qual foi embaixador
seus leitores (Chartier 2012), para o que a interação e as trocas com e ministro plenipotenciário da Argentina no Brasil no período em que
outros países e culturas foram fundamentais. José Veríssimo dirigiu a Revista Brasileira e com quem estabeleceu um
diálogo intelectual cuja marca pode ser identificada nos seus escritos
sobre a vida intelectual brasileira. Seu livro foi publicado através de
Dos trânsitos, dos diálogos e das tópicas iniciativa diplomática e oficial do governo argentino, na ocasião da
visita do presidente Campos Sales àquele país (Sorá 2003: 86).
Esta rápida passagem histórica pela Revista Brasileira durante o O livro de Mérou sobre o Brasil se reveste de uma importância
"período" José Veríssimo e também pela La Biblioteca, dirigida pelo toda especial para nós.8 Ele foi parcialmente publicado (25 dos 39
escritor e homem de letras Paul Groussac, nos foi necessária para capítulos), em primeira mão, na prestigiosa revista argentina La
avançarmos e podermos mostrar como foi fundamental o papel de Biblioteca. A sua interrupção em 1898 não permitiu que se com-
mediação intercultural das revistas enciclopédicas e de cultura, bem pletasse sua publicação nesse periódico. A presença nas páginas de
como de outras formas de trânsitos entre os intelectuais desses dois
países, a exemplo de missões diplomáticas e conferências, os quais H Esse livro teve grande repercussão no Brasil e foi objeto, entre outros, de um artigo de
Araripe Júnior na imprensa brasileira, no caso na Gazeta de Notícias em novembro de 1900,
nos serão bastante úteis para pensar os contrastes estabelecidos dando sequência ao interesse que este autor já havia manifestado pela obra de Mérou. Não é
com os vizinhos latino-americanos e as imagens discursivas daí nosso objeto aqui avançar com a análise da sua recepção no Brasil, mas gostaríamos de assi-
nalar que cartas de brasileiros foram endereçadas a Mérou a propósito do seu livro El Brasil
decorrentes, bem como os diálogos entre brasileiros e argentinos, Intelectual, a exemplo do político Quintino Bocaiuva, conforme documentos encontrados
os quais se deram no interior de um espaço intelectual em constru- no Arquivo General de Ia Nación, na Argentina, no Fundo Biblioteca Nacional.

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La Biblioteca do livro de Mérou, El Brasil Intelectual - com suas em Paris com a duração brevíssima de dois números - em textos da
várias referências à Revista Brasileira e ao crítico José Veríssimo, e lavra de J. M. Pereira da Silva e Diogo José Gonçalves de Magalhães.
suas análises sobre a vida intelectual brasileira, com seus autores, Deste último é conhecida sua frase "Cada povo tem sua literatura,
obras e ideias -, se constituiu num ato de mediação fundamental no como cada homem seu caráter, cada árvore o seu fruto". E Joaquim
trânsito cultural entre Brasil e Argentina, no momento em que esses Norberto por seu lado afirmava, na mesma revista, o paralelismo da
países se viam às voltas com a construção de suas literaturas nacio- marcha entre literatura e civilização, as letras e o desenvolvimento
nais e de um pensamento intelectual autónomo. A obra de Mérou, é da sociedade e do indivíduo reforçadas na afirmação: "Quanto mais
preciso assinalar, se deteve na reconstituição dos fios que ligavam o se espalha o gosto e a independência da literatura em uma nação,
pensamento intelectual no Brasil, seja na filosofia, na literatura, nas tanto mais ela floresce e medra". E em sintonia com Gonçalves de
ideias políticas, ou na crítica literária, com o pensamento europeu. Magalhães endossa a necessidade de os literatos brasileiros seguirem
E o autor não descuidou dos contrastes do movimento intelectual sua inspiração "sem se submeterem às regras incoerentes, que bebemos
brasileiro com o de seus vizinhos da América Latina. com o cativeiro da nossa Pátria" (Magalhães 1836:132-159; Pereira
Este gesto de mediação se fez presente também nos artigos da da Silva 1836: 214-236).
Revista Brasileira^ aqui escolhidos, e em outras iniciativas de contato A expansão desse princípio de uma relação necessária entre litera-
acionadas de ambos os lados, deixadas a ver pela revista e, é preciso tura e nacionalidade, portanto, se aprofundou, no Brasil na segunda
assinalar, em vários outros artigos sobre diferentes temas da realidade do século XIX, sem, entretanto, se constituir em obstáculo para as
latino-americana presentes na Revista Brasileira e que extrapolam trocas, as inversões e os contrastes nos jogos de espelhos que vão se
este texto. estabelecer entre a literatura brasileira e as demais literaturas nacio-
O artigo do escritor Mário de Alencar em que ele comenta o texto nais no continente latino-americano, os quais fizeram prosperar certas
de Bartolomé Mitre nos deu uma pista importante para a ideia que teses, traduzidas por tópicas e imagens identitárias nas quais avulta
queremos desenvolver aqui. A de que a dinâmica de construção das um autorretrato em negativo frente aos modelos europeus.
literaturas nacionais na América Latina foi feita de ideias, de diag-
nósticos e imagens discursivas compartilhadas e não necessariamente
elaboradas em uma chave simplista de oposição e competição a lhes A busca do outro
separar. A máxima de "a cada nação sua literatura", como estabele-
cida pela Revue dês Deux Mondes (Régníer 1994:294) como critério Uma dessas tópicas é a do desconhecimento mútuo dos movimentos
para a devida definição e apreciação da produção literária, embora literários entre os países da América Latina e a urgência de ultrapassar
estratégica para os intelectuais da Revista Brasileira^ como de resto tal situação. Mário de Alencar iniciou seu texto sobre o artigo "As
para a intelectualidade latino-americana, não impediu as comparações letras americanas", de autoria de Bartolomé Mitre (1897:61-77), afir-
e os contrastes, os quais, ao invés de separá-los, os aproximou em mando o quão pouco se sabia, no Brasil da época, sobre a produção
torno de um empreendimento comum. Essa máxima, é preciso assi- literária das nações hispano-americanas (Alencar, 1897, p. 51-55).
nalar, no Brasil foi pioneiramente colocada em circulação já em 1836, O escritor argentino Martin Garcia Mérou, de sua parte, abriu seu
no âmbito do debate político da consolidação da Independência, nas livro sobre o Brasil intelectual publicado em primeira mão na revista
páginas da famosa Revista Nitheroy - periódico brasileiro publicado La Biblioteca e posteriormente em edição de 1900, também a partir

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dessa tópica, afirmando que "de todas as literaturas sul-americanas quem suspeita da existência de artistas distinguidos, de poetas refina-
nenhuma é tão pouco conhecida entre nós como a brasileira (Mérou dos e pensadores eminentes como Eduardo Prado, Coelho Neto, Raul
1900:1). Menciona o fato de que na Argentina se recebia de quando Pompeia, Afonso Celso, Lúcio de Magalhães, Raymundo Corrêa,
em vez um ou outro livro do Peru, do México, da Venezuela, da Olavo Bilac, Aluísio Azevedo, (...) João Ribeiro, Fontoura Xavier e
Colômbia, mas que só raramente um nome de maior ressonância tantos outros ficaria longo enumerar? (Mérou 1900: 2-3).
rompia, segundo suas palavras, "com a incomunicação intelectual
que separa as seções do nosso continente". E Mérou continua seu Diante dessa enumeração Mérou admite confessar sua surpresa frente
lamento dizendo que: à variedade e valor real da produção literária brasileira, e diz ter se
perguntado mais de uma vez como ela pôde passar despercebida até
O grosso da produção científica e literária, a história, a crítica, então,9 já que o Brasil estava ligado à Argentina por laços estreitos.
os estudos jurídicos estão destinados a repousar como uma muda Afinal, a história política dos dois países, no seu juízo, estava em
necrópole, nas bibliotecas públicas ou em meio às coleções valiosas contato desde os tempos coloniais, e ele cita várias circunstâncias de
de eruditos de raça, que só muito raramente folheiam suas páginas uma história de aproximações da participação conjunta em guerras,
empoeiradas. Este triste destino é o lote geral de todo o trabalho aos interesses comerciais solidários, aos modelos das instituições
intelectual do Novo Mundo (Mérou 1900: 2). políticas, e o choque com os obstáculos para levar à prática seus
princípios liberais para então se perguntar:
Seu olhar sobre a sorte dos autores argentinos é melancólico, pois os
únicos que teriam conseguido "salvar as fronteiras da pátria", e serem Como compreender com esses antecedentes ao alheamento respectivo
reconhecidos fora da Argentina, foram, no seu entender, Guido Spa- em que vivemos; como desculpar a mútua ignorância em que nós
nao Y Andrade e Mármol. Este, embora envelhecido, segundo Mérou, falamos de nossas modalidades nacionais, de nossas virtudes nativas,
despertava entusiasmo por causa de suas imprecações contra o ditador de nosso estado de civilização e de cultura, da forma e importância de
nossas produções intelectuais? {Mérou 1900: 3-4).
Juan Manoel de Rosas. Também Sarmiento e Alberdi, que no exílio,
teriam deixado suas marcas no Chile, embora marcas mais ténues do
que as deixadas, por exemplo, pelo venezuelano Andrés Bello. Apesar da realidade do desconhecimento mútuo assinalado por
No que diz respeito ao desconhecimento do Brasil na Argentina, Mérou, não se pode desconhecer que José Veríssimo e Sylvio Romero
Mérou indaga: "A quantos de nossos jovens escritores são familiares foram colaboradores, ao lado de vários autores da América Latina, da
as produções de Rui Barbosa, de Joaquim Nabuco, ou José Carlos Nueva Revista de Buenos Aires (1881-1885), criada pelos não menos
Rodrigues; as novelas de José de Alencar ou de Machado de Assis; prestigiosos intelectuais argentinos Vicente Y Ernesto Quesada. Em
os ensaios críticos de Sylvio Romero, de José Veríssimo, de Carlos de 1883 essa revista, que foi considerada uma influência nacional sobre a
Laet, de Araripe Júnior?" E ele insiste: revista La Biblioteca (Bruno 2011:121) - a internacional foi a Revue

Quantos (...) suspeitam que existe no Brasil (...) aquela formosa


9 A recíproca não é menos verdadeira. Um dos poucos textos conhecidos no Brasil dos oi-
Inocência, cuja história está contida em uma obra encantadora do tocentos sobre a literatura argentina antes da Revista Brasileira é o de Joaquim Norberto de
Visconde de Taunay? E para vir até os homens de minha geração, Souza e Silva, datado de 1844. Ver: "Indagações sobre a literatura argentina contemporânea".
Revista Minerva Brasiliense, n". 10,1844, p. 294-301.

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dês Deus Mondes —, publica um artigo em que compara a edição laços da confraternidade literária falando-nos dos poetas e escritores
de revistas periódicas na Argentina com a do Brasil e a do Chile. A que, em cada uma das divisões políticas e sociais, ilustram as respec-
Revista Brasileira, ainda na fase Midosi, é que foi a escolhida, pelo tivas pátrias" (Taunay 1895: 280-289).
lado brasileiro, para o contraste no artigo intitulado "Lãs Revistas E Taunay questionava:
en América-Revista Brasileira-Revista dei Chile (los literatos em
Por que o isolamento em que temos vivido uns para com os outros?
República Argentina" (Bravo 2010: 390, 396).
Que justificação tem essa ignorância radical, esse desconhecimento
A tese de Mérou do desconhecimento mútuo, chamada de "fórmula
absoluto dos nossos esforços para, cada qual em sua circunscrição
Mérou", que "respondia a demandas de definição de identidade argen-
territorial, fazermos alguma coisa honesta e sincera a bem das letras?
tina" (Sorá 2003: 90), tem sido contestada através de pesquisas que (Taunay 1895: 280-281).
demonstram esforços de tradução de autores brasileiros na Argentina
ainda no século XIX, e que apontam que "além da palavra impressa, Nesta linha, Taunay, com igual esmero, apresentou aos leitores
outros meios, como o fotográfico, complementavam as possibilidades brasileiros as obras de Mérou, anteriormente mencionadas. A esses
do país vizinho e alimentavam os contrastes e jogos de alteridade" aspectos, neste livro, se somaram e foram destacadas por Taunay as
(Sorá 2003: 30). descrições, os registros e as passagens de Mérou pelos meios literários
Ainda que precárias, não faltaram, portanto, iniciativas de diá- da Colômbia, Venezuela e do Peru, com vários destaques feitos à
logo, e elas sugerem mesmo a existência incipiente de um circuito Colômbia, considerada por ele "como capital literária da América do
informal de redes culturais e editoriais transnacíonais com base em Sul" (Taunay 1895: 8), e aos nomes dos grandes escritores colombianos
afinidades que repercutem, como caixas de ressonância, e remetem a dos oitocentos: Miguel [António] Caro, Raphael Pombo, Candelario
esforços de organização de grupos e espaços literários e intelectuais Obeso, Marroquín [José Manuel Marroquín Ricaurte], Carrasquila
nacionais. Às voltas com problemas comuns, tais como o desinteresse [Tomas Carrasquila Naranjo], Adriano Paes [sic] [Paéz]. Não faltam
de leitores, o baixo reconhecimento dos escritores, a insuficiência de na resenha de Taunay as inevitáveis comparações com o Brasil, no seu
editores e livreiros, as dificuldades de sobrevivência dos periódicos, atraso nas letras, e a empatia com os também desalentos de Mérou
e a inexistência de organizações culturais institucionalizadas, as re- sobre as dificuldades da labuta literária no rio da Prata.
vistas de cultura através do trânsito, dos contatos, das trocas entre Ao falar dessas obras escritas por Mérou, Taunay, com acuidade,
seus editores e colaboradores, foram uma espécie de agenciadoras fez questão de destacar o papel de "embaixador literário" exercido
das leituras, das edições bem como da convivência e dos interesses por Mérou no exercício das suas funções diplomáticas, as quais ele
de grupo dos autores. teria incorporado ao seu exercício poético, segundo ele, ao narrar "o
Assim, por exemplo, e no mesmo diapasão do desconhecimento,
que se passa nos círculos pensantes dos países que tem percorrido, no
em 1895, o visconde de Taunay, justamente fazendo um balanço para
seu giro diplomático pela América do Sul". Ao fazê-lo, Mérou, com
o público brasileiro nas páginas da Revista Brasileira de obras de
sua autoridade intelectual, teria conseguido recolher os avanços na
Mérou, especialmente Recuerdo Literário, Confidencias Literárias
esfera literária e devolvido aos leitores hispano-amerícanos o que de
e Ensayo sobre Echeverría, afirmava que Mérou era movido por um
melhor existiria "nesta vasta zona da América do Sul", incluindo o
objetivo de grande significado e interesse para os povos sul-americanos
seu próprio país, a Argentina, objeto maior do seu livro Recuerdos
"buscando ligar todos os países desta parte do Novo Mundo pelos

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literários. Esta percepção de Taunay, guardadas as diferenças de da literatura latino-amerícana no Brasil e do pensamento social e
natureza da avaliação, a temporalidade e os recursos do arsenal literário brasileiro na América Latina. Ao fazê-Io, abriu frentes de
teórico-conceitual contemporâneo disponível no campo da história, recepção mútua e diversas para os leitores, intelectuais e homens
mantém afinidades com análises historiográficas que se debruçaram de letras, bem como exibiu os sinais de um emergente sistema literário
recentemente sobre o papel de Mérou na vida cultural argentina nos e de um incipiente sistema de pensamento social latino-americano.
anos 1880. Este autor tem sido reconhecido como aquele que abriu Ele se valeu do uso da rede diplomática, na qual muitos escritores
uma via para a crítica literária na Argentina, a qual se consolidaria latino-americanos estiveram envolvidos por laços profissionais ou
como um discurso que se afirmaria como "uma manifestação escri- de amizade e solidariedade. Como a rede da diplomacia, as revistas de
ta das redes literárias" (Bravo 2010: 385-411). E também por sua cultura, a seu modo, tais como a Nueva Revista de Buenos Aires, a
atuação em redes pensadas como política de amizade, ou seja, "redes Revista Brasileira, a revista La Biblioteca, e as instituições culturais,
de amizade", de apoio mútuo, espaços funcionais heterônimos que como o Colégio Nacional de Buenos Aires e a nascente Academia
existiriam na Argentina em torno do magistério, em particular nos Brasileira de Letras, via as páginas da Revista Brasileira, foram redes,
colégios, também nos jornais e nas revistas literárias, com nexos que umas menos outras mais informais, que atuaram para fora de suas
se entenderiam a postos na administração estatal e na diplomacia, posições nacionais e regionais.
criando pontes de inclusão social e literária para os estrangeiros, os Assim é que o escritor Graça Aranha, ainda no auge da sua ju-
exilados, os homens de província.10 Daí sua identificação como um ventude, tratou com esmero sua conferência na associação literária
"formador de campos" (Bourdieu 1990 apud Bravo 2010). de Buenos Aires, na qual não fugiu da tópica de Taunay e de Mérou,
A fórmula de Bourdieu é invocada e instrumentalizada nessas também insistindo que
análises, uma vez que a organização de "uma lista de autores e obras
que traçam um perímetro territorial" resultou na instituição de um É tempo de quebrar esse isolamento e de nos penetrarmos mais (...) o
arquivo, na delimitação e produção de um campo (Bravo 2010:393). Brasil, como toda a América do Sul, está ainda no período de nebu-
Pois, afinal, o exercício da crítica nos lembra esse autor, seguindo losa. No princípio era o caos. Não sei qual será a trajetória da nossa
Bourdieu, "implica a leitura do outro e a exibição dessa leitura em evolução, se sairemos da matéria cósmica inicial como um grande
um meio público (revista, periódico ou livro) que multiplica o feito e corpo, ou se nos iremos desagregando em asteroides pela via láctea
expande as linhas de constelação" (Bravo 2010). dos povos. Mas se há uma coisa que nos fará manter unidos, a nós,
Mérou, no nosso entender, expandiu essas "redes de amizade" que temos vários climas para nos inspirar a vida e que somos a
para fora da Argentina e exerceu através da diplomacia, dos seus incógnita do amor de muitas raças, essa força de atração será a pai-
xão literária, a tradição de arte da palavra em uma mesma língua
escritos em livros e/ou revistas, seu papel de crítico e divulgador
(Aranha 1898: 181-213).

10 O mesmo se passou no Brasil em torno, por exemplo, da Escola de Direito de Recife, do


Colégio Pedro II, depois Ginásio Nacional no Rio de Janeiro, da Revista Brasileira, das re- Graça Aranha sugere aqui a mediação na figura da tradução, no
vistas da Livraria e casa Editora Garnier, caso da Revista Popular, entre outras, de homens conhecimento da língua do outro. Ele faz sua conferência em por-
como Angelo Augustíni e Max Fleuiss, sem esquecer dos intelectuais do Norte e do Nordeste
do país, a exemplo de José Veríssimo, Sylvio Romero, João Ribeiro, Araripe Júnior e tantos tuguês, e ela é publicada no jornal Tiempo de Buenos Aires em
outros, e suas formas de articulação e inserção na vida cultural do Rio de Janeiro, então
centro cosmopolita e da vida pública do Brasil.
espanhol. Graça Aranha destaca na sua conferência que "a língua

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não é só um instrumento, mas a própria música cerebral", ela é nos valeria conhecermo-nos. Todas essas nossas literaturas, sabemo-lo
uma diferenciação humana e seus segredos, mistérios e enigmas ainda sem as conhecer devidamente, são pobres, até paupérrimas, como
formariam um património coletivo. Mas admite que mesmo que a valor de pensamento ou de expressão (Veríssimo 2003:469-470).11
sua conferência não fosse a primeira iniciação literária sobre o Brasil
para o seu público ouvinte erudito, "dadas as vistas benévolas sobre Todo esse conjunto de reflexões, com o acento de Veríssimo na literatura
os escritores brasileiros nas páginas da Revista La Biblioteca", se feita na América hispânica, leva a duas outras tópicas maiores: uma
pergunta se a tendência desses artigos não indicaria aos hispano- a do questionamento da existência ou não de uma literatura latino-
-americanos que existiria algo obscuro na civilização brasileira. E -americana, outra, a nossa inferioridade frente à tradição europeia.
conclui dizendo que a excentricidade do nosso idioma nos segregava
daqueles com quem tínhamos tantas afinidades morais e políticas.
Ultrapassar a barreira linguística exigia outras mediações para O ser um e não outro e as vantagens
vencer o desconhecimento mútuo. e desvantagens da imitação
Esta tópica da mútua ignorância é uma marca em vários artigos
da Revista Brasileira,, e ela persiste e avançará sobre o século XX. Mário de Alencar, leitor de La Biblioteca, ao comentar, um ano antes
Podemos encontrá-la, como uma extrapolação da Revista Brasileira, da conferência de Aranha no Ateneo, o artigo de Mitre (1897: 61-77)
em José Veríssimo mesmo, como, por exemplo, no livro Homens, nessa revista, endossa, sem questionamentos, o diagnóstico do artigo
e coisas estrangeiras, no volume de 1910, em um texto do autor desse importante historiador, homem político e de letras da Argentina.
Segundo Mitre, o tema da existência ou não de literatura americana
intitulado "Letras Hispano-americanas" que tomou como objeto
ou hispano-americana teria surgido na República Argentina por volta
o livro do argentino Manuel Ugarte intitulado La joven literatura
de 1888, devido ao surgimento da pretensão de se oferecer um curso
hispano-americana* Pequena antologia de prosistas y poetas, livro
especial sobre literatura americano-argentina, em um dos colégios
publicado na França em 1906. Nesse texto Veríssimo diz que já
nacionais. Para este autor, inexistiria uma literatura independente na
tivera
América Hispânica, daí no máximo se poderia falar de "letras ameri-
canas", e identificar apenas "elementos que no futuro hão de formar
(...) ocasião de confessar minha ignorância das literaturas hispano-
-americanas. Creio que sem injustiça associei nela a generalidade dos
a obra de conjunto", não obstante a presença de obras e autores. A
meus compatriotas, ainda homens de letras. Disse também que essa América Hispânica seria uma província da literatura castelhana - e
ignorância é recíproca, isto é, que os outros hispano-americanos (os por que não, também da portuguesa - e não contaria com autor que
outros escrevo porque hispano-americanos também somos nós, pois pela sua obra representasse
Portugal é Espanha) igualmente nada sabem das nossas letras. (...) Não
há por que culparmos a nós hispano-americanos por essa ignorância (...) a maneira peculiar de pensar e sentir da raça, transplantada para
recíproca. Além das causas naturais, distâncias imensas, extrema o novo meio e clima e modificada a ponto de sentir uma alma nova
dificuldade de comunicações e preconceitos que nos separam e até
desunem, há para este mútuo ignorarmo-nos sem maior sentimento
11 Essa edição reúne as três edições surgidas, respectivamente, em 1902,1905 e 1910, agru-
e vergonha, a intuição de que pouco, no domínio literário ao menos,
pando em séries os textos escritos entre 1899 e 1908.

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e diversa. Mas o conjunto de livros? Certo há muitos autores e obras cultura que miíítaram pelas literaturas nacionais. Essa outra tópica,
hispano-americanos; resta saber se como conjunto podem formar a da imitação, se fez presente nas duas revistas e nos escritos dos
uma literatura independente (Alencar 1897: 52). autores aqui em tela.
José Veríssimo, como editor da revista, que acolheu a leitura
Mário de Alencar salienta na sua resenha do artigo de Mitre, e com de Mário de Alencar do artigo de Mitre em La Biblioteca, havia
ele alinhado, que, segundo o autora faltaria nas letras americanas o escrito naquele mesmo ano de 1897 na Revista Brasileira um ar-
vínculo do conjunto de obras como nexo comum da história, este tigo intitulado "Literatura apressada" (Veríssimo 1897a: 202-214)
substrato da alta literatura, que teria produzido um Shakespeare na no qual, ao comentar a obra de um autor brasileiro, diagnosticou
Inglaterra, um Goethe na Alemanha, um Voltaire na França c Um a inaptidão brasileira para as "criações artísticas que demandam
Cervantes na Espanha como uma manifestação original da intelec- capacidades eficientes de observação, de análise, de generalização
tualidade, do poder criador de um povo. e de síntese". Seu juízo incluía a filosofia, as ciências, a poesia e o
Faltar-nos-iam, fora do género lírico, literatura épica e dramática e, romance, no qual, à exceção de Machado de Assis - o único que
nesta última existiriam apenas escassas e pálidas imitações europeias. reunia as aptidões necessárias e que tão bem as teria aplicado aos
E no romance, segundo esses diagnósticos, a pobreza seria completa. romances como Brás Cubas e Quincas Borba -, contava apenas com
Esta visão secundaria a afirmação de Mitre de que uma meia dúzia de obras consideráveis,12 mas que eram "puramente
obras, não de imaginação criadora, mas de descrição, de observação
Não é de estranhar que em nenhuma nação sul-americana se tenha concreta, de reprodução simples do visto ou do imaginado, sem
tentado até agora ditar um curso literário puramente americano e nenhum elemento psicológico superior". A incapacidade brasileira
nacional. Por falta de matéria e materiais que preencham todo o nesse texto foi atribuída por Veríssimo ao estágio de civilização e
quadro dos géneros de literatura (Mitre 1897: 77). cultura do Brasil e ao grau de evolução mental da massa brasileira
agravadas pelo "vício acidental" da pressa com que se trabalhava»
Afinal, esses não teriam ainda se desenvolvido na América, local E contrastou:
onde proliferavam ainda os produtos importados e a imitação, ao <
contrário das criações originais. No caso do texto de Mário de Alen- Quase não compreendemos um Littré levando 25 anos a escrever o
seu dicionário, com um trabalho ininterrompido [sic] de dez a doze
car, muito embora a marca seja a ausência de qualquer contestação
horas por dia; um Fíaubert, doze para escrever um simples romance,
às ideias e conclusões de Mitre, paira um silêncio sobre possíveis
Mme Bovary (...) Todo o nosso trabalho espiritual é apressado, feito
contrastes com o Brasil no trato dessas duas tópicas: a inexistência dia a dia. Por uma perniciosa ilusão, tomamos uma certa facilidade
de uma literatura e presença insidiosa da imitação. Um silêncio de reproduzir concepções e maneiras alheias, por talento próprio.
eloquente, aliás, que parece um não dito que distanciava a produção Todas as nossas tentativas de generalizações são apenas reprodu-
paterna - afinal ele era filho de José de Alencar - do diagnóstico ções, reflexos mais ou menos hábeis do pensamento estranho e é
de Mitre. Salvavam-se nesse quadro pessimista de Mitre alguns
prosadores: historiadores, oradores e publicistas. Curiosamente, 12 Dentre as quais inclui Memórias de um Sargento de Milícias, Iracema, O Guarani, Ino-

convém registrar, foram esses que estiveram à frente das revistas de cência, O Missionário, O Mulato c "com bastante restrições Miragem, Casa de Pensão e
GiQvanninà" (p. 213).

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com citações dos pensadores estrangeiros que, mesmo no domínio canhestras da Europa, a sua intelectualidade, que é apenas um desses
das especulações puras, as sustentamos ou combatemos (Veríssimo aspectos, não é mais do que uma cópia, uma reprodução, natural-
1897a: 212-213).13 mente deficiente e falha, como de regra são todas da vida espiritual
europeia. Mas o sê-lo não lhe tira, antes lhe dá, o mérito de ser a
E seu juízo no tocante à América Latina não foi mais favorável, a legítima expressão e, como arte, a definição da sociedade cuja é.
exemplo do balanço de Mitre, e também de Mérou, que assinalou, (Veríssimo 2003: 493).
incluindo a literatura argentina, a incipiência, a intermitência, a
artificialidade alocada em jornais e revistas efémeras. Veríssimo E em 1910, ao comentar a antologia de Ugarte aqui citada, José
acabou por reafirmar este juízo posteriormente, em texto de 190,5 Veríssimo discordou desse autor não pelo reconhecimento da
(Veríssimo 1986,2003),14 ao falar da produção literária argentina, e influência dos europeus, em particular dos franceses na literatura
também da brasileira e chilena. Neste texto Veríssimo, embora tenha que se fazia na América Latina, mas pelo fato de Ugarte afirmar
recomendado aos leitores brasileiros a obra de Mérou - resenhada que a nossa "anexação intelectual à Europa" estaria ligada à
por Taunay na Revista Brasileira e anteriormente mencionada -, não aparição do simbolismo e do decadentísmo e que essa seria "a
poupou seu amigo argentino ao afirmar o que chama de "excelentes verdadeira origem da nossa literatura". Salientando a minguada
livros do malogrado Garcia Mérou, amador esclarecido da literatura recepção desses estilos nos seus países de origem, a exemplo da
e da cultura americana''', os quais, embora "realmente estimáveis", França, e sua pífia influência em nações mais distantes como as
dariam a impressão de uma "literatura feita". E o mesmo, segundo hispano-americanas, Veríssimo criticou severamente o poeta Ru-
Veríssimo, teria sido feito generosa e bondosamente por Mérou com bén Darío, este sim, segundo ele, um entusiasta desse movimento
o Brasil no seu El Brasil Intelectual, e arremata "esta é a grande estético15 - já que
falha das literaturas latino-americanas, a falta da obra, que não é
a mesma coisa que o livro, do escritor, que não é a mesma coisa (...) de hispano-americano só terá o sangue, o nome, o nascimento,
que o autor". Essas literaturas teriam as mesmas falhas, os mesmos mas que é de fato, como tantos outros dos hispano-americanos
defeitos que, segundo ele, eram os mesmos das sociedades em que transcritos pelo Sr. Ugarte, um francês, um espanhol, se não de Pa-
nasceram, amorfas, inconsistentes, incoerentes, mas o seu principal ris, dos cenários do Quartier Latin, discípulo imediato e imitador
defeito seria o da imitação: complacente de uns poetas que escandalizaram o burguês por pouco
tempo e logo desapareceram, sem deixar nenhuma obra destinada a
viver (...) (Veríssimo 2003: 474).
Todos os aspectos da sua vida civilizada, em suma, são apenas
imitações, macaqueações, mais ou menos jeitosas, mais ou menos
15 O movimento simbolista e decadentista teve origem na França, no século XIX, e foi
expresso, entre inúmeras outras figuras intelectuais, por Verlaine, Mallarmé, Gauthier e
13 A ênfase é do original. Baudelaire. Eram ferrenhos opositores do naturalismo, do realismo e do parnasianismo, e
13 Também em Veríssimo {1986: 87). Nesse mesmo texto Veríssimo não economiza seus adeptos de uma nova sensibilidade estética, que ultrapassasse o positivismo e fosse capaz de
elogios a Paul Groussac, como escritor e à sua atividade editorial, primeiro em La Biblioteca expressar o mal-estar do mundo burguês pós-revolução industrial. Segundo José Veríssimo
depois nos Anales da Biblioteca Nacional. A seus olhos o escritor franco-argentino era o o simbolismo ou decadentismo era resultado do esgotamento do naturalismo e do parna-
homem de maior capacidade intelectual da Argentina. Ele não seria "um erudito sem lite- sianismo, bem como da revolta contra a organização social burguesa. VERÍSSIMO, "Um
ratura, ames é também um artista, um escritor de raça e grande talento. (Homens e coisas Romance Symbolista". A Giovannina do Sr. Affonso Celso". Revista Brasileira, Terceiro
estrangeiras, p. 501, e Cultura, literatura e política na América Latina, p. 96). Ano, 10° Tomo, 1897, p. 41.

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Veríssimo se opôs ainda ao desconhecimento de Ugarte das esferas de do trabalho de reordenação dos motivos, das formas criativas da
influência do movimento literário, estético e intelectual que conside- recepção, e da habilidade das apropriações e usos dos modelos euro-
raria o mais amplo e profundo do mundo moderno, o romantismo; peus. Nesse ponto seu juízo crítico ganhou clareza no contraste com
e o fato de esse autor ver "um fato de autonomia na nossa completa as posições de Paul Groussac e, como veremos, nos debates a elas
indexação intelectual à Europa". Ironizando o que chamou de "entu- relacionados. Groussac, por seu lado, também se colocou às voltas
siasmo continental" sobre a jovem literatura hispano-americana no com essa mesma tópica ao resenhar, na seção Boletim Bibliográfico
livro de Ugarte, Veríssimo terminou sua crítica reafirmando o seu da revista La Biblioteca, os livros de Rubén Darío, intitulados Los
diagnóstico anterior, de 1905, não obstante assinalando que haveria Raros (Groussac 1896: 475-480) e Prosas profanas (Groussac 1897:
nessa antologia de Ugarte "a revelação se não do talento pessoal, 156-160) e os livros Recuerdos de Ia Tierra (Groussac 1897:151-156)
original e forte, de muita capacidade de assimilação inteligente e de Martiniano Leguizamón.
fecunda". A tópica da imitação presente nas páginas da Revista Em Los Raros o ponto de partida da crítica de Groussac seria a
Brasileira com Sylvio Romero e outros já havia sido utilizada por adesão de Rubén Darío ao decadentismo francês. Groussac, sem colo-
Veríssimo, inclusive para criticar macaqueações de mau gosto do car em questão o talento desse autor, ironiza que ele teria trazido, "via
naturalismo do romance simbolista, o qual no Brasil teria sido "fruto Panamá, a boa nova do decadentismo francês", que ele considerava
da imitação intencional e, em muitos casos, desinteligente" (Verís- triplamente vã e estéril: em si mesma, pela língua em que se formula,
simo 1897a: 202-215).16 Entretanto essa tópica ganhou em precisão pelo público a que se dirige". Com sua pena afiada, Groussac, não
nos textos posteriores do autor. Assim, na perspectiva de Veríssimo, diferentemente de José Veríssimo, ambos com argumentos e referên-
a tópica da imitação - muito embora sua designação pejorativa cias muito próximos e transitando pela Revue dês Deux Mondes e
centrada na ideia do macaqueamento - foi vista por ele como uma de seus críticos, diz que Darío teria "absorvido com igual fruição os
perspectiva positiva, não desalentadora, ainda que crítica. Assim, o melhores e os piores do bairro latino", e no seu livro a reunião de
que designou nos seus textos, anteriormente citados, de "reproduções autores franceses que procedeu teria "altas individualidades como
hábeis do pensamento estranho", "o mérito da legítima expressão", Ibsen, Põe e mesmo Verlaine", a quem ele reconhece o mérito mas
"a assimilação inteligente e fecunda", acabaram por remeter a outra considera-o "o mais perigoso e mais esquisito", e outros "fracassados
tópica persistente que movimentou os debates de ideias, dados a ver e além de tudo inominados". Ao editor de La Biblioteca não escapam
na Revista Brasileira e na revista La Biblioteca, e registrados en as falhas tipográficas da obra, editada na Argentina em 1896, as ín-
passant nos textos de Mitre, de Mérou, de Graça Aranha e outros: correções, as citações capengas, "as erratas chocantes sobretudo em
a tópica da originalidade. E a posição de Veríssimo nesse caso, ex- francês", a imitação em "castelhano com desesperadora perfeição".
pressada, acolhida e incentivada na Revista Brasileira, e retomada O pré-rafaelismo inglês, com sua forte dimensão espiritualista e, se-
e até mais bem explicitada fora dela, foi pensar que a originalidade gundo Groussac, com sua "preocupação menos com detalhes do que
no pensamento e na literatura latino-americanos se daria através com a essência artística", é invocado como contraponto de qualidade
e superioridade frente ao simbolismo francês. Entre os simbolistas
16 Neste texto as referências de Veríssimo para definir o simboiismo são textos dos críticos franceses em que Groussac reconhece algum talento, deles diz que
literários franceses Ferdinand Brunetière (editor e colaborador da Revue dês Deux Mondes, "ou não são novos ou não são simbólicos" e que por vezes guardam
e Émile Faguet (colaborador frequente da Revue dês Deux Mondes) bem como do poeta
simbolista e crítico de arte Remy de Gouriront. influências seja do parnasianismo, como no caso de Verlaine - que

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ele considera um parnasiano convertido -, seja de românticos, como ele não descuidou de assinalar, em inequívoca referência ao escritor
Victor Hugo, Théodore de Bainville, ou François Coupée, e inclui Rubén Darío, que Leguizamón chegava "à raia agitando o chicote e
nesses casos os simbolistas Henri de Régnier, Vielé-Griffin e nomeia- golpeando a boca dos decadentistas". Os reparos de Groussac a essa
-os como "presentes ou futuros autores da Revue dês Deux Mondes". obra e à escrita do seu autor não o impedem de dizer que "bebeu a
Esta revista, é preciso salientar, não era afeita à estética da poética obra de um só trago", pois o tema foi bem escolhido e que por si só
decadentista, e foi um local onde pontificaram muitas críticas aos sugeria "a cor e a vida da conhecida realidade". E no final da rese-
escritores dessa nova tendência, em textos de autores como Brunetière, nha, ele se prepara para, na sequência, comentar Prosas profanas de
Paul Bouget, Émile Faguet. Rubén Darío, com a conclusão de que o exemplo contrário do autor
Também a métrica, o manejo dos decassílabos, as divisões dos de Recuerdos de Ia Tierra é
versos, todo esse conjunto, enfim, são invocados por Paul Groussac,
(...) o de um escritor cujo talento se malogra em grande pane pela in-
como também o foram por José Veríssimo, para afirmar a medio-
consistência de sua matéria. O Sr. Leguizamón lavra lingotes no ouro
cridade do decadentismo francês e suas "tentativas impotentes de nativo da substância nacional, o Sr. Darío cinzela ninfas em um bloco
realização". Por fim, Groussac exalta a poesia de Walt Whitman de gelo artificial, abaixo dos trópicos, sem ouvir o gotejar sinistro que
como modelo exemplar da nova arte americana enquanto "expres- chora a destruição da obra apenas concluída (Groussac 1897:156).
são viva e potente de um mundo virgem, arrancada das entranhas
populares para não tornar-se a remedada ária de um histrião. A arte E deixa outra pergunta "Lequel vaut mieux Seigneur?"
americana será original ou não será?" A poesia de Rubén Darío não Ao se centrar em Trovas profundas Groussac tenta, apesar do dito
seria original, apostava Groussac, enquanto fosse "um eco servil de acima, minimizar sua crítica a Darío, a quem atribui um real talento
rapsódias parisienses". E conclui, citando o poeta francês François que terminará por escapar de falsas teorias, ressaltando sua nostalgia
Coopée: Qui pourrais-je imiter pour être original? da velha Europa e sua decepção com o que via nos costumes e meios
Paul Groussac mais uma vez retomou, também nas páginas da re- intelectuais e artísticos europeus, e que nomeia como "decadência
vista La Biblioteca, o tema de suas críticas a Rubén Darío em resenha do Império". E afirma, com a convicção de quem vê o inevitável: "É,
de um outro livro desse mesmo autor intitulado Prosas profanas?7 pois, necessário partir do postulado que, assim no norte como no sul,
Curiosamente Groussac, num típico gesto editorial, conquanto como durante um período todavia indefinido, tudo que se tente no domínio
uma "intencionalidade editorial de natureza crítica", o fez na sequên- da arte é e será imitação." Haveria, portanto, que se passar por ela.
cia de outra resenha: a do livro Recuerdos de Ia Tierra, de autoria de Mesmo considerando as hibridações culturais como negativas do
Martiniano Leguizamón. Esse livro Groussac nomeou de "esboços "génio", cuja força estaria na originalidade, ele admite que "é fato
crioulos" e disse que os mesmos seriam uma mostra inequívoca da arte de evidência que a América colonizada não deve pretender por hora
nacional. Nos elogios ao autor, que diz teria "triunfado sem esforço", à originalidade intelectual", e diz "ser difícil criticar a prática da
imitação europeia contra qualquer escritor ou artista nascido neste
continente". Esta prática, contudo, quando não tinha como modelo
17Segundo Siskind e Groussac (op. cit.: 366-369), Rubén Darío teria respondido às críticas os mestres clássicos, seria estéril porque exótica "e não chegariam ao
de Paul Groussac ao seu livro Los Raros através de um texto intitulado "Los colores dei intelecto americano elementos assimiláveis e úteis para desenvolvi-
estandarte".

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mento posterior", como seria o caso do simbolismo, que o separava produtos, carecem de representantes e personificação no seu solo
de Rubén Darío. Aqui é o caso de se admitir, em comum acordo com fecundo, mas inculto, onde se aclimatam e personificam produtos
outras análises que, para Groussac, a imitação seria o único caminho importados sob a ação de novo meio que a seu tempo assumirão
através da qual as culturas não hegemónicas "poderiam construir forma original e definida (Mitre 1897: 70).
uma identidade cultural moderna (...) Para Groussac a transição de
imitação à originalidade seria histórica" (Siskind 2010; 366-367). Neste ponto é interessante buscar precisar, pela via das tópicas da
Sabemos que Rubén Darío contestou Groussac dizendo imitação e da originalidade, a postura, seja de Veríssimo, seja de
Groussac, seja dos periódicos que dirigiram e dos articulistas que
Qui pourrais-je imiter pour être original?, me dizia eu. Pois a todos. acolheram, frente ao tema das literaturas nacionais, e no desenho
A cada qual lhe apreendia o que me agradava, o que se ajustava dessas o peso, a inserção e a articulação, que as subentendem entre
à minha sede de novidade e a meu delírio de manifestação indi- o local e o universal, entre a América Latina e a Europa.
vidual. E o caso é que resultei original (Darío 1980 apud Siskind Ao escrever o texto "Letras hispano-americanas", anteriormente
2010: 368). citado, Veríssimo (2003: 476) destacou de forma especial um trecho
do livro de Manoel Ugarte em que esse autor afirmava ser "inimigo
Portanto, Darío o fez em nome de uma originalidade já em curso, das literaturas locais, porque os homens de hoje se saúdam por cima das
através da imitação criativa, tal como pensava José Veríssimo ao de- fronteiras e a arte é universal e eterna. E todos os assuntos, porém,
signar as "reproduções hábeis do pensamento estranho", "o mérito nela cabem". Na sequência desse texto, citado por Veríssimo, Ugarte,
da legítima expressão", "a assimilação inteligente e fecunda". Ambos, ao falar dos pampas, reafirma que os poetas não precisam renun-
Veríssimo e Darío, diferentemente de Paul Groussac, não se submetem ciar à arte universal para incorporar à literatura "as modalidades,
passivos à tradição cultural europeia que admiram e reconhecem o ambiente e o tipos de sua terra". Comentando estes trechos, José
em termos de precedência e superioridade. Entretanto, acreditam, Veríssimo declarou: "Cito com tanto mais prazer (...) esta formosa
não na inversão do mapa cultural europeu, mas na sua reescritura. página, quanto foi isto que, essencialmente, eu disse ao insurgir-me
Pode-se dizer que Veríssimo, como Darío, apostou na "capacidade contra o critério nacionalista exclusivo da nossa literatura".
do escritor latino-americano de inovar e particularizar a tradição A ideia da composição da particularidade latino-americana com
universal" (Darío 1980 apud Siskind 2010: 369). Parece-nos que a universalidade de matriz europeia parece-nos estar na base da
Mitre, ao contrário, teve uma posição similar à linha de reflexão de negativa de Veríssimo de fórmulas prontas ou genuínas e na sua
Paul Groussac no seu artigo "Letras americanas" publicado em La insistência na ideia do rearranjo, tal como, ao falar dos estilos lite-
Biblioteca e resenhado por Mário de Alencar na Revista Brasileira. rários "porque de fato novo não é o que nunca existiu, mas o que
Nele Mitre assinalava que foi refeito sob novo aspecto, por nova forma, com um novo fim"
(Veríssimo 1897b: 40-41). Este nos parece ter sido, na perspectiva
A América espanhola, em literatura como em população, está em de Veríssimo, o espaço por excelência das literaturas nacionais na
via de colonizar-se. Falta-lhe suprir muitas lacunas tanto territoriais América Latina, em especial no Brasil e na Argentina: o espaço da
quanto mentais. A maior parte do território não está ainda ocupado, reinvenção. E ele o que uniu o seu topos discursivo com seu gesto
nem mesmo cultivado, e as colónias literárias, pelo que concerne aos editorial na Revista Brasileira. Aqui, ele se difere de Paul Groussac,

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para quem, sob o peso da herança francesa, "era preciso identificar um prenúncio de suas obras posteriores, caso dos seus vários ensaios
modelos e arquivos retóricos universais dos quais o escritor latíno- sobre a América Latina escritos entre 1899 e 1909, em que sua pos-
-americano pudesse se valer para construir uma tradição local, pró- tura latino-americanista (Barbosa 1974; 1986: 7-14; 2003: 11-44;
pria" (Siskind 2010: 367). Não por acaso na sequência da resenha Cairo, 2008) se revela de maneira pronunciada, em coerência com
de Prosas profanas de Rubén Darío, Groussac, em La Biblioteca, inquietações já manifestas em seus escritos desde 1890, com o que
publicou um texto, na realidade resultante de uma seleção feita por chamaria de "imitação servil".18
ele de páginas escritas por Alberdi - a quem considerava o "o mais Por seu turno, Graça Aranha, falando aos argentinos em 1897,
completo homem de Letras" argentino (Alberdi 1897: 168-169) - o estabeleceu a ligação entre a tópica da nossa inferioridade frente à
qual é exemplar para ilustrar esse ponto. Dentre os trechos selecio- tradição europeia, com a do quesdonamento da existência ou não de
nados, encontra-se aquele em que Alberdi saúda Gutiérrez pelo seu uma literatura latino-americana, sem deixar de enfatizar a tópica do
europeísmo, o qual não seria incompatível com seu americanismo e desconhecimento mútuo. Ao executar essa ligação, afirmou;
seu nacionalismo argentino. Europeísta "era um amante da Europa
moderna e do seu espírito, como o melhor instrumento para povoar, Eu bera sei que, em matéria de arte, não podemos oferecer-vos
enriquecer, educar e civilizar a América independente e democrática". moldes. Sempre que houverdes de dirigir vossas preocupações por
Gutiérrez, no ressalto da sua "grandeza", tem sua imagem esboçada coisas intelectuais, não será para o Brasil que se estenderão vossas
como um assemelhado de Diderot, discípulo de Voltaire, leitor de vistas, gravitareis como nós para os centros planetários da cultura,
Victor Hugo, de Dumas, de Alfred de Musset, Byron, Goethe, de para Londres, Paris ou Berlim. Mas não haverá esperança de nos
conhecermos literariamente, quando não seja por motivo de ordem
Schiller, e nessas leituras de mestres teria sido iniciado, segundo
política, pelo menos por impulso de movimento cosmopolita para o
Alberdi, por outro mestre que também trilhou o caminho de busca
novo ou para o estranho? (Aranha 1898: 182).
dos grandes modelos: Echeverría. Enfim, é preciso ter em conta que
se ambos, Groussac e Veríssimo, valorizaram o trânsito das ideias
E sugeriu, na sua conferência, que os argentinos fizessem um sacrifício
e os contatos mterculturais, matizaram o peso dado ao nacional, e
em nome da curiosidade, recordando-lhes que os latino-americanos
ao fazê-lo, operaram de maneira distinta.
seriam também exóticos, como os japoneses e os escandinavos.
Esta ideia da construção da literatura nacional como uma constru-
Esta imagem de um autoexotismo foi explorada por Aranha no seu
ção intercultural, num espaço de trânsito e trocas entre as culturas,
discurso sobre o Brasil também no tocante à língua, sobre a qual
sem prejuízo da inspiração própria e da criação estética com sua cor
ele insistiu na sua conferência como uma particularidade brasileira.
local, é o agenciamento que Veríssimo, segundo entendemos, pro-
Segundo ele, os brasileiros cultivariam a sensualidade da frase, vi-
pôs para as páginas da Revista Brasileira, em que pese que através
veriam da forma, gozariam da voluptuosidade das várias estruturas
delas ele tentasse construir uma identidade específica para a cultura
da frase. E não poderiam, portanto, dispensar isso na construção
brasileira e um cânone para a literatura nacional, encarnada num
escritor "cosmopolita": Machado de Assis. E o fez, diferentemente
de Paul Groussac, através da abordagem teórica de uma história li- São exemplos os textos publicados em 1902 e 1910, respectivamente, sob o título de
terária que valoriza o passado e a herança cultural (Veríssimo 1899: Homens de coisas estrangeiras. Este é caso também de textos selecionados sobre a América
Latina, escritos entre o final do século XIX até 1914, reunidos por João Alexandre Barbosa
155-157). As páginas que escreve e acolhe na Revista Brasileira são posteriormente no livro Cultura, literatura e política na América Latina.

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dos universais literários. E no tocante à existência ou não de uma É dentro deste espírito e ambiente que a recepção e a interlocução
literatura, Aranha propôs uma questão prévia: a de definir o que propiciada pela conferência de Aranha em Buenos Aires deve ser
seria uma literatura, e quais seriam suas fronteiras. Seria a literatu- entendida.
ra formada exclusivamente por poetas ou romancistas? Entraria no O velho escritor Taunay (1895: 280-289), por seu lado, também
seu quadro a crítica, a história, os publicistas, os eruditos? Frente desacreditava da possibilidade que as literaturas, do que chama de
a estas dúvidas, que o autor considerava insolúveis, ele toma uma "povos cisatlânticos", pudessem competir com "as da velha Europa,
decisão, na sua conferência aos argentinos, de tratar de homens, ou mas mesmo assim considerava que na nossa América, simplesmente
seja, de autores que representavam a cultura brasileira pelo seu lado 'meridional', haveria já muitos nomes credores do apreço, senão do
artístico, isto é, os escritores de ficção e de ideias gerais sacrificadas, mundo inteiro, pelo menos daqueles que habitam o mesmo continen-
no entanto, pela perfeição e beleza da forma, deixando de lado os te". Caso dele próprio, pois afinal, Taunay, já escritor consagrado
especialistas de toda ordem, os juristas, os eruditos, os jornalistas com Inocência, vinha tendo várias edições inclusive na Europa. Daí
políticos, em perfeita sintonia com as ideias de José Veríssimo, nas que ele não problematizou, não colocou em questão se haveria ou
páginas da Revista Brasileira, e na linha contrária de Sylvio Romero. não uma literatura. Mas comentando a obra de Mérou apontou as
Sua conferência foi também objeto de nota no jornal La Nación (Em razões do desalento dos sul-americanos na labuta literária. "Falta-
El Ateneo 1897: 3) e seu alcance não pode ser desvinculado do papel -nos além de todos os incentivos que vigorosamente impulsionam
que o Ateneo teve na vida intelectual de Buenos Aires (Bravo 2010). os escritores do Velho Mundo, glória, honras, ambiente intelectual e
Suas reuniões de debate, chamadas de causeries, em torno das seções dinheiro (...) falta-nos público, por modesto que seja, falta-nos quem
de estudos sociais e filosóficos, as conversações literárias, todas elas se digne a ler."
reuniam as grandes personalidades do mundo intelectual e político E o jornalismo, no seu diagnóstico, seria, no rio da Prata, um
argentino, a exemplo de Sarmiento, entre tantos outros que lá desen- obstáculo a mais aos êxitos literários. Não por acaso, as revistas en-
volviam temas diversos. Não por acaso, o jornal La Nación publica ciclopédicas e de cultura como a Revue dês Deux Mondes, a Revista
ao lado do espaço reservado às notícias das atividades do Ateneo Brasileira e La Biblioteca se colocavam como um género intermediá-
um artigo intitulado "Sobre Conferências", no qual se reíletia sobre rio, em um patamar superior ao jornal, e um pouco abaixo do livro.
a arte de falar em público, sua importância e o que distinguia este No caso do jornal, continua Taunay, seu apetite pela curiosidade
género oratório. Nele se dizia, entre outros, que pública tudo absorveria, esmagaria, nihilificaria. Ao satisfazer a
ansiedade banal dos leitores com notícias de sensação em uma lin-
(...) a conferência desempenha para a cultura intelectual o papel das guagem telegráfica, eliminaria o literato "o cínzelador da frase (...)
estradas de ferro para a indústria. Uma estrada de ferro não cria preocupado com a harmonia das orações e a cadência do período".
riqueza, porém leva a todas as partes o que se quer, vai em busca de No Brasil, onde o jornal, no seu entender, não tinha a mesma
mercadorias no lugar de produção e as leva onde devem consumir- importância, tradição e influência que distinguiam os vizinhos, os
-se. E se olharmos bem em torno, nos convenceremos que mais do
literatos teriam que se ver com outro problema, a má vontade da po-
que nunca faz falta acudir ao lugar de produção para levar alimento
lítica. Uma política comezinha. A política, outra tópica importante,
intelectual onde deve consumir-se (Sobre... 1894: 3).
surge como um empecilho, um entrave a mais no caminho da litera-
tura c do seu exercício pelos literatos. Os políticos, em sua maioria,

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INTEliCTUÔ.IS MEDIADORES C!RCIMTOS OA MEDIAÇÃO INTELECTUAL NO BRASIL Ê NA ARGENTINA

seriam homens sem lustro e sem sensibilidade intelectual, enredados intelectual e o fim dos personalismos intelectuais, reflexos do per-
na maquinaria de interesses partidários e eleitorais mesquinhos do sonalismo político,
simulacro da democracia e da ambição pessoal vulgar dos protegidos Assim, com sua astúcia editorial, ao trazer para os leitores de La
c subservientes, responsáveis pelo atraso do país, E o autor cita dois Biblioteca o texto de Alberdi., que em 1878 já expressava essa posi-
episódios pouco edificantes, para não dizer hilários, da alienação ção na sua visão sobre Gutiérrez, Groussac não deixa de incorporar
cultural dos parlamentares brasileiros à época, envolvendo José de na sua seleção trechos em que Alberdi mostra que o percurso de
Alencar e o músico Carlos Gomes (Taunay 1895: 288-299), No pri- Gutiérrez - também chamado, para além de publicista e orador, de
meiro caso, José de Alencar foi destratado na tribuna por um colega académico e pensador político - teria ido das letras para a política.
que dizia se orgulhar de não ter sido ele que escreveu O Guarani, "Gutiérrez, como Chateaubriand, como Lamartine, como Martí-
e dizia não ter tempo para as peripécias do herói.., c ele esquece o nez de Ia Rosa, não havia nascido para homem político, porém lhe
nome. Diante disso, pergunta baixinho ao colega vizinho: "Como se tocou sê-lo e exerceu tanta influência na política como nas letras
chama tal índio?" "Pery", sussurrou o outro e para que ele o ouvisse de seu país" (Alberdi 1897: 168). Assim Gutiérrez é saudado como
bem repetiu: "Pery." E o orador continuou: "Heróis como o célebre tendo sido membro da república universal das letras que se deslocou
PeryperyW!" para a república dos direitos políticos. Este duplo pertencimento e a
De outra feita o compositor e maestro músico Carlos Gomes, qualificação da verdadeira política, comprometida com a liberdade
quando do julgamento de uma solicitação de uma pensão para o e a democracia, colocam Gutiérrez em outro patamar, um exemplo
músico, defendida por Taunay, provocou o seguinte diálogo: "'Quem contra os males e a brutalidade dos gaúchos.
é esse Gomes?', perguntou um deputado. *Lá sei', responde o outro, O empecilho da política apontado por Taunay desaparece no olhar
'algum colega em literatice desse maçante*. 'Não', responde um ter- de Mérou sobre o Brasil, no qual ele via a atividade intelectual neste
ceiro, 'é um rabequista que estuda há tempos em Milão!!!"* país como superior à dos irmãos do continente devido à tranquilidade,
Também Paul Groussac, diretor da La Biblioteca^ nos lembra estabilidade e desenvolvimento pacífico, debaixo de uma adminis-
Paula Bruno (2011: 119-120), via as práticas políticas argentinas tração tranquila, um ambiente propício e silencioso para os literatos
"típicas de uma semidemocracia", que segundo ele faziam da vida colaborarem na obra da civilização que as sombras da ditadura na
intelectual argentina o correlato de uma semicultura. Segundo essa Argentina tinham apagado. Assim a tópica política permanece quando
autora, Groussac e outros "entenderam a política como um âmbito o olhar recaí sobre seu país, em que os impulsos progressistas da sua
que bloqueava as possibilidades de desenvolvimento da cultura história teriam sido submetidos a profundos retrocessos. Entretanto
nacional, lugar em que pretendiam instalar-se e desenvolver suas não devido à política em si, mas ao desvirtuamento do seu exercício
atividades", o que não os impedia de ver qualquer incompatibilidade expresso na tirania. E Mérou prossegue assinalando que no mesmo
em participar da vida institucional e "cobrir postos estatais" (Bruno ano em que no Brasil se criava o Instituto Histórico e Geográfico
2011:192). Na maquinaria da política crioula estariam as razões do Brasileiro (IHGB), que teria acolhido os nomes mais eminentes da
atraso cultural argentino, e da sua vida letrada "desenhada como nação brasileira, as sombras da ditadura "tratavam de apagar todos os
uma extensa pampa cultural, incivilizada, povoada por gaúchos da brilhos da inteligência argentina". Alberdi, Mitre, Mármol, Gutiérrez
inteligência e literatos ocasionais". A Biblioteca Nacional e a revista seriam "dispersados pela orla da barbárie".
La Biblioteca seriam, assim, espaços-chave para o desenvolvimento

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Considerações finais nas dispersas oportunidades de troca, e nas descontinuidades das


leituras, foi desdobrada pelos projetos culturais e pela ação editorial
Outras tópicas, a exemplo das similitudes literárias com a América de intelectuais como José Veríssimo e Paul Groussac. Foi isso que nos
do Norte, os limites físicos dos países de origem da literatura, a dispusemos a mostrar neste texto através de alguns poucos artigos
obnubilaçao vão pontuar os textos e os discurso dos intelectuais nas explorados.
duas revistas aqui analisadas. Ambas as publicações, embora tenham Deste breve sobrevoo quisemos destacar que as experiências
elegido a Revue dês Deux Mondes como modelo exemplar para uma vividas na publicação da Revistas Brasileira e de La Biblioteca, as
revista de cultura, especialmente no que toca à identificação com seu afinidades eletivas existentes entre ambas e seus editores, e os diálogos
estilo de trabalho intelectual e vocação intercultural, não tiveram intelectuais colocados em marcha se deram no interior de projetos
suas tópicas, é importante assinalar, pautadas pela Revue dês Deux de definição de uma cultura legítima, de uma identidade cultural
Mondes. Desta última pode-se dizer que provocou algumas delas e moderna e de afirmação de uma literatura nacional, no Brasil e na
forneceu - através de suas páginas de opinião, de debate e de indi- Argentina, em um contexto de mediação situado, em especial, nos
cações de leitura - autores de referência que proveram argumentos anos 80-90 do século XIX. Estes projetos, acionados por membros
que foram mobilizados no seu trato. Afinal, a Revue contribuiu para importantes de uma elite intelectual desses dois países, ocorreram
a fixação e disseminação dos cânones do pensamento intelectual e também em meio a um esforço, avant Ia lettre, de valorização do
da vida literária europeia na América Latina, ainda que com ênfase, conhecimento do "outro" na chave da alteridade cultural, o que é
naturalmente, na França, e balizou sua leitura. Ao fazê-lo ela se tor- bem sintetizado na frase de Mérou no seu livro sobre a intelectuali-
nou uma instância de mediação da recepção de obras e autores no dade brasileira: "não há literatura cuja história se fecha nos limites
Brasil e na Argentina. Dessa forma a Revue dês Deux Mondes seja no do país de origem", e acrescentaríamos nós, e que não passe por uma
seu claro eurocentrismo, nas suas projeções imperiais (Soares 2014: tradução, ou interpretação cultural.
26-370),1* na perspectiva francocêntrica (Prado 2010: 193-205), na
assimetria dos seus contatos culturais; seja pela sua enorme circula-
ção c legitimidade encontrada nos meios letrados da América Latina, Fontes
induziu, é fato, a criação de espaços de debate entre, e no interior,
Alberdi, J. B. (1897) Juan Maria Gutiérrez. La Biblioteca. Buenos Aires,
das Revista Brasileira e La Biblioteca, os quais não se restringiram
Tomo III, Ano II, 168469.
a referências locais e a um olhar voltado sobre si mesmo.
Alencar, M. (1897) "Letras Americanas (La Biblioteca)." Revista Brazileira.
Não ousamos propor aqui a ideia de uma estrita mediação trian-
Rio de Janeiro, s/ ed.,ll° Tomo, 3° Ano, 51-55.
gular, com rotas, pontos de partida e de chegada que podem ser iden- Aranha, G. (1898) "A literatura atual do Brazil." Conferência realizada no
tificados, e suas regularidades de trajeto estabelecidas. O que não é o Ateneu Argentino em Buenos Aires na noite de 22/12/1897. Revista
caso. Trata-se de uma mediação cruzada, a qual, com vários pontos Brazileira. Rio de Janeiro, s/ ed., 13° Tomo, 4° ano, 1898,181-213.
de fuga, e com espacialidades e temporalidades diversas construídas En El Ateneo. (1897) Conferencia dei Sr. Graça Aranha. La Nación,
23/12/1897, 3.
Groussac, P. (1896) "La Biblioteca." La Biblioteca. Buenos Aires, s/ ed.,
" Uma interessante leitura da Revue dês Deux Mondes nesta linha do poder dos Impérios
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A ORDEM NOVA DE M A R C E L L O C A E T A N O

intolerante e intransigente; insoíidária com escritores e jornalistas e


quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa." Sobre o
integralismo lusitano, vale uma breve nota. Corrente política nascida
no quadro de crise da primeira experiência republicana portuguesa
(1910-1926), organiza-se em 1914 no rescaldo da reaçao monárquica
antirrepublicana. É neste ano que um grupo de jovens intelectuais
funda em Coimbra uma revista doutrinária, a Nação Portuguesa, que
durará até 1938. Do ponto de vista ideológico, o que caracterizava o
8. A Ordem Nova de Marcello Caetano: uma revista
integraíismo era uma espécie de sincretismo, um amálgama que incluía
do integralismo lusitano na crise da Primeira
o contrarrevolucionarismo oitocentista de Edmund Burke e François-
República portuguesa (1925-1926)1 -René de Chateaubriand, a extrema direita antiparlamentar da Action
Francisco Palomanes Maninho Française, algum saudosismo sebastianista e o absolutismo restauracio-
nista, identificado com a figura de d. Miguel (Carvalho 1995: 87-88;
Costa Pinto 1994: 24-36). O líder inconteste e principal teórico do
movimento integralista foi António Sardinha (1887-1925). Convertido
ao catolicismo e à fidelidade aos Bragança após sua desilusão com a
Portugal será livre até a consumação dos séculos. República, Sardinha, entretanto, faleceu precocemente aos 37 anos,
Assim o creio na minha fé nacionalista e na minha deixando órfã uma leva de jovens seguidores (Desvignes 2006). Até
convicção de que se operará uma reforma intelectual seu falecimento, esta corrente havia construído um discurso acerca da
e moral na gente portuguesa.
identidade nacional portuguesa baseado na ideia de uma tradição or-
(Marcello Caetano) gânica, corporativa, originária do período medieval, adepta do Antigo
Regime, que o liberalismo do XIX, produto de valores exógenos a Por-
tugal, havia destruído. Assim, sempre que a ocasião proporcionava, os
Introdução integralistas participavam de conspirações antirrepublicanas, principal-
mente quando protagonizadas pelos movimentos monárquicos (Costa
No mês de março de 1926 um grupo de jovens universitários, a maior Pinto 1994: 25). Ativos militantes, os integralistas, entretanto, nunca
parte deles da Universidade de Lisboa, fundou uma revista com o título conseguiram transformar o integralismo lusitano em uma organização
Ordem Nova. Organizada por militantes vinculados ao integralismo de massas. Formado, sobretudo, por elites intelectuais, permaneceu
lusitano, a revista trazia consigo um extenso subtítulo que não deixava como referência quase exclusiva no campo do doutrinarismo (Idem:
dúvidas quanto aos seus propósitos e valores: "Revista antimoderna, 31-36). Em sendo assim, a Ordem Nova constituía-se numa revista
antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista. Contrar- de circulação em grupos restritos, ainda que não exclusivamente de
revolucionária, reacionária, católica, apostólica e romana; monárquica; militantes do integralismo.
Os redatores de Ordem Nova eram jovens militantes para quem
1 O autor agradece a Lucília Siqueira a leitura atenta e os comentários a respeito do texto. o horizonte utópico encontrava-se no passado, desejosos que eram de

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INTELECTUAIS MEDIADORES A ORDEM NOVA DE MARCEUO C A E T A N O

um retorno monárquico em uma época de profunda crise da Primeira Itália e Espanha). Quanto ao Brasil, apenas três matérias: "Jesuítas
República.2 Como afirmou Paulo Archer de Carvalho, "mitificar o no Brasil", de Nuno de Montemor, n° l do periódico; "Mosinho
passado da nação era um material simbólico essencial para conduzir da Silveira e a partida de d. João VI para o Brasil", de Rodrigues
o combate pelo presente" (Carvalho 1995: 90). Cavalheiro, n° 9 do periódico; e, por fim, uma pequena nota não as-
A revista durou pouco: foram doze números entre março de 1926 sinada, intitulada "Ordem Nova no Brasil1*, n° 10 do periódico. No
e fevereiro de 1927, quando seus redatores, em texto assinado por caso das artes e da literatura, faziam-se loas às temáticas de pendor
Marcello Caetano, anunciam formalmente seu fechamento. Nascida nacionalista e religioso. O quadro abaixo apresenta um balanço das
quase dois meses antes do golpe de Estado de 28 de maio de 1926, os principais matérias de Ordem Nova. Não raras vezes os temas se
integrantes da nova publicação logo tiveram que lidar com uma nova misturavam. De qualquer modo, procurei fazer uma classificação a
ordem autoritária não exatamente "integralista", mas igualmente partir dos temas que considerei mais destacados nos artigos.
"antiliberaP e "antibolchevista". O doutrinarismo dos integralistas
não impediu que alguns de seus quadros se mostrassem sensibilizados Tabela l - Temas predominantes nos artigos de Ordem Nova
quando do golpe militar que derrubou a República. Principalmente,
na medida em que se foi efetuando a transição para uma ditadura Tema Quantidade
civil sob a liderança do professor de economia e pensador católico
Política 62
António Oliveira Salazar.3 Ao que parece, concordavam com o futuro
dirigente do Estado Novo para quem o 28 de Maio foi a "homenagem Religião 38
ao espírito criador da raça lusitana e ao seu poder de iniciativa, que Artes/Literatura 21
será fecundo se o trabalho persistente de descoberta 'interior* não Economia 2
ceder o passo à perigosa imitação de estranhas criações" (Salazar s/
História 2
d: XIX). Portanto, é fundamentalmente na tradição histórica portu-
guesa, e em um forte historicismo que lhe dá suporte, que podemos Desporto 1
encontrar as raízes mobilizadoras tanto do integralismo como do Ciência 1
salazarismo.4 Educação 1
Quanto à revista propriamente dita, preocupava-se em publicar,
sobretudo, três temas: religião, política (tanto nacional como inter- Fonte: Ordem Nova, números l a 12,1925-1926.
nacional) e artes/literatura. No caso da política nacional, eram pre-
dominantes as críticas à República liberal e a defesa da monarquia. Dos participantes de Ordem Nova, pelo menos dois deles tiveram
Quanto à política internacional, eram dominantes os artigos sobre a um destacado papel no regime do Estado Novo português: Pedro
crise do liberalismo e o avanço de movimentos autoritários (como em Teotônio Pereira e Marcello Caetano. Teotônio Pereira, formado
em matemática, foi subsecretário de Estado das Corporações, mi-
2 Sobre a Primeira República, ver: Ramos, R. (2010:577-625); Rosas, F. e RoIIo,M. F. (2010). nistro do Comércio e Indústria e embaixador de Portugal na Junta
3 Sobre Salazar, ver Meneses, F. R. de (2010). de Burgos, o campo nacionalista espanhol liderado pelo general
4 As referências acima citadas, de Burke e Chateaubriand, são, ainda que importantes, mar-
ginais em relação à ideia de continuidade, de permanência com relação ao passado mitificado. Francisco Franco (Rosas & Pereira 1996:718-719). Marcello Caetano

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INTELECTUAIS MEDIADORES A ORDEM NOVA DE M A R C E L L O C A E T A N O

formou-se em Direito pela Universidade de Lisboa. Ocupou vários a maior parte de sua juventude, o bairro dos Anjos. Seu artigo la-
cargos e ministérios, dentre eles, a presidência da União Nacional, menta a banalização do ritual religioso e seu "aburguesamento".
o partido único do regime; o de Comissário Nacional da Mocidade para ele, tratava-se de uma cerimónia morta desde "o embarque do
Portuguesa; o Ministério das Colónias e o Ministério da Presidência. Sr. D. Manuel na Ericeira" (Caetano 1926b: 31-34). Desde o exílio,
Exemplos, portanto, de quadros que, embora aderentes à ditadura portanto^ do último e desafortunado representante dos Bragança, em
militar instaurada em 1926, tiveram seus "batismos" políticos na 1910. Para Caetano: "Uma alma que, levada pela sede do Divino,
opção rupturista e tradicionalista, uma espécie de protofascismo, peregrina do Absoluto, quisesse aí descansar o seu caminho doloroso,
materializado no periódico Ordem Nova,3 não encontraria no meio desses burgueses nenhuma paz..." (Idem).
Este capítulo procura fazer um balanço dos artigos de Marcello Ca- E arremata afirmando a necessidade de um novo Renascimento. De
etano em Ordem Nova.6 O personagem aqui tratado foi um dos mais Cristo, que fique bem dito: "Não nos chega, a nós, almas cristãs do
importantes redatores da revista, tendo assinado textos em todos os seus século XX, a exibição do caiado sepulcro de Jesus: quem nós hoje
números. Foi também, juntamente com Albano Pereira Dias Magalhães,7 queremos é Cristo vivo, vivo no meio de nós, a sua palavra sem plá-
"Redactor fundador" do periódico. Em alguns exemplares, colaborou gios do Pé. António Vieira, nem retóricas de mau gosto" (Ibidem).
com mais de um artigo. Caetano foi, sem dúvida e apesar da pouca Um Cristo, pois, sem intermediários.
idade, uma figura central no periódico. Um dos seus mais importantes Talvez para o jovem e ortodoxo Caetano, as palavras daquele
e entusiastas dinamizadores. Seus textos obedeciam, em geral, a dois sacerdote que um dia se viu obrigado a se postar diante do Santo
ternas básicos: a ortodoxia católica e o doutrinarismo político. Às vezes, Ofício fossem heréticas em demasia. Parece estranho, em sendo Vieira
claro está, os temas se misturavam. Ainda assim, procurarei fazer uma um fiel devoto da Igreja Tridentina c, também como Caetano, um
análise obedecendo a esses dois grandes campos de questões. homem que se destacou, a despeito de humilde origem. Ainda assim, é
fato que a ambivalência do conhecido jesuíta fizesse dele um opositor
da Inquisição e de segmentos privilegiados da nobreza e das ordens
O pensamento católico: um primado para entender a nação religiosas (Vainfas 2011:282-295). Os nobres e privilegiados de ontem
talvez se assemelhassem aos burgueses e igualmente privilegiados
O primeiro texto de Marceílo Caetano publicado em Ordem Nova do tempo de Caetano. Ademais, a consagração mítica do passado
intitula-se "A falência do Senhor dos Passos" e refere-se à procissão representou, tanto para o integralismo como para o salazarismo, não
da quaresma, evento tradicional exatamente no bairro onde viveu uma ode à nobreza ou às classes abastadas, mas ao homem comum,
pobre e honrado (Carvalho 1995:101).
5 Para António Costa Pinto, o integralismo lusitano serviu como uma espécie de embrião O tema da procissão do Senhor dos Passos voltaria na edição se-
para o fascismo português, este encarnado no movimento Nacional-Sindicalismo e em seu guinte, em resposta àqueles que polemizavam com seu texto de estreia.
principal dirigente, Francisco Rolao Preto. Cf. Costa Pinto (1994: 48-54).
6 Caetano escreveu alguns artigos não assinados, principalmente as apresentações da re- Caetano respondia a seus críticos afirmando não ter intento de criticar
vista. Para o presente trabalho, considerarei apenas aqueles que trouxeram sua assinatura. esta ou aquela pessoa, mas as circunstâncias de pomposidade e a
7 Nascido em 1904, ocupou os cargos de vogal da Câmara Municipal do Porto (1935),
vereador da Câmara Municipal do Porto (1939-1942), vogal da União Distrital do Porto presença de autoridades que, por conveniência, frequentavam a pro-
e procurador da Câmara Corporativa em sua VII Legislatura. Disponível em: http://app. cissão. Incomodava-o, igualmente, a mentalidade religiosa em geral
parlamento.pt/PublicacoesOnLine/DeputadosAN_1935-1974/html/pdf/m/magalhaes_al-
bano_camilo_de_almeida_pereira__dias_de.pdf. Acesso em: 12/7/2013- dos portugueses. "Quando se trata, porém, da maior glória de Deus

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S A ORDEM NOVA DE M A R C E U Q CAETANO

e dum defeito de mentalidade de certos católicos portugueses, não Em outro texto, na edição do mês de maio, reafirma a filiação e
sei nem quero saber o que são as conveniências" (Caetano 1926b: subordinação da arte a Deus: "Criada para servir, a Arte só encontra
67-68),8 Daí a dureza de seu texto e de seus argumentos. Para além a sua perfeição na subordinação de um fim mais alto. Desse modo se
das conveniências, estava o compromisso com o que acreditava. salva da barbárie.»59 (Caetano 1926c: 91-94). Neste artigo, a tendên-
Nos primeiros números de Ordem Nova, parece que as prefe- cia mística dos primeiros textos de Marcello Caetano fica bastante
rências do jovem académico de direito continuavam no terreno da evidente. Mais uma vez trata-se de uma resenha a respeito de um
religião, ainda que, desta vez, construindo uma simbiose entre fé, livro: Verbo ser e verbo amar, de António Correia d'Oliveira.10 Além
estética e nacionalismo. Não se tratava exatamente de um artigo, dos elogios formais, Caetano, referindo-se a Santa Teresa, combate
mas de uma resenha para o livro Amor de Deus e da Terra, escrito duramente a tendência ao secularismo5 oriunda do século XIX e
pelo sacerdote e pensador católico Nuno de Montemor,9 Pessimista, continuada no XX:
característica que o acompanhou durante toda a sua vida, afirma
Caetano: "Pobres como Jó e como ele conformados, são os portu- Por curiosa associação de ideias, este livro do poeta faz-me lembrar a
gueses em matéria de pensamento religioso" (Caetano 1926b: 63-67). obra da Santa de Lisieux. Também a tarefa de Santa Teresa consistiu
Para além da fraqueza em termos de pensamento, igualmente frágil em despir a sensibilidade moderna de tanta ganga que a fez parecer
em seu país era a poesia religiosa. Na opinião de Caetano: "Impõe-se triste figurante num infeliz carnaval. Não a compreendeu o nosso
uma renovação nesse campo9 introduzindo na poesia cristã a força que século, que, ainda demasiadamente tomado dos males das anterio-
ela deve ter, o sentimento forte que ela deve possuir.1* E neste aspecto, res gerações, não pôde por enquanto reformar os seus conceitos e
subordinar um coração puro a uma inteligência sã (Caetano 1926b).
ninguém havia sido tão grandioso quanto sua referência política mais
importante, António Sardinha (Idem). Ainda de acordo com Caetano,
E, mais uma vez, acasala a condição religiosa com a condição portu-
renovava-se a poesia religiosa com a obra recém-publicada por Nuno
guesa: "Eis como o poema é bem português apesar de ser humano,
de Montemor. E, à frente das formas e métricas da poesia, sua riqueza
E assim, direi antes, é mais humano por ser bem português" (Idem),
estava na conjugação do conteúdo com a forma, "duma simplicidade
Ao mesmo tempo, o século XX, submetido à Razão, mostrava-se
amiga - uma poesia cheia de humanismo, que é portuguesa e cristã"
incapaz de compreender a obra da santa evocada.
(Ibidem). De acordo com Caetano, ao menos em Portugal, ser poe-
A religiosidade de Marcello Caetano revelar-se-ia mais uma vez
ta é ser, necessariamente, cristão. E, portanto, a forma deve servir
no número 6 de Ordem Nova, datado de agosto de 1926. Naquele
antes a Deus que à poesia propriamente dita: "Nuno de Montemor
número, em extenso artigo, afirmava que os homens do século XIX, o
é um poeta. Não se confunde na turba dos que usurpam esse nome
século do progresso e da ciência, haviam prestado um grande serviço
sublime, mas pode dizer para justificar os seus louvores a Deus as
ao Diabo ao terem-no matado. Aliás, antes de negarem a existência
palavras de Santo Agostinho 'fizeste-vos para Vós e o nosso coração
de Deus, haviam negado a existência do Diabo (Caetano 1926e: 189-
está inquieto enquanto em Vós não repousar"5 (Ibidem).
194). O materialismo do século XIX conduz o homem à armadilha do
8 A ênfase é do original.
* Para uma nota biográfica de Nuno de Montemor (1891-1964), ver o website da Biblioteca 10 Sobre António Correia d'Oliveira, ver o website do Instituto Camões. Disponível em:
Eduardo Lourenço. Disponível em: http://www.bmel.pt/a-guarda-em-letras/autores-do- http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/30/saudade4.html. Acessado em 19 de junho
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INTELECTUAIS MEDIADORES A ORõEM NOVA DE M A R C E L L O C A E T A N O

materialismo, da negação do pecado e, consequentemente, o homem português dependia não dos portugueses em geral, mas "do nosso
se torna vulnerável. escol", ou seja, das elites portuguesas. Eram elas, as elites letradas que
No mês de outubro os temas de feição religiosa voltavam. Assim saberiam educar, na fé e na política, os homens em geral. Tratava-se
como a procissão do Senhor dos Passos se havia banalizado, também de uma tarefa de poucos para muitos.
a festa de Santo António, o padroeiro de Lisboa, caminhava no mes- Voltemos ao teor religioso dos artigos de Caetano. Em plena
mo sentido. Marcello Caetano fazia republicar um artigo aparecido época de consolidação da ditadura, Marcello Caetano contestava
anteriormente no jornal A Época, exatamente no dia dedicado ao autores que propunham uma "interpretação livre" acerca dos santos
santo. Tratava-se, a seu ver, de uma festa pagã e banal como qualquer da Igreja Católica. Assim, recusava-se a utilizar conceitos contem-
outra. Perdera o espírito religioso. Assim: porâneos, a seu ver propagados levianamente, a respeito da vida e
dos ensinamentos que esses mesmos santos haviam legado. Por este
Toda a gente festeja Santo António pelo menos com um balão, um motivo, criticava duramente o artigo "Democracia transcedentária
petardo, ou um fósforo de cor. Mas - ai de nós! - a maior parte de S. Francisco de Assis", de R. P. J. Alves Correia.11 O autor falava
dos que entusiasticamente se manifestaram nesta noite de balbúrdia numa "Democracia cristã" e na "fina flor do espírito democrático"
e chinfrim desconhece inteiramente, não digo já a grandeza ascé- de São Francisco. Desconhecia, portanto, que as leis emanadas da
tica, o perfil intelectual do grande santo, mas ao menos o sentido Igreja existem para se oporem ao homem, por natureza pecador.
cristão de sua vida. Santo António é um nome sem significação.
Assim, não têm como ser democráticas. Elas, as leis cristãs, existem
Santo António é um pretexto. É um santo divertido: não é um Santo
sem consulta prévia aos crentes, até porque existem para corrigir o
(Caetano 1926g: 252-255).
homem e sua "tendência congénita para o mal". Por isso, a lei moral
é, para Caetano, essencialmente negativa: "não matarás, não furta-
Além da banalização do ritual em torno do santo, além da pagani-
rás, guardarás castidade". A negatividade do homem assim deve ser
zação de uma festa religiosa, Marcello Caetano insiste no pendor
corrigida pelos mandamentos outorgados por Deus e seguidos pelos
nacionalista que vincula a fé católica à condição de ser português:
santos (Caetano 1926g: 366-367).
"Ficam sem saber que foi uma mãe portuguesa que lhe abriu os olhos
O pensamento de Marcello Caetano, pois, coaduna-se com toda
da alma para a Eternidade, que foram de Portugal seus primeiros
uma tradição não apenas antiliberal, mas também conservadora, com
mestres e que foram aqui dados os seus primeiros passos nas ciências
profundo pessimismo em relação à condição humana. O pensamento
de Deus, que tanto havia de ilustrar em cátedras italianas" (Idem).
conservador considera a natureza humana não mutável pela ação,
Assim, a Lisboa que serviu para dar à luz o santo absorvia dele algo
na medida em que mergulha suas raízes em uma realidade sobre-
menor: os rojões, os petardos e a balbúrdia. E, por isso, esperava mais,
-humana: a vontade divina. Assim, nem o conhecimento nem a ação
particularmente das elites que tinham, por obrigação, que reverter a
política poderiam ser vistos como totalmente libertadores. Daí o
banalidade com que o santo patrício era tratado: "Permita Deus que
profundo pessimismo para com o século XIX. Não obstante, para
o nosso compatriota passe a merecer maior atenção do nosso escol,
os conservadores, a negação da autonomia histórica dos indivíduos
demonstrando que nesta idade de desespero nem todos estão preo-
não é incompatível com a ideia de progresso, desde que este seja visto
cupados apenas com o fim..." (Ibidem). Não pode, nem deve passar
despercebida esta última frase. Para Caetano, a recuperação do santo
11 Não encontramos referência ao autor citado.

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S A ORDEM NOVA DE MARCELLO CAETANO

como um fenómeno evolutivo, natural e não arbitrado pelo indiví- desconhecimento de Portugal. Em sua opinião, a inexistência de uma
duo. No campo político propriamente dito, duas questões parecem literatura de grande porte a respeito dos domínios portugueses em
relevantes: em primeiro lugar, o conservadorismo se manifesta no África espelhava o descaso para com aquela realidade distante. Daí
sentido da preservação do poder e contra a sua redução a interesses a importância do livro Ana a Kalunga, de Raposo. Para Caetano, "é
egoístas; em segundo lugar, a entrada das massas na cena política um livro perfeito" (Ibidem). E também aqui, ainda que predominan-
constituiu o principal pesadelo do pensamento conservador. Por isso do uma reflexão de teor político, não deixa de apontar para o seu
a constante repetição da necessidade de um escol, de uma elite capaz sentido nacional-religioso; "Desnecessário se torna pôr em relevo o
de conduzir e educar as massas.12 significado nacionalista do livro de Hipólito Raposo. E quanto ao
Ainda que as reflexões religiosas de Marcello Caetano guardem espírito cristão que o anima, fácil é ao leitor descobri-lo e sentir-se
certa autonomia de suas preocupações políticas, em pane podemos por ele tocado" (Ibidem). Mais do que um bom livro, tratava-se de
verificar importantes traços de continuidade. É o que se verá a seguir. um trabalho comprometido. Qualidade literária e conteúdo, assim, se
imiscuíam (Ibidem). Em sua juventude, portanto, Marcello Caetano
via o mundo colonial como um "lugar português". Sua opinião sobre
Na política: os primados da nação e do antiliberalismo 0 suposto desprezo republicano era, deste modo, irredutível: uma ação
contra a nacionalidade. Mas as coisas em breve mudariam.
Marcello Caetano, para além do misticismo, enveredou, igualmente, No dia 28 de maio de 1926, os jovens editores de Ordem Nova -
pelas questões da política. No mesmo número 3, de maio de 1926, como de resto, todo o país - foram pegos de surpresa com o golpe de
em que escreveu o texto dedicado a António Correia d'Oliveira. Em Estado protagonizado por militares e que pôs fim à breve história da
resenha de um livro de Hipólito Raposo,13 tratou de um tema caro 1 República portuguesa (1910-1926). É provável que a crise estabele-
a toda sua vida política e intelectual, bem como a do Estado Novo: a cida com a implantação do novo regime tenha atrasado o lançamento
"questão ultramarina" (Caetano 1926c: 94-98). Neste caso, a crítica do número seguinte da revista, principalmente se considerarmos o
centrava-se tanto sobre os portugueses em geral - "Nós, portugueses, envolvimento político de seus redatores. Assim, os números 4 e 5 de
mal conhecemos Portugal" (Idem) -, como sobre o regime da Repú- Ordem Nova saíram em uma mesma edição. É bom lembrar tam-
blica e seu desdém para com as colónias. De acordo com Caetano, "o bém que, integralistas como eram, os militantes da revista tinham
desprezo que o Estado demonstra pelo Portugal de além-mar é um um compromisso doutrinário com a causa monárquica. Por este
incitamento à nossa indiferença; por outro lado, a nossa literatura motivo, Marcello Caetano escreveu um artigo justificando o apoio
colonial não ia muito além do "Diário de Lisboa" (Ibidem). Vale notar do integralismo lusitano ao golpe e, sobretudo, ao novo regime. Em
que mesmo em uma época em que os domínios do Ultramar não eram primeiro lugar, procura explicar a necessidade da ditadura, mesmo
ainda considerados juridicamente territórios portugueses, Caetano sob um regime republicano:
afirmava que o desconhecimento das colónias era, ao mesmo tempo,
No nosso ne 3 esclarecíamos nós a posição tomada pela Ordem Nova
a respeito das ditaduras e dizíamos: "Reconhecemos que o Estado não
12 Sobre o conservadorismo, ver Bonazzi (1992: 242-246) e Teixeira da Silva (2000:11-21). pode continuar a enfraquecer-se neste regime miserável e suicida; por
Sobre a presença das massas na política, ver: Bottomore (1996: 235-237).
13 Sobre Hipólito Raposo, ver: Leal (1994).
isso, aceitamos a solução ditatorial, como solução transitória, como

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INTELECTUAIS MEDIADORES A ORDEM NOVA DE M A R C E L L O C A E T A N O

intervenção cirúrgica a que fatalmente há-de suceder uma medicina , seguindo a tradição anunciada um século antes por Edmund Burke,
cuidadosa. {...). Realizou-se o desejo da maior parte dos portugueses pouco importam as qualidades individuais maiores ou menores do
que, com a volta, lenta, é certo, mas segura, da virilidade mental e
monarca. A instituição está acima do indivíduo. Por isso, na Ingla-
da riqueza do caráter, querem um governo forte, sem medo das res-
terra do XVII, as circunstâncias exigiram a indicação de uma rainha
ponsabilidades, consciente e inteligente (Caetano 1926d: 147-151).
estrangeira (Sofia, princesa-eleitora de Hanover e filha de Elisabeth
Stuart), e assim foi para que se garantisse a continuidade e o princípio
Os termos utilizados por Caetano, "solução ditatorial", "virili-
da hereditariedade (Idem: 62-63). Ao mesmo tempo, não está em
dade", expressam uma cultura de época, em que o combate ao
questão se o rei é bom ou mau. Fundamental é que seja legítimo. E
liberalismo extrapolava a mera dimensão institucional de um re-
esta legitimidade é determinada pela hereditariedade
gime mais ou menos liberal, mais ou menos ditatorial. Para além
disso, a "salvação nacional" é um compromisso dos nacionalistas; e
(...) o rei Jaime era um mau rei investido de um justo título: não era
os integralistas "acima de tudo são nacionalistas - note-se bem! - e
absolutamente um usurpador. Os príncipes que se sucederam em
só porque são nacionalistas, professam as doutrinas monárquicas" virtude do ato do Parlamento que colocou a coroa sobre a cabeça da
(Idem). Assim, não há possibilidade de monarquia no campo do li- eleitora Sofia e sobre as de seus descendentes protestantes reinaram,
beralismo. Daí as críticas constantes de Marcello Caetano e de seus tal qual o rei Jaime, em virtude de um título hereditário. O rei Jaime
correligionários, ao Portugal do século XIX. Mas o texto aprofunda reinou em virtude da lei que existia no momento em que ele subiu
ainda mais a defesa da monarquia e da possibilidade de sua correlação ao trono; (...), não por meio de uma eleição, mas em virtude da lei
com o sistema ditatorial. Para Caetano, o rei é a garantia de conti- que existia no momento em que respectivamente a receberam, e que
nuidade da nação. A ditadura [O ditador] sem rei, torna, portanto, fixava a coroa no ramo protestante (...) (Idem: 62).
o Estado incompleto. Procura, então, dar exemplos de monarquias
que lhe são contemporâneas. Afirma o autor: Também o argumento de Caetano a respeito da importância da mo-
narquia seguia esta percepção da continuidade. Mesmo, como disse
Mas mantemo-nos tão monárquicos como éramos antes de 28 de o pensador inglês, que esta continuidade viesse estabelecida na coroa
Maio. A Nação necessita de continuidade no governo, de perma- de um indivíduo destituído de qualidades.
nência, de estabilidade - e a ditadura é por definição - transitória.
A Nação necessita de certeza quanto ao seu destino - e depois deste Dizia Montesquieu que era uma das maiores vantagens da monarquia
ditador não se sabe quem virá nem como. Não [nos] deixemos iludir o conseguir grandes coisas com virtudes médias. Um homem vulgar,
pelos exemplos do estrangeiro; na Espanha e na Itália há ditadores, de medianas qualidades, investido no "duro ofício de reinar" por
é certo, mas há um rei. Um rei que é a garantia da continuidade da uma tradição secular que faz dos interesses da nação os interesses
obra encetada, um rei que substituirá inteligentemente o ditador que da família que representa aparece sempre nos momentos de crise
está quando este, por qualquer motivo, tiver que deixar o poder, um nacional como sendo o mais sensato, mais inteligente e o mais forte
rei que encarna o interesse nacional (íbidem).14 de toda a nação (Caetano 1926d: 147-151).

Como em diversas passagens de outros artigos, Caetano cita António


M A ênfase é do original. Sardinha à guisa de argumento de autoridade. E, mais uma vez, seguia

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a perspectiva de Edmund Burke acerca da importância institucional de conde de Lagos. Ainda mais sendo o referido título pertencente à
da monarquia, para além das qualidades do indivíduo. Aliás, para linhagem de d. Miguel: uma blasfémia absoluta! O texto é demonstra-
além mesmo da identidade nacional e cultural do monarca perante tivo de como Caetano via tão criticamente a Casa Real portuguesa, a
seus súditos. Dizia Sardinha a respeito da importância do monarca: mesma que sucumbira ao liberalismo e ao Ultimatum inglês no XIX.
Sobre o novo conde de Lagos, comentava jocosamente: "Pois qualquer
Nada faria de positivo Primo de Rivera, prejudicando a Espanha na dia leremos o eminente sábio fardado de conde, com chapéu de dois
guerra civil, se não lhe acudisse como apoio mobilizador o prestígio bicos e tudo, a comemorar a Batalha de Ourique naquela tentativa de
histórico da realeza. Republicano de origem e de doutrina, porque Academia democrática que ele fundou após a República, de sociedade
foi, senão por isso, que Mussolini confiou à Monarquia o destino com mestre Teófilo, ali de Jesus" (Caetano 1926f: 222-224). Para ele,
e a viabilidade da sua ação governativa? De resto já Mazzini, repu- faltavam gestos que dignificassem a condição de nobre:
blicano como o atual duce do fascismo, acabou por reconhecer nas
instituições monárquicas o único agente eficaz da unidade italiana. A Causa Monárquica em Portugal está reduzida a um preciosismo
Idêntica atitude assumiu no seu país o republicano Nensen, chaman- de salões, em que se movem muitas marquesas e baronesas cujos
do ele próprio para o trono um príncipe estrangeiro, ao separar-se a maridos votam no Snr. Carvalho da Silva e são amigos de tu dos es-
Noruega da Suécia (apud Caetano 1926d: 147-151). tadistas republicanos. É um monarquismo de recepções e de bilhetes
de visita, em que ficam muito bem os títulos e as coroas respectivas.
Claro está que nem António Sardinha nem Marcello Caetano tinham É uma comovente saudade dos bons tempos da corte, aonde muitos
como prever o desfecho final do fascismo italiano, ocorrido exata- deles nunca foram, mas que chegaram até hoje adoráveis anedotas
mente devido à força da instituição monárquica. De qualquer forma, imensamente canalhas (Idem).
fica clara, nesta época de formação da ditadura, cujo futuro era ainda
incerto, a opção doutrinária pela monarquia. "Pelo menos nós, os da Assim, a seu ver, não bastava ser monarquista, mas defensor e pra-
Ordem Nova, permanecemos monárquicos, não porque [nos] vista- ticante da causa. Por isso a adesão dos conservadores portugueses à
mos bem e usemos monóculo, mas porque consideramos a monarquia memória de d. Miguel e à defesa de sua linhagem como verdadeira
como sendo a única forma de governo capaz de, em Portugal, servir representante da corrente monárquica em Portugal. De outra forma
efetivamente os interesses da nação" (Idem). Assim, ao menos em não valeria a pena empenhar-se pelo retorno do regime monárquico.
seu início, a opção ditatorial em um sistema republicano era apenas Pelo menos para os militantes de Ordem Nova:
uma defesa contra um mal maior: a república liberal, racionalista e
laica. E mais: um momento de transição para a monarquia com um Simplesmente no nosso campo o caso é outro. Aqui combate-se com
inteligência e com fé. É uma parte da melhor mocidade portuguesa
governo dirigido por um ditador.
que luta por uma renovação moral, política e económica da sociedade
O tema monárquico voltava às preocupações de Caetano na pu-
portuguesa, e que, partindo dum nacionalismo esclarecido, chegou à
blicação de setembro de Ordem Nova. Tratava-se, na verdade, de um conclusão monárquica que defende na convicção que só ela proporcio-
indignado artigo contra relações, a seu ver indevidas, entre a Casa nará os meios de realizar a reforma social que pretende levar a cabo.
monárquica portuguesa e reconhecidos republicanos. Recusava-se Antes de ser partidária do sr. d. Duarte Nuno, foi defensora
Caetano a aceitar que fosse um republicano condecorado com o título da ideia monárquica que exige também aos reis que defendam e

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respeitem. Isto de fazer titulares de opereta, e mais a mais agraciando inventou, recebendo os indesejáveis italianos e rendendo à Itália
Cabreiras, é uma falta de respeito pela ideia que defendemos e por os indesejáveis franceses, intrometer-se na vida privada e honesta
todos aqueles que em Portugal lutam com entusiasmo e boa-fé. da Itália rinovata.
Senão... não! (Ibidem) A reação antifrancesa na Itália representa um ato nobre de legí-
tima defesa (Idem).
Se Caetano, coerente com os princípios expostos no subtítulo de
Ordem Nova, demonstrava-se intransigente para com o comporta- Neste caso, a França liberal seria o exemplo da decadência, enquanto
mento "liberal" da Casa monárquica, o combate à chaga do inte- a Itália, em nome de sua ação enérgica no sentido da regeneração,
lectualismo vinha acompanhado de uma grande ode à violência e à crescia e se consolidava. A defesa das nações é como uma ação de
virilidade. Este é o momento, talvez, em que o discurso dos jovens cura sobre o mal, sobre a chaga que representa o liberalismo, o secu-
integralistas mais se aproximou da cultura do fascismo. Referindo-se larismo e a razão. Contra estes valores, a guerra, em um sentido de
à Itália de Mussolini, Marcello Caetano enaltece sua nova presença no cruzada, é mais que necessária: é um imperativo. E a Itália, no dizer
quadro das relações internacionais. Para que a Itália se revalorizasse, de Marcello Caetano, teve coragem de fazê-la.
foi necessário o expurgo daqueles que viviam da palavra:
Nós, que cremos na virtude da violência para curar as nações fun-
A Itália é um país que tenta reviver. Uma vez varridos os bacharéis, damente atacadas do mal, que cremos na verdade anã e que por ela
os políticos, os retóricos, todos os elementos infecciosos que enve- nos sacrificamos, que nada concedemos, preferindo salvarmo-nos
nenavam a nação, revelou-se ao mundo um Estado forte, um povo perecendo no nosso posto a perdermo-nos recolhendo os louvores do
unido, consciente e decidido, que faz ouvir no Concerto das Nações mundo porque abandonamos o combate; nós que cremos em Deus
a sua voz clara e enérgica, exprimindo uma vontade viril (Caetano Padre Onipotente, na vida eterna e em alguma coisa de mais nobre
1926h: 267-270). do que o barro transitório, que é a alma imortal, nós afirmamos bem
alto que permaneceremos em guerra aberta contra uma sociedade
A virilidade apontada por Caetano vem acompanhada de uma clara que se desfaz miseravelmente, seguros na nossa intransigência, mais
manifestação em favor das virtudes regeneradoras da violência. A do que nunca adversários daqueles que, dizendo servir a Verdade, a
atitude passiva da reflexão (da "literatice") seria substituída pela atraiçoam e a vendem a todos os instantes pelos trinta dinheiros que
rendeu a Judas a morte do Redentor (Idem).
energia (a ação). A antítese reflexão x ação é expressa também no
papel desempenhado pelos Estados Nacionais. Neste caso, a antítese
A política, mais uma vez, vem acompanhada da fé. Por isso, a virtude
seria entre França e Itália. Vejamos o que diz Caetano:
da ação violenta, da cruzada intransigente contra a maldita herança
A energia do duce limpou a Itália de tais elementos enfraquecedores, legada dos franceses. Reproduz, assim, a perspectiva de uma vasta
c foi então que a França, onde neste século de Verdade, se açoita tradição oriunda do século XIX que via com profundo pessimismo
ainda toda a mentira que por obra sua se espalhou pelo mundo, os acontecimentos de 1789 e suas inevitáveis consequências.15
a França onde nem os melhores se entendem e onde todos se cor-
rompem, a França onde as esperanças de salvação são nulas e onde
15 Sobre o culto da violência no século XIX entendida como antítese ao liberalismo c ao
sopra um vento consolador que tudo confunde e perde, a França parlamentarismo, ver Gay (1995) e Paxton (2007).

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Mas para além da defesa declarada da violência em um sentido A Declaração dos Direitos do Homem bem como todo o empenho
cruzadista, Marcelío Caetano foi também um autor extremamente legislativo provocado pelo liberalismo seriam, assim, expressão de
crítico e duro para com aqueles que, em nome da legalidade, de- um decadentismo que a época das ditaduras desmascarava em nome
fendiam a Constituição de 1911 e combatiam os acontecimentos do primado do "espírito nacional": "a agitação desses cem anos
de 1926. De acordo com suas palavras, no Portugal daqueles anos, tem por causa primeira a oposição tenaz entre o génio nacional e os
"É raro o homem de leis das direitas ou das esquerdas que não está papéis que os legalistas alcunharam pomposamente de 'Constitui-
contra a ditadura" (Caetano 1927a: 344-350). Esta conduta, a seu ções'" (íbidem). O nacionalismo teve, assim, coragem de romper com
ver, vinculava-se à defesa estéril, daquilo que chamava de "espírito a hipocrisia das leis, dos papéis escritos e destituídos de conteúdo.
jurídico". Neste aspecto, era profundamente agressivo para com seus Ignorantes em relação ao "espírito nacional". Principalmente porque
futuros colegas advogados: as "leis" e as "Constituições" servem para o bem de poucos, e não
para o bem geral.
Na verdade, o espirito jurídico caracteriza-se pelo respeito farisaico
pela letra da lei acompanhado do constante desrespeito do seu espí- Violou-se a lei sem hipocrisia, sem máscara. Ninguém pode negar aos
rito. Na sua maioria esses legalistas que para aí pululam, advogados ditadores uma coragem moral e um desassombro que os partidos nun-
encanecidos no foro, bacharéis recém-formados e pedantes, deputados ca tiveram, sempre preocupados em manter a aparência de legalidade
em vilegiatura, políticos com agência de favores, não fazem mais do e de constitucionalidade quando escandalosamente saltavam sobre
que buscar aplicar aos casos mais desfavorecidos por ela e menos tudo para satisfazer seus interesses e os de seus partidários (íbidem).
dignos da sua proteção, interpretando sutilmente a letra e passando
sobre ela um disfarce, se preciso for (Idem). Daí a necessidade da ditadura e da ruptura frente à legalidade:

As leis, quando dotadas de artifícios, servem apenas como truques É por isso que nós aplaudimos a violação de quantas leis seja neces-
para prender o governante em argumentos que impedem a sua ação. sário violar, conquanto que se faça justiça, se restabeleça a ordem,
Chega a citar, no mesmo artigo, Miguel de Unamuno, cuja inteligência se consiga a paz e se transforme Portugal num país ajuizado, onde
"a paixão pública infelizmente traz transviada", e Sá de Miranda, que se possa trabalhar com proveito e viver com calma, progredindo ver-
fazem odes contra os advogados e ao malfadado "espírito jurídico". O dadeiramente na ordem espiritual como na material. Numa palavra,
aplaudimos a violação das leis, daquelas leis que todos nós sabemos
interesse nacional, no entanto, estaria acima da lei e de seu espírito:
como eram feitas na intimidade de S. Bento, desde que a ditadura
seja para o bem comum (íbidem).
(...) negamo-nos a reconhecer-lhes autoridade para agora protestarem
contra a clara, patente, desassombrada e sincera violação que é a
praticada num intuito de salvação nacional. Mas Marcelío Caetano foi, poucas vezes, é verdade, e mantendo toda
É que o espírito jurídico, reverente à letra, está ainda fascinado pela a sua intransigência e defesa da ditadura nacional e do antiliberalismo,
afirmação dogmática e pedante do artigo 16 daquele curioso museu um antidogmático. Claro está que, a seu ver, a História pretérita de
que é a "Declaração dos Direitos do Homem": "Toda sociedade em Portugal é justiíicadora das ações tomadas no presente. Mas, ainda
que nem está assegurada a garantia dos direitos, nem está determinada assim, os mitos construídos a respeito do passado são, em larga medi-
a separação dos poderes é uma sociedade sem constituição" (íbidem). da, questionados e criticados duramente pelo então jovem intelectual.

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Assim foi quando, a 1° de dezembro de 1926, proferiu uma longa considerando que é indispensável e urgente a instituição em
conferência para a Juventude Católica Portuguesa a respeito da Res- Portugal da muralha da China e considerando muito mais coisas
tauração de 1640, comemorada exatamente naquele dia (Caetano igualmente consideráveis;
1926h: 303-316). Trata-se de uma comunicação de teor académi- o suplicante requere a V. Exas. para que essa Comissão sempre
co, cuja análise aqui nos faria desviar a atenção das preocupações zelosa da integridade nacional e do bem pátrio use dos meios legais
para o punir por tão nefandos e miseráveis delitos com todo o rigor
principais de Caetano como articulista de Ordem Nova e autor de
da lei confessando-se desde já réu contumaz de tredo vilão {Caetano
textos cujo objetivo era a mediação político-cultural, pois, voltados
I927b: 561-568).
para um público não especialista e não académico. Por enquanto,
basta a indicação de que a referida conferência combate a ideia de
Mas o texto principal neste número 12 é a notícia de retirada de
usurpação filipina ou de uma União Ibérica a despeito dos portu-
Ordem Nova de circulação, ao término de um ano de atividades. A
gueses. Reconhece, portanto, a legitimidade dos Felipes. Tratarei
despedida é assinada por Marcello Caetano. E o fim da revista não
apenas da resposta dada por Marcello Caetano àqueles que, a partir
significava, para os integralistas, um fracasso ou uma derrota. Pelo
de argumentos nacionalistas, criticaram duramente sua conferência
contrário, ela se encerrava em virtude de um anunciado crescimento
e posterior publicação. A crítica havia partido de uma sociedade
do movimento integraiista.
intitulada "Comissão Central 1° de Dezembro/Sociedade Histórica
da Independência de Portugal". Jocosamente, Caetano afirmava que
A Ordem Nova suspende neste número a sua publicação. Estamos em
"o signatário teve a ousadia inqualificável de, publicamente, romper vésperas de um renascimento da atividade integralista que provocará,
com o lugar-comum de que V. Exas. são muito dignos guardiões ao que consta, o aparecimento de jornais diários e a intensificação
num discurso que proferiu no dia 1° de dezembro de 1926" (Caetano da luta no meio da qual nada poderia a fraqueza da nossa revista de
1927b: 561-568). Mais uma vez, tratava seus adversários com profun- estudantes (Caetano 1927b: 562-567).
da ironia, chegando mesmo a desqualificá-los como interlocutores.
De qualquer forma, é digna de nota a crítica ao senso comum pre- A pequenez da revista, em nome da grandiosidade que estava por vir,
dominante naquele Portugal recém-ingresso na ditadura, como será ao é que justificava o seu fim. Ainda que pequena3 eram seus signatários
longo de todo o Estado Novo. Marcello Caetano recusava-se tanto a otimistas quanto ao legado deixado e firmes nos valores transmitidos
ver a monarquia compósita de 1580-164016 como uma usurpação, como por ela:
também a Espanha como uma adversária em potencial. Neste documen-
to, Caetano assume responsabilidade pessoal pelo texto publicado, exi- Quando um dia se fizer a história do movimento integralista a Ordem
mindo totalmente seus companheiros pertencentes ao Instituto António Nova estará nela num lugar que não nos compete agora dizer qual
Sardinha. E ironizando os seus contendores, assim terminava o texto: seja. Só notamos que procuramos sempre nestas páginas pregar [o]
integralismo lusitano, segundo as lições dos últimos anos de vida de
(...) considerando que todo o bom patriota deve odiar rancorosamente António Sardinha. Católicos por arreigada fé e não em homenagem
a Espanha sob pena de traição; ao interesse nacional, fizemos à doutrina integralista as correções que
sua atitude nos impunha, não incorrendo nunca, segundo cremos,
nos erros que a Igreja agora condenou e muito bem (Idem).
Sobre a monarquia compósita, ver, entre outros, Elliott (1990; 2006).

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Caetano tinha razão neste aspecto, A revista durou pouco, um Casa Real. Ao mesmo tempo, não hesitava em defender formalmente
ano apenas. Mas ela é parte integrante e obrigatória para aqueles a ditadura e elogiar os acontecimentos da Itália de Mussolini. Mesmo
que estudam o integralismo lusitano. Correspondeu exatamente quando mediaram e optaram pelo apoio à ditadura, ela foi vista como
a uma fase intermediária do movimento, entre o falecimento de "solução transitória". Não foi tão transitória assim, ao menos para
António Sardinha e as dissidências que levaram à adesão ao regi- Marcello Caetano e seu estimado amigo Pedro Teotônio Pereira.
me da ditadura, não mais como "solução transitória". É provável, Entender as razões desta transigência, partindo de militantes que se
inclusive, que a importância do periódico de vida curta se deva, afirmavam "intolerantes51 e "intransigentes", é questão que merece
exatamente,, à participação daqueles jovens no regime ditatorial estudo e aprofundamento. Provavelmente a escolha de ambos tenha a
e, posteriormente, no Estado Novo. Os que aderiram à ditadura/ ver com a proximidade das concepções historiográncas do integralis-
Estado Novo amadureceram e envelheceram construindo o regime mo e do salazarismo: uma ode mítica a um passado regenerador. Mas
nascido do golpe militar de 28 de março de 1926. Para falar deles, não necessariamente regenerador da tradição nobre e aristocrática.
de suas origens e escolhas iniciais é fundamental a passagem por Como dissemos acima, tratava-se no salazarismo de evocar o homem
Ordem Nova. E, em parte, muito do que afirmavam na juventude
comum. Não por acaso, já no exílio, em carta ao historiador Joaquim
permaneceu ao longo dos anos e até mesmo após a queda do regime
Veríssimo Serrão, Caetano fazia questão de lembrar que tanto ele
ditatorial em 1974.
quanto Salazar, ao contrário de seus principais opositores, Álvaro
Cunhal e Mário Soares, haviam nascido da "gente humilde", que
"lutava e subia a pulso na vida" (apud Valente 2002). Outro tema
Conclusão
constante no trabalho do jovem Caetano, como também em seus
textos da maturidade, é a percepção da necessidade de um escol, de
Marcello Caetano nunca foi, mesmo quando jovem, um contem-
uma elite capaz de conduzir os portugueses em sentido correio, isto é,
porizador. Sua participação como redator de Ordem Nova assim
em não deixá-los seduzir pelo discurso fácil das doutrinas exógenas.
o comprova. Aliás, como o próprio afirma em seu texto de des-
Nacionalismo e catolicismo: temas que, na vida de Marcello Caetano,
pedida, "acrescentamos um belicoso subtítulo" (Idem). Esta era
a intenção: a belicosidade, a intolerância, o enfrentamento. Suas caminhavam entrelaçados.
preocupações, conforme notamos, eram basicamente duas: a relação
dos integralistas com a religião e com a política. Nos dois casos,
não havia mediação possível. As festas do Senhor dos Passos e de Fontes
Santo António perderam seu conteúdo religioso. Banalizaram-se
frente à pouca ou nenhuma ciência dos portugueses para com a Caetano, M. (1926a) "A falência do Senhor dos Passos." Ordem Nova.
religião. Transformaram-se as referidas datas em efemérides. Em Ano I, n. I, Lisboa, 31-34.
(1926b) "A falência do Senhor dos Passos." Ordem Nova. Ano I,
uma alegria que era a própria negação da reflexão necessária à
abril, n. 2, Lisboa, 67-68.
prática religiosa.
(l 926b) "Um poeta cristão." ("Amor de Deus e da Terra", por Nuno
Também na política o rigor era o mesmo. Daí seu estado de estu-
de Montemor) Ordem Nova. Ano I, abril, n. 2, Lisboa, 63-67.
pefação quando do comportamento "republicano" da desprestigiada

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INTELECTUAIS MEDIADORES T A ORDEM NOVA DE M A R C E L L O C A E T A N O

(1926c) "Onoràte ['altíssimo poetai" Ordem Nova. Ano I, maio, Bonazzi, T. (1992) "Conservadorismo*. In: Bobbio, N.; Mateucci, N. &
n, 3, Lisboa, 91-94. Pasquino, G. Dicionário de política. Brasília: UnB, 4 ed.
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9, Universidade do Ar: Jonathas Serrano


e a formação dos professores de história
pátria pelas ondas do rádio
Giovane José da Silva

Destinada a ensinar e a orientar os mestres dos pontos


mais longínquos do Brasil, a Universidade do Ar é uma homenagem
ao professor que exerce o magistério longe dos grandes centros,
fora da órbita das universidades. Desse professor que é um
apóstolo e um autodidata, muitas vezes dificultado em sua missão
pela escassez de livros e revistas técnicas. Ela destina levar ao
nosso professorado os cursos didáticos das Faculdades de Filosofia,
Ciências e Letras. Está assim de parabéns todo o nosso professorado,
visto como a maior parte deles se achava impedida, já pela distância,
já por dificuldades horárias, vai ter agora ao seu alcance, sem
despesas e sem incómodos, a palavra abalizada dos maiores
mestres de que dispomos.

(Lúcia de Magalhães, discurso na inauguração da


Universidade do Ar, abril de 1941)

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UNIVERSIDADE DO AR: JONATHAS SERRANO E A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES...

Em busca de sintonia dos professores nas metodologias de ensino das matérias que com-
punham o currículo do ensino secundário. Segundo Abgar Renault,
Com essas palavras Lúcia de Magalhães inaugurou a Universidade que se associara a Gilberto de Andrade e Lúcia de Magalhães na
do Ar, programa educativo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro fundação do programa:
transmitido entre 1941 e 1945. É patente o seu entusiasmo com as
possibilidades inauguradas pelo rádio à educação nacional, sobretu- Entre nós é lamentável a dificultosa formação autodidática a que a
do para a formação dos professores. Na perspectiva da autora, que maioria de nossos professores se viu e ainda se vê condenada. (...) O
primeiro problema que nos lança desafio é o das técnicas ou méto-
seria escolhida diretora do programa, e boa parte dos intelectuais
dos que devam ser utilizados para o fim de obter-se do estudante o
seus contemporâneos, especialmente os educadores,1 a precariedade
máximo de rendimento com um mínimo de esforço. Por um ensino
da formação docente, a dispersão dos professores e a fragilidade do
que realmente ensine. O que só é possível pela observância de certos
sistema educacional brasileiro poderiam ser superadas por meio da princípios, regras e normas extraídas a um só tempo do estudo do
radiodifusão. A promessa era de que o rádio, ao lado de outras mídias espírito do estudante e da natureza da disciplina que se pretende
e invenções modernas., a exemplo do "cinematógrafo", dos "correios" ensinar (Renault 1941).4
e da "hélice", rompesse barreiras geográficas seculares e multiplicasse
para "auditórios invisíveis" os cursos de formação didática ofertados Atuando com o lema "o bem na cooperação e a verdade na eficiência1*
pelas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. Numa sentença, o (Lourenço Filho 1943: 2), o broadcasting foi ao ar até novembro de
rádio canaliza expectativas de uma reforma escolanovista da educa- 1945. Em seu auge chegou a ter 2.185 alunos e 4.329 matrículas -
ção (Magalhães 1941). permitia-se à inscrição em mais de uma disciplina (Rádio Nacional
Com essas expectativas, o programa foi ao ar no dia 19 de abril 1941a). Para seus agentes, a criação de uma "universidade de ondas
de 1941, na data de aniversário do presidente Getúlio Vargas e hertzianas" demonstrava-se uma solução provisória para contornar
como uma homenagem de Gilberto de Andrade, diretor da Rádio a falta de organicidade do ensino secundário nacional e a escassez
Nacional.2 O programa, que também ficou conhecido como Univer- de Institutos de Educação e Faculdades de Filosofia:
sidade Invisível, era transmitido entre as 18h35 e 19h, de segunda
a sábado,3 com o fim pedagógico de promover o aperfeiçoamento Num país como o nosso Brasil, onde o hinterland ainda está por ser
conquistado, e de tão poucos institutos daquele tipo [Institutos de
Educação e FFCL], a ideia de realizar através do rádio uma série
1 Refiro-me aos intelectuais que, durante a primeira metade do século XX, direcionaram de lições sobre as metodologias das disciplinas do curso secundário
sua atuação política e cultural para o campo educacional emergente com o objetivo de
reorientá-lo para práticas modernas e científicas, notadamente escolanovistas. São também e a conveniente execução de seus programas encontrará seguramente
profissionais com múltiplas inserções e formas de atuação no campo educacional, editorial e o interesse contínuo de nossos professores (Renault 1941).
na burocracia de estado, além de pioneiros no uso de novas mídias na educação, a exemplo
do rádio e do cinematógrafo.
2 Criada em 1936 pelo grupo privado do jornal A Noite, operando na frequência de 980
kHz, prefixo PRE-8. Em 1940 a estação foi incorporada ao Património da União, tornando-
-se um importante instrumento de política do Estado Novo. Sobre a Rádio Nacional, ver 4 É necessário ressalvar que a linguagem oral possui um conjunto de traços portadores de
Saroldi (1984). significado irreproduzíveis na escrita, a exemplo do tom da voz, ritmo da fala, ênfase etc.
3 Nos dois primeiros meses o programa foi transmitido entre as 18H45 e 19h, exceto às
Assim, o ato de transcrevê-la carrega, inevitavelmente, uma atitude arbitrária. Sobre o as-
quíntas-feiras e aos domingos (Pimentel 2004:16). sunto, ver Albcrti (1994) e Ferreira (1996).

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INTELECTUAIS MEDIADORES UNIVERSIDADE DO AR: JONATHAS SERRANO E A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES...

Este texto investiga a formação dos professores de história pátria na Não se encontraram os registros sonoros das transmissões nos
Universidade do Ar, a partir da trajetória e produção letrada de Jo- acervos da Rádio Nacional e do Museu da Imagem e do Som no Rio
nathas Archanjo da Silveira Martins Serrano, historiador, professor de Janeiro, com a exceção do programa de abertura da Universidade
e autor de manuais escolares, que nasceu c viveu na cidade do Rio de do Ar. Deve-se ressaltar, todavia, que, embora a comunicação do rádio
Janeiro, entre 1885 e 1944. Ele foi autor e apresentador dos progra- seja oral, existe quase sempre uma produção textual criada para as
mas de "Metodologia da História do Brasil" na Universidade do Ar, irradiações, o que caracteriza o corpus documental deste trabalho
até dezembro de 1943. Foi também membro do Instituto Histórico e na dupla dimensão de fontes orais e escritas (Da Costa 2011).
Geográfico Brasileiro (IHGB), professor do Colégio Pedro II, da Escola Nessa tarefa, vaie lembrar Michel de Certeau, para quem o orai
Normal e do Instituto de Educação. Escreveu monografias históricas e
e o escrito são práticas de linguagem distintas, não havendo simples
biografias - Colonização: Capitanias (1913), Domingos José Martins,
passagem de um para o outro. O que o autor denomina ato escritu-
um vulto de 1817 (1913), Felipe dos Santos, o precursor de Tiradentes
rístico, por exemplo, inaugura o topos moderno de pensar e compre-
(1920) etc. - e manuais escolares, a exemplo do Epítome de História
ender o mundo, algo que se caracteriza pela ausência da oralidade
Universal (1913); Metodologia da história na aula primária (1917);
(Certeau 1994). Assim, os scripts - e a prática adotada pela direção
História do Brasil (1931) e Como se ensina história (1935).
Como se percebe, a trajetória e a produção letrada de Jonathas da Universidade do Ar de mimeografá-los e enviá-los aos alunos pelo
Serrano são significativas de um intelectual que participa tanto do pro- correio - constituem registros da continuidade do domínio do escrito
cesso de construção da escrita da história do Brasil, em um contexto como principal via de acesso à cultura e à formação académica no
estratégico de criação/recriação de uma história e memória nacionais Ocidente, ainda que essa instrução ocorra através de novas mídias,
(Gomes 1996 e 2009), quanto de seu código disciplinar e pedagógico em sons e/ou imagens luminosas (Da Costa 2011 e 2012).
(Schmidt 2004; Freitas 2008). Ele também se destaca como pioneiro Enfim, vale a pena iniciar buscando uma melhor caracterização da
no uso das novas mídias no ensino de história, sendo mais conhecido Universidade do Ar, situando o programa na grade de programação
pela sua contribuição ao desenvolvimento do cinema educativo e pela educativa da Rádio Nacional.
publicação de Cinema e Educação (1930) (Reis Júnior 2008).
As fontes coligidas para o trabalho procedem do fundo pessoal do
autor no Arquivo Nacional. Trata-se de um conjunto diversificado e O bem na cooperação: Universidade do Ar,
efémero de documentos indicativos de sua circulação a partir de ob- sua organização, seus professores e estudantes
jetivos mais práticos e imediatos, ao contrário dos livros e de outros
produtos culturais mais duradouros. Esse material é basicamente Antes de tudo, convém assinalar que a iniciativa de criação da
formado por impressos de propaganda, listas de matrículas, recortes Universidade do Ar, mais do que uma homenagem ao presidente
de jornais, correspondências de alunos, ofícios da direção, planos de Vargas, decorreu da necessidade de fazer cumprir os dispositivos
aula, inquéritos e, sobretudo, pelos scripts3 dos programas. do decreto-lei na 21.111, de 1° de março de 1932. Promulgado
há quase uma década, o decreto regulamentava os serviços de
* Textos que se estruturam mediante um código específico de escrita, contendo sinais pictó- radiocomunicação no Brasil e, entre outras coisas, impunha às
ricos norteadores da transmissão oral e que remetem aos ritmos da fala, aos usos da dicção,
da entonação da voz, da dramatização etc., a serviço da comunicação e captura da atenção emissoras de rádio a obrigação legal de manter uma parte de sua
do público ouvinte (Goldberger 1966: 210). programação voltada à educação e à cultura, além da retransmissão

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S .
UNIVERSIDADE DO AR: JONATHAS SERRANO E A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES...

de um programa nacional elaborado pelo governo, a futura Hora A Universidade do Ar iniciou suas transmissões com a colaboração de
do Brasil (Perosa 1995). 11 professores convidados em virtude de seus históricos de envolvimen-
Dispunha também que os serviços de radiodifusão educativa to em projetos de reforma da educação e formação do magistério. São
passariam à alçada do Ministério da Educação e Saúde, órgão res- homens e mulheres que se destacavam em seus campos disciplinares
ponsável pela orientação e fiscalização dos programas. Neste sentido, como autores de manuais escolares e metodologias ativas de ensino,
o decreto-lei n2 21.111 foi decisivo para o desenvolvimento da radio- além de entusiastas e pioneiros no uso de novas mídias na educação.
difusão educativa brasileira nas décadas de 1930 e 1940, ao mesmo
Cinco procediam do Colégio Pedro II: Jonathas Serrano (História do
tempo que abriu um novo campo de atuação e oportunidades para os
Brasil), Júlio Barata (Latim), J. B, Melo e Souza (História da Civiliza-
profissionais da educação, aproximando-os dos radiocomunicadores
ção), Antenor Nascentes (Português) e Abgar Renault (inglês). Três da
(Da Costa 2012: 85-96).
Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi): Delgado de Carvalho (Geogra-
Enfim, Gilberto de Andrade, como se afirmou, o diretor da emissora,
fia Geral e do Brasil), C. Melo Leitão (História Natural) e J. C. Melo
Lúcia de Andrade Magalhães,6 chefe da Divisão de Ensino Secundário
e Souza, o famoso Malba Tahan (Matemática). Dois do Instituto de
e diretora da Universidade do Ar, e Abgar Renault,7 do Departamento
Nacional de Ensino e presidente do Conselho do programa, formam Educação: Francisco Venâncio Filho (Ciências) e Fernando da Silveira
o que Jonathas Serrano denominou como a "trindade patriótica" da (Noções de Estatística). E uma do magistério público do Distrito Fede-
Universidade do Ar (Serrano 1941). Juntos, eles criaram também A ral e diretora da Escola Amaro Cavalcanti: Maria Junqueira Schmidt
Hora da Juventude e A Hora da Família, ambos de 1940. Segundo (Francês). Entre 1942 e 1945 novos professores foram incorporados
Gilberto de Andrade, tratava-se de uma trilogia carregada de organi- ao programa, a exemplo de Lourenço Filho (Psicologia), que procedia
cidade e dirigida respectivamente aos jovens, seus pais e professores: do Instituto de Educação, Alceu Amoroso Lima (Sociologia) e padre
Helder Câmara (Processos de Didática), ambos da FNFi e da Pontifícia
Os programas culturais e educativos da Rádio Nacional (...) constarão Universidade Católica (PUC-RJ) (Rádio Nacional 1941b).
de três partes distintas: o primeiro, a Hora da Juventude Brasileira, Mas o que realizara Jonathas Serrano no campo da radiodifusão
destinado aos alunos do curso secundário; o segundo, a Hora da cultural e educativa que justificava sua presença na Universidade do
Família, aos pais de alunos e a terceira, a Universidade do Ar, aos Ar? Na verdade, o autor tem seu nome ligado não só ao desenvolvi-
professores, conseguindo assim interessar o aluno e o meio social mento da cinematografia educativa, mas também às pioneiras inicia-
onde este vive (Andrade 1941).
tivas de criação de uma radioescola na cidade do Rio de Janeiro, o
que ocorre durante a reforma da educação de Fernando de Azevedo
* Lúcia de Andrade Magalhães (1904-1980) seguiu carreira na Inspetoria de Ensino do
Distrito Federal, um dos desdobramentos da Reforma da Educação de Francisco Campos. (1928-1930). Nela, Serrano atuou como subdiretor técnico de ins-
Foi nomeada por Capanema diretora da Divisão de Ensino Secundário, em 1934. Sob sua trução, destacando-se como um intelectual referencial e organizador
alçada e inspeção estavam os estabelecimentos de ensino secundário e os serviços de radio-
difusão educativa. Publicou Psicologia pedagógica da adolescência (Rio: Renascença, 1933). das reformas, ao lado de Azevedo. Segundo Gilioli:
Fundou e dirigiu até seu falecimento o Colégio São Fernando, no Rio de Janeiro (Sena 1980).
7 Abgar Renault (1901-1995) fez parte da geração dos modernistas mineiros, tornando-se
professor no Ginásio Mineiro e na Escola Normal Modelo, em Belo Horizonte. Transferiu- No Distrito Federal, o cinema, bem como o rádio, foi reconhecido
-se para o Rio, em 1934, a convite de Gustavo Capanema. Foi professor de língua inglesa oficialmente como recurso didático na reforma Fernando de Azevedo.
no Colégio Pedro II (1934) e na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Acumulava A responsabilidade de desenvolvê-la ficou a cargo de Jonathas Serrano
uma breve experiência de apresentador de programas literários na Rádio Mineira de Belo
Horizonte, entre 1931 e 1932 (Bomeny 1994; Corrêa s/d). e foi realizada, na prática, por Paschoal Lemme (Gilioli 2008: 131).

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INTELECTUAIS M E D I A D O R E S UNIVERSIDADE DO AR: JONATHAS SERRANO Ê A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES,.,

No entanto, o projeto de criação de uma radioescola no Departa- (SRE) e no Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), para
mento de Instrução Pública do Distrito Federal foi adiado e só veio cuja direção Jonathas Serrano chegou a ser cogitado pelo ministro
a ser concluído em 1934, quando surge a Rádio Escola Municipal Capanema (Gilioli 2008: 272).
(PRD-5), já na gestlo de Anísio Teixeira e sob a liderança de Edgar £ quanto aos estudantes de História do Brasil da Universidade do
Roquette-Pinto. Jonathas Serrano, Francisco Venâncio Filho - coautor Ar, qual a sua origem, perfil sociocultural e motivações académicas?
junto a Serrano do livro Cinema e Educação - e Delgado de Carvalho Por meio de um boletim da direção, que circulou entre os professores
estiveram entre os principais colaboradores de Roquette na organi- em junho de 1941, encontra-se uma aproximação ao tema, a começar
zação e transmissão de programas na PRD-5, com destaque para o pelo número de alunos matriculados e suas disciplinas de escolha:
Jornal dos Professores (Gilioli 2008: 320-323). Outro que colaborou'
ativamente foi Carlos Siissekind de Mendonça, fundador da Livraria Tabela l - Universidade do Ar: matrículas por disciplina/1941
Científica c da Revista Brasileira de Educação, e seu irmão Edgar
Sussekind de Mendonça, um dos fundadores da Associação Brasileira Disciplina Total de matrículas Percentagem
de Educação (Carneiro 1996:101; Vidal 1999:286). Aliás, o círculo
Português 721 16,655%
de amizade e colaboração entre esses intelectuais e educadores, ao que
parece, remonta às origens do Grémio Euclides da Cunha, em 1913, História da Civilização 496 11, 457%
e às redes de sociabilidades tecidas na Livraria Científica. Trata-se Matemática 445 10,279%
de um verdadeiro fenómeno de geração. Segundo Gilioli: Ciências 443 10,233%
Geografia 430 9,931%
A instituição [Grémio Euclides da Cunha] congregava desde estu-
dantes secundaristas até diplomados em cursos superiores. Dois dos História do Brasil 377 8,708%
líderes sustentáculos do Grémio foram Francisco Venâncio Filho e Francês 342 7,901%
Edgar Sussekind de Mendonça, ambos próximos a Roquette. (...) O História Natural 327 7,553%
ponto de encontro dos integrantes daquele círculo - Heitor Lyra e
Afrânio Peixoto, Roquette-Pinto e Edgar de Mendonça, João Carlos Inglês 305 7,045%
Vital, Celso Kelly, Raja Gabaglia, Jonathas Serrano, Raul Bittencourt, Latim 284 6,560%
Delgado de Carvalho, Farias Góes, Gustavo Lessa, Antenor Nascen- Estatística 159 3, 673%
tes, Tude de Souza - era a Livraria Científica, para onde Capistrano
de Abreu afluía ocasionalmente (2008:100-101). Total 4.329 100%
Fonte: Universidade do Ar. Boletim da direção. 19 de junho de 1941. FJS,
Não seria equivocado encarar esses "intelectuais cariocas euclidianos* AN, cx. 18.
como pioneiros da radiodifusão e cinematografia educativa no Distrito
Federal Vale notar que quatro membros do círculo se tornariam pro- O número de matrículas no curso de História do Brasil ocupava a
fessores da Universidade do Ar. Outros transitaram na Confederação 6a posição, ou seja, 377 alunos (8,7% do total), O boletim não tece
Brasileira de Rádio (CBR), no Serviço de Radiodifusão Educativa comentário quanto aos números observados, mas 4.329 matrículas

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era algo muito expressivo. Por exemplo, o mesmo boletim trouxe Como se percebe, os alunos do estado de São Paulo, Minas Gerais
como anexo um levantamento do número de estabelecimentos de e do Distrito Federal predominavam, o que se explica em parte pela
ensino existentes no país em 1940, realizado pela Divisão de En- concentração dos estabelecimentos de ensino secundário e pela maior
sino Secundário. O documento apontava 629 colégios, sendo 530 abrangência das ondas da Rádio Nacional nestas regiões.
particulares e 99 públicos, quer dizer, uma média de sete alunos Mas o que estava atraindo tantos estudantes para a Universidade
inscritos na Universidade do Ar por escola secundária existente do Ar? Uma hipótese plausível é a insegurança jurídica que se esta-
(Rádio Nacional 1941a). beleceu entre os professores após a promulgação do decreto-lei n°
Outro documento que chama atenção é a relação de inscritos 1.190, de 4 de abril de 1939, responsável pela criação da Faculdade
no curso de História do Brasil no ano letívo de 1943. Enviada pela Nacional de Filosofia, ainda que se observasse na prática a inope-
direção do programa, informa o total de 351 alunos, uma pequena rância da lei, objeto de múltiplas intervenções e prorrogações de
diminuição em relação ao ano letivo de 1941. A fonte encontra-se prazo. De fato, desde a Reforma da Educação de Francisco Campos,
incompleta, listando apenas 92 professores inscritos, seus nomes, exigia-se dos professores candidatos a lecionar no curso secundá-
cidades de origem e colégio onde lecionavam. A maioria procedia de rio a obtenção de um registro junto ao Departamento Nacional de
colégios privados religiosos (51) e o restante (41) de ginásios estaduais, Ensino. Por exemplo, o artigo 72 do decreto-lei nQ 19.890, de 18 de
colégios militares, escolas municipais e de comércio. Os alunos da abril de 1931, esclarecia:
região Sudeste predominavam (59 inscritos), seguidos dos estudantes
das regiões Sul (16), Nordeste (15) e Centro-Oeste (2): (...) dois anos depois de diplomados os primeiros licenciados da Fa-
culdade de Educação, Ciências e Letras, será condição necessária,
Tabela 2 - Relação de alunos inscritos em História do Brasil, para a inscrição no Registro de Professores a exibição de diploma
conferido pela mesma faculdade (Brasil 1931, art. 72).
por região/estado

Contudo, o próprio decreto n2 19.890/31 estabelecia algumas res-


Sudeste Sul Nordeste Centro-Oeste salvas. Uma delas, por exemplo, esclarecia que o Departamento
DF 18 PR 8 AL 2 GO 2 Nacional de Ensino seria responsável pela emissão de um "título
provisório" de "permissão para lecionar" aos professores que apre-
ES 1 SC 2 BA 3
sentassem "certidão de aprovação em instituto oficial de ensino supe-
MG 16 RS 6 MA 2 rior" (arts. 68 e 69). No caso daqueles que não frequentavam cursos
superiores, era possível obter tais certificados através da habilitação
SP 18 PE 4
perante uma comissão de professores das Faculdades de Educação e
RJ 6 RN 4 Letras. Vale ressaltar que esses dispositivos não foram alterados com
Total: 59 Total: 16 Total: 15 Total: 2 a aprovação da Lei Orgânica do Secundário pelo ministro Gustavo
alunos alunos alunos alunos Capanema, em 1942.
Logo se vê que a Universidade do Ar era uma oportunidade para
Fonte: Universidade do Ar. Relação de alunos inscritos. 1943. FJS/AN, cx. 17. obter certificados de aprovação nas disciplinas do curso secundário

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e em suas metodologias de ensino, já que seus documentos eram ex- era um tipo de aluna que se colocava diante dos receptores com
pedidos com o reconhecimento da FNFi. É o que divulgava a própria interesses mais práticos e imediatos, e é provável que existissem ou-
direção do programa em suas instruções letivas (Rádio Nacional tros estudantes guiados pelos mesmos objetivos. Por conseguinte, o
1941b). A ansiedade que essa legislação causava e a expectativa de próximo passo é compreender como Serrano justificava seu magistério
obtenção dos certificados de aprovação aparece com frequência na na Universidade do Ar, a mediação e a comunicação de conteúdo
correspondência dos alunos a Jonathas Serrano. Vale reproduzir uma histórico erudito/científico no rádio, tendo em vista alunos como
delas, com data de 2 de maio de 1942: Orsina Novais Almeida.

Dr. Jonathas Serrano,


A verdade na eficiência: tempo, mediação
Cordiais saudações. e comunicação no rádio

Desde o ano passado fui sua aluna na Universidade do Ar. Mas, mo- Como ensinar História Pátria a professores pelo rádio? É compreen-
tivos imperiosos me impediram de continuar o curso. Soube que foi sível que Serrano não abordasse esse tema pelos microfones da Nacio-
dado aos alunos que concluíram os estudos certificado para lecionar nal. É nos bastidores, por assim dizer, que se encontram fragmentos
em qualquer ginásio do país. de ideias, crenças e opiniões sobre como o autor compreendia seu
Venho lhe solicitar este favor, se esta informação é mesmo verda- magistério e avaliava seus ouvintes, a exemplo de Orsina Novais. É
deira. Sou casada e tenho 2 filhos. Formei-me no Colégio do Carmo, o caso do Plano de Curso para o ano letivo de 1941, ao longo do
em Vitória, nossa capital, de onde saí Filha de Maria. Lcciono há qual Serrano esclarece os objetivos e as justificativas de oferta de
9 anos no Grupo Escolar desta cidade. O ordenado é pequeno, de seu curso. Nele, os ouvintes do programa são apresentados como
200$000. um público de "formação mediana". Serrano não esclarece o que
Sc o curso da Universidade do Ar for mesmo válido, peço o favor entende por isso, mas é algo que se pode presumir. Vale lembrar que
me informar. Admiro profundamente o seu espírito cristão praticante. seus ouvintes atuavam como professores de história, o que equiva-
E como historiador é de uma cultura extraordinária. Gosto muito de le dizer que eram egressos dos cursos secundários e/ou mesmo de
história. Fiz o meu curso com uma distinção nesta matéria. Rogo-
cursos superiores. Embora se distinguissem das massas analfabetas
-Ihe me explicar tudo, para eu estudar bem: livros bons, mandar os
pelo domínio das letras, não possuíam diploma de licenciatura em
nomes, trabalhos que devo fazer, horários etc.
Faculdades de Filosofia.
Por conseguinte, julgava-se que esses professores pouco ou
Subscreve-se grata
nada conheciam acerca das práticas modernas do exercício do
Orsina Novais Almeida. Alegre - Espírito Santo.
magistério, nem os princípios e regras que regiam a constituição
do código disciplinar e científico da história, nem os saberes psico-
Orsina voltou aos estudos na Universidade do Ar e seu nome foi pedagógicos que deveriam nortear o seu ensino. Daí a necessidade
incluído na relação de alunos inscritos do curso "Metodologia da de regressarem aos bancos escolares e às Faculdades de Filosofia,
História do Brasil" no ano letivo de 1943. Pela carta conclui-se que ainda que através de ondas hertzianas. Em suma, o exercício do

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INTELECTUAIS MEDIADORES. UNIVERSIDADE DO AR: JONATHAS SERRANO E A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES...

magistério é visto como uma prática profissional e não mais uma Exauridos pelas jornadas de trabalho ou isolados no sertão nossos
aventura de autodidatas: professores de história pouco visitam bibliotecas. Sua sede de saber
raramente logra avançar os compêndios que lhes chegam à mão. (...)
Em nosso meio professores são os que se sustentam no magistério Leitores de voo curto posam-se perplexos diante dos autores de nossa
graças aos milagres da oratória e da autodidaxia. É preciso entender história e não há quem os ajude (Serrano 1941).
que já não basta falar bem, nem improvisar (...) Instrução ativa de-
manda métodos eficientes e sólidos conhecimentos de pedagogia e É possível notar que Serrano justificava seu magistério na Universidade
psicologia (...) e profissionais formados em Faculdades de Filosofia. do Ar como uma espécie de professor/mediador do rádio, alguém
(Serrano 1941. Grifos nossos) que se dirige a um público de formação mediana para divulgar "pí-
lulas" de saberes científicos úteis ao ensino, a exemplo da pedagogia
Por outro lado, Serrano também esperava que os professores de His- e da psicologia, e que se colocava como um "facilitador de leitura",
tória do Brasil tivessem conhecimento mais substancioso do campo posicionando-se estrategicamente entre os autores e clássicos da his-
disciplinar que se propuseram a ensinar, mas de um modo muito es- toriografia nacional e seus leitores de primeira hora. Aliás, o que o
pecífico, algo que acreditava possível de alunos como Orsina Novais autor se propôs a fazer é extremamente difícil de realizar, algo que
Almeida realizar: não se deve qualificar como uma atividade de menor importância em
relação à pesquisa e à produção historiográfica.
Certo que o professor secundário não tem que ser um erudito,
Mas como mediar saberes e conteúdos pouco palatáveis no hori-
pesquisador de manuscritos no solo ainda pouco explorado dos
zonte dos limites e possibilidades da língua e do tempo radiofónicos?
nossos arquivos, nem homem de saber enciclopédico. Mas também
É na resposta de Serrano a uma consulta de Álvaro F. Salgado, com
não pode ser apenas um repetidor de que corre nos livros pelos
quais aprendem os alunos. Nem tudo precisa conhecer como espe-
data de agosto de 1940, que se encontra uma aproximação aos temas.
cialista, mas deve ter pelo menos a noção geral e exata do que seja Salgado, que se identifica como jornalista, dirige-se a Jonathas Serrano
a disciplina e valer-se, no momento oportuno, de boas fontes de como "ilustre pedagogo" e lhe faz cinco perguntas:
informação (Serrano 1941).
1. Na opinião de V. S., como poderia o governo utilizar o rádio em
Por outras palavras, o bom professor é antes de tudo um leitor e não prol da instrução? 2. Quais as matérias que julga mais adaptáveis
necessariamente um historien savant que se dedica à pesquisa nos à radioescola? Quais as que não podem ser lecionadas pelo rádio?
arquivos e à produção historiográfica, exercício que se julgava como Por quê? 3. Utilizando-se o rádio como veículo de instrução, onde
seria ele mais eficiente: nos centros urbanos ou nas zonas rurais? 4.
função de homens eruditos filiados às tradicionais sociedades de
Como deve ser feito o controle do aproveitamento das emissões ra-
história, a exemplo do IHGB. Ao contrário, a expectativa do autor
dioescolares? 5. Há uma didática especial do rádio? (Salgado 1940).
era a de que os professores avançassem os compêndios, tornando-se
consumidores e leitores críticos dos autores e obras da história nacio-
nal, algo que naquele momento vinha sendo construído e divulgado O documento encontra-se incompleto no acervo pessoal de Ser-
em jornais, revistas e coleções (Gomes 1996): rano e não há resposta para a segunda, terceira e uma parte da
quarta questão. Quanto à primeira pergunta, de como poderia o

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INTELECTUAIS MEDIADORES UNIVERSIDADE DO AR: JONATHAS SERRANO E A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES...

governo utilizar o rádio em prol da instrução, o autor responde experiência do autor como membro da Comissão Nacional de Censura
que o veículo deveria exercer "papel preponderante de guia diretor Cinematográfica e do Secretariado de Cinema, Rádio e Imprensa da
da educação do povo". Para tanto, justificava que a utilização do Ação Católica, durante a década de 1930. Compreende-se, portanto,
rádio demonstrava-se um "meio razoável e económico de instrução suas ideias de centralização e "censura" da produção cultural:
pelo Estado", sobretudo se comparado a outras mídias de difícil
implantação e maiores custos de operação, a exemplo dos "cinema- (...) As radioescolas estaduais e municipais seguirão as diretrizes
tógrafos" e dos "fonógrafos". Nesse caso, o rádio, um instrumento estabelecidas pelo Ministério da Educação e pela Divisão de Rádio
de comunicação e instrução pelos ouvidos, é "razoável" não só do Departamento de Imprensa e Propaganda para a produção de
porque é mais barato, por assim dizer, mas porque era considerado conteúdos e transmissão dos programas culturais e educativos de cunho
menos eficiente que o cinema, que educava também pelos olhos elementar, técnico e superior, orientando-se pelos ideais nacionalis-
tas, pelo espírito cívico, pelos princípios sociais do regime e valores
(Serrano 1940. Grifos nossos).
perenes de nossa tradição cristã (Serrano 1940).
De qualquer modo, o tema da educação permanece no centro das
preocupações do autor. Na verdade o que muda, a exemplo do que
Quanto à pergunta sobre o controle do aproveitamento das emissões
propunha Edgar Roquette-Pinto, é o vetor das políticas de educa-
radioescolares, foi possível perceber que o autor recomendava, como
ção, que se desloca, por economia de custos e eficiência do tempo,
recurso complementar e alternativo, a realização de trabalhos escritos
do impresso para o som. Em suma, o sertão podia ser atingido,
pelos ouvintes (Serrano 1940). Isso demonstra que o radioescolar,
atribuindo-se aos poderes públicos a tarefa de organização de uma
enquanto uma aposta no reino oral e auditivo, não prescindiu total-
"rede" de radioescolas em todo o território nacional:
mente dos recursos da linguagem escrita, aliás, uma característica
dominante dos sistemas nacionais de ensino que surgiram no Ocidente
O governo federal poderá contribuir através da redução das taxas
durante os séculos XIX e XX.
de importação, organização de concorrências públicas e oferta de
Enfim, interessa analisar com maior detalhamento a resposta
subsídios para a compra dos aparelhos transmissores pelos estados. O
de Serrano à última questão de Álvaro Salgado: há uma didática
ideal é que tais aparelhos sejam do mesmo tipo, por economia. Assim,
especial para o rádio? O autor responde que sim, mas assevera que
cada estado terá a sua radioescola, com sede nos estabelecimentos
de ensino de grande vulto e sob a direção de técnicos e professores a sua contribuição restringir-se-ia ao ensino de história, campo
devidamente preparados para essa finalidade. Um entendimento entre no qual acumulara quatro décadas de experiência. Para Serrano,
os interventores estaduais e municipais possibilitará acordos para em suma, a questão devia ser elucidada a partir de uma compre-
que se instalem radiotransmissores nos estabelecimentos de ensino ensão mais ampla dos processos de "administração do tempo" e
de algumas cidades localizadas em lugares estratégicos, beneficiando escolha de uma "linguagem útil" aos programas educativos. Ou
municípios limítrofes (Serrano 1940). seja, tempo e língua radiofónicas apresentam-se dois elementos
relevantes e indissociáveis da didática do rádio. Isso não significa
Nota-se que Serrano propunha uma rede de radioescolas estaduais e que os conteúdos fossem menos importantes, embora abordados
municipais, sob os auspícios do governo federal. Vale explicitar que apenas tangencialmente pelo autor, por não se tratar de um tema
essa proposta ocorre em pleno Estado Novo e carrega as marcas da de didática e métodos de ensino propriamente ditos. Talvez tenha

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INTELECTUAIS MEDIADORES U N I V E R S I D A D E DO AR: JONATHAS SERRANO E A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES...

faltado Álvaro Salgado perguntar sobre como preparar conteúdos para se livrarem do mau professor, com um simples golpe de botão
educativos para o rádio. no receptor. É certo de que se livram, pela apatia e pela algazarra,
Para Serrano, o tempo ideal das transmissões radioeducativas não mas em tempos de palmatória as consequências desses atos podiam
devia ser longo, nem curto demais: "Sou da opinião que as progra- ser bastante graves.
mações radiofónicas não devem ultrapassar o tempo máximo de 20 Em todo o caso, é importante ressaltar que o menor tempo de
minutos, sem comprometer o conteúdo das lições." Menos do que duração dos programas radiofónicos não significava necessariamen-
isso, corre-se o "risco de superficialidade". Além, acrescentava, "é te menores possibilidades de instrução, desde que os professores
ultrapassar o limite suportável dos radiouvintes, tornar-se enfadonho atentassem, como se disse, para os princípios da eficiência, clareza
e perder sua atenção". Uma questão a se perguntar é se essas lições e exatidão das palavras na preparação e apresentação de suas aulas
transmitidas em "aulas-pílula" pelo rádio comprometiam a efetiva diante dos transmissores.
instrução dos alunos. O autor entendia que não, desde que os pro- Por outro lado, Serrano considerava que os programas educati-
fessores se condicionassem a preparar suas lições com "a máxima vos de conteúdo histórico poderiam ser transmitidos por meio da
eficiência e economia do tempo" e se circunscrevessem na "rigorosa narração, da descrição, do diálogo ou da dramatização. Porém, a
clareza e exatidão das palavras". Além disso, Serrano elenca a Álvaro dramatização se mostrava o melhor caminho para "impressionar a ima-
Salgado um benefício que poderia ser alcançado por meio de lições ginação dos meninos" e "integrá-los ao ambiente histórico" narrado
sonoras claras e precisas. Elas atuariam, por exemplo, como um freio pelos microfones. Neste sentido, a história não estava distante da
às "preleçÕes intermináveis e odiosas", um verdadeiro "desperdício literatura e do teatro. Reproduzindo Ariosto Espinheira, autor de
de tempo" e resultado do que o autor chamava "elemento atávico Rádio e Educação (1933), concluía Serrano: "bem apresentadas,
da cultura latina", justamente o que conduzia alguns "espíritos estas cenas virão mesmo tornar a vida de outrora tão familiar aos
incautos a compensar com a forma o que lhes subtrai o conteúdo" alunos que eles poderão aproximá-la, na sua imaginação, da sua
(Serrano 1940). própria vida e estabelecer comparações preciosas para a conservação
É claro que, ao se voltar às novas mídias, Serrano não está destes dados na memória" (Espinheira [1933] apud Serrano 1940.
desvalorizando a "velha" e boa aula expositiva, com uso de giz Grifos nossos).
e quadro-negro. Aliás, qualquer aula boa, seja presencial ou por No entanto, Serrano não se dirige a meninos na Universidade
ondas hertzianas, deve ter conteúdo, mas também forma, sendo a do Ar, mas aos professores, como se disse, um público de formação
retórica uma das possibilidades úteis ao professor de História. O que mediana. A linguagem que predomina em seu curso não é a drama-
se condena, tanto no rádio como na escola, é a aula expositiva sem tização, mas o diálogo, mais próximo dos usos coloquiais do que das
preparo, sem conteúdo, cujo tempo o professor procura preencher descrições áridas da erudição. Embora não explicite, o autor demons-
com o mau uso da forma, em "estilo hiperbólico", "palavroso", tra entender que a pretensão de alcançar o maior número possível de
"sem fundamento bibliográfico e crítico". Isso vale para o rádio, pessoas, c de lhes ser acessível através do rádio, impede a transmissão
mas também para aulas presenciais. A diferença é que o rádio atua de saberes em sua forma culta e erudita. Vale reproduzir Mário de
como um veículo constrangedor do tempo, o que no entender de Andrade que, no mesmo período, viu frustrados os seus esforços
Serrano é bom para a eficácia. Na escola, por sua vez, esse constran- de criação de uma radioescola no Departamento de Cultura em São
gimento seria menor e os estudantes não teriam a mesma facilidade Paulo: "a geografia do rádio não alcança as montanhas elevadas da

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cultura. Fica-se nos vales, pelos platôs largos e pelos litorais" (Mário descarga providencial e higiénica e salutar para a restauração da
de Andrade [1940] apud Gilioli 2008:149). mesma atenção. Notai bem como eu o escrevo... "que faça sorrir",
A pretensão de ser acessível, todavia, não implicava um abono pois o riso estalado, a gargalhada - ainda que não os ouçamos pelos
transmissores - são em geral contraindicados (Serrano 1940).
às sátiras, bordões de anúncios, gírias, cacoetes, conteúdos musi-
cais e expressões popularescas típicas do rádio de programação
Ou seja, entre o saber erudito e os risos estalados situava-se a
comercial e de massa. Elias Thomé Saliba (2002) explica que essa
anedota apropositada, qualificada pelo historiador e que fazia
linguagem resultava da possibilidade de expressão de culturas não
sorrir por meios "civilizados". Não só a anedota, nem só o sorriso,
aristocráticas no âmbito dos novos espaços urbanos no início do
mas as emoções e os sentimentos também, por meio da narração
século XX, sobretudo o carioca, e que fora contida pelos canais
e dramatização de cenas históricas, como se viu. Nesse caso, Ser-
de expressão cultural hegemónicos do século XIX. Embora os
rano considerava os professores nem sempre "os indivíduos mais
radioeducadores alimentassem desconfianças dessa "radiodifusão
indicados para ler e interpretar diante dos transmissores". Para o
pública da diversão" e de "comércio acústico", na feliz expressão de
autor, a linguagem oral seria marcada por um conjunto de traços
Bertold Brecht (apud Frederico 2007: 61), com ela competiam pela
específicos como o tom da voz, a dicção, o ritmo da fala etc., e nem
atenção do público, tornando sua programação palatável e próxima
todos os professores os possuíam na "exata medida do rádio", sem
do gosto dos ouvintes.
falar da ausência de "conhecimentos elementares dos recursos de
Corroborando tais expectativas, Serrano opinava que as transmis-
sonoplastía". Portanto, seria "recomendável contar com o auxílio
sões radioescolares deviam "agradar aos ouvintes" e que o "absurdo
dos speakers", isto é, profissionais do rádio que se dedicavam à
pedagógico no rádio é pretender que os ouvintes devam se adaptar
leitura e intepretação dos scrtpts diante dos microfones. Isso não
à língua radiofónica e não o contrário". Mais uma vez, invocando a
significava impedir o acesso dos membros do magistério às opera-
autoridade de Ariosto Espinheira, lembrava uma pequena circuns-
ções do broadcasting, desde que houvesse a realização de "cursos
tância, mas de alta relevância:
especiais" aos professores que revelassem "talento" para as trans-
missões (Serrano 1940).
(...) é preciso entender que o radiouvinte com um simples golpe de
Serrano não explicita, mas sugere uma distinção entre rádio de
botão no seu receptor, pode desembaraçar-se instantaneamente do
que julga aborrecido, anulando assim, de pronto, todos os nossos programação escolar, como era o caso da Universidade do Ar, e o
esforços em conquistá-lo (Espinheira [1933] apud Serrano 1940). rádio de programação cultural. Vale a pena aprofundar essa dis-
tinção, até porque elas promoviam duas formas de mediação com-
pletamente distintas nas décadas de 1930 e 1940. O rádio de pro-
Mas o que estava sendo considerado útil para tornar as transmis-
gramação escolar, em suma, operava buscando adaptar conteúdos
sões, especialmente os programas de história, mais agradáveis aos
originalmente científico-eruditos para a linguagem e entendimento
radiouvintes? Vale reproduzir um conselho dado a Álvaro Salgado:
dos ouvintes. Em última instância, essa operação não significava
vulgarização, mas um processo de mediação pedagógica. Já o rádio
Em ocasiões de fadiga dos ouvintes a boa didática do rádio prescre-
ve um dito de bom humor, de uma anedota apropositada, que faça de programação cultural, ao contrário, norteava-se pelo ideal de
sorrir, permitindo aos nervos fatigados pela atenção penosa uma elevação cultural das massas, que poderiam apreciar e até gostar

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INTELECTUAIS MEDIADORES UNIVERSIDADE OO AR: JONATHAS SERRANO Ê A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES,.,

de "alta cultura". Neste sentido, o rádio de programação escolar o autor do que adaptar a programação de seu curso aos interesses
operava através de um movimento distinto nas formas de mediação. práticos e imediatos do público, como aqueles que motivavam Orsina
Não se negava a necessidade de produzir programas "sérios", mas Novais. Neste caso, vale ressaltar que Serrano assumiu uma posição
enfatizava-se a condição de se tornarem "palatáveis ao público", de altamente estratégica e nada casual no seio de sua comunidade de
modo a impedir, como se afirmou, os golpes de botões dos ouvintes ouvintes e professores de história pátria, ou seja, a de mediador entre
nos receptores. o currículo formal e o currículo ensinado (Goodson 1995).
Enfim, já é mais do que hora de adentrar os scripts dos progra- Em seguida, os scripts dedicavam-se a transmitir lições gerais de
mas de Serrano e verificar como o autor organiza suas aulas e o que metodologia e fundamentos da disciplina História, considerando
prescreve como moderno ensino de história. sua natureza "científica" e "literária". São observações gerais sobre
as relações da disciplina com a literatura, conselhos práticos sobre
o que e como ensinar, além de recomendações de como desenvolver
Formando professores de história pátria através do rádio atividades práticas em classe segundo metodologias escolanovistas.
Não interessa explorar todas as possibilidades oferecidas pelos scripts^
Ao todo foram 80 transmissões do curso "Metodologia da História mas dar uma amostra dos principais conselhos veiculados. A primei-
do Brasil" realizado por Jonathas Serrano na Universidade do Ar, ra unidade didática da 4a série, por exemplo, que justamente dava
entre abril de 1941 e dezembro de 1943: 17 programas em 1941; início ao estudo da história pátria no curso secundário, dedicava-se
22 em 1942; e 36 durante o ano letivo de 1943. Desse montante foi ao "Descobrimento do Brasil". De acordo com Serrano:
possível reunir, respectivamente, 5, 16 e 28 scripts em seu acervo
pessoal. Além disso, existem mais 6 scripts de um curso apresentado O professor terá o cuidado de fazer que os alunos acompanhem o seu
pelo autor durante o período de férias da Universidade do Ar, entre estudo com exercícios cartográficos; e aqui o mapa tem importância
janeiro e março de 1942, com o título "Como se pode e deve estudar capital. O Mediterrâneo como centro de comércio e da atividade ma-
cientificamente a nossa história", totalizando 55 scripts, uma margem rítima dos povos da Europa medieval, o mistério do Mar Tenebroso
considerável de 69%. e a supersticiosa fama do Cabo Bojador, a lenda de Preste João, da
Todas as aulas transmitidas na Nacional, a julgar por esses scripts, Atlântida, a influência do livro de Marco Polo; que variedade e que
seguiam um roteiro preestabelecido. Em primeiro lugar aparecem riqueza de episódios capazes de prender a atenção mais avessa. (...)
a carta de Caminha deve constituir o centro da aula, devendo o
os elementos de identificação e introdução das aulas, a exemplo do
professor trabalhá-la com desenhos, encenações, pinturas e quadros
anúncio do título da unidade didática tratada, seu lugar no quadro
(Serrano, 6a aula, 3/6/1943).
geral do curso e no âmbito da organização dos programas oficiais
de ensino estabelecidos pelo Ministério da Educação e Saúde, além
Ou seja, por meio da introdução de episódios interessantes, mapas,
de uma breve recapitulação de lições anteriores. A reiteração de con-
desenhos, encenações etc., buscava-se promover o ensino "ativo"
teúdos e objetivos era uma estratégia utilizada para dar unidade ao
da disciplina, tornando os estudantes secundários coparticipantes
curso e a seus ouvintes, contribuindo para a eficácia e a clareza das
do processo de sua "alfabetização histórica". Com isso, Serrano es-
transmissões. Além disso, ao optar ensinar história pátria em torno
perava contribuir para superar dois pilares do ensino tradicional da
dos programas e unidades didáticas oficiais, outra coisa não pretendia

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história. Um deles é a prática de "leitura das aulas em classe". Vale Mas, se não é recomendável, nem possível ser erudito em sala
lembrar que nesse período os professores ginasianos também eram de aula, como pretender que os professores se tornassem leitores e
conhecidos como "lentes". Tratava-se de um mau hábito, segundo o consumidores de fontes de informação da história do Brasil? Serrano
autor, ainda que o professor lesse suas aulas de cor, pois "sem ritmo, justificava-se afirmando que o professor devia "saber muito bem tudo
movimento, vida e calor". O outro é a prática de "tomar lição dos quanto se ensina", mas ao mesmo tempo prudente o bastante para
alunos", forçando-os a "recitar datas, listas de governadores-gerais e não ensinar "tudo o quanto se sabe". Por outras palavras, o autor
batalhas, às pressas decoradas e tão logo esquecidas". Para Serrano, entende o exercício do magistério a partir de dois momentos distin-
tratava-se de uma "memória infértil e torturante". É claro que o autor tos e indissociáveis. O primeiro ocorre em ambientes extrassala, na
leitura e preparação de aulas; o outro dentro da classe, por meio de
não condenava o uso da memória, pelo contrário, julgava-a uma das
aula expositiva e outras atividades possíveis de se realizar no breve
faculdades da razão necessária à alfabetização histórica, desde que se
intervalo de duração de uma aula. No -primeiro caso o professor lê
introduzisse a "memorização por meios mais agradáveis" (Serrano,
ciência e entra em contato com a produção dos especialistas: é fonte. É
6a aula, 3/6/1943).
também muito mais que ler compêndios e livros didáticos. No outro, o
Vale a pena dar sequência e verificar o que prescrevia o autor
professor de história narra os resultados de suas leituras, como se viu,
para o ensino da segunda unidade didátka da 4a série, intitulada
com o colorido da forma, dando vida às personagens e movimento à
"Os primórdios da Colonização". Mais uma vez, interessam os narração: é verbo e arte (Cadiou et ai. 2007:47-67). Numa sentença:
"episódios e vultos capazes de despertar a curiosidade dos estudan-
"Imaginação e colorido sem erudição e sem boa memória resultam
tes", aliás, muito úteis para "impressão de dados na memória". Para em romance; mas erudição e memória sem colorido e força narrativa
tanto, o autor recomendava aos professores "evitar abordar certas degeneram fatalmente em tédio" (Serrano, 6a aula, 3/6/1943).
minúcias em torno de alguns personagens obscuros, a exemplo de O tema é central na pedagogia da história de Jonathas Serrano,
Caramuru e João Ramalho, ou dissertações referentes ao regime de tanto que o autor dedicou a ele, como se afirmou, um curso de férias
capitanias, em confronto com o feudalismo etc. etc.". É claro que na Universidade do Ar, com o título "Como se pode e deve estudar
o professor devia dizer de tudo isso o essencial, mas "sob a forma cientificamente a nossa história". Nele, Serrano esclarecia que a História
antes dogmática do que crítica".8 Dito de outro modo, diante da era uma disciplina moderna e científica bem recente, datando do século
"imaturidade intelectual dos estudantes", o melhor que o professor XIX. No entanto, essa cientificidade não anulava o seu valor literário:
poderia fazer era permanecer no "campo da biografia-episódica"
(Serrano, T aula, 10/6/1943). Só no século passado, com a rigorosa aplicação dos métodos críti-
cos, a História atinge plenamente a sua fase científica. Não importa
esta afirmação em desconhecer o alto valor não só literário, mas até
8 Essa proposta adaptava-se bem aos objetivos e finalidades do ensino secundário deseja- mesmo científico, de alguns trabalhos de historiadores de outros
do pelo ministro Capanema: "Não visa o ensino secundário a transmitir o conhecimento séculos. Mas o que não se padece de contestação é o surto admirável
completo e minucioso das ciências. Não é um ensino de ciências. As ciências não têm, por si
mesmas, a finalidade e a aptidão de formar intelectual, moral e civícamente a personalidade das chamadas ciências históricas na fase contemporânea e o rigor,
humana, objetivo essencial do ensino secundário. Diz-se comumente que as ciências não têm cada vez maior, dos seus processos de investigação (Serrano 1942).*
pátria. Isto significa claramente que elas não são o essencial do ensino secundário, pois a
pátria, nesse ensino, é coisa essencial. O ensino secundário (...) é um ensino de humanidades,
isto é, de coisas destinadas a formar o espírito humano. É um ensino de sabedoria (Gustavo * Neste caso específico, não foi possível estabelecer as datas das aulas realizadas na Uni-
Capanema apud Mendonça 2003:168). versidade do Ar.

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Serrano estava se referindo aos métodos de crítica das fontes e sua escreveu Lavisse: "a carne de nossa carne e o sangue do nosso sangue",
hermenêutica, apropriando-se de uma vertente erudito-científica da (...) Estas palestras tiveram o propósito [de] contribuir para melhor
história presente no historicismo alemão e na "escola" metódica conhecermos o Brasil. E julgamos no direito de concluir: mais não é
francesa (Bourdè & Martin 1983: 61-116). Todavia, com a exceção preciso para apaixonadamente o amarmos. (...) Procuramos no curso
de Gabriel Monod- "um eradito empedernido" -, não entendia essas desses nove meses provar que o calor do entusiasmo, o colorido da
vertentes como contestadoras do carãter narrativo da história, até poesia, a justa emoção despertada aqui e ali pelos vultos mais dignos
da nossa admiração e do nosso reconhecimento, em nada pode, nem
certo ponto um "género classificável no domínio das letras". Para o
devem, prejudicar a serenidade do nosso julgamento, o rigor das
autor, a erudição não anulava a arte e o estilo, o que fazia da História
nossas pesquisas, o inflexível caráter científico das nossas conclusões
"um campo magnífico em que se exercitam eminentes prosadores",
(Serrano, 17a aula, 30/12/1941).
homens capazes de unir "solidez da informação com a beleza e cor-
reção de forma". Tal seria o caso de Fustel de Coulanges, Michelet
Nada disso, contudo, constituía um abono à "história romanceada",
e mesmo Seignobos, em França, e de Capistrano de Abreu no Brasil,
segundo Serrano, um desserviço à causa da educação. As críticas
"autor de estilo tão pessoal e expressivo, na sua aparente secura", e
ao género se repetiram em várias transmissões da Nacional, o que
de Joaquim Nabuco, "em cuja forma sedutora transparece aqui e ali
aponta para um movimento significativo de conquista pelo mercado
a influência renaniana" (Serrano 1942).
editorial de um público maior de leitores, sobretudo consumidores de
Do mesmo modo, Serrano não condenava, "em nome de uma in-
biografias e romances históricos, mas também as salas de exibição
digesta e árida preocupação erudita", o emprego legítimo do "influxo
dos cinemas, dos teatros e as próprias aulas de História.10 Valendo-
do sentimento" e necessário da "imaginação" no ensino de história,
-se da autoridade de Huizinga;
comumente entendidos como opostos da verdade histórica. O autor,
ao contrário, entendia que sentimentos e imaginação são ferramentas
A história imaginosa, colorida e perfumada, na frase feliz e severa de
estratégicas para fazer os estudantes compreenderem, embora por
Huizinga, não é ciência, nem arte genuína, ainda que tenha ao seu
outros caminhos, a verdade do passado nacional: "são asas peias
lado o cinema e o teatro. (...) É óbvio que não condeno a literatura
quais os professores elevam o espírito dos estudantes até a verdade". que faz uso da história (...) o que me afigura deplorável e condenável
Por conseguinte, desde que o mestre não prescindisse da leitura de é a apresentação de pseudobiografias, ou de falsas reconstituíções
bons autores, não havia por que descartar o uso da imaginação e os do passado, fruto da fantasia, como se fossem resultados de pes-
sentimentos/emoções no ensino de história, pois um "excelente meio quisas severas e conduzidas com o rigor dos métodos científicos.
de seduzir" e "conquistar a atenção dos alunos" (Serrano 1942). A História, qual a velha Roma, possui o seu pomerium. Em seu
Exemplos vinham da própria França. Vale reproduzir um trecho da recinto sagrado não se pode proceder como se fora terreno baldio
aula 30 de dezembro de 1941: (Serrano 1942).»

Como admitir que se estude e se ensine a História Pátria sem o influxo


inspirador do sentimento? Como pensar que se possa ficar apenas
adstrito à fria aridez da cronologia sem alma e da onomástica sem 10 Uma aproximação prazerosa ao tema da biografia e do romance histórico e o sucesso edito-
rial do género no Brasil durante as décadas de 1930 e 1940 encontra-se em Gonçalves (2009).
vida? Afinal, é a nossa terra e nossa gente, ou como de sua França 11 Do latim: pomerium, "após o muro". Designa a fronteira simbólica da cidade de Roma.

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Ou seja, só se pode produzir história no recinto sagrado dos rigorosos Mas como tudo isso deveria ser mobilizado em sala de aula?
métodos científicos, consultando o oráculo das fontes. A forma jamais Toma-se como exemplo a aula que versava sobre a unidade didática
substitui o que só a pesquisa paciente e pessoal nos arquivos é capaz "O Descobrimento". Como se afirmou, Serrano recomendava a carta
de produzir. Por isso, lamentava que Ludwig, Maurois, Zweig, Wells, de Caminha como o centro desta aula, dela devendo o professor
Van Loon - típicos autores de "terreno baldio" e representantes de retirar apenas os episódios sugestivos e pitorescos do passado para
uma história romanceada de muito sucesso - tivessem tantos leitores, sua preleção e atividades dos estudantes. Porém alertava: "claro
haja vista o conteúdo de suas obras ser pouco fidedigno e sua forma que a carta de Pêro Vaz de Caminha não é documento para se dar
estéril (Serrano 1942). na íntegra a ginasianos (...) mas o professor não tem o direito de
No entanto, Serrano era um otimista e acreditava que o ensino ignorá-la em seus muitos e interessantes episódios que prenderão a
de História poderia superar os romances, desde que renovado curiosidade dos alunos". O mestre também podia se preparar lendo
por boas fontes de informação, linguagens, suportes e mídias. O os comentários críticos de Capistrano de Abreu sobre a epístola de
ponto fulcral desse projeto passava pela formação dos professo- Caminha, mas não usá-lo em classe. Afinal, Capistrano não é um
res em universidades: "a reação salutar já está se fazendo sentir e autor que deve ser lido pelos estudantes. Nesse último caso, seria mais
aumentarão por certo com os frutos das Faculdades de Filosofia, proveitoso o professor utilizar trechos sugestivos do estudo de Jaime
Ciências e Letras nas nossas universidades" (Serrano 1942). Pou- Cortesão, considerado mais "poético e acessível aos estudantes": "O
cos meses antes, em outubro de 1941, assim se expressou o autor juízo de Capistrano, embora exato, não sublinha bastante a poesia da
acerca dessa formação: epístola admirável de Caminha, que um escritor de responsabilidade
[Jaime Cortesão] não hesitou em qualificar de sublime" (Serrano,
O que se exige do mestre consciencioso é sólida e exata informação. 6a aula, 3/6/1943).
Esta informação, por sua vez, c sem o menor jogo de palavras, Para além de uma leitura indiciaria de um padrão pedagógico,
exige uma paciente, metódica e experimentada formação. Nesta como se fez até aqui, interessa agora analisar brevemente os conteú-
formação e informação está afinal todo o complexo problema
dos históricos ensinados através dos microfones da Nacional. Afinal,
pedagógico, didático, metodológico e bibliográfico (Serrano, 12a
que coisas se contam? A narrativa da História do Brasil de Serrano
aula, 13/10/1941).
inicia-se com a história da reconquista crista e formação de Portugal.
Através dos portugueses, pioneiros nas grandes navegações e desco-
Em suma, para Serrano o ensino de História não devia perder sua
brimentos, "o Brasil nasce para a Europa e para a civilização cristã"
identidade primeira, isto é, o seu caráter literário, já que esse do-
(Serrano, 6a aula, 3/6/1943). Daí por diante, até a última unidade do
mínio a caracterizava desde Homero até Michelet. Por outro lado,
curso, o sujeito principal da narrativa é o Estado/nação/povo que se
nada disso significava abrir mão do contrato de fidedignidade que
esforça para civilizar-se e alcançar o progresso material, económico,
deveria nortear as relações entre os professores e os estudantes, cuja
cultural e moral, no que foi bem-sucedido: "em nossa longa jornada
garantia era dada pela produção letrada dos historiadores, com base
através do passado nacional, podemos verificar sem vaidade, mas em
em rigorosos métodos de pesquisa dos documentos, e disponíveis ao
visão serena e justa, que o Brasil está vivendo atualmentc dias dos
consumo e leitura dos professores em bibliotecas, revistas de divul-
mais belos e nobres de toda a sua vida como nação" (Serrano, 21a
gação científica e coleções especializadas.
aula, 28/12/1942).

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Portanto, contrariando a oferta de orientações disponíveis para a e caminhos do Piratininga e florestas densas do Norte" (Serrano, 13a
disciplina, a História do Brasil de Serrano avançava até o presente. aula, 28/10/1941).
Assim, se o início cronológico da narrativa fora a descoberta do Em todo o caso, trata-se da história de uma nação que permaneceu
Brasil pelos portugueses, por outro lado, o sentido desta história só "providencialmente unida", graças à ação de suas "lideranças patrióti-
era compreendido através do passado recente ou mesmo pelo presente cas" e de seu "senso de compreensão das nossas tradições" e "missão
vivido do autor: "A rápida vitória da Revolução de 30 e o esplendor histórica". Não cabe aqui descrever minuciosamente estes eventos.
alcançado pelo Estado Nacional alarga-nos singularmente a compre- Basta apenas uma citação de Serrano, reveladora de como o autor
ensão de nossa história" (Serrano, 20a aula, 12/12/1942). ressignificava a história do Brasil a partir do campo de experiências
Na verdade, a história que Serrano veicula pelos microfones da e expectativas de seu presente vivido, como se disse, alargado pelo
Universidade do Ar apresenta semelhanças com certa narrativa do advento do Estado Novo (Koselleck 2006: 305-327):
passado nacional configurada durante o Estado Novo, com larga
influência no ensino de história. Em suma, é a história de um povo A unidade do Brasil, ameaçada desde o primeiro século da vida co-
mestiço, pacífico, mas que não foge à guerra, além de republicano lonial, foi sempre providencialmente salva, de modo a que pudesse
(Gomes 1996:191-205). chegar até nós intacta, na extensão territorial e sobretudo na comu-
O primeiro elemento estruturante dessa história é o tema da nhão espiritual da mesma fé cristã, da mesma língua e dos mesmos
formação do Brasil, ou seja, de busca da singularidade e da identi- sublimes ideais de progresso material, intelectual e moral. Ao parti-
dade nacionais. Inicialmente, segue-se o ritmo da sucessão dos cularismo feudal das capitanias, felizmente sem êxito, sucedeu logo
acontecimentos políticos, de inspiração varnhageriana: colonização, a centralização salvadora do governo geral. No século seguinte, ao
capitanias, governos gerais, conquista e defesa da terra, transmigração perigo da ocupação holandesa e da própria administração inteligente
da corte, Independência etc. O que mais interessa são as açÕes dos de Maurício de Nassau, acudiu a bravura vitoriosa de Guararapes
(...). Já independente, aos riscos da fragmentação no período regen-
grandes vultos e heróis, envoltos no percurso da ação política e do
ciai e de lutas civis, opôs a Divina Providência a figura exponencial
desabrochar da nacionalidade: Martim Afonso de Sousa, Men de
e incomparável de Evaristo da Veiga e do Duque de Caxias (Serrano,
Sá, Anchieta, Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Felipe Camarão,
17a aula, 24/10/1942).
Henrique Dias, Tiradentes, d. João VI, Domingos José Martins, d.
Pedro I, Bonifácio, Evaristo da Veiga, Feijó, Caxias etc.
O ritmo de sucessão dos acontecimentos políticos é quebrado pela Neste grande marco estruturante da política, da conquista e expansão
introdução de temas de inspiração capistraniana, isto é, a criação de do território, surge, paulatinamente, a "família brasileira". Como se
gado, as bandeiras, a mineração, os quilombos etc. Nesta narrativa disse, ela tem a cara mestiça, uma afirmação que não transita mais
destacam-se os sujeitos coletivos "identificados com a gente do povo": no interior da ideologia do branqueamento, nem das teorias raciais,
índios, negros, sertanejos, vaqueiros, bandeirantes, mineradores, mas já a partir da ideia de cultura: "A etnia brasileira é resultante da
jesuítas, mas também atores físicos: "a geografia da canoa ou da mestiçagem entre brancos, índios e negros através de nossas vicissi-
montaria", do Sul ao Amazonas; a "geografia do gado", tendo por tudes históricas." E mais à frente: "(...) é antes sinónimo de povo ou
centro de fixação e irradiação o vale do São Francisco, "o grande nação que de raça e supõe elementos de ordem cultural e psicológica".
caminho da civilização brasileira"; a "geografia da fé, pelas picadas A mestiçagem, portanto, encarada positivamente, não inferiorizava

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os brasileiros diante de outros povos, uma vez que "hoje se reconhece homem providencial que está empregando formidável energia para a
que não há mais, em rigor, raças absolutamente puras" (Serrano, 8* vitória dos velhos ideais que sempre deram ao nosso continente uma
aula, 17/6/1943. Grifos do autor). fisionomia democrática, generosa e visceralmente crista":
Além de mestiça, a família brasileira possuiria "alma" e "flama
republicana". Trata-se de um ideal que surgiu no século XVIII e, Que teria sido o governo de Rodrigues Alves, se a Constituição de
desde então, jamais se apagou em toda a história brasileira, apesar 1891 permitisse a reeleição? Quando o foram de novo buscar para
da independência ter sido feita nas condições do 7 de Setembro de o posto supremo de sacrifício no altar da pátria, era já tarde... Ter-
-se-iam porventura evitados os erros e lutas estéreis de alguns dos
1822. Entre a Inconfidência e a Confederação do Equador, Tiraden-
quatriênios seguintes, causas mais ou menos próximas da reação
tes, Domingos José Martins e frei Caneca "são documentos selados
nacional de 1930. Demos graças a Deus, que no dizer pitoresco e
em sangue vivo da sinceridade do ideal republicano, antes mesmo de expressivo do povo, é brasileiro e nos deu, após tantos erros e pe-
estar definitivamente assegurada a obra gigantesca de Bolívar e San rigos, um novo ciclo fecundo e glorioso. (...) O Estado Nacional é
Martin" (Serrano, 3a aula, 22/5/1942; 4a aula, 2/6/1942). contraprova a favor da possibilidade de longos mandatos, sem for-
Entretanto, Serrano reconhece como positiva a solução monárquica çadas interrupções perturbadoras. Pode-se dizer a propósito do 15
no Brasil, uma vez que "a ideia republicana surgiu prematura na Amé- de Novembro em face do 10 de Novembro: este completa e corrige
rica". Justamente por isso, a história do Brasil seria digna de aplausos, aquele. No Brasil poderíamos dizer que a vida republicana começou
pois uma "bela lição" no concerto das nações latino-americanas: "ti- aos quarenta de idade do regime: é quase a distância exata no tempo
vemos nossa evolução natural comparável ao desenvolvimento de um entre o 15 de Novembro de 1889 e a Revolução Nacional de 1930
(Serrano, 20a aula, 12/12/1942).
organismo vivo, sem saltos violentos, em transição de ritmo capaz de
nos permitir a conservação da unidade territorial". Segundo o autor,
Os "últimos quarenta anos", por sua vez, demonstravam que o Brasil
isso teria ocorrido graças à presença de um "monarca autêntico e não
estava pronto para assumir um lugar de destaque na América e na
improvisado como o infeliz Agostinho Iturbide no México" (Serrano,
Europa: "nas últimas décadas conquistamos os dias de maior inten-
5a aula, 13/6/1942; 6a aula, 23/6/1942).
sidade patriótica e maior relevo continental e até mesmo internacional
Todavia, a República veio, quando "a exceção brasileira no Con-
de toda a nossa história". Santos Dumont elevara o país no campo de
tinente Republicano parecia já anacrónica". Mas o país não estava
Bagatelle, tornando realidade aos olhos surpresos dos parisienses a
preparado para o novo regime, nem em 1889, nem em 1891, quando
fantasia de Júlio Verne. Rui Barbosa discursara em Haia. Oswaldo
se "promulgou uma carta em desajuste com o nosso meio" (Ser-
Cruz completara a obra de higiene do Rio de Janeiro. Pereira Passos
rano, 19a aula, 9/11/1942). Seu maior erro foi proibir a reeleição o embelezara e Rio Branco destacava-se nas Relações Exteriores.
dos presidentes. Segundo Serrano, dos cinco primeiros presidentes Ademais, a "agitação literária e artística", a "renovação pedagógica
- Washington, Adams, Jefferson Madison e Monroe - somente o e sociológica", a intensa "vida jurídica no campo do Direito Social"
segundo não foi reeleito. O próprio Washington não teria aceitado e a participação ativa do Brasil na "reconstrução do mundo em bases
a terceira investidura no cargo por um "escrúpulo respeitável, mas cristãs e sadiamente democráticas" etc. demonstram para Serrano
sem apoio no texto constitucional". Enfim, foi preciso urna guerra que o país não era apenas um coadjuvante na história da civilização
mundial para que se visse a necessidade de "conservar no poder o (Serrano, 21a aula, 28/12/1942).

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Acrescente-se que a narrativa do autor também é tributária de suas Logo se vê que os ecos da Segunda Guerra Mundial e da reunião
posições no cenário político e intelectual, como militante da Ação dos chanceleres das repúblicas americanas realizado na cidade do
Católica, adepto do pacifismo e do pan-americanismo:
Rio de Janeiro (1941) alcançaram rapidamente centenas de profes-
sores de História no Brasil, via discursos e narrativas historiográ-
Sem esquecer os imperativos de solidariedade internacional, é para
o continente americano que se deve voltar de preferência a nossa
ficas veiculadas pelo rádio. Serrano é um ator privilegiado para se
atenção. Somos parte de uma grande família americana e esta compreender essa mediação. Por meio da Universidade do Ar ele se
forma, em todos os sentidos, pela origem, evolução, necessidade e tornou um intelectual referencial e organizador de uma comunidade
objetivos, um mundo inteiramente distinto, sintetizada há mais de espiritual de professores de história pátria. Para o mal ou para o
cem anos na expressão - sistema americano - de José Bonifácio,' bem, sua narrativa da história do Brasil lançou raízes entre nós,
e objetivada na gestão gloriosa do segundo Rio Branco (Serrano, e aínda hoje continua a estruturar a narrativa histórica de muitos
13a aula, 9/9/1943). professores pelo país.

Por conseguinte, a história do Brasil é a história de um país que


deixou de ser uma monarquia isolada na América para se integrar
ao continente "livre", "cristão" e "democrático". Trata-se de um
americanismo pacifista, certamente, mas que não foge da guerra, Portanto, fica-se conhecendo as diretrizes que norteavam a for-
desde que ela seja justa e sob a liderança de "figuras inconfundíveis": mação dos professores de História pátria na Universidade do Ar.
Professores que, não sendo historiadores de ofício, deveriam possuir
Neste período em que se torna realidade o ideal bolivariano, avultam uma noção exata da disciplina, tornando-sc capazes de compreen-
no cenário mundial figuras inconfundíveis (...) F. Roosevelt, o sucessor der a especificidade do método histórico e suas relações com a
de Washington, Lincoln e Wilson, hoje executa o programa de defesa literatura. Professores que ensinariam mobilizando a memória e
pelas armas das causas cristãs e democráticas, para o triunfo efetivo outras faculdades do raciocínio, sobretudo as emoções, para além
do direito internacional ultrajado pelos bárbaros modernos (...) Outro da cronologia e nomenclatura. Professores assíduos frequentadores
grande chefe avulta no cenário americano e internacional. Também
de bibliotecas, leitores de bons autores, que combateriam os que
ele disse em outubro de 1930, em Porto Alegre, que estávamos diante
reduzem a história a um romance perfumado, sem fundamento
de uma contrarrevolução para readquirir a liberdade, para estabelecer
o entendimento recíproco entre o Estado e a Igreja, para restaurar a bibliográfico. Professores capazes de promover mediações em sala
pureza do regime republicano e reconstruir a nação. (...) Este mesmo de aula, a exemplo de Serrano no rádio. Enfim, professores que
chefe, que muito bem compreendeu a herança de Rio Branco, após ensinam uma história de cunho patriótico, combinando perspec-
haver conseguido a vitória desse ideal pelo qual arriscou a própria tivas cristãs.
vida, também afirmou a sua vontade - que aliás sempre foi a vontade
do Brasil - de viver na mais estreita união de vistas com os estados
civilizados (Serrano, 13a aula, 9/9/1942).

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327
326
PARTE 3 Leituras e ressonâncias
10. De Tibicuera a Floriano Cambará: as mediações
de Eriço Veríssimo (1930 a 1960)
Mora Cristina de Matos Rodrigues

Desde seus escritos literários dos anos 1930, como As aventuras de


Tibicuera (1937), passando pelo pouco conhecido Brazilian Lite-
rature - an Outline (1945) e avançando para a grande obra da sua
maturidade, O tempo e o vento (1949-1962), verifica-se dentre as
práticas intelectuais de Eriço Veríssimo a reelaboração de intrigas
e enredos (White 1995), dos quais usualmente se ocupava a his-
toriografia.1 Estes três textos, apesar de aparecem em momentos
diferentes de sua carreira e com objetivos e leitores aparentemente
bastante distintos entre si, guardam várias semelhanças do ponto de
vista das representações literárias que o autor constrói do passado
sul-rio-grandense e brasileiro.
Esta definição do problema a ser tratado, apesar da presença ma-
nifesta de termos, textos e abordagens vizinhos da teoria literária não
constitui aqui o foco de atenção exclusivo a estes livros, já que eles
servirão de apoio para desenvolver, neste capítulo, a problematização
da noção de intelectual mediador (Sirinelli 2003). Consideramos que

1 As edições aqui utilizadas destes livros serão respectivamente de 1976, 1995 e 2005; a
segunda é a tradução de Brazilian Literature - an Outline para o português.

331
DE T I B I C U E R A A FLORIANO CAMBARÁ

a tensão entre elementos comuns e díspares na composição e nos peso da bancarrota financeira e familiar. Empregou-se na Livraria do
públicos destinatários destes livros pode ser frutífera para pensar o Globo após investir, sem sucesso, na estratégia clássica dos escritores
problema da articulação entre criação e mediação intelectual no Brasil do início do século passado: garantir uma posição na burocracia do
de meados do século XX, se analisada juntamente com a trajetória Estado, para obter sustento e estilo de vida adequados ao desenvol-
político-intelectual de Eriço Veríssimo. vimento paralelo das atividades literárias.
Com o advento da Revolução de 30 e do envolvimento de intelec-
tuais gaúchos no apoio a Getúlio Vargas, ocorre a subsequente ocu-
Uma trajetória intelectual entre pação de cargos políticos no centro do país. Abre-se, então, a vaga de
a mediação e a criação cultural? diretor da Revista do Globo, prontamente aceita por Veríssimo. Daí
em diante, até seu grande sucesso editorial em 1938, atuou também
Nesta seção, o fio condutor será tecido por alguns aspectos mais na Editora do Globo como tradutor de obras clássicas, best-sellers e
relevantes da trajetória intelectual de Eriço Veríssimo, que já foi clássicos escritos em inglês e francês.2 Sua carreira de escritor pôde
objeto de comparação com a do crítico literário Moysés Vellinho, se desenvolver nas sobras de tempo e através dos contatos editoriais
outro intelectual importante no cenário cultural sul-rio-grandense que esta atuação lhe proporcionava.
entre os anos 1930 e 1970, em artigos publicados anteriormente A fase inicial da carreira de Eriço Verissimo foi marcada pelo
(Rodrigues 2006, 2010). Neste capítulo, retomamos a trajetória de chamado "romance urbano", que o colocou cronologicamente como
Verissimo levando em consideração as dificuldades de situá-lo somente o primeiro a enfocar esse contexto pelo viés social. Vale ressalvar que
ou predominantemente em um dos papéis intelectuais de mediação o foco nas tensões sociais era recorrente ao chamado "romance de
ou criação cultural. Ao final do texto espero inclusive que se perceba 30", mas que este ainda se ocupava sobretudo das temáticas rurais
como o seu caso nos leva a duvidar da separação mesma entre essas e regionais (Chaves 2001: 16-17). As principais obras de Verissimo
instâncias do trabalho intelectual. sob o enfoque urbano são os livros Clarissa (1933), Música ao longe
Em que pesem suas origens familiares não serem desprovidas de (1935), Caminhos cruzados (1935) e Um lugar ao sol (1936), A fase
notoriedade e prestígio na sua cidade natal, Verissimo testemunha, inicial da carreira do escritor também é marcada pela presença de
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na sua adolescência, um grande declínio económico da família, com vários títulos em literatura infantojuvenil, dentre eles, Os três por-
fortes efeitos na sua vida, do ponto de vista social e afetivo. Seus pais quinhos pobres (1936) e As aventuras do avião vermelho (1936).
separaram-se no final de 1922, quando esta situação era forte motivo Portanto, As aventuras de Tibicuera, publicadas no ano de 1937,
de estigmatização, principalmente para as mulheres. A solidariedade aparecem em um momento de consolidação de sua identidade como
com sua mãe, ainda sobrecarregada pela necessidade de sustentar os escritor de literatura, mas ainda com público e prestígio intelectual
dois filhos, forçou a interrupção de seus estudos secundários em Porto de pouco alcance, além do cenário regional. Estava ainda distante da
Alegre. Desta forma, seu ingresso no mercado de trabalho contra- consagração nacional que se seguiria - mais sustentada pelos leitores
riou perspectivas tradicionais de sua extração social de origem, pois,
obrigado a retornar para a cidade interiorana de Cruz Alta, teve que
2 A prolífica atividade de Verissimo como tradutor da Editora do Globo, ao lado de Henri-
desenvolver atividades mal remuneradas e malsucedidas. Voltaria a que Bertaso, pode ser mais bem dimensionada no texto memonatístico que este fez em sua
Porto Alegre somente em 1930, carregando na sua biografia o duplo homenagem (Verissimo 1997a). Ver também o livro de seu filho, Bertaso (1993).

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INTELECTUAIS MEDIADORES- DE T I B I C U E R A A F L O R I A N O C A M B A R Á

do que pela crítica literária, é preciso que se diga -, com a publicação edições posteriores pela presença de um questionário, espécie de ficha
de outro "romance urbano", Olhai os lírios do campo (1938). de leitura, que acompanhava o livro para ser usado na rede pública
A inserção de As aventuras de Tibicuera e de seu autor no cenário de ensino no Rio Grande do Sul. Por esses motivos, principalmente
cultural e intelectual nacional foi analisada em um belo texto escrito ligados à trajetória profissional do autor no cenário político e cultu-
por Angela de Castro Gomes (2009).3 Assim como em vários livros ral dos anos 1930, o papel do escritor, neste momento e nesta obra
mencionados anteriormente e nos dois programas de rádio em que específica, pode ser compreendido, sobretudo, como de mediador no
atuava na época, o escritor se dirigia a um público infantil, encar- sentido mais comum deste conceito: o intelectual que traduz e torna
nando o contador de histórias, epíteto que adotou para se autodefinir acessível uma série de conhecimentos históricos para um grande
até o final da vida. A publicação foi situada por Gomes (2009: 133- público infantil, em fase de escolarização.
34) em uma linhagem de narrativas históricas e patrióticas que vai A história do Brasil aparece de forma palatável em uma linha
desde livros de Sylvio Romero e Basílio de Magalhães, do final do de continuidade que vai desde antes do seu "descobrimento** pelos
século XIX, até os de João Ribeiro e Afonso Celso, o conhecido Por portugueses - já que o narrador é indígena -, até o tempo futuro,
que me ufano do meu país, na primeira década do século XX. Na em 1942, quando o término da história se localiza no cenário de um
perspectiva da autora, trata-se de uma série de títulos qualificados alto edifício no bairro de Copacabana, onde então residiria já adulto,
como **um grande e diversificado conjunto de narrativas cívicas, que intelectualizado, desempenhando atividades pacíficas e vestido con-
cresceu com a República, destinando-se a enaltecer, senão o regime, forme o costume da sociedade branca. Adiante, desenvolveremos a
certamente o país, seu território e seu povo" (Gomes 2009:135).4 O reflexão sobre algumas escolhas narrativas e sobre a concepção de
livro de Verissimo participou e foi premiado no concurso nacional de história em As aventuras de Tibicuera. Por ora, basta sublinhar o
literatura infantil, lançado em 1937, pelo recém-instituído Ministério lugar de Eriço Verissimo na escala de reconhecimento dos pares e do
da Educação, preocupado nesta época com a promoção de obras público regional e nacional, bem como uma preocupação didática
que tivessem qualidade estética e moral adequadas para incentivar a e de mediação entre a história nacional produzida para um público
leitura em crianças e jovens. leitor adulto erudito e o público infantil escolar.
As aventuras do pequeno indígena que se chamava Tibicuera Em 1938, o estatuto social de Eriço Verissimo, mais do que sua
"eram também as aventuras do Brasil" e, por isso, se desenvolviam legitimidade intelectual, mudaria de posição. A publicação de mais
conforme periodização e temáticas da história brasileira conhecida um romance urbano, Olhai os lírios do campo, atingiu um enorme
nos livros didáticos da Primeira República. Para Gomes (2009:136), sucesso comercial, com várias edições consecutivas. Conforme des