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Primeiras relações comerciais entre Portugal e Japão (1543- 1639):


convergência de interesses, choque de culturas

Article · January 2006

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Michele de Sá
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
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Primeiras relações comerciais
entre Portugal e Japão (1543-
1639): convergência de
interesses, choque de culturas
First trade relations between Portugal
and Japan (1543-1639): convergence
of interest, cultural shock

Michele Eduarda Brasil de Sá

Resumo
O presente artigo analisa o início das relações comerciais entre Japão e Portugal no século XVI,
partindo das relações entre mercadores portugueses e chineses, e a política do sakoku como desfecho político
dos conflitos culturais interagindo com a convergência de interesses neste contexto histórico e econômico.
Palavras-chave: relações comerciais, intercâmbio cultural, política do sakoku.

Abstract
The present paper examines the beginning of commercial relations between Japan and Portugal in
the XVI century, starting from the relations between Portuguese and Chinese merchants, and the sakoku
policy as a political outcome to cultural conflicts interacting with the convergence of interests in this
historical and economic context.
Key words: trade relations, cultural interchange, sakoku policy.

Durante o período conhecido vulgarmen- gações portuguesas, até meados do século XVII,
te como o das Grandes Navegações, os portu- quando o Japão fechou os portos para os co-
gueses tiveram vários momentos (alguns benfa- merciantes estrangeiros, inserida na via dupla
zejos, outros não) de contato com culturas dife- do intercâmbio cultural.
rentes, exóticas. O presente trabalho pretende Movida pelo impulso do comércio e da
demonstrar, ainda que de maneira resumida, a religião, Portugal seguiu ávida para o extremo
dinâmica das relações comerciais entre Portu- Oriente, terra de culturas tão diferentes quanto
gal e Japão, primeiramente através do mercado curiosas, a parte cada vez mais lucrativa do que
chinês, a partir do século XVI, auge das nave- os portugueses chamavam, de maneira genera-

Michele Eduarda Brasil de Sá é Professora Assistente de Língua e Literatura Latina (Faculdade de Letras/UFRJ), Doutoranda em Língua e Literatura Latina
(PPG Letras Clássicas – Faculdade de Letras/UFRJ), Graduanda em Relações Internacionais (Centro Universitário da Cidade/RJ).
Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras – Departamento de Letras Clássicas. Av. Brigadeiro Trompowsky,
s/n. 21941-590. Rio de Janeiro/RJ. E-mail: michele_eduarda@ufrj.br

Canoas n. 13 jan./jun. 2006 p.49-55


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lizada, de “Estado da Índia” (BOXER, 2000, Ming cortou as relações comerciais entre seu
p.55). Porém, devido a questões relacionadas a império e o Japão. Desta forma, os portugueses
política, religião e economia, o monopólio por- se tornaram uma alternativa comercial bastante
tuguês do comércio marítimo no Japão não favorável, servindo de intermediários de pro-
pôde ser mantido por muito tempo. Logo de- dutos chineses para o Japão e de produtos ja-
pois chegaram os seus concorrentes holande- poneses para a China, ainda que clandestina-
ses, ingleses e outros, para incrementar ainda mente. Sabe-se que por volta do ano 1543 os
mais o quadro que ora se formava. Oficialmen- comerciantes portugueses já freqüentavam o
te, a presença dos comerciantes portugueses no Japão, descoberto por acaso por alguns mari-
Japão data de 1543 e se estende até 1639, pouco nheiros náufragos. Contudo, as ligações comer-
menos de um século. As relações oficiais entre ciais entre japoneses e portugueses só podem
o Japão e o Ocidente, ou melhor, a segunda aber- ser consideradas oficialmente a partir do esta-
tura oficial dos portos do Japão, só aconteceu belecimento permanente destes em Macau em
em 1853, quando a delegação do almirante ame- 1557; dali por diante, a intensificação das rela-
ricano Matthew Calbraith Perry exigiu a aber- ções culminou na abertura do porto de Naga-
tura dos portos. saki aos estrangeiros em 1570, e as viagens por-
tuguesas tinham sempre os dois portos – Ma-
cau e Nagasaki – como locais de chegada e par-
tida (BOXER, 1990, p.28).
O INÍCIO DE TUDO Com o apoio dos daimyos1 japoneses, es-
tabeleceu-se este comércio regular entre Macau
e Nagasaki (BOXER, 2000, p.75.), travado na cir-
Durante sete anos (1514-1521) os portu- culação de basicamente dois produtos princi-
gueses tiveram relações comerciais (permiti- pais: a seda chinesa e a prata japonesa. Na Chi-
das e regulamentadas) normais com a China. na havia grande demanda de prata, cujo valor
As diferenças culturais e administrativas, po- era duas vezes maior que na Europa ou no Ja-
rém, foram pouco a pouco abrindo um abismo pão. A seda, crua ou tingida, por sua vez, tão
entre chineses e portugueses, os quais não es- barata na China, alcançava valores mais que
tavam habituados ao sistema de tributação do lucrativos em outros lugares.
Império Ming e lançaram mão de atitudes de Por volta de 1560, a proibição Ming afrou-
violência, sobretudo na região de Cantón. No xou-se e os comerciantes chineses ampliaram
entanto, a proibição de atividade comercial suas atividades com liberdade. A unificação do
com os portugueses era uma formalidade des- Japão, nesta mesma época, com Oda Nobunaga
respeitada por ambas as partes, criando um e, depois dele, Toyotomi Hideyoshi trouxe uma
ambiente de reconhecido contrabando e pira- certa estabilidade política que favoreceu o de-
taria. Entre os principais produtos trazidos senvolvimento do comércio marítimo japonês.
pelos portugueses havia alguns artigos euro- Embora não pudessem mais monopolizar o co-
peus como lã, fio de ouro e coral com algodão, mércio nesta rota, os portugueses ainda assim
ópio da Índia, marfim e ébano da África, espe- gozavam de uma fase de tremenda prosperida-
ciarias diversas e madeira de sândalo do Ti- de comercial no “Estado da Índia” (WER-
mor, pelos quais os portugueses tomavam seda, NHAM, 1987, p.408).
objetos de porcelana e laca, ruibarbo, cobre, Em termos de comparação dos mercados
ouro e almíscar (WERNHAM, 1987, pp. 407-8). na rota sino-japonesa, a primeira coisa que deve
Foi na costa da China, mais especificamente ser levada em consideração é o fato de que a
em Macau e arredores, que os portugueses ti- China do império Ming, ampla em sua nature-
veram o seu primeiro contato com comercian- za e com muitas ilhas ao longo de sua costa,
tes japoneses, ainda pouco numerosos, até com várias cidades de porto já bastante desen-
porque nem todos tinham permissão do go- volvidas, não pode ser considerada como um
verno Ming para aportarem.
Por volta de 1540, o imperador chinês 1
Daimyo: “senhor feudal”.

50
mercado homogêneo. Roderich Ptak chama a que exercia completo monopólio comercial
atenção para este dado: (MAURO, 1993, p.278).
Muitos grupos de mercadores chineses,
Taking the latter aspects first, we must realize that como os da comunidade de Wang Zhi – segu-
mid-Ming China with its long coasts, its many ramente uma das maiores – cooperavam com
offshore islands, its many inlets, harbours and well- os japoneses. Sem dúvida, a ida de chineses ao
developed coastal cities cannot be considered as Japão sobrepujava a ida de japoneses à China.
one monolithic market. Of course, China was one De acordo com Roderich Ptak, entre as déca-
large market, but regional disparity was enormous das de 1550 e 1560 apenas um décimo dos co-
and it is better to view coastal China as a chain of merciantes da rota sino-japonesa era compos-
loosely, nearly separated entities – each with its to de japoneses, e todo o restante era domina-
own hinterland and network of regional, do por mercadores chineses (PTAK, 1994,
interregional and international connections. p.291). Isto parece lógico, mas contraria o tes-
(PTAK, 1994, p.281) temunho de alguns dos primeiros portugue-
ses que chegaram ao extremo oriente nesta épo-
As discrepâncias que há vão além das di- ca, como o Padre Luís Fróis, segundo o qual
ferenças de dialetos, de produtos e de costu- eram muitos os japoneses que se lançavam ao
mes, alcançando até mesmo as relações comer- comércio com a China.
ciais internas e externas. Em oposição, o Japão Pondo em xeque o testemunho português,
de meados do século XVI não tem esta mesma Ptak coloca em evidência o fato de que os navi-
característica – apesar de ser um arquipélago: a os mercantes japoneses eram muito menores e
atividade comercial está restrita a Kyushu, uma menos resistentes que os chineses. Apesar de
das quatro ilhas principais. As redes de comér- sua maior (embora relativa) agilidade e capaci-
cio de Kyushu, porém, oscilavam entre a pros- dade de escaparem de ataques piratas, estes na-
peridade dos negócios e as condições políticas vios de pequeno porte mantinham a atividade
não muito favoráveis. Os conflitos entre daimyos comercial japonesa um tanto limitada até o fim
tornavam a comunicação com a ilha às vezes do século XVI, quando o Japão começou a ga-
algo difícil. Dentro desta situação, as redes co- nhar proeminência no mercado marítimo asiá-
merciais locais japonesas eram complexas, mas tico, partindo inclusive para o Vietnã e outros
não chegavam nem perto da complexidade das países do sudeste asiático.
redes estabelecidas no mercado chinês (PTAK, Este grande salto para o mar se deve, en-
1994, p.282). tre outros fatores, à presença de comerciantes
É interessante observar que, nos sécu- portugueses no Japão. A economia nacional
los XV e XVI, há o desenvolvimento das co- passou a ter no comércio uma possibilidade de
munidades mercantis. A China experimenta se acumular riquezas de forma relativamente
este processo, mas o mesmo não ocorre com o rápida, excluindo a necessidade de se possuir o
Japão, por causa de fatores políticos e econô- controle de terras (HALL, 1990, p.137). Isto, em
micos internos. O comércio no Japão era pri- plena era de feudalismo japonês, em que os
meiro controlado pelos daimyos, depois pas- grandes donos de terras (daimyo) eram os que
sou a ser controlado pelo shogun 2 , até que os efetivamente detinham o poder, causou impac-
portos foram definitivamente – ou melhor, to à estrutura econômica e mesmo política do
temporariamente – fechados aos estrangeiros. Japão. A introdução de armas de fogo também
Não há, na verdade, como falar de comuni- influenciou o Japão em plena Sengoku-jidai3 . No
dades mercantis no Japão. Os comerciantes meio da briga política, os daimyos que podiam
tinham suas atividades controladas pelo dai- oferecer resistência e manter seu prestígio eram
myo até 1610, e depois deste ano pelo shogun, os que dispunham de exércitos mais eficiente-
mente equipados:

2
Shogun: “general”; era o líder efetivo do governo, ficando o Imperador
como líder de mera representatividade, sem poder político real. 3
Sengoku-jidai: “era de guerra civil”, ou, literalmente, “era do país em guerra”.

51
(...) In competing for good prices and high returns, As famílias japonesas Ouchi, Otomo e
much depend on the internal communication in Shimazu (de Shimazu Takahisa) tinham o pa-
Japan, on the internal flow of commodities there, pel principal no comércio japonês com a Chi-
on the exchange of goods between local markets, na. Os portugueses, taticamente, logo se
on the availability of silver in Japanese ports and on aproximaram dos grandes líderes do comércio
the purchasing power of local Kyushu magnates – (PTAK, 1994, p.292). Contudo, quando estes lí-
and these actors, in turn, were closely related to deres se tornaram anticristãos, os portugueses
momentous political circumstances, which, to se aliaram ao comerciante Omura Sumitada,
repeat, were all but stable and predictable. (PTAK, que se converteu ao cristianismo e se fez duas
1994, p.296) vezes rival dos grupos maiores (uma, pela com-
petição no comércio; outra, pela divergência
O negócio de armas era extremamente religiosa). A criação do porto de Nagasaki é
vantajoso para os portugueses, obviamente. atribuída a ele, e diz-se que, ao se converter,
Aliás, a atividade comercial como um todo Sumitada ordenou que todos debaixo de sua
veio trazer novos matizes ao quadro interno autoridade também se convertessem ao cristi-
que ora se delineava. Contudo, a situação ca- anismo católico. Arima Harunobu e Otomo
ótica em que se encontrava a política do Ja- Yoshishige passaram a ser conhecidos, junto
pão proporcionava um ambiente de profun- com Sumitada, como os “Três Daimyos Cris-
da insegurança e de perigo constante, péssi- tãos” (HALL, 1990, p.140), os quais enviaram
mo para o comércio, que em breve se mani- um grupo de quatro japoneses cristãos à pre-
festaria insuficiente para manter os portu- sença do Papa em Roma.
gueses no Japão. Os esforços na difusão do Em todo o período de atividade comer-
Cristianismo católico com a chegada dos je- cial portuguesa no Japão, a Companhia de Je-
suítas ao Japão ajudaram a fincar, de certa sus cumpriu um papel singular, inclusive na
forma, os pés portugueses em solo nipônico. recepção que se tinha na Europa a respeito
A Companhia de Jesus vai apresentar-se deste novo povo “descoberto”. O padre jesu-
como um ator sui generis nas relações tanto íta Francisco Xavier referia-se ao povo japo-
comerciais quanto políticas e sociais entre nês como “o melhor que havia sido descober-
portugueses e japoneses. to”. Os japoneses eram vistos como pessoas
que prezavam a honra, hospitaleiros, donos
de grande autodomínio, curiosos (mas sem a
PORTUGUESES NO JAPÃO: xenofobia característica dos chineses) e ilus-
RELIGIÃO E COMÉRCIO trados – mesmo os mais pobres. Por outro lado,
os japoneses associaram o fidalgo português
à figura do samurai e encontraram na disci-
Assim que chegaram ao Japão os primei- plina e na abnegação pregada pelos jesuítas
ros missionários jesuítas – mais especificamen- algo semelhante ao código Bushido. (WER-
te na província de Kagoshima – a pressão dos NHAM, 1987, p.408). Sendo muitos dos jesuí-
monges budistas (bonzos) começou para que tas também comerciantes, sua permanência
eles fossem proibidos de pregar o evangelho. em território japonês trazia uma certa insta-
Isto só aconteceu em 1550, conforme a ordem bilidade ao governo, uma vez que eles desa-
de Shimazu Takahisa4 , e a partir daí foram para gradavam aos líderes religiosos xintoístas e
Kyoto, a grande capital, numa retirada estraté- budistas (que já tinham suas próprias dife-
gica para alcançar os homens que detinham o renças), mas ao mesmo tempo auxiliavam os
poder. A classe mais alta era um alvo propício daimyos servindo de entreposto para o comér-
tanto para a investida da religião quanto do cio japonês e chinês, como já mencionamos.
comércio. Além disso, como os mercadores portugueses
passaram a procurar cidades japonesas em que
houvesse cristãos para sediar seus negócios,
4
Senhor feudal de Satsuma, cuja capital era Kagoshima, onde aportaram os
os daimyos não só protegiam estes comercian-
primeiros jesuítas. tes, mas também se convertiam à recém-che-

52
gada religião. Há um episódio que bem ilus- vés da Companhia de Jesus – não dispunha
tra esta receptividade da parte dos Daimyos, de número suficiente de missionários para
narrado por Francisco de Sousa. Trata-se da atender à seara, ou melhor, para alcançar as
resposta do rei de Bungo aos bonzos que que- muitas almas não só do Japão, mas da região
riam expulsar os jesuítas: das Índias como um todo. O argumento de
cunho religioso, posto diante do Papa, sobre-
Haverà dez, ou doze annos, que tenho os Padres puja qualquer outro e acaba por mover pa-
nas minhas terras. Antesque elles viessem, era se- dres de outras ordens e procedências ao Ja-
nhor de três Reynos, & agora o sou de cinco: era pão, apesar da bula proibitória.
muito pobre de dinheyro, agora naõ ha Rey em Em relação a conflitos religiosos com os
Japaõ, que tenha tantos thesouros: não tinha fi- japoneses, sabe-se que a flexibilidade e a ten-
lhos, & summamente os desejava, agora os tenho. dência sincretista do budismo, a partir de uma
Com elles me entràraõ em casa todas as felicidades. certa época, entraram em choque com a rigi-
Dizey-me vòs agora, que proveyto me veyo de vos dez dogmática da religião jesuítica, como era
sustentar a vòs, & a vossa ley tantos anos? (SOUSA, de se deduzir. A resistência à religião trazida
1978, p.1121) pelos portugueses foi crescendo, através de
pessoas como o pensador Suzuki Shosan, es-
Pode-se dizer, enfim, que a presença critor das obras Deusu Mondo (“Perguntas e
portuguesa no Japão é regida, como nas ou- respostas sobre o Deus cristão”) e Ha Kirishi-
tras colônias, pela dicotomia da religião e do tan (“Refutação da Cristandade”), um dos mai-
comércio, através da qual o Império portu- ores opositores dos jesuítas quando da chega-
guês, no seu processo de auto-afirmação, avan- da da Companhia de Jesus ao Japão (JANEI-
çou no impulso das grandes navegações e da RA, 1988, p.155). O valor que a sociedade japo-
difusão do cristianismo (BOXER, 2000, p.13). nesa atribui às tradições e aos antepassados,
O líder jesuíta Alexandre Valignano, em sua juntamente com o caráter animista das religi-
visita ao Japão em 1582, estimou o total de ões japonesas, mais cedo ou mais tarde impe-
duzentas igrejas e contou cerca de cento e cin- diriam o avanço do cristianismo e iniciariam
qüenta mil convertidos, obra realizada atra- uma série de martírios em vários locais do Ja-
vés do trabalho de apenas setenta e cinco pa- pão, que serviram para alimentar a chama do
dres jesuítas. afã na pregação do evangelho.
Tinham tal força os jesuítas que conse- A estes dados devemos acrescentar que,
guiram do Papa Gregório XIII uma bula que no clima de concorrência entre as grandes po-
lhes garantia direito exclusivo nas terras do tências marítimas da época, os primeiros ho-
Japão. Segundo esta bula, que certamente cau- landeses chegaram na ilha de Kyushu em 1600.
sou grande tumulto entre outras ordens, ape- A nau Liefde chegou com apenas um quarto da
nas os padres da Companhia de Jesus poderi- tripulação, tendo saído em 1598 da Holanda
am ir ao Japão para pregar, administrar sacra- com mais outros quatro navios, que não conse-
mentos ou ensinar a doutrina. A pena para guiram atingir seu destino. Fazia parte da tri-
quem desobedecesse à regra era simplesmen- pulação sobrevivente o inglês William Adams,
te a “excomunhão maior ” 5 . Desta maneira, os que registrou este primeiro contato entre japo-
jesuítas desprendiam esforços também para neses e holandeses e preparou o caminho para
perseguir missionários e padres de outras or- a vinda de outras embarcações da Companhia
dens, que chegavam ao Japão sem reconhecer das Índias Orientais (VOC), estabelecendo-se
a proibição. Foram os frades espanhóis que em Hirado. É escusado dizer que a chegada dos
primeiro desafiaram o padroado exclusivo de holandeses ao Japão trouxe grande inquietação
Portugal no Japão. Eles tinham como argu- aos portugueses – tanto pelas relações de co-
mento mais forte o fato de que Portugal – atra- mércio quanto pela vinda da fé protestante para
tal extremo da Ásia.
Mas algo de novo corria em terras japo-
5
Quanto à dinâmica das missões jesuíticas, vista de uma perspectiva inter- nesas: os ventos da unificação. A partir de
na, leia-se ASSUMPÇÃO, T. Lino de (org.). História geral dos jesuítas. Lisboa:
Moraes Editores, 1982. A respeito da bula citada, v. p.325.
1612, o crescente nacionalismo não podia ter

53
outra conseqüência senão a repulsa ao estran- CONCLUSÃO
geiro, pelo menos no que dizia respeito a cos-
tumes e religião. Embora o comércio fosse per-
mitido, ele era mantido sob regras muito res- Na dinâmica destas relações entre Portu-
tritas. A autoridade central, Tokugawa Ieyasu, gal e Japão, apesar da vontade do shogun de erra-
não desejava ver os potenciais opositores em dicar tudo o que fosse referente aos jesuítas,
Kyushu enriquecendo através do comércio muito de seu trabalho permanece até hoje. A
com estrangeiros. primeira gramática japonesa foi escrita por um
As tensões aumentaram a tal ponto que padre jesuíta, João Rodrigues Girão, mais conhe-
o Japão em 1639 resolveu fechar, de maneira cido como João Rodrigues “Tçuzzu”. As letras
em princípio definitiva, sua entrada para o do alfabeto latino foram introduzidas pelos je-
Ocidente 6 , vindo a reabrir-se oficialmente suítas. Novidades tais como a imprensa jesuíti-
apenas em 1854, por pressão norte-america- ca, bem como aspectos da cartografia, das armas,
na, já na Era Meiji. Várias foram as declara- da astronomia das artes, enfim, uma gama de ele-
ções de fechamento dos portos, todas desobe- mentos introduzidos e adaptados, são a prova
decidas, e o comércio continuava clandesti- de que as relações entre Portugal e Japão foram
namente em ilhas estratégicas, dadas as múl- profícuas, apesar do caráter negativo que se atri-
tiplas vantagens de lucro tanto para ociden- bui a este período e ao seu desfecho7 . Pode-se
tais (falando de portugueses, holandeses e dizer que as muitas perseguições, em vez de ani-
outros que lá chegaram, como ingleses e es- quilar a presença portuguesa no Japão, num pri-
panhóis) quanto para japoneses. meiro momento acabaram por disseminar diver-
São apresentadas, no livro “O fim da pre- sos aspectos da cultura e do conhecimento antes
sença portuguesa no Japão”, de Valdemar Couti- não conhecidos dos japoneses. Desta forma, per-
nho (v. bibliografia), as intervenientes para a sa- cebemos como se ameniza a idéia tão recorrente
ída dos portugueses do território japonês: o re- – quase lugar-comum – de choque cultural.
ceio dos líderes políticos japoneses quanto às As relações comerciais entre Portugal e Ja-
articulações dos jesuítas (por causa de vários in- pão, desde o século XVI até meados do século
cidentes, as autoridades do Japão passaram a XVII, são dispostas de acordo com dois pilares: o
olhar com desconfiança a presença de estrangei- comércio e a religião. Como em toda a história,
ros, temendo que estes tivessem a intenção de os interesses sobrepujam as diferenças, embora
conquistar a terra japonesa (COUTINHO, 1999, o conflito entre ambos seja uma constante. Ofi-
p.18); a presença, por volta de 1600, dos holan- cial ou extra-oficialmente, a atividade comercial
deses em Hirado, o que vai trazer rivalidades entre Japão e Portugal neste período se manteve,
não só econômicas, mas também religiosas resistindo às pressões externas e internas.
(COUTINHO, 1999, p.166); a rebelião de Shima- Choques culturais, convergências de inte-
bara (1637-38), na qual os portugueses não tive- resses: duas forças em sentido oposto, empurran-
ram participação direta, mas, como se tratava de do-se mutuamente, nas águas do Pacífico (de fato,
uma revolta liderada por cristãos, estes acaba- não tão pacífico assim). As leis humanas não po-
ram sendo associados ao confronto; e, por fim, a dem ir contra a natureza humana, de intercâm-
atuação dos apóstatas(COUTINHO, 1999, p.85). bio, de relacionamento, de busca pelo seu pró-
A nosso ver, estes quatro elementos sintetizam prio bem-estar e pela satisfação de seus interesses.
bem o que ocorreu no estágio seminal das rela- Estes princípios moveram os portugueses ao cha-
ções entre Portugal e Japão. mado “Estado da Índia”, e também os japoneses à
Precisamos esclarecer, todavia, que o cris- costa da China, apesar de todos os riscos e peri-
tianismo, embora quase completamente supri- gos. Novas relações foram travadas mais à frente,
mido pelas autoridades japonesas, não foi de todo uma vez que a chamada política do sakoku e seu
erradicado do Japão. O choque de culturas e a natural isolamento não resistiram ao então inci-
convergência de interesses passaram a aconte-
cer, mais uma vez, à margem dos regulamentos.
7
V. artigo “Some aspects of Portuguese Influence in Japan, 1542-1640”. In:
BOXER, Charles R. Portuguese Merchants and Missionaries in Feudal Japan
6
Política do sakoku, que quer dizer, literalmente, “fechar o país”. (1543-1640). London: Variorum, 1990.

54
piente movimento de globalização (em termos de HALL, John Whitney. Japan: from Prehistory to
política, economia e comércio) e de mundializa- modern times. Tokyo: Charles E. Tuttle, 1990.
ção (em referência à cultura). JANEIRA, Armando Martins. O impacto portu-
guês sobre a civilização japonesa. Lisboa: Pu-
blicações Dom Quixote, 1988.
MAURO, Frédéric. “Merchant communities,
REFERÊNCIAS 1350-1750.” In: TRACY, James D. The rise of
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BOXER, C. R. O Império marítimo português University Press, 1993.
(1415-1825). Lisboa: Edições 70, 2000. PTAK, Roderich. “Sino-Japanese maritime
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in Feudal Japan (1543-1640). London: networks.” In: MATOS, Arthur Teodoro de
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