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Estado, Política Social e Direitos

Apoio:

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Comitê Científico Alexa Cultural
Presidente
Yvone Dias Avelino (PUC/SP)
Vice-presidente
Pedro Paulo Abreu Funari (UNICAMP)
Membros
Adailton da Silva (UFAM – Benjamin Constant/AM)
Alfredo González-Ruibal (Universidade Complutense de Madrid - Espanha)
Ana Cristina Alves Balbino (UNIP – São Paulo/SP)
Ana Paula Nunes Chaves (UDESC – Florianópolis/SC)
Arlete Assumpção Monteiro (PUC/SP - São Paulo/SP)
Barbara M. Arisi (UNILA – Foz do Iguaçu/PR)
Benedicto Anselmo Domingos Vitoriano (Anhanguera – Osasco/SP)
Carmen Sylvia de Alvarenga Junqueira (PUC/SP – São Paulo/SP)
Claudio Carlan (UNIFAL – Alfenas/MG)
Denia Roman Solano (Universidade da Costa Rica - Costa Rica)
Débora Cristina Goulart (UNIFESP – Guarulhos/SP)
Diana Sandra Tamburini (UNR – Rosário/Santa Fé – Argentina)
Edgard de Assis Carvalho (PUC/SP – São Paulo/SP)
Estevão Rafael Fernandes (UNIR – Porto Velho/RO)
Evandro Luiz Guedin (UFAM – Itaquatiara/AM)
Fábia Barbosa Ribeiro (UNILAB – São Francisco do Conde/BA)
Fabiano de Souza Gontijo (UFPA – Belém/PA)
Gilson Rambelli (UFS – São Cristóvão/SE)
Graziele Acçolini (UFGD – Dourados/MS)
Iraíldes Caldas Torres (UFAM – Manaus/AM)
José Geraldo Costa Grillo (UNIFESP – Guarulhos/SP)
Juan Álvaro Echeverri Restrepo (UNAL – Letícia/Amazonas – Colômbia)
Júlio Cesar Machado de Paula (UFF – Niterói/RJ)
Karel Henricus Langermans (ECA/USP- São Paulo/SP)
Kelly Ludkiewicz Alves (UFBA – Salvador/BA)
Leandro Colling (UFBA – Salvador/BA)
Lilian Marta Grisólio (UFG – Catalão/GO)
Lucia Helena Vitalli Rangel (PUC/SP – São Paulo/SP)
Luciane Soares da Silva (UENF – Campos de Goitacazes/RJ)
Mabel M. Fernández (UNLPam – Santa Rosa/La Pampa – Argentina)
Marilene Corrêa da Silva Freitas (UFAM – Manaus/AM)
María Teresa Boschín (UNLu – Luján/Buenos Aires – Argentina)
Marlon Borges Pestana (FURG – Universidade Federal do Rio Grande/RS)
Michel Justamand (UNIFESP - Guarulhos/SP)
Miguel Angelo Silva de Melo - (UPE - Recife/PE)
Odenei de Souza Ribeiro (UFAM – Manaus/AM)
Patricia Sposito Mechi (UNILA – Foz do Iguaçu/PR)
Paulo Alves Junior (FMU – São Paulo/SP)
Raquel dos Santos Funari (UNICAMP – Campinas/SP)
Renata Senna Garrafoni (UFPR – Curitiba/PR)
Renilda Aparecida Costa (UFAM – Manaus/AM)
Rita de Cassia Andrade Martins (UFG – Jataí/GO)
Sebastião Rocha de Sousa (UEA – Tabatinga/AM)
Thereza Cristina Cardoso Menezes (UFRRJ – Rio de Janeiro/RJ)
Vanderlei Elias Neri (UNICSUL – São Paulo/SP)
Vera Lúcia Vieira (PUC – São Paulo/SP)
Wanderson Fabio Melo (UFF – Rio das Ostras/RJ)

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Evilasio da Silva Salvador
Sandra Oliveira Teixeira
Silvia Cristina Yannoulas
Newton Narciso Gomes Junior
Organizadores

Estado, Política Social e Direitos

Embu das Artes - SP


2021

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© by Alexa Cultura

Direção
Gladys Corcione Amaro Langermans
Nathasha Amaro Langermans
Editor
Karel Langermans
Capa
K Langer
Revisão Técnica
Evilasio da Silva Salvador
Revisão de língua
Marisa de Lucca
Editoração Eletrônica
Alexa Cultural
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

E79 Estado, política social e direitos / Organizadores Evilasio da Silva Salva-


dor... [et al.]. – Embu das Artes, SP: Alexa Cultural, 2021.

242 p. : il. ; 14 x 21 cm

Inclui bibliografia
ISBN 978-65-89677-68-0

1. Política social. 2. Sociedade. 3. Direitos sociais. I. Salvador, Evilasio


da Silva. II. Teixeira, Sandra Oliveira. III. Yannoulas, Silvia Cristina. IV.
Gomes Junior, Newton Narciso.

CDD 361.61

Elaborado por Maurício Amormino Júnior

Índices para catálogo sistemático:


Política Social
Sociedade
Direitos Sociais

Todos os direitos reservados e amparados pela Lei 5.988/73 e Lei 9.610

Alexa Cultural Ltda


Rua Henrique Franchini, 256
Embú das Artes/SP - CEP: 06844-140
alexa@alexacultural.com.br
alexacultural@terra.com.br
www.alexacultural.com.br
www.alexaloja.com

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Apresentação
Este livro “Estado, Política Social e Direitos” é comemorati-
vo aos 30 anos do Programa de Pós-Graduação em Política Social
(PPGPS) completados em 2020 em plena situação de emergência
em saúde pública, decorrente da Covid-19 que impactou o Brasil e
o mundo.
O PPGPS está vinculado ao Departamento de Serviço Social
(SER) do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da Universidade de
Brasília (UnB). Em 2017, foi avaliado pela segunda vez consecutiva
com o conceito 6 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (CAPES), referente à avaliação quadrienal 2013-
2016.
O PPGPS foi criado em 1990, oferecendo, inicialmente, o cur-
so de Mestrado Acadêmico em Política Social. Em 2002, foi fundado
o curso de Doutorado em Política Social, resultado de um proces-
so de amadurecimento do Programa. Antes do início do PPGPS, o
Departamento de Serviço Social (SER) ofereceu durante cinco anos
consecutivos cursos de Pós-Graduação lato sensu em Política Social,
para ganhar experiência no campo da Pós-Graduação e produzir
uma base de conhecimento sobre as temáticas do Programa. Esta
longa tradição de ensino, pesquisa, produção de conhecimento e pu-
blicação sobre política social foi determinante para a criação do Mes-
trado e do Doutorado e, posteriormente, para a abertura de vagas de
estágios pós-doutorais a demandantes nacionais e estrangeiros.
Neste processo, o Programa formou 267 mestres/as e 88 dou-
tores/as1, que resultaram em muitas teses e dissertações com relevan-
tes contribuições ao desenvolvimento do conhecimento nas áreas de
Política Social e Serviço Social.
Ao final de 2017, o PPGPS passou por uma importante refor-
ma no seu Regimento Interno e na sua estrutura curricular. Na área
de concentração, o PPGPS manteve uma única área de concentração
e atualizou sua nomenclatura para “Estado, Política Social e Direi-
tos”. A designação anterior era “Estado, Política Social e Cidadania”.
A mudança de “cidadania” para “direitos” decorreu de importante e
aprofundado debate sobre o significado dos direitos e da cidadania
1 Dados até 31/12/2020.

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no capitalismo, e buscou ser mais coerente com a abordagem teóri-
co-metodológica que fundamenta o Projeto Pedagógico.
O Programa permanece com quatro linhas de pesquisa desde
sua criação em 1990, mas o novo regimento alterou suas nomen-
claturas e os conteúdos, de modo a atender as demandas por novos
projetos de pesquisa e propiciar maior articulação entre o debate das
políticas sociais e o Serviço Social: Política Social, Estado e Socie-
dade; Classes, Lutas Sociais e Direitos; Trabalho, Questão Social e
Emancipação; e Exploração e Opressão de Sexo/Gênero, Raça/Etnia
e Sexualidade.
A revisão do Regimento Interno em 2017 e a reestruturação
das linhas de pesquisa reforçam a perspectiva que nega as tendências
de mercantilização dos bens e serviços públicos e se coloca na linha
de frente de defesa das políticas sociais universais e de sua importân-
cia estratégica na materialização dos direitos sociais. Tal postura não
desconhece nem nega as contradições inerentes às políticas sociais
como fenômeno social inserido numa totalidade concreta, mas si-
tua-as como importante mediação na emancipação política no ca-
pitalismo, sem desconsiderar sua funcionalidade na reprodução do
capital e seus limites na superação das relações mercantilizadas. O
papel do Estado é concebido em sua expressão capitalista, sujeito às
relações de classe e cravado pela luta e mobilização social. É nesta
perspectiva que o trabalho é abordado como fundante da sociabili-
dade capitalista e da questão social e que os movimentos sociais são
debatidos como expressões organizativas da luta de classe. A pers-
pectiva teórico-crítica fundante e estruturante do PPGPS concebe as
mudanças estruturais e históricas como referência no estudo do Es-
tado e das políticas sociais, explicitando suas possibilidades e limites,
suas crises e suas orientações teórico-práticas.
Em contraponto à perspectiva ideológica liberal, que coloca
o Estado à deriva do mercado, o controle democrático pressupõe
o Estado como referência, partindo do suposto de que a qualidade
deste depende da capacidade política da sociedade de pressioná-lo
e controlá-lo. Assim, a mais adequada realização da política social,
especialmente de seu papel de direcionar parcelas de renda e poder
às classes sociais subalternas, depende da participação da sociedade
organizada para que o Estado, entendido como espaço contraditório
e de correlação de forças, incorpore demandas destas classes. Neste

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contexto, busca-se aprofundar a discussão sobre o papel do Estado e
sobre a formação e alocação do fundo público.
A relação entre as expressões da questão social, as transforma-
ções no mundo do trabalho, o papel do Estado e das lutas sociais na
conformação das políticas sociais estrutura a área de concentração
e as quatro linhas de pesquisa, e suas determinações são abordadas
nas disciplinas obrigatórias e optativas, cujo conteúdo e bibliografia
foram revistos e atualizados e compõem um conjunto articulado de
temas, garantindo articulação entre a área de concentração, as linhas
de pesquisa, os projetos de pesquisa e os conteúdos disciplinares.
Por essa perspectiva, o PPGPS concebe as mudanças estrutu-
rais e históricas como referências no estudo do Estado e das políticas
sociais, enfocando suas possibilidades e limites, suas crises e suas
orientações teórico-práticas. O estudo do Estado em sua contraditó-
ria relação com a sociedade é, portanto, pressuposto para a análise
da questão social como determinante das políticas sociais. Sabe-se,
porém, que estas políticas, sejam como componentes da Seguridade
Social, ao estilo brasileiro - saúde, previdência e assistência social -,
sejam como parte de um leque mais amplo de regulação social, que
inclui o trabalho, a educação, a habitação, o emprego e a renda, im-
plementaram-se por vias diferentes nos diversos países.
Entende-se que as políticas sociais, ao materializarem direitos
sociais e se concretizarem por meio de serviços, programas e proje-
tos, constituem campo privilegiado de intervenção de diversos pro-
fissionais da área social e de assistentes sociais em particular. Isto jus-
tifica e contribui para a diversificação de olhares e debates em torno
de um denominador comum.
O estudo da Política Social na perspectiva indicada constitui
não só o eixo do Mestrado e do Doutorado, mas também uma das
marcas de sua identidade. Acrescente-se ainda que, situando-se em
Brasília, o PPGPS vê-se instado a adotar uma visão de conjunto e
assumir postura crítica no acompanhamento e análise de projetos
e políticas sociais federais. Com isto, visa cultivar um estilo crítico
de investigação, em conformidade com os estatutos epistemológicos
que lhe servem de paradigma.
Sob este prisma, este livro está organizado em 12 capítulos que
refletem uma pequena parcela da produção do seu corpo docente,
discente e egressos do Programa, e conta com a contribuição de dois

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professores eméritos da UnB, que foram coordenadores do Progra-
ma, e de uma ex-coordenadora do PPGPS, que está atuando na Uni-
versidade Federal do Rio de Janeiro.
Assim, o primeiro capítulo, escrito pela docente fundadora e
ex-coordenadora deste Programa e professora emérita da UnB, Pot-
yara Pereira, faz um importante resgate e balanço crítico dos 30 anos
do PPGPS. Em seguida, a professora Ivanete Boschetti, ex-coorde-
nadora do Programa, discorre sobre a relação histórica entre Serviço
Social e Política Social destacando que tanto a possibilidade histórica
de realização da profissão, como das políticas sociais, estão relacio-
nadas ao movimento da totalidade concreta, ao desenvolvimento do
modo de produção capitalista e, de modo imbricado, se generalizam
na passagem do capitalismo de livre concorrência para o capitalismo
monopolista.
O professor emérito da UnB e ex-coordenador do PPGPS, Vi-
cente Faleiros, demonstra em seu texto que há níveis e perspectivas
diversas de abordagens metodológicas das políticas sociais na cons-
trução de uma epistemologia crítica, dialética e contextualizada.
As professoras Marileia Goin e Hayeska Barroso apresentam
uma discussão entre os fundamentos do Serviço Social e o diálogo
com a política social nos programas de Pós-Graduação da área. Já as
professoras Angela Neves e Thaís Imperatori e a doutoranda Melina
Barros apresentam um debate teórico-crítico sobre as concepções de
cultura política, no sentido de explicitar como o conceito serve de
chave analítica e pode subsidiar a reflexão das particularidades da
política social no Brasil, à luz da participação social.
O texto de Evilasio Salvador e Isabela Ribeiro discute como a
burguesia brasileira dependente pautou seus interesses ao longo do
período de crise, entre 2010 e 2018, e como tais demandas se con-
densaram no Estado, por meio do direcionamento do fundo público,
enquanto o capítulo escrito pela professora Maria Lúcia Lopes da
Silva e Thaís Caramuru mostra a conjugação entre as medidas ado-
tadas pelo governo Bolsonaro em relação ao aparelho do Estado e à
Previdência Social, ressaltando suas refrações na direção do favore-
cimento aos capitais e da precarização da cobertura previdenciária e
da oferta dos serviços públicos em geral.
O capítulo escrito por Fernanda Feitoza e pelo docente Re-
ginaldo Ghiraldelli apresenta reflexões sobre a proteção social para

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mães trabalhadoras, tendo como referencial o acesso e os limites
postos em relação à licença-maternidade. O capítulo escrito por Da-
nielle Galdino Solouki e pelo professor Cristiano Guedes traz uma
reflexão teórica sobre o tema da imigração de mulheres, com o obje-
tivo de mostrar como a questão do gênero tem sido incorporada nos
estudos migratórios contemporâneos, dentro do marco conceitual
da feminização das migrações.
O texto de autoria da professora Kênia Figueiredo e Paulla
Cronemberger discute as transversalidades da Comunicação Pública
compreendida como um direito humano. Destarte, a partir de pes-
quisa empírica com os egressos da medida socioeducativa de inter-
nação no Distrito Federal.
A docente Marlene Teixeira Rodrigues e os discentes Ivna Nu-
nes e Tibério Oliveira apresentam um estudo que examina as agen-
das e políticas relacionadas com os direitos das mulheres e da popu-
lação LGBTQIA+ no Brasil, a partir da ascensão de Jair Bolsonaro à
presidência da República.
Esta coletânea encerra com um relato do Grupo de Pesquisa
Trabalho, Educação e Discriminação – TEDis, escrito pela ex-coor-
denadora do Programa, Silvia Yannoulas, e pelas ex-alunas do PP-
GPS Carolina Santos, Natália Duarte e Anabelle Carrilho. O capítulo
percorre 15 anos de experiências de pesquisa, docência e extensão
que o TEDis teve a oportunidade de desenvolver no contexto do nos-
so PPGPS.

Desejamos a todos (as) uma boa leitura!

Brasília, setembro de 2021,


em plena seca do Cerrado Candango.

Evilasio da Silva Salvador


Sandra Oliveira Teixeira
Silvia Cristina Yannoulas
Newton Narciso Gomes Junior
(organizadores/as)

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Sumário
APRESENTAÇÃO
Evilasio da Silva Salvador, Sandra Oliveira Teixeira
Silvia Cristina Yannoulas e Newton Narciso Gomes Junior
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TRINTA ANOS, TRÊS DÉCADAS, SEIS LUSTROS DO PPGPS/


SER/ICH/UnB:
Uma iniciativa histórica de importância plural
Potyara Amazoneida P. Pereira
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POLÍTICA SOCIAL E SERVIÇO SOCIAL:


interação sim, mimetismo não!
Ivanete Boschetti
- 33 -

CONSIDERAÇÕES SOBRE A METODOLOGIA DE


ESTUDOS SOBRE POLÍTICA SOCIAL.
Vicente de Paula Faleiros
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FUNDAMENTOS DO SERVIÇO SOCIAL E POLÍTICA SOCIAL:


versos e anversos da pós-graduação no Brasil
Marileia Goin e Hayeska Costa Barroso
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CULTURA POLÍTICA:
uma chave analítica para reflexões sobre política social no Brasil
Angela Vieira Neves, Melina Sampaio de Ramos Barros e Thaís Kristosch Imperatori
- 85 -

FUNDO PÚBLICO E A CONSTRUÇÃO DA


HEGEMONIA NO BRASIL:
as demandas das frações burguesas para as políticas
econômicas e sociais
Isabela Ramos Ribeiro e Evilasio Salvador
- 101 -

- 13 -
A CONJUGAÇÃO ENTRE A CONTRARREFORMA
ADMINISTRATIVA E O DESMONTE DA
PREVIDÊNCIA SOCIAL NO BRASIL
Maria Lucia Lopes da Silva e Thais Soares Caramuru
- 119 -

A LICENÇA-MATERNIDADE COMO POLÍTICA DE


PROTEÇÃO SOCIAL PARA MÃES TRABALHADORAS
Fernanda Bezerra Martins Feitoza e Reginaldo Ghiraldelli
- 137 -

MIGRAÇÕES, MULHERES E DIREITOS SOCIAIS:


uma abordagem teórica interseccional sobre gênero, raça e classe
Danielle Galdino Solouki e Cristiano Guedes
- 155 -

VOZES DOS EGRESSOS DA MEDIDA SOCIOEDUCATIVA


DE INTERNAÇÃO NO DISTRITO FEDERAL:
os processos comunicativos na perspectiva da comunicação pública
Kênia Augusta Figueiredo e Paulla Kalliny Moura Cronemberger
- 173 -

A OFENSIVA NEOCONSERVADORA CONTRA MULHERES


E SEXUALIDADES DISSIDENTES NO BRASIL
Marlene Teixeira Rodrigues, Ivna de Oliveira Nunes e Tibério Lima Oliveira
- 191 -

POLÍTICA SOCIAL, TRABALHO, EDUCAÇÃO


E DISCRIMINAÇÃO
15 anos de contribuições ao PPGPS/UnB do Grupo TEDis
Silvia Cristina Yannoulas, Carolina Cassia Batista Santos, Natália de Souza Duarte
e Anabelle Carrilho
- 207 -

SOBRE OS (AS) AUTORES (AS)


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Trinta anos, três décadas, seis lustros1 do
PPGPS/SER/ICH/UnB:
uma iniciativa histórica de importância plural
Potyara Amazoneida P. Pereira

Introdução
Por ocasião das homenagens aos trinta anos do Programa de
Pós-Graduação em Política Social (PPGPS) do Departamento de
Serviço Social (SER) do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da
Universidade de Brasília (UnB), completados em 2020, é justo fa-
zer um balanço da importância plural desse evento. Mais ainda, é
um dever reconstituir não apenas o transcurso ininterrupto de três
décadas, ou seis lustros, desse empreendimento acadêmico, coeren-
te com sua proposta fundadora, mas explicar o seu simbolismo em
matéria de pioneirismo, resistência e consolidação progressiva.
O significado específico dessas qualificações simbólicas extra-
pola os feitos dos/as agentes da iniciativa em si. Tem a ver, subs-
tancialmente, com a peculiaridade do lugar, do tempo, das circuns-
tâncias e do contexto sócio-histórico, político e cultural em que o
PPGPS/SER/ICH/UnB emergiu e se desenvolveu: na Universidade
de Brasília. Vale dizer, em uma Universidade na qual quase tudo nas-
ceu contagiado por um anseio de rompimento com padrões conser-
vadores e autocráticos e que, mesmo sob o jugo de uma traumática
intervenção civil-militar interna e externa, entre 1968 e 19852, nunca
esmoreceu por completo. Ainda hoje, conforme a saudosa professo-
ra Geralda Dias Aparecida (1992), o papel inicial dessa Universida-
1 Termos usados pelo professor Antonio Ibañez Ruiz, reitor da Universidade de Brasília
(UnB), gestão 1989-1993, ao se referir, em Editorial da Revista Humanidades, aos 30
anos da UnB (1992).
2 Em 1976, o oficial da Marinha de Guerra do Brasil, o capitão de mar e guerra José
Carlos de Almeida Azevedo, doutor em Física pela Massachusetts Institute of Technology
(MIT), assumiu, compulsoriamente, a reitoria da UnB. Entretanto, desde 1967, Azevedo
(como passou a ser chamado) já atuava nessa Universidade, quer como assessor do então
reitor Laerte Ramos, na reestruturação do Instituto de Física, quer como vice-reitor, entre
1968-1976, na condição de “representante máximo do regime civil-militar” vigente no
país entre 1964 e 1985, na então “insubordinada” UnB. A gestão de Azevedo na reitoria
compreendeu o período entre 1976 e 1985, ao final do qual a comunidade universitária
conseguiu eleger, pela primeira vez, o seu reitor (APARECIDA, 1992, p. 441).

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de, de portadora de novas mensagens, “continua como referencial
quando se trata de procurar sua identificação no quadro universitá-
rio brasileiro” (p. 435).
Com animus vanguardista, o PPGPS/SER/UnB foi pensado e
proposto no início de 1980, por um Curso (Serviço Social) de apenas
dez anos de funcionamento e, ainda, não elevado ao status de De-
partamento (unidade acadêmica básica do organograma institucio-
nal); um Curso que, por estar localizado na Capital da República e,
portanto, no centro das decisões nacionais, pretendia inaugurar uma
experiência pós-graduada interdisciplinar, capacitadora de quadros
- próprios e afins - para atuar, tanto teórica quanto estrategicamente,
no processo de investigação, análise e avaliação de políticas sociais
públicas.
Essa pretensão se impôs porque, até então, na UnB - principal
Universidade do Distrito Federal e da região Centro-Oeste, plantada
a poucos quilômetros das sedes dos poderes supremos da Repúbli-
ca - nenhuma área de conhecimento tinha abraçado essa proposta.
E mais, com exceção do Curso de Serviço Social, nenhuma outra
área de conhecimento possuía em seu curriculum de graduação a
disciplina Política Social. Uma disciplina, diga-se de passagem, que
a muitos afigurava-se uma incógnita, dada à sua novidade semântica
e, principalmente, sua inusitada elevação ao status de matéria aca-
dêmica e objeto de interesse científico. Quando muito, a sua desig-
nação como política, embora acompanhada do qualificativo social,
a remetia, automaticamente, à área da Ciência Política, como se ela
fosse um assunto adjunto aos estudos políticos tradicionalmente rea-
lizados por esse ramo de saber.
Efetivamente, no início dos anos 1980, o vocábulo “política
social” era pouco conhecido e difundido nos meios acadêmicos. Até
mesmo nos países europeus, berços do Estado Social (ou Estado
de Bem-Estar, Benfeitor, Providência) do segundo pós-guerra, nos
quais as Universidades já haviam encampado essa nomenclatura em
substituição à chamada administração social (social administration),
esse parco conhecimento dominava. No entanto, essa substituição
ancorou-se, segundo Alcock (1992), nas particularidades concre-
tas da política social (social policy) em relação às particularidades
da administração social que, como o próprio nome indica, estava
mais voltada para o planejamento, a gestão e a execução de ações

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sociais. A política social, ao contrário, informa Alcock, passou a ser
um componente das Ciências Sociais, dotado de conteúdo próprio e
natureza interdisciplinar. Por isso, correntemente, não existe política
social da Sociologia, da Economia, da Ciência Política, do Serviço
Social etc. Não à toa, internacionalmente, a política social é grafa-
da como policy (referente tanto ao processo de desenvolvimento e
implementação de medidas de proteção social pública, quanto ao
estudo acadêmico dessas medidas em contexto social mais amplo) e
não politics (referente aos aspectos processuais da política em geral,
como conflitos de interesses, negociação, decisões e compromissos
em torno de objetivos consensuados).
Como disciplina acadêmica per se a política social possui pa-
péis que ultrapassam a função técnica e operacional de administrar
projetos, programas, serviços e benefícios, referenciada em conheci-
mentos alheios. Sem desconsiderar saberes afins, com os quais dia-
loga, a sua principal tarefa é a de realizar estudos contextualizados
das problemáticas sociais que requerem a sua atuação e avaliar a sua
própria ação em movimento. Ademais, a política social como disci-
plina acadêmica preocupa-se muito mais com a definição do tipo de
bem-estar a ser realizado do que com o como esse bem-estar deve ser
administrado. E, correlativamente, ela está mais empenhada em de-
finir necessidades sociais e discutir a pertinência de satisfazê-las do
que em medir essas necessidades para determinar e gerir o seu provi-
sionamento. Este é um lado da concepção de política social que está
na base do processo de criação e manutenção do Programa (acadê-
mico) de Pós-Graduação em Política Social do SER/ICH/UnB, que
completa trinta anos.
O outro lado da mesma concepção diz respeito ao paradigma
ou fundamentos lógicos, epistemológicos e éticos não convencionais
que, desde fins dos anos 1970, vêm respaldando os estudos da polí-
tica social; e cujo método de conhecimento científico de suas orgâ-
nicas e contraditórias relações no capitalismo envereda pelo terreno
da economia política crítica. Ou seja, adentra pelo lócus, no qual não
só as mistificações ideológicas sobre a política social serão, necessa-
riamente, superadas, mas também as vinculações automáticas dessa
política a categorias econômicas e políticas burguesas. Foi com esse
diferencial analítico-crítico que a proposta de criação do PPGPS/
SER/ICH/UnB se apresentou para ser credenciado formalmente na

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contracorrente de uma conjuntura política nacional que, por algum
tempo, a rechaçou.
Com efeito, no Brasil do início de 1980, seja nos meios acadê-
micos, seja no âmbito dos órgãos públicos de fomento à pesquisa e
de credenciamento e avaliação de Cursos e Programas de Pós-Gra-
duação lato e stricto sensu, prevalecia a divisão disciplinar das áreas
de conhecimento. Mas não só isso. Prevalecia, também, a compreen-
são da política pública referenciada em literaturas que limitavam o
seu escopo analítico e legitimavam a sua funcionalidade à raciona-
lidade burguesa. Dentre essas referências, destacam-se as produzi-
das pelo norte-americano/canadense, David Easton, da Escola de
Chicago. Para Easton, a política pública, incluída a política social,
era uma alocação autoritária de valores do Estado para a sociedade,
conferindo-se ao termo autoritário o entendimento weberiano, se-
gundo o qual os membros das sociedades aceitam como legítimo o
monopólico poder estatal. Não admira que, por essa perspectiva, a
política pública fosse considerada uma política “do Estado” e, como
tal, restrita aos quadrantes institucionais tecnocráticos habitados por
planejadores e executores treinados para esse fim.
Com base nessa perspectiva, a proposta alternativa, ou di-
ferente, do PPGPS/SER/ICH/UnB não foi imediatamente aceita e
formalizada pelos canais institucionais competentes. Em primeira
instância, entendeu-se que seria prudente testá-la. Em seus estágios
preliminares de confabulações com instâncias superiores internas,
foi recomendado ao Curso de Serviço Social propositor - que ain-
da era visto como uma espécie de enclave no antigo Departamento
de Ciências Sociais (CIS) do Instituto de Ciências Humanas - um
período de preparação e acúmulo de experiência pós-graduada na
modalidade lato sensu. Eis porque a referida proposta começou com
ofertas contínuas, anuais, de Cursos de Especialização que alcança-
ram o número de sete e lhe serviram, de fato, não só de teste de facti-
bilidade, mas de capacidade do grupo proponente para ofertá-la em
nível de Mestrado.

O teste da proposta de Mestrado acadêmico do SER/UnB no


patamar lato sensu - Especialização
Em agosto de 1981, o então Curso de Serviço Social, do en-
tão Departamento de Ciências Sociais (CIS), do Instituto de Ciên-

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cias Humanas (então IH), da Universidade de Brasília, divulgava
o seu Projeto do Curso de Especialização em Política Social (UnB/
CIS/CURSO DE SERVIÇO SOCIAL, 1981) a ter início em 1983.
Construído, coletivamente, por professores de Serviço Social e apro-
vado por unanimidade pelo colegiado do CIS, o Projeto teve, em
sua formulação, a colaboração direta de um professor do Curso de
Sociologia (Pedro Demo) e participação ad hoc de outros docentes:
da Sociologia (Élbio Gonzales), da Antropologia (Mireya Suarez) e
da Faculdade de Educação (Anésio Mendonça). De oferta gratuita
e sem contar com financiamento público, o Projeto destacava, em
sua Apresentação, que teria, preponderantemente, na composição de
seu corpo de professores e orientadores, docentes da UnB, deixando
implícito que este seria um trabalho a mais para os envolvidos, que
deveriam possuir, como manda a norma, titulação mínima de mes-
tre.
E, assim, o Projeto se materializou e vigorou por sete anos
consecutivos onerando, especialmente, professores/as de Serviço
Social1, cujo contingente, constituído de nove integrantes (dois em
tempo parcial), tinha de arcar com todas as demais tarefas - aulas de
graduação, supervisão de estágio, pesquisa, participação em colegia-
dos, encargos administrativos - de uma subunidade acadêmica em
fase de consolidação2.
Na mesma apresentação, o Projeto esclarecia que essa Es-
pecialização, prevista para ser ofertada por dois anos, constituía a
primeira etapa do Programa de Pós-Graduação em Política Social,
do Curso de Serviço Social, a ser criado na sequência das ofertas lato
1 Em ordem alfabética: Aldayr Brasil Barthy; Laisy Roriz; Leda del Caro Paiva; Lenita
Nicoletti; Maria Cilene M. dos Santos; Maria de Jesus Pires Salgado; Maria Sylvia Cyri-
no Peralva; Potyara Amazoneida P. Pereira; Safira Bezerra Amam. Posteriormente, esse
contingente foi acrescido de mais quatro professores: Vicente de Paula Faleiros, Eva Te-
rezinha Faleiros, Daisy Kinzo e Lutero Oliveira Rosa.
2 A criação do Curso de Serviço Social na UnB, em 1971, decorreu de um processo de
negociação de transferência de 113 alunos da extinta Faculdade (particular) de Serviço
Social (FSS), existente em Brasília desde 1962, com a reitoria da Universidade de Brasí-
lia, então sob intervenção do regime civil-militar. Essa transferência, ao ser acordada,
exigiu adaptação dos alunos a uma nova realidade acadêmica, ao mesmo tempo em que
requereu, da UnB, providências no sentido de garantir a continuidade e término de curso
desses alunos em conformidade com as normas que regiam o ensino superior do Serviço
Social. Em vista disso, na UnB, o Curso de Serviço Social “teve de construir o seu espaço
com determinação e firmeza, pois, de início, não era bem-visto pelo próprio Departa-
mento que o acolheu por imposição do vice-reitor [o capitão de mar e guerra José Carlos
de Almeida Azevedo]” (PEREIRA-PEREIRA, 2009, p.19).

- 19 -
sensu. E que esse período de vinte quatro meses se fazia necessário à
aquisição de traquejo, pela instância acadêmica proponente, no trato
do ensino pós-graduado, e à formação de uma produção a ser am-
pliada e aprofundada no futuro Mestrado.
A Especialização consistiu, portanto, de Cursos que atendiam
quinze alunos por ano, integralizando 26 créditos (correspondentes
a 390 horas), obtidos em dois semestres letivos consecutivos, perío-
do que, em circunstâncias especiais e a critério da Congregação de
Carreira do Instituto de Ciências Humanas, seria estendido até feve-
reiro do ano seguinte.
De orientação interdisciplinar, os referidos Cursos evitariam
tratamentos disciplinares unilaterais da política social e procurariam
atender reclamos expressos, pelo corpo discente, de reflexão crítica
sobre essa política resultante da relação entre Estado e sociedade,
em contextos antagônicos de classes, e entendida como espaço de
participação popular.
Dentre as justificativas para a sua oferta enfatizava-se o fato
de o profissional de Serviço Social ser tradicionalmente demandado
pelo mercado de trabalho para atuar no campo da política social que,
sobretudo a partir de 1974, com a implantação do Segundo Plano
Nacional de Desenvolvimento (II PND)3, exigia pessoal qualificado
e com visão de conjunto: isto é, conhecedor da totalidade comple-
xa dessa política dada à diversidade e multiplicidade de demandas
e necessidades sociais que a reivindicavam. Além disso, havia outro
fato que colocava na berlinda o compromisso social da Universida-
de de Brasília. Por ser, àquela época, o Curso de Serviço Social da
UnB o único do Distrito Federal, a sua restrição por dez anos ao piso
da graduação, mostrava-se contraproducente porque, na Capital da
República, as oportunidades de trabalho no âmbito dessa política já
exigiam, pelo menos, a Especialização. Exemplo disso eram os car-
gos de chefia que passaram a ser ocupados por assistentes sociais
oriundos de outras Unidades da Federação, especialmente de Minas
Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, quando no Distrito Federal já
existia um número significativo de assistentes sociais formados na
UnB e em processo de formação. Em 1981, cerca de 200 alunos, cor-
3 “Uma das características mais marcantes do II PND [do governo Geisel] foi a sua
[explícita] preocupação com a pobreza de massa ou com os ‘focos de pobreza absoluta
existentes’, cuja redução substancial se colocava como meta prioritária” (PEREIRA-PE-
REIRA, 1987).

- 20 -
respondendo a 50% do alunado do CIS, como um todo, pertenciam
ao Curso de Serviço Social.
O objetivo geral do Projeto dos Cursos de Especialização era
o de formar especialistas capazes de conhecer a complexidade con-
traditória da política social brasileira e de definir ações (policies)
mediante análise das atenções sociais do Estado. Para tanto, quatro
metas foram eleitas: i) analisar os determinantes socioeconômicos
e políticos da política social brasileira; ii) analisar o significado e o
alcance dos programas setoriais de política social vigentes; iii) sub-
sidiar (teórica e empiricamente) processos de elaboração e análise
de programas e de acompanhamento de projetos em andamento; iv)
propiciar o intercâmbio de experiências e enfoques interdisciplina-
res na análise da política social.
Por fim, os Cursos de Especialização elegiam uma metodo-
logia de ensino-aprendizagem que englobava estudos gerais e espe-
cíficos obrigatórios, distribuídos em três Núcleos, sequencialmente
inter-relacionados:
Núcleo Introdutório e Instrumental, composto das disciplinas:
Metodologia da Pesquisa Social (4 créditos) e Sociologia e Política
do Desenvolvimento (4 créditos). Este Núcleo privilegiava o espí-
rito crítico sobre o manejo de técnicas. Nele, seriam oferecidos ele-
mentos capazes de conduzir o/a discente à reflexão sobre o contexto
socioeconômico e político global da política social e à utilização e
produção de instrumentais apropriados;
Núcleo de Política Social, composto das disciplinas: Política
Social (6 créditos) e Movimentos populares (4 créditos). Este Núcleo
procurava inter-relacionar o estudo teórico e histórico da política
social demandada pela sociedade com a realização das políticas se-
toriais, sem descurar da indissociabilidade da teoria com a prática;
Núcleo de Síntese, composto de duas atividades: Seminários de
Integração (2 créditos) e Monografia (6 créditos). Nessa etapa, os/
as discentes participariam de reuniões com os/as professores/as para
discutir e avaliar políticas setoriais de seu interesse, à luz do con-
teúdo teórico adquirido. E, ao final do Curso, apresentariam indi-
vidualmente um trabalho monográfico ou relatório de pesquisa sob
acompanhamento de um/a orientador/a.
Esse foi o embrião da Proposta do Mestrado apresentada, sete
anos depois, aos mesmos canais institucionais internos, ao final da

- 21 -
experiência exitosa4 dos Cursos de Especialização, devido aos se-
guintes motivos: persistência de demanda interdisciplinar efetiva
pela pós-graduação stricto sensu e entraves de natureza e proveniên-
cia diversas à criação do Mestrado acadêmico de Política Social pelo
Curso de Serviço Social da UnB.
Com isso, observa-se que enquanto o Curso de Serviço Social
da Universidade de Brasília se restringia aos Cursos de Especializa-
ção, que se caracterizam por oferta opcional, sem regularidade no
tempo e sem vínculo permanente com um tema específico, os entra-
ves inexistiram. Mas, a partir do momento em que a área acadêmi-
ca disciplinar do Serviço Social pretendeu galgar posições pós-gra-
duadas permanentes de caráter stricto sensu, a partir do Mestrado, a
pertinência da relação entre Serviço Social e Política Social foi posta
em xeque, revelando incompreensões, endogenias, corporativismos
acadêmicos e estereótipos.

A proposta de criação do Mestrado em Política Social sob


novas injunções: mais uma prova de resistência
Como já informado, a oferta dos Cursos de Especialização
pelo antigo Curso de Serviço Social da UnB ultrapassou os dois anos
previstos na sua proposta original. A duração desses Cursos, por
sete anos, deveu-se, particularmente, a dificuldades internas à UnB,
envolvendo o Ministério da Educação. Dificuldades internas porque,
inicialmente, no interior do Curso de Serviço Social do extinto CIS
do IH/UnB estabeleceu-se um impasse em torno da denominação
do Mestrado proposto. Para algumas docentes, ele deveria ser
denominado Mestrado de Serviço Social, não obstante toda a sua pré-
via preparação em torno da temática da política social. Os motivos
dessa reviravolta não eram apenas de ordem semântica. Eles desnu-
4 Êxito confirmado, principalmente, pelos seguintes indicadores: 1) Contínua e efeti-
va demanda discente interdisciplinar - encabeçada por assistentes sociais - procedente,
majoritariamente, de Instituições públicas federais e distritais (do governo do Distrito
Federal-GDF), dentre as quais: órgãos federais de pesquisa de escopo nacional; Ministé-
rios da área social; Universidade de Brasília (servidores de nível superior); Secretarias e
Fundações do GDF, além de órgãos públicos estaduais das regiões centro-oeste, sudeste e
nordeste e de Universidades públicas e privadas. 2) Produção de monografias equipara-
das, por examinadores, a dissertações de mestrado, seja pela espessura do texto, seja pela
densidade analítica. 3) Inserção de muitos/as egressos/as na carreira acadêmica superior
e, consequentemente, no prosseguimento dos estudos em níveis de mestrado e de douto-
rado no Brasil e no Exterior. Vários destes/destas egressos/as tornaram-se professores/as
do Departamento de Serviço Social da UnB, alcançando elevadas titularidades acadêmi-
cas e/ou assumindo, na UnB, postos de chefias superiores.

- 22 -
davam, no seio de uma Universidade que se propunha moderna, o
domínio da antiga lógica que preconiza o retalhamento de saberes
comuns em territórios disciplinares cativos, em defesa de uma pre-
tensa especificidade setorial.
No caso em apreço, a política social parecia ser rejeitada por
ser algo estranho em um ninho em que ela sempre teve acolhida e
subsidiou; e em uma Universidade na qual só o Curso de Serviço
Social tinha, sobre ela, informações e experiências - profissionais e
acadêmicas – acumuladas e elaboradas. Ademais, seria incoerente
designar a proposta de Mestrado como sendo de Serviço Social por-
que a sua estrutura e organização, desdobrada do embrião experi-
mental dos Cursos de Especialização, centravam-se na política social
como campo privilegiado de estudo e ação do Serviço Social.
Devido a essa primeira dificuldade, a tramitação da propos-
ta do Mestrado em Política Social na UnB estancou por alguns anos.
Para compensar sua falta, os Cursos de Especialização continua-
ram sendo oferecidos. Porém, com a admissão e o reforço de novos
professores no Curso de Serviço Social, a referida proposta entrou,
novamente, em pauta e foi aprovada. Contudo, em sua tramitação
pelas instâncias superiores, compostas de representantes de diferen-
tes áreas de conhecimento, uma nova dificuldade - também movida
por disputas entre áreas disciplinares - se impôs. Dessa vez, o termo
“política” que intitulava o Mestrado proposto e nomeava várias disci-
plinas optativas como: Política de Saúde e Seguridade Social; Política
de Assistência e Seguridade Social; Política de Previdência e Segu-
ridade Social; Política Social-Habitação; Política Social-Educação;
Política Social-Trabalho; Política Social e Questão Agrária; Políti-
ca Social-Criança e Adolescente, causaram estranheza por darem a
impressão de apropriação indevida pelo Curso de Serviço Social de
temáticas da Ciência Política. Essa insólita discussão emperrou, por
mais um tempo, o andamento da proposta de criação do Mestrado
em Política Social, apesar das explicações inglórias oferecidas pelo
Curso de Serviço Social sobre o significado particular de todas essas
políticas também chamadas setoriais. Essa questão só se resolveu e
se tornou relativamente pacífica quando, em defesa da idoneidade
do SER quanto ao uso do termo política e da pertinência do título do
referido Mestrado, foi dito que o termo - “política social” - significa-
va o que na língua inglesa é entendido como policy e não politics.

- 23 -
Aprovado na UnB, o Mestrado em Política Social começou
a funcionar em 1990, ao mesmo tempo em que era ativado o proces-
so de seu credenciamento junto à Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Ministério da Educação
(MEC). Todavia, nesse âmbito, o processo enfrentou novos obstá-
culos. A proposta do Mestrado em Política Social encaminhada ao
MEC pela UnB foi direcionada ao Comitê Assessor de Ciência Po-
lítica da CAPES, no qual o parecer dos avaliadores não poderia ter
sido mais representativo da cultura disciplinar estereotipada. Os pa-
receristas, categoricamente, não recomendaram o credenciamento
do Mestrado sob o equivocado argumento de que ele contemplava,
indevidamente, uma temática da Ciência Política para cujo trata-
mento eles não reconheciam capacidade acadêmica da área do Ser-
viço Social.
Diante dessa avaliação, passível de recurso, o já Departa-
mento5 de Serviço Social da UnB não apenas defendeu a legitimi-
dade de sua Proposta, acompanhada das incansáveis explicações já
prestadas a outras instâncias, mas também solicitou à CAPES uma
avaliação abalizada do seu conteúdo. Em vista disso, sugeriu a troca
de Comitê Assessor visto que, certamente por engano, o de Ciência
Política teria sido escolhido. E, concomitantemente, recomendou o
Comitê Assessor que contemplava representantes da Área de Serviço
Social, no que foi atendido. Com isso, esperava-se que, pelo menos
no tocante à competência e capacidade acadêmica de um Curso de
Serviço Social oferecer um Mestrado em Política Social, não geras-
sem incompreensões e estereótipos. Mas não foi bem assim.
Novamente, a velha e arraigada questão da relação de mú-
tua implicação entre Serviço Social e Política Social foi questiona-
da. Para os pareceristas assistentes sociais soava estranho o Curso
de Serviço Social da UnB destoar da tendência geral então em voga:
os poucos Cursos de Pós-Graduação stricto sensu, da área de Ser-
viço Social, existentes naquela época intitulavam-se Serviço Social,
5 Com o desmembramento do antigo Departamento de Ciências Sociais (CIS), devido
à transformação em Departamentos dos Cursos de Ciência Política e, em seguida, do de
Sociologia, o destino dos Cursos restantes - Antropologia e Serviço Social - seria o mes-
mo. Em 8 de fevereiro de 1983, o Curso de Serviço Social enviou ofício à Reitoria pro-
pondo a sua transformação em Departamento (O.I. CIS 10/83), com uma reivindicação:
continuar vinculado ao Instituto de Ciências Humanas (IH). Porém, essa transformação
não foi imediata. Por uns anos o CIS funcionou somente com os dois Cursos (Antro-
pologia e Serviço Social). Só em meados dos anos 1980 ambos se transformaram em
Departamento vinculados ao IH, hoje ICH, com espaços físicos próprios e individuais.

- 24 -
enquanto o da UnB fugia à regra. E fugia, segundo a contra-argu-
mentação dos/as proponentes do Mestrado em Política Social, pelas
seguintes razões: a política social era e continuava sendo disciplina
obrigatória dos Cursos de Graduação do Serviço Social; a política
social constituía campo interdisciplinar, por excelência, de estudo e
atuação da profissão Serviço Social, com a qual mantinha estreitas
afinidades teóricas, metodológicas e práticas; era por meio da po-
lítica social que a interlocução do Serviço Social com as Ciências
Sociais se fazia naturalmente, sem que o Serviço Social abdicasse de
seu saber próprio; era dever das Instituições de Ensino de Serviço
Social formar profissionais que conhecessem a fundo o seu principal
campo de atuação/interlocução interdisciplinar e colaborassem com
o seu aprimoramento
Esse último obstáculo, que ameaçava tornar sem efeito formal
o Mestrado em Política Social já em funcionamento, impedindo por
consequência os mestrandos de obterem ao final do Curso o diploma
de mestres em Política Social pela UnB, só foi resolvido cerca de um
ano mais tarde, após uma visita técnica, à UnB, de representantes
da área de Serviço Social da CAPES/MEC para uma reunião com o
corpo docente do Mestrado em funcionamento. Só então, e quando
outras Universidades já começavam encaminhar ao MEC propostas
de Mestrado intituladas Serviço Social e Política Social, ou Política
Social apenas6, o Mestrado de Política Social da UnB foi credenciado
pela CAPES/MEC.

Enfim, o credenciamento do Mestrado em Política Social


da UnB: um passo rumo ao doutorado e à composição do
Programa de Pós-Graduação em Política Social do SER/
ICH/UnB
O Mestrado em Política Social, que funcionou como a primei-
ra etapa da construção do Programa de Pós-Graduação stricto sensu
do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília, ulti-
mado em 2002, com a criação do Doutorado, beneficiou-se, sem dú-
vida, da experiência pós-graduada lato sensu propiciada pelos Cur-
sos de Especialização. Todavia, essa experiência não precisava ser tão
6 Mais tarde, foram credenciados pelo Comitê Assessor da CAPES, no qual a área de
Serviço Social tinha assento, Programas de Pós-Graduação em Políticas Públicas, conce-
bidos e oferecidos por unidades acadêmicas de Serviço Social de outras Universidades
brasileiras.

- 25 -
longa e tensionada. Talvez por isso, nesse ínterim, cônscio da legiti-
midade do seu propósito de se ampliar, com a contribuição da políti-
ca social, e de difundir essa política social dentro de uma perspectiva
crítica, o Colegiado do Curso de Serviço Social investiu em outras
frentes, abrindo flancos e frutíferos intercâmbios. Apresentou, na
UnB, projeto de criação de um Núcleo Temático em Política Social
a ser vinculado ao então recém-criado Centro de Estudos Avança-
dos Multidisciplinares da UnB (CEAM/UnB), que também primava
pelo ineditismo no meio acadêmico: seus Núcleos constitutivos, hoje
em número de trinta e dois, não seriam organizados em torno de
áreas disciplinares de conhecimento, mas de temas-objeto de aten-
ção inter, multi e transdisciplinar; não estariam vinculados a uni-
dades acadêmicas particularizadas, como Departamentos, Institutos
ou Faculdades, mas à Reitoria, e poderiam afiliar como membros,
participantes externos de diferentes formações, mas interessados no
tema comum de cada Núcleo. O Núcleo proposto pelo Departamen-
to de Serviço Social, denominou-se Núcleo de Estudos e Pesquisas em
Política Social7 (NEPPOS/CEAM), o qual, apesar de não ter ficado
vinculado a esse Departamento, manteve com ele, até hoje, parcerias
produtivas e relações intelectuais e políticas de mútua contribuição.
Até a sua união com o Doutorado, o Mestrado em Política
Social da UnB possuía, como área de concentração, a relação com-
plexa e dialeticamente contraditória entre Estado, Política Social e
Cidadania na sociabilidade capitalista, relação que pressupõe o in-
dispensável controle democrático sobre o Estado, o mercado e às
funcionalidades, disputáveis entre o trabalho e o capital, da política
social. Pautou-se pelos mesmos princípios e critérios éticos, políticos
e críticos seguidos pela unidade acadêmica que o criou e o mantém:
o Departamento de Serviço Social (SER). E, ao contrário da visão
dominante que visceralmente associa a política social ao Estado, esse
Mestrado acentua a participação da sociedade na formulação, desen-
volvimento e controle dessa política. Por essa ótica, as configurações
mais ou menos democráticas e redistributivas de bens materiais e
poder, no âmbito da sociedade, dependem, decisivamente, da pres-
são popular por direitos (individuais, sociais e difusos), cuja garantia
e financiamento é dever do Estado, assim como dependem do co-
7 Incumbiram-se dessa tarefa as professoras Potyara Amazoneida P. Pereira, Leda Del
Caro Paiva e Tânia Montoro, ex-aluna da Especialização, transferida, posteriormente,
para a Faculdade de Comunicação da UnB.

- 26 -
nhecimento, problematização e controle das determinações econô-
micas presentes nessas configurações. Daí a importância do aporte
científico da economia política crítica para a compreensão do movi-
mento contraditório da política social.
Desde seu início, as quatro grandes linhas de pesquisa do
Mestrado, em torno das quais se desenvolveram projetos dos/as pro-
fessores/as e dissertações dos/as alunos/as, agruparam os seguintes
temas: a) Política social: Estado e Sociedade; b) Movimentos Sociais
e Cidadania; c) Questão Social, Instituições e Serviços Sociais; d)
Trabalho e Relações Sociais. Nos dez anos de seu funcionamento
único (1991-2002), foram defendidas 55 dissertações que, soma-
das às monografias dos/as alunos/as dos Cursos de Especialização,
compuseram um acervo bibliográfico relevante e de fácil acesso nos
âmbitos local e regional.
Munido de mais esse acúmulo de experiência bem-sucedi-
da, o Departamento de Serviço Social apresentou às instâncias com-
petentes da UnB, proposta de criação do Doutorado em Política So-
cial (PROPOSTA DE TRANSFORMAÇÃO, 2001) que, de par com
o Mestrado, comporiam o Programa de Pós-Graduação em Política
Social (Mestrado e Doutorado), recomendado em 14/12/2001 e ini-
ciado em 01/01/2002, como a culminância de um projeto coletivo
que inovou, resistiu e, progressivamente, se consolidou.
Ao compor um Programa, o Mestrado sofreu alterações
adaptadoras e atualizadoras. Sua área de concentração Estado, polí-
tica social e cidadania, passou a denominar-se, em consonância com
o Doutorado, Estado, política social e direitos, para manter coerência
com a linguagem e o enfoque teórico do Projeto Pedagógico de am-
bos os Cursos (PLATAFORMA SUCUPIRA, 2020). E, em 2017, com
a criação de um novo Regimento Interno do Programa, tanto a estru-
tura curricular como o Projeto Pedagógico tiveram que se adequar
às exigências institucionais contidas na Resolução do Conselho de
Ensino e Pesquisa (CEPE) da UnB, de nº 80/2017. Essas exigências
previam novos procedimentos que contribuíssem para a excelência
acadêmica e a internacionalização dos Programas de Pós-Graduação
da Universidade de Brasília com maior flexibilidade.
As linhas de pesquisa do PPGPS/SER/ICH/UnB permanece-
ram em número de quatro, mas com arranjos e designações em parte
alterados. Em consonância com o novo Regimento, nomenclaturas

- 27 -
e conteúdo (descritores) sofreram alterações para incluir demandas
de novos projetos de pesquisa e manter maior articulação entre o
debate das políticas sociais e do Serviço Social, a saber: a) Política
Social, Estado e Sociedade; b) Classes, Lutas Sociais e Direitos (em
substituição a Movimentos Sociais e Cidadania); c) Trabalho, Ques-
tão Social e Emancipação (agrupando conteúdos de duas linhas an-
teriores: Questão Social, Instituições e Serviços Sociais e Trabalho e
Relações Sociais); d) Exploração e Opressão de Sexo/Gênero, Raça/
Etnia e Sexualidade.
Além disso, o Programa ampliou o número dos seus Grupos
de Estudo que, na vigência única do Mestrado, eram apenas 2 (dois).
Atualmente, 14 (quatorze) Grupos de Estudos estão credenciados
e certificados, respectivamente, no Decanato de Pós-Graduação da
UnB e no Diretório dos Grupos de Pesquisa (DGP) do Conselho
Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq), compondo,
nessa Instituição de fomento à pesquisa, o Inventário Nacional de
Grupos de Pesquisa Científica e Tecnológica em atividade no Bra-
sil. E, desde 1995, o Programa de Pós-Graduação em Política Social
da UnB possui e edita uma Revista8– SER Social – de periodicidade
semestral, classificada, correntemente, como A29. Esta Revista desti-
na-se à publicação de trabalhos científicos nacionais e internacionais
sobre assuntos de Política Social, Serviço Social e suas relações inter-
disciplinares e com áreas afins.
Em 2017, o PPGPS/SER/ICH/UnB recebeu, pela segunda vez,
o conceito 6 (seis), da CAPES, referente ao quadriênio de 2013-2017,
conceito este que, situado em uma escala de zero a sete, indica eleva-
do padrão de desenvolvimento acadêmico, inclusive internacional.
Para estar e manter-se à altura desse padrão de excelência, o Progra-
ma realizou investimentos para a sua internacionalização. O ano de
2019 foi marcante nesse sentido. Elaborou-se, dentre outras provi-
dências, um Plano de Trabalho voltado para a intensificação do in-
tercâmbio internacional, que previa visitas e articulação já postas em
prática entre 11 (onze) docentes do corpo permanente do PPGPS, e
seus respectivos Grupos de Estudos, com 11 (onze) professores/as
8 Este periódico semestral sofreu interrupção por dois anos - 1996 e 1997 – mas ressur-
giu em 1998, mantendo-se ininterrupto até hoje.
9 Esta classificação contempla periódicos considerados de excelência internacional no
Sistema Qualis Capes que classifica a produção científica dos Programas de Pós-Gradua-
ção brasileiros.

- 28 -
estrangeiros/as. Para tanto, o Programa foi contemplado com recur-
sos do CAPES Print10 da UnB.

Concluindo e expressando reconhecimentos necessários


Durante os seus trinta anos de existência, o PPGPS/SER/ICH/
UnB formou, até início de 2020, 249 mestres e 81 doutores, cujas
dissertações e teses estão disponíveis no Repositório Institucional da
Biblioteca Central da UnB e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses
e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia – IBICT. Várias dessas produções foram publicadas sob
a forma de livro ou de artigo, sendo três teses de doutorado premia-
das pela área de Serviço Social da CAPES e publicadas por Editora
nacional de renome e penetração internacional, especialmente na
América Latina.
A relação de solidariedade do PPGPS/SER/ICH/UnB com
Programas da área de Serviço Social de outras Universidades sem-
pre se mostrou, nos termos avaliativos da CAPES, extensa e positi-
va. No que concerne aos apoios à criação e à estruturação de outros
Programas registra-se, principalmente, os que foram prestados, em
dois momentos, à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e
à Universidade Federal de Sergipe (UFS). Na UFMT, o Programa da
UnB ajudou a construir o Programa de Pós-Graduação em Políti-
ca Social, começando com um MINTER (Mestrado Interinstitucio-
nal), realizado entre 2000 e 2002, e, posteriormente, deu início a um
DINTER (Doutorado Interinstitucional) aprovado pela CAPES em
2016 e efetivado em 2017. Na UFS, o PPGPS/SER/ICH/UnB coo-
perou, entre 2011 e 2015, com a criação e implantação do Mestrado
em Serviço Social, por meio do processo denominado Associação
Temporária. Contudo, além dessas importantes interações solidá-
rias, destacam-se relações de cooperação acadêmica sob a forma
de pesquisas realizadas e coordenadas pelo PPGPS/SER/ICH/UnB
com outros Programas, entre as quais: um Procad/Capes entre UnB,
UERJ, UFRN e UFSC, no período 2006-2010, e outro Procad/Capes/
Edital 071/2013, realizado com a UERJ e UFRN e iniciado em 2015.
Todas essas e outras atividades aqui registradas envolveram
alunos/as de graduação e de pós-graduação e, nestes/as, encontra-
ram não apenas parceiros/as, mas sustentáculos e primeiro alvo de
10 Programa da CAPES/MEC que oferece bolsa de estágio em pesquisa e pós-doutora-
do no exterior, além de apoiar a vinda de pesquisadores de Instituições estrangeiras e
vice-versa.

- 29 -
repercussão dos seus avanços e conquistas. Afinal, o que seria do
Curso de Serviço Social da UnB se, em 1970, os/as primeiros/as alu-
nos/as que, sozinhos/as, foram transferidos/as da ex-FSS para esta
Universidade - e nesta se mantiveram à espera do Curso prometido
- não resistissem a chamativos convites para ingressarem em outros
Cursos afins? O que seria da continuidade do Curso de Serviço So-
cial na UnB se, após a sua criação formal, esse Curso não contasse,
como contou, com significativa inscrição já na primeira oferta do
seu exame vestibular11? O que seria, ademais, se essa demanda signi-
ficativa não se mantivesse sempre a maior entre todas as demandas
dos Cursos do antigo Departamento de Ciências Sociais (CIS)? E,
ainda, o que seria se o ousado – e para muitos improvável - Projeto
de ascensão do Curso de Serviço Social da UnB a degraus e níveis de
excelência acadêmica na seletiva pirâmide do ensino, pesquisa e ex-
tensão universitária brasileira, não contasse com o indefectível apoio
dos/das seus/as discentes? E não fosse esse Projeto, posteriormente,
levado adiante sob o comando de muitos/as deles/as?
Não casualmente, a criação do Doutorado em Política Social e
a condução do Programa de Pós-Graduação em Política Social (Mes-
trado e Doutorado) do SER/ICH/UnB, a partir de 2002, foi e tem
sido fruto de empenhos, iniciativas e compromissos basilares, nos
quais ex-alunos de graduação do SER e de pós-graduação (PPGPS)
estiveram e estão envolvidos e à frente. E quanto mais o PPGPS/SER/
ICH/UnB ascende a patamares mais elevados e é contemplado com
conceitos de maior nível, mais aumentam a responsabilidade e o tra-
balho desses novos atores de o manterem à altura dessas conquistas,
assim como o desafio de não o deixarem regredir: um desafio enor-
me na conjuntura capitalista atual, mas não desconhecido em suas
contradições nem encarado como fatalidade!

11 Soube-se, posteriormente, que, se não houvesse demanda no primeiro exame vestibu-


lar, o Curso de Serviço Social dificilmente teria sido criado, em 1971, na UnB.

- 30 -
Referências
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all. The student’s companion to social policy. Oxford: Blackwell, 1992.
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PEREIRA-PEREIRA, Potyara A. Crítica marxista da teoria e da prá-
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UNB/CIS/CURSO DE SERVIÇO SOCIAL. Projeto do Curso de Es-
pecialização em Política Social. Brasília/DF, 1981.
PROPOSTA DE TRANSFORMAÇÃO do Mestrado em Política So-
cial em Programa de Pós-Graduação em Política Social (Mestrado e
Doutorado). Aprovada em reunião do Colegiado do Departamento
de Serviço Social em 4 de julho de 2001.

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Política Social e Serviço Social: interação sim,
mimetismo não!
Ivanete Boschetti
Apresentação
Elaborar este texto a pedido da Coordenação do PPGPS/SER/
UnB expressa meu reconhecimento e gratidão a esse Programa, onde
fiz minhas primeiras incursões de pesquisa no campo das políticas
sociais durante o Mestrado em Política Social (1990-1993)1 e onde
construí maior parte da minha carreira acadêmica como pesquisa-
dora e docente de graduação e pós-graduação (1996-2018). As re-
flexões aqui apresentadas são, em grande medida, resultado dessa
trajetória, dos debates ali realizados com docentes e discentes, que
sedimentaram minhas pesquisas e produções.
Sua redação ocorre quando o PPGPS/SER/UnB - o primeiro
da Área de Serviço Social aprovado pela CAPES com o foco na Po-
lítica Social - celebra 30 anos e a profissão completa 85 anos de ins-
tituição do primeiro curso de Serviço Social no Brasil em 1936. Em
trabalho anterior (Behring & Boschetti, 2016), ao discorrermos so-
bre a histórica relação entre Serviço Social e Política Social, afirma-
mos que estes processos possuem um vínculo ontológico, à medida
que se constituem em requisições do movimento da realidade para
responder às expressões da questão social no capitalismo. Significa
dizer que tanto a possibilidade histórica de realização da profissão,
como das políticas sociais, está relacionada ao movimento da totali-
dade concreta, ao desenvolvimento do modo de produção capitalista
e, de modo imbricado, se generalizam na passagem do capitalismo
de livre concorrência para o capitalismo monopolista. A implicação
dessa afirmação é que não há como entender o Serviço Social Bra-
sileiro descolado da sua relação histórica com a constituição estatal
1 Sinto orgulho por ter ingressado em sua primeira turma, ter tido a oportunidade de
representar discentes na Comissão que lutou junto à UnB e à CAPES pelo seu reco-
nhecimento e ter a Dissertação de Mestrado marcada com o número 01, orientada pelo
professor Vicente de Paula Faleiros. Minha primeira participação em uma pesquisa insti-
tucional sobre assistência social se deu em um Projeto Integrado, financiado pelo CNPq
e coordenado pela professora Potyara Amazoneida Pereira Pereira.

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das políticas sociais e suas respostas públicas às expressões da ques-
tão social. Significa dizer que não se pode entender as possibilidades
e limites do Serviço Social a partir de si mesmo, de forma endóge-
na. Assim, a relação entre Política Social e Serviço Social precisa ser
entendida na história, a partir de suas determinações estruturais e
conjunturais.
Apresento, assim, como introdução a este texto, alguns pres-
supostos que vêm pavimentando minhas reflexões sobre Política So-
cial e Serviço Social, como processos indissociáveis da sociabilidade
capitalista. O primeiro é a compreensão da condição do trabalho as-
salariado, subsumido ao capital, que para se valorizar precisa extrair
mais-valor, já que este é a base para o processo de acumulação, ou
seja, o trabalho é o fundamento ontológico do ser social, nos termos
marxiano e lukasiano (Marx, 2013; Lukács, 2013). Nesse sentido, as-
sistentes sociais são trabalhadores/as assalariados/as, ainda que ma-
joritariamente na esfera estatal, e mediam a atuação do Estado na
reprodução ampliada do capital (Mandel, 1982). Significa assumir
que as Políticas Sociais e o Serviço Social são determinados objeti-
vamente pelo desenvolvimento do capitalismo e assumem funções
específicas em seu processo de reprodução. O segundo pressuposto
é reconhecer a crescente pauperização da classe trabalhadora, que
conforma um exército de reserva (superpopulação relativa) cada vez
mais expropriado de direitos e condições de vida, e barbaramente
disponível para exploração do capital (Boschetti, 2018). Significa
considerar que as Políticas Sociais e o Serviço Social se deparam
cotidianamente com uma tensão própria da unidade contraditória
em que se movem: ao mesmo tempo em que medem a realização de
direitos e serviços públicos, são submetidos a estes processos expro-
priatórios. O terceiro pressuposto reconhece as lutas da classe traba-
lhadora como processos fundamentais que denunciam e explicitam
os antagonismos do capitalismo e a questão social, e lutam pela con-
quista de direitos sociais materializados pelas políticas sociais, como
expressão da luta de classes. Os/as assistentes sociais, por sua vez,
têm entre os princípios éticos estabelecidos em seu Código de Ética
Profissional a “defesa intransigente dos direitos humanos” e a “garan-
tia dos direitos civis, sociais e políticos das classes trabalhadoras”, o
que os vinculam profissionalmente e socialmente às lutas sociais pela
conquista e realização de direitos e políticas sociais.

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Políticas Sociais são solo do trabalho profissional
Na perspectiva do trabalho profissional, o vínculo entre Po-
líticas Sociais e Serviço Social é inelutável, pois aproximadamente
90% dos 185 mil assistentes sociais ativos/as e inscritos/as no CRESS
(Conselho Regional de Serviço Social), realizam importante me-
diação no acesso aos direitos e serviços sociais da saúde, educação,
Previdência Social, assistência social, moradia, lazer, trabalho e ou-
tras, por meio das competências e atribuição regulamentadas1 em
lei e normas específicas. Essa vinculação profissional não pode ser
argumento para justificar algumas interpretações equivocadas que
“confundem” a profissão (Serviço Social) e seu profissional (Assis-
tente Social) com os espaços de intervenção (Políticas Sociais, espe-
cialmente a Assistência Social). Nessa histórica relação, cabe sempre
reiterar que Serviço Social não se confunde nem é uma extensão das
políticas sociais. Por outro lado, é inegável que sofre as injunções
impostas às políticas sociais pelos processos de reprodução ampliada
do capital, especialmente, em suas funções de assegurar as condições
gerais de reprodução da força de trabalho (Mandel, 1982).
Sofrer injunção, contudo, não significa sujeitar-se acritica-
mente às imposições estatais na condução das políticas sociais. Há
muito o Serviço Social superou teórica e politicamente sua origem
conservadora e reificadora, hegemonicamente funcional ao capital
(Iamamoto, 1982). A profunda incursão na tradição marxista, desen-
cadeada pelo processo de reconceituação nos anos 1960, possibilitou
a construção do Projeto Ético Político Profissional (Netto, 1992),
que reposicionou sua compreensão da questão social, das políticas
sociais no capitalismo e de seus próprios valores ético-políticos em
defesa dos direitos da classe trabalhadora.
Por realizar suas atividades profissionais majoritariamente na
esfera das políticas sociais, o Serviço Social se depara e sofre coti-
dianamente com os sucessivos e agressivos ataques aos direitos so-
ciais e às políticas sociais, pela violenta contraofensiva burguesa às
conquistas sociais em todos os países capitalistas. As políticas de fa-
vorecimento ao capital, especialmente em contexto de crise e queda
tendencial das taxas de lucro, impõem redução e/ou destruição do
1 Cf. Lei de Regulamentação Profissional, Lei nº 8.662, de 07 de junho de 1993. Dispo-
nível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8662.htm>. Ver, também, normas
disponíveis na página do CFESS: <http://www.cfess.org.br/visualizar/menu/local/regu-
lamentacao-da-profissao>. Acesso em: 19 ago. 2021..

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que ainda resta do “Estado Social” (Boschetti, 2016) erigido, com
suas particularidades nacionais, no pós-Segunda Guerra Mundial.
No Brasil de políticas sociais trôpegas, que jamais alcançaram
universalidade efetiva, o asfixiamento das acanhadas iniciativas pú-
blicas estabelecidas pela CF/1988 se sucede desde a década de 1990
com os ajustes fiscais permanentes (Behring, 2021), impulsionados
pelas contrarreformas do trabalho, da previdência e o teto de gastos
com a Emenda Constitucional 95 que corrói o fundo público e reduz
orçamento para todas as políticas sociais (INESC, 2020). A corrosão
do principal aparato de sustentação pública dos direitos sociais se
soma à política ultraneoliberal (Fiúza, 2020), intensificada desde o
Golpe Parlamentar de 2016, que entoa a ode à “liberdade econômi-
ca”, ao mercado, à exploração e destruição das florestas, dos povos
originários, das lutas sociais, dos direitos da classe. São investidas
alimentadas pela intolerância, conservadorismo e ataques a tudo
que representa a civilidade democrática, própria do Estado burguês.
Esse ultraneoliberalismo se conecta com o autoritarismo, constrange
qualquer possibilidade de manutenção e expansão de políticas so-
ciais democráticas, impacta duramente na reprodução da força de
trabalho e, também, no exercício profissional do/a assistente social,
já que provoca uma erosão do solo em que intervém. Não só amar-
gam perdas de seus direitos como trabalhadores/as assalariados,
como também enfrentam dificuldades cada vez mais intransponíveis
para mediar o acesso aos direitos e bens públicos dos sujeitos com
quem trabalham, o que constitui uma de suas principais atribuições
profissionais.
Também é histórica a relação de estudos e pesquisas so-
bre políticas sociais no âmbito do Serviço Social, não só (o que já
seria considerável) pela necessidade de conhecer o chão em que se
materializa como profissão, mas, sobretudo, pela intencionalidade
teórico-metodológica de conhecer a realidade em suas multideter-
minações, como requisito para construir lutas de resistência e eman-
cipação.

Políticas Sociais são objetos de pesquisa e formação


Ainda que a pesquisa não se localize exclusivamente no âmbi-
to da pós graduação, é incontestável que são as instituições com Pro-
gramas de Pós-Graduação que concentram o maior quantitativo de

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pesquisas, bolsas de estudo, recursos financeiro e publicações. Esta é
uma realidade de todas as áreas do conhecimento.
Desse modo, a análise de alguns dados referentes aos Progra-
mas de Pós-Graduação da área de Serviço Social, reconhecidos pela
CAPES , revela essa intrínseca relação entre Política Social e Servi-
ço Social na formação e pesquisa pós-graduada, o que não significa
diluição de suas identidades2. Nesse ano em que o primeiro Progra-
ma de Pós-Graduação em Serviço Social festeja seu cinquentenário
(PPGSS/PUC/SP), a Área registra 35 Programas, sendo 20 com cur-
sos de mestrado e doutorado e 15 somente com curso de mestrado.
Na plataforma Sucupira3, todos registram como Área Básica
“Serviço Social” ou “Serviço Social Aplicado”, contudo, suas titula-
ções são variadas e não indicam somente suas nomenclaturas (Servi-
ço Social, Política Social, Política Pública ou outras), mas igualmente
sua identidade, estrutura, áreas de concentração e linhas de pesquisa,
ou seja, sugerem o foco central de suas pesquisas e produção de co-
nhecimento. Análise destas nominações revela que a maioria (26 ou
74,28%) tem Serviço Social em sua designação, sendo 05 articulados
a outras temáticas: Serviço Social e Direitos Sociais (01), Serviço So-
cial e Desenvolvimento Regional (01), Serviço Social e Política Social
(02), Serviço Social, Trabalho e Política Social (01). Interessante ob-
servar que Política Social comparece em 03 dessas e Direitos Sociais
em 01, o que sugere o interesse desses 04 Programas em evidenciarn
nominalmente, a relação da qual nos ocupamos aqui. Os outros 09
Programa se nominam Política Social (06) ou Política Pública (03),
correspondendo a 25,71% da totalidade.
Quando analisamos as 42 Áreas de Concentração dos Progra-
mas4 surgem indicativos interessantes sobre a relação entre Política
Social e Serviço Social. Entre os 09 que se intitulam PoIítica Social/
Política Pública, é preocupante que entre suas 11 Áreas de Concen-
tração, somente 01 inclui o Serviço Social em articulação com outra
2 Já defendi esta posição em palestra na Oficina Nacional da ABEPSS, em 2017. Retomo
aqui alguns argumentos.
3 Cf https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/programa/
quantitativos/quantitativoIes.xhtml;jsessionid=hAxHgQ-GtBm2rV8OEj5HhTls.sucu-
pira-218?areaAvaliacao=32&areaConhecimento=61000000 A lista inclui o Curso de
Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, que consta na área de Serviço
Social, mas não foi incluído em nossa análise neste texto por não se tratar de Serviço
Social. Acesso em 23 ago. 2021.,
4 O quantitativo das Áreas de Concentração (42) é superior ao total dos Programas (35)
pois quatro Programas possuem mais de uma Área de Concentração.

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temática. As demais incluem temas como Estado, Sociedade, Direi-
tos Humanos, Direitos Sociais, Questão Social, Movimentos Sociais,
Processos Sociais, Desenvolvimento local, Sujeitos Sociais e Práticas
Sociais, Políticas Sociais. São, certamente, temáticas que circundam
tanto os conteúdos das Diretrizes Curriculares da Graduação, quan-
to conteúdos importantes para o exercício profissional, mas não se
referem especificamente ao Serviço Social. Não estou defendendo
aqui que todos os Programas, Área de Concentração, linhas de pes-
quisa ou disciplinas deveriam relacionar a Política Social ao Serviço
Social, sendo um campo interdisciplinar e objeto de estudo e análise
de várias profissões. A ponderação busca tão somente alertar que,
em Programas vinculados à Área de Serviço Social, com grande inci-
dência na formação de docentes dos cursos de graduação nessa área,
devem estar atentos para os requisitos profissionais com vistas à sua
intervenção no campo das políticas sociais. Dizendo de outro modo,
os Programas de Política Social/Políticas Públicas da Área de Serviço
Social não podem e não devem perder de vista a histórica e concreta
relação entre Serviço Social e Política Social, bem como sua incidên-
cia na formação de assistentes sociais.
Por outro lado, dentre os 26 Programas intitulados Serviço
Social (exclusivamente ou associado a outros temas), 02 apresen-
tam mais de uma Área de Concentração, totalizando 31 Áreas. Entre
todas as Áreas, é curioso observar que 04 não registram o Serviço
Social em sua designação; somente em 01 comparece o tema “Fun-
damentos do Serviço Social”; e apenas 02 se nomeiam exclusiva-
mente “Serviço Social”. A maioria das Áreas de Concentração (26)
articula o Serviço Social a temas como questão social, direitos hu-
manos, trabalho, direitos sociais, política social, políticas públicas,
cidadania, movimentos sociais, território, sustentabilidade, cultura,
teoria social, lutas sociais, sociabilidade e desenvolvimento regional.
Entre estes temas a maior incidência é a política social (15), seguida
por direito social (08), trabalho (07), movimentos/lutas sociais (04),
questão social (03) e os demais em uma ou duas Áreas. Tais recor-
rências constituem importante indicador que as políticas sociais as-
sumem lugar significativo na confluência dos temas que estruturam
os Programas. Ao ampliar a análise para a totalidade dos Programas,
confirmamos que a temática que mais sustenta as áreas de concen-
tração é a da Política Social/Política Pública que aparece em 27 Áreas
de Concentração, o que corresponde a 77,14% dos 35 Programas e a

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64,28% das 42 Áreas de Concentração. Estes dados não ilustram sim-
ples ocorrência quantitativa da temática, mas revelam que a Política
Social é um elemento constitutivo do processo formativo, tanto na
Graduação quanto na Pós-Graduação, não como objeto de interven-
ção, mas como objeto de pesquisa, como conteúdo teórico funda-
mental para se compreender criticamente a inserção profissional nos
processos sociais no capitalismo.
Estas evidências reafirmam o pressuposto das Diretrizes Cur-
riculares elaboradas pela ABEPSS (Associação Brasileira de Ensino
e Pesquisa em Serviço Social) de que os fundamentos do Serviço
Social não são endógenos, mas se sustentam na totalidade das rela-
ções sociais, o que pressupõe ser impossível compreender o Serviço
Social fora dos marcos da sociabilidade capitalista e suas determi-
nações estruturantes como a lei geral da acumulação, a lei do valor,
o trabalho, bem como suas determinações políticas como a luta de
classes, as respostas do Estado às expressões da questão social, pela
mediação dos direitos e das políticas sociais. As áreas de concentra-
ção estabelecidas pelos Programas se conectam a temas e conteúdos
historicamente abordados pelo Serviço Social brasileiro (Política So-
cial, Estado, Direitos Sociais, Trabalho, Questão Social, Desenvolvi-
mento, Movimentos Sociais) que constituem os núcleos estruturan-
tes dos Projetos Pedagógicos apontados nas Diretrizes Curriculares
da ABEPSS: Núcleo de Fundamentos Teórico-Metodológicos da
Vida Social; Núcleo de Fundamentos da Formação Sócio-Histórica
da Sociedade Brasileira; Núcleo de Fundamentos do Trabalho Pro-
fissional.
Não nos parece que esta relação entre Política Social e Serviço
Social possa ou deva ser interpretada como mimetismo ou diluição
da identidade ou, ainda, particularidade profissional, como sugerem
algumas análises que estudaram as temáticas de projetos aprovados
pelo CNPq5. Nossa interpretação é que a predominância da política
social nos temas das Áreas de Concentração e de projetos de pes-
quisa indica que os Programas de Pós-Graduação (e pesquisadores/
as) possuem preocupação em assentar conteúdos temáticos que
abarcam os fundamentos do Serviço Social, o que incide de forma
positiva na formação acadêmica de docentes e/ou futuros docentes
5 Cf. análise de Daniella Borges Ribeiro, no artigo “As pesquisas científicas do Serviço
Social: o papel do CNPq”, ao mostrar que as políticas sociais predominam nos Projetos
aprovados pelo CNPq na Área de Serviço Social entre 2011 e 2014. Disponível em https://
www.scielo.br/j/rk/a/bjZjbzPTttZk4XBzXfcffpm/?lang=pt# Acesso em 25 de agosto de 2021.

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dos cursos de graduação em Serviço Social em uma perspectiva de
totalidade.
Esta afirmação não tem nenhum propósito de defender qual-
quer tipo de simbiose entre Política Social e Serviço Social. Também
não pretende sugerir que Programas cujas Áreas de Concentração
não tenham o Serviço Social como foco central, não realizem pes-
quisas e produções teóricas que relacionem as diversas temáticas
com o Serviço Social. Uma análise detalhada das Linhas e Projetos
de Pesquisa em curso em cada Programa certamente revelaria in-
formações surpreendentes sobre essa relação6. Considero que essa
diversificação das Área de Concentração e da produção bibliográfica
da Área de Serviço Social7 foi determinante para o amadurecimen-
to teórico-científico da profissão. Foi a superação da endogenia que
alçou o Serviço Social a uma importante área de produção de conhe-
cimento em temas como questão social, direitos sociais, cidadania,
políticas sociais (Mota, 2016). Ouso mesmo afirmar que as análises
mais críticas sobre estas temáticas, fundamentadas na teoria marxia-
na e na tradição marxista, estão no campo do Serviço Social, a exem-
plo do debate sobre Questão Social (Netto, 2001; Iamamoto, 2008).
Também não tenho dúvidas que, ainda que não façam refe-
rência direta ao Serviço Social, muitas das produções sobre estas
temáticas fornecem subsídios e problematizações teóricas para des-
vendar a realidade, o chão material e as condições objetivas em que
se realiza a intervenção profissional, bem como oferecem elementos
para discutir e orientar a realização de suas competências e atribui-
ções profissionais. A aproximação do Serviço Social a temas como
fundo público, feminismo, gênero, relações sociais de sexo, diversi-
dade humana e racismo, entre outras tantas, seria impensável sem
a articulação com temas postos pelas relações sociais concretas em
que a profissão se insere.
As Políticas Sociais, conforme já afirmado anteriormente, não
constituem o espaço exclusivo de atuação do Serviço Social, mas é
pela mediação das políticas sociais e dos direitos sociais e políticos
que o Serviço Social vem se inserindo nas lutas pelos serviços públi-
cos e pelos direitos das mulheres, da população LGBTQI+, da popu-
lação indígena, pelos direitos do trabalho, da previdência, da saúde,
da assistência social. Não se trata de superestimar as possibilidades
6 Estudo que não foi possível empreender para este artigo.
7 Sobre a diversificação da produção bibliográfica da Área de Serviço Social, ver o Docu-
mento de Área, citado na NR 5, pg. 15.

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dos direitos sociais e das políticas sociais, pois em diversas ocasiões
já tratamos de suas funcionalidades na reprodução ampliada do ca-
pital e de seus limites no âmbito da emancipação política (Boschetti,
2016; 2018). Contudo, nesse contexto de bárbara destruição, me pa-
rece fundamental localizar essa histórica relação entre Política So-
cial e Serviço Social como uma unidade na diversidade no campo da
problematização e produção teórica comprometida com o desven-
damento da realidade e, também, como imprescindível instrumento
de fomento às lutas sociais e à qualificação do trabalho profissional.

Política Social e Serviço Social em tempos de barbárie


Ao retomar os pressupostos apontados na introdução deste
texto, é incontestável que vivemos uma forte contraofensiva do capi-
tal em todo o mundo, em contexto de queda tendencial das taxas de
lucro, em sua sanha de recuperar condições de acumulação. A crise
estrutural do capital que coloca a economia em recessão impulsio-
nou a ascensão da extrema-direita em diversos países, e evidencia a
crise do regime democrático-eleitoral burguês, com perda de repre-
sentatividade dos partidos e lideranças políticas tradicionais, tanto
à direita como à esquerda (Demier, 2017). A última década vivencia
sucessivas manifestações de crises econômicas, tensões e instabilida-
des geopolíticas, guerras regionais, avanço de fundamentalismos, in-
tensificação dos deslocamentos forçados, fortes mudanças climáticas
decorrentes da destruição do meio ambiente pelo capital, já que “são
os capitalistas que lucram com a crise climática enquanto os mais
pobres sofrem. É o sistema capitalista que coloca o lucro acima de
tudo que bloqueia a descarbonização enquanto o mundo queima”8.
Soma-se a estas expressões de barbárie um ataque sem precedentes
às condições de vida e uma perseguição implacável da classe traba-
lhadora, apontada como responsável pela crise, com expropriação de
direitos e criminalização de suas lutas.
No Brasil, a eleição de Bolsonaro busca redesenhar o tipo de
inserção do Brasil no capitalismo global, configurando um modelo
ainda mais periférico e subordinado ao imperialismo norte-ameri-
cano do ex-presidente Trump e alinhado à extrema direita alemã.
No âmbito da Economia, o governo se cercou do que tem de mais
8 Cf texto de Chris Saltmarsh no Esquerda Online. Disponível em https://esquerdaonli-
ne.com.br/2021/08/16/o-que-esta-queimando-o-planeta-e-o-capitalismo-nao-as-pesso-
as-comuns/ Acesso em 27 ago. 2021

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ultraliberal, com Guedes à frente, e apesar das críticas mais recentes,
especialmente ao aumento de preços e à inflação, segue agradando
amplos setores do empresariado. Conseguiu aprovar a contrarrefor-
ma da Previdência em 2019 e sua associação espúria e oportunista
com o Centrão (alvo de severas críticas durante a campanha pre-
sidencial), no contexto da Pandemia da Covid-19, impõe um freio
aos mais de 130 pedidos de impeachments protocolados na Câmara
dos Deputados, além de assegurar a aprovação de medidas destruti-
vas de direitos. O ultraneoliberalismo econômico se conjuga com o
reacionarismo mais tacanho, com ações institucionais movidas pelo
fundamentalismo religioso, a exemplo dos sucessivos discursos e
medidas do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, com
frequentes ataques a segmentos tradicionalmente oprimidos como
mulheres, população negra e LGBTQI+.
Após 18 meses do início da pandemia Covid-19, o Brasil con-
vive com ameaças de diferentes naturezas, mas todas igualmente
alarmantes e atrozes, para registrar apenas algumas: sanitária, com
avanço da variante delta do coronavírus e lentidão no avanço das
vacinas9, decorrente de deliberada prática de atraso em sua aquisi-
ção pelo governo federal; política, com ataques governamentais fre-
quentes à democracia e ao processo eleitoral brasileiro10; econômica,
com aceleradas propostas de privatização, destruição dos serviços
e equipamentos públicos, proposta de “reforma” administrativa que
destrói o Estado democrático de direito estabelecido na CF/1988 e
medidas tributárias regressivas, que constituem nítidas medidas eco-
nômicas de favorecimento do capital; e ameaças constantes aos direi-
tos sociais, já corroídos com as contrarreformas trabalhistas (2017)
e da Previdência Ssocial (2019), que suprimem direitos, rebaixam o
valor da força de trabalho, intensificam a jornada de trabalho, am-
pliam a exploração, obrigam o/a trabalhador/a a trabalhar mais tem-
po, com salários mais baixos, retardam as aposentadorias, reduzem
seu valor e estimulam a transformação da previdência pública em
seguros privados. É um nítido processo de subsunção do trabalho ao
9 Os dados sobre a Covid-19 mudam diariamente. Em 27 de agosto de 2021, o Brasil re-
gistrava 20,6 milhões de casos, 577 mil mortes (fora a subnotificação), 60% da população
com vacinação de 1 dose e 27,7% com imunização completa com 2 doses ou dose única.
10 A imprensa registra manifestações intimidatórias cotidianas proferidas pelo Presiden-
te Bolsonaro, mas me limito a citar os ataques ao STF, ameaças às eleições devido à sua
posição contrária ao voto impresso e estímulo às manifestações antidemocráticas nas
comemorações de 7 de setembro.

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capital e de expropriação de direitos, a fim de disponibilizar a força
de trabalho para recuperar a tendência de queda nas taxas de lucro
do capitalismo em crise (Boschetti, 2018).
A Pandemia agudizou a desigualdade estrutural determinada
pela concentração de propriedade e riqueza e intensificou o desem-
prego, que em 2021 alcançou 20 milhões de brasileiros/as, entre 14,8
milhões de “desocupados” e 6 milhões de “desalentados”, segundo
dados oficiais11. Estes números indicam que quase 30% da força de
trabalho é considerada oficialmente “subutilizada”, vive em condi-
ções de absoluta precarização e disponibilizada para exploração
do capital. São as mulheres negras residentes nas periferias as mais
atingidas pelo desemprego, mostrando e perversa desigualdade de
gênero e raça12 de uma força de trabalho superexplorada e precari-
zada que, efetivamente, ultrapassa 100 milhões de pessoas que não
dispõem de rendimento de trabalho estável e seguro. Enquanto 108
milhões de trabalhadores/as se viram sem rendimento e precisaram
recorrer ao auxílio emergencial durante a Pandemia, os bilionários
cresceram em setores da economia que intensificaram a acumulação
como no capital financeiro, investimentos em capital fictício, e-com-
merce, hospitais privados, segundo dados da Revista Forbes13.
O asfixiamento financeiro das políticas sociais, já sentido nas
últimas décadas, se intensificou com aprovação da EC 95, que esta-
beleceu o teto de gastos com despesas primárias em 2017 (com ex-
ceção dos gastos com pagamento dos juros e amortizações da dívida
pública) e se agudizou imensamente nos últimos anos, devido à queda
do orçamento federal, mas também em função da inconcebível não
aplicação do já reduzido orçamento aprovado, conforme revela estudo
do Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC14 . Este desfinan-
ciamento, nos mostra Salvador (2020), coloca em risco a própria ma-
nutenção das políticas sociais, ou seja, derrói as condições objetivas de
sua realização e, conforme aqui discutido, impõe impacto deletério na
11 Disponível https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php Acesso em 27/08/2021
12 Cf. dados da Oxfam. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/blog/mulhe-
res-negras-e-pandemia/?gclid=Cj0KCQjwktKFBhCkARIsAJeDT0gObZ8FzhXQNBr-
TK4MJfTLTGTpkH_U1VJPnAY9R-RMp4K2HRk9cZ08aAhPgEALw_wcB Acesso em
27 ago. 2021.
13 Cf. https://forbes.com.br/forbes-money/2021/04/quem-sao-os-brasileiros-no-
-ranking-dos-bilionarios-do-mundo-2021/#fotto13 Acesso em 27/08/2021
14 Disponível em: <https://www.inesc.org.br/baixa-execucao-financeira-e-lenti-
dao-do-governo-asfixiaram-politicas-sociais-em-2020-diz-estudo/?gclid=Cj0KC-
QjwktKFBhCkARIsAJeDT0jOE79aFVfACshCbfPYRfl-vTAzY-HURhgqtNackOwi-
Gk8Sx40H7WMaAvQ1EALw_wcB>. Acesso em: 28 ago. 2021.

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histórica e coletiva construção de um Projeto Profissional que luta pela
ampliação dos direitos e das políticas sociais.
Também a pesquisa e a produção de conhecimento crítico
vêm sendo duramente atacados financeira e politicamente. As Uni-
versidades Públicas são alvos prediletos dos furiosos, hostis e ul-
trajantes ataques do Governo Federal, seguidamente atacadas pelas
posturas negacionistas, contrárias à ciência, à pesquisa e ao ensino
público dos próprios Ministros da Educação. Segundo o estudo do
INESC citado, a função educação recebeu R$ 13 bilhões a menos em
2020, colocando em risco a manutenção das universidades públicas,
como também vem ocorrendo com a ciência e tecnologia. Sem re-
cursos para custeio e bolsas, laboratórios e centros de pesquisa vêm
sendo fechados, e perdem pesquisadores e discentes. Em texto re-
cente, Behring (2021)15 revela que os recursos da função educação
caíram de R$ 134,1 bilhões em 2016, para R$ 108,3 bilhões em 2020.
Especificamente em relação ao ensino superior (Universidades Pú-
blicas) que, conforme sinaliza a autora, são as maiores responsáveis
pela pesquisa no país, ocorreu redução de R$ 38,6 bilhões em 2016
para R$ 35,5 bilhões em 2020. A mesma tendência se repete na fun-
ção Ciência e Tecnologia, que abriga o CNPq, a maior agência de
fomento à pesquisa do país, que vive drástica perda de recursos, pas-
sando de R$ 10,5 bilhões em 2016, para R$ 7,5 bilhões, em 2020. O
CNPq vem sobrevivendo às minguas, com execução de apenas R$
1,4 bilhão em 2020, sendo o menor financiamento de sua história,
denuncia a autora.
Estes dados não são apenas números. Eles materializam o es-
magamento que vem sendo imposto à ciência, à pesquisa, ao ensino
superior público e à produção do conhecimento crítico, absoluta-
mente imprescindível para fomentar a consciência política necessá-
ria para sustentar as lutas da classe trabalhadora contra o capital.

Considerações Finais
Tais reflexões têm o intuito de ressaltar a importância da
imbricação histórica entre Política Social e Serviço Social, que não
deve secundar ou sujeitar nenhum desses processos, e nem ignorar
ou desrespeitar suas particularidades e identidades. Trata-se de re-
conhecer suas singularidades sem negar sua inter-relação dialética.
Os estudos e pesquisas no campo das políticas sociais são impres-
15 Cf. O Significado do Bug no CNPq. Disponível em https://esquerdaonline.com.
br/2021/07/31/o-significado-do-bug-no-cnpq/ Acesso em 09/08/2021

- 44 -
cindíveis para nutrir a realização das competências ético-políticas-
-profissionais em uma perspectiva crítica e de totalidade. Por outro
lado, as investiduras do Serviço Social em pesquisas críticas sobre as
políticas sociais no capitalismo reconfiguraram sua compreensão e
as tiraram da idealizada percepção ingênua ou (a)crítica de espaço
de realização do bem-estar coletivo.
Por isso, finalizo suscitando dois desafios que me parecem
essenciais, sobretudo, nesse contexto de avassaladora incursão con-
servadora na formação do ambiente universitário e na condução
das políticas sociais: 1) a primeira diz respeito à necessidade de nos
preocuparmos mais diretamente com a relação entre as pesquisas e
produção teórica dos Programas de Pós-Graduação e os conteúdos
requeridos na formação graduada do Serviço Social, já que esta não
é automática e não se dá por si mesma; é preciso construir estraté-
gias cotidianas que estreitem essa relação, e convirjam os debates,
pesquisas e produções de modo a conectá-los com as demandas e
necessidades da formação teórica, ética e política de profissionais
do Serviço Social; e 2) buscar, sempre e cada vez mais, em todas as
nossas produções teóricas, explicitar a conexão e a relação entre as
temáticas pesquisadas e a formação e trabalho profissional.
A direção teórico-política impressa nos Programas de Pós-
-Graduação da área de Serviço Social incide na formação da gra-
duação de modo muito contundente, uma vez que a maioria de do-
centes dos cursos de Serviço Social se titulam nesses Programas. Se
queremos assegurar a consolidação e enraizamento do nosso Projeto
Ético Político Profissional, mais do que nunca devemos manter e
amalgamar a sintonia entre os Programas de Pós-Graduação com o
Projeto de Formação na Graduação em Serviço Social, com respeito
ao pluralismo de ideias, mas com direção ética, teórica e política que
tenha como horizonte uma sociabilidade não capitalista.

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- 47 -
- 48 -
Considerações sobre a metodologia de
estudos sobre Política Social
Vicente de Paula Faleiros
O objetivo deste texto é mostrar que há níveis e perspec-
tivas diversas de abordagens metodológicas das políticas sociais na
construção de uma epistemologia crítica, dialética e contextualizada,
articulando a estrutura capitalista com as intervenções do Estado na
correlação de forças nas conjunturas ou com approaches que sepa-
ram a política da economia ou da sociedade, tornando-se mais fun-
cional ao sistema sem questioná-lo.
O pressuposto fundamental da metodologia é a construção/
desconstrução teórica. Teoria e metodologia estão intrinsicamen-
te relacionadas. É a teoria que constitui o crivo de análise da pes-
quisa científica, configurando a possibilidade de aprofundamento
da questão em pauta (enjeu) pelos vários caminhos disponíveis na
elaboração do conhecimento reconhecido, como busca e resultados
passíveis de comprovação e, ao mesmo tempo, de contestação. O co-
nhecimento reconhecido cientificamente se embasa em sua potência
interpretativa e na viabilidade de sua práxis. As formulações da ciên-
cia são controversas (Shinn; Ragouet, 2008), principalmente, num
contexto de maior interação entre ciência, tecnologias e produtos
socialmente incorporados e num contexto de trabalho em redes de
pesquisadores e pesquisadoras com reciprocidades sinérgicas.
Várias publicações na área das políticas sociais se embasam
na metodologia da dialética do real como totalidade em movimen-
to, contribuindo para a análise da complexidade e do imprevisto,
e abrem caminhos para a interlocução entre teoria e metodologia,
assumindo a criatividade das pesquisadoras e pesquisadores e dos
grupos de pesquisa. A pandemia da Covid-19 ensejou essa disputa
de interpretações e aguçou a necessidade de análises mais profundas
sobre as políticas de saúde no seu enfrentamento.
Como assinala Thompson (1995), a investigação hermenêu-
tica parte do pressuposto da existência de várias interpretações da
realidade. A doxa, a opinião, a descrição ou classificação de um fe-
nômeno da vida cotidiana é uma forma de interpretar ou de repre-

- 49 -
sentar a realidade referenciada tanto em valores de grupos, como em
comprovações fundamentadas e análises críticas.
Pesquisadores e pesquisadoras abordam problemas, influen-
ciados e influenciadas por suas subjetividades, experiências e condi-
ções disponíveis. A mediação teórico-metodológica busca o decifra-
mento das questões por conceituações, categorias e dispositivos de
pesquisa, que sejam explicitados e desvelem as escolhas feitas, tendo
em vista que a suposta neutralidade é um postulado que, geralmente,
não é neutro, mas de camuflagem de posições. A hermenêutica ou
interpretação das realidades em profundidade se embasa na análise
sócio-histórica da estrutura, das instituições como dos conflitos e
contradições na sociedade e no Estado.
Na exposição deste texto, em primeiro lugar, abordo a cons-
trução de metodologias e dimensões na perspectiva dessa profun-
didade, considerando a dialética entre estrutura, superestrutura e
conjuntura. Trata-se de explicitar a visão mais profunda das políti-
cas sociais e suas metodologias na busca de síntese de múltiplas de-
terminações. Este enfoque supõe uma postura crítica do capitalismo
e da formulação de políticas sociais, segundo os interesses das classes
dominantes e dominadas.
Num segundo momento, consideram-se as abordagens que
separam a estrutura econômica da superestrutura política, com foco
no processo de elaboração normativa ou de categorias centradas nos
valores, discursos, leis ou imagens nas políticas sociais, postulando-
-se pela formação de consensos entre consultores, decisores e gesto-
res, em geral, sem referências às contradições e à dialética.
Em um terceiro momento abordam-se os approaches próxi-
mos da doxa da ciência, das chamadas evidências, constroem-se in-
dicadores de setores ou temáticas próprias da camada tecnocrática
do Estado, dividido em áreas como educação, saúde, assistência, uti-
lizando-se de dados, microdados ou correlações entre variáveis para
uma gestão mais eficiente ou eficaz do estabelecido e consolidado no
sistema dominante. O uso de bancos de dados ou dados isolados não
é criticamente integrado numa perspectiva de profundidade, em ge-
ral, fornecendo apenas uma intepretação incrementalista da política,
sem a crítica contextualizada da dialética estrutura/superestrutura/
conjuntura.
Por fim, faço uma reflexão sobre a triangulação metodológica
e a comparabilidade de dados. À guisa de conclusão, vejo a pesqui-

- 50 -
sa em política social como um processo aberto, e ao mesmo tempo
multidimensional e transversal, com possibilidades de se mover ou
de integrar approaches, níveis e técnicas com articulação teórica e
epistemológica.
As técnicas têm ampliado significativamente a possibilidade
de coleta de dados e realização de sua sistematização por meio de
aplicativos, softwares, dispositivos de Internet que facilitam o dia a
dia e a manipulação do acervo da pesquisa e das informações. Tor-
na-se indispensável, para a análise como constructo crítico, a revisão
narrativa, integrativa ou sistemática de um tema, problema ou objeto
na literatura científica disponível. Para estudo das políticas sociais,
este passo é incontornável.
Boudon/Bourricaud (2000, p. 369) afirmam que: “contraria-
mente a uma confusão corrente, a noção de metodologia, designa,
não as técnicas de enquete empírica e de análise dos dados, mas a
atividade crítica que se aplica aos diversos produtos da pesquisa”. As-
sim, é crucial não se confundir metodologia com técnicas ou aplica-
tivos para pesquisa.

Dialética da estrutura e da superestrutura: hermenêutica da


profundidade
A hermenêutica da profundidade pressupõe uma epistemolo-
gia crítica da estrutura de exploração e de dominação capitalista he-
gemônica no Estado, bem como do processo de contra-hegemonia.
Como assinala Harvey (2011, p. 177), existem rachaduras no edifício
ideológico capitalista que podem ser apenas aparentes, mas “a clas-
se capitalista tem de convencer-nos, no entanto, que o capitalismo
não só é bom para eles, mas bom para todos nós”. A contraposição
à hegemonia da classe dominante pressupõe que o convencimento
de que pratica bondades com suas políticas sociais seja aceito por
grande parte da população. A estruturação da desigualdade socioe-
conômica, no entanto, é o real existente que precisa ser criticamente
pensado. Nas desigualdades é que se move a população, despertan-
do por sua vez, a mobilização, a indignação e a organização de lutas
contra o poder capitalista dominante, fundado na produção de mais-
-valia pela exploração do trabalho e derivativos financeiros.
Marx (1983) definiu como objeto de suas investigações o estu-
do da mercadoria, buscando desvendar seu fetiche e desvendando-o

- 51 -
pela produção de mais-valia. Constrói uma metodologia de estudo
das determinações dessa produção nas relações de classes dominan-
tes e dominadas, onde as primeiras exploram as segundas para acu-
mular e reproduzir o capital, o que não se evidencia na imediatez da
compra e venda de mercadorias. A relação entre coisas, mercadoria e
dinheiro pressupõe a relação entre pessoas, trabalho e capital.
Na definição de sua metodologia, menciona que se deve con-
siderar, como ponto de partida da pesquisa, o abstrato, o que aparece
como concreto e os dados isolados, para se chegar ao concreto pen-
sado, elaborado pela crítica, afirmando que “o concreto é concreto
por ser a síntese de múltiplas determinações, logo, unidade da di-
versidade” (Marx, 1983, p. 218). Essa busca da síntese das múltiplas
determinações elabora a superação da percepção imediata e abstrata
para a arquitetura do pensamento mais profundo e crítico das de-
terminações. A indagação de uma pesquisa crítica não se reduz ao
observável, mas busca desvendar o contexto e a relação em que se
fundamenta o fenômeno, a aparência.
A análise de profundidade das políticas parte de uma inda-
gação do interesse da pesquisadora ou do pesquisador que se torna
objeto questionável pela explicitação da contradição e do conflito de
interesses de grupos, de classes sociais, do Estado. Na busca da her-
menêutica da profundidade, o objeto precisa ser questionado em sua
aparência, precisa ser elaborado pela crítica na busca dos fundamen-
tos que o determinam e das categorias que permitam aprofundar as
questões no seu contexto e na sua história. Assim, por exemplo, uma
questão sobre a formulação de uma política ou sua execução não se
limita ao “quem”, “que”, “onde”, “por meio de que”, “porque”, “como”,
“quando”, mas busca sua articulação com um constructo questiona-
dor, crítico do sistema, da estrutura e da superestrutura capitalista
que consiga dar relevância ao mais profundo, superando as catego-
rias de análises que emergem de forma imediata, para indagar a
que classe social e grupo de interesse serve, a quem interessa, onde
se estrutura, em que contexto, quem a paga ou financia e qual seu
resultado ou resultante na reprodução ou redução da desigualdade.
Os estudos da relação entre a estrutura, a superestrutura e
a conjuntura com profundidade pressupõem uma análise concre-
ta da desigualdade socioeconômica, de poder e de enfrentamentos
da mesma no Estado e na sociedade. Esta metodologia tem como

- 52 -
approache a análise crítica da relação complexa entre Estado, forças
sociais e acumulação do capital, na busca das mediações e determi-
nações do capital. Na economia capitalista, as políticas sociais têm
um enquadramento ou limite estrutural na acumulação do capital,
ou seja, nunca a contraria. Pode até minorá-la ou regulamentá-la,
conforme as exigências de sua reprodução e a pressão das forças so-
ciais e demandas políticas de legitimação, coesão social e solidifica-
ção dos seus interesses na política (Faleiros, 2009).
Esta dialética se expressa de forma contraditória no complexo
movimento entre estrutura macroeconômica e a superestrutura ju-
rídico-política, implicando correlação de forças sociais e a existência
de democracia e Estado de Direito. Uma abordagem nesse sentido
foi feita por Faleiros (2010), ao pesquisar as políticas de saúde do
trabalhador no Brasil. Essa abordagem se inscreve, na ótica marxis-
ta com um viés gramsciano que articula estrutura, superestrutura
e conjuntura numa dinâmica contraditória e combinada. Gramsci
(1980, p. 71) afirma que “a estrutura e as superestruturas formam um
“bloco histórico, isto é, o conjunto complexo, contraditório e discor-
dante das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais
de produção.” Trata-se do Estado ampliado.
Por Estado ampliado, seguindo Gramsci, entendo a profunda
interação entre Estado e sociedade, ou seja, a superestrutura jurídi-
co-política articulada e em inter-relação com a sociedade. Esta supe-
restrutura é a própria sociedade e o mercado, na sua correlação de
forças, organizados em Estado. Como assinala Coutinho (1985): “a
esfera política “restrita” que era própria dos Estados elitistas -tanto
autoritários como liberais-, cede progressivamente lugar a uma nova
esfera pública “ampliada”, caracterizada pelo protagonismo político
de amplas e crescentes organizações de massa” (p. 59). Essa dialética
entre a esfera política e a esfera econômica, nessa perspectiva não
tem, pois, uma única determinação como soe acontecer em alguma
análise sobre a reprodução do capital.
Já para Cignolli (1985), por exemplo, a expansão ou restri-
ção das políticas sociais está ligada ao desenvolvimento ou crise do
capitalismo para assegurar a reprodução da força de trabalho e a
reprodução do capital. Trata-se de uma visão marxista centrada na
questão da sua reprodução e emerge como a condição necessária e
suficiente para toda e qualquer política social.

- 53 -
Na visão dialética do marxismo, elaborada por Gramsci, a re-
lação entre economia e política no capitalismo não significa, exclusi-
vamente, uma determinação unilinear da estrutura sobre a superes-
trutura nem de uma autonomização do político. A mediação entre a
economia e política no movimento das forças sociais, em suas múl-
tiplas manifestações, pressões e contrapressões se institucionaliza ou
em pactos diversificados ou se degrada no embate de conflitos das
forças em presença na sociedade e no Estado. No capitalismo, a acu-
mulação de capital é condição e limite desses arranjos configurados
segundo o bloco hegemônico no poder, com expressões diversas nas
democracias próprias dos regimes autoritários. Na democracia, os
embates são mais explícitos, embora as forças atuem em movimenta-
ções de lobbies e grupos de interesse com mais ou menos incidência
nas decisões e execuções na política.
O chamado Estado de Bem-Estar Social ou de Proteção Social
(Welfare State) se configura articulado tanto à estrutura de acumula-
ção capitalista como às lutas sociais e ao processo de industrialização,
crise econômica e democratização. Por exemplo, o arranjo escandi-
navo de universalização das políticas sociais, com forte presença do
Estado, surgiu no bojo da crise de 1930, por meio de um pacto social
na Suécia em 1932 (Faleiros, 2009; Esping-Andersen, 1996), com a
pressão dos partidos socialistas e dos empresários numa negociação
implementada pelo Estado, com concessões mútuas de trabalhado-
res industriais e rurais e empresários, na perspectiva de um consen-
so que garantisse, ao mesmo tempo, o sistema de assalariamento,
provisões sociais, o emprego e a greve. Esse modelo chamado de
institucional/redistributivo se sustentava em três pilares: garantia de
um regime básico estatal, seguros privados e transferências de renda.
Essa classificação permite destacar as categorias de poder político-
-social e garantia/transferência de renda. No entanto, é preciso levar
em conta que os “modelos” de bem-estar social estão imbricados no
processo de relação estrutural de classes sociais, de desenvolvimento
do Estado e do processo de acumulação capitalista (Faleiros, 2010).
Nesse processo, as forças em presença formam coalizões e colisões
diferençadas. No contexto da industrialização, as organizações em-
presariais e de trabalhadores se enfrentavam por melhores salários e
condições de trabalho frente à expansão do lucro e da produtividade.
O estabelecimento do direito formal dominante, da lei, não

- 54 -
reduz, per se, a desigualdade social real, visto que a lei não é neutra;
ela se inscreve num processo político de correlação de forças, de con-
dições desiguais de impor a lei.
Várias pesquisas realizadas na esfera da política social ex-
pressam tanto uma visão mais estrutural de reprodução do capital
pelas políticas sociais, como uma visão do processo contraditório
das relações de força. Há pesquisas que buscam evidenciar a voz dos
beneficiários, que autoritariamente foram demarcados como “alvos”
de políticas sociais, ou seja, objetos de alguma projeção do Estado
em que sejam alvejados. No item seguinte, diferentemente dos alve-
jados, coloco a importância dos estudos dos sujeitos como protago-
nistas.

Construção da confrontação de perspectivas dos sujeitos


históricos
A perspectiva da profundidade pode expressar uma avalia-
ção de políticas sociais (Faleiros, 2009ª) como conflito ou escuta de
narrativas de seus demandantes, não como alvos, mas como sujeitos
sociais, protagonistas, em interação na sociedade e com o Estado,
com foco em lugar de fala na estrutura social e na superestrutura
hegemônica, buscando os significados das contra-hegemonias num
contexto de desigualdade.
Nessa perspectiva teórica, a metodologia de análise de polí-
ticas sociais foca-se nos direitos de cidadania ou em sua efetivação,
que são um dos eixos centrais para definição de bem-estar social,
como afirma Dean (2002, p. 3): “os direitos são centrais para a polí-
tica social não só porque dizem respeito às titularidades substanti-
vas aos quais o processo de realização da política faz emergir, mas
porque eles proveem a base para dos reclamos teóricos que levam
a debates e lutas sobre o bem-estar”. A teoria dos direitos desiguais
se expressa também na criminologia crítica, abrindo caminhos para
a questão da desigualdade de acesso e de efetividade da garantia de
direitos sociais.
Na análise de profundidade, busca-se mostrar vocalização
dos oprimidos, silenciada nos contextos burocráticos e no poder
institucional da tramitação e do encaminhamento. Estas dimensões
tornam-se mais críticas quando se analisam os direitos na intersec-
cionalidade entre classe, gênero, opção de gênero e raça, que são es-

- 55 -
truturantes dos lugares de fala, mas que muitas vezes são silenciadas.
A profundidade de análise da desigualdade e da equidade se ancora
na relação entre o lugar dos indivíduos e grupos na sociedade e seu
lugar na política social ocupado pelos sujeitos sociais históricos. O
lugar de “beneficiário” se estrutura socioeconômica e politicamente.
O viés de gênero, raça e classe no universo das pesquisas coloca em
questão a estrutura de dominação. Esse questionamento abre a críti-
ca e a possibilidade de fortalecer as lutas dos oprimidos.
A forma de questionários ou formulários, ou de arquitetura de
bancos de dados, muitas vezes, são adaptados aos interesses de uma
racionalidade de controle dos “alvos” estabelecidos e não de relevân-
cia do protagonismo. O questionamento do sistema capitalista supõe
um questionamento dos questionários e dos roteiros de entrevista.
Há uma tendência, um viés na produção do conhecimento,
centrado apenas na análise da correlação de variáveis, como a ANO-
VA (Análise de Variância). Esta tendência pode servir ao reforço do
sistema e de suas expectativas ou abrir reflexões sobre seu questio-
namento. É uma técnica que pode se vincular a uma metodologia
crítica ou não. A escolha de técnicas deve ser explicitada no contexto
da teoria e da epistemologia fundamentadora da pesquisa.
Uma política social pode ser analisada pela busca de síntese de
múltiplas determinações fazendo-a sair de uma avaliação pelo “alto”,
de cima, e colocá-la para uma avaliação “de baixo” com o sujeito his-
tórico que a demanda.
O ponto de vista dos demandantes, dos excluídos, torna-se
crucial para fazer avançar essas demandas na perspectiva de redução
das desigualdades. Diversas pesquisas na área social partem da con-
sideração desse ponto de vista das classes trabalhadoras ou de gru-
pos dominados. Podem ser feitas por instrumentos qualitativos e/ou
quantitativos, utilizando-se de dados e indicadores com a interpre-
tação em profundidade na relação entre estrutura e superestrutura.
Para Minayo (2002), é importante considerar a compreensão
das subjetividades e sua hermenêutica no contexto em que são ela-
boradas pela metodologia dialética. Os significados atribuídos pelos
sujeitos se inscrevem em lugares de fala, as narrativas estão articula-
das à cultura e às relações sociais dos sujeitos.
No item seguinte, consideramos a construção de categorias
sem o questionamento do sistema capitalista como um todo, cen-

- 56 -
trando-se em dimensões isoladas das expressões das políticas so-
ciais, mesmo com o conceito genérico de Welfare State ou Estado de
Bem-Estar Social ou Estado de Proteção Social.

Categorizações e classificações abstratas


Outro nível de análise das políticas sociais se foca, seja nas for-
mas de decisão ou de incrementalismo das políticas existentes ou no
reconhecimento de demandas de grupos sociais ou identitários na
esfera da superestrutura como uma evolução da política de “bem-es-
tar” social. A inclusão no direito é uma questão disputada em cada
conjuntura, conforme os interesses em jogo.
No neoliberalismo, há cortes de direitos e privatizações que
são apresentados, também, como uma modernização e não como
involução, desmonte, precarização. Uma visão crítica supõe a des-
construção do discurso dominante. São justificações do sistema, in-
clusive, em nome do equilíbrio fiscal, da adaptação à modernidade,
do combate à preguiça e à acomodação dos pobres, envoltas em jus-
tificativas morais.
Os métodos fundados nessa visão justificadora se pretendem
neutros, mas têm como pressuposto a separação entre a estrutura
econômica e a superestrutura jurídico-política. A justificativa está
focada na eficiência, na elaboração das medidas ou no processo de-
cisório com seus atores e valores. Elaboram-se categorias descritivas
do chamado “desenvolvimento das políticas sociais”, sejam ligadas à
gestão, ao processamento de dados, como à elaboração de decisões
com a finalidade de manter ou promover a chamada governança.
Heidemann e Salm (2010) organizaram um livro referente às
tomadas de decisão sobre políticas sociais e às responsabilizações ou
responsabilidades na sua execução, com avaliação da sua evolução,
tomando como pressuposto a “normalidade” do sistema político
existente e do capitalismo. Questionam-se os atores, não o sistema
nem os fundamentos estruturais das políticas sociais, como a repro-
dução da desigualdade, mesmo com políticas que afirmam ser de
redução da desigualdade.
Nesse sentido, há uma tendência em colocar a dinâmica de
formulação das políticas sociais na ênfase maior ou menor da res-
ponsabilização do Estado, do mercado ou das famílias. As políticas
sociais se configurariam diferentemente em cada país, conforme seu

- 57 -
processo histórico, social, econômico e político, segundo a preemi-
nência do mercado, da família ou do Estado na provisão de serviços
ou recursos de proteção social.
Com essa perspectiva, Flora e Heidenheimer (1990) realiza-
ram uma análise das políticas sociais na Europa comparando os di-
versos processos de institucionalização e de urbanização, constatan-
do dados, sem dúvida importantes, mas sem focar nas contradições
estruturais. Ferrera et al (2000) fizeram a associação das políticas so-
ciais com a socialdemocracia, o que é constatável no bloco no poder,
mas sem focar na desigualdade de condições e na proteção do siste-
ma capitalista como um todo ou na proteção social dos mais pobres.
Aureliano e Draibe (1989) retomam a classificação das políticas so-
ciais conforme seu caráter institucional–redistributivo ou provisão
pelo mercado ou família. São categorias que configuram as políticas
sociais, mas não focam nos seus fundamentos. De que Estado, de que
mercado, de que família estão falando?
Esping-Andersen (2010) expressa uma visão incrementalista
das políticas sociais, com a emergência de um “novo Welfare State”
que cobre não só os riscos tradicionais de doença, velhice, invalidez,
acidente, desemprego, mas de novos riscos como monoparentalida-
de e desemprego de longa duração, adaptando-se aos novos papéis
que as mulheres vêm assumindo na sociedade, considerando essa
mudança como revolucionária.
Essa classificação contribui para que se coloquem questões
de aprofundamento da relação entre lutas indenitárias e a estrutura
capitalista de opressão das crianças, das mulheres, dos idosos, dos
negros, dos indígenas e de grupos LGBTQIA+ que sofrem, ao mes-
mo tempo, de forma cumulativa, as opressões da exclusão e da ex-
ploração.
Axel Honneth (2011), ao falar do reconhecimento de grupos,
pressupõe, na análise das políticas sociais, mais racionalidade e mais
razão instrumental na evolução histórico-social das formas de dife-
renciação da razão humana, ao se reconhecerem políticas de respeito
pela diversidade e de reconhecimento de formação de identidades
na sociedade e na política. O reconhecimento de pessoas com de-
ficiência, negros, indígenas nas políticas sociais aparece como uma
evolução pelo maior respeito à diversidade, inclusive, como uma co-
letividade ética. É necessário questionar o conceito de racionalidade

- 58 -
e de ética com os fulcros de análise num contexto de precarizações
dos direitos e da vida. Há demandas que são reconhecidas, outras
desconsideradas. Indígenas brasileiros lutam pelo reconhecimento
de suas terras numa disputa com madeireiros, mineradoras e diri-
gentes estatais neoliberais e predadores, como acontece no governo
Bolsonaro.
Coloca-se o foco em categorias que cifram as relações de do-
minação, ao contrário de decifrá-las. As demandas de movimentos
sociais populares podem ser levadas em conta como uma proposta,
mas como reivindicação de classe. As demandas dos dominantes,
em nome do desenvolvimento econômico ou da modernidade, são
consideradas exigências “normais” de manutenção do capitalismo. A
inclusão de grupos identitários nas políticas é avaliada com o peso
da legitimação do bloco no poder e com o fulcro do reforço no lugar
da exclusão.
A política de assistência social no Brasil, por exemplo, sofreu
mudanças significativas com a Lei Orgânica da Assistência Social
(LOAS), que rompeu com o clientelismo, ao torná-la direito e dever
do Estado. Ela vem sofrendo mudanças na sua efetivação pela conso-
lidação do Sistema Único de Assistência Social- SUAS, mas, ao mes-
mo tempo, sofre restrições e precarizações com o neofilantropismo
e familismo dos governos neoliberais e conservadores que priorizam
a prestação de “auxílios” de personagens doadoras e não o exercício
de direitos. A desigualdade social tende, assim, a ser reproduzida.
Na análise da formulação de políticas, sem questionamento
do sistema desigual, há também a tendência de se considerar sua for-
mulação pela prevalência dos valores expressos pelos seus decisores,
em geral com discursos de atendimento ou amparo aos necessitados.
É fundamental, na ótica da profundidade, que esses discursos sejam
contextualmente analisados, com seus fundamentos numa propala-
da “bondade” ou socorro aos pobres, conforme as expectativas das
classes dominantes.
Desta forma, os valores explicitados na formulação de polí-
ticas sociais não são explicativos das mesmas, mas justificativos das
mesmas no sistema, o que pressupõe sua análise crítica na herme-
nêutica de profundidade. Para Lindblom (2010), as políticas públi-
cas buscam maximizar valores para que se obtenha uma boa relação
entre meios e fins, com maior consensualidade entre os atores en-

- 59 -
volvidos, de forma que seja mais racional para os formuladores no
poder. A segurança jurídica das classes dominantes prevalece sobre
a segurança jurídica dos dominados.
Tanto as classes dominadas como as dominantes demandam
ações do Estado, mas os interesses das últimas é que prevalecem no
Estado capitalista. Para Castel (2005 p. 24), “a demanda do Estado
aparece mais forte nas sociedades modernas do que nas sociedades
que a precederam, onde numerosas proteções-sujeições eram dis-
pensadas, através da participação em grupos de pertença situados
debaixo do soberano”.
A conquista do Estado Democrático de Direito, a partir das
lutas e pressões dos trabalhadores, seja por meio de sindicatos, par-
tidos ou de movimentos, abriu espaço para a participação social,
maior transparência dos gastos públicos e para o controle democrá-
tico das decisões, o que não tem impedido que o Estado seja, na cor-
relação de forças, ainda privatizado por grupos de interesse que fa-
vorecem clientelas ou ganhos e vantagens econômicas, fortalecendo
a hegemonia do bloco no poder, reagindo à redução da acumulação
com diminuição da taxa tendencial de lucratividade (Faleiros, 2009).

Indicadores sociais e avaliações empíricas das políticas


sociais
Na doxa da interpretação denominada de científica pode-se
analisar as políticas sociais somente com dados constatáveis de in-
dicadores empíricos, que alguns autores chamam de evidências das
políticas públicas (Costa et al., 2021). São descritivos de característi-
cas selecionadas tecnocraticamente dentro do sistema.
Estas chamadas evidências se mostram por meio de dados
elaborados em fontes oficiais ou credenciadas, como também em
sites dos bancos, das empresas, em geral, disponibilizados na Inter-
net por empresas como o Google. Há a aparência de que estando no
Google seja isento de vieses, esquecendo-se de que o próprio Google
é enviesado. Ele pode ser uma ferramenta, evidentemente, mas não
critério de fidedignidade.
Segundo esse approach, dados e variáveis seriam constata-
ções isentas da opinião e da subjetividade da pesquisadora ou do
pesquisador, portanto, neutras e, além disso, incontestáveis. Esse
pressuposto é que precisa ser contestado na dialética da profundi-

- 60 -
dade, podendo ser manuseados criticamente e não como “verdades”.
Para Costa et al (2021), essas variáveis constatáveis são fundamentais
para que as decisões sobre políticas sejam eficientes, a partir de suas
“evidências” disponibilizadas. Eficiência do sistema dominante é o
pressuposto.
Essas evidências se configuram por meio de indicadores ou
índices de desempenho de vários setores das políticas sociais para
sinalizar “estabilidade”, “melhora” ou “piora”, limitando-se à análise
das políticas sociais a dimensões abstratas, segmentadas, separadas
do contexto de produção e de reprodução da desigualdade. Os in-
dicadores podem ser agregados por justaposições dentro de uma
previsibilidade de continuidade do sistema que os elabora.
O uso desses indicadores descritivos pode ser útil para uma
primeira aproximação do que o sistema dominante considera rele-
vante nas políticas sociais. A relevância crítica depende de uma teo-
rização e de uma metodologia críticas do próprio sistema dominan-
te. Os indicadores estão dispostos para a funcionalidade do sistema
capitalista e são manipuláveis, como aconteceu, por exemplo, com
os dados das mortes e de contágios do vírus da Covid-19, sem falar
de sua prevenção e tratamento. É importante salientar, no entanto,
que a revisão por pares, em periódicos transparentes cientificamen-
te, contribui para a confiabilidade dos dados e a rejeição a arranjos
de proteção a grupos ou pessoas. A teoria, a metodologia e as fontes
precisam ser confrontadas, pois a busca científica pressupõe a con-
trovérsia.
A avaliação de políticas públicas, segundo Perret (2014), é
uma prática que implica técnicas observacionais e medições, bem
como uma organização institucional de controle de informações, de
gastos e de impactos. A comparação de fontes é um passo impor-
tante para se questionar os interesses em jogo e a sistematização dos
dados, pois eles podem aparecer de formas diversificadas.
Pela crítica hermenêutica é que se aprofunda o questionamen-
to dos dados, das fontes e do conteúdo das pesquisas. Numa análise
de profundidade, os indicadores vão adquirir uma significação críti-
ca, se interpretados em suas limitações.

- 61 -
Teoria, metodologia e história
Está muito presente nas pesquisas e análises em política social
a comparação das formulações investigativas dos estudos em que se
abordam períodos diferentes, por exemplo, de governos sucessivos e
de blocos históricos no poder.
Nos estudos de políticas sociais da terceira década do século
XXI, comparam-se as políticas sociais de antes e depois da pandemia
da Covid-19. Utilizam-se tanto de marcadores empíricos como de
conceituações sobre tipos de governo e de relação com a globaliza-
ção. Por exemplo, a pergunta se Joe Biden seria melhor que Donald
Trump no combate à pandemia e na redução da desigualdade pre-
cisa ser contextualizada na economia e na política norte-americana
interna e, ao mesmo tempo, globalizada e hegemônica no mundo.
Buscando articular teoria e história, Burke (2002) assinala que
é preciso usar com cuidado teórico o conceito de modelos compa-
rativos ou mesmo tipos ideais, tendo em vista as peculiaridades de
cada conjuntura ou de países. Decorre disso a importância das esco-
lhas teóricas da pesquisa e dos conceitos articulados à profundidade
e à história. A elaboração comparada se torna mais profunda à medi-
da que se considera o sistema socioeconômico e político (estrutura,
superestrutura, conjuntura) com elaboração teórica de dimensões
que explicitem as presenças e ausências de caracterizações de um
conceito central e fundamental. Burke (2002, p. 50) mostra dimen-
sões opostas na análise de um sistema patrimonial e de um sistema
burocrático.
Além da consistência e coerência comparativas, é preciso le-
var em conta a escolha de abordagens qualitativas e quantitativas.
Uma elaboração qualitativa pode se integrar à elaboração quantitati-
va, configurando o que se denomina de triangulação metodológica,
incluindo nessa triangulação a elaboração de quem formula a pes-
quisa.
Piketty (2014) mostra a relação entre renda e capital com ên-
fase numa visão quantitativa, usando fontes e dados para estudar a
distribuição de renda numa perspectiva histórica que lide com a de-
sigualdade. A partir de sua análise quantitativa, Piketty (2014) chega
à fórmula r > g, sendo r é a taxa de remuneração do capital e g é a
taxa de crescimento. É uma síntese qualitativa e quantitativa, ao mes-
mo tempo. Para essa formulação, Piketty (2014) trabalha os dados

- 62 -
e sua interpretação num quadro teórico e conceitual da relação de
desigualdade com o capitalismo. A utilização de dados quantitativos
relaciona o salário mínimo com a renda dos ricos, assumindo uma
visão crítica da relação capital/trabalho, retomando as análises de
Marx relativas ao século XIX.
A escolha da metodologia não se separa da teoria, como foi
demonstrado ao longo deste texto. A análise das políticas sociais
precisa ser referenciada nos seus fundamentos teóricos, conceituais e
epistemológicos. Este é o desafio de qualquer pesquisador nesta área.
Distinguir uma política social no liberalismo e no neolibera-
lismo, na relação estrutura/superestrutura/forças sociais, vai apro-
fundar a análise de dimensões e indicadores que levem em conta a
participação, as lutas sociais e de classe, na sua implementação, na
conjuntura e nos conflitos de blocos no poder.
A dinâmica dos conflitos da cidadanização com a desigual-
dade da exploração e da dominação é um eixo de análise subjacente
à construção teórico-metodológica da pesquisa crítica em políticas
sociais.
A relação contraditória estrutura/superestrutura/conjuntura
se expressa em aprofundamento das crises do capitalismo e no arran-
jo político, com a intervenção do Estado para garantir sua reprodu-
ção em escalas reprodutoras da desigualdade. Os recuos do bloco no
poder para redução da desigualdade é um processo de confrontos,
de correlação de forças e lutas sociais (Faleiros, 2009:105) para pau-
tar e assegurar direitos. Essa teoria transpassa minha metodologia.

Considerações finais
A análise de profundidade pressupõe a consideração do pro-
cesso de globalização e de desregulamentação do estado, na disputa
de hegemonia e de contra-hegemonia das classes e forças sociais por
seus interesses.
A construção de um marco teórico crítico é que fundamen-
ta uma metodologia crítica, dando mais profundidade à análise das
políticas sociais, considerando a relação dialética entre estrutura e
superestrutura, distinguindo os discursos dos grupos dominantes
daqueles discursos dos dominados.
As falas dos dominados e excluídos podem ser contrapostas,
inclusive, para mostrar que os discursos de fatalidade da pobreza e

- 63 -
de neutralidade da ciência se combinam numa representação da pró-
pria análise das políticas sociais como construção de justificativas da
desigualdade ou de sua superação.
A focopolítica (Leguizamón, 2008) é uma nova maneira de
governar os mais pobres entre os mais pobres, para controlá-los. A
focopolítica está centrada em mínimos de “vulnerabilidade’ ou de
“miserabilidade” revelando precarização das políticas, ao mesmo
tempo que justifica um denominado empreendedorismo para a ges-
tão do social pela produtividade.
As formas que o capitalismo assume para a gestão do social e
formulação de políticas é o foco crítico da análise da profundidade.
Há significativas mudanças no controle dos beneficiários das políti-
cas sociais com o uso das tecnologias da informação que permitem
um controle centralizado da alocação de recursos. A focopolítica se
articula à macropolítica e, hoje, à necropolítica, no sentido de man-
ter as regras que favorecem não somente a acumulação da riqueza
nas mãos dos ricos, mas o extermínio dos pobres “improdutivos”.
É necessário, portanto, numa análise de profundidade, consi-
derar a proteção social no contexto do capitalismo financeiro globa-
lizado, inclusive, com o estímulo ao consumo e ao endividamento.
A privatização dos serviços públicos acentua a responsabilização do
indivíduo e a desresponsabilização do Estado.
As questões de mudança do Estado e do sistema de proteção
social implicam a discussão das relações entre economia, sociedade
e Estado na garantia de direitos, pois os pactos de direitos e media-
ções institucionais dependem das relações de poder e correlações de
força.
Pressupõe-se que o Estado seja entendido como uma relação
social complexa, histórica, marcada pelas contradições da sociedade,
refletindo a relação de hegemonia e contra-hegemonia, expressando
mais ou menos autonomia (Poulantzas, 1976). A política social re-
laciona a questão distributiva da renda com a questão da relação de
poder. Os grupos hegemônicos, à medida que controlam os recursos
do Estado, também articulam o apoio das massas, mobilizando re-
cursos públicos como subsídios, benefícios, distribuição de prendas,
troca de favores e de influência e até compra de votos.
Por outro lado, a população também exerce pressão para ob-
ter dinheiro, renda ou benefícios numa luta desigual com os grupos

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dominantes, mas mais vulnerabilizada e enfraquecida, se estiver de-
sorganizada e em situação de miséria ou pobreza.
A relação entre a questão distributiva e a questão do poder é
um dos núcleos centrais das políticas sociais, configurando as dispu-
tas na formulação e na execução das mesmas. A teoria, a metodolo-
gia e a crítica precisam andar juntas na análise de profundidade das
políticas sociais.

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- 67 -
- 68 -
Fundamentos do Serviço Social e Política Social:
versos e anversos da pós-graduação no Brasil
Marileia Goin
Hayeska Costa Barroso
Elementos para introduzir o enredo
A literatura profissional crítica, associada à interlocução com
outras áreas do conhecimento, nos últimos lustros, tem adensado
e maturado as concepções em torno dos Fundamentos do Serviço
Social, do processo de gênese, profissionalização e desenvolvimento,
consolidando a “questão social”1 enquanto objeto de intervenção e
as políticas sociais como loci de trabalhos atravessados por contra-
dições e conflitos.
É, sobretudo, considerando a indivorciabilidade entre pro-
fissão e política social que a temática assegura, histórica e proces-
sualmente, lugar de notoriedade no Serviço Social brasileiro, seja
na graduação, seja na pós-graduação. De modo particular, na pós-
-graduação stricto sensu, cuja constituição demarca os anos 1970,
política social e Serviço Social mantém uma histórica e imbricada
correlação, quer como área de avaliação, quer como área de concen-
tração. No Brasil, segundo a Plataforma Sucupira2 (BRASIL, 2021),
existem 7.053 cursos de pós-graduação (entre mestrados e doutora-
dos, acadêmicos e profissionais) distribuídos em 4.631 programas
de pós-graduação. Nesse universo, 36 programas de pós-graduação
(totalizando 36 cursos de mestrado acadêmico e 20 cursos de douto-
rado acadêmico) possuem o Serviço Social como área de avaliação.
Diante deste quadro circunstancial, vislumbra-se a proposta
deste artigo: sumariar a relação entre Serviço Social e política so-
cial, ao oferecer insumos para analisar, crítica e teoricamente, quão
1 “A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimen-
to da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu re-
conhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no
cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa
a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão” (CARVALHO;
IAMAMOTO, 1983, p. 77).
2 A Plataforma Sucupira é um sistema de coleta de dados, análise e avaliação periódica
da pós-graduação no Brasil, constituindo-se como base de referência para o Sistema Na-
cional de Pós-Graduação (SNPG).

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imbricadas se encontram e, ademais, sintonizar como esse nexo se
expressa na pós-graduação da área, uma vez que o ponto nodal dessa
articulação é o Serviço Social e seus Fundamentos. Trata-se, portan-
to, como premissa, que esta é uma pauta que não deve ser abando-
nada e, muito menos, subestimada, na eminência de desprofissiona-
lização do debate e sectarização da política social, sem mediá-la na
sua relação orgânica com o Serviço Social.
Fruto de revisão de literatura relativa ao tema e de pesquisa
documental, o artigo está divido em dois tópicos. O primeiro assenta
as bases e fundamentos da profissão no cenário de reprodução da
vida social e sua interface com as políticas sociais, enquanto anteci-
pação estratégica do Estado para o controle e administração da força
de trabalho. A partir deste esboço, o segundo analisa em que medida
esse diálogo entre Serviço Social e política social está presente nos
programas de pós-graduação, quer na área de avaliação “Serviço So-
cial”, quer nas áreas de concentração sob as quais se estruturam as
linhas de pesquisa dos respectivos programas, de modo a evidenciar
como os Fundamentos da profissão se encontram evidenciados, ao
passo que é em torno da profissão que o debate acerca das políticas
sociais é proferido e, ademais, é o seu ponto de partida que aufere
proeminência.
A sinfônica sintonia entre os Fundamentos do Serviço Social
e as políticas sociais
O acúmulo expresso pela produção do conhecimento no
Serviço Social brasileiro, nas últimas décadas, é acurado no que tange
à relação inerente entre Serviço Social e política social. Sua existência
demanda o trabalho de uma profissão de natureza interventiva,
inicialmente em escala de implementação – ou, como refere José
Paulo Netto (2001), em sua “execução terminal”1. Não há divergên-
cias quanto a isso. Todavia, é elementar referir que essa apreensão
é decorrente do acúmulo teórico que a profissão vem adquirindo,
principalmente a partir do final dos anos 1970, e, fundamentalmen-
te, quando reconceitua as bases e os alicerces que fundamentam o
1 “[...] põe-se a demanda de atores da mais variada ordem, entre os quais aqueles que
se alocam prioritariamente no patamar terminal da ação executiva – o ponto em que os
diversos vulnerabilizados pelas sequelas e refrações da ‘questão social’ recebem a direta
e imediata resposta articulada nas políticas sociais setoriais. Neste âmbito está posto o
mercado de trabalho para o assistente social: ele é investido como um dos agentes execu-
tores das políticas sociais” (NETTO, 2001, p. 74, grifos do autor).

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Serviço Social e o cunho de suas formas particulares no modo de
produção capitalista, do seu modo de ser e existir, do seu aparato
ideo-político, do seu ethos profissional, do seu significado social e
histórico e de sua dimensão teleológica.
Ademais, se essa aderência entre Serviço Social e política so-
cial procede, em uma sinfonia que não abandona sua sintonia, não
é falha a defesa de que tanto essa relação como a conceituação de
política social é derivada desse acervo profissional e, portanto, não
pode suspender o seu ponto de partida analítico, que está ancorado
a partir do Serviço Social e dos seus Fundamentos – que perpassam
a apreensão da vida social, da realidade brasileira e da profissão nos
limites do modo de produção capitalista.
Na graduação ou na pós-graduação, a política social, asserti-
vamente, ocupa espaço de destaque, uma vez que, como “mediação
entre economia e política, como resultado de contradições engen-
dradas pela luta de classes e delimitadas pelos processos de valori-
zação do capital” (BEHRING, 2009, p. 302), é por meio dela que “o
Estado burguês no capitalismo monopolista procura administrar as
expressões da ‘questão social’ de forma a atender às demandas da or-
dem monopólica conformando [...] sistemas de consenso variáveis,
mas operantes” (NETTO, 2001, p. 30, grifos nossos).
Sobretudo, as respostas às demandas oriundas das expressões
de desigualdades e resistências da classe trabalhadora - a conhecida
questão social - tornam-se objeto de intervenção estatal, contínua e
sistematicamente, quando consistem em ameaças e riscos de manu-
tenção da ampliação exponencial do capital ou, ao revés, em possibi-
lidade de suas demandas serem canalizadas ou reordenadas em face
dos interesses da edificação dominante.
Indispensável destacar, nesta linha argumentativa, que “é só a
partir da concretização das possibilidades econômico-sociais e po-
líticas segregadas na ordem monopólica [...] que a ‘questão social’
se põe como alvo de políticas sociais” (NETTO, 2001, p. 29, grifos
do autor). Notadamente, a institucionalização das demandas sociais
pelo Estado assume caráter paradoxal, ao responder politicamente à
classe trabalhadora – facilmente capturada pelo discurso democrá-
tico e pela difusão da ideologia dominante –, e, principalmente, à
concreção das condições adequadas à manutenção e ao desenvolvi-
mento da racionalidade burguesa.

- 71 -
Dessa forma, apesar de o terreno das políticas sociais estar pa-
rametrizado por conflitos e disputas, ao passo que se constitui de
respostas à ordem monopólica e, ao mesmo tempo, aos anseios pro-
letários, donde derivam contradições e antagonismos, é pela inter-
face com as políticas sociais que a profissão dinamiza sua dimensão
interventiva – seu trabalho propriamente dito – fincada na realidade,
a partir de situações concretas e determinadas.
O Serviço Social como profissão, ocupante de uma particu-
laridade técnica na divisão social do trabalho, se situa nos marcos
da ordem monopólica do capital, em que o desempenho de suas re-
quisições e atribuições está explicitamente reconhecida e caucionada
pelo Estado2. Sob este aspecto, a profissão é indivorciável da ordem
monopólica, pois funda sua profissionalidade na interlocução com
as políticas sociais, especificamente na malha de reprodução das re-
lações sociais – cujo acúmulo de Iamamoto e Carvalho (2008), Yaz-
bek (2009), Lessa (1999), Redon e Campos (2020), dentre outros,
dão pistas para sintonizar as várias dimensões que permeiam a tra-
ma das relações em sociedade.
Nesta esteira, a constituição dos espaços sócio-institucionais
executores de políticas sociais configura os condutos da emergência
e da consolidação do mercado de trabalho ao/a Assistente Social,
fundamento que tecnicamente o/a coloca numa condição particu-
lar, ao passo que, ao sofrer os impactos das contraditórias relações
oriundas das formas variadas de gestão do trabalho com a sua ven-
da da força de trabalho, também dialoga profissionalmente com a
população usuária dos seus serviços, impactadas por essas mesmas
relações e rebatimentos decorrentes. Infere-se, com isso, que não é
a profissão que constitui os espaços ocupacionais, mas a existência
desses que leva à constituição profissional e à ruptura com as pro-
toformas, cuja continuidade evolutiva já foi ampla e teoricamente
superada no campo da literatura profissional.
Assim, a profissão se institucionaliza no marco das políticas
sociais (públicas e privadas), as quais legitimam os interesses da clas-
2 “[...] como instância da política econômica do monopólio, é obrigado não só a as-
segurar continuamente a reprodução e a manutenção da força de trabalho, ocupada e
excedente, mas é compelido (e o faz mediante os sistemas de previdência e segurança
social, principalmente), a regular a sua pertinência a níveis determinados de consumo e a
sua disponibilidade para a ocupação sazonal, bem como a instrumentalizar mecanismos
gerais que garantam a sua mobilização e alocação em função das necessidades e projetos
do monopólio” (NETTO, 2001, p. 27).

- 72 -
se burguesa mediante o Estado, tipicamente classista, e o trabalho
profissional, ao implementar serviços sociais por meio de políticas
sociais gestadas e geridas pelo Estado que, neste cenário, assume ní-
tido caráter classista e de atividade auxiliar e subsidiária de difusão
da ideologia dominante junto à classe trabalhadora, por outorgar a
dinamização do trabalho produtivo no seio da reprodução das rela-
ções sociais (IAMAMOTO; CARVALHO, 2008) – leia-se reprodu-
ção da força de trabalho. Dessa forma, “a ambiguidade do [traba-
lho] profissional revela a própria ambiguidade dos serviços sociais,
funcionais tanto à classe capitalista, quanto a classe trabalhadora”
(REDON; CAMPO, 2020, p. 401).
Assim, podemos afirmar que o Serviço Social participa tanto
do processo de reprodução dos interesses de preservação do capital,
quanto das respostas às necessidades de sobrevivência dos que vivem
do trabalho. Não se trata de uma dicotomia, mas do fato de que ele
não pode eliminar essa polarização de seu trabalho, uma vez que as
classes sociais e seus interesses só existem em relação” (YAZBEK,
2009, p. 128).
A depender da conjuntura política e econômica, as políticas
sociais se movimentam para responder tensões da luta de classes,
mas sem perder de vista as múltiplas determinações que a configu-
ram (BEHRING, 2009). Essa face interpela o Serviço Social, dada
uma conjuntura cada vez mais desigual, cujo crescimento da po-
breza, desemprego e concentração de renda retratam dissenções da
realidade nua e crua da vida da população usuária dos seus serviços
e a natureza das demandas profissionais no âmbito das instituições
em que se inserem, sendo requisitado, essencialmente, para admi-
nistrar “os pobres” no âmbito de “políticas pobres” – emergenciais,
assistenciais, focalizadas e, cada vez mais, caracterizadas pelo re-
baixamento da/na qualidade serviços públicos ofertados. Ademais,
as taxas de crescimento estagnadas ou negativas, o endividamento
público – cujos dados da dívida pública ultrapassam 5 trilhões3 – o
predomínio do capital especulativo, a polaridade política, a crise das
instituições democráticas, a crise sanitária (e humanitária) e a face
racista, machista e xenofóbica que paira sobre o Palácio do Planalto
são retratos da dissintonia das notas sinfônicas que regem e impac-
tam a realidade de brasileiros e brasileiras de carne e osso.
3 Conforme dados disponíveis na Agência Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.
ebc.com.br/economia/noticia/2021-05/divida-publica-federal-cai-292-em-abril-e-vai-
-para-r-508-tri . Acesso em: 27 ago. 2021.

- 73 -
Hodiernamente, a face residual e focalizada, sedimentada
no constante corte de gastos públicos – no qual a limitação do Teto
dos Gastos torna-se um exemplo contundente – configura a política
social estatal, atravessada pelas históricas contradições e antagonis-
mos, os quais constituem, assim como outrora, o principal motor do
mercado de trabalho profissional e uma marca tatuada na profissão,
considerando as 78,16% dos/as assistentes sociais com vínculo tra-
balhista em instituições públicas de natureza estatal, essencialmente
junto à formulação, planejamento e execução de políticas sociais no
âmbito dos municípios, com destaque para as políticas de seguridade
social (IAMAMOTO, 2009)4.
No contexto dos elementos aludidos, é notória a relação orgâ-
nica entre política social e Serviço Social, uma vez que a configura-
ção da primeira impacta, direta e indelevelmente, no segundo, seja
pela face de como a configuração da primeira rebate na vida concreta
dos usuários que os/as assistentes sociais atendem diretamente com
a prestação dos serviços sociais, seja nas condições éticas e técnicas
do trabalho profissional no conjunto dos espaços técnico-ocupacio-
nais.
Nitidamente, desocultar as múltiplas determinações aqui ex-
postas, mesmo que com brevidade, pressupõe que a profissão não
abandone o fio condutor teórico, ético, político e técnico que a parti-
culariza no cenário pulverizado de contradições do capitalismo, em
sua face especulativa. É a partir dessa apreensão e difusão no âmbito
do Serviço Social – tendo em vista esse fio condutor –, que é inad-
missível a suspensão do Serviço Social e seus Fundamentos na dis-
cussão acerca das políticas sociais, tratando-as como se deles fossem
independentes, arredáveis de sua relação orgânica. É exatamente a
condução comum da análise que as articula e as coloca num patamar
de existência partilhada. Outrossim, o debate que se segue está anco-
rado nos indicadores da pós-graduação na área de Serviço Social, de
modo a demarcar as suas feições atuais, e, por fim, mas não menos
importante, analisar criticamente como as tendências históricas da
4 Iamamoto (2009) realiza essa discussão a partir da sistematização dos dados da pes-
quisa do Conselho Federal de Serviço Social, realizada em 2004, que delineou o perfil
profissional dos/as Assistentes Sociais no Brasil. Decorridos 17 anos desde a referida
pesquisa, urge a atualização de tais informações, sobretudo no sentido de apontar a con-
temporânea face do Serviço Social brasileiro, cujos contornos certamente foram afetados
pelas transformações de monta que atingiram a vida social, econômica e política, nacio-
nal e internacionalmente, no lastro do avanço do capitalismo nas duas últimas décadas.

- 74 -
relação orgânica entre Serviço Social e política social repercutiram
na consolidação do primeiro como área de conhecimento reconhe-
cida pelas instâncias nacionais de fomento à pesquisa – tais como o
Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e a Coordenação de Aper-
feiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

O Serviço Social como área de conhecimento e a pós-gra-


duação no Brasil: alguns indicadores para análise
A conquista da chamada “maturidade intelectual” do Servi-
ço Social no Brasil está umbilicalmente vinculada à confluência dos
determinantes sociais, econômicos, políticos e culturais que atraves-
sam a profissão no país, no trânsito de seu processo de negação e
ruptura com o conservadorismo, na aproximação com os movimen-
tos sociais, na participação nas lutas sociais em favor da democracia,
bem como na interlocução teórica e política com a teoria social crí-
tica.
Os anos 705 prenunciaram o “encontro do Serviço Social
consigo mesmo” (BOURGUIGNON, 2007) efetivado na década se-
guinte, quando as políticas sociais se consolidaram como tema da
maior parte das produções acadêmicas da pós-graduação nos anos
1980 – atestando, com isso, a imbricada relação entre a produção de
conhecimento e o trabalho profissional (BOURGUIGNON, 2007).
O Gráfico 1 ilustra a linha do tempo da criação dos cursos de mes-
trado e doutorado na área de Serviço Social.

5 Data de 1971 a criação do primeiro curso de pós-graduação em Serviço Social no Bra-


sil, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), cujo início das atividades
se deu no ano seguinte, em 1972.

- 75 -
Gráfico 1 – Linha do tempo da pós-graduação na área de Serviço Social,
no Brasil

Fonte: Plataforma Sucupira (2021). Elaboração própria das autoras.


Decorridos quase 50 anos desde a criação do primeiro mes-
trado, a pós-graduação stricto sensu na área de Serviço Social, no
Brasil, testemunha sua própria expansão, numérica e qualitativa –
sobretudo, nos últimos 30 anos, pari passu aos processos de consti-
tuição histórica do seu projeto ético-político profissional. À guisa de
uma maturidade intelectual alcançada nos anos 1980, é a partir da
década seguinte que se verifica seu avanço, consolidando a pós-gra-
duação em território nacional. Situa-se, portanto, “dentro do pro-
cesso de expansão da pós-graduação brasileira e, ainda, na expansão
das Instituições de Ensino Superior no país” (BRASIL, 2016, p. 04).
Se até o final da década de 1980 existiam 6 mestrados e 1 dou-
torado, em 2021 já são 36 mestrados e 20 doutorados, o que equivale
a um aumento proporcional de 500% nos primeiros e 1.900% nos
segundos. A cartografia da pós-graduação na área de Serviço Social
revela, ainda, uma assimétrica e desigual distribuição no país, cuja
maior presença se verifica nas regiões sudeste e nordeste – conforme
aponta o Gráfico 2. As duas regiões, juntas, concentram aproximada-
mente 67% dos programas de pós-graduação em Serviço Social em
solo brasileiro. É válido ressaltar, outrossim, que todos os cursos de
mestrado e doutorado na área de Serviço Social são de natureza aca-
dêmica, ou seja, inexistem na área cursos de natureza profissional6.
6 A este respeito, a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social
(ABEPSS), gestão 2011-2012, divulgou um documento intitulado “A polêmica sobre o

- 76 -
Gráfico 2 – Pós-Graduação na área de Serviço Social no Brasil, por região

Fonte: Plataforma Sucupira (2021). Elaboração própria das autoras.


Periodicamente, a cada 4 anos, a CAPES realiza a avaliação
dos cursos de pós-graduação – as conhecidas avaliações quadrienais
–, que reúne os principais indicadores sobre o corpo docente e dis-
cente, pesquisas concluídas ou em andamento, projetos e produções
bibliográficas, técnicas e artísticas, bem como informações com-
plementares sobre as atividades atinentes aos cursos no âmbito da
pós-graduação. Para tanto, a CAPES classifica 49 áreas de avaliação,
agregadas por critérios de afinidade, em dois níveis: 1) Três Colégios
e 2) Nove Grandes Áreas. O Serviço Social está situado no Colégio
de Humanidades, na Grande Área das Ciências Sociais Aplicadas.
O Conceito CAPES, como é chamado, atribui notas de 1 a 7
para a avaliação dos programas de pós-graduação no Brasil, sendo 5
a nota máxima para programas que possuem apenas mestrado, e 6 e
7 para os programas com doutorado, cuja avaliação indica elevados
padrões de desempenho em nível internacional. Na área de Serviço
Social, a maior parte dos programas, cerca de 64% (23 em números
absolutos), possui avaliação com notas 3 e 4; 25% estão avaliados
mestrado profissional e a área de Serviço Social – Subsídios à reflexão”, elaborado pela
Coordenadora Nacional de Pós-Graduação da entidade àquele período, Profa. Dra. Yo-
landa Guerra, com o objetivo de fomentar e subsidiar o debate sobre a temática. Dentre
outros aspectos, o documento afirma: “A estratégia mestrado profissional vem se escon-
dendo sob o invólucro mistificador da constituição de uma democratização que combata
o teoricismo da academia e invista em perfis tecnicistas tendendo a compor uma tecno-
burocracia, em especial voltada para a gestão das políticas públicas e sociais, projetos e
programas sociais” (GUERRA, 2012, p. 12).

- 77 -
com notas 5 e 6, e apenas 1 programa de pós-graduação (PUC-SP)
é avaliado com a nota máxima 77, conforme indicado no Gráfico 3.

Gráfico 3 – Conceito CAPES. Pós-Graduação na área de Serviço Social

Fonte: Plataforma Sucupira (2021). Elaboração própria das autoras.

Tem-se, portanto, um panorama acerca dos principais con-


tornos da pós-graduação na área de avaliação8 de Serviço Social9.
Cada programa, contudo, possui particularidades em relação à sua
proposta curricular e aos seus componentes obrigatórios e optativos.
Dentre os 36 programas de pós-graduação na área de avaliação de
Serviço Social, nem todos fazem menção explícita ao Serviço So-
cial. Assim, têm-se programas apenas de política social, ou apenas
de políticas públicas, ou destes associados ao Serviço Social, como
explicita a Tabela 1.

Tabela 1 – Programas de Pós-Graduação na área de Serviço Social


7 Há 3 programas que ainda não possuem nota relativa ao Conceito CAPES, dado que
foram criados no ínterim do período considerado na última avaliação quadrienal.
8 Embora semelhantes, área de avaliação e área de concentração não são sinônimos
quando mencionadas no quadro referencial analítico da CAPES. Serviço Social é uma
das 49 áreas de avaliação. Cada programa de pós-graduação é avaliado em uma área de
avaliação específica, e pode possuir algumas áreas de concentração de seus estudos e
linhas de pesquisa.
9 Dentre os programas de pós-graduação situados na área de avaliação de Serviço Social,
por exemplo, tem-se o Programa de Pós-Graduação em Economia Doméstica, na Uni-
versidade Federal de Viçosa.

- 78 -
Nome do Programa Quantidade
Política Social 04
Política Social e Serviço Social 04
Serviço Social 19
Políticas Públicas 03
Política Social e outros 10
02
Serviço Social e outros 11
03
Economia Doméstica 01
Fonte: Plataforma Sucupira (2021). Elaboração própria das autoras.

Nota-se, portanto, a prevalência do Serviço Social nos no-


mes dos Programas: isoladamente, corresponde a quase 53% do total
da pós-graduação na área de Serviço Social. Faz-se presente também
quando associado a outras temáticas, como Política Social, Direitos
Sociais, Trabalho, Questão Social e Desenvolvimento Regional. É
mister destacar, ainda, outra constatação revelada pelos dados aci-
ma: 10 programas de pós-graduação na área de avaliação de Serviço
Social não possuem qualquer menção ao Serviço Social no nome
do programa, o que equivale a aproximadamente 28% do total dos
programas da área. Não por coincidência, esses mesmos programas
não possuem nenhuma de suas áreas de concentração de estudos e
pesquisas destinadas ao Serviço Social. No tocante a estas, o total de
36 programas de pós-graduação soma 59 áreas de concentração12.
Na Tabela 2, é possível visualizar a incidência das temáticas mais
mencionadas nas áreas de concentração:

10 Política Social e Territórios (UFRB); e Política Social e Direitos Humanos (UCpel).


11 Serviço Social e Direitos Sociais (UERN); Serviço Social, Trabalho e Questão Social
(UECE); e Serviço Social e Desenvolvimento Regional (UFF).
12 21 programas de pós-graduação possuem apenas uma única área de concentração. Os
demais possuem de 2 até 5 áreas de concentração.

- 79 -
Tabela 2 – Principais temáticas das Áreas de Concentração na Pós-
Graduação de Serviço Social
Temática Quantidade
Serviço Social 34
Política Social 29
Trabalho 9
Questão Social 8
Estado 5
Fonte: Plataforma Sucupira (2021). Elaboração própria das autoras.

Serviço Social, Política Social, Trabalho, Questão Social e
Estado são, portanto, as temáticas mais presentes nas áreas de con-
centração da pós-graduação em Serviço Social no Brasil, com desta-
que para as duas primeiras. A incidência do Serviço Social nas áreas
de concentração, contudo, não é acompanhada pela abordagem de
seus respectivos Fundamentos, os quais estão explicitados em ape-
nas duas áreas de concentração e, ainda assim, relacionados ao tra-
balho profissional13.
Considerando o universo das disciplinas obrigatórias dos
programas de pós-graduação na área de Serviço Social, todos aque-
les cujo nome do programa também incorpora o Serviço Social pos-
suem, no seu escopo, disciplinas específicas sobre a profissão, a qual
acaba sendo majoritariamente abordada na sua relação com as po-
líticas sociais, a questão social e o Estado – reproduzindo, portanto,
a mesma tendência das áreas de concentração. O debate sobre os
Fundamentos do Serviço Social como componente obrigatório é vi-
sualizado apenas em oito programas14; os demais, quando o fazem,
realizam-no a partir de disciplinas optativas.
13 Os fundamentos do Serviço Social estão enunciados nos nomes das áreas de concen-
tração da seguinte forma: 1) Serviço Social, fundamentos e prática profissional (PUC-
-SP), e 2) Fundamentação Teórico-Prática do Serviço Social (UFPB).
14 O debate sobre os Fundamentos do Serviço Social está enunciado nas disciplinas
obrigatórias, mas nem sempre explicitado através do nome da disciplina. Assim, quan-
do se fala que o debate está presente é porque também foi levado em consideração não
somente o nome das disciplinas, mas seu conteúdo programático e referências biblio-
gráficas. Assim, a abordagem dos Fundamentos está presente nas seguintes disciplinas:
Fundamentos Sócio-Históricos do Serviço Social; Tendências teórico-metodológicas no
Serviço Social contemporâneo; Fundamentos do Serviço Social na contemporaneidade;
Tendências teórico-metodológicas do Serviço Social; Fundamentos do Serviço Social;
Serviço Social: movimento histórico e tendências teórico-metodológicas. Os Fundamen-
tos são citados direta e explicitamente no nome de cinco disciplinas obrigatórias.

- 80 -
Na esteira aludida, é notório que a face contemporânea da
pós-graduação em Serviço Social no Brasil carrega consigo as mar-
cas históricas da trajetória da profissão nos seus processos de amadu-
recimento teórico-metodológico, ético-político e técnico-operativo.
Não é à toa, nem tampouco coincidência, o fato de que a abordagem
sobre seu objeto de trabalho – a questão social, em suas múltiplas e
heterogêneas manifestações –, as políticas sociais – “campo da práti-
ca profissional por excelência” (SPOSATI, 2007) – e o Estado esteja
presente com certa predominância desde as áreas de concentração
até a definição dos conteúdos das disciplinas obrigatórias. Seria pos-
sível afirmar que este quadro temático ratifica a ideia, já desenvolvi-
da por Iamamoto (2004), de que existe uma relação mimética entre
Serviço Social e política social? Que repercussões tal mimetismo traz
para o perfil profissional forjado no bojo da pós-graduação? Se essas
temáticas prevalecem em detrimento do debate sobre os Fundamen-
tos do Serviço Social, é preciso problematizar o significado desta evi-
dência, bem como o que ela é capaz de revelar acerca das tendências
na produção de conhecimento e na pesquisa na pós-graduação em
Serviço Social no país.

Considerações inconclusivas sobre a presença das políticas


sociais e dos Fundamentos na pós-graduação em Serviço
Social
A face orgânica entre Serviço Social e política social é incon-
teste, ao passo que é a partir da existência da segunda que se edificam
as bases para a constituição do primeiro. Não restam dúvidas acerca
desta tese, que vem sendo maturada desde que se inaugura a interfa-
ce com a tradição marxista no Serviço Social brasileiro.
Todavia, apesar da inegável articulação, a política social é con-
cebida em loci de inserção técnico-operativa dos/as profissionais de
Serviço Social, portanto, concebida como estratégia elementar de
atendimento às demandas emanadas das múltiplas manifestações
da questão social no âmbito da sociedade capitalista – em outras
palavras, de acesso a serviços para a população usuária. É por seu
intermédio que o modus operandi do Serviço Social ganha tônus e
fortalece seu diálogo profícuo com a realidade social, pois é nela que
as determinações sociais se explicitam e se multiplicam, vertiginosa-
mente, em face das relações indignas a que os sujeitos sociais estão
submetidos, cotidianamente.

- 81 -
Nessa via, há que se reconhecer que a política social aufere
centralidade no Serviço Social. E tem seus porquês. Entretanto, sua
centralidade é reconhecida a partir da densa e sólida maturação dos
Fundamentos do Serviço Social, que permitem, antes de tudo, lapi-
dar a profissão e sintonizar seus laços sócio-históricos com o desen-
volvimento do modo de produção capitalista. Ademais, é derivada
dessa concepção, de cariz onto-crítico, que se permite localizar a re-
lação da profissão com a política social.
Nota-se, com isso, o limbo que os programas de Pós-Gradua-
ção na área de Serviço Social constituem ao colocar em patamar
secundário, ou até inexistente, os Fundamentos do Serviço Social
– solo basilar do Serviço Social, área de avaliação dos Programas.
Urge, sem titubear, a necessidade de pautar esses dados de realidade
na área, pois reafirma-se novamente, dentre os elementos que in-
troduziram o enredo desenvolvido, que esta é uma pauta que não
deve ser abandonada e, muito menos, subestimada, na eminência de
desprofissionalização do debate e sectarização da política social, como
autônoma e suspensa do Serviço Social, equivocamente.

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- 84 -
Cultura política:
uma chave analítica para reflexões sobre
política social no Brasil
Angela Vieira Neves
Melina Sampaio de Ramos Barros
Thaís Kristosch Imperatori

Introdução
O objetivo deste artigo é apresentar um debate teórico e críti-
co sobre as concepções de cultura política, no sentido de explicitar
como o conceito serve de chave analítica e pode subsidiar a refle-
xão das particularidades da política social no Brasil à luz da par-
ticipação social. Para tanto, compreende-se a política social como
produto de processos multideterminados, históricos e contraditórios
construídos a partir da relação conflituosa entre diferentes grupos de
interesses e classes sociais que se movem no terreno do Estado e da
sociedade civil.
Assim, a política social pode ser considerada como fruto de
mobilizações sociais das classes subalternas, que tensionam e dispu-
tam os espaços de poder de decisão e de representatividade, e o pró-
prio controle sobre sua reprodução vital no capitalismo (PEREIRA,
2008; PEREIRA, 2009). Ao mesmo tempo, de forma contraditória, a
política social também atende aos interesses das classes dominantes
que a reivindicam para garantir a reprodução ampliada da força de
trabalho, além de ser utilizada como estratégia para a legitimação do
poder político hegemônico.
Para analisar a política social, portanto, entende-se que é fun-
damental apreender a relação dialética entre estrutura e história.
Esta dinâmica permite compreender as raízes existentes do avanço,
recuo ou imobilismo que ocorrem no reconhecimento coletivo do
atendimento às necessidades sociais mediante a concretização de di-
reitos sociais. Nesta relação também está presente a cultura política,
que se refere ao processo de construção social em torno do político, e
se desenvolve no espaço das práticas e das instituições determinadas
pelas relações e disputas por poder.

- 85 -
O presente artigo está estruturado em três seções. Na pri-
meira, recupera-se a trajetória conceitual da cultura política e a in-
corporação da interpretação marxista do conceito. Em seguida, são
apresentados os principais elementos estruturais da cultura política
brasileira. Por último, aborda-se a participação social como elemen-
to relevante na disputa pela direção da cultura política brasileira, es-
pecialmente no campo da política social.

Notas introdutórias sobre o conceito de cultura política


O conceito cultura política pode ser compreendido a partir de
diferentes abordagens. Ele perpassa por um debate multidisciplinar,
ideológico e político que denota sentidos controversos e resulta em
confusões teóricas. Uma delas está justamente na construção de sig-
nificados que as duas palavras componentes podem gerar. Segundo
Castro (2008, p. 3), esse fato acontece na literatura porque alguns
autores constroem uma espécie de “união conceitual” entre dois ter-
mos (cultura e política) que expressam significados distintos; espe-
cialmente, porque “política” se torna um predicado para especificar
um nicho da cultura.
No entanto, a cultura política não é o resultado da soma e
conjugação de duas palavras, mas é a expressão de um novo con-
ceito teórico. Este conceito constitui sentido normativo específico,
marcado por determinações históricas e políticas. Alvarez, Dagnino
e Escobar (2000, p. 17) reiteram essa perspectiva ao se referirem à
cultura política como um “processo pelo qual o cultural se torna fato
político”, ou seja, ela se desenvolve pelo “laço constitutivo entre cul-
tura e política, e a redefinição que essa visão implica”1.
A introdução do conceito no debate acadêmico tem uma de-
terminação histórica marcada pelo fim da Segunda Guerra Mundial
e pelo desenvolvimento da Guerra Fria, com a emergência de re-
gimes democráticos, de ênfase liberal, em diversas sociedades. Não
obstante, o conceito “incorporou toda a carga ideológica de então,
construindo-se em um perfeito fruto do seu tempo” (CASTRO,
2008, p. 1). A afirmação baseia-se no fato dele ter sido introduzido
pela ciência política estadunidense com o intuito impositivo, classifi-
1 Complementarmente a esta consideração, Alvarez, Dagnino e Escobar (2000) afirmam
que a noção inglesa de cultural politics tem uma tradução difícil para o português, desig-
nado normalmente na América Latina como as ações do Estado ou de outras instituições
com relação à cultura, a exemplo da produção e consumo de bens culturais como arte,
cinema e teatro.

- 86 -
catório e de consagração da superioridade política e civilizatória da-
quela nação para definir um sistema político desejável. Desse modo,
concorda-se com a prerrogativa de que a teorização sobre “cultura
política” naquele período respondia a dois objetivos: fortalecer e
justificar a superioridade estadunidense e promover a imposição da
democracia liberal (CASTRO, 2008).
O texto de Almond e Verba (2001)2 abriu caminho para essas
discussões na segunda metade do século XX e se tornou referência
na academia, sendo resgatado por diversos autores até os dias atuais.
Os autores estadunidenses partem da premissa de que o mundo pas-
sava por uma transformação cultural e política que dividia os siste-
mas políticos entre regimes totalitários e participativos, e que cada
um deles demandava por uma cultura política semelhante ao seu sis-
tema organizacional. Assim, a cultura política foi definida por cor-
responder às orientações políticas dos sujeitos de determinada socie-
dade, que são conformadas por condutas e atitudes que determinam
a configuração do sistema político. Estas orientações se caracterizam
por aspectos internos de caráter cognitivo, afetivo e valorativo.
Como resultado, Almond e Verba (2001) concluíram que as
culturas políticas, tipificadas como paroquial, súdita e participativa,
são mistas e heterogêneas nas sociedades, com combinações diver-
sificadas, em que algumas prevalecem mais do que outras ainda que
não se sobreponham. Entretanto, os autores consideram que as cul-
turas políticas estadunidense e inglesa são aquelas que mais chegam
perto de uma cultura cívica, isto é, uma cultura política plural, di-
versa, comunicativa, que forma consenso a partir da sua abertura
para transformações culturais, econômicas e humanas no sentido de
progresso do desenvolvimento societário.
Atualmente, as críticas ao estudo citado já são consolidadas
na área. No geral, elas discorrem sobre o fato da obra sobrevalorizar
a subjetividade e as atitudes da população como determinante do
sistema político; por possuir caráter impositivo baseado na raciona-
lidade ocidental; enfatizar uma preferência ideológica em relação ao
liberalismo e à democracia liberal; classificar e criar tipologias com
base em atitudes e comportamentos políticos; valorizar as metodo-
logias quantitativas e comparativas em detrimento das pesquisas
qualitativas; possuir uma perspectiva positivista que impõe a moder-
2 Castro (2008) caracteriza o estudo como a obra fundacional da cultura política.

- 87 -
nidade como civilizatória e alcança o progresso numa perspectiva
linear; promover as pesquisas de opinião pública para caracterizar a
cultura política; estabelecer uma relação de causalidade entre com-
portamento e estrutura política; e tratar os valores políticos como
um dado estatístico (ARAÚJO, 2006; BORBA, 2005; CASTRO, 2008;
BAQUERO, 2001; MOISÉS, 1995).
Concorda-se com as críticas à pesquisa de Almond e Verba
(2001), tendo em vista que ela atribui uma relação de causalidade en-
tre as atitudes, opiniões e comportamentos da população em relação
ao surgimento de um regime democrático e, especialmente, quanto
à estabilidade da democracia liberal, confirmando um determinis-
mo atitudinal e culturalista (CASTRO, 2008; BORBA, 2005). Desse
modo, a pesquisa mencionada termina por invalidar determinantes
históricos, estruturais e institucionais que permitem compreender o
processo de democratização. Tem-se em mente que o estudo da cul-
tura política “pressupõe a necessidade de caracterizar os diferentes
contextos histórico-culturais que irão contribuir para a sua configu-
ração [...] como resultado de um processo interativo e cumulativo”
(BAQUERO, 2001, p. 102).
Isso implica em negar o universalismo dos países do capitalis-
mo central como ponto de partida de análise e fim a ser alcançado.
Também permite reconhecer as particularidades nacionais da cultu-
ra política a partir da estrutura e das práticas políticas exercidas pela
população, qual seja sua formação social. Diante disso, define-se a
cultura política “como a construção social particular em cada socie-
dade do que conta como “político”. [...] [ela] é o domínio de práticas
e instituições, retiradas da totalidade da realidade social, que histori-
camente vêm a ser consideradas como propriamente políticas” (AL-
VAREZ, DAGNINO, ESCOBAR, 2000, p. 25). Essa definição associa
o conceito com as práticas e as instituições no âmbito da totalidade
social, considerando as determinações históricas e estruturais para a
sua conformação.
Além disso, essa concepção de cultura política implica em
outro elemento fundamental: as relações sociais de poder. É nesse
sentido que a tradição marxista tem sido revisitada para tratar so-
bre o tema, principalmente as obras de Antonio Gramsci. O mar-
xismo compõe uma das principais correntes teóricas que abordam a
temática ainda que, por vezes, não utilize o conceito em si (MOISÉS,

- 88 -
1995; CASTRO, 2008). Por ter como pressuposto a relação dialética e
recíproca entre as ideias, os valores, as condutas e a estrutura econô-
mica, a cultura política nesta tradição é abordada como uma “variá-
vel dependente” (MOISÉS, 1995, p. 89), ou seja, o seu conteúdo está
necessariamente ligado a outras determinações.
Moisés (1995) dá ênfase à abordagem gramsciana, por esta
elevar o papel da cultura e da política nas análises sobre a dinâmica
capitalista e a formação sócio-histórica de determinado país. Para o
autor, Gramsci introduz o conceito de hegemonia3 como “um mo-
delo político-cultural abrangente, pelo qual as elites dirigentes pro-
curariam exercer influência e poder na sociedade” (MOISÉS, 1995,
p. 89). Nessa direção, Castro (2008, p. 17) sugere que “Gramsci abre
caminho para a compreensão da cultura política como fator consti-
tuinte das relações de poder na sociedade”, isso na medida em que
o autor italiano ultrapassa a caracterização, descrição e classificação
dos fenômenos políticos, o que permite que se compreenda a cultura
política de modo mais abrangente do que a proposição da ciência
política estadunidense.
Entende-se que “toda configuração hegemônica é necessaria-
mente cultural”, isso na medida em que o exercício de direção tem
como apoio a construção de “valores, ideais, princípios, modos de fa-
zer, pensar e dizer, visão de mundo” (IANNI, 1992, p. 155). Por isso,
reconhece-se que a cultura possui um papel essencial na promoção da
direção política, intelectual e moral da sociedade (GRAMSCI, 1999).
Esses pontos de partida levam a compreender que a relação entre cul-
tura política e hegemonia é indissociável, já que a cultura política tam-
bém pode ser qualificada como uma expressão da hegemonia.
A cultura política torna-se, portanto, um indicador, uma va-
riável analítica dependente, na medida em que está inter-relacionada
com outros fatores presentes na totalidade concreta. Isoladamente,
a cultura política não consegue responder quais são as causas e as
possíveis estratégias para o atendimento às necessidades sociais por
meio de políticas sociais. Entretanto, se articulada e relacionada a
outros elementos, ela se torna uma chave analítica que contribui para
enriquecer as análises sociais e políticas de determinada sociedade,
especialmente no sentido de ajudar a desvelar os traços da hege-
monia e das ideologias vigentes. É nessa direção que se defende as
3 A hegemonia, como “direção moral e intelectual”, combina elementos de coerção com
a formação de consenso no sentido de construir legitimidade política (GRAMSCI, 2014).

- 89 -
contribuições do conceito de cultura política nos estudos da política
social.

As particularidades da cultura política brasileira


As desigualdades sociais estão na base da formação social do
Brasil. Elas são produzidas e organizadas socialmente por mecanis-
mos variados de referência material e simbólica, a exemplo da cul-
tura política. Esta última deita raízes no autoritarismo social de um
passado senhorial e escravista, que se baseia no regime de coloniza-
ção brutal, o qual promovia a aniquilação de culturas e de sistemas
organizacionais dos povos indígenas e do povo negro escravizado. A
transição para o capitalismo associou esses traços estruturais do país
ao processo de modernização conservadora, que foi realizado pelo
alto com pactos conciliatórios entre as elites e a exclusão da parti-
cipação das classes populares (COUTINHO, 2011; OLIVEIRA, F.,
1999).
A negação do conflito por práticas e instituições autoritárias
conformou uma cultura política que tem o objetivo de sedimentar
as desigualdades e as hierarquias no âmbito das relações sociais, em
que são apresentadas como naturais. A formação social brasileira
se expressa pela “violência, proibição da fala, mais modernamente
privatização do público, interpretado por alguns como a categoria
do patrimonialismo, revolução pelo alto, e incompatibilidade radical
entre dominação burguesa e democracia; em resumo, da anulação da
política, do dissenso” (OLIVEIRA, F., 1999, p. 59). Trata-se de uma
cultura política de anulação do outro, “do corpo do outro, da fala do
outro, da parcela dos sem parcela, dos dominados” (OLIVEIRA, F.,
1999, p. 61).
Com o objetivo de naturalizar e construir consenso, a cultura
política brasileira possui uma matriz mítica, isto é, ela está baseada
em mitos que se renovam em ideologias contemporâneas no senti-
do de criar soluções imateriais para problemas que não devem ser
resolvidos na realidade – em uma perspectiva de dominação. Nesse
sentido, Chauí (2004) argumenta a existência do mito fundador no
Brasil, que finca origem num passado infindável e se repete de varia-
das formas no contexto histórico. Assim, o “mito fundador é aquele
que não cessa de encontrar meios para exprimir-se, novas lingua-
gens, novos valores e ideias, de tal modo que, quanto mais parece ser

- 90 -
outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo” (CHAUÍ, 2004,
p. 21). O mito sustenta-se por uma lógica vertical que determina
grupos sociais desiguais estabelecidos por níveis de superioridade
e inferioridade a partir de diferenças que designam as relações de
mando (CHAUÍ, 2000).
A cultura do autoritarismo social está na base do mito funda-
dor. Ela mascara-se “por aquilo mesmo que a realiza e a conserva: as
relações de favor, tutela e clientela” (CHAUÍ, 2004, 27). Isso porque o
favor é a “mediação universal” das relações sociais no país, desde sua
origem colonial ele exercita de maneiras distintas a sua natureza ar-
bitrária, tornando-se norma e convertendo-se em práticas de mando
e obediência (SCHWARZ, 2000, p. 16). Tais práticas já receberam no
decorrer da história diferentes nomes e formas, tais como o clien-
telismo, o primeiro-damismo, o apadrinhamento, o coronelismo, o
paternalismo, entre outros. Entende-se, portanto, que o favor está na
base de sustentação da cultura política brasileira.
Trata-se de uma cultura política que reforça o mandonismo
ao exigir um provedor forte, com o domínio privado sobre o espaço
público, e promove a usurpação daquilo que é público, em que os
direitos são travestidos em favores políticos (SALES, 1994). Fala-se
de uma cultura política autoritária e desigual, incapaz de atender as
necessidades sociais das classes subalternas. Ela está ancorada em
práticas políticas que vão na contramão da cidadania, da justiça so-
cial e da igualdade. A cultura política do país caminha numa lógica
inversa ao exercício dos direitos. Isso significa que a sociedade bra-
sileira moderna é atravessada por ambivalências, em que os direitos
legais convivem com a violência e a discriminação, em que o Estado
democrático de direitos formal coexiste com práticas e instituições
autoritárias, em que a reinvindicação por direitos se dá de modo
combinado ao clientelismo e ao favoritismo (TELLES, 2004).
Esses aspectos perpassam a análise da constituição das polí-
ticas sociais e suas contradições: a ideia do favor versus a noção do
direito; a focalização das políticas versus a universalização; a valori-
zação do mérito versus a ampliação dos direitos; o autoritarismo ver-
sus a democracia; o clientelismo versus a cidadania. Nessa direção,
Heloísa Oliveira (2003) apresenta que a cultura política, como um
indicador analítico, contribui para a compreensão dos obstáculos
que impedem a consolidação das políticas sociais no Brasil. Assim,

- 91 -
ela se materializa em “práticas que se reproduzem na contempora-
neidade e, como tal, impedem a efetivação e dimensão pública e do
direito no processo de execução das políticas sociais” (OLIVEIRA,
I., 2009, p. 113). A exemplo, tem-se “práticas clientelistas, nas quais o
acesso dos usuários aos bens, recursos e serviços se realiza por meio
de relações pessoais entre estes e representantes do poder público, a
quem passam a dever favores frequentemente pagos através da fideli-
dade e lealdade políticas, sobretudo em momentos eleitorais”. (OLI-
VEIRA, I., 2009, p. 112).
Observa-se a extensão do mundo privado para o mundo pú-
blico, em que esta reforça as desigualdades sociais e fragiliza a pro-
teção social. A “falta de diferenciação entre o público e o privado
– onde não só o público é apropriado pelo privado, como as relações
políticas são percebidas como extensões das relações privadas – tor-
na as relações de favor, o personalismo, o clientelismo e o paternalis-
mo, práticas políticas comuns” (ALVAREZ, DAGNINO, ESCOBAR,
2000, p. 27). Nessa perspectiva, pode-se afirmar que as políticas
sociais no país se desenvolvem num campo minado de disputas e
relações hierárquicas, com limitadas possibilidades de intervenção
efetiva nos padrões de desigualdades.
A efetivação das políticas sociais se confronta com uma cul-
tura política tradicional, contrária ao caráter público e à noção de
direitos. Destaca-se a persistência de práticas assistencialistas, parti-
cularmente diante das lacunas do Estado, em que são reproduzidas a
dominação e a compreensão de serviços públicos como concessões
de agentes políticos. Nesse sentido, retira-se o caráter de direitos,
embora estes estejam no marco legal, e as possibilidades de mudan-
ças nos padrões de desigualdade são subtraídas. Ao contrário, tais
práticas preservam privilégios nas mãos de poucos e são vazias de
consequências transformadoras (SPOSATI et al, 2010; ALAYÓN,
1995). Soma-se a isto o sentimento de gratidão e de dívida pelo fa-
vor prestado, e não da autonomia pelo direito conquistado (SOUZA,
2001).
Percebe-se que a relação entre política social e cultura polí-
tica expressa a deficiência existente na separação entre o público e
o privado na política brasileira. Ocorre uma deficiência na esfera
pública, em que o Estado foi resumido a uma “reunião de famílias”
que reservaram a si o direito à propriedade e ao mando (DUARTE,

- 92 -
1996, p. 96). Na mesma direção, afirma-se que o Estado brasileiro foi
instituído como “uma integração de certos agrupamentos, de certas
vontades particularistas, de que a família é o exemplo” (HOLANDA,
1995, p. 441). Segundo Neves (2008a), esse movimento histórico não
ocorreu a partir da apatia da população brasileira, como consta na
literatura mais conservadora acerca da formação do país.
A autora reconhece que a realidade ainda reproduz a invasão
do público pelo privado, e que ela foi herdada do processo ibérico de
colonização e consolidada na formação do Estado. Movimento este
não superado no período de democratização. No entanto, a relação
entre esta tradição sólida não é mecânica, causal e, muito menos, in-
conteste. A disputa no terreno da cultura política é complexa, desse
modo, Neves (2008b) defende a perspectiva de que o país carrega
um hibridismo cultural4 em que coexistem e concorrem culturas
políticas contraditórias, heterogêneas, ambivalentes e, por vezes, en-
trelaçadas. Ao estudar a formação de uma nova cultura em espaços
participativos, a autora apresenta que estes espaços por não serem
isentos de conflitos, podem tanto reproduzir os padrões da cultura
política tradicional, como serem contaminados por ela. Esse fator
deve-se especialmente ao hibridismo cultural.

Tensionamentos da cultura política brasileira à luz da par-


ticipação social
A participação social é um tema controverso na história brasi-
leira e fundamental para a análise da cultura política do Brasil. Em-
bora o desenvolvimento do país seja marcado por revoltas e rebe-
liões populares, a incidência da participação popular sempre esteve à
margem das decisões públicas, como marca cultural. Nos anos 1970
e 1980, a cultura política tradicional sofreu fortes tensionamentos
por meio da mobilização de grupos da sociedade civil, com ações
“de costas” para o Estado autoritário na luta por cidadania (NEVES,
2008b). O cenário caracterizava-se pelo processo de democratização,
oposto à centralização política e autoritária da ditadura civil-militar
vigente no período. A participação5 tornou-se palavra de ordem para
4 Embora a análise de Neves (2008b) seja original, o conceito de hibridismo cultural não
é inaugurado pela autora. A concepção apresentada por ela conversa com as análises de
Schmitdt (2001), Canclini (1997), Ricci (2004) e Otmann (2004).
5 Sem orientação política por si, é possível afirmar que existem diferentes conteúdos e
qualificadores de participação como social, cidadã, autoritária, assistencialista, voluntá-
ria, entre outros.

- 93 -
o avanço da cidadania e da democracia, multiplicando-se em dife-
rentes experiências participativas.
Entre a década de 1990 e o início dos anos 2000, a participa-
ção social assumiu avanços com o reconhecimento institucional, e se
realizou de maneira negociada com o Estado por meio de diferentes
arranjos participativos, como conselhos, fóruns e conferências. O
momento expressou dois elementos relevantes para o processo de
democratização: 1) trouxe à tona a concepção de que por meio da
participação criam-se novos direitos, ou seja, o direito a ter direitos
no exercício da cidadania (CARVALHO, 1998; DAGNINO, 2004);
e 2) deu margem para a construção de uma nova cultura política
a partir da participação de grupos da sociedade civil nos processos
decisórios daquilo que conta como público.
No entanto, as novidades no âmbito da participação se conso-
lidaram de maneira distinta e superaram o entusiasmo do período.
Para se realizarem, elas foram confrontadas com a realidade brasilei-
ra, seja pela reação conservadora aos seus avanços, seja pela cultura
política tradicional que continuou a criar formas de resistir, seja pelo
avanço da ideologia neoliberal, que é essencialmente antidemocráti-
ca. O cenário dos anos 1990 não efetivou democraticamente a parti-
cipação, mas tornou ainda mais nítido os projetos políticos em dis-
puta, especialmente no campo da política social, quando a sociedade
civil assume as formas do voluntariado e do terceiro setor.
Ocorreu um processo de despolitização da participação quan-
to ao seu significado político e potencial democratizante, que estava
intimamente associado ao avanço do neoliberalismo no Brasil. As-
sim, a sociedade civil passou a ocupar espaços deixados pelo Estado
quanto à prestação de serviços públicos e teve uma ação orientada
pelo apelo à filantropia e à solidariedade, em uma dinâmica que
nega direitos historicamente conquistados. Para Carvalho (1998),
esse movimento significou o retorno explícito às práticas de favor e à
caridade, além do avanço da privatização das políticas sociais. O re-
sultado configurou-se no desmantelamento do sistema de proteção
social público instituído pela Constituição Federal de 1988. Nos anos
mais recentes, presenciou-se paulatinamente o desmonte da institu-
cionalidade democrática e o recuo de vários avanços sociais e polí-
ticos que foram fruto da participação social ativa dos movimentos
sociais no período de democratização.

- 94 -
Assim, o debate contemporâneo sobre a participação social
expressa ainda mais a sua realidade contraditória. Se, de um lado,
existem organizações e ações coletivas de trabalhadores, negros, in-
dígenas, mulheres, LGBTQIA+, pessoas com deficiência, entre ou-
tros, que atuam na mobilização por avanços e consolidação de direi-
tos em busca da democratização em diferentes políticas sociais; de
outro, também existem organizações da sociedade civil que exercem
práticas antidemocráticas, conservadoras e contrárias à ampliação
dos espaços públicos. Por isso, enfatiza-se “a ideia de que participa-
ção nem sempre rima com democracia e luta por direitos” (NEVES
et al, 2020, p. 17). Na atualidade, o segundo espectro participativo
mencionado tem alcançado cada vez mais legitimidade na socieda-
de brasileira, ganhando amparo institucional por parte do Gover-
no Federal. Tem-se aí uma “onda participativa às avessas” (NEVES,
2016, p. 25), a qual tem referência na cultura política marcada pelo
autoritarismo e relações de favor. Associado ao neoliberalismo, esse
movimento atua com o objetivo de enfraquecer a democracia e o
conteúdo público das políticas sociais.
O avanço dessa cultura política ganha notoriedade também a
partir da redução de espaços democráticos, a exemplo da publicação
do Decreto nº 9.759/2019, que em abril de 2019 extinguiu, de uma
vez só, centenas de órgãos colegiados que compartilhavam decisões
públicas com a sociedade civil, todos eles vinculados à administra-
ção pública direta. A participação social, especialmente a institucio-
nalizada, está sofrendo ataques inegáveis. Ocorre ainda a anulação
política de grupos democráticos, com o silenciamento de organis-
mos da sociedade civil.
Com isso, acredita-se que o momento tem sido de ataques ao
“patrimônio participativo” do Brasil (NEVES et al, 2020), isto é, uma
ofensiva ao legado construído por diversos sujeitos políticos em dé-
cadas.
Os espaços públicos de participação se configuram como um
patrimônio que tem a sociedade civil como o principal personagem
para a edificação dessa memória e identidade histórica.

[...] É inegável que, para além do que é positivado no arcabouço le-


gal, o conceito de patrimônio participativo mobiliza questões políti-
cas, sociais e culturais que envolvem outros fatores, como memória
e identidade. A construção de um patrimônio possibilita que se-
jam forjadas e enraizadas novas práticas na dinâmica da sociedade

- 95 -
brasileira, contribuindo para a introjeção de valores democráticos
e cidadãos no modo de fazer política. Esse histórico é uma marca
recente na nossa história, que ajudou a fortalecer lutas sociais para a
efetivação do Estado Democrático de Direitos. Longe de ser enten-
dido como um registro concluído [...], o patrimônio participativo
se constituiu por um terreno de lutas e contradições. (NEVES et al,
2020, p. 17-18).

O desmonte do patrimônio participativo expressa a relevân-


cia em refletir coletivamente sobre a relação entre cultura política e
participação social. Ora, se o patrimônio participativo envolve a po-
lítica, a cultura, a sociedade, a memória e a identidade, certamente,
a sua descaracterização sinaliza o fortalecimento da cultura política
tradicional, isto é, uma cultura autoritária, elitista e que coloca o pú-
blico nas mãos de poucos. Mais ainda, o desmonte do patrimônio
participativo incide sobre as políticas sociais e atua como óbice para
fortalecer o seu caráter público, sob a ótica dos direitos.
Esse cenário abre caminho para que o avanço de retroces-
sos históricos no âmbito da democratização das políticas sociais, que
são, como dito anteriormente, resultados contraditórios das disputas
históricas entre grupos e classes sociais, Estado e sociedade civil. Ao
negar a participação neste âmbito, admite-se como norma as deci-
sões meramente “técnicas” de poucos grupos para satisfazer interes-
ses restritos na construção das políticas que têm, ou deveriam ter,
como norte atender as necessidades sociais. Suprime-se o movimen-
to dialético entre conquista e concessão na construção das políticas
sociais, com ênfase nas práticas autoritárias e privativas.

À guisa de conclusão
Se de um lado tem-se a emergência democrática após a Cons-
tituição Federal de 1988, por outro lado, ela confronta-se com amea-
ças antidemocráticas cada vez mais severas que encontram terreno
sólido na cultura política brasileira. Esta é reforçada pelo clientelis-
mo, patrimonialismo e autoritarismo, que insistem em estender suas
ações privadas para o campo público ao descaracterizar as ações do
Estado no campo social. Essa questão não é nova no país, mas persis-
te e se fortalece em tempos de regressão dos direitos, de cortes com
os gastos sociais e do ajuste fiscal contínuo no presente neoliberal. O
neoliberalismo desempenha “a espantosa façanha de conferir título
de modernidade ao que há de mais atrasado na sociedade brasileira,

- 96 -
um privatismo selvagem que faz do interesse privado a medida de
todas as coisas, que nega a alteridade e obstrui por isso mesmo a
dimensão ética da vida social pela recusa de um sentido de respon-
sabilidade e obrigação social” (TELLES, 2004, p. 97).
As lutas sociais representam a disputa por hegemonia frente
à cultura política conservadora e à desigualdade social, tão enrai-
zadas na sociedade brasileira. Representam, também, a resistência
popular que se move em busca da garantia de direitos e da amplia-
ção das políticas sociais, seja para garantir o que legalmente já foi
concebido, seja para avançar legal e efetivamente. Isto ocorre em um
momento em que os direitos são ameaçados com a sua extinção, des-
politização e descaracterização. Esta dinâmica revela as contradições
presentes na sociedade brasileira e suas diferentes formas de política
social, as quais podem e devem ser analisadas, também, a partir da
relação entre a cultura política, a participação social e a desigualdade
social.
Por fim, enfatiza-se que este é um debate necessário nos estu-
dos das políticas sociais em diferentes conjunturas, uma vez que ofe-
rece subsídios estruturais e multideterminados para a sua compreen-
são. De forma crítica, este artigo posiciona-se dentro da perspectiva
marxista de cultura política, principalmente das análises gramscia-
nas, e filia-se à defesa de uma cultura política de direitos e cidadania.
Esta precisa de força política e teórica para concorrer no âmbito do
hibridismo cultural com a cultura política hegemônica, que possui
cariz conservador e antidemocrático. Defende-se mais do que uma
chave analítica para a análise das políticas sociais, tenta-se aqui for-
talecer o movimento das lutas sociais e a resistência democrática que
atua em busca da transformação.

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- 100 -
Fundo público e a construção da hegemonia no
Brasil: as demandas das frações burguesas para as
políticas econômicas e sociais
Isabela Ramos Ribeiro
Evilasio Salvador

Introdução
As relações de classe que se desenvolvem no âmbito da so-
ciedade civil, inclusas aquelas de subordinação da burguesia depen-
dente ao imperialismo, são condensadas no Estado. Para Gramsci
(2019, p. 228), a sociedade civil corresponde à “hegemonia política e
cultural de um grupo social sobre toda a sociedade, como conteúdo
ético do Estado” e se materializa no conjunto das organizações assim
chamadas privadas. Assim, os intelectuais orgânicos da burguesia
atuam ativamente para o convencimento do conjunto da população
sobre os “benefícios” gerados a partir da implementação de seus in-
teresses. Isso é perceptível quando as confederações e organizações
patronais – tais quais federações e confederações da agricultura, in-
dústria, comércio e bancos – explicitam demandas particulares para
a reprodução de seus capitais como se estivessem direcionadas ao
interesse nacional, em um exercício de hegemonia.
Desde a década de 1990, no Brasil, vive-se sob a hegemonia da
fração bancário-financeira da burguesia, cujos interesses remontam
ao projeto neoliberal e ao aprofundamento da dependência. Durante
os governos petistas (2003-2016), houve alguns ajustes no pacto de
classes do Plano Real, ainda que mantendo seus traços essenciais. Foi
possível para o governo conciliar interesses em função da conjuntu-
ra econômica internacional favorável entre 2003 e 2010, mas, após
2011, com os efeitos da crise econômica, esse processo foi revertido e
tornou-se mais difícil sustentar condições satisfatórias para todas as
frações burguesas, o que foi solucionado pela burguesia com o golpe
e a ofensiva sobre a classe trabalhadora.
Nesse escopo, o presente capítulo visa discutir como a burgue-
sia brasileira dependente pautou seus interesses ao longo do período
de crise, entre 2010 e 2018, e como tais demandas se condensaram
no Estado, por meio do direcionamento do fundo público.

- 101 -
As demandas das frações burguesas para as políticas econô-
micas e sociais
Conforme Poulantzas (1971, p. 61), “a classe burguesa apre-
senta-se, no modo de produção capitalista, constitutivamente divi-
dida em frações de classe”. Com base nesse pressuposto, procura-se
compreender as formas com que tais frações exercem sua prática
política e como constroem a hegemonia. As frações de classe são de-
terminadas pelas formas de existência do capital que representam –
lugar na produção – mas também pelas práticas políticas que desen-
volvem nas relações sociais, englobando o conjunto das instâncias
política, econômica e ideológica. Assim, o bloco no poder indica “a
unidade contraditória de classes e frações politicamente dominantes
sob a égide da fração hegemônica” (POULANTZAS, 1971, p. 68).
Segundo Farias (2009, p. 84), Poulantzas “refere-se a vários
sistemas de fracionamento – burguesia industrial, comercial, finan-
ceira; burguesia compradora, interna, nacional; burguesia mono-
polista, não-monopolista [...]”, e as formas de articulação e entre-
cruzamento desses sistemas de fracionamento podem se alterar em
cada conjuntura. Quando associadas às entidades representativas
que congregam determinado ramo de atividade da burguesia e suas
práticas políticas, podemos falar nas frações industrial, agrária, co-
mercial e bancário-financeira. No Brasil, podem ser representadas
por meio das seguintes entidades: Confederação Nacional da Indús-
tria (CNI), Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA),
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
(CNC) e Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Na pesquisa1 realizada por Ribeiro (2020) foram analisados
documentos das grandes confederações burguesas2, nos quais foi
1 Refere-se a tese “Burguesia dependente, bloco no poder e a conformação da hegemonia
no Brasil entre 2003 e 2018” defendida por Isabela Ramos Ribeiro no PPGPS, em junho
de 2020.
2 Os documentos analisados foram “101 propostas para modernização trabalhista” (CNI,
2012); “Propostas da indústria para as eleições 2014” (CNI, 2014); “Agenda para o Brasil
sair da crise 2016-2018: balanço final das propostas” (CNI, 2018); “O que esperamos do
próximo presidente 2015-2018” (CNA, 2014); e “Desburocratizar para crescer. O agro-
negócio nacional e os seus aspectos burocráticos: desafios para promoção da competi-
tividade” (CNA, 2018); relatórios anuais da Febraban (FEBRABAN, 2012, 2015, 2016,
2018); “CNC e os desafios do Brasil” (CNC, 2010) e “Terceirização: considerações sobre
a terceirização na sociedade contemporânea” (CNC, 2015). Foram selecionadas também
os seguintes artigos do presidente da CNC, “A CNC e o novo governo” (CNC, 2016) e
“Aviso aos navegantes” (CNC, 2018), como forma de complementar as informações com
posições mais atuais.

- 102 -
possível visualizar nitidamente as demandas relacionadas às políti-
cas econômicas e sociais entre 2010 e 2018. Nesse viés, buscou-se
verificar se os interesses das frações se aproximam ou se afastam no
que se refere às políticas estatais, bem como discutir alguns elemen-
tos centrais que auxiliam na compreensão sobre construção da he-
gemonia no período. O Estado dependente participa do processo de
acumulação procurando atender a burguesia, a qual, por sua vez, é
subordinada ao imperialismo. O fundo público, então, é desfalca-
do pelas contínuas transferências de valores, decorrentes do inter-
câmbio desigual e da financeirização, e o que resta dele é disputado
pela burguesia brasileira e suas frações em função de seus interesses,
como se observa nos documentos analisados.
A política social e suas determinações vinculam-se necessa-
riamente à política econômica, e por isso o olhar esteve voltado para
ambas nas subseções 1.1 e 1.2 do texto em tela. Osorio (2012) traz
contribuições fundamentais para a compreensão da política econô-
mica quando afirma que seus instrumentos podem tornar o ciclo do
capital mais fluido e adequado às necessidades da acumulação. Sob
a mesma lógica, a política social é parte da totalidade do sistema
capitalista que a estrutura, a partir de sua inserção na esfera da pro-
dução e reprodução das relações sociais; portanto, um dos aspectos
que permite a dominação de classe e a reprodução do capital, como
tratado a seguir.

A política econômica defendida pelas frações burguesas no


Brasil
É perceptível nos documentos que, de forma geral, há acordo
entre as frações com relação à política econômica, sem grandes
alterações no curso do que vem sendo implementado desde a década
de 1990. Mesmo que os ajustes no pacto de classes tenham alterado
a composição do bloco no poder, abrindo espaço para setores da
grande burguesia interna, a hegemonia se manteve com a fração
bancário-financeira. Convém destacar que o cerne da política
macroeconômica do Brasil foi formulado em 1993, quando da
elaboração do Plano Real, por meio do seu tripé macroeconômico:
política monetária, baseada em elevadas taxas de juros; política de
câmbio livre, sem controle de entrada e saída de divisas; e política
fiscal, fundamentada no elevado superávit primário.

- 103 -
Com relação à política monetária (juros, crédito e inflação), as
entidades explicitam por diversas vezes a demanda por taxas de ju-
ros mais baixas e inflação reduzida, associada à política fiscal restri-
tiva. A reivindicação por juros baixos é, historicamente, uma cons-
tante, em especial para a fração industrial. No entanto, o processo de
financeirização trouxe maior complexidade para a análise do papel
dos juros para o capital produtivo, uma vez que a entrada no mer-
cado de capitais faz com que tenha ganhos tanto com a redução da
taxa de juros e disponibilidade de crédito, como com a elevação da
taxa e consequente remuneração de ativos. Nenhum dos documen-
tos analisados, contudo, demanda explicitamente juros altos, nem
mesmo os relatórios da Febraban (2012, 2015, 2016, 2018). Ao con-
trário, essa entidade destaca a necessidade da “redução progressiva
e sustentável das taxas de juros, objetivo compartilhado por todos”
(FEBRABAN, 2015, p. 5).
Embora possa ser apenas um elemento discursivo, nota-se
que a lógica mobilizada pela Febraban se relaciona com a política
fiscal, pois o Banco Central tem condições de baixar a taxa básica de
juros quando há melhores resultados fiscais, evitando riscos. Logo, a
redução da taxa de juros é condicionada à redução das despesas do
Estado, numa espécie de chantagem promovida pelos bancos. Por
isso, a Febraban afirma ser a favor dos juros baixos, mesmo que pare-
ça um contrassenso. No governo Temer, a taxa Selic começou a cair
e, de acordo com a lógica da burguesia explicitada nos documentos,
isso foi possível em razão da aprovação da Emenda Constitucional
95/2016. São desconsiderados nesse discurso o aumento do desem-
prego e a redução da inflação como elementos que puxam para baixo
a taxa de juros. As reivindicações explicitam o óbvio: visam atender
ao capital e sua gana pelo fundo público, diminuindo as despesas
com políticas sociais e alimentando o capital portador de juros e os
investidores institucionais,, com destaque para os fundos de pensão
e os fundos de investimentos (SALVADOR, 2020).
No que se refere à tributação, as principais questões consen-
suais nos documentos são a elevada carga tributária, cumulativida-
de, complexidade do sistema tributário, oneração das exportações
e investimentos. As demandas referentes à política tributária são
mais presentes nos documentos da CNC e da CNI, que reivindicam
a efetivação de uma reforma tributária (CNC, 2010, 2016; CNI, 2014,
2018). A CNA e a Febraban são mais pontuais e menos presentes

- 104 -
neste tema, por exemplo com a menção a uma política tributária per-
manente de desoneração dos investimentos (CNA, 2014) ou dimi-
nuição dos custos tributários associados à intermediação financeira
(FEBRABAN, 2016). Todas as frações querem desoneração da folha
de pagamentos e de bens de capital no plano imediato, não obstante,
a CNI e a CNC são mais incisivas numa reforma tributária a lon-
go prazo. Já as desonerações tributárias tiveram papel central para a
grande burguesia em geral. Como delineado por Salvador (2015, p.
13), a análise das renúncias tributárias compreende o financiamento
indireto da política social e “torna possível identificar a transferência
indireta e extraorçamentária de recursos para o setor privado”, como
será demonstrado na próxima seção deste texto.
Sobre comércio internacional e política cambial, os docu-
mentos da CNA, CNC e CNI apresentam consenso em torno da
necessidade de desvalorização do real, com vistas a fortalecer tanto
a indústria nacional como os exportadores. Segundo essa lógica, a
importação desestimula a produção interna e a geração de empre-
gos, reduzindo também o consumo, o que gera consequências para o
comércio como um todo (BRESSER-PEREIRA, 2013). Estas neces-
sidades estão associadas à relação importação/exportação. O capital
agrário, por exemplo, ganha com a exportação de grãos, e para que
as transações sejam mais vantajosas e os preços mais atrativos para
os compradores estrangeiros, é melhor que o real esteja desvalori-
zado em relação ao dólar. Quando o real se valoriza, favorece-se as
importações, porque fica mais barato para os brasileiros consumi-
rem em dólar. Isso também é criticado pelo capital industrial, pois
acaba enfraquecendo a indústria nacional. Em suma, existe um cer-
to consenso na burguesia de que o câmbio desvalorizado é melhor,
mas isso oscila de acordo com os preços e dinâmicas do mercado
mundial. Daí decorre a defesa do câmbio flutuante, com menos cen-
tralidade para a regulação do Estado e com mais autonomia para o
mercado.
Já a infraestrutura e a energia tiveram papel bastante especial
na conformação da hegemonia durante os governos Lula, principal-
mente, após a descoberta do pré-sal e o lançamento do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC), em 2006 e 2007, respectivamente.
Este importante elemento se esgotou com a ofensiva da crise econô-
mica. Em 2012, ainda que muitas obras estivessem em andamento, o
programa recebia muitas críticas, especialmente da fração industrial

- 105 -
em razão da lentidão e da burocracia imposta para a realização das
obras. Nesse contexto, Dilma lançou o Programa de Investimento
em Logística (PIL), o qual, por sua vez, visava “estimular investimen-
tos privados” por meio das concessões, com destaque para os maio-
res aeroportos brasileiros. Em 2016, após o golpe, com boa parte das
obras do PAC paralisadas – e com a construção pesada já deslocada
da boa posição que havia conquistado no bloco no poder –, Temer
lança o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), com vistas à
desestatização declarada e maior abertura ao capital estrangeiro em
diversos setores de infraestrutura, inclusive 13 aeroportos (ANAC,
2020). Fica clara a demanda por um Estado que garanta as condições
de reprodução do capital, ao passo que atua como um seguro, com-
partilhando riscos e prejuízos, como nos casos da comercialização
de energia, em que o Estado perde controle sobre a gestão, mas ainda
arca com os riscos. Como lembrado por Netto (2011), as funções di-
retas desempenhadas pelo Estado remetem a subsídios às empresas
e socialização das perdas, especialmente na administração das crises.

A Política social do capital: cortes e restrições aos direitos


dos trabalhadores (as)
Indubitavelmente, as questões trabalhistas e previdenciárias
são as maiores prioridades para o conjunto da burguesia, posto que
remetem mais diretamente ao antagonismo entre capital e trabalho
e aos nichos para ampliar a acumulação. Isso não quer dizer, con-
tudo, que as demais políticas não sejam campos abertos às distintas
frações, na medida em que permitem a ampliação da reprodução do
capital.
As relações de trabalho têm papel central para todas as en-
tidades, com menor peso para a Febraban. Os documentos das de-
mais entidades apresentam reclamações acerca do custo da mão de
obra e das exigências que “engessam” e “burocratizam” a regulação
do trabalho (CNA, 2014, 2018; CNI, 2014, 2018; CNC, 2010, 2015,
2016). As recomendações como o trabalho em domingos e feriados,
redução do tempo de alimentação, não inclusão em nenhuma hipó-
tese do tempo de deslocamento na jornada, revisão dos mecanismos
de concessão do seguro-desemprego, dentre outras indicações visam
explicitamente reduzir direitos trabalhistas. É um círculo vicioso da
exploração, pois as entidades alegam que o excesso de legislações e

- 106 -
regulações faz com que os empresários não as cumpram, o que pe-
naliza os trabalhadores. Como solução, reivindicam novas leis que
restrinjam os direitos ao ponto de tornarem-se legais as práticas
penalizadoras. Nesse sentido, Linhares (2019, p. 50) defende que “a
desregulamentação não necessariamente significa a eliminação de
regulamentos e leis, podendo, ao contrário, traduzir-se em novas leis
que objetivam reconhecer juridicamente diferentes tipos de contrato
que rebaixam direitos anteriormente definidos”.
Nesse viés, a CNI elaborou em 2018 um documento de ba-
lanço das 36 propostas apresentadas ao governo três anos antes para
“ajudar o país a sair da crise”. De acordo com a CNI (2018), mais da
metade das propostas foram realizadas e outras estavam em discus-
são no Congresso, sendo que “apenas 9 das 36 propostas não apre-
sentam avanço” (CNI, 2018, p. 9). O documento destaca que a área
com melhores resultados foi “Relações de Trabalho”, pois das quatro
propostas feitas todas foram efetivadas.
A terceirização irrestrita, para atividades-meio e atividades-
-fim, é apresentada como prioridade em todos os documentos anali-
sados, com exceção daqueles da Febraban. Enquanto a CNC (2015)
chega a divulgar um documento exclusivo sobre o tema, a Febraban
dedica apenas três linhas para comentar que “em 2017, a Febraban
continuará a acompanhar a regulamentação da Lei de Terceirização,
que modifica pontos importantes da legislação trabalhista no País, e
suas implicações para o setor” (FEBRABAN, 2016, p. 54). Isto pare-
ce expressar que as relações de trabalho não são prioridade nas de-
mandas dos bancos, uma vez que são remunerados pelos juros, parte
resultante da mais-valia gerada em outros ramos de atividade do ca-
pital. Por outro lado, as demais frações, em especial o comércio que
despende a maior parte de seus custos com salários, engajaram-se
ativamente na aprovação da contrarreforma trabalhista, com desta-
que para a terceirização. Em síntese, os setores que mais empregam,
naturalmente, possuem mais interesse na contrarreforma trabalhis-
ta. É importante lembrar, ademais, que a incapacidade de Dilma de
aprovar a contrarreforma trabalhista explica parte das razões da bur-
guesia para a articulação do golpe.
Tem especial apelo, ainda – por evidenciar as características
desta lumpenburguesia (FRANK, 1978) – as reinvindicações da CNA
referentes ao trabalho escravo. A Instrução Normativa 91/2011 do

- 107 -
MTE, que normatiza a fiscalização, é duramente criticada no docu-
mento com o argumento de que “meras irregularidades trabalhistas”
são “confundidas com a prática do trabalho escravo” (CNA, 2014,
p. 46). Essa demanda é especialmente relevante para o agronegócio,
na medida em que grande parte das denúncias de trabalho em con-
dição análoga à de escravo são provenientes das áreas rurais (MTE,
2011). É surpreendente o caráter absurdo de amenização dos víncu-
los de trabalho aquém de padrões civilizatórios mínimos explicita-
do pela entidade. Mas ainda mais revelador foi o atendimento dessa
demanda por parte do governo Temer, que publicou em outubro de
2017 a Portaria 1.129/17. A Portaria estabelecia novas regras para a
caracterização de trabalho análogo ao escravo e para o cadastro de
empregadores que submetem trabalhadores a tal condição, retirando
a jornada exaustiva e condição degradante da tipificação; apenas a
privação do direito de ir e vir caracterizaria trabalho análogo ao es-
cravo, compreensão distinta daquela pautada pelo MTE e no Código
Penal. Por sua natureza extremamente violenta, foi combatida por
diversos movimentos sociais e pelo STF, sendo revogada por Temer
com a publicação da portaria 1.293/17 de dezembro do mesmo ano.
A reforma da previdência é uma demanda pautada em todos
os documentos das entidades, com exceção da CNA. Os argumentos
consensuais são expansão do “déficit da previdência” e a sustentabi-
lidade dos benefícios no futuro; aumento da expectativa de vida e
existência do regime próprio para servidores públicos, além de pri-
vilégios a determinados grupos, como problemas a serem resolvidos
com a reforma. De acordo com a Febraban (2018, p. 13), a aprovação
das reformas estruturais, especialmente da Previdência Social, era
imperativa para alterar o cenário de recessão. Alguns documentos
propõem claramente a substituição do atual modelo por um “sistema
básico de capitalização”, como é o caso da CNC (2010).
A Febraban (2018, p. 51), ao comentar o crédito consignado,
destaca que a principal modalidade é a destinada aos trabalhado-
res do setor público (56,7% do saldo da carteira), seguida de apo-
sentados e pensionistas da Previdência Social – INSS (37,5%) e de
trabalhadores do setor privado (5,8%). Com isso, nota-se que a pre-
vidência pública via Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é
um nicho importante de lucratividade para os bancos, para os quais
a substituição integral do atual modelo por outro de capitalização

- 108 -
não seria vantajosa, posto que podem lucrar com o crédito consigna-
do ao mesmo tempo em que vendem planos de previdência privada
complementar.
A proposta de contrarreforma da previdência já vinha sen-
do esboçada por Dilma e foi apresentada por Temer por meio da
PEC n. 287/2016. Apesar de devastadora, do ponto de vista da res-
trição de direitos, não chegou a ser aprovada durante seu governo,
sendo efetivamente aprovada no Governo Bolsonaro, por meio da
EC 103/2019, não restando, assim, mais nenhum artigo original dos
direitos previdenciários escritos na Constituição Federal de 1988.
As políticas de educação, saúde e saneamento aparecem nos
documentos das entidades (CNC, 2010; CNI, 2014), inclusive, com
a demanda por elevação de recursos públicos, ao passo em que rei-
vindicam e elogiam a EC 95 e as “reformas estruturais”, medidas que
inviabilizam o fortalecimento ou ampliação dessas políticas. É in-
teressante vislumbrar porque isso ocorre do ponto de vista da acu-
mulação, para além da retórica ideológica. A fração comercial da
burguesia é justamente a que mais tem a ganhar com os serviços de
saúde e educação privados, enquanto a indústria busca lucrar com
a estruturação e organização do serviço de saneamento. Assim, tor-
nam-se nichos de acumulação, o que favorece o interesse das entida-
des por esses temas.
Já a fração agrária da burguesia apresenta especial interesse
nas políticas que tratam do acesso à terra e ao meio ambiente. Sua
contrariedade com relação à demarcação de terras indígenas e seus
embates com a Funai (Fundação Nacional do Índio) são elementos
que sobressaem nos documentos (CNA, 2014, 2018). A entidade
também se incomoda com a criação de unidades de conservação, de-
manda maior rapidez na regularização das terras na Amazônia e na
criminalização dos movimentos sociais do campo, além de regulari-
zação para aquisição de terras por estrangeiros. Destacam-se, ainda,
as “preocupações” da Febraban com relação à responsabilidade am-
biental, demonstrando sua imbricação ao agronegócio e ao interesse
por realização de empréstimos ao setor. Este fenômeno expressa a
profunda capilaridade da financeirização na agricultura e sua relação
com o Estado, no que Delgado (2013) caracteriza como a economia
do agronegócio.

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A conflituosa disputa do fundo público
O conflito distributivo em torno do fundo público pode ser
compreendido de um lado na política de captação de recursos, em
que se destacam a tributação e as renúncias tributárias, e envolve
diretamente a correlação de classes sociais na sociedade brasileira;
por outro lado, há a política de aplicação de recursos, isto é, a quem
se destinam os recursos que se materializam no orçamento, que re-
fletem os gastos e o dimensionamento das prioridades do governo
(SALVADOR, 2020).
Esta capacidade de mobilização de recursos do Estado para
intervir na realidade econômico-social vai para além do orçamento
público, que é a parte mais visível do fundo público. Afora as esti-
mativas de receitas e despesas previstas na Lei Orçamentária Anual
(LOA), o Estado tem o poder de emitir moedas, de contrair emprés-
timos, de cobrar royalties relativos à extração de recursos naturais e
minerais e pode contar, ainda, com os lucros e dividendos das em-
presas públicas, constituindo, assim, a totalidade do fundo público.
O fundo público, conforme Behring (2021, p. 91), pode ser
compreendido como “um compósito de mais-valia — incidindo so-
bre o lucro/juro e renda da terra — e sobre o trabalho necessário,
haja vista a crescente tributação sobre os rendimentos da classe tra-
balhadora e, também, sobre sua cesta básica de reprodução (tributa-
ção indireta)”.
A disputa dos recursos públicos na sociedade capitalista no
período recente tem sido orientada por um aprofundamento das
medidas de ajuste fiscal, agora sob “nova roupagem” da austeridade,
como um dogma da macroeconomia contemporânea. Para além de
medidas econômicas, o neoliberalismo é “projeto político de classe,
não somente um programa de políticas”, conforme destaca Puello-
-Socarrás (2015, p. 24). Nessa perspectiva, Dardot e Laval (2016, p.
7) observam que “o neoliberalismo transformou profundamente o
capitalismo, transformando profundamente as sociedades”. Para os
autores, trata-se de um sistema normativo que ampliou sua influên-
cia ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as rela-
ções sociais e a todas as esferas da vida.
A crise do capital, que teve um dos seus picos em 2008, foi
socorrida com recursos do fundo público no mundo e no Brasil, apa-
recendo para as classes dominantes como oportunidade inesperada,

- 110 -
como um modo de governo. O socorro do fundo público ao capital
envolveu algo como 30 trilhões de dólares,3 os Estados continuaram
abastecendo-os com dinheiro farto, numa operação que se tornou
conhecida pelo nome “flexibilização quantitativa”. Títulos de dívida
pública que só venceriam em anos ou décadas e estavam em poder
dos bancos são trocados por moeda viva. Como destaca Behring
(2021, p. 83), “o fundo público tem sido um esteio central para as
situações de colapso sistêmico, bem como atua como fornecedor de
crédito, especialmente quando se tornou um assegurador das condi-
ções gerais da produção e reprodução social”.
Misoczky, Abdala e Damboriarena (2017) trazem importante
contribuição, que desmonta argumentos falaciosos sobre a possível
existência de uma sociedade pós-neoliberal no Brasil, a partir de
2003. Para os autores, “falar do neoliberalismo como algo que passou
e que ressurgiu após o golpe parlamentar de 31 de agosto de 2016,
nega as evidências de que ele organizou, de maneira ininterrupta,
práticas de governo, práticas no mercado e práticas sociais no senti-
do mais amplo” (MISOCZKY; ABDALA; DAMBORIARENA, 2017,
p. 184). Desde 1990, estão em marcha no país políticas de cunho
neoliberal, incluindo os treze anos de governo da coalizão liderada
pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Ou seja, o sentido estrutural da
política econômica neoliberal, que tem como bússola o ajuste fiscal
permanente, permanece ativo desde 1993, ainda que no período al-
gumas reconfigurações tenham sido realizadas.
Outro argumento falacioso, apontado pelos autores, está di-
retamente relacionado à gestão das políticas sociais e à postura de
Bresser-Pereira, ministro do governo Fernando Henrique Cardoso,
que conduziu o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado
(PDRAE)4 em meados da década de 1990. Bresser-Pereira ressalta
uma suposta neutralidade da “reforma gerencial”, que poderia ser
usada por governos progressistas ou conservadores. Para Misoczky,
Abdala e Damboriarena (2017), não procede o discurso de Bresser-
-Pereira acerca da neutralidade na suposta “reforma”, pois o chaman-
do Gerencialismo ou a nova administração pública não passa de um
3 https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/por-que-os-mercados-globais-estao
-em-panico/
4 Para Behring (2019), o PDRAE é documento orientador de período para a condução
das contrarreformas do Estado, sendo a primeira fase consistente do neoliberalismo no
Brasil.

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braço operacional e de ideologia complementar ao neoliberalismo.
Esta ideologia ataca e privatiza as políticas sociais, notadamente, a
saúde, a educação e a assistência social, por meio das pseudo par-
cerias público-privadas, exaltadas pelas entidades burguesas e que
se efetivam via Organizações Sociais, com a privatização da oferta
dos serviços sociais, especialmente no campo da saúde, relegando e
enfraquecendo o Sistema Único de Saúde (SUS).
Os mecanismos de desvinculação (como a Desvinculação
dos Recursos da União) são alguns dos instrumentos que compõem
o combo da política fiscal de ajuste permanente. Esta política tem
como elementos centrais a redução dos impostos dos mais ricos na
sociedade, a desoneração da carga tributária das empresas para via-
bilização da acumulação de capital e da retomada dos lucros, a maior
captura do fundo público para o pagamento de juros e encargos da
dívida pública. Isso tudo aliado ao congelamento e à redução de gas-
tos sociais e com servidores públicos no âmbito do orçamento.
Nesse diapasão, o Novo Regime Fiscal (NRF), instituído pela
EC 95, é um elemento-chave da política de austeridade. Com a as-
censão ao poder do Presidente Temer, ocorre um recrudescimento
da ofensiva do capital e da ortodoxia neoliberal, com brutal corte de
direitos sociais, sobretudo, no campo do financiamento das políticas
públicas. O NRF inviabiliza a vinculação dos recursos para as polí-
ticas sociais nos moldes desenhados na CF de 1988, ao congelar as
chamadas despesas primárias do governo (exceto as despesas finan-
ceiras com o pagamento de juros da dívida) por vinte anos, limitan-
do-se à correção pela inflação5, e que, na prática, tem como corolário
o desfinanciamento dos gastos sociais.
Conforme a regra proposta no NRF (EC 95), “os gastos públi-
cos não vão acompanhar o crescimento da renda nem da população,
em um país cujo gasto per capta ainda é muito baixo” (DWECK;
GAIGER; ROSSI, 2018, p. 48). Cabe registrar que a EC é uma dura
ofensiva do capital ao crescimento dos gastos sociais, após a Consti-
tuição Federal (CF) de 1988. Mesmo com financiamento insuficiente
em diversas políticas públicas, o estudo de Dweck, Gaiger e Rossi
5 A EC 95 estabeleceu para o exercício de 2017 que a despesa primária paga no exercício
de 2016, incluídos os restos a pagar pagos e demais operações que afetam o resultado
primário será corrigida no limite de 7,2% e para os exercícios posteriores, ao valor do
limite referente ao exercício imediatamente anterior, corrigido pela variação do Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), publicado pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE).

- 112 -
(2018) aponta que o gasto primário do governo central cresceu de
14% para 19% do PIB no período de 1997 a 2017, refletindo a regu-
lamentação dos direitos sociais acordados na CF de 1988.
É especialmente relevante que as despesas financeiras não
tenham sido incluídas na Emenda, evidenciando as prioridades
da burguesia mediadas pelo governo. Salvador (2020) elucida essa
questão ao afirmar que as despesas com juros e encargos da dívida
pública cresceram 8,5 vezes mais que o crescimento do orçamento
fiscal e da seguridade social no período de 2016 a 2019. O pagamento
de juros e encargos da dívida apresentou um crescimento real de
22,57% no mesmo período. Ou seja, “o pagamento efetivo das despe-
sas com juros e amortização da dívida pública consomem um quarto
do orçamento público” (SALVADOR, 2020, p. 387).
Paralelamente, as diversas funções orçamentárias, diretamen-
te relacionadas ao Estado Social, que buscam garantir direitos no
âmbito das políticas públicas, apresentaram um encolhimento em
termos reais no período em tela. Uma das quedas mais expressivas
ocorreu na função Direitos da Cidadania, que em 2016, teve um or-
çamento pago de R$ 2,17 bilhões e decresceu para menos de R$ 1
bilhão em 2019, isto é, uma queda real de 57,44% em valores de-
flacionados pelo IPCA (SALVADOR, 2020). Convém lembrar que
estão vinculados, nessa função orçamentária, programas de garantia
e defesa de direitos humanos no Brasil, de igualdade racial e de gêne-
ro, o que demonstra praticamente o abandono governamental dessas
políticas públicas a partir de 2016.
A EC 95 sepulta a vinculação dos recursos obrigatórios, no
âmbito da União, para educação e saúde a partir de 2018. Por exem-
plo, é o fim da vinculação de 18% dos impostos para educação. O
orçamento federal da educação, em 2019, ficou, pela primeira vez
desde 2016, abaixo de R$ 100 bilhões pagos, conforme Salvador
(2020). Os gastos e investimentos na função saúde, no âmbito do or-
çamento da seguridade social, estão praticamente congelados desde
que entrou em vigor a EC 95. No período de 2016 a 2019, a função
orçamentária saúde apresenta uma insignificante evolução de 0,39%,
saindo de R$ 118,63 bilhões, em 2016, para R$ 119,10 bilhões, em
valores pagos em 2019, já deflacionados pelo IPCA.
Por outro lado, chama a atenção que no mesmo período des-
se encolhimento dos gastos sociais, o Brasil vem destinando cada
vez mais recursos para as Forças Armadas. Os dados da pesquisa de

- 113 -
Salvador (2020) mostram que no período de 2016 a 2019, a função
orçamentária Defesa Nacional saltou de R$ 67,8 bilhões em 2016,
para um orçamento pago de 78,5 bilhões em 2020, em valores atua-
lizados pelo IPCA.
O suporte do fundo público ao capital também ocorre por
meio das desonerações tributárias (gastos tributários). Apenas como
ilustração, dados da Receita Federal evidenciam que as desonerações
tiveram uma taxa de crescimento quase três vezes maior que a arre-
cadação entre 2003 e 2018. Enquanto a arrecadação apresentou um
crescimento real de 166%, as desonerações ou gastos tributários che-
garam a 417% (RFB, 2020). Quando desagregadas, essas informações
revelam que as cinco funções orçamentárias com maior participação
nas desonerações tributárias são: comércio e serviços, com volume
de recursos bastante superior às demais durante a maior parte do
período e que, a partir de 2005, ultrapassa a indústria e se mantém
estável na liderança; indústria, que apresenta a maior queda, embora
na média do período se mantenha como a segunda maior no mon-
tante de recursos desonerados; saúde, cuja participação no total das
desonerações é a mais estável; e trabalho e agricultura, ambas com
crescimento relevante entre 2003 e 2018, apesar de uma pequena
queda a partir de 2014. O estudo de Salvador (2017) revela que as
desonerações tributárias sobre o orçamento Seguridade Social sal-
taram de 33 bilhões em 2008 para 185 bilhões em 2015, em valores
deflacionados, um aumento de 460% acima da inflação medida pelo
IGP-DI.
Considerando que a demanda por desonerações é bastante
presente nos documentos das frações industrial, agrária e comercial,
é interessante articular a dinâmica das funções orçamentárias cor-
respondentes com a conjuntura ao longo do período analisado. O
papel das entidades representativas da indústria no governo Dilma
é complexo e multideterminado, todavia, quando observada a que-
da brusca da participação da indústria nas desonerações a partir de
2010, é possível considerá-la como um dos determinantes da postura
ofensiva da CNI e da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo, primeiramente na proposição das medidas de estímulo à
produção em razão da queda na taxa de lucro e no volume de deso-
nerações para o setor e posteriormente na campanha pelo impeach-
ment de Dilma.

- 114 -
Ao mesmo tempo, continua a subtributação dos donos do ca-
pital. Aqueles que recebem renda na forma de lucros ou dividendos
– renda do capital – estão isentos do pagamento de impostos, en-
quanto a classe trabalhadora arca com uma elevada carga tributá-
ria direta e indireta. Tais elementos correspondem ao que as frações
burguesas demandam do Estado no que se refere às políticas econô-
micas e sociais.

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A conjugação entre a contrarreforma
administrativa e o desmonte da
Previdência Social no Brasil
Maria Lucia Lopes da Silva
Thais Soares Caramuru

Introdução
A chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República impli-
cou o aprofundamento da ofensiva burguesa contra a classe trabalha-
dora brasileira ao fortalecer a extrema direita, apoiada na ideologia
neofascista e em medidas ultraneoliberais. Trata-se de uma agenda
que se estende a várias dimensões da vida e que impõe privatizações
de empresas e serviços públicos e restrições de acesso às políticas so-
ciais. Nesse contexto, o apogeu da agenda ultraneoliberal se expressa,
sobretudo, na intensificação da contrarreforma previdenciária por
meio da Emenda Constitucional (EC) nº 103, de 12 de novembro
de 2019 e complementações e da contrarreforma administrativa –
uma parte em curso por medidas esparsas referentes ao aparelho do
Estado, outra parte em tramitação no parlamento, sob a Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) n.º 32 de 2020.
Este texto procura mostrar a conjugação entre as medidas ado-
tadas pelo governo Bolsonaro em relação ao aparelho do Estado e à
Previdência Social, de modo a ressaltar suas refrações na direção do
favorecimento aos capitais e de acarretarem a precarização da cober-
tura previdenciária e da oferta dos serviços públicos em geral. Sob a
perspectiva teórico-metodológica ancorada na dialética materialista,
desenvolve-se a hipótese de que as contrarreformas administrativa e
previdenciária são processos articulados e constitutivos da ofensiva
contra os direitos e condições de vida da classe trabalhadora, que
teve início nos anos 1990 e adquire proporções nefastas no governo
Jair Bolsonaro.
Assim, recupera-se essa conjugação em governos anteriores,
a começar por Fernando Henrique Cardoso até o governo Dilma
Rousseff, como um dos principais eixos de sustentação do projeto
neoliberal no país, mostrando medidas adotadas ao longo desse pe-

- 119 -
ríodo. Procura-se, também, demarcar o aprofundamento e acelera-
ção das medidas neoliberais a partir do governo de Michel Temer,
após a engenharia política arquitetada pelas forças conservadoras,
que resultou no impeachment da Presidenta Dilma. E, finalmente,
destaca-se algumas medidas do governo Bolsonaro, sobretudo, após
a aprovação da EC n.º 103 de 2019, que apontam para o avanço da
privatização da Previdência Social no país e para o desmonte do Es-
tado e de seu aparelho em sua capacidade de ofertar políticas sociais.
Além desta introdução e das considerações finais, o texto está
estruturado nas seguintes seções: as contrarreformas administrativa
e da Previdência Social na base do projeto neoliberal no país de 1995
a 2016; o golpe palaciano e o alargamento das fronteiras neoliberais
no governo de Michel Temer; e o desmonte da previdência e do apa-
relho do Estado sob o ultraneoliberalismo Bolsonarista.

As contrarreformas administrativas e da Previdência Social


na base do projeto neoliberal de 1995 a 2016
Os marcos iniciais das contrarreformas administrativa e pre-
videnciária remetem à década de 1990, quando foram aplicadas, no
Brasil, as medidas do arcabouço teórico neoliberal, conforme os di-
tames do Consenso de Washington e de agências imperialistas como
o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
As mudanças reacionárias na forma de organização do Esta-
do se constituem em um dos postulados neoliberais no cenário de
aprofundamento de crise do capital e de queda tendencial das taxas
de lucros. Como forma de contrarrestar a crise e de alcançar no-
vos espaços de valorização do valor, os capitais utilizam o arcabou-
ço teórico do neoliberalismo que fundamenta a desconstrução dos
direitos conquistados nos marcos dos chamados Estados Sociais. A
visão neoliberal propaga que as dimensões do Estado que atuam di-
retamente na garantia e na prestação de bens, benefícios e serviços
sociais devem ser reduzidas para fins de abertura ao setor privado.
Nessas condições, “o mercado é ovacionado como instância media-
dora central na regulação da vida social e, em consequência, tem-se
a defesa da diminuição do nível de intervenção do Estado no que
tange à garantia de direitos sociais e políticos” (DURIGUETTO; DE-
MIER, 2017, p. 10).
No Brasil, as diretrizes das contrarreformas administrativa e
previdenciária foram estabelecidas no ano de 1995, no governo Fer-

- 120 -
nando Henrique Cardoso (FHC), cujo documento orientador foi o
Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (PDRE) e que cul-
minou na Emenda Constitucional (EC) n.º 19, de 4 de julho de 1998
e na EC n.º 20 de dezembro de 1998. O Plano Diretor se constituiu
em um documento de cariz gerencialista, o qual adotava, para a pres-
tação dos serviços públicos, uma série de princípios típicos do setor
privado, regido pela busca de lucros como o foco nos resultados, a
competição e a concepção de cliente-cidadão (BRASIL, 1995).
O PDRE delimitou quatro setores de atuação estatal: Núcleo
Estratégico, constituído pela cúpula dos três poderes, que trata da
formulação das políticas públicas; Atividades Exclusivas, que seriam
atividades que apenas o Estado pode realizar como emissão de pas-
saportes, polícia, cobrança de impostos e seguridade social básica;
Serviços Não-Exclusivos, nos quais o Estado atuaria em conjunto
com agentes privados como universidades, hospitais e museus; Pro-
dução de Bens e Serviços para o Mercado, que seriam as empresas
voltadas para o lucro sob controle estatal (BRASIL, 1995).
A partir dessa segmentação, concebeu-se que o Estado so-
mente precisaria atuar diretamente nas atividades do núcleo estra-
tégico e nas atividades exclusivas, as demais áreas poderiam ter a
atuação de outros agentes. Nestes termos, estabeleceu-se que agentes
privados poderiam atuar no fornecimento de bens e serviços sociais
como energia, água, gás, educação, saúde e previdência complemen-
tar. Behring (2019) assinala que o Plano Diretor e a contrarreforma
que dele se desdobrou representou uma escolha político-econômica
que estabeleceu a redefinição do padrão de reprodução do capital no
país, a qual acarretava um duro ajuste fiscal direcionado à garantia
da expansão do mercado às custas da submissão das políticas sociais
à orientação macroeconômica ortodoxa.
Cláudio Gurgel (2017) afirma que a contrarreforma esteve
voltada ao atendimento das necessidades dos capitais no contexto
de crise, que propagava a concepção de que princípios da gestão pri-
vada seriam os mais apropriados para o setor público. Com efeito,
estimulou-se a adoção de ferramentas gerenciais, as privatizações e
uma concepção de Estado que beneficiou o capital. Em linhas gerais,
a contrarreforma “cobriu todas as dimensões, dando ao mercado a
primazia da vida social, à sociedade um individualismo revigorado e
ao Estado um papel servidor da reprodução do sistema [capitalista],
sem disfarces e sem limites” (GURGEL, 2017, p. 168).

- 121 -
A concepção de Estado contida no PDRE impulsionou a aber-
tura de espaço à atuação de atores privados nas áreas dos direitos e
políticas sociais. No caso da Previdência, isso foi garantido a par-
tir da ideia de que somente a “Previdência Social básica” (BRASIL,
1995, p. 52) seria exclusivamente estatal, ao passo que se legitimou a
possibilidade de segmentos da Previdência Privada também atuarem
no setor. A assim chamada Previdência Privada engloba agentes que
podem ser classificados como entidades abertas - sociedades anôni-
mas com finalidade lucrativa, estruturadas por bancos e seguradoras
que vendem planos aos segmentos sociais que por eles podem pagar
- e fechadas, as quais referem-se aos fundos de pensão, designados
pelo palavreado burguês de “sem finalidade lucrativa”, que podem
ser constituídos por empresas, grupos de empresas, associações pro-
fissionais e classistas, e são direcionados a grupos específicos de tra-
balhadores. A Previdência Privada se constitui em mecanismo que se
presta a contrarrestar a queda tendencial das taxas de lucros a partir
da captura de parcelas salariais dos trabalhadores que, sob o rótulo
de Previdência, são direcionadas à reprodução ampliada do capital,
primordialmente por intermédio de aplicações em ações, títulos da
dívida pública e grandes empreendimentos (CARAMURU, 2021)
A contrarreforma do aparelho do Estado capitaneada pelo
PDRE e continuada pelos governos petistas pôs em marcha a preca-
rização das condições salariais, de trabalho e de proteção previden-
ciária dos servidores públicos. A orientação gerencialista fragilizou
os salários dos servidores públicos, determinando que a remunera-
ção deve ser constituída pelo somatório do vencimento básico com
a gratificação de desempenho, a qual fica condicionada à avaliação
de desempenho do servidor pela chefia. Conforme a Tabela de Re-
muneração dos Servidores Públicos Federais Civis, dentre as 61
carreiras, 47 possuem gratificações de desempenho1 como parte da
remuneração e apenas 14 carreiras (aquelas que atuam nas áreas es-
tatais exclusivas como Receita Federal, Grupo de Gestão, Agências
Reguladoras, etc.) percebem subsídio, ou seja, possuem remunera-
ção independente da avaliação de desempenho (BRASIL, 2020).
Nesse âmbito, a contrarreforma gerou a segmentação das
carreiras e a estratificação dos servidores públicos, restringindo sua
1 No caso dos Professores do Magistério Superior, essa fragilização dos salários ocorre
por intermédio da Retribuição por Titulação, que representa mais de 50% da remune-
ração total.

- 122 -
capacidade de união, pois cada carreira passou a ter pautas especí-
ficas. Além disso, a contrarreforma gerencial também impulsionou
a diversificação dos vínculos no serviço público, com o enfraqueci-
mento do Regime Jurídico Único, a terceirização de atividades inter-
mediárias e a ampliação das contratações temporárias, legitimadas
pela Lei nº 8.745, de 9 de dezembro de 1993.
Uma outra resultante desse processo se manifesta na valoriza-
ção do quadro funcional de órgãos que atuam na regulamentação/
fiscalização do setor privado, em detrimento dos órgãos que atuam
diretamente com políticas sociais. A título de exemplo, essa tendên-
cia pode ser verificada quando comparados os padrões remunerató-
rios dos servidores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e
da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PRE-
VIC), responsável pela fiscalização dos fundos de pensão. A carreira
com maior patamar salarial do INSS é a do Analista do Seguro Social
de 40 horas, cuja remuneração inicial, incluída a gratificação de de-
sempenho em nota máxima, é de R$ 8.357,07, ao passo que no topo
da carreira o salário é de R$ 13.033,79. Por seu turno, a carreira com
melhor remuneração do quadro da PREVIC é a de Especialista em
Previdência Complementar, cujo início corresponde a R$ 14.591,37
e cujo topo é de R$ 20.385,69 (BRASIL, 2020). Nessas circunstân-
cias, verifica-se que, sob as diretrizes da contrarreforma administra-
tiva gerencial, o topo do padrão remuneratório da maior carreira do
INSS é menor do que o salário inicial da maior carreira do órgão
regulador da Previdência Privada.
A contrarreforma do Estado, impulsionada pelo PDRE, pela
EC n.º 19/1998 (Administrativa) e pela EC n.º 20/1998 (Previdên-
cia), marcou fortemente o início do percurso contrarreformista, de
modo que as medidas e a concepção de Estado, então enunciadas, fo-
ram incorporadas pelos governos seguintes, sobretudo, no que tange
à Previdência Social. E agora no governo Bolsonaro, novamente, de
forma conjugadas.
O processo de contrarreforma do Regime Geral de Previdên-
cia Social (RGPS) e dos Regimes Próprios dos Servidores Públicos
(RPPS) iniciou nos governos Fernando Henrique Cardoso (FHC),
com a da EC n.º 20, 15 de dezembro de 1998, e foi consolidado pelos
governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, principalmente, por inter-
médio da EC n.º 41, 19 de dezembro de 2003 e pelas Leis n.º 13.135

- 123 -
de 17 de junho de 2015 e n.º 13.183 de 4 de novembro de 2015. A
contrarreforma previdenciária impôs regras restritivas de acesso,
bem como a redução dos valores dos benefícios no âmbito dos re-
gimes públicos. Uma de suas principais refrações foi a privatização
da previdência dos servidores públicos, o que converteu o setor em
grande impulsionador da expansão da Previdência Privada no país,
com a criação de regimes de previdência complementar pelos entes
federativos. O início ocorreu com a EC n.º 20/1998, que inseriu no
§14 do art. 40 da Constituição Federal (CF) de 1988 a possibilidade
de criação da Previdência Privada para os servidores pela limitação
dos benefícios do RPPS ao valor do teto de RGPS.
Os governos petistas foram entusiastas do processo, com
a EC n.º 41/2003, que acabou com a integralidade e paridade das
aposentadorias dos servidores, instituiu a contribuição dos inativos
e estabeleceu, no §15, do art. 40 da CF de 1988, as regras para insti-
tuição da Previdência Privada para servidores públicos. No governo
Dilma Rousseff, o processo foi materializado com a criação da Fun-
dação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal
(FUNPRESP), pela Lei n.º 12.618, de 30 de abril de 2012, impondo
a limitação das aposentadorias ao teto do RGPS para servidores pú-
blicos que ingressaram no Poder Executivo Federal a partir de 04
de fevereiro de 2013. Estabeleceu-se, portanto, a mola propulsora da
expansão da Previdência Privada dos servidores públicos, que ga-
rantiu poderosa expansão financeira do setor no país, com a cria-
ção de diversas instituições de previdência complementar no âmbito
dos Estados, Distrito Federal e municípios durante a década de 2010
(CARAMURU, 2021).
Uma outra expressão da conjugação entre as contrarreformas
administrativa e previdenciária, e que remete ao governo FHC, se
manifesta na captura, pelo capital financeiro, de parcelas do fun-
do público, em detrimento do financiamento das políticas sociais.
Trata-se do cenário de ajuste fiscal permanente (BEHRING, 2019),
que se constituiu no núcleo duro da marcha contrarreformista. Os
principais mecanismos desse processo no período de 1995 a 2016
foram a Desregulamentação das Receitas da União (DRU), que
desviava fontes de financiamento exclusivas do Orçamento da Se-
guridade Social (OSS) para compor o superávit primário, a Lei de
Responsabilidade Fiscal, que, dentre outros, estabeleceu rígidos li-

- 124 -
mites de dispêndios com pessoal, também a serviço da geração de
superávit, e as renúncias tributárias, as quais legitimaram o não
pagamento de tributos, particularmente das contribuições sociais e
da contribuição previdenciária pelo grande capital (GENTIL, 2019).
Assim, as políticas de ajuste fiscal favoreceram a geração do superá-
vit e o pagamento das despesas financeiras às custas da redução do
financiamento dos gastos sociais com saúde, assistência, educação e
previdência.
Conforme se observa, as contrarreformas administrativa e
previdenciária foram impulsionadas ainda na década de 1990, no
governo FHC, e foram aprofundadas pelos governos de conciliação
de classes conduzidos pelo Partido dos Trabalhadores. Cabe ressaltar
que o reconhecimento desse fato não significa dizer que tais gover-
nos tenham sido iguais, haja vista as medidas reformistas paliativas
promovidas pelos governos petistas, como a política de aumento real
do salário mínimo e os programas de combate à extrema pobreza
que, de algum modo, incidiram nas condições de vida desse segmen-
to. Em última instância, o aprofundamento das contrarreformas pela
gestão petista expressa o caráter contraditório de sua política e seu
compromisso com os ganhos dos capitais.

O golpe palaciano e a ampliação das fronteiras neoliberais


no governo Temer
O golpe parlamentar-jurídico-midiático deflagrado em 2016
conduziu Michel Temer à Presidência da República, o qual tinha o
compromisso de levar a cabo a ofensiva contra os direitos sociais e
trabalhistas, com vistas a garantir melhores condições para a acumu-
lação do capital (DURIGUETTO; DEMIER, 2017). Tal engajamen-
to foi expresso no documento intitulado Uma Ponte para o Futuro,
que trazia medidas direcionadas a “cortar todas as despesas sociais,
administrativas e outras operacionais para gerar superávit a fim de
garantir o pagamento de juros ao rentismo” (SAWAYA, 2021, p. 8).
No período de 2016 a 2018, a ampliação das fronteiras neoli-
berais se expressou na agudização do ajuste fiscal, na contrarreforma
trabalhista e na continuidade dos ataques à Previdência Social. Na
esfera fiscal, o governo Temer provocou uma das maiores ofensivas
ao financiamento das políticas sociais nas últimas décadas, a EC nº
95, de 15 de dezembro de 2016, que impôs uma política de teto de

- 125 -
gastos que restringe, por vinte anos, os gastos primários do Poder
Executivo, os quais não poderão ter reajuste acima da inflação. Estão
excluídas do cálculo as despesas com juros e amortizações da dívida
pública. Trata-se da intensificação da subsunção estatal aos interes-
ses dos detentores da dívida, assim, “será um Estado [...] claramente
a serviço do grande capital financeirizado. Sem [...] mediação, suas
instituições e aparelhos se apresentam apenas como instrumentos da
perpetuação da dominação capitalista” (MARQUES, 2019, p. 141).
Na esfera trabalhista, a contrarreforma executada pelo gover-
no Temer estabeleceu a visceral flexibilização das relações capital-
-trabalho, eufemismo usado pelo empresariado, pela imprensa bur-
guesa e seus apologistas para fazer referência ao ataque aos direitos.
A contrarreforma trabalhista de 2017 se expressou na desconfigura-
ção da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por intermédio de
legislações como a Lei nº 13.429, de 31 de março de 2017, que libe-
ralizou a terceirização, inclusive para atividades fins; a Lei nº 13.467,
de 13 de julho de 2017, que promoveu alterações na CLT que impul-
sionaram a precarização das relações capital-trabalho, com destaque
para o trabalho intermitente e o predomínio do negociado sobre o
legislado. Para Antunes (2018), a Lei n.º 13.467, de 2017, “desfigu-
ra em definitivo a CLT, ao instituir o preceito do negociado sobre o
legislado, que elimina o patamar basal dos direitos e, também, ao
introduzir o nefasto trabalho intermitente [...], além de restringir [...]
a abrangência da Justiça do Trabalho” (ANTUNES, 2018, p. 325, gri-
fos no original). A contrarreforma trabalhista possui ainda o condão
de impactar as relações de trabalho no serviço público, sobretudo, a
partir da expansão da terceirização às atividades finalísticas.
No campo previdenciário, o governo Temer tentou aprovar
a PEC nº 287/2016, cujas regras restringiriam o acesso à aposenta-
doria por milhões de trabalhadores. Apesar de a referida PEC não
ter sido aprovada no Congresso Nacional, o governo levou a cabo a
contrarreforma previdenciária por intermédio de outros programas
e medidas, como o Programa de Revisão de Benefícios por Incapa-
cidade (PRBI), que abrangeu a revisão e cortes de benefícios, de or-
dem previdenciária – como os benefícios por incapacidade -, de or-
dem assistencial como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e
aqueles concedidos no âmbito do Programa Bolsa Família.
A revisão dos benefícios por incapacidade é parte constitutiva
da contrarreforma e remete ao governo FHC, que, por meio do De-

- 126 -
creto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, o qual aprovou o regulamento
da Previdência Social, estabeleceu, em seu art. 46, que beneficiários
da aposentadoria por invalidez deveriam ser subordinados a exames
médico-periciais a cada dois anos. Em 2015, na gestão Dilma Rou-
sseff, a Instrução Normativa INSS nº 77, de 21 de janeiro de 2015,
impôs que benefícios do auxílio-doença concedidos por decisão ju-
dicial deveriam passar por revisão a cada seis meses.
No governo Temer, o PRBI teve continuidade pela Medida
Provisória (MP) nº 739, de 7 de julho de 2016 (que perdeu sua efi-
cácia em 4 de novembro do mesmo ano, sem ter sido convertida em
lei) e da MP nº 767, de 6 de janeiro de 2017, convertida na Lei nº
13.457, de 26 de junho de 2017. De acordo com Rocha et al (2018),
entre agosto de 2016 e fevereiro de 2018 foram revisados 279.761
auxílios-doença, dos quais 228.787 (82%) foram cessados. No caso
das aposentadorias por invalidez, foram revisadas 10.073, das quais
1.749 (17%) foram interrompidas (ROCHA et al, 2018).
Um outro programa que expressou a conjugação das contrar-
reformas administrativa e previdenciária no governo Temer foi o
projeto INSS Digital, estabelecido em 2017. Apresentado sob a justi-
ficativa de racionalizar processos, reduzir custos e instituir o teletra-
balho nas Agências de Previdência Social (APS), o programa estabe-
lecia o cumprimento de elevadas metas de desempenho. O projeto
elevou a sobrecarga de trabalho dos servidores do Instituto e trans-
feriu para terceiros, “parceiros”, a prestação dos serviços, culminado
em sua precarização (SILVA; DE JESUS, 2017).
Em linhas gerais, o governo Temer cumpriu grande parte das
medidas regressivas prometidas ao grande capital no documento
Uma Ponte para o Futuro. A agudização do ajuste ortodoxo, por in-
termédio da EC nº 95/2016, a contrarreforma trabalhista e os ataques
à Previdência Social expressam a subsunção do Estado brasileiro aos
interesses das finanças, às custas da redução do financiamento das
políticas sociais, da precarização das relações de trabalho e da res-
trição de acesso aos benefícios previdenciários. Conforme assinalam
Gentil e Bruno (2021, p. 10), “a estrutura institucional e a política
macroeconômica impostas pela lógica financeira asfixiam a ativida-
de econômica, dizimam os empregos e destroem as políticas sociais
estratégicas”. No governo Bolsonaro, essa ofensiva adquire propor-
ções avassaladoras.

- 127 -
O desmonte da Previdência e do aparelho do Estado sob o
ultraneoliberalismo Bolsonarista
Ao assumir a Presidência da República em janeiro de 2019,
Jair Bolsonaro põe em marcha, mais célere do que o governo Temer,
a agenda ultraneoliberal de interesse pleno dos capitais. Uma agen-
da, anunciada em campanha, que tem como prioridades as privati-
zações generalizadas no setor público e o aprofundamento das con-
trarreformas da Previdência Social e administrativa. Mais uma vez
esta conjugação se apresenta com força na história recente do país.
O que não é de se estranhar. Marx, em suas glosas críticas ao artigo
“O Rei da Prússia e a Reforma Social”, de um Prussiano, publicado
em 1844, já dizia que “a administração é a atividade organizadora do
Estado” (MARX, 2010, p. 39), ou seja, se o Estado muda suas feições
e propósitos e modifica, também, o seu aparelho para viabilizar seus
objetivos da forma condizente. Assim, se há um governo ultraneo-
liberal, com traços neofascistas, compondo o comando do Estado, é
certo que buscará ajustar a administração pública, ou seja, o apare-
lho do Estado aos seus intentos
Como candidato, Jair Bolsonaro e seus apoiadores explicita-
ram a ideologia e os valores conservadores, de extrema direita, que
os guiavam; revelaram ser apologistas da tortura, da ditadura militar
e da misoginia; demonstraram aversão às pautas sobre a igualdade
social, de raça, etnia e gênero, respeito à diversidade humana e ao
pluralismo de ideias, sinalizando para “um novo fascismo dos tem-
pos atuais” ( MATTOS, 2020) que marcaria o seu governo, tendo
como destaques centrais o ódio à esquerda tida como inimiga a ser
aniquilada - traço típico do fascismo clássico e, o compromisso com
uma agenda ultraneoliberal, diferentemente do fascismo clássico que
negava o liberalismo.
Desse modo, a partir de 2019, os anúncios de campanha co-
meçaram a ganhar materialidade com as privatizações; mais des-
truição de direitos; cortes de recursos para as políticas sociais para
além do já estabelecido pela EC n° 95/2016; ameaças às reservas flo-
restais; ataques aos direitos e à vida dos povos indígenas; desmonte
dos conselhos de direitos, conselhos de políticas, não realização de
conferências e total desrespeito às decisões tomadas em espaços de
participação social com vistas ao controle das políticas; militarização
dos espaços da administração pública; ampliação das perseguições
políticas e assédio moral aos servidores públicos, entre outras ma-

- 128 -
zelas. Neste cenário de horrores teve lugar de destaque a mais agres-
siva emenda constitucional contrarreformista da Previdência Social,
a EC n.º 103 de 12 de novembro de 2019, que projeta o seu desmon-
te generalizado e sua entrega aos capitais. Tal emenda tem trazido
grandes prejuízos à classe trabalhadora pelos limites de acesso aos
benefícios, redução do tempo de usufruto e redução de seus valores.
O contexto pandêmico a partir de 2020 e o atendimento do INSS ex-
clusivamente por canais remotos, limitou mais ainda o acesso aos di-
reitos. A tendência é que isso se agrave e implique o aprofundamento
“da desigualdade social nas dimensões de renda, gênero, raça/etnia,
regiões geográficas, entre outras. A elevação da pobreza [... sobretu-
do] nos Estados mais pobres, cujas economias giram em torno dos
benefícios previdenciários” (SILVA, 2021, p. 58). Sob outro prisma,
a EC n.º 103/2019 explicita o seu real propósito, ao abrir diversas
portas aos capitais, sobretudo, à sua fração financeira.
A proposta originária de contrarreforma da Previdência So-
cial, nos termos da PEC 06/2019 era mais destrutiva e entreguista e
trazia como centro a introdução do sistema de capitalização indivi-
dual , para satisfazer aos interesses e ganância dos capitais. As lutas
da classe trabalhadora criaram constrangimentos aos deputados e
senadores congressistas, de modo que alguns itens nefastos foram
retirados, a exemplo da capitalização.

Mas, há um acordo com o ultraneliberal pinochista Paulo Gue-


des – interessado direto na matéria, dada sua íntima relação com
os bancos - de retomá-la adiante [...]. Também foram retirados do
texto-base o ataque à aposentadoria rural e ao Benefício de Pres-
tação Continuada para idosos, que já identificávamos como “ bodes
na sala” para negociação. Mas, é preciso dizer: esses elementos não
tornam a contrarreforma aprovada menos covarde, já que seu nú-
cleo duro foi mantido e constitui uma imensa derrota para a classe
trabalhadora brasileira (BEHRING, 2021, p.217).

E não demorou muito para que novos movimentos na direção


da entrega total e imediata da Previdência Social aos capitais come-
çassem a surgir. Por um lado, favorecidos pelas janelas criadas na EC
103, que permitem a adoção de algumas medidas privatistas. Por
outro lado, por meio de diversos itens constantes na PEC nº 32 de
2020 de iniciativa do Poder Executivo, que altera disposições sobre
servidores, empregados públicos e organização administrativa, a
PEC da contrarreforma administrativa em tramitação.

- 129 -
No que se refere às janelas da EC 103 ao setor privado, ao
reduzir os direitos da Previdência Pública e limitar o acesso a estes,
a emenda já impulsiona a Previdência Privada, favorecendo aos ca-
pitais. Ademais, determinou que onde houvesse RPPS organizado
deveria ser criada entidade de previdência complementar, a qual po-
derá ser gerida “por entidade aberta de previdência complementar”
(SILVA, 2021p. 48). Antes da EC nº 103/2029 isso não era possível,
pois era exigida a criação de entidade pública para fazer tal gestão, a
exemplo da FUNPRESP. Agora, qualquer banco ou entidade privada
de previdência poderá fazê-la. Em relação ao RGPS, a EC nº 103 per-
mite ao setor privado prover atendimento aos “ benefícios não pro-
gramados como, pensão por morte, auxílio-doença, aposentadorias
por invalidez, salário maternidade e outros. Esta é a maior abertura
à iniciativa privada em relação à Previdência Social” (SILVA, 2021,
p.49).
Na perspectiva de implementar essas orientações da EC nº
103, durante os anos de 2020 e 2021 o governo adotou diversas me-
didas. Uma delas ocorreu por meio do Decreto 10.393 de junho de
2020, que reorientou a estratégia nacional de educação financeira e
recompôs o fórum brasileiro de educação financeira2 com o propósi-
to intensificar a adesão aos planos privados de Previdência ao incluir
a divulgação das propostas das instituições privadas nos espaços de
atuação do fórum. Na estratégia anterior, não havia a divulgação
das propostas de empresas privadas, apenas de órgãos públicos. O
governo também incluiu o eixo educação fiscal na estratégia, com
certeza para difundir e justificar o “ajuste fiscal permanente” (BEH-
RING, 2021). Desse modo, de acordo com o decreto citado, a nova
estratégia nacional de educação financeira tem a finalidade de pro-
mover a educação financeira, securitária, previdenciária e fiscal do
país e não apenas a educação previdenciária e financeira que já era
mercadológica. Isso mostra o quanto a contrarreforma previdenciá-
ria está voltada para atender aos interesses dos capitais, de diversas
formas. Aqui, os espaços públicos como escolas e outras instituições
públicas para as quais são direcionadas as ações do fórum, são usa-
2 Composição do Fórum: Banco Central do Brasil; Comissão de Valores Mobiliários;
Secretaria do Tesouro Nacional, Secretaria de Previdência Social; Superintendência Na-
cional de Previdência Complementar e Superintendência de Seguros Privados. Este De-
creto revoga o Decreto 7.397 de 2010 e encontra-se disponível em: http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/D10393.htm Acesso:28.08.2021.

- 130 -
das para propagandear propostas de previdência privada e outros
projetos dos capitais. É o império do patrimonialismo.
Na rota de entrega da previdência aos setores privados, o go-
verno Bolsonaro atualizou o regulamento da Previdência Social e
caracterizou como aposentadoria programada, aquela que combina
idade e tempo de contribuição nos termos da EC 103 para ser aces-
sada pelos segurados, ou seja, a aposentadoria que requer sessenta e
dois anos de idade, se mulher, e sessenta e cinco anos de idade, se ho-
mem, associados a quinze anos de tempo de contribuição, se mulher,
e vinte anos de tempo de contribuição, se homem, com valor corres-
pondente a 60% da média de todas as contribuições. Também reco-
nheceu como programada a aposentadoria de professor, em função
de magistério na educação infantil, no ensino fundamental ou no
ensino médio, que possui critérios específicos. Os demais benefícios
não são programados e, nos termos da EC n.º 103, em tese, podem
ser processados pelo setor privado. Passos nessa direção estão sendo
dados.
Por meio do projeto INSS Digital, iniciado em 2017, diversos
convênios com prefeituras e sindicatos já vêm sendo realizados para
que estas organizações recepcionem requerimentos e documentos
relativos aos benefícios previdenciários. Os convênios foram am-
pliados a partir de 2019, com a completa digitalização dos serviços,
mas é a PEC n° 32/ 2020 que traz as condições para a gestão destes
benefícios pelo setor privado.
A PEC 32/2020 altera e retira direitos e garantias dos atuais
servidores públicos, impõe novas regras aos futuros servidores e traz
prejuízos à população em geral ao comprometer a prestação dos ser-
viços públicos. Entre as propostas da PEC estão: o fim da estabili-
dade dos servidores; a quebra da primazia de ingresso no serviço
público mediante concurso público; a ampliação dos contratos por
tempo determinado; mudanças nas regras para ocupar os cargos
de direção e assessoramento, favorecendo as indicações políticas aos
novos cargos de liderança e assessoramento; maiores poderes ao
Presidente da República para extinguir cargos de Ministro de Esta-
do, cargos comissionados, cargos de liderança e assessoramento e
funções, ocupados ou vagos; criar extinguir, fundir ou reorganizar
órgãos, autarquias e fundações públicas por Decreto, sem aprovação
do Congresso; além da autorização para realizar contratos com or-

- 131 -
ganizações privadas para prestação de serviços públicos. Como sa-
lienta o DIEESE (2021, p. 7):

A PEC 32/2020 aprofunda a transferência de atividades públicas


para o setor privado. Até o presente momento é permitido à ad-
ministração pública firmar contratos [...] para o desempenho de
atividades públicas de natureza social não exclusivas de Estado. [...]
a PEC excetua apenas as atividades privativas de cargos típicos de
Estado da adoção desse tipo de contrato e todos os outros serviços
públicos poderão ser objeto desses instrumentos. Abre-se o cami-
nho para que organizações e empresas privadas com fins lucrativos,
inclusive, disputem recursos públicos ao ofertarem esses serviços.

Essa possibilidade favorecerá a contratação de empresas, ins-


tituições financeiras ou de outra natureza para processar benefícios
previdenciários não programados, além de outros serviços públicos,
gerando ônus para o setor público e comprometendo mais ainda o
acesso aos direitos. A infraestrutura governamental também poderá
ser usada pelo setor privado para prestar estes serviços, fomentan-
do a inapropriada imbricação entre o público e o privado, pois não
há definição precisa na PEC 32/2020 acerca de como isso ocorrerá.
Tudo será regulamentado por lei ordinária, após a sua aprovação.
No entanto, duas coisas são irrefragáveis na PEC 32/2020. A
primeira é o propósito do governo de reduzir a máquina pública,
incluindo a redução do quantitativo de servidores concursados e ca-
pacitados para as atividades públicas. A segunda é o seu intento de
aumentar o carreamento de recursos públicos para o setor privado.
O alvo da PEC de introduzir o princípio da subsidiariedade no art.
37 da Constituição Federal confirma esta perspectiva. O resultado
será o comprometimento da prestação dos serviços públicos, pela
descontinuidade dos serviços em função das mudanças de contratos,
pela falta de capacitação dos agentes privados, pela rotatividade de
servidores públicos e prestadores de serviços e, principalmente, por-
que a empresa privada visa o lucro e não a qualidade dos serviços e
políticas públicas. Outros tipos de contratos já mostraram isso.

As experiências com as OSSs, sobretudo na área de saúde nos es-


tados e municípios, colocam dúvidas quanto à eficiência desse tipo
de delegação, muitas vezes com elevado custo ao erário, pouca ou
nenhuma transparência, e oferta de serviços de baixa qualidade à
população. Aprofundar e ampliar esse modelo de prestação de ser-
viços [...] envoltos em irregularidades e desvios financeiros, parece

- 132 -
um caminho que privilegia alguns [...] interesses particulares em
detrimento do interesse público (DIEESE, 2021, p. 8).
Desse modo, a contrarreforma administrativa ataca conquis-
tas históricas dos servidores públicos e da população. É uma pro-
posta fortemente articulada à contrarreforma trabalhista de 2017,
que retirou direitos e tornou mais precárias as relações e condições
de trabalho no Brasil. Articulada à contrarreforma da Previdência
Social, em particular à EC 103/2019, que destrói direitos e a entre-
ga ao setor privado. Articulada à Medida Provisória 1.031, de 23 de
fevereiro de 2.021, que dispõe sobre a privatização da Eletrobras; ao
Projeto de Lei (PL) n.º 591, de fevereiro de 2020, que trata da privati-
zação dos Correios, sob o eufemismo da “organização e a manuten-
ção do Sistema Nacional de Serviços Postais (SNSP)”, entre outros
itens da agenda ultraneoliberal em curso no país. Pois trata-se de um
projeto estratégico de enxugamento do Estado e de seu aparelho e
mercantilização de direitos, cujos efeitos, implicarão mais desigual-
dade social e pobreza.

Considerações finais
A conjugação entre a contrarreforma da Previdência e de seu
aparelho não é novidade no Brasil. Também não é novidade a dire-
ção patrimonialista que estas contrarreformas assumiram em diver-
sas ocasiões, como na atualidade, em que não existem limites entre
o público e o privado. A novidade é a dimensão e celeridade deste
processo, sob o governo neofascista e ultraneoliberal de Jair Bolso-
naro. Vive-se um completo desmonte do Estado e de seu aparelho
em proporções alarmantes. Entre as combinações engenhosas desse
processo, encontra-se o projeto entreguista da Previdência Social aos
capitais, cujas principais bases são a EC n.º 103 de 2019 e a PEC n.º
32 de 2020. Ambas destrutivas, ambas de cunho mercadológico, am-
bas conjugadas como as duas faces da mesma moeda. Ambas exigem
reações de combate e enfretamento da classe trabalhadora, sobre a
qual os principais efeitos recairão. Espera-se que as reflexões aqui
desenvolvidas, contribuam para impulsionar esta reação.

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cia Social no Brasil: uma análise marxista. Campinas: Editora Papel
Social, 2021.

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A licença-maternidade como política de proteção
social para mães trabalhadoras
Fernanda Bezerra Martins Feitoza
Reginaldo Ghiraldelli
Introdução1
Este texto apresenta reflexões sobre a proteção social para
mães trabalhadoras, tendo como referencial o acesso e os limites
postos em relação à licença-maternidade. Discorre sobre a constru-
ção deste direito social, considerando as contradições e as forças so-
ciais que permeiam a sociedade capitalista, e aponta os limites e a
necessidade da intervenção do Estado e de outros agentes sociais, de
forma a assegurar proteção social para mães trabalhadoras a partir
da implementação de políticas públicas.
Desse modo, identifica limites e possibilidades do sistema de
proteção às mulheres e crianças, a partir de uma análise da licen-
ça-maternidade como um direito social que é resultante das lutas
dos movimentos sociais. Reconhece que avanços e conquistas das
mulheres em relação aos direitos civis, políticos e sociais resultam
do protagonismo de movimentos de mulheres por meio de lutas por
reconhecimento, igualdade, liberdade e direitos de cidadania.
Com base nessas premissas e, considerando as múltiplas di-
mensões que circundam a realidade, como os aspectos econômicos,
ideopolíticos, culturais e os valores éticos e sociais, entende-se que
o atual sistema de proteção à maternidade, embora seja uma impor-
tante conquista social, não assegura de forma plena e efetiva os direi-
tos das mulheres-mães, pois desconsidera as demandas e as comple-
xidades decorrentes das heterogeneidades da vida das mulheres no
que tange às questões de classe, raça, etnia, território e, além disso,
não protege as trabalhadoras de forma abrangente e universal. Nesse
sentido, são observados limites, fragmentação e seletividade no aces-
so aos direitos sociais e às políticas públicas.
1 Este capítulo compreende parte da pesquisa desenvolvida por Fernanda Bezerra Mar-
tins Feitoza no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS/
UnB), que foi concluído no ano de 2021 e contou com a orientação do Professor Regi-
naldo Ghiraldelli. O texto, em forma de capítulo, foi revisado, modificado e atualizado
pelos autores.

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Esta discussão não está isolada dos determinantes históricos e
sociais e, por isso, encontra-se situada na agenda pública e política da
sociedade capitalista, com todas as suas contradições. Sendo assim,
parte da compreensão de Estado como resultado da condensação de
forças e poderes que produzem e reproduzem formas de exploração
e dominação de classes (OSÓRIO, 2019). E é nessa arena, permeada
de paradoxos, conflitos e lutas de classe, que os direitos sociais e os
sistemas de proteção social são constituídos historicamente.
Desse modo, e considerando dialeticamente as adversidades
conjunturais e os processos históricos, os direitos sociais podem ser
ampliados, subtraídos, ameaçados e/ou retirados. O que se obser-
va, especialmente em momentos de crise, são as constantes ameaças,
ataques e desmontes dos direitos sociais, o que representa retroces-
sos para a classe trabalhadora. Assim, em um contexto de crise es-
trutural do capital (MÉSZÁROS, 2009), especialmente na atualidade
com os desdobramentos provocados pela pandemia do novo corona-
vírus, se faz necessário refletir e problematizar a condição social de
vida e trabalho das mulheres, mães e trabalhadoras.
Conforme os dados do IBGE (2021), no primeiro trimestre
de 2021, o Brasil tinha mais de 14 milhões de desempregados, sendo
que o percentual de mulheres desempregadas era de 17%, enquanto
o de homens era de 12%. Quando se trata de demissões, cortes de di-
reitos, flexibilização e precarização das atividades produtivas, os im-
pactos são mais acentuados para as trabalhadoras e, quando elas são
mães e/ou cuidadoras de pessoas idosas ou com deficiência, a perda
de direitos e o desemprego trazem consequências ainda maiores.
Para a análise do tema, tomou-se como referência a literatu-
ra especializada, as legislações brasileiras, os documentos produzi-
dos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização
Internacional do Trabalho (OIT), além da base de dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Relação Anual de
Informações Sociais (RAIS), do Cadastro Geral de Empregados e
Desempregados (CAGED) e dos sítios eletrônicos oficiais dos Tri-
bunais, tais como: Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior do
Trabalho, Tribunais Regionais Federais e Tribunais Regionais do
Trabalho.

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Breves considerações sobre a licença-maternidade como di-
reito social
No âmbito da família, a figura materna se destaca em relação
aos cuidados com os/as filhos/as, especialmente nos primeiros anos
de vida das crianças. Nessa fase, as mulheres tendem a vivenciar so-
brecargas de tarefas e atribuições, tendo em vista a dedicação às ati-
vidades reprodutivas e produtivas, precisando conciliar a vida profis-
sional e a rotina doméstica, que inclui os cuidados com o lar, com os/
as filhos/as e demais dependentes. Isso sem considerar situações em
que essas mulheres estudam e, muitas vezes, precisam suspender ou
até mesmo abandonar a escola ou a universidade. Tal realidade cor-
robora com as reflexões de Gama (2012), quando ele descreve que o
trabalho produtivo e o trabalho reprodutivo estão intimamente re-
lacionados, num ciclo de mútua dependência e retroalimentação e,
nesse sentido, não seria possível um/a trabalhador/a sair de casa para
trabalhar se não houvesse uma pessoa para cuidar dos/as filhos/as,
de pessoas idosas, com deficiência ou dependentes.
A licença-maternidade constitui um direito social funda-
mental, possibilitando às mulheres trabalhadoras a manutenção do
emprego e da renda no período em que necessitam dedicar-se aos
cuidados com o/a filho/a. A Constituição Federal de 1988 (BRASIL,
1988) prevê em seu artigo 7º, inciso XVIII, que é direito das traba-
lhadoras urbanas e rurais a licença-maternidade de 120 dias, sem
prejuízo da remuneração laboral. Tal previsão também consta no
artigo 392 da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1943),
representando avanços significativos no sistema de proteção social
para as mulheres. Porém, é preciso questionar e problematizar a
adequação da referida licença com respeito ao seu lapso temporal e,
também, quanto ao início do seu transcurso em caso do nascimen-
to de crianças prematuras. Também é importante problematizar a
licença-paternidade e parental, ou seja, as licenças que envolvem a
participação paterna ou de outro/a responsável pela criança, com o
objetivo de cooperação no trabalho do cuidado e redução das desi-
gualdades de gênero e intrafamiliares.
Outro aspecto a ser considerado no processo da maternida-
de diz respeito ao aleitamento. A Organização Mundial de Saúde
(OPAS/OMS, 2018) recomenda o aleitamento materno exclusivo até
os 6 meses de vida das crianças e o aleitamento não exclusivo até os
2 anos de vida. O lapso temporal de 120 dias, portanto, não tem se

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mostrado suficiente para a consolidação dos laços afetivos entre as
crianças, as mães e os demais membros da família. Exemplo disso é
o fato de que, aos 4 meses de vida da criança, as mulheres necessitam
retornar ao mercado de trabalho, interrompendo de forma precoce o
período de amamentação exclusiva. No caso do nascimento prema-
turo, que corresponde a cerca de 12% dos partos no Brasil, confor-
me informações disponibilizadas pela Organização das Nações Uni-
das (ONU, 2013), a licença-maternidade começa a contar a partir
do nascimento da criança e não da alta hospitalar, o que expressa
os limites desse direito, pois não corresponde às demandas e neces-
sidades concretas das mães, das crianças e das famílias. É comum
que a criança prematura permaneça dias ou até mesmo meses em
Unidades de Terapia Intensiva Neonatal, ocorrendo nesse período o
transcurso da licença-maternidade.
O direito a uma licença-maternidade que efetivamente atenda
às necessidades das mães trabalhadoras deveria circunscrever-se à
prerrogativa do básico social, conforme o entendimento de Pereira
(2008), pois ao contrário da concepção de mínimo, que apresenta a
conotação de ínfimo e menor, a licença-maternidade deve ser consi-
derada sob a ótica do básico social, ou seja, daquilo que é fundamen-
tal, principal, primordial e indispensável.
O debate sobre a ampliação da licença-maternidade está na
pauta pública, no Congresso Nacional, nos tribunais e nos movi-
mentos sociais. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n.º
181/2015 busca alterar o texto constitucional de forma a prever que o
prazo da licença-maternidade se inicie a partir da alta hospitalar nos
casos de parto prematuro. Já a PEC n.º 515/2010 prevê o aumento
do período de licença-maternidade para 180 dias, regra que valeria
para as mulheres trabalhadoras dos setores públicos e privados. Mas
em uma realidade de expansão de trabalho informal, terceirizado,
precarizado e desprotegido, é imprescindível situar também a condi-
ção das mulheres sem vínculo empregatício no acesso ao respectivo
direito.
Não obstante tais propostas legislativas, algumas empresas e
órgãos públicos já preveem licença-maternidade de 180 dias para
trabalhadoras e servidoras públicas. É o caso das mulheres que tra-
balham em empresas que aderiram ao Programa Empresa Cidadã,
regulamentado pela Lei n.º 11.770/2008 (BRASIL, 2008), bem como

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das servidoras públicas federais, com vínculo laboral regido pela Lei
n.º 8.112/1990 (BRASIL, 1990).
Quanto ao parto prematuro, algumas empresas e órgãos púbi-
cos têm concedido administrativamente os pedidos de ampliação da
licença e outras o têm feito mediante decisões judiciais. As decisões
judiciais favoráveis às trabalhadoras foram ampliadas após a deci-
são do Supremo Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucio-
nalidade 6327 (BRASIL, 2020) em março de 2020, que determinou
que a licença-maternidade deve ser ampliada pelo número de dias
da internação hospitalar da criança ou da mãe, quando a interna-
ção superar 14 dias e ocorrer em razão de sequelas decorrentes do
parto. Essa decisão, confirmada pelo Plenário do Supremo em abril
de 2020, foi regulamentada pelo Ministério da Economia e Instituto
Nacional do Seguro Social com a Portaria Conjunta n.º 28, de 19 de
março de 2021.
Algumas posições contrárias à ampliação da licença-mater-
nidade, seja por 180 dias, seja pelo número de dias da internação
hospitalar de crianças prematuras, são conhecidas e se sustentam no
discurso falacioso de que tal ampliação implicaria em maiores custos
para o empregador e necessariamente em menor contratação de mu-
lheres no mercado de trabalho. Há também os ideólogos do Estado
neoliberal, defendendo que é de responsabilidade das mulheres e das
famílias os custos sociais com a maternidade. Ocorre que, confor-
me descreve Proni (2012), as conquistas sociais e trabalhistas das
mulheres ao longo das últimas décadas não implicaram na exclusão
feminina do mercado de trabalho. Pelo contrário, a participação das
mulheres no mundo produtivo aumentou nas últimas décadas1.
Em 1988, com a promulgação da Constituição Federal, a li-
cença-maternidade foi estabelecida em 120 dias, conforme precei-
tua o artigo 7º, inciso XVIII e imaginava-se que nos anos seguintes
haveria um decréscimo na contratação de mulheres. Mas os dados
mostraram que isso não ocorreu, ou seja, o discurso falacioso que as-
socia a ampliação dos dias da licença-maternidade (no caso dos 180
1 Em dezembro de 1988, de acordo com a RAIS, cerca de um terço (33,9%) dos empregos
formais no Brasil eram ocupados por mulheres e dois terços (66,1%) por homens. Se o
aumento do período de licença-maternidade desestimulasse as empresas a contratarem
mulheres para o seu quadro de funcionários, a proporção de mulheres com emprego
formal deveria ter sido reduzida. Porém, não foi isso que aconteceu nos anos seguintes,
pois o percentual de mulheres no total dos empregos registrados elevou-se para 35,9%
em 1992 e continuou aumentando gradualmente ao longo da década de 1990 (PROUNI,
2012, p. 34)..

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dias) com a não incorporação das mulheres no mercado de trabalho
não se sustenta. Porém, as mulheres, ainda são penalizadas pelo fato
de serem mães, como se observa na pesquisa de Machado e Neto
(2016), que identificou que aproximadamente metade das trabalha-
doras está fora do mercado formal de trabalho até 47 meses após a
licença-maternidade. Esse período de, aproximadamente, 4 anos
coincide com a fase do desenvolvimentoinfantil, que requer maiores
cuidados com a amamentação, introdução alimentar, doençastípicas
da fase de maturação imunológica da criança, idas ao médico, ini-
ciação escolar, dentre outros. A pesquisa apontou que o salário das
trabalhadoras que não são mães é até 40% maior do que aquele pago
às trabalhadoras com filhos/as.

Mulheres, trabalho e as desigualdades persistentes


Na realidade brasileira, as mulheres são protagonistas no cui-
dado, seja no cuidado familiar, seja fora dele. Esta realidade foi de-
monstrada pela PNAD Contínua do IBGE (2017), na qual se cons-
tatou que as mulheres gastam, em média, 20,9 horas por semana
em afazeres domésticos e no cuidado de pessoas, enquanto que os
homens gastam em média apenas 10,8 horas nas mesmas atividades
(RENAUX, 2018).
Nessa discussão, não se pode desconsiderar o envolvimento
das mulheres com o trabalho do cuidado sem a compreensão do sig-
nificado político, econômico e social que esse segmento ocupa no
modo de produção capitalista. A inserção das mulheres no mercado
de trabalho deu-se de maneira diferenciada em relação aos homens
e, nesse sentido, Hirata e Kergoat (2007) reforçam a importância do
debate sobre a divisão sexual do trabalho, de modo a abordar as de-
sigualdades sistemáticas e hierarquizadas entre homens e mulheres.
As autoras, ao reforçarem a prevalência das mulheres no trabalho
doméstico, argumentam que se discute sobre a conciliação trabalho
e família, de modo a buscar alternativas amenizadoras da jornada
(exaustiva) de trabalho das mulheres dentro e fora de casa por meio
de políticas públicas como creches, escolas, dentre outras, mas não
se fala em alterar a estrutura que produz e reproduz essas desigual-
dades.
O ingresso das mulheres de forma massiva no mercado de tra-
balho durante a primeira Revolução Industrial, ocorrida no final do

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século XVIII até meados do século XIX, pode ser considerado um
marco histórico de transformação da realidade e da participação
das mulheres no mercado de trabalho capitalista. As portas do mun-
do produtivo do trabalho foram abertas para as mulheres de forma
condicionada, ou seja, que mantivessem a casa em ordem, que cui-
dassem dos/as filhos/as e dependentes, mesmo despendendo tempo
e energia no trabalho produtivo. Ou seja, deveriam ser produtivas ao
máximo, sem descuidar das tarefas da reprodução.
No Brasil, a partir da década de 1980, ocorreu um aumento
expressivo da participação feminina em nichos de mercado anterior-
mente dominados pelos homens. Embora tenha ocorrido um cres-
cimento significativo da participação feminina no mercado de tra-
balho, o salário pago às mulheres é, ainda, em média, 24,4% menor
do que o salário pago aos homens que exercem as mesmas funções
(IBGE, 2018b).
A Constituição Federal de 1988 preconiza que homens e mu-
lheres são iguais em direitos e obrigações e, em seu artigo 7º, inciso
XXX, proíbe a distinção no tocante a salário, exercício de funções e
critérios de admissão por motivo de sexo, idade, raça/cor ou estado
civil. Porém, a distância entre os direitos positivados e a realidade
social é ainda significativa, como se observa com a posição das mu-
lheres que são mães no mercado de trabalho, ainda marcada por for-
mas de discriminação, inseguranças, precarização, informalidade e
desigualdade social
Em um contexto de desigualdades, desemprego, ausência do
Estado e alcance limitado (ou não alcance) das políticas públicas,
é recorrente que muitas trabalhadoras, após ter filhos/as, deixem
o mercado de trabalho formal e passem a trabalhar informalmente,
por conta própria outornando-se microempreendedoras individuais
(MEI). Em muitos casos, essas mulheres deparam com a sobrecarga
diante dos cuidados domésticos e com as crianças, tendo que, em um
mesmo espaço, trabalhar para garantir renda e manter o lar em fun-
cionamento. Essas mulheres, por vezes, não contribuem para a Pre-
vidência Social, ficando desprotegidas em casos de adoecimento ou
invalidez, além de não usufruírem de uma aposentadoria no futuro.
A “glamourização” do empreendedorismo oculta a realidade de pre-
carização e desproteção social da classe trabalhadora e, nesse caso
específico, das mulheres. No caso das trabalhadoras que são mães,

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muitas acabam renunciando direitos, proteção social, reconheci-
mento público e ascensão na carreira para viabilizar a reprodução
e o atendimento das necessidades sociais da família. O trabalho do-
miciliar acaba sendo uma alternativa de sobrevivência para muitas
mulheres na difícil tarefa de conjugar as tarefas domésticas, o cuida-
do com os/as filhos/as e o atendimento das necessidades familiares
básicas por meio de uma renda. Muitas mulheres acabam exercendo
as atividades laborais na própria residência, especialmente aquelas
ligadas ao setor têxtil-confecção, de calçados e de gêneros alimentí-
cios. Em muitos casos, o trabalho domiciliar e o trabalho doméstico
não remunerado se mesclam e se confundem2.
Em 2017, foi aprovada a Reforma Trabalhista (Lei n.º 13.467),
em um contexto de ataques aos direitos sociais da classe trabalha-
dora, em que se recorria no plano político e ideológico ao discurso
de “modernizar” e trazer melhorias para as relações de trabalho, vi-
sando estimular as contratações e a capacidade produtiva. Porém, 4
anos após a aprovação dessa Reforma, e sob os efeitos dramáticos da
pandemia, observa-se que as ocupações não estão crescendo (quan-
do acontece são ocupações informais, temporárias, precárias, instá-
veis e desprotegidas) e o desemprego continua alcançando índices
alarmantes.
A Reforma Trabalhista afetou de modo particular as trabalha-
doras que são mães como, por exemplo, se observa no artigo 394-A
da CLT, que trata do trabalho insalubre realizado por mulheres ges-
tantes e lactantes. A Reforma buscou, de maneira abusiva, permitir
que mulheres grávidas ou em fase de amamentação pudessem se ex-
por a qualquer nível de insalubridade (grau mínimo, médio e máxi-
mo)3. A Medida Provisória (MP) nº 808 de 2017 determinou que o
2 O trabalho doméstico remunerado é aquele realizado pelas empregadasdomésticas, ba-
bás, diaristas, cuidadores/as de idosos/as, etc. Os dados divulgados recentemente apon-
tam que somente 3 em cada 10 empregadas domésticas no Brasil possuem carteira de
trabalho assinada (IPEA, 2019), ou seja, observa-se uma prevalência da informalidade,
instabilidade, insegurança e precariedade nesse ramo laboral.
3 Art. 394-A. Sem prejuízo de sua remuneração, nesta incluído o valor do adicional de
insalubridade, a empregada deverá ser afastada de: I - atividades consideradas insalubres
em grau máximo, enquanto durar a gestação; II - atividades consideradas insalubres em
grau médio ou mínimo, quando apresentar atestado de saúde, emitido por médico de
confiança da mulher, que recomende o afastamento durante a gestação; III - atividades
consideradas insalubres em qualquer grau, quando apresentar atestado de saúde, emitido
por médico de confiança da mulher, que recomende o afastamento durante a lactação. A
título de esclarecimento, a NR 15 do extinto Ministério do Trabalho regulamenta quais
agentes insalubres são considerados de grau mínimo, médio ou máximo. [...] o ruído, o
calor, a radiação não ionizante, a vibração, o frio, a umidade são considerados de grau

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afastamento das gestantes de ambiente insalubre fosse automático,
sem necessidade de apresentação de laudo médico.Com o fim da vi-
gência da MP, não tendo o Congresso Nacional a transformado em
lei, as grávidas e lactantes ficaram expostas à insalubridade.
Posteriormente, foi apresentada pela Confederação Nacional
dos Trabalhadores Metalúrgicos, a Ação Direta de Inconstituciona-
lidade 5.938 perante o STF, que decidiu em medida cautelar, no dia
30/04/2019, pelo afastamento automático de gestantes e lactantes de
ambientes considerados insalubres, independentemente do grau, ga-
rantindo-se a percepção do respectivo adicional no salário.
Outro aspecto presente na Reforma Trabalhista diz respeito às
trabalhadoras que amamentam, que trouxe o direito a dois períodos
de descanso durante a jornada de trabalho para amamentar filho/a
de até 6 meses de idade. Esse período de 6 meses pode ser dilatado
de acordo com as condições de saúde das crianças, a critério da au-
toridade competente (art. 396, § 1º, da CLT). A Reforma prevê que
os horários de descanso sejam definidos em acordo individual entre
as mulheres e empregadores/as, porém, os acordos individuais são
desafiadores para a classe trabalhadora em geral, considerando as
relações hierárquicas constituídas nas relações entre empregador/a
e empregado/a.
O direito à licença-maternidade: limites, entraves e alcances
A Constituição de 1934 foi a primeira a abordar sobre a pro-
teção social à maternidade, mas foi com a Constituição Federal de
1988 que a proteção à maternidade foi alçada ao patamar de direito
social para trabalhadoras urbanas e rurais, figurando em igual pata-
mar de importância com o direito à educação, à saúde, à moradia e
à Previdência Social. Além disso, o prazo foi ampliado, pois, desde
1934, o período de licença era de 84 dias. Em 2014, foi promulga-
da a Lei Complementar que garantiu o benefício da licença gestante
para aquele/a que detiver a guarda judicial da criança recém-nascida
nos casos de falecimento da genitora (LC n.º 146, de 25 de junho de
2014). Com isso, são observados avanços na proteção à maternidade
ao longo dos textos constitucionais, que passou de uma previsão ge-
nérica sobre descanso remunerado para, efetivamente, dispor sobre
médio, ensejando adicional de 20%; a radiação ionizante, o ar comprimido e as poeiras
minerais, em grau máximo - 40%, por último, os agentes químicos têm graus diversos:
alguns em grau máximo, outros em médio ou mínimo (CASSAR, 2018, p. 62).

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o número de dias, a estabilidade no emprego e o ente responsável
pelo pagamento do direito social, no caso, a Previdência Social. Isso
é importante para as mulheres, pois, retira do empregador essa res-
ponsabilidade, mantendo homens e mulheres em condições de pari-
dade no mercado de trabalho
Para as mães trabalhadoras, a licença-maternidade é um direi-
to social fundamental assegurado pelo prazo de 120 dias com valor
integral da remuneração. Caso a renda da trabalhadora seja variável,
o cálculo é realizado de acordo com a média dos seis últimos salários.
O referido direito garante às mulheres trabalhadoras as condições de
cuidado nos primeiros meses de vida da criança, sem prejuízo de
sua remuneração e sem perda do emprego. O Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias, garante, ainda, estabilidade no empre-
go durante toda a gravidez e até 5 meses após o parto (ADCT, artigo
10, II, b).
Conforme apontam Abrão e Mioto (2017), o período da licen-
ça-maternidade varia entre os países, porém, a maioria deles possui
um período de licença de 12 semanas ou mais4. A licença-materni-
dade, paternidade e parental não seguem um padrão fixo, poden-
do variar conforme a realidade de cada país. Características como
o nível de desenvolvimento socioeconômico e de incorporação dos
direitos humanos em cada Estado é fator relevante na determinação
do número de semanas da licença em razãodo nascimento ou adoção
de filhos/as. Em países do Oriente Médio e da África observa-se um
menor número de semanas de licença-maternidade e, também, os
menores níveis de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Por
4 O retrato da duração legal da licença-maternidade entre 185 países e territórios,
apresentado pelo Maternity and paternity at work (OIT), mostra que 53% (98 países)
cumprem a norma da OIT de garantir a licença materna por no mínimo 14 semanas,
enquanto 42 países cumprem ou superam a licença proposta de 18 semanas. 60 países
concedem uma licença entre 12 e 13 semanas, que é inferior ao proposto pela Convenção
nº 183, mas encontra-se em conformidade com os convênios anteriores. Apenas 15% (27
países) concedem menos de 12 semanas. As durações obrigatórias mais prolongadas de
licença-maternidade são observadas nos países da Europa Oriental e Ásia Central (quase
27 semanas) e nos países desenvolvidos (21 semanas). A média regional mais curta é
registrada no Oriente Médio (9,2 semanas). A extensão da licença-maternidade no Brasil
(17 semanas) aparece acima de vários países, dentre eles: China (98 dias, 14 semanas);
Indonésia (13 semanas); Índia (12 semanas); Bélgica (16 semanas); França (16 semanas);
Japão (14 semanas); Espanha (16 semanas); Suécia (14 semanas) e Estados Unidos (12
semanas). Na América Latina e Caribe se iguala à Costa Rica (17 semanas) e fica abaixo
apenas de Cuba (18 semanas) e da Venezuela (26 semanas) (ABRÃO e MIOTO, 2017,
p. 322-323).

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outro lado, países da Europa possuem maior período no usufruto
da licença-maternidade, paternidade e parental, possuindo também
maior IDH, que leva em consideração os indicadores de saúde, edu-
cação e renda da população5.
A Convenção nº 183 de 2000 da OIT preconiza como período
da licença-maternidade o mínimo de 14 semanas com, no mínimo,
dois terços da remuneração habitual das trabalhadoras. A referi-
da Convenção não foi ratificada pelo Brasil, que ratificou somente
a Convenção anterior, a nº 103, que determina licença mínima de
12 semanas. Porém, o Brasil adota atualmente 17 semanas de licen-
ça. Em relação à remuneração no período da licença, as variações
não se mostraram muito expressivas e distintas. Em 31 dos 43 países
analisados pela OIT, remunera-se a trabalhadora licenciada com 85 a
100% dos rendimentos habituais. Em 2 países pesquisados (Suécia e
Itália), a remuneração varia entre 66 e 84% da remuneração habitual-
mente percebida. Em 7 países(Nigéria, África do Sul, Paraguai, Costa
Rica, Canadá, China e Kiribati), essa remuneração varia de 25 a 65%.
Apenas em 2 países (Estados Unidos e Papua Nova Guiné) não há
previsão de qualquer pagamento pela licença-maternidade.
Ao se analisar os dados, identifica-se uma relação direta entre
o nível educacional, de renda e de acesso aos serviços de saúde com a
amplitude de semanas da licença-maternidade, porém, o mesmo não
se pode concluir sobre a remuneração recebida durante o período
da licença, que varia independentemente desses fatores. Ou seja, em
muitos casos, um país com alto IDH não necessariamente remunera
a licença-maternidade em 100% do salário das trabalhadoras.

5 O índice é uma referência numérica que varia de zero a um, sendo mais desenvolvido
o país com um IDH mais próximo de um. São chamados de países desenvolvidos aqueles
com índice de 0,800 a 1,00. São considerados países em desenvolvimento aqueles
com IDH de 0,555 a 0,799 e subdesenvolvidos aqueles com IDH abaixo de 0,554. Algu-
mas críticas que se faz à elaboração do IDH é que o mesmo não leva em consideração,
por exemplo, a qualidade dos serviços de educação e saúde ofertados e a distribuição da
renda no país analisado (OIT, 2018).

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A licença parental tem sido adotada em alguns países como al-
ternativa para superar desigualdades entre homens e mulheres no que
tange ao cuidado dos/as filhos/as. Em geral, há um prazo da licença-
-maternidade que deve ser obrigatoriamente usufruído pela mãe, para
recuperação do parto e amamentação, e depois há um período que
pode ser usufruído por qualquer um dos/as genitores/as, sendo que em
alguns países existe uma “cota” para cada genitor/a. Estímulos financei-
ros são oferecidos para que pais e mães possam, efetivamente, dividir
a licença, pois entende-se que se a divisão for deixada totalmente ao
critério dos casais, as mulheres continuarão sendo as únicas a utilizá-la.
Em Portugal, a proteção à maternidade está prevista na Consti-
tuição da República de 1976 (CRP) e no Código Trabalhista Português
(CTP). A licença-maternidade neste país é, em regra, de 120 dias e se
divide da seguinte forma: 6 semanas após o parto são obrigatoriamente
usufruídas pela mãe e as outras semanas podem ser divididas com o pai
(art. 41, CTP). A licença-paternidade é de 20 dias úteis. Desses 20 dias,
5 são usufruídos necessariamente após o nascimento da criança e o res-
tante pode ser utilizado em seguida ou intercalado durante o primeiro
mês de vida da criança (art. 43, CTP). No caso português, também exis-
tem incentivos financeiros para que o pai da criança usufrua da licença
parental. Quando o pai utiliza 30 dias de licença parental, recebe 100%
do seu salário. Se for 60 dias de licença, receberá 83% do salário du-
rante o período. Após esse período, o pai e a mãe podem tirar licenças
de até 3 meses cada um, de maneira alternada, o que totaliza 12 meses
em que um dos/as genitores/as poderá acompanhar o desenvolvimento
da criança. Nesse caso, a remuneração cai para apenas 25% do salário.
Em todos os casos, o pagamento é realizado pela Previdência Social de
Portugal e não pelo empregador (OIT, 2009).
No caso brasileiro, é importante destacar que a licença-materni-
dade concedida em casos de adoção só poderá ser conferida a um/a dos/
as adotantes, na hipótese de ser um casal. Não há distinção entre adoção
por casais heterossexuais ou homossexuais, bem como por pessoas sol-
teiras. Nota-se que é plenamente possível que um homem usufrua da li-
cença, o que coloca na agenda pública e política da sociedade brasileira a
necessidade de uma licença parental, de forma a atender as diversidades
familiares nas suas respectivas pluralidades e necessidades.
Schifino (2015), ao analisar as mudanças trazidas pela Lei n.º
12.873/2013, destaca avanços no sentido de ampliar a igualdade en-
tre homens e mulheres, uma vez que permitiu a concessão da licença

- 148 -
aos homens, por exemplo, solteiros, casais homossexuais e viúvos.
Essa legislação aponta para o alcance de uma licença parental, a
exemplo do modelo existente na Suécia, em que ambos os cônjuges
se licenciam nos 3 primeiros meses de vida da criança, podendo de-
pois optarem pelo retorno de um dos cônjuges até a criança com-
pletar 1 ano de idade. Cabe destacar que na Suécia há pagamento do
salário integral para ambos.
A manutenção integral da renda é imprescindível, pois se tor-
na um elemento determinante nas decisões do usufruto da licença, já
que a renda obtida pelo trabalho é fundamental para o atendimento
das necessidades familiares, sobretudo, no momento do nascimento
dos/as filhos/as, quando as demandas aumentam.

Considerações Finais
A ampliação da licença-maternidade no Brasil tem sido de-
batida há anos no espaço público. No Parlamento, estão em curso a
PEC n.º 181 de 2015, a PEC n.º 515 de 2010 e o PL n.º 1852 de 2019,
que tratam da suspensão da licença-maternidade em caso de parto
prematuro seguido de internação hospitalar.
Como visto, a licença-maternidade é concedida desigualmen-
te às mulheres. Uma parte acessa 120 dias, conforme a CLT, enquanto
outras são contempladas com 180 dias, como é o caso das servidoras
públicas federais, algumas servidoras públicas estaduais e munici-
pais (de acordo com legislação específica) e as celetistas cuja empresa
aderiu ao Programa Empresa Cidadã. Isso sem mencionar as traba-
lhadoras informais e precarizadas que sequer possuem vínculo em-
pregatício formal e cobertura previdenciária. A proposta de Emenda
Constitucional que visa reparar essa desigualdade, estipulando 180
dias de licença para todas as trabalhadoras (PEC n.º 515/2010) não
avança no Congresso Nacional, pois o discurso focado unicamente
no “custo” da licença tem prevalecido em detrimento da proteção
social.
As decisões judiciais para mães de crianças prematuras que
buscam na Justiça a ampliação da licença-maternidade têm sido
favoráveis à proteção social das trabalhadoras e das crianças. En-
tende-se que ocorreram alguns importantes avanços, mesmo que
limitados e residuais, no âmbito da proteção social às mulheres e à
maternidade. O que se observa é que ainda há um longo caminho
pela frente, considerando-se as contradições, as desigualdades exis-

- 149 -
tentes, os interesses e as forças sociais constituídas na sociabilidade
capitalista.
Por fim, fica o entendimento de que os direitos sociais, expres-
são das lutas de classe, representam conquistas históricas e respostas
ao processo desenfreado de exploração e acumulação capitalista. Por
isso, é fundamental defendê-los e ampliá-los, tendo a compreensão
de que a superação dessa realidade só será possível mediante resis-
tências e a continuidade das ações e lutas coletivas da sociedade e das
mulheres, organizadas em associações, sindicatos, partidos políticos,
movimentos sociais, dentre outras formas de agremiações.

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- 153 -
- 154 -
Migrações, mulheres e direitos sociais:
uma abordagem teórica interseccional sobre
gênero, raça e classe
Danielle Galdino Solouki
Cristiano Guedes

Introdução
As mulheres no Afeganistão têm reivindicado direitos so-
ciais e preservação de suas vidas com dignidade, desde que os talibãs
assumiram o controle do país em agosto de 2021, o que já era uma
demanda histórica. Movimentos feministas internacionais, sobretu-
do na região do Oriente Médio, reivindicam que o governo Talibã
se comprometa em respeitar as liberdades individuais das mulheres
afegãs e seus direitos fundamentais, tais como a liberdade de expres-
são, direito à educação e ao trabalho. Diante das incertezas, aumento
da violência urbana e riscos às suas existências, elas têm deixado sua
terra natal e buscado refúgio em outros países. Assim como o recente
caso das migrações forçadas de mulheres afegãs, os movimentos mi-
gratórios femininos são uma realidade motivada por fatores diversos
no mundo contemporâneo.
A movimentação de pessoas de um lugar para outro, sejam
homens ou mulheres, é inerente à própria existência humana e
acompanha a sua história desde os tempos mais remotos. Contudo,
o século XXI tem sido marcado por uma crise humanitária em de-
corrência do deslocamento de milhares de pessoas em vários lugares
do mundo, especialmente de países pobres para os de economia cen-
tral, em busca de melhores condições de vida, mostrando sua relação
com o movimento do próprio capital e suas crises (SILVA; QUEI-
RÓZ; FERREIRA, 2016).
Sayad (1998, p.15), tomando de empréstimo a expressão
cunhada por Marcel Mauss, reconhece que a imigração é “um fato
social completo”, que atrai o interesse de inúmeras disciplinas. Pois,
como define o autor, “a imigração é, em primeiro lugar, um desloca-
mento de pessoas no espaço, e antes de mais nada no espaço físico;
[...] Mas [...] é também um espaço qualificado em muitos sentidos,

- 155 -
socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente [...]
etc.”. Tal entendimento faz das migrações internacionais objeto de
muitos campos disciplinares, dentre os quais se encontram as Ciên-
cias Humanas, Sociais e os estudos em Política Social (PPGPS, 2021;
SOLOUKI, 2021).
No cenário contemporâneo, o tema das migrações vem sendo
mais recentemente observado a partir da participação das mulheres
nesse movimento – fenômeno este denominado de feminização das
migrações internacionais (MARINUCCI, 2007; DUTRA, 2012). De
acordo com alguns pesquisadores do tema, por muito tempo os estu-
dos migratórios ocultaram as relações de gênero. A mulher possuía
um lugar marginal de acompanhante do marido migrante trabalha-
dor, permanecendo associada aos papéis socio-históricos e patriar-
cais de esposa, mãe e cuidadora (BRASIL; ARAÚJO, 2016; MOROK-
VASIC, 1984; REYSOO, 2004; TORRADO, 2014).
No Brasil, tem ocorrido um aumento na produção científica
sobre o tema. Prova disto são as diversas análises em âmbito nacio-
nal, em especial sobre a capacidade do Estado de gerir fluxos mi-
gratórios e promover a integração de imigrantes no país. A relação
entre migração e gênero também tem se tornado objeto de estudo
científico de forma mais expressiva na última década, sobretudo no
campo das Ciências Sociais e Humanidades, com destaque ao papel
desempenhado por pesquisadoras mulheres e estudos sob a perspec-
tiva de gênero (PERES; BAENINGER, 2012; DUTRA, 2013; BER-
TOLDO, 2018).
Este trabalho representa uma reflexão teórica introdutória
sobre o tema da imigração de mulheres, resultante de pesquisas bi-
bliográficas e discussões realizadas durante pesquisa de Doutorado
no Programa de Pós-Graduação em Política Social, da Universidade
de Brasília, e concluída com a defesa da tese intitulada “Imigração fe-
minina no Brasil: Um estudo interseccional sobre as trajetórias, redes
sociais e trabalho das haitianas residentes no Distrito Federal” (SO-
LOUKI, 2021). O presente capítulo tem como objetivo mostrar como
a questão do gênero tem sido incorporada nos estudos migratórios
contemporâneos, dentro do marco conceitual da feminização das mi-
grações. E como esse recorte tem sido articulado a outras categorias
discriminatórias, como raça, etnia, classe, dentre outras, revelando
assimetrias significativas nas relações sociais e distribuição do poder.

- 156 -
Uma questão fundamental é pensar como têm sido articu-
ladas essas categorias sociais de diferenciação. Será que as relações
de gênero, raça e classe, dentre outras, são tratadas com igual im-
portância? Ou algumas dessas dimensões são mais acentuadas que
outras? Objetivando responder a essas e outras questões, este tex-
to está organizado em duas seções que situam, conceitualmente, as
categorias analíticas de feminização das migrações internacionais e
interseccionalidades.

Feminização das migrações internacionais


O conceito de “feminização das migrações” não é homogêneo.
Apesar da presença significativa de mulheres em mobilidade trans-
nacional, ainda se discute a sua aplicabilidade. Marinucci (2007)
apresenta pelo menos três possíveis interpretações da expressão: fe-
minização quantitativa, em termos de aumento numérico da parti-
cipação feminina nas migrações internacionais; feminização como
visibilidade, em que não se trata de um aumento numérico da migra-
ção feminina, e sim um maior destaque do recorte de gênero nos es-
tudos migratórios contemporâneos; e feminização qualitativa, com
foco no perfil da mulher migrante contemporânea, a partir de sua
participação na divisão sexual internacional do trabalho.
Quantitativamente, em 2019, havia um contingente de 272 mi-
lhões de imigrantes internacionais. Desse total de pessoas em deslo-
camento no mundo, quase a metade (47,9%) é composta por mulhe-
res. Recentemente, esses fluxos migratórios têm buscado também os
países em desenvolvimento, muito em razão do aumento do controle
das fronteiras de países do Norte global e de suas políticas migrató-
rias mais restritivas. Na América Latina e Caribe representam quase
11,7 milhões de imigrantes, revelando um aumento em comparação
a 2010 (8,3 milhões) e 2000 (quase 6,6 milhões). (ONU, 2019). Nesta
região, o percentual de imigração feminina é maior, representando
50,4% do total de imigrantes internacionais (IOM, 2018).
Na perspectiva da visibilidade das mulheres no movimen-
to migratório, autores que seguem essa vertente afirmam que não
se trata de um aumento numérico da migração feminina, e sim um
maior destaque do recorte de gênero nos estudos migratórios con-
temporâneos. O que significa, segundo Marinucci (2007), uma au-
sência ou limitação do enfoque de gênero nos estudos migratórios

- 157 -
das décadas passadas, sobretudo no que tange às experiências migra-
tórias das mulheres.
Antes de 1980, as teorias clássicas eram basicamente andro-
cêntricas, insinuavam que o modelo representativo de sujeito mi-
grante era de tipo econômico (produtivo) e do sexo masculino. As
mulheres ficavam invisibilizadas num papel marginal no processo
migratório e dependente da figura do trabalhador migrante, desti-
nadas ao espaço doméstico e do cuidado, e ocultadas da realidade
de que sempre migraram, embora não nas mesmas condições e re-
sultados que os homens (BOYD; GRIECO, 2003; REYSOO, 2004;
LANDRY, 2012; TORRADO, 2014).
Foi a partir do final dos anos 1970 e início dos anos de 1980
que se iniciou um esforço de se produzir novas epistemologias mi-
gratórias que refletissem a realidade das mulheres migrantes. O
movimento feminista norte-americano teve grande influência nes-
sa iniciativa. É com os estudos vinculados ao processo de globaliza-
ção, e suas influências sobre a heterogenia dos movimentos migra-
tórios, que se passa a desmistificar a mulher de seu papel de mera
acompanhante do migrante masculino e a evidenciar o seu papel de
migrante independente. Os estudos começaram a revelar que elas
também ocupam espaços laborais no processo de reestruturação da
economia global, que mudou profundamente a estrutura da divisão
sexual internacional do trabalho, ampliando o papel econômico das
mulheres (MOROKVASIC, 1984; BOYD; GRIECO, 2003; REYSOO,
2004; QUIMINAL, 2009; TORRADO, 2014).
Entretanto, a inserção do gênero nos estudos migratórios se
deu, inicialmente, a partir das teorias já existentes sobre as migra-
ções internacionais. Os papéis historicamente atribuídos às mulhe-
res ainda conduziam a linha investigativa com base na teoria econô-
mica neoclássica, de viés individualista, que tentava explicar porque
mulheres são menos propensas a migrar que os homens. Já no nível
macro, estudos tentavam mostrar que o estágio de desenvolvimento
econômico dos países influenciava na divisão sexual internacional
do trabalho, determinando papéis e demandas específicos para ho-
mens e mulheres migrantes (BOYD; GRIECO, 2003).
A partir das décadas de 1980 e 1990, a categoria social de gê-
nero ganhou maior destaque nos estudos migratórios, associados ao
patriarcado, analisando de que forma as estruturas afetam a capaci-

- 158 -
dade das mulheres de migrarem e como desenham suas trajetórias
nesse processo (BOYD; GRIECO, 2003). Contudo, Landry (2012)
adverte que, apesar da conquista da inclusão da mulher nos estudos
migratórios como uma entidade distinta do migrante masculino, as
mulheres migrantes na região latino-americana ainda são marcadas
pela invisibilidade.
Na perspectiva qualitativa, com foco no perfil da mulher mi-
grante contemporânea, a partir de sua participação na divisão sexual
internacional do trabalho, vários autores e autoras destacam a rela-
ção entre migração internacional e globalização. No entanto, indi-
cam que as mulheres continuam limitadas a trabalhos tipicamente
femininos, nos setores domésticos e de cuidados, além da indústria
do sexo. Esses nichos de trabalho são caracteristicamente marcados
pela baixa qualificação, precariedade das condições laborais, provi-
soriedade, escassa proteção social e legal e, também, por acúmulo de
papéis produtivos e reprodutivos, numa espécie de economia sub-
terrânea (SASSEN, 2003). E, não raro, podem ocorrer situações de
tráfico ou contrabando de mulheres migrantes.
Masson (2006, p. 57) vai problematizar a globalização dessa
exploração do trabalho feminino a partir da relação colonial de gê-
nero, que se expressa na divisão sexual do trabalho, colocando em
relevo hierarquias e conflitos de gênero, por meio de salários desi-
guais e segregação do trabalho entre os sexos. Essa relação colonial
de gênero vai encontrar solo fértil na divisão internacional do tra-
balho, que atualiza a dominação dos países industrializados sobre a
antiga periferia, ou seja, do Norte sobre o Sul global. E nesses “en-
claves neocoloniais” as mulheres são, particularmente, exploradas e
expostas a diversos riscos.
Mas há, também, aspectos qualitativos positivos dessa mobi-
lidade transnacional feminina, impulsionada pela dinâmica da glo-
balização. A migração internacional tem se apresentado como uma
das poucas alternativas para as mulheres, principalmente de países
pouco desenvolvidos e afetados pela mundialização do Capital. Para
Hazeu (2011, p. 82), além das questões materiais, essas mulheres
veem no projeto migratório a possibilidade de construírem uma
nova identidade, uma “identidade globalizada”, que abre caminhos
para “quebrar com a lógica na qual cresceram”.
Boyd e Grieco (2003) acrescentam que o processo de migra-
ção feminina pode atribuir positivamente às mulheres um novo

- 159 -
status dentro da família: com sua maior participação no mercado
de trabalho, elas podem adquirir mobilidade social, independência
econômica e autonomia relativa, alterando as relações de poder den-
tro da família e dando à mulher mais autoridade e participação nas
decisões e gestão dos recursos domésticos. Contudo, isso não ocorre
de modo automático, podendo, inclusive, aumentar seu fardo com
o acúmulo de antigas obrigações referentes ao cuidado da família e
do lar.
Por isso, estudar a participação da mulher no movimento mi-
gratório internacional é também analisar as relações de poder entre
homens e mulheres, buscando entender como elas se manifestam na
decisão familiar sobre quem migra; quem ocupa os melhores postos
profissionais na divisão sexual internacional do trabalho; de como
se revelam essas relações quando acrescentamos outras dimensões
como raça e classe. Nesse sentido, buscaremos agora apresentar ou-
tro campo teórico que também tem refletido sobre a relação entre
gênero e migração – o da interseccionalidade – e mostrar em que
medida esse campo dialoga com o fenômeno da feminização das mi-
grações.

Interseccionalidade das relações de gênero, raça e classe


O conceito de interseccionalidade está circunscrito no âmbito
da epistemologia feminista, especialmente em torno da categoria de
gênero e sua articulação com outras categorias sociais que apontam
para uma multiplicidade de diferenciações (PISCITELLI, 2008). Essa
discussão é uma herança dos anos de 1970, do movimento Black Fe-
minism. No final da década de 1980, esse tema ganha fôlego com a
crítica feminista sobre as categorias gênero/sexo, que questionava o
conceito de gênero como algo dado, natural, universal, imutável,
vinculado ao sexo biológico (HIRATA, 2014).
No âmbito dessa discussão, a Sociologia de Gênero foi se for-
mando muito lentamente nas últimas quatro décadas, a partir das
feministas que buscavam romper com essa tradição do pensamento
científico normásculo dominante, questionando seus discursos pre-
tensamente neutros sobre o lugar das mulheres na sociedade, que
mascaravam as desigualdades entre os sexos e, em especial, a domi-
nação sofrida pelas mulheres (CHABAUD-RYCHTER et al, 2014,
p.3).

- 160 -
Num esforço de promover a diferenciação entre sexo e gênero,
as feministas lançaram mão de outro conceito – o de patriarcado –
para explicar as relações de poder e de subordinação das mulheres,
ainda que em diferentes perspectivas (PISCITELLI, 2008). Mas, em
linhas gerais, todas concordam que o termo patriarcado é uma for-
mação social, na qual “o poder é dos homens”, ou seja, é um siste-
ma de dominação masculina e de opressão das mulheres (DELPHY,
2009, p.173).
Contudo, no contexto da divisão das sociedades em classes,
as feministas buscaram dissociar o patriarcado do capitalismo, em
razão das críticas de que suas lutas com base nas relações de sexo/
gênero não resultavam do modelo econômico capitalista, de que a
subordinação das mulheres é anterior a ele e, inclusive, continuou no
socialismo (DELPHY, 2009; SCOTT, 1995; SAFFIOTI, 1976). Scott
(1988) é uma das feministas que abandona o conceito de patriarcado
e propõe que a distribuição social do poder seja explicada a partir da
perspectiva do poder como constelações dispersas de relações desi-
guais em contextos históricos específicos.
Segundo Saffioti (1976; 2004, p.105-106), embora a teoria
marxiana não tenha aprofundado a análise sobre as funções da mu-
lher na família e na sociedade, no capitalismo, “a base material do
patriarcado não foi destruída”, apesar de todos os avanços da luta
das mulheres. Permanece ativa uma “economia doméstica, [...] que
sustenta a ordem patriarcal”, por meio da qual os homens garantem
a si e a seus descendentes as condições necessárias para a produção
e reprodução de suas vidas. Segundo Chabaud-Rychter et al (2014,
p.16), “Marx, [...] assimilaria a questão da dominação das mulheres
pelos homens a um resíduo pré-capitalista”.
Esse debate limitado à categoria gênero/sexo foi questiona-
do por algumas feministas, que entendiam que outras categorias de
diferenciação, como raça e classe, dentre outras, se intersectam ou
se articulam, e incidem conjuntamente sobre as mulheres e outros
grupos em situação de vulnerabilidade. Existem diferentes formas
de teorizar esses cruzamentos. Piscitelli (2008) aponta para duas
vertentes teóricas que trabalham com a perspectiva interseccional: a
sistêmica e a construcionista.
Na abordagem sistêmica, a grande referência é a jurista afro-
-americana Kimberlé Crenshaw. Foi ela quem utilizou pela primeira

- 161 -
vez, em 1989, o termo interseccionalidades, a partir de um caso in-
terseccional concreto contra a Fábrica General Motors, nos Estados
Unidos, que recrutava homens negros e mulheres brancas, mas ex-
cluía as mulheres negras (HIRATA, 2014).
Crenshaw (2002, p.177; s/d) entende a interseccionalidade
como uma “associação de sistemas múltiplos de subordinação” (o
racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros), que se so-
brepõem e se combinam, levando determinados grupos de pessoas
a uma condição de subinclusão. As políticas institucionais também
têm o potencial de se constituírem como espaços de opressão, crian-
do estruturas de desigualdade e discriminação. Essa acepção resgata
o conceito de patriarcado e foca sua análise em grupos específicos,
particularmente aqueles mais suscetíveis à vulnerabilidades e caren-
tes de agência, como mulheres, raças, etnias, classes, dentre outros,
apontando para o empoderamento desses segmentos sociais.
Essa visão sistêmica das interseccionalidades vai sofrer algu-
mas críticas. A socióloga Danièle Kergoat tem como ponto central
de divergência a noção geométrica de intersecção que Crenshaw faz
de múltiplas variáveis de análise, ao invés de apenas as três relações
sociais fundamentais – sexo, raça e classe (HIRATA, 2014). Piscitelli
(2008) também cita outras críticas, como a fusão de ideias como di-
ferença e desigualdade, raça e racismo, imprimindo uma visão está-
tica a categorias que são dinâmicas; também o forte papel que os sis-
temas de subordinação exercem sobre a formação das identidades;
e uma percepção unilateral do poder, ao invés de concebê-lo como
relações sociais marcadas por conflitos e resistências.
Quanto à vertente construcionista, Piscitelli (2008) aponta
como principais teóricas McClintock (1995) e Brah (2006), que irão
trabalhar com a ideia de categorias articuladas. McClintock defen-
de a ideia de que raça, gênero e classe não são categorias isoladas,
mas também não estão unidas como peças de um Lego. São, em sua
opinião, categorias articuladas umas às outras de maneiras contra-
ditórias e conflituosas, unidas como um nó. Ela desenvolve noções
de poder e de agência a partir da articulação de uma densa teia de
relações em que estão em jogo “coerção, negociação, cumplicidade,
recusa, dissimulação, mimetismo, compromisso, afiliação e revolta”,
para explicar porque determinados grupos ou culturas são bem-su-
cedidos e outros não (MCCLINTOCK, 1995, p. 15).

- 162 -
Em Brah (2006, p. 348), também encontramos essa noção de
articulação, que questiona a natureza essencialista atribuída a esses
marcadores de diferença. Ela defende que essas categorias podem ter
diferentes significados políticos e culturais a depender do contexto,
a exemplo dos diferentes racismos. Daí sua crítica aos movimentos
feministas que colocam demasiada ênfase na identidade como hie-
rarquias de opressão, em detrimento do esforço analítico de “iden-
tificar as especificidades de opressões particulares, entendendo suas
interconexões com outras formas de opressão” e como operam as
dinâmicas de poder nessas relações. Assim como a abordagem sis-
têmica é criticada por dar mais atenção aos eixos de diferenciação, a
abordagem construcionista é criticada por enfatizar demais a expe-
riência (PISCITELLI, 2008).
Apesar disso, a lente interseccional é um importante instru-
mento para se compreender as relações sociais e de poder, que tam-
bém permeiam o fenômeno migratório. Anthias (2008, p.7; 2013)
traz algumas contribuições relevantes para se pensar a interseccio-
nalidade nesse contexto. Ela reconhece o desafio de utilizar essa
perspectiva de análise sem cair no problema do grupismo. Ela vai
trabalhar com a noção de que não há limites fixos nos grupos iden-
titários – os indivíduos podem representar diferentes identidades e
pertencer a distintas categorias a depender do contexto, da situação,
da temporalidade, do significado e outras variáveis, especialmente,
em realidades que envolvem deslocamentos transnacionais. Assim,
ela se afasta da ideia de “grupos” ou “categorias” e aproxima seu qua-
dro interseccional das localizações e processos sociais mais amplos,
que vai chamar de “posicionalidade translocacional” (“translocatio-
nal positionality”). Ou seja, uma pessoa pode estar em uma posição
superior ou subordinada, simultaneamente, a depender do contexto.
Por isso, para Anthias (2008; 2013), identidade é um concei-
to-chave nas discussões contemporâneas sobre migração. Mas é
um conceito escorregadio e contestável. Não apenas no sentido dos
marcadores étnicos que definem quem são os migrantes desejáveis
e os indesejáveis, mas também porque abarca uma multiplicidade
de situações (refúgio, asilo, apatridia, migração econômica, reuni-
ficação familiar, dentre outras) e fundamenta normas regulatórias
nos Estados nacionais que criam novas e difíceis fronteiras para as
pessoas em mobilidade. A interseccionalidade, como um dispositivo
heurístico, ao cruzar essas múltiplas identidades no contexto das mi-

- 163 -
grações, contribui para construir um enquadramento mais híbrido
de desvantagem social e para sensibilizar sobre a complexidade das
relações sociais. Assim, dá mais visibilidade a categorias particular-
mente desfavorecidas.
Outro problema comum nas análises interseccionais é o de
superdimensionar uma categoria, geralmente a de gênero, em detri-
mento das outras. Nesse sentido, Piscitelli (2008, p. 266) aponta que
as feministas do Terceiro Mundo e/ou pós-coloniais são críticas da
centralidade na categoria de gênero que, “no máximo, era pensada
em articulação com a sexualidade, sem expandir a análise para ou-
tras categorias como raça, classe, religião e nacionalidade”. Haraway
(2004) também aponta para essa mesma crítica e vai propor que a ca-
tegoria de gênero seja um eixo historicizador das demais categorias
de análise, buscando superar as posições binárias.
Kergoat acrescenta que a maioria das análises acaba centrada
em raça e sexo, dando pouca atenção à categoria de classe, perdendo-
-se a dimensão da totalidade (HIRATA, 2014). Anthias (2013) supõe
que esse problema se deva a preocupação em se corrigir as desvan-
tagens étnicas e de gênero, dando maior visibilidade a esses grupos.
Contudo, isso não significa “que um enquadramento interseccional
não possa ser utilizado como um elemento de base para uma com-
preensão mais ampla da hierarquia social e da estratificação” (AN-
THIAS, 2013, p.12).
Uma coisa é certa, a categoria social de gênero ocupa um lugar
central no projeto migratório transnacional. Apesar das relações de
gênero atravessarem a totalidade da vida em sociedade, tecendo as
relações entre os humanos e definindo papéis e lugares dos sexos
nas estruturas sociais, culturais, religiosas, políticas e econômicas,
a situação da mulher foi pouco ou quase nada problematizada pelos
pensadores clássicos (e até mesmo contemporâneos) nas Ciências
Sociais que, inclusive, naturalizaram os papéis hierárquicos entre os
sexos (BANDEIRA; ALMEIDA, 2014, p. XVI).
Esse ocultamento obscurece a realidade de que, historicamen-
te, as mulheres sempre ocuparam um papel fundamental na cadeia
produtiva global. Portanto, o fenômeno da feminização das migra-
ções é menos uma questão quantitativa da participação de mulheres
no mercado internacional, e mais uma questão de visibilidade e de
qualificação dessa inserção, a partir das relações sociais e de distri-

- 164 -
buição de poder nesses espaços. De que forma as mulheres migran-
tes estão inseridas na divisão sexual internacional do trabalho? Por
que elas são vistas como ideais para determinados tipos de trabalho?
E quando essas mulheres são racializadas, que implicações concretas
recaem sobre suas experiências migratórias? E se acrescentarmos,
ainda, a dimensão étnica e de nacionalidade, delas serem originárias
de culturas e localidades indesejáveis, que outras formas discrimina-
tórias incidirão nesse cruzamento? Quais as consequências simbó-
licas e concretas dessas intersecções na vida dessas mulheres? Estas
são questões importantes para se pensar a participação das mulheres
no movimento migratório, para além dos números.
Paralelo às situações de discriminações e vulnerabilidades
mais gerais sofridas pelas mulheres no mercado de trabalho inter-
nacional, e já sinalizadas aqui, se evidenciam desigualdades mais es-
pecíficas entre mulheres migrantes e mulheres autóctones, nos paí-
ses de destino. O que leva a um status desprestigiado das ocupações
laborais a que essas migrantes têm acesso e que são rejeitadas pelas
nacionais. Muitas delas possuem altos níveis de formação que não
são aproveitados nos países de destino, e a imigração acaba por le-
vá-las a uma mobilidade social descendente (MOROKVASIC, 1984;
TORRADO, 2014).
Essa realidade é retratada por Joseph e Joseph (2015, p.13,
26), ao analisarem as experiências migratórias de mulheres haitianas
no Brasil e na França, a partir das relações de gênero, classe, raça e
nacionalidade. Apesar da emigração proporcionar um status privi-
legiado naquele país, a decepção dessas mulheres com a vida que
passaram a levar após a emigração, como trabalhadoras domésticas
e do care, geram nelas o sentimento de decadência e fracasso em
relação ao seu projeto migratório.
No Brasil, ainda há uma escassez de estudos sobre migração
de mulheres. Foi publicada em 2017 uma revisão crítica de literatura,
por especialistas do campo da Psicologia Social (TELMO; PIZZI-
NATO; WEBER, 2017, p.9), sobre estudos relacionados à migração
feminina no Brasil, a partir da ótica da interseccionalidade. Apenas
cinco estudos atenderam aos critérios de seleção da revisão (estudo
empírico, sobre mulheres estrangeiras, realizado no Brasil). Os re-
sultados evidenciaram uma lacuna na produção científica nacional
sobre esse tema, tanto no que tange ao recorte de gênero quanto à

- 165 -
abordagem interseccional dos marcadores de subordinação.
De modo geral, as pesquisas sobre a imigração haitiana no
Brasil indicam que em todos os aspectos observados é possível cons-
tatar que a situação da mulher migrante é bem mais difícil que a dos
homens. É também notória a necessidade de pesquisas empíricas
sobre as condições de vida e laborais dessas mulheres. Em pesqui-
sa empírica recente sobre a vida das mulheres haitianas durante a
pandemia da Covid-19 no Distrito Federal foi possível evidenciar o
desemprego ou as condições precárias de migrantes no mercado de
trabalho e a insuficiência do Estado em atender às demandas dessas
mulheres e suas famílias por meio de políticas sociais (SOLOUKI,
2021).
A pesquisa qualitativa com mulheres migrantes haitianas resi-
dentes na capital do país revelou como a combinação de crises eco-
nômica, política e sanitária no Brasil tem representado um obstáculo
no acesso a direitos sociais (SOLOUKI, 2021). Apesar do Brasil ser
signatário de tratados internacionais voltados à proteção de pessoas
migrantes ou refugiadas no território nacional, durante o ano de
2020 e em meio a pandemia de Covid-19, a atenção do Estado dis-
pensada às mulheres migrantes pesquisadas variou substancialmen-
te na direção de dificultar ou até mesmo restringir o acesso a direitos
(CEPEDISA; CONECTAS, 2021).
Especial destaque pode ser dado, por exemplo, às ações gover-
namentais no âmbito da política de Assistência Social voltada às pes-
soas sem renda e impossibilitadas de trabalhar, devido às restrições
sanitárias de distanciamento social para redução de morbidade e mor-
talidade. Se nos primeiros meses da pandemia as mulheres puderam
ter acesso ao Auxílio Emergencial no valor de 600 reais, ao final de
2020 o acesso ao benefício foi restringido e o valor reduzido. O gover-
no deixou até mesmo de emitir documentos de migrantes recém-che-
gados ao Brasil durante a pandemia, o que motivou a reivindicação de
movimentos sociais brasileiros no sentido de assegurar a documenta-
ção considerada um requisito de regulação temporária da permanên-
cia no Brasil e acesso às políticas públicas e ao mercado de trabalho.
Consideramos que a perspectiva teórica interseccional das re-
lações de gênero e de outras dimensões de desigualdade, como raça
e classe (CRENSHAW, s/d; 2002; DAVIS, 1982), reforçada pela lente
da “posicionalidade translocacional” (ANTHIAS, 2008), pode lançar

- 166 -
luzes sobre o fenômeno da feminização das migrações internacio-
nais, trazendo à tona as especificidades que qualificam as experiên-
cias migratórias das mulheres migrantes trabalhadoras racializadas
no Brasil.

Considerações finais
Este capítulo apresentou uma discussão introdutória para de-
monstrar a importância do enfoque de gênero nos estudos migrató-
rios contemporâneos e a necessidade da ampliação de pesquisas em-
píricas sobre o tema, a partir da sua interseccionalidade com outras
categorias discriminatórias. Apesar das muitas interpretações dessa
feminização das migrações internacionais, a perspectiva teórica que
mais dialoga com este trabalho é a que defende que esse fenômeno é
menos uma questão quantitativa e mais uma questão de visibilidade
das mulheres migrantes e de qualificação de sua participação nesse
contexto.
Observar essa faceta da mobilidade humana, a partir do ins-
trumento analítico da interseccionalidade e da posicionalidade
translocacional, tem o potencial de agregar um novo olhar crítico
aos estudos sobre migrações com foco no gênero. Outro ponto po-
sitivo é a incorporação de dimensões estruturais de desigualdade
(como gênero, raça e classe) na análise da feminização das migrações
e seu lugar na reestruturação do capital. O papel da interseccionali-
dade como um instrumento político e interventivo que desnuda as
múltiplas opressões sofridas pelas mulheres migrantes, especialmen-
te negras e originárias do Sul global, possibilita a articulação entre
teoria e práxis.
Estudos qualitativos sobre a vida de mulheres migrantes no
Brasil pode nos levar a decifrar os meandros de como relações so-
ciais têm sido estabelecidas, atualmente, e repercutidas em casos de
discriminação e opressão pautadas, principalmente, na prática do
racismo e da xenofobia. Aprofundar o debate epistêmico sobre o
tema de migrações femininas, com base em estudos teóricos e pes-
quisas empíricas, com produção de dados que evidenciem e deem
visibilidade à vida de migrantes no Brasil, pode ser considerada uma
contribuição teórico-metodológica ao debate sobre o tema na litera-
tura científica brasileira que este texto buscou promover.

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Vozes dos egressos da medida socioeducativa de
internação no Distrito Federal:
os processos comunicativos na perspectiva da
comunicação pública
Kênia Augusta Figueiredo
Paulla Kalliny Moura Cronemberger

Introdução
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) possibilita um
rol de medidas socioeducativas a serem aplicadas a adolescentes que
cometeram atos infracionais, sendo elas subdivididas em medidas
socioeducativas de meio aberto e de meio fechado. A mais gravosa
é a internação, em que só saem da unidade de execução em situação
de exceção.
É obrigação dos Estados e do Distrito Federal disponibilizar
unidades de execução de medida socioeducativa de internação, que
só deverá ser aplicada em casos de atos infracionais considerados
graves, em algumas situações específicas e quando não houver
medida mais adequada. Essa execução deveria respeitar alguns
princípios trazidos pela doutrina da proteção integral, constantes no
ECA e na legislação pertinente. No entanto, algumas pesquisas, dados
estatísticos, investigação de órgãos públicos e outros mecanismos,
inclusive de controle social, apontam que a realidade, muitas vezes,
não consegue alcançar o que foi determinado pelas leis.
A trajetória das políticas de atendimento a adolescentes
envolvidos em atos infracionais no Brasil aponta que a construção
do atual aparato institucional e legal passou por reformulações que
buscaram romper, ao menos formalmente, com a concepção de
sujeitos considerados “desajustados” dos padrões conservadores
que estão enraizados na formação social brasileira. Os movimentos
sociais e o processo de redemocratização impulsionaram um novo
paradigma, que os coloca como sujeitos de direito, e trouxeram
normativas legais como desdobramentos da Constituição Federal

- 173 -
de 1988 para regulamentarem as medidas socioeducativas, como o
ECA, vigente desde o ano de 2009, e o SINASE – Sistema Nacional
de Atendimento Socioeducativo, em vigor desde 2012. Mesmo com
os avanços citados, os adolescentes que cometem atos infracionais
são recorrentemente lembrados pela mídia, que faz apelos, matérias
sensacionalistas com argumentos para defender a revogação de
direitos. Somam-se a esses discursos outros setores sociais como,
por exemplo, os grupos conservadores que se opõem à doutrina da
proteção integral. Assim, a socioeducação à qual são encaminhados
é contestada por uma parcela da sociedade, apontando que os
direitos historicamente conquistados pelos adolescentes não
superaram o campo de conflitos sociais, bem como estão passíveis
de desconstrução.
A comunicação é um processo inerente aos seres humanos,
mas que também se insere, de forma interdisciplinar, nos estudos
sobre Comunicação, grafada em letra maiúscula para representar
uma categoria de análise, ou seja, uma expressão teórica e histórica
utilizada no processo de busca por aproximação de uma realidade
concreta. Netto (2011) destaca que Marx muito se preocupou com
as categorias que constituem os processos internos da sociedade bur-
guesa e servem de instrumento para os pesquisadores realizarem re-
flexões contextualizadas, através de procedimentos científicos.
O direito à comunicação é imprescindível às sociedades de-
mocráticas, pois a partir do acesso às informações e às trocas comu-
nicativas o ser humano pode se posicionar, fortalecer sua autonomia
e exercer seu direito de cidadania. Nessa perspectiva, um ambiente
de privação de liberdade é um campo perigoso para transgressão
desse direito, e a medida socioeducativa de internação nos permite
suscitar alguns questionamentos sobre o Estado em relação a como
este se organiza para garantir direitos fundamentais, possibilitar a
socioeducação com ênfase na ressocialização e como assegura as
condições para que os profissionais realizem suas atividades com
vistas à novas sociabilidades e perspectivas para esses adolescentes.
A abordagem sobre os processos comunicativos tem como referên-
cia a Comunicação Pública - CP, que é aqui compreendida como um
direito humano conquistado no interior da dialética dos conflitos
sociais e históricos, nas discussões e na prática social cotidiana em
favor da justiça social.
A comunicação transcorre seu papel de interação social e al-

- 174 -
cança dimensão política através do seu potencial de direcionamento
social dos sujeitos. O real e o aparente podem estar camuflados ou
expostos nos processos comunicativos, dessa forma, o conhecimento
da realidade e a construção crítica estão intrínsecos ao diálogo e às
interações comunicativas.
Esta dimensão política que a comunicação possui como po-
tencial pode ser observada na obra de Paulo Freire, autor que defen-
de o caminho da educação dialógica, capaz de fomentar a reflexão
crítica e pensar a realidade sem se prender nas formas atualmente
existentes, mas tendo o horizonte de que a organização societária é
passível de transformação. Assim, a comunicação é um instrumen-
to nesse processo transformador e educativo. Freire reconhece que,
no diálogo, as partes devem ser reconhecidas como sujeitos, e nesse
processo, ser dialógico “é não invadir, não manipular, é empenhar-se
na transformação da realidade” (1977, p. 43).
A construção do espaço propício para o exercício da cidadania
no Brasil, de acordo com Duarte (2007), passa pela apropriação, pelo
cidadão, de instrumentos que lhe possibilitem esse exercício atra-
vés dos mecanismos de participação e cobrança, do cidadão para o
Estado. O movimento que se fortaleceu com a Constituição Federal
de 1988 e teve participação dos movimentos sociais na perspectiva
cidadã tem na CP um desses instrumentos.
Para Figueiredo (2016, p. 10), a CP é uma categoria em cons-
trução, mas que possui algumas atribuições consensuais, dentre as
quais “contribuir para assegurar a relação social (sentimento de per-
tencer ao coletivo, tomada de consciência do cidadão enquanto su-
jeito); acompanhar as mudanças, tanto as comportamentais quanto
as de organização social”. Quanto ao conceito, a autora destaca ainda:

É, portanto, no campo da contra hegemonia que emerge o direito


a informação e a comunicação pública que, embora seja um con-
ceito ainda em construção, pode ser compreendida como uma co-
municação formal, realizada pelo poder público e legitimada pelo
interesse geral e pela utilidade das mensagens. Nela o cidadão é per-
cebido como um interlocutor que é contribuinte, eleitor, usuário,
dentre outros papéis. É ele quem custeia os serviços, detém o poder
de decisão e de legitimação das ações tomadas pelos representantes
do Poder Público (FIGUEIREDO, 2018, p. 09).

Inserida no interior das relações sociais, e, portanto, também


passível de sofrer embargo diante das dinâmicas societárias que tam-

- 175 -
bém são contraditórias, a comunicação é um direito conquistado
que faz parte do processo necessário para se alcançar a emancipação
política e humana.
A socioeducação é um processo educativo que possui bases
na educação social1 e se insere em vários espaços institucionais, in-
clusive, nas medidas socioeducativas aplicadas a adolescentes que
praticaram ato infracional, ou seja, ato análogo a um crime, pois
adolescentes são penalmente inimputáveis. Sobre o conceito de so-
cioeducação, destaca-se:

Nesse sentido, a socioeducação configura-se como um conjunto ar-


ticulado de programas, serviços e ações desenvolvidos a partir da
inter-relação entre práticas educativas, demandas sociais e direitos
humanos, com os objetivos de promover o desenvolvimento de po-
tencialidades humanas, da autonomia e da emancipação, bem como
fortalecer os princípios éticos da vida social (BISINOTO et al, 2015,
p. 584).

O atual paradigma para todas as políticas públicas destinadas


às crianças e adolescentes é o da proteção integral, que rompe – ao
menos formalmente – com o paradigma da situação irregular do re-
vogado Código de Menores, vigente no período de 1979 até o ECA,
em 1990. No novo modelo, são propostos princípios como excep-
cionalidade, brevidade e respeito à condição peculiar de pessoa em
desenvolvimento. Dessa forma, o adolescente deveria deixar de ser
um mero objeto de intervenção para ser incluído em um Sistema
de Garantia de Direitos – SGD2, que promoveria inclusão social. A
instituição do SINASE – Sistema Nacional de Atendimento Socioe-
ducativo – em 2012, buscou, no plano legal, o desenvolvimento de
ações socioeducativas pautadas em direitos humanos, a partir de ba-
ses éticas e pedagógicas.
Os jovens e adolescentes inseridos nas medidas socioeducati-
vas também fazem parte da atual dinâmica societária capitalista, que
se movimenta através de suas metamorfoses para fortalecer as rela-
1 Neste artigo, utiliza-se a concepção de Zanella (2011), que afirma que a educação
social, conceituada a partir da perspectiva marxista, tem como finalidade a emancipação
de segmentos socialmente excluídos, como adolescentes em cumprimento de medida
socioeducativa.
2 SGD é o conjunto de princípios e normas que regem as políticas para crianças e ado-
lescentes em nível federal, estadual, distrital e municipal. É constituído de diversos sub-
sistemas, dentre os quais aqueles que regulamentam as políticas sociais e o subsistema
que se volta para as medidas socioeducativas, o SINASE.

- 176 -
ções de consumo. Mas por que é tão importante inserir os jovens na
massa de consumidores? Sobre o consumo, Marx (2011) desvela sua
relação com o ciclo de produção capitalista. Segundo ele, o consumo
também é produção e existe um movimento mediador entre ambos.
Somente a partir do consumo a produção é útil e cria a necessidade
de nova produção. Assim, para que o sistema capitalista se reprodu-
za, é preciso continuamente expandir o número de consumidores.
Essas ponderações levam a uma necessidade de reflexões so-
bre as implicações do neoliberalismo sobre a democracia. Pereira-
-Pereira (2019, p. 42) destaca que a combinação do neoliberalismo
com o neoconservadorismo não aconteceu recentemente e não pro-
duz alterações na essência de cada um desses elementos, mas ata-
ca diretamente a democracia e as políticas sociais, imprimindo no
campo político, econômico e social sua marca individualista e com
apelo à responsabilização dos indivíduos, transferindo para a esfera
privada o bem-estar social, enquanto o Estado se retira do campo
dos direitos sociais tão arduamente conquistados no pós-guerra.
Esse contexto de hegemonia traz repercussões para as políti-
cas de Estado, em especial as políticas sociais com as quais a CP tem
uma relação de transversalidade, uma vez que esta é compreendida
como um direito humano. Destarte, as aproximações apresentadas
situam esses adolescentes como sujeitos políticos, reconhecimento
este que não se inicia nem termina dentro de uma unidade de inter-
nação.

Processos comunicativos, comunicação pública e suas possi-


bilidades na medida socioeducativa de internação: as vozes
dos jovens egressos
A seguir, apresentamos alguns dos resultados da pesquisa
realizada com os egressos do sistema socioeducativo no Distrito Fe-
deral, os quais foram destacados de três entrevistas semiestrutura-
das realizadas com egressos do sistema socioeducativo do Distrito
Federal. Os entrevistados possuem entre 18 e 25 anos de idade. A
respeito da orientação sexual, um afirma-se homossexual e os outros
dois heterossexuais. Dois deles já estão inseridos no mercado formal
de trabalho e um deles está estudando para o vestibular e buscando
emprego. Dois deles possuem ensino médio completo e um deles
ensino superior completo.
Várias vezes aparecerão nas falas a locução pronominal “a

- 177 -
gente”, expressão comumente utilizada para substituir o pronome
“nós”. Em outros momentos, aparece a palavra “Agente”, grafada em
letra inicial maiúscula, com função morfológica de substantivo, se
referindo ao cargo público de Agente Socioeducativo.
Também surgirão algumas palavras ou expressões que são re-
correntes para quem vivencia uma unidade de execução de medida
socioeducativa, pois a comunicação nestes espaços é permeada por
uma linguagem própria do ambiente e são muitas as expressões que
os adolescentes terminam por se apropriar, mas que podem ser de
difícil entendimento para alguns leitores, pois são comumente utili-
zadas para expressar outros significados.
Os instrumentos tecnológicos que possibilitam a comuni-
cação têm sido importantes para as interações nesse momento de
pandemia, pois o distanciamento social tornou-se uma estratégia de
proteção, e, de acordo com Del Bianco (DEL BIANCO, 2005 apud
FIGUEIREDO, 2016), a revolução tecnológica possibilitou novas
experiências e as transformou, da mesma forma que a revolução in-
dustrial também conseguiu modificar substancialmente as relações
de produção e alterar as relações sociais. A realização das entrevistas
através da utilização de recursos tecnológicos – celular e aplicativo
de videochamada – demonstra que os entrevistados estão fazendo
uso das ferramentas importantes para a realização da comunicação
no atual cenário.
O roteiro de entrevista incentivou os entrevistados a relatarem
sobre o momento de sua apreensão. Destaca-se uma frase do entre-
vistado 01 que narrou que a sua prisão se deu quando ele voltava da
escola e o policial falou: “agora corre, atleta”. Dentre as três narrativas
foi o entrevistado 03 que aprofundou mais com os seguintes relatos:

A polícia chegou daquele jeito, me abordou com a maior ignorância


e nos colocou no veículo e levou pra delegacia, mandando colocar
as mãos pra trás, com revólveres na mão. Eu me revoltei por aquelas
armas apontadas pra nós, e perguntei se eu era o anticristo pra eles
estarem apontando aquela arma, e ele mandando eu calar a boca.
Não teve nada de dignidade no momento da prisão. (...) Quando
saí de lá não sabia pra onde estava indo, me levaram pra delegacia
de Ceilândia, pra delegacia grandona e me trancaram em uma cela.
Iam me trancar junto com um monte de homens, mas perceberam
que eu era homossexual, então me colocaram em uma cela sozinho.
Passei muito frio, até o dia amanhecer. Nisso, não vi mais minha
mãe. Não tem aquelas conduções que parecem uma van escolar? Me

- 178 -
colocaram junto com um monte de gente. Me colocaram sozinho e
outras pessoas amontoadas e apertadas, eu pensava que me trata-
vam como um assassino que iria matar todo mundo

Um relatório de consultoria técnica realizado por Lima


(2016), que analisou a situação de várias delegacias especializadas
nas regiões norte e centro-oeste do Brasil, entre as quais estavam as
duas do Distrito Federal, identificou que as instalações físicas são
precárias e que é constantemente desrespeitado o direito de comuni-
cação da apreensão à família dos adolescentes, sendo utilizada como
estratégia punitiva aos adolescentes.
De lá, fomos pra outro lugar, eu não entendia nada, fomos pra outro
local que parece um sanatório, que vestem a gente todo de branco ,e
falaram que tínhamos que falar “senhora”, tinha que respeitar, “se-
nhor”, e outras regras, e se não respeitasse iria “ver só”, foram várias
ameaças quanto a isso. Me deram um lanche, tiraram nossos per-
tences e nos vestiram de branco. O lugar era todo branco e os caras
tudo de preto. [...] Tinham vários meninos aprontando, desrespei-
tando a regra de estar com a cabeça baixa e falar baixo. Os caras
diziam que iriam dar sprayzada de pimenta, e eu fiquei com medo
de jogarem spray em mim também” (Entrevistado 3).

O primeiro percurso dentro do sistema socioeducativo é uma


incógnita e a fala do entrevistado 03 aponta que os adolescentes po-
dem, por vezes, não receberem nem mesmo as informações mínimas
para que compreendam a dinâmica em que acabaram de ser inseri-
dos e quais seus desdobramentos. A inserção na política socioedu-
cativa envolve a necessidade de comunicação tanto sobre o processo
judicial, quanto dos órgãos que compõem o sistema socioeducativo.
Negrini (2017) defende a comunicação normativa como uma das ba-
ses para a Comunicação Pública e o conhecimento e a compreensão
das leis como uma precondição para que se construa uma relação
consciente entre o judiciário e os cidadãos. O Estado brasileiro ainda
não superou a característica histórica e cultural de não compartilhar
informações com toda a sociedade e de privilegiar uma classe que
tem a informação como instrumento de poder.
Considerando-se que a comunicação é um todo e que tudo em
uma instituição pública interfere na percepção dos sujeitos sobre os
processos sociais, as características físicas das unidades de interna-
ção às quais foram encaminhados também foram objeto da entrevis-
ta e foram destacadas por todos os entrevistados:

- 179 -
“Na primeira internação, o que me impactou foi o formato que a
unidade é feita, parecia uma jaula pra animais [...] Na internação
de Santa Maria eu me sentia um bicho, o muro era bem alto, e o
ambiente todo cercado” (Entrevistado 1).

“Fui internado umas cinco vezes, eu que sustentava a casa. Tinha


entre 14 ou 15 anos na primeira internação. A primeira coisa que
me chamou a atenção foi a estrutura física quando cheguei, pois
é dentro de um complexo, pois contraria o ECA, na minha visão”
(Entrevistado 2).

Para refletir sobre os processos comunicativos na medida so-


cioeducativa de internação no Distrito Federal, tendo como referên-
cia as funções clássicas da CP é preciso ponderar as condições para
sua realização, ou seja, a estrutura e os serviços oferecidos aos so-
cioeducandos e seus familiares. Mesmo considerando a necessidade
de adaptações de infraestrutura, estas  não podem  vir desacompa-
nhadas das considerações sobre a conjuntura do sistema que rege as
instituições, que é o modo de organização capitalista. Somente com
essa leitura é possível se aproximar das relações de poder, hierar-
quia e nas causas que reproduzem historicamente essas condições.
Ou seja, deve-se considerar o racismo institucional, a heteronorma-
tividade, a apelação à condenação, o  classismo, sob pena de sim-
plesmente retirar do convívio social sem oferecer acesso aos direitos
fundamentais e à emancipação. 
Os adolescentes destacaram várias vezes, mesmo quando a
pergunta não era diretamente esta, sobre o tratamento, muitas vezes
violento, recebido principalmente dos Agentes Socioeducativos, car-
go público da carreira socioeducativa. Nesse sentido, importa pes-
quisar e refletir sobre a aplicação da doutrina da proteção integral
preconizada pelo ECA e sua interação com princípios e ações que
reforçam e aprofundam a cidadania e a democracia, como propõe
a CP.
“Na medida de internação, quando cheguei, os Agentes eram muito
truculentos, eles eram antigamente do CAJE3 , e na unidade não
tinha nenhum projeto. [...] Eu acho muito errado que os Agentes
arranquem nossa a dignidade, pela forma que nos tratam, como se
fôssemos um lixo. Eles chegam pra trabalhar revoltados por coisas
lá de fora, e descontam na gente. Eles entravam no quarto, e quebra-
3 O CAJE, por alguns anos, foi a instituição que executava a medida socioeducativa de
internação no DF. As memórias sobre o período em que funcionou são, com frequência,
permeadas por citações de vivências de violências

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vam tudo. Eu não fui algumas vezes pro castigo porque não ques-
tionava, mesmo que tivesse com razão. [...] A cultura é de violência”
(Entrevistado 1).

“Percebi várias agressões dos Agentes, é o que mais tem. Comigo


não aconteceu, mas vi muito com os meninos. Agressões de todo
tipo, verbalmente, fisicamente” (Entrevistado 2).

“Quando os meninos iam pra barra4 , as luzes quase sempre estavam


apagadas. Se os meninos gritassem, eles apanhavam ainda mais, ti-
nham que apanhar calados. Quando eles viam que acordavam o
módulo inteiro, e eles sabiam porque ficava um Agente vigiando o
módulo e nós calados, eles viam que o escândalo era grande, eles
iam na cozinha e preparavam um lanche pra calar nossa boca, era
nossa propina. Eles nem falavam nada, apenas entregavam a comi-
da. Na primeira vez que isso aconteceu, eu não entendi nada, um in-
terno que me avisou que era pra eu ficar calado” (Entrevistado 03).

A existência de situações de violência nesses espaços já foi evi-


denciada, entre outras formas, pelo MNPCT – Mecanismo Nacional
de Prevenção e Combate à Tortura – que, após visitas em unidades
de execução de medidas socioeducativas espalhadas pelo território
nacional (BRASIL, 2018).
Destaca-se que o ser social não é apenas subjetivo, mas for-
mado pelas influências objetivas do sistema ao qual estão inseridos,
e uma de suas marcas é o conservadorismo. Não se pode resumir
a atuação de todos os Agentes às práticas violentas, generalizando
algumas posturas, pois, considerando o aspecto contraditório desse
tratamento, há que se observar que alguns também trazem iniciati-
vas que colaboram com a construção da autonomia dos adolescentes
como, por exemplo, o acesso à leitura, à formação e a espaços de
construção coletiva e debates sobre direitos, que é convergente com
a socioeducação que deveria ser predominante na medida socioedu-
cativa.

“[...] alguns Agentes reclamam pros outros colegas que tem gente
lá dentro que tratam a gente bem, eles não concordam que alguns
Agentes tratam a gente bem” (Entrevistado 1).

Não apenas nas pesquisas citadas, mas também nas entrevis-


4 “Barra” é literalmente uma barra de ferro, instalada em uma parede, em que os adoles-
centes são colocados, às vezes por longos períodos de tempo, e onde ficam presos através
de algemas. Geralmente, são encaminhados após se envolverem em alguma ocorrência
disciplinar.

- 181 -
tas realizadas nesta pesquisa emergem falas que ressaltam o trata-
mento respeitoso por parte dos Agentes, portanto, infere-se que essa
postura assumida por profissionais também inclui a observância es-
porádica de alguns elementos da CP.
A pesquisa buscou compreender qual o conceito que os en-
trevistados construíram sobre a socioeducação e a opinião de cada
um sobre se essa socioeducação consegue ser materializada durante
o cumprimento da MSE. As respostas foram todas negativas e per-
meadas pela percepção de que ela não se materializa:
“A maior parte só queria oprimir. A ideia de socioeducação na prá-
tica é falida. Passei muito tempo na internação. Participei de um
projeto com um Agente, tínhamos uma relação muito saudável. [...]
Conheci algumas pessoas que, realmente, fizeram a diferença na in-
ternação. No sistema existe uma coisa de hierarquia, eles querem
mostrar poder, e nisso deixam de fazer o trabalho deles de socioe-
ducação. O sistema não funciona porque é opressor. Mas alguma
minoria faz a diferença” (Entrevistado 1).

Oliveira (2017, p. 67) destaca que “o Estado pode ser consi-


derado violentador, violência essa respaldada em uma sociabilidade
autoritária e que atinge seu cume justamente nas unidades de inter-
nação de adolescentes”. Sem superar essa característica de violenta-
dor, o Estado não alcança a centralidade no cidadão, tal como defen-
de a Comunicação Pública.
A percepção de ineficiência da política socioeducativa tam-
bém é um desdobramento da força exercida pelo conservadorismo
liberal que se manifesta nas ações e nas não-ações governamentais,
como destaca Figueiredo (2016), ao resgatar que a esse conservado-
rismo interessa que a democracia não se fortaleça e os usuários das
políticas não assumam o lugar de participante ativo delas.
O SINASE (CONANDA, 2006, p. 46) contempla em seu tex-
to qual deve ser o parâmetro pedagógico a ser desenvolvido no tra-
balho socioeducativo e destaca que as ações socioeducativas devem
contribuir para que, nesse processo de formação o adolescente se
construa como cidadão autônomoe, assim, sejam potencializadas
suas competências cognitivas, relacionais, pessoais e produtivas.
Se tudo comunica – o ambiente, a sujeira, as repreensões atra-
vés de avisos escritos e verbais, as roupas padronizadas, as mãos para
tráz, o uso de algemas, a cabeça baixa, a restrição de uso de banheiro

- 182 -
e a falta de recursos humanos para execução da política, dentre tan-
tas outras questões que fazem parte do cotidiano desses adolescentes
– o que se observa é que muitas são as formas de comunicar que
os adolescentes e jovens que se inserem no sistema socioeducativo
estão em um patamar social inferior que está passível a formas vio-
lentas e repreensivas de tratamento.
Durante o período de internação, esses adolescentes estão su-
jeitos a regras de convivência coletivas, padronizadas e pouco man-
tém contato com o mundo externo, criando fortes referências nas
relações que estabelecem dentro das unidades de execução de medi-
das socioeducativas. Sobre a comunicação entre os socioeducandos,
os processos comunicativos foram relatados com a presença mais
recorrente de horizontalidade, mesmo que existissem situações de
conflito entre eles:
“Minha relação com os meninos sempre foi tranquila, a gente tem
que saber chegar, eu conversava com todo mundo. Eu via brigas en-
tre os adolescentes, mas nada demais” (Entrevistado 2).
“Peguei muita amizade no primeiro módulo que eu fiquei, os meni-
nos me davam muitas dicas. Eles diziam que eu não podia acatar o
que os meninos falavam porque, se não, eles iam montar em mim,
me usar pra fazer as vontades deles. Eu tentava cortar diálogos, lem-
brando das dicas que me deram. Os meninos me faziam muitas per-
guntas. Eu percebia que cada dia naquele lugar eram pessoas dife-
rentes, e eu tinha que aprender a lidar com essas pessoas diferentes”
(Entrevistado 3).

O acesso à informação é percebido por um dos entrevistados


como um instrumento de poder. Na entrevista percebe-se que essa
construção de entendimento se deu a partir de sua experiência de par-
ticipação na Conferência dos direitos das crianças e dos adolescentes,
quando sempre se estimula em prol do protagonismo juvenil a presença
dos adolescentes, havendo negociações para garantir a presença de ado-
lescentes em medida socioeducativa de internação. Ao mesmo tempo,
o entrevistado destaca que o referido acesso não lhe trouxe muitas pos-
sibilidades de intervenção diante de situações, as quais observava como
transgressoras dos princípios aplicáveis à socioeducação.
“Na Conferência, eu descobri que os Agentes recebem pra fazer so-
cioeducação, então, comecei a questioná-los quando voltei pra uni-
dade, e eles me respondiam: “você está sabendo demais, menino”.
Depois da Conferência, eu tinha esse conhecimento, mas não podia

- 183 -
fazer nada. O máximo que eu podia fazer era falar com as Técnicas
pra elas tentarem fazer alguma coisa” (Entrevistado 1).
Informar e comunicar são conceitos diferentes e a comuni-
cação com o cidadão não se resume aos atendimentos de caráter
meramente técnicos (GERALDES & REIS, 2012, apud NEGRINI,
2017). A comunicação não se restringe apenas à disponibilização de
informações, sendo necessário que para tal aja condições materiais,
para que a aquisição de conhecimento que ela proporciona sirva de
referencial para as práticas socais na construção de um cotidiano de-
mocrático.
Os elementos que constituem a Comunicação Pública, mes-
mo que os adolescentes não saibam nomeá-la, são trazidos pelos en-
trevistados como um instrumento capaz de garantir a estabilidade
institucional, evitar situações de conflito e interferir positivamente
na dinâmica cotidiana, sendo atribuída à comunicação respeitosa a
reciprocidade:

“Tem que tirar essa questão dos Agentes tratarem os muleques de


forma desumana. As agressões dos socioeducandos acontecem por-
que não se tem uma comunicação positiva entre Agentes e internos.
Tinha Agente que andava sozinho dentro do modulo, porque tinha
respeito e tratava os meninos como ser humano. Não dá pra respei-
tar alguém que só bate” (Entrevistado 1).

As atividades realizadas com contato direto poderiam ser me-


lhores utilizadas para a comunicação cidadã, pois nelas são realiza-
das comunicações diretas que podem ser adaptadas às especificida-
des dos participantes (DUARTE, 2009, apud FIGUEIREDO, 2016).
Podem, também, identificar as necessidades e potencialidades desses
adolescentes e jovens.
Os entrevistados foram convidados a falar livremente sobre os
processos informativos e o acesso à informação durante o período de
vivência da internação. Suas respostas destacaram as figuras dos Es-
pecialistas e dos Agentes nas memórias sobre os sujeitos envolvidos
nesses processos:
“Em relação às dúvidas de componente curricular, trocam ideia.
Mas quando é na diretoria, a informação fica restrita, pois não existe
fluxo para passar informação. No processo de segurança, às vezes o
problema já ocorreu por falta de informação. Geralmente, o recep-
tor é um Agente e falta especialista nas unidades, já vi meninos com

- 184 -
2 meses sem atendimento, não tem cabimento, era pra ser semanal”
(Entrevistado 02).

Observa-se que o direito à comunicação extramuros é limi-


tado, mas é garantido aos internos através de ligações telefônicas,
cartas, televisão5, visitas a instituições, consultas na rede de saúde,
participação em audiências e petições a autoridades. Quando é ne-
cessário se deslocar para fora das unidades, o adolescente é acompa-
nhado por Agentes que realizam sua escolta.
Uma estratégia de disseminação de informações recorrente-
mente utilizada em órgãos públicos é a fixação de murais nos am-
bientes onde existe maior circulação de pessoas. Sobre a existência
de murais nos corredores das unidades onde são executadas as MSE
de internação, destaca-se que existem em todas elas e que muitos
desses murais são exposições de atividades realizadas pelos socioe-
ducandos. No entanto, se aos adolescentes não é permitido circular
pelas dependências da unidade com a cabeça erguida – o que tam-
bém é uma regra de “segurança” de todas as unidades – como vão ter
acesso ao conteúdo ali exposto? Uma das singularidades da CP é a
comunicação na justa medida, ou seja, que pondere as especificida-
des de seu público-alvo e garanta que a comunicação ocorra.
Outro aspecto verificado através das entrevistas foi de como
se dava a dinâmica de acesso às informações sobre os direitos e de-
veres, quando ainda estavam cumprindo medida socioeducativa. As
respostas apontaram que esse conhecimento foi proporcionado por
leituras e pela participação em palestras:
“Eu comecei perceber que os direitos dos adolescentes são violados,
então, comecei a buscar informações, participei de palestras quando
estava na unidade. A primeira foi a Conferência na Câmara quando
eu estava na internação” (Entrevistado 2).

“Eu pedia pra algumas Agentes alguns livros pra ler, elas me en-
tregavam. Só não entregavam lápis nem caderno, porque teve uma
treta com uma ponta de lápis de cor” (Entrevistado 3)

A educação é importante tanto no aspecto individual quanto


coletivo e está permeada pelo conhecimento acumulado historica-
mente e que nem sempre é visível e exposto pelo capital. As expe-
5 Nas unidades de internação estrita é permitida a permanência de televisão no quarto
dos adolescentes. Na internação provisória eles têm acesso à televisão em situações espe-
cíficas, mas não em seus alojamentos.

- 185 -
riências que levam a um conhecimento mais amplo das dinâmicas
sociais e da participação do cidadão deveriam estar mais presentes
na MSE, mas ainda não são vivenciadas pela totalidade dos socioe-
ducandos.
A socioeducação está permeada pelo senso comum, por um
discurso midiático, o que empurra para um afastamento do fazer so-
cioeducativo. Muitos dos que se manifestam publicamente não bus-
caram conhecimento necessário para emitir e influenciar opiniões.
O midiático acaba construindo um imaginário que se opõe ao real
e não busca as contradições e as dinâmicas que envolvem esse con-
texto.

O manejo da lei-e-ordem está para a criminalidade assim como


a pornografia está para as relações amorosas, ou seja, um espelho
que deforma a realidade até o grotesco, que extrai artificialmente
os comportamentos delinquentes da trama das relações sociais nas
quais estão enraizados e fazem sentido, que ignora deliberadamente
suas causas e seus significados e que reduz seu tratamento a uma
sequência de iniciativas previsíveis, muitas vezes, acrobáticas (WA-
CANT, 2013, p. 11

A partir dessa citação, se resgata as falas dos entrevistados so-


bre a vivência cotidiana nas unidades de internação, pois as respostas
convergem para falas que relatam um espetáculo ritualizado, o que
aponta a intenção do Estado em comunicar sua autoridade e seu
poder através de seus aparatos institucionais.

Considerações finais
A comunicação, por natureza, é de interesse público, faz parte
da vivência em comunidade e é por meio, entre outros, das media-
ções proporcionadas pela comunicação que ela se organiza no âmbito
cultural, político etc. Essas necessidades levam à busca da efetivação
da cidadania, ou seja, o cidadão tem direito de conhecer e interagir
com a sociedade, na qual está inserido, para ter participação na vida
cívica. Assim, vão se constituindo e se legitimando sistemas para que
aconteçam essas trocas.
A comunicação aqui é entendida como um bem público, por-
tanto, deve estar alinhada com a defesa dos interesses da sociedade
e superar sua histórica utilização como pilar de interesse de classes
dominantes, com interesse em manter a atual conjuntura de domi-

- 186 -
nação de uma classe social, pois “comunicar é disputar hegemonia e
formar opinião” (CFESS, 2017, p. 12).
Comunicação pública é direito fundamental, necessário à
construção democrática e cidadã, e se não é libertadora, então, não
cumpre seu papel. E é se inserindo em seu lugar de legitimidade, nas
políticas públicas, que ela caminha no sentido de consolidação de
seus objetivos. Em síntese, para o autor Marx, liberdade é a possibi-
lidade de escolher entre alternativas concretas. Se o jovem não tem
uma alternativa concreta após a liberação da medida socioeducativa,
não se pode considerar que ele foi libertado nem que está em pro-
cesso de inserção social, mesmo que uma inserção em um contexto
exploratório dominado por hierarquias de classe.
As falas trazidas pelos jovens entrevistados reforçam os apon-
tamentos teóricos que afirmam que o capitalismo precisa de relações
morais, dos processos sociais extraeconômicos para valorizar o capi-
tal. A política sempre esteve permeada por moralidades e essa união
ataca diretamente a democracia. Essa moralidade se entranha na CP
através dos sujeitos que materializam a política socioeducativa e se
volta para os socioeducandos de maneira violenta, destorcendo-lhes
a percepção do real, por exemplo, com a aparência de que suas vi-
vências são manifestações meramente individuais.
A Comunicação Pública, mesmo permeada pelas contradições
existentes na atuação do Estado, não perde seu potencial de contri-
buir para a garantia de direitos e emancipação dos sujeitos que são
inseridos na política socioeducativa. Na correlação de forças em que
as medidas socioeducativas estão imersas, os jovens nela inseridos
não escapam do campo de disputas societárias e o paradigma da pro-
teção integral – defendido como modelo de proteção e atacado pelo
neoliberalismo – é o que mais se aproxima da garantia de cidadania.
Ampliar o caráter dialógico dos processos comunicativos é
uma construção necessária no sistema socioeducativo. Nesta pers-
pectiva, a comunicação tem um longo percurso para superar o as-
pecto unidirecional, ao qual muitas vezes se limita, para enfim res-
peitar as características e especificidades dos envolvidos, possibilitar
a dinâmica de interação horizontal e se materializar como um ins-
trumento de transformação social.

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article/viewFile/42500/29814>

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- 190 -
A Ofensiva Neoconservadora Contra Mulheres
e Sexualidades Dissidentes no Brasil1
Marlene Teixeira Rodrigues
Ivna de Oliveira Nunes
Tibério Lima Oliveira
Notas Introdutórias
Este artigo examina as agendas e políticas relacionadas com os
direitos das mulheres e da população LGBTQIA+ no Brasil, a partir
da ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República em 2018,
após o candidato favorito ao pleito – Lula da Silva – ter sido impe-
dido de concorrer. Essa vitória marca o triunfo eleitoral da extrema
direita no maior país do continente sul-americano. Suas principais
bandeiras, difundidas mundialmente com Trump, tornaram-se a
orientação política do novo governo: a defesa de “um Estado mais
forte, mas com menos impostos”; uma política externa de defesa do
patriotismo e em rejeição a “um governo mundial”, que teria uma “ti-
rania generalizada”; e a adoção de uma política interna pautada em
“distinguir amigos de inimigos” (Kristol apud FINGUERUT, 2008,
p. 20).
Mais de trinta anos após o fim da ditadura militar em 1985,
observa-se a retomada de agendas que eram supostas como supe-
radas, entre as quais se destacam a recusa em reconhecer pessoas
LGBTQIA+ como sujeitos de direitos e a luta contra direitos sexuais
e reprodutivos das mulheres, em um quadro de forte ajuste estrutu-
ral (Corrêa e Kalil, 2020; Reis, Ridenti e Motta, 2014; Teixeira, 2021).
Após vinte e um anos de regime autoritário (1964-1985), o
Brasil, finalmente, havia adotado em 1988 um marco constitucional
ancorado na democracia e na ideia de Estado de Direito. Armou-se
um conjunto de políticas sociais públicas, direcionado à garantia de

1 Este texto foi publicado originalmente em espanhol sob o título “La ofensiva neocon-
servadora contra las mujeres y las sexualidades disidentes en Brasil”, no livro “Construc-
ción de ciudadanía y prácticas feministas frente a políticas conservadoras y autoritarias:
Experiencias colectivas de organización social”, organizado pelo GT CLACSO “Luchas
antipatriarcales, familias, género, diversidad y ciudadanía”, a quem os autores agradecem
a autorização para publicação em português.

- 191 -
acesso a direitos e a segmentos historicamente excluídos de nossa
“cidadania regulada”, como bem a descreveu Wanderley G. dos San-
tos (1979).2
Deve-se ressaltar que a dinâmica da redemocratização tem
sido marcada pelo paradoxo da ascensão mundial e local do neo-
liberalismo, simultaneamente com a expansão dos direitos sociais e
humanos para as mulheres, negros e pessoas LGBTQIA+. No en-
tanto, as reformas implementadas no período foram superficiais,
em termos de incidência nas estruturas de classe e de desigualdades
do país. Além disso, a ideologia neoliberal e seu discurso a favor da
reforma do Estado promoveram um processo de “contrarreforma”,
desde a década de 1990 que ainda está em curso (Berhing, 2008; Lu-
sitano, 2019).
No entanto, após catorze anos de governos petistas, ninguém
imaginava o cenário de retrocesso em que iríamos submergir, quan-
do, em 2013, a extrema direita veio à tona com seus protestos e agen-
das. Não era nenhuma novidade, mas o ímpeto que conquistaram a
partir daí foi realmente surpreendente e, nesse momento, todos pro-
curamos compreender o processo e encontrar saídas para a distopia
que a ascensão da extrema direita, representada por Bolsonaro, nos
conduziu. Representante dos interesses de grupos religiosos funda-
mentalistas (neopentecostais e católicos), do capital internacional e
do agronegócio, o projeto de poder do governo Bolsonaro é uma
mistura de ultraliberalismo, pânico sexual, cruzadas morais e necro-
política (Daltro, 2021; Lusitano, 2019; Solano, 2018).
Esse quadro, que resultou na deslegitimação e criminalização
da política tradicional, foi moldado pela participação de diferentes
atores e processos políticos, especialmente políticos e partidos iden-
tificados como de esquerda. Vale destacar aqui o papel de liderança
assumido pelo Judiciário brasileiro e a submissão do mundo político
a uma “guerra jurídica” - o lawfare -, com sérias repercussões para
a democracia. Embora esse processo tenha impactado diversos po-
líticos, organizações políticas e empresas, o principal alvo foi o Par-
tido dos Trabalhadores e seu (ainda virtual) candidato nas eleições
de 2018 - o ex-presidente Lula da Silva; com o chamado antipetis-
2 Segundo o autor, o padrão de cidadania regulada associa cidadania à ocupação. “Em
outras palavras, são cidadãos todos aqueles membros da comunidade que se encontram
localizados em qualquer uma das ocupações reconhecidas e definidas em lei” (Santos,
1979, p. 75).

- 192 -
mo atingindo níveis nunca vistos antes (Solano; 2018; Souza, 2016;
Streck e Carvalho, 2020).3
Esse processo não teria êxito se não tivesse contado com o
apoio fundamental dos grandes meios de comunicação e do setor
financeiro nacional e transnacional. À mídia - com destaque para
o conglomerado Globo e a revista semanal Veja - coube divulgar a
imagem do juiz “salvador” e de Lula como “o chefe da quadrilha” que
havia tomado os cofres públicos de assalto. O setor financeiro - cujos
altos executivos se mantêm distantes do caos e da miséria urbana,
circulando a bordo de seus helicópteros - além de contribuir para a
instabilidade econômica do país, através da especulação, forneceu
recursos para organizações de direita que coordenavam as mani-
festações de rua - como os recém-criados Movimento Brasil Livre
(MBL) e “Vem pra Rua”, primeiro defendendo o impeachment de
Dilma e depois a candidatura de Bolsonaro (Souza, 2016; Streck e
Carvalho, 2020). candidatura de Bolsonaro. (Souza, 2016; Streck e
Carvalho, 2020).
Todo esse processo preparou o caminho para a candidatura do
ex-capitão do Exército, que se tornou parlamentar com um discurso
a favor dos militares (de baixa patente) e elogios à ditadura militar,
até então um político inexpressivo. Embora estivesse em sua sétima
legislatura como deputado, ele se apresentou, munido do discurso de
antissistema, como candidato a presidente. Seu sucesso foi revelado
posteriormente nas primeiras pesquisas, como registrou Anderson:
“nas primeiras pesquisas de opinião, um nome inesperado liderava
com modestos 15%: Jair Bolsonaro, deputado interino individualis-
ta, tão isolado que obteve apenas 4 votos, em 513, quando disputou a
presidência da Câmara “ (2020, p.144).
Assim, foi nesse contexto que o discurso da antipolítica ga-
nhou corpo e a popularidade de Jair Bolsonaro, embalada por sua
adesão à agenda neoliberal e seus discursos moralistas e de anticor-
rupção, o levou à presidência da República. A estratégia central para
materializar esse projeto, como se verá a seguir, faz das mulheres e
pessoas LGBTQIA+, bem como das políticas que lhes garantem al-
gum direito, centro das “ofensivas anti-gênero” – e alvo permanente
do escrutínio governamental. Logo no início, a campanha os movi-
3 Acusado, sem provas, de corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo coordenador
da “Operação Lava Jato”, o juiz Sérgio Moro, Lula permaneceu preso por 580 dias e foi
impedido de participar do processo que consagrou Bolsonaro como presidente.

- 193 -
mentos feministas brasileiros avaliaram os retrocessos representados
pelo projeto bolsonarista e desencadearam uma forte mobilização
contra Bolsonaro e seu projeto misógino e sexista, em todo o país.
Esse movimento, sintetizado pela expressão “Ele Não” buscou de-
nunciar a trajetória histórica do candidato e os riscos e retrocessos
da proposta para as mulheres e outros segmentos, tais como negros,
LGBTQIA+, indígenas, entre outros. Não foi o suficiente para deter
a onda “bolsonarista verde e amarela”, ainda (Corrêa e Kalil, 2020).
As inúmeras iniciativas adotadas por Bolsonaro envolvem a
destruição do arcabouço jurídico e social construído ao longo dos
trinta anos pós-Constituição, como declarou o presidente em sua
primeira visita oficial aos Estados Unidos: “Nós temos é que des-
construir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós come-
çarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um
ponto de inflexão, já estou muito feliz”.1 Ao longo desses pouco mais
de dois anos de mandato, vimos que a declaração presidencial não
era mera retórica.
Os Direitos Sexuais e Reprodutivos das Mulheres nas
Políticas Bolsonaristas
As estratégias adotadas pelo governo Bolsonaro para disse-
minar e materializar sua agenda - em que as chamadas ofensivas
anti-gênero se destacam - são ancoradas no uso de “pânico moral”
e “guerras culturais e guerras sexuais”, conforme constatado em di-
ferentes investigações no Brasil e em outros países em situação po-
lítica semelhante. Conforme discutido por Gayle Rubin, (1989), o
“pânico sexual” ao lado do “terror erótico”, ressurge, nesse momento,
constituindo “poderosos instrumentos legais para punir, perseguir e
desmantelar” comunidades consideradas ilegítimas - as “sexualidades
dissidentes” (Colling, 2018; Corrêa e Kalil, 2020; SOLANO, 2018). No
discurso feito ao tomar posse como presidente, Bolsonaro deixou essa
questão explícita.
Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa
tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, preservan-
do nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras
ideológicas. (Bolsonaro, 2018).2

1 Discurso proferido pelo presidente Bolsonaro a empresários e líderes conservadores


norte-americanos, na primeira visita oficial aos Estados Unidos, em encontro realizado
em 18 de março.
2 Destaque nosso.

- 194 -
As chamadas guerras culturais e sexuais são uma parte central
dessa ofensiva; por meio delas, “questões como os direitos dos homos-
sexuais, a legalização do aborto, o controle de armas e a legalização
das drogas passam a ganhar destaque no debate político”. Esse debate
passa a ser organizado em dois campos - “conservadores” e “progres-
sistas” - que assumem posições antagônicas, baseadas em argumentos
de natureza moral (Solano, 2018).
É necessário destacar nesse quadro, as organizações
neopentecostais3, identificadas com as diretrizes da extrema direita,
que nos últimos 20 anos se tornaram uma importante força política
no Brasil. Em outras palavras, o projeto bolsonarista reflete a reação
desses segmentos sociais da sociedade brasileira, contrários às agendas
e conquistas dos movimentos feministas e LGBTQIA+, entre outros
sujeitos políticos.
Essas forças ligadas ao fundamentalismo religioso atuam, an-
coradas nas estruturas de uma rede de mídia capilar de TVs, rádios e
jornais e de base político-parlamentar que, entre deputados e senado-
res, representa cerca de 20% do total do Congresso Nacional. Através
da constituição da chamada Frente Parlamentar Evangélica (FPE) su-
prapartidária, esses grupos fundamentalistas estão na vanguarda de
todas as iniciativas de mudanças normativas e jurídicas apresentadas
no Parlamento, nas últimas décadas, voltadas ao controle do corpo das
mulheres e à defesa da família (heteropatriarcal). O punitivismo, o an-
ticomunismo e a moral sexual cristã tradicional servem de pano de
fundo para as propostas.(Anderson, 2016; Dip, 2018; Solano, 2018).
Essa influência é ainda evidente na equipe ministerial de
Bolsonaro. Composta quase inteiramente por homens brancos, as
duas únicas mulheres do grupo expressam compromissos centrais
do governo com segmentos conservadores do Brasil. A ministra da
Agricultura, deputada federal Teresa Cristina (DEM/MS), é uma
importante empresária do ramo do agronegócio e interlocutora dos
empresários que financiam a chamada “bancada do boi” no Con-
gresso Nacional.4 Damares Regina Alves, a ministra da Mulher, da
3 Dentre elas, destaca-se a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
4 O apelido usado para se referir à deputada, nos bastidores de Brasília - “musa do vene-
no” ou mesmo “menina veneno” -, é revelador de suas posições sobre as questões rurais.
Conhecida por defender as práticas dos empresários rurais, Cristina, em sua primeira
entrevista após ter sido eleita ministra, fez questão de dizer que durante sua gestão no
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a alteração da regulamen-
tação dos agrotóxicos teria “muito espaço”.

- 195 -
Família e dos Direitos Humanos5 - a primeira ministra a ser empos-
sada em 02 de janeiro -, é uma figura emblemática do bolsonarismo
fundamentalista.
Damares Alves é uma das mais importantes representantes
dos neopentecostais no governo e a principal estrategista para a
concretização da agenda dos fundamentalistas. Advogada e pastora
evangélica, Damares ganhou prestígio ao longo de quase vinte e dois
anos atuando como assessora parlamentar no Congresso Nacional
do Brasil, ao lado de diversos membros da FPE. Em seu discurso
de posse como ministra, fez questão de destacar sua trajetória no
Parlamento, bem como o lugar estratégico e importante do novo mi-
nistério para o projeto do “novo Brasil” representado por Bolsonaro
(Dip, 2018).
Vou falar, o Estado é laico, mas eu sou terrivelmente cristã.
(...)
Temos que avançar na construção e implementação de políticas
públicas duradouras e estruturais que promovam ao nosso povo
melhores condições de vida plena em todos os seus aspectos, E,
quando falo em vida, falo da vida desde a concepção. (...) para este
Governo, os direitos humanos são universais e serão respeitados. A
vida, nosso maior bem, é o ponto de partida deste Ministério, foi
pensado e estruturado, a partir dela, de sua proteção e seu cuidado
para não depender deste governo e desta equipe, sangue inocente
não será mais derramado em nosso país. (Alves, 2019).6

Com essas referências e tendo Damares na frente, os neocon-


servadores do governo Bolsonaro tentam anular os debates e as lutas
ligadas aos direitos sexuais e reprodutivos com um discurso forte-
mente ancorado na alegação de que a esquerda promove uma “cultu-
ra de morte” e o “fim da família”, sendo o gênero e a sexualidade os
fantasmas da degeneração. O chamado “marxismo cultural”, a cha-
mada “ideologia de gênero” e o feminismo são identificados como
as principais ameaças que devem ser combatidas para evitar o “fim
da família” (Lacerda, 2019).
Recurso retórico utilizado inicialmente em textos católicos,
elaborados em meados de 1990, a “ideologia de gênero” objetiva re-
forçar a importância da família natural frente ao crescimento dos
5 Esse Ministério resultou da fusão ou extinção dos seguintes órgãos, criados durante os
anos Lula e Dilma: Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).
Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres (SNPM) e Secretaria de Direitos Huma-
nos.
6 Destaque nosso.

- 196 -
debates de gênero e do aumento de mulheres e LGBTQIA+ no ce-
nário político e social. O debate em torno do tema havia se acentua-
do mundialmente, por ocasião da IV Conferência de Pequim, em
1995, e da construção do documento final - a Plataforma de Ação.
As polêmicas sobre aborto, igualdade de gênero e homossexualidade
e as fortes reações por parte de ativistas participantes, em muitos
momentos, pareciam inviabilizar o documento. No Brasil, o termo,
que se espalhou com as polêmicas em torno do Plano Nacional de
Educação, foi elevado ao centro das atenções por Bolsonaro ainda
durante a campanha. (Biroli, Machado e Vaggione, 2020; Corrêa e
Kalil, 2020).
Com Bolsonaro, hoje, não se trata apenas de uma disputa ideo-
lógica - ou “de narrativas”, como dizem os seguidores tupiniquins de
Steve Benon e Olavo de Carvalho - está nas disputas de projetos so-
ciais diferentes em que as ofensivas anti-gênero ocupam um lugar es-
tratégico. No Brasil, tais ofensivas têm se materializado em diversos
projetos de lei e iniciativas de âmbito do Executivo, que contemplam
a família, a educação e a saúde; todos, com vistas a afastar o debate e
as diretrizes referentes aos direitos sexuais e reprodutivos.
No âmbito do Parlamento, vale destacar os debates envolven-
do o “Estatuto do Nascituro”, o “Estatuto da Família” e o Plano Na-
cional de Educação (PNE). O “Estatuto do Nascituro” está em tra-
mitação desde a década de 2007, na forma do Projeto de Lei (PL)
478/2007. A iniciativa, que propõe tornar lei a propalada defesa da
vida “desde a concepção”, voltou ao centro do debate com Bolsonaro.
No parágrafo único, Artigo 3º, o PL estabelece que ao não nascido
será garantida, “a expectativa do direito à vida, à integridade física, à
honra, à imagem e todos os demais direitos da personalidade.”. Ain-
da com relação a medidas direcionadas a dificultar a interrupção da
gravidez, se destaca a proposta de autoria do deputado evangélico,
Eduardo Cunha, agregada ao Estatuto do Nascituro, de transformar
o aborto em crime hediondo.7 (Câmara Legislativa Federal (CLF),
2007).
Na esfera executiva, simultaneamente, diferentes ações e por-
tarias estão tratando de desarmar políticas e serviços destinados a
atender e garantir os direitos das mulheres. Aqui, as diretrizes são o
7 A proposta de Cunha ganhou espaço na mídia ao propor ainda a criação de uma es-
pécie de bolsa, a ser concedida aos nascidos de gravidez por estupro, que se popularizou
como “bolsa de estupro”.

- 197 -
desmantelamento e a revogação de qualquer lei. Área sempre pionei-
ra na construção de serviços e políticas com forte participação popu-
lar, o Ministério da Saúde se destaca entre os órgãos que conduzem a
destruição – seja atuando para dificultar ou impedir o atendimento
nos casos de aborto previsto em lei ou desmantelando os serviços
de assistência a vítimas de violência machista8 (Biroli, Machado e
Vaggione, 2020; Chade e Kalil, 2020).
Enquanto o Estatuto do Nascituro trata dos direitos repro-
dutivos das mulheres, o Estatuto da Família, como será abordado
abaixo, procura afirmar o modelo heterossexista de família. Já o de-
bate que mobilizou as forças da direita em relação ao Plano Nacional
de Educação girou em torno da igualdade de gênero. A partir da
afirmação no documento sobre a “ênfase na promoção da igualdade
racial, regional, de gênero e de orientação sexual”, surgiu toda uma
polêmica por parte de deputados e senadores conservadores, vincu-
lados às igrejas, que resultou na supressão total das palavras “orien-
tação sexual e gênero”, no caso desta última, mesmo quando se refere
à gramática (Biroli, Machado e Vaggione, 2020; Solano, 2018).
“Enquanto depender de mim e de meu governo, o aborto nun-
ca será aprovado em nosso território. Sempre lutaremos para prote-
ger a vida dos inocentes.” (Reuters, 2020). A declaração expressa por
Bolsonaro, em “defesa da vida”, em suas redes sociais, por ocasião da
aprovação pelo Senado argentino da Lei do Aborto, sem qualquer
preocupação com questões diplomáticas, revela o propósito de mar-
car um posicionamento e esclarecer o curso da política brasileira.
Esse movimento também incluiu o estabelecimento de articulações
com outros governos e organizações neoconservadoras, para ação
conjunta em organismos multilaterais, como a ONU, em defesa da
família heteronormativa, contra o aborto e outras bandeiras neo-di-
reitistas. Como Biroli, Machado e Vaggione (2020) sublinharam:

A chegada de Bolsonaro ao poder ampliou não só a influência da


agenda política da direita cristã norte-americana no Brasil, mas
também a troca de lideranças políticas locais com os setores neo-
conservadores da Hungria, fortalecendo as posições ‘pró-família’ na

8 Conforme destaca Lacerda (2019), as reações contra o aborto seguro e legal aumen-
taram exponencialmente em 2008, diante das possibilidades de mudanças no âmbito
legislativo, apontadas pela administração petista. O desconforto, expresso então pelos
deputados da bancada evangélica e da extrema direita, viria se tornar uma pauta de cam-
panha nas disputas eleitorais seguintes.

- 198 -
equipe de governo. Presente na III Cúpula da Demografia, realiza-
da em 2019 em Budapeste, a ministra Damares afirmou que, assim
como a Hungria, o Brasil era um país ‘pró-família’, e propôs a forma-
ção de uma aliança entre ‘países amigos da família’. (p.106)

No item seguinte abordaremos os principais impactos do go-


verno de Jair Messias Bolsonaro sobre a população LGBTQIA+ no
Brasil.

O Governo Bolsonaro e a Destruição das Políticas Públicas


para LGBTQIA+
Inicialmente, é importante dizer que antes de Bolsonaro, o
Brasil já ocupava a posição de recordista em assassinatos contra a
população LGBTQIA+ no mundo, sendo também recordista em as-
sassinatos de travestis e transexuais. O direito à vida e à segurança
dessa população tem sido banalizado nos constantes atos de violên-
cia. As identidades sexuais e de gênero que fogem da heteronormati-
vidade são usurpadas e expropriadas diariamente (Oliveira e Soares,
2020).
Apesar desse cenário mais amplo, o movimento LGBTIQIA+
tem forjado articulações e estratégias para tornar suas agendas vi-
síveis e conseguiu, principalmente durante o período dos governos
petistas, construir, nesse período, uma interlocução com o Executi-
vo. O resultado desse processo foi a criação do Programa Brasil Sem
Homofobia, em 2004, com diretrizes dirigidas para políticas públicas
de promoção da cidadania e dos Direitos Humanos LGBTIQIA+.
Também foram realizadas três Conferências Nacionais de Direitos
Humanos da População LGBTQIA+, com grande participação po-
pular, e foi feito um movimento inicial para iniciar o registro anual
da violência de caráter LGBTIfóbica. O âmbito do Legislativo, his-
toricamente, apresenta pouca abertura para esses debates e diretrizes
(Irineu, 2019).
Nesse período, o setor com o qual o movimento LGBTIQIA+
alcançou os diálogos mais fecundos foi o Judiciário, por meio da Su-
prema Corte - o Supremo Tribunal Federal (STF). Como apontam
Oliveira e Soares (2020), contraditoriamente, um tribunal normal-
mente tão conservador tem sido um dos poucos espaços de diálo-
go para essa população. Mesmo diante desse cenário de conquistas
tardias, importantes vitórias foram alcançadas para o Movimento

- 199 -
LGBTIA+ no Brasil. Essas iniciativas resultaram: na aprovação de:
casamento igualitário, em 2011; adoção por casais homoafetivos, em
2015; a aprovação do direito ao nome social para travestis e transe-
xuais, em 2018 e, por fim, a criminalização da LGBTIfobia, em 2019,
equiparada a um crime de racismo - já sob o governo Bolsonaro.
O presidente não demorou a expressar todo o seu aborre-
cimento, ao saber da medida, fazendo críticas diretas ao Supremo
Tribunal Federal por ter criminalizado a LGBTfobia: “Com todo o
respeito, mas a decisão do Supremo Tribunal está completamente er-
rada. Além de legislar, ele está aprofundando a luta de classes” (Bol-
sonaro, 2019).
Apesar do que o discurso do presidente possa implicar, o Es-
tado brasileiro deixa a desejar no que diz respeito às pessoas LGB-
TQIA+ e à violência que sofrem. Não realiza nenhum acompanha-
mento dessa situação, reflexo desse mesmo descaso. As informações
existentes são produzidas por organizações não governamentais
como o Grupo Gay da Bahia (GGB) e a Associação Nacional de Tra-
vestis e Transexuais (ANTRA). O GGB monitora os crimes de vio-
lência cometidos contra essa população, abrangendo todo o país, e
produz relatórios com os dados coletados anualmente denunciando
os crimes registrados no período. O foco do trabalho de monitora-
mento da ANTRA são as ocorrências de violência transfóbica.
Em 2019, o relatório do GGB registrou 329 vítimas LGBTIA+
de crimes atrozes e, 237 mortes, em 2020 (GGB, 2020, 2021). Sobre a
violência transfóbica, os boletins da ANTRA do ano de 2018, regis-
traram 163 vítimas de transfobia; em 2019 registrou-se 124 homicí-
dios contra pessoas trans e em 2020 foram 175 (ANTRA, 2019, 2020,
2021). Deve-se ressaltar que tanto os dados do GGB quanto os da
ANTRA são subnotificados, pois muitas vezes os crimes ocorridos
não foram registrados como de caráter LGBTfóbico.
As raízes autoritárias, racistas, sexistas e classistas de Bolso-
naro e o caráter ultraneoliberal do governo só pioraram as condi-
ções de vida e o acesso a direitos de pessoas LGBTQIA+ no país.
Seu constante discurso LGBTfóbico e as críticas aos direitos dessa
população são, sem dúvida, parte da explicação para o aumento da
violência. Não há espaço para metáforas na conversa presidencial:
“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda
o comportamento dele, OK? (Bolsonaro, 2010).9
9 CARTA Capital (2018). Bolsonaro em 25 frases polêmicas. Acesso dia 15 de agosto de 2021

- 200 -
Deve-se notar que a Ministra Damares, em sua longa jornada
como conselheira parlamentar, ela foi responsável por uma parte im-
portante das estratégias adotadas pela FPE. A título de exemplo, ci-
tamos o Estatuto da Família. Concebida originalmente para garantir
políticas públicas para as famílias, a versão do estatuto articulada na
Câmara dos Deputados, em 2018, sob a liderança de parlamentares
ligados às igrejas, tem tentado restaurar, via lei, a concepção hete-
ronormativa de família. Estabelece o parágrafo 2º: “Para os efeitos
desta Lei, entidade familiar é definida como o núcleo social formado
a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de ca-
samento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por
quaisquer dois pais e seus descendentes.” (Câmara, 2007) “pretendia
instaurar que a família era formada pela união entre um homem e
uma mulher.” Embora tenham conseguido aprovar a proposta, um
inquérito de inconstitucionalidade, apresentado pelo Tribunal de
Justiça do Acre, a suspendeu (Lima, 2020). A segunda iniciativa a se
destacar por seu caráter LGBTQIA+fóbico, que tem recebido forte
apoio da Ministra Damares, passou a ser conhecida nacionalmen-
te pelo apelido de “cura gay”. Também transformado em Projeto de
Lei - PL 4931/16 - com os auspícios do Movimento de Ex-Gays do
Brasil (MEGB), buscou regulamentar o tratamento psicoterapêutico
para a reversão da homossexualidade, mas foi arquivado na câmara
(Quaresma, 2017).
No âmbito do Executivo federal, a extinção da Secretaria Na-
cional de Direitos Humanos, onde se localizava a Direção Nacional
de Promoção dos Direitos da Pessoa LGBTQIA+, foi o ato inaugural
de Bolsonaro no desmantelamento das políticas de enfrentamento
dos direitos da população LGBTQIA+ no Brasil. Um exemplo que
ilustra esse aspecto é dado com o monitoramento que o Portal Gêne-
ro e Número realizou, sendo que em 2020 nenhum valor monetário
foi gasto com as políticas públicas LGBTQIA+, visto que havia uma
verba de 800 mil reais (Ferreira, 2021).
Outra medida adotada na mesma direção foi a extinção do
Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBTQIA+, em
abril de 2019, que, além de interromper completamente o diálogo
com a sociedade civil, fazia parte da estratégia de fechar todos os
canais institucionais de participação e controles de cidadãos, que ha-
viam sido materializados pelos governos petistas. O fim do Conselho

- 201 -
Nacional LGBTQIA+ e a não execução do orçamento destinado à
população LGBTQIA+ expressam e materializam a orientação polí-
tica e o conservadorismo do governo Bolsonaro.

Considerações Finais
Os documentos recolhidos e o diálogo com autores e auto-
ras que se detêm a examinar o governo Bolsonaro, que aqui apre-
sentamos, revelam os contornos de nossa tragédia, passados pouco
mais de dois anos do começo da distopia bolsonarista. O conser-
vadorismo como aparato político-ideológico sobe e se reestrutura
com a chegada da extrema direita e dos neopentecostais ao poder. As
ofensivas anti-gênero ocupam lugar de destaque, como “dispositivos
de acumulação de poder político, que se alimentam da resistência
às transformações das ordens de gênero e sexualidade”, conforme
destacam Corrêa e Parker (Corrêa e Kalil, 2020). Negros, mulheres
e pessoas LGBTQIA+ são as maiores vítimas. Seus discursos de di-
fusão do medo, do pânico, do negacionismo, do nacionalismo e da
tradição impulsionam a construção de práticas violentas, autoritá-
rias, racistas e xenofóbicas. Essas ofensivas ainda desempenham um
papel importante nos processos contemporâneos de destruição dos
principais mecanismos e instituições da democracia, nos quais o so-
ciólogo peruano Aníbal Quijano tem se concentrado
Deliberadamente, não abordamos neste texto, a questão do
impacto da pandemia da Covid-19, que atinge o mundo e o Brasil
de forma especial, há mais de um ano. A violência, a intolerância e
o autoritarismo característicos de Bolsonaro mostraram sua face de
forma cruel também lá e o faz através do negacionismo que tomou
o lugar da principal estratégia governamental para lidar com a pan-
demia e suas consequências. O Brasil atingiu, na segunda semana
de agosto/2021, a marca de mais de 560 mil mortes por Covid, dois
terços dessas pessoas poderiam ter sobrevivido, não fosse a política
governamental, segundo estudo realizado por epidemiologistas na-
cionais.
Convivemos com o aumento exponencial da pobreza, do de-
semprego (quase 15 milhões de pessoas), inflação e fome, ao mesmo
tempo que cresce a concentração de riqueza e o número de bilioná-
rios no país. Além dos riscos trazidos pelo vírus para a população
- principalmente mulheres, LGBTQIA +, população negra, quilom-
bola, indígena e migrante -, sofremos para encontrar meios de nos

- 202 -
livrar do verme que se instalou na Presidência, de seu negacionismo,
autoritarismo, misoginia e LGBTQUIA+fobia.

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- 205 -
- 206 -
Política Social, Trabalho, Educação e
Discriminação – 15 anos de contribuições ao
PPGPS/UnB do Grupo TEDis
Silvia Cristina Yannoulas
Carolina Cassia Batista Santos
Natália de Souza Duarte
Anabelle Carrilho
Apresentação
Corria o segundo semestre de 2006, quando a então estudante
de graduação em Serviço Social Kelma Jaqueline Soares entrou na
sala da novíssima docente do Departamento de Serviço Social da
Universidade de Brasília (SER/UnB), profa. Silvia, para apresentar a
demanda de um grupo de estudantes que queria discutir a política
educacional e suas inter-relações com o Serviço Social. Paralelamen-
te, a Coordenação do Curso de Graduação solicitou à professora que
lecionasse a disciplina Política Social Educação. Foi o início de uma
longa jornada...
Assim, há quinze anos nascia o Grupo de Pesquisa Trabalho,
Educação e Discriminação – TEDis, gerado a partir do ideal da con-
ciliação e articulação de saberes plurais sobre as temáticas do tra-
balho, educação e discriminação, reunindo um coletivo de pesquisa
que busca diálogos multidisciplinares no campo da política social e
do Serviço Social. As autoras deste capítulo representam esse cole-
tivo que inaugurou e agregou conhecimentos ao profícuo Programa
de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de Brasília
(PPGPS/UnB).
O capítulo, redigido a várias mãos, mentes e corações, visa ce-
lebrar o tempo de vida e de sucesso acadêmico do grupo, dispostos
nas produções acadêmicas, nas realizações de atividades extensio-
nistas e na formação de pesquisadores e profissionais engajados e
comprometidos com os ideais de uma sociedade e relações de traba-
lho mais justas e equânimes e de uma educação libertadora. Os feitos
e ganhos do TEDis, desenvolvidos ao longo desses anos, são motivo
para celebração, assim como apresentam o compromisso de enfren-

- 207 -
tar os desafios vindouros, em tempos de proliferação de um obscu-
rantismo que nega a ciência e prejudica a produção de conhecimento
científico, especialmente, quando reduz o financiamento de estudos
e pesquisas. Este capítulo se dedica a sintetizar os conhecimentos
produzidos por essa conjugação de saberes e ideais.
Este texto fundamentou-se nas experiências de pesquisa, do-
cência e extensão desenvolvida pelo TEDis ao longo dos seus 15 anos
de existência, que se completam em janeiro de 2022, num espaço
universitário de formação de assistentes sociais, e pretende contri-
buir com o debate sobre a inserção dessas profissionais no campo da
educação formal, suas maneiras de atuação e potencialidades. Tam-
bém almeja contribuir com os debates dos cientistas da educação em
torno da política educacional com caráter universal numa sociedade
de classes marcada por tremendas desigualdades de gênero e raça/et-
nia. Intersetorialidade e multiprofissionalidade constituem aborda-
gens presentes na reflexão desenvolvida pelo TEDis, e se expressam
sistematicamente nas suas produções.
O Grupo de Pesquisa
O TEDis foi criado em 2007 no contexto do Programa de Pós-
-Graduação em Política Social do Departamento de Serviço Social
da Universidade de Brasília (PPGPS/SER/UnB).1 Os projetos do TE-
Dis foram apoiados desde 2007 por diferentes agências de fomento,
como Capes, CNPq e FAP/DF, em diversos anos e editais/chamadas.
O propósito do Grupo TEDis é o de promover estudos do tra-
balho, a partir da sua articulação com o conhecimento e a educa-
ção formal, considerando especialmente as trajetórias educacionais
diferenciadas e os percursos ocupacionais desiguais com base em
classe social, gênero e raça/etnia. Para tanto, o TEDis se organiza
em duas linhas de pesquisa prioritárias, atualmente estruturadas em
torno dos principais assuntos pesquisados pelo Grupo: Estado, Po-
lítica Social e Direitos – Educação; e Estado, Política Social e Direitos
– Trabalho. As duas linhas de pesquisa se estabelecem com base nas
reflexões e fundamentos advindos dos dois principais eixos de deba-
te acadêmico do grupo, aqui referenciados.
De um lado, problematiza-se: por que considerar a articulação
entre conhecimento/educação e trabalho como foco privilegiado
da pesquisa?
1 Sobre o Grupo TEDis, ver: <www.tedis.unb.br > e http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogru-
po/5505964523291572 .

- 208 -
Os estudos sobre educação e trabalho se destacam pela es-
treita ligação entre essas categorias, no que se refere à sociabilidade
humana. A categoria trabalho é aqui entendida como fundamental.
Como nos diz Marx, o processo de trabalho é atividade dirigida com
o fim de criar valores-de-uso, de apropriar os elementos naturais às
necessidades humanas (MARX, 1989, p.208). Nesse processo, o ser
humano impulsiona, regula e controla o seu intercâmbio material
com a natureza, a partir de sua própria ação.
Lessa (1996, p. 10), fazendo referência aos estudos de Luckács,
afirma que o trabalho produz o novo e impulsiona a humanidade a
patamares sempre superiores de sociabilidade. A incursão do capi-
talista no processo de trabalho é que desvirtua a sua finalidade para
a produção de mercadorias, desapropria trabalhadores e trabalha-
doras dos meios de produção, os aliena no processo produtivo e os
relega a posição de meros assalariados. Em consequência, as relações
sociais que se estabelecem na sociedade capitalista fundamentam-se
nas relações de exploração de uma classe sobre a outra. O que incita
a reação da classe trabalhadora pela luta de classes. Neste sentido, os
estudos sobre o trabalho nos posicionam frente às contradições da
sociedade capitalista e aos processos que asseguram sua reprodução.
E é no campo de reprodução social que se localiza a educação.
A educação se opera, na sua unicidade dialética com a totali-
dade, como um processo que conjuga as aspirações e necessidades
do ser humano no contexto objetivo de sua situação histórico-social.
A educação é, então, uma atividade humana partícipe da totalidade
da organização social (CURY, 1989, p. 13). Segundo Cury (2007, p.
486) o pressuposto do direito à educação é a igualdade.
Para além do direito constitucional, o direito à educação par-
te do reconhecimento de que o saber sistemático é mais do que uma
importante herança cultural. Como parte da herança cultural, os cida-
dãos e cidadãs tornam-se capazes de se apossar de padrões cognitivos
e formativos, pelos quais têm maiores possibilidades de participar dos
destinos de sua sociedade e colaborar na sua transformação. Acom-
panhando esse raciocínio, o domínio de conhecimentos possibilita o
processo de autoconstrução, construção de novos saberes e a partici-
pação cidadã e crítica na sociedade. Daí, a importância outorgada à
educação como via para a transformação da sociedade e emancipação
humana pelos movimentos populares e de trabalhadores/as.

- 209 -
De outro lado, as três dimensões apontadas, classe social,
gênero e raça/etnia, são estruturantes das desigualdades mais pro-
fundas das sociedades latino-americanas, envolvendo no Brasil não
apenas minorias. Isso não significa que essas desigualdades ajam de
maneira idêntica ou que as discriminações decorrentes possam ser
interpretadas no mesmo sentido. O pensamento crítico contempo-
râneo exige o reconhecimento dos marcadores étnicos, raciais de
gênero e da colonização na contradição capital/trabalho. A coloni-
zação que incidiu como “acumulação primitiva foi, sobretudo, uma
acumulação de diferenças, desigualdades, hierarquias e divisões que
separaram os trabalhadores entre si e, inclusive, alienaram a eles
mesmos” (FEDERICI, 2017, p. 233-234).
Saffioti (1992a) considera que as relações de poder se expri-
mem, primordialmente, por meio das relações de gênero, em mais de
um sentido: porque o gênero antecedeu a emergência das sociedades
centradas na propriedade privada dos meios de produção, mas tam-
bém porque permeia absolutamente todas as relações sociais. Assim,
considerando a divisão sexual do trabalho como prática social e sim-
bólica (BANDEIRA, 1997), ela se entrelaça com o sistema de classes
sociais e com o caráter étnico/racial, expressando os antagonismos
de maneiras particulares, segundo o tipo de profissão ou ocupação
considerada (ver SAFFIOTI, 1992a e 1992b; DAVIS, 2016).
Em outros termos, as relações sociais de sexo/gênero, classe
social e raça/etnia são consubstanciais (KERGOAT, 2009), e a alqui-
mia das categorias sociais está presente em toda prática social (CAS-
TRO, 1992). Sem cair em concepções fragmentadas e fragmentárias
da realidade social ou da práxis política, reconhecemos a diversidade
no interior da classe trabalhadora, demarcada pelas relações de gê-
nero e étnico-raciais, como condições estruturantes das desigualda-
des, em especial na formação sócio-histórica brasileira.

O projeto Política Educacional e Pobreza e seus


desdobramentos2
Dentre as pesquisas realizadas, destaca-se o protagonismo do
TEDis na discussão sobre educação e pobreza, que desnudou a con-
2 O Projeto Política Educacional e Pobreza teve apoio do Programa Observatório da Educação
– Obeduc (Edital 038 de 2010 – Capes/Inep), do CNPq (Bolsa de Pós-Doutoramento Sênior
do CNPq em 2012; e bolsas de produtividade em pesquisa e de iniciação científica), e, mais
recentemente, do Decanato de Pesquisa e Inovação da UnB.

- 210 -
tradição Capital/Trabalho e a luta de classes em suas dimensões de
racismo e patriarcado estruturais, por meio da análise crítica da si-
tuação de pobreza no interior da escola, bem como a necessidade de
incentivar práticas pedagógicas e intersetoriais de reconhecimento,
acolhimento, resistência e garantia de direitos educacionais à popu-
lação em situação de pobreza. Como bem denunciado por Duarte
desde 2012 (2012 e 2013), desde que o Programa Bolsa Família (PBF)
exigiu e estruturou um sistema de verificação da condicionalidade
da educação, constata-se, ano após ano, a trágica realidade de que 1
em cada 2 estudantes da educação básica brasileira são beneficiários
do PBF.
A equipe do Projeto Política Educacional e Pobreza incorpo-
rou em diferentes momentos ao trabalho um pouco mais de 30 pes-
soas, com diversos níveis e áreas de formação disciplinar (Educação,
Economia, Serviço Social e Sociologia). Durante a caminhada, foi
especialmente importante o intercâmbio com os pesquisadores e as
pesquisadoras da Rede Estrado – Rede Latino-Americana de Estu-
dos Sobre Trabalho Docente.
O Projeto Política Educacional e Pobreza possibilitou a con-
cretização de um antigo anseio, o de construir pontes entre áreas
disciplinares conexas, especialmente entre o Serviço Social e a Edu-
cação, pensando as interconexões entre política educacional e políti-
ca social. Um fator importante para tal anseio foi a mobilização das
profissionais do Serviço Social que lutaram pela aprovação da Lei n.º
13.935/2019 - que dispõe sobre a obrigatoriedade da inserção de as-
sistentes sociais e psicólogos nas redes públicas de educação básica,
objetivando a constituição de equipes multiprofissionais nas escolas.
O objetivo geral do Projeto Política Educacional e Pobreza foi
o de estudar as diversas manifestações da relação entre educação for-
mal e população em situação de pobreza, tanto no que se refere a
resultados de proficiência e qualidade, como na atuação das distintas
esferas de governo (federal, estadual, municipal), e no interior da
própria escola (estudos de caso). Para tanto, estruturou-se em diver-
sos componentes:
1) Componente Literatura Recente: Analisar a produção cien-
tífica da última década sobre educação formal e situação de
pobreza.
2) Componente Estatístico: Pesquisar, por meios estatísticos,

- 211 -
a influência da população em situação de pobreza no IDEB
das Escolas.
3) Componente Avaliação Externa: Pesquisar a influência do
resultado das avaliações externas, em especial o IDEB, no ci-
clo de políticas públicas – em especial na formulação e imple-
mentação dessas políticas.
4) Componente Estudos de Caso: Analisar o contexto e as ca-
racterísticas das escolas que atendem massivamente a popula-
ção em situação de pobreza.
5) Componente Grupo de Reflexão: Estudar a qualificação
profissional das professoras para o exercício do trabalho do-
cente com população em situação de pobreza.
6) Componente Dinâmicas Escolares: Investigar as manifes-
tações da intersetorialidade no espaço escolar, especialmente
entre educação e assistência social.

Outros componentes correlatos foram incluídos no decorrer


do Projeto, complementando o olhar sobre a complexidade que a
relação entre a política educacional e a situação de pobreza envolve:
• O financiamento da educação pública no Distrito Federal
(em parceria com o GESST).
• O financiamento da formação docente.
• Os Programas de Transferência de Renda e as condicionali-
dades educacionais (em parceria com o GESST).
• O Projeto Político Pedagógico como instrumento para pen-
sar a situação de pobreza (Oficina).

Também é mister comentar aqui o Curso de Aperfeiçoamen-


to em Educação, Pobreza e Desigualdade Social da Universidade de
Brasília (EPDS-UnB), resultado da parceria firmada entre a UnB e a
extinta Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversi-
dade e Inclusão (SECADI) do Ministério da Educação (MEC). Na
implementação do Curso, trabalharam juntamente várias unidades
da UnB: o Decanato de Extensão, a Faculdade UnB Planaltina (FUP),
o Instituto de Letras, o TEDis e o Neppos/Politiza”.
Esta iniciativa teve como finalidade principal provocar sen-
sibilização e reflexão crítica e, teoricamente, fundamentada sobre
os complexos processos que abrangem a educação de sujeitos que

- 212 -
experimentam a pobreza e a extrema pobreza. Além disso, objeti-
vou abastecer professoras, gestoras e coordenadoras pedagógicas de
escolas da rede pública da Educação Básica e profissionais e pesqui-
sadoras das políticas de Educação, Saúde e Assistência Social do Dis-
trito Federal com material de qualidade, elaborado para contribuir
com uma formação comprometida com a superação de injustiças e
discriminações que reforçam desigualdades escolares e sociais.
No Distrito Federal, iniciada em outubro de 2017 na Bibliote-
ca Central dos Estudantes da UnB, com a formação dos então candi-
datos a tutores do Curso, a Iniciativa EPDS-UnB teve continuidade
por mais dez meses de trabalho coletivo em prol do aperfeiçoamento
dos profissionais e pesquisadores matriculados. Após 180 horas dis-
tribuídas entre fevereiro e agosto de 2018, incluindo cinco encon-
tros presenciais com palestrantes convidados, e o desenvolvimento
de três módulos que abordaram os temas “Pobreza, Desigualdades
e Educação”; “Pobreza e Cidadania”; e “Escola: espaços e tempos de
reprodução e resistências da pobreza”, chegou-se ao final da forma-
ção dos cursistas. Os resultados não poderiam ser melhores: dos 452
matriculados na Plataforma Aprender-UnB, os que nunca entraram
na plataforma e não realizaram nenhuma atividade foram 59 (13%).
Dos 378 cursistas efetivos foram aprovados 276 cursistas (73%).
Os trabalhos finais apresentados pelos concluintes, todos construí-
dos no formato de Projetos Interventivos, constituíram importante
aporte teórico-prático à temática, em fase de expansão no Distrito
Federal.
No contexto do convênio entre a UnB e o MEC, visando a
realização do curso, tivemos a oportunidade de atualizar a revisão
da literatura sobre EPDS para duas décadas (1999-2018), e os resul-
tados indicam que: este debate não é mais preterido pela Academia
como foi outrora; trajetórias acadêmicas já estão sendo construídas
a partir da problemática; grupos de pesquisa têm se especializado no
estudo da EPDS, congregando pesquisadores e estudantes; o número
de produções e de autores envolvidos aumentou significativamente;
e importantes contribuições foram desenvolvidas e publicadas a par-
tir da primeira rodada da iniciativa EPDS do MEC, que envolveu o
trabalho de quinze Universidades Federais. Entretanto, se o debate é
aceito como válido pela academia na atualidade, alguns dos aponta-
mentos realizados nos estudos anteriores continuam válidos e pouco

- 213 -
se há avançado: a abordagem da problemática é realizada de maneira
bastante eclética e poucos estudos se traduzem em uma discussão
teórico-metodológica mais sólida ou, inclusive, em uma discussão
aprofundada sobre o próprio método (YANNOULAS, 2013a).
Também sabemos hoje de algumas particularidades quanto à
produção acadêmica no DF: a UnB se destaca pela sua contribuição
na região Centro-Oeste, seja em número de dissertações e teses, seja
em número de artigos abordando a temática EPDS. Porém, as pe-
culiaridades da EPDS no DF foram ainda pouco investigadas, pois
os autores da região estudam, preferencialmente, problemáticas em
âmbito nacional, em detrimento de estudos locais, talvez pela vo-
cação político-administrativa de Brasília. Os periódicos científicos
brasilienses publicam autores de outras regiões, e as universidades
acolhem estudantes de pós-graduação de outras cidades, que esco-
lhem como temas de estudo suas realidades locais. Daí a importância
das publicações decorrentes dessa inigualável experiência político-
-pedagógica (PILATI et al., 2020 a e b).

O projeto Trabalhadoras e seus desdobramentos3


Localizado ao interior dos estudos de gênero e dos estudos
do trabalho, o projeto se referenciou nas reflexões sobre a divisão
sexual do trabalho, a maneira originária de organização social da
atividade nas sociedades humanas. Castro e Guimaraes (1997)
sistematizaram as produções que salientam o caráter socialmente
construído da assimetria nas relações de gênero presentes na divisão
sexual do trabalho, especialmente, na sua redefinição no momen-
to da emergência do capitalismo. Na sistematização elaborada por
Kergoat (2009), a autora destaca dois princípios organizadores da
divisão sexual do trabalho presentes em toda parte e aplicados sem-
pre no mesmo sentido: o da separação em trabalhos de homens e de
mulheres, e o da hierarquização, sendo que os trabalhos de homens
possuem mais prestígio e reconhecimento do que os trabalhos histó-
rica e socialmente realizados por mulheres. Entretanto, para a autora
o enfoque da divisão sexual do trabalho ultrapassa a constatação e
descrição das desigualdades existentes, pois significa refletir sobre os
processos pelos quais as sociedades diferenciam e hierarquizam as
3 O Projeto Trabalho e Relações de Gênero: Análise da Feminização das Profissões e Ocu-
pações do Grupo TEDis foi aprovado pelo Edital MCT/CNPq No. 14/2011 (Universal), e
foi beneficiário de bolsas de iniciação científica do CNPq e apoio da FAP/DF.

- 214 -
atividades de homens e de mulheres. Este é o eixo fundamental que
organiza a discussão feminista sobre a divisão sexual do trabalho e
esteve no cerne do projeto de pesquisa.
O propósito do Projeto Trabalho e Relações de Gênero: Análise
da Feminização das Profissões e Ocupações foi o de atualizar e refle-
tir criticamente sobre os processos de feminização do trabalho, das
ocupações, das profissões, considerando suas transformações, os va-
sos comunicantes entre os aspectos quantitativos e qualitativos dos
processos, e, ainda, os movimentos das mulheres e dos homens nos
seus afazeres e empregos.
Os novos tipos e modalidades da participação das mulheres
nos mercados de trabalho colocam uma série de interrogantes sobre
os modos de inserção nesses mercados, se realizam algum aporte
específico, quais são os mecanismos de qualificação que utilizam ou
são oferecidos para elas, por que não ocupam os mais altos postos
nas suas áreas, o que significa uma participação numericamente su-
perior ou ínfima em termos de definição qualitativa da profissão ou
ocupação, quais são os rebatimentos dessa nova inserção para a di-
visão sexual dos trabalhos reprodutivos e qual é a participação do
Estado nas tarefas de cuidados, entre outros interrogantes. E o in-
terrogante maior: qual seria o balanço entre transformações e per-
manências, entre novidades e deslocamentos? Quais as contradições,
quais os paradoxos gerados pela atualização ou metamorfoses da di-
visão sexual do trabalho?
Mas por que estudar a feminização? Algumas pesquisadoras
manifestam incômodos com a escolha do eixo de reflexão, pois en-
tendem que estudar a feminização seria postular estratégias refor-
mistas típicas da classe média, que levariam as mulheres somente a
desenhar maneiras de atacar os resistentes bastiões masculinos ou a
atrair com medidas específicas (e até sexistas!) homens para as pro-
fissões e ocupações femininas. Bem, se adotarmos uma perspectiva
estritamente relacional para compreender as relações de gênero, não
podemos identificar mulheres com gênero e homens com universal.
Portanto, acreditamos que o estudo da feminização e da masculini-
zação das profissões é chave para desvendar o desmonte das políti-
cas e micropolíticas de poder, que condenam homens e mulheres a
determinados tipos de tripalium (origem da palavra trabalho) por
serem portadores de um determinado aparelho anatómico-fisiológi-

- 215 -
co diferente e de um conjunto de características falaciosamente con-
sideradas inatas para exercer certos tipos de atividades. Entendemos
que se há antagonismo nas relações de gênero, esse antagonismo se
decide a cada etapa ou período histórico, em cada sociedade, sem
que seja possível estabelecer a priori sua demarcação. Daí, nossa
missão como estudiosas da feminização: apontar as maneiras que
essa demarcação assume.
O Projeto de pesquisa originou uma série de publicações:
trabalhos de conclusão de curso de graduação, dissertações, teses e
livros, entre os quais destacamos o livro Trabalhadoras: análise da
feminização das profissões e ocupações (YANNOULAS, 2013b), que
tanto explorou territórios tidos como socialmente masculinizados,
quanto revisitou espaços naturalizados como feminizados (quantita-
tiva e qualitativamente).
A partir da observação empírica em vários espaços ocupa-
cionais, tradicionalmente masculinizados ou feminizados, pudemos
reafirmar a feminização do mercado de trabalho como um conceito
central para a análise e compreensão da categoria divisão sexual do
trabalho e suas dinâmicas no sistema capitalista. A feminização do
mercado de trabalho apresenta-se como a “expressão fenomênica”
(CARRILHO, 2021, p. 149) da divisão sexual do trabalho e carrega
seus traços principais: sua base material; os princípios de separação e
hierarquização que a caracterizam (KERGOAT, 2009); a contradição
como componente intrínseco; seu caráter ao mesmo tempo univer-
sal e mutável; e seus impactos teóricos e políticos. Entendemos que
esta compreensão abre espaços para avançar na necessária discussão
sobre trabalho nos estudos feministas e de gênero e sobre gênero na
sociologia do trabalho (MARUANI, 2019).
Outro desdobramento foi o projeto Políticas em Movimen-
to e Saberes Situados - Desafios práticos e interesses estratégicos das
mulheres no capitalismo, que deu continuidade à linha de pesquisa.
O Projeto elaborou uma reflexão sobre as experiências acumuladas
pelos movimentos feministas e pelas políticas para as mulheres, na
sua expressão latino-americana, utilizando as categorias de necessi-
dades práticas (das mulheres) e interesses estratégicos (de gênero).
Molyneux (2003) caracterizou os interesses estratégicos como aque-
les derivados da crescente tomada de consciência das mulheres sobre
as estruturas de domínio masculino e o imperativo de mudança da

- 216 -
divisão sexual do trabalho. As necessidades práticas das mulheres
decorrem da divisão sexual do trabalho tradicional, condições que
possibilitam a realização das tarefas a elas socialmente atribuídas,
tais como cuidar das crianças, idosos e doentes, manutenção das re-
des familiares, entre outras.
De um lado, o Projeto indagou se existia uma correlação entre
demandas dos movimentos de mulheres pela satisfação de neces-
sidades práticas, e da luta dos movimentos feministas na defesa de
interesses estratégicos, observando também como essas posições e
lutas são absorvidas ou processadas pelas políticas e secretarias das
mulheres nos seus planos de trabalho e propostas de agenda. De ou-
tro lado, o projeto permitiu visualizar se a atuação dos movimentos
feministas sobre os movimentos de mulheres e vice-versa poderia
contribuir para articular necessidades práticas e estratégicas. O pro-
jeto estudou o reflexo das necessidades e interesses nas agendas e
na formulação de políticas específicas: se a questão dos interesses
estratégicos e necessidades é historicamente mutável, quais fatores
determinam isso, como se dá a negociação, quais as pontes entre
movimentos feministas e de mulheres, e entre agentes do Estado e
movimentos.
Devemos comentar que a linha de pesquisa também possui
um caráter extensionista, como a anterior: as Rodas de Conversa
Beth Lobo, minicurso realizado integralmente online, no período de
pandemia da COVID-19 (julho a dezembro de 2020). Foi realizada,
em parceria com o GENPOSS, uma roda de conversa mensal, vi-
sando divulgar os achados de pesquisas em torno da temática gêne-
ro e trabalho, desenvolvidas por pesquisadoras e colaboradoras dos
grupos. Queríamos proporcionar um espaço de reflexão, diálogo e
construção coletiva de estratégias de atuação perante à precarização
crescente do trabalho das mulheres, aprofundada no contexto brasi-
leiro de retração do Estado e do financiamento público, crescimen-
to da desigualdade e da pobreza, desemprego, panorama agudizado
pela pandemia mundial da Covid-19.

- 217 -
Equipes Multiprofissionais na Política Educacional e seus
desdobramentos4
Para abordar as três dimensões consideradas pelo TEDis como
estruturantes das desigualdades (classe social, gênero e raça/etnia) e
suas duas áreas de concentração para esta análise (educação e tra-
balho), intersetorialidade e multidisciplinariedade são abordagens
metodológicas e heurísticas sempre presentes na reflexão coletiva do
TEDis, e se manifestam sistematicamente nas suas produções.
Destacamos, anteriormente, que Intersetorialidade e multi-
profissionalidade são conceitos relacionados, porém possuem suas
especificidades (YANNOULAS, 2017). Entendemos por equipes
multiprofissionais a ação conjunta de profissionais e trabalhadores
de diferentes formações e com diversas capacidades, dentro da
mesma estrutura institucional, por exemplo, a escola, o hospital,
entre outros serviços públicos. As equipes multidisciplinares e mul-
tiprofissionais enfrentam, cotidianamente, a necessidade de nego-
ciação e construção de interesses, disputas acadêmicas, corporativas
e orçamentárias entre profissões. Alguns autores destacam como a
noção de multidisciplinar se aproxima e se diferencia do conceito de
intersetorialidade. A noção de multidisciplinar pode ser vista como
recurso aglutinador de saberes independentes, sem propor o aniqui-
lamento das especializações. Pereira (2014) aponta a otimização de
saberes disciplinares, competências profissionais e relações sinérgi-
cas em prol de um objetivo comum, sem suprimir as contradições.
Entendemos por intersetorialidade a gestão e implementa-
ção conjunta de políticas públicas entre vários organismos setoriais
como meio de potencializar a ação governamental. Na agenda das
políticas públicas, a temática da intersetorialidade acentuou seu
crescimento e importância nas últimas décadas. Existiria consenso
na bibliografia da área sobre a necessidade de constituir estratégias
de gestão intersetorial visando superar a fragmentação das políticas
públicas, especialmente as de caráter social, construindo interfaces
entre setores e instituições governamentais para enfrentar a comple-
xidade da questão social? Entretanto, como apontam os organizado-
res de recente coletânea sobre o assunto (MONNERAT, ALMEIDA,
4 O projeto O Trabalho das Equipes Multidisciplinares na Escola e na Política Educacio-
nal, contou com o apoio do CNPq através da Chamada CNPq/MCTI 25/2015 Ciências
Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas, bem como pela via da Bolsa de Produtividade em
Pesquisa e Bolsas de Iniciação Científica.

- 218 -
SOUZA; 2014), permanece notadamente uma escassez de produção
bibliográfica sobre intersetorialidade e, mais ainda, falta consenso
sobre o significado do termo, assim como uma visão crítica sobre a
gestão intersetorial, que se afaste da visão de panaceia para todos os
males.
A importância de se produzir academicamente sobre as equi-
pes multidisciplinares sustenta-se em três princípios. O primeiro
refere-se à compreensão da realidade no sistema capitalista como
tributária da contradição capital/trabalho. Pereira (2003) assinala a
existência de condições objetivas e subjetivas de sua manifestação.
As condições objetivas são descritas como os problemas vinculados
às modernas condições de trabalho urbano e aos direitos sociais: a
velha luta de classes, agora entre burguesia e proletariado; a nova for-
ma de exploração escamoteada e a pauperização crescente da classe
trabalhadora que a empurra à situação de pobreza - principal viola-
dora de direitos na sociedade. A pobreza não é um “estado de coisa”
natural, a condição de risco e vulnerabilidade presente na sociedade
torna-se uma questão a ser enfrentada.
Da contradição capital/trabalho decorre seu enfrentamento
que não pode ocorrer isoladamente, mas a partir do princípio da
intersetorialidade. O espólio dessa contradição só pode ser mini-
mizado com enfoque intersetorial, acionando-se a rede de proteção
social e o sistema de garantias de direitos. Não é possível à área de
educação, ou da assistência social, ou da saúde apor condições ob-
jetivas e assegurar os direitos isoladamente. A intersetorialidade é
fundamento para atuação do Estado que intenta enfrentar a violação
de direitos.
O terceiro princípio refere-se à existência de equipes multidis-
ciplinares para a prestação de serviços. A rede de proteção social pre-
cisa materializar-se em atuação multidisciplinar. No caso específico
da educação, as escolas precisam contar com equipes que tenham
diferentes formações profissionais. Uma equipe restrita aos docentes
não tem conseguido assegurar o direito à educação. Como a pobreza
é violadora de direitos, inclusive o direito à educação, não pode ser
enfrentada apenas com práticas pedagógicas que, por mais acolhe-
doras que sejam, são insuficientes sem o acionamento da rede de
proteção dos direitos das crianças e adolescentes. A intersetorialida-
de é fundamento da luta pela construção das condições necessárias e

- 219 -
efetivo alcance da dimensão pedagógica que assegurará a aprendiza-
gem a todos e cada um dos estudantes, enfrentando a forte correla-
ção entre pobreza e fracasso escolar.
Na última década, importantes mudanças ocorreram no âm-
bito da educação nacional, como a expansão e interiorização das
Universidades Federais e a instituição da Rede Federal de Educação
Profissional, Científica e Tecnológica (especialmente com a criação
dos Institutos Federais) em todo o país. Essas mudanças geraram de-
mandas importantes para áreas técnicas das administrações superio-
res das instituições de ensino superior, que outrora ocupavam espa-
ços residuais na educação, destacadamente desenvolvendo ações de
assistência estudantil que visam a permanência dos estudantes como
Serviço Social, Psicologia e mesmo Pedagogia.
A instituição do Programa Nacional de Assistência Estu-
dantil (Decreto nº 7.234/2010), cuja principal finalidade é ampliar
condições de permanência, impactou sobremaneira no trabalho das
equipes multiprofissionais que desenvolvem ações de assistência es-
tudantil e permanência nas universidades e nos institutos federais,
conforme é ressaltado nos estudos desenvolvidos sobre o trabalho
das equipes multiprofissionais/multidisciplinares na assistência es-
tudantil. As análises desenvolvidas representam a síntese entre o
debate teórico construído em torno do tema e a vivência na reali-
dade objetiva. Baseiam-se na imersão nas instituições de educação
superior e no conhecimento, não apenas dos programas e projetos
que compõem a política de assistência estudantil, mas, sobretudo, da
execução desses pelas equipes multiprofissionais.
Um fator importante para tal anseio foi a mobilização das pro-
fissionais do Serviço Social que lutaram pela aprovação do Projeto de
Lei nº 3.688/2000 – visando estabelecer a obrigatoriedade da inser-
ção de assistentes sociais e psicólogos nas redes públicas de educação
básica, para a constituição de equipes multiprofissionais nas escolas
(hoje Lei 13.935/2019), assim como o engajamento efetivo dessas
profissionais nas equipes multiprofissionais constituídas a partir do
desenvolvimento da Política de Assistência Estudantil nas Universi-
dades e nos Institutos Federais.
Aqui se faz necessário mencionar as Rodas de Conversa Paulo
Freire “Fortalecendo Elos entre Educação e Serviço Social”, produto
de um esforço coletivo, organizadas em 2019 e 2021 pelo TEDis com

- 220 -
a colaboração de participantes do Compass - Grupo de Pesquisa, Es-
tudos e Extensão sobre Comunicação Pública, Assistência Social e
Serviço Social (2019) e em articulação com parceiras de várias insti-
tuições nacionais (2021). Trabalhamos neste projeto com afinco, no
sentido de “esperançar”, como diria Paulo Freire, num contexto mui-
to terrível. As mortes no Brasil causadas pela Covid-19 e por com-
plicações dela, desde março de 2020 e até final de agosto de 2021,
superam a marca de 580.000 vidas humanas perdidas, no mesmo
contexto em que se presencia o agravamento da situação da pobreza
e da extrema pobreza da população brasileira. O público-alvo deste
Curso de Extensão totalmente gratuito são docentes e discentes de
graduação e pós-graduação, técnicos administrativos de instituições
de ensino superior, pesquisadores e gestores da política educacional
e outras políticas sociais e professoras de educação básica. Inicial-
mente, foi projetada a oferta de 100 vagas, mas a demanda foi muito
maior e, em apenas uma semana de inscrições, candidataram-se 246
pessoas. Ainda que entusiasmados com a grande receptividade da
proposta, encerramos as inscrições por falta de condições para aco-
lher um número maior que esse limite, sob o risco de desvirtuar a
proposta original.
Um dos pontos de destaque das Rodas Freire de 2021 é a exi-
bição dos vídeos gravados com a entrevista cedida por Nita Freire
(Ana Maria Araújo Freire), viúva de Paulo Freire, companheira de
vida e parceira de ideais. A entrevista foi realizada virtualmente pe-
las professoras Silvia Yannoulas e Silvana Souza, com vistas a dar a
conhecer sobre a trajetória e a parceria entre Nita e Paulo, com os
relatos e comentários da própria. E será publicada pela Revista Idea-
ção, da Unioeste-Foz. Outro ponto de destaque é a participação de
parceiras da variedade de instituições: UNESP, UNIOESTE, UEPA,
UFSC, UFES, UFAM, UFMG, IFB, IFES, CFESS, Comec/Campinas,
Sejus/DF, Sedes/DF, See/DF e Inep.
As Rodas Freire 2021 reuniram e vêm reunindo um quanti-
tativo qualificado de participantes, reavivando as ideias e ideais de
Paulo Freire e mostrando o quanto o seu modo de pensar, refleti-
do em suas obras de principal destaque ainda do final dos anos de
1960, Pedagogia do Oprimido e Educação como Prática da Liberdade,
estão atualizadas e impactam positivamente, de forma direta e indi-
reta, para aqueles que buscam conhecimentos que lhe possibilitem
enfrentar os ataques à educação libertadora nos tempos atuais, nos
quais paira sobre nós a mordaça do cerceamento do livre pensar.

- 221 -
Novos projetos em curso
Na linha de pesquisa Estado, Política Social e Direitos – Educa-
ção inauguramos em 2020 o projeto intitulado: Antes da Pandemia:
Três Décadas de Propostas Político-Pedagógicas Restauradoras no
Brasil5. Nossa intenção é estudar a especificidade educativa da res-
tauração conservadora que caracterizou os últimos 30 anos (1990-
2020), antes da instauração da pandemia, e que, certamente, tem e
terá rebatimentos na maneira de enfrentar a crise sanitária. O objeto
central da pesquisa são as disputas ideológicas travadas pela restau-
ração conservadora em torno da política educacional - disputas so-
bre projetos político-pedagógicos em torno do direito à educação e
da democratização da educação. Ideologia não é compreendida aqui
apenas como representação do real, mas principalmente a tradução
dessas representações em ações concretas que materializam as dife-
rentes visões de mundo. As disputas ideológicas podem ser analisa-
das como manifestações fenomênicas das forças (lutas de classe, de
gênero, antirracistas) que estão por detrás delas.
Almejamos compreender criticamente as especificidades do
processo de (re)construção ideológica em curso no presente milê-
nio, realizado no campo educacional pela Nova Direita, a partir da
multiplicidade de estratégias discursivas paralelas, na tentativa de
restaurar o bloco hegemônico conservador através da instauração e
consolidação de novos elementos superestruturais que articulam, de
maneira específica, as relações orgânicas entre ideologia, economia
e política.
Mais especificamente, queremos analisar: a influência da es-
tratégia discursiva da “ideologia de gênero” no campo educacional,
com viés desqualificador do conhecimento científico historicamente
construído com bases democráticas; as consequências da estratégia
discursiva da nova direita no sentido de “combater a doutrinação”
supostamente realizada pelo corpo docente nas instituições educa-
cionais; os impactos da estratégia discursiva em defesa da educação
domiciliar, nos seus múltiplos sentidos: como crítica ao trabalho do-
cente, como barreira para o convívio social e como mercadorização
da educação; os fundamentos discursivos para a utilização do traba-
lho voluntário na implementação de programas e ações educacio-
nais; e, finalmente, os desdobramentos da estratégia discursiva em
5 Apoios recebidos do Decanato de Pesquisa e Inovação da UnB em 2020 e do CNPq
através de Bolsa de Produtividade em Pesquisa e Iniciação Científica (2021).

- 222 -
defesa da militarização das escolas, especialmente, no que diz res-
peito aos critérios para a seleção das escolas que fazem parte do pro-
grama (violência e vulnerabilidade socioeconômica, entre outros).
Na linha de pesquisa Estado, Política Social e Direitos – Traba-
lho e como continuidade aos projetos de pesquisa Trabalho e Rela-
ções de Gênero: Análise da Feminização das Profissões e Ocupações e
Políticas em Movimento e Saberes Situados - Desafios práticos e inte-
resses estratégicos das mulheres no capitalismo, apresentados anterior-
mente, nasce o projeto Mulheres, Trabalhos e Tecnologias: um museu
de grandes novidades6, em andamento desde 2020 e com apoio do
CNPq pela via de bolsas de iniciação científica.
O Projeto quer analisar como o avanço tecnológico acelerado
se relaciona ao trabalho das mulheres, em especial, contrapondo a
polarização entre mulheres altamente escolarizadas em profissões
formais e(ou) de prestígio e mulheres em relações informais de em-
pregabilidade; analisar os desafios impostos pela emergência em
saúde pública a partir da pandemia da COVID-19 sobre o trabalho
e a renda das mulheres, especialmente em grupos específicos mais
vulneráveis ao trabalho precário e à exposição; e compreender as
mudanças nas relações entre tempo, trabalho e família estabelecidas
neste novo contexto, considerando a centralidade de gênero, classe
social e raça.
O avanço tecnológico atual, somado às tendências de precari-
zação do trabalho, tem tornado regra a flexibilização e a informalida-
de nas relações de trabalho. Essa realidade tem aspectos específicos
quanto ao trabalho reprodutivo ou remunerado das mulheres, rela-
cionados ao diferenciado uso do tempo, à susceptibilidade às violên-
cias, entre outros mecanismos de expulsão (CARRILHO, 2021), ex-
ploração e opressão que as mulheres têm, historicamente, vivenciado
nos “ambientes” de trabalho. Apesar de aparentemente mostrar-se
como vantajosa às mulheres, devido possibilitar maior articulação
com o trabalho doméstico, a informatização que caracteriza esses
tempos aprofunda tais mecanismos, de diferentes maneiras e graus,
a depender da raça e classe social.
A exploração do trabalho reprodutivo gratuito das mulheres se
aprofunda em contextos de crise econômica e social, como o viven-
ciado a partir de 2020 pela pandemia da COVID-19, que representa
6 Da música “O tempo não para”, composta em 1988 por Cazuza e Arnaldo Brandão.

- 223 -
significativa mudança nas relações de trabalho e no uso do tempo,
possibilitada e acentuada pelas tecnologias. Tal aprofundamento tem
nos permitido, principalmente, problematizar o conceito de dupla
ou múltiplas jornadas, muito importante ao visibilizar e contabilizar
as atividades domésticas e de cuidados exercidas pelas mulheres no
âmbito privado, como jornada de trabalho. Ocorre que, no contexto
pandêmico, há a aceleração do rompimento das barreiras espaço-
-tempo que caracterizavam a jornada de trabalho tradicional, oca-
sionando para as mulheres a definitiva invasão do tempo de trabalho
na casa, e das questões domésticas na vida profissional. Esta é uma
realidade que tem se mostrado presente, com diferentes graus e im-
pactos, tanto para mulheres em relações de trabalho formais e mais
protegidas, quanto para aquelas em relações informais e instáveis.
Estas últimas enfrentam desafios ainda maiores: de sobrevivência, já
que não lhes foi permitido o isolamento social ou lhes foi imposto a
condição de perda substancial de renda. Estes apontamentos iniciais
ainda serão aprofundados e desdobrados e, posteriormente, dissemi-
nados por meio de eventos e publicações acadêmicas.

Palavras Finais
Para finalizar, o TEDis apresenta seus resultados regularmente
em diversos eventos locais, nacionais e internacionais, e divulga as
publicações através de seu sítio: <http://www.tedis.unb.br/algumas-
-producoes>., onde podem ser consultados livros, artigos de revistas
científicas, artigos de divulgação, teses de doutorado, dissertações
de mestrado e trabalhos de conclusão de curso de especialização e
de graduação. Destacamos, especialmente, as coletâneas publicadas
pelo TEDis (duas de 2013, uma de 2017 e uma de 2020), além de
uma grande variedade de capítulos de livros, artigos científicos e
trabalhos de conclusão de graduação e pós-graduação disponíveis
online.
Um grupo de pesquisa e suas realizações constituem uma
obra coletiva acalentada durante anos de árduo trabalho, envolven-
do a lenta “cocção” de teses, dissertações, relatórios de iniciação
científica e participação acadêmica e militante em vários tipos de
eventos. Por isso, queremos agradecer o esforço constante das e
dos participantes do Grupo TEDis, que desde janeiro de 2007 con-
tribuem para pensar e repensar os sentidos e práticas do direito

- 224 -
à educação e a relações justas de trabalho na contemporaneidade
(disponível em: <http://www.tedis.unb.br/contatos-dos-integran-
tes-do-grupo>.). Nessa caminhada, construímos colaborações só-
lidas e duradouras com outros grupos históricos do PPGPS/UnB:
GESST - Grupo de Estudos e Pesquisas em Seguridade Social e
Trabalho (pioneiro no PPGPS, iniciou seus trabalhos em 2000),
GENPOSS - Gênero, Política Social e Serviços Sociais (fundado em
2004), NEPPOS/POLITIZA - Grupo de Estudos Político-Sociais
(criado em 2006) e outras mais recentes com o COMPASS - Grupo
de Pesquisa, Estudos e Extensão sobre Comunicação Pública, As-
sistência Social e Serviço Social (organizado em 2018).
Também é necessário agradecer aos parceiros institucionais,
os colaboradores internacionais e outros interlocutores estratégicos,
que desde diversas instituições se debruçaram na tarefa de com-
preender nossa proposta, responder nossas indagações, participar
dos nossos eventos e cursos, inclusive, enfrentando os próprios (pré)
conceitos e a sobrecarga de trabalho e preocupações legítimas num
contexto político, sanitário e econômico especialmente difícil. Entre
outras parcerias, se destacam a Rede Latino-Americana de Estudos
sobre Trabalho Docente – Rede Estrado; a Universidade de Buenos
Aires e a Universidade de Entre Ríos na Argentina (UBA e UNER);
o Gestrado da UFMG, o Gepesse da Unesp-Franca, o Grupo de Pes-
quisa EPDS da UFSC e o Coletivo Makarenko da Unioeste-Foz; e o
Decanato de Pesquisa e Inovação, o Decanato de Pós-graduação e o
Decanato de Extensão da UnB. Para todos eles e todas elas, o nosso
mais sincero e profundo reconhecimento, e o desejo de multiplicar e
consolidar futuramente os esforços e os resultados.

Referências
BANDEIRA, Lourdes M. Divisão sexual do trabalho, práticas sim-
bólicas e práticas sociais. In: SIQUIERA, Deis E. et al. Relações de
trabalho, relações de poder. Brasília/DF: UnB, 1997.
CARRILHO, Anabelle. Invisíveis, mas necessárias: mulheres traba-
lhadoras da mineração. Curitiba: Appris, 2021..
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sujeitos políticos. Revista Estudos Feministas. Ano 0, n. 0, 1997.
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em destaque.1 ed.Curitiba: Appris, 2020.

- 227 -
- 228 -
Sobre os (as) autores (as)
Anabelle Carrilho - Professora do Departamento de Serviço
Social da Universidade de Brasília (UnB). Assistente Social formada
pela UnB em 2006. Mestra e Doutora em Política Social pela mesma
Universidade (2010 e 2016). Pesquisadora dos Grupos de Pesquisa da
UnB TEDis e Gênero, Política Social e Serviços Sociais (GENPOSS).
Vice-líder do TEDis desde 2020. E-mail: anabelle.carrilho@unb.br.
Orcid: 0000-0001-9661-5533.

Angela Vieira Neves - Assistente Social, Doutora em Ciências


Sociais pela Unicamp. Docente e Pesquisadora Colaboradora vincu-
lada ao Programa de Pós-Graduação em Política Social da Univer-
sidade de Brasília(UNB).Coordenadora do Grupo de Pesquisa sobre
Democracia, Sociedade civil e Serviço Social(Gepedss). e-mail: an-
gelaneves97@gmail.com.

Carolina Cassia Batista Santos - Assistente social, graduada


pela Universidade Federal do Amazonas (1990), mestre em Política
Social pela Universidade de Brasília (1998) e Doutora em Ciências
Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2013). Professora
do Departamento de Serviço Social do Instituto de Filosofia, Ciên-
cias Humanas e Sociais - IFCHS/UFAM. Vice-líder do Grupo de
Pesquisa Inter-Ação da UFAM. Integrante do TEDis, foi vice-coor-
denadora do grupo entre 2009 e 2019. E-mail: carolinacassia@ufam.
edu.br. Orcid: 0000-0001-7676-9113

Cristiano Guedes - Graduado em Serviço Social (UnB),


Mestre em Sociologia (UnB) e Doutor em Ciências da Saúde (UnB/
JHU). Atualmente é professor associado no Departamento de Ser-
viço Social e no Programa de Pós-Graduação em Política Social do
Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília.

Danielle Galdino Solouki - Doutora e mestra em Política


Social pela Universidade de Brasília e assistente social do Ministério
da Justiça e Segurança Pública.

- 229 -
Evilasio da Silva Salvador - Economista formado pela Uni-
versidade Federal de Santa Catarina (1995), mestre em Política So-
cial pela Universidade de Brasília - UnB (2003), doutor em Política
Social pela UnB (2008) e pós-doutor em Serviço Social pela Univer-
sidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor na Universida-
de de Brasília (UnB) na graduação em Serviço Social e no Programa
de Pós-graduação em Política Social (Mestrado/Doutorado). Líder
do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Fundo Público, Orçamento,
Hegemonia e Política Social (FOHPS). E-mail: evilasioss@unb.br

Fernanda Bezerra Martins Feitoza - Graduada em Direito


pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre em Política So-
cial pela Universidade de Brasília (UnB). Atua como advogada e é
pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, So-
ciabilidade e Serviço Social (Trasso/UnB). Contato: fernandabezer-
ra1208@gmail.com

Hayeska Costa Barroso - Professora Adjunta do Departa-


mento de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Po-
lítica Social da Universidade de Brasília. Assistente Social. Mestra
em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Doutora em Sociologia
(UFC). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Maternidade,
Parentalidade e Sociedade (GMATER). Pesquisadora do Grupo de
Estudos e Pesquisa sobre Fundamentos do Serviço Social e América
Latina (GFAL) e do Observatório da Violência contra a Mulher (OB-
SERVEM/UECE). Membro efetivo do Comitê de Ética em Pesquisa
nas Ciências Humanas e Sociais da UnB (CEP/CHS). Desenvolve es-
tudos e pesquisas sobre: maternidade, sexo/gênero, violência contra
as mulheres, formação profissional e produção de conhecimento em
Serviço Social. E-mail: hayeska.barroso@unb.br

Isabela Ramos Ribeiro - Doutora em Política Social (UnB)


e mestre em Serviço Social (UFSC). Graduada em Serviço Social na
Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do Departamento
de Serviço Social da Universidade de Brasília (SER/UnB). Atua, prin-
cipalmente, nos seguintes temas: Estado, hegemonia, capitalismo de-
pendente e América Latina, fundo público, políticas sociais e política
urbana. Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Fundo Pú-

- 230 -
blico, Orçamento, Hegemonia e Política Social (FOHPS), na linha de
pesquisa “Estado, hegemonia e política na América Latina”.

Ivanete Boschetti - Assistente Social, mestre em Política So-


cial/UnB (1993), doutora (1998) e pós-doutora (2012) em Socio-
logia/EHESS/Paris. Docente do Departamento de Serviço Social
e Programa de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) em Políti-
ca Social da UnB entre 1996-2018. Coordenadora do PPGPS/UnB
em 4 gestões. Coordenadora do GESST/PPGPS/UnB (2000-2018).
Coordenadora Nacional do Procad/CAPES/UnB/UERJ/UFRN no
período 2014-2017. Docente Titular da ESS e PPGSS/UFRJ e Coor-
denadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Marxistas em Política
Social (GEMPS/UFRJ) desde junho de 2018. Presidente da ABEPSS
(1998-2000). Vice-Presidente (2005-2008) e Presidente (2008-2011)
do CFESS. E-mail ivaboschetti@gmail.com

Ivna de Oliveira Nunes - Assistente Social. Mestrado em Edu-


cação Brasileira. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em
Política Social, Universidade de Brasília (UnB). Docente do Curso
de Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Po-
lítica Social e Serviços Sociais - Genposs (CNPq). Pesquisadora do
Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Política Social e Servi-
ços Sociais - Genposs (CNPq). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-
9411-7706

Kênia Augusta Figueiredo - Assistente Social. Doutora em


Comunicação (UnB). Mestre em Serviço Social e Políticas Sociais
(UERJ). Docente na graduação do curso de Serviço Social e no Pro-
grama de Pós Graduação em Política Social – PPGPS – do Departa-
mento de Serviço Social, da Universidade de Brasília/UnB. Coorde-
nadora do Compass - Grupo de pesquisa, estudos e extensão sobre
Comunicação Pública, Assistência Social e Serviço Social. Conse-
lheira do Conselho Federal de Serviço Social - CFESS, gestão 2020-
2023: Melhor ir à luta com raça e classe em defesa do Serviço Social.

Maria Lucia Lopes da Silva - Assistente Social, mestre e dou-


tora em política social. Professora associado da Universidade de Bra-
sília (UnB), atuando na graduação em serviço social e no Programa

- 231 -
de Pós-graduação em Política (PPGPS) do Departamento de Serviço
Social (SER). Desenvolve estudos, pesquisas e tem produções acadê-
micas na área de serviço social, políticas sociais, trabalho, população
em situação de rua e teoria social critica. É Líder do Grupo de Es-
tudos Marxistas e Pesquisa em Política Social e Trabalho - GEMPP.

Marileia Goin – Assistente Social, Mestre em Serviço Social


pela UFSC e Doutora em Serviço Social pela PUCRS. Pós-Doutora
pela PUCSP. Docente da Graduação e da Pós-Graduação do Depar-
tamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB). Líder
do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Fundamentos do Serviço So-
cial e América Latina (GFAL). Membro do Grupo de Estudos e Pes-
quisas sobre Maternidade, Parentalidade e Sociedade (GMATER)
e do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Sociabilidade e
Serviço Social (TRASSO). Mãe da Mariê e da Júlia. Desenvolve estu-
dos e pesquisas na área do Serviço Social, atuando, principalmente,
nos temas: Fundamentos do Serviço Social; América Latina; Traba-
lho e Formação profissional; Estágio Supervisionado. E-mail: mari.
goin84@gmail.com

Marlene Teixeira Rodrigues - Assistente Social. Doutorado e


Pós-Doutorado em Sociologia. Mestrado em Política Social. Docen-
te do Programa de Pós-Graduação em Política Social, Universidade
de Brasília (UnB). Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas
sobre Gênero, Política Social e Serviços Sociais - Genposs (CNPq).
Pesquisadora do Grupo de Trabalho GT Lutas Antipatriarcais, Famí-
lias, Gêneros, Diversidades e Cidadania (GT 61) - CLACSO. Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-9418-7192.

Melina Sampaio de Ramos Barros - Graduada em Serviço


Social e Mestre em Política Social pela UnB. Doutoranda em Política
Social (PPGPS) pela UnB. Pesquisadora do GEPEDSS e-mail: meli-
na_barros@hotmail.com

Natalia Duarte - Pedagoga e professora de educação física,


Mestre em educação pela UnB (2000), doutora (2012) e pós-douto-
rado (2017) em política social pela UnB. Professora aposentada da
Secretaria de Educação do Distrito Federal. É diretora da Associação
Nacional de Política e Administração da Educação no Distrito Fede-

- 232 -
ral, integra o Fórum Nacional pela Redução da Desigualdade Social
e o Fórum Distrital de Educação. Pesquisadora do Tedis desde 2008.
E-mail: nataliasduarte@gmail.com. Orcid: 0000-0002-4761-6537.
Paulla Kalliny Moura Cronemberger - Assistente Social.
Servidora pública do Sistema Socioeducativo do Distrito Federal.
Mestre em Política Social pela Universidade de Brasília. Integran-
te do Compass - Grupo de Pesquisa, Estudos E Extensão sobre Co-
municação Pública, Assistência Social e Serviço Social. Conselheira
do Conselho Regional de Serviço Social do Distrito Federal, CRESS
8aR, gestão 2020-2023: Ainda há tempo: vamos resistir e transfor-
mar.

Potyara Amazoneida P. Pereira – Professora titular e emérita


da Universidade de Brasília (UnB). Graduada em Serviço Social e
Direito. Mestre e Doutora em Sociologia pela UnB. Pós-doutora em
Política Social pela Universidade de Manchester/UK. Pesquisadora
do Grupo de Estudos Político-Sociais – POLITIZA - do Programa
de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS) do Departamento de
Serviço Social (SER) do Instituto de Ciências Humanas (ICH) da
UnB. Pesquisadora fundadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em
Política Social (NEPPOS) do Centro de Estudos Avançados Multi-
disciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília. E-mail: potya-
maz@gmail.com

Reginaldo Ghiraldelli - Assistente social, mestre e doutor em


Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesqui-
ta Filho” (Unesp). Professor do Departamento de Serviço Social e do
Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de
Brasília (UnB). Coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Tra-
balho, Sociabilidade e Serviço Social (Trasso). E=mail: rghiraldelli@
unb.br

Silvia Cristina Yannoulas - é Licenciada em Ciências da Edu-


cação pela Universidade de Buenos Aires (1987), mestre em Ciências
Sociais pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais Sede Aca-
dêmica Argentina (1990), doutora em Sociologia pela Universidade de
Brasília (1994), pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal
de Minas Gerais (2013). Professora do Departamento de Serviço Social

- 233 -
e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade
de Brasília (UnB). Coordenadora do TEDis desde sua criação. E-mail:
silviayannoulas@unb.br. Orcid: 0000-0002-6662-9528.
Thaís Kristosch Imperatori - Graduada em Serviço Social e
Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB). Especialista
em Educação e Promoção da Saúde pela UnB. Mestre e doutora em
Política Social pela mesma instituição com período de sanduíche na
Universitat de Barcelona - Espanha. É professora adjunta do Depar-
tamento de Serviço Social da UnB. Vice-líder do Grupo de Estudos
e Pesquisas sobre Democracia, Sociedade Civil e Serviço Social (GE-
PEDSS) e tutora do grupo de Serviço Social do Programa de Edu-
cação Tutorial da UnB (PET/SER-UnB). E-mail: thaisimperatori@
yahoo.com.br

Thais Soares Caramuru - Analista Técnica de Políticas So-


ciais do Ministério da Educação. Graduação em Ciências Econô-
micas pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Mestrado e Doutorado em Política Social pela Universidade de Bra-
sília (UnB) e Especialização em Relações Internacionais pela mesma
universidade.

Tibério Lima Oliveira - Assistente social. Mestrado em Ser-


viço Social. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Política
Social, Universidade de Brasília (UnB). Docente do Curso de Serviço
Social, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).
Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Política
Social e Serviços Sociais - Genposs (CNPq). ORCID: https://orcid.
org/0000-0003-4717-1408.

Vicente de Paula Faleiros - Assistente social, especialista em


Planejamento e em Gerontologia, PhD em Sociologia pela Universi-
dade de Montréal, é professor titular aposentado e professor emérito
da Universidade de Brasília. Pesquisador do CNPq e FAP-DF publica
na área de Serviço Social, Políticas Sociais e Saúde Mental. Lecionou
e palestrou em várias Universidades. Foi exilado político e é militan-
te dos Direitos Humanos.

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