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Desenvolvimento Econômico Brasileiro: ciclos econômicos-estratégia

de substi tuição de importações-crise (década perdida e anos 90) -


atualidade (anos 2000).
Analisar a trajetória econômica de um país requer um estudo minucioso
de toda a macroeconomia e microeconomia, como também das relações
intrínsecas da sociedade em questão, de modo a adquirir uma perspectiva
sólida e conectada. A despeito do Brasil, esta análise não é diferente, apesar
de que, para este, há certa peculiaridade, a saber: mesmo com as
transformações da economia ao longo dos anos, a estrutura produtiva com
base nas commodities, por exemplo, sob certa ótica, manteve as mesmas
características. Isto posto, provém do fato de que o Brasil, iniciando com
uma economia exploratória, nem sempre tomou medidas que abarcassem
todo o potencial existente – medidas estas que viriam a contribuir para uma
taxa de crescimento crescente e constante, e, posteriormente, para um
desenvolvimento econômico constante. Em suma, traçar o caminho da
economia brasileira é compreender as raízes dos problemas que a
circundam atualmente e, ainda, perceber as várias razões pelas quais o
Brasil, mesmo com grande potencial, não se tornou uma das principais
potencias do mundo.

Parte I
O desenvolvimento econômico brasileiro inicia sua trajetória sob o
modelo primário-exportador. Enquanto que muitas outras regiões
conservavam uma colônia de povoamento, com foco no desenvolvimento
interno – como era o caso da região do atual México –, o Brasil sustentava
uma exploração pura e simples, de modo que aquilo colhido e produzido
em suas terras era distribuído com outros. Aqui, ocorria o chamado “pacto
metrópole-colônia”, no qual o fator econômico consistia na busca pela
riqueza e pela expansão comercial.
Passados anos, a partir de uma confluência de fatores, o Brasil dá início
ao seu primeiro ciclo econômico, em 1550, onde o açúcar era o produto
principal. Com técnica simples, fundamentada na monocultura e no
latifúndio, isto é, vasto território onde se tinha a plantação de um único
bem. Além disso, a mão de obra, que era escrava, sendo local ou
estrangeira, possibilitou a empresa mercantil, garantindo a esta lucros
exorbitantes. O declínio do ciclo, na passagem dos anos 1830 a 1840,
deveu-se ao fato de que, com o surgimento da concorrência para com
outros produtos [ex. beterraba], a produção do açúcar foi sendo menos
rentável, com lucros desprezíveis.
No século XVIII, com pico entre 1750 e 1770, começa o Ciclo da
Mineração, tendo suas atividades concentradas em Minas Gerais, Goiás,
Bahia e São Paulo – como se pode imaginar, pela distância das regiões,
existia um considerável fluxo migratório, com grande multiplicação da
população. Uma vez que a estrutura agrária vinha sendo estabelecida, com
oferta significativa de alimento, foi sendo construída uma falsa perspectiva
de enriquecimento, o que veio a ser refletido posteriormente. A “corrida”
pelo ouro alterou a dinâmica econômica da época, o que se refletiu na
transferência da sede administrativa colonial de Salvador para o Rio de
Janeiro. Novas rotas eram traçadas, novos caminhos eram explorados. A
riqueza brasileira era descoberta – país era o maior fornecer de ouro, sendo
responsável pela metade da produção mundial deste. A decadência do ciclo
deu-se na mesma força que esse veio a influenciar as atividades
econômicas, de forma acelerada, dada a ausência de pesquisa e
melhoramentos dos processos produtivos. No transcorrer do século XVIII,
a produção de ouro passou de 29.400 kg, entre 1700 a 1710, com máxima
de 144.795 kg, entre 1740 a 1749, para, enfim, 44.545 kg, entre 1790 a
1799.
Em continuidade, em meados dos anos 1720, as primeiras plantações de
café começam, localizadas em Belém, Maranhão e Bahia, sobretudo,
iniciando o terceiro importante ciclo econômico brasileiro: Ciclo do Café.
Na passagem do século XIX para o XX, a lavoura cafeeira desempenhava
produções bem sucedidas, com retornos significativos, transformando o
estado de São Paulo um dos mais ricos. Dentre as muitas coisas ocorridas
no período datado, a mais significativa e a que lançou base para a nova
dinâmica econômica foi: transição do trabalho escravo para o trabalho
livre. Sustentado pela Lei Áurea, o surgimento do trabalho assalariado foi
possível, ao passo que, como consequência, o mercado interno do país,
muitas vezes não tido como prioridade, foi traçando um caminho rumo ao
desenvolvimento econômico. Tudo isto contribuiu de forma singular para o
estabelecimento da produção cafeeira. Nas palavras do economista Celso
Furtado, “o negócio do café começou, assim, a desenvolver-se de tal forma
que se tornou a mais importante fonte de receitas do Brasil e de divisas
externas durante muitas décadas a partir de 1850”.
O café, tão logo foi sendo comercializado, garantiu um largo comércio,
tornando-se a segunda principal mercadoria a nível mundial – atrás apenas
do petróleo. Uma vez que o Brasil era forte produtor, percebe-se os efeitos
positivos sobre a economia. Isto posto gerou: (i) economia brasileira sendo
forte dependente das exportações de café; (ii) concentração do poder
político e econômico na região Sudeste, com destaque para o estado de São
Paulo; (iii) aumento do desenvolvimento industrial e urbano; (iv) forte
movimento de imigração, sobretudo da Europa com direção às lavouras de
café; (v) construção ferroviário, de modo a favorecer o comércio interior.
Retomando o ponto (i), com a saturação do café no comércio exterior e, por
consequência, da queda das vendas, grandes estoques foram formados,
levando o ciclo ao seu declínio.

Parte II
Em continuidade, cabe, então, discorrer a respeito de importante período
que veio mudar toda a dinâmica do cenário econômico, exterior e interior.
Em 1929, quando ocorreu a quebra da bolsa de valores nos Estados Unidos,
sendo este um país de grande influência econômica, foi provocada uma
crise generalizada na América e, também, na Europa. Esta crise, claro, se
alastrou pelo Brasil, modificando seu cenário político e, sobretudo,
econômico. O comércio movimentado pelo café fica decadente, uma vez
que o maior mercado, EUA, reduz substancialmente a sua demanda – com
a redução do consumo do café, somada a superprodução deste bem, tem-se
uma queda de 25% a 30% na renda nacional brasileira, acompanhado de
grande desemprego. De forma a esclarecer o impacto da crise, alguns dados
são expostos abaixo:

Com a redução dos investimentos e do fluxo de capitais, sobretudo pela


queda das exportações, a economia brasileira é obrigada a se voltar para o
mercado interno – fato este similar ao que aconteceu durantes as duas
grandes guerras. Como na passagem do Ciclo do Açúcar para o Ciclo da
Mineração, neste período o Brasil também mostrou capacidade singular de
se “reinventar”, em termos econômicos. Com o deslocamento do centro
dinâmico, acompanhado de mudanças na estrutura produtiva, o país se
voltou para a economia interna com grande êxito, sendo capaz de valorizar
e desenvolver a produção e o cultivo de outros bens, a saber: algodão,
indústria têxtil, cigarros, bebidas e alimentos. Percebe-se que, a partir da
década de 1930, a economia começa a reagir positivamente à crise,
atingindo uma taxa de variação do PIB de 9,2% em 1934 e, posteriormente,
12,1% em 1936.
Parte III
Em conformidade com o que ficou dito e levantando outro aspecto da
trajetória de desenvolvimento econômico brasileiro, que se torna
imprescindível mencionar, é o processo de industrialização por via da
substituição de importações. Fazendo um retrospecto, tem-se que a
industrialização brasileira foi fortemente motivada pela participação do
capital multinacional. Ou seja, a economia voltou-se para “dentro”, de
modo que as importações foram desacelerando ao transcorrer dos anos. O
coeficiente de importação [importação em relação a renda] baixou
consideravelmente – de acordo com Bresser Pereira, tal coeficiente passou
de 22%, nos anos 1920, para aproximadamente 7% no início da década de
1960. Essa substituição das importações visou, em resumo, fomentar a
indústria doméstica, alinhando-se com a capacitação do capital humano.

Parte IV
Dando um salto na história, cabe, então, discorrer sobre o período
conhecido como “Milagre Econômico”, datado de 1967 a 1973. A razão de
mover a análise para este período se dá pelo fato de que, nele, o Brasil
reproduziu taxas econômicas impressionantes, motivadas pela alteração da
dinâmica da economia. É preciso uma vista minuciosa a respeito. Veja, em
linhas gerais, o que caracterizou o Milagre Econômico Brasileiro foram,
sobretudo, as altas taxas de crescimento do PIB, acompanhadas de baixas
taxas de inflação, gerando, assim, um equilíbrio na balança de pagamentos.
Em suma, foi observado uma considerável queda na velocidade renda da
moeda, uma aceleração do crescimento com reduções dos níveis de
liquidez e, ainda, contenção dos custos das empresas – vale notar que a
política salarial, bem como as reformas institucionais feitas pelo PAEG e,
ainda, a integração institucional, começada no Plano de Metas e continuada
pelo PAEG, contribuíram significantemente para lançarem as bases do
Milagre Econômico. Além disso, no período precedente ao milagre, a
inflação já se encaminhava com um certo controle, o que, claramente,
facilitou as ações econômicas posteriores.
Neste período, vale notar, as estatais foram de grande valia.
Contribuíram para a criação de crédito às famílias, possibilitando o
aumento da demanda por bens de consumo duráveis, aumentando, então, o
emprego e a renda. Ademais, essas empresas estatais, que atuaram em
âmbito nacional, foram: BNDE, IBDF, EMBRATEL, DNDER, SUDEPE.
Como resultado disso tudo, houve uma explosão da dívida externa, puxada,
deve-se dizer, sobretudo pelo setor externo (64% em 1973).
O supracitado foi proveniente, sobretudo, pela política de
endividamento externo, de modo que a poupança externa possibilitou a
continuação do crescimento do PIB. Ou seja, ocorreu uma forte entrada de
poupança externa no país que, somada ao consumo das famílias, com
crédito às famílias de classe média e expansão da construção civil [a partir
do FGTS], alavancou o Milagre Econômico Brasileiro.
Alguns dados importantes a respeito das exportações seguem abaixo:
ANO EXPORTAÇÃO (US$ 10^6)
1967 1654
1968 1881
1969 2311
1970 2738,9
1971 2903,9
1972 3991,2
1973 6199,2

Fonte: Anexo Estatístico do Livro “Economia Brasileira Contemporânea” [Giambiagi,


Fábio; et al.]

As exportações, tendo em vista a série de incentivos e subsídios e,


ainda, da diferença favorável dos juros interno e externos (interno >
externo ~eurodólares), levaram uma trajetória de ascensão ao longo do
período de 1967 a 1973.

Contudo, em meio a tantos resultados econômicos significativos, o


“Milagre Brasileiro” apresentou certos limites, a saber: esgotamento da
capacidade ociosa; pressões sobre inflação; pressões sobre a balança
comercial; aumento da carga financeira exercido pelo estoque da dívida
externo; resultados negativos na área social: aumento da concentração de
renda, com descaso para os trabalhadores; ausência de liberdades
democráticas. Em 1973, então, com o acontecimento do primeiro choque
do petróleo, a economia veio a desestabilizar-se de vez.

Parte V

A década de 1970 trouxe o primeiro choque do petróleo. Como no caso


da Crise de 1929, mencionada acima, a economia brasileira veio a sofrer
grandes impactos. O primeiro choque do petróleo, em 1973, teve sua raiz
em uma crise de estabilização a qual os países deste mercado enfrentavam.
Em suma, dentre as motivações principais desse primeiro choque, encontra-
se que o preço do barril, outrora, era extremamente baixo, o que fazia com
que o consumo deste estivesse em constante aumento por todo o mundo –
aqui, cabe salientar que existia certa dependência dos países importadores,
que preferiam consumir de fora a explorar seus territórios. Este choque
ficou caracterizado como sendo um choque de oferta, de modo que toda a
estrutura de produção, assim como seus custos a nível econômico mundial,
veio alterar-se significantemente. Ou seja, o preço do barril de petróleo
veio a multiplicar-se por quatro, fazendo com que houvesse uma
transferência de 2% da renda mundial dos países não produtores de
petróleo, os importadores, para seus produtores, os exportadores.
Na economia brasileira, especificamente, aconteceu um forte déficit na
balança comercial (7 em 1973 para -4.690,3 em 1974), perdas nos termos
de intercâmbio (119,4 em 1973 para 99,5 em 1974), elevação abrupta e
acelerada da inflação de custos (12,7 em 1973 para 27,6 em 1974) e, ainda,
desestruturação do regime de crescimento (o que veio a estabelecer a crise
e o fim do Milagre Brasileiro). Nesse contexto, o governo adotou uma
política de endividamento externo, com o II Plano Nacional de
Desenvolvimento (seguindo a linha do modelo de crescimento com
endividamento), fazendo o uso intensivo, para isso, das empresas estatais,
de forma a substituir o recuo das empresas privadas. Fez-se também, de
maneira moderada, o uso da política cambial, com o objetivo de impactar
estruturalmente a economia. Por outro lado, já de maneira intensiva, o
governo utilizou a política alfandegária, elevando as tarifas, o que, por
conseguinte, obteve um resultado reducionista nas importações do país – a
saber: 12% do PIB em 1974 passou para 7,25% do PIB em 1978.

Uma estratégia significativa que o governo tomou foi a aplicação da


política industrial, de forma ativa para atender o meio de substituição das
importações e seus investimentos em bens intermediários, bens de capital e
energia, destacando-se, nesse sentido, o petróleo e outras fontes
alternativas.
Note-se que, fazendo um breve recapitulo da história econômica,
durante o período JK, com o Plano de Metas, é possível observar um
significativo e contínuo crescimento do PIB. Isto se deu pelo fato de que o
governo, ao estabelecer suas ações, realizou uma política monetária de
caráter passivo, focando tão somente na taxa de crescimento, e, portanto,
negligenciando a inflação, que veio a ser variável no contexto. Seguindo
essa linha de pensamento, durando o II Plano Nacional de
Desenvolvimento, como mencionado acima, o que se teve foi justamente o
oposto. Aqui, a política monetária foi estabelecida de maneira mais
cautelosa, assumindo uma ideia de “Stop and Go”. Ou seja, o projeto foi
prudente, buscando, claro, uma continuação do crescimento econômico,
contudo sem deixar de controlar (ou sem sacrificar) a inflação. Isto, enfim,
explica os altos e baixos do PIB, bem como da inflação, no período.
Quando se via a necessidade de atuar e controlar certa variável, assim era
feito.

ANO PIB Agregado INFLAÇÃO


1974 8,2 27,6
1975 5,2 28,9
1976 10,3 41,9
1977 4,9 43,6
1978 5 38,8
1979 6,8 52,7
1980 9,2 99,7

Em suma, os acontecimentos econômicos do período, a julgar partindo


de um choque do petróleo, foram impactantes e trouxeram significativos
avanços para o país, o que garantiu, por exemplo, uma modernização da
industrial nacional e um desenvolvimento na infraestrutura e na produção
de energia. No entanto, em concordância com muitos economistas e
historiadores, as heranças negativas deixadas pelo período em questão, de
alguma maneira, sobrepuseram os impactos positivos, desencadeando
sérios problemas e crises a serem superados no futuro.
Parte VI
O segundo choque do petróleo, que ocorreu em 1979, teve como
motivação principal a Revolução Iraniana, durante a qual zeraram a
extração de petróleo no Irã. Por sua vez, com o outro agravante, a Guerra
Irã-Iraque, houve uma rápida diminuição da produção do bem nos
principais locais. Em suma, entre os anos 1979 e 1981, o preço (nominal)
do barril saltou de 13 para 34 dólares, gerando uma crise a nível mundial.
Por outro lado, o choque financeiro externo que veio a ocorrer provocou
um aumento súbito das taxas de juros americanas (“prime rate”),
configurando-se acima de 16% ao ano. Suas causas podem ser sintetizadas
em que, primeiro, a política monetária estabelecida no governo americano
era de caráter restritivo, visando um controle inflacionário, e a política
fiscal assumida foi de forma expansionista e deficitária – ou seja, expansão
dos gastos públicos somado a redução da carga tributária. Em seguida,
houve uma forte expansão na oferta de títulos do tesouro americano, com
vista de financiar o déficit existente. Nesse sentido, toda a liquidez deste
mercado foi desviada para o mercado de títulos americanos, o que veio a
limitar recursos, lê-se empréstimos, para países da América Latina, dentre
eles o Brasil. Este choque financeiro foi marcado por três fatores
importantes: o déficit público americano, a valorização do dólar e, enfim, o
aumento das taxas de juros (estratégia esta utilizada com o fito de atrair
compradores e aumentar a credibilidade do mercado americano).
Então, com tais choques, o Brasil – cuja economia é bastante
dependente (dos Estados Unidos, sobretudo) – veio a sofrer grandes
impactos. O principal destes foi o déficit na balança comercial e de
transações correntes brasileiras, o que gerou uma maior necessidade de
financiamento externo devidos as baixas reservas internacionais. Em suma,
a economia doméstica brasileira encontrava-se bastante fragilizada, com
crescimento da dívida externa, acompanhada de uma acelerada inflação (de
custos).
A política macroeconômica deste período concentrou-se em promover o
crescimento do PIB através dos investimentos e dos gastos do governo,
acompanhando com medidas de estímulo às exportações e desestímulos às
importações. Basicamente buscava-se tornar a economia mais autônoma,
de forma a gerar saldos positivos na Balança de Capitais e, por sua vez,
reduzir a dependência dos recursos externos.
No entanto, com os choques do petróleo e financeiro mencionados
acima, o fluxo de capital externo no Brasil entrou em queda, gerando, além
disso, uma dívida pública extrapolada (crise financeira). Tais fatos não
permitiram que as atitudes políticas do governo permanecessem as
mesmas. Assim, o governo, em 1980/1982, encontrando-se em um cenário
de redução no fluxo de capital financeiro mais inflação acelerada, adotou o
programa de “Redução da Absorção Interna” (C+I+G). As medidas para tal
foram: aumento das taxas básicas de juros reais; contenção salarial (para as
faixas mais altas) com índices inferiores aos da inflação; aumento dos
tributos, da arrecadação, acompanhado a redução dos gastos e
investimentos públicos, inclusive com as estatais; contração na concessão
de créditos oficiais ao setor privado, com o estabelecimento de tetos
(exceto para a agricultura e para as micro e pequenas empresas, visto que
elas eram importantes para a geração de empregos, sobretudo);
desvalorização da taxa de câmbio; aumento das alíquotas alfandegárias (de
forma a gerar divisas, com o aumento das exportações e a diminuição das
importações). Abaixo é exposto alguns dados a respeito da entrada de
capital estrangeiros no Brasil durante meados da década de 1980 – vê-se
que, basicamente, o problema central na economia brasileira era justamente
o fato de que havia pouca entrada de capital externo, ao transcorrer do
período em questão; além disso, não se tinha um nível de exportação
significativo, ao se comparar com o nível de importação, o que, também,
prejudicava a entrada de capital no mercado doméstico.
Saldo em Conta Entrada Autônoma de Variação de Reservas
Ano Corrente Capital
(US$ 10^6) (US$ 10^6)
1979 -10708 7623,5 9689
1980 -12739 9610,1 6913
1981 -11706 12745,7 7507
1982 -16273 12100,7 3994
1983 -6773 7418,8 4563
1984 94,9 6529,2 11995
1985 -248,3 196,6 11608
Fazendo um breve resumo do que foi o ajustamento macroeconômico
destes anos, tem-se como objetivo central a procura da economia doméstica
em gerar recursos em divisas, de forma a torna-se um pouco mais
independente dos credores e, assim, conseguir pagar a dívida externa (que
vinha a ser tão elevada). Para tal, a política interna buscava gerar poupança
doméstica [pública + privada], ao passo que buscava reduzir a absorção
doméstica [C,I,G]. Por sua vez, a política externa visava gerar saldos
positivos na balança comercial, com estímulos às exportações e
desestímulos às importações.
Dito isso, é possível mencionar que os impactos positivos de tais
políticas foram: o (mega)superávit na balança comercial e, por
consequência, um forte crescimento econômico. Aqui, portanto, cabe
destacar certos condicionantes que contribuíra efetivamente para tais
resultados positivos, a saber: em linhas gerais, a economia americana vinha
se recuperando, o que veio a aumentar a propensão a importar e, portanto,
impactar positivamente a economia brasileira; os ajustes estruturais
promovidos outrora pelo II PND, com investimentos e aumento do PIB
Potencial, também influenciaram de forma positiva. Em contrapartida, os
impactos negativos das medidas adotadas destacaram-se em alta na
inflação, somada a uma crise fiscal dos estados.

Ano PIB Agregado Balança Comercial Inflação

1979 6,8 -2840 52,7


1980 9,2 -2823 99,7
1981 -4,3 1202,5 93,5
1982 0,8 780,1 100,3
1983 -2,9 6470,4 178
1984 5,4 13090,0 209
1985 7,9 12486,0 239

Parte VII

Com o fracasso do Plano Collor II combinado aos escândalos de


corrupção, tem-se a deposição do presidente Fernando Collor de Melo, em
1992. Então, sobe ao cargo presidencial Itamar Franco, conduzindo o
governo entre os anos de 1993 até 1994. Ao longo destes anos, mais um
plano de estabilização econômica foi colocado e desenvolvido: Plano Real,
o qual buscava o crescimento da economia brasileira acompanhado da
estabilização da inflação.

De forma clara, o diagnóstico do período apresentou o descontrole da


inflação como causa de três fatores. A priori, convergindo com o
diagnóstico do período Collor, a causa principal ficou sendo o
desequilíbrio das contas públicas – ou seja, aqui, o déficit público causava
e muito inflação. Isto se deu pois, de fato, havia um desequilíbrio endógeno
nas contas públicas, de forma que o governo subestimava a taxa de inflação
no momento da montagem do Orçamento Público, o que, por sua vez,
tornavam a posteriori suas receitas insuficientes para arcar com os gastos
governamentais em geral. Então, tinha-se um déficit econômico (em uma
magnitude não esperada), que veio a aumentar a necessidade de
financiamentos. Como “reação de cadeia”, isto posto gerou uma elevação
das taxas de juros, ao passo que os custos das empresas também se
elevaram.

Em seguimento, a segunda causa no diagnóstico do novo governo


estabeleceu a inflação como fruto de choques econômicos, sobretudo pelo
lado da oferta – por exemplo, os aumentos do preço do petróleo. E na
terceira causa, por fim, destacou-se a questão da correção monetária
(indexação), que vinha a pressionar a inflação, perpetuando-a. Assim,
quando os choques sofriam algum tipo de choque que produzissem uma
elevação do nível geral de preços, dificilmente, após o choque, tais preços
voltavam para seu nível inicial – cabe mencionar que isto acentuava o
conflito distributivista.

Enfim, o Plano Real foi estabelecido em meio a esse cenário, em 1993,


trazendo como solução estratégica contra a inflação uma atuação mais
transparente e com mais comunicação: não há plano surpresa e não há
congelamento (de preços ou de salários). Este plano foi desenvolvido em
três importantes fases, que além de serem programadas, foram, de fato,
cumpridas. A primeira fase trouxe o ajuste fiscal, com o fito de equilibrar
as contas públicas (a principal causa da inflação, segundo o diagnóstico). A
fase dois, por sua vez, foi marcada pela criação de um padrão estável de
valor – a Unidade Real de Valor (URV), que era um artifício monetário
cuja função era unicamente recuperar a tão necessária característica
“unidade de conta” da moeda em circulação. E, então, a terceira e última
fase ficou caracterizada como o momento de emissão e lastreamento da
nova moeda (Real). De maneira mais clara, é apresentada as características
fundamentais de cada fase a seguir.

Duas importantes frentes cabem ser mencionadas: a política


alfandegária foi passiva em seu conjunto, não sendo utilizada para proteger
o mercado interno. Assim, taxas (alíquotas) relativamente baixas sobre
importação foram estabelecidas – o que contribuiu, de certa forma, para a
aquisição de equipamentos e produtos necessários. Por sua vez, a âncora do
período, com novo presidente (FHC), foi justamente o câmbio e a sua
manutenção, sendo utilizado da forma que era conveniente, funcionando
pela lei da oferta e da procura, o que veio a provocar um maior acúmulo de
dólar, ou seja, um acúmulo de reservas, visto que o real se tornou apreciado
face ao dólar [com paridade R$1,00 = US$0,80]. Como consequência, os
investidores permaneciam pouco no Brasil, uma vez que as taxas de juros
estavam elevadas devido à entrada de capital externo – isto veio repercutir
na dívida pública interna, aumentando acentuadamente.
Parte VIII
Em 2002, o Brasil enfrentava um difícil momento econômico marcado,
sobretudo, pelas incertezas do período, fato este que aumentou a
desconfiança e insegurança de muitos sobre o próximo governo (o de
Lula). O real passou a sofrer uma desvalorização cambial, entrando em
paridade com o dólar de R$2,32/US$1, em março de 2002, para
R$3,89/US$1, em setembro do mesmo ano. Isto, por seu turno, veio a
provocar um drástico aumento nas expectativas dos agentes em relação à
inflação para 2003. Abaixo pode se notar dados macroeconômicos a
respeito da transição do governo FHC para o governo Lula, sendo possível
perceber a grande mudança na dinâmica econômica.

ANO PIB Agregado BALANÇA INFLAÇÃO DÍVIDA


COMERCIAL PÚBLICA
(US$10^6) INTERNA
2001 1,3 2650 9,4 24,5
2002 0,7 13121 14,7 22,9
2003 1,2 24794 10,4 26,2
2004 5,7 33640 6,1 25,7

A primeira fase da gestão Lula, de 2003 a 2006, ficou caracterizada


pela harmonia entre o governo e os mercados. Neste período, o governo
assumiu um caráter mais pragmático, conduzindo uma administração mais
“ortodoxa”, tendo em vista as necessidades da época. Se teve uma
continuidade do tripé macroeconômico, com (i) regime de metas
inflacionárias, com certa autonomia do Banco Central e, por sua vez, taxas
de juros elevadas – para cumprir a meta, com a âncora monetária –; (ii)
controle dos gastos públicos, de modo a gerar superávits primários [tão
necessários] acima de 3% do PIB; e, enfim, (iii) assumindo uma taxa de
câmbio flutuante, de maneira que, mesmo não sendo algo buscado pelo
governo, houve uma desvalorização do real – produtos primários com
preços maiores, provocando, então, uma maior entrada de dólar no Brasil
(.:. aumento das reservas).
A reforma da previdência social, no que lhe diz respeito, ganhou certo
destaque nesta primeira fase do governo, uma vez que veio a taxar os
servidores inativos, com a mesma
PIB Agregado
alíquota dos ativos, de modo que as
pessoas mais velhas passariam a pagar
8
mais. Houve, também, a aplicação de um
6
4 redutor para novos benefícios acima de
2 dado piso de isenção e, por fim, alterou-
0
20 20 20 20 20
se a idade mínima [60 anos para homens
-2
e 55 anos para mulheres].
Os resultados macroeconômicos desta
primeira fase foram justamente a conquista da confiança do mercado e dos
credores do governo, formando, assim, uma importante base para o
governo. Por outro lado, o crescimento econômico, nos primeiros anos do
governo Lula, foi bem modesto [PIB: 0,7% em 2002 para 1,2% em 2003].
Chegando na segunda fase do governo Lula, de 2007 até 2010, se teve,
como ponto crucial, a volta do estado atuante na economia, ao passo que o
crescimento foi recuperado de forma significativa. À priori, diferentemente
da primeira fase, houve uma manutenção do tripé macroeconômico,
adotando-se, então, um viés social-desenvolvimentista. Isto veio como
forma de “relançar” o estado a partir, por exemplo, das estatais que se
tinham, sobretudo com a Petrobrás e com o BNDES. Nesta fase, dentre
outros fatores, se teve como característica fundamental uma expansão dos
gastos públicos e uma apreciação do câmbio, de modo que o nível de
reservas brasileiras aumentou significantemente, acompanhada (e por causa
de) um aumento das exportações brasileiras com produtos primários.
Os resultados desta segunda fase, portanto, podem ser resumidos em três
pontos: forte crescimento econômico, proveniente do efeito renda (dado o
estímulo ao consumo) e, ainda, dos investimentos que ocorreram; como
consequência, aumentou o emprego; e, enfim, elevação do nível das
reservas cambiais (dado a forte entrada de dólar face a apreciação cambial).
Então, o que se percebe é, mesmo com os primeiros anos do governo Lula
sendo marcados com um fraco crescimento econômico, em seu segundo
mandato, o cenário foi marcado por uma forte atividade econômica.

ANO PIB Agregado

2007 6,1 É válido mencionar que, mesmo o


2008 5,2 governo Lula tendo estabelecido medidas
semelhantes as do período militar de 1967
2009 -0,3 a 1973 no que tange a economia, com um
2010 7,5 crescimento econômico viabilizado pelo
consumo das famílias, não é possível configurar o período em questão
como milagre, uma vez que, mesmo com resultados expressivos no que
tange ao produto da época, não se teve um resultado igualmente positivo no
controle da inflação, em um panorama completo do governo. Ou seja, o que
foi possível notar é que, mesmo reconhecendo os dados do PIB, não se teve
um crescimento sustentável, havendo várias flutuações – isto veio a
repercutir no governo Dilma, onde, dentre outros aspectos, se teve um forte
crescimento do endividamento [35,8% em 2010 – 44,8% em 2013], com
importações superando exportações.

Parte IX
No começo do período Dilma, o governo se deparou com um dilema
que viria a ditar a sua ação administrativa: “crescimento e emprego ou
combate à inflação?”. O que veio a prevalecer foi justamente a política
“Stop and Go” com viés pró-crescimento econômico, alinhando medidas
expansionistas com contracionistas. Ou seja, buscava-se a todo custo um
crescimento do produto, de forma a reverter os impactos negativos que
assolavam a economia brasileira, assim, o controle estabelecido sobre a
inflação era condicionado sobre esse objetivo, sendo passível de muitas
flutuações.
O populismo macroeconômico do governo Dilma começou
propriamente em 2012, quando veio a realizar políticas de forte estímulo ao
consumo: redução do custo do crédito público (CEF, BB) para consumo;
redução dos depósitos compulsórios; redução do IOF sobre consumo;
redução dos impostos sobre bens de capital, como geladeira, fogão etc.
Aqui, o crescimento era almejado a todo custo, tendo, por isso, uma
intervenção no mercado de câmbio, contribuindo para se evitar depreciação
da moeda – tal política era uma característica típica do populismo
macroeconômico latino-americano (PML). Além disso, cabe salientar que a
política industrial veio a ser bastante ativas, de modo a conceder crédito
subsidiado do BNDES e, ainda, aumentando as alíquotas sobre importação.
Basicamente, se acreditava que somente com um forte impulso sobre a
demanda agregada, se produziria uma capacidade produtiva adequada para
fazer frente ao crescimento econômico e, portanto, tornar este consistente a
nível de longo prazo.

No entanto, o que se teve, como resultado do populismo


macroeconômico do governo Dilma, foi uma ilusão sobre o produto, uma
vez que, mesmo com vários esforços e abdicações, o PIB veio a ser baixo,
não trazendo o resultado esperado. Isto posto acentuou os problemas
existentes, como descontrole da inflação e, por sua vez, desencadeou
outros. Deterioração das contas públicas e de todo o setor público, redução
dos investimentos, aumento do desemprego, aumento do déficit da balança
de transações correntes e do endividamento, estes foram alguns pontos
negativos que ganharam destaque no período e contribuíram para a queda
do populismo da Dilma e da confiança no governo. Em suma, o que
começou como populismo macroeconômico veio a transformar-se em
desorganização sistêmica da macroeconomia – o conflito macroeconômico
conjugado a inabilidade política de Dilma, mais uma série de denúncias,
interrompeu o governo com um impeachment em 2016.

Desempenho da taxa real de crescimento do PIB – Período Dilma e período Temer.

Bibliografia extra utilizada:

- Livro “Economia Brasileira Contemporânea” [Giambiagi, Fábio;


et al.]; Anexo estatístico do mesmo.

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