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FAMÍLIA

LUGAR DE REFÚGIO OU CAMPO DE


BATALNA?
Ilma Luci Gomes Gunha

Copyright 2013 por Editora Central Gospel

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

CUNHA, Ilma Luci Gomes


Título: Família — Lugar de refúgio ou campo de batalha?
Rio de Janeiro: 2013
200 páginas
ISBN: 978-857-6895-190
1. Bíblia – Vida Cristã I. Título II.

Gerência editorial e de produção


Jefferson Magno Costa

Gerência de Marketing
Flávia Andrade

Coordenação editorial
Michelle Cândida Caetano

Revisão
Débora Costa
Maria Marinho
Queila Memoria

Capa
Hosseu Design / Josias Finamore

Projeto gráfico e diagramação


Joede Bezerra

Coordenação de e-book
Elba Alencar
Diretora Executiva
Flávia Andrade
Gerente de Marketing
Renata Gonçalves
Fernando de Lima
Marketing

CONVERSÃO E-BOOK:
Brazil Deluxe Ltda
2016
As citações bíblicas utilizadas neste livro foram extraídas das versões Almeida Revista e Corrigida
(ARC), Almeida Revista e Atualizada (ARA), da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e da
Nova Versão Internacional (NVI), e visam incentivar a leitura das Sagradas Escrituras.
É proibida a reprodução total ou parcial do texto deste livro por quaisquer meios (mecânicos,
eletrônicos, xerográficos, fotográficos etc.), a não ser em citações breves, com indicação da fonte
bibliográfica.
Este livro está de acordo com as mudanças propostas pelo novo Acordo Ortográfico, que entrou em
vigor em janeiro de 2009.

Editora Central Gospel Ltda.


Estrada do Guerenguê, 1851 – Taquara
CEP: 22.713-001
Rio de Janeiro – RJ
Tel. (21) 2187-7000
www.editoracentralgospel.com

Sumário

Recomendações
Dedicatória
Agradecimentos
Prefácio
Introdução

PARTE 1
FAMÍLIA – A TRANSMISSÃO DA CULTURA
1.1. Família e Conceituação
1.2. Uma Análise sobre o Cenário da Transmissão Familiar
1.3. A Falência dos Rituais Familiares
1.4. Família e Resiliência

PARTE 2
FAMÍLIA – UMA ESPECIAL HISTÓRIA DE AMOR
2.1. Resolvendo o Passado para Edificar no Presente os
Fundamentos da Geração do Futuro
2.2. Ira – A Dor Oculta da Alma
2.3. Compulsão à Repetição
PARTE 3
FAMÍLIA – A DINÂMICA RELACIONAL E A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
3.1. Apegos e Vínculos Familiares
3.2. As Funções Familiares: Materna e Paterna
3.3. O Desafio da Feminilidade
3.4. O Declínio da Função Paterna

PARTE 4
FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS
4.1. Permitindo à Criança Crescer: Deixar Pai e Mãe

PARTE 5
FAMÍLIAS PSICOSSOMÁTICAS – QUANDO A DINÂMICA FAMILIAR
ADOECE O SUJEITO
5.1. Equilíbrio e Desequilíbrio Familiar
5.2. Fenômenos Psicossomáticos
5.3. As Disfunções e o Adoecimento Familiar

PARTE 6
ALGUMAS OUTRAS FAMÍLIAS
6.1. Famílias Violentas
6.2. Famílias Incestuosas
6.3. Famílias Enlutadas

Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre a Autora

Recomendações

Como Presidente e reitor da Florida Christian University, na cidade de


Orlando, Estado da Flórida, nos Estados Unidos da América, tenho a dádiva
de constantemente conhecer professores de todas as correntes de
pensamento, muitas mentes brilhantes e iluminadas por DEUS para
compartilhar seus conhecimentos. No entanto, alguns deixam marcas
inesquecíveis, e fica até difícil expressar a magnitude do impacto que eles
positivamente causam nos estudantes e em nossas vidas.
Embora de origem italiana, nascido na Argentina, foi ao tornar-me
cidadão americano há muitos anos que verdadeiramente entendi e
metabolizei o verdadeiro e especial significado da palavra “privilégio”, pois,
ao conceder o green card, ou cidadania – como foi o meu caso, o governo dos
Estados Unidos entende que está concedendo um privilégio. E, na época, ao
ser tocado pelo sentido
profundo desta palavra, vi no dicionário seu significado mais amplo,
encontrando o seguinte: “s.m. Vantagem concedida a uma ou mais pessoas,
com exclusão de outros e contra a regra geral: os privilégios da nobreza.
Licença, permissão especial ou pessoal. Direito, prerrogativa: presidir por
privilégio”.
E é esta palavra a que melhor descreve o sentimento que tive ao
conhecer a Dra Ilma Cunha, o que posteriormente foi extendido à minha
família e ao Staff da universidade, como também a todos os estudantes que
tiveram a oportunidade de assistirem às suas aulas.
Fazendo dos estudos psicológicos da família uma travessia apaixonante,
respeitosa e, principalmente, edificante, e com resultados imediatos e
surpreendentes, e embora já sendo consagrada professora e profissional,
senti-me desafiado ao ser convidado para orientar seu trabalho de doutorado
em Psicologia na Florida Christian University, pois desde a sua primeira
participação como professora doutoranda, ela conseguiu agregar valor a
todos os cursos que ministrou.
Este livro é o fruto prático de anos de trabalho sério, pesquisas e estudos
científicos na área que mais apaixona a autora, a família. E seguramente,
caro leitor, este livro que está em suas mãos neste momento, transportará
você a um novo nível de entendimento sobre a sua própria família, levando-o
a meditar e a buscar soluções para fraturas emocionais pessoais ou de
pessoas que você ama, com equilíbrio divino entre o espiritual e o emocional
e embasamento bíblico que legitima o acadêmico, selando seguramente os
corações dos leitores.
Desfrute de cada página, certo de que transformará sua visão familiar.

Prof. Anthony B. Portigliatti, Ph.D


FLORIDA CHRISTIAN UNIVERSITY
Presidente and Chancellor

Inteligência, Lealdade, Mansidão e Altruísmo são algumas virtudes


essenciais à química de uma família vitoriosa, e orientações sobre as mesmas
só têm valor quando há relação entre o ensino e a vida do professor(a). O
prazer de ler este livro está em saber que essas virtudes não apenas formam
um acróstico com o nome da escritora, mas também são facilmente
percebidas no convívio com ela. Não é só o Celso, seu esposo, ou os filhos do
casal que sabem disto. É bom ler um livro escrito por quem transborda
I.L.M.A. da alma.

Simonton e Mirna Araujo


Escritores
Missão Praia da Costa

Tenho o privilégio de ser amiga da Dra. Ilma Cunha. Neste livro, a


autora leva-nos a uma reflexão sobre a importância da família na formação
espiritual, emocional e física do ser humano. Incentiva também a busca por
um movimento de quebrantamento e reconciliação, para reconhecer as raízes
do adoecimento familiar, sinalizando ser possível retirar os entulhos do
coração e da mente para a reorganização das funções familiares e a busca de
um convívio saudável em família. Desfrute desta excelente leitura, que lhe
trará extraordinário crescimento.

Elizete Santos Malafaia


Escritora e psicóloga

A autora Ilma Cunha tem se mostrado como uma das principais


autoridades que conheço no campo de família. Ela ensina e escreve acerca do
tema com profundidade. É sabido que muitos líderes nos dias atuais estão
com suas famílias esfaceladas. À semelhança de Davi, são bons ministros; no
entanto, seus lares estão na contramão daquilo que estão pregando e
lutando. Não podemos construir nossos projetos existenciais ou espirituais
sob os escombros da família. A vitória que custa o fracasso do lar é derrota.
Tenho certeza de que o texto da Dra. Ilma revelará muitas das nossas
disfunções e apontará o caminho da cura.

Alcione Emerich
Filósofo, teólogo, terapeuta familiar, escritor de vários livros na área de
Libertação Cristã e presidente do SECRAI

É impossível preservar o mesmo olhar sobre a família após mergulhar


nesta narrativa. De forma laboriosa, graciosa, Ilma tece a trajetória do
significante e do significado desta que é uma instituição emblemática. No
entanto, ela também dá pistas importantes de como a compreensão deste
lugar para muitos pode ser equivocada. Constituir família é escolha,
portanto, esta deve ser responsável, com adornos e rituais contínuos para a
permissão efetiva do cumprimento dos papéis, o fortalecimento diante das
adversidades, a manutenção do afeto sem a prisão da possessão. Há apenas
uma forma de saber como funciona cada instância desta: deliciar-se com esta
belíssima narrativa.

Maria Rita Sales Régis


Escritora e psicóloga

A ideia da família foi criada por Deus. Por isso, não é de se admirar que
Satanás sempre procure destruí-la. A Dra. Ilma Cunha é uma profissional
especializada na área da família. Sua habilidade de articular conceitos
psicológicos e espirituais profundos possibilita que você entenda além da
superfície. Leia este livro, e você será desafiado a criar uma nova herança de
bênçãos para sua família.

Devi Titus

Dedicatória

Estamos juntos!

Você e eu… nós… perto ou longe,


em pensamentos ou fisicamente,
algumas horas no dia a dia,
minutos, às vezes, mas juntos…
É o que importa!

A Deus, a razão da minha existência,


o doador da vida, onde encontro o refúgio
da minha alma e a fonte da sabedoria e do
conhecimento, toda honra e glória.

A meus pais, pela transmissão familiar geracional,


amor incondicional, a base da minha formação.

A Celso, meu amado e meu amigo, que, com


seu apoio incondicional, permitiu-me dedicar tempo
para aprofundar-me no conhecimento da alma humana.

A meus filhos, Érik e Bruno, tesouros preciosos,


que me permitiram aprender os mistérios da
maternidade e trouxeram duas joias preciosas
para a nossa transmissão geracional: Aleandra e Sandra.

A meus netos: Lara, meus traços e os seus traços,


a primeira da próxima geração;
Luccas, que, com seu nascimento,
trouxe unidade, fé e esperança; e Arthur, que cedo se apropriou da
linguagem, marcando sua distinção,
deixo o meu legado.

Vamos caminhar juntos, bem juntos,


corações unidos, nos mesmos propósitos.
Juntos, passo a passo,
lançando os fundamentos das próximas gerações.

Agradecimentos
Há muita gente a quem agradecer neste percurso de aprofundamento da
temática família. Em muitos momentos, esses clientes, amigos, irmãos,
familiares e companheiros de trajetória foram os que me permitiram fazer
laboratório das minhas pesquisas e descobertas. Ouviram-me,
compartilharam ideias, opiniões, deram sugestões, enfim, enriqueceram-me
com suas contribuições preciosas.
Muitos achavam interessantes as questões que eu abordava e a maneira
como tratava de textos bíblicos já tão conhecidos, os quais surgiam
novamente como um manancial de sabedoria para o conhecimento da alma
humana. Alguns sutilmente perceberam que não era apenas uma teorização,
mas algo profundo que emergia das minhas angústias e dores, das minhas
vivências e experiências familiares. Sônia, irmã e amiga, Danny, seu esposo,
e Sandra, nora, amiga e companheira de trabalho, perceberam as dores desse
parto anunciado.
Alguns foram de profunda inspiração para mim: meu pai, José Gomes,
que me tem inspirado por meio do seu exemplo, vitalidade, fé e expressão de
amor; e minha mãe, a qual, antes de partir, acreditou que, um dia, eu iria
aprofundar-me no conhecimento da alma humana. Ela me dizia que, um dia,
eu compreenderia além do que é visível.
Ao meu esposo, poeta inspirado e inspirador, com quem tenho
compartilhado minhas compreensões das questões humanas e que traduz em
forma de poesia e música a linguagem da alma. Sem seu apoio, parceria e
incentivo, este trabalho não seria possível.
Agradeço aos meus filhos, Érik e Bruno, que receberam a nossa
transmissão familiar e que têm sido fiéis depositários das nossas crenças e
valores, bem como profissionais competentes e éticos, defensores dos valores
familiares e dos princípios cristãos. Com eles, vivenciei a função materna
com todas as implicações discutidas neste trabalho.
À Samira Caus, uma amiga especial, psicanalista e terapeuta familiar,
parceira de estudos em diversos cursos e no percurso psicanalítico, com
quem compartilhei muitas ideias sobre a temática família e as questões da
psicossomática. Ela me ajudou em muitas pesquisas e na fundamentação
teórica de trabalhos que apresentamos em conjunto.
Aos meus mestres, e aos mais importantes mestres: meus analisandos.
Cada um chegou para ensinar-me e tratar-me um pouco mais. Aprendizado
precioso, único e singular.
À Rosa Bezerra, professora da FCU – Florida Christian University, que
me orientou em minha tese de conclusão do doutorado com paciência, lendo
e respondendo às minhas dúvidas, apontando onde eu deveria melhorar e
contribuindo com suas observações.
Um agradecimento especial ao Dr. Anthony Portigliatti, Chanceler da
FCU, Florida Christian University, que abriu para mim as portas de um
cenário rico de possibilidades de transmissão das minhas compreensões, que
acolheu minhas ideias e deu-me sugestões e orientações preciosas para
nortear minha temática. Daí, abriu-se uma dimensão ampla que resultou em
minha entrada na FCU, para Mestrado e Doutorado, e na tese que deu
origem a este livro e a novas fronteiras para este trabalho.

Prefácio

Não tenho a menor dúvida de que este livro acrescentará um conteúdo


valioso aos leitores que vivem no contexto pós-moderno da família. Todos
nós sabemos que as mudanças que, rapidamente, subverteram os valores e
os relacionamentos familiares têm criado um contexto repleto de
questionamentos e dúvidas. O lar passou a ser, para muitos, um campo de
batalha, em vez de um lugar de refúgio que acolhe o cônjuge cansado da luta
diária e que abriga um ninho seguro e aconchegante para os filhos. Portanto,
como os filhos serão preparados para formar um novo lar?
A Dra. Ilma Cunha escreve a partir de uma larga experiência clínica e em
sala de aula. Ela reconhece muito bem a fragilidade dos relacionamentos dos
membros do núcleo familiar e conhece as razões e as consequências desses
desajustes. As leis que regeram os relacionamentos
marido e mulher, pais e filhos ficaram enfraquecidas de tal forma que é
impossível definir os limites entre o que é permitido e o que é proibido.
Certamente por trás da proliferação de disfuncionamento da família,
encontraremos o esquecimento de Deus e a desobediência às Suas leis
reveladas na Bíblia.
Acho gratificante encontrar uma autora que escreve firmada em uma
postura cristã e em conformidade com a Bíblia. Ela não reflete nenhuma
dúvida quanto ao ensinamento bíblico sobre a criação do homem e da
mulher nem em relação à maneira como eles devem comportar-se a fim de
cumprirem os papéis que o Criador lhes concedeu.
A autora tem observado, de perto, as cicatrizes que um passado sem
resoluções deixa nos relacionamentos da nova geração. Mágoas, raiva e
ansiedade fazem parte das profundas tensões que fragilizam a família. Os
filhos sofrem as distorções estocadas no psiquismo dos pais. Os erros do pai
e da mãe se repetem nos filhos, e a nova geração padece com: vícios, revolta,
medo, distanciamento afetivo, rigidez, radicalismo, além de outros males que
destroem os relacionamentos.
Agora, acrescentam-se novos desafios para as mulheres, em particular.
O “mal-estar da feminilidade” precisa ser entendido e vencido. A autora
mostra que as mulheres facilmente entram no mercado de trabalho, mas,
muitas vezes, pagam um preço alto pelo “privilégio de desenvolver uma
profissão” e entrar na competição com os homens. Se a mãe não implantar
na consciência da filha uma transição que, adequadamente, afirme sua
feminilidade, dificilmente essa filha conseguirá o bem-estar nos
relacionamentos com seu futuro marido e seus próprios filhos. Se a mãe não
der ao pai o lugar devido, a distorção marcará a vida dos filhos com sequelas
sérias para a nova geração.
Este livro não omite o elemento fundamental do perdão e a
compreensão entre os componentes da família. A importância essencial do
perdão para “liberar a Vida” tem maior benefício para quem perdoa do que
para o perdoado. Assim, a Dra. Ilma mostra sua profunda compreensão da
psicologia e da Bíblia, costurando as duas fontes de sabedoria a fim de
mostrar a autoridade máxima da Palavra de Deus.
Se o papel da mãe tem importância crucial na formação da
personalidade e da identidade da criança e da futura mãe, a presença e a
atuação do pai têm valor essencial na formação de uma geração ajustada e
confiante. O quadro bíblico do pai como amante apaixonado pela mãe
(Efésios 5.25), cumprindo seu papel de autoridade, de supridor e de
sustentador afetivo da família confirma-se constantemente em comparação
com famílias que se desajustam pela ausência da figura paterna.
As ilustrações que a professora Ilma descreve aprofundam a
compreensão do leitor. São esclarecedoras e convincentes. Afinal, a
multiplicação de casos de divórcio e de relacionamentos fora do casamento,
que resultam na geração de crianças sem pais amorosos, comprova a
desintegração de uma sociedade que não tem mantido os velhos valores na
transmissão da cultura de geração em geração.
O pai que almeja ensinar seu filho a buscar um relacionamento íntimo
com o Pai celestial deve cultivar um relacionamento íntimo com seu filho.
Quando o pai falha nessa tarefa fundamental, é possível que o filho conclua
que Deus é um mito ou que a importância desse relacionamento é mínima,
certamente, menor que a de um jogo de futebol ou outra fonte de prazer
qualquer.
Para se conquistar e manter a autoridade sobre os filhos, a harmonia
entre o pai e a mãe é fundamental. Adolescentes são difíceis de serem
controlados quando há conflito de autoridade entre os pais. Portanto, não se
deve permitir que a criança assuma o papel de autoridade entre os pais em
conflito.
Uma prática cada vez mais comum é a que diz respeito a filhos que
continuam morando com os pais mesmo quando têm independência
financeira. Filhos que desobedecem à ordem bíblica de deixar pai e mãe para
constituir seu próprio lar, muitas vezes, trazem marcas negativas nos
relacionamentos familiares.
A professora Ilma relata muitos casos para ilustrar o poder que o
psiquismo tem sobre o corpo, gerando os efeitos psicossomáticos. Todos
aqueles que internalizarem a mensagem deste livro, seguramente, tomarão
todas as medidas necessárias a fim de evitar as causas desses males.
E o que dizer dos transtornos que o abuso à criança impõe sobre a
família? Dificilmente, pode haver causa sem efeito. E se a causa for um crime
tão sério como o incesto? Nestas páginas, há o relato sobre a angústia e a dor
provocadas na alma e no corpo dos afetados.
Aqui, também se aprende sobre os possíveis efeitos que a morte de um
ente querido produz; especialmente, a morte de um filho. A leitura sobre
esses casos e sobre os efeitos evidentes nas vidas envolvidas é muito
proveitosa. Obviamente, diagnosticar, de modo correto, a fonte do
sofrimento nem sempre o eliminará, mas poderá abrir a porta para um
tratamento libertador.
O que interessa ao paciente, são soluções que curam. A autora não
omitiu soluções bíblicas. O Pai celestial nos deu, em Sua revelação, o
caminho a seguir a fim de restaurarmos o “filho pródigo” ao seio da família,
enquanto insistimos com o filho mais velho para que aceite seu irmão.
Quero recomendar, irrestritamente, a leitura deste livro; e de modo
especial, aos que têm o ministério de aconselhamento e aos que sofrem as
feridas provocadas pelas batalhas travadas no seio da família.

A Deus, toda a glória!

Russell Shedd, Ph.D.

Quando o todo se encontra em mau estado, é impossível que a parte se


comporte bem… É da alma que vêm para o corpo e para o homem, na sua
totalidade, todos os males e todos os bens. É, pois, da alma que é preciso
desde logo cogitar, tratando-a antes de tudo. Constitui erro hoje
disseminado entre os homens o procurar curar separadamente a alma ou o
corpo.

Platão

Introdução

É preciso aprender, conhecer enquanto transformamos e


transformar enquanto conhecemos.
R. Barbier

Escrever sobre família é sempre um desafio, que toma proporções


gigantescas quando nos propomos a pensar e a refletir sobre a família na
pós-modernidade. Este é um tempo de muitas mudanças, em todos os
segmentos da sociedade, e a estrutura familiar tem sido profundamente
afetada com o impacto dessas mudanças na vida pessoal e profissional dos
indivíduos. O avanço da tecnologia e as altas exigências do mercado de
trabalho têm sido objeto de estudo em pesquisas sobre os efeitos desses
fatores na família, os quais produzem um estilo de vida agitado e frenético,
dificultando os relacionamentos familiares e alterando significativamente o
estilo de vida das pessoas.
Este desafio continua quando refletimos sobre os aspectos subjetivos
dessa questão, porque falar sobre família também significa caminhar por
cenários primários bem conhecidos de cada ser humano – o primeiro abrigo
depois da expulsão do paraíso. E estou referindo-me não ao primeiro Éden, o
registrado no Gênesis bíblico, que abrigou a origem da raça humana, mas ao
éden que, todos os dias, em todos os lugares, abre-se para receber a semente
que dará origem a uma vida humana – o paraíso uterino.
Esse lugar tão especial, preparado por Deus, é lugar de vida,
acolhimento, aconchego, mas pode também ser lugar de morte, de solidão,
de abandono. Portanto, falar de família significa identificar paradoxos e
também penetrar os conflitos que permeiam a existência humana, luzes e
sombras de todos nós. No entanto, a família continua sendo o cenário no
qual construímos a nossa identidade. Nela, recebemos as crenças e valores
que nortearão nossos comportamentos.
As histórias familiares são reproduzidas por escritores em seus
romances, novelas e filmes, e a mídia revela todos os dias a variedade de
configurações familiares, evidenciando seus conflitos e todos os obstáculos
que os seres humanos enfrentam ao transitar por relacionamentos
familiares. Essa trajetória tão marcada por amor e ódio, sentimentos tão
ambivalentes, deixa na alma humana traços que se transferem através das
gerações. São feridas no corpo e na alma que viajam através dos tempos em
sucessivas gerações, como tão bem escreveu nosso poeta Drummond em
Retrato de família: “Já não distingo os que foram dos que restaram. Percebo
apenas a estranha ideia de família viajando através da carne”.
Na prática clínica, tenho sido confrontada com esses dramas humanos e
suas angústias avassaladoras, e o caminho a percorrer na trajetória da dor
sempre nos leva a este conhecido cenário existencial humano: a família. Não
somente as famílias da atualidade, mas as famílias ao longo da história e das
gerações, até mesmo nas histórias bíblicas, vivenciaram e vivenciam os
mesmos conflitos existenciais.
É importante perceber que a Bíblia nos oferece a oportunidade de ver
como as mesmas questões que nos afligem no tempo presente estavam,
também, presentes nas famílias dos tempos bíblicos. São as mesmas lutas e
dificuldades, as mesmas questões conflituosas, a mesma busca por
identidade, significado e propósito. A natureza humana não mudou e,
compreender as questões familiares na perspectiva bíblica, é o privilégio que
temos em fazer o percurso para a maturidade com consciência de nossas
responsabilidades. É partilhar um pouco da mesma emoção e da mesma
esperança sobre respostas e soluções que vinham da fé.
Na verdade, em minha trajetória, não consegui, em nenhum momento,
assimilar qualquer conhecimento que não me remetesse à eterna Palavra.
Cursos, congressos e seminários, sobre quaisquer assuntos, sempre me
levavam a viajar nas páginas da Bíblia e a buscar a ressonância para o que eu
estava recebendo. Na oportunidade que tive em estudar sobre a família,
através de cursos e leituras, senti-me impulsionada a lançar um novo olhar
sobre as famílias da Bíblia.
Foi e tem sido um fantástico percurso conhecer mais intimamente as
famílias de Adão e Eva, de Abraão e Sara, de Isaque, Jacó, dos sacerdotes,
profetas, reis, a especial família de Jesus e tantas outras. Estas famílias
ganharam vida para mim e me fizeram sentir como parte delas, partilhando
os seus dramas, anseios, conflitos e dificuldades, com um pouco da mesma
emoção e da mesma esperança das respostas e soluções que vinham da fé.
Tudo isso remete à minha própria família, faz-me viajar mentalmente no
tempo e voltar à minha infância, quando minha mãe colocava três panelas de
comida em nosso antigo Ford 29, um charmoso calhambeque, e meu pai
assumia o volante. Era sempre uma alegria quando chegava o domingo de
manhã e a família preparava-se para o passeio especial. Eu e minhas três
irmãs mais novas vibrávamos juntas aos nossos pais!
O destino era para algum pequeno povoado, algum “lugarzinho” no
interior. Para eles, era o “Ide”, uma missão: levar as boas novas do
Evangelho através do nosso louvor, com o violão e o acordeão. O povo
chegava para ouvir e este era o sinal esperado pelo meu pai, para começar a
falar do amor de Cristo e fazer o convite a quem quisesse conhecer Jesus e
aceitá-lo como Senhor e Salvador. Para nós, era a oportunidade de estarmos
juntos, compartilhando da mesma fé, do mesmo amor e do mesmo pão
(arroz, galinha e macarrão). Mais do que isso, naquele lugar construía-se a
nossa identidade espiritual, com marcas indeléveis e eternas, inscritas na
alma, que nos unia para sempre.
Assim foi consolidou-se a minha história de amor com a Palavra de
Deus, a minha história espiritual. Cresci conhecendo as questões humanas
nas páginas da Bíblia. Cada história, contadas na igreja e em casa, já me
revelavam, ainda sem elaboração, as forças e as fragilidades humanas:
sedução, desejo, paixão, inveja, rivalidade, solidão, depressão; mas também,
coragem e ousadia, confiança e esperança e, sobretudo, uma grandiosa fé em
Deus – o Soberano. E é nesta Palavra, âncora da alma, que podemos
encontrar um código de ética, valores e referências espirituais, para
fundamentarmos a nossa existência humana.
Portanto, ouvir pessoas, casais e famílias, para mim, é mais do que um
trabalho profissional, é uma missão, um ministério: Ora, tudo provém de
Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o
ministério da reconciliação […] e nos confiou a palavra da reconciliação (2
Co 5.18,19 ARA).
Um instrumento de conciliação: Alguém que entra em um emaranhado
de tramas, para trabalhar em torno do enigma do traço, que distingue cada
um, demarca a sua posição na família e o lugar que se ocupa. Ajudar a
reescrever histórias, em meio à dor e às angústias das palavras ditas e não
ditas, para juntar pontos distantes, ouvir o não dito, que estão além das
palavras, ouvir a linguagem do olhar, do semblante, do sorriso e das lágrimas
– ouvir com os ouvidos do coração – para que cada um se ouça e se veja em
sua singularidade. É assim que eu me sinto.
Quantos casais falam a mesma coisa com discursos diferentes! Na
verdade, a essência é a mesma. Enquanto falam para mim, se escutam;
enquanto se mostram, se veem e, nesse momento, começa surgir um ponto
em comum, algo que se concilia um com o outro, que se harmoniza e
possibilita a reconciliação.
Diante de muitas questões, surge uma, em especial, nessa análise: A
família, o que é? Lugar de refúgio ou campo de batalha?
A narrativa bíblica nos mostra que a família é uma instituição divina e
foi criada com objetivos bem definidos por Deus: gerar, acolher, nutrir,
cuidar e formar o homem para a vida, dando-lhe identidade e destino. Assim,
a família é a expressão do cuidado de Deus por propiciar ao ser humano o
lugar devido para o seu desenvolvimento físico, emocional, mental e
espiritual.
São grandes os desafios que a família enfrenta para preservar suas
crenças e valores atualmente, a fim de fundar a próxima geração e ser a
transmissora dos princípios e valores divinos. A luta diária pela
sobrevivência, as pressões do mundo do trabalho, a busca do conhecimento e
as demandas cada vez maiores para a satisfação dos desejos, têm produzido
um mundo de pessoas ansiosas e agitadas, sem tempo para os
relacionamentos, que compensam as carências afetivas em coisas. Como
consequência, surge o adoecimento físico, emocional e mental, que
denunciam o quanto a família desviou-se do projeto original.
Está, pois, lançada desde o princípio, a contradição familiar –
aconchego, acolhimento, afetividade em muitos momentos – mas também
guerras sutis ou declaradas em tantas outras ocasiões. Os conflitos tão
evidenciados nas famílias, desde os tempos antigos, viajaram através das
gerações e são os mesmos que marcam a trajetória das nossas famílias da
pós-modernidade, com as atipicidades do nosso tempo.
Sabemos que a família é um grupo cultural. É ela que, através de sua
estruturação psíquica, possibilita ao homem estabelecer-se como sujeito e
desenvolver relações com a sociedade. A família não se constitui apenas por
um homem, uma mulher e filhos. Antes disso, ela é uma estrutura onde cada
membro ocupa um lugar e uma função. É destas funções e destes lugares que
dependem a nossa estruturação psíquica e a nossa formação como sujeitos.
O indivíduo está inserido em um contexto de relações, que forma um
sistema. Neste sistema, ele precisa ser olhado, o que implica na sua
estruturação psíquica, e a busca da saúde se consolida-se quando a nossa
mente, acostumada a focar no indivíduo, amplia-se para focalizar as relações
e as inter-relações do sujeito na dinâmica familiar.
É sob este aspecto que pretendo desenvolver este trabalho, até porque,
acredito que o processo de psicossomatização do sujeito pode ser analisado a
partir de sua história e do sistema em que está inserido. O seu corpo fala pela
via do sintoma, através de uma dor interior – a dor da alma – a qual se dá
porque o sujeito está em permanente interação com seu sistema e é afetado
por ele. Além disso, manifesta por esta mesma via a linguagem que não
consegue expressar em suas inter-relações.
A clínica me possibilita a constatação dessa realidade, com a quantidade
de pessoas que são encaminhadas pelos médicos para tratamento
psicológico, o que evidencia a necessidade de se pesquisar a origem desses
sintomas e sua relação com a dinâmica familiar.
Quando a família deixa de cumprir sua função de lugar de refúgio, onde
as pessoas o buscam? Muitos falsos refúgios apresentam-se para tamponar
os vazios afetivos: o álcool, as drogas, as compulsões como jogos, sexo,
compras, comida, etc. Existe uma busca desenfreada pelos prazeres que a
cada dia intensifica mais as angústias, denunciando o desamparo existencial
e produzindo doenças, como as tão diagnosticadas pela psiquiatria: os
transtornos de ansiedade, de déficits de atenção, as hiperatividades, as
síndromes de pânico, as depressões e tantos outros sintomas que os
medicamentos tentam atenuar em vão, porque os remédios não dão conta
das angústias da alma.
Este trabalho nasceu da escuta analítica, dos subsídios colhidos no
atendimento clínico, das pesquisas teóricas utilizadas para elaboração de
trabalhos de conclusão de cursos, principalmente para a tese de doutorado,
apresentada à FCU – Florida Christian University, e das trocas
experimentadas nas participações das pessoas em oportunidades que tive
como palestrante em diversos grupos ao longo dos anos.
Apresento este material com um ponto de vista muito pessoal, de
experiências vividas, singulares e significativas, que obtive ao escutar
histórias de pessoas que resvalaram na minha própria história familiar, e
experiências, nem sempre fáceis de se transformarem em palavras, pois há
uma dimensão misteriosa nesse universo infinito que é a subjetividade
humana.
Meu desejo é que o resultado dessas experiências, articuladas com as
pesquisas teóricas, possam contribuir para os que também desejam
empreender um percurso por este caminho humano tão fascinante, que
inicia-se no ventre da mãe, como primeiro abrigo, e continua pelo “lar doce
lar” da infância. Nem sempre este lar é tão doce, mas é onde construímos
nossa identidade, crenças e valores, até chegarmos à morada final. Neste
lugar, repousará o nosso corpo físico, marcado pela vivência humana, que
retornará à terra original e, para muito mais além, à direção da nossa alma e
espírito, que anseiam pela bem aventurada esperança.
É sob este aspecto que pretendo desenvolver este trabalho, até porque,
acredito que o processo de psicossomatização do sujeito pode ser analisado a
partir de sua história e do sistema em que está inserido. O seu corpo fala pela
via do sintoma, através de uma dor interior – a dor da alma – a qual se dá
porque o sujeito está em permanente interação com seu sistema e é afetado
por ele. Além disso, manifesta por esta mesma via a linguagem que não
consegue expressar em suas inter-relações.
A clínica me possibilita a constatação dessa realidade, com a quantidade
de pessoas que são encaminhadas pelos médicos para tratamento
psicológico, o que evidencia a necessidade de se pesquisar a origem desses
sintomas e sua relação com a dinâmica familiar.
Quando a família deixa de cumprir sua função de lugar de refúgio, onde
as pessoas o buscam? Muitos falsos refúgios apresentam-se para tamponar
os vazios afetivos: o álcool, as drogas, as compulsões como jogos, sexo,
compras, comida, etc. Existe uma busca desenfreada pelos prazeres que a
cada dia intensifica mais as angústias, denunciando o desamparo existencial
e produzindo doenças, como as tão diagnosticadas pela psiquiatria: os
transtornos de ansiedade, de déficits de atenção, as hiperatividades, as
síndromes de pânico, as depressões e tantos outros
sintomas que os medicamentos tentam atenuar em vão, porque os remédios
não dão conta das angústias da alma.
Este trabalho nasceu da escuta analítica, dos subsídios colhidos no
atendimento clínico, das pesquisas teóricas utilizadas para elaboração de
trabalhos de conclusão de cursos, principalmente para a tese de doutorado,
apresentada à FCU – Florida Christian University, e das trocas
experimentadas nas participações das pessoas em oportunidades que tive
como palestrante em diversos grupos ao longo dos anos.
Apresento este material com um ponto de vista muito pessoal, de
experiências vividas, singulares e significativas, que obtive ao escutar
histórias de pessoas que resvalaram na minha própria história familiar, e
experiências, nem sempre fáceis de se transformarem em palavras, pois há
uma dimensão misteriosa nesse universo infinito que é a subjetividade
humana.
Meu desejo é que o resultado dessas experiências, articuladas com as
pesquisas teóricas, possam contribuir para os que também desejam
empreender um percurso por este caminho humano tão fascinante, que
inicia-se no ventre da mãe, como primeiro abrigo, e continua pelo “lar doce
lar” da infância. Nem sempre este lar é tão doce, mas é onde construímos
nossa identidade, crenças e valores, até chegarmos à morada final. Neste
lugar, repousará o nosso corpo físico, marcado pela vivência humana, que
retornará à terra original e, para muito mais além, à direção da nossa alma e
espírito, que anseiam pela bem aventurada esperança.

PARTE
1
FAMÍLIA
A TRANSMISSÃO DA CULTURA

O que ouvimos e aprendemos, o que nossos pais nos contaram, não os


esconderemos dos nossos filhos; contaremos à próxima geração os
louváveis feitos do Senhor, o seu poder e as maravilhas que fez. Ele
decretou estatutos em Jacó, e em Israel estabeleceu a lei, e ordenou aos
nossos antepassados que a ensinassem aos seus filhos, de modo que a
geração seguinte a conhecesse, e também os filhos que ainda nasceriam, e
eles, por sua vez, contassem aos seus próprios filhos.

Salmo 78.3-6 NVI

Na história bíblica, a transmissão da cultura evidencia-se como um


princípio familiar, como bem expressa o rei Davi no texto extraído do livro de
Salmos. A família é a estrutura essencial e objetiva para a perpetuação da
espécie, desde o princípio da história da humanidade, para a transmissão da
cultura. É ela a passadora dos valores culturais e espirituais, ao mesmo
tempo em que apresenta-se como o cenário de construção da identidade e do
sentimento de pertencimento.
Para além do patrimônio material, a família transmite valores
simbólicos necessários para a elaboração da transmissão psíquica geracional.
É importante ressaltar que a transmissão não se faz pela via de um grupo
qualquer, e a formação do grupo familiar possui os organizadores atuantes
nos vínculos estabelecidos entre os membros, que atravessam gerações,
possibilitando a transmissão da cultura.
Para ampliarmos nossa compreensão sobre o papel da família na
transmissão geracional, é necessário um olhar para a palavra família e sua
conceituação.

1.1. Família e Conceituação

Nosso conhecido dicionário, Aurélio Ferreira (1996), conceitua família


afirmando que “são pessoas aparentadas, que vivem, em geral, na mesma
casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos”. No contexto social, diz ainda,
que “família é uma comunidade constituída por um homem e uma mulher,
unidos por laços matrimoniais, e pelos filhos nascidos dessa união”.1
Hoje temos as mais diversas configurações familiares, que apresentam
um complexo cenário para a transmissão da cultura: Há a família formada
pelo marido e mulher sem filhos; outra formada por marido e mulher com
filhos; além da família composta por um pai ou uma mãe e filhos.
Um modelo crescente é a família formada por mãe e filhos, diante da
conhecida “produção independente”, e também pelo divórcio, onde o pai
exerce pouca ou nenhuma participação na vida dos filhos; tal configuração é
conhecida como família monoparental.
Há também, uma crescente formação familiar, advinda de casamentos
entre pessoas que trazem filhos de relacionamentos anteriores, somando-os
aos filhos da união atual – “os meus, os seus e os nossos” – conhecida como
família mosaico. Outras configurações têm surgido nos últimos anos e
também são designadas como famílias pelas instituições de pesquisas
estatísticas.
A constituição familiar é hoje um grande desafio diante de todas as
mudanças ocorridas nas últimas décadas. Mas, além das questões internas,
há o impacto produzido pelas mudanças ocorridas no mundo globalizado do
trabalho. Olhar para a família da pós-modernidade, é constatar o quanto a
organização familiar vem sendo afetada devido a todas as mudanças internas
e externas.
Este é o mundo da tecnologia, onde as mudanças ocorrem com uma
agilidade impressionante e assustadora. Todos os segmentos da sociedade
foram impactados pelas exigências e pressões, advindas da luta pela
sobrevivência. A busca pelo equilíbrio, entre vida pessoal e profissional,
passou a ser um grande desafio de amplas dimensões para todos nós.
Qualidade e quantidade passaram a ser, no mundo atual, as principais
exigências na administração do tempo. Este tempo é exigido sempre mais, o
que promove ansiedade, insegurança e estresse. Pouco tempo sobrou para o
desempenho das funções familiares, comprometendo a transmissão da
cultura familiar, tão necessária para a construção da identidade de família.
Esse cenário assustador nos convoca como pais, líderes e,
principalmente, como cristãos, para sairmos da zona de conforto e
pensarmos em nossa responsabilidade com a próxima geração que estamos
preparando em nossas famílias.
Creio que o cenário não é muito diferente do relatado em Êxodo 5,
quando Moisés foi a Faraó solicitar autorização para tirar o povo do Egito,
escravizado por tantos anos, para um sonho de liberdade anunciado por
Deus. O pedido incomodou Faraó e ele arquitetou sua estratégia para
impedir o sonho de liberdade. Ele chamou seu capataz e disse:

Não forneçam mais palha ao povo para fazer tijolos, como faziam
antes. Eles que tratem de ajuntar palha! Mas exijam que
continuem a fazer a mesma quantidade de tijolos; não reduzam a
cota. São preguiçosos, e por isso estão clamando: ‘Iremos oferecer
sacrifícios ao nosso Deus’. Aumentem a carga de trabalho dessa
gente para que cumpram suas tarefas e não deem atenção a
mentiras. Os feitores e os capatazes foram dizer ao povo: “Assim
diz o faraó: ‘Já não lhes darei palha. Saiam e recolham-na onde
puderem achá-la, pois o trabalho de vocês em nada será
reduzido’”. O povo então espalhou-se por todo o Egito, a fim de
ajuntar restolho em lugar da palha.
Êxodo 5.7-12 NVI

Sabemos que a palha era necessária para a produção dos tijolos, mas o
texto diz que o povo andava por todo o Egito, pegando restolho em lugar de
palha. E a pressão dos capatazes continuou ainda mais, com o objetivo de
ocupá-los de tal forma, para que o sonho de liberdade se perdesse em meio
ao extenuante trabalho. Da mesma forma, sabemos que o trabalho é
necessário para a luta pela sobrevivência. O mundo corporativo exige
qualidade, comprometimento e dedicação ao trabalho, portanto, as pressões
não irão diminuir.
O tempo dedicado ao trabalho ocupa a maior parte do nosso tempo, e o
que sobra é o mínimo para o desempenho de todos os outros papéis:
conjugal, filhos, familiares (pais, irmãos, parentes), educacional, social,
espiritual, religioso, recreacional (lazer), etc. É grande a demanda, pois todos
estes papéis têm importância em nossa vida, e cada um que for negligenciado
terá o seu custo.
Mas, o que seria restolho no nosso tempo? Qual o significado? Penso
que é todo o tempo que gastamos com coisas que não agregam valor à nossa
vida. A internet está aí, com todas as demandas das redes sociais, utilizando
um tempo que, para nós, já é tão escasso, e o subtrai, quando poderia
destiná-lo a papéis tão importantes e significativos da nossa vida.
É evidente que, quando bem utilizada, a internet é um recurso
importante, que traz benefícios em muitos sentidos. Mas o que temos visto
são pessoas reféns e, algumas, totalmente dependentes, que utilizam o
restante do tempo, que não é destinado ao trabalho, para mergulhar na
alienação da rede. Estão totalmente enredadas e escravizadas pela sedução
virtual. Isto é restolho, que não tem valor algum, é escravidão. A família sofre
os profundos efeitos desta inversão de prioridades, além de todas as
consequências que vêm sobre a vida espiritual e sobre a saúde física, mental
e emocional.
Este é o desafio da igreja cristã neste tempo: compreender que as
mudanças ocorreram e que a igreja é composta por muitas dessas
configurações familiares que possuem os efeitos da nossa era globalizada.
Portanto, não é possível a igreja se eximir de sua responsabilidade de cuidar
dessas famílias com suas necessidades e conflitos. É necessário acolhê-las
com amor e orientá-las nos princípios da Palavra de Deus.
Cada vez mais a palavra de Lucas 1.17 (ARA) torna-se atual e necessária
para a realidade da igreja da pós-modernidade, em sua missão de preparar o
caminho do Senhor: Para converter o coração dos pais aos filhos, converter
os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um
povo preparado (ênfase da autora). É tempo de preparo e de sairmos do
movimento da informação, apenas para a busca de conhecimentos que
transformam-se em prática de vida: Respondeu-lhes Jesus: Errais, não
conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus (Mt 22.29 ARA).
A família é, pois, o lugar de transmissão da cultura e o primeiro abrigo
para o homem, onde formam-se crenças e valores, construção de identidade
e de preparação para a vida. Mas, como fica esta transmissão em meio a
variedade de configurações familiares?
Com as famílias reconstruídas, vêm os filhos – os meus, os seus e os
nossos – e um mosaico de herança cultural. Essas crianças, muitas vezes,
colecionam padrastos, madrastas, meios-irmãos e outros parentes adotivos.
Nesse contexto, os conflitos evidenciam-se por questões mal resolvidas dos
cônjuges e ex-cônjuges, que são depositadas no novo relacionamento.
Há mães que não falam com o ex-marido devido a uma série de
situações conflituosas da conjugalidade, as quais deixaram restos de
rancores no relacionamento partido. Mas, por necessidades vinculadas à
criança, o contato precisa ser mantido de alguma maneira. A criança é eleita,
simbolicamente, como a mediadora destas questões conflituosas e como
porta-voz dos pais; porém, não é impunemente a sustentadora de um
relacionamento partido. Nesse ambiente, carrega em si mesma as marcas da
dor, da ansiedade e da angústia, por não dar conta de toda a demanda dos
pais.
O apóstolo Paulo, em sua carta dirigida aos Gálatas, diz no versículo 15
do capítulo 5 um texto apropriado a esta contradição familiar: Mas se vocês
se mordem e se devoram uns aos outros, cuidado para não se destruírem
mutuamente (NVI).
Muitas vezes, essas questões mal resolvidas nas separações lançam os
filhos em um cenário de guerra, onde todos saem perdendo. O
relacionamento com ex-marido, ex-mulher, padrasto, madrasta, namorada
do pai, namorado da mãe, avós, avós de irmãos, irmãos de sangue e meios-
irmãos acarreta interferências na educação, limites divergentes da semana e
do final de semana, mensagens contraditórias recebidas dos pais,
autoridades questionadas, vínculos de afetos que se fazem e se desfazem
bruscamente, mais de uma casa, mais de um quarto e o distanciamento dos
filhos como cruel forma punitiva ao ex-cônjuge, etc.
Como fica a formação da criança neste emaranhado de questões? E a
construção da identidade? O que se transmite para a próxima geração? São
questões angustiantes que tomam as nossas discussões e reflexões sobre a
família no cenário atual.
Ao longo dos anos, muitos estudiosos já apontavam para tais questões
que afetariam a família: Freud (apud VOLNOVICH, 1993) foi, talvez, um dos
primeiros estudiosos a chamar a atenção sobre as mudanças que estavam
acontecendo nas famílias, e apontou de que forma isso provocaria o
desmoronamento da figura paterna como ideal. Ele demonstra esta
preocupação quando diz “que o avanço da modernidade no homem e a
constituição de uma subjetividade onde a liderança do pai desaparece,
retratam a família de hoje”. Ele temia a fragilização do significante pai e a
sua substituição por um conjunto de saberes advindos da modernidade, o
que acabou acontecendo e fragmentando a vida familiar.
As discussões sociais e judiciais sobre as disputas que envolvem
paternidade questionam: O que é um pai? Como objetivar a questão paterna
diante dessas demandas? Quem deve ser considerado pai de fato, o homem
que, junto com a mãe, concebeu a criança como pai biológico ou aquele que
exerceu a função ao assumir a responsabilidade de criar a criança,
constituindo-se como pai afetivo? São questões que levam a uma nova
definição do que é um pai no âmbito jurídico com as demandas judiciais que
envolvem a paternidade: pai biológico ou pai afetivo?

1.2. Uma Análise sobre o Cenário da Transmissão Familiar

O homem não nasce pronto, é um ser em construção, portanto, é preciso


formar os indivíduos e construí-los.
O apóstolo Paulo, ao escrever para os Filipenses, disse no capítulo 1.6:
Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo
Jesus (ARA). Logo, a Palavra de Deus está falando de um processo de
construção, que inicia-se no momento em que somos gerados e que só se
completará quando nossa vida terrena terminar.
Essa não é uma obra sem transtornos. As alterações na estrutura
familiar evidenciam esta realidade. Muitas vezes, são tantas as dificuldades
que a família enfrenta que, simbolicamente, precisaria, como nas obras
públicas, colocar uma pequena placa na obra para tirar um tempo de reflexão
e isolamento que interferisse na melhoria dos relacionamentos: “Desculpem-
nos o transtorno, estamos em construção”. Nas obras públicas, pressupomos
que o transtorno durará um tempo determinado e o resultado será para
melhor, mas, infelizmente, o transtorno é infindável, e produz danos
profundos aos membros da família.
Fundamentados nesses conceitos, podemos afirmar que é preciso
formar o indivíduo, preparar alicerces sólidos, construir seus valores e
crenças, e caminhar passo a passo no processo de consolidação das leis e
princípios existenciais, que formam os comportamentos e atitudes do
indivíduo. Não é uma tarefa fácil, porque requer o exercício responsável das
funções familiares: a função paterna como representante da Lei, e a função
materna, nutridora e formadora do vínculo afetivo, que organiza o homem
em suas relações intra e interpessoal consigo mesmo e com as pessoas a sua
volta.
Caso isto não aconteça, o indivíduo fica em um estado selvagem. O ser
humano não é regido pelo instinto, como os animais, mas pela razão, e
necessita da formação familiar para a construção do seu plano de conduta,
dos elementos que nortearão as suas atitudes, seus comportamentos e suas
decisões ao longo da vida.
O apóstolo Paulo, em sua carta dirigida aos Gálatas, diz no versículo 15
do capítulo 5 um texto apropriado a esta contradição familiar: Mas se vocês
se mordem e se devoram uns aos outros, cuidado para não se destruírem
mutuamente (NVI).
Muitas vezes, essas questões mal resolvidas nas separações lançam os
filhos em um cenário de guerra, onde todos saem perdendo. O
relacionamento com ex-marido, ex-mulher, padrasto, madrasta, namorada
do pai, namorado da mãe, avós, avós de irmãos, irmãos de sangue e meios-
irmãos acarreta interferências na educação, limites divergentes da semana e
do final de semana, mensagens contraditórias recebidas dos pais,
autoridades questionadas, vínculos de afetos que se fazem e se desfazem
bruscamente, mais de uma casa, mais de um quarto e o distanciamento dos
filhos como cruel forma punitiva ao ex-cônjuge, etc.
Como fica a formação da criança neste emaranhado de questões? E a
construção da identidade? O que se transmite para a próxima geração? São
questões angustiantes que tomam as nossas discussões e reflexões sobre a
família no cenário atual.
Ao longo dos anos, muitos estudiosos já apontavam para tais questões
que afetariam a família: Freud (apud VOLNOVICH, 1993) foi, talvez, um dos
primeiros estudiosos a chamar a atenção sobre as mudanças que estavam
acontecendo nas famílias, e apontou de que forma isso provocaria o
desmoronamento da figura paterna como ideal. Ele demonstra esta
preocupação quando diz “que o avanço da modernidade no homem e a
constituição de uma subjetividade onde a liderança do pai desaparece,
retratam a família de hoje”. Ele temia a fragilização do significante pai e a
sua substituição por um conjunto de saberes advindos da
modernidade, o que acabou acontecendo e fragmentando a vida familiar.
As discussões sociais e judiciais sobre as disputas que envolvem
paternidade questionam: O que é um pai? Como objetivar a questão paterna
diante dessas demandas? Quem deve ser considerado pai de fato, o homem
que, junto com a mãe, concebeu a criança como pai biológico ou aquele que
exerceu a função ao assumir a responsabilidade de criar a criança,
constituindo-se como pai afetivo? São questões que levam a uma nova
definição do que é um pai no âmbito jurídico com as demandas judiciais que
envolvem a paternidade: pai biológico ou pai afetivo?

1.2. Uma Análise sobre o Cenário da Transmissão Familiar

O homem não nasce pronto, é um ser em construção, portanto, é preciso


formar os indivíduos e construí-los.
O apóstolo Paulo, ao escrever para os Filipenses, disse no capítulo 1.6:
Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo
Jesus (ARA). Logo, a Palavra de Deus está falando de um processo de
construção, que inicia-se no momento em que somos gerados e que só se
completará quando nossa vida terrena terminar.
Essa não é uma obra sem transtornos. As alterações na estrutura
familiar evidenciam esta realidade. Muitas vezes, são tantas as dificuldades
que a família enfrenta que, simbolicamente, precisaria, como nas obras
públicas, colocar uma pequena placa na obra para tirar um tempo de reflexão
e isolamento que interferisse na melhoria dos relacionamentos: “Desculpem-
nos o transtorno, estamos em construção”. Nas obras públicas, pressupomos
que o transtorno durará um tempo determinado e o resultado será para
melhor, mas, infelizmente, o transtorno é infindável, e produz danos
profundos aos membros da família.
Fundamentados nesses conceitos, podemos afirmar que é preciso
formar o indivíduo, preparar alicerces sólidos, construir seus valores e
crenças, e caminhar passo a passo no processo de consolidação das leis e
princípios existenciais, que formam os comportamentos e atitudes do
indivíduo. Não é uma tarefa fácil, porque requer o exercício responsável das
funções familiares: a função paterna como representante da Lei, e a função
materna, nutridora e formadora do vínculo afetivo, que organiza o homem
em suas relações intra e interpessoal consigo mesmo e com as pessoas a sua
volta.
Caso isto não aconteça, o indivíduo fica em um estado selvagem. O ser
humano não é regido pelo instinto, como os animais, mas pela razão, e
necessita da formação familiar para a construção do seu plano de conduta,
dos elementos que nortearão as suas atitudes, seus comportamentos e suas
decisões ao longo da vida.
Sabemos que uma geração faz a educação da outra geração. Pela sua
natureza, o homem é um ser em construção, portanto, inacabado. Precisa ser
submetido às leis da humanidade, que foram construídas por um longo
período de tempo. Ele não traz registrado em si mesmo estas leis, pois elas
chegam através da família, em primeiro lugar, seguidas, a seu devido tempo,
das duas instituições parceiras: a escola e a igreja. Se as leis e seus princípios
não vierem logo cedo, será tarde demais.
Sendo assim, a primeira inserção da Lei é sustentada pela família, e esta
é a base de todas as outras. No entanto, temos presenciado uma dinâmica
familiar que deixa a criança livre para fazer suas próprias escolhas. Sem leis
claras e objetivas, sem os limites bem definidos, o mundo interno da criança
desorganiza-se e vira um caos. Se os pais não sabem dizer “não”, se ficam
paralisados ou apáticos diante das transgressões dos filhos, se são os seus
“amiguinhos”, acomodados em sua individualidade, esta geração não terá a
formação necessária e os subsídios para preparar, adequadamente, a
educação da próxima.
A criança precisa de limites. Quando ela é deixada por conta de si
mesma, entregue à pessoas descomprometidas com sua formação, ou
mesmo, com a TV e o computador, ela fará o que vê e, sem barras que a
impeça, realizará seus mais primitivos impulsos de eliminar o que a
incomoda, mesmo que isso signifique matar.
A mídia mostra, de forma estarrecedora, os efeitos desse mundo familiar
sem leis, sem o efetivo exercício dos representantes da Lei privada. A família
vem sendo minada por estes recursos substitutos e pelas babás eletrônicas
nos lares, devido à ausência física e afetiva de muitos pais, os quais estão
totalmente envolvidos no trabalho e na luta pela sobrevivência.
Não basta estar fisicamente em casa, é preciso responsabilizar-se
efetivamente pela formação de um filho, independente das atribuições
profissionais. Neste campo, há responsabilidades que não se podem delegar
sem assumir os riscos e os custos. Terceirizar as funções familiares é abrir
mão dos bens mais preciosos que os pais recebem; é desistir da
responsabilidade de preparar a próxima geração.
Esta concepção de liberdade sem limites que temos presenciado, impede
a construção do projeto de formação eficaz e acaba por se tornar opressora.
Hoje, tudo tem valor monetário e não mais moral. É a inversão do “ser” pelo
“ter”. Uma vida humana não vale nada diante do imperativo do ter dinheiro
ou um bem material. Mata-se por qualquer coisa. A violência é, em parte,
gerada pela questão monetária e pela falta de valores, embora haja muitos
outros fatores neste contexto. Mas esta negligência, em relação ao valor de
um ser humano, nos convoca à reflexão da responsabilidade dos pais.
Ao direcionar um olhar para a história da transmissão familiar, a igreja,
junto com a escola, era a parceira fiel da família na formação dos valores
morais, éticos e espirituais, de conduta e na construção do homem. O
conceito de Deus, Soberano, Poderoso e Pai que protege, era transmitido
desde cedo, e consolidado nos rituais religiosos.
No cenário atual, em nosso mundo globalizado, tecnológico, encantador
e sedutor, um novo deus, com d minúsculo, está assumindo esse poder na
pós-modernidade: o deus mercado. Esta é uma constatação de muitos
estudiosos preocupados com as questões sociais. A triste constatação é que
cultua-se muito mais esse ídolo do que o Deus Jeová, visto que ele vem
definindo regras de conduta, normas comportamentais, estilos de vida
individual e familiar.
Tudo se apresenta com um sentido utilitário, monetário e material. A
igreja, como instituição, muitas vezes, entra na relação de oferta e consumo.
As pessoas não estabelecem mais vínculos fraternos e religiosos com a
comunidade religiosa, mas transitam na busca em atender suas demandas
monetárias, além da relação entre a oferta e o consumo.
Há igrejas para todos os gostos: “Se não gostei desta aqui, se me aborreci
com o ensino, vou procurar outra, e outra, e outra…” A busca é: o que se
oferta, onde se oferta e o que estou precisando no momento. Não importa
onde, nem depende de vínculos. Como as necessidades materiais estão acima
das espirituais, a busca é pelas bênçãos utilitárias.
Dificilmente encontra-se alguém divulgando campanhas de oração pelo
crescimento espiritual, pela melhoria do relacionamento com Deus ou pela
busca de dons espirituais etc.; mas encontramos muitos buscando
intensamente as bênçãos materiais. Este é o cenário favorável para uma vida
espiritual vazia e superficial, que abre um campo imenso para as distorções
do real significado da vida.
O elemento integrador que forma vínculos e solidifica o indivíduo se
perde nesse contexto. O que resta é a angústia, a ansiedade e a dor da alma.
E quando há o sofrimento, o indivíduo volta-se para Deus na busca do
consolo. Onde há uma oferta de mensagem consoladora, ali está a procura. O
consolo é importante, pois, em um mundo de angústia, vem como bálsamo
que suaviza a dor; já o consolo dissociado, não forma conduta, não organiza
o mundo interior, não estrutura a construção e não dá concretude a obra. A
palavra falada vira mercadoria para atender a um consumo e perde-se a
relação entre o indivíduo e Deus. Neste cenário de inversão de valores, não
há mais limites nessa busca.
Sendo assim, a primeira inserção da Lei é sustentada pela família, e esta
é a base de todas as outras. No entanto, temos presenciado uma dinâmica
familiar que deixa a criança livre para fazer suas próprias escolhas. Sem leis
claras e objetivas, sem os limites bem definidos, o mundo interno da criança
desorganiza-se e vira um caos. Se os pais não sabem dizer “não”, se ficam
paralisados ou apáticos diante das transgressões dos filhos, se são os seus
“amiguinhos”, acomodados em sua individualidade, esta geração não terá a
formação necessária e os subsídios para preparar, adequadamente, a
educação da próxima.
A criança precisa de limites. Quando ela é deixada por conta de si
mesma, entregue à pessoas descomprometidas com sua formação, ou
mesmo, com a TV e o computador, ela fará o que vê e, sem barras que a
impeça, realizará seus mais primitivos impulsos de eliminar o que a
incomoda, mesmo que isso signifique matar.
A mídia mostra, de forma estarrecedora, os efeitos desse mundo familiar
sem leis, sem o efetivo exercício dos representantes da Lei privada. A família
vem sendo minada por estes recursos substitutos e pelas babás eletrônicas
nos lares, devido à ausência física e afetiva de muitos pais, os quais estão
totalmente envolvidos no trabalho e na luta pela sobrevivência.
Não basta estar fisicamente em casa, é preciso responsabilizar-se
efetivamente pela formação de um filho, independente das atribuições
profissionais. Neste campo, há responsabilidades que não se podem delegar
sem assumir os riscos e os custos. Terceirizar as funções familiares é abrir
mão dos bens mais preciosos que os pais recebem; é desistir da
responsabilidade de preparar a próxima geração.
Esta concepção de liberdade sem limites que temos presenciado, impede
a construção do projeto de formação eficaz e acaba por se tornar opressora.
Hoje, tudo tem valor monetário e não mais moral. É a inversão do “ser” pelo
“ter”. Uma vida humana não vale nada diante do imperativo do ter dinheiro
ou um bem material. Mata-se por qualquer coisa. A violência é, em parte,
gerada pela questão monetária e pela falta de valores, embora haja muitos
outros fatores neste contexto. Mas esta negligência, em relação ao valor de
um ser humano, nos convoca à reflexão da responsabilidade dos pais.
Ao direcionar um olhar para a história da transmissão familiar, a igreja,
junto com a escola, era a parceira fiel da família na formação dos valores
morais, éticos e espirituais, de conduta e na construção do homem. O
conceito de Deus, Soberano, Poderoso e Pai que protege, era transmitido
desde cedo, e consolidado nos rituais religiosos.
No cenário atual, em nosso mundo globalizado, tecnológico, encantador
e sedutor, um novo deus, com d minúsculo, está assumindo esse poder na
pós-modernidade: o deus mercado. Esta é uma constatação de muitos
estudiosos preocupados com as questões sociais. A triste constatação é que
cultua-se muito mais esse ídolo do que o Deus Jeová, visto que ele vem
definindo regras de conduta, normas comportamentais, estilos de vida
individual e familiar.
Tudo se apresenta com um sentido utilitário, monetário e material. A
igreja, como instituição, muitas vezes, entra na relação de oferta e consumo.
As pessoas não estabelecem mais vínculos fraternos e religiosos com a
comunidade religiosa, mas transitam na busca em atender suas demandas
monetárias, além da relação entre a oferta e o consumo.
Há igrejas para todos os gostos: “Se não gostei desta aqui, se me aborreci
com o ensino, vou procurar outra, e outra, e outra…” A busca é: o que se
oferta, onde se oferta e o que estou precisando no momento. Não importa
onde, nem depende de vínculos. Como as necessidades materiais estão acima
das espirituais, a busca é pelas bênçãos utilitárias.
Dificilmente encontra-se alguém divulgando campanhas de oração pelo
crescimento espiritual, pela melhoria do relacionamento com Deus ou pela
busca de dons espirituais etc.; mas encontramos muitos buscando
intensamente as bênçãos materiais. Este é o cenário favorável para uma vida
espiritual vazia e superficial, que abre um campo imenso para as distorções
do real significado da vida.
O elemento integrador que forma vínculos e solidifica o indivíduo se
perde nesse contexto. O que resta é a angústia, a ansiedade e a dor da alma.
E quando há o sofrimento, o indivíduo volta-se para Deus na busca do
consolo. Onde há uma oferta de mensagem consoladora, ali está a procura. O
consolo é importante, pois, em um mundo de angústia, vem como bálsamo
que suaviza a dor; já o consolo dissociado, não forma conduta, não organiza
o mundo interior, não estrutura a construção e não dá concretude a obra. A
palavra falada vira mercadoria para atender a um consumo e perde-se a
relação entre o indivíduo e Deus. Neste cenário de inversão de valores, não
há mais limites nessa busca.
Além da escola, a igreja, como parceira da família, contribuía para a
formação do caráter. Os valores cristãos eram ensinados desde cedo,
transmitidos e ensinados com a demarcação dos limites. Desde cedo, a
criança aprendia com a igreja, através do compromisso dos pais na
transmissão da espiritualidade dentro da família. A convivência na igreja
fortalecia os valores cristãos. A programação religiosa era valorizada e fazia
parte da cultura da família.
Quando olhamos para as páginas do Velho Testamento, vemos Deus se
apresentando como um Deus de família: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de
Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó (Êx 3.6 ARC). Um Deus
geracional, que se transmitia de pai para filho. Qual seria a imagem de Deus,
transmitida para os filhos, se ouvissem esta linguagem hoje: “Eu sou o Deus
de teus pais”?
Hoje, muitos pais estão muito mais preocupados com os valores
materiais do que com os espirituais. Alguns chegam a dizer: “Quando meu
filho crescer, decidirá sobre a sua vida espiritual”. Infelizmente, será muito
tarde para implantar os valores formadores que alicerçam uma vida
espiritual consistente.

1.3. A Falência dos Rituais Familiares

Dentre os elementos formadores do conjunto de valores necessários


para a transmissão da cultura, temos os rituais familiares. A cultura de cada
família era construída em torno de rituais que transmitiam-se às gerações
seguintes. A forma de cada família vivenciar seus momentos, alegres ou
tristes, seus ritos de passagens, celebrações, conquistas ou perdas, era
marcada por rituais que perpetuavam-se através das gerações.
Cada família construía seus momentos juntos e dava importância a eles
como cultura familiar. Aniversários, Natal, Ano Novo, almoço de domingo,
cultos religiosos, batismos, casamentos e celebrações constituíam-se como
rituais que eram transmitidos às gerações seguintes. O “estar” juntos, a
família reunida, mesmo que “não unida”, demarcava a importância destes
momentos. Mas, com a modernidade, as demandas individuais ganharam
espaço e provocaram alterações na organização familiar, que não
possibilitaram mais a manutenção destes momentos ritualísticos
significantes e passadores da cultura.
Como consequência, as estruturas familiares estão frágeis, os
relacionamentos superficiais e o adoecimento – emocional, físico e mental –
tornou-se a linguagem que fala do vazio e do sofrimento familiar.
Como a inserção da Lei é efetivada na família e o pai é o representante,
diante da ausência da figura desta Lei na família, surge uma geração de filhos
sem Lei, pedindo à Lei pública que faltou no privado e pedindo socorro com
comportamentos destruidores, em busca de alguém que os interdite.
Infelizmente, a consequência se apresenta diariamente ao nosso redor: pais
enterrando seus filhos cada vez mais jovens, numa inversão da ordem
natural da vida. São vítimas da violência, das drogas e da falta de limites, que
lançam tantos filhos da geração atual ao desamparo e à deriva na vida.
No contexto apresentado, somos levados a refletir sobre a intrigante
questão: Famílias sem história. Uma geração formada em meio à pressa e à
correria, ao isolamento e ao silêncio, que não teve tempo para estabelecer
vínculos fortes, para contar suas histórias, conhecer pela linguagem as
gerações passadas e ter os elementos necessários para a construção de uma
história familiar. Muitos não conhecem nem a sua própria história, quanto
mais a familiar, para se constituírem como passadores na transmissão da
cultura.

Pergunte às gerações anteriores e veja o que os seus pais


aprenderam, pois nós nascemos ontem e não sabemos nada.
Jó 8.8,9 NVI

Lembrem-se dos dias do passado; considerem as gerações há muito


passadas. Perguntem aos seus pais, e estes lhes contarão, aos seus líderes, e
eles lhes explicarão.
Deuteronômio 32.7 NVI

Novamente, a história bíblica serve de subsídio para esta temática,


quando orienta os descendentes judeus que questionassem seus pais sobre as
histórias do passado, para que pudessem conhecer o legado familiar. O
conhecimento da história propicia a transmissão geracional e contribui em
todas as áreas da vida, tanto na hereditariedade biológica, nos transtornos
mentais recorrentes, nas questões emocionais, além do legado espiritual. Na
verdade, o conhecimento da história geracional nos insere na dimensão do
sistema familiar para além das fronteiras do presente, contribuindo para a
vida no presente e para a construção do futuro.
Qual o legado que herdamos? Esta é uma questão que se impõe quando
buscamos os elementos formadores da nossa história familiar. Os pais
deixam um legado que, consciente ou inconscientemente, está marcado em
seus filhos. Escolher em conhecer a história é uma decisão consciente de
quem não quer viver refém de impulsos e reações desconhecidas, algemado a
uma história enigmática, repetindo o que não conseguiu lidar, compreender
e resolver. Muitos escolhem desconhecer seu legado, ficar indiferentes à
história familiar, ou mesmo fazer de conta que não os interessa, e vão
carregando os efeitos e sintomas do legado familiar no corpo e na alma,
como marcas deixadas a ferro e fogo.
Além da escola, a igreja, como parceira da família, contribuía para a
formação do caráter. Os valores cristãos eram ensinados desde cedo,
transmitidos e ensinados com a demarcação dos limites. Desde cedo, a
criança aprendia com a igreja, através do compromisso dos pais na
transmissão da espiritualidade dentro da família. A convivência na igreja
fortalecia os valores cristãos. A programação religiosa era valorizada e fazia
parte da cultura da família.
Quando olhamos para as páginas do Velho Testamento, vemos Deus se
apresentando como um Deus de família: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de
Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó (Êx 3.6 ARC). Um Deus
geracional, que se transmitia de pai para filho. Qual seria a imagem de Deus,
transmitida para os filhos, se ouvissem esta linguagem hoje: “Eu sou o Deus
de teus pais”?
Hoje, muitos pais estão muito mais preocupados com os valores
materiais do que com os espirituais. Alguns chegam a dizer: “Quando meu
filho crescer, decidirá sobre a sua vida espiritual”. Infelizmente, será muito
tarde para implantar os valores formadores que alicerçam uma vida
espiritual consistente.

1.3. A Falência dos Rituais Familiares


Dentre os elementos formadores do conjunto de valores necessários
para a transmissão da cultura, temos os rituais familiares. A cultura de cada
família era construída em torno de rituais que transmitiam-se às gerações
seguintes. A forma de cada família vivenciar seus momentos, alegres ou
tristes, seus ritos de passagens, celebrações, conquistas ou perdas, era
marcada por rituais que perpetuavam-se através das gerações.
Cada família construía seus momentos juntos e dava importância a eles
como cultura familiar. Aniversários, Natal, Ano Novo, almoço de domingo,
cultos religiosos, batismos, casamentos e celebrações constituíam-se como
rituais que eram transmitidos às gerações seguintes. O “estar” juntos, a
família reunida, mesmo que “não unida”,
demarcava a importância destes momentos. Mas, com a modernidade, as
demandas individuais ganharam espaço e provocaram alterações na
organização familiar, que não possibilitaram mais a manutenção destes
momentos ritualísticos significantes e passadores da cultura.
Como consequência, as estruturas familiares estão frágeis, os
relacionamentos superficiais e o adoecimento – emocional, físico e mental –
tornou-se a linguagem que fala do vazio e do sofrimento familiar.
Como a inserção da Lei é efetivada na família e o pai é o representante,
diante da ausência da figura desta Lei na família, surge uma geração de filhos
sem Lei, pedindo à Lei pública que faltou no privado e pedindo socorro com
comportamentos destruidores, em busca de alguém que os interdite.
Infelizmente, a consequência se apresenta diariamente ao nosso redor: pais
enterrando seus filhos cada vez mais jovens, numa inversão da ordem
natural da vida. São vítimas da violência, das drogas e da falta de limites, que
lançam tantos filhos da geração atual ao desamparo e à deriva na vida.
No contexto apresentado, somos levados a refletir sobre a intrigante
questão: Famílias sem história. Uma geração formada em meio à pressa e à
correria, ao isolamento e ao silêncio, que não teve tempo para estabelecer
vínculos fortes, para contar suas histórias, conhecer pela linguagem as
gerações passadas e ter os elementos necessários para a construção de uma
história familiar. Muitos não conhecem nem a sua própria história, quanto
mais a familiar, para se constituírem como passadores na transmissão da
cultura.

Pergunte às gerações anteriores e veja o que os seus pais


aprenderam, pois nós nascemos ontem e não sabemos nada.
Jó 8.8,9 NVI

Lembrem-se dos dias do passado; considerem as gerações há muito


passadas. Perguntem aos seus pais, e estes lhes contarão, aos seus líderes, e
eles lhes explicarão.
Deuteronômio 32.7 NVI

Novamente, a história bíblica serve de subsídio para esta temática,


quando orienta os descendentes judeus que questionassem seus pais sobre as
histórias do passado, para que pudessem conhecer o legado familiar. O
conhecimento da história propicia a transmissão geracional e contribui em
todas as áreas da vida, tanto na hereditariedade biológica, nos transtornos
mentais recorrentes, nas questões emocionais, além do legado espiritual. Na
verdade, o conhecimento da história geracional nos insere na dimensão do
sistema familiar para além das fronteiras do presente, contribuindo para a
vida no presente e para a construção do futuro.
Qual o legado que herdamos? Esta é uma questão que se impõe quando
buscamos os elementos formadores da nossa história familiar. Os pais
deixam um legado que, consciente ou inconscientemente, está marcado em
seus filhos. Escolher em conhecer a história é uma decisão consciente de
quem não quer viver refém de impulsos e reações desconhecidas, algemado a
uma história enigmática, repetindo o que não conseguiu lidar, compreender
e resolver. Muitos escolhem desconhecer seu legado, ficar indiferentes à
história familiar, ou mesmo fazer de conta que não os interessa, e vão
carregando os efeitos e sintomas do legado familiar no corpo e na alma,
como marcas deixadas a ferro e fogo.
Se pensarmos que a maioria das histórias repetidas já tem um final
conhecido na geração anterior, parece estranho que uma pessoa não se dê
conta da repetição. Mas, é bem mais cômodo o lugar de vítima da história, de
responsabilizar a geração passada e deitar-se comodamente na cama da
vitimização, da queixa, da amargura, da revolta e da culpa aos pais, do que
olhar para a própria responsabilidade pela escolha da condição em que quer
viver e da condução que quer dar a própria vida.
Assumir essa responsabilidade é conhecer a história, identificar os
males, elaborar as perdas, fazer o luto da família ideal, abrir o coração para
transformar a dor em palavras, para permitir que as questões passadas
fiquem na única dimensão de tempo que elas devem ficar: no passado.
Quando tomamos consciência de nossa responsabilidade, aprendemos a
lidar com as adversidades da vida, utilizando o tempo que temos – o
presente – como fonte de oportunidade para reescrevermos a história,
ressignificando-a, para que seus efeitos não impossibilitem os sonhos que
queremos realizar no futuro. Passamos a ser agentes da nossa história e
saímos da posição passiva de sofrer a história sem uma ação compatível de
mudança.
Resiliência é o termo utilizado atualmente, para falar desta disposição
de lidar com as adversidades do passado, como aprendizado para o presente.

1.4. Família e Resiliência

O termo resiliência, emprestado da física, tem sido usado nas ciências


humanas há bem pouco tempo, que significa a capacidade de superar as
adversidades e extrair lições para a vida. Ferreira (1996) em seu dicionário
da Língua Portuguesa apresenta a conceituação primária da palavra
resiliência: “Propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo
deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação
elástica”.
Duas conceituações de resiliência, encontradas no dicionário de língua
inglesa Longman Dictionary of Contemporary English (1995), apud YUNES
(2003), auxiliam-nos a entender a aplicação deste termo relacionado às
ciências humanas:

Habilidade de voltar rapidamente para o seu estado de saúde ou de


espírito depois de passar por doenças, dificuldades etc.: resiliência
de caráter. A habilidade de uma substância retornar à sua forma
original quando a pressão é removida: flexibilidade.

Estas duas conceituações, uma no campo da física e a outra na


compreensão comportamental, ajudam-nos a perceber o sentido amplo desta
palavra, que nos remete a capacidade de superar as adversidades da vida e de
manter a sanidade, mesmo em meio a um ambiente insano. Isto significa a
firme decisão de usar todos os recursos internos e externos para tirar lições
das situações contraditórias e difíceis da vida.
A prática clínica nos permite perceber que o termo resiliência pode ser
usado tanto para o indivíduo quanto para a família. Podemos dizer que há
famílias resilientes, que vivenciaram crises, adversidades, e superaram,
através de seus recursos internos como o amor, a unidade, a compreensão, a
fé e o perdão. No entanto, algumas famílias são atingidas, profundamente,
pelos revezes da vida e não conseguem utilizar mecanismos de superação.
São famílias que vão sendo fragmentadas diante das adversidades e, como
consequência, os vínculos afetivos se desfazem.
Mesmo nessas condições, às vezes insanas, alguns indivíduos
conseguem manter a sanidade e encontram recursos para a superação. São
indivíduos resilientes, que aproveitaram os apoios recebidos e
desenvolveram a capacidade de recuperação interna, encarando os
obstáculos de seus objetivos de vida como desafios a serem vencidos.
Embora não haja o termo resiliente na Bíblia, para se referir à
capacidade de superação dos seres humanos diante das adversidades,
encontramos uma passagem do apóstolo Paulo, que infere como uma
condição cristã de fé e confiança em Deus: Em tudo somos atribulados,
porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos,
porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos (2 Co 4.8,9
ARA).
Esta declaração nos faz pensar que, quando temos um sentido de
propósito na vida, visão de futuro e consciência de nossa responsabilidade, é
possível aprender a lidar com as pressões e adversidades, fazendo das
circunstâncias fonte de crescimento para a vida. É sair da vitimização e do
desespero decidido a interpretar as adversidades como uma circunstância e
um aprendizado de vida.
A história do apóstolo Paulo apresenta a vivência desse conceito. Foi
numa prisão romana que ele escreveu a carta aos Filipenses. Uma carta com
um texto singular, marcado de expressões fortalecedoras, afirmando com
convicção e o diferencial que constituiu o conceito de resiliência para ele:
aprendizagem nas adversidades e contentamento como motivação e energia
interna para lutar: Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer
situação (Fp 4.12 NVI).
A aprendizagem faz parte do contexto educacional, como também ser
provado, aprovado ou reprovado. A prova constitui um desafio, mas também
confirma a aprendizagem. Quando queremos ser aprovados, encaramos cada
dificuldade e cada circunstância difícil como um desafio a ser enfrentado
com coragem e determinação. Isto requer disposição interna para lutar e
para enxergar as lições que podem ser aprendidas.
Não estamos isentos de passarmos por lutas e adversidades, mas se
ficarmos mergulhados nelas, será nossa escolha e responsabilidade. O
apóstolo Paulo nos fala dos efeitos das provas em nossa vida, na carta que
escreveu aos Romanos: Porque sabemos que a tribulação produz
perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter
aprovado, esperança (Rm 5.3,4 NVI). Isso significa que desenvolvemos
músculos emocionais quando passamos pelas provas e aprendemos com ela.
Ganhamos consistência para enfrentarmos outras dificuldades e desafios, e
nos tornamos mais ousados, mais corajosos e mais dispostos a cumprir os
propósitos de Deus em nossa vida.

Nota de rodapé

1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1ª. Ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
Se pensarmos que a maioria das histórias repetidas já tem um final
conhecido na geração anterior, parece estranho que uma pessoa não se dê
conta da repetição. Mas, é bem mais cômodo o lugar de vítima da história, de
responsabilizar a geração passada e deitar-se comodamente na cama da
vitimização, da queixa, da amargura, da revolta e da culpa aos pais, do que
olhar para a própria responsabilidade pela escolha da condição em que quer
viver e da condução que quer dar a própria vida.
Assumir essa responsabilidade é conhecer a história, identificar os
males, elaborar as perdas, fazer o luto da família ideal, abrir o coração para
transformar a dor em palavras, para permitir que as questões passadas
fiquem na única dimensão de tempo que elas devem ficar: no passado.
Quando tomamos consciência de nossa responsabilidade, aprendemos a
lidar com as adversidades da vida, utilizando o tempo que temos – o
presente – como fonte de oportunidade para reescrevermos a história,
ressignificando-a, para que seus efeitos não impossibilitem os sonhos que
queremos realizar no futuro. Passamos a ser agentes da nossa história e
saímos da posição passiva de sofrer a história sem uma ação compatível de
mudança.
Resiliência é o termo utilizado atualmente, para falar desta disposição
de lidar com as adversidades do passado, como aprendizado para o presente.
1.4. Família e Resiliência

O termo resiliência, emprestado da física, tem sido usado nas ciências


humanas há bem pouco tempo, que significa a capacidade de superar as
adversidades e extrair lições para a vida. Ferreira (1996) em seu dicionário
da Língua Portuguesa apresenta a conceituação primária da palavra
resiliência: “Propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo
deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação
elástica”.
Duas conceituações de resiliência, encontradas no dicionário de língua
inglesa Longman Dictionary of Contemporary English (1995), apud YUNES
(2003), auxiliam-nos a entender a aplicação deste termo relacionado às
ciências humanas:

Habilidade de voltar rapidamente para o seu estado de saúde ou de


espírito depois de passar por doenças, dificuldades etc.: resiliência
de caráter. A habilidade de uma substância retornar à sua forma
original quando a pressão é removida: flexibilidade.

Estas duas conceituações, uma no campo da física e a outra na


compreensão comportamental, ajudam-nos a perceber o sentido amplo desta
palavra, que nos remete a capacidade de superar as adversidades da vida e de
manter a sanidade, mesmo em meio a um ambiente insano. Isto significa a
firme decisão de usar todos os recursos internos e externos para tirar lições
das situações contraditórias e difíceis da vida.
A prática clínica nos permite perceber que o termo resiliência pode ser
usado tanto para o indivíduo quanto para a família. Podemos dizer que há
famílias resilientes, que vivenciaram crises, adversidades, e superaram,
através de seus recursos internos como o amor, a unidade, a compreensão, a
fé e o perdão. No entanto, algumas famílias são atingidas, profundamente,
pelos revezes da vida e não conseguem utilizar mecanismos de superação.
São famílias que vão sendo fragmentadas diante das adversidades e, como
consequência, os vínculos afetivos se desfazem.
Mesmo nessas condições, às vezes insanas, alguns indivíduos
conseguem manter a sanidade e encontram recursos para a superação. São
indivíduos resilientes, que aproveitaram os apoios recebidos e
desenvolveram a capacidade de recuperação interna, encarando os
obstáculos de seus objetivos de vida como desafios a serem vencidos.
Embora não haja o termo resiliente na Bíblia, para se referir à
capacidade de superação dos seres humanos diante das adversidades,
encontramos uma passagem do apóstolo Paulo, que infere como uma
condição cristã de fé e confiança em Deus: Em tudo somos atribulados,
porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos,
porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos (2 Co 4.8,9
ARA).
Esta declaração nos faz pensar que, quando temos um sentido de
propósito na vida, visão de futuro e consciência de nossa responsabilidade, é
possível aprender a lidar com as pressões e adversidades, fazendo das
circunstâncias fonte de crescimento para a vida. É sair da vitimização e do
desespero decidido a interpretar as adversidades como uma circunstância e
um aprendizado de vida.
A história do apóstolo Paulo apresenta a vivência desse conceito. Foi
numa prisão romana que ele escreveu a carta aos Filipenses. Uma carta com
um texto singular, marcado de expressões fortalecedoras, afirmando com
convicção e o diferencial que constituiu o conceito de resiliência para ele:
aprendizagem nas adversidades e contentamento como motivação e energia
interna para lutar: Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer
situação (Fp 4.12 NVI).
A aprendizagem faz parte do contexto educacional, como também ser
provado, aprovado ou reprovado. A prova constitui um desafio, mas também
confirma a aprendizagem. Quando queremos ser aprovados, encaramos cada
dificuldade e cada circunstância difícil como um desafio a ser enfrentado
com coragem e determinação. Isto requer disposição interna para lutar e
para enxergar as lições que podem ser aprendidas.
Não estamos isentos de passarmos por lutas e adversidades, mas se
ficarmos mergulhados nelas, será nossa escolha e responsabilidade. O
apóstolo Paulo nos fala dos efeitos das provas em nossa vida, na carta que
escreveu aos Romanos: Porque sabemos que a tribulação produz
perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter
aprovado, esperança (Rm 5.3,4 NVI). Isso significa que desenvolvemos
músculos emocionais quando passamos pelas provas e aprendemos com ela.
Ganhamos consistência para enfrentarmos outras dificuldades e desafios, e
nos tornamos mais ousados, mais corajosos e mais dispostos a cumprir os
propósitos de Deus em nossa vida.
Nota de rodapé

1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1ª. Ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
A história do apóstolo Paulo apresenta a vivência desse conceito. Foi
numa prisão romana que ele escreveu a carta aos Filipenses. Uma carta com
um texto singular, marcado de expressões fortalecedoras, afirmando com
convicção e o diferencial que constituiu o conceito de resiliência para ele:
aprendizagem nas adversidades e contentamento como motivação e energia
interna para lutar: Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer
situação (Fp 4.12 NVI).
A aprendizagem faz parte do contexto educacional, como também ser
provado, aprovado ou reprovado. A prova constitui um desafio, mas também
confirma a aprendizagem. Quando queremos ser aprovados, encaramos cada
dificuldade e cada circunstância difícil como um desafio a ser enfrentado
com coragem e determinação. Isto requer disposição interna para lutar e
para enxergar as lições que podem ser aprendidas.
Não estamos isentos de passarmos por lutas e adversidades, mas se
ficarmos mergulhados nelas, será nossa escolha e responsabilidade. O
apóstolo Paulo nos fala dos efeitos das provas em nossa vida, na carta que
escreveu aos Romanos: Porque sabemos que a tribulação produz
perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter
aprovado, esperança (Rm 5.3,4 NVI). Isso significa que desenvolvemos
músculos emocionais quando passamos pelas provas e aprendemos com ela.
Ganhamos consistência para enfrentarmos outras dificuldades e desafios, e
nos tornamos mais ousados, mais corajosos e mais dispostos a cumprir os
propósitos de Deus em nossa vida.

Nota de rodapé

1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1ª. Ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
PARTE
2

FAMÍLIA
UMA ESPECIAL HISTÓRIA DE AMOR

Que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a


percepção.

Para que todos vejam e saibam, considerem e juntamente entendam que a


mão do SENHOR fez isso.
Filipenses 1.9; Isaías 41.20 ARA

Pensando em todos os aspectos sobre os quais já refletimos acerca da


família com todos os desafios da conjugalidade e da vida em família neste
cenário atual, quero lançar um olhar para a família como uma especial
história de amor.
É especial porque o encontro de um homem e uma mulher, movidos
pelo sentimento do amor, vai além do amor romântico e da paixão que os
atraem. Há fatores objetivos e subjetivos nessa escolha — nem sempre
perceptíveis nos primeiros anos de relacionamento, embora seus efeitos
sejam sentidos profundamente ao longo do relacionamento conjugal. E,
geralmente, o que atraiu no primeiro momento poderá ser a causa do
desgaste da relação mais à frente, sendo, para muitos, razão suficiente para
desejar romper o relacionamento. É igualmente especial porque o laço que se
cria entre homem e mulher vai muito mais além da aliança que colocam no
dedo, do compromisso que assumem um com o outro na cerimônia de
casamento, diante de autoridade civil e eclesiástica, familiares, testemunhas
e amigos, e dos juramentos proferidos diante de Deus. A sustentabilidade de
um casamento ultrapassa os rituais, o sentido e o significado que damos à
solenidade do matrimônio.
É ainda especial porque na união conjugal inicia-se a escritura de uma
história de amor, movida inicialmente por sentimentos, identificações,
desejos e idealizações; e que é também o marco inicial que lança os
fundamentos de uma unidade espiritual, que será a depositária da próxima
geração. Neste sentido, não se trata de um encontro casual, vulgar,
superficial; é algo muito mais profundo, de dimensão muito mais ampla, que
vai além do corpo e da alma – um encontro que transcende o visível e o
presente, que projeta o casal para o futuro e para a eternidade das gerações
que perpetuarão.
Portanto, uma especial história de amor vai além das lutas e das
dificuldades da vida a dois, das diferenças, dos conflitos tão presentes em
nossa humanidade, além das alegrias e das tristezas, da saúde e da doença,
da riqueza e da pobreza, das perdas e dos ganhos, das lágrimas e dos risos,
dos momentos felizes ou dos momentos angustiantes; e tudo isto junto, em
um mosaico de culturas, permite escrever uma história única, singular e com
suas especificidades, pois cada casal escreve a sua própria história de amor.

O QUE É O AMOR?

O que é este sentimento que inspira os poetas, que encanta e enleva os


namorados, que é procurado como um tesouro precioso, que suaviza a dor e
que faz o coração bater mais forte? Quando presente, o amor torna-se a
motivação para a vida, impulsiona e encoraja o ser humano, faz da vida um
sorriso e resulta em felicidade. Porém, quando está ausente, aniquila a alma,
amarga a vida e leva à morte. Sim, porque no mundo inteiro pessoas morrem
mais de fome de amor do que de fome biológica. Quando vemos na televisão
crianças esqueléticas, morrendo de fome, porque lhes falta alimento para
nutri-las, ficamos estarrecidos com imagens tão chocantes, mas sabemos que
questões políticas e socioeconômicas estão nos bastidores daquele descaso;
ou seja, um verdadeiro holocausto humano. Mas, à nossa volta, há pessoas
morrendo no isolamento afetivo, na falta de amor, na solidão existencial,
porque lhes faltam relacionamentos significativos.
Podemos falar e escrever sobre o amor poeticamente, conceitualmente;
ou como nos dicionários, descritivamente; ou o amor expresso em ações, mas
nem assim esgotaríamos a temática amor em todas as suas dimensões.
Há ainda uma expressão muito usada para falar do amor, a qual se
refere ao encontro de um homem e uma mulher: fazer amor. Um amor
simbolizado em um ato, um ato casual, que não exige afeto, bastando apenas
o desejo. Não é ter amor – é fazer amor.
A Bíblia tem uma conceituação bem ampla e profunda sobre o amor. Ela
foi escrita pelo apóstolo Paulo, e ele afirma que o amor é um caminho que se
escolhe para trilhar: E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho
sobremodo excelente (1 Co 12.31 ARA).
O capítulo 13 da mesma epístola descreve este caminho excelente do
amor como uma atitude interior, uma disposição do coração e da mente para
buscar o bem do outro: O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja,
não se vangloria, não se orgulha, Não maltrata, não procura seus
interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra
com a injustiça, mas se alegra com a verdade (1 Co 13.4-6 NVI).
Esse texto chama a atenção e convoca à reflexão, porque o versículo
subsequente mostra que a escritura de uma história de amor tem sofrimento,
exige fé, ancora-se na esperança, busca forças para suportar, e, o principal,
jamais acaba: tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor
jamais acaba (1 Co 13.7,8 ARA). É um amor que transcende a compreensão
do amor idealizado pelos enamorados. Lembrando que o texto diz que o
amor é um caminho sobremodo excelente. Que caminho é esse? Como
compreender a excelência do amor? No entanto, é esse amor que permeia as
páginas das Escrituras Sagradas, que se revela no amor de Deus, o amor que
lança fora o medo. Logo, a trajetória deste caminho produz amadurecimento.
A Bíblia diz em 1 João 4.18 (ARA) que o perfeito amor lança fora o
medo. Não o perfeito amor de pessoas perfeitas, mas o amor de pessoas
humanas, imperfeitas, que decidiram amar e fortalecer esse amor no amor
perfeito de Deus, a fonte do verdadeiro amor. Pessoas que decidem lutar,
caminhar e não desistir jamais.
A disposição de amar faz parte da vida dos enamorados. Todo casal
idealiza a sua própria história de amor, sempre com muito romantismo. E,
cada um projeta no outro a resposta às suas carências de amor não supridas
na família de origem, esperando, assim, seu suprimento no relacionamento
conjugal. Mas, logo após o casamento, a idealização começa a cair por terra,
porque o marido não supre as carências de pai, nem a esposa supre as de
mãe – é outra dimensão de amor. Logo começam as primeiras crises, como a
crise entre o ideal e o real, e neste momento, os sonhos parecem desmoronar.
Na verdade, toda relação humana é marcada por crises, e todo casal tem
conflitos e crises. As crises no casamento devem servir para crescimento
pessoal e conjugal, e não como motivo para o fim do relacionamento. A crise
abre a possibilidade de fundamentar a relação em bases reais, de
compreender que uma história é feita com os recortes que cada um recebe da
sua história anterior. Cada cônjuge traz uma história familiar marcada a
ferro e fogo em sua alma, e será preciso olhar essa história, identificar o
legado recebido, o que se quer preservar, o que será preciso trabalhar para
mudar e para não repetir histórias das quais o final já é conhecido, os
desafios a serem enfrentados e a disposição de cada um em empreender um
caminho que, mesmo com a certeza das lutas e das adversidades que virão,
trilharão juntos para escreverem uma história de amor.
Quando a crise leva ao desmoronamento do relacionamento, as questões
não são identificadas em sua profundidade, e a desistência apenas adia o
confronto. Cada um fecha-se em suas defesas, e para proteger-se da dor,
prefere fugir, desistir. Mas, quando um homem ama uma mulher e vice-
versa, esse amor fala mais alto e faz com que seus corações quebrantem-se e
voltem-se um para o outro; e em nome desse amor, eles podem decidir
percorrer esse caminho, que vai requerer empenho, renúncias, perdão e o
contínuo trabalhar de melhoria interna na relação consigo mesmo e com o
outro.
Uma história de amor escreve-se e inscreve-se ao longo do processo de
amadurecimento de um homem e de uma mulher que decidiram unir-se pelo
vínculo do amor e estão dispostos a ultrapassar todas as etapas da
caminhada em busca do significado e da sabedoria da vida conjugal – um
grande desafio!

2.1. Resolvendo o Passado para Edificar no Presente os Fundamentos da


Geração do Futuro

Podemos dizer que esta história é escrita, criada, recriada e reinventada


nos três tempos da vida: passado, presente e futuro. É um trabalhar
constante, de operosos trabalhadores que sabem que colocaram a mão no
“arado” e não podem voltar atrás.
O capítulo 13 da mesma epístola descreve este caminho excelente do
amor como uma atitude interior, uma disposição do coração e da mente para
buscar o bem do outro: O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja,
não se vangloria, não se orgulha, Não maltrata, não procura seus
interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra
com a injustiça, mas se alegra com a verdade (1 Co 13.4-6 NVI).
Esse texto chama a atenção e convoca à reflexão, porque o versículo
subsequente mostra que a escritura de uma história de amor tem sofrimento,
exige fé, ancora-se na esperança, busca forças para suportar, e, o principal,
jamais acaba: tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor
jamais acaba (1 Co 13.7,8 ARA). É um amor que transcende a compreensão
do amor idealizado pelos enamorados. Lembrando que o texto diz que o
amor é um caminho sobremodo excelente. Que caminho é esse? Como
compreender a excelência do amor? No entanto, é esse amor que permeia as
páginas das Escrituras Sagradas, que se revela no amor de Deus, o amor que
lança fora o medo. Logo, a trajetória deste caminho produz amadurecimento.
A Bíblia diz em 1 João 4.18 (ARA) que o perfeito amor lança fora o
medo. Não o perfeito amor de pessoas perfeitas, mas o amor de pessoas
humanas, imperfeitas, que decidiram amar e fortalecer esse amor no amor
perfeito de
Deus, a fonte do verdadeiro amor. Pessoas que decidem lutar, caminhar e
não desistir jamais.
A disposição de amar faz parte da vida dos enamorados. Todo casal
idealiza a sua própria história de amor, sempre com muito romantismo. E,
cada um projeta no outro a resposta às suas carências de amor não supridas
na família de origem, esperando, assim, seu suprimento no relacionamento
conjugal. Mas, logo após o casamento, a idealização começa a cair por terra,
porque o marido não supre as carências de pai, nem a esposa supre as de
mãe – é outra dimensão de amor. Logo começam as primeiras crises, como a
crise entre o ideal e o real, e neste momento, os sonhos parecem desmoronar.
Na verdade, toda relação humana é marcada por crises, e todo casal tem
conflitos e crises. As crises no casamento devem servir para crescimento
pessoal e conjugal, e não como motivo para o fim do relacionamento. A crise
abre a possibilidade de fundamentar a relação em bases reais, de
compreender que uma história é feita com os recortes que cada um recebe da
sua história anterior. Cada cônjuge traz uma história familiar marcada a
ferro e fogo em sua alma, e será preciso olhar essa história, identificar o
legado recebido, o que se quer preservar, o que será preciso trabalhar para
mudar e para não repetir histórias das quais o final já é conhecido, os
desafios a serem enfrentados e a disposição de cada um em empreender um
caminho que, mesmo com a certeza das lutas e das adversidades que virão,
trilharão juntos para escreverem uma história de amor.
Quando a crise leva ao desmoronamento do relacionamento, as questões
não são identificadas em sua profundidade, e a desistência apenas adia o
confronto. Cada um fecha-se em suas defesas, e para proteger-se da dor,
prefere fugir, desistir. Mas, quando um homem ama uma mulher e vice-
versa, esse amor fala mais alto e faz com que seus corações quebrantem-se e
voltem-se um para o outro; e em nome desse amor, eles podem decidir
percorrer esse caminho, que vai requerer empenho, renúncias, perdão e o
contínuo trabalhar de melhoria interna na relação consigo mesmo e com o
outro.
Uma história de amor escreve-se e inscreve-se ao longo do processo de
amadurecimento de um homem e de uma mulher que decidiram unir-se pelo
vínculo do amor e estão dispostos a ultrapassar todas as etapas da
caminhada em busca do significado e da sabedoria da vida conjugal – um
grande desafio!

2.1. Resolvendo o Passado para Edificar no Presente os Fundamentos da


Geração do Futuro

Podemos dizer que esta história é escrita, criada, recriada e reinventada


nos três tempos da vida: passado, presente e futuro. É um trabalhar
constante, de operosos trabalhadores que sabem que colocaram a mão no
“arado” e não podem voltar atrás.
Resolvendo o passado para edificar no presente os fundamentos da
geração do futuro: esta é uma temática desafiadora neste cenário atual
devido às fragilidades dos laços familiares. Há uma intensa busca pelo
sucesso sem olhar as histórias do passado, sem tratar as questões pendentes.
Na ansiedade de buscar reconhecimento e realização, o que vemos é uma
geração de pessoas marcadas pela inconstância, na gangorra do
ganha/perde, vivendo sintomas intensos da angústia do desamparo que as
tomam, tendo atitudes precipitadas que revelam a autossabotagem
inconsciente das questões emocionais não resolvidas em sua história de vida.
Conquistam, mas não se autorizam a desfrutar do que conquistam, não
sustentam o ser bem-sucedido, e as atitudes e comportamentos revelam a
autossabotagem.
Resolvendo o passado – assim mesmo, no gerúndio, porque as questões
do passado retornam, convocam a reflexão, a resolução a cada dia e sempre
um pouco mais, em um processo de crescimento permanente em busca da
melhoria interna, para que produza seus efeitos nos comportamentos e
relacionamentos.
Se olharmos a linha do tempo e o caminho percorrido, só poderemos
olhar subjetivamente, em nossa memória. Não há como mudar nada, o
caminho já está cimentado. Podemos trazer à memória as situações vividas,
as emoções sentidas, mas não podemos alterar os fatos.
Compreender a função do passado, desse etéreo tempo que já não mais
existe, é não se aprisionar. As grades dessa prisão, embora invisíveis,
paralisam a alma e impedem o crescimento e o desenvolvimento, impedem a
apropriação das oportunidades do presente e impossibilitam os sonhos do
futuro. Quantos querem escrever uma história de amor, mas encontram-se
prisioneiros das dores do passado! Trazem uma alma ferida pelas
machucaduras produzidas no passado, e fecham-se na dor, com medo de
amar e sofrer.
Segundo David Viscott, a dor pode ser nomeada nos três tempos da vida.
No presente, a dor é sentida como mágoa; no passado, é lembrada como
raiva e no futuro, é percebida como ansiedade. Quando uma pessoa magoa
outra, abre uma ferida na alma, e a dor é sentida no presente, mas, com o
tempo, ela será menos sentida, menos percebida e, às vezes, até mesmo
“esquecida”. Na verdade, ela vai para outra dimensão do tempo, fica
guardada, recalcada, na memória. Os efeitos são apenas percebidos por meio
das defesas que aquela dor construiu. Um dia, quando esta pessoa for ferida
novamente, vai acionar aquela antiga e velha dor, e o sentimento que vai
imergir do passado se somará à dor do presente, o que será sentido como
raiva.
Como resultado, a pessoa vive o presente, em constante agitação na
alma, tentando proteger-se de sofrer amanhã a dor que já conhece de ontem,
e isto resulta em ansiedade. Cada vez que a mente detecta uma “ameaça”,
real ou imaginária, a agitação comparece, produzindo um estado interno de
tensões, resultando em um estilo de vida agitado. Na tentativa de
autoproteger-se, a tendência é retrair-se nos relacionamentos por causa do
medo de ser ferida novamente, o que acaba acontecendo com muita
frequência. A pessoa torna-se refém emocional dos sofrimentos passados.
Logo, a dor não tratada contamina o passado, o presente e o futuro.
O desafio amplia-se, pois não se limita apenas a desprender-se
livremente do passado. É preciso edificar no presente – o tempo da ação.
Não ações precipitadas, impulsivas, destruidoras, mas ações responsáveis,
planejadas, que se perpetuem no futuro. É o tempo da construção dos
fundamentos para a geração do futuro, do que queremos preservar da nossa
família de origem; de compreender que uma estrutura familiar é feita de
funções e papéis, os quais tem objetivos muito bem definidos. Como pedras
sólidas, firmadas na rocha, cada um tem seu lugar e sua importância para a
edificação. Em sua sabedoria, Salomão deixou bem claro os elementos
essenciais que precisamos no presente para a nossa edificação: Com a
sabedoria se edifica a casa, e com a inteligência ela se firma; e pelo
conhecimento se encherão as câmaras de todas as substâncias preciosas e
deleitáveis (Pv 24.3,4 ARC).
O desafio amplia-se mais ainda quando entendemos a responsabilidade
que temos com a geração do futuro. As decisões que tomamos no presente
têm seus efeitos no presente e no futuro, mas, no que diz respeito à família,
podemos afirmar que todas as decisões que tomamos afetarão o futuro.
Mesmo que no presente as decisões possam, à primeira vista, produzir
efeitos agradáveis, se negligenciarmos princípios e responsabilidades
assumidas, os efeitos serão desastrosos no futuro. A lei da semeadura e da
colheita é uma lei inexorável, imutável.
Portanto, o presente é o tempo da edificação. Toda construção inicia-se
quando lançamos as bases para a fundação. Estas bases devem ser sólidas,
sustentáveis e bem estruturadas, para que a construção seja bem edificada e
permaneça firme diante das tempestades da vida.
Onde nos capacitamos para esta edificação no presente? Em nossa
família de origem. A família é o cenário de treinamento para todos os papéis
e funções que vamos ocupar na vida. E lá que somos preparados para lidar
com a vida, com a gente mesmo e com o outro. Na família, forjamos os
instrumentos e as ferramentas necessárias para o desempenho das
atribuições que teremos na vida adulta. É o lugar de transmissão geracional,
de construção de identidade, de preparação para a vida. Na família,
aprendemos sobre relacionamentos, recebemos crenças e valores e lançamos
as bases para o sucesso ou o fracasso em nossa vida.
Resolvendo o passado – assim mesmo, no gerúndio, porque as questões
do passado retornam, convocam a reflexão, a resolução a cada dia e sempre
um pouco mais, em um processo de crescimento permanente em busca da
melhoria interna, para que produza seus efeitos nos comportamentos e
relacionamentos.
Se olharmos a linha do tempo e o caminho percorrido, só poderemos
olhar subjetivamente, em nossa memória. Não há como mudar nada, o
caminho já está cimentado. Podemos trazer à memória as situações vividas,
as emoções sentidas, mas não podemos alterar os fatos.
Compreender a função do passado, desse etéreo tempo que já não mais
existe, é não se aprisionar. As grades dessa prisão, embora invisíveis,
paralisam a alma e impedem o crescimento e o desenvolvimento, impedem a
apropriação das oportunidades do presente e impossibilitam os sonhos do
futuro. Quantos querem escrever uma história de amor, mas encontram-se
prisioneiros das dores do passado! Trazem uma alma ferida pelas
machucaduras produzidas no passado, e fecham-se na dor, com medo de
amar e sofrer.
Segundo David Viscott, a dor pode ser nomeada nos três tempos da vida.
No presente, a dor é sentida como mágoa; no passado, é lembrada como
raiva e no futuro, é percebida como ansiedade. Quando uma pessoa magoa
outra, abre uma ferida na alma, e a dor é sentida no presente, mas, com o
tempo, ela será menos sentida, menos percebida e, às vezes, até mesmo
“esquecida”. Na verdade, ela vai para outra dimensão do tempo, fica
guardada, recalcada, na memória. Os efeitos são apenas percebidos por meio
das defesas que aquela dor construiu. Um dia, quando esta pessoa for ferida
novamente, vai acionar aquela antiga e velha dor, e o sentimento que vai
imergir do passado se somará à dor do presente, o que será sentido como
raiva.
Como resultado, a pessoa vive o presente, em constante agitação na
alma, tentando proteger-se de sofrer amanhã a
dor que já conhece de ontem, e isto resulta em ansiedade. Cada vez que a
mente detecta uma “ameaça”, real ou imaginária, a agitação comparece,
produzindo um estado interno de tensões, resultando em um estilo de vida
agitado. Na tentativa de autoproteger-se, a tendência é retrair-se nos
relacionamentos por causa do medo de ser ferida novamente, o que acaba
acontecendo com muita frequência. A pessoa torna-se refém emocional dos
sofrimentos passados. Logo, a dor não tratada contamina o passado, o
presente e o futuro.
O desafio amplia-se, pois não se limita apenas a desprender-se
livremente do passado. É preciso edificar no presente – o tempo da ação.
Não ações precipitadas, impulsivas, destruidoras, mas ações responsáveis,
planejadas, que se perpetuem no futuro. É o tempo da construção dos
fundamentos para a geração do futuro, do que queremos preservar da nossa
família de origem; de compreender que uma estrutura familiar é feita de
funções e papéis, os quais tem objetivos muito bem definidos. Como pedras
sólidas, firmadas na rocha, cada um tem seu lugar e sua importância para a
edificação. Em sua sabedoria, Salomão deixou bem claro os elementos
essenciais que precisamos no presente para a nossa edificação: Com a
sabedoria se edifica a casa, e com a inteligência ela se firma; e pelo
conhecimento se encherão as câmaras de todas as substâncias preciosas e
deleitáveis (Pv 24.3,4 ARC).
O desafio amplia-se mais ainda quando entendemos a responsabilidade
que temos com a geração do futuro. As decisões que tomamos no presente
têm seus efeitos no presente e no futuro, mas, no que diz respeito à família,
podemos afirmar que todas as decisões que tomamos afetarão o futuro.
Mesmo que no presente as decisões possam, à primeira vista, produzir
efeitos agradáveis, se negligenciarmos princípios e responsabilidades
assumidas, os efeitos serão desastrosos no futuro. A lei da semeadura e da
colheita é uma lei inexorável, imutável.
Portanto, o presente é o tempo da edificação. Toda construção inicia-se
quando lançamos as bases para a fundação. Estas bases devem ser sólidas,
sustentáveis e bem estruturadas, para que a construção seja bem edificada e
permaneça firme diante das tempestades da vida.
Onde nos capacitamos para esta edificação no presente? Em nossa
família de origem. A família é o cenário de treinamento para todos os papéis
e funções que vamos ocupar na vida. E lá que somos preparados para lidar
com a vida, com a gente mesmo e com o outro. Na família, forjamos os
instrumentos e as ferramentas necessárias para o desempenho das
atribuições que teremos na vida adulta. É o lugar de transmissão geracional,
de construção de identidade, de preparação para a vida. Na família,
aprendemos sobre relacionamentos, recebemos crenças e valores e lançamos
as bases para o sucesso ou o fracasso em nossa vida.
Como saímos de nossa família de origem define se estamos liberados
para a vida adulta ou se vamos ficar aprisionados à infância mal resolvida,
dependentes de papai e de mamãe para assumirmos responsabilidades. Esta
dependência articula-se tanto no amor quanto na dor. O amor que
recebemos de nossos pais produz a liberdade para, como filhos adultos,
deixarmos pai e mãe, sermos liberados para construirmos nossa própria
história. Ou, como filhos aprisionados aos pais, [ficamos] à espera de
aceitação e reconhecimento, como eternos cobradores de uma dívida
impagável, que nem a morte é suficiente para quitar. É assim que muitos
caminham, esperando o suprimento que faltou e não avançando no processo
de crescimento, pois preferem ficar deitados na cama da vitimização. Sem
assumirem a responsabilidade pela transformação interna para caminhar
para a vida adulta e madura, ficam cultivando suas feridas da alma, trazendo
danos reais à construção de sua história conjugal.
A história de um casal é um exemplo do quanto às sequelas do passado
podem interferir na construção da conjugalidade. Eles buscam ajuda como
última tentativa para evitar a separação que já se configurava no
relacionamento. Um casal jovem, bonito, inteligente e bem-sucedido na vida
profissional, com uma trajetória que os qualificava para serem vistos como
casal modelo, mas alguma coisa com a qual eles não conseguiam lidar fê-los
mergulhar em uma crise destruidora.
Os desentendimentos comuns, que todo casal tem, estavam
transformando-se em momentos terríveis e frequentes. Geralmente, a crise
começava em eventos, quando a esposa tomava alguma bebida alcoólica. O
marido repreendia-a para não beber, o que a deixava irritada, e daí para
frente, qualquer coisa tornava-se motivo para discussão, e ele alegava que a
culpa era dela. Quando chegavam a casa, a briga tomava tal proporção, que
ela reagia com crises de fúria e batia com a própria cabeça na parede. Ele
ficava apavorado e parava de brigar. Ele disse: “Não suporto mais essa
situação e não quero continuar casado com uma mulher desequilibrada, que
se autodestrói”.
Mapear a história individual daquele casal trouxe as informações
necessárias para perceber o que cada um trazia da família de origem, que
estava comparecendo na relação conjugal.
Ele teve um pai alcoolista, que chegava a casa agredindo sua mãe. Seu
relacionamento com o pai era distante e abrigava raivas ocultas pelo seu
comportamento agressivo com a esposa e os filhos. Ele sempre fora o
defensor da mãe, e agora, quando repreendia a esposa para não beber, era
simplesmente sua forma de protegê-la do descontrole que viria como
resultado da bebida – cenas que estavam bem presentes em sua mente, nas
lembranças dolorosas do pai alcoolizado.
Ela era filha de uma mulher com um histórico bem complicado. Sua avó
materna tinha saído de casa com a filha, deixado a família de origem por
uma cidade grande, para trabalhar. E para fazer isto com uma filha pequena,
ensinou-a desde cedo a não incomodar os moradores da casa onde foi
acolhida. A menina cresceu, tornou-se adulta, casou e a maternidade veio.
No entanto, ela havia aprendido a não incomodar, e com isto, também
aprendeu a reprimir suas emoções, desenvolvendo uma saúde fragilizada.
A esposa de nossa história via a mãe sempre em seu quarto com alguma
dor (geralmente, enxaqueca). Ela lembra que, quando pequena, presenciou
uma briga dos pais em que o pai dizia que ia embora. Ela começou a chorar
desesperadamente, e o pai disse que só não iria embora por causa dos filhos.
Assim, ela tornou-se uma “criança chorona e dramática”, era o que seus
familiares diziam. Em todos os conflitos que tinha com outras crianças, a
mãe sempre a culpava. “Devo ser mesmo a culpada pelo sofrimento da minha
mãe”, ela passou a acreditar. Cresceu com muita raiva de tudo, com
dificuldades de relacionamento com a mãe e chamava a atenção desta se
machucando.
Como o seu conceito em relação à mãe era que esta era sempre muito
subserviente ao pai, decidiu para sua vida que nunca iria aceitar que um
homem tivesse autoridade sobre ela e que nunca seria igual à mãe. “Não
quero ser igual à minha mãe, não quero ter filhos”, afirmou.
Como esta moça iria permitir-se ser feliz, receber a proteção do marido,
se ela ainda tinha bem latente em seu interior a menina chorona e dramática,
aprisionada pelas raivas não resolvidas contra a mãe e o pai? Ela saiu de
casa, mas não saiu adulta para edificar um relacionamento conjugal
estruturado. Era preciso identificar as pendências do passado para resolvê-
las.
À medida que a história foi sendo elaborada, a ira foi esvaziando-se e o
vazio da solidão foi tomando o seu lugar. Da moça agitada e briguenta, surge
a menina triste, deprimida, perdendo o interesse pelas coisas de que gostava,
buscando a proteção da figura masculina. É assim que muitas vezes a
depressão configura-se: a raiva dirigida ao outro é redirecionada pra si
mesmo. Na verdade, ela já estava lá, mascarada pela agitação e pela
ansiedade. Da análise da história, abriu-se a possibilidade de surgir a mulher
adulta, liberada para construir sua própria história e tomar suas próprias
decisões.
Para compreendermos a importância da autoridade na estruturação
psíquica, precisamos retomar o lugar da Lei na vida do ser humano, desde a
sua constituição.
A visão bíblica sobre autoridade ajuda-nos a compreender estas
questões pela ótica espiritual. Dois textos bíblicos permitem-nos um olhar
para além destas questões:

Você estava no Éden, no jardim de Deus; […] Você foi ungido como
um querubim guardião, pois para isso eu o designei. Você estava
no monte santo de Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes.
Você era inculpável em seus caminhos desde o dia em que foi
criado até que se achou maldade em você.
Ezequiel 28.13-15 NVI

A Bíblia afirma, em diversas passagens, que Deus criou o Universo


celestial e os seres celestiais. Lúcifer é descrito como um anjo criado a serviço
de Deus. Seu nome significava “anjo de luz”. Compreendemos que tudo o que
Deus fez apresenta organização e hierarquia. Deus é Deus de autoridade e de
Lei – a fonte da Lei. A lei organiza, harmoniza e produz equilíbrio. Logo, a
subversão da lei desestrutura e gera o caos.
O texto bíblico, por inferência, diz-nos que Lúcifer propõe no seu
coração ser igual a Deus, de assentar-se no Seu trono: a soberba, a
autossuficiência e o orgulho tomam o seu coração. A queda foi a
consequência imediata.

Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada!


Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! Você, que
dizia no seu coração: “Subirei aos céus; erguerei o meu trono
acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da
assembléia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais
alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo”. Mas às
profundezas do Sheol você será levado, irá ao fundo do abismo!
Isaías 14.12-15 NVI

A criatura rebela-se contra o criador. Ele subverte a Lei, a ordem e a


hierarquia celestial e é expulso da presença de Deus. A queda resultou na
perda de identidade: ele, Lúcifer, anjo de luz, transforma-se em Satanás,
príncipe das trevas. Ele inaugurou o caminho da rebelião e também o da
feitiçaria.
No desejo de ser igual a Deus, ele queria dois atributos essenciais que
Deus é em relação ao ser humano: Lúcifer queria ser criador e pai. Mas ele
não tem em si o poder criador, e seu trabalho é copiar e distorcer o que Deus
criou. É o pai da pirataria. Como queria ser pai e a única paternidade
outorgada a ele é a da mentira, sua estratégia maligna foi trabalhar nas falhas
da paternidade [humana], implantando o sentimento de orfandade, e neste
vazio, procura, com uma distorção da paternidade, ocupar o lugar de Deus
no coração do ser humano. Ele procura deslocar o lugar do pai no coração de
um filho, implantando o sentimento de orfandade. A perversão remete-nos a
esta questão da subversão da Lei, uma versão distorcida do pai.
No livro de Gênesis, o relato da criação traz-nos a importância da Lei e
da ordem. Deus criou o homem e deu-lhe as diretrizes para gerenciar a
criação. Estabeleceu a Lei e os limites para a existência do homem no Éden:
ele podia comer de toda árvore do jardim, exceto da árvore do conhecimento
do bem e do mal. Havia uma restrição, um limite, um exercício permanente
do livre-arbítrio do homem: obedecer a Deus. O homem recebeu a
autoridade delegada pelo Senhor para estabelecer a ordem na primeira
família. Deus estabeleceu uma lei para nortear o ser humano em sua
estruturação psíquica.

À medida que a história foi sendo elaborada, a ira foi esvaziando-se e o


vazio da solidão foi tomando o seu lugar. Da moça agitada e briguenta, surge
a menina triste, deprimida, perdendo o interesse pelas coisas de que gostava,
buscando a proteção da figura masculina. É assim que muitas vezes a
depressão configura-se: a raiva dirigida ao outro é redirecionada pra si
mesmo. Na verdade, ela já estava lá, mascarada pela agitação e pela
ansiedade. Da análise da história, abriu-se a possibilidade de surgir a mulher
adulta, liberada para construir sua própria história e tomar suas próprias
decisões.
Para compreendermos a importância da autoridade na estruturação
psíquica, precisamos retomar o lugar da Lei na vida do ser humano, desde a
sua constituição.
A visão bíblica sobre autoridade ajuda-nos a compreender estas
questões pela ótica espiritual. Dois textos bíblicos permitem-nos um olhar
para além destas questões:
Você estava no Éden, no jardim de Deus; […] Você foi ungido como
um querubim guardião, pois para isso eu o designei. Você estava
no monte santo de Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes.
Você era inculpável em seus caminhos desde o dia em que foi
criado até que se achou maldade em você.
Ezequiel 28.13-15 NVI

A Bíblia afirma, em diversas passagens, que Deus criou


o Universo celestial e os seres celestiais. Lúcifer é descrito como um anjo
criado a serviço de Deus. Seu nome significava “anjo de luz”.
Compreendemos que tudo o que Deus fez apresenta organização e
hierarquia. Deus é Deus de autoridade e de Lei – a fonte da Lei. A lei
organiza, harmoniza e produz equilíbrio. Logo, a subversão da lei
desestrutura e gera o caos.
O texto bíblico, por inferência, diz-nos que Lúcifer propõe no seu
coração ser igual a Deus, de assentar-se no Seu trono: a soberba, a
autossuficiência e o orgulho tomam o seu coração. A queda foi a
consequência imediata.

Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada!


Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! Você, que
dizia no seu coração: “Subirei aos céus; erguerei o meu trono
acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da
assembléia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais
alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo”. Mas às
profundezas do Sheol você será levado, irá ao fundo do abismo!
Isaías 14.12-15 NVI

A criatura rebela-se contra o criador. Ele subverte a Lei, a ordem e a


hierarquia celestial e é expulso da presença de Deus. A queda resultou na
perda de identidade: ele, Lúcifer, anjo de luz, transforma-se em Satanás,
príncipe das trevas. Ele inaugurou o caminho da rebelião e também o da
feitiçaria.
No desejo de ser igual a Deus, ele queria dois atributos essenciais que
Deus é em relação ao ser humano: Lúcifer queria ser criador e pai. Mas ele
não tem em si o poder criador, e seu trabalho é copiar e distorcer o que Deus
criou. É o pai da pirataria. Como queria ser pai e a única paternidade
outorgada a ele é a da mentira, sua estratégia maligna foi trabalhar nas falhas
da paternidade [humana], implantando o sentimento de orfandade, e neste
vazio, procura, com uma distorção da paternidade, ocupar o lugar de Deus
no coração do ser humano. Ele procura deslocar o lugar do pai no coração de
um filho, implantando o sentimento de orfandade. A perversão remete-nos a
esta questão da subversão da Lei, uma versão distorcida do pai.
No livro de Gênesis, o relato da criação traz-nos a importância da Lei e
da ordem. Deus criou o homem e deu-lhe as diretrizes para gerenciar a
criação. Estabeleceu a Lei e os limites para a existência do homem no Éden:
ele podia comer de toda árvore do jardim, exceto da árvore do conhecimento
do bem e do mal. Havia uma restrição, um limite, um exercício permanente
do livre-arbítrio do homem: obedecer a Deus. O homem recebeu a
autoridade delegada pelo Senhor para estabelecer a ordem na primeira
família. Deus estabeleceu uma lei para nortear o ser humano em sua
estruturação psíquica.

O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar


dele e cultivá-lo. E o Senhor Deus ordenou ao homem: “Coma
livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore
do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela
comer, certamente você morrerá”.
Gênesis 2.15-17 NVI

Os versículos 18,21 e 22 do capítulo 2 de Gênesis descrevem a criação da


mulher:

Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só;
farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”. […] Então o
Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este
dormia, tirou-lhe uma das costelas fechando o lugar com carne.
Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este
adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em
seu lugar. […] Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor
Deus fez uma mulher e a levou até ele.

Deus fez o homem adormecer e trouxe a mulher à existência. É


interessante observar que no nosso idioma, o verbo “adormecer” traz em si a
palavra “– dor –”. Mas ali, naquele momento descrito, não havia dor. Desde
então, a convocação que Deus faz ao homem é: Põe-te de pé. Qualquer
adormecimento do homem em sua posição não será mais um processo
indolor.
Junto com sua companheira e como primeiro casal, Adão recebe a
incumbência de tomar conta do jardim e da criação. Como líder, Adão
adquire as instruções do próprio Deus para transmiti-las à sua mulher.
Satanás prepara, então, sua estratégia para atingir o primeiro casal.
Onde ele caiu e perdeu sua identidade, seu propósito, desde o início é o
mesmo lugar para que cada ser humano cometa o mesmo erro: subverter a
Lei e desonrar a autoridade de Deus. Ele era Lúcifer: anjo de luz. Porém, com
a queda, perdeu sua identidade e transformou-se em Satanás: príncipe das
trevas. O processo da perda de identidade é sempre o mesmo: rebelião,
quebra do princípio de autoridade e subversão da Lei. O resultado é o caos
interno, a desorganização estrutural e a desarmonia emocional –
desautorizado a prosperar e crescer, fica imaturo.
Este é um efetivo trabalho do inimigo, que utiliza todo o seu arsenal
para que isto aconteça. A estratégia ainda é a mesma: vocês serão como Deus
(Gn 3.5 NTLH). No Éden, ele dirigiu-se primeiro à mulher, na contramão da
autoridade instituída. Para Adão, a oferta vem de sua mulher, e ele, não
percebendo o perigo da sutileza maligna, caiu, saiu de sua posição e
desobedeceu à ordem estabelecida por Deus. E Adão não foi iludido, mas a
mulher, sendo enganada, caiu em transgressão (1 Tm 2.14 ARA).
A passagem de Gênesis 3 traz o relato desse momento tão dramático da
história da humanidade. Naquele dia, quando Deus chegou ao Éden, eles não
estavam no lugar de encontro. Deus veio, no horário de sempre: na viração
do dia, quando o dia transformava-se em noite, trazendo o valor da Sua
presença, que iluminava e aquecia Seu relacionamento com o primeiro casal.
A consequência da desobediência desestruturou e desorganizou o
mundo interior de Adão e Eva, e eles escondem-se da única presença que
lhes dava proteção e amparo. A voz de Deus ecoou pelo Jardim: “Adão, onde
estás?” Será que Deus não sabia onde ele estava? É óbvio que sabia! A
questão lançada era confrontadora para Adão. Ele precisava ver-se e escutar
a si mesmo em sua condição de fugitivo da presença de Deus. E ele
respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava
nu; por isso me escondi” (Gn 3.10 NVI).
Naquele momento, eles apresentam os mais primitivos sentimentos que
acompanharão o ser humano em toda a sua existência: medo e vergonha.
Eles sempre estiverem nus, mas não se envergonhavam disso, conforme
Gênesis 2.25: E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se
envergonhavam (ARC). Eles perdem a cobertura, não do corpo, porque
sempre estiveram nus e não se envergonhavam disso, como disse o texto
bíblico, mas da alma: a cobertura da inocência e da pureza, e veem a si
mesmos como des-cobertos (sem cobertura) diante da culpa e da desonra.
Des-cobrir (tirar a cobertura) o que Deus cobriu tornou Adão e Eva
angustiados fugitivos da presença e da Lei divina.
A consequência foi imediata: expulsão do jardim. O Éden, de lugar de
refúgio transformou-se em um paraíso perdido. A perda instala-se na vida
humana. Há também uma expulsão de um simbólico paraíso para cada ser
humano: o paraíso uterino, nosso primeiro refúgio.
Há um diálogo interessante entre Deus e os personagens desse cenário
de desencontros. Adão e Eva foram expulsos, mas antes, as consequências
são apresentadas por Deus a eles e à serpente, ali simbolizada como Satanás.
No entanto, este diálogo também traz orientações para a caminhada
humana, fora do lugar de refúgio e cobertura.
Primeiro, Deus fala à serpente: E porei inimizade entre ti e a mulher e
entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás
o calcanhar (Gn 3.15 ARC). Porém, por que o Senhor não disse: “entre ti, a
mulher e o homem?” Por que Ele também não incluiu o homem?
Penso que a inimizade está posta para homem e mulher, mas,
especialmente aqui, esta referência tem um significado muito especial: é a
mulher quem gera, quem carrega gerações em seu ventre. [A fala de Deus] já
apontava para Jesus, que viria do ventre da mulher para esmagar a cabeça da
serpente, Satanás. No entanto, também aponta para a inimizade instituída
entre a mulher e o diabo, protegendo o que ela acolhe em seu ventre.
É interessante pensar por esse viés, porque nos remete ao cuidado de
Deus com as gerações que a mulher carrega em seu ventre. A inimizade com
Satanás é uma barreira de proteção. Em João 15.14, Jesus, que em Sua
humanidade veio por meio do ventre de uma mulher como aquele que
esmagaria a cabeça da serpente, disse aos Seus discípulos: Vós sois meus
amigos, se fazeis o que eu vos mando (ARA). A amizade com Deus implica
obediência aos Seus princípios, e na questão familiar, os princípios bem
estabelecidos para as funções familiares constituem o alicerce de
estruturação da vida humana. A liderança e a missão de amor e proteção que
o homem exerce na família, ajudado pela mulher em seu lugar de submissão,
dão aceitação da missão masculina e fundamentação necessária para que a
família seja a fundadora da próxima geração.
Na contramão da obediência aos princípios divinos, há as
consequências, e Tiago aponta-as: Aquele, pois, que quiser ser amigo do
mundo constitui-se inimigo de Deus (Tg 4.4 ARA). Nesta compreensão, a
inimizade com Satanás está posta desde o princípio, mas há uma escolha a
ser feita por cada mulher em seu direito de livre-arbítrio: inimizade ou
amizade.
Contudo, o que temos visto hoje? Diante dos textos citados, fazer do
inimigo, amigo, é fazer do amigo, inimigo. A inversão das orientações divinas
traz consequências para a geração seguinte, para os filhos que nascem fora
da proteção do casamento, para as gerações roubadas e saqueadas do direito
de paternidade e maternidade responsáveis, para o direito de proteção,
amparo e segurança na família.
Na continuidade do discurso divino relatado no capítulo 3 de Gênesis,
Deus também fala à mulher, em dois contextos essências para a estrutura
feminina: mãe e mulher: E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua
dor e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu
marido, e ele te dominará (Gn 3.16 ARC). Mais à frente, quando abordar as
funções familiares, retomarei esse texto para falar das implicações que ele
traz para a mulher na construção da sua maternidade e na direção do seu
desejo, na construção de sua feminilidade.
Para o homem, Deus falou a respeito das consequências de sua atitude e
os efeitos desta sobre a terra e sobre o trabalho, e de todo o sofrimento que
viria na luta pela sobrevivência. O versículo 19 de Gênesis 3 conclui dizendo:
Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto
que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará” (NVI). Prover
nutrição para si e para sua família passaria a exigir muito esforço. Mas, como
pão na Bíblia não está restrito apenas ao pão material, que nutre o físico,
posso aqui afirmar que nutrir uma família em toda a dimensão que essa
palavra abrange (física, mental, emocional) exige mais que suor – suor e
lágrimas.
Antes da queda, um princípio foi estabelecido na gênesis da fundação da
família: Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à
sua mulher, e serão ambos uma carne (Gn 2.24 ARC). Deixar pai e mãe para
se unir, para fundar uma nova família e a próxima geração.
Primeiro, Deus fala à serpente: E porei inimizade entre ti e a mulher e
entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás
o calcanhar (Gn 3.15 ARC). Porém, por que o Senhor não disse: “entre ti, a
mulher e o homem?” Por que Ele também não incluiu o homem?
Penso que a inimizade está posta para homem e mulher, mas,
especialmente aqui, esta referência tem um significado muito especial: é a
mulher quem gera, quem carrega gerações em seu ventre. [A fala de Deus] já
apontava para Jesus, que viria do ventre da mulher para esmagar a cabeça da
serpente, Satanás. No entanto, também aponta para a inimizade instituída
entre a mulher e o diabo, protegendo o que ela acolhe em seu ventre.
É interessante pensar por esse viés, porque nos remete ao cuidado de
Deus com as gerações que a mulher carrega em seu ventre. A inimizade com
Satanás é uma barreira de proteção. Em João 15.14, Jesus, que em Sua
humanidade veio por meio do ventre de uma mulher como aquele que
esmagaria a cabeça da serpente, disse aos Seus discípulos: Vós sois meus
amigos, se fazeis o que eu vos mando (ARA). A amizade com Deus implica
obediência aos Seus princípios, e na questão familiar, os princípios bem
estabelecidos para as funções familiares constituem o alicerce de
estruturação da vida humana. A liderança e a missão de amor e proteção que
o homem exerce na família, ajudado pela mulher em seu lugar de submissão,
dão aceitação da missão masculina e fundamentação necessária para que a
família seja a fundadora da próxima geração.
Na contramão da obediência aos princípios divinos, há as
consequências, e Tiago aponta-as: Aquele, pois, que quiser ser amigo do
mundo constitui-se inimigo de Deus (Tg 4.4 ARA). Nesta compreensão, a
inimizade com Satanás está posta desde o princípio, mas há uma escolha a
ser feita por cada mulher em seu direito de livre-arbítrio: inimizade ou
amizade.
Contudo, o que temos visto hoje? Diante dos textos citados, fazer do
inimigo, amigo, é fazer do amigo, inimigo. A inversão das orientações divinas
traz consequências para a geração seguinte, para os filhos que nascem fora
da proteção do casamento, para as gerações roubadas e saqueadas do direito
de paternidade e maternidade responsáveis, para o direito de proteção,
amparo e segurança na família.
Na continuidade do discurso divino relatado no capítulo 3 de Gênesis,
Deus também fala à mulher, em dois contextos essências para a estrutura
feminina: mãe e mulher: E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua
dor e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu
marido, e ele te dominará (Gn 3.16 ARC). Mais à frente, quando abordar as
funções familiares, retomarei esse texto para falar das implicações que ele
traz para a mulher na construção da sua maternidade e na direção do seu
desejo, na construção de sua feminilidade.
Para o homem, Deus falou a respeito das consequências de sua atitude e
os efeitos desta sobre a terra e sobre o trabalho, e de todo o sofrimento que
viria na luta pela sobrevivência. O versículo 19 de Gênesis 3 conclui dizendo:
Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto
que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará” (NVI). Prover
nutrição para si e para sua família passaria a exigir muito esforço. Mas, como
pão na Bíblia não está restrito apenas ao pão material, que nutre o físico,
posso aqui afirmar que nutrir uma família em toda a dimensão que essa
palavra abrange (física, mental, emocional) exige mais que suor – suor e
lágrimas.
Antes da queda, um princípio foi estabelecido na gênesis da fundação da
família: Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à
sua mulher, e serão ambos uma carne (Gn 2.24 ARC). Deixar pai e mãe para
se unir, para fundar uma nova família e a próxima geração.
Na instituição da Lei, quando Deus deu os Dez Mandamentos a Moisés
no Êxodo, o quinto mandamento norteia a cadeia de comando da família
para que se estabeleça o “deixar” abençoado: Honra teu pai e tua mãe, a fim
de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá (Êx 20.12
NVI). Honrar pai e mãe é dar o devido lugar de respeito a eles. E para
afirmar a importância deste princípio para a estruturação da vida humana, o
mandamento é acompanhado de uma promessa essencial: vida longa. O
cumprimento do princípio da honra prepara uma geração para fundar e
formar a seguinte por meio da liberação da bênção.
Deixar em honra é deixar a condição de filho para assumir a condição de
esposo e pai, esposa e mãe; de criança para adulto; de dependência para
independência; de protegido para protetor; de submissão para autoridade, a
fim de que a vida adulta e as responsabilidades inerentes a ela sejam
autorizadas e para fundar uma nova geração. Esta é a condição para que os
fundamentos sólidos para a construção de uma família sejam edificados.
A desonra, por outro lado, impossibilita as bênçãos, não só de quem
“deixa”, mas também de quem permanece na casa, pois estar em casa sem a
disposição interna, mental e emocional de reconhecimento da autoridade
paterna também é desonra. Isto é subversão da Lei na família. E quais são as
consequências?
A vida vira um caos. Aonde a pessoa vai é confrontada com autoridades,
muitas vezes rígidas e cruéis, e as questões de autoridade não resolvidas na
família repetem-se inúmeras vezes. Cria-se uma aversão a qualquer espécie
de cobrança. O que se inscreve como lema de vida, como forma de
resistência, é: “ninguém manda em mim”. Estabelece-se o individualismo
nas relações e o relacionamento conjugal sofrerá os impactos dessa
distorção.

AUTORIZAR-SE A SER

A pessoa pode alcançar a idade cronológica de adulto, mas permanecer


imatura. Sua idade subjetiva não corresponde à idade cronológica. O tempo
lógico ainda não aconteceu para ela. O tempo lógico não se enquadra no
tempo cronológico, objetivo, mensurado. É o tempo utilizado no campo da
psicanálise, que indica que existe um determinado momento para cada
indivíduo compreender e elaborar suas questões. Embora considerada adulta
pela idade cronológica, a criança mal resolvida surge nas ações e reações da
pessoa. As ações são previsíveis e elaboradas mentalmente; a imaturidade
pode não ser tão perceptível, mas as reações vêm como resultado da
condição interna do indivíduo, as quais fogem ao seu controle.
Ela pode “deixar” a casa dos pais, mas a dependência emocional
permanece. Assim, torna-se um adulto inseguro. Com isso, sua capacidade
de amar fica obstruída e a carência infantil se manifestará nos
relaionamentos. Desenvolve relações amorosas de dependência, esperando
receber o suprimento afetivo do passado. Sua relação amorosa fixa-se no “dá,
dá, dá”, na possessividade infantil, nas disputas com o cônjuge e com os
filhos e no sufocamento do outro com suas inúmeras cobranças de afeto, já
que nunca se satisfaz.
A imaturidade da figura que deveria ser autoridade na família afeta
profundamente a construção da segurança dos filhos. Como é carente, quer
ser filho, e não pai ou mãe. Geralmente, as questões mal resolvidas
comparecerão nas disputas com os filhos: com a manifestação de ciúmes e de
sentimentos contraditórios em seu coração, não dá o devido lugar aos filhos,.
Essa pessoa não se autoriza a ser autoridade para si mesmo, e o
resultado é a indisciplina e a desorganização. Normalmente, a frase mais
pronunciada como justificativa para sua paralisia mental é: “Eu não
consigo…”. Não desenvolve voz de autoridade interna para construir a
segurança na tomada de decisões e, como consequência, não é persistente
em seus objetivos, não dando continuidade aos projetos iniciados: começa e
para, desistente facilmente e tem sempre justificativas inúteis para as suas
desistências. Não sabe o que quer e vive, geralmente, uma indefinição em
seus objetivos pessoais e profissionais. Como não tem disciplina para
estudar, é comum levar uma vida profissional medíocre.
Por outro lado, no mesmo contexto de resistência à autoridade dos pais,
há pessoas que transferem para a vida profissional toda a sua revolta interna
de não terem sido o filho reconhecido e amado do pai, e por isso, tornam-se
incansáveis trabalhadores, buscando, com o reconhecimento externo,
tamponar suas dores internas, pois o trabalho é excelente motivação para
este objetivo. São brilhantes profissionais, mas verdadeiros fracassos na vida
pessoal e familiar. Ganham a admiração externa, mas perdem-na em casa,
com o cônjuge e os filhos. Por dispenderem muita energia psíquica na
construção de seu papel profissional, ficam sem reservas emocionais para se
envolverem nos relacionamentos familiares e para darem conta das questões
da vida pessoal. Salomão cita, no livro de Provérbios, um texto que reflete
bem essa dualidade entre a imagem pública construída e os sentimentos
internos ocultos no coração, que dizem da verdadeira imagem: Como na
água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem
(Pv 27.19 ARC).
Deixar em honra é deixar a condição de filho para assumir a condição de
esposo e pai, esposa e mãe; de criança para adulto; de dependência para
independência; de protegido para protetor; de submissão para autoridade, a
fim de que a vida adulta e as responsabilidades inerentes a ela sejam
autorizadas e para fundar uma nova geração. Esta é a condição para que os
fundamentos sólidos para a construção de uma família sejam edificados.
A desonra, por outro lado, impossibilita as bênçãos, não só de quem
“deixa”, mas também de quem permanece na casa, pois estar em casa sem a
disposição interna, mental e emocional de reconhecimento da autoridade
paterna também é desonra. Isto é subversão da Lei na família. E quais são as
consequências?
A vida vira um caos. Aonde a pessoa vai é confrontada com autoridades,
muitas vezes rígidas e cruéis, e as questões de autoridade não resolvidas na
família repetem-se inúmeras vezes. Cria-se uma aversão a qualquer espécie
de cobrança. O que se inscreve como lema de vida, como forma de
resistência, é: “ninguém manda em mim”. Estabelece-se o individualismo
nas relações e o relacionamento conjugal sofrerá os impactos dessa
distorção.

AUTORIZAR-SE A SER

A pessoa pode alcançar a idade cronológica de adulto, mas permanecer


imatura. Sua idade subjetiva não corresponde à idade cronológica. O tempo
lógico ainda não aconteceu para ela. O tempo lógico não se enquadra no
tempo cronológico, objetivo, mensurado. É o tempo utilizado no campo da
psicanálise, que indica que existe um determinado momento para cada
indivíduo compreender e elaborar suas questões. Embora considerada adulta
pela idade cronológica, a criança mal resolvida surge nas ações e reações da
pessoa. As ações são previsíveis e elaboradas mentalmente; a imaturidade
pode não ser tão perceptível, mas as reações vêm como resultado da
condição interna do indivíduo, as quais fogem ao seu controle.
Ela pode “deixar” a casa dos pais, mas a dependência emocional
permanece. Assim, torna-se um adulto inseguro. Com isso, sua capacidade
de amar fica obstruída e a carência infantil se manifestará nos
relaionamentos. Desenvolve relações amorosas de dependência, esperando
receber o suprimento afetivo do passado. Sua relação amorosa fixa-se no “dá,
dá, dá”, na possessividade infantil, nas disputas com o cônjuge e com os
filhos e no sufocamento do outro com suas inúmeras cobranças de afeto, já
que nunca se satisfaz.
A imaturidade da figura que deveria ser autoridade na família afeta
profundamente a construção da segurança dos filhos. Como é carente, quer
ser filho, e não pai ou mãe. Geralmente, as questões mal resolvidas
comparecerão nas disputas com os filhos: com a manifestação de ciúmes e de
sentimentos contraditórios em seu coração, não dá o devido lugar aos filhos,.
Essa pessoa não se autoriza a ser autoridade para si mesmo, e o
resultado é a indisciplina e a desorganização. Normalmente, a frase mais
pronunciada como justificativa para sua paralisia mental é: “Eu não
consigo…”. Não desenvolve voz de autoridade interna para construir a
segurança na tomada de decisões e, como consequência, não é persistente
em seus objetivos, não dando continuidade aos projetos iniciados: começa e
para, desistente facilmente e tem sempre justificativas inúteis para as suas
desistências. Não sabe o que quer e vive, geralmente, uma indefinição em
seus objetivos pessoais e profissionais. Como não tem disciplina para
estudar, é comum levar uma vida profissional medíocre.
Por outro lado, no mesmo contexto de resistência à autoridade dos pais,
há pessoas que transferem para a vida profissional toda a sua revolta interna
de não terem sido o filho reconhecido e amado do pai, e por isso, tornam-se
incansáveis trabalhadores, buscando, com o reconhecimento externo,
tamponar suas dores internas, pois o trabalho é excelente motivação para
este objetivo. São brilhantes profissionais, mas verdadeiros fracassos na vida
pessoal e familiar. Ganham a admiração externa, mas perdem-na em casa,
com o cônjuge e os filhos. Por dispenderem muita energia psíquica na
construção de seu papel profissional, ficam sem reservas emocionais para se
envolverem nos relacionamentos familiares e para darem conta das questões
da vida pessoal. Salomão cita, no livro de Provérbios, um texto que reflete
bem essa dualidade entre a imagem pública construída e os sentimentos
internos ocultos no coração, que dizem da verdadeira imagem: Como na
água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem
(Pv 27.19 ARC).
No entanto, é comum perceber os efeitos dessa insegurança também na
vida profissional, quando a pessoa assume um cargo de chefia. Ou isola-se no
poder, por medo de que as pessoas à sua volta percebam suas fragilidades, e,
neste caso, parte para o autoritarismo, afastando de seu lado qualquer
pessoa que possa ameaçar seu poder delegado, ou fica no extremo da
permissividade, como o chefe bonzinho e amigo de todos, esperando o
“amor” que preencha suas carências de autoafirmação.
Com esse comportamento, não consegue conduzir a equipe aos objetivos
propostos por causa de sua falta de firmeza na condução da disciplina
organizacional. Logo, a liderança inspiradora, firme e equilibrada, tão
necessária no mundo corporativo não acontece. Além de tudo, a pessoa não
sustenta internamente seu crescimento profissional e perde a alegria e o bom
humor, tornando-se sisuda e fechada, como se suas conquistas trouxessem-
lhe um peso, talvez uma culpa de, até mesmo, superar o próprio pai. Outros
vão mesmo para a autossabotagem, e devido a comportamentos infantis e
medíocres, perdem o que conquistaram. As compulsões, o álcool, os jogos, as
drogas, o sexo, a pornografia virtual, entre outros, falam de suas fragilidades
internas.
Quando se desloca a autoridade instituída na família para um lugar
vazio de respeito e honra, a vida desorganiza-se, desestrutura-se e vira um
caos, que vai repercutir em todas as outras áreas. Mas, para que esse caos
instale-se, há todo um projeto maligno para repetir a mesma questão do
princípio.

2.2. Ira – A Dor Oculta da Alma

O propósito do inimigo é atingir os pais, em suas fragilidades e


vulnerabilidades, para que eles não levem em consideração as orientações
divinas registradas em Efésios 6.4 ARA: E vós, pais, não provoqueis vossos
filhos à ira.
No contexto familiar, a ira é uma profunda dor que toma o coração,
diante das frustrações e decepções com as figuras de autoridade na família.
São muitas as questões familiares que promovem a dor e que ferem o coração
de um filho: rejeição, desamor, injustiças, limites não demarcados,
permissividade, atitudes violentas, abusos, inseguranças, brigas e conflitos
entre os pais, separações, perdas etc. A dor intensifica-se com a repetição das
situações que ferem o coração. A recorrência das situações que a promovem
atinge o emocional, afetando o valor pessoal do indivíduo e marcando-o com
um sentimento de menos valia. É como se as feridas tomassem conta de seu
coração e produzissem a irritação da alma. O coração vai ficando cada vez
mais sensível à dor, e qualquer possibilidade de nova ferida já leva a um
comportamento defensivo agressivo.
Para proteger-se da dor, a pessoa ferida cria uma defesa em seu coração,
uma casca de proteção, endurecendo-se diante das situações difíceis,
evitando lidar com as suas questões. Fecha-se para a dor, retrai-se diante de
qualquer ameaça de algo que possa trazer-lhe sofrimento. Na verdade, é
como se a criança ferida guardasse em sua mente uma linguagem
determinante para sua proteção: “Quando eu crescer, ninguém mais vai
ferir-me, ninguém mais vai humilhar-me. Eu não vou permitir. Eu serei mais
forte do que o outro”. Mas, na obsessiva autodefesa e proteção, seu coração
também se fecha para o amor.
O coração ferido e fechado perde a sensibilidade e fica em um estado de
embotamento emocional. Não consegue mais expressar livremente suas
emoções: alegria e tristeza. Tem dificuldades de chorar livremente diante da
perda, fazer o luto da dor e também de vibrar diante das conquistas e
vitórias. A pessoa torna-se, muitas vezes, dura, insensível, fria e de difícil
relacionamento ou depressiva, fechada em si mesma, em seu mundo
melancólico. Sua capacidade de dar e de receber amor fica comprometida
diante do medo da dor e do sofrimento. Aprisionada às dores do passado,
não consegue confiar em ninguém para estabelecer uma relação amorosa
saudável.
A maior irritação que os pais podem desencadear no filho é a falta de
amor e de afeto. Na realidade, morre-se muito mais de fome de amor, no
mundo inteiro, do que de fome biológica. Embora a desnutrição emocional
não seja tão visível quanto à física, que expõe suas consequências em
imagens dolorosas como observamos frequentemente nos países em guerra,
a fome de amor deixa o corpo vulnerável ao adoecimento. Todos os dias,
vemos pessoas morrendo das mais diversas enfermidades, expondo sua dor
de não dar conta de viver no deserto da solidão existencial. A demissão da
vida manifesta-se nas doenças da alma que lançam seus sintomas no
organismo já fragilizado.
Quando o amor não é manifesto no ambiente familiar, no
relacionamento entre marido e mulher e entre pais e filhos, também as
expressões de afeto e carinho não são expressas. Os relacionamentos
tornam-se frios e distantes. O Salmo 2, embora seja um salmo messiânico,
falando sobre o reinado do Messias, usa os verbos expressando a certeza do
cumprimento dos fatos que iriam acontecer. No versículo 12, o verbo beijai
apresenta uma atitude de carinho, de aceitação e de acolhimento para
encontrar o refúgio seguro e o livramento da ira que se manifestará no
julgamento.
A rebelião e a transgressão produzem a rejeição ao amor, e, nesse texto,
acionarão a ira divina. O Deus Pai convoca à expressão de amor ao Seu Filho
e, simbolicamente, quero usar esse texto como exemplo para uma
manifestação de amor entre pais e filhos, também expressando carinho,
aceitação e acolhimento, tão necessários à construção da estrutura
emocional: Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho;
porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira (Sl 2.12 ARA).
Beijar é uma demonstração afetuosa de amor, carinho e atenção. A
indiferença e a frieza afetiva são expressões do desamor na família e
promovem a dor no coração de um filho. O caminho que muitos jovens
transitam em busca do amor que faltou tem mostrado tristes consequências,
e, todos os dias, a mídia apresenta essas tragédias humanas, em tenra idade,
denunciando a fome de amor desses filhos carentes e órfãos de pais vivos.
A Bíblia adverte sobre os perigos da ira acolhida no coração, nas
palavras que o apóstolo Paulo escreveu em sua carta aos Efésios: Irai-vos e
não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo
(Ef 4.26,27 ARA).
No contexto emocional, pensando simbolicamente, quando o sol começa
a se pôr, vêm as sombras, e ainda é possível ver e lidar com as causas da dor.
Mas, logo após, vem a escuridão, as causas vão para o esquecimento, e a ira
fica oculta. O sentimento oculto, em trevas, faz-nos pensar que se abre a
possibilidade para estabelecer as fortalezas da mente e impedir a entrada da
luz da verdade que dissipa as trevas.
A ira acolhida no coração, com suas dores inerentes, coloca em
descrédito a autoridade dos pais e vai gerar a desonra, a resistência à
autoridade e a rebelião. A desonra e o não reconhecimento da autoridade
acontecem quando os princípios e valores morais recebidos são
menosprezados, quando as culpas são silenciadas e as faltas não são
admitidas e nem confessadas. O tempo não apaga os erros, apenas intensifica
as consequências na vida da pessoa que errou o alvo. Muitas vezes, as
consequências vêm na vida dos filhos. Quantos pais que desonraram seus
pais se veem diante da desonra de seus próprios filhos!
A rebelião cria raízes na mente, estabelecendo resistências a qualquer
possibilidade de enfrentamento da dor e manifesta-se em atitudes,
comportamentos destrutivos e autodestrutivos, palavras agressivas ou no
obstinado silêncio de um coração fechado. Porque a rebelião é como o
pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar
(1 Sm 15.23 ARA).
A ira oculta vai comparecer no temperamento fechado, agressivo,
defensivo, pavio curto e de difícil relacionamento. Ela é a fonte da desonra. A
ira cega a visão da alma, e o foco fica nas perdas e nos sofrimentos da vida. O
texto que Salomão escreveu apresenta essa cegueira simbólica decorrente da
desonra:

Os olhos de quem zomba do pai ou de quem despreza a obediência


à sua mãe, corvos no ribeiro os arrancarão e pelos pintãos da
águia serão comidos. A quem amaldiçoa a seu pai ou a sua mãe,
apagar-se-lhe-á a lâmpada nas mais densas trevas.
Provérbios 30.17; 20.20 ARA

Triste resultado da desonra e da rebelião: perder a visão da vida! O


cenário da cegueira é a escuridão; a pessoa não consegue mais discernir o
mal, e cai no laço do inimigo como presa fácil. A desonra e a rebelião
produzem uma vida de cegueira espiritual, entorpecimentos da alma e
anestesia mental. Sem visão e discernimento, as escolhas são feitas centradas
na dor e no sofrimento.
Quando o amor não é manifesto no ambiente familiar, no
relacionamento entre marido e mulher e entre pais e filhos, também as
expressões de afeto e carinho não são expressas. Os relacionamentos
tornam-se frios e distantes. O Salmo 2, embora seja um salmo messiânico,
falando sobre o reinado do Messias, usa os verbos expressando a certeza do
cumprimento dos fatos que iriam acontecer. No versículo 12, o verbo beijai
apresenta uma atitude de carinho, de aceitação e de acolhimento para
encontrar o refúgio seguro e o livramento da ira que se manifestará no
julgamento.
A rebelião e a transgressão produzem a rejeição ao amor, e, nesse texto,
acionarão a ira divina. O Deus Pai convoca à expressão de amor ao Seu Filho
e, simbolicamente, quero usar esse texto como exemplo para uma
manifestação de amor entre pais e filhos, também expressando carinho,
aceitação e acolhimento, tão necessários à construção da estrutura
emocional: Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho;
porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira (Sl 2.12 ARA).
Beijar é uma demonstração afetuosa de amor, carinho e atenção. A
indiferença e a frieza afetiva são expressões do desamor na família e
promovem a dor no coração de um filho. O caminho que muitos jovens
transitam em busca do amor que faltou tem mostrado tristes consequências,
e, todos os dias, a mídia apresenta essas tragédias humanas, em tenra idade,
denunciando a fome de amor desses filhos carentes e órfãos de pais vivos.
A Bíblia adverte sobre os perigos da ira acolhida no coração, nas
palavras que o apóstolo Paulo escreveu em sua carta aos Efésios: Irai-vos e
não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo
(Ef 4.26,27
ARA).
No contexto emocional, pensando simbolicamente, quando o sol começa
a se pôr, vêm as sombras, e ainda é possível ver e lidar com as causas da dor.
Mas, logo após, vem a escuridão, as causas vão para o esquecimento, e a ira
fica oculta. O sentimento oculto, em trevas, faz-nos pensar que se abre a
possibilidade para estabelecer as fortalezas da mente e impedir a entrada da
luz da verdade que dissipa as trevas.
A ira acolhida no coração, com suas dores inerentes, coloca em
descrédito a autoridade dos pais e vai gerar a desonra, a resistência à
autoridade e a rebelião. A desonra e o não reconhecimento da autoridade
acontecem quando os princípios e valores morais recebidos são
menosprezados, quando as culpas são silenciadas e as faltas não são
admitidas e nem confessadas. O tempo não apaga os erros, apenas intensifica
as consequências na vida da pessoa que errou o alvo. Muitas vezes, as
consequências vêm na vida dos filhos. Quantos pais que desonraram seus
pais se veem diante da desonra de seus próprios filhos!
A rebelião cria raízes na mente, estabelecendo resistências a qualquer
possibilidade de enfrentamento da dor e manifesta-se em atitudes,
comportamentos destrutivos e autodestrutivos, palavras agressivas ou no
obstinado silêncio de um coração fechado. Porque a rebelião é como o
pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar
(1 Sm 15.23 ARA).
A ira oculta vai comparecer no temperamento fechado, agressivo,
defensivo, pavio curto e de difícil relacionamento. Ela é a fonte da desonra. A
ira cega a visão da alma, e o foco fica nas perdas e nos sofrimentos da vida. O
texto que Salomão escreveu apresenta essa cegueira simbólica decorrente da
desonra:

Os olhos de quem zomba do pai ou de quem despreza a obediência


à sua mãe, corvos no ribeiro os arrancarão e pelos pintãos da
águia serão comidos. A quem amaldiçoa a seu pai ou a sua mãe,
apagar-se-lhe-á a lâmpada nas mais densas trevas.
Provérbios 30.17; 20.20 ARA

Triste resultado da desonra e da rebelião: perder a visão da vida! O


cenário da cegueira é a escuridão; a pessoa não consegue mais discernir o
mal, e cai no laço do inimigo como presa fácil. A desonra e a rebelião
produzem uma vida de cegueira espiritual, entorpecimentos da alma e
anestesia mental. Sem visão e discernimento, as escolhas são feitas centradas
na dor e no sofrimento.
A pessoa ferida busca, inconscientemente, outros que irão intensificar
suas dores; ela é atraída por pessoas com dificuldades de relacionamentos,
também feridas, ciumentas, possessivas, movidas pelo medo da perda, que
vão transformar o relacionamento em caos. Nessa condição de vitimização, a
pessoa acomoda-se à dor e prefere colocar a culpa nas situações adversas do
passado, nos pais, sem assumir a responsabilidade sobre as suas escolhas. A
advertência do salmista é: Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o
coração e sossegai (Sl 4.4 ARA).

2.3. Compulsão à Repetição

Além de toda a desestrutura que a rebelião e a desonra promovem, a


pessoa ainda abre a possibilidade de repetir aqueles comportamentos
destrutivos, rejeitados, com que não deu conta de lidar, em suas
significativas figuras de autoridade em sua história de vida: comportamentos
rejeitados em seus pais que se repetem diante dos mesmos desafios aos
assumirem as funções familiares paterna ou materna. Essa é a Compulsão à
repetição. O texto de 1 Samuel 15.23, na tradução de João Ferreira de
Almeida Revista e Atualizada, utiliza uma construção que bem aponta: e a
obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar (1 Sm 15.23 ARA).
A palavra obstinação, segundo o dicionário eletrônico, significa: “Aquele
que se obstina, que persiste intransigentemente em uma intenção, atitude ou
ideia”; também se repetem, em outros dicionários eletrônicos, os sinônimos
teimoso, cabeçudo, pertinaz, que não cede (http://aulete.uol.com.br).
Entendemos que se instala uma fixação, que resulta um culto a ídolos. Nesse
texto, Samuel estava dirigindo a Saul, sua rebeldia, e sua adoração aos
terafins — pequenas estatuetas, deuses domésticos que ficavam em oratórios
nas casas e, muitas vezes, eles eram levados como herança.
Na família, os pais são olhados por seus filhos, na infância, como heróis,
como ídolos a quem destinam admiração. À medida que os filhos crescem e
começam a conhecer as fragilidades e vulnerabilidades de seus pais,
geralmente na adolescência, a admiração transforma-se em raiva,
produzindo a rebeldia. A questão é que muitos filhos chegam à vida adulta e
não se desprendem das falhas dos pais, ficam prisioneiros dessas falhas e,
semelhantes a crianças, assim como o texto citado em 1 Samuel 15.23, ficam
prostrados diante dos erros paternos, paralisados. O coração transforma-se
em um oratório de mágoas, destinando a eles suas raivas e rancores,
responsabilizando-os por tudo que não dá certo na vida adulta, cultuando
seus erros e falhas passadas, fazendo delas seu objeto de idolatria.
A imagem paterna destituída de admiração transforma-se em uma
adoração no sentido inverso. Os filhos, focados nos sofrimentos do passado,
atrelam suas dificuldades do presente unicamente às suas dores do passado e
não conseguem assumir sua responsabilidade em promover mudanças em
sua vida atual. Por viverem tão fixados nas falhas paternas do passado, não
se questionam e não elaboram, o que os lançam na compulsão à repetição.
A questão é que a Bíblia aponta em vários textos as consequências da
idolatria. O texto do Salmo 115 traz um contexto que bem se aplica a essas
questões de fixação nas falhas da paternidade e a compulsão à repetição:

Os ídolos deles, de prata e ouro, são feitos por mãos humanas. Têm
boca, mas não podem falar, olhos, mas não podem ver; têm
ouvidos, mas não podem ouvir, nariz, mas não podem sentir
cheiro; têm mãos, mas nada podem apalpar, pés, mas não podem
andar; e não emitem som algum com a garganta. Tornem-se como
eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam.
Salmo 115.4-8 NVI

As consequências atingem todos os sentidos do ser humano, que lhe


capacitam a interação com o mundo exterior: fala, visão, audição, olfato e
tato, como também os dois membros de ação e movimentação: mãos e pés.

Têm boca, mas não podem falar: A linguagem da dor fica calada na
alma, produzindo sintomas. É um silêncio raivoso, irritado, agressivo,
mal-humorado ou mesmo uma apatia e depressão. Não conseguem
transformar a dor em palavras, fazer a elaboração, porque se deitam na
cama da vitimização e da acomodação.

Têm olhos, mas não podem ver: A cegueira emocional impede-os de


enxergar as razões dessas dores e de poderem olhar os pais em suas
fragilidades e vulnerabilidades, em sua história familiar. Não conseguem
mesmo olhar o próprio adoecimento da alma, mergulhados no “blá, blá,
blá” da acusação, das queixas e lamúrias.

Têm ouvidos, mas não podem ouvir: Por mais que as palavras circulem
à sua volta, que ouçam mensagens contundentes, não permitem que elas
entrem em seu coração e promovam mudanças comportamentais. Não
há uma escuta eficaz, interna; não conseguem ouvir com o terceiro
ouvido: o ouvido da alma. Não foi por força de expressão que Jesus
disse: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Têm nariz, mas não podem sentir cheiro. Não percebem que a
amargura que toma o seu interior exala um cheiro que afasta as pessoas.

Têm mãos, mas nada podem apalpar. Rejeitam o contato com as


pessoas e a livre expressão de afeto. Mantêm relacionamentos
superficiais ou possessivos.

Têm pés, mas não podem andar. Andam em círculos, repetindo, vezes
sem conta, os mesmos comportamentos, os mesmos discursos, as
mesmas ações. Entram no círculo vicioso de ganhar e perder. A vida fica
paralisada.

Nem emitem som algum com a garganta. Mergulham na mudez


relacional, em um estado de mortificação do corpo. Não pulsa a vida, a
alegria e a motivação.

Têm boca, mas não podem falar: A linguagem da dor fica calada na
alma, produzindo sintomas. É um silêncio raivoso, irritado, agressivo,
mal-humorado ou mesmo uma apatia e depressão. Não conseguem
transformar a dor em palavras, fazer a elaboração, porque se deitam na
cama da vitimização e da acomodação.

Têm olhos, mas não podem ver: A cegueira emocional impede-os de


enxergar as razões dessas dores e de poderem olhar os pais em suas
fragilidades e vulnerabilidades, em sua história familiar. Não conseguem
mesmo olhar o próprio adoecimento da alma, mergulhados no “blá, blá,
blá” da acusação, das queixas e lamúrias.

Têm ouvidos, mas não podem ouvir: Por mais que as palavras circulem
à sua volta, que ouçam mensagens contundentes, não permitem que elas
entrem em seu coração e promovam mudanças comportamentais. Não
há uma escuta eficaz, interna; não conseguem ouvir com o terceiro
ouvido: o ouvido da alma. Não foi por
força de expressão que Jesus disse: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Têm nariz, mas não podem sentir cheiro. Não percebem que a
amargura que toma o seu interior exala um cheiro que afasta as pessoas.

Têm mãos, mas nada podem apalpar. Rejeitam o contato com as


pessoas e a livre expressão de afeto. Mantêm relacionamentos
superficiais ou possessivos.

Têm pés, mas não podem andar. Andam em círculos, repetindo, vezes
sem conta, os mesmos comportamentos, os mesmos discursos, as
mesmas ações. Entram no círculo vicioso de ganhar e perder. A vida fica
paralisada.

Nem emitem som algum com a garganta. Mergulham na mudez


relacional, em um estado de mortificação do corpo. Não pulsa a vida, a
alegria e a motivação.
O texto conclui, no versículo 8, com o resultado da obstinação: Tornem-
se como eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam (NVI).
A repetição de sentimentos, de comportamentos e de atitudes remete ao
outro, paterno ou materno, uma semelhança visível a quem os observa.
Muitas vezes, o discurso dos observadores aciona a revolta em ouvi-lo: “Você
está igualzinho ao seu pai, ou à sua mãe”. Ouvi, certa vez, um filho dizer:
“Jurei a mim mesmo que jamais faria como meu pai. Meus filhos jamais
passariam pelo que eu passei. Agora, as pessoas dizem que estou igual a ele;
não aceito isto. Eu o odeio e estou com raiva de mim quando percebo que agi
igual a ele”. É a repetição diante da estagnação, como refém emocional das
falhas paternas.
A pergunta que Deus fez para Caim, no relato de Gênesis 4, aplica-se a
esse quadro: “É razoável essa tua ira?”.
O filho que cresce em um lar tensionante, com brigas, gritos,
insegurança, vive permanentemente em um estado de tensão. Situação muito
comum em filhos de alcoolistas, que estão sempre tensos, porque não sabem
como o pai vai chegar em casa. Um dia, chega e quebra tudo, bate na esposa
e nos filhos, outro dia chega carregado pelos outros. A insegurança é enorme,
e o excesso de adrenalina na corrente sanguínea deixa-os em estado de
alerta, ansiosos e tensos.
Lembro-me de um rapaz que atendi por conta de algumas atitudes
descontroladas que estava demonstrando após o casamento. Em discussões
pequenas e corriqueiras, ele estava evoluindo para uma crise de fúria
descontrolável, chegando, algumas vezes, a quebrar objetos. Analisando a
história, seu pai era alcoolista e, embora esse rapaz não ingerisse álcool, ele
estava agora apresentando comportamentos semelhantes. A ira recalcada
produzida pelos comportamentos do pai comparecia agora em sua crise de
fúria.
Uma moça, também filha de um pai alcoolista, casou-se com uma pessoa
tranquila e tornou-se uma esposa e mãe muito dedicada à família. Mas, um
dia, ela começou a manifestar sintomas de forte ansiedade, sempre no
mesmo período do dia, final da tarde, entre 17 e 18h. Foi falando de sua
história, que ela lembrou-se que era este o horário em que seu pai chegava do
trabalho, passava no bar e ia para casa, alcoolizado. Era sempre um
momento de terror para ela, e sentia muita raiva quando se lembrava dos
comportamentos agressivos do pai.
A adrenalina produzida nessas situações repetitivas lança esses filhos
em estado de tensão contínua, gerando uma agitação que fica marcada no
emocional. Impregnados de ira, muitos não conseguem viver na calmaria, na
harmonia, não dão conta de lidar quando tudo vai bem, não sustentam um
relacionamento tranquilo, e, como a raiva e a culpa andam juntas, esperam
sempre uma punição e vivem no movimento da autossabotagem. Acreditam
que alguma tragédia vai acontecer ou que alguma coisa vai dar errado. São,
muitas vezes, limitados e dominados por fobias.
Esses filhos apresentam um tormento em sua alma, verdugos internos;
e, nessa angústia, brigam por qualquer coisa, fortalecendo a rigidez da alma,
com as reações raivosas, afastando as pessoas que mais amam, do seu
convívio. Com relacionamentos cada vez mais difíceis, intensificam seus
sentimentos de vitimização, solidão, insegurança, aumentando sua
dificuldade de confiar. É a repetição diante da estagnação da vida. Como
criança, permanecem imaturos.
Enquanto o coração está ocupado com esses ídolos decaídos com pés de
barro, cultuando dívidas antigas, o “ladrão” invade seu lar e pega suas “joias
preciosas”, sua herança, e penhora. É uma dívida muito alta que será lançada
no leilão da vida. Gerarás filhos e filhas, porém não ficarão contigo, porque
serão levados ao cativeiro (Dt 28.41 ARA).
Neste cenário, outra séria questão para pensarmos é que a desonra e a
rebelião promovem um ambiente favorável para o campo das perversões. A
Lei cai em um lugar vazio, e os limites são enfraquecidos. Resistente e
rebelde, o sujeito não tem barras que o impeçam de avançar em direção a
seus desejos, e busca a satisfação a qualquer preço. Na busca desenfreada
pelo prazer, muitos ultrapassam a dignidade do corpo, caminhando, sem
limites, com uma sensação de sujeiras na alma. Alguns têm atitudes
autodestrutivas, com tendências suicidas, ou tornam-se prisioneiros de
transtornos obsessivos compulsivos, em uma tentativa inútil de limpar a
alma. Os rituais vêm para organizar o caos interno.
A Palavra de Deus afirma em Tiago 4.6-8 ARC:

Antes, dá maior graça. Portanto, diz: Deus resiste aos soberbos,


dá, porém, graça aos humildes. Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti
ao diabo, e ele fugirá de vós. Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a
vós. Limpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai o
coração.

É preciso ser humilde para reconhecer, querer a cura, percorrer a


história, elaborar e buscar a libertação desses sentimentos aprisionadores.
Toda essa dor guardada transforma-se em um cativeiro emocional, que
depositará seus sinais no corpo e na alma, afetando a imunidade, deixando o
corpo vulnerável aos adoecimentos. Gastrites, úlceras, colites ulcerativas,
tumores e dermatites são, muitas vezes, denúncias do adoecimento das
emoções, pois a dor não transformada em palavras comparece como
sintoma. É a linguagem do corpo que se apresenta diante do que não se deu
conta de lidar na palavra. A dor que foi para o oculto do coração abre a porta
para sair a alegria da alma, e a família é saqueada em seus elementos mais
essenciais como lugar de refúgio, afetando os fundamentos da próxima
geração.
É necessário compreender que as dores silenciosas e ocultas no coração
transformam-se em ponto de vulnerabilidade para repetição. Quando há a
recusa em lidar com as dores da própria história, perceberá que aquilo que
abominou na vida dos pais é o que vem repetindo inconscientemente em sua
vida. Esse é o fútil legado deixado por muitos pais, como disse o apóstolo
Pedro: sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou
ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos
legaram (1 Pe 1.18 ARA).
Os pais deixam-nas, mas é uma escolha pessoal do indivíduo
permanecer com essas ligaduras, algemado a uma história, que já sabe o
final, repetindo as mesmas ações. Muitos escolhem desconhecer a história
familiar, tornando-se indiferentes, fazendo de conta que não interessa e,
dessa forma, são facilmente aprisionados nessas contradições da própria
história.
É preciso entender que não existem pais perfeitos. Vivemos em um
mundo decaído, e todos os pais erram em suas ações, por melhores que
sejam suas intenções. Nossos pais erraram, nós erramos como pais, e nossos
filhos também errarão quando forem pais. Sabemos que alguns, realmente,
escolheram a omissão e o abandono de suas funções familiares, produzindo
um enorme desamparo e muito estrago na vida de seus filhos; mas,
entendemos que, como homem, somos dotados de uma capacidade
fantástica de elaboração mental, de inteligência e de compreensão da
responsabilidade que temos pela nossa vida, decisões e ações. Não
precisamos ser eternos prisioneiros das adversidades do passado que
marcaram nossas histórias familiares.
Lidar com essas questões é efetivamente deixar pai e mãe. Muito mais
que um “deixar” geográfico e cortar o cordão umbilical, como ouvimos tantas
vezes, o “deixar” bíblico está para além e alcança uma dimensão que permeia
a nossa história familiar. “Deixar pai e mãe” é liberá-los das dívidas da
paternidade: dívidas de afeto, de proteção, de reconhecimento; todas as
dívidas que ficaram como elos na corrente que aprisiona os filhos à condição
de crianças feridas, rejeitadas, mal-amadas, que abrigam um sentimento de
orfandade na alma, que se sentem amedrontadas e impotentes diante da
possibilidade de exercer a paternidade e a maternidade, de fundar a próxima
geração, pois ainda se sentem frágeis para posicionarem-se como
autoridades protetoras de sua família.
Muitos, para ocultar a fragilidade, escondem-se atrás de vícios,
compulsões, isolamento, distanciamento afetivo, rigidez, radicalismos,
agressividade etc. E assim vão para o casamento, homens e mulheres
imaturos, adultos cronologicamente, mas crianças aprisionadas aos pais.
Como vimos, quando o filho deixa a casa em rebeldia, ele só deixa
geograficamente, pois sai de casa, estacionado em seu desenvolvimento
emocional. Sai como menino, e não como adulto; os traços do menino vão
continuar em seu comportamento e atitudes. Assim, muitos formam uma
família como crianças emocionais e exercem a função paterna de forma
infantil, pois, como não souberam obedecer e ficaram na rebeldia, terão
sérias dificuldades para exercer a autoridade. Sua imaturidade o impedirá de
ter coerência em suas atitudes – o discurso não conferirá com as atitudes.
A Palavra de Deus afirma em Tiago 4.6-8 ARC:

Antes, dá maior graça. Portanto, diz: Deus resiste aos soberbos,


dá, porém, graça aos humildes. Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti
ao diabo, e ele fugirá de vós. Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a
vós. Limpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai o
coração.

É preciso ser humilde para reconhecer, querer a cura, percorrer a


história, elaborar e buscar a libertação desses sentimentos aprisionadores.
Toda essa dor guardada transforma-se em um cativeiro emocional, que
depositará seus sinais no corpo e na alma, afetando a imunidade, deixando o
corpo vulnerável aos adoecimentos. Gastrites, úlceras, colites ulcerativas,
tumores e dermatites são, muitas vezes, denúncias do adoecimento das
emoções, pois a dor não transformada em palavras comparece como
sintoma. É a linguagem do corpo que se apresenta diante do que não se deu
conta de lidar na palavra. A dor que foi para o oculto do coração abre a porta
para sair a alegria da alma, e a família é saqueada em seus elementos mais
essenciais como lugar de refúgio, afetando os fundamentos da próxima
geração.
É necessário compreender que as dores silenciosas e ocultas no coração
transformam-se em ponto de vulnerabilidade para repetição. Quando há a
recusa em lidar com as dores da própria história, perceberá que aquilo que
abominou na vida dos pais é o que vem repetindo inconscientemente em sua
vida. Esse é o fútil legado deixado por muitos pais, como disse o apóstolo
Pedro: sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou
ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos
legaram (1 Pe 1.18 ARA).
Os pais deixam-nas, mas é uma escolha pessoal do indivíduo
permanecer com essas ligaduras, algemado a uma história, que já sabe o
final, repetindo as mesmas ações. Muitos escolhem desconhecer a história
familiar, tornando-se indiferentes, fazendo de conta que não interessa e,
dessa forma, são facilmente aprisionados nessas contradições da própria
história.
É preciso entender que não existem pais perfeitos. Vivemos em um
mundo decaído, e todos os pais erram em suas ações, por melhores que
sejam suas intenções. Nossos pais erraram, nós erramos como pais, e nossos
filhos também errarão quando forem pais. Sabemos que alguns, realmente,
escolheram a omissão e o abandono de suas funções familiares, produzindo
um enorme desamparo e muito estrago na vida de seus filhos; mas,
entendemos que, como homem, somos dotados de uma capacidade
fantástica de elaboração mental, de inteligência e de compreensão da
responsabilidade que temos pela nossa vida, decisões e ações. Não
precisamos ser eternos prisioneiros das adversidades do passado que
marcaram nossas histórias familiares.
Lidar com essas questões é efetivamente deixar pai e mãe. Muito mais
que um “deixar” geográfico e cortar o cordão umbilical, como ouvimos tantas
vezes, o “deixar” bíblico está para além e alcança uma dimensão que permeia
a nossa história familiar. “Deixar pai e mãe” é liberá-los das dívidas da
paternidade: dívidas de afeto, de proteção, de reconhecimento; todas as
dívidas que ficaram como elos na corrente que aprisiona os filhos à condição
de crianças feridas, rejeitadas, mal-amadas, que abrigam um sentimento de
orfandade na alma, que se sentem amedrontadas e impotentes diante da
possibilidade de exercer a paternidade e a maternidade, de fundar a próxima
geração, pois ainda se sentem frágeis para posicionarem-se como
autoridades protetoras de sua família.
Muitos, para ocultar a fragilidade, escondem-se atrás de vícios,
compulsões, isolamento, distanciamento afetivo, rigidez, radicalismos,
agressividade etc. E assim vão para o casamento, homens e mulheres
imaturos, adultos cronologicamente, mas crianças aprisionadas aos pais.
Como vimos, quando o filho deixa a casa em rebeldia, ele só deixa
geograficamente, pois sai de casa, estacionado em seu desenvolvimento
emocional. Sai como menino, e não como adulto; os traços do menino vão
continuar em seu comportamento e atitudes. Assim, muitos formam uma
família como crianças emocionais e exercem a função paterna de forma
infantil, pois, como não souberam obedecer e ficaram na rebeldia, terão
sérias dificuldades para exercer a autoridade. Sua imaturidade o impedirá de
ter coerência em suas atitudes – o discurso não conferirá com as atitudes.
Liberar pai é mãe é trazido no contexto bíblico com a palavra perdão.
Poderíamos discorrer aqui sobre o que ele é, conceitos, benefícios, resultados
e toda a fundamentação bíblica sobre perdão em inúmeros textos. Mas,
quero apenas olhar a palavra perdão de uma forma bem simplista, que,
como uma grande perda, uma perda no aumentativo, ganha significado
literalmente. Perdoar significa ficar com a perda, soltar as algemas, romper a
corrente e liberar a vida, pois o maior beneficiário do perdão é quem perdoa.
Quando se decide perdoar — porque isso é uma decisão, o que poderíamos
pensar como uma decisão que vai gerar peso, já que você fica com a perda —
descobrimos posteriormente que o perdão libera leveza. O perdão é
libertador.
O que o outro vai fazer com o perdão, com a liberação, é uma decisão
dele consigo mesmo e com Deus, mas quem perdoa libera-se do jugo de
carregar um monte de entulhos em seu emocional, que bloqueia seu processo
de crescimento e amadurecimento, que o impede de assumir ser o
protagonista da sua história, saindo do papel secundário de deixar o outro,
com sua ofensa, governar suas emoções. É sair do lugar de vítima para
responsável pela construção de sua história.
Há uma poesia no cancioneiro popular que fala desse lugar de
responsabilidade: “Cada um de nós compõe sua própria história, e cada ser
em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz” (Almir Sater, em Tocando em
frente). Somos responsáveis por cada decisão que tomamos. Logo, não são as
adversidades que enfrentamos em nosso percurso que vão definir nossa vida,
mas o que fazemos com os efeitos delas em nosso emocional. Ou tiramos
lições preciosas para fortalecer nossos músculos emocionais ou ficamos
prisioneiros das circunstâncias adversas do passado.
O apóstolo Paulo, quando olhava a sua história e as adversidades que
havia enfrentado pelo amor de Cristo, dizia: trago no corpo as marcas de
Jesus (Gl 6.17 ARA). Literalmente, ele havia experimentado essas marcas no
corpo e na alma. Paulo escolheu trocar suas marcas pessoais pelas de Cristo e
não desanimou diante das pressões, perseguições e provações. Ele era
convicto de sua missão e decidiu cumpri-la apesar das sinistras previsões de
sofrimento.
Trazemos em nossos corpos e em nossa alma as marcas de nossa
história. Todos os dias, a vida debita automaticamente as consequências de
nossas decisões, nossas lutas e dificuldades. Nossos pais também sofrem, ao
longo da vida, os efeitos dos débitos de suas decisões, eles já pagaram e
continuam a fazê-lo com suas dores e angústias. Se não compreendermos o
valor do sacrifício de Cristo, ficaremos a vida inteira cobrando dívidas e
repetindo histórias de sofrimentos e angústias, perpetuando nossas dores e
nossas marcas.
Enquanto o indivíduo fica nesse lugar de vitimização, cobrando dívidas
do passado, aprisiona-se, com dificuldades de expressar o amor. Esta é a
queixa frequente que os cônjuges fazem um do outro: “Meu cônjuge não me
ama, não sabe demonstrar seu amor”. Isso se vê pela dureza de coração,
rigidez, inflexibilidade, embotamento emocional – medo de amar e sofrer,
medo da entrega e da confiança – e medo da rejeição. Esses sentimentos são
destruidores e vão minando o relacionamento, impedindo a intimidade. São
casais que sabem tudo do corpo um do outro, mas nada sabem da alma, da
subjetividade do outro e vão distanciando-se afetivamente a cada dia.
Por conta das queixas e dívidas do passado, muitas pessoas não se
permitem uma vida feliz. A queixa do passado está sempre retornando no
presente: “Você não sabe o que eu passei com minha mãe, com meu pai!”,
“Sou assim porque isso aconteceu comigo”. E continuam assim, porque se
recusam a ver a intenção por trás da ação. Essas pessoas ficam paralisadas
nesse lugar de queixa e não fazem nada para alterar seu comportamento; não
buscam a renovação da mente para produzirem novas emoções. Logo, o que
gostariam de ter recebido, também não dão, e a próxima geração também
não terá dentro de casa um modelo de amor e afeto; assim, as dificuldades de
amar vão sendo potencializadas para a próxima geração.
Não é fácil compreender essas questões em toda dimensão que ela
alcança. Somos adultos, na idade, e o adulto racionaliza, justifica, mas, a
criança que não é resolvida atua nos comportamentos, atitudes e
sentimentos: manifesta nas pirraças, nos silêncios emburrados, nas
implicâncias de uma com a outra, gerando briguinhas infantis etc.
Compreender e admitir são um desafio. Mas, quando entendemos que os
fundamentos precisam ser reedificados, podemos refazer o “deixar”,
buscando os pais para devolver a honra devida, por meio do reconhecimento
e do perdão, receber as bênçãos e prosseguirmos na construção da nossa
história de amor. A direção da cura exige um reposicionamento na cadeia de
comando, no conserto para um reconhecimento efetivo das questões
pendentes.
Quando as questões familiares entre pais e filhos são trabalhadas no
âmbito do amor, graça, misericórdia e perdão, o depósito de ira será
esvaziado, e o inimigo não encontrará porta aberta para roubar. Deus é um
Deus de princípios e Ele não passa por cima de princípios que Ele mesmo
estabeleceu para abençoar-nos, quando entramos no campo da rebelião,
desonra e desobediência. Portanto, conhecer essas questões abordadas
impõe-nos uma tomada de decisão: sair do lugar de vitimização, como
eternos cobradores de dívidas; decidir fazer o luto do pai ideal, da mãe ideal,
das idealizações que são construídas para dar conta das carências afetivas;
devolver a honra em um processo de reconciliação, de conserto.
O que o outro vai fazer com o perdão, com a liberação, é uma decisão
dele consigo mesmo e com Deus, mas quem perdoa libera-se do jugo de
carregar um monte de entulhos em seu emocional, que bloqueia seu processo
de crescimento e amadurecimento, que o impede de assumir ser o
protagonista da sua história, saindo do papel secundário de deixar o outro,
com sua ofensa, governar suas emoções. É sair do lugar de vítima para
responsável pela construção de sua história.
Há uma poesia no cancioneiro popular que fala desse lugar de
responsabilidade: “Cada um de nós compõe sua própria história, e cada ser
em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz” (Almir Sater, em Tocando em
frente). Somos responsáveis por cada decisão que tomamos. Logo, não são as
adversidades que enfrentamos em nosso percurso que vão definir nossa vida,
mas o que fazemos com os efeitos delas em nosso emocional. Ou tiramos
lições preciosas para fortalecer nossos músculos emocionais ou ficamos
prisioneiros das circunstâncias adversas do passado.
O apóstolo Paulo, quando olhava a sua história e as adversidades que
havia enfrentado pelo amor de Cristo, dizia: trago no corpo as marcas de
Jesus (Gl 6.17 ARA). Literalmente, ele havia experimentado essas marcas no
corpo e na alma. Paulo escolheu trocar suas marcas pessoais pelas de Cristo e
não desanimou diante das pressões, perseguições e provações. Ele era
convicto de sua missão e decidiu cumpri-la apesar das sinistras previsões de
sofrimento.
Trazemos em nossos corpos e em nossa alma as marcas de nossa
história. Todos os dias, a vida debita automaticamente as consequências de
nossas decisões,
nossas lutas e dificuldades. Nossos pais também sofrem, ao longo da vida, os
efeitos dos débitos de suas decisões, eles já pagaram e continuam a fazê-lo
com suas dores e angústias. Se não compreendermos o valor do sacrifício de
Cristo, ficaremos a vida inteira cobrando dívidas e repetindo histórias de
sofrimentos e angústias, perpetuando nossas dores e nossas marcas.
Enquanto o indivíduo fica nesse lugar de vitimização, cobrando dívidas
do passado, aprisiona-se, com dificuldades de expressar o amor. Esta é a
queixa frequente que os cônjuges fazem um do outro: “Meu cônjuge não me
ama, não sabe demonstrar seu amor”. Isso se vê pela dureza de coração,
rigidez, inflexibilidade, embotamento emocional – medo de amar e sofrer,
medo da entrega e da confiança – e medo da rejeição. Esses sentimentos são
destruidores e vão minando o relacionamento, impedindo a intimidade. São
casais que sabem tudo do corpo um do outro, mas nada sabem da alma, da
subjetividade do outro e vão distanciando-se afetivamente a cada dia.
Por conta das queixas e dívidas do passado, muitas pessoas não se
permitem uma vida feliz. A queixa do passado está sempre retornando no
presente: “Você não sabe o que eu passei com minha mãe, com meu pai!”,
“Sou assim porque isso aconteceu comigo”. E continuam assim, porque se
recusam a ver a intenção por trás da ação. Essas pessoas ficam paralisadas
nesse lugar de queixa e não fazem nada para alterar seu comportamento; não
buscam a renovação da mente para produzirem novas emoções. Logo, o que
gostariam de ter recebido, também não dão, e a próxima geração também
não terá dentro de casa um modelo de amor e afeto; assim, as dificuldades de
amar vão sendo potencializadas para a próxima geração.
Não é fácil compreender essas questões em toda dimensão que ela
alcança. Somos adultos, na idade, e o adulto racionaliza, justifica, mas, a
criança que não é resolvida atua nos comportamentos, atitudes e
sentimentos: manifesta nas pirraças, nos silêncios emburrados, nas
implicâncias de uma com a outra, gerando briguinhas infantis etc.
Compreender e admitir são um desafio. Mas, quando entendemos que os
fundamentos precisam ser reedificados, podemos refazer o “deixar”,
buscando os pais para devolver a honra devida, por meio do reconhecimento
e do perdão, receber as bênçãos e prosseguirmos na construção da nossa
história de amor. A direção da cura exige um reposicionamento na cadeia de
comando, no conserto para um reconhecimento efetivo das questões
pendentes.
Quando as questões familiares entre pais e filhos são trabalhadas no
âmbito do amor, graça, misericórdia e perdão, o depósito de ira será
esvaziado, e o inimigo não encontrará porta aberta para roubar. Deus é um
Deus de princípios e Ele não passa por cima de princípios que Ele mesmo
estabeleceu para abençoar-nos, quando entramos no campo da rebelião,
desonra e desobediência. Portanto, conhecer essas questões abordadas
impõe-nos uma tomada de decisão: sair do lugar de vitimização, como
eternos cobradores de dívidas; decidir fazer o luto do pai ideal, da mãe ideal,
das idealizações que são construídas para dar conta das carências afetivas;
devolver a honra em um processo de reconciliação, de conserto.
Quando o movimento de reconciliação acontece, ele dirige-se à direção
vertical e à horizontal. A relação de paternidade com Deus recebe os efeitos
desse movimento, e a paz instala-se onde havia tormento. O movimento
diário será arrancar qualquer sementinha que aparecer na terra fértil de
nossas mentes e emoções, e será um processo permanente para que se
estabeleça um ciclo de honra em nossa família, que alcance as próximas
gerações.

Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os


fundamentos de muitas gerações e serás chamado reparador de
brechas e restaurador de veredas para que o país se torne
habitável.
Isaías 58.12 ARA

PARTE
3

FAMÍLIA
A DINÂMICA RELACIONAL E A
CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

Eles nascem antes, nascem no momento em que se anunciam, quando há


realmente desejo de que venham ao mundo.

Carlos Drummond de Andrade


A existência de uma família pressupõe sempre a união de duas pessoas
que, movidas pelo amor, fazem uma aliança conjugal. Na idealização de
família que a maioria dos casais constrói, a existência de uma criança é
esperada como o fruto desse amor desde o princípio.
A criança começa a existir desde o momento em que se começa a falar
dela. O filho existe antes de nascer e antes mesmo de ser gerado. Ele existe,
portanto, na linguagem do pai e da mãe, na fala, no discurso. Ele existe no
desejo dos pais. Cada marca simbólica vai delimitar o lugar da criança na
vida dos pais e na família.
Independente do desejo de vida ou de morte, da aceitação ou da
rejeição, a vida humana é marcada pelo desejo de Deus: podemos dizer que
aquela voz criadora de autoridade que ecoou na gênesis da criação
simbolicamente também ecoa para a existência de uma vida no ato da
concepção. É o “Haja” de Deus para a vida humana. O ser humano nasce por
causa do desejo de Deus, na Sua linguagem; e antes que houvesse um dia
sequer, antes mesmo da concepção, como afirma o Salmo 139, na poética
linguagem de Davi.

Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha


mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável
Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus
ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado
e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram
o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram
escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Salmo 139.13-16 NVI

A partir do nascimento de uma criança, a família organiza-se em seus


papéis e funções, e cada membro ocupa, a seu modo, um lugar na dinâmica
familiar, evidenciando as questões estruturais advindas das famílias de
origem. A observação põe em evidência os traços essenciais desse grupo, tais
como a sua estrutura hierárquica, as funções materna e paterna, e todos os
privilégios e as responsabilidades que lhes advém sobre os outros membros
do grupo familiar.
É necessário um olhar mais profundo sobre a estrutura familiar, as
relações psicológicas que se estabelecem a partir do lugar simbólico que cada
um ocupa, e não apenas do lugar real, porque é o simbólico que demarca as
relações psicológicas. E com este olhar subjetivo começamos a perceber as
contradições familiares e os conflitos que emergem desta estrutura.
Quero aqui trazer algumas importantes contribuições de estudiosos do
assunto sobre a construção da dinâmica relacional na família. Creio que estes
aspectos teóricos, frutos de intensas pesquisas, auxiliam-nos na
compreensão da estruturação da dinâmica relacional na família e seus efeitos
na constituição do ser humano. As páginas das Escrituras Sagradas revelam
os conflitos existentes nas famílias da antiguidade, desde o Gênesis. Em
nenhum momento as dificuldades existentes no relacionamento familiar
ficaram ocultas, pelo contrário, foram registradas para a compreensão da
nossa humanidade, para servirem de exemplo e de alerta quanto às
fragilidades e vulnerabilidades que se apresentam nas relações familiares.
Vamos, portanto, buscar um pouco de compreensão sobre o
desenvolvimento do ser humano em seu primeiro cenário, utilizando-a como
subsídio para nossa própria família e também para o nosso trabalho social.

3.1. Apegos e Vínculos Familiares

A entrada de uma criança no sistema familiar impõe a ocupação de um


lugar que movimentará emoções essenciais para o seu desenvolvimento. A
relação de apego e a construção dos vínculos movimentarão a dinâmica
relacional. O apego é essencial para a criança porque produz nela sensação
de segurança e proteção. Esta relação emocional possibilita à criança o
acolhimento necessário e o aconchego que a faz desejar o contato com a
figura cuidadora na construção do vínculo. Desde os primeiros meses de vida
o recém-nascido desenvolve apegos específicos a certas pessoas que irão
exercer importante papel e que marcarão traços que serão presentificados
nas relações futuras.
Segundo Bowlby (apud KAPLAN, 1993, p.161), o apego acontece quando
existe um “[…] relacionamento terno, íntimo e contínuo com a mãe, no qual
ambos encontram satisfação e prazer […]”. Este processo é, na maioria das
vezes, voltado a uma só pessoa, podendo, no entanto, ser dirigido ao pai.
Esse comportamento pode ser observado em várias fases: no primeiro
estágio (do nascimento à oitava semanas), em que o bebê orienta-se para a
mãe, seguindo-a com os olhos, virando-se e movendo-se de acordo com o
som da sua voz. Na segunda fase, chamada de formação do apego (da oitava
ou décima semana a seis meses), em que o bebê apega-se a uma ou mais
pessoas de seu convívio, e a separação ou afastamento de um deles não é um
problema, desde que suas necessidades sejam atendidas.
No estágio definido como apego (dos seis até os 24 meses), além do
choro, ele apresenta outros sinais de sofrimento quando separado da pessoa
que ocupa a função materna (isto pode ocorrer até os três meses, em alguns
bebês). Na quarta fase (24 meses em diante), a figura da mãe já possui um
sentido de independência, e a partir daí, desenvolve-se um relacionamento
mais complexo entre eles. A interação mãe/bebê influenciará o
comportamento atual e futuro da criança. A construção desta relação pode
servir como redutos da ansiedade, permitindo à criança afastar-se segura
para explorar o seu ambiente.
Podemos ver o funcionamento da família como um sistema aberto,
autorregulador e que possui história e estrutura particulares. Para José
Carlos Victor Gomes (1987), “[…] a compreensão da família como um
sistema implica na consideração de que ela é um grupo de pessoas ligadas
através de vínculos, que os vínculos compõem a estrutura mesma dos
sistemas e das relações familiares”.
O autor define vínculos como uma estrutura dinâmica que liga uma
pessoa a outra e que engloba a pessoa em sua totalidade, podendo ser
identificador ou não, ajudando a construir personalidades sadias ou
comprometendo sua integridade, já que é ela, a família, que vai intervir na
demarcação da estrutura do sujeito.
Victor Gomes (1987) apresenta em seu trabalho vários tipos de vínculos,
aos quais denominou de: paranoicos: marcados pela desconfiança e pelo
medo; depressivos: carregados de culpa; obsessivos: impõe alto nível de
exigência a si mesmo e aos outros, perfeccionismo e medo de errar;
hipocondríacos: sustentado pela via da doença e pela busca de atenção;
histéricos: dramatização e teatralidade marcam este vínculo; além das
angústias convertidas no corpo. Há também os psicossomáticos, que são
facilmente observados nas famílias psicossomáticas, nas quais as pessoas
sobrevivem à custa do sacrifício de um dos seus elementos, o membro que
assume a doença do grupo familiar. É o caso em que o doente mantém a
manifestação de sua doença em detrimento da “harmonia” da família.
Funciona como sustentáculo das relações familiares em crise. “Sua doença
melhora ou piora na medida em que oscilam as relações conjugais e funciona
como o SOS, a linguagem, o pedido de socorro da família” (GOMES, 1987).
No vínculo classificado como “normal”, a comunicação é fluente e a relação é
bem definida. Para o autor, o sistema é semiaberto e permeável. Os limites
são estabelecidos e todos crescem de forma equilibrada e sem chantagens.
Além desses vínculos, estudos realizados por Gregory Bateson (apud
GOMES, 1987) abordam outro tipo de vínculo, o duplo vínculo, no qual
descreve uma situação familiar em que a criança é colocada em uma situação
de escolha entre duas alternativas, porém, ambas são insuportáveis e
produtoras de conflitos, confusas.
O autor também denuncia a presença do duplo vínculo nas relações
familiares ao referir-se a paradoxos — emissão de mensagens contaminadas
por ambiguidades — que surgem na comunicação familiar, o que leva o
indivíduo à confusão diante da ineficácia da comunicação parental. Neste
caso, a pessoa não consegue compreender e identificar o desejo dos pais e
fica aprisionada à tentativa de decifrar as mensagens contraditórias
recebidas. Estas tentativas também podem ser evidenciadas por
comportamentos inadequados e confusos.
Apesar dessa relação de duplo vínculo acontecer no contexto familiar, as
pessoas atingidas por ela carregam esta marca para outros contextos, pois,
uma vez que nasceram nas comunicações contaminadas por duplos vínculos
duradouros, estas foram incorporadas. Logo, a tendência é repeti-las, porém,
deslocado para outro contexto.
Dentro do que foi abordado, vimos que a família, muitas vezes, utiliza-se
de frases contraditórias, e algumas até com conteúdo religioso, como: “se
você não fizer isso ou deixar de fazer aquilo, Deus vai castigar você”, para
criar ou manter vínculos, o que, em alguns casos, passa a ser um ingrediente
importante na construção de duplos vínculos, já que invade a intimidade e
desqualifica a capacidade de escolha, deixando, então, a outra pessoa à
mercê de um comando autoritário cruel, construindo imagens distorcidas de
autoridade. Nesta condição, diante de proposições que não consegue
conciliar, a pessoa é inserida em uma relação paradoxal, construindo, assim,
sofismas em sua mente. O indivíduo sofre os efeitos desta condição em sua
estrutura psíquica.
Segundo Bowlby (apud KAPLAN, 1993, p.161), o apego acontece quando
existe um “[…] relacionamento terno, íntimo e contínuo com a mãe, no qual
ambos encontram satisfação e prazer […]”. Este processo é, na maioria das
vezes, voltado a uma só pessoa, podendo, no entanto, ser dirigido ao pai.
Esse comportamento pode ser observado em várias fases: no primeiro
estágio (do nascimento à oitava semanas), em que o bebê orienta-se para a
mãe, seguindo-a com os olhos, virando-se e movendo-se de acordo com o
som da sua voz. Na segunda fase, chamada de formação do apego (da oitava
ou décima semana a seis meses), em que o bebê apega-se a uma ou mais
pessoas de seu convívio, e a separação ou afastamento de um deles não é um
problema, desde que suas necessidades sejam atendidas.
No estágio definido como apego (dos seis até os 24 meses), além do
choro, ele apresenta outros sinais de sofrimento quando separado da pessoa
que ocupa a função materna (isto pode ocorrer até os três meses, em alguns
bebês). Na quarta fase (24 meses em diante), a figura da mãe já possui um
sentido de independência, e a partir daí,
desenvolve-se um relacionamento mais complexo entre eles. A interação
mãe/bebê influenciará o comportamento atual e futuro da criança. A
construção desta relação pode servir como redutos da ansiedade, permitindo
à criança afastar-se segura para explorar o seu ambiente.
Podemos ver o funcionamento da família como um sistema aberto,
autorregulador e que possui história e estrutura particulares. Para José
Carlos Victor Gomes (1987), “[…] a compreensão da família como um
sistema implica na consideração de que ela é um grupo de pessoas ligadas
através de vínculos, que os vínculos compõem a estrutura mesma dos
sistemas e das relações familiares”.
O autor define vínculos como uma estrutura dinâmica que liga uma
pessoa a outra e que engloba a pessoa em sua totalidade, podendo ser
identificador ou não, ajudando a construir personalidades sadias ou
comprometendo sua integridade, já que é ela, a família, que vai intervir na
demarcação da estrutura do sujeito.
Victor Gomes (1987) apresenta em seu trabalho vários tipos de vínculos,
aos quais denominou de: paranoicos: marcados pela desconfiança e pelo
medo; depressivos: carregados de culpa; obsessivos: impõe alto nível de
exigência a si mesmo e aos outros, perfeccionismo e medo de errar;
hipocondríacos: sustentado pela via da doença e pela busca de atenção;
histéricos: dramatização e teatralidade marcam este vínculo; além das
angústias convertidas no corpo. Há também os psicossomáticos, que são
facilmente observados nas famílias psicossomáticas, nas quais as pessoas
sobrevivem à custa do sacrifício de um dos seus elementos, o membro que
assume a doença do grupo familiar. É o caso em que o doente mantém a
manifestação de sua doença em detrimento da “harmonia” da família.
Funciona como sustentáculo das relações familiares em crise. “Sua doença
melhora ou piora na medida em que oscilam as relações conjugais e funciona
como o SOS, a linguagem, o pedido de socorro da família” (GOMES, 1987).
No vínculo classificado como “normal”, a comunicação é fluente e a relação é
bem definida. Para o autor, o sistema é semiaberto e permeável. Os limites
são estabelecidos e todos crescem de forma equilibrada e sem chantagens.
Além desses vínculos, estudos realizados por Gregory Bateson (apud
GOMES, 1987) abordam outro tipo de vínculo, o duplo vínculo, no qual
descreve uma situação familiar em que a criança é colocada em uma situação
de escolha entre duas alternativas, porém, ambas são insuportáveis e
produtoras de conflitos, confusas.
O autor também denuncia a presença do duplo vínculo nas relações
familiares ao referir-se a paradoxos — emissão de mensagens contaminadas
por ambiguidades — que surgem na comunicação familiar, o que leva o
indivíduo à confusão diante da ineficácia da comunicação parental. Neste
caso, a pessoa não consegue compreender e identificar o desejo dos pais e
fica aprisionada à tentativa de decifrar as mensagens contraditórias
recebidas. Estas tentativas também podem ser evidenciadas por
comportamentos inadequados e confusos.
Apesar dessa relação de duplo vínculo acontecer no contexto familiar, as
pessoas atingidas por ela carregam esta marca para outros contextos, pois,
uma vez que nasceram nas comunicações contaminadas por duplos vínculos
duradouros, estas foram incorporadas. Logo, a tendência é repeti-las, porém,
deslocado para outro contexto.
Dentro do que foi abordado, vimos que a família, muitas vezes, utiliza-se
de frases contraditórias, e algumas até com conteúdo religioso, como: “se
você não fizer isso ou deixar de fazer aquilo, Deus vai castigar você”, para
criar ou manter vínculos, o que, em alguns casos, passa a ser um ingrediente
importante na construção de duplos vínculos, já que invade a intimidade e
desqualifica a capacidade de escolha, deixando, então, a outra pessoa à
mercê de um comando autoritário cruel, construindo imagens distorcidas de
autoridade. Nesta condição, diante de proposições que não consegue
conciliar, a pessoa é inserida em uma relação paradoxal, construindo, assim,
sofismas em sua mente. O indivíduo sofre os efeitos desta condição em sua
estrutura psíquica.
O que se vê, portanto, é que, frente à necessidade de manter vínculos, a
família utiliza artifícios para que seus membros permaneçam ligados, e desta
forma, possam manter o ‘equilíbrio’ do sistema familiar. E “o que mantém as
pessoas paralisadas é não enxergar sua própria participação nos problemas
que as atormentam. O que as liberta é perceber seu papel nos padrões que as
amarram” (MINUCHIN, 1990).

3.2. As Funções Familiares: Materna e Paterna

Ouvindo-os falar, percebi como boa parte de quem eu era, do que eu


era tinha sido definido por baba e pelas marcas que ele deixou na
vida das pessoas. Durante toda a minha vida fui ‘o filho de baba’.
Agora ele tinha ido embora. Nunca mais poderia me mostrar o
caminho a seguir. E eu ia ter que descobrir isso sozinho.
O Caçador de Pipas

No contexto da família, há duas funções: a materna e a paterna. A


função paterna é o terceiro elemento que entra na relação mãe/bebê, e é o
que vai introduzir o mundo para a criança.
Ao passar a linguagem para a criança, o pai passa para ela leis, normas,
limites. A função paterna vai representar a Lei universal: ninguém é
completo. O pai introduz esta Lei que afirma para a criança que ela não
completa a mãe e que afirma para a mãe que o filho não pode ser
reincorporado a ela, não pode ser reintegrado, pois antes de ser mãe para
uma criança, ela é mulher para um homem. A criança vai perceber que há
um terceiro para quem a mãe dirige o olhar. A Lei representada pelo pai que
interdita, simbólica e poderosa, dá à criança o devido lugar em uma família.
A relação mãe/bebê é dual, profunda e prazerosa. Ainda no ventre, é
uma relação misteriosa e singular, e a linguagem é especial: um corpo dentro
de outro, um coração pulsando no pulsar de outro coração – um cordão
unindo um ser a outro. Mas, esta simbiose tem prazo definido para acabar:
nove meses. Qualquer alteração neste prazo demanda alternativas
compensatórias, e implica custos e sequelas. O momento do percurso para o
nascimento se impõe diante da vida. É preciso nascer, por melhor que esteja
o paraíso uterino. Mais ainda, é preciso saber nascer – um saber que não se
sabe, um saber inconsciente – que se impõe diante do desejo da mãe, de que
seu filho venha ao mundo, à vida, e ocupe seu lugar anunciado pela
linguagem antes da concepção.
Após o nascimento, o seio recompõe o útero perdido, e a relação
continua com a amamentação. A amamentação cria uma situação quase de
completude: nutrição física e emocional. A mãe e o bebê se encontram
novamente na especial comunicação que independe de palavras.
No cenário da amamentação e do desmame constrói-se uma relação que
deixa suas marcas na estrutura psíquica. O desmame interrompe uma
relação biológica primordial para o sujeito, e quer seja traumatizante ou não,
deixa no psiquismo humano o traço permanente desta relação interrompida.
As primeiras perdas da vida humana vão fornecendo as possibilidades de
elaboração das faltas e as bases de confiança e segurança se estabelecem
nesta relação com as primeiras figuras significativas.
Na cultura judaica, o desmame era celebrado, dando-nos uma mostra da
compreensão da importância dos ritos de passagem na formação da
estrutura humana. No livro de Gênesis, Abraão dá uma festa para celebrar o
desmame de seu filho Isaque: O menino cresceu e foi desmamado. No dia
em que Isaque foi desmamado, Abraão deu uma grande festa (Gn 21.8
NVI). A cultura ocidental perdeu muito destes momentos importantes que
demarcam a vida de cada indivíduo em sua história familiar.
Podemos afirmar que a função materna é mais que uma função, e uma
missão que transcende a maternagem, pois há em si um poder conferido por
Deus, pela sociedade e pela cultura, um poder sublime. Lembrando que
estamos utilizando a palavra “poder” em seu significado primário: “poder”,
do latim, potere, que significa “ser capaz de”. A maternidade traz para a
mulher a reedição das questões vivenciadas com sua mãe. O cumprimento
dessa missão acontece, portanto, a partir do que a mãe viveu com sua
própria mãe, de suas experiências como filha, as diversas experiências
emocionais vivenciadas neste papel, como menina dependente de uma mãe e
sua busca por sustentabilidade ao diferenciar-se dela em busca de sua
autonomia como mulher. O percurso deste caminho de filha dependente à
mulher independente, de menina à mulher, de cuidada e protegida à
cuidadora e protetora impõe algumas angústias e dores que dão à mulher a
possibilidade de abrir um lugar em sua história, em sua vida, para o bebê.
É, pois, o pai quem comparece na relação mãe/bebê para fazer o corte
simbólico. Ele é o homem para quem a mãe dirige o olhar, ele exerce a
função paterna e surge como o representante da Lei para a criança.
Reafirmamos, portanto, o lugar do pai nesta relação. O olhar da mãe
deixa de dirigir-se apenas para o bebê e direciona-se para o homem que
exerce a função paterna, reconhecendo-o como o representante da Lei para a
criança. E esta é a sua função, exercida fundamentalmente por um lugar
legitimado pela mãe.

3.3. O Desafio da Feminilidade

Quando falamos de função materna e função paterna, estamos


referindo-nos às funções familiares exercidas por um homem e por uma
mulher para os filhos advindos de uma relação conjugal. Mas, antes do
exercício dessas funções essenciais, temos, na estruturação familiar, um
homem para uma mulher e uma mulher para um homem no confronto das
questões vivenciais da vida a dois.
E olhar para estas questões do início da vida humana leva-me a pensar
em um texto amplamente citado em cerimônias religiosas de casamento e
que sempre me intrigou diante dos conceitos de liberdade feminina de nosso
tempo: Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor
(Efésios 5.22, ênfase da autora).
Na minha concepção, este é de fato um texto intrigante, até pela forma
como está inserida no contexto: por que fala primeiramente às mulheres?
Não deveria ser ao homem, já que ele é identificado no texto como o líder da
família? Na hierarquia organizacional, no contexto da cadeia de autoridade, a
transmissão da ordem não deveria ser ao primeiro nível hierárquico? São
questões que, como mulher, fazemo-nos nos diversos papéis que ocupamos
na organização familiar: filha, mulher, esposa e também profissional, quando
olhamos a organização hierárquica nas empresas. Como consultora de
Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, fiz diversos trabalhos em empresas,
mas dirigia-me, em primeiro lugar, a quem detinha a autoridade para tomar
decisões, para que eu pudesse conhecer a estrutura organizacional e
desenvolver meu trabalho. Mas não dá para compreender as orientações
bíblicas formatando-as em conceitos organizacionais.
Este é um texto repleto de conhecimento, que nos impõe a busca da
sabedoria divina para compreendermos a existência humana e a importância
das funções familiares na constituição do sujeito.
É a mãe quem inscreve o pai no inconsciente da criança, ainda no
ventre. Ela antecede o pai na relação com seu bebê. Ela gera por nove meses
a criança em seu ventre, e o pai que se inscreve para a criança vem por
intermédio da mãe. O olhar da mãe para o pai e o lugar que o marido
ocupara para essa mulher são transferidos para os filhos. A mãe funda o pai
para o filho; ela legitima sua liderança. A mãe não gera um filho para si
mesma, para sua própria satisfação. Ela gera um filho para um homem, em
nome de um pai, fundando a próxima geração na transmissão do nome do
pai. Assim, o citado texto de Efésios amplia-se em seu significado neste
contexto feminino:

Mulheres, dirijam seu OLHAR para seu marido, para que seus
filhos o vejam em sua função paterna, em sua autoridade, porque
ele tem a missão, a difícil e importante missão de amar sua mulher
como Cristo amou a igreja, para proteger seus filhos na fundação da
geração seguinte. (Paráfrase minha)

Uma mulher bem nutrida, protegida, acolhida, amada vai inscrever no


filho o lugar do pai. Há uma linguagem simbólica da mãe para o filho
transitando nesse universo: “Este é o seu pai, o líder do nosso lar, que tem
um importante lugar no projeto de Deus para a sua vida”. Em contrapartida,
uma mãe que não é bem cuidada e nutrida de amor e carinho pelo marido
pode deslocar seu desejo para o filho e não dar ao seu marido o devido lugar.
Esta constatação remete-nos a uma orientação registrada em Gênesis, na
narrativa da saída de Adão e Eva do Éden, que já citei anteriormente: o teu
desejo será para o teu marido (Gn 3.16 ARA).
Quando o desejo de uma mulher desvia-se do marido para o filho, outras
vias desviantes já foram percorridas na construção de sua feminilidade e que
agora comparecem na maternidade.
É, pois, o pai quem comparece na relação mãe/bebê para fazer o corte
simbólico. Ele é o homem para quem a mãe dirige o olhar, ele exerce a
função paterna e surge como o representante da Lei para a criança.
Reafirmamos, portanto, o lugar do pai nesta relação. O olhar da mãe
deixa de dirigir-se apenas para o bebê e direciona-se para o homem que
exerce a função paterna, reconhecendo-o como o representante da Lei para a
criança. E esta é a sua função, exercida fundamentalmente por um lugar
legitimado pela mãe.

3.3. O Desafio da Feminilidade

Quando falamos de função materna e função paterna, estamos


referindo-nos às funções familiares exercidas por um homem e por uma
mulher para os filhos advindos de uma relação conjugal. Mas, antes do
exercício dessas funções essenciais, temos, na estruturação familiar, um
homem para uma mulher e uma mulher para um homem no confronto das
questões vivenciais da vida a dois.
E olhar para estas questões do início da vida humana leva-me a pensar
em um texto amplamente citado em cerimônias religiosas de casamento e
que sempre me intrigou diante dos conceitos de liberdade feminina de nosso
tempo: Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor
(Efésios 5.22, ênfase da autora).
Na minha concepção, este é de fato um texto intrigante, até pela forma
como está inserida no contexto: por que fala primeiramente às mulheres?
Não deveria ser ao homem, já que ele é identificado no texto como o líder da
família? Na hierarquia organizacional, no contexto da cadeia de autoridade, a
transmissão da ordem não deveria ser ao primeiro nível hierárquico? São
questões que, como mulher, fazemo-nos nos diversos papéis que ocupamos
na organização familiar: filha, mulher, esposa e também profissional, quando
olhamos a organização hierárquica nas empresas. Como consultora de
Desenvolvimento e Gestão de Pessoas, fiz diversos trabalhos em empresas,
mas dirigia-me, em primeiro lugar, a quem detinha a autoridade para tomar
decisões, para que eu pudesse conhecer a estrutura organizacional e
desenvolver meu trabalho. Mas não dá para compreender as orientações
bíblicas formatando-as em conceitos organizacionais.
Este é um texto repleto de conhecimento, que nos impõe a busca da
sabedoria divina para compreendermos a existência humana e a importância
das funções familiares na constituição do sujeito.
É a mãe quem inscreve o pai no inconsciente da criança, ainda no
ventre. Ela antecede o pai na relação com seu bebê. Ela gera por nove meses
a criança em seu ventre, e o pai que se inscreve para a criança vem por
intermédio da mãe. O olhar da mãe para o pai e o lugar que o marido
ocupara para essa mulher são transferidos para os filhos. A mãe funda o pai
para o filho; ela legitima sua liderança. A mãe não gera um filho para si
mesma, para sua própria satisfação. Ela gera um filho para um homem, em
nome de um pai, fundando a próxima geração na transmissão do nome do
pai. Assim, o citado texto de Efésios amplia-se em seu significado neste
contexto feminino:
Mulheres, dirijam seu OLHAR para seu marido, para que seus
filhos o vejam em sua função paterna, em sua autoridade, porque
ele tem a missão, a difícil e importante missão de amar sua mulher
como Cristo amou a igreja, para proteger seus filhos na fundação da
geração seguinte. (Paráfrase minha)

Uma mulher bem nutrida, protegida, acolhida, amada vai inscrever no


filho o lugar do pai. Há uma linguagem simbólica da mãe para o filho
transitando nesse universo: “Este é o seu pai, o líder do nosso lar, que tem
um importante lugar no projeto de Deus para a sua vida”. Em contrapartida,
uma mãe que não é bem cuidada e nutrida de amor e carinho pelo marido
pode deslocar seu desejo para o filho e não dar ao seu marido o devido lugar.
Esta constatação remete-nos a uma orientação registrada em Gênesis, na
narrativa da saída de Adão e Eva do Éden, que já citei anteriormente: o teu
desejo será para o teu marido (Gn 3.16 ARA).
Quando o desejo de uma mulher desvia-se do marido para o filho, outras
vias desviantes já foram percorridas na construção de sua feminilidade e que
agora comparecem na maternidade.
Com a busca da independência feminina, a mulher entrou na
modernidade ocupando espaços que eram exclusivamente dos homens. Se
olharmos para trás, vislumbraremos a mulher na segurança de seu lar,
cuidando dos filhos e da organização da casa, sem grandes preocupações com
os problemas econômicos e financeiros à sua volta. Ela desenvolveu
múltiplas habilidades ao dar conta das demandas domésticas e de sua prole.
Era uma tragédia para as civilizações antigas perder uma mulher, pois
enquanto os homens iam à caça, elas eram as cuidadoras das crianças.
Hoje, sabemos que é inegável a capacidade de trabalho da mulher e o
diferencial evidenciado nas múltiplas funções que desempenha. Suas
competências e habilidades são ressaltadas e validadas no mercado de
trabalho como um diferencial competitivo. No entanto, isto não é sem custo.
Qual o preço de atender às demandas do trabalho na busca da qualidade
e da excelência e dar conta das demandas familiares? O trabalho exige
permanente atualização do conhecimento e cada vez mais este se transforma
em moeda de troca no mundo empresarial. O trabalho exige tempo,
quantidade e qualidade. E como fica o tempo que se destina ao marido, aos
filhos, ao lar, aos vínculos afetivos, aos rituais familiares, à formação das
crenças e valores, à transmissão da cultura; enfim, todas as demandas que
implicam o existir familiar? E a questão desafiadora que se impõe à mulher
neste cenário é: Qual o lugar da feminilidade nesta roda viva?
Um estranho mal estar comparece com este questionamento. Podemos
nomeá-lo como “O mal estar da feminilidade”. Um profundo mal-estar que
percebo através do atendimento clínico a mulheres angustiadas diante das
demandas das múltiplas funções a desempenhar.
Sabemos que não basta nascer mulher, do sexo feminino, para a
feminilidade advir, visto que esta se constitui na transmissão geracional.
Uma mulher constrói sua feminilidade em referência a uma mãe, e esta
transmissão carrega em si as questões traumáticas dos vínculos e apegos
estruturados na relação com a figura materna.
Para a conjugalidade firmar-se, uma conclusão impõe-se. Esta
experiência humana do início da vida, que se faz no ventre acolhedor e
protegido da mãe, o pequeno ninho maravilhoso, é para a criança um paraíso
inesquecível, marcado em sua estrutura para sempre. É uma experiência
decisiva para o porvir de um ser humano, que traz em si uma ambivalência
estruturante, visto que é preciso admitir as perdas primordiais da relação
original familiar para dar início à construção da descendência.
Quando [o desenvolvimento da] criança [está concluído], para a mulher
advir, eis a surpresa do retorno: há um “deixar” a ser revelado no Gênesis,
algo que cobre e re-cobre a tão intrincada questão da feminilidade.
Novamente tomamos o texto inicial de Gênesis 3.16, pois é pela palavra
divina dirigida a mulher que se organiza este lugar feminino na
conjugalidade: o teu desejo será para o teu marido. A saída do Éden impõe
uma lei, que não é sem referência e sem significação. E um novo luto impõe-
se, mais um na sequência de perdas. Porém, a angústia da perda não se
desfaz pelo esquecimento, e o luto exige a elaboração pela via da palavra,
como afirma Julien (1997, p.59):

[…] não se faz luto esquecendo… não se realiza o luto do


acontecimento senão partindo o pão da palavra, que diz a dor da
perda. Não se deixa a origem, a não ser sabendo o que se perde
graças à palavra trocada no presente.

É na palavra que o mal estar busca dissipar-se. Até mesmo na bem


comum resposta de uma mulher quando interrogada por um homem sobre o
seu mal-estar. “O que você tem?” pergunta ele. “Nada”, diz ela. Mas ele quer
saber o que o “nada” quer dizer! Existe um “nada”, um “sem razão”, uma
negação difícil de nomear. O impossível de um saber que escapa à palavra.
Como definir o mal-estar de uma feminilidade? Um nada e um tudo? O nada
é da ordem do que ainda está velado na feminilidade, que começa a desvelar-
se à medida que as angústias transformam-se em linguagem, no difícil
processo de elaboração feminina, na tentativa de decifrar os sintomas. Mas
há um tudo também presente neste contexto, no encontro de um homem e
uma mulher, na conjugalidade, onde se funda a próxima geração.
É assim que neste mal-estar a feminilidade vai articulando-se, com o
custo de suas angústias e suas dores, mas este é também o lugar que se
impõe ao feminino quando se consolida o “deixar pai e mãe” para fundar a
próxima geração.

Assim, deixar pai e mãe não é rejeitá-los em favor de uma errância


sem eira nem beira; mas também não é mais ficar a eles atado,
fazendo-se de sustentação da vida deles. Nem ódio nem amor, mas
graças ‘a lei do desejo, um outro contexto: poder voltar-se por sua
vez na direção da geração seguinte, por sua própria conjugalidade.
Dito de outro modo, o amor descende, mas não ascende: esta é a lei
implacável. Com efeito, a única maneira de honrar pai e mãe, não é
tornar-se pai e mãe… graças a eles? (JULIEN, 1997, p.54).

Esta teorização que o autor faz da construção da feminilidade nas


devidas proporções ao citar um texto bíblico, faz-me pensar na sabedoria
divina, que aponta a honra como condição para o cumprimento da promessa,
a qual se estende às próximas gerações.
Retomando o princípio divino destinado à mulher, é importante
ressaltar, mais uma vez, que ele está inserido no contexto do casal, para
orientá-lo à vida fora do jardim do Éden, preparando o homem e a mulher
para a independência e a responsabilidade de suas próprias escolhas.
Além de todas as questões subjetivas de construção de sua feminilidade,
o papel profissional que a mulher agregou aos seus múltiplos papéis, lhe tem
trazido tremendos desafios para serem conciliados em sua vida.
É evidente a facilidade que a mulher tem para encontrar espaço no
mundo profissional. Percebemos que o número de mulheres nas
universidades, nos cursos e nos concursos é superior ao dos homens. São
fatos que sinalizam a tendência do crescimento do número de mulheres no
mercado de trabalho e que nos impulsionam a uma reflexão sobre o lugar do
homem na pós-modernidade.
Este cenário mostra o quanto o desejo da mulher está voltado para o
trabalho. Cabe sempre mais um pouco de trabalho na vida de uma mulher já
envolvida neste círculo vicioso. Acostumada a múltiplas funções, e com as
experiências das inúmeras demandas familiares, a mulher permite-se
sempre mais na busca pelo reconhecimento e pela valorização. No entanto,
ela não se apercebe de que o trabalho serve como excelente motivação para
onde direcionar sua libido e tamponar os vazios afetivos. Os afetos perdidos
vão em busca do amor fantasioso e são compensados pelo consumismo –
coisas no lugar de afetos – e pela obsessão pela beleza, que se impõe como
uma lei perversa, dura, tirânica, implacável em seu padrão, o qual exige
sempre mais para um ideal de corpo inalcançável. Neste campo, entram os
transtornos alimentares, os apelos eróticos, as doenças tipicamente
femininas que atingem os órgãos da sexualidade e da fertilidade (útero,
ovários, trompas, mamas etc.). É cada vez mais assustador o número de
mulheres atingidas pelo câncer nestes órgãos.
Qual o preço desta via desviante do desejo? A angústia insiste em
comparecer para denunciar o que não pode ser denunciável: uma dor sutil e
silenciosa, como uma luzinha no painel de um veículo, que avisa de que algo
não está bem. Mulheres ansiosas, agitadas, angustiadas e insatisfeitas, que
depositam as dores da alma no corpo e na linguagem do sintoma. O sintoma
fala do que a linguagem não deu conta. São mulheres fortes, rígidas no
cumprimento do dever, que só se permitem fragilizar pela via de um
sintoma, de uma dor, de um adoecimento.
A fala de uma paciente encaminhada à terapia com diagnóstico
psiquiátrico de síndrome do pânico confirma esta tendência da mulher no
confronto com o desvio do seu desejo para o trabalho. Embora bem sucedida
profissionalmente, os sintomas denunciavam seu desamparo infantil, e pela
linguagem, falava de sua angústia e desesperança de não poder realizar seu
desejo velado de ser protegida por um homem. O sintoma falou do que a
linguagem não deu conta de expressar.

Se eu tiver que escolher entre um marido e a minha profissão, dez


vezes em dez vou escolher a minha profissão. Eu não quero abrir
mão da minha individualidade, meus pensamentos e sentimentos.
Não quero um homem para me mandar. Daqui dez anos quero
apenas um espermatozoide para eu me virar sozinha. Está difícil
uma parceria que seja boa para os dois.

Como as demandas do mercado de trabalho impõem-se sobre as


questões da feminilidade, as mulheres estão priorizando a carreira à
maternidade. É grande o número de mulheres bem-sucedidas
profissionalmente que enfrentam dificuldades para engravidar quando
decidem isto. Muitas vezes, esta decisão é tomada por pressões familiares e
sociais, e não apenas pelo desejo de ser mãe. Diante desses desafios da
feminilidade, a maternidade traz, mais uma vez, o confronto com o desejo.
Confrontadas pela infertilidade, muitas recorrem a métodos de fertilização;
no entanto, também é grande o número das que, mesmo com o auxílio
científico, não dão conta de sustentar o desejo. Na realidade, quando
analisamos a história familiar, há questões da feminilidade que precisam ser
elaboradas para que o desejo manifeste-se.

Esta teorização que o autor faz da construção da feminilidade nas


devidas proporções ao citar um texto bíblico, faz-me pensar na sabedoria
divina, que aponta a honra como condição para o cumprimento da promessa,
a qual se estende às próximas gerações.
Retomando o princípio divino destinado à mulher, é importante
ressaltar, mais uma vez, que ele está inserido no contexto do casal, para
orientá-lo à vida fora do jardim do Éden, preparando o homem e a mulher
para a independência e a responsabilidade de suas próprias escolhas.
Além de todas as questões subjetivas de construção de sua feminilidade,
o papel profissional que a mulher agregou aos seus múltiplos papéis, lhe tem
trazido tremendos desafios para serem conciliados em sua vida.
É evidente a facilidade que a mulher tem para encontrar espaço no
mundo profissional. Percebemos que o número de mulheres nas
universidades, nos cursos e nos concursos é superior ao dos homens. São
fatos que sinalizam a tendência do crescimento do número de mulheres no
mercado de trabalho e que nos impulsionam a uma reflexão sobre o lugar do
homem na pós-modernidade.
Este cenário mostra o quanto o desejo da mulher está voltado para o
trabalho. Cabe sempre mais um pouco de trabalho na vida de uma mulher já
envolvida neste círculo vicioso. Acostumada a múltiplas funções, e com as
experiências das inúmeras demandas familiares, a mulher permite-se
sempre mais na busca pelo reconhecimento e pela valorização. No entanto,
ela não se apercebe de que o trabalho serve como excelente motivação para
onde
direcionar sua libido e tamponar os vazios afetivos. Os afetos perdidos vão
em busca do amor fantasioso e são compensados pelo consumismo – coisas
no lugar de afetos – e pela obsessão pela beleza, que se impõe como uma lei
perversa, dura, tirânica, implacável em seu padrão, o qual exige sempre mais
para um ideal de corpo inalcançável. Neste campo, entram os transtornos
alimentares, os apelos eróticos, as doenças tipicamente femininas que
atingem os órgãos da sexualidade e da fertilidade (útero, ovários, trompas,
mamas etc.). É cada vez mais assustador o número de mulheres atingidas
pelo câncer nestes órgãos.
Qual o preço desta via desviante do desejo? A angústia insiste em
comparecer para denunciar o que não pode ser denunciável: uma dor sutil e
silenciosa, como uma luzinha no painel de um veículo, que avisa de que algo
não está bem. Mulheres ansiosas, agitadas, angustiadas e insatisfeitas, que
depositam as dores da alma no corpo e na linguagem do sintoma. O sintoma
fala do que a linguagem não deu conta. São mulheres fortes, rígidas no
cumprimento do dever, que só se permitem fragilizar pela via de um
sintoma, de uma dor, de um adoecimento.
A fala de uma paciente encaminhada à terapia com diagnóstico
psiquiátrico de síndrome do pânico confirma esta tendência da mulher no
confronto com o desvio do seu desejo para o trabalho. Embora bem sucedida
profissionalmente, os sintomas denunciavam seu desamparo infantil, e pela
linguagem, falava de sua angústia e desesperança de não poder realizar seu
desejo velado de ser protegida por um homem. O sintoma falou do que a
linguagem não deu conta de expressar.

Se eu tiver que escolher entre um marido e a minha profissão, dez


vezes em dez vou escolher a minha profissão. Eu não quero abrir
mão da minha individualidade, meus pensamentos e sentimentos.
Não quero um homem para me mandar. Daqui dez anos quero
apenas um espermatozoide para eu me virar sozinha. Está difícil
uma parceria que seja boa para os dois.

Como as demandas do mercado de trabalho impõem-se sobre as


questões da feminilidade, as mulheres estão priorizando a carreira à
maternidade. É grande o número de mulheres bem-sucedidas
profissionalmente que enfrentam dificuldades para engravidar quando
decidem isto. Muitas vezes, esta decisão é tomada por pressões familiares e
sociais, e não apenas pelo desejo de ser mãe. Diante desses desafios da
feminilidade, a maternidade traz, mais uma vez, o confronto com o desejo.
Confrontadas pela infertilidade, muitas recorrem a métodos de fertilização;
no entanto, também é grande o número das que, mesmo com o auxílio
científico, não dão conta de sustentar o desejo. Na realidade, quando
analisamos a história familiar, há questões da feminilidade que precisam ser
elaboradas para que o desejo manifeste-se.
Ela está casada há 15 anos e ainda não conseguiu engravidar. O nome
fictício que escolheu para relatar sua história é Maria Clara. Maria como a
mãe; e Clara? Não sei. Será clareza, trazer à luz o que estava há tanto tempo
oculto? Denunciar a dor oculta? Ela conta que iniciou o relacionamento com
seu marido ainda adolescente, em torno dos 14 anos, e que foi uma criança
“largada”, solta, molestada sexualmente. Antes dos 18 anos, engravidou.
Quando soube da gravidez, o namorado não quis aceitar e encontrou a
solução do aborto para se livrar da gravidez indesejada. “Não esqueço essa
conversa. Fui com ele a cidade escolhida, como indo para o matadouro, e só
me lembro da ida, a volta se apagou de minha mente”, relata Maria Clara.
Após o aborto, ela ficou dois anos sem menstruar. O casamento foi marcado
por depressão, hipotireoidismo, herpes, enxaqueca, adenoma e também
obesidade. Maria engordou mais de 25 quilos.
No entanto, ela esperava que, após o casamento, com a vida estabilizada
e sua escolha profissional, a gravidez viesse. Agora, ambos diziam querer um
filho. Ela vinha de uma família de pais separados: “Eu sou o pivô da
separação”. A mãe diz para ela que sentiu muita raiva em sua gestação,
porque o pai dizia que a menina não era filha dele. Maria Clara ainda
mantém uma relação muito forte com a mãe, assumindo com esta a
resolução dos problemas familiares, e a maternidade de seu irmão, que
sempre demanda muito trabalho devido à dependência. Diz que tem um
sentimento de dívida pela mãe. E, “quando eu tiver um filho, ela vai me
ajudar”.
Maria Clara volta ao assunto do aborto e comete um ato falho ao dizer:
“Quando eu morri”, em vez de “quando abortei”. Que morte é esta que se
apresenta diante do desejo da maternidade? Como dar lugar a um filho?
Funções e questões que demandam aprofundamento.
A depressão pós-parto convoca-nos à reflexão sobre esta demissão
subjetiva do posto de mãe e da direção que toma o desejo da mulher diante
da sua produção. Sua história familiar vai comparecer neste momento, na
reedição da sua vivência com a mãe e com seu modelo familiar.
A mulher reedita na maternidade as suas próprias questões com sua
mãe. Sua fragilidade subjetiva aparece no parto, com os contraditórios
sentimentos pela criança, os quais evidenciam sua falta estrutural. O amor
destinado àquela criança confunde-se em algum momento com algum
sentimento inominável, que interrompe a continuidade do olhar amoroso e
instala um vazio insuportável, sem palavras e sem razão. O estado de
encantamento diante do filho nascido perde-se em meio à realidade da
demanda da criança: o choro, a amamentação, as noites maldormidas, a
intromissão dos outros ‘apoiadores’, enfim, a angústia sem palavras. O parto
impõe a vida, mas há um luto a fazer do filho acolhido no ventre – um luto e
um laço no confronto do reconhecimento, que não é sem implicações.

Um defeito de reconhecimento, de elaboração dessas rupturas pode


impedir que a mãe estabeleça laços entre este filho que ela traz em
si, aquele que ela é, aquele que ela carregou, aquele que apareceu e,
enfim, aquele com quem ela se preocupa. (BENHAIM, 2007, p.14).

A função paterna vem estruturar essa relação à medida que convoca a


mãe a remeter seu olhar para seu desejo que está além da criança, ou seja,
para o homem que recebe a permissão de fazer o corte, a separação entre
mãe/bebê (BENHAIM, 2007, p.39). Benhaim afirma que “na falta disto, a
separação tornar-se impossível, o estado de fusão é mantido, estado em que
mãe e filho se confundem e em que o amor e ódio se fundem”. Os transtornos
psíquicos vão dizer desta fusão.
Novamente convém ressaltar a função do pai interditor, representante
da Lei, que permite àquela criança, como um ser separado da mãe, vida. A
Lei do Incesto demarca para a mãe que ela não pode incorporar em si mesma
o filho que abrigou em seu útero, o qual agora, pelo parto, inicia a partida
para seu próprio percurso existencial.
Este ser, totalmente dependente de cuidados, de nutrição e de
investimento amoroso, lança e relança para a mulher as questões da
maternidade, de suas faltas, das perdas não elaboradas e da construção de
sua feminilidade. A filha que a mãe foi comparece ali para implicar a
passagem para uma nova posição, e isto não acontece sem dor, como diz o
texto bíblico da gênese da criação: Com dor terás filhos (Gn 3.16 ARC). Toda
mulher sabe que desde o momento em que se inicia a concepção, nunca mais
será um processo indolor. A ciência tem minimizado a dor física do parto,
mas há uma outra dor que cada mãe acolhe em seu peito: a dor da alma, que
se derrama diante de Deus pela vida de seu filho, pelos desafios que ele
enfrenta para construir seu percurso existencial independente dos pais. Em
cada fase de vida de seu filho, a mãe é confrontada com sua dor de amar e
deixar partir.
Mas, quando a orientação de Deus não é compreendida e o desvio do
desejo acontece, neste contexto mórbido de desvios do desejo para além do
marido, o filho é tomado para preencher o lugar esvaziado da figura
masculina. A mãe não dirige seu olhar para o marido. Não se lembra mais de
que antes de ser mãe para um filho, ela é mulher para um homem. Sem
“suor” e sem “pão”, sem autoridade e sem Lei, a criança é tomada para
preencher um lugar que não lhe pertence, e assim, ela vai, muitas vezes,
literalmente ocupar o lugar do pai na cama da mãe. E é neste viés que
podemos olhar as disfunções na família. As histórias familiares denunciam
os desvios e as consequências na vida de seus membros.
No entanto, ela esperava que, após o casamento, com a vida estabilizada
e sua escolha profissional, a gravidez viesse. Agora, ambos diziam querer um
filho. Ela vinha de uma família de pais separados: “Eu sou o pivô da
separação”. A mãe diz para ela que sentiu muita raiva em sua gestação,
porque o pai dizia que a menina não era filha dele. Maria Clara ainda
mantém uma relação muito forte com a mãe, assumindo com esta a
resolução dos problemas familiares, e a maternidade de seu irmão, que
sempre demanda muito trabalho devido à dependência. Diz que tem um
sentimento de dívida pela mãe. E, “quando eu tiver um filho, ela vai me
ajudar”.
Maria Clara volta ao assunto do aborto e comete um ato falho ao dizer:
“Quando eu morri”, em vez de “quando abortei”. Que morte é esta que se
apresenta diante do desejo da maternidade? Como dar lugar a um filho?
Funções e questões que demandam aprofundamento.
A depressão pós-parto convoca-nos à reflexão sobre esta demissão
subjetiva do posto de mãe e da direção que toma o desejo da mulher diante
da sua produção. Sua história familiar vai comparecer neste momento, na
reedição da sua vivência com a mãe e com seu modelo familiar.
A mulher reedita na maternidade as suas próprias questões com sua
mãe. Sua fragilidade subjetiva aparece no parto, com os contraditórios
sentimentos pela criança, os quais evidenciam sua falta estrutural. O amor
destinado àquela criança confunde-se em algum momento com algum
sentimento inominável, que interrompe a continuidade do olhar amoroso e
instala um vazio insuportável, sem palavras e sem razão. O estado de
encantamento diante do filho nascido perde-se em meio à realidade da
demanda da criança: o choro, a amamentação, as noites maldormidas, a
intromissão dos outros ‘apoiadores’, enfim, a angústia sem
palavras. O parto impõe a vida, mas há um luto a fazer do filho acolhido no
ventre – um luto e um laço no confronto do reconhecimento, que não é sem
implicações.

Um defeito de reconhecimento, de elaboração dessas rupturas pode


impedir que a mãe estabeleça laços entre este filho que ela traz em
si, aquele que ela é, aquele que ela carregou, aquele que apareceu e,
enfim, aquele com quem ela se preocupa. (BENHAIM, 2007, p.14).

A função paterna vem estruturar essa relação à medida que convoca a


mãe a remeter seu olhar para seu desejo que está além da criança, ou seja,
para o homem que recebe a permissão de fazer o corte, a separação entre
mãe/bebê (BENHAIM, 2007, p.39). Benhaim afirma que “na falta disto, a
separação tornar-se impossível, o estado de fusão é mantido, estado em que
mãe e filho se confundem e em que o amor e ódio se fundem”. Os transtornos
psíquicos vão dizer desta fusão.
Novamente convém ressaltar a função do pai interditor, representante
da Lei, que permite àquela criança, como um ser separado da mãe, vida. A
Lei do Incesto demarca para a mãe que ela não pode incorporar em si mesma
o filho que abrigou em seu útero, o qual agora, pelo parto, inicia a partida
para seu próprio percurso existencial.
Este ser, totalmente dependente de cuidados, de nutrição e de
investimento amoroso, lança e relança para a mulher as questões da
maternidade, de suas faltas, das perdas não elaboradas e da construção de
sua feminilidade. A filha que a mãe foi comparece ali para implicar a
passagem para uma nova posição, e isto não acontece sem dor, como diz o
texto bíblico da gênese da criação: Com dor terás filhos (Gn 3.16 ARC). Toda
mulher sabe que desde o momento em que se inicia a concepção, nunca mais
será um processo indolor. A ciência tem minimizado a dor física do parto,
mas há uma outra dor que cada mãe acolhe em seu peito: a dor da alma, que
se derrama diante de Deus pela vida de seu filho, pelos desafios que ele
enfrenta para construir seu percurso existencial independente dos pais. Em
cada fase de vida de seu filho, a mãe é confrontada com sua dor de amar e
deixar partir.
Mas, quando a orientação de Deus não é compreendida e o desvio do
desejo acontece, neste contexto mórbido de desvios do desejo para além do
marido, o filho é tomado para preencher o lugar esvaziado da figura
masculina. A mãe não dirige seu olhar para o marido. Não se lembra mais de
que antes de ser mãe para um filho, ela é mulher para um homem. Sem
“suor” e sem “pão”, sem autoridade e sem Lei, a criança é tomada para
preencher um lugar que não lhe pertence, e assim, ela vai, muitas vezes,
literalmente ocupar o lugar do pai na cama da mãe. E é neste viés que
podemos olhar as disfunções na família. As histórias familiares denunciam
os desvios e as consequências na vida de seus membros.
Um exemplo dessas distorções é a história de um rapaz, que buscou
atendimento para lidar com a falta de desejo sexual por sua esposa depois
que ela teve filho. Ele não entendia as razões e afirmava seu amor e sua
admiração pela beleza da esposa.
Ao falar de sua história familiar, ele contou que sua mãe viveu muitos
conflitos com seu pai, e quando ele estava no início da adolescência, ela
decidiu separar-se dele, embora ainda vivessem na mesma casa. O pai foi
para o quarto do filho e passou a dormir na cama dele, e o filho foi dormir
junto com a mãe. “Era melhor para todos separar assim”, afirmou o rapaz.
É importante ressaltar que ele estava no início da adolescência, quando
sua sexualidade estava aflorando. Como compreender o que acontecia com
sua libido naquele momento? Era da ordem do interdito e só lhe restava
reprimir. E agora que sua mulher comparecia como mãe em sua cama, o que
estava acontecendo com seu desejo?
Mãe é uma função – uma especial função que, junto com o pai, é
desempenhada com prazo determinado para acabar: gerar um filho, nutrir,
cuidar, formar seu caráter, sua identidade, seu valor pessoal; prepará-lo para
a vida e liberá-lo como adulto independente para construir a próxima
geração. No entanto, quando uma mulher vai para o casamento sem elaborar
suas questões mal resolvidas com os pais, enfrentará dificuldades em
compreender e aceitar o lugar do marido na estrutura familiar. Sem
simbolizar sua relação com a mãe, a angustiante hostilidade dirigida a ela,
angústia que se transforma, muitas vezes, em dependência, a mulher não se
permite aceder inteiramente ao desejo. E, como cumprir o desígnio: o teu
desejo será para o teu marido, se não cumpriu o “deixar”?
O lugar de pai anulado na família de origem, a carência de afeto, as
mágoas, os ressentimentos e as amarguras, as raivas e os rancores serão
depositados na relação conjugal. Mulheres feridas tornam-se “fortes” para se
protegerem da dor e elegem inconscientemente homens frágeis, perpetuando
o modelo.
A escolha de um cônjuge é da ordem da idealização, e quando as
carências não são supridas na expectativa do amor fantasioso, a frustração
leva a ações compensatórias, e questões mal resolvidas repetem-se. Como
forma de compensação emocional, a tendência é procurar ocupar todos os
espaços na relação em busca de reconhecimento e aceitação. Para isso, é
preciso tornar-se indispensável, dar conta de tudo e assumir o poder e a
autoridade.
As consequências são danosas para o relacionamento conjugal e para o
familiar. Larry Coy, em seu curso Conflitos da Vida, já apontava estas
consequências, que se confirmam na escuta clínica e no trabalho com casais
e famílias. Relaciono abaixo algumas que são mais percebidas no processo de
adoecimento do relacionamento conjugal:

O marido torna-se uma figura decorativa no lar, indiferente às


necessidades da esposa e da família. A reação feminina é o
ressentimento por não receber o reconhecimento desejado.

Com o excesso de trabalho e atividades, a esposa fica sempre muito


cansada e “estressada”. Mas como “precisa” manter sua posição de
indispensável, ela carrega as cargas de todos na família e toma conta de
tudo.

Com suas inúmeras ocupações, a esposa não legitima a liderança do


marido diante dos filhos, e estes criam uma imagem deturpada do pai –
a imagem construída pela via do olhar de esposa, e não de filho, devido
às queixas que a mãe dirige ao marido. As decisões do esposo são
menosprezadas diante dos filhos, e como reação, ele muitas vezes
escolhe a omissão devido ao receio de fracassar.
Os filhos abrigam rancor oculto contra a mãe poderosa, que subjuga o
pai e a família.

Na inútil tentativa de mudar um ao outro, as críticas e depreciações


fazem parte do relacionamento do casal. Ele, por não se sentir
valorizado e apoiado, isola-se de casa, priorizando seu trabalho e
amizades.

O relacionamento é marcado pelo ressentimento e pela amargura, e pela


falta de perdão dos erros cometidos. O resultado é uma comunicação
empobrecida, marcada por rancores que comparecem na forma de
tratarem-se, nas palavras agressivas, no tom de voz e no olhar
depreciativo.

Como as prioridades da mulher estão acima das prioridades familiares,


o marido ressentido passa a fazer excessivas cobranças e exigências.

Magoado e amargurado pela indisposição da esposa em reconhecer a


contribuição que ela tem para o desgaste da relação, o relacionamento
sexual deteriora-se. A indiferença e o defensivismo vão minando as
possibilidades de aproximação, erguendo barreiras que distanciam cada
vez mais o casal e denunciando o adoecimento e a morte iminente do
relacionamento conjugal.

Infeliz e frustrada, a mulher tenta compensar em compras ou na


excessiva preocupação com a aparência o que o marido ignora
completamente. A relação conjugal fica fragilizada e o casal mantém um
relacionamento de aparências.

Os filhos sofrem as consequências disso em seus próprios


relacionamentos e transferem para a geração seguinte as questões mal
resolvidas na família de origem.

Quando os filhos vão embora, o ninho fica vazio, sem amor, carinho e
afeto. Um ninho frio… muito frio. O casal está junto, mas como dois
porcos espinhos, que se espetam o tempo todo. Duas pessoas
amarguradas e distantes, que não têm mais interesses em comum e que
vivem isoladas, embora estejam no mesmo espaço geográfico. O lar
deixa de ser uma lareira (grifo da autora): lugar onde se aquece do frio.
O marido torna-se uma figura decorativa no lar, indiferente às
necessidades da esposa e da família. A reação feminina é o
ressentimento por não receber o reconhecimento desejado.

Com o excesso de trabalho e atividades, a esposa fica sempre muito


cansada e “estressada”. Mas como “precisa” manter sua posição de
indispensável, ela carrega as cargas de todos na família e toma conta de
tudo.

Com suas inúmeras ocupações, a esposa não legitima a liderança do


marido diante dos filhos, e estes criam uma imagem deturpada do pai –
a imagem construída pela via do olhar de esposa, e não de filho, devido
às queixas que a mãe dirige ao marido. As decisões do esposo são
menosprezadas diante dos filhos, e como reação, ele muitas vezes
escolhe a omissão devido ao receio de fracassar.

Os filhos abrigam rancor oculto contra a mãe poderosa, que subjuga o


pai e a família.

Na inútil tentativa de mudar um ao outro, as críticas e depreciações


fazem parte do relacionamento do casal. Ele, por não se sentir
valorizado e apoiado, isola-se de casa, priorizando seu trabalho e
amizades.

O relacionamento é marcado pelo ressentimento e pela amargura, e pela


falta de perdão dos erros cometidos. O resultado é uma comunicação
empobrecida, marcada por rancores que comparecem na forma de
tratarem-se, nas palavras agressivas, no tom de voz e no olhar
depreciativo.

Como as prioridades da mulher estão acima das prioridades familiares,


o marido ressentido passa a fazer excessivas cobranças e exigências.

Magoado e amargurado pela indisposição da esposa em reconhecer a


contribuição que ela tem para o desgaste da relação, o relacionamento
sexual deteriora-se. A
indiferença e o defensivismo vão minando as possibilidades de
aproximação, erguendo barreiras que distanciam cada vez mais o casal e
denunciando o adoecimento e a morte iminente do relacionamento
conjugal.

Infeliz e frustrada, a mulher tenta compensar em compras ou na


excessiva preocupação com a aparência o que o marido ignora
completamente. A relação conjugal fica fragilizada e o casal mantém um
relacionamento de aparências.

Os filhos sofrem as consequências disso em seus próprios


relacionamentos e transferem para a geração seguinte as questões mal
resolvidas na família de origem.

Quando os filhos vão embora, o ninho fica vazio, sem amor, carinho e
afeto. Um ninho frio… muito frio. O casal está junto, mas como dois
porcos espinhos, que se espetam o tempo todo. Duas pessoas
amarguradas e distantes, que não têm mais interesses em comum e que
vivem isoladas, embora estejam no mesmo espaço geográfico. O lar
deixa de ser uma lareira (grifo da autora): lugar onde se aquece do frio.
Creio que essas razões são suficientes para a reflexão sobre as funções
familiares e para a compreensão do texto bíblico referente à carta que o
Apóstolo Paulo escreveu aos efésios. No capítulo destinado à família, ele se
dirige, em primeiro lugar, às mulheres em suas orientações, e esta ordem não
foi por acaso.

3.4. O Declínio da Função Paterna

A ideia de ser pai desencadeou em mim um turbilhão de emoções.


Achava a perspectiva assustadora, fortalecedora, desanimadora e
estimulante, tudo ao mesmo tempo. Que tipo de pai eu seria, ficava
imaginando. Queria ser exatamente como baba e ser inteiramente
diferente dele.
O Caçador de Pipas

O que pensar sobre a função paterna neste contexto da pós-


modernidade? O que se interroga neste momento é: “O que é ser pai?” Esta
questão é um sintoma do nosso tempo que tem produzido inúmeros debates
sem conclusões satisfatórias. E neste sentido, Julien (1997) propõe a questão
de outra maneira: “não o que é ser pai, mas o que é ter tido um pai”,
As primárias conceituações apresentam o pai como o detentor da
autoridade e do poder. Émile Benveniste (apud JULIEN, 1997, p.27)
apresenta uma interessante definição de autoridade concernente à família:

É autor aquele que promove, que é o primeiro a produzir uma


atividade qualquer, aquele que funda, aquele que garante. Eis
porque toda palavra pronunciada com autoridade determina uma
mudança no mundo, cria alguma coisa. Está aí o poder que dá
existência a uma lei.

Com a modernidade, vimos o deslocamento do poder do pai para a mãe


e o tão falado declínio da imagem paterna. A prática clínica permite-nos
constatar a dificuldade que o homem tem enfrentado para entender e ocupar
este lugar. A busca da sua referência paterna vem dos modelos positivos e
também dos negativos: “Foi assim que meu pai me criou. Era dessa maneira
que ele agia, e eu vou criar meu filho da mesma forma”. Outros dizem:
“Odeio lembrar o exemplo do meu pai e quero fazer tudo diferente dele”.
Estas falas revelam a marca do pai presente no exercício da paternidade. Na
realidade, um pai é pai em referência a outro pai: no que quer,
conscientemente, repetir ou não, mas também nas reações que
inconscientemente repete e que denunciam a referência paterna rejeitada. O
que não se consegue lidar e que foi recalcado retorna fazendo sintoma e
trazendo a identificação e a repetição.
Sabemos que o desejo de ser pai vem para um homem mais
especificamente pelo desejo por uma mulher. E é este desejo primário que o
levará a ser pai como produto secundário de seu desejo por uma mulher. Eis
aí a questão que angustia o homem, pois, em muitos casos, não houve o
desejo de ser pai, mas apenas o desejo por uma mulher que resultou na
concepção de uma criança. São exemplos rotineiros de homens — alguns
ainda bem jovens —, como adolescentes que estão lidando com suas questões
de identidade e sexualidade e descobrem que a namorada está grávida, e por
isso, são impelidos a assumirem um lugar que não desejaram e do qual não
apreenderam seu significado e suas responsabilidades inerentes.
A discussão sobre o enfraquecimento da função paterna toma os
estudiosos de diversos segmentos da nossa sociedade, lançando a mesma
questão que aflige o homem na busca da compreensão deste lugar:
O QUE É, PORTANTO, UM PAI?

Não uma resposta, mas muitas outras questões emergem desta


pergunta: “Seria o homem que deseja uma mulher, relaciona-se sexualmente
com ela e a engravida”? “Pai de uma noite, apenas um pai biológico?” Não é
suficiente para que alguém possa ocupar o posto de pai. Seria o homem que
provê alimento, ou seja, um provedor? As mulheres têm também provido
alimento por meio de seu próprio trabalho, e isso não é suficiente para
inscrever um pai. Seria o educador que ensina, que transmite orientações?
Qualquer um pode ocupar esse lugar, e as mulheres também fazem isso
muito bem.
Busca-se a suplência e não se chega a esse lugar. Um pai não se inscreve
apenas por cumprir uma ou outra função. É para além de um lugar junto à
criança que se busca a questão sobre o ser pai. É primeiramente um lugar
que a mãe inaugura para o filho, dando, ela própria, o lugar a este homem. E
este lugar apresenta-se pela palavra da mãe. Sem sua palavra, o pai não
existe para a criança.
Nesta questão, Freud (FREUD, 1990, p.136) contribui com sua
teorização quando afirma que “a maternidade é provada pela evidência dos
sentidos, ao passo que a paternidade é uma hipótese, baseada numa
inferência e numa premissa”. A mãe apresenta-se para o filho como a
certeza, e o pai, como a possibilidade. Compreendemos, assim, que a mãe
funda o pai à medida que ela afirma o pai para a criança. Quando uma mãe
cala-se sobre a paternidade para um filho, ele vai viver na errância paterna,
isto é, na busca de uma significação simbólica para este lugar esvaziado pelo
silêncio da mãe.
A história de um rapaz fala desta angustiante busca de um pai, que não
se nomeia no discurso materno:
Ele era um homem jovem, bonito, bem-sucedido profissionalmente e
que se casou em plena juventude, pois muito queria construir uma família.
Quando os filhos vieram, os sintomas no corpo começaram a falar de suas
angústias com a paternidade: fortes dores de cabeça e outros sintomas, e os
médicos não conseguiam diagnosticar a origem de todos aqueles males que
sucediam a ele. O homem separou-se da mulher e foi levar sua vida, em uma
intensa busca de felicidade. Não conseguiu sustentar a conjugalidade nem a
função paterna. Quando buscou ajuda psicológica, sua linguagem denunciou
a questão real: “Preciso saber quem é meu pai, mas minha mãe recusa-se a
falar do assunto”.
Na obstinação angustiante sobre sua origem, ele empreendeu todos os
esforços para descobrir sem a ajuda da mãe. Buscou informações com
parentes, foi à cidade natal da mãe, mas o silêncio das pessoas buscadas foi a
vã resposta que obteve. Em sua busca por sentido e significado para sua vida,
encontrou uma moça que foi sua companheira nesta trajetória. No entanto, a
situação complicou-se quando ela engravidou, pois, mais uma vez, ele foi
confrontado com a paternidade.
Já na fase dos 40 anos de idade, ele não conseguia mais justificar suas
inquietações para não assumir a paternidade do filho, e aquele era o
momento de consolidar a família e dar conta de sua função. Afinal, a sua
busca tinha sido em vão, e era momento de buscar a estabilidade emocional.
Decidiu pelo casamento. Mas, como durante todo o tempo seus sintomas
físicos sempre estiveram presentes, a medicação não dava conta de resolvê-
los, e sua saúde ficava cada vez mais fragilizada. No entanto, ele marcou o dia
do casamento, mas na semana que o antecedia, foi internado em estado
grave. Despediu-se da vida na impossibilidade de assumir um lugar e uma
função esvaziados pelo silêncio de sua mãe, mas, desejando, até o último
momento, o encontro com o olhar do pai desconhecido. Sua dor: um grito ao
pai desconhecido.
Este é um lugar que a justiça tornou-se insuficiente para garantir.
Sabemos que o exame de DNA, garantido pela justiça para comprovar a
paternidade declarada por uma mãe a seu filho, não é a garantia da
sustentação desta função, embora seja melhor do que nada. Um exemplo
mostrado na mídia evidenciou a luta de uma filha, já adulta, para comprovar
a paternidade. Filha de uma pessoa famosa, ela lutou pela sua nomeação com
os direitos garantidos pela justiça, mas qual não foi a sua decepção quando o
pai foi a público afirmar que cumpria as exigências judiciais, porém, ele não
a reconhecia como filha afetiva. Esta moça adoece algum tempo depois, e,
vitimada por um câncer, a imprensa noticia sua morte.
O pai é o operador lógico que introduz a subjetividade, e a sua ausência
e o seu abandono afetivo deixam o filho à deriva da vida. A função paterna
representa a Lei, o limite, a segurança e a proteção. O pai é o transmissor de
uma nomeação para um filho e estará sempre no registro de sua suficiência.
Ser o suporte e o referente da Lei para seu filho institui a diferença que
possibilita a descendência.
Nesta questão, Freud (FREUD, 1990, p.136) contribui com sua
teorização quando afirma que “a maternidade é provada pela evidência dos
sentidos, ao passo que a paternidade é uma hipótese, baseada numa
inferência e numa premissa”. A mãe apresenta-se para o filho como a
certeza, e o pai, como a possibilidade. Compreendemos, assim, que a mãe
funda o pai à medida que ela afirma o pai para a criança. Quando uma mãe
cala-se sobre a paternidade para um filho, ele vai viver na errância paterna,
isto é, na busca de uma significação simbólica para este lugar esvaziado pelo
silêncio da mãe.
A história de um rapaz fala desta angustiante busca de um pai, que não
se nomeia no discurso materno:
Ele era um homem jovem, bonito, bem-sucedido profissionalmente e
que se casou em plena juventude, pois muito queria construir uma família.
Quando os filhos vieram, os sintomas no corpo começaram a falar de suas
angústias com a paternidade: fortes dores de cabeça e outros sintomas, e os
médicos não conseguiam diagnosticar a origem de todos aqueles males que
sucediam a ele. O homem separou-se da mulher e foi levar sua vida, em uma
intensa busca de felicidade. Não conseguiu sustentar a conjugalidade nem a
função paterna. Quando buscou ajuda psicológica, sua linguagem denunciou
a questão real: “Preciso saber quem é meu pai, mas minha mãe recusa-se a
falar do assunto”.
Na obstinação angustiante sobre sua origem, ele empreendeu todos os
esforços para descobrir sem a ajuda da mãe. Buscou informações com
parentes, foi à cidade natal da mãe, mas o silêncio das pessoas buscadas foi a
vã resposta que obteve. Em sua busca por sentido e significado para sua vida,
encontrou uma moça que foi sua
companheira nesta trajetória. No entanto, a situação complicou-se quando
ela engravidou, pois, mais uma vez, ele foi confrontado com a paternidade.
Já na fase dos 40 anos de idade, ele não conseguia mais justificar suas
inquietações para não assumir a paternidade do filho, e aquele era o
momento de consolidar a família e dar conta de sua função. Afinal, a sua
busca tinha sido em vão, e era momento de buscar a estabilidade emocional.
Decidiu pelo casamento. Mas, como durante todo o tempo seus sintomas
físicos sempre estiveram presentes, a medicação não dava conta de resolvê-
los, e sua saúde ficava cada vez mais fragilizada. No entanto, ele marcou o dia
do casamento, mas na semana que o antecedia, foi internado em estado
grave. Despediu-se da vida na impossibilidade de assumir um lugar e uma
função esvaziados pelo silêncio de sua mãe, mas, desejando, até o último
momento, o encontro com o olhar do pai desconhecido. Sua dor: um grito ao
pai desconhecido.
Este é um lugar que a justiça tornou-se insuficiente para garantir.
Sabemos que o exame de DNA, garantido pela justiça para comprovar a
paternidade declarada por uma mãe a seu filho, não é a garantia da
sustentação desta função, embora seja melhor do que nada. Um exemplo
mostrado na mídia evidenciou a luta de uma filha, já adulta, para comprovar
a paternidade. Filha de uma pessoa famosa, ela lutou pela sua nomeação com
os direitos garantidos pela justiça, mas qual não foi a sua decepção quando o
pai foi a público afirmar que cumpria as exigências judiciais, porém, ele não
a reconhecia como filha afetiva. Esta moça adoece algum tempo depois, e,
vitimada por um câncer, a imprensa noticia sua morte.
O pai é o operador lógico que introduz a subjetividade, e a sua ausência
e o seu abandono afetivo deixam o filho à deriva da vida. A função paterna
representa a Lei, o limite, a segurança e a proteção. O pai é o transmissor de
uma nomeação para um filho e estará sempre no registro de sua suficiência.
Ser o suporte e o referente da Lei para seu filho institui a diferença que
possibilita a descendência.
É, no entanto, pela palavra da mãe, que o filho vai reconhecer o lugar de
autoridade do pai na família. Mesmo ausente fisicamente, o pai estará
presente pelo discurso da mãe: “Filho, quando seu pai chegar… Vou contar
para seu pai… Você vai ver o que seu pai vai dizer…”. O nome do pai permeia
o cotidiano doméstico e afirma sua presença, seu lugar de autoridade dado
pela mãe, permitindo, assim, ao filho a construção da imagem paterna.
Presente ou ausente, pela voz da mãe ou pelo olhar, o pai detém
originalmente este controle da família.
Mas, com as questões da pós-modernidade, o divórcio, a fragilidade dos
vínculos familiares e as diversas configurações, os homens estão errantes
nesta função, que funda a próxima geração, e os filhos desta geração têm
ficado à deriva. A voz da mãe não mais fala do pai. Há um silêncio que fala de
um lugar vazio diante dos conflitos que abalaram a conjugalidade.
E o olhar? O que significa para um filho o olhar de um pai? A poesia que
Nilton Bonder usou na contracapa de seu livro A alma imoral, embora não
se refira à paternidade, traz para mim a percepção que um filho tem do olhar
do pai, ou mesmo o enigma que vem do seu olhar, que além da visão, captura
a alma:
Há um olhar que sabe discernir o certo o errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito
e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece
os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um
olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem
fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o
da alma
(BONDER, 1998, contracapa)

Para onde foi aquele olhar que se transmitia como linguagem de


autoridade diante dos filhos? “Nunca vou me esquecer do olhar de meu pai
naquele dia. Nem precisava de palavras, aquele olhar machucou meu
coração. Só pelo seu olhar, eu sabia o que tinha de obedecer”. Esta fala de
uma filha, observada pelo pai em um momento de falta às suas orientações,
evidencia a importância do olhar paterno.
Nos momentos importantes da vida, o olhar do pai era a certeza de
reconhecimento e orgulho. Que valor teria ganhar o jogo de futebol, a luta no
judô, o concurso de rainha da primavera, a audição de piano, a formatura ou
outras conquistas, se o pai não estivesse presente? No meio de uma
multidão, os olhos do filho buscam o olhar do pai, e quando os olhares se
encontram, há o brilho da alegria e a conquista ganha valor.
No cumprimento da Lei, que exigia obediência, ou na afirmação da
identidade, o olhar do pai impactava por seu valor e importância, e sua
potência e autoridade eram transmitidas pelo olhar e por várias outras
formas. A expressividade de cada olhar transmitia ao filho as marcas de sua
presença, e como grande representante da Lei, o pai interditava e impunha
os limites necessários à construção de seu processo civilizatório. E isto se
transmitia à próxima geração.
Lembro-me de meus primeiros anos escolares, quando um colega de
escola, mais velho do que eu, bateu em mim na saída da escola. Chorando,
disse para ele: “Vou falar com meu pai”. Esta era a reação natural das
crianças, que traziam como defesa a presença simbólica do pai: “Vou chamar
meu pai, viu, você vai ver o que ele vai fazer com você!” Como se vê pouco
esse discurso hoje! Diante da ausência paterna, o filho diz: “Vou chamar
minha mãe, viu”. Mas esta é uma fala incerta, insegura; e o olhar cabisbaixo
já não transmite mais a certeza da defesa e da proteção.
Hoje, na escuta clínica, o discurso que comparece traz um profundo
sentimento de orfandade. Há uma geração de filhos órfãos de pais vivos,
ausentes afetivamente, que não exercem a autoridade e a Lei, e que deixam
os filhos sem rumo e sem direção, caminhando desnorteados em busca de
uma identidade.
Com as grandes questões sociais, a figura do pai acabou sendo
descartada por uma sociedade abalada em seus valores. E com a
independência financeira da mulher, muitas afirmam que não precisam da
figura masculina para prover seu sustento. Daí para frente, há também o
processo de exclusão da figura paterna para a procriação. Ele é escolhido
para estar presente na fecundação, mas tem, muitas vezes, a sua presença
descartada logo em seguida. A produção independente ganha cada vez mais
adeptas. Não se exige o exercício da função, desde que se compareça com os
recursos financeiros. Desta forma, muitos homens têm se sentido sem
direção e sem norte, e por isso, preferiram tomar o caminho da omissão e da
ausência, acomodando-se a esta situação. Os laços familiares ficaram muito
frágeis e desfazem-se com facilidade por homens e mulheres que desistem de
empreender a luta pela manutenção dos valores familiares que estruturam a
próxima geração.
Nesta condição, a função paterna é, muitas vezes, terceirizada para o
terapeuta, o pedagogo, a escola e outros terceiros com quem a mãe busca
ajuda quando é confrontada com questões da criança que ela não dá conta de
lidar. Na clínica, a fala da mãe traz esse lugar vazio do pai: “O pai dele é
ausente”; ou “Ele não conhece o pai”; ou “O pai nunca quis saber dele e
apenas paga a pensão estipulada pela justiça”, e outras expressões
semelhantes. Função e presença distinguem-se, separam-se na dinâmica
familiar, deslocando o lugar do pai, diante da fragilidade dos laços conjugais.
A função paterna fica restrita a cumprimento de papéis e tarefas que podem
ser realizados por quaisquer outros.
Este cenário angustiante convoca-nos a olharmos para os princípios
divinos registrados nas Escrituras Sagradas. É importante perceber como
neste momento em que a sociedade anseia por um norte para estas questões
e os teóricos comportamentais discutem soluções, a Bíblia traz respostas com
profundidade e simplicidade. O texto escrito aos Efésios, no capítulo 5, já
citado aqui, define claramente o lugar do homem na conjugalidade e a
importância da compreensão deste lugar para o exercício da função paterna.
Depois de falar à mulher sobre o lugar do homem como líder, a palavra é
dirigida aos homens: Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como
Cristo amou a igreja e entregou-se por ela (Ef 5.25 NVI).
O modelo citado na referência bíblica é Cristo. Ele é apresentado como o
referencial de amor, proteção, defesa e cuidado: vida e morte destinadas a
um propósito especial. Aí está a sabedoria divina em prover o cuidado e a
proteção da estrutura psíquica de cada ser humano.
Se o homem cumprir a missão outorgada a ele, nutrirá sua mulher de
amor e proteção e ela fará a transmissão desse amor para o seu bebê ainda
no ventre. Mulheres inseguras, desamparadas, mal-amadas não conseguem
transmitir adequadamente ao bebê a primeira e mais importante nutrição
que ele precisa para nascer com um efetivo sentimento de aceitação. Sem
colocar-se sob a missão do amor e sem receber o cuidado amoroso de seu
marido, a mãe terá dificuldades em transmitir a seu filho a legitimidade da
liderança paterna.
Como vimos na constituição da subjetividade humana, ao nascer, a
criança dá continuidade a sua ligação dual com a mãe por meio da
amamentação, e o pai inscreve-se pelo lugar que a mãe instaura. Uma frase
em um cartaz afixado na parede de um hospital que visitamos traduz bem
esta questão aqui apresentada: a mãe amamentava seu bebê, e ao seu lado, o
pai olhava carinhosamente aquela cena. A frase dizia: “Se você não tem peito
para dar, dê força”.
O pai entra nessa relação, comparece, faz-se presente, afirma sua
paternidade ao olhar para a mãe. Não um olhar de contemplação da cena,
não um olhar de competição, mas um olhar de afirmação da paternidade. E
este é também o momento mais sublime do princípio da adoção. A-dotar é
dotar de amor, em uma conceituação simbólica desta palavra. É o pai quem
afirma a identidade de seu filho, e a Bíblia tem expressões belíssimas e
repletas de significado vindo do Deus Pai para seu filho: Tu és meu Filho; eu
hoje te gerei (Hb 5.5 ARA). Eu serei seu pai, e ele será meu filho (2 Sm 7.14
NVI). “Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado” (Mc 1.11 NVI).
A mãe legitima a liderança ao direcionar seu olhar para o pai. Esse olhar
da mãe para ele tem uma linguagem simbólica, a linguagem de afirmação do
lugar do pai: “Este é teu pai”. Embora tudo isso seja marcado por
significados simbólicos, é neste momento, nos primeiros contatos, que o pai
vai inscrevendo sua presença na mente e no coração do filho.
Com o declínio da imagem paterna, este lugar não é mais demarcado,
fica vazio, e muitos filhos estão vagando por aí, solitários e vazios,
destituídos de uma imagem de pai que lhes dê limites e amor, ou seja, com
uma grande fome de pai. E assim vão buscando em tantas coisas destrutivas
um prazer que lhes foi privado desde os primeiros momentos de vida.
Nesta condição, a função paterna é, muitas vezes, terceirizada para o
terapeuta, o pedagogo, a escola e outros terceiros com quem a mãe busca
ajuda quando é confrontada com questões da criança que ela não dá conta de
lidar. Na clínica, a fala da mãe traz esse lugar vazio do pai: “O pai dele é
ausente”; ou “Ele não conhece o pai”; ou “O pai nunca quis saber dele e
apenas paga a pensão estipulada pela justiça”, e outras expressões
semelhantes. Função e presença distinguem-se, separam-se na dinâmica
familiar, deslocando o lugar do pai, diante da fragilidade dos laços conjugais.
A função paterna fica restrita a cumprimento de papéis e tarefas que podem
ser realizados por quaisquer outros.
Este cenário angustiante convoca-nos a olharmos para os princípios
divinos registrados nas Escrituras Sagradas. É importante perceber como
neste momento em que a sociedade anseia por um norte para estas questões
e os teóricos comportamentais discutem soluções, a Bíblia traz respostas com
profundidade e simplicidade. O texto escrito aos Efésios, no capítulo 5, já
citado aqui, define claramente o lugar do homem na conjugalidade e a
importância da compreensão deste lugar para o exercício da função paterna.
Depois de falar à mulher sobre o lugar do homem como líder, a palavra é
dirigida aos homens: Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como
Cristo amou a igreja e entregou-se por ela (Ef 5.25 NVI).
O modelo citado na referência bíblica é Cristo. Ele é apresentado como o
referencial de amor, proteção, defesa e cuidado: vida e morte destinadas a
um propósito especial. Aí está a sabedoria divina em prover o cuidado e a
proteção da estrutura psíquica de cada ser humano.
Se o homem cumprir a missão outorgada a ele, nutrirá sua mulher de
amor e proteção e ela fará a transmissão desse amor para o seu bebê ainda
no ventre. Mulheres inseguras, desamparadas, mal-amadas não conseguem
transmitir adequadamente ao bebê a primeira e mais importante nutrição
que ele precisa para nascer com um
efetivo sentimento de aceitação. Sem colocar-se sob a missão do amor e sem
receber o cuidado amoroso de seu marido, a mãe terá dificuldades em
transmitir a seu filho a legitimidade da liderança paterna.
Como vimos na constituição da subjetividade humana, ao nascer, a
criança dá continuidade a sua ligação dual com a mãe por meio da
amamentação, e o pai inscreve-se pelo lugar que a mãe instaura. Uma frase
em um cartaz afixado na parede de um hospital que visitamos traduz bem
esta questão aqui apresentada: a mãe amamentava seu bebê, e ao seu lado, o
pai olhava carinhosamente aquela cena. A frase dizia: “Se você não tem peito
para dar, dê força”.
O pai entra nessa relação, comparece, faz-se presente, afirma sua
paternidade ao olhar para a mãe. Não um olhar de contemplação da cena,
não um olhar de competição, mas um olhar de afirmação da paternidade. E
este é também o momento mais sublime do princípio da adoção. A-dotar é
dotar de amor, em uma conceituação simbólica desta palavra. É o pai quem
afirma a identidade de seu filho, e a Bíblia tem expressões belíssimas e
repletas de significado vindo do Deus Pai para seu filho: Tu és meu Filho; eu
hoje te gerei (Hb 5.5 ARA). Eu serei seu pai, e ele será meu filho (2 Sm 7.14
NVI). “Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado” (Mc 1.11 NVI).
A mãe legitima a liderança ao direcionar seu olhar para o pai. Esse olhar
da mãe para ele tem uma linguagem simbólica, a linguagem de afirmação do
lugar do pai: “Este é teu pai”. Embora tudo isso seja marcado por
significados simbólicos, é neste momento, nos primeiros contatos, que o pai
vai inscrevendo sua presença na mente e no coração do filho.
Com o declínio da imagem paterna, este lugar não é mais demarcado,
fica vazio, e muitos filhos estão vagando por aí, solitários e vazios,
destituídos de uma imagem de pai que lhes dê limites e amor, ou seja, com
uma grande fome de pai. E assim vão buscando em tantas coisas destrutivas
um prazer que lhes foi privado desde os primeiros momentos de vida.
É importante lembrar que Jesus, em Sua trajetória humana,
experimentou de forma profunda os estados emocionais que vivenciamos.
No texto de Mateus 4, está o relato da tentação. O texto diz que Jesus foi
levado ao deserto para ser tentado pelo diabo. O Mestre estava em jejum há
40 dias, com fome, quando enfrentou o primeiro confronto. Se tu és o Filho
de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães (Mt 4.3 ARC). O
confronto foi direto na identidade de Jesus. Como já vimos, o alvo do inimigo
é sempre atacar a identidade, objetivando abrir um espaço de orfandade na
alma. Mas, a resposta de Jesus foi firme e contundente: Está escrito: Nem só
de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Mt
4.4 ARC). Qual foi a última palavra que saiu da boca de Deus para Jesus:
Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo (Mt 3.17 ARC). A
tentação foi logo após o batismo. Jesus estava com fome de alimento físico,
material, mas não estava com fome do alimento emocional, de afirmação e
de reconhecimento. Ele sabia quem era, tinha uma identidade afirmada,
tinha convicção de Sua missão, e não tinha necessidade de transformar pedra
em pão para afirmar Sua identidade.
Quantos filhos têm exatamente esta fome de paternidade, não porque
lhes falta uma nomeação familiar, mas porque lhes falta o reconhecimento
que dá ao ser humano o sentido de pertencimento, e por isso, vivem
buscando afirmação e reconhecimento em coisas e pessoas. Na realidade,
vivem simbolicamente tentando transformar pedra em pão. Quanto esforço
em busca de afirmação! A profissão proporciona esta possibilidade para
muitos que estão nesta condição, e por isso pagam um alto custo, muitas
vezes a qualquer preço, para receberem um olhar de reconhecimento que os
tire do desamparo. Talvez, façam assim como Davi em sua caverna física e
existencial: Olha à minha direita e vê, pois não há quem me reconheça,
nenhum lugar de refúgio, ninguém que por mim se interesse (Sl 142.4 ARA).
E no versículo 7, ele suplica ao Senhor: Tira a minha alma do cárcere.
Uma moça angustiada pelo sentimento de culpa, que não conseguia
estabelecer os limites físicos em sua relação com o namorado, revela, por
meio da sua linguagem, a marca paterna em sua vida:

Eu sei que não devo entregar-me às carícias do meu namorado


desta maneira, mas não consigo impedir e choro arrependida
depois. Então, lembro-me do meu pai quando eu era criança. Ele
sempre chegava bêbado ou drogado à casa e brigava muito com
minha mãe. Depois, ele acalmava-se, sentava ao meu lado e alisava
meu braço e meus cabelos. Ele arrependia-se, e era assim que me
pedia desculpas.

Havia uma linguagem naquele toque do pai, uma frágil manifestação de


amor; e as carícias do namorado, embora lhe fizessem mal, traziam a
memória perdida do amor do pai. Ela reeditava com o namorado a
ambivalência de sentimentos que tinha pelo pai: amor e ódio.
Sem a presença segura e afirmadora do pai, o filho fica sem direção, sem
senso de orientação e de propósito. Diante dos desafios da vida, o filho não
tem segurança interna para tomar decisões. O momento de escolha da
profissão, do curso superior, é terrivelmente angustiante para ele, pois não
sabe o que quer fazer na vida profissional. Geralmente, faz escolhas por
influências e desiste quando vem a frustração por fazer o que não gosta. Por
medo de disputar um curso com muita concorrência e de sentir-se
fracassado, o filho prefere fazer escolhas mais fáceis, mesmo que não seja o
que gosta. Não se permite elaborar a questão e prefere não escutar suas
angústias internas para compreender as razões destas escolhas frustrantes. A
fala de uma moça, a filha mais velha, que via o irmão ser elogiado em suas
conquistas e que se sentia discriminada por não ter escolhido um curso que
agradava aos pais, traduz esta questão: “A confiança que eles depositaram
em mim eu não correspondi; eles não alcançaram a realização com a minha
escolha. Eu queria uma conquista para chegar e mostrar para eles que eu
consegui.”
Sem o investimento emocional do olhar dos pais, esta filha deposita no
corpo suas angústias. Dois sintomas traduziam suas angústias não
elaboradas: a enxaqueca, denunciando a dor de não conseguir mostrar seu
valor, por mais que se esforçasse em suas conquistas, e a forte dermatite,
vindo com a automutilação, mostrando a frustração marcada na face por
sentir-se incapaz de produzir satisfação nos pais. Este cenário lança a filha
no campo da orfandade emocional, sentindo-se sem lugar na família, como
revela em sua linguagem:

Ele tomou meu lugar de filha mais velha; hoje, ele é o primogênito,
que conquistou tudo o que eles queriam. Tudo que ele faz é
elogiado. Até os valores familiares mudaram para atender às
necessidades dele. Ele é o objeto de admiração presente na fala da
minha mãe, e meu pai só tem olhos para as conquistas dele.

Este é o enigma do desejo dos pais. O que minha mãe quer de mim? O
que meu pai quer de mim? A filha não dá conta de lidar com o padrão de
perfeição desejado pela mãe e pelo pai. Como superar o irmão perfeito,
admirado, que assumiu ser o depositário do desejo da mãe? Nesta
indefinição, alguns vão buscar a atenção por outras vias, como marcações
que os diferenciem, como piercing e tatuagens, que também os incluirá em
grupos distintos, ou como comportamentos agressivos, isolamento,
distanciamento, fugas etc.
Quantos filhos têm exatamente esta fome de paternidade, não porque
lhes falta uma nomeação familiar, mas porque lhes falta o reconhecimento
que dá ao ser humano o sentido de pertencimento, e por isso, vivem
buscando afirmação e reconhecimento em coisas e pessoas. Na realidade,
vivem simbolicamente tentando transformar pedra em pão. Quanto esforço
em busca de afirmação! A profissão proporciona esta possibilidade para
muitos que estão nesta condição, e por isso pagam um alto custo, muitas
vezes a qualquer preço, para receberem um olhar de reconhecimento que os
tire do desamparo. Talvez, façam assim como Davi em sua caverna física e
existencial: Olha à minha direita e vê, pois não há quem me reconheça,
nenhum lugar de refúgio, ninguém que por mim se interesse (Sl 142.4 ARA).
E no versículo 7, ele suplica ao Senhor: Tira a minha alma do cárcere.
Uma moça angustiada pelo sentimento de culpa, que não conseguia
estabelecer os limites físicos em sua relação com o namorado, revela, por
meio da sua linguagem, a marca paterna em sua vida:

Eu sei que não devo entregar-me às carícias do meu namorado


desta maneira, mas não consigo impedir e choro arrependida
depois. Então, lembro-me do meu pai quando eu era criança. Ele
sempre chegava bêbado ou drogado à casa e brigava muito com
minha mãe. Depois, ele acalmava-se, sentava ao meu lado e alisava
meu braço e meus cabelos. Ele arrependia-se, e era assim que me
pedia desculpas.

Havia uma linguagem naquele toque do pai, uma frágil manifestação de


amor; e as carícias do namorado, embora lhe fizessem mal, traziam a
memória perdida do amor do pai. Ela reeditava com o namorado a
ambivalência de sentimentos que tinha pelo pai: amor e ódio.
Sem a presença segura e afirmadora do pai, o filho fica sem direção, sem
senso de orientação e de propósito. Diante dos desafios da vida, o filho não
tem segurança interna para tomar decisões. O momento de escolha da
profissão, do curso superior, é terrivelmente angustiante para ele, pois não
sabe o que quer fazer na vida profissional. Geralmente, faz escolhas por
influências e desiste quando vem a frustração por fazer o que não gosta. Por
medo de disputar um curso com muita concorrência e de sentir-se
fracassado,
o filho prefere fazer escolhas mais fáceis, mesmo que não seja o que gosta.
Não se permite elaborar a questão e prefere não escutar suas angústias
internas para compreender as razões destas escolhas frustrantes. A fala de
uma moça, a filha mais velha, que via o irmão ser elogiado em suas
conquistas e que se sentia discriminada por não ter escolhido um curso que
agradava aos pais, traduz esta questão: “A confiança que eles depositaram
em mim eu não correspondi; eles não alcançaram a realização com a minha
escolha. Eu queria uma conquista para chegar e mostrar para eles que eu
consegui.”
Sem o investimento emocional do olhar dos pais, esta filha deposita no
corpo suas angústias. Dois sintomas traduziam suas angústias não
elaboradas: a enxaqueca, denunciando a dor de não conseguir mostrar seu
valor, por mais que se esforçasse em suas conquistas, e a forte dermatite,
vindo com a automutilação, mostrando a frustração marcada na face por
sentir-se incapaz de produzir satisfação nos pais. Este cenário lança a filha
no campo da orfandade emocional, sentindo-se sem lugar na família, como
revela em sua linguagem:

Ele tomou meu lugar de filha mais velha; hoje, ele é o primogênito,
que conquistou tudo o que eles queriam. Tudo que ele faz é
elogiado. Até os valores familiares mudaram para atender às
necessidades dele. Ele é o objeto de admiração presente na fala da
minha mãe, e meu pai só tem olhos para as conquistas dele.

Este é o enigma do desejo dos pais. O que minha mãe quer de mim? O
que meu pai quer de mim? A filha não dá conta de lidar com o padrão de
perfeição desejado pela mãe e pelo pai. Como superar o irmão perfeito,
admirado, que assumiu ser o depositário do desejo da mãe? Nesta
indefinição, alguns vão buscar a atenção por outras vias, como marcações
que os diferenciem, como piercing e tatuagens, que também os incluirá em
grupos distintos, ou como comportamentos agressivos, isolamento,
distanciamento, fugas etc.
Os filhos necessitam do governo paterno, de suas leis e diretrizes, da
aprovação e do reconhecimento, da palavra que motiva e do olhar de
admiração. Sem estes investimentos e limites bem demarcados, eles não
constroem seu quadro interno de valores para escolhas morais, intelectuais e
espirituais adequadas à preservação da vida.
Os limites protegem e dão significado à vida. Nossos conceitos de lei e
autoridade têm como referencial principal o modelo paterno. Um pai instável
emocionalmente gera ansiedade nos filhos. O desejo do pai vira um enigma
para o filho: “O que meu pai quer de mim? O que o agrada?”
Um pai instável, indisciplinado, mal-humorado e agressivo também gera
um ambiente inseguro no lar, que deixará suas marcas na estrutura psíquica
dos filhos. Não há descanso mental, e uma ansiedade compulsiva manifesta-
se como resposta à insegurança recorrente. “Como ele vai estar? Quando vai
chegar?” Por mais que o filho esforce-se, a sinalização de satisfação não se
manifesta e, às vezes, a atenção só comparece quando o comportamento é
negativo. Há um sentimento de impotência e incapacidade e, geralmente,
desistência e passividade diante da busca do valor pessoal, indo, muitas
vezes, para o reverso do desejo.
Como lidar com a Lei, com o declínio da imagem paterna? Qual resposta
os filhos sem Lei dão à sociedade da pós-modernidade?
O que podemos apreender dessas questões é que as sobras angustiantes
desses laços familiares desfeitos serão depositadas no social, abrindo
caminho para a violência e a barbárie. Estamos vendo no público o efeito do
caos dos valores e das referências éticas decorrente das alterações que
ocorreram e que foram provocadas pelo capitalismo ultraliberal, o qual vem
destruindo a força simbólica das nossas instituições. O culto ao
individualismo impõe uma nova ordem social que se direciona para a busca
de um gozo sem limites, uma liberdade consumista sem reservas e interditos.
Este cenário denuncia o declínio da função do pai como representante da Lei,
e a triste constatação é que a Lei do pai enfraquece a cada dia.
Sem direção e sem Lei, os filhos desta geração estão buscando no
público a barra que não encontram no privado. E toda história de
transgressão no público traz a marca da família. A violência vista cada vez
mais em jovens, adolescentes e até mesmo em crianças fala deste grito que
ecoa em direção ao pai. A triste consequência é a inversão do curso natural
da vida: os filhos deveriam enterrar seus pais, e não os pais enterrarem seus
filhos, cada vez mais jovens, vitimados pela violência, pelos acidentes, pelas
drogas, pela bebida, pela depressão, pelo suicídio e por outros processos
destruidores.
Como muitos pais têm desistido da paternidade e saído de casa
exatamente no momento da construção da identidade dos filhos, um alto
nível de ansiedade e agitação tem tomado conta desta geração vazia de
afetos, constituindo, assim, uma perda irreparável, a qual deixa marcas na
alma que se transferem às próximas gerações.
Com tantas dificuldades no exercício das funções familiares, os pais têm
renunciado a responsabilidade de preparar seus filhos para a vida, e o lugar
de formação e transmissão de valores tem seu papel esvaziado. O efeito será
percebido mais claramente na geração seguinte, nos pais que não fazem a
transição de filho dependente para adulto independente. Nesta condição,
deixam seus filhos à deriva e comprometem a demarcação dos limites e a
transmissão da identidade familiar, as quais são necessárias ao advento da
subjetividade. Um lugar paterno vazio produz funções anuladas, mulheres
sem proteção e segurança e filhos desamparados. As consequências são
vistas nas queixas dos que procuram ajuda: desamparo, solidão, medo,
pânico. Uma geração ferida, filhos marcados a ferro e fogo, como animais
pertencentes a um fazendeiro, a um dono possessivo e cruel.
Mais do que nunca, é preciso ir à eterna Escritura para refletir,
compreender a importância do lugar do pai e resgatar sua função na
estrutura familiar. A transmissão da cultura e a construção da identidade e
do caráter são feitas pela efetiva convivência e participação dos pais na vida
dos filhos, e isto exige esforço, coragem, determinação e um real
comprometimento com a fundação da próxima geração. Amor, limites e
disciplinas são expressões de cuidado paterno, como expressos nos textos
bíblicos:

Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda


a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te
ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e
delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao
deitar-te, e ao levantar-te.
Deuteronômio 6.5-7 ARA

O exemplo de Deus como Pai traz a expressão do Seu amor e cuidado:

Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços,


[…] Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para
eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me
inclinei para dar-lhes de comer.
Oseias 11.3,4 ARA

Amor, limites e disciplinas são expressões de cuidado paterno, como é


visto no texto bíblico:
É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos);
pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem
correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois
bastardos e não filhos.
Hebreus 12.7,8 ARA

Na cultura judaica, o pai afirmava publicamente a masculinidade do


menino e a feminilidade da menina. Os ritos de passagem davam valor
pessoal e afirmação pública aos filhos. Os pais abençoavam os filhos
publicamente.
Outro traço da nossa geração é a não valorização da bênção paterna.
Uma geração de filhos sem a bênção dos pais busca significado para a sua
existência de modo errante. Os ritos de passagem traziam a força do
simbólico, e essa é uma grande perda na pressa do moderno.
É importante ressaltar também que, dentro dos conceitos cristãos, o pai
tem a responsabilidade de preparar o filho para o relacionamento com o Pai
divino. É por meio do relacionamento pai e filho que a base do
relacionamento espiritual fundamenta-se. Como um filho conseguirá falar e
conversar com liberdade e intimidade com o Pai celestial se não conseguiu
estabelecer uma relação de liberdade e intimidade com seu pai, se não teve
acesso à sua presença, se o lugar de pai ficou vazio e deixou-lhe a sensação de
orfandade de pai vivo?
Como o oleiro que deixa a impressão da Suas mãos no vaso, marcando a
passagem deste para além da criação, assim são as marcas que ficam da
passagem de um pai pela vida de um filho e do que é transmitido para as
próximas gerações.
Quando a Bíblia apresenta as funções em Efésios 5.25, o referencial
apresentado é Cristo: Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo
amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela. O amor de Cristo pela Igreja
é a mensagem central do cristianismo, pois é a Sua entrega à morte na cruz
que trouxe salvação. É uma entrega que ultrapassa a compreensão humana.
Mas, o amor de Cristo pela Igreja foi também evidenciado em Seu ministério
tríplice como rei, profeta e salvador tão bem descrito nos relatos bíblicos.
Como rei, Seu nascimento foi predito, demarcando Seu reinado: Este será
grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono
de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu
reinado não terá fim (Lc 1.32,33 ARA).
Como profeta, Pedro inclui em seu discurso o que Moisés anunciou: O
Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a
mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser (At 3.22 ARA). Dizendo de si
mesmo, Jesus afirmou em Marcos 6.4: Não há profeta sem honra, senão na
sua terra, entre os seus parentes e na sua casa.
Como sacerdote, Jesus intercede pela Igreja, e o capítulo de João 17
registra a Sua sublime oração sacerdotal. Mais tarde, após a Sua ascensão, o
autor do livro aos Hebreus, no capítulo 3.1, apresenta Jesus como o Sumo
Sacerdote, na continuidade do Seu ministério: Por isso, santos irmãos, que
participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo
Sacerdote da nossa confissão, Jesus.

Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços,


[…] Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para
eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me
inclinei para dar-lhes de comer.
Oseias 11.3,4 ARA

Amor, limites e disciplinas são expressões de cuidado paterno, como é


visto no texto bíblico:

É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos);


pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem
correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois
bastardos e não filhos.
Hebreus 12.7,8 ARA

Na cultura judaica, o pai afirmava publicamente a masculinidade do


menino e a feminilidade da menina. Os ritos de passagem davam valor
pessoal e afirmação pública aos filhos. Os pais abençoavam os filhos
publicamente.
Outro traço da nossa geração é a não valorização da bênção paterna.
Uma geração de filhos sem a bênção dos pais busca significado para a sua
existência de modo errante. Os ritos de passagem traziam a força do
simbólico, e essa é uma grande perda na pressa do moderno.
É importante ressaltar também que, dentro dos conceitos cristãos, o pai
tem a responsabilidade de preparar o filho para o relacionamento com o Pai
divino. É por meio do relacionamento pai e filho que a base do
relacionamento espiritual fundamenta-se. Como um filho conseguirá falar e
conversar com liberdade e intimidade com o Pai celestial se não conseguiu
estabelecer uma relação de liberdade e intimidade com seu pai, se não teve
acesso à sua presença, se o lugar de pai ficou vazio e deixou-lhe a sensação de
orfandade de pai vivo?
Como o oleiro que deixa a impressão da Suas mãos no vaso, marcando a
passagem deste para além da criação, assim são as marcas que ficam da
passagem de um pai pela vida de um filho e do que é transmitido para as
próximas gerações.
Quando a Bíblia apresenta as funções em Efésios 5.25, o referencial
apresentado é Cristo: Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo
amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela. O amor de Cristo pela Igreja
é a mensagem central do cristianismo, pois é a Sua entrega à morte na cruz
que trouxe salvação. É uma entrega que ultrapassa a compreensão humana.
Mas, o amor de Cristo pela Igreja foi também evidenciado em Seu ministério
tríplice como rei, profeta e salvador tão bem descrito nos relatos bíblicos.
Como rei, Seu nascimento foi predito, demarcando Seu reinado: Este será
grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono
de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu
reinado não terá fim (Lc 1.32,33 ARA).
Como profeta, Pedro inclui em seu discurso o que Moisés anunciou: O
Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a
mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser (At 3.22 ARA). Dizendo de si
mesmo, Jesus afirmou em Marcos 6.4: Não há profeta sem honra, senão na
sua terra, entre os seus parentes e na sua casa.
Como sacerdote, Jesus intercede pela Igreja, e o capítulo de João 17
registra a Sua sublime oração sacerdotal. Mais tarde, após a Sua ascensão, o
autor do livro aos Hebreus, no capítulo 3.1, apresenta Jesus como o Sumo
Sacerdote, na continuidade do Seu ministério: Por isso, santos irmãos, que
participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo
Sacerdote da nossa confissão, Jesus.
Este é o modelo do ministério de Jesus Cristo com a Igreja. Podemos
também fazer um paralelo com o ministério do marido em sua família: o
homem tem o governo sobre esta. Sobre ele está a responsabilidade de
conduzir sua família com segurança, nutri-la com amor e cuidado e protegê-
la. Ele é o representante da Lei, a autoridade, e a mulher recebe a autoridade
delegada para juntos, como parceiros e agentes de Deus, fundarem a
próxima geração, preparando os filhos para a vida, firmando as bases para a
construção da identidade. Como profeta, é o homem quem transmite a
Palavra de Deus ao filho: Assim diz o Senhor… Ele fala em nome de Deus,
orienta, alerta, adverte, aponta o erro; ou seja, ele abre as portas para a
entrada dos ensinos divinos na vida do filho. Junto com sua esposa, o
homem ensina o caminho que o filho deverá seguir segundo os princípios de
Deus. Como sacerdote, o homem é o representante da autoridade divina e
tem a missão de espiritualmente proteger seus filhos, interceder por eles e
guiá-los segunda a orientação de Deus.

Seus filhos costumavam dar banquetes em casa, um de cada vez, e


convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles.
Terminado um período de banquetes, Jó mandava chamá-los e
fazia com que se purificassem. De madrugada ele oferecia um
holocausto em favor de cada um deles, pois pensava: “Talvez os
meus filhos tenham, lá no íntimo, pecado e amaldiçoado a Deus”.
Essa era a prática constante de Jó.
Jó 1.4,5 NVI

PARTE

4
FAMÍLIAS DISFUNCIONAIS

[…]a família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a


família mutilada de hoje, feita de feridas íntimas, de violências silenciosas,
de lembranças recalcadas (ROUDINESCO, 2003, p.21).
Reafirmamos que a família tem papéis e funções muito bem definidos, e
este é um conceito cristão, visto que a Bíblia apresenta as funções na família.
O pai é o representante da Lei, é quem a inscreve para o filho e inicia-o no
mundo. A mãe tem, junto com o pai, a autoridade delegada do cumprimento
da Lei. Há uma estrutura hierárquica definida, e qualquer alteração nesta
dinâmica irá produzir disfunções que afetarão todo o sistema familiar.
Quando o filho faz o que quer, ele está em uma posição hierárquica que
não lhe pertence, denunciando a fragilidade da Lei e a falta de limites na
família. E como ele chegou a este lugar? Certamente, a cumplicidade que
deveria haver entre o pai e a mãe para o cumprimento da Lei foi quebrada, e
o filho estabeleceu uma aliança com um deles. Geralmente, a mãe entra neste
jogo quando já destituiu a figura masculina do lugar de autoridade, deixando
o lugar vazio. Assim, fortalecido pela mãe, o filho ganha status para uma
posição hierárquica superior.
Quando entra na adolescência, o filho, em seu processo de construção da
identidade, irá naturalmente buscar sua autonomia, querendo ter suas
próprias opiniões. Esta é uma etapa importante do crescimento, e a
habilidade dos pais em ajudá-lo nesta construção é essencial, sabendo lidar
de forma construtiva com os comportamentos “rebeldes”. À medida que vai
desenvolvendo seu conjunto de crenças e valores e assumindo
responsabilidades, o adolescente cresce e passa por esta etapa sem grandes
transtornos. O diálogo com os pais e a firmeza com a qual o casal, junto,
mantém os princípios cristãos como exemplo vivo em suas vidas, cuidando
para que as decisões sejam coerentes, não deixará espaço para rebeldias
destruidoras na vida do adolescente.
Esta é também uma importante questão referente à autoridade com
filhos de famílias reconstruídas. É visível a dificuldade que os pais têm de
lidar com a autoridade quando os filhos de casamentos anteriores estão
juntos com os filhos do atual casamento. O cenário possibilita aflorar as
rivalidades e dificuldades de convivência, trazendo, assim, conflitos à tona.
Quando os filhos da família anterior vêm para a reconstruída, não
querem cumprir as leis, e geralmente retrucam a autoridade do esposo da
mãe, afirmando: “você não é meu pai”. Além disso, há as interferências
externas ao momento, como a figura paterna ausente, fortalecendo a rebeldia
da criança. Na hora de lidar com a rebeldia do filho do casamento anterior da
esposa, o marido vai usar da mesma autoridade que usa com seu filho. Mas,
muitas vezes, nessa dificuldade, a esposa também contesta a autoridade do
marido: “Ele não é seu filho”. A mãe desautoriza o marido na frente do filho.
Está instalada a anarquia. O marido perde a autoridade com esse filho, e
quando este se torna um adolescente, a situação complica-se ainda mais,
pois forma um grupo sem Lei dentro do novo lar. A reação que se segue a
esta situação é imediata: “Lavo as mãos – não é meu filho, é seu”. Nesse caso,
cabe à mãe restaurar a autoridade do marido: “Ele não é seu pai, mas é meu
marido, e ele é a autoridade aqui nesta casa”.
Se um aceitar a desqualificação, formam-se alianças negativas. Se não
houver cumplicidade e um canal sempre aberto a diálogos entre o casal, o
conflito tomará proporções destruidoras.
Mesmo no divórcio, um homem e uma mulher podem unir-se para dar
uma possibilidade de retorno ao filho rebelde que os pais não controlam
mais. Se houver a possibilidade de vínculo, é possível um trabalho de ajuda
ao adolescente. Mas se os conflitos forem tão fortes que impedem um vínculo
para trabalhar o [problema do] filho, não haverá possibilidade de resultados
satisfatórios. Quando o casal quer apenas se acusar mutuamente, o filho fica
perdido em meio aos conflitos, e falará da sua angústia pela rebeldia.
É comum na separação a destituição da Lei familiar. A mãe fica com o
filho e vai manter a Lei, enquanto o pai recebe o filho no final de semana
para passear e dar toda a liberdade. Se a mãe sair do cenário da culpa,
manterá a Lei com firmeza. A convicção e a firmeza restauram a Lei, que
deve ser explícita, clara e coerente quanto às consequências da transgressão.
Se o pai não está presente, a autoridade é delegada a mãe. O homem
delega, defende, apoia sua mulher e fortalece sua autoridade. A mulher
apoiada tem segurança para tomar as decisões certas. Se o filho tiver a
impressão de que é mais forte do que os pais juntos, se sentirá perdido,
inseguro e poderá desenvolver fobias mais tarde, como consequência da
insegurança e do desamparo interior. Quando a Lei do pai e da mãe é
contraditória, a anarquia é instalada e entra a lei dos filhos: eles terão
comportamentos rebeldes pela necessidade que têm da Lei dos pais. Há
sempre uma luta, uma queda de braço entre pais e filhos diante da Lei. Na
verdade, os filhos amam e odeiam a Lei paterna. Amam porque têm as
barreiras necessárias para seguirem na vida e sentem-se amados e cuidados,
mas, ao mesmo tempo, odeiam pelos limites que são impostos que barram
seus impulsos e desejos. Infelizmente, muitos pais confundem afeto com
ausência de limites e isto gera uma sensação de abandono, desamparo e
insegurança em seus filhos.
Lembro-me de um rapaz que havia sido expulso de casa quando o pai
descobriu que ele estava fazendo uso de maconha. Ele foi acolhido na casa de
um amigo da escola, o qual tinha pais muito zelosos. Um dia, ele saiu à noite
para lugares que estava acostumado a frequentar com seus amigos. Quando
deu determinada hora, a mãe do amigo ligou para ele a fim de saber se já
estava voltando pra casa. Com lágrimas nos olhos, ele contou-me que deixou
os amigos e voltou imediatamente pra casa, e que a sua própria mãe nunca
havia ligado, mesmo que passasse toda a noite na rua.
A fala de uma menina de 12 anos para sua mãe, em meio à discussão dos
pais, é o exemplo destas questões mal resolvidas de autoridade na família:
“Fica quieta, mãe, não fala nada”. A criança é colocada no meio do casal
como instrutora da mãe para lidar com o pai. Os conflitos do casal ficam
sobre o controle da filha, e esta ganha uma função de importância na
hierarquia familiar. A criança tem um ganho secundário nesse lugar. Muitas
vezes, neste cenário conflituoso, um dos pais usa o filho ou a filha para
atingir o cônjuge com chantagens emocionais.
Na reorganização hierárquica e no resgate da autoridade dos pais, a
criança voltará a ocupar o seu lugar de filho. Os pais assumem sua
responsabilidade de tirar a criança da posição de autoridade: “Filha, dá
licença, você não tem nada a ver com essa história. Não foi você quem nos
juntou e somos nós que temos de resolver esses problemas. Você não pode
fazer nada. Esse problema é nosso e você vai cuidar de suas coisas de
criança”. Essa é uma fala simbólica para pais que se perderam neste lugar de
resolver seus conflitos isoladamente e que têm permitido a participação dos
filhos nesses, trazendo sérias consequências para a estrutura deste filho, que
carrega com os pais o peso de um lugar que não lhe pertence. Neste lugar de
unir os pais, a criança entra em pânico e a saída é, muitas vezes, o
adoecimento.
Quando os pais vivem uma relação conjugal marcada por brigas, em
uma verdadeira guerra familiar, ou tem um relacionamento hostil e
amargurado um com o outro, os filhos sofrem o efeito desse clima
constantemente tormentoso no corpo e na alma. Muitas vezes, esses filhos
crescem e também têm dificuldades em viver harmoniosamente, repetindo
os comportamentos de seus pais em seus próprios relacionamentos, como
resultado de uma família disfuncional.
Em algumas famílias, os filhos tornam-se confidentes de pais
insatisfeitos com o relacionamento conjugal. Geralmente, um filho ou filha é
o eleito para este lugar, recebendo queixas que vão destituindo a imagem
constituída durante a infância acerca do pai ou da mãe. Passa a olhar o pai
pela ótica do olhar da mãe, ou seja, como esposa, e não como filha; ou passa
a olhar a mãe pela ótica do olhar do pai. Esta degeneração da imagem traz
seus altos custos no relacionamento do filho com a autoridade destituída.
Outra questão pode ser percebida em famílias que vivem uma vida
religiosa radicalmente ligada a comportamentos, e os pais usam o nome de
Deus como ameaça para seus filhos: “Se você agir assim, Deus vai castigar
você, vai pesar Sua mão”. A relação distorcida dos pais com Deus traz sobre
os filhos um peso difícil de suportar, produzindo a sensação de que nunca
agradarão os pais nem Deus. Os efeitos são percebidos nos comportamentos
muitas vezes destrutivos.
Alguns pais criam uma relação de dependência dos filhos e fazem tudo
para segurá-los, mesmo quando adultos, provocando, inclusive, conflitos
com os cônjuges dos filhos. É o “filhinho da mamãe” ou a “filhinha do papai”,
ou seja, uma tentativa de mantê-los reféns de um amor dependente e
doentio. A consequência vem no relacionamento conjugal, em que o filho
sente-se culpado por não dar a devida atenção que os pais dependentes
solicitam.
Todas as questões que abordamos apontam para as disfunções
familiares, e alguns sinais são perceptíveis. Devido à imaturidade, muitos
pais apoiam-se nos filhos para seus desejos frustrados, como forma
compensatória de realizações pessoais. Os filhos, cada um a seu modo, vão
tentando dar conta desses desejos, revelando no corpo e na alma seus
conflitos internos.
As disfunções familiares também podem ser percebidas em pais
depressivos ou frustrados com a vida, que criam um ambiente familiar triste
e angustiante e deixam de lado o exercício da função estabelecida com suas
responsabilidades. Vivem muito mais mergulhados em suas queixas e
lamentações, vendo a vida sempre por uma ótica pessimista e transmitindo
uma distorcida visão de mundo para seus filhos.
Isso é também visível em pais compulsivos pelo trabalho, que o usam
para tamponar suas angústias e frustrações, assumindo apenas a função de
provedores para a família, compensando com coisas materiais a ausência de
afetos e limites. Todavia, na verdade, toda compulsão é sempre danosa à
família. Pais compulsivos com raiva sempre transformam o ambiente
familiar em uma bomba prestes a explodir, onde os gritos, as palavras
ásperas ou o mau humor deixam os filhos em uma ansiosa e angustiante
espera pelo momento da explosão.
Já a compulsão por gastar deixa a família em extrema insegurança pelas
perdas que acontecem quando o descontrole produz dívidas que o orçamento
familiar não sustenta. Logo, qualquer que seja a compulsão, este padrão
repetitivo e descontrolado em busca do amor fantasioso para satisfazer a
fome de amor não saciada, lança esses pais na dificuldade de assumirem suas
funções e papéis familiares.
Os pais de hoje, que tiveram carências ontem, querem dar aos filhos
tudo que não tiveram. Se não dão, sentem-se culpados. Com culpa, a Lei é
abalada. Os filhos percebem a culpa e manipulam os pais, exigindo respostas
imediatas para seus desejos materiais. É preciso sair da culpa para fortalecer
a Lei e não se deixar manipular pelas pressões externas. Ao afirmar a
autoridade paterna, os filhos ganham segurança. Quando os papéis são
invertidos, a insegurança e a angústia surgem na vida dos filhos. Mas quando
há segurança na autoridade exercida pelos pais, a angústia é minimizada. E
quando há proteção mútua na relação conjugal, há a presença visível do
amor e do respeito: Maridos, amai vossa mulher […] e a esposa respeite ao
marido (Ef 5.25, 33 ARA).
O grau de empobrecimento da relação e da comunicação é muito alto na
família disfuncional. Todo mundo queixa-se de tudo para não expressar a
sua verdadeira queixa. Quando falam, fazem isso com agressividade,
omitindo a verdadeira queixa. O isolamento é a resposta dos filhos, que
fazem de seus quartos uma ilha, mergulhados na tecnologia e nos
relacionamentos virtuais.
Muitos casais vivem juntos fisicamente, mas separados
emocionalmente. Um vive com o outro em um permanente grau de
distanciamento: camas separadas, quartos separados, vidas independentes –
um não dá satisfação ao outro. Neste distanciamento ativo, constroem,
muitas vezes, uma vida paralela. Em muitos casos analisados, a mulher
prefere dormir com o filho a dormir com o marido. Joga sobre o filho uma
carga de responsabilidade em dar conta da sua infelicidade e insatisfação,
produzindo nele sentimento de culpa por ocupar um lugar que não lhe
pertence, além de dificultar sua relação com o pai.
Há muito a discorrer sobre as disfunções na família, mas quis
resumidamente apontar algumas questões que contribuem para o
adoecimento das relações familiares.
4.1. Permitindo à Criança Crescer: Deixar Pai e Mãe

Alguns pais criam uma relação de dependência dos filhos e fazem tudo
para segurá-los, mesmo quando adultos, provocando, inclusive, conflitos
com os cônjuges dos filhos. É o “filhinho da mamãe” ou a “filhinha do papai”,
ou seja, uma tentativa de mantê-los reféns de um amor dependente e
doentio. A consequência vem no relacionamento conjugal, em que o filho
sente-se culpado por não dar a devida atenção que os pais dependentes
solicitam.
Todas as questões que abordamos apontam para as disfunções
familiares, e alguns sinais são perceptíveis. Devido à imaturidade, muitos
pais apoiam-se nos filhos para seus desejos frustrados, como forma
compensatória de realizações pessoais. Os filhos, cada um a seu modo, vão
tentando dar conta desses desejos, revelando no corpo e na alma seus
conflitos internos.
As disfunções familiares também podem ser percebidas em pais
depressivos ou frustrados com a vida, que criam um ambiente familiar triste
e angustiante e deixam de lado o exercício da função estabelecida com suas
responsabilidades. Vivem muito mais mergulhados em suas queixas e
lamentações, vendo a vida sempre por uma ótica pessimista e transmitindo
uma distorcida visão de mundo para seus filhos.
Isso é também visível em pais compulsivos pelo trabalho, que o usam
para tamponar suas angústias e frustrações, assumindo apenas a função de
provedores para
a família, compensando com coisas materiais a ausência de afetos e limites.
Todavia, na verdade, toda compulsão é sempre danosa à família. Pais
compulsivos com raiva sempre transformam o ambiente familiar em uma
bomba prestes a explodir, onde os gritos, as palavras ásperas ou o mau
humor deixam os filhos em uma ansiosa e angustiante espera pelo momento
da explosão.
Já a compulsão por gastar deixa a família em extrema insegurança pelas
perdas que acontecem quando o descontrole produz dívidas que o orçamento
familiar não sustenta. Logo, qualquer que seja a compulsão, este padrão
repetitivo e descontrolado em busca do amor fantasioso para satisfazer a
fome de amor não saciada, lança esses pais na dificuldade de assumirem suas
funções e papéis familiares.
Os pais de hoje, que tiveram carências ontem, querem dar aos filhos
tudo que não tiveram. Se não dão, sentem-se culpados. Com culpa, a Lei é
abalada. Os filhos percebem a culpa e manipulam os pais, exigindo respostas
imediatas para seus desejos materiais. É preciso sair da culpa para fortalecer
a Lei e não se deixar manipular pelas pressões externas. Ao afirmar a
autoridade paterna, os filhos ganham segurança. Quando os papéis são
invertidos, a insegurança e a angústia surgem na vida dos filhos. Mas quando
há segurança na autoridade exercida pelos pais, a angústia é minimizada. E
quando há proteção mútua na relação conjugal, há a presença visível do
amor e do respeito: Maridos, amai vossa mulher […] e a esposa respeite ao
marido (Ef 5.25, 33 ARA).
O grau de empobrecimento da relação e da comunicação é muito alto na
família disfuncional. Todo mundo queixa-se de tudo para não expressar a
sua verdadeira queixa. Quando falam, fazem isso com agressividade,
omitindo a verdadeira queixa. O isolamento é a resposta dos filhos, que
fazem de seus quartos uma ilha, mergulhados na tecnologia e nos
relacionamentos virtuais.
Muitos casais vivem juntos fisicamente, mas separados
emocionalmente. Um vive com o outro em um permanente grau de
distanciamento: camas separadas, quartos separados, vidas independentes –
um não dá satisfação ao outro. Neste distanciamento ativo, constroem,
muitas vezes, uma vida paralela. Em muitos casos analisados, a mulher
prefere dormir com o filho a dormir com o marido. Joga sobre o filho uma
carga de responsabilidade em dar conta da sua infelicidade e insatisfação,
produzindo nele sentimento de culpa por ocupar um lugar que não lhe
pertence, além de dificultar sua relação com o pai.
Há muito a discorrer sobre as disfunções na família, mas quis
resumidamente apontar algumas questões que contribuem para o
adoecimento das relações familiares.

4.1. Permitindo à Criança Crescer: Deixar Pai e Mãe

Além de todas as questões que mencionamos no capítulo anterior, quero


também ressaltar um traço da nossa cultura pós-moderna: a permanência
cada vez maior dos filhos, principalmente dos homens, na casa dos pais,
evidenciando uma dependência maior da proteção paterna. Na geração
passada, o grande desejo de um jovem era buscar sua independência saindo
da casa dos pais. Sair de debaixo da autoridade paterna era um desejo que
permitia a realização de outros desejos de liberdade e independência.
Hoje, no entanto, a casa dos pais transformou-se em sinônimo de
segurança e refúgio, diante da violência e da hostilidade do mundo. Mesmo
quando já adquiriram independência financeira e estão bem empregados,
muitos filhos preferem continuar junto com os pais. A infância está sendo
prolongada para além dos limites, como resultado da permissividade de
poder fazer dentro de casa o que se quiser. Como os donos da casa, os filhos
levam seus parceiros afetivos para dentro de casa, com a permissão ou a
omissão dos pais. Logo, para muitos, o casamento está acontecendo bem
mais tarde, quando acontece. E até aqueles que casaram jovens, quando
enfrentam os primeiros conflitos conjugais, preferem desistir da
conjugalidade e retornar para a casa paterna, o que acontece, muitas vezes,
com o total apoio deles.
Cada vez mais estamos vendo estes fatos acontecerem, e o que preocupa
é a facilidade com que estas decisões são tomadas e facilitadas pelos pais.
Estes queixam da dificuldade de impor limites aos filhos e sentem que esta
tirania deixa-os sem autoridade diante deles. Por outro lado, o filho não quer
sair e assumir as responsabilidades de uma conjugalidade. E, quando os
netos chegam, a relação de dependência e codependência consolida-se diante
da necessidade dos cuidados infantis, para que os pais possam trabalhar sem
preocupações. Esta questão traz suas dificuldades na construção da
identidade desses filhos dependentes, que também enfrentam dificuldades
em educar e formar seus próprios filhos, terceirizando aos avós a criação dos
netos. Podemos dizer assim como o Apóstolo Paulo escreveu em 1 Coríntios
14.20: Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças;
quanto ao juízo, sede homens amadurecidos.

PARTE

5
FAMÍLIAS PSICOSSOMÁTICAS
QUANDO A DINÂMICA FAMILIAR ADOECE O
SUJEITO

Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas e que tenhas saúde, assim
como bem vai a tua alma.

3 João 1.2 ARC

Quando o todo se encontra em mau estado, é impossível que a parte se


comporte bem… É da alma que vêm para o corpo e para o homem, na sua
totalidade, todos os males e todos os bens. É, pois, da alma que é preciso
desde logo cogitar, tratando-a antes de tudo. Constitui erro hoje
disseminado entre os homens o procurar curar separadamente a alma ou o
corpo.

Platão (427 a.C.)

Como lugar de estruturação e desenvolvimento do ser humano e como


lugar de refúgio, a família é, essencialmente, a promotora de saúde, em sua
função de acolher o ser humano e prepará-lo para a vida. Nos mais
primitivos relacionamentos, desde o ventre materno, a saúde é o propósito
essencial para a vida do homem; no entanto, a dinâmica relacional familiar
pode produzir o adoecimento. São muitas as questões que levam a família ao
confronto, à crise e ao adoecimento das relações.
Olhar para a família da pós-modernidade é constatar o quanto a
organização familiar tem sido afetada com o impacto das mudanças
ocorridas no mundo do trabalho. Este é o mundo da tecnologia, em que as
mudanças ocorrem em uma velocidade impressionante e assustadora. A
família tem sofrido o impacto das exigências e pressões advindas da luta pela
sobrevivência. A busca pelo equilíbrio entre vida pessoal, familiar e
profissional passou a ser um grande desafio de amplas dimensões para todos
nós. O imperativo da “qualidade” a qualquer preço, exigindo cada vez mais
tempo, tem promovido estresse, ansiedade e muita insegurança. Pouco
tempo sobrou para o desempenho das funções familiares; e, como
consequência disso, as estruturas das famílias estão frágeis, os
relacionamentos passaram a ser superficiais, e o adoecimento físico,
emocional e mental tornou-se a linguagem que se apresenta para falar do
sofrimento familiar.
Nessa condição, as funções da família sofrem distorções, e a disfunção
evidencia o adoecimento das relações, transformando a estrutura familiar em
uma família psicossomática – ou seja, a dinâmica relacional que adoece os
membros da família. Esta, criada para ser um lugar de abrigo e de refúgio,
pode constituir-se como mediadora de doenças na vida de seus membros,
como consequência das disfunções que alteram sua dinâmica. A alma em
conflito inscreve no corpo o seu sofrimento. Como espaço de representação
simbólica da dor, o corpo denuncia uma alma que não mais suporta suas
dores e conflitos. O sintoma somático, à espera da linguagem de
interpretação, está a serviço de outra intenção; afinal, cada indivíduo é único,
singular, e, para além da lógica, ele traz em si a sua história, seus traços, seu
sistema familiar, suas inter-relações e todas as complexidades construídas
em sua trajetória — nos diversos papéis que assumiu para dar conta do
desejo dos pais.
Os pais idealizam papéis, e os filhos os assumem ou não. Assumi-los traz
a tentativa de descobrir o enigma do desejo dos pais; já aquele que não dá
conta do papel idealizado caminha para o oposto do desejo — é a sua forma
de buscar atenção pelo investimento de energia dos pais para trazê-lo ao
idealizado. E assim, vão surgindo os núcleos doentios que precisam ser vistos
para além da doença em si, mas pela via do sistema em que o indivíduo está
inserido.
A transmissão geracional e a influências familiares irão constituir-se
como os elementos fundadores que atuam nas representações somáticas.
Elas influem muito em nossa vida, e, por não darmos conta disso, não
conseguimos reconhecê-las ou identificá-las. A consequência é que olhamos
as doenças, muitas vezes, apenas do ponto de vista biológico, deixando de
perceber o nascedouro da dor, a dor da alma, que foi depositada no corpo
como linguagem calada.

Ela veio conduzida pela família, com diagnóstico de anorexia, e


todos queriam “convencê-la” a tratar-se, afinal sua condição de
saúde estava precária. Ela recusava qualquer tipo de alimentação e
estava tão debilitada que seu corpo denunciava sua condição.
Apesar da insistência familiar, ela recusou totalmente a ajuda
psicológica. Pediu apenas para falar algumas palavras em particular
e disse com voz quase inaudível: “Eu não quero me tratar. Se eu
melhorar, ele vai embora”, e olhou para o marido. O médico que a
acompanhava decidiu interná-la e, após um pequeno tempo de
hospital e UTI, ela faleceu, cercada de amor e carinho pela família e
especialmente pelo marido.

Os transtornos alimentares demarcam, muitas vezes, a desistência de si


mesmo diante dos conflitos familiares. Na anorexia, é o comer o nada, o
vazio, a privação do prazer. Na bulimia, a pessoa empanturra-se na ilusão de
satisfação e castiga-se com o vômito, deprimindo-se com sua atitude. O
consumo excessivo de alimentos vem como compensação para cobrir o vazio
existente e, mesmo com o estômago cheio, o vazio persiste e insiste. É
importante lembrar que a comida tem o componente “mãe”. Ela é a
fornecedora da primeira nutrição essencial à vida humana: alimento e amor.
Os rótulos históricos revelam muito bem os estados de adoecimento,
afinal a “ovelha negra” da família sente, muitas vezes, que não tem o direito
de ser a certinha, porque já está rotulada e é assim que vai ser vista, embora,
em alguns momentos, faça tentativas para sair desse lugar. Ela sabe que o
outro lugar já está ocupado; o adoecimento, então, vai abrir um espaço
intermediário em busca do olhar, do cuidado e do afeto desejado.

Era assim que ele se via – a “ovelha negra” da família. Ia mal na


escola, sempre com as notas abaixo da média, correndo o risco de
ser reprovado, se não fosse a professora particular que seus pais
contratavam. Todos os anos era a mesma história… Logo, os gastos
financeiros produziram queixas e reprimendas dos pais. Afinal, seu
irmão tirava excelentes notas e nunca havia precisado de
professores particulares. As comparações irritavam-no
profundamente, tornando-o agressivo; e assim, ele isolava-se cada
vez mais. Já não queria mais sair com a família, e seu tempo era
gasto nos relacionamentos virtuais: horas e horas na internet. Seu
irmão mais velho, cada vez mais, era o modelo da família, admirado
pela mãe. Sua irmã caçulinha – “Ah, ela é o xodó de todos”, dizia.
Amargurado e sedentário, seu refúgio era a comida. Tornou-se
obeso, e, um dia, os sintomas começaram. Os exames denunciaram
as altas taxas que indicavam diabetes em estado agravado. Todos os
olhares e cuidados familiares voltaram-se para ele, e um novo lugar
se configurou na dinâmica familiar pela via do adoecimento.

O adoecimento de um membro altera a dinâmica familiar, e as questões


conflituosas emergem, impondo um redirecionamento das atenções na
família. Muitas vezes, é a “mãezona” da família que passa a ser objeto de
amor e ódio. “Tem de ser mãezona, proteger, prover e cuidar de todo
mundo”; e, por “ter de”, ela acaba sentindo raiva de si mesma. Na
incapacidade de lidar com a raiva para manter a posição de boazinha e para
agradar todos, sua carga emocional implícita de raiva vai finalizar no corpo,
em uma dor, em uma fibromialgia ou em uma depressão que manifesta seu
desejo interno de demitir-se subjetivamente para não ter de se haver com
seus desejos. Sintomas que estão para além do corpo, em uma linguagem
simbólica diante de um sistema opressor familiar, que reivindica sempre
mais; um ganho que não mais suporta, afinal, no papel de mãe de todo
mundo, só lhe resta ser a “órfã”.

Ela veio encaminhada pelo psiquiatra, com diagnóstico de


depressão crônica, fibromialgia, além da insônia e, nas poucas vezes
em que conseguia dormir, ainda tinha bruxismo, o que estava
afetando seus dentes. Ela não tinha mais ânimo para nada, mas
ainda não havia requerido licença em seu trabalho, pois receava ser
demitida. Acordar cedo para cuidar das atividades domésticas,
depois ir para o trabalho e chegar a casa no final da tarde para
preparar o jantar da família era um tormento. Mas, “Minha família
não tem do que reclamar, porque eu cuido de tudo”, dizia. “Sempre
fui do tipo ‘mãezona’, e meu marido orgulha-se disso”. Agora, com a
depressão, eles estão ajudando-me, mas reclamam muito. Sua
expressão facial expressava seu estado interior. Quando falava, mal
abria a boca, e, com seus dentes quase travados, dava a impressão
de morder algo. Era muito perceptível a raiva e a irritabilidade pela
situação que vivia, “Afinal, quem se importa com o que eu sinto.
Eles sentem falta é do meu trabalho”. Como não expressava sua ira
aos familiares, redirecionava-a para si mesma, e os sintomas
denunciavam suas raivas e revoltas interiores. A depressão marcava
sua demissão subjetiva desse papel tão bem construído, em busca
de reconhecimento e do afeto. Transformar esses sentimentos
angustiantes em palavras dava-lhe a possibilidade de elaborar suas
angústias, cuidar de si mesma e posicionar-se no sistema familiar.

Os transtornos alimentares demarcam, muitas vezes, a desistência de si


mesmo diante dos conflitos familiares. Na anorexia, é o comer o nada, o
vazio, a privação do prazer. Na bulimia, a pessoa empanturra-se na ilusão de
satisfação e castiga-se com o vômito, deprimindo-se com sua atitude. O
consumo excessivo de alimentos vem como compensação para cobrir o vazio
existente e, mesmo com o estômago cheio, o vazio persiste e insiste. É
importante lembrar que a comida tem o componente “mãe”. Ela é a
fornecedora da primeira nutrição essencial à vida humana: alimento e amor.
Os rótulos históricos revelam muito bem os estados de adoecimento,
afinal a “ovelha negra” da família sente, muitas vezes, que não tem o direito
de ser a certinha, porque já está rotulada e é assim que vai ser vista, embora,
em alguns momentos, faça tentativas para sair desse lugar. Ela sabe que o
outro lugar já está ocupado; o adoecimento, então, vai abrir um espaço
intermediário em busca do olhar, do cuidado e do afeto desejado.

Era assim que ele se via – a “ovelha negra” da família. Ia mal na


escola, sempre com as notas abaixo da média, correndo o risco de
ser reprovado, se não fosse a professora particular que seus pais
contratavam. Todos os anos era a mesma história… Logo, os gastos
financeiros produziram
queixas e reprimendas dos pais. Afinal, seu irmão tirava excelentes
notas e nunca havia precisado de professores particulares. As
comparações irritavam-no profundamente, tornando-o agressivo; e
assim, ele isolava-se cada vez mais. Já não queria mais sair com a
família, e seu tempo era gasto nos relacionamentos virtuais: horas e
horas na internet. Seu irmão mais velho, cada vez mais, era o
modelo da família, admirado pela mãe. Sua irmã caçulinha – “Ah,
ela é o xodó de todos”, dizia. Amargurado e sedentário, seu refúgio
era a comida. Tornou-se obeso, e, um dia, os sintomas começaram.
Os exames denunciaram as altas taxas que indicavam diabetes em
estado agravado. Todos os olhares e cuidados familiares voltaram-
se para ele, e um novo lugar se configurou na dinâmica familiar pela
via do adoecimento.

O adoecimento de um membro altera a dinâmica familiar, e as questões


conflituosas emergem, impondo um redirecionamento das atenções na
família. Muitas vezes, é a “mãezona” da família que passa a ser objeto de
amor e ódio. “Tem de ser mãezona, proteger, prover e cuidar de todo
mundo”; e, por “ter de”, ela acaba sentindo raiva de si mesma. Na
incapacidade de lidar com a raiva para manter a posição de boazinha e para
agradar todos, sua carga emocional implícita de raiva vai finalizar no corpo,
em uma dor, em uma fibromialgia ou em uma depressão que manifesta seu
desejo interno de demitir-se subjetivamente para não ter de se haver com
seus desejos. Sintomas que estão para além do corpo, em uma linguagem
simbólica diante de um sistema opressor familiar, que reivindica sempre
mais; um ganho que não mais suporta, afinal, no papel de mãe de todo
mundo, só lhe resta ser a “órfã”.

Ela veio encaminhada pelo psiquiatra, com diagnóstico de


depressão crônica, fibromialgia, além da insônia e, nas poucas vezes
em que conseguia dormir, ainda tinha bruxismo, o que estava
afetando seus dentes. Ela não tinha mais ânimo para nada, mas
ainda não havia requerido licença em seu trabalho, pois receava ser
demitida. Acordar cedo para cuidar das atividades domésticas,
depois ir para o trabalho e chegar a casa no final da tarde para
preparar o jantar da família era um tormento. Mas, “Minha família
não tem do que reclamar, porque eu cuido de tudo”, dizia. “Sempre
fui do tipo ‘mãezona’, e meu marido orgulha-se disso”. Agora, com a
depressão, eles estão ajudando-me, mas reclamam muito. Sua
expressão facial expressava seu estado interior. Quando falava, mal
abria a boca, e, com seus dentes quase travados, dava a impressão
de morder algo. Era muito perceptível a raiva e a irritabilidade pela
situação que vivia, “Afinal, quem se importa com o que eu sinto.
Eles sentem falta é do meu trabalho”. Como não expressava sua ira
aos familiares, redirecionava-a para si mesma, e os sintomas
denunciavam suas raivas e revoltas interiores. A depressão marcava
sua demissão subjetiva desse papel tão bem construído, em busca
de reconhecimento e do afeto. Transformar esses sentimentos
angustiantes em palavras dava-lhe a possibilidade de elaborar suas
angústias, cuidar de si mesma e posicionar-se no sistema familiar.

Essas questões trazem para nós um ponto de reflexão na busca da


compreensão da significação e simbolismo. O que esses sintomas ensinam-
nos? Qual é a função que aquele sintoma está cumprindo na família? Há uma
nova leitura a ser feita, uma escuta para além das palavras proferidas,
quando estamos diante do que parece incompreensível. A dor fala aquilo de
que a linguagem não deu conta.

Ela veio encaminhada pela dermatologista, com uma dermatite que


não regredia, apesar de todas as medicações utilizadas. Ela começa
a contar sua história, a morte do seu pai, as dificuldades de
relacionamento com a mãe por conta das atenções que ela dava ao
seu irmão, “Sempre dando trabalho à família pelo envolvimento
com drogas”. Depois do longo relato, disse, de forma quase
inaudível, que era adotada e que iria embora. Não queria falar sobre
o assunto. Após alguns dias, retomou o assunto de maneira bem
superficial. Quando lhe perguntei o que sabia da história da adoção,
disse: “Vou buscar sarna para me coçar?”. Olhou para seus braços
marcados pelas coceiras, sorriu, e finalmente conseguia dar voz,
expressar pela linguagem, seus calados e doídos desejos, afinal, a
“sarna” já coçava no corpo e na alma.

Muitos outros exemplos poderiam ser aqui mencionados, todavia o que


pretendo é mostrar a relação psique/soma, sua singularidade e sua
importância no equilíbrio do indivíduo como um todo. Assim, busca-se para
isso conhecer a origem do sintoma, sua relação com o trauma adquirido e o
quanto a mente é capaz de produzir manifestações no corpo biológico.

5.1. Equilíbrio e Desequilíbrio Familiar

As relações familiares podem produzir o adoecimento por seus


desequilíbrios de funcionamento. A ligação mãe/filho, por exemplo, quando
se dá desarmonicamente, é fonte de muitas exteriorizações somáticas da
criança.
Na verdade, desde cedo, a criança aprende a lidar com situações
estressantes. Isso acontece pela condição limitada de comunicação e de
extrema dependência do outro. Sabemos que a criança quando nasce
necessita e depende de alguém que cuide dela (em geral a mãe, ou alguém
que exerça esta função); pois, é dessa relação, de seu contato íntimo e
intenso que conseguirá sobreviver e estruturar-se como sujeito. O meio
biológico que a criança tem para comunicar-se é o próprio corpo.
Os cuidados maternos oferecem à criança respostas que se revelam em
seu próprio corpo. À medida que a mãe vai percebendo e atendendo as
necessidades do bebê, a experiência relacional mãe/bebê é construída e
registrada no psiquismo infantil. A comunicação entre a mãe e o bebê
estabelece-se na compreensão adequada de suas necessidades,
proporcionando segurança e confiança. Essas experiências afetivas
relacionais dão tranquilidade ao bebê, como experiências agradáveis e
apaziguadoras. A linguagem do choro traz a presença materna e o cuidado
afetivo. As bases de segurança e confiança da criança são estabelecidas nas
primeiras experiências relacionais; quando há desencontros entre a resposta
materna e as necessidades do bebê, a construção de segurança e confiança
será afetada, deixando suas marcas no psiquismo ao longo da vida —
produzindo desequilíbrios de ordem emocional, psicológica e fisiológica.
Além dos desequilíbrios produzidos por essas primárias relações do
início da vida, ainda há outros fatores que contribuem para o
desencadeamento de patologias, como a desarmonia do casal parental.
Quando o casal vive uma relação precária, os membros da família
apresentam alternadamente sintomas que denunciam o desequilíbrio nas
relações familiares. O sintoma tido como comunicação no contexto familiar,
é, muitas vezes, a melhor maneira encontrada para comunicar-se algo que
não é possível pela via da linguagem.
As dificuldades que envolvem uma família e que refletirão no
comportamento dos filhos têm várias origens: desde uma doença fatal, uma
separação, um novo casamento de um dos cônjuges, a vida profissional da
mãe e muitas outras. Quanto à vida profissional da mãe — que luta
juntamente com o marido pela sobrevivência da família, principalmente
neste cenário corporativo atual — pode-se dizer que algumas mulheres, além
de serem mães, seguem uma carreira, ficando, muitas vezes, vulneráveis à
culpa e à ansiedade em relação ao seu papel materno. Dessa forma, a
dedicação à família deixa de ser o centro de sua preocupação.
Quando os conflitos emergem, a desagregação familiar instala-se pela
falta de diálogo e de escuta. O lar transforma-se em um local de
desconhecidos que convivem em um mesmo ambiente, porém são distantes e
independentes; estão juntos, mas um sem saber do outro; vivem um
relacionamento que se sustenta pelo desequilíbrio, de transtornos
emocionais, psíquicos e de manifestações psicossomáticas. Estas são
algumas das dificuldades mais percebidas, associadas à falta de resolução
dos conflitos, ao fraco envolvimento afetivo, à indiferença e à hostilidade
decorrente, embora muitas outras possam produzir alterações
comportamentais e sintomas somáticos nos membros da família.

Essas questões trazem para nós um ponto de reflexão na busca da


compreensão da significação e simbolismo. O que esses sintomas ensinam-
nos? Qual é a função que aquele sintoma está cumprindo na família? Há uma
nova leitura a ser feita, uma escuta para além das palavras proferidas,
quando estamos diante do que parece incompreensível. A dor fala aquilo de
que a linguagem não deu conta.

Ela veio encaminhada pela dermatologista, com uma dermatite que


não regredia, apesar de todas as medicações utilizadas. Ela começa
a contar sua história, a morte do seu pai, as dificuldades de
relacionamento com a mãe por conta das atenções que ela dava ao
seu irmão, “Sempre dando trabalho à família pelo envolvimento
com drogas”. Depois do longo relato, disse, de forma quase
inaudível, que era adotada e que iria embora. Não queria falar sobre
o assunto. Após alguns dias, retomou o assunto de maneira bem
superficial. Quando lhe perguntei o que sabia da história da adoção,
disse: “Vou buscar sarna para me coçar?”. Olhou para seus braços
marcados pelas coceiras, sorriu, e finalmente conseguia dar voz,
expressar pela linguagem, seus calados e doídos desejos, afinal, a
“sarna” já coçava no corpo e na alma.

Muitos outros exemplos poderiam ser aqui mencionados, todavia o que


pretendo é mostrar a relação psique/soma, sua singularidade e sua
importância no equilíbrio do indivíduo como um todo. Assim, busca-se para
isso conhecer a origem do sintoma, sua relação com o trauma adquirido e o
quanto a mente é capaz de produzir manifestações no corpo biológico.

5.1. Equilíbrio e Desequilíbrio Familiar

As relações familiares podem produzir o adoecimento por seus


desequilíbrios de funcionamento. A ligação
mãe/filho, por exemplo, quando se dá desarmonicamente, é fonte de muitas
exteriorizações somáticas da criança.
Na verdade, desde cedo, a criança aprende a lidar com situações
estressantes. Isso acontece pela condição limitada de comunicação e de
extrema dependência do outro. Sabemos que a criança quando nasce
necessita e depende de alguém que cuide dela (em geral a mãe, ou alguém
que exerça esta função); pois, é dessa relação, de seu contato íntimo e
intenso que conseguirá sobreviver e estruturar-se como sujeito. O meio
biológico que a criança tem para comunicar-se é o próprio corpo.
Os cuidados maternos oferecem à criança respostas que se revelam em
seu próprio corpo. À medida que a mãe vai percebendo e atendendo as
necessidades do bebê, a experiência relacional mãe/bebê é construída e
registrada no psiquismo infantil. A comunicação entre a mãe e o bebê
estabelece-se na compreensão adequada de suas necessidades,
proporcionando segurança e confiança. Essas experiências afetivas
relacionais dão tranquilidade ao bebê, como experiências agradáveis e
apaziguadoras. A linguagem do choro traz a presença materna e o cuidado
afetivo. As bases de segurança e confiança da criança são estabelecidas nas
primeiras experiências relacionais; quando há desencontros entre a resposta
materna e as necessidades do bebê, a construção de segurança e confiança
será afetada, deixando suas marcas no psiquismo ao longo da vida —
produzindo desequilíbrios de ordem emocional, psicológica e fisiológica.
Além dos desequilíbrios produzidos por essas primárias relações do
início da vida, ainda há outros fatores que contribuem para o
desencadeamento de patologias, como a desarmonia do casal parental.
Quando o casal vive uma relação precária, os membros da família
apresentam alternadamente sintomas que denunciam o desequilíbrio nas
relações familiares. O sintoma tido como comunicação no contexto familiar,
é, muitas vezes, a melhor maneira encontrada para comunicar-se algo que
não é possível pela via da linguagem.
As dificuldades que envolvem uma família e que refletirão no
comportamento dos filhos têm várias origens: desde uma doença fatal, uma
separação, um novo casamento de um dos cônjuges, a vida profissional da
mãe e muitas outras. Quanto à vida profissional da mãe — que luta
juntamente com o marido pela sobrevivência da família, principalmente
neste cenário corporativo atual — pode-se dizer que algumas mulheres, além
de serem mães, seguem uma carreira, ficando, muitas vezes, vulneráveis à
culpa e à ansiedade em relação ao seu papel materno. Dessa forma, a
dedicação à família deixa de ser o centro de sua preocupação.
Quando os conflitos emergem, a desagregação familiar instala-se pela
falta de diálogo e de escuta. O lar transforma-se em um local de
desconhecidos que convivem em um mesmo ambiente, porém são distantes e
independentes; estão juntos, mas um sem saber do outro; vivem um
relacionamento que se sustenta pelo desequilíbrio, de transtornos
emocionais, psíquicos e de manifestações psicossomáticas. Estas são
algumas das dificuldades mais percebidas, associadas à falta de resolução
dos conflitos, ao fraco envolvimento afetivo, à indiferença e à hostilidade
decorrente, embora muitas outras possam produzir alterações
comportamentais e sintomas somáticos nos membros da família.
Geralmente, a maneira dos pais encararem a vida impede, mesmo
inconscientemente, que atendam a seus filhos como personalidades únicas,
singulares, como sujeitos desejantes que são e não como operadores dos
desejos frustrados dos pais. Como depositários das angústias de seus pais,
resta aos filhos, muitas vezes, o adoecimento como recurso para a
recuperação da função materna e dos laços afetivos.
A família tem papéis e funções distintos em sua estruturação, bem
apresentados na Bíblia, principalmente na carta que o Apóstolo Paulo
escreveu aos Efésios, no capítulo 5. Os pais representam a autoridade, e os
níveis hierárquicos estão demarcados pelo lugar ocupado pelo pai — como
representante da Lei — e pelo lugar ocupado pela mãe — como ajudadora do
pai, no cumprimento de sua autoridade delegada. Qualquer alteração nessa
estruturação produzirá disfunções que afetarão todo o sistema familiar.
Quando a função paterna não norteia os rumos da família, em seu papel
primordial de estruturação do sujeito, teremos um solo comprometido e
fértil aos transtornos e às psicossomatizações.
5.2. Fenômenos Psicossomáticos

Para Jean Guir (GUIR, 1988), fenômeno psicossomático é “toda lesão


corporal relacionada com um distúrbio da psique”. Esta definição amplia a
compreensão dos sintomas que comparecem visivelmente no corpo para
representar as feridas da alma.
Quando começamos a analisar o quanto os fenômenos psicossomáticos
manifestam-se na família e a linguagem simbólica que eles expressam, é
interessante considerar a importância das gerações, até mesmo das terceira e
quarta gerações. A árvore genealógica e, mais precisamente, o genograma,
permitem-nos situar o indivíduo entre os familiares e os traços de
identificação. Todos os dados, tais como nomes, datas de nascimento e morte
são importantes neste contexto e sempre é possível perceber algum grande
segredo familiar que permitirá uma melhor compreensão da manifestação
dos fenômenos psicossomáticos na dinâmica familiar.
A história da pessoa possibilita-nos esclarecer a dinâmica e os
significantes particulares em jogo nos fenômenos psicossomáticos, e há,
neste contexto, eventos significativos na família, que estão vinculados ao
aparecimento do fenômeno. A história dos corpos familiares diz dos
sintomas que emergem no corpo do sujeito.
Portanto, o sintoma precisa ser analisado e compreendido no seu
contexto. Há, na dor, a possibilidade do doente sentir-se vivo. Poderíamos
dizer que a dor física dá concretude à dor da alma, ao vazio existencial, à falta
de motivação para a vida, e a dor é a certeza de estar vivo. É a dor de existir,
a conhecida angústia existencial, que é tão difícil de nomear, que afeta tão
profundamente o funcionamento psíquico, diante das perdas dos laços de
afeto, das perdas significativas da vida.
Alguns estudos teóricos ampliam essa compreensão. Em sua teoria da
dor, Nasio (NASIO, 1997, p.21) apresenta a sua premissa: “A dor é um afeto
que reflete, na consciência, as variações extremas da tensão inconsciente,
variações que escapam ao princípio do prazer”. Se o amor é considerado a
fonte de prazer do ser humano, o corpo lesado pela dor é a linguagem e a
representação vívida do desinvestimento amoroso, traduzindo a dor
psíquica. Nasio (NASIO, 1997, p.29) propõe uma nova definição da dor
psíquica, como “o afeto que exprime o esgotamento de um ‘eu’ inteiramente
ocupado em amar desesperadamente a imagem do amado perdido”. A dor
reedita inconscientemente a lembrança de outras dores, como nos diz Freud
(apud NASIO, 1997, p. 76): “Não é sob forma de lembrança que o fato
esquecido reaparece, mas sob forma de ação. O doente repete, sem saber que
se trata de uma repetição”. A memória inconsciente traz a dor do passado,
que comparece no presente, traduzida em uma nova dor, uma angústia, uma
culpa, uma ação punitiva, até mesmo como uma doença psicossomática.
A dor ali se situa a serviço de uma linguagem, cumprindo uma função,
mesmo que seja doloroso. Há uma súplica calada que simbolicamente clama
pelo suprimento de uma necessidade. A gênese da dor espera a resolução da
questão que a produziu.
A história de Davi pode situar-se nesse contexto. O Salmo 38 traz o
relato de suas angústias, dores físicas e emocionais: dermatites, febre,
ansiedade, taquicardia, insônia, problemas de coluna, depressão, fraqueza
muscular etc.:

Não há parte sã na minha carne, por causa da tua indignação;


não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado. Pois já se
elevam acima de minha cabeça as minhas iniqüidades; como
fardos pesados, excedem as minhas forças. Tornam-se infectas e
purulentas as minhas chagas, por causa da minha loucura. Sinto-
me encurvado e sobremodo abatido, ando de luto o dia todo.
Ardem-me os lombos, e não há parte sã na minha carne. Estou
aflito e mui quebrantado; dou gemidos por efeito do desassossego
do meu coração. Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos
todos, e a minha ansiedade não te é oculta. Bate-me excitado o
coração, faltam-me as forças, e a luz dos meus olhos, essa mesma
já não está comigo.
Salmo 38.3-10 ARA

O que estava por trás dessas dores tão avassaladoras que atingiam o
corpo, a alma e o espírito de Davi? Conhecemos a triste história de sua queda
narrada em 2 Samuel 11. Ele deveria estar na batalha com seus exércitos, mas
escolheu ficar em Jerusalém. Foi em seu tempo ocioso, que ele viu de seu
terraço a mulher de Urias. O desejo falou mais alto, e Davi cometeu adultério
com ela. O resultado foi uma gravidez indesejada, que levou o rei a arquitetar
uma estratégia para que Urias voltasse da guerra e relacionasse-se com sua
esposa. Assim, o adultério e a gravidez ficariam ocultos. Mas, a estratégia não
deu certo e, como um abismo leva a outro abismo, Davi novamente trama
uma saída para a situação, colocando Urias à frente da batalha: Ponde Urias
na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido
e morra (2 Sm 11.15 ARA).
O empecilho ao seu desejo foi eliminado por vias indiretas, na trama
planejada pelo rei para a morte de Urias. Davi casaria com Bate-Seba e tudo
ficaria resolvido. Certo? Não, a culpa calada produz seus sintomas. Deus
enviou Natã para confrontar Davi, e a metáfora usada acionou as emoções do
seu coração doente, seu desespero, arrependimento, confissão e os sintomas
sobre seu corpo, alma e espírito. Como ele era um homem sincero (sem
cera), rasgou seu coração diante de Deus.

Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a


sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e
ficarei mais alvo do que a neve.
Salmo 51.6,7 ARC

As consequências vieram para ele, sua família e suas gerações. Seus


salmos dizem de suas angústias, e os fatos que aconteceram com seus filhos
denunciaram os efeitos de sua desobediência aos princípios de Deus. Na
verdade, a história de Davi já traz alguns traços enigmáticos ainda em sua
família de origem. O Senhor havia ordenado ao profeta Samuel que fosse à
casa de Jessé, pai de Davi, dizendo que dentre seus filhos ele ungiria um rei
para Israel. Samuel foi, convidou Jessé para o sacrifício, santificou-o junto
com seus filhos, mas Davi não estava ali, continuava no campo trabalhando,
enquanto todos já estavam em casa. Jessé passou “todos” os seus filhos
diante de Samuel. Somente quando nenhum deles foi confirmado por Deus e
Samuel perguntou: Acabaram-se os teus filhos?, foi que a informação veio de
que ainda faltava o mais moço que estava trabalhando no campo. A
convocação firme de Samuel fez com que o pai mandasse buscar o filho para
que se sentasse à mesa naquele solene momento.
Em minha percepção, desde o primeiro momento, quando Samuel
chegou e ungiu Jessé e seus filhos, deveria ter vindo a informação de que
ainda faltava um e de que o mandaria buscar. Creio que se fosse escolhido
um dentre os primeiros apresentados, Davi continuaria em seu trabalho sem
trazer incômodos pelo lugar vazio. Essa situação deixa-me a sensação de
exclusão, “ser deixado de lado”, menos valia e importância, justamente o
escolhido por Deus. Quando leio os salmos, a linguagem da alma de Davi,
permito-me olhar para além das angustiantes expressões e pensar na história
desse filho mais moço, “a raspinha do tacho” de Jessé, como diria alguns
sobre este filho caçula. Sua dor de existir traz sua história à cena, afinal, ele
era um homem segundo o coração de Deus. Não foi ele o escolhido dentre os
oito filhos de Jessé?
As separações de pessoas significativas na infância podem ser o cenário
ideal para a emergência do distúrbio psicossomático, em que o sujeito
funciona como um pedaço do corpo do outro. São as dores das primeiras
perdas, as dores do desinvestimento afetivo materno, nossas mais remotas
dores que pareciam perdidas no tempo. Uma angústia no presente funciona
como um clique na tecla “pause” das cenas originais gravadas em nossa
memória, trazendo a intensidade da dor passada associada à angústia
dolorida do presente, e, assim, o corpo torna-se o depositário final daquilo
com que o psiquismo não dá conta de lidar.
Salmo 38.3-10 ARA

O que estava por trás dessas dores tão avassaladoras que atingiam o
corpo, a alma e o espírito de Davi? Conhecemos a triste história de sua queda
narrada em 2 Samuel 11. Ele deveria estar na batalha com seus exércitos, mas
escolheu ficar em Jerusalém. Foi em seu tempo ocioso, que ele viu de seu
terraço a mulher de Urias. O desejo falou mais alto, e Davi cometeu adultério
com ela. O resultado foi uma gravidez indesejada, que levou o rei a arquitetar
uma estratégia para que Urias voltasse da guerra e relacionasse-se com sua
esposa. Assim, o adultério e a gravidez ficariam ocultos. Mas, a estratégia não
deu certo e, como um abismo leva a outro abismo, Davi novamente trama
uma saída para a situação, colocando Urias à frente da batalha: Ponde Urias
na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido
e morra (2 Sm 11.15 ARA).
O empecilho ao seu desejo foi eliminado por vias indiretas, na trama
planejada pelo rei para a morte de Urias. Davi casaria com Bate-Seba e tudo
ficaria resolvido. Certo? Não, a culpa calada produz seus sintomas. Deus
enviou Natã para confrontar Davi, e a metáfora usada acionou as emoções do
seu coração doente, seu desespero, arrependimento, confissão e os sintomas
sobre seu corpo, alma e espírito. Como ele era um homem sincero (sem
cera), rasgou seu coração diante de Deus.
Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a
sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e
ficarei mais alvo do que a neve.
Salmo 51.6,7 ARC

As consequências vieram para ele, sua família e suas gerações. Seus


salmos dizem de suas angústias, e os fatos que aconteceram com seus filhos
denunciaram os efeitos de sua desobediência aos princípios de Deus. Na
verdade, a história de Davi já traz alguns traços enigmáticos ainda em sua
família de origem. O Senhor havia ordenado ao profeta Samuel que fosse à
casa de Jessé, pai de Davi, dizendo que dentre seus filhos ele ungiria um rei
para Israel. Samuel foi, convidou Jessé para o sacrifício, santificou-o junto
com seus filhos, mas Davi não estava ali, continuava no campo trabalhando,
enquanto todos já estavam em casa. Jessé passou “todos” os seus filhos
diante de Samuel. Somente quando nenhum deles foi confirmado por Deus e
Samuel perguntou: Acabaram-se os teus filhos?, foi que a informação veio de
que ainda faltava o mais moço que estava trabalhando no campo. A
convocação firme de Samuel fez com que o pai mandasse buscar o filho para
que se sentasse à mesa naquele solene momento.
Em minha percepção, desde o primeiro momento, quando Samuel
chegou e ungiu Jessé e seus filhos, deveria ter vindo a informação de que
ainda faltava um e de que o mandaria buscar. Creio que se fosse escolhido
um dentre os primeiros apresentados, Davi continuaria em seu trabalho sem
trazer incômodos pelo lugar vazio. Essa situação deixa-me a sensação de
exclusão, “ser deixado de lado”, menos valia e importância, justamente o
escolhido por Deus. Quando leio os salmos, a linguagem da alma de Davi,
permito-me olhar para além das angustiantes expressões e pensar na história
desse filho mais moço, “a raspinha do tacho” de Jessé, como diria alguns
sobre este filho caçula. Sua dor de existir traz sua história à cena, afinal, ele
era um homem segundo o coração de Deus. Não foi ele o escolhido dentre os
oito filhos de Jessé?
As separações de pessoas significativas na infância podem ser o cenário
ideal para a emergência do distúrbio psicossomático, em que o sujeito
funciona como um pedaço do corpo do outro. São as dores das primeiras
perdas, as dores do desinvestimento afetivo materno, nossas mais remotas
dores que pareciam perdidas no tempo. Uma angústia no presente funciona
como um clique na tecla “pause” das cenas originais gravadas em nossa
memória, trazendo a intensidade da dor passada associada à angústia
dolorida do presente, e, assim, o corpo torna-se o depositário final daquilo
com que o psiquismo não dá conta de lidar.
Certa história familiar de uma moça retrata bem esses conceitos
teóricos. A marca familiar vem, pela via da repetição, trazer o selo corporal
da linhagem do sujeito. Foram mais de 20 casos de pessoas acometidas por
câncer no histórico familiar; certamente um expressivo e significativo
número que convoca à reflexão. A mãe descobriu o câncer no seio quando
estava amamentando a segunda filha e faleceu, ainda muito jovem, deixando
sua filha caçula com cinco anos. Essa filha afirmou, algumas vezes, que
também morreria com a mesma doença da mãe. Já casada e sem filhos, o
adoecimento confirmou a triste previsão, vindo a falecer no ano em que
completaria a mesma idade da mãe.
O que une essas mulheres? Que identificação une mãe e filha? Que
transmissão psíquica configura-se na escuta analítica, revelando uma
herança geracional não elaborada, assimilada em uma cumplicidade
inconsciente? A forma com que a doença é configurada no imaginário do
sujeito permite-nos perceber um determinismo engendrado na construção
de sua subjetividade.
Olhando esse relato clínico pela via da transmissão psíquica entre as
gerações, podemos questionar como Inglêz-Mazzarella (INGLÊZ-
MAZZARELLA, 2006, p.11):

De quantas pessoas se faz uma pessoa? Quantas experiências de


vida – algumas relatadas, outras inenarráveis, umas próprias,
outras alheias […] – compõem uma subjetividade? Quantas
histórias bem contadas e quantas histórias mal contadas
contribuem para uma história de vida? Quantas vozes e quantos
silêncios calam no fundo de cada um de nós?

E mais ainda eu questionaria: quantos sintomas trazem no corpo a


linguagem calada na alma, os enigmas e segredos familiares, o não dito que
se diz na carne? Quantas dores trazem um pedido de socorro, um grito
dilacerante em busca de um olhar de atenção, de um pequeno gesto de afeto,
um acolhimento e conforto negados durante a existência?
Não temos a total dimensão do quanto as transmissões psíquicas
geracionais, inter e transgeracionais lançam-se para frente e para trás na
vida humana. Vai muito mais além do que podemos presumir. Cada história
traz em si a marca de muitas gerações, e cada vida enraíza-se e projeta-se
para muito mais além.
São esses enigmas familiares que nos colocam diante das questões que
se lançam na clínica, sintomas e dores que insistem e persistem, para que se
possa atribuir algum sentido possível pela via da linguagem. A história de
uma moça permite-nos perceber um pouco dessas questões:

Ela é uma moça jovem, casada, que já havia sofrido alguns abortos.
Ela veio com a queixa de que não conseguia “segurar” um bebê.
Engravidava, mas, até o terceiro mês, o feto era expulso
“espontaneamente”. O médico pesquisou o fato no campo da
medicina, com exames, medicamentos, repousos, mas nada deu
resultado. Portanto, a questão veio para o campo da subjetividade,
fatores inconscientes que interferiam na passagem para a
maternidade. Pedi a ela que me falasse sobre sua mãe, e ela relatou
que a mãe havia morrido no parto de seu irmão. Ela era a filha do
meio, entre uma irmã dois anos mais velha e seu irmão nascido
também dois anos após seu nascimento. Com a morte da mãe, o pai
casou-se novamente, com uma mulher nova, solteira, que cuidava
bem dos filhos do marido, embora sem manifestação de carinho e
de afetividade. Quando seu irmão estava com três anos, a madrasta
engravidou, e nasceu um menino. A partir daí, ela e a irmã
passaram a ser as cuidadoras do bebê, como incumbência dada pela
madrasta, que se tornou bem mais exigente com ela e com seus
irmãos. Um dia, quando foi passear com o bebê para tomar sol, seu
irmão chamou-a para brincar no campinho logo abaixo da casa. Ela
deixou o carrinho do bebê ancorado em uma pedra e foi brincar.
Quando olhou pra cima, viu a pedra que segurava o carrinho do
bebê movendo-se e, desesperada, subiu o morro para evitar a
queda, o que não foi possível. O carrinho desceu até encontrar um
obstáculo, lançando o bebê no chão. O bebê sofreu algumas
escoriações, e ela segurou-o para entregá-lo à madrasta, que
desesperada, agrediu-a fisicamente naquele momento. O pai chegou
à noite, do trabalho, ouviu o relato da esposa, e, antes de dormir,
colocou os três filhos no carro e leva-os para uma estrada deserta,
no meio do mato, cortou cinco varas e disse: “Vou surrá-los até
quebrar as varas para que vocês possam aprender a obedecer”. O
pai foi embora com o carro, deixando-os sozinhos no escuro,
chorando, para que eles fossem para casa a pé. Eles caminharam de
mãos dadas pelo meio da mata escura, sentindo a dor das varadas,
mas, a maior dor, disse ela: “Não foram as varadas, mas a dor da
alma, a solidão dentro do peito”. Ela não sabe quanto tempo passou
até o pai voltar, mas crê que alguns minutos depois ele retornou e
disse que eles jamais esqueceriam aquela correção, para não repetir
tal atitude. Esta moça relatou essa história chorando muito. Olhou
pra mim e disse: “Eu não tive culpa, eu era apenas uma criança, eu
não consegui segurar o bebê”. Quando ela disse essa frase, eu repeti
para ela a frase e o complemento: “Você não conseguiu segurar
aquele bebê, porque era apenas uma criança; mas, pode segurar o
seu bebê, porque agora você é uma mulher”. Ela olhou assustada,
esboçou um sorriso e acalmou-se. Retornou à sua cidade, à casa do
pai, e retomou à cena infantil, dizendo para o pai que o perdoava.
Pediu-lhe também que abençoasse sua vida; pai e filha uniram-se
em reconciliação. Naquela mesma semana, ela descobriu que estava
grávida. O período gestacional completou-se naturalmente, e ela
pode segurar o seu bebê; ressignificando, assim, a cena traumática
infantil em outro contexto.
Ela é uma moça jovem, casada, que já havia sofrido alguns abortos.
Ela veio com a queixa de que não conseguia “segurar” um bebê.
Engravidava, mas, até o terceiro mês, o feto era expulso
“espontaneamente”. O médico pesquisou o fato no campo da
medicina, com exames, medicamentos, repousos, mas nada deu
resultado. Portanto, a questão veio para o campo da subjetividade,
fatores inconscientes que interferiam na passagem para a
maternidade. Pedi a ela que me falasse sobre sua mãe, e ela relatou
que a mãe havia morrido no parto de seu irmão. Ela era a filha do
meio, entre uma irmã dois anos mais velha e seu irmão nascido
também dois anos após seu nascimento. Com a morte da mãe, o pai
casou-se novamente, com uma mulher nova, solteira, que cuidava
bem dos filhos do marido, embora sem manifestação de carinho e
de afetividade. Quando seu irmão estava com três anos, a madrasta
engravidou, e nasceu um menino. A partir daí, ela e a irmã
passaram a ser as cuidadoras do bebê, como incumbência dada pela
madrasta, que se tornou bem mais exigente com ela e com seus
irmãos. Um
dia, quando foi passear com o bebê para tomar sol, seu irmão
chamou-a para brincar no campinho logo abaixo da casa. Ela deixou
o carrinho do bebê ancorado em uma pedra e foi brincar. Quando
olhou pra cima, viu a pedra que segurava o carrinho do bebê
movendo-se e, desesperada, subiu o morro para evitar a queda, o
que não foi possível. O carrinho desceu até encontrar um obstáculo,
lançando o bebê no chão. O bebê sofreu algumas escoriações, e ela
segurou-o para entregá-lo à madrasta, que desesperada, agrediu-a
fisicamente naquele momento. O pai chegou à noite, do trabalho,
ouviu o relato da esposa, e, antes de dormir, colocou os três filhos
no carro e leva-os para uma estrada deserta, no meio do mato,
cortou cinco varas e disse: “Vou surrá-los até quebrar as varas para
que vocês possam aprender a obedecer”. O pai foi embora com o
carro, deixando-os sozinhos no escuro, chorando, para que eles
fossem para casa a pé. Eles caminharam de mãos dadas pelo meio
da mata escura, sentindo a dor das varadas, mas, a maior dor, disse
ela: “Não foram as varadas, mas a dor da alma, a solidão dentro do
peito”. Ela não sabe quanto tempo passou até o pai voltar, mas crê
que alguns minutos depois ele retornou e disse que eles jamais
esqueceriam aquela correção, para não repetir tal atitude. Esta
moça relatou essa história chorando muito. Olhou pra mim e disse:
“Eu não tive culpa, eu era apenas uma criança, eu não consegui
segurar o bebê”. Quando ela disse essa frase, eu repeti para ela a
frase e o complemento: “Você não conseguiu segurar aquele bebê,
porque era apenas uma criança; mas, pode segurar o seu bebê,
porque agora você é uma mulher”. Ela olhou assustada, esboçou um
sorriso e acalmou-se. Retornou à sua cidade, à casa do pai, e
retomou à cena infantil, dizendo para o pai que o perdoava. Pediu-
lhe também que abençoasse sua vida; pai e filha uniram-se em
reconciliação. Naquela mesma semana, ela descobriu que estava
grávida. O período gestacional completou-se naturalmente, e ela
pode segurar o seu bebê; ressignificando, assim, a cena traumática
infantil em outro contexto.
É esta ambivalência que transita na família, em que amor e ódio e vida e
morte podem fazer do ambiente familiar um lugar de refúgio, abrigo e
acolhimento ou um campo de batalha, com guerras sutis ou declaradas,
abrindo feridas emocionais que aportarão na carne, no corpo e no soma.
Muitas vezes, é “preciso” adoecer para falar da linguagem que a palavra não
deu conta de traduzir, e, é neste contexto, que a psicossomatização
comparece denunciando a dor da alma.
O sintoma, como via de comunicação, traz em si um mecanismo
primitivo de proteção. Diante das ameaças do ambiente externo, o sujeito
abre mão de seus recursos conscientes e entrega-se inconscientemente aos
recursos corporais.
O quadro da enxaqueca é um bom exemplo desse mecanismo. Há um
alívio, de certa forma, na dor que isola, que permite recolher-se ao “quarto
escuro”, em uma reedição do abrigo de origem, ao útero materno, não sendo
exigida, demandada para nenhuma atribuição, mas podendo ser cuidada e
respeitada em sua dor.
Carregando o peso da manutenção do sistema familiar, com raivas,
culpas, questões mal resolvidas com os pais, tendo de ser o equilíbrio da
família para resolver as questões de todos os membros do grupo familiar, a
dor na cabeça é, muitas vezes, a linguagem calada, oculta, não dita, que se diz
na dor.
A fala de uma moça que sofria enxaqueca representa bem a função da
dor. Ela estava vivendo sérios conflitos com o marido, devido à sua
instabilidade profissional, que a lançava no lugar de provedora da sua
família. A situação deixava-a muito irritada, por ter de carregar toda a
responsabilidade financeira da casa. A dor comparecia e produzia um
estranho alívio na alma, que ela não conseguia nomear. E disse:

São três dias terríveis que tenho todo mês, após o período
menstrual. Mas, ficar em meu quarto escuro é ser respeitada em
minha dor. Ninguém me perturba nesse período. E quando a dor
passa, sinto-me renovada, de alma lavada, para enfrentar mais um
mês.

O que não se fala pela linguagem, fala-se por um sintoma. Ás vezes, é


uma dor no estômago que pode ter o significado de um “soco” no estômago,
uma voz vociferante de um pai ameaçador marcada na carne e na alma. São
as dores do corpo que novamente falam das dores da alma.
Um fenômeno psicossomático presente na família, que nos chama a
atenção na clínica, é a hipocondria que transita entre as gerações. Vemos
repetindo-se uma excessiva inquietação com a doença e com a própria saúde
e também uma interpretação irrealista de sintomas e sensações físicas,
levando a uma preocupação com o medo ou crença do membro familiar ter
uma doença séria. Esse medo ou convicção de doença é incapacitante e
paralisa a pessoa que vive à espera de qualquer sinal que possa denunciar o
sintoma. Se for uma febre, a pessoa já antevê a pneumonia, vivendo à espera
de um adoecimento severo. A cada dia, sofre um pouco, antecipando o
sofrimento imaginário e expressando uma preocupação excessiva com
medicamentos.
Na história dos pacientes com doenças psicossomáticas, muitas vezes,
observam-se dificuldades em lidar de modo efetivo com a hostilidade. São
desejos agressivos e hostis em relação aos outros membros da família,
provenientes de conflitos não resolvidos, que são transferidos para queixas
físicas. O indivíduo tem uma grande necessidade de ser apreciado por seus
familiares e aprendeu que os sentimentos hostis podem fazê-lo perder o tão
necessário amor e aprovação dos pais. Em consequência disso, pode reprimir
a hostilidade que sente em relação às frustrações, convertendo-a em termos
físicos e, até mesmo, desenvolvendo alguma doença.

Eu sou muito boazinha, sou mesmo a boazinha da família toda, para


meus pais, meu marido e meus filhos. E, por isso, esperam que eu
faça tudo por eles, mas ninguém faz nada por mim, ninguém me
ajuda em nada. E, no meu trabalho, é a mesma coisa. Eles não
respeitam nem a minha doença. Não tenho nem o direito de
adoecer. Às vezes, tenho vontade de sumir, de morrer, para que eles
percebam que eu também tenho necessidades. Somente quando fico
muito doente, que mal consigo levantar da cama, eles me deixam
em minha dor.

Este recorte da fala de uma mulher encaminhada pelo psiquiatra, com


diagnóstico de Depressão Crônica serve-nos para exemplificar essa questão.
Quando ela dizia “Eu sou muito boazinha”, seu olhar traduzia ira contida, e
os dentes ficavam como travados, mal abrindo a boca para expressar com
clareza sua dor psíquica.
A maioria das perturbações psicossomáticas proporciona ao sujeito um
benefício inconsciente, primário, que geralmente se apresenta sob a forma de
alívio para sua angústia ou culpa. Quase sempre, há também outros
benefícios inconscientes secundários: proveitos adicionais decorrentes da
doença e tais proveitos secundários, por sua vez, servem para perpetuar o
adoecimento. Como exemplo de proveito secundário, o hipocondríaco pode
recorrer aos seus sintomas físicos como disfarce para suas dificuldades
psíquicas, haja vista que é na hipocondria que esses proveitos tornam-se
mais evidentes, e assim toda a família volta sua atenção para este membro.
Sendo com frequência uma pessoa carente de amor e carinho, ele usa sua
“doença” para compensar a falta de amor que o aflige, além do que lhe
permite tornar-se dependente e, dessa forma, despertar e exigir a atenção do
grupo familiar.
Podemos, ainda, falar da angústia, tão presente na humanidade, que
tem a sua gênese neste nosso conhecido cenário – a família. A definição de
angústia, de mais ampla aceitação, é aquela formulada pela Associação
Americana de Psiquiatria (apud HOWARD, 1984) que a descreve como
“apreensão, tensão ou agitação decorrentes da perspectiva da aproximação
de um perigo cuja origem seja desconhecida ou não identificada”.
Além das sensações psíquicas desagradáveis, a angústia faz-se
acompanhar de elementos somáticos. Tais sintomas, geralmente, são
expressos por meio de áreas do corpo sob controle consciente, em um
sistema físico ao qual o sujeito pode recorrer imediatamente, visando aplacar
a sua angústia. Apesar de o sintoma manifestar-se em uma parte do corpo
que, em geral, está sob controle consciente, o problema tem sua origem no
inconsciente.
Esses fenômenos associados a uma diversidade de doenças
psicossomáticas comparecem na clínica por intermédio do paciente
psicossomático, que traz sua queixa e sua história familiar. Ele, que muitas
vezes toma a seu cargo os problemas e responsabilidades de seus familiares,
contribuindo para o desenvolvimento de sua doença, ao não conseguir mais
tolerar as exigências, descarrega-as sobre si mesmo. Isso pode desenvolver
uma doença física, que é capaz de requerer sua remoção (e assim ter alívio)
das circunstâncias tão exigentes.
5.3. As Disfunções e o Adoecimento Familiar

O processo de adoecimento, em função da variedade de causas que o


desencadeia e das diferentes capacidades de reação de cada sujeito, nunca é
o mesmo. No entanto, pode-se afirmar que todo sofrimento ou mal
psicossomático, por mais grave ou ameno que seja, começa com a perda de
opções que possibilitam o sujeito adaptar-se ao seu meio. Como
consequência dessas causas, o sujeito “escolhe” os sintomas que farão
explodir os seus conflitos inconscientes, que podem deslocar de um sistema
orgânico a outro, capazes de irromper em pontos diversos.
Independente de diagnóstico, a doença de uma pessoa traz em si a sua
marca pessoal, nos significados que ela atribui, e, é neste contexto, que o
adoecimento precisa ser compreendido. Não apenas um órgão, um corpo
adoecido, mas a subjetividade do indivíduo que diz a dor de sua alma.
E como já analisamos, a família como cenário original de estruturação
da vida humana, nosso lugar de abrigo e refúgio, pode constituir-se como
mediadora de doenças na vida de seus membros, em consequência das
disfunções que alteram a dinâmica familiar. A dinâmica da família
disfuncional favorece a psicossomatização de seus membros.
Nesse cenário, as relações de transformação em jogos de interesses e a
comunicação são totalmente afetadas. Os relacionamentos frios, distantes,
sem afetividade e sem espontaneidade, os padrões rígidos e repressivos de
comportamentos, o controle excessivo e manipulador e, até mesmo, a
proteção excessiva produzem o adoecimento familiar.
Muitas vezes, o filho doente está assumindo a doença do grupo familiar.
É pela doença desse membro que a família mantém-se “unida”. É ele que
serve como sustentáculo das relações do grupo em crise, para que a família
possa continuar “vivendo” e sofrendo junta. Quando o “doente” recupera a
saúde, a relação familiar desagrega.
A maioria das perturbações psicossomáticas proporciona ao sujeito um
benefício inconsciente, primário, que geralmente se apresenta sob a forma de
alívio para sua angústia ou culpa. Quase sempre, há também outros
benefícios inconscientes secundários: proveitos adicionais decorrentes da
doença e tais proveitos secundários, por sua vez, servem para perpetuar o
adoecimento. Como exemplo de proveito secundário, o hipocondríaco pode
recorrer aos seus sintomas físicos como disfarce para suas dificuldades
psíquicas, haja vista que é na hipocondria que esses proveitos tornam-se
mais evidentes, e assim toda a família volta sua atenção para este membro.
Sendo com frequência uma pessoa carente de amor e carinho, ele usa sua
“doença” para compensar a falta de amor que o aflige, além do que lhe
permite tornar-se dependente e, dessa forma, despertar e exigir a atenção do
grupo familiar.
Podemos, ainda, falar da angústia, tão presente na humanidade, que
tem a sua gênese neste nosso conhecido cenário – a família. A definição de
angústia, de mais ampla aceitação, é aquela formulada pela Associação
Americana de Psiquiatria (apud HOWARD, 1984) que a descreve como
“apreensão, tensão ou agitação decorrentes da perspectiva da aproximação
de um perigo cuja origem seja desconhecida ou não identificada”.
Além das sensações psíquicas desagradáveis, a angústia faz-se
acompanhar de elementos somáticos. Tais sintomas, geralmente, são
expressos por meio de áreas do corpo sob controle consciente, em um
sistema físico ao qual o sujeito pode recorrer imediatamente, visando aplacar
a sua angústia. Apesar de o sintoma manifestar-se em uma parte do corpo
que, em geral, está sob controle consciente, o problema tem sua origem no
inconsciente.
Esses fenômenos associados a uma diversidade de doenças
psicossomáticas comparecem na clínica por intermédio do paciente
psicossomático, que traz sua queixa e sua história familiar. Ele, que muitas
vezes toma a seu cargo os problemas e responsabilidades de seus familiares,
contribuindo para o desenvolvimento de sua doença, ao não conseguir mais
tolerar as exigências, descarrega-as sobre si mesmo. Isso pode desenvolver
uma doença física, que é capaz de requerer sua remoção (e assim ter alívio)
das circunstâncias tão exigentes.

5.3. As Disfunções e o Adoecimento Familiar

O processo de adoecimento, em função da variedade de causas que o


desencadeia e das diferentes capacidades de reação de cada sujeito, nunca é
o mesmo. No entanto, pode-se afirmar que todo sofrimento ou mal
psicossomático, por mais grave ou ameno que seja, começa com a perda de
opções que possibilitam o sujeito adaptar-se ao seu meio. Como
consequência dessas causas, o sujeito “escolhe” os sintomas que farão
explodir os seus conflitos inconscientes, que podem deslocar de um sistema
orgânico a outro, capazes de irromper em pontos diversos.
Independente de diagnóstico, a doença de uma pessoa traz em si a sua
marca pessoal, nos significados que ela atribui, e, é neste contexto, que o
adoecimento precisa ser compreendido. Não apenas um órgão, um corpo
adoecido, mas a subjetividade do indivíduo que diz a dor de sua alma.
E como já analisamos, a família como cenário original de estruturação
da vida humana, nosso lugar de abrigo e refúgio, pode constituir-se como
mediadora de doenças na vida de seus membros, em consequência das
disfunções que alteram a dinâmica familiar. A dinâmica da família
disfuncional favorece a psicossomatização de seus membros.
Nesse cenário, as relações de transformação em jogos de interesses e a
comunicação são totalmente afetadas. Os relacionamentos frios, distantes,
sem afetividade e sem espontaneidade, os padrões rígidos e repressivos de
comportamentos, o controle excessivo e manipulador e, até mesmo, a
proteção excessiva produzem o adoecimento familiar.
Muitas vezes, o filho doente está assumindo a doença do grupo familiar.
É pela doença desse membro que a família mantém-se “unida”. É ele que
serve como sustentáculo das relações do grupo em crise, para que a família
possa continuar “vivendo” e sofrendo junta. Quando o “doente” recupera a
saúde, a relação familiar desagrega.
Nesse processo de comunicação, pela via do adoecimento, muitas vezes
é um câncer que fala de uma linguagem de dor e solidão, um pedido de
socorro, um intenso colapso das defesas. O adoecimento traz a atenção
desejada. E essa linguagem tem um sentido não dito em palavras para a
pessoa: “Toda a minha família tem me visitado. É tão bom estar cercada de
atenção e amor”, diz uma moça em tratamento de câncer. “Eu prefiro
morrer cercada de atenção, amor e carinho, tudo o que não tive durante
minha existência, do que mendigar afeto, solitária e infeliz. Eu morro em
paz”. A possibilidade da fala e da escuta traz para ela a melhoria de seus
sintomas.
Dois recortes de casos clínicos que recebemos traduziam esse enigma do
adoecimento, onde vida e morte apresentaram-se com um tênue limiar:

Desde menina, ela era a amiguinha da mãe. Ela acompanhou todo o


sofrimento da mãe quando foi traída pelo pai. Seu irmão mais velho
ficou do lado do pai, e ela do lado da mãe. Um vínculo forte entre
elas ajudou a mãe a sustentar o casamento, mas o amor entre o
casal esfriou, e ficaram juntos porque ela “não casou para separar-
se” (fala da mãe). O casal distanciou-se afetivamente, e o foco das
atenções foi depositado nos filhos. As duas tornaram-se íntimas
companheiras, a filha sempre calada e tímida, delegava à mãe a
responsabilidade de ser sua porta-voz. Já adulta, escolheu o curso
de graduação e, como passou no vestibular de uma faculdade em
outro estado, saiu de casa para estudar. O distanciamento da
presença cuidadora materna trouxe os primeiros sintomas para ela.
Com o sistema imunológico enfraquecido, a filha ficou vulnerável ao
adoecimento; assim, voltou para casa para fortalecer-se e,
novamente, retornou aos estudos. A situação emocional da filha
complicou-se com a história de um relacionamento afetivo
frustrado. Com o sofrimento da perda do objeto amoroso e a solidão
familiar, o adoecimento veio como resposta e, dessa vez, um
linfoma. A volta para casa em busca de tratamento trouxe uma
triste realidade: a perda dos cabelos e da beleza, abalando a imagem
tão bem cuidada, a terapia química e seus efeitos colaterais e a
angústia de morte. A família toda mobilizou-se para o cuidado dela,
os pais uniram-se, e a oportunidade de expressar seus
pensamentos, desejos e opiniões trouxeram a ela um resgate da voz
que se calou diante da dor da mãe. A dor ganha palavras no
processo analítico e em casa, o sintoma vai perdendo sua força e
objetivos, contribuindo para os bons efeitos do tratamento
medicamentoso.

O exemplo a seguir vem do relato familiar de uma cliente, diante do


enigma da identificação e da repetição, revelando mais uma vez a
transmissão psíquica entre as gerações:

Ele viveu em uma família com muitos conflitos desde cedo. Seu pai
era alcoólatra, e as brigas faziam parte da rotina familiar. Certo dia,
seu pai decidiu ir embora de casa e, sem dar satisfação à família,
partiu para não mais voltar. A partir desse momento, a mãe tornou-
se uma mulher muito amargurada, e sua irritação foi direcionada
aos filhos. Já adulto, ele também saiu de casa e foi para outro país.
Sem querer lidar com suas questões, ficou 20 anos sem ver a mãe.
Nesse período, sua mãe adoeceu de câncer e foi a óbito, e ele não
conseguiu revê-la. A dor da perda emergiu profundamente, e ele
entrou em depressão. Um ano depois do falecimento da mãe, ele
desenvolveu a mesma doença da mãe, do mesmo tipo, e, em uma
desistência da vida, faleceu pouco tempo depois. Identificação na
dor, tomado pela angústia da culpa, a dívida atualizou-se na morte.

Esses dois casos revelam-nos o quanto o indivíduo nega reconhecer e


lidar com a gênese de seus impasses relacionados à doença. Em uma
tentativa de reparação, o sujeito faz a sua identificação no adoecer do corpo.
No primeiro caso, a pessoa busca resgatar, pela via do adoecimento, a função
materna e o suprimento de suas necessidades afetivas. Já no segundo caso, o
indivíduo conserva no corpo parte do objeto materno, religando na morte o
que não foi estabelecido em vida. A introjeção póstuma une o sujeito à figura
materna falecida, cuja morte não foi elaborada.
Lembramos também, que, muitas vezes, a doença revela para a mulher
as suas questões femininas recalcadas, uma feminilidade rejeitada, atingindo
exatamente os órgãos da feminilidade. Os órgãos alcançados pela doença
dizem das dores psíquicas não elaboradas, e falam também das questões
familiares, do lugar ocupado na família, do desejo dos pais, das
identificações etc.: útero, ovário e seio ficam vulneráveis ao adoecimento.
Quando a linguagem não vem pela via da dor, a obesidade e o corpo
masculinizado, descuidado, dizem das questões femininas, da fuga do desejo
reprimido, do olhar do outro e da negação de sua condição feminina.

Ela veio em busca de ajuda para a vida profissional: dúvidas,


inseguranças, questões familiares depositadas no ambiente
profissional, por ser uma empresa familiar, e a necessidade de
posicionar-se diante das demandas familiares. Dizia que era a única
que dava assistência à mãe idosa e fragilizada, apesar de seu
trabalho e de suas próprias demandas familiares, e que os irmãos
viviam sua vida como queriam. Interrompeu o processo devido uma
cirurgia recorrente. Já havia operado várias vezes para extrair
pólipos nos ovários, que cresciam rapidamente depois que
apareciam, sempre quatro pólipos. Falou também das inseguranças
em sua vida afetiva, das decepções e separações vividas e, quase
sutilmente, com voz baixa, falou dos quatro abortos que já havia
realizado. As dores e angústias da alma foram depositadas
insistentemente no corpo, à espera da linguagem.
Dois recortes de casos clínicos que recebemos traduziam esse enigma do
adoecimento, onde vida e morte apresentaram-se com um tênue limiar:

Desde menina, ela era a amiguinha da mãe. Ela acompanhou todo o


sofrimento da mãe quando foi traída pelo pai. Seu irmão mais velho
ficou do lado do pai, e ela do lado da mãe. Um vínculo forte entre
elas ajudou a mãe a sustentar o casamento, mas o amor entre o
casal esfriou, e ficaram juntos porque ela “não casou para separar-
se” (fala da mãe). O casal distanciou-se afetivamente, e o foco das
atenções foi depositado nos filhos. As duas tornaram-se íntimas
companheiras, a filha sempre calada e tímida, delegava à mãe a
responsabilidade de ser sua porta-voz. Já adulta, escolheu o curso
de graduação e, como passou no vestibular de uma faculdade em
outro estado, saiu de casa para estudar. O distanciamento da
presença cuidadora materna trouxe os primeiros sintomas para ela.
Com o sistema imunológico enfraquecido, a filha ficou vulnerável ao
adoecimento; assim, voltou para casa para fortalecer-se e,
novamente, retornou aos estudos. A situação emocional da filha
complicou-se com a história de um relacionamento afetivo
frustrado. Com o sofrimento da perda do objeto amoroso e a solidão
familiar, o adoecimento veio como resposta e, dessa vez, um
linfoma. A volta para casa em busca de tratamento trouxe uma
triste realidade: a perda dos cabelos e da beleza, abalando a imagem
tão bem cuidada, a terapia química e seus efeitos colaterais e a
angústia de morte. A família toda mobilizou-se para o cuidado dela,
os pais uniram-se, e a oportunidade de expressar seus
pensamentos, desejos e opiniões trouxeram a ela um resgate da voz
que se calou diante da dor da mãe. A dor ganha palavras no
processo analítico e em casa, o sintoma vai perdendo sua força e
objetivos, contribuindo para os bons efeitos do tratamento
medicamentoso.

O exemplo a seguir vem do relato familiar de uma cliente, diante do


enigma da identificação e da repetição, revelando mais uma vez a
transmissão psíquica entre as gerações:

Ele viveu em uma família com muitos conflitos desde cedo. Seu pai
era alcoólatra, e as brigas faziam parte da rotina familiar. Certo dia,
seu pai decidiu ir embora de casa e, sem dar satisfação à família,
partiu para não mais voltar. A partir desse momento, a mãe tornou-
se uma mulher muito amargurada, e sua irritação foi direcionada
aos filhos. Já adulto, ele também saiu de casa e foi para outro país.
Sem querer lidar com suas questões, ficou 20 anos sem ver a mãe.
Nesse período, sua mãe adoeceu de câncer e foi a óbito, e ele não
conseguiu revê-la. A dor da perda emergiu profundamente, e ele
entrou em depressão. Um ano depois do falecimento da mãe, ele
desenvolveu a mesma doença da mãe, do mesmo tipo, e, em uma
desistência da vida, faleceu pouco tempo depois. Identificação na
dor, tomado pela angústia da culpa, a dívida atualizou-se na morte.

Esses dois casos revelam-nos o quanto o indivíduo nega reconhecer e


lidar com a gênese de seus impasses relacionados à doença. Em uma
tentativa de reparação, o sujeito faz a sua identificação no adoecer do corpo.
No primeiro caso, a pessoa busca resgatar, pela via do adoecimento, a função
materna e o suprimento de suas necessidades afetivas. Já no segundo caso, o
indivíduo conserva no corpo parte do objeto materno, religando na morte o
que não foi estabelecido em vida. A introjeção póstuma une o sujeito à figura
materna falecida, cuja morte não foi elaborada.
Lembramos também, que, muitas vezes, a doença revela para a mulher
as suas questões femininas recalcadas, uma feminilidade rejeitada, atingindo
exatamente os órgãos da feminilidade. Os órgãos alcançados pela doença
dizem das dores psíquicas não elaboradas, e falam também das questões
familiares, do lugar ocupado na família, do desejo dos pais, das
identificações etc.: útero, ovário e seio ficam vulneráveis ao adoecimento.
Quando a linguagem não vem pela via da dor, a obesidade e o corpo
masculinizado, descuidado, dizem das questões femininas, da fuga do desejo
reprimido, do olhar do outro e da negação de sua condição feminina.

Ela veio em busca de ajuda para a vida profissional: dúvidas,


inseguranças, questões familiares depositadas no ambiente
profissional, por ser uma empresa familiar, e a necessidade de
posicionar-se diante das demandas familiares. Dizia que era a única
que dava assistência à mãe idosa e fragilizada, apesar de seu
trabalho e de suas próprias demandas familiares, e que os irmãos
viviam sua vida como queriam. Interrompeu o processo devido uma
cirurgia recorrente. Já havia operado várias vezes para extrair
pólipos nos ovários, que cresciam rapidamente depois que
apareciam, sempre quatro pólipos. Falou também das inseguranças
em sua vida afetiva, das decepções e separações vividas e, quase
sutilmente, com voz baixa, falou dos quatro abortos que já havia
realizado. As dores e angústias da alma foram depositadas
insistentemente no corpo, à espera da linguagem.

Podemos dizer que as famílias psicossomáticas apresentam


características estruturais específicas que facilitam o adoecimento
psicossomático. Quatro modelos foram descritos por Minuchin, entre outros:

1. Envolvimento: refere-se a uma relativa falta de limites afetivos entre


indivíduos e gerações e é mais ou menos equivalente à ideia de fusão.
Neste modelo, os membros, consequentemente, falam e pensam um
pelo outro, o que gera angústia. É visível um fraco envolvimento afetivo
familiar, o que é marcado, muitas vezes, como uma mãe distante e
inacessível ao filho.

2. Proteção exagerada: há uma preocupação excessiva com o bem-estar de


cada um, acabando por gerar sinais de angústia. A proteção excessiva
tira dos filhos a possibilidade de encontrar suas alternativas de
enfrentamento do mundo externo. Geralmente, os contatos sociais são
estreitos, com poucas oportunidades de desenvolvimento de amizades.

3. Austeridade: há um excessivo comprometimento em manter o status da


família. A rigidez e a repressão são as marcas da dinâmica familiar,
resultando em padrões rígidos de comportamento. Muitos regulamentos
e cobranças, mas os relacionamentos são superficiais e distantes
afetivamente. Superficialmente, as famílias austeras parecem estáveis e
tranquilas. Percebe-se também, neste modelo, a dificuldade em se lidar
com a raiva, e, geralmente, qualquer manifestação é reprimida pela
figura de autoridade.

4. Falta de solução para os conflitos: incluem colisões entre pais e filhos,


mas um desvio do enfrentamento das causas dos conflitos, que se
manifestam por meio de comportamentos, tais como alcoolismo,
drogadição e até mesmo a saída de casa. Há, nesta situação, uma
dinâmica que reforça a dor como forma de lidar com os conflitos
interpessoais que surgem no relacionamento familiar. A falta de
soluções para os conflitos significa a incapacidade dessas famílias em
permitir a discordância entre seus membros e a disposição em lidar com
os conflitos emergentes.
Minuchin (apud ÁVILA, 1996), afirma que esses fatores não são as
causas da doença psicossomática, mas, um conjunto de condições que
permite o desenvolvimento de sequências circulares de interação que
incluem a ativação da doença psicossomática.
Ampliando mais nosso olhar para as condições que favorecem o
adoecimento familiar, mais alguns sintomas podem ser identificados na
família: hostilidade, indiferença, que evita o afeto, distanciamento,
independência (estão juntos no mesmo espaço físico, mas uma não sabe da
outra); dependência simbiótica, com superenvolvimento emocional e
chantagens emocionais para fortalecer a dependência e inibir a possibilidade
de abandono. Quando a família não dá conta de lidar com todas as questões
de suas disputas internas, além das pressões do mundo externo, só resta,
muitas vezes, o adoecimento como possibilidade de união e afetividade.

Ela veio procurar ajuda para lidar com suas angústias e ansiedade.
A agitação interna estava prejudicando seu desempenho
profissional, e uma demissão já era sinalizada por sua chefia. Uma
moça inteligente, boa profissional, que se ligava obsessivamente a
um homem que amava. “Eu faço de tudo para que ele me ame”. Ela
já vinha de uma sequência de relacionamentos complicados,
ocultos, pois “sempre me apaixono por pessoas comprometidas”,
dizia. “Não quero que ele deixe a esposa e filhos, quero apenas que
ele me ame”. Ela vivia intensamente as suas paixões, entregando-se
de corpo e alma a alguns momentos de afetos, sempre escondido
dos pais. Seus relacionamentos, desde a adolescência, foram
escondidos dos pais. Tinha como hábito recolher cães abandonados
na rua. Levava-os para casa, cuidava deles e sofria por eles. Quando
falava sobre seus cachorrinhos (eram mais de dez), chorava por
eles. A quem se destinava realmente as lágrimas derramadas? Sua
história secreta marcava suas culpas e suas dores. O que lançava
esta moça a uma busca tão intensa de amor, contentando-se com
tão pouco? Seu pai chamava-se José, um homem inteligentíssimo,
que vivia para a sua ciência. Sua mãe era Maria, a que comandava
toda a família “com mão de ferro”. Tratava os três filhos com
severidade, e todos eles permaneciam em casa. “Todas as vezes em
que meus irmãos envolveram-se em relacionamentos afetivos,
minha mãe dava um jeito de atrapalhar”. Todos submetiam-se a
esse comando materno, e a mãe “mantinha a família unida”. Esta
moça era a filha mais velha, tinha quase 50 anos, e recebeu o
mesmo nome da mãe: também Maria. Seus dois irmãos estavam na
faixa de idade acima de 40 anos; um tinha problemas com álcool, e,
o outro, com “problemas psicológicos”, relatava ela. O do meio
chamava-se José, como o pai, e o caçula fora nomeado como
Josemar, a fusão do nome dos pais. Como separar essa família
simbiótica? Como esses filhos poderiam “deixar pai e mãe” para
empreenderem a caminhada para a vida adulta, para constituírem
suas próprias histórias familiares, fundando a próxima geração?
Uma família psicossomática!
Ela veio procurar ajuda para lidar com suas angústias e ansiedade.
A agitação interna estava prejudicando seu desempenho
profissional, e uma demissão já era sinalizada por sua chefia. Uma
moça inteligente, boa profissional, que se ligava obsessivamente a
um homem que amava. “Eu faço de tudo para que ele me ame”. Ela
já vinha de uma sequência de relacionamentos complicados,
ocultos, pois “sempre me apaixono por pessoas comprometidas”,
dizia. “Não quero que ele deixe a esposa e filhos, quero apenas que
ele me ame”. Ela vivia intensamente as suas paixões, entregando-se
de corpo e alma a alguns momentos de afetos, sempre escondido
dos pais. Seus relacionamentos, desde a adolescência, foram
escondidos dos pais. Tinha como hábito recolher cães abandonados
na rua. Levava-os para casa, cuidava deles e sofria por eles. Quando
falava sobre seus cachorrinhos (eram mais de dez), chorava por
eles. A quem se destinava realmente as lágrimas derramadas? Sua
história secreta marcava suas culpas e suas dores.
O que lançava esta moça a uma busca tão intensa de amor,
contentando-se com tão pouco? Seu pai chamava-se José, um
homem inteligentíssimo, que vivia para a sua ciência. Sua mãe era
Maria, a que comandava toda a família “com mão de ferro”. Tratava
os três filhos com severidade, e todos eles permaneciam em casa.
“Todas as vezes em que meus irmãos envolveram-se em
relacionamentos afetivos, minha mãe dava um jeito de atrapalhar”.
Todos submetiam-se a esse comando materno, e a mãe “mantinha a
família unida”. Esta moça era a filha mais velha, tinha quase 50
anos, e recebeu o mesmo nome da mãe: também Maria. Seus dois
irmãos estavam na faixa de idade acima de 40 anos; um tinha
problemas com álcool, e, o outro, com “problemas psicológicos”,
relatava ela. O do meio chamava-se José, como o pai, e o caçula fora
nomeado como Josemar, a fusão do nome dos pais. Como separar
essa família simbiótica? Como esses filhos poderiam “deixar pai e
mãe” para empreenderem a caminhada para a vida adulta, para
constituírem suas próprias histórias familiares, fundando a próxima
geração? Uma família psicossomática!

Um caso clínico traz-nos a compreensão de que o que não é simbolizado


retorna e gera sintoma no corpo:

Uma senhora aposentada, divorciada, de nível cultural elevado,


professora de uma língua estrangeira, mãe de uma filha, veio
encaminhada por um urologista, com o diagnóstico de enurese
noturna. Há muitos anos, já vinha apresentando esse quadro, sem
nenhuma solução, o que lhe causava muita angústia. Chegou ao
consultório apresentando intensa irritabilidade e relatou que,
depois de tantas tentativas frustrantes, esse tratamento seria o
último. Começou a falar sobre os transtornos que a situação
causava-lhe, contando-me que em suas viagens precisava utilizar
recursos “infantis” (fraldas geriátricas) para evitar maiores
constrangimentos. “Não aguento mais ter de esconder isso de
minhas amigas quando durmo fora de casa ou em minhas viagens.
É constrangedor!”. Queixou-se de ser incompreendida pela mãe e
por sua filha, que embora fosse da área de saúde, não entendia o seu
problema e só a criticava. “Temos tido sérios desentendimentos”,
afirmou. O tempo passou, e, durante mais algumas sessões, ela
continuou apenas se queixando dos problemas decorrentes de seu
mal. Percebi que ela apresentava resistência em falar de sua história
pregressa. Pedi-lhe, então, que me falasse um pouco sobre sua
história de vida. Relatou: “Sou filha única e tive uma boa infância e
não me lembro se urinava na cama quando criança”. Pedi-lhe para
falar de sua infância, e ela disse:. “Era uma menina muito feliz, até a
morte de meu pai”. E contou que o pai foi assassinado. Ela falou
sobre o assunto com muita resistência: “Eu estava em casa com
minha mãe quando nos deram a notícia. Minha mãe começou a
chorar, e eu peguei minha boneca e fui para o quintal brincar. Não
sei porque não chorei”. Ficou surpresa e perguntou-se: “Por que não
chorei?”. Neste momento, interrompi a sessão pontuando seu
último questionamento: “Por que não chorou?”. Ela foi embora e
ligou solicitando outra sessão. Ao entrar no consultório, ela
começou a relatar-me com muita irritabilidade que ela era uma
filha bastarda. Disse que sua história, até a morte do pai, era falsa.
Tinha vivido até então uma grande mentira, disse: “Minha história
era uma mentira”. Ela contou que, logo após a morte do pai, a outra
família apareceu requisitando a casa onde moravam. Descobriu,
então, que o pai mantinha uma relação ilícita com sua mãe, o que
fez com que ela passasse a manifestar um sentimento de revolta
contra a mãe por responsabilizá-la pela situação a que foi exposta e
por todas as mudanças que se sucederam. Não manifestou nenhum
sentimento de raiva ou revolta em relação ao pai. Neste momento,
utilizou-se de uma frase: “Por que brinquei no dia da morte do meu
pai?”. Interrompi a sessão repetindo a questão. No dia seguinte, ela
retornou e falou da sua angústia por não conseguir uma resposta.
Lembrou, então, de sua frase no início de seu percurso analítico:
“Tive uma infância feliz até a morte de meu pai. E não consigo
entender porque não chorei por essa perda”. Ela interrompeu essa
fala e começou a contar de seu casamento. Afirmou que seu
casamento havia sido muito bom no início, mas que logo depois se
decepcionou com seu marido. Perguntei-lhe se, durante o
matrimônio, houve, em algum momento, a manifestação da
enurese, e ela afirmou que não, somente após o divórcio. Lembrou
que foi uma fase muito sofrida, de muitas perdas, porque seu
marido era um profissional reconhecido, que tinha uma situação
socioeconômica confortável, e que sua filha era muito ligada a ele. A
separação levou à mudança de cidade, o que trouxe muito
sofrimento à filha. Disse, com certa irritabilidade, que sofreu muito
com essas mudanças, mas que em nenhum momento chorou.
Perguntei-lhe: “Por quê?”, e ela disse: “Porque homem não merece
minhas lágrimas”. Neste momento, ela parou de falar e ficou algum
tempo em silêncio. Então, em tom suave de voz, disse: “É, eu choro
de outra maneira”. Na sessão seguinte, a paciente entrou relatando
que teve uma séria discussão com sua filha por motivos que não
necessitavam ser relatados e que depois chorou muito. Quando
falou sobre o assunto, retomou o seu choro e declarou: “Acho que
agora aprendi a chorar”. E ela disse que, desde a última sessão, não
tinha mais manifestado a enurese. Alguns meses se passaram, e a
enurese não mais se manifestou.

Vimos que a redução da tensão, por meio da doença, é o propósito ou


ganho primário do transtorno e decorre, geralmente, das inadequações do
indivíduo às condições de vida que encontra. Frente a uma problemática
inconsciente, impossibilitada de traduzir-se, dado o processo de recalque que
impede a tomada de consciência, antepondo resistências, o sujeito utiliza-se
do corpo, como forma substitutiva, permitindo a emergência do sintoma.
Mesmo se tratando de uma enurese, não impede o fato de desempenhar
o papel de sintoma psíquico. Isso significa que, em geral, a queixa representa
a queixa com que o sujeito não pode mais lidar. E o sintoma comparece como
a via final comum de suas dificuldades. Todavia, é preciso tratar o paciente
como um todo, não o sintoma, ou um órgão, daí a necessidade de se entender
a dinâmica determinante desses sintomas.
Cada família traz em sua história acontecimentos vividos em um tempo
que retém todas as características da estrutura familiar. Nem todos os
acontecimentos são lembrados conscientemente por seus membros, mas eles
estão marcados na carne, como lembranças registradas no corpo. Nesse
sentido, podemos pensar que o corpo não esquece, ele mantém a memória do
acontecimento.
Por haver tão pouco conhecimento de como funciona a família por
pesquisas validadas, este entendimento sobre o papel familiar no
adoecimento dos seus membros é conhecido muito intuitivamente. Mas,
como Freud, podemos afirmar que “a história pessoal e a biografia familiar
determinam, na maioria das pessoas, a forma e a ocasião de adoecer”.
Algumas questões familiares são também preponderantes no
adoecimento e valem a pena serem citadas, embora resumidamente, no
processo de análise da família.
Vimos que a redução da tensão, por meio da doença, é o propósito ou
ganho primário do transtorno e decorre, geralmente, das inadequações do
indivíduo às condições de vida que encontra. Frente a uma problemática
inconsciente, impossibilitada de traduzir-se, dado o processo de recalque que
impede a tomada de consciência, antepondo resistências, o sujeito utiliza-se
do corpo, como forma substitutiva, permitindo a emergência do sintoma.
Mesmo se tratando de uma enurese, não impede o fato de desempenhar
o papel de sintoma psíquico. Isso significa que, em geral, a queixa representa
a queixa com que o sujeito não pode mais lidar. E o sintoma comparece como
a via final comum de suas dificuldades. Todavia, é preciso tratar o paciente
como um todo, não o sintoma, ou um órgão, daí a necessidade de se entender
a dinâmica determinante desses sintomas.
Cada família traz em sua história acontecimentos vividos em um tempo
que retém todas as características da estrutura familiar. Nem todos os
acontecimentos são lembrados conscientemente por seus membros, mas eles
estão marcados na carne, como lembranças registradas no corpo. Nesse
sentido, podemos pensar que o corpo não esquece, ele mantém a memória do
acontecimento.
Por haver tão pouco conhecimento de como funciona a família por
pesquisas validadas, este entendimento sobre o papel familiar no
adoecimento dos seus membros é conhecido muito intuitivamente. Mas,
como Freud, podemos afirmar que “a história pessoal e a biografia familiar
determinam, na maioria das pessoas, a forma e a
ocasião de adoecer”.
Algumas questões familiares são também preponderantes no
adoecimento e valem a pena serem citadas, embora resumidamente, no
processo de análise da família.

PARTE

ALGUMAS OUTRAS FAMÍLIAS


Se não vejo na criança, uma criança, é porque alguém a violentou antes; e
o que vejo é o que sobrou de tudo o que lhe foi tirado […]. Diante dela, o
mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a criança é
o princípio sem fim, e o seu fim é o fim de todos nós.

Herbert de Souza

6.1. Famílias Violentas

É a violência confinada a um espaço destinado à segurança, proteção e


amor. A violência é a reprodução do desamor, atitudes agressivas que vão
sendo transmitidas de geração a geração por pais que foram agredidos e que,
inconscientemente, vão reproduzindo suas dores e frustrações sobre seus
filhos. Em nome de Deus, em nome do amor, cuidado e proteção, vão
deixando em seus filhos as marcas físicas, e o que resta, muitas vezes, é falar
sobre essa dor interior por meio da doença física, denunciando sua dor da
alma.
No primeiro momento, a violência física promove a dor física; mas, essa
dor logo é dissipada na carne, e os seus restos atingem uma dimensão mais
profunda, pois se alojam na alma, nas emoções, na memória corporal —
produzindo distúrbios físicos e psíquicos. A mão que deveria proporcionar
afeto e prazer é a mão que produz dor. A memória corporal registra essa
associação de prazer e dor, podendo afetar a sexualidade na direção da
perversão.
Quando as pessoas sofrem maus tratos por parte daqueles que as
deveriam proteger e amar, é natural que tenham mais dificuldades para
confiar em outras pessoas. Portanto, a família amplia e deixa suas marcas
que vão reproduzir-se nos relacionamentos dentro e fora de casa,
impactando todos os relacionamentos interpessoais. E esse padrão de não
confiança no outro é transferido para o casamento, perpetuando a dor ao
longo das gerações.
A reprodução da violência é a resposta da dor calada na alma: “Ah,
professora, eu só dei um tapa. Meu pai dá tapa no rosto da minha mãe todos
os dias”.
A mulher e a criança correm mais riscos dentro de casa – são vitimadas
na própria família. O silêncio estabelece-se na cumplicidade familiar para
não expor suas próprias misérias. É a dor da alma que não se expressa com
palavras, mas que vai manifestar-se por meio de uma dor física, um sintoma.
A violência emocional é muito difícil de ser comprovada, porque não há
denúncias verbais, mas a ameaça à saúde física e mental pode ser mais
devastadora. Muitas vezes, a própria vítima pode não identificar que está
sofrendo uma violência psicológica e faz, assim, uma doença no corpo para
comunicar o não comunicável.

6.2. Famílias Incestuosas

É no ambiente familiar que o abuso sexual tem deixado as suas marcas


mais profundas. Historicamente, a mulher foi preparada para calar-se diante
dessa agressão e, desde menina, para alienar o desejo, ser objeto de desejo de
alguém e ser passiva. Nesse contexto, o abuso vem acontecendo na família e
sendo ainda pouco denunciado. As mudanças sociais da pós-modernidade
trouxeram alterações significativas nessa questão, embora ainda muito se
tenha a crescer para dar conta de todas as demandas geradas nas famílias.
O abuso do poder parental gera a violência física, psicológica e sexual
em uma reprodução nítida do desamor. E essa é uma dor profunda, que
deixa marcas no corpo e na alma. A mão que toca, que acaricia, é a mão que
deveria dar acolhimento, proteção e satisfação; mas, o que ela desvela gera
dor, desequilibrando as emoções e destruindo a base da confiança. A família
cala-se e gera a culpa. A criança, muitas vezes, assume o fato como culpada e
vai, de forma autodestrutiva, buscar penitenciar-se por essa culpa.
O abuso começa na extrapolação do contato afetivo do adulto com a
criança. A responsabilidade do adulto é protegê-la, e essa é sua obrigação; a
criança não tem clareza dos limites do corpo como o adulto tem. Não é pelo
toque, mas pela atitude com o toque. São situações típicas do carinho, do
aconchego que extrapolaram. A sensação de bem-estar passa por uma
sensação de mal-estar profundo. Ser acolhida e acariciada é um privilégio
para a criança, e ela foi a escolhida para aquele estranho afeto. Há uma
sensação indefinida de estranhamento nesse afeto, há uma sensação de
prazer e de dor, algo ruim configura-se nessa trama. “Por que eu? Por que ele
faz isso comigo?”, a criança abusada guarda um enigma. Anos mais tarde, ela
pode ter uma atitude irracional para resolver o enigma: repetição do
comportamento do abusador.
São graves as consequências do abuso na estrutura psíquica da criança.
Além de calar-se, por ameaças ou por vergonha — e assim sua dor não ganha
expressão pela via da linguagem — ela sente-se anulada em seu poder de
reação. Com a base de confiança comprometida, a criança terá dificuldades
em estabelecer relacionamentos saudáveis e em desenvolver seu senso de
valor pessoal.
Uma mulher que foi abusada pelo pai durante sua adolescência, e que
não conseguiu sustentar sua relação conjugal, dizia dos homens que
conquistava: “Faço tudo para eles apaixonarem-se e ficarem loucos de desejo
por mim. Eles até podem ter meu corpo, mas jamais terão a minha alma. Eu
menosprezo-os”.
A criança precisa ser inocentada, quem a erotiza é sempre o adulto. E
essa erotização precoce deixará suas marcas perversas na sexualidade. Há
uma ferida que está muito além do corpo – há uma ferida na alma. Há uma
angústia a ser dita em palavras. O agressor, além de causar uma dor em sua
vítima, também causou uma dor marcada para sempre em sua alma. Era
assim que uma moça abusada pelo pai antes de sua entrada na adolescência
até sair de casa dizia de sua dor na alma. O casamento livrou-a da presença
abusiva. Anos mais tarde, seu pai desenvolveu uma doença degenerativa. Ele
dizia que o olhar dele falava de seu sofrimento e tocava fundo em sua dor.
“Por que eles não me protegeram? Por que minha mãe não percebeu
minha dor? Se a obrigação dos pais é cuidar e proteger, por que minha mãe
não percebeu o que meu pai estava fazendo comigo?”. Essas são perguntas
sem respostas que se calam na alma.
Nem sempre a família percebe o que está acontecendo, embora a criança
abusada tenha algumas características perceptíveis: triste, calada,
dificuldades alimentares, de aprendizagem, olhar perdido etc.

Ela também era uma mulher marcada pela dor, embora em


circunstâncias diferentes da anterior. Durante muito tempo vinha
buscando os médicos para tratar uma fibromialgia, e as medicações
prescritas não resolviam sua dor. Uma médica encaminhou-a ao
atendimento psicanalítico, e, quando começou a contar sua história,
a falar de suas angústias, as dores invisíveis começaram a aparecer.
Abusada dentro de casa desde os nove anos de idade, foi negociada
pela mãe aos 13 para ser uma boca a menos para comer. Agora,
muitos anos depois, a dor no corpo falava da dor da alma.

Uma das consequências do abuso é a insônia: um estado de vigília, de


alerta permanente para proteger-se da ameaça noturna. O corpo contraído, a
mente tensa, inquieta e em vigília era a espera angustiante da dor que se
anunciava. Como liberar a ansiedade, se esta dor se repetia em um processo
contínuo de terror noturno? O organismo não entrava em homeostase, em
estado de equilíbrio. Não era possível relaxar diante da ameaça recorrente.
Um longo tempo de desarmonia interna que resultará em transtorno de
ansiedade, insônia e outros males decorrentes dessas alterações.
É o mesmo processo de filhos de pais alcoolistas – a ansiosa espera do
momento do retorno do pai alcoolizado, que quebrava tudo, batia na mulher
e nos filhos. Mesmo na fase adulta, o pesadelo continuava durante a noite. A
cena traumática ficou congelada na mente, gerando os sintomas do presente.
A fala de uma moça, filha de pai alcoolista, que tinha insônia crônica
descreve essa angústia: “Como dormir tranquila, se ainda me lembro dele
chegando em casa quebrando tudo e batendo na minha mãe. Eu escondia-me
debaixo da cama como um cachorrinho e ali ficava cochilando, sem
conseguir dormir direito”.
Quando começamos a percorrer as histórias do passado na família
incestuosa, é muito provável encontrar incesto nas gerações anteriores. É
uma geração abrindo as portas da dor para a outra geração.
Ela foi abusada pelo pai durante a sua adolescência. Depois do abuso, o
pai tirava o cinto e batia bastante, porque aí, ela teria motivo para chorar, e
sua mãe não perceberia o real motivo de seu choro. A via que encontrou para
livrar-se do pai foi o casamento, embora também se considerasse abusada
pelo marido. Seus relacionamentos virtuais ocultos diziam das marcas
deixadas pelo pai.

6.3. Famílias Enlutadas

São graves as consequências do abuso na estrutura psíquica da criança.


Além de calar-se, por ameaças ou por vergonha — e assim sua dor não ganha
expressão pela via da linguagem — ela sente-se anulada em seu poder de
reação. Com a base de confiança comprometida, a criança terá dificuldades
em estabelecer relacionamentos saudáveis e em desenvolver seu senso de
valor pessoal.
Uma mulher que foi abusada pelo pai durante sua adolescência, e que
não conseguiu sustentar sua relação conjugal, dizia dos homens que
conquistava: “Faço tudo para eles apaixonarem-se e ficarem loucos de desejo
por mim. Eles até podem ter meu corpo, mas jamais terão a minha alma. Eu
menosprezo-os”.
A criança precisa ser inocentada, quem a erotiza é sempre o adulto. E
essa erotização precoce deixará suas marcas perversas na sexualidade. Há
uma ferida que está muito além do corpo – há uma ferida na alma. Há uma
angústia a ser dita em palavras. O agressor, além de causar uma dor em sua
vítima, também causou uma dor marcada para sempre em sua alma. Era
assim que uma moça abusada pelo pai antes de sua entrada na adolescência
até sair de casa dizia de sua dor na alma. O casamento livrou-a da presença
abusiva. Anos mais tarde, seu pai desenvolveu
uma doença degenerativa. Ele dizia que o olhar dele falava de seu sofrimento
e tocava fundo em sua dor.
“Por que eles não me protegeram? Por que minha mãe não percebeu
minha dor? Se a obrigação dos pais é cuidar e proteger, por que minha mãe
não percebeu o que meu pai estava fazendo comigo?”. Essas são perguntas
sem respostas que se calam na alma.
Nem sempre a família percebe o que está acontecendo, embora a criança
abusada tenha algumas características perceptíveis: triste, calada,
dificuldades alimentares, de aprendizagem, olhar perdido etc.

Ela também era uma mulher marcada pela dor, embora em


circunstâncias diferentes da anterior. Durante muito tempo vinha
buscando os médicos para tratar uma fibromialgia, e as medicações
prescritas não resolviam sua dor. Uma médica encaminhou-a ao
atendimento psicanalítico, e, quando começou a contar sua história,
a falar de suas angústias, as dores invisíveis começaram a aparecer.
Abusada dentro de casa desde os nove anos de idade, foi negociada
pela mãe aos 13 para ser uma boca a menos para comer. Agora,
muitos anos depois, a dor no corpo falava da dor da alma.

Uma das consequências do abuso é a insônia: um estado de vigília, de


alerta permanente para proteger-se da ameaça noturna. O corpo contraído, a
mente tensa, inquieta e em vigília era a espera angustiante da dor que se
anunciava. Como liberar a ansiedade, se esta dor se repetia em um processo
contínuo de terror noturno? O organismo não entrava em homeostase, em
estado de equilíbrio. Não era possível relaxar diante da ameaça recorrente.
Um longo tempo de desarmonia interna que resultará em transtorno de
ansiedade, insônia e outros males decorrentes dessas alterações.
É o mesmo processo de filhos de pais alcoolistas – a ansiosa espera do
momento do retorno do pai alcoolizado, que quebrava tudo, batia na mulher
e nos filhos. Mesmo na fase adulta, o pesadelo continuava durante a noite. A
cena traumática ficou congelada na mente, gerando os sintomas do presente.
A fala de uma moça, filha de pai alcoolista, que tinha insônia crônica
descreve essa angústia: “Como dormir tranquila, se ainda me lembro dele
chegando em casa quebrando tudo e batendo na minha mãe. Eu escondia-me
debaixo da cama como um cachorrinho e ali ficava cochilando, sem
conseguir dormir direito”.
Quando começamos a percorrer as histórias do passado na família
incestuosa, é muito provável encontrar incesto nas gerações anteriores. É
uma geração abrindo as portas da dor para a outra geração.
Ela foi abusada pelo pai durante a sua adolescência. Depois do abuso, o
pai tirava o cinto e batia bastante, porque aí, ela teria motivo para chorar, e
sua mãe não perceberia o real motivo de seu choro. A via que encontrou para
livrar-se do pai foi o casamento, embora também se considerasse abusada
pelo marido. Seus relacionamentos virtuais ocultos diziam das marcas
deixadas pelo pai.

6.3. Famílias Enlutadas

A morte de um filho em uma família faz, muitas vezes, aflorar o


adoecimento das relações familiares. No cenário da dor, da tristeza e do
sofrimento, cada um, a seu modo, manifesta as angústias guardadas.
Em muitas famílias, quando alguém morre, principalmente um filho,
aquela pessoa passa a ser a mais valiosa, tendo em vista a prostração que a
mãe ou o pai passam a viver. Geralmente, há uma relação de culpa punitiva
nessa situação. Os pais entregam-se à dor e esquecem-se dos filhos que
ficaram. Esses filhos, cada um a seu modo, tentam ocupar o lugar do que se
foi, entrar na suplência do morto, atender a expectativa dos pais, compensá-
los e, quando não conseguem dar conta da dor dos pais, os sintomas
denunciam que desejariam ter morrido no lugar do outro. Alguns se
entregam à depressão, deixando os filhos na frustração de não alcançarem
seus objetivos de alegrarem os pais com suas conquistas.

Ela era a caçula quando seu irmão morreu e estava com cinco anos.
Recorda-se da cena da mãe chorando desesperadamente sobre o
caixão do filho morto e ela encostada em suas pernas, em uma
tentativa de dizer para a mãe que ela estava ali. Passou a ser a filha
“perfeita”, porque não gostava de desagradar à mãe, sempre
queixosa, amargurada, que não se satisfazia com nada. Como
agradá-la? Fazia todas as vontades dela, principalmente depois que
seu pai foi embora para morar com outra mulher. A saída foi
devagar. Ela não dormia enquanto seu pai não chegava; ficava
acordada à espera dos passos do pai no piso de madeira. Quando ele
chegava, era seu momento de alívio, quando podia entregar-se ao
sono. Mas, um dia ele não retornou para casa, e o barulho de seus
passos ficou gravado para sempre em sua memória. Depois que se
casou, teve filhos, e eles já adultos demoravam a chegar a casa à
noite, a angústia do desamparo produzia a crise de pânico. Somente
quando ouvia seus passos, conseguia relaxar e dormir.

É frequente constatarmos que, quando a mãe perde alguém que lhe era
querido, um filho começa a reclamar de uma dor. Há uma linguagem nessa
dor, que sugere uma concorrência com a dor do luto.
A morte de alguém na família traz sempre uma série de implicações na
vida dos seus membros diante das atitudes e comportamentos que se tomam
frente à morte. Muitas vezes, alguém entra na suplência do morto,
carregando seu nome e as expectativas que se depositavam nele. Tem de dar
conta de si e do outro que se foi, mas que se faz presente eternamente na
família enlutada. É um peso muito difícil de carregar.
Em outras situações, o morto fica presente nos objetos que não se
desfazem. Muitas famílias mantêm o quarto do morto como um oratório,
seus objetos permanecem como se ele estivesse presente e fala-se dele como
alguém vivo, que toma parte nas decisões familiares. Já em outras famílias, a
morte de alguém transforma-se em um assunto misterioso – um silêncio
sepulcral abate-se sobre os parentes. São os segredos familiares que ficam
em silêncio, embora traga suas consequências sobre as relações familiares.
Quando a morte deixa suas marcas de culpa, a família mantém suas
angústias silenciosas; e cada um vai, geralmente, pela via do adoecimento,
manifestar suas reações autopunitivas. A expressão da dor, dessa forma, é
comum quando a morte ocorre por suicídio. A questão marcada na mente
que cada um se faz é: “O que poderia ter feito e não fiz? Por que não percebi a
tempo de impedir?”. Muitas vezes, a família fica refém desses
questionamentos, e todos sofrem os efeitos na dinâmica relacional. Além da
questão do suicídio, os acidentes também são produtores da angústia da
culpa. Na verdade, o luto impõe sempre um tempo de elaborações na família,
para que não rompa o equilíbrio familiar e estenda-se eternamente.
Diante da perda, a família transita por diversos sentimentos. No
primeiro momento, vem a descrença, como se a morte não fosse real,
produzindo um entorpecimento e embotamento das emoções. Mas, logo
depois, a tristeza vem a serviço das lágrimas, e outros sentimentos também
comparecem, como o medo, a insegurança e a raiva, até mesmo de Deus, em
alguns momentos. São estados emocionais profundos que vão alternando-se
e alterando em intensidade, à medida que o tempo passa.
Dependendo da posição da pessoa que faleceu, ainda há outras questões
agravantes, principalmente se for o pai ou a mãe. Mas, há consenso de que a
dor mais angustiante é sempre a perda de um filho: “Como se tivessem me
arrancado um pedaço do peito”.
Quando o luto não é adequadamente elaborado, idealizações vão
configurando-se, produzindo distorções, adoecimento, comportamentos
compensatórios e até mesmo o rompimento familiar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros,
para serdes curados.
Tiago 5.16 ARA

Dai a palavra à dor: a dor que não fala, geme no coração até que o parte.

Shakespeare

Ao iniciarmos este trabalho, para além dos conceitos teóricos,


empreendemos um percurso pelo cenário da dinâmica familiar, em nossa
própria família, na família das pessoas que nos relataram suas histórias na
clínica e também nas contribuições que os diversos autores pesquisados
trouxeram-nos. Percorremos, portanto, não somente a história visível, mas
também a história que fica marcada no interior de cada indivíduo, na
construção de sua estrutura psíquica.
Ainda que a família seja tão combatida na atualidade, e que muitos
pensem ser ela uma instituição falida, somos convocados como cristãos a
darmos o devido valor a ela, lutarmos por essa causa, cuidarmos de nossas
famílias e unir-nos em favor da luta da sua preservação e dos seus valores.
Antes mesmo de Deus instituir a igreja visível, Ele estabeleceu a família,
como primeira instituição para abrigar e acolher o ser humano, com funções
distintas e específicas muito bem estabelecidas na Palavra de Deus. Essa
responsabilidade é nossa, e os desafios da pós-modernidade convoca-nos a
assumirmos nosso compromisso cada vez mais com coragem, determinação,
persistência e ousadia.
Sabemos que só há igrejas fortes, quando as famílias são fortes. Não é
apenas a sociedade que se beneficia das famílias bem estruturadas — que
geram filhos saudáveis e organizados, que bem assumem seus lugares e
contribuem para o crescimento sustentável da nação; a Igreja precisa dessas
famílias, edificadas e comprometidas com os princípios e valores cristãos,
como testemunhas vivas do evangelho de Cristo, para serem as
transmissoras dos valores espirituais neste mundo em crise e carente de
valores morais, éticos e espirituais.
Partindo da importância da família em sua função operadora de
transmissão da cultura, as alterações sofridas ao longo da história na
estrutura familiar e as diversas configurações existentes na pós-modernidade
constituem dificuldades para essa transmissão, além de ser também um
obstáculo à construção da identidade familiar. Essa identidade forma a
identidade de cada indivíduo e dá consistência à vida humana, direcionando
sua trajetória, suas crenças e valores. Com a falência dos rituais familiares, os
efeitos das demandas do mundo do trabalho, o pouco tempo dedicado à
convivência familiar, a fragilidade dos vínculos afetivos e espirituais e a tão
pouca importância dada aos princípios divinos, afligimo-nos ao pensar sobre
o que a família da atualidade constrói como legado para as próximas
gerações.
Há muitos discursos sobre a importância do exercício das funções
familiares na constituição do sujeito e em sua estruturação psíquica, a
preocupação com o declínio da função paterna e com o desafio da
feminilidade e da maternidade, diante de todas as alterações no universo
feminino. Mas, estamos vendo, cada dia mais, discursos vazios com poucas
ações compatíveis de mudança, e os ataques à estrutura familiar estabelecida
por Deus continuam acintosamente. A independência e autossuficiência à
parte de Deus deixam as suas tristes e destruidoras consequências em uma
civilização.
Em todas as questões apontadas, sem exceção, a solução está no retorno
à eterna Palavra de Deus. As orientações para a condução da vida humana e
o exercício dos papéis e funções familiares iniciam-se em Gênesis 3 e
percorrem toda a trajetória bíblica, sendo muito bem especificados nas
cartas de Paulo, principalmente na carta aos Efésios, no capítulo 5. A
fundamentação estrutural está posta desde o princípio, com simplicidade e
profundidade, apesar de todos os complicadores que vieram no processo
civilizatório e com a evolução do conhecimento.
Para ampliar nosso desejo em aprofundar os estudos nas questões
sociais, ainda associada às funções e disfunções familiares, o desafio da
feminilidade trouxe uma questão que abre campo para muitas investigações
e estudos: a dimensão que o trabalho feminino tomou no mercado,
sinalizando a tendência de crescimento cada vez maior diante do número de
mulheres buscando competências profissionais e ascensão profissional e as
consequências sobre a procriação. O lugar do homem na pós-modernidade
também nos convoca à reflexão e impulsiona-nos à continuidade do estudo e
da pesquisa.
A questão principal que lancei, desde o início deste livro, e que palpita
em meu coração há muitos anos, é: Família — Lugar de refúgio ou Campo de
Batalha?
Foi pensando nessa questão enigmática que decidi empreender esta
caminhada de olhar para a família além do visível, do que se diz no discurso
familiar, na fala dos pais, mas que comparece nos sintomas. Quando o lugar
de cada membro da família confunde-se na inoperância das funções, as
disfunções possibilitam as crises, as dores e as feridas e, dessa forma, a
dinâmica familiar configura o cenário do campo de batalha, com suas
guerras sutis ou declaradas, a luta entre a vida e a morte. Sendo assim,
quando o lar deixa de ser um lugar seguro, acolhedor e amoroso, promovido
pelo casal parental para suprimento afetivo de seus filhos, irá produzir
desajustes, distúrbios, doenças e outros males físicos e psíquicos.
O processo de adoecimento, em função da variedade de causas que o
desencadeiam e das diferenças na capacidade de reação de cada pessoa,
nunca é o mesmo, todavia podemos afirmar que todo sofrimento ou mal
psicossomático, por mais grave ou ameno, começa com a perda de opções
que possibilitam ao indivíduo adaptar-se ao seu meio. Quando todos os
recursos esgotam-se, a pessoa busca a dor como sua única saída, como
pedido de socorro direcionada ao outro.
Quando o sujeito não consegue, com a ajuda da palavra, estabelecer o
elo necessário com o psiquismo, as somatizações surgem, provocadas por
esse impedimento, e são o recurso possível para a sobrevivência da pessoa,
por mais paradoxal que isso possa parecer.
Quanto a questões familiares e adoecimento, não podemos, ao final
deste trabalho, ser de todo conclusivo. Esse é um campo aberto, que vai
delineando-se aos poucos nas pesquisas das diversas áreas afins, em que
historiadores, sociólogos, juristas, antropólogos, filósofos, educadores,
psicólogos, assistentes sociais, médicos, psicanalistas e outros buscam
subsídios para estudar, analisar, identificar e compreender as questões
familiares e seu papel na constituição e estrutura do sujeito. Na busca por
respostas para as demandas sociais, fica cada vez mais claro que o caminho a
percorrer não pode distanciar-se do cenário original da existência humana –
os princípios de Deus.
E a família está aí, sutilmente ou declaradamente presente nesse
emaranhado de ideias, conceitos e até mesmo de preconceitos. A atualidade
aponta para alterações ainda mais desafiadoras nas configurações familiares,
e o que está por vir já se revela. Desse modo, preferimos dizer que a família é
um sistema, com suas contradições, que ora promove a cura, ora o adoecer
do sujeito.
Em sua função primária, instituída por Deus, ela é o refúgio, lugar de
acolhimento, aconchego, afetividade, estruturação e formação do ser
humano. As relações estabelecidas vinculam-se pelo amor – o elo que faz
circular as relações familiares. Mas, na disfunção, o refúgio transforma-se
em campo de batalha, onde acontecem as guerras íntimas produtoras de
feridas, que permitem aflorar a ambivalência entre amor e ódio. A negação
do amor abre a fronteira do ódio, e as feridas do corpo e da alma
transformam-se em marcas que viajam ao longo do tempo no processo de
transmissão psíquica geracional.
Nossa questão inicial convida a cada leitor a olhar para sua própria
família e questionar-se: Lugar de refúgio ou Campo de batalha?
Concluindo, eu diria como o fez o profeta Malaquias, no último capítulo
e último versículo do seu livro, que encerra o Antigo Testamento: Ele
converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais
(Ml 4.6).
Esse último versículo é uma promessa muito especial, pois é profética e
específica para a família, uma promessa que fala de um movimento singular
e especial do coração dos pais ao coração dos filhos, e do coração dos filhos
ao dos pais. Não fala de uma ação racional, em que a razão definirá a ação,
não fala de condições para a ação, mas fala do coração, um movimento
emocional, nascido do sentimento de um coração, um movimento que pode
emergir de um coração curado, liberto do cativeiro das mágoas,
ressentimentos, feridas, rancores e de todos os sentimentos negativos que se
aninham no coração. “Com – verter”: Verter – vem do latim Vertere –
“virar”, mas também, “derramar, jorrar, transbordar”; e com vem dar o
sentido de “junto”. Neste texto tão pleno de significado, converter remete-
nos a algo que flui, que se derrama para o outro, com o outro, um movimento
recíproco de duas pessoas que fazem um encontro de coração com coração,
sem amarras e correntes que aprisionam, mas um coração quebrantado, que
se derrama de amor, um coração livre de pais e filhos que olham a vida do
ponto de vista de Deus.
Essa é uma promessa que não se interrompe ao final do Antigo
Testamento, pois o Novo inicia apresentando a genealogia de Jesus: o renovo
que se revela nos primeiros versículos de um novo tempo, profetizado em
todo o Antigo Testamento, que aponta desde o princípio seu cumprimento. O
Ele converterá apresenta-se com sua identidade, como disse o evangelista
João no capítulo 1.1-3,14 ARA:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram
feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.
[…] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.

Jesus inicia Seu ministério entrando em uma sinagoga, abrindo o livro


do profeta Isaías no capítulo 61, assumindo publicamente a missão que lhe
foi designada pelo pai:

O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR


me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a
curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos
cativos e a pôr em liberdade os algemados.
Isaías 61.1 ARA

Em Sua plena identificação com a humanidade, Jesus conheceu


profundamente as nossas dores. O profeta Isaías diz no capítulo 53, verso 3,
que Ele é homem de dores e que sabe o que é padecer. Toda a Sua trajetória
humana foi marcada por angústias e dores até o momento ápice de Seu
sacrifício na cruz do Calvário. E foi na cruz que Ele gritou em alta voz a dor
de todos os filhos que sofrem o desamparo: Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste? (Mt 27.46 ARA).
O desamparo é a maior dor que um filho pode sentir, porque toma a
mente, as emoções, a vontade, toma a alma em toda a sua dimensão. Na
mente, a constatação da solidão, de não ter acolhimento, de não poder contar
com ninguém, sem relacionamentos significativos; nas emoções, a angústia e
a tristeza tiram toda a vitalidade, produzindo um desamparo doloroso; e, na
vontade, o que vem é a desistência de lutar, exaustão, sem forças para
prosseguir.
Mas, é exatamente nesse momento que Jesus expressa, também em alta
voz, a saída que a alma tem para enfrentar a dor do desamparo. Parece
mesmo um paradoxo o grito de desamparo com a confiança irrestrita, que o
evangelista Lucas registra no capítulo 23, versículo 46 ARA: Pai, nas tuas
mãos entrego o meu espírito! Jesus mostra-nos que apesar da alma humana
transformar a dor em palavras — colocar para fora a súplica calada no peito
—, em seu espírito, havia a firme convicção de que não estava desamparado.
Ele tinha um lugar certo para repousar Seu espírito: Portanto, resta um
repouso para o povo de Deus (Hb 4.9 ARA).
Creio que no texto de Mateus e de Lucas e no texto do profeta
Malaquias, com toda essa compreensão, eles revelam a direção da cura que
buscamos para os nossos relacionamentos familiares e para a nossa vida.
Pois, quando o coração quebranta-se para compreender as raízes do
adoecimento, é possível fazer o caminho de retorno, reestruturando as
emoções, cuidando das feridas da alma, retirando os entulhos do coração e
da mente, para reorganizar as funções familiares e a vida em família, na
certeza de que não estamos sozinhos nesta luta.
O caminho da doença é manter as angústias caladas, sem palavras e sem
lágrimas, sem quebrantamento; mas, o caminho da cura é quebrantar o
coração, predispor-se a perdoar, fazendo o luto da família ideal, da
idealização dos pais, do reconhecimento da perda, compreendendo que a
dívida do passado é impagável. Como disse Philippe Julien (JULIEN, 1997):
“Não se faz luto esquecendo; […] não se realiza o luto do acontecimento
senão partindo o pão da palavra, que diz a dor da perda. Não se deixa a
origem, a não ser sabendo o que se perde graças a palavra trocada no
presente”.
Essa é uma promessa que não se interrompe ao final do Antigo
Testamento, pois o Novo inicia apresentando a genealogia de Jesus: o renovo
que se revela nos primeiros versículos de um novo tempo, profetizado em
todo o Antigo Testamento, que aponta desde o princípio seu cumprimento. O
Ele converterá apresenta-se com sua identidade, como disse o evangelista
João no capítulo 1.1-3,14 ARA:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era


Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram
feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.
[…] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.

Jesus inicia Seu ministério entrando em uma sinagoga, abrindo o livro


do profeta Isaías no capítulo 61, assumindo publicamente a missão que lhe
foi designada pelo pai:

O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR


me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a
curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos
cativos e a pôr em liberdade os algemados.
Isaías 61.1 ARA

Em Sua plena identificação com a humanidade, Jesus conheceu


profundamente as nossas dores. O profeta Isaías diz no capítulo 53, verso 3,
que Ele é homem de dores e que sabe o que é padecer. Toda a Sua trajetória
humana foi marcada por angústias e dores até o momento ápice de Seu
sacrifício na cruz do Calvário. E foi na cruz que Ele gritou em alta voz a dor
de todos os filhos que sofrem o desamparo: Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste? (Mt 27.46 ARA).
O desamparo é a maior dor que um filho pode sentir, porque toma a
mente, as emoções, a vontade, toma a alma em toda a sua dimensão. Na
mente, a constatação da solidão, de não ter acolhimento, de não poder contar
com ninguém, sem relacionamentos significativos; nas emoções, a angústia e
a tristeza tiram toda a vitalidade, produzindo um desamparo doloroso; e, na
vontade, o que vem é a desistência de lutar, exaustão, sem forças para
prosseguir.
Mas, é exatamente nesse momento que Jesus expressa, também em alta
voz, a saída que a alma tem para enfrentar a dor do desamparo. Parece
mesmo um paradoxo o grito de desamparo com a confiança irrestrita, que o
evangelista Lucas registra no capítulo 23, versículo 46 ARA: Pai, nas tuas
mãos entrego o meu espírito! Jesus mostra-nos que apesar da alma humana
transformar a dor em palavras — colocar para fora a súplica calada no peito
—, em seu espírito, havia a firme convicção de que não estava desamparado.
Ele tinha um lugar certo para repousar Seu espírito: Portanto, resta um
repouso para o povo de Deus (Hb 4.9 ARA).
Creio que no texto de Mateus e de Lucas e no texto do profeta
Malaquias, com toda essa compreensão, eles revelam a direção da cura que
buscamos para os nossos relacionamentos familiares e para a nossa vida.
Pois, quando o coração quebranta-se para compreender as raízes do
adoecimento, é possível fazer o caminho de retorno, reestruturando as
emoções, cuidando das feridas da alma, retirando os entulhos do coração e
da mente, para reorganizar as funções familiares e a vida em família, na
certeza de que não estamos sozinhos nesta luta.
O caminho da doença é manter as angústias caladas, sem palavras e sem
lágrimas, sem quebrantamento; mas, o caminho da cura é quebrantar o
coração, predispor-se a perdoar, fazendo o luto da família ideal, da
idealização dos pais, do reconhecimento da perda, compreendendo que a
dívida do passado é impagável. Como disse Philippe Julien (JULIEN, 1997):
“Não se faz luto esquecendo; […] não se realiza o luto do acontecimento
senão partindo o pão da palavra, que diz a dor da perda. Não se deixa a
origem, a não ser sabendo o que se perde graças a palavra trocada no
presente”.
Mesmo que aqueles que falharam desejassem compensar no presente,
não seria possível eliminar os efeitos da dor do passado. A dívida do passado
resolve-se com a atitude de reconciliação, para derramar o coração, liberar a
alma, deixar a angústia sair em palavras e em lágrimas, dar direito de
passagem ao que é doloroso, fornecendo espaço ao que abençoa, permitindo
o fluir dos sentimentos positivos que limpam os corações das interpretações
distorcidas. Podendo assim, ressignificar o passado e reescrever uma nova
história.
Lugar de refúgio ou campo de batalha, a família é o lugar da construção
da nossa história; portanto, há um caminho a percorrer que impõe uma
decisão consciente e corajosa de buscar a ajuda de Deus. Esse não é um
percurso solitário, e podemos recorrer ao Senhor como fez o salmista no
Salmo 139.23,24 ARA: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-
me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau
e guia-me pelo caminho eterno. Vê, Senhor, onde eu não consigo ver; vê, no
caminho que eu percorri, onde houve o que me fez mal. É assim que ele pede
a Deus para ir nas profundezas do seu ser, ajudando-o a lidar com as
angústias de sua alma.
O conforto espiritual proporciona o amparo e o fortalecimento
necessários para essa trajetória, que abre o caminho de bênçãos para a
próxima geração, como bem diz o profeta Isaías no capítulo 58.11,12 ARA:

O SENHOR te guiará continuamente, fartará a tua alma até em


lugares áridos e fortificará os teus ossos; serás como um jardim
regado e como um manancial cujas águas jamais faltam. Os teus
filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de
muitas gerações e serás chamado reparador de brechas e
restaurador de veredas para que o país se torne habitável.

Referências Bibliográficas
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psicanalítica. São Paulo: Escuta, 1996.

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São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

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Janeiro: Imago, 1990.

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JULIEN, Philippe. A Feminilidade Velada: aliança conjugal e modernidade. Rio de Janeiro:


Companhia de Freud, 1997.

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do comportamento e psiquiatria clínica. 7ª. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

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MINUCHIN, S; FISHMAN, HC. Técnicas de Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
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YUNES, Maria Ângela Mattar. Psicologia Positiva e Resiliência: o foco no indivíduo e na


família, p.2, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pe/v8nspe/v8nesa/pdf. Acesso em: 04
out. 2008.

Sobre a Autora

Dra. Ilma Luci Gomes Cunha

É Psicanalista, Terapeuta Familiar, Consultora e Instrutora de


Treinamentos na área comportamental em empresas públicas, privadas e
familiares. Possui uma experiência de mais de 20 anos como palestrante em
eventos motivacionais, encontros de casais, congressos de famílias e
seminários na área comportamental no Brasil e no exterior. Com vasta
formação acadêmica, é professora na área de Administração, Negócios,
Psicologia e Aconselhamento Clínico na Flórida Christian University, em
Orlando-USA, onde cursou o Mestrado e Doutorado. Formação permanente
em psicanálise como membro da ELPV. Formação em Terapia Familiar
Sistêmica, pós-graduada em Família pela FDV/ES, pós-graduada em
Recursos Humanos; practitioner em Programação neurolinguística, Bacharel
em Teologia e licenciada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras MGSJ. Trabalhou como gerente na Caixa Econômica Federal por 20
anos e como Consultora e Instrutora de Treinamentos no SEBRAE e
FINDES/IEL por mais de 10 anos. Sócia proprietária da empresa DINAMIZE
– Consultoria e Treinamento Empresariais. Atua, há mais de 15 anos, em
treinamentos empresariais, consultorias, orientação de carreira, coaching,
palestras motivacionais e atendimento clínico. É casada, há 40 anos, com o
Pr. Celso Cunha, com dois filhos: Érik, casado com Aleandra, pais de Lara e
Arthur; e Bruno, casado com Sandra, pais de Luccas.

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Bons pais, filhos melhores
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obedientes, mas, o que fazem para alcançar isso? A família é a matriz social,
a mais importante agência socializadora, que transfere para os filhos a
herança biológica, psicológica, cultural e espiritual, e está sob a
responsabilidade direta dos pais e das mães. Neste livro "Bons Pais, Filhos
Melhores", o Pr. Silas Malafaia fala sobre alguns tipos de pais. É evidente que
ele não fala sobre todos os tipos, e sim acerca daqueles que, por uma atitude
negativa ou positiva para com seus filhos, mais se destacam na sociedade
atual. O autor fala também sobre cinco características dos jovens que
conhecem ao Senhor, e dará cinco conselhos aos que querem triunfar na
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crescimento sem mudança, não há mudança sem perda, e não há perda sem
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conjugais, o Pr. Silas faz um alerta sobre os 12 motivos que podem destruir
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