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________________________ UFCD 10390 - Domínios e estratégias de intervenção em crianças e jovens

MANUAL DE FORMAÇÃO

EFA NS TÉCNICO DE APOIO PSICOSSOCIAL


Cláudia Marques

UFCD 10390 - Domínios e estratégias de intervenção em


crianças e jovens
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INDICE

Frase de Abertura ………………………………………………………………………………………………………. 3

Objetivos e Conteúdos …………………………………………………………………………………………….… 4

1-Introdução ………………………………………………………………………………………………..……………. 6
2-Intervenção do/a Técnico/a de Apoio Psicossocial com crianças e jovens …………..….. 8
o Âmbitos, limites e questões éticas .…………………………………………….………. 8

3-Domínios da intervenção com crianças e jovens ………………………………………….……….. 13


o Saúde, doença, incapacidade e deficiência ……………………………………….. 13

o Promoção da saúde e prevenção da doença …………………………….………. 17

o Contextos institucionais ……………………………………………………………………. 18

4-Formas de intervenção com crianças e jovens ………………………………………………………. 23


o Individual …………………………………………………………………………………..……… 23

o Grupo ……………………………………………………………………………………..………… 24

o Família ……………………………………………………………………………………….…….. 25

5-Estratégias de intervenção com crianças e jovens ………………………………………………… 28


o Expressão plástica …………………………………………………………………………….. 28

o Ludoterapia ………………………………………………………………………………………. 30

o Técnicas de estimulação cognitiva ………………………………………………….... 31

o Técnicas de treino de competências …………………………………………………. 38

Bibliografia ……………………………………………………………………………………….……………………… 39
Termos de Utilização ………………………………………………………………………….……………………. 40
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Frase de Abertura

“Há uma idade na vida em que os anos passam demasiado depressa e os


dias são uma eternidade”

Virginia Wolf
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Objetivos e Conteúdos

Objetivos

 Definir os âmbitos e limites da intervenção do/a Técnico/a de Apoio


Psicossocial com crianças e adolescentes.

 Identificar as áreas, os domínios e objetivos da intervenção com crianças e


adolescentes.

 Identificar as vantagens das diferentes estratégias de intervenção em função


dos objetivos definidos.

 Preparar atividades e materiais ajustados à faixa etária e aos objetivos da


intervenção.

Conteúdos

 Intervenção do/a Técnico/a de Apoio Psicossocial com crianças e jovens


o Âmbitos e limites

o Questões éticas

 Domínios da intervenção com crianças e jovens


o Saúde, doença, incapacidade e deficiência

o Promoção da saúde e prevenção da doença

o Contextos institucionais

 Formas de intervenção com crianças e jovens


o Individual
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o Grupo

o Família

 Estratégias de intervenção com crianças e jovens


o Expressão plástica

o Ludoterapia

o Técnicas de estimulação cognitiva

o Técnicas de treino de competências


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1-Introdução

"Cada vez que uma criança diz «Não acredito em fadas», há sempre uma fada que
morre." JAMES BARRIE

Delinear uma estratégia de intervenção psicológica para resolução do problema é


procurar dar atenção às condições de saúde mental e bem estar psicológico dos
indivíduos e das suas famílias. O Objetivo fundamental, desta metodologia é ajudar a
família, em termos sociais, económicos, emocionais e psicológicos, de modo a serem
elas próprias a resolverem os seus problemas. Ajudá-las a restabelecer o equilíbrio
psicológico e a reintegrarem-se na vida social.

Para obter resultados adequados e eficazes, também os agentes educativos, para além
da Família, como a Escola e Comunidade, devem colaborar em conjunto na
manutenção da saúde das crianças, garantindo a realização de diligências necessárias
para assegurar o bem estar das crianças, bem como, promover estimulação que lhes
permita um desenvolvimento equilibrado e adequado.

Porque estamos perante uma realidade que se reveste de diferentes contornos, por
vezes, com consequências prejudiciais para as crianças, a prevenção deve constituir
um dos pontos essenciais e imprescindíveis. Torna-se prioritária a difusão generalizada
de medidas de prevenção, que contribuam significativamente para a sua eliminação ou
resolução.
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A elaboração de programas de prevenção deverão assentar num conjunto de


princípios gerais que vão orientar toda a ação.

Devem ser programas globalizados, pois o conceito de saúde e bem estar pessoal e
social é apenas um, logo os métodos de intervenção educativos devem incluir ambas
as vertentes.
A intervenção preventiva deve desenvolver-se através de diferentes programas
interativos nas diferentes instituições (escola, família, profissionais sociais e psicólogos,
etc.). E estes programas devem, para além de fomentar o desenvolvimento individual,
provocam mudanças nas instituições.
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2-Intervenção do/a Técnico/a de Apoio Psicossocial com crianças e


jovens

o Âmbitos e limites e questões éticas

Ética profissional é o conjunto de normas morais pelas quais um indivíduo deve


orientar seu comportamento profissional. A Ética é importante em todas as profissões,
e para todo ser humano, para que todos possam viver bem em sociedade.

O Código de Ética é um instrumento criado para orientar o desempenho das


organizações em suas ações e na interação com seus públicos.

Os códigos de ética são uma ferramenta de gestão para estabelecer e articular os


valores corporativos, responsabilidades, obrigações e desafios éticos da organização e
a forma como atua; e servem de guia à conduta dos funcionários, facilitando a sua
ação em situações de dilema sobre linhas de atuação ou quando face a pressões
decorrentes de decisões que têm que tomar ou executar.

Neste sentido, a existência de um código de ética:


 Afirma a profissionalidade, enquanto prática reflexiva, numa perspetiva ética;
 Contribui para uma cultura de responsabilidade, a partir do interior do próprio
grupo profissional;
 Consciencializa os profissionais de que o seu modo de agir tem
necessariamente consequências naqueles que encontra no decurso da sua
prática profissional;
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 Apoia os profissionais na tomada de consciência da complexidade das situações


com que se deparam, avaliando-as e ponderando o que está em jogo, para que
possam decidir e agir de modo eticamente sustentado;
 Promove uma procura ativa dos valores e princípios que estão na génese dos
critérios que sustentam as tomadas de decisão;
 Constitui um instrumento que propicia a interrogação crítica das práticas,
tendo em vista o bem do outro, o bem comum;
 Permite a cada profissional em função do seu contexto, um reequacionamento
permanente dos princípios nela enunciados, de modo a que possa mobilizá-los
ou ampliá-los numa resposta ética.

Os limites da confidencialidade

Por vezes é necessário quebrar a confidencialidade, ou seja, pode ser preciso


transmitir informação sobre uma criança ou jovem sem ter a sua autorização expressa.
Constitui uma exceção que só pode acontecer se existirem exigências da salvaguarda
da vida, ou da integridade física da criança ou jovem.
Nestas situações é importante informarmos a criança ou jovem de que a informação
que nos foi veiculada será transmitida a terceiros para sua (ou de outros) proteção.
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De salientar que mesmo nos casos em que aos responsáveis da estrutura residencial
compete o exercício dos poderes/deveres parentais necessários à tarefa de
proteção/educação de que estão incumbidos, é necessário o consentimento do jovem
com idade igual ou superior a 14 anos para a sua sujeição a tratamentos.

O Técnico de Apoio Psicossocial é um profissional qualificado apto a promover,


autonomamente ou integrado em equipas multidisciplinares, o desenvolvimento
psicossocial de grupos e comunidades no domínio dos cuidados sociais e de saúde e da
intervenção social e comunitária.

As atividades fundamentais a desempenhar por este técnico são:

 Identificar, diagnosticar, analisar e avaliar diferentes domínios, contextos,


situações, problemas e comportamentos sobre os quais seja necessário
intervir;

 Planear, organizar, desenvolver e avaliar programas, projetos, ações e


atividades que deem resposta às necessidades diagnosticadas;

 Definir estratégias, métodos e técnicas de intervenção face a cada situação


diagnosticada;

 Identificar recursos, encaminhando, articulando, ou criando novas soluções


para as situações detetadas;

 Intervir junto de indivíduos, grupos, comunidades, ou populações com


necessidades específicas, promovendo o seu desenvolvimento pessoal e
sociocomunitário;

 Planear, organizar e promover atividades de carácter educativo, cultural, social,


lúdico-pedagógico e sócio terapêutico, em contexto institucional, na
comunidade ou no domicílio, tendo em conta as necessidades do grupo e dos
indivíduos, com vista a melhorar a sua qualidade de vida e a sua inserção e
interação sociais;
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 Promover a integração grupal e social fomentando a interação entre os vários


atores sociais da comunidade;

 Elaborar relatórios de atividades;

 Intervir em comunidades em que não sejam detetadas necessidades especiais,


nomeadamente escolas, lares de terceira idade, centros de ATL;

 Realizar atividades complementares de ação pedagógica com vista ao


desenvolvimento integral de grupos e/ou indivíduos;

 Promover o acompanhamento e a reinserção de crianças e jovens


institucionalizados;

 Participar em equipas pluridisciplinares que desenvolvam atividades no âmbito


da Educação para a Saúde;

 Acolher e acompanhar de forma personalizada o doente e seus familiares nos


circuitos assistenciais das Unidades de saúde apoiando-os e motivando-os para
o tratamento;

 Contribuir para uma efetiva comunicação intrainstitucional na relação com o


doente e seus familiares;

 Realizar atividades complementares de ação terapêutica, tendo em vista o


bem-estar na recuperação e na integração social plena do doente;

 Desenvolver atividades lúdico-terapêuticas nas Unidades de Saúde, avaliando e


registando a conduta e o desempenho global dos doentes, e acompanhá-los
em visitas de estudo relacionadas com a área ocupacional e saídas de
socialização;

 Colaborar na prestação de cuidados de higiene, alimentação e conforto dos


doentes, tendo em conta o seu grau de autonomia e na manutenção da
desinfeção, higiene e conforto das Unidades de Saúde;
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 Efetuar os registos da sua intervenção e recolher as informações que lhe forem


determinadas pelos técnicos de nível superior;

 Desenvolver ações de prevenção primária, secundária, terciária e de redução


de danos;

 Participar em equipas de despiste e acompanhamento dos indivíduos com sida


e outras doenças infectocontagiosas, desenvolvendo atividades
complementares de ação terapêutica que promovam a sua reinserção social;

 Efetuar trabalho de rua junto de cidadãos “sem abrigo”, toxicodependentes,


prostitutos promovendo a sua reinserção social.

O Técnico de Apoio Psicossocial é o profissional qualificado apto a promover,


autonomamente ou integrado em equipas multidisciplinares, o desenvolvimento
psicossocial de grupos e comunidades no domínio dos cuidados sociais e de saúde e da
intervenção social e comunitária.
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3-Domínios da intervenção com crianças e jovens

É no âmbito da mais recente Reforma do Direito de Menores que surge a Lei n.º 147/99,
de 1 de Setembro – Lei de Crianças e Jovens em Perigo – vigente desde 2001, na qual se
inscreve a intervenção dos diferentes sectores e serviços nesta matéria.
Obedecendo a uma nova filosofia de intervenção junto deste tipo de população infantil, a
referida Lei consagra um modelo de proteção que defende uma participação a diferentes
níveis:
 no primeiro nível, é atribuída legitimidade às entidades com competência na área da
infância e juventude - ou seja, as que têm ação privilegiada em domínios como os da
saúde, educação, formação profissional, ocupação dos tempos livres, entre outros - para
intervir na promoção dos direitos e na proteção das crianças e dos jovens, em geral, e das
que se encontrem em situação de risco ou perigo;
 no segundo nível, quando não seja possível às entidades acima mencionadas atuar de
forma adequada e suficiente para remover o perigo, toma lugar a atuação das Comissões
de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), nas quais a saúde, participa também;
 no terceiro nível, é à intervenção judicial, que se pretende residual, que cabe o
protagonismo na proteção de crianças e jovens em perigo.
No entanto, é da exclusiva competência das CPCJ e dos Tribunais a aplicação das medidas
de promoção/proteção a favor dos menores que delas careçam.

o Saúde, doença, incapacidade e deficiência

De acordo com o estipulado, a proteção face às diversas formas de maus tratos e


negligência deve ser concretizada, em primeira linha, pelas entidades formais e
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informais, públicas e privadas, que lidam com crianças e jovens, nos sectores da saúde,
da educação, e do serviço social.
Cada profissional e cada serviço devem assegurar a proteção no limite máximo das
atribuições que lhes estão cometidas, sem prejuízo de uma participação articulada e
integrada, através do funcionamento de verdadeiras redes de apoio a nível local.
As instituições de saúde, por inerência da missão que lhes cabe, são conhecedoras dos
riscos de carácter psicossocial que estão presentes no dia-a-dia das populações a que
prestam assistência. Nesse contexto, têm responsabilidade particular na deteção
precoce de fatores de risco e de sinais de alarme na sinalização de situações de
crianças e jovens em risco, ou em evolução para verdadeiro perigo.

O investimento na melhoria da capacidade de intervenção sobre os maus tratos a


crianças e jovens, a nível primário e secundário, é, necessariamente, um dos objetivos
das políticas de saúde. Nesse sentido, há que desenvolver modelos organizativos que
permitam adequar as respostas dos serviços ao problema.
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A doença crónica na criança traz alterações no dia-a-dia, com repercussões


psicológicas como: angústia, sentimento de anormalidade em relação a outras
crianças, culpa sobre os pais, ou mesmo depressão. Com efeito, toda a doença crónica,
na criança ou no adulto, coloca questões psicológicas importantes que influenciam e
também são influenciadas pelo somático (corpo).

Na doença crónica o corpo torna-se lugar de sofrimento e menos de prazer. É objeto


de preocupação e vigilância constantes que implicam alterações de hábitos
quotidianos e de qualidade de vida, impacto financeiro, social, escolar, ocupacional e,
mais ansiogénico, eminência de morte.

Aquando do diagnóstico da doença, as crianças podem ter diferentes reações:

Dissociam-se da doença no seu conjunto;

Dissociam-se do que está doente no seu corpo;

Revoltam-se contra a situação que estão a viver e recusam os cuidados (muitas


vezes, em negação do seu estado de saúde);

Recebem a terapêutica passivamente, refugiando-se até no sono e mesmo na


falta de ação;

Tornam-se mais dependentes dos pais e dos técnicos de saúde;

Assumem a doença, integrando tanto as causas como os efeitos e o respetivo


tratamento.
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O que de um modo geral se acaba por verificar é que todos estes mecanismos de
defesa ou estratégias tendem a atenuar-se aos poucos e estas crianças acabam por
encontrar um equilíbrio entre a aceitação do seu estado inevitável e a adaptação (o
menos dependente possível), a um elemento novo.

Em termos cognitivos e afetivos verifica-se também empobrecimento da capacidade


imaginativa e intelectualidade mais diminuída, o que deriva essencialmente de:

-maior agressividade e dependência por desejo de retorno à figura materna;

A figura masculina (habitualmente identificada com a autoridade) tende a


causar maior ansiedade e inibição na criança;

Relação menos concisa com a imagem corporal;

Incerteza relativamente ao futuro.

A primeira rede de acolhimento, de suporte e de alívio da dor, serão os pais. A criança


esperará dos seus progenitores elos de segurança, presença física, amor, tolerância,
capacidade de escuta, contenção para a sua angústia.

Então, é expectável que a doença crónica na criança atinja não só esta mas também a
sua família. E surgem assim modificações e novas exigências no contexto familiar. Daí
que a terapêutica deva prever as relações entre criança – família – técnicos de saúde.

Na criança, a doença crónica (seja ela qual for) pode ser sentida pelos pais como
agressão, culpa e até potencial elemento reativador de (outros) problemas pessoais.
Decorre daqui, frequentemente, estados depressivos relacionados com essa deceção,
auto acusação, falha narcísica (o bebé / criança imaginário para os pais é substituído
pelo bebé / criança real comprometendo, nas suas crenças, a transgeracionalidade).
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As necessidades de saúde especiais definem-se como, as que resultam de problemas


de saúde com impacto na funcionalidade e necessidade de intervenção em meio
escolar, como sejam, irregularidade ou necessidade de condições especiais na
frequência escolar e impacto negativo no processo de aprendizagem ou no
desenvolvimento individual.

As alterações das funções ou estruturas do corpo (ex: doença crónica, deficiência,


perturbações do desenvolvimento, perturbações emocionais e do comportamento,
entre outras), que têm impacto no desempenho escolar, necessitam de identificação e
remoção de barreiras a vários níveis: aprendizagem, atitudes, comunicação,
relacionamento interpessoal e social, autonomia, espaço físico e meio
socioeconómico.

Na Escola, é crucial identificar a existência de fatores ambientais “facilitadores”


(entendidos como fatores que influenciam positivamente a realização de atividades
escolares) ou “barreira” (entendidos como fatores que impedem ou limitam a
participação da criança na vida escolar) que interferem com as aprendizagens
escolares.

o Promoção da saúde e prevenção da doença

A INTERVENÇÃO PRECOCE NA INFÂNCIA é dirigida às crianças até aos 6 anos de idade


com alterações ou em risco de apresentar alterações nas estruturas ou funções do
corpo, tendo em conta o seu normal desenvolvimento. Consiste num conjunto de
medidas de apoio integrado centrado na criança e na família, incluindo ações de
natureza preventiva e reabilitativa, designadamente no âmbito da educação, da saúde
e da ação social. À Saúde compete assegurar a deteção, sinalização e acionamento do
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processo e o encaminhamento de crianças e jovens para consultas ou centros de


desenvolvimento, para efeitos de diagnóstico, orientação especializada, entre outros.

As doenças agudas são aquelas que têm um curso acelerado, terminando com
convalescença ou morte em menos de três meses.

A maioria das doenças agudas caracteriza-se em várias fases. O início dos sintomas
pode ser abrupto ou insidioso, seguindo-se uma fase de deterioração até um máximo
de sintomas e danos, fase de plateau, com manutenção dos sintomas e possivelmente
novos picos, uma longa recuperação com desaparecimento gradual dos sintomas, e a
coalescência, em que já não há sintomas específicos da doença mas o indivíduo ainda
não recuperou totalmente as suas forças. A fase de recuperação podem ocorrer as
recrudescências, que são exacerbamentos dos sintomas de volta a um máximo ou
plateau, e na fase de convalescência as recaídas, devido à presença continuada do
fator desencadeante e do estado debilitado do indivíduo, além de (novas) infeções.

As doenças agudas distinguem-se dos episódios agudos das doenças crónicas, que são
exacerbação de sintomas normalmente menos intensos nessas condições.

Exemplos de doenças agudas:

A maioria das infeções por vírus, bactérias, como por exemplo


Constipação/Resfriado, gripe, infeções gastrointestinais, pneumonia, meningite.

Trauma físico

Enfartes, hemorragias e outras condições cardiovasculares.

o Contextos institucionais
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A medida de acolhimento em instituição consiste na colocação da criança ou jovem


numa Entidade, que disponha de instalações, equipamento de acolhimento
permanente e de uma equipa técnica que lhes garanta os cuidados adequados às suas
necessidades e lhes proporcione condições que permitam a sua educação, bem-estar e
desenvolvimento integral.

Este acolhimento pode ser de curta ou longa duração, ocorrendo o primeiro em


Centros de Acolhimento Temporário, por período não superior a seis meses e o
segundo por um período superior a seis meses. (art.50). Uma instituição não pode
assumir por tempo indeterminado a substituição dos progenitores, nem a criança pode
ser alvo de uma institucionalização permanente.
Quando uma criança é institucionalizada, significa que existiram ruturas no seu
processo de crescimento, ou ainda que a família não foi capaz de lhe assegurar
condições de afeto, segurança e dignidade.

A mudança da visão em relação à criança e à sua proteção traduziu-se na redação da


declaração dos Direitos da Criança, aprovada pela ONU, em 1989 e ratificada por
Portugal em Setembro de 1990.

Esta mudança da visão da criança como um ser frágil que precisa de proteção é
constatada numa frase do Preâmbulo da Convenção sobre os Direitos da Criança: “A
criança, por motivo da sua falta de maturidade física e intelectual, tem necessidade de
uma proteção e cuidados especiais, nomeadamente de proteção jurídica adequada,
tanto antes como depois do nascimento”.

Algumas das disposições que se encontram em alguns artigos da Convenção dos


Direitos da Criança afirmam que a criança usufrui de um conjunto de direitos: o direito
ao correto cumprimento da responsabilidade dos pais, da família alargada e da
comunidade; o direito à proteção contra todas as formas de violência física ou mental,
dano, abandono ou negligência, maus -tratos ou exploração ou violência sexual; o
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direito às medidas adequadas de recuperação física e psicológica de quaisquer


situações em que a criança é vítima.

Quando a família não consegue cumprir alguns dos direitos da criança é necessário a
intervenção do Estado para salvaguardar os interesses da criança. Esta intervenção do
Estado está prevista nos casos de ameaça à segurança, saúde, formação, educação ou
desenvolvimento da criança ou jovem, de acordo com a lei de proteção de crianças e
jovens em perigo.

Algumas das situações que exigem ações concretas por parte dos organismos de
proteção a crianças ou jovens são: 1) as situações de abandono; 2) maus tratos físicos
ou psíquicos; 3) abusos sexuais; 4) ausência de cuidados e de afetos adequados à sua
idade ou situações psíquicas; 5) exercício de atividades ou trabalhos excessivos e, 6)
submissão a comportamentos que afetem a segurança ou equilíbrio emocional das
crianças ou jovens ou a adoção de comportamentos que prejudiquem a sua saúde,
segurança, formação, educação ou desenvolvimento sem que os pais, representantes
legais ou quem detenha a guarda atuem de modo adequado para modificar a situação
de risco.

Em Portugal foi criado um organismo com a função de apoio e proteção para as


crianças, as CPCJ - Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco. Esta é uma
entidade oficial que propõe-se a impulsionar os direitos da criança e do jovem, até aos
18 anos ou 21 anos quando solicitado, e prevenir ou pôr fim a situações possíveis de
afetar a sua segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento, de maneira a
garantir o seu bem-estar e o desenvolvimento.

Em conformidade com a lei, esta instituição procura garantir as Medidas de Promoção


dos Direitos e de Proteção das Crianças e Jovens em perigo definidas pelo Estado no
artigo 35.º da Lei 147/99, sendo estas medidas subdivididas em medidas inseridas no
meio natural de vida e por medidas em regime de colocação, nomeadamente:
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1) Medida de Apoio aos Pais - consiste em proporcionar à criança ou jovem apoio


psicopedagógico e social, e quando necessário, ajuda económica (artigo 39.º da Lei
147/99);

2) Medida de Apoio junto de Outro Familiar - pressupõe a colocação da criança ou


jovem sob a guarda de um familiar, que não os progenitores, com quem já resida ou a
quem seja entregue, acompanhada de apoio psicopedagógico e social, e também,
quando necessário, ajuda económica (artigo 40.º da Lei 147/99);

3) Medida de confiança a pessoa idónea - consiste na colocação da criança ou jovem


sob a guarda de uma pessoa que não pertença à família, mas que tenha estabelecido
um relação de afetividade recíproca com a criança ou jovem (artigo 43.º da Lei
147/99);

4) Medida de Apoio para a autonomia de vida - consiste em proporcionar diretamente


ao jovem com idade superior a 15 anos (ou inferior a esta quando se verifique que a
situação aconselha a aplicação desta medida) apoio económico e acompanhamento
psicopedagógico e social, com o objetivo de proporcionar à criança ou ao jovem
condições que lhe permita, adquirir autonomia de vida (artigo 45.º da Lei 147/99);

5) Medida de acolhimento familiar - consiste na atribuição da confiança da criança ou


jovem a família ou pessoa singular, habilitadas para o efeito, com o objetivo a integrar
em meio familiar e prestar cuidados adequados às suas necessidades, bem-estar e
educação necessária ao seu desenvolvimento integral (artigo 46.º da Lei 147/99);

6) Medida de acolhimento em instituição - consiste na colocação da criança ou jovem


aos cuidados de uma entidade que disponha de instalações e equipamento de
acolhimento permanente, assim como de uma equipa técnica que lhes garantam os
cuidados adequados às suas necessidades e lhes proporcionem condições que
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permitam a sua educação, bem-estar e desenvolvimento integral (artigo 49.º da Lei


147/99).

As instituições têm o dever de garantir que os requisitos mínimos de proteção e


bem-estar inerentes às necessidades de cada criança são cumpridos. A
institucionalização deve ser entendida não apenas como uma resposta a uma falha ao
nível do contexto parental, mas como uma oportunidade de ganhos efetivos, tanto
para a criança como para a família, mesmo comportando consequências negativas
devido ao afastamento das crianças relativamente à família de origem.

A institucionalização deve constituir uma mais-valia para a criança que necessita desse
acolhimento, retirando-a de uma situação de perigo. Segundo Sarmento (2000) a
integração social das crianças implica a articulação de múltiplos domínios, traduzindo-
se numa política que permita mudar a situação dos que se encontram mais
desfavoráveis socialmente, através da sua inclusão e educação.
Atualmente, a institucionalização possui, um estatuto globalmente desvalorizado no
quadro da proteção infantil. Esta imagem depreciativa é assumida e sentida pelas
crianças e jovens que vivem nestas instituições. E assim em vez de proteger e
proporcionar à criança outras possibilidades para o seu desenvolvimento a
institucionalização pode tornar-se também num tipo de mau – trato.
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4-Formas de intervenção com crianças e jovens

o Individual

As estratégias individuais no âmbito da prevenção das situações de risco têm como


objetivo mudar as atitudes individuais, as crenças e comportamentos diretos. Estas
estratégias podem ser desenvolvidas em qualquer altura e enquadradas em vários
contextos. Fazemos aqui referência a algumas estratégias que consideramos
fundamentais.

A formação específica dos profissionais com competência em matéria de infância e


juventude – A prevenção exige que os profissionais tenham formação especializada
neste âmbito e, paralelamente, possuam capacidades de relacionamento interpessoal
e consciência da diversidade cultural que envolve o indivíduo. Para o desenvolvimento
da capacidade técnica é fundamental que se inclua nos currículos dos cursos
académicos esta matéria; se sensibilize os profissionais à frequência de workshops, se
desenvolvam ações de formação e cursos sobre a temática dos maus-tratos; se
desenvolvam manuais ou protocolos que orientem minimamente os profissionais nas
suas intervenções; se organizem estágios devidamente orientados que permitam aos
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profissionais adquirir conhecimentos técnicos de como detetar situações de perigo e a


correspondente intervenção.

o Grupo

O sistema de intervenção/proteção poderá apresentar várias fases ao longo do


processo com aspetos essenciais semelhantes e que podem surgir durante o momento
da suspeita ou da deteção da situação de perigo, quer a atuação seja feita através de
uma rede informal ou da rede formal. Posteriormente, distintos momentos deverão
surgir, nomeadamente: a sinalização, a avaliação e a investigação, o diagnóstico, as
medidas de promoção dos direitos e de proteção, a coordenação e o
acompanhamento de caso.

Acima de tudo, um processo que pretende apoiar a criança numa situação de perigo
deve procurar ser contínuo, fluindo através do tempo e de acordo com a problemática,
tendo em conta o nível de urgência do problema e da emergência das necessidades da
criança e/ou dos seus pais ou instituições implicadas.

Daí que esta intervenção é designada como um “processo”, porque se traduz num
conjunto de procedimentos alargados no tempo. O facto deste processo se poder
estender no tempo não quer dizer que não precise de ser regulado ou planeado. De
forma alguma poderá ser uma intervenção descontrolada, sem qualquer orientação e
sentido para as ações desenvolvidas. Este processo de intervenção de promoção e
proteção necessita de estar enquadrado no tempo e no espaço, caso contrário, será
um claro retrocesso na vida da criança.
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O grupo pode exercer uma forte influência no comportamento individual dos seus
membros, contudo este efeito pode ter aspetos positivos, mas também negativos. Um
grupo pode facilitar mudanças comportamentais, mas pode também facilitar a
manifestação de comportamentos socialmente indesejáveis e / ou desadequados.

Para a animação de grupos podem ser adotadas estratégias, nomeadamente, a


motivação, o reforço positivo, o envolvimento nas atividades, o conhecimento e
interação com o grupo. É também importante, o ambiente ser positivo, os métodos e
técnicas pedagógicas serem diversificadas e adequadas, devem também respeitar-se
os ritmos (de cada grupo).

Para este tipo de animação, podem ser dinamizadas atividades como, jogos
pedagógicos (cooperação, confiança, apresentação), jogos interativos (lúdico-
pedagógicos), exercícios práticos e dinâmicas de grupo, atividades de estimulação
cognitiva, jogos musicais, atividades de expressão plástica (desenho, pintura, colagem,
modelagem, dobragem), e também criação/adaptação de jogos/atividades –
estimulação da criatividade.

o Família

A evolução da família ao longo da história indica que não é um processo estático,


sendo de realçar as modificações verificadas, ao nível das suas funções e papéis.
Na sociedade atual, a família deixou de ser a única estrutura responsável pela proteção
e defesa da criança, que passam a ser reconhecidas como sujeitos de direitos. A família
continua a ter um papel importante no crescimento e desenvolvimento da criança e do
jovem.
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A família tem constituído desde sempre o núcleo fundamental da sociedade, sendo


através dela que a criança recebe os modelos de comportamento e se prepara para a
convivência sócio relacional. A família tem como dever a satisfação das necessidades
biológicas da criança.
Para Lacan, (1981) a família é um conjunto de indivíduos que se encontram unidos por
laços biológicos. Os progenitores que formam esse conjunto devem proporcionar as
condições necessárias que possibilitem o desenvolvimento das crianças.

O envolvimento emocional, o cuidado e a proteção são aspetos marcantes na


construção do vínculo afetivo e de confiança. Defende que as figuras com as quais a
criança se vincula fornecem bases de segurança que lhe proporcionam a possibilidade
de explorar o mundo. A criança necessita construir um quadro familiar de referência
para se desenvolver de forma saudável.

As caraterísticas parentais e os seus efeitos sobre o estabelecimento da vinculação,


nomeadamente a sensibilidade, responsabilidade e a disponibilidade emocional, foram
analisados, também, em estudos posteriores aos de Bowlby, verificando-se que a
medição dos efeitos das caraterísticas parentais se encontra cada vez mais
aperfeiçoada.
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De entre os mecanismos que poderão estar na base da desorganização em que se


encontra a criança maltratada, pode estar a emergência muito precoce do medo e a
influência que este tipo de sentimento tem na capacidade de auto-regulação.

As relações de qualidade mantidas durante a infância contribuem para o bem-estar


psicológico durante todo o desenvolvimento da criança e jovem com consequências
na idade adulta. Um acompanhamento psicológico correto nas vítimas de maus
-tratos na infância permite adquirir competências e valores que as ajudem na sua
integração na sociedade e a manterem relações estruturadas capazes de contribuírem
para a formação de uma vida familiar afetiva.

As famílias são consideradas como os primeiros agentes de socialização, cabendo-


lhes a responsabilidade de proporcionar condições para um bom desenvolvimento da
criança. É necessário ter em consideração a estrutura familiar de cultura para cultura,
de sociedade para sociedade, uma vez que, o meio familiar é fundamental para o
desenvolvimento da criança/jovem, existindo duas componentes essenciais: a
estrutura familiar quer sejam dois pais ou só um, ou alguém que cuide das
crianças/jovens e a atmosfera familiar económica, social e psicológica.

A família é considerada como o agente principal de transmissão de competências e de


apoio ao desenvolvimento humano, porém é influenciada por fatores externos que,
por sua vez, se repercutem nos seus elementos, afetando internamente a interação
familiar.

Nos nossos dias, a família é considerada como uma instituição dinâmica, mutável
internamente e em relação ao exterior. Apesar dos conflitos no seio da família, esta
continua a ter um papel muito importante no desenvolvimento da sociabilidade, da
afetividade e do bem-estar dos indivíduos.
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O papel da família é importante para o desenvolvimento adequado da criança e para a


sua integração na sociedade, como também na prevenção da delinquência. Os autores
da atualidade concordam que o mau funcionamento familiar é uma das principais
causas dos distúrbios do comportamento, como a violência na família, ou a
delinquência juvenil.
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5-Estratégias de intervenção com crianças e jovens

o Expressão plástica

O ser humano está repleto de instintos, de impulsos, de tensões, de desejos e de


sentimentos, necessitando de os realizar livremente. A expressão é uma necessidade
vital do ser humano, pelo que, aqueles que não se conseguem exprimir correm o risco
de ficar incomunicáveis e insensíveis ao contexto social.

Expressão resulta do reflexo espontâneo das emoções, sem camuflagem nem batota –
um jogo íntegro, inerente ao ciclo das descobertas em que o indivíduo vive.

Todo o ser humano tem necessidade de se expressar. A expressão produz a energia


necessária ao funcionamento da cognição.

Para tal, torna-se relevante e necessário a construção de espaços e lugares que


permitam o livre desenvolver da expressão natural. Daí o nascimento dos Ateliers de
Expressão Plástica, que permitem a liberdade de pensamento e expressão, através da
arte e do lazer.

Os Ateliers de Expressão Plástica são dos modos mais característicos que o


aprendiz tem, não só de observar e manipular os materiais, de forma criativa,
como também, de comunicar ao exterior a sua particular visão do meio, a sua
aquisição permanente de noções e a necessidade de compartilhar com os outros
o seu estado emocional.
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A Expressão Plástica é das mais diversificadas, das expressões, contribuindo para:

•Desenvolvimento da imaginação, criatividade e realização de projetos;

•Desenvolvimento das aptidões técnico-manuais;

•Desenvolvimento do sentido crítico;

•Compreensão do poder comunicativo das imagens visuais;

•Desenvolvimento da capacidade de análise e recriação de imagens e objetos de arte,


de valor simbólico;

•Conhecimento do mundo e daquilo que o rodeia.

Orientações para a Estimulação da Expressão Plástica:

Considerar a expressão plástica do aprendiz como uma projeção da sua


personalidade em formação;
Compreender que, enquanto trabalha, o aprendiz está a adquirir experiências;

importantes para o seu desenvolvimento;


Estimular o aprendiz nas suas relações com o ambiente;

Apreciar o esforço do aprendiz, quando este consegue expressar a sua própria


experiência;
Compreender que as “proporções erradas” exprimem, frequentemente,
uma experiência;
Compreender que as perceções do aprendiz, a respeito da arte, são
diferentes das dos adultos;
Apreciar os trabalhos artísticos do aprendiz de acordo com os seus
próprios méritos;
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Colocar à disposição do aprendiz um local apropriado, onde possa


trabalhar;
Ensinar o aprendiz a respeitar as manifestações de arte dos outros;

Encorajar o espírito de liberdade, que nasce da própria necessidade do


aprendiz se expressar por si mesmo;
Criar um clima de tolerância, propício à espontaneidade expressivo-criativa;
Deixar que o aprendiz desenvolva a sua própria técnica, através da
experimentação

o Ludoterapia

Que adulto não recorda dos velhos tempos de criança, onde as brincadeiras eram
ensinadas entre os amigos, vizinhos e promoviam, além de divertimento, a
manutenção da saúde e do desenvolvimento psicomotor?

Nos dias de hoje, a preocupação continua a ser a mesma: da criança interagir em


grupo e desenvolver-se. Porém, os meios que favorecem esse acontecimento
mudaram do lúdico para o super tecnológico. Algumas crianças são assim, passam
grande parte do tempo a jogar no computador e nas consolas de jogos, enquanto o dia
de sol convida para brincar ao ar livre.
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Em diversos livros que tratam do tema desenvolvimento infantil, exemplos são dados,
mas não encontramos receitas prontas que indiquem os itens que devemos seguir. O
que está a ocorrer, segundo algumas publicações em revistas e jornais, é a numerosa
procura por soluções alternativas, onde as crianças possam gastar as suas energias.

Um exemplo conhecido é aquele que, quanto mais atividades a criança abranger


(inglês, natação, entre outras), melhor será o seu desempenho. Atividades extra, são
extremamente produtivas, todavia não englobam tudo.

Às vezes, as crianças conseguem dar conta de todos os seus afazeres, apenas não
possuem tempo para a tarefa principal desta fase, que é o brincar, pois seguem
horários até para a diversão.

Ao pensarmos na importância do brincar no desenvolvimento global, encontramos


na literatura que o jogo, seja de que tipo for, é o meio natural da criança se auto
expressar, já que detém a oportunidade de libertar os seus sentimentos e
descontentamentos, através da utilização do brinquedo. Na Psicologia, esta
interação diz respeito à Ludoterapia.

A criança tem dentro de si potencial e, este emerge nas situações da sua vida e,
nestes momentos, o indivíduo apresenta ao mundo o seu ritmo e a sua harmonia. E o
brinquedo nada mais é, do que a linguagem da criança.”

o Técnicas de estimulação cognitiva


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A importância do processamento linguístico, visual e auditivo são cruciais para o


desenvolvimento do ser humano. Das investigações realizadas verificou-se que o
córtex cerebral é crucial para a linguagem, tal como as áreas subcorticais que
participam no seu processo.

A área do hemisfério esquerdo é a responsável pela capacidade de compreensão e de


produção da linguagem. Na perspetiva de Vygotsky (2007) a linguagem é fundamental
no processo de desenvolvimento humano porque, através dela, estabelecem-se novas
relações, produtoras de novas organizações em termos da conduta humana.

As novas organizações ou processos mentais permitem a criação de uma relação


estrutural e, consequentemente, uma transformação neurológica. Esta transformação
processa-se quando a criança aprende a utilizar a linguagem de modo a planear uma
ação futura, com base nas suas experiências precedentes. Estudos efetuados pelo
autor sobre a relação entre o pensamento e a linguagem, comprovam que o
processamento linguístico é modificado durante uma atividade prática.

Verificou-se que a relação existente entre o uso de instrumentos e a linguagem afeta


as várias funções psicológicas, especialmente a perceção, as operações
sensoriomotoras e a atenção, enquanto partes integrantes de um sistema dinâmico da
conduta. Efetivamente, os processos motores associados à linguagem desempenham
um papel importante facilitando o processo do pensamento, melhorando em
particular a compreensão pelo sujeito de matérias verbais difíceis.

Para além disso, determinou-se que a representação cerebral da linguagem varia de


indivíduo para indivíduo. A atividade verbal e a intelectual são como uma série de
estádios em que as funções comunicativas e emocionais da linguagem estão
desenvolvidas pela capacidade de antecipação da função planificadora. Como
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consequência, a criança adquire a capacidade de empreender operações completas


que se prolongam durante um tempo suplementar.

Essa aprendizagem é essencial para o desenvolvimento das competências necessárias


para a resolução das tarefas difíceis, para planear a solução de um problema antes da
sua execução e para dominar o seu comportamento. No que toca ao processamento
visual, a área principal para a receção dos estímulos visuais encontra-se no lobo
occipital dentro do córtex motor.

O processamento visual apresenta um funcionamento do tipo contralateral i.e. o


córtex motor do hemisfério esquerdo controla o movimento do lado direito do corpo e
o córtex motor do hemisfério direito controla o movimento do lado esquerdo do
corpo. O mesmo se verifica nas vias visuais, também estas, são contralaterais. As
informações obtidas no campo visual direito provêm do hemisfério esquerdo e vice-
versa. A linha que divide os pontos visuais esquerdo e direito é o ponto médio desse
campo.

Os olhos percecionam imagens distorcidas e invertidas e, contudo, conseguem


observar no espaço objetos distintos e sólidos. A partir das fontes de estimulação da
retina obtém-se uma perceção do mundo dos objetos. A função do processamento
visual é alimentar o cérebro com informação codificada sob a forma de atividade
neuronal i.e. correntes de impulsos elétricos que, pelo seu código e pelos padrões da
atividade cerebral, representam objetos. A visão dos objetos ou imagens compreende
muitas fontes de informação para além das que o olho alcança.

Geralmente abrange o conhecimento do objeto ou da imagem com base na


experiência prévia. Contudo, esta experiência não é limitada à visão pois envolve
outros sentidos: tato; audição; olfato e, talvez, temperatura ou dor. Os objetos são
muito mais do que fontes de estimulação: têm um passado e um futuro. Quando se
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conhece o seu passado ou se prevê o seu futuro, um objeto transcende a experiência e


transforma-se numa consubstanciação daqueles conhecimentos e previsões, sem os
quais, a mais simples forma de vida seria impossível.

No conjunto dos cinco sentidos sensoriais humanos, a visão assume um papel


fundamental no desenvolvimento da vida humana. Todavia, a audição não deixa de ser
um outro sentido sensorial, também ele crucial. O processamento auditivo apresenta
um funcionamento do tipo contra lateral, tal como no processamento visual. O ouvido
direito efetua conexões mais fortes com o hemisfério esquerdo e o ouvido esquerdo
efetua conexões mais fortes com o hemisfério direito. Em termos de funcionalidade
auditiva normal, o ser humano não deteta este tipo de organização.

O trabalho inicial de Jean Piaget com os primeiros testes de QI, convenceu-o de que
tais testes estandardizados (reduzidos a um só tipo) deixam escapar muito do que é
especial e importante acerca dos processos de pensamento da criança.

Para analisar estes processos, Piaget observou, desde a infância, os seus próprios filhos
assim como outras crianças. O pensamento da criança, conclui o autor, é
qualitativamente diferente (diferente na forma) do pensamento adulto.

Enquanto alguns investigadores mediam diferenças individuais na quantidade de


inteligência que os adultos e as crianças têm, Piaget propôs sequências universais de
desenvolvimento cognitivo ao longo da infância e da adolescência.

Estádio sensório - motor - (0 - 2 anos)

•Inteligência prática, baseada nas sensações e nos movimentos (o mundo que existe
para o bebé é apenas aquele que ele vê, ouve ou sente e sobre o qual age);

•Antes dos 8 meses: é como se o mundo não fosse constituído por objetos, mas sim
por uma sucessão de imagens, sem ligação entre si, em que as coisas deixam de existir
quando deixam de ser percecionadas;
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•A partir dos 8 meses: adquire a noção de permanência do objeto (existem objetos


independentemente de os estar a percecionar);

•Progressivamente, vai sendo capaz de agir intencionalmente, de modo cada vez mais
coordenado, para obter o fim pretendido (ex.: obter um objeto), utilizando, para tal,
não só a ação do próprio corpo, como fazia anteriormente, mas também outros
objetos;

•No final deste estádio: surge a capacidade de representação mental e de


simbolização (representação mentalmente não só a permanência do objeto, mas
também as relações que se estabelecem entre os objetos); a inteligência centrada na
ação dá lugar ao pensamento (representação mental) - o pensamento é ação
interiorizada.

Estádio pré-operatório - (2-7 anos)

•Função simbólica: capacidade de representação mental e simbolização;

•Egocentrismo intelectual: a criança acha que o mundo foi criado para si e não é capaz
de perceber o ponto de vista do outro (acha que os outros pensam e sentem da
mesma forma que ela);
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•Animismo: o egocentrismo estende-se aos objetos e outros seres vivos, aos quais a
criança atribui intenções, pensamentos, emoções e comportamentos próprios do ser
humano;

Pensamento mágico: a realidade é aquilo que a criança sonha e deseja, e dá


explicações com base na sua imaginação, sem ter em consideração questões de lógica;

•Interessa-se essencialmente por resultados práticos;

•A sua perceção imediata é encarada como verdade absoluta, sem perceber que
podem existir outros pontos de vista: privilegia as suas perceções subjetivas,
desprezando as relações objetivas. Não percebe as diferenças entre as mudanças entre
as mudanças reais e aparentes e, portanto, responde com base na aparência,
acreditando que é o real. Ex.: são apresentados à criança dois corpos iguais com a
mesma quantidade de água. À sua frente, verte-se a água de um copo deles para um
copo, alto e fino. A criança afirma que agora este copo alto e fino tem mais água do
que o outro. Não compreende que a quantidade de água permanece a mesma,
independentemente do recipiente em que é colocada. Ou seja, responde com base na
aparência (como o segundo copo parece maior, porque é mais alto, a criança pensa
que tem mais água);

•O pensamento é pré-operatório - a criança não consegue efetuar operações mentais.


No exemplo acima, não percebeu que, durante a passagem da água do primeiro copo
de água para o segundo (alto e fino), houve algo que não mudou: a quantidade de
água permaneceu sempre a mesma. Também não tem consciência de que as
transformações na aparência da água (passagem de um copo baixo para um copo alto)
são reversíveis (pode logo a seguir deitar a água do copo alto e fino para o copo mais
baixo).

Estádio das operações concretas (7-11/12 anos)

•Pensamento lógico: tem capacidades para realizar operações mentais, pois


compreende que existem ações reversíveis (percebe que é possível transformar o
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estado de um objeto, sem que todo o objeto mude, e depois reverter esta
transformação, voltando ao estado inicial);

•Compreende a existência de conceitos - características que não variam em função das


mudanças dos objetos, mas que existem para além deles e podem ser aplicados a
muitas outras situações para além daquela associação que foi primeiramente
apresentada (contrariamente ao que sucedia no estádio anterior). Se a situação
referida no exemplo acima fosse apresentada a uma criança neste estádio, ela já seria
capaz de perceber que a quantidade de água é uma característica que não varia
conforme o copo em que é colocada;

•Já não se baseia na perceção imediata e começa a compreender a existência de


características que se conservam, independentemente da sua aparência: adquire assim
a noção de conservação da matéria sólida (ou substância), mais tarde da líquida
(exemplo acima referido da conservação da qualidade de água), depois do peso e, por
fim, do volume;

•A existência de conceitos vai permitindo compreender a relação parte-todo, fazer


classificações (agrupar objetos segundo determinada característica comum,
abstraindo-se das suas diferenças), seriações (ordenar objetos segundo uma
característica que tem diferentes graus; abstrai-se das semelhanças) e perceber a
conservação do número (implica coordenar a classificação e a seriação).
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Estádio das operações formais (12-16 anos)

•Consegue realizar não sós operações concretas mas também operações formais. Ex.:
Problema. Três pessoas A, B e C estão sentadas num banco de jardim. Quantas
hipóteses existem relativamente à ordem em que estão sentadas?

•Neste estádio, já é possível resolver este problema usando o pensamento abstrato


(operação formal): consegue-se colocar mentalmente todas as hipóteses. No estádio
operatório-concreto, a criança não conseguia abstrair: só seria capaz de resolver este
problema se tivesse três pessoas sentadas num banco e se pudesse posicioná-las em
todas as sequências possíveis. Resposta ao problema: seis hipóteses - ABC, ACB, BAC,
CAB e CBA;

•Pensamento abstrato: é capaz de se desprender do real e raciocinar sem se apoiar em


factos, ou seja, não precisa de operacionalizar e movimentar toda a realidade para
chegar a conclusões;

•Raciocínio hipotético-dedutivo: coloca hipóteses, formulando mentalmente todo o


conjunto de explicações possíveis;

•Percebe que existem múltiplas formas de perspetivar a realidade e que a sua


perceção é apenas uma dentro de um conjunto de possibilidades;

•É capaz de pensar sobre o próprio pensamento e sobre os pensamentos das outras


pessoas e, portanto, percebe que, face a uma mesma situação, diferentes pessoas têm
diferentes pontos de vista.

o Técnicas de treino de competências


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Uma das ideias fundamentais no treino de competências de vida prende-se com a


possibilidade dos jovens dominarem efetivamente o uso dessas competências mas
também conseguirem aplicá-las em diferentes domínios das suas vidas.
Neste sentido, os esforços intencionais dos programas de intervenção na generalização
das competências de vida é uma condição essencial para o seu sucesso.

As competências de vida assumem o mesmo carácter das capacidades físicas, podendo


ser ensinadas através da demonstração, modelagem e prática. Assim, do mesmo modo
que um atleta aprende um gesto técnico através das instruções do treinador e do
treino intencional, também as competências de vida podem ser apreendidas pelos
jovens, através das informações fornecidas pelos adultos e pela simulação da
competência em situações definidas para o efeito. Deste ponto de vista, a utilização
das competências de vida servem para desenvolver as capacidades psicológicas neces-
sárias para ajudarem os jovens a lidar com as exigências e desafios do seu dia-a-dia. O
resultado final deste processo será a promoção de experiências positivas nos jovens.
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Bibliografia

AA VV., Carta de Princípios para uma Ética Profissional, Ed. APEI, s/d

AA VV., Creche: manual de processos-chave, Programa de cooperação para o


desenvolvimento da qualidade e segurança das respostas sociais, Ed. Instituto da
Segurança Social, 2005

AA VV., Estratégia do Conselho da Europa sobre os Direitos da Criança (2016-2021), Ed.


Ministério da Educação e Ciência, 2016

AA VV., Lar de Infância e Juventude: manual de processos-chave, Programa de


cooperação para o desenvolvimento da qualidade e segurança das respostas sociais,
Ed. Instituto da Segurança Social, 2005

AA VV. Manual de boas práticas: acolhimento residencial de crianças e jovens, Ed.


Instituto da Segurança social, IP, 2003

AA VV., Pensar formação – Formação de pessoal não-docente (animadores e


auxiliares/ assistentes de ação educativa), Ed. Ministério de Educação, 2003

Banks, S., Ética prática para as profissões do trabalho social, Ed. Porto Editora, 2008

Rocha, A., Ética, deontologia e responsabilidade social, Ed. Vida Económica, 2010

Silva, I. (coord.) et al., Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, Ed.


Ministério da Educação/ DGE, 2016.
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Disposição legal relevante: 1º do CDADC

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