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FICHA TÉCNICA

Realização
ARTIGO 19

Pesquisa e texto:
Gabriel Rechiche, Maria Tranjan, Thiago Firbida

Colaboração
Gizele Martins, Júlia Cruz, Silvia Chocarro

Revisão
Débora Prado, Denise Dora

Diagramação e Arte
Cássio Abreu

ATENÇÃO:

Esse não é um relatório exaustivo. Novas informações e alterações


poderão ser acrescentadas, conforme aprofundamento dos casos, envio
de novos relatos e avanço das investigações oficiais.

Informações sobre os casos inseridos neste e nos outros relatórios anuais


de Violações à Liberdade de Expressão da ARTIGO 19 estão disponíveis
no portal violacoes.artigo19.org

Licença da obra:
CC 3.0 BY-SA

Link da licença
https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.pt_BR
SUMÁRIO

Capítulo 1
Introdução
04

Capítulo 2
Contexto internacional 06

Capítulo 3
Panorama geral da violência contra comunicadores 10

Capítulo 4
A desinformação como risco à saúde pública:
ataque a comunicadores cobrindo a crise da Covid-19 19

Capítulo 5
O papel da comunicação comunitária e popular no combate
à desinformação e no fortalecimento de seus territórios 21

Capítulo 6
O papel do estado na intensificação das violações contra comunicadores 27

O discurso público de autoridades e a obrigação


de prevenir violações contra comunicadores 28

O mecanismo de proteção brasileiro e a obrigação


do Estado de proteger comunicadores em situação de risco 31

O combate à impunidade e a obrigação de


investigar, processar e punir violações contra comunicadores 35

O papel das autoridades públicas no combate à impunidade 38

Capítulo 7
Conclusões 41

Capítulo 8
Recomendações 43

Capítulo 9
Nota Metodológica 47
CAPÍTULO 1

INTRODUÇÃO

Desde 2012, a ARTIGO 19 produz este Rela- A violência contra comunicadores, como bem
tório de monitoramento das graves violações se sabe, é uma violação dupla: viola os direitos
à liberdade de expressão no Brasil. O cenário individuais das pessoas que sofrem a violên-
de violência contra comunicadores no país cia e, ao mesmo tempo, viola o direito coletivo
é preocupante há décadas e este monitora- à informação que toda a sociedade possui. E
mento contribui para jogar luz na sistematici- é justamente esse duplo impacto que procu-
dade dessa violência. Nesse sentido, sempre ramos entender neste relatório: quais são os
compreendemos que, mais do que apresentar mecanismos que reproduzem essa lógica de
números e gráficos sobre a violência, é funda- ataque contra certos indivíduos para impedir
mental entender que esses números represen- que informações circulem livremente na so-
tam vidas de pessoas reais. Pessoas com sua ciedade? A quem e a que interessa cercear a
história, suas relações, seus interesses, sua pluralidade de vozes?
perspectiva de futuro. Infelizmente, em muitos Estamos cientes que esses mecanis-
casos, apresentamos vidas e trajetórias que mos são complexos e diversos, e não preten-
foram interrompidas. E tudo isso em nome de demos capturá-los e analisá-los de maneira
um objetivo central: o silêncio. O silêncio que exaustiva em um só relatório, inclusive porque
permite arbitrariedades, que fatos sejam dis- os cenários político e social que sustentam
torcidos e manipulados, que o poder corrompi- esses mecanismos de violência continuam se
do se imponha sobre os direitos que deveriam intensificando e complexificando ano a ano no
organizar a vida em sociedade. É contra isso Brasil e no mundo.
que lutamos e porque continuamos a publicar Neste relatório, apresentamos os da-
este Relatório todos os anos. dos das graves violações contra comunica-

4
dores: homicídios, tentativas de assassinato zes por meios institucionais, tendo também
e ameaças de morte que ocorreram em 2019 efeitos deletérios para a liberdade de expres-

Introdução
e dados preliminares do primeiro semestre de são e o direito à informação no país.
2020. No entanto, a cada ano cresce a convic- Para compreender essa construção
ção de que focar a análise somente nessas vio- da censura, também é fundamental perceber,
lações mais graves, de atentados diretos con- para além da ação direta de autoridades públi-

Capítulo 1
tra a vida de comunicadores, não é suficiente cas contra a liberdade de expressão, o cená-
para compreender o contexto de violência. As rio mais estrutural de desigualdade social e de
violações mais extremas e graves são um as- concentração econômica e política dos meios
pecto importante desse contexto, mas a lógica de comunicação. Assim, cientes de que nossa
da violência contra comunicadores também metodologia de monitoramento de casos de
utiliza violações aparentemente mais sutis, violação pode ainda não visibilizar todos os
mas que têm um impacto enorme na limitação setores sociais fundamentais para a garantia
da liberdade de expressão. E que corroboram da liberdade de expressão, trazemos também
para a perpetuação das violações e da impu- uma análise do papel da comunicação comu-
nidade que concorrem para os desfechos mais nitária e popular no combate à desinformação
graves e até fatais. e no fortalecimento da pluralidade de vozes e
Entre esses outros tipos de violações, da luta por direitos e resistência de territórios
têm se destacado nos últimos anos as agres- e comunidades pelo país.
sões digitais contra comunicadores que, mui- Essas perspectivas de análise aqui
tas vezes, são realizadas de maneira massiva apresentadas apresentam uma parte do pro-
e impactando a saúde, a segurança pessoal e blema, e estamos cientes de que há ainda
a própria disposição de continuar atuando no pontos ausentes neste estudo, mas que são
campo. Ainda que essas violações digitais se- igualmente importantes para entender a
jam realizadas por uma diversidade de atores, violação à liberdade de expressão, como os
nos últimos dois anos destaca-se o papel que o recortes de gênero e raça que impactam o
grupo político que hoje ocupa a Presidência da trabalho de comunicadoras de vários perfis
República tem na intensificação dessas violên- no país, e as especificidades da violência
cias. O que vemos são violações sistemáticas digital como forma de ataque a mulheres co-
cometidas por altas autoridades do Estado que municadoras. Temos que avançar no enten-
servem de sinalização para que ataques digi- dimento de como o vigilantismo do Estado
tais massivos busquem deslegitimar, desquali- afeta o trabalho de comunicadores e como
ficar e silenciar comunicadores que produzam um processo de criminalização cada vez mais
matérias críticas ao Presidente da República e intenso coloca em risco esse trabalho. Temos
seu grupo político. que entender melhor o papel da crescente
Nesse sentido, retomamos as obriga- militarização (e milicialização) no silencia-
ções que o Estado brasileiro assumiu perante mento de comunidades e territórios por meio
a comunidade internacional como ângulo de de violações massivas e sistemáticas que
análise para entender como o Estado brasilei- acontecem e não alcançam o mesmo tipo de
ro ativamente viola a liberdade de expressão visibilidade das violações sofridas por outros
no país. Assim, entendemos que a violação setores sociais diante das discriminações es-
das obrigações de prevenir, proteger e punir truturais que ainda operam no país. Essas e
tem servido para (re)construir uma política de outras questões afetam muitas pessoas e gru-
censura no país. Se não aquela censura insti- pos, que estão na luta pela defesa de direitos,
tucional mais formal, que conhecemos no pe- inclusive o direito de existir e viver de maneira
ríodo da ditadura militar, com fechamento de livre e plena, e que contribuem para garantir a
veículos e legislação de censura, certamente pluralidade de vozes e o direito à informação
uma censura informal, mas ainda assim arti- da sociedade. A ARTIGO 19 se compromete a
culada por autoridades públicas e muitas ve- estar ao seu lado nessa luta.

5
CAPÍTULO 2

CONTEXTO INTERNACIONAL

Em outubro de 2020, a ARTIGO 19 publicou o alarmantes em países como o Brasil, Estados


seu Relatório Global de Expressão1, onde ana- Unidos, Hungria e Tanzânia.
lisa a situação da liberdade de expressão em A métrica do Relatório Global de Ex-
todo o mundo. Segundo o relatório, a liberdade pressão rastreia a liberdade de expressão em
de expressão atingiu seu menor patamar no todo o mundo. Ela reflete não apenas os direi-
mundo todo em 20 anos, com cerca de 3,9 bi- tos da mídia, de comunicadores e defensores
lhões de pessoas, 51% da população mundial, de direitos humanos e ambientais, mas qual o
vivendo em países onde a garantia deste direi- espaço existente para todos nós - como pes-
to está em crise. A queda foi puxada por restri- soas e membros de organizações - nos expres-
ções crescentes em países com grandes popu- sar, comunicar e saber. Olhamos como cada
lações, como a China, Índia, Turquia, Rússia, pessoa é livre para se comunicar on-line, pro-
Bangladesh e Irã, e por retrocessos e quedas testar, ensinar e acessar informações para ga-

1 Veja o sumário executivo do relatório aqui:


https://artigo19.org/wp-content/blogs.dir/24/files/2020/10/SumarioExecutivoGxR_PT.pdf

6
rantir sua participação social, fiscalizar o poder comparações realizadas: o indicador caiu 18
público e responsabilizar aqueles com poder. pontos em um ano. Com 46 pontos em um to-

Contexto Internacional
Foram utilizados 25 indicadores em 161 países tal de 100, o Brasil está com sua liberdade de
para criar uma pontuação global da liberdade expressão em “Restrição”, ocupando 94ª posi-
de expressão para cada país numa escala de 1 ção em um ranking de 161 nações, atrás de to-
a 100. Estas pontuações colocam os países em dos os países da América do Sul, com exceção
uma de cinco categorias: da Venezuela. Essa forte queda coloca o país
muito próximo de ser classificado como “alta-
0 – 19 Em crise mente restrito”, sinalizando um alerta para a

Capítulo 2
20 – 39 Altamente restrito sociedade brasileira sobre o cenário que está
40 – 59 Restrito à nossa frente, em que ficará ainda mais difí-
60 – 79 Pouco Restrito cil reconstruir alguns dos pilares democráticos
80 – 100 Aberto que vem sendo derrubados no país. O relatório
indica que o declínio acelerou com a chegada
O Brasil está em destaque negativo no relató- de Jair Bolsonaro à Presidência da República
rio: apresentou a queda mais expressiva no in- no início de 2019, com uma queda de 28% em
dicador de liberdade de expressão em todas as apenas um ano.

O OLHAR INTERNACIONAL PARA


A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO BRASIL
Por Silvia Chocarro2

A violência contra jornalistas e comunicado- progressivos - casos que carecem de qualquer


res continua a crescer ao redor do mundo. mérito e frequentemente são protocolados
Enquanto o ano de 2019 teve o menor núme- para promover a auto censura dos comunica-
ro de homicídios desde o começo dos anos dores, bem como o abuso ou uso errôneo do
20003, outras formas de ataque passaram a instituto da difamação e das leis antiterroris-
se desenvolver. Não há dúvidas de que a que- mo e de segurança nacional.4 A legislação re-
da no número de assassinatos de jornalistas lativa às informações falsas, ou fake news, tem
é uma boa notícia, mas devemos estar mais sido usada para restringir conteúdos não favo-
vigilantes que nunca, na medida em que ato- ráveis aos governos, ainda mais no contexto
res estatais e paraestatais passaram a usar da pandemia de Covid-19.5 Ser jornalista está
outras estratégias para silenciar estes profis- se tornando mais e mais perigoso durante a
sionais. Ao redor do mundo, jornalistas estão cobertura de protestos e eleições, ou enquan-
sendo confrontados a partir de assédios legais to cobrindo casos de corrupção ou relativos

2 Silvia Chocarro é a Coordenadora Global de Proteção da ARTICLE 19. @silviachocarro


3 A Repórteres Sem Fronteiras documentou a taxa mais baixa desde 2003:
https://rsf.org/en/news/rsf-yearly-round-historically-low-number-journalists-killed-2019
O Comitê para proteção de jornalistas documentou o númeto de homicídios mais baixo desde 2002:
https://cpj.org/reports/2019/12/journalists-killed-murdered-syria-mexico-impunity
4 ARTIGO 19. Relatório Global de Expressão 2019/2020. O estágio da liberdade de expressão ao redor do mundo.
https://www.article19.org/wp-content/uploads/2020/10/GxR2019-20report.pdf
5 Kaye, David. HRC 44/49 Relatório do Relator Especial para promoção e proteção do direito da liberdade de
expressão. Doença, pandemia e a liberdade de opinião e expressão.  https://www.undocs.org/A/HRC/44/49

7
ao meio ambiente, recursos naturais e direitos destaca o relatório, “dado o tamanho e a influ-
humanos, incluindo direitos das mulheres e da ência do Brasil, essa queda livre dos direitos

Contexto Internacional
comunidade LGBTQI+. humanos tem um efeito significativo na região
A crescente tendência global de cam- como um todo.”7
panhas de deslegitimação e estigmatização O Brasil, assim como outros Estados,
de jornalistas por agentes políticos - fazendo está negligenciando seu dever de proteger jor-
uso, inclusive, de linguagem misógina contra nalistas de acordo com a legislação interna-
mulheres jornalistas e comunicadoras - requer cional de direitos humanos, e o cumprimento
atenção particular. Esta inclui chefes de Esta- de seus compromissos assumidos em diver-

Capítulo 2
do, como o presidente brasileiro Jair Bolsona- sas resoluções das Nações Unidas. O Brasil
ro, que pessoalmente realizou 10 ataques con- co-lidera as resoluções de segurança de jor-
tra jornalistas por mês no ano de 2019, com nalistas no Conselho de Direitos Humanos das
sua aspereza direcionada especialmente aos Nações Unidas e, portanto, deve ser exemplo
ativistas do movimento indígena e às mulheres de sua aplicação.
negras.6 O Brasil viu, de fato, a maior queda na Se os Estados implementassem suas
liberdade de expressão nos últimos dois anos, obrigações e compromissos, a violência contra
de acordo com o Relatório Global de Expressão jornalistas cessaria. Em resumo, ao que o Bra-
da ARTIGO 19, que analisou 161 países. Como sil e outros Estados se comprometeram?

Prevenir que ataques aconteçam:

Criar e manter um ambiente livre e seguro para jornalistas e profissionais da imprensa, bem
1 como para a sociedade civil, que desempenha papel vital para a segurança de jornalistas;

2 Condenar todos os ataques contra jornalistas e a impunidade predominante;

Parar de desligitimar, intimidar ou ameaçar a mídia e os jornalistas, ou de usar linguagem


3 misógina contra mulheres jornalistas, que minam a confiança na mídia;

Parar de fazer uso errôneo de leis vagas para coibir a liberdade de expressão, incluindo as leis
4 de difamação, leis sobre desinformação ou legislação antiterrorismo e anti extremismo;

Respeitar a liberdade dos jornalistas de ter acesso à informação mantida pelas


5 autoridades públicas.

6 ARTIGO 19. Organizações denunciam governo brasileiro no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.
10 de Março de 2020.  https://artigo19.org/blog/2020/03/10/organizacoes-denunciam-governo-brasileiro-no
-conselho-de-direitos-humanos-das-nacoes-unidas/
7 ARTIGO 19. Relatório Global de Expressão 2019/2020. O estágio da liberdade de expressão ao redor do mundo.
https://www.article19.org/wp-content/uploads/2020/10/GxR2019-20report.pdf

8
Proteger jornalistas para minimizar o impacto dos ataques

Contexto Internacional
1 Estabelecer mecanismos de resposta rápida contra ameaças;

2 Abordar o assédio sexual e outras formas de violência sexual e com viés de gênero;

Capítulo 2
3 Proteger a prática legal de confidencialidade das fontes de jornalistas;

Garantir criptografia e anonimato e evitar fazer uso de técnicas de


4 vigilância arbitrárias ou ilegais;

Aprimorar mecanismos de monitoramento e de captação de informações,


5 inclusive as da sociedade civil.

Processar os responsáveis pelos ataques e providenciar reparação:

Garantir, nas investigações, a conduta imparcial, pronta, completa, independente e efetiva


1 para todas as violências, ameaças e ataques alegados;

2 Adotar protocolos e métodos de investigação e persecução sensíveis às questões de gênero;

Apoiar o treinamento e conscientização do judiciário, das forças policiais e militares sobre os


3 padrões internacionais sobre liberdade de expressão e segurança dos jornalistas;

Garantir que as vítimas e suas famílias tenham acesso à resolução apropriada, bem como à
4 compensação e assistência.

Os Estados devem ser responsabilizados


pelos compromissos assumidos. Se eles
falham, está em nossas mãos erguer nossas
vozes. É hora de responsabilizá-los.

9
CAPÍTULO 3

PANORAMA GERAL DA VIOLÊNCIA


CONTRA COMUNICADORES

O período que compreende o ano de 2019 e o violações diretamente por nossos pesquisado-
primeiro semestre de 2020 seguiu, em linhas res. Dessa forma, há uma série de outros casos
gerais, as tendências de violência contra co- não incluídos nos números apresentados nes-
municadores observadas nos anos anteriores, se relatório, por não ser possível delimitar se a
com 38 graves violações, sendo 27 em 2019 violação foi decorrente do exercício da comu-
e 11 no primeiro semestre de 2020. Das 38 nicação. Vale também destacar que os dados
graves violações de todo o período analisado, do primeiro semestre de 2020 são prelimina-
foram 32 ameaças de morte, quatro tentativas res e existem outros casos que ainda estão
de assassinato e dois homicídios. sendo investigados.
Em primeiro lugar, destaca-se que dentro das Considera-se, assim, que o patamar
categorias consideradas graves – homicídio, dos últimos anos se manteve estável no que
ameaça de morte e tentativa de assassinato diz respeito a essas violações mais graves, com
– houve possibilidade de apuração dessas 38 uma média histórica de 30 casos por ano, es-

Gráfico 1 – TIPOS DE VIOLAÇÃO

HOMICÍDIO TENTATIVA DE ASSASSINATO AMEAÇA DE MORTE


2 CASOS 4 CASOS 32 CASOS

10
pecialmente levando-se em conta que não foi os casos fossem apurados com maior profun-
possível identificar qualquer indício de trajetó- didade. No mesmo sentido, é importante ob-

Panorama geral das graves violações


ria de queda real de casos, sendo que uma leve servar que, tanto nos dados do ano de 2019
oscilação de um ano para o outro é normal. quanto nos de 2020, há notável subnotificação
Já o número de casos monitorados de casos, perceptível na narrativa dos comuni-
em geral – ou seja, além dos mais graves – ul- cadores e jornalistas contatados e na falta de
trapassou a marca de 200 violações por ano, notificação e publicidade de casos que consi-
acima do observado nas mensurações ante- deramos graves.
riores. Se podemos verificar uma leve redução A subnotificação é marcada pela vul-
em casos de homicídio, a violência contra nerabilidade cada vez maior colocada sobre
comunicadores como um todo não diminuiu. os meios de comunicação popular e comuni-
Pelo contrário: cada vez mais os relatos de- tária, pela dificuldade em realizar denúncias,

Capítulo 3
monstram o aumento da violência velada, de pelas condições sociais de legitimidade das
difícil denunciação e a falta de amparo estatal denúncias de mulheres, negras e negros e
para a proteção dos profissionais da impren- da população LGBTQI+ e o impacto dessas
sa – o que, por si só, também configura uma na possibilidade de exercer a comunicação
forma de violência. e acessar a justiça, e pela visível postura do
Deve-se destacar também que o pri- Estado em deslegitimar o exercício da comu-
meiro semestre de 2020 foi marcado pela nicação e exercer, como ator direto ou indi-
pandemia de Covid-19, pela crise política e reto, a violência contra comunicadores. Estes
pelo marco de primeiro ano do governo do Pre- pontos serão aprofundados ao longo do rela-
sidente Jair Bolsonaro. Os dados de violações tório para melhor compreensão dos dados e
a comunicadores, dessa forma, são reativos à também pelo fato de que tais aspectos da vio-
conjuntura observada, que indica a necessida- lência contra comunicadores colocam novos
de do aprofundamento do debate e formulação desafios para a produção responsável de da-
de estratégias de proteção. dos sobre essas violações. É de extrema rele-
Se os dados gerais de 2019 já suge- vância que se compreenda que, muitas vezes,
riam que a violência contra comunicadores au- algumas narrativas não são alcançadas pelas
mentou, de forma geral, 2020 intensifica essa estratégias de captação de dados aqui utili-
percepção. No primeiro semestre deste ano, zadas - o que não significa que tais espaços,
foram identificados ao menos 160 casos de veículos e profissionais não sofreram ataques
violações contra jornalistas e comunicadores. em decorrência do exercício da comunicação.
Assim, em um semestre, 2020 ultrapassou os Considerando os desafios apresenta-
casos registrados em todo ano de 2019. das - o deslocamento dos ataques aos co-
Nesse contexto, se destaca o crescen- municadores para o meio digital e a atuação
te atrito com comunicadores e veículos de negativa dos órgãos governamentais e agen-
imprensa gerado pelo Governo Federal, agu- tes políticos frente aos direitos de liberdade
çado pelo contexto da pandemia de Covid-19 de expressão e acesso à informação, entre
e os embates relativos à divulgação de dados outros - se apresentam novas questões para
sobre o vírus e sobre a inação do governo fede- os futuros monitoramentos e apurações de
ral em elaborar políticas de contenção da dis- violências contra jornalistas e comunicado-
seminação da doença e reação as crises. Essa res, bem como a revisão das categorias de
conjuntura também foi marcada pelo aumento violência e de quantificação de sua gravida-
da violência na esfera digital, já identificada de. Estes aspectos metodógicos do presente
nos dados relativos ao ano anterior. Relatório devem servir como subsídio para
Cabe destacar que a observação se- que se amplie o escopo de análise e se re-
mestral pode ter apresentado impacto na cap- visem os paradigmas tradicionais de análise
tação e construção dos dados, considerando de midia e violência contra comunicadores
que houve menos tempo disponível para que no Brasil e no mundo.

11
COMPREENDENDO AS GRAVES VIOLAÇÕES DE DIREITOS
Ano de 2019 e 1º semestre de 2020

Panorama geral das graves violações


Quem sofreu violações

Em primeiro lugar, se faz necessário apresen- Dentre os comunicadores que relataram ter
tar o que a ARTIGO 19 entende por comunica- sofrido graves violações em 2019, 17 (63%)
dor: para nós, comunicadora ou comunicador narraram ter sofrido violações anteriores, sen-
é aquela/e que exerce a comunicação como do estas, em sua grande maioria, ameaças de
atividade regular, independente de remunera- morte – ou seja, estes comunicadores sofre-

Capítulo 3
ção e de certificação acadêmica ou profissio- ram, por mais de uma vez, graves violações,
nal. O exercício da comunicação, dessa forma, indicando a falta de estrutura que lhes possi-
é compreendido a partir do direito humano da bilite segurança.
liberdade da expressão, não sendo possível li- A grande maioria dos comunicadores
mitá-lo. Jornalistas e repórteres profissionais, que sofreu grave violência em 2019 buscou as
radialistas, blogueiros, repórteres fotográficos autoridades (77%). Destes 21 casos que che-
e cinematográficos, colunistas, apresentado- garam à polícia por meio de Boletim de Ocor-
res, comunicadores populares e comunitários, rência, em 9 casos não houve investigação. Ou
chargistas, midiativistas, entre outros, são o seja, em quase metade dos casos nos quais as
que, aqui, denominamos comunicadores. autoridades foram acionadas, não houve res-
O perfil que mais sofreu graves viola- posta efetiva.
ções foram os jornalistas e repórteres - 22 dos Somam-se aos dados a observação
27 casos graves de 2019 e cinco dos 11 casos de que, dentre os comunicadores que sofre-
do início de 2020. Em 2019, as demais viola- ram graves violações, apenas 2 passaram a
ções foram cometidas contra radialistas; 22 receber proteção após a violação, sendo que
dos casos foram cometidos contra homens, e ambos recebem proteção privada. Portanto,
5 contra mulheres comunicadoras. No ano de nenhum conta com proteção policial ou forne-
2020, diversificou-se o perfil de comunicado- cida pelo estado, mesmo que a grande maio-
res alvejados pelas graves violações, com ata- ria não esteja passando pela primeira violação
ques graves contra radialistas (3), colunistas grave. O risco e o medo, na maioria dos relatos,
(1), apresentadores (1) e blogueiros (1). são persistentes, podendo influenciar no exer-

Gráfico 2 – VIOLAÇÕES POR PERFIL DA VÍTIMA EM 2019 E 2020

JORNALISTA OU REPÓRTER 2 HOMICÍDIOS


26 CASOS 24 AMEAÇAS DE MORTE

RADIALISTA 3 TENTATIVAS DE ASSASSINATO


9 CASOS 6 AMEAÇAS DE MORTE

BLOGUEIRO
1 TENTATIVA DE ASSASSINATO
1 CASO

APRESENTADOR
1 AMEAÇA DE MORTE
1 CASO

COLUNISTA
1 AMEAÇA DE MORTE
1 CASO

12
cício da comunicação e gerar autocensura, ameaças de morte recebidas pelos comunica-
ainda que estes não relatem com frequência a dores. A tendência se repete e se amplifica em

Panorama geral das graves violações


interrupção dos trabalhos como comunicador 2019, e pode ser analisada em conjunto com
ou a produção do conteúdo que despertou a uma frequente banalização dessa forma de
situação de violência. violência, seja pelos profissionais do campo da
Olhando para o perfil das violações, comunicação, pelas autoridades, pelo agres-
destaca-se o alto número de ameaças de mor- sor ou pela sociedade civil.
te. Nos dados de 2019 e início de 2020, fo- A classificação dos casos enquanto
ram 32 ameaças de morte para 2 homicídios violações graves segue o critério da percep-
e 4 tentativas de assassinato. De forma geral, ção pessoal do comunicador sobre a violên-
grande parte dos casos de ameaças de morte cia sofrida. Quando não foi possível estabele-
registrados aqui contou com ameaças múlti- cer contato com o comunicador para fins de

Capítulo 3
plas, multidimensionais e perpassadas pelo apuração do caso e qualificação da análise,
anonimato do ambiente digital, e não raro es- não houve a inclusão do mesmo nos ca-
tes foram interpretados como ‘coisa cotidiana’. sos aqui apresentados. Os casos em que a
O Relatório de Violações de 2018 apontou “a violência não teve relação com o exercício
frequência de ataques online e a quantidade de da comunicação, ainda que cometida contra
agressores é de difícil mensuração e identifica- profissional do meio, também não integram
ção” como um dos desafios para a análise das os dados deste relatório.

Onde aconteceram as violações

A região Sudeste concentrou a maior parte das nos anos de 2014 (3 casos) e 2018 (2 casos),
violações no período analisado, com 16 casos, sendo expressivo o aumento da violência con-
com destaque para os estados do Rio de Ja- tra comunicadores no estado no último ano.
neiro (6 casos, incluindo um homicídio) e São Apenas em 2013 e 2014 os dados apontaram
Paulo (8 casos). Até então, o Relatório de Viola- a região Sudeste como sendo a mais violenta
ções só havia apurado casos no Rio de Janeiro para a categoria. Não obstante, as denúncias

Gráfico 3 – MAPA DE GRAVES VIOLAÇÕES EM 2019 E 2020

MARANHÃO
PIAUÍ
CEARÁ NORDESTE
RIO GRANDE DO NORTE 11 CASOS
PARAÍBA
SERGIPE
PARÁ
NORTE
RORAIMA 5 CASOS
AMAZONAS
ESPÍRITO SANTO
MINAS GERAIS SUDESTE
RIO DE JANEIRO 16 CASOS
SÃO PAULO
MATO GROSSO DO SUL CENTRO-OESTE
MATO GROSSO 3 CASOS
PARANÁ SUL
RIO GRANDE DO SUL 2 CASOS
EXTERIOR
PARAGUAI
1 CASO

13
de violência nesta região são crescentes como Da mesma forma que nas mensurações dos
um todo - e não somente contra comunicado- anos anteriores, a maior parte das violações

Panorama geral das graves violações


res -, em meio à crise de segurança pública. ocorreu em cidades pequenas8, totalizando
Na sequência, a região que mais con- 58% (22) das ocorrências apuradas.
centra relatos de casos graves é a Nordeste, Na sequência, temos as cidades gran-
totalizando 11 casos, sendo nove casos de des com 29% (11) dos casos e as médias com
ameaça de morte e dois de tentativas de assas- 13% (5). Nota-se que as violações cometidas
sinato. Apenas em 2013 e 2014 a região teve em cidades grandes se dividem majoritaria-
indicadores mais baixos que estes no que tan- mente entre Rio de Janeiro e São Paulo em
ge as violações graves. Seguem a região Norte suas respectivas capitais, restando apenas
com cinco casos, Centro-Oeste com três casos duas violações fora da região (Aracajú – SE e
e Sul com dois casos. Manaus - AM).

Capítulo 3
Quem cometeu as violações

Nos últimos anos, os dados apontam para po- mais uma vez, o crescimento das violências
líticos eleitos, especialmente no âmbito local, na esfera da internet e das redes sociais, que
como principais autores das graves violações agora não apenas se coloca como central
contra comunicadores. Em 2019, entretanto, nas violações menos graves, como também
o cenário mudou: o destaque de quem come- nas mais graves. Conforme apresentado no
teu as violações está no campo da violência Relatório de Violações de 2018, um traço
digital, muitas vezes cometida sob anonimato marcante dos ataques online é o fato deste
ou por cidadãos comuns, acumulando 13 ca- ser voltado para a figura pessoal do comuni-
sos (34%). Nesses casos, é difícil a identifica- cador, em grande parte dos casos. No perí-
ção do perfil do autor da violação, geralmente odo observado neste relatório esse cenário
não se enquadrando em nenhuma categoria se intensifica, tomando a posição de primeiro
tradicional. Ainda que os políticos ocupem lugar do perfil do agressor dos ataques mais
a segunda posição, é importante ressaltar, graves no ano.

Gráfico 4 – VIOLAÇÕES POR PERFIL DO AGRESSOR EM 2019 E 2020

ATAQUES VIRTUAIS
13 AMEAÇAS DE MORTE
13 CASOS

POLÍTICOS 6 AMEAÇAS DE MORTE


6 CASOS

AGENTES PÚBLICOS
5 AMEAÇAS DE MORTE
5 CASOS
CRIME ORGANIZADO 1 HOMICÍDIO + 1 TENTATIVA DE ASSASSINATO + 2 AMEAÇAS DE MORTE
4 CASOS

GRILEIRO / FAZENDEIRO / LATIFUNDIÁRIO


2 AMEAÇAS DE MORTE
2 CASOS

NÃO FOI POSSÍVEL APURAR 1 HOMICÍDIO + 3 TENTATIVAS DE ASSASSINATO + 4 AMEAÇAS DE MORTE


8 CASOS

8 Utilizamos os critérios do IBGE para classificar o tamanho das cidades. Cidades pequenas são as que têm menos de
100 mil habitantes, cidades médias entre 100 mil e 500 mil habitantes e cidades grandes mais de 500 mil habitantes.

14
LISTA DE CASOS
DE VIOLAÇÕES GRAVES EM 2019 E INÍCIO DE 2020

Panorama geral das graves violações


Homicídios

Vítima Perfil Data Cidade/UF Aparente motivação

Produção de conteúdos
Romário Barros Repórter 19.06.19 Maricá/RJ críticos sobre política e
segurança pública local

Capítulo 3
Pedro Juan Investigação sobre
Lourenço (Leo) Veras Jornalista 12.02.20
Caballero/Paraguai crime organizado

Em 2019, apenas no caso de Romário Barros a ganizado na região da fronteira. Em depoimen-


apuração se direcionou no sentido de identifi- to para o documentário “Impunidade cala”9, o
car uma relação entre o exercício da profissão jornalista apontou as especificidades da vio-
e a violência. O comunicador, que atuava em lência contra jornalistas e comunicadores na
seu próprio portal de notícias, foi morto por região fronteiriça, e a ineficiência do Estado
três tiros, em frente a sua casa. Ainda que a brasileiro em garantir a liberdade de expressão
investigação policial não tenha indicado sus- e de imprensa: o profissional contava somente
peitos, familiares e colegas destacam que o com proteção oferecida pelo poder público Pa-
profissional não tinha grandes desavenças, e raguaio - o que não conseguiu no Brasil.
que as matérias de tom crítico sobre questões No documentário, Leo relata: “eu
policiais e de política local seriam a única coi- sou um dos jornalistas que está ameaçado
sa que efetivamente o colocava em risco, não na região de fronteira e sou protegido pelo
sendo possível dissociar sua atuação enquanto governo paraguaio, pela Justiça paraguaia,
comunicador de sua morte. com escolta policial 24 horas. E, já do lado
No primeiro semestre de 2020, foi re- brasileiro, a gente não tem essa proteção. O
gistrada uma ocorrência de homicídio. O jorna- que a gente gostaria é que nos dois lados
lista Lourenço (Leo) Veras foi assassinado na a gente pudesse estar protegido. Você não
cidade de Pedro Juan Caballero, na divisa do tem mais vida social, a partir das ameaças
Paraguai com o Brasil, aos 52 anos. O crime se- você tem um novo caminho pra manter a sua
guiu um padrão comum em grande parte dos segurança, manter a segurança da família...
homicídios de jornalistas e comunicadores: são muda totalmente a sua vida.”. Após o assassi-
assassinados em emboscadas, por pistoleiros nato, sua família segue recebendo a proteção
que fogem após a execução. O jornalista foi as- da polícia paraguaia.
sassinado dentro de sua própria casa casa, en- Em maio, agentes da Polícia Nacional
quanto jantava com a família, por homens que do Paraguai prenderam o suposto mandante
invadiram a residência e desferiram 12 tiros do homicídio, Waldemar Pereira Rivas, cuja
contra ele. O jornalista já havia sofrido diver- ficha criminal evidencia, também, sua rela-
sas ameaças, tendo aparecido anteriormente ção com os grupos investigados por Leo Veras.
em outros Relatórios de Violações da ARTIGO O suspeito nega envolvimento com o crime,
19. Estas aparentemente foram motivadas por ainda que evidências (não confirmadas pelas
suas coberturas sobre a atuação do crime or- autoridades) apontem que ele abrigou um dos

9 Assista aqui o minidocumentário “Impunidade Cala”, da ARTIGO 19: https://vimeo.com/144645397

15
pistoleiros que matou Leo Veras, após sua fuga e judiciais, considerando a falta de jurisdição
do local da execução. A investigação não foi sobre território alheio. Ainda assim, se mostra

Panorama geral das graves violações


concluída e há suspeita de envolvimento de necessário que o Estado brasileiro seja capaz
outros líderes de organizações criminosas no de oferecer segurança eficaz para os jornalis-
caso - alguns destes que tiveram suas identi- tas que trabalham nestes contextos, que por
dades expostas às autoridades pelo jornalista. vezes são afastados do seu país de origem e de
Ainda que o suspeito tenha sido encontrado seu convívio social e familiar por medo de en-
e detido, seguem existindo muitos pontos em trar em território nacional e, consequentemen-
que faltam informações sobre o contexto do te, colocar sua integridade em risco. Há que se
crime, bem como sobre os suspeitos. destacar que continua se tratando de episódio
As zonas fronteiriças apresentam uma no qual o Estado brasileiro falhou em oferecer
série de dificuldades no que tange à violência segurança para o jornalista já ameaçado, ainda

Capítulo 3
contra jornalistas e comunicadores, dificultan- que um dos suspeitos tenha sido detido pelas
do, inclusive, os procedimentos investigativos autoridades paraguaias.

Tentativas de assassinato

Vítima Perfil Data Cidade/UF Aparente motivação

Investigação sobre má gestão do


Toni Reis Radialista 17.01.19 Sindrolândia/MS
orçamento público municipal

Conteúdo crítico à
João Marcolino Neto Blogueiro 19.05.20 Caraúbas/RN
administração municipal

Alto do Rodrigues/ Conteúdo crítico à


Paulinho Porto Radialista 01.05.20
RN administração municipal

Conteúdo crítico à
Vamberto Teixeira Radialista 09.04.20 Sete Lagoas/MG
administração municipal

Dos casos de tentativas de assassinato apu- conteúdos críticos à administração municipal


rados em 2019, em apenas um se verificou a como possíveis motivações da violência.
existência de correlação entre a atividade do João Marcolino Neto foi alvejado por
comunicador e a violação. O atentado a Toni tiros em Caraúbas, no Rio Grande do Norte,
Reis aconteceu após uma denúncia sobre uso enquanto conversava com alunos da escola
indevido do dinheiro público municipal. Não é em que ministra aulas. Ainda que tenha sido
a primeira tentativa de assassinato que o co- grave o acontecido, a atuação das instâncias
municador sofre: em 2015, dois tiros foram de investigação é lenta e expõe o comunicador
disparados contra a casa do mesmo, também a risco: desde o ocorrido, João já sofreu novas
após uma denúncia relacionada à má gestão ameaças, ainda que tenha informado à inves-
do orçamento público da cidade. Desta vez, tigação a placa do carro em que os executores
um galão de gasolina foi arremessado em sua estavam no momento da violação.
residência – que também é sede de seu veí- Até então, fontes que acompanham o
culo de comunicação -, ateando fogo no carro caso de perto acreditam no envolvimento do
utilizado pelo comunicador e pela sua família. poder público no caso. João foi ainda preso por
No primeiro semestre de 2020, foram denúncia de posse ilegal de arma de fogo, e
monitoradas três ocorrências de tentativa de seus bens - incluindo aqueles usados no exer-
assassinato. Todas as três possuem em comum cício de sua profissão - foram apreendidos pela

16
Polícia Civil, que os manteve em sua posse qual só conseguiu se libertar pulando do carro
além do prazo legalmente determinado, aguar- em movimento. O comunicador já havia sofri-

Panorama geral das graves violações


dando até decisão judicial para a liberação dos do ameaças anteriormente, principalmente
mesmos. O comunicador relata clima de gran- pelo meio digital. O radialista, seus colegas de
de insegurança ao seu redor, gerado pela ame- profissão e as instâncias de investigação não
aça sofrida e pelas retaliações posteriores. apresentaram suspeitas sobre quem seriam os
No dia primeiro de maio de 2020, mandantes e executores do crime.
Paulinho Porto retornava para casa após rea- Vamberto Teixeira teve sua casa alve-
lização de seu programa de rádio quando foi jada por tiros no começo de abril. Os vizinhos
surpreendido por outro veículo, do qual desce- conseguiram descrever para a polícia caracte-
ram homens que o agrediram e atearam fogo rísticas dos atiradores e do carro que usaram
em sua moto, dizendo que o radialista deveria para chegar no local, mas as investigações não

Capítulo 3
parar de fazer críticas à administração do mu- tiveram, até então, alguma conclusão ou sus-
nicípio de Alto de Rodrigues. Os homens o co- peita sobre a autoria do crime. O radialista rela-
locaram dentro do veículo em que estavam, do ta não ter sido alvo de ameaças anteriormente.

Ameaças de morte

Vítima Perfil Data Cidade/UF Aparente motivação

Produção de conteúdo de denúncia sobre a


Adécio Piran Jornalista 30.08.19 Novo Progresso/PA
questão ambiental

Alex Carvalho Radialista 03.12.19 Aracajú/SE Posicionamento político

Produção de conteúdo de denúncia sobre


Carlos de Lannoy Repórter 06.04.19 Rio de Janeiro/RJ
questões de segurança pública

Investigação de temas sensíveis para a


Clóvis Messerschmidt Jornalista 03.09.19 Ibirubá/RS
comunidade local

Produção de conteúdo de denúncia sobre a


Débora Alves Repórter 26.08.19 Uruará/PA
questão ambiental

Cacimba Produção de conteúdo crítico sobre a


Dércio Alcântara Jornalista 12.12.19
de Dentro/PB questão educacional

Castelo dos Produção de conteúdo de denúncia sobre


Douglas Araújo Jornalista 30.01.19
Sonhos/PA questões de segurança pública

Fábio Estrela Dantas Radialista 10.02.19 Sousa/PB Produção de conteúdo esportivo

Produção de conteúdo crítico sobre a


Fábio Pannunzio Jornalista 17.07.19 São Paulo/SP
gestão pública federal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Glenn Greenwald Jornalista 09.06.19 Rio de Janeiro/RJ
gestão pública federal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Gorete Videres Jornalista 28.08.19 Cajazeiras/PB
gestão pública municipal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Ilton Santos Radialista 09.05.19 Morrinhos/CE
gestão pública municipal

Produção de conteúdo crítico sobre a vida


João Saconi Repórter 14.09.19 Rio de Janeiro/RJ
particular de políticos

Juca Kfouri Jornalista 10.01.19 São Paulo/SP Posicionamento político

17
Vítima Perfil Data Cidade/UF Aparente motivação

Panorama geral das graves violações


Produção de conteúdo crítico sobre
Juliana Dal Piva Repórter Abril/19 Rio de Janeiro/RJ
documentário pró-ditadura militar

Produção de conteúdo de denúncia sobre


Juliet Manfrin Repórter 14.03.19 Cascavel/PR
questões de segurança pública

Produção de conteúdo crítico sobre a


Justino Filho Radialista 10.05.19 Imperatriz/MA
gestão pública municipal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Leandro Demori Jornalista 10.06.19 Rio de Janeiro/RJ
gestão pública federal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Leandro Lima Jornalista 22.04.19 Matupá/MT
gestão pública municipal

Capítulo 3
Produção de conteúdo crítico sobre a
Márcio Bikanca Jornalista 29.11.19 Parnaíba/PI
gestão pública municipal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Marcolino Borges Radialista 03.12.19 Choró/CE
gestão pública municipal

Mauro Cezar Pereira Jornalista 2019 São Paulo/SP Produção de conteúdo esportivo

Produção de conteúdo crítico sobre a


Mônica Bergamo Jornalista 2019 São Paulo/SP
gestão pública federal

Produção de conteúdo crítico sobre a


Renato Pantanal Jornalista 03.12.19 Colniza/MT
relação entre latifundiários e políticos locais

Cobertura de questões de segurança


Waslley Leite Repórter 31.05.19 Vitória/ES
pública e crime organizado

Alex Braga Jornalista 23.07.20 Manaus/AM Denúncias sobre a administração estadual

Candeias
Carlos Caldeira Jornalista 21.07.20 Críticas à administração municipal
do Jamari/RO

Denúncias e críticas relacionadas à


Djamila Ribeiro Colunista 27.07.20 Ataque digital (SP)
temática racial

João Costa Radialista 06.2020 Ataque digital (PB) Críticas ao Governo Federal

Divugação de conteúdo sensível em


Luiz Bacci Apresentador 02.2020 Ataque digital (SP)
programa ao vivo

Denúncia de crime relacionado à agente


Rafael Ventura Jornalista 20.05.20 Ribeirão Pires/SP
político

Rafael Ventura Jornalista 05.2020 Ataque digital (SP) Cobertura relativa à pandemia de Covid-19

Foi possível apurar 25 ameaças de morte con- de 2020, foi possível confirmar a correlação de
tra comunicadores no ano de 2019. Vale desta- setes casos de ameaça de morte com o exer-
car que em 2018 foram incluídas neste mesmo cício da comunicação. Dentre essas, destaca-
relatório 26 ameaças, sendo este o maior nú- mos que quatro foram feitas por meios digitais,
mero desse tipo de violações já registrada pela dificultando a apuração de autoria - mas não
ARTIGO 19, e se identificou o aumento como diminuindo os efeitos deste tipo de violação
proveniente dos números crescentes de ame- na sensação de insegurança dos jornalistas e
aças online. Em 2019 a tendência se mantém, comunicadores que, muitas vezes, se sentem
sendo que 36% (9) destas violações tiveram coagidos a não continuar exercendo a profis-
esse formato. Durante os seis primeiros meses são de forma livre.

18
CAPÍTULO 4

A DESINFORMAÇÃO COMO RISCO À SAÚDE


PÚBLICA: ATAQUE A COMUNICADORES
COBRINDO A CRISE DA COVID-19

É necessário destacar o contexto da pandemia monitoradas e apuradas, em sua maioria, não


de Covid-19 e os seus impactos nas formas de são passíveis de execução à distância ou vir-
ataque e nas estratégias de proteção de jorna- tualmente - com exceção da ameaça de morte
listas e comunicadores. A pandemia alimentou -, há uma diminuição do número de casos que
diversos debates sobre a importância do traba- provavelmente está relacionada ao contexto
lho da imprensa na divulgação de informações do isolamento social. A confirmação dessa hi-
confiáveis para a população - principalmente pótese, no entanto, depende de mais estudos
por meio de informativos sobre as medidas de e levantamentos.
contenção da disseminação do vírus propostas O deslocamento do trabalho jornalísti-
pelas organizações nacionais e internacionais co para o ambiente doméstico com a adoção
de saúde, e sobre as estatísticas federais e re- do home office por grande parte dos veículos
gionais de contaminação e óbitos. Assim, en- de comunicação, bem como a necessidade
tendemos que a mídia se tornou parte impres- de realizar cada vez menos saídas - que, por
cindível do combate à Covid-19 no Brasil. sua vez, se tornaram mais caras, com alta mo-
A conjuntura da pandemia se apre- vimentação de recursos humanos e de saúde
sentou como um dos possíveis motivos para para garantir a integridade física do comunica-
a diminuição do número de casos de graves dor que realiza a cobertura - e a insegurança
violências contra comunicadores no primeiro gerada pela possibilidade de contaminação
semestre de 2020, quando comparados com e pelo crescente número de óbitos, são al-
os números semestrais de anos anteriores. guns dos fatores que distanciaram boa parte
Considerando que as graves ameaças aqui dos profissionais do meio da comunicação do

19
trabalho de campo. Assim, os números de ca- período observado neste relatório foram moti-

A desinformação como risco à saúde pública: ataques a comunicadores cobrindo a crise da Covid-19
sos mais graves diminuem uma vez que os jor- vadas por conteúdos sobre o Covid-19. Desde
nalistas e comunicadores estiveram menos que foram confirmados os primeiros casos da
em espaços públicos e, consequentemente, doença no Brasil, a ARTIGO 19 passou a mo-
menos expostos à violência que é empregada nitorar os casos de ataques relacionados a co-
para silenciá-los. berturas sobre a pandemia, registrando, até o
Nesse aspecto, as medidas de higiene final de agosto, ao menos 82 ataques. Quase
e assepsia voltadas para a contenção do vírus 10% destes casos ocorreram durante cobertu-
foram essenciais para garantir a saúde daque- ras em hospitais e comércios que permanece-
les que tiveram que sair a campo durante o ram abertos contrariando Decretos municipais
período. Não obstante, o período da pandemia e estaduais, bem como as políticas de preven-
impôs aos veículos de imprensa e trabalhado- ção contra o vírus. Estas, em sua totalidade,
res do campo da comunicação a necessidade foram interrompidas, por vezes contando com
de pensar cada vez mais na segurança e prote- agressões físicas e verbais, colocando em risco
ção do trabalho jornalístico de forma holística, a segurança dos jornalistas ali presentes.
indo para além das estratégias de segurança Os dados do monitoramento específi-
física contra o vírus. co sobre ataques à imprensa e Covid-19 mos-
O contexto do isolamento social e o tram, ainda, que 72% dos ataques registrados
deslocamento das atividades dos profissionais foram realizados diretamente por membros
do campo da comunicação para o meio digital do Governo Federal, pelo Presidente da Re-
apresentou, também, a necessidade de priori- pública e políticos associados, revelando um
zar debates sobre a segurança de jornalistas cenário em que o descrédito da informação,
e comunicadores no meio virtual, conside- do trabalho da imprensa e as agressões contra
rando evidente aumento dos ataques neste jornalistas são abertamente incentivadas por
ambiente. Durante o ano de 2019, foi possível membros do atual mandato.
registrar 44 ataques no meio digital, dentre as No mesmo sentido, lembramos dos
139 violações monitoradas no total. Ainda que momentos em que o Presidente negou medi-

Capítulo 4
o aumento de 2019 já seja marcante frente aos das para a proteção dos jornalistas e comuni-
anos anteriores, o primeiro semestre de 2020 cadores que realizavam coberturas no Palácio
permite observar intensificação mais laten- da Alvorada, expôs jornalistas à contaminação
te dessa forma de violência: dentre o total de dando entrevista sem máscara após testar po-
160 violações observadas no primeiro semes- sitivo para Covid-19 e acusou - diversas vezes
tre, 85 foram no meio digital. Portanto, nota-se - os meios de comunicação de espalhar histeria
que em apenas um semestre o ano de 2020 já e prejudicar a economia ao realizar a cobertura
apresenta quase o dobro do número ataques da pandemia. O sentimento de desconfiança
virtuais ocorridos em 2019. criado pelos agentes políticos ao redor do tra-
Da mesma forma, pode-se inferir, a balho informativo, mobilizando narrativas sobre
partir da comparação dos números coletados, a pandemia e colocando em jogo a vida de mi-
que o aumento explícito do número geral de lhões de brasileiros através da política de desin-
casos entre um ano e outro é proveniente, tam- formação, é incompatível com a demanda ur-
bém, de um aumento exponencial do número gente de melhoria da condição brasileira frente
de violências cometidas online, bem como pela às crises agravadas pela pandemia de Covid-19.
sofisticação nas ferramentas de captação de Vale destacar que no contexto de de-
dados sobre violências nessa esfera. sinformação crescente e do incentivo por au-
Foi possível identificar grande número toridades públicas a uma relação hostil com
de violências contra jornalistas e comunicado- a imprensa, o Brasil se tornou um dos países
res relacionadas à coberturas e conteúdos so- mais afetados no mundo todo pela pandemia,
bre a pandemia: 12,5% das 160 violações con- registrando mais de 160 mil mortes em novem-
tra jornalistas e comunicadores registradas no bro de 2020.

20
CAPÍTULO 5

O PAPEL DA COMUNICAÇÃO
COMUNITÁRIA E POPULAR NO COMBATE À
DESINFORMAÇÃO E NO FORTALECIMENTO
DE SEUS TERRITÓRIOS
Gizele Martins10

Em meados de março, após as primeiras ferias”. A Campanha nacional começou com


notícias sobre o início da pandemia do novo a publicação de um manifesto divulgado pe-
coronavírus (Covid-19) no Brasil, comunica- las redes sociais. Este documento, escrito
dores comunitários e populares de diversas por diversas mãos, solicitava aos governan-
favelas e periferias de todo o país se or- tes uma série de medidas para prevenção,
ganizaram e se mobilizaram para realizar a cuidados e atenção básica aos povos mais
“Campanha Coronavírus nas Favelas e Peri- pobres do país.11

10 Gizele Martins é comunicadora comunitária da MARÉ (RJ). Jornalista e mestre em educação, cultura e
comunicação em periferias urbanas
11 Coronavírus: comunicadores de periferias e favelas se articulam para informar sobre pandemia
https://almapreta.com/editorias/realidade/coronavirus-comunicadores-de-periferias-e-favelas-se-articulam
-para-informar-sobre-pandemia

21
No Rio de Janeiro, o mesmo ocorreu, comuni- cada semana. Além disso, áudios, artes de rua
cadores de diferentes favelas e periferias se pelas paredes da favela, cards e lives para as

O papel da comunicação popular e comunitária no combate à desinformação


mobilizaram para produzir informações sobre o redes sociais foram feitas pelas 16 favelas da
novo vírus voltadas para o público das favelas. Maré, com todas as informações revisadas por
Os comunicadores perceberam que as informa- agentes de saúde da própria localidade.
ções veiculadas pelas mídias comerciais não O objetivo desde o início foi o de infor-
atendiam à realidade da favela, afinal, como la- mar aos moradores da Maré sobre os cuidados,
var as mãos constantemente se historicamente os principais sintomas da Covid-19, orientar
as favelas sofrem com a falta de abastecimento aos moradores de quando e como procurar
de água, não é mesmo?12 o hospital mais próximo. Além disso, as men-
Na Favela da Maré, um conjunto de sagens em todos os canais alertavam para a
16 favelas e com uma população de 140 mil importância da essência de ser favela, dos mo-
moradores, localizado na Zona Norte do Rio radores sempre lembrarem da solidariedade
de Janeiro, a campanha nacional foi adaptada local. Por exemplo, na divisão de água e álcool.
para a realidade local. Mais de 20 coletivos de Com o passar do tempo, a Frente
comunicação, educação e artes se organiza- Maré, assim como os outros comunicadores
ram e fizeram nascer a Frente de Mobilização que fizeram campanhas de comunicação em
da Maré, somando mais de 100 voluntários da suas favelas, passou a sentir a necessidade
própria favela. Ainda em março, rapidamente de abraçar outros desafios, já que o número
este grupo montou um plano de comunicação de moradores enviando mensagens e dizendo
que conseguisse atender os mais diferentes que estavam com fome, sem emprego, apoio
públicos da favela. 13 ou remédios passou a crescer neste período de

Capítulo 5
Na primeira semana, a Frente de Mo- pandemia. Daí, inicia-se a busca por apoio de
bilização da Maré também lançou uma cam- cestas básicas, por doações de máscaras, de
panha virtual para conseguir apoio financeiro, álcool, EPI’s e tantas outras demandas que co-
já que nenhum dos coletivos tinha qualquer meçaram a surgir nas favelas.
quantia para colocar em prática as inúmeras As novas demandas exigiram destes
ações planejadas e emergenciais. Com as pri- comunicadores mais organização e mais bus-
meiras doações, o plano de comunicação co- cas por apoios: reuniões com diversos sindi-
meçou a ser posto em prática: carros de som, catos, organizações de direitos humanos e
mais de 30 faixas e mais de mil cartazes foram autoridades públicas para apoios políticos e
colados pelos comércios, bares e igrejas a de atenção às favelas foram feitas. Reuniões

12 Em tempos de coronavírus, mais importante que higienizar as mãos com álcool em gel é lavá-las com água e
sabão diversas vezes ao dia. Esta é uma das principais recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)
e do Ministério da Saúde para que a população consiga combater a pandemia em todo o mundo. Mas a realidade
nas favelas do Rio de Janeiro está muito distante do ideal para evitar a Covid-19. https://www.brasildefa
to.com.br/2020/03/23/favelas-do-rio-sofrem-com-falta-d-agua-e-populacao-fica-mais-vulneravel-a-coronavirus.
12 dias sem solução: Moradores da Rocinha continuam sem água e a CEDAE não tem previsão do reabastecimen-
to - A equipe do Voz das Comunidades esteve no local conversando com os moradores que já não aguentam mais
viver nessa situação. https://www.vozdascomunidades.com.br/destaques/12-dias-sem-solucao-moradores-da-ro
cinha-continuam-sem-agua-e-a-cedae-nao-tem-previsao-do-reabastecimento/
13 Frente de Mobilização da Maré, atua para minimizar os terríveis efeitos da pandemia do Covid-19 nas
comunidades locais. Somos mais de 50 voluntários engajados nessa luta, entre moradoras e moradores,
comunicadores populares, assistentes sociais e profissionais das áreas de Educação e Saúde. Desde o início do
mês de março, o coletivo está realizando uma grande campanha de comunicação comunitária em todo o território
local, esclarecendo as pessoas sobre os sintomas da Covid-19, procedimentos de prevenção, com ênfase na
urgência do afastamento social. Retirado da página https://www.frentemare.com/sobre/campanha

22
online com possíveis apoiadores financeiros, Atualmente, com a flexibilização por parte
procura por editais, além de visitas às clínicas dos governantes, as doações financeiras, as-

O papel da comunicação popular e comunitária no combate à desinformação


das famílias, também fizeram parte dessa fase sim como as de cestas e materiais de higiene
da pandemia. O mais difícil, sem dúvida, foi li- caíram, o que fez diminuir também as ações
dar com tantas pessoas doentes e outras que locais na Maré em diversas outras favelas. O
morreram no período. Eram muitas as famílias difícil é diminuir um trabalho como este sa-
procurando apoio para compra de remédios, bendo que a pandemia ainda continua e que a
para testes, mas, infelizmente, também para população mais afetada do Rio é negra, pobre
apoio nos enterros de seus parentes que mor- e favelada - sem dúvidas uma realidade tam-
reram de Covid-19. bém em outros estados brasileiros.

Falta de financiamento,
equipamentos e censura são
alguns dos principais desafios que
comunicadores e comunicadoras

Capítulo 5
enfrentam historicamente no
Rio de Janeiro e no Brasil

Nos parágrafos acima foram mencionados al- Mas, estes mesmos meios de comunicação
guns exemplos de campanhas sobre a pan- enfrentam cotidianamente enormes desafios:
demia do novo coronavírus e que dão a di- falta de financiamento; não há cumprimendo
mensão do que foi e está sendo realizar esse de leis por parte dos governantes no que se
trabalho dentro dos locais empobrecidos, refere à garantia da liberdade de expressão;
como nas favelas do Rio de Janeiro. Sabe- falta de equipamentos de tecnologia; acesso à
mos que o país inteiro teve comunicadores internet, sem contar nas ameaças e censuras
se organizando para trabalhar neste período enfrentadas diariamente por muitos dos comu-
a comunicação e mobilização interna. Estes nicadores comunitários.
comunicadores, junto aos seus tradicionais O Brasil, que há algumas décadas se
meios de comunicação, vêm ao longo dos declara como um país democrático, ainda não
anos construindo memórias, fortalecendo ter- teve coragem de enfrentar o debate sobre a
ritórios e mobilizando ideais, pensamentos e democratização da comunicação. Poucas fa-
práticas nos seus locais. mílias concentram poucas mídias comerciais

23
no país e quem faz comunicação na favela ou ainda a atuação das Unidades de Polícia Pa-
em outros espaços empobrecidos sofre com a cificadora (UPPs). São polícias ditas comu-

O papel da comunicação popular e comunitária no combate à desinformação


falta de qualquer tipo de incentivo, de atenção, nitárias que estão instaladas há mais de 10
apoio, valorização. anos em algumas favelas. Por causa delas,
No Rio de Janeiro, por exemplo, para muitas rádios comunitárias e rádios postes
além de todos estes problemas menciona- foram fechadas pelas autoridades e pelas
dos acima, comunicadores ainda conviveram polícias por denunciarem as violações come-
e convivem com as constantes ameaças e tidas pelas UPPs, assim como ocorreu anos
censuras por parte do poder público, já que atrás na Favela Santa Marta, localizada na
dentro de muitas das favelas e periferias há Zona Sul do Rio.14

A CENSURA E A
CRIMINALIZAÇÃO

No Conjunto de Favelas da Maré, o mesmo local humanos é o que costuma estar mais presente
que fez essa enorme campanha durante a pan- por causa das constantes violações estatais.
demia com a organização da Frente de Mobili- Em suas pautas, ao longo dos anos, são tam-

Capítulo 5
zação da Maré neste ano de 2020 (trabalho que bém tratadas a defesa da identidade local e a
só foi possível porque há mais de 20 anos essa auto-estima dos moradores que pertencem ao
favela é referência na construção de mídias co- conjunto de favelas. O trabalho de mobilização
munitárias: rádios, TVs, páginas do Facebook, local é outro destaque dos meios comunitários.
mídias impressas, etc), é a favela que nos úl- Todos estes veículos têm como característica a
timos anos também ficou marcada por sofrer produção feita por moradores locais.
inúmeras violações e ter muitos dos seus comu- Um dos piores períodos para se fazer
nicadores comunitários até mesmo ameaçados comunicação comunitária na Maré foi durante
e algumas mídias comunitárias fechadas. os anos de 2014 e 2015, pois por causa da rea-
Nas mídias que são produzidas e cir- lização da Copa do Mundo o governo brasileiro
culam na Maré, historicamente são trabalha- colocou o exército dentro dela. Nesta época,
das matérias direcionadas à cultura nordes- qualquer evento cultural ficou proibido de ser
tina, negra, indígena, e o tema dos direitos realizado sem a permissão do comandante:

14 Em 2010, o rapper e comunicador comunitário Fiell, morador do Santa Marta, favela localizada na Zona
Sul, a primeira a receber a Unidade de Polícia Pacificadora, foi agredido por policiais da UPP. Fiell e outros
comunicadores comunitários de outras favelas do Rio, além de militantes de organizações de direitos humanos
que atuam na cidade, inauguraram a Rádio Comunitária Santa Marta. Todo o processo de construção da rádio foi
coletivo. Festas, assembleias, reuniões e cursos de técnicas de comunicação e sobre a história da comunicação
popular e comunitária foram promovidos na favela.
A rádio ficou logo conhecida pelos moradores. A participação era grande e denúncias sobre as violações
cometidas pela UPP eram divulgadas constantemente. Não por acaso, Fiell foi agredido diversas vezes pela
polícia local. Depois de inúmeras violações e invasões da polícia na sala em que funcionava a rádio, a polícia
federal conseguiu fechar a emissora. Fiell foi levado preso pelos agentes de segurança e até hoje paga um valor
como multa por ter construído junto aos moradores uma rádio comunitária. (Retirado do Livro Militarização e
Censura: A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré; Martins, Gizele)

24
churrasco na rua; festa de aniversário; jogo de te. Desde que o atual Presidente da República,
futebol; etc. Foi uma ruptura no cotidiano dos Jair Bolsonaro, ganhou as eleições, ele direcio-

O papel da comunicação popular e comunitária no combate à desinformação


moradores. Como já era habitual, os comunica- na diversos ataques a jornalistas e aos meios
dores comunitários começaram a relatar essas de comunicação de todo o país.
proibições culturais e tantas outras violações: Um relatório produzido pela organiza-
Fotos, matérias e vídeos foram produzidos ção Repórteres Sem Fronteiras, em 2019, inti-
quase que diariamente sobre cada fato. As de- tulado “Um período sombrio que se anuncia”,
núncias eram publicadas em sites, blogs, redes chama atenção para esses ataques: “Amea-
sociais nas páginas do Jornal O Cidadão, do ças, agressões, assassinatos. O Brasil continua
Maré Vive, e em outras mídias da Maré. Mídias sendo um dos países mais violentos da Améri-
nacionais e internacionais replicavam os con- ca Latina para a prática do jornalismo”. O mes-
teúdos. Além disso, parte destes relatos eram mo relatório coloca o Brasil no 105º lugar entre
encaminhados a órgãos responsáveis pela de- os países mais violadores do mundo.16 É pre-
fesa dos direitos humanos.15 ciso garantir o direito à comunicação e o não
Com o passar do tempo, no entanto, o fechamento de rádios comunitárias. O conte-
exército interveio nas ações dos comunicado- údo de denúncia sobre as violações do Estado
res em 2014 e 2015. Os que já estavam habitu- às populações negras, faveladas e periféricas
ados a realizar trabalhos ligados à comunicação precisa continuar enquanto houver um Estado
comunitária (como saraus, rodas de conversas violador de direitos. A liberdade de expressão
e/ou qualquer outro tipo de iniciativa que lidas- necessita deixar de ser um mito no país.17 O
se com as questões que envolvessem os temas governo precisa garantir esse direito para que
da favela e direitos humanos) passaram a so- comunicadores de favelas e periferias mante-

Capítulo 5
frer perseguição por parte do governo brasilei- nham as suas ferramentas de comunicação
ro, que investiu e apoiou a invasão do exército ativas. É preciso que o Estado e a sociedade
na Maré. Neste período, soldados faziam visi- reconheçam e valorizem a comunicação co-
tas constantes aos locais em que funcionavam munitária, uma comunicação que não é só vol-
as mídias, identificavam comunicadores nas tada para a população, mas é feita por e com
ruas, revistavam celulares, ameaçavam e até as populações locais.
expulsaram comunicadores da Maré. É perceptível a importância destas
Ou seja, a falta de apoio, de financiamento, a mídias e dos comunicadores comunitários
censura e a falta de liberdade de expressão são dentro das favelas e periferias do Rio e de
regras no nosso país. Hoje, temos no poder um todo o país. Elas comunicam, informam, tra-
governo de extrema direita que ameaça jorna- balham a defesa da identidade e cultural, va-
listas e comunicadores, inclusive, publicamen- lorizam a solidariedade e o trabalho local, co-

15 Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro; Anistia
Internacional; Witness; Artigo 19; Justiça Global; Defensoria Pública do Rio de Janeiro.
16 Em 2018 ao menos quatro jornalistas foram assassinados no país em decorrência da sua atividade. Na
maioria dos casos, esses repórteres, locutores de rádio, blogueiros e outros comunicadores mortos cobriam
e investigavam tópicos relacionados à corrupção, políticas públicas ou crime organizado, particularmente em
cidades de pequeno e médio porte em todo o país, nas quais estão mais vulneráveis. A eleição de Jair Bolsonaro
em outubro de 2018, após uma campanha marcada por discursos de ódio, desinformação, violência contra
jornalistas e desprezo pelos direitos humanos, é um prenúncio de um período sombrio para a democracia e a
liberdade de imprensa. O horizonte midiático ainda é bastante concentrado no Brasil, sobretudo ao redor de
grandes famílias (com frequência próximas da classe política). O direito ao sigilo das fontes já foi questionado em
diversas situações no país e muitos jornalistas e meios de comunicação são alvos de processos judiciais abusivos
.(Relatório produzido pela organização Repórteres Sem Fronteiras, demonstra que o Brasil ocupa o 105º lugar no
Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2019)

25
bram políticas públicas para os favelados, etc. próprios governantes e seus apoiadores. Mas
Mas, infelizmente, é perceptível também a elas precisam resistir e continuar, pois um

O papel da comunicação popular e comunitária no combate à desinformação


perseguição a estes meios e comunicadores, trabalho como o que foi feito nos primeiros
já que eles trazem uma contra-informação 6 meses da pandemia, só foi possível porque
sobre o que a mídia comercial veicula sobre estas mesmas mídias e seus comunicadores
as favelas, além de denunciarem também as resistiram por tantos anos defendendo e pra-
constantes violações de direitos que as po- ticando uma comunicação comunitária feita
pulações pobres sofrem dentro destes terri- para e com as populações locais. Ou seja: ela
tórios marginalizados e criminalizados pelos necessita continuar!

CAMPANHA
#CompartilheInformação
#CompartilheSaúde

Capítulo 5
A campanha Entre as inscrições, dezenas
#CompartilheInformação de ações potentes de coletivos,
#CompartilheSaúde surgiu num organizações, fóruns e
momento crítico e trouxe um movimentos que são formados
alerta: informação de qualidade é por comunicadores, jornalistas,
essencial, sobretudo num cenário radialistas, estudantes e outros —
de crise econômica, política, social todas empenhadas em apresentar
e de saúde. perspectivas plurais sobre os
impactos das crises e da pandemia,
Por meio de uma chamada aberta, e apontar caminhos para
em maio, a ARTIGO 19 buscou afirmar direitos, compartilhando
apoiar ações de comunicação informação e saúde.
popular, periférica, comunitária e
autônoma e fortalecer uma rede Neste momento de pandemia de
de trocas neste momento crítico: Covid-19 e das crises agravadas
foram mais de 100 inscritos e, ao no atual cenário, 23 parceiros/as
final, 23 iniciativas contempladas envolvidos nesta campanha pelo
em 12 Estados brasileiros. direito à informação na pandemia
deixam um legado importante:
informação confiável vem da
pluralidade de vozes e da união
de iniciativas diversas em seu
campo de atuação, localidades e
territórios.

26
CAPÍTULO 6

O PAPEL DO ESTADO
NA INTENSIFICAÇÃO DAS VIOLAÇÕES
CONTRA COMUNICADORES

O Estado brasileiro, por meio de sua parti- comunicadores em situação de risco; e a obri-
cipação em organismos internacionais de gação de investigar, processar e punir quando
direitos humanos, assinatura de tratados e uma violação ocorre.
convenções internacionais, é responsável pe- Essas obrigações são balizas impor-
rante a comunidade internacional17 pela ga- tantes que nos ajudam a avaliar não só a situ-
rantia efetiva dos direitos humanos no país. ação geral do direitos humanos no país, mas o
Além disso, esses padrões internacionais de papel específico do Estado em reproduzir ou
direitos humanos, também encontram eco na intensificar o cenário de violações de direitos,
Constituição Federal de 1988 e na legislação quando assumiu o dever de atuar para garan-
nacional de garantia de direitos humanos. ti-los. Assim, ao analisarmos como o Estado
Com base nessa responsabilidade assumi- brasileiro tem descumprido cada uma das vio-
da, o Estado tem três obrigações principais lações, podemos identificar quais as reformas
a cumprir: a obrigação de prevenir que vio- institucionais mais urgentes para garantirmos
lações aconteçam; a obrigação de proteger a efetivação da liberdade de expressão no país.

17 Existem diversos documentos de organismos internacionais que organizam esses padrões internacionais e que
informam a análise feita neste relatório. Para referência, o principal documento utilizado aqui foi o relatório da
Relatoria Especial para Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos publicado em
2013 e que sistematiza uma análise dos padrões interamericanos de proteção a comunicadores: https://www.oas.
org/pt/cidh/expressao/docs/publicaciones/2014%2008%2029%20PROTECAO%20JORNALISTAS%20final.pdf

27
O DISCURSO PÚBLICO DE AUTORIDADES
E A OBRIGAÇÃO DE PREVENIR VIOLAÇÕES

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


CONTRA COMUNICADORES

Uma das obrigações internacionais do Estado mas internacionais e nacionais que visem
brasileiro é a de prevenir que violações contra garantir o respeito ao exercício profissio-
a liberdade de expressão ocorram. Segundo os nal, a liberdade de expressão, liberdade
padrões internacionais, a obrigação de prevenir de imprensa e o direito à informação”.18
engloba uma série de responsabilidades e prin-
cípios, destacando-se as obrigações de adotar Com base nessa recomendação central para
um discurso público que contribua à prevenção garantir a prevenção a violações, a ARTIGO
da violência contra jornalistas; de instruir as for- 19 monitorou declarações públicas realizadas
ças de segurança sobre o respeito aos meios de pelo Presidente da República, seus ministros,
comunicação; de respeitar o direito de jornalis- seus filhos com mandatos eletivos e outros
tas ao sigilo de suas fontes de informações, ano- assessores próximos desde que o Presidente
tações e arquivos pessoais e profissionais; de Jair Bolsonaro assumiu o governo, em janeiro
manter estatísticas precisas sobre a violência de 2019. No período entre janeiro de 2019

Capítulo 6
contra jornalistas. Esse conjunto de responsa- e setembro de 2020 foram monitorados 449
bilidades deve orientar tanto o desenvolvimen- ataques, agressões ou declarações deslegiti-
to de políticas públicas quanto o próprio com- madoras contra comunicadores realizando seu
portamento de autoridades públicas no que diz trabalho de informar a população sobre assun-
respeito ao trabalho de comunicadores. tos de interesse público.
No entanto, na prática, o que vemos é A natureza dos ataques pode ser clas-
algo muito diferente: o Estado brasileiro e auto- sificada de diferentes maneiras. A violação
ridades públicas de alto escalão não só ignoram mais comum identificada, que representa
esses padrões básicos, mas sistematicamente 42% dos casos monitorados, foi o uso de dis-
os violam. Um exemplo importante dessa viola- curso estigmatizante, que foram ataques em
ção sistemática diz respeito à primeira e mais que comunicadores e veículos de mídia foram
básica responsabilidade dentro da obrigação acusados de manipular o conteúdo jornalístico
de prevenir violações: a obrigação de adotar produzido para tentar desestabilizar o governo
um discurso público que contribua à preven- ou deteriorar a imagem do Presidente. Aqui
ção da violência contra jornalistas. estão os casos de conteúdos chamados de
A importância desse princípio é tama- mentirosos ou categorizados como ‘fake news’
nha que, além de padrões internacionais de de forma genérica, sem que tenha sido apre-
direitos humanos, há padrões nacionais que sentada qualquer evidência disso, bem como
orientam autoridades públicas em como se os momentos em que foram associados à par-
comportar diante o trabalho de comunicado- cialidade maliciosa, com uma postura política-
res, como é o caso da recomendação nº 07, de -militante com objetivos escusos.
13 de junho de 2019, do Conselho Nacional de Um outro tipo de violação muito co-
Direitos Humanos, que mum nesse conjunto de declarações monito-
radas, identificada em 38% do casos, é a des-
recomenda que o tratamento dado a co- legitimação do trabalho da imprensa, em que
municadores por parte dos agentes públi- se vislumbra, de forma ampla, a associação da
cos siga diretrizes estabelecidas em nor- imprensa e do trabalho jornalístico a termos

18 https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-de-direitos-humanos-
cndh/Recomendaon7tratamentodadoacomunicadoreserespeitoliberdadedeexpresso.pdf

28
pejorativos e coloca em xeque a própria natu- Pôde-se observar que a exposição de jornalista
reza e importância do trabalho jornalístico. ou comunicador gerou, quase na totalidade dos
Além do crescente descrédito da po- casos, ataques em massa nas mídias sociais do
pulação nos meios de comunicação e infor- mesmo. Em alguns casos, ocorreu vazamento
mação causadas por esses tipos de violação, de dados pessoais do jornalista e/ou de seus fa-
tanto a estigmatização quanto a deslegitima- miliares e amigos, que por vezes também foram
ção do trabalho da imprensa criam um con- alvejados por ataques nas redes. Ainda, é im-
texto de desinformação crescente, uma vez portante destacar que mesmo que a exposição
que as informações trazidas ao público pela não venha com qualquer menção ao exercício
imprensa acabam associadas a uma suposta do trabalho jornalístico, há consequente des-
estratégia política escusa que só produz in- qualificação do trabalho do mesmo. Em muitos
formações falsas. Além disso, esse discurso casos - em especial, na exposição de mulheres
contribui para o aumento da hostilidade social jornalistas e comunicadoras -, a prática de ex-
ao trabalho de jornalistas e comunicadores, posição esteve associada com a mobilização
criando um ambiente que propicia a ocorrên- de conteúdos discriminatórios, como forma de
cia de violações mais graves, como agressões não somente expor, mas dar um caráter de in-
físicas, ameaças de morte ou mesmo atenta- significância à pessoa exposta.
dos à vida de comunicadores. Um dos casos emblemáticos de expo-
Esse cenário de incentivo ao aumento sição de jornalista e dos seus efeitos é o de
da hostilidade contra comunicadores é refor- Patrícia Campos Mello. A jornalista - que já ha-
çado por outras violações monitoradas nessas via sofrido ataques anteriores por suas cober-
declarações, como a exposição de jornalista turas relacionadas à política - foi exposta por
ou comunicador, que corresponde a 23% dos Eduardo Bolsonaro durante a CPMI das Fake
casos aqui monitorados. Isso acontece em si- News, quando o Deputado sugeriu que a pro-
tuações em que informações pessoais como fissional teria se insinuado sexualmente para
nome, imagem e até contas pessoais de mídias uma de suas fontes obter informações. Na
sociais de jornalistas são divulgadas, associan- sequência, o Presidente Jair Bolsonaro disse
do não só o conteúdo do trabalho do jornalista, em coletiva que a jornalista “queria dar o furo
mas sua própria identidade pessoal a caracte- a qualquer custo”. Essas declarações geraram
rísticas negativas ou discriminatórias. ataques em massa à profissional, que teve

Gráfico 5 – VIOLAÇÕES NAS DECLARAÇÕES DE AUTORIDADES

DISCURSO ESTIGMATIZANTE
189 CASOS ~42%

DESLEGITIMAÇÃO DO TRABALHO DA IMPRENSA ~38%


170 CASOS
EXPOSIÇÃO DE COMUNICADOR
~23%
104 CASOS
IMPEDIMENTO INFORMATIVO ~4%
20 CASOS
INTIMIDAÇÃO INSTITUCIONAL ~2%
8 CASOS
MOBILIZAÇÃO DE CONTEÚDOS DISCRIMINATÓRIOS ~2%
8 CASOS
OMISSÃO INSTITUCIONAL
4 CASOS ~1%

*TOTAL *Alguns casos foram classificados


449 CASOS em mais de uma categoria

29
suas redes sociais ocupadas por mensagens houve intimidação institucional. O presidente
de cunho agressivo, misógino e, por vezes, expressamente mobilizou conteúdos discrimi-

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


ameaçador. Este caso permite notar as de- natórios nestes ataques em 3% dos casos.
corrências profundas da exposição dos pro- Os filhos de Jair Bolsonaro que tam-
fissionais da imprensa por agentes políticos, bém exercem mandatos eletivos e compõem o
cuja voz e opinião influencia e, em alguma mesmo grupo político figuraram como autores
medida, legitima ataques feitos por terceiros. de quase metade (220) dos ataques. Do total
Destacamos, ainda, que as violências que de violações registradas, Eduardo Bolsonaro
expõem mulheres jornalistas e comunicado- é autor de 24%, Carlos Bolsonaro de 19%, e
ras mobilizam discursos fundamentados nas Flávio Bolsonaro, 6%. Os ministros indicados
desigualdades de gênero, fazendo uso, em pelo presidente, ainda que tenham sido exo-
grande parte das vezes, de noções sexuali- nerados e indicados de forma frequente, figu-
zantes e relacionadas à aparência ou ataques raram em 27% dos ataques (119).
a sua família, como forma de desestabilizar a Não só jornalistas foram expostos in-
profissional e deslegitimar o conteúdo por ela dividualmente (23% do total de casos), por
produzido. meio de acusações, exposição de fotos e
Dentre os 449 ataques registrados, de nomes - gerando, em grande parte das
aproximadamente 23% (102) partiram do vezes, ataques virtuais em massa -, como

Capítulo 6
Presidente da República, que se manifestou alguns veículos de comunicação também
de forma vexatória e incendiária contra a im- foram sistematicamente alvejados nesse pe-
prensa por meio de postagens e transmissões ríodo. A Rede Globo e suas afiliadas foram
ao vivo nas mídias sociais (60%), coletivas nominalmente atacadas ao menos 114 vezes
de imprensa, discursos e pronunciamentos (25% dos casos). A Folha de São Paulo, por
(34%), entrevistas (4%), entre outros. Dentre sua vez, teve 56 ataques registrados (12%
estas manifestações do Presidente, 39% (40) dos casos). O jornal Estado de São Paulo foi
apresentaram deslegitimação do trabalho da atacado 22 vezes (5%). Ao mesmo tempo, ve-
imprensa. Além dessas, 39% (40) contaram ículos com a linha editorial mais próxima dos
com discurso estigmatizante sobre a mídia. posicionamentos do Presidente foram men-
Em 13% (13) dos casos, o Presidente expôs cionados de forma positiva e não violenta,
jornalistas e comunicadores, gerando ataques mostrando a direção da intervenção dos polí-
massivos contra estes nas redes sociais. Em ticos direcionadas aos veículos que têm feito
12% (12) dos casos houve impedimento infor- uma cobertura crítica em relação às ações do
mativo, em 4%, omissão institucional e em 2% governo federal.

Gráfico 6 – AUTORES DAS VIOLAÇÕES

~27
~23
%
% MINISTROS DO GOVERNO FEDERAL
PRESIDENTE JAIR BOLSONARO 119 CASOS
102 CASOS

~2 %
OUTROS
8 CASOS
~49 %
FILHOS DO PRESIDENTE
COM MANDATO ELETIVO
TOTAL 220 CASOS
449 CASOS

30
O MECANISMO DE PROTEÇÃO BRASILEIRO
E A OBRIGAÇÃO DO ESTADO DE PROTEGER
COMUNICADORES EM SITUAÇÃO DE RISCO

Além de prevenir que violações aconteçam, o Essa inclusão, no entanto, tem um efeito
Estado brasileiro tem a obrigação de oferecer mais simbólico de reconhecimento da situ-
medidas de proteção a comunicadores que es- ação de violência sistemática sofrida por co-
tejam em situação de risco. Nesse sentido, o municadores, já que na prática ela ainda não
principal mecanismo criado no Brasil para ar- se efetivou.
ticular medidas de proteção é o Programa de Segundo informações obtidas pela
Proteção a Defensores de Direitos Humanos ARTIGO 19 em reuniões com a equipe gestora
(PPDDH), do governo federal. Criado em 2005, do PPDDH, nos quase dois anos desde que os
também a partir da mobilização que se seguiu comunicadores foram formalmente incluídos
com o assassinato da missionária Dorothy como parte do programa, somente dois comu-
Stang, no Pará, o foco do mecanismo sempre nicadores foram atendidos pela equipe federal
esteve no atendimento de defensores de direi- do Programa. Isso demonstra que existe um
tos humanos, com destaque para defensores descolamento grande entre o cenário geral de
de terra e território. Diferentemente de outros hostilidade e violência contra comunicadores e
mecanismo importantes na região, como o da a atuação do Programa para incidir nesse con-
Colômbia e o do México, que há bastante tem- texto. Além disso, mesmo que houvesse uma
po previram o atendimento a comunicadores, inclusão real de comunicadores, as medidas
o mecanismo brasileiro só passou a incluir Co- de proteção já oferecidas aos defensores de
municadores Sociais em seus escopo de aten- direitos humanos atendidos pelo programa são
dimento em setembro de 2018, depois de anos consideradas bastante ineficientes e precárias
de pressão da sociedade civil organizada. pela sociedade civil.

Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos,


Comunicadores Sociais e Defensores Ambientais:
histórico, funcionamento e críticas

Em 12 de fevereiro de 2007, o Governo Fe- Programa Nacional”19. Segundo o Manual, é


deral instituiu o Decreto 6.044, que aprovou objetivo do programa:
a Política Nacional de Proteção aos Defenso-
res dos Direitos Humanos (PNPDDH), e defi- [...]proporcionar proteção e assistência
niu prazo para elaboração do Plano Nacional, à pessoa física ou jurídica, grupo, insti-
que se efetivaria apenas em novembro desse tuição, organização ou movimento so-
mesmo ano. Tal plano deu origem ao manual cial que promove, protege e defende os
de procedimentos dos programas de prote- Direitos Humanos, e, em função de sua
ção, no qual se encontram sistematizadas “as atuação e atividades nessas circunstân-
formulações estratégicas, os procedimentos cias, encontrar-se em situação de risco
metodológicos e a estrutura operacional do e/ ou vulnerabilidade”.20

19,20 Manual de Procedimentos dos Programas de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. Secretaria
Especial de Direitos Humanos. Brasília, 2017. Página 13.

31
Ao longo dos seus dez primeiros anos de exis- em reuniões da sociedade civil que preten-
tência, o mecanismo contou somente com diam criar Grupos de Trabalho temáticos que

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


esse decreto firmado em 2007 para existir. contariam com a participação de organizações
Desde 2009, o Projeto de Lei nº 4575 trami- da sociedade civil. Além de não haver até o
ta no Congresso para instituir o PPDDH como momento um movimento concreto no sentido
uma política pública. No entanto, o texto se en- da criação desses grupos, a criação deles não
contra atualmente parado e sem expectativas resolve o problema de falta de participação da
de avanços na tramitação. A última ação legis- sociedade civil no Programa, já que eles não
lativa em relação ao texto foi tomada em maio tem qualquer poder deliberativo e não inci-
de 201121. Desde então, vários requerimentos dem diretamente sobre a gestão do Programa,
foram feitos para apreciação do projeto, inclu- onde estão algumas das principais falhas ope-
sive pedindo regime de urgência, mas o projeto racionais e metodológicas. Com participação
permanece parado. social, toda a sociedade poderia se beneficiar
Em abril de 2016, em meio ao turbu- com a experiência técnica da sociedade civil
lento cenário de tramitação do processo de nesses temas, assim como sua capilaridade no
impeachment, a presidenta Dilma Rousseff contato direto com defensores e comunicado-
assinou, durante a Conferência Nacional de res em situação de risco e suas comunidades.
Direitos Humanos, o Decreto nº 8724/2016 Ou seja, além de anti-democrática, esse afas-

Capítulo 6
que trouxe mudanças críticas na estrutura tamento limita a própria eficácia do Programa.
do programa de proteção. Em primeiro lugar, Atualmente, o PPDDH faz parte da
o decreto restringiu o alcance do PPDDH a estrutura do Ministérios da Mulher, da Família
pessoas em situação de ameaça. Isso con- e dos Direitos Humanos. Embora a gestão do
traria a resolução 53/144 da OEA e o pró- mecanismo seja federal e haja uma Coordena-
prio manual de procedimentos do PPDDH, ção-Geral do Programa Nacional responsável
elaborado pela Secretaria de Direitos Huma- por atender os casos em todo o território bra-
nos (SDH) em parceria com a sociedade civil sileiro, a estrutura do mecanismo foi pensada
e outros órgãos públicos, que determina que para que ele funcione também em nível esta-
a proteção de defensoras e defensores deve dual, por meio de parcerias entre o governo
ocorrer à pessoas ou grupos em situação de federal, os Estados e entidades da sociedade
risco e vulnerabilidade, e não apenas pesso- civil. Nos Estados conveniados, a atuação do
as em situação de ameaça. Além disso, o de- Programa ocorre por meio de equipes técnicas
creto também criou o Conselho Deliberativo estaduais das entidades executoras, que são
do PPDDH, mas fixou somente a participação conveniadas por meio das Secretarias de Es-
de órgãos do Estado e excluiu a participação tado. Passados 15 anos da criação do Progra-
da sociedade civil, que luta desde o início ma, menos de um quarto dos Estados possuem
para que esse espaço seja paritário. Segun- Programas próprios em atividade23, sendo que
do a nova composição, apenas dois membros a maior parte do pais ainda é atendida exclusi-
do Ministério da Mulher, Família e Direitos vamente pela equipe federal.
Humanos e um membro do Ministério da Jus- Para o atendimento, o mecanismo bra-
tiça fariam parte do Conselho Deliberativo22. sileiro requisita que os beneficiários tenham
Recentemente, gestores do Ministério da Mu- comprovada relação com a defesa e promoção
lher, Família e Direitos Humanos anunciaram dos direitos humanos e que a haja nexo causal

21 http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=422693
22 http://www.global.org.br/wp-content/uploads/2016/10/RPU-Defensores.pdf
23 Estados com Programas ativos em 2020: MG, PE, CE, MA, PA, RJ

32
entre a situação de ameaça ou vulnerabilidade É importante destacar ainda que, ao contrário
e a atividade de defensor. O Manual de Proce- de outros programas de proteção na esfera
dimentos do PPDDH entende por violação que: federal, tal como o Programa de Proteção à
Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (PROVI-
A violação caracteriza-se por toda e TA), o PPDDH tem como tarefa prezar pela
qualquer conduta atentatória à ativida- permanência do defensor ou defensoras em
de pessoal ou institucional do defensor seu território, bem como pela continuidade
dos Direitos Humanos ou de organização de suas atividades. Para que isso seja alcan-
e movimento social que se manifeste, ain- çado, o PPDDH tem como diretriz o “forta-
da que indiretamente, sobre familiares ou lecimento do pacto federativo, por meio da
pessoas de sua convivência próxima, den- atuação conjunta e articulada de todas as
tre outras formas, pela prática de crimes esferas de governo na proteção aos Defenso-
tentados ou consumados, tais como ho- res dos Direitos Humanos e na atuação das
micídio, tortura, agressão física, ameaça, causas que geram o estado de risco ou vul-
intimidação, difamação, prisão ilegal ou nerabilidade”.25
arbitrária, falsa acusação, além de atenta- As medidas de apoio previstas pelo
dos ou retaliações de natureza política, re- Programa de Proteção têm três dimensões:
ligiosa, econômica, cultural, de origem, de atuar diretamente na segurança e bem-es-
etnia, de gênero, de orientação sexual, de tar dos defensores atendidos, contribuir para
cor e raça, de idade, dentre outras formas promover a atuação dos beneficiários na de-
de discriminação, desqualificação e crimi- fesa dos direitos humanos e articular medidas
nalização de sua atividade que ofenda a que combatam as situações estruturais de
sua integridade física, psíquica ou moral, conflito nos contextos onde esses defensores
a honra ou o seu patrimônio”.24 estão inseridos.
No entanto, ao analisar casos atendi-
Dentre as diversas diretrizes do programa, que dos pelo Programa, podemos perceber que
podem ser consultadas da leitura do manual, essa incidência estrutural nas causas dos con-
uma de suas principais missões é enfrentar as flitos que geram as violações nunca aconteceu
causas estruturantes dos conflitos. Ou seja, a – e não há nenhum plano efetivo de construir
dimensão de proteção inclui, centralmente, o medidas nesse sentido. Neste contexto, as me-
combate das causas que geraram a situação didas que são implementadas seguem sendo
de ameaça ou vulnerabilidade a que o defen- pouco efetivas para interromper o fluxo de vio-
sor ou defensora de direitos humanos foi sub- lações, como as contra comunicadores, cuja
metido, sob pena de não serem alcançados os perpetuação vem sendo captada neste relató-
objetivos da política. rio desde 2002.

Participação da Sociedade Civil

A sociedade civil acompanha o mecanismo da composição da Coordenação Nacional do


desde sua origem, contribuindo inclusive para mecanismo, um espaço paritário formado por
a sua criação. Nos dez primeiros anos de exis- órgãos públicos e organizações da sociedade
tência do mecanismo, cinco organizações civil que acompanhava e avaliava o desempe-
da sociedade civil participaram formalmente nho do Programa de Proteção.

24, 25 Manual de Procedimentos dos Programas de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. Secretaria
Especial de Direitos Humanos. Brasília, 2017. Página 13.

33
4
O último decreto que institui o desenho institu-
cional atual do programa não conta mais com A necessidade de criação, no âmbito do

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


a participação da sociedade civil. Na prática, PPDDH de um mecanismo de articulação
esse decreto acabou com a coordenação na- entre os diversos órgãos de Estado
cional do PPDDH. Mesmo diante do apelo de responsáveis pelo enfrentamento das causas
mais de 60 organizações, a então Secretaria de estruturais que geram as violações no
Direitos Humanos não corrigiu esse grave erro contexto em que os defensores e defensoras
antes do afastamento da ex-Presidenta Dilma estão inseridos;
Rousseff. Atualmente, a sociedade civil tem
5
feito incidências por meio do Conselho Nacio-
nal de Direitos Humanos, buscando a garantia A necessidade de implantação de um plano
de continuidade dessa política pública. de trabalho junto às instituições do sistema de
A Sociedade Civil e os movimentos Justiça e de segurança pública voltado para
sociais, articulados pelo Comitê Brasileiro de o monitoramento e acompanhamento das
Defensoras e Defensores de Direitos Humanos ações judiciais e de inquéritos policiais que
(CBDDH), do qual a ARTIGO 19 faz parte, sem- envolvam defensoras e defensores, seja para
pre acompanharam de perto a execução da a apuração das violações e ameaças, seja
política, encaminhando anualmente recomen- para garantir assessoria jurídica para os casos

Capítulo 6
dações ao governo federal para seu aprimora- de criminalização da sua luta em defesa dos
mento26. Inclusive, a coordenação nacional do direitos humanos;
PPDDH, conforme mencionado no item ante-
6
rior, era composta por cinco organizações da
sociedade civil, todas integrantes do CBDDH.27 A necessidade de ampliação e
O Comitê destaca como principais problemas desburocratização na parceria nos Estados
do mecanismo: federados para além da celebração de
convênios, e buscar novas formas de
1
execução da política de proteção às
A dificuldade na tramitação para a aprovação defensoras e os defensores;
do PL 4575/2009 que regulamenta o PPDDH;
7

2
A necessidade de aperfeiçoamento da
A falta de implementação do Plano Nacional metodologia de proteção, no sentido de
de Proteção às Defensoras e Defensores; atender a grupos e comunidades pelas
quais lutam as defensoras e os defensores,
3
em especial os povos e comunidades
A necessidade de ampliação da estrutura e tradicionais;
do orçamento do PPDDH no âmbito da SDH,
a fim de garantir a proteção das defensoras e
dos defensores de direitos humanos enquanto
política de Estado;

26 Exemplo de algumas cartas enviadas pelo comitê DDH com recomendações ao estado brasileira podem ser
acessadas nos seguintes links: http://www.global.org.br/wp-content/uploads/2016/03/Carta
_comit--_05_2014.pdf / https://www.ecodebate.com.br/2012/12/17/carta-do-comite-brasileiro-de
-defensorases-de-direitos-humanos-a-ministra-da-secretaria-de-direitos-humanos/   /  http://www.inesc.org.br/
noticias/noticias-gerais/2010/novembro/sociedade-civil-apresenta-recomendacoes-para-programa-de-protecao
-aos-defensores-as-de-dh
27 Terra de Direitos, Justiça Global, Movimento Nacional dos Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e
Conselho Indigenista Missionário

34
8 10

A necessidade de articulação de políticas A necessidade de criação, em caráter


sociais que atendam a dimensão da proteção emergencial, um mecanismo do PPDDH
social das defensoras e dos defensores de específico para atender a demanda dos
direitos humanos inseridos no programa, Estados da Amazônia e de Mato Grosso do
como assistência médica, psicológica e Sul, envolvendo órgãos nacionais e regionais;
previdenciária, por exemplo;
11

9
A necessidade de criação de metodologia
A necessidade de criação e capacitação específica para atuar com defensoras de
de unidades policiais especializadas para a direitos humanos, incorporando a perspectiva
proteção das defensoras e dos defensores de gênero;
de direitos humanos, bem como órgãos
12
e procedimentos especializados para o
recebimento e processamento de denúncias A necessidade de construir uma metodologia
apresentadas pelas defensoras e defensores específica para atender comunicadoras e
de direitos humanos; comunicadores, de modo a compreender as
especificidades das violações que acontecem
no contexto das violações ao direito à
liberdade de expressão.

O COMBATE À IMPUNIDADE
E A OBRIGAÇÃO DE INVESTIGAR, PROCESSAR E PUNIR
VIOLAÇÕES CONTRA COMUNICADORES

Uma obrigação fundamental do Estado é a de expressão e execução arbitrária do comunica-


investigar, processar e punir violações contra dor. O primeiro abrange toda ação, estatal ou
comunicadores. Essa dimensão é fundamen- não, que tenha interferência na livre circulação
tal para combater um dos principais aspectos e disseminação de conteúdos produzidos por
que influenciam na reprodução do cenário de estes profissionais. A execução, por sua vez, é
violações: a impunidade em crimes contra co- o homicídio doloso qualificado, conforme tipi-
municadores. ficado pela legislação brasileira, comumente
A ARTIGO 19, em 2016 e 2018, publi- praticado por motivo torpe e mediante embos-
cou relatórios28 específicos sobre a temática cada, motivado por opiniões ou críticas nega-
da impunidade nos casos de homicídio con- tivas, se tratando de crimes cometidos contra
tra jornalistas e comunicadores, de forma que comunicadores. Esta última é, também, uma
estes esforços são meios de atualizar dados, forma de violação à liberdade de expressão,
conceitos e recomendações referentes a esse em sua forma mais intensa - na qual se retira a
tipo de violação às liberdades de expressão e vida e, consequentemente, a possibilidade de
de imprensa. Em primeiro lugar, cabe diferen- falar, denunciar e criticar dos comunicadores.
ciar os conceitos de violação à liberdade de Entendemos que a execução arbitrária de co-

28 https://artigo19.org/wp-content/blogs.dir/24/files/2018/11/O-Ciclo-do-Silêncio-Relatório-2018.pdf.

35
municadores tem papel central no que tange considerando que não somente o comunica-
a violação e a restrição à liberdade de expres- dor em questão perdeu sua vida, mas também

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


são de forma ampla. Isso porque a execução sua família, amigos e colegas de profissão não
motivada pela publicação de ideias, opiniões receberam qualquer resposta satisfatória do
e informações cria ambiente de insegurança poder público. A morosidade do poder público
para o exercício da comunicação como um em oferecer respostas sobre a morte de jorna-
todo, transcendendo a pessoa que foi alvejada, listas e comunicadores, bem como de oferecer
e alcançando comunicadores de todo o país a proteção para aqueles ameaçados ou em risco,
partir do medo. A impunidade, nesse contexto, implica, assim, no aprofundamento das viola-
importa na intensificação dessa insegurança, ções à liberdade de expressão.

Os anos de 2019 e 2020:


atualizações emblemáticas e novos casos

No período de tempo observado nesse rela- cia em Edealina (GO). Em 04 de outubro de

Capítulo 6
tório, há que se destacar alguns casos rela- 2019 Leandro Cintra da Silva, foi condenado
cionados à investigações de violência contra a 14 anos de reclusão pelo envolvimento no
jornalistas e impunidade, sendo necessário crime. Não obstante, em 09 de dezembro de
atualizar o andamento de algumas investiga- 2019, o Tribunal do Júri absolveu outros dois
ções e processos relativos a execuções come- acusados: o ex-vereador José Eduardo Alves
tidas nos anos anteriores. da Silva, acusado de ser o mandante do assas-
Em maio de 2019 foi realizado novo sinato, e o caseiro Marcelo Rodrigues dos San-
julgamento de acusados pelo homicídio de tos foram condenados apenas pela corrupção
Manoel Leal de Oliveira, 21 anos após sua mor- dos menores que praticaram o crime. Os me-
te. O jornalista e proprietário do veículo ‘A Re- nores envolvidos já cumpriram as respectivas
gião’, foi assassinado na porta de sua casa em medidas educativas.
Itabuna (BA), em janeiro de 1998. As investiga- Em 17 de dezembro de 2019 o Juiz
ções do homicídio do jornalista foram retoma- Jesseir Coelho de Alcântara, da 3ª Vara Crimi-
das em 2010 após o filho do jornalista, Marcelo nal dos Crimes Dolosos Contra a Vida e Tribu-
Leal, e Unidade de Resposta Rápida (URR) da nal do Júri, pediu afastamento da presidência
Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) do julgamento dos acusados do assassinato do
apresentarem o caso à Comissão Interameri- radialista Valério Luiz. O radialista foi assassi-
cana de Direitos Humanos (CIDH). A Comissão nado em 05 de julho de 2012 após sair da rádio
recomendou o pagamento de indenização à fa- onde trabalhava, em Goiânia (GO). Alegando
mília da vítima pelo estado e o restabelecimen- motivos de foro íntimo, o magistrado deu a en-
to das investigações. A absolvição dos acusa- tender que seu afastamento decorria de empe-
dos pelo Tribunal do Júri em 2005 foi anulada cilhos colocados pelo próprio Tribunal de Jus-
após requerimento do Ministério Público, sob tiça de Goiás para a realização do julgamento.
a alegação de que os jurados tinham conexões Após o afastamento do Juiz, o julgamento foi
que prejudicaram sua imparcialidade. No novo adiado por conta da pandemia de Covid-19.
julgamento, o Tribunal condenou Marcelo Sar- Já em 2020, tivemos atualizações no
mento a 6 anos de prisão pelo crime. caso do radialista Jairo de Sousa, que foi assas-
O ano de 2019 também foi marcado sinado no dia 21 de junho de 2018, ao chegar
pelos julgamentos dos acusados pelo homicí- na rádio em que trabalhava, em Bragança (PA).
dio do radialista Jefferson Pureza, morto em No dia 12 de setembro de 2020, Madson Aviz
17 de janeiro de 2018 em frente a sua residên- de Melo, suspeito de envolvimento no homicí-

36
dio, foi preso na cidade de Boa Vista (RR). O acu- 2019 o comunicador foi morto em frente a sua
sado estava foragido, com três mandados de pri- casa em Maricá (RJ). Passado mais de um ano
são preventivos decretados contra ele - um deles da morte, não há respostas sobre o crime. O caso
relativo ao assassinato do radialista. O Ministério segue sob a responsabilidade da Delegacia de
Público do Pará ofereceu denúncia contra dez Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí, São
pessoas além de Madson por envolvimento no Gonçalo e Maricá (DHNISG). O inquérito ainda
crime, sendo que o acusado de ser mandante do não apresentou resultados significativos e segue
assassinato é vereador Cesar Monteiro Gonçal- em segredo de justiça.
ves, a quem o radialista tecia críticas e denún- O caso de Lourenço Veras, assassinado
cias sobre desvio de verbas públicas. Este último em sua casa na fronteira do Brasil com o Para-
teve sua prisão preventiva revogada no primeiro guai em janeiro de 2020, é emblemático no que
semestre de 2019, a partir de habeas corpus. tange a impunidade. Ainda que tenha sido exe-
Em 22 de setembro de 2020, Elias Ma- cutado fora do território brasileiro, por mais de
luco, condenado a 28 anos e 9 meses de prisão uma vez, o jornalista foi ameaçado antes de sua
pela morte de Tim Lopes, foi encontrado enfor- morte e o governo brasileiro falhou em lhe ofere-
cado na cela em que cumpria a pena. O jornalis- cer qualquer tipo de proteção, ainda que reque-
ta foi assassinado em 02 de junho de 2002, na rida. A investigação é conduzida pelas autorida-
cidade do Rio de Janeiro (RJ), após ser seques- des paraguaias, que identificaram e prenderam
trado e torturado por suspeitos de envolvimento o aparente mandante da execução, Waldemar
com o tráfico de drogas durante a realização de Pereira Rivas - e, ainda, ofereceram proteção
cobertura sobre tráfico de drogas e abuso sexual para o jornalista antes de sua morte, de forma
de adolescentes na Vila Cruzeiro. oposta às autoridades brasileiras.
Além das atualizações quanto às execu- Cabe mencionar, por último, que de
ções de anos anteriores, é de suma importância 2018 para 2019 o Brasil subiu de posição no
destacar, novamente, os casos de homicídio ranking do “Índice Global de Impunidade”, pro-
cometidos nos anos de 2019 e 2020, de forma duzido anualmente pelo Comitê de Proteção a
a indicar às autoridades responsáveis a necessi- Jornalistas (CPJ). O ranking analisa os andamen-
dade de que se apure com maior detalhamento tos de investigações de execuções de comunica-
e atenção os acontecidos, e, no mesmo sentido, dores no mundo todo. Em 2019 o país passou a
que o exercício da comunicação seja levado em ocupar a nona posição do índice de impunida-
consideração como possível motivação do crime. de, demonstrando que não há melhoria no que
Em 2019, apenas o caso de Romário tange o processamento e investigação devida
Barros foi registrado como homicídio em que dos crimes graves cometidos contra a categoria,
pode se vislumbrar a relação entre o exercício importando em ampla agressão à liberdade de
da profissão e a violência. No dia 19 de junho de expressão no Brasil.

Desafio do período:
perfil das vítimas e exercício da comunicação como motivação do crime

Um ponto a ser explorado e melhor delimitado especialmente, das redes sociais -, por mais de
é quanto ao perfil das vítimas que exercem a uma vez o perfil de comunicadores assassina-
comunicação, e a consequente dificuldade de dos coaduna a atuação no meio jornalístico à
aprofundar o real impacto do exercício da co- atuação política. Por meio de pré candidaturas,
municação como motivação do crime. Nos anos candidaturas e mandatos, alguns comunicado-
de 2018 e 2019 - marcados pela conjuntura de res tiveram suas atuações profissionais prévias
disputas políticas e eleitorais no país, atravessa- no campo da comunicação confundidas com a
das pelos novos usos da comunicação através, trajetória de construção política daquele sujeito.

37
As apurações desses casos demonstraram a di- e colegas da vítima. A incerteza quanto a este
ficuldade dos familiares e colegas em identificar ponto, portanto, afastou alguns casos da inclu-

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


se a violência seria decorrente do exercício da são neste relatório. Não obstante, é preciso que
comunicação ou da atuação e desempenho da as autoridades responsáveis pela investigação
vítima na política. Estes, assim, restaram preju- tenham o exercício da comunicação como linha
dicados na inserção neste relatório, consideran- investigativa, de forma a descartar essa possível
do que não foi possível delimitar com certeza o motivação a priori.
quanto tal violação esteve relacionada à liberda- No mesmo sentido, há que se refletir
de de expressão e a sua restrição. sobre as noções de ‘comunicador’ e o impacto
Portanto, em esforços futuros de con- da vida política destes no exercício da comu-
ceitualização, monitoramento e apuração, é pre- nicação, assim como o contrário. A a confusão
ciso delimitar estas esferas e o impacto de tais de motivações - muitas vezes benéficas ao
mortes na insegurança dos profissionais da co- autor do crime pelo prejuízo das investigações
municação. Aqui, se considerou que a violação -, são desafios que devem ser enfrentados em
teve relação com o exercício da comunicação observações futuras, bem como na atuação
quando este fato foi confirmado por familiares das instâncias investigativas do Estado.

Capítulo 6
O PAPEL DAS AUTORIDADES PÚBLICAS
NO COMBATE À IMPUNIDADE

Prevenção

Conforme apresentado neste capítulo, o Estado da como forma de se proteger. O sentimento de


tem a obrigação de prevenir violações. Além dos insegurança transcende a figura da vítima, cau-
elementos de prevenção já apresentados, há um sando impactos no exercício da profissão de ou-
outro bastante importante previsto nos padrões tros jornalistas e comunicadores e, portanto, no
internacionais: o combate à impunidade. Assim, direito da população à informação.
em primeiro lugar, é preciso que se leve em conta Ao longo do anos, foi possível verificar
com mais seriedade as ameaças de morte, tenta- que na maior parte dos casos de homicídio ha-
tivas de assassinato e outras formas de violência viam violações anteriores, como ameaças de
cometidas contra os profissionais do campo da morte e tentativas de assassinato. E foi justa-
comunicação. mente a falta de uma resposta efetiva a essas
Em geral, ano após ano, as apurações de violações que permitiu que elas se intensificas-
graves violências demonstram a falta de respos- sem até a mais extrema, o homicídio.
tas efetivas das autoridades para garantir a pro- O livre exercício da comunicação tam-
teção dos comunicadores ameaçados, restando bém é abalado pela omissão do Estado quando
a estes somente a possibilidade de contar com se consideram outras esferas de vulnerabilida-
formas particulares e individuais de proteção - de nas quais o profissional está inserido. Isso
como, por exemplo, a contratação de segurança porque a necessidade de se procurar formas al-
pessoal. A inação do Estado em garantir a segu- ternativas de proteção requer a mobilização de
rança destes, por si só, fere o direito de liberdade recursos financeiros e humanos. A falta de re-
de expressão e de imprensa, considerando que cursos pessoais e a falta de resposta do Estado,
a atuação dos profissionais ameaçados muitas dessa forma, implicam em total fragilidade dos
vezes é interrompida ou radicalmente modifica- profissionais frente aos seus agressores.

38
Por último, a carência de atuação do Estado no rando que estas falham em se mobilizar para ga-
âmbito da prevenção, a partir da falta de respos- rantir proteção ou mesmo são, em muitos casos,
tas efetivas para inibição de violências futuras, os agentes das violações.
implica em cada vez maior subnotificação de Em uma minoria dos casos foi possível
casos de violência cometidos contra jornalistas identificar bons resultados a partir de respostas
e comunicadores. Isso porque os próprios pro- concretas e incisivas fornecidas pelas autorida-
fissionais, com o passar dos anos sem respos- des. A exceção, entretanto, não implica em efei-
tas, passaram a naturalizar a violência sofrida, tos positivos para a categoria de forma ampla,
entendendo que ela não seria de tanto risco ou já estando consolidada a noção de que as au-
importância, ou ainda que não haveriam efeitos toridades são ineficientes em oferecer proteção
positivos em acionar as autoridades, conside- para jornalistas e comunicadores ameaçados.

Investigação

Uma vez ocorrida a execução de jornalistas e investigação nos mais diversos contextos do país.
comunicadores, é preciso que as autoridades Um ponto central de desigualdade considerando
adotem posturas proativas para dar respostas os diferentes Estados e regiões é o acompanha-
sobre a violação, apaziguando sentimentos de mento das investigações pelo Ministério Público,
injustiça de sujeitos próximos à vítima e a sensa- conforme apresentado em relatórios anteriores.
ção de insegurança e impunidade experienciada Nesse sentido, depois anos de incidên-
pela categoria. cia da sociedade civil sobre o Ministério Público,
Anualmente verificamos o despreparo em maio de 2018 foi apresentada ao Conselho
das forças policiais brasileiras para investigar os Nacional do Ministério Público uma proposta
homicídios contra comunicadores: investigações de recomendação29 que orienta promotores do
lentas, ainda que com a existência de evidências país inteiro sobre procedimentos para tornar as
concretas sobre o crime; falta de infraestrutura e investigações de crimes contra comunicadores
abandono da hipótese de motivação relacionada mais céleres e efetivas. A proposta, fundamen-
ao exercício da comunicação são algumas falhas tal no avanço do combate à impunidade nesses
que pudemos identificar. A falta de protocolo de crimes, ainda não foi aprovada pelo Conselho,
como proceder em tais crimes é evidenciada pe- mesmo passados mais de dois anos desde sua
las diferentes respostas e formas de condução da apresentação.

Pressão pública e acesso à informação

Considerando que toda sociedade sofre os efeitos Ainda que seja compreensível a existência de
da impunidade - seja pela falta de responsabiliza- mecanismos como o “segredo de justiça” nos ca-
ção e pelo sentimento de injustiça, seja por seus sos considerados sigilosos e que seja importante
efeitos no trabalho jornalístico e na circulação de tomar cuidado para que não haja o vazamento
informações, as respostas sobre as investigações de informações pessoais de investigados, o que
nos casos de jornalistas e comunicadores devem pode ferir o direito à presunção de inocência, as
ser oferecidas a população como um todo. autoridades ainda devem dar alguma resposta,

29 https://www.cnmp.mp.br/portal/images/noticias/imagens/Minuta_Recomendacao_
Profissionais_de_Imprensa_última_versão.pdf

39
mesmo que genérica, sobre o contexto do crime bre o andamento da investigação por parte do
e o andamento das investigações. Os próprios poder público. Entretanto, ao tentar realizar as

A responsabilidade do Estado na intensificação das violações


padrões internacionais aqui apresentados con- apurações dos casos graves apresentados neste
sideram a participação e o acompanhamento relatório, foi possível verificar a sistemática falta
do processo pela vítima ou seus familiares um de respostas - tanto para os colegas e familiares,
direito essencial. É extremamente importante, quanto para as organizações e sindicatos que
portanto, o oferecimento de informações so- buscam mais informações sobre o ocorrido.

Boas práticas investigativas


5
A partir da análise sobre impunidade que a
ARTIGO 19 vem realizando em vários relatórios Baixa rotatividade de autoridades, uma vez
ao longo dos últimos anos, é possível elencar evidenciado em estudos anteriores que a
algumas boas práticas investigativas que contri- maior parte dos casos em que houve resolução
buem para o combate à impunidade. Essas boas a investigação foi conduzida pela mesma

Capítulo 6
práticas são, em grande medida, informadas autoridade do começo ao fim;
pela análise de casos específicos de homicídio
6
de comunicadores nos últimos anos e, particu-
larmente, de pontos identificados como barrei- Garantia da imparcialidade das autoridades
ras centrais para o bom andamento das investi- responsáveis, em especial nas violências
gações. Essas boas práticas seriam: aparentemente relativas a conteúdos
de denúncia sobre as forças policiais e
1
políticas locais;
Rápida resposta policial no momento da
7
ocorrência, com presença no local do crime,
garantindo a integridade das provas e Acompanhamento ativo do Ministério Público,
testemunhas; inclusive prezando e fiscalizando o ponto
anterior;
2

8
Empenho das autoridades, evitando a
morosidade entre os atos jurídicos e diligências Atenção ao punitivismo e a busca pelos
necessários para a investigação; responsáveis de forma isenta, garantindo a
celeridade da investigação e do julgamento,
3
de forma que não se estendam possíveis
Engajamento de especialistas e peritos para o períodos de prisão preventiva
maior detalhamento das condições do crime, dos suspeitos;
bem como de suas possíveis motivações;
9

4
Oferecimento de respostas de proteção
Atenção ao exercício da comunicação como aos jornalistas ameaçados, instruindo os
possível motivação do crime, com a investigação profissionais, inclusive, quanto à possibilidade
pautada, também, nos conteúdos recentes e de de se inscreverem no PPDDH, bem como outros
maior polêmica produzidos pela vítima; programas de proteção disponíveis.

40
CAPÍTULO 7

CONCLUSÕES

41
Com base em todos os diferentes tipos e as- aumentando ainda mais o cenário de com-
pectos das violações à liberdade de expressão pleta impunidade. Ou seja, ao invés de am-

Conclusões
que analisamos neste relatório, é evidente que pliar a segurança e o incentivo a pluralidade
o desafio de enfrentamento é enorme e com- de vozes na mídia, estamos caminhando no
plexo. Mais do que isso, esse desafio cresce sentido contrário — com violações atraves-
com a conjunção de violações praticadas há sando diferentes contextos de exercício da

Capítulo 7
décadas que se perpetuam, como as graves comunicação.
violações aqui apresentadas (homicídios, ten- No limite, a pergunta de fundo que nos
tativas de assassinato e ameaças de morte), orienta nas analises aqui apresentadas é em
a um leque de violações que estão emergindo que medida a sistematicidade desse conjunto
nos últimos anos, como ataques digitais, expo- complexo de violações está se consolidando e
sição pública de dados pessoais ou uma estra- gerando alguma forma ampla de censura no
tégia sistemática de articular discurso de ódio país. Infelizmente, as evidências apresentadas
e uma indústria de desinformação chegando neste relatório indicam que essa censura, mais
aos mais altos postos da República. ou menos formal, está avançando e é hoje uma
Assim, ainda que tracemos recomen- das tendências que visualizamos no cenário
dações de ações e de boas práticas, a cons- político e social do país.
tante postura de membros do Governo Fe- A promoção de um ambiente seguro
deral de promover violações e desqualificar para o exercício da comunicação e da liberda-
denúncias feitas por comunicadores importa de de expressão depende, portanto, da articu-
na naturalização e banalização da violência lação das diversas esferas do poder público,
contra esses profissionais. Isso só contribui tanto por meio de ações concretas de preven-
para o aumento da hostilidade social ao tra- ção, proteção e combate à impunidade, como
balho desses comunicadores, aumentando por meio da legitimação das demandas de
sua insegurança. Além disso, também parece comunicadores e da sociedade civil por segu-
impactar no trabalho das autoridades inves- rança e apoio no exercício de uma atividade
tigativas, que falham em inserir o exercício que tem uma função social primordial: a ga-
da comunicação nas linhas investigativas e rantia do livre fluxo de informação, um dos pi-
em oferecer respostas sobre o crime às famí- lares de qualquer sociedade que se pretenda
lias, aos colegas das vítimas, e à sociedade, democrática, livre e justa.

42
CAPÍTULO 8

RECOMENDAÇÕES

43
AO GOVERNO FEDERAL

Recomendações
Autoridades federais devem seguir os padrões internacionais e as
recomendações do Conselho Nacional de Direitos Humanos e se abster de
1 fazer declarações públicas que constranjam o trabalho de comunicadores ou
incentivem que ataques sejam realizados;

Capítulo 8
Retomada da participação da sociedade civil no Conselho Deliberativo do
Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores Sociais
2 e Defensores Ambientais (PPDDH), organizando a estrutura de participação social
do Programa segundo as diretrizes recomendadas pela sociedade civil;

Promoção da divulgação do PPDDH de forma específica para


3 comunicadoras e comunicadores;

Revisão das metodologias de proteção do PPDDH das equipes federais


e estaduais, considerando as especificidades dos comunicadores e
4 comunicadoras e com participação social efetiva nessa revisão, incluindo a
contribuição de comunicadoras e comunicadores.

Desenvolver de forma constante estudos que visem identificar as causas


e os focos principais da violência contra comunicadores e elaborar
5 recomendações a diferentes instâncias governamentais para atuação direta
e estratégica sobre tais causas e focos;

Treinar funcionários e agentes públicos, incluindo aqueles que trabalham


para o cumprimento das leis, sobre como oferecer uma resposta rápida e
6 efetiva quando um comunicador é ameaçado e sobre qual é o procedimento
adequado para encaminhar solicitações de medidas protetivas;

Articular autoridades locais em todos os estados para que possam responder


7 de maneira mais rápida a emergências de segurança de comunicadores;

Incentivar as empresas jornalísticas a oferecerem treinamentos de


8 segurança e autoproteção, além de equipamentos seguros aos profissionais
de comunicação empregados ou freelancers;

Facilitar o trabalho de organizações da sociedade civil e de mídia que


acompanham questões referentes aos direitos humanos, reconhecendo a
importância desse trabalho como parte do processo de combate às violações
9 e priorizando a transparência nas relações com essas organizações para
que elas possas acompanhar as iniciativas do Estado no combate a violência
contra comunicadores;

Facilitar a vinda de Relatores Especiais de organismos internacionais para


10 acompanharem a situação da liberdade de expressão no Brasil.

44
AO MINISTÉRIO PÚBLICO

Recomendações
Implementação plena da recomendação que prevê procedimentos
específicos para dar celeridade e efetividade a investigações de crimes
1 contra comunicadores, após aprovação pelo Conselho Nacional do
Ministério Público;

Capítulo 8
Cumprimento de sua prerrogativa constitucional de controle externo da
atividade policial, tanto para evitar o comportamento abusivo de policiais contra
2 comunicadores em certos contextos, como durante a cobertura de protestos
sociais ou de abusos em favelas e periferias, quanto para acompanhar a qualidade
do inquérito policial em crimes contra comunicadores desde o início.

Produção constante de informações públicas e sistematizadas sobre a


situação de casos de homicídios de comunicadores no sistema de justiça,
3 nos moldes do relatório “Violência contra comunicadores no Brasil”30,
publicado em 2019 pelo CNMP.

AO CONGRESSO NACIONAL

Aprovação de marco legal que crie formalmente o Programa de Proteção


a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores sociais e Defensores
Ambientais (PPDDH), seguindo os parâmetros estabelecidos pelo padrões
1 internacionais de direitos humanos e as recomendações e boas práticas
propostas pela sociedade civil, inclusive com a determinação de destinação
específica de recursos aos programas estaduais, por meio da aprovação do
Projeto de Lei nº 4.575/2009;

Fiscalizar a atuação do poder executivo no cumprimento das obrigações de


2 prevenir, proteger e punir violações contra comunicadores e informar a sociedade
da situação por meio de audiências públicas e outros procedimentos legislativos.

30 https://www.cnmp.mp.br/portal/images/Publicacoes/documentos/2019/Violencia-contra-comunicadores
-no-Brasil-VERSAO-FINAL-.pdf

45
ÀS ORGANIZAÇÕES INTERGOVERNAMENTAIS
E À COMUNIDADE INTERNACIONAL

Recomendações
Priorizar a proteção de comunicadores como uma parte de suas
1 preocupações a respeito dos direitos humanos nas respectivas agendas;

Capítulo 8
Auxiliar o Brasil a cumprir com suas obrigações internacionais sobre direitos
humanos, de acordo com a legislação internacional, incluindo o acompanhamento
2 da implementação de decisões relevantes e julgamentos de organismos
internacionais de direitos humanos como a Corte Interamericana de Direitos
Humanos e o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas;

Reforçar recomendações específicas sobre proteção a comunicadores


3 e monitorar seu cumprimento junto ao Estado brasileiro por meio de
mecanismos como a Revisão Periódica Universal;

Fomentar a cooperação internacional entre Estados no âmbito de segurança de


4 comunicadores, especialmente em situações de conflitos fronteiriços;

Comprometer-se a produzir relatórios e informes temáticos sobre a


5 situação da liberdade de expressão que incluam informações atualizadas e
detalhadas sobre o Brasil;

Impulsionar que representantes de Relatorias Especiais realizem missões


6 oficiais ao país.

ÀS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL E DE MÍDIA

Produzir dados consolidados sobre o tema e divulgar esse trabalho para que
1 ele fortaleça outras iniciativas de entendimento e combate do problema
nacional e internacionalmente;

Dar visibilidade às violações à liberdade de expressão de comunicadores,


2 de modo a contribuir para que a sociedade e o Estado tomem ciência
dos casos em tempo real;

Para as organizações de mídia, oferecer treinamentos de segurança


3 e autoproteção, além de equipamentos seguros aos profissionais de
comunicação empregados ou freelancers;

Continuar a monitorar a situação da proteção dos comunicadores, bem como


4 da situação da liberdade de expressão no Brasil, almejando que seus esforços
impulsionem o combate às violações;

Acompanhar o andamento dos casos de crimes contra comunicadores,


5 cobrando informações oficiais das autoridades sobre as investigações.

46
CAPÍTULO 9

NOTA METODOLÓGICA

A ARTIGO 19 define a violação ao direito à O relatório de graves violações à liberdade de


liberdade de expressão como toda ação por expressão de comunicadores refere-se aos ca-
parte do Estado ou ator não estatal que inter- sos onde esse direito humano de expressar-se
fira de maneira direta ou indireta na livre cir- livremente foi intensamente violado com a in-
culação de ideias, opiniões ou informações. tenção de colocar em risco a vida da vítima, por
A omissão por parte do Estado a essas ações meio dos seguintes crimes:
também é considerada uma violação à liberda-
de de expressão.
O relatório se dedica aos casos sofridos # HOMICÍDIOS
por profissionais de comunicação por entender
que estes perfis exercem importantes ativida- # TENTATIVAS DE ASSASSINATO
des relacionadas aos direitos humanos, que
não se restringem a liberdades individuais, mas # AMEAÇAS DE MORTE
principalmente proporcionam uma dimensão
coletiva da liberdade de expressão. Reconhe- # TORTURA
cendo a importância dessas atividades para a
sociedade e a necessidade de manutenção e # SEQUESTROS
efervescência do debate público, a ARTIGO 19
monitora e registra violações de liberdade de # ABUSO SEXUAL
expressão sofridas por esses profissionais.

47
As informações apuradas, detalhadas e anali- Na etapa de monitoramento, foram coletados

Nota Metodológica
sadas no relatório dizem respeito somente às todos os tipos de violação relacionados à liber-
graves ocorrências. No entanto, também são dade de expressão descritas no protocolo. O
monitoradas outras formas menos graves de registro completo contempla somente os ca-
violações, informações que também servem de sos graves – homicídio, tentativa de assassi-
subsídio para a produção do relatório e de aná- nato, ameaça de morte, tortura e sequestro.
lises exploratórias sobre o contexto em que es- São os números relacionados a essas catego-
sas graves violações acontecem e se perpetu- rias que foram sistematizados para a elabora-

Capítulo 9
am. A ARTIGO 19 desempenha três etapas para ção desse relatório.
a checagem e consolidação das informações: Tendo em vista que as ocorrências
coletadas no monitoramento, realizado pela
# Monitoramento: mapeamento dos casos equipe do Programa de Proteção e Segurança
de violações e coleta das informações iniciais da ARTIGO 19, são baseadas em sites de no-
sobre cada ocorrência a partir de matérias jor- tícias e de outras organizações da sociedade
nalísticas publicadas por diversos perfis de ve- civil, assim com alguns contatos diretos que
ículos de comunicação, organizações sociais, recebemos de vítimas, reconhecemos que a
redes de correspondentes e pelas próprias víti- falta de contatos in loco nas diferentes regiões
mas ou testemunhas dos casos. do país podem prejudicar uma coleta comple-
ta de todos os casos ocorridos ao longo do ano.
# Registro completo: detalhamento das in- Dessa maneira, reconhecemos que apesar dos
formações mapeadas no monitoramento por esforços empreendidos, há a possibilidade de
meio da apuração de cada caso por meio de existirem casos que não chegaram ao nosso
entrevistas com as vítimas, conhecidos e fami- conhecimento e que o número de violações à
liares das vítimas, membros de organizações liberdade de expressão sofridas por comuni-
da sociedade civil que trabalham com o tema e cadores pode ser ainda maior do que o consi-
autoridades responsáveis pelos casos. derado para a elaboração deste relatório.

# Acompanhamento: documentação e aná-


lise jurídica de alguns casos para avaliação
de possível ação judicial ou encaminhamento
para organizações parceiras e posicionamen-
tos públicos alertando sobre os casos e co-
brando as devidas ações do Estado.

IMPORTANTE
A investigação da ARTIGO 19 independe das investigações oficiais – que
são tomadas por nós como apenas uma possível versão do fato. Isso se faz
necessário uma vez que os agentes públicos e policiais envolvidos podem
ser parte interessada na violação em questão ou a própria falta de estrutura
frequentemente compromete a qualidade das investigações oficiais. Por outro
lado, não é intenção da ARTIGO 19 substituir ou concorrer com o trabalho de
investigação oficial. Pelo contrário, demandamos a resolução oficial dos casos
e que os culpados sejam julgados e punidos, conforme as leis do país.

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ANÁLISE
DOS DADOS

Nota Metodológica
Para as análises dos dados levantados, primei- dades, segue-se a classificação do IBGE: cida-
ramente foi necessário identificar toda evidên- des pequenas (menos de 100 mil habitantes);
cia disponível que pudesse fortalecer e ajudar médias (de 100 a 500 mil habitantes) e gran-
a sustentar a relação direta entre os fatos, o des (mais de 500 mil habitantes).
trabalho de comunicação e as opiniões e/ou A caracterização do autor da violação

Capítulo 9
informações que possam ter sido expressadas foi feita com a análise do perfil do possível man-
pela vítima ou que ela planejava expressar. dante e das prováveis motivações. O perfil do
Feitas essas correlações, utilizou-se autor é o tipo de atividade que faz com que o
o cruzamento de categorias de análise con- possível mandante esteja ligado ao contexto da
sideradas centrais para a caracterização das violação, com as seguintes possibilidades: po-
violações. Dentre essas categorias, destacam- lícia, político, crime organizado, produtor rural
-se três tipos: as que caracterizam a vítima, as ou extrativista, empresário e agente público.
que caracterizam o crime e as que caracteri- Além disso, procurou-se levantar as
zam o autor. prováveis motivações, ligadas ao exercício da
Para a caracterização da vítima, levan- liberdade de expressão pela vítima, que leva-
tou-se o perfil da atividade da vítima (jornalista ram o autor a cometer o crime. São elas: rea-
ou repórter, radialista, blogueiro, apresentador lização de investigação ou apuração de infor-
e colunista) e o gênero. mações, realização de denúncias, e emissão
Para a caracterização do crime, anali- de críticas ou opinião.
sou-se o tipo de violação (homicídio, tentativa Caraterizada a violação em suas di-
de assassinato, ameaça de morte, tortura, se- ferentes dimensões, procurou-se levantar o
questro e abuso sexual); onde ocorreu (região, status de cada caso no sistema penal, seja o
estado e dimensão da cidade) e existência de inquérito policial, a investigação do Ministério
violações anteriores. Sobre a dimensão das ci- Público ou uma ação penal na Justiça.

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