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Os elementos

Euclides

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O s elementos
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E U C L ID E S

O s elementos

T rad u ção e In tro d u ção

Irineu Bicudo

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T ítu lo origin al em grego: Exo^ela
© 2009 da tradução brasileira

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E8 6e

Eu clides
O s elem en tos/E uclides; trad ução e in tro d u ção de Irineu B icudo. — São Paulo:
E d ito ra U N E S P 2009.
600p.: il.

Tradução de: XTOi^ãa

In clui bib liografia


I S B N 978- 85-7 139- 935-8

1. M a te m á tica — H is tó r ia . 2. M a te m á tica grega. 3. G e o m e tria — O b ra s


anteriores a 18 0 0 . I. B icudo, Irineu. II. T ítu lo .

0 9 -2 8 2 1. C D D : 510.9
C D U : 5 1 ( 09)

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de América Latina y el Caribe Editoras Universitárias
Para a Beth:

Sol de Verão
N a Tarde do meu Outono

Irin eu B icu d o
N a C iranda dos Anos

Ao passado: as memórias dos meus pais,


A délia e Pedro Bicudo Filho, e do meu
cunhado, Edmundo Lopes Simões.

Ao presente: as minhas filhas,


Érica e Tatiana V Bicudo, e a
minha irm ã Neyde B. Simões.

Ao fu tu ro: os meus netos


C atarin a e Ian V B . Minczuk

Irin eu B icu d o
Sumário

Prefácio . 11

Introdução . 15

Livro I . 97

Livro II . 135

Livro III . 151

Livro IV . 187

Livro V . 205

Livro V I . 231

Livro V II . 269

Livro V III . 299

Livro IX . 325

Livro X . 353

Livro X I . 481

Livro X II . 527

Livro X III . 563

9
Prefácio

É -m e fo rte a im pressão de, desde sem pre, eu ter qu erid o estud ar o grego
clássico . L em bro com que sen tim e n to de en can to folheava o cad erno que
um v izin h o m e em prestara, co n ten d o as liçõ es de um quase nada daquela
lín gua que ele aprendera quando sem in arista. C ursava eu, en tão, a an tiga
esco la prim ária. E ssa vontade cresceu com as aulas de latim nas qu atro
séries g in asiais. E m várias épocas, chegu ei a co m p rar g ram áticas e livros
com te x to s em grego. M as a o p o rtu n id ad e (m ipoç: “Q u an d o p o u sa / o
pássaro // quando acorda / o esp elho // quando am adurece / a h o ra ”) 1 só
surgiu, de fato , arrebatadora, no segundo sem estre de 1 9 8 8 , na d iscip lin a
de L íngu a G reg a, m in istrad a pelo P ro fe sso r D r. H e n riq u e G ra cia n o M u -
rach co , no P rogram a de E x te n sã o U n iv ersitá ria da Faculdade de F ilo so fia ,
L etras e C iên cias H u m an as da U niversid ad e de S ã o Paulo. E n tã o , p o r dez
anos, sem pre que m inhas atividades co m o p ro fesso r, v ice-d ire to r e depois
d ireto r do In s titu to de G eo ciên cia s e E x atas da U N E S P de R io C laro
e algum as viagens ao ex terio r m e p erm itira m , p a rticip e i co m dedicação
e en tu siasm o , nas tardes das sex tas-feiras, com um grupo de pessoas de
várias p roced ências p ro fissio n ais, do que o P ro fe sso r H e n riq u e chamava
de “O ficin a de T rad u ção”. A li vertem os para o português longas passagens de
H o m e ro , H e ró d o to , P índ aro, S ó fo c le s, P latão, X e n o fo n te , A ristó te le s. O
m eu envolvim ento com as letras aum entava com o tem p o , e a co n seq u ên cia
disso foram os m ú ltip lo s e h o n ro so s convites, sem pre aceito s, para p a rtic i­
par de bancas exam inadoras de co n cu rso para ingresso de p rofessor, de teses

1 F O N T E L A , O . Poesia R eunida. São Paulo: 7 L etras/C o sa cN aify, 20 0 6 [ 1 9 6 9 / 1 9 9 6 ] .

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Euclides

de d o u to ram en to , de co n cu rso de liv re-d o cên cia e de dois co n cu rso s de


p ro fe sso r titu lar, to d o s do D ep a rta m en to de L etras C lássicas e V ernáculas
da velha universidade.
O livro que ora dou a p ú b lico é o fru to am adurecido, desde en tão, pelos
lo n g o s anos de aprendizagem . C o m ele viso, ev id en tem ente, aos estu d an ­
tes de M a te m á tica e aos p ro fesso res dessa ciên cia. In clu o no p ú b lico -a lv o
tam bém as pessoas cu ltas em geral que se in teressem pelas co n q u ista s
gregas na A n tiguid ad e, os estu d an tes de F ilo so fia e os de L etras C lássicas
(g re g o ), cu jo cu rso, do m eu p o n to de vista, deixa aberta um a im ensa la cu ­
na no co n h e cim en to da cu ltu ra grega ao não estud ar obras m atem áticas e
h ip o cráticas, g ran d io so s m o n u m en to s daquela civilização.
P ro clu s, para m o stra r a excelência do trabalh o de E u clid es, descreve al­
gum as qualidades que um trabalh o desse tip o deva ter, e que o de E u clid es,
de fa to , tem .
A ssim , diz:

É preciso a obra que tal desembaraçar-se de todo o supérfluo —pois isso é


um obstáculo à instrução;2
muita preocupação (d ev e) ter sido efetivada relativa a clarezas e, ao mesmo
tempo, a concisões —pois os contrários dessas turvam a nossa inteligência.3

D e fato , a p rática de E u clid es freq u en tem e n te co n tem p la a co n cisã o —


p o r exem plo, em lugar de “o quadrado sobre a A B (is to é, de lado A B ) ” diz,
na m aioria das vezes, “o sobre a A B ”; e, “o pelas A B, C D ”, em lugar de “o
retân g u lo co n tid o pelas A B, C D (o u seja, de lados A B, C D ) ”; “co rta r em
duas” sem pre sig n ifica “co rta r em duas partes iguais (is to é, b is s e c ta r )”
etc. M as se, p o r um lado, a co n cisão leva, en tre o u tras coisas, a esse en ­
cu rtam en to das expressões, que m antive na trad u ção em resp eito ao estilo
eu clid iano, ao co n trá rio do que faz a recen te versão fran cesa que se fa rta de
palavras au sentes no grego, p o r o u tro lado, a clareza não abandona o le ito r
a te n cio so que lo g o se h abitu ará com essas particu larid ad es.

2 8êi 8è t^v Toiamrçv npay^àTEÍàv tóv |ièv àrcEOKEwloOai to rcEpmóv è^rcóSiov yàp Tomo rcpòç t^v
|iá0rçoiv
3 oa^avsíaç 8’â^a Kài owTó^íaç rcoXArçv ft£ftoiflo0ai npóvoiav Tà yàp èvavTÍa Tomrnv èm0oXoi t^v
Siàvoiav i^ffiv.

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O s elementos

Chamo a atenção para o fato de, em grego, o termo “lado” (ftXe-upá) ser
feminino e assim só esse gênero aparecer ao referir-se o texto a “o lado AB do
triângulo...” ou a “a reta (ou seja, segmento) AB do triângulo...”. Então, a tra­
dução usa, nesses casos, indiferentemente, os artigos masculino ou feminino.

Previno, p o r fim, a quem p o ssa interessar, que é p reciso fôleg o para


acom p anh ar m u itíssim a s das d em o n straçõ es que aqui se en co n tra m , e
d eterm in ação. G aran to , no en tan to , que, vencida a in ércia, u ltrapassad o o
o b stá cu lo , alcançado o o b jetiv o com a com p reensão do resu ltad o, cabe a
recom p ensa de te r m ergulhado no p ró p rio p ro cesso do que d en om in am os
“p e n sa r” e de haver pod id o ap reendê-lo em to d a a sua abrangência. M a is:
b ro tará d isso a co nvicção de que, se com H o m e ro a lín gu a grega alcançou
a perfeição, atin ge com E u clid es a precisão. E o método form u lar, que co n siste
em usar um c o n ju n to de frases fixas que cobrem m u itas ideias e situ açõ es
com u ns, p o d ero so au xílio à m em ória em um tem p o de cu ltu ra e de en sino
em in en tem en te orais, serve para aproxim ar o g eô m etra do p o eta e então
m o strar que p erfeição e p recisão podem ser faces da m esm a m edalha.
A grad eço à m inha esposa, E liz a b e th C h ristin a P lo m b o n , que d ig ito u
com carin h o e cuidado to d o o trabalh o , co n fe c cio n a n d o -lh e as, m u itas
vezes, com p licad as figuras, e sendo de im p o rta n te ajuda nas revisões; ao
P rof. D r. H e n riq u e M u ra ch co , pelo en sino e a am izade, e ao P rof. D r. Jo sé
R o d rig u es Seabra F ilh o , d o cen te de latim da U S P e co m p anh eiro daqu e­
las sex tas-feiras, p o r te r co n ferid o co m igo a trad u ção que fiz do P refácio
L a tin o de S tam atis.
S o u o ú n ico responsável p o r todas as trad u çõ es do grego e do latim , e
p o r quase tod as as do inglês, fran cês, alem ão e italian o.

Pois, tendo aprendido algo, jamais neguei, fazendo o conhecimento ser


como uma descoberta minha; mas louvo como sábio o que me instruiu, tor­
nando públicas as coisas que aprendi com ele.

Platão, Hippias Menor, 3 7 2 c 5 -8 4

4 oü yàp fttórcoTE s^apvoç èy£vó|rçv |a0tóv ti, èiamoíí ftóioúiEvoç tò |à0ii|a Eivai ráç siíp^^a-
àWèyKM|iáÇm tòv 8i8á^avTá ráç oo^óv OvTa, àrco^aívrav a E|a0ov raptamou.

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Euclides

R S .: (i) C o n fo rm e salien ta K irk (The Songs o f H om er:5 “F in ally th a t p eren ­


nial pro blem , th e sp elling o f G reek n am es.”6) , a so lu ção que ad otei, nem
sem pre com su cesso, fo i a de preservar as form as usuais em p o rtu g u ês dos
m ais co n h ecid o s, e prover para os o u tro s a latin izad a, co m o , de h áb ito ,
p ra tica m -n a os de língua inglesa.
(ii) O uso de co lch etes na trad u ção reprod uz o que se en co n tra no tex to
grego e, ali, ind ica o que H e ib e rg ju lg a te r sido in serid o p o r terce iro s no
e scrito de E u clid es.
(iii) E n sin a Said A li na sua G ra m á tica ( p . I 7 I - 2 ) :

N os enunciados de caráter condicional, em que a hipótese é um fato


inexistente cuja realização não se espera ou não parece provável, emprega-se
o im perfeito do conjuntivo para esta hipótese condicionante, e o futuro do
pretérito para a oração principal.
N a linguagem familiar costuma-se substituir o futuro do pretérito pela
forma do im perfeito do indicativo. É substituição permitida em linguagem literária
(grifo meu):
“Se Deus nos deixara tentar mais do que podem as nossas forças, então
tínhamos justa causa de recusar as tentações.” (Vieira)

Por isso, apoiado na au torid ad e de um V ieira, v ali-m e dessa fo rm a na


trad u ção, p o r exem plo, das P ro p o siçõ e s I . I 9 , I.2 5 etc., ficando assim rente
ao o rigin al.

Irin eu B icu d o

5 Os poemas de Homero, Prefácio.


6 [“Finalmente, aquele problema constante, a grafia dos nomes gregos”].

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Introdução

Sinto-m e compelido ao trabalho literário: (...) pelo meu


não reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade;
(...) pelo meu amor platônico às matemáticas; (...) porque
através do lirismo propendo à geometria.
Murilo Mendes

Sinopse

N o p refácio do seu livro Euclid. The Creation o f M athematícs,1 o m a tem á tico


alem ão B en n o A rtm an n escreve:

Este livro é para todos os amantes da matemática. É uma tentativa de en­


tender a natureza da matemática do ponto de vista da sua fonte antiga mais
importante.
M esm o que o material coberto por Euclides possa ser considerado elemen­
tar na sua maior parte, o modo como ele o apresenta estabeleceu o padrão por
mais de dois mil anos. Conhecer os Elementos de Euclides pode ser da mesma
importância para o matemático hoje que o conhecim ento da arquitetura grega
para um arquiteto.
É claro que nenhum arquiteto contemporâneo construirá um templo dórico,
muito menos organizará um local de construção como os antigos o faziam.
M as, para o treino do julgamento estético de um arquiteto, um conhecimento
da herança grega é indispensável. Concordo com Peter H ilton quando diz que
a matemática genuína constitui uma das mais finas expressões do espírito hu­

1 [Euclides. A criação da matemática].

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Euclides

mano, e posso acrescentar que aqui, como em tantos outros casos, aprendemos
dos gregos aquela linguagem de expressão.
Enquanto apresenta a geometria e a aritmética, Euclides ensina-nos aspectos
essenciais da matemática em um sentido muito mais geral. Exibe o fundamen­
to axiomático de uma teoria matemática e o seu desenvolvimento consciente
rumo à solução de um problema específico. Vemos como a abstração trabalha
e impõe a apresentação estritamente dedutiva de uma teoria.
Aprendemos o que são definições criativas e como uma compreensão con-
ceitual leva à classificação dos objetos relevantes. Euclides criou o famoso
algoritmo que leva o seu nome para a solução de problemas específicos na arit­
mética e m ostrou-nos como dominar o infinito nas suas várias manifestações.
Um dos poderes maiores do pensamento científico é a habilidade de desvelar
verdades que são visíveis somente “aos olhos da m ente”, como diz Platão, e de
desenvolver modos e meios de lidar com elas. É isso que Euclides faz no caso
das magnitudes irracionais ou incomensuráveis. E, finalmente, nos Elementos
encontramos tantas amostras de bela matemática que são facilmente acessíveis
e que podem ser minuciosamente estudadas por qualquer um que possua um
treino mínimo em matemática.
Vendo tais fenômenos gerais do pensamento matemático que são tão válidos
hoje quanto o foram no tempo dos antigos gregos, não podemos deixar de
concordar com o filósofo Immanuel Kant, que escreveu em 1 7 8 3 , na in tro­
dução à sua filosofia sob o título “Afinal, é a m etafísica possível?”: “Não há
absolutamente livro na m etafísica como temos na matemática. Se quiserdes
conhecer o que é a matemática, basta olhardes os Elementos de Euclides.”

B en n o A rtm an n o fe receu -n o s, na passagem que acabam os de enunciar,


um voo p an o râm ico da fam osa o b ra do g eô m etra grego. M as, do alto , os
m o n tes p o u co se destacam , fios de água parecem os rios, a vegetação é
apenas um a co b e rtu ra verde. H á m ister de viajar p o r terra.
A citação de K an t faz eco ao fa to de, até o final do século X I X , ser
E u clid es sin ô n im o de g eo m etria, daquela g eo m etria de régua e com p asso.
A ssim , a h istó ria dos Elementos co n fu n d e-se, em larga escala, com a h is tó ­
ria da m atem ática grega. M as a h istó ria de um d o m ín io tão relevante do
p en sam en to hum ano d ificilm en te se desvincularia da h istó ria m esm a do
hom em . H ajam o s, pois, por bem com eçar a n ossa h istó ria, a nossa expedição
te rrestre, pelo era uma vez n a an tiga G récia.

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O s elementos

Era uma vez

Estranho animal é este bicho homem (...)

José Saramago

Certamente, é um assunto admiravelmente vão, variado


e inconstante o homem. É difícil fundar nele julgamento
firme e uniforme.

Michel de Montaigne

S u ste n ta m m u ito s pensadores ser o hom em um a estran h a criatu ra. D e


fa to o scila, co n sta n te m en te , entre o passado, que d eseja conhecer, e o im ­
p erscru tável fu tu ro , incapaz de aceitar que a vida de to d o s os dias retom a,
invariavelm ente, a cada dia, o seu dia.
A m em ória p ren d e-o ao que fo i; o d esejo, ao que será.
C o m o an tecip ar o que ainda não é equivale a ch orar antes do tem p o , e
com o o que há de ser virá, claro, na m adrugada, com os seus raios, deixem os
de lado o porvir, que a si p ró p rio se basta, pois os invisíveis dedos das coisas
e dos atos idos, p ró x im o s e lo n g ín q u o s, tecem , no tear do Fado, o m an to
que nos vestirá para sem pre.
S o m o s o que os séculos nos fizeram !
O que so m o s de razão e vontade, o que som os de p en sam en to e ação,
o que so m o s de sen sibilid ad e e frieza, de trab alh o e lazer, de d escrença e
esperança, o que so m o s de b ílis e coração é terem existid o o u tro s, é terem
traçad o ru m os, e terem aberto estradas, é terem ap ontad o cam in h o s!
E is n o sso s p red ecessores!
Para en ten d erm o s a nós p ró p rio s é p reciso en ten d ê-lo s. E os p red eces­
sores dos pred ecesso res; e assim p o r diante, co n tin u a n d o essa busca, pois é
sem fund o o p o ço do passado da espécie hum ana, essa essên cia en igm ática,
cu jo m istério “in clu i o n o sso p ró p rio m isté rio e é o alfa e o ôm ega de tod as
as nossas q u estões, em prestand o um im ed iatism o can d en te a tu d o o que
d izem os e um significad o a to d o o n o sso e s fo rç o ”.2

2 MANN, T. “José e seus irmãos”. As histórias de Jacó. O jovem José. v.I. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira,I983.

17
Euclides

C o n su ltem o s, p ois, os velhos reg istro s, leiam os as obras de antanho que


chegaram até nós, procurem os em alfarrábios o que pareça haver de nós nos
que vieram antes, e, assim , com eçarem os a com p reend er o que pensávam os
saber: quem som os, o que nos é possível conhecer, que estrelas e que sóis
p od erem os acrescentar ao universo herdado.
E m n o sso caso de povo o cid en tal e no que tange à ciên cia da n o ssa p re­
dileção, a bu sca co n d u z-n o s ao era uma vez.
Era uma vez, acima de todas, em que “os atribu tos da juventude hum ana to r­
nam -se os atributos de um povo, as características de uma civilização” e em que

um sopro de encantadora adolescência passou roçando pelo rosto de uma


raça. Quando a Grécia nasceu, os deuses presentearam-na com o segredo da
sua imorredoura juventude. A Grécia é a alma jovem. “Aquele que, em Delfos,
contempla a densa multidão de jô n io s”, diz um dos hinos homéricos, “imagina
que eles jamais haverão de envelhecer”.3

M ic h e le t com p arou a atividade da alm a h elên ica a um jo g o festiv o , em


to rn o de que se reúnem e so rriem tod as as nações do m u n do. M a s, desse
jo g o de crianças, nas praias do arquipélago e à som bra das oliveiras da Jôn ia,
nasceram a A rte, a F ilo so fia, a livre reflexão, “a cu riosid ad e da investigação,
a co n sciê n cia da dignidade hum ana, to d o s esses estím u lo s que ainda são a
n o ssa insp iração e o rg u lh o ”, e a M ate m ática.
E ra uma vezja o rig em do p en sam en to o cid en tal. A F ilo so fia e a M a te m á ti­
ca, no p eríod o m ais p u jan te daquele d istan te passado, falam o grego clássico.

O grego clássico

A língua grega é um dos ram os m ais im p o rta n tes do grupo lin g u ístico
cham ado in d o -eu ro p eu . A sua o rig em rem o n ta ao “in d o -eu ro p eu p r im iti­
v o ”. O que p o ssu i em palavras e form as de flexão é herança, na sua m aior
parte, de um tem p o que precede a sua ex istên cia separada.
O s traço s ca ra cte rístico s, no en tan to , que dão ao grego a sua p e cu lia ri­
dade fren te às o u tras lín guas suas irm ãs, surgiram , m an ifestad am en te, só
depois do desm em bram ento da prim itiva com unidade de povos, e é provável
que esse aju ste ten h a tid o lugar já em so lo grego.

3 RO D O , J. E. Ariel. Campinas: Editora da Unicamp, 1991.

18
O s elementos

A ideia de um “grego p rim itiv o ” h om o gên eo , isto é, com um a verdadeira


unidade, é p ro blem ática.
O que p od em os dizer é que, no m o m en to em que a en co n tra m o s nos
d o cu m en tos au tên tico s, a lín gu a grega está dividida em ce rto n úm ero de
d ialetos falad os, classificáveis co m o d am en te em qu atro g rupos: o jônio, o
árcade-cipriota, o eólio e os d iferen tes fa lares cham ados co m u m en te dórios.
E. Ragon en sin a-n o s que, à exceção do árcad e-cip rio ta, cada um desses
grupos desenvolveu um a língu a literária, cu ja ton alid ad e m o rfo ló g ica varia
com a data dos au tores e com o gênero lite rá rio adotado.
O p rim eiro daqueles d ialetos, o jô n io , falado na Á sia M en o r, tem por
m arca evitar as co n traçõ es e fo i em pregado pelos p rosad ores H e ró d o to e
H ip ó cra tes. M as, m istu rad o a elem en tos eólios, serve ao ápice da p erfeição,
sendo o pano de fun d o dos poem as h o m érico s que in fluen ciaram a língua
de to d o s os p o etas da G récia.
O p o u co que resta do eó lio é o que co n h ecem os das odes de A lceu e da
grande S afo .
O dialeto dório, de sons graves e m usicais, está gravado no b ron ze eterno
dos poem as de P ín d aro e de T e ó c rito .
Por fim, o grego clássico ou o d ialeto ático, um ram o privilegiado do jô n io . É
o falado na áurea época de A tenas, os séculos V e IV a.C. T o rn a -se com
É s q u ilo , S ó fo c le s e E u ríp id e s a lin g u ag e m dos deuses e dos h e ró is;
com A ristó fa n es é o id iom a da sabedoria que zo m b a da sapiência; é h is tó ­
ria com T u cíd id es; defesa p ú b lica e exortação, com Isó cra te s, É sq u in es e
D e m ó ste n es; m em ória e en sin am en to com X e n o fo n te ; e, acim a de tu d o,
Verdade e Beleza, com P latão.
Para te r acesso a to d a essa cu ltu ra grega, da qual a m atem ática é um a das
im p o rtan tes p artes, o vestíb u lo do co n h e cim en to a u tên tico , há m ister de
aprender-lhe a língua. C o m o s u b s titu to dessa in su b stitu ív el necessidade,
a tradução.

Princípios de fé desta tradução

H á, p o r certo , im ensa gam a de co n cep çõ es a resp eito do que deva ser o


traduzir. N o que tange à versão de um a o b ra cien tífica, parece haver acord o

19
Euclides

em que a precisão não deva ser sacrificad a no altar da su tileza. Parodiando


N o v alis, quanto mais precisa, mais verdadeira.
D e um m odo grosseiro, poderíam os classificar os tip os de tradução com o
traduções à francesa e traduções à alemã.
O ideal das p rim eiras en co n tra expressão na passagem : “ Se há algum
m é rito em traduzir, só pod e ser o de aperfeiçoar, se possível, o seu o rigin al,
de em belezá-lo, de apropriar-se dele, dar-lhe um ar n acional e naturalizar, de
certa m aneira, essa p lan ta estran g eira”.
A m eta das segundas está refletid a nas seg u in tes crítica s de Schlegel e de
Goethe àquelas do p rim eiro grupo. Sch leg el: “ (...) é co m o se eles d esejassem
que cada estran g eiro, no país deles, se co m p o rta sse e se v estisse segundo
os seus co stu m es, o que os leva a nunca conh ecerem realm en te um estra n ­
g e iro ”. G o e th e : “O francês, assim co m o adapta à sua garganta as palavras
estran g eiras, faz o m esm o com os sen tim e n to s, os p en sam en tos e até os
o b je to s ; exige a qu alqu er preço, para cada fru to estran geiro, um equivalente
que ten h a crescid o no seu p ró p rio te r r itó r io ”.
Evid en tem en te, esse m odo de agrupar nada tem a ver com a nacionalidade
do tradu tor, mas com a sua m aneira de trabalhar. Freud, p o r exem plo, tra d u ­
zia “à fran ce sa”, p o is, segundo Jones, na sua biog rafia do pai da p sican álise,
este “em vez de tran screver lab o rio sam en te, a p a rtir da lín gua estrangeira,
id io tism o s e to d o o re sto , lia um trech o , fechava o livro e pergu ntava-se
co m o um e sc rito r alem ão teria vestid o os m esm os p e n sa m en to s”.
Chateaubriand, o célebre e sc rito r francês, m an tém , sem reservas, o p o n to
de vista co n trá rio , na sua trad u ção de Milton:

Se eu quisesse ter feito apenas uma tradução elegante do Paraíso perdido,


talvez se considere que tenho suficiente conhecim ento da arte para que não
me fosse impossível atingir a altura de uma tradução dessa natureza; mas
o que empreendi foi uma tradução literal, em toda força do termo, uma tra­
dução que uma criança e um poeta poderão acompanhar no texto, linha por
linha, palavra por palavra, como um dicionário aberto sob os seus olhos.

Por en ten d erm o s que a trad u ção de um te x to an tigo , de um a trad ição


com p en sam en tos p ró p rio s e p ró p rio s m od os de expressão é um ato de
reverência e entrega, ad otam os, co m o C hateau b riand , um a versão literal, “em

20
O s elementos

to d a a fo rça do te rm o ”, esperando acord ar no le ito r a cu riosid ad e que o


con d u za a acom p anhar a trad u ção co n tra o o rig in al, “lin h a p o r linha, p a­
lavra p o r palavra”. Sen d o o grego um a lín gua sin té tic a e o p o rtu g u ês, um a
an alítica, é fácil dar-se co n ta do grau de afa sta m en to das suas sintaxes. Por
isso, p o r perm an ecerm o s o m ais possível ligado ao o rig in al, prevenim os
pod er o le ito r estran har algum as vezes o resu ltad o alcançado.
U sam o s co m o te x to grego a edição de H e ib e rg -S ta m a tis , da E d ito ra
Teubner, de L eip zig , 1 9 6 9 - 1 9 7 7 .

O texto grego e a Ecdótica

O que sig n ifica falar do te x to grego dos Elementos de E u clid es? Q u al o


sen tid o de se m en cio n ar a edição de H eiberg-Stam atis?
Tendo essa o b ra sido escrita p o r volta do final do século I V a.C ., é d ifícil
que se p o ssa im aginar te r chegado até nós o m a n u scrito do seu autor, o
cham ado m an u scrito au tó g rafo . D e fato , não p o ssu ím o s tais m a n u scrito s
dos au tores clássico s — gregos e latin o s. O tem p o , esse “deus a tro z que os
p ró p rio s filhos devora sem p re”,4 é a co rren tez a que leva os dias, os hom ens,
os saberes. M as a o b ra de valor a tu d o afro n ta e na placa da m em ória “grava
seu ser / durando n ela”. 5 Se não tem o s os o rig in ais, p o ssu ím o s cópias.
In feliz m e n te , o que nelas relu z é só im itação do o u ro . D e fa to , “os deuses
vendem quando d ão”,6 pois quem diz cópia, diz erro. Para agravar a s itu a ­
ção, relativam ente aos Elementos, os m an u scrito s mais an tigos sobreviventes
d istam séculos de E u clid es.
C o m o o arq u eó log o te n ta, a p artir de pequenas peças de evidência, re­
co n stru ir a vida e a cu ltu ra de povos an tigo s, o filó lo g o , voltad o à E cd ó tica ,
trata de, com apoio nos m an u scrito s, trazer à luz, por re co n stitu içã o , aquele
orig in al, o te x to au tó g rafo , o arqu étip o de que os que tem o s são cópias.
O assim id ealm ente p ro d u zid o , com to d o o aparato da c rític a tex tu al ou

4 PESSOA, F. Obra poética. Volume único. Rio de Janeiro: Companhia Nova Aguilar,
I9 6 5 .
5 Idem, ibidem.
6 Idem, ibidem.

21
Euclides

E c d ó tic a (do verbo grego £k 5í 5<»|i i “p u b lic a r”) , é referid o co m o o tex to


c rític o da o b ra em q u estão.
C o m o é p ro d u zid o o te x to crítico ?
É preciso lembrar, prim eiram ente, que m u itos autores clássicos chega­
ram até os dias de h o je em m anu scritos em pergam inho ou em papel, que
raram ente são anteriores ao século IX , e frequ en tem en te são até do século
X V I. Alguns trabalhos foram preservados em um único m an u scrito, outros,
em centenas. M u ito s m an u scritos clássicos estão agora em bibliotecas eu ro ­
peias ou em coleções de m useus, alguns tam bém em m o n astérios, p a rticu ­
larm ente da G récia, e alguns p ertencend o a particulares; h á-os ainda em
lugares com o Istam bu l ou Jerusalém , ou em bibliotecas am ericanas. E n tre as
m aiores coleções, é lídim o m encionar aquelas da B ib lio teca do V aticano, de
especial im portância no n osso caso — em virtude do m an u scrito Gr. 1 9 0 —,
da A m b ro sian a em M ilã o , da M a rcia n a em V eneza, da Ö ste rre ic h is c h e
N a tio n a lb ib lio th e k em V iena, da B ib lio th è q u e N a tio n a le em Paris e do
B ritis h M u seu m em L ondres.
D e volta, então, à edição crític a de um te x to da A n tiguidad e. Para levá-la
a term o , há duas etapas a cu m prir:

(i) A da fix a çã o do texto, is to é, o seu preparo segundo as norm as da


c rític a textu al;

(ii) A da apresentação do texto, a sua organização técn ica, con tem p lan d o, em
geral, os segu intes elem entos elucid ativos: h istó ria dos m an u scrito s
usados, in fo rm açõ es so bre os crité rio s ad otad os, aparato crític o
(certa m e n te o elem en to m ais im p o rta n te ) etc., ten d o em vista a
sua pu blicação.

Q u an to a autores gregos e rom anos, existem ed itoras que se n o tab ilizam


pela p u blicação das suas edições críticas, co m o a E d ito ra T eu bn er (T eu b n er
V erlag) de L eip zig , com a sua Bibliotheca Scriptorum Graecorum et Romanorum
Teubneriana, p o r ce rto a m ais im p o rta n te e ab rangente, a E d ito ra da U n i­
versidade de O x fo rd , com a sua Scriptorum Classicorum Oxoniensis, a S o cié té
D ’É d itio n “Les Belles L e ttre s ”, Paris, e a sua Collection des Universités de France,
sob os au sp ícios da A sso c ia tio n G u illau m e Budé e a H arvard U n iv ersity
Press com a L oeb C lassical Library.

22
O s elementos

N o que segue, visam os a dar um a pálida ideia da com plexidade envolvida


nos dois passos acim a m encio n ad o s.

A fixação do texto

O bservad a a d o u trin a de K arl L achm ann, o fu n d ad or da m od ern a crític a


textu al, a fixação do te x to passa p o r um a série de op erações agrupadas em
três fases, a saber, recensio (do verbo latin o recensere: “fazer um a revisão”) ,
estemática (de stemma codicum: “a árvore genealógica dos có d ice s” — essa fase
é referid a p o r L achm ann co m o originem detegere: “d esco b rir a orig em , revelar
a ascen d ên cia”) e emendatio (de emendere: “emendar, c o rr ig ir”) .
A recensio co n siste na p esq u isa e co leta de to d o o m aterial ex iste n te de
um a obra. Isso c o n stitu i a sua tradição, que pod e ser d ireta — form ada pelos
seus m an u scrito s — ou in direta, com p reend en d o as fo n tes, as trad u çõ es, as
citaçõ es, os co m en tário s, as glosas e as paráfrases, as alusões e as im itaçõ es,
vale dizer, tu d o o que circu la à volta da obra, que é dela sem ser ela p rópria.
R e c o n h e c id o s os te ste m u n h o s o b tid o s , p a ssa -se à collatio codicum, a
“com p aração dos m a n u scrito s”. F az-se o c o te jo de tu d o o que se possu a
da trad ição d ireta co n tra um m an u scrito m ais co m p leto ou que pareça
bom , d enom inado o exem plar de colação. D essa operação resu ltará o expurgo
dos te ste m u n h o s in ú teis, a eliminatio codicum descriptorum, rejeição das cópias
co in cid e n te s, de acord o com a m áxim a filoló g icafru stra f i t perp lu ra quod fieri
potestperpauciora ( “é fe ito in u tilm e n te p o r m eio de m u ito s o que pod e ser
fe ito p o r m eio de p o u c o s”) . E x istin d o o m o d elo, re je ita -se a sua cópia.
C om essa elim in ação term in a a p rim eira fase.
A análise acurada dos m an u scrito s — p rin cip a lm en te o c o n fro n to dos
cham ados lugares ou pontos críticos e o exame siste m á tic o dos cham ados erros
comuns — p o ssib ilita estab elecer ta n to a dependência entre os m a n u scrito s
q u an to a afinidade ou p aren tesco entre eles. A qu i a h ip ó tese to m ad a é
“p o u co , sim ples e razoável”. Se o m esm o erro o co rrer em dois m an u scrito s,
é razoável co n sid erar não terem surgido in d ep en d en tem en te, a m enos que
esteja envolvido um engano m u ito sim ples e n atu ral. D ep o is, su p õ e-se
que o co p ista não co rrija o trab alh o do seu predecessor. U m a co n seq u ên cia
d isso, em co n ju n ção com a p rop en são dos seres hum anos de co m eterem

23
Euclides

erros — “os deuses vendem quando dão”7 — é que os te x to s se to rn em m ais e


m ais co rrom p id o s com as sucessivas cópias. O que resu lta dessas h ip óteses
de trabalh o é o estab elecim en to da árvore g en ealó gica dos có d ices, stemma
codicum, depois de arrolados os elem en tos da trad ição em fam ílias, cada
um a form ad a segundo os p o n to s c rític o s co m u n s, e de co n stru íd o s, caso
n ecessário , os cabíveis subarquétipos (os “pais das fa m ília s”) e o arquétipo ou
codex interpositus ( “o pai de to d o s ”) , aquele que se in terp õ e entre o o rig i­
nal e as cópias da trad ição , e que to m ará o papel do o rig in al p erd id o “em
negro vaso / de água do e sq u e cim en to ”. O sistem a assinala a dependência
e tam bém a co n tam in ação que pod e ex istir entre exem plares de fam ílias
d istin tas. A ssim a estemática é feita.
A re co n stitu iç ã o de um a o b ra clássica finda com a emendatio, a parada
m ais im p o rta n te n essa verdadeira via crucis, p o is, de novo, vale o p o stu lad o
da trad ição m an u scrita: “quem diz cópia, diz erro ”. O exame de qu alqu er
cóp ia (m a n u scrito apógrafo) revela o seu caráter co n tin g en te : passagens
m al tra n scrita s, o b scu ras, com in terp o laçõ e s, d iscrep ân cias g ram aticais
e e stilística s com o que se co n h ece do autor, e m u ito s o u tro s p roblem as.
G ran d e desafio ao filó lo g o -e d ito r no seu afã de restabelecer, ou ao m enos
aproxim ar-se o mais possível do que fo ra um dia a o b ra o rigin al.
D ia n te do erro, o e d ito r p roced e segu nd o as co n d içõ es da trad ição
m an u scrita, em pregando a b ateria do seu co n h e cim en to geral, daquele da
o b ra e da ép oca em que floresceu o seu au to r e tam b ém da sua in tu ição
d ivinatória, e isso é, a m ais das vezes, um trab alh o de g igan te. P rezem os,
p o is, e m u ito , os filó lo g o s-ed ito res dos te x to s da A ntiguidad e.
Se a co rreção dos erros fo r p o ssib ilita d a pelos p ró p rio s m a n u scrito s e
pelo que os dem ais testem u n h o s co letad o s oferecem , te m -se a d enom inada
emendatio ope codicum, “correção com a ajuda dos m a n u scrito s ”. C aso ta l au­
x ílio não seja su ficien te à co n secu ção da tarefa, há o ed ito r de reco rrer à sua
in tu ição e aos seus saberes, e te r-se -á a d ita emendatio ope ingenii ou emendatio
ope conjecturae ou ainda divinatio o u crítica conjectural.
E stá , p o is, dada co n ta da (i) fix a çã o do texto.

7 PESSOA, F., ibidem.

24
O s elementos

A apresentação do te x to

N a (ii) apresentação do texto re co n stitu íd o , o arq u étip o do qual to d o s os


m an u scrito s são cópias, vale ressaltar o aparato crítico, isto é, as variantes en ­
contradas, disp ostas no pé de cada página, com a indicação dos m an u scrito s
em que figuram . C om isso, o ed ito r oferece a op o rtu n id ad e de o le ito r fazer
a sua p ró p ria escolha da expressão que deva estar em d eterm in ad o p o n to do
te x to , com um p ossível sign ificad o novo para a passagem que a co n ten h a.
A fim de que se avalie a im p o rtân cia da edição c rític a com o seu resp ec­
tivo aparato para quem se in teressa pela A n tig u id ad e e te n cio n e estud ar as
p róprias obras em grego (o u em la tim ), transcrevem os um trech o do in ício
do livro Textual Criticism and Editorial Technique, de M . L .W e st,8 h elen ista e
ed ito r de clássico s:

Edward Fraenkel, na sua introdução aos Ausgewahlte Kleine Schriften,9 de


[Friedrich] Leo conta a seguinte experiência traumática que teve quando
jovem estudante:
“Eu tinha, por aquele tempo, lido a maior parte de Aristófanes e comecei
a falar com demasiado entusiasmo sobre isso a Leo e a crescer em eloquência
sobre a magia dessa poesia, a beleza das odes corais, e assim por diante. Leo
deixou-me falar, talvez por dez minutos, sem mostrar qualquer sinal de desa­
provação ou impaciência. Quando terminei, perguntou: 'Em que edição você
leu A ristófanes?’ Pensei: ele não estava ouvindo? O que a sua questão tinha a
ver com o que eu lhe dissera? Depois de uma agitada hesitação de momento,
respondi: A Teubner.’ Leo: 'Oh, você leu Aristófanes sem um aparato críti­
co .’ D isse-o bem calmamente, sem qualquer aspereza, sem nem um traço de
sarcasmo, apenas sinceramente surpreso que fosse possível a um jovem tole­
rantemente inteligente fazer tal coisa. Olhei para o gramado próximo e tive
uma única, irresistível sensação: vw |ioi %ávoi evpeia %9ròv ('agora que a terra se
entreabra para m im ’, Ilíada 4 , 1 8 2 ). Posteriormente, pareceu-me que naquele
momento entendi o significado real da sabedoria.”
(... )
Segue que qualquer um que queira fazer sério uso de textos antigos deve
prestar atenção às incertezas da transmissão; mesmo a beleza das odes corais

8 Crítica textual e técnica editorial. Stuttgart: B. G. Teubner, 1973.


9 [Pequenos escritos escolhidos].
Euclides

que ele admira tanto pode confirmar-se haver nelas uma mistura de conjectu­
ras editoriais, e se ele não estiver interessado na autenticidade e confiança de
pormenores, poderá ser um amante verdadeiro da beleza, porém não um sério
estudante da Antiguidade.

A edição crítica dos Elementos

T h é o n de A lexandria, pai de H y p a tia — a p rim eira m u lh er a ter o nom e


preservado pela h istó ria da m atem ática —, fo i um em in en te e in flu en te
estu d io so do século IV N o seu Comentário ao tratad o a stro n ô m ico de C lá u ­
dio P to lo m e u de A lexandria, co n h ecid o co m o Almageste ( d o árabe alm ajistí,
adaptação de al, o artig o definido árabe, e do ad jetivo su perlativo grego
lieyÍGTn (en ten d a-se iieyÍGTf oúvra^iç), isto é, a m aior co m p osição , o m aior
tratad o s iste m á tic o ”) , escreve a certa altura: “M as que seto res em círcu lo s
iguais estão entre si co m o os ângulos sobre que se apoiam fo i provado p o r
m im na m inha edição dos Elementos, no final do sexto liv ro ”.
S a b e m o s então, da p ró p ria pena do co m en ta rista , ter ele ed itad o a obra
de E u clid es, com a ad icion al in fo rm ação de ser da sua lavra a segunda p arte
da “P ro p o sição X X X I I I ” do Livro V I, co m o en co n trad a em quase to d o s
os m a n u scrito s rem an escen tes. D a í provirem tais m a n u scrito s daquela
edição de T h é o n . A liás, a m aior p arte deles tra z no seu títu lo ou a frase
èk Tfjç © éœ v oç ÈKSôoeœç ( “da edição de T h é o n ”) ou árcò o w o v o iœ v to ü © éœ voç
( “das aulas de T h é o n ” ou “dos en sin am en to s de T h é o n ”) .
D esse m od o, qu alqu er edição dos Elementos fe ita an te rio rm e n te a 1 8 1 4
era baseada num a fam ília de m an u scrito s cu jo arqu étip o era o te x to dado
à luz p o r T h é o n .
Para co n ta do que então o co rreu , fazend o to d a a d iferença, m udando
o ru m o da h istó ria das edições dos Elementos, cita m o s, p o r exten so, um
trech o do p refácio de F ran ço is Peyrard ao seu trab alh o Les œuvres D ’Euclide,
traduites littéralement, d’après un manuscript grec très-ancien, resté inconu ju sq u ’a nos
jo u rs,10 Paris, 1 8 1 9 :

10 [As obras de Euclides, traduzidas literalmente, com base em um manuscrito grego


antiquíssimo, desconhecido até nossos dias].

26
O s elementos

N o prefácio da minha tradução dos Livros I, II, III, IV V V I, X I e X II dos


Elementos de Euclides, que apareceu em l8 0 4 , e que eu fizera segundo a edi­
ção de O xford, propus-me o compromisso de publicar as traduções completas
de Euclides, de Arquimedes e de Apolônio. A minha tradução das O bras de
Arquimedes apareceu em I 808. Antes de dar à impressão a minha tradução
das Obras de Euclides, quis consultar os manuscritos da Biblioteca do Rei.
Esses manuscritos, vinte e três em número, foram-me confiados, e não tardei
a me aperceber que esses manuscritos preenchiam lacunas, restabeleciam pas­
sagens alteradas que se encontram na edição da Basileia e naquela de Oxford,
cujo texto grego é apenas uma cópia frequentemente infiel, como provei na
sequência do prefácio do terceiro volume do meu Euclides em três línguas. A
maior parte desses manuscritos rejeita uma multidão de superficialidades que
mãos ignaras tinham introduzido no texto, e que se encontra em grande parte
nos textos das edições da Basileia e de Oxford.
Todos esses manuscritos, exceto o n .I 9 0 , são, com pequena diferença,
conformes uns aos outros, salvo os erros dos copistas e as superficialidades
de que acabo de falar.
O manuscrito 190 traz todos os caracteres do nono século, ou pelo menos
do começo do décimo, enquanto que os outros são-lhe posteriores de quatro,
de cinco, e mesmo de seis séculos.
Esse manuscrito, cujos caracteres são da maior beleza, e sem ligaduras, resta­
belece lacunas e passagens alteradas, o que teria sido impossível de restabelecer
com a ajuda dos outros manuscritos. Encontra-se nele uma multidão de lições
que merecem, quase sem exceção, a preferência às lições dos outros manuscritos.
O manuscrito 1 9 0 , que permanecera desconhecido até os nossos dias,
pertencia à Biblioteca do Vaticano. Foi enviado de Roma a Paris por M onge e
Bertholet, quando o exército francês tornou-se senhor daquela cidade.
N a segunda invasão dos exércitos coligados, a França viu-se obrigada
a restituir todos os objetos de arte que haviam sido recolhidos aos povos
vencidos. Por solicitação do Governo Francês, o San to Padre houve por bem
ter a bondade de deixar-me às mãos esse precioso manuscrito até a completa
publicação do meu Euclides.
Tendo, então, à minha disposição esse manuscrito, como todos aqueles
da Biblioteca do Rei, determinei-me a dar uma edição grega, latina e francesa
das Obras de Euclides. O primeiro volume apareceu em I 8 1 4 , o segundo em
I 8 1 6 , e o terceiro em I 8 1 8 .

O m an u scrito Gr. I 9 0 da B ib lio te c a do V atican o , d en om in ado P por


H eiberg , em hom enagem ao padre Peyrard, o seu descobrid or, não perten ce,

27
Euclides

p o is, à fam ília th eo n in a, e serviu co m o exemplar de colação para a edição crítica


do filó lo g o dinam arquês, aquela que p erm anece aceita até h o je. A h istó ria
das edições críticas dos Elementos assinala a seg u in te sequência:
— A editio princips, “p rim eira ed ição ”, B asileia, 1 5 3 3, a cargo de S im o n
G rynaeu s, baseada em dois m an u scrito s — V enetus M arcian u s 3 0 1 e Paris
Gr. 2 3 4 3 — do século X V I, que estão entre os p iores ex isten tes. E ssa edição
servia de fu n d am en to para;
— A de O x fo rd , Euclidisquaesupersunt omnia. E x recensione D avidis G reg o -
rii M . D . A stro n o m iae P ro fe sso ris Saviliani et R . S. S. O xo n iae, et T h e a tro
Sh eld ian o . An. D o m . M D C C I I I . Para levar a cabo o seu trab alh o , G reg o ry
co n su lto u so m en te os m an u scrito s legados à U n iversid ad e p o r S ir H en ry
Savile, nos lugares em que o te x to da B asileia d iferia da excelen te tradu ção
la tin a de C om m an d in u s ( 1 5 7 2 ) . E ssa célebre edição das obras de E u clid es
é a ú nica co m p leta antes da de H eib erg e M en g e;
— A de Peyrard, na trilín g u e acim a citad a, na qual u sou P so m en te para
co rrig ir a da B asileia;
— A de E . F. A ugust ( 1 8 2 6 - 9 ) , que segue P m ais de p erto , tend o tam bém
usado o m an u scrito V ien en se Gr. 1 0 3 .
D e M o rgan recom enda vivam ente o alcançado p o r A u gu st: “A o estud ioso
que qu eira um a edição dos Elementos, devem os d ecid id am en te recom en d ar
esta, por unir tudo o que fo i feito para o texto do m aior trabalho de E u clid es”.
Tendo assim alcançado a sua hora fugaz de celebridade, esta edição acaba
p o r cu m p rir o v aticín io do célebre h isto ria d o r francês da m atem ática, Paul
Tannery, em um a carta a H eib erg : “to d o s os trab alh o s de erud ição são em
grande p arte d estin ad os a perecer para serem su b stitu íd o s p o r o u tr o s ”.
Pois, cou be p recisam en te a este san cio n ar aquela pred ição;
— A ed ição de H eib erg , baseada em P e nos m elh ores m a n u scrito s
th e o n in o s, e con sid eran d o tam bém o u tras fo n tes co m o H erã o e P ro clu s,
to rn o u -se o novo e d efinitivo te x to grego dos Elementos;
— P or fim, a edição elaborada p o r E . S. S ta m a tis não lança no lim b o das
coisas ultrapassadas aquela do sábio dinam arquês, um trab alh o de erudição
que in siste em não perecer. Para dar fé do que dizem os, trad u zim os do latim
bo a p arte da adição ao p refácio (ad d itam en tu m p ra e fa tio n is) de H eib erg ,
e scrito p o r S tam atis ao te x to c rític o p o r ele dado a p ú b lico .

28
O s elementos

Nenhum dentre os homens versados em geometria antiga existe que não


julgue ser necessária agora uma nova edição dos Elementos, de Euclides. De fato,
os exemplares da notável edição Heiberguiana há muito foram vendidos, além
disso os estudos referentes aos Elementos em nossos dias desenvolveram-se
grandemente. Por esse motivo, tendo sido convidado por um estimadíssimo
livreiro, por exortação do Instituto de Ciência da Antiguidade Greco-Rom ana,
que foi fundado por decisão da Academia Alemã de Ciências de Berlim, para que
eu cuidasse de nova edição dos Elementos de Euclides acolhi essa ocupação
com o coração gratíssimo. Realmente, sei que muitos admiradores da ciência
matemática, que sabem grego, desejam conhecer o texto euclidiano.
Agradou-me muito o plano do estimadíssimo livreiro que me persuadiu a
que eu omitisse a tradução latina que Heiberg preparara para a sua edição pelo
que a nova edição saísse à luz mais curta. De fato, é evidente os versados na
língua grega não terem muita necessidade da tradução latina. Pois que assim
seja, o plano da nova edição foi organizado assim como é indicado abaixo:11
Para o texto do primeiro volume, considerei as coisas que deviam ser an­
tecipadas, que foram ensinadas sobre os Elementos e sobre a vida de Euclides
e sobre os princípios e os primórdios da geometria (Textui primo voluminis
praemittenda, quae de Elementis et de vita Euclidis et de principiis primor-
diisque geometriae tradita sunt, existimavi).
[Realmente, no H O C V O L V M IN E C O N T IN E N T V R , lê-se o seguinte:
Testimonia:
De Euclides elementorum et vitae memoria
De principiorum geometriae m em oria]
Acrescentei imediatamente três índices (annexui continuo tres indices).

I I Nemo ex viris antiqu® geometriae peritis est quin putet nova editione Euclidis
Elementorum in praesenti opus esse. Exemplaria enim praeclarae editionis Hei-
bergianae iamdudum divendita sunt, studia autem ad Elementa pertinentia nostra
aetate admodum increverunt. Qua de re cum a bibliopola honestissimo, hortatu
Instituti scientiae antiquitatis Graecoromanae, quod auctoritate Academiae Scien-
tiarum Germanicae Berlinensis constitutum est, invitatus essem, ut novam Euclidis
Elementorum editionem curarem, gratissimo animo hoc negotium suscepi. Nam
multos studiosos scientiae mathematicae, qui Graece sciunt, Euclidianum textum
desiderare cognovi.
Valde autem mihi consilium bibliopolae honestissimi placuit, qui mihi suasit, ut
translationem Latinam qua Heiberg editionem suam instruxerat omitterem, quo
nova editio brevior in lucem prodiret. Patet enim linguae Graecae peritos Latina
translatione non nimis egere. Quae cum ita sint, ratio novae editionis, ita ut infra
indicatur, ordenata est.

29
Euclides

Em terceiro lugar, ajuntei uma sinopse, em que as notabilíssimas edições dos


Elementos de Euclides são recordadas (tertio loco conspectum, in quo praes-
tantissimae Euclidis Elementorum editiones, adiunxi).

(D e fato, Stam atis adicionou o seguinte:

C O N S P E C T V S E D IT IO N V M

Recensio antiquior quam editio Theonis Alexandrini


Theon Alexandrinus Alexandriae circa 3 7 0 p.Chr.
Sim on Grynaeus Basileae I5 30 (editio 2: I 53 3 apud Ioan.
Hervagium ( “Hervagiana”) , ed.3: I5 3 7 ,
ed.4: I 5 3 9 , ed.5: I 5 4 6 , ed.6: I5 5 8
Angelus Caianus Romae I 5 4 5 (sine demonstr.)
I.Camerarius Lipsiae I 5 4 9
I. Scheybl Basileae I5 50 ( I - 6 )
S.T. Gracilis Lutetiae I 5 5 8 , I 5 7 3 , I 5 9 8
C. Dasypodius Argentorati I 5 6 4
I. Sthen Vitebergae I 5 6 4
M . Steinm etz Lipsiae I 5 7 7 (cum demonstr.)
Dav. Gregorius O xonii I7 0 3
Fr. Peyrard Parisii I 8 I 4 - I 8
I.G . Camerer et C.Fr. Hauber Berolini I 8 2 4 - 2 5 ( I - 6 )
G.C. Neide Halis Saxonum I8 2 5 ( I - 6 , I I , I 2 )
E.F. August Berolini I 8 2 6 - 2 9
I.L. Heiberg Lipsiae I 8 8 3 - 8 8
E.S. Stam atis Athenis I 9 5 2 - 5 7 .

S tam atis ind ica no pé da página as obras con su ltad as para a co n fecçã o
da lista acim a. Revive com ela o g o sto an tigo pelas listas ou catálo g o , com o
0 “C atálo g o dos n av io s”, no Segu n d o C a n to da Ilíada, ou o “C a tá lo g o dos
g eô m etra s”, do desaparecido livro de H istória da geometria, de E u d em o , d is­
cíp u lo de A ristó te le s, mas preservado p o r P ro clu s no seu Comentário ao livro
1 dos elementos de Euclides.
C ham am os ainda a atenção para o fa to de que, ao te ce r a n terio rm en te
co n sid erações co n cern e n tes às ed ições dos Elementos, co n sid eram o s apenas,
d entre “as n o ta b ilíssim a s”, as p rin cip ais.)

Decidi abordar o que, para o texto, diz respeito aos vestígios da edição de
Heiberg. Com efeito, é certo entre todos os homens instruídos ser muito bom

3o
O s elementos

o serviço prestado por Heiberg aos Elementos de Euclides. Nem, de fato, depois
da sua morte, códices novos, além do que ele examinara, foram comparados
nem a nossa colheita de papiros forneceu novas lições. Ora, justamente, term i­
nando a minha edição dos Elementos de Euclides, que foi impressa em Atenas,
nos anos 1 9 5 2 - 1 9 5 7 , eu próprio reconheci a perfeição e a exatidão da edição
Heiberguiana.12

F ech em o s logo, no en tan to , as p o rtas do tem p lo em que acabam os de


acender as velas no altar da adoração, para que o v ento da d isco rd ân cia
não as apague to d as. H á, no en tan to , um a voz que clam a na ágora e seria
p ru d en te ouvi-la.
O h isto ria d o r da m atem ática W ilb u r R . K norr, p rem atu ram en te fa le­
cido, p u b lico u na revista Centaurus, 3 8 ( 1 9 9 6 ) um lo n g o trab alh o — 6 9
páginas — com o títu lo “ T h e W ro n g T ext o f E u c lid : on H e ib e rg ’s T ext and
its A lte rn a tiv e s".13 E is o seu resum o:

E m dois artig os p u blicad o s em l 8 8 l e 1 8 8 4 , dois jovens acadêm icos,


M a rtin K lam ro th e Jo h a n L. H eib erg , eng ajaram -se em um breve debate
sobre as escolh as tex tu ais que deveriam governar a p u b licação de um a
nova edição crític a dos Elementos de E u clid es. E sse cu rto debate parece ter
assentado o p ro blem a a favor de H eib erg sobre o que deveria ser to m ad o
co m o o te x to d efin itivo dos Elementos de E u clid es. M as a qu estão deve ser
consid erad a de novo p o rq u e há boas razões para a reivindicação de que
K lam ro th estava ce rto , e H eib erg , errado. Se assim for, tem o s co n su ltad o
e co n tin u am o s a co n su lta r o te x to errado para in terp reta r a trad ição eu cli­
diana. A fim de dar su b stân cia a essa afirm ação, a qu estão tex tu al debatid a
p o r K lam ro th e H eib erg é ensaiada de novo, e as razões p rin cip ais trazid as
p o r H e ib e rg co n tra a p o sição de K lam ro th são reco n stru íd as. E sp écim es

12 Quod ad textum attinet Heibergianae editionis vestigia ingredi statui. Nam inter
omnes viros doctos Heiberg optime de Euclidis Elementis meritum esse constat.
Neque enim post obitum eius codices novi, praeter quos ille inspexerat, collati
sunt, neque seges papyrorum nobis novas lectiones praebuit. Ipse autem editionis
Heibergianae perfectionem absolutionemque perspexi, cum meam Euclidis Ele-
mentorum editionem, quae annis 19 5 2 -1 9 5 7 Athenis impressa est, absolverem.
13 [O texto errado de Euclides: sobre o texto de Heiberg e suas alternativas].

3 1
Euclides

de três amplas áreas de evidência — estru tu ral, lin g u ística e té cn ica — serão
co n sid erad o s. E les revelam co m o a trad ição m edieval do te x to advogado
por K lam roth exibe superioridade em relação à tradição grega prom ovida por
H eib erg . U m a tal re co n stitu iç ã o dos te x to s tem o p o te n cia l de m udar sig-
n ifican te m en te n o ssa com p reensão da m atem á tica antiga.

Se K n o rr tem ou não razão é d ifícil de decidir. O peso da trad ição é


esm agador e o tem p o passado entre aquele debate m encio n ad o e h o je ajuda
a sed im entar a o p in ião favorável à escolh a de H eib erg .
D e um m odo ou de o u tro , a existên cia de divergência so co rre-n o s quando
n os preparam os para respond er às pergu ntas in iciais: “O que sig n ifica falar
do te x to grego dos Elementos?” e “Q u al o sen tid o de m en cio n a r-se a edição
de Heiberg—Stamatis?”; e, com isso, co m p letar o círcu lo das co n sid erações.
A edição de Heiberg—Stamatis do te x to grego dos Elementos é o que H eib erg
diz, com a co n firm ação de S ta m a tis, ser a co isa m ais p ró x im a do tex to
orig in al de E u clid es.

A H istória

(... ) é im possível para um historiador ressuscitar


integralmente o passado (... )

Jacque Le G o ff

As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma ma­


neira que não satisfazia, que apenas dava a entender em
que direção se abriam as verdadeiras fontes e a verdadeira
felicidade do canto. Entretanto, pelos seus cantos im­
perfeitos, que não passavam de um canto ainda por vir,
conduziam o navegante em direção àquele espaço onde o
cantar começava de fato. Elas não o enganavam, levavam­
-no realmente ao objetivo.

M aurice Blanchot

E m geral, a n atu reza não p ro p õ e p roblem as fáceis, dado quase sem pre
o elevado nú m ero das variáveis neles envolvidas. Pela im p o ssib ilid ad e,

3 2
O s elementos

co n seq u ên cia das dificuldades técn icas, de abrangê-las tod as, o h om em de


ciência, ao abordar um a d eterm inad a q u estão, selecio n a aquelas que ju lga
m ais significativas ao tra ta m e n to do caso con sid erad o. F a z -se, assim , um a
m odelagem da realidade (o que quer que isso p ossa sig n ifica r). M as, então,
a solu ção o ferecid a é sem pre um a redução, apenas um a aproxim ação daquilo
que a n atu reza sugerira. H á, p o is, so lu çõ es m ais ou m enos com preensivas,
dependendo da capacidade de cada cie n tista de lidar com um núm ero c o n ­
veniente das variáveis e da sua p ersp icácia (o u devem os ch am á-la in tu içã o )
no esco lh ê-las im p o rtan tes.
O m esm o se dá quando se p ro cu ra escrever a h istó ria de um a co n te ­
cim en to , de um a cu ltu ra, de um a época. Apenas aproxim ações estão no
d o m ínio do h isto ria d o r: boas o u m ás. T u d o o que ele pod e alm ejar é que
o seu relato seja “o can to da S e reia” que não engane, mas leve realm en te
ao o b jetiv o . E isso, p rin cip alm en te, ao d isp orm os de d o cu m en to s para a
co n su lta, na ex istên cia de fo n te s p rim árias. F a lto delas, fica ch eio de o b s ­
tácu lo s o cam inho para um a bo a aproxim ação dos fa to s o co rrid o s e dos
feito s alcançados.
Tudo isso é avalizado pelo seg u in te trech o de um a en trev ista de um
h isto ria d o r b rasileiro a um jo rn al de São P a u lo :w

Julguei im portante colocar a controvérsia historiográfica para ajudar o lei­


tor a entender que não há possibilidade de reconstruir o passado como tal. A
história é sempre uma construção, ainda que não seja arbitrária, pois procura
a objetividade através do controle das fontes. Dependendo da maneira como
tais fontes são interpretadas, surgem visões distintas, trazendo a marca da
concepção do historiador e também do tempo.

Talvez, com um a bo a dose de audácia, p u d éssem os to m a r p o r m o te : “O


Passado ja z m o rto e en terrad o ”.
N e sse caso, o que nos caberia fazer?
C ada h isto ria d o r da M a te m á tica — fix em o -n o s no que nos diz resp eito —
age a p a rtir de pequenas evidências, co m o o leg ista ten ta, a p a rtir de algum
o sso , re c o n stitu ir o verdadeiro ro sto do m o rto , que não m ais se m o stra na

14 BORIS, Fausto. Folha de S. Paulo.

33
Euclides

p o lid a su p erfície dos esp elhos. A ssim escreve G . R . D h erb ey no p refácio à


trad u ção fran cesa de Os sofistas, do italian o M a rio U n te rste in e r:

O bjetar-se-nos-á, talvez, que o conhecimento, no que concerne ao corpus


sofístico, é bem mais difícil: os textos são extremamente fragmentários e
mesmo, exceção feita a Górgias, pobres e raros. Mas não nos achamos aqui,
como para toda a literatura pré-socrática aliás, em caso semelhante àquele da
paleontologia? Cuvier empenhava-se, a partir de simples vestígios de animais
pré-históricos, em reconstruir o esqueleto inteiro: o dente carnívoro e o dente
moedor não impõem a mesma forma de mandíbula que, por sua vez, implica
uma m orfologia geral seja de predador, seja de ruminante. Cada elemento
anatômico dá, de modo rigoroso, o todo, e dever-se-ia fazer ao pensamento a
bondade de crê-lo tão coerente quanto a carcaça animal.

M as essa convicção na co erên cia que pu d esse fazer divisar o “esq u eleto
in te iro ” com base em um “elem en to a n a tô m ico ” não se deve esperar do
historiad or, p ois em geral um “elem en to ” será com um a vários “esq u eleto s”.
É o que é razoável co n clu ir do que observa Paul Tannery em L a géométrie
grecque:15

Separemos da história da M atem ática a parte propriamente bibliográfica,


quero dizer, a constatação material dos fatos: tal frase encontra-se em tal pági­
na, seja de tal edição de tal obra, seja de tal manuscrito arrolado sob o número
tal em tal biblioteca; separemos ainda o que pode, como no Aperçu historique
[Resumo histórico] de M ichel Chasles, formar um dos principais atrativos
do livro, mas que pertence, de fato, à Ciência mesma, bem longe de constituir
uma parte integrante da sua história; quero dizer, os desenvolvimentos dados
a tal método, as relações estabelecidas entre eles e outros mais recentes, enfim
as demonstrações de teoremas ou soluções de problemas, quer concebidas no
espírito dos procedimentos de outrora quer somente sugeridas pelo seu estudo.
Feita essa separação, o que resta na realidade? Um tecido de conjecturas que
estão, aliás, em todos os graus de probabilidade, desde aquela que tem quase o
valor de certeza, até a que mal difere da dúvida, para não falar de hipóteses ainda
menos favorecidas; e ainda esse tecido assemelha-se à mortalha de Penélope
porque, se é verdade que se pode considerar como indo sempre aumentando
a probabilidade média dos resultados obtidos pela crítica, não é, de modo

I5 [A geometria grega].

34
O s elementos

algum, o mesmo para a probabilidade especial de cada asserção particular;


essa probabilidade é sujeita a variações contínuas, e raramente existe ponto
pelo qual a opinião hoje dominante ache-se garantida contra uma exclusão
momentânea, ou definitiva, após ou na vinda à luz de algum fato novo ou da
aparição de alguma nova hipótese.

A inda, para só ficarm os en tre os grandes da h is tó ria da m atem ática,


rep rod u zim os as palavras de O t t o N e u g eb a u er:Ifi

Das abóbadas do Museu M etropolitano de Nova York pende uma magnífica


tapeçaria que conta a fábula do Unicórnio. N o final, vemos o miraculoso animal
capturado, graciosamente resignado ao seu destino em um recinto limitado
por uma pequena e bem feita cerca. Essa imagem pode servir como símile
para o que tentamos aqui. Erigim os engenhosamente, a partir de pequenos
pedaços de evidência, a cerca dentro da qual esperamos ter prendido o que
pode parecer uma criatura possível, vivente. A realidade, no entanto, pode ser
amplamente diferente do produto da nossa imaginação; talvez seja vão esperar
algo mais do que uma imagem agradável à mente construtora quando tentamos
restaurar o passado.

C o m o um eru d ito alem ão, ao escrever a ú ltim a frase acim a, N eu g eb au er


deveria ter em m ente a m esm a cena do Fausto a que se refere E . C assirer, a
resp eito do m ito :

N o Fausto de Goethe, há uma cena em que vemos o D ou tor Fausto na cozi­


nha da bruxa, esperando que esta lhe dê a beberagem mágica que o devolverá
à juventude. Diante de um espelho encantado, tem subitam ente uma visão
maravilhosa. Aparece no espelho a imagem de uma mulher de beleza sobrena­
tural. Fausto sente-se arrebatado e atraído; mas M efistófeles, que está ao seu
lado, zomba de tanto entusiasmo. Ele é quem sabe das coisas; sabe que o que
Fausto viu no espelho não era a forma de uma mulher real: era tão só uma criatura
da sua própria imaginação (grifo nosso).

São m ú ltip lo s os perig os quando preten d em os trilh a r o passado. H á


terren os alagadiços, falsas p o n te s, te n eb ro so s abism os. E sta rá o p o te de

16 NEUGEBAUER, O. The Exact Sciences in Antiquity. Nova York: Dover Publications,


Inc.,1969.

35
Euclides

ou ro no final do arco -íris? H á o ced erm os aos an tigo s os n o sso s o lh o s e


nossas ideias. Prevenia-n os Levy-B ru hl, guardadas as p ro p o rçõ es:

Em vez de nos substituirm os em imaginação aos primitivos que estu­


damos, e de fazê-los pensar como nós pensaríamos se estivéssemos no seu
lugar, o que só pode conduzir a hipóteses quando muito verossímeis e quase
sempre falsas, esforcem o-nos, pelo contrário, por nos pôr em guarda contra
os nossos próprios hábitos mentais e tratemos de descobrir os dos primitivos
através da análise das suas representações coletivas e das ligações entre essas
representações.

C o m p letem o s L evy-B ru hl com o que tão en fa tica m e n te afirm a L u cien


Febvre:

A esses antepassados, emprestar candidamente conhecimentos de fato —e,


portanto, materiais de ideias — que todos possuímos, mas que para os mais
sábios dentre eles era impossível obter; im itar tantos bons missionários que,
em tempos, regressavam maravilhados das “ilhas”, pois todos os selvagens
que tinham encontrado acreditavam em D eus (m ais um pequeno passo e
tornar-se-iam autênticos cristãos); dotarmos os contemporâneos do papa
Leão, com uma generosidade imensa, das concepções do universo e da vida
que a nossa ciência para nós forjou e cujo teor é tal que nenhum dos seus ele­
mentos, ou quase, habitou alguma vez o espírito de um homem da Renascença
— porém, contam -se pelos dedos os historiadores, e refiro-me aos de maior
envergadura, que recuam perante tal deformação do passado, tal mutilação da
pessoa humana na sua evolução.

P ro n to ! E sta m o s ju n to ao tem p lo sagrado da M a te m á tica , esse “jo g o


de jo v e n s” ( “N en h u m m atem ático deveria jam ais se p e rm itir esq u ecer que
a M a te m á tica , m ais do que qu alqu er o u tra arte ou ciên cia, é um jo g o de
jo v e n s” — G . H . H a rd y ), criad o p o r um povo de ju v en tu d e etern a; “aquele
que, em D e lfo s, co n tem p la a densa m u ltid ão dos jô n io s, im agina que eles
jam ais haverão de en v elh ecer”.
M o stra m o s arm adilhas, ap o n tam o s engan osos cam in h os que se o fe re ­
cem , sed u to res, aos que se atrevem a desvelar o passado. Seja, p o is, tu d o
aceito cum grano salis.
As p o rtas do tem p lo n este m o m en to se abrem . C o n v id a m o -lo , caro
leitor, en trem o s.

3 6
O s elementos

Euclides e a tradição sobre ele

Tudo já foi dito uma vez, mas, como ninguém escuta, é


preciso dizer de novo.

André Gide

Para te ste m u n h o s de co m o se co n stitu iu e co m o se desenvolveu a geome-


tria grega, ficam os e strita m e n te dependentes de escassas n o tícia s espalhadas
em escrito res an tigo s, m u ito do que fo i extraído do trab alh o desaparecido,
já m en cio n ad o , H istória da Geometria, de E u d em o , um dos p rin cip ais d isc í­
p u los e co labo rad ores de A ristó teles.
U m a passagem dessa obra, co n h ecid a co m o o Sumário de Eudemo ou o
Catálogo dosgeômetras, fo i, no en tan to , preservada p o r P ro clu s, que a retirou ,
bem provavelm ente, dela próp ria. T rad u zim o s to d o o p asso, com eçan d o
um p o u co antes:

Por um lado, de fato, muitos dos mais velhos descreveram essas coisas,
tendo-se proposto a fazer o elogio da matemática, e por isso apresentamos
poucas das muitas nessas coisas, exibindo completamente o conhecimento e
a utilidade da geometria. Por outro lado, depois dessas coisas, deve-se dizer
da produção dela nesse período. Pois o divino Aristóteles dizendo: as mesmas
opiniões frequentemente retornar aos homens segundo períodos determinados
do todo, e não tomar as ciências uma organização durante o nosso tempo pri­
meiramente ou o dos nossos conhecidos, mas também nem dizer em quantas
outras circunvoluções, tanto tornadas quanto havendo de ser, aparecerem elas
e também de novo desaparecerem.
Depois de que, dizemos, é preciso examinar as origens das artes e das ciên­
cias no período presente.
V isto que seja conhecido por muitos a geometria ter sido descoberta entre
os egípcios primeiramente, tendo tomado a origem da ação de medir com
cuidado as áreas.
Pois esta era necessária para aqueles pela ação de se elevar do N ilo, fazendo
desaparecer os limites concernentes a cada um.
E nada é surpreendente começar a descoberta tanto dessa quanto das outras
ciências pela necessidade, porque tudo o que é produzido na geração avança
do im perfeito ao perfeito.
Possa, justamente, a mudança vir a acontecer, de fato, da sensação para o
cálculo e desse para o pensamento.

37
Euclides

Como, de fato, entre os fenícios, pelo comércio e as relações de negócio, o


conhecimento dos números tomou o princípio exato, assim também entre os
egípcios a geometria foi descoberta pela causa dita.
E Tales, primeiramente tendo ido ao Egito, transportou para a Grécia essa
teoria e, por um lado, descobriu muitas coisas, e, por outro lado, m ostrou os
princípios de muitas para os depois dele, aplicando-se a umas de modo mais
geral, a outras, de modo mais sensível.
E depois desse, Mamerco [?], o irmão do poeta Stesichorus, o qual é men­
cionado como tendo tido uma ligação de zelo em relação à geometria, e Hippias
de Elis relatou-o como tendo adquirido uma reputação na geometria. I7
E depois desses, Pitágoras mudou a filosofia sobre ela em uma forma de
educação livre, examinando do alto os princípios dela, explorando os teoremas
tanto de um modo imaterial quanto intelectual, o qual então também descobriu
a disciplina dos irracionais e a construção das figuras cósmicas. E depois desse,
Anaxágoras de Clazomene ligou-se a muitas coisas das relativas à geometria,
e Oinopedes de Q uios, sendo por pouco mais jovem do que Anaxágoras, os
quais também Platão mencionou nos Rivais como tendo adquirido uma repu­
tação nas matemáticas.
Depois dos quais, Hipócrates de Quios, o que descobriu a quadratura da
lúnula, e Teodoro de Cirene tornaram-se ilustres com relação à geometria.
Pois H ipócrates também compôs Elementos, o primeiro dos que são men­
cionados.
E Platão, tendo nascido depois desses, fez tomar muito grande progresso
tanto as outras coisas matemáticas quanto a geometria, pelo zelo relativo a
elas, o qual, é evidente, tanto de algum modo tendo tornado frequente as
composições com os discursos matemáticos quanto despertado por toda parte
a admiração relativa a elas dos que se ligam à filosofia.
E nesse tempo eram tanto Leodamas de Thasos quanto Árquitas de Ta­
ranto quanto Teeteto de Atenas, pelos quais os teoremas foram aumentados e
avançaram para uma organização mais científica. E Neocleides, mais jovem do
que Leodamas, e o discípulo desse, Léon, os quais resolveram muitas coisas
em adição às dos antes deles, de modo a Léon compor também os Elementos de
maneira mais cuidada tanto pela quantidade quanto pela utilidade das coisas
demonstradas, e descobrir distinções, quando o problema procurado é possível
e quando é impossível.

17 Kai' taíaç ó ’ HAÊtoç ioTÓprçoEv ráç m y£M|i£Tpía 8ó^av amoíí XapóvTóç.


O s elementos

E Eudoxo de Cnido, por um lado, por pouco mais jovem que Léon, e, por
outro lado, tendo-se tornado companheiro dos à volta de Platão, primeiro
aumentou a quantidade dos chamados teoremas gerais, e às três proporções
ajuntou outras três, e fez avançar em quantidade coisas tomadas a respeito da
seção, com origem em Platão, servindo-se das análises sobre elas. E Amyclas
de Heracleia, um dos discípulos de Platão e Menaechmus, que é discípulo de
Eudoxo, tendo também frequentado Platão, e o seu irmão D einostratus fize­
ram ainda mais perfeita a geometria toda. E Theudius de M agnésia pareceu
ser o que excede tanto nas matemáticas quanto em relação à outra filosofia.
Pois também arranjou convenientemente os Elementos e fez mais gerais muitas
coisas das particulares. E, naturalmente, também Athenaeus de Cyzicus, tendo
nascido durante os mesmos tempos, também se tornou ilustre, por um lado, nas
outras matemáticas, e, por outro lado, principalmente na geometria. D e fato,
esses viveram com outros na Academia, fazendo as pesquisas em comum. E
H erm otim us de C olofon fez avançar as coisas investigadas antes por Eudoxo e
Teeteto, tanto descobriu mais muitas coisas dos Elementos quanto redigiu alguns
dos Lugares. E Felipe de Mende, sendo discípulo de Platão e tendo sido exortado
por ele para as matemáticas, tanto fazia as pesquisas segundo as indicações
de Platão quanto produziu-as por si próprio quantas cria contribuir para a
filosofia de Platão. O s que realmente expuseram as histórias promoveram as
realizações dessa ciência até esse tempo.18

1 8 TafiTa |ièv ofiv rcoWoi Trav rcpèopfiTèprav àvéypayav, Trçv|ia6rç|iaTiK^v èyKM|iiáÇ£iv rcpo0è|ièvoi/ Kai
8ia TafiTa òXlya arco rcoXMv lí^èlç èv TofiToiç rcapè0è|iè0a Trçv Tflç yèM|ièTplaç rcavTèXraç yvraoiv Kai
rà^èXèiav èrciSèiKvfivTèç. Trçv 8è yèvèoiv afiTflç Trçv èv Tfl rcèpioSmTafiTrç |ièTa TafiTa XèKTèov.
o |ièv yàp Sai^ovioç ' ApioToTèXrçç èircrav Tà afiTa So^ào^aTa KoWàKiç èiç avTptórcofiç à^iKvèio0ai
KàTá Tivaç TèTay^èvaç rcèpioSotiç Tofi rcavToç/ Kai Ka0’^maç rcpraTov rç Tofiç fiiji^Mv yvrna0èvTaç
Taç èrnoT^iaç ofioTaoiv Xapèiv, aXtó Kai èv aWaiç rcepi^opalç ofi8’èircèiv orcoaaiç Talç Tè yèvo|ièvaiç
Kai Taiç afi0iç èaoiièiiaiç èK^avflvai Tè Kai a^av^^ai rcaXiv afiTaç.
èrcèi 8è xprç Taç apxaç Kai Trav Tèxvrav Kai Trav èrnoT^^ffiv rcpoç Trçv rcapofioav rcèploSov oKo^èiv,
Xèyo^èv.
otí rcap’AiyfircTloiç |ièv èfipfla0ai rcpraTov rç yèra^èTpia rcapa Trav rcoXMv íOTóp^Tàl/èKTflç Trav xrapirav
ava^èTp^oèraç Xapofioa Trçv yèvèoiv.
àvàyKàià yap rçvèKèlvoiç afirrç 8ia TrçvavoSov Tofi NèiXofi Tofiç rcpoafiKovraç opofiç èKaoToiç aijiavlÇovToç.
Kai 0afi^aoTov ofi8èv arco Tflç xpèlaç àp^ào0àl Trçv èfipèoiv Kai TafiTrçç Kai Trav ãUciv èrnoT^^ffiv/
èrcèiSrç rcav to èv yèvèoèi (jièpo^èvov arco Tofi aTèXofiç èiç to TèXèiov rcpoèiaiv.
arco aio0^oèmç ofiv èiç Xoyio^ov Kai arco TofiTofi èrci vofiv rçiièTapaoiç yèvoiTo av èiKoTraç.
raorcèp ofiv rcapa Toiç Oolvi^iv 8ia Taç è^rcopèlaç Kai Ta ofivàXXày^àTà Trçv apxrçv èXapèv f|Trav
api0^ffiv aKpip^v yvffioiç/ ofiTra 8rç Kai rcàp’AlyfircTlolç r|yèra^èTpla 8ia Trçv èip^^èv^v araav èfip^Tai.
©aXflç 8è rcpraTov èiç AiyfircTov èX0ràv ^èT^yayèv èiç Trçv' EWaSa.

39
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'n m rlU e n rl n i 5i3 5 i32indiod2i a o A i3 S3 ,2 ia in s 5 U iU e n rl ak> S o A to in y n '5 o in g A 3 ]^ 0 3g 5oii3iiy}<j>

■A3/lœd/l3Aaa b a h a îo iio i a k ii i r a 3da,3An nyyou akh 3 X io iü a k ii

i r a A03Y211213 A3/l»/lUod2i a o iU n » 3 0 i r a »A3rlUdo2iaUod2i a o ^ o g a g ^ a m So iaw iIio yo ^ 0 3g S o rlu o rld g ,

■5i3üUiU5 5 m ioA3rlaoio2i 5 m io s n ir lU g n s y , A3 A toYU YY»,i3rl lo ia o Aao AO/lUig

■013A3/13 5Ua»i)ii2I3 A»idi3rl(03/l » m s 3g m a iy n r l la n r l

U enrl A3rl S io y y n 5 io i A3 id s SaoAodX 5kiao/13/1 5 a o ia n 5 a o i m r a 5 o i» a U q y ^So A U si^ a ^ o io iA 3 rl id s

■A3üUi02i3 n d s ito s iy o e n s Atosid3rl a k ii nyyoii i r a A3^m 3Aaa Sto yn s » 1,3X1010 m dnA in s

■A»i()ioaoYi(|i a U y y » a U i m r a in s Atod3i|inig TOA13 A3sog3 A ia n rllie n rl 5 io i 31 A3 5 U aA »]^ 0 3g 5 oig a3 0

A »id i3 rl(o

-3/1 AUyo a U i a»üUio2I3 A»d3it03Y3i 113 5 o m d ia o A i3 v a o ia n S o i^ g n 0 in s 5mAO/l3/Uaa 3g lA to in y n

in s ao^ og ag Ato 5 U m o d sn 5 orlXinA 3]^ in s A todini3 S o A to in y n a k ii 5i3 'S U iK ß y s n d H , 0 3g 5 n y s a r ly ,

■5oA3rlnaUdX AKiian,2i3 A ia3 a ayn A n

5 im in s A3/l»/lUod2i 5oeUy2i 5i3 S o A to in y n n d m i n iA o ^ n y AUXdn A U rloi a U i id32i m in s A3sU03aod2i

5 i3 d i iny y n S in U o y n A n A ip id i 5 im in s A3aU^aU So eU yii 01 AtoinrlUdorae A to A srlao yra a o y o e n s a k ii

Soim d ii '5oA3rloA3/l n A to in y n id32i a k ii 3g 5odini3 '5od3iKi3A tb/Uyo A3rl 5 o ia o 3 v '5oigiA ^j 0 3g 5o^ogag

■AoiBAagn 31021 i r a n rllr^ o d ii A0A3rla0iU5 0 1 1 1 0 3 A o im a g 31021 'Ai3dçi3 5ao rlaido ig in s 'Aod3ia3Y3rl

1213 A(0A3rlaAS13g AKII îbpdX 111 IB S 13011^21 31 (01 TOA139Aaa »13X1010 »1 IB S »1A03V A01 31ÜKI 'A K lia n

odu 5 io i A»aUdo2ia3aod2i nyyox 10 'a k i3 v SU ilig n rl o ia o i 0 in s 5Ugi3yso3N 0 5od3i(03A 3g 5oiA nrlng(03v

■ A iam aaa A nd3i(osiA orlU iai2i3 5i3 A3eyUod2i in s ninrlUdorae m lieU ^ alu is Aro.dmt 'S o ib a

-li0V , 0 5 o iU ii» 3 0 in s 5 o A iiA »d » x 0 S m a X d y , i r a aU 5 o iü » 0 0 5nrlng(03v in s (OAodX to i tb ia o i 3g A3

■Atodi3/l32i3 A(0A3rloX3iA» 5m i)ioaoYii|i a k ii n rla n e m a » \d321 01 a o X m A m in s 5 nam A sa2 im ns 5io/loy

5 io s iin rllie » rl S jp i m n rlrln d /l/laa m in s 1103 5oyUg a o 2i io 'AUgao2ia m a n \d321 a U i n ig Ai3{|nY A n id i

3rlt03/l a U i in s n m rlU e n rl nyyn 31 n i Aiaogi2i3 a3üUio2I3 A U iai/l3 rl 5oA3rloA3/l 5 io ia o i 1213,g A to in y n

■A3/l\nd/l3Aaa n i3 X io ia in s AtoA3rla3AorlUArl a k ii 5U indso2i2 ii, 0 dnA Soitod ii

■5i3Ani|ii2i3 Anidi3rlt03/l \d321 o ia o a

-3/I3 So inA U da^ 0 5odtogo30 in s 'AKida3 A orlaiA to/lndi3i a o sa ïA U rl a o i a o i 0 5 o ix 0 53indso2i2ii, 5io ,<(13

■A(oiAO{|nY A n ÿ g la n rlU e n rl 5 io i 1213 5m A3aa3A

-orlliArl3 5 im a n d 3 iA n 5 io i A3 A to in ^ n o in s Ato 'a o d o / lrfjn A y aki 5od3im3A rá/liyo '5 o jx 9 5Ugi2i0Aio in s

•Anidi3rlt03/l m n s a k ii om/l\Ui|i3 Amyyox 5oiA3rlo5nfM 9 Sn do/ln^ nA y ^A o ia o i 3g n i3 rl

■A3da,3An A ia m a a a A toinrlU Xa A m sirlao s a k ii a U i in s Ani3inrl/lnd2i Ato/loyn a k ii a U i

m s Ug 5o '5oA3rlKiAa3d3ig m nrlUd(03e m 5md30A in s Sto ya n in s 5oA3rlao2iosai2i3 5 U ia n 5nXdn 5 m

A30(OAn 'A 3 aU ia3 i3 rl aod 30a3y3 5ni3gm2i nrlUXa 5i3 Anii|ioaoYii|i A liia n \d321 a U i Sn doA nean 5 io ia o i 3g 1213

■5oiAoç|nY a o ia n A n ÿ g nidi3rlt03/l 1213 5ki A 3ü U do iai 5 o i3 yh , 9 5ni2i2 ii, in s

m i3a3AorlUArl 5Ugao2ia

Anidi3rlt03/l id32i a U i 5oA3rln/l\ni|i3 5o 'SoiJiYSgn a o iU io ii a o i a o d o X ia U ix 9 [{] 5osd3rlnj^ A o ia o i 3g n i3 rl

■ Aod3im snUeain 3g 5 io i 'AKiYYn{|i2i3 A od 3 im siyo en s A3rl 5 io i

'o m aU /lU ilia A o ia n ,i3 rl 5 io i 5nXdn 5 m 3g Amyyox 'Ai3da3 5 o ia n A3rl nyyox in s A U ia m Anid(O30 a U i

Síptpng
O s elementos

A í term in a o Catálogo elaborad o p o r E u d em o .


A lém de fixar os nom es daqueles gregos que m ais se d istin g u iram no es­
fo rço de dar à m atem ática aquela aparência de que seríam os herdeiros, o que
m ais cham a a atenção é o fa to de E u clid es não ter sido o p rim eiro a co lig ir
os Elementos. M as, ao lado do que, co m o verem os, P ro clu s vai dar a seguir, há
o p o n to relevante de que apenas, dessas tod as, só a ob ra de E u clid es chegou
até n ós. E is a m arca do seu su cesso: ter dado co n ta e bem de p ra tica m en te
tu d o o que fizeram os seus p red ecessores. O ra, quando se tem em m en te
a dificuldade na co n fecção de cópias m an u scritas, se um tratad o trou xesse
de fo rm a bem p o sta e m elhorad a o que o u tro s co n tin h a m , passava-se, com
vantagens, a co p iar aquele em d etrim en to d estes. D esse m od o, o tem p o
fez com os trabalh o s dos dem ais o que não co n segu iu com os Elementos de
E u clid es: elim in o u -o s quase que to ta lm e n te da m em ória dos hom en s.
E m co n tin u ação ao C atálogo, com sen tid o de co m p leta m en to , P ro clu s
p rossegu e, agora pelo seu a rb ítrio e risco .

E não muito mais jovem do que esses é Euclides, o que reuniu os Ele-
mentos, tendo também, por um lado, arranjado muitas das coisas de Eudoxo
e tendo, por outro lado, aperfeiçoado muitas das coisas de Teeteto, e ainda
tendo conduzido as coisas demonstradas frouxamente pelos predecessores a
demonstrações irrefutáveis.
E esse homem floresceu no tempo do primeiro Ptolom eu; pois, também
Arquimedes, tendo vindo depois do primeiro, menciona Euclides, e, por outro
lado, também dizem que Ptolom eu demandou-lhe uma vez se existe algum
caminho mais curto que os Elementos para a geometria e ele respondeu não
existir atalho real na geometria/9

A co n tece com E u clid es o m esm o que com o u tro s grandes m a tem á tico s
da G ré c ia A n tig a: re stam -n o s apenas m acérrim as in fo rm a çõ es sobre a vida
e a p ersonalidad e do hom em . N o caso p resen te, a m aior p arte do que tem o s

19 oú rcóXn 8E Tomrnv vetóTEpoç Eotív EÚKtó8rçç ó Tà OToixÊía covàyàyràv Kai rcoXAà |iEv Tffiv EüSó^on
awráijaç/ rcoXÀà 8E Tffiv ©EàíTrçTóti TEXEMaàmsvóÇ/ Etí 8E Tà |iàXàKMT£póv SEíKvtyievà Tóiç E(inpoa0
ev EÍç àvsXEyKTóúç àn;o8di;£iç àvayaytóv.
yEyovs 8Eomoç ó à\%> Erci tóú nprároo nTóAE^àíóú- Kài yàp ó' ApxílirjSrçç EmpàXràv Kài tm rcpráTra|ivrç-
liovsrá TóúEwMSóti/ Kài |i Evtóí Kài ^àoiv ótí IlTóXEiiàlóç TjpETótoteàúióv/ EÍ TÍç Eotív Jtepi y£M|i£Tpíàv
ó8óç OúvTó^raTÉpà Tflç OTóÍXEítóoEraç- ó 8E àftEKpÍvàTó/ EÍvàÍ pàOíXíK^v àTpàftóv Eli ysra^ETpíàv.

4 1
Euclides

provém do que está dado acim a, no trech o “N ã o m u ito m ais jovem do que
esses (...) não há cam inho real para a g eo m etria ”, is to é, na p arte acres­
cen tad a p o r P ro clu s ao Sumário de Eudemo. O p ró p rio au to r do acréscim o
parece não ter co n h e cim en to d ireto do lugar de n a scim en to do g eô m etra
ou das datas em que nasceu e em que m orreu. P roced e antes p o r in ferên cia:

(1 ) A rquim ed es viveu im ed iatam en te após o p rim eiro P to lo m e u ;


(2 ) A rquim ed es m en cio n a E u clid es;
(3 ) H á um a h istó ria sobre algum P to lo m e u e E u clid es;
lo g o
(I) E u clid es viveu no tem p o do p rim eiro P to lo m e u .

(4 ) E u clid es m edeia en tre os p rim eiro s d iscíp u lo s de P latão e A rq u i-


m edes;
(5 ) P latão m orreu em 3 4 7 / 6 a.C .;
(6 ) A rquim ed es viveu de 2 8 7 a 2 1 7 a.C .;
lo g o
(II) E u clid es deve ter atin gid o o seu acúm en p o r volta de 3 0 0 a.C . (o
que acorda bem com o fa to de que o p rim eiro P to lo m e u reinara
de 3 0 6 a 2 8 3 a .C .).

(7 ) Atenas era, à época, o mais im portante centro de m atem ática existente;


(8 ) O s que escreveram Elementos antes de E u clid es viveram e ensinaram
em A tenas;
(9 ) O m esm o vale para os o u tro s m atem á tico s de cu jo s trab alh o s os
Elementos de E u clid es dependiam ;
lo g o
(III) E u clid es recebeu o seu trein am en to m a tem á tico dos d iscíp u lo s de
P latão em A tenas.

P ro clu s, indo ainda m ais longe, garan te que E u clid es era da esco la p la­
tô n ic a e que m an tin h a ín tim a relação com a filoso fia dele20 ( “é p la tô n ico
pela esco lh a e fam iliarizad o com essa filo so fia ”) e que, p o r essa razão,
te ria se p ro p o sto p o r o b jetiv o dos Elementos, co m o um to d o , a co n stru çã o

20 Kai Tfl rcpoaipèoèi 8è nÀaTraviKoç èoTi Kai Tfl ^iXooo^ia TafiTrç oiKèioç.

42
O s elementos

das cham adas figu ras platônicas21 ("e donde p recisam en te p ro p ô s-se co m o
o b jetiv o do livro to d o dos Elementos a co n stru çã o das cham adas figuras
p la tô n ic a s”) . C o m o os Elementos term in am , de fa to , com a co n stru çã o dos
p o lied ro s regulares, isto é, dos cin co só lid os o u figuras p la tô n ica s, sendo
P ro clu s um n eo p la tô n ico , viu n isso a o p o rtu n id ad e para asso ciar E u clid es
àquela escola. A liás, p arece-n o s possível enten d er a expressão téXóç no papel
de advérbio "n o fim , em ú ltim o lu g a r”, p o d en d o -se verter p arte da frase
citad a p o r "p ro p ô s-se no fim do livro to d o dos Elementos a co n stru çã o ( .. .) ”,
o que é verdade. A busaria, assim , P ro clu s de um a am biguidade?
Q u e E u clid es ensinara e fundara um a esco la em A lexandria, aprendem os
de um a observação de Pappus no Livro V II da sua A coleção matemática, ao
co m en tar que A p o lô n io nos tra n sm itiu o ito livros sobre as cô n icas, te n ­
do co m p letad o os qu atro livros das Cônicas de E u clid es e a eles aju n tad o
o u tro s qu atro.
Pappus, 7 .3 5:

E [Apolônio] pode ajuntar as coisas restantes ao "lugar”, tendo antes sido


capaz de imaginar pelas coisas já escritas por Euclides sobre o "lugar”
e, tendo frequentado por muito tempo os discípulos de Euclides em Ale­
xandria, por essa razão adquiriu esse hábito não ignorante de mente.22

H á, p o r fim, um ep isó d io relatado p o r S to b a eu s nos seus Eclogarum


physicarum et ethicaram Libri I I .23 E i-lo :

(... ) alguém que começara a estudar geometria com Euclides, tendo aprendido
o primeira teorema, perguntou a Euclides: "M as o que me será acrescido por
aprender essas coisas?” E Euclides, tendo chamado o escravo: "D ê-lhe três
óbolos, porque para ele é preciso lucrar com o que aprende”.24

2 1 ó'0Ev 8rç Kài Tflç co|ircàaiiç OToixEitóoErnç tEXóç rcpósaTrçaàTó Trçv


Tràv KàXóú^Évov ntaTMvlKffiv OX^àTMv
22 rcpóo0Eivài 8E Tra Tórcra Tà XEircó^Evà 8E8úv^Tài rcpó(fàvTàaíM0£iç Tóiç úrco EúkXeí8óú ysypà^^évóíç
rç8rç rcspi Tóú Tórcra Kài axotóaàç Tólç úrcó EúkXeí8óú ^à0^Tàlç Ev’AX£^àv8pià rcMoTóv xpóvov/ ó0Ev
EoXE Kài T^v TóiàúT^v E^iv óúK à^à0rç.
23 [Coletânea de coisas físicas e éticas].
2 4 nàp’EúKXd8rç Tiç àp^à^svoç y£M|i£TpEív/ raç tó rcpraTóv 0£tóprç|ià E^à0£v/ rçpsTó Tóv EúKtó8rçv tí 8e
|ióí rcXEov EoTài TàúTà ^àv0àvóvTi; Kài ó EúkXeí8^ç tóv rcài8à KàXEoàç- 8óç/ E^^/àmffi TpirápóXóv/
Ercsi8rç 8eí àúTffi/ E£, rav |iàv0àv£i/ KEp8àívEív.

43
Euclides

Apenas isso a trad ição nos tra n sm ite so bre o n o sso p erson agem .
Vale p ond erar aqui que a trad ição se in teressa m ais pela v erossim ilh an ça
do que pela verdade, consid erand o aquela co m o um a m e tá fo ra desta. D esse
m od o, o d iálogo en tre P to lo m e u e E u clid es que, d iga-se de passagem , ta m ­
bém é co n tad o sobre a dupla re i-g e ô m etra A lexandre e M en aech m u s, pelo
p ró p rio S to b aeu s na o b ra referida, m e ta fo riz a o fa to de a g eo m etria te r de
ser aprendida sistem aticam en te, passo a passo, segu ind o o tr a je to exp osto
nos Elementos. A ú ltim a h istó ria, p o r sua vez, representa, figuradam ente,
o que é frisad o no Catálogo dos geômetras, que P itág o ras m u dou a filosofia
so bre a m atem ática “em um a form a de educação lib era l”, ou seja, p ró p ria
dos hom en s livres, que não se su bm etem senão a ganhos in telectu a is. D a
m esm a m aneira, quando a trad ição nos dá co m o escrita sobre o p ó rtic o
da A cadem ia a fam osa frase “nin gu ém que ign ore g eo m etria en tre”,25 não
qu er nos fazer crer estar ela realm en te p o stad a à entrad a para, co m o a ígnea
espada do arcanjo, que im pedisse, aos não iniciados naquela ciência, o acesso
a um tal É d en ; antes cond ensa, m e tafo ricam en te , de m od o adm irável, tu d o
o que P latão d izia sobre a m atem ática: ser ela o v estíb u lo , a via pela qual
se chega à filosofia.
O que fica de tu d o é o p o u co co n h e cim en to , e ainda assim in certo , que
resta do hom em que fo i o n o sso g eôm etra. É co m o se, daquela d istan te
época, um aedo nos cantasse:

D iz o Tempo a Euclides:
Nas muitas dobras que tenho
N o meu manto de negro tecido,
Escondo para sempre dos pósteros
A tua vida, as tuas dores,
As tuas alegrias fugazes,
O teu dia de cada dia.
Escondo-te o semblante, o sorriso,
A lágrima quente que escava
Profundos sulcos na face.
Escondo também os amores,
As tuas noites de insônia

2 5 ayèra^èTp^Toç iirçSèiç èiolm

44
O s elementos

E a dura luta diária


Rumo à verdade desnuda.
Escondo tudo o que foste
D e todos os que virão.
Mas as muitas dobras que tenho
N o meu manto de negro tecido,
Por mais que eu faça e refaça,
N ão bastam para esconder
A obra que produziste.
Proclamo, pois, em alto som:
O s Elementos de Euclides
Sempiternos brilharão.

Outros trabalhos de Euclides

A im p o rtân cia extrao rd in ária dos Elementos to rn a de som en os m o n ta os


dem ais trabalh o s atrib u íd o s ao g eôm etra, alguns dos quais chegaram até
nós. São , na m aior parte, p equ enos planetas a o rb ita rem à v olta daquela
m agna estrela. C o n h e ce m o -lo s to d o s p o r m enção de autores gregos.
A ssim , na seq u ên cia do Sumário de Eudemo, P ro clu s fa z -n o s saber:

Também existem, de fato, muitas outras obras matemáticas desse homem,


cheias de exatidão admirável e de visão científica.
Pois tais são tanto a Ótica quanto a Catóptrica, e tais também as a respeito
dos Elementos de música, e ainda o livro sobre Divisões.26

E , em co n tin u ação , elogian do os Elementos, faz referên cia a um o u tro


trab alh o :

E porque muitas coisas são vistas na aparência como sendo apoiadas na


verdade e seguindo os princípios científicos, mas seguem o seu curso para o
desvio dos princípios e enganam completamente os mais superficiais, ele tam­

26 rcoXXã |ièv ofiv Kai aXXa Tofi av8poç TofiTofi ofiyypà|l^àTà Bafi^aoTflç aKpipèiaç
Kai èrcioT-niioviK-nç Bèfflpiaç |ièOTa.
ToiafiTa yap Kai Ta orcTirâ Kai Ta KaTorcTpiKá/ ToiafiTai 8è Kai ai KaTa iiofioiK-rç oToixèiráoèiç/
èTi 8è to rcèpi 8iaipèoèfflv pipXiov.

45
Euclides

bém legou à posteridade métodos de percepção perspicaz dessas coisas/ tendo


os quais poderemos treinar os principiantes dessa teoria para a descoberta dos
paralogismos, e a permanecer até o fim não enganados.
E assim então, essa obra, pela qual introduz-nos nessa preparação, ele in­
titulou Das falácias (...)27

E sse livro D as fa lácias p erd eu -se, mas o seu in te n to é exp o sto claram en te
no excerto, e, co m o aparece num co n tex to que diz resp eito aos Elementos, é
líd im o su por não u ltrap assar o d o m ín io da g eo m etria.
V ejam os os o u tro s títu lo s citad os pelo esco liasta.

/
Otica e Catóptrica

A m bos foram ed itad os p o r H eib erg no m esm o V olu m e V I I ( I 8 9 5 )


da p u b licação pela T eu b n er V erlag sg ese llsch a ft Euclidis opera om nia,28 de
H e ib e rg —M en g e. A í a Otica aparece na sua fo rm a genuína e na recensão
de T h é o n de A lexandria.
A Catóptrica, p o r sua vez, não é genuína e H e ib e rg tem para si que, no
fo rm a to sobrevivente, p o ssa ser de T h é o n . P ossiv elm ente, P ro clu s teria se
enganado ao p ô -la na co n ta de E u clid es, que não a p rod uzira.
A O tica é, de fa to , um tratad o de perspectiva. P arte da h ip ó tese da exis­
tên cia de raios visuais retilíneos e bu sca determ inar a parte que efetivam ente
vem os de um o b je to d istan te dado.
A palavra catóptrica (q u e o u sa m o s a p o rtu g u esa r, co m a a ce n tu a çã o
regida pela analogia com ó tica , variante de ó p tica ) é um ad jetivo grego
derivado do su b sta n tiv o n eu tro KàTórcTpov "e sp e lh o ”. Por isso , o títu lo
T à KàTorcTpiKà sign ificaria "im agen s refletid as”, ou m elhor, Teoria da reflexão.

27 Èrc£í8^ 8e rcoWà ^àvTà^ETàí |iEv raç Tflç àXrç0dàç àv^xó^svà Kài Tàiç èrcioTrç|ioviKàiç àpxàiç àKó
Xóú0ofivTà/ ^ÉpETài 8e eíç t^v àrcó Trav àpxrav rcXàvrçv Kài Tóúç èrcircotaoTépoúç È^àrcàTã/ ^£0ó8óúç
rcàpà8É8raK£v Kài Tflç TóúTrav 8iopàTiKflç ^pov^osraç
àç Exóvteç yo^vàÇsiv |ièv 8úv^oó|i£0à Tóúç àpxo^Évóúç Tflç 0Erapíàç Tàmrçç rcpóç Trçv súpEoiv Trav
rcàpàXoyio^ffiv/ àvE^àrcàT^Tói 8E 8ià|iÉv£ív.
Kài tóútó 8rç oúyypà^^à/ 8i’óú Trçv rcàpàOKEú^v rç^ív Tàmrçv èvtí0^oí/^£ú8àpíàv èrcéypàysv...
28 [Obras completas de Euclides].

46
O s elementos

Elementos de música

D o is tratad os são dados com o de E u clid es: Sectio canonis29 “a teo ria dos in ­
terv alos”, “D ivisão da escala”, e eioayroy^ ápiioviK^ “in tro d u ção à h arm o n ia”,
ed itados no V olu m e V I I I das Euclidis opera omnia p o r M en g e. O prim eiro,
baseado na te o ria p ita g ó rica da m ú sica, é m a tem á tico , co n cord an d o em
geral, ta n to na dicção qu an to na form a das p ro p o siçõ es, com o que está nos
Elementos. O segundo é de C leo n id es, um d iscíp u lo de A risto x en es.

O livro das divisões (de figuras)

E ssa obra, co n trarian d o ap aren tem ente a expectativa dos que con h ecem
apenas os Elementos, o cu p a-se com a aplicação da g eo m etria a problem as de
cálcu lo, co m o os ex isten tes na B ab ilô n ia. A d iferen ça ca ra cte rística é o uso
fe ito dos resu ltad os depend entes de p ro p o siçõ es daquele trab alh o m agno
em lugar da abordagem n u m érica dos o rien ta is.
T rata-se, em resum o, da divisão de figuras em o u tras que lhes sejam
semelhantes ou dessemelhantes pela definição, is to é, do m esm o tip o ou de tip o
d iferen te. D esse m od o, um triân g u lo pode ser dividido em triâ n g u lo s, ou
seja, em figuras do m esm o tip o ou sem elhan tes pela definição, o u pod e ser
dividido em um triân g u lo e um qu ad rilátero , figuras d essem elh an tes pela
definição.
É co m o nos diz P ro clu s ( 1 4 4 . 2 2 - 2 6 )

... pois tanto o círculo é divisível em dessemelhantes pela definição quanto cada
uma das retilíneas, e ele próprio, o autor dos Elementos, ocupou-se nas Divisões,
dividindo as figuras dadas quer em semelhantes quer em dessemelhantes.30

O tex to grego dessa obra de E u clid es perdeu-se, ten d o sido red esco b erto
em árabe. W oepcke en co n tro u em um m a n u scrito em Paris um trab alh o
em árabe sobre a divisão de figuras. T ra d u z iu -o e p u b lico u -o em I 8 5 I

29 KaTaTo^^ Kavovoç.
3 0 Kai yap o KfiK^oç èiç avo^ia Tra Xoyra Kai èKaoTov Trav èfi0fiypáwirav SiaipèTov èoTiv/ o Kai afiToç
o oToixèiMT^ç èv Taiç 8iaipèoèoi rcpay^aTèfièTai to |ièv èiç o^oia Ta 8o0èvTa ox^aTa Siaiprav/ to 8è
èiç avo^ia.

47
Euclides

no Jou rn a l Asiatique. E sse tratad o é expressam ente a trib u íd o a E u clid es no


m an u scrito e acorda com o que P ro clu s diz so b re ele.
A lém desses trabalh o s cu jo elenco é dado pelo co m en ta rista , há m ais,
citad o s p o r o u tro s au tores.

O s D ata

O s D a ta 31 foram in clu íd os p o r Pappus no Tesouro da análise.


A ntes de te ce r co n sid erações so bre ele, qu erem os esclarecer alguns p o n ­
to s relativos a Pappus.
E sta m o s to d o s cien tes de que a Idade de O u ro da g eo m etria grega fin ­
dara com A p o lô n io de Perga. N o en tan to , a in flu ên cia dos fe ito s do trio ,
E u clid es, A rquim ed es e A p o lô n io , não acabou co m os seus dias. T iv em o s
um a su cessão de m atem ático s, se não criativ os, ao m enos co m p eten tes,
aptos a preservar a trad ição . G em in u s, p o r exem plo, escreveu um a obra
de caráter quase en ciclo p éd ico sobre a classificação e o co n teú d o da m a te­
m ática, in clu in d o a h istó ria do d esen volvim en to de cada assu n to . Pappus
( V I II, 3 ) , faland o so bre A rq u im ed es, abona a sua observ ação co m um
“co m o o declara tam bém G em in u s, o M a te m á tico , no seu livro A ordenação
da m atem ática”.32 A pesar d isso, o títu lo do grande tratad o de G em in u s não
está bem fixado, pois E u to ciu s de Á scalon, no seu co m en tá rio às Cônicas de
A p o lô n io , m e n cio n a -o co m o A ciência m atem ática.33 Já P ro clu s, no Comentário
ao livro I dos elementos de Euclides, m u n e-n os de in fo rm açõ es precisas sobre esse
trab alh o , sem jam ais m en cio n ar-lh e o títu lo .
O co m eço da E ra C ristã assiste a um acentu ad o d ecréscim o no in teresse
pelo estu d o da g eo m etria avançada. A ssim Pappus, no sécu lo III, p ro p õ e-se
a m issão de reavivar a cu riosid ad e sobre tal co n h e cim en to .
A sua o b ra cap ital ch eg o u -n o s sob a designação de Coleção matemática. E m
verdade, a m aior p arte dos m an u scrito s, so b retu d o os m ais a n tigo s, vem
apenas com a d en om in ação A coleção,34 mas cópias m enos antigas trazem

3I 8è8o|ièva.
32 Trav |ia0rç|iáTMv Ta^iç.
33 rcèpi Tflç Trav |ia0rç|iaTrav 0èraplaç.
34 ofivayray^.

48
O s elementos

um títu lo m ais co m p leto no plural, A s coleções matemáticas.35 C o n s iste ela em


um a am pla reco lh a de p ro p o siçõ es extraídas de um núm ero grande de obras
de o u tro s m atem ático s, quase tod as h o je in feliz m e n te desaparecidas. E s tá
longe, p orém , de ser um a sim ples co m p ilação , e excede de m u ito o quadro
de apenas um co m en tário , um a vez que não se lim ita a expor p ro p o siçõ es
notáveis, devidas aos seus p red ecessores. F á-las acom p anhar de um a m u lti­
dão de lem as, d estinad os a esclarecer as passagens m ais com plexas das suas
d em o n straçõ es. M as, há m u ito m ais. D á -n o s freq u en tem en te d em o n stra ­
ções alternativas. E ste n d e-a s a casos p articu lares ou análogos, ap lica-o s à
so lu ção de p roblem as novos ou à daqueles já resolvid os de o u tra m aneira, e
co m p leta o to d o com num erosas p ro p o siçõ es novas, que indicam pesquisas
bem avançadas nesse d o m ín io e o calibre m a tem á tico do seu autor.
A obra é co m p o sta p o r o ito livros (ca p ítu lo s, co m o os cham aríam os
h o d iern a m en te ), sendo o sétim o so brem od o im p o rta n te para a h istó ria da
geo m etria, p o r ser a ú nica fo n te do que co n h ecem os so b re um c o n ju n to
de trabalh o s perd id os relativos à g eo m etria avançada, que os an tigo s ch a­
mavam “lugar resolvido/analisado” ou “Tesouro da análise”. 36 A d en om in ação
Tesouro da análise, co rren te na lín gua inglesa, Treasure o f Analysis, parece ter
sido su gerid a p o r Jam es G ow que, em n o ta na página 2 1 1 da sua A Short
History o f Greek M athematics,37 faz as seg u in tes e, a n o sso ver, p e rtin en te s
co n sid erações filoló gicas:

A palavra tokoç aqui não significa locus ( “lugar”) , mas tem o seu significado
aristotélico de “store-house" ( “depósito, ou figuradamente, tesouro”) . Então, no
começo do Livro V I de Pappus, TÓrcoç àoipovo^ov|ievoç significa “o tesouro astro­
nôm ico”... Tórcoç àvaXwiievoç significa “o tesouro da análise”, como na retórica
de Aristóteles, to^oi ou koivoi to^oi são coleções de “lugares com uns”, [isto é]
observações e críticas a que os retóricos podem sempre recorrer. A tradução de
tokoç àvaXvó|ievoç como “locus resolutus”, “lieu résolu” ou “aufgelöster O rt” é
portanto enganadora e levou, acredito, a alguma concepção errônea.

Pappus in d ica-lh e de p ro n to a natu reza, afirm ando:

3 5 ^aônMaTlKa'1 owaymyaí.
3 6 TÓTOç àva^DÓ^Evoç.
3 7 [Uma breve história da matemática grega].

49
Euclides

O chamado Tesouro da análise, Hermodoro meu filho, é uma matéria especial


preparada como auxílio, depois da produção dos elementos comuns, para os
que querem aprender nas linhas a potência inventiva dos problemas que se lhes
estendem à frente e que se constituiu útil para isso som ente.38

Prossegue, um p o u co m ais adiante:

E dos preditos livros do Tesouro da análise, a ordem é esta:39 dos Data de


Euclides, um livro40...; dos Porismata de Euclides, três;41 ... dos Lugares em uma
superfície de Euclides, dois42... Existem 32 livros.43

P o rtan to , dentre o u tro s, Pappus arrola três o u tro s trab alh o s de E u clid es
não m encio n ad o s p o r P roclu s.
R e to rn e m o s, agora, aos D ata, cu jo te x to sobreviveu e fo i ed itad o, ju n ­
ta m en te com o co m e n tário fe ito p o r M arin u s de N e a p o lis, d iscíp u lo de
P ro clu s, p o r M en g e no V olu m e V I de Euclidis opera omnia.
O s D ata são um c o n ju n to de 9 5 p ro p o siçõ es (Pappus fala em 9 0 ) , p re­
cedido agora p o r um a in tro d u ção exp lanatória de M a rin u s. E s te observa
que E u clid es deveria ter com eçad o com um a d efinição geral de 5e5o|iévov
“d ado” e depois passar aos vários casos que in clu i, co n clu in d o que, na sua
o p in ião , a m elh o r definição seria “co g n o scível e passível de o b te n ç ã o ”.44
E is algum as das defin ições de E u clid es no in ício da obra:

I. Áreas e também linhas e ângulos são ditos dados em magnitude, iguais aos quais
podemos obter.45

4. Pontos e também linhas e ângulos são ditos ter sido dados em posição, aqueles
que se mantêm sempre sobre o mesmo lugar.46

3 8 o KaXofi|ièvoç ' Ava^fiõ^èvoç/ ' Ep|io8rapè TèKvov/ KaTa ofiXXrçyiv i8la tíç èoTiv fi'Xrç rapaoKèfiao
lièvrç |ièTa T^v Trav Koivrav oToixèlrav rcol^oiv Toiç pofiXo|ièvoiç avataiipavèiv èv ypa^^aiç 8fiva|iiv
èfipèTiK^v Trav rcpoTèivo|ièvrav afiTolç ftpopXiniaTrav/ Kai èlç TofiTo |iovov xprçol^rç Ka0èOTffioa.
3 9 Trav 8è rcpoèiprç|ièvrav Tofi ' AvaXfio|ièvofi pipXlrav rç Ta^iç èoTiv ToiafiTrç.
4 0 EfiKXèlSofi Aè8o|ièvrav pipXlov ã.
4 1 EfiKXèlSofi nopio^aTrav Tpla.
4 2 EfiKXèlSofi Torcrav rcpoç ' Ern^avèla §fio.
4 3 ylvèTai pipXla Xfi.
4 4 yvrápi^ov Kai ^i^ov.
4 5 Aè8o|ièva Tra|ièyè0èi XèyèTai xrapla Tè Kai ypa^^ai Kai yravlav/ oiç 8fiva^è0a ioa ftoploào0àl.
46 Tfl Bèoèi SèSooBai XèyovTai o^^èlá Tè Kai ypa^^ai Kai yraviai/ a tov afiTov aèi Torcov èráxèi.

5 o
O s elementos

6. E um círculo é dito ter sido dado em posição e em magnitude, aquele do qual,


por um lado, o centro foi dado em posição, e, por outro lado, o raio, em
magnitude.47

As p ro p o siçõ es que seguem as definições lidam com m agn itu d es, linhas,
figuras retilín eas e círcu lo s, n essa ordem .
A palavra "d a d o ” é em pregada em dois sen tid o s. Sig n ifica, p rim eira ­
m ente, "realm en te d ad o”, e, em segund o lugar, "d ad o p o r im p lica çã o ”, e
as p ro p o siçõ es são tod as para esse efe ito de que certa d escrição parcial de
um a m ag n itu d e ou de um a figura g eo m étrica envolva um a d escrição m ais
co m p leta; assim aquela de um triân g u lo co m o eq u ilátero envolve a sua
d escrição co m o equiângu lo.
Pappus m o stra com exem plos co m o os D ata prestam serviço à Análise.
E s ta com eça com um a co n stru ção su p o sta que sa tisfa ça as co n d içõ es p r o ­
p o stas. Tais co n d içõ es, sendo convertid as em elem en to s dados da figura,
envolvem o u tro s que são dados por implicação, e esses, p o r sua vez, envolvem
o u tro s, até que, passo a passo, cada um deles é legitim ad o , e ch ega-se a um a
co n stru ção da qual se o b té m um a sín tese.
O s D ata são, de fato , su gestõ es para as etapas m ais usuais na Análise.

O s P o rism ata

P ro clu s ( 3 0 I . 2 I - 3 0 2 . I 3 ) p ro cu ra elucid ar o que se deve en ten d er te c ­


n icam en te p o r porism ata.48 E is a explicação:

O porisma [substantivo neutro em grego] é uma das expressões geométricas.


E isso significa duas coisas. Pois, denominam-se porismata tanto quantos teo ­
remas são ajudados no seu estabelecimento pelas demonstrações de outros,
como sendo golpes de sorte e ganhos dos que procuram, como quantas coisas,
por um lado, são procuradas, e, por outro lado, têm necessidade de descoberta
e não de produção só nem de simples teoria.

4 7 Tf 0ÉOEÍ 8è Kài Tra jaeyé0ei kúkXóç 8£8óo0ài XéyETài/ oí 8é8ovTà tó |ièv KÉvTpov Tf 0éoeí f 8è èk
Tófi KÈvTpóí Tffi |l£yé0£l.
48 ftopÍOJIàTà.
z4"

■5to3omod2i 5U i aoaotI unrlUXo m i 5mA02i3y{|02in 'm n rlU y flo d ii 3g 5 ao i

mnrlUd(O30 13A3/1 m i i» a i3 m a n A i3A »{|rln Yo m A3rl 5 ao i Amdi3rlt03/l Amyyox a k ii 3sli{|3{|rlaQ in s o ,dm i

A toin rlU yflodii 5m U A toinrl

Udto30 im Uineo35»rlU Xo in eo n A ag A to ian 5i3om odn 5 m 310m '5n3gi 5UoaoX3 A to ia o i 5tou AOQ3rl tyyx'o
AtoinrlUyflodii 3iao A1103 AKnnrlUd(O30 3iao Ugi3 ni Atoian 3g niAmin 0 i
■Sn^mAao Atoinrloidon niy{|i{| A '3i|ind/l3/l mnrloidon SUgpysaa noo ins A1103 ndn nianioi
■A0A3rla,0iU5 01 ineonoliion Atoinrlrlo odn ins Ai3/ln/ln Ai/I\(iia dnA i3g
Uyi/h nid(O30 3iao '5i303da3 ,yy.V /‘'(OA3rlaoiU5 akii 5ioiaoi A3 A1013 5i3Q3A3/1 dnA3iao
■At0inrlUd(039 ins AtoinrlUyflodii 1103 1 a^nisrl '3gnioi noo U 'Ai3da3 Aodi3rl aoaios ins aoi
oi/l3rl 01 AK>eQ3/l3rl Atodi3rlrlao A(oiA30og oag U'Ai3da3 AodiA3s 01 aoysas 5oiA30og 3g aoi' i3iimin
5oaii A10I11021 niAnn mam 'in0O30 U Ai3y3(|in U in0onoliioao AOAtri/Udi U Ai3rl3i nXig AniAto/l 3g aIii
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A1103 A toinrl/lndu a k ii Ug a k iia o in s 'i3g inoUdto30 in o i i3 o n {| 111 5odn in a(o y3 sq o q i a k ii dnA A3rl 110

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3A3/1 3 ia o in s i35&dX 3g 5to303da,3 'A3rl im i3 iU 5 n o o in s 'n iA o X d m ia, A toiA aoiU ^ a k ii Ugd3s in s m n rl

d3 a o io 'A iD 3 ^i3 go iin a k i^ x) 5 in i in i3 5 n a 3 s o m n s / la o ninrlUd(O 30 n o o in s n m rlo id o n dnA lo a o y n s

A om g i3Ainrl3Q 3g o ia o i

n rlo id o n 01 AtoinrloAo A1103 Atosidi3rlKi3/l a k ii 11 A jjn foj?

0S-SEui3|qojd
‘s o jjn o ‘SEUI3J033 ‘OJ3U3§ OU ‘J3S jo d S0U-UI3JEUI03 sun ‘o p co u n u s op EUIJOJ
v. srosd c urejspisuoD snb so ‘ sejisu io s S so u n u i sop nsDsjuoDE u p q u rej snb
o p d ‘scu isjq o jd sop ouiod no s e u is jo s j sop ouiod no e u ijo j jiu in s s c ssp p
sopciDunus so u isjsp o d jo d ‘e u ijo j o p u n sixs ‘scsssp oisui ou opoui u in S p sp
seui ‘scui3|qojd sop uisu seuisjosj sop 05s o ro ss p p ssiDsdss sv scp o j g

:soiu jaa ssaum Sas sou viviusuod so s jq o s Epq m squrea snddisj

6f'mviusuod sp sojai| s s jj ojsoduioD


o p u si ‘n3A3j3S3 s s p ip n g viviusuod soju cn b u is q u id 05s sesiod sren ‘o i u ^ j o j
•so q p sop
33ucip opcjnDoad o js z e j 3 d siA v. qos Op^jnDOjd O JIznpuOD OSIDSjd 3 SIOJ
•SEIJ033 S3|duiIS UI3U
‘s^ jsqoD ssp 05s seui ‘scpcjnDOjd scp sesiod sesssu ssoSnpoad 05s urau ‘ sio j
•SEUI3J033 3 SEUI3|qOjd 3J3U3 ‘EJI3UEUI
c u in S p sp ‘ogiss sre3 snb sesiod s^ u c n b no scpcp sisApjnsusuioD sspnjiuSEui
scnp sp uinuioD cp ip su i jo ieu i v. reypv. no opcp 0|n3ji3 op o jju sd o veypv. seui
‘u isn S p sp og5c cuin uiEpucuisp sesiod sesss scp o j ‘JE3U33S3J3E no jic jjq n s
no 0|n§u|U3 uin jin jjsu oD no siop uis o p S u g o jipiA ip ‘opc| o jjn o j o j
*ogs snb SESiOD scp ‘o g iu s ‘3 ojusuiiDsquoD 3SS3 ‘srenSi
sspD spsi sop sscq cu so j^jspisuoD osi33jd 3 ‘opc| uin jo d ‘snbaod sio j

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O s elementos

C o m to d a certeza, P ro clu s usava as palavras de Pappus. D e qu alqu er


m od o, pela d istin ção feita, há os porism ata que são m eros corolários, is to é,
co nsequ ências diretas das d em o n straçõ es de o u tro s teorem as, e os há com o
p ro p o siçõ es que, não sendo tecn ica m e n te quer teorem as quer p roblem as,
p articip am da n atu reza de uns e dos o u tro s.
O tratad o de E u clid es ja z esco n d id o nas dobras do negro m an to do
tem p o , m as, p o rq u e Pappus o tra to u de m o d o extensivo, a crescen ta n d o ­
-lh e ta n to s lem as, alguns g eô m etras, e d en tre eles o fran cês do sécu lo
X I X , M ic h e l C hasles (n os Les trois livres desporismes d’Euclide réstablis,51 Paris,
M allet-B ach elier, I 8 6 0 ) , ten taram , com m aior ou m en o r êxito , restau rá-lo.
O o b jetiv o de um porisma não é aquele de um teorem a, isto é, a d escrição
de um a nova propriedade, nem o de um problem a, ou seja, efetivar um a
co n stru ção ou alterar um a dada; é antes achar e tra z er à vista um a co isa
que coexiste necessariam ente com certas coisas dadas, com o a m aior m edida
com u m co existe com duas m agnitu d es com ensuráveis dadas, ou co m o o
cen tro co existe com um círcu lo dado.
D e te n h a m o -n o s um p o u co nas in teressan tes co n sid erações feitas por
C hasles no seu Aperçu historique des méthodes engéom étrie,52 p . I 2 - I 5 :

Segundo o prefácio do Sétimo livro das coleções matemáticas de Pappus, parece que
esse tratado dos porismata distinguia-se por um talento penetrante e profundo e
era eminentemente útil para a resolução dos problemas mais complicados (col-
lectio artificiosissima multarum rerum, quae spectant ad analysin difficiliorum etgeneralium
problematum ["reunião engenhosíssima de muitas coisas que visam à análise dos
problemas difíceis e gerais”]). Trinta e oito lemas, que esse sábio comentarista
deixou-nos para a inteligência desses porismata, provam-nos que formavam um
conjunto de propriedades da linha reta e do círculo, da natureza daquelas que
nos fornece, na geometria recente, a teoria das transversais.
Pappus e Proclus são os únicos geômetras da Antiguidade que fizeram men­
ção dos porismata; mas, já no tempo do primeiro, a significação dessa palavra
estava alterada, e as definições que dela ele nos dá são obscuras. A de Proclus
não é apropriada a esclarecer as primeiras. Também foi um grande problema

51 [Os três livros dos porismas de Euclides restaurados].


52 [Resumo histórico dos métodos em geometria].

53
Euclides

entre os M odernos saber a nuança precisa que os Antigos haviam estabelecido


entre os teoremas e os problemas por um lado, e esse terceiro gênero de propo­
sições, chamadas porismata, que participava, ao que parece, de uns e dos outros;
e saber particularmente o que eram os Porismata de Euclides.

Pappus, é verdade, tra n sm itiu -n o s os enu nciad os de tr in ta p ro p o siçõ es


p e rte n cen tes a esses porism ata: mas esses en u nciad os são tão su cin to s e
to rn a ra m -se tão d efeitu o so s pelas lacunas e a ausência de figuras, que d i­
ziam a resp eito deles que o célebre H alley, tão p ro fu n d a m en te versado na
g eo m etria antiga, co n fesso u não com p reend er nada deles, e que, até cerca
da m etade do ú ltim o século, em bora geôm etras de grande m é rito ten h am
fe ito dessa m atéria o o b je to das suas m ed itaçõ es, n enhu m enu nciad o havia
ainda sido restabelecid o .
F o i R . S im so n que teve a g ló ria de d esco b rir a sign ificação de vários
desses enigm as, bem co m o a form a dos enu nciad os que era p ró p ria desse
gênero de p ro p o siçõ es. E is o sen tid o da definição que o g eô m etra deu dos
porism ata:

O porisma é uma proposição na qual se anuncia poder determinar, e em que


se determinam efetivamente, coisas que têm uma relação indicada com coisas
fixas e conhecidas e com outras coisas variáveis ao infinito; estas estando li­
gadas entre si por uma ou várias relações conhecidas, que estabelecem a lei de
variação, à qual estão submetidas.

E x em p lo : sendo dados dois eixos fixos, se de cada p o n to de um a reta


b aixam -se p erp en d icu laresp e q sobre esses dois eixos, p o d er-se-á en co n trar
um co m p rim e n to de lin h a a e um a razão à tais que se ten h a en tre essas
duas perpendicu lares a relação (p -a )/q = à. (O u , segundo o e stilo an tigo , a
p rim eira perp en d icu lar será m aior, relativam ente à segunda, p o r um a dada
so m en te em razão.)
A qui, as coisas fixas dadas são os dois eixos; as coisas variáveis são as
p erpen d icu lares p , q ; a lei com u m , à qual essas duas coisas variáveis estão
su jeitas, é que o p o n to variável, de ond e essas perpend icu lares são baixadas,
p e rte n ce a um a reta dada; enfim , as coisas a en co n tra r são a lin h a a e a razão
à , que estabelecerão, entre as coisas fixas e as coisas variáveis da qu estão,
a relação p rescrita.

54
O s elementos

E sse exem plo é su ficien te para fazer com p reend er a n atu reza dos poris-
mata, co m o a co n ceb eu R . S im so n , cu ja o p in ião fo i g eralm en te adotada
desde então.
Todavia, devem os acrescentar que nem to d o s os g eô m etras re co n h ece­
ram, na obra de S im so n , a verdadeira previsão daquela de E u clid es. Por nós,
adotando o sen tim en to do ilustre p ro fesso r de Glasgow, direm os porém que
não en con tram os no seu trabalho a previsão com p leta do grande enigm a dos
porismata. E ssa qu estão, com efeito , era com plexa, e as suas d iferen tes partes
exigiam tod as um a so lu ção que se procu ra, em vão, no tratad o de S im so n .
A ssim , d ever-se-lh e-ia dem andar:

1. Q u al era a form a dos enu n ciados dos porism ata;


2 . Q uais eram as p ro p o siçõ es que entravam na o b ra de E u clid es; n o ta ­
d am ente aquelas cu ja ind icação, m u ito im p erfeita, fo i-n o s deixada
p o r Pappus;
3. Q uais foram a intenção e o o b jetiv o filosó fico de E u clid es, com p on d o
essa o b ra em um a form a inu sitad a;
4 . So b que p o n to s de vista m erecia a em in en te d istin çã o que lhe faz
Pappus entre as o u tras obras da A ntig u id ad e; p o rq u e só a fo rm a do
enu nciad o de um teo rem a não lhe c o n s titu i o m é rito e a u tilid ad e;
5. Q uais são os m éto d o s, ou as operações efetivas que m ais se ap ro ­
xim am , sob um a o u tra form a, dos porismata de E u clid es, e que os
suprem na resolu ção de p ro blem as; p o rq u e não se pode crer que
um a d o u trin a tão bela e tão fecu nd a desaparecesse co m p letam en te
da ciên cia dos g eô m etras;
5. E , enfim , haveria que dar um a in terp retação sa tisfa tó ria de d iferen tes
passagens de Pappus sobre esses porism ata; p o r exem plo, daquela em
que diz que os m od ern o s, não p od end o tu d o achar p o r eles p ró p rio s,
ou, p o r assim dizer, “porism ar” co m p letam en te, m udaram a sig n ifica ­
ção da palavra; porqu e, se o porisma c o n sistisse apenas na fo rm a do
seu en u n ciad o, co m o parece resu ltar do tra ta d o de R . S im so n , seria
sem pre fácil “porism ar” tod as as p ro p o siçõ es que fossem su scetíveis
disso; e não se vê p o r que os m o d ern o s haveriam en co n tra d o d ificu l­
dades que lhes tivessem fe ito m udar a sign ificação da palavra.

55
Euclides

E C h asles co n clu i o p arág rafo relativo aos porism ata afirm and o que,
pela im p o rtân cia do assu n to , so b retu d o pelas suas relações com as teorias
que form am o d o m ínio da g eo m etria do seu tem p o , dará co n tin u id a d e ao
parágrafo na N o ta III, “ S u r les p o rism es d’E u c lid e ”,53 p .2 7 4 - 8 3 , em que
“ten tarem o s m esm o apresentar algum as ideias novas sobre essa grande
qu estão dos porism ata”.
O ex p o sto, crem os, basta, qu an to a tal obra de E u clid es.

Lugares em u m a superfície

N a N o ta II que acresce sua o b ra citada, assim se exprim e C hasles sobre


os Lugares em uma superfície,54 cu jo s dois livros, segund o Pappus, tam bém
jazem su bm ersos “em negro vaso de água do esq u e cim e n to ”:

M ontucla diz, na página I 7 2 do primeiro volume da sua Histoire des mathé­


matiques, que os Lieux à la surface de Euclides eram superfícies; e, na página 2 I 5 do
mesmo volume, que eram linhas de dupla curvatura sobre superfícies curvas, como
a hélice sobre um cilindro circular. É possível que os antigos designassem, em
geral, por essa palavra, as superfícies e as curvas que aí eram traçadas. Mas,
quais eram verdadeiramente os Lieux à la surface de Euclides?
Para responder a essa questão não nos resta outra indicação a não ser quatro
lemas de Pappus relativos àquela obra; e como esses lemas tratam somente
de seções cônicas, devemos pensar que Euclides considerava somente as su­
perfícies que chamamos, hoje em dia, do segundo grau. E somos levados a crer
que essas superfícies eram de revolução. Porque, por um lado, é certo que as
superfícies de revolução do segundo grau tinham sido estudadas anteriormente
a Arquimedes, pois após ter enunciado algumas propriedades das suas seções
por um plano, ele diz, no final da proposição X I I do seu livro Sobre esferoides e
conoides, “as demonstrações de todas essas proposições são conhecidas”. Além
disso, observamos que o último lema de Pappus é a propriedade principal do
foco e da diretriz de uma cônica; e esse teorema parece-nos ter podido servir
para demonstrar que o lugar de um ponto, cujas distâncias a um ponto fixo e a
um plano devam estar entre elas em uma relação constante, é um esferoide ou

53 [Sobre os porismas de Euclides].


54 totoi rcpòç èrn^àvEÍà-

5 6
O s elementos

um conoide, ou então para demonstrar que a seção desse lugar por um plano
conduzido pelo ponto fixo é uma cônica tendo o seu foco nesse ponto, e cuja
diretriz é a interseção do plano dessa curva pelo ponto fixo.
Desse modo, parece-nos provável que os Lieux à la surface de Euclides tratas­
sem de superfícies do segundo grau, de revolução, e de seções feitas por um
plano nessas superfícies, como o cone.

Já G o w 55 com enta que o p róprio significado do títu lo totcoi rcpòç è^i^aveía56


o ca sio n o u algum a co n tro v érsia. C o n tin u em o s com ele:

O Prof. De M organ diz francamente que não o entende e é evidente que


Eutocius estava na mesma condição, pois fala, após descrever outros loci
[“lugares”] muito bem, que os TÓnoi rcpóç èm^avria derivam o seu nome “da
peculiaridade deles57 e assim os deixa. O Prof. Chasles supõe que o livro con­
tenha proposições sobre “superfícies do segundo grau, de revolução, e seções
ali feitas por um plano”: e refere-se ao fato de que Arquimedes, no final da
“Proposição X I I ” do seu Conoides e Esferoides, diz que certas proposições sobre
seções de conoides ^avèpaí èoxi (isto é, “são claras”, não “são bem conhecidas”
como Chasles entende) e de que os quatro lemas que Pappus dá sobre esse
livro de Euclides dizem respeito a seções cônicas. Heiberg, no entanto, por
uma bem elaborada análise de todas as passagens nas quais tokoi de vários tipos
são descritos, chega à conclusão de que tokoi rcpóç èm^avèia significa simples­
mente “loci que são superfícies”, e que o tratado de Euclides lida sobretudo
com as superfícies curvas do cilindro e do cone. Q ue essas superfícies eram
consideradas como loci antes do tempo de Euclides é evidente pela solução de
Árquitas ao problema da duplicação do cubo.

C o m o se pode ver pelas passagens acim a, e ju lgam os co n stitu íre m elas


tu d o o que se p o ssa falar sobre esse trab alh o de E u clid es, estava aberta a
tem p o rad a das co n jectu ra s. E nada de mal n isso. É m esm o um am pliar de
h o riz o n te s, um ganho em visão so bre os m éto d o s dos a n tigo s. Afinal, não
há quem afiance ser a in flu en te filoso fia de P lo tin o o resu ltad o da sua má
com p reensão das ideias de Platão? O u , co m o quer o p oeta, seja a m e ta física

5 5 GOW, James. A Short History of Greek Mathematics. Nova York: Chelsea, 1968.
5 6 [Lugares em uma superfície].
5 7 “ to Tflç rcep'i amoüç i8ioTfl[Toç.

57
Euclides

um a co n seq u ên cia de se estar m al d isp o sto (re sta n d o -n o s, assim , co m o à


“pequena su ja”, tirar “o papel de prata, que é de fo lh a de esta n h o ”, cuidando
para não d eitar “tu d o para o ch ão ”, e co m er c h o c o la te s )? 58

As cônicas

C o n fo rm e com o já expresso, Pappus, tra ta n d o das Cônicas de A p o lô -


n io , atrib u iu a E u clid es um tratad o so bre Seções cônicas59 em qu atro livros
que teriam form ad o o fu n d am en to dos qu atro p rim eiro s livros da o b ra de
A p o lô n io . In feliz m e n te , talvez até pelo m ag nífico trab alh o deste, o daquele
não co n segu iu vencer o d estin o das obras suplantadas p o r o u tras na A n ti­
guidade e não sobreviveu.
A risteu , o velho (cerca de 3 2 0 a .C .), escreveu um Elementos de seções cônicas,
em cin co livros que, segund o Pappus, E u clid es tin h a em alta co n ta. D esse
m od o, não pod e haver dúvidas q u an to a essa o b ra de A riste u ter precedido
a de E u clid es.
A rquim edes refere-se freq u en tem en te a p ro p o siçõ es sobre cônicas com o
bem conhecidas e não n ecessitan d o de d em o n straçõ es, ad icionand o em três
casos que elas estavam provadas nos “elem en tos de cô n ica s”. Porém , não
m en cio n a E u clid es, co m o se a m era d en om in ação de “E le m e n to s ” bastasse
p o r su b en ten d e-lh e o nom e.
É razoável supor, com o resultado do testem u n h o de Pappus, que, se A ris­
teu desenvolvera a te o ria de m od o o rig in al, E u clid es te ria p o sto em form a
tu d o o que fo ra ad quirid o à sua época, com m ãos de grande sistem atizad or,
e que as suas Cônicas eram um a o b ra de referên cia e assim perm an ecera até
o aparecim ento da de A p o lô n io .
N o endereçam ento a E u d em o , que co n h ecera em Pérgam o, do Livro I do
seu tratad o, A p o lô n io frisa que, dos o ito livros que o co n stitu e m , os quatro
p rim eiro s são devotados a um a in tro d u ção elem en tar e passa a descrever­
-lhes o co n teú d o . S o b re o te rce iro deles assevera:

5 8 PESSOA, F. Obra poética (volume único). Rio de Janeiro: Companhia Nova Aguilar,
I9 6 5 .
5 9 KrnvlKà.


O s elementos

E o terceiro também [contém ] muitos e extraordinários teoremas, úteis


tanto para a síntese dos lugares sólidos quanto para as determinações, dos quais
os mais numerosos e os mais belos são novos,60 e tendo-os observado, fomos
capazes de ver não sendo sintetizado por Euclides o lugar nas três e quatro
linhas,6I mas uma partezinha ao acaso dele e isso não de modo feliz.62 Pois
não era possível sem as coisas achadas por nós ter sido completada a síntese.63

E s tá aí, p o is, m encio n ad o um p o n to em que o g eô m etra de Pérgam o


m elh o ra o trab alh o em qu estão de E u clid es. E s te teria tra ta d o apenas ana­
litica m e n te “o lugar nas três e qu atro lin h a s”.64 O referid o lugar é definido
p o r Pappus (V II, 3 6 ) nos segu intes te rm o s:

Se forem dadas três linhas em posição e de um ponto linhas retas forem


traçadas para encontrar as três dadas em ângulos dados, e a razão do retângulo
sob duas das linhas assim traçadas para o quadrado da terceira for dada, o ponto
jazerá em um lugar sólido dado em posição, isto é, em uma das três cônicas.
Se quatro linhas forem dadas em posição e quatro linhas retas forem traçadas
como antes, e a razão dos retângulos sob dois pares for dada, similarmente o
ponto jazerá sobre uma cônica.

É bo m lem brar, de passagem , que a cô n ica co m o um locus ad quattuor lineas


fo i usado p o r N ew to n nos seus Principia.
É possível, com base nos p rim eiro s livros das Cônicas de A p o lô n io e nas
referências feitas p o r A rq u im ed es, propor, com b o m grau de acerto , um a
lista de p ro p o siçõ es que figurariam no trab alh o de E u clid es. É o que faz
T h o m a s L. H e a th em A History o f Greek M athematics,65 II, I 2 I - I 2 6 .
Para conclu ir, é p reciso lem brar que os nom es elipse, hipérbole e parábola são
devidos não a E u clid es ou a A risteu , mas a A p o lô n io . A parecem , resp ec­

60 to 8è TpÍTóv rcoXtó Kai rapáSo^a 0èrnprç^aTa xprçoi|ia rcpóç Tè Tàç onv0èoèiç Tâv oTèpèâv TÓrcmv Kai
toüç 8iòpio^ó^ç
âv Ta rcXèioTa Kai raXAioTa ^èva
6 I a Kai KaTavo^oavTèç onvèi8o|ièv covTrôè^èvov mó EÚKXèiSon TÓv èrci Tpèiç Kai Tèooapaç ypa|i
|làç TÓftóv
6 2 àXAà |iópiov to T^xóv amoíí Kai toííto oúk èmuxâç
6 3 oú yap rçv SwaTÓv avèu Tâv npooèuprçiièvrnv 1p.iv TèXèira0flvai Trçv otiv0èoiv.
64 TÓTOç èrci Tpèiç Kai Tèooapaç ypa^^aç.
65 [História da matemática grega].

59
Euclides

tivam ente, nos complexos enunciados das proposições I .I 3 , I . I 2 e III.4 5


das C ôn icas . Ilustrem os tal complexidade com o enunciado da proposição
I . I 3 em que se define elipse:

Caso um cone seja cortado por um plano pelo eixo,66 e seja cortado tam­
bém por um outro plano que encontra cada lado do triângulo pelo eixo,67 ao
passo que nem conduzido paralelo à base do cone nem contrariamente,68 e o
plano, no qual está a base do cone e o plano que corta se encontrem segundo
uma reta que é em ângulos retos ou com a base do triângulo pelo eixo ou com
a mesma sobre uma reta,69 a que seja conduzida paralela à seção comum dos
planos da seção do cone até o diâmetro da seção,70 será, elevada ao quadrado,
uma área posta junto a alguma reta,n em relação à qual o diâmetro da seção tem
uma razão que o quadrado sobre a conduzida, do vértice do cone paralela ao
diâmetro da seção até a base do triângulo, para o contido pelas interceptadas
por elas sobre as retas do triângulo,72 tendo como largura a que é interceptada
por ela a partir do diâmetro em relação ao vértice da seção,73 deficiente por
uma figura semelhante e também semelhantemente posta ao contido tanto
pelo diâmetro quanto pelo parâmetro,74 e seja chamada tal seção uma elipse.75

C om o bem observa Paul Ver Eecke, naquela que foi a prim eira tradução
francesa do texto grego de Apolônio (p.2 8 , nota 4 ) :

Esse enunciado, que é tão complicado quanto aquele da proposição anterior


[em que se define hipérbole], reduz-se a dizer que, na seção cônica considerada,

66 Eàv Kravoç ÉmrcÉ8mT|if0f 8ià tó6 ài^ovoç


67 T|if0f 8EKài ÉTÉpra ÉmrcÉ8ma^mrcTòvTl |iEvÉKàTÉpà ft^Eupà tó6 8ià ài^ovoç Tpiyrávò^
68 |ifTE 8Erapà Tfv pàoiv tó6 kmvó6 fy|iEvra |ifTE ^KEvàvTÍraç
69 TÒ8ÉÈKÍKE8òv/Év ra ÈOTiv f pàoiç TÒ6 KMvò6/ Kàl TÒTÉjlvòv ÈKÍ^e8òv 06|imftTf KàT’É60Élàv ftpòç Ò
p0àç Ò6aàv fTÒl Tf pàoEl TÒ6 8là TÒ6à^òvòç Tpiyrávò^f Tf ÉK’E^0EÍàç à6Tf
70 ftlç àv àrcò Tfç Tò|ifç tó6 kmvó6 rapàXXfXoç àx0f Tf Kòivf Tò^f Trav EmÉ8rav Eraç Tfç 8là|iÉTpò6
Tfç TÒ|lfç
7I 8wfOÉTàí Tl xrapíòv ^àpàKEÍj^Evòv ftàpà Tlvà Éttóàv
72 rcpòç fv Xòyoç ÉXEÍ f 8íà^ÉTpòç Tfç Tò^fç/ òv tò TÉTpàymvov tòàrcò Tfç fy|iEvfç àrcò Tfç Kop^^fç tò

6 K(óvo6 rapà Tfv 8iàmETpòv Tfç Tò^fç Eraç Tfç pàoEraç tó6 Tplytóvòu Tpòç tò ftEpiEXò^Évòv 6n;ò Trav
àKòXà^pàvò^Évrav 6ft’à6Tfç Tpòç Tàlç TÒ6 TplytóvòUÉ60ÉÍàç
73 ftXàTòç ÉXòv Tfv àKòXà^pàvò^Évfv ’à6Tfç àrcò Tfç 8là|lÉTpò6 rcpòç Tf Kòp6^f Tfç Tò|lfç
74 ÉXMnov éí8éí ò|iòíraté Kàl ò|iòíraç KEl|iÉvq) Tò6 ftEpiEXò|iÉvra6móté Tfç 8là|iÉTpò6 Kàl Tfç Kàp’f 86vàvTài-
75 KàXÉlO0ra 8Éf TÒlà6Tf TÒ|lf ÉXXéí^íç.

60
O s elementos

o quadrado da ordenada equivale a uma área retangular que, aplicada segundo


o parâmetro, isto é, tendo o parâmetro como comprimento, e tendo a abscissa
como largura, é diminuída de uma área, semelhante àquela que tem como
comprimento o parâmetro e como largura o diâmetro. Por consequência, se
designarmos por y a ordenada, por x a abscissa, por a o diâmetro, e por p o
parâmetro, o enunciado da proposição traduzir-se-á pela relação

y 2 = p x — (p /a) x 2,

que é a equação cartesiana da elipse referida a eixos oblíquos, dos quais um é


o diâmetro, o outro, a tangente na sua extremidade.

Presta, ainda, esse tradutor, na nota 5, páginas 2 8 - 9 , o seguinte esclare­


cim ento a respeito do term o elipse:76

Criando a nova denominação èXXeiyiç, que conservamos na palavra “elipse”,


Apolônio abandonava a perífrase “seção de cone reto acutângulo” dos seus pre­
decessores, aí compreendido Arquimedes, que consideravam a curva em ques­
tão como obtida unicamente pela seção plana, perpendicular a uma geratriz,
do cone reto acutângulo. A origem da denominação recebeu, aliás, explicações
diferentes. Eutocius, no seu comentário (ver ed. Heiberg, v.II, p .I7 4 ), adota
primeiramente para o verbo radical èXXáfteiv o sentido de “ser deficiente”, e
observa que a soma do ângulo do cone de origem e do ângulo formado pelo
eixo da curva com a geratriz do cone é menor do que dois ângulos retos. Ado­
tando em seguida para o mesmo verbo o sentido de “ser defeituoso por algum
lugar”, observa que a curva em questão não é senão um “círculo imperfeito”.
Por outro lado, Heath (Appolonius o f Perga, Cambridge, 1 8 9 6 , p .I 2 ), impelido
pelas duas explicações de Eutocius, faz o nome elipse derivar da propriedade
da curva, como é enunciada na proposição de Apolônio, isto é, do fato de que
o quadrado da ordenada equivale a certa área à qual faz falta certa outra área.

E ncon tra-se no grande dicionário grego-inglês de Leddell—S co tt para a


O xford, no verbete èXXeiyiç: ... 2 a seção cônica elipse (assim chamada porque
o quadrado sobre a ordenada é igual a um retângulo com altura igual à
abscissa e aplicado ao parâmetro, mas deficiente em relação a ele).

76 èxxèiyiç.

61
Euclides

Os fenômenos

O bra que o fam élico olvido não conseguiu devorar, chegou até nós e
foi publicada por M enge no Volume V III, p .2 - I 5 6 , de E u clidis opera om n ia,
edição já várias vezes aludida.
O s phaenom ena (^aivo^èva, “aparências do céu”) são um texto com I 8 p ro­
posições e um prefácio e a sua autenticidade foi abonada por Pappus (V I,
p .5 9 4 - 6 3 2 ) , que dá alguns lem as, ou proposições explanatórias a respeito.
^aivo^èva é a form a do nom inativo neutro plural do particípio presente
passivo do verbo palvra. O significado desse verbo nas formas transitivas
é “m ostrar, trazer à luz, fazer con h ecer”, e nas formas intransitivas, que
aqui nos interessa, “tornar-se visível, vir à luz, m ostrar-se, aparecer” (aliás,
o nosso term o “fantasm a”, isto é, “aparição”, deriva desse verbo); daí,
Ta ^aivoiièva (os fenômenos/phaenomena) significar, literalm ente, “as coisas
que são vistas; as aparências”, tendo na astronom ia o sentido particular de
“as aparências do céu; os fenôm enos celestes”.
O prefácio de Euclides é uma afirmação das considerações que m ostram
o universo com o uma esfera e é seguido por algumas definições de term os
técnicos. Entre esses, o uso de opiÇrav, particípio presente ativo do verbo
opiÇra ( “lim ita r”) , com o substantivo, significando “círculo que lim ita; ho­
rizon te”, e a expressão |ièGr||ippivoç KfiKXoç, “círculo m eridiano”, que ocorrem

aí pela prim eira vez.


O trabalho é uma coleção de dem onstrações geom étricas de proposições
estabelecidas pela observação sobre fenôm enos celestes —o aparecimento e
o pôr-se de estrelas —e baseia-se na obra n è p i Kivofi|iév^ç o ^ a lp a ç “Sobre esferas
em m ovim en to” de Autolycus, referida várias vezes pelo alexandrino, porém

sem nom eá-lo. Por exemplo, a proposição I de Autolycus é citada na quinta


de Euclides, a segunda, nas quarta e sexta, e a décima, na segunda.
Euclides tam bém aproveita um trabalho sobre geom etria esférica (Sphae-
rica) de autor desconhecido. Assim, no prefácio, faz alusão ao fato de que,

se sobre uma esfera dois círculos se bissectem , são ambos grandes círculos,
e, na dem onstração, supõe frequentem ente que o leitor conheça outros
teoremas do tipo. Quando o trabalho de Euclides é comparado com a obra

62
O s elementos

posterior, Spherica, de T heod osiu s, vê-se terem ambos recorrido ao mesmo


original ancestral que, conjectura-se, teria sido escrito por Eudoxo.
N o estilo de A ristó teles, sobre “os ou tros trabalhos de E u clid es”
Tooama eip^o0ro “fique dito esse ta n to ”.

Os comentaristas gregos dos Elem entos

N a Antiguidade e na Idade Média, o modo de abordagem de uma obra e


do seu ensino era o C om entário. D e fato, um comentário ou exposição do pen­
samento de algum autor era um dos métodos básicos de ensino nas escolas
medievais. E o com entário como instrum ento pedagógico por excelência foi
herdado tanto dos padres da Igreja quanto dos escritores árabes, e essas duas
fontes têm a mesma origem: os escritos literários e científicos do últim o pe­
ríodo do pensamento grego. Duas bicas, mas uma só água. Era esse, também,
o modo de enriquecer o conhecim ento pela confluência de vários saberes.
N o O cidente, o com entário tom ou várias form as. A maneira especial,
empregada, por exemplo, por Boécio nas suas exposições das C ategorias e
do D e interpretatione de A ristóteles consiste em proceder sistem aticam ente
por partes, tom ando, de cada vez, uma pequena porção do texto original
em tradução (latina, no caso) e explicando-lhe o conteúdo de modo mais
simples. É, aproximadamente, com o o faz Proclus no seu C om en tário ao livro
I d o s elementos. D epois de um longo Prólogo em duas partes, trata porm enori­
zada e separadamente das “D efinições”, dos “Postulados”, dos “A xiom as”
(“N oções C om uns”, com o está nos E lem en tos) e das “Proposições”, uma
a uma. Proclus é o grande escoliasta dessa obra de Euclides. Poder-se-ia
dizer que ele está para este com o Alexandre de Aphrodisia, para A ristóteles.
Alexandre era conhecido com o “o C om entarista” entre os escoliastas gregos
do estagirita; Proclus bem poderia ter esse epíteto no tocante a Euclides.
Antes dele, no entanto, houve outros tantos. Ele próprio diz (p .8 4 ,
I I - I 8 ) que não procederá no seu texto com o m uitos deles, dando lemas,
casos etc.,

pois estamos saciados dessas coisas e raramente trataremos delas.


Mas, quantas têm teorias mais importantes e contribuem para a filosofia
como um todo, dessas faremos a menção guiadora, emulando os pitagóricos

63
Euclides

para os quais estava à mão também esta alegoria “uma figura e um passo, não
uma figura e três óbulos”, mostrando, portanto, como é preciso perseguir
aquela geometria...77

Em um outro lugar ( p .2 0 0 .I 0 ) :

Voltemos à explicação das coisas demonstradas pelo autor dos Elementos ,


coletando, por um lado, as mais exatas das escritas sobre elas pelos antigos,
cortando-lhes a ilimitada loquacidade, dando, por outro lado, as mais siste­
máticas e portadoras dos métodos científicos.78

Proclus não nom eia os seus predecessores nessa lida, mas parece certo
que os mais im portantes tenham sido H erão, P orfírio e Pappus. Posterior
a Proclus, aparece tam bém Sim plício.

Herão de Alexandria

Proclus faz alusão a esse com entarista em seis passagens. A primeira


delas a propósito da M echanica que H erão escrevera, e as cinco restantes por
conta dos E lem entos de Euclides. Ei-las:

4 I .8 - I 0 :
(... )
[a arte que faz instrumentos] (...), como então também Arquimedes é dito
ter construído instrumentos aptos a repelir ataque dos que se fazem hostis a
Siracusa, e arte de fazer prodígios, umas executadas habilmente pelos ventos,
como elaboraram tanto Ctesibius quanto Herão, outras, pelos pesos (...)79

77 TofiTrav |ièv yap SiaKopèiç èa^èv Kai oravlraç afiTrav è^a^O^a.


oca 8è Kpày^àTèlra8èOTèpàv èxèi 0èraplav Kai ofivTèXèl rcpoç TrçvOXrçv^iXoco^lav, TofiTrav ^po^yofi
lièvrçv Koi^oo^è0a T^v fi^o^v^oiv
ÇrçXoíívTèç Tofiç nfi0ayopèlofiç/oiç rcpOxèipovrçv Kai TofiTo ofi^poXov "axfi|ia Kai pã^a, aWofi oxã|ia
Kai TpirápoXov” èvSèiK^èvrav raç apa 8èi Trçvyèra- ^èTplav èKèlv^v ^èTaSiráKèiv...
7 8 èrci T^v è^^y^oiv Tpà^O^è0à Trav 8èiKvfi|ièvrav firà Tofi cToixèiraTOfi
Ta |ièv yÀa^fipráTèpa Trav èlç afiTa yèypa^^èvrav Tolç raXoiç àvàXèyO|lèvol Kai TrçvaKèpavTov afiTrav
KoXfiXoylav ofivTè^vovTèç
Ta 8è TèxviKráTèpa Kai |iè0O8rav èrnoT^^oviKffiv èxo^èva rapa8i8OvTèç.
79 ...oia 8rç Kai ’Apxi^^8^ç Xèyèrai raTaOTèfiácai Trav rcoXè|iofivTrav TrçvSfipàKOfiOàv afifiv^ra ópyãvã,
Kai r|0àfi^àTOKOliK^ Ta |ièv 8ia rcvrav (jnXoTèxvofiaa/ raorcèpKai KTrçoipioç Kai' Hprav npay^aTèfiovTai/
Ta 8è' potóv.

64
O s elementos

I 9 6 .I 5 - I 7 :
E certamente também nem é preciso reduzir o número deles [isto é, dos axio­
mas/noções comuns] ao menor, como faz Herão que expõe somente três (...)80

3 0 5 .2 I-2 5 :
[Falando sobre o enunciado da “Proposição X V I” do Livro I dos Elementos.]
Os que fabricaram antes, de modo negligente, esse enunciado, sem o “tendo
sido prolongado um lado”, forneceram ocasião igualmente tanto a alguns ou­
tros, mas também a Felipe, diz o mecânico/engenheiro Herão, para acusação.8I

323.5-9:
Mas é preciso também descrever as outras demonstrações do proposto
teorema, quantas os à volta [isto é, os discípulos] de Herão e de Porfírio
expuseram da reta não prolongada, a qual fez o autor dos Elementos .82

3 4 6 .I 2 - I 5 :
A demonstração que tal é a de Menelau, ao passo que Herão, o mecânico/
engenheiro, do mesmo modo prova a mesma coisa não por impossível.83

4 2 9 .9 -I5 :
Mas, sendo a demonstração do autor dos Elementos evidente, penso nada
supérfluo ser necessário acrescentar, mas serem suficientes as coisas escritas,
mesmo porque quantos acrescentarem algo mais, como os discípulos de Herão
e de Pappus, foram forçados a tomar além disso alguma coisa das mostradas
no sexto [livro], em razão de nada importante.84

80 Kai |irçvKai TÓvapi0|ióv amráv ornè èiç ètóxioTov 8èi owaipèiv, ráç '' Hprav rcoièi Tpia |ióvov èK0è
|ièvoç...
8 I Tamrçv T^v rcpÓTaoiv oi |ièv èWèircráç ftpoèvèyKa^èvoi x®piç Tofi|iiãç rcXèupfiç rcpooèKpXii0èioiiç a^o
p|irçv^apèoxóv ioraç |ièv Kai aXAòiç Tioiv, amap Kai Optara, Ka0a^èp (jn^oiv ó |irçxaviKÓç " Hprav,
8iapoXflç.
82 8èi 8è Kai Taç aWaç a^oSèí^èiç toíí rcpóKèiiièvot) 0èraprç^aToç ioTópfloai, òoaç oi rcèpi " Hprava Kai
nopijrópiov avèypa^av Tflç èú0èiaç KpooèKpaWó^èv^ç, ò ftèrcoiiiKèv ó oTóixèiraTrçç.
8 3 Toiamrç |ièv rç a^08èi^iç rç MèvèXaov, " Hprav 8è ó |ièxaviKÓç omraoi oú 8i’a8waTó^ tó amó 8èiK
vnoiv.
84 Tflç 8è toíí oTóixèiraTófi arco8èíi;èraç óüorçç ^avèpãç 0ti8èv ^yofi|iai 8èiv rcpoo0èivai ^epiTTÓv, axtó ap-
Kèio0ai Tóiç yèypa^^è^óiç, èitèi Kai òooi rcpooè0èoav Ti ^Xèov, ráç oi rcèpi " Hprava Kai na^rcov rçvay-
Kao0^oav rcpooÀapèiv Ti Tâv èv Tâ èKTra 8è8èiy^évrav/0ti8èvóç èvèKa Kpay^aTèirá8o^ç.

65
Euclides

As datas tocantes a H erão são m otivo de controvérsia. Indiretam ente,


tem sido posto no século I.
Q ue tenha escrito um com entário sobre os E lem entos pode ser inferido
do que aparece nas passagens citadas de Proclus, mas m ostra-se bem certo
pelas referências a ele feitas por escritores árabes. N o K it a b a l — Fihrist (A
lista das ciências) está que “H erão escreveu um com entário sobre esse livro
[ O s elementos ] , a fim de explicar os pontos obscu ros”.
O comentário propriamente dito não parece conter muitas coisas que pos­
sam ser consideradas de relevância. H á algumas notas gerais, como a que indi­
ca o fato de ele não aceitar mais do que três axiomas/noções comuns, já vista
acima. H á a exploração de casos particulares de certas proposições euclidia­
nas, motivados por diferentes maneiras de desenhar as figuras. H á demons­
trações alternativas, umas dadas sem figura, de modo “puramente algébrico”,
outras para “sanar” o motivo de uma objeção a alguma construção de Euclides,
e ainda outras tentando evitar a redução ao absurdo usada na prova original. H á
o acréscimo de certas recíprocas de proposições dos Elem entos e igualmente
umas adições e algumas extensões de proposições. E não há nada mais.
Eis o que foi H erão com o com entarista dos Elem entos.

Porfírio

O neoplatônico Porfírio, discípulo de P lotin o, revisor e editor da obra


deste, parece ter escrito um com entário sobre os E lem entos. Isso é deduzido
do que se acha em Proclus, que o dá com o fazendo observações a respeito
das proposições I . I 4 e I . I 6 e sobre dem onstrações alternativas às propo­
sições I . I 8 e I.2 0 .
Aqui, a possibilidade é que o trabalho de P orfírio tenha sido usado por
Pappus ao escrever o seu próprio com entário, e deste tenha se valido Proclus
para as suas referências.
Seja com o for, dada a evidente vocação pedagógica demonstrada por
Porfírio — basta ver a sua EíOàyroyf (Introd u ção), epístola dirigida ao seu
discípulo Chrisaorius e que, tendo sido traduzida para o latim por Boécio,
serviu por toda a Idade M édia e na Renascença como a mais im portante
introdução à Lógica de A ristóteles — pode-se concluir que o seu interesse

66
O s elementos

pelos E lem entos tinha apoio menos em um desejo de contribuir com novos
resultados e mais no de manter a precisão da linguagem matemática, levando
os seus leitores a entendê-la.

Pappus

E xistem em Proclus poucas alusões a Pappus. H á, no entanto, outra


evidência de ter ele escrito um com entário sobre os E lem entos. U m esco-
liasta sobre as definições dos D a t a escreve: “com o diz Pappus no com eço
do seu com entário do Livro X de E uclid es” (conform e a edição dos D a ta
por M enge, p .2 6 2 ) .
Assevera-se também no Fihrist que Pappus compusera um com entário so ­
bre o Livro X dos E lem entos em duas partes. De fato, restam -nos fragm entos
do seu trabalho em um m anuscrito —Paris n .9 5 2 .2 —descrito por Woepcke
nas M ém oiresprésentés à L A cad em ie des Sciences,85 I 8 5 6 , v.X IV p .6 5 8 - 7 I 9 .
Ainda Eutocius, na sua nota sobre o nEpi o^àlpàç rni K6Xív5po6, I .I 3 , (Sobre
a esfera e o cilin d ro ), de Arquimedes, afirma:

Como, de fato, inscrever no círculo dado um polígono semelhante ao inscrito


em um outro é evidente, e foi mencionado também por Pappus no comentário
dos Elementos .86

O objeto da observação estaria, provavelmente, no comentário do Livro X II.


Passemos aos extratos de Proclus em que Pappus figura:
Sobre o quarto postulado87 (“e serem todos os ângulos retos iguais
entre si”) lê-se:

I 8 9 .I 2 - I 5 :
Pappus estabeleceu-nos corretamente que a recíproca não mais é verdadeira,
o ser, de todo ângulo, o ângulo igual ao reto, reto.88

85 [Memórias apresentadas à Academia de Ciências].


8 6 ' Orcraç |iEvo6v EoTlv éíç tóv 8o0EvTà k6kXóv rcòXúymvòv Eyypàyài o'|iòlòv Tra Ev ÉTÉpra Eyypà^^Evra
8fXov/ EÍpfTài 8EKàl nàftrcra éíç tó 6KÒ|ivf^à Trav STòXElrav.
87 Kàl ráaàç Tàç òp0àç yravlàç Íoàç àXXfXàiç EÍvài.
88 ò 8E nàrcrcoç é^Eot^oev fiiàç òp0raç ótí tó àvTÍOTpo^òv ó6kétí àXf0Éç/ tó Tfv Íofv Tf òp0f yravlàv
ÉKftàvTÒç ÉlvàÍ òp0fv.

67
Euclides

E ao tratar dos axiomas/noções com uns:

I 9 7 .6 - I 0 :
E, com esses axiomas, Pappus diz registrar ao mesmo tempo que também,
se desiguais sejam adicionados a iguais, o excesso entre os totais é igual ao
entre os adicionados, e inversamente, caso iguais sejam adicionados a desiguais,
o excesso entre os totais é igual ao entre os do princípio.89

Mas Proclus prossegue:

I 9 8 .3 - I 5 :
Essas coisas, de fato, seguem dos axiomas mencionados antes e, com razão,
são omitidas na maioria das cópias, e quantas outras dessas ele [isto é, Pappus]
acrescenta são antecipadas pelas definições e seguem daquelas; por exemplo, que
todas as porções do plano e da reta ajustam-se umas às outras —pois as coisas
estendidas ao extremo têm uma natureza que tal —e que um ponto divide uma
linha, e uma linha, uma superfície, e uma superfície, um sólido —pois todas são
divididas por essas, pelas quais são limitadas imediatamente —e que o ilimitado
nas magnitudes existe tanto pelo acréscimo quanto pela destruição, mas cada uma
em potência; pois toda coisa contínua é divisível e pode crescer ilimitadamente.90

2 4 9 .2 0 -2 I:
[A propósito da “Proposição I.5 ”]
E ainda Pappus demonstra de modo curto, tendo necessitado de nenhuma
adição, assim: (...)9I

E a referência em 4 2 9 . 9 - I 5 , já posta acima sob a rubrica H erão de


Alexandria.

89 TofiToiç 8è Tolç a^ira^aoiv Onájraoç ofivàvàypà^èo0àl (jn^oiv otí Kai av iooiç avioa rcpooTè0fl, r|Trav
OXrav fircèpox^iorç èoTiv Tfl Trav rcpooTè0èvTrav, Kai avaraXiv, èav avlooiç ioa rcpooTè0fl/rç Trav OXrav
fircèpoxrçiorç èoTi Tfl Trav è£, apxflç.
90 TafiTa ofiv èrcèTai Toiç rcpoèiprç|ièvoiç a^ira^aoi Kai èiKOTraç èv Toiç rcXèloToiç àvTlypà^olç rcapaXèl
^èTai, oca 8è aXÀa TofiToiç KpooT^oiv, npoèlXrçftTai 8ia Trav oprav Kai èKèívoiç àKOXofi0à/ oiov otí
ravTa Tofi èmè8ofi Ta |iOpia Kai Tflç èfi0èlaç áX,X,rçX,oiç è^ap^OTTèi - Ta yap èiç aKpov TèTa^èva Toi
afiT^v èxèi ^fioivKai otí ypa|i|irçv |ièv 8iaipèT o^^èiov, èrci^avèiav 8è ypawirç, oTèpèOv 8è èrci^avèi
aravTa yap 8làlpèlTàl TofiToiç, fifrav Kai rcèpaTomai npooèxraç - Kai Oti arcèipov èv Toiç |ièyè0è
olv èoTiv Kai Tfl rcpoo0èoèi Kai èmKà0àlpèoèl/ 8fiva^èi 8è èKaTèpov tóv yap ofivèxèç bt’arcèipov 8iai-
pèTov èoTi Kai afii^Tov.
9 1 ''Etí 8è ofivTo^ráTèpov a^èlKvfioiv o náuoç ^^8è^laç rcpoo0rçKiiç 8èrç0èiç ofiTraç.

68
O s elementos

Além dessas m enções, H eath propõe ser razoável concordar com Van
Pesch (D e P rocli fo n tib u s, p .I 3 4 e ss.) que afiança Proclus valer-se, sem m en­
cionar a autoridade, do com entário de Pappus em vários outros passos do
seu próprio com entário.

Proclus

C om o já fo i m encionado, o C om en tário de Proclus sobre o Livro I dos


E lem entos é uma das duas principais fontes de inform ação sobre a história

da geom etria grega que possuím os, a outra sendo a C oleção de Pappus. O
C om en tário visa mais à geom etria elementar, a da régua e do compasso, ao

passo que a C oleção volta-se para a geometria avançada. A im portância dessas


duas obras repousa no fato de não terem sobrevivido os trabalhos originais
dos predecessores de Euclides, Arquimedes e Apolônio.
Proclus viveu no século V ( 4 I 0 a 4 8 5 ) , tendo assim escoado um tempo
suficiente para que a tradição relativa aos geômetras pré-euclidianos se
tornasse obscura e falha. D aí fazer m uito sentido a investigação, realizada
por alguns pioneiros da h istória da m atem ática nos últim os cem anos, das
fontes utilizadas no seu trabalho; pois são menos confiáveis aquelas que
mais se afastam do tem po dos fatos relatados.
Proclus iniciou a sua educação em Alexandria, sendo orientado na filoso­
fia de A ristóteles por O lym piodorus, este tam bém um escoliasta do estagi-
rita, e na m atem ática por um tal H erão, que não deve ser confundido com
o mechanicus H erão. Vai depois para Atenas, onde é instruído por Plutarco
e por Syrianus na filosofia neoplatônica, à qual se dedicou profundam en­
te, a ponto de, sendo um discípulo de rápida aprendizagem, tornar-se-lhe
um dos máximos expoentes e ser alçado, depois da m orte do seu m estre
Syrianus, a chefe da escola neoplatônica de Atenas. Proem inente no alcance
do seu saber, foi chamado por Z eller na sua D ie Philosophie der G riechen, “D er
G elehrte, dem kein Feld damaligen W issens verschlossen is t” ( “o erudito,
para quem nenhum campo de conhecim ento daquele tempo está fechado”).
Foi m atem ático e poeta, devoto adorador de divindades gregas e orientais,
m ente tranquila em um mundo de grandes convulsões.

69
Euclides

N a qualidade de neoplatônico, uma das suas doutrinas fundamentais


sustentava que um nível mais baixo da realidade é, de algum modo, uma
“imagem” 92 do mais alto. U m a aplicação dessa ideia encontra abrigo no
C om en tário e, pode-se dizer, con stitu i a base da sua filosofia da matemática.
Para ele, a m atem ática reflete a natureza do mundo espiritual, e este pode
ser compreendido estudando-se as figuras geométricas. Em poucas palavras,
entendia a m atem ática com o via de acesso às mais altas regiões do espírito,
representadas pela filosofia; daí, ser inferior a esta. Isso está expresso no
seguinte excerto, em que Proclus se refere a Platão:

3 I .I I - 2 2 :
E dividindo, por sua vez, essa ciência, que distinguimos das artes, ele quer
uma ser não hipotética, a outra partida de hipótese, e a não hipotética estar apta
a conhecer a universalidade das coisas, subindo até o Bem e a causa mais alta
de todas as coisas, e fazendo do Bem o fim da ascensão, enquanto a que tendo
se colocado à frente princípios determinados, valendo-se desses demonstrar
as suas consequências, indo não para um princípio mas para um fim. E assim,
então, ele diz a matemática, como a que se serve de hipóteses, ser deixada para
trás pela ciência não hipotética e acabada [vale dizer, a dialética platônica ].93

Sabem os que na escola neoplatônica, segundo o preceito exposto na


R epública, os jovens estudantes deveriam ser instruídos na m atem ática e era
missão do chefe da escola ensiná-la. Eis a origem do seu com entário — o
ensino dessa ciência. Além disso, em um ponto da obra torna-se evidente
que os seus ouvintes são principiantes, pois m antém que:

2 7 2 .7 -I4 :
E outros fizeram a mesma coisa com as quadratrizes de Hippias e N ico-
medes, também esses servindo-se de linhas mistas, as quadratrizes. E outros,
partindo das hélices arquimedianas cortaram o ângulo retilíneo dado na razão

92 EÍKrav.
9 3 Tà6Tfv 8’à6 Tfv ÉrnoTfmfv/ fv Trav TEXvrav àifòpíÇò|iÉv/ 8íàíprav Tfv |!Évàv6ftò0ETòv EÍvài po6XETàí/
Tfv 8EEÇ6to0éoémç ráp|if|iÉvfv/ Kàí Tfv |iEvàv6KÒ0ÉTòv Trav òXrav EÍvài yvraoTiKfv |iÉXpi tó6 àyà0ò6
Kài Tfç àvraTàTra Trav rávTmv àÍTÍàç àvàpàívò6oàv Kàí Tfç àvàyrayfç TÉXoç rcòíò6|iÉvfv tóàyà0òv/
Tfv 8E rápio^Evàç àpXàç ipòOTfOà^Évfv àrcò tó6tmv 8EiKv6vài Tà ÉKÒ|iÉvà à6Tàiç ó6k Eft’àpXfv
àWÉftÍ TEXE6Tfv Íò60àv. Kàí Ò6TMç 8f Tfv |là0f|làTÍKfv àTÉ 6ftÒ0É-OEOlv Xpra^Évfv Tfç àv6KÒ0ÉTÒ6
Kàí TEXEÍàç ÉmOTf^fç àKòXEÍKÉO0àÍ ^fOív.

7o
O s elementos

dada; os conceitos das quais coisas sendo difíceis de entender para os iniciantes,
deixamo-las presentemente de lado.94

Há, por outro lado, passagens sobre hélice cilíndrica ( I 0 4 . 2 6 - I 0 5 . 2 ) e


sobre concoides e cissoides ( I I 3 . 3 - 6 ) .

I 0 4 .2 6 - I0 5 .2 :
E alguns disputam a respeito dessa divisão e dizem existir não somente
duas linhas simples, mas também uma outra, terceira, a traçada em torno da
hélice de um cilindro...95

I I 3 .3 - 6 :
E deve-se submeter as demonstrações das (afirmações) daquele [Geminus]
aos amantes do conhecimento, porque ele dá as gerações tanto das linhas es­
pirais quanto das concoides como das cissoides.96

Por essas e outras, somos levados a concluir que Proclus tam bém tinha
em mira um público mais amplo, ou, antes, produzir uma obra de referência.
Ao com entar as proposições euclidianas, o escoliasta segue um plano
bem estabelecido:
(i) explica as dem onstrações dadas pelo geômetra;
(ii) dá alguns casos diferentes, por questões práticas;
(iii) refuta objeções provenientes de detratores de Euclides a certas
proposições. E ste item encontra a seguinte justificativa:

3 7 5 .8 -I2 :
Adicionei explicações relativas a essas coisas pelas importunações sofistas e
pelo estado de espírito natural da juventude dos ouvintes. A maioria rejubila-se

94 èTèpoi 8è èKTâv ' taion Kai NiK0|rç80t)ç TèTpayrnviÇouoâv


Kè^ói^Kaoi toamó/ |iKTaiç Kai omoi xp^oa^èvoi ypa||alç Taiç TèTpayrnviÇóúoaiç. aWói 8è èKTâv
' Apxi|rç8èírnv èXÍKrav óp|^0èvTèç èiç TÓv 8ó0èvTa Xóyov èTè|óv Trçv 8ó0èioav èú&úypamov yrnviav
âv Taç èrnvóíaç 8no0èMprçTó'oç óüoaç Tóiç èioayo|èvoiç rcapaXèin;o|èv èv Tâ rcapóvTi.
9 5 Aia|^iop^Tófioi 8è Tivèç rcpóç Trçv 8iaipèoiv Tamrçv
Kai ijiaoi 8^0 |0vaç èivai Taç a^Mç ypa||aç, ax,Aà Kai Tpkrçv au^v, Trçv rcèpi TÓv K'óXiv8po'o
è'XiKa ypa^ó|èv^v...
9 6 Kai XrçftTèov èKTâv èKèivon Tóiç ^iXó|a0èoi Taç arco8èi^èiç/ èrò Kai Taç yèvèoèiç Tâv orcèipiKâv
ypa||âv Kai Tâv Koyxóèi8âv Kai Tâv Kiooóèi8âv rapa8i8rnoiv.

7 1
Euclides

encontrando paralogismos que tais e introduzindo dificuldades supérfluas aos


possuidores do perfeito conhecimento.97

U m a questão tão natural quanto o respirar para viver é a de saber se o


C om en tário ao livro I não se estendeu aos demais livros dos E lem entos. Alusões
ali encontradas m ostram que Proclus intentava prosseguir e possuiria notas
nesse sentido. N o entanto, o últim o trecho do trabalho parece indicar não
ter havido a desejada continuidade:

4 3 2 .9 -1 9 :
E nós, por um lado, caso possamos ir do mesmo modo aos restantes, rende­
ríamos graça aos deuses, caso, por outro lado, outros cuidados nos desviem, de­
mandamos aos amantes da contemplação deste estudo fazer, segundo o mesmo
método, também a exegese dos livros seguintes, investigando o absolutamente
importante e facilmente divisível, porque ao menos os comentários que agora
circulam têm a confusão muita e variada que leva ao mesmo tempo nenhuma
explicação às causas nem ao julgamento dialético nem ao estudo filosófico.98

Ian M ueller (M athem atics an d Philosophy in P roclu s’ C om m en tary on B oo k I o f


E u c lid ’s E lem ents in Proclus, lecteur et interprete des anciens, 3 1 0 ) 99 propõe, o que
é evidente, a seguinte divisão do C om en tário e uma interessante classificação
do seu conteúdo:

A D iv isão:
I. Prólogo:
A. Parte I (M atem ática em geral);
B. Parte II (G eom etria).

97 Tomoiç àvayKaírnç Srcsaii|iiiva^s0a 8ià ràç oo^ioxiKàç


svoxXrçosiç Kai ràç vsaporcpstóç TffivàKouóvTMv é'^eiç. xaiponai yàp oi rcoXXoi toI çToiomoiç rapa
Xoyioiiolç rcpooTDyxávovTEç Kai toíç smoT^ooiv oxXov rcspmòv SrcsiaayovTsç.
9 8 ii^siç 8s, si |isv 8wn0£in|i£v Kai toiç Xoítoiç tov amòv Tporcov Si;sX0siv/ toiç 0soiç av xapiv o^oXo
y^oai^sv, si 8s axxai i|>povTÍ8sç ^ãç rcspiaraaaisv/ Tofiç ^iXo0£á^ovaç Tflç 0srnpíaç Tamrçç à^iofi|i£v
KaTa Trçvamrçv |is0o8ov Kai Tffiv s^flç rcoirçaaa0ai pipXirnv Trçv s^yrçoiv to npay|iaTSiffi8sç ravTa-
xofi Kai sú8iaípsTov |isTa8itóKovTaç/ ráç Ta ys ^spo^sva vfiv moiiv^ara rcoXXrçv Kai ravTa8arcrçv sxsi
T^v ofiyxfioiv amaç a^o8ooiv oú8s|iiav ofivsio^spovTa ofi8s Kpioiv 8iaXsKTiKrçv ofi8s 0srnpíav
^iXooo^ov.
99 [Matemática e filosofia no comentário de Proclus sobre o Livro I dos elementos
de Euclides, in Proclus, leitor e intérprete dos antigos].

7 2
O s elementos

II. As definições do Livro I dos Elem entos.


III. As asserções do Livro I:
A. Os postulados e axiomas;
B. As proposições.

A C lassificação:
(1 ) Especulação neoplatônico-neopitagórica: os principais exemplos disso são
interpretações de conceitos e proposições como imagens de coisas mais
elevadas [com o já apontam os anteriorm ente]; um outro exemplo seria a
tentativa de relacionar a matem ática com os princípios Lim itado—Ilim itado.
(2 ) D iscussão menos especulativa, m ais an alítico-filosófica: a distinção entre a
discussão filosófica e a especulação fica, algumas vezes, obscurecida quan­
do tal discussão é feita por causa da especulação ou no contexto de ideias
especulativas.
(3 ) C lassificações e pontos semânticos, lógicos ou metodológicos: incluídas nesse
item estão explicações de term os ou proposições, aplicações de pontos da
lógica, usualm ente do trabalho de A ristóteles, análises da estrutura da ar­
gumentação euclidiana, definições alternativas, e classificações, usualmente
por gênero e espécie, de objetos geom étricos.
(4 ) R aciocínio m ais estritamente m atem ático : isso é usualmente encontrado em
dem onstrações alternativas, dem onstrações de casos não considerados por
Euclides, ou em respostas a objeções; em geral, o raciocínio é bem elementar.
(5 ) Observações históricas; incluo aqui som ente observações que parecem
não ter outro propósito exceto o de prover inform ação histórica, em geral,
que O inopides foi o prim eiro a provar certa proposição; outras afirmações
com um conteúdo histórico, na maioria, apresentações.
Ian M ueller assevera:

(... ) há um tipo de divisão óbvia entre ( I ) - ( 2 ) e ( 3 ) - ( 4 ) , e particularmente


entre ( I ) , que poderia ser chamado de jambricano e ( 3 ) - ( 4 ) que poderiam ser
chamados porfirianos. Não surpreendentemente, historiadores da filosofia têm
se concentrado no material que cai nos itens ( I ) - ( 2 ) , ao passo que histo­
riadores da matemática negligenciam-nos amplamente, concentrando-se nas
categorias (3 ) - ( 4 ) .

73
Euclides

C om o Sim plício em relação à obra de A ristóteles, Proclus também usou,


na elaboração do seu C om en tário, tudo o que de útil encontrara no que es­
creveram aqueles que o precederam. M as vale, com certeza, para ele o que
alguém já disse: “N ós nada somos sem o trabalho dos nossos predecessores.
(...) E, no entanto, somos mais do que isso.” O escoliasta fez uma com ­
pilação, porém uma “no m elhor sentid o”. Pois achou um enorme bloco de
pedra, “tosco, bruto, inform e, e depois de desbastar o mais grosso, tom a
o maço e o cinzel na m ão” e começa a dar-lhe vida. Seleciona passos antes
desconexos, apara expressões inapropriadas, recorta o que lhe parece bom,
e veste-lhes o m anto da harm oniosa coerência; “aqui desprega, ali arruga,
acolá recama” e, “naquele m ovim ento hierático da clara língua” grega “m a­
jestosa, naquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água
porque há declive”, fica pronta a obra que, ao explicar Euclides, preserva-nos
m uito do que podemos afirmar das conquistas gregas no fecundo campo
da m atem ática.

Simplício

O neoplatônico Sim plício (século V I) foi, por longo tempo, conside­


rado im portante sobretudo com o fonte de fragm entos de outros filósofos.
N o conjunto das suas obras, de proporção considerável, consistindo exclu­
sivamente em com entários, cita as opiniões de um grande número dos que
vieram antes, com o anota M ichael Chase, na Introdução da sua tradução
inglesa do C om en tário de Sim plício às C ategorias de A ristóteles, p .I - 4 . E
tais m enções são, com frequência, as únicas coisas que sobreviveram de
m uitos desses antepassados. O seu papel de preservador dos fragm entos
dos pré-socráticos é inestimável e ele deve ser sempre altissim am ente tido
pela existência de fragm entos de Parmênides, Em pédocles, Anaxágoras e
Diógenes Apolônio. O seu valor como fonte de peripatéticos como Eudemo
de Rodes, A ndrônico e Boécio é inexcedível, sendo igualmente o guardião
do que se conhece de certos autores pitagóricos e pseudopitagóricos, como
M oderatus de Gades e Árquitas, bem como de membros da Academia Tardia
e dos chamados platônicos médios. M u ito dos com entários perdidos às

74
O s elementos

C ategorias, escritos por Porfírio e Jâm brico, pode ser reconstruído som ente
pelo uso de Sim plício com o interm ediário.
U m C o ló q u io In tern a cio n a l, “Sim p liciu s — Sa vie, son œuvre, sa
survie”,100 foi organizado em Paris, de 2 8 de setem bro a I o de outubro de
1 9 8 5 , tendo a sua ata editada por Ilsetraut H adot.
Sobre a obra do com entarista, I. H adot, na sua prim eira contribuição
àquela publicação, faz saber:

Como o observa H. Gatje no artigo que acabo de citar [H. Gatje, Simplikios
in D er Arabischen Uberlieferung,101 in Der Islan, 59 ( 1 9 8 2 ) ] , a literatura árabe
guardou os traços da personalidade sábia de Simplício que nos permaneceriam
desconhecidos se levássemos em consideração apenas as obras gregas que os
acasos da transmissão manuscrita nos conservaram.

M ais uma vez apoiada no trabalho de G ãtje, observa (p .3 6 ) :

O mesmo Fihrist de Al-Nad i m, do qual já falamos no tangente ao resumo


sobre o comentário de Simplício ao D e anima [de Aristóteles], atesta igualmente
a existência do comentário às Categorias, como mais tarde Al-Q ift i, que retoma
em regra geral o material que se encontra em Al-Nad i m com alguns acréscimos,
omissões e variantes. Mas sobre os outros comentários de Simplício sobre
Aristóteles, as fontes bibliográficas árabes calam-se. Em compensação [e eis
o que nos interessa], nos dois autores árabes, Simplício é nomeado, na quali­
dade de matemático e astrônomo, como tendo escrito um comentário sobre o
primeiro livro dos Elementos de Euclides. Al-Q ift i ajunta nesse contexto (...)
que Simplício fundara uma escola e que teve alunos que foram chamados
segundo o seu nome. A. I. Sabra, no seu artigo “Simplicius’ Proof o f Euclid’s
Parallels Postulate [Journal o f the Warburg and Courtauld Institutes, 32 (1 9 6 9 ),
p .I-2 4 ], reuniu, além dos extratos citados desse comentário por al-Nayr i z i
[matemático que viveu no século IX] em árabe, no seu próprio comentário sobre
os Elementos de Euclides, um extrato contido em uma carta de Alam al-D i n Qaysar
ibn Abi ’L -Q ã sim a Nas ir al-D í n al-T it s t e, além disso, um texto contido
no manuscrito árabe, Bodleianus Thurston 3, fol. 1 4 8 . O comentário de al-
-Nayr i z 1 será conhecido no Ocidente pela tradução de Geraldo de Cremona.
Simplício é aí citado sob o nome de Sambelichos. A tradição grega não nos

100 [Simplício —Sua vida, sua obra, sua sobrevivência].


101 [Simplício na tradição árabe].

75
Euclides

permite, senão indiretamente, concluir sobre as qualidades de matemático de


Simplício. (... ) Em primeiro lugar, o Fahrist faz indiscutivelmente a ligação
entre o filósofo e o matemático, e, por outro lado, sabemos que cada filósofo
neoplatônico era matemático ao mesmo tempo que filósofo. (...)
Acrescentemos, nesse contexto, ainda um pormenor interessante. Em um
dos fragmentos textuais do comentário de Simplício sobre o primeiro livro
dos Elementos de Euclides, relatados por al-Nayr í z *, Simplício fala do seu
“s ã hib”, nomeado Agh ã n í s e cita uma demonstração matemática dele. Qual
pode ser o termo grego subjacente? A. I. Sabra traduz por “our associate”, o
que pode eventualmente fazer pensar em um professor associado na escola que,
segundo al-Nad í m, Simplício havia dirigido. Pode tratar-se talvez também
de uma tradução árabe do termo grego ÉTaipoç que, no uso que dele fazem
os neoplatônicos, designa um companheiro de estudos admitido no estreito
círculo dos verdadeiros adeptos da filosofia neoplatônica.

De fato, Sim plício dá, verbatim , em uma longa passagem colocada por
al-N ayr i z i depois da “Proposição X X I X ” do Livro I dos E lem entos, uma
tentativa de Agh ã n i s, que virá erroneam ente a ser confundido com G e-
minus, de dem onstrar o postulado das paralelas. Com eça, realmente, com
uma definição de paralela que concorda com a versão de Gem inus sobre
elas, com o está em Proclus:

I 7 7 .2 I- 2 3 :
E das [linhas] que se mantêm separadas por distância sempre igual, as retas
que nunca tornam menor a entre elas em um plano são paralelas.I02

E está intim am ente conectada com a definição dada por Posidonius em


Proclus:

I 7 6 .6 - I 0 :
E Posidonius diz: paralelas são as que nem convergem nem divergem em
um plano, mas as que têm iguais todas as perpendiculares traçadas dos pontos
de uma até a outra.I03

102 Tâv 8è ioov aèi a^èxoDoâv 8iaoT^|a ai èioiv èú0èiai |rç8èrcoTè èXÀaoov rcoiófioai tó |èTa^ò amâv
èv èvi èmè8ra rapaWrçXói èioiv.
1 0 3 0 8è nooèi8rávióç/ napãXArçX,oi/ ^^oiv, èioiv ai |^Tè onvèúonoai |^Tè arcovèúonoai èv èvi èmè8ra/
awioaç èxonoai rníoaç Taç Ka0èTonç Taç ayo|èvaç arcó Tâv Tflç èTè- paç o^|èirav èrci TrçvXoircr|v.

76
O s elementos

Fiquem os com as considerações acima, no que tange aos com entaristas,


aditando:

D o Comentário

Quando os deuses, do Olimpo, poderosos


Enviam a cristalina chuva
Que caudalosos faz os rios
E viva a terra agradecida,
As gotas dágua suspensas no horizonte
Revelam o mistério da cor branca:
Combinação perfeita, harmoniosa
Das outras sete do arco-íris.
Assim o comentário dos antigos,
Como as gotas da chuva cristalina,
Mostram que os Elementos de Euclides,
Obra hercúlea, valorosa,
São a, dos trabalhos de Eudoxo e Teeteto,
De Teodoro e outros grandes gregos,
Com a pitada de sal
Que faz a vida mais gostosa,
Combinação ousada, majestosa.

A Geometria Grega e os Elem entos

Pode-se dizer, parece que sem qualquer sombra de dúvida, que o conhe­
cim ento m atem ático tanto egípcio quanto o babilônico — este, sabemos
hoje graças ao trabalho de O tto Neugebauer, bem mais refinado do que
aquele — tinha a experiência com o critério de verdade.
O s gregos herdaram, assim nos diz a tradição, tal conhecim ento. M as, o
que satisfazia egípcios e babilônios não bastou para contentar a exigência
grega. C om os m atem áticos da Grécia, a razão suplanta a em peiria com o
critério de verdade e a m atem ática ganha características de uma ciência
dedutiva.
C om o sucede com inúmeros fenôm enos culturais, as causas dessa trans­
form ação por que passou essa área de conhecim ento jazem ocultas nas

77
Euclides

brumas de um passado rem oto. Cada tentativa de reencontrá-las tece-se


de conjecturas mais ou menos consubstanciadas nos testem unhos, quase
sempre duvidosos, de épocas menos recuadas. N o que nos interessa, o h is­
toriador assemelha-se a um equilibrista a andar em um fio de aço suspenso
entre dois distantes pontos, a uma altura estonteante, sem a rede protetora
que lhe am orteça uma possível malfadada queda. Porém, com o desafio
lançado, a adrenalina agita o sangue, esporeia os rins, enrijece os m úsculos,
faz pulsar acelerado o coração, incitando a audácia humana: é preciso ousar!
É o que faz Szabó quando explica a referida mudança pelo im pacto, na
matem ática, da filosofia eleática, ou, mais precisam ente, da dialética de
Zenão.
Ora, se a dialética de Zenão, sendo uma técnica retórica, pode ter sido a
causa do princípio da axiomatização, não parece ser o bastante para firmar
a axiom atização com o um programa a ser levado a cabo. Julgam os lídim o
afirmar que para tanto foram necessárias a influência de Platão e a extensão
que faz da dialética eleática.
Platão elege a dialética,104 já o vimos, com o a mais im portante das ciên­
cias, a única não-hipotética. Enquanto a m atem ática tem hipóteses com o pontos
de partida, indo dessas, em m ovim ento descendente (r a r a ), à dedução das
suas consequências, a dialética, em m ovim ento ascendente (avœ) caminha
para o alto, ainda mais alto, até alcançar, se possível, o fundam ento incon­
dicional (R epública, 5 I 0 .b 6 - 7 : “ [a alma] indo da hipótese ao princípio não
h ip o tético.” 5 1 1 .b 5 : 105 “fazendo as hipóteses não princípios mas realmente
h ipóteses”106) .
N a ordenação das realidades, a trajetória (ascendente e depois descen­
dente, isto é, uma espécie de análise e síntese dos geômetras gregos) não
ficaria facilitada, se feita com base em uma axiomatização dessa ciência
interm ediária entre o sensível e o inteligível ? Isso não im poria tal axiom atiza­
ção com o um projeto da Academia, sob a influente autoridade de Platão?

104 1Í SiaXèKT^.
105 tom àpx^v àvottcteov - èÇ■ráoOéoErnç íofiaa.
106 ràç 'ráoOèoèiç rcoiot^èvoç otK àpxàç àXAà t<8óvíi ■ráoBèoèiç.

78
O s elementos

Platão, matemático?

Quem pretenda enfrentar as questões acima terá antes que se haver com
esta outra: À parte o estudioso da matemática, o entusiasta por essa ciência,
Platão foi tam bém um efetivo m atem ático, com o arrolado entre outros no
S um ário d eE u d em o ? D escobriu ele resultados m atem áticos, resolveu com ple­
xos problemas, vislum brou novas teorias, imprimiu, em suma, a sua pegada
no fértil solo dessa disciplina?
Aqui a resposta de duas em inentes autoridades:

G . J. Allman (G reek G eom etry: fr o m T hales to E u c lid ,107 p .I 2 4 ) :

Deve-se recordar que Platão — que em matemática parece ter sido mais
diligente que inventivo (...) De fato, temos somente que comparar a solução
atribuída a Platão, para o problema de achar duas médias proporcionais (...)
com as soluções altamente racionais para o mesmo problema de Arquitas e
Menaechmus, para ver o amplo intervalo entre estes e aquele, de um ponto
de vista matemático. (...) É, então, provável que Platão, que, tanto quanto
sabemos, nunca resolveu uma questão geométrica (...)

N . Bourbaki (Élém ents d ’histoire des m athém atiques , I08 p .I 2 ) : “Pode-se dizer
que Platão era quase obcecado pela m atem ática; sem ser ele mesm o um
inventor nesse dom ínio (...)

A próxim a questão: Pôde Platão, sem ter sido propriam ente um m ate­
m ático, ter dado uma contribuição im portante ao estabelecim ento e à
estruturação da m atem ática grega?
Isso abre um amplo campo de debate.
A tradição, concretizada no S u m ário de E u dem o, assim como alguns h isto ­
riadores modernos consideram decisivo o seu papel para o desenvolvimento
dessa ciência, m orm ente no que respeita ao m étodo, à sistem atização e aos
fundamentos desta, tanto quanto à sua emancipação da experiência. O utros
negam -lhe a influência significativa.
Aos exemplos!

107 [Geometria Grega —De Tales a Euclides].


108 [Elementos da história da matemática].

79
Euclides

B. L. Van der Waerden (S cien ceA w aken in g ,109 p .1 4 8 ) :

O período [século de Platão] começa com a morte de Sócrates (3 99 a.C.)


e encerra-se no momento em que Alexandre, o Grande, espalha a semente da
cultura helenista sobre o mundo todo da Antiguidade.
Esse período é de decadência política; mas para a filosofia e para as ciências
exatas é uma era de florescimento sem precedente. No centro da vida científica
encontra-se a personalidade de Platão. Ele guiou e inspirou o trabalho científi­
co dentro e fora da sua Academia. Os grandes matemáticos Teeteto e Eudoxo,
e todos os outros enumerados no Catálogo de Proclus, foram seus amigos,
seus mestres em matemática e seus discípulos em filosofia. O seu grande aluno,
Aristóteles, o professor de Alexandre, o Grande, passou vinte anos da sua vida
no glorioso mundo da Academia.

J. A. Gow (A Short H istory o f G reek M athem atics,110 p .I 7 5 - 6 ) :

... Platão foi mais um forjador de matemáticos do que um matemático


distinguido por descobertas originais, e as suas contribuições à geometria estão
mais na melhora do seu método do que em adições ao seu conteúdo. Foi ele
que transformou a lógica intuitiva dos antigos geômetras em um método a
ser considerado conscientemente e sem receio. Com ele, aparentemente, começaram
aquelas definições dos termos geométricos, aquele enunciado distinto de postulado e axiomas
que Euclides adotou. (grifo nosso)

G ino Loria (S toria delle M atem atiche,111 p.7 8 ) : “M ais direta e visível foi a
benéfica influência de Platão sobre a C iência E xata”.

Por outro lado,

O tto N eugebauer (T h e E x a c t Sciences in A n tiqu ity ,112 p .I 5 2 ) :

Parece-me igualmente impossível dar qualquer “explicação” conclusiva


para a origem da matemática superior nos séculos V e IV, em Atenas e nas
colônias gregas. Do lado negativo, entretanto, penso que é evidente que o

109 [O despertar da ciência].


11 0 [Uma breve história da matemática grega].
111 [História da matemática].
112 [As ciências exatas na Antiguidade].

80
O s elementos

papel de Platão foi amplamente exagerado. A sua contribuição direta para o


conhecimento matemático foi obviamente nula. Que por um certo período
matemáticos da estatura de Eudoxo tenham pertencido ao seu círculo não é
prova da influência de Platão na pesquisa matemática. O caráter excessivamente
elementar dos exemplos de procedimentos matemáticos citados por Platão e
por Aristóteles não dão suporte à hipótese de que Teeteto ou Eudoxo tenham
aprendido qualquer coisa com Platão.

Cabe invocar agora o testem unho de Eudem o, no C atálog o dosgeôm etras,


sobre o impulso que o filósofo dera à ciência m atem ática e, em particular, à
geometria, despertando a admiração por esse estudo e orientando discípulos
na pesquisa geom étrica.
C om o Eudem o é um dos observadores mais próxim os do tem po de
Platão, é razoável darm os-lhe crédito. É possível que ele seja o inspirador
das seguintes palavras de J. C ajori, p .2 6 :113

Com Platão como chefe da Escola não nos devemos surpreender que a es­
cola platônica tenha produzido um tão grande número de matemáticos. Platão
realizou pouco trabalho realmente original, mas f e z aperfeiçoamentos valiosos na
lógica e nos métodos empregados. (grifo nosso)

Aceitam os, pois, que, mesm o não sendo efetivam ente um “working
m athem atician”, o filósofo, até pela sua m issão de filósofo, contribuiu para
o desenvolvimento da m atem ática grega, em especial da geometria, com o
esta aparece nos E lem en tos de Euclides.

Como se organiza a matemática

Com ecem os descrevendo, sucintam ente, em que consiste, depois de


Cauchy, W eierstrass, Bolzano, Dedekind, Cantor, Frege, H ilbert, Bourbaki,
e outros grandes do século X I X e X X , uma teoria m atemática.
N o seu trabalho, o que com pete ao m atem ático é definir os conceitos de
que se servirá e dem onstrar as propriedades desses conceitos.

113 CAJORI, F. AHistoryofMathematics. NovaYork: Chelsea, 1985.

81
Euclides

O ra, definir um conceito significa explicá-lo em term os de outros con ­


ceitos já definidos, e dem onstrar uma proposição equivale a argumentar
pela sua veracidade, usando as regras de inferência válidas fornecidas pela
lógica, com base em proposições anteriorm ente demonstradas. Assim, um
certo conceito co é definido recorrendo-se aos conceitos cv c2, ..., ck, todos
eles já definidos, tendo tais definições dos cv c2, ..., ck ocorrido em função
de outros conceitos, anteriores na estrutura, “e assim por diante”. D e modo
análogo, para provarmos uma proposição, utilizam o-nos de proposições
anteriorm ente provadas e que foram provadas com o auxílio de outras já
provadas que as antecedem na ordenação da teoria, “e assim por diante”.
Quer na definição de conceitos quer nas demonstrações de propriedades,
o problem a jaz na frase “e assim por diante”. C om o não há, dada a nossa
finitude, possibilidade de um retrocesso ad infinitum , é preciso dar uma
solução ao “e assim por diante”.
N o caso da definição, os dicionários oferecem a solução do “círculo vi­
cioso”: um term o é definido em função de um outro e este outro, em função
daquele. É evidente que o m atem ático não pode aceitar essa situação. A sua
solução (de conveniência, é verdade) consiste em tom ar alguns conceitos
sem definição. C om o lem bra J. M . C. Duham el (D es méthodes dans les sciences
de raisonnem ent ,n4 p . I 6 - 7 ) : “É por entendê-lo desse modo que diremos que
a definição de uma coisa é a expressão das suas relações com coisas conhe­
cidas. E, por consequência, nem todas as coisas podem ser definidas, pois
que, para isso, seria necessário conhecer já as ou tras.” Assim procedendo,
o m atem ático assume o com prom isso de, valendo-se desses conceitos não
definidos, que devem ser escolhidos no m enor número possível, definir
todos os demais conceitos de que deva lançar mão.
N o caso da dem onstração de propriedades/proposições, uma conduta
sim ilar leva-o a acolher umas tantas proposições, no m enor número exe­
quível, sem dem onstração e procurar provar todas as outras afirmações que
venha a fazer a partir daquelas.
Os conceitos não definidos são chamados conceitos ou termos prim itivos e
todos os outros, conceitos ou termos derivados . As proposições admitidas sem

I I 4 [Dos métodos nas ciências do raciocínio].

82
O s elementos

dem onstração são ditas ax iom as (hoje não se faz qualquer distinção entre
postulado e a x io m a ), e as demais, demonstradas, teorem as.
Essa estruturação das disciplinas m atem áticas em conceitos prim itivos
e derivados, axiomas e teoremas fornece “a arquitetura” da nossa ciência.
E isso é “com pouca corrupção” herança grega. C onform e sustenta Bour-
baki (op. cit., p .I 0 ) : “a noção de dem onstração nesses autores [Euclides,
Arquimedes, A polônio] não difere em nada da nossa”.

A matemática grega

U m dos capítulos mais im portantes da h istória cultural, embora pouco


conhecido, é a transform ação do prim itivo conhecim ento m atem ático
em pírico de egípcios e babilônios na ciência m atem ática grega, dedutiva,
sistem ática, baseada em definições e axiomas.
Quem se achegue descuidadamente a essa h istória terá a impressão de a
geom etria ter nascido inteiram ente radiante da cabeça de Euclides, como
Atenas da de Zeus. Tal foi o êxito dos seus E lem entos no resumir, corrigir,
dar base sólida e ampliar os resultados até então conhecidos que apagou,
quase que com pletam ente, os rastros dos que o precederam.

“Não há, hoje, qualquer dúvida”, salienta Bourbaki (op. cit., p.9), “de que
existiu uma matemática pré-helênica bem desenvolvida. Não somente são
as noções (já mais abstratas) de número inteiro e de medida de quantidade
comumente usadas nos documentos mais antigos que nos chegaram do Egito
e da Caldeia, mas a álgebra babilônia, por causa da elegância e segurança dos
seus métodos, não deve ser concebida como uma simples coleção de problemas
resolvidos por um tatear empírico.”

N o entanto, não encontram os, seja nos docum entos egípcios seja nos
babilônios, que nos chegaram aos milhares, qualquer esboço do que se as­
semelhe a uma “dem onstração”, no sentido form al do conceito. A noção de
ciência dedutiva era desconhecida dos povos orientais da Antiguidade. O s
seus textos m atem áticos m ostram -se, em que pese o afirmado por Bourbaki,
com o uma coletânea de problem as, mais ou menos interessantes, e as suas
soluções, em form a de uma receita prescrita, com o as indicações das etapas

83
Euclides

de um ritual oferecido a uma deidade. Nada de definições, nada de axiomas,


nada de teoremas! Sobre tais coisas repousa a sombra!
Agora, a questão fundamental.
Ao herdarem esse conhecim ento — H eród oto, A ristóteles e Eudem o
afiançam-nos ter a geom etria sido im portada do E gito —por que os gregos
não se contentaram com o seu fundam ento empírico? Por que su b stitu í­
ram a coleção existente das receitas m atem áticas por uma ciência dedutiva
sistem ática? O que os levou a confiar mais no que podiam dem onstrar do
que naquilo que podiam “ver” com o correto? Por que a transform ação no
critério de verdade ali usado, trocando a justificativa baseada na experiência
por aquela sustentada por razões teóricas?
É na moldagem dessa nova configuração da m atem ática, julgam os, que
foi decisiva a influência de Platão.

A mudança

Tanto no E g ito quanto na M esopotâm ia, era a classe sacerdotal a deten­


tora do conhecim ento. O ra, os sacerdotes punham -se de interm ediários
entre a deidade e o povo. O s desígnios da divindade não carecem de expli­
cações; seus desejos devem ser satisfeitos com os rituais que, aplacando-lhe
a ira, lhe atrai o beneplácito. É função dos sacerdotes interpretar a vontade
dos deuses, guiando o povo nos passos do rito apaziguador.
Procedem do mesmo modo, enunciando as passadas, sem lhes dar ju s­
tificação, nos seus docum entos m atem áticos!
Quando tal conhecim ento chega à Grécia, por volta do século V I a.C., não
encontra ali uma classe sacerdotal. “Foi provavelmente graças aos aqueus”,
pondera J. Burnet (E arly G reek Philosophy, p .4 ) , 115 “que os gregos nunca
tiveram uma classe sacerdotal, e isso pode bem ter tido algo a ver com o
aparecimento da ciência livre entre eles.” Além disso, “a visão tradicional de
mundo e as costum eiras regras de vida tinham colapsado” (idem, ibidem,
p .I ) , e os mais antigos filósofos especulavam sobre o mundo à sua volta.

115 Edições brasileiras: BURNET, J. A aurora da filosofia grega. São Paulo: Contraponto,
2007; e BURNET, J. O despertar da filosofia grega. São Paulo: Siciliano, 1994.

84
O s elementos

Essa pesquisa cosm ológica deu origem “à ampla divergência entre ciência
e senso comum que era, por si só, um problema que demandava solução, e,
além disso, forçava os filósofos ao estudo dos meios de defender os seus
paradoxos contra os preconceitos da (visão) não científica” (idem, ibidem,
p .I ) . Há, então, que se acrescentar que “a impressão geral que parece resultar
dos textos (m uitos fragm entários) que possuímos sobre o pensamento filo­
sófico grego do século V a.C. é ser ele dominado por um esforço mais e mais
consciente para estender, a todo o campo do pensamento, os procedimentos
de articulação do discurso empregados com tanto sucesso pelas retórica e
m atem ática contemporâneas — em outras palavras, para criar a Lógica, no
sentido mais geral dessa palavra. O tom dos escritos filosóficos sofrem, nessa
época, uma mudança básica: ao passo que, nos séculos V II e V I, os filósofos
afirmam ou vaticinam (ou ao menos esboçam vagos raciocínios, fundados
sobre igualmente vagas analogias), a partir de Parmênides e, sobretudo, de
Zenão, argumentam e procuram resgatar princípios gerais que possam servir
de base à sua dialética” (Bourbaki, op. cit., p . I I ) , cuja invenção A ristóteles
atribui a Zenão; “é em Parmênides que se encontra a prim eira afirmação do
princípio do terceiro excluído, e as dem onstrações ‘por absurdo’ de Zenão
de Elea permaneceram fam osas” (idem, ibidem, p . I I ) .
Pois bem, a solução proposta por Sazbó para a origem da m atem ática
dedutiva sistem ática grega consiste no im pacto, sofrido pela ciência, da
filosofia eleática ou, mais precisam ente, da sua dialética.
A filosofia eleática, falando perfunctoriam ente, foi preparada por X e-
nófanes, estabelecida por Parmênides, seguida e defendida por Zenão e
M elisso, e tem com o fundam entos:
(i) a unidade, a imutabilidade e a necessidade do ser — em Teeteto I 8 I a
6 -7 , Platão refere-se aos eleatas com o o i Tofi O'Xofi o T a o ira T a i “os partidários
do to d o ”, e A ristóteles, M etafísica 9 8 6 b 2 4 , escreve
“ [X en ófan es], tendo contem plado o céu todo, disse o um ser deus.”IIfi
(ii) a acessibilidade do ser som ente ao pensam ento racional e a con ­
denação do mundo sensível e do conhecim ento sensível como aparência.
Claro está que a aceitação do pressuposto (ii) vai ao encontro da nova
visão da m atemática.

11 6 èiç Tov OXov ofipavOv an^Xè-faç to 'èv èívaí i|nioi Tov 0èOv.

85
Euclides

A conjectura de Szabó

Euclides abre os E lem entos arrolando três tipos de princípios m atem áticos:
definições (opoí), postulados (alirpaTa) e noções comuns (Koivrà. èvvoíaí) ou
axiomas.
Proclus examina os princípios não provados nos seguintes term os:

7 5 .5 -I8 :
Explicaremos o arranjo todo das proposições nele [o livro dos Elementos ]
por esta maneira. Por essa ciência, a geometria, ser de hipótese, dizemos, e
demonstrar as coisas na sequência a partir dos princípios de partida —pois uma
única é a não hipotética, e as outras recebem de junto daquela os princípios
— é necessário, de algum modo, o organizador dos elementos na geometria
transmitir, por um lado, separadamente os princípios da ciência, e, por outro
lado, separadamente as conclusões a partir dos princípios, e não dar uma razão
para os princípios, mas para as consequências pelos princípios. Pois, nenhuma
ciência demonstra os princípios dela própria, nem faz discurso sobre eles,
mas tem-nos como autoconfiáveis, e, para ela, são mais evidentes do que os na
sequência. E sabe-os por causa deles próprios, ao passo que as coisas depois
dessas, por causa daqueles.“ 7

As palavras acima são a caixa de ressonância do seguinte trecho da R e­


pú blica de Platão.

5 I0 . c2-d3:
Penso, pois, saberes que os que se esforçam com a geometria e também
com a aritmética e com coisas que tais, tendo suposto tanto o ímpar quanto
o par, quanto as figuras e as três espécies de ângulos, e as outras coisas afins
a essas, segundo cada pesquisa, como sabedores dessas coisas, tendo-as feito

1 1 7 Tfv Sè có|in;aoav oiKovo^íav i®v èv amf [otoixeímoei] Xoymv ®8è rcrnç àva8i8á^o^£v. èrcèíSr
Tfv èmoTfmrv Tamrçv -^v yèra^èipíav èÇfifto0èaèmç èívaí ^a^èv Kaí à^ò àpxffiv rápio^èvrav ia è^è
Çflç arcoSèíKvóvaí - |iía yap r avuróteioç, aí 8è axta rap’èKèívrç fin;o8èxov'iHí ápxáç - áváyKr
§r rcon tov irv èv yèra^èipía oioíxèíraoív owT^TTovia x®píç MèvmipaSofivaí Taç apxaç iflç èrno irM^Ç/
xmpíç 8è ia aito iffiv a^x®^ ofiM^èpaoMaia/ Kaí iffiv|ièva^x®^ Mr SíSovaí Xoyov/iffiv 8è èftoMèvmvia!ç
ápxaiç. ofiSèMía yap èmoirMr iaç èamflç apxaç arcoSèíKvoaív/ ofiSè rcoíèiiaí Xoyov rcèpí amffiv/
axX’afiro«íaTmç èxèí ftèpí afiràç/ Kaí ^àXXOv èíaív Kaia^avèiç Tffivè^èÇflç. Kaí iaç |ièvoíSèv Sítamaç
ia 8è Mèia Tafiia 8í’èKèívaç.

86
O s elementos

hipóteses, nenhuma razão nem a si próprios nem a outros julgam, então,


conveniente dar sobre elas, como evidentes a todos, e, partindo dessas coisas,
passando daí através das restantes, terminam, de modo conforme, nisso, no
exame do qual começaram.118

Tais considerações m ostram que os m atem áticos daquela época, dos


quais os maiores estavam, de algum m odo, associados à Academia, tinham
já uma nova concepção da m atem ática com o uma ciência dedutiva e en­
tendiam a não necessidade de dem onstrarem os seus princípios. Deixam
igualmente claro que os conceitos arrolados — o ímpar e o par, as figuras
e os três tipos de ângulos — são hipóteses dessa ciência, que, por contê-las, é
uma ciência hipotética.
Ora, a palavra móBsaiç, “hipótese”, deriva do verbo ÜTCòTÍ0r||ii, “pôr embai­
xo, supor (su b -p ô r)”, e significa aquilo que os participantes de um debate
(retórico) concordam em aceitar por base e pon to de p artid a da argumentação
de cada um. Assim, móBèoiç, quer na dialética (retórica) quer na matemática,
é um fundam ento, um princípio, um ponto de partida aceito e sobre cuja
veracidade não se cogita.
Então, segundo Szabó, os m atem áticos chegaram à conclusão de que não
precisavam (e não podiam ) dem onstrar os princípios da sua ciência pela
prática da dialética. Estariam habituados com o fato de que, quando um dos
debatedores queria provar algo para os outros, limitava-se a começar a partir
do que tinha sido convencionado verdadeiro por todos os participantes.

Ainda Platão

A mudança resultante de paradigma está intim am ente associada ao ca­


ráter idealista, antiem pírico da filosofia eleática, mas sobretudo da filosofia
platônica. C om o nota Van der W aerden (op. cit., p .1 4 8 ) a respeito desta:

I I 8 oi|ai yap oè èi8èvai òTi oi rcèpi Taç yèrn|èTpiaç Tè Kai Xoyio|ófiç Kai Ta TóiafiTa n;pay|aTèfi0|èvoi/
fiftò0è|èvoi to Tè ftèpmóv Kai to apTióv Kai Ta ox^aTa Kai yrnviâv Tpma èi8rç Kai âU« Tomrnv
a8è^a Ka0’èKaoT^v |è0ó8ov/ TafiTa |èv ráç èi8ÓTèç/loi^oa^èvoi firco0èoèiç aura/ ófi8èva Xóyov ófiTè
afiTólç ófiTè aXAòiç èTi a^iófioi rcèpi amâv 8i80vai ráç tovtí ^avèpráv/ èKtodtmv 8’òpxó|èvoi t« Xoim
rç8rç 8iè^ióvTèç TèXèfiTâoiv 0|oXoyofi|èvmç èrci toííto ofi «v èrci oKèyiv ópirçornoi.

87
Euclides

Verdade que significa as ideias. São as ideias que têm Ser verdadeiro, não
as coisas que são observadas pelos sentidos. As ideias podem às vezes ser
contempladas, em momentos de Graça, através da reminiscência do tempo
em que a alma vivia mais perto de Deus, no reino da verdade; mas isso pode
acontecer somente depois de os erros dos sentidos terem sido conquistados
pelo pensamento concentrado. O caminho que leva a esse estado é aquele da
dialética (...)

Platão incentiva a estruturação dedutiva sistem ática da ciência que ele


considera propedêutica a mais alta ciência, a dialética.
L. Brunschvicg (Les étapes de la Philosophie M ath ém atiqu e,119 p .5 6 ) pondera:

Separando-se, ao mesmo tempo, dos pitagóricos, que mantinham no mesmo


plano ciência e filosofia, e de Sócrates, cuja investigação prudente parece ter-se
detido na determinação da hipótese, Platão conduz a filosofia matemática a um
caminho todo novo. A matemática situada na região da S ia v o ia é apenas uma
ciência intermediária (Aristóteles, M etafísica 997 b2 : “as coisas intermediárias,
acerca das quais dizem ser a ciência matemática”I2°). A sua verdade reside em
uma ciência superior, que está em relação a ela como ela própria em relação à
percepção do concreto. A dialética tem por função retomar as hipóteses das
técnicas particulares e conduzi-las até o seu princípio (República VII, 5 3 3.c6-7:
“a investigação dialética só é conduzida por esse modo, eliminando as hipóte­
ses, em direção ao próprio princípio”I2I), toma posse do incondicional; e daí,
por uma marcha que é inversa à da análise, forja uma cadeia ininterrupta de
ideias (República VI, 5 I I . b 3 -c2 : “Dizendo eu: compreende então a outra seção
de inteligível, isso a que a própria razão alcança pelo poder da dialética, fazen­
do das hipóteses não princípios, mas realmente hipóteses, do mesmo modo
que degraus e também trampolins, a fim de que, indo até o não-hipotético
no princípio de tudo, tendo-o alcançado, de novo, obtendo as coisas que são
obtidas daquele, desça assim para um fim, servindo-se absolutamente de nada
sensível, mas das próprias ideias/formas, através delas para elas, e acaba em
ideias/formas”.) que, suspensa no princípio absoluto, constituirá um mundo
completamente independente do sensível, o mundo da vonoiç. A filosofia da

119 [As etapas da filosofia matemática].


120 Ta iièTa^fi, rcèpi a Taç ^à0^^àTlKàç èívai ^aoiv èmoT^aç.
12 1 rç 8iaXèKTiK^ |iè0o8oç |iovrç TafiTrç rcopèfièTai, Taç firco0èoèiç avaipofioa/ èrc’afiTrçv Trçvapxrçv

88
O s elementos

matemática de Platão, no seu grau mais alto e sob a sua forma definitiva será
então a dialética.I22

C otejem os o que acabamos de citar com a seguinte passagem do livro


Introduction to M ath em atical Philosophy, p .I , de Bertrand R u ssell:123

A matemática é um estudo que, quando começamos a partir das suas por­


ções mais familiares, pode ser perseguido em uma de duas direções opostas. A
direção mais familiar é construtiva, para complexidade gradualmente crescente:
dos inteiros para as frações, números reais, números complexos; da adição e
multiplicação para a diferenciação e a integração e para a matemática superior.
A outra direção, que é menos familiar, procede, por análise, para a abstração e a
simplicidade lógica cada vez maiores; em vez de perguntar o que pode ser defi­
nido e deduzido do que é suposto no princípio, perguntamos que ideias e prin­
cípios mais gerais podem ser encontrados, em termos dos quais o nosso ponto
de partida possa ser definido ou deduzido. É o fato de perseguir essa direção
oposta que caracteriza a filosofia matemática como oposta à matemática usual.

Enquanto Zenão tom a uma hipótese como uma suposição que se faz
para um presente propósito, Platão no Fédon e nos Livros V I e V II da R epú ­
blica, com o aponta J. Lucas (P lato an d the A x io m a tic Method,124 p .I 3 ) ,

tenta tornar as suas suposições aquelas que não têm que ser tomadas como cer­
tas para o presente caso particular; tenta torná-las aquelas que devem ser aceitas
por todos. Essa é a procura do «vv^óSetov «px^ (“princípio não-hipotético”),
o axioma fundamental que não tem que pedir a alguém para aceitá-lo; é algo
que deve ser aceito por qualquer um (...) É por essa razão que Platão sugere à
consideração o ideal axiomático: que deveríamos tentar e desenvolver o todo
da nossa matemática por raciocínio dedutivo, Suivoia, com base em alguns
princípios que (erradamente) pensou poderiam ser estabelecidos além de
toda questão possível. Platão apresentou o seu programa. Os seus discípulos
realizaram-no em grande parte. Temos o resultado final codificado por Euclides.

122 toTóívfiv è'Tèpov|«v0avè T|fl|a TofivorçTófi XèyovT« |è TófiTOofi afiTÓç 0 XOyoç «rcTèTai Tfl Tófi 8iaXè-
yèo0ai 8fiva|èi/ t«çfirco0èoèiç rcoiofi|èvoç oük «px«çaxtó Tâ óvti firco0èoèiç/ oiov èrcip«oèiç Tè Kai
ópi«ç/iva |èxpi Tófi avfiKO0èTófi èrci Trçv Tófi rcavTÓç «pxrçv iâv/ «yaièvoç afiTflç/ ráX,iv afi èxó|èvoç
Tâv èKèív^ç èxó|èvrav/ ofiTrnç èrci TèXèfiTrçv KaTapaív^/ aio-0^Tâ ravTaraoiv ófi8èvi rcpooxptó|èvoç/
aWèi8èoiv afiTóiç 8i’afiTâv èiç afiT«/ Kai TèXèfiT« èiç èi8rç.
123 Edição brasileira: Introdução àfilosofia matemática. São Paulo: Jorge Zahar, 2007.
124 [Platão e o método axiomático].

89
Euclides

D esse m odo, sob a influência de Platão, o que nos m ostram os E lem entos
de Euclides é, na expressão de W ordsworth,

An independent world,
Created out o f pure intelligence.125

Feitas tais ponderações, damos o trabalho por findo. N ão que tenhamos


esgotado tudo. Mas o sol se pôs, e esta é, depois do dia todo de labuta, a
hora dos cansaços. Recolhem os as ferramentas como os homens se recolhem
na tristeza do m oribundo dia, com o as flores fecham -se nos campos, e as
aves voltam céleres ao ninho.

(Mas quando imergiu a radiante luz do sol


Os que vão descansar vão, cada um, para a sua casa,
Onde para cada um u’a mansão o famoso manco
Hefaístos fez com hábil entendimento. ) I26
(Ilíada, I, 60 5 - 8)

H á temas que ficaram intratados; é infinita a arqueologia dos dize­


res, mas lembremos aqueles que Camões põe na boca de Vasco da Gama
dirigindo-se ao R ei de M elinde (L u síadas, III, 3 -4 ):

Mandas-me, ó Rei, que conte declarando


De minha gente a grão genealogia;
Não me mandas contar estranha história
Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

Que outrem possa louvar esforço alheio,


Coisa é que se costuma e se deseja;
Mas louvar os próprios, arreceio
Que louvor tão suspeito mal me esteja;
E, para dizer tudo, temo e creio
Que qualquer longo tempo curto seja;
Mas, pois o mandas, tudo se te deve;
Irei contra o que devo, e serei breve. (grifo nosso)

125 [Um mundo independente, criado com base em inteligência pura].


126 AfiTap èrò KaTè8fi Xa^^pOv ^aoç ^èXíoio,
oi |ièv KaKKèlovTèç èpav oiKov8è è'KaoToç/
^xi èKaoTra 8ffi|ia KèpiKXfiToç a^iyfi^èiç
'' H^aioToç rcoírçoèv i8fiíipi ftpam8èooi.

9o
O s elementos

N a brevidade das nossas observações, de m odo pessoal, abordamos as


dificuldades da rememoração do passado, espiamos por cima do muro da
filolo gia, esboçam os o personagem, com entam os-lhe a obra. Subim os ao
pico das certezas, poucas, marchamos pela planície das suposições, muitas,
pois, afinal, de certezas e suposições é que se tece a história, speculum vitae. É
possível que onde viramos à esquerda, outros dobrassem à direita; é p ossí­
vel que gritassem , onde mantivemos obsequioso silêncio; corressem, onde
paramos; estacionassem , quem sabe à beira do abismo, quando avançamos;
quisessem paz, quando clamamos por guerra; ficassem a pregar, quando
saímos a divulgar a boa nova, eles nos paços, nós com os nossos passos —
porque pode-se ser tudo isso sem ser nada disso — e, por fim, é possível,
diante de tantos contrastes, estarm os falando as mesmas coisas.
Providenciamos mesas, cadeiras, cabides para casacos, recipientes para
guarda-chuvas, porcelana, copos, talheres, toalhas de mesa, guardanapos,
travessas, réchauds, cafeteiras com torneira. Encom endam os o gelo, co lo ­
camos as toalhas e os guardanapos nas mesas, arranjando-os para o jantar.
Preparamos o bar, organizamos as bandejas de licores e café, acertamos a
disposição dos móveis, dispusemos os descansos para copos onde necessá­
rios e arrumamos as flores, tudo conform e O livro com pleto de etiqueta.
Q ue quantos são os convidados tantos sejam os convivas e que o que
passamos a lhes servir agora lhes agrade o paladar e a alma, assim os deuses
nos concedam, do O lim po, poderosos, ao som da lira de Apolo, acom pa­
nhando das M usas o harm onioso canto.

Irineu Bicudo

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94
n r ò ç n t ó T i a v s l è y s TÓv 0èóv

« è i yèro|ETpèiv;

“D e que maneira Platão dizia a


divindade sempre geometrizar?

Plutarco, Q uest. Conv. V III, 2


Livro I

Definições

1. Ponto é aquilo de que nada é parte.


2. E linha é com prim ento sem largura.
3. E extremidades de uma linha são pontos.
4. E linha reta é a que está posta por igual com os pontos sobre si mesma.
5. E superfície é aquilo que tem som ente com prim ento e largura.
6. E extremidades de uma superfície são retas.
7. Superfície plana é a que está posta por igual com as retas sobre si mesma.
8. E ângulo plano é a inclinação, entre elas, de duas linhas no plano, que
se tocam e não estão postas sobre uma reta.
9. E quando as linhas que contêm o ângulo sejam retas, o ângulo é cha­
mado retilíneo.
10. E quando uma reta, tendo sido alteada sobre uma reta, faça os ângulos
adjacentes iguais, cada um dos ângulos é reto, e a reta que se alteou é
chamada uma perpendicular àquela sobre a qual se alteou.
11. Ângulo obtuso é o maior do que um reto.
12. E agudo, o m enor do que um reto.
13. E fronteira é aquilo que é extremidade de alguma coisa.
14. Figura é o que é contido por alguma ou algumas fronteiras.
15. C írculo é uma figura plana contida por uma linha [que é chamada cir­
cunferência], em relação à qual todas as retas que a encontram [até a
circunferência do círcu lo], a partir de um ponto dos postos no interior
da figura, são iguais entre si.

97
Euclides

16. E o ponto é chamado centro do círculo.


17. E diâmetro do círculo é alguma reta traçada através do centro, e ter­
minando, em cada um dos lados, pela circunferência do círculo, e que
corta o círculo em dois.
1 8 . E semicírculo é a figura contida tanto pelo diâmetro quanto pela circun­
ferência cortada por ele. E centro do sem icírculo é o mesmo do círculo.
19. Figuras retilíneas são as contidas por retas, por um lado, triláteras,
as por três, e, por outro lado, quadriláteras, as por quatro, enquanto
m ultiláteras, as contidas por mais do que quatro retas.
2 0 . E, das figuras triláteras, por um lado, triângulo equilátero é o que tem
os três lados iguais, e, por outro lado, isósceles, o que tem só dois lados
iguais, enquanto escaleno, o que tem os três lados desiguais.
2 1 . E, ainda das figuras triláteras, por um lado, triângulo retângulo é o que
tem um ângulo reto, e, por outro lado, obtusângulo, o que tem um
ângulo obtuso, enquanto acutângulo, o que tem os três ângulos agudos.
2 2 . E das figuras quadriláteras, por um lado, quadrado é aquela que é tanto
equilátera quanto retangular, e, por outro lado, oblongo, a que, por um
lado, é retangular, e, por outro lado, não é equilátera, enquanto losango,
a que, por um lado, é equilátera, e, por outro lado, não é retangular, e
romboide, a que tem tanto os lados opostos quanto os ângulos opostos
iguais entre si, a qual não é equilátera nem retangular; e as quadriláteras,
além dessas, sejam chamadas trapézios.
2 3 . Paralelas são retas que, estando no mesmo plano, e sendo prolongadas
ilim itadam ente em cada um dos lados, em nenhum se encontram .

P ostulad os

1. Fique postulado traçar uma reta a partir de todo ponto até todo ponto.
2 . Também prolongar uma reta limitada, continuam ente, sobre uma reta.
3. E, com todo centro e distância, descrever um círculo.
4 . E serem iguais entre si todos os ângulos retos.
5. E, caso uma reta, caindo sobre duas retas, faça os ângulos interiores e
do mesmo lado menores do que dois retos, sendo prolongadas as duas
retas, ilim itadam ente, encontrarem -se no lado no qual estão os menores
do que dois retos.

98
O s elementos

N oções comuns

1. As coisas iguais à mesma coisa são tam bém iguais entre si.
2. E, caso sejam adicionadas coisas iguais a coisas iguais, os todos são iguais.
3. E, caso de iguais sejam subtraídas iguais, as restantes são iguais.
[4. E, caso iguais sejam adicionadas a desiguais, os todos são desiguais.
5. E os dobros da mesma coisa são iguais entre si.
6. E as metades da mesma coisa são iguais entre si.]
7. E as coisas que se ajustam uma à outra são iguais entre si.
8. E o todo [é] maior do que a parte.
9. E duas retas não contêm uma área.

1.

C o n stru ir um triângulo equilátero sobre a reta lim itada dada.

Seja a reta lim itada dada AB. É preciso,


então, sobre a reta AB construir um triângulo
equilátero.
Fique descrito, por um lado, com o centro
A, e, por outro lado, com a distância AB, o
círculo B C D , e, de novo, fique descrito, por um
lado, com o centro B, e, por outro lado, com a
distância BA, o círculo A C E, e, a partir do ponto C, no qual os círculos se
cortam , até os pontos A, B, fiquem ligadas as retas CA, CB.
E, com o o ponto A é centro do círculo C D B , a AC é igual à AB; de novo,
com o o ponto B é centro do círculo CAE, a BC é igual à BA. M as a CA foi
tam bém provada igual à AB; portanto, cada uma das CA, C B é igual à AB.
M as as coisas iguais à mesma coisa são também iguais entre si; portanto,
tam bém a CA é igual à CB, portanto, as três CA, AB, BC são iguais entre si.
Portanto, o triângulo A BC é equilátero, e fo i construído sobre a reta
lim itada dada AB.
[Portanto, sobre a reta lim itada dada, foi construído um triângulo equi­
látero ]; o que era preciso fazer.

99
Euclides

2.

Pôr, no ponto dado, u m a reta igual à reta dada.

Sejam , por um lado, o ponto dado A, e, por outro lado, a reta dada BC ;
é preciso, então, pôr, no ponto A, uma reta igual à reta dada BC.
Fique, pois, ligada, do ponto A até o ponto B,
a reta AB, e fique construído sobre ela o triângulo
equilátero DAB, e fiquem prolongadas sobre uma
reta com as DA, D B as retas A E, BF, e, por um
lado, com o centro B e, por outro lado, com a
distância BC , fique descrito o círculo C G H , e,
de novo, com o centro D e a distância D G , fique
descrito o círculo G K L.
Com o, de fato, o ponto B é centro do círculo
C G H , a BC é igual à B G . De novo, como o ponto
D é centro do círculo K L G , a D L é igual à D G , das quais a DA é igual à
D B. Portanto, a restante AL é igual à restante B G . M as também a BC foi
provada igual à B G ; portanto, cada uma das AL, BC é igual à BG . M as as
coisas iguais à mesma coisa são iguais entre si; portanto, também a AL é
igual à BC.
Portanto, no ponto dado A, fo i posta a reta AL igual à reta dada BC ; o
que era preciso fazer.

3.

D a d a s duas retas desiguais, su b tra ir da m a io r um a reta igual à menor.

Sejam as duas retas desiguais dadas AB, C, das


quais seja maior a AB; é preciso, então, subtrair da
maior AB uma reta igual à m enor C.
Fique posta no ponto A a A D igual à C ; e, por
um lado, com o centro A, e, por outro lado, com a
distância A D , fique descrito o círculo DEF.

1 00
O s elementos

E, com o o ponto A é centro do círculo D EF, a A E é igual à A D ; mas


tam bém a C é igual à A D . Portanto, cada uma das A E, C é igual à A D ; desse
modo, tam bém a A E é igual à C.
Portanto, dadas as duas retas desiguais AB, C, foi subtraída da maior AB
a A E igual à m enor C; o que era preciso fazer.

4.

Caso dois triângulos tenham os dois lados iguais [a o s ] dois lados, cada
u m a cada u m , e tenham o ângulo contido pelas retas iguais igual ao
ângulo, também terão a base igual à base, e o triângulo será igual
ao triângulo, e os ângulos restantes serão iguais aos ângulos restantes, cada
u m a cada u m , sob os quais se estendem os lados iguais.

Sejam os dois triângulos A BC, D EF, tendo os dois la­


dos AB, AC iguais aos dois lados D E , DF, cada um a cada
um, por um lado, o AB ao D E , e, por outro lado, o AC ao
DF, e o ângulo sob BAC igual ao ângulo sob ED F. D igo
que também a base BC é igual à base EF, e o triângulo ABC
será igual ao triângulo D EF, e os ângulos restantes serão
iguais aos ângulos restantes, cada um a cada um, sob os
quais se estendem os lados iguais, por um lado, o sob ABC
ao sob o D E F e, por outro lado, o sob ACB ao sob D F E .
Pois, o triângulo ABC, sendo ajustado sobre o triângulo
DEF, e sendo posto, por um lado, o ponto A sobre o ponto
D, e, por outro lado, a reta AB sobre a D E , também o ponto B se ajustará
sobre o E, por ser a AB igual à D E ; então, tendo se ajustado a AB sobre a
D E , tam bém a reta AC se ajustará sobre a DF, por ser o ângulo sob BAC
igual ao sob E D F ; desse modo, também o ponto C se ajustará sobre o ponto
F, por ser, de novo, a AC igual à DF. M as, por certo, também o B ajustou-se
sobre o E ; desse m odo, a base BC se ajustará sobre a base EF. Pois se a base
BC , tendo, por um lado, o B se ajustado sobre o E, e, por outro lado, o C
sobre o F, não se ajustar sobre a EF, duas retas conterão uma área; o que é
impossível. Portanto, a base B C ajustar-se-á sobre a E F e será igual a ela;

101
Euclides

desse modo, tam bém o triângulo ABC todo se ajustará sobre o triângulo
D E F todo e será igual a ele, e os ângulos restantes ajustar-se-ão sobre os
ângulos restantes e serão iguais a eles, por um lado, o sob ABC ao sob DEF,
e, por outro lado, o sob ACB ao sob D F E .
Portanto, caso dois triângulos tenham os dois lados iguais [aos] dois
lados, cada um a cada um, e tenham o ângulo contido pelas retas iguais
igual ao ângulo, também terão a base igual à base, e o triângulo será igual ao
triângulo, e os ângulos restantes serão iguais aos ângulos restantes, cada um
a cada um, sob os quais se estendem os lados iguais; o que era preciso provar.

5.

O s ângulos junto à base dos triângulos isósceles são iguais entre si, e, tendo
sido prolongadas ainda m ais as retas iguais, os ângulos sob a base serão
iguais entre si.

Seja o triângulo isósceles A BC, tendo o lado AB igual


ao lado AC, e fiquem prolongadas ainda mais as retas BD ,
C E sobre uma reta com as AB, AC; digo que, por um lado,
o ângulo sob ABC é igual ao sob ACB, e, por outro lado, o
sob C B D , ao sob B C E .
Fique, pois, tom ado sobre a B D o ponto F, encontrado
ao acaso, e fique subtraída da maior A E a AG igual à menor
AF, e fiquem ligadas as retas F C , G B.
C om o, de fato, por um lado, a AF é igual à AG, e, por outro lado, a AB, à
AC, então, as duas FA, AC são iguais às duas GA, AB, cada uma a cada uma;
e contêm o ângulo sob FAG comum; portanto, a base F C é igual à base G B,
e o triângulo A FC será igual ao triângulo AGB, e os ângulos restantes serão
iguais aos ângulos restantes, cada um a cada um, sob os quais se estendem
os lados iguais, por um lado, o sob A C F ao sob A BG , e, por outro lado, o
sob A FC ao sob A GB. E, com o a AF toda é igual à AG toda, das quais a AB
é igual à AC, portanto, a restante B F é igual à restante C G . M as também
a F C foi provada igual à G B ; então, as duas BF, F C são iguais às duas C G ,
G B , cada uma a cada uma; tam bém o ângulo sob B F C é igual ao ângulo sob

102
O s elementos

C G B , e a base B C deles é comum; portanto, também o triângulo B F C será


igual ao triângulo C G B , e os ângulos restantes serão iguais aos ângulos
restantes, cada um a cada um, sob os quais se estendem os lados iguais;
portanto, por um lado, o sob F B C é igual ao sob G C B , e, por outro lado, o
sob B C F ao sob C B G . C om o, de fato, o ângulo sob A BG todo fo i provado
igual ao ângulo sob A C F todo, dos quais o sob C B G é igual ao sob BCF,
portanto, o sob A BC restante é igual ao sob ACB restante; e estão ju nto à
base do triângulo ABC. M as foi provado também o sob F B C igual ao sob
G C B ; e estão sob a base.
Portanto, os ângulos ju nto à base dos triângulos isósceles são iguais
entre si, e, tendo sido prolongadas ainda mais as retas iguais, os ângulos
sob a base serão iguais entre si; o que era preciso provar.

6.

Caso os dois ângulos de um triângulo sejam iguais entre si, também os


lados que se estendem sob os ângulos iguais serão iguais entre si.

^ Seja o triângulo A BC, tendo o ângulo sob A BC igual

Â
ao ângulo sob A C B ; digo que tam bém o lado AB é
igual ao lado AC.

Pois, se a AB é desigual à AC, uma delas é maior. Seja


u maior a AB, e fique subtraída da maior AB a D B igual à
m enor AC, e fique ligada a D C .
C om o, de fato, a D B é igual à AC, e a BC é comum, então, as duas D B,
B C são iguais às duas AC, CB, cada uma a cada uma, e o ângulo sob D B C é
igual ao ângulo sob ACB; portanto, a base D C é igual à base AB e o triân ­
gulo D B C será igual ao triângulo ACB, o menor, ao m aior; o que é absurdo;
portanto, a AB não é desigual à AC; portanto, é igual.
Portanto, caso os dois ângulos de um triângulo sejam iguais entre si,
tam bém os lados que se estendem sob os ângulos iguais serão iguais entre
si; o que era preciso provar.

Í 03
Euclides

7.

Sobre a m esm a reta não serão construídas duas outras retas iguais às duas
m esmas retas, cada u m a a cada um a, em u m e outro ponto, no mesmo
lado, tendo as m esm as extrem idades que as retas do começo.

Pois, se possível, sobre a mesma reta AB fiquem


construídas as duas retas A D , D B , iguais às mesmas P
retas AC, CB, cada uma a cada uma, sobre um e outro
ponto, tanto o C quanto D , no mesmo lado, tendo as
mesmas extremidades, de modo a ser, por um lado, a ^ g
CA igual à DA, tendo a mesma extremidade A com
ela, e, por outro lado, a C B, à D B , tendo a mesma extremidade B com ela,
e fique ligada a C D .
Com o, de fato, a AC é igual à A D , tam bém o ângulo sob A C D é igual
ao sob A D C ; portanto, o sob A D C é m aior do que o sob D C B ; portanto,
o sob C D B é, por m uito, maior do que o sob D C B . D e novo, com o a C B
é igual à D B , tam bém o ângulo sob C D B é igual ao ângulo sob D C B . Mas
foi tam bém provado maior, por m uito, do que ele; o que é impossível.
Portanto, sobre a mesma reta não serão construídas duas outras retas
iguais às duas mesmas retas, cada uma a cada uma, em um e outro ponto,
no mesm o lado, tendo as mesmas extremidades que as retas do com eço; o
que era preciso provar.

8.

Caso dois triângulos tenham os dois lados iguais [a o s] dois lados, cada um
a cada u m , e tenham também a base igual à base, terão também o ângulo
igual ao ângulo, o contido pelas retas iguais.

Sejam os dois triângulos A BC, D EF, tendo os


dois lados AB, AC iguais aos dois lados D E , DF,
cada um a cada um, por um lado, o AB, ao D E , e,
por outro lado, o AC, ao D F; tenham , tam bém a
base BC igual à base E F; digo que o ângulo sob
BAC é igual ao ângulo sob ED F.

104
O s elementos

Sendo, pois, ajustado o triângulo A BC sobre o triângulo D E F e, sendo


postos, por um lado, o ponto B sobre o ponto E, e, por outro lado, a reta
BC sobre a EF, também o ponto C se ajustará sobre o F, por ser a B C igual
à E F ; então, tendo se ajustado a B C sobre a EF, também se ajustarão as BA,
CA sobre as E D , DF. Se, pois, por um lado, a base BC se ajustar sobre a
base EF, e, por outro lado, os lados BA, AC não se ajustarem sobre os E D ,
DF, mas passarem além, com o as E G , GF, serão construídas sobre a mesma
reta duas retas iguais às duas mesmas retas, cada uma a cada uma, em um
e outro ponto, sobre o mesmo lado, tendo as mesmas extremidades. Mas
não são construídas; não, portanto, sendo ajustada a base BC sobre a base
EF, não se ajustarão tam bém os lados BA, AC sobre os E D , DF. Portanto,
ajustar-se-ão; desse modo, tam bém o ângulo sob BAC ajustar-se-á sobre o
ângulo sob E D F e será igual a ele.
Portanto, caso dois triângulos tenham os dois lados iguais [aos] dois
lados, cada um a cada um, e tenham a base igual à base, terão também o
ângulo igual ao ângulo, o contido pelas retas iguais; o que era preciso provar.

9.

C o rta r em dois o ângulo retilíneo dado.

Seja o ângulo retilíneo dado o sob BAC; é preciso, então,


cortá-lo em dois.
Fique tom ado sobre a AB o ponto D , encontrado ao acaso,
e fique subtraída da AC a AE igual à A D , e fique ligada a
D E , e fique construído sobre a D E o triângulo equilátero
D EF, e fique ligada a AF; digo que o ângulo sob BAC foi
cortado em dois pela reta AF.
Pois, com o a A D é igual à A E, e a AF é comum, então, as duas DA, AF
são iguais às duas EA, AF, cada uma a cada uma. Também a base D F é igual
à base E F ; portanto, o ângulo sob DA F é igual ao ângulo sob EAF.
Portanto, o ângulo retilíneo dado, o sob BAC, foi cortado em dois pela
reta AF; o que era preciso fazer.

ÍO j
Euclides

10.

C o rta r em duas a reta lim itada dada.

Seja a reta lim itada dada AB; é preciso, então, cortar


a reta lim itada AB em duas.
Fique constru íd o sobre ela o triângulo equilátero
A BC, e fique cortado o ângulo sob ACB em dois pela reta
C D ; digo que a reta AB foi cortada em duas no ponto D.
Pois, com o a AC é igual à CB, e a C D é comum, então,
as duas AC, C D são iguais às duas BC , C D , cada uma
a cada uma; e o ângulo sob A C D é igual ao ângulo sob B C D ; portanto, a
base A D é igual à base B D .
Portanto, a reta lim itada dada AB fo i cortada em duas no D ; o que era
preciso fazer.

11.

T ra ça r u m a linha reta em ângulos retos com a reta dada a p a rtir do ponto


dado sobre ela.

Sejam , por um lado, a reta dada AB, e, por outro


lado, o ponto dado C sobre ela; é preciso, então, a
partir do ponto C, traçar uma linha reta em ângulos
retos com a reta AB.
Fique tom ado sobre a AC o ponto D , encontra­
do ao acaso, e fique posta a C E igual à C D , e fique
construído sobre a D E o triângulo equilátero F D E , e fique ligada a F C ;
digo que foi traçada a linha reta F C em ângulos retos com a reta dada AB,
a partir do ponto dado C sobre ela.
Pois, com o a D C é igual à C E , e a C F é comum, então, as duas D C , C F
são iguais às duas E C , CF, cada uma a cada uma; e a base D F é igual à base
F E ; portanto, o ângulo sob D C F é igual ao ângulo sob E C F ; e são adjacen­
tes. M as quando uma reta, tendo sido alteada sobre uma reta, faça ângulos

í o 6
O s elementos

adjacentes iguais entre si, cada um dos ângulos iguais é reto; portanto, cada
um dos sob D C F, F C E é reto.
Portanto, foi traçada a linha reta C F em ângulos retos com a reta dada
AB, a partir do ponto dado C sobre ela; o que era preciso fazer.

12.

T ra ça r u m a linha reta p erp en d icu la r à reta ilim itada dada, a p a rtir do


ponto dado, qu e não está sobre ela.

Sejam , por um lado, a reta ilim itada dada


AB, e, por outro lado, o ponto dado C, que
não está sobre ela; é preciso, então, traçar
uma linha reta perpendicular à reta ilim itada
5 dada AB, a partir do ponto dado C, que não
está sobre ela.
Fique, pois, tom ado, no ou tro lado da
reta AB, o ponto D , encontrado ao acaso, e,
por um lado, com o centro C, e, por outro lado, com a distância C D , fique
descrito o círculo E F G , e fique cortada a reta E G em duas no H , e fiquem
ligadas as retas C G , C H , C E ; digo que foi traçada a perpendicular C H à
reta ilim itada dada AB, a partir do ponto dado C, que não está sobre ela.
Pois, com o a G H é igual à H E , e a H C é comum, então, as duas G H , H C
são iguais às duas E H , H C , cada uma a cada uma; também a base C G é igual
à base C E ; portanto, o ângulo sob C H G é igual ao ângulo sob E H C . E são
adjacentes. M as quando uma reta, tendo sido alteada sobre uma reta, faça
os ângulos adjacentes iguais entre si, cada um dos ângulos iguais é reto, e
a reta que foi alteada é chamada perpendicular àquela sobre a que se alteou.
Portanto, foi traçada a perpendicular C H à reta ilim itada dada AB, a
partir do ponto dado C, que não está sobre ela; o que era preciso fazer.

107
Euclides

13.

Caso u m a reta, tendo sido alteada sobre u m a reta, fa ç a ângulos, f a r á ou


dois retos ou iguais a dois retos.

reta C D , os ângulos sob CBA, A B D ; digo que os ângulos

A B D , são dois retos. Se, por outro lado, não, fique tra­
çada a B E em ângulos retos com a [reta] C D , a partir do D B C
ponto B; portanto, os sob C B E , E B D são dois retos; e,
com o o sob C B E é igual aos dois, os sob CBA, A BE, fique adicionado o
sob E B D comum; portanto, os sob C B E , E B D são iguais aos três, os sob
CBA, A BE, E B D . D e novo, com o o sob D BA é igual aos dois, os sob D B E ,
EBA , fique adicionado o sob A BC comum; portanto, os sob DBA, ABC
são iguais aos três, os sob D B E , EBA , A BC. M as foram provados também
os sob C B E , E B D iguais aos mesmos três; e as coisas iguais à mesma coisa
são iguais entre si; portanto, tam bém os sob C B E , E B D são iguais aos sob
DBA, A BC ; mas os sob C B E , E B D são dois retos; portanto, também os
sob DBA, A BC são iguais a dois retos.
Portanto, caso uma reta, tendo sido alteada sobre uma reta, faça ângulos,
fará ou dois retos ou iguais a dois retos; o que era preciso provar.

14.

Caso, com algum a reta e no ponto sobre ela, duas retas, não postas no
mesmo lado, fa ç a m os ângulos adjacentes iguais a dois retos, as retas
estarão sobre u m a reta, u m a com a outra.

dois retos; digo que a B D está sobre uma reta com a CB. C B D

í o 8
O s elementos

Pois, se a B D não está sobre uma reta com a BC , esteja a B E sobre uma
reta com a CB.
C om o, de fato, a reta AB foi alteada sobre a reta C B E , portanto, os
ângulos sob A BC, A B E são iguais a dois retos; mas também os sob ABC,
A BD são iguais a dois retos; portanto, os sob CBA, A BE são iguais aos
sob CBA, A BD . Fique subtraído o sob CBA comum; portanto, o sob ABE
restante é igual ao sob A BD restante, o menor, ao maior; o que é impossível.
Portanto, a B E não está sobre uma reta com a C B. D o mesm o modo, então,
provaremos que nenhuma está, exceto a B D ; portanto, a C B está sobre uma
reta com a B D .
Portanto, caso com alguma reta e no ponto sobre ela duas retas, não
postas no mesmo lado, façam os ângulos adjacentes iguais a dois retos, as
retas estarão sobre uma reta, uma com a outra; o que era preciso provar.

15.

Caso duas retas se cortem, fa z e m os ângulos no vértice iguais entre si.

C ortem -se, pois, as retas AB, C D no ponto E;


digo que, por um lado, o ângulo sob A EC é igual ao
sob D E B , e, por outro lado, o sob C E B , ao sob A ED .
Pois, com o a reta A E foi alteada sobre a reta C D ,
fazendo os ângulos sob CEA, A E D , portanto, os
ângulos sob CEA , A E D são iguais a dois retos. De
novo, com o a reta D E foi alteada sobre a reta AB,
fazendo os ângulos sob A E D , D E B , portanto, os ângulos sob A E D , D E B
são iguais a dois retos. M as foram provados também os sob CEA, A E D
iguais a dois retos; portanto, os sob CEA, A E D são iguais aos sob A E D ,
D E B . Fique subtraído o sob A E D com um; portanto, o sob C EA restante
é igual ao sob B E D restante; do mesmo m odo, então, será provado que
tam bém os sob C E B , D E A são iguais.
Portanto, caso duas retas se cortem , fazem os ângulos no vértice iguais
entre si; o que era preciso provar.

1 09
Euclides

[C o r o l á r io

D isso, então, é evidente que, caso duas retas se cortem , farão os ângulos
ju nto à seção iguais a quatro retos.]

16.

Tendo sido prolongado u m dos lados de todo triângulo, o ângulo exterior é


m a io r do que cada u m dos ângulos interiores e opostos.

Seja o triângulo A BC, e fique prolongado um lado dele,


o BC , até o D ; digo que o ângulo exterior, o sob A C D , é A F

maior do que cada um dos ângulos sob CBA, BAC, in te­


riores e opostos.
Fique cortada a AC em duas no E, e, tendo sido ligada a
BE, fique prolongada sobre uma reta até o F, e fique posta
a E F igual à B E, e fique ligada a F C , e fique traçada através
a AC até o G.
Com o, de fato, por um lado, a A E é igual à E C , e, por outro lado, a BE,
à EF, então, as duas AE, E B são iguais às duas C E , EF, cada uma a cada
uma; e o ângulo sob A E B é igual ao ângulo sob F E C ; pois, estão no vértice;
portanto, a base AB é igual à base FC , e o triângulo A BE é igual ao triângulo
F E C , e os ângulos restantes são iguais aos ângulos restantes, cada um a
cada um, sob os quais se estendem os lados iguais; portanto, o sob BAE é
igual ao sob EC F. M as o sob E C D é maior do que o sob E C F ; portanto,
o sob A C D é maior do que o sob BAE. D o mesmo modo, então, cortada a
B C em duas, será provado também o sob B C G , isto é, também o sob A C D
m aior do que o sob ABC.
Portanto, tendo sido prolongado um dos lados de todo triângulo, o
ângulo exterior é m aior do que cada um dos ângulos interiores e opostos;
o que era preciso provar.

n o
O s elementos

17.

O s dois ângulos de todo triângulo, sendo tomados ju n to s de toda m aneira,


são m enores do que dois retos.

A Seja o triângulo A BC ; digo que os dois ângulos


do triângulo ABC, sendo tom ados ju ntos de toda
maneira, são menores do que dois retos.
Fique, pois, prolongada a BC até o D . E, como
o ângulo sob A C D é exterior do triângulo ABC, é
maior do que o sob ABC, interior e oposto. Fique adicionado o sob ACB co ­
mum; portanto, os sob A C D , ACB são maiores do que os sob ABC, BCA. Mas
os sob A C D , A CB são iguais a dois retos; portanto, os sob ABC, BCA são
menores do que dois retos. D o mesmo modo, então, provaremos que também
os sob BAC, ACB, e ainda os sob CAB, ABC são menores do que dois retos.
Portanto, os dois ângulos de todo triângulo, sendo tom ados ju ntos de
toda maneira, são menores do que dois retos; o que era preciso provar.

18.

O m a io r lado de q u a lq u er triângulo subtende o m a io r ângulo.

Seja, pois, o triângulo A BC, tendo o lado AC


A maior do que o AB; digo que tam bém o ângulo
sob A BC é maior do que o sob BCA.
Pois, com o a AC é m aior do que a AB, fique
posta a A D igual à AB, e fique ligada a B D .
E, com o o ângulo sob A D B é exterior do triân ­
gulo B C D , é maior do que o sob D C B , interior e
oposto; mas o sob A D B é igual ao sob A BD , visto que também o lado AB
é igual ao A D ; portanto, tam bém o sob A BD é maior do que o sob ACB;
portanto, o sob A BC é, por m uito, m aior do que o sob ACB.
Portanto, o maior lado de todo triângulo subtende o maior ângulo; o
que era preciso provar.

111
Euclides

19.

O m a io r lado de todo triângulo é subtendido pelo m a io r ângulo.

Seja o triângulo A BC, tendo o ângulo sob A BC maior do


que o sob BCA; digo que tam bém o lado AC é maior do que
o lado AB.
Pois, se não, ou a AC é igual à AB ou m enor; por um lado, B
de fato, a AC não é igual à AB; pois, tam bém o ângulo sob
A BC era igual ao sob ACB; e não é; portanto, a AC não é igual
à AB. N em , por certo, a AC é m enor do que a AB; pois, tam ­
bém o ângulo sob A BC era m enor do que o sob A CB; e não
é; portanto, a AC não é m enor do que a AB. M as, foi provado que nem é
igual. Portanto, a AC é m aior do que a AB.
Portanto, o maior lado de todo triângulo é subtendido pelo maior ân­
gulo; o que era preciso provar.

20.

O s dois lados de todo triângulo, sendo tomados juntos de toda m aneira,


são m aiores do qu e o restante.

Seja, pois, o triângulo A BC ; digo que os dois lados


do triângulo A BC , sendo tom ados ju ntos de toda D

maneira, são maiores do que o restante, por um lado,


os BA, AC, do que o BC, e, por outro lado, os AB, BC ,
do que o AC, enquanto os BC , CA, do que o AB.
Fique, pois, traçada através a BA até o ponto D,
e fique posta a A D igual à CA, e fique ligada a D C .
Com o, de fato, a DA é igual à AC, também o ângulo
sob A D C é igual ao sob A C D ; portanto, o sob B C D é maior do que o sob
A D C ; e, com o o D C B é um triângulo, tendo o ângulo sob B C D maior do
que o sob B D C , e o maior lado é subtendido pelo maior ângulo, portanto,
a D B é maior do que a BC . M as a DA é igual à AC; portanto, as BA, AC são

112
O s elementos

maiores do que a BC . D o mesmo modo, então, provaremos que também,


por um lado, as AB, BC são maiores do que a CA, e, por outro lado, as BC,
CA, do que a AB.
Portanto, os dois lados de todo triângulo, sendo tom ados juntos de toda
maneira, são maiores do que o restante; o que era preciso provar.

21.

Caso duas retas sejam construídas interiores sobre u m dos lados de um


triângulo, a p a rtir das extrem idades, as que fo r a m construídas, p or u m
lado, serão m enores do que os dois lados restantes do triângulo, e, p o r outro
lado, conterão u m ângulo maior.

^ Fiquem , pois, construídas as duas retas in­


teriores B D , D C sobre um dos lados, o BC, do
triângulo A BC, a partir das extremidades B, C;
digo que as B D , D C , por um lado, são m en o­
res do que os dois lados restantes BA, AC do
triângulo, e, por outro lado, contêm o ângulo
sob B D C m aior do que o sob BAC.
Fique, pois, traçada através a B D até o E. E, com o os dois lados de todo
triângulo são maiores do que o restante, portanto, os dois lados AB, AE
do triângulo A BE são maiores do que o B E ; fique adicionada a E C comum;
portanto, as BA, AC são maiores do que as BE, E C . D e novo, como os dois
lados C E, E D do triângulo C E D são maiores do que a C D , fique adicionada
a D B com um ; portanto, as C E , E B são maiores do que as C D , D B. Mas,
as BA, AC foram provadas maiores do que as BE, E C ; portanto, as BA, AC
são, por m uito, maiores do que as B D , D C .
D e novo, com o o ângulo exterior de todo triângulo é maior do que o
interior e oposto, portanto, o ângulo sob B D C , exterior do triângulo C D E ,
é maior do que o sob C E D . Pelas mesmas coisas, então, também o ângulo
sob C E B , exterior do triângulo A BE, é maior do que o sob BAC. M as foi
provado o sob B D C maior do que o sob C E B ; portanto, o sob B D C é, por
m uito, m aior do que o sob BAC.

1 Í3
Euclides

Portanto, caso duas retas sejam construídas interiores sobre um dos


lados de um triângulo, a partir das extremidades, as que foram construídas,
por um lado, são menores do que os dois lados restantes do triângulo, e,
por outro lado, contêm um ângulo m aior; o que era preciso provar.

22.

D e três retas, que são iguais às três [r e t a s ] dadas, construir u m triângulo;


e é preciso as duas, sendo tomadas juntas de toda m aneira, ser m aiores
do que a restante [pelo ser os dois lados de todo triângulo, sendo tomados
juntos de toda m aneira, m aiores do que o restante].

Sejam as retas dadas A, B, C, das


quais sejam as duas, sendo tomadas
juntas de toda maneira, maiores do
que a restante, por um lado, as A, B,
do que a C, e, por outro lado, as A,
C, do que a B, e ainda as B, C, do que a
A; é preciso, então, das três retas iguais
às A, B, C, construir um triângulo.
Fique posta alguma reta, a D E , por
um lado, lim itada no D , e, por outro
lado, ilim itada no E, e fiquem postas, por um lado, a D F igual à A, e, por
outro lado, a F G igual à B, enquanto a G H igual à C; e, por um lado, com
o centro F, e, por outro lado, com a distância F D , fique descrito o círculo
D K L ; de novo, por um lado, com o centro G, e, por outro lado, com a
distância G H , fique descrito o círculo K L H , e fiquem ligadas as KF, K G ;
digo que, das três retas iguais às A, B, C, foi construído o triângulo K F G .
Pois, com o o ponto F é centro do círculo D K L, a F D é igual à FK ; mas
a F D é igual à A. Portanto, tam bém a K F é igual à A. D e novo, com o o
ponto G é centro do círculo LK H , a G H é igual à G K ; mas a G H é igual
à C; portanto, tam bém a K G é igual à C. M as também a F G é igual à B;
portanto, as três retas KF, F G , G K são iguais às três A, B, C.
Portanto, das três retas KF, F G , G K , que são iguais às três dadas A, B,
C, foi construído o triângulo K F G ; o que era preciso fazer.
O s elementos

23.

Sobre a reta dada e no ponto sobre ela, co n stru ir um ângulo retilíneo igual
ao ângulo retilíneo dado.

Sejam , por um lado, a reta dada AB, e, por ou­


tro lado, o ponto A sobre ela, enquanto o ângulo
retilíneo dado o sob D C E ; é preciso, então, sobre
a reta dada AB e no ponto A sobre ela, construir
um ângulo retilíneo igual ao ângulo retilíneo dado,
o sob D C E .
Fiquem tom ados, sobre cada uma das C D , C E,
os pontos D, E, encontrados ao acaso, e fique ligada
a D E ; e, de três retas, que são iguais às três C D ,
D E , C E , fique construído o triângulo A FG , de
m odo a ser, por um lado, a C D igual à AF, e, por outro lado, a C E , à AG,
e ainda a D E , à F G .
C om o, de fato, as duas D C , C E são iguais às duas FA, AG, cada uma
a cada uma, tam bém a base D E é igual à base F G , portanto, o ângulo sob
D C E é igual ao ângulo sob FAG.
Portanto, sobre a reta dada AB e no ponto A sobre ela foi construído o
ângulo retilíneo, o sob FAG, igual ao ângulo retilíneo dado, o sob D C E ;
o que era preciso fazer.

24.

Caso dois triângulos tenham os dois lados iguais [a o s ] dois lados, cada u m
a cada u m , m as tenham o ângulo m a io r do que o ângulo, o contido pelas
retas iguais, também terão a base m a io r do que a base.

Sejam os dois triângulos A BC, D EF, tendo os dois lados AB, AC iguais
aos dois lados D E , DF, cada um a cada um, por um lado, a AB, à D E , e, por
outro lado, a AC, à DF, e o ângulo ju nto ao A seja maior do que o ângulo
ju nto ao D ; digo que tam bém a base B C é m aior do que a base EF.

1 Í5
Euclides

Pois, com o o ângulo sob BAC é maior do que


o ângulo sob E D F, fique construído sobre a reta
D E , e no ponto D sobre ela, o sob E D G igual
ao ângulo sob BAC, e fique posta a D G igual a
qualquer uma das AC, DF, e fiquem ligadas as
EG , FG .
C om o, de fato, por um lado, a AB é igual à F
D E , e, por outro lado, a AC, à D G , então, as
duas BA, AC são iguais às duas E D , D G , cada uma a cada uma; e o ângulo
sob BAC é igual ao ângulo sob E D G ; portanto, a base B C é igual à base
E G . D e novo, com o a D F é igual à D G , tam bém o ângulo sob D G F é igual
ao sob D F G ; portanto, o sob D F G é maior do que o sob E G F ; portanto,
o sob E F G é, por m uito, m aior do que o sob E G F. E, como o E F G é um
triângulo, tendo o ângulo sob E F G maior do que o sob EG F, mas o maior
lado é subtendido pelo m aior ângulo, p ortan to, tam bém o lado E G é
m aior do que o EF. M as a E G é igual à BC ; portanto, também a B C é maior
do que a EF.
Portanto, caso dois triângulos tenham os dois lados iguais aos dois
lados, cada um a cada um, mas tenham o ângulo maior do que o ângulo, o
contido pelas retas iguais, tam bém terão a base maior do que a base; o que
era preciso provar.

25.

C aso dois triângulos tenham os dois lados iguais aos dois lados, cada u m a
cada u m , m as tenham a base m a io r do que a base, também terão o ângulo
m aior do que o ângulo, o contido pelas retas iguais.

Sejam os dois triângulos ABC, D EF, tendo os


dois lados AB, AC iguais aos dois lados D E , DF,
cada um a cada um, por um lado, a AB, à D E , e,
por outro lado, a AC, à D F; e a base BC seja maior
do que a base E F ; digo que tam bém o ângulo sob
BAC é m aior do que o ângulo sob ED F.

116
O s elementos

Pois, se não, ou é igual a ele ou m enor; por um lado, de fato, o sob BAC
não é igual ao sob E D F ; pois, tam bém a base BC era igual à base E F; e não
é. Portanto, o ângulo sob BAC não é igual ao sob E D F ; por outro lado,
por certo, o sob BAC não é m enor do que o sob E D F ; pois, tam bém a base
BC era m enor do que a base E F; e não é; portanto, o ângulo sob BAC não
é m enor do que o sob ED F. M as, foi provado que nem igual; portanto, o
sob BAC é maior do que o sob ED F.
Portanto, caso dois triângulos tenham os dois lados iguais aos dois
lados, cada um a cada um, mas tenham a base maior do que a base, também
terão o ângulo maior do que o ângulo, o contido pelas retas iguais; o que
era preciso provar.

26.

Caso dois triângulos tenham os dois ângulos iguais aos dois ângulos, cada
u m a cada u m , e um lado igual a u m lado, ou o junto aos ângulos iguais
ou o que se estende sob u m dos ângulos iguais, também terão os lados
restantes iguais aos lados restantes, [ca d a u m a cada u m ,] e o ângulo
restante ao ângulo restante.

Sejam os dois triân g u lo s A B C , D E F,


fv tendo os dois ângulos sob A BC, BCA iguais
A / \ aos dois sob D EF, E F D , cada um a cada
p um, por um lado, o sob A BC, ao sob D EF,
e, por outro lado, o sob BCA, ao sob E F D ;
e tenham também um lado igual a um lado,
prim eiram ente o ju nto aos ângulos iguais, a
BC , à E F ; digo que tam bém terão os lados restantes iguais aos lados res­
tantes, cada um a cada um, por um lado, a AB, à D E , e, por outro lado, a
AC, à DF, e o ângulo restante, ao ângulo restante, o sob BAC, ao sob ED F.
Pois, se a AB é desigual à D E , uma delas é maior. Seja m aior a AB, e fique
posta a B G igual à D E , e fique ligada a G C .
C om o, de fato, por um lado, a B G é igual à D E , e, por outro lado, a BC,
à EF, então, as duas B G , B C são iguais às duas D E , EF, cada uma a cada

n j
Euclides

uma; e o ângulo sob G B C é igual ao ângulo sob D E F ; portanto, a base G C


é igual à base DF, e o triângulo G B C é igual ao triângulo D EF, e os ângulos
restantes serão iguais aos ângulos restantes, sob os quais se estendem os
lados iguais; portanto, o ângulo sob G C B é igual ao sob D F E . M as o sob
D F E foi suposto igual ao sob BCA; portanto, também o sob B C G é igual
ao sob BCA, o menor, ao m aior; o que é impossível.
Portanto, a AB não é desigual à D E . Portanto, é igual. M as também a
B C é igual à E F; então, as duas AB, BC são iguais às duas D E , EF, cada
uma a cada uma; e o ângulo sob A BC é igual ao ângulo sob D E F ; portanto,
a base AC é igual à base DF, e o ângulo sob BAC restante é igual ao ângulo
sob E D F restante.
M as, então, de novo, sejam iguais os lados que se estendem sob os ângu­
los iguais, com o a AB, à D E ; digo, de novo, que também os lados restantes
serão iguais aos lados restantes, a AC, à DF, enquanto a BC, à EF, e ainda
o ângulo sob BAC restante é igual ao ângulo sob E D F restante.
Pois, se a BC é desigual à EF, uma delas é maior. Seja maior, se possível,
a BC , e fique posta a B H igual à EF, e fique ligada AH . E, como, por um
lado, a B H é igual à EF, e, por outro lado, a AB à D E , então, as duas AB, BH
são iguais às duas D E , EF, cada uma a cada uma; e contêm ângulos iguais;
portanto, a base AH é igual à base DF, e o triângulo A BH é igual ao triân ­
gulo D EF, e os ângulos restantes serão iguais aos ângulos restantes, sob os
quais se estendem os lados iguais; portanto, o ângulo sob BH A é igual ao
sob E F D . Mas o sob E F D é igual ao sob BCA; então, o ângulo exterior, o
sob BH A, do triângulo A H C é igual ao sob BCA, interior e oposto; o que
é impossível. Portanto, a BC não é desigual à E F; portanto, é igual. Mas
tam bém a AB é igual à D E . E ntão, as duas AB, BC são iguais às duas D E ,
EF, cada uma a cada uma; e contêm ângulos iguais; portanto, a base AC é
igual à base DF, e o triângulo A BC é igual ao triângulo D EF, e o ângulo
sob BAC restante é igual ao ângulo sob E D F restante.
Portanto, caso dois triângulos tenham os dois ângulos iguais aos dois
ângulos, cada um a cada um, e um lado igual a um lado, ou o ju nto aos ân­
gulos iguais ou o que se estende sob um dos ângulos iguais, terão também
os lados restantes iguais aos lados restantes e o ângulo restante ao ângulo
restante; o que era preciso provar.

í í 8
O s elementos

27.

C aso um a reta, caindo sobre duas retas, faça os ângulos alternos iguais
entre si, as retas serão paralelas entre si.

Faça, pois, a reta EF, caindo sobre as


duas retas AB, C D , os ângulos sob AEF,
E F D , alternos, iguais entre si; digo que
a AB é paralela à C D . Pois, se não, sendo
prolongadas, as AB, C D encontrar-se-
-ão ou no lado dos B, D ou no dos A,
C. Fiquem prolongadas e encontrem -se no lado dos B, D no G. E ntão, o
ângulo sob AEF, exterior do triângulo G EF, é igual ao sob E F G , interior e
oposto; o que é impossível; portanto, as AB, C D , sendo prolongadas, não
se encontrarão no lado dos B, D . D o mesmo modo, então, será provado
que nem no dos A, C. M as as que não se encontram em nenhum dos lados
são paralelas; portanto, a AB é paralela à C D .
Portanto, caso uma reta, caindo sobre duas retas, faça os ângulos alternos
iguais entre si, as retas serão paralelas; o que era preciso provar.

28 .

C aso u m a reta, caindo sobre duas retas, faça o ângulo exterior igual ao
interior e oposto e no mesmo lado, ou os interiores e no mesmo lado iguais
a dois retos, as retas serão paralelas entre si.

Faça, pois, a reta EF, caindo sobre as retas AB,


C D , o ângulo sob E G B , exterior, igual ao ângulo
sob G H D , interior e oposto ou os sob B G H , G H D ,
interiores e no mesmo lado, iguais a dois retos; digo
que a AB é paralela à C D .
Pois, com o o sob E G B é igual ao sob G H D , mas
o sob E G B é igual ao sob A G H , portanto, também o sob A G H é igual ao
sob G H D ; e são alternos; portanto, a AB é paralela à C D .

119
Euclides

De novo, como os sob BGH, G H D são iguais a dois retos, mas tam bém
os sob AGH, BGH são iguais a dois retos, portanto, os sob AGH, BGH são
iguais aos sob BGH, G H D ; fique subtraído o sob BGH com um; portanto,
o sob AGH restante é igual ao sob G H D restante; e são alternos; portanto, a
AB é paralela à CD.
Portanto, caso um a reta, caindo sobre duas retas, faça o ângulo exterior
igual ao in terio r e oposto e no mesmo lado, ou os interiores e no mesmo
lado iguais a dois retos, as retas serão paralelas; o que era preciso provar.

29.

A reta, caindo sobre as retas paralelas, f a ^ tanto os ângulos alternos iguais


entre si quanto o exterior igual ao in terior e oposto e os interiores e no
m esm o lado iguais a dois retos.

Caia, pois, a reta EF sobre as retas paralelas AB,


CD ; digo que faz os ângulos sob AGH, G H D , al­
ternos, iguais, e o ângulo sob EGB, exterior, igual ao
sob G H D , in terio r e oposto, e os sob BGH, G H D ,
interiores e no mesm o lado, iguais a dois retos.
Pois, se o sob AGH é desigual ao sob G H D , um deles é maior. Seja m aior
o sob AG H ; fique adicionado o sob BGH com um ; portanto, os sob AGH,
BGH são m aiores do que os sob BGH, G H D . M as os sob AGH, BGH são
iguais a dois retos. Portanto, [tam bém ] os sob BGH, G H D são menores do
que dois retos. M as as que são prolongadas ilim itadam ente, a p artir dos m e­
nores do que dois retos, encontram -se; portanto, as AB, CD , prolongadas
indefinidam ente, encontrar-se-ão; e não se encontram , pelo supô-las p ara­
lelas; portanto, o sob AG H não é desigual ao sob G H D ; portanto, é igual.
M as o sob AG H é igual ao sob EGB; portanto, tam bém o sob EGB é igual
ao sob G H D . Fique adicionado o sob BGH comum; portanto, os sob EGB,
BGH são iguais aos sob BGH, G H D . M as os sob EGB, BGH são iguais a
dois retos; portanto, tam bém os sob BGH, G H D são iguais a dois retos.
Portanto, a reta, caindo sobre as retas paralelas, faz tanto os ângulos
alternos iguais entre si quanto o exterior igual ao in terio r e oposto e os
interiores e no mesm o lado iguais a dois retos; o que era preciso provar.

120
O s elementos

30.

As paralelas à m esm a reta são paralelas entre si.

Seja cada um a das AB, CD paralela à EF; digo


que tam bém a AB é paralela à CD.
P C aia, pois, a reta GK sobre elas. E, como a reta
Q GK caiu sobre as retas paralelas AB, EF, portanto,
o sob AGK é igual ao sob GHF. De novo, como
a reta GK caiu sobre as paralelas EF, CD , o sob
G H F é igual ao sob GKD. M as foi provado tam bém o sob AGK igual ao
sob GHF. Portanto, também o sob AGK é igual ao sob GKD; e são alternos.
Portanto, a AB é paralela à CD.
[Portanto, as paralelas à m esm a reta são paralelas entre si;] o que era
preciso provar.

31.

Pelo pon to dado, traçar u m a linha reta paralela à reta dada.

Sejam , por um lado, o ponto dado A, e, por outro


lado, a reta dada BC; é preciso, então, pelo ponto A,
traçar um a linha reta paralela à reta dada BC.
F ique tom ado, sobre a BC, o ponto D, encontra­
do ao acaso, e fique ligada a AD; e fique construído,
sobre a reta DA e no ponto A sobre ela, o sob DAE igual ao ângulo sob
A D C; e fique prolongada a reta AF sobre um a reta com a EA.
E, como a reta AD, caindo sobre as duas retas BC, EF, fez os ângulos
sob EAD, AD C, alternos, iguais entre si, portanto, a EAF é paralela à BC.
Portanto, pelo ponto dado A, foi traçada a linha reta EAF paralela à reta
dada BC; o que era preciso fazer.

121
Euclides

32.

Tendo sido prolon gad o u m dos lados de todo triângulo, o ângulo exterior é
igual aos dois interiores e opostos, e os três ângulos interiores do triângulo
são iguais a dois retos.

Seja o triân gu lo ABC, e fique prolongado um lado dele, o BC, até o


D; digo que o ângulo sob ACD, exterior, é igual aos dois sob CAB, ABC,
interiores e opostos, e os três ângulos sob ABC, BCA, CAB, interiores do
triân gulo , são iguais a dois retos.
Fique, pois, traçada, pelo ponto C, a CE paralela à reta AB.
E, como a AB é paralela à CE, e a AC caiu sobre elas, os
ângulos sob BAC, ACE, alternos, são iguais entre si. De
novo, como a AB é paralela à CE, e a reta BD caiu sobre
elas, o ângulo sob ECD , exterior, é igual ao sob ABC,
in terio r e oposto. M as foi provado tam bém o sob ACE B C D
igual ao sob BAC; portanto, o ângulo sob ACD todo é igual aos dois sob
BAC, ABC, interiores e opostos.
Fique adicionado o sob ACB com um ; portanto, os sob ACD , ACB são
iguais aos três sob ABC, BCA, CAB. M as os sob ACD, ACB são iguais a
dois retos; portanto, os sob ACB, CBA, CAB são iguais a dois retos.
Portanto, tendo sido prolongado um dos lados de todo triân gulo , o
ângulo exterior é igual aos dois interiores e opostos, e os três ângulos
interiores do triân gulo são iguais a dois retos; o que era preciso provar.

33.

As retas que ligam as tanto iguais quanto paralelas, no m esm o lado,


também são elas tanto iguais quanto paralelas.

Sejam as AB, CD tanto iguais quanto paralelas,


e as retas AC, BD liguem -nas, no mesmo lado; digo
que tam bém as AC, BD são tanto iguais quanto
paralelas.

Í2 2
O s elementos

Fique ligada a BC. E, como a AB é paralela à CD , e a BC caiu sobre elas,


os ângulos sob ABC, BCD, alternos, são iguais entre si. E, como a AB é
igual à CD , e a BC é comum, então, as duas AB, BC são iguais às duas BC,
CD ; e o ângulo sob ABC é igual ao ângulo sob BCD ; portanto, a base AC é
igual à base BD, e o triân gu lo ABC é igual ao triân gu lo BCD, e os ângulos
restantes serão iguais aos ângulos restantes, cada um a cada um, sob os
quais se estendem os lados iguais; portanto, o ângulo sob ACB é igual ao
sob CBD. E, como a reta BC, caindo sobre as duas retas AC, BD, fez os
ângulos alternos iguais entre si, portanto, a AC é paralela à BD. M as foi
provada tam bém igual a ela.
Portanto, as retas que ligam as tanto iguais quanto paralelas, no mesmo
lado, tam bém são tanto iguais quanto paralelas; o que era preciso provar.

34.

D as áreas paralelogrâm icas, tanto os lados quanto os ângulos opostos são


iguais entre si, e a diagonal corta-as em duas.

B Sejam a área paralelogrâm ica ACDB, e a dia­


gonal dela BC; digo que tanto os lados quanto
os ângulos opostos do paralelogram o ACDB são
iguais entre si, e a diagonal BC corta-o em dois.
Pois, como a AB é paralela à CD , e a reta BC
caiu sobre elas, os ângulos sob ABC, BCD, alternos, são iguais entre si. De
novo, como a AC é paralela à BD e a BC caiu sobre elas, os ângulos sob ACB,
CBD, alternos, são iguais entre si. Então, os ABC, BCD são dois triân g u ­
los, tendo os dois ângulos sob ABC, BCA iguais aos dois sob BCD, CBD,
cada um a cada um, e um lado igual a um lado, o BC com um deles, junto
aos ângulos iguais; portanto, tam bém terão os lados restantes iguais aos
restantes, cada um a cada um, e o ângulo restante igual ao ângulo restante;
portanto, por um lado, o lado AB é igual ao CD , e, por outro lado, o AC
ao BD, e ainda o ângulo sob BAC é igual ao sob CDB. E, como, por um
lado, o ângulo sob ABC é igual ao sob BCD , e, por outro lado, o sob CBD

123
Euclides

ao sob ACB, portanto, o sob ABD todo é igual ao sob ACD todo. M as foi
provado tam bém o sob BAC igual ao sob CDB.
Portanto, das áreas paralelogrâm icas, tanto os lados quanto os ângulos
opostos são iguais entre si.
D igo, então, que tam bém a diagonal corta-a em duas. Pois, como a AB é
igual à CD , e a BC é comum, então, as duas AB, BC são iguais às duas CD,
BC, cada um a a cada um a; e o ângulo sob ABC é igual ao ângulo sob BCD.
Portanto, tam bém a base AC é igual à DB. [P ortanto,] tam bém o triângulo
ABC é igual ao triân gulo BCD.
Portanto, a diagonal BC corta o paralelogram o ABCD em dois; o que
era preciso provar.

35.

O s pa ra lelogra m os que estão sobre a m esm a base e nas m esm as paralelas


são iguais entre si.

Sejam os paralelogram os ABCD , EBCF, sobre a


m esm a base BC e nas mesm as paralelas AF, BC; digo
que o ABCD é igual ao paralelogram o EBCF.
Pois, como o ABCD é um paralelogram o, a AD
é igual à BC. Pelas mesm as coisas, então, tam bém a
EF é igual à BC; desse modo, tam bém a AD é igual à EF; e a DE é comum;
portanto, a AE toda é igual à DF toda. M as tam bém a AB é igual à D C;
então, as duas EA, AB são iguais às duas FD, D C, cada um a a cada um a; e o
ângulo sob FD C é igual ao sob EAB, o exterior, ao interior; portanto, a base
EB é igual à base FC, e o triân gulo EAB será igual ao triân gu lo D FC ; fique
subtraído o DGE com um; portanto, o trapézio ABGD restante é igual ao
trapézio EGCF restante; fique adicionado o triân gu lo GBC com um ; por­
tanto, o paralelogram o ABCD todo é igual ao paralelogram o EBCF todo.
Portanto, os paralelogram os que estão sobre a m esm a base e nas mesmas
paralelas são iguais entre si; o que era preciso provar.

Í2 4
O s elementos

36.

O s pa ra lelogra m os que estão sobre bases iguais e nas m esm as paralelas são
iguais entre si.

Sejam os paralelogram os ABCD , EFGH,


que estão sobre as bases iguais BC, FG e nas
mesm as paralelas AH, BG; digo que o para­
lelo gram o ABCD é igual ao paralelogram o
EFGH.
Fiquem , pois, ligadas as BE, C H . E, como a BC é igual à FG, mas a
FG é igual à EH, portanto, tam bém a BC é igual à EH. M as tam bém são
paralelas. E as EB, H C ligam -nas; mas as que ligam as tanto iguais quanto
paralelas, no mesmo lado, são tanto iguais quanto paralelas; [portanto,
tam bém as EB, H C são tanto iguais quanto p aralelas]. Portanto, o EBCH
é um paralelogram o. E é igual ao ABCD ; pois, tanto tem a m esm a base BC
que ele quanto está nas mesm as paralelas BC, AH com ele. Pelas mesmas
coisas, então, tam bém o EFG H é igual ao mesmo EBCH ; desse modo,
tam bém o paralelogram o ABCD é igual ao EFGH.
Portanto, os paralelogram os, que estão sobre bases iguais e nas mesmas
paralelas, são iguais entre si; o que era preciso provar.

37.

O s triângulos que estão sobre a m esm a base e nas m esm as paralelas são
iguais entre si.

A D Sejam os triân gulo s ABC, DBC sobre


a m esm a base BC e nas mesm as paralelas
AD, BC; digo que o triân gu lo ABC é igual
ao triân gu lo DBC.
Fique prolongada a AD em cada um dos lados até os E, F, e, por um
lado, pelo B, fique traçada a BE paralela à CA, e, por outro lado, pelo C,
fique traçada a CF paralela à BD. Portanto, cada um dos EBCA, DBCF é

125
Euclides

um paralelogram o; e são iguais; pois, estão tanto sobre a m esm a base BC


quanto nas mesm as paralelas BC, EF; e, por um lado, o triân gulo ABC é
m etade do paralelogram o EBCA; pois, a diagonal AB corta-o em dois; e,
por outro lado, o triân gu lo DBC é m etade do paralelogram o DBCF; pois,
a diagonal D C corta-o em dois [e as m etades das coisas iguais são iguais
entre s i]. Portanto, o triân gulo ABC é igual ao triân gulo DBC.
Portanto, os triân gulo s que estão sobre a m esm a base e nas mesmas
paralelas são iguais entre si; o que era preciso provar.

3 8.

Os triângulos que estão sobre bases iguais e nas m esm as paralelas são
iguais entre si.

Sejam os triân g u lo s ABC, DEF sobre as


bases iguais BC, EF e nas m esm as paralelas G A D H
BF, AD; digo que o triân gulo ABC é igual ao
triân gu lo DEF. Fique, pois, prolongada a AD,
em cada um dos lados, até os G, H, e, por um
lado, pelo B, fique traçada a BG paralela à CA, e,
por outro lado, pelo F, fique traçada a FH paralela à DE. Portanto, cada um
dos GBCA, D EFH é um paralelogram o; e o GBCA é igual ao D EFH ; pois,
estão tanto sobre as bases iguais BC, EF quanto nas mesmas paralelas BF,
G H ; e, por um lado, o triân gulo ABC é m etade do paralelogram o GBCA.
Pois, a diagonal AB corta-o em dois; e, por outro lado, o triân gu lo FED
é m etade do paralelogram o D EFH ; pois, a diagonal DF corta-o em dois;
[mas as m etades das coisas iguais são iguais entre s i]. Portanto, o triângulo
ABC é igual ao triân gulo DEF.
Portanto, os triân gulo s que estão sobre bases iguais e nas mesm as p ara­
lelas são iguais entre si; o que era preciso provar.

126
O s elementos

39.

O s triângulos iguais, que estão sobre a m esm a base, e no m esm o lado,


também estão nas m esm as paralelas.

Sejam os triân gu lo s iguais ABC, DBC, que estão


D
sobre a m esm a base BC, e no mesmo lado; digo que
tam bém estão nas mesmas paralelas.
C Fique, pois, ligada a AD; digo que a AD é paralela
à BC.
Pois, se não, fique traçada, pelo ponto A, a AE paralela à reta BC, e fique
ligada a EC. Portanto, o triân gulo ABC é igual ao triân gulo EBC; pois,
está tanto na m esm a base BC que ele quanto nas mesm as paralelas. M as o
ABC é igual ao DBC; portanto, tam bém o DBC é igual ao EBC, o maior, ao
m enor; o que é im possível; portanto, a AE não é paralela à BC. Do mesmo
modo, então, provaremos que nenhum a outra, exceto a AD; portanto, a
AD é paralela à BC.
Portanto, os triângulos iguais, que estão sobre a mesma base, e no mesmo
lado, tam bém estão nas mesm as paralelas; o que era preciso provar.

40.

Os triângulos iguais, que estão sobre as bases iguais, e no m esm o lado,


também estão nas m esm as paralelas.

Sejam os triângulos iguais ABC, CDE, sobre as bases


iguais BC, CE, e no mesmo lado; digo que também estão
nas mesmas paralelas.
^ Fique, pois, ligada a AD; digo que a AD é paralela
à BE.
Pois, se não, fique traçada, pelo A, a AF paralela à BE, e fique ligada a FE.
Portanto, o triân gulo ABC é igual ao triân gulo FCE; pois, estão tanto
sobre as bases iguais BC, CE quanto nas mesm as paralelas BE, AF. M as o
triân gulo ABC é igual ao [triân g u lo ] D CE; portanto, tam bém o [triân gu -

Í27
Euclides

lo] DCE é igual ao triân gu lo FCE, o maior, ao m enor; o que é im possível;


portanto, a AF não é paralela à BE. Do mesmo modo, então, provaremos
que nenhum a outra, exceto a AD; portanto, a AD é paralela à BE.
Portanto, os triân gulo s iguais, que estão sobre as bases iguais, e no
m esm o lado, tam bém estão nas mesm as paralelas; o que era preciso provar.

41.

Caso um para lelogra m o tenha tanto a m esm a base que u m triângulo


quanto esteja nas m esm as paralelas, o pa ralelogram o
é o dobro do triângulo.

Tenha, pois, o paralelogram o ABCD tanto a m es­


m a base BC que o triân gulo EBC quanto esteja nas D
mesm as paralelas BC, AE; digo que o paralelogram o
ABCD é o dobro do triân gulo BEC.
Fique, pois, ligada a AC. Então, o triân gulo ABC é B
igual ao triângulo EBC; pois, está tanto sobre a mesma
base BC que ele quanto nas mesmas paralelas BC, AE. M as o paralelogram o
ABCD é o dobro do triân gulo ABC; pois, a diagonal AC corta-o em dois;
desse modo, o paralelogram o ABCD tam bém é o dobro do triân gulo EBC.
Portanto, caso um paralelogram o tenha tanto a m esm a base que um
triân gu lo quanto esteja nas mesm as paralelas, o paralelogram o é o dobro
do triân gu lo ; o que era preciso provar.

42.

C on stru ir um paralelogram o igual ao triângulo dado,


no ângulo retilíneo dado.

Sejam , por um lado, o triân gu lo dado ABC, e, por outro lado, o ângulo
retilíneo dado D; é preciso, então, construir no ângulo retilíneo D, um
paralelogram o igual ao triân gu lo ABC.

12 8
O s elementos

F ique cortada a BC em duas no E, e fique


ligada a AE, e fique construído, sobre a reta
EC e no ponto E sobre ela, o sob CEF igual ao
ângulo D, e, por um lado, pelo A fique traçada
® ^ a AG paralela à EC, e, por outro lado, pelo C,
fique traçada a CG paralela à EF; portanto, o FECG é um paralelogram o.
E, como a BE é igual à EC, tam bém o triân gu lo ABE é igual ao triân gulo
AEC; pois, estão tanto sobre as bases iguais BE, EC quanto nas mesmas
paralelas BC, AG; portanto, o triân gulo ABC é o dobro do triân gulo AEC.
M as tam bém o paralelogram o FECG é o dobro do triân gu lo AEC; pois,
tanto tem a m esm a base que ele quanto está nas mesm as paralelas com ele;
portanto, o paralelogram o FECG é igual ao triângulo ABC. E tem o ângulo
sob CEF igual ao dado D.
Portanto, foi construído o paralelogram o FECG, no ângulo sob CEF,
que é igual ao D, igual ao triân gu lo ABC; o que era preciso fazer.

43.

O s com plem entos dos paralelogram os, à volta da diagonal de todo


p a ra lelogra m o, são iguais entre si.

Sejam o paralelogram o ABCD , e a diagonal AC dele,


e, por um lado, sejam os paralelogram os EH, FG à volta
da AC, e, por outro lado, os ditos com plem entos BK,
KD; digo que o com plem ento BK é igual ao com ple­
ta G C m ento KD.
Pois, como o ABCD é um paralelogram o, e a AC é um a diagonal dele,
o triân gulo ABC é igual ao triân gulo ACD . De novo, como o EH é um
paralelogram o, e a AK é um a diagonal dele, o triân gulo AEK é igual ao
triân gulo AHK. Pelas mesmas coisas, então, tam bém o triân gulo KFC é
igual ao KGC. Com o, de fato, por um lado, o triân gu lo AEK é igual ao
triân gulo AHK, e, por outro lado, o KFC, ao KGC, o triân gulo AEK, com
o KGC, é igual ao triân gulo AHK, com o KFC; mas tam bém o triân gulo
ABC todo é igual ao A D C todo; portanto, o com plem ento BK restante é
igual ao com plem ento KD restante.

12 9
Euclides

Portanto, os com plem entos dos paralelogram os, à volta da diagonal


de toda área paralelogrâm ica, são iguais entre si; o que era preciso provar.

44.

Aplicar à reta dada, no ângulo retilíneo dado, um para lelogra m o igu a l ao


triângulo dado.

Sejam , por um lado, a reta dada AB, e, por outro


lado, o triân gulo dado C, e o ângulo retilíneo dado D;
é preciso, então, aplicar à reta dada AB, em um igual
ao ângulo D, um paralelogram o igual ao triân gu lo C.
Fique construído, no ângulo sob EBG, que é igual
ao D, o paralelogram o BEFG igual ao triân gulo C; e
fique posto de modo a estar a BE sobre um a reta com
a AB, e fique traçada através a FG até o H , e, pelo A,
fique traçada a A H paralela a qualquer um a das BG, EF,
e fique ligada a HB. E, como a reta H F caiu sobre as p a­
ralelas AH, EF, portanto, os ângulos sob AHF, H FE são iguais a dois retos.
Portanto, os sob BHG, GFE são menores do que dois retos; mas as que
são prolongadas, ilim itadam ente, a p artir dos menores do que dois retos,
encontram -se; portanto, as HB, FE, sendo prolongadas, encontrar-se-ão.
Fiquem prolongadas e encontrem -se no K, e, pelo ponto K, fique traçada
a KL paralela a qualquer um a das EA, FH , e fiquem prolongadas as HA,
GB até os pontos L, M . Portanto, o HLKF é um paralelogram o, e a H K é
um a diagonal dele, e, por um lado, os AG, M E são paralelogram os à volta
da HK, e, por outro lado, os LB, BF são os ditos com plem entos; p o rtan ­
to, o LB é igual ao BF. M as o BF é igual ao triângulo C; portanto, também
o LB é igual ao C. E, como o ângulo sob GBE é igual ao sob ABM , mas
o sob GBE é igual ao D, portanto, tam bém o sob ABM é igual ao ângulo D.
Portanto, foi aplicado à reta dada AB, no ângulo sob ABM , que é igual ao
D, o paralelogram o LB igual ao triân gulo dado C; o que era preciso fazer.

1 30
O s elementos

45.

Construir, no ângulo retilíneo dado, um para lelogra m o igual à retilínea


dada.

^ Sejam , por um lado, a retilín ea dada ABCD , e, por


outro lado, o ângulo retilíneo dado E; é preciso, então,
construir, no ângulo dado E, um paralelogram o igual
à retilín ea ABCD.
F ique ligada a DB, e fique construído, no ângulo
g ^ sob HKF, que é igual ao E, o paralelogram o FH igual
ao triân gu lo ABD; e fique aplicado à reta GH, no
ângulo sob G H M , que é igual ao E, o paralelogram o
^ HM G M igual ao triân gulo DBC. E, como o ângulo E
é igual a cada um dos sob HKF, G H M , portanto, tam bém o sob HKF é
igual ao sob G H M . F ique adicionado o sob KHG com um; portanto, os
sob FKH, KHG são iguais aos sob KHG, G H M . M as os sob FKH, KHG
são iguais a dois retos; portanto, tam bém os sob KHG, G H M são iguais
a dois retos. Então, as duas retas KH, H M , não postas do mesm o lado,
fazem em relação a algum a reta, a GH, e no mesm o ponto H sobre ela, os
ângulos adjacentes iguais a dois retos; portanto, a KH está sobre um a reta
com a H M ; e, como a reta H G caiu sobre as paralelas KM, FG, os ângulos
sob M H G , HGF, alternos, são iguais entre si. Fique adicionado o sob H G L
com um; portanto, os sob M H G , H G L são iguais aos sob HGF, H G L. M as
os sob M H G , H G L são iguais a dois retos; portanto, tam bém os sob HGF,
H G L são iguais a dois retos; portanto, a FG está sobre um a reta com a GL.
E, como a FK é tanto igual quanto paralela à H G , mas tam bém a H G , à
M L, portanto, tam bém a KF é tanto igual quanto paralela à M L ; e as retas
KM, FL ligam -nas; portanto, tam bém as KM, FL são tanto iguais quanto
paralelas; portanto, o KFLM é um paralelogram o. E, como, por um lado,
o triângulo ABD é igual ao paralelogram o FH , e, por outro lado, o DBC, ao
GM , portanto, a retilínea ABCD toda é igual ao paralelogram o K FLM todo.
Portanto, foi construído, no ângulo sob FKM , que é igual ao dado E, o
paralelogram o KFLM igual à retilín ea dada ABCD ; o que era preciso fazer.

U1
Euclides

46.

D escrever um quadrado sobre a reta dada.

Seja a reta dada AB; é preciso, então, descrever um


quadrado sobre a reta AB.
Fique traçada a AC em ângulos retos com a reta AB, a
p artir do ponto A sobre ela, e fique posta a AD igual à AB;
e, por um lado, pelo ponto D, fique traçada a DE paralela
à AB, e, por outro lado, pelo ponto B, fique traçada a BE
paralela à AD. Portanto, o ADEB é um paralelogram o;
portanto, por um lado, a AB é igual à DE, e, por outro
lado, a AD, à BE. M as a AB é igual à AD; portanto, as quatro BA, AD,
DE, EB são iguais entre si; portanto, o paralelogram o ADEB é equilátero.
D igo, então, que tam bém é retangular. Pois, como a reta AD caiu sobre as
paralelas AB, DE, portanto, os ângulos sob BAD, ADE são iguais a dois
retos. M as o sob BAD é reto; portanto, tam bém o sob ADE é reto. M as,
das áreas paralelogrâm icas, tanto os lados quanto os ângulos opostos são
iguais entre si; portanto, cada um dos ângulos sob ABE, BED, opostos,
é reto; portanto, o ADEB é retangular. E foi provado tam bém equilátero.
Portanto, é um quadrado; e descrito sobre a reta AB; o que era preciso
fazer.

47.

Nos triângulos retângulos, o quadrado sobre o lado que se estende sob o


ângulo reto é igual aos quadrados sobre os lados que contêm o ângulo reto.

Seja o triân gulo retângulo ABC, tendo o ângulo sob BAC reto; digo que
o quadrado sobre a BC é igual aos quadrados sobre as BA, AC.
Fiquem , pois, descritos, por um lado, o quadrado BDEC sobre a BC, e,
por outro lado, os GB, H C sobre as BA, AC, e, pelo A, fique traçada a AL
paralela a qualquer um a das BD, CE; e fiquem ligadas as AD, FC. E, como
cada um dos ângulos sob BAC, BAG é reto, então, as duas retas AC, AG,

í3 z
O s elementos

H não postas no mesm o lado, fazem relati­


vam ente a algum a reta, a BA, e no ponto
K A sobre ela, os ângulos adjacentes iguais a
dois retos; portanto, a CA está sobre um a
reta com a AG. Pelas mesmas coisas, então,
tam bém a BA está sobre um a reta com a
AH. E, como o ângulo sob DBC é igual
ao sob FBA; pois, cada um é reto; fique
adicionado o sob ABC com um ; portanto,
o sob DBA todo é igual ao sob FBC todo.
E como, por um lado, a DB é igual à BC, e,
por outro lado, a FB, à BA, então, as duas DB, BA são iguais às duas FB, BC,
cada um a a cada uma; e o ângulo sob DBA é igual ao ângulo sob FBC; por­
tanto, a base AD [é] igual à base FC, e o triân gulo ABD é igual ao triângulo
FBC; e, por um lado, o paralelogram o BL [é] o dobro do triân gulo ABD;
pois, tanto têm a m esm a base BD quanto estão nas mesmas paralelas BD,
AL; e, por outro lado, o quadrado GB é o dobro do triân gu lo FBC; pois,
de novo, tanto têm a m esm a base FB quanto estão nas mesm as paralelas
FB, GC. [M as os dobros das coisas iguais são iguais entre si;] portanto,
tam bém o paralelogram o BL é igual ao quadrado GB. Do mesmo modo,
então, sendo ligadas as AE, BK, será provado tam bém o paralelogram o
CL igual ao quadrado H C ; portanto, o quadrado BDEC todo é igual aos
quadrados GB, H C . E, por um lado, o quadrado BDEC foi descrito sobre
a BC, e, por outro lado, os GB, H C , sobre as BA, AC. Portanto, o quadrado
sobre o lado BC é igual aos quadrados sobre os lados BA, AC.
Portanto, nos triân gulo s retângulos, o quadrado sobre o lado que se
estende sob o ângulo reto é igual aos quadrados sobre os lados que contêm
o [ân gulo] reto; o que era preciso provar.

133
Euclides

48.

Caso o quadrado sobre u m dos lados de um triângulo seja igual aos


quadrados sobre os dois lados restantes do triângulo, o ângulo contido pelos
dois lados restantes do triângulo é reto.

Seja, pois, o quadrado sobre um lado, o BC, do triângulo


ABC igual aos quadrados sobre os lados BA, AC; digo que
o ângulo sob BAC é reto.
Fique, pois, traçada, a p artir do ponto A, a AD em ân­
gulos retos com a reta AC, e fique po sta a AD igual à BA,
e fique ligada a D C. Com o a DA é igual à AB, tam bém o
quadrado sobre a DA é igual ao quadrado sobre a AB. Fique
adicionado o quadrado sobre a AC com um; portanto, os quadrados sobre
as DA, AC são iguais aos quadrados sobre as BA, AC. M as, por um lado, o
sobre a D C é igual aos sobre as DA, AC; pois, o ângulo sob DAC é reto; e,
por outro lado, o sobre a BC é igual aos sobre as BA, AC; pois, foi suposto;
portanto, o quadrado sobre a D C é igual ao quadrado sobre a BC; desse
modo, tam bém o lado D C é igual ao BC; e, como a DA é igual à AB, e a AC
é comum, então, as duas DA, AC são iguais às duas BA, AC; e a base D C é
igual à base BC; portanto, o ângulo sob DAC [é] igual ao ângulo sob BAC.
M as o sob DAC é reto; portanto, tam bém o sob BAC é reto.
Portanto, caso o quadrado sobre um dos lados de um triângulo seja igual
aos quadrados sobre os dois lados restantes do triân gulo , o ângulo contido
pelos dois lados restantes do triân gulo é reto; o que era preciso provar.

J34
Livro I I

Definições

1. Todo paralelogram o retangular é dito ser contido pelas duas retas que
contêm o ângulo reto.
2. E, de toda área paralelogrâm ica, um dos paralelogram os, qualquer que
seja, à volta da diagonal dela, com os dois com plem entos, seja chamado
um gnôm on.

1.

Caso existam duas retas, e u m a delas seja cortada em segmentos, quantos


q u er que sejam, o retângulo contido pelas duas retas é igual aos retângulos
contidos tanto pela não cortada quanto p o r cada um dos segm entos.

Sejam as duas retas A, BC, e fique cortada a BC, ao


B D E C acaso, nos pontos D, E; digo que o retângulo contido
pelas A, BC é igual ao retângulo contido pelas A, BD, e
o pelas A, DE, e ainda o pelas A, EC.
K L H
Fique, pois, traçada, a p artir do B, a BF em ângulos
retos com a BC, e fique posta a BG igual à A, e, por um
lado, pelo G, fique traçada a GH paralela à BC, e, por outro lado, pelos D,
E, C, fiquem traçadas as DK, EL, C H paralelas à BG.
Então, o BH é igual aos BK, DL, EH. E, por um lado, o BH é o pelas
A, BC; pois, por um lado, é contido pelas GB, BC, e, por outro lado, a BG

135
Euclides

é igual à A; e, por outro lado, o BK é o pelas A, BD; pois, por um lado, é


contido pelas GB, BD, e, por outro lado, a BG é igual à A; e o DL é o pelas
A, DE; pois, a DK, isto é, a BG é igual à A. E, ainda, do mesm o modo,
o EH é o pelas A, EC; portanto, o pelas A, BC é igual ao pelas A, BD, e o
pelas A, DE, e ainda o pelas A, EC.
Portanto, caso existam duas retas, e um a delas seja cortada em segm en­
tos, quantos quer que sejam , o retângulo contido pelas duas retas é igual
aos retângulos contidos tanto pela não cortada quanto por cada um dos
segm entos; o que era preciso provar.

2.

Caso u m a linha reta seja cortada, ao acaso, o retângulo contido pela reta
toda e cada um dos segm entos é igual ao quadrado sobre a reta toda.

Fique, pois, cortada a reta AB, ao acaso, no ponto C; ------------ ?


digo que o retângulo contido pelas AB, BC, com o retân­
gulo contido por BA, AC, é igual ao quadrado sobre a AB.
Fique, pois, descrito, sobre a AB, o quadrado ADEB,
e fique traçada, pelo C, a CF paralela a qualquer um a das p ^
AD, BE.
Então, o AE é igual aos AF, CE. E, por um lado, o AE é o quadrado sobre
a AB, e, por outro lado, o AF é o retângulo contido pelas BA, AC; pois,
por um lado, é contido pelas DA, AC, e, por outro lado, a AD é igual à AB;
enquanto o CE é o pelas AB, BC; pois, a BE é igual à AB. Portanto, o pelas
BA, AC, com o pelas AB, BC, é igual ao quadrado sobre a AB.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada, ao acaso, o retângulo contido
pela reta toda e cada um dos segm entos é igual ao quadrado sobre a reta
toda; o que era preciso provar.

1 36
O s elementos

3.

Caso u m a linha reta seja cortada, ao acaso, o retângulo contido pela reta
toda e p o r um dos segm entos é igual a ambos, o retângulo contido pelos
segm entos e o quadrado sobre o predito segmento.

Fique, pois, cortada a reta AB, ao acaso, no C; digo que o


A Z
retângulo contido pelas AB, BC é igual ao retângulo contido
pelas AC, CB, com o quadrado sobre a BC.
Fique, pois, descrito, sobre a CB, o quadrado CDEB, e
F D
fique traçada através a ED até o F, e, pelo A, fique traçada a
AF p aralela a qualquer um a das CD , BE. Então, o AE é igual aos AD, CE; e,
por um lado, o AE é o retângulo contido pelas AB, BC; pois, por um lado,
é contido pelas AB, BE, e, por outro lado, a BE é igual à BC; e, por outro
lado, o AD é o pelas AC, CB; pois, a DC é igual à CB; enquanto o DB é o
quadrado sobre a CB; portanto, o retângulo contido pelas AB, BC é igual
ao retângulo contido pelas AC, CB, com o quadrado sobre a BC.
Portanto, caso um a reta seja cortada, ao acaso, o retângulo contido pela
reta toda e por um dos segmentos é igual a ambos, o retângulo contido pelos
segm entos e o quadrado sobre o predito segm ento; o que era preciso provar.

4.

Caso u m a linha reta seja cortada, ao acaso, o quadrado sobre a reta toda
é igual aos quadrados sobre os segm entos e também duas vezes o retângulo
contido pelos segmentos.

A : b Fique, pois, cortada a linha reta AB, ao acaso, no C; digo


/
G que o quadrado sobre a AB é igual aos quadrados sobre as
/ AC, CB e tam bém duas vezes o retângulo contido pelas
AC, CB.
F E
Fique, pois, descrito, sobre a AB, o quadrado ADEB,
e fique ligada a BD, e, por um lado, pelo C, fique traçada a CF paralela a
qualquer um a das AD, EB, e, por outro lado, pelo G, fique traçada a HK

t 37
Euclides

paralela a qualquer um a das AB, DE. E, como a CF é paralela à AD, e a BD


caiu sobre elas, o ângulo sob CGB, exterior, é igual ao sob ADB, in terio r
e oposto. M as o sob ADB é igual ao sob ABD, porque tam bém o lado BA
é igual ao AD; portanto, tam bém o ângulo sob CGB é igual ao sob GBC;
de modo que tam bém o lado BC é igual ao lado CG ; mas, por um lado, a
CB é igual à GK, e, por outro lado, a CG, à KB; portanto, tam bém a GK
é igual à KB; portanto, o CGKB é equilátero. D igo, então, que tam bém é
retangular. Pois, como a CG é paralela à BK [e a reta CB caiu sobre elas],
portanto, os ângulos sob KBC, GCB são iguais a dois retos. M as o sob
KBC é reto; portanto, tam bém o sob BCG é reto; desse modo, tam bém os
sob CGK, GKB, opostos, são retos. Portanto, o CGKB é retangular; mas
foi provado tam bém equilátero; portanto, é um quadrado; e é sobre a CB.
Pelas mesm as coisas, então, tam bém o H F é um quadrado; e é sobre a H G ,
isto é, [sobre] a AC; portanto, os quadrados HF, KC são sobre as AC, CB.
E, como o AG é igual ao GE, e o AG é o pelas AC, CB; pois, a GC é igual
à CB; portanto, tam bém o GE é igual ao pelas AC, CB; portanto, os AG,
GE são iguais a duas vezes o pelas AC, CB. M as tam bém os quadrados HF,
CK são sobre as AC, CB; portanto, os quatro HF, CK, AG, GE são iguais
aos quadrados sobre as AC, CB e tam bém duas vezes o retângulo contido
pelas AC, CB. M as os HF, CK, AG, GE é o ADEB todo, que é o quadrado
sobre a AB; portanto, o quadrado sobre a AB é igual aos quadrados sobre
as AC, CB e tam bém duas vezes o retângulo contido pelas AC, CB.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada, ao acaso, o quadrado sobre a
reta toda é igual aos quadrados sobre os segm entos e tam bém duas vezes o
retângulo contido pelos segm entos; o que era preciso provar.

[C o r o l á r io

D isso, é evidente que, nas áreas quadradas, os paralelogram os à volta da


diagonal são quadrados.]

1 38
O s elementos

5.

Caso u m a linha reta seja cortada em iguais e desiguais, o retângulo


contido pelos segm entos desiguais da reta toda, com o quadrado sobre a
entre as seções, é igual ao quadrado sobre a metade.

0 0 g Fique, pois, cortada algum a reta, a AB,


por um lado, em iguais no C, e, por ou­
N/ tro lado, em desiguais no D; digo que o
(H M
retângulo contido pelas AD, DB, com o
L quadrado sobre a CD , é igual ao quadrado
^ -
E sobre a CB.
Fique, pois, descrito, sobre a CB, o quadrado CEFB, e fique ligada a BE,
e, por um lado, pelo D, fique traçada a DG paralela a qualquer um a das
CE, BF, e, por outro lado, de novo, pelo H, fique traçada a KM paralela a
qualquer um a das AB, EF, e, de novo, pelo A, fique traçada a AK paralela
a qualquer um a das CL, BM . E, como o com plem ento C H é igual ao com ­
plem ento HF, fique adicionado o D M com um ; portanto, o C M todo é
igual ao DF todo. M as o C M é igual ao AL, porque tam bém a AC é igual à
CB; portanto, tam bém o AL é igual ao DF. Fique adicionado o C H comum;
portanto, o AH todo é igual ao gnôm on PN Q . M as o AH é o pelas AD, DB;
pois, a D H é igual à DB; portanto, o gnôm on P N Q é igual ao pelas AD,
DB. Fique adicionado o LG com um, que é igual ao sobre a CD ; portanto,
o gnôm on PN Q , e o LG são iguais ao retângulo contido pelas AD, DB
e o quadrado sobre a CD . M as o gnôm on P N Q e o LG, como um todo,
são o quadrado CEFB, que é o sobre a CB; portanto, o retângulo contido
pelas AD, DB, com o quadrado sobre a CD, é igual ao quadrado sobre a CB.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada em iguais e desiguais, o re­
tângulo contido pelos segm entos desiguais da reta toda, com o quadrado
sobre a entre as seções, é igual ao quadrado sobre a m etade; o que era
preciso provar.

139
Euclides

6.

Caso u m a linha reta seja cortada em duas, e seja adicionada a ela algum a
reta sobre um a reta, o retângulo contido pela reta toda ju n to com a
adicionada e pela adicionada, com o quadrado sobre a metade, é igual ao
quadrado sobre a com posta tanto da m etade quanto da adicionada.

•1
F ique, p o is, co rtad a alg u m a reta, a AB, A 3
em duas no ponto C, e fique adicio n ad a a W ■Q
M
ela algum a reta, a BD, sobre um a reta; digo K L
%
que o retângulo contido pelas AD, DB, com
o quadrado sobre a CB, é igual ao quadrado k -

sobre a CD.
Fique, pois, descrito sobre a CD o quadrado CEFD, e fique ligada a DE,
e, por um lado, pelo ponto B, fique traçada a BG paralela a qualquer um a
das EC, DF, e, por outro lado, pelo ponto H , fique traçada a K M paralela
a qualquer um a das AB, EF, e ainda, pelo A, fique traçada a AK paralela a
qualquer um a das CL, DM .
Com o, de fato, a AC é igual à CB, tam bém o AL é igual ao CH . M as o
C H é igual ao HF. Portanto, tam bém o AL é igual ao HF. F ique adicionado
o C M com um ; portanto, o A M todo é igual ao gnôm on N Q O . M as o AM
é o pelas AD, DB; pois, a D M é igual à DB; portanto, tam bém o gnôm on
N Q O é igual ao [retângulo contido] pelas AD, DB. Fique adicionado o
LG comum, que é o quadrado sobre a BC; portanto, o retângulo contido
pelas AD, DB, com o quadrado sobre a CB, é igual ao gnôm on N Q O e
o LG. M as o gnôm on N Q O e o LG, como um todo, são o quadrado CEFD,
que é o sobre a CD ; portanto, o retângulo contido pelas AD, DB, com o
quadrado sobre a CB, é igual ao quadrado sobre a CD.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada em duas, e seja adicionada a ela
algum a reta sobre um a reta, o retângulo contido pela reta toda junto com
a adicionada e pela adicionada, com o quadrado sobre a m etade, é igual ao
quadrado sobre a com posta tanto da m etade quanto da adicionada; o que
era preciso provar.

14 0
O s elementos

7.

Caso um a linha reta seja cortada, ao acaso, os quadrados ambos ju n tos,


o sobre a reta toda e o sobre um dos segmentos, são iguais a duas vezes o
retângulo contido pela reta toda e pelo dito segm ento e também o quadrado
sobre o segm ento restante.

Fique, pois, cortada algum a reta, a AB, ao acaso,


A B no ponto C; digo que os quadrados sobre as AB, BC
- são iguais a duas vezes o retângulo contido pelas AB,
H g ; CD e tam bém o quadrado sobre a CA.
F ique, po is, d escrito , sobre a AB, o quadrado
ADEB; e fique descrita com pletam ente a figura.
D SI E Como, de fato, o AG é igual ao GE, fique adiciona­
do o CF com um ; portanto, o AF todo é igual ao CE
todo; portanto, os AF, CE são o dobro do AF. M as os AF, CE são o gnôm on
KLM e o quadrado CF; portanto, o gnôm on KLM e o CF são o dobro do
AF. M as tam bém duas vezes o pelas AB, BC é o dobro do AF; pois, a BF é
igual à BC; portanto, o gnôm on KLM e o quadrado CF são iguais a duas
vezes o pelas AB, BC. Fique adicionado o DG comum, que é o quadrado
sobre a AC; portanto, o gnôm on KLM e os quadrados BG, GD são iguais
a duas vezes o retângulo contido pelas AB, BC e também o quadrado sobre a
AC. M as o gnôm on KLM e os quadrados BG, GD, como um todo, são o
ADEB e o CF, que são os quadrados sobre as AB, BC; portanto, os quadra­
dos sobre as AB, BC são iguais a duas vezes o retângulo contido pelas AB,
BC com o quadrado sobre a AC.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada, ao acaso, os quadrados am ­
bos juntos, o sobre a in teira e o sobre um dos segm entos são iguais a duas
vezes o retângulo contido pela reta toda e pelo dito segm ento e tam bém o
quadrado sobre o segm ento restante; o que era preciso provar.

1 41
Euclides

8.

Caso u m a linha reta seja cortada, ao acaso, quatro vezes o retângulo


contido pela toda e p o r um dos segmentos, com o quadrado sobre o segm ento
restante, é igual ao quadrado descrito sobre a reta e também o dito
segmento, com o sobre u m a única.

Fique, pois, cortada algum a reta, a AB, ao acaso,


A C D
no ponto C; digo que quatro vezes o retân gulo
G V
contido pelas AB, BC, com o quadrado sobre a AC, ^
/ R.
K,
é igual ao quadrado descrito sobre a AB, BC, como ^ "P D
sobre um a única.
Fique, pois, prolongada a [reta] BD sobre um a
.
reta [com a A B ], e fique posta a BD igual à CB, e
fique descrito, sobre a AD, o quadrado AEFD, e fique descrita com pleta­
m ente a figura, em dobro.
Com o, de fato, a CB é igual à BD, mas, por um lado, a CB é igual à GK,
e, por outro lado, a BD, à KN, portanto, tam bém a GK é igual à KN. Pelas
mesm as coisas, então, tam bém a P R é igual à R O . E, como a BC é igual à
BD, e a GK, à KN, portanto, tam bém , por um lado, o CK é igual ao KD, e,
por outro lado, o G R, ao R N . M as o CK é igual ao R N ; pois, com plementos
do paralelogram o C O ; portanto, tam bém o KD é igual ao G R; portanto,
os quatro DK, CK, G R, R N são iguais entre si. Portanto, os quatro são o
quádruplo do CK. De novo, como a CB é igual à BD, mas, por um lado,
a BD é igual à BK, isto é, à CG, e, por outro lado, a CB é igual à GK, isto
é, à GP portanto, a CG é igual à GR E como, por um lado, a CG é igual à
GP e, por outro lado, a PR, à RO , tam bém , por um lado, o AG é igual ao
M P e, por outro lado, o PL, ao R F M as o M P é igual ao PL; pois, com ­
plem entos do paralelogram o M L ; portanto, tam bém o AG é igual ao RF;
portanto, os quatro AG, M P PL, R F são iguais entre si; portanto, os quatro
são o quádruplo do AG. M as os quatro CK, KD, G R, R N tam bém foram
provados o quádruplo do CK; portanto, os oito, que contêm o gnôm on
STY, são o quádruplo do AK. E, como o AK é o pelas AB, BD; pois, a BK
é igual à BD; portanto, quatro vezes o pelas AB, BD é o quádruplo do AK.

14 2
O s elementos

M as o gnôm on S T Y tam bém fo i provado o quádruplo do AK; portanto,


quatro vezes o pelas AB, BD é igual ao gnôm on STY. F ique adicionado o
Q H comum, que é igual ao quadrado sobre a AC; portanto, quatro vezes
o retângulo contido pelas AB, BD, com o quadrado sobre a AC, é igual ao
gnôm on S T Y e o Q H . M as o gnôm on ST Y e o Q H , como um todo, são
iguais ao quadrado AEFD, que é sobre a AD; portanto, quatro vezes o pelas
AB, BD, com o sobre a AC, é igual ao quadrado sobre a AD; mas a BD é
igual à BC, portanto, quatro vezes o retângulo contido pelas AB, BC, com
o quadrado sobre a AC, é igual ao sobre a AD, isto é, ao quadrado descrito
sobre a AB e BC, como sobre um a única.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada, ao acaso, quatro vezes o re­
tângulo contido pela toda e por um dos segm entos, com o quadrado sobre
o segm ento restante, é igual ao quadrado descrito sobre a toda e tam bém
o dito segm ento, como sobre um a única; o que era preciso provar.

9.

Caso um a linha reta seja cortada em iguais e desiguais, os quadrados


sobre os segm entos desiguais da toda são o dobro tanto do quadrado sobre a
m etade quanto do sobre a entre as seções.

Fique, pois, cortada algum a reta, a AB, por um lado, em


iguais no C, e, por outro lado, em desiguais no D; digo que
os quadrados sobre as AD, DB são o dobro dos quadrados
A B sobre as AC, CD.
Fique, pois, traçada, a partir do C, a CE em ângulos retos com a AB,
e fique posta igual a cada um a das AC, CB, e fiquem ligadas as EA, EB, e,
por um lado, pelo D, fique traçada a DF p aralela à EC, e, por outro
lado, pelo F, a FG, à AB, e fique ligada a AF. E, como a AC é igual à CE,
tam bém o ângulo sob EAC é igual ao sob AEC. E, como o junto ao C é
reto, portanto, os sob EAC, AEC restantes são iguais a um reto; e são iguais;
portanto, cada um dos sob CEA, CAE é m etade de um reto. Pelas mesmas
coisas, então, tam bém cada um dos sob CEB, EBC é m etade de um reto;
portanto, o sob AEB todo é reto. E, como o sob GEF é m etade de um

143
Euclides

reto, mas o sob EGF é reto; pois, é igual ao sob ECB, in terio r e oposto;
portanto, o sob EFG restante é m etade de um reto; portanto, o ângulo
sob GEF [é] igual ao sob EFG; desse modo, tam bém o lado EG é igual
ao GF. De novo, como o ângulo junto ao B é m etade de um reto, e o sob
FDB é reto; pois, de novo, é igual ao sob ECB, in terio r e oposto; p o rtan ­
to, o sob BFD restante é m etade de um reto; portanto, o ângulo junto ao
B é igual ao sob DFB; desse modo, tam bém o lado FD é igual ao DB.
E, como a AC é igual à CE, tam bém o sobre a AC é igual ao sobre a CE;
portanto, os quadrados sobre as AC, CE são o dobro do sobre AC. M as o
quadrado sobre a EA é igual aos sobre as AC, CE; pois, o ângulo sob ACE
é reto; portanto, o sobre a EA é o dobro do sobre a AC. De novo, como a
EG é igual à GF, tam bém o sobre a EG é igual ao sobre a GF; portanto,
os quadrados sobre as EG, GF são o dobro do quadrado sobre a GF. M as
o quadrado sobre a EF é igual aos quadrados sobre as EG, GF; portanto, o
quadrado sobre a EF é o dobro do sobre a GF. M as a GF é igual à CD ; por­
tanto, o sobre a EF é o dobro do sobre a CD . M as tam bém o sobre a EA é o
dobro do sobre a AC; portanto, os quadrados sobre as AE, EF são o dobro
dos quadrados sobre as AC, CD . M as o quadrado sobre a AF é igual aos
sobre as AE, EF; pois, o ângulo sob AEF é reto; portanto, o quadrado sobre
a AF é o dobro dos sobre as AC, CD . M as os sobre as AD, DF são iguais
ao sobre a AF; pois, o ângulo junto ao D é reto; portanto, os sobre as AD,
DF são o dobro dos quadrados sobre as AC, CD . M as a DF é igual à DB;
portanto, os quadrados sobre as AD, DB são o dobro dos quadrados sobre
as AC, CD.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada em iguais e desiguais, os qua­
drados sobre os segmentos desiguais da toda são o dobro tanto do quadrado
sobre a m etade quanto do sobre a entre as seções; o que era preciso provar.

144
O s elementos

10.

Caso um a linha reta seja cortada em duas, e seja adicionada a ela algum a
reta sobre um a reta, os quadrados ambos ju n tos, o sobre a toda com a
adicionada e o sobre a adicionada, são o dobro tanto do sobre a m etade
quanto do quadrado descrito sobre a com posta tanto da m etade quanto da
adicionada, com o sobre u m a única.

Fique, pois, cortada algum a reta, a AB, em duas no


C, e fique adicionada a ela algum a reta, a BD, sobre
um a reta; digo que os quadrados sobre as AD, DB são
G o dobro dos quadrados sobre as AC, CD.
Fique, pois, descrita, a p artir do ponto C, a CE em ângulos retos com a
AB, e fique po sta igual a cada um a das AC, CB, e fiquem ligadas as EA, EB;
e, por um lado, pelo E, fique traçada a EF paralela à AD, e, por outro lado,
pelo D, fique traçada a FD paralela à CE. E, como algum a reta, a EF, caiu
sobre as retas paralelas EC, FD, portanto, os sob CEF, EFD são iguais a
dois retos; portanto, os sob FEB, EFD são menores do que dois retos; mas
as que são prolongadas a p artir de menores do que dois retos encontram -se;
portanto, as EB, FD, sendo prolongadas do lado de B, D, encontrar-se-ão.
Fiquem prolongadas e encontrem -se no G, e fique ligada a AG. E, como a
AC é igual à CE, tam bém o ângulo sob EAC é igual ao sob AEC; e, o junto
ao C é reto; portanto, cada um dos sob EAC, AEC [é] m etade de um reto.
Pelas mesm as coisas, então, cada um dos sob CEB, EBC é m etade de um
reto; portanto, o sob AEB é reto. E, como o sob EBC é m etade de um reto,
portanto, tam bém o sob DBG é m etade de um reto. M as tam bém o sob
BDG é reto; pois, é igual ao sob DCE; pois, alternos; portanto, o sob DGB
restante é m etade de um reto; portanto, o sob DGB é igual ao sob DBG;
desse modo, tam bém o lado BD é igual ao lado GD. De novo, como o sob
EGF é metade de um reto, mas o junto ao F é reto; pois, é igual ao oposto, o
junto ao C; portanto, o sob FEG restante é m etade de um reto; portanto,
o ângulo sob EGF é igual ao sob FEG; desse modo, tam bém o lado GF
é igual ao lado EF. E, como [a EC é igual à C A ], [tam bém ] o quadrado
sobre a EC é igual ao quadrado sobre a CA; portanto, os quadrados sobre

145
Euclides

as EC, CA são o dobro do quadrado sobre a CA. M as o sobre a EA é igual


aos sobre as EC, CA; portanto, o quadrado sobre a EA é o dobro do qua­
drado sobre a AC. De novo, como a FG é igual à EF, tam bém o sobre a FG
é igual ao sobre a FE; portanto, os sobre as GF, FE são o dobro do sobre a
EF. M as o sobre a EG é igual aos sobre as GF, FE; portanto, o sobre a EG é
o dobro do sobre a EF. M as a EF é igual à CD ; portanto, o quadrado sobre
a EG é o dobro do sobre a CD . M as tam bém o sobre a EA foi provado o
dobro do sobre a AC; portanto, os quadrados sobre as AE, EG são o dobro
dos quadrados sobre as AC, CD . M as o quadrado sobre a AG é igual aos
quadrados sobre as AE, EG; portanto, o sobre a AG é o dobro dos sobre as
AC, CD . M as os sobre as AD, DG são iguais ao sobre a AG; portanto, os
[quadrados] sobre as AD, DG são o dobro dos [quadrados] sobre as AC,
CD . M as a DG é igual à DB; portanto, os [quadrados] sobre as AD, DB
são o dobro dos quadrados sobre as AC, CD.
Portanto, caso um a linha reta seja cortada em duas, e seja adicionada a ela
algum a reta sobre um a reta, os quadrados ambos juntos, o sobre a toda com
a adicionada e o sobre a adicionada, são o dobro tanto do sobre a m etade
quanto do quadrado descrito sobre a com posta tanto da m etade quanto da
adicionada, como sobre um a única; o que era preciso provar.

11.

C ortar a reta dada, de m odo a o retângulo contido pela inteira e p o r um


dos segm entos ser igual ao quadrado sobre o segm ento restante.

Seja a reta dada AB; é preciso, então, cortar a AB de modo


a o retângulo contido pela toda e um dos segm entos ser igual
ao quadrado sobre o segm ento restante.
Fique, pois, descrito, sobre a AB, o quadrado ABD C, e
fique cortada a AC em duas no ponto E, e fique ligada a BE,
e fique traçada através a CA até o F, e fique posta a EF igual
à BE, e fique descrito, sobre a AF, o quadrado FH , e fique traçada através a
GH até o K; digo que a AB foi cortada no H, de modo a fazer o retângulo
contido pelas AB, BH igual ao quadrado sobre a AH.

146
O s elementos

Pois, como a reta AC foi cortada em duas no E, e a FA foi adicionada a


ela, portanto, o retângulo contido pelas CF, FA, com o quadrado sobre
a AE, é igual ao quadrado sobre a EF. M as a EF é igual à EB; portanto, o
pelas CF, FA, com o sobre a AE, é igual ao sobre EB. M as os sobre as BA, AE
são iguais ao sobre EB; pois, o ângulo junto ao A é reto; portanto, o pelas
CF, FA, com o sobre a AE, é igual aos sobre as BA, AE. Fique subtraído o
sobre a AE com um; portanto, o retângulo contido pelas CF, FA restante é
igual ao quadrado sobre a AB. E, por um lado, o pelas CF, FA é o FK; pois,
a AF é igual à FG; e, por outro lado, o sobre a AB é o AD; portanto, o FK
é igual ao AD. F ique subtraído o AK com um ; portanto, o FH restante é
igual ao H D . E, por um lado, o H D é o pelas AB, BH; pois, a AB é igual à
BD; e, por outro lado, o FH é o sobre a A H ; portanto, o retângulo contido
pelas AB, BH é igual ao quadrado sobre HA.
Portanto, a reta dada AB foi cortada no H , de modo a fazer o retângulo
contido pelas AB, BH igual ao quadrado sobre a HA; o que era preciso fazer.

12.

Nos triângulos obtusângulos, o quadrado sobre o lado que se estende


sob o ângulo obtuso é m a io r do que os quadrados sobre os lados que
contêm o ângulo obtuso p o r duas vezes o contido p o r u m dos à volta do
ângulo obtuso, sobre o qual cai a perpendicular, e também pela cortada
exteriorm ente pela p erp en d icu la r relativam ente ao ângulo obtuso.

j Seja o triân gu lo obtusângulo ABC, tendo o sob BAC ob-


V tuso, e fique traçada, a p artir do ponto B, a perpendicular BD
\ à CA, que foi prolongada. D igo que o quadrado sobre a BC
jj ^ ^ é m aior do que os quadrados sobre as BA, AC por duas vezes
o retângulo contido pelas CA, AD.
Pois, como a reta CD foi cortada, ao acaso, no ponto A, portanto, o so ­
bre a D C é igual aos quadrados sobre as CA, AD e duas vezes o retângulo
contido pelas CA, AD. Fique adicionado o sobre a DB com um; portanto,
os sobre as CD , DB são iguais tanto aos quadrados sobre as CA, AD, DB
quanto duas vezes o [retângulo contido] pelas CA, AD. M as, por um lado,
o sobre a CB é igual aos sobre as CD , DB; pois, o ângulo junto ao D é reto;

147
Euclides

e, por outro lado, o sobre a AB é igual aos sobre as AD, DB; portanto, o
quadrado sobre a CB é igual tanto aos quadrados sobre as CA, AB quanto
duas vezes o retângulo contido pelas CA, AD; desse modo, o quadrado
sobre a CB é m aior do que os quadrados sobre as CA, AB por duas vezes o
retângulo contido pelas CA, AD.
Portanto, nos triângulos obtusângulos, o quadrado sobre o lado que
se estende sob o ângulo obtuso é m aior do que os quadrados sobre os
lados que contêm o ângulo obtuso por duas vezes o contido por um dos
à volta do ângulo obtuso, sobre o qual cai a perpendicular e tam bém pela
cortada exteriorm ente pela perpendicular relativa ao ângulo obtuso; o que
era preciso provar.

13.

Nos triângulos acutângulos, o quadrado sobre o lado que se estende


sob o ângulo agudo é m en o r do que os quadrados sobre os lados que
contêm o ângulo agudo p o r duas vezes o contido p or u m dos à volta do
ângulo agudo, sobre o qual cai a perpendicular, e também pela cortada
internam ente pela perpen dicu lar relativa ao ângulo agudo.

S eja o triâ n g u lo acu tân g u lo ABC, tendo o ângulo


junto ao B agudo, e fique traçada, a p artir do ponto A, a
perpendicular AD à BC; digo que o quadrado sobre a AC
é m enor do que os quadrados sobre as CB, BA por duas
vezes o retângulo contido pelas CB, BD.
Pois, como a reta CB foi cortada, ao acaso, no D, por­
tanto, os quadrados sobre as CB, BD são iguais a tanto
duas vezes o retângulo contido pelas CB, BD quanto o quadrado sobre a
D C. Fique adicionado o quadrado sobre a DA comum; portanto, os quadra­
dos sobre as CB, BD, DA são iguais a tanto duas vezes o retângulo contido
pelas CB, BD quanto os quadrados sobre as AD, D C. M as, por um lado, o
sobre a AB é igual aos sobre as BD, DA; pois, o ângulo junto ao D é reto;
e, por outro lado, o sobre a AC é igual aos sobre as AD, D C; portanto, os
sobre as CB, BA são iguais a tanto o sobre a AC quanto duas vezes o pelas
CB, BD; desse modo, o sobre a AC só é m enor do que os quadrados sobre
as CB, BA por duas vezes o retângulo contido pelas CB, BD.

14 8
O s elementos

Portanto, nos triângulos acutângulos, o quadrado sobre o lado que se


estende sob o ângulo agudo é menor do que os quadrados sobre os lados que
contêm o ângulo agudo por duas vezes o contido por um dos à volta do ân­
gulo agudo, sobre o qual cai a perpendicular, e também pela cortada interior­
mente pela perpendicular relativa ao ângulo agudo; o que era preciso provar.

14.

C on stru ir um quadrado igual à retilínea dada.

Seja a retilín ea dada A; é preciso, então, construir um quadrado igual à


retilín ea A.
H
F ique, p o is, co n stru íd o o p aralelo gram o re­

f / E| tan gu lar BD igual à retilín ea A; se, por um lado,


G F de fato, a BE é igual à ED, seria produzido o que
D estava prescrito. Pois, foi construído o quadrado
BD igual à retilín ea A. M as, se não, um a das BE,
ED é maior. Seja m aior a BE, e fique prolongada até o F, e fique po sta a
EF igual à ED, e fique cortada a BF em duas no G, e, com o centro G e
com distân cia um a das GB, GF, fique descrito o sem icírculo BHF, e fique
prolongada a DE até o H, e fique ligada a GH.
Com o, de fato, a reta BF foi cortada, por um lado, em iguais no G, e, por
outro lado, em desiguais no E, portanto, o retângulo contido pelas BE, EF,
com o quadrado sobre a EG, é igual ao quadrado sobre a GF. M as a GF é
igual à G H ; portanto, o pelas BE, EF, com o sobre a GE, é igual ao sobre a
GH. M as os quadrados sobre as HE, EG são iguais ao sobre a G H ; p o rtan ­
to, o pelas BE, EF, com o sobre a GE, é igual aos sobre as HE, EG. Fique
subtraído o quadrado sobre a GE com um ; portanto, o retângulo contido
pelas BE, EF restante é igual ao quadrado sobre a EH. M as o pelas BE, EF
é o BD; pois a EF é igual à ED; portanto, o paralelogram o BD é igual ao
quadrado sobre a HE. M as o BD é igual à retilín ea A. Portanto, tam bém a
retilín ea A é igual ao quadrado que será descrito sobre a EH.
Portanto, foi construído o quadrado, que será descrito sobre a EH, igual
à retilín ea dada A; o que era preciso fazer.

149
Livro I I I

Definições

1. C írculos iguais são aqueles dos quais os diâm etros são iguais, ou dos
quais os raios são iguais.
2. U m a reta que, tocando o círculo e, sendo prolongada, não o corta, é
d ita ser tangente ao círculo.
3. C írculos, que ao se tocarem não se cortam , são ditos ser tangentes
entre si.
4. Em um círculo, retas são ditas afastarem -se igualm ente do centro, quan­
do sejam iguais as perpendiculares a elas, traçadas a p artir do centro.
5. E é d ita afastar-se m ais aquela sobre a qual cai a m aior perpendicular.
6. U m segm ento de círculo é a figura contida tanto por um a reta quanto
por um a circunferência de círculo.
7. E ângulo de um segm ento é o contido tanto por um a reta quanto por
um a circunferência de círculo.
8. E um ângulo em um segm ento é o ângulo contido pelas retas que fo ­
ram ligadas, quando seja tom ado algum ponto sobre a circunferência
do segm ento e, a p artir dele até as extrem idades da reta, que é base do
segm ento, sejam ligadas retas.
9. E, quando as retas que contêm o ângulo cortarem algum a circunferên­
cia, o ângulo é dito estar sobre ela.
10. E setor de um círculo é, quando um ângulo seja construído junto
ao centro do círculo, a figura contida tanto pelas retas que contêm o
ângulo quanto pela circunferência cortada por elas.

5
X X
Euclides

11. Segm entos sem elhantes de círculos são os que adm item ângulos iguais,
ou nos quais os ângulos são iguais entre si.

I.

Achar o centro do círculo dado.

Seja o círculo dado ABC; é preciso, então, achar o centro


do círculo ABC.
Fique traçada através dele, ao acaso, algum a reta, a AB, e
fique cortada em duas no ponto D, e, a p artir do D, fique
traçada a D C em ângulos retos com a AB, e fique traçada
através até o E, e fique cortada a CE em duas no F; digo
que o F é centro do [círculo ] ABC.
Pois não, mas, se possível, seja o G e fiquem ligadas as GA, GD, GB.
E, como a AD é igual à DB, e a DG é comum, então, as duas AD, DG são
iguais às duas GD, DB, cada um a a cada uma; e a base GA é igual à base GB;
pois, são raios; portanto, o ângulo sob ADG é igual ao ângulo sob GDB.
M as, quando um a reta, tendo sido alteada sobre um a reta, faça os ângulos
adjacentes iguais entre si, cada um dos ângulos iguais é reto; portanto, o
sob GDB é reto. M as tam bém o sob FDB é reto; portanto, o sob FDB é
igual ao sob GDB, o maior, ao m enor; o que é im possível. Portanto, o G
não é centro do círculo ABC. Do mesmo modo, então, provaremos que
nenhum outro, exceto o F.
Portanto, o ponto F é centro do [círculo ] ABC.

C o r o l á r io

D isso, então, é evidente que, caso em um círculo algum a reta corte al­
gum a reta em duas e em ângulos retos, o centro do círculo está sobre a que
corta; o que era preciso fazer.

íjz
O s elementos

2.

C aso sobre a circu n ferência de u m círculo sejam tomados dois pontos,


encontrados ao acaso, a reta que liga os p on tos cairá no in terior do círculo.

Seja o círculo ABC, e fiquem tom ados, sobre a circun ­


ferência dele, dois pontos A, B, encontrados ao acaso; digo
que a reta que liga a p artir do A até o B cairá no in terio r
do círculo.
Pois não, mas, se possível, caia no exterior como a AEB, e
fique tom ado o centro do círculo ABC, e seja o D, e fiquem
ligadas as DA, DB, e fique traçada através a DFE. Com o, de fato, a DA
é igual à DB, portanto, tam bém o ângulo sob DAE é igual ao sob DBE;
e, como um lado do triân gulo DAE, o AEB, foi prolongado, portanto, o
ângulo sob DEB é m aior do que o sob DAE. M as o sob DAE é igual ao
sob DBE; portanto, o sob DEB é m aior do que o sob DBE. M as o m aior
lado estende-se sob o m aior ângulo; portanto, a DB é m aior do que a DE.
E a DB é igual à DF. Portanto, a DF é m aior do que a DE, a menor, do que
a m aior; o que é im possível. Portanto, a reta que liga a p artir do A até o B
não cairá no exterior do círculo. Do mesmo modo, então, provaremos que
nem sobre a própria circunferência; portanto, no interior.
Portanto, caso sobre a circunferência de um círculo sejam tom ados dois
pontos, encontrados ao acaso, a reta que liga os pontos cairá no in terio r
do círculo; o que era preciso provar.

3.

Caso, em u m círculo, algum a reta pelo centro corte a lgu m a reta, não
pelo centro, em duas, também a corta em ângulos retos; e, caso corte-a em
ângulos retos, também a corta em duas.

Seja o círculo ABC e nele algum a reta pelo centro, a CD , corte algum a
reta, não pelo centro, a AB, em duas no ponto F; digo que tam bém a corta
em ângulos retos.

153
Euclides

Fique, pois, tom ado o centro do círculo ABC, e seja


o E, e fiquem ligadas as EA, EB.
E, como a AF é igual à FB, e a FE é com um, duas
[são] iguais a duas. Também a base EA é igual à base EB;
portanto, o ângulo sob AFE é igual ao ângulo sob BFE. A
M as, quando um a reta, tendo sido alteada sobre um a reta, p
faça os ângulos adjacentes iguais, cada um dos ângulos
iguais é reto; portanto, cada um dos sob AFE, BFE é reto. Portanto, a CD,
que é pelo centro, cortando em duas a AB, que não é pelo centro, tam bém
corta em ângulos retos.
M as, então, a CD corte a AB em ângulos retos; digo que tam bém a corta
em duas, isto é, que a AF é igual à FB.
Tendo, pois, sido construídas as mesm as coisas, como a EA é igual à EB,
tam bém o ângulo sob EAF é igual ao sob EBF. M as tam bém o reto sob AFE
é igual ao reto sob BFE; portanto, os EAF, EFB são dois triân gulo s, tendo
os dois ângulos iguais a dois ângulos e um dos lados igual a um dos lados,
o EF com um deles, estendendo-se sob um dos ângulos iguais; portanto,
tam bém terão os lados restantes iguais aos lados restantes; portanto, a AF
é igual à FB.
Portanto, caso, em um triân gulo , algum a reta pelo centro corte algum a
reta em duas, não pelo centro, tam bém a corta em ângulos retos; e, caso
corte-a em ângulos retos, tam bém a corta em duas; o que era preciso provar.

4.

C aso, em u m círcu lo, duas retas, não sendo pelo centro, cortem -se, não se
cortam em duas.

Seja o círculo ABCD , e nele as duas retas AC, BD,


não sendo pelo centro, cortem -se no E; digo que não se ^
cortam em duas.
Pois, se possível, cortem -se em duas, de modo a ser,
por um lado a AE igual à EC, e, por outro lado, a BE à
ED; e fique tom ado o centro do círculo ABCD, e seja o F, e fique ligada a FE.

154
O s elementos

Com o, de fato, algum a reta pelo centro, a FE, corta em duas algum a
reta, a AC, não pelo centro, tam bém a corta em ângulos retos; portanto, o
sob FEA é reto. De novo, como algum a reta, a FE, corta em duas algum a
reta, a BD, tam bém a corta em ângulos retos; portanto, o sob FEB é reto.
M as tam bém foi provado o sob FEA reto; portanto, o sob FEA é igual ao
sob FEB, o menor, ao m aior; o que é im possível. Portanto, as AC, BD não
se cortam em duas.
Portanto, caso, em um círculo, duas retas, não sendo pelo centro, cortem ­
-se, não se cortam em duas; o que era preciso provar.

5.

Caso dois círculos cortem -se, não será deles o m esm o centro.

C ortem -se, pois, os dois círculos ABC, CD G nos


pontos B, C; digo que não será deles o mesmo centro.
Pois, se possível, seja o E, e fique ligada a EC, e fique
traçada através a EFG, ao acaso. E, como o ponto E
é centro do círculo ABC, a EC é igual à EF. De novo,
como o ponto E é centro do círculo CD G , a EC é igual
à EG; mas tam bém a EC foi provada igual à EF; portanto, tam bém a EF é
igual à EG, a menor, à m aior; o que é im possível. Portanto, o ponto E não
é o centro dos círculos ABC, CD G .
Portanto, caso dois círculos cortem -se, não é deles o mesmo centro; o
que era preciso provar.

6.

Caso dois círculos tangenciem-se, não será deles o m esm o centro.

Tangenciem -se, pois, os dois círculos ABC, CDE no ponto C; digo que
não será deles o m esm o centro.
Pois, se possível, seja o F, e fique ligada a FC, e fique traçada através, ao
acaso, a FEB.

155
Euclides

Com o, de fato, o ponto F é centro do círculo ABC, a


FC é igual à FB. De novo, como o ponto F é centro do
círculo CDE, a FC é igual à FE. M as tam bém a FC foi
provada igual à FB; portanto, tam bém a FE é igual à FB,
a menor, à m aior; o que é im possível. Portanto, o ponto
F não é centro dos círculos ABC, CDE.
Portanto, caso dois círculos tangenciem -se, não será deles o mesmo
centro; o que era preciso provar.

7.

C aso algum ponto, que não é o centro do círculo, seja tomado sobre o
diâm etro de um círculo, e, a p a r tir do ponto, algum as retas caiam sobre
o círculo, p o r um lado, será m a io r aquela sobre a qual está o centro,
e, p o r outro lado, a restante é a menor, enquanto, das outras, a m ais
próx im a da pelo centro é sem pre m a io r do que a m ais afastada, e, a
p a rtir do ponto, som ente duas iguais cairão sobre o círculo, cada um a
sobre u m lado da menor.

Seja o círculo ABCD, e seja a AD um diâm etro dele,


e sobre a AD fique tom ado algum ponto, o F, que não
é centro do círculo, e seja centro do círculo o E, e,
a p artir do F, caiam sobre o círculo ABCD algum as
retas, as FB, FC, FG; digo que, por um lado, a m aior
é a FA, e, por outro lado, a FD é a menor, enquanto,
das outras, por um lado, a FB é m aior do que a FC, e,
por outro lado, a FC, do que a FG.
Fiquem , pois, ligadas as BE, CE, GE. E, como os dois lados de todo
triân gu lo são m aiores do que o restante, portanto, as EB, EF são maiores
do que a BF. M as a AE é igual à BE [portanto, as BE, EF são iguais à A F ];
portanto, a AF é m aior do que a BF. De novo, como a BE é igual à CE, e a
FE é com um, então as duas BE, EF são iguais às duas CE, EF. M as tam bém
o ângulo sob BEF é m aior do que o ângulo sob CEF; portanto, a base BF é

156
O s elementos

m aior do que a base CF. Pelas mesmas coisas, então, tam bém a CF é m aior
do que a FG.
De novo, como as GF, FE são m aiores do que a EG, e a EG é igual à
ED, portanto, as GF, FE são m aiores do que a ED. F ique subtraída a EF
com um; portanto, a restante GF é m aior do que a restante FD. Portanto,
por um lado, a m aior é a FA, e, por outro lado, a FD é a menor, enquanto,
por um lado, a FB é m aior do que a FC, e, por outro lado, a FC, do que a FG.
D igo que tam bém , a p artir do ponto F, som ente duas iguais cairão so ­
bre o círculo ABCD , cada um a sobre um lado da m enor FD. Fique, pois,
construído, sobre a reta EF e no ponto E sobre ela, o sob FEH igual ao
ângulo sob GEF, e fique ligada a FH . Com o, de fato, a GE é igual à EH, e a
EF é com um, então as duas GE, EF são iguais às duas HE, EF; tam bém o
ângulo sob GEF é igual ao ângulo sob HEF; portanto, a base FG é igual à
base FH. D igo, então, que um a outra igual à FG não cairá sobre o círculo,
a p artir do ponto F. Pois, se possível, caia a FK. E, como a FK é igual à
FG, mas a FH [é igual] à FG, portanto, tam bém a FK é igual à FH , a mais
próxim a da pelo centro igual à m ais afastada; o que é im possível. Portan­
to, a p artir do ponto F, nenhum a outra igual à G F cairá sobre o círculo;
portanto, som ente uma.
Portanto, caso algum ponto, que não é o centro, seja tom ado sobre o
diâm etro de um círculo, e, a p artir do ponto, algum as retas caiam sobre
o círculo, por um lado, será m aior aquela sobre a qual está o centro, e, por
outro lado, a restante é a menor, enquanto, das outras, a m ais próxim a da
pelo centro é sempre m aior do que a m ais afastada, e, a p artir do ponto,
som ente duas iguais cairão sobre o círculo, cada um a sobre um lado da
m enor; o que era preciso provar.

157
Euclides

8.

Caso algum pon to seja tomado no exterior de um círculo, e, a p a rtir do


ponto, algum as retas sejam traçadas através sobre o círculo, das quais, p o r
u m lado, u m a pelo centro, e, p o r outro lado, as restantes, ao acaso, p o r
u m lado, das retas que caem sobre a circu n ferência côncava, a m a io r é a
pelo centro, enquanto, das outras, a m ais próx im a da pelo centro é sem pre
m a io r do que a m ais afastada, e, p o r outro lado, das retas que caem sobre
a circu n ferência convexa, a m en o r é a entre o pon to e também o diâmetro,
enquanto, das outras, a m ais próx im a da m en o r é sem pre m en o r do que
a m ais afastada, e, a p a rtir do ponto, som ente duas iguais cairão sobre o
círculo, cada u m a sobre u m lado da menor.

Seja o círculo ABC, e fique tom ado algum ponto


no exterior do ABC, o D, e, a p artir dele, fiquem
traçadas através algum as retas, as DA, DE, DF, DC,
e seja a DA pelo centro. D igo que, por um lado,
das retas que caem sobre a circunferência côncava
AEFC, a m aior é a DA pelo centro, enquanto a DE
é m aior do que a DF, e a DF, do que a D C, e, por
outro lado, das retas que caem sobre a circunferência
convexa HLKG, a m enor é a DG, a entre o ponto e
o diâm etro AG, enquanto a m ais próxim a da m enor
DG é sem pre m enor do que a m ais afastada, por um
lado, a DK, do que a DL, e, por outro lado, a DL,
do que a DH.
Fique, pois, tom ado o centro do círculo ABC, e seja o M ; e fiquem ligadas
as M E, MF, M C , MK, M L , M H .
E, como a AM é igual à EM , fique adicionada a M D com um ; portanto,
a AD é igual às EM , M D . M as as EM , M D são m aiores do que a ED; por­
tanto, tam bém a AD é m aior do que a ED. De novo, como a M E é igual
à MF, e a M D é comum, portanto, as EM , M D são iguais às FM , M D ; e
o ângulo sob EM D é m aior do que o ângulo sob FM D . Portanto, a base
ED é m aior do que a base FD. Do mesm o modo, então, provaremos que

158
O s elementos

tam bém a FD é m aior do que a CD ; portanto, por um lado, a DA é a maior,


e, por outro lado, a DE é m aior do que a DF, enquanto a DF, do que a DC.
E, como as MK, KD são m aiores do que a M D , e a M G é igual à MK,
portanto, a restante KD é m aior do que a restante GD; desse modo, a GD
é m enor do que a KD; e, como sobre um dos lados, o M D , do triân gulo
M LD , as duas retas interiores MK, KD foram construídas, portanto, as MK,
KD são menores do que as M L , LD; mas a M K é igual à M L ; portanto, a
restante DK é m enor do que a restante DL. Do mesmo modo, então, p ro ­
varemos que tam bém a DL é m enor do que a D H ; portanto, por um lado,
a DG é a menor, e por outro lado, a DK é m enor do que a DL, enquanto a
DL, do que a DH.
D igo que tam bém som ente duas iguais, a p artir do ponto D, cairão sobre
o círculo, cada um a sobre um lado da m enor DG; fique construído, sobre
a reta M D e no ponto M sobre ela, o ângulo sob DM B igual ao ângulo sob
KM D, e fique ligada a DB. E, como a M K é igual à M B, e a M D é comum,
então as duas KM, M D são iguais às duas BM, M D , cada um a a cada uma. E
o ângulo sob KMD é igual ao ângulo sob BM D ; portanto, a base DK é igual
à base DB. D igo, [e n tão ], que um a outra igual à reta DK não cairá sobre o
círculo, a p artir do ponto D. Pois, se possível, caia e seja a DN . Com o, de
fato, a DK é igual à DN, mas a DK é igual à DB, portanto, tam bém a DB é
igual à DN , a m ais próxim a da m enor DG [é] igual à mais afastada; o que
foi provado im possível. Portanto, não m ais do que duas iguais cairão sobre
o círculo ABC, a p artir do ponto D, cada um a sobre um lado da m enor DG.
Portanto, caso algum ponto seja tom ado no exterior de um círculo, e, a
p artir do ponto algum as retas sejam traçadas através sobre o círculo, das
quais, por um lado, um a pelo centro, e, por outro lado, as restantes, ao acaso,
por um lado, das retas que caem sobre a circunferência côncava, a m aior é a
pelo centro, enquanto, das outras, a m ais próxim a da pelo centro é sempre
m aior do que a m ais afastada, e, por outro lado, das retas que caem sobre
a circunferência convexa, a m enor é a entre o ponto e tam bém o diâm etro,
enquanto, das outras, a m aior próxim a da m enor é sempre m enor do que
a m ais afastada, e, a p artir do ponto, som ente duas iguais cairão sobre o
círculo, cada um a sobre um lado da m enor; o que era preciso provar.

159
Euclides

9.

Caso algum ponto seja tomado no interior de u m círculo, e, a partir do


ponto, mais do que duas retas iguais caiam sobre o círculo, o ponto tomado é
centro do círculo.

Sejam o círculo ABC e o ponto D no interior


dele, e, a p artir do D, caiam sobre o círculo ABC
m ais do que duas retas iguais, as DA, DB, D C;
digo que o ponto D é centro do círculo ABC.
Fiquem , pois, ligadas as AB, BC e fiquem corta­
das em duas nos pontos E, F, e, tendo sido ligadas
as ED, FD, fiquem traçadas através até os pontos
G, K, H, L.
Como, de fato, a AE é igual à EB, e a ED é comum, então as duas AE,
ED são iguais às duas BE, ED; e a base DA é igual à base DB; portanto, o
ângulo sob AED é igual ao ângulo sob BED; portanto, cada um dos ângulos
sob AED, BED é reto; portanto, a GK corta a AB em duas e em ângulos retos.
E como, caso em um círculo, algum a reta corte algum a reta em duas e em
ângulos retos, o centro do círculo está sobre a que corta, portanto, o centro
do círculo está sobre a GK. Pelas mesmas coisas, então, também o centro do
círculo ABC está sobre a H L. E as retas GK, H L não têm nenhum outro
com um que o ponto D; portanto, o ponto D é centro do círculo ABC.
Portanto, caso algum ponto seja tom ado no in terio r de um círculo, e,
a p artir do ponto, m ais do que duas retas iguais caiam sobre o círculo, o
ponto tom ado é centro do círculo; o que era preciso provar.

10.

Um círculo não corta um círculo em m ais do que dois pontos.

Pois, se possível, o círculo ABC corte o círculo DEF em m ais do que


dois pontos, os B, G, F, H, e, tendo sido ligadas as BH, BG, fiquem cortadas
em duas nos pontos K, L; e, a p artir dos K, L, tendo sido traçadas as KC,

16 0
O s elementos

A LM em ângulos retos com as BH, BG, fiquem


traçadas através até os pontos A, E.
Com o, de fato, no círculo ABC algum a
reta, a AC, corta algum a reta, a BH, em duas
e em ângulos retos, po rtan to , o centro do
círculo ABC está sobre a AC. De novo, como
no m esm o círculo ABC algum a reta, a N Q ,
corta algum a reta, a BG, em duas e em ângulos retos, portanto, o centro
do círculo ABC está sobre a N Q . M as foi provado tam bém sobre a AC, e
em nenhum se encontram as retas AC, N Q que o O; portanto, o ponto O
é centro do círculo ABC. Do mesm o modo, então, provaremos que tam ­
bém o O é centro do círculo DEF; portanto, o mesmo O é centro dos dois
círculos que se cortam ABC, DEF; o que é im possível.
Portanto, um círculo não corta um círculo em m ais do que dois pontos;
o que era preciso provar.

11.

Caso dois círculos tangenciem -se interiormente, e sejam tom ados os centros
deles, a reta que liga os centros deles, sendo também prolongada, cairá sobre
a ju n çã o dos círculos.

Tangenciem -se, pois, os dois círculos ABC, ADE


interiorm ente no ponto A, e fiquem tom ados, por um
lado, o centro F do círculo ABC, e, por outro lado, o
centro G do ADE; digo que a reta que liga do G até
o F, sendo prolongada, cairá sobre o A.
Pois não, mas, se possível, caia como a FG H , e fi­
quem ligadas as AF, AG.
Com o, de fato, as AG, GF são m aiores do que a FA, isto é, do que a FH,
fique subtraída a FG com um ; portanto, a restante AG é m aior do que a
restante GH. M as a AG é igual à GD. Portanto, tam bém a GD é m aior do
que a GH, a menor, do que a m aior; o que é im possível; portanto, a reta que
liga do F até o G não cairá no exterior; portanto, cairá sobre a junção, no A.

161
Euclides

Portanto, caso dois círculos tangenciem -se interiorm ente [e sejam to ­


m ados os centros d eles], a reta que liga os centros deles [sendo tam bém
prolongada] cairá sobre a junção dos círculos; o que era preciso provar.

12.

C aso dois círculos tangenciem -se exteriormente, a que liga os centros deles
passará pelo pon to de contato.

Tangenciem -se, pois, os dois círculos ABC, ADE


exteriorm ente no ponto A, e fiquem tom ados, por um
lado, o centro F do ABC, e, por outro lado, o G do ADE;
digo que a reta que liga do F até o G passará pelo ponto
de contato, no A.
Pois não, mas, se possível, passe como a FCD G , e
fiquem ligadas as AF, AG.
Com o, de fato, o ponto F é centro do círculo ABC, a FA é igual à FC.
De novo, como o ponto G é centro do círculo ADE, a GA é igual à GD.
M as tam bém a FA foi provada igual à FC ; portanto, as FA, AG são iguais às
FC, GD; desse modo, a FG toda é m aior do que as FA, AG. M as é tam bém
m enor; o que é im possível. Portanto, não é o caso de a reta que liga do F
até o G não passar pelo ponto de contato, no A; portanto, por ele.
Portanto, caso dois círculos tangenciem -se exteriorm ente, a [reta] que
liga os centros deles passará pelo ponto de contato; o que era preciso provar.

13.

U m círculo não tangencia u m círculo em m ais pon tos do que em um, caso
tangencie interiorm ente caso exteriormente.

Pois, se possível, o círculo ABCD tangencie o círculo EBFD, prim eiro


interiorm ente em m ais pontos, os B, D, do que em um.
E, fique tom ado, por um lado, o centro G do círculo ABCD , e, por outro
lado, o H do EBFD.

16 2
O s elementos

K Portanto, a que liga do G até o H cairá sobre


os B, D. C aia como a BG H D . E, como o ponto
G é centro do círculo ABCD, a BG é igual à GD;
portanto, a BG é m aior do que a H D ; portanto, a
BH é, por m uito, m aior do que a H D . De novo,
como o ponto H é centro do círculo EBFD, a BH
é igual à H D ; mas tam bém foi provada maior, por
m uito, do que ela; o que é im possível; portanto, um círculo não tangencia
um círculo interiorm ente em m ais pontos do que em um.
D igo que nem exteriorm ente.
Pois, se possível, o círculo ACK tangencie exteriorm ente o círculo ABCD
em m ais pontos, os A, C, do que em um, e fique ligada a AC.
Com o, de fato, foram tom ados os dois pontos A, C, encontrados ao
acaso, sobre a circunferência de cada um dos círculos ABCD , ACK, a reta
que liga os pontos cairá no in terio r de cada um ; mas caiu, por um lado, no
in terio r do ABCD , e, por outro lado, no exterior do ACK; o que é absur­
do; portanto, um círculo não tangencia exteriorm ente um círculo em mais
pontos do que em um. M as foi provado que nem interiorm ente.
Portanto, um círculo não tangencia um círculo em mais pontos do que em
um, caso tangencie interiorm ente caso exteriormente; o que era preciso provar.

14.

Em u m círculo, as retas iguais afastam -se igualm ente do centro, e as que se


afastam igualm ente do centro são iguais entre si.

Seja o círculo ABCD , e sejam , nele, as retas AB, CD


iguais; digo que as AB, CD estão igualm ente afastadas
do centro.
Fique, pois, tom ado o centro do círculo ABCD , e
seja o E, e, a p artir do E, fiquem traçadas as perpendi­
culares EF, EG às AB, CD , e fiquem ligadas as AE, EC.
Com o, de fato, algum a reta, a EF, pelo centro, corta algum a reta, não
pelo centro, a AB, em ângulos retos, tam bém a corta em duas. Portanto, a

l63
Euclides

AF é igual à FB; portanto, a AB é o dobro da AF. Pelas mesmas coisas, então,


tam bém a CD é o dobro da CG ; e a AB é igual à CD ; portanto, tam bém a
AF é igual à CG. E, como a AE é igual à EC, tam bém o sobre a AE é igual
ao sobre a EC. M as, por um lado, os sobre as AF, EF são iguais ao sobre a
AE; pois o ângulo junto ao F é reto; e, por outro lado, os sobre as EG, GC
são iguais ao sobre EC; pois o ângulo junto ao G é reto; portanto, os sobre
as AF, FE são iguais aos sobre as CG, GE, dos quais o sobre a AF é igual ao
sobre a CG ; pois a AF é igual à CG ; portanto, o sobre a FE restante é igual
ao sobre a EG; portanto, a EF é igual à EG. M as, em um círculo, retas são
ditas afastarem -se igualm ente do centro quando as perpendiculares a elas,
traçadas a p artir do centro, sejam iguais; portanto, as AB, CD afastam -se
igualm ente do centro.
M as, então, as retas AB, CD afastem -se igualm ente do centro, isto é,
seja a EF igual à EG; digo que a AB é igual à CD.
Tendo, pois, sido construídas as mesm as coisas, do mesm o modo p ro ­
varemos que, por um lado, a AB é o dobro da AF, e, por outro lado, a CD,
da CG ; e, como a AE é igual à CE, o sobre a AE é igual ao sobre a CE; mas,
por um lado, os sobre as EF, FA são iguais ao sobre a AE, e, por outro lado,
os sobre as EG, GC são iguais ao sobre a CE. Portanto, os sobre as EF, FA
são iguais aos sobre as EG, G C; dos quais o sobre a EF é igual ao sobre
a EG; pois, a EF é igual à EG; portanto, o sobre a AF restante é igual ao
sobre a CG ; portanto, a AF é igual à CG ; e, por um lado, a AB é o dobro da
AF, e, por outro lado, a CD é o dobro da CG ; portanto, a AB é igual à CD.
Portanto, em um círculo, as retas iguais afastam -se igualm ente do cen­
tro, e as que se afastam igualm ente do centro são iguais entre si; o que era
preciso provar.

15.

Em u m círculo, p o r um lado, o diâm etro é a maior, e, p o r outro lado, das


outras, sem pre a m ais próx im a do centro é m a io r do que a m ais afastada.

Seja o círculo ABCD , e sejam o diâm etro AD dele, e o centro E, e sejam,


por um lado, a BC m ais próxim a do diâm etro AD, e, por outro lado, a FG,

16 4
O s elementos

M A D m ais afastada; digo que, por um lado, a AD é a maior, e, por


outro lado, a BC é m aior do que a FG.
Fiquem , pois, traçadas, a p artir do centro E, as perpen­
diculares EH, EK às BC, FG. E, como, por um lado, a BC
é m ais próxim a do centro, e, por outro lado, a FG, mais
afastada, portanto, a EK é m aior do que a EH. F ique posta
a EL igual à EH, e, pelo L, tendo sido traçada a LM em
ângulos retos com a EK, fique traçada através até o N , e fiquem ligadas as
M E, EN, FE, EG.
E, como a EH é igual á EL, tam bém a BC é igual à M N . De novo, como,
por um lado, a AE é igual à EM , e, por outro lado, a ED, à EN, portanto,
a AD é igual às M E, EN. M as, por um lado, as M E, EN são m aiores do
que a M N [e a AD é m aior do que a M N ], e, por outro lado, a M N é igual
à BC; portanto, a AD é m aior do que a BC. E, como as duas M E, EN são
iguais às duas FE, EG, e o ângulo sob M E N [é] m aior do que o ângulo
sob FEG, portanto, a base M N é m aior do que a base FG. M as a M N foi
provada igual à BC [e a BC é m aior do que a F G ]. Portanto, por um lado,
o diâm etro AD é a maior, e, por outro lado, a BC é m aior do que a FG.
Portanto, em um círculo, por um lado, o diâm etro é a maior, e, por outro
lado,das outras, a m ais próxim a do centro é sempre m aior do que a mais
afastada; o que era preciso provar.

16.

A traçada em ângulos retos com o diâm etro de u m círculo, a p a r tir de


u m a extremidade, cairá no exterior do círculo, e u m a outra reta não se
intercalará no lu ga r entre tanto a reta quanto a circunferência, e, p o r um
lado, o ângulo do sem icírcu lo é m a io r do que todo ângulo retilíneo agudo,
e, p o r outro lado, o restante é menor.

Sejam o círculo ABC à volta do centro D e o diâm etro AB; digo que a
traçada em ângulos retos com a AB, a p artir da extrem idade A, cairá no
exterior do círculo.
Pois não, mas, se possível caia no interior como a CA, e fique ligada a DC.

l65
Euclides

Como a DA é igual à DC, também o ângulo sob


DAC é igual ao ângulo sob ACD. M as o sob DAC
é reto; portanto, tam bém o sob ACD é reto; en­
tão, os dois ângulos sob DAC, ACD do triân gu lo p
ACD são iguais a dois retos; o que é im possível. E
Portanto, a traçada em ângulos retos com a BA,
a p artir do ponto A, não cairá no in terio r do círculo. Do mesmo modo,
então, provaremos que nem sobre a circunferência; portanto, no exterior.
C aia como a AE; digo que um a outra reta não se intercalará no lugar
entre tanto a reta AE quanto a circunferência CHA.
Pois, se possível, intercale-se como a FA, e fique traçada, a p artir do
ponto D, a perpendicular DG à FA. E, como o sob AGD é reto, e o sob
DAG é m enor do que um reto, portanto, a AD é m aior do que a DG. M as
a DA é igual à D H ; portanto, a DH é m aior do que a DG, a menor, do que a
m aior; o que é im possível. Portanto, um a o utra reta não se intercalará no
lugar entre tanto a reta quanto a circunferência.
D igo que tam bém , por um lado, o ângulo do sem icírculo, o contido
tanto pela reta BA quanto pela circunferência CH A , é m aior do que todo
ângulo retilíneo agudo, e, por outro lado, o restante, o contido tanto pela
circunferência C H A quanto pela reta AE, é m enor do que todo ângulo
retilíneo agudo.
Pois, se algum ângulo retilíneo é, por um lado, m aior do que o contido
tanto pela reta BA quanto pela circunferência CH A , e, por outro lado,
m enor do que o contido tanto pela circunferência C H A quanto pela reta
AE, um a reta intercalar-se-á no lugar entre tanto a circunferência CH A
quanto a reta AE, aquela que fará um contido pelas retas, por um lado,
m aior do que o contido tanto pela reta BA quanto pela circunferência CHA,
e, por outro lado, m enor do que o contido tan to pela circun ferên cia
C H A quanto pela reta AE. E não se intercala. Portanto, um agudo contido
pelas retas não será m aior do que o ângulo contido tanto pela reta BA
quanto pela circunferência CH A, nem, por certo, m enor do que o contido
tanto pela circunferência C H A quanto pela reta AE.

166
O s elementos

C o r o l á r io

Disso, então, é evidente que a traçada em ângulos retos com o diâm etro, a
p artir de um a extrem idade, é tangente ao círculo [e que um a reta é tangente
a um círculo em som ente um ponto, visto que tam bém a que o encontra em
dois foi provada cair no in terio r d ele]. O que era preciso provar.

17.

A p a r tir do pon to dado, traçar u m a linha reta tangente ao círculo dado.

^ Sejam , por um lado, o ponto dado A, e, por outro


lado, o círculo dado BCD ; é preciso, então, a p artir do
ponto A, traçar um a linha reta tangente ao círculo BCD.
Fique, pois, tom ado o centro E do círculo, e fique
ligada a AE, e, por um lado, com o centro E, e, por outro
lado, com a d istân cia EA, fique descrito o círculo AFG,
e, a p artir do D, fique traçada a DF em ângulos retos
com a EA, e fiquem ligadas as EF, AB; digo que, a p artir do ponto A, foi
traçada a tangen te AB ao círculo BCD.
Pois, como o E é centro dos círculos BCD, AFG, portanto, por um lado,
a EA é igual à EF, e, por outro lado, a ED, à EB; então as duas AE, EB são
iguais às duas FE, ED; e contêm o ângulo com um junto ao E; portanto, a
base DF é igual à base AB, e o triân gu lo DEF é igual ao triân gulo EBA, e
os ângulos restantes, aos ângulos restantes; portanto, o sob EDF é igual
ao sob EBA. M as o sob EDF é reto; portanto, tam bém o sob EBA é reto.
E a EB é raio; mas a traçada em ângulos retos com o diâm etro do círculo, a
p artir de um a extrem idade, é tangente ao círculo; portanto, a AB é tangente
ao círculo BCD.
Portanto, a p artir do ponto dado A, foi traçada a linha reta AB tangente
ao círculo dado BCD ; o que era preciso fazer.

16 7
Euclides

18 .

Caso algu m a reta seja tangente a u m círculo, e, a pa rtir do centro até


a junção, seja ligada algum a reta, a que foi ligada será perpen dicu lar à
tangente.

Tangencie, pois, algum a reta, a DE, o círculo ABC no


ponto C, e fique tom ado o centro F do círculo ABC, e, D

a p artir do F até o C, fique ligada a FC ; digo que a FC


é perpendicular à DE.
Pois, se não, fique traçada, a p artir do F, a FG per­
pendicular à DE. Com o, de fato, o ângulo sob FG C é
reto, portanto, o sob FCG é agudo; mas o m aior lado
estende-se sob o m aior ângulo; portanto, a FC é m aior do que a FG; mas
a FC é igual à FB; portanto, tam bém a FB é m aior do que a FG, a menor,
do que a m aior; o que é im possível; portanto, a FG não é perpendicular
à DE. Do mesmo modo, então, provaremos que nenhum a outra, exceto a
FC ; portanto, a FC é perpendicular à DE.
Portanto, caso algum a reta seja tangente a um círculo, e, a p artir do cen­
tro até a junção, seja ligada algum a reta, a que foi ligada será perpendicular
à tangente; o que era preciso provar.

19.

C aso algum a reta seja tangente a u m círculo, e, a pa rtir da junção, seja


traçada u m a linha reta em [â n g u lo s] retos com a tangente, o centro do
círculo estará sobre a que f o i traçada.

Tangencie, pois, algum a reta, a DE, o círculo


ABC no ponto C, e, a p artir do C, fique traçada a
CA em ângulos retos com a DE; digo que o centro
do círculo está sobre a AC.
Pois não, mas, se possível, seja o F, e fique ligada
a CF.

16 8
O s elementos

Como, [de fato ], algum a reta, a DE, é tangente ao círculo ABC, e, a p artir
do centro até a junção, foi ligada a FC, portanto, a FC é perpendicular à DE;
portanto, o sob FCE é reto. M as tam bém o sob ACE é reto; portanto, o sob
FCE é igual ao sob ACE, o menor, ao m aior; o que é im possível. Portanto,
o F não é centro do círculo ABC. Do mesmo modo, então, provaremos que
nenhum outro, exceto sobre a AC.
Portanto, caso algum a reta seja tangente a um círculo, e, a p artir da ju n ­
ção, seja traçada um a linha reta em ângulos retos com a tangente, o centro
do círculo estará sobre a que foi traçada; o que era preciso provar.

20.

Em um círculo, o ângulo ju n to ao centro é o dobro do sobre


a circu n ferên cia, quando os ângulos tenham a m esm a circunferência
com o base.

Seja o círculo ABC, e sejam, por um lado, o sob BEC


um ângulo junto ao centro dele, e, por outro lado, o
sob BAC um sobre a circunferência, e tenham a m esm a
circunferência BC como base; digo que o ângulo sob
BEC é o dobro do sob BAC.
Pois, tendo sido ligada a AE, fique traçada através
até o F.
Com o, de fato, a EA é igual à EB, tam bém o ângulo sob EAB é igual ao
sob EBA; portanto, os ângulos sob EAB, EBA são o dobro do sob EAB.
M as o sob BEF é igual aos sob EAB, EBA; portanto, tam bém o sob BEF
é o dobro do sob EAB. Pelas mesm as coisas, então, tam bém o sob FEC é
o dobro do sob EAC. Portanto, o sob BEC todo é o dobro do sob BAC
todo.
Fique, então, inflectida de novo, e seja o sob BDC um outro ângulo, e,
tendo sido ligada a DE, fique prolongada até o G. Do mesmo modo, então,
provaremos que o ângulo sob GEC é o dobro do sob ED C, dos quais o
sob GEB é o dobro do sob EDB; portanto, o sob BEC restante é o dobro
do sob BDC.

16 9
Euclides

Portanto, em um círculo, o ângulo junto ao centro é o dobro do sobre a


circunferência, quando [os ângulos] tenham a mesm a circunferência como
base; o que era preciso provar.

21.

Em um círculo, os ângulos no m esm o segm ento são iguais entre si.

Seja o círculo ABCD , e sejam os sob BAD, BED ân­


gulos no mesmo segm ento BAED; digo que os ângulos
sob BAD, BED são iguais entre si.
Fique, pois, tom ado o centro do círculo ABCD, e
seja o F, e fiquem ligadas as BF, FD.
E como, por um lado, o ângulo sob BFD é um junto
ao centro, e, por outro lado, o sob BAD, um sobre a circunferência, e têm
a m esm a circunferência BCD como base, portanto, o ângulo sob BFD é
o dobro do sob BAD. Pelas mesm as coisas, então, o sob BFD tam bém é o
dobro do sob BED; portanto, o sob BAD é igual ao sob BED.
Portanto, em um círculo, os ângulos no mesmo segm ento são iguais
entre si; o que era preciso provar.

22.

D os quadriláteros nos círculos, os ângulos opostos são iguais a dois retos.

Seja o círculo ABCD , e nele esteja o quadrilátero


ABCD ; digo que os ângulos opostos são iguais a dois
retos.
Fiquem ligadas as AC, BD.
Com o, de fato, os três ângulos de todo triân gulo
são iguais a dois retos, portanto, os três ângulos sob
CAB, ABC, BCA do triân gulo ABC são iguais a dois retos. M as, por um
lado, o sob CAB é igual ao sob BD C; pois, estão no mesmo segm ento
BADC; e, por outro lado, o sob ACB, ao sob ADB; pois, estão no mesmo

170
O s elementos

segm ento AD CB; portanto, o sob A D C todo é igual aos sob BAC, ACB.
F ique adicionado o sob ABC com um; portanto, os sob ABC, BAC, ACB
são iguais aos sob ABC, AD C. M as os sob ABC, BAC, ACB são iguais a
dois retos. Portanto, tam bém os sob ABC, AD C são iguais a dois retos. Do
mesm o modo, então, provaremos que tam bém os ângulos sob BAD, DCB
são iguais a dois retos.
Portanto, dos quadriláteros nos círculos, os ângulos opostos são iguais
a dois retos; o que era preciso provar.

23.

Sobre a m esm a reta, dois segm entos sem elhantes e desiguais de círculos não
serão construídos no m esm o lado.

Pois, se possível, fiquem construídos, sobre a m esm a reta AB,


os dois segm entos de círculos sem elhantes e desiguais ACB, ADB,
no m esm o lado, e fique traçada através a ACD, e fiquem ligadas
as CB, DB.
Com o, de fato, o segm ento ACB é sem elhante ao segm ento
ADB, e segm entos sem elhantes de círculos são os que adm item
ângulos iguais, portanto, o ângulo sob ACB é igual ao sob ADB, o exterior,
ao interio r; o que é im possível.
Portanto, sobre a m esm a reta, dois segm entos sem elhantes e desiguais
de círculos não serão construídos no mesm o lado; o que era preciso provar.

24.

O s segm entos sem elhantes de círculos sobre retas iguais são iguais entre si.

E Sejam , pois, os segm entos sem elhantes de círculos


AEB, CFD sobre as retas iguais AB, CD ; digo que o
segm ento AEB é igual ao segm ento CFD.
P ois, sendo a ju sta d o o seg m en to AEB sobre
o CFD e sendo posto, por um lado, o ponto A sobre

1 71
Euclides

o C, e, por outro lado, a reta AB sobre a CD , tam bém o ponto B se ajustará


sobre o ponto D, por ser a AB igual à CD ; mas a AB ajustando-se sobre a
CD , tam bém o segm ento AEB se ajustará sobre o CFD . Pois, se a reta AB
se ajustar sobre a CD , mas o segm ento AEB não se ajustar sobre o CFD,
ou cairá no in terio r dele ou no exterior ou se afastará como o CG D , e um
círculo corta um círculo em m ais pontos do que dois; o que é im possível.
Portanto, não é o caso de, sendo ajustada a reta AB sobre a CD , não se
ajustar tam bém o segm ento AEB sobre o CFD ; portanto, ajustar-se-á, e
será igual a ele.
Portanto, os segm entos sem elhantes de círculos sobre retas iguais são
iguais entre si; o que era preciso provar.

25.

Tendo sido dado u m segm ento de um círculo, descrever com pletam ente o
círculo do qual é u m segmento.

Seja o segm ento dado ABC de um círculo; é preciso,


então, descrever com pletam ente o círculo do segm ento ABC
do qual é um segm ento.
Fique, pois, cortada a AC em duas no D, e fique traçada,
a p artir do ponto D, a DB em ângulos retos com a AC, e
fique ligada a AB; portanto, o ângulo sob ABD ou é m aior
do que o sob BAD ou igual ou menor.
Seja, prim eiram ente, m aior e fique construído, sobre a reta BA e no ponto
A sobre ela, o sob BAE igual ao ângulo sob ABD, e fique traçada através a
DB até o E, e fique ligada a EC. Com o, de fato, o ângulo sob ABE é igual
ao sob BAE, portanto, tam bém a reta EB é igual à EA. E, como a AD é
igual à D C, e a DE é com um, então as duas AD, DE são iguais às duas CD,
DE, cada um a a cada um a; e o ângulo sob ADE é igual ao ângulo sob CDE;
pois, cada um é reto; portanto, a base AE é igual à base CE. M as a AE foi
provada igual à BE. Portanto, tam bém a BE é igual à CE; portanto, as três
AE, EB, EC são iguais entre si; portanto, o círculo descrito com o centro E
e distância um a das AE, EB, EC passará também pelos pontos restantes e es-

íyz
O s elementos

tará descrito com pletam ente. Portanto, o círculo


de um segm ento dado de um círculo foi descrito
com pletam ente. E é claro que o segm ento ABC é
m enor do que um sem icírculo pelo encontrar-se
o centro E no exterior dele.
[E] do mesm o modo, se o ângulo sob ABD seja igual ao sob BAD, a AD
tornando-se igual a cada um a das BD, D C, as três DA, DB, DC serão iguais
entre si, e o D será centro do círculo descrito com pletam ente, e claram ente,
o ABC será um sem icírculo.
M as, caso o sob ABD seja m enor do que o sob BAD, e construam os,
sobre a reta BA e no ponto A sobre ela, um igual ao ângulo sob ABD, o
centro cairá no in terio r do segm ento ABC, sobre a DB, e o segm ento ABC
será, claram ente, m aior do que um sem icírculo.
Portanto, o círculo de um segm ento dado de círculo foi descrito com ­
pletam ente; o que era preciso fazer.

26.

Nos círculos iguais, os ângulos iguais situ am -se sobre circunferências


iguais, tanto caso estejam situados ju n to aos centros quanto caso, sobre as
circunferências.

Sejam os círculos iguais ABC, DEF


e, neles, sejam os ângulos iguais, por
um lado, os sob BG C, E H F ju n to
aos centros, e, por outro lado, os sob
BAC, EDF sobre as circunferências;
digo que a circunferência BKC é igual
à circunferência ELF.
Fiquem , pois, ligadas as BC, EF.
E, como os círculos ABC, DEF são iguais, os raios são iguais; então, as
duas BG, GC são iguais às duas EH, HF; e o ângulo junto ao G é igual ao
junto ao H ; portanto, a base BC é igual à base EF. E, como o ângulo junto
ao A é igual ao junto ao D, portanto, o segm ento BAC é sem elhante ao

173
Euclides

segm ento EDF; e estão sobre retas iguais [as BC, E F ]; mas os segm entos
sem elhantes de círculos sobre retas iguais são iguais entre si; portanto,
o segm ento BAC é igual ao EDF. M as tam bém o círculo ABC todo é igual
ao círculo DEF todo; portanto, a circunferência restante BKC é igual à
circunferência ELF.
Portanto, nos círculos iguais, os ângulos iguais situam -se sobre circun ­
ferências iguais, tanto caso estejam situados junto aos centros quanto caso,
sobre as circunferências; o que era preciso provar.

27.

Nos círculos iguais, os ângulos situados sobre circunferências iguais são


iguais entre si, tanto caso estejam situados ju n to aos centros quanto caso,
sobre as circunferências.

Pois, nos círculos iguais ABC, DEF,


sobre as circunferências iguais BC, EF,
fiquem situados, por um lado, os ângu­
los sob BGC, EH F junto aos centros G,
H , e, por outro lado, os sob BAC, EDF
sobre as circunferências; digo que, por
um lado, o ângulo sob BGC é igual ao sob EHF, e, por outro lado, o sob
BAC é igual ao sob EDF.
Pois, se o sob BGC é desigual ao sob EHF, um deles é maior. Seja
m aior o sob BGC, e fique construído, sobre a reta BG e no ponto G sobre
ela, o sob BGK igual ao ângulo sob EHF; mas os ângulos iguais situam -se
sobre circunferências iguais, quando sejam jun to aos centros; p o rtan ­
to, a circunferência BK é igual à circunferência EF. M as a EF é igual à
BC; portanto, tam bém a BK é igual à BC, a menor, à m aior; o que é im possí­
vel. Portanto, o ângulo sob BGC não é desigual ao sob EHF; portanto, é
igual. E, por um lado, o junto ao A é m etade do sob BGC, e, por outro lado,
o junto ao D é m etade do sob EHF; portanto, tam bém o ângulo junto ao
A é igual ao junto ao D.

174
O s elementos

Portanto, nos círculos iguais, os ângulos situados sobre circunferências


iguais são iguais entre si, tanto caso estejam situados junto aos centros
quanto caso, sobre as circunferências; o que era preciso provar.

28 .

Nos círculos iguais, as retas iguais cortam circunferências iguais, p o r um


lado, a maior, à maior, e, p o r outro lado, a menor, à menor.

Sejam os círcu lo s ig u a is ABC,


F DEF, e, neles, sejam as retas iguais
L \ AB, DE cortando, por um lado, as
circunferências m aiores ACB, DFE,
e, por outro lado, as menores AGB,
D H E; digo que, por um lado, a cir­
cunferência m aior ACB é igual à circunferência m aior DFE, e, por outro
lado, a circunferência m enor AGB, à DHE.
Fiquem , pois, tom ados os centros K, L dos círculos, e fiquem ligadas
as AK, KB, DL, LE.
E, como os círculos são iguais, tam bém os raios são iguais; então, as
duas AK, KB são iguais às duas DL, LE; e a base AB é igual à base DE;
portanto, o ângulo sob AKB é igual ao ângulo sob DLE. M as os ângulos
iguais situam -se sobre circunferências iguais, quando sejam junto aos cen­
tros; portanto, a circunferência AGB é igual à DHE. M as tam bém o círculo
ABC todo é igual ao círculo DEF todo; portanto, tam bém a circunferência
restante ACB é igual à circunferência restante DFE.
Portanto, nos círculos iguais, as retas iguais cortam circunferências
iguais, por um lado, a maior, à maior, e, por outro lado, a menor, à menor;
o que era preciso provar.

l 15
Euclides

29.

Nos círculos iguais, retas iguais subtendem circunferências iguais.

Sejam os círcu lo s ig u a is ABC,


DEF e, neles, fiquem co rtadas as
circunferências BGC, EH F iguais, e
fiquem ligadas as retas BC, EF; digo
que a BC é igual à EF.
Fiquem , pois, tom ados os centros dos círculos, e sejam os K, L, e fiquem
ligadas as BK, KC, EL, LF.
E, como a circunferência BGC é igual à circunferência EHF, tam bém
o ângulo sob BKC é igual ao sob ELF. E, como os círculos ABC, DEF são
iguais, tam bém os raios são iguais; então, as duas EK, KC são iguais às duas
EL, LF; e contêm ângulos iguais; portanto, a base BC é igual à base EF.
Portanto, nos círculos iguais, retas iguais subtendem circunferências
iguais; o que era preciso provar.

30.

C ortar a circu nferên cia dada em duas.

Seja a circunferência dada ADB; é preciso,


então, cortar a circunferência ADB em duas.
Fique ligada a AB, e fique cortada em duas
no C, e, a p artir do ponto C, fique traçada a CD
em ângulos retos com a AB, e fiquem ligadas
as AD, DB.
E, como a AC é igual à CB, e a CD é com um, então, as duas AC, CD são
iguais às duas BC, CD ; e o ângulo sob ACD é igual ao ângulo sob BCD;
pois, cada um é reto; portanto, a base AD é igual à base DB. M as as retas
iguais cortam circunferências iguais, por um lado, a maior, à maior, e, por
outro lado, a menor, à m enor; e cada um a das circunferências AD, DB é

176
O s elementos

m enor do que um sem icírculo; portanto, a circunferência AD é igual à


circunferência DB.
Portanto, a circunferência dada foi cortada em duas no ponto D; o que
era preciso fazer.

31.

Em um círculo, p o r u m lado, o ângulo no sem icírculo é reto, e, p o r


outro lado, o no segm ento m a io r é m en o r do que u m reto, enquanto o no
segm ento m en o r é m a io r do que um reto; e, ainda, p o r u m lado, o ângulo
do segm ento m a io r é m a io r do que u m reto, e, p o r outro lado, o ângulo do
segm ento m en o r é m en o r do que um reto.

Seja o círculo ABCD , e sejam a BC um diâm etro


C dele e o E centro, e fiquem ligadas as BA, AC, AD,
F D C; digo que, por um lado, o ângulo sob BAC no se-
\ ÍX _ / E j m icírculo BAC é reto, e, por outro lado, o ângulo sob
V\ J ABC, no segm ento ABC m aior do que o sem icírculo, é
xv/ m enor do que um reto, enquanto o ângulo sob AD C,
® no segm ento AD C m enor do que o sem icírculo, é
m aior do que um reto.
Fique ligad a a AE, e fique traçada através a BA até o F.
E, como a BE é igual à EA, tam bém o ângulo sob ABE é igual ao sob
BAE. De novo, como a CE é igual à EA, tam bém o sob ACE é igual ao
sob CAE; portanto, o sob BAC todo é igual aos dois sob ABC, ACB. M as
tam bém o sob FAC, exterior do triân gu lo ABC, é igual aos dois sob ABC,
ACB; portanto, tam bém o ângulo sob BAC é igual ao sob FAC; portanto,
cada um é reto; portanto, o ângulo sob BAC no sem icírculo BAC é reto.
E, como os dois ângulos sob ABC, BAC do triângulo ABC são menores do
que dois retos, e o sob BAC é reto, portanto, o ângulo sob ABC é menor
do que um reto; e está no segmento ABC, maior do que o semicírculo.
E, como o ABCD é um quadrilátero em um círculo, e os ângulos opostos
dos quadriláteros nos círculos são iguais a dois retos [portanto, os ângulos
sob ABC, A D C são iguais a dois reto s], e o sob ABC é m enor do que um

1U
Euclides

reto; portanto, o ângulo sob A D C restante é m aior do que um reto; e é no


segm ento AD C, m enor do que o sem icírculo.
D igo que tam bém , por um lado, o ângulo do segm ento maior, o contido
tanto pela circunferência ABC quanto pela reta AC é m aior do que um reto,
e, por outro lado, o ângulo do segm ento menor, o contido tanto pela cir­
cunferência A D [C ] quanto pela reta AC é m enor do que um reto. E é,
obviam ente, evidente. Pois, como o pelas retas BA, AC é reto, portanto, o
contido pela circunferência ABC e pela reta AC é m aior do que um reto.
De novo, como o pelas retas AC, AF é reto, p ortanto, o contido pela
reta CA e pela circunferência A D [C ] é m enor do que um reto.
Portanto, em um círculo, por um lado, o ângulo no sem icírculo é reto, e,
por outro lado, o no segmento maior é menor do que um reto, enquanto o no
[segm ento] m enor é m aior do que um reto, e ainda, por um lado, o [ângulo]
do segm ento m aior [é] m aior do que um reto, e, por outro lado, o [ân gu­
lo] do segm ento m enor é m enor do que um reto; o que era preciso provar.

[C o r o l á r io

D isso, então, é evidente que, caso um ângulo de um triân gulo seja igual
aos dois, o ângulo é reto, por ser tam bém aquele exterior igual a eles; e,
caso os adjacentes sejam iguais, são retos.]

32.

Caso u m a reta seja tangente a u m círculo, e, a p a r tir da ju n çã o seja


traçada algum a reta através no círculo, cortando o círculo, aqueles ângulos
que f a z com a tangente serão iguais aos ângulos nos segm entos alternos do
círculo.

Seja, pois, algum a reta, a EF, tangen te ao


círculo ABCD no ponto B, e, a p artir do ponto
B, fique traçada algum a reta, a BD, através no
círculo ABCD , cortando-o. D igo que aqueles
ângulos que a BD faz com a tangente EF serão
igu ais aos ângulos nos segm entos alternos

178
O s elementos

do círculo, isto é, que, por um lado, o ângulo sob FBD é igual ao ângulo
construído no segm ento BAD, e, por outro lado, o ângulo sob EBD é igual
ao ângulo construído no segm ento DCB.
Fique, pois, traçada, a p artir do B, a BA em ângulos retos com a EF, e
fique tom ado sobre a circunferência BD o ponto C, encontrado ao acaso,
e fiquem ligadas as AD, D C, CB.
E algum a reta, a EF, é tangen te ao círculo ABCD no B, e, a p artir da
junção, foi traçada a BA em ângulos retos com a tangente, portanto, o
centro do círculo ABCD está sobre a BA. Portanto, a BA é diâm etro do
círculo A BCD ; portanto, o ângulo sob ADB, sendo no sem icírculo, é reto.
Portanto, os sob BAD, ABD restantes são iguais a um reto. M as tam bém
o sob ABF é reto; portanto, o sob ABF é igual aos sob BAD, ABD. Fique
subtraído o sob ABD com um; portanto, o ângulo sob DBF restante é igual
ao ângulo no segm ento alterno do círculo, o sob BAD. E, como o ABCD é
um quadrilátero em um círculo, os ângulos opostos dele são iguais a dois
retos. M as tam bém os sob DBF, DBE são iguais a dois retos; portanto, os
sob DBF, DBE são iguais aos sob BAD, BCD, dos quais o sob BAD foi
provado igual ao sob DBF; portanto, o sob DBE restante é igual ao ângulo
sob DCB no segm ento alterno DCB do círculo.
Portanto, caso algum a reta seja tangente a um círculo, e, a p artir da ju n ­
ção, seja traçada algum a reta através no círculo, cortando o círculo, aqueles
ângulos que faz com a tangente serão iguais aos ângulos nos segm entos
alternos do círculo; o que era preciso provar.

33.

Sobre a reta dada, descrever um segm ento de círculo adm itindo u m ângulo
igual ao ângulo retilíneo dado.

Sejam a reta dada AB, e o ângulo retilíneo dado o junto ao C; é preciso,


então, sobre a reta dada AB, descrever um segm ento de círculo adm itindo
um ângulo igual ao junto ao C.
Então, o [ângulo] junto ao C é ou agudo ou reto ou obtuso. Seja, p rim ei­
ram ente, agudo, e, como na p rim eira figura, fique construído, sobre a reta

í 79
Euclides

AB e no ponto A sobre ela, o sob BAD igual ao ângulo


junto ao C; portanto, também o sob BAD é agudo. Fique
A
traçada a AE em ângulos retos com a DA, e fique cortada
a AB em duas no F, e fique traçada, a partir do ponto F, a
FG em ângulos retos com a AB, e fique ligada a GB.
E, como a AF é igual à FB, e a FG é comum, então,
as duas AF, FG são iguais às duas BF, FG; e o ângulo
sob AFG é igual ao [ân gulo] sob BFG; portanto, a base
AG é igual à base BG. Portanto, o círculo descrito, por um lado, com o
centro G, e, por outro lado, com a d istân cia GA, passará tam bém pelo B.
Fique descrito, e seja o ABE, e fique ligada a EB. Com o, de fato, a p artir
da extrem idade A do diâm etro AE, a AD é em ângulos retos com a AE,
portanto, a AD é tangente ao círculo ABE; como, de fato, algum a reta, a
AD, é tangente ao círculo ABE, e, a p artir da junção A, foi traçada algum a
reta, a AB, através no círculo ABE, portanto, o ângulo sob DAB é igual ao
ângulo sob AEB no segm ento alterno do círculo. M as o sob DAB é igual
ao junto ao C; portanto, tam bém o junto ao C é igual ao sob AEB.
Portanto, sobre a reta dada AB, foi descrito o segm ento de círculo AEB,
adm itindo o ângulo sob AEB igual ao junto ao C dado.
M as, seja então o junto ao C reto; e seja preciso, de
novo, descrever sobre a AB um segm ento de círculo
adm itindo um ângulo igual ao [ân gulo] reto junto
ao C. [De novo] fique construído o sob BAD igual ao
ângulo reto junto ao C, como se tem na segunda
figura, e fique cortada a AB em duas no F, e com o
centro F e com distância qualquer um a das FA, FB,
fique descrito o círculo AEB.
Portanto, a reta AD é tangente ao círculo ABE, por B
ser reto o ângulo junto ao A. E o ângulo sob BAD é
igual ao no segm ento AEB; pois, tam bém ele, estando em um sem icírculo,
é reto. M as tam bém o sob BAD é igual ao junto ao C. Portanto, tam bém o
no AEB é igual ao junto ao C.
Portanto, foi descrito, de novo, sobre a AB, o segm ento AEB de círculo,
adm itindo um ângulo igual ao junto ao C.

18 0
O s elementos

M as, então, seja o junto ao C obtuso; e fique construído, sobre a reta


AB e no ponto A, o sob BAD igual a ele, como se tem na terceira figura, e
fique traçada a AE em ângulos retos com a AD, e fique, de novo, cortada a
AB em duas no F, e fique traçada a FG em ângulos retos com a AB, e fique
ligada a GB.
E como, de novo, a AF é igual à FB, e a FG é
_ comum, então, as duas AF, FG são iguais às duas
BF, FG; e o ângulo sob AFG é igual ao ângulo sob
BFG; portanto, a base AG é igual à base BG; por­
tanto, o círculo descrito, por um lado, com o centro
G, e, por outro lado, com a d istân cia GA, passará
tam bém pelo B. Passe como o AEB. E, como a AD
é em ângulos retos com o diâm etro AE, a p artir de
um a extrem idade, portanto, a AD é tangente ao círculo AEB. E a AB foi
traçada através, a p artir da junção no A; portanto, o ângulo sob BAD é igual
ao ângulo construído no segm ento alterno AH B do círculo. M as o ângulo
sob BAD é igual ao junto ao C. Portanto, tam bém o ângulo no segm ento
AH B é igual ao junto ao C.
Portanto, sobre a reta dada AB, foi descrito o segm ento de círculo AHB,
adm itindo um ângulo igual ao junto ao C; o que era preciso fazer.

34.

Do círcu lo dado, separar u m segm ento adm itindo u m ângulo igual ao


ângulo retilíneo dado.

Sejam o círculo dado ABC, e o ângulo


retilíneo dado o junto ao D; é preciso, então,
separar do círculo ABC um segm ento adm i­
tindo um ângulo igual ao ângulo retilíneo
junto ao D dado.
■ Fique traçada a tangente
ABC no ponto B, e fique construído sobre
a reta FB e no ponto B sobre ela, o sob FBC igual ao ângulo junto ao D.

í8 í
Euclides

Com o, de fato, algum a reta, a EF, é tangente ao círculo ABC, e, a p artir


da junção no B, foi traçada através a BC, portanto, o ângulo sob FBC é
igual ao ângulo construído no segm ento alterno BAC. M as o sob FBC
é igual ao junto ao D; portanto, tam bém o no segm ento BAC é igual ao
[ân gulo ] junto ao D.
Portanto, do círculo dado ABC foi separado o segm ento BAC, adm i­
tindo um ângulo igual ao ângulo retilíneo dado, o junto ao D; o que era
preciso fazer.

35.

Caso, em um círculo, duas retas se cortem, o retângulo contido pelos


segm entos de u m a é igual ao retângulo contido pelos segm entos da outra.

Cortem -se, pois, no círculo ABCD, as duas retas AC,


BD no ponto E; digo que o retângulo contido pelas AE,
EC é igual ao retângulo contido pelas DE, EB.
Se, por um lado, de fato, as AC, BD são pelo centro,
de m odo a o E ser centro do círculo ABCD, é evidente
que, sendo iguais as AE, EC, DE, EB, tam bém o retângulo contido pelas
AE, EC é igual ao retângulo contido pelas DE, EB.
N ão sejam , então, as AC, BD pelo centro, e fique tom ado o centro do
ABCD , e seja o F, e, a p artir do F, fiquem traçadas as FG, FH perpendicu­
lares às retas AC, DB, e fiquem ligadas as FB, FC, FE.
E, como algum a reta pelo centro, a GF, corta algum a
reta não pelo centro, a AC, em ângulos retos, tam bém
a corta em duas; portanto, a AG é igual à G C. Como,
de fato, a reta AC foi cortada, por um lado, em iguais
no G, e, por outro lado, em desiguais no E, portanto, o
retângulo contido pelas AE, EC, com o quadrado sobre
a EG, é igual ao sobre a G C; fique adicionado o sobre a GF [co m um ];
portanto, o pelas AE, EC, com os sobre as GE, GF, é igual aos sobre as
CG , GF. M as, por um lado, o sobre a FE é igual aos sobre as EG, GF, e,
por outro lado, o sobre a FC é igual aos sobre as CG , GF; portanto, o pelas

18 2
O s elementos

AE, EC, com o sobre a FE, é igual ao sobre a FC. M as a FC é igual à FB;
portanto, o pelas AE, EC, com o sobre a EF, é igual ao sobre a FB. Pelas
mesmas coisas, então, tam bém o pelas DE, EB, com o sobre a FE, é igual
ao sobre a FB. M as foi provado tam bém o pelas AE, EC, com o sobre a FE,
igual ao sobre a FB; portanto, o pelas AE, EC, com o sobre a FE, é igual
ao pelas DE, EB, com o sobre a FE. Fique subtraído o sobre a FE comum;
portanto, o retângulo contido pelas AE, EC restante é igual ao retângulo
contido pelas DE, EB.
Portanto, caso, em um círculo, duas retas se cortem , o retângulo contido
pelos segm entos de um a é igual ao retângulo contido pelos segm entos da
outra; o que era preciso provar.

36.

Caso seja tomado algum pon to exterior a um círculo, e, a p a r tir dele,


duas retas caia m sobre o círculo, e u m a delas corte o círculo, e a outra seja
tangente, o pela que corta toda e pela cortada exteriorm ente entre tanto
o pon to quanto a circu n ferên cia convexa será igual ao quadrado sobre a
tangente.

A Fique, pois, tom ado algum ponto, o D, exterior ao


círculo ABC, e, a p artir do D, as duas retas D C [A ], DB
caiam sobre o círculo ABC; e, uma, a DCA corte o círculo
ABC, e a outra, a BD, seja tangente; digo que o retângulo
contido pelas AD, D C é igual ao quadrado sobre a DB.
Portanto, a [D ]C A ou é pelo centro ou não. Seja,
prim eiram ente, pelo centro, e seja o F centro do círculo
ABC, e fique ligad a a FB; portanto, o sob FBD é reto. E, como a reta AC
foi cortada em duas no F, e a CD foi adicionada a ela, portanto, o pelas
AD, D C, com o sobre a FC, é igual ao sobre a FD. M as a FC é igual à FB;
portanto, o pelas AD, D C, com o sobre a FB, é igual ao sobre a FD. M as
os sobre as FB, BD são iguais ao sobre a FD; portanto, o pelas AD, DC,
com o sobre a FB, é igual aos sobre as FB, BD. Fique subtraído o sobre a FB
com um; portanto, o pelas AD, D C restante é igual ao sobre a tangente DB.

í83
Euclides

M as, então, a DCA não seja pelo centro do


círculo ABC, e fique tom ado o centro E, e, a
p artir do E, fique traçada a perpendicular EF à
AC, e fiquem ligadas as EB, EC, ED; portanto,
o sob EBD é reto. E, como algum a reta pelo D
centro, a EF, corta algum a reta não pelo centro,
a AC, em ângulos retos, tam bém a corta em duas; portanto, a AF é igual à
FC. E, como a reta AC foi cortada em duas no ponto F, e foi adicionada a ela
a CD , portanto, o pelas AD, D C, com o sobre a FC, é igual ao sobre a FD.
F ique adicionado o sobre a FE com um; portanto, o pelas AD, D C, com os
sobre as CF, FE, é igual aos sobre as FD, FE. M as o sobre a EC é igual
aos sobre as CF, FE; pois, o [ân gulo] sob EFC [é] reto; e o sobre a ED
é igual aos sobre as DF, FE; portanto, o pelas AD, D C, com o sobre a
EC, é igual ao sobre a ED. M as a EC é igual à EB; portanto, o pelas AD, DC,
com o sobre a EB é igual ao sobre a ED. E os sobre as EB, BD são iguais
ao sobre a ED; pois o ângulo sob EBD é reto; portanto, o pelas AD, DC
restante, com o sobre a EB, é igual aos sobre as EB, BD. Fique subtraído o
sobre a EB com um; portanto, o pelas AD, D C é igual ao sobre a DB.
Portanto, caso seja tom ado algum ponto exterior a um círculo, e, a par­
tir dele, duas retas caiam sobre o círculo, e um a delas corte o círculo, e a
o utra seja tangente, o retângulo contido pela que corta toda e pela cortada
exteriorm ente entre tanto o ponto quanto a circunferência convexa será
igual ao quadrado sobre a tangente; o que era preciso provar.

37.

C aso seja tomado algu m pon to exterior a u m círculo, e, a p a rtir do ponto,


duas retas caiam sobre o círculo, e u m a delas corte o círculo, e a outra caia
sobre, e o pela que corta toda e pela que é cortada exteriorm ente entre tanto
o pon to quanto a circun ferên cia convexa seja igual ao sobre a que cai sobre,
a que cai sobre será tangente ao círculo.

Fique, pois, tom ado algum ponto, o D, exterior ao círculo ABC, e, a


p artir do D, as duas retas DCA, DB caiam sobre o círculo ABC, e uma,

18 4
O s elementos

a DCA corte o círculo, e a outra, a DB, caia sobre, e seja o pelas AD, DC
igual ao sobre a DB. D igo que a DB é tangente ao círculo ABC.
Fique, pois, traçada a tangente DE ao ABC,
e fique tom ado o centro do círculo ABC, e seja
o F, e fiquem ligadas as FE, FB, FD. Portanto, o
sob FED é reto. E, como a DE é tangente ao
círculo ABC, e a DCA corta, portanto, o pelas
AD, DC é igual ao sobre a DE. M as tam bém o
pelas AD, D C era igual ao sobre a DB; portanto, o sobre a DE é igual ao
sobre a DB; portanto, a DE é igual à DB. M as tam bém a FE é igual à FB;
então, as duas DE, EF são iguais às duas DB, BF; e a FD é base comum
deles; portanto, o ângulo sob DEF é igual ao ângulo sob DBF. M as, o sob
DEF é reto; portanto, tam bém o sob DBF é reto. E a FB prolongada é um
diâm etro; mas, a traçada em ângulos retos com o diâm etro, a p artir de um a
extrem idade, é tangen te ao círculo; portanto, a DB é tangente ao círculo
ABC. Do mesmo modo, então, será provado, caso o centro seja encontrado
ao acaso sobre a AC.
Portanto, caso seja tom ado algum ponto exterior a um círculo, e a p artir
do ponto, duas retas caiam sobre o círculo, e um a delas corte o círculo, e a
o utra caia sobre, e o pela que corta toda e pela cortada exteriorm ente entre
tanto o ponto quanto a circunferência convexa seja igual ao sobre a que
cai sobre, a que cai sobre será tangente ao círculo; o que era preciso provar.

18 5
Livro IV

Definições

1. U m a figura retilín ea é dita estar in scrita em um a figura retilínea, quando


cada um dos ângulos da figura in scrita toque cada um dos lados daquela
na qual está inscrita.
2. E, do mesm o modo, um a figura é d ita estar circunscrita a um a figura,
quando cada lado da circunscrita toque cada ângulo daquela à qual está
circunscrita.
3. U m a figura retilín ea é d ita estar in scrita em um círculo, quando cada
ângulo da in scrita toque a circunferência do círculo.
4. E um a figura retilínea é dita estar circunscrita a um círculo, quando cada
lado da circun scrita seja tangente à circunferência do círculo.
5. E um círculo é dito, do mesm o modo, estar inscrito em um a figura,
quando a circunferência do círculo toque cada lado daquela na qual está
inscrito.
6. E um círculo é dito estar circunscrito a um a figura, quando a circunfe­
rência do círculo toque cada ângulo daquela à qual está circunscrito.
7. U m a reta é d ita estar ajustada em um círculo, quando as extrem idades
dela estejam sobre a circunferência do círculo.

í8 y
Euclides

1.

Ajustar, no círculo dado, u m a reta igual à reta dada, que não é m a io r


do que o diâm etro do círculo.

Sejam o círculo dado ABC, e a reta dada D, não


m aior do que o diâm etro do círculo; é preciso, então,
ajustar no círculo ABC um a reta igual à reta D.
Fique traçado o diâm etro BC do círculo ABC. Se, B
por um lado, de fato, a BC é igual à D, seria produzido
o prescrito; pois a BC, igual à reta D, foi ajustada no
círculo ABC. Se, por outro lado, a BC é m aior do que a D, fique posta a
CE igual à D, e, com o centro C e a distância CE, fique descrito o círculo
EAF, e fique ligada a CA.
Com o, de fato, o ponto C é centro do círculo EAF, a CA é igual à CE.
M as a CE é igual à D; portanto, tam bém a D é igual à CA.
Portanto, no círculo dado ABC, foi ajustada a CA igual à reta dada D;
o que era preciso fazer.

2.

No círculo dado, in screver u m triângulo equiângulo com o triângulo dado.

Sejam o círculo dado ABC e o triân gulo


dado DEF; é preciso, então, no círculo ABC
inscrever um triân g u lo equiângulo com o
triân gu lo DEF.
Fique traçada a tangente GH ao círculo
ABC no A, e fiquem construídos, sobre a
reta A H e no ponto A sobre ela, o sob HAC
igual ao ângulo sob DEF, e sobre a reta AG
e no ponto A sobre ela, o sob GAB igual ao [ân gulo] sob DFE, e fique
ligad a a BC.

18 8
O s elementos

Com o, de fato, algum a reta, a AH , é tangente ao círculo ABC, e, a partir


da junção no A, foi traçada a reta AC através no círculo, portanto, o sob
H AC é igual ao ângulo no segm ento alterno do círculo, o sob ABC. M as
o sob HAC é igual ao sob DEF; portanto, tam bém o ângulo sob ABC é
igual ao sob DEF. Pelas mesm as coisas, então, tam bém o sob ACB é igual
ao sob DFE; portanto, tam bém o sob BAC restante é igual ao sob EDF
restante; [portanto, o triân gu lo ABC é equiângulo com o triân gulo DEF,
e foi inscrito no círculo A B C ].
Portanto, no círculo dado, foi in scrito um triân gulo equiângulo com o
triân gulo dado; o que era preciso fazer.

3.

Ao círculo dado, circu n screver um triângulo equiângulo


com o triângulo dado.

Sejam o círculo dado ABC e o triân gulo


M ^ dado DEF; é preciso, então, ao círculo
ABC, circunscrever um triân gu lo equiân-
^ gulo com o triân gulo DEF.
_ Fique prolongada a EF em cada lado nos
G pontos G, H, e fique tom ado o centro K
do círculo ABC, e fique traçada através, ao
acaso, a reta KB, e fiquem construídos, sobre a reta KB e no ponto K sobre
ela, por um lado, o sob BKA igual ao ângulo sob DEG, e, por outro lado,
o sob BKC igual ao sob D FH , e, pelos pontos A, B, C, fiquem traçadas as
LAM, M BN , N C L tangentes ao círculo ABC.
E, como as LM , M N , N L são tangentes ao círculo ABC nos pontos A,
B, C, e, a p artir do centro K até os pontos A, B, C, são ligadas as KA, KB,
KC, portanto, os ângulos junto aos pontos A, B, C são retos. E, como os
quatro ângulos do quadrilátero AMBK são iguais a quatro retos, visto que
tam bém o AMBK é dividido em dois triân gulo s, e os ângulos sob KAM,
KBM são retos, portanto, os sob AKB, AM B restantes são iguais a dois
retos. M as tam bém os sob DEG, DEF são iguais a dois retos; portanto, os

18 9
Euclides

sob AKB, AM B são iguais aos sob DEG, DEF, dos quais o sob AKB é igual
ao sob DEG; portanto, o sob AM B restante é igual ao sob DEF restante.
Do mesm o modo, então, será provado que o sob LNB é igual ao sob DFE;
portanto, tam bém o sob M L N restante é igual ao sob EDF [restan te].
Portanto, o triân gulo L M N é equiângulo com o triân gu lo DEF; e foi cir­
cunscrito ao círculo ABC.
Portanto, ao círculo dado, foi circunscrito um triângulo equiângulo com
o triân gulo dado; o que era preciso fazer.

4.

In screver u m círculo no triângulo dado.

Seja o triân gulo dado ABC; é preciso, então, in s­


crever um círculo no triân gulo ABC.
Fiquem cortados os ângulos ABC, ACB em dois
pelas retas BD, CD , e encontrem -se no ponto D,
e fiquem traçadas, a p artir do D, as DE, DF, DG
perpendiculares às AB, BC, CA.
E, como o ângulo sob ABD é igual ao sob CBD, e tam bém o sob BED,
reto, é igual ao sob BFD, reto, então, os EBD, FBD são dois triângulos,
tendo os dois ângulos iguais aos dois ângulos e um lado igual a um lado, o
que se estende sob um dos ângulos iguais, com um deles, o BD; portanto,
tam bém terão os lados restantes iguais aos lados restantes; portanto, a
DE é igual à DF. Pelas mesm as coisas, então, tam bém a DG é igual à DF.
Portanto, as três retas DE, DF, DG são iguais entre si; portanto, o círculo
descrito, com o centro D, e distância um a das E, F, G, passará tam bém pelos
pontos restantes e será tangente às retas AB, BC, CA, por serem retos os
ângulos junto aos pontos E, F, G. Pois, se corta-as, a traçada, a p artir de
um a extrem idade, em ângulos retos com o diâm etro do círculo, cairá no
in terio r do círculo; o que foi provado absurdo; portanto, o círculo descrito,
com o centro D e distância um a das E, F, G, não corta as retas AB, BC, CA;
portanto, será tangen te a elas, e o círculo estará inscrito no triân gulo ABC.
Fique inscrito como o FGE.

íg a
O s elementos

Portanto, foi in scrito o círculo EFG no triân gu lo dado ABC; o que era
preciso fazer.

5.

C ircu n screv er u m círculo ao triângulo dado.

S e ja o tr iâ n g u lo dado A B C ; é
preciso, [e n tã o ], circunscrever um
círculo ao triân gu lo dado ABC.
Fiquem cortadas as retas AB, AC
em duas nos pontos D, E, e, a p artir
dos pontos D, E, fiquem traçadas as
DF, EF em ângulos retos com as AB,
A C ; en co n trar-se-ão , então, ou no
in terio r do triân gu lo ABC ou sobre a
reta BC ou no exterior da BC.
Encontrem -se, prim eiram ente, no interior, no F, e fiquem ligadas as FB,
FC, FA. E, como a AD é igual à DB, mas tam bém a DF, em ângulos retos,
é com um, portanto, a base AF é igual à base FB. Do mesm o modo, então,
provaremos que também a CF é igual à AF; desse modo, também a FB é igual
à FC ; portanto, as três FA, FB, FC são iguais entre si. Portanto, o círculo
descrito, com o centro F e distân cia um a das A, B, C, passará tam bém pelos
pontos restantes, e o círculo estará circunscrito ao triân gu lo ABC. Fique
circunscrito como o ABC.
M as, então, encontrem -se as DF, EF sobre a reta BC no F, como se tem
na segunda figura, e fique ligada a AF. Do mesm o modo, então, provaremos
que o ponto F é centro do círculo circunscrito ao triân gu lo ABC.
M as, então, encontrem -se as DF, EF no exterior do triân g u lo ABC
no F, de novo, como se tem na terceira figura, e fiquem ligadas as AF, BF,
CF. E, como, de novo, a AD é igual à DB, mas tam bém a DF, em ângulos
retos, é comum, portanto, a base AF é igual à base BF. Do mesmo modo,
então, provaremos que tam bém a CF é igual à AF; desse modo, tam bém a
BF é igual à FC ; portanto, [de novo], o círculo descrito, com o centro F

1 91
Euclides

e distância um a das FA, FB, FC, passará tam bém pelos pontos restantes, e
estará circunscrito ao triân gulo ABC.
Portanto, um círculo foi circunscrito ao triân gulo dado; o que era pre­
ciso fazer.

[C o r o l á r io ]

E, é evidente que, por um lado, quando o centro do círculo cai no interior


do triângulo, o ângulo sob BAC, que se encontra em um segmento m aior do
que o sem icírculo, é menor do que um reto; por outro lado, quando o centro
cai sobre a reta BC, o ângulo sob BAC, que se encontra em um sem icírculo
é reto; enquanto, quando o centro do círculo cai no exterior do triângulo,
o sob BAC, que se encontra em um segm ento m enor do que o sem icírculo,
é m aior do que um reto. [D esse modo, tam bém , quando o ângulo dado se
encontre m enor do que um reto, as DF, EF cairão no in terio r do triân g u ­
lo, e quando um reto, sobre a BC, mas quando m aior do que um reto, no
exterior da BC; o que era preciso fazer.]

6.

In screv er u m quadrado no círculo dado.

Seja o círculo dado ABCD ; é preciso, então, inscrever


um quadrado no círculo ABCD.
Fiquem traçados os dois diâm etros AC, BD do cír­
culo, em ângulos retos entre si, e fiquem ligadas as AB,
BC, CD , DA.
E, como a BE é igual à ED; pois, o E é centro; e a EA
é com um e tam bém em ângulos retos, portanto, a base
AB é igual à base AD. Pelas mesm as coisas, então, tam bém cada um a das
BC, CD é igual a cada um a das AB, AD; portanto, o quadrilátero ABCD
é equilátero. D igo, então, que tam bém é retangular. Pois, como a reta BD é
diâm etro do círculo ABCD , portanto, o BAD é um sem icírculo; portanto,
o ângulo sob BAD é reto. Pelas mesm as coisas, então, tam bém cada um dos
sob ABC, BCD , CDA é reto; portanto, o quadrilátero ABCD é retangular.

19 2
O s elementos

M as foi tam bém provado equilátero; portanto, é um quadrado. E foi in s­


crito no círculo ABCD.
Portanto, foi inscrito o quadrado ABCD no circulo dado; o que era
preciso fazer.

7.

C ircu n screver u m quadrado ao círculo dado.

G A F Seja o círculo dado ABCD ; é preciso, então, circuns­


crever um quadrado ao círculo ABCD.
Fiquem traçados os diâm etros AC, BD do círculo
ABCD em ângulos retos entre si, e, pelos pontos A,
B, C, D, fiquem traçadas as FG, GH, HK, KF, que são
tangentes ao círculo ABCD.
Com o, de fato, a FG é tangente ao círculo ABCD , e, a p artir do centro
E até a junção no A foi ligada a EA, portanto, os ângulos junto ao A são
retos. Pelas mesm as coisas, então, os ângulos junto aos pontos B, C, D
tam bém são retos. E, como o ângulo sob AEB é reto, mas tam bém o sob
EBG é reto, portanto, a GH é paralela à AC. Pelas mesmas coisas, então,
tam bém a AC é paralela à FK. D esse modo, tam bém a GH é paralela à FK.
Do mesm o modo, então, provaremos que tam bém cada um a das GF, HK
é paralela à BED. Portanto, os GK, GC, AK, FB, BK são paralelogram os;
portanto, por um lado, a GF é igual à HK, e, por outro lado, a GH, à FK. E,
como a AC é igual à BD, mas tam bém , por um lado, a AC é igual a cada um a
das GH, FK, e, por outro lado, a BD, a cada um a das GF, HK [portanto,
também cada um a das GH, FK é igual a cada um a das GF, H K ], portanto, o
quadrilátero FG HK é equilátero. D igo, então, que tam bém é retangular.
Pois, como o GBEA é um paralelogram o, o sob AEB é reto, portanto, tam ­
bém o sob AGB é reto. Do mesmo modo, então, provaremos que tam bém
os ângulos junto aos H, K, F são retos.
Portanto, o FG HK é retangular. E foi provado tam bém equilátero; por­
tanto, é um quadrado. E foi circunscrito ao círculo ABCD.
Portanto, foi circunscrito um quadrado ao círculo dado; o que era pre­
ciso fazer.

í 93
Euclides

8.

In screv er u m círculo no quadrado dado.

Seja o quadrado dado ABCD ; é preciso, então, in s­


crever um círculo no quadrado ABCD.
Fique cortada cada um a das AD, AB em duas nos
pontos E, F, e, por um lado, pelo E, fique traçada a EH
paralela a qualquer um a das AB, CD , e, por outro lado,
pelo F, fique traçada a FK paralela a qualquer um a das
AD, BC; portanto, cada um dos AK, KB, AH , H D , AG,
G C, BG, GD é um paralelogram o, e os lados opostos deles [são ], clara­
m ente, iguais. E, como a AD é igual à AB, e, por um lado, a AE é m etade
da AD, e, por outro lado, a AF é m etade da AB, portanto, tam bém a AE
é igual à AF; desse modo, tam bém os opostos; portanto, tam bém a FG é
igual à GE. Do mesmo modo, então, provaremos que tam bém cada um a das
GH, GK é igual a cada um a das FG, GE; portanto, as quatro GE, GF, GH,
GK [são] iguais entre si. Portanto, o círculo descrito, por um lado, com
o centro G, e, por outro lado, com distância um a das E, F, H, K, passará
tam bém pelos pontos restantes; e será tangente às retas AB, BC, CD , DA,
por serem retos os ângulos junto aos E, F, H, K; pois, se o círculo corta as
AB, BC, CD , DA, a traçada, a p artir de um a extrem idade, em ângulos retos
com o diâm etro do círculo, cairá no in terio r do círculo; o que foi provado
absurdo. Portanto, o círculo descrito, com o centro G e com d istân cia um a
das E, F, H, K, não corta as retas AB, BC, CD , DA. Portanto, será tangente
a elas e estará in scrito no quadrado ABCD.
Portanto, foi in scrito um círculo no quadrado dado; o que era preciso
fazer.

194
O s elementos

9.

C ircu n screver u m círculo ao quadrado dado.

A Seja o quadrado dado ABCD ; é preciso, então, cir­


cunscrever um círculo ao quadrado ABCD.
Tendo, pois, sido ligadas as AC, BD, cortam -se entre
si no E.
E, como a DA é igual à AB, e a AC é comum, então,
as duas DA, AC são iguais às duas BA, AC; e a base DC
é igual à base BC; portanto, o ângulo sob DAC é igual ao ângulo sob BAC;
portanto, o ângulo sob DAB foi cortado em dois pela AC. Do mesmo
modo, então, provaremos que tam bém cada um dos sob ABC, BCD, CDA
foi cortado em dois pelas retas AC, DB. E, como o ângulo sob DAB é igual
ao sob ABC, e, por um lado, o sob EAB é m etade do sob DAB, e, por outro
lado, o sob EBA é m etade do sob ABC, portanto, tam bém o sob EAB é
igual ao sob EBA; desse modo, tam bém o lado EA é igual ao EB. Do mesmo
modo, então, provaremos que cada um a das [retas] EA, EB é igual a cada
um a das EC, ED. Portanto, as quatro EA, EB, EC, ED são iguais entre si.
Portanto, o círculo descrito, com o centro E e com distância um a das A,
B, C, D, passará tam bém pelos pontos restantes e estará circunscrito ao
quadrado ABCD . Fique circunscrito como o ABCD.
Portanto, foi circunscrito um círculo ao quadrado dado; o que era pre­
ciso fazer.

10.

C on stru ir u m triângulo isósceles, tendo cada um dos ângulos junto


à base o dobro do restante.

F ique posta algum a reta, a AB, e fique cortada no


ponto C, de modo a ser o retângulo contido pelas AB,
BC igual ao quadrado sobre a AC; e, com o centro A e
a d istân cia AB, fique descrito o círculo BDE, e fique

í 95
Euclides

ajustada no círculo BDE a reta BD igual à reta AC, que não é m aior do que
o diâm etro do círculo BDE; e fiquem ligadas as AD, D C, e fique o círculo
ACD circunscrito ao triân gulo ACD.
E, como o pelas AB, BC é igual ao sobre a AC, e a AC é igual à BD, por­
tanto, o pelas AB, BC é igual ao sobre a BD. E, como foi tom ado algum
ponto, o B, no exterior do círculo ACD , e, a p artir do B, as duas retas BA,
BD caíram sobre o círculo ACD , e um a delas corta, e a outra cai sobre, e o
pelas AB, BC é igual ao sobre a BD, portanto, a BD é tangen te ao círculo
ACD . Com o, de fato, por um lado, a BD é tangente, e, por outro lado, a
p artir da junção no D, a DC foi traçada através, portanto, o ângulo sob BDC
é igual ao ângulo no segm ento alterno do círculo, o sob DAC. Com o, de
fato, o sob BDC é igual ao sob DAC, fique adicionado o sob CDA comum;
portanto, o sob BDA todo é igual aos dois sob CDA, DAC. M as o sob
BCD , exterior, é igual aos sob CDA, DAC; portanto, tam bém o sob BDA
é igual ao sob BCD. M as o sob BDA é igual ao sob CBD, porque tam bém
o lado AD é igual ao AB; desse modo, tam bém o sob DBA é igual ao sob
BCD . Portanto, os três sob BDA, DBA, BCD são iguais entre si. E, como
o ângulo sob DBC é igual ao sob BCD , tam bém o lado BD é igual ao lado
D C. M as a BD foi suposta igual à CA; portanto, também a CA é igual à CD ;
desse modo, tam bém o ângulo sob CDA é igual ao sob DAC; portanto, os
sob CDA, DAC são o dobro do sob DAC. M as o sob BCD é igual aos sob
CDA, DAC; portanto, tam bém o sob BCD é o dobro do sob CAD. M as
o sob BCD é igual a cada um dos sob BDA, DBA; portanto, tam bém cada
um dos sob BDA, DBA é o dobro do sob DAB.
Portanto, foi construído o triân gulo isósceles ABD, tendo cada um dos
ângulos junto à base o dobro do restante; o que era preciso fazer.

11.

Inscrever, no círculo dado, u m pen tágon o tanto equilátero


quanto equiângulo.

Seja o círculo dado ABCD E; é preciso, então, inscrever no círculo


ABCD E um pentágono tanto equilátero quanto equiângulo.

196
O s elementos

F iq u e p o sto o tr iâ n g u lo isó sc e le s
FG H , tendo cada um dos ângulos junto
aos G, H o dobro do junto ao F, e fique
inscrito no círculo ABCD E o triân gulo
ACD equiângulo com o triân gulo FGH,
de m odo a ser, por um lado, o sob CAD
igual ao ângulo junto ao F, e, por outro
lado, cada um dos junto aos G, H igual a
cada um dos sob ACD , CDA; portanto,
tam bém cada um dos sob ACD , CDA é o dobro do sob CAD. Fique, então,
cortado cada um dos sob ACD , CDA em dois por cada um a das retas CE,
DB, e fiquem ligadas as AB, BC, [C D ], DE, EA.
Com o, de fato, cada um dos ângulos ACD , CDA é o dobro do sob CAD
e são cortados em dois pelas retas CE, DB, portanto, os cinco ângulos sob
DAC, ACE, ECD , CDB, BDA são iguais entre si. M as os ângulos iguais
situam -se sobre circunferências iguais; portanto, as cinco circunferências
AB, BC, CD , DE, EA são iguais entre si. M as retas iguais estendem -se sob
as circunferências iguais; portanto, as cinco retas AB, BC, CD , DE, EA são
iguais entre si; portanto, o pentágono ABCDE é equilátero. D igo, então,
que tam bém é equiângulo. Pois, como a circunferência AB é igual à circun ­
ferência DE, fique adicionada a BCD com um ; portanto, a circunferência
ABCD toda é igual à circunferência EDCB toda. E, por um lado, o ângulo
sob AED situa-se sobre a circunferência ABCD, e, por outro lado, o ângulo sob
BAE, sobre a circunferência EDCB; portanto, tam bém o ângulo sob BAE é
igual ao sob AED. Pelas mesm as coisas, então, tam bém cada um dos ângu­
los sob ABC, BCD, CDE é igual a cada um dos sob BAE, AED; portanto,
o pentágono ABCDE é equiângulo. M as foi tam bém provado equilátero.
Portanto, foi inscrito, no círculo dado, um pentágono tanto equilátero
quanto equiângulo; o que era preciso fazer.

197
Euclides

12.

Circunscrever, ao círculo dado, um pen tágon o equilátero


e também equiângulo.

Seja o círculo dado ABCD E; é preciso, [e n tão ], ao


círculo ABCDE circunscrever um pentágono eq u ilá­
tero e tam bém equiângulo.
Fiquem concebidos os pontos A, B, C, D, E dos
ângulos do pentágono inscrito de modo a serem iguais
as circunferências AB, BC, CD , DE, EA; e, pelos A, B,
C, D, E, fiquem traçadas as G H , HK, KL, L M , M G
tangenciando o círculo, e fique tom ado o centro F do círculo, e fiquem
ligadas as FB, FK, FC, FL, FD.
E como, por um lado, a reta KL é tangente ao ABCDE no C, e, a p artir do
centro F até a junção no C, foi ligada a FC, portanto, a FC é perpendicular à
KL; portanto, cada um dos ângulos junto ao C é reto. Pelas mesmas coisas,
então, também os ângulos junto aos pontos B, D são retos. E, como o ângulo
sob FCK é reto, portanto, o sobre a FK é igual aos sobre as FC, CK. Pelas
mesm as coisas, então, tam bém o sobre a FK é igual aos sobre as FB, BK;
desse modo, os sobre as FC, CK são iguais aos sobre as FB, BK, dos quais
o sobre a FC é igual ao sobre a FB; portanto, o sobre a CK restante é igual
ao sobre a BK. Portanto, a BK é igual à CK. E, como a FB é igual à FC, e a
FK é comum, então, as duas BF, FK são iguais às duas CF, FK; e a base BK
[é] igual à base CK; portanto, por um lado, o ângulo sob BFK é igual ao
[ângulo] sob KFC; e, por outro lado, o sob BKF, ao sob FKC; portanto, por
um lado, o sob BFC é o dobro do sob KFC, e, por outro lado, o sob BKC,
do sob FKC. Pelas mesmas coisas, então, tam bém , por um lado, o sob CFD
é o dobro do sob CFL, e, por outro lado, o sob D LC, do sob FLC. E, como
a circunferência BC é igual à CD, tam bém o ângulo sob BFC é igual ao sob
CFD . E, por um lado, o sob BFC é o dobro do sob KFC, e, por outro lado,
o sob D FC, do sob LFC; portanto, tam bém o sob KFC é igual ao sob LFC;
mas tam bém o ângulo sob FCK é igual ao sob FCL. Então, os FKC, FLC
são dois triân gulo s, tendo os dois ângulos iguais aos dois ângulos e um

19 8
O s elementos

lado igual a um lado, o FC com um deles; portanto, terão tam bém os lados
restantes iguais aos lados restantes e o ângulo restante ao ângulo restante;
portanto, por um lado, a reta KC é igual à CL, e, por outro lado, o ângulo
sob FKC, ao sob FLC. E, como a KC é igual à CL, portanto, a KL é o dobro
da KC. Pelas mesmas coisas, então, será tam bém provada a HK o dobro da
BK. E a BK é igual à KC; portanto, tam bém a HK é igual à KL. Do mesmo
modo, então, tam bém cada um a das H G , GM , M L será provada igual a
cada um a das HK, KL; portanto, o pentágono G H K LM é equilátero. Digo,
então, que é tam bém equiângulo. Pois, como o ângulo sob FKC é igual ao
sob FLC, e foi provado, por um lado, o sob HKL o dobro do sob FKC, e,
por outro lado, o sob KLM o dobro do sob FLC, portanto, tam bém o sob
HKL é igual ao sob KLM. Do mesmo modo, então, tam bém cada um dos
sob KHG, H G M , G M L será provado igual a cada um dos sob HKL, KLM;
portanto, os cinco ângulos sob GHK, HKL, KLM, LM G , M G H são iguais
entre si. Portanto, o pentágono G H K LM é equiângulo. M as foi provado
tam bém equilátero, e foi circunscrito ao círculo ABCDE.
[Portanto, foi circunscrito, ao círculo dado, um pentágono equilátero
e tam bém eq u iân g u lo ]; o que era preciso fazer.

13.

In screv er um círculo no pentágono dado, que é equilátero


e também equiângulo.

^ Seja o pentágono dado ABCDE equilátero e tam ­


bém equiângulo; é preciso, então, inscrever um círculo
no pentágono ABCDE.
Fique, pois, cortado cada um dos ângulos sob
BCD, CDE em dois por cada um a das retas CF, DF;
e, a p artir do ponto F, no qual as retas CF, DF se
encontram , fiquem ligadas as retas FB, FA, FE. E,
como a BC é igual à CD , e a CF é comum, então, as duas BC, CF são iguais
às duas D C, CF; e o ângulo sob BCF [é] igual ao sob DCF; portanto, a
base BF é igual à base DF, e o triân gu lo BCF é igual ao triân gu lo DCF,

í 99
Euclides

e os ângulos restantes serão iguais aos ângulos restantes, sob os quais se


estendem os lados iguais; portanto, o ângulo sob CBF é igual ao sob CDF. E,
como o sob CDE é o dobro do sob CDF, mas, por um lado, o sob CDE
é igual ao sob ABC, e, por outro lado, o sob CDF, ao sob CBF, portanto,
tam bém o sob CBA é o dobro do sob CBF; portanto, o ângulo sob ABF é
igual ao sob FBC; portanto, o ângulo sob ABC foi cortado em dois pela
reta BF. Do mesmo modo, então, será provado que tam bém cada um dos
sob BAE, AED foi cortado em dois por cada um a das retas FA, FE. Fiquem ,
então, traçadas, a p artir do ponto F, as perpendiculares FG, FH , FK, FL,
F M às retas AB, BC, CD , DE, EA. E, como o ângulo sob H C F é igual ao
sob KCF, e tam bém o sob F H C , reto, é igual ao sob FKC, [reto ], então,
os F H C , FKC são dois triân gulo s, tendo os dois ângulos iguais aos dois
ângulos e um lado igual a um lado, o FC com um deles, que se estende sob
um dos ângulos iguais; portanto, tam bém terão os lados restantes iguais
aos lados restantes; portanto, a perpendicular FH é igual à perpendicular
FK. Do mesmo modo, então, será provado que tam bém cada um a das FL,
FM , FG é igual a cada um a das FH, FK; portanto, as cinco retas FG, FH,
FK, FL, FM são iguais entre si. Portanto, o círculo descrito, com o centro F
e d istân cia um a das G, H, K, L, M , passará tam bém pelos pontos restantes
e será tangente às retas AB, BC, CD , DE, EA, por serem retos os ângulos
junto aos pontos G, H, K, L, M . Pois, se não é tangente a elas, mas corta-as,
acontecerá a traçada, a p artir de um a extrem idade, em ângulos retos com o
diâm etro do círculo, cair no in terio r do círculo; o que foi provado absurdo.
Portanto, o círculo descrito com o centro F e com d istân cia um a das G, H,
K, L, M , não corta as retas AB, BC, CD , DE, EA; portanto, será tangente
a elas. F ique descrito como o G H K LM .
Portanto, foi inscrito um círculo no pentágono dado, que é equilátero
e tam bém equiângulo; o que era preciso fazer.

200
O s elementos

14.

C ircu n screver um círculo ao pentágono dado, que é equilátero


e também equiângulo.

Seja o pentágono dado ABCDE, que é equilátero e tam bém equiângulo;


é preciso, então, circunscrever um círculo ao pentágono ABCDE.
Fique, então, cortado cada um dos ângulos sob BCD,
CDE em dois por cada um a das CF, DF, e, a p artir do
ponto F, no qual as retas se encontram , até os pontos
B, A, E, fiquem ligadas as retas FB, FA, FE. Do
modo, então, que antes disto, será provado que também
cada um dos ângulos sob CBA, BAE, AED foi cortado
em dois por cada um a das retas FB, FA, FE. E, como o
ângulo sob BCD é igual ao sob CDE, e, por um lado, o sob FCD é m etade
do sob BCD, e, por outro lado, o sob CD F é m etade do sob CDE, portanto,
tam bém o sob FCD é igual ao sob FD C ; desse modo, tam bém o lado FC é
igual ao lado FD. Do mesm o modo, então, será provado que tam bém cada
um a das FB, FA, FE é igual a cada um a das FC, FD; portanto, as cinco retas
FA, FB, FC, FD, FE são iguais entre si. Portanto, o círculo descrito, com
o centro F e d istân cia um a das FA, FB, FC, FD, FE, passará tam bém pelos
pontos restantes e estará circunscrito. F ique circunscrito e seja o ABCDE.
Portanto, foi circunscrito um círculo ao pentágono dado, que é eq u ilá­
tero e tam bém equiângulo; o que era preciso fazer.

15.

Inscrever, no círculo dado, um hexágono equilátero e também equiângulo.

Seja o círculo dado ABCDEF; é preciso, então, inscrever, no círculo


ABCDEF, um hexágono equilátero e tam bém equiângulo.
Fique traçado o diâm etro AD do círculo ABCDEF, e fique tom ado o
centro G do círculo, e, por um lado, com o centro D, e, por outro lado,
com a distância DG, fique descrito o círculo EG CH , e, tendo sido ligadas

20í
Euclides

as EG, CG, fiquem traçadas através até os pontos B, F, e H


fiquem ligadas as AB, BC, CD , DE, EF, FA; digo que o
hexágono ABCDEF é tanto equilátero quanto equiângulo.
Pois, como o ponto G é centro do círculo ABCDEF, a
GE é igual à GD. De novo, como o ponto D é centro do
circulo G CH , a DE é igual à DG. M as a GE foi provada
igual à GD; portanto, tam bém a GE é igual à ED; p o rtan ­
to, o triângulo EGD é equilátero; portanto, tam bém os três ângulos dele, os
sob EGD, GDE, DEG são iguais entre si, visto que os ângulos junto à base
dos triân gulo s isósceles são iguais entre si; e os três ângulos do triângulo
são iguais a dois retos; portanto, o ângulo sob EGD é um terço de dois
retos. Do mesm o modo, então, será provado que tam bém o sob D G C é um
terço de dois retos. E, como a reta CG, tendo sido alteada sobre a EB, faz os
ângulos sob EGC, CGB, adjacentes, iguais a dois retos, portanto, tam bém o
sob CGB restante é um terço de dois retos. Portanto, os ângulos sob EGD,
D G C, CGB são iguais entre si; desse modo, tam bém os no vértice, os sob
BGA, AGF, FGE são iguais a eles [aos sob EGD, D G C, C G B ]. Portanto,
os seis ângulos sob EGD, DGC, CGB, BGA, AGF, FGE são iguais entre
si. M as os ângulos iguais situam -se sobre circunferências iguais; p o rtan ­
to, as seis circunferências AB, BC, CD , DE, EF, FA são iguais entre si.
M as as retas iguais estendem -se sob as circunferências iguais; portanto, as
seis retas são iguais entre si; portanto, o hexágono ABCD EF é equilátero.
D igo, então, que tam bém é equiângulo. Pois, como a circunferência FA
é igual à circunferência ED, fique adicionada a circunferência ABCD co­
m um ; portanto, a FABCD toda é igual à EDCBA toda; e, por um lado, o
ângulo sob FED situa-se sobre a circunferência FABCD, e, por outro lado,
o ângulo sob AFE, sobre a circunferência EDCBA; portanto, o ângulo sob
AFE é igual ao sob DEF. Do mesmo modo, então, será provado que também
os ângulos restantes do hexágono ABCD EF são, um a um, iguais a cada um
dos ângulos sob AFE, FED; portanto, o hexágono ABCD EF é equiângulo.
E foi tam bém provado equilátero; e foi in scrito no círculo ABCDEF.
Portanto, foi inscrito, no círculo dado, um hexágono equilátero e tam ­
bém equiângulo; o que era preciso fazer.

202
O s elementos

C o r o l á r io

Disso, então, é evidente que o lado do hexágono é igual ao raio do círculo.


E, do mesmo modo que nas coisas sobre o pentágono, caso, pelas divi­
sões no círculo, sejam traçadas tangentes ao círculo, estará circunscrito ao
círculo um hexágono equilátero e tam bém equiângulo, de acordo com as
coisas ditas sobre o pentágono. E ainda, pelas coisas sem elhantes às ditas
sobre o pentágono, inscreveremos, no hexágono dado, um círculo, e também
circunscreverem os; o que era preciso fazer.

16.

Inscrever, no círculo dado, um pentadecágono equilátero


e também equiângulo.

^ Seja o círculo dado ABCD ; é preciso, então,


inscrever, no círculo ABCD , um pentadecágono
equilátero e tam bém equiângulo.
Fiquem inscritos, no círculo ABCD , por um
lado, o lado AC do triân gu lo equilátero in scri­
to nele, e, por outro lado, o AB do pentágono;
portanto, dos quais segm entos iguais o círculo
é quinze, dos tais, por um lado, a circunferência
ABC, sendo um terço do círculo, será cinco, e, por outro lado, a circunfe­
rência AB, sendo um quinto do círculo, será três. Portanto, dos iguais, a BC
restante será dois. Fique, pois, cortada a BC em duas no E; portanto, cada
um a das circunferências BE, EC é um quinze avos do círculo.
Portanto, caso, tendo ligado as BE, EC, ajustem os no círculo A B C D [E ]
as iguais a elas, contiguam ente, estará inscrito nele um pentadecágono
equilátero e tam bém equiângulo; o que era preciso fazer.

E, do mesm o modo que as coisas sobre o pentágono, caso, pelas divisões


no círculo, tracem os tangentes ao círculo, será circunscrito ao círculo um
pentadecágono equilátero e tam bém equiângulo. E, ainda, pelas provas
sem elhantes às sobre o pentágono, tam bém no pentadecágono dado inscre­
veremos e tam bém circunscreverem os um círculo; o que era preciso fazer.

203
Livro V

Definições

1. U m a m agnitude é um a parte de um a m agnitude, a m enor da maior,


quando m eça exatam ente a maior.
2. E a m aior é um m últip lo da menor, quando seja m edida exatam ente
pela menor.
3. U m a razão é a relação de certo tipo concernente ao tam anho de duas
m agnitudes de mesmo gênero.
4. M agnitudes são ditas ter um a razão entre si, aquelas que m ultiplicadas
podem exceder um a a outra.
5. M agn itudes são ditas estar na m esm a razão, um a p rim eira para um a
segunda e um a terceira para um a quarta, quando os mesmos m últiplos
da p rim eira e da terceira ou, ao mesmo tem po, excedam ou, ao mesmo
tem po, sejam iguais ou, ao mesm o tem po, sejam inferiores aos m es­
mos m últiplos da segunda e da quarta, relativam ente a qualquer tipo
que seja de m ultiplicação, cada um de cada um, tendo sido tom ados
correspondentes.
6. E as m agnitudes, tendo a m esm a razão, sejam ditas em proporção.
7. E quando, dos mesm os m últiplos por um lado, o m últip lo da p rim eira
exceda o m últip lo da segunda, e, por outro lado, o m últip lo da tercei­
ra não exceda o m últiplo da quarta, então a p rim eira é dita ter para a
segunda um a razão m aior do que a terceira para a quarta.
8. E um a proporção em três term os é a menor.

205
Euclides

9. E, quando três m agnitudes estejam em proporção, a prim eira é dita ter


para a terceira um a razão dupla da que para a segunda.
10. E, quando quatro m agnitudes estiverem em proporção, a p rim eira é
d ita ter para a quarta um a trip la razão da que para a segunda, e sempre
continuadam ente do mesmo modo, quando a proporção existir real­
m ente.
11. São ditas m agnitudes hom ólogas, por um lado, os antecedentes, aos
antecedentes, e, por outro lado, os consequentes, aos consequentes.
12. R azão alternada é um a tom ada do antecedente para o antecedente e do
consequente para o consequente.
13. R azão inversa é um a tom ada do consequente como um antecedente
para o antecedente como um consequente.
14. C om posição de um a razão é um a tom ada do antecedente com o con­
sequente, como um , para o próprio consequente.
15. Separação de um a razão é um a tom ada do excesso, pelo qual o antece­
dente excede o consequente, para o próprio consequente.
16. Conversão de um a razão é um a tom ada do antecedente para o excesso
pelo qual o antecedente excede o consequente.
17. R azão por igual posto é, existindo num erosas m agnitudes e outras
iguais a elas em quantidade, tom adas duas a duas e na m esm a razão,
quando, nas prim eiras m agn itudes, como a p rim eira esteja para a
ú ltim a, assim , nas segundas m agnitudes, a p rim eira para a últim a; ou
de um outro m odo: um a tom ada dos extrem os, de acordo com um a
remoção dos m eios.
18. E um a proporção perturbada é quando, existindo três m agnitudes e
outras iguais a elas em quantidade, tem lugar, por um lado, como um
antecedente para um consequente, nas prim eiras m agnitudes, assim
um antecedente para um consequente, nas segundas m agnitudes, e, por
outro lado, como um consequente para algum a outra, nas prim eiras
m agnitudes, assim algum a o utra para um antecedente, nas segundas.

206
O s elementos

1.

Caso m agnitudes, em quantidade qualquer, sejam o m esm o m últiplo de


m agnitudes, em quantidade qualquer, iguais em quantidade, cada u m a de
cada uma, quantas vezes um a das m agnitudes é de uma, tantas vezes todas
serão de todas.

q Sejam as m agnitudes AB, CD,


^ B C" ■ ■ D em quantidade qualquer, o mesmo
^ m últiplo das m agnitudes E, F, em
quantidade qualquer, iguais em quan­
tidade, cada um a de cada uma; digo que quantas vezes a AB é de E tantas
vezes tam bém as AB, CD serão das E, F.
Pois, como a AB é o mesm o m últiplo da E que a CD é da F, portanto,
quantas m agnitudes iguais à E estão na AB tantas tam bém iguais a F estão
na CD. Fiquem divididas, por um lado, a AB nas m agnitudes AG, GB iguais
à E, e, por outro lado, a CD nas CH , H D iguais à F; então, a quantidade
das AG, GB será igual à quantidade das CH , H D . E, como, por um lado,
a AG é igual à E, e, por outro lado, a C H , à F, portanto, a AG é igual à E, e
as AG, CH , às E, F. Pelas mesmas coisas, então, a GB é igual à E, e as GB,
H D , às E, F; portanto, quantas iguais à E estão na AB tantas iguais às E,
F, nas AB, CD ; portanto, quantas vezes a AB é da E tantas vezes tam bém
as AB, CD serão das E, F.
Portanto, caso m agnitudes, em quantidade qualquer, sejam o mesmo
m últiplo de m agnitudes, em quantidade qualquer, iguais em quantidade,
cada um a de cada uma, quantas vezes um a das m agnitudes é de um a tantas
vezes todas serão de todas; o que era preciso provar.

207
Euclides

2.

C aso um a prim eira seja o m esm o m últiplo de u m a segunda que um a


terceira é de u m a quarta, e também u m a quinta seja o m esm o m últiplo
da segunda que um a sexta é da quarta, tam bém , tendo sido compostas,
prim eira e quinta serão o m esm o m últiplo da segunda que terceira e sexta
serão da quarta.

S eja, p o is, a p rim e ira AB o m esm o


m últip lo da segunda C que a terceira DE
é da quarta F, e seja a quin ta BG o mesm o ^
m últip lo da segunda C que a sexta EH é ^ " "
da quarta F; digo que tam bém , tendo sido D ■------ ■------ ■------ ■-------■----- ^
com postas, p rim eira e quinta, a AG será o p ,___ ,
mesmo m últiplo da segunda C que terceira
e sexta, a DH, será da quarta F.
Pois, como a AB é o mesmo m últiplo da C que a DE é da F, portanto,
quantas iguais à C estão na AB tantas tam bém iguais à F estão na DE.
Pelas mesmas coisas, então, tam bém quantas iguais à C estão na BG tantas
tam bém iguais à F, na EH; portanto, quantas iguais à C estão na AG toda
tantas tam bém iguais à F, na DH toda; portanto, quantas vezes a AG é
da C tantas vezes tam bém a D H será da F. Portanto, tam bém , tendo sido
com postas prim eira e quinta, a AG será o mesmo m últiplo da segunda C
que, terceira e sexta, a DH será da q u in ta F.
Portanto, caso um a prim eira seja o mesmo m últiplo de um a segunda que
um a terceira, de um a quarta, e tam bém um a quin ta seja o mesmo m últiplo
da segunda que um a sexta, da quarta, tam bém , tendo sido com postas, p ri­
m eira e q u in ta serão o mesm o m últiplo da segunda que terceira e sexta, da
quarta; o que era preciso provar.

208
O s elementos

3.

Caso um a p rim eira seja o m esm o m últiplo de u m a segunda que um a


terceira, de u m a quarta, e sejam tomados os m esm os m últiplos tanto da
p rim eira quanto da terceira, também, p o r igual posto, cada um de cada um
dos tomados será o m esm o m últiplo, u m da segunda, o outro da quarta.

Seja, pois, a p rim eira A o mesmo m ú lti­


plo da segunda B que a terceira C da quarta
B ■----- ■ D, e fiquem tom adas as EF, GH os mesmos
^ __________ J_________ _F m últiplos das A, C; digo que a EF é o mesmo
m últip lo da B que a GH é da D.
^ " " " " Pois, como a EF é o mesmo m últip lo da A
D ■—■ que a GH é da C, portanto, quantas iguais à
q J l_l A estão na EF tantas tam bém iguais à C estão
na GH. Fiquem divididas, por um lado, a EF
nas m agnitudes EI, IF iguais à A, e, por outro lado, a GH nas GJ, JH iguais à
C; então, a quantidade das EI, IF será igual à quantidade das GJ, JH . E, como
a A é o mesm o m últip lo da B que a C é da D, e, por um lado, a EI é igual à
A, e, por outro lado, a GJ, à C, portanto, a EI é o mesm o m últiplo da B que
a GJ é da D. Pelas mesmas coisas, então, a IF é o mesmo m últiplo da B que a
JH é da D. Com o, de fato, a p rim eira EI é o mesm o m últip lo da segunda B
que a terceira GJ é da quarta D, e tam bém a quin ta IF é o mesm o m últiplo
da segunda B que a sexta JH é da quarta D, portanto, tam bém , tendo sido
com postas prim eira e quinta, a EF é o mesmo m últiplo da segunda B que,
terceira e sexta, a GH é da quarta D.
Portanto, caso um a p rim eira seja o mesmo m últip lo de um a segunda
que um a terceira é de um a quarta, e sejam tom ados os mesm os m últiplos
da prim eira e terceira, tam bém , por igual posto, cada um dos tom ados será
o mesm o m últip lo , um da segunda, o outro da quarta; o que era preciso
provar.

209
Euclides

4.

C aso u m a prim eira tenha para u m a segunda a m esm a razão que um a


terceira para u m a quarta, também os m esm os m últiplos tanto da prim eira
quanto da terceira terão para os m esm os m últiplos da segunda e
da quarta, segundo u m a m ultiplicação qualquer, a m esm a razão,
tendo sido tomados correspondentes.

Tenha, pois, a prim eira A para a se­


gunda B a m esm a razão que a terceira A

C para a quarta D, e fiquem tom adas, B


E
por um lado, as E, F, os mesm os m ú l­
G
tiplos das A, C, e, por outro lado, as
I
G, H, outros mesm os m últiplos, ao L
acaso, das B, D; digo que como a E C
está para a G, assim a F para a H. D
F iquem , p o is, tom adas, por um F
lado, as I, J, os m esm os m ú ltip lo s H
das E, F, e, por outro lado, as L, M , J
outros mesmos m últiplos, ao acaso, M
das G, H.
[E ], como, por um lado, a E é o mesm o m últiplo de A, e, por outro lado,
a F, da C, e as I, J foram tom adas os mesmos m últiplos das E, F, portanto, a
I é o mesmo m últiplo de A que a J é da C. Pelas mesm as coisas, então, a L é
o mesmo m últip lo da B que a M é da J. E, como a A está para a B, assim a C
para a D, e foram tom adas, por um lado, as I, J, os m esm os m últiplos das
A, C, e, por outro lado, as L, M , outros m esm os m últip lo s, ao acaso, das B,
D, portanto, se a I excede a L, tam bém a J excede a M , e, se igual, igual, e,
se menor, menor. E, por um lado, as I, J são os mesm os m últiplos das E, F,
e, por outro lado, as L, M são outros mesm os m últip lo s, ao acaso, das G,
H ; portanto, como a E está para a G, assim a F para a H.
Portanto, caso um a p rim eira tenha para um a segunda a m esm a razão
que um a terceira para um a quarta, tam bém os mesm os m últiplos tanto da
p rim eira quanto da terceira terão para os mesmos m últiplos da segunda e

2 10
O s elementos

da quarta, segundo um a m ultiplicação qualquer, a m esm a razão, tendo sido


tom ados correspondentes.

5.

Caso um a m agn itu d e seja o m esm o m últiplo de um a m agn itu d e que


u m a subtraída é de u m a subtraída, também a restante será tantas vezes o
m últiplo da restante quantas vezes a toda é da toda.

Seja, pois, a m agnitude AB o mesm o m úl-


A. . . ^ . g tip lo da m agnitude CD que a subtraída AE
é da subtraída CF; digo que a restante EB
g _ C F .D será tantas vezes o m últip lo da restante FD
quantas vezes a AB toda é da CD toda.
Pois, quantas vezes a AE é da CF tantas vezes fique produzida tam bém
a EB da CG.
E, como a AE é o mesm o m últiplo da CF que a EB é da GC, portanto,
a AE é o mesmo m últiplo da CF que a AB é da GF. M as a AE foi posta o
mesmo m últiplo da CF que a AB é da CD . Portanto, a AB é o mesmo m ú lti­
plo de cada um a das GF, CD ; portanto, a GF é igual à CD . F ique subtraída
a CF com um; portanto, a restante GC é igual à restante FD. E, como a
AE é o mesmo m últiplo da CF que a EB é da GC, mas a GC é igual à DF,
portanto, a AE é o mesmo m últip lo da CF que a EB é da FD. M as a AE
foi suposta o mesmo m últip lo da CF que a AB da CD ; portanto, a EB é o
mesm o m últip lo da FD que a AB é da CD . Portanto, a restante EB é tantas
vezes o m últip lo da restante FD quantas vezes a AB toda é da CD toda.
Portanto, caso um a m agnitude seja o mesmo m últiplo de um a m agnitude
que um a subtraída é de um a subtraída, tam bém a restante será tantas vezes
o m últiplo da restante quantas vezes a toda é da toda.

2 íí
Euclides

6.

Caso duas m agnitudes sejam os m esm os m últiplos de duas


m agnitudes e algumas, tendo sido subtraídas, sejam os m esm os
m últiplos das mesmas, também as restantes ou são iguais às m esm as
ou os m esm os m últiplos delas.

Sejam , pois, as duas m agnitudes AB, CD o mesm o G


m últiplo das duas m agnitudes E, F, e sejam as su b traí­
das AG, C H os mesmos m últiplos das mesmas E, F; E ■— ■
digo que tam bém as restantes GB, H D são ou iguais C H
às E, F ou os mesm os m últiplos delas.
Seja, pois, em prim eiro lugar, a GB igual à E. D igo F ——
que tam bém a H D é igual à F. Fique, pois, posta a CI
igual à F. Com o a AG é o mesm o m últip lo da E que a C H é da F, e, por um
lado, a GB é igual à E, e, por outro lado, a IC, à F, portanto, a AB é o mesmo
m últip lo da E que a IH é da F. E a AB foi suposta o m esm o m últip lo da E
que a CD é da F; portanto, a IH é o mesm o m últiplo da F que a CD é da F.
Com o, de fato, cada um a das IH, CD é o mesm o m últip lo da F, portanto,
a IH é igual à CD . Fique subtraída a C H com um ; portanto, a restante IC é
igual à restante H D . M as a F é igual à IC; portanto, tam bém a H D é igual
à F. Desse modo, se a GB é igual à E, tam bém a H D será igual à F.
Do mesm o modo, então, provaremos que, caso a GB seja quantas vezes
a E, tam bém a H D será tantas vezes a F.
Portanto, caso duas m agnitudes sejam os mesmos m últiplos de duas
m agnitudes, e algum as, tendo sido subtraídas, sejam os mesmos m últiplos
das m esm as, tam bém as restantes ou são iguais às mesm as ou os mesmos
m últiplos delas; o que era preciso provar.

2 12
O s elementos

7.

As iguais têm pa ra a m esm a a m esm a razão que a mesma, pa ra as iguais.

Sejam as m agnitudes iguais A, B, e algum a outra m agnitude C, ao acaso;


digo que cada um a das A, B tem para a C a m esm a razão que a C, para cada
um a das A, B.
Fiquem , pois tom adas, por um lado, as D, E os mesm os m últiplos das
A, B, e, por outro lado, a F, outro m últiplo, ao acaso, da C.
Com o, de fato, a D é o mesm o m últiplo da A que a E é da B, e a A é
igual à B, portanto, tam bém a D é igual à E. M as a F é um a outra, ao acaso.
Portanto, se a D excede a F, tam bém a E excede a F, e se igual, igual, e se
menor, menor. E, por um lado, as D, E
são os mesm os m últiplos das A, B, e, por
B ■------ ■ E ■-----■---- ■— ■— ■ outro lado, a F é da C um outro m últiplo,
p ao acaso. Portanto, como a A está para a
C, assim a B para a C.
D igo, [en tão ], que tam bém a C tem para cada um a das A, B a m esm a
razão.
Pois, tendo sido construídas as mesmas coisas, do mesmo modo p ro ­
varemos que a D é igual à E; mas a F é um a outra, ao acaso; portanto, se a
F excede a D, tam bém excede a E, e se igual, igual, e se menor, menor. E,
por um lado, a F é um m últiplo da C, e, por outro lado, as D, E, outros,
ao acaso, mesm os m últiplos das A, B; portanto, como a C está para a A,
assim a C para a B.
Portanto, as iguais têm para a m esm a a m esm a razão que a mesm a, para
as iguais.

C o r o l á r io

D isso, então, é evidente que, caso algum as m agnitudes estejam em


proporção, tam bém estarão inversam ente em proporção. O que era preciso
provar.

213
Euclides

8.

Das m agnitudes desiguais, a m a io r tem pa ra a m esm a u m a m a io r razão


do que a menor. E a m esm a tem p a ra a m en o r um a m a io r razão do que
pa ra a maior.

Sejam as m agnitudes desiguais AB, C, e sejam


a AB a maior e D uma outra, ao acaso; digo que a A ■— ■ ■ B
AB tem para a D um a m aior razão do que a C C■ ■
p
para a D, e a D tem para a C um a m aior razão F . ■ ■__ . . H
do que para a AB. I . ._____.
Pois, como a AB é m aior do que a C, fique q .__ .
posta a BE igual à C; então, a menor das AE, EB, j ^ ^ ^
sendo m ultiplicada, será, algum a vez, m aior do
que a D. Seja, prim eiram ente, a AE menor do que
a EB, e fique m u ltip licad a a AE, e seja a FG um
m últip lo dela que é m aior do que a D, e quantas vezes a FG é da AE tantas
vezes fiquem produzidas, por um lado, a GH da EB, e, por outro lado, a I
da C; e fiquem tom adas, por um lado, a J o dobro da D, e, por outro lado, a
L o trip lo , e sucessivam ente por um a m ais, até que a tom ada se torne, por
um lado, um m últip lo da D, e, por outro lado, o prim eiro m aior do que
I. Fique tom ada, e seja a M , por um lado, o quádruplo da D, e, por outro
lado, a p rim eira m aior do que a I.
Com o, de fato, a I é a prim eira m enor do que M , portanto, a I não é
m enor do que a L. E, como a FG é o mesmo m últip lo de AE que a GH
é da EB, portanto, a FG é o mesmo m últiplo da AE que a FH é da AB. M as
a FG é o mesmo m últiplo da AE que a I é da C; portanto, a FH é o mesmo
m últip lo da AB que a I é da C. Portanto, as FH, I são os mesm os m últiplos
das AB, C. De novo, como a GH é o mesm o m últip lo da EB que a I é da C,
e a EB é igual à C, portanto, tam bém a GH é igual à I. M as a I não é m enor
do que a L; portanto, nem a GH é m enor do que a L. M as a FG é m aior do
que a D; portanto, a FH toda é m aior do que as duas D, L juntas. M as as
duas D, L juntas são iguais à M , visto que a L é o trip lo da D, e as duas L,
D juntas são o quádruplo, e tam bém a M é o quádruplo da D; portanto,

2 14
O s elementos

as duas L, D juntas são iguais à M . M as a FH é m aior do que as L, D;


portanto, a FH excede a M ; mas a I não excede a M . E, por um lado, as FH,
I são os mesm os m últiplos das AB, C, e a M um outro m últiplo, ao acaso,
da D; portanto, a AB tem para a D um a m aior razão do que a C para a D.
D igo, então, que tam bém a D tem para a C
A ■-------- ■— ■ B um a m aior razão do que a D para a AB.
C ■— ■ Pois, tendo sido construídas as mesmas coi­
F. . ^ . . H sas, do mesm o modo provaremos que, por um
I. . . lado, a M excede a I, e, por outro lado, a M não
P ___ _ excede a FH . E, por um lado, a M é um m últiplo
da D, e, por outro lado, as FH, I são, ao acaso,
outros m esm os m últiplos das AB, C; portanto,
a D tem para a C um a m aior razão do que a D
^ para a AB.
M as, então, seja a AE m aior do que a EB. Então, a m enor EB, sendo
m ultiplicada, será, algum a vez, m aior do que a D. F ique m ultiplicada, e
seja a GH, por um lado, um m últiplo da EB, e, por outro lado, m aior do
que a D. E, quantas vezes a GH é da EB tantas vezes fiquem produzidas,
por um lado, a FG da AE, e, por outro lado, a I da C. Do mesmo modo,
então, provaremos que as FH , I são os mesmos m últiplos das AB, C; e fique
tom ada, do mesmo modo, a M , por um lado, um m últiplo da D, e, por
outro lado, o prim eiro m aior do que a FG; desse modo, de novo, a FG não
é m enor do que a L. M as a GH é m aior do que a D; portanto, a FH toda
excede as D, L, isto é, a M . E a I não excede a M , visto que tam bém a FG,
sendo m aior do que a GH, isto é, do que a I, não excede a M . E, da m esm a
m aneira, seguindo exatam ente as coisas acima, concluím os a dem onstração.
Portanto, das m agnitudes desiguais a m aior tem para a mesm a um a m aior
razão do que a m enor; e a m esm a tem para a m enor um a m aior razão do
que para a m aior; o que era preciso provar.

215
Euclides

9.

As que têm a m esm a razão p a ra a m esm a são iguais entre si; e aquelas,
p a ra as quais a m esm a tem a m esm a razão, são iguais.

Tenha, pois, cada um a das A, B para a C a mesm a


razão; digo que a A é igual à B. A ■--------■ B ■--------■
Pois, se não, cada um a das A, B não tinha para q ,___________,
a C a m esm a razão; mas têm ; p o rtan to , a A é
igual à B.
Tenha, então, de novo, a C para cada um a das A, B a m esm a razão; digo
que a A é igual à B.
Pois, se não, a C não tinha para cada um a das A, B a m esm a razão; mas
tem ; portanto, a A é igual à B.
Portanto, as que têm para a m esm a a m esm a razão são iguais entre si;
e aquelas, para as quais a m esm a tem a m esm a razão, são iguais; o que era
preciso provar.

10.

Das que têm p a ra a m esm a u m a razão, m a io r é aquela que tem a m a ior


razão; e aquela, pa ra a qual a m esm a tem m a io r razão, é menor.

Tenha, pois, a A para a C um a razão m aior


do que a B para a C; digo que a A é m aior do ^ ,_____, g ._____.
que a B. n
• • 1 " '
Pois, se não, ou A é igual à B ou menor.
C ertam ente, a A não é igual à B; pois, cada
um a das A, B tinha para a C a m esm a razão. E não tem ; portanto, a A não
é igual à B. N em , certam ente, a A é m enor do que a B; pois, a A tinha para
a C um a razão m enor do que a B para a C. E não tem ; portanto, a A não é
menor do que a B. E foi provada nem igual; portanto, a A é m aior do que a B.
Tenha, então, de novo, a C para a B um a razão m aior do que a C para a
A; digo que a B m enor do que a A.

2 16
O s elementos

Pois, se não, ou é igual ou maior. C ertam ente, a B não é igual à A; pois,


a C tinha para cada um a das A, B a m esm a razão. E não tem ; portanto, a A
não é igual à B. N em , por certo, a B é m aior do que a A; pois, a C tinha para
a B um a razão m enor do que para a A. E não tem ; portanto, a B não é m aior
do que a A. E fo i provada nem igual; portanto, a B é m enor do que a A.
Portanto, das que têm para a m esm a um a razão, m aior é aquela que tem
a m aior razão; e aquela, para a qual a m esm a tem m aior razão, é m enor; o
que era preciso provar.

11.

As m esmas, com a m esm a razão, tam bém são as m esm a s entre si.

^ E ste jam , p o is, p o r um


„ _ lad o , com o a A p ara a B,
B .— ■ D ■------- ■ F —— . ^
assim a C para a D, e, por
q _____________ __ j _ _ _ _ outro lado, como a C para a
^ _______ _________ ^ ^ ^ ^ ^ D, assim a E para a F; digo
| m m m ^ m m mm que como a A está para a B
assim a E para a F.
Fiquem , pois, tom adas as G, H, I, os mesmos m últiplos das A, C, E, e
as J, L, M , outros, ao acaso, mesm os m últiplos das B, D, F.
E, como a A está para a B, assim a C para a D, e foram tom adas, por um
lado, as G, H , os mesmos m últiplos das A, C, e, por outro lado, as J, L,
outros, ao acaso, m esm os m últiplos das B, D, portanto, se a G excede a J,
tam bém a H excede a L, e se é igual, igual, e se é deficiente, deficiente. De
novo, como a C está para a D, assim a E para a F, e as H, I foram tom adas os
mesmos m últiplos das C, E e as L, M , outros, ao acaso, mesm os m últiplos
das D, F, portanto, se a H excede a L, tam bém a I excede a M , e se igual,
igual, e se menor, menor. M as se a H excedesse a L, tam bém a G excedia a
J, e se igual, igual, e se menor, m enor; desse modo, tam bém se a G excede
a J, tam bém a I excede a M , e se igual, igual, e se menor, menor. E, por um
lado, as G, I são os mesm os m últiplos das A, E, e, por outro lado, as J, M
são outros, ao acaso, mesm os m últiplos das B, F; portanto, como a A está
para a B, assim a E para a F.

217
Euclides

Portanto, as m esm as, com a m esm a razão, tam bém são as mesm as entre
si; o que era preciso provar.

12.

C aso m agnitudes, em quantidade qualquer, estejam em proporção, com o u m


dos antecedentes estará pa ra u m dos consequentes, assim todos os antecedentes
para todos os consequentes.

Estejam as m agnitudes A, ^ ^ ^^ ^
B, C, D, E, F, em quantidade g ____ __ q
F
qualquer, como a A para a
B, assim a C para a D, e a E G ■----------------- ■ J ■_________ ■
para a F; digo que, como a A H ■_____________ ■ L ._____________ .
está para a B, assim as A, C, I .________. |\fl ■_____ ■
E para as B, D, F.
Fiquem , pois, tom adas, por um lado, as G, H, I, os mesm os m últiplos
das A, C, E, e, por outro lado, as J, L, M outros, ao acaso, mesmos m ú lti­
plos das B, D, F.
E, como a A está para a B, assim a C para a D, e a E para a F e foram
tom adas, por um lado, as G, H, I, os mesm os m últiplos das A, C, E, e,
por outro lado, as J, L, M , outros, ao acaso, mesm os m últiplos de B, D, F,
portanto, se a G excede a J, tam bém a H excede a L, e a I, a M , e se igual,
igual, e se menor, menor. Desse modo, tam bém se a G excede a J, tam bém
as G, H, I excedem as J, L, M , e, se igual, iguais, e se menor, menores. Tanto
a G quanto as G, H, I são os mesm os m últip lo s tanto da A quanto das A,
C, E, visto que, caso m agnitudes, em quantidade qualquer, sejam o mesmo
m últip lo de m agnitudes, em quantidade qualquer, iguais na quantidade,
cada um a de cada uma, quantas vezes um a das m agnitudes é de um a tantas
vezes todas serão de todas. Pelas mesm as coisas, então, tanto a J quanto as
J, L, M são os mesm os m últiplos tanto da B quanto das B, D, F; portanto,
como a A está para a B, assim as A, C, E para as B, D, F.
Portanto, caso m agnitudes, em quantidade qualquer, estejam em p ro ­
porção, como um dos antecedentes estará para um dos consequentes, assim
todos os antecedentes para todos os consequentes; o que era preciso provar.

2 18
O s elementos

13.

C aso u m a p rim eira tenha para u m a segu n da a m esm a razão que u m a


terceira pa ra u m a quarta, e a terceira tenha pa ra a quarta u m a m a io r razão
que u m a quinta pa ra u m a sexta, tam bém a p rim eira terá pa ra a segunda
u m a m a io r razão que a quinta pa ra a sexta.

Tenha, pois, a prim eira A para a segunda B a mesm a razão que a terceira C
para a quarta D, e tenha a terceira C para a quarta D um a m aior razão que a
quin ta E para a sexta F. D igo que tam bém a p rim eira A terá para a segunda
• „ B um a m aior ra­
A ■ ■ C ■----------■ L ■-------■-------■ G ■______.______. .
zão que a quinta
B *—■ D ■— ■ M ■— ■— ■— - | ■------■------ .— . c ^ c
m 1 E para a sexta F.
Pois, como existem , por um lado, alguns mesmos m últiplos das C, E,
e, por outro lado, outros, ao acaso, mesm os m últiplos das D, F, e, por um
lado, o m últiplo da C excede o m últiplo da D, e, por outro lado, o m últiplo
da E não excede o m últiplo da F, fiquem tom adas, e sejam , por um lado, as
G, H os mesm os m últiplos das C, E, e, por outro lado, as I, J, outros, ao
acaso, m esm os m últiplos das D, F; desse modo, a
G excede a I, enquanto a H não excede a J; e, por
um lado, quantas vezes a G é da C tantas vezes
H,_________ ,_______ , seja tam bém a L da A, e, por outro lado, quantas
j . . . . vezes a I é da D tantas vezes seja tam bém a M
da B.
E, como a A está para a B, assim a C para a D, e foram tom adas, por um
lado, as L, G, os mesm os m últiplos das A, C, e, por outro lado, as M , I,
outros, ao acaso, mesm os m últiplos das B, D, portanto, se a L excede a M ,
tam bém a G excede a I, e se igual, igual, e se menor, menor. M as a G excede
a I; portanto, tam bém a L excede a M . M as a H não excede a J; e, por um
lado, as L, H são os mesm os m últiplos das A, E, e, por outro lado, as M , J
são outros, ao acaso, mesm os m últiplos das B, F; portanto, a A tem para a
B um a m aior razão que a E para a F.
Portanto, caso um a prim eira tenha para um a segunda a m esm a razão que
um a terceira para um a quarta, e a terceira tenha para a quarta um a m aior

2 19
Euclides

razão que um a quin ta para um a sexta, tam bém a prim eira terá para a se­
gunda um a m aior razão que a quinta para a sexta; o que era preciso provar.

14.

Caso u m a p rim eira tenha pa ra u m a segu n da a m esm a razão que u m a


terceira p ara u m a quarta, e a p rim eira seja m a io r do que a terceira,
tam bém a segu n da será m a io r do que a quarta, e caso igual, igual, e caso
menor, menor.

Tenha, pois, a prim eira A para a segunda B a


m esm a razão que a terceira C para a quarta D. A ■ ■ C ■-------- ■
E seja a A m aior do que a C; digo que tam bém
a B é m aior do que a D. " " ^ " "
Pois, como a A é m aior do que a C, e B um a
o utra [m agn itu d e], ao acaso, portanto, a A tem para a B um a m aior razão
que a C para a B. M as como a A para a B, assim a C para a D; portanto,
tam bém a C tem para a D um a m aior razão que a C para a B. M as aquela,
para a qual a m esm a tem um a m aior razão, é m enor; portanto, a D é m enor
do que a B; desse modo, a B é m aior do que a D.
Do mesm o modo, então, provaremos que, caso a A seja igual à C, tam ­
bém a B será igual à D, e caso a A seja m enor do que a C, tam bém a B será
m enor do que a D.
Portanto, caso um a p rim eira tenha para um a segunda a m esm a razão
que um a terceira para um a quarta, e a p rim eira seja m aior do que a terceira,
tam bém a segunda será m aior do que a quarta, e caso igual, igual, e caso
menor, m enor; o que era preciso provar.

15.

As partes têm a m esm a razão que os seus igu a lm en te m últiplos, tendo sido
tom adas correspondentes.

Seja, pois, a AB o mesmo m últip lo da C que a DE é da F; digo que, como


a C está para a F, assim a AB para a DE.

220
O s elementos

q Pois, como a AB é o mesm o m últiplo da


^ ■ " " "^ ^ ■— ■ C que a DE é da F, portanto, quantas m ag-
Q. j j . £ p ____ nitudes iguais a C estão na AB, tantas iguais
a F estão tam bém na DE. Fiquem divididas,
por um lado, a AB nas AG, G H , H B iguais à C, e, por outro lado, a DE
nas DI, IJ, JE iguais à F; então, a quantidade das AG, G H , H B será igual
à quantidade das DI, IJ, JE. E, como as AG, GH, HB são iguais entre si, e
tam bém as DI, IJ, JE são iguais entre si, portanto, como a AG está para a
DI, assim a GH para a IJ, e a H B para a JE. Portanto, tam bém como um dos
antecedentes estará para um dos consequentes, assim todos os antecedentes
para todos os consequentes; portanto, como a AG está para a DI, assim a
AB para a DE. M as a AG é igual à C, enquanto a DI, à F; portanto, como
a C está para a F, assim a AB para a DE.
Portanto, as partes têm a mesm a razão que os seus igualm ente m últiplos,
tendo sido tom adas correspondentes; o que era preciso provar.

16.

C aso quatro m a gn itu d es estejam em proporção, estarão também,


alternadam ente, em proporção.

A ■ ■ C .— ■ Estejam as quatro m agnitudes A, B, C,


B ■— ■ D— D em proporção, como a A para a B, assim
^ a C para a D; digo que tam bém estarão,
alternadam ente [e m proporção], como o
^ —— ■ ■ H — A para o C, assim o B para o D.
Fiquem , pois, tom adas, por um lado, as E, F, os mesm os m últiplos das
A, B, e, por outro lado, as G, H, outros, ao acaso, mesmos m últiplos das C,
D. E, como a E é o mesm o m últip lo da A que a F é da B, e as partes têm a
m esm a razão que os seus igualm ente m últiplos, portanto, como a A está
para a B, assim a E para a F. M as, como a A para a B, assim a C para a D;
portanto, tam bém como a C para a D, assim a E para a F. De novo, como
as G, H são os m esm os m últiplos das C, D, portanto, como a C está para
a D, assim a G para a H. M as, como a C para a D, [a s s im ] a E para a F;

221
Euclides

portanto, tam bém como a E para a F, assim a G para a H . M as, caso quatro
m agnitudes estejam em proporção, e a p rim eira seja m aior do que a ter­
ceira, tam bém a segunda será m aior do que a quarta, e caso igual, igual, e
caso menor, menor. Portanto, se a E excede a G, tam bém a F excede a H, e
se igual, igual, e se menor, menor. E, por um lado, as E, F são os mesmos
m últiplos das A, B, e, por outro lado, as G, H, outros, ao acaso, mesmos
m últiplos das C, D; portanto, como a A está para a C, assim a B para a D.
Portanto, caso quatro m agnitudes estejam em proporção, estarão tam ­
bém, alternadam ente, em proporção; o que era preciso provar.

17.

Caso m agnitudes, tendo sido compostas, estejam em proporção, também,


tendo sido separadas, estarão em proporção.

Estejam as m ag­
nitudes com postas A . ^______. B £_____ü_______ J________ ^
AB, BE, CD, DF em ^ ^ F _D J L M______ P
proporção, como a
AB para a BE, assim a CD para a DF; digo que tam bém , tendo sido sepa­
radas, estarão em proporção, como a AE para a EB, assim a CF para a FD.
Fiquem , pois, tom adas, por um lado, as GH, HI, JL, LM , os mesmos
m últiplos das AE, EB, CF, FD, e, por outro lado, as IN, M P outros, ao
acaso, mesm os m últiplos das EB, FD.
E, como a GH é o mesm o m últip lo da AE que a H I é da EB, portanto,
a GH é o mesmo m últip lo da AE que a GI é da AB. M as a GH é o mesmo
m últip lo da AE que a JL é da CF; portanto, a GI é o mesm o m últip lo da
AB que a JL é da CF. De novo, como a JL é o mesm o m últip lo da CF que a
LM é da FD, portanto, a JL é o mesmo m últiplo da CF que a JM é da CD.
M as a JL era o mesmo m últip lo da CF que a GI, da AB; portanto, a GI é
o mesmo m últiplo da AB que a JM é da CD . Portanto, as GI, JM são os
mesm os m últiplos das AB, CD . De novo, como a H I é o mesmo m últiplo
da EB que a LM é da FD, e tam bém a IN é o mesmo m últiplo da EB que a
M P é da FD, tam bém , tendo sido com postas, a H N é o m esm o m últiplo

222
O s elementos

da EB que a LP é da FD. E, como a AB está para a BE, assim a CD para a


DF, e foram tom adas, por um lado, as GI, JM , os mesm os m últiplos das
AB, CD , e, por outro lado, as H N , LP os mesm os m últiplos das EB, FD,
portanto, se a GI excede a H N , tam bém a JM excede a LP e se igual, igual,
e se menor, menor. Então, a GI exceda a H N , e, tendo sido subtraída a HI
comum, portanto, tam bém a GH excede a IN. M as, se a GI excedesse a
H N , tam bém a JM excedia a LP; portanto, tam bém a JM excede a LP e,
tendo sido subtraída a LM com um, tam bém a JL excede a M P; desse modo,
se a GH excede a IN, tam bém a JL excede a M P Do mesm o modo, então,
provaremos que, caso a GH seja igual à IN, tam bém a JL será igual à M P e
caso menor, menor. E, por um lado, as GH, JL são os mesmos m últiplos das
AE, CF, e, por outro lado, as IN, M P outros, ao acaso, mesmos m últiplos
das EB, FD ; portanto, como a AE está para a EB, assim a CF para a FD.
Portanto, caso m agnitudes, tendo sido com postas, estejam em p ro ­
porção, tam bém , tendo sido separadas, estarão em proporção; o que era
preciso provar.

18 .

C aso m agnitudes, tendo sido separadas, estejam em proporção, também,


tendo sido compostas, estarão em proporção.

Estejam as m agnitudes separadas AE, EB,


A ,______ p . B CF, FD em proporção, como a AE para a EB,
assim a CF para a FD; digo que tam bém , tendo
C ■--------------- ——-------■ D sido com postas, estarão em proporção, como a
AB para a BE, assim a CD para a FD.
Pois, se não como a AB está para a BE, assim a CD para a FD, como
a AB estará para a BE, assim a CD ou para algum a m enor do que DF ou
para um a maior.
Seja, prim eiram ente, para um a menor, a DG. E, como a AB está para a
BE, assim a CD para a DG, m agnitudes, tendo sido com postas, estão em
proporção; desse modo, tam bém , tendo sido separadas, estarão em p ro ­
porção. Portanto, como a AE está para a EB, assim a CG para a GD. M as

223
Euclides

tam bém foi suposto como a AE para a EB, assim a CF para a FD. Portanto,
tam bém como a CG para a GD, assim a CF para a FD. M as a prim eira CG
é m aior do que a terceira CF; portanto, tam bém a segunda GD é m aior
do que a quarta FD. M as tam bém é m enor; o que é im possível; portanto,
não como a AB está para a BE, assim a CD para um a m enor do que a FD.
Do mesmo modo, então, provaremos que nem para um a m aior; portanto,
para a mesma.
Portanto, caso m agnitudes, tendo sido separadas, estejam em proporção,
tam bém , tendo sido com postas, estarão em proporção; o que era preciso
provar.

19.

Caso, com o u m a toda esteja pa ra u m a toda, assim u m a que foi subtraída


pa ra u m a que foi subtraída, tam bém a restante estará pa ra a restante, com o
a toda pa ra a toda.

Esteja, pois, como a AB toda para a CD toda, assim a que foi subtraída
AE para a que foi subtraída CF; digo que tam bém a restante EB estará
para a restante FD, como a AB toda para a
CD toda. A .---------1 ------------- . B
Pois, como a AB está para a CD , assim p
a AE para a CF, e, alternadam ente, como
a BA para a AE, assim a DC para a CF. E, como m agnitudes, tendo sido
com postas, estão em proporção, tam bém , tendo sido separadas, estarão em
proporção, como a BE para a EA, assim a DF para a CF; e, alternadam ente,
como a BE para a DF, assim a EA para a FC. M as, como a AE para a CF,
assim , foi suposto, a AB toda para a CD toda. Portanto, tam bém a restante
EB estará para a restante FD, como a AB toda para a CD toda.
Portanto, caso como um a toda esteja para um a toda, assim um a que
foi subtraída para um a que foi subtraída, tam bém a restante estará para a
restante, como a toda para a toda [o que era preciso provar].
[E, conform e foi provado, como a AB para a CD , assim a EB para a FD,
e, alternadam ente, como a AB para a BE, assim a CD para a FD, portanto,

224
O s elementos

m agnitudes, tendo sido com postas, estão em proporção; mas foi provado,
como a BA para a AE, assim a DC para a CF; e é por conversão.]

C o r o l á r io

D isso, é evidente que, caso m agnitudes, tendo sido com postas, estejam
em proporção, tam bém estarão em proporção, por conversão; o que era
preciso provar.

20.

C aso existam três m a gn itu d es e ou tras iguais a elas em quantidade, tom adas
duas a duas e na m esm a razão, e, p o r igu al posto, a p rim eira seja m a io r
do que a terceira, tam bém a quarta será m a io r do que a sexta, e caso igual,
igual, e caso menor, menor.

Sejam as três m agnitudes A, B, C, e as D, E,


A .______ . D ._____ . . . .
F outras iguais a elas em quantidade, tom adas
n p

■ " ^ ■ ■ duas a duas na m esm a razão, por um lado,


C ■-------- ■ F ■------ ■ como a A para a B, assim a D para a E, e, por
outro lado, como a B para a C, assim a E para a
F, e, por igual posto, seja a A m aior do que a C; digo que tam bém a D será
m aior do que a F, e caso igual, igual, e caso menor, menor.
Pois, como a A é m aior do que a C, e B, algum a outra, e a m aior tem
para a m esm a um a m aior razão que a menor, portanto, a A tem para a B
um a m aior razão que a C para a B. M as, por um lado, como a A para a B,
[assim ] a D para a E, e, por outro lado, como a C para a B, inversam ente,
assim a F para a E; portanto, tam bém a D tem para a E um a m aior razão
que a F para a E. M as, das que têm para a m esm a um a razão, a que tem a
m aior razão é maior. Portanto, a D é m aior do que a F. Do mesmo modo,
então, provaremos que, caso a A seja igual à C, tam bém a D será igual à F,
e caso menor, menor.
Portanto, caso existam três m agnitudes e outras iguais a elas em q u an ti­
dade, tom adas duas a duas e na m esm a razão, e, por igual posto, a p rim eira
seja m aior do que a terceira, tam bém a quarta será m aior do que a sexta, e
caso igual, igual, e caso menor, m enor; o que era preciso provar.

225
Euclides

21.

Caso existam três m a gn itu d es e ou tras iguais a elas em quantidade, tom adas
duas a du as e na m esm a razão, e seja perturbada a p rop orçã o entre elas, e,
p o r igu al posto, a p rim eira seja m a io r do que a terceira, tam bém a quarta
será m a io r do que a sexta, e caso igual, igual, e caso menor, menor.

Sejam as três m agnitudes A, B, C e as D, E, F outras iguais a elas em


quantidade, tom adas duas a duas e na m esm a razão, e seja perturbada a
proporção entre elas, por um lado, como a A para a B, assim a E para a F, e,
por outro lado, como a B para a C, assim a D para a E, e, por igual posto,
a A seja m aior do que a C; digo que tam bém a D será m aior do que a F, e
caso igual, igual, e caso menor, menor.
Pois, como a A é m aior do que a C, e a
B, al gum a outra, portanto a A tem para a B ^ D
um a m aior razão que a C para a B. M as, B .----- ■ E ■------------- ■
por um lado, como a A para a B, assim a E C .______ . F ■___ .
para a F, e, por outro lado, como a C para
a B, inversam ente, assim a E para a D. Portanto, tam bém a E tem para a
F um a m aior razão que a E para a D. M as aquela, para a qual a m esm a tem
um a m aior razão, é m enor; portanto, a F é m enor do que a D; portanto, a
D é m aior do que a F. Do mesmo modo, então, provaremos que, caso a A
seja igual à C, tam bém a D será igual à F, e caso menor, menor.
Portanto, caso existam três m agnitudes e outras iguais a elas em q u an ti­
dade, tom adas duas a duas e na m esm a razão, e seja perturbada a proporção
entre elas, e, por igual posto, a prim eira seja m aior do que a terceira, também
a quarta será m aior do que a sexta, e caso igual, igual, e caso menor, menor;
o que era preciso provar.

226
O s elementos

22.

Caso existam m agnitudes, em quantidade qualquer, e ou tras iguais a elas


em quantidade, tom adas duas a duas e na m esm a razão, também, p o r igual
posto, estarão na m esm a razão.

Sejam as m agnitudes A, B, C, em quantidade qualquer, e as D, E, F, ou­


tras iguais a elas em quantidade, tom adas duas a duas na m esm a razão, por
um lado, como a A para a B, assim a D para a E, e, por outro lado, como a
B para a C, assim a E para a F; digo que tam bém , por igual posto, estarão
na m esm a razão.
F iq u e m , p o is,
^ —■ C ■-------- ■ to m adas, por um
D ■------ ■ E —. F ■------ ■ lado, as G, H , os
G .--------.-------- . | .__.__.__ . L ._____._____ . mesmos m últiplos
H ■-------■------- ■ J ■. ■. M . . . das A, D, e, po r
outro lado, as I, J,
outros, ao acaso, mesm os m últiplos das B, E, e ainda as L, M , outros, ao
acaso, m esm os m últiplos das C, F.
E, como a A está para a B, assim a D para a E, e foram tom adas, por um
lado, as G, H, os mesm os m últiplos das A, D, e, por outro lado, as I, J,
outros, ao acaso, mesm os m últip lo s das B, E; portanto, como a G está para
a I, assim a H para a J. Pelas mesm as coisas, então, tam bém como a I para a
L, assim a J para a M . Com o, de fato, as G, I, L são três m agnitudes e as H,
J, M , outras iguais a elas em quantidade, tom adas duas a duas e na mesm a
razão, portanto, por igual posto, se a G excede a L, tam bém a H excede a M ,
e se igual, igual, e se menor, menor. E, por um lado, as G, H são os mesmos
m últiplos das A, D, e, por outro lado, as L, M , outros, ao acaso, mesmos
m últiplos das C, F. Portanto, como a A está para a C, assim a D para a F.
Portanto, caso existam m agnitudes, em quantidade qualquer, e outras
iguais a elas em quantidade, tom adas duas a duas na m esm a razão, também,
por igual posto, estarão na m esm a razão; o que era preciso provar.

227
Euclides

23.

Caso existam três m a gn itu d es e ou tras iguais a elas em quantidade, tom adas
duas a du as na m esm a razão, e seja perturbad a a p rop o rçã o entre elas,
também, p o r igu al posto, estarão na m esm a razão.

Sejam as três m agnitudes A, B, C e as D, E, F, outras, iguais a elas em


quantidade, tom adas duas a duas na m esm a razão, e seja perturbada a
proporção entre elas, por um lado, como a A para a B, assim a E para a F,
e, por outro lado, como a ^ .__ . B_. C ■__ -
B para a C, assim a D para q __ p F ——
a E; digo que como a A g ^
está para a C, assim a D
’ I - - - - L ■------- ■------- ■ M ...
para a F.
Fiquem tom adas, por um lado, as G, H , I, os mesm os m últiplos das A,
B, D, e, por outro lado, as J, L, M , outros, ao acaso, mesmos m últiplos das
C, E, F.
E, como as G, H são os mesmos m últiplos das A, B, e as partes têm
para os seus igualm ente m últiplos a m esm a razão, portanto, como a A
está para a B, assim a G para a H. Pelas mesm as coisas, então, tam bém
como a E para a F, assim a L para a M ; e, como a A está para a B, assim a E
para a F; portanto, tam bém como a G para a H, assim a L para a M . E, como
a B está para a C, assim a D para a E, e, alternadam ente, como a B para a D,
assim a C para a E. E, como as H, I são os m esm os m últiplos das B, D, e
as partes têm para os seus igualm ente m últiplos a m esm a razão, portanto,
como a B está para a D, assim a H para a I. M as, como a B para a D, assim
a C para a E; portanto, tam bém como a H para a I, assim a C para a E. De
novo, como as J, L são os mesm os m últiplos das C, E, portanto, como a C
está para a E, assim a J para a L. M as, como a C para a E, assim a H para a
I; portanto, como a H para a I, assim a J para a L, e, alternadam ente, como
a H para a J, a I para a L. M as foi provado tam bém como a G para a H,
assim a L para a M . Com o, de fato, as G, H , J são três m agnitudes, e as I,
L, M , outras iguais a elas em quantidade, tom adas duas a duas na m esm a
razão, e foi perturbada a proporção entre elas, portanto, por igual posto, se

228
O s elementos

a G excede a J, tam bém a I excede a M , e se igual, igual, e se menor, menor.


E, por um lado, as G, I são os mesmos m últiplos das A, D, e, por outro
lado, as J, M , das C, F. Portanto, como a A está para a C, assim a D para a F.
Portanto, caso existam três m agnitudes e outras iguais a elas em q u an ti­
dade, tom adas duas a duas na m esm a razão, e seja perturbada a proporção
entre elas, tam bém , por igual posto, estarão na m esm a razão; o que era
preciso provar.

24.

C aso u m a p rim eira tenha para u m a segu n da a m esm a razão que u m a


terceira p a ra u m a quarta, e tam bém u m a quinta tenha pa ra a segu n da a
m esm a razão que u m a sexta pa ra a quarta, também, tendo sido compostas,
p rim eira e quinta terão para a segu n da a m esm a razão que terceira e sexta
pa ra a quarta.

Tenha, pois, a p rim eira AB para a segunda C a


5
A . __________ _____ . G m esm a razão que a terceira DE para a quarta F, e
tenha, tam bém , a q u in ta BG para a segunda C a
" ^ m esm a razão que a sexta EH para a quarta F; digo
D ■------------■---------■ H que tam bém , tendo sido com postas, prim eira e
F ■-------- ■ quinta, a AG terá para a segunda C a m esm a razão
que, terceira e sexta, a DH para a quarta F.
Pois, como a BG está para a C, assim a EH para a F, portanto, inversa­
m ente, como a C para a BG, assim a F para a EH. Com o, de fato, a AB está
para a C, assim a DE para a F, ao passo que, como a C para a BG, assim a
F para a EH, portanto, por igual posto, como a AB está para a BG, assim
a DE para a EH. E, como m agnitudes separadas, estão em proporção, tam ­
bém, tendo sido com postas, estarão em proporção; portanto, como a AG
está para a GB, assim a DH para a HE. M as tam bém como a BG está para
a C, assim a EH para a F; portanto, por igual posto, como a AG está para a
C, assim a D H para a F.
Portanto, caso um a prim eira tenha para um a segunda a m esm a razão que
um a terceira para um a quarta, e tam bém um a q u in ta tenha para a segunda a

229
Euclides

m esm a razão que um a sexta para a quarta, tam bém , tendo sido com postas,
p rim eira e quin ta terão para a segunda a m esm a razão que terceira e sexta
para a quarta; o que era preciso provar.

25.

Caso quatro m a gn itu d es estejam em proporção, a m a io r [d ela s] e a m en o r


são m aiores do que as duas restantes.

S ejam AB, C D , E, F as quatro m agn itud es em


proporção, como a AB para a CD , assim a E para a F, A ■_______ B
e sejam , por um lado, a AB a m aior delas, e, por outro ^ _
lado, a F a m enor; digo que as AB, F são m aiores do H
que as CD , E. C D
Fiquem , pois, postas, por um lado, a AG igual à E, ^ " "
e, por outro lado, a C H igual à F.
Com o, [d e fa to ], a AB está para a CD , assim a E para a F, e a E é igual
à AG, enquanto a F, à CH , portanto, como a AB está para a CD , assim a
AG para a CH . E, como a AB toda está para a CD toda, assim a que foi
subtraída AG para a que fo i subtraída C H , portanto, a restante GB estará
para a restante H D , como a AB toda para a CD toda. M as a AB é m aior do
que a CD ; portanto, tam bém a GB é m aior do que a H D . E, como a AG
é igual à E, ao passo que a CH , à F, portanto, as AG, F são iguais à CH ,
E. E, [c o m o ], caso [se ja m com postas iguais com desiguais, as todas são
desiguais, portanto, caso], sendo desiguais as GB, H D e a GB a maior, por
um lado, sejam com postas as AG, F com a GB, e, por outro lado, sejam
com postas as C H , E com a H D , conclui-se que as AB, F são m aiores do
que as CD , E.
P ortanto, caso quatro m agnitudes estejam em proporção, a m aior delas
e a m enor são m aiores do que as duas restantes; o que era preciso provar.

230
Livro VI

Definições

1. Figuras retilíneas sem elhantes são quantas têm tanto os ângulos iguais,
um a um , quantos os lados ao redor dos ângulos iguais em proporção.
[2. E figuras estão inversam ente relacionadas, quando existam , em cada
um a das figuras, razões antecedentes e tam bém consequentes.]
3. U m a reta é d ita estar cortada em extrem a e m édia razão, quando como
a toda esteja para o m aior segm ento, assim o m aior para o menor.
4. U m a altu ra de toda figura é a perpendicular traçada do vértice até a
base.
[5. U m a razão é dita ser com posta de razões, quando os tam anhos das
razões, tendo sido m ultiplicadas por elas m esm as, façam algum a.]

1.

O s triângulos e os pa ra lelogra m os que estão sob a m esm a altura estão entre


si com o as bases.

Sejam, por um lado, os triângulos ABC, ACD,


e, por outro lado, os paralelogram os EC, CF, sob
a m esm a altura AC; digo que como a base BC
está para a base CD , assim o triân gulo ABC para
o triân gulo ACD , e o paralelogram o EC para o
paralelogram o CF.

2 3 1
Euclides

Fique, pois, prolongada a BD, sobre cada um dos lados, até os pontos
H , J, e fiquem postas, por um lado, as BG, GH [em quantidade qualquer]
iguais à base BC, e, por outro lado, as DI, IJ, em quantidade qualquer, iguais
à base CD , e fiquem ligadas as AG, AH, AI, AJ.
E, como as CB, BG, GH são iguais entre si, tam bém os triân gulo s
A H G , AGB, ABC são iguais entre si. Portanto, quantas vezes a base H C
é da base BC tantas vezes tam bém o triân gu lo A H C é do triân gu lo ABC.
Pelas mesmas coisas, então, quantas vezes a base JC é da base CD tantas
vezes tam bém o triân gu lo AJC é do triân gulo ACD ; e, se a base H C é igual
à base CJ, tam bém o triân gulo A H C é igual ao triân gu lo ACJ, e se a base
H C excede a base CJ, tam bém o triân gulo A H C excede o triân gulo ACJ,
e se menor, menor. Então, existindo quatro m agnitudes, por um lado, as
duas bases BC, CD , e, por outro lado, os dois triân gulo s ABC, ACD , fo ­
ram tom ados, por um lado, os mesm os m últiplos quer da base BC quer do
triângulo ABC, tanto a base H C quanto o triângulo A H C, e, por outro lado,
outros, ao acaso, os m esm os m últiplos quer da base CD quer do triângulo
A D C, tanto a base JC quanto o triân gulo AJC; e foi provado que, se a base
H C excede a base CJ, tam bém o triân gu lo A H C excede o triân gu lo AJC,
e se igual, igual, e se menor, m enor; portanto, como a base BC está para a
base CD , assim o triân gu lo ABC para o triân gu lo ACD.
E, como, por um lado, o paralelogram o EC é o dobro do triân gu lo ABC,
e, por outro lado, o paralelogram o FC é o dobro do triân gu lo ACD , e as
partes têm para os igualm ente m últiplos a m esm a razão, portanto, como
o triân gu lo ABC está para o triân gu lo ACD, assim o paralelogram o EC
para o paralelogram o FC. Com o, de fato, foi provado, por um lado, como
a base BC para a base CD , assim o triân gulo ABC para o triân gulo ACD,
e, por outro lado, como o triân gulo ABC para o triân gu lo ACD , assim o
paralelogram o EC para o paralelogram o CF, portanto, tam bém como a base
BC para a base CD , assim o paralelogram o EC para o paralelogram o CF.
Portanto, os triângulos e os paralelogram os que estão sob a mesm a altura
estão entre si como as bases; o que era preciso provar.

2 32
O s elem entos

2.

Caso algum a reta seja traçada paralela a um dos lados de u m triângulo,


corta os lados do triângulo em proporção; e, caso os lados do triângulo
sejam cortados em proporção, a reta, sendo ligada dos pon tos de secção, será
paralela ao lado restante do triângulo.

Fique, pois, traçada a DE paralela a um dos


lados, o BC, do triân gulo ABC; digo que, como
a BD está para a DA, assim a CE para a EA.
Fiquem , pois, ligadas as EB, CD.
Portanto, o triângulo BDE é igual ao triân gu­
lo CDE; pois estão sobre a mesm a base DE e nas
C mesmas paralelas DE, BC; mas o triângulo ADE
é algum outro. E as iguais têm para a mesm a a mesm a razão; portanto, como
o triângulo BDE está para o [triângulo] ADE, assim o triângulo CDE para o
triân gulo ADE. M as, por um lado, como o triân gu lo BDE para o ADE,
assim a BD para a DA; pois, estando sob a m esm a altura, a perpendicular
traçada do E até o AB, estão entre si como as bases. Pelas mesmas coisas,
então, como o triângulo CDE para o ADE, assim a CE para a EA; portanto,
tam bém como a BD para a DA, assim a CE para a EA.
M as, então, fiquem cortados os dois lados AB, AC do triân gu lo ABC,
em proporção, como a BD para a DA, assim a CE para a EA, e fique ligada
a DE; digo que a DE é paralela à BC.
Tendo, pois, sido construídas as m esm as coisas, como a BD está para
a DA, assim a CE para a EA, mas, por um lado, como a BD para a DA,
assim o triân g u lo BDE para o triân g u lo ADE, e, por outro lado, como a
CE para a EA, assim o triân g u lo CD E para o triân g u lo ADE, portanto,
tam bém como o triân g u lo BDE para o triân g u lo ADE, assim o triân gu lo
CDE para o triân g u lo ADE. Portanto, cada um dos triân gu lo s BDE, CDE
tem para o ADE a m esm a razão. Portanto, o triân g u lo BDE é igu al ao
triân g u lo CD E; e estão sobre a m esm a base DE. M as os triân gulo s iguais
e que estão sobre a m esm a base, tam bém estão nas m esm as paralelas. Por­
tanto, a DE é paralela à BC.

233
Euclides

Portanto, caso algum a reta seja traçada paralela a um dos lados de um


triân gulo , corta os lados do triân gulo em proporção; e, caso os lados do
triân gu lo sejam cortados em proporção, a reta, sendo ligada dos pontos de
secção, será paralela ao lado restante do triân gu lo ; o que era preciso provar.

3.

C aso o ângulo de um triângulo seja cortado em dois, e a reta que corta


o ângulo também corte a base, os segm entos da base terão a m esm a razão
que os lados restantes do triângulo; e, caso os segm entos da base tenham a
m esm a razão que os lados restantes do triângulo, a reta, sendo ligada do
vértice até o pon to de secção, cortará o ângulo do triângulo em dois.

Seja o triân gulo ABC, e fique cortado o ân­


gulo sob BAC em dois pela reta AD; digo que,
como a BD está para a CD , assim a BA para a AC.
Fique, pois, traçada pelo C a CE paralela à
DA, e, tendo sido traçada através a BA, encontre-a B
no E.
E, como a reta AC encontrou as paralelas AD, EC, portanto, o ângulo sob
ACE é igual ao sob CAD. M as o sob CAD foi suposto igual ao sob BAD;
portanto, o ângulo sob BAD é igual ao sob ACE. De novo, como a reta
BAE encontrou as paralelas AD, EC, o ângulo exterior, o sob BAD é igual
ao ângulo interior, o sob AEC. E tam bém o sob ACE foi provado igual ao
sob BAD; portanto, tam bém o sob ACE é igual ao sob AEC; desse modo,
tam bém o lado AE é igual ao lado AC. E, como a AD foi traçada paralela
a um dos lados, o EC, do triân gu lo BCE, portanto, proporcionalm ente,
como a BD está para a D C, assim a BA para a AE. M as a AE é igual à AC;
portanto, como a BD para a D C, assim a BA para a AC.
M as, então, como a BD esteja para a D C, assim a BA para a AC, e fique
ligad a a AD; digo que o ângulo sob BAC foi cortado em dois pela reta AD.
Pois, tendo sido construídas as mesm as coisas, como a BD está para a
D C, assim a BA para a AC, mas tam bém como a BD para a D C, assim a BA
está para a AE; pois, a AD foi traçada paralela a um, o EC, do triângulo BCE;

234
O s elementos

portanto, tam bém como a BA para a AC, assim a BA para a AE. Portanto,
a AC é igual à AE; desse modo, tam bém o ângulo sob AEC é igual ao sob
ACE. M as, por um lado, o sob AEC [é] igual ao exterior, o sob BAD, e, por
outro lado, o sob ACE é igual ao alterno, o sob CAD; portanto, tam bém
o sob BAD é igual ao sob CAD. Portanto, o ângulo sob BAC foi cortado
em dois pela reta AD.
Portanto, caso o ângulo de um triân gulo seja cortado em dois, e a reta
que corta o ângulo corte tam bém a base, os segm entos da base terão a
m esm a razão que os lados restantes do triân gu lo ; e, caso os segm entos
da base tenham a m esm a razão que os lados restantes do triân gulo , a reta,
sendo ligada do vértice até o ponto de secção, corta o ângulo do triân gulo
em dois; o que era preciso provar.

4.

Os lados à volta dos ângulos iguais dos triângulos equiângulos estão em


prop orçã o, e os que se estendem sob os ângulos iguais são homólogos.

Sejam os triân gulo s equiângulos ABC, DCE,


tendo, por um lado, o ângulo sob ABC igual ao sob
DCE, e, por outro lado, o sob BAC, ao sob CDE, e
ainda o sob ACB, ao sob CED ; digo que os lados à
volta dos ângulos iguais dos triângulos ABC, DCE
estão em proporção e os que se estendem sob os
ângulos iguais são hom ólogos.
Fique, pois, posta a BC sobre um a reta com a CE. E, como os ângulos
sob ABC, ACB são menores do que dois retos e os sob ACB é igual ao sob
DEC, portanto, os sob ABC, DEC são menores do que dois retos; p o rtan ­
to, as BA, ED, sendo prolongadas, encontrar-se-ão. Fiquem prolongadas
e encontrem -se no F.
E, como o ângulo sob DCE é igual ao sob ABC, a BF é paralela à CD.
De novo, como o sob ACB é igual ao sob DEC, a AC é paralela à FE. Por­
tanto, o FACD é um paralelogram o; portanto, a FA é igual à D C, enquanto
a AC, à FD. E, como a AC foi traçada paralela a um, o FE, do triân gulo

235
Euclides

FBE, portanto, como a BA está para a AF, assim a BC para a CE. M as a


AF é igual à CD ; portanto, como a BA para a CD , assim a BC para a CE,
e, alternadam ente, como a AB para a BC, assim a D C para a CE. De novo,
como a CD é paralela à BF, portanto, como a BC para a CE, assim a FD
para a DE. M as a FD é igual à AC; portanto, como a BC para a CE, assim
a AC para a DE, e, alternadam ente, como a BC para a CA, assim a CE para a
ED. Porque, de fato, foi provado, por um lado, como a AB para a BC, assim
a D C para a CE, e, por outro lado, como a BC para a CA, assim a CE para a
ED, portanto, por igual posto, como a BA para a AC, assim a CD para a DE.
Portanto, os lados à volta dos ângulos iguais dos triângulos equiângulos
estão em proporção e os que se estendem sob os ângulos iguais são hom ó­
logos; o que era preciso provar.

5.

Caso dois triângulos tenham os lados em proporção, os triângulos serão


equiângulos, e terão iguais os ângulos sob os quais se estendem os lados
homólogos.

Sejam os dois triângulos ABC, DEF, tendo


os lados em proporção, por um lado, como o AB
para o BC, assim o DE para o EF, e, por outro
lado, como o BC para o CA, assim o EF para o
FD, e ainda como o BA para o AC, assim o ED
para o DF; digo que o triân gulo ABC é equiân-
gulo com o triân gulo DEF e terão os ângulos iguais, aqueles sob os quais
se estendem os lados hom ólogos, por um lado, o sob ABC, ao sob DEF, e,
por outro lado, o sob BCA ao sob EFD, e ainda o sob BAC, ao sob EDF.
Fiquem , pois, construídos, sobre a reta EF e nos pontos E, F sobre ela,
por um lado, o sob FEG igual ao ângulo sob ABC, e, por outro lado, o sob
EFG igual ao sob ACB; portanto, o junto ao A restante é igual ao junto
ao G restante.
Portanto, o triân gulo ABC é equiângulo com o [triân g u lo ] EGF. Por­
tanto, os lados à volta dos ângulos iguais dos triân gulo s ABC, EGF estão

2 36
O s elementos

em proporção e os que se estendem sob os ângulos iguais são hom ólogos;


portanto, como o AB para o BC, [assim ] o GE para o EF. M as, como o
AB para o BC, assim , foi suposto, o DE para o EF; portanto, como o DE
para o EF, assim o GE para o EF. Portanto, cada um dos DE, GE tem para
o EF a m esm a razão; portanto, o DE é igual ao GE. Pelas mesm as coisas,
então, tam bém o DF é igual ao GF. Com o, de fato, o DE é igual ao EG, e
o EF é comum, os dois DE, EF, então, são iguais aos dois GE, EF; e a base
DF [é] igual à base FG; portanto, o ângulo sob DEF é igual ao ângulo sob
GEF, e o triân gu lo DEF é igual ao triân gu lo GEF, e os ângulos restantes
são iguais aos ângulos restantes, aqueles sob os quais se estendem os lados
iguais. Portanto, por um lado, o ângulo sob DFE é igual ao sob GFE, e,
por outro lado, o sob EDF, ao sob EGF. E como o sob FED é igual ao sob
GEF, mas o sob GEF, ao sob ABC, portanto, tam bém o ângulo sob ABC é
igual ao sob DEF. Pelas mesm as coisas, então, tam bém o sob ACB é igual
ao sob DFE, e, ainda, o junto ao A, ao junto ao D; portanto, o triân gulo
ABC é equiângulo com o triân gu lo DEF.
Portanto, caso dois triân gulo s tenham os lados em proporção, os triân ­
gulos serão equiângulos e terão iguais os ângulos sob os quais se estendem
os lados hom ólogos; o que era preciso provar.

6.

Caso dois triângulos tenham um ângulo igual a um ângulo, e os lados, à


volta dos ângulos iguais, em p roporção, os triângulos serão equiângulos e
terão iguais os ângulos sob os quais se estendem os lados homólogos.

Sejam os dois triân gulo s ABC, DEF, tendo um


ângulo, o sob BAC, igual a um ângulo, o sob EDF, e
os lados, à volta dos ângulos iguais, em proporção,
como o BA para o AC, assim o ED para o DF; digo
que o triân gu lo ABC é equiângulo com o triân gulo
DEF, e terão o ângulo sob ABC igual ao sob DEF, e
o sob ACB, ao sob DFE.

237
Euclides

Fiquem , pois, construídos, sobre a reta DF e nos pontos D, F sobre ela,


por um lado, o sob FDG igual a qualquer um dos sob BAC, EDF, e, por
outro lado, o sob DFG igual ao sob ACB; portanto, o ângulo junto ao B
restante é igual ao junto ao G restante.
Portanto, o triângulo ABC é equiângulo com o triângulo DGF. Portanto,
proporcionalm ente, como o BA está para o AC, assim o GD para o DF. M as
foi suposto também como o BA para o AC, assim o ED para o DF; portanto,
tam bém como o ED para o DF, assim o GD para o DF. Portanto, o ED é
igual ao DG; e o DF é com um; então, os dois ED, DF são iguais aos dois
GD, DF; e o ângulo sob EDF [é] igual ao ângulo sob GDF; portanto, a
base EF é igual à base GF, e o triân gu lo DEF é igual ao triân gu lo GDF,
e os ângulos restantes serão iguais aos ângulos restantes, sob os quais se
estendem os lados iguais. Portanto, por um lado, o sob DFG é igual ao sob
DFE, e, por outro lado, o sob DGF, ao sob DEF. M as o sob DFG é igual
ao sob ACB; portanto, tam bém o sob ACB é igual ao sob DFE. M as foi
tam bém suposto o sob BAC igual ao sob EDF; portanto, tam bém o junto
ao B restante é igual ao junto ao E restante; portanto, o triân gulo ABC é
equiângulo como o triân gulo DEF.
Portanto, caso dois triân gulo s tenham um ângulo igual a um ângulo,
e os lados à volta dos ângulos iguais em proporção, os triân gulo s serão
equiângulos e terão iguais os ângulos sob os quais se estendem os lados
hom ólogos; o que era preciso provar.

7.

Caso dois triângulos tenham u m ângulo igual a u m ân gu lo, e os lados


à volta dos outros ângulos em prop orçã o, e cada u m dos restantes,
sim ultaneam ente, ou m en o r ou não m en o r do que um reto, os triângulos
serão equiângulos e terão iguais os ângulos, à volta dos quais estão os lados
em proporção.

Sejam os dois triân gulo s ABC, DEF, tendo um ângulo igual a um ângu­
lo, o sob BAC, ao sob EDF, e os lados à volta dos outros ângulos, os sob
ABC, DEF em proporção, como o AB para o BC, assim o DE para o EF, e,

23 8
O s elementos

prim eiram ente, cada um dos restantes, os juntos aos


C, F, sim ultaneam ente, m enor do que um reto; digo
que o triân gulo ABC é equiângulo com o triân gulo
DEF, e o ângulo sob ABC será igual ao sob DEF, e
o restante, a saber, o junto ao C, é igual ao restante,
o junto ao F.
Pois, se o sob ABC é desigual ao sob DEF, um deles é maior. Seja m aior
o sob ABC. E fique construído, sobre a reta AB e no ponto B sobre ela, o
sob ABG igual ao ângulo sob DEF.
E como, por um lado, o ângulo A é igual ao D, e, por outro lado, o sob
ABG, ao sob DEF, portanto, o sob AGB restante é igual ao sob DFE restan­
te. Portanto, o triângulo ABG é equiângulo com o triângulo DEF. Portanto,
como o AB está para o BG, assim o DE para o EF. M as, como o DE para
o EF, [assim ], foi suposto, o AB para o BC; portanto, o AB tem para cada
um dos BC, BG a m esm a razão; portanto, o BC é igual ao BG. Desse modo,
tam bém o ângulo junto ao C é igual ao ângulo sob BGC. M as o junto ao C
foi suposto m enor do que um reto; portanto, tam bém o sob BGC é m enor
do que um reto; desse modo, o ângulo sob AGB, adjacente a ele, é m aior
do que um reto. E foi provado que é igual ao junto ao F; portanto, tam bém
o junto ao F é m aior do que um reto. M as foi suposto m enor do que um
reto; o que é absurdo. Portanto, o ângulo sob ABC não é desigual ao sob
DEF; portanto, é igual. M as tam bém o junto ao A é igual ao junto ao D;
portanto, o junto ao C restante é igual ao junto ao F restante. Portanto, o
triân gulo ABC é equiângulo com o triân gulo DEF.
M as, então, de novo, fique suposto cada um dos junto aos C, F não
m enor do que um reto; digo, de novo, que tam bém assim o triân gulo ABC
é equiângulo com o triân gulo DEF.
Tendo sido, pois, co n stru íd as as m esm as
coisas, do mesm o modo provaremos que o BC
é igual ao BG; desse modo, tam bém o ângulo
junto ao C é igual ao sob BGC. M as o junto ao
C não é m enor do que um reto; portanto, nem
o sob BGC é m enor do que um reto. Então, os
dois ângulos do triân gu lo BGC não são m eno­

239
Euclides

res do que dois retos; o que é im possível. Portanto, de novo, o ângulo sob
ABC não é desigual do sob DEF; portanto, é igual. M as tam bém o junto
ao A é igual ao junto ao D; portanto, o junto ao C restante é igual ao junto ao
F restante. Portanto, o triân gulo ABC é equiângulo com o triân gulo DEF.
Portanto, caso dois triân gulo s tenham um ângulo igual a um ângulo, e
os lados à volta dos outros ângulos em proporção, e cada um dos restantes,
sim ultaneam ente, é m enor ou não m enor do que um reto, os triângulos
serão equiângulos e terão iguais os ângulos, à volta dos quais estão os lados
em proporção; o que era preciso provar.

8.

C a so em u m triâ n g u lo retâ n g u lo seja traça da u m a p e r p e n d ic u la r do


â n g u lo reto até a base, os triâ n g u lo s ju n t o à p e r p e n d ic u la r são sem elh a n tes
tanto ao todo q u a n to en tre si.

Seja o triân gulo retângulo ABC, tendo reto o


ângulo sob BAC, e fique traçada do A até o BC a
perpendicular AD; digo que cada um dos triâ n ­
gulos ABD, A D C é sem elhante ao ABC todo e, _ „ „
s . B D C
ainda, entre si.
Pois, como o sob BAC é igual ao sob ADB; pois, cada um é reto; e o
junto ao B é com um dos dois triân gu lo s, tanto do ABC quanto do ABD,
portanto, o sob ACB restante é igual ao sob BAD restante; portanto, o
triân gu lo ABC é equiângulo com o triân gulo ABD. Portanto, como o BC,
que subtende o reto do triân gulo ABC, está para o BA, que subtende o
reto do triân gulo ABD, assim o mesmo AB, que subtende o ângulo junto
ao C do triân gu lo ABC, para o BD, que subtende o sob BAD, igual, do
triângulo ABD, e, ainda, o AC para o AD, subtendendo o ângulo junto ao B,
com um dos dois triân gulo s. Portanto, o triân gulo ABC tanto é equiângulo
com o triân gulo ABD quanto tem os lados, à volta dos ângulos iguais, em
proporção. Portanto, o triân gulo ABC [é] sem elhante ao triân gu lo ABD.
Do mesmo modo, então, provaremos que tam bém o triângulo ABC é sem e­
lhante ao triân gulo A D C; portanto, cada um dos [triân g u lo s] ABD, AD C

240
O s elementos

é sem elhante ao ABC todo. D igo, então, que tam bém os triângulos ABD,
AD C são sem elhantes entre si.
Pois, como o sob BDA é reto, é igual ao sob AD C, reto, mas, certam ente,
tam bém o sob BAD foi provado igual ao junto ao C, portanto, tam bém o
junto ao B restante é igual ao sob DAC restante; portanto, o triângulo ABD
é equiângulo com o triân gu lo AD C. Portanto, como o BD, subtendendo
o sob BAD do triân gu lo ABD, está para o DA, subtendendo o junto ao C
do triân gulo A D C igual ao sob BAD, assim o mesmo AD, subtendendo o
ângulo junto ao B do triân gu lo ABD, para o D C, que subtende o sob DAC
do triân gu lo AD C, igual ao junto ao B, e, ainda, o BA para o AC, subten­
dendo os retos; portanto, o triângulo ABD é sem elhante ao triângulo AD C.
Portanto, caso em um triângulo retângulo seja traçada um a perpendicular
do ângulo reto até a base, os triân gulo s junto à perpendicular são sem e­
lhantes tanto ao todo quanto entre si [o que era preciso provar].

C o r o l á r io

D isso, é evidente que, caso em um triân gu lo retângulo seja traçada um a


perpendicular do reto até a base, a traçada é m édia, em proporção, entre os
segm entos da base; o que era preciso provar [e, ainda, entre a base e q u al­
quer dos segm entos, o lado junto ao segm ento é m édia, em proporção].

9.

S ep a ra r de u m a reta da da a p a r t e q u e f o i prescrita .

Seja a reta dada AB; é preciso, então, da AB


separar a parte que foi prescrita.
Fique, então, prescrita a terça. [E] fique traçada
P g através, a p artir do A, algum a reta, a AC, contendo
um ângulo, que foi encontrado ao acaso, com a AB;
e fique tom ado, ao acaso, o ponto D sobre a AC, e fiquem postas as DE, EC
iguais à AD. E fique ligada a BC, e pelo D fique traçada a DF paralela a ela.
Com o, de fato, a FD foi traçada paralela a um dos lados, o BC, do triân ­
gulo ABC, portanto, em proporção, como a CD está para a DA, assim a BF

241
Euclides

para a FA. M as a CD é o dobro da DA; portanto, tam bém a BF é o dobro


da FA; portanto, a BA é o triplo da AF.
Portanto, da reta dada AB foi separada a terça parte prescrita AF; o que
era preciso fazer.

10.

C o r t a r a reta da da não corta d a sem elh a n tem en te à dada cortada.

Sejam, por um lado, a reta dada não cortada AB,


e, por outro lado, a cortada AC nos pontos D, E, e
fiquem postas de modo a conter um ângulo, que
foi encontrado ao acaso, e fique ligada a CB, e pelos
D, E fiquem traçadas as DF, EG paralelas à BC, e
pelo D fique traçada a D H I paralela à AB. A F G B
Portanto, cada um dos FH , HB é um p aralelo ­
gram o; portanto, por um lado, a D H é igual à FG, e, por outro lado, a HI,
à GB. E, como a H E foi traçada paralela a um dos lados, o IC, do triângulo
D IC, portanto, em proporção, como a CE está para a ED, assim a IH para
a H D . M as, por um lado, a IH é igual à BG, e, por outro lado, a H D , à
GF. Portanto, como a CE está para a ED, assim a BG para a GF. De novo,
como a FD foi traçada paralela a um dos lados, o GE, do triân gulo AGE,
portanto, em proporção, como a ED está para a DA, assim a GF para a
FA. M as foi provado tam bém como a CE para a ED, assim a BG para a GF;
portanto, por um lado, como a CE está para a ED, assim a BG para a GF, e,
por outro lado, como a ED para a DA, assim a GF para a FA.
Portanto, a reta dada não cortada AB foi cortada sem elhantem ente à reta
dada cortada AC; o que era preciso fazer.

11.

D a d a s d u a s retas, a ch a r u m a terceira em p rop o rçã o .

Sejam as [duas retas] dadas BA, AC, e fiquem postas contendo um


ângulo, ao acaso. É preciso, então, achar um a terceira, em proporção, com

242
O s elementos

as BA, AC. Fiquem , pois prolongadas até os pontos D, E,


e fique posta a BD igual à AC, e fique ligada a BC, e pelo
D fique traçada a DE paralela a ela.
Com o, de fato, a BC foi traçada paralela a um dos lados,
o DE, do triân gu lo ADE, em proporção, como a AB está
para a BD, assim a AC para a CE. M as a BD é igual à AC.
Portanto, como a AB está para a AC, assim a AC para a CE.
Portanto, dadas duas retas AB, AC foi achada um a ter­
ceira, a CE, em proporção com elas; o que era preciso fazer.

12.

D a d a s três retas, a ch a r u m a q u a rta em p rop o rçã o .

Sejam as três retas dadas A,


B, C; é preciso, então, achar um a
^ m_________ _ quarta em proporção com as A,
B .______ . B, C.
C ._______. F iquem postas as duas retas
DE, DF, co n ten do um ân gu lo
D p| p [ao acaso], o sob EDF; e fiquem
postas, por um lado, a DG igual à
A, e, por outro lado, a GE igual à B, e, ainda, a D H igual à C; e, tendo sido
ligada a H G , fique traçada pelo E a EF paralela a ela.
Com o, de fato, a GH foi traçada paralela a um lado, o EF, do triân gulo
DEF, portanto, como a DG está para a GE, assim a D H para a HF. M as,
por um lado, a DG é igual à A, e, por outro lado, a GE, à B, e a D H , à C;
portanto, como a A está para a B, assim a C para a HF.
Portanto, dadas as três retas A, B, C, foi achada um a quarta, a HF, em
proporção; o que era preciso fazer.

243
Euclides

13.

Achar u m a m éd ia em p r o p o r çã o en tre d u as retas dadas.

Sejam as duas retas dadas AB, BC; é preciso, en­


tão, achar um a m édia em proporção entre as AB, BC.
Fiquem postas sobre um a reta, e fique descrito
sobre a AC o sem icírculo AD C, e fique traçada, a
p artir do ponto B, a BD em ângulos retos com a
reta AC, e fiquem ligadas as AD, DC.
Como o ângulo sob A D C está em um sem icírculo, é reto. E, como no
triân gu lo retângulo A D C foi traçada, do ângulo reto até a base, a perpen­
dicular DB, portanto, a DB é m édia em proporção entre os segm entos AB,
BC da base.
Portanto, foi achada a DB, m édia em proporção entre as duas retas dadas
AB, BC; o que era preciso fazer.

14.

O s lados, à v o lta dos â n g u lo s iguais, dos p a r a le lo g r a m o s igu a is e tam bém


eq u iân gu los, são in v er sa m e n te p r o p o rcio n a is; e são igu a is aqueles
p a r a le lo g r a m o s eq u iân gu los, dos q uais os lados, à v o lta dos â n g u lo s iguais,
são in v er sa m en te p ro p o rcio n a is.

Sejam os paralelogram os iguais e tam bém equiân-


gulos AB, BC, tendo iguais os ângulos no B, e fiquem
postas as DB, BE sobre um a reta; portanto, tam bém
as FB, BG estão sobre um a reta. D igo que os lados
dos AB, BC, à volta dos ângulos iguais, são inversa­
m ente proporcionais, isto é, que como a DB está para
a BE, assim a GB para a BF.
Fique, pois, com pletado o paralelogram o FE. Com o, de fato, o p arale­
logram o AB é igual ao paralelogram o BC, e o FE é algum outro, portanto,
como o AB está para o FE, assim o BC para o FE. M as, por um lado, como

244
O s elementos

o AB para o FE, assim a DB para a BE, e, por outro lado, como o BC para o
FE, assim a GB para a BF; portanto, tam bém como a DB para a BE, assim
a GB para a BF. Portanto, os lados dos paralelogram os AB, BC, à volta dos
ângulos iguais, são inversam ente proporcionais.
M as, então, como a DB esteja para a BE, assim a GB para a BF; digo que
o paralelogram o AB é igual ao paralelogram o BC.
Pois, como a DB está para a BE, assim a GB para a BF, mas, por um lado,
como a DB para a BE, assim o paralelogram o AB para o paralelogram o FE,
e, por outro lado, como a GB para a BF, assim o paralelogram o BC para o
paralelogram o FE, portanto, tam bém como o AB para o FE, assim o BC
para o FE; portanto, o paralelogram o AB é igual ao paralelogram o BC.
Portanto, os lados, à volta dos ângulos iguais, dos paralelogram os iguais
e tam bém equiângulos são inversam ente proporcionais; e são iguais aqueles
paralelogram os equiângulos, dos quais os lados, à volta dos ângulos iguais,
são inversam ente proporcionais; o que era preciso provar.

15.

D o s triâ n g u lo s igu a is e q u e têm u m â n g u lo ig u a l a um , os lados à vo lta


dos â n g u lo s igu a is são in v er sa m e n te p r o p o rcio n a is; e são igu a is aqueles
triâ n g u lo s q u e têm u m â n g u lo ig u a l a um , dos q u a is os lados à v o lta dos
â n g u lo s igu a is são in v er sa m e n te p rop o rcio n a is.

Sejam os triân gulo s iguais ABC, ADE,


tendo um ângulo, o sob BAC, igual a um,
o sob DAE; digo que, dos triân gulo s ABC,
ADE, os lados à volta dos ângulos iguais
são in v ersam en te p ro p o rcio n ais, isto é,
que como a CA está para a AD, assim a EA
para a AB.
Fiquem , pois, postos de modo a estar
a CA sobre um a reta com a AD; portanto,
sobre um a reta tam bém a EA está com a AB.
E fique ligada a BD.

245
Euclides

Com o, de fato, o triân gu lo ABC é igual ao triân gulo ADE, e o BAD é


algum outro, portanto, como o triân gulo CAB está para o triân gulo BAD,
assim o triân gulo EAD para o triân gulo BAD. M as, por um lado, como o
CAB para o BAD, assim a CA para a AD, e, por outro lado, como o EAD
para o BAD, assim a EA para a AB. Portanto, tam bém como a CA para a
AD, assim a EA para a AB. Portanto, dos triân gulo s ABC, ADE os lados à
volta dos ângulos iguais são inversam ente proporcionais.
M as, então, fiquem inversam ente proporcionais os lados dos triângulos
ABC, ADE, e como a CA esteja para a AD, assim a EA para a AB; digo que
o triân gulo ABC é igual ao triân gulo ADE.
Pois, de novo, tendo sido ligad a a BD, como a CA está para a AD, assim
a EA para a AB, mas, por um lado, como a CA para a AD, assim o triângulo
ABC para o triân gulo BAD, e, por outro lado, como a EA para a AB, assim
o triân gulo EAD para o triân gulo BAD, portanto, como o triân gu lo ABC
para o triân gulo BAD, assim o triân gulo EAD para o triân gulo BAD. Por­
tanto, cada um dos ABC, EAD tem para o BAD a m esm a razão. Portanto,
o [triân g u lo ] ABC é igual ao triân gulo EAD.
Portanto, dos triângulos iguais e que têm um ângulo igual a um, os lados
à volta dos ângulos iguais são inversam ente proporcionais; e são iguais
aqueles triângulos que têm um ângulo igual a um, dos quais os lados à volta
dos ângulos iguais são inversamente proporcionais; o que era preciso provar.

16.

C a so q u a tro retas estejam em p r o p o rçã o , o retâ n g u lo con tid o p elo s


ex trem os é ig u a l ao retâ n g u lo con tid o p e lo s m eios, e caso o retâ n g u lo
con tid o p e lo s ex trem os seja ig u a l ao retâ n g u lo con tid o p e lo s m eios, as
q u a tro retas estarão em p rop o rçã o .

E stejam as quatro retas AB,


CD , E, F em proporção, como a
AB para a CD , assim a E para a
F; digo que o retângulo contido
pelas AB, F é igual ao retângulo
contido pelas CD , E.

246
O s elementos

Fiquem , [p o is], traçadas a p artir dos pontos A, C as AG, C H em retos


com as retas AB, CD , e fiquem postas, por um lado, a AG igual à F, e, por
outro lado, a C H igual à E. E, fiquem com pletados os paralelogram os BG,
DH.
E, como a AB está para a CD , assim a E para a F, mas, por um lado, a E
é igual à C H , e, por outro lado, a F, à AG, portanto, como a AB para a CD,
assim a C H para a AG. Portanto, dos paralelogram os BG, DH os lados à
volta dos ângulos iguais são inversam ente proporcionais. M as são iguais
aqueles paralelogram os, dos quais os lados à volta dos ângulos iguais são
inversam ente proporcionais; portanto, o paralelogram o BG é igual ao para­
lelo gram o D H . E, por um lado, o BG é o pelas AB, F; pois, a AG é igual à F;
e, por outro lado, o D H é o pelas CD , E; pois a E é igual à C H ; portanto,
o retângulo contido pelas AB, F é igual ao retângulo contido pelas CD , E.
M as, então, seja o retângulo contido pelas AB, F igual ao retângulo con­
tido pelas CD , E; digo que as quatro retas estarão em proporção, como a
AB para a CD , assim a E para a F.
Tendo, pois, sido construídas as mesmas coisas, como o pelas AB, F é
igual ao pelas CD , E, e, por um lado, o pelas AB, F é o BG; pois, a AG é
igual à F; e, por outro lado, o pelas CD , E é o D H ; pois, a C H é igual à E;
portanto, o BG é igual ao D H . E são equiângulos. M as, dos paralelogram os
iguais e equiângulos os lados à volta dos ângulos iguais são inversam ente
proporcionais. Portanto, como a AB está para a CD , assim a C H para a AG.
M as, por um lado, a C H é igual à E, e, por outro lado, a AG, à F; portanto,
como a AB está para a CD , assim a E para a F.
Portanto, caso quatro retas estejam em proporção, o retângulo contido
pelos extremos é igual ao retângulo contido pelos m eios; e, caso o retân ­
gulo contido pelos extremos seja igual ao retângulo contido pelos meios,
as quatro retas estarão em proporção; o que era preciso provar.

247
Euclides

17.

C aso três retas esteja m em p r o p o rçã o , o retâ n g u lo con tid o p e lo s ex trem os é


ig u a l ao q u a d ra d o sobre a m éd ia; e, caso o retâ n g u lo con tid o p e lo s extrem os
seja ig u a l ao q u a d ra d o sobre a m édia, as três retas estarão em p rop o rçã o .

Estejam as três retas A, B, C em pro- A .______________________ .


porção, como a A para a B, assim a B para g ___________ _
a C; digo que o retângulo contido pelas A,
C é igual ao quadrado sobre a B.
Fique posta a D igual à B. E, como a A está para a B, assim como a B
para a C, mas a B é igual à D, portanto, como a A está para a B, a D para
a C. M as, caso quatro retas estejam em proporção, o [retân gulo ] contido
pelos extremos é igual ao retângulo contido pelos m eios. Portanto, o pelas
A, C é igual ao pela B, D. M as o pelas B, D é o sobre a B; pois a B é igual à
D; portanto, o retângulo contido pelas A, C é igual ao quadrado sobre a B.
M as, então, seja o pelas A, C igual ao sobre a B; digo que como a A está
para a B, assim a B para a C.
Tendo, pois, sido construídas as mesmas coisas, como o pelas A, C é igual
ao sobre a B, mas o sobre a B é o pelas B, D; pois a B é igual à D; portanto,
o pelas A, C é igual ao pelas B, D. M as, caso o pelos extremos seja igual ao
pelos m eios, as quatro retas estão em proporção. Portanto, como a A está
para a B, assim a D para a C. M as a B é igual à D; portanto, como a A para
a B, assim a B para a C.
Portanto, caso três retas estejam em proporção, o retângulo contido pe­
los extremos é igual ao quadrado sobre a m édia; e, caso o retângulo contido
pelos extremos seja igual ao quadrado sobre a m édia, as três retas estarão
em proporção; o que era preciso provar.

248
O s elementos

18 .

S obre a reta dada d e screv er u m a retilín ea sem elhante, e tam bém


sem elh a n tem en te posta, à retilín ea dada.

E ^ Sejam , por um lado, a reta dada AB, e, por


outro lado, a retilín ea dada CE; é preciso,
então, sobre a reta AB descrever um a retilín ea
sem elhante, e tam bém sem elhantem ente pos­
ta, à retilín ea CE.
Fique ligad a a DF, e fiquem construídos sobre a reta AB e nos pontos
A, B sobre ela, por um lado, o sob GAB igual ao ângulo junto ao C, e, por
outro lado, o sob ABG igual ao sob CDF. Portanto, o sob CFD restante é
igual ao sob AGB; portanto, o triângulo FCD é equiângulo com o triângulo
GAB. Portanto, em proporção, como a FD está para a GB, assim a FC para
a GA, e a CD para a AB. De novo, fiquem construídos sobre a reta BG e
nos pontos B, G sobre ela, por um lado, o sob BGH igual ao ângulo sob
DFE, e, por outro lado, o sob GBH igual ao sob FDE. Portanto, o junto
ao E restante é igual ao junto ao H restante; portanto, o triân gu lo FDE
é equiângulo com o triân gu lo GHB; portanto, em proporção, como a FD
está para a GB, assim a FE para a GH e a ED para a HB. M as foi provado
tam bém como a FD para a GB, assim a FC para a GA e a CD para a AB;
portanto, tam bém como a FC para a AG, assim tanto a CD para a AB
quanto a FE para a GH, e ainda a ED para a HB. E como, por um lado, o
ângulo sob CFD é igual ao sob AGB, e, por outro lado, o sob DFE, ao sob
BGH, portanto, o sob CFE todo é igual ao sob AG H todo. Pelas mesmas
coisas, então, tam bém o sob CDE é igual ao sob ABH. M as tam bém , por
um lado, o junto ao C é igual ao junto ao A, e, por outro lado, o junto ao
E, ao junto ao H. Portanto, o AH é equiângulo com o CE; e têm os lados
à volta dos ângulos iguais em proporção; portanto, a retilín ea AH é sem e­
lhante à retilín ea CE.
Portanto, sobre a reta dada AB foi descrita a retilín ea AH sem elhante, e
também sem elhantem ente posta, à retilínea dada CE; o que era preciso fazer.

249
Euclides

19.

O s triâ n g u lo s sem elh a n tes en tre si estão em u m a razão d u p la da


dos lados hom ólogos.

S ejam os triâ n g u lo s sem elh an tes ABC,


DEF, tendo o ângulo junto ao B igual ao junto
ao E, e como o AB para o BC, assim o DE para
o EF, de m odo a ser o BC hom ólogo ao EF;
digo que o triângulo ABC tem para o triângulo
DEF um a razão dupla da que o BC, para o EF.
Fique, pois, tom ada um a terceira, a BG, em proporção com as BC, EF, de
modo a estar como a BC para a EF, assim a EF para a BG; e fique ligada a AG.
Com o, de fato, a AB está para a BC, assim a DE para a EF, portanto,
alternadam ente, como a AB está para a DE, assim a BC para a EF. M as, como
a BC para a EF, assim a EF está para BG. Portanto, tam bém como a AB para
a DE, assim a EF para BG; portanto, dos triân gulo s ABG, DEF os lados à
volta dos ângulos iguais são inversam ente proporcionais. M as, são iguais
aqueles triân gulo s, dos que, tendo um ângulo igual a um, os lados à volta
dos ângulos iguais são inversam ente proporcionais. Portanto, o triângulo
ABG é igual ao triân gu lo DEF. E, como a BC está para a EF, assim a EF
para a BG, mas, caso três retas estejam em proporção, a p rim eira tem para
a terceira um a razão dupla da que para a segunda, portanto, a BC tem para
a BG um a razão dupla da que a CB, para a EF. M as, como a CB para a BG,
assim o triângulo ABC para o triângulo ABG; portanto, também o triângulo
ABC tem para o triângulo ABG um a razão dupla da que a BC, para a EF. M as
o triân gu lo ABG é igual ao triân gu lo DEF; portanto, tam bém o triângulo
ABC tem para o triân gulo DEF um a razão dupla da que o BC, para o EF.
Portanto, os triân gulo s sem elhantes entre si estão em um a razão dupla
da dos lados hom ólogos; [o que era preciso provar].

C o r o l á r io

D isso, é evidente que, caso três retas estejam em proporção, como a


p rim eira está para a terceira, assim a figura sobre a p rim eira para a sem e­

250
O s elementos

lhante e sem elhantem ente descrita sobre a segunda [porque foi provado
como a CB para a BG, assim o triân gulo ABC para o triân gu lo ABG, isto
é, o D E F ]; o que era preciso provar.

20.

O s p o líg o n o s sem elh a n tes são d iv id id o s em triâ n g u lo s tanto sem elh a n tes
q u a n to igu ais em q u a n tid a d e e h o m ó lo go s aos todos, e o p o líg o n o tem
p a r a o p o líg o n o u m a razão d u p la da q u e o lado h o m ólogo, p a r a o lado
h om ólogo.

Sejam os polígonos sem elhantes ABCDE,


FG H IJ, e seja a AB hom óloga à FG; digo que
os polígonos ABCDE, FG H IJ são divididos
em triâ n g u lo s ta n to sem elh an tes q u an to
iguais em quantidade e hom ólogos aos todos,
e o polígono ABCD E tem para o polígono
FG H IJ um a razão dupla da que a AB, para a FG.
Fiquem ligadas as BE, EC, GJ, JH .
E, como o polígono ABCDE é sem elhante ao polígono FG H IJ, o ângulo
sob BAE é igual ao sob GFJ. E, como a BA está para a AE, assim a GF para a
FJ. Com o, de fato, os ABE, FGJ são dois triân gulo s tendo um ângulo igual
a um ângulo e os lados à volta dos ângulos iguais em proporção, portanto,
o triân gulo ABE é equiângulo com o triân gulo FGJ; desse modo, tam bém é
sem elhante; portanto, o ângulo sob ABE é igual ao sob FGJ. M as tam bém o
sob ABC todo é igual ao sob o FG H todo, pela sem elhança dos polígonos;
portanto, o ângulo sob EBC restante é igual ao sob JG H . E como, pela
sem elhança dos triân gulo s ABE, FGJ, a EB está para a BA, assim a JG para
a GF, mas, por certo, tam bém pela sem elhança dos polígonos, como a AB
está para a BC, assim a FG para GH, portanto, por igual posto, como a EB
para BC, assim a JG para GH, e os lados à volta dos ângulos iguais, os sob
EBC, JG H , estão em proporção; portanto, o triân gulo EBC é equiângulo
com o triân gulo JG H ; desse modo, tam bém o triân gulo EBC é sem elhante
ao triân gulo JG H . Pelas mesm as coisas, então, tam bém o triân gulo ECD é

2 5 t
Euclides

sem elhante ao triângulo JH I. Portanto, os polígonos sem elhantes ABCDE,


FG H IJ foram divididos em triân gulo s tanto sem elhantes quanto iguais
em quantidade.
D igo que tam bém são hom ólogos aos todos, isto é, de modo a estarem
os triân gulo s em proporção, e, por um lado, serem os ABE, EBC, ECD
antecedentes, e, por outro lado, os FGJ, JG H , JH I consequentes delas, e
que o polígono ABCD E tem para o polígono FG H IJ um a razão dupla da
que o lado hom ólogo, para o lado hom ólogo, isto é, a AB para a FG.
Fiquem , pois, ligadas as AC, FH . E como, pela sem elhança dos p o líg o ­
nos, o ângulo sob ABC é igual ao sob FG H , e como a AB está para a BC,
assim a FG para a GH, o triân gulo ABC é equiângulo com o triângulo
FG H ; portanto, por um lado, o ângulo sob BAC é igual ao sob G FH , e,
por outro lado, o sob BCA, ao sob GHF. E, como o ângulo sob BAL é
igual ao sob G FM , mas tam bém o sob ABL é igual ao sob FG M , portanto,
tam bém o sob ALB restante é igual ao sob FM G restante; portanto, o triân ­
gulo ABL é equiângulo com o triân gulo FG M . Do mesm o modo, então,
provaremos que tam bém o triân gulo BLC é equiângulo com o triângulo
G M H . Portanto, em proporção, por um lado, como a AL está para a LB,
assim a FM para a M G , e, por outro lado, como a BL para a LC, assim a
G M para M H ; desse modo, tam bém , por igual posto, como a AL para
a LC, assim a FM para M H . M as, como a AL para LC, assim o [triân gu lo ]
ABL para o LBC, e o ALE para o ELC; pois, estão entre si como as bases.
Portanto, tam bém como um dos antecedentes para um dos consequentes,
assim todos os antecedentes para todos os consequentes; portanto, como
o triân gu lo ALB para o BLC, assim o ABE para o CBE. M as, como o ALB
para o BLC, assim a AL para a LC; portanto, tam bém como a AL para a
LC, assim o triân gu lo ABE para o triân gu lo EBC. Pelas mesmas coisas,
então, tam bém como a F M para M H , assim o triân gulo FGJ para o triâ n ­
gulo GJH. E, como a AL está para está para LC, assim a F M para M H ;
portanto, tam bém como o triân gulo ABE para o triân gu lo BEC, assim o
triân gu lo FGJ para o triân gu lo GJH, e, alternadam ente, como o triângulo
ABE para o triân gulo FGJ, assim o triân gulo BEC para o triân gu lo GJH.
Do mesm o modo, então, provaremos, tendo sido ligadas as BD, GI, que
como o triân gu lo BEC para o triân gulo JG H , assim o triân gu lo ECD

252
O s elementos

para o triân gulo JH I. E, como o triân gulo ABE está para o triân gu lo FGJ,
assim o EBC para o JG H , e, ainda, o ECD para o JH I, portanto, tam bém
como um dos antecedentes está para um dos consequentes, assim todos
os antecedentes para todos os consequentes; portanto, como o triân gulo
ABE está para o triân gu lo FGJ, assim o polígono ABCDE para o polígono
FG H IJ. M as o triân gu lo ABE tem para o triân gu lo FGJ um a razão dupla
da que o lado hom ólogo AB, para o lado hom ólogo FG; pois os triângulos
sem elhantes estão em um a razão dupla da dos lados hom ólogos. Portanto,
tam bém o polígono ABCDE tem para o polígono FG H IJ um a razão dupla
da que o lado hom ólogo AB, para o lado hom ólogo FG.
Portanto, os polígonos sem elhantes são divididos em triân gulo s tanto
sem elhantes quanto iguais em quantidade e hom ólogos aos todos, e o
polígono tem para o polígono um a razão dupla da que o lado hom ólogo,
para o lado hom ólogo; [o que era preciso provar].

C o r o l á r io

E, sim ilarm ente, tam bém para os quadriláteros [sem elhantes] será pro ­
vado que estão em um a razão dupla da dos lados hom ólogos. M as tam bém
foi provado para os triân gulo s; desse modo, tam bém , em geral, as figuras
retilíneas sem elhantes estão entre si em um a razão dupla da dos lados h o ­
m ólogos; o que era preciso provar.

[C o r o l á r io 2

E, caso um a terceira, a N , seja tom ada em proporção com as AB, FG, a


BA tem para a N um a razão dupla da que a AB para a FG. M as tem tam bém
o polígono para o polígono ou o quadrilátero para o quadrilátero um a razão
dupla da que o lado hom ólogo, para o lado hom ólogo, isto é, a AB para a
FG; e foi provado isso tam bém para os triân gulo s; desse modo, tam bém em
geral é evidente que, caso três retas estejam em proporção, como a prim eira
estará para a terceira, assim a figura sobre a p rim eira para a sem elhante e
sem elhantem ente descrita sobre a segunda.]

253
Euclides

21.

As sem elh a n tes à m esm a retilín ea ta m b ém são sem elh a n tes en tre si.

Seja, pois, cada um a das retilíneas A, B sem e­


lhante à C; digo que tam bém a A é sem elhante à B.
Pois, como a A é sem elhante à C, tanto é equiân-
gulo com ela quanto tem os lados à volta dos ân g u ­
los iguais em proporção. D e novo, como a B é sem e­
lhante à C, tanto é equiângulo com ela quanto tem
os lados à volta dos ângulos iguais em proporção. Portanto, cada um a das
A, B é tanto equiângulo com a C quanto tem os lados à volta dos ângulos
iguais em proporção [desse modo, tam bém a A é tanto equiângulo com
a B quanto tem os lados à volta dos ângulos iguais em proporção]. Portanto, a
A é sem elhante à B; o que era preciso provar.

22.

C a so q u a tro retas estejam em p r o p o rçã o , ta m b ém as retilín ea s sem elha ntes


e ta m b ém sem elh a n tem en te descritas sobre elas estarão em p r o p o r ç ã o ; e, caso
as retilín ea s sem elh a n tes e ta m b ém sem elh a n tem en te descritas so b re elas
esteja m em p r o p o rçã o , ta m b ém as retas m esm a s estarão em p rop o rçã o .

E stejam as quatro retas AB, CD , EF, G H em


proporção, como a AB para a CD , assim a EF para ^ j
a GH, e fiquem descritas, por um lado, sobre as AB,
CD as retilíneas IAB, JC D tanto sem elhantes quanto ^ B C D
sem elhantem ente postas, e, por outro lado, sobre ^
as EF, GH as retilíneas LF, M H tanto sem elhantes D M
n
quanto sem elhantem ente postas; digo que como a E F G H
IAB está para a JC D , assim a LF para a M H .
Fiquem , pois, tom adas, por um lado, um a terceira, a N , em proporção
com as AB, CD , e, por outro lado, um a terceira, a O, em proporção com as
EF, GH. E como, por um lado, a AB está para a CD , assim a EF para a GH,

254
O s elementos

e, por outro lado, como a CD para a N , assim a GH para a O, portanto,


por igual posto, como a AB está para a N , assim a EF para a O. M as, por
um lado, como a AB para a N , assim [tam bém ] o IAB
N -—■ para o JC D , e, por outro lado, como a EF para a O, assim
*5. p p o LF para o M H ; portanto, tam bém como o IAB para o
JC D , assim o LF para o M H .
M as, então, como o IAB esteja para o JC D , assim o LF para o M H ; digo
que tam bém como a AB está para a CD , assim a EF para a GH. Pois, se não
como a AB está para a CD , assim a EF para a GH, seja como a AB para a
CD , assim a EF para a PR , e fique descrita sobre a P R a retilín ea S R tanto
sem elhante a qualquer um a das LF, M H quanto sem elhantem ente posta.
Com o, de fato, a AB está para a CD , assim a EF para a P R , e foram
descritas, por um lado, sobre as AB, CD os IAB, JC D tanto sem elhantes
quanto sem elhantem ente postos, e, por outro lado, sobre as EF, P R , os LF,
S R tanto sem elhantes quanto sem elhantem ente postos, portanto, como
o IAB está para o JC D , assim o LF para o SR . M as foi suposto tam bém
como o IAB para o JC D , assim o LF para o M H ; portanto, tam bém como
o LF para o S R , assim o LF para o M H . Portanto, o LF tem para cada um
dos M H , S R a m esm a razão; portanto, a M H é igual à S R . M as é tam bém
sem elhante a ela e sem elhantem ente posta; portanto, a GH é igual à PR.
E, como a AB está para a CD , assim a EF para a PR, mas a P R é igual à GH,
portanto, como a AB está para a CD , assim a EF para a GH.
Portanto, caso quatro retas estejam em proporção, tam bém as retilíneas
sem elhantes e tam bém sem elhantem ente descritas sobre elas estarão em
proporção; e, caso as retilíneas sem elhantes e tam bém sem elhantem ente
descritas sobre elas estejam em proporção, tam bém as retas mesmas estarão
em proporção; o que era preciso provar.

[L em a]

[E que, caso retilín ea s igu a is s eja m ta m b ém sem elhantes, os lados


h o m ó lo go s delas são igu a is en tre si, p r o v a r e m o s assim.

Sejam as retilíneas M H , S R iguais e sem elhantes, e como a H G esteja


para a GM , assim a R P para a P S; digo que a R P é igual à H G .

255
Euclides

Pois, se são desiguais, um a delas é maior. Seja a R P m aior do que a H G , e


como a R P está para a PS, assim a H G para a GM , e, alternadam ente, como
a R P para a H G , assim a PS para a GM , mas a P R é m aior do que a H G ,
portanto, tam bém a PS é m aior do que a G M ; desse modo, tam bém a R S
é m aior do que a H M . M as tam bém é igual; o que é im possível. Portanto,
a P R não é desigual à G H ; portanto, é igual; o que era preciso provar.]

23.

O s p a r a le lo g r a m o s eq u iâ n g u lo s têm en tre si a razão com p osta das dos


lados.

Sejam os paralelogram os equiângulos AC, CF,


tendo o ângulo sob BCD igual ao sob ECG; digo
que o paralelogram o AC tem para o paralelogra-
mo CF a razão com posta das dos lados. ^ ■----- ■
Fiquem , pois, postos, de modo a estar a BC |_ ■_____ ■
sobre um a reta com a CG ; portanto, tam bém a ^
D C está sobre um a reta com a CE. E fique com pletado o paralelogram o
DG, e fique posta algum a reta, a I, e fiquem produzidas, por um lado, como
a BC para a CG, assim a I para a J, e, por outro lado, como a D C para a
CE, assim a J para a L.
Portanto, as razões tanto da I para a J quanto da J para a L são as mesmas
que as razões dos lados, tanto da BC para a CG quanto da D C para a CE.
M as a razão da I para a L é com posta tanto da razão da I para a J quanto
da J para a L; desse modo, tam bém a I tem para a L a razão com posta das
dos lados. E, como a BC está para a CG, assim o paralelogram o AC para o
C H , mas, como a BC para a CG, assim a I para a J, portanto, tam bém como
a I para a J, assim o AC para o CH . De novo, como a D C está para a CE,
assim o paralelogram o C H para o CF, mas, como a D C para a CE, assim a
J para a L, portanto, tam bém como a J para a L, assim o paralelogram o C H
para o paralelogram o CF. Com o, de fato, foi provado, por um lado, como
a I para a J, assim o paralelogram o AC para o paralelogram o CH , e, por
outro lado, como a J para a L, assim o paralelogram o C H para o paralelo-

256
O s elementos

gram o CF, portanto, por igual posto, como a I para a L, assim o AC para
o paralelogram o CF. M as a I tem para a L a razão com posta das dos lados;
portanto, tam bém o AC tem para o CF a razão com posta das dos lados.
Portanto, os paralelogram os equiângulos têm entre si a razão com posta
das dos lados; o que era preciso provar.

24.

O s p a r a le lo g r a m o s à v o lta do d ia go n a l de todo p a r a le lo g r a m o são


sem elh a n tes tanto ao todo q u a n to en tre si.

Sejam o paralelogram o ABCD , e a diagonal AC dele,


e sejam EG, H I paralelogram os à volta da AC; digo que
cada um dos paralelogram os EG, H I é sem elhante ao
ABCD todo e um ao outro.
Pois, como a EF foi traçada paralela a um dos lados,
o BC, do triângulo ABC, em proporção, como a BE está
para a EA, assim a CF para a FA. De novo, como a FG foi traçada para­
lela a um dos lados, o CD , do triân gulo ACD , em proporção, como a CF
está para a FA, assim a DG para a GA. M as, como a CF para a FA, assim,
foi provado, tam bém a BE para a EA; portanto, tam bém como a BE para
a EA, assim a DG para a GA, portanto, por com posição, tam bém como a
BA para a AE, assim a DA para a AG, e, alternadam ente, como a BA para
a AD, assim a EA para a AG. Portanto, os lados, à volta do ângulo comum,
o sob BAD, dos paralelogram os ABCD , EG estão em proporção. E, como
a GF é paralela à D C, por certo o ângulo sob AFG é igual ao sob DCA; e
o ângulo sob DAC é com um dos dois triân gulo s AD C, AGF; portanto, o
triân gulo A D C é equiângulo com o triân gu lo AGF. Pelas mesm as coisas,
então, tam bém o triân gu lo ACB é equiângulo com o triân gulo AFE, e o p a­
ralelogram o ABCD todo é equiângulo com o paralelogram o EG. Portanto,
em proporção, como a AD está para a D C, assim a AG para a GF, e como a
DC para a CA, assim a GF para a FA, e como a AC para a CB, assim a AF
para a FE, e, ainda, como a CB para a BA, assim a FE para a EA. E, como
foi provado, por um lado, como a D C para a CA, assim a GF para a FA, e,

257
Euclides

por outro lado, como a AC para a CB, assim a AF para a FE, portanto, por
igual posto, como a D C está para a CB, assim a GF para a FE. Portanto,
os lados, à volta dos ângulos iguais dos paralelogram os ABCD , EG, estão
em proporção; portanto, o paralelogram o ABCD é sem elhante ao p arale­
logram o EG. Pelas mesm as coisas, então, tam bém o paralelogram o ABCD
é sem elhante ao paralelogram o IH ; portanto, cada um dos paralelogram os
EG, H I é sem elhante ao [paralelogram o] ABCD . M as as sem elhantes à
m esm a retilínea, tam bém são sem elhantes entre si; portanto, tam bém o
paralelogram o EG é sem elhante ao paralelogram o HI.
Portanto, os paralelogram os à volta da diagonal de todo paralelogram o
são sem elhantes tanto ao todo quanto entre si; o que era preciso provar.

25.

C o n s tr u ir a m esm a sem elh a n te à retilín ea dada e ig u a l à o u tra dada.

Seja, por um lado, a retilín ea dada


ABC, sem elh an te à qual é preciso
co n stru ir, e, por o u tro lado, a D,
igual à qual é preciso ser; é preciso,
então, co n stru ir a m esm a, por um r
lado, sem elhante à ABC, e, por outro
lado, igual à D.
Fiquem , pois, aplicados, por um lado, à BC o paralelogram o BE igual ao
triân gu lo ABC, e, por outro lado, à CE o paralelogram o CL igual à D no
ângulo sob FCE que é igual ao sob CBJ. Portanto, por um lado, a BC está
sobre um a reta com a CF, e, por outro lado, a JE, com a EL. E fique tom ada
a GH, m édia em proporção entre as BC, CF, e fique descrito sobre a GH o
IGH sem elhante ao ABC, e sem elhantem ente posto.
E, como a BC está para a GH, assim a GH para a CF, mas, caso três retas
estejam em proporção, como a p rim eira está para a terceira, assim a figura
sobre a p rim eira para a sem elhante e sem elhantem ente descrita sobre a se­
gunda, portanto, como a BC está para a CF, assim o triân gulo ABC para o
triân gu lo IGH. M as tam bém como a BC para a CF, assim o paralelogram o

258
O s elementos

BE para o paralelogram o EE Portanto, tam bém como o triân gulo ABC


para o triân gulo IGH, assim o paralelogram o BE para o paralelogram o EE;
portanto, alternadam ente, como o triângulo ABC para o paralelogram o BE,
assim o triân gulo IGH para o paralelogram o EE. M as o triân gulo ABC é
igual ao paralelogram o BE; portanto, tam bém o triân gulo IGH é igual ao
paralelogram o EE. M as o paralelogram o EE é igual à D; portanto, tam bém
o IGH é igual à D. M as tam bém o IGH é sem elhante ao ABC.
Portanto, foi construída a mesma, a IGH, sem elhante à retilín ea dada
ABC e igual à outra dada D; o que era preciso fazer.

26.

Caso, de u m p a ra le lo g ra m o , seja su b tra íd o u m p a ra le lo g ra m o , tanto


sem elh a n te ao todo q u a n to sem elh a n tem en te posto, tendo u m â n g u lo
c o m u m co m ele, está à v o lta da m esm a d ia go n a l co m o todo.

F iq u e , p o is, su b tra íd o do p a ra le lo g ra m o
ABCD o paralelogram o AF, sem elhante ao ABCD
e sem elhantem ente posto, tendo o ângulo sob
DAB com um com ele; digo que o ABCD está à
volta da m esm a diagonal com o AF.
Pois não, mas, se possível, seja a A H C um a
diagonal [d eles], e, tendo sido prolongada a GF,
fique traçada através até o H , e fique traçada pelo H a H I paralela a q u al­
quer das AD, BC.
Com o, de fato, o ABCD está à volta da m esm a diagonal com o IG,
portanto, como a DA está para a AB, assim a GA para a AI. M as tam bém
pela sem elhança dos ABCD , EG tam bém como a DA está para a AB, as­
sim a GA para a AE; portanto, tam bém como a GA para a AI, assim a GA
para a AE. Portanto, a GA tem para cada um a das AI, AE a m esm a razão.
Portanto, a AE é igual à AI, a menor, à m aior; o que é im possível. Portanto,
não é o caso de o ABCD não estar à volta da m esm a diagonal com o AF;
portanto, o paralelogram o ABCD está à volta da m esm a diagonal com o
paralelogram o AF.

259
Euclides

Portanto, caso de um paralelogram o seja subtraído um paralelogram o


tanto sem elhante com o todo quanto sem elhantem ente posto, está à volta
da m esm a diagonal com o todo; o que era preciso provar.

27.

D e todos os p a r a le lo g r a m o s ap lica d os à m esm a reta, e deficientes p o r


f i g u r a s p a r a le lo g r â m ic a s sem elh a n tes e ta m b ém sem elh a n tem en te p o sta s à
d escrita sobre a m etade, o m a io r é o [ p a r a le lo g r a m o ] ap licado à m etade,
sen do sem elh a n te ao déficit.

Seja a reta AB, e fique cortada em duas no


C, e fique aplicado à reta AB o paralelogram o
AD, deficiente pela figura paralelogrâm ica DB Q
descrita sobre a m etade da AB, isto é, a CB; digo
que de todos os paralelogram os aplicados à AB
e deficientes por figuras [p arale lo g râm icas] ^ C I B
sem elhantes e também sem elhantem ente postas
à DB, o m aior é o AD. Fique, pois, aplicado à reta AB o paralelogram o AF
deficiente pela figura paralelogrâm ica FB sem elhante e tam bém sem elhan­
tem ente posta à DB; digo que o AD é m aior do que o AF.
Pois, como o paralelogram o DB é sem elhante ao paralelogram o FB, es­
tão à volta da m esm a diagonal. Fique traçada a diagonal DB deles, e fique
com pletam ente descrita a figura.
Com o, de fato, o CF é igual ao FE, e o FB é comum, portanto, o todo
C H é igual ao todo IE. M as, o C H é igual ao CG , porque tam bém a AC, à
CB. Portanto, tam bém o GC é igual ao EI. F ique adicionado o CF comum;
portanto, o todo AF é igual ao gnôm on JL M ; desse modo, o paralelogram o
DB, isto é, o AD é m aior do que o paralelogram o AF.
Portanto, de todos os paralelogram os aplicados à m esm a reta, e deficien­
tes por figuras paralelogrâm icas sem elhantes e sem elhantem ente postas à
descrita sobre a m etade, o m aior é o que foi aplicado à m etade; o que era
preciso provar.

260
O s elementos

28 .

À reta dada aplicar, ig u a l à retilín ea dada, u m p a r a le lo g r a m o deficiente


p o r u m a f i g u r a p a r a le lo g r â m ic a sem elh a n te à dada; m a s é p r eciso a
retilín ea da da [ i g u a l à q u a l é p r eciso a p lic a r ] não s e r m a io r do q u e a
d escrita sobre a m etade, sem elh a n te ao déficit [a tanto sobre a m eta d e
q u a n to à q u a l é p r e c i s o o déficit s e r sem elha n te].

S e ja m , p o r um
lado, a reta dada AB,
e, p o r o u tr o la d o ,
a r e tilín e a d ad a C,
igual à qual é p reci­
so aplicar à AB, não
[s e n d o ] m a io r do
que a descrita sobre a m etade da AB, sem elhante ao déficit, e a D, à qual é
preciso ser o déficit sem elhante; é preciso, então, aplicar à reta dada AB um
paralelogram o igual à retilín ea dada C, deficiente por um a figura paralelo-
grâm ica que é sem elhante à D.
Fique, pois, cortada a AB em duas no ponto E, e fique descrito sobre a
EB o EBFG sem elhante à D e sem elhantem ente posto, e fique com pletado
o paralelogram o AG.
Se, então, de fato, o AG é igual à C, o que foi prescrito teria acontecido;
pois, foi aplicado à reta dada AB o paralelogram o AG igual à retilín ea dada
C, deficiente pela figura paralelogrâm ica GB, que é sem elhante à D. M as,
se não, seja o H E m aior do que a C. M as o HE é igual ao GB; portanto,
tam bém o GB é m aior do que a C. Fique, então, construído o IJLM igual a
esse excesso, pela qual coisa o GB é m aior do que a C, sem elhante e sem e­
lhantem ente posto à D. M as a D [é] sem elhante ao GB; portanto, tam bém
o IL é sem elhante ao GB. Sejam , de fato, por um lado, a IJ hom óloga à GE,
e, por outro lado, a JL, à GF. E, como o GB é igual aos C, IL, portanto, o
GB é m aior do que o IL; portanto, tam bém , por um lado, a GE é m aior do
que a IJ, e, por outro lado, a GF, do que a JL. Fiquem postas, por um lado,
a GN igual à IJ, e, por outro lado, a GO igual à JL, e fique com pletado o

261
Euclides

paralelogram o N G O P; portanto, tam bém [o G P] é igual e sem elhante ao


IL [mas o IL é sem elhante ao G B ]. Portanto, tam bém o GP é sem elhante
ao GB; portanto, o GP está à volta da m esm a diagonal com o GB. Seja a
diagonal GPB deles, e fique com pletam ente descrita a figura.
Com o, de fato, o BG é igual aos C, IL, dos quais o GP é igual ao IL,
portanto, o gnôm on Y X V restante é igual à C restante. E, como o O R é
igual ao N S , fique adicionado o PB com um; portanto, o todo OB é igual
ao todo NB. M as o NB é igual ao TE, porque tam bém o lado AE é igual ao
lado EB; portanto, tam bém o T E é igual ao OB. F ique adicionado o N S
com um; portanto, o todo T S é igual ao gnôm on V X Y todo. M as o gnôm on
V X Y foi provado igual à C; portanto, o T S é igual à C.
Portanto, à reta dada AB foi aplicado o paralelogram o S T igual à retilínea
dada C, deficiente pela figura paralelogrâm ica PB que é sem elhante à D
[visto que o PB é sem elhante ao G P ]; o que era preciso fazer.

29.

À reta dada aplicar, ig u a l à retilín ea dada, u m p a r a le lo g r a m o ex cedente


p o r u m a f i g u r a p a r a le lo g r â m ic a sem elh a n te à dada.

Sejam , por um lado, a reta


dada AB, e, por outro lado, a
retilín ea dada C, igual à qual
é preciso aplicar à AB, e a D,
à qual é preciso ser o excesso
sem elhante; é preciso, então,
à reta AB ap licar um p a ra ­
le lo g ra m o ig u a l à r e tilín e a
C, excedente por um a figura
paralelogrâm ica sem elhante à D.
Fique cortada a AB em duas no E, e fique descrito sobre a EB o p arale­
logram o BF sem elhante à D e sem elhantem ente posto, e fique construído
o mesmo GH, por um lado, igual a ambos BF, C juntos, e, por outro lado,
sem elhante à D e sem elhantem ente posto. Sejam , por um lado, a IH homó-

262
O s elementos

loga à FJ, e, por outro lado, a IG, à FE. E, como o GH é m aior do que o FB,
portanto, tam bém , por um lado, a IH é m aior do que a FJ, e, por outro lado,
a IG, do que a FE. Fiquem prolongadas as FJ, FE, e sejam , por um lado, a
FJL igual à IH, e, por outro lado, a FEM igual à IG, e fique com pletado o
LM ; portanto, o LM é tanto igual ao GH quanto sem elhante. M as o GH
é sem elhante ao EJ; portanto, tam bém o LM é sem elhante ao EJ; portanto,
o EJ está à volta da m esm a diagonal com o LM . Fique traçada a diagonal
FN deles, e fique descrita com pletam ente a figura.
Com o o GH é igual aos EJ, C, mas o GH é igual ao LM , portanto,
tam bém o LM é igual aos EJ, C. F ique subtraído o EJ com um; portanto,
o gnôm on Z X V restante é igual à C. E, como a AE é igual à EB, tam bém o
AM é igual ao M B, isto é, ao JO. Fique adicionado o EN com um; p o rtan ­
to, o todo AN é igual ao gnôm on V X Z . M as o gnôm on V X Z é igual à C;
portanto, tam bém o AN é igual à C.
Portanto, à reta dada AB foi aplicado o paralelogram o AN igual à retilínea
dada C, excedente pela figura paralelogrâm ica PO, que é sem elhante à D,
porque tam bém o OP é sem elhante ao EJ; o que era preciso fazer.

30.

C o r t a r a reta f i n i t a da da em ex trem a e m éd ia razão.

, F H Seja a reta finita dada AB; é preciso, então, cortar a reta


11 AB em extrem a e m édia razão.
F ique descrito sobre a AB o quadrado BC, e fique ap li­
cado à AC o paralelogram o CD igual ao BC, excedente
^ E ^ pela figura AD sem elhante ao BC.
____ M as o BC é um quadrado; portanto, tam bém a AD é um
^ quadrado. E, como o BC é igual ao CD , fique subtraído o
CE com um; portanto, o BF restante é igual à AD restante. M as tam bém é
equiângulo com ela. Portanto, os lados, à volta dos ângulos iguais, dos BF,
AD são inversam ente proporcionais; portanto, como a FE está para a ED,
assim a AE para a EB. M as, por um lado, a FE é igual à AB, e, por outro lado,
a ED, à AE. Portanto, como a BA está para a AE, assim a AE para a EB. M as

263
Euclides

a AB é m aior do que a AE; portanto, tam bém a AE é m aior do que a EB.


Portanto, a reta AB foi cortada em extrem a e m édia razão no E, e o m aior
segm ento dela é o AE; o que era preciso fazer.

31.

N os triâ n g u lo s retâ n gu los, a f i g u r a sobre o lado su b ten d en d o o â n g u lo reto


é ig u a l às f i g u r a s sem elh a n tes e ta m b ém sem elh a n tem en te descritas sobre os
lados con ten d o o â n g u lo reto.

Seja o triân gu lo retângulo ABC, tendo o ângulo


sob BAC reto; digo que a figura sobre a BC é igual
às figuras sem elhantes e tam bém sem elhantem ente
descritas sobre as BA, AC.
Fique traçada a perpendicular AD.
Com o, de fato, no triân gulo retângulo ABC, foi traçada a perpendicular
AD do ângulo reto junto ao A até a base BC, os triân gulo s ABD, AD C
junto à perpendicular são sem elhantes tanto ao todo ABC quanto entre
si. E, como o ABC é sem elhante ao ABD, portanto, como a CB está para a
BA, assim a AB para a BD. E, como três retas estão em proporção, como a
prim eira está para a terceira, assim a figura sobre a prim eira para a sem elhan­
te e sem elhantem ente descrita sobre a segunda. Portanto, como a CB está
para a BD, assim a figura sobre a CB para a sem elhante e sem elhantem ente
descrita sobre a BA. Pelas mesm as coisas, então, tam bém como a BC para
a CD , assim a figura sobre a BC para a sobre a CA. Desse modo, tam bém
como a BC para as BD, D C, assim a figura sobre a BC para as sem elhantes
e sem elhantem ente descritas sobre as BA, AC. M as a BC é igual às BD,
D C; portanto, tam bém a figura sobre a BC é igual às figuras sem elhantes
e sem elhantem ente descritas sobre as BA, AC.
Portanto, nos triân gulo s retângulos, a figura sobre o lado subtendendo
o ângulo reto é igual às figuras sem elhantes e sem elhantem ente descritas
sobre os lados contendo o ângulo reto; o que era preciso provar.

264
O s elementos

32.

C aso dois triân gu los, tendo os dois lados em p r o p o r ç ã o co m os dois


lados, seja m p o sto s j u n t o s em u m â n gu lo, de m o d o a ser em os lados
h o m ó lo go s deles ta m b ém p a ra lelos, os lados restantes dos triâ n g u los
estarão sobre u m a reta.

Sejam os dois triân gulo s ABC, DCE, tendo os dois


lados BA, AC em proporção com os dois lados D C, DE,
por um lado, como a AB para a AC, assim a D C para
a DE, e, por outro lado, a AB paralela à D C, enquanto a
AC, à DE; digo que a BC está sobre um a reta com
Pois, como a AB é paralela à D C, e a reta AC caiu
sobre elas, os ângulos alternos, os sob BAC, ACD , são iguais entre si. Pe­
las mesmas coisas, então, tam bém o sob CDE é igual ao sob ACD . Desse
modo, tam bém o sob BAC é igual ao sob CDE. E, como os ABC, DCE
são dois triân gulo s, tendo um ângulo, o junto ao A, igual a um ângulo, o
junto ao D, e os lados à volta dos ângulos iguais em proporção, como a BA
para a AC, assim a CD para a DE, portanto, o triân gulo ABC é equiângulo
com o triân gulo DCE; portanto, o ângulo sob ABC é igual ao sob DCE.
M as foi provado tam bém o sob ACD igual ao sob BAC; portanto, o sob
ACE todo é igual aos dois, os sob ABC, BAC. F ique adicionado o sob ACB
com um; portanto, os sob ACE, ACB são iguais aos sob BAC, ACB, CBA.
M as os sob BAC, ABC, ACB são iguais a dois retos; portanto, tam bém os
sob ACE, ACB são iguais a dois retos. Então, as duas retas BC, CE fazem,
com algum a reta, a AC, e no ponto C sobre ela, não jazendo no mesmo
lado, ângulos adjacentes, os sob ACE, ACB, iguais a dois retos; portanto,
a BC está sobre um a reta com a CE.
Portanto, caso dois triân gulo s, tendo os dois lados em proporção com
os dois lados, sejam postos juntos em um ângulo, de modo a serem os la­
dos hom ólogos deles tam bém paralelos, os lados restantes dos triângulos
estarão sobre um a reta; o que era preciso provar.

265
Euclides

33.

N os círcu lo s iguais, os â n g u lo s têm a m es m a razão q u e as circu n ferên cia s,


sobre as q ua is estão situ ados, caso esteja m situ a d o s tanto n os cen tros
q u a n to n as circu n ferên cia s.

Sejam os círcu lo s igu ais


ABC, DEF, e estejam os ân­
g u lo s sob B G C , E H F nos
centros G, H deles, enquanto
os sob BAC, EDF nas circun ­
ferências; digo que, como a
circunferência BC está para a
circunferência EF, assim tanto o ângulo sob BGC para o sob EH F quanto
o sob BAC para o sob EDF.
Fiquem , pois, postas, por um lado, as CI, IJ, consecutivas, em q u an ti­
dade qualquer, iguais à circunferência BC, e, por outro lado, as FL, LM,
em quantidade qualquer, iguais à circunferência EF, e fiquem ligadas as
GI, GJ, H L , H M .
Com o, de fato, as circunferências BC, CI, IJ são iguais entre si, tam bém
os ângulos sob BGC, CGI, IGJ são iguais entre si; pois, quantas vezes a
circunferência BJ é da circunferência BC, tantas vezes tam bém o ângulo
sob BGJ é do sob BGC. Pelas mesm as coisas, então, tam bém quantas vezes
a circunferência M E é da EF, tantas vezes tam bém o ângulo sob M H E é
do sob EHF. Portanto, se a circunferência BJ é igual à circunferência EM,
tam bém o ângulo sob BGJ é igual ao sob E H M , e se a circunferência BJ é
m aior do que a circunferência EM , tam bém o ângulo sob BGJ é m aior do
que o sob E H M , e se menor, menor. E xistindo, então, quatro m agnitudes,
por um lado, as duas circunferências BC, EF, e, por outro lado, os dois
ângulos, os sob BGC, EHF, foram tom ados, por um lado, tanto a circun ­
ferência BJ quanto o ângulo sob BGJ o mesm o m últiplo da circunferência
BC e do ângulo sob BGC, e, por outro lado, tanto a circunferência EM
quanto o ângulo sob E H M , da circunferência EF e do ângulo sob EHF. E
foi provado que se a circunferência BJ excede a circunferência EM , tam bém

266
O s elementos

o ângulo sob BGJ excede o ângulo sob E H M , e se igual, igual, e se menor,


menor. Portanto, como a circunferência BC está para a EF, assim o ângulo
sob BGC para o sob EHF. M as, como o ângulo sob BGC para o sob EHF,
assim o sob BAC para o sob EDF; pois, cada um é o dobro de cada um.
Portanto, tam bém como a circunferência BC para a circunferência EF, assim
tanto o ângulo sob BGC para o sob EHF quanto o sob BAC para o sob EDF.
Portanto, nos círculos iguais os ângulos têm a m esm a razão que as cir­
cunferências, sobre as quais estão situados, caso estejam situados tanto nos
centros quanto nas circunferências; o que era preciso provar.

267
Livro VII

Definições

1. U nidade é aquilo segundo o qual cada um a das coisas existentes é


d ita uma.
2. E núm ero é a quantidade com posta de unidades.
3. U m núm ero é um a parte de um núm ero, o menor, do maior, quando
meça exatam ente o maior.
4. E partes, quando não m eça exatam ente.
5. E o m aior é um m últip lo do menor, quando seja m edido exatam ente
pelo menor.
6. U m núm ero par é o que é dividido em dois.
7. E um núm ero ím par é o que não é dividido em dois, ou [o] que difere
de um núm ero par por um a unidade.
8. U m núm ero par, um número par de vezes, é o m edido por um número
par, segundo um núm ero par.
9. E um núm ero ímpar, um núm ero par de vezes, é o m edido por um
núm ero par, segundo um núm ero ímpar.
[1 0 . U m par, um número ím par de vezes, é o m edido por um número ímpar,
segundo um núm ero par.]
11. E um núm ero ímpar, um núm ero ím par de vezes, é o m edido por um
núm ero ímpar, segundo um núm ero ímpar.
12. U m núm ero prim o é o m edido por um a unidade só.
13. N úm eros prim os entre si são os m edidos por um a unidade só como
m edida comum.

269
Euclides

14. U m núm ero com posto é o m edido por algum número.


15. E núm eros com postos entre si são os m edidos por algum número
como m edida comum.
16. U m núm ero é dito m u ltip licar um núm ero, quando, quantas são as
unidades nele tantas vezes o m ultiplicado seja adicionado, e algum
seja produzido.
17. E quando dois núm eros, tendo sido m ultiplicados entre si, façam
algum , o produzido é dito plano, e lados dele, os núm eros que foram
m ultiplicados entre si.
18. E quando três núm eros, tendo sido m ultiplicados entre si, façam
algum , o produzido é sólido, e lados dele, os núm eros que foram
m ultiplicados entre si.
19. U m núm ero quadrado é o igual o mesm o núm ero de vezes ou [o]
contido por dois núm eros iguais.
2 0 . E um cubo é o igual um núm ero igual de vezes, um núm ero igual de
vezes, ou [o] contido por três núm eros iguais.
2 1 . N úm eros estão em proporção, quando sejam o prim eiro do segundo
e o terceiro do quarto o mesmo m últip lo ou a m esm a parte ou as
mesmas partes.
2 2 . N úm eros planos e sólidos sem elhantes são os que têm os lados em
proporção.
2 3 . U m núm ero perfeito é o que é igual às suas próprias partes.

1.

S en do expostos dois n ú m er o s desiguais, e sen d o s em p re su b tra íd o de n o vo


o m e n o r do m aior, caso o q u e resto u n u n c a m eça ex a ta m en te o an tes dele
m esm o, a té q u e reste u m a u nidade, os n ú m er o s do p r in cíp io serão p r im o s
en tre si.

Pois, dos dois núm eros [d esigu ais] AB, CD , sendo sempre subtraído de
novo o m enor do maior, o que restou jam ais m eça exatam ente o antes dele
mesm o, até que reste um a unidade; digo que os AB, CD são prim os entre
si, isto é, que um a unidade só mede os AB, CD.

270
O s elementos

A Pois, se os AB, CD não são prim os entre si, algum nú-


p £ mero os m edirá. M eça, e seja o E; e o CD m edindo o BF,
G reste dele mesm o o m enor FA, enquanto o AF, m edindo
o DG, reste dele mesm o o m enor GC, e o GC, m edindo
: o FH , reste a unidade HA.
B Com o, de fato, o E mede o CD , e o CD mede o BF,
portanto tam bém o E mede o BF; e mede tam bém o BA
todo; portanto, m edirá tam bém o AF restante. E o AF mede o DG; p o rtan ­
to, o E tam bém mede o DG; e tam bém mede o D C todo; portanto, também
m edirá o CG restante. E o CG mede o F H ; portanto, o E tam bém mede o
FH ; e mede tam bém o FA todo; portanto, m edirá tam bém a unidade AH
restante, sendo um núm ero; o que é im possível. Portanto, nenhum número
m edirá os núm eros AB, CD ; portanto, os AB, CD são prim os entre si; o
que era preciso provar.

2.

Sendo da dos dois n ú m er o s não p r im o s en tre si, a ch a r a m a i o r m ed id a


c o m u m deles.

Sejam AB, CD os dois núm eros dados não prim os


entre si. É preciso, então, achar a m aior m edida comum
dos AB, CD.
Se, por um lado, de fato, o CD mede o AB, mas mede
tam bém a si mesmo, portanto o CD é um a m edida comum
B D dos CD , AB. E é evidente que é tam bém a m aior; pois,
nenhum m aior do que o CD m edirá o CD.
Se, por outro lado, o CD não mede o AB, dos AB, CD , sendo sempre
subtraído de novo o m enor do m aior terá restado algum núm ero, o qual
m edirá o antes dele m esm o. Pois, um a unidade não terá restado; e, se não,
os AB, CD serão prim os entre si; o que não foi suposto. Portanto, terá
restado algum núm ero, o qual m edirá o antes dele mesm o. E, por um lado,
o CD , m edindo o BE, reste um m enor do que ele mesmo, o EA, e, por
outro lado, o EA, m edindo o DF, reste um m enor do que ele m esm o, o FC,

z ji
Euclides

e o CF meça o AE. Com o, de fato, o CF mede o AE, e o AE mede o DF,


portanto o CF m edirá o DF; e mede tam bém a si m esm o; portanto, m edirá
tam bém o CD todo. E o CD mede o BE; portanto, o CF mede tam bém o
BE; e mede tam bém o EA; portanto, m edirá tam bém o BA todo; e mede
tam bém o CD ; portanto, o CF mede os AB, CD . Portanto, o CF é um a
m edida com um dos AB, CD . D igo, então, que tam bém é a maior. Pois, se
o CF não é a m aior m edida com um dos AB, CD , algum núm ero m edirá os
núm eros AB, CD , sendo m aior do que CF. M eça, e seja o G. E como o G
mede o CD , e o CD mede o BE, portanto tam bém o G mede o BE; e mede
tam bém o BA todo; portanto, m edirá tam bém o AE restante. M as o AE
mede o DF; portanto, o G m edirá tam bém o DF; e mede tam bém o DC
todo; portanto, tam bém m edirá o CF restante, o maior, o m enor; o que é
im possível; portanto, nenhum núm ero m edirá os núm eros AB, CD , sendo
m aior do que CF; portanto, o CF é a m aior m edida com um dos AB, CD ;
[o que era preciso provar].

C o r o l á r io

D isso, então, é evidente que, caso um número meça dois núm eros, tam ­
bém m edirá a m aior m edida com um deles; o que era preciso provar.

3.

D a d o s três n ú m er o s não p r im o s en tre si, a ch a r a m a io r


m ed id a c o m u m deles.

Sejam A, B, C os três núm eros dados não prim os entre si; é preciso, en­
tão, achar a m aior m edida com um dos A, B, C.
Fique, pois, tom ada a m aior m edida comum
D dos dois A, B; então o D ou mede o C ou
não mede. P rim eiram ente, meça; e mede tam ­
bém os A, B; portanto, o D mede os A, B, C;
portanto, o D é um a m edida com um dos A, B,
C. D igo, então, que tam bém é a maior. Pois, se o D não é a m aior m edida
com um dos A, B, C, algum número m edirá os números A, B, C, sendo m aior
do que o D. M eça, e seja o E. Com o, de fato, o E mede os A, B, C, portanto

272
O s elementos

tam bém m edirá os A, B; portanto, tam bém m edirá a m aior m edida comum
dos A, B. E a m aior m edida com um dos A, B é o D; portanto, o E mede o
D, o maior, o m enor; o que é im possível. Portanto, nenhum núm ero m edi­
rá os núm eros A, B, C, sendo m aior do que o D; portanto, o D é a m aior
m edida com um dos A, B, C.
O D não meça, então, o C; digo, prim eiro, que os C, D não são prim os
entre si. Pois, como os A, B, C não são prim os entre si, algum núm ero os
m edirá. Então, o que mede os A, B, C, tam bém m edirá os A, B, e m edirá a
m aior m edida com um D dos A, B; e mede tam bém o C; portanto, algum
núm ero m edirá os núm eros D, C; portanto, os D, C não são prim os entre
si. Fique, de fato, tom ado o E, a m aior m edida com um deles. E como o E
mede o D, e o D mede os A, B, portanto, o E tam bém mede os A, B; e mede
tam bém o C; portanto, o E mede os A, B, C; portanto, o E é um a m edida
com um dos A, B, C. D igo, então, que tam bém é a maior. Pois, se o E não
é a m aior m edida com um dos A, B, C, algum núm ero m edirá os A, B, C,
sendo m aior do que E. M eça, e seja o F. E como o F mede os A, B, C, tam ­
bém mede os A, B; portanto, m edirá tam bém a m aior m edida com um dos
A, B. E a m aior m edida com um dos A, B é o D; portanto, o F mede o D; e
mede tam bém o C; portanto, o F mede os D, C; portanto, m edirá tam bém
a m aior m edida com um dos D, C. E a m aior m edida com um dos D, C é E;
portanto, o F mede o E, o maior, o m enor; o que é im possível. Portanto,
nenhum núm ero m edirá os A, B, C, sendo m aior do que E; portanto, o E é
a m aior m edida com um dos A, B, C; o que era preciso provar.

4.

Todo n ú m e r o é o u u m a p a r t e o u p a rtes de todo n ú m ero , o m enor, do maior.

.______ A_______ m Sejam A, BC dois núm eros, e seja m enor o BC; digo
_ _ _ _ que o BC é ou um a parte ou partes do A.
B E F C Pois os A, BC ou são prim os entre si ou não.
" p " P rim eiram ente, sejam os A, BC prim os entre si.
Então, o BC tendo sido dividido nas unidades nele,
cada unidade das no BC será algum a parte do A; assim , o BC é partes do A.

273
Euclides

N ão sejam, então, os A, BC prim os entre si; então, o BC ou mede o A


ou não mede. Se, por um lado, de fato, o BC mede o A, o BC é um a parte
do A. Se, por outro lado, não, fique tom ado o D, a m aior m edida com um
dos A, BC, e fique dividido o BC em iguais ao D, os BE, EF, FC. E como
o D mede o A, o D é um a parte do A; e o D é igual a cada um dos BE, EF,
F C ; portanto, tam bém cada um dos BE, EF, FC é um a parte de A; assim,
o BC é partes de A.
P ortanto, todo núm ero é ou parte ou partes de todo núm ero, o menor,
do m aior; o que era preciso provar.

5.

C aso u m n ú m e r o seja u m a p a r t e de u m n ú m ero , e u m ou tro seja a m esm a


p a r t e de u m ou tro, ta m b ém u m e o ou tro j u n t o s serão a m es m a p a r t e de
u m e o ou tro ju n t o s , a q u e o u m é do u m .

Pois, seja o núm ero A um a parte do [núm ero] BC, B


e um outro, o D, a m esm a parte de um outro, o EF, a G
que o A é do BC; digo que tam bém o A, D, um e o ou­
Td '
tro juntos, são a m esm a parte de BC, EF, um e o outro c
juntos, a que o A é do BC.
Pois, como aquela parte que o A é do BC, a m esm a parte tam bém o D é
do EF, portanto, quantos números estão no BC iguais ao A, tantos números
estão tam bém no EF iguais ao D. Fique, por um lado, dividido o BC nos
iguais ao A, os BG, GC, e, por outro lado, o EF, nos iguais ao D, os EH,
H F; a quantidade dos BG, GC será, então, igual à quantidade dos EH, HF.
E como, por um lado, o BG é igual ao A e, por outro, o EH, ao D, portanto
também os BG, EH são iguais aos A, D. Pelas mesmas coisas, então, também
os GC, HF, aos A, D. Portanto, quantos núm eros [estão] no BC iguais
ao A, tantos estão tam bém nos BC, EF iguais aos A, D. Portanto, tantas
vezes o BC é do A quantas vezes tam bém o BC, EF, um e o outro juntos,
são do A, D, um e o outro juntos. Portanto, aquela parte que o A é do BC,
a m esm a parte tam bém o A, D, um e o outro juntos, são do BC, EF, um e
o outro jun to s; o que era preciso provar.

274
O s elementos

6.

C aso u m n ú m ero seja p a rtes de u m n ú m ero , e u m o u tro seja as m esm a s


p a r tes de u m ou tro, ta m b ém u m e o ou tro j u n t o s serão as m esm a s p a r tes de
u m e o o u tro ju n to s , as q u e o u m é do um.

Seja, pois, o núm ero AB partes do núm ero C, e um


outro, o DE, as mesm as partes de um outro, o F, as que
[A
C D o AB é do C; digo que tam bém AB, DE, um e o outro
G
H juntos, são as mesmas partes de C, F, um e o outro juntos,
B E 1 as que o AB é do C.
Pois, como aquelas partes que o AB é do C, as mesmas
partes tam bém o DE é de F, portanto quantas partes de C estão no AB,
tantas partes de F estão tam bém no DE. F ique dividido, por um lado, o
AB nas partes do C, as AG, GB, e, por outro lado, o DE, nas partes do F, as
DH, H E; a quantidade das AG, GB será, então, igual à quantidade das DH,
HE. E, como aquela parte que o AG é do C, a m esm a parte o DH é tam bém
do F, portanto aquela parte que o AG é do C, a m esm a parte tam bém AG,
D H , um e o outro juntos, são de C, F, um e o outro juntos. Pelas mesmas
coisas, então, tam bém aquela parte que o GB é do C, a mesm a parte também
GB, HE, um e o outro juntos, são de C, F, um e o outro juntos. Portanto,
aquelas partes que o AB é do C, as mesm as partes tam bém AB, DE, um e
o outro juntos, são de C, F, um e o outro jun to s; o que era preciso provar.

7.

C aso u m n ú m e r o seja u m a p a r t e de u m n ú m ero , a q u ela q u e u m su b tra íd o


é de u m su btra ído, ta m b ém o resto será a m es m a p a r t e do resto, a q u e o
todo é do todo.

Seja, pois, o núm ero AB um a parte


A E B
do núm ero CD , a que o AE subtraído
é do CF subtraído; digo que tam bém
G C F D
o resto EB é a m esm a parte do resto
FD, a que o todo AB é do todo CD.

275
Euclides

Pois, aquela parte que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém seja o EB do
CG . E como aquela parte que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém o EB é
do CG , portanto aquela parte que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém o
AB é do GF. E aquela parte que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém o AB é
suposto do CD ; portanto, aquela parte que o AB é tam bém de GF, a m esm a
parte é tam bém de CD ; portanto, o GF é igual ao CD . Fique subtraído o
CF com um; portanto, o resto GC é igual ao resto FD. E como aquela parte
que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém o EB [é] do GC, e o GC é igual
ao FD, portanto aquela parte que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém o
EB é do FD. M as aquela parte que o AE é do CF, a m esm a parte tam bém o
AB é do CD ; portanto, tam bém o resto EB é a m esm a parte do resto FD,
a que o todo AB é do todo CD ; o que era preciso provar.

8.

C aso u m n ú m ero seja p a rtes de u m n ú m ero , as q u e u m su b tra íd o é de u m


su btra ído, ta m b ém o resto será as m esm a s p a rtes do resto, as q u e o todo é
do todo.

Seja, pois, o núm ero AB partes do núm ero CD , as quais o AE subtraído


é do CF subtraído; digo que tam bém o resto EB é as mesm as partes do
resto FD, as quais o todo AB é do todo CD.
p f n
Fique, pois, posto o GH igual ao AB. Portanto, .-------------- ■-------- ■
aquelas partes que o GH é do CD , as mesm as partes G Lj MH
tam bém o AE é do CF. Fique, por um lado, dividido o A J E B
GH nas partes do CD , as GI, IH , e, por outro lado, o
AE, nas partes do CF, as AJ, JE; a quantidade, então, dos GI, IH será igual
à quantidade dos AJ, JE. E como aquela parte que o GI é de CD , a m esm a
parte tam bém o AJ é do CF, e o CD é m aior do que o CF, portanto tam bém
o GI é m aior do que o AJ. Fique posto o GL igual ao AJ. Portanto, aquela
parte que o GI é do CD , a m esm a parte tam bém o GL é do CF; portanto,
tam bém o resto LI é a m esm a parte do resto FD, a qual o todo GI é do todo
CD . De novo, como aquela parte que o IH é do CD, a mesm a parte também
o EJ é do CF, e o CD é m aior do que o CF, portanto tam bém o H I é m aior

276
O s elementos

do que o EJ. F ique posto o IM igual ao EJ. Portanto, aquela parte que o IH
é do CD , a m esm a parte tam bém o IM é do CF; portanto, tam bém o resto
M H é a m esm a parte do resto FD, a que o todo IH é do todo CD . M as
o resto LI foi provado tam bém que é a m esm a parte do resto FD, a que o
todo GI é do todo CD ; portanto, tam bém LI, M H , um e o outro juntos,
são as mesm as partes do DF, as que o todo H G é do todo CD . E, por um
lado, LI, M H , um e o outro juntos, são iguais ao EB e, por outro lado, o
H G , ao BA; portanto, tam bém o resto EB é as mesm as partes do resto FD,
as que o todo AB é do todo CD ; o que era preciso provar.

9.

Caso u m n ú m e r o seja u m a p a r t e de u m n ú m ero , e u m o u tro seja a m es m a


p a r t e de u m ou tro, ta m b ém altern a d a m en te, aquela p a r t e o u p a rtes q u e
o p r im e ir o é do terceiro, a m es m a p a r t e o u as m esm a s p a r tes ta m b ém o
seg u n d o ser á do q u a rto.

c Seja, pois, o núm ero A um a parte do núm ero BC, e


o outro D a m esm a parte do outro EF, a que o A é do
B
BC; digo que, tam bém alternadam ente, aquela parte ou

G
partes que o A é do D, a m esm a parte ou partes tam bém
A D o BC é do EF.
Pois, como aquela parte que o A é do BC, a m esm a
parte tam bém o D é do EF, portanto quantos núm eros
estão no BC iguais ao A tantos estão tam bém no EF iguais ao D. Fique,
por um lado, dividido o BC nos iguais ao A, os BG, GC, e, por outro lado,
o EF, nos iguais ao D, os EH, HF; a quantidade dos BG, GC será, então,
igual à quantidade dos EH, HF.
E como os núm eros BG, GC são iguais entre si, e tam bém os núm eros
EH, H F são iguais entre si, e a quantidade dos BG, GC é igual à quantidade
dos EH, HF, portanto aquela parte ou partes que o BG é do EH, a mesm a
parte ou as mesm as partes tam bém o GC é do HF; assim tam bém aquela
parte ou partes que o BG é do EH, a m esm a parte ou as mesm as partes
tam bém o BC, um e o outro juntos, é do EF, um e o outro juntos. E, por

277
Euclides

um lado, o BG é igual ao A, e, por outro, o EH, ao D; portanto, aquela parte


ou partes que o A é do D, a m esm a parte ou as mesm as partes tam bém o
BC é do EF; o que era preciso provar.

10.

C aso u m n ú m e r o seja p a rtes de u m n ú m ero , e u m o u tro seja as m esm a s


p a rtes de u m ou tro, tam bém , altern a d a m en te, aquelas p a r tes o u p a r t e q ue
o p r im e ir o é do terceiro, as m esm a s p a r tes o u a m es m a p a r t e ta m b ém o
seg u n d o será do quarto.

Sejam , pois, o núm ero AB partes do núm ero C, e o outro DE as mesmas


partes do outro F; digo que tam bém , alternadam ente, aquelas partes ou
parte que o AB é do DE, as mesm as partes ou a m esm a parte tam bém o C
é do F.
Pois, como aquelas partes que o AB é do C, as
mesmas partes também o DE é do F, portanto quantas D
partes do C estão no AB, tantas partes do F tam bém .A
estão no DE. Fique, então, dividido, por um lado, o C H
G
AB nas partes do C, as AG, GB, e, por outro lado, o
DE, nas partes do F, as D H , HE; a quantidade dos B E
AG, GB será igual à quantidade dos D H , HE. E,
como aquela parte que o AG é do C, a m esm a parte tam bém o D H é do
F, tam bém , alternadam ente, aquela parte ou partes que o AG é do D H , a
m esm a parte ou as mesm as partes tam bém o C é do F. Pelas mesm as coisas,
então, tam bém aquela parte ou partes que o GB é do HE, a m esm a parte
ou as mesmas partes tam bém o C é do F; assim , tam bém [aquela parte ou
partes que o AG é do D H , a m esm a parte ou as mesmas partes tam bém o
GB é do HE; portanto, tam bém aquela parte ou partes que o AG é do DH,
a m esm a parte ou as mesm as partes tam bém o AB é do DE; mas aquela
parte ou partes que o AG é do D H , a m esm a parte ou as mesm as partes
tam bém o C foi provado do F, e], [portanto,] aquelas partes ou parte que
o AB é do DE, as mesmas partes ou a m esm a parte tam bém o C é do F; o
que era preciso provar.

278
O s elementos

11.

C aso com o u m todo esteja p a r a u m todo, assim u m su b tra íd o p a r a u m


su btra ído, ta m b ém o resto estará p a r a o resto, co m o o todo p a r a o todo.

O todo AB esteja para o todo CD , assim como o subtraído


AE para o subtraído CF; digo que tam bém o resto EB está para
o resto FD, como o todo AB para o todo CD.
Com o o AB está para o CD , assim o AE para o CF, portanto
aquela parte ou partes que o AB é do CD , a m esm a parte ou as
mesm as partes tam bém o AE é do CF. Portanto, tam bém o resto
EB é a m esm a parte ou partes do resto FD, as que o AB é do
CD . Portanto, como o EB está para o FD, assim o AB para o CD ; o que
era preciso provar.

12.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , esteja m em p r o p o rçã o , com o


u m dos an teceden tes estará p a r a u m dos consequentes, assim todos os
an teceden tes p a r a todos os consequentes.

Estejam os núm eros A, B, C, D, quantos quer que se­


jam, em proporção, como o A para o B, assim o C para o
D D; digo que, como o A está para o B, assim os A, C para
os B, D.
Pois, como o A está para o B, assim o C para o D, por­
tanto aquela parte ou partes que o A é do B, a m esm a parte
ou partes tam bém o C é do D. Portanto, tam bém A, C, um e o outro juntos,
são a m esm a parte, ou as mesm as partes, de B, D, um e o outro juntos, as
que A é do B. Portanto, como o A está para o B, assim os A, C para os B,
D; o que era preciso provar.

279
Euclides

13.

C aso q u a tro n ú m e r o s estejam em p r o p o rçã o , ta m b ém estarão


a ltern a d a m en te em p rop o rçã o .

Estejam os quatro núm eros A, B, C, D em proporção,


como o A para o B, assim o C para o D; digo que tam bém
estarão alternadam ente em proporção, como o A para o C,
assim o B para o D.
Pois, como o A está para o B, assim o C para o D,
portanto aquela parte ou partes que o A é do B, a m esm a
parte ou as mesm as partes, tam bém o C é do D. Portanto,
alternadam ente, aquela parte ou partes que o A é do C, a
m esm a parte ou as mesm as partes tam bém o B é do D. Portanto, como o
A está para o C, assim o B para o D; o que era preciso provar.

14.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , e outros, ig u a is a eles em


qua ntida de, seja m tom a d os dois a dois e n a m es m a razão, tam bém , p o r
ig u a l posto, estarão na m esm a razão.

Sejam os núm eros A, B, C, quantos ■------ —-------■ ■------- --------- ■


quer que sejam, e os outros D, E, F, iguais ________ _ _________
a eles em quantidade, tom ados dois a dois B E
na m esm a razão, como o A está para o B, C " F "
assim o D para o E, ao passo que, como
o B está para o C, assim o E para o F; digo que tam bém , por igual posto,
como o A está para o C, assim o D para o F.
Pois, como o A está para o B, assim o D para o E, portanto, alternada­
m ente, como o A está para o D, assim o B para o E. De novo, como o B está
para o C, assim o E para o F, portanto, alternadam ente, como o B está para
o E, assim o C para o F. E como o B para o E, assim o A para o D; portanto,
tam bém como o A para o D, assim o C para o F; portanto, alternadam ente,
como o A está para o C, assim o D para o F; o que era preciso provar.

280
O s elementos

15.

C aso u m a u n id a d e m eça a lg u m n ú m ero , e u m o u tro n ú m e r o m eça, o


m esm o n ú m e r o de vezes, a lg u m o u tro n ú m ero , tam bém , altern a d a m en te,
a u n id a d e m e d ir á o terceiro n ú m e r o o m esm o n ú m e r o de vezes que
o segu n do, o q u a rto.

M eça, pois, a unidade A algum núm ero, o


. A _ B G H C BC, e um outro número, o D, meça, o mesmo
D número de vezes, algum outro número, o EF;
P I j p digo que tam bém , alternadam ente, a unidade
" " " " A mede o núm ero D o mesmo núm ero de
vezes que o BC, o EF.
Pois, como a unidade A mede o núm ero BC, tantas vezes quantas o D, o
EF, p ortanto quantas unidades estão no BC, tam bém tantos números iguais
ao D estão no EF. Fiquem divididos, por um lado, o BC nas unidades em
si m esm o, as BG, GH, H C , e, por outro lado, o EF nos iguais a D, os EI,
IJ, JF. A quantidade das BG, GH, H C será, então, igual à quantidade dos
EI, IJ, JF. E como as unidades BG, GH, H C são iguais entre si, e tam bém
os núm eros EI, IJ, JF são iguais entre si, e a quantidade das unidades BG,
GH, H C é igual à quantidade dos núm eros EI, IJ, JF, portanto como a
unidade BG estará para o núm ero EI, assim a unidade GH para o número
IJ, e a unidade H C para o número JF. Portanto, como um dos antecedentes
estará para um dos consequentes, assim todos os antecedentes para todos
os consequentes; portanto, como a unidade BG está para o núm ero EI,
assim o BC para o EF. E a unidade BG é igual à unidade A, e o núm ero EI,
ao núm ero D. Portanto, como a unidade A está para o núm ero D, assim o
BC para o EF. Portanto, a unidade A mede o número D o mesmo número
de vezes que o BC, o EF; o que era preciso provar.

281
Euclides

16.

C aso dois n ú m eros, depois de m u ltip lica d o s u m p e lo ou tro, f a ç a m alguns,


os p r o d u z id o s deles serão igu a is en tre si.

Sejam os dois núm eros A, B, e, por um lado o A, depois de m ultiplicado


pelo B, faça o C, e, por outro lado, o B, depois de m ultip licado pelo A, faça
o D; digo que o C é igual ao D.
Pois, como o A, depois de m ultip licado pelo B, " "^
fez o C, portanto o B mede o C segundo as unida- ■----------------- ■ B
des no A. E tam bém a unidade E mede o núm ero ç . _______________ ,
A segundo as unidades nele. Portanto, a unidade p
E mede o núm ero A, tantas vezes quantas o B, o ^
C. Portanto, alternadam ente, a unidade E mede o
núm ero B tantas vezes quantas o A, o C. De novo, como o B, depois de
m ultip licado pelo A, fez o D, portanto o A mede o D segundo as unidades
no B. E tam bém a unidade E mede o B segundo as unidades nele. Portan­
to, a unidade E mede o núm ero B, tantas vezes quantas tam bém o A, o D.
E a unidade E m edia o núm ero B o mesm o número de vezes que o A, o C.
Portanto, o A mede o mesm o núm ero de vezes cada um dos C, D. Portanto,
o C é igual ao D; o que era preciso provar.

17.

C aso u m n ú m ero , depois de m u ltip lica d o p o r dois n ú m ero s, f a ç a algu ns, os


p r o d u z id o s deles terão a m es m a razão q u e os q u e f o r a m m u ltip lica d os.

Faça, pois, o núm ero A, depois de m ultip licado pelos dois núm eros B,
C, os D, E; digo que, como o B está para o C, assim o D para o E.
Pois, como o A, depois de m u l­
tip licad o pelo B, fez o D, portanto
o B mede o D segundo as unidades " "® ^" "
no A. E tam bém a unidade F mede o ■-----------------■ ■----------------------■
núm ero A segundo as unidades nele; .—. F

282
O s elementos

portanto, a unidade F mede o núm ero A o mesmo núm ero de vezes que o
B, o D. Portanto, como a unidade F está para o núm ero A, assim o B para o
D. Pelas mesmas coisas, então, tam bém , como a unidade F para o número
A, assim o C para o E; portanto, tam bém como o B para o D, assim o C
para o E. Portanto, alternadam ente, como o B está para o C, assim o D para
o E; o que era preciso provar.

18 .

C aso dois n ú m ero s, depois de m u ltip lica d o s p o r a lg u m n ú m ero , fa ça m


alguns, os p r o d u z id o s deles terão a m es m a razão q u e os q u e m u ltip lica ra m .

Façam, pois, os dois núm eros A, B, depois


" Q" A ■ ■ de m ultiplicados por algum núm ero, o C, os D,
B ■----------------- ■ E; digo que, como o A está para o B, assim o D
D --------------- para o E.
._____________ . Pois, como o A, depois de m ultiplicado pelo C,
E fez o D, portanto, tam bém o C, depois de m u l­
tiplicado pelo A, fez o D. Pelas mesm as coisas,
então, tam bém o C, depois de m ultiplicado pelo B, fez o E. Então o número
C, depois de m ultiplicado pelos dois núm eros A, B, fez os D, E. Portanto,
como o A está para o B, assim o D para o E; o que era preciso provar.

19.

C aso q u a tro n ú m er o s estejam em p r o p o rçã o , o n ú m e r o p r o d u z id o do


p r im e ir o e q u a rto ser á ig u a l ao n ú m ero p r o d u z id o do seg u n d o e terceiro;
e caso o n ú m e r o p r o d u z id o do p r im e ir o e q u a rto seja ig u a l ao do seg u n d o
e terceiro, os q u a tro n ú m er o s estarão em p rop o rçã o .

Estejam os quatro núm eros A, B, C, D em proporção, como o A para


o B, assim o C para o D, e, por um lado, o A, depois de m ultiplicado pelo
D, faça o E, e, por outro lado, o B, depois de m ultiplicado pelo C, faça o
F; digo que o E é igual ao F.

z83
Euclides

Faça, pois, o A, depois de m ultiplicado


pelo C, o G. Com o, de fato, o A, depois
de m ultip licado pelo C, fez o G, e, depois
de m ultiplicado pelo D, fez o E, o número
A, então, depois de m u ltip licad o pelos
dois núm eros C, D, fez os G, E. Portanto,
como o C está para o D, assim o G para o
E. M as, como o C para o D, assim o A para o B; portanto, tam bém como o
A para o B, assim o G para o E. De novo, como o A, depois de m ultiplicado
pelo C, fez o G, mas, de fato, tam bém o B, depois de m ultip licado pelo C,
fez o F, então os dois núm eros A, B, depois de m ultiplicados por algum
núm ero, o C, fizeram os G, F. Portanto, como o A está para o B, assim o
G para o F. M as, de fato, tam bém como o A para o B, assim o G para o E;
portanto, tam bém como o G para o E, assim o G para o F. Portanto o G
tem para cada um dos E, F a m esm a razão; portanto, o E é igual ao F.
Seja, então, de novo, o E igual ao F; digo que como o A está para o B,
assim o C para o D.
Pois, tendo sido construídas as mesm as coisas, como o E é igual ao F,
portanto, como o G está para o E, assim o G para o F. M as, por um lado,
como o G para o E, assim o C para o D, e, por outro lado, como o G para
o F, assim o A para o B. Portanto, tam bém como o A para o B, assim o C
para o D; o que era preciso provar.

20.

O s m en o res n ú m er o s dos q u e têm a m es m a razão co m eles m ed em os q u e


têm a m esm a razão, o m es m o n ú m ero de vezes, tanto o maior, o m a io r
q u a n to o m enor, o m en or.

Sejam , pois, os CD , EF os menores núm eros que têm a m esm a razão


com os A, B; digo que, o mesmo núm ero de vezes que o CD mede o A,
tam bém o EF, o B.
Pois o CD não é partes de A. Pois, se possível, seja; portanto, tam bém o
EF é as mesmas partes de B, as que o CD é de A. Portanto, quantas partes

284
O s elementos

de A estão no CD tantas partes de B estão no EF. Fiquem dividi-


B dos, por um lado, o CD nas partes de A, as CG, GD, e, por outro
lado, o EF nas partes de B, as EH, HF; a quantidade dos CG, GD
será, então, igual à quantidade dos EH, HF, e como os núm eros
CG, GD são iguais entre si, e tam bém os núm eros EH, H F são
iguais entre si, e a quantidade dos CG, GD é igual à quantidade
dos EH, HF, portanto como o CG está para o EH, assim o GD
F para o HF. Portanto, tam bém como um dos antecedentes estará
para um dos consequentes, assim todos os antecedentes para todos
os consequentes. Portanto, como o CG está para o EH, assim o CD para
o EF; portanto, os CG, EH estão na m esm a razão com os CD , EF, sendo
menores do que eles; o que é im possível; pois, os CD , EF foram supostos
os menores dos que têm a m esm a razão com eles. Portanto, o CD não é
partes do A; portanto, um a parte. E o EF é a m esm a parte do B, a que CD
é do A; portanto, o mesm o número de vezes que o CD mede o A, tam bém
o EF, o B; o que era preciso provar.

21.

O s n ú m er o s p r im o s en tre si são os m en o res dos q u e têm a m esm a razão


co m eles.

Sejam os núm eros prim os entre si A, B; digo que os A, B


são os menores dos que têm a m esm a razão com eles.
Pois, se não, existirão alguns núm eros menores do que A, B
que estão na m esm a razão com os A, B. Sejam os C, D.
Com o, de fato, os menores núm eros dos que têm a m es­
ma razão < com eles> medem os que têm a m esm a razão,
j o m esm o núm ero de vezes, tanto o maior, o m aior quanto o
E menor, o menor, isto é, tanto o antecedente, o antecedente
quanto o consequente, o consequente, portanto, o C mede o
A o mesm o núm ero de vezes que o D, o B. Então, o C mede o A o mesmo
núm ero de vezes quantas unidades estejam no E. Portanto, tam bém o D
mede o B segundo as unidades no E. E como o C mede o A segundo as

285
Euclides

unidades no E, portanto tam bém o E mede o A segundo as unidades no C.


Pelas mesm as coisas, então, o E tam bém mede o B segundo as unidades no
D. Portanto, o E mede os A, B, que são prim os entre si; o que é im possível.
Portanto, não existirão alguns núm eros menores do que os A, B, tendo a
m esm a razão com os A, B. Portanto, os A, B são os menores dos que têm
a m esm a razão com eles; o que era preciso provar.

22.

O s m en o res n ú m er o s dos q u e têm a m es m a razão com eles


são p r im o s en tre si.

Sejam os A, B os menores núm eros dos que têm a m es- ^ _


m a razão com eles; digo que os A, B são prim os entre si. B ■_______ ■
Pois, se não são prim os entre si, algum núm ero os C ■----------■
m edirá. M eça, e seja o C. E, por um lado, o C mede o ^ " "
A o mesmo núm ero de vezes quantas unidades estejam
no D, e, por outro lado, o C mede o B o mesm o núm ero de vezes quantas
unidades estejam no E.
Como o C mede o A segundo as unidades no D, portanto o C, depois
de m ultip licado pelo D, fez o A. Pelas mesm as coisas, então, tam bém o
C, depois de m ultip licado pelo E, fez o B. O núm ero C, então, depois de
m ultiplicado pelos dois números D, E, fez os A, B; portanto, como o D está
para o E, assim o A para o B; portanto, os D, E estão na m esm a razão com
os A, B, sendo menores do que eles; o que é im possível. Portanto, nenhum
núm ero m edirá os núm eros A, B. Portanto, os A, B são prim os entre si; o
que era preciso provar.

23.

Caso dois n ú m er o s seja m p r im o s en tre si, o n ú m ero q u e m ed e u m deles


ser á p r i m o com o restante.

Sejam os A, B dois núm eros prim os entre si, e algum núm ero, o C, meça
o A; digo que os C, B são prim os entre si.

286
O s elementos

Pois, se os C, B não são prim os entre si, [a lg u m ] número


m edirá os C, B. M eça, e seja o D. Como o D mede o C, e o C
mede o A, portanto tam bém o D mede o A. E mede também
o B; portanto, o D mede os A, B, que são prim os entre si;
o que é im possível. Portanto, nenhum núm ero m edirá os
A B C núm eros C, B. Portanto, os C, B são prim os entre si; o que
era preciso provar.

24.

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s co m a lg u m n ú m ero , ta m b ém o p ro d u z id o


deles ser á p r im o co m o m es m o .

Sejam , pois, os A, B dois núm eros prim os com algum núm ero, o C, e o
A, depois de m ultiplicado pelo B, faça o D; digo que os C, D são prim os
entre si.
Pois, se os C, D não são prim os entre si, [a lg u m ] nú­
mero m edirá os C, D. M eça, e seja o E. E, como os C, A
são prim os entre si, e algum núm ero, o E, mede o C, por­
tanto os A, E são prim os entre si. Então, o E mede o D o
mesm o núm ero de vezes quantas unidades estejam no F;
Fl portanto, tam bém o F mede o D segundo as unidades no
E. Portanto, o E, depois de m ultip licado pelo F, fez
mas, por certo, tam bém o A, depois de m ultip licado pelo B, fez o D; por­
tanto, o dos E, F é igual ao dos A, B. M as, caso o pelos extremos seja igual
ao pelos m eios, os quatro núm eros estão em proporção; portanto, como o
E está para o A, assim o B para o F. M as os A, E são prim os, e os prim os
são tam bém os menores, e os menores núm eros dos que têm a m esm a razão
com eles medem os que têm a m esm a razão o mesmo núm ero de vezes,
tanto o maior, o m aior quanto o menor, o menor, isto é, tanto o antecedente,
o antecedente quanto o consequente, o consequente; portanto, o E mede o
B, e mede tam bém o C; portanto, o E mede os B, C, que são prim os entre
si; o que é im possível. Portanto, nenhum núm ero m edirá os núm eros C, D.
Portanto, os C, D são prim os entre si; o que era preciso provar.

287
Euclides

25.

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s en tre si, o p r o d u z id o de u m deles será


p r im o co m o restante.

Sejam os A, B dois núm eros prim os entre si, e o A, depois


de m ultiplicado por si mesm o, faça o C; digo que os B, C
são prim os entre si.
Fique, pois, posto o D igual ao A. Com o os A, B são p ri­
mos entre si, e o A é igual ao D, portanto tam bém os D, B
são prim os entre si. Portanto, cada um dos D, A é prim o com
o B; portanto, tam bém o produzido dos D, A será prim o com o B. M as o
produzido dos D, A é o núm ero C. Portanto, os C, B são prim os entre si;
o que era preciso provar.

26.

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s com dois n ú m ero s, am bos co m cada um,


ta m b ém os p r o d u z id o s deles serão p r im o s en tre si.

Sejam os dois núm eros A, B prim os


com os dois núm eros C, D, ambos com ^ ^ ■-------------■
cada um, e, por um lado, o A, depois B .-------- . D ■------------- ■
de m ultip licado pelo B, faça o E, e, por E .________________ .
outro lado, o C, depois de m ultiplicado p ______________ _
pelo D, faça o F; digo que os E, F são
prim os entre si.
Pois, como cada um dos A, B é prim o com o C, portanto tam bém o
produzido dos A, B será prim o com o C. E o produzido dos A, B é o E;
portanto, os E, C são prim os entre si. Pelas mesm as coisas, então os D, E
são prim os entre si. Portanto, cada um dos C, D é prim o com o E. Portanto,
tam bém o produzido dos C, D será prim o com o E. E o produzido dos
C, D é o F. Portanto, os E, F são prim os entre si; o que era preciso provar.

288
O s elementos

27.

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s en tre si, e cada u m , depois de


m u ltip lica d o p o r si m esm o, fa ça a lgu m , os p r o d u z id o s deles serão p r im o s
en tre si, e caso os do p r in cíp io , depois de m u ltip lica d o p e lo s p rodu z idos,
fa ça m a lgu m , ta m b ém esses serão p r im o s en tre si [ e isso sem p re a co n tece
acerca dos extrem os].

Sejam os dois núm eros A, B prim os entre si, e, por um lado, o A, depois
de m ultip licado por si mesmo, faça o C, ao passo que, depois de m u ltip li­
cado pelo C, faça o D, e, por outro lado, o B, depois
A de m ultip licado por si mesmo, faça o E, ao passo que,
depois de m ultiplicado pelo E, faça o F; digo que tanto
os C, E quanto os D, F são prim os entre si.
B C
Com o os A, B são prim os entre si, e o A, depois de
m ultip licado por si m esm o, fez o C, portanto os C,
B são prim os entre si. Com o, de fato, os C, B são prim os entre si, e o B,
depois de m ultip licado por si mesmo, fez o E, portanto os C, E são p ri­
mos entre si. De novo, como os A, B são prim os entre si, e o B, depois de
m ultiplicado por si m esm o, fez o E, portanto os A, E são prim os entre si.
Com o, de fato, os dois núm eros A, C são prim os com os dois núm eros B,
E, ambos com cada um, portanto tam bém o produzido dos A, C é prim o
com o dos B, E. E, por um lado, o dos A, C é o D, e, por outro lado, o dos
B, E é o F. Portanto, os D, F são prim os entre si; o que era preciso provar.

28 .

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s en tre si, ta m b ém um , c o n ju n t a m e n t e com


o outro, ser á p r im o co m cad a u m deles; e caso u m , co n ju n ta m e n te co m o
outro, seja p r im o co m a lg u m deles, ta m b ém os n ú m er o s do p r in c íp io serão
p r im o s en tre si.

Fiquem , pois, com postos os dois núm eros prim os entre si AB, BC; digo
que também um junto com o outro, o AC, é prim o com cada um dos AB, BC.

289
Euclides

Pois, se os CA, AB não são prim os entre si, algum ^ g q


núm ero m edirá os CA, AB. M eça, e seja o D. Com o, de .______ .
fato, o D mede os CA, AB, portanto m edirá tam bém o ^
restante BC. M as mede tam bém o BA; portanto, o D mede os AB, BC, que
são prim os entre si; o que é im possível. Portanto, nenhum núm ero m edirá
os números CA, AB; portanto, os CA, AB são prim os entre si. Pelas mesmas
coisas, então, tam bém os AC, CB são prim os entre si. Portanto, o CA é
prim o com cada um dos AB, BC.
Sejam , então, de novo, os CA, AB prim os entre si; digo que tam bém os
AB, BC são prim os entre si.
Pois, se os AB, BC não são prim os entre si, algum núm ero m edirá os
AB, BC. M eça, e seja o D. E como o D mede cada um dos AB, BC, tam bém
m edirá o todo CA. M as tam bém mede o AB; portanto, o D mede os CA,
AB, que são prim os entre si; o que é im possível. Portanto, nenhum núm e­
ro m edirá os AB, BC. Portanto, os AB, BC são prim os entre si; o que era
preciso provar.

29.

Todo n ú m e r o p r i m o é p r im o co m todo n ú m ero q u e n ão mede.

Seja o núm ero prim o A e não meça o B; digo que os ._______ . A


B, A são prim os entre si. ____________ _ ^
Pois, se os B, A não são prim os entre si, algum número
os m edirá. M eça o C. Com o o C mede o B, e o A não
mede o B, portanto o C não é o mesmo que o A. E como o C mede os B,
A, portanto tam bém mede o A, que é prim o, não sendo o mesmo que ele;
o que é im possível. Portanto, nenhum núm ero m edirá os B, A. Portanto,
os A, B são prim os entre si; o que era preciso provar.

290
O s elementos

30.

C aso dois n ú m ero s, sen do m u ltip lica d o s en tre si, f a ç a m a lgu m ,


e a lg u m n ú m ero p r i m o m eça o p r o d u z id o deles, m ed ir á ta m b ém u m dos
do p r in c íp io .

^ Façam, pois, os dois núm eros A, B, sendo m u ltip li­


cados entre si, o C, e algum número prim o, o D, meça
" " o C; digo que o D mede um dos A, B.
^ ■------------------- ■ N ão meça, pois, o A; e o D é prim o; portanto, os
.____. D A, D são prim os entre si. E tantas vezes o D mede o
E ,_____ , C, quantas unidades estejam no E. Com o, de fato,
o D mede o C segundo as unidades no E, portanto o D,
tendo m ultiplicado o E, fez o C. M as, certam ente, tam bém o A, tendo m u l­
tiplicado o B, fez o C; portanto, o dos D, E é igual ao dos A, B. Portanto,
como o D está para o A, assim o B para o E. E os D, A são prim os, e os
prim os são tam bém os m enores, e os menores medem os que têm a m esm a
razão, o mesm o núm ero de vezes, tanto o maior, o m aior quanto o menor, o
menor, isto é, tanto o antecedente, o antecedente quanto o consequente, o
consequente; portanto, o D mede o B. Do mesmo modo, então, provaremos
que tam bém , caso não meça o B, m edirá o A. Portanto, o D mede um dos
A, B; o que era preciso provar.

31.

T odo n ú m e r o com p osto é m ed id o p o r a lg u m n ú m e r o p r im o .

Seja o núm ero com posto A; digo que o A é m edido por


■ ■ A 1 - •
algum núm ero prim o.
■ ■ B Pois, como o A é com posto, algum núm ero o m edirá.
.— . C M eça, e seja o B. E se, por um lado, o B é prim o, o p res­
crito aconteceria. Se, por outro lado, é com posto, algum
núm ero o m edirá. M eça, e seja o C. E como o C mede o B, e o B mede o A,
portanto tam bém o C mede o A. E se, por um lado, o C é prim o, o prescrito

291
Euclides

aconteceria. Se, por outro lado é com posto, algum número o m edirá. Sendo,
então, produzida um a investigação como essa, algum núm ero prim o será
tom ado, que m edirá. Pois, se não for tom ado, ilim itados núm eros m edirão
o A, cada um dos quais é m enor do que um outro; o que é im possível nos
núm eros. Portanto, algum núm ero prim o será tom ado, que m edirá o antes
dele mesmo, que tam bém m edirá o A.
Portanto, todo núm ero com posto é m edido por algum número prim o;
o que era preciso provar.

32.

Todo n ú m ero o u é p r im o o u é m ed id o p o r a lg u m n ú m e r o p rim o.

Seja o núm ero A; digo que o A ou é prim o ou é m edido por algum 1


núm ero prim o. ^
Se, por um lado, de fato, o A é prim o, o prescrito aconteceria. Se,
por outro lado, é com posto, algum núm ero prim o o m edirá.
Portanto, todo núm ero ou é prim o ou é m edido por algum número
prim o; o que era preciso provar.

33.

D a d os n ú m er o s em u m a q u a n tid a d e qualquer, a ch a r os m en o res dos q ue


estão n a m esm a razão co m eles.

Sejam os núm eros dados A, B, C; é preciso,


então, achar os menores dos que estão na m esm a
razão com os A, B, C.
Pois os A, B, C ou são prim os entre si ou não.
Se, por um lado, de fato, os A, B, C são prim os
entre si, são os menores dos que estão na m esm a
razão com eles. I I
Se, por outro lado, não, fique tom ada a m aior
m edida com um D dos A, B, C, e, tantas vezes o

292
O s elementos

D mede cada um dos A, B, C, quantas unidades estejam em cada um dos


E, F, G. Portanto, tam bém cada um dos E, F, G mede cada um dos A, B, C
segundo as unidades no D. Portanto, os E, F, G medem o mesmo número
de vezes os A, B, C; portanto, os E, F, G estão na m esm a razão com os A,
B, C. D igo, então, que são tam bém os menores. Pois, se os E, F, G não são
os menores dos que têm a m esm a razão com os A, B, C, [algun s] núm eros,
que são menores do que os E, F, G, estarão na m esm a razão com os A, B,
C, Sejam os H, I, J; portanto, o H mede o A o mesmo núm ero de vezes que
cada um dos I, J, cada um dos B, C. M as tantas vezes o H mede o A quantas
unidades estejam no L; portanto, tam bém cada um dos I, J mede cada um
dos B, C, segundo as unidades no L. E como o H mede o A, segundo as
unidades no L, portanto tam bém o L mede o A, segundo as unidades no H.
Pelas mesm as coisas, então, o L mede tam bém cada um dos B, C, segundo
as unidades em cada um dos I, J; portanto, o L mede os A, B, C. E, como o
H mede o A, segundo as unidades no L, portanto o H, tendo m ultiplicado
o L, fez o A. Pelas mesmas coisas, então, tam bém o E, tendo m ultiplicado o
D, fez o A. Portanto, o dos E, D é igual ao dos H, L. Portanto, como o E
está para o H, assim o L para o D. M as o E é m aior do que o H ; portanto,
tam bém o L é m aior do que o D. E mede os A, B, C; o que é im possível;
pois o D foi suposto a m aior m edida com um dos A, B, C. Portanto, não
estarão alguns núm eros, que são menores do que E, F, G, na m esm a razão
com os A, B, C. Portanto, os E, F, G são os menores dos que têm a mesm a
razão com os A, B, C; o que era preciso provar.

34.

D a d o s dois n ú m eros, a ch a r o m e n o r n ú m e r o q u e eles m edem .

Sejam A, B os dois núm eros dados; é pre­


ciso, então, achar o m enor núm ero que eles
medem.
Pois os A, B ou são prim os entre si ou não.
Sejam , prim eiram ente, os A, B prim os entre
si, e o A, tendo m ultiplicado o B, faça o C;

293
Euclides

portanto, o B, tendo m ultiplicado o A, fez o C. Portanto, os A, B medem o


C. D igo, então, que é o menor. Pois, se não, os A, B medem algum número,
que é m enor do que C. M eçam o D. E tantas vezes o A mede o D quantas
unidades estejam no E, e tantas vezes o B mede o D quantas unidades
estejam no F; portanto, por um lado, o A, tendo m ultip licado o E, fez o
D, e, por outro lado, o B, tendo m ultiplicado o F, fez o D; portanto, o dos
A, E é igual ao dos B, F. Portanto, como o A está para o B, assim o F para
o E. M as os A, B são prim os, e os prim os são tam bém os menores, e os
menores medem os que têm a m esm a razão, o mesmo núm ero de vezes,
tanto o maior, o m aior quanto o menor, o m enor; portanto, o B mede o E,
como um consequente, um consequente. E, como o A, tendo m ultiplicado
os B, E, fez os C, D, portanto como o B está para o E, assim o C para o D.
E o B mede o E; portanto, tam bém o C mede o D, o maior, o m enor; o que
im possível. Portanto, os A, B não medem algum núm ero que é m enor do
que o C. Portanto, o C é o m enor dos que são m edidos pelos A, B.
N ão sejam, então, os A,B prim os entre si, e fi- g
quem tom ados os menores núm eros F, E dos que
têm a m esm a razão com os A, B; portanto, o dos ■------ ■F ■------- ■E
A, E é igual ao dos B, F. E o A, tendo m ultiplicado .---------------------- .
o E, faça o C; portanto, o B, tendo m ultiplicado _________ g
o F, fez o C; portanto, os A, B medem o C. Digo,
então, que é tam bém o menor. Pois, se não, os A,
B m edirão algum núm ero, que é m enor do que C. M eçam o D. E, por um
lado, tantas vezes o A mede o D quantas unidades estejam no G, e, por outro
lado, tantas vezes o B mede o D quantas unidades estejam no H. Portanto,
por um lado, o A, tendo m ultiplicado o G, fez o D, e, por outro lado, o B,
tendo m ultiplicado o H, fez o D. Portanto, o dos A, G é igual ao dos B,
H ; portanto, como o A está para o B, assim o H para o G. M as, como o A
para o B, assim o F para o E; portanto, como o F para o E, assim o H para
o G. E os F, E são os menores, e os menores medem os que têm a m esm a
razão, o mesmo núm ero de vezes, tanto o maior, o maior, quanto o menor,
o m enor; portanto, o E mede o G. E, como o A, tendo m ultiplicado os E,
G, fez os C, D, portanto, como o E está para o G, assim o C para o D. M as
o E mede o G; portanto, tam bém o C mede o D, o maior, o m enor; o que é

2 94
O s elementos

im possível. Portanto, os A, B não m edirão algum núm ero que é m enor do


que o C. Portanto, o C é o m enor dos que são m edidos pelos A, B; o que
era preciso provar.

35.

C aso dois n ú m er o s m e ç a m a lg u m n ú m ero , ta m b ém o m e n o r m ed id o p o r


eles o m edirá.

M eçam , pois, os dois núm eros A, B algum núm ero, o CD , e seja o E o


m enor; digo que tam bém o E mede o CD.
Pois, se o E não mede o CD , o E, m e­
dindo o DF, deixe o resto CF, m enor do
C ■-------- ■------------ ■ D que ele mesmo. E como os A, B medem
o E, e o E mede o DF, portanto tam bém
os A, B m edirão o DF. E tam bém medem
o CD todo; portanto, tam bém medem o
restante CD , que é m enor do que E; o que é im possível. Portanto, não é
o caso de o E não m edir o CD ; portanto, mede; o que era preciso provar.

36.

D a d os três n ú m eros, a ch a r o m e n o r n ú m e r o q u e eles m edem .

Sejam os três núm eros dados A, B, C; é


" ^ preciso, então, achar o m enor núm ero que eles
^ medem.
F ique, p o is, tom ado o m enor D m edido
pelos dois A, B. O C, então, ou mede o D ou
não mede. M eça, prim eiram ente. E tam bém os
A, B medem o D; portanto, os A
o D. D igo, então, que é tam bém o menor. Pois, se não, os A, B, C m edirão
[a lg u m ] núm ero que é m enor do que o D. M eçam o E. Como os A, B, C
medem o E, portanto tam bém os A,B medem o E. Portanto, o m enor m edi-

295
Euclides

do pelos A, B m edirá [o E ]. M as o m enor m edido A


pelos A, B é o D; portanto, o D mede o E, o maior, B
o m enor; o que é im possível. Portanto, os A, B, C g
não m edirão algum número que é m enor do que o D
D; portanto, os A, B, C medem o m enor D.
De novo, o C não meça o D, e fique tom ado o
m enor núm ero E m edido pelos C, D. Com o os
A, B medem o D, e o D mede o E, portanto tam ­
bém os A, B medem o E. M as tam bém o C mede [o E ]; portanto, [tam bém ]
os A, B, C medem o E. D igo, então, que é tam bém o menor. Pois, se não, os
A, B, C m edirão algum que é m enor do que o E. M eçam o F. Com o os A,
B, C medem o F, portanto tam bém os A, B medem o F; portanto, tam bém
o m enor m edido pelos A, B m edirá o F. E o m enor m edido pelos A, B é o
D; portanto, o D mede o F. E tam bém o C mede o F; portanto, os D, C
medem o F; desse modo, tam bém o m enor m edido pelos D, C m edirá o
F. E o m enor m edido pelos D, C é o E; portanto, o E mede o F, o maior,
o m enor; o que é im possível. Portanto, os A, B, C não m edirão algum n ú ­
mero que é m enor do que E. Portanto, o E é o m enor dos que são m edidos
pelos A, B, C; o que era preciso provar.

37.

C aso u m n ú m e r o seja m ed id o p o r a lg u m n ú m ero , o m ed id o terá u m a p a r t e


h o m ô n im a co m o q u e mede.

Seja, pois, o número A m edido por algum núm ero, o B;


digo que o A tem um a parte hom ônim a com o B. .____ A______
Pois, tantas vezes o B mede o A quantas unidades este- .____ . g
jam no C. Com o o B mede o A, segundo as unidades no C, ,______ , q
e tam bém a unidade D mede o núm ero C, segundo as uni- .—. q
dades nele mesmo, portanto, a unidade D mede o núm ero
C o mesmo núm ero de vezes que o B mede o A. Portanto, alternadam ente,
a unidade D mede o B o mesmo núm ero de vezes que o C mede o A; por­
tanto, aquela parte que a unidade D é do núm ero B, a m esm a parte tam bém

296
O s elementos

o C é do A. M as a unidade D é um a parte do núm ero B hom ônim a com ele;


portanto, o C é um a parte do A, hom ônim a com B. Desse modo, o A tem
a parte C que é hom ônim a com B; o que era preciso provar.

3 8.

C aso u m n ú m e r o tenha u m a pa rte, q u a lq u er q u e seja, será m ed id o p o r u m


n ú m e r o h o m ô n im o co m a p a rte.

Tenha, pois, o núm ero A um a parte, qualquer que seja, a B, e seja o [n ú ­


m e ro ] C hom ônim o com a parte B; digo que o C mede o A.
Pois, como o B é um a parte de A, hom ônim a com
C, tam bém a unidade D é um a parte de C, homô-
■-------- ■ B nim a com ele, portanto aquela parte que a unidade
__________ Q D é do núm ero C, a m esm a parte tam bém o B é
P do A; portanto, tantas vezes quantas a unidade D
mede o núm ero C, tam bém o B mede o A. Portan­
to, alternadam ente, tantas vezes quantas a unidade D mede o núm ero B,
tam bém o C mede o A. Portanto, o C mede o A; o que era preciso provar.

39.

A char u m n ú m ero q u e é o m e n o r dos q u e terão as p a rtes dadas.

Sejam as partes dadas A, B, C; é preciso, então,


. A_ _ B _ _ C _ achar um núm ero, que é o m enor dos que terão
D E as partes A, B, C.
Sejam , pois, os núm eros D, E, F, hom ônim os
" " ^ com as partes A, B, C, e fique tom ado o m enor
■--------------------------- ■ G núm ero G, m edido pelos D, E, F.
.-----------------------. H Portanto, o G tem partes hom ônim as com os
D, E, F. E as partes A, B, C são hom
os D, E, F; portanto, o G tem as partes A, B, C. D igo, então, que é o menor.
Pois, se não, existirá algum núm ero m enor do que G, que terá as partes A,

297
Euclides

B, C. Seja o H. Com o o H tem as partes A, B, C, portanto o H será m edido


por núm eros hom ônim os com as partes A, B, C. E os núm ero D, E, F são
hom ônim os com as partes A, B, C; portanto, o H é m edido pelos D, E, F.
E é m enor do que G; o que é im possível. Portanto, não existirá algum n ú ­
mero m enor do que G, que terá as partes A, B, C; o que era preciso provar.

298
Livro VIII

i.

C aso n ú m ero s, em u m a q u a n tid a d e qualquer, esteja m em p r o p o r ç ã o


con tin u a d a , e os ex trem os deles s eja m p r im o s en tre si, são os m en o res dos
q u e têm a m es m a razão co m eles.

Estejam os núm eros, em um a


^ ■ ■ ■ ■^ quantidade qualquer, A, B, C, D
B .-------------------- . .--------- . F em proporção continuada, e sejam
ç g os extrem os A, D deles prim os
entre si; digo que os A, B, C, D são
D ■---------------------- ■ ■-------------■ H os menores dos que têm a m esm a
razão com eles.
Pois, se não, sejam os E, F, G, H, menores do que os A, B, C, D, que
estão na mesm a razão com eles. E como os A, B, C, D estão na mesm a razão
com os E, F, G, H, e a quantidade [dos A, B, C, D] é igual à quantidade
[dos E, F, G, H ], portanto, por igual posto, como o A está para o D, o E
para o H . M as os A, D são prim os, e os prim os são tam bém os m enores, e
os menores núm eros medem os que têm a m esm a razão, o mesm o número
de vezes, tanto o maior, o m aior quanto o menor, o menor, isto é, tanto o
antecedente, o antecedente quanto o consequente, o consequente. Portanto,
o A mede o E, o maior, o m enor; o que é im possível. Portanto, os E, F, G,
H, que são menores do que os A, B, C, D, não estão na m esm a razão com
eles. Portanto, os A, B, C, D são os menores dos que têm a m esm a razão
com eles; o que era preciso provar.

299
Euclides

2.

Achar os m en o res n ú m er o s em p r o p o r ç ã o con tin u a d a , tan tos q u a n tos


a lg u ém p rescr ev a , n a razão da da.

Seja a razão dada nos menores números a do A para o B; é preciso, en­


tão, achar os menores números em proporção continuada, tantos quantos
alguém prescreva, na razão do A para o B.
Fiquem, então, prescritos quatro,
e o A, tendo m ultiplicado a si mes- ,__, A ■_______ ■ C
mo, faça o C, e tendo m ultiplicado ^
o B, faça o D, e ainda o B, tendo
m ultiplicado a si mesmo, faça o E, ■----------------------------- ■ ^
e ainda o A, tendo m ultiplicado os p __________ __ ____________ __ g
C,>D,>E,>faça
X os F,’ G,’ H,’ e o B,’ tendo |_|
m ultiplicado o E, faça o I. " "
E como o A, por um lado, tendo .__________________________ . I
m ultiplicado a si mesmo, fez o C, e,
por outro lado, tendo m ultiplicado o B, fez o D, portanto como o A está
para o B, [assim ] o C para o D. De novo, como, por um lado, o A, tendo
m ultiplicado o B, fez o D, e, por outro lado, o B, tendo m ultiplicado a si
mesmo, fez o E, portanto, cada um dos A, B, tendo m ultiplicado o B, fez
cada um dos D, E. Portanto, como o A está para o B, assim o D para o E.
M as, como o A para o B, o C para o D; portanto, também como o C para
o D, assim o D para o E. E como o A, tendo m ultiplicado os C, D, fez os
F, G, portanto como o C está para o D, [assim ] o F para o G. Mas como
o C para o D, assim estava o A para o B; portanto, também como o A para o
B, o F para o G. De novo, como o A, tendo m ultiplicado os D, E, fez os G,
H, portanto como o D para o E, o G para o H. M as, como o D para o E,
o A para o B. Portanto, também como o A para o B, assim o G para o H. E
como os A, B, tendo m ultiplicado o E, fez os H, I, portanto como o A está
para o B, assim o H para o I. Mas como o A para o B, assim tanto o F para
o G quanto o G para o H. Portanto, também como o F para o G, assim
tanto o G para o H quanto o H para o I; portanto, os C, D, E e os F, G,

300
O s elementos

H, I estão em proporção na razão do A para o B. Digo, então, que também


são os menores. Pois, como os A, B são os menores dos que têm a mesma
razão com eles, e os menores dos que têm a mesma razão são primos entre
si, portanto os A, B são primos entre si. E, por um lado, cada um dos A, B,
tendo m ultiplicado a si mesmo, fez cada um dos C, E, e, por outro lado,
tendo m ultiplicado cada um dos C, E, fez cada um dos F, I; portanto, os
C, E e os F, I são primos entre si. M as, caso números, em uma quantidade
qualquer, estejam em proporção continuada, e os extremos sejam primos
entre si, são os menores dos que têm a mesma razão com eles. Portanto, os
C, D, E e os F, G, H, I são os menores dos que têm a mesma razão com os
A, B; o que era preciso provar.

C o r o l á r io

Disso, então, é evidente que, caso três números em proporção continuada


sejam os menores dos que têm a mesma razão com eles, os extremos deles
são quadrados, e caso quatro, cubos.

3.

C aso n ú m ero s, em u m a q u a n tid a d e qualquer, em p r o p o r çã o co n tin u a d a


s eja m os m en o res dos q u e têm a m es m a razão co m eles, os ex trem os deles
são p r im o s en tre si.

Seejam os núm ero s, em um a


B
quantidade qualquer, A, B, C, D, em
proporção continuada, os menores
E dos que têm a mesma razão com
G .___________ . H eles; digo que os extremos A, D são
( primos entre si.
Fiquem, pois, tomados, por um
M
lado, os dois menores números, E,
N F, na razão dos A, B, C, D, e, por
outro lado, os três G, H, I, e continuadamente por um a mais, até que a
quantidade tomada se torne igual à quantidade dos A, B, C, D. Fiquem
tomados e sejam os J, L, M, N.

301
Euclides

E como os E, F são os menores dos que têm a mesma razão com eles,
são primos entre si. E como cada um dos E, F, tendo m ultiplicado, por
um lado, a si mesmo, fez cada um dos G, I, e, por outro lado, tendo m ul­
tiplicado cada um dos G, I, fez cada um dos J, N, portanto também os
G, I e os J, N são primos entre si. E como os A, B, C, D são os menores
dos que têm a mesma razão com eles, e também os J, L, M , N são os menores
que estão na mesma razão com os A, B, C, D, e a quantidade dos A, B, C,
D é igual à quantidade dos J, L, M, N, portanto cada um dos A, B, C, D é
igual a cada um dos J, L, M, N; portanto, por um lado, o A é igual ao J e,
por outro, o D, ao N. E os J, N são primos entre si. Portanto, também os
A, D são primos entre si; o que era preciso provar.

4.

Tendo sido dadas razões, em u m n ú m ero qualquer, n os m en o res n ú m eros,


ach a r os m en o res n ú m er o s em p r o p o r ç ã o co n tin u a d a nas razões dadas.

Sejam as razões que foram


A
dadas, nos menores núm eros,
C
tanto a do A para o B quanto
a do C para o D quanto, ainda, a E
do E para o F; é preciso, então, M .
U
achar os menores números em H
proporção continuada tanto na N
razão do A para o B quanto na do
C para o D quanto, ainda, na do E
para o F.
Fique, pois, tomado o menor número G medido pelos B, C. E, por um
lado, tantas vezes quantas o B mede o G tantas também o A meça o H e,
por outro lado, tantas vezes quantas o C mede o G tantas também o D
meça o I. Mas o E ou mede o I ou não mede. Primeiramente, meça. E tantas
vezes quantas o E mede o I tantas também o F meça o J. E, como o A mede
o H o mesmo número de vezes que o B, o G, portanto como o A está para

302
O s elementos

o B, assim o H para o G. Pelas mesmas coisas, então, também como o C


para o D, assim o G para o I, e ainda como o E para o F, assim o I para o
J. Portanto, os H, G, I, J estão em proporção continuada tanto na razão
do A para o B quanto na do C para o D quanto, ainda, na do E para o F.
Digo, então, que também são os menores. Pois, se os H, G, I, J não são os
menores em proporção continuada nas razões do A para o B e do C para o
D e na do E para o F, sejam os M , N, L, O. E como o A está para o B, assim
o M para o N, e os A, B são os menores, e os menores medem os que estão
na mesma razão o mesmo número de vezes, tanto o maior, o maior quanto
o menor, o menor, isto é, tanto o antecedente, o antecedente quanto o
consequente, o consequente, portanto o B mede o N. Pelas mesmas coisas,
então, também o C mede o N ; portanto, os B, C medem o N ; portanto, o
menor medido pelos B, C medirá o N. E o menor medido pelos B, C é o G;
portanto, o G mede o N, o maior, o menor; o que é impossível. Portanto,
nenhuns números, menores do que os H, G, I, J, estarão continuadamente
na razão, tanto a do A para o B quanto a do C para o D quanto, ainda, a do
E para o F.
A ■----------■ C .------------ . E -------------------- Fn _ _
O E, então, não meça o
B .--------- . -------. .-----------------I. E fiq ue tomado o menor
H
número L medido pelos E,
I. E, por um lado, tantas
P
vezes quantas o I mede o L
L .-------------------------- . .___ . R tantas também cada um dos
H, G meça cada um dos M,
N .______________ . s ■_____ .
N e, por outro lado, tantas
M ■--------------------- ■ ■---------------■ T vezes quantas o E mede o L
tantas também o F meça o
0
O. Como o H mede o M o
mesmo número de vezes que o G, o N, portanto como o H está para o G,
assim o M para o N. M as, como o H para o G, assim o A para o B; portan­
to, também como o A para o B, assim o M para o N. Pelas mesmas coisas,
então, também como o C para o D, assim o N para o L. De novo, como o E
mede o L o mesmo número de vezes que o F, o O, portanto como o E está
para o F, assim o L para o O; portanto, os M , N, L, O estão em proporção

3 03
Euclides

continuada nas razões do A para o B e do C para o D e, ainda, do E para o


F. Digo, então, que são também os menores nas razões AB, CD, EF. Pois, se
não, alguns números, menores do que os M , N, L, O, estarão em proporção
continuada nas razões AB, CD, EF. Estejam os P R, S, T. E como o P está
para o R, assim o A para o B, e os A, B são os menores, e os menores medem
os que têm a mesma razão com eles o mesmo número de vezes, tanto o
antecedente, o antecedente quanto o consequente, o consequente, portanto
o B mede o R. Pelas mesmas coisas, então, também o C mede o R; portanto,
os B, C medem o R. Portanto, também o menor medido pelos B, C medirá o
R. Mas o menor medido pelos B, C é o G; portanto, o G mede o R. E como
o G está para o R, assim o I para o S; portanto, também o I mede o S. Mas
também o E mede o S; portanto, os E, I medem o S. Portanto, também o
menor medido pelos E, I medirá o S. E o menor medido pelos E, I é o M ;
portanto, o M mede o S, o maior, o menor; o que é impossível. Portanto,
nenhuns números menores do que os M , N, L, O estarão em proporção
continuada nas razões do A para o B e do C para o D e, ainda, do E para o
F; portanto, os M, N, L, O são os menores em proporção continuada nas
razões AB, CD, EF; o que era preciso provar.

5.

O s n ú m er o s p la n o s têm en tre si a razão co m p o sta das dos lados.

Sejam os números planos A, B, e sejam os


números C, D os lados do A, enquanto os E,
F, os de B; digo que o A tem para o B a razão
composta das dos lados.
Pois, tendo sido dadas razões, tanto a que o
C tem para o E quanto o D para o F, fiquem to ­
mados os menores números G, H, I continua-
damente nas razões CE, DF, de modo a estar
como o C para o E, assim o G para o H, ao
passo que como o D para o F, assim o H para
o I. E o D, tendo m ultiplicado o E, faça o J.

3 04
O s elementos

E como o D, tendo m ultiplicado o C, fez o A, ao passo que, tendo


m ultiplicado o E, fez o J, portanto como o C está para o E, assim o A para
o J. E como o C para o E, assim o G para o H ; portanto, também como o
G para o H, assim o A para o J. De novo, como o E, tendo m ultiplicado
o D, fez o J, mas, de fato, também, tendo m ultiplicado o F, fez o B, portanto
como o D está para o F, assim o J para o B. M as, como o D para o F, assim
o H para o I; portanto, também como o H para o I, assim o J para o B. Mas
foi também provado como o G para o H, assim o A para o J; portanto, por
igual posto, como o G está para o I, [assim ] o A para o B, e o H tem para
o I a razão composta das dos lados; portanto, o A tem para o B a razão
composta das dos lados; o que era preciso provar.

6.

C aso n ú m ero s, em u m a q u a n tid a d e qualquer, esteja m em p r o p o r ç ã o


con tin u a d a , e o p r im e ir o não m eça o segu n d o, n en h u m ou tro m ed irá
n en h u m .

Estejam os números A, B, C, D, E, em uma quantidade qualquer, em


proporção continuada, e o A não meça o B; digo que nenhum outro medirá
nenhum.
^ Por um lado, que, de fato, os A, B, C, D,
E não medem uns aos outros, consecuti-
" " vamente, é evidente; pois, nem o A mede
C ■--------------------- ■ o B. Digo, então, que nem nenhum outro
D _________________ m edirá nenhum. Pois, se possível, o A
meça o C. E quantos são os A, B, C, tantos
fiquem tomados os menores números F,
^ ■ ■ G, H dos que têm a mesma razão com os
G ._______. A, B, C, e a quantidade dos A, B, C é igual
pi à quantidade dos F, G, H, portanto, por
igual posto, como o A está para o C, assim o
F para o H. E como o A está para o B, assim o F para o G, e o A não mede
o B, portanto nem o F mede o G; portanto o F não é uma unidade; pois

3 05
Euclides

a unidade mede todo número. E os F, H são primos entre si [portanto,


nem o F mede o H ]. Também como o F está para o H, assim o A para o
C; portanto, nem o A mede o C. Do mesmo modo, então, provaremos que
nem nenhum outro medirá nenhum; o que era preciso provar.

7.

C aso n ú m ero s, em u m a q u a n tid a d e qualquer, esteja m em p r o p o r ç ã o


[c o n tin u a d a ] , e o p r im e ir o m eça o ú ltim o, m ed ir á ta m b ém o segu n do.

Estejam os números A, B, C, D, em uma quantidade


qualquer, em proporção continuada, e o A meça o D; digo ^ " "
que também o A mede o B. Pois, se o A não mede o B, ^ " "
p
nem nenhum outro medirá nenhum; mas o A mede o D. " "
Portanto, o A também mede o B; o que era preciso provar. ^ ■---------------■

8.

C aso n ú m ero s caiam , segu n d o a p r o p o r çã o con tin u ad a, en tre dois n úm eros,


q u a n tos n ú m ero s caem , segu n d o a p r o p o rçã o con tin u ad a, en tre eles, tantos
tam bém cairão, segu n d o a p r o p o rçã o con tin u ad a, en tre os q ue têm
a m es m a razão [ c o m eles].

Caiam, pois, os números C, D, se­


gundo a proporção continuada, entre ^ - E
os dois números A, B, e fique feito _ C L

como o A para o B, assim o E para o ------ . D M


F; digo que quantos números caíram, _____. F
segundo a proporção continuada, B
entre os A, B, tantos também cairão, G ■— ■
segundo a proporção continuada, H .___ .
entre os E, F. I ._____ .
Pois, quantos são os A, B, C, D na
J ■-----------
quantidade, fiquem tomados tantos

306
O s elementos

os menores números G, H, I, J dos que têm a mesma razão com os A, C,


D, B; portanto, os extremos G, J deles são primos entre si. E como os A,
C, D, B estão na mesma razão com os G, H, I, J, e a quantidade dos A, C,
D, B é igual à quantidade dos G, H, I, J, portanto, por igual posto, como
o A está para o B, assim o G para o J. Mas, como o A para o B, assim o E
para o F; portanto, também como o G para o J, assim o E para o F. E os G,
J são primos, e os primos são também os menores, e os menores números
medem os que têm a mesma razão o mesmo número de vezes, tanto o maior,
o maior quanto o menor, o menor, isto é, tanto o antecedente, o antece­
dente quanto o consequente, o consequente. Portanto, o G mede o E o
mesmo número de vezes que o J, o F. Tantas vezes, então, o G mede o E
quantas também cada um dos H, I meça cada um dos L, M ; portanto, os
G, H, I, J medem os E, L, M , F o mesmo número de vezes. Portanto, os G,
H, I, J estão na mesma razão com os E, L, M, F. Mas os G, H, I, J estão na
mesma razão com os A, C, D, B; portanto, também os A, C, D, B estão
na mesma razão com os E, L, M, F. Mas os A, C, D, B estão em proporção
continuada. Portanto, também os E, L, M , F estão em proporção continua­
da. Portanto, quantos números caíram, segundo a proporção continuada,
entre os A, B tantos números caíram, segundo a proporção continuada, entre
os E, F; o que era preciso provar.

9.

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s en tre si, e n ú m er o s caiam , segu n d o


a p r o p o r çã o con tin u a d a , en tre eles, q u a n tos n ú m e r o s caem , segu n d o
a p r o p o r çã o con tin u a d a , en tre eles, tan tos ta m b ém cairão, seg u n d o a
p r o p o r ç ã o con tin u a d a , en tre cada u m deles e u m a u n id a d e.

Sejam os dois números A, B primos entre si, e caiam os C, D, segundo


a proporção continuada, entre eles, e fique tomada a unidade E; digo que,
quantos números caíram, segundo a proporção continuada, entre os A, B,
tantos também cairão, segundo a proporção continuada, entre cada um
dos A, B e a unidade.
Fiquem, pois, tomados, por um lado, os dois menores números F, G que
estão na razão dos A, C, D, B e, por outro lado, os três H, I, J, e sempre,

3 07
Euclides

continuadamente, por um a mais, A .--------. H


até que a quantidade deles se torne £ ._______ . I
igual à quantidade dos A, C, D, B. g J
Fiquem tomados e sejam os L, M,
B
N, O. É evidente, então, que, por
E .__ . L
um lado, o F, tendo m ultiplicado
a si mesmo, fez o H, e, por outro ■ ■F M

lado, tendo m ultiplicado o H, fez ■ ■G N


o L, e o G, tendo m ultiplicado a si 0 ■-------------------■
mesmo, fez o J, ao passo que, tendo
m ultiplicado o J, fez o O. E como os L, M, N, O são os menores dos que
têm a mesma razão com os F, G, e também os A, C, D, B são os menores
dos que têm a mesma razão com os F, G, e a quantidade dos L, M, N, O
é igual à quantidade dos A, C, D, B, portanto cada um dos L, M, N, O é
igual a cada um dos A, C, D, B; portanto, por um lado, o L é igual ao A,
e, por outro lado, o O, ao B. E como o F, tendo m ultiplicado a si mesmo,
fez o H, portanto o F mede o H, segundo as unidades no F. Mas também
a unidade E mede o F, segundo as unidades nele; portanto, a unidade E
mede o número F o mesmo número de vezes que o F, o H. Portanto, como
a unidade E está para o número F, assim o F para o H. De novo, como
o F, tendo m ultiplicado o H, fez o L, portanto o H mede o L, segundo
as unidades no F. Mas também a unidade E mede o número F, segundo as
unidades nele; portanto, a unidade E mede o número F o mesmo número
de vezes que o H, o L. Portanto, como a unidade E está para o número F,
assim o H para o L. E foi provado também como a unidade E para o número
F, assim o F para o H; portanto, também como a unidade E para o número F,
assim o F para o H e o H para o L. Mas o L é igual ao A; portanto, como a
unidade E está para o número F, assim o F para o H e o H para o A. Pelas
mesmas coisas, então, também como a unidade E para o número G, assim
o G para o J, e o J para o B. Portanto, quantos números caíram, segundo
a proporção continuada, entre os A, B, tantos números também caíram,
segundo a proporção continuada, entre cada um dos A, B e a unidade E; o
que era preciso provar.

308
O s elementos

10.

C a so n ú m er o s caiam , seg u n d o a p r o p o r ç ã o con tin u a d a , en tre cada u m de


dois n ú m er o s e u m a u nidade, q u a n tos n ú m er o s caem , seg u n d o a p r o p o rçã o
con tin u a d a , en tre cad a u m deles e u m a u nidade, tantos tam bém cairão,
seg u n d o a p r o p o r ç ã o con tin u a d a , en tre eles.

Caiam, pois, tantos os números D, E


.__. 0 A ._________ . quantos os F, G, segundo a proporção
g ______________ continuada, entre os dois números A, B e
0 ._____ . uma unidade C; digo que quantos números
caíram, segundo a proporção continuada,
E
entre cada um dos A, B e a unidade C tan­
H tos também ca.rão, segundo a pro pors5o
^ continuada, entre os A, B.
" Pois, o D, tendo m ultiplicado o F, faça o
-----------------■^ H, e cada um dos D, F, tendo m ultiplicado
o H, faça cada um dos I, J.
E como a unidade C está para o número D, assim o D para o E, portanto,
a unidade C mede o número D o mesmo número de vezes que o D, o E.
Mas a unidade C mede o número D segundo as unidades no D; portanto,
também o número D mede o E segundo as unidades no D; portanto, o D,
tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o E. De novo, como a [unidade] C
está para o número D, assim o E para o A, portanto, a unidade C mede o
número D o mesmo número de vezes que o E, o A.Mas a unidade C mede
o número D segundo as unidades no D; portanto, também o E mede o A
segundo as unidades no D; portanto, o D, tendo m ultiplicado o E, fez o A.
Pelas mesmas coisas, então, também, por um lado, o F, tendo m ultiplicado
a si mesmo, fez o G, e, por outro lado, tendo m ultiplicado o G, fez o B.
E como o D, por um lado, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o E, e, por
outro lado, tendo m ultiplicado o F, fez o H, portanto, como o D está para
o F, assim o E para o H. Pelas mesmas coisas, então, também como o D
para o F, assim o H para o G. Portanto, também como o E para o H, assim
o H para o G. De novo, como o D, tendo m ultiplicado cada um dos E, H,

3 09
Euclides

fez cada um dos A, J, portanto, como o E está para o H, assim o A para o J.


M as, como o E para o H, assim o D para o F; portanto, também como o D
para o F, assim o A para o J. De novo, cada um dos D, F, tendo m ultiplicado
o H, fez cada um dos I, J, portanto, como o D está para o F, assim o I para o
J. Mas, como o D para o F, assim o A para o I; portanto, também como o A
para o I, assim o I para o J. Ainda, como o F, tendo m ultiplicado cada um
dos H, G, fez cada um dos J, B, portanto, como o H está para o G, assim o
J para o B. M as, como o H para o G, assim o D para o F; portanto, também
como o D para o F, assim o J para o B. E foi provado também como o D
para o F, assim tanto o A para o I quanto o I para o J; portanto, também
como o A para o I, assim o I para o J e o J para o B. Portanto, os A, I, J,
B estão, consecutivamente, segundo a proporção continuada. Portanto,
quantos números caem, em proporção continuada, entre cada um dos A,
B e a unidade C tantos também cairão, segundo a proporção continuada,
entre os A, B; o que era preciso provar.

11.

Existe u m n ú m ero m éd io em p r o p o rçã o entre dois n ú m ero s quadrados, e o


q ua drado tem p a r a o q ua drado u m a razão du pla da q ue o lado, p a r a o lado.

Sejam os números quadrados A, B, e sejam o ___________ __^


C um lado do A, ao passo que o D um do B; digo g
que existe um número médio em proporção entre
os A, B, e o A tem para o B uma razão dupla da " "
que o C para o D. -------------------- ■ E
Pois o C, tendo m ultiplicado o D, faça o E. E como o A é um quadrado,
e o C é um lado dele, portanto o C, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o A.
Pelas mesmas coisas, então, também o D, tendo m ultiplicado a si mesmo,
fez o B. Como, de fato, o C, tendo m ultiplicado cada um dos C, D, fez
cada um dos A, E, portanto como o C está para o D, assim o A para o E.
Pelas mesmas coisas, então, também como o C para o D, assim o E para
o B. Portanto, também como o A para o E, assim o E para o B. Portanto,
existe um número médio em proporção entre os A, B.

3 Í0
O s elementos

Digo, então, que também o A tem para o B uma razão dupla da que o C
para o D. Pois, como os três números A, E, B estão em proporção, portanto
o A tem para o B uma razão dupla da que o A para o E. M as, como o A para
o E, assim o C para o D. Portanto, o A tem para o B uma razão dupla da
que o lado C para o lado D; o que era preciso provar.

12.

Existem dois n ú m er o s m éd io s em p r o p o r ç ã o en tre dois n ú m er o s cubos, e o


cu bo tem p a r a o cu bo u m a razão tripla da q u e o lado p a r a o lad o.

^ E" " Sejam os números cubos A, B e


g .__________________. p sejam o C um lado de A, enquanto
Q _____ ^ ^ o D um de B; digo que existem dois
________ _ números médios em proporção en­
D a_____ a 1 p 1
tre os A, B, e o A tem para o B uma
■---------------------- ■ razão tripla da que o C para o D.
Pois o C, tendo m ultiplicado a si mesmo, faça o E, ao passo que, tendo
multiplicado o D, faça o F, e o D, tendo m ultiplicado a si mesmo, faça o G,
e cada um dos C, D, tendo m ultiplicado o F, faça cada um dos H, I.
E, como o A é um cubo, e o C, um lado dele, e o C, tendo m ultiplicado
a si mesmo, fez o E, portanto o C, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o E,
ao passo que, tendo m ultiplicado o E, fez o A. Pelas mesmas coisas, então,
também o D, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o G, ao passo que, tendo
multiplicado o G, fez o B. E como o C, tendo m ultiplicado cada um dos
C, D, fez cada um dos E, F, portanto, como o C está para o D, assim o E
para o F. Pelas mesmas coisas, então, também como o C para o D, assim
o F para o G. De novo, como o C, tendo m ultiplicado cada um dos E, F,
fez cada um dos A, H, portanto, como o E para o F, assim o A para o H.
Mas, como o E para o F, assim o C para o D; portanto, também como o
C para o D, assim o A para o H. De novo, como cada um dos C, D, tendo
multiplicado o F, fez cada um dos H, I, portanto, como o C está para o D,
assim o H para o I. De novo, como o D, tendo m ultiplicado cada um dos
F, G, fez cada um dos I, B, portanto, como o F está para o G, assim o I para

3 11
Euclides

o B. Mas, como o F para o G, assim o C para o D; portanto, também como o


C para o D, assim tanto o A para o H quanto o H para o I e o I para o B.
Portanto, os H, I são dois médios em proporção entre A, B.
Digo, então, que também o A tem para o B uma razão tripla da que o
C para o D. Pois como os quatro números A, H, I, B estão em proporção,
portanto, o A tem para o B uma razão tripla da que o A para o H. Mas,
como o A para o H, assim o C para o D; [portanto], também o A tem para
o B uma razão tripla da que o C para o D; o que era preciso provar.

13.

C a so n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e sejam , esteja m em p r o p o r ç ã o con tin u a d a ,


e cada u m , tendo m u ltip lica d o a si m esm o, fa ça a lgu m , os p r o d u z id o s
deles estarão em p r o p o r ç ã o ; e, caso os do p r in cíp io , tendo m u ltip lica d o os
p rod u z id os, fa ça m algu ns, ta m b ém eles estarão em p r o p o r ç ã o [ e isso sem p re
a co n tece acerca dos ex trem os].

Estejam os números A, B, C, quantos quer que sejam, em proporção


continuada, como o
A G
A para o B, assim o
B H
B para o C, e os A, B,
C, por um lado, ten­ C I
do m ultiplicado a si D L
mesmos, façam os D, E M
E, F, e, por outro lado,
F 0
tendo multiplicado os
D, E, F, façam os G,
. 55 P
H, I; digo que, tanto ■--------------- ■ N
os D, E, F quanto os
G, H, I estão em proporção continuada.
Pois, por um lado, o A, tendo m ultiplicado o B, faça o J, e, por outro
lado, cada um dos A, B, tendo m ultiplicado o J faça cada um dos L, M . E,
de novo, por um lado, o B, tendo m ultiplicado o C, faça o N, e, por outro
lado, cada um dos B, C, tendo m ultiplicado o N, faça cada um dos O, P.

3 iz
O s elementos

Do mesmo modo, então, que nos acima, provaremos que os D, J, E e


os G, L, M, H estão em proporção continuada na razão do A para o B, e
ainda os E, N, F e os H, O, P, I estão em proporção continuada na razão
do B para o C. E, como o A está para o B, assim o B para o C; portanto,
também os D, J, E estão na mesma razão com os E, N, F, e ainda os G, L,
M, H com os H, O, P, I. E, por um lado, a quantidade dos D, J, E é igual à
quantidade dos E, N, F, e, por outro lado, a dos G, L, M, H, à dos H, O, P,
I; portanto, por igual posto, por um lado, como o D está para o E, assim
o E para o F, e, por outro lado, como o G para o H, assim o H para o I; o
que era preciso provar.

14.

C aso u m q u a d ra d o m eça u m qua drado, ta m b ém o lado m ed ir á o lado; e


caso o lado m eça o lado, ta m b ém o q u a d ra d o m ed ir á o q u a d ra d o .

Sejam os números quadrados A, B, e sejam


^ ■ " os C, D lados deles, e o A meça o B; digo que
B ._____________ . também o C mede o D.
Pois, o C, tendo m ultiplicado o D, faça o
E; portanto, os A, E, B estão em proporção
E ■---------------- ■ continuada na razão do C para o D. E como
os A, E, B estão em proporção continuada, e
o A mede o B, portanto também o A mede o E. E como o A está para o E,
assim o C para o D; portanto, também o C mede o D.
De novo, então, o C meça o D; digo que também o A mede o B.
Pois, do mesmo modo, tendo sido construídas as mesmas coisas, prova­
remos que os A, E, B estão em proporção continuada na razão do C para o
D, e como o C está para o D, assim o A para o E, mas o C mede o D, por­
tanto também o A mede o E. E os A, E, B estão em proporção continuada;
portanto, o A mede o B.
Portanto, caso um quadrado meça um quadrado, também o lado medirá
o lado; e caso o lado meça o lado, também o quadrado medirá o quadrado;
o que era preciso provar.

3 13
Euclides

15.

C a so u m n ú m e r o cubo m eça u m n ú m ero cubo, ta m b ém o lado m ed ir á o


lado; e, caso o lado m eça o lado, ta m b ém o cu bo m ed ir á o cubo.

Meça, pois, o número cubo A o número cubo B, ^


e seja o C um lado do A, enquanto o D, um do B;
digo que o C mede o D.
Pois o C, tendo m ultiplicado a si mesmo, faça o ^ " " .
E, e o D, tendo m ultiplicado a si mesmo faça o G, q _________ _
e ainda o C, tendo m ultiplicado o D, [faça] o F, e ^ _
cada um dos C, D, tendo m ultiplicado o F, faça cada ^
um dos H, I. É evidente, então, que os E, F, G e os
A, H, I, B estão em proporção continuada na razão
do C para o D. E como os A, H, I, B estão em proporção continuada, e o
A mede o B, portanto também mede o H. E como o A está para o H, assim
o C para o D; portanto, o C mede o D.
Mas, então, o C meça o D; digo que também o A medirá o B.
Pois, do mesmo modo, então, tendo sido construídas as mesmas coisas,
provaremos que os A, H, I, B estão em proporção continuada na razão do
C para o D. E como o C mede o D, e como o C está para o D, assim o A
para o H, portanto também o A mede o H; de modo que também o A mede
o B; o que era preciso provar.

16.

C aso u m n ú m e r o q u a d ra d o n ão m eça u m n ú m e r o qua drado, n em o lado


m ed ir á o lado; e, caso o lado n ão m eça o lado, n em o q u a d ra d o m ed ir á o
q uadrado.

A ._______ .
Sejam os números quadrados A, B e sejam os C, D la­
dos deles, e o A não meça o B; digo que nem o C mede o D. ®■ 1
Pois, se o C mede o D, também o A medirá o B; mas C .--------.
o A não mede o B; portanto, nem o C medirá o D. D ._______ .

3 14
O s elementos

De novo, [então], o C não meça o D; digo que nem o A medirá o B.


Pois, se o A mede o B, também o C medirá o D. Mas o C não mede o D;
portanto, o A não medirá o B; o que era preciso provar.

17.

C a so u m n ú m e r o cubo n ão m eça u m n ú m e r o cubo, n em o lado m ed ir á o


lado; e, caso o lado não m eça o lado, n em o cu bo m ed ir á o cubo.

------- ■ A Pois, o número cubo A não meça o número cubo B,


____________ e seja o C um lado do A, enquanto o D, um do B; digo
£ que o C não medirá o D.
Pois, se o C mede o D, também o A medirá o B;
mas o A não mede o B; portanto, nem o C mede o D.
Mas, então, o C não meça o D; digo que nem o A medirá o B.
Pois, se o A mede o B, também o C medirá o D. Mas o C não mede o D;
portanto, nem o A medirá o B; o que era preciso provar.

18 .

Existe u m n ú m e r o m éd io em p r o p o r ç ã o en tre dois n ú m er o s p la n o s


sem elhantes; e o p la n o tem p a r a o p la n o u m a razão d u pla da q u e o lado
h o m ó lo go p a r a o lado h om ólogo.

Sejam os dois números pla-


A
" " nos semelhantes A, B, e sejam
B --------------------- ■ ■------------- ■D os números C, D lados do A,
G ■______________■ .____ . E enquanto os E, F, do B. E como
p planos semelhantes são os que
têm os lados em proporção, por­
tanto, como o C está para o D, assim o E para o F. Digo, de fato, que existe
um número médio em proporção entre os A, B, e o A tem para B uma razão
dupla da que o C para o E ou o D para o F, isto é, da que o lado homólogo
para o [lado] homólogo.

3 15
Euclides

E, como o C está para o D, assim o E para o F, portanto, alternadamen­


te, como o C está para o E, o D para o F. E como A é plano, e os C, D são
lados dele, portanto, o D, tendo m ultiplicado o C, fez o A. Pelas mesmas
coisas, então, também o E, tendo m ultiplicado o F, fez o B. Então o D,
tendo m ultiplicado o E, faça o G. E, como o D, tendo m ultiplicado o C,
fez o A, ao passo que, tendo m ultiplicado o E, fez o G, portanto, como o
C está para o E, assim o A para o G. Mas, como o C para o E, [assim] o D
para o F; portanto, também como o D para o F, assim o A para o G. De
novo, como o E, tendo m ultiplicado o D, fez o G, ao passo que, tendo
m ultiplicado o F, fez o B, portanto, como o D está para o F, assim o G
para o B. E foi também provado como o D para o F, assim o A para o G;
portanto, também como o A para o G, assim o G para o B. Portanto, os A,
G, B estão em proporção continuada. Portanto, existe um número médio
em proporção entre os A, B.
Digo, então, que também o A tem para o B uma razão dupla da que
o lado homólogo para o lado homólogo, isto é, da que o C, para o E, ou o
D, para o F. Pois, como os A, G, B estão em proporção continuada, o A tem
para o B uma razão dupla da que para o G. E, como o A está para o G, assim
tanto o C para o E quanto o D para o F. Portanto, o A tem para o B uma
razão dupla da que o C, para o E ou o D, para o F; o que era preciso
provar.

19.

D ois n ú m er o s m éd io s em p r o p o r ç ã o ca em en tre dois n ú m er o s sólidos


sem elhantes; e o sólid o tem p a r a o sólid o sem elh a n te u m a razão tripla da
q u e o lado h o m ólo go p a r a o lado h o m ó lo go .

Sejam, pois, os sólidos semelhantes A, B, e sejam os C, D, E lados do


A, enquanto os F, G, H, do B. E como sólidos semelhantes são os que têm
os lados em proporção, portanto, como o C está para o D, assim o F para
o G, ao passo que, como o D para o E, assim o G para o H. Digo que dois
números médios em proporção caem entre os A, B, e o A tem para o B uma
razão tripla da que o C para o F, e o D para o G, e ainda o E para o H.

3 l6
O s elementos

M ■-------------------- ■ Po is, o C, tendo m ultiplicado


A ■----------------------- ;r* o D, faça o I, e o F, tendo mul-
B ■--------------------------------- ■ tiplicado o G, faça o J. E, como
C .____ . ._____. F os C, D estão na mesma razão
Q ______ __ _________ __Q com os F, G, e o I é dos C, D,
^ _ pi enquanto o J é dos F, G, [por­
tanto] os I, J são números planos
semelhantes; portanto, existe um
número médio em proporção en­
tre os I, J. Seja o L. Portanto, o L
é o dos D, F como foi demonstrado no teorema antes deste. E, como o D,
tendo m ultiplicado o C, fez o I, ao passo que, tendo m ultiplicado o F, fez
o L, portanto, como o C está para o F, assim o I para o L. Mas, como o I
para o L, o L para o J. Portanto, os I, L, J estão em proporção continuada
na razão do C para o F. E, como o C está para o D, assim o F para o G,
portanto, alternadamente, como o C está para o F, assim o D para o G.
Pelas mesmas coisas, então, também como o D para o G, assim o E para o
H. Portanto, os I, L, J estão em proporção continuada na razão do C para
o F, e na do D para o G, e ainda na do E para o H. Então, cada um dos E,
H, tendo m ultiplicado o L, faça cada um dos M, N. E como o A é sólido,
e os C, D, E lados dele, portanto, o E, tendo m ultiplicado o dos C, D, fez
o A. E o dos C, D é o I; portanto, o E, tendo m ultiplicado o I, fez o A.
Pelas mesmas coisas então, também o H, tendo m ultiplicado o J, fez o B.
E, como o E, tendo m ultiplicado o I, fez o A, mas, de fato, também, tendo
m ultiplicado o L, fez o M, portanto, como o I está para o L, assim o A para
o M . E, como o I para o L, assim, tanto o C para o F quanto o D para o G
e ainda o E para o H; portanto, também como o C para o F, e o D para o
G, e o E para o H, assim o A para o M . De novo, como cada um dos E, H,
tendo m ultiplicado o L, fez cada um dos M , N, portanto, como o E está
para o H, assim o M para o N. M as, como o E para o H assim, tanto o C
para o F, quanto o D para o G; portanto, como o C para o F, e o D para
o G, e o E para o H, assim tanto o A para o M quanto o M para o N. De
novo, o H, tendo m ultiplicado o L, fez o N, mas, de fato, também, tendo
m ultiplicado o J, fez o B, portanto, como o L está para o J, assim o N para

3 ll
Euclides

o B. Mas, como o L para o J, assim tanto o C para o F quanto o D para o G


e o E para o H. Portanto, também como o C para o F, e o D para o G, e o
E para o H, assim, não somente o N para o B, mas também o A para o M,
e o M para o N. Portanto, os A, M, N, B estão em proporção continuada
nas razões ditas dos lados.
Digo que também o A tem para o B uma razão tripla da que o lado h o ­
mólogo para o lado homólogo, isto é, da que o número C, para o F ou o
D, para o G e ainda o E, para o H. Pois, como os quatro números A, M , N,
B estão em proporção continuada, portanto, o A tem para o B uma razão
tripla da que o A, para o M . Mas, como o A para o M , assim, foi provado,
tanto o C para o F quanto o D para o G e ainda o E para o G. Portanto,
também o A tem para o B uma razão tripla da que o lado homólogo, para
o lado homólogo, isto é, da que o número C, para o F, e o D, para o G, e
ainda o E, para o H; o que era preciso provar.

20.

C aso u m n ú m e r o m éd io em p ro p o rçã o caia en tre dois n ú m ero s, os n ú m ero s


serão p la n o s sem elhantes.

Caia um número médio em proporção, o C, entre os dois números A, B;


digo que os A, B são números planos semelhantes.
Fiquem, [p o is], tomados os menores
números D, E dos que têm a mesma razão ^ ^ " "
com os A, C; portanto, o D mede o A o ® ■-------------------- ■
mesmo número de vezes que o E, o D. C ■---------------- ■ ■--------■
Então, tantas vezes o D mede o A quantas p _________
unidades estejam no F; portanto, o F, tendo g
multiplicado o D, fez o A. Desse modo, o A
é plano, e os D, F, lados dele. De novo, como os D, E são os menores dos
que têm a mesma razão com os C, B, portanto, o D mede o C o mesmo
número de vezes que o E, o B. Então, tantas vezes o E mede o B, quantas
unidades estejam no G. Portanto, o E mede o B segundo as unidades no
G; portanto, o G, tendo m ultiplicado o E, fez o B. Portanto, o B é plano,

3 l8
O s elementos

e os E, G, lados dele. Portanto, os A, B são números planos. Digo, então,


que são também semelhantes. Pois, como o F, tendo m ultiplicado o D,
fez o A, ao passo que, tendo m ultiplicado o E, fez o C, portanto, como o
D está para o E, assim o A para o C, isto é, o C para o B. De novo, como
o E, tendo m ultiplicado cada um dos F, G, fez os C, B, portanto, como o
F está para o G, assim o C para o B. Mas, como o C para o B, assim o D
para o E; portanto, também como o D para o E, assim o F para o G. E,
alternadamente, como o D para o F, assim o E para o G. Portanto, os A, B
são números planos semelhantes; pois os lados deles estão em proporção;
o que era preciso provar.

21.

C aso dois n ú m e r o s m éd io s em p rop o rçã o ca ia m en tre dois n ú m ero s, os


n ú m e r o s serão só lid os sem elhantes.

Caiam, pois, os números C, D médios em proporção entre os dois nú­


meros A, B; digo que os A, B são sólidos semelhantes.
Fiquem, pois, tomados os três
" menores números E, F, G dos que
_ F .
têm a mesma razão com os A, C, D;
G --------■ portanto, os extremos deles, os E,
------- ■ H .—. G, são primos entre si. E, como um
M I . . número, o F, médio em proporção,
___ N j _____ _ caiu entre os E, G, portanto, os E,
L
__ G são números planos semelhantes.
Sejam, de fato, os H, I lados do E,
enquanto os J, L, do G. Portanto, é evidente do antes deste, que os E, F, G
estão em proporção continuada na razão do H para o J e na do I para o L.
E, como os E, F, G são os menores dos que têm a mesma razão com os A,
C, D, e a quantidade dos E, F, G é igual à quantidade dos A, C, D, portanto,
por igual posto, como o E está para o G, assim o A para o D. Mas os E,
G são primos, e os primos também são os menores, e os menores medem
os que têm a mesma razão com eles, o mesmo número de vezes, tanto o

3 19
Euclides

maior, o maior quanto o menor, o menor, isto é, tanto o antecedente, o


antecedente quanto o consequente, o consequente; portanto, o E mede o
A o mesmo número de vezes que o G, o D. Então, tantas vezes o E mede
o A quantas unidades estejam no M. Portanto, o M, tendo m ultiplicado
o E, fez o A. Mas o E é o dos H, I; portanto, o M , tendo m ultiplicado o
dos H, I, fez o A. Portanto, o A é sólido, e os H, I, M , lados dele. De novo,
como os E, F, G são os menores dos que têm a mesma razão com os C, D,
B, portanto, o E mede o C o mesmo número de vezes que o G, o B. Então,
tantas vezes o E mede o C quantas unidades estejam no N. Portanto, o G
mede o B, segundo as unidades no N ; portanto, o N, tendo m ultiplicado
o G, fez o B. Mas o G é o dos J, L; portanto, o N, tendo m ultiplicado o
dos J, L, fez o B. Portanto, o B é sólido, e os J, L, N, lados dele; portanto,
os A, B são sólidos.
Digo, [então], que também são semelhantes. Pois, como os M , N, tendo
m ultiplicado o E, fez os A, C, portanto, como o M está para o N, o A para
o C, isto é, o E para o F. M as, como o E para o F, o H para o J e o I para o
L; portanto, também como o H para o J, assim o I para o L, e o M para
o N. E os H, I, M são lados do A, enquanto os N, J, L, lados do B. Portan­
to, os A, B são números sólidos semelhantes; o que era preciso provar.

22.

C aso três n ú m er o s esteja m em p r o p o rçã o con tin u a d a , e o p r im eir o seja u m


qua drado, ta m b ém o terceiro será u m q uadrado.

Sejam os três números A, B, C em proporção conti­


nuada, e seja o primeiro, o A, um quadrado; digo que A■ ■
também o terceiro, o C, é um quadrado. B■ ■
Pois, como o número B é médio em proporção en- g , ,
tre os A, C, portanto, os A, C são planos semelhantes.
Mas o A é um quadrado; portanto, também o C é um quadrado; o que era
preciso provar.

320
O s elementos

23.

C aso q u a tro n ú m er o s esteja m em p ro p o rçã o con tin u a d a , e o p r im eir o seja


u m cubo, ta m b ém o q u a rto será u m cubo.

.____ . A Estejam os quatro números A, B, C, D em proporção


_________ g continuada, e seja o A um cubo; digo que também o D
ç é um cubo.
Pois, como os dois números B, C são médios em
proporção entre os A, D, portanto, os A, D são números
sólidos semelhantes. Mas o A é um cubo; portanto, também o B é um cubo;
o que era preciso provar.

24.

C aso dois n ú m er o s ten h am u m a razão en tre si, a q u a l u m n ú m ero


qua drado, p a ra u m n ú m ero qua drado, e o p r im eir o seja u m quadrado,
ta m b ém o seg u n d o será u m q uadrado.

Tenham, pois, os dois números A, B uma razão


entre si, a qual o número quadrado C, para o núme-
" " ro quadrado D, e seja o A um quadrado; digo que
■ ■^ também o B é um quadrado.
--------------- ■ . D Pois, como os C, D são quadrados, portanto, os
C, D são planos semelhantes. Portanto, u
médio em proporção cai entre os C, D. E, como o C está para o D, o A para
o B; portanto, um número médio em proporção cai entre os A, B. E o A é um
quadrado; portanto, também o B é um quadrado; o que era preciso provar.

321
Euclides

25.

C a so dois n ú m er o s tenh am u m a razão en tre si, a q u a l u m n ú m ero cubo,


p a r a u m n ú m e r o cubo, e o p r im e ir o seja u m cubo, ta m b ém o seg u n d o será
u m cubo.

Tenham, pois, os dois números A, B ^ ^" "


uma razão entre si, a qual o número cubo B ■------------------- ■
C, para o número cubo D, e seja o A um q " '
cubo; digo, [então], que também o B é
um cubo.
Pois, como os C, D são cubos, os C, D são sólidos semelhantes; portan­
to, dois números médios em proporção caem entre os C, D. Mas quantos
caiam entre C, D na proporção continuada, tantos também entre os que
têm a mesma razão com eles. De modo que, dois números médios, em
proporção, caem também entre os A, B. Caiam os E, F. Como, de fato, os
quatro números A, E, F, B estão em proporção continuada, e o A é um cubo,
portanto também o B é um cubo; o que era preciso provar.

26.

O s n ú m e r o s p la n o s sem elh a n tes têm u m a razão en tre si, a q u a l u m


n ú m e r o qua drado, p a r a u m n ú m e r o q uadrado.

Sejam os números planos semelhan- A ._____. .___________ ■ B


tes A, B; digo que o A tem para o B uma C
razão, a qual um número quadrado, para ^
. F
um número quadrado.
Pois, como os A, B são planos semelhantes, portanto, um número médio
em proporção cai entre os A, B. Caia e seja o C, e fiquem tomados os me­
nores números D, E, F dos que têm a mesma razão com os A, C, B. Por­
tanto, os extremos deles, os D, F, são quadrados. E como o D está para o
F, assim o A para o B, e os D, F são quadrados, portanto, o A tem para o B
uma razão, a qual um número quadrado, para um número quadrado; o que
era preciso provar.

322
O s elementos

27.

O s n ú m er o s só lid os sem elh a n tes têm u m a razão en tre si, a q u a l u m


n ú m ero cubo, p a ra u m n ú m e r o cubo.

Sejam os núm eros


A ■--------- ■ C ■_________ ■ só lid o s sem elh an tes
g q ________________ A, B; digo que o A tem
para o B uma razão, a
E .----- . F .------- . G.----------. .____ H____ . b
qual um número cubo
para um número cubo.
Pois, como os A, B são sólidos semelhantes, portanto, dois números
médios em proporção caem entre os A, B. Caiam os C, D, e fiquem tomados
os menores números E, F, G, H dos que têm a mesma razão com os A, C,
D, B, iguais a eles em quantidade. Portanto, os extremos deles, os E, H,
são cubos. E, como o E está para o H, assim o A para o B; portanto, o A
tem para o B uma razão, a qual um número cubo, para um número cubo;
o que era preciso provar.

3 23
Livro IX

1.

C a so dois n ú m er o s p la n o s sem elh a n tes, tendo u m m u ltip lica d o o o u tro ,


f a ç a m a lgu m , o p ro d u z id o será u m q uadrado.

A ■----------- ■ Sejam os dois números planos semelhan-


B .___________ . tes A, B, e o A, tendo m ultiplicado o B, faça
Q o C; digo que o C é um quadrado.
^ Pois, o A, tendo m ultiplicado a si mesmo,
" " faça o D. Portanto, o D é um quadrado.
Como, de fato, o A, por um lado, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o
D, e, por outro lado, tendo m ultiplicado o B, fez o C, portanto, como
o A está para o B, assim o D para o C. E, como os A, B são números planos
semelhantes, um número médio em proporção cai entre os A, B. Mas, caso
números caiam, segundo a proporção continuada, entre dois números,
quantos caem entre eles, tantos também entre os que têm a mesma razão;
desse modo, também um número médio em proporção cai entre os D, C.
E o D é um quadrado; portanto, também o C é um quadrado; o que era
preciso provar.

3 25
Euclides

2.

C a so dois n ú m ero s, tendo u m m u ltip lica d o o ou tro, fa ça m u m quadrado,


são n ú m er o s p la n o s sem elhantes.

Sejam os dois números A, B, e o A, tendo m ultiplica- ^


do o B, faça o quadrado C; digo que os A, B são números
planos semelhantes. " " ®
Pois, o A, tendo m ultiplicado a si mesmo, faça o D; C ■---------------- ■
portanto, o D é um quadrado. E, como o A, por um lado, 0 .________ .
tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o D, e, por outro
lado, tendo m ultiplicado o B, fez o C, portanto, como o A está para o B, o
D para o C. E, como o D é um quadrado, mas também o C, portanto, os D,
C são planos semelhantes. Portanto, um médio em proporção cai entre os
D, C. E, como o D está para o C, assim o A para o B; portanto, um médio
em proporção cai entre os A, B. Mas, caso um médio em proporção caia
entre dois números, [os] números são planos semelhantes; portanto, os
A, B são planos semelhantes; o que era preciso provar.

3.

C a so u m n ú m ero cubo, tendo m u ltip lica d o a si m esm o, fa ça a lgu m , o


p r o d u z id o será u m cubo.

Pois, o número cubo A, tendo m ultiplicado a si _______ _ ^


mesmo, faça o B; digo que o B é um cubo.
Fique, pois, tomado o lado C do A, e o C, tendo
m ultiplicado a si mesmo, faça o D. É evidente, então, " " " "
que o C, tendo m ultiplicado o D, fez o A. E, como o C, tendo m u ltip li­
cado a si mesmo, fez o D, portanto, o C mede o D, segundo as unidades
nele. Mas, de fato, também a unidade mede o C, segundo as unidades nele;
portanto, como a unidade está para o C, o C para o D. De novo, como o
C, tendo m ultiplicado o D, fez o A, portanto, o D mede o A, segundo as
unidades no C. Mas também a unidade mede o C, segundo as unidades

326
O s elementos

nele; portanto, como a unidade está para o C, o D para o A. Mas, como a


unidade para o C, o C para o D; portanto, também como a unidade para
o C, assim o C para o D, e o D para o A. Portanto, os dois números C, D
médios segundo a proporção continuada caíram entre a unidade e o A. De
novo, como o A, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o B, portanto o A mede
o B, segundo as unidades nele. Mas também a unidade mede o A, segundo
as unidades nele; portanto, como a unidade está para o A, o A para o B.
E dois números médios em proporção caíram entre a unidade e o A; por­
tanto, dois números médios em proporção cairão entre os A, B. Mas, caso
dois médios em proporção caiam entre dois números, e o primeiro seja um
cubo, também o segundo será um cubo. E o A é um cubo; portanto, também
o B é um cubo; o que era preciso provar.

4.

C aso u m n ú m e r o cubo, tendo m u ltip lica d o u m n ú m ero cubo, fa ça algu m ,


o p r o d u z id o será u m cubo.

,____, A Pois, o número cubo A, tendo multiplicado o número


______ g cubo B, faça o C; digo que o C é um cubo.
Pois, o A, tendo m ultiplicado a si mesmo, faça o D;
portanto, o D é um cubo. E, como o A, por um lado,
tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o D, e, por outro
lado, tendo m ultiplicado o B, fez o C, portanto, como o A está para o B,
assim o D para o C. E, como os A, B são cubos, os A, B são sólidos similares.
Portanto, dois números médios em proporção caem entre os A, B; desse
modo, também dois números médios em proporção cairão entre os D, C. E
o D é um cubo; portanto, também o C é um cubo; o que era preciso provar.

3 27
Euclides

5.

C a so u m n ú m e r o cubo, tendo m u ltip lica d o a lg u m n ú m ero , f a ç a u m cubo,


ta m b ém o q u e f o i m u ltip lica d o será u m cubo.

Pois, o número cubo A, tendo m ultiplicado algum


número B, faça o cubo C; digo que o B é um cubo. ■ ■^
Pois, o A, tendo m ultiplicado a si mesmo, faça o ■---------------- ■ B
D; portanto, o D é um cubo. E, como o A, por um ,______________ C.
lado, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o D, e, por ________ _ q
outro lado, tendo m ultiplicado o B, fez o C, portan­
to, como o A está para o B, o D para o C. E, como os D, C são cubos, são
sólidos semelhantes. Portanto, dois números médios em proporção caem
entre os C, D. E como o D está para o C, assim o A para o B; portanto,
dois números médios em proporção caem entre os A, B. E o A é um cubo;
portanto, também o B é um cubo; o que era preciso provar.

6.

C a so u m n ú m ero , tendo m u ltip lica d o a si m esm o, f a ç a u m cubo, tam bém


ele será u m cubo.

Pois, o número A, tendo multiplicado a si mesmo, faça _____ ^


o cubo B; digo que também o A é um cubo.
Pois, o A, tendo m ultiplicado o B, faça o C. Como, de ^
fato, o A, por um lado, tendo m ultiplicado a si mesmo,
fez o B, e, por outro lado, tendo m ultiplicado o B, fez o C, portanto, o C é
um cubo. E, como o A, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o B, portanto,
o A mede o B, segundo as unidades nele. Mas também a unidade mede o A,
segundo as unidades nele. Portanto, como a unidade está para o A, assim
o A para o B. E, como o A, tendo m ultiplicado o B, fez o C, portanto, o B
mede o C, segundo as unidades no A. Mas também a unidade mede o A,
segundo as unidades nele. Portanto, como a unidade está para o A, assim
o B para o C. Mas, como a unidade para o A, assim o A para o B; portanto,

328
O s elementos

como o A para o B, o B para o C. E, como os B, C são cubos, são sólidos


semelhantes. Portanto, existem dois números médios em proporção entre
os B, C. E, como o B está para o C, o A para o B. Portanto, existem tam ­
bém dois números médios em proporção entre os A, B. E o B é um cubo;
portanto, também o A é um cubo; o que era preciso provar.

7.

C aso u m n ú m e r o com posto, tendo m u ltip lica d o a lg u m n ú m ero , f a ç a


a lgu m , o p r o d u z id o será u m sólido.

Pois, o número composto A, tendo m ultiplicado


■ ■A algum número B, faça o C; digo que o C é sólido.
■ ■B Pois, como o A é composto, será medido por
,____________. C algum número. Seja medido pelo D, e quantas ve-
Q __ £ _________ zes o D mede o A, tantas unidades estejam no E.
Como, de fato, o D mede o A, segundo as unidades
no E, portanto, o E, tendo m ultiplicado o D, fez o A. E como o A, tendo
multiplicado o B, fez o C, e o A é o dos D, E, portanto, o dos D, E, tendo mul­
tiplicado o B, fez o C. Portanto, o C é sólido, e os D, E, B são lados dele;
o que era preciso provar.

8.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, esteja m em


p r o p o r çã o con tin u a d a , p o r u m lado, o terceiro a p a r t i r da u n id a d e será
u m qua drado, e os q u e deix am u m no in terva lo entre, e, p o r o u tro lado, o
quarto, u m cubo, e todos os q u e deix am dois no in terva lo entre, en q u a n to
o sétim o, ao m es m o tempo, u m cu bo e u m qua drado, e todos os q u e deix am
cin co no in terva lo entre.

Estejam os números A, B, C, D, E, F, quantos quer que sejam, a partir


da unidade, em proporção continuada; digo que, por um lado, o terceiro,
B, a partir da unidade, é um quadrado e todos os que deixam um no inter­

3 29
Euclides

valo entre, e, por outro lado, o quarto C é um A .--------.


cubo, e todos os que deixam dois no intervalo B ■_______■
entre, enquanto que o sétimo F é, ao mesmo ^ _
tempo, um cubo e um quadrado, e todos os
que deixam cinco no intervalo entre.
Pois, como a unidade está para o A, assim " "
o A para o B, portanto, a unidade mede o A o ■----------------------------- ■
mesmo número de vezes que o A, o B. Mas a
unidade mede o número A segundo as unidades nele; portanto, o A mede
o B, segundo as unidades no A. Portanto, o A, tendo m ultiplicado a si
mesmo, fez o B; portanto, o B é um quadrado. E, como os B, C, D estão
em proporção continuada, e o B é um quadrado, portanto, também o D é
um quadrado. Pelas mesmas coisas, então, também o F é um quadrado. Do
mesmo modo, então, provaremos que todos os que deixam um no intervalo
entre são quadrados. Digo, então, que também o quarto C, a partir da uni­
dade, é um cubo e todos os que deixam dois no intervalo entre. Pois, como
a unidade está para o A, assim o B para o C, portanto, a unidade mede o A
o mesmo número de vezes que o B, o C. Mas a unidade mede o número A,
segundo as unidades no A; portanto, o B mede o C, segundo as unidades
no A; portanto o A, tendo m ultiplicado o B, fez o C. Como, de fato, o A,
por um lado, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o B, e, por outro lado,
tendo m ultiplicado o B, fez o C, portanto o C é um cubo. E, como os C, D,
E, F estão em proporção continuada, e o C é um cubo, também o F é um
cubo. E foi também provado um quadrado; portanto, o sétimo, a partir da
unidade, é tanto um cubo quanto um quadrado. Do mesmo modo, então,
provaremos que também todos os que deixam cinco no intervalo entre são
tanto cubos quanto quadrados; o que era preciso provar.

33o
O s elementos

9.

C a so n ú m eros, q u a n to s q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, estejam ,


su cessiva m en te, em p r o p o r ç ã o con tin u a d a , e o depois da u n id a d e seja u m
q ua drado, ta m b ém todos os resta ntes serão quadrados. E, caso o depois da
u n id a d e seja u m cubo, ta m b ém todos os resta ntes serão cubos.

A ■ Estejam os números A, B,
B --------- ■ C, D, E, F, quantos quer que
C --------------- . sejam , a p artir da unidade,
D _______________ em proporção continuada, e
p o depois da unidade, o A, seja
um quadrado; digo que todos
" os restantes serão quadrados.
Que, de fato, o terceiro B, a partir da unidade, é um quadrado, e todos
os que deixem um no intervalo entre, foi provado; digo, [en tã o ], que
também todos os restantes são quadrados. Pois, como os A, B, C estão em
proporção continuada, também o A é um quadrado, [p o rtan to ], também
o C é um quadrado. De novo, como [também] os B, C, D estão em pro­
porção continuada, também o B é um quadrado, [portanto], também o D
é um quadrado. Do mesmo modo, então, provaremos que também todos
os restantes são quadrados.
Mas, então, seja o A um cubo; digo que também todos os restantes são
cubos.
Que, de fato, o quarto C, a partir da unidade é um cubo e todos os que
deixam dois no intervalo entre, foi provado; digo, [então], que também
todos os restantes são cubos. Pois, como a unidade está para o A, assim o A
para o B, portanto, a unidade mede o A o mesmo número de vezes que o A,
o B. Mas a unidade mede o A, segundo as unidades nele; portanto, também
o A mede o B, segundo as unidades nele. Portanto, o A, tendo m ultiplicado
a si mesmo, fez o B. E o A é um cubo. M as, caso um número cubo, tendo
multiplicado a si mesmo, faça algum, o produzido é um cubo; portanto,
também o B é um cubo. E, como os quatro números A, B, C, D estão em
proporção continuada, e o A é um cubo, portanto, também o D é um cubo.

331
Euclides

Pelas mesmas coisas, então, também o E é um cubo, e, do mesmo modo,


todos os restantes são cubos; o que era preciso provar.

10.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, estejam em


p r o p o r çã o [ co n tin u a d a ] , e o depois da u n id a d e não seja u m qua drado, n em
n en h u m o u tro será u m qua drado, exceto o terceiro a p a r t i r da u n id a d e e
todos os q u e deix am u m no in terva lo entre. E, caso o depois da u n id a d e
não seja u m cubo, n em n en h u m ou tro será u m cubo, exceto o q u a rto a
p a r t i r da u n id a d e e todos os q u e deix am dois no in terva lo entre.

Estejam os números A, B, C, D, E, F, A
quantos quer que sejam, a partir da unida- B
de em proporção continuada, e o depois da c
unidade, o A, não seja um quadrado; digo
. D
que nem nenhum outro será um quadrado,
exceto o terceiro a partir da unidade [ e os
que deixam um no intervalo entre].
Pois, se possível, seja o C um quadrado. Mas também o B é um quadra­
do; portanto, os B, C têm, um para o outro, uma razão, a qual um número
quadrado, para um número quadrado. E, como o B está para o C, o A para
o B; portanto, os A, B têm, um para o outro, uma razão, a qual um número
quadrado, para um número quadrado; desse modo, os A, B são planos se­
melhantes. E o B é um quadrado; portanto, também o A é um quadrado; o
que não era suposto. Portanto, o C não é um quadrado. Do mesmo modo,
então, provaremos que nem nenhum outro é um quadrado, exceto o terceiro
a partir da unidade e os que deixam um no intervalo entre.
Mas, então, o A não seja um cubo. Digo que nem nenhum outro será
um cubo, exceto o quarto a partir da unidade e os que deixam dois no
intervalo entre.
Pois, se possível, seja o D um cubo. Mas também o C é um cubo; pois,
é o quarto a partir da unidade. E, como o C está para o D, o B para o C;
portanto, o B tem para o C uma razão, a qual um cubo, para um cubo. E

332
O s elementos

o C é um cubo; portanto, também o B é um cubo. E, como a unidade está


para o A, o A para o B, e a unidade mede o A, segundo as unidades nele,
portanto, também o A mede o B, segundo as unidades nele; portanto, o
A, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o cubo B. M as, caso um número,
tendo m ultiplicado a si mesmo, faça um cubo, também ele será um cubo.
Portanto, também o A é um cubo; o que não foi suposto. Portanto, o D
não é um cubo. Do mesmo modo, então provaremos que nem nenhum
outro é um cubo, exceto o quarto a partir da unidade e os que deixam dois
no intervalo entre; o que era preciso provar.

11.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, esteja m em


p r o p o r çã o con tin u a d a , o m e n o r m ed e o maior, seg u n d o a lg u m dos existentes
r ea lm en te n os n ú m er o s em p rop o rçã o .

Estejam os números B, C, D, E, quantos quer que


" "^ sejam, a partir da unidade, em proporção continuada;
■ "® digo que o menor B dos B, C, D, E mede o maior E,
■ ■C segundo algum dos C, D.
.___________ . D Pois, como a unidade A está para o B, assim o D
^ _ para o E, portanto, a unidade A mede o número B
o mesmo número de vezes que o D, o E; portanto,
alternadamente, a unidade A mede o D o mesmo número de vezes que o
B, o E. Mas a unidade A mede o D, segundo as unidades nele; portanto,
também o B mede o E, segundo as unidades no D; desse modo, o menor
B mede o maior E, segundo algum número dos existentes realmente nos
números em proporção.

C o r o l á r io

E é evidente que o que mede tem, a partir da unidade, um posto que


é o mesmo que tem também o segundo o qual mede a partir do medido
até o antes dele; o que era preciso provar.

333
Euclides

12.

C a so n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, estejam em


p r o p o r ç ã o con tin u a d a , p o r q u a n tos n ú m e r o s p r im o s o ú ltim o seja m edido,
p e lo s m es m o s ta m b ém o p r ó x im o à u n id a d e será m edido.

Estejam os números A, B, C, D, quan- ^ ^ ■-----------------■


tos quer que sejam, a partir da unidade, B ._______ . ■_______■ G
em proporção continuada; digo que, q ___________ _ _____ _ ^
por quantos números primos o D seja
medido, pelos mesmos também o A será
medido. ^ ■ ■
Seja, pois, medido o D por algum número primo, o E; digo que o E
mede o A. Pois, não; e o E é primo, e todo primo é primo com todo que
não mede; portanto, os E, A são primos entre si. E, como o E mede o D,
meça-o segundo o F; portanto, o E, tendo m ultiplicado o F, fez o D. De
novo, como o A mede o D, segundo as unidades no C, portanto, o A, tendo
m ultiplicado o C, fez o D. M as, de fato, também o E, tendo m ultiplicado
o F, fez o D; portanto, o dos A, C é igual ao dos E, F. Portanto, como o A
está para o E, o F para o C. Mas os A, E são primos, e os primos são tam ­
bém os menores, e os menores medem os que têm a mesma razão o mesmo
número de vezes, tanto o antecedente, o antecedente quanto o consequente,
o consequente; portanto, o E mede o C. M eça-o, segundo o G; portanto, o
E, tendo m ultiplicado o G, fez o C. Mas, de fato, pelo antes deste, também
o A, tendo m ultiplicado o B, fez o C. Portanto, o dos A, B é igual ao dos E,
G. Portanto, como o A está para o E, o G para o B. Mas os A, E são primos,
e os primos são também os menores, e os números menores medem os que
têm a mesma razão com eles o mesmo número de vezes, tanto o antecedente,
o antecedente quanto o consequente, o consequente; portanto, o E mede o
B. Meça-o, segundo o H; portanto, o E, tendo m ultiplicado o H, fez o B.
Mas, de fato, também o A, tendo multiplicado a si mesmo, fez o B; portanto,
o dos E, H é igual a o a partir de A. Portanto, como o E está para o A, o A
para o H. Mas os A, E são primos, e os primos são também os menores, e
os menores medem os que têm a mesma razão o mesmo número de vezes,

334
O s elementos

tanto o antecedente, o antecedente quanto o consequente, o consequente;


portanto, o E mede o A, como um antecedente, um antecedente. Mas, de
fato, também não mede; o que é impossível. Portanto, os A, E não são
primos entre si. Portanto, são compostos. Mas os compostos são medidos
por algum número [prim o]. E, como o E foi suposto primo, e o primo
não é medido por outro número senão por si mesmo, portanto, o E mede
os A, E; desse modo, o E mede o A. Mas mede também o D; portanto, o
E mede os A, D. Do mesmo modo, então, provaremos que, por quantos
números primos o D seja medido, pelos mesmos também o A será medido;
o que era preciso provar.

13.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, estejam


em p r o p o r ç ã o con tin u a d a , e o depois da u n id a d e seja p r im o , o m a i o r p o r
n en h u m [ o u t r o ] ser á m ed ido, a lém dos existentes r ea lm en te n os n ú m ero s
em p rop o rçã o .

Estejam os números A, B, C, D, quan-


" "^ ^" " tos quer que sejam, a partir da unidade,
■--------- ■ B .----------- . F em proporção continuada, e o depois
.---------------. C ■------ ■ G da unidade, o A, seja primo; digo que o
________________ p _____ _ p| maior deles, o D, por nenhum outro será
medido além dos A, B, C.
Pois, se possível, seja medido pelo E, e o E não seja o mesmo que algum
dos A, B, C. É evidente, então, que o E não é primo. Pois, se o E é primo e
mede o D, também medirá o A, que é primo, não sendo o mesmo que ele;
o que é impossível. Portanto, o E não é primo. Portanto, é composto. Mas
todo número composto é medido por algum número primo; portanto, o
E é medido por algum número primo; digo, então, que será medido por
nenhum outro primo, exceto o A. Pois, se o E é medido por um outro, e o
E mede o D, portanto, também aquele medirá o D; desse modo, também
medirá o A, que é primo, não sendo o mesmo que ele; o que é impossível.
Portanto, o A mede o E. E, como o E mede o D, meça-o, segundo o F. Digo

335
Euclides

que o F não é o mesmo que algum dos A, B, C. Pois, se o F é o mesmo que


um dos A, B, C, e mede o D, segundo o E, portanto, também um dos A, B,
C mede o D, segundo o E. Mas um dos A, B, C mede o D, segundo algum
dos A, B, C; portanto, o E é o mesmo que um dos A, B, C; o que não foi
suposto. Portanto, o F não é o mesmo que um dos A, B, C. Do mesmo
modo, então, provaremos que o F é medido pelo A, mostrando de novo
que o F não é primo. Pois, se também mede o D, também medirá o A, que
é primo, não sendo o mesmo que ele; o que é impossível; portanto, o F não
é primo; portanto, é composto. Mas todo número composto é medido por
algum número primo; portanto, o F é medido por algum número primo.
Digo, então, que não será medido por um outro primo, exceto o A. Pois,
se algum outro primo mede o F, e o F mede o D, portanto, também aquele
medirá o D; desse modo, também medirá o A, que é primo, não sendo o
mesmo que ele; o que é impossível. Portanto, o A mede o F, e como o E
mede o D, segundo o F, portanto, o E, tendo m ultiplicado o F, fez o D.
M as, de fato, também o A, tendo m ultiplicado o C, fez o D; portanto, o
dos A, C é igual ao dos E, F; portanto, em proporção, como o A está para o
E, assim o F para o C. Mas o A mede o E; portanto, também o F mede o C.
M eça-o, segundo o G. Do mesmo modo, então, provaremos que o G não
é o mesmo que algum dos A, B, e que é medido pelo A. E, como o F mede
o C, segundo o G, portanto, o F, tendo m ultiplicado o G, fez o C. Mas, de
fato, também o A, tendo m ultiplicado o B, fez o C; portanto, o dos A, B é
igual ao dos F, G. Portanto, em proporção, como o A para o F, o G para o
B. Mas o A mede o F; portanto, também o G mede o B. M eça-o, segundo
o H. Do mesmo modo, então, provaremos que o H não é o mesmo que o A.
E, como o G mede o B, segundo o H, portanto, o G, tendo m ultiplicado o
H, fez o B. Mas, de fato, também o A, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez
o B; portanto, o por H, G é igual ao quadrado sobre o A. Portanto, como
o H está para o A, o A para o G. Mas o A mede o G; portanto, também o
H mede o A, que é primo, não sendo o mesmo que ele; o que é absurdo.
Portanto, o maior, D, não será medido por um outro número além dos A,
B, C; o que era preciso provar.

336
O s elementos

14.

C a so u m n ú m e r o seja o m e n o r m ed id o p o r n ú m e r o s p rim o s, será m ed id o


p o r n en h u m o u tro n ú m e r o p r im o a lém dos q u e m ed em n o p rin cíp io.

Seja, pois, o A o menor número medido pelos


B
números primos B, C, D; digo que o A não será
- C
medido por nenhum outro número primo além
- D
dos B, C, D.
Pois, se possível, seja medido pelo primo E, e o E não seja o mesmo que
algum dos B, C, D. E, como o E mede o A, meça-o segundo o F; portanto,
o E, tendo m ultiplicado o F, fez o A. E o A é medido pelos números primos
B, C, D. M as, caso dois números, tendo um m ultiplicado o outro, façam
algum, e algum número primo meça o produzido deles, também medirá
um dos do princípio; portanto, os B, C, D medirão um dos E, F. Então, de
fato, não medirão o E; pois, o E é primo e não é o mesmo que algum dos
B, C, D. Portanto, medem o F, que é menor do que o A; o que é impossível.
Pois, o A foi suposto o menor medido pelos B, C, D. Portanto, não medirá
o A um número primo além dos B, C, D; o que era preciso provar.

15.

C a so três n ú m ero s, em p r o p o r çã o con tin u a d a , seja m os m en o res dos


q u e têm a m es m a razão co m eles, dois, q u a isq u er q u e seja m , tend o sido
com postos, são p r im o s com o restante.

Sejam os A, B, C três números em


proporção continuada, os menores dos
■ " ^ que têm a mesma razão com eles; digo
____ E____ __ p que dois, quaisquer que sejam, dos A,
B, C, tendo sid
mos com o restante, por um lado, os A, B com o C; por outro lado, os B,
C com o A, e ainda os A, C com o B.
Fiquem, pois, tomados os menores números DE, EF dos que têm a
mesma razão com os A, B, C. É evidente, então, que, por um lado, o DE,

337
Euclides

tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o A, e, por outro lado, tendo m u ltip li­
cado o EF, fez o B, e ainda o EF, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o C.
E, como os DE, EF são os menores, são primos entre si. M as, caso dois
números sejam primos entre si, também um, junto com o outro, é primo
com cada um; portanto, também o DF é primo com cada um dos DE,
EF. Mas, de fato, também o DE é primo com o EF; portanto, os DF, DE
são primos com o EF. Mas, caso dois números sejam primos com algum
número, também o produzido deles é primo com o restante; desse modo,
o dos FD, DE é primo com o EF; desse modo, também o dos FD, DE é
primo com o sobre o EF. [Pois, caso dois números sejam primos entre si,
o produzido de um deles é primo com o restante.] Mas o dos FD, DE é o
sobre o DE junto com o dos DE, EF; portanto, o sobre o DE junto com o
dos DE, EF é primo com o sobre o EF. E, por um lado, o A é o sobre o DE,
e, por outro lado, o B é o dos DE, EF, e o C é o sobre o EF; portanto, os A,
B, tendo sido compostos, são primos com o C. Do mesmo modo, então,
provaremos que os B, C são primos com o A. Digo, então, que também os
A, C são primos com o B. Pois, como o DF é primo com cada um dos DE,
EF, também o sobre o DF é primo com o dos DE, EF. Mas os sobre os DE,
EF junto com duas vezes o dos DE, EF são iguais ao sobre DF; portanto,
também os sobre os DE, EF junto com duas vezes o dos DE, EF [são]
primos com o pelos DE, EF. Por separação, os sobre os DE, EF junto com
uma vez somente do dos DE, EF, são primos com o dos DE, EF. Portanto,
ainda por separação, os sobre os DE, EF são primos com o dos DE, EF. E,
por um lado, o A é o sobre o DE, e, por outro lado, o B é o dos DE, EF, e
o C é o sobre o EF. Portanto, os A, C, tendo sido compostos, são primos
com o B; o que era preciso provar.

16.

C aso dois n ú m er o s seja m p r im o s en tre si, co m o o p r im e ir o p a r a o segu n do,


assim o seg u n d o não estará p a r a a lg u m outro.

Sejam, pois, os dois números A, B primos entre si; digo que como o A
para o B, assim o B não está para algum outro.

33á
O s elementos

._____. A Pois, se possível, como o A para o B, o B esteja para o


,__________ , B C. Os A, B são primos entre si, e os primos também são
____________ Q os menores, e os menores medem os que têm a mesma
razão o mesmo número de vezes, tanto o antecedente,
o antecedente quanto o consequente, o consequente; portanto, o A mede
o B, como o antecedente, o antecedente. E também mede a si mesmo; por­
tanto, o A mede os A, B que são primos entre si; o que é absurdo. Portanto,
como o A para o B assim o B não estará para o C; o que era preciso provar.

17.

Caso n ú m eros, q u a n tos q u e r q ue sejam , estejam em p r o p o rçã o con tinu ad a,


e os ex trem os deles seja m p r im o s en tre si, com o o p r im e ir o p a r a o segundo,
assim o ú ltim o não estará p a r a a lg u m outro.

.______ . A ._________. B Estejam os números A, B, C, D, quantos


^ ^ £ quer que sejam, em proporção continuada, e
^ os extremos A, D deles sejam primos entre si;
digo que, como o A para o B, assim o D não
■ " ^ está para algum outro.
Pois, se possível, como o A para o B, assim o D esteja para o E; portanto,
alternadamente, como o A para o D, o B para o E. Mas os A, D são primos,
e os primos são também os menores, e os menores números medem os
que têm a mesma razão o mesmo número de vezes, tanto o antecedente, o
antecedente quanto o consequente, o consequente. Portanto, o A mede o B.
E, como o A está para o B, o B para o C. Portanto, também o B mede o C;
desse modo, também o A mede o C. E, como o B está para o C, o C para o
D, e o B mede o C, portanto, também o C mede o D. Mas o A media o C;
desse modo, também o A mede o D. E também mede a si mesmo. Portanto,
o A mede os A, D que são primos entre si; o que é impossível. Portanto,
como o A para o B, assim o D não estará para algum outro; o que era
preciso provar.

339
Euclides

18 .

D a d os dois n ú m eros, ex a m in a r se é p o s s ív e l a ch a r a m a is u m terceiro em


p r o p o r çã o co m eles.

Sejam os dois números dados A, B, ,_______ , A .__________ ^


e seja preciso examinar se é possível g
achar a mais um terceiro em proporção
com eles. " "^
Então, os A, B ou são primos entre si, ou não. E, se são primos entre si, foi
mostrado que é impossível achar a mais um terceiro em proporção com eles.
Mas, então, não sejam os A, B primos entre si, e o B, tendo m ultiplicado
a si mesmo, faça o C; então, o A ou mede o C ou não mede. Primeiramente
meça, segundo o D; portanto, o A, tendo m ultiplicado o D, fez o C. Mas,
de fato, também o B, tendo m ultiplicado a si mesmo, fez o C; portanto,
o dos A, D é igual ao sobre o B. Portanto, como o A está para o B, assim
o B para o D; portanto, foi achado a mais um terceiro número, o D, em
proporção com os A, B.
Mas, então, o A não meça o C; digo que é impossível achar a mais um
terceiro número em proporção com os A, B. Pois, se possível, fique achado
a mais o D. Portanto, o dos A, D é igual ao sobre o B. Mas o C é o sobre o
B; portanto, o dos A, D é igual ao C. Desse modo, o A, tendo m ultiplicado
o D, fez o C; portanto, o A mede o C, segundo o D. Mas foi suposto, de
fato, também que não mede; o que é absurdo. Portanto, não é possível
achar a mais um terceiro número em proporção com os A, B, quando o A
não meça o C; o que era preciso provar.

19.

D a d os três núm eros, ex a m in a r quando é p o ssível achar a m ais u m quarto


em proporção com eles.

Sejam os três números dados A, B, C, e seja preciso examinar quando é


possível achar a mais um quarto em proporção com eles.

340
O s elementos

Ou, de fato, não estão em proporção continuada,


A ■ ■ e os extremos deles são primos entre si, ou estão em
B ■------------ ■ proporção continuada, e os extremos não são primos
C ._______ . entre si, ou nem estão em proporção continuada nem
Q ___________ _ os extremos deles são primos entre si, ou também
£ ______________ _ estão em proporção continuada, e os extremos deles
são primos entre si.
Se, de fato, os A, B, C estão em proporção continuada, e os extremos A,
C deles são primos entre si, foi mostrado que é impossível achar a mais um
quarto número em proporção com eles. Não estejam, então, os A, B, C em
proporção continuada, sendo os extremos, de novo, primos entre si. Digo
que também assim é impossível achar a mais um quarto em proporção com
eles. Pois, se possível, fique achado a mais o D, de modo a estar como o
A para o B, o C para o D, e fique produzido, como o B para o C, o D para
o E. E, por um lado, como o A está para o B, o C para o D, e, por outro
lado, como o B para o C, o D para o E, portanto, por igual posto, como
o A para o C, o C para o E. Mas os A, C são primos, e os primos também
são os menores, e os menores medem os que têm a mesma razão, tanto o
antecedente, o antecedente quanto o consequente, o consequente. Portanto,
o A mede o C, como um antecedente, um antecedente. E também mede
a si mesmo; portanto, o A mede os A, C, que são primos entre si; o que é
impossível. Portanto, não é possível achar a mais um quarto em proporção
com os A, B, C.
Mas, então, estejam de novo os A, B, C em proporção continuada, e os
A, C não sejam primos entre si. Digo que é possível achar a mais um quarto
em proporção com eles. Pois, o B, tendo m ultiplicado o C, faça o D; por­
tanto, o A ou mede o D ou não mede. Primeiramente, meça-o, segundo o
E; portanto, o A, tendo m ultiplicado o E, fez o D. Mas, de fato, também
o B, tendo m ultiplicado o C, fez o D; portanto, o dos A, E é igual ao dos
B, C. Portanto, em proporção, como o A [está] para o B, o C para o E;
portanto, foi achado a mais um quarto, o E, em proporção com os A, B, C.
Mas, então, o A não meça o D. Digo que é impossível achar a mais
um quarto número em proporção com os A, B, C. Pois, se possível, fique
achado a mais o E; portanto, o dos A, E é igual ao dos B, C. Mas o dos B,

341
Euclides

C é o D; portanto, também o dos A, E é igual ao D. Portanto, o A, tendo


m ultiplicado o E, fez o D; portanto, o A mede o D, segundo o E; desse
modo, o A mede o D. Mas também não mede; o que é absurdo. Portanto,
não é possível achar a mais um quarto número em proporção com os A,
B, C, quando o A não meça o D. Mas, então, os A, B, C nem estejam em
proporção continuada nem os extremos sejam primos entre si. E o B, tendo
m ultiplicado o C, faça o D. Do mesmo modo, então, será provado que, se o
A mede o D, é possível achar a mais em proporção com eles, ao passo que,
se não mede, é impossível; o que era preciso provar.

20.

O s n ú m er o s p r im o s sã o m a is n u m ero so s do q u e toda q u a n tid a d e


q u e tenha sido p r o p o sta de n ú m er o s p rim os.

Sejam os números primos que tenham


sido propostos A, B, C; digo que os nú- " "^ ^
meros primos são mais numerosos do que ■------------ ■ B
os A, B, C. ,__________, c
Fique, pois, tomado o menor medido ^ ___________________ D F
pelos A, B, C e seja o DE, e fique acrescida
a unidade DF ao DE. Então, o EF ou é primo ou não. Primeiramente, seja
primo; portanto, os números primos A, B, C, EF achados são mais num e­
rosos do que os A, B, C.
Mas, então, não seja primo o EF; portanto, é medido por algum número
primo. Seja medido pelo primo G; digo que o G não é o mesmo que algum
dos A, B, C. Pois, se possível, seja. Mas os A, B, C medem o DE; portanto,
o G também medirá o DE. E também mede o EF; e o G, sendo um núm e­
ro, medirá a unidade DF restante; o que é absurdo. Portanto, o G não é o
mesmo que algum dos A, B, C. E foi suposto primo. Portanto, os números
primos achados, A, B, C, G são mais numerosos do que a quantidade que
tenha sido proposta dos A, B, C; o que era preciso provar.

342
O s elementos

21.

C aso n ú m ero s pares, q u a n tos q u e r q u e sejam , seja m com postos, o todo é par.

A B C Q p Fiquem, pois, compostos os números


" " " " " pares AB, BC, CD, DE, quantos quer que
sejam; digo que o todo AE é par.
Pois, como cada um dos AB, BC, CD, DE é par, tem uma meia parte;
desse modo, também o todo AE tem uma meia parte. Mas um número par
é o dividido em dois; portanto, o AE é par; o que era preciso provar.

22.

C aso n ú m er o s ím p ares, q u a n tos q u e r q u e seja m , seja m com postos, e a


q u a n tid a d e deles seja par, o todo será par.

^ g Q Q ^ Fiquem, pois, compostos os números


ímpares AB, BC, CD, DE, quantos quer
que sejam, pares em quantidade; digo que o todo AE é par.
Pois, como cada um dos AB, BC, CD, DE é ímpar, tendo sido subtraí­
da uma unidade de cada um, cada um dos restantes é par; desse modo, o
composto deles será par. Mas também a quantidade das unidades é par.
Portanto, também o todo AE é par; o que era preciso provar.

23.

C aso n ú m er o s ím p ares, q u a n tos q u e r q u e seja m , seja m com postos, e a


q u a n tid a d e deles seja ímpar, ta m b ém o todo será ímpar.

Fiquem, pois, compostos os números ímpares


^ B C E D a b , BC, CD, quantos quer que sejam, a quantidade
dos quais seja ímpar; digo que também o todo AD é ímpar.
Fique subtraída do CD a unidade DE; portanto, o CE restante é par.
Mas também o CA é par; portanto, também o todo AE é par. E a DE é uma
unidade. Portanto, o AD é ímpar; o que era preciso provar.

343
Euclides

24.

C aso de u m n ú m e r o p a r u m p a r seja su btra ído, o resta nte será par.

Fique, pois, subtraído o par BC do par AB; digo que A C B


o restante CA é par.
Pois, como o AB é par, tem uma meia parte. Pelas mesmas coisas, então,
também o BC tem uma meia parte; desse modo, também o restante [o CA
tem uma meia parte], [portanto], o AC é par; o que era preciso provar.

25.

C aso de u m n ú m e r o p a r u m ím p a r seja su btra ído, o resta nte será ímpar.

Fique, pois, subtraído o ímpar BC do par AB; ~----------- *—*-------g


digo que o restante CA é ímpar.
Fique, pois, subtraída do BC a unidade CD; portanto, o DB é par. Mas
também o AB é par; portanto, também o restante AD é par. E a CD é uma
unidade; portanto, o CA é ímpar; o que era preciso provar.

26.

C aso de u m n ú m er o ím p a r u m ím p a r seja subtraído, o restante será par.

Fique, pois, subtraído do ímpar AB o ímpar BC; £ p -g


digo que o restante CA é par.
Pois, como o AB é ímpar, fique subtraída a unidade BD; portanto, o
restante AD é par. Pelas mesmas coisas, então, também o DC é par; desse
modo, também o restante CA é par; o que era preciso provar.

27.

C aso de u m n ú m er o ím p a r u m p a r seja subtraído, o restante será ímpar.

Fique, pois, subtraído do ímpar AB o par BC; ■— ■--------------■------------■


i-
digo que o restante nCAk é' impar.
' A D C B

344
O s elementos

Fique, [pois], subtraída a unidade AD; portanto, o DB é par. Mas tam ­


bém o BC é par; portanto, o restante CD é par. Portanto, o CA é ímpar; o
que era preciso provar.

28 .

C aso u m n ú m e r o ímpar, tendo m u ltip lica d o u m par, f a ç a a lgu m , o


p r o d u z id o será par.

. _____. A Pois, o número ímpar A, tendo m ultiplicado o par B, faça


,______ , B o C; digo que o C é par.
._______ , 0 Pois, como o A, tendo m ultiplicado o B, fez o C, por­
tanto o C é composto de tantos iguais ao B quantas são as
unidades no A. E o B é par; portanto, o C é composto de pares. Mas, caso
números pares, quantos quer que sejam, sejam compostos, o todo é par.
Portanto, o C é par; o que era preciso provar.

29.

C aso u m n ú m e r o ímpar, tendo m u ltip lica d o u m n ú m e r o ímpar, f a ç a


a lgu m , o p r o d u z id o será ímpar.

■ "^ Pois, o número ímpar A, tendo m ultiplicado o nú-


--------------- ■ ■ B mero ímpar B, faça o C; digo que o C é ímpar.
■ Pois, como o A, tendo m ultiplicado o B, fez o
C, portanto, o C é composto de tantos igu
quantas são as unidades no A. E, cada um dos A, B é ímpar; portanto, o C
é composto de números ímpares, a quantidade dos quais é ímpar. Desse
modo, o C é ímpar; o que era preciso provar.

345
Euclides

30.

C aso u m n ú m ero ím p a r m eça u m n ú m e r o par, ta m b ém m ed irá


a m eta d e dele.

Pois, o número ímpar A meça o número par B; digo _______ ^


que também medirá a metade dele. g
Pois, como o A mede o B, meça-o segundo o C; digo ^
que o C não é ímpar. Pois, se possível, seja. E, como
o A mede o B, segundo o C, portanto, o A, tendo m ultiplicado o C, fez o
B. Portanto, o B é composto de números ímpares, a quantidade dos quais
é ímpar. Portanto, o B é ímpar; o que é absurdo; pois, foi suposto par.
Portanto, o C não é ímpar; portanto, o C é par. Desse modo, o A mede o
B um número par de vezes. Por isso, então, também medirá a metade dele;
o que era preciso provar.

31.

C aso u m n ú m e r o ím p a r seja p r im o co m a lg u m n ú m ero , ta m b ém será


p r i m o com o dobro dele.

Pois, o número ímpar A seja primo com algum núme- ■------■A


ro, o B, e seja o C o dobro do B; digo que o A [também] .____ . B
é primo com o C. .__________ (L.
Pois, se [os A, C] não são primos, algum número .--------■ D
os medirá. Meça, e seja o D. E o A é ímpar; portanto,
também o D é ímpar. E, como o D, sendo ímpar, mede o C, e o C é par,
portanto, [o D] medirá também a metade do C. Mas a metade do C é o B;
portanto, o D mede o B. Mas também mede o A. Portanto, o D mede os
A, B que são primos entre si; o que é impossível. Portanto, não é o caso de
o A não ser primo com o C. Portanto, os A, C são primos entre si; o que
era preciso provar.

346
O s elementos

32.

C a d a u m dos n ú m e r o s q u e são d o bra dos a p a r t i r de u m a día de é u m


n ú m e r o p a r de vezes p a r som ente.

,__, A Fiquem, pois, dobrados, a partir da díade A,


.____. B os números B, C, D, quantos quer que sejam;
,________ , C digo que os B, C, D são um número par de
.___________________ . D vezes pares somente.
Que, então, de fato, cada um [dos B, C, D]
é um número par de vezes par, é evidente; pois que foi dobrado a partir de
uma díade. Digo que também somente. Fique, pois, exposta uma unidade.
Como, de fato, a partir da unidade, números, quantos quer que sejam, estão
em proporção continuada, e o depois da unidade, o A, é primo, o maior dos
A, B, C, D, o D, será medido por nenhum outro, além dos A, B, C. E cada
um dos A, B, C é par; portanto, o D é um número par de vezes par somente.
Do mesmo modo, então, provaremos que [também] cada um dos B, C é
um número par de vezes par somente; o que era preciso provar.

33.

C a so u m n ú m e r o tenha a m eta d e ímpar, é u m n ú m e r o p a r de vezes ím p a r


som ente.

■ ^ " Tenha, pois, o número A a metade ímpar; digo que o A


é um número par de vezes ímpar somente.
Que, então, de fato, é um número par de vezes ímpar, é evidente; pois
a metade dele, sendo ímpar, mede-o um número par de vezes. Digo que
também somente. Pois, se o A for também um número par de vezes par,
será medido por um par, segundo um número par; desse modo, também a
metade dele será medida por um número par, sendo ímpar; o que é absurdo.
Portanto, o A é um número par de vezes ímpar somente; o que era preciso
provar.

347
Euclides

34.

C aso u m n ú m e r o n em seja dos q u e são dobra dos a p a r t i r de u m a día de


n em tenha a m eta d e ímpar, é tanto u m n ú m e r o p a r de vezes p a r q u a n to
u m n ú m e r o p a r de vezes ímpar.

Pois, o número A nem seja dos que são dobrados a partir


de uma díade nem tenha a metade ímpar; digo que o A é " "
tanto um número par de vezes par quanto um número par de vezes ímpar.
Que, então, de fato, o A é um número par de vezes par, é evidente; pois
não tem a metade ímpar. Digo, então, que também é um número par de
vezes ímpar. Pois, caso cortemos o A em dois, e a metade dele em duas, e
façamos isso sempre, chegaremos a algum número ímpar que medirá o A,
segundo um número par. Pois, se não, chegaremos na díade, e o A será dos
que são dobrados a partir da díade; o que não foi suposto. Desse modo, o
A é um número par de vezes ímpar. Mas foi provado também um número
par de vezes par. Portanto, o A é tanto um número par de vezes par quanto
um número par de vezes ímpar; o que era preciso provar.

35.

C aso n ú m ero s, q u a n tos q u e r q u e sejam , esteja m em p r o p o r ç ã o con tin u a d a ,


e seja m su b tra íd os tanto do seg u n d o q u a n to do ú ltim o igu a is ao p r im eir o ,
com o o excesso do seg u n d o estará p a r a o p r im eir o , assim o excesso do
ú ltim o p a r a todos os antes dele m esm o.

Estejam os números A, BC, D, EF,


quantos quer que sejam, em propor­ A
ção continuada, começando a partir
B G C
do menor A, e fique subtraído do BC
D ■------------------------------
e do EF cada um dos BG, FH igual
ao A; digo que como o GC está para E J I H F
o A, assim o EH para os A, BC, D.

348
O s elementos

Fique, pois, posto, por um lado, o FI igual ao BC, e, por outro lado, o
FJ igual ao D. E, como o FI é igual ao BC, dos quais o FH é igual ao BG,
portanto, o H I restante é igual ao GC restante. E, como o EF está para o
D, assim o D para o BC, e o BC para o A, mas, por um lado, o D é igual
ao FJ, e, por outro lado, o BC, ao FI, e o A, ao FH, portanto, como o EF
está para o FJ, assim o JF para o FI, e o FI para o FH. Por separação, como
o EJ para o JF, assim o JI para o FI e o IH para o FH. Portanto, também
como um dos antecedentes está para um dos consequentes, assim todos os
antecedentes para todos os consequentes; portanto, como o IH está para o
FH, assim os EJ, JI, IH para os JF, FI, HF. M as, por um lado, o IH é igual ao
CG, e, por outro lado, o FH, ao A, e os JF, FI, HF, aos D, BC, A; portanto,
como o CG está para o A, assim o EH para os D, BC, A. Portanto, como
o excesso do segundo está para o primeiro, assim o excesso do últim o para
todos os antes dele mesmo; o que era preciso provar.

36.

C aso n ú m eros, q u a n to s q u e r q u e seja m , a p a r t i r da u nidade, seja m


expostos, co n tin u a d a m en te, na p r o p o r ç ã o du plica da, a té q u e o q u e foi
com p osto todo j u n t o se torn e p r im o , e o todo ju n t o , tendo sido m u ltip lica d o
p e lo ú ltim o, fa ça a lgu m , o p r o d u z id o será perfeito.

.—■ A ■— ■ B Fiquem, pois, expostos os números A, B, C, D, quan-


_______ Q tos quer que sejam, a partir da unidade, na proporção
duplicada, até que o que foi composto todo junto se
D torne primo, e o E seja igual ao todo junto, e o E, tendo
m ultiplicado o D, faça o FG. Digo que o FG é perfeito.
Pois, quantos são os A, B, C, D, em quantidade, tantos fiquem tomados,
os E, HI, J, L, a partir do E, na proporção duplicada; portanto, por igual
posto, como o A está para o D, assim o E para o L. Portanto, o dos E, D é
igual ao dos A, L. E o dos E, D é o FG; portanto, também o dos A, L é o FG.
Portanto, o A, tendo m ultiplicado o L, fez o FG; portanto, o L mede o FG,
segundo as unidades no A. E o A é uma díade; portanto, o FG é o dobro do
L. Mas também os L, J, HI, E são, continuadamente, o dobro, um do outro;

349
Euclides

portanto, os E, HI, J, L , ___________ J__________


FG estão em proporção |_
continuada, na propor- "
ção duplicada. Fique, .--------■........................................ G
M
então, subtraído, do se­
P
gundo HI e do últim o
FG, cada um dos H M , FN, igual ao primeiro E; portanto, como o excesso
do segundo está para o primeiro, assim o excesso do últim o para todos os
antes dele mesmo. Portanto, como o MI está para o E, assim o NG para
os L, J, IH, E. E o MI é igual ao E; portanto, também o NG é igual aos L,
J, HI, E. E, também o FN é igual ao E, e o E, aos A, B, C, D, e à unidade.
Portanto, o todo FG é igual tanto aos E, HI, J, L quanto aos A, B, C, D, e
à unidade; e é medido por eles. Digo que também o FG não será medido
por nenhum outro, além dos A, B, C, D, E, HI, J, L, e da unidade. Pois,
se possível, algum, o O, meça o FG, e o O não seja o mesmo que algum
dos A, B, C, D, E, HI, J, L. E, o O mede o FG o mesmo número de vezes
quantas unidades estejam no P; portanto, o P tendo m ultiplicado o O, fez
o FG. M as, de fato, também o E, tendo m ultiplicado o D, fez o FG; por­
tanto, como o E está para o P o O para o D. E, como os A, B, C, D estão,
a partir da unidade, em proporção continuada, portanto, o D será medido
por nenhum outro número, além dos A, B, C. E o O foi suposto o mesmo
que nenhum dos A, B, C; portanto, o O não medirá o D. M as, como o O
para o D, o E para o P; portanto, nem o E mede o P. E o E é primo; e todo
número primo [ é ] primo com todos que não mede. Portanto, os E, P são
primos entre si. E os primos são também os menores, e os menores medem
os que têm a mesma razão o mesmo número de vezes, tanto o anteceden­
te, o antecedente quanto o consequente, o consequente; e, como o E está
para o P, o O para o D; portanto, o E mede o O o mesmo número de vezes
que o P o D. Mas o D é medido por nenhum outro, além dos A, B, C; por­
tanto, o P é o mesmo que um dos A, B, C. Seja o mesmo que B. E quantos
são os B, C, D em quantidade tantos fiquem tomados, os E, HI, J, a partir
do E. E os E, HI estão na mesma razão com os B, C, D; portanto, por igual
posto, como o B está para o D, o E para o J. Portanto, o dos B, J é igual ao
dos D, E; mas o dos D, E é igual ao dos P O; portanto, também o dos P

35o
O s elementos

O é igual ao dos B, J. Portanto, como o P está para o B, o J para o O. E o


P é o mesmo que o B; portanto, também o J é o mesmo que o O; o que é
impossível; pois o O foi suposto não o mesmo que algum dos expostos.
Portanto, nenhum número medirá o FG, além dos A, B, C, D, E, HI, J,
L, e da unidade. E foi provado o FG igual aos A, B, C, D, E, HI, J, L, e à
unidade. Mas um número perfeito é o que é igual às partes de si mesmo;
portanto, o FG é perfeito; o que era preciso provar.

351
Livro X

Definições

1. M agnitudes são ditas comensuráveis as que são medidas pela mesma


medida, e incomensuráveis, aquelas das quais nenhuma medida comum
é possível produzir-se.
2. Retas são comensuráveis em potência, quando os quadrados sobre elas
sejam medidos pela mesma área, e incomensuráveis, quando para os
quadrados sobre elas nenhuma área comum seja possível produzir-se.
3. Sendo supostas essas coisas, é provado que existem realmente retas,
ilim itadas em quantidade, tanto comensuráveis quanto também in­
comensuráveis com a reta proposta, umas somente em comprimento,
outras também em potência. Seja chamada, de fato, por um lado, a reta
proposta racional, e as comensuráveis com essa, quer em comprimento
e em potência quer em potência somente, racionais, e, por outro lado,
as incomensuráveis com essa sejam chamadas irracionais.
4. E, por um lado, o quadrado sobre a reta proposta, racional, e os comen­
suráveis com esse, racionais, e, por outro lado, os incomensuráveis com
esse sejam chamados irracionais, e as que servem para produzi-los, irra­
cionais, se forem quadrados, os próprios lados, ao passo que se alguma
outra retilínea, as que descrevem quadrados iguais a elas.

353
Euclides

1.

S en do expostas d u a s m a g n itu d es desigu a is, caso da m a i o r seja su b tra íd a


u m a m a i o r do q u e a m eta d e e, da q u e é deixada, u m a m a io r do q u e a
m etade, e isso aco n teça sem pre, a lg u m a m a g n itu d e será deixada, a q ual
será m e n o r do q u e a m e n o r m a g n it u d e exposta.

Seíam as duas m agnitudes AB,C desi-


1 quais• a AB
guais, das .p é, maior;
• digo que, 1 H
"a ■ ■ ■ ■ uR c ■
■------
caso da AB seja subtraída uma maior do F G ^
que a metade e, da que é deixada, uma
maior do que a metade, e isso aconteça sempre, será deixada alguma mag­
nitude que será menor do que a m agnitude C.
Pois, a C, sendo m ultiplicada, será, alguma vez, maior do que a AB. Fique
m ultiplicada, e seja a DE, por um lado, um m últiplo de C, e, por outro
lado, maior do que a AB, e fique dividida a DE nas DF, FG, GE iguais à C,
e fique subtraída, por um lado, da AB a BH, maior do que a metade, e, por
outro lado, da AH, a HI, maior do que a metade, e isso aconteça sempre, até
que as divisões no AB se tornem iguais em quantidade às divisões no DE.
Sejam, de fato, as AI, IH, HB divisões que são iguais em quantidade às
DF, FG, GE; e, como a DE é maior que a AB, e foi subtraída da DE a EG,
menor do que a metade, ao passo que da AB, a BH, maior do que a metade,
portanto, a GD restante é maior que a HA restante. E, como a GD é maior
do que a HA, e foi subtraída da GD a metade GF, ao passo que da HA, a
HI, maior do que a metade, portanto, a DF restante é maior do que a AI
restante. Mas a DF é igual à C; portanto, também a C é maior do que a AI.
Portanto, a AI é menor do que a C.
Portanto, foi deixada da m agnitude AB a m agnitude AI que é menor do
que a menor m agnitude exposta C; o que era preciso provar. E do mesmo
modo, será provado também, caso as coisas subtraídas sejam a metade.

354
O s elementos

2.

C aso sen do su b tra íd a , de du as m a g n itu d es [ex p osta s] desigu a is, sem p re


p o r su a vez^a m e n o r da maior, a q u e é deixada n u n ca m eça ex a ta m en te a
an tes de si m esm a , as m a g n itu d es serão in com en su rá veis.

Pois, sendo as duas magnitudes desi-


E G
■----- ■ A ■— ■------- ■-------- . B guais AB, CD, e AB a menor, sendo sub-
p F p
traída sempre, por sua vez, a menor da
maior, a restante nunca meça exatamente
a antes de si mesma; digo que as magnitudes AB, CD são incomensuráveis.
Pois, se são comensuráveis, alguma m agnitude as medirá. Meça, se pos­
sível, e seja a E. E a AB, medindo exatamente a FD, reste a CF, menor do
que aquela mesma, ao passo que a CF, medindo exatamente a BG, reste a
AG, menor do que aquela mesma, e isso sempre aconteça, até que alguma
m agnitude seja deixada, a qual é menor do que E. Aconteça, e fique deixada
a AG menor do que a E. Como, de fato, a E mede a AB, mas a AB mede a
DF, portanto, também a E medirá a FD. Mas também mede a CD toda;
portanto, também medirá a CF restante. Mas a CF mede a BG; portanto,
também a E mede a BG. Mas também mede a AB toda; portanto, também
medirá a AG restante, a maior, a menor; o que é impossível. Portanto, ne­
nhuma m agnitude medirá as magnitudes AB, CD; portanto, as m agnitudes
AB, CD são incomensuráveis.
Portanto, caso de duas magnitudes desiguais, e as coisas seguintes.

3.

D a d a s du as m a gn itu d es com en su rá veis, ach a r a m a io r m ed id a c o m u m delas.

Sejam as duas magnitudes


co m ensuráveis dadas AB,
CD, das quais a AB é a menor;
é preciso, então, achar a maior
medida comum das AB, CD.

355
Euclides

Pois, a m agnitude AB ou mede a CD ou não. Se, de fato, mede, e mede


também a si mesma, portanto, a AB é uma medida comum das AB, CD; e
é evidente que é também a maior. Pois, uma maior do que a m agnitude AB
não medirá a AB.
A AB não meça, então, a CD. E, sendo subtraída sempre por sua vez a
menor da maior, a restante medirá, alguma vez, a antes de si mesma pelo
não serem incomensuráveis as AB, CD; e, por um lado, a AB, medindo exa­
tamente a ED, reste a EC, menor do que aquela mesma, e, por outro lado,
a EC, medindo exatamente a FB, reste a AF, menor do que aquela mesma,
e a AF meça a CE.
Como, de fato, a AF mede a CE, mas a CE mede a FB, portanto, também
a AF medirá a FB. Mas também mede a si mesma; portanto, a AF também
medirá a AB toda. Mas a AB mede a DE; portanto, também a AF medirá a
ED. Mas também mede a CE; portanto, também mede a CD toda; portanto,
a AF é uma medida comum das AB, CD. Digo, então, que é também a maior.
Pois se não, existirá alguma m agnitude maior do que a AF que medirá as
AB, CD. Seja a G. Como, de fato, a G mede a AB, mas a AB mede a ED,
portanto, também a G medirá a ED. E também mede a CD toda; portanto,
a G também medirá a CE restante. Mas a CE mede a FB; portanto, também
a G medirá a FB. Mas mede também a AB toda, e medirá a restante AF, a
maior, a menor; o que é impossível. Portanto, nenhuma m agnitude maior
do que a AF medirá as AB, CD; portanto, a AF é a maior medida comum
das AB, CD.
Portanto, dadas as duas magnitudes comensuráveis AB, CD, foi achada
a maior medida comum; o que era preciso provar.

C o r o l á r io

Disso, então, é evidente que, caso uma magnitude meça duas magnitudes,
também medirá a maior medida comum delas.

356
O s elementos

4.

D a d a s três m a g n itu d es com en su rá veis, a ch a r a m a io r


m ed id a c o m u m delas.

A .___________ . Sejam as três magnitudes comensuráveis dadas A,


g ,________ , B, C; é preciso, então, achar a maior medida comum
Q ___________ das A, B, C.
p £ F Fique, pois, tomada a maior medida comum das A,
B, e seja a D; a D, então, ou mede a C ou não
Primeiramente, meça. Como, de fato, a D mede a C, e mede também as A,
B, portanto, a D mede as A, B, C; portanto, a D é uma medida comum das
A, B, C. E é evidente que também é a maior; pois, uma maior do que a D
não mede as magnitudes A, B.
A D não meça, então, a C. Digo, em primeiro lugar, que as C, D são co­
mensuráveis. Pois, como as A, B, C são comensuráveis, alguma m agnitude
as medirá, a qual, claramente, também medirá as A, B; desse modo, também
medirá a maior medida comum D das A, B. Mas também mede a C; desse
modo, a dita m agnitude medirá as C, D; portanto, as C, D são comensurá­
veis. Fique tomada, de fato, a maior medida comum delas, e seja a E. Como,
de fato, a E mede a D, mas a D mede as A, B, portanto, também a E medirá
as A, B. E mede também a C. Portanto, a E mede as A, B, C; portanto, a
E é uma medida comum das A, B, C. Digo, então, que é também a maior.
Pois, se possível, seja a F alguma m agnitude maior do que a E, e meça as
A, B, C. E, como a F mede as A, B, C, portanto, também medirá as A, B e
medirá a maior medida comum das A, B. Mas a maior medida comum das A,
B é a D; portanto, a F mede a D. E também mede a C; portanto, a F mede
as C, D; portanto, a F também medirá a maior medida comum das C, D.
Mas é a E; portanto, a F medirá a E, a maior, a menor; o que é impossível.
Portanto, nenhuma [m agnitude] maior do que a E mede as m agnitudes
A, B, C; portanto, a E é a maior medida comum das A, B, C, caso a D não
meça a C, e, caso meça, a própria D.
Portanto, dadas as três magnitudes comensuráveis, foi achada a maior
medida comum [o que era preciso provar].

357
Euclides

C o r o l á r io

Disso, então, é evidente que, caso uma magnitude meça três magnitudes,
também medirá a maior medida comum delas.
Do mesmo modo, então, também nas mais numerosas a maior medida
comum será tomada, e o corolário terá lugar. O que era preciso provar.

5.

As m a g n itu d es c o m en s u r á v e is têm en tre si u m a razão q u e u m n ú m ero ,


p a r a u m n ú m ero.

Sejam as magnitudes comensuráveis A, B;


digo que a A tem para B uma razão que um . . _E— JL
número, para um número. ____ _ q
Pois, como as A, B são comensuráveis, algu- ^
ma m agnitude as medirá. Meça, e seja a C. E
tantas vezes a C mede a A quantas unidades existam no D, e, tantas vezes
quantas a C mede a B tantas unidades existam no E.
Como, de fato, a C mede a A, segundo as unidades no D, e também a uni­
dade mede o D, segundo as unidades nele mesmo, portanto, a unidade mede
o número D o mesmo número de vezes que a m agnitude C, a A; portanto,
como a C está para a A, assim a unidade para o D; portanto, inversamente,
como a A para a C, assim o D para a unidade. De novo, como a C mede a
B, segundo as unidades no E, e também a unidade mede o E, segundo as
unidades nele mesmo, portanto, tantas vezes a unidade mede o E quantas
a C, a B; portanto, como a C está para a B, assim a unidade para o E. Mas
foi provado também como a A para a C, o D para a unidade; portanto, por
igual posto, como a A está para a B, assim o número D para o E.
Portanto, as m agnitudes comensuráveis A, B têm entre si uma razão que
o número D, para o número E; o que era preciso provar.

35á
O s elementos

6.

C aso d u a s m a g n itu d es ten h am en tre si u m a razão q u e u m n ú m ero , p a r a


u m n ú m ero , as m a g n itu d es serão com en su rá veis.

A B C Tenham, pois, as duas m agnitudes


^ A, B entre si uma razão que o núme­
ro D, para o número E; digo que as
" " ———" magnitudes A, B são comensuráveis.
Pois, quantas são as unidades no D, em tantas iguais fique dividida a
A, e seja a C igual a uma delas; e quantas são as unidades no E, de tantas
m agnitudes iguais à C fique composta a F.
Como, de fato, quantas são as unidades no D tantas são também as
m agnitudes iguais à C na A, portanto, aquela parte que a unidade é do D,
a mesma parte também a C é da A; portanto, como a C está para a A, assim a
unidade para o D. E a unidade mede o número D; portanto, também a C
mede a A. E, como a C está para a A, assim a unidade para o [número]
D, portanto, inversamente, como a A para a C, assim o número D para a
unidade. De novo, como quantas são as unidades no E tantas são também
iguais à C na F, portanto, como a C está para a F, assim a unidade para o
[número] E. Mas foi provado também como a A para a C, assim o D para a
unidade; portanto, por igual posto, como a A está para a F, assim o D para
o E. Mas, como o D para o E, assim a A para a B; portanto, também como
a A para a B, assim também para a F. Portanto, a A tem para cada uma das
B, F a mesma razão; portanto, a B é igual à F. Mas a C mede a F; portanto,
também mede a B. M as, de fato, também a A; portanto, a C mede as A, B.
Portanto, a A é comensurável com a B.
Portanto, caso duas magnitudes entre si, e as coisas seguintes.

C o r o l á r io

Disso, então, é evidente que, caso existam dois números, como os D, E,


e uma reta, como a A, é possível fazer como o número D para o número
E, assim a reta para uma reta. E caso também seja tomada uma média em
proporção entre as A, F, como a B, como a A estará para a F, assim o sobre

359
Euclides

a A para o sobre a B, isto é, como a p rim eira para a terceira, assim o sobre a
p rim eira para o sobre a segunda, o sem elhante e sem elhantem ente descrito.
M as, como a A para a F, assim o núm ero D está para o núm ero E; portanto,
produziu-se tam bém como o núm ero D para o núm ero E, assim o sobre a
reta A para o sobre a reta B; o que era preciso provar.

7.

As m a g n itu d es in co m e n su r á v eis não têm en tre si u m a razão q u e u m


n ú m ero , p a r a u m n ú m ero.

Sejam as m agnitudes incom ensuráveis A, B; digo que a A não A


tem para a B um a razão que um núm ero, para um núm ero. g
Pois, se a A tem para a B um a razão que um núm ero, para um
núm ero, a A será com ensurável com a B. E não é; portanto, a A não tem
para a B um a razão que um núm ero, para um núm ero.
Portanto, as m agnitudes incom ensuráveis não têm entre si um a razão,
e as coisas seguintes.

8.

C aso d u as m a g n itu d es não tenh am en tre si u m a razão q u e u m n ú m ero


p a r a u m n ú m ero , as m a g n itu d es serão in com en su rá veis.

N ão tenham , pois, as duas m agnitudes A, B entre si um a razão ^


que um núm ero, para um núm ero; digo que as m agnitudes A, B g
são incom ensuráveis. " "
Pois, se forem com ensuráveis, a A terá para a B um a razão que um
núm ero, para um núm ero. E não tem. Portanto, as m agnitudes A, B são
incom ensuráveis.
Portanto, caso duas m agnitudes entre si, e as coisas seguintes.

360
O s elem entos

9.

O s q u a d ra d o s sobre as retas co m en s u r á v e is em co m p r im en to têm en tre si


u m a razão q u e u m n ú m ero qua drado, p a r a u m n ú m e r o q u a d ra d o ; e os
q u a d ra d o s q u e têm en tre si u m a razão q u e u m n ú m e r o qua drado, p a r a u m
n ú m e r o qua drado, ta m b ém terão os la d os c o m en s u r á v e is em com p rim en to.
E os q u a d ra d o s sobre as retas in c o m e n su r á v eis em co m p rim en to não têm
en tre si u m a razão q u e u m n ú m ero qua drado, p a r a u m n ú m ero q u a d ra d o ;
e os q u a d ra d o s q u e não têm en tre si u m a razão q u e u m n ú m ero
qua drado, p a r a u m n ú m e r o qua drado, n em terão os
la d os co m en s u r á v e is em com p rim en to.

A B Sejam , pois, as A, B com ensuráveis em com pri­


m ento; digo que o quadrado sobre a A tem para
■ " o quadrado sobre a B um a razão que um número
— quadr ado, para um núm ero quadrado.
Pois, como a A é com ensurável com a B em com prim ento, portanto, a
A tem para a B um a razão que um núm ero, para um núm ero. Tenha a que
o C, para o D. Com o, de fato, a A está para a B, assim o C para o D, mas
a do quadrado sobre a A para o quadrado sobre a B é o dobro da razão da
A para a B; pois as figuras sem elhantes estão na razão dupla da dos lados
hom ólogos; enquanto a do quadrado sobre o C para o quadrado sobre o
D é o dobro da razão do [núm ero] C para o [núm ero] D; pois, existe um
núm ero m édio, em proporção, entre dois núm eros quadrados, e o quadrado
para o [núm ero] quadrado tem um a razão dupla da que o lado para o lado;
portanto, tam bém como o quadrado sobre a A está para o quadrado sobre a
B, assim o [núm ero] quadrado sobre o C para o [núm ero]quadrado sobre
o [núm ero] D.
M as, então, como o quadrado sobre a A esteja para o sobre a B, assim o
quadrado sobre o C para o [quadrado] sobre o D; digo que a A é com en­
surável com a B em com prim ento.
Pois, como o quadrado sobre a A está para o [quadrado] sobre a B, assim
o quadrado sobre o C para o quadrado sobre o D, mas a razão do quadrado
sobre a A para o [quadrado] sobre a B é o dobro da razão da A para a B,

3 61
Euclides

ao passo que a razão do [núm ero] quadrado sobre o [núm ero] C para o
[núm ero] quadrado sobre o [núm ero] D é o dobro da razão do [núm ero]
C para o [núm ero] D, portanto, tam bém como a A está para a B, assim
o [núm ero] C para o [núm ero] D. Portanto, a A tem para a B um a razão
que o núm ero C, para o número D; portanto, a A é com ensurável com a B
em com prim ento.
M as, então, seja a A incom ensurável com a B em com prim ento; digo que
o quadrado sobre a A para o [quadrado] sobre a B não tem um a razão que
o núm ero quadrado, para o núm ero quadrado.
Pois, se o quadrado sobre a A tem para o [quadrado] sobre a B um a
razão que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado, a A será
com ensurável com a B. E não é; portanto, o quadrado sobre a A não tem
para o quadrado sobre a B um a razão que um núm ero quadrado, para um
núm ero quadrado.
De novo, então, o quadrado sobre a A não tenha para o [quadrado] sobre
a B um a razão que um núm ero quadrado, para um número quadrado; digo
que a A é incom ensurável com a B em com prim ento.
Pois se, se a A é com ensurável com a B, o sobre a A terá para o sobre a
B um a razão que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado. E não
tem ; portanto, a A não é com ensurável com a B em com prim ento.
Portanto, os sobre as com ensuráveis em com prim ento, e as coisas se­
guintes.

C o r o l á r io

E, das coisas provadas, será evidente que as com ensuráveis em com pri­
m ento tam bém são, em todos os casos, em potência, mas as em potência
não são tam bém , em todos os casos, em com prim ento. [Se realm ente os
quadrados sobre as retas com ensuráveis em com prim ento têm um a razão
que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado, e os que têm um a
razão que um núm ero, para um núm ero, são com ensuráveis. Desse modo,
as retas com ensuráveis em com prim ento não [são] som ente com ensuráveis
em com prim ento, mas tam bém em potência.
De novo, como quantos quadrados têm entre si um a razão que um
núm ero quadrado, para um núm ero quadrado, foram provados com ensu-

36 2
O s elem entos

ráveis em com prim ento, sendo tam bém com ensuráveis em potência, pelo
terem os quadrados um a razão que um núm ero, para um número, portanto,
quantos quadrados não têm um a razão que um núm ero quadrado, para um
núm ero quadrado, mas sim plesm ente que um núm ero, para um núm ero, os
mesmos quadrados serão, por um lado, com ensuráveis em potência e, por
outro lado, não m ais tam bém em com prim ento; desse modo, por um lado,
os com ensuráveis em com prim ento são tam bém , em todos os casos, em
potência, e, por outro lado, os em potência não são tam bém , em todos os
casos, em com prim ento, se não tiverem tam bém um a razão que os números
quadrados, para os núm eros quadrados.
D igo, então, que [tam bém ] as incom ensuráveis em com prim ento não
são, em todos os casos, tam bém em potência, porque as com ensuráveis
em potência não podem ter um a razão que um número quadrado, para
um núm ero quadrado, e por isso, sendo com ensuráveis em potência, são
incom ensuráveis em com prim ento. Desse modo, as incom ensuráveis em
com prim ento não são, em todos os casos, tam bém em potência, mas p o ­
dem, sendo incom ensuráveis em com prim ento, ser tanto incom ensuráveis
quanto com ensuráveis em potência.
E as incom ensuráveis em potência são, em todos os casos, tam bém
incom ensuráveis em com prim ento; pois, se [são] com ensuráveis em com ­
prim ento, serão tam bém com ensuráveis em potência. E foram supostas
tam bém incom ensuráveis; o que é absurdo. Portanto, as incom ensuráveis
em potência são, em todos os casos, tam bém em com prim ento.]

L ema

Foi provado nos relativos à aritm ética, que os núm eros planos sem e­
lhantes têm entre si um a razão que um núm ero quadrado, para um número
quadrado, e que, caso dois núm eros tenham entre si um a razão que um
núm ero quadrado, para um núm ero quadrado, são planos sem elhantes. E
disso é m anifesto que os núm eros planos não sem elhantes, isto é, os que
não têm os lados em proporção, não têm entre si um a razão que um número
quadrado, para um núm ero quadrado. Pois, se tiverem , serão planos sem e­
lhantes; o que não foi suposto. Portanto, os planos não sem elhantes não têm
entre si um a razão que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado.

3 63
Euclides

10.

A char d u as retas in c o m e n su r á v eis co m a reta p rop o sta , u m a so m en te em


co m p rim en to , a o u tra ta m b ém em potên cia .

Seja a reta proposta A; é preciso, então, achar duas .________. A


retas incom ensuráveis com a A, um a som ente em g ______________ _
com prim ento, a o utra tam bém em potência. ^
Fiquem , pois, expostos os dois núm eros B, C, não
tendo entre si um a razão que um núm ero quadrado,
para um núm ero quadrado, isto é, não planos sem e­
lhantes, e fique produzido como o B para o C assim o quadrado sobre a
A para o quadrado sobre a D; pois aprendem os; portanto, o sobre a A é
com ensurável com o sobre a D. E como o B não tem para o C um a razão
que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado, portanto, nem o
sobre a A tem para o sobre a D um a razão que um núm ero quadrado, para
um núm ero quadrado; portanto, a A é incom ensurável em com prim ento
com a D. Fique tom ada a E, m édia em proporção, entre as A, D; portanto,
como a A está para a D, assim o quadrado sobre a A para o sobre a E. M as
a A é incom ensurável em com prim ento com a D; portanto, tam bém o qua­
drado sobre a A é incom ensurável com o quadrado sobre a E; portanto, a
A é incom ensurável em potência com a E.
Portanto, foram achadas as duas retas D, E incom ensuráveis com a reta
proposta A, a D som ente em com prim ento, enquanto a E claram ente em
potência e tam bém em com prim ento [o que era preciso provar].

11.

C a so q u a tro m a g n itu d es esteja m em p r o p o rçã o , e a p r im e ir a seja


c o m e n s u r á v e l co m a segu n da, ta m b ém a terceira será c o m e n s u r á v e l co m a
q u a rta ; e, caso a p r im e ir a seja in c o m e n s u r á v e l co m a segu n da,
tam bém a terceira será in c o m e n s u r á v e l com a quarta.

Sejam as quatro m agn itu d es em ^ ®■ '


proporção A, B, C, D, como a A para 0 _________ _ q ______ _

3 64
O s elem entos

a B, assim a C para a D, e a A seja com ensurável com a B; digo que tam bém
a C será com ensurável com a D.
Pois, como a A é com ensurável com a B, portanto, a A tem para a B um a
razão que um núm ero, para um núm ero. E, como a A está para a B, assim a
C para a D; portanto, tam bém a C tem para a D um a razão que um número,
para um núm ero; portanto, a C é com ensurável com a D.
M as, então, seja a A incom ensurável com a B; digo que tam bém a C
será incom ensurável com a D. Pois, como a A é incom ensurável com a B,
portanto, a A não tem para a B um a razão que um núm ero, para um n ú ­
mero. E, como a A está para a B, assim a C para a D; portanto, nem a C
tem para a D um a razão que um núm ero, para um núm ero; portanto, a
C é incom ensurável com a D.
Portanto, caso quatro m agnitudes, e as coisas seguintes.

12.

As c o m en s u r á v e is co m u m a m esm a m a g n it u d e ta m b ém são
co m en s u r á v e is en tre si.

__ , B ._________ . Seja, pois, cada um a das A,


D B com ensurável com a C. D igo
_F ^ que também a A é comensurável
com a B.
F . . I
Pois, como a A é com ensu­
— G ■--------- J
rável com a C, po rtan to , a A
tem para a C um a razão que um núm ero, para um núm ero. Tenha a que o
D, para o E. De novo, como a C é com ensurável com a B, portanto, a C
tem para a B um a razão que um núm ero, para um núm ero. Tenha a que o F,
para o G. E, tendo sido dadas razões, quantas quer que sejam , tanto a que
o D tem para o E quanto a que o F, para o G, fiquem tom ados os núm eros
H , I, J, em sequência, nas razões dadas; de modo a, por um lado, como
o D estar para o E, assim o H para o I, e, por outro lado, como o F para o
G, assim o I para o J.

3 65
Euclides

Com o, de fato, a A está para a C, assim o D para o E, mas, como o D


para o E, assim o H para o I, portanto, tam bém como a A para a C, assim
o H para o I. De novo, como a C está para a B, assim o F para o G, mas
como o F para o G, [assim ] o I para o J, portanto, tam bém como a C para
a B, assim o I para o J. M as tam bém como a A está para a C, assim o H para
o I; portanto, por igual posto, como a A está para a B, assim o H para o J.
Portanto, a A tem para a B um a razão que o núm ero H, para o núm ero J;
portanto, a A é com ensurável com a B.
Portanto, as com ensuráveis com a m esm a m agnitude tam bém são co­
m ensuráveis entre si; o que era preciso provar.

13.

C aso d u a s m a g n itu d es seja m com en su rá veis, e u m a delas seja


in c o m e n s u r á v e l com a lg u m a m a gn itu d e, ta m b ém a resta n te será
in c o m e n s u r á v e l co m a m esm a.

Sejam as duas m agnitudes com ensuráveis A, B, A


e um a delas, a A, seja incom ensurável com algum a ^
outra, a C; digo que tam bém a restante B é incom en­
surável com a C.
Pois, se a B é com ensurável com a C, mas tam bém a A é com ensurável
com a B, portanto, tam bém a A é com ensurável com a C. M as tam bém é
incom ensurável; o que é im possível. Portanto, a B não é com ensurável com
a C; portanto, é incom ensurável.
Portanto, caso duas magnitudes sejam comensuráveis, e as coisas seguintes.

L ema

T endo sid o dadas d u a s retas desiguais, a ch a r p o r q u a l a m a io r é m a i o r em


p o tên c ia do q u e a menor.

Sejam as duas retas desiguais dadas AB, C


das quais a AB é a m aior; é preciso, então, achar
por qual a AB é m aior em potência do que a C.

3 66
O s elem entos

Fique descrito o sem icírculo A D C na AB, e fique ajustada nele a AD


igual à C, e fique ligada a DB. É evidente, então, que o ângulo sob ADB
é reto, e que a AB é m aior em potência do que a AD, isto é, a C pela DB.
E do mesmo modo, tam bém , tendo sido dadas duas retas, a capaz de
produzi-las é achada assim.
Sejam as duas retas dadas AD, DB, e seja preciso achar a capaz de
produzi-las. Fiquem , pois, postas de modo a conterem o ângulo sob AD,
DB, reto, e fique ligada a AB; de novo, é evidente que a capaz de produzir
as AD, DB, é a AB; o que era preciso provar.

14.

C a so q u a tro retas esteja m em p r o p o rçã o , e a p r im e ir a seja m a i o r em


p o tê n c ia do q u e a seg u n d a p e lo sobre u m a c o m e n s u r á v e l co m aquela
m es m a [ e m co m p rim en to ] , ta m b ém a terceira será m a i o r em p o tên c ia
do q u e a q u a rta p e lo sobre u m a co m en s u r á v e l co m aquela m esm a [ e m
co m p rim en to ] . E, caso a p r im e ir a seja m a i o r em p o tên cia do q u e a segu n d a
p e lo so b re u m a in c o m e n su r á v el co m a q u ela m esm a [ e m co m p rim en to ] ,
ta m b ém a terceira será m a io r em p o tên c ia do q u e a q u a rta p e lo sobre u m a
in c o m e n su r á v el co m aquela m esm a [ e m co m p rim en to ] .

Estejam as quatro retas A, B, C, D em propor­


ção, como a A para a B, assim a C para a D, e seja,
por um lado, a A m aior em potência do que a B
pelo sobre a E, e seja, por outro lado, a C m aior
em potência do que a D pelo sobre a F; digo que
tanto se a A é com ensurável com a E, tam bém a C
é com ensurável com a F quanto se a A é incom en­
A B
surável com a E, tam bém a C é incom ensurável
com a F.
Pois, como a A está para a B, assim a C para a D, portanto, tam bém como
o sobre a A está para o sobre a B, assim o sobre a C para o sobre a D. M as,
por um lado, os sobre as E, B são iguais ao sobre a A, e, por outro lado,
os sobre as D, F são iguais ao sobre a C. Portanto, como os sobre as E, B

3 67
Euclides

estão para o sobre a B, assim os sobre as D, F para o sobre a D; portanto,


por separação, como o sobre a E está para o sobre a B, assim o sobre a F
para o sobre a D; portanto, tam bém como a E está para a B, assim a F para
a D; portanto, inversam ente, como a B está para a E, assim a D para a F.
M as tam bém como a A está para a B, assim a C para a D; portanto, por
igual posto, como a A está para a E, assim a C para a F. Se, por um lado,
de fato, a A é com ensurável com a E, tam bém a C é com ensurável com a
F e, por outro lado, se a A é incom ensurável com a E, tam bém a C é in co ­
m ensurável com a F.
Portanto, caso, e coisas seguintes.

15.

C aso d u a s m a g n itu d es c o m en s u r á v e is seja m com p osta s, ta m b ém a toda


será c o m e n s u r á v e l co m cada u m a delas; e, caso a toda seja c o m en s u r á v e l
c o m u m a delas, ta m b ém as m a g n itu d es do p r in cíp io serão com en su rá veis.

Fiquem , pois, com postas as duas m ag- ^ _______________________ q


nitudes com ensuráveis AB, BC; digo que B
tam bém a toda AC é com ensurável com
cada um a das AB, BC. " "
Pois, como as AB, BC são com ensuráveis, algum a m agnitude as m edirá.
M eça, e seja a D. Com o, de fato, a D mede as AB, BC, tam bém m edirá a
toda AC. M as, tam bém mede as AB, BC. Portanto, a D mede as AB, BC,
AC; portanto, a AC é com ensurável com cada um a das AB, BC.
M as, então, seja a AC com ensurável com a AB; digo, então, que tam bém
as AB, BC são com ensuráveis.
Pois, como as AC, AB são com ensuráveis, algum a m agnitude as m edirá.
M eça, e seja a D. Com o, de fato, a D mede as CA, AB, tam bém m edirá a
restante BC. M as tam bém mede a AB; portanto, a D m edirá as AB, BC;
portanto, as AB, BC são com ensuráveis.
Portanto, caso duas m agnitudes, e as coisas seguintes.

368
O s elem entos

16.

C aso d u as m a g n itu d es in co m e n su r á v eis seja m com postas, tam bém


a toda será in c o m e n s u r á v e l com cada u m a delas; e, caso a toda seja
in c o m e n su r á v el co m u m a delas, ta m b ém as m a g n itu d es do p r in c íp io serão
in com en su rá veis.

F iquem , p o is, com postas as duas m ag n itu d es


A B C incom ensuráveis AB, BC; digo que a toda AC é in co ­
m ensurável com cada um a das AB, BC.
" q " Pois, se as CA, AB não são incom ensuráveis, alg u ­
ma m agnitude [as] m edirá. M eça, se possível, e seja a
D. Com o, de fato, D mede as CA, AB, portanto, tam bém m edirá a restante
BC. M as tam bém mede a AB; portanto, a D mede as AB, BC. Portanto, as
AB, BC são com ensuráveis; e também eram supostas incom ensuráveis; o que
não é possível. Portanto, nenhum a m agnitude m edirá as CA, AB; portanto,
as CA, AB são incom ensuráveis. Do mesm o modo, então, provaremos que
tam bém as AC, CB são incom ensuráveis. Portanto, a AC é incom ensurável
com cada um a das AB, BC.
M as, então, seja a AC incom ensurável com um a das AB, BC. Seja, então,
prim eiram ente, com a AB; digo que também as AB, BC são incomensuráveis.
Pois, se forem com ensuráveis, algum a m agnitude as m edirá. M eça, e seja a
D. Com o, de fato, a D mede as AB, BC, portanto, m edirá a toda AC. M as
tam bém mede a AB; portanto, a D mede as CA, AB. Portanto, as CA, AB
são com ensuráveis; M as eram supostas tam bém incom ensuráveis; o que é
im possível. Portanto, nenhum a m agnitude m edirá as AB, BC; portanto, as
AB, BC são incom ensuráveis.
Portanto, caso duas m agnitudes, e as coisas seguintes.

3 69
Euclides

L ema

C aso u m p a r a le lo g r a m o seja ap lica d o a a lg u m a reta, d eficiente p o r u m a


f i g u r a q u adrada, o ap lica d o é igu a l ao p e lo s seg m en to s da reta p ro d u z id o s
p e la aplicação.

Fique, pois, aplicado à reta AB o paralelogram o AD,


deficiente pela figura quadrada DB; digo que o AD é
igual ao pelas AC, CB.
E é evidente por si mesm o. Pois, como o DB é um
C B
quadrado, a D C é igual à CB, e o AD é o pelas AC, CD,
isto é, o pelas AC, CB.
Portanto, caso algum a reta, e as coisas seguintes.

17.

C aso d u a s retas seja m desiguais, e à m a i o r seja ap lica d o u m ig u a l à


q u a rta p a r t e do sobre a menor, d eficiente p o r u m a f i g u r a q u adrada, e
d iv id a -a em c o m en s u r á v e is em com p rim en to , a m a i o r será m a i o r em
p o tê n c ia do q u e a m e n o r p e lo so b re u m a c o m e n s u r á v e l com aquela m esm a
[ e m co m p rim en to ] . E, caso a m a i o r seja m a i o r em p o tê n c ia do q u e a m e n o r
p elo so b re u m a c o m e n s u r á v e l co m aquela m esm a [ e m c o m p r im e n to ] e à
m a i o r seja ap lica d o u m ig u a l à q u a rta p a r t e do sobre a menor, deficiente
p o r u m a f i g u r a q u adrada, d iv id e-a em c o m en s u r á v e is em com p rim en to.

Sejam as retas desiguais A, BC, das quais a BC é a


maior, e fique aplicado à BC um igual à quarta parte do
sobre a menor A, isto é, ao sobre a metade da A, deficiente
por um a figura quadrada, e seja o pelas BD, D C, e seja a
DC
BD com ensurável com a DC em com prim ento; digo que
a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre um a
com ensurável com aquela mesma.
Fique, pois, cortada a BC em duas, no ponto E, e fique posta a EF igual à
DE. Portanto, a restante D C é igual à BF. E, como a reta BC foi cortada, por

37o
O s elem entos

um lado, em iguais, no E, e, por outro lado, em desiguais, no D, portanto, o


retângulo contido pelas BD, D C, junto com o quadrado sobre a ED, é igual
ao quadrado sobre a EC; tam bém os quádruplos; portanto, quatro vezes
o contido pelas BD, D C, junto com o quádruplo do sobre a DE, é igual a
quatro vezes o quadrado sobre a EC. M as, por um lado, o quadrado sobre
a A é igual ao quádruplo do pelas BD, D C, e, por outro lado, o quadrado
sobre a DF é igual ao quádruplo do sobre a DE; pois, a DF é o dobro da
DE. M as o quadrado sobre a BC é igual ao quádruplo do sobre a EC; pois,
de novo, a BC é o dobro da CE. Portanto, os quadrados sobre as A, DF são
iguais ao quadrado sobre a BC; desse modo, o sobre a BC é m aior do que
o sobre a A pelo sobre a DF; portanto, a BC é m aior em potência do que a
A pela DF. Deve-se provar que tam bém a BC é com ensurável com a DF.
Pois, como a BD é com ensurável com a D C em com prim ento, portanto,
tam bém a BC é com ensurável com a CD em com prim ento. M as a CD é
com ensurável com as CD , BF em com prim ento; pois, a CD é igual a BF.
Portanto, tam bém a BC é com ensurável com as BF, CD em com prim ento;
desse modo, tam bém a BC é com ensurável com a restante FD em com ­
prim ento; portanto, a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre um a
com ensurável com aquela mesma.
M as, então, seja a BC m aior em potência do que a A pelo sobre um a
com ensurável com aquela mesm a, e fique aplicado à BC um igual a um
quarto do sobre a A, deficiente por um a figura quadrada, e seja o pelas BD,
D C. Deve-se provar que a BD é com ensurável com a DC em com prim ento.
Pois, tendo sido construídas as mesmas coisas, do mesmo modo p ro ­
varemos que a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre a FD. M as
a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre um a com ensurável com
aquela mesma. Portanto, a BC é com ensurável com a FD em com prim ento;
desse modo, tam bém a BC é com ensurável com a restante a BF junto com
a D C, em com prim ento. M as a BF junto com a D C é com ensurável com a
D C, [em com prim ento]. Desse modo, tam bém a BC é com ensurável com
a CD em com prim ento. Portanto, por separação, tam bém a BD é com en­
surável com a D C em com prim ento.
Portanto, caso duas retas sejam desiguais, e as coisas seguintes.

3 7 1
Euclides

18.

C aso d u a s retas seja m desiguais, e seja ap licado à m a i o r u m ig u a l à


q u a rta p a r t e do sobre a menor, d eficiente p o r u m a f i g u r a q u adrada, e
d iv id a - a em in co m e n su r á v eis [ e m co m p r im en to ], a m a i o r será m a io r
em p o tên c ia do q u e a m e n o r p e lo sobre u m a in c o m e n s u r á v e l com aquela
m esm a. E, caso a m a i o r seja m a i o r em p o tên cia do q u e a m e n o r p e lo sobre
u m a in c o m e n s u r á v e l com aquela m esm a, e seja ap lica d o à m a i o r u m igu a l
à q u a rta p a r t e do sobre a menor, d eficiente p o r u m a f i g u r a quadrada,
d iv id e-a em in co m e n su r á v eis [ e m co m p r im en to ].

Sejam as duas retas desiguais A, BC, das quais a BC é


A
a maior, e fique aplicado à BC um igual à quarta [parte]
do sobre a A, deficiente por um a figura quadrada, e seja
B F E D C
o pelas BDC, e seja a BD incom ensurável com a DC em
com prim ento; digo que a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre
um a incom ensurável com aquela mesma.
Pois, tendo sido construídas as mesmas coisas que antes, do mesmo
modo provaremos que a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre a FD.
Deve-se provar, [de fato ], que a BC é incom ensurável com a DF em com ­
prim ento. Pois, como a BD é incom ensurável com a D C em com prim ento,
portanto, também a BC é incom ensurável com a CD em com prim ento. M as
a D C é com ensurável com as duas conjuntas BF, D C; portanto, tam bém
a BC é incom ensurável com as duas conjuntas BF, D C. D esse modo, tam ­
bém a BC é incom ensurável com a restante FD em com prim ento. E a BC é
m aior em potência do que a A pelo sobre a FD; portanto, a BC é m aior em
potência do que a A pelo sobre um a incom ensurável com aquela mesma.
Seja, então, de novo, a BC m aior em potência do que a A pelo sobre
um a incom ensurável com aquela mesm a, e fique aplicado à BC um igual
à quarta parte do sobre a A, deficiente por um a figura quadrada, e seja o
pelas BD, D C. Deve-se provar que a BD é incom ensurável com a D C em
com prim ento.
Pois, tendo sido construídas as mesm as coisas, do mesmo modo p ro ­
varemos que a BC é m aior em potência do que a A pelo sobre a FD. M as a

37 2
O s elem entos

BC é m aior em potência do que a A pelo sobre um a incom ensurável com


aquela mesm a. Portanto, a BC é incom ensurável com a FD em com prim en­
to; portanto, tam bém a BC é incom ensurável com a D C em com prim ento;
desse modo, tam bém a BC é incom ensurável com a restante, a BF junto
com a D C. M as a BF junto com a D C é com ensurável com a D C em com ­
prim ento; desse modo, por separação, tam bém a BC é incom ensurável com
a DC em com prim ento.
Portanto, caso duas retas sejam , e as coisas seguintes.

L ema

Com o foi provado que as com ensuráveis em com prim ento, tam bém ,
em todos os casos, [são com ensuráveis] em potência, mas as em potência
não são, em todos os casos, tam bém em com prim ento, mas, então, podem
ser com ensuráveis ou incom ensuráveis em com prim ento, é evidente que,
caso algum a seja com ensurável em com prim ento com a racional exposta, é
dita racional e com ensurável com ela não som ente em com prim ento, mas
tam bém em potência, visto que as com ensuráveis em com prim ento são, em
todos os casos, tam bém em potência. E, caso algum a seja com ensurável em
potência com a racional exposta, se, por um lado, também em com prim ento,
é dita, tam bém assim , racional e com ensurável com ela em com prim ento e
em potência; e se, por um lado, algum a sendo, de novo, com ensurável em
potência com a racional exposta, seja incom ensurável com ela em com pri­
m ento, é d ita tam bém assim racional com ensurável som ente em potência.

19.

O retâ n g u lo con tid o p o r retas ra cio n a is c o m en s u r á v e is em com p rim en to,


seg u n d o a lg u m dos m o d o s preditos, é racional.

Seja, pois, o retângulo AC contido pelas retas racionais


com ensuráveis em com prim ento AB, BC; digo que o AC
é racional.
Fique, pois, descrito o quadrado AD sobre a AB; por­
tanto, o AD é racional. E, como a AB é com ensurável com

373
Euclides

a BC em com prim ento, e a AB é igual à BD, portanto, a BD é com ensurável


com a BC em com prim ento. E, como a BD está para a BC, assim o DA para
o AC. Portanto, o DA é com ensurável com o AC. M as o DA é racional;
portanto, tam bém o AC é racional.
Portanto, o pelas racionais com ensuráveis em com prim ento, e as coisas
seguintes.

20.

C aso u m ra cio n a l seja ap licado a u m a ra cion al, f a z co m o la rg u ra u m a


ra cio n a l e c o m e n s u r á v e l em co m p r im en to com aquela a q u e f o i aplicado.

Fique, pois, aplicado o racional AC à racional AB, segun- D -------- ■


do, de novo, algum dos modos preditos, fazendo a BC como
largura; digo que a BC é racional e com ensurável com a BA ^ " "A
em com prim ento.
Fique, pois, descrito o quadrado AD sobre a AB; portan- ^ ^ ^
to, o AD é racional. M as tam bém o AC é racional; portanto,
o DA é com ensurável com o AC. E, como o DA está para o AC, assim
a DB para a BC. Portanto, tam bém a DB é com ensurável com a BC; M as a
DB é igual à BA; portanto, tam bém a AB é com ensurável com a BC. M as
a AB é racional; portanto, tam bém a BC é racional e com ensurável com a
AB em com prim ento.
Portanto, caso um racional seja aplicado a uma racional, e as coisas seguintes.

21.

O retâ n g u lo con tid o p o r retas ra cion ais, co m en s u r á v e is so m en te em


p o tên cia , é irracion a l, e a q u e s er v e p a r a p r o d u z i-lo é irra cion a l, e seja
ch a m a d a m edial.

Seja, pois, contido o retângulo AC pelas retas AB, BC racionais, com en­
suráveis som ente em potência; digo que o AC é irracional, e a que serve
para p roduzi-lo é irracional, e seja cham ada m edial.

374
O s elem entos

Fique, pois, descrito o quadrado AD sobre a AB; portanto,


o AD é racional. E, como a AB é incom ensurável com a BC em
com prim ento; pois, foram supostas com ensuráveis som ente
em potência; mas a AB é igual à BD, portanto, tam bém a DB
é incom ensurável com a BC em com prim ento. E, como a
DB está para a BC, assim o AD para o AC; portanto, o DA [é]
incom ensurável com o AC. M as o DA é racional; portanto,
o AC é irracional; desse modo, tam bém a que serve para produzir o AC
[isto é, a que serve para produzir um quadrado igual a ele] é irracional, e
seja cham ada m edial; o que era preciso provar.

L ema

C aso ex istam d u a s retas, co m o a p r im e ir a está p a r a a segu n da, assim o


sobre a p r im e ir a p a r a o p e la s du as retas.

Sejam as duas retas FE, EG. D igo que como a FE


está para a EG, assim o sobre a FE para o pelas FE, EG.
Fique, pois, descrito o quadrado DF sobre a FE, e
fique com pletado o GD. Com o, de fato, a FE está para
a EG, assim o FD para o DG, e, por um lado, o FD é
o sobre a FE, e, por outro lado, o DG é o pelas DE, EG, isto é, o pelas FE,
EG, portanto, como a FE está para a EG, assim o sobre a FE para o pelas
FE, EG. E do mesmo modo, tam bém como o pelas GE, EF para o sobre
a EF, isto é, como o GD para o FD, assim a GE para a EF; o que era pre­
ciso provar.

22.

O sobre u m a m edial, a p licado a u m a ra cion al, f a ^ c o m o la rg u ra u m a


ra cio n a l e in c o m e n s u r á v e l co m aq u ela a q u e f o i aplicado, em com p rim en to.

Sejam , por um lado, a m edial A, e, por outro lado, a racional CB, e fi­
que aplicada à BC a área retangular BD igual ao sobre a A, fazendo a CD
como com prim ento; digo que a CD é racional e incom ensurável com a CB,
em com prim ento.

375
Euclides

Pois, como a A é m edial, serve para produzir 1


um a área contida por racionais com ensuráveis
som ente em potência. S irv a para produzir o GF.
M as serve para produzir também o BD; portanto, A
o BD é igual ao GF. M as é tam bém equiângulo
com ele; mas, dos paralelogram os tanto iguais quanto equiângulos, os lados
ao redor dos ângulos iguais são reciprocam ente proporcionais; portanto,
em proporção, como a BC está para a EG, assim a EF para a CD . Portanto,
tam bém como o sobre a BC está para o sobre a EG, assim o sobre a EF para
o sobre a CD . M as o sobre a CB é com ensurável com o sobre a EG; pois,
cada um deles é racional; portanto, tam bém o sobre a EF é com ensurável
com o sobre a CD . M as o sobre a EF é racional; portanto, tam bém o sobre
a CD é racional; portanto, a CD é racional. E, como a EF é incom ensurável
com a EG em com prim ento; pois são com ensuráveis som ente em potência;
e, como a EF para a EG, assim o sobre a EF para o pelas FE, EG, portanto,
o sobre a EF [é] incom ensurável com o pelas FE, EG. M as o sobre a CD
é com ensurável, por um lado, com o sobre a EF; pois são racionais em
potência; e, por outro lado, o pelas AC, CB é com ensurável com o pelas
FE, EG; pois são iguais ao sobre a A; portanto, tam bém o sobre a CD é
incom ensurável com o pelas D C, CB. E, como o sobre a CD para o pelas
D C, CB, assim a D C está para a CB; portanto, a D C é incom ensurável com
a CB em com prim ento. Portanto, a CD é racional e incom ensurável com a
CB em com prim ento; o que era preciso provar.

23.

A co m e n s u r á v e l co m a m ed ia l é u m a m edial.

S eja a m edial A, e seja a B com ensurável com a A; digo A B


que tam bém a B é m edial. •%
J

Fique, pois, exposta a racional CD , e fique aplicada,


por um lado, à CD a área retangular CE igual ao sobre
a A, fazendo a ED como largura; portanto, a ED é ra­
cional e incom ensurável com a CD , em com prim ento. \ D

37 6
O s elem entos

E fique, por outro lado, aplicada à CD a área retangular CF igual ao sobre


a B, fazendo a DF como largura. Com o, de fato, a A é com ensurável com
a B, tam bém o sobre a A é com ensurável com o sobre a B. M as, por um
lado, o EC é igual ao sobre a A, e, por outro lado, o CF é igual ao sobre
a B; portanto, o EC é com ensurável com o CF. E, como o EC está para o
CF, assim a ED para a DF; portanto, a ED é com ensurável com a DF em
com prim ento. M as a ED é racional e incom ensurável com a DC em com pri­
m ento; portanto, tam bém a DF é racional e incom ensurável com a D C em
com prim ento; portanto, as CD , DF são racionais, com ensuráveis som ente
em potência. M as a que serve para produzir o pelas racionais com ensuráveis
som ente em potência é um a m edial. Portanto, a que serve para produzir
o pelas CD , DF é um a m edial; e a B serve para produzir o pelas CD , DF;
portanto, a B é um a m edial.

C o r o l á r io

D isso, então, é evidente, que o com ensurável com a área m edial é m edial.
[Pois, as retas que servem para produzi-los são as com ensuráveis em p o ­
tência, das quais um a é m edial; desse modo, tam bém a restante é m edial.]
E do mesmo modo que nas coisas ditas sobre as racionais e sobre as
m ediais, segue a com ensurável com a m edial em com prim ento ser dita m e­
dial e com ensurável com ela não som ente em com prim ento, mas tam bém
em potência, porque, em geral, as com ensuráveis em com prim ento são, em
todos os casos, também em potência. E, caso algum a seja com ensurável com
a m edial em potência, se, por um lado, tam bém em com prim ento, são ditas
tam bém assim m ediais e com ensuráveis em com prim ento e em potência, e
se, por outro lado, som ente em potência, são ditas m ediais com ensuráveis
som ente em potência.

24.

O retâ n g u lo con tid o p o r retas m ed ia is c o m en s u r á v e is em com p rim en to ,


seg u n d o a lg u m dos m o d o s ditos, é m edial.

Seja, pois, contido o retângulo AC pelas retas m ediais com ensuráveis


em com prim ento AB, BC; digo que o AC é m edial.

377
Euclides

Fique, pois, descrito o quadrado AD sobre a AB; portanto,


o AD é m edial. E, como a AB é com ensurável com a BC, mas
a AB é igual à BD, portanto, tam bém a DB é com ensurável
com a BC em com prim ento; desse modo, tam bém o DA é
com ensurável com o AC. M as o DA é m edial; portanto, tam ­
bém o AC é m edial; o que era preciso provar.

25.

O retâ n g u lo con tid o p o r retas m ed ia is c o m en s u r á v e is so m en te em p o tên cia


é o u ra cio n a l o u m edial.

Seja, pois, contido o retângulo AC pelas


retas m ediais AB, BC, com ensuráveis som ente
em potência; digo que o AC é ou racional ou
m edial. C
B H L
Fiquem , pois, descritos os quadrados AD,
N LU 1 M
BE sobre as AB, BC; portanto, cada um dos J
AD, BE é m edial. E fique exposta a FG racio ­
nal, e, por um lado, fique aplicado à FG o paralelogram o retangular GH,
igual ao AD, fazendo a FH como largura, e, por outro lado, fique aplicado à
H L o paralelogram o retangular LI, igual ao AC, fazendo a H I como largura,
e ainda, sim ilarm ente, fique aplicado à IM o M J, igual ao BE, fazendo a IJ
como largura; portanto, as FH, H I, IJ estão sobre um a reta. Com o, de fato,
cada um dos AD, BE é m edial, e, por um lado, o AD é igual ao GH, e, por
outro lado, o BE, ao M J, portanto, tam bém cada um dos GH, M J é m edial.
E foi aplicado à racional FG; portanto, cada um a das FH , IJ é racional e
incom ensurável com a FG em com prim ento. E, como o AD é com ensurável
com o BE, portanto, tam bém o GH é com ensurável com o M J. E, como o
GH está para o M J, assim a FH para a IJ; portanto, a FH é com ensurável
com a IJ em com prim ento. Portanto, as FH, IJ são racionais, com ensuráveis
em com prim ento; portanto, o pelas FH, IJ é racional. E, como a DB é igual
à BA, enquanto NB, à BC, portanto, como a DB está para a BC, assim a AB
para a BN. M as, por um lado, como a DB para a BC, assim o DA para o AC;

37 8
O s elem entos

e, por outro lado, como a AB para a BN, assim o AC para o C N ; portanto,


como o DA está para o AC, assim o AC para o CN . M as o AD é igual ao
GH, ao passo que o AC, ao LI, e o CN , ao M J; portanto, como o GH está
para o LI, assim o LI para o M J; portanto, tam bém como a FH está para
a HI, assim a H I para a IJ; portanto, o pelas FH , IJ é igual ao sobre a HI.
M as o pelas FH , IJ é racional; portanto, tam bém o sobre a H I é racional;
portanto, a H I é racional. E, por um lado, se é com ensurável com a FG em
com prim ento, o H M é racional; e, por outro lado, se é incom ensurável com
a FG em com prim ento, as IH, H L são racionais, com ensuráveis som ente
em potência; portanto, o H M é m edial. Portanto, o H M é ou racional ou
m edial. M as o H M é igual ao AC; portanto, o AC é ou racional ou m edial.
Portanto, o por m ediais com ensuráveis som ente em potência, e as coisas
seguintes.

26.

U m m ed ia l não excede u m m ed ia l p o r u m racional.

Pois, se possível, o m edial AB exceda o m edial AC pelo


racional DB, e fique exposta a EF racional, e fique aplicado
Q à EF o paralelogram o retangular FH , igual ao AB, fazendo
g a EH como largura, e fique subtraído o FG igual ao AC;
portanto, o restante BD é igual ao restante IH. M as o DB
■ é racional; portanto, tam bém o IH é racional. Com o, de
fato, cada um dos AB, AC é m edial, e o AB é igual ao FH,
enquanto o AC, ao FG, portanto, tam bém cada um dos
FH , FG é m edial. E foi aplicado à racional EF; portanto,
I cada um a das HE, EG é racional e incom ensurável com a
EF em com prim ento. E como o DB é racional e é igual ao
IH, portanto, tam bém o IH é racional. E foi aplicado à racional EF; por­
tanto, a GH é racional e com ensurável com a EF em com prim ento. M as
tam bém a EG é racional e incom ensurável com a EF em com prim ento;
portanto, a EG é incom ensurável com a GH em com prim ento. E, como a
EG está para a GH, assim o sobre a EG para o pelas EG, G H ; portanto, o

379
Euclides

sobre a EG é incom ensurável com o pelas EG, GH. M as, por um lado, os
quadrados sobre as EG, G H são com ensuráveis com o sobre a EG; pois
ambos são racionais; e, por outro lado, duas vezes o pelas EG, GH é co­
m ensurável com o pelas EG, G H ; pois é o dobro dele; portanto, os sobre as
EG, GH é incom ensurável com duas vezes o pelas EG, G H ; portanto, um
ju n to com o outro, tanto os sobre as EG, GH quanto duas vezes o pelas
EG, GH, o que é o sobre a EH, é incom ensurável com os sobre as EG, GH.
M as os sobre as EG, GH são racionais; portanto, o sobre a EH é irracional.
Portanto, a EH é irracional. M as tam bém é racional; o que é im possível.
Portanto, um m edial não excede um m edial por um racional; o que era
preciso provar.

27.

A char m ed ia is co m en s u r á v e is s o m en te em p o tê n c ia con ten d o u m racional.

Fiquem expostas as duas racionais A, B, com ensuráveis


som ente em potência, e fique tom ada a C, m édia em p ro ­
porção entre as A, B, e fique produzido como a A para a B,
assim a C para a D.
E, como as A, B são racionais comensuráveis som ente em
potência, portanto, o pelas A, B, isto é, o sobre a C, é m edial.
Portanto, a C é m edial. E, como a A está para a B, [assim ] a C para a D, e as
A, B [são] com ensuráveis som ente em potência, portanto, tam bém as C, D
são com ensuráveis som ente em potência. E a C é m edial; portanto, também
a D é m edial. Portanto, as C, D são m ediais com ensuráveis som ente em
potência. D igo que tam bém contêm um racional. Pois, como a A está para a
B, assim a C para a D, portanto, alternadam ente, como a A está para a C, a
B para a D. M as, como a A para a C, a C para a B; portanto, tam bém como
a C para a B, assim a B para a D; portanto, o pelas C, D é igual ao sobre a
B. M as o sobre a B é racional; portanto, tam bém o pelas C, D [é] racional.
Portanto, foram achadas m ediais com ensuráveis som ente em potência
contendo um racional; o que era preciso provar.

380
O s elem entos

28.

A char m ed ia is co m en s u r á v e is so m en te em p o tê n c ia con ten d o u m m edial.

Fiquem expostas as [três] racionais A, B, C,


A
com ensuráveis som ente em potência, e fique
D
B tom ada a D , m édia em proporção entre as A,
E B, e fique produzido como a B para a C, a D
C
para a E.
Com o as A, B são racionais com ensuráveis som ente em potência, por­
tanto, o pelas A, B, isto é, o sobre a D, é m edial. Portanto, a D é m edial. E,
como as B, C são com ensuráveis som ente em potência, e como a B está para
a C, a D para a E, portanto, tam bém as D, E são com ensuráveis som ente
em potência. M as a D é m edial; portanto, tam bém a E é m edial; portanto,
as D, E são m ediais com ensuráveis som ente em potência. D igo, então, que
tam bém contêm um m edial. Pois, como a B está para a C, a D para a E,
portanto, alternadam ente, como a B para a D, a C para a E. M as, como a B
para a D, a D para a A; portanto, tam bém como a D para a A , a C para a
E; portanto, o pelas A, C é igual ao pelas D, E. M as o pelas A, C é m edial;
portanto, tam bém o pelas D, E é m edial.
Portanto, foram achadas m ediais com ensuráveis som ente em potência
contendo um m edial; o que era preciso provar.

L ema

A char dois n ú m er o s q u a d ra d o s, de m o d o a ta m b ém o com posto


deles s e r u m q uadrado.

Fiquem expostos os dois núm eros AB, BC, e sejam ou pares ou


ím pares. E como, tanto caso um par seja subtraído de um par quanto
caso tanto um ímpar, de um ímpar, o resto é par, portanto, o resto AC
C é par. Fique cortado o AC em dois no D. E sejam tam bém os AB, BC
Euclides

[o] CD , é igual ao quadrado sobre o BD. E o dos AB, BC é um quadrado,


porque foi provado que, caso dois planos sem elhantes, tendo sido m u ltip li­
cados entre si, façam algum , o produzido é um quadrado. Portanto, foram
achados dois núm eros quadrados, tanto o dos AB, BC quanto o sobre o
CD , que tendo sido com postos, fazem o quadrado sobre o BD.
E é evidente que foram achados de novo dois quadrados, tanto o sobre o
BD quanto o sobre o CD , de modo que o excesso deles, o pelos AB, BC, ser
um quadrado, quando os AB, BC sejam planos sem elhantes. M as, quando
não sejam planos sem elhantes, foram achados dois quadrados, tanto o sobre
o BD quanto o sobre o D C, dos quais o excesso, o pelos AB, BC, não é um
quadrado; o que era preciso provar.

L ema

A char dois n ú m er o s q uadrados, de m o d o a não se r


o com p osto deles u m q uadrado.

Sejam , pois, o dos AB, BC, como dizíam os, um quadrado, e o CA par,
e fique cortado o CA em dois no D. Então, é evidente que o quadrado do
dos AB, BC, com o quadrado sobre [o] CD é igual ao quadrado sobre [o]
BD. F ique subtraída a unidade DE; portanto, o dos AB, BC, junto com o
sobre [o] CE é m enor do que o quadrado sobre [o] BD. D igo, de fato, que
o quadrado do dos AB, BC, com o sobre [o] CE não será um quadrado.
Pois, se for um quadrado, ou bem é igual ao sobre [o] BE ou é
m enor do que o sobre [o] BE, mas tam bém nunca é maior, a fim de
que a unidade não seja cortada. Seja, se possível, prim eiram ente, o |-|
dos AB, BC, junto com o sobre CE igual ao sobre BE, e seja o GA E
o dobro da unidade DE. Com o, de fato, o todo AC é o dobro do
todo CD , dos quais o AG é o dobro do DE, portanto, o restante
GC é o dobro do restante EC; portanto, o GC foi cortado em dois
no E. Portanto, o dos GB, BC, com o sobre CE, é igual ao quadrado
sobre BE. M as tam bém o dos AB, BC, com o sobre CE, foi suposto igual
ao quadrado sobre [o] BE; portanto, o dos GB, BC, com o sobre CE, é
igual ao dos AB, BC, com o sobre CE. E, tendo sido subtraído o sobre CE

38z
O s elem entos

comum, segue que o AB é igual ao GB; o que é absurdo. Portanto, o dos AB,
BC, com o sobre [o] CE não é igual ao sobre o BE. D igo, então, que nem
m enor do que o sobre BE. Pois, se possível, seja igual ao sobre BF, e o HA,
o dobro do DF. E, de novo, seguirá que o H C é o dobro do CF; de modo
a, tam bém o C H ser cortado em dois no F, e por isso o dos HB, BC, com
o sobre FC, tornar-se igual ao sobre BF. M as também o dos AB, BC, com o
sobre CE, foi suposto igual ao sobre BF. Desse modo, tam bém o dos HB,
BC, com o sobre CF será igual ao dos AB, BC, com o sobre CE; o que é
absurdo. Portanto, o dos AB, BC, com o sobre CE não é igual [ao] m enor
do que o sobre BE. M as foi provado que nem a ele mesmo, o sobre BE.
Portanto, o dos AB, BC, com o sobre CE não é um quadrado.
[M as, sendo possível, tam bém exibir, segundo os num erosos m odos, os
ditos núm eros, sejam -nos suficientes os ditos, a fim de que não p rolongue­
mos m ais, sendo m ais longo o assunto.] O que era preciso provar.

29.

A char d u a s ra cio n a is c o m en s u r á v e is so m en te em p o tên cia , de m o d o a s e r a


m a i o r m a io r em p o tên c ia do q u e a m e n o r p e lo sobre u m a c o m e n s u r á v e l em
co m p rim en to co m a q u ela m esm a.

Fiquem , pois, expostos algum a racional, a


AB, e os dois núm eros quadrados CD , DE, de
m odo a o excesso CE deles não ser um quadra­
do, e fique descrito o sem icírculo AFB sobre a
AB, e fique feito como o D C para o CE, assim
o quadrado sobre a BA para o quadrado sobre
a AF, e fique ligada a FB.
Com o, [de fato] o sobre a BA está para o sobre a AF, assim o DC para o
CE, portanto, o sobre a BA tem para o sobre a AF um a razão, que o número
DC, para o número CE; p ortanto, o sobre a BA é com ensurável com o sobre
a AF. M as o sobre a AB é racional; portanto, tam bém o sobre a AF é racional;
portanto, tam bém a AF é racional. E, como o DC não tem para o CE um a
razão que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado, portanto, nem

3 83
Euclides

o sobre a BA tem para o sobre a AF um a razão que um núm ero quadrado,


para um núm ero quadrado; portanto, a AB é incom ensurável com a AF em
com prim ento; portanto, as BA, AF são racionais com ensuráveis som ente
em potência. E, como o D C [está] para o CE, assim o sobre a BA para o
sobre a AF, portanto, por conversão, como o CD para o DE, assim o sobre a
AB para o sobre a BF. M as o CD tem para o DE um a razão que um número
quadrado, para um núm ero quadrado; portanto, tam bém o sobre a AB tem
para o sobre a BF um a razão que um núm ero quadrado, para um número
quadrado; portanto, a AB é com ensurável com a BF em com prim ento. E o
sobre a AB é igual aos sobre as AF, FB; portanto, a AB é m aior em potência
do que a AF pela BF, com ensurável com aquela mesma.
Portanto, foram achadas as duas racionais BA, AF, comensuráveis som en­
te em potência, de modo a ser a m aior AB m aior em potência do que a menor
AF pelo sobre a BF, com ensurável com aquela m esm a em com prim ento; o
que era preciso provar.

30.

A char d u a s ra cion a is co m en s u r á v e is so m en te em p o tên cia , de m o d o a s e r a


m a i o r m a io r em p o tên c ia do q u e a m e n o r p e lo sobre u m a in c o m e n su r á v el
com aquela m es m a em com p rim en to.

Fiquem expostos a racional AB e os dois números


quadrados CE, ED, de modo a não ser o com posto
CD deles um quadrado, e fique descrito o sem icír- ^
culo AFB sobre a AB, e fique feito como o DC para
o CE, assim o sobre a BA para o sobre a AF, e fique C E D
ligad a a FB.
Do mesm o modo, então, provarem os, pelo antes deste, que as BA, AF
são racionais com ensuráveis som ente em potência. E, como o D C está
para o CE, assim o sobre a BA para o sobre a AF, portanto, por conversão,
como o CD para o DE, assim o sobre a AB para o sobre a BF. M as o CD
não tem para o DE um a razão que um núm ero quadrado, para um número
quadrado; portanto, nem o sobre a AB tem para o sobre a BF um a razão

3 84
O s elem entos

que um núm ero quadrado, para um núm ero quadrado; portanto, a AB é


incom ensurável com a BF em com prim ento. E a AB é m aior em potência
do que a AF pelo sobre a FB, incom ensurável com aquela mesma.
Portanto, as AB, AF são racionais com ensuráveis som ente em potência,
e a AB é m aior em potência do que a AF pelo sobre a FB, incom ensurável
com aquela m esm a em com prim ento; o que era preciso provar.

31.

A char d u a s m ed ia is co m en s u r á v e is s o m en te em p o tê n c ia , con ten d o u m


ra cion al, de m o d o a s e r a m a i o r m a i o r em p o tê n c ia do q u e a m e n o r p elo
so b re u m a co m e n s u r á v e l co m aquela m es m a em com p rim en to.

Fiquem expostas as duas racionais A, B, com ensuráveis


som ente em potência, de modo a ser a A, que é a maior,
m aior em potência do que a m enor B pelo sobre um a co­
m ensurável com aquela m esm a em com prim ento. E seja o
3 C D sobre a C igual ao pelas A, B. M as o pelas A, B é m edial;
portanto, tam bém o sobre a C é m edial; portanto, tam bém
a C é m edial. E seja o pelas C, D igual ao sobre a B. M as o sobre a B é ra­
cional; portanto, tam bém o pelas C, D é racional. E, como a A está para a
B, assim o pelas A, B para o sobre a B, mas, por um lado, o sobre a C é igual
ao pelas A, B, e, por outro lado, o pelas C, D é igual ao sobre a B, p o rtan ­
to, como a A para a B, assim o sobre a C para o pelas C, D. M as, como o
sobre a C para o pelas C, D, assim a C para a D; portanto, tam bém como
a A para a B, assim a C para a D. M as a A é com ensurável com a B som ente
em potência; portanto, tam bém a C é com ensurável com a D som ente em
potência. E a C é m edial; portanto, tam bém a D é m edial. E, como a A está
para a B, a C para a D, e a A é m aior em potência do que a B pelo sobre
um a com ensurável com aquela mesma, portanto, tam bém a C é m aior em
potência do que a D pelo sobre um a com ensurável com aquela mesma.
Portanto, foram achadas as duas m ediais C, D, com ensuráveis som ente
em potência, contendo um racional, e a C é m aior em potência do que a D
pelo sobre um a com ensurável com aquela m esm a em com prim ento.
Euclides

32.

A char d u a s m ed ia is c o m en s u r á v e is s o m en te em p o tê n c ia , con ten d o u m


m edial, de m o d o a s e r a m a i o r m a i o r em p o tê n c ia do q u e a m e n o r p elo
sobre u m a co m en s u r á v e l co m a q u ela m esm a.

Fiquem expostas as três racionais A, B,


C, com ensuráveis som ente em potência, de " "
m odo a ser a A m aior em potência do que a g ._______ . ^ " "
C pelo sobre um a com ensurável com aquela E .___ .
m esm a, e seja, por um lado, o sobre a D
igual ao pelas A, B. Portanto, o sobre a D é m edial; portanto, tam bém a D
é m edial. E seja, por outro lado, o pelas D, E igual ao pelas B, C. E, como
o pelas A, B está para o pelas B, C, assim a A para a C, mas, por um lado, o
sobre a D é igual ao pelas A, B, e, por outro lado, o pelas D, E é igual ao pelas
B, C, portanto, como a A está para a C, assim o sobre a D para o pelas D,
E. M as, como o sobre a D para o pelas D, E, assim a D para a E; portanto,
também como a A para a C, assim a D para a E; mas a A é comensurável com
a C [som ente] em potência. Portanto, também a D é comensurável com a E
som ente em potência. M as a D é m edial; portanto, também a E é m edial. E,
como a A está para a C, a D para a E, e a A é m aior em potência do que a C
pelo sobre um a com ensurável com aquela mesm a, portanto a D será m aior
em potência do que a E pelo sobre um a com ensurável com aquela mesma.
D igo, então, que tam bém o pelas D, E é m edial. Pois, como o pelas B, C é
igual ao pelas D, E, mas o pelas B, C é m edial [pois as B, C são racionais
com ensuráveis som ente em p o tên cia], portanto, tam bém o pelas D, E é
m edial.
Portanto, foram achadas as duas m ediais D, E, com ensuráveis som ente
em potência, contendo um m edial, de modo a ser a m aior m aior em potência
do que a m enor pelo sobre um a com ensurável com aquela mesma.
Do mesm o modo, então, de novo, será provado tam bém pelo sobre um a
incom ensurável, quando a A é m aior em potência do que a C pelo sobre
um a incom ensurável com aquela mesma.

386
O s elem entos

L ema

Seja o triân gu lo retângulo ABC, tendo o A reto, e fique traçada a per­


pendicular AD; digo que, por um lado, o pelas CBD é igual ao sobre a BA,
e, por outro lado, o pelas BCD é igual ao sobre a CA, e o pelas BD, DC
é igual ao sobre a AD, e ainda o pelas BC, AD [é] igual ao pelas BA, AC.
E, primeiro, que o pelas CBA [é] igual ao sobre a BA.
A Pois, como em um triân gulo retângulo do ângulo
reto até a base foi traçada a perpendicular AD, portan-
C to, os triân gulo s ABD, A D C são sem elhantes tanto
ao todo ABC quanto entre si. E, como o triân gulo
ABC é sem elhante ao triângulo ABD, portanto, como
a CB está para a BA, assim a BA para a BD; portanto, o pelas CBA é igual
ao sobre a AB. Pelas mesmas coisas, então, tam bém o pelas BCD é igual ao
sobre a AC.
E como, caso em um triân gulo retângulo do ângulo reto até a base seja
traçada um a perpendicular, a que foi traçada é m édia em proporção entre
os segm entos da base, portanto, como a BD está para a DA, assim a AD
para a D C; portanto, o pelas BD, D C é igual ao sobre a DA.
D igo que tam bém o pelas BC, AD é igual ao pelas BA, AC. Pois, como,
conform e falam os, o ABC é sem elhante ao ABD, portanto, como a BC
está para a CA, assim a BA para a AD. [M as, caso quatro retas estejam em
proporção, o pelos extremos é igual ao pelos m eios.] Portanto, o pelas BC,
AD é igual ao pelas BA, AC; o que era preciso provar.

33.

A char d u a s retas in co m e n su r á v eis em p o tê n c ia fa z en d o , p o r u m lado,


o com p osto dos q u a d ra d o s sobre elas ra cion al, e, p o r o u tro lado,
o p o r elas m edial.

Fiquem expostas as duas racionais AB, BC,


com ensuráveis som ente em potência, de modo
a ser a m aior AB m aior em potência do que a
m enor BC pelo sobre um a incom ensurável com

3 87
Euclides

aquela mesma, e fique cortada a BC em duas no D, e fique aplicado à AB um


paralelogram o igual ao sobre um a ou outra das BD, DC, deficiente por um a
figura quadrada, e seja o pelas AEB, e fique descrito sobre a AB o sem icírculo
AFB, e fique traçada a EF em retos com a AB, e fiquem ligadas as AF, FB.
E, como as [duas] retas AB, BC são desiguais, e a AB é m aior em potência
do que a BC pelo sobre um a incom ensurável com aquela mesma, e fo i ap li­
cado à AB um paralelogram o igual à quarta do sobre a BC, isto é, ao sobre a
metade dela, deficiente por um a figura quadrada e faz o pelas AEB, portanto,
a AE é incom ensurável com a EB. E, como a AE está para a EB, assim o
pelas BA, AE para o pelas AB, BE, mas, por um lado, o pelas BA, AE é igual
ao sobre a AF, e, por outro lado, o pelas AB, BE, ao sobre a BF; portanto,
o sobre a AF é incom ensurável com o sobre a FB; portanto, as AF, FB são
incom ensuráveis em potência. E, como a AB é racional, portanto, também
o sobre a AB é racional; desse modo, tam bém o com posto dos sobre as AF,
FB é racional. E como, de novo, o pelas AE, EB é igual ao sobre a EF, mas
o pelas AE, EB foi suposto tam bém igual ao sobre a BD, portanto, a FE é
igual à BD; portanto, a BC é o dobro da FE; desse modo, tam bém o pelas
AB, BC é com ensurável com o pelas AB, EF. M as o pelas AB, BC é m edial;
portanto, tam bém o pelas AB, EF é m edial. M as o pelas AB, EF é igual ao
pelas AF, FB; portanto, tam bém o pelas AF, FB é m edial. E foi provado
tam bém racional o com posto dos quadrados sobre elas.
Portanto, foram achadas as duas retas AF, FB, incom ensuráveis em potên­
cia, fazendo, por um lado, o com posto dos quadrados sobre elas racional,
e, por outro lado, o por elas m edial; o que era preciso provar.

34.

A char d u a s retas in c o m e n su r á v eis em p o tên cia , fazendo, p o r u m lado,


o com p osto dos q u a d ra d o s sobre elas m edial, e, p o r o u tro lado,
o p o r elas racional.

F iquem expostas as duas m ediais AB,


BC, com ensuráveis som ente em potência,
contendo o por elas um racional, de modo

388
O s elem entos

a ser a AB m aior em potência do que a BC pelo sobre um a incom ensurável


com aquela mesma, e fique traçado sobre a AB o sem icírculo ADB, e fique
cortada a BC em duas no E, e fique aplicado à AB um paralelogram o, o pelas
AFB, igual ao sobre a BE, deficiente por um a figura quadrada; portanto, a
AF [é] incom ensurável com a FB em com prim ento. E fique traçada a p artir
do F a FD em retos com a AB, e fiquem ligadas as AD, DB.
Como a AF é incomensurável com a FB, portanto, também o pelas BA,
AF é incom ensurável com o pelas AB, BF. M as, por um lado, o pelas
BA, AF é igual ao sobre a AD, e, por outro lado, o pelas AB, BF, ao sobre a
DB; portanto, tam bém o sobre a AD é incom ensurável com o sobre a DB.
E, como o sobre a AB é m edial, portanto, tam bém o com posto dos sobre
as AD, DB é m edial. E, como a BC é o dobro da DF, portanto, tam bém o
pelas AB, BC é o dobro do pelas AB, FD. M as o pelas AB, BC é racional;
portanto, tam bém o pelas AB, FD é racional. M as o pelas AB, FD é igual
ao pelas AD, DB; desse modo, tam bém o pelas AD, DB é racional.
Portanto, foram achadas as duas retas AD, DB, incom ensuráveis em
potência, fazendo, [por um lado] o com posto dos quadrados sobre elas
m edial, e, por outro lado, o por elas racional; o que era preciso provar.

35.

A char d u a s retas in co m e n su r á v eis em p o tên cia , fa z e n d o tanto o com p osto


dos q u a d ra d o s sobre elas m ed ia l q u a n to o p o r elas m ed ia l e ain da
in c o m e n s u r á v e l com o com p osto dos q u a d ra d o s sobre elas.

Fiquem expostas as duas m ediais AB, BC,


com ensuráveis som ente em potência, con-
Q tendo um m edial, de m odo a ser a AB m aior
em potência do que a BC pelo sobre um a in ­
com ensurável com aquela mesma, e fique descrito sobre a AB o sem icírculo
ADB, e fiquem produzidas as restantes coisas de modo sem elhante às acima.
E, como a AF é incom ensurável com a FB em com prim ento, tam bém a
AD é incom ensurável com a DB em potência. E, como o sobre a AB é medial,
portanto, tam bém o com posto dos sobre as AD, DB é m edial. E, como o

3 89
Euclides

pelas AF, FB é igual ao sobre cada um a das BE, DF, portanto, a BE é igual à
DF; portanto, a BC é o dobro da FD ; desse modo, tam bém o pelas AB, BC
é o dobro do pelas AB, FD. M as o pelas AB, BC é m edial; portanto, tam bém
o pelas AB, FD é m edial. E é igual ao pelas AD, DB; portanto, tam bém
o pelas AD, DB é m edial. E, como a AB é incom ensurável com a BC em
com prim ento, mas a CB é com ensurável com a BE, portanto, tam bém a AB
é incom ensurável com a BE em com prim ento; desse modo, tam bém o sobre
a AB é incom ensurável com o pelas AB, BE. M as, por um lado, os sobre as
AD, DB são iguais ao sobre a AB, e, por outro lado, o pelas AB, FD, isto é,
o pelas AD, DB é igual ao pelas AB, BE; portanto, o com posto dos sobre
as AD, DB é incom ensurável com o pelas AD, DB.
Portanto, foram achadas as duas retas AD, DB incom ensuráveis em
potência, fazendo tanto o com posto dos sobre elas m edial quanto o por
elas m edial e ainda incom ensurável com o com posto dos quadrados sobre
elas; o que era preciso provar.

36.

C aso du as ra cion a is co m en s u r á v e is so m en te em p o tên cia seja m com postas,


a toda é irracion a l, e seja ch a m a d a binom ial.

Fiquem com postas as duas racionais AB, BC, co- ,_________ .______ ,
m ensuráveis som ente em potência; digo que a toda ^ B C
AC é irracional.
Pois, como a AB é incom ensurável com a BC em com prim ento; pois são
com ensuráveis som ente em potência; mas, como a AB para a BC, assim o
pelas ABC para o sobre a BC, portanto, o pelas AB, BC é incom ensurável
com o sobre a BC. M as, por um lado, duas vezes o pelas AB, BC é com en­
surável com o pelas AB, BC, e, por outro lado, os sobre as AB, BC são co­
m ensuráveis com o sobre a BC; pois as AB, BC são racionais com ensuráveis
som ente em potência; portanto, duas vezes o pelas AB, BC é incom ensu­
rável com os sobre as AB, BC. E, por com posição, duas vezes o pelas AB,
BC, com os sobre as AB, BC, isto é, o sobre a AC, é incom ensurável com
o com posto dos sobre as AB, BC. M as o com posto dos sobre as AB, BC é