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GLOSA

GLOSARUM
Transcrito para WinWord por:
Alberto Fernando Monteiro do Nascimento
anascim@terra.com.br
CELSO DA SILVEIRA

GLOSA
GLOSARUM

3.ª EDIÇÃO

CLIMA – NATAL – 1983


COLEÇÃO EDIÇÕES CLIMA - VOL. 10

Livros do Autor:

26 POEMAS DO MENINO GRANDE – poesia


Tipografia Vilar -1952

IMAGEM VIRTUAL – poesia


Coleção Jorge Fernandes
Imprensa Oficial – 1961
(Parceria c/ Myriam Coeli)

GLOSA GLOSARUM – Fesceninos


Editora Clima – 1979 1.ª Edição
2.a Edição 1981

GLOSA GLOSARUM – Fesceninos


Editora Clima -1983
3.a Edição

Editoria: Carlos Lima


Composição/Diagramação: Januário
Revisão: Celso da Silveira
Capa: Vicente Vitoriano

Direitos desta edição reservados à


CLIMA - Artes Gráficas e Publicidade Ltda.
Rua Dr. Barata, 216 - Fone: 222-2203
NATAL-RN. - CEP 59.000
A
Myriam, Cristiana e Eli
agradeço a animação
com que estimulam meu
trabalho e compreendem
a minha gordura e alegria.

A
Berilo Wanderley
Emílio Salem Filho
Aldemar de Sá Leitão
Hélio Neves de Oliveira
Augusto César de Sá Leitão
Expedito Dantas da Silveira
e aos outros que não
aceitam as grades da vida,
porque sabem auto-determinar
momentos de fuga,
dedico este livro.
"Se não fosse ousadia, vaidade e até apelo persuasivo para
vendê-lo, diria que este livro não tem pé nem cabeça e, por
isso, não pôde ter orelhas e, não tendo pé, espero que ande
de mão em mão dos que o comprarem. Mas, para suprir
essas deficiências físicas, procurou-se nele abrir uma
janela, onde Luís Carlos Guimarães aponta, com a cabeça,
algumas generosidade a meu respeito, e de onde se pode
avistar o meu universo deste tamainho".

"No latim esbarrei logo nas declinações. Na terminação da


primeira delas, Rosa/Rosae, fui buscar o título deste livro.
Mas, na incerteza dos gêneros: nominativo, dativo,
genitivo, depois de longos anos, tive de procurar um
latinista, ou, antes, um padre (que dos padres era o meu
latim familiar) e consultei essas pessoas. Uma delas me
disse: Glosa, nominativo singular - o sujeito. Glosarum,
genitivo plural. Em suma: a glosa das glosas. Fui nessa. E
descobri o título do meu livro: Glosa Glosarum".
"É pesquisa. Desde os 15 anos, em férias na Fazenda Camelo,
coleciono glosas. As primeiras delas, furtadas a uma burra
(vocês sabem o que era burra?) – um velho cofre de madeira,
com gavetas de segredo na tranca, com chaves feitas pelos
melhores artífices ferreiros do lugar. A burra era do meu
cunhado, meu compadre Domício, que me confiava as chaves.
Pois foi nessa burra que descobri um tesouro – um calhamaço de
glosas, manuscritas em tiras de papel pautado, de autoria de
Sesyom. Todas elas foram surrupiadas por mim, para leitura às
escondidas, atrás do curral de gado leiteiro, à beira do riacho
Piquiri, longe dos olhos policiais dos maiores".
Citações do autor em reportagem de Vicente Serejo - Diário de
Natal - 31.08.79
MOTE*

Eu vi Celso aperreado
O seu livro autografando

GLOSA

Cercado por todo lado


de gente pedindo autógrafo,
junto a um monte de fotógrafo
eu vi Celso aperreado.
Quase morre asfixiado
sentado a um birô, suando,
sem nenhuma estar tomando,
isso é o que ele diz
contudo estava feliz
o seu livro autografando.
* Improviso de Luiz Xavier, no dia do lançamento
da 1.ª edição deste livro, a 20.08.79, na Livraria
Clima, à rua dr. Barata, n.º 216, às 18 horas.
NOTA - Não há obscenidade nem indecência nessa poesia
burlesca popular. Era cantada em Portugal desde o século XIII,
oriunda da Fescênia, na Etrúria, e por isso chamada de
fescenina; depois introduzida em Roma. Era a composição
dramática, grosseira, cantando o burlesco, o licencioso, o
obsceno, mas de um modo moleque, vivenciado e humorístico,
jamais sensual.
BREVE HISTÓRIA

Todo livro tem sua história, também vou contar a minha.


Em 1958 editou-se em Natal, sob os auspícios da Secretaria de
Estado da Educação e Cultura, a revista periódica CACTUS. Às
folhas 58/62, lá está o meu trabalho que primeiro registra
criticamente a existência do glosador Moysés Sesyom, caicoense
de nascimento e açuense por adoção. Nesse trabalho apresento o
poeta como cronista de "um quarto de século da cidade do Açu",
em que esse admirável glosador nos dá notícia da evolução da
cidade, assinalando o aparecimento do vapor, da usina elétrica e
do jornal, a crise financeira, as pendências judiciais, o
receituário de cascas e raízes, o artesanato utilitário de couro,
arreios e apetrechos do ciclo do gado.
Por trás desse poeta sério, havia um outro Sesyom,
glosador de situações ridículas, perfeito rimador da décima de
sete sílabas – a glosa, na forma ABBAACCDDC, em que
recaem as rimas de suas produções.
Depois, em 1961, Francisco Amorim, contemporâneo do
poeta, reuniu num livro – Eu Conheci Sesyom – os escritos de
salão e juntou alguma documentação biográfica recolhida aos
cartórios, e uma Acta Diurna que Luís da Câmara Cascudo
publicara em "A República", em 11.04.42, em que há uma
notícia do poeta e um apelo para que alguém preserve essa
poesia, em livro fora do comércio.
Osvaldo Lamartine de Faria, em 1970, num belo trabalho
gráfico da coleção Erotika Lexikon, Editora Artenova, Rio de
Janeiro, publicou "Uns Fesceninos" quase uma antologia do que
ele classifica de "poesia moleque e de uma literatura mais
próxima do picaresco", onde dá destaque às glosas de Sesyom.
Quando Sanderson Negreiros, na presidência da Fundação
José Augusto, em 1974 convocou-me para uma assessoria
literária daquela entidade, tive oportunidade de conhecer
Osvaldo Lamartine. Resultaram desse encontro, recitativos de
algumas glosas de Sesyom e de outros poetas do Açu que não
constavam de sua coletânea. Daí surgiu o convite para que eu
continuasse, pesquisando e anotando esse material. Não parei
desde então, e supondo haver armazenado as melhores glosas de
autores ainda pouco conhecidos.
Dois ou três anos depois, Tarcísio Gurgel assume a
Assessoria Cultural da Fundação. Depois anda por outros
caminhos e se torna autor conhecido, como contista. De alguns
tempos para cá vem ele insistindo para que eu escreva sobre
glosadores para o suplemento literário que dirigia em "A
República". Depois deixa o jornal e se muda para a TV-
Universitãria e me convida várias vezes a prestar depoimento
em um programa que trata de novidades literárias. A nada cedo,
até então, e só agora, animado por diversos amigos, entre eles o
crítico Berilo Wanderley, saio da promessa e procuro o editor
Carlos Lima.
Estou certo de que reuno, nesta coleção, o melhor elenco
de glosadores do meu Estado, entre eles, além dos da minha
cidade do Açu, Edson Peres, José de Souza, Luiz Xavier, Laélio
Ferreira, Felício Guedes, todos discípulos de Sesyom. E, às
glosas e temas licenciosos, junto as outras, formosos momentos
líricos dos poetas que passam a moradores deste livro.

O AUTOR
A GLOSA

Composição poética que desenvolve o pensamento de um


mote, recaindo o primeiro e o segundo verso do mote, no quarto
e décimo verso da glosa respectiva. A glosa mais comum, no
Rio Grande do Norte, principalmente Açu, é aquela em que as
rimas recaem na forma ABBAACCDDC. Raramente há
composição de autor norteriograndense com um só verso no
mote. Mais raramente ainda, há glosas no estilo clássico do mote
de três versos. A glosa é um gênero essencialmente popular e
um instrumento de sátira social.
Murilo Araujo (A Arte do Poeta, Livraria São José,1956,
pág. 51) considera a glosa um "gênero de pequenos poemas,
muito usado no século XVIII e que consistia em compor a peça
lírica sujeito à obrigatoriedade de encerrar as estrofes com os
versos do mote, fornecido por outra pessoa. A glosa, continua
ele, é um exercício fútil de verbalismo; e dificilmente resultará
em verdadeira poesia".
A glosa e a décima são essencialmente diferentes.
Enquanto a primeira é rigorosamente uma composição
setissilábica, a outra varia até o decassílabo, embora ambas
sejam poemas de dez versos. Mas, em que elas mais diferenciam
é na obrigatoriedade das rimas se repetirem sempre em .formas
consagradas. "Na Espanha, usada entre outros por Cervantes, a
fórmula das décimas era ABABACCDDC. Em Portugal, era
ABBAECCDDE. No Brasil sertanejo é ABBAACCDDC"
(Vaqueiros e Cantadores, Luís da Câmara Cascudo, Edições de
Ouro,1970, pág.18 e 19).
No Maranhão, Josué Montello (Uma Palavra Depois da
Outra, Rio,1969, INL, pág.144/145), recolhe uma glosa satírica
de Trajano Galvão de Carvalho, em que a forma para a rima é
outra que não corresponde à forma clássica nem à popular
açuence. A décima maranhense obedece a rimas alternativas, na
primeira quadra, a dois versos consonantes, um alternativo, dois
outros consonantes e o último alternativo, rimando com o sétimo
verso: ABABCCDEED.
Já José Marques da Cruz (Português Prático, Ed.
Melhoramentos, 22.ª edição, 1964, pág. 365) afirma que "glosa é
poesia que começa por um ou mais versos, que constituem o
mote; depois seguem-se as estrofes que terminarão por cada
verso do mote".
Esta forma, entretanto, não é a consagrada por nenhum dos
poetas enfocados nesta coletânea; nem sequer corresponde à
maioria das glosas de Manoel Maria Barbosa du Bocagem
(1765/1805) e de Gregório de Matos (1633/l696), para citar
apenas dois clássicos do gênero, na literatura portuguesa e
brasileira, respectivamente.
A nossa glosa possui características próprias, locais. Elas
retratam, quase sempre uma situação social fragmentária, sem
unidade cronológica nem intenções de consertar as coisas. Elas
anunciam, apenas; nada denunciam. "A ausência do verso
obsceno é no sertão um índice de pureza. A sátira é visível em
todos os versos, de todos os ciclos, mas a intenção pornográfica
não existe". (Luís da Câmara Cascudo, idem, ibidem, pág. 17) E
assim o é. Na nossa glosa prepondera o jocoso, a verve saborosa,
risonha, despreocupada, espontânea, gaiata, de certa
ingenuidade. É a poesia dos "casos", das fofocas, da
irreverência, da crítica mordaz, da censura social, da gozação,
do ridículo, do puxasaquismo, da adulação. A poesia da
polêmica política entre glosadores de partidos contrários, arma
de esgrima de injúria, difamação, calúnia. Ou simples animação
lúdica das mesas dos bares. Uma poesia para todos os usos.
Outras vezes, apenas um jogo de palavras. Um exercício de
brilhantismo. Uma piada de amigo. Uma demonstração de
talento.
Muito importante na coleta dessa poesia marota, risonha e
lúdica, seria localizar de quem partiu o hábito de cultivá-la no
Açu, e, por extensão, em várias cidades do Rio Grande do Norte.
Cascudo diz que "esses poetas constituem exceção. Um ou dois
em cada cidade .Noutros lugares não há notícia" e cita que "o
poeta Sesyom, do Açu, nada devia a Manoel Maria Barbosa du
Bocage. Era um poeta tremendo..." (obra citada, pág. 17). Este
livro desaprova essa singularidade. No Açu há mais de um cento
de glosadores.
A rigor, a glosa é de estilo "rápido, direto e simples", e
poderia estar aqui classificada dentro do realismo homérico, que
aduzia mais um elemento – o "nobre". Como as três primeiras
qualidades já definem realismo, só o quarto elemento distingue
Homero de todo o outro realismo sesyoniano. Então, estaria no
cerne da origem de toda a poesia – a poesia grega – a glosa
açuense. Isso, remotamente, sem dúvida alguma. Ou mera
suposição.
Mas, quem poderia assegurar que a glosa, em nosso
Estado, começou com Sesyom, um homem só de primeiras
letras?
Nem toda produção coletada leva a esta dedução. O gênio
de Bocage chegava ao sertão potiguar pelo anedotário confuso
do Camonge – uma corrutela dos poetas Camões e Bocage –
Não parece, portanto, que naqueles tempos o picaresco
bocagiano viesse a influenciar um poeta sem erudição. Mas,
isso‚ apenas hipótese difícil de comprovar. Um fato sobressai
para deixar dúvida: a clareza de que todos os outros autores de
glosas seguem a escola do Sesyom, imitando a sua linguagem
pessoal, inconfundível. Mas, só imitando-a, por que cada um
deles tem o seu acento próprio, individual, distinguidor
cronológico do seu tempo histórico e circunstancial.
Antes de Sesyom, pesquisas em jornais do Açu, do século
passado, revelaram algumas glosas de qualidade, quando nem
sequer o poeta era nascido. Mas não se pode negar o destaque
que ele deu, com engenho e arte, ao gênero que o consagrou no
Estado, e só por ele chegou à importância que lhe é atribuída.
Na glosa de Sesyom a representatividade enfatizada é a
coletividade; nos outros, é a individualidade. Sesyom divulga a
luz, o jornal, o artesanato utilitário de couro e o receituário de
raízes medicinais – temas coletivos que revelam um contexto
social que é de toda uma comunidade. Os outros se ligam nos
motes particulares, nos exercícios de inteligência, ou no
individualismo filosófico identificado consigo mesmo ou com
quem dá o mote. Um, rima a ordem do universo citadino. Os
outros rimam os motes, mas o fazem muito bem, por sinal.
Essa característica da glosa de Sesyom não tem
continuidade no material coletado e inserto neste livro, pois se
observa uma tendência, cada vez maior, à privaticidade dos
temas, algumas vezes até mesmo individualizados a tal ponto
que se tornam herméticos.

Celso da Silveira
ANTIAPRESENTAÇÃO

Celso da Silveira nasceu na cidade do Açu numa rua que


dava para a praça principal. Ali, seus curiosos olhos meninos,
debruçados da varanda de ferro trabaIhada por artesãos
portugueses, flagraram a movimentação das ruas próximas ou
viajaram sonhadores à ensolarada paisagem do vale e do rio, que
circunda a cidade, no inicial aprendizado da vida.
A convencional referência à data de nascimento é
dispensável, pois nascido sob o signo da alegria não tem idade
definida. Para os que não o conhecem, esclareço que sua idade
varia entre 20 e 50 anos; mais acertadamente está no meio
dessas duas idades, salvo em raríssimos momentos de eclipse na
alma ou nos inevitáveis nevoeiros no seu claro espírito, que a
vida tem horas sombrias e ninguém pode evitá-las.
Quem encontra Celso sai ganhando o dízimo permanente
da bondade, a dádiva generosa da amizade. Esta a razão porque
venho investindo na sua amizade em encontros sucessivos como
ondas há quase trinta anos. Se alguém, sozinho, se considera mal
acompanhado, como disse Rubem Braga sobre ele próprio numa
crônica, em sua companhia está salvo nos horizontes de sua
alegria, na sua inquietação em viver todos os minutos como se a
vida fosse lhe escapar de repente das mãos. Num instigante
transbordamento de ser, num nervoso arrebatamento
contagiante.
Não é um gordo em luta constante contra a obesidade. Não
será a sua alma que não cabe no seu corpo de noventa quilos?
Bom copo, melhor garfo ainda, numa mesa de bar, em qualquer
lugar e a qualquer hora, à luz do dia ou à sombra da noite, os
gestos pródigos das mãos a desenhar no ar seus personagens,
com a sua redonda voz sonora envolve de magia a palavra que
narra fantásticas estórias que se dispersam no espaço humano da
cidade, muito antes que Gabriel Garcia Márquez ofertasse ao
mundo a saga dos "Cem Anos de Solidão". A sua risada
retumbante é um látego a dar vida aos seus "casos". A estentória
voz modulada individualiza os tipos populares conhecidos, ainda
na infância, no vale verde do Açu. Suas estórias, mesmo
repetidas, têm o dom da surpresa, o impacto da descoberta,
temperadas com o sal da picardia, da ironia, do sarcasmo,
fesceninas, trocistas, marotas, picarescas, projetando o lado
ameno desta vida bandida, cujo maior exemplo são as glosas de
poetas açuenses, reunidas por Celso neste "Glosa Glosarum",
numa edição da CLIMA.
Celso não escapou à legenda de poesia que estigmatiza os
que nasceram no Açu: poeta, publicou os "26 Poemas do
Menino Grande" e "Imagem Virtual", com sua mulher Myriam
Coeli. No mais, também em plenitude, jornalista, cronista e,
mais do que tudo, o contador de estórias. O oral realismo
mágico de Celso da Silveira segue os caminhos do vento. Os
invisíveis caminhos do vento, mas precisa aparecer em livro: as
estórias do Açu, seu chão nativo. De Natal, que adotou com a
íntima e renovada ternura de amante. E as melhores dele mesmo,
do seu poético e onírico universo pessoal.

Luís Carlos Guimarães


Glosa Glosarum - Fesceninos

RENATO CALDAS MOTE


Serventuário da Justiça aposentado
açuense - 08.10.1902 Sim, depois de aposentado
Tenho que estender a mão
MOTE*
GLOSA
Levando dedo no fundo
Para poder melhorar. Velho, doente, cansado,
Além de doente, cego,
GLOSA mais sofrimentos carrego,
sim, depois de aposentado.
Vejam a desgraça do mundo! Vivo até mal humorado
Depois de velho e cansado buscando uma solução,
vou recordar o passado tenho que ganhar o pão
levando dedo no fundo. e zelar pelo meu nome;
O doutor Pedro Segundo para não morrer de fome
é quem vai aproveitar. tenho que estender a mão.
Eu terei de suportar
esse enfadonho suplício:
por o fundo em sacrifício
para poder melhorar.
* Apud "Uns Fesceninos", Osvaldo
Lamartine de Faria – Artenova,
pág. 99/80
MOTE
MOTE*
Não se cospe para cima
Eu tenho um olho escondido, Que pode cair na cara
é cego e também não vê.
GLOSA
GLOSA
Para provar minha estima
João Machado distraído, não devo o caso falar,
para ilustrar comentários, mas quero lhe avisar
disse entre assuntos vários: não se cospe para cima.
Eu tenho um olho escondido. Um pobre outro pobre anima,
Fez bem não ter exibido, o bastão nasce da vara,
Machado, sabe por quê? a vaidade é ignara,
vou avisar a você, ouça o grande ensinamento
tenha cuidado com ele – ninguém cospe contra o vento
que o bicho que gosta dele que pode cair na cara.
é cego e também não vê.
* Idem

19
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Catulo nasceu brilhando Ressaca não é duença


Como o Luar do Sertão Tome uma qui mióra

GLOSA GLOSA

Oito de outubro foi quando Metionina é imensa


às seis horas, mais ou menos, pra tomá depois do porre
qual a flamejante Vênus de cachaça ninguém morre,
Catulo nasceu brilhando. ressaca não é duença.
Sua luz foi se espalhando Num aí dotô qui me convença
pelo céu da inspiração, qui se morre ante da hora,
correu como a Zelação, se a ressaca Ihe apavora
iluminando o Universo e a vontade Ihe domina,
– jamais alguém fez um verso num consurte a medicina
como o Luar do Sertão. tome uma qui mióra.

MOTE MOTE

A gente leva da vida Por causa de uma mulher


A vida que a gente leva Novos tormentos juntei

GLOSA GLOSA

Na estrada longa e comprida A minha idade requer


para a viagem do Além, saudade e recordação,
somente os atos do bem vivendo na solidão
a gente leva da vida. por causa de uma mulher.
Nessa hora decidida Nem sonhando ela me quer...
em que o espírito se eleva, por causa disso chorei,
fica a matéria na treva bebendo raciocinei:
porém deixa de sofrer, é astúcia do demônio
porque ninguém vai saber e ao meu triste patrimônio
a vida que a gente leva. novos tormentos juntei.

20
Glosa Glosarum - Fesceninos

MARIANO COELHO MOTE


Médico - açuense - 09.05.1899
Assim vive quem não vive
MOTE Como quem deseja viver.

Na vida um segundo a mais GLOSA


É mais um segundo a menos.
Felicidade que tive
GLOSA a morte me arrebatou,
e, se vivendo inda estou,
Por ser breve, ser fugaz, assim vive quem não vive.
o segundo é desdenhado, Mas, se minh'alma revive
nem merece computado tal é o destino do ser,
na vida um segundo a mais. não deve a esp'rança perder
Loucos que desperdiçais de numa vida futura
os vossos dias serenos viver, junto à criatura
Em misteres de somenos com quem deseja viver.
olhai o tempo perdido:
cada segundo vivido
é mais um segundo a menos.

MOTE
MOTE
A mulher de certa idade
Ninguém se vinga tão bem Não tem nunca idade certa
Como quem perdoa e esquece
GLOSA
GLOSA
Eu respeito a castidade
Colhe frutos de um-cem inda mesmo presumida
quem cristãmente perdoa que mantém pra toda vida
e praticando ação boa a mulher de certa idade.
ninguém se vinga tão bem. Mas, afirmo, sem maldade,
Quem guarda mágoa de alguém que, na vida, errada, incerta,
seu próprio martírio tece, muita coisa se conserta
se é cristão, não parece, que parece nova e boa:
nem acreditá-lo posso, mulher que vira "coroa"
não rezará um Pai-Nosso não tem nunca idade certa.
como quem perdoa e esquece.

21
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

No sítio Volta do Fio Todo o dinheiro que ganho


Saiu um peido do chão É para pão e cerveja

GLOSA GLOSA

Não foi um mero assobio Só porque não sou tacanho


de lugar mal assombrado; para comer e beber,
um grande peido foi dado jogo fora, sem saber,
no sítio Volta do Fio. todo o dinheiro que ganho.
Ronco igual, em pleno estio, Na cabeça sempre apanho
não podia ser trovão E é mesmo bom que assim seja,
– lá não existe vulcão – que em aperturas me veja;
mas, se um cu foi perfurado, trabalho, corro, me intrigo,
está o fato explicado: e o dinheiro que consigo
saiu um peido do chão. é para pão e cerveja.

JOÃO CELSO FILHO


Advogado provisionado
açuense - 05.09.86/14.11.43 MOTE

MOTE Se não fosse o canivete


Ninguém comia do bode.
Puxe o pau, minha senhora.
Seu Eloi, demore um pouco. GLOSA

GLOSA Na véspera de vinte e sete


já estavam todos com fome
Era já quase uma hora mas, quase que ninguém come
quando Eloi disse à roceira se não fosse o canivete.
que veio abrir a porteira: Vem-Vem nos deu um banquete
– Puxe o pau, minha senhora. que duvidar ninguém pode,
– Puxe-o todo para fora, um verdadeiro pagode
faça força, dê-lhe um soco, quebrar ossos com os molares,
agora arrede esse toco; se não fosse Alcides Soares
tá duro? empurre que vai. ninguém comia do bode.
Não, tá mole, agora sai;
Seu Eloi, demore um pouco.

22
Glosa Glosarum - Fesceninos

AMÉRICO SOARES DE MOTE


MACEDO
Professor primário Assim vive quem não vive
açuense - 29.12.77/02.01.48. Com quem deseja viver.

MOTE GLOSA

A mulher dizendo não, Do amor ninguém se prive


Tem nele um sim escondido pois adoça o coração,
mas em vindo a ingratidão
GLOSA assim vive quem não vive.
Uma paixão forte eu tive
Ainda tendo paixão que me fez enlouquecer,
por um homem de quem gosta pensei até em morrer
mente às vezes na resposta desse mal que a vida junca
a mulher dizendo não. a gente não acha nunca
Forçando seu coração com quem deseja viver.
o sim não é proferido,
num capricho indefinido
diz não em lugar de sim,
e a gente vê que no fim
tem nele um sim escondido.
MOTE

Já fui consolo dos tristes


MOTE Hoje os tristes me consolam.

Gosto dela porque gosto GLOSA


porque meu gosto é gostar.
Tu, alegria, se existes,
GLOSA visita minha morada,
que da vida, na jornada,
Quando à hora do sol posto já fui consolo dos tristes.
eu vou passear na rua Coração, tu não resistes,
contemplando a imagem sua as esperanças se evolam,
gosto dela porque gosto. nos desenganos elas rolam;
Nisso não tenho preposto, já muito consolo dei,
digo de boca pr'o ar, ontem tristes consolei,
ninguém poderá gozar hoje os tristes me consolam.
esse amor que em mim palpita,
gosto de moça bonita
porque meu gosto é gostar.

23
Glosa Glosarum - Fesceninos

JOAO MARCOLINO DE JOAO DE OLIVEIRA FONSECA


VASCONCELOS Açuense - Contabilista - 19.07.17
Açuense - LOU – Advogado
provisionado MOTE

MOTE Encontraram Mané Sena


Com a cueca na mão
Um copo seco na mesa
GLOSA
GLOSA
Ontem soube e tive pena
Não vejo nisto beleza, do vexame que o tal sofreu,
Nada tem de apreciável; pois, nu, tal e qual nasceu,
Até mesmo é deplorável, encontraram Mané Sena.
Um copo seco na mesa Repetiu-se, então, a cena
Causa dor, causa tristeza dos velhos tempos de Adão,
A quem gosta de beber, e batendo o coração
É mesmo que a gente ver pela rua, em disparada,
Um jardim sem uma flor; no ombro a calça cagada
Ao bêbado causa pavor com a cueca na mão.
Um copo seco na mesa.

MOTE MOTE

Fez do chão o travesseiro Peixoto banca o banqueiro


Para curtir a ressaca Para servir a um colega.

GLOSA GLOSA

Depois de grande "aguaceiro" Por tragédia de dinheiro


Fonseca, sem companhia, qualquer sujeito arrazado
sem sentir que lhe doía Pode ficar descansado:
fez do chão o travesseiro. Peixoto banca o banqueiro.
Deitado de corpo inteiro Queima vaca, estoura oveiro,
como se fosse uma estaca, até pau cagado pega,
mais parecendo uma paca empenha o cu na bodega
sem novidade e ação, e faz todo benefício,
fez do cimento um colchão vai até ao sacrifício
para curtir a ressaca. para servir a um colega.

24
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE
ALBERTINO MACEDO
Eu só boto pela frente, Açuense - ajudante de caminhão.
Eu só quero por detrás.
MOTE
GLOSA
O Sadoque faz a linha
Alguém que estava presente De Macau a Mossoró
quando o caso se passou,
ouviu quando alguém falou GLOSA
eu só boto pela frente.
Quem quiser que agüente, Diariamente caminha
pela frente é que se faz, com cuidados incessantes
pelo fundo dou atrás*, e com olhos vigilantes
resolvam estou vexado** o Sadoque faz a linha.
e nisto grita um tarado: E se dele se avizinha
eu só quero por detrás. perigos de fazer dó,
* Dar atrás, é o mesmo que voltar na direção está só
atrás, não cumprir a palavra
com perícia e agilidade;
** Vexado: apressado
trabalha com atividade
de Macau a Mossoró.

]OSE SOARES DE MACEDO


Açuense. BOANERGES WANDERLEY
Açuense - Agrimensor
MOTE
MOTE
Uma seca no sertão
Tudo de mal acarreta Sinto saudades da vida
Em lembrar que vou morrer
GLOSA
GLOSA
Emagrece a criação
morre à falta de alimento, Serei um'alma esquecida,
é verdadeiro tormento Ninguém vai lembrar de mim.
uma seca no sertão. E por isso, antes do fim,
Se desconhece o irmão, Sinto saudades da vida.
a miséria toca a meta Minha filha, a mais querida
E mesmo ao rico afeta a quem lhe dei o viver,
vendo fugir-lhe a fazenda: Na certa vai esquecer
a honra se expõe à venda Do pai que a morte levou,
Tudo de mal acarreta. por isso tristonho estou
Em lembrar que vou morrer.

25
Glosa Glosarum - Fesceninos

ARNALDO MACEDO MOTE


Açuense.
Também se queima caieira
sem precisar de cachaça.
MOTE
GLOSA
Já te dei meu coração
Trabalha-se a noite inteira,
E não posso te esquecer.
sem vexame, sem fadiga,
comendo, enchendo a barriga,
GLOSA
também se queima caieira.
Se enfrenta toda poeira
Nesta vida de ilusão
como também a fumaça,
e também de sofrimento,
se leva tudo na graça,
te trago no pensamento
a boca é que faz o jogo,
já te dei meu coração.
se corre em cima do fogo
Pela tua ingratidão
sem precisar de cachaça.
terei muito que sofrer,
enquanto eu não morrer
JOÃO NATANAEL SOARES
será minha vida assim,
DE MACEDO
tu esquecida de mim
Proprietário – açuense –
e não posso te esquecer.
1886/1949
JOÃO E. SOARES DE MACEDO
MOTE
Açuense - 22.02.1891 - João de
Papai - Falecido Entre-Rios* não se pode
dividir em quatro partes.
MOTE
GLOSA
Pra botar fogo em caieira Era uma graça, um pagode,
Precisa muita cachaça. o que chegamos a ouvir:
em quatro quinhões partir
GLOSA Entre-Rios não se pode,
Puxava o Freire o bigode,
Não é só pela poeira, fiado em seus baluartes,
muito mais pela quentura, entre os pedros malazartes**
precisa natureza dura ouvindo João Cru*** dizer,
pra botar fogo em caieira. Entre-Rios quero ver,
Só se ouve a estaladeira dividido em quatro partes.
e o canudo da fumaça, * Entre-Rios era propriedade das famílias
Soares de Macedo e Freire.
não causa riso nem graça, ** pedros malazartes - chefes políticos
só parece um furacão, dr. Pedro Amorim e Pedro Neto.
pra agüentar o rojão *** João Cru - um dos patriarcas da
precisa muita cachaça. família Soares de Macedo.

26
Glosa Glosarum - Fesceninos

ADOLFO SOARES DE MOTE


MACEDO
Proprietário - açuense. Esse carro de Olinto*
Pra mim não pode prestar
MOTE
GLOSA
Acha-se o mundo composto
de homens degenerados. Nesta glosa eu não minto
vou dizer minhas verdades
GLOSA tem sessenta qualidades
esse carro de Olinto.
Vê-se corpo, vê-se rosto De GMC tem um cinto,
mas não se vê coração, de Chevrolet um mancar,
de miséria e podridão de Opel tem o olhar,
acha-se o mundo composto. de Ford ele tem cabina,
Disso só tenho desgosto, de Dodge tem a bobina,
precisar dos desgraçados, pra mim não pode prestar.
tipos lordes, malfadados, * Olinto Fonseca, um dos primeiros
motoristas do Açu.
tem de toda qualidade,
está cheia a sociedade
de homens degenerados.

MANOEL PITOMBA DE
MACEDO MOTE
Boêmio, açuense - 1924/1957.
Por alcunha Manoel de Bobagem. De um cachorro não passa
Quem joga e bebe aguardente
MOTE
GLOSA
Nem tudo que tomba cai.
GLOSA O seu moral descompassa
leva a vida em precipício
Nem todo homem tem brio, possuindo esses dois vícios
nem toda moça se casa, de um cachorro não passa.
nem todo fogo tem brasa Logo, de Deus, perde a graça,
nem toda lã dá pavio. Satanaz fica contente
Nem todo inverno faz frio, e o nome desse ente
nem todo filho tem pai, toma nota em seu caderno;
nem tudo que entra sai, vai direitinho ao inferno
nem toda fera é valente, quem joga e bebe aguardente.
nem todo lorde é decente,
nem tudo que tomba cai.

27
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Se o nosso Hermance* sair Essa aguardente infeliz


Açu fica sem valor Eu sei que vai me matar.

GLOSA GLOSA

A doença vai progredir Se o destino assim quis


no corpo da humanidade vou cumprir a minha sorte
torna-se uma infelicidade porém vai ser minha morte
se o nosso Hermance sair. essa aguardente infeliz.
Deixará de existir Censurando o povo diz
esse riquíssimo fulgor, que eu não posso prestar,
transforma-se o riso em dor mas se eu vivo a farrear
fica tudo diferente no vício da embriaguez
sem esse homem excelente a aguardente desta vez
Açu fica sem valor. eu sei que vai me matar.
* Médico Hermance Paiva.

MOTE MOTE

Para tratar de doente O homem não vale nada


Só Hermance e mais ninguém Só Deus é que tem valor

GLOSA GLOSA

Eu dele já fui cliente Escrevo nesta ,jornada


e achei especial para quem compreender
É bom sem ter outro igual só Deus é que tem poder
para tratar de doente. o homem não vale nada.
Faz o exame contente Na sua lida pesada
e receita muito bem ele é um sofredor,
pois para aqui jamais vem seja rico como for,
outro doutor diferente mas também passa amargura,
para tratar de doente segundo diz a Escritura
só Hermance e mais ninguém. só Deus é que tem valor

28
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Vou deixar a minha casa Seu Né com a sua pasta


Onde morei vinte anos É metido a viajante

GLOSA GLOSA

Meu coração vai em brasa Me disse ele que gasta


de sofrer, amargurado, cinqüenta mil réis diário,
por ser desaventurado faz um grande comentário
vou deixar a minha casa. Seu Né com a sua pasta.
A desgraça já me atrasa Consigo mesmo ele arrasta
só me chegam desenganos, o andar de passeante,
deixo os meus paroquianos, é orgulhoso e pedante,
levarei saudade eterna vive com pabulação,
deixando a casa materna com sua pasta na mão
onde morei vinte anos. é metido a viajante.

MOTE MOTE

Muito sofro por quem amo Vou fazer o meu transporte


Quem me ama sofre mais Da vida material

GLOSA GLOSA

O nome dela eu declamo De mim se aproxima a


dentro do meu coração morte preciso fazer viagem,
pela força da paixão com saudades de Bobagem*
muito sofro por quem amo. vou fazer o meu transporte.
Sonhando por ela eu chamo Vou procurar boa sorte
entre suspiros e ais no reino celestial,
tenho sofrido de mais Jesus por ser divinal
é grande a minha tristeza se compadeça de mim
mas tenho toda certeza que breve será meu fim
quem me ama sofre mais. da vida material.
* Bobagem - mãe do poeta, de quem
pegou a alcunha de Manoel de
Bobagem.

29
Glosa Glosarum - Fesceninos

DURVAL SOARES DE
MACEDO* MOTE
Vendedor ambulante, açuense.
* Suas glosas obedecem à forma O couro do boi dá sola
ABBAACCACA; que é totalmente
estranha à décima setissilábica açuense.
E o pau que curte é angico.

MOTE GLOSA*
* Notar, aqui, uma nova formulação
de rimas: ABBAABBABA
Dou-lhe um conselho maduro
Não queira quem não lhe quer. Muito mais contente eu fico
batendo nesta viola,
GLOSA o jogo manobra a bola,
a garça manobra o bico,
Pode ser homem ou mulher, portanto me justifico,
não dê este cabimento, pois o homem é quem controla,
diga no mesmo momento: votar nessa curriola,
vá procurar Lucifer. me disse Theodorico**
Se ela um dia vier, o couro de boi dá sola
tire a carta de seguro, e o pau que curte é angico.
não sou fogo de monturo ** Theodorico Bezerra, deputado estadual,
nem remo contra a maré, ex-deputado Federal, "majó" fazendeiro.
dou-lhe um conselho maduro
não queira quem não lhe quer.
SOLON WANDERLEY
Comerciante - açuense - 13.01.1903
MOTE
MOTE
Sigo minha opinião
Tudo isso o couro dá. De qualquer futilidade
Faz-se um mote e haja glosa.
GLOSA
GLOSA
Dá mala, dá caçoá,
dá silha, dá rabichola, No tempo da antiguidade
chapéu de couro e virola, o Açu era falado,
dá cela pra se andar, mas hoje vive o coitado
arreios pra se pegar, de qualquer futilidade.
dá peia e dá cinturão, Vejam, pois, a mocidade
dá sapato e dá gibão, inteligente e jocosa,
ninguém pode duvidar; por distração ansiosa,
siga minha opinião de tudo faz arrelia
tudo isso o couro dá. e a toda hora do dia
faz-se um mote e haja glosa.

30
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE* ANTÔNIO DE OLIVEIRA


* Esta glosa figura na 1ª. edição como SOUTO
sendo de Moysés Sezyom;
Funcionário público - açuense.
posteriormente foi apurado que
é de autoria de Solon Wanderley 06.07.1937

Tanto poeta chamei-o MOTE


Que poeta ficou sendo.
Debaixo do teu umbigo
GLOSA Tem a flor que eu beijaria.

Ficaste afinal no meio GLOSA


dos poetas consagrados,
c'os teus motes aleijados, Faço segredo e não digo
tanto poeta chamei-o. pra ninguém, se tu deixares
Porém deves ter receio por um dia os meus olhares
da tosa que estão fazendo, debaixo do teu umbigo.
desde já fica sabendo: Sabes que sou bom amigo,
Manoel Maria Barbosa a ti jamais trairia,
não foi por causa de glosa pois a ninguém pediria
que poeta ficou sendo. com tanta insistência assim,
sendo o teu corpo um jardim:
PEDRO AMARANTINO tem a flor que eu beijaria.
SANTIAGO
Açuense.

MOTE MOTE

Eu estou necessitado Quero carne de priquito


Quero a vossa proteção. Não me fale em feijoada!

GLOSA GLOSA

É horrível o meu estado Não sou de criar conflito


é grande a minha aflição, por isso sem mais favor
Ihe digo de antemão: na festa do servidor
eu estou necessitado. quero carne de priquito.
Porém estando ao seu lado Sem ter esse requisito
fica alegre o coração, que é a carne mijada
sei que o senhor tem ação, só vou lá fazer zuada
tem honra e dignidade; e tomar minha Pitu;
a título de caridade aceito carne de cu,
quero a vossa proteção. não me fale em feijoada.

31
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

A cabeça quando pinta Se um dia eu for à Lua


A pinta baixa a cabeça. Vou no carro de Botelho

GLOSA GLOSA

Um dia a velha Jacinta Tô na minha e não na tua


Me disse com segurança Te manca meu camarada
O homem perde a pujança, Vai ser longa a caminhada
A cabeça quando pinta. Se um dia eu for à Lua.
Nos cabelos usa tinta Num carango que flutua
Pra que mais moço pareça Novinho que nem espelho
Mas é bom que não se esqueça Pintadinho de vermelho
A ninguém pode enganar Vou fazer meu piquinique
Na hora que vai trepar Não quero nenhum buíque
A pinta baixa a cabeça. Vou no carro de Botelho.

MOTE MOTE

É de fácil esquecimento Vou trabalhar de garçom


A mulher qu'eu tanto quis. No cabaré de Luiz.

GLOSA GLOSA

Sem nenhum constrangimento Repito alto e bom som


Para quem quiser saber Até que a voz fique rouca
Quem não julgava esquecer Pois arranjei uma "boca"
É de fácil esquecimento. Vou trabalhar de garçom.
Amei-a sem fingimento Acho isto muito bom
E juro que fui feliz Até me faz bem feliz
Pois a verdade se diz Pois arranjei o que quis
Por isto é que falo assim O resto é tocar pra frente
Foi quem rnais zombou de mim Quero comer muita gente
A mulher qu'eu tanto quis. No cabaré de Luiz.

32
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE LUIZ XAVIER


Bancário, Santana do Matos
Feijão verde é muito bom 18.08.35.
Mulher madura é melhor. Açuense adotivo, onde iniciou-se
em glosas.
GLOSA
MOTE
Quase sem perder o tom
eu falei pra minha nega Nessas festanças de gala
para comer com manteiga A gala dá na canela.
feijão verde é muito bom.
Foi dito por um garçon GLOSA
num hotel do Mossoró:
"com carne do Seridó Existe mesmo o namoro,
aumenta mais o sabor!" está certo quem propala,
Mas pra comer com amor quase que não há decoro
Mulher madura é melhor. nessas festanças de gala.
Começa dentro da sala
a troca de uma olhadela,
logo após apagam a vela,
fazem do claro, o escuro
e se a festa é de pau duro
MOTE a gala dá na canela.

Não vale mijar mais cedo


Nem cagar fora de hora! MOTE

GLOSA Fresco talvez que não seja


Mas trejeitos ele tem
Comigo não tem segredo
vou dizer com segurança GLOSA
se agüentem na poupança
não vale mijar mais cedo. Em qualquer canto que esteja
Do pau não se tira o sebo quer sentado, quer de pé,
pois se tirar não melhora parece mais que é mulher,
quem não gostar vá embora fresco talvez que não seja.
que falta não vai fazer Toda mão que aperta beija,
não se sai nem pra foder chama todos de meu bem,
nem cagar fora de hora! casar, não quer com ninguém
e só fala afeminado,
pode não ser, mesmo, veado,
mas, trejeitos ele tem.

33
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Eu quero arrotar coalhada Na próxima geração


De mamar no peito seu Eu prefiro ser mulher.

GLOSA GLOSA

Me deixe a boca molhada Quero mais depravação,


desse seu leite de moça, ser livre de pensamento,
por favor, meu bem, me ouça, dar figa pra casamento
eu quero arrotar coalhada. na próxima geração.
Quero dar uma apojada Vou viver de amigação,
que nenhum bezerro deu, ser dono de cabaré,
com todo jeitinho meu vou foder como eu quiser,
sei que vai me dar tontura eis a minha pretensão:
me vendo de pomba dura não quero ser fresco, não,
de mamar no peito seu. eu prefiro ser mulher.

MOTE MOTE

Prefiro tocar punheta Armando e querendo bem,


A foder com mulher frouxa. Levando chifre e roendo.

GLOSA GLOSA

Certo tipo de buceta Tenho pena de quem tem


que até jumento se atola um amor descontrolado,
eu sabendo não dou bola vivendo sem ser amado,
prefiro tocar punheta. amando e querendo bem.
Boto cuspe na caceta E existe mais um porém:
e apertando em cheio a trouxa, o jeito é viver bebendo;
a gala escorre na coxa, quem assim vive sofrendo,
mela a calça e mela o chão, vivendo só de transtorno,
prefiro sujar a mão já cansado de ser corno
a foder com mulher frouxa. levando chifre e roendo.

34
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Não sei quem diabo inventou Não tem jeito que dê jeito,
Mulher, cachorro e menino. Eu mesmo não fodo mais.

GLOSA GLOSA

Menstruação e cocô, A bicha está com defeito,


veado e carachué, sem ter mais apelação,
soldado e bicho de pé, só vive olhando pro chão,
não sei quem diabo inventou. não tem jeito que dê jeito.
Mas isto só não bastou, Daí me nasce um despeito,
tem macho falando fino, de não ser mais eficaz,
muito cabra cabotino passando mesmo pra trás,
colecionando porqueira, pedindo a Deus pra morrer,
juntando na prateleira porque se o bom é foder
mulher, cachorro e menino. eu rnesmo não fodo mais.

MOTE

MOTE A COFAN* já recebeu


um preventivo pra broca**.
Vou mijar no seu caixão,
Com saudade de você. GLOSA

GLOSA Se seu chifre adoeceu,


não desespere, procure,
De joelho preso ao chão, pois bom remédio que cure
mesmo de pranto incontido, A COFAN já recebeu.
pra atender ao seu pedido, Se sua mulher fodeu
vou mijar no seu caixão. com outro, fazendo troca,
Não vou ter consolação, não corte, amigo, a minhoca,
sei que não vou me conter, tenha em tudo mais cuidado,
devo, de fato, morrer, compre depressa, vexado,
talvez em noite de frio, um preventivo pra broca.
num triste quarto vazio * Distribuidora de produtos agrícolas.
** Moléstia da parte interior dos
com saudade de você. chifres dos bovinos.

35
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Vou montar um cabaré Teve raiva do marido


No Mar da Tranqüilidade. Tocou fogo no seu pau

GLOSA GLOSA

Conforme, se Deus quiser, Mais um caso acontecido:


e que tudo corra franco, mulher bota pra valer,
eu deixarei mesmo o Banco, desta feita, só porque
vou montar um cabaré; teve raiva do marido.
pois meu negócio é mulher Sacaneando escondido
que o resto é futilidade, promovendo bacanal,
crendo então na realidade foi flagrado o seu Vital
eu vou botar pra valer, pela esposa, que ofendida
pois já podemos foder se vingou por toda vida:
no Mar da Tranqüilidade. tocou fogo no seu pau.

MOTE MOTE

Não é só casa e comida Tendo perna e tendo couro


que faz a mulher feliz. Só respeito tamborete.

GLOSA GLOSA

Disse Núbia* que na vida Boto assando como touro


da mulher, quando casada, que não tem pena da vaca,
para não lhe faltar nada, como burra, como paca,
não é só casa e comida. tendo perna e tendo couro.
Tem que ser compreendida Pode ter cara de choro,
e eu entendo o que ela diz; ser doente pra cacete,
ela quer pau pro verniz, mas se gostar do macete,
porque gosta de verdura, cega ou doida, tudo eu furo,
com certeza é pomba dura pois eu estando de pau duro
que faz a mulher feliz. só respeito tamborete.
* Núbia Lafayete, cantora, também
açuense.

36
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Repito: manda quem pode, Dou minh'alma ao Satanaz


atende quem tem juízo. Pra tirar na loteria.

GLOSA GLOSA

Dessa maneira se fode Já disse e nã volto atrás,


quem comigo discordar, sustento mesmo o que eu digo,
se eu nasci pra governar pra deixar de ser mendigo
repito: manda quem pode. dou minh'alma ao Satanaz.
Ninguém de mim faz pagode, Eu já fiz prece a São Braz,
todos sabem, sob aviso, São Pedro e Santa Luzia,
só falo quando preciso, a Jesus, Santa Maria,
no meu taco faço aposta, não valeu minha intenção,
mas se eu mandar comer bosta, agora apelo pro cão
atende quem tem juízo. pra tirar na loteria.

MOTE MOTE

Quero morrer vendo o cão Resolvi me confessar,


No punho da minha rede. Jesus Cristo me perdôe.

GLOSA GLOSA

Se eu não tenho salvação, Nunca mais vou blasfemar,


só porque não me confesso, nem fazer mais sacrilégio,
a Jesus mesmo é que peço: numa igreja, num colégio,
quero morrer vendo o cão. resolvi me confessar.
Não quero vela na mão, Todo mês vou comungar,
nem ver santo na parede, herege, agora, é um boi,
quero ter fome, ter sede, ninguém pergunte o que foi
só não me falte a Pitu, que eu fiz aqui no chão;
quero Satã todo nu se agradei, de fato, ao Cão
no punho da minha rede. Jesus Cristo me perdôe.

37
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE II

Eu já cansei de viver A luz há se ver manchada


Mas a morte não me quer. de negro fumo e terrores,
secarão frutos e flores,
GLOSA se Ana morrer queimada.
Ao vê-la em cinza tornada,
Deixei de sentir prazer, na dor que ninguém descreve,
diz Renato* a doutor Meira** direi, em soluço breve:
se a vida nos dá canseira embora a terra dê tudo,
eu já cansei de viver. já que tem seu lábio mudo
Quem hoje velho me vê não me paga o que me deve.
sem violão, sem mulher,
sem mais o bicho de pé,
lamenta meu fim de sorte,
querendo abraçar a morte,
mas a morte não me quer.
* Renato ‚ poeta e boêmio. Autor do livro
"Fulô do Mato".
JOSÉ DE SOUZA
** Doutor Meira, João Meira Lirna,
ex-Juiz em Açu. Jornalista – paraibano,
13.08.1940
JOAO LINS CALDAS
Serv. Púb. aposentado MOTE
Goianinha - 1888 - 1967
Buceta, cu e caralho:
MOTE Três instrumentos de foda.

Se Ana morrer queimada GLOSA


Não me paga o que me deve.
Mesmo dentro do borralho
GLOSA uma foda dá prazer;
I pra ser boa tem que ter:
Será grande a gargalhada buceta, cu e caralho.
e bem completa a alegria; Um cu ao molho, e com alho,
que prazer, quanta harmonia, quem come não se incomoda,
se Ana morrer queimada. e eu que estou fora de moda
Festa só, festa e mais nada, e não pretendo mais foder,
prazer que ninguém descreve. estou querendo vender
Quem, pois, a chorar se atreve três instrumentos de foda.
ante um bem que se dilata?
Mesmo morta, aquela ingrata,
não me paga o que me deve.

38
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Saltou o mourão da bunda, Chico cuzão inda é


Quebrou-se a mola do cu. Demolidor de mulheres.

GLOSA GLOSA

Uma rapariga imunda Um cara muito chué,


que certo dia eu peguei, sacana e borocoxô,
de uma pombada que dei cafetão e gigolô,
saltou o mourão da bunda. Chico cuzão inda é.
Chama-se ela Raimunda, Quando vai ao cabaré,
mulata do couro cru, do mulheril é o alferes,
e eu que já estava nu deixa vícios e misteres
e com a rola escalada, e sua lábia não mingua;
dei-lhe mais outra pombada: é pela tesão na língua
quebrou-se a mola do cu. demolidor de mulheres.

MOTE MOTE

O caralho de vocês Potência de velho acaba


É diferente do meu. Onde a do moço começa.

GLOSA GLOSA

De liso, grosso e pedrez, Quando uma tesão desaba


há caralho muito estranho por problema de idade,
que difere de tamanho: o caralho faltou a virilidade,
de vocês. Potência de velho acaba.
Há o que tira a honradez Se a ninguém mais enraba
Que a natureza Ihe deu, já no moço ele tropeça
e, por exemplo, esse seu, não adianta ter pressa
sem domínio, sem controle, se a tesão subiu pra língua;
vive toda vida mole: a tesão do velho mingua
é diferente do meu. onde a do moço começa.

39
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Dar o cu não é pecado Um chato tá me mordendo


Quando ele dá por amor. no centro do ôi do cu.

GLOSA GLOSA

Fico logo aporrinhado Me coçando e me espremendo


com frescura de crendice, numa agonia profunda,
quem foi o fresco que disse meto a mão, esfrego a bunda;
"dar o cu não é pecado". um chato tá me mordendo.
Quando se pega um veado Um no bigode me enchendo,
com o cu abrasador, eu arranquei ele cru
um cacete rasgador ah! se eu pegasse um bambu
esfola até a bexiga, grosso e de grande formato
se lasca todo e não liga pra não deixar esse chato
quando ele dá por amor. no centro do ôi do cu.

MOTE MOTE

Se você nasceu de fruta Aparentemente, sim,


É semente ou é caroco? Até certo ponto, não.

GLOSA GLOSA

Com essa cara de puta Não ter certeza é o fim


porque não quer entender, do que te falam isolado,
deve ser bom de comer perguntam-me se és veado
se você nasceu de fruta. aparentemente, sim.
Uma idéia absoluta Aí perguntaram assim:
me faz inchar o pescoço, e a mãe do sacanão
não gosto de fruto insosso inda está na perdição?
inda mais sendo inchado, Perguntaram se eu comi,
o seu caso é de veado: e eu então respondi:
é semente ou é caroço? até certo ponto, não.

40
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Encontrei hoje chorando Não tive amores, sonhei-os,


Quem riu de mim no passado. Mas possuí-los não pude.

GLOSA GLOSA

Saí na rua sonhando Eram tantos meus anseios


com uma antiga comida; de amar, de querer bem,
a quem mais fodi na vida que pra não sofrer também
encontrei hoje chorando. não tive amores, sonhei-os.
Ontem, viveu me gozando Tentei por todos os meios
porque eu tinha brochado; não tomar tal atitude
hoje, de pau levantado mas senti que era rude,
ela de mim vem atrás, e só procedendo assim
mas eu não vou comer mais tive-os diante de mim
quem riu de mim no passado. mas possuí-los não pude.

MOTE MOTE

Caguei um negócio ali Sonhou cagando pra dentro,


Que eu nunca comi na vida. Acordou, tava enrabado.

GLOSA GLOSA

Não pensei no que comi, Foi tomar cana no centro


danou-se, deu a bexiga, da cidade, com amigos,
me deu um nó na barriga dormiu, passou por perigos,
caguei um negócio ali. sonhou cagando pra dentro.
Aí, perguntaram aqui: Sentiu ardor de coentro
qual terá sido a comida? ao ver o pau atolado,
Eu que estava sem saída adormeceu num sobrado
tive que dar a resposta: no mais completo abandono
o que ali caguei foi bosta, – cu de bebo não tem dono –
que eu nunca comi na vida. acordou, tava enrabado.

41
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Das grandes fodas que dei Otávio perdeu dinheiro


Só guardo recordação. E Aparecida não deu.

GLOSA GLOSA

Depois que ultrapassei Garanhão e putanheiro


o Cabo Boa Esperança – dizendo ser bom poeta
resta apenas a lembrança pensando em foda completa
das grandes fodas que dei. Otávio perdeu dinheiro.
Fiquei velho, me lasquei, De madrugada, lampreiro,
brochei, perdi a tesão, na buate amanheceu,
nem balançando com a mão simplesmente se fodeu,
a rola levanta mais prometeu mundos e fundos,
– dos bons tempos de rapaz seus colhões ficaram imundos
só guardo recordação. e Aparecida não deu.

LAÉLIO FERREIRA DE MELO MOTE


Funcionário público - natalense.
Caio* fez uma conferência
MOTE sobre os veados de Tebas.

O centerfor do "Angicos" GLOSA


Só tinha um olho, e jogava.
Impando de onisciência,
GLOSA supino, professoral,
erudito e genial
Inimigo dos fuxicos Caio fez urna conferência.
da sua terra escabrosa, Derramou toda a ciência
mania tinha, sebosa, falou de lutas, refregas,
o centerfor do "Angicos" deu notícia até das pregas
Comia muitos furicos, de muito puto de outrora,
muita bundinha papava; recitou mais de uma hora
no treinador se encostava sobre os veados de Tebas.
durante a concentração; * Caio Pereira, magistrado aposentado,
boêmio em Natal.
ganhava, assim, posição
só tinha um olho, e jogava.

42
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE EDISON TORRES PIRES


Funcionário público – Angicos,
Natal é cidade boa, 27.09.31
Ninguém pode esquecer dela.
MOTE
GLOSA
Por você eu lasco gente,
Cana, caju, glosa, Lasco você e me lasco.
loa, bate-papo na calçada,
caju, umbu, panelada, GLOSA
– Natal é cidade boa.
Pescaria de gamboa, Pra mim só vale o presente;
no Potengi uma vela, o passado é merda pura,
na mulher, graça singela, nossa amizade é segura,
violão, pranto, saudade, por você eu lasco gente.
se tudo isto é verdade, Porém aquele que mente
ninguém pode esquecer dela. por ódio ou mesmo por asco,
eu mando tomar no frasco,
ir pra puta que o pariu,
e fazendo isso, viu,
lasco você e me lasco.

MOTE
MOTE
Filosofando, o Neguinho*
Entende de Nada, Tudo Merda nágua não afunda
Mas nunca vai pr'onde quer.
GLOSA
GLOSA
Cachola rara, – é um ninho
de toda a ciência exata, Nem a ciência profunda
de qualquer doutrina trata vem desmentir o que eu digo:
filosofando, o Negrinho: seja de rico ou mendigo
A Vida, a Morte e o Vinho, merda nágua não afunda.
o Tempo, o Nada e o Tudo, Saindo de qualquer bunda,
a Regra, a Rima e o Contudo, mesmo de homem ou mulher,
a Reta e a Circunferência; e num riacho qualquer
– é de mais essa potência: você a depositando
entende de Nada, Tudo. vai ver que ela sai boiando,
* Zé Neguinho, antigo linotipista de Natal mas nunca vai pr'onde quer.
que, nos bares, "conhecia todo assunto".

43
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Eu vi o seio da Lua, De manhã, se bem vestida;


Amamentando uma estrela. De noite, só quero nua.

GLOSA GLOSA

De meio despida à nua, A coisa melhor da vida,


irradiando beleza, me censure quem quiser
ontem, pra mim com surpresa, é ter bonita mulher,
Eu vi o seio da Lua. de manhã, se bem vestida.
Estava deserta a rua, Se meiga, darei guarida,
e eu, abismado ao vê-la, cantigas à luz da Lua,
pedi a Deus para tê-la, cacete do tipo pua;
porém, Deus não consentindo, funcionando a contento,
a Lua partiu sorrindo, na cama ou mesmo ao relento,
amamentando uma estrela. de noite, só quero nua.

WALTER CANUTO
Mossoroense - 24. 02. 24
MOTE
MOTE
Eu vi a bunda da Lua,
Na passarela do mar. Joca quebrou o cabresto
No cabaço de Rosinha
GLOSA
GLOSA
A mentira nem flutua,
tendo de frente a verdade, Casar foi o seu pretexto
falo com sinceridade, para foder um pinguelo
eu vi a bunda da Lua. sabendo que era donzelo
Passeava eu pela rua, Joca quebrou o cabresto.
frajola a cantarolar, Com medo de um incesto,
quando num lance de olhar, pois Rosa era sobrinha,
pasmado vi com surpresa, teve uma sorte mesquinha
a Deusa da Natureza, pobre coitado do Jóca
na passarela do mar. teve que usar uma broca
no cabaço de Rosinha.

44
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Carne beiçuda e mijada Na terra manda quem pode


Velho não pode comer Só doido desobedece

GLOSA GLOSA

Mais forte que panelada Só o Bom Deus nos acode


mais quente que alcatrão nesta triste contingência,
pode dar indigestão diz a voz da experiência:
carne beiçuda e mijada. na terra manda quem pode.
Tendo uma vida cansada O cidadão se sacode
cagando até sem querer mas num instante se esquece,
mesmo que venha a saber a mágoa desaparece
que a carne não é nojenta e logo, logo se anima
se não tem mais "ferramenta" ordem que vem lá de cima
velho não pode comer. só doido desobedece.

MOTE MOTE

Vou montar um cabaré É de fácil esquecimento


No Mar da Tranquilidade A mulher qu'eu tanto quis

GLOSA GLOSA

O "ramo" é bom e dá pé, A mulher do meu tormento


pois eu conheço a "gazua" toda meiguice e trejeito
quando eu chegar na lua tem porém um só defeito:
vou montar um cabaré. é de fácil esquecimento.
O local já sei qual é Esquece a todo momento
com muita propriedade que já me fez bem feliz
e digo a bem da verdade tudo quanto ela diz
que não existe outro igual mais da metade é mentira
vou abrir uma “filial” vou tirar da minha lira
no Mar da Tranqüilidade. a mulher qu'eu tanto quis

45
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE JOSÉ LUCAS DE BARROS


Bancário - Serra Negra, 12-03-34
Sabendo que ela tem dono
Só em vê-la sou feliz MOTE

GLOSA Cabra safado não morre,


Só se matar de cacete.
Muitas vezes perco o sono
noite após noite acordado GLOSA
sofro assim resignado
sabendo que ela tem dono. Não há veneno nem porre
Vai assim meu abandono pra levar o traste ruim.
pagando os males que fiz Quem é bom logo tem fim,
ela sabe e o povo diz cabra safado não morre.
do amor que por ela sinto O diabo sempre o socorre
juro a verdade, não minto, por debaixo do colete;
só em vê-la sou feliz. toma coice de ginete,
de cobra leva mordida,
mas não desgruda da vida,
só se matar de cacete.

MOTE
MOTE
"Dá-me o calor do teu seio!
Dá-me o fulgor dos teus olhos!"* Não posso vencer a morte,
Mas irei de má vontade.
GLOSA
GLOSA
Perdido na noite em meio
sem um teto, sem abrigo, Mesmo que eu pareça forte
deixa-me ficar contigo, como touro premiado,
"dá-me o calor do teu seio!” serei um dia enterrado,
Dá-me, enfim, que ainda creio, não posso vencer a morte.
numa vida sem escolhos, Do Rio Grande do Norte
em rnares livres de abrolhos, levarei muita saudade
no eterno amor, no carinho, promessas de eternidade
ilumina o meu caminho me fazem crer noutra luz,
"dá-me o fulgor dos teus olhos!" eu sei que é pra ver Jesus,
* Versos de Ferreira Itajubá, um dos mais mas irei de má vontade.
importantes da poesia norteriograndense.

46
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Xavier quer ver o cão Se os homens maus têm mais sorte,


No punho de sua rede. O diabo protege os seus.

GLOSA GLOSA

Aspirando à salvação, A gente tem que ser forte


nós a Deus pedimos sorte, ante as seduções do mal...
porém, na hora da morte, vale ser bom, afinal,
Xavier quer vem o cão; se os homens maus têm mais sorte?
nós queremos água e pão, Veja-se a grande coorte
ele quer ter fome e sede; de Judas e fariseus,
enquanto, em nossa parede, mostrando que, enquanto Deus
nós queremos ver Jesus, nos concede amparo eterno,
ele quer ver diabos nus nos interesses do inferno
no punho de sua rede. o diabo protege os seus.

MOTE MOTE

Esse pecado que eu fiz Quero morrer vendo a lua


Só Deus pode perdoar. Brilhando em minha janela.

GLOSA GLOSA

Até ficarei feliz Quando da morte a voz crua


se o padre, por caridade, disser que chegou meu dia,
perdoar pela metade num adeus à poesia
esse pecado que eu fiz. quero morrer vendo a lua.
Pecar não foi o que eu quis, Quero cantigas na rua,
vou dizer aos pés do altar, ao som de viola singela,
quando for me confessar que Deus me dê morte bela,
ao capuchinho barbudo, sem contorção, sem lamento
porém pecado rabudo com a luz do firmamento
só Deus pode perdoar. brilhando em minha janela.

47
Glosa Glosarum - Fesceninos

JOSÉ ANTÔNIO AREIA FILHO o meu coração cansasse


Zé Areia – 1901 - 31.01.72 e nunca mais eu chorasse
Nascido em Natal - RN me lembrando de você.
* Apud "Sátiras e Epigramas de Zé Areia",
de Veríssimo de Melo.
MOTE*

Na venda bebo cachaça


Me lembrando de você

GLOSA

I
Diante da sua graça
fiquei logo apaixonado,
hoje tristonho e magoado
na venda bebo cachaça. MOTE
Muito embora mal me faça
e razão ninguém me dê, Raimundo* foi à Europa
eu vou bebendo porque E voltou falando inglês.
meu destino foi traçado:
é viver embriagado GLOSA
me lembrando de você.
Nunca deu o ás de copa,
II não conhecia o prazer,
Não suportando a desgraça pra dar sem ninguém saber
de viver sem teu carinho, Raimundo foi à Europa.
eu toda noite sozinho Dinheiro ele não poupa
na venda bebo cachaça. quando chega a sua vez,
Minha tristeza não passa, porisso, com sensatez,
sabes muito bem porque, fez tudo que pretendia,
quem olha pra mim já vê conheceu o que queria
o que procuro ocultar e voltou falando inglês.
* Raimundo Barros, Tabelião Público.
começo logo a chorar
me lembrando de você.

III
Sendo triste, faço graça,
banco o palhaço na vida.
Pra curar minha ferida
na venda bebo cachaça.
Não sabe mais o que faça
quem desgraçado se vê,
eu quizera um dia que

48
Glosa Glosarum - Fesceninos

JOSÉ LEIROS MOTE


Zeca Galo, por pseudônimo
Func. aposentado do INPS O berro que Arouca* deu,
Nascido em Macaiba-RN. Abalou o Castelão.

MOTE GLOSA

Carro velho e sutiã Todo mundo estremeceu,


Só compra quem é peitudo. da moça caiu a tanga,
foi um Grito do Ipiranga
GLOSA o berro que Arouca deu.
A arquibancada fendeu
Se existe coisa vã, com semelhante ovação,
tão falsa quanto aparente, sem encontrar expressão,
é‚ sem dúvida, minha gente, carro diz Petronilo** – esse brado
velho e sutiã. há quatro anos guardado
Digo hoje e amanhã, abalou o Castelão.
direi também, e não mudo, * Arouca, func. do INPS
torcedor do América Futebol Clube.
usar o bom senso é tudo; ** José Petronilo Fernandes,
lógico é o que digo: Conselheiro do Tribunal de Cortas,
essas duas coisas, amigo, Abecedista "doente".
só compra quem é peitudo.
MOYSÉS LOPES SESYOM
MOTE
Comerciário - nascido em Caicó,
Na mulher, sua beleza mas feito poeta em Açu,
Não está sempre na cara. 28.07.1883 - 09.03.1932

GLOSA MOTE
Um infeliz como eu.
Se quiser ter a certeza
do que diz o Saturnino* I
estude com todo tino A morte mata o sultão,
na mulher, sua beleza. arcebispo e cardeal,
Veja só quanta grandeza presidente, marechal,
reúne a perfeição rara, ministro, conde e barão;
quando a vista se depara em tempos matou Roldão,
surpreendendo o escondido, como na história deu;
vê-se que o preferido o próprio Jesus morreu;
não está sempre na cara. mata tudo ó morte ingrata,
* Prof. José Saturnino de Paiva, só não sei porquê não mata
28.11.1901 - 02.03.80 um infeliz como eu.

49
Glosa Glosarum - Fesceninos

II MOTE
Ela mata todo mundo,
Toda obra o couro dá
branco, preto, rico e pobre,
mata o potentado, o nobre, GLOSA
mata o triste e o vagabundo;
I
matou Dom Pedro Segundo,
Dá bola, manta, silhão,
matou quem o sucedeu;
dá carona e dá perneira,
capitalista e plebeu,
dá chapéu, dá bandoleira,
mata tudo, não tem jeito,
dá sapato e dá gibão.
mas não mata, por despeito,
Pra se fazer matulão
um infeliz como eu.
o couro é como não há,
serve até pra cassuá,
III
dá peia e dá rabichola,
Não reserva o cientista,
se prendendo a couro e sola
mata sem dó o profeta,
toda obra o couro dá.
tirana, mata o poeta,
mata o maior estadista; II
mata também o artista, Dá manta, silha, silhão,
o cego, o mudo, o sandeu, dá chapéu, dá bandoleira,
mata o crente e o ateu, dá sapato, dá perneira,
diplomata e titular, dá corona e dá gibão.
mas poupa, não quer matar Pra se fazer matulão
um infeliz como eu. o couro é como não há,
serve até pra caçuá;
IV dá peia e dá rabichola,
Ela mata no Senado, se prendendo a couro e sola
como matou Rui Barbosa, toda obra o couro dá.
entra no Congresso airosa
MOTE
aí mata um deputado;
matou Pinheiro Machado, Todo cacete é cambão.
dele não se condoeu,
GLOSA
ela jamais atendeu,
mata gente, mata bicho, Tudo que é alto é comprido,
mas não mata, por capricho tudo que é baixo é pequeno,
um infeliz como eu. todo caboclo é moreno,
todo negro é presumido.
Todo orgulho é abatido,
todo inverno tem verão,
todo velho é ancião,
toda obra tem bitola,
todo poeta é pachola,
todo cacete é cambão.

50
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE tinha até borra de moça,


pra fazer a tramamoca
Sua mãe é feme minha* juntou alhos com fartura;
tinha toda essa mistura
GLOSA numa receita de Joca.
* João Guabiraba, sogro do poeta.
A sua raça é safada
desde a quinta geração: MOTE
seu avô foi um cabrão,
sua avó, puta de estrada, Acredito piamente
sua filha amasiada, Que Jesus Cristo existiu.
prostituta sua netinha,
uma irmã que você tinha, GLOSA
essa pariu de um soldado,
seu pai é corno chapado, Sendo Ele um pai clemente
sua mãe é feme minha. e autor da Criação,
* Há uma variante do mote: "Sua mãe na Sua Morte e Paixão
foi fêmea minha". acredito piamente.
Classifico de imprudente
MOTE quem da crença desistiu,
alguém jamais conseguiu
Numa receita de Joca* negar o Final juízo;
eu juro, se for preciso,
GLOSA que jesus Cristo existiu.

I MOTE
Tinha raspa de juá,
raiz de urtiga, cardeiro, Deus apesar de ofendido
cipó de sapo, pereiro, Não se vinga de ninguém
ovo, milona e jucá,
jurubeba, manacá, GLOSA
tinha suco de taboca,
crueira de mandioca, Ele é compadecido,
fedegoso e vassourinha; amparo dos desgraçados,
tudo isso se continha perdoa os nossos pecados,
numa receita de Joca. Deus, apesar de ofendido.
Meu pensar mal entendido
II não me pode causar bem,
Tinha maIva e agrião, eu estou nisto, porém
joão mole, bredo, facheiro, confio no Deus bondoso;
pau de leite, marmeleiro, por ser Ele um pai piedoso
erva babosa e pinhão, não se vinga de ninguém.
canapum verde e limão,

51
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Escorei Nossa Senhora João Celso* me dando o mote


Com um bacamarte na mão Garanto a glosa ser boa

GLOSA GLOSA

Sem esperar, muito embora Acredito que é um dote


folheando um breviário, – ninguém pense que é vaidade –,
vi tombar um santuário: gloso com facilidade
escorei Nossa Senhora. João Celso me dando o mote.
Contra ela, nessa hora, Quando eu era rapazote
travou-se forte questão, levava tudo na proa,
transformei-me num leão; fosse quem fosse a pessoa
ao lado do padre cura – eu falo sem presunção –
defendi a Virgem pura o mote sendo de João,
com um bacamarte na mão. garanto a glosa ser boa.
* João Celso Filho, advogado, amigo do poeta

MOTE
MOTE
Bebo, fumo, jogo e danço,
O povo gosta de ler Sou perdido por mulher
As glosas de Sesyom
GLOSA
GLOSA
Vida longa não alcanço
Com franqueza pode crer, na orgia e no prazer,
se for o mote bem dado, mas, enquanto eu não morrer,
ele depois de glosado bebo, fumo, jogo e danço.
o povo gosta de ler. Brinco, farreio e não canso,
Quem quer que procure ver me censure quem quiser,
tem de comigo achar bom, enquanto eu vida tiver*
quando a coisa vem por dom, cumprindo esta sina venho
a sorte não descompassa; e além dos vícios que tenho,
são lidas com muita graça sou perdido por mulher
* Há um variante deste verso: "não falho um
as glosas de Sesyom dia sequer".

52
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Eu só como camarão Se não fosse o canivete


Com muito sal e pimenta Ninguém comia do bode

GLOSA GLOSA

Quando faço a refeição Na festa eu pintei o sete,


passo a vista sobre a mesa, muita gente fez assim,
se até tiver com franqueza, triste de alguém e de mim
eu só cunio camarão. se não fosse o canivete.
Com cerveja fria e pão Para imitar um grumete
faz um paladar setenta, mandei raspar meu bigode,
satisfaz e alimenta, meti-me nesse pagode,
um prato apetitoso, Alcides mexeu também,
mas só fica saboroso mas se não fosse Vem-Vem*
com muito sal e pimenta. ninguém comia do bode
* Vem-Vem, fazendeiro, por nome
Fernando Tavares.

MOTE MOTE

Quem desejar se apresente Em Baixa-Verde eu tomei


Não passe do fim do mês Aguardente fria e boa

GLOSA GLOSA

Eu já estou impaciente, Quando do trem eu saltei,


não posso mais suportar, pra beber dei um passeio,
como preciso casar, um copo acima de meio
quem desejar se apresente em Baixa-Verde eu tomei.
dando um sinal sorridente, Bem expansivo fiquei
isto por mais de uma vez mas não disse coisa à toa,
não venha com sisudez, levei tudo pela proa,
banque alegria no caso, lembrei-me da mocidade,
resolva dentro do prazo, bebendo alí à vontade
não passe do fim do mês. aguardente fria e boa.

53
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Aguardente em Taipu Tomei conhaque gelado


É alva, fria e gostosa Porque seu Pedro me deu

GLOSA GLOSA

Tem giribita em Açu, Tornei-me um pouco atirado


por ser cara eu tomo pouco, imitando um mequetrefe,
bebi, tem gosto de côco, mesmo em presença do chefe
aguardente em Taipu. tomei conhaque gelado.
Fiz parede de caju, Me conservando alinhado
já vi coisa apetitosa, como é costume meu,
estou descrevendo em glosa nessa festa quem bebeu
mas ninguém tome por graça, teve bancar desordeiro;
em Taipu a cachaça bebi sem gastar dinheiro
É alva, fria e gostosa. porque seu Pedro me deu.

MOTE

MOTE Meti-me na cervejada


Mas não gastei um vintém
A cachaça em Pedra Preta
È fria, boa e barata GLOSA

GLOSA Uma bela patuscada


deu-se ontem no bilhar,
Acreditetn, não é peta, de passagem, sem esperar,
eu tomei, posso afirmar: meti-me na cervejada.
dá muito bom paladar Até não faltava nada,
a cachaça em Pedra Preta. pois no Ponto* tudo tem
Quando tocaram a sineta* por instãncia de Vem-Vem
ajeitei minha gravata, Solon** meteu-se na dança
me dizendo uma mulata bebi que quase encho a pança
em três palavras somente: mas não gastei um vintém.
em Pedra Preta aguardente * Refere-se ao bar Ponto Chic, no Açu.
** Solon Wanderley, também glosador,
é fria, boa e barata. dono da Padaria Santa Cruz, a maior da
* Era sinal de partida dos trens da
cidade do Açu, na época.
Great-Western, no interior do RN.

54
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Tomei cerveja de novo Tomei cerveja ge!ada


Porque Seabra* me deu mas foi Santos* quem pagou

GLOSA GLOSA

O major agrada o povo, Tive de graça a entrada


vejam que o homem é aquele, nessa festa graciosa,
ontem, por instãncia dele, à custa de muita prosa
tomei cerveja de novo. tomei cerveja gelada.
No Ponto eu não me demoro, Achei boa a patuscada
fiz dali um ateneu, que na festa se passou,
Antônio foi quem encheu no Colégio** se juntou
três copos numa bandeja, a nata desta cidade;
tomei toda essa cerveja tomei cerveja à vontade
porque Seabra me deu. mas foi Santos quem pagou.
* Coletor estadual * Francisco Belo de Oliveira, Tabelião do 2º
Cartório, conhecido na cidade por Santos.
** Colégio Nossa Senhora das Vitórias, das
Irmãs do Amor Divino, onde se realizavam
as festas da sociedade.

MOTE MOTE

Seabra me deu cerveja Tomei cerveja no poço


Alternada em guaraná Dada pelo capitão

GLOSA GLOSA

Se eu escolher na bandeja A festa foi um colosso,


prefiro o conhaque bom, dou minha opinião franca,
lá no bilhar de Solon, sentado ao pé de uma banca
Seabra me deu cerveja. tomei cerveja no Poço.
Daria a quem quer que seja, Apesar do alvoroço
assim estivesse lá, deixou-me boa impressão,
viu quem olhava de cá; eu digo aqui sem paixão
eu alí, sem cerimônia, foi uma festa topada;
tomei foi muita "teutônia" tomei cerveja gelada
alternada em guaraná. dada pelo Capitão.

55
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Travasso deu um esporro O cabelo a la garçone


Lá na loja de Zequinha* Até a doida censura

GLOSA GLOSA

Com f ranqueza, quase corro Dizem que Zezé Leone,


receiando uma desgraça, a rainha da beleza,
devido a muita cachaça não usava, com certeza,
Travasso deu um esporro. o cabelo a la garçone.
Ele ali feito cachorro Sendo assim, disse Giovane*
ladrando a quem ia e vinha, com muita calma e brandura,
nem mais paletó tinha, a moça que tem altura
não sei quem saIvá-lo foi, e pela honra tem zelo,
quase se dá um cu de boi de cortar o seu cabelo
lá na loja de Zequinha. até a doida censura.
* José Pinheiro Filho, Zequinha, dono da * Giovane Wanderley de Sá Leitão.
maior casa de negócios da cidade.

MOTE MOTE
A muda de Costeleta*
Foi Tarquínio quem pediu No tempo do Carnaval
O povo perde a cachola
GLOSA
GLOSA
Talvez devido ao Capeta
daqui eu devo dizer, Uma quadra sem rival
pediram, sem se saber, ao escândalo se oferece,
a muda de Costeleta. a humanidade obedece
Ele fazendo careta no tempo do Carnaval.
do comando desistiu; Creio que não há igual:
eu não, mas alguém ouviu tudo metido a pachola
se dizer no Regimento como quem deixa a gaiola
que a muda desse sargento e alcança a liberdade,
foi Tarquínio quem pediu dentro da civilidade
* Costeleta, apelido do sargento delegado
o povo perde a cachola.
da cidade.
Muda está, aqui, com sentido
de "transferência".

56
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Eu gosto de João de Zeca* Nosso Juiz de Direito


Porque me dá meladinha** É orador e poeta

GLOSA GLOSA

Fui jogar uma sueca Goza aqui de bom conceito


escolhi três companheiros, de todo povo em geral,
disse a um dos parceiros: é quase excepcional
eu gosto de João de Zeca. nosso Juiz de Direito.
Quando visto minha beca É magistrado perfeito,
vou à casa da vizinha, sua justiça é correta,
e se ela estiver sozinha? executa o que projeta,
findo aqui, nada mais digo, é muito criterioso,
João de Zeca é meu amigo além de ser talentoso
porque me dá meladinha. é orador e poeta.
* Influente varão da família Soares de
Macedo.
** Bebida preparada com cachaça e mel de
abelha, mexida com pequeno gancho
de madeira.

MOTE MOTE

O doutor Pedro Amorim* Uma crise como esta


É bom chefe e bom amigo No Açu nunca se viu

GLOSA GLOSA

Falo somente por mim Tudo é ruim, nada presta,


e ninguém diz o contrário, sofre assim quem quer que seja,
entre nós é necessário Deus me livre que ainda veja
o doutor Pedro Amorim. uma crise como esta.
O seu prestígio é sem fim, Quem é pobre desembesta,
todo mundo diz comigo, um que já correu, caiu,
não persegue o inimigo o dinheiro se sumiu,
a todos faz caridade, nunca vi maior tristeza,
este doutor, na verdade, tanto aperto, com franqueza,
é bom chefe e bom amigo. no Açu nunca se viu
* Médico, Pedro Soares de Amorim, chefe
político de grande prestígio.

57
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Os flagelados da sorte Júlio, Rodolfo e Macrino*


Todos são atropelados São necessários na farra

GLOSA GLOSA

O pobre gira sem norte, Quando a tarde toca o sino


vive balatando em vão, chamando para a novena,
nunca acham proteção aparecem logo em cena
os flagelados da sorte. Júlio, Rodolfo e Macrino.
lnda tendo um passaporte Não sei dos três o mais fino
por ninguém serão ligados, no cavaquinho ou guitarra,
são um bando de aleijados digo, mas não é fanfarra,
sem posição social, contando até réis por réis,
hoje, na quadra atual, sou franco, os três menestréis
todos são atropelados. são necessários na farra.
* Três conhecidos músicos amadores,
boêmios.

MOTE
MOTE
Em Minas apareceu
Vivo triste, acabrunhado, Um galo de quatro pernas
porque não vejo Edinor
GLOSA
GLOSA
Contou-me Otávio* que leu
Ele parece isolado, a notícia num jornal:
vê sem par a descabida, um caso fenomenal
com as torturas da vida em Minas apareceu.
vivo triste, acabrunhado. O fato que lá se deu
Por ninguém sou confortado, se comenta nas tabernas,
minha vida é um pavor, até mesmo nas cavernas
só Jesus, o Redentor, ouviu-se um grito dizer:
me tira desta enrascada, só faltava aparecer
não acho mais graça em nada um galo de quatro pernas.
* Otávio Amorim, jornalista. Editou vários
porque não vejo Edinor. jornais no Açu. Era ele mesmo o
tipógrafo, chapista e impressor.

58
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Nosso Luiz Boavista Preciso de Zé Augusto*


É perito em coração Não posso atacar Omar**

GLOSA GLOSA

Chegou aquí um artista Não acho que seja justo


em palestra admirado, escrever no seu jornal,
disse que tinha encontrado mas, muito breve, em Natal,
nosso Luiz Boavista. preciso de Zé Augusto.
Com seu colete de lista O motivo é muito justo
e uma bengala na mão, pois me queira desculpar
feito cavalo do cão não poder colaborar
se fazendo namorado, em versos fazendo crítica,
embora muito amarrado tenho medo da política
é perito em coração. não posso atacar Omar.
* José Augusto Bezerra de Medeiros.
Dep. Federal - Governador do Estado,
falecido.
** Omar O'Grady, engenheiro, prefeito de
MOTE Natal de I934 a 1930.

Perico* furtou Maria MOTE


Xico furtou João Miguel**
Palmério* gasta dinheiro
GLOSA Porém mantém um jornal

Há muito que alguém dizia GLOSA


o que eu vou aqui narrar,
depois de muito amolar, Além de mim, diz Pinheiro,
Perico furtou Maria. fala Edinor, do Jiqui,
Dizendo que não fugia pra termos imprensa aqui
mostrou quanto era fiel, Palmério gasta dinheiro.
calado, sem aranzel, Como jornalista ordeiro
levava tudo na troça, é quase excepcional,
pra maior surpresa nossa sente-se bem, afinal,
Xico furtou João Miguel. João Celso colaborando,
* Chico Perico, antigo motorista de ele trabalha gastando
caminhão. porém mantém um jornal.
** João Miguel, dono de bar. A propósito, há
* Palmério Filho, mantenedor do jornal A
uma glosa de João de Papai: "João Miguel
CIDADE durante 25 anos. Jornalista e
no Piató/Deixa Joana em confusão".
poeta, além de grande orador cívico,
falecido.

59
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

A CIDADE hoje completa No Açu de tradição


As suas bodas de prata* Surgiu mais outro jornal*

GLOSA GLOSA

Sob a direção correta, Negar a verdade? Não!


Alí, com ordens severas, Nem mesmo por um decreto,
vinte e cinco primaveras tem um chefe ordeiro e reto
A CIDADE hoje completa no Açu de tradição.
se mantendo em linha reta, Ele tem bom coração
numa linguagem pacata, como amigo ele é leal,
tendo à frente um diplomata com seu prestígio cabal
que vai se entusiasmar esforçou-se com vontade,
vendo A CIDADE inteirar por isto, nesta cidade,
as suas bodas de prata. surgiu mais outro jornal.
* A glosa está datada de 25.04.27. * Refere-se ao JORNAL DO SERTAO, que
surgiu em 1928, fundado pelo doutor
Pedro Amorim.

MOTE
MOTE
Eu felicito Palmério
Nesta auspiciosa data A bodega do Jordão
Vende em grosso e a retalho
GLOSA
GLOSA
Pelo seu grande critério
de há muito já comprovado, Vende farinha e feijão,
embora mesmo acanhado rapadura, açúcar e sal,
eu felicito Palmério. mantém grande capital
A esse jornalista sério a bodega do Jordão.
de linguagem democrata O dono dela é furão,
juntaram-se a plebe e a nata vende tudo, até chocalho,
e foram felicitá-lo, tem grande estoque de alho,
até eu fui abraçá-lo de lenha encheu um canteiro,
nesta auspiciosa data. este artigo, o bodegueiro
vende em grosso e a retalho.

60
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE
São dezenove quesitos
Severiano* falou
Depondo contra Macedo*
Mas o povo não ouviu
GLOSA
GLOSA
I
Houve palmas, houve gritos,
Quando a corrida** findou
todo mundo se alegrou
na rua se ouviu um brado,
quando João Celso bradou:
da varanda de um sobrado
são dezenove quesitos.
Severiano falou.
Uns rapazes expeditos
Todo o povo estacionou
foram contar mesmo a dedo,
quando a janela se abriu,
e um deles, saindo azedo,
gente que de lá saiu
disse para os outros:
me disse, o doutor é osso,
figa! tem gente como formiga
fez um discurso colosso
depondo contra Macedo.
mas o povo não ouviu.
* Dr. Severiano Pinto, médico, então II
formado no Rio de Janeiro,
Saiu soldado aos gritos,
quando queria exibir sua oratória.
** Corrida, mesmo que vaquejada. todos os sinos tocaram
e os meninos propalaram:
MOTE são dezenove quesitos.
Oh! que diabos malditos,
O roubo em Sacramento* parece não há segredo,
Aumenta de dia a dia mas que a todos mete medo,
pois viram na Intendência
GLOSA muita gente na audiência
depondo contra Macedo.
Ninguém respeita o sargento, III
levam na troça o fiscal, Cacá** propalou aos gritos,
vai em progresso, afinal, conforme a lei do País,
o roubo em Sacramento. João Celso disse ao Juiz:
É de momento a momento, são dezenove quesitos.
já fazem por picardia, Assim disseram os peritos
porém não há garantia, e não pediram segredo,
contou-me Nestor Vieira, de cima de um arvoredo
que o roubo, naquela feira, um molecote gritou:
aumenta de dia a dia. eu aqui também estou
* Vila, hoje Ipanguassu, município
desmembrado de Santana do Matos. depondo contra Macedo.
* Macedo, fazendeiro em Açu.
** Cacá, Manoel Marcolino de Vasconcelos,
Oficial de Justiça, muito estimado
na Comarca.

61
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Foi chegada a minha hora Rodolfo* dançando nu


Meus filhos ficam sem pai Cagou em pé como boi.

GLOSA GLOSA

Valha-me Nossa Senhora, Caso raro no Açu,


Jesus Cristo Redentor, querem saber o que é?
pelo que vejo, Senhor, foi visto no cabaré
foi chegada a minha hora. Rodolfo dançando nu.
Eu me vou de barra a fora Quando ele mostrou o cu
como todo mundo vai, as putas gritaram ôi!
dou por despedida um ai, e um sacana que lá foi
diante desse fracasso me disse: pintou o sete,
se Deus não meter o braço tocou bronha, fez minete,
meus filhos ficam sem pai. cagou em pé como boi.
* Rodolfo, alfaiate e músico.

MOTE*
MOTE
Zé Leão** quase se caga
Quarta-feira na novena. A casca de guabiraba
elevou-se a trinta graus.
GLOSA
GLOSA
Quase faz do cu bisnaga
apertado em plena rua, Pra curar a tosse braba,
ontem ao clarão da lua segundo informa um freguês,
Zé Leão quase se caga. basta usar uma só vez
Porém encontrando vaga a casca de guabiraba.
pôde fazer quarentena, É um suco de mangaba
com franqueza tive pena adquirido dos paus,
por vê-lo tão apertado, cura os bons e cura os maus
foi feliz não ter cagado essa casca tão falada,
quarta-feira na novena. quando foi examinada
* Apud "Eu Conheci Sesyom", de elevou-se a trinta graus.
Francisco Amorim.
** José Leão era "imaginário" amador,
que deixou nome como santeiro.

62
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Vi Joca na procissão Joca viu o Ano Novo


de gravata e fato novo De capacete e gravata.

GLOSA GLOSA

Chegou-se à religião São coisas que diz o povo,


embora muito recente, pode até causar suspeita,
com traços de penitente escrevendo uma receita
vi Joca na procissão. Joca viu o Ano Novo.
Sua humilde contrição Sobre uma mesa recovo
chamou atenção do povo, discutia sobre a data,
seu modo de agir eu louvo deleitando uma mulata
joca com fé e coragem eu vi no mercado assim:
curvou-se aos pés da imagem Joca feito um manequim
de gravata e fato novo de capacete e gravata.

MOTE MOTE

Guabiraba é quase o cão, Guabiraba vai comprar


Já deu até pra dentista. Um caminhão Chevrolet

GLOSA GLOSA

Joca no sítio Jordão Ontem ouvi comentário


receita e arranca dente, no café de João Ribeiro,
segundo diz o Clemente que muito breve a Pinheiro
Guabiraba é quase o cão. Guabiraba vai comprar
Apesar de charlatão um carro pra transportar
é também espiritista gente para o Canindé,
num certo ponto de vista – ele deve usar boné –
Joca engana o Satanaz, Joca nesta influência
além das curas que faz vai comprar na nova agência
já deu até pra dentista. um caminhão Chevrolet.

63
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Joca extraiu um poldrinho A luz que Joca instalou


Pra ganhar vinte mil réis. Custou cinqüenta mil réis

GLOSA GLOSA

No lugar Sacramentinho Foi Joaquim quem propalou


no seu descanço primeiro eu não sabendo de nada,
pra mostrar que é parteiro mas hoje vi, é topada
Joca extraiu um poldrinho. a luz que Joca instalou.
A mãe desse animalzinho Seu Luiz adiantou
presa pelas mãos e pés, contando tudo a Moysés,
rinchos deu talvez uns dez: Joca paga mais de dez
Joca de lutar já farto, fora da instalação
salvou a égua do parto a luz do sítio Jordão
pra ganhar vinte mil réis. custou cinqüenta mil réis.

MOTE MOTE

João de Souza* é um sacana Seu Joca tomou a frente


Só faltava ser cabrão Do Partido Democrata.

GLOSA GLOSA

Dança fobó, bebe cana, Se julgando competente,


em tudo mete o bedelho, servindo embora de crítica,
toca bronha, chupa grelho, da conferência política
João de Souza é um sacana. Seu Joca tomou a frente.
Se mete na carraspana Se expandindo alegremente,
dentro da repartição; com pose de aristocrata,
é mentiroso, é ladrão, dando um laço na gravata
é de uma fama corruta, a João Café* declarou,
é‚ corno, filho da puta, dizendo eu agora
só faltava ser cabrão. sou do Partido Democrata.
* João de Souza era o APT dos Correios, * João Café Filho, político norteriograndense
e negara o favor de um "aviso" ao poeta. que chegou à Presidência da República.

64
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Joca quebrou a tigela* Guabiraba no apito


Antes de ir ao Mercado. Manobrando o carrossel.

GLOSA GLOSA

Me pus de frente à janela Me disseram, eu acredito,


olhando o sítio Jordão, quem contou foi Zé Casado,
no dia da Conceição que viu, entusiasmado,
Joca quebrou a tigela. Guabiraba no apito.
Esperando clientela, Aqui, acolá, um grito,
de avental formalizado, tendo em mão o aranzel,
operou um aleijado, com pose de menestrel,
despachou mais um freguês, mandando seu empregado,
tudo isso Joca fez ele à frente, engravatado,
antes de ir ao Mercado. manobrando o carrossel.
* Quebrar a tigela é usar roupa nova.

MOTE MOTE

Guabiraba instalou luz, Guabiraba engravatado,


vai ser freguês da usina. Santo Deus, o que será?

GLOSA GLOSA

Me informei de João da Cruz Falando com Zé Casado,


julgando não ser exato, ele me disse que viu,
mas hoje ví, é um fato, da casa grande saiu
Guabiraba instalou luz. Guabiraba engravatado.
Não sei que efeito produz Ele muito admirado
para sua medicina, se dirigia pra lá,
desprezou a lamparina, eu vou saber o que há
vamos ver no fim do mês; contra aquele nosso amigo,
Guabiraba desta vez se não é isso um castigo,
vai ser freguês da usina. santo Deus, o que será?

65
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Guabiraba engravatado, O dentista do Jordão


Santo Deus, o que será? Trabalha bom e barato.

GLOSA GLOSA

Um camarada escovado, Temos um cirurgião


que gosta de palhaçada, que está na ordem do dia
me disse vi n'alvorada vai ter grande freguesia
Guabiraba engravatado. o dentista do Jordão.
Numa cadeira sentado Trabalha com perfeição
olhando mesmo pra cá, não transige um só contrato
versou Gregório de lá tudo que diz é um fato
rimando morte com mate, não mente nem a cacete
se não é um disparate, Joca no seu gabinete
santo Deus, o que será? trabalha bom e barato.

MOTE MOTE

Arranca dente sem dor, O defeito do motor


Não precisa de injeção Só Guabiraba dá jeito.

GLOSA GLOSA

Para mostrar seu valor Joaquim não pede favor,


como dentista perito, é um mecânico exemplar,
Joca, pra não ouvir grito porém não pôde sonhar
arranca dente sem dor. o defeito do motor,
Faz competência a doutor, diz aqui um professor
sendo, embora, charlatão, que goza de bom conceito;
do povo chama atenção adianta que o defeito
com sua palestra franca, cada dia será mais,
o dente que Joca arranca mesmo que chamem Thomaz
não precisa de injeção. só Guabiraba dá jeito.

66
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE
MOTE
Joaquim deu com o defeito
Sem precisar de Thomaz. Macário sem seu Luiz
Deu a luz sem embaraço.
GLOSA
GLOSA
Trabalhou, mas com proveito,
depois de uma luta brava, Sem nenhuma diretriz
quando ninguém esperava, o movimento passou,
Joaquim deu com o defeito. não sei como se arrumou
Todo artista está sujeito, Macário sem seu Luiz.
mesmo que seja capaz, Ele apesar de aprendiz
neste motor satanaz mexia bem no cangaço,
um defeito apresentou, não deu-se nenhum fracasso
mas Joaquim desencrencou embora com muito medo,
sem precisar de Thomaz. Macário só com Alfredo,
deu a luz sem embaraço.

MOTE
MOTE
Macário aqui na usina
Garante a luz da cidade O motor tem estado bom
Não houve mais novidade.
GLOSA
GLOSA
Foi embora na surdina
nosso Luiz Camisão*, Quanto à luz, me diz Gelon
ficou como charlatão ficar naquilo somente,
Macário aqui na usina. há dois dias, felizmente,
Joaquim Paiva desatina o motor tem estado bom.
vendo qualquer novidade Perguntando a Sesyom,
pede até por caridade este me diz, é verdade,
pra Macário ter cuidado mesmo eu ví clara a cidade
este apesar de atrasado e que continue, oxalá,
garante a luz da cidade. de quarta-feira pra cá,
* Operador-mecãnico do motor de luz, que náo houve mais novidade.
chegou ao Açu em 1925, adquirido por
Francisco Martins Fernandes.

67
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Joaquim gastou dinheiro Bernardino instalou luz,


Porém tem luz à vontade. Vai dar bom lucro à usina

GLOSA GLOSA

Foi, por ora, o derradeiro No Jordão fizeram cruz,


a fazer instalação, ninguém pega em lamparina,
para ter luz no Jordão pra ser freguês da usina,
Joaquim gastou dinheiro. Bernardino instalou luz.
Pude ver que o sapateiro Ele breve reproduz,
neste ponto tem vaidade, já tenho quase certeza,
tudo que eu falo é verdade faz da praça uma beleza
ninguém portanto desminta. assim faz quem tem dinheiro,
Joaquim esperdiçou trinta porém só a luz do sapateiro
tem luz à vontade. vai dar bom lucro à usina.

MOTE MOTE

O vapor de Bernardino O pé de rabo de Ana


Trabalha sem combustivo. Por gosto se pode olhar.

GLOSA GLOSA
Meti-me na carraspana,
Começa ao bater do sino, Alexandre* acompanhou
termina ao cantar dos galos, e comigo analisou
tem força de dez cavalos o pé de rabo de Ana.
o vapor de Bernardino. Alguém dirá que é chicana,
Trabalha num desatino porém eu possa provar,
que não tem comparativo, a puta é de arrebatar,
eu como sou positivo da urtiga, eu tiro aquela,
digo sem nenhum temor, pois o pé de rabo dela
eu ví, de fato, o motor por gosto se pode olhar.
trabalha sem combustivo. * Alexandre, fígaro açuense, dado
a conquistas amorosas.

68
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

O peido que a doida deu Eu fiz um saco de meia


Quase não cabe no cu. pra suspender os colhões.
GLOSA*
GLOSA
Eu conto o que sucedeu
na sombra da gameleira Senti grossa a cordoveia,
foi um tiro de ronqueira quando vi, fiquei doente,
o peido que a doida deu. apressado, incontinente
Toda terra estremeceu, eu fiz um saco de meia.
abalou todo o Açu, Depois da bruaca cheia
ela mexendo um angu, suspendi por dois cordões,
tira a perna para um lado senti doer os tendões;
dá um peido tão danado onde a mulher tem tabaco
Quase não cabe no cu. eu não tenho, uso o meu saco
* Há uma segunda versão: pra suspender os colhões.
"Isto ontem aconteceu
debaixo da gameleira,
foi um tiro de ronqueira,
o peido que a doida deu.
Toda a terra estremeceu
abalou todo o Açu
ela mexendo um angu
puxou a perna de lado MOTE
deu um peido tão danado
quase não cabe no cu. O saco que eu sempre usava
Não cabe mais os colhões
MOTE
Pude iludir uma cega, GLOSA
Dei-lhe uma foda no cu.
Por esta não esperava,
GLOSA de tristezas estou carpido,
Saindo de uma bodega hoje vi, está perdido
de meio lastro a queimado, o saco que eu sempre usava.
com muito jeito e agrado Foi uma sentença brava
pude iludir uma cega. pra tirá-la em grilhões,
Rolando na beldroega, porém alego as razões
fazendo vez de muçu, para as quais tenho de sobra,
pra furnicar me pus nu, o saco deu uma dobra
faz tempo mas me recordo: não cabe mais os colhões.
virei a cega de bordo
dei-lhe uma foda no cu.

69
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Se Celina me matar, O quartel desta cidade


Ninguém tenha dó de mim. Transformou-se em hospital.

GLOSA GLOSA

Não posso mais suportar, Por dever de humanidade


é‚ grande a minha paixão, o governo decretou
perdôo de antemão em asilo transformou
se Celina me matar. o quartel desta cidade.
Se dela me aproximar Causa dó e piedade
terei um prazer sem fim; neste momento atual
se alguém me vir assim a força policial
chupando o beicinho dela, se acha toda doente,
se eu morrer fodendo nela, nosso quartel, finalmente,
ninguém tenha dó de rnim. transformou-se em hospital.

MOTE MOTE

Celina* cravou Macário Lampeão faz muito medo


Deixou Bitinha** na mão. Porém Ribeiro* faz mais

GLOSA GLOSA

Num pequeno comentário Eu digo e peço segredo,


se dizia, com vantagem, cangaceiro não faz graça,
que com enorme fogagem por toda parte onde passa
Celina cravou Macário. Lampeão faz muito medo.
Quase mata o funcionário Vou me meter num degredo
de sarna, chato e bubão pra poder viver em paz,
e mais tima purgação pois além de perspicaz
que vem deitando a negrada. Lampeão é destemido,
Essa puta engalicada faz medo por ser bandido
deixou Bitinha na mão. porém Ribeiro faz mais.
* Celina, antiga prostituta de muitas gerações * José Ribeiro, fiscal do Departamento
do Açu. da Fazenda do Estado.
** Bitinha, alcunha de Luizinho Pinheiro.

70
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Zé Ribeiro em piratagem O fiscal José Ribeiro


É pior que Lampeão. Enganou José Nogueira.

GLOSA GLOSA

Eu digo aqui de passagem Se fazendo prazenteiro,


não me chamem de mofino, de acordo com seu sócio,
dá bolo em Pedro Solino fez aqui grande negócio,
Zé Ribeiro em piratagem. o fiscal José Ribeixo.
No artigo gatunagem Multou a José Pinheiro,
é perito o manganão, multou Xicó de Oliveira
para ele gavião somente por uma asneira
é creatura inocente, nem sequer era infração,
Zé Ribeiro, minha gente esse fiscal charlatão
é pior que Lampeão. enganou José Nogueira.

MOTE MOTE

Zé Ribeiro em Piratagem O fiscal José Ribeiro


É pior que Lampeão. Enganou José Nogueira

GLOSA GLOSA

São coisas da reportagem Com cara de aventureiro


não afirmo ser exato, daqui, com negócios feios,
só sei que dá bolo em rato, conduziu os bolsos cheios
Zé Ribeiro em piratagem. o fiscal José Ribeiro.
Aqui só numa passagem Ele tinha um companheiro
atacou sem exceção, besta, pedante e chaleira
deixou o povo no chão, Ribeiro na dianteira
carregou todo dinheiro, multou Bilé, mas, sem jeito,
este fiscal desordeiro depois de tudo isto feito
é pior que Lampeão. enganou José Nogueira.

71
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Vinte e três foram multados Ribeiro em sua excursão


Pelo fiscal Zé Ribeiro Vendeu açúcar e farinha.

GLOSA GLOSA

Muitos estão assombrados, É pior que carnicão,


o queixume é em geral, por dinheiro ele é danado,
na várzea, pelo fiscal, multou um pobre aleijado,
vinte e três foram multados. Ribeiro em sua excursão.
Todos, sem jeito, coitados, Multou mais um ancião
ficaram sem o dinheiro, que nem mais a vista tinha,
fazia pena o berreiro, disse em conversa a Zequinha:
além da multa a desfeita, sou fiscal, não faço graça,
esta desgraça foi feita Zé Ribeiro nesta praça
pelo fiscal Zé Ribeiro. vendeu açúcar e farinha.

MOTE

Bebeu garapa de graça


MOTE Mas multou o garapeiro.

Ribeiro em sua excursão GLOSA


Vendeu açúcar e farinha.
Aqui com grande ameaça
GLOSA este fiscal infeliz
na bodega do Raiz*
Homem de mau coração, bebeu garapa de graça.
é um fiscal de barriga, Feito um cachorro de raça
multou até rapariga, quando está em desespero,
Ribeiro em sua excursão. açambarcando dinheiro,
Quase multa um aleijão bancando de autoridade,
porém este nada tinha, bebeu garapa à vontade
quis tomar-lhe uma galinha, mas multou o garapeiro.
fez pior que cangaceiro, * Chico Raiz, nome dado em função do ramo
de negócio desse cidadão no Mercado, onde
nesta praça Zé Ribeiro vendia plantas medicinais e tinha um caldo
vendeu açúcar e farinha. de cana.

72
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Ribeiro multou Xicó, Foi multado Zé Santana


Xico Martins e Bilé*. Mas pagou com gasolina.

GLOSA GLOSA

Feito cachorro cotó Com cara de ratazana


ladrando até com o vento, porém bancando de ordeiro,
na feira de Sacramento pelo fiscal Zé Ribeiro
Ribeiro multou Xicó foi multado Zé Santana.
Mais duro que pedra mó, Com essa ação desumana
metido a tamandaré, João Alfredo desatina,
quase deu-lhe um ponta-pé, mas Ribeiro, na surdina,
logo após, incontinente, atacando ao bodegueiro,
multou traiçoeiramente, Santana não deu dinheiro,
Xico Martins e Bilé. mas pagou com gasolina.
* Manoel de Xicó, comerciante e político
em Sacramento.
Xico Martins, Francisco Martins
Fernandes, mais alto comerciante do
Açu.
Bilé Soares, comerciante, proprietário
no município.
MOTE
MOTE O fiscal José Ribeiro
Levou um conto de réis.
Foi multado Zé Santana
Mas pagou com gasolina. GLOSA
GLOSA Vinha pior que um sendeiro,
liso mais do que muçu,
Lá numa vila serrana quase escangalha o Açu,
que chamam São Rafael, o f iscal José Ribeiro.
sem haver grande aranzel, Aqui arranjou dinheiro
foi multado Zé Santana. deu na miséria com os pés,
João Alfredo é quem se dana ele e mais dois menestreis,
por não provar desta usina, sendo ele o mais malvado,
e diz ao escrivão: é sina deste comércio arrazado
desse fiscal tão malvado, levou um conto de réis.
Zé Santana foi multado
mas pagou com gasolina.

73
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

O fiscal José Ribeiro Zé Ribeiro foi embora


Levou um conto de réis. O comércio descansou.

GLOSA GLOSA

É pirata e traiçoeiro, Aqui não teve demora


homem de coração mau, nem siquer de meio dia,
era bom meter-se em pau junto com Manoel Maria
o fiscal José Ribeiro. Zé Ribeiro foi embora
Fez pior que cangaceiro, no seu automóvel espora
quis pisar o povo a pés, que, com arranjo, comprou.
multas lavrou mais de dez, – Este carro ele pagou
quase deixa o povo nu, sobrando ainda dinheiro –
só d'arranjos, do Açu foi embora o desordeiro
levou um conto de réis. o comércio descansou.

MOTE MOTE

Zé Ribeiro foi embora, Zé‚ Ribeiro apareceu


O comércio descansou. O povo está assombrado.

GLOSA GLOSA

Um pobre que ainda chora Um pobre que já sofreu


por já ter sido multado, me disse e pediu segredo,
dizia em pleno Mercado: que ainda fazendo medo
Zé Ribeiro foi embora. Zé Ribeiro apareceu.
Esse fiscal caipora Já sei de um que correu
que a muita gente atacou, para não ser atacado,
desta vez ele passou os outros tomem cuidado,
bancando de aristocrata, Zé Ribeiro não faz graça,
foi embora esse pirata, só por causa de ameaça
o comércio descansou. o povo está assombrado.

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Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Zé Ribeiro apareceu Redinha, praia formosa


O povo está assombrado. Dotada de encantos mil.

GLOSA GLOSA

Eu não digo quem me deu Muito simpática e charmosa


esta not¡cia alarmante: turística por natureza,
junto com seu ajudante tens requintes de nobreza,
Zé Ribeiro apareceu. Redinha, praia formosa.
Manoel Casado temeu, Tua costa apetitosa,
não veio mais ao Mercado, com o mar da cor de anil,
cedo jogou no veado é a maior do Brasil,
levando todo dinheiro tudo em ti é colossal,
por causa de Zé Ribeiro és vedete de Natal,
o povo está assombrado. dotada de encantos mil.
* Redinha, praia ao Norte da cidade de Natal.

FELICIO VAZ GUEDES


Bananeiras/PB – Funcionário
público 15.09.16 - 16.04.76

MOTE MOTE

Quanto mais dinheiro ganho Doutor eu não sou poeta


Mais na pindaíba fico. Sou curioso somente.

GLOSA GLOSA

Nunca posso estar risonho Qualquer um que saiba,


pois a vida me consome, veta os versos que às vezes faço,
meu povo aumenta o que come pra rimar sinto embaraço,
quanto mais dinheiro ganho. doutor eu não sou poeta.
Falo assim, não me acanho, Versejando pego a reta,
ninguém faz calar meu bico, com medo de muita gente,
eu sou pobre, não sou rico, também não sou descendente
só trabalho pra comer, de Bilac ou Mariano,
quanto mais devia ter pra não entrar pelo cano
mais na pindaíba fico. sou curioso somente.

75
Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE
MOTE
Senhor doutor das finanças
Socorra um velho esquecido. Daqui a pouco não tenho
Merda no cu pra cagar
GLOSA
GLOSA
Hoje vivo de esperança
e apelo à sua vontade, A minha palavra empenho
me faça uma caridade sem qualquer contradição,
senhor doutor das finanças. dinheiro pra comprar pão
Trago nas minhas lembranças daqui a pouco não tenho.
o que me foi prometido, Observando eu venho
mas como sou precavido aonde se vai parar,
e não quero aborrecer, se outro aumento chegar
enquanto está no poder de gasolina ou de gás
socorra um velho esquecido. aí não terei jamais
merda no cu pra cagar.

MOTE
MOTE
Foi visto um vulto roubando
Os cocos lá da Redinha Se bosta fosse alimento
A Sunab tabelava
GLOSA
GLOSA
Toda a praia comentando
um fato que aconteceu, Pra tudo há tabelamento:
dizia um conhecido meu: carne, farinha, feijão;
"foi visto um vulto roubando, tinha fiscalização
em um coqueiro trepando, se bosta fosse alimento.
escuro, de manhãzinha", Sem qualquer constrangimento
até uma pobre velhinha toda esta cidade olhava
sabe quem tudo afanou, em cada esquina encontrava
Geraldo Preto* comprou em grande letra um listão,
os cocos lá da Redinha. merda, bosta, cagalhão
* Geraldo Preto, vendedor de peixe, marido a Sunab tabelava.
de Dalila, a mais famosa quituteira da
Redinha.

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Glosa Glosarum - Fesceninos

MOTE MOTE

Tenha pena de Sindolfo O pobre que nada tem


Na hora do pau entrar. É burro, imbecil e feio.

GLOSA GLOSA

Sem sentir cheiro de mofo Cada um dá o que tem,


dorme com a bem-amada, todo liso é desgraçado,
na hora de uma pombada vive sempre humilhado
tenha pena do Sindolfo. o pobre que nada tem.
Naquele ambiente fofo, Tudo que diz, desconvém,
sentindo cheiro de mar, quando fala tem receio,
com vontade de trepar, só aparece no aperreio
de cacete impaciente, se o rico está precisando,
amigo, seja prudente o pobre mesmo ajudando,
na hora do pau entrar. é burro, imbecil e feio.

MOTE

O espirro que Nero deu


Pôs a dentadura fora.

GLOSA

Tudo, tudo aconteceu


em pleno banho de mar,
saiu sem se esperar
o espirro que Nero deu.
O trapiche estremeceu,
um paquete quase arvora,
uma velha caiu na hora,
menino gritou correndo,
Nero com o corpo tremendo,
pôs a dentadura fora.

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Glosa Glosarum - Fesceninos

BIBLIOGRAFIA

- Uns Fesceninos - Osvaldo Lamartine - Rio - Col. Erótika Lexikon - Ed.


Artenova - Rio -1970.
- Cactus (revista) -1958 - Natal - SEEC/RN.
- A Arte do Poeta - Murilo Araujo - Liv. S. José - Rio –1956.
- Vaqueiros e Cantadores - Luiz da Câmara Cascudo - Ed. de Ouro -1970
– Rio.
- Uma Palavra Depois da Outra - Josué Montello - INL - Rio –1969.
- Português Prático - José Marques da Cruz - Ed. Melhoramentos –1964.
- Lembranças e Tradições do Açu - Maria Eugênia Maceira Montenegro -
FJA -1978 – Natal.
- Sátiras e Epigramas de Zé Areia - Veríssimo de Melo - Nordeste Gráfica
-1979 – Natal.
- O Cantar do Galo - José Leiros (Zeca Galo) - DAG Ltda. - São Paulo –
1978.
- Poesias - Renato Caldas - Editora Universitária -1970 - Natal/RN.
- Caderno de Notas, de João de Oliveira Fonseca.
- Eu Conheci Sesyom - Francisco Amorim – 2ª. Edição - Natal.
- Assu em Revista - Ano I - Out 1980 – Nº 1.
- Caderno de Notas de Fernando Vaz Guedes.

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