Ser em tempos de não ser .

Fábio Teixeira

Produção Gráfica: Marcelo Belchior Revisão: Evilmerodac Domingos da Silva Impressão e Acabamento: Gráfica e Editora Visuana RJ ©2010, Fabio Teixeira Rebôla 1º Edição Todos os direitos reservados pelo autor www.menteiluminada.blogspot.com | prfabio@bol.com.br Distribuição e vendas: (21) 3457.6074 Teixeira, Fabio Ser em tempos de não ser - Evangelicalismo e pós-modernidade Rio de Janeiro, 2010 - Edição do autor - 80p ISBN: 978-85-911667-0-1 Inclui bibliografia Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breve citações, com indicação de fonte.

À minha esposa, grande incentivadora de tudo que faço. Aos meus filhos, que são sempre um novo motivo para continuar. Aos meus pais, por tudo que representam. A todos os que lutam pela edificação do Reino de Deus e não pelo seu próprio reino. Aos meus irmãos que se encontraram um dia no Espaço Betel, o amor de vocês também me constrange, vocês acreditaram. Aos manos queridos Marcelo e Mero pela correção. A todos, meu muito obrigado.

prefácio
Vivemos um momento onde verdades, até então absolutas, se esvaem pelos dedos e se transformam em mais uma opinião em meio a uma infinidade de pensamentos à disposição do homem que busca respostas. Como alguém que entra em um supermercado em busca de um bem de consumo, e leva para casa aquele que mais lhe agradar e que couber no orçamento – cônscio de que se não ficar satisfeito, poderá trocar de fornecedor em uma próxima compra –, tornamos o evangelho em mais uma opção, mais um caminho junto a tantos outros, e cada dia mais outros surgem, trazendo mais confusão que efetivamente gerando respostas ao coração do ser humano. A cultura capitalista, do lucro a qualquer preço, do “cada um na sua”, do olhar somente “para o próprio umbigo”, do egoísmo mascarado sob a desculpa de estar priorizando o que é seu, rege o mundo dos negócios, todavia, quando observamos atentamente, concluímos que o “mundo dos negócios” é o próprio viver do ser humano, e que, tendo em vista só termos uma vida, a filosofia do capital se infiltrou por completo no caminhar do homem, da família, das escolas, igrejas ou qualquer outro tipo de instituição ou grupo, que
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vivem loucamente na alta velocidade das transformações de um mundo globalizado. A instituição que comumente denominamos “igreja”, e que teoricamente possuía a missão de trazer ao mundo a mensagem da boa nova, o evangelho, que tinha como tarefa anunciar a graça de Deus frente a um mundo sem boas notícias, não somente se cala, mas torna-se mais um algoz a se aproveitar do fraco e a ferir quem já entrou pela porta desfalecendo. O líder eclesiástico, que recebeu a missão de tratar feridas, ajudar o necessitado, abraçar ao rejeitado, passou a ser intocável, digno de honras e méritos, inquestionável, transformando o amor do trabalho ministerial em um pífio e mesquinho “plano de carreira” espiritual. A igreja se distanciou da Igreja. Deus, tão citado pela teologia como imutável, como aquele que jamais volta atrás e que possui amor incondicional, hoje é apresentado em várias faces. Sim, dependendo da denominação em que você entrar, alguém lhe mostrará um deus exclusivo, moldado por pensamentos humanos, por gente que acha que “descobriu a pólvora” e que ensinará a forma correta de ver o Pai. Pensando em Pai, amor paternal quase já não se encontra mais, afinal, pai ama seus filhos pelo simples fato de serem seus filhos. Ele corrige, sim, quando necessário, todavia, seu olhar, seu co6

Prefácio

ração, é sempre daquele que anseia por ver o filho bem, é aquele que vê o filho cair e imediatamente toma a postura do “socorro bem presente”. Jamais um pai de verdade assumiria a posição do acusador, do que aguarda pelo erro, só pelo prazer da correção. A função de acusação é de outra pessoa, não do Deus imutável citado nas páginas bíblicas. Mudanças não ocorrem de um dia para o outro, o processo é lento, nos envolvemos dia a dia; gerações vão se desviando sem mesmo notarem o que está ocorrendo nos bastidores. É fato que a intenção de todo arqueiro é acertar o alvo, todavia, um olhar errado, um vento diferente, um simples deslocamento do arco, faz desviar o trajeto da fecha, que acaba fincando distante de seu objetivo. ‘Ser em tempos de não ser’ é uma simples, no entanto, fantástica visão destas mudanças que ocorreram nos últimos séculos. Alterações que moldaram o homem, transformaram nossas vidas, modelaram a forma com que o ser humano vê o mundo e os mistérios do Universo, nos ajudando a compreender que, aquilo que achamos ser pensamento exclusivo nosso, muitas vezes pode ter sido empurrado “goela abaixo” por pressões culturais e mudanças na sociedade, sem que tenhamos notado. Fábio é um grande amigo. Há anos venho acompanhando o trabalho que Deus tem feito através de sua
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vida. Quando o conheci, ele me parecia humanamente inacessível, um grande líder na hierarquia em que vivíamos. Acompanhei toda sua descida nos degraus da fama e, enquanto ele descia, enquanto ele desaparecia, enquanto o som dos aplausos ficava cada vez mais distantes, vi nascer um homem espetacular, vi alguém se tornar grande, não aos homens, mas em um contexto onde maior é aquele que mais serve. Vi surgir alguém que cada dia mais compreende que nossa maior recompensa já foi cravada na Cruz do Calvário. Hoje, tenho a honra de compor a apresentação desta obra, e maior honra ainda tenho de hoje ter o Fábio não mais como um líder hierárquico, mas, sim, um melhor amigo, alguém com quem aprendi a caminhar, que procura tornar o evangelho de Cristo Jesus cada vez mais em prática, deixando para traz, dia após dia, o “evangelicalismo” teórico no qual vivíamos. Leonardo Mendes

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sumário
Agradecimento ................................................................... 3 Prefácio .............................................................................. 5 Prólogo ............................................................................ 11 Introdução ....................................................................... 13 Capítulo 1 Modernidades - uma rápida visão histórica ..................... 17 O renascimento – o início da era moderna .................... 20 O iluminismo – a idade da razão ................................... 21 A modernidade – esperança e desilusão ........................ 23 Capítulo 2 A pós-modernidade .......................................................... 27 Os pilares da pós-modernidade ...................................... 29 Pluralização ................................................................... 30 Privatização ................................................................... 31 Desconstrução de identidades ........................................ 36 A secularização .............................................................. 38 Mundanismo pós-moderno – sutil e venenoso ............... 40 Capítulo 3 Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade ......... 43 O homem no centro do universo ................................... 44 O culto dos sentidos ...................................................... 48 Hedonismo cristão ......................................................... 51 Capítulo 4 A ética cristã e a pós–modernidade ................................. 55 Crescimento numérico – parâmetro para o sucesso ......... 57 Mercantilismo da fé ......................................................... 60 O culto evangélico na pós-modernidade ......................... 62 Conclusão ........................................................................ 65 Referências bibliográficas ................................................ 77

prólogo
Escrevi este trabalho entre o meio de 2005 e o primeiro semestre de 2006. Na verdade o que você lerá nasceu como uma dissertação de mestrado e depois passou por um processo de adaptação de linguagem, de uma forma acadêmica para um formato mais popular. Talvez alguma característica da linguagem original da monografia ainda persista em “incomodar”, mas, apesar disso, vejo aqui um conteúdo acessível a todos. Quando citei a data original em que este pequeno livro foi composto foi para dizer que de lá pra cá muitas coisas mudaram, não só nele, mas principalmente em mim. Verdade é que esta pesquisa, enquanto acontecia, me ajudou muito a mudar, e essa mudança contínua alterou muita coisa no meu trabalho também. Mudei. Já não sou quem eu era. Descobri que é melhor ser o Fabio – pastor, do que o Pastor – Fabio, por exemplo. Percebi que igreja não é Igreja. Que pessoas são livres para estarem onde quiserem e que esta liberdade deve ser respeitada e defendida. Vi no Evangelho a beleza da vida bem vivida e santa. Que esta vida passa num flash e que, em Jesus, podemos ser felizes de verdade, como bons amigos que se fazem irmãos pela fé igualitária, e que não são apenas irmãos de igreja. Irmãos assim só servem enquanto estão na igreja, a bênção
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foi descobrir que o na pouco representa, o que importa é viver com a Igreja de Jesus. Antes de você dizer que estou reinventando a pólvora, sugiro reler os evangelhos, ler este livro e pensar. Pensar é uma bênção. Só é possível reter o que é bom pensando. Muito deste processo de releitura da vida com Jesus está registrado no meu blog (www.menteiluminada.blogspot.com) e também no site do Espaço Betel (www.ebetel. com.br). Aliás o blog foi, por muito tempo, meu singelo megafone, meu lugar de desabafo. Hoje já não há tanta necessidade disso, porém, volta e meia, ainda grito por lá. Hoje meus gritos viraram sussurros diante do que se escreve na web. E por falar em Espaço Betel, este foi um presente do Pai, no meio de um período turbulento de mudanças. Um lugar para gente se reunir com liberdade e paz, apenas um lugar, um meio. O presente mesmo, e o que importa, foram, e são, as pessoas que encontramos nessa caminhada. Convido você a visitar o blog e o site, neles há muito esforço e trabalho para que o Evangelho seja anunciado e que a vida seja revista sem a institucionalidade religiosa, mas apenas através de Jesus. Leia, reflita, compare e, acima de tudo, pense. Analise tudo e só retenha para si o que for julgado bom, porém não tenha medo de mudar.
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introdução
Não é preciso conhecer a fundo a Teologia Bíblica ou a História dos Hebreus para saber que Saul é persona non grata nas rodas dos debates cristãos. Basta observar os pregadores. No último domingo, com certeza, em algum lugar do mundo, algum pregador falou mal do primeiro rei de Israel. E bem falado, já que Saul é um vilão na história bíblica. E para piorar é o inimigo número 1 do segundo maior herói das Escrituras: Davi. Só isto já basta! Eu também não gosto dele; Saul não me agrada em nada; ele é o inverso de tudo que quero que meus filhos sejam. Quanto à vida e à ética, Saul é meu antiprojeto. Há uma questão na vida deste líder israelita que se torna bizarra quando analisada friamente. É que Saul tem algumas características que hoje são atributos diferenciais entre alguém considerado um “homem de Deus de sucesso” e um “homem de Deus inexpressivo”. Estranhamente, encontro motivos para afirmar que o abominável Saul, em nossos dias, seria admirado e, por que não dizer, também considerado um líder de sucesso. Veja estes dados: Saul foi uma escolha do povo (teria vivido por volta de 1095 a. C. e reinado por quarenta anos). O critério
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de seleção foi a sua aparência e força. Sua eleição foi baseada em seu marketing pessoal; Saul era alguém popular (I Sam 9.2e3). O Rei Saul foi ungido por Samuel. A unção marcava a capacitação vinda de Deus para o desempenho de alguma tarefa, logo o filho de Quis fora capacitado para a execução da tarefa de governar Israel e inaugurar a monarquia judaica. (I Sam 10.1). Outro detalhe interessante é que o texto bíblico mostra que Saul era um homem que alcançava objetivos, como guerreiro que era vencia as batalhas que participava (I Sam 14.47); Saul era um vencedor. Pense comigo, qualquer pessoa que se encaixe nessas características - popular, ungido e vencedor será facilmente denominado um “homem de Deus de sucesso”. Certamente as questões aqui são profundas e confrontam-se com o que se pensa hoje sobre sucesso. A sociedade pós-moderna entende que popularidade, fama, reconhecimento e qualquer coisa que comprove que alguém é visto em meio a multidão é igual a sucesso. De nada adianta, na pós-modernidade, ser um ilustre desconhecido. “Falem mal, mas falem de mim” é hoje mais que um dito popular, é uma máxima. Ser ungido é um ideal evangélico. Ser carismático, comunicar chamando atenção para a
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Introdução

forma mais do que para o conteúdo. Fazer milagres e profetizar, cada dia se torna o grande alvo dos líderes evangélicos modernos, pelo menos é isso que se pode ler nos “cultos espetáculos” da nossa Era. Há muito que o carisma já fala bem mais alto do que o caráter. Estou certo que não vale a pena ter a unção sem santidade. É desta estirpe que fazem parte aqueles que ouvirão no Dia do Senhor que não eram conhecidos de Jesus mesmo operando, em Seu nome, sinais e prodígios. Este será o futuro dos modernos “sauls”. Quanto às vitórias alcançadas pelo primeiro rei dos judeus, sempre que penso nelas lembro-me de Jesus dizendo: “Do que vale ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma.” (Mt 16.26). Números, resultados, crescimento, arrecadações, são palavras tão presentes hoje no vocabulário evangélico que parecem bastar quando o assunto é igreja. Basta crescer que é bênção; basta alcançar objetivos a curto, médio e longo prazos, que já é certa a aprovação de Deus. Será? Como seria bom se estas coisas que coloco neste texto introdutório tivessem morrido com Saul, filho de Quis, rei de Israel. Infelizmente, Saul vive na vida daqueles que optam pelo ter e não pelo ser, que escolhem o carisma, desprezam o caráter,
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e que pensam nos resultados como termômetro da aprovação divina. Ah Saul! Como eu sonho com um dia em que serás apenas um personagem da história, apenas um exemplo de como não ser um líder aprovado por Deus. Desejo profundamente o dia de tua morte, e minha oração é que as linhas que se seguem contribuam para isso.

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Capítulo

Modernidades

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Uma rápida visão histórica
Como o homem chegou à consciência moderna? Este questionamento nos leva a um processo histórico de amplas mudanças que resultaram na cosmovisão1 contemporânea, ou seja, na forma como o homem de hoje vê e interpreta seu mundo. Essas mudanças se deram nos principais pontos da existência e do conhecimento humano, como a religião, a filosofia, a ciência e a política. Para Kronfly, citado por Salinas e Escobar, o desenvolvimento da consciência do chamado homem moderno é descrito da seguinte forma: “Um processo global, de natureza econômica (o nascimento do capitalismo e a consolidação progressiva do princípio de individualização, capaz de fundar um novo tipo de mentalidade coletiva não holística, mas individualista); de natureza filosófica (Descarte e o racionalismo); de natureza científica (Galileu, Copérnico e Bruno, fundadores do heliocentrismo e da possi1 O termo cosmovisão literalmente significa visão de Mundo e designa a forma como um indivíduo e/ou grupo social interpreta os fenômenos que formam a sua realidade.

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bilidade de matematizar o céu e romper com as velhas tradições geocentristas); de natureza política (Maquiavel e o processo de dar autonomia política diante do sagrado, assim como o começo dos estados nacionais); de natureza até mesmo artística”. (começo da perspectiva nas artes plásticas, com Rafael e Leonardo). (2002, p. 14) A modernidade também pode ser vista como sendo a soma de todos os fenômenos sociais que resultam do acesso das pessoas aos avanços da ciência e da tecnologia. Desta forma, a modernidade está relacionada com progresso científico, com avanços tecnológicos que mudam e/ou facilitam a vida. Na verdade, o processo histórico que gerou o pensamento moderno foi acompanhado pelo avanço tecnológico e, ao mesmo tempo, fez o desenvolvimento das grandes descobertas tecnológicas, ou seja, o homem mudou, cresceu, ampliou horizontes pela tecnologia e esta mudança o motiva a ser mais produtor de avanços tecnológicos. Um bom exemplo disso foi o advento da WWW (World Wide Web), em 1993, que produziu mudanças no cenário mundial contemporâneo e que desafia a ciência a produzir mais tecnologia para ampliar os horizontes da utilização da “Grande Rede” pelo cidadão comum. O. Guinness, profundo estudioso dos impactos sofridos pela fé cristã moderna, define a modernidade sob
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uma perspectiva teológica. Para este teólogo europeu, modernidade “é uma terminologia que define um sistema oriundo das forças da modernização e desenvolvimento, centrado, sobretudo, na premissa de que toda causa ‘de cima para baixo’ vinda de Deus ou do sobrenatural foi substituída, definitivamente por causas ‘de baixo para cima’, frutos dos desígnios e produtividade humana” (1992, p. 160). Falando sobre questões de fé, o homem moderno desligou-se de Deus. Todo avanço tecnológico, as respostas da ciência, da medicina, etc, parecem suprir a ausência de algo maior, mais profundo. O homem moderno foi levado pelo humanismo a ver um fim em si mesmo. Concluímos, então, que a modernidade, ou a mente moderna, é fruto de um processo de mudanças no homem que, portanto, transformaram o seu ambiente, ou seja, o mundo. A partir de agora, veremos os principais eventos (ou movimentos) históricos que formaram este processo transformador.

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Renascimento - O início da era moderna
Para que haja uma compreensão maior das mudanças ocorridas na humanidade a partir do período renascentista, é importante conhecer, ao menos um pouco, o homem da pré-renascença. Naqueles dias, o Universo era visto sob uma ótica teocêntrica2 e o homem prérenascentista, ou medieval, buscava soluções divinas para as questões da vida. Houve, então, uma reação intelectual contra o teocentrismo que a religião católica impusera sobre o homem por mais de mil anos. O movimento chamado de Renascimento (séculos XV e XVI) marcou essa transformação de mentalidade na sociedade européia. E assim surge um novo quadro filosófico na humanidade, uma nova cosmovisão nasce com seu centro na razão humana contrapondo-se à mentalidade medieval. Isto não representou a ruptura total com valores cristãos. Para Cotrim “o que ocorreu foi uma renovação dessas questões a partir de uma nova perspectiva humana, de uma humanização do divino”. (2005) O homem medieval olhava para os fenômenos naturais em busca de Deus; o homem renascentista passou a olhar para a natureza em busca de respostas científicas que mostrassem a razão, a causa destes fenômenos. Esta nova forma de ver o mundo se reflete na
2 Teocentrismo – Cosmovisão que interpreta tudo na vida como sendo causa da ação divina ou sobrenatural.

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Modernidades - uma rápida visão histórica

crença do homem em Deus. Segundo Donner, “já não havia mais a necessidade de se ter poderes invisíveis para explicar o movimento do universo”. A Renascença colocou o homem no centro de sua própria vida.

O Iluminismo – A idade da razão
O mundo já racionalizado pelo renascentismo deu lugar a um outro movimento cultural europeu conhecido como Iluminismo (Século XVIII) pelo seu projeto de iluminação e libertação do homem através do desenvolvimento da razão. Cotrim opina que naquele momento da história “havia a crença de que a razão, a ciência e a tecnologia tinham condições de impulsionar o trem da história numa marcha contínua em direção à verdade e à melhoria da vida humana”. Como foi dito por Alister McGrath, “a característica primária do movimento (o Iluminismo) poderia ser vista na sua afirmação quanto à total competência da razão humana. A Razão, dizia-se, era capaz de expressar tudo o que o homem necessitava saber sobre Deus e a moral”. Immanuel Kant (1724) foi um dos maiores filósofos do iluminismo alemão, também foi a base do denominado idealismo transcendental, no qual todos nós trazemos formas e conceitos a priori para a experiência concreta do mundo. Em seu livro “Crítica da Razão Pura” propõe que a moral huma21

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na está fundamentada em sua própria autonomia, ou seja, que as normas morais devem surgir da razão humana, mostrando que para o conhecimento universal ser possível, é preciso que os objetos do conhecimento se determinem na natureza do sujeito pensante, e não ao contrário. É importante dizer que Kant pressupõe um agnosticismo, cujas bases filosóficas foram assentadas no Século XVIII, já que para ele a verdade absoluta é inascível pela mente humana, assim a razão padroniza a moral. O agir de acordo com o dever é fazê-lo de acordo com os princípios racionais. A ética kantiana baseia-se em uma humanidade racional e livre, capaz de escolher livremente o que é melhor para si. Refletindo a cosmovisão do homem iluminista, Alexander relata que “a gente estava começando a ser capaz de expressar o que cria e, ao mesmo tempo, fazer o que queria, e não tinha que tomar cuidado com respeito a se Deus, ou um gato preto, ou um espião estaria observando-nos”. (1996, p. 163) Durante os anos da Era Iluminista, o capitalismo se consolidou e a burguesia, motivadora dos ideais da iluminação, se destacou como classe dominante da sociedade europeia.
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A Modernidade – esperança e desilusão
O projeto iluminista de esperança na razão gerou uma atitude otimista no homem moderno em relação ao progresso como fonte de bem-estar e qualidade de vida. A possibilidade do domínio da ciência representava o aceno de uma ambicionada segurança, que afastaria o homem dos infortúnios ligados à imprevisibilidade do mundo natural, desde doenças até as condições climáticas: a natureza deveria ser domada pela razão humana. Isto representou a esperança em um mundo melhor, mais justo e seguro. O período compreendido entre os Séculos XIX e XX recebe o título de Modernidade e o homem moderno se tornou bem diferente do homem iluminista visto que as coisas que o cercam adquirem nova conotação, sempre impregnadas de qualidades familiares ou sobrenaturais, atraentes ou ameaçadoras. Para Habermas, “o conjunto de ideias e perspectivas que caracterizam a modernidade parece constituir um grande sonho que a humanidade elaborou para si mesma”. Nomes como Karl Marx (1818) e seu homem-social, que acha na religião uma forma de adormecer as dores; Friedrich Nietzsche (1844) e sua filosofia niilista amoral, que pressupôs a “morte de Deus” como expressão de liberdade para o homem tão reprimido pela religião; Sigmund Freud (1856) e seu homem23

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psicológico, com seus conflitos entre os impulsos humanos e as regras que regem a sociedade, que só precisa conhecer a si mesmo para ser feliz; Jean Paul Sartre (1905) e o seu existencialismo exposto em O Ser e o Nada, que postula a necessidade do homem voltar-se para seus próprios interesses, são exemplos de pensadores e pensamentos que corroboraram na formação da maneira como o homem moderno vê a vida. No início do Século XX, Max Weber já caracterizava o advento da modernidade como um processo crescente de “racionalização intelectualista”, intimamente ligada ao progresso científico, mas que levaria ao “desencanto do mundo”. Esta expectativa de desesperança se confirmou historicamente. As catástrofes das Guerras Mundiais, a insuportável lembrança de acontecimentos como Auschwitz e Hiroshima e, ainda, a Guerra Fria, tudo isso deixou a humanidade cética em relação à possibilidade de uma igualdade comunitária de alcance global, como propunham tecnocratas e políticos. Desta forma, principalmente, a partir dos anos 50, deixamos de acreditar num futuro de paz e segurança. A expectativa do amanhã torna-se em incerteza. A dúvida - será que o “fim do mundo” está próximo? - passa a ser uma fonte inspiratória tanto para ciência quanto para as artes. O comunismo gerou ditaduras vorazes; o existencialismo, uma libertinagem moral sem respostas que sa24

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tisfaçam os questionamentos mais profundos da vida. O homem moderno viu cair o que poderia ser a esperança de uma sociedade mais igualitária e menos capitalista: o comunismo. Restou o capitalismo do ocidente, já desesperançoso de si mesmo. A ciência, com todo seu avanço tecnológico, não resolveu as questões mais simples das origens da vida e dos motivos dela. A tecnologia de guerra, a violência urbana crescente, as diferenças sociais, a fome, a má distribuição de riquezas, etc, fizeram do homem moderno alguém desencantado com seu tempo. É este legado histórico que faz nascer a pós-modernidade. O pós-modernismo surge do vazio de esperança deixado pela modernidade ao desmoronar-se.

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Capítulo

A pós-modernidade
Não é seguro eleger um conceito de pós-modernismo como sendo uma definição absoluta dos nossos dias. Filósofos, historiadores, economistas, teólogos e todas as mentes pensantes que se propõem a entender o pós-modernismo não encontram uma forma de defini-lo. Pensando na pós-modernidade como cosmovisão, o filósofo norte-americano Frederic Jameson, crítico literário e político marxista, a conceitua como a “lógica cultural do capitalismo tardio”. De acordo com Habermas, a pósmodernidade estaria relacionada a tendências política e cultural neoconservadoras, determinadas a combater os ideais iluministas e os de esquerda. Já o francês François Lyotard prestigia a pós-modernidade como verdadeiro rompimento com as antigas verdades absolutas, como o marxismo e o liberalismo, típicas da Era Moderna. O texto transcrito, a seguir, é de O. Guiness e descreve as mudanças que marcam a Pós-modernidade: “Ao passo que a modernidade era um manifesto de auto-suficiência humana e de autogratificação, o pós-modernismo é uma confissão de modéstia e até de desesperança. Não há “verdade”, há apenas verdades. Não existe a
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razão suprema, somente há razões. Não há uma civilização privilegiada (nem cultura, crença, norma e estilo), há somente uma multidão de culturas, de crenças, de normas e de estilos. Não há uma justiça universal, há apenas interesses de grupos. Não existe uma grande narrativa do progresso humano, há apenas interesses de grupos. Não existe uma grande narrativa de progresso humano, há apenas histórias incontáveis, nas quais as culturas e os povos se encontram hoje. Não existe a realidade simples nem uma grande realidade de um conhecimento universal e objetivo, existe apenas uma incessante representação de todas as coisas em função de tudo o mais.” (MCGRATH, 1996, p. 180) Surgem, então, novos fundamentos filosóficos e culturais. Veremos a partir de agora as principais bases do pensamento pós-moderno. É importante dizer que estes fundamentos, ou pilares (como serão tratados a seguir) podem não ser notados por nós, homens da pós-modernidade, porém existem. Talvez você não os conheça pelos nomes aqui descritos, mas eles estão presentes no dia a dia de nosso mundo, nos filmes, novelas, jornais, etc. Mais importante aqui é percebermos que o pensamento pós-moderno se encontra nas músicas, pregações, pensamento teológico e no comportamento da chamada igreja evangélica.

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A pós-modernidade

Os pilares da pós-modernidade
A cosmovisão do homem pós-moderno está firmada sobre pensamentos que constroem sua forma de ver a vida, o mundo, a religião, etc. Ainda que o homem comum não perceba que sua mente é formada por pensamentos que podem ser induzidos por um todo social, ele sofre esta influência externa, formadora e sutil de elementos massificadores. Os filósofos alemães Horkeimer e Adorno difundiram o termo “indústria cultural” para designar todo o aparato da diversão popular, veiculada pela televisão, revistas, rádio, propagandas, músicas, jornais, etc. Através da indústria cultural e da diversão se obtém a homogeneização dos comportamentos das massas; a massificação das pessoas. Através deste fenômeno, o rebanho global se torna muito similar quanto à cosmovisão, pois, ainda que haja diferenças culturais e de tradições nacionais entre os povos, as ideias capitalistas são transmitidas e absorvidas em quase todo o globo terrestre, o que faz do planeta quase uma só sociedade. O consumismo dá o tom da música que embala os sonhos de sucesso e os pesadelos de insucesso para o homem pós-moderno. As bases do pensamento pós-moderno são as seguintes:

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Pluralização
Pluralismo é a negação dos absolutos. O homem contemporâneo passou a viver com a diversidade das opções. Analisando este fenômeno, Amorese diz que o homem pós-moderno se sente revoltado com a simples falta de escolhas, portanto, ele passa a evitar as verdades absolutas. É a “sociedade-supermercado”. Quanto a questões de natureza moral, por exemplo, qualquer não aceitação da prática do outro passa a ser interpretada como preconceito, intolerância e não como sendo uma visão de certo e errado. Não aceitar é que é pecado em uma sociedade pluralizada. A “sociedade-supermercado” precisa abolir de sua cosmovisão qualquer verdade que se torne um ponto fixo, para não correr o risco de ser limitada ou castrada em suas opções. A sociedade pluralista vê a religião como “uma” verdade e não “a” verdade. A sexualidade é apenas mais uma opção. Ser heterossexual não é o padrão, é apenas uma escolha, só mais um “produto na prateleira”. Cada um escolhe e “compra” o que quiser e ninguém pode dizer que o outro errou, já que todos podem escolher. Ao abordar o pluralismo como um dos pilares da vida pós-moderna, Gondin conclui que “essa pluralização faz com que as pessoas passem a viver com a assustadora cosmovisão de que todas as questões
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A pós-modernidade

éticas, morais e religiosas não vão além de uma mera opção. Nada mais é mandatório, nada mais é compulsório, nada mais é obrigatório.” (2002, p. 41) No pensamento pluralista, somente faz sentido que as mesmas questões tenham respostas diferentes já que se tudo depende do modo que o indivíduo enxerga o mundo, e, na sociedade pós-moderna, tudo depende do ponto de vista de cada um. O pluralismo é a conclusão lógica de uma visão relativista do mundo. Em uma sociedade mundial em que toda verdade é verdade, todas as verdades se tornam relativas. Não há um ponto fixo, uma moral correta, tudo é relativo e universalmente aceito se não causar prejuízos a ninguém. Esta visão utilitarista3 da vida fundamenta o pluralismo que se desenvolve a partir da relativização da verdade.

Privatização
A segunda coluna de sustentação da cosmovisão pósmoderna é a privatização. Compreende-se por privatização o abismo gerado pela modernidade entre a esfera pública e a privada do homem. Não é errado dizer que este fundamento é consequência do anterior porque não é possível a privatização sem plu3 Utilitarismo – pensamento que diz que tudo é bom se não prejudica a outro.

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ralização. Para compreender esta relação, Amorese propõe o seguinte exemplo: “Veja o conhecido anúncio do cigarro Free: ele sempre termina dizendo que “pelo menos nós temos alguma coisa em comum”. Essa coisa em comum é liberdade para concordar ou discordar. Cada um na sua. Trata-se dizer que se você fez tal escolha, ninguém tem nada com isso, mesmo que o Ministério da Saúde diga que fumar é prejudicial à saúde. Você vive em uma sociedade plural, e, portanto, quanto mais moderna for, mais consciência terá de que suas escolhas são um assunto privado, de sua exclusiva responsabilidade. E as pessoas modernas têm isto em comum: respeitam as opções das outras”. (1998, p. 61) A privatização tem fatores positivos como o respeito à individualidade e à liberdade de escolha do indivíduo, que nada mais é do que o ideal para uma sociedade livre e respeitosa quanto às diferenças. Os regimes totalitários feriram diretamente o direito à privacidade do cidadão, excluindo opções, oprimindo e uniformizando o pensamento do indivíduo comum, enquanto as burguesias mantêm o seu elitismo, escolhendo, optando e sendo o que querem. Por outro lado, a privatização gera a fragmentação entre o homem público e o homem privado. O primeiro faz negócios, vende, compra, pensa, vence e cresce economicamente, po32

A pós-modernidade

liticamente, etc. O segundo vive em família, tem religião, tem um hobby, possui princípios morais, sonha, projeta e deseja ver seus netos crescerem, mas também tem desejos pessoais. As consequências da separação destes dois universos pessoais podem ser terríveis, já que o homem público não sofrerá as influências da ética e dos valores do homem privado. Um exemplo disso é o homem que vive entre a antagônica realidade de seus valores familiares/religiosos e uma vida corrupta nos negócios, ou o pai de família que é exigente com seus filhos e mantém uma relação adúltera, sem perceber claramente que está traindo sua própria consciência e moral. Para este homem pós-moderno não há nada de errado nisto, já que sua vida pessoal ou privada não é, apenas, aquela vivida no lar, mas aquela vivida em si mesmo. O mundo de hoje é bombardeado por notícias de padres pedófilos, políticos corruptos, empresários desonestos, empresas fantasmas, etc. O conflito do homem-público (o padre, o político, o empresário) com o homem-privado (o pedófilo, o corrupto, o desonesto) se ilustra nestes casos. O indivíduo público é visível, o privado é o grande desconhecido livre, ele pode ser o que quiser, o que escolher, ninguém pode impedi-lo, já que tudo são apenas escolhas. Ao analisar as consequências do processo pós-moderno de privatização Gondin conclui que “o pós-modernismo
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prometeu a liberdade, contudo, homens e mulheres que acreditaram nesta promessa encontram-se presos na pior das escravidões: a solidão”. (2002, p. 46) Portanto, a privatização destrói a ideia da sociabilidade, cada indivíduo é responsável apenas por si mesmo e por seu bem-estar, suas escolhas quanto à vida dizem respeito somente a si mesmo e a mais ninguém. Será que isto influencia a vida cristã hoje? Seria a privatização uma questão presente apenas na sociedade secular? Cristãos podem viver desassociando sua vida privada de sua vida pública? Não é preciso muito esforço para que cheguemos à conclusão que a privatização não está tão longe das igrejas como se pode pensar; ela não é uma ilusão filosófica, mas uma realidade concreta. Infelizmente, não é raro ouvirmos de líderes evangélicos que vivem uma vida dupla, entre o pecado e sua posição religiosa, e, muitas vezes, o talento vale mais do que o caráter. Não posso deixar de lembrar de Saul quando penso nisto. Um rei para o seu povo, e um amargurado, um louco enciumado, sedento por matar Davi. Esta realidade só era conhecida por aqueles que conviviam com ele na intimidade. Em seus debates com os fariseus, religosos conservadores das tradições judaicas, Jesus jamais entrou em questões teológicas, seus questionamentos sempre eram na
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A pós-modernidade

área do comportamento transparente que faltava na vida daqueles líderes religiosos. A hipocrisia farisáica era, na verdade, o fato de serem alguém em público e outro alguém em particular. Transparência e coerência são palavras-chaves para quem quer viver o Evangelho e não apenas levar o título de evangélico. Transparência como a dos quatro seres viventes que diante do Trono de Deus vivem em adoração incessante. Apocalipse capítulo 4 relata a visão que João tem destes seres e eles são cheios de olhos, por fora e por dentro. Como era possível ver que tinham olhos para dentro? Apenas a transparência responde a essa pergunta. Ser transparente não é falar tudo que se quer, na hora que se desejar, para quem quiser ouvir, isso pode ser sinal de arrogância! Ser transparente é, antes te tudo, enxergar a si mesmo, ter olhos voltados para si, enxergar-se. Coerência como a de Paulo que é capaz de dizer: “olhem pra mim, sou imitador de Cristo”. Nossas vidas são a maior mensagem evangelística que o mundo pode ouvir! Devemos pregar com a vida, não apenas com as palavras. Sempre devemos preservar a intimidade, a privacidade, a individualidade de cada um, estes são valores fundamentais para a saúde emocional e espiritual do ser humano, porém não vivamos “duas vidas”, não tenhamos dois valores. Sejamos acima de tudo e an35

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tes de tudo o que a Bíblia diz que somos em Cristo: santos. Esta verdade simples, se vivida em plenitude, é uma arma poderosa contra os escândalos.

Desconstrução de identidades
Outro fundamento do pós-modernismo é um fenômeno sofrido por instituições normalmente tradicionalizadas na cultura humana, que passam a conviver com a relativização de tudo, um processo de perda, ou desconstrução, de sua identidade ou características mais naturais. Um grande exemplo disso é o casamento ou a própria instituição familiar, outrora vistos como sagrados e agora como mais uma opção de vida. Basta a observação, para notarmos que o concubinato é prática cada dia mais comum. A severa discussão sobre a legalidade da união matrimonial de homossexuais demonstra a nova face da família pós-moderna, capaz de ver a possibilidade de existir uma família sem a distinção dos elementos pai e mãe, marido e mulher. A geração de filhos se torna uma total impossibilidade, mas aqui surge outra quebra de identidade, já que na pós-modernidade ter um filho pode ser uma experiência independente da família. Criança pode ser uma “produção independente”. Ao desenvolver a ideia das identidades deslocadas ou desconstruídas no pós-moderno, Stuart Hall postula
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A pós-modernidade

que na modernidade tardia a globalização teve um grande impacto quanto às mudanças das identidades sociais no mundo, fazendo com que as sociedades modernas sejam, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente. Com a força das mudanças na sociedade mundial, o indivíduo e as instituições, dentre elas a igreja evangélica e os seus fiéis, sofrem a perda ou a corrupção de sua imagem original ou essencial, gerando então uma crise, um choque, entre a identidade entendida como verdadeira, original e primordial e a nova identidade assumida devido às influências forte e sutil da cosmovisão pós-moderna e sua filosofia de desconstrução. O que isto significa em termos práticos para o universo cristão? Significa que muitos crentes são bem diferentes daquilo que a Bíbila diz de um crente, que igrejas estão em um processo de distanciamento do padrão bíblico, que as vidas alcançadas são confundidas com resultados de um marketing eficiente e que o Corpo está no caminho de se tornar corporação. Este fenômeno de “desvio” nada mais é do que a desconstrução da identidade da igreja cristã. O temor de Paulo em relação à Igreja, em Corinto, cai bem nestas linhas e deve virar um apelo ao nosso espírito - não percamos a simplicidade do Evangelho e a pureza de Cristo -.
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“Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo”. (I Co 11.3)

A secularização
A secularização é o resultado da presença dos três pilares citados na sociedade de hoje. Guinness conceitua a secularização como o processo através do qual as ideias e as instituições religiosas estão perdendo seu significado social. Obviamente, isto é um resultado do pluralismo unido à privatização em um tempo de distorções de identidades, pois o sagrado perdeu seu valor, já que qualquer credo nada mais é do que uma outra opção e isso cabe ao indivíduo escolher o que melhor lhe agradar. No “mercado religioso” não é mais Deus quem nos escolhe, nós o escolhemos na prateleira, diz Amorese. Em uma sociedade secularizada, toda ideia de transcendência, ou seja, toda questão que não envolva o material, se torna secundária, pois o que realmente importa é o agora, o hoje, o prazer, o bem-estar, o ter, o consumir, o resultado. Dom Aluísio Lorscheider, indagado sobre as razões das pessoas não mais aceitarem os conselhos da Igreja sobre temas atuais como aborto, pena de morte,
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eutanásia, ecologia, respondeu assim: “Não é que a Igreja perdeu o poder de aconselhar as pessoas. Ela aconselha, mas as pessoas não aceitam mais esses conselhos, porque não aceitam mais a transcendência. Elas praticamente não aceitam mais Deus, que é quem nos dá normas a partir da própria criação. Deus fez o mundo com sabedoria, mas as pessoas deixaram de fazer esta leitura do mundo. O mundo é visto como uma razão matemática e não mais filosófica, muito menos teológica. Esta é a tendência do mundo de hoje”. Em uma sociedade secularizada não há tempo para Deus e muito menos para Seus preceitos, tão exigentes e retrógrados, a não ser que tanto Deus como Seus preceitos resultem em benefício para o homem: um milagre, uma bênção, uma porta aberta, um salário melhor, etc. É neste tom pluralista, privatizado, sem identidade definida e secularizado que toca a música que embala o crescimento dos evangélicos no Brasil, uma igreja pósmoderna, uma igreja com a forma de nosso tempo.

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Mundanismo pós-moderno – Sutil e venenoso
Pouco tempo atrás o debate teológico evangélico quanto ao mundanismo e a santidade girava em torno de temas que hoje, para a maioria dos crentes e das organizações religiosas, estão resolvidos. Se recuarmos alguns anos, lembraremos que discutíamos sobre roupas, brincos, batons, cortes de cabelo, terno, gravata, certos ritmos e instrumentos musicais. Até mesmo certa versão da Bíblia já fora considerada como a “verdadeira”. Sem dúvida hoje muitos destes debates são parte de um passado recente. De forma geral, já estabeleceu suas soluções para estas cismas, entendendo que são questões locais, usos e costumes e, por isso, mutáveis quanto ao tempo e o lugar. Parece que as palavras de Paulo, pelo menos nestas questões comportamentais, finalmente, foram compreendidas. “Quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu...” (Rom 14. 3) Portanto, a igreja evengélica mostra-se hoje muito mais aberta a aceitação das diferenças denominacionais, enxergando que a fé é o ponto de convergência que elimina todas as possíveis discordâncias, sejam doutrunárias ou comportamentais.
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A pós-modernidade

Entretanto, o debate sobre mundanismo e santidade algumas vezes parece esquecido ou, quando lembrado, volta-se a questões de usos e costumes . A impressão é que tudo foi solucionado quanto a estes temas e que cada segmento evengélico define seus limites éticos. Puro engano. A pós-modernidade, em seus fundamentos já vistos anteriormente, manifesta uma forma muito mais sutil de mundanização das estruturas e das pessoas. O desejo de alcançar a fama, a competição por números, o sucesso financeiro como medida de espiritualidade, a transformação de igrejas em mega-corporações, a visão do ministério como uma boa fonte de renda, a vontade de ter mais do que ser, as mensagens que garantem a solução mágica de problemas, a compra e venda de bênçãos, a transformação do culto em espetáculo, a ideia de líderes como semideuses infalíveis, o triunfalismo barato, o carisma em detrimento ao caráter e coisas como estas, comuns nestes dias, são profundas influências da secularização, ou mundanização, sutil, mas progressiva sofrida pela igreja evangélica de hoje. A sutilieza está no fato de estas coisas virem maquiadas de sucesso, de portas abertas ou de bênçãos, mas nada mais são que distorções da verdade, egocentrismo e engano. Este veneno maligno tem matado pessoas e instituições, transformando o Corpo em corporação e o organismo em simples organização.
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Deus não divide sua glória com ninguém. Qualquer sucesso que não resulte em glorificação do Seu Nome, qualquer sucesso que não tenha a adoração com motivação primordial, qualquer sucesso que não Seu primeiro princípio não seja o de fazer o Nome do Senhor grande, não é promovido por Ele. No mínimo, é apenas realização humana. No mínimo!

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Capítulo

Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade
Já vimos que as igreja evangélicas sofrem a influência da pós-modernidade na condição de instituição presente neste tempo, na história e na sociedade. O pensamento evangélico revela esta influência. A pregação nada mais é do que produto deste pensar teológico, se a teologia for distorcida, a pregação também o será, pois o que se prega é apenas a expressão daquilo que se pensa. É importante notarmos que o ato de pregar não se dá apenas através da exposição pública das mensagens bíblicas feitas nos púlpitos. A igreja expõe seu pensamento, ou seja, prega de diversas formas, e uma das mais comuns é a música. Isto quer dizer que o que cantamos também reflete o que pensamos. Agora, esta é uma estrada de mão-dupla! A maioria das pessoas, membros das igrejas, não formam opinião, mas tem sua forma de pensar formatada por aquilo que absorve. O que quero dizer é que, se a maneira de alguém ver o Evangelho for formada através de distorções aprendidas por pregaçõas, músicas, literaturas,
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Ser em tempos de não ser . Fábio Teixeira

ou qualquer outro veículo propagador de ideias, essa pessoa vai ter uma visão errada da verdade, sendo ela então vítima de um sistema de engano. Mesmo que não seja uma “grande heresia” (se é que existem heresias pequenas), devemos lembrar que “um pouco de fermento leveda a massa toda”, isto é, um pouco de mentira compromete toda uma verdade. Ao menos três pensamentos teológicos podem demonstrar esta sutil realidade. Isto é o que veremos a partir de agora.

O homem no centro do universo
O Iluminismo transformou Deus em uma experiência humana, um Deus organizador, interior e necessária ao bem-estar social. O mundo moderno passou a tolerar a religiosidade desde que esta lhe seja socialmente útil e fruto de uma opção pessoal. Ao dar ao homem o status de centro do Universo, o Iluminismo fez de Deus um instrumento da felicidade humana. Esta cosmovisão antropocêntrica4 tomou o pensamento ocidental como um todo, incluindo o próprio cristianismo como parte deste universo. Segundo Gondin “a partir daí o relacionamento com Deus se daria numa perspectiva humanista e não teocêntrica”. (2002, p. 118)
4 Antropocentrismo – Homem visto como centro do Universo.

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Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade

A teologia do início do Século XX foi marcada pela controvérsia entre o liberalismo e o conservadorismo. O primeiro buscava alternativas mais lógicas e condizentes com o homem moderno para a interpretação bíblica e para a moral cristã, o conservadorismo, por sua vez, continuou batalhando pela inerrância das Escrituras e pela firmeza dos alicerces da fé. Com total sutileza, ambos os grupos foram contaminados pela mentalidade humanista e secularizada da modernidade. Assim, surge no ocidente o que pode ser chamado de pseudo-evangelho, que afirma a felicidade humana como principal ação da vontade divina; a solução de problemas como prioridade e prova do poder sobrenatural do Evangelho e o sucesso pessoal como projeto de Deus para o ser humano, manifestando-se, principalmente, nas questões financeiras. Um evangelho assim é conveniente e convincente, porém nem sempre coerente com a verdade bíblica. Ao colocar o homem no centro da mensagem evangélica, a pregação torna-se autoajuda, o culto se transforma em show ou entretenimento, o evangelismo vira alcance de metas numéricas, a adoração muda-se em “música de trabalho”, os líderes passam à condição de estrelas e ditadores, os dízimos e ofertas são vistos como investimentos rentáveis e o Corpo não passa de uma corporação.
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Ser em tempos de não ser . Fábio Teixeira

Um dos maiores fundamentos deste evangelho humanista é a teologia da prosperidade, negada pela maioria e pregada por este mesmo quantitativo. Este pensamento, totalmente presente na teologia evangélica pós-moderna, baseia-se na visão de que a prosperidade financeira, a saúde e o sucesso pessoal são direitos dados por Deus, como herança terrena, a todos os crentes, assim sendo, a pobreza e a vida cristã são incondizentes, se um crente é pobre ou está enfermo há algo errado com sua fé: ou não crê ou está em pecado. É notável que a maioria dos movimentos evangélicos não se declaram publicamente adeptos de teologias, como a da prosperidade, a do movimento da fé ou a da confissão positiva, contudo estas ideias estão ativas na teologia cristã hodierna, gerando relacionamentos interesseiros com um Deus frágil que cede às determinações de seus fiéis. O texto citado, a seguir, descreve o risco e o nível de influência destas ideias sobre o pensamento evangélico pós-moderno, a ponto de estar transformando a esperança do porvir em um simples sonho terrenal. Citado por Bettencourt, M. Lenz analisa o atual cenário protestante desta forma: “Até bem pouco tempo uma respeitável fatia da igreja cristã empurrava todas as bem-aventuranças para o céu e para a eternidade. Dizia-se então que era ne46

Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade

cessário suportar pacientemente o sofrimento presente, inclusive a injustiça social, porque “a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador” (Fp 3, 20-21). Esta posição extremada fechou a boca da igreja, deixou inteiramente à vontade os corruptos e os opressores deste mundo e deu oportunidade e espaço à teoria marxista de que a religião é o ópio do povo. Graças à ênfase socialista e à redescoberta do evangelho integral, a fase do chamado “celeste porvir” viveu seus derradeiros dias. Mal se livra de um grotesco extremismo, outro se estende célere e com força total. Neste final de século, estamos passando do celeste porvir para o “aqui e agora”. Ao invés de empurrar todas as bemaventuranças para o céu e a eternidade, a Teologia da Prosperidade está trazendo o celeste porvir para o terrestre presente. Para comermos a melhor comida, para vestirmos as melhores roupas, para dirigirmos os melhores carros, para adquirirmos muitas riquezas, para não adoecermos nunca, para morrermos entre 70 e 80 anos - basta crer no coração e decretar em voz alta a posse de tudo isso. Basta usar o nome de Jesus com a mesma liberdade com que usamos nosso talão de cheques. Ora, tudo isso parece uma loucura, já espalhada por todo o mundo, que precisa ser corrigida. Antes que haja um conluio da fé cristã com o secularismo, o materialismo,
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o consumismo, a Ciência Cristã e a neurolinguística. Antes que não sobre nada para o dia das bodas do Cordeiro. Antes que não haja mais nenhuma surpresa guardada para o crente no celeste porvir. Antes que a esperança cristã se torne desnecessária e se aposente”. (BETTENCOURT, 2004) Sob o peso da cosmovisão pós-moderna a igreja evangélica tem humanizado e secularizado sua teologia e, como consequência, sua pregação, já que esta propaga tão-somente o que aquela conclui.

O culto dos sentidos
O Culto dos Sentidos é uma contradição ao “culto racional” referido por Paulo em Romanos 12.2. Este fenômeno do presente é fruto da ênfase pós-moderna em tudo que desperta sensações, no imediato, no aqui e agora, no entretenimento e na busca por emoções. “Jesus e o Espírito Santo converteram-se nos produtores mais eficazes dos bens de consumo religioso. Deus está aí para solucionar os meus problemas, está à minha disposição para modificar o universo de acordo com meu capricho. Podemos acrescentar que Deus está aí para fazer-me sentir “bem”, para fazer-me “vibrar de alegria”, para provocar em mim emoções mais fortes, para encher-me de paz.” (SALINAS & ESCOBAR, 2002, p. 53)
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Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade

Uma análise das músicas cristãs contemporâneas revela a veracidade do seguinte fato: há hoje uma supervalorização da sensação, do sentimento humano. Muitas mencionam o sentir, o ver, o tocar e outras formas de experiência dos sentidos. Contrastando com isto a hinologia evangélica se esvazia, dia a dia, de termos como arrependimento, conversão, cruz, e outros tão presentes na mensagem de Cristo. A música é apenas um exemplo, pois as mensagens nos púlpitos também se encaixam no Culto dos Sentidos. Muitos temas pregados hoje se direcionam ao bem-estar e não ao arrependimento; à autoestima e não à conversão; para levantar a plateia e não para confrontar pecadores com a santidade de Deus. O uso de frases de efeito e a manipulação das emoções são elementos tão comuns ao culto evangélico que já se tornaram parte da vida de pregadores e ouvintes. Creio que a frase “você nasceu pra vencer” seja hoje bem mais comum em diversos púlpitos do que a verdade: “Jesus morreu por você”. Desta forma, a igreja não fica com aquilo que é bom da pós-modernidade, mas antes se abre para a entrada daquilo que é negativo, deixando de ser contracultura para ser fenômeno cultural. A proposta de Cristo é a de ser diferente e não igual. Se a igreja perde a identidade de contracultura, ela perde sua própria
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identidade essencial: ser luz e sal. Não podemos viver mudando o conteúdo pelo estilo, a verdade pelas impressões, a base da fé por emoções, o compromisso pelo espetáculo, a vocação pela manipulação psicológica, o arrependimento pela decisão sem mudança de vida, a centralidade da Palavra pela valorização dos números. O que vemos acontecer hoje nos remete aos tempos de Jeremias. Ressoava naqueles dias entre os judeus uma mensagem de paz. Os profetas diziam que tudo estava bem, porém esta era uma palavra mentirosa. “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz. Serão envergonhados, porque cometem abominação sem sentir por isso vergonha; nem sabem que coisa é envergonharse. Portanto, cairão com os que caem; quando eu os castigar, tropeçarão, diz o SENHOR.” (Jer 8.11e12) A história se repete. O triunfalismo, o discurso capitalista, o crescimento numérico, parece indicar que tudo vai muito bem nos arraiais evangélicos e que a igreja vive o ápice de sua história. Analisemos com clareza, de forma sábia e racional e perceberemos que há uma crise ampla instalada. Há competições, demonstrações públicas de sucesso, programas de televisão evangélicos que são verdadeiras vitrines do sucesso ministerial, considera-se infeliz o ministério que não
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Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade

está na mídia. Chegamos a uma profunda crise de poder. O discurso de unidade está em moda, mas todo caminhar em unidade se dissipa quando se discute quem vai liderar a comunhão. Muitos querem ser os manda-chuvas, poucos querem servir aos irmãos. Se o Mestre, o Senhor, o Rei disse: ”Eu vim para servir, não para ser servido” (Mc 10.49), que diremos nós? Liderança é serviço. O pastor trabalha pelas ovelhas, logo as serve. O bom pastor serviu-nos com sua própria vida. Temos que lutar pela verdade com a verdade. É preciso um grito contra a hipocrisia, dos que não suportam a realidade desnudada diante de si. Cumpre-se a Palavra, mas que esse texto transcrito abaixo não esteja se tornando fato em nós. “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.”(II Tim 4.3e4)

Hedonismo cristão
Para a filosofia, hedonismo é a busca pelo prazer como razão da vida. Sua aplicação quanto à teologia cristã influenciada pelo pós-moderno é uma consequência dos fenômenos anteriores, ou seja, em função da humani51

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zação da teologia e da hipervalorização dos sentidos nasce uma visão hedonista do cristianismo, centrada nas realizações imediatas, na prosperidade financeira, nos sonhos humanos, no estar “feliz da vida”. Hoje, parece que a vida cristã já não é renúncia, mas sim prazer; já não é cruz, mas tão-somente vitória. É bíblico entender que a vida em Cristo não são somente lutas e provações, porém o verdadeiro cristianismo inicia-se com a proposta de Cristo, “quem quer vir após mim negue-se a si mesmo, tome sua cruz e venha”. A mensagem cristã não é contra a vida, mas também não é uma celebração ao prazer, já que apela para o ato de renunciar, de morrer para si mesmo como testemunho de fé. O simbolismo do ato de iniciação da fé cristã, o batismo, não é outro senão este, a morte para o eu e a ressurreição para Deus. Continuar uma vida de fidelidade a Deus nada mais é que o abrir mão de vontades e desejos para agradá-lo em amor. Tanto no Antigo Testamento como no Novo, há declarações bíblicas que condenam o pensamento do hedonismo imediatista, que diz: “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Este imediatismo do prazer, da vitória, da bênção aqui e agora, rouba uma das bases da esperança cristã, que é a certeza de um porvir de paz, a vida eterna. Para que aguardar que um dia Deus enxugue dos olhos do crente todas as lágrimas se o verdadei52

Teologia e pregação evangélica na pós-modernidade

ro cristão só chora de alegria? Se aqui na terra todo crente tem que ser rico, que nível de esperança futura resta? É fundamental destacar que Cristo promete vida abundante, paz no presente e no futuro, mas o triunfalismo gera uma utopia hedonista distanciada da realidade humana de lutas e tempestades que atingem a todos, crentes e não crentes. O cristianismo verdadeiro prega a esperança futura e fortalece a segurança no presente, mas sem jamais garantir que o crente só viverá nesta vida terrena, deleites, prazeres e vitórias. Se Cristo não viveu assim, quem poderá reivindicar este estilo de vida?

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Capítulo

A ética cristã e a pós-modernidade
Ao absorver a ausência de absolutos como verdade, o homem da pós-modernidade se depara com uma contradição, já que o relativismo passa a ser sua verdade absoluta. Entretanto, a sociedade pós-moderna não contempla sua própria contradição filosófica, restando ao homem pós-moderno a relativização da moral como única opção (o que é outra contradição filosófica, já que o pluralismo defende a necessidade de escolhas múltiplas). Segundo Gueisler “todos têm um ponto fixo (ou um absoluto), até os relativistas. De outra forma, não poderiam afirmar que têm uma visão correta da realidade. Os defensores do relativismo podem expressar suas convicções de modos sutis e velados. Entretanto, quando expressos em português claro, seus absolutos ficam óbvios”. (2001, p. 45) O niilismo, termo filosófico que afeta as mais diferentes esferas do mundo contemporâneo, é a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade. A amoralidade de Nietzsche se faz presente de forma maciça, porém sutil, na mente pós-moderna. Nada é
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Ser em tempos de não ser . Fábio Teixeira

proibido, nada é errado, sendo assim, nada é absolutamente certo, toda moral é uma questão de escolha. A ética pós-moderna quer demolir a ideia de um ponto fixo, da existência de um nomos5 um modelo moral quanto ao juízo de valores. A religião, como um produto, não dita regras gerais, mas apenas para aqueles que “a compram”, demonstra aquilo que se deve e que não se deve fazer. Sem um nomos resta a escolha, a opção, a vontade. Aqui está o perfil do super-homem nietzscheniano, sem regras, sem limites morais. Ao invocar este homem superior, Nietzsche proclama a morte de Deus, não uma morte mitológica, mas antes uma morte da moral. O nomos sagrado, castrador de desejos, tem que morrer para que surja um homem livre, sem ter nada que o acuse, sem pecados ou pecado6. A morte de Deus, para este filósofo alemão, não era uma questão de lucidez intelectual, mas uma questão existencial. Deus tem que estar morto para que o homem se sinta livre, por isso, Nietzsche não afirma que Deus não existe, mas, sim, o querer que Deus não exista. Para Nietzsche o homem é individualidade irredutível, que despreza qualquer verdade estabelecida, estando sempre pronto para se exprimir na vida, superando as formas da tradição nos seus atos, e este é o resultado desta cosmovisão aética, é a ausência de valores definidos.
5 A palavra grega nomos (lei) aplica-se aqui a ideia de uma ordem moral maior, regente de valores totalitários. 6 Pecados – falhas, erros; Pecado – natureza originalmente pecaminosa que leva o homem a cometer pecados.

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A ética cristã e a pós-modernidade

A questão que surge, diante desta realidade moral hodierna, é se a igreja evangélica tem sofrido influência destes fatores da pós-modernidade no campo da ética. Um dos maiores perigos à verdadeira fé cristã é o crescimento simplesmente numérico das igrejas evangélicas no Brasil. Esse fenômeno de transformação da fé cristã de alternativa para pop7 compromete a qualidade do cristianismo vivido e isso se reflete na prática desta fé, e o que é a ética cristã senão a fé praticada? Assim o relativismo, intrínseco ao homem contemporâneo, é levado para os arraiais evangélicos sem que se perceba o quão distante está o verdadeiro Evangelho de Cristo. Nos pontos seguintes, veremos áreas em que a ética cristã é substituída pela ética secularizada, pela Lei dos resultados, onde o método substitui o conteúdo.

Crescimento numérico – parâmetro para o sucesso
O crescimento do povo evangélico é fato inegável na sociedade contemporânea. Nos últimos vinte anos, a população evangélica cresceu cerca de 5,18% ao ano, contra 2,5% do restante da população. Vários fatores contribuem para este fenômeno que não vão aqui ser demonstrados, porém vale ressaltar que há alguma positividade no crescimento das igrejas, mesmo que
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Ser em tempos de não ser . Fábio Teixeira

contenham elementos desfocados teologicamente. O que se mantém poderoso e eficaz é o Evangelho de Cristo, a mensagem da salvação, esta não volta vazia, cumpre o propósito divino de buscar e salvar o que se havia perdido, sem limites de tempo e lugar e, ainda mais, sem os limites das instituições e dos pensamentos humanos. O Evangelho sobrevive à calamidade ética da pós-modernidade. O Evangelho sobrevive ao caos humanista da teologia contemporânea, mesmo que pareça esquecido no canto dos auditórios lotados de pessoas sedentas por respostas mágicas, terrenas e rápidas, o Evangelho sobrevive. Por ser sobrenatural, o poder de Deus para a salvação dos que creem, o Evangelho, mantém-se vivo. O que se torna questionável é a medida numérica como parâmetro de “sucesso ministerial”. Números se igualam ao sucesso na mente de muitos líderes cristãos de hoje, o que faz com que a “bênção” seja medida através de conquistas, propriedades, bens, membresia, etc., restando uma única opção para a não frustração ministerial: uma igreja grande numericamente, onde , muitas vezes, a quantidade vive independente da qualidade. A sociedade pós-moderna, movida pela indústria do entretenimento, tem na fama o seu padrão de sucesso. Uma sociedade sintetizada em reality shows como o
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A ética cristã e a pós-modernidade

“Big Brother”, onde a moral foi substituida pela notoriedade. Não importa o meio para se vencer, o importante é vencer; e neste caso ser vitorioso não é apenas ganhar o prêmio final é, acima de tudo, ser famoso. Aplicando este espírito à realidade evangélica associa-se números com fama; uma grande quantidade de adeptos gera notoriedade. Os meios para a conquista deste destaque que vem dos números, muitas vezes, são verdadeiramente obscuros e questionáveis sob a ótica da ética cristã. Esta mentalidade pós-moderna, aficionada por resultados, tem causado um enfraquecimento da moral transformando-a em força numérica e tem mudado a conversão em adesão, quando se trata de salvação e do início da caminhada cristã. Segundo Yancey, “pelo sistema bíblico da conversão e não da adesão, a colheita de almas é difícil, pois a porta é estreita e o caminho é apertado (Mt 7.13 e 14). O pecador precisa ter consciência do pecado, arrepender-se e negar a si mesmo (isto é, impedir que o eu seja o centro de seus atos), tomar a sua cruz (isto é, estar disposto a sofrer e morrer por amor ao Senhor) e seguir a Jesus até o último dia (Mc 8.34)”. (Ultimato, p. 34, julhoagosto 2005) Com o objetivo de atrair as multidões, o marketing dos milagres é o cartão de visita de muitas institui59

Ser em tempos de não ser . Fábio Teixeira

ções evangélicas hoje. O que esse tipo de marketing produz? Uma tentativa de se enquadrar os milagres na lei do mercado, se há procura deve haver uma mercadoria oferecida para supri-la. Desta forma, se há problemas difíceis demais, tristes demais e complexos demais, devem haver milagres, então se monta uma banca de ações sobrenaturais e o nome de Deus é usado inescrupulosamente. Não penso que as igrejas não deva pregar milagres, eles são reais e bíblicos, porém jamais poderão ser instrumentos de marketing, como têm sido utilizados nestes últimos anos, de forma sensacionalista, popularesca e mercantil.

Mercantilismo da fé
A sociedade pós-moderna é extremamente mercantil, todo e qualquer segmento se torna um filão comercial. Há mercados especializados para todos os meios. A partir da década de 90 a igreja evangélica começou a ser vista como um mercado promissor. Nada mais normal e lógico para as sociedades capitalistas. Os produtos evangélicos tomaram uma parte do mercado devido à força do crescimento dos crentes, que formam um grupo de consumidores com tendências exclusivistas, ou seja, que prioriza os produtos com características do seu meio. Pergunta-se: onde está o risco deste crescimento do mercado evangélico?
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A ética cristã e a pós-modernidade

Segundo o Pr. Ariovaldo Ramos: “Essa coisa do consumismo é contra a pregação do Evangelho. Quando isso acontece dentro do arraial cristão é mais perigoso ainda, porque tudo o que é transformado em mercado acaba sendo desviado dos princípios de fé, virando um fim em si mesmo”. (www.geocities.com/realidadebr/rn/protestante/p260700.htm; 2005) O risco de se ver a igreja como um mercado está na descaracterização do propósito desta, que é a pregação do Evangelho e não o comércio. Um bom exemplo disso é o mercado fonográfico que exige padrões artísticos e transforma ministros em popstars para atender a esta demanda do mercado. Cantores e pregadores são idolatrados como qualquer artista. Isto pode ser chamado de inovação ou contemporanização, mas no cerne desta questão está a secularização da fé com objetivos comerciais. Tudo isto é mais uma consequência da grande presença dos ideais de prosperidade na mentalidade cristã contemporânea. Ocorre hoje um processo de deformação da verdade cristã original. A pregação evangélica de nosso tempo se detém, em grande escala, aos temas que tratam de sucesso material. De forma analítica, podemos dizer que, para muitos cristãos do Terceiro Milênio, a conquista de bens é a terra prometida. Nada parecido com o ensino de Cristo e de seus
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apóstolos sobre a esperança vindoura e sobre o não acúmulo de riquezas. Tudo isto alimenta o mercado evangélico. Se alguém precisa aprender sobre como prosperar, deverá adquirir tudo que possa lhe ensinar sobre a fórmula da prosperidade. Mensagens, literaturas, objetos ungidos, etc., são vendidos como a fonte da juventude, a varinha de condão, a palavra mágica. Comprou, mudou. Será?

O culto evangélico na pós-modernidade
Relacionar o culto evangélico com ética é uma questão lógica. O culto nada mais é que a exteriorização da teologia, do pensamento, do credo, e tudo isto resulta em comportamento religioso, que tem no culto sua expressão pública. A ética e o culto jamais se separam. O princípio fundamentalmente ético está na conduta de cada indivíduo, na maneira de interagir na sociedade através do comportamento, atitudes e pensamentos julgados como corretos moralmente. A ética cristã tem seu fundamento na Bíblia, em relação ao certo e o errado. O Novo Testamento é o livro texto da moral cristã, e Jesus é o seu exemplo prático. Os cultos revelam no que creem os evangélicos. O que se nota hoje é uma conotação competitiva e mer62

A ética cristã e a pós-modernidade

cantil nessas celebrações, com a oferta de “produtos” de acordo com a necessidade da clientela, além da busca pelo inovador, o inédito, como meio de conquistar uma maior parte do “mercado”. Toda esta distância em relação ao texto bíblico, que denota culto como adoração sincera, se dá por influência da cosmovisão secularizada da contemporaneidade. Deus é apenas um mero coadjuvante, não o centro do culto, pois as atenções estão voltadas para o que é humano. Ora é o cantor convidado, ora é o pregador de renome; outras vezes, o público com suas necessidades, que está ocupando o centro das atenções nas reuniões evangélicas, ainda chamadas de culto. Tudo isto revela uma ética questionável e negociada pela competição mercadológica que transforma o tal culto e a devoção em show e entretenimento. A Igreja existe para ser luz e sal em um mundo em trevas. Se falhar nisso, a Igreja fracassa em sua missão. A presença constante de temas de autoajuda nos cultos evangélicos é outro elemento notório quando o assunto é a ética cristã. Muitas mensagens evangélicas se tornam mais próximas dos textos de Lair Ribeiro8 do que do texto Sagrado. Deste segundo restam fragmentos que, alheios ao seu contexto, fortalecem as ideias triunfalistas, fantasiosas, daqueles que afirmam
8 Escritor, conferencista e palestrante motivacional brasileiro.

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e reafirmam que o Evangelho resulta na solução de todos os problemas do homem, e que o crente, por ser “mais do que vencedor” e por “poder todas as coisas”, está acima da realidade humana, ele é quase um invencível ou um semideus. Nossa força e vitória não são propriamente nossas. A fraqueza humana fortalece a dependência de Deus. Jamais podemos negar que o Evangelho nos levanta do pó, nos tira do monturo, alegra o triste e renova as forças do cansado, todavia, a mesma mensagem que conforta também confronta. Será que devemos sair de todas as reuniões jubilantes? Não seria saudável também que saíssemos das reuniões reflexivos quanto à nossa condição espiritual? O Reino de Deus é alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). A alegria é “no” e não “do” Espirito Santo. Isto é uma tremenda verdade quanto à maturidade na vida com Jesus. Nossa alegria não apenas vem Dele, mas é Ele. Devemos nos alegrar Nele. Não é uma alegria que emana de Deus pra nós, mas que está em Deus e é para nós. Para vivermos esta alegria precisamos nos achegar a Ele. A alegria do salvo é o Senhor. Seu caráter e Sua vida são motivos para nos alegrarmos. A felicidade do cristão é fruto de sua vida de Comunhão com a Palavra, em santidade, justiça e amor.

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conclusão
Há uma grande responsabilidade em versar sobre problemas de alguém ou de algum grupo, já que se corre o risco de partir para uma crítica barata, o que, em se tratando de uma postura responsável, não faz o menor sentido. Meu desejo é contribuir para o crescimento da saúde espiritual, moral e emocional dos que se dizem seguidores de Cristo, ou seja, meu compromisso aqui é com pessoas e não com organizações comumente chamadas cristãs, mas que se distanciam cada vez mais de Cristo em um processo de secularização de si, por causa de suas próprias metas e propósitos. Para isso, nesta conclusão, coloco posicionamentos claros e diretos que, penso, serem úteis para que o leitor visualize o quão graves são os fatos que envolvem os efeitos da corrupção da essência cristã de muitas instituições evangélicas. Há uma tênue linha divisória entre o que é positivo na modernidade tardia e o que é negativo em seus postulados filosóficos. A sociedade como um todo não consegue separar estes aspectos antagônicos da era pós-moderna, já que está participando de seu acontecimento contínuo e presente in loco. Como parte deste tempo, as igrejas, assim como todas as instituições e pessoas, também tendem a não notarem as influências
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da pós-modernidade em seus pensamentos, pregações e atos. Portanto, a única solução é que pessoas, repito, pessoas despertem para estas sutis influências do pensamento relativista e secularizado resultantes da cosmovisão pós-moderna e, despertados, não fechem os olhos para questões tão óbvias diante de si: há uma distância gigantesca entre o espírito do Evangelho e os movimentos evangélicos, desta distância advém muitos abusos e muita gente ferida achando que está amaldiçoada porque resolveu ver o que muitos líderes religiosos não querem que ninguém veja. Acredito, sim, que muitos pastores também não conseguem enxergar os fatos do jeito que são, mas que há também uma boa parte que não deseja ver.

Assim sendo, proponho algumas reflexões:
• Quanto aos fins e aos meios A inversão entre estes dois pólos indica uma mudança de essência e propósito. O fim da Igreja de Jesus é ser o meio para que o evangelho seja visível através da vida dos discípulos do Mestre de Nazaré. Esta visibilidade do Evangelho deve estar tanto nas relações da coletividade quanto na vida pessoal. Qualquer organização, instituição cristã, igreja, associação etc, é, apenas, um meio para que a Igreja alcance o seu fim. Há, nestes dias uma clara inversão destes valores.
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Conclusão

Muitas igrejas se portam como fim, fazendo com que as pessoas as sirvam como quem serve a Deus. Servir a uma organização não representa servir ao Senhor, ao menos não por si só. As igrejas deveriam existir para servir a Igreja, com meios para que esta alcance o seu fim: o Evangelho de Jesus na vida. O que acontece não é isso, já que muitas instituições se mostram como um fim em si mesmo, fazendo com que as pessoas as sirvam e não servindo a ninguém que esteja fora do seu raio de interesse.

• Quanto à centralidade de Cristo Para que o verdadeiro objetivo do Evangelho não seja perdido, é necessário um retorno ao sentido bíblico para a vida, onde Cristo é o centro e a razão de tudo, incluindo qualquer teologia, mensagem e modelo ético. O que vemos hoje é que o antropocentrismo impera e não o cristocentrismo na mentalidade e nas ações de muitos movimentos evangélicos, principalmente nos que são tangidos pelas idéias de prosperidade. Cabe dizer que a Teologia da Prosperidade, nascida nos EUA no início dos anos 80 e trazida para o Brasil nos anos 90, é hoje, praticamente, censo comum entre os evangélicos, sendo adotada até por quem diz repudiá-la, mas que, porém, não nega partes interessantes a si desta distorção do evangelho. Como parte interessante, destaca-se a ideia das bênçãos advindas
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das doações de dízimos e ofertas e estes como único meio estabelecido por Deus para que a pessoa usufrua da prosperidade conquistada na cruz por Jesus Cristo. Dizimistas e ofertantes possuem o direito de decretar a bênção e de cobrar de Deus que cumpra suas promessas. Se Cristo é o centro da vida, o que menos importa é o que se recebe em troca do que se faz, e o que na verdade importa é servi-Lo no serviço ao outro. O que se vê hoje, é uma grande valorização ao ato do crente dar dinheiro para que as organizações, confundidas com a Igreja de Jesus, cresçam e verdadeiros impérios humanistas sejam edificados. Reino de Deus? A humanização do pensamento faz do ser humano a razão de ser. No Reino, o homem é o alvo não o centro. Se a teologia e a pregação cristã não forem cristocêntricas, resta o antropocentrismo. A cada dia, portanto, se pregará mais sobre as realizações humanas e sobre os sonhos pessoais. Isso é o que já tem ocorrido, basta assistir os tele-evangelistas e constatar que, com raras exceções, a mensagem não é outra senão um humanismo barato e cheio de promessas mágicas, distantes do Evangelho, mesmo que se fale em nome de Jesus.

• Quanto à ética É preciso um forte referencial ético em meio ao relativismo moral da pós-modernidade. Se diante da cons68

Conclusão

tante desmoralização por conta de escândalos financeiros, políticos e morais de quem, supostamente, carrega a imagem de ética e moralidade, como são os líderes religiosos, não reafirmarmos a verdade de que Deus não os “encobre” em seus erros e que, ao contrário disto, são pecadores como qualquer um outro, passíveis de colher o que plantaram e também alvos da graça de Deus, como qualquer pecador que se arrepende, o discurso e a prática de uma moral bíblica vai caindo no desuso. As teologias que reafirmam a diferença de status entre líderes e liderados no mundo espiritual, onde liderados dão conta a homens e líderes são corrigidos diretamente por Deus, criam um ambiente de medo aos que, desavisadamente, passam os abusos cometidos por sua “Autoridades Espirituais”. Relações muito doentias são criadas neste âmbito. Dominadores e dependentes se retroalimentam , pessoas perdem a sua identidade, o tempo para a família, e até a vida, em nome do serviço dedicado a uma liderança espiritual. Quando não concordam, são rapidamente tratados como traidores, já que esta relação de princípios doentios se baseia na gratidão cega que, na verdade, é o eterno débito do liderado para o seu líder. “Quando você chegou aqui não era nada”, frases assim são repetidas para fortalecer este paradigma da dominação: o débito. Em Jesus, o referencial de vida e fé, não vemos nem domínio, nem débito. Ele veio para servir, e levou
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sobre si o que nós devíamos a Ele. A ética de Jesus é a ética do certo pelo certo, o sim é sim e o não é não. Impossível negociar com Ele. • Quanto às igrejas e à Igreja Estes são dois valores completamente diferentes que podem, ou não, se encontrar na mesma realidade. As igrejas são organizações religiosas regidas por seus estatutos e geridas de acordo com a forma de governo eleitos como sendo melhores para si. As igrejas, como qualquer outra organização, vivem no universo dos homens, portanto são humanas. A Igreja é um organismo composto por gente que encontrou-se com Jesus e por Ele foi encontrada. Gente que, em nome dEle, se encontra uma com as outras e reúne-se. A Igreja de Jesus são pessoas, independendo de quantidade e postos hierárquicos. As hierarquias são realidades organizacionais. O problema está na confusão entre igrejas e Igreja, aliás, confusão muito comum nestes dias em que tudo toma moldes institucionais para existir . As igrejas propõem a espiritualização do que é humano e humaniza o que espiritual. Espiritualiza-se os cargos e títulos como se fossem parte de uma realidade celestial, portanto, crescer dentro de uma organização é visto como crescer espiritualmente. Quem já viveu isto sabe bem que não há nada de espiritual na corrida pelos títulos e no status das hierarquias. Tudo isso é
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Conclusão

extremamente humano. Por outro lado, os ministérios são regidos por estes títulos e cargos, e dessa forma não se enxerga o exercício ministerial fora dos padrões organizacionais, assim, as igrejas regem os ministérios de acordo com o seu formato e interesse. Ministério é serviço, é coisa da Igreja, é função no Corpo e não requer título ou posição hierárquica, é apenas servir. Aqui temos apenas um exemplo de humanização do que é espiritual. As igrejas podem ou não congregar a Igreja, e isso é coisa que ninguém pode julgar. Quem é Igreja, simplesmente é. Seus frutos de amor pelo Senhor é que testemunham isso. A Igreja pode reunir-se em qualquer lugar, não precisa de um lugar sagrado, já que o lugar santo é ela mesma: gente feita santa pela graça de Jesus. As igrejas defendem seus ideais e interesses; a Igreja só tem um ideal e interesse: Jesus. As igrejas levantam suas bandeiras, dogmas e slogans; a Igreja só levanta o Evangelho. As igrejas perseguiram e perseguem seus inimigos; a Igreja aprende que é preciso amar os inimigos e orar por eles, fazendo assim com que o vulto da inimizade termine.

• Quanto aos números Seria muito bom se os ministros esquecessem da fama e se voltassem para Deus, que é quem estabelece ou abate. Uma vida de oração e compromisso com a Palavra é o segredo para um ministério frutífero, o que
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nem sempre significa vultosos números. Como já dito, ministério é simplesmente servir. As multidões pouco representam. Ministério de sucesso é preocupação de quem quer ser o primeiro no Reino. Quem discute isso pouco sabe de Quem nos ensinou que o maior é quem serve, e este, por ser servo, nem se importa em ser o maior. Que os líderes se convertam em servos, e que alguns, não sei quantos nem quais, realmente se convertam. • Quanto aos meus e aos seus Pronomes possessivos não combinam com relações saudáveis. No evangelicalismo eles estão muito presentes. É o meu pastor, a minha igreja, a sua igreja, a sua ovelha, a minha ovelha e, tudo isso, é uma grande ilusão. Ninguém é dono de ninguém senão o que é Senhor de todos. Estas relações de posse já machucaram muita gente. Pessoas que entraram livres em uma comunidade de fé, se tornaram um bem de seus líderes e quando quiseram sair se feriram profundamente. A entrada é larga e com “bem-vindos”, a saída é um corredor de navalhas. A ilustração, infelizmente, é real. As possessividades estão na origem das feridas mais doloridas deste universo.

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Conclusão

Uma última palavra
Alguns leitores podem ter sentido a falta de longos textos bíblicos ou de listas de referências para fundamentar alguns argumentos aqui expostos. A ausência deles foi proposital, primeiramente pelo fato de alguns não estarem familiarizado com tal prática; segundo, porque este não é um trabalho de estudo bíblico e, terceiro, a mensagem bíblica, no espírito da verdade nela descrita, está presente em muitas linhas aqui escritas, mesmo sem a citação direta do texto sagrado. Para finalizar, entretanto, quero te propor uma visão rápida sobre um dos versículos mais conhecidos do Novo Testamento. Romanos 12.2 possui, em seu texto original, duas expressões que revelam profundas verdades que se encaixam muito bem em tudo que foi descrito aqui e, principalmente, nesta parte conclusiva. As expressões são as seguintes: mé siskematízeste e metamorfúste. A primeira traduz-se por “não sejais amoldados” e a segunda por “sede transformados”. O interessante é que os dois verbos aqui utilizados estão na voz passiva, logo, o sujeito sofre a ação, por isso o uso do verbo auxiliar “ser” nas duas traduções (sejais e sede). Como a voz dos verbos é passiva, outra opção é a inclusão do verbo “deixar” nas expressões. Neste caso, tal verbo destaca ainda mais a passividade do sujeito na ação. Dessa forma teríamos: não se deixem
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amoldar ou conformar e se deixem transformar. Com qualquer uma das opções de tradução, no sentido do texto original, destacam-se as seguintes verdades: • Para se amoldar, conformar ou tomar a forma deste sistema sutil e dominador, basta não fazer nada . O não agir faz com que o indivíduo conforme-se aos padrões deste século, sendo apenas mais um em meio a um todo dominado; • Algo então precisa ser feito, este algo é se deixar transformar pela renovação da mente. A proposta da Palavra é de uma rendição de si ao evangelho, é se deixar transformar. Não há invasão, há um Deus que, por amor, transforma aqueles que se deixam mudar, e, mudados, não se tornam perfeitos, mas, sim, livres para ser luz do mundo e sal da Terra. O instrumento desta transformação é a Palavra de Deus. O que seria a transformação da mente senão a mudança de paradigmas e da cosmovisão? Só há duas possibilidades: ou o indivíduo se conforma ao mundo, ou se deixa transformar pela Palavra de Deus. O desafio lançado é o de ser discípulo de Jesus de verdade, em tempos em que o não ser é a ordem do dia. Não adianta dizer-se cristão, não adianta ser membro de uma igreja, não adianta ter todos os dons
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Conclusão

e talentos, não adianta frequentar reuniões, construir templos e nem qualquer outra coisa feita em nome do Evangelho, diante de uma realidade tão sutil e ao, mesmo tempo, agressiva que é capaz de engolir todas estas coisas de forma que elas, mesmo com jeito de santidade, se corrompam a tal ponto que se tornem expressões de um secularismo absoluto. O que fará a diferença é mudança de mente, de essência, de vida. Jesus inicia o seu ensino, segundo Marcos, dizendo: “Arrependei-vos”. Mudança não de prática religiosa e nem somente de hábitos cotidianos. É mudança de direção de vida, onde a vida deixa de ter seu sentido próprio para ir no sentido Dele, na direção Dele e de Sua Palavra. Só assim a mente muda, fazendo com que vejamos a vida, o outro e a nós mesmos, como Ele vê. Conversão ao evangelho é isso, o resto é mudança de religião e de hábitos. Deus guarde o Seu povo, e Ele sempre guarda os que são Seus. Venha o Teu Reino!

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Impresso em Janeiro de 2011 Cg Omega 9,2/16,4 Formato 100X180mm . Papel Off-set 75g/m2 (miolo); Cartão Supremo 250g/m2 (capa) Tiragem: 300 exemplares

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