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Círculo de bananeiras

Publicado em 14 out 2006 por Itamar Vieira

O círculo de bananeira é usado para tratar as águas usadas da casa (pias, tanques e chuveiros), as chamadas águas
cinzas. Ele também beneficia a produção de bananas em escala humana.
Essa técnica originou-se da observação dos efeitos dos fortes ventos sobre a cultura dos cocos. Numa clareira os
coqueiros caídos davam origem a círculos de coqueiros que nasciam, se desenvolviam e produziam melhor do que
quando sós. O padrão natural observado foi que no centro do círculo se depositavam folhas, ramos, frutos, etc, que
retinham a umidade e concentravam nutrientes, beneficiando a cultura dos coqueiros. Dessa observação, passou-se em
seguida às experiências com outras culturas, como a da banana.

No caso das bananeiras percebeu-se que elas, como outras plantas de folhas largas como o mamoeiro, evaporavam
grandes quantidades de água e estabeleceu-se assim uma relação com as águas cinzas das residências. Essa ligação é
feita entre a necessidade de se tratar a águas que saem das pias e chuveiros das residências com a grande capacidade de
evaporar (tratar) dos círculos de bananeiras. E isso é uma das bases do design na permacultura, estabelecer relações
positivas, sinérgicas entre os elementos de um sistema vivo.
Como construir?

O trabalho começa com a construção de um buraco, em


forma de concha, com 1 m cúbico de volume. Lembre-se que a terra retirada do buraco é colocada na borda aumentando
a altura do buraco.
Os sistemas vivos não seguem projetos no papel. Então mais importante do que seguir as dimensões apresentadas aqui,
é procurar observar no local, o solo, a insolação, incidência de geadas, etc. para dedinir melhor como será o círculo de
bananeiras de sua residência.
O buraco, depois de pronto, deve ser enchido com
madeira e palha para criar um ambiente adequado para o recebimento da água cinza e para beneficiar a micro vida. Isso
é feito primeiro colocando pequenos troncos de madeira grossos no fundo. Em seguida galhos médios e finos de árvores
e por último a palha (aparas de capim, folhas, etc.) formando um monte com quase 1 metro de altura acima da borda do
buraco. A madeira deve ser colocada de forma desarrumada, para que que se crie espaços para a água. A palha em cima
serve para impedir a entrada da luz e da água da chuva, que escorrerá para os lados não inundando o buraco e não se
contaminando com a água cinza.

A água cinza deve ser conduzida por um tubo até o buraco e com um joelho na ponta para evitar o entupimento. Não
usar valas abertas para a condução da água, assim mosquitos e outros animais indesejados não terão como se
desenvolver. E os microorganismos da compostagem terão um ambiente perfeito para fazer o seu trabalho.

Plantio
As bananeiras podem ser plantadas de diversas maneiras. Mas eu prefiro usar o rizoma inteiro ou uma cunha (parte de
um rizoma) com uma gema vizível. Após fazer as covas (no mínimo 30x30x30 cm) deve-se enche-las com bastante
matéria orgânica (palhas, folhas, etc.) misturada com terra. Antes de preencher totalmente o buraco, na hora de colocar
o rizoma, posicione para que a gema fique para o lado de fora do círculo e inclinado de forma que a bananeira nasça
caída para fora. Essa inclinação da bananeira é mais fácil de ser conseguida quando plantada a partir de rebentos. Isso
facilitará a colheita e o manejo das bananeiras. O rizoma deve ficar há uns 10 cm, em média, abaixo do nível do solo.
Ao redor do círculo, também é indicado o plantio de mais plantas de folha larga como a taioba, o mamoeiro e entre elas
batata doce ou outra plantas rasteiras para cobrir todo o espaço. Em pouco tempo o círculo irá se transformar em um
nicho de fertilidade que vai se espalhar pelo entorno.

Cuidados
A água cinza NÃO deve conter água preta dos sanitários. Estas deveriam ir para outros sistemas apropriados para o seu
tratamento.
E nas pias e chuveiros deve-se evitar o uso de detergentes químicos e outras substâncias tóxicas como cloro, etc., pois
estas substâncias matam os microorganismos e impedem a compostagem dos nutrientes contidos na água cinza com a
madeira.
Mais informações sobre a separação das águas servidas podem ser encontradas em“sistematização da água”.
Se o volume de água cinza produzido na casa for maior do que a capacidade de recebimento do círculo, a melhor solução
é construir outro círculo interligando ao primeiro. A água cinza entra por cima no primeiro e sai no nível máximo por
meio de outro tubo e segue para o segundo círculo. Conforme a situação pode-se ter uma bateria de círculos inteligados.

Manejo
Sempre colocar aparas de poda (grama, capim, galhos) no centro para alimentar o círculo e evitar que o buraco seja
inundado com a água da chuva.
Após colher o cacho de bananas, deve-se cortar a bananeira bem na base e em pedaços de 1 metro, rachar ao meio
(longitudinal) e também colocar no centro do círculo. A cada 3 anos (ou mais) todo o material depositado no buraco
pode ser retirado (quando os troncos se dissolverem) e usar como adubo orgânico na horta. E repor novo material como
no início da implantação do círculo.
Aqui na região sul do Brasil há diversos círculos de bananeiras funcionando perfeitamente há mais de 3 anos. Assim que
possível publicarei mais fotos dessas experiências.

Alguns círculos de bananeiras:

Sistematização da água
Publicado em 22 mar 2006 por Itamar Vieira
O que caracteriza de forma marcante a ação de um permacultor? Ao fazer o design de um assentamento humano, seja
ele uma vila, um sítio ou uma casa na cidade, quais seriam as prioridades? Começar por onde?
Para responder a esta questão vou usar como inspiração uma frase do amigo Jorge Timmermann:
O principal trabalho de um permacultor é sistematizar a água e alimentar o solo.

Porque será que ele fala assim? Bom, isso dá muito o que pensar. Não é mesmo? Então, para explorar bem o tema vamos
separá-lo em duas partes. Neste artigo, falarei sobre a sistematização da água e em outro artigo falarei sobre a ação de
alimentar o solo. Mas, já neste artigo, procuraremos identificar as conexões entre água e solo.

A linguagem
Procurando usar uma linguagem mais retratadora do que descritiva, vamos utilizar um mapa mental que procura
abranger as principais oportunidades de sistematização da água em todas as zonas de um assentamento humano.
Abordagem sistêmica
Para compreender a sistematização da água é necessário mais que esforço intelectual. É, antes de tudo, um exercício de
profunda conexão com a natureza. É, principalmente, perceber o ambiente em que vivemos como um lugar por onde a
água passa, sendo aproveitada da melhor forma possível para, em seguida, tomar seu curso natural, igual ou melhor do
que chegou.
Por que sistematizar a água?
Porque há menos de 3% de água doce no planeta e apenas 24% disso está “disponível” para o consumo e esta parcela
passa por constantes perigos e ameaças. Porém, antes de tudo, sistematizamos a água porque temos uma ética – cuidar
do planeta, cuidar das pessoas e partilhar os excedentes.
Além do mais, o nosso design só será válido se estiver de acordo com o seguinte princípio: “funções importantes devem
ser supridas por pelo menos três elementos”. Precisamos de pelo menos três fontes de água num assentamento humano
para ser realmente sustentável. Afinal, podemos sobreviver algumas semanas sem comida, mas quanto tempo
sobreviveríamos sem água?
Por onde começar?
Na metodologia de design da permacultura um dos métodos para analizar e compor a paisagem é chamado de
“Planejamento por Zonas”. Neste método a área a ser planejada é dividida em ZONAS, segundo o grau de consumo de
energia humana. A zona que mais consome energia, trabalho, é a zona I, depois a zona II, e assim por diante, até a zona
V.
Imagine uma pedra caindo num lago. Que imagem lhe vem à mente? Uma série de anéis concêntricos que vão
diminuindo de intensidade, certo? A Zona I, num assentamento humano, é exatamente o ponto de maior concentração e
consumo de energia, trabalho humano. É nesta área onde se localiza a casa e o seu entorno. Alguns permacultores se
referem a casa como sendo a Zona Zero, o centro da zona I. Outros, com os quais me identifico mais, se referem a Zona
0, como sendo o próprio ser humano que habita a Zona I. De nada adianta corrigir a paisagem, se o homem que habita
nela, ainda pensar de maneira contrária ao rumo da natureza. Então precisamos começar pelas pessoas, pela ética,
depois pela Zona I. Se não corrigirmos o lugar onde as pessoas moram, seus erros (efluentes, consumos exagerados, …)
atingirão as outras zonas, sem dúvida.
Zona I
Aproveitar as águas da chuva, captadas por calhas no telhado ou em paredes altas (prédios), filtrando e armazenando
em tanques ou outros meios à disposição, que sejam tão ou mais econômicos e eficientes quanto uma cisterna de
ferrocimento.
Separando as águas usadas na casa em águas cinzas e pretas. As cinzas, usadas nas pias, chuveiros e máquinas de lavar,
devem ser conduzidas por tubos até os círculos de bananeiras ou até outros sistemas de bio-remediação. E as águas
pretas, que saem dos sanitários, podem ir para uma bacia de evapotranspiração. Melhor ainda é ter na Zona I um
sanitário seco, onde utilizamos água somente para lavar as mãos. Usar a água para empurrar cocô é, no mínimo, uma
visão distorcida de conforto. Os sanitários secos, também chamados de sanitários compostáveis, além de não poluírem
as águas, ainda aproveitam ricos materiais, como urina, fezes e papel higiênico, gerando composto orgânico para
alimentar as minhocas, que geram o húmus, que alimenta sementes e plantas. Podem ser do tipo compactos que cabem
no WC tradicional ou também as “casinhas” com duas câmaras que ficam na área externa.
Próximo da casa, é possível usar algum sistema de irrigação na horta para compensar alguma situação de desequilíbrio
energético momentâneo ou por decisão de design. Aqui cabem algumas considerações importantes. Se as interações com
a natureza forem desconsideradas no design, será preciso usar energia de fora do sistema. O uso de espécies pouco
adaptadas ao clima e ao solo e de culturas fora de época, por exemplo, exigirá mais umidade e outras condições que o
sistema não está preparado para fornecer de forma natural. É possível fazê-lo, mas temos que ter consciência das
implicações energéticas.

Neste caso, há soluções simples como o uso de quebra-vento, que diminui em muito o uso de água por evitar a
desidratação das plantas, e dicas preciosas como evitar a irrigação por aspersão em horários inadequados (sol intenso
provoca a salinização do solo devido à rápida evaporação da água ). É preferível fazer irrigação por gotejamento porque
a água vai diretamente para as raízes, onde ela é mais necessária, sem criar oportunidade para fungos e bactérias nas
folhas e dispensando o uso de adubos diluídos, que são pouco eficientes.

Para completar o design da Zona I com chave de ouro, criando uma bela oportunidade de viver de maneira intensa a
nossa relação com a água, a dica é construir uma piscina natural para desfrutar das delícias de um banho sem culpas e
sem medos. Numa piscina natural não há tratamento químico. Convivemos com plantas aquáticas e pequenos animais
como se estivéssemos em lagos naturais.

Zonas II, III e IV


Elas não serão tratadas aqui individualmente porque os elementos a que farei referência podem estar localizados numa
ou noutra, dependendo do design.
A declividade é um dos aspectos do terreno que mais influenciam na sistematização da água. Desde a necessidade de
reflorestamento nas partes mais altas, tanto para provocar a infiltração da água no solo, evitando escorrimento e erosão,
como para evitar a mudança, menos perceptível, dos níveis dos lençóis freáticos. Reflorestar também é sistematizar a
água. Sem isso, as partes baixas viram charcos que afogam as raízes das plantas e as partes altas viram morros carecas
sem nenhuma fertilidade.

Outra estratégia é construir canais e panelas de infiltração. Isso faz com que a água fique mais tempo no terreno,
promovendo a fertilidade em alguns locais do terreno pela ação da gravidade e pelo acúmulo de matéria orgânica. O
excedente pode ser armazenado em açudes e tanques, tanto para irrigação como para os animais.

A aqüicultura pode acontecer nos charcos naturais ou artificiais para culturas adaptadas, como o arroz e outras. As
chinampas, no entanto, precisam ser mais estudadas. Quando sei de chinampas sendo construídas com tratores, fico
pensando: como será que os astecas construíam as suas? Na Permacultura, se alguma técnica demanda muito trabalho
ou altos custos, há algo de errado. Mas esse é um assunto para outra prosa.

Zona V
Aqui não há nada para fazer, apenas deixá-la seguir seu rumo natural, observá-la e procurar compreendê-la. Mas
podemos, se necessário, coletar algumas sementes e, em caso de ameaça, proteger as nascentes de água.
O mapa mental que está exposto aqui pode servir de ponto de partida para qualquer permacultor que esteja iniciando a
sistematização das águas. Mas ele é, principalmente, uma base que deve expandir-se com a troca de idéias entre aqueles
que estão interessados em aprender a fluir com as águas.

Este artigo foi publicado na Revista Permear, edição No.1.