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Módulo 12

A importância da série de Fourier na determinação


de parâmetros em modelos analı́ticos
multidimensionais
EQ502 – Introdução à Análise de Processos

1o Semestre de 2006

Joseph Fourier mostrou de uma forma muito elegante, em artigos so-


bre condução de calor, o uso sistemático de séries periódicas que acabaram
recebendo o seu nome (sua proposição inicial não foi uma investigação com-
pletamente rigorosa). De acordo com o matemático Riemann, quando a
série de Fourier foi apresentada pela primeira vez na Academia de Paris em
1807, Fourier disse que qualquer função arbitrária poderia ser expressa por
uma série periódica de infinitos termos. O matemático Lagrange ficou tão
surpreso que negou esta possibilidade de uma forma contundente. Muito
embora com o tempo mostrou-se que a alegação de Fourier foi um pouco
exagerada, seus resultados inspiraram uma enorme quantidade de pesquisas
importantes que continuam até os dias de hoje 1 .
As séries de Fourier são de fundamental importância na engenharia,
visto que a resolução de modelos multidimensionais (problemas de contorno)
possuem, geralmente, funções tipo séries com termos periódicos. A deter-
minação das constantes do modelo necessita de conceitos de determinação
de parâmetros para séries de Fourier. Apenas para exemplificar, a Equação
1 apresenta a distribuição de temperatura em um barra de metal de compri-
mento unitário, adiabática em sua lateral e com uma temperatura incial de
10◦ C. Adicionalmente, a temperatura nas extremidades é mantida à tempe-
ratura de 0◦ C a partir do instante inicial. A constante bn foi determinada
utilizando-se série de Fourier.


X ∞
X
−n2 π 2 α2 θ 40 1 −n2 π2 α2 θ
T (x, θ) = bn e sen(n π x) = e sen(n π x)
n=1
π
n=1,3,5,...
n
(1)
Matematicamente, quando uma função e sua derivada são contı́nuas por
partes em um intervalo, ela pode ser expressa por série de Fourier, conforme
a Equação 2:
1
Maiores detalhes sobre a vida de Fourier podem ser obtidos em Grattan-Guiness [2,
1972] ou Carslaw [1, 1952]

1
∞ · µ ¶ µ ¶¸
a0 X n.π.x n.π.x
f (x) = + an . cos + bn .sen (2)
2 n=1
L L
A Série de Fourier representa funções periódicas f(x +T) = f(x) para
qualquer valor de x, onde T é o perı́odo da função.
No caso da Figura 1, o perı́odo é T=2π/α, visto que:
· µ ¶¸
2.π
sen α. x + = sen (α.x + 2.π) = sen (α.x) (3)
α

Figura 1: Função periódica f (x) = sen(α x).

Para que uma função seja expressa por uma série periódica, como a
Equação 2, é necessária a determinação das constantes a0 , an e bn . Uma
forma simples para lidar com o problema é utilizar o princı́pio da ortogona-
lidade. Duas funções são ortogonais no intervalo [a, b] se:

Zb
f (x) .g (x) dx = 0 (4)
a

Com relação as funções seno e coseno:

Z+L µ ¶ µ ¶ (
n.π.x m.π.x 0 m 6= n
cos . cos dx = (5)
L L L m=n
−L

Z+L µ ¶ µ ¶ (
n.π.x m.π.x 0 m 6= n
sen .sen dx = (6)
L L L m=n
−L

Z+L µ ¶ µ ¶
n.π.x m.π.x
sen . cos dx = { 0 ∀m, n (7)
L L
−L

Nas equações acima m e n são números inteiros positivos.


O cálculo dos coeficientes, supondo que a série de Fourier converge, na
qual os coeficientes são dados pela Equação 2, é feito da seguinte maneira:

2
1. Multiplicando a equação 2 por cos(n.π.x/L) e integrando de –L até L:

Z+L µ ¶ ∞
X Z+L µ ¶ µ ¶
m.π.x  n.π.x m.π.x
f (x) . cos .dx =  an . cos . cos .dx +
L n=1 −L
L L
−L

Z+L µ ¶ µ ¶ Z+L µ ¶
n.π.x m.π.x  a0 m.π.x
bn .sen . cos .dx + . cos .dx (8)
L L 2 L
−L −L

A Equação 8 pode ser simplificada, uma vez que a integral em a0 vale


zero (função par) a integral em bn é nula de acordo com a Equação
7 e a integral em an é nula se m 6= n e vale L se m = n. Portanto
obtém-se como resultado a Equação 9, que permite o cálculo de an .
Z +L µ ¶
1 m.π.x
an = f (x) . cos .dx n = 1, 2, . . . (9)
L −L L
2. Multiplicando a Equação 2 por sen(n.π.x/L) e integrando de -L até L:


Z+L µ ¶ ∞
X Z+L µ ¶ µ ¶
m.π.x  n.π.x m.π.x
f (x) .sen .dx =  a n . cos .sen .dx +
L n=1 −L
L L
−L

Z+L µ ¶ µ ¶ Z+L µ ¶
n.π.x m.π.x  a0 m.π.x
bn .sen .sen .dx + .sen .dx (10)
L L 2 L
−L −L

A Equação 10 pode ser simplificada, uma vez que a integral em a0 vale


zero (função ı́mpar) a integral em an é nula de acordo com a Equação
7 e a integral em bn é nula se m 6= n e vale L se m = n. Portanto
obtém-se como resultado a Equação 11, que permite o cálculo de bn .
Z +L µ ¶
1 m.π.x
bn = f (x) .sen .dx n = 1, 2, . . . (11)
L −L L
3. Simplesmente integrando a Equação 2 de –L até +L:
 
Z+L Z+L ∞
X Z+L µ ¶ Z+L µ ¶
a0  n.π.x n.π.x 
f (x) .dx = dx+  an . cos .dx + bn .sen .dx
2 n=1 −L
L L
−L −L −L
(12)
A equação 13 permite o cálculo dos valores de a0 :
Z+L
1
a0 = . f (x).dx (13)
L
−L

Este resultado mostra que é possı́vel se estender a definição das cons-


tantes an desde n = 0, como mostrado na Equação 14:
Z+L µ ¶
1 n.π.x
an = . f (x) . cos .dx n = 0, 1, 2, .... (14)
L L
−L

3
As fórmulas para a obtenção dos termos an e bn são conhecidas como
fórmulas de Euler-Fourier.
Conforme já mencionado, supõe-se que a função f (x) é uma função con-
vergente. O teste da convergência de uma série de Fourier é dado pelas
condições de Dirichlet. Supor f (x) tal que:

1. f (x) é uma função definida no intervalo [−L, L];

2. f (x) é periódica com perı́odo 2L;


0
3. f (x) e f (x) são contı́nuas por partes em [−L, L].

Então, neste caso, a série de Fourier de f (x) converge para:

1. f (x) se x é ponto de continuidade;

2. (1/2)[f (x0 + ) + f (x0 − )] se x é ponto de descontinuidade;

A Série de Fourier é dada pela Equação 2 e os coeficientes an e bn pelas


equações 9 e 11.
Os coeficientes an e bn também podem ser dados pela mesma integral
porém no intervalo de c a c + 2L, conforme as Equações 15 e 16.
c+2L
Z µ ¶
1 n.π.x
an = . f (x) . cos .dx n = 0, 1, 2, ... (15)
L L
c

c+2L
Z µ ¶
1 n.π.x
bn = . f (x) .sen .dx n = 1, 2, ... (16)
L L
c

Observações:
f (x0 − ) = lim f (x) (17)
x → x0
x < x0
f (x0 + ) = lim f (x) (18)
x → x0
x > x0
Para um ponto de descontinuidade c pode-se escrever as Equações 19 e 20.
Os extremos de intervalo são, em geral, pontos de descontinuidade.
1
f (c) = . [f (c+ ) + f (c− )] (19)
2
1 h ³ ´ ³ ´i
f (c + 2L) = . f [c + 2.L]+ + f [c + 2.L]− (20)
2

4
Exemplo 1
Supor f (x) = x2 para o intervalo: 0 < x < 2 π
Neste caso c = 0 e 2L = 2π, logo L = π.

a0 X
f (x) = + [an . cos (nx) + bn .sen (nx)] (21)
2 n=1

Z2.π
1
an = . f (x) . cos (nx) dx =
π
0
Z2.π (
1 8.π 3
2 n=0
. x . cos (nx) dx = 4
3 (22)
π n2
n = 1, 2, ...
0

Z2.π Z2.π
1 1 4.π
bn = . f (x) .sen (nx) .dx = . x2 .sen (nx) .dx = − n = 1, 2, ...
π π n
0 0
(23)
Portanto:
∞ · ¸
8.π 3 X 4 4.π
f (x) = + 2
. cos (nx) − . cos (nx) (24)
3 n=1
n n

A Figura 2 mostra o gráfico da Função 24.

8.π 3
P∞ £ 4 4.π
¤
Figura 2: Função periódica f (x) = 3 + n=1 n2 . cos (nx) − n . cos (nx).

Os segmentos de reta contı́nuos aproximadamente na metade dos valores


máximo e mı́nimo correspondem ao valor da função no ponto de desconti-
nuidade.

5
Exemplo 2
Seja: (
0 −L<x<0
f (x) = (25)
L 0 < x < +L
Encontre a Série de Fourier para esta função e determine se ela converge. A
função é descrita graficamente a seguir.

Figura 3: Função periódica do exemplo 2

Determinação dos coeficientes:


 
Z+L Z0 Z0
1 1  
a0 = . f (x) .dx = . 0.dx + L.dx = L (26)
L L
−L −L −L

Z+L µ ¶ Z+L µ ¶
1 n.π.x 1 n.π.x
an = . f (x) . cos .dx = . L. cos .dx (27)
L L L L
−L 0
µ ¶¯
L n.π.x ¯¯L L
an = .sen ¯ = n.π .sen (n.π − 0) = 0 (28)
n.π L 0

Z+L µ ¶ Z+L µ ¶
1 n.π.x 1 n.π.x
bn = . f (x) .sen .dx = . L.sen .dx =
L L L L
−L 0
µ ¶¯
L n.π.x ¯¯L
− . cos ¯ (29)
n.π L 0

(
L 0 n = par
bn = . [1 − cos (n.π)] = 2.L (30)
n.π n.π n = impar
A Série de Fourier é dada por:

6
· µ ¶ µ ¶ µ ¶ ¸
L 2.L π.x 1 3.π.x 1 5.π.x
f (x) = + sen + .sen + .sen + ....
2 π L 3 L 5 L
(31)
∞ · µ ¶¸
L 2.L X 1 π.x
f (x) = + .sen (2m − 1) (32)
2 π m=1 2m − 1 L
Em x = 0 ± n.L (onde f (x) não é contı́nua) o valor da função é L/2,
que corresponde à média dos limites. Como a função segue as condições de
Dirichlet, a função é convergente.

Equação de Parseval:

Z+L ∞ h i
1 a20 X
. [f (x)]2 .dx = + a2n + b2n (33)
L 2 n=1
−L

Exercı́cio: Provar a igualdade 33. Basta multiplicar a equação (1) por


f (x), integrar de −L a +L e dividir por L.
É também fácil mostrar que:

Z+L ∞
1 A0 .a0 X
. [f (x) .F (x)] .dx = + [An .an + Bn .bn ] (34)
L 2 n=1
−L

Sendo que tanto os maiúsculos quanto os minúsculos correspondem à séries


de Fourier para duas funções distintas.

Funções Pares e Ímpares:


As fórmulas de Euler-Fourier podem ser simplificadas para funções pares e
ı́mpares.
A função par, por definição, é aquela na qual f (x) = f (−x). Exemplos
destas funções são as funções coseno, x2 , |x|, x2n , etc.
A função ı́mpar, por definição, é aquela na qual −f (x) = f (−x). Exem-
plos destas funções são a função seno, x, x2n+1 , etc.
A maioria das funções não é par nem ı́mpar. Se f (x) for par, então:

Z+L Z+L
f (x) .dx = 2. f (x) .dx (35)
−L 0

Se f (x) for ı́mpar, então:


Z+L
f (x) .dx = 0 (36)
−L

7
A Equação 35 é de muita utilidade para os problemas de engenharia,
visto que as funções multidimensionais costumam variar de uma distãncia
inicial nula x = 0 até uma distância x = L.
As seguintes regras são importantes:

• O produto de duas funções pares é par;

• O produto de duas funções ı́mpares é par;

• O produto de uma função ı́mpar por uma função par é ı́mpar.

Série de Fourier para funções pares (Série dos Co-


senos)
Se f (x) for par, então o produto de f (x) pelo coseno é par, e o produto de
f (x) pelo seno é ı́mpar. Portanto:

Z+L µ ¶
1 n.π.x
bn = . f (x) .sen .dx = 0 n = 1, 2, ... (37)
L L
−L

Z+L µ ¶
1 n.π.x
an = . f (x) . cos .dx ou (38)
L L
−L

Z+L µ ¶
2 n.π.x
an = . f (x) . cos .dx n = 1, 2, ... (39)
L L
0

Sendo assim:
∞ · µ ¶¸
a0 X n.π.x
f (x) = + an . cos (40)
2 n=1
L

Série de Fourier para funções ı́mpares (Série dos


Senos)
Se f (x) for ı́mpar então o produto de f (x) pelo coseno é ı́mpar e o produto
de f (x) pelo seno é par. Portanto:

Z+L µ ¶
1 n.π.x
an = . f (x) . cos .dx = 0 n = 1, 2, ... (41)
L L
−L

Z+L µ ¶
1 n.π.x
bn = . f (x) .sen .dx ou (42)
L L
−L

Z+L µ ¶
2 n.π.x
bn = . f (x) .sen .dx n = 1, 2, ... (43)
L L
0

8
Logo:
∞ ·
X µ ¶¸
n.π.x
f (x) = bn .sen (44)
n=1
L
Os conceitos deste módulo lançam a base para a determinação das cons-
tantes periı́dicas de problemas multidimensionais que serão tratados nos
módulos seguintes.

Referências
[1] Carslaw, H. S.; Introduction to the Theory of Fourier´s Series and In-
tegrals 3rd Edition, (Cambridge: Cambridge University Press, 1930);
Editado novamente por Dover, New York, 1952.

[2] Grattan-Guiness, I.; Joseph Fourier, 1768-1830, Cambridge, Mass.:


MIT Press, 1972.

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