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AGENTES, REDES E

TERRITORIAL! DADES URBANAS

SAINT-CLAIR CORDEIRO DA TRINDADE JÚNIOR'

Urban Agents, Urban Networks and Urban Territorialities

The artic/e discusses the role played result of their action, different urban
by social agents in the production of territorialities emerge. Socio-spatial
urban space. Structured in networks, segregation is viewed as a particular
these agents share similar goals and instance of a network-based política I
have a direct impact on the process articulation, involving real estate com-
of appropriation, control and produc- panies, organized social movements
tion of territories within the city. As a and public institutions.

Introdução

Uma tarefa importante a ser efetivada na busca da compreensão da


dinâmica social é, sem dúvida nenhuma, o desvelamento da dialética que se
estabelece entre a sociedade e sua espacialidade. Como sociedade territori-
almente organizada, o espaço se exterioriza através das formas espaciais,
ou seja, através de objetos ou arranjo ordenado de objetos distribuídos no
território. São elementos produzidos socialmente, ou que adquirem uma exis-
tência social, a partir do sentido que as relações lhe atribuem. Dessa manei-
ra, as formas espaciais contêm a sociedade, não sendo, portanto, simples-
mente formas, mas formas-conteúdos. É nesse sentido que o espaço não
pode ser tido apenas como produto das relações sociais; sua existência se
mostra indispensável à reprodução dessas mesmas relações.
Seguindo esse entendimento é que buscamos realizar aqui uma apro-
ximação teórica que procura compreender o espaço urbano não apenas como
produto da sociedade, mas também como condição e meio de realização de
toda a dinâmica social. Nesse propósito, colocamos no cerne de nossa análi-
se dois conceitos de importância indiscutível na produção geográfica: os con-
ceitos de território e de territorialidade. A discussão busca mostrar, então,
como a existência de territorialidades urbanas permite que a organização do

. Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA).


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espaço se coloque como condição e meio para a dinâmica de reprodução


das relações sociais.
Num primeiro momento, destacam-se as estratégias dos agentes pro-
dutores do urbano, quando então se procura mostrar que suas ações não se
dão de maneira isolada, mas através de redes de articulação ou coligações
de agentes que objetivam, dessa forma, realizar interesses específicos. Em
seguida, ressalta-se a importância da definição de territórios e de territoriali-
dades como condição e meio para a realização desses interesses, tendo em
vista a estrutura do espaço socialmente produzido. Por fim, são mencionados
alguns exemplos de territorialidades urbanas que nos ajudam a pensar a im-
portância do espaço urbano para a realização de estratégias e interesses de
agentes diferenciados.

1. Os agentes produtores do urbano e suas redes de ação

Na literatura sobre o urbano, muito se tem falado a respeito dos agen-


tes produtores do urbano. Considerar o papel desses agentes, entretanto,
não pressupõe tratá-los de maneira isolada, como se cada ação
correspondesse única e exclusivamente à realização de um interesse espe-
cífico. Ainda que não desconsideremos os interesses de classes, é preciso
que não os coloquemos em um bloco monolítico que dificulte o entendimento
das redes de relações configuradas em torno da apropriação do espaço urba-
no. É nesse sentido que buscamos considerar no presente trabalho o concei-
to de redes de agentes, entendidas como articulações locais de agentes res-
ponsáveis pela dinâmica da cidade e que estão por trás do apropriação da
terra urbana.
Dentre as articulações mais simples identificadas a partir da ação dos
diversos agentes produtores do urbano, podemos destacar, a título de exem-
plo, as coligações entre: a) o Estado e os agentes sociais excluídos; b) os
agentes sociais excluídos e os candidatos a cargos políticos; c) o Estado e as
empresas incorporadoras/construtoras; d) os agentes sociais excluídos e os
proprietários fundiários; e) o Estado e os proprietários fundiários; f) os agen-
tes financiadores e as incorporadoras.
As redes podem se tornar mais complexas, quando então articulam
mais que dois agentes. Esse tipo de estratégia está presente seja na produ-
ção de conjuntos habitacionais pelo poder público - em que se juntam inte-
resses tanto das construtoras/empreiteiras, como dos proprietários fundiários
-, seja no processo de ocupação de terrenos urbanos - que, muitas vezes,
articula uma cadeia complexa de interesses e de ações -, seja, ainda, na
produção de empreendimentos residenciais populares pelo setor privado, cuja
trama de relações envolve uma pluralidade de agentes (incorporadoras, po-
der público, agente financeiro, proprietários fundiários) que buscam obter van-
tagens também diferenciadas.
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Quando consideramos essa pluralidade de sujeitos convergindo para


um mesmo tipo de ação, baseamo-nos em GOTIDIENER (1993), que usa a
palavra rede no sentido de "trama", procurando descrever a confluência de
determinações gerais e de ações locais relacionadas à apropriação da terra
urbana. Essas redes, por sua vez, configuram-se como linhas de frente da
reestrutu ração espaci ai.
Ao trabalhar também com a idéia de redes, RAFFESTIN (1993) se apro-
xima bastante em termos conceituais de Mark Gottdiener. Para aquele autor,
no caso das redes, os "atores não se opõem; agem e, em conseqüência,
procuram manter relações, assegurar funções, se influenciar, se controlar, se
interditar, se permitir, se distanciar ou se aproximar e, assim, criar redes entre
eles. Uma rede é um sistema de linhas que desenham tramas" (RAFFESTIN,
1993: 156). Nesse sentido, as redes representam não só uma forma de
mobilização, como também uma estratégia de organização e de ação, que
dão forma ao urbano.
Destarte, não se concebe a atuação de um agente isolado na definição
das formas urbanas, mas a articulação e a convergência de interesses prove-
nientes de agentes social e hierarquicamente diferentes. É com essa inten-
ção que destacamos, com base em GOTTDIENER (1993), algumas caracte-
rísticas configuradoras dessas redes, a saber:
a) representam coalizões público-privadas que abrangem também ele-
mentos das classes populares, e que se mantêm através das burocracias
locais profundamente dependentes da idéia de desenvolvimento e moderni-
zação urbana;
b) sua composição muda de um lugar para outro, sendo que, em al-
guns casos, inclui frações de classes que não são necessariamente capitalis-
tas;
c) as ações capitalistas nessas redes são heterogêneas; frações den-
tro da classe capitalista que podem manipular a expansão e a reestruturação
urbana articulam ações diferenciadas dentro dessas redes;
d) em qualquer situação, pode haver mais de uma rede que atue para
manipular ações públicas e privadas de tomada de decisão face à apropria-
ção da terra urbana;
e) a manifestação dessas redes pode se dar de maneira não necessa-
riamente explícita; em suas estratégias mais amorfas, os agentes muitas ve-
zes trabalham nos bastidores, de maneira corrupta, para explorar o cresci-
mento urbano rápido, mesmo que não o defendam ativamente.
Convém mencionar que a forma do ambiente construído não é apenas
produto dessas redes, mas também, das tentativas de renegociar as ações
delas decorrentes por parte de outros grupos que suportam os custos da re-
estruturação urbana. Por outro lado, os agentes envolvidos não estão, neces-
sariamente, num mesmo plano de correlação de forças, mas instrumentalizam
seus interesses por meios de coligações que viabilízam suas ações, isto por-
que "toda rede é uma imagem do poder ou, mais exatamente, do poder do ou
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dos atores dominantes" (RAFFESTIN, 1993:157). Não significa também que


o produto dessas ações tenha o mesmo grau de retorno para esses agentes
coligados, mas é uma forma de garantir, com maior ou menor grau, a satisfa-
ção, ainda que parcial, desses interesses.
Indica, igualmente, uma forma de organização e de ação, conforme
enfatiza SCHERER-WARREN (1995), que merece ser analisada, pois com-
porta resultados sociais, políticos, e também espaciais, que pressupõem es-
tratégias, significados e correlações de força tanto no plano ideológico quan-
to no plano prático.
Por serem as redes instrumentos de ação e, portanto, instrumentos
dos agentes, organizados em torno delas, a estruturação urbana é uma de-
corrência da dinâmica que elas apresentam, ao mesmo tempo em que garan-
te, em primeiro plano, a prioridade dos interesses hegemônicos que as mobi-
lizam.

2. O espaço urbano: território e territorialidades

o
fato de os agentes e suas redes conceberem o espaço como ele-
mento essencial para suas estratégias coloca a necessidade de se mencio-
nar outros dois conceitos que permitem entender tais ações. Esses conceitos
são o de território e o de territorialidade, que, por sua vez, estão intrinseca-
mente relacionados.
Entendidos como mediação entre a relação dos agentes e o espaço, os
territórios configurados no interior do espaço urbano registram ações que o
controlam, garantido a espacial idade dos interesses de um ou de vários aqen-
teso Assim, quando se menciona a existência de territórios na cidade, fala-se
de frações do urbano, explícita ou implicitamente demarcadas e controladas
por determinadas ações, produtos da correlação de forças ou de diferenças
que se estabelecem para com outros agentes.
Mais que espaços concretos, que são, na verdade, substratos materi-
ais das territorialidades, os territórios são, antes, relações sociais projetadas
no espaço, configurando-se como espaços definidos e delimitados por rela-
ções de poder, ou em outros termos, como relações de poder espacialmente
delimitadas que operam sobre um substrato referencial (SOUZA, 1995:97),
Diferentemente de outros locais comuns, os territórios requerem esfor-
ço constante para serem estabelecidos e mantidos. Conforme nos sugere
SACK (1986:19), a simples circunscrição de coisas no espaço ou num mapa,
ou mesmo a identificação de locais, áreas ou regiões no senso comum, não
pressupõe, necessariamente, a definição de um dado território, posto que a
existência deste requer ação e controle de um determinado espaço e de to-
dos os seus atributos,
Ainda para o autor anteriormente mencionado, o território pode ser usado
para conter ou restringir, bem como para excluir. E os indivíduos que exercem
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controle não precisam, por sua vez, estar dentro do território ou próximo dele.
O controle de uma área, como um meio de controlar coisas e/ou pessoas,
pode ser feito de maneiras diversas, explicita ou implicitamente presentes na
organização espacial (SACK, 1986:20).
Estas considerações invocam uma relação trinitária para entender o
conceito de território e de territorialidade. A rigor, o território pressupõe a cor-
relação de forças entre agentes diferenciados, no qual o espaço exerce uma
mediação. Há, portanto, uma tríade a ser considerada, conforme indica
RAFFESTIN (1993): agente-espaço-agente.1 A simples relação agente-es-
paço, se pudéssemos abstrair uma relação isolada desse tipo, não define a
priori uma territorialidade, mas simplesmente uma espacial idade, ou seja, a
dimensão espacial do conteúdo social.
Ao discutir o assunto, RONCAYOLO (1990) procura acentuar a ques-
tão da identidade para compreender o conceito de território. Mostra, por exem-
plo, que o sentido da territorialidade é essencialmente coletivo, dependendo
mais do tipo de relação que se estabelece entre os indivíduos e os grupos,
que propriamente a ligação direta aos lugares. Nesse sentido, as territoriali-
dades tendem a expressar uma certa coerência, o estatuto e a expectativa de
indivíduos ou grupos, definindo-se em função do outro, que pode ser também
um indivíduo ou um grupo.
Por isso a territorialidade não deixa de ser um tipo de fenômeno de
comportamento que se associa à organização do espaço em esferas de influ-
ência ou em territórios nitidamente delimitados; estes, por sua vez, assumem
características distintas, podendo ser considerados como exclusivos de quem
os ocupa e de quem os define (SOJA apud RONCAYOLO, 1986:263).
Nesse sentido, o território pressupõe também uma relação de poder,
na ampla acepção do termo", entre duas categorias de agentes ou coliga-
ções deles (redes), e destes para com o espaço; daí ser este uma mediação
entre essas redes, posto que o que está em jogo nessa correlação é a apro-
priação do espaço.

, A propósito da discussão sobre o conceito de território conduzida por Claude


Raffestin, algumas críticas parecem procedentes, como a que fez SOUZA (1995).
Souza mostra, por exemplo, que aquele autor incorre no equívoco de "colsillcar".
"reificar' o território, ao incorporar ao conceito o próprio substrato material. Ademais,
sua abordagem chega mesmo a reduzir o espaço ao espaço natural, diferentemente
do território que seria praticamente sinônimo de espaço social. Em que pesem esses
problemas de ordem teórico-conceitual, existe uma preocupação, da parte de
Raffestin, quanto à realização de uma abordagem relacional adequada à sua "geo-
grafia do poder", que procuramos aqui considerar.
2 É nessa acepção ampla, que vai além do aparelho de Estado, que FOUCAULT
(1988: 160) fala que o exercício do poder tem um alcance que não é limitado. Pas-
sando por canais muito sutis, lorna-se muito mais ambíguo, porque cada indivíduo é,
no fundo, titular de um certo poder, tornando-se, por isso, veiculador do mesmo.
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Estritamente relacionada à apropriação, "a territorialidade aparece então


como constituída de relações mediatizadas, simétricas ou dissimétricas com
a exterioridade" (RAFFESTIN, 1993:161). Inclui, portanto, elementos como
identidade, exclusividade e também limite:

"Falar de território é fazer uma referência implícita à noção de


limite que, mesmo não sendo traçado, como em geral ocorre,
exprime a relação que um grupo mantém com uma porção do
espaço. A ação desse grupo gera, de imediato, a delimitação.
Caso isso não se desse, a ação se dissolveria pura e simples-
mente. Sendo a ação sempre comandada por um objetivo, este
é também uma delimitação em relação a outros objetivos possí-
veis." (RAFFESTIN, 1993:153)

É por isso que RAFFESTIN (1977: 125) diz que a linguagem subjacente
na interpretação das territorialidades não é simplesmente uma linguagem de
formas e de funções, mas essencialmente de relações. Isto porque ela é in-
trínseca ao espaço socialmente produzido, como forma de garantir a existên-
cia e mesmo a reprodução de relações sociais. O espaço, enquanto meio e
condição de reprodução de relações sociais, ganha expressão na existência
de territórios e na configuração de territorialidades.
É importante, entretanto, dimensionar ainda mais a noção de território
e de territorialidade para além da idéia de controle e de domínio politicamente
definido, trabalhando sim com a idéia de apropriação, mas que possa incor-
porar também uma dimensão simbólica, identitária e afetiva. Esta parece ser
uma preocupação dos estudos de GUATTARI (1985 e 1996)3:

"Os seres existentes se organizam segundo territórios que os


delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cós-
micos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido
quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se
sente 'em casa'. O território é sinônimo de apropriação, de
subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto dos pro-
jetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmati-
camente, toda uma série de comportamentos, de investimentos,
nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos,
cognitivos." (GUATIARI & ROLNIK, 1996:323)

3 Ainda que a proposta de análise de Félix Guattari seja por demais ampla, com uma
problematização que enfatiza a dimensão psicológica da noção de território e de
territorialidade, é importante considerar alguns elementos dessa análise, principal-
mente no que diz respeito à compreensão dos espaços de representação e do vivi-
do, temas igualmente importantes para a análise geográfica.
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Essa linha de raciocínio também o faz distinguir, e não opor, a noção de


território e de espaço:

"Os territórios estariam ligados a uma ordem de subjetivação in-


dividuai e coletiva e o espaço estando ligado mais às relações
funcionais de toda espécie. O espaço funciona como uma refe-
rência extrínseca em relação aos objetos que ele contém, Ao
passo que o território funciona em uma relação intrínseca com a
subjetividade que o delimita." (GUATTARI, 1985:110)

Assim é que a noção de território envolve simultaneamente, mas em


diferentes graus de correspondência, uma dimensão simbólico-cultural e ou-
tra de caráter político-disciplinar. A primeira diz respeito a uma identidade
territorial atribuída pelos grupos sociais como forma de "controle simbólico"
do espaço onde vivem, sendo, igualmente, uma forma de apropriação; en-
quanto que a segunda é uma dimensão mais concreta e que tem a ver com a
definição de limites ou fronteiras visando à disciplinarização dos indivíduos e
o uso/controle dos recursos existentes (HAESBAERT, 1995a:65).
No espaço urbano, podemos falar de territorialidades diversas, assim
como de processos de desterritorialização e reterritcrlaüzação+, tendo em
vista a importância dos agentes na produção de localizações e na busca de
melhores acessibilidades. As redes, que convergem interesses desses agen-
tes, sem dúvida, instrumentalizam tais territorialidades - que comportam prá-
ticas e suas expressões materiais e simbólicas, de modo a garantir não só a
apropriação do espaço por parte de um determinado agente social, como
também sua permanência (CORRÊA, 1994:251-2) -, permitindo a reestrutu-
ração urbana e também a mobilidade da segregação sócio-espacial.
MOURA et aI. (1994), por exemplo, identificam na metrópole a existên-
cia de territorialidades subjetivas e formais. No primeiro caso, referem-se a
demarcações de interesses, de caráter não formal, colocados entre os agen-
tes e o espaço concreto. Por meio delas, os agentes definem seus raios de
ação a partir de limites subjetivos e que não necessitam de demarcações
sólidas, ou seja, asseguradas institucionalmente. Em geral surgem a partir de
identidades que expressam, através de sua prática espacial, suas territoria-
lidades, fazendo parte das estratégias e dos conflitos desenvolvidos no urba-
no e que demarcam sua relação para com ele.

4 Desterritorialização tem o sentido de perda de território apropriado e vivido em


decorrência de diferentes processos originados de contradições capazes de desfa-
zerem territórios; ao passo que reterritorialização refere-se à criação de novos terri-
tórios, seja por meio da reconstrução parcial, in situ, de velhos territórios, seja atra-
vés da recriação parcial, em outro lugar, de um novo território, que contém caracte-
rísticas do antigo (CORRÊA, 1994:252).
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As territorialidades formais, por sua vez, são aquelas salvaguardadas


por estatutos que definem competências, atribuições, limites de extensão,
garantindo o exercício do poder a partir da representatividade de suas bases,
seja o Executivo ou o Legislativo, ou ainda em estruturas próprias como con-
selhos ou comitês definidos sob lei. São exemplos de territorialidades formais
que recortam o espaço, os municípios, os distritos, as regiões metropolita-
nas, que possuem um caráter político-administrativo e institucional.
Esses dois tipos de territorialidades não são excludentes, podendo se
confundir e se sobrepor:

"Compõem-se e ajustam-se como fragmentos num caleidoscó-


pio: movimentos contínuos e transitórios, recriados a partir de
processos sociais que reforçam o anacronismo da demarcação
de limites externos e de lugares e regiões.
Nessa dinâmica, em determinados momentos, territórios subje-
tivos se apropriam dos formais. Cooptam com os poderes ofici-
almente instituídos apenas como estratégia para garantir a defe-
sa de seus interesses.
Inversamente, a prática para o alcance de objetivos de territoria-
lidades subjetivas são, muitas vezes, submetidas à circunscri-
ção dos limites do formal" (MOURA et et., 1994:115-6).

E aqui cabe uma indagação. Como a forma urbana contemporânea,


especialmente aquela manifesta na urbanização brasileira, reflete, assimila e
recria essas territorialidades através dos agentes locais, considerando o pa-
drão de segregação residencial inerente ao modelo imposto pelo modelo de
desenvolvimento urbano concebido nas últimas décadas? Os exemplos que
seguem buscam, ainda que parcialmente, responder a tal questionamento.

3. Alguns Exemplos de Territorialidades Urbanas

a) Os territórios das empresas do mercado imobiliário


Um aspecto quanto às estratégias dos agentes, que se coloca em ple-
na sintonia com o padrão de segregação residencial urbana capitalista, diz
respeito às empresas imobiliárias, que passam a se diferenciar de acordo
com seu respectivo poder econômico. Aquilo que ALMEIDA (1982) chama de
"escala espacial de atuação" das incorporadoras, ou seja, os espaços onde
se realizam as obras e os estoques de terreno de incorporadoras de um de-
terminado porte, define um tipo de territorialidade, garantida pelo montante
de capital necessário a ser investido e pelo poder empreendedor das imobi-
liárias.
Neste caso, a promoção imobiliária nas áreas melhor equipadas, a
exemplo de determinadas áreas centrais, é fruto, principalmente, da ação das
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empresas de grande porte, ao passo que a escala espacial de atuação das


empresas menores fica cada vez mais restrita às fronteiras urbano-imobiliá-
rias". Isso ocorre devido aos menores custos de investimentos por parte des-
tas últimas empresas, já que se trata de produzir moradias de baixo padrão,
financiadas, em geral, pelo Sistema Financeiro da Habitação.
É isto que muitas vezes faz com que haja uma divisão de mercados
entre as próprias empresas com atuação local. O pequeno incorporador, que
trabalha com uma escala reduzida, construindo prédios sem sofisticação para
as classes baixa e média baixa, produz empreendimentos que se realizam,
na maioria das vezes, nos bairros que se caracterizam por serem de expan-
são imobiliária, tendo em vista certas condições que se colocam como mais
favoráveis para a ação desses mesmos empreendedores,
Nesse sentido, há uma relação direta entre empreendedores, deman-
da e localização dos imóveis. O que leva a demanda de baixa renda a procu-
rar empreendimentos nas áreas menos valorizadas não são, evidentemente,
as possíveis amenidades nelas oferecidas. A razão principal é, sem dúvida, o
preço desses imóveis que se contrapõem aos altos preços praticados em
outra áreas mais seletas.
O incorporador que dispõe de um maior montante de capital, por sua
vez, tende a produzir prédios de apartamentos de um padrão superior, com
melhor acabamento e um certo grau de sofisticação. Trata-se de um lucro
suplementar extra, derivado dos preços elevados das habitações produzidas
e pela escala de operação desses empreendimentos. Na estratégia de ação
das empresas imobiliárias, essa espacialidade em relação à demanda mos-
tra-se claramente definida.
Diferentemente do pequeno incorporador que depende do financiamento
do agente financeiro, as estratégias do grande incorporador, que também tra-
balha com capital próprio, pressupõem a construção de prédios sofisticados
e com um padrão de qualidade satisfatório para atender à demanda solvável
que pretende atingir; bem diferente daquela outra estratégia do pequeno
incorporador, cuja margem de lucro pressupõe a baixa qualidade do imóvel e
o financiamento por parte de ações diretamente relacionadas à política
habitacional do governo.

5 Para LAVINAS e RIBEIRO (1991), a fronteira urbano-imobiliária corresponde a de-


terminadas frações do espaço urbano nas quais a terra circula sob a égide de uma
pluralidade de formas de produção (rentista, sob encomenda do usuário, produção
doméstica, pequena incorporação, incorporação pública, etc). É a transição, no tem-
po e no espaço, da terra valor de uso para a terra valor de troca mediada pelo capi-
tal, configurando o processo de transformação social do significado material e sim-
°
bólico da terra; sendo, assim, locus de uma atividade e de povoamento, decorrente
da expansão da dinâmica de mercado, com vistas à plena utilização capitalista da
terra urbana, através da incorporação imobiliária.
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Essa divisão espacial entre pequenos e grandes empreendedores, es-


tabelece, igualmente, uma rede de relações com o poder público local. cuja
maior parte dos investimentos converge para zonas onde o poder construtivo
está precipuamente sob controle das empresas economicamente melhor
estruturadas. A tendência é de canalizar investimentos para as áreas com
infra-estrutura já estabelecida o que garante, indubitavelmente, uma margem
de lucro para as empresas, que buscam não se preocupar com esse tipo de
investimento.
Mais que uma simples divisão de mercados entre as incorporadoras, a
produção social do espaço urbano garante também uma territorialização das
empresas do mercado imobiliário. A diferencial idade espacial que caracteriza
a forma metropolitana dispersa, por exemplo, oferece vantagens e desvanta-
gens, na verdade atributos intrínsecos ao espaço socialmente produzido.
Isso nos remete a uma discussão feita por SACK (1986:16), quando se
refere à territorialidade como uma forma de interação espacial, que, por sua
vez, influencia outras interações espaciais e que requer ações não-territoriais
para sustentá-Ia. Como ações não-territoriais, entenda-se aquelas estratégi-
as que garantem o controle de determinado espaço, mas que não estão ne-
cessariamente configuradas na organização espacial. No caso considerado,
trata-se principalmente da dinâmica do mercado de terras e do poder econô-
mico das empresas, que definem, através da exclusão, os espaços de inves-
timentos e de retornos para determinadas frações do capital imobiliário.
Ainda segundo o autor acima mencionado, a territorialidade não preci-
sa ser explicitamente defendida, já que o território pode ser usado tanto para
conter e restringir, como também para excluir (SACK, 1986:19-20). Este últi-
mo parece ser o caso das grandes empresas que atuam no mercado imobili-
ário. Só elas podem, através do capital de que dispõem para investimentos,
ter acesso aos terrenos daqueles bairros melhor infra-estruturados, como tam-
bém produzir imóveis de superior qualidade; o que acaba por majorar o pre-
ço do imóvel, que, por sua vez, vai definir a demanda atingida.
Não se trata de uma territorialidade formal das grandes empresas, mas
sim de uma territorialidade tácita, definida pelo poder empresarial dessas
empresas, que tende a se expandir, e para isso precisa da reestruturação
urbana. Assemelha-se também àquilo que MESQUITA (1992 e 1995) deno-
mina de territorialidade senhorial. As territorialidades desse tipo

"atualizam e expressam raízes de posse e poder autoritário ou


manipulador manejados ambiguamente, fundamentado não só
no entendimento de pertença territorial, como ainda condutas
direcionadas a um uso político do território. Esta territorialidade
senhorial freqüentemente vale-se de uma identidade construída
por contraste, uma identidade contrastiva em que os outros são
os diferentes que não pertencem ao nosso território" (MESQUI-
TA, 1995:86-7).
Agentes, redes e territorialidades urbanas 41

Assim, a realização de empreendimentos imobiliários em área de me-


lhor infra-estrutura no espaço urbano é feita pelas empresas mais bem
estruturadas no mercado local. Nesse sentido, a um processo de territorial i-
zação corresponde também um processo de desterritorialização, que acom-
panha a reestruturação urbana. Ao falarmos em (des)territorialização, fala-
mos de alteração territorial no interior do espaço urbano, quando então agen-
tes produtores deste tendem a expandir suas territorialidades retraindo ou
deslocando outras, implicando em mudanças sócio-espaciais. Com isso, a
desterritorialidade gera novos lugares, definidores de novas territorialidades,
seja num contínuo processo de expansão, seja na recomposição de um terri-
tório perdido total ou parcialmente.
Isso não impede, todavia, que em determinados momentos as grandes
empresas adentrem, em períodos de refluxo de sua demanda, ou diante de
vantagens de financiamento por parte do Sistema Financeiro da Habitação,
nos espaços onde a atuação dos pequenos incorporadores seja mais inten-
sa. Assim, os territórios das empresas de menor porte não são apenas resi-
duais, como também flexíveis, comportando incursões esporádicas das em-
presas de maior porte.
Poderíamos falar, nesse caso, da existência de uma territorialidade
autodefinida e de uma territorialidade imposta ou residual, que se concretiza
não exatamente pela simples expansão da cidade, mas pela relação agente-
espaço-agente, que pressupõe a lógica que preside a expansão e a organiza-
ção espacial urbana. Nesse caso, tais territorialidades, autodefinidas e resi-
duais, aparecem como condição e meio para a reprodução das relações que
os agentes imobiliários estabelecem entre si e para com o espaço urbano.
Por conseguinte, os atributos do espaço produzido e dos investimen-
tos do poder público são apropriados desigualmente, inclusive no plano do
próprio capital imobiliário, o que define bem o processo de concentração e de
centralização do capital. Nesse caso, o espaço surge como elemento essen-
cial, posto que a reprodução do capital imobiliário requer não só a apropria-
ção de localidades já existentes, como também a produção de novas, pois
para cada novo ciclo de reprodução, novas localizações se fazem necessárias.
Assim, a atuação das empresas na produção do espaço urbano tem
uma lógica que não é apenas espacial, mas também territorial, permitindo
que suas atuações incidam em determinados espaços e não em outros. Es-
tas, por sua vez, ao mesmo tempo atingem, controlam e excluem outros agen-
tes, que, mesmo atuando em atividade similar, diferenciam-se hierarquica-
mente quanto à sua capacidade de barganha, de influência e de controle.
Isso indica que, implicitamente, a territorialidade acaba por apresentar
implicações normativas, posto que no processo de apropriação do espaço
evidenciam-se diferentes graus de acesso, o que significa que o poder de
indivíduos ou grupos acaba por deslocar outros indivíduos ou grupos e suas
respectivas atividades de determinados locais, implicando na distinção de
diferentes graus de acesso aos objetos que compõem o arranjo espacial
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(SACK, 1986:26). A existência de tais territorialidades por si só acaba por


definir os elementos, objetos e áreas que um determinado agente ou grupo
deles pretende ter acesso e controle.

b) As organizações populares e suas territorialidades


Um outro tipo de territorialidade urbana pode ser visualizada nas ações
dos movimentos populares e mais precisamente nas suas organizações re-
presentativas. As territorialidades definidas por esses agentes, a exemplo
das empresas do mercado imobiliário, são de caráter não formal, o que não
implica afirmar, entretanto, que as mesmas sejam frágeis e ineficientes:

"mesmo significando limites subjetivos e prescindindo de demar-


cações institucionais mais sólidas, estas territorialidades esta-
belecem o contorno do alcance de seu raio de poder com mais
clareza e precisão que 'territórios' definidos a partir de recortes
institucionais" (MOURA & ULTRAMARI, 1994:108).

Isto não significa dizer que elas prescindam das territorialidades


institucionalizadas. Em determinadas circunstâncias, a prática para a defini-
ção de territorialidades que são subjetivas estão muitas vezes submetidas a
circunscrições que passam pelo limite do formal, não havendo, portanto, como
descartá-lo, mesmo que se tratem de movimentos populares não institucio-
nalizados.
Ainda que todos postulem o direito à cidade e suas demandas sejam
parecidas, existem diferenças no interior do próprio movimento popular urba-
no que não nos permite vísualizá-los como um bloco politicamente monolítico.
Tais diferenças se colocam notadamente no plano das orientações políticas e
vão definir, por sua vez, correlações de força responsáveis, igualmente, pela
configuração de territorialidades distintas.
Os territórios das entidades representativas das organizações popula-
res estão expressos espacialmente através dos centros comunitários, das
associações de moradores e das organizações de bairro de um modo geral.
Estes acabam por definir os raios de ação e controle das redes de articulação
política que se estruturam em torno deles. A filiação de uma dessas organiza-
ções a uma entidade geral, por exemplo, e não a uma outra que lhe é politica-
mente adversa, expressa uma ação sócio-espacial que acaba por delimitar o
espaço em diferentes áreas e/ou pontos de influência política.
Esse tipo de relação nos permite visualizar nitidamente o caráter
multidimensional do poder, conforme menciona BECKER (1983), ou seja,
manifesta-se em escalas as mais diversas, envolvendo agentes outros que
não necessariamente o Estado ou agentes hegemônicos definidos a partir do
poder econômico. Define-se em várias escalas, dentre elas a escala local,
correspondente ao lugar, à dimensão do espaço vivido, caracterizada pelo
uso cotidiano do espaço.
Agentes, redes e territorialidades urbanas 43

Com isso, cria-se também uma multidimensionalidade do espaço, que


se instrumentaliza através do conhecimento, apropriação e gestão de partes
dele, sendo uma combinação de poder (atributo de múltiplos atores sociais) e
espaço (dimensão material das relações sociais), que define o processo de
territorialização (DORFMAN, 1995:105).
Não se associa, absolutamente, à territorialidade senhorial, conforme
visto anteriormente para o caso das empresas do mercado imobiliário. Pare-
ce estar mais próxima do tipo de territorialidade familiar, conforme a definição
de MESQUITA, ou seja, "quando no território atualizamos pela nossa identi-
dade com ele, antigos sentimentos de emulação, competição ou solidarieda-
de vividos no território familiar" (1995:86).
É o que percebemos, por exemplo, quando no embate político das or-
ganizações populares se estabelecem correlações de força nas quais o es-
paço entra como uma mediação necessária. Nesse caso não se trata sim-
plesmente de luta por territórios; esta é apenas uma dimensão do processo
que se coloca no cenário urbano. O espaço, nesse caso, aparece como um
elemento necessário à reprodução das estratégias de luta e de
(des)mobilização política.
Diferentemente do tipo de ação das empresas imobiliárias, que se dá
em função do poder econômico, e que gera territorialidades autodefinidas e
residuais, no caso dos movimentos populares urbanos, parece se tratar mais
de agentes que definem territorialidades mais em função de articulações po-
líticas, contribuindo para isso a convergência de forças que se aglutinam a
partir das redes de agentes.
Nesse caso, os processos de ampliação, retração e subtração de áreas
ou pontos de influência são muito mais marcantes, o que faz com que os
produtos dessas correlações de força sejam mais resultados do tipo de
mobilização empreendido, que propriamente resíduos de imposições de uma
coligação de agentes que definem sua relação de poder para com outros
agentes, ainda que o tipo de parceria contribua decisivamente para a exten-
são de uma dada territorialidade.
Talvez por isso os territórios dessas entidades sejam em alguns ca-
sos melhor definidos por pontos que propriamente por zonas, marcando,
igualmente, um tipo de territorialidade que é, ao mesmo tempo, informal e
fugaz (MACHADO, 1997). É também uma forma específica de apropriação
do espaço que é dinâmica e transitória, posto que está, em grande parte,
apoiada em estratégias de sobrevivência e de satisfação de necessidades
imediatas de um segmento de baixo poder aquisitivo e não, necessaria-
mente, num projeto político mais efetivo que leve esse mesmo segmento
social a pensar a cidade em sua totalidade. Isso acontece, a despeito da
convicção ou atuação política de suas lideranças. Essa fragilidade se agra-
va principalmente quando as coligações que as formam estão pautadas
em parcerias cujos elos pressupõem uma forte ação clientelista em rela-
ção ao Estado.
44 Revista TERRITÓRIO, ano 111,nº 5, jul./dez. 1998

Nesse tipo de territorialidade também não se percebem delimitações


claramente definidas, ainda que se possa falar em áreas com maior ou menor
influência de determinados agentes. Os limites são colocados em outros ter-
mos: "sendo a ação sempre comandada por um objetivo, este é também uma
de/imitação em relação a outros objetivos possíveis" (RAFFESTIN, 1993:153);
daí comumente se configurarem como territórios descontínuos.
Não se trata também de uma forma de territorialidade definida a priori
tendo em vista a potencialidade apresentada pelos recursos do espaço soci-
almente produzido, a exemplo do que se verifica com as empresas imobiliári·
as. Trata-se muito mais de conquistar novos espaços que possam reforçar
uma dada postura político-ideológica no plano da correlação de forças colo-
cadas no cenário urbano. Vive-se o processo territorial e o produto territorial,
simultaneamente, por meio de um sistema de relações (RAFFESTIN,
1993: 158) configurado territorial mente.
As organizações de bairros - associações de moradores, centros co-
munitários, etc, -, no plano da espacial idade, apresentam-se, portanto, como
elementos difusores de uma dada coerência política, contribuindo para defi-
nir um verdadeiro sistema territorial que viabiliza ações e objetivos; daí o
caráter pontual do sistema que configura esse tipo de territorialidade.

c) Os formatos territoriais institucionalizados


A delimitação das escalas de ação e controle dos agentes produtores
do urbano não se dá apenas no plano informal/subjetivo. Alguns desses raios
de ação, de controle e de sentimento de pertencimento passam a ser institu-
cionalizados, delimitando territorialidades formalmente estabelecidas.
Os recortes territoriais que são institucionalizados no espaço urbano
parecem ser, muitas vezes, uma conseqüência da dinâmica imprimida a par-
tir do processo de reestruturação urbana que define a dinâmica da segrega-
ção. Um exemplo desse processo diz respeito aos movimentos de emancipa-
ção política e de criação de municípios no interior das regiões metropolitanas.
Nesse caso, o que se observa é que essas localidades objeto de par-
tilhas territoriais estão, em grande parte, situadas nos limites mais avançados
das áreas de expansão urbana e todo o movimento que induz ao processo de
emancipação está muitas vezes ligado ao processo de suburbanização e de
exclusão social a que estão sujeitas as periferias distantes dos núcleos me-
tropolitanos.
Alguns elementos parecem justificar esse processo. Primeiramente é
preciso considerar o grande número de pessoas que passa a habitar essas
áreas de subúrbio, definindo o processo de segregação urbana bastante co-
mum nas cidades brasileiras e especialmente nas regiões metropolitanas.
Pelas próprias condições impostas a essas localidades - definidas principal-
mente como novos espaços de assentamentos residenciais populares -, o
quadro de carências tende a se agravar de maneira exorbitante, o que, evi-
dentemente, faz aflorar as demandas relacionadas ao espaço do morar; de-
Agentes, redes e territorialidades urbanas 45

mandas estas que não conseguem ser satisfeitas por parte do poder político
local.
Posteriormente, entretanto, esse movimento que na sua gênese tem
um fundamento reivindicativo, é capturado principalmente pelas lideranças
políticas locais, o que faz com que o uso político do território tome uma outra
dimensão. A capturação dessas demandas leva as lideranças políticas a se
apropriarem do movimento com vistas à promoção política eleitoral. Isto acon-
tece porque o crescimento do número de residentes e de domicílios nesses
espaços, traduz-se também num maior número de eleitores, que acaba por
justificar os esforços das lideranças locais pela idéia de emancipação. Em
que pese a participação popular no processo de emancipação, enquanto pro-
jeto político, são as lideranças políticas locais que não só encaminham o
processo, como também dele se apropriam.
É nesse sentido que esses territórios formais são criados muitas vezes
com base em um discurso que manipula anseios de uma coletividade, bus-
cando concretizar projetos particulares a partir de uma falsa crença de agre-
gação de interesses comuns.
A institucionalização de níveis de administração política, como o muni-
cípio, revela mesmo a eficácia à realização de determinados interesses. Con-
forme nos mostra TAVARES (1992), o município, enquanto recorte espacial,
foi instituído não só como uma forma de administração, mas também como
um instrumento de controle; por isso ele tem um significado político ao ex-
pressar relações de poder, materializadas no espaço por meio da apropria-
ção e domínio do território por grupos sociais. Nesse sentido, "a criação de
municípios pode se tornar, assim, e ao mesmo tempo, instrumento político de
organização e de dominação" (TAVARES, 1992:3).
Conforme vimos anteriormente, a territorialidade pode, segundo MES-
QUITA (1992 e 1995) expressar-se como uma territorialidade familiar ou como
uma territorialidade senhorial. Além dessas, a mesma autora distingue uma
outra, chamada de territorialidade cultural, sendo esta "uma vivência coletiva,
preservadora de usos, costumes e tradições do passado que reforçam o sen-
timento de orgulho de pertencer a um território" (MESQUITA, 1992:76). Ao
tratarmos das territorialidades formais em decorrência do processo de eman-
cipação política, percebemos que elas reúnem um pouco da dimensão de
cada uma dessas expressões de territorialidade.
Segundo ainda a mesma autora, a territorialidade é principalmente uma
vivência de caráter individual ou mesmo compartilhada que se vincula a um
espaço tendo em vista a projeção de uma identidade individual ou coletiva.
Enquanto projeção de identidade social, a territorialidade nunca deixa de existir,
podendo, sim, permanecer escondida, manifestando-se primordialmente atra-
vés e quando há confrontos pelo território, com outro grupo, sendo, por isso,
eminentemente contrastiva (MESQUITA, 1992:76 e 79).
Nesse caso, para ser considerado como pertencente a determinado
grupo, com dada referência territorial, há necessidade que o indivíduo esteja
46 Revista TERRIT6RIO, ano 111,nO 5, jul./dez. 1998

localizado nos limites circunscritos do território ou do pretenso território. Aque-


les que não residem dentro desses limites simplesmente são excluídos dessa
identidade territorial (SACK, 1986:37). Assim sendo, o componente territorial
é um elemento de significativa importância para criar diferentes acessos aos
objetos espaciais. E isso é melhor garantido no momento em que se
institucionaliza, ou formaliza, a instância territorial, como no caso da criação
de um município.
Com base nisso, é que podemos compreender que as ansiedades que
afloram a partir das necessidades construídas no lugar - permeadas da idéia
de progresso, desenvolvimento, empregos, justiça social, etc. - têm raízes
nas identidades do grupo social com o lugar que habita, permitindo uma
imbricação do político com o cultural, do econômico com o social, do interno
com o externo (TAVARES, 1992:5).
Nesse sentido, a gênese do processo de emancipação em aglomera-
ções urbanas tem a ver inicialmente com um tipo de territorialidade,
precipuamente familiar e cultural. mas que se vai amalgamando com uma
expressão senhorial de territorialidade que, por sua vez, caracteriza um tipo
específico de uso político do território, que tende a anular diferenças, deslo-
car conflitos ou mesmo escondê-los.
É em cima da mobilização induzida por um quadro de carências que se
organizam as redes de articulação política, as quais instrumentalizam a eman-
cipação. Tais estratégias tornam-se muito mais fáceis de serem concretiza-
das quando se tratam de espaços que apresentam um ritmo de crescimento
populacional significativo, de baixa renda e que mora em áreas com uma
infra-estrutura precária, o que se traduz num potencial eleitoral de grandes
retornos para essas lideranças locais.
Em torno disso, criam-se representações do espaço expressas como
geografismos6 e/ou territorialisrnos? , com vista ao uso político do território, muito
bem veiculadas por lideranças políticas que buscam se apropriar do movimen-
to. Idéias de que um lugar explora o outro ou de que o poder municipal não
investe em determinados bairros cria um sentimento de perda, de exploração e
de exclusão que acaba por definir uma dada identidade territorial que mobiliza
ações emancipatórias. Isso porque as ações governamentais ocorrem a partir
de territórios formalmente constituídos, ainda que estes não reflitam necessari-
amente a complexidade da produção do espaço metropolitano.
O discurso apresentado nesse nível leva a crer que é na instância
territorial almejada - no caso, a instância municipal- que os problemas obje-

6 Segundo LACOSTE (1988:65), correspondem a metáforas por meio das quais ex-
pressam-se idéias de dominação e exploração de um lugar em relação a outro ou de
um espaço em relação a outro, omitindo-se os verdadeiros sujeitos ou grupos soci-
ais que exercem esses papéis.
7 Entendido como o mau uso da territorialidade, através do qual se sobrevaloriza um
território de pertencimento (BRUNET et ai. apud HAESBAERT, 1995b).
Agentes, redes e territorialidades urbanas 47

tos de surgimento da idéia de emancipação serão invariavelmente resolvi-


dos. Trata-se, como nos diz SACK (1986:39), de designar a solução desses
problemas para a escala errada. Na situação apresentada, é sabido que é na
escala metropolitana que eles se constituem.
Para os usuários da cidade, entretanto, devido a própria complexidade
de produção do espaço metropolitano, torna-se obscuro detectar a quem re-
correr para encaminhar suas reivindicações, uma vez que a ingerência de
outras formas de poder extra-municipal na escala local acaba por gerar séri-
os conflitos e aguçar a chamada desordem urbana. Os programas habitacionais
do Governo Federal constituem bons exemplos desse tipo de ingerência da
esfera federal no espaço municipal, haja vista que sua atuação sobre o muni-
cípio é realizada, na maioria das vezes, sem nenhuma consulta aos setores
responsabilizados pelo crescimento e direcionamento da cidade (SILVA,
1992:168).
Portanto, na situação em referência, é na compreensão dessa escala
de organização do espaço - a metrópole - que se deve pensar a gestão
territorial. Do contrário, o que ocorre é um deslocamento da causa dos confli-
tos para conflitos entre os próprios territórios, entre a área central da metró-
pole e o subúrbio, ou mesmos entre estes últimos. Esta atitude acaba por
obscurecer sensivelmente o impacto espacial dos eventos, dificultando so-
bremaneira a visualização dos verdadeiros processos que os originam.
Em função disso, são ratificados e reproduzidos modelos de territoria-
lidades que comportam partilhas e remembramenlos:

"São processos emancipatórios ou agregadores que decorrem


de interesses específicos de grupos políticos ou econômicos na
busca de definir 'territórios de poder' onde a representatividade
oficial é a garantia da defesa desses interesses respaldados pelas
tradições democráticas. Como artifício de legitimidade, o discur-
so procura identificação com pretensas aspirações das comuni-
dades envolvidas, passando a demarcar territorialidades, ora for-
jando uma identidade territorial, ora funcionando como represen-
tação de interesses locais e regionais" (MOURA et ai., 1994:114).

Mu itas vezes, mais que forjar tais identidades, a estratégia é principal-


mente de apropriar-se delas e ratificá-Ias, haja vista que a própria
heterogeneidade do espaço produzido e o padrão de exclusão existente en-
carregam-se de conferir essa aproximação identitária forçosamente construída,
a partir da forma metropolitana dispersa, por exemplo.
Num outro plano, significa também o controle da arrecadação de im-
postos locais, principalmente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM)
- calculado sobre o total da população residente - por esses grupos que se
interessam pela idéia de emancipação, significando que as territorialidades
formais almejadas circunscrevem limites relacionados à gestão do espaço, a
48 Revista TERRITÓRIO, ano 111,nº 5, jul./dez. 1998

decisões políticas, a investimentos socioeconõmicos e, principalmente, à pro-


moção política.
Esse tipo de estratégia mostra que as partilhas territoriais, tendo em
vista interesses locais específicos, acabam por facilitar que o território figure
como objetivo final do processo e não como de fato ele se insere, ou seja,
como meio de controle (SACK, 1986:39).
O discurso favorável à emancipação, por exemplo, dilui diferenças, num
forte sentimento de defesa contra o externo. Iguala-se o que não é igual,
caracterizando aquilo que MORAES chama de ideologias geográficas, ge-
rando uma espécie de mentalidade corporativa de base espacial: "o estabele-
cimento de laços entre os indivíduos tendo por referência os locais de origem
ou residência atua no sentido de criar falsas comunidades de interesses, vei-
culando uma ilusão de identidade" (MORAES, 1988:101 ,.

Considerações finais

Diante do exposto, é preciso considerar que o espaço nao e apenas


produto ou reflexo das relações sociais, ele é também força capaz de repro-
duzir tais relações. As estratégias em torno das apropriações diferenciadas
do espaço urbano pressupõem considerar esses atributos do espaço social-
mente produzido.
Na correlação de forças estabelecida entre os agentes, o que está em
jogo parece ser o controle das localizações socialmente produzidas. Em de-
terminadas circunstâncias algumas ações não se mostram perspicazes quanto
a importância dessa estratégia sócio-espacial, ou mesmo se colocam impo-
tentes. face a outras ações estrategicamente mais eficazes e melhor organi-
zadas em redes de articulação política. A forma urbana e o padrão de segre-
gação sócio-espacial da cidade capitalista resulta desse embate, que, por
sua vez, é fruto de um conjunto de ações que viabilizam as diferentes estraté-
gias de apropriação do espaço.
Mas como se garante a manutenção da forma urbana, o seu padrão de
organização interna, e a apropriação diferenciada do urbano?
As diretrizes do processo de (re)estruturação espacial são definidas
pelos agentes hegemõnicos da produção social do espaço, mas concorrem
para essa conformação os demais agentes locais que estabelecem correla-
ções de forças e redes de ação com vistas à apropriação e o controle do
espaço. Isto é facilitado pela transformação do espaço social em espaço
abstrato, ou seja, do espaço precipuamente valor de uso em espaço merca-
doria. Para isso, a cidade é vendida em pedaços, como fragmentos de um
imenso mosaico; sendo esta fragmentação uma forma de viabilizar a sua
transformação em mercadoria. Isso facilita imensamente a configuração de
territorialidades diversas, através das quais a mercadoria espaço e o uso
político~'do território são recorrentes. A existência dessas territorialidades,
Agentes, redes e territorialidades urbanas 49

como vimos, definem o espaço como condição e meio de reprodução das


relações sociais.
Os territórios e as territorialidades, sendo expressões espaciais bá-
sicas da presença do poder em suas múltiplas dimensões, oferecem uma
ligação essencial entre a sociedade, o espaço e o tempo, pois é através deles
que os agentes e suas coligações, aqui definidas como redes, constroem e
mantêm as organizações espaciais. Foi esse raciocínio que procuramos per-
seguir ao considerar a existência de territorialidades urbanas e ao selecionar
alguns exemplos importantes para esse tipo de reflexão.

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