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PATRIMÔNIO

IMATERIAL: DEBATES
CONTEMPORÂNEOS

Sylvia Couceiro'
Cibele Barbosa°

A construção histórica de um conceito mento da idéia de nação'. Utilizado com fina-


Resguardar a memória de uma época, lidades políticas, visando unir grupos econó-
de acontecimentos e figuras importantes a mica e culturalmente diferentes, integrar
partir de marcos físicos que possam repre- facções politicamente divergentes, no senti-
sentá-las é uma característica comum a gru- do de consolidar um projeto de nação, o con-
pos sociais de várias partes do mundo. E ceito de património histórico nacional
uma noção universal. A idéia de monumen- começou a ser forjado durante a Revolução
to trabalha e mobiliza a memória coletiva da Francesa. No decorrer das lutas revolucioná-
emoção e da afetividade, fazendo vibrar um rias, buscando defender da agressão e da
passado selecionado com vistas a preser- pilhagem imóveis e obras de arte pertencen-
var a identidade de uma comunidade étni- tes às elites francesas, grupos interessados
ca, religiosa, nacional, tribal ou familiar começaram a discutir os meios necessários
(SANT'ANNA, 2003). para defender a integridade e manutenção
Enquanto a idéia de monumento está pre- desses símbolos.
sente nas mais variadas sociedades, a no- A partir desse período e durante todo
ção de patrimônio histórico e artístico da forma século XIX, várias nações européias, em
como conhecemos hoje remete ao final do processo de consolidação das suas frontei-
século XVIII e tem ligação direta com o surgi- ras e na luta pelo fortalecimento do senti-

* Doutora em História pela universidade Federal do Doutoranda em História pela universidade Sorbonne,
Pernambuco e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco. Paris iv, e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco.
mento nacionalista, iniciaram ações voltadas da cultura, passaram a nortear os debates,
para a escolha e preservação do que se es- sobretudo os congressos e convenções pro-
tabelecia na época como patrimônio nacio- movidas em nível mundial pela Unesco.
nal. Os princípios renascentistas de beleza No Brasil, o processo não se deu de for-
e importância histórica, a idéia de represen- ma muito diferente. Ainda nos dias de hoje,
tação da nação a partir da grandiosidade e quando a expressão "patrimônio histórico e
singularidade de construções e objetos de artístico" é mencionada, a primeira idéia que
arte, norteavam, então, a noção do que de- vem à mente da maioria das pessoas é um
veria ser considerado como patrimônio. Ins- conjunto de edificações ou monumentos
tituições públicas, especialistas no tema e antigos, como igrejas, prédios públicos, ca-
uma legislação específica foram sendo cria- sarões, que por sua antiguidade, pela impor-
das ao longo do século XIX pelos países da tância artística ou pela relação com fatos e
Europa, em especial pela França, no senti- personagens históricos importantes, são
do de identificar, conferir autenticidade e pro- merecedores de serem preservados.
teger bens avaliados como verdadeiros A idéia de considerar danças, manifes-
"tesouros nacionais". tações, aspectos ligados à culinária, ofíci-
Ao longo da primeira metade do século XX, os e diversos costumes de comunidades
a concepção de patrimônio e a conceituação específicas, como merecedores de ações
de bem cultural se consolidaram no mundo especiais de proteção e salvaguarda por
ocidental como uma referência ligada a bens parte das políticas governamentais é uma
tangíveis, os chamados 'pedra e cal", só co- idéia com presença relativamente recente
meçando a ser questionada de modo mais nos debates nacionais acerca do tema.
amplo no período pós-Segunda Guerra Mun- Como na esfera mundial, o conceito de
dial. Com o final do conflito as críticas ao nacio- patrimônio imaterial ou intangível, não sur-
nalismo imperialista e a derrota dos regimes giu no Brasil sem polêmicas. Construído ao
nazi-fascistas, que pregavam um uso racista e longo de setenta anos, passando por pre-
excludente do passado, os debates em tomo cursores como Mário de Andrade nos anos
do tema geraram novos quesionamentos. Ins- 1930 e Aloísio Magalhães na segunda me-
tituições como a ONU - Organização das Na- tade do século XX, a idéia de bem imaterial
ções Unidas -' e a Unesco - Organização das acompanhou, ao longo de décadas, as dis-
Patrimônio
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e cussões do extinto Serviço do Patrimônio Imaterial: debates
a Cultura—, criadas após o término da Guerra, Histórico Nacional - Sphan e do seu suces- contemporâneos

deram visibilidade a diferentes demandas que sor, o Instituto do Patrimônio Histórico e Ar-
tístico Nacional - lphan. Sylvia Couceiro
surgiam por partes dos chamados países do Cibele Barbosa
Terceiro Mundo, das colônias e dos movimen- Mário de Andrade, figura das mais des-
tos sociais que começavam a se organizar em tacadas das artes no Brasil, ativo participante
prol dos direitos civis. da Semana de Arte Moderna de 1922, foi
Nessa nova conjuntura político-econômi- um dos primeiros intelectuais a reconhecer
ca, a compreensão da noção de bem cultural a importância que os costumes, comporta-
começa a ser revista. E importante destacar mentos cotidianos e outras manifestações
que a associação entre patrimônio a ser res- populares têm para a compreensão da cul-
guardado e a materialidade do bem dificulta- tura de um povo, inaugurando as discussões
ram a ampliação da conceituação de bem sobre o tema cultura imaterial no país. Sua
cultural passível de ser salvaguardado, levan- concepção de patrimônio, engendrada nas
do os especialistas a impasses e muitas di- décadas de 1920 e 1930, foi fruto das via-
vergências. A relevância da cultura imaterial, gens pelo interior do país e da experiência à
questionamentos relativos à sua pertinência frente do Departamento de Cultura de São
e legitimidade enquanto nova categoria a com- Paulo. No período em que dirigiu o órgão,
por as agendas das políticas públicas na área Mário de Andrade desenvolveu uma propos-

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ta inovadora e pioneira de recolha e registro 20) no Livro do Tombo Histórico, as coi-
do patrimônio intangível, utilizando-se das sas de interesse histórico e as obras de
novas tecnologias de gravação e filmagem arte histórica;
para coleta e salvaguarda de documentação 30) no Livro do Tombo das Belas-Artes,
sobre as mais diversas formas de expres- as coisas de arte erudita nacional ou es-
são da cultura popular brasileira. trangeira;
Andrade também esteve envolvido na 40) no Livro do Tombo das Artes Aplica-
criação do Serviço de Patrimônio Histórico das, as obras que se incluírem na cate-
e Artístico Nacional (Sphan), cujo projeto goria das artes aplicadas, nacionais ou
orientava-se no sentido de aproximar e de- estrangeiras.
mocratizar o acesso aos bens culturais, man- As atividades dos sucessores de Mário
tendo sempre o respeito quanto às suas de Andrade, nos anos 1950, estiveram liga-
peculiaridades. Foi a partir dessas discus- das à Campanha de Defesa do Folclore Bra-
sões levantadas por Andrade que a idéia de sileiro, criada em 1947, durante o governo
bem patrimonial e a necessidade da sua pre- do General Eurico Gaspar Dutra. Desse
servação, começou a ser implantada no Bra- movimento nasceu o Centro Nacional de
sil, resultando na assinatura, no governo de Folclore e Cultura Popular em 1958.
Getúlio Vargas, do Decreto Lei 25 de 30111/ Nesse contexto, outra personalidade de
1937 O Decreto estabelecia a lei de tomba- grande importância na ampliação da visão
mento de edificações consideradas de ex- de bem patrimonial no Brasil foi Aloísio
cepcional valor para a cultura nacional. No Magalhães. Ao criar no país, ainda nos fi-
artigo 1°, o Patrimônio Histórico e Artístico nais da Ditadura Militar, o Centro Nacional
Nacional era definido como: de Referências Culturais - (CNRC), Maga-
O conjunto dos bens móveis e imóveis lhães trazia para o debate temas como a
existentes no país e cuja conservação homogeneização cultural, a assimilação de
seja de interesse público, quer por sua práticas culturais externas, a influência das
vincula ção a fatos memoráveis da histó- transformações advindas com as inovações
ria do Brasil, quer por seu excepcional
valor arqueológico ou etnográfico, biblio- tecnológicas nos diversos aspectos da cul-
gráfico ou artístico. tura nacional, dentre outros. Para Aloísio
Magalhães, era urgente repensar alguns
Património Para a preservação do que se conside-
Imaterial: debates critérios e conceitos estabelecidos acerca
contemporâneos rava então como patrimônio histórico e ar-
do que deveria ser preservado no país, sob
tístico - as construções monumentais e
pena de, aos poucos, o país perder o con-
Sylvia Couceiro outras obras de arte - o decreto instituía a
Cibele Barbosa tato com o que ele considerava as autênti-
criação de quatro "Livros de Tombo", onde
cas raízes da nacionalidade brasileira.
oficialmente ficariam registrados os bens de
Um dos grandes feitos deAloisio Magalhães
reconhecido valor para a cultura nacional:
foi a de ter contribuído para uma nova concep-
Do Tombamento ção de patrimônio cultural, que incluía segun-
Art. 4°- O Serviço do Patrimônio Históri- do o mesmo, o gesto, o hábito, a maneira de
co e Artístico Nacional possuirá quatro ser da nossa comunidade (MAGALHAES,
Livros de Tombo, nos quais serão inscri- 1985, p. 63). Magalhães, portanto, conseguiu
tas as obras a que se refere o art. 1° estender a proteção do Estado ao patrimônio
desta lei, a saber: não-consagrado, relacionado à cultura popu-
1 0) no Livro do Tombo Arqueológico, lar e aos cultos afro-brasileiros.
Etnográfico e Paisag(stico, as coisas per- A emergência da cultura imaterial
tencentes às categorias de arte arqueo-
lógica, etnográfica, ameríndia e popular na agenda patrimonial
e, bem assim, as mencionadas no 20 O início dos anos 1970 marca uma pági-
do citado art. 10; na importante no processo de ampliação da

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agenda de políticas patrimoniais no mundo. diversidade cultural em todos os países.
O desafio da Unesco, naquele momento, Esse intuito relacionava-se à necessidade de
consistia em garantir um acordo internacio- evitar que culturas locais e grupos étnicos
nal de proteção aos bens que ultrapassasse fossem alvo de perseguições políticas e
ojá desgastado conceito de patrimônio, cuja mesmo religiosas, fato que se sucedera ao
caracterização estava assentada nos bens longo do século XX. Outras preocupações
materiais. A 17a Convenção pela Proteção voltavam-se para efeitos da globalização na
do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural de uniformização das culturas. Diante desse
1972, foi um passo importante no processo quadro etnocêntrico e homogeneizante, era
de ampliação da noção dos bens a serem necessário desenvolver propostas que fo-
protegidos, ao incluir o meio ambiente no seu mentassem a diversidade e a liberdade das
texto. No entanto a parte relativa aos bens manifestações culturais em diversas partes
culturais considerava como patrimônio ape- do mundo.
nas os bens móveis e imóveis. Como atesta Em 1982, durante a Conferência sobre
o artigo 10 da Convenção, eram considera- as Políticas Culturais ocorrida no México, a
dos como patrimônio cultural: idéia de cultura imatedal passou a integrar
• Os monumentos - Obras arquitetônicas, os textos oficiais da Unesco. Nessa ocasião,
de escultura ou de pintura monumentais, a cultura era compreendida como a totalida-
elementos de estruturas de caráter ar- de dos traços distintivos espirituais e mate-
queológico, inscrições, grutas e grupos riais, intelectuais e afetivos (Cf. Conferência
de elementos com valor univeisal excep- Mundial sobre as Políticas Culturais, Méxi-
donal do ponto de vista da história, da co, 1982) No entanto, as ações mais efeti-
arte ou da ciência; vas com vistas à regulamentação dos bens
• Os conjuntos - Grupos de construções imateriais só foram levadas a êxito no docu-
isoladas ou reunidas que, em virtude mento Recomendação sobre a Salvaguar-
da sua arquitetura, unidade ou integra- da da Cultura Tradicional e Popular da
ção na paisagem têm valor universal Unesco em 1989.
excepcional do ponto de vista da his- Foram os países orientais e os do cha-
tória, da arte ou da ciência; mado 'Terceiro Mundo" os principais respon-
• Os locais de interesse - Obras do ho- sáveis pelas reivindicações em prol da
Patrimônio
mem, ou obras conjugadas do homem ampliação do conceito de patrimônio. Como imaterial: debates
e da natureza, e as zonas, incluindo afirma Sant'Anna, quando nos anos 50, o contemporâneos

os focais de interesse arqueológico, Japão instituiu uma primeira legislação de


com um valor universal excepcional do preservação do seu patrimônio cultural, não Syivia Couceiro
Cibele Barbosa
ponto de vista histórico, estético, etno- foram obras de arte e edificações o seu alvo,
lógico ou antropológico. mas o incentivo e o apoio a pessoas e grupos
Na esteira da Convenção de 1972, re- (2003, p. 49)Em países da Ásia, da América
presentantes da Bolívia apresentaram à Latina e da Afta, as culturas tradicionais e
Unesco uma proposta voltada para a regu- orais desempenham um papel decisivo na
lamentação da proteção e da promoção do formação das identidades locais. Desse
folclore. E importante lembrar que, na épo- modo, esses países exerceram avanços na
ca, o termo bem imaterial ou intangível não legislação de proteção às culturas tradicionais
compunha a pauta dos documentos oficiais face à Europa, que continuava mantendo a
nem despontava como um conceito. concepção clássica de património.
Desse modo, o princípio que norteou as O Brasil, antes mesmo da Recomenda-
ações voltadas para o patrimônio imaterial, ção Internacionalde 1989, trazia no texto da
no início das atividades da Unesco, se inse- sua Constituição de 1988, referências ao
ria no propósito das Nações Unidas em pro- patrimônio cultural brasileiro entendido como
porcionar os meios para a sobrevivência da os bens de natureza material e imaterial,

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tomados individualmente ou em conjunto, investigação, a preservação, a proteção,
portadores de referência à identidade, à a promoção, a valorização, a transmissão
ação, à memória dos diferentes grupos - essencialmente por meio da educação
(BRASIL. Constituição 1988). Apesar de o formal e não-formal - e revitaliza ção des-
texto constitucional prezar pela abrangência te patrimônio em seus diversos aspectos.
do património, as interpretações em torno Dessa forma a salvaguarda se dedica a
dos bens passíveis de serem tombados ain- garantir a integridade dos "meios" que pos-
da suscitavam debates e muitas vezes ge- sibilitem a manifestação e a produção dos
ravam obstáculos aos avanços da legislação bens imateriais. A intenção é garantir os
em torno do patrimônio imaterial. Porém em meios de existência e propagação desse
2000, o Brasil deu um importante passo atra- patrimônio. Nesse aspecto, um dos primei-
vés do Decreto 3.551 o qual estabeleceu o ros passos do processo de salvaguarda é o
Registro de Bens Culturais de Natureza Ima- da criação de mecanismos que garantam o
terial que constituem patrimônio cultural bra- acesso à informação e à documentação so-
sileiro. bre essas manifestações culturais. No caso
O Decreto de 3.551 foi uma das ações brasileiro, essas ações de salvaguarda se
pioneiras de registro de bens imateriais no intensificaram com o Programa Nacional do
mundo, antecipando-se à Convenção para a Património ]material, implantado pelo Gover-
Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imateri- no Federal em parceria com instituições dos
al, realizada em Paris no ano de 2003, consi- governos estaduais e municipais, universi-
derada um marco das ações de salvaguarda dades, organizações não-governamentais,
no mundo inteiro. O patrimônio imaterial é agências de desenvolvimento e organiza-
definido na Convenção como o conjunto de: ções privadas ligadas à cultura, à pesquisa
Práticas, representações, expressões, e ao financiamento.
conhecimentos e técnicas - junto com O texto produzido na Convenção de 2003
os instrumentos, objetos, arte fatos e foi aprovado pelo Congresso Nacional Bra-
lugares culturais que lhes são associa- sileiro e promulgado pelo Governo Federal
dos - que as comunidades, os grupos através do Decreto 5.753 de 2006. Apesar
e, em alguns casos, os indivíduos re- de ser um passo importante para a inclusão
conhecem como parte integrante de seu desse patrimônio na agenda jurídica, ainda
Património patrimônio culturaL
Imaterial: debates há um longo caminho a ser trilhado no cam-
contemporâneos Uma das preocupações dos relatores des- po das políticas públicas, bem como na ela-
se documento era a de esclarecer a aplica- boração de conhecimentos sobre a cultura
Sylvia Couceiro ção do termo 'salvaguarda". Aparentemente imaterial no Brasil.
Cibele Barbosa
o significado dessa expressão levada a uma
compreensão clássica do conceito de patri- Limites e apropriações conceituais
mônio, em que salvaguardar significa resga- Conforme foi ressaltado, a polissemia do
tar e preservar. No entanto a palavra conceito de cultura imaterial tem suscitado
preservação poderia levar a interpretações vários debates, desde os anos oitenta quan-
que se aproximam da idéia de museificação. do a expressão adquiriu força nas conven-
No caso da cultura imaterial, por se tratarem ções da Unesco. O termo imaterial também
de manifestações mutáveis, ressignificadas chamado de "intangível" na versão inglesa
ao fio dos tempos, o adjetivo preservação (intangible he ritage) , a princípio foi criado no
adquiria um tom inadequado. Para evitar esse intuito de distinguir o patrimônio que ela re-
tipo de conceituação, a Convenção da Unesco cobre (imaterial), dos que já faziam parte das
(2003) definiu como salvaguarda: convenções da Unesco, os patrimônios ma-
As medidas que visam garantir a viabili- teriais (físicos) e naturais. Desse modo, as
dade do patrimônio cultural imaterial, tais diferentes maneiras pelas quais as comuni-
como a identificação, a documentação, a dades e grupos se representam e represen-

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tam o mundo que os cerca, seriam também maior valorização do subjetivo face ao objeti-
um patrimônio a ser zelado pela humanida- vo, dos produtores face aos produtos, da pes-
de. Ritos, crenças, festejos e formas artísti- soa face ao objeto.
cas seriam apenas alguns exemplos da Desse modo, as considerações acerca
variedade de manifestações que entrariam do patrimônio imaterial permitem uma apre-
na definição de cultura imaterial. No entan- ensão horizontal da cultura, colocando no
to, o uso do termo apresenta alguns limites mesmo patamar das ações de salvaguarda
de aplicação. A questão que se coloca é a tanto as culturas escritas e monumentais
seguinte: por que há a necessidade de se como aquelas fundadas nas tradições dos
dividir a cultura em bens tangíveis e intangí- gestos e da voz. Trata-se, portanto, de des-
veis se todas as crenças, hábitos e repre- fazer as hierarquias impostas pelas políticas
sentações presentes possuem um anteparo patrimoniais e permitir um olhar mais plural
material? O próprio texto da Convenção da e menos etnocêntrico sobre a cultura.
Unesco nos revela a resposta: essa divisão Cultura imaterial e cultura popular
nasce da necessidade de incluir e ampliar
É comum haver a associação entre a
as categorias de bens sujeitos às políticas
patrimoniais. Para tanto, era preciso garan- definição de cultura imaterial e a cultura po-
pular. De fato, boa parte dos bens inscritos
tir a especificidade de determinados bens a
fim de que recebessem uma maior atenção nessa categoria fazem parte do rol de mani-
das ações de salvaguarda. festações próprias às comunidades tradici-
No entanto, apesar dos limites do termo onais, cujas práticas estão assentadas na
imaterial, o sentido que ele carrega, apresen- tradição oral e nas manifestações lúdicas.
ta algumas considerações que vão de encon- Historicamente as expressões das cultu-
tro ao conceito de monumentalidade, próprio ras tradicionais foram alvo de diferentes tipos
à noção clássica de patrimônio. A noção de de perseguições e em vários casos, a liber-
cultura intangível permite considerar que não dade de exercerem suas práticas esteve cer-
são os objetos os elementos mais importan- ceada por impositivos políticos e em alguns
tes da cadeia do patrimônio, mas o processo casos religiosos. Várias referências culturais
envolvido na sua produção. Quando se afir- de diferentes comunidades tradicionais esti-
ma que uma determinada iguaria culinária, tal veram, sob diversas situações, reprimidas a
como o acarajé, pode ser considerada um ponto de perderem-se ao longo do tempo. Patrimônio
Imaterial: debates
bem imaterial, essa afirmação não se refere Com vistas a evitar sobreposições culturais e contemporâneos

ao alimento em si, mas à teia de significados cerceamentos políticos, órgãos nacionais e


e tradições envolvidas no seu preparo. Des- internacionais esforçam-se em garantir as Sylvia Couceiro
Cibele Barbosa
se modo, é a relação que os grupos estabe- condições para que as culturas tradicionais
lecem com seus artefatos, com o meio possam se manifestar e se reproduzir.
ambiente ou com os indivíduos que se cons- A noção de patrimônio relacionada às
titui a dimensão "intangível" da cultura. Essas culturas populares, no entanto, deve levar
considerações revelam um novo instrumen- em consideração a teia de relações envolvi-
tal de valorização de elementos que, durante da na geração, transmissão e consumo dos
muitos anos, sobretudo no Ocidente, estive- bens culturais. Além disso, o grande desa-
ram relegados ao segundo plano. Elementos fio é evitar que essas manifestações se tor-
como as expressões corporais, os cânticos, nem padronizadas ou mesmo "petrificadas".
a oralidade, os ritos etc. Nesse sentido, pen- Para isso, o conceito de patrimônio imate-
sar a dimensão imaterial da cultura, é perce- rial permite considerar a mobilidade dos
ber a importância da contribuição de aspectos atores envolvidos, as diversas recriações
como a oralidade, os gestos e o papel dos e ressignificações desses bens a partir das
atores. Os indivíduos se tomam também um diferentes gerações e camadas sociais. O
patrimônio. Essa concepção permite uma objetivo é evitar o intervencionismo gover-

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namental e permitir uma maior autonomia dos na sistematização de dados e na produ-
dos atores na apropriação de suas mani- ção de inventários que promoverão políticas
festações culturais. Essa dinâmica requer de salvaguarda de bens culturais, sejam eles
um equilíbrio de forças entre a ação do de natureza material ou imaterial.
Estado, no sentido de patrimonializar es- A partir de instruções que abrangem di-
ses bens, e as práticas e expressões das versas etapas do processo, desde a identifi-
comunidades. A solução desse impasse é cação do bem cultural até o preenchimento
garantir uma política patrimonial, cujo es- de formulários para a estruturação do inven-
copo seja o de fomentar, documentar e tário, a metodologia proposta no INRC visa
acompanhar as manifestações da cultura identificar, inventariar, documentar e regis-
imaterial a partir dos próprios valores que trar bens, com vistas a garantir as condições
as comunidades portam sobre seus bens. de produção e reprodução do patrimônio, sua
Apesar da íntima relação entre os bens proteção e/ou sua preservação.
imateriais e as culturas populares, no plano Etapa fundamental desse processo, o 'in-
conceitual, os bens intangíveis referem-se a ventário' se baseia em uma investigação sis-
todas as práticas culturais que se constitu- temática e exaustiva de todos os dados que
em como marcos identitários de quaisquer possam colaborar na montagem de uma
indivíduos e/ou grupos sociais. espécie de dossiê sobre determinado bem
O INRC e os procedimentos patrimonial. De acordo com o INRC, um in-
de identificação ventário deverá ser estruturado a partir das
seguintes categorias de bens culturais:
No Brasil, um dos principais instrumen-
tos para identificação, documentação e sal- • Celebrações - Rituais e festas ligadas
à religião, à civilidade, ao calendário,
vaguarda de bens culturais é o Inventário
etc, que marcam a vivência coletiva de
Nacional de Referências Culturais— INRC. grupos. Ex: carnaval, São João, festas
Elaborado nos finais dos anos 1990, sob a religiosas como a do Divino Espírito
coordenação de Antônio Augusto Arantes, Santo ou a lavagem da escadaria do
o INRC se constitui em um instrumento que Bonfim na Bahia;
visa: identificar e documentar bens cultu-
Formas de expressão - Manifestações
rais de qualquer natureza, para atender à
Patrimônio literárias, musicais, plásticas, cênicas e
Imaterial: debates
demanda pelo reconhecimento de bens re- lúdicas que são marcadas por normas,
contemporâneos presentativos da diversidade e pluralidade expectativas, e padrões construídos a
culturais dos grupos formadores da socie- partir do costume, reconhecidas por uma
Sylvia Coticeiro dade ( lphan, 2000, p8) Além disso o INRC comunidade. Ex.- o cordel, a xilogravura,
Cibele Barbosa
visa perceber as representações e signifi- os maracatus, a ciranda, as cantorias dos
cados que os bens culturais assumem para repentistas, etc.;
os "moradores de sítios tombados", reco- Ofícios e modos de fazer - Conhecimen-
nhecendo-os enquanto importantes atores tos de modos de fazer que identificam um
no processo de preservação. determinado grupo a partir de técnicas
Construído com base em experiências de produção ou pela utilização de maté-
anteriormente desenvolvidas, a exemplo do rias primas especificas. Ex: a forma de
extinto Centro Nacional de Referências Cul- cozinhar um alimento, o benzimento con-
turais (1975-1979) e outros projetos de le- tra doenças e mau-olhado, o modo de
vantamento realizados pelo país, o INRC se entalhar a madeira ou de fazer renda por
constitui em um conjunto de procedimentos diferentes comunidades;
metodológicos a serem aplicados sob a cons- • Edificações - Espaços construídos que,
tante supervisão do lphan. Um dos seus prin- independente da sua qualidade artísti-
cipiais objetivos é subsidiar conceitual e ca e/ou arquitetônica, concentram e
tecnicamente grupos e entidades interessa- reproduzem práticas culturais coletivas

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de significados para um grupo. Ex: Os desafios enfrentados no cotidiano pe-
mercados, praças, sede de um terreiro las políticas públicas e pela legislação criada
ou bloco carnavalesco; não são poucos. Lidar com bens culturais
• Lugares - espaçosapropriadosporati- sujeitos a uma dinâmica de constantes e per-
vidades e práticas de natureza varia- manentes mudanças, elaborar diferentes for-
das por determinada comunidade. mas de salvaguardá-los, implementar, na
Pode ser uma árvore sagrada ou outro prática, critérios para bens tão complexos e
lugar da natureza considerado como subjetivos não são tarefas fáceis. Outras
referência para um grupo, ou espaços questões, referentes à disposição, de certa
como feiras e mesmo bairros inteiros. forma, dicotômica, entre as noções de patri-
Alicerçada na noção de bens culturais mônio material e imaterial, continuam alimen-
enquanto "produtos históricos dinâmicos e tando os debates entre os estudiosos e
mutáveis", a metodologia do INRC busca interessados no tema: Como separar de for-
entender a abrangência dos processos cul- ma inequívoca o que seda um bem material e
turais e das transformações dos padrões e um imaterial? Como "preservar' bens intan-
práticas em curso, percebendo que as tradi- gíveis, quando os mesmos estão sujeitos a
ções se transformam e se reiteram como tantas transformações? Como lidar com a
condição necessária à sua permanência. O idéia corrente de manutenção de uma supos-
estabelecimento de ações de salvaguarda e ta "autenticidade" desses bens intangíveis?
a participação da comunidade são fatores Com a ampliação da área de abrangência do
ressaltados como fundamentais ao longo do conceito, como decidir sobre a escolha do que
processo. deve ser preservado?
Assim, a noção de patrimônio imaterial, O momento é de discussão e aprendi-
idealizada como sistema complexo de signi- zado diante das novas perspectivas que
ficados marcantes que os indivíduos reco- foram abertas. A metodologia do inventá-
nhecem como parte de seu patrimônio rio, longe de encerrar o debate, constitui-
cultural, abre novos caminhos, na medida em se em experiência importante no sentido de
que rompe com a idéia limitada de bem pa- viabilizar ações oficiais e a destinação de
trimonial, ampliando as questões referentes recursos em programas governamentais
à sua proteção e preservação. para o setor cultural. Patrimônio
Imaterial: debates
contemporâneos

Sylvia Couceiro
Cibele Barbosa

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Imaterial: debates
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Syivia Couceiro
Cibele Barbosa

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