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Waldomiro Vergueiro

Seleção de materiais de informação

Princípios e técnicas

2ª edição

Vergueiro, Waldomiro
Seleção de materiais de informação : princípios e técnicas / Waldomiro
Vergueiro. – 2. ed. Brasília, DF : Briquet de Lemos / Livros, 1997.

ISBN 85-85637-11-0

1. Bibliotecas – Serviços de aquisição 2. Livros – Seleção 3. Livros – Política


de seleção I. Título
Sumário

1. A seleção: um momento de decisão...........................................................................3


2. Considerações gerais que influenciam a seleção.......................................................5
O assunto....................................................................................................................6
O usuário.....................................................................................................................6
O documento...............................................................................................................6
O preço........................................................................................................................7
Questões complementares............................................................................................7
3. Em busca de critérios de seleção..............................................................................7
Critérios que abordam o conteúdo dos documentos......................................................8
Critérios que abordam a adequação ao usuário............................................................9
Critérios relativos a aspectos adicionais do documento..............................................10
4. Seleção de materiais especiais e multimeios...........................................................11
Periódicos..................................................................................................................12
Histórias em quadrinhos............................................................................................13
Livros infanto-juvenis.................................................................................................13
Filmes e vídeos...........................................................................................................15
Discos e fitas..............................................................................................................16
Diapositivos...............................................................................................................17
Outros materiais........................................................................................................18
5. Seleção de documentos eletrônicos.........................................................................18
CD-ROMs...................................................................................................................19
Bases de dados On-line..............................................................................................21
Documentos disponíveis na Internet...........................................................................22
6. Organizando o processo de seleção.........................................................................24
Quem seleciona?........................................................................................................24
Mecanismos para identificação, avaliação e registro...................................................26
Formulários para indicação e seleção de títulos..........................................................27
Instrumentos auxiliares da seleção............................................................................27
7. Política de seleção..................................................................................................28
Componentes do documento de política de seleção.....................................................30
Identificação dos responsáveis pela seleção de materiais............................................30
8. Doações..................................................................................................................31
9. Reconsideração da decisão de seleção.....................................................................32
10. Tópicos especiais de seleção...................................................................................32
Seleção e formação profissional..................................................................................33
Seleção e censura.......................................................................................................34
Seleção e cooperação bibliotecária..............................................................................37
Seleção e direitos autorais..........................................................................................38
11. O futuro da seleção................................................................................................41
A adequabilidade do livro...........................................................................................41
O custo do livro..........................................................................................................42
O contexto social da informação.................................................................................42
A seleção de materiais na era da informação eletrônica..............................................43
12. Considerações finais...............................................................................................45
13. Bibliografia complementar......................................................................................45
Livros.........................................................................................................................46
Periódicos especializados e artigos específicos............................................................47
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Documentos e listas de discussão na Internet............................................................48

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1. A seleção: um momento de decisão

O bibliotecário talvez não saiba, mas há um momento em que é chamado para tomar uma
decisão. Ou seja: um momento de decisão. Não que deva sentir-se uma Shirley MacLaine ou uma Anne
Bancroft, mas a sensação talvez seja parecida com a que elas experimentaram no filme Momento de
decisão (The turningpoint) (se alguém ainda não assistiu, assista). Há um momento em que o poder de
decisão pode estar nas mãos do bibliotecário. É quando da seleção. De livros, periódicos, discos, filmes.
De qualquer material passível de fazer parte do acervo. De qualquer item cuja incorporação ao conjunto
existente contribua para que se aproxime mais dos objetivos estabelecidos para aquele agrupamento de
materiais informacionais. Assim, ao menos potencialmente, o bibliotecário interfere na vida de
inúmeras pessoas. Quando um simples ato profissional define o universo de informações a que um
grupo de usuários terá acesso, pode-se dizer que o bibliotecário detém o poder. O poder.
Mas, considerando o acima exposto, alguém poderá perguntar: o que, exatamente, significa isso?
Entre outras coisas, significa que o bibliotecário, queira ou não, é um elemento que está
permanentemente interferindo no processo social. Isto, sem dúvida, é uma espécie de poder. O quanto
este poder interfere de fato no processo social já é uma outra questão, que provavelmente exigirá uma
resposta mais elaborada.
O universo das probabilidades é infinito: imagine-se, por exemplo, que um grande pesquisador
necessita de uma informação sobre determinado componente químico, e que essa informação lhe
permitirá desenvolver uma vacina contra a AIDS. Vai à biblioteca e descobre que ela não possui o título
que traz essa informação. Preenche um formulário sugerindo a aquisição do livro e espera sua chegada.
O bibliotecário, ao analisar o pedido, decide que aquele documento não está entre as prioridades da
coleção e o rejeita. Infelizmente, o pesquisador não tem a possibilidade de utilizar outras fontes, pois
algum tempo depois da decisão falece em um acidente automobilístico. Com isso, anos de pesquisa são
comprometidos e uma descoberta científica é atrasada. Tudo isso porque o bibliotecário não selecionou
o material que permitiria ao pesquisador concluir sua pesquisa...
É claro que isso tudo é um exagero. Não é o caso de se deixar envolver pela paranóia. Esse
exercício de imaginação busca apenas salientar que o efeito que uma decisão pode ter sobre a vida dos
usuários é realmente inimaginável.
Assim como se pergunta o que efetivamente é esse poder do qual o bibliotecário está imbuído,
pode-se questionar se e quanto ele está preparado para assumir esse papel ou utilizar esse poder
(presume-se: em benefício da sociedade). Infelizmente, deve-se admitir que a resposta a essas
perguntas, pelo menos na maioria dos casos, seria negativa. Os motivos? Muitos e variados, indo desde
a falta de conhecimentos básicos sobre o mercado editorial o que, para dizer o mínimo, lhe possibilitaria
tomar as decisões de maneira mais eficiente -, até sua inconsciência sobre a importância da atividade
de seleção. Por isso, o mais das vezes, esse poder acaba se transformando em fumaça. Foge. Às vezes
por culpa do profissional, mas nem sempre. Às vezes os demais personagens do sistema informacional
(superiores hierárquicos, como diretores, secretários municipais e prefeitos; ou grupos de usuários,
como os pesquisadores, os professores, etc.) assumem esse poder. E o bibliotecário fica a contemplar
outros tomando decisões nas quais muito teria a contribuir. É travestido de ajudante-de-ordens,
executor, escudeiro e outras denominações tão ou mais degradantes quanto essas (pelo menos, sob este
ponto de vista). Uma situação não muito agradável para um profissional com um perfil de nível
superior, deve-se convir...
O que foi dito acima leva, preliminarmente, à necessidade de estabelecer uma premissa básica,
sem a qual toda a discussão que se pretende fazer a seguir perderá sua razão de ser: o bibliotecário tem
algo a dizer no que se refere à seleção de materiais para as bibliotecas (se alguém não concordar com
isso, fará melhor em fechar o livro neste momento e sair para comer uma pizza...). Como fundamento
dessa premissa, devem-se salientar dois pontos:

1) O bibliotecário conhece, ou deveria conhecer, o acervo sob sua responsabilidade, sabendo melhor
do que ninguém em que aspectos ele está fraco, em que aspectos ele está forte, em que aspectos
ele atingiu um estágio ideal de desenvolvimento;
2) O bibliotecário conhece, ou deveria conhecer, o usuário cujas necessidades informacionais tem
por obrigação procurar atender, sabendo avaliar objetivamente suas demandas e diferenciando as

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que têm características mais duradouras, ligadas a necessidades reais, das que são ditadas por
tendências esporádicas, influência dos meios de comunicação de massa ou modismos.

Estes deveriam ser argumentos suficientes para que os bibliotecários participassem mais
ativamente no processo de seleção. Na realidade, devido aos senões apontados, isto acaba não
acontecendo. Nem todos os profissionais conhecem suficientemente bem o acervo sob sua
responsabilidade, de modo a poderem tomar decisões eficientes a respeito de inclusões ou exclusões
que poderiam ou deveriam ser feitas nesse acervo. O mesmo se pode afirmar em relação aos usuários:
em número de vezes maior que o desejado, não passam de ilustres desconhecidos para os bibliotecários.
As exceções vão sempre dizer respeito àqueles usuários mais assíduos à biblioteca, que acabam se
transformando, bem ou mal, no parâmetro para todos os outros. Nesses casos, a exceção é vista como
se fosse a regra e as decisões acabam muitas vezes tendo-a por base. Desnecessário enumerar a
variedade de distorções que podem originar-se de uma prática como essa. As bibliotecas já são um
testemunho por demais gritante.
Mas que não se entenda erradamente o que aqui se propõe: não se está defendendo a participação
única e exclusiva do bibliotecário na seleção, alijando todos os usuários, como se eles não tivessem, por
sua vez, nada a colaborar para o processo. Isto seria excesso de radicalismo, algo parecido com levantar
a bandeira da ‘biblioteca para os bibliotecários’ que muitas vezes está por trás de um corporativismo
mal-intencionado e/ou idiota. Absolutamente. Os usuários devem atuar no processo de seleção e em
muitos casos será deles a decisão final. O bibliotecário deverá sempre participar com seu conhecimento
da coleção, propondo uma direção coerente para o acervo e garantindo, assim, que os objetivos para ela
estabelecidos não se percam com o passar do tempo. Sua participação é essencial para evitar que a
coleção se transforme em um agrupamento mais ou menos desajeitado de documentos que nem sempre
têm muita coisa em comum.
Parece também evidente que ao bibliotecário deve caber a organização da seleção de maneira
racional e eficiente, estipulando regras, definindo critérios ou estabelecendo responsabilidades. Assim,
mesmo quando não é ele quem diz o sim ou o não definitivo, sua presença faz-se sentir durante todo o
processo. Talvez se possa afirmar que, no que diz respeito à seleção, uma das melhores contribuições do
bibliotecário esteja em sua capacidade de coordenar demandas e necessidades. conflitantes, de maneira
a garantir que o resultado final seja o mais harmonioso possível. Neste sentido ele é, acima de tudo, um
negociador.
Talvez o exemplo mais característico desta função de negociador do bibliotecário seja a atividade
de seleção desenvolvida em bibliotecas especializadas ou mesmo universitárias. No Brasil, ao contrário
de outros países, o bibliotecário não é um especialista na área em que atua. Isto equivale a dizer que
um profissional que trabalha em uma biblioteca especializada em biologia ou medicina, por exemplo,
não tem conhecimento formal, especializado, dessas áreas. Por melhores intenções que possua, ele é,
usando-se uma expressão popular, apenas um leigo no assunto. E provavelmente jamais passará disso,
embora os anos de experiência possam vir a trazer-lhe, de modo mais ou menos eventual, um razoável
conhecimento da literatura da área em que atua. Mesmo querendo ser o mais otimista- possível, é difícil
acreditar que possa ir muito além disso. Daí ser possível afirmar que a melhor contribuição que o
bibliotecário poderá prestar ao usuário especializado será a de coordenar as diversas demandas ou
necessidades existentes, balanceando o acervo segundo a importância relativa dos assuntos,
priorizando a seleção em função dos projetos em desenvolvimento na instituição ou dos cursos
existentes, atuando em conjunto com uma comissão de seleção composta por especialistas nos
assuntos representados no acervo.
Nos casos em que a decisão final de seleção não pertença ao bibliotecário, será necessário que ele
tenha um conhecimento bastante preciso dos procedimentos adotados nesse processo, de modo a poder
defender as necessidades da coleção. Talvez até se devesse dizer: é exatamente quando não possui o
poder da decisão final que o bibliotecário deve ser ainda mais zeloso em suas preocupações com o
desenvolvimento da coleção. A experiência mostra que os usuários tendem a enxergar de maneira
bastante limitada o acervo, estabelecendo suas necessidades pessoais mais imediatas como o
parâmetro de todas as decisões sobre a coleção. O bibliotecário tem condições de ir muito mais além.
A objetividade no processo de seleção é uma meta sempre almejada. Sem ela, existe o risco de
surgirem acusações de favoritismo ou ineficácia da parte de cada usuário que não se sinta satisfeito
com a escolha efetuada. Para fazer frente a essas acusações, a única alternativa é demonstrar que os
materiais foram incluídos no acervo segundo parâmetros objetivos de qualidade ou necessidade.
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Nem sempre isso será fácil de realizar. Por trás de tudo estará a questão de definir, entre os
milhares ou milhões de materiais de informação que são lançados no mercado, quais os melhores para
uma biblioteca específica. Não simplesmente definir quais os - melhores mas, isto sim, quais os
melhores para um determinado conjunto de usuários, alvo de uma coleção já existente (ou não). Na raiz
dessa questão estará embutida a necessidade de conhecer a fundo essa comunidade a cujas
necessidades aquele conjunto de documentos deve atender. Na raiz dessa questão está, também, a
compreensão de que a atividade de seleção não é realizada no vazio, mas efetuada dentro de um
determinado contexto sociocultural, com tensões, ambivalências, disputas e negociações.
Não há como fugir dessa realidade. Da mesma forma, é virtualmente impossível abolir a atividade
de seleção das bibliotecas. Não existem nem existirão recursos financeiros suficientes para adquirir
físicos para acomodar, ou humanos para.processar a quantidade de materiais que invariavelmente
chegaria às bibliotecas, por mais especializadas que fossem. Mesmo que se admitisse a hipótese
absurda de obter todos os materiais sem despender diretamente um único centavo, por meio de
doações, as outras dificuldades continuariam presentes. Não há como fugir da seleção. O sonho da
biblioteca de Alexandria cada vez mais se configura como apenas isso: um sonho. Bonito, sim.
Maravilhoso, talvez. Mas, ainda assim, um sonho.
Alguns bibliotecários argumentarão que essa história de organizar o processo de seleção parece
coisa de teórico: na prática, no dia-a-dia, não se tem tempo para tanta elucubração, pois as decisões
têm que ser tomadas rapidamente. Não há tempo para estabelecer critérios, por mais positivos que
sejam. Não há tempo para avaliar as diversas alternativas, por mais que isto seja necessário. Não há
tempo para a discussão nem para formar comissões, por mais que isto seja aconselhável. Às vezes, tudo
tem que ser decidido quase num estalar de dedos para não se perder a possibilidade de utilizar uma
verba destinada à aquisição; não fazer isso significaria perder esse valor na dotação orçamentária do
ano seguinte, e não dá para se correr esse risco. Outras vezes, não é possível interromper as demais
atividades da biblioteca para examinar um a um os itens de uma doação, escolhendo apenas os que
interessam de fato ao acervo.
Tudo isso é e não é verdade. Dizer que não se dispõe de tempo para estabelecer critérios de
seleção é uma falácia porque, na maioria das vezes, a falta de critérios também obedece a um critério,
que não interessa ao profissional elucidar. Afirmar que os prazos para utilização de certas verbas são
irrevogáveis pode até ser uma boa justificativa, mas sua credibilidade é prejudicada quando utilizada
durante anos e anos (afinal, não existe nada mais previsível do que a imprevisibilidade das verbas...). E
dizer que a sistematização do processo de seleção é preocupação de teóricos parece ser uma maneira de
evitar tomar uma posição, preservando-se uma prática que pretende justificar-se por si mesma.
Não é verdade que as bibliotecas funcionem ou possam funcionar sem a utilização de critérios de
seleção. Bem ou mal, eles existem. Uma biblioteca que só armazena livros já tem um grande critério de
seleção estabelecido, bastando apenas refiná-lo. O mesmo acontece com a que armazena livros e
periódicos, ou livros e discos, ou livros e filmes, e assim por diante. Pode-se afirmar que existe uma
gradação de critérios de seleção, alguns mais amplos do que outros. Muitas bibliotecas limitam-se ao
estabelecimento de grandes critérios gerais, ligados ao tipo de publicação ou a grandes abrangências
temáticas. Do mesmo modo, pode-se afirmar que há uma decisão ou um critério de seleção por trás de
cada documento da biblioteca, como se cada um fosse o testemunho vivo da atividade de um
profissional, de sua preocupação, ou descaso, com o usuário ou com seu papel de intermediador entre
o universo do conhecimento e a comunidade. Como dito acima, a falta de critérios não deixa de ser um
critério também... a questão principal é deixá-lo em evidência. Não, absolutamente, negá-lo.

2. Considerações gerais que influenciam a seleção

Em muitos casos, a própria área de atuação da biblioteca implica um critério de seleção. Basta
fazer uma relação das várias denominações que indicam a especialização das instituições bibliotecárias:
biblioteca de química, biblioteca de física, biblioteca de comunicações e artes, biblioteca de arquitetura,
etc. Tem-se, então, uma primeira grande-subdivisão ou, melhor dizendo, um grande critério de seleção,
o assunto.

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Outro tipo de especialização, muitas vezes presente na denominação que as bibliotecas adotam,
refere-se à definição do usuário. Estabelecer uma biblioteca infantil implica a seleção de títulos
adequados a esse público. Mais uma vez, tem-se um primeiro grande critério de seleção: a clientela.
Os exemplos poderiam continuar por páginas e páginas, mas, para os objetivos pretendidos, já
são suficientes, ou seja, demonstrar que existe uma graduação de critérios de seleção, de grandes (ou
amplos) a específicos. Isto, em princípio, não parece ser uma noção de muito difícil entendimento para
os bibliotecários, principalmente se lembrarmos dos sistemas de classificação decimal, os tão
conhecidos sistemas Dewey e CDU, que trabalham com este conceito na divisão do conhecimento
humano, partindo do geral para o específico.
Outra comparação possível é com uma corrida de obstáculos. Imaginemos todos os documentos
competindo para atingir um determinado objetivo (sua inclusão no acervo) e tendo que ultrapassar
certos obstáculos que existem no caminho (os critérios de seleção). Alguns serão bem-sucedidos,
vencendo todos os obstáculos que lhes foram colocados. Outros tropeçarão e terão que ser excluídos da,
competição. Como em uma corrida verdadeira, na medida em que as dificuldades vão ficando mais
complexas e as exigências se tornando mais rígidas, maior é o número de candidatos que não
conseguem chegar ao final.
Esta pode parecer uma maneira irreverente de descrever a atividade de seleção em bibliotecas.
Mas, na prática, não foge muito disso. A questão principal está na colocação dos obstáculos/ ,critérios
de seleção corretos. Se forem fáceis de ultrapassar, é provável que seja grande o número dos que
alcançarão o objetivo final, e talvez isto cause problemas no futuro com a acomodação ou mesmo
manutenção dos vencedores. Se os critérios forem rígidos, poucos serão bem-sucedidos, o que pode
gerar dificuldades de disponibilidade dos materiais. Infelizmente, não há uma solução simplista. Como
em uma corrida verdadeira, cada caso tem suas peculiaridades específicas de percurso, de competidor,
de público, etc. Não existem respostas fáceis.
Antes de se entrar propriamente na problemática da elaboração de critérios (que será tratada com
detalhes no próximo capítulo), é necessário refletir um pouco sobre os fatores gerais que influenciam o
processo de seleção. Nunca é demais salientar que, entre outras coisas, a forma de abordar esse
processo será diretamente influenciada pelo tipo de biblioteca. Em bibliotecas especializadas, a primeira
questão a ser respondida estará ligada à definição temática do acervo, enquanto que em bibliotecas
públicas ela se ligará à definição da comunidade, caracterizando se os usuários reais e potenciais, ou,
indo mais além, os usuários preferenciais. No caso das primeiras, o processo de seleção começará com
a definição dos grandes assuntos que deverão estar representados no acervo. Mesmo quando a
caracterização do usuário é o ponto de partida, o processo de seleção não poderá deixar de inicialmente
considerar os grandes grupos de assunto. Essas duas considerações estão praticamente juntas.
Essa breve discussão leva necessariamente a se questionar sobre a existência de procedimentos
comuns à seleção de materiais, que estariam presentes em qualquer tipo de instituição bibliotecária. Na
realidade, esses procedimentos existem. Todas as bibliotecas iniciam o processo de seleção com
considerações abrangentes, que são depois refinadas e adequadas a cada uma em particular. Essas
considerações vão se referir ao assunto, ao usuário, ao documento em si e a seu preço. A ordem em que
essas considerações são feitas poderá variar, e em muitos casos elas são colocadas simultaneamente.
Mas estarão presentes, de modo indispensável, em todas as bibliotecas. Entenda-se, portanto, que a
ordem em que são enfocadas neste livro obedece apenas a uma distinção metodológica e não de
importância.

O assunto

Uma das primeiras considerações a serem feitas na seleção de materiais em bibliotecas enfocará a
problemática do assunto, a fim de verificar se os materiais passíveis de incorporação ao acervo (em
princípio, todo o universo do conhecimento já registrado em algum tipo de suporte) estão ou não
incluídos nos parâmetros gerais de assunto ou áreas de cobertura da coleção. É muito difícil encontrar
bibliotecas que não façam alguma restrição quanto aos assuntos tratados nos documentos que devem
fazer parte do acervo. Em seguida, traçam-se as prioridades de coleta para esses assuntos. O
estabelecimento dessas prioridades, que poderia ser encarado como um refinamento do critério inicial,
tornar-se-á necessário devido à impossibilidade material de selecionar da mesma maneira todos os

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assuntos de interesse. Da mesma forma, será necessário, em um momento posterior da atividade de
seleção, definir os assuntos que sejam considerados afins à área de atuação da biblioteca, que terão
uma representação mínima em seu acervo ou estarão disponíveis em outros lugares, a serem previstos,
como uma alternativa de acesso.

O usuário

As considerações quanto às características do usuário real ou potencial estão diretamente ligadas


à definição do benefício que cada material incorporado ao acervo poderá trazer à comunidade a que a
biblioteca almeja servir. Em geral, essas considerações iniciais estarão ligadas a uma primeira avaliação
da adequação ao usuário do material a ser selecionado. Pouco adiantará possuir materiais de altíssima
qualidade que jamais despertarão qualquer interesse e ficarão mofando nas estantes, gerando despesas
com manutenção, limpeza, acomodação, etc. É sempre bom lembrar a anedota sobre uma biblioteca
pública do interior que possuía, lindamente encadernada em couro de primeira qualidade, a coleção
completa das obras de Goethe... em alemão gótico.
Enfim, a resposta correta a essa questão envolve um conhecimento bastante aprofundado dos
usuários, suas características e preferências. Esse conhecimento não deve ser confundido com a
familiaridade superficial que se adquire em relação a usuários mais assíduos, cujos interesses o
bibliotecário acaba conhecendo mais detalhadamente do que os daqueles usuários não tão assíduos (ou
tão comunicativos). Deve-se tomar cuidado para não confundir os interesses de alguns com os
interesses de todos, procurando-se definir mecanismos que permitam não só a avaliação global dos
usuários mas que impeçam, também, ~ aparecimento de favoritismos. Neste caso, evidencia-se a ligação
da seleção com outra atividade do desenvolvimento de coleções: o estudo de comunidade.

O documento

Cada documento desempenhará um papel no conjunto do acervo. Neste sentido, a terceira


pergunta a ser feita nos procedimentos iniciais de qualquer processo de seleção buscará uma definição
precisa da necessidade de cada documento. Em outras palavras, o bibliotecário deverá responder (a si
mesmo) se a coleção dispõe de material suficiente sobre o assunto em causa, ou tipo de documento em
particular, e, em caso afirmativo, se necessita de mais. Isto implicará uma avaliação anterior do acervo,
por mais elementar que ela seja, sem a qual a resposta será um mero palpite. Fica claro que é preciso
desenvolver mecanismos, ainda que mínimos ou rudimentares, que permitam ao responsável pela
biblioteca um conhecimento objetivo do acervo no que concerne tanto à distribuição dos assuntos como
à sua representatividade em relação ao número de usuários, de cursos ou disciplinas, de linhas de
pesquisa, etc. Também neste caso toma-se evidente a ligação da seleção com outra atividade do
desenvolvimento de coleções: a avaliação de coleções.

O preço

A quarta consideração dirá respeito ao custo do material: o bibliotecário terá que definir se a
biblioteca tem condições de arcar com o custo de cada documento. Sabendo-se que os recursos
disponíveis para aquisição não são inesgotáveis (na realidade, raramente são suficientes) toma-se
imprescindível definir quanto a biblioteca pode comprometer-se em relação ao preço do material. A
experiência mostra que esta exigência, pelo menos no Brasil, acaba deixando fora da coleção grande
parte dos documentos. Mesmo, porém, em países com mais recursos financeiros para as bibliotecas, as
duas coisas estão ficando cada vez mais próximas devido ao aumento do preço dos materiais
bibliográficos. É conveniente desenvolver algum tipo de sistema de avaliação que permita comparar o
custo do documento com o provável beneficio que ele trará ao conjunto do acervo e aos usuários,
interligando-se, então, todas as considerações anteriormente feitas. Mais especificamente, fica clara
aqui a relação da seleção com a atividade de aquisição de materiais.

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Questões complementares

Outras duas considerações podem ser feitas no sentido de dimensionar corretamente as


anteriores. A primeira diz respeito à probabilidade de o material selecionado ser alvo potencial de
vandalismo, furtos ou mutilações, bem como gerar objeções dos usuários devido à sua incorporação ao
acervo. Não é uma questão que leve necessariamente à recusa de seleção, mas representa, sem dúvida,
fatos a serem pesados na decisão. Um material muito valioso acarretará custos adicionais, com respeito
à sua segurança, que talvez a biblioteca tenha dificuldades para cobrir; custos que, na realidade, são
superiores ao preço da compra. Materiais sobre assuntos polêmicos também podem trazer mais
problemas do que benefícios à biblioteca, devendo ter sua necessidade para o acervo cuidadosamente
estudada, visando uma decisão mais objetiva a seu respeito.
A última consideração concerne a uma primeira estimativa de qualidade do material selecionado.
Nem sempre o bibliotecário tem informações suficientes que lhe permitam determinar ou fazer uma
estimativa da qualidade dos documentos. Para tentar fazer essa avaliação, deverá utilizar todos os
dados disponíveis, seja no próprio material (orelha do livro, apresentação, índice, bibliografia, etc.) seja
ouvindo a opinião de especialistas.
Essas considerações são feitas cotidianamente no processo de seleção. São realizadas, depois de
certo tempo, quase que automaticamente, pode-se até dizer inconscientemente, na medida em que são
incorporadas à rotina de trabalho. O que não garante que sejam infalíveis. É importante, aliás, salientar
que infalibilidade é algo que jamais existirá na seleção; esta é sempre um trabalho de aproximação,
buscando-se dados objetivos que permitam prever a importância futura do documento para o usuário e
para a coleção. Um correto estabelecimento de critérios de seleção contribuirá para que essas previsões
sejam realizadas da forma mais acura~a possível, mantendo-se o aparecimento de erros em níveis
aceitáveis. Mas isto já é assunto para outro capítulo.

3. Em busca de critérios de seleção

A literatura especializada está repleta de critérios, muitas vezes repetitivos e mesmo


contraditórios, destinados ao julgamento dos materiais a serem selecionados. De todo modo, eles visam
guiar o bibliotecário no trabalho periódico de seleção, garantindo a coerência do acervo no transcorrer
do tempo. Graças ao conjunto de critérios de seleção, comumente denominado política de seleção, é
possível manter um direcionamento racional para a coleção à medida que os profissionais se
incorporam ou se afastam da equipe de trabalho. A política de seleção procura garantir que todo
material seja incorporado ao acervo segundo razões objetivas predeterminadas e não segundo
idiossincrasias ou preferências pessoais. Igualmente, é ela que garante que as lacunas existentes no
acervo não são fruto do descaso ou ineficiência do profissional responsável pela seleção, mas se
coadunam com o processo de planejamento vigente na instituição bibliotecária, sendo coerentes com os
propósitos e objetivos estabelecidos para sua atuação.
Antes de entrar propriamente nos critérios de seleção, é importante fazer uma advertência: a
organização da atividade de seleção mediante o estabelecimento de critérios só é eficiente quando todos
os envolvidos trabalham de modo racional, dispostos a discutir objetivamente a aplicação ou
aplicabilidade desses critérios. Na medida em que os envolvidos na problemática da seleção afastam-se
do racional, mergulhando no terreno do passional ou do autoritarismo, os critérios de seleção tornam-
se cada vez mais inócuos. Não existe critério de seleção que possa anular ou dissuadir uma autoridade
superior firmemente decidida a fazer valer a sua vontade... ou um bibliotecário disposto a imprimir seus
preconceitos pessoais ao acervo sob sua responsabilidade. Neste sentido, os critérios consubstanciados
na política de seleção devem ser vistos como uma espécie de constituição: não existe nenhuma que
consiga resistir a governantes com disposição e força suficiente para desrespeitá-la. É claro que isto
nunca foi razão para que as constituições não fossem elaboradas; da mesma forma, a prepotência de
autoridades superiores também não é razão para que os critérios de seleção não sejam elaborados. É
nesses momentos que são ainda mais necessários, visando tornar evidente o exercício da prepotência.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer que os critérios que serão relacionados a seguir são
apenas uma sugestão. Cada profissional deverá procurar desenvolver os critérios mais apropriados para
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a coleção pela qual é responsável, que poderão ou não incluir os que forem aqui citados. Utilizando uma
comparação não muito criativa, pode-se afirmar que desenvolver uma coleção é como organizar um
guarda-roupa pessoal: cada um tem critérios próprios para definir as vestimentas que dele farão parte e
esses critérios variarão segundo características individuais, como altura, peso, etc. Os critérios
sugeridos não são uma fórmula passível de generalização, mas apenas algumas das muitas
possibilidades existentes. Assim devem ser encarados.
A literatura especializada costuma apresentar uma grande variedade de critérios. Às vezes a
diferença entre alguns é mínima, apenas uma questão de enfoque ou preferência terminológica. Neste
texto, os critérios foram organizados de modo que pudessem ser mais bem assimilados didaticamente,
mesmo com o risco de classificar um ou outro de forma inadequada. Assim, considerando-se os
objetivos deste livro, optou-se por agrupar os muitos critérios utilizados na seleção de materiais em
bibliotecas, citados na literatura especializada, segundo o tipo de enfoque por eles adotados:

Critérios que abordam o conteúdo dos documentos

Autoridade. Busca definir a qualidade do material a partir da reputação de seu autor, editora ou
patrocinador. Baseia-se na premissa de que o fato de um autor ter produzido materiais de qualidade no
passado é um indicador razoavelmente confiável de sua produção futura. Da mesma forma, algumas
editoras costumam notabilizar-se pela qualidade dos materiais que editam, funcionando como um
índice de confiabilidade do conteúdo dos documentos com a prática, o bibliotecário aprenderá a
identificar as editoras de excelência nas áreas de interesse da biblioteca, geralmente as que contam com
editores ou comissões editoriais de reconhecida competência, e fará a seleção desses materiais quase
que de forma automática. Por exemplo, sabendo-se que as editoras Library Association Publishing,
Libraries Unlimited e Scarecrow Press são bastante conceituadas nas áreas de biblioteconomia e ciência
da informação, o fato de um livro ter sido publicado por alguma delas irá pesar favoravelmente na sua
avaliação. O mesmo pode ser afirmado em relação a documentos patrocinados por instituições de
destaque em sua área de atuação. Documentos patrocinados por instituições como a FAO ou a UNESCO
costumam ter bom nível, merecendo, em princípio, uma avaliação favorável. Cada biblioteca deverá
identificar essas instituições ou editoras de prestígio, cujos nomes funcionam como aval dos materiais a
que dão origem, e fazer com que essas informações estejam disponíveis aos responsáveis pela seleção,
constando do documento de política de seleção.
É claro, no entanto, que não existem garantias suficientemente seguras em relação a este critério.
O fato de uma editora ter publicado dezenas de obras de altíssima qualidade, gozando de uma sólida
reputação no mercado, não quer dizer que todos os materiais que ela publicar terão o mesmo nível.
Revistas especializadas costumam utilizar um sistema de rodízio de seus editores responsáveis,
mudando-os periodicamente; isso, muitas vezes, pode implicar queda da qualidade dos artigos.

Precisão. Visa evidenciar o quanto a informação veiculada pelo documento é exata, rigorosa,
correta. Para analisar um documento sob este ponto de vista, o bibliotecário precisará muitas vezes da
opinião de um especialista, pois nem sempre a imprecisão está tão evidente quanto se desejaria que
estivesse.
Lembro-me de uma obra enciclopédica sobre histórias em quadrinhos, aparentemente exata, que,
à primeira vista, deixou-me bastante impressionado; no entanto, uma leitura atenta evidenciou erros
primários. Fiquei assustado ao ler ali que um amigo desenhista de histórias em quadrinhos, com quem
estivera na semana anterior, havia morrido fazia mais de dois anos...
Imparcialidade. Procura verificar se todos os lados do assunto são apresentados de maneira justa,
sem favoritismos, deixando clara, ou não, a existência de preconceitos. Deve-se ter em mente, no
entanto, que esta imparcialidade poderá ou não ser pré-requisito necessário para inclusão na coleção.
Muitas vezes, obras não-imparciais representam uma visão alternativa de determinado assunto,
funcionando como uma espécie de contraponto a obras já existentes no acervo. Outras vezes, obras
aparentemente imparciais disseminam veladamente preconceitos contra determinadas camadas da
sociedade, como minorias raciais, mulheres, homossexuais, etc. Durante muito tempo, por exemplo,
acreditou-se que os livros didáticos eram obras imparciais, pois se limitavam a funcionar como
instrumentos para a transmissão de conhecimentos considerados específicos para fins educacionais.

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Análises feitas por pesquisadores conceituados, entre os quais se pode destacar Umberto Eco,
mostraram que essa certeza não passava de uma grande falácia.
A imparcialidade nem sempre é algo muito fácil de ser definido e, acima de tudo, pode ser
encarada tanto de um ângulo negativo (disseminação de preconceitos sociais) como positivo
(exteriorização de pontos de vista minoritários). Cada profissional definirá a melhor maneira para, no
contexto de seu campo de trabalho específico, abordar essa polêmica questão.

Atualidade. Uma informação desatualizada perde muito de seu valor. Para bibliotecas onde a
atualidade dos dados tem muita importância, este critério é decisivo. É importante ter esse fato bem
claro, pois afetará diretamente a atividade de seleção.
A velocidade com que as informações se desatualizam varia conforme a área de conhecimento em
que a biblioteca atua. Documentos de algumas das chamadas ciências exatas, como a computação, se
desatualizam rapidamente. Por isso, os bibliotecários das áreas de ciências exatas necessitam estar
bastante atentos a este critério, visando minimamente acompanhar o ritmo com que novas tecnologias
surgem e desaparecem. Nas ciências humanas, obras ‘antigas’ costumam ser muito valorizadas pelos
pesquisadores, por constituírem uma contribuição já reconhecida e incorporada ao conhecimento (daí,
provavelmente, a importância maior que as ciências humanas dão às obras monográficas).
Convém, por exemplo, estar alerta para mudanças políticas e estruturais na sociedade moderna,
que fazem com que mapas ou enciclopédias recentes logo percam sua atualidade. As mudanças no
Leste europeu, por exemplo, demonstram como o final do século xx está sendo palco de modificações
surpreendentes, que afetam o trabalho de todos que têm o fornecimento de informações fidedignas
entre suas obrigações profissionais.
No trabalho de seleção, os bibliotecários deverão manter-se atentos a trabalhos que se apresentam
como edições atualizadas ou revistas de obras já publicadas, procurando avaliar de maneira objetiva
quanto da informação contida nesses documentos é realmente informação nova e não a mesma
anteriormente divulgada, apenas em uma diferente apresentação.

Cobertura/Tratamento. Refere-se à forma como o assunto é tratado. Na aplicação deste critério,


o bibliotecário distinguirá:
 se o texto entra em detalhes suficientes sobre o assunto ou se a abordagem é apenas
superficial;
 se todos os aspectos importantes foram cobertos ou alguns foram tratados ligeiramente ou
deixados de fora.

É importante salientar que também neste caso não existe resposta fácil. O fato de um documento
não realizar a cobertura total de um assunto ou fazer um tratamento apenas superficial não significa
que não possa vir a ser de interesse para determinado acervo. A especificidade da clientela e/ou coleção
deverá ser levada em conta, pois este critério pode ser utilizado de uma forma por uma biblioteca e de
forma totalmente diversa por outra. Muitas vezes, para correta aplicação deste critério, é importante
contar com a colaboração de um especialista.

Critérios que abordam a adequação ao usuário

Conveniência. Intimamente ligado ao critério de cobertura! tratamento. Procura verificar se o


trabalho é apresentado em um nível, de vocabulário e visual, que seja compreensível pelo usuário. Em
geral, neste critério são levantados aspectos relativos à idade dos usuários, desenvolvimento intelectual,
etc.
Na aplicação deste critério, fica evidente quanto é necessária a interação do bibliotecário com o
público: para analisar corretamente o documento, será preciso que o profissional tenha conhecimento
profundo do usuário cujas necessidades informacionais procura atender, conseguindo determinar de
modo exato suas limitações e potencial idades. Pouco adiantará colocar no acervo itens inadequados
para o tipo de utilização pretendida ou que é efetuada pelo usuário. Por exemplo, se o objetivo de um
texto para a biblioteca for atender à realização de trabalho em grupo, ele deve ser adequado para isso,
em termos físicos e de conteúdo.
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Idioma. Trata-se de definir se a língua do documento é acessível aos usuários da coleção.
Em muitas bibliotecas esta análise é facilmente realizada por não existir tão grande diversidade de
publicações em sua área de interesse e nem grupos de usuários com necessidades lingüísticas
específicas. Em algumas bibliotecas especializadas, no entanto, esta verificação da língua de publicação
terá necessariamente que ser feita item por item, assunto por assunto.

Relevância/Interesse. Busca definir se o documento é relevante para a experiência do usuário,


sendo-lhe de alguma utilidade. Da mesma forma, tenta-se verificar se o texto tem condições de
despertar sua imaginação e curiosidade.
Além de, como nos dois critérios anteriores, implicar a necessidade de um conhecimento mais
aprofundado dos usuários, não seria exagero dizer que este critério exigirá do bibliotecário algum
conhecimento das características dos textos literários e técnicos. Ou, melhor dizendo, um interesse
pessoal pela leitura.

Estilo. Muitas vezes o estilo utilizado não é apropriado ao assunto ou objetivo do texto. Este
critério procura verificar este fato, bem como constatar se ele é adequado ao usuário-alvo. Ninguém, por
exemplo, porá em dúvida a excelência do estilo de Machado de Assis, mas é bastante discutível a
adequação de alguns de seus livros, como Dom Casmurro ou Memórias póstumas de Brás Cubas, a
uma clientela infanto-juvenil.

Critérios relativos a aspectos adicionais do documento

Características físicas. Abrangem os aspectos materiais dos itens a serem selecionados.


Na aplicação deste critério, o bibliotecário, em face do uso pretendido para o material e as
características dos usuários, verificará se os caracteres tipográficos foram bem escolhidos, têm boa
legibilidade, tamanho apropriado, etc. Verificará se a encadernação é resistente para o uso em
biblioteca, fazendo, inclusive, uma estimativa de sua durabilidade e das possibilidades ou necessidade
de futuros reparos. Analisará a qualidade do papel, submetendo-o a escrutínio semelhante ao da
encadernação.
As características físicas são muito importantes para materiais com previsão de alta demanda ou
dirigidos para públicos específicos. Em certos países, existe uma florescente indústria editorial dirigida
para a população de terceira idade, com livros impressos em formato grande e com caracteres
tipográficos graúdos. No Brasil, a indústria de livros infantis tem procurado utilizar material resistente
e adequado para crianças, podendo-se apontar experiências de produção de livros de plástico, pano,
etc.

Aspectos especiais. Neste item analisam-se a inclusão e a qualidade de bibliografias, apêndices,


notas, índices, etc. Enfim, todos os elementos que contribuem para melhor utilização do documento. Às
vezes, mais que constatar a existência desses elementos, será preciso avaliar se valorizam a obra e não
constituem apenas um fator totalmente supérfluo para suas finalidades.

Contribuição potencial. Este critério leva em consideração a coleção existente, na qual o


documento a ser selecionado deverá ocupar um lugar específico.
Material algum será incorporado ao acervo por simples inércia, mas para torná-lo mais completo.
Assim, é preciso que cada item seja analisado do ponto de vista de sua relação com os demais,
verificando-se quanto contrabalança outros trabalhos, trazendo uma perspectiva diferente e
enriquecedora ao acervo, ou se simplesmente se soma ao que existe, gerando redundância de
informações. Esta verificação será importante para se ter uma estimativa de uso futuro.

Custo. Presumindo-se que a consideração inicial sobre a possibilidade de a biblioteca arcar com o
custo do material tenha sido realizada e seja positiva, este critério procurará identificar alternativas
financeiramente mais compensadoras para a biblioteca. Verificará se há edições mais baratas
(encadernações simples, miolo em papel inferior ou edições de bolso), tomando cuidado para não afetar
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alguns dos critérios anteriores. Também são analisados outros fatores que, indiretamente, acabam
afetando o custo total da obra para a instituição. Por exemplo, os custos com processamento técnico,
armazenamento, segurança, etc.
É conveniente que o bibliotecário procure definir um sistema de avaliação capaz de lhe informar
com razoável confiabilidade o quanto é mais barato adquirir um material e incorporá-lo ao acervo, ao
invés de solicitá-lo por empréstimo a outra biblioteca, quando necessário. Cada vez mais, a
acessibilidade aos documentos por meio do intercâmbio com outras instituições torna-se uma
alternativa viável à sua disponibilidade física.
Estes são apenas alguns dos critérios comumente utilizados para avaliação de documentos no
processo de seleção. Existem vários outros (dois autores norte-americanos, Mary Carter e Wallace
Bonk, em Building library collections, chegam a relacionar mais de 150). Desnecessário citar todos os
critérios já utilizados ou mesmo imaginados; independentemente disso, cada profissional terá que se
defrontar, em algum momento, com a necessidade de estabelecer seus próprios critérios. Importante é
salientar que os critérios sugeridos neste livro são apenas indicativos e nem sempre podem ser
aplicados a todos os documentos; sua aplicação dependerá do material que se está analisando. Em
obras de ficção, critérios como a representação de um importante movimento, gênero literário ou
cultura nacional, bem como características de originalidade e apresentação artísticas são pontos que
devem ser considerados. Em obras de não-ficção, a objetividade e clareza acabam predominando sobre
outros aspectos.
Os critérios de seleção aqui abordados não se aplicam apenas a livros, mas a todos os materiais.
Evidentemente, haverá critérios específicos para certos tipos de documentos. Será preciso elaborar
critérios complementares para a seleção de periódicos, filmes, discos, diapositivos, etc. Todos devem ser
coerentes com os objetivos da biblioteca. É inconcebível, por exemplo, a utilização de critérios de seleção
totalmente opostos para livros e periódicos, ou para livros e materiais audiovisuais.

4. Seleção de materiais especiais e multimeios

Para as finalidades deste capítulo, são materiais especiais ou multimeios todos os materiais de
biblioteca, à exceção dos livros. Assim, aqui se incluem os periódicos em geral (revistas especializadas,
jornais, etc.), os materiais audiovisuais (filmes, discos, fitas cassetes, diapositivos, etc.) e as novas
tecnologias (CDS, softwares em disquete, etc.).
Um ponto importante que deve ser colocado como premissa à discussão de critérios é que os
diferentes veículos de comunicação não podem ser encarados como adversários em uma grande disputa
pela preferência da sociedade. Nenhuma forma de comunicação consolidada é imediatamente destruída
pelo aparecimento de novos veículos. As formas anteriores modificam-se, têm seu público diversificado e
continuam valendo. Estratificam-se. Assim sempre tem acontecido e não há motivos que façam
acreditar que isto virá a modificar-se em futuro próximo.
Bob Usherwood, em The public library as public knowledge, lembra que, há alguns anos, a
televisão inglesa apresentou uma série sobre o desenvolvimento das tecnologias da informação no final
do século, na qual um bibliotecário respondia a um usuário: “Não, eu não posso verificar em um livro,
senhor, isto é uma biblioteca, não um museu.” Isto evidencia a crença generalizada de que os veículos
de informação, como os conhecemos atualmente, estão fadados a desaparecer. Há anos se prevê o fim
dos livros com o advento das novas tecnologias informacionais, da mesma forma como se previu o fim
do cinema com o aparecimento da televisão e do videocassete. A realidade, no entanto, mostrou que as
previsões apocalípticas eram exageradas e os antigos meios de comunicação e transmissão de
conhecimento continuaram existindo, ainda que com modificações. Há 30 anos, talvez menos, Marshall
McLuhan previu que em 1990 a palavra impressa e sua leitura seriam apenas uma lembrança; muita
gente acreditou nele. Ao contrário, a publicação de livros apenas aumentou de lá para cá, incorporando
vastas camadas da população10 à influência da leitura.
Cada vez mais novos espaços de influência são definidos. Esta parece ser a única constatação
válida. Muito do que tem sido afirmado pertence ao campo do sonho, da previsão, da futurologia sem
garantias de efetividade. No que concerne à área de atuação dos bibliotecários, o mais certo será
conceituar a biblioteca como lima instituição armazenadora e disseminadora de informações e não de
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tipos de documentos específicos, pois a variedade desses tende a multiplicar-se quase que em proporção
geométrica.
Não se pretenderá tratar da seleção de todos os outros tipos de documentos existentes no
mercado. Provavelmente, à época do lançamento deste texto, ele já estaria desatualizado, havendo
muitos outros materiais dos quais não se teria tratado. O elenco a ser apresentado enfocará alguns dos
materiais que já podem, até com relativa facilidade, ser encontrados nas bibliotecas. Na elaboração de
critérios específicos para a seleção desses outros materiais devem ser buscados critérios mais
adequados para cada um, levando em consideração suas peculiaridades. Os critérios de seleção estarão
sempre diretamente ligados ao tipo de material selecionado; por exemplo: o custo total de qualquer obra
em multimeio é influenciado em muito maior proporção pelo custo de sua manutenção do que o custo
de uma obra impressa comum.

Periódicos

A seleção de uma publicação periódica difere basicamente da de um livro ou monografia no


sentido de que na primeira estabelece-se um compromisso com sua continuidade, enquanto que no
livro essa decisão se esgota naquele momento. Fora alguns casos específicos, não há razão para a
biblioteca selecionar apenas alguns fascículos de um periódico. Ela deverá necessariamente adquirir, e
provavelmente conservar, o título como um todo, a partir do momento em que optar por ele. No caso dos
periódicos, o ato de seleção se repete de tempos em tempos, ao se tomar uma decisão pela continuidade
ou pelo encerramento da assinatura. Fica evidente, então, o perigo de fazer renovação de assinaturas
por inércia, simplesmente porque um título vem sendo assinado há muito tempo, sem considerar
fatores importantes como o uso ou relevância do título para o usuário atual.
Esse compromisso com a continuidade acarretará, por exemplo, a necessidade de considerar
atentamente as implicações do título para a biblioteca, em termos de utilização do espaço, algo que não
é tão essencial quando da seleção de livros. Coleções de periódicos crescem e ocupam um grande
espaço; isto é comum em bibliotecas especializadas, pois a informação veiculada em periódicos tem
importância muito grande para seus usuários, em geral pesquisadores, que necessitam de informações
atualizadas.
Vinculada à avaliação do espaço disponível para acomodação dos periódicos está a análise global
do custo desse material. Nesse sentido, o valor pago pela assinatura de um título não é o único custo
com que a biblioteca está arcando ao optar por sua aquisição; existem vários custos, diretos e indiretos,
que devem ser considerados. Mas, só para ficar no preço das assinaturas, é importante salientar que,
em se tratando de periódicos científicos, ele tem subido muito acima dos índices inflacionários dos
países onde são produzidos. Como uma assinatura de periódico representa um comprometimento, por
tempo indeterminado, de uma percentagem razoável do orçamento da biblioteca, é importante que essa
análise de custo seja feita periodicamente. Isto é muito importante com novas assinaturas, para não
permitir que cresça em demasia o investimento da biblioteca em novos títulos.
Em paralelo às análises de ocupação do espaço e custo da assinatura, é importante ter-se clareza
quanto à utilização futura dos títulos, a fim de avaliar quando vale a pena fazer uma assinatura e
quando a melhor opção é solicitar o fascículo por empréstimo a outra biblioteca. Neste caso, estatísticas
de empréstimo entre bibliotecas podem oferecer subsídios valiosos para a tomada de decisões (é claro
que, em caso de títulos recém-lançados esta alternativa fica prejudicada).
Julgar a qualidade de um periódico nem sempre é tarefa fácil. Fora a opinião do especialista,
sempre uma ajuda indispensável, há outros indicadores que permitem ao bibliotecário uma avaliação
satisfatória. Vários desses indicadores constam da contracapa ou das páginas iniciais do fascículo,
principalmente em periódicos especializados. Um deles é a existência de um comitê editorial, cuja
função é apreciar os artigos submetidos a publicação, um dado tido como garantia de qualidade. Isto
significa que um artigo, para ser publicado em um periódico que possua comissão editorial, será
examinado por um ou vários especialistas, que decidirão se o trabalho atende aos requisitos de
qualidade estabelecidos. Quando esse comitê é composto por especialistas de instituições ou países
diferentes, supõe-se que a garantia de qualidade seja ainda maior, caracterizando uma publicação onde
não existe endogenia de grupos ou linhas de pensamento.

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De certa maneira, quando se verifica a existência e composição de comissões editoriais e se
considera este dado na seleção de publicações periódicas, está-se trabalhando com o critério da
autoridade: acredita-se que os especialistas da comissão editorial emprestam sua reputação ao
periódico.
Pode-se dizer que o mesmo critério está sendo utilizado quando, conhecendo-se o rigor com que
os títulos são indexados em bases de dados especializadas, aceita-se como subsídio para a tomada de
decisão a presença de um periódico nessas bases. Supõe-se que quanto maior for o número de bases
que indexam o periódico, maior será a garantia de sua qualidade. Assim, quando se tem que decidir
entre dois periódicos, ambos com o mesmo nível de interesse para a biblioteca, pode-se utilizar, como
critério de desempate, o fato de um deles ser indexado por bases de dados da área. Há razões para
acreditar que um periódico indexado terá maior probabilidade de ser utilizado, na medida em que as
bases de dados funcionarão como fontes secundárias, permitindo ao usuário ter acesso ao conteúdo
dos periódicos indexados.
Ao se utilizar a presença em bases de dados como critério de seleção, deve-se atentar para títulos
recentes, para os quais ainda não houve tempo de serem avaliados e indexados em bases de dados,
embora possuam qualidade para isso. Em geral, essas bases, antes de incluir novos títulos, adotam a
política de aguardar até que tenham mais elementos para aferir sua qualidade.
No caso de periódicos em línguas estrangeiras inacessíveis aos usuários, a presença de um
resumo em idioma acessível, em geral o inglês, deve ser considerada na seleção. Leva-se esse dado em
conta não apenas porque com o resumo as informações ficam disponíveis e a probabilidade de
utilização é maior, mas também porque isso indica que o título propõe-se a uma circulação
internacional, universo onde as exigências são maiores.
Todos esses critérios terão maior aplicabilidade nas bibliotecas especializadas ou universitárias,
devido aos objetivos dessas instituições e às características específicas de seus usuários. Para
bibliotecas públicas deve-se reconhecer que sua utilidade é limitada, pois nem sempre a questão será
colocada com tal nível de especificidade, de modo a exigir a aplicação de padrões de qualidade utilizados
na avaliação de periódicos científicos. Nelas, os critérios mais relevantes serão provavelmente os que
dizem respeito à adequação dos periódicos aos usuários.

Histórias em quadrinhos

Ultimamente, vem sendo dada grande atenção às histórias em quadrinhos, com a imprensa
mundial registrando um incremento no número de artigos, resenhas, reportagens e entrevistas com
autores especializados nesse material. Mesmo, e talvez principalmente, em nosso país, uma busca em
jornais e revistas revelará um interesse maior em relação às histórias em quadrinhos. Isto, aos poucos,
veio influir nas bibliotecas brasileiras, na medida em que o público passou a buscar essas publicações e
solicitar que fizessem parte do acervo.
Tradicionalmente, a maioria das bibliotecas sempre manteve os quadrinhos afastados de suas
prateleiras. Muitas vezes os bibliotecários partilharam com o público, ou com algumas parcelas desse
público, os preconceitos que existiam contra essas publicações. Sabe-se hoje que esses preconceitos
foram uma das maiores injustiças cometidas contra um meio de comunicação de massa não só legítimo
mas também de grande penetração popular. A evolução dos tempos tem mostrado que a maioria das
barreiras levantadas contra as histórias em quadrinhos baseavam-se em opiniões preconcebidas,
elitistas, carentes de qualquer argumento lógico. Pesquisas sérias e bem-coordenadas têm colocado por
terra todas as alegações de que os quadrinhos levavam as crianças à preguiça mental, afastavam-nas
dos estudos, desviavam-nas de salutares hábitos de leitura, prejudicavam seu desenvolvimento
intelectual, etc. Por todos esses motivos, parece apropriado refletir um pouco sobre os critérios de
seleção que poderão e deverão ser aplicados a esses materiais.
À primeira vista, as histórias em quadrinhos limitar-se-iam às vendidas em bancas de jornais, os
tradicionais gibis (daí o aparecimento de um novo substantivo na área biblioteconômica de língua
portuguesa - gibitecas: bibliotecas de histórias em quadrinhos). De fato, os gibis existem em grande
número, com enorme variedade de temas e gêneros. Com certeza, constituirão a maioria de qualquer
acervo dedicado a esse material; há gibis infantis, adultos, de super-heróis, de aventuras, eróticos,

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pornográficos, etc. O bibliotecário deverá, com base no conhecimento que tem de seu público e na
avaliação de suas demandas, definir os gêneros que farão parte do acervo.
As mesmas considerações acerca da disponibilidade de espaço para periódicos, feitas antes,
aplicam-se às histórias em quadrinhos. Em geral, talvez seja arriscado optar pela exaustividade em
relação ao material quadrinhístico. A produção brasileira, para não falar da norte-americana ou
espanhola, é grande, e isto comprometeria, em curtíssimo prazo, a disponibilidade de espaço. É
importante que cada biblioteca defina de maneira clara a quais tipos de histórias em quadrinhos irá
dedicar seus esforços de coleta e disseminação.
Além dos gibis, em geral impressos em papel de qualidade inferior, de pouca resistência, o
mercado também oferece a opção de álbuns e graphic novels, publicações muitas vezes de maiores
dimensões e de apresentação luxuosa, que são resistentes e duráveis. Nas bibliotecas, onde o manuseio
do material será mais freqüente, a opção por uma edição em álbum ou graphic novel será uma
alternativa mais viável. Considerações referentes a armazenamento e acomodação, bem como outras
relativas ao custo de aquisição, podem reforçar, ou não, esta conclusão.
Quanto maior for a variedade de histórias em quadrinhos que a biblioteca incorporar a seu acervo
maiores serão as implicações para os profissionais, em termos de tratamento, recuperação, cuidados
especiais e armazenamento, bem como um conhecimento mais aprofundado desse material. À medida
que os quadrinhos são incorporados às bibliotecas, maiores se tomam as exigências dos leitores, que
passam a solicitar as tiras de jornais, os fanzines (revistas elaboradas por fãs de histórias em
quadrinhos), as revistas alternativas, os livros e artigos especializados. Por isso, antevê-se a
necessidade de os bibliotecários se familiarizarem com esse material, a fim de conhecer melhor as
particularidades e os tipos de suportes das histórias em quadrinhos, para poderem formular critérios
adequados para sua seleção.

Livros infanto-juvenis

As bibliotecas públicas costumam ter uma grande quantidade de materiais de informação


voltados para crianças e jovens, principalmente textos de literatura infanto-juvenil. As bibliotecas
escolares, ainda que sejam tão poucas no Brasil, também possuem esse tipo de publicação, utilizando-o
para o processo didático e incentivo às atividades de leitura, e colocando-o à disposição dos estudantes
em seus momentos de lazer e entretenimento.
O Brasil possui uma grande produção editorial voltada para o público infanto-juvenil, que
abrange de livros paradidáticos a textos traduzidos de inúmeros idiomas. O mercado é muito dinâmico,
com um fluxo constante de novas produções e autores. Alguns autores atingem vendas estrondosas e
são muito solicitados por crianças e jovens nas bibliotecas.
Profissionais da informação que atuam junto ao público mais jovem identificam os autores de
maior popularidade pela simples verificação do estado físico de suas obras, que com freqüência exigem
reparos e/ou reencadernações e logo atingem tal desgaste que exige seu descarte e substituição
(quando isso é possível). São casos fáceis para o bibliotecário responsável pela seleção, pois muitas
crianças tendem a ler e reler os títulos e autores que mais lhes agradam, buscando sempre os mesmos
livros ou solicitando que lhes contem repetidas vezes as mesmas histórias, como se a cada vez
estivessem reencontrando um velho e querido amigo, em quem confiam e por quem têm especial
carinho.
A afirmação acima apenas reitera o fato de que profissionais que atuam na seleção de materiais
de informação para crianças e jovens precisam ter um contato bem próximo com seu público, para
conhecer as peculiaridades e idiossincrasias de cada leitor. Não basta conhecer sua comunidade por
meio de dados estatísticos ou perfis mais ou menos genéricos. É preciso estar no meio do público,
conhecer e conversar com crianças e jovens que freqüentam a biblioteca, estabelecer um diálogo
proveitoso com os pais, avós ou outros parentes que acompanham as crianças, visitar as escolas e
discutir com os professores os livros que recomendam. Se, para os bibliotecários isto já é importante,
para os responsáveis pela definição dos títulos a que o público infanto-juvenil terá acesso na biblioteca
é vital. A infância e adolescência são os períodos em que se alicerça a formação integral de qualquer
indivíduo, e as bibliotecas públicas e escolares podem dar uma grande contribuição nesse sentido,

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tanto pela possibilidade de acesso a materiais informacionais adequados a esse público como pelas
atividades que desenvolvem em torno deles.
Essa é uma responsabilidade muito grande e não deve ser vista de maneira leviana. Selecionar
materiais que atendam às necessidades do público infanto-juvenil está no cerne desta questão, pois a
produção editorial é muito variada e nem sempre de qualidade apropriada. Às vezes, por trás de figuras
atraentes e histórias divertidas está a disseminação de preconceitos e o velado incentivo a
discriminações de ordem racial, cultural ou social. Os bibliotecários devem estar atentos a essas obras,
familiarizando-se com suas características mais marcantes, que incluem:

 A ausência de minorias raciais, como se a sociedade fosse composta por uma população
homogênea de raça branca;
 A representação negativa das minorias, seja retratando-as como figuras caricatas, seja
colocando-as como personagens antipáticos, quando não são escolhidos como os vilões da
história, seja reservando para elas papéis considerados de menor importância social (como
empregadas domésticas, criados, trabalhadores não-especializados, mendigos, etc.);
 A colocação da figura feminina em situação de dependência em relação ao homem, tanto em
termos econômicos e sociais (a dona de casa que não é responsável pelo sustento da família) como
emocionais (é o homem quem toma as decisões importantes, deixando para ela apenas as
questões que não têm grande significação);
 Representação positiva das classes sociais dominantes, retratadas como pessoas simpáticas,
bonitas, felizes e modelos de comportamento a serem seguidos pelas crianças.

Dezenas de outros exemplos poderiam ser citados, mas talvez seja mais interessante deixar aos
bibliotecários a tarefa de identificá-los em sua prática diária de seleção. Como subsídio a essa atividade,
a leitura do texto de Fúlvia Rosemberg 1, que trata da relação entre literatura infantil e ideologia, e dos
livros de Maria de Lourdes Nosella 2 e Umberto Eco3, sobre a disseminação de preconceitos em obras
didáticas, pode ser bastante proveitosa.
Atenção especial deve ser dada a materiais infanto-juvenis editados pela indústria de
comunicação de massa, presentes em grande quantidade no mercado. É muito comum que desenhos
animados ou seriados televisivos sejam transplantados para o formato impresso, em produções muitas
vezes realizadas às pressas, com o simples intuito de tirar o máximo proveito da popularidade
momentânea dos personagens (enfim, de lucro, puro e simples). Em geral, o resultado é pobre, com
histórias insignificantes e desenhos abaixo da crítica. Representam apenas o deslavado aproveitamento
de imagens produzidas para outro meio de comunicação, às quais se acrescenta um texto que nem
sempre consegue lhes dar muita coerência narrativa. Deve-se, no entanto, ter em mente que haverá
sempre algumas exceções a essa regra, e a identificação e incorporação ao acervo de obras que fujam à
mesmice da produção de massa serão uma das tarefas a serem desenvolvidas pelo responsável pela
seleção.
Alguns dos critérios gerais de seleção citados no capítulo anterior deverão ser objeto de
adaptação, quando aplicados a livros infanto-juvenis. O critério de autoridade, por exemplo, irá
relacionar-se tanto ao autor do texto como ao ilustrador, quando forem diferentes, baseando a decisão
de seleção em obras anteriores realizadas individualmente ou em conjunto, ou até mesmo da coleção
em que o livro foi publicado (como as séries Vaga-Lume e Veredas, para apenas citar duas das mais
conhecidas).
O critério da conveniência levará em conta a faixa etária da criança, analisando a adequação do
texto ao desenvolvimento intelectual de seu usuário potencial. Além disso, a avaliação das
características físicas dos livros considerará principalmente a resistência do material empregado,
dando-se, quando possível, preferência a material mais resistente, de maior durabilidade.
É importante desenvolver critérios que levem em conta a especificidade do público e as
características da literatura infanto-juvenil, a relação entre texto e ilustrações, a apresentação gráfica,
etc., a fim de estabelecer uma política de seleção adequada.

1
ROSEMBERG, Fúlvia. Literatura infantil e ideologia. São Paulo: Global, 1984.
2
NOSELLA, Maria de Lourdes Chagas Deiró. As belas mentiras: a ideologia subjacente
aos textos didáticos. 2.ed. São Paulo: Moraes, 1980.
3
ECO, Umberto. Mentiras que parecem verdades. São Paulo: Summus, 1980.
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Além dos pontos mencionados, deve-se, sempre que possível, buscar o apoio de especialistas da
área, que já desenvolveram parâmetros críticos para julgamento da qualidade da produção editorial
destinada a crianças e jovens. Uma comissão especial de seleção, composta por especialistas em
literatura infanto-juvenil e por bibliotecários que atendem a esse público, é uma boa alternativa para
garantir o nível de excelência do acervo.
Existem alguns instrumentos auxiliares para a seleção de livros infanto-juvenis produzidos no
Brasil. São em geral bibliografias, muitas vezes com resenhas críticas, elaboradas por instituições
ligadas à área. Nem sempre estão atualizadas ou abrangem muita coisa do imenso universo de
publicações infanto-juvenis. Constituem, apesar dessas limitações, fontes valiosas para identificação de
itens que devem ser acrescentados ao acervo.

Filmes e vídeos

A presença de filmes e vídeos em bibliotecas não é novidade em outros países. Em bibliotecas


norte-americanas, principalmente escolares, há muito tempo vem sendo discutida a incorporação de
filmes a seus acervos, salientando-se sua importância no processo didático-pedagógico. Em paralelo,
uma indústria produtora de filmes com essa finalidade desenvolveu-se nos países mais adiantados,
atendendo a um mercado consumidor de dimensões e poder aquisitivo suficientes para justificar sua
existência.
No Brasil, a utilização de filmes no processo educacional foi prejudicada por preços muitas vezes
proibitivos tanto do material como da aparelhagem necessária à exibição (não se descartando certa
dose de preconceito dos professores na utilização desses meios). A popularização do videocassete está
modificando essa situação, mas sua presença ainda deve ser considerada lima exceção, pelo menos em
parcela significativa das escolas. Imagina-se, e talvez não seja excesso de otimismo, que este quadro
tende a modificar-se, provavelmente em prazo muito curto.
Devido em grande parte à questão econômica, a discussão sobre a presença de filmes em
bibliotecas brasileiras irá restringir-se à incorporação de fitas de videocassete. Antes de entrar na busca
de critérios, deve-se discutir o papel que esse material representará no conjunto do acervo. Sua
abertura para outros materiais não deve ser fruto de modismos ou de um esforço irrefletido para tomar
popular a biblioteca. Nem como o velho chamariz para o livro impresso, como muitas vezes se costuma
fazer com os cursos de corte e costura, crochê e outras atividades.
As bibliotecas públicas não existem para competir com a iniciativa privada, atuando
paralelamente a ela. Isto quer dizer que, no caso de filmes em vídeo, colocá-los no acervo para atender
apenas e tão-somente à demanda individual por filmes da indústria cinematográfica pode, sob muitos
aspectos, ser encarado como uma má aplicação de dinheiro público. Em quase todos os bairros há
locadoras que tornam esses materiais disponíveis, cobrando taxas de aluguel acessíveis. A questão
primordial é criar uma identidade própria para a coleção de filmes em videocassete nas bibliotecas,
diferenciando-a das existentes nas locadoras.
Para uma biblioteca especializada em cinema, existe todo um significado em possuir uma coleção
de filmes e fitas de vídeo cassete para dar suporte às necessidades de pesquisa dos usuários. Isto é fácil
de compreender. Do mesmo modo, o acervo de filmes de uma biblioteca escolar existe para dar suporte
ou ser utilizado como instrumento didático por professores e alunos. O mesmo se aplica a bibliotecas
acadêmicas e universitárias. Em uma biblioteca pública, a presença desse material sempre teve por
objetivo ampliar o espectro de atuação da biblioteca, possibilitando um melhor atendimento das
necessidades informacionais dos usuários. Muitas vezes isto inclui também o empréstimo domiciliar,
duplicando eventualmente o serviço oferecido pelas locadoras. Mas, como se disse acima, não pode
limitar-se apenas a isso. Para uma biblioteca pública, possuir um acervo de fitas de videocassete deve
significar que este material está inserido em um processo de planejamento global de serviços, uma
proposta concreta de intervenção na sociedade. Assim, além do empréstimo domiciliar, pode-se fornecer
espaço para projeções comunitárias, seguidas ou não de debates sobre os filmes exibidos. Da mesma
forma, algumas áreas do acervo são enriquecidas pela inclusão de materiais em vídeo. É o caso, por
exemplo, de gravações de partidas de futebol, em esportes; de peças teatrais ou versões
cinematográficas de romances, em literatura; e de apresentações de orquestras ou óperas, na área de

18
música. Deste modo, o usuário terá ampliado seu acesso a materiais informacionais, complementando
sua pesquisa (ou seu lazer) por intermédio de vários meios de comunicação.
Do ponto de vista técnico, a avaliação de filmes e fitas de videocassete, para incorporação ao
acervo das bibliotecas, deve considerar vários fatores; a minudência da aplicação desses fatores,
entretanto, dependerá dos objetivos da biblioteca. Bibliotecas especializadas levam em conta detalhes de
fotografia, como a composição da obra, o trabalho da câmara, a fidelidade de cor e distinção
claro/escuro, que muitas vezes não serão de vital importância em outras instituições. A qualidade da
edição e dos efeitos especiais também é um aspecto a ser levado em conta em uma avaliação mais
rigorosa. Em filmes de animação e desenhos animados, as técnicas utilizadas são muito importantes.
Além desses aspectos, relativos à parte visual dos filmes, itens como a fidelidade do som e a
qualidade/credibilidade dos efeitos sonoros também podem ser considerados na avaliação.
É provável que bibliotecas especializadas em cinema considerem atentamente a adequação da
produção cinematográfica para outros suportes, preocupação que dificilmente existirá em outras
bibliotecas. Quando um filme produzido para exibição em telas grandes é transposto para uma fita de
videocassete, são feitos recortes e adaptações, a fim de tomar as imagens adequadas à dimensão do
monitor de TV. Isto gera perdas da imagem original, do que resulta uma cópia muito distinta da que lhe
deu origem; essas perdas podem ser inaceitáveis para um pesquisador, para quem a fidedignidade da
imagem é de capital importância. Em bibliotecas públicas esse fator não terá a mesma importância.
É claro que os critérios assinalados dizem respeito apenas à qualidade da cópia ou exemplar. Ao
chegar a esse ponto, questões básicas deverão ter sido anteriormente respondidas, como a adequação
do material ao usuário, sistema de vídeo mais apropriado para a biblioteca (VHS ou Betamax),
implicações financeiras para a instituição, etc. São quesitos para os quais não existem receitas prontas.
Cada biblioteca terá de analisar sua realidade específica e chegar a uma resposta que lhe seja
satisfatória.
No futuro talvez a escolha deixe de ser sobre qual sistema de videocassete e passe a ser entre
videocassete e videodisco, também chamado videolaser. A imagem de um aparelho de videodisco é
superior à de um videocassete. A precisão do contraste, ausência de fantasmas e qualidade das cores
dão a impressão de um filme em três dimensões. Além disso, o acesso aleatório e a durabilidade, fazem-
no a melhor opção para as bibliotecas.
Novidades estão surgindo na área de filmes e vídeos, colocando em xeque muitas das tecnologias
existentes.Uma delas é um disco de material plástico e leitura óptica, do mesmo tamanho de um CD de
música ou CO-ROM, mas com capacidade sete a 26 vezes maior. Conhecido como ovo (digital versatile
disc (disco versátil digital)4, armazena filmes com definição duas vezes melhor do que a do vídeo VHS e
superior à do videodisco, além de contar com seis canais de som. Outras vantagens: pode-se escolher o
áudio de um filme em até oito idiomas e as legendas entre 32 línguas; podem-se cortar cenas do filme,
assistindo-se apenas às de maior interesse; e é possível assistir a cenas que ficaram de
fora na versão oficial e entrevistas com atores e o diretor. Enfim, com o DVO qualquer pessoa
poderá até alterar o final do filme, fazendo, por exemplo, com que Ingrid Bergman termine nos braços
de Humphrey Bogart em Casablanca (1942). O paraíso.

Discos e fitas

Discos e fitas de áudio há tempos fazem parte do acervo de bibliotecas. Além das especializadas,
muitas bibliotecas públicas possuem este material, a fim de atender aos interesses e necessidades da
clientela. Na maioria dessas últimas predominam os gêneros musicais mais populares, mas já se
percebe a preocupação em incorporar fitas cassetes para o ensino de idiomas estrangeiros, área onde
apresentam resultados bastante positivos.
A decisão técnica de seleção tem compreendido a escolha entre discos, em geral de vinil, e fitas
cassetes. Muitas bibliotecas costumam ter como norma a aquisição preferencial de discos. Quando o
usuário solicita o empréstimo de um disco, seu conteúdo é gravado em fita cassete, que é emprestada,
mas não o disco. Assim, preserva-se a integridade do disco, evitando-se arranhaduras ou outros danos.

4
Originalmente a sigla correspondia a digital video disc (videodisco digital), mas como faz muito mais do que reproduzir
imagens de vídeo, seu significado foi mudado.
19
Quanto à durabilidade ou resistência, os discos são facilmente arranhados pelo manuseio
indevido; com o passar do tempo, a reprodução do som pode ficar distorcida. No entanto, é preciso
assinalar que são hoje em dia muito mais resistentes do que eram há algumas décadas. Fitas cassetes,
por seu lado, são vulneráveis a acidentes, podendo ser facilmente apagadas ou danificadas.
No que diz respeito ao conteúdo, alguns autores costumam assinalar que os discos são mais
indicados para gravações de música clássica, que requerem maior qualidade de reprodução, enquanto
as fitas cassetes são mais indicadas para os álbuns de música popular. Este argumento parece ser, em
primeiro lugar, um pouco preconceituoso, por insinuar que os amantes dos gêneros populares sejam
ouvintes de segunda classe que ficarão satisfeitos com um produto de qualidade inferior. A aplicação
deste critério ao acervo deixa subentendida a seguinte mensagem: se quiserem uma qualidade melhor,
aprimorem o gosto. Em segundo lugar, devido ao aperfeiçoamento tecnológico ocorrido nos Últimos
anos, tanto nas fitas cassetes como nos aparelhos reprodutores, o argumento perde quase por completo
sua credibilidade. hoje em dia, a qualidade do som obtido com discos ou fitas se equivale,
independentemente do gênero da música.
Na realidade, o aperfeiçoamento tecnológico influiu na discussão acima mencionada de maneira
bastante diversa, transformando-a radicalmente. Hoje em dia, a opção primeira não se dá mais entre
disco e fita cassete, mas entre ambos e o compact disc (CD). Por vários motivos. A qualidade de som do
compact disc é muitissimamente superior, permitindo uma audição mais completa de todos os acordes
envolvidos na gravação. A resistência do CO, excetuando-se condições excepcionais, é quase total.
O que se afirmou quanto ao futuro do videodisco já é realidade no que diz respeito aos CDs de
áudio, a começar pelas vantagens de acesso aleatório (sem contato direto do usuário com o material, é
bom lembrar) e maior durabilidade. Sua grande desvantagem ainda está ligada ao preço, superior ao
dos discos comuns, agora denominados discos de vinil, e das fitas cassetes. Talvez não seja excesso de
otimismo imaginar que esta diferença venha a diminuir em futuro próximo, devido a uma maior
popularização dessa tecnologia. Por outro lado, uma análise objetiva do custo-benefício dos compact
discs talvez possa demonstrar uma discrepância bem menor do que aquela que os números brutos, a
princípio, deixam vislumbrar. Considerando-se as vantagens obtidas em relação à durabilidade,
armazenamento e qualidade da reprodução dos CDS, a diferença de preço passa a ser um fator de
muito menor impacto. Cabe aos bibliotecários o desenvolvimento de mecanismos de avaliação desse
custo-benefício que permitam uma decisão mais bem alicerçada.

Diapositivos

Para a seleção de diapositivos (slides) deve-se considerar, além da adequação aos usuários,
aspectos técnicos como perfeição das cores, qualidade da imagem projetada, e se são compatíveis com o
equipamento de projeção existente. Neste último aspecto, implicações sobre o custo tanto para
aquisição do equipamento como. sua manutenção deverão ser avaliadas, optando-se pelo que oferecer o
maior número de vantagens.As características do público são provavelmente os pontos mais
importantes a serem considerados, pois influenciarão muito na formulação dos critérios de seleção.
Selecionar diapositivos para professores universitários é uma tarefa de maior complexidade do que
selecioná-los para utilização por estudantes de primeiro grau. O nível de exigência de um docente que
vai utilizar um diapositivo em uma aula de anatomia humana será muito maior do que o do estudante
de primeiro grau que usará o material como ilustração de uma aula de ciências. No primeiro caso, a
perfeição de detalhes será o principal critério para seleção. No segundo, essa exigência pode não ser um
fator tão determinante.
Buscando sistematizar o assunto, a Profa. Maria Luiza Loures Rocha Perota, em seu livro
Multimeios: seleção, aquisição, processamento, armazenagem, empréstimo, um dos poucos textos em
português a enfocar o tema, sugere, resumidamente, os seguintes critérios de seleção:

1) Interesse concreto para o usuário;


2) A informação contida em cada vista deve ser clara, concisa, verdadeira e atualizada, limitar-se
a um s6 tema preferencialmente, pois facilita a assimilação por parte do espectador;
3) Figuras simples. Os desenhos técnicos complexos não são apropriados para serem
apresentados em um s6 quadro;

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4) Devem-se escolher ilustrações nas quais o tema mais importante se destaque do fundo;
5) Os dados numéricos devem ser apresentados sob a forma de gráficos ou de quadros, por
serem de mais fácil compreensão;
6) Observar a qualidade do material: de película, dos impressos [sic] de revelação, fixação,
produtor, etc.

Além dessas, outras considerações poderiam ser feitas. Por exemplo, algumas bibliotecas dão
preferência a conjuntos de diapositivos, acompanhados por material para utilização simultânea à
projeção, incluindo desde textos explicativos até fitas cassetes com a apresentação já organizada pelos
editores. À seleção desses conjuntos exige que se levem em conta a coerência entre os diversos
componentes do todo e a relação entre o texto escrito/ gravado com o conteúdo dos diapositivos. Em
alguns casos, talvez seja necessário o auxílio de especialistas para responder com clareza a esses
questionamentos.
Muitas bibliotecas preferem elas mesmas produzir seus diapositivos, com imagens feitas a partir
de livros ou periódicos constantes de seu acervo. O nível de exigência quanto à qualidade das
reproduções, dependendo de sua finalidade, poderá ser maior ou menor. Merece cuidado especial a
adequação do suporte fotográfico, para se obter o resultado mais satisfatório possível.
Outro aspecto para o qual os profissionais devem estar atentos refere-se ao direito autoral de
obras intelectuais ou artísticas.
Fotografias, quadros, gravuras, etc. são protegidos por lei quanto à sua reprodução em outro
suporte ou sua exposição pública, requerendo autorização dos detentores dos direitos autorais. Não
convém tratar esta questão com leviandade. Sempre existe o risco de um processo judicial, por lesão de
direitos autorais.

Outros materiais

Como se comentou no início deste capítulo, não se pretendeu aqui esgotar todos os tipos de
materiais que podem fazer parte do acervo das bibliotecas. Esta seria uma pretensão muito ambiciosa,
inevitavelmente fadada ao fracasso. Para as finalidades deste texto, buscou-se apenas fazer uma
abordagem muito ampla de alguns dos materiais mais comuns, de modo a possibilitar aos profissionais
um conhecimento básico desta área da seleção. Bibliotecas que possuam coleções de materiais não
enfocados neste texto (como brinquedos, incunábulos, microformas, transparências, mapas e globos,
fotografias etc.) deverão aplicar-lhes as mesmas reflexões aqui feitas em relação a periódicos, histórias
em quadrinhos, filmes e vídeos, etc. Este será um exercício fascinante que muitos benefícios trará aos
profissionais e à comunidade a que devem servir.

5. Seleção de documentos eletrônicos

Quem acompanha de perto a evolução dos suportes de informação sabe como eles se
diversificaram nos últimos anos com a possibilidade de armazenamento digital de dados. O
armazenamento de dados em computadores de grande porte, a aquisição de CD-ROMs ou disquetes
com bases de dados bibliográficos, o acesso on-line ou via Internet a computadores remotos, etc. fazem
parte de um leque de alternativas disponíveis para tornar a informação mais acessível, maximizando
seu uso.
Cada vez mais, profissionais da informação que atuam em diferentes áreas do conhecimento são
chamados a se posicionar em relação a esses meios eletrônicos, decidindo pela sua incorporação ao
acervo. É imprescindível, então, ter previamente definidos os critérios para realizar essa avaliação de
maneira correta, de modo a preservar os mesmos padrões de qualidade que conseguiram colocar em
seus acervos tradicionais.
Na seleção de documentos eletrônicos consideram-se aspectos de conteúdo, acesso, suporte e
custo. As considerações sobre conteúdo são iguais às feitas sobre documentos impressos, na medida em
que sua inclusão se justificar com base nos objetivos da biblioteca e no interesse dos usuários. Optar
21
por documentos eletrônicos só porque são modernos, bonitos e atrativos não se justifica. É preciso que
o conteúdo esteja de acordo com os parâmetros de assunto definidos pela instituição e haja razoável
certeza de que significarão acréscimo valioso em termos de expectativas e necessidades dos usuários.
As vantagens e limitações do documento devem ser evidentes em termos de qualidade intrínseca,
mesmo que para isso se tenha de ouvir especialistas.
Em termos de acesso, os documentos eletrônicos devem ser avaliados não apenas quanto à sua
maior facilidade para realizar buscas específicas, possibilitadas por mecanismos automatizados que
permitem atingir um número maior de relações entre conceitos do que as conseguidas em buscas
manuais. Embora este seja um dos pontos centrais da decisão de seleção, a análise deve englobar
também questões como a compatibilidade do documento eletrônico com o sistema de automação da
biblioteca. Outro ponto importante é a autorização do fornecedor para que os documentos sejam
acessíveis em rede local ou tenham sua utilização restringida a computadores isolados c as implicações
que essas duas alternativas terão no custo do material
Quando os documentos eletrônicos constituem instrumentos de referência, como índices, resumos
ou sumários de periódicos, . a biblioteca deve estar preparada para um impacto na demanda de
materiais, pois os usuários terão conhecimento de documentos que talvez não estejam disponíveis no
acervo.
Dispor de estrutura administrativa que responda de modo eficiente a essas demandas, inclusive
com a possibilidade de empréstimo entre bibliotecas e comutação bibliográfica, pode ser uma medida
prudente para evitar que o acirramento da ansiedade pela informação conduza à frustração do usuário.
Em termos de relações públicas, para não falar do apoio que a instituição deve receber da comunidade
a que serve, isto é desastroso.
As questões relacionadas com o suporte necessário para utilização do documento eletrônico são
sempre muito pertinentes. Para muitas bibliotecas, trata-se de materiais com os quais seu pessoal não
tem ainda suficiente familiaridade, para utilização independente. Necessitarão, portanto, de um período
de adaptação e mesmo de treinamento antes que estejam aptos a proporcionar aos usuários a ajuda
que com certeza irão solicitar.
Os usuários precisarão receber orientação para .que se tomem independentes no uso dos novos
recursos. Isto significa dizer que, no momento da seleção, será preciso examinar a questão da
disponibilidade de elementos complementares aos documentos eletrônicos. Entre eles está a existência e
qualidade dos manuais de instruções e a disponibilidade de suporte técnico por linha telefônica que
permita dirimir, junto ao produtor/fornecedor, as dúvidas sobre a utilização do documento eletrônico.
Isso, porém, não é tudo, pois também a qualidade das instruções deverá ser avaliada, bem como a
facilidade ou dificuldade de acesso ao suporte técnico. De pouco adianta dispor de um número
telefônico para contato se estiver sempre ocupado ou houver incompatibilidade entre o horário da
biblioteca e o do fornecedor do produto, etc.
Por fim, fatores relacionados com o custo do documento em formato eletrônico têm um peso
grande na decisão de seleção. Por custo entenda-se não apenas o mais evidente, como o valor da
compra do produto. Devem ser considerados todos os demais custos, como os de atualização
(correspondentes à renovação das assinaturas de periódicos), manutenção e uso (neste caso, também a
disponibilidade em rede local, que pode significar um acréscimo, às vezes salgado, ao preço inicial de
aquisição).
A comparação de preços entre os documentos impressos e seus similares eletrônicos costuma ser
mais complicada do que aquela com que estão acostumados os bibliotecários quando comparam os
preços de livros ou materiais de referência em papel. Mais complicada ainda é essa comparação quando
diz respeito apenas a documentos eletrônicos, pois as estratégias de preço dos diversos produtores varia
e nem sempre é fácil determinar qual é mais vantajosa em termos de custo-benefício.
No que tange aos documentos eletrônicos, é preciso refinar cada vez mais os instrumentos de
análise de custos, de modo a englobar o maior número possível, tanto os diretos (preço, custo dos
equipamentos necessários, etc.) como os indiretos (despesas com treinamento do pessoal, tempo gasto
na orientação dos usuários, impressão das informações contidas nos documentos, etc.).
Considerando os objetivos deste livro, torna-se inviável o enfoque detalhado de cada uma das
possibilidades oferecidas pela informação eletrônica nos dias de hoje. Dada a rapidez com que a área
avança, no momento do lançamento desta obra ela já estaria desatualizada. Desta forma, serão vistas
apenas algumas alternativas, com considerações sobre suas características e discutindo-se alguns dos
critérios que lhes são mais apropriados.
22
CD-ROMs

CD-ROM significa compact disc-read only memory [disco compacto - memória apenas de leitura],
uma tecnologia desenvolvida na última década e que armazena grande quantidade de informações em
discos compactos similares aos utilizados para gravações sonoras. A produção desta tecnologia vem
crescendo em progressão geométrica, em todas as áreas do conhecimento.
A popularização do CD-ROM e de outras tecnologias para armazenamento da informação está
ocorrendo nas bibliotecas no mundo inteiro. No Brasil, sua disseminação ainda não se compara com a
dos países mais desenvolvidos, mas já podem ser encontrados em muitas bibliotecas especializadas e
universitárias, a maioria delas situadas no eixo Rio de Janciro-São Paulo, mas, cada vez mais, também
nas outras regiões do país. Embora, ao que se saiba, não tenha ainda sido realizado qualquer tipo de
levantamento para conhecer o ritmo de crescimento do número de CD-ROMs nas bibliotecas brasileiras,
é de se admitir que esse número esteja crescendo além das expectativas. A cada dia se reduzem os
preços dos equipamentos de informática e mais bibliotecas adquirem microcomputadores que já trazem
uma unidade de leitura de CD-ROM. Da mesma forma, a maior disponibilidade e diversidade de
produtos nesse formato também leva a uma queda de preços, equiparando-os e muitas vezes até mesmo
deixando-os inferiores aos preços dos documentos impressos.
Alguns leitores talvez venham a pensar que esta tecnologia, por ser ainda bastante recente,
afetará apenas algumas bibliotecas especializadas ou universitárias, principalmente devido à pouca
disponibilidade de recursos orçamentários nas bibliotecas públicas. Mesmo correndo o risco de ser
acusado de excesso de otimismo, penso ser esta uma conclusão equivocada. Nunca é demais lembrar
que há poucos anos nenhum cidadão comum de classe média sequer cogitava na possibilidade de
possuir um computador pessoal. Pouco antes, o mesmo ocorria com a televisão em cores. O
barateamento dos equipamentos eletrônicos em geral levará, sem dúvida, à inclusão dos CD-ROMs no
acervo das bibliotecas públicas. Talvez isso até ocorra muito mais cedo do que os bibliotecários
imaginam (quem viver, verá!).
É preciso, portanto, que os bibliotecários saibam lidar com esse novo tipo de documento e com as
implicações que ele deverá ter em suas atividades profissionais. Pois ele já está entre nós e não tardará
para que invada as searas das bibliotecas públicas brasileiras.
Os CD-ROMs têm crescido bastante na área de entretenimento, abrangendo inúmeros brinquedos
e jogos. Também há muitos produtos para o ensino, seja para utilização em sala de aula, como
complemento pedagógico, seja para estudo independente. Embora, nas bibliotecas, seu maior impacto
tenha ocorrido na área de obras de referência, a decisão de incorporar ao acervo material de
entretenimento nesse formato talvez seja uma das primeiras que os profissionais da informação terão de
ponderar.
Existe uma grande variedade de bases de dados bibliográficos em CD-ROM. Obras de referência
tradicionalmente publicadas em papel, assim como a maioria dos serviços de indexação, estão
disponíveis nesse suporte. Este panorama deve se alterar nos, próximos anos, fazendo com que se
intensifique a necessidade, para os bibliotecários, de saber avaliar esses materiais de maneira
adequada, o que não se resume a comparar o material impresso com o material em formato eletrônico.
É mais do que isso.
Entre as vantagens dos produtos bibliográficos em CD-ROM deve-se destacar a facilidade de
busca em comparação com as versões impressas dos mesmos títulos. Isto fica ainda mais evidente
quando é preciso fazer uma pesquisa bibliográfica que abranja vários anos. Enquanto a pesquisa em
uma base de dados impressa obriga o usuário a fazer várias viagens às estantes e a manusear dezenas
de volumosas edições, aquela realizada em um CD-ROM não é afetada pelo período estipulado, sendo
feita da mesma forma, caso fosse definido um período mais limitado. Há de se concordar que fazer uma
busca bibliográfica sentado diante do computador é muito mais agradável do que fazê-la com dispêndio
de força e deslocamentos físicos (talvez os fanáticos por condicionamento físico discordem dessa
afirmativa...).
Bases de dados em CD-ROM podem ser utilizadas com o auxílio de variado número de opções,
que facilitam a recuperação das informações. Entre elas estão as buscas por assuntos, por números de
classificação, nome de autores, títulos, palavras-chave, datas, etc. Ademais, os termos de busca podem

23
ser combinados utilizando-se a lógica booleana, do que resultam estratégias muito mais precisas do que
as realizadas em bases de dados impressas. É lógico que essas opções variam de produto para produto,
mas é importante que o bibliotecário tenha bem claro aquelas que sejam mais úteis para os usuários de
sua instituição.
A escolha entre obras publicadas em papel e as mesmas obras em CD-ROM é algo que já começa
a afetar principalmente o setor de referência das bibliotecas. Essa escolha será tanto mais objetiva
quanto mais o profissional se organizar em termos de coleta de dados de custo e custo-benefício,
facilidade de acesso, disponibilidade de espaço, manuseio, equipamentos necessários, custos de
armazenamento, etc. Por exemplo, a decisão entre adquirir um instrumento bibliográfico como o
Chemical Abstracts em papel e sua versão em CD-ROM deve considerar fatores como custo do
equipamento para leitura dos discos (e do computador onde será instalado), custo de utilização do
equipamento (mobiliário, manutenção, cuidados especiais, etc.), disponibilidade de espaço físico e
providências necessárias para adequação desse espaço ao equipamento, para apenas citar alguns
fatores.
É importante salientar que, para se fazer a avaliação do custo de uma base de dados em CD-ROM,
não basta comparar seu preço final com o das bibliografias impressas. É importante ter bem claro o que
se está adquirindo em cada um dos casos. Bases de dados impressas em geral oferecem apenas os
números correntes e os cumulativos do corrente ano; bases de dados em CD-ROM podem incluir um
arquivo retrospectivo, com atualizações.
Muitas vezes o conteúdo das bases em CD-ROM é inferior ao das bases em papel. A experiência
mostra que muitas bases que os produtores afirmam trazer o texto integral dos periódicos às vezes não
incluem quadros, tabelas e figuras constantes das versões em papel, porque ocupam demasiado espaço
nos discos.
Além desses pontos, deve-se verificar, ao se optar por uma base de dados em CD-ROM, o quanto
de liberdade de uso se obtém. Muitos produtores desses materiais eletrônicos apenas os cedem para
uso durante um período determinado, em geral especificado em um documento de licenciamento
(internacionalmente conhecido como licence agreement). Não se trata de uma venda, como acontece
com os livros impressos.
É preciso atentar para as condições de uso que são permitidas pelo documento de licenciamento,
pois esse tipo de contrato costuma ser bastante draconiano em suas exigências, com cláusulas rígidas
quanto à utilização dos materiais. Na maioria das vezes constituem verdadeiros ‘contratos de adesão’,
que beneficiam apenas o produtor, com cláusulas que vão de encontro aos objetivos da biblioteca. Se o
bibliotecário quiser utilizar o produto em uma torre de CD-ROMS, por exemplo, deve verificar, ao
assinar o contrato, se este não proíbe essa forma de uso. Se do contrato constar tal proibição, o
bibliotecário deverá exigir que ela seja retirada do texto ou que seja alterada para se ajustar tanto
quanto possível a suas pretensões.
Em geral, quando todos os elementos são cuidadosamente verificados e se toma cuidado para não
cair em alguma armadilha contratual, as bases de dados em CD-ROM proporcionam um benefício
muito maior do que fica aparente ao se comparar seu preço com o das obras impressas. Nesse sentido,
é preciso mais uma vez salientar a ligação entre a seleção e o gerenciamento da instituição bibliotecária,
principalmente quando se tem de optar entre duas ou mais versões de um mesmo título, cuja
adequação aos objetivos da instituição e dos usuários, em termos de conteúdo, é inquestionável. O
bibliotecário responsável pela seleção necessitará das informações adequadas para uma correta
avaliação de todos os fatores envolvidos.

Bases de dados On-line

Diferentemente de uma base de dados em CD-ROM, uma base de dados de acesso on-line não
está fisicamente no acervo da biblioteca. O computador onde a base está armazenada pode encontrar-se
a milhares de quilômetros de distância, em outro país ou continente. Com o auxílio de um aparelho
chamado modem, acoplado ao computador, e de uma linha telefônica, pode-se realizar o acesso à base
de dados.
A possibilidade de acessar esse tipo de bases de dados é encontrada com freqüência cada vez
maior em instituições bibliotecárias brasileiras, principalmente nas da área universitária e

24
especializada. Muitas vezes estão também disponíveis em CD-ROM ou disquetes, podendo ser
adquiridas pela biblioteca. Nesses casos, o responsável pela seleção deverá pesar os prós e contras de .
cada opção e definir-se pela que lhe for mais conveniente. Alguns pontos merecem atenção:

 Nem sempre uma base em CD-ROM contém o mesmo que suas congêneres on-line,
armazenadas em computadores de grande porte e, portanto, com um volume maior de dados. É
importante distinguir com clareza as diferenças e semelhanças entre os dois produtos;
 Em princípio, quando há baixo volume de demanda pela base de dados, o acesso on-line
costuma ser economicamente mais adequado para a biblioteca, pois ela pagará apenas as buscas
efetuadas e não precisará incorrer em diversos outros custos ligados à aquisição e manutenção da
base em seu acervo, seja em CD-ROM ou outro tipo de suporte. Quando a demanda for maior, a
aquisição da base será mais vantajosa para a biblioteca, pois os custos da utilização on-line serão
maiores. Na medida em que, ao utilizar-se uma base de dados on-line, deve-se pagar o tempo de
acesso e o profissional que presta assessoria ao usuário, o custo será mais alto quando houver
maior freqüência de utilização;
 Por serem em geral volumosas, as bases de dados ocupam grande espaço na memória dos
computadores. Poucas bibliotecas possuem máquinas em número suficiente ou capacidade de
memória assim tão grande, de modo a armazenar muitas bases de maneira simultânea. Para
redes de bibliotecas, que possuem sistemas de computadores integrados e podem instalar torres
de CD-ROMS, esta questão talvez não seja tão problemática, embora talvez a velocidade de
processamento dos computadores possa vir a ser afetada.

Considerados os pontos acima, verifica-se que a opção pelo acesso a bases de dados on-line é
muitas vezes a única alternativa para bibliotecas que desejam proporcionar a seus usuários o maior
leque possível de opções em termos de materiais de informação. O número de bases de dados em
formato eletrônico hoje disponíveis no mercado torna impossível o armazenamento de toda e qualquer
fonte que os usuários possam um dia ter necessidade de utilizar.
Bibliotecas menores obtêm maiores benefícios com o acesso on-line, principalmente para
demandas particularizadas e infreqüentes, mas essa regra não é assim tão rígida.
Usuários não habituados com determinada base de dados podem levar muito tempo para definir
uma busca, aumentando os custos para a biblioteca. Às vezes é preferível que os bibliotecários planejem
e executem a busca para os usuários, visando não só baixar o custo da conexão, mas, também, obter
melhores resultados na recuperação da informação. O acesso on-line pode também funcionar como
uma avaliação do volume de demanda real por determinada base, proporcionando elementos para a
eventual decisão por sua aquisição em CD-ROM e seu armazenamento no computador da biblioteca.

Documentos disponíveis na Internet

Em certos aspectos, a Internet parece ser a grande coqueluche deste final de século, a ela sendo
atribuído o embrião das grandes revoluções sociais que se darão no futuro. Ela vem afetando em muito
as bibliotecas do mundo inteiro, trazendo desafios e oferecendo oportunidades aos profissionais
responsáveis pelo gerenciamento dessas instituições. Mais particularmente, ela tem colocado muitas
questões aos bibliotecários que respondem pela seleção de materiais, que cada vez mais se perguntam
como podem utilizar os recursos da Internet em benefício de sua instituição e de seus usuários.
A literatura especializada onde se discutem essas questões cresce a olhos vistos, mostrando que
os profissionais da informação estão atentos às implicações da informação eletrônica em suas
atividades e preocupados em estabelecer, para os documentos disponíveis pela Internet, critérios de
qualidade semelhantes aos utilizados para a seleção dos materiais mais tradicionais.
Para quem não está familiarizado com o assunto, é importante salientar que a Internet é muito
mais do que uma rede de computadores: trata-se de uma interconexão entre diversas redes de
computadores dispersas pelo mundo inteiro, acessadas por caminhos diferentes e alternativos, exigindo
apenas que o interessado possua um computador adequado, um modem, um software de comunicação
e uma senha que lhe permita entrar no sistema por uma das diversas redes interligadas (que funcionam
como provedores de acesso).

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Para esclarecer melhor, costuma-se comparar a Internet a um sistema de auto-estradas
conectadas entre si e ligando um país de ponta a ponta, numa variedade que vai desde estradas vicinais
carentes de melhorias até vias expressas com complexa organização e contando com os mais avançados
recursos.
Um viajante, para se locomover de um ponto a outro do país, poderá iniciar sua viagem por uma
estrada vicinal, quase nunca pavimentada, e depois utilizar uma estrada estadual ou uma auto-estrada
federal, tendo às vezes de trafegar por outra estrada vicinal (ou muitas outras estradas, vicinais ou não)
antes de chegar ao local pretendido. Algo similar ocorre na Internet: os caminhos para uma mensagem
ir de um objetivo a outro são muitos, dependem de vários fatores, mas ao final é de se esperar que o
processo se realize a contento.
No início, a Internet teve como objetivo interligar profissionais que trabalhavam em pesquisas e no
ensino universitário no mundo inteiro, facilitando-lhe a comunicação.
A comunicação eletrônica surgiu e tomou corpo na rede como uma. de suas possibilidades mais
atraentes, sendo utilizada por pesquisadores e cientistas em todo o mundo para a troca de informações,
por meio de e-mails, mensagens enviadas por via eletrônica que ficam armazenadas no espaço em
máquina exclusivo do receptor (conhecido como endereço eletrônico)5.
Mais tarde, surgiram as listas de discussões, genericamente conhecidas como listservs ou
newsgroups, pelas quais todos os interessados em um assunto encaminham suas mensagens para um
endereço específico e essas mensagens são distribuídas para os assinantes da lista, gerando um
permanente clima de troca de idéias e informações. Por último, surgiu a www (World Wide Web ou
simplesmente Web), evolução tecnológica dos antigos gophers, uma sofisticação da Internet que
incorpora aplicativos e interfaces baseadas em técnicas de hipertexto e hipermídia.6
Atualmente, a Internet já deixou de ser de uso exclusivo do mundo acadêmico, podendo ser
utilizada, por indivíduos de todas as áreas e atividades, por um custo bastante acessível. Isto gerou
uma explosão do universo de informações disponíveis na rede, que crescem e se modificam numa
rapidez difícil até mesmo de imaginar e mais ainda de acompanhar.
A cada minuto, informações sobre todo e qualquer assunto são incorporadas e tomadas
disponíveis na Internet. Desde dados totalmente irrelevantes (a não ser para poucos interessados) a
documentos de interesse universal, oriundos de organizações conceituadas no mundo científico ou
empresarial. Hoje em dia, pode-se fazer quase tudo pela Internet: obter dados estatísticos, adquirir
bens, contratar serviços, acessar bases de dados, consultar catálogos de bibliotecas, encontrar
parceiros para jogos ou relacionamento amoroso, etc. (os limites talvez sejam apenas a nossa própria
imaginação). Daí, pode-se ter uma idéia do potencial que ela representa em termos de fonte de
informação.
Os bibliotecários do mundo inteiro se interessaram pelas redes eletrônicas, em particular pela
Internet, desde seu início. Ao invés de ficar preocupados com possibilidades de eventual
desaparecimento (veja-se, a respeito desse assunto, o capítulo 11, sobre o futuro da seleção), trataram
de incorporar os documentos disponíveis na Internet às alternativas de informações que ofereciam a
seus usuários. Bibliotecas incorporaram-se à rede criando home pages, 7 por meio das quais
possibilitam acesso a seus catálogos e criam ligações com informações disponíveis na rede, tornando-se
uma porta para o mundo das informações eletrônicas. Isso parece tender unicamente ao crescimento, à
medida que mais e mais instituições de informação fazem o. mesmo trajeto.
O universo de informações disponíveis na Internet é complexo e diversificado ao extremo. Para as
bibliotecas, não se trata apenas de possibilitar que parcelas da comunidade que não têm
disponibilidade financeira para utilizar a rede possam faze-lo por meio dessas instituições. Trata-se,
muito mais, de definir critérios que garantam a fidedignidade, atualidade e confiança sobre a
procedência da informação fornecida via rede eletrônica.
5
Um endereço eletrônico é composto de modo similar a um endereço comum, indicando o destinatário, a maquina e o país
onde esta se localiza. O meu endereço eletrônico, por exemplo, é wdcsverg@usp.br, que pode ser descrito assim: o que vem
antes do símbolo @ (representativo do latim ad: em direção a, para) indica o nome do destinatário; o que vem depois
identifica o local onde o computador/servidor, ou provedor, se encontra (usp: Universidade de São Paulo) e o país (br:
Brasil).
6
Foge aos objetivos deste livro entrar em detalhes sobre a Internet. Para quem quiser conhecer mais sobre a rede,
aconselha-se a leitura de alguns dos manuais disponíveis, entre eles o seguinte título: PIKE, Mary Ann. Using the
Internet. 2.ed. QUE, 1995.
7
Home page é a porta de entrada de qualquer endereço na WWW, trazendo as principais indicações sobre o conteúdo
daquele endereço (uma espécie de menu).
26
Às vezes a experiência de trafegar pela Internet compara-se à aventura de quem viaja a um país
estrangeiro sem conhecer o idioma e tem que se comunicar/sobreviver em um ambiente diferente
daquele ao qual está acostumado. Assim, as bibliotecas têm-se preocupado em proporcionar aos
usuários indicadores para orientação nessa balbúrdia, selecionando e possibilitando o acesso a
endereços da Internet que contenham material de interesse para seus usuários.
De certa forma, a incorporação de qualquer endereço eletrônico à página que a biblioteca mantém
na Internet pode ser comparada à aquisição de um documento escrito e sua incorporação ao acervo
físico. Trata-se, em muitos aspectos, da mesma atividade de determinação de qualidade e adequação ao
usuário realizada pelos bibliotecários de seleção. Muitos dos critérios aplicáveis aos documentos
impressos aplicam-se também àqueles disponíveis via rede eletrônica. Pode-se dizer, por exemplo, que a
biblioteca deverá avaliar um documento eletrônico segundo o mesmo critério de autoridade que utiliza
para o documento em papel: no caso deste, o critério seria validado pelo renome do autor, do editor e do
órgão responsável pela edição da obra; para o documento disponível via Internet serão definidos
elementos equivalentes aos mencionados, e avaliados segundo a credibilidade que tenham e também
baseado em suas produções anteriores. Isto não é difícil de entender, pois se imagina que um
documento disponível no endereço eletrônico da UNESCO, da ONU ou outra organização conceituada
seja mais confiável do que um documento disponível no endereço de uma pessoa física sem maiores
referências. O mesmo se aplica aos demais critérios de conteúdo mencionados no capítulo 3.
Outro aspecto importante da incorporação de documentos disponíveis na Internet refere-se à
indicação de páginas individuais sobre determinado tema ou instituição, ou à indicação de servidores
que contenham conjuntos de recursos. Kim Fung Yip assim exemplifica essa questão: “podem-se
selecionar periódicos na Internet pela seleção de sites de periódicos específicos, ou um site que aponte
para uma coleção de periódicos”8. Não existe uma regra fechada nessa área e cada biblioteca deverá
decidir qual opção lhe é mais conveniente. Isto também não significa que deva existir uma opção
fechada: é possível optar pelo coletivo em determinados momentos, deixando ao usuário a seleção
daquilo que lhe é de maior interesse ou utilidade, e em outros momentos fazer a indicação diretamente
para a fonte específica.
Outro ponto importante relaciona-se com a indicação apenas de recursos acessíveis
gratuitamente na Internet ou da inclusão também de documentos para cujo acesso se exige uma
compensação monetária. Caso a última opção seja a preferida, o bibliotecário deverá decidir se a
biblioteca arcará com o custo do acesso ou se será repassado, total ou parcialmente, ao usuário final.
Estas questões devem estar bem claras para o usuário antes que ele realize a pesquisa, pois é muito
frustrante engajar-se em uma busca de informação e ter que interrompê-la em determinado momento,
ao saber que existirá um custo adicional inesperado.
Além das bases em o CD-ROM ou on-line, muitas se tornaram acessíveis via Internet. Às vezes,
esta alternativa é feita sem custo direto de aquisição ou assinatura, o que é uma vantagem adicional.
Na maioria das vezes, porém, para ter acesso à base de dados na Internet, a biblioteca deve arcar com o
custo definido pelo produtor. Nesses casos, deve-se fazer a avaliação de custo-benefício, visando a
melhor escolha para a instituição bibliotecária.
A inconstância dos endereços na Internet obriga a um acompanhamento das indicações já feitas.
Nada garante que um endereço útil para a biblioteca continuará existindo ou se transferirá para outro
ponto da rede. Neste caso, muitas vezes uma indicação para o novo endereço é feita quando se acessa o
endereço antigo, restando à biblioteca fazer a atualização dos dados. No primeiro caso, existe a
possibilidade de a informação estar perdida para a instituição, pelo menos em formato eletrônico.
A Internet é um conjunto de redes interconectadas, com bilhões de dados e informações, que, na
maioria, talvez sejam dispensáveis, sem interesse duradouro. Cabe às bibliotecas colaborar com o
processo de comunicação, avaliando as fontes e indicando as que se destacam em relação a parâmetros
de qualidade, diminuindo o tempo do usuário para encontrar a informação nesse emaranhado de
informações muitas vezes conflitantes. Esta atividade se faz ainda mais importante à medida que os
mecanismos de busca existentes na própria Internet são ainda insuficientes para uma recuperação
satisfatória.9
8
Entre os serviços de busca disponíveis na Internet pode-se destacar o AltaVista (http:/ www.altavista.digital.com). o
Open Text Index (http://index.opentext.net), o Yahoo (http://www.yahoo.com) e o brasileiro Cadê
(http://www.cade.com.br).
9
KIM Fung Yip. Selecting Internet resources: experience at Hong Kong University of Science and Technology (HKUST)
Library. The Electronic Library, v. 15, n. 2, p. 91-98, 1997
27
6. Organizando o processo de seleção

É importante salientar que, na prática, a seleção tem alto grau de detalhamento. Em outras
palavras: o que parece simples, nem sempre é tão simples assim. Às vezes, a complexidade da seleção
não fica evidente para o profissional, que raramente interrompe sua rotina para refletir a respeito das
atividades que desenvolve. Essa complexidade, porém, é real, palpável, bastando que se enfoquem, com
senso crítico, as atividades desenvolvidas na tomada de decisão, para que ela se torne evidente. Essas
atividades variam de uma instituição para outra, cada uma organizando o processo segundo suas
peculiaridades e características e procurando obter o fluxo administrativo mais conveniente para
garantir que todos os materiais só ingressem no acervo após uma avaliação por parte de um
responsável. É inaceitável que um item ingresse na coleção por descaso, falta de tempo ou ineficiência
dos responsáveis por sua manutenção e desenvolvimento.
Expressões como lista de desiderata, demanda reprimida e lista de sugestões são de uso corrente,
expressando coisas mais ou menos iguais. Na prática, são quase sinônimas, pois se referem a materiais
que a biblioteca está considerando incorporar ao acervo. Lista de desiderata, como o nome indica,
refere-se a materiais que a biblioteca deseja adquirir; imagina-se que tenham recebido decisão favorável
de alguém, mas esta regra nem sempre é seguida. Demanda reprimida, expressão pouco simpática,
indica títulos procurados pelos usuários e não possuídos pela biblioteca, mas também pode referir-se
aos indicados pelos usuários.
Lista de sugestões, talvez a expressão mais ampla, em geral indica uma lista de títulos que foram
sugeridos para aquisição, normalmente composta por indicações de usuários. Com freqüência, esses
títulos ainda não foram submetidos a um processo de tomada de decisões (mas essa regra nem sempre
é seguida).
Considerando as definições acima, cada profissional deve ter bem claro o significado de cada
expressão no contexto da biblioteca em que atua, principalmente para diferençar entre títulos ou
indicações cuja aquisição já foi decidida e aqueles que ainda deverão ser submetidos ao processo de
tomada de decisões.
O fato de uma lista ter sido confeccionada - tenha ela recebido que nome for - deve significar todo
um trabalho de identificação, avaliação e aplicação de critérios de seleção para cada um dos itens que a
compõem (se antes ou depois da confecção da lista, é irrelevante). E significa uma definição precisa do
responsável ou responsáveis pela seleção dos materiais, apontando-se as atribuições de cada um dos
envolvidos ~o processo.
Assim, a organização do processo de seleção implica definir:

 Os responsáveis pela tomada de decisão


 Os mecanismos para identificação e registro dos itens a
 Serem selecionados
 A política de seleção.

Os dois primeiros itens serão vistos neste capítulo. O terceiro item, devido à sua importância, será
visto em outro capítulo.

Quem seleciona?

Uma vez estabelecida a premissa inicial da importância da participação do bibliotecário na


seleção, parece interessante concentrar a análise nas estruturas em que sua participação é
efetivamente concreta, deixando de lado aquelas em que ele atua como mero cumpridor de decisões
superiores.
As várias alternativas para organização das atividades de seleção podem ser esquematicamente
analisadas assim:

28
Alternativa 1
Existência de uma comissão de seleção, de caráter
deliberativo, da qual o bibliotecário participa como
membro ou coordenador/presidente.

Esta alternativa pressupõe a existência de um grupo de pessoas colocadas, como um conjunto,


hierarquicamente acima do bibliotecário, para tomar as decisões concernentes à seleção dos materiais.
A presença do bibliotecário visa oferecer garantias de que as necessidades da coleção como um todo
estarão acima de interesses de grupos ou indivíduos. Embora se costume manter apenas o responsável
pela biblioteca como membro efetivo da comissão, nada impede que outros profissionais do corpo
técnico da biblioteca participem, principalmente os que têm mais contato com os usuários, como é o
caso do bibliotecário responsável pelo serviço de referência.
O funcionamento das comissões de seleção tende muitas vezes a ser apenas burocrático, com um
ou dois membros tomando as decisões pelos demais. Em geral, reúnem-se segundo uma periodicidade
prefixada (mensal, bimestral, etc.), quando analisam as sugestões dos usuários e as encaminhadas pelo
corpo técnico da biblioteca, podendo ainda incorporar sugestões próprias.
As dificuldades burocráticas, talvez inevitáveis, devem ser’enfrentadas com criatividade e
eficiência, as decisões ocorrendo do modo mais amplo e rápido possível. À biblioteca caberá, entre
outras medidas, elaborar formulários apropriados para registro das sugestões e decisões a respeito de
cada item analisado, de modo a facilitar a avaliação da comissão.
Alguns bibliotecários podem entender que comissões de seleção representam uma limitação à
autoridade/autonomia do profissional. Em muitos casos têm razão: sob certos aspectos, elas podem ser
assim encaradas, representando um fator de inibição do profissional. Mas a existência de um grupo
com funções deliberativas, hierarquicamente superior ao bibliotecário, pode ter aspectos positivos, que
devem ser explorados ao máximo.
Comissões, na medida em que compostas por membros representativos da comunidade, permitem
um contato maior com os usuários, funcionando como um canal permanente para a discussão de suas
necessidades de informação e também como um excelente veículo de relações públicas. Podem fornecer
apoio político ao bibliotecário, em suas solicitações por maiores e melhores recursos para a biblioteca.
A constituição dessas comissões varia de instituição para instituição:

 Em bibliotecas públicas, são em geral indicadas pelo prefeito ou pela câmara municipal,
obedecendo a diretrizes estabelecidas em leis ou decretos, que fixam o número de componentes, a
forma como são selecionados na comunidade, atribuições e duração do mandato, etc. No Brasil,
não se sabe de comissão de seleção ou de biblioteca constituída pelo voto da comunidade, prática
comum em outros países. Às vezes, são necessárias comissões voltadas para certos materiais: em
bibliotecas infanto-juvenis, por exemplo, pode haver comissões de seleção compostas por
especialistas em literatura infantil.
 Em bibliotecas especializadas, elas são compostas por pesquisadores da instituição, em
geral representando os departamentos existentes. Partem da premissa de que a seleção em áreas
especializadas deve ser realizada por quem tem conhecimento nessas áreas. Sua existência parece
também justificar-se pela impossibilidade de o bibliotecário dominar todos os assuntos do acervo.
A indicação dos membros poderá ser feita pelo diretor da instituição ou pelos responsáveis pelos
departamentos.
 Em bibliotecas escolares e universitárias, os participantes das comissões costumam ser
indicados dentre os membros dos corpos docente e discente. Para se alcançar maior
representatividade, muitas vezes procura-se obter a participação de ex-alunos ou membros do
corpo técnico. Saliente-se que a participação do bibliotecário nas comissões de seleção é vital para
evitar que algumas áreas da coleção se desenvolvam, de modo injustificado, mais do que outras.
Alguns pesquisadores ou professores costumam destacar-se, sendo mais atuantes (ou
preocupados) do que outros na seleção; cabe ao bibliotecário zelar para que todos os assuntos de
interesse da instituição se desenvolvam independentemente de atuações individuais, por meio de
mecanismos formais que permitam a participação de todos os interessados.

Alternativa 2

29
Existência de uma comissão de seleção, de caráter
consultivo, para assessoria ao responsável pela seleção.

Visa proporcionar ao bibliotecário suporte às decisões de seleção. Quando formalmente


estruturada, sua existência pode ser interpretada como um indicador de que o profissional atingiu um
alto índice de reconhecimento no meio em que atua, sendo-lhe atribuída a responsabilidade pela
tomada de decisões de seleção. Significa, também, que é reconhecida a necessidade de assessoria
especializada, seja em relação aos assuntos do acervo, seja em relação a particularidades da
comunidade servida.
Muitas vezes, embora não formalmente organizada, essa comissão pode ser incentivada pelo
bibliotecário, sem que isto represente demérito ou timidez de sua parte para a tomada de decisões. Ao
contrário, poderá ser uma estratégia para aproximar os usuários da biblioteca e otimizar as decisões de
seleção.
Em bibliotecas de grande porte, com muitos bibliotecários, podem ser formadas comissões de
seleção compostas apenas por eles, dando suporte ao responsável pela seleção
Imagina-se, provavelmente com razão, que a soma das experiências e conhecimento das
necessidades da comunidade acumulados pelo grupo de profissionais, em especial os que mantêm
contato direto com o usuário, proporcionam um retrato fiel da realidade da biblioteca, fornecendo
subsídios para a tomada de decisões. Alguns sistemas de bibliotecas públicas inglesas adotam essa
prática para a seleção de materiais de informação.

Alternativa 3
O bibliotecário faz a seleção dos materiais.

Muitas vezes, o bibliotecário é o único responsável pela seleção. É dele a decisão única e exclusiva
sobre o que é ou não incorporado, sem que tenha que a priori consultar escalões superiores. Como no
caso anterior, isto pode significar um reconhecimento da capacidade do profissional para tomar
decisões.
É preciso reconhecer que esta decisão muitas vezes cai nas mãos do bibliotecário por simples e
total desinteresse da comunidade a que a biblioteca deve servir. É mais cômodo que o bibliotecário tome
as decisões, ao mesmo tempo em que lhe são negadas as ferramentas que lhe permitiriam,
eventualmente, tomar decisões mais eficientes, ou tornar suas decisões efetivas.
Embora doloroso, talvez este seja o caso mais comum no Brasil, principalmente nas bibliotecas
públicas de cidades de pequeno e médio porte: bibliotecários tomam as decisões de seleção, sim; mas,
devido à falta de um orçamento definido, jamais se constitui um ambiente de tomada de decisões. No
máximo, decide-se sobre a incorporação das doações de alguns usuários.
Este panorama catastrófico, que domina grande parte das bibliotecas brasileiras, não é motivo
suficiente para descaracterizar a necessidade de organizar as atividades de seleção de forma
estruturada. Profissionais que têm que trabalhar de maneira quase isolada, muitas vezes chefes de si
mesmos, são os que mais necessitam organizar seu tempo de forma racional e utilizá-lo do modo mais
eficiente possível. Decisões tomadas às pressas nem sempre produzem os melhores resultados.
Os bibliotecários que decidem sobre a seleção estão também mais propensos a encarar suas
responsabilidades de maneira inadequada. São muitas as pressões que sofrem por trabalhar em um o
ambiente desestimulador: a pouca disponibilidade de tempo ou de pessoal auxiliar é uma realidade
demasiadamente estressante para muitos profissionais. No entanto, embora se compreendam suas
dificuldades, às vezes fica difícil justificar a forma leviana como são tomadas algumas decisões de
seleção. Deve-se sempre resistir, por exemplo, à tentação de aceitar todas as doações, só para não se ter
o trabalho de analisá-las mais detidamente. Isto ocorre com muito mais freqüência do que se imagina.
Os bibliotecários com responsabilidades de seleção são talvez os que maior necessidade têm de
possuir as informações mais fidedignas possíveis sobre a comunidade que visam servir. Para isso, será
necessário que desenvolvam mecanismos formais (estudos de comunidade, de usuários, pesquisas de
opinião, etc.) ou informais (contato direto com os usuários, em geral no empréstimo de materiais)
visando identificar fontes de auxílio à tomada de decisões. A prática acabará por capacitá-los a
identificar personalidades dispostas a auxiliar na análise dos materiais, trazendo-lhes valiosos

30
subsídios para a seleção. Esta prática, convenientemente implementada, também poderá funcionar
como um excelente veículo de relações públicas para a biblioteca.

Mecanismos para identificação, avaliação e registro

Quando, no início deste capítulo, foram mencionadas listas de títulos sobre os quais a decisão de
seleção foi ou será tomada, deixou-se de comentar que grande parte do trabalho que precede essa
decisão é composto por rotinas administrativas que visam gerar um eficiente fluxo de informações.
Essas listas de títulos não surgem de maneira espontânea, mas são confeccionadas com dados obtidos
de diversas fontes, que podem ser tanto os usuários da biblioteca como publicações da mais variada
procedência. Isto implicará, entre outras coisas, a necessidade de:

 Elaborar formulários adequados para cada tipo de biblioteca, de modo a identificar


satisfatoriamente tanto a procedência da indicação (usuário? corpo técnico da biblioteca?) como o
material indicado (autor, título, edição etc.);
 Definir os instrumentos auxiliares a serem utilizados para a seleção.

Formulários para indicação e seleção de títulos

Parece desnecessário enfatizar a importância de se contar com instrumentos formais para a


indicação de títulos. Grande percentagem dos materiais incorporados ao acervo das bibliotecas provém
de indicações dos usuários, e às vezes é triste verificar como esse processo ocorre de maneira
completamente irregular. Histórias sobre usuários que apresentaram indicações para seleção o nos
mais variados e pitorescos suportes são comuns no meio bibliotecário. Sabe-se de sugestões rabiscadas
em envelopes, assinaladas em catálogos de editoras, indicadas em lista de referências de artigos de
periódicos (muitas vezes em folhas arrancadas do próprio original), bem como de usuários que
transmitem verbalmente suas sugestões ao pessoal da biblioteca.
A hilaridade, ou tragicomicidade, de algumas situações, no entanto, não pode obscurecer a
importância de se derrubarem todas as barreiras que possam impedir os usuários de apresentarem
suas sugestões para o acervo. É importante que se sintam motivados a colaborar no desenvolvimento da
coleção, ainda que suas contribuições possam ser irregulares, irrelevantes, pouco confiáveis ou
simplesmente ininteligíveis. A existência de formulários deve ser ditada por necessidades
organizacionais e não para impedir ou dificultar a participação dos usuários no processo. Um dos
primeiros pontos a serem analisados, portanto, é quanto a existência de um instrumento formal para
indicação de títulos contribuirá para aproximar mais os usuários da biblioteca. Se a resposta for
negativa, talvez seja melhor deixar de lado essa história de formulário e tentar aprimorar os contatos
pessoais que estejam funcionando satisfatoriamente. Ou talvez seja melhor reelaborar o instrumento
formal, desta vez sob o ponto de vista usuário... e não da biblioteca.
Felizmente, excetuando alguns casos em que até mesmo os bibliotecários têm dificuldade para
entender o que se pretende (mais ou menos parecidos com aqueles contratos para financiamento da
casa própria), geralmente os formulários para indicação/sugestão de títulos buscam a simplicidade,
facilitando a compreensão do que se deseja, organizando o fluxo de solicitações e reduzindo-as a um
formato comum. Os formulários devem ser de fácil preenchimento e compreensão, exigindo do usuário
o mínimo de seu tempo. É conveniente lembrar que nenhum usuário deve se sentir constrangido para
encaminhar uma sugestão ao acervo por não conhecer todos os dados para preenchimento do
formulário (pensem, por exemplo, em quantas crianças já tiveram a intenção de indicar um livro para a
biblioteca e desistiram porque não sabiam preencher o ‘papel’ que os bibliotecários lhes deram). Uma
indicação mal formulada será sempre preferível a indicação nenhuma.
A necessidade de especial atenção na confecção de formulários para indicação ou sugestão de
títulos fica ainda mais evidente ao se considerar que poderão ser utilizados em todas as atividades da
seleção. Em muitos casos, serão preenchidos por várias pessoas: quem solicita o material, quem recebe
o pedido, quem verifica se a biblioteca possui o título, quem aprova a indicação etc. Eventualmente,

31
poderão acompanhar a aquisição e processamento dos materiais. As idas e vindas geradas por
formulários mal-elaborados têm um custo muito alto para a instituição.
O excesso de documentos é prejudicial a qualquer atividade administrativa. Por isso, é
aconselhável restringir ao máximo o número de formulários que serão manuseados no processo de
seleção. Onde apenas um instrumento formal for suficiente, dois ou três não precisarão existir. O
mesmo se pode afirmar quanto ao número de vias dos formulários, que deve ser o menor possível.
Assim, foge-se da duplicação de esforços, economiza-se tempo e evita-se a proliferação de arquivos ou
bancos de dados (que nada mais são do que arquivos com mania de grandeza).
É claro que dificilmente serão elaborados instrumentos perfeitos. Cada biblioteca deverá analisar
criteriosamente os dados de que necessitará para a tomada de decisão e incorporá-los ao formulário
que adotar. Do mesmo modo, questões como dimensões do formulário, tipo de papel, cores, impressão,
etc. devem ser respondidas no âmbito de cada instituição, considerando fatores como custo, benefício,
durabilidade, legibilidade, etc. A prática deixa evidente a adequação do instrumento utilizado.
Como sugestão, reproduz-se, no anexo 1, um modelo de formulário para indicação de títulos.

Instrumentos auxiliares da seleção

Tendo em vista o atual universo editorial, é impossível a qualquer bibliotecário ter conhecimento
de tudo que é de interesse para sua instituição, ou mesmo ter condições de avaliar objetivamente os
materiais publicados. Por maior que seja sua dedicação e disponibilidade, ele irá fracassar.
Se o bibliotecário limitar as decisões de seleção aos materiais sugeridos pelos usuários, talvez
deixem de ser incorporadas ao acervo obras importantes, das quais os usuários não chegaram a ter
conhecimento ou não tiveram informações suficientes a ponto de interessar-se por elas. Para não falar
da possibilidade, talvez certeza, de a coleção tender, a longo prazo, a concentrar-se nas áreas em que os
usuários apresentam maior número de sugestões.
Os chamados instrumentos auxiliares da seleção, também conhecidos como fontes de seleção,
possibilitarão, ainda que de maneira imperfeita, que as limitações acima apontadas não se transformem
em barreiras ao correto desenvolvimento da coleção. Por intermédio deles, os bibliotecários poderão
obter informações referentes à existência de itens específicos, e ter acesso a uma estimativa da
qualidade dos documentos. Esse tipo de subsídio será muito importante no dia-a-dia da seleção porque
não é possível tomar decisões a respeito de algo cuja existência se desconhece, e porque nem sempre se
pode contar com a ajuda de especialistas para aplicação de alguns dos critérios de seleção.
Cada biblioteca deve definir os instrumentos auxiliares que lhe sejam úteis. Em face da
diversidade de documentos e formatos existentes, limitar muito as fontes que a biblioteca pode utilizar
na seleção talvez seja uma faca de dois gumes. Em princípio, os instrumentos auxiliares circunscrevem-
se mais às obras de referência, como bibliografias, diretórios ou mesmo catálogos de editoras, mas na
prática são todos os materiais, em qualquer suporte, que possam oferecer subsídios para a decisão de
seleção.
A adequação de um instrumento auxiliar a uma biblioteca específica irá em muito depender do
que se deseja dele. Entre os fatores que influenciarão essa adequação podem ser salientados:

 A exaustividade do instrumento: algumas fontes de seleção procuram arrolar tudo o que


está sendo ou foi publicado na área respectiva, e outras apresentarão uma cobertura mais
superficial;
 Seleção corrente ou retrospectiva: alguns instrumentos apresentarão apenas dados
referentes a materiais correntes, sem incluir obras publicadas antes de um certo período;
 Fornecimento de apreciações críticas dos itens, o que proporcionará maior número de
elementos para a tomada de decisões;
 Idiomas incluídos: algumas fontes abrangem apenas a língua do país onde são publicadas;
outras não têm essa limitação;
 Inclusão de diferentes tipos de suportes e materiais não convencionais, como periódicos,
filmes, fitas, diapositivos, etc.

32
Bibliotecas públicas e escolares em geral recebem maiores benefícios com a utilização de catálogos
de editoras, resenhas publicadas em jornais e revistas de circulação geral (como Veja, IstoÉ, Newsweek,
etc.), bem como por consultas regulares à Bibliografia Brasileira. Bibliotecas universitárias e
especializadas provavelmente precisarão ter acesso a bibliografias especializadas, inclusive resenhas
publicadas em periódicos científicos de sua área de atuação, a fim de fazer o melhor uso possível das
informações disponíveis. Catálogos de editoras são utilizados no mundo inteiro como instrumentos
auxiliares da seleção em todos os tipos de bibliotecas. Isto é perfeitamente compreensível, em grande
parte devido ao interesse das editoras em divulgá-los e torná-los acessíveis às bibliotecas.
Para não repetir informações já apresentadas no livro sobre desenvolvimento de coleções, deixo de
fazer aqui a análise pormenorizada de cada um dos instrumentos auxiliares mencionados (suas
vantagens e desvantagens já foram suficientemente detalhadas naquela oportunidade). Cada
profissional deverá avaliar com muito cuidado a objetividade, credibilidade e veracidade das
informações veiculadas nas fontes de seleção que pretende utilizar, de modo a ficar plenamente
confiante sobre o benefício que delas poderá receber. Feliz ou infelizmente, os instrumentos auxiliares
apenas funcionarão como elementos de suporte, fornecendo subsídios à tomada de decisão. Nenhum
deles eximirá o bibliotecário ou responsável pela seleção de sua participação no processo. Por esse
motivo, fica evidente que a escolha de instrumentos auxiliares inadequados pode comprometer a
efetividade do processo de seleção.

7. Política de seleção

Falar sobre política de seleção é, de fato, repetir muito do que já foi mencionado neste ou no livro
sobre desenvolvimento de coleções. Por esse motivo, este capítulo será dedicado mais à estruturação do
documento de política do que à discussão sobre sua razão de ser, procurando fornecer subsídios para
que cada profissional, em cada situação específica, elabore seu próprio material. Antes, porém, convém
apresentar, os motivos da existência de um instrumento formal de política de seleção.
Muitos bibliotecários argumentarão que dispor de um documento onde os critérios de seleção
estão registrados é, sob certos aspectos, uma perda de tempo. Afinal, não têm dúvida de que utilizam
critérios de seleção razoáveis e os têm gravados na memória. Além do mais, dirão, os usuários parecem
estar satisfeitos com aquilo que eles, os bibliotecários, estão realizando. Para comprovar isso, desafiarão
os incrédulos a perguntar a opinião dos usuários e mostrarão o acervo sob sua responsabilidade,
duvidando que alguém possa discordar dos critérios que utilizam ou afirmar que realizam seu trabalho
de maneira não-criteriosa.
Longe deste autor querer duvidar da sinceridade desses bibliotecários. Muitos profissionais
exercem a atividade de seleção com zelo admirável e são bem-sucedidos no desenvolvimento de coleções
adequadas a seus objetivos. Analisam cada material que incluem no acervo, utilizam critérios objetivos
e bem-elaborados, discutem com os usuários a importância de cada item, negociam interesses
divergentes, evidenciando, em todos os seus atos, a precisão de suas decisões. Profissionais assim (e
felizmente existem muitos neste país) são exemplos que devem ser reconhecidos de público e servir de
modelo para todos os outros.
Mas é aí que a questão começa a se complicar. Mesmo que se aceite o parágrafo anterior como
verdadeiro (e ele é!), ainda assim é grande o risco de, a longo prazo, desenvolver-se uma coleção aquém
do necessário. Não existem garantias de que os bons profissionais serão eternos em uma biblioteca.
Muitos fatos podem levar um bibliotecário a afastar-se da instituição, desde aqueles pessoalmente
positivos (ascensão na carreira, mudança de emprego) aos negativos (doenças, licenças; falecimento).
Para não mencionar os casos de aposentadoria, que tanto podem ser positivos como negativos,
dependendo do ponto de vista. Em qualquer uma dessas situações, o resultado será uma coleção
prematuramente órfã, que estará sujeita aos caprichos do acaso. E deve-se reconhecer que isso poderá
ser até fatal para algumas delas.
Corre-se o risco ou não? Cada bibliotecário pode fazer essa pergunta a si próprio, ainda que
apenas como um exercício de elucubração. Se optar pelo risco, só restará desejar-lhe boa sorte e vida
longa. Se optar pela alternativa mais segura, registrará de modo formal os critérios de seleção que
adota, de modo que sua prática possa continuar por intermédio de seus sucessores.
33
Esta seria uma primeira razão para justificar a existência de um instrumento formal de política de
seleção: garantir a manutenção dos critérios além da permanência,física dos profissionais responsáveis
pelas decisões. Só ela, provavelmente, já seria suficiente. Mas seria possível acrescentar algo mais.
Parece evidente, por exemplo, a necessidade de dar conhecimento à comunidade de que a coleção
não está sendo desenvolvida de maneira aleatória, com base apenas em caprichos ou idiossincrasias do
bibliotecário. Conseguir o apoio dos usuários é uma política prudente, considerando-se os altos e
baixos que a biblioteca enfrenta no seu dia-a-dia, principalmente quanto aos recursos para aquisição
dos materiais.
Comunicar aos interessados, de modo claro, os critérios de seleção do acervo é uma boa
estratégia para, em momentos críticos, conseguir o apoio da comunidade. É difícil e talvez ingênuo
esperar que os usuários apóiem o bibliotecário em suas solicitações por maiores dotações
orçamentárias, se ele não esclarecer os critérios que irão guiá-lo na utilização das verbas
suplementares. Ninguém apoiará os profissionais da informação apenas pelos seus belos olhos... pelo
menos na grande maioria dos casos (existem profissionais com olhos belíssimos).
Uma coleção não é sempre um elemento de pacífica concordância na comunidade. É natural que
parte dos usuários deseje que o acervo contemple mais suas necessidades de informação, entendendo
que algumas áreas deveriam receber prioridade diferente daquela que lhes está sendo conferida na
seleção. É também compreensível que alguns usuários discordem que determinadas áreas do acervo
recebam novas obras ou que sejam até mesmo minimamente contempladas, tentando evitar que os
demais usuários tenham acesso a certo tipo de informações.
Não há como evitar o aparecimento de tensões em tomo da coleção, com grupos de usuários
desejando imprimir determinado direcionamento às decisões de seleção, enquanto outros grupos atuam
em direção inversa. Neste sentido, é até possível questionar o acerto de uma política que procure
suprimir essas tensões, pois esse conflito é bastante enriquecedor e contribui para que a gama de
opções existentes seja ampliada (muito pelo contrário até: algumas vezes a busca do conflito pode ser
parte integrante da estratégia para administração da coleção). Que bom seria se todas as bibliotecas
pudessem contar com grupos de usuários se digladiando em tomo do acervo! Pelo menos, os
bibliotecários teriam uma vida muito mais emocionante...
Ironia à parte, as tensões em torno do acervo, embora em geral saudáveis, podem fazer do
bibliotecário um refém de interesses divergentes. Sem saber como foi parar no meio disso tudo, pode
descobrir que se transformou no árbitro de preferências talvez irreconciliáveis e mergulhado em
diferentes dilemas. Como fazer para negar-se a atender a determinada indicação sem ferir um grupo de
usuários com uma representação forte na comunidade? Como atuar no sentido de beneficiar uma parte
da comunidade constantemente preterida em suas pretensões? Ou, levando a situação para o lado mais
pessoal, como recusar as sugestões do usuário X ou Y, que sempre foram tão simpáticos com a
biblioteca e são tão atenciosos? E, pior ainda, fazer isso sem passar a idéia de estar tomando o partido
de um ou outro, de estar perseguindo alguns, de ser mais simpático a alguém.
Um documento de política de seleção bem-estruturado fornece grande apoio nesses momentos. Os
critérios de seleção devem funcionar, para a biblioteca, como funcionam as leis para um país: enquanto
não são mudadas, devem ser obedecidas. O documento registrará os critérios de seleção vigentes; eles,
e apenas eles, justificarão todas as decisões. As pressões sobre o acervo só serão eficientemente
enfrentadas com a utilização objetiva desses critérios. Essa objetividade só poderá ser comprovada se
estiver registrada em um documento, que poderá ser apresentado para justificar as decisões atuais e
futuras. Em suma, um documento formal de política de seleção justifica-se por seu caráter:

 Administrativo, com a finalidade de garantir a continuidade dos critérios além da presença


física de seus elaboradores;
 De relações públicas, ao tomar a biblioteca simpática aos olhos da comunidade; e
 Político, ao proporcionar um instrumento para resistência ou gerenciamento dos conflitos e
pressões em tomo da coleção.

E, com essas últimas palavras, como diria Perry Mason, a defesa descansa, passando a tratar do
detalhamento do instrumento de política.

34
Componentes do documento de política de seleção

Na realidade, não existe uma fórmula universal para a elaboração do documento que conterá a
política de seleção dos materiais nas bibliotecas. Cada profissional deverá analisar sua prática e o tipo
de instrumento que necessita como suporte a suas atividades. Alguns necessitarão de um documento
extremamente detalhado, que defina todos os critérios e subcritérios passíveis de utilização. Para
outros, critérios gerais serão suficientes como diretrizes para a seleção. Isto não fará diferença quanto à
qualidade do instrumento. Uma política não será melhor por ser mais extensa (felizmente, somente o
peso do documento não é suficiente como indicação de sua adequação ou qualidade...). O melhor
indicador da qualidade de uma política de seleção é o resultado proveniente da sua utilização: a coleção
em si.
Apesar de não ser possível fornecer uma receita universal, é razoável imaginar que alguns
elementos deverão constar, ainda que minimamente, de todo documento de política. A ordem como
serão distribuídos, a importância dada a cada um, variará segundo os interesses e particularidades da
biblioteca (como sugestão, no anexo 2, é apresentado um esquema geral para o documento, que deve
ser adaptado de acordo com as necessidades).
O documento de política é um instrumento de trabalho para apoiar as decisões de seleção. É,
acima de tudo, um manual administrativo e imagina-se que fará parte de um conjunto de documentos
que guiarão as atividades ligadas ao desenvolvimento da coleção. Tal como acontece com qualquer
instrumento administrativo, a elaboração de um documento de política de seleção deve atender aos
requisitos de simplicidade (ser de fácil utilização), clareza (ser facilmente compreensível) e veracidade
(corresponder à realidade da instituição à qual se aplica).
Em linhas gerais, de um documento de política constam:

 A identificação dos responsáveis pela seleção de materiais; . os critérios utilizados no


processo;
 Os instrumentos auxiliares;
 As políticas específicas;
 Os documentos correlatos.

Identificação dos responsáveis pela seleção de materiais.

Para fins do documento de política, é preciso que a responsabilidade pelas decisões de seleção
esteja registrada de maneira clara e definida, a fim de evitar distorções ou desentendimentos.
Se a decisão for de competência exclusiva dos bibliotecários, isto deve ficar bem claro no
documento, bem como a legislação, interna ou externa, que lhe concedeu essa responsabilidade. Em
casos de discordância com as decisões do bibliotecário, o documento deve informar a que autoridades
superiores os recursos devem ser encaminhados e que medidas se tomarão a respeito.
Se houver comissões de seleção, constarão do documen~o:

 A forma como elas foram originalmente constituídas ou indicadas (lei, decreto, portaria,
etc.);
 A identificação dos membros e o período de mandato (em documento anexo);
 A periodicidade das reuniões;
 A organização das atividades da comissão, com as atribuições de seus membros (quem
preside, quem secretaria, quem vota) e as formas para obtenção de consenso (maioria simples,
maioria de dois terços, unanimidade, voto de qualidade, etc.).

Da mesma maneira, deve ficar evidenciado o relacionamento formal da comissão de seleção com
os bibliotecários e demais funcionários da biblioteca, a fim de evitar que surjam hierarquias
organizacionais indevidas (assessores ou membros de comissão podem entender que possuem
autoridade hierárquica sobre a equipe da biblioteca, o que nem sempre corresponde à realidade).
Convém anexar à política um organograma da biblioteca, onde a posição hierárquica da comissão esteja
bem-definida.
35
Os critérios utilizados. Nesta seção, cada biblioteca relacionará, com o detalhamento
conveniente, todos os critérios cotidianamente utilizados para a seleção dos materiais.
Não é necessário expressar os critérios de forma literariamente atrativa. É fundamental, porém,
que não deixem dúvida a respeito do que se almeja com eles. A enunciação do critério talvez não baste
para a compreensão total, exigindo uma explicação objetiva de seu significado e como podem ser
atendidos.

Os instrumentos auxiliares. Todos os instrumentos auxiliares ou fontes de seleção utilizados


como suporte à tomada de decisões devem ser enunciados. Se for o caso, devem ser distribuídos
segundo as áreas de interesse da biblioteca. Em bibliotecas especializadas, por exemplo, a definição de
instrumentos auxiliares corretos é decisiva para uma seleção mais eficiente.
É aconselhável que o documento deixe claro, para os funcionários envolvidos na seleção, como os
instrumentos auxiliares são utilizados. Algumas bibliotecas podem definir, por exemplo, que um item só
seja considerado para seleção se constar de determinadas bibliografias ou receber apreciação favorável
em um número mínimo de resenhas. Talvez valha a pena acrescentar um fluxograma de como as
decisões de seleção são tomadas.

As políticas específicas. Neste item serão detalhados, como forme a necessidade, os casos de
seleção que devem merecer maior destaque. Muitas bibliotecas têm, por exemplo, políticas dirigidas
para a seleção de materiais não-convencionais ou para determinadas áreas do acervo, com critérios de
seleção mais amplos ou mais rígidos, conforme os objetivos pretendidos. Cada instituição definirá a
inclusão ou não dessas diretrizes específicas em seu documento de política de seleção, deixando claro
se são provisórias ou permanentes. A criação de novos cursos pode, por exemplo, exigir que se realize
uma seleção retrospectiva mais intensa, durante certo período de tempo. Coleções especiais (história
local, obras raras, memória da instituição, etc.) costumam ser contempladas neste item da política de
seleção.
Os casos mais comuns e que talvez mereçam mais destaque dizem respeito ao recebimento ou
aceitação de doações, em especial as espontaneamente oferecidas (presume-se que as solicitadas pela
biblioteca foram objeto de seleção prévia) e aqueles casos em que os usuários solicitam reconsideração
da decisão sobre materiais selecionados.

8. Doações

Em princípio, a doação é uma função de aquisição, assim como a compra ou a permuta. O que a
diferencia é que ela não precisa ser iniciada pelos bibliotecários. Quando isso acontece com muita
freqüência, podem surgir problemas de disponibilidade de espaço físico. Dependendo da sobrecarga de
atividades do corpo técnico, os materiais podem acumular-se na biblioteca, à espera de uma decisão
quanto à sua incorporação.
Como evitar essa acumulação é uma preocupação permanente. Nem sempre é possível selecionar
os materiais no momento de seu recebimento, e não seria sensato recusar doações porque não se tem
tempo para avaliá-las: o risco de deixar de obter itens valiosos e importantes para o acervo é grande
demais.
Pode parecer que o bibliotecário fica no dilema do ‘se correr o bicho pega, se ficar o bicho come’.
Mas não é verdade. Em um país onde as bibliotecas e centros de informação são alvo de restrições
orçamentárias, as doações são uma inestimável fonte para a aquisição de recursos informacionais: não
podem ser absolutamente desprezadas ou encaradas de maneira superficial.
A freqüência com que uma biblioteca é procurada para a doação de materiais pode ser um sinal
de seu prestígio junto à comunidade. Nem sempre é fácil para alguém dispor de materiais que adquiriu
durante toda uma vida. Doa-los pode ser uma decisão doída e despida de satisfação pessoal, a não ser a
de saber que está entregando bens preciosos a alguém que deles tratará com carinho similar ao que
receberam de seu dono. Qualquer usuário que procure a biblioteca para doar materiais merece o maior

36
respeito que lhe possa dar, ainda que o seu oferecimento não seja relevante aos objetivos daquele acervo
específico.
As bibliotecas foram criadas para atingirem objetivos específicos, que nem sempre vão ao encontro
dos interesses ou desejos dos doadores. Alguns almejam que suas doações recebam maior destaque no
acervo, procurando indicar maneiras como serão tratados após a aceitação (estantes diferenciadas,
salas especiais, restrições ao uso, etc.). Usuários que fazem esse tipo de proposta, embora guiados por
boas intenções, estão interferindo na administração da coleção, que é competência dos bibliotecários, e
ultrapassando a barreira do razoável. Devem ser esclarecidos a esse respeito, antes de concretizarem
suas doações.
Assim como inexiste uma fórmula para evitar que os materiais doados se acumulem, não há um
jeito infalível para dissuadir os doadores de tentarem impor sua vontade. Definir uma política clara
sobre doações, incorporá-la à política de seleção e torná-la pública é medida eficiente na administração
de doações.
Os casos em que a biblioteca aceita doações e como se propõe a tratá-las devem ficar claramente
entendidos pelos doadores. A doação é um contrato de confiança entre doador e biblioteca: ambos
devem estar concordes a respeito do que se está efetuando. Convém que o doador receba uma cópia da
política de seleção e tome conhecimento das diretrizes sobre materiais doados, que serão tratados de
maneira igual à dos outros materiais, passando pelos mesmos critérios de seleção. Mas seria
ingenuidade acreditar que o doador conhece e concorda com isso (talvez até concorde com relação às
doações dos outros...).
Formalizar o ato de doação é medida prudente no caso de reclamações. Um formulário simples,
assinado pelo doador, registrando a data da doação e que tem conhecimento e concorda com a política
da biblioteca costuma surtir efeito. A biblioteca pode fornecer uma carta ou declaração sobre o
recebimento dos materiais e agradecendo ao usuário pela doação. Além de ser um gesto simpático
representa o reconhecimento da importância da participação dos usuários no desenvolvimento da
coleção.
Modelos da política para doação e dos formulários são apresentados nos anexos 3, 4 e 5.

9. Reconsideração da decisão de seleção

Nem sempre as decisões de seleção obtêm consenso. Às vezes, itens favoravelmente selecionados e
adquiridos desagradam a parte dos usuários, que pressionam os responsáveis pela biblioteca para que
sejam retirados do acervo. As razões e implicações dessas atitudes serão tratadas no próximo capítulo,
mas é preciso partir da premissa de que a probabilidade de ocorrerem não é desprezível. O mesmo se dá
quanto a decisões de seleção contrárias à aquisição de documentos sugeridos pelos usuários, que
insistirão para que a biblioteca mude sua posição.
É razoável imaginar que essas pressões serão tanto maiores quanto maior for o interesse dos
usuários pela coleção. Reclamações não são necessariamente um incômodo a mais para o trabalho dos
bibliotecários (bem, talvez algumas até o sejam), e devem ser previstos canais por onde sejam filtradas e
analisadas quanto à sua pertinência. Por mais irreverente ou irrelevante que seja sua reclamação, todo
usuário merece receber dos bibliotecários o mesmo tipo de atenção e respeito. Graças a essas
reclamações, pode ficar evidente um descompasso entre as políticas da biblioteca e as características ou
interesses da comunidade.
A mesma imparcialidade que se procura imprimir às decisões de seleção deve ser dirigida às
reclamações a respeito do processo. Teoricamente ao menos, a imparcialidade e a coerência no
julgamento dessas reclamações deveriam ser a marca característica da atuação dos bibliotecários. Esse
é um objetivo difícil de ser atingido, mas que merece ser perseguido, ainda que seja apenas por
autodefesa, ou seja, para evitar maiores complicações. Todo e qualquer caso de insatisfação deverá ser
julgado à luz dos critérios de seleção utilizados. Se for comprovado que houve erro dos selecionadores,
admiti-lo e tomar as medidas necessárias para sua correção é o mínimo que se poderá fazer. Não haverá
demérito algum para ninguém nesse processo.
Embora não se deseje em absoluto restringir o direito que têm os usuários de discordar dos
resultados do processo de seleção, será preciso algum grau de formalização, a fim de orientar a revisão
37
e organizar um eventual fluxo de reclamações, bem como para registrar todos os casos. Alguns por
timidez, outros por desconhecimento, os usuários podem ficar constrangidos por terem que preencher
um formulário de reclamação e deixarão de registrar sua discordância. Devem ser elaborados
instrumentos que possibilitem a administração eficiente das insatisfações, não barreiras que
desestimulem sua apresentação por escrito. Formulários bem-elaborados, acompanhados por uma
atitude de disponibilidade e boa vontade com os usuários são uma grande ajuda nesse objetivo. No
anexo 6 apresenta-se uma sugestão de documento formal.

10. Tópicos especiais de seleção

O ato de seleção não ocorre no vazio. É influenciado por diversos e diferentes fatores, alguns mais
corriqueiros e diretamente ligados à tomada de decisão, como o estado físico ou mental do selecionador,
outros complexos e distantes, como a infra-estrutura editorial a que a biblioteca tem acesso. Ressalte-se
que o elemento humano não pode ser ignorado em qualquer processo de tomada de decisão, e que a
seleção está inserida em complexos sistemas sociais. Este capítulo está voltado para essa problemática,
embora não se busque esgotar o complexo de relações/interações sociais passíveis de interferir na
seleção.
Imaginou-se que tentar abordar pragmaticamente alguns temas encontrados no dia-a-dia dos
profissionais poderia trazer maiores benefícios para os leitores. Como toda seleção, a realizada para este
capítulo também pode ser objeto de discordância e seria muito bom se isso acontecesse.
Um dos itens importantes para destaque, a censura de materiais,já foi anteriormente abordado
por este autor em várias oportunidades, por isso busco outro enfoque, fazendo referência a textos
anteriores, quando for o caso. Outros tópicos têm sido abordados na literatura internacional, mas em
geral sob o ponto de vista de bibliotecários de países mais desenvolvidos. Uma abordagem que leve em
conta as características do país parece muito mais proveitosa, e ela será buscada nas páginas
seguintes.
A separação dos tópicos resultou mais ou menos superficial, atendendo apenas a objetivos
metodológicos e de clareza do texto, pois a relação entre eles é impossível de ser quebrada. Na realidade,
eles devem ser vistos a partir dessa interação, e não como fatores isolados, o que poderá facilitar a
compreensão do fenômeno aqui considerado, ou seja, a seleção.
Entre os tópicos para discussão estão as relações entre seleção e:

 Formação profissional;
 Censura;
 Cooperação bibliotecária; e
 Direitos autorais.

Seleção e formação profissional

Por muito tempo a seleção foi considerada uma arte. Muitas páginas foram escritas comparando o
trabalho do selecionador com o de um artista que, martelada após martelada, de uma pedra bruta faz
surgir a figura de um deus grego. Isto significava dizer que apenas bibliotecários com talento especial
poderiam desenvolver boas coleções. Aos outros restava dedicar-se à sublimação de suas deficiências, o
que talvez, mas muito improvavelmente, seria atingido após 30 ou 40 anos de trabalho.
Felizmente, essa visão parece ser hoje parte do passado. Já . não se compreende a atividade do
selecionador como uma arte, mas muito mais como uma função técnica que exige formação e
treinamento. O domínio de algumas habilidades e conhecimentos básicos será necessário para todos os
bibliotecários que desejem dedicar-se prioritariamente às atividades de seleção.
O Brasil deu passos concretos rumo ao melhor equacionamento da formação profissional para a
seleção de materiais em bibliotecas, ao introduzir a matéria Formação e Desenvolvimento de Coleções
no currículo mínimo dos cursos de biblioteconomia. Embora insuficiente, representa um avanço, pois

38
um espaço para discussão da problemática do desenvolvimento de coleções foi previsto, restando
apenas preenchê-lo adequadamente.
Bibliotecários mal preparados para a tomada de decisão tomarão, obviamente, decisões
inadequadas, prejudicando todos aqueles cujas necessidades informacionais devem ser atendidas pela
coleção sob sua responsabilidade. Como preparar adequadamente esses profissionais torna-se, então, a
questão dominante.
No Brasil, ao contrário de países mais desenvolvidos, praticamente inexistem bibliotecários
trabalhando em tempo integral na seleção de materiais. Isto talvez explique porque as escolas dedicam
pouca prioridade a essa área, reservando-lhe uma percentagem pequena do total de horas do currículo.
Os conhecimentos obtidos em cursos formais de biblioteconomia e documentação também variam
de escola para escola. Um consenso sobre a bagagem de conhecimentos necessários a um selecionador
está ainda por ser atingido. O mesmo se pode afirmar a respeito de quanto da formação profissional
deve ser dedicado às atividades de seleção.
Deve-se reconhecer que o bibliotecário brasileiro tem limitações em sua formação, no que tange à
seleção de materiais. A maior talvez se refira à inexistência do bibliotecário pós-graduado, aquele que,
depois de ter obtido seu diploma de graduação numa área específica do conhecimento, buscou o curso
de . biblioteconomia em nível de pós-graduação, a fim de trabalhar com a documentação da área em
que se formou originalmente.
Os cursos de pós-graduação em biblioteconomia e ciência da informação já colocaram no mercado
dezenas de alunos, a grande maioria constituída por bacharéis de biblioteconomia. Isso, embora
contribua para o aprimoramento da profissão, não significa que se estejam formando bibliotecários
especializados (ou especialistas bibliotecários... as palavras até começam a faltar).
A legislação impede que os pós-graduados em biblioteconomia e documentação, que não sejam
bacharéis na mesma área, registrem-se nos conselhos regionais de biblioteconomia, requisito para o
exercício da profissão. E parece digno de lamentação que, a considerar-se a oposição dos conselhos,
sindicatos e associações de bibliotecários à formação múltipla, as probabilidades de ocorrerem
modificações nessa legislação são muito limitadas.
Embora reconhecendo a insuficiência da legislação e criticando a posição dos organismos de
classe, deve-se concordar que são bastante limitadas, pelo menos a curto prazo, as conseqüências que
a criação do bibliotecário especialista teria para o conjunto das bibliotecas do país. Provavelmente,
afetaria muito mais as bibliotecas universitárias e os centros de informação do que as públicas e as
poucas bibliotecas escolares existentes. Mas a necessidade de possuir habilidades específicas para a
seleção dos materiais, que seriam transmitidas pela educação formal dos bibliotecários, não deixa de
existir. Mesmo bibliotecários com dupla formação correm o risco de não encontrar espaço no mercado
de trabalho de sua área, tendo que atuar na seleção de materiais de outras áreas. Se as atividades de
seleção dependessem apenas do domínio da área de assunto, não haveria razões para que sua
discussão fosse realizada nos parâmetros dos cursos de biblioteconomia e ciência da informação,
passando-se essa responsabilidade para as outras áreas do conhecimento.
Como esse não parece ser o caso, algo reconhecido até mesmo na literatura biblioteconômica
proveniente de países mais desenvolvidos, deve-se buscar um corpo básico de conhecimentos ou
habilidades passíveis de serem transmitidos em cursos de graduação e que possibilitem aos
bibliotecários atuar de forma eficiente na seleção de materiais.
Considerando-se as limitações em relação ao domínio do conteúdo dos documentos, não seria
realista esperar que ele fosse proporcionado por meio de um curso de graduação (existem limites para a
absorção de conhecimentos). Tudo indica que a seleção dirigida para áreas especializadas seja tema
para a educação contínua do bibliotecário, tratada em cursos de especialização ou pós-graduação, e
não em cursos normais de graduação.
Em geral, para atuar na seleção de materiais, o bibliotecário deverá ter recebido, na graduação,
informações necessárias para:
a) reconhecer as particularidades da produção de conhecimentos nos grandes ramos das ciências
humanas, exatas e biológicas, e como essa produção se reflete na literatura de cada uma (uma
abordagem geral sobre a bibliografia das grandes áreas será de grande utilidade para os futuros
selecionadores);
b) ter familiaridade com a indústria de produção de conhecimentos, tanto de produtos
tradicionais como não-tradicionais (por exemplo, periódicos eletrônicos e fontes disponíveis via
Internet);
39
c) identificar e utilizar com independência os instrumentos auxiliares de seleção mais importantes
em cada área;
d) avaliar com eficiência os benefícios que podem ser obtidos pela cooperação e compartilhamento
de recursos informacionais;
e) atuar em comissões de seleção ou grupos de trabalho dirigidos à seleção dos materiais;
f) identificar as necessidades dos usuários e as particularidades da área de conhecimento em que
atua, consubstanciando-as em critérios de seleção;
g) analisar objetivamente os materiais, não permitindo que suas crenças e preferências pessoais
interfiram em sua decisão;
h) elaborar documentos de política de seleção.

Nem todas as habilidades necessárias à seleção de materiais podem ser academicamente


transmitidas. Algumas exigirão muitas horas de prática e familiaridade com os assuntos da biblioteca e
com os instrumentos auxiliares utilizados. Neste sentido, o treinamento em serviço, supervisionado por
profissionais mais experientes, pode ser uma maneira eficiente para a formação dos bibliotecários que
deverão assumir a responsabilidade ‘pela seleção. Os cursos de biblioteconomia poderiam colaborar
muito nesse aspecto, dando especial destaque às atividades de seleção durante o período de estágio
supervisionado dos alunos.

Seleção e censura

As relações entre seleção e censura já foram tratadas tanto em meu livro sobre desenvolvimento
de coleções como em dois artigos. Não serão repetidas para não cansar os leitores que já tenham
conhecimento desses textos. No entanto, como qualquer trabalho sobre seleção de materiais em
bibliotecas ficaria incompleto sem uma discussão sobre censura, ela será aqui abordada, buscando-se,
entretanto, um enfoque diferenciado.
Quando mencionei o poder que os bibliotecários possuem ao tomar decisões de seleção, a idéia de
censura ficava subjacente. Num país onde as bibliotecas recebem pouca atenção das autoridades
governamentais, tanto em termos de recursos financeiros como do monitoramento de suas atividades,
visando minimamente verificar o quanto estão atingindo seus objetivos; num país onde em geral, a
comunidade pouca atenção dá à maneira como os acervos informacionais a que tem acesso são
constituídos, confiando, aparentemente sem restrições, nos critérios dos que decidem em seu nome;
num país onde as classes menos privilegiadas encaram todas as bibliotecas como benesses concedidas
por governantes magnânimos e sentem-se extremamente gratas por quaisquer migalhas que lhes são
concedidas; enfim, num país onde o preço dos materiais informacionais tem características proibitivas
para aquisição própria, pelo menos para a grande maioria da população... o poder daqueles que
decidem sobre a constituição dos acervos pode ser muito grande. Tanto para o bem como para o mal.
Aparentemente, não foram ainda realizadas pesquisas neste país para verificar como os
bibliotecários envolvidos com a seleção de materiais comportam-se em relação à censura. Em geral,
pode-se imaginar que a grande maioria dos profissionais, se consultada a respeito, certamente se
manifestaria contrária a atos de censura e levantaria os velhos paradigmas profissionais sobre a
importância da disseminação da informação e a inestimável contribuição do bibliotecário no
fornecimento de informações à comunidade. A profissão está repleta de expressões eufonicamente
atrativas, que funcionam mais ou menos da mesma forma como os dogmas funcionam para os grupos
religiosos (algum dia seria bom alguém tentar elaborar uma lista a respeito), e a tentação de citá-las é
quase sempre irresistível. Levantamentos de opinião entre os bibliotecários têm geralmente
demonstrado o quanto eles são avessos à censura de materiais. Pelo menos nesse aspecto, parece haver
razões para se respirar com um pouco de tranqüilidade...
Tudo isso parece lógico e é reconfortante encontrar uma categoria de profissionais que
publicamente defende uma postura tão liberal como sua filosofia de trabalho. Os bibliotecários norte-
americanos chegaram a elaborar cartas em defesa da liberdade intelectual e travaram verdadeiras
batalhas judiciárias, e às vezes físicas, com passeatas e tudo o mais, em defesa do direito de o usuário
ter acesso à totalidade de opiniões sobre todos os assuntos, (mais sobre essa luta pode ser encontrado
em meu livro Desenvolvimento de coleções). Têm mantido uma luta cerrada como os norte-americanos

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gostam de dizer: uma eterna vigilância! - contra todas as tentativas de censura que autoridades
governamentais ou grupos minoritários, e mesmo majoritários, possam querer exercer sobre a seleção
do acervo. O mérito dos bibliotecários que alguma vez se levantaram em defesa da liberdade intelectual
deve ser reconhecido e proclamado. Não há como discordar de sua posição.
Mas é preciso reconhecer que, embora a ‘filosofia’ da liberdade intelectual seja inatacável,
situações concretas poderão eventualmente colocá-la em discussão. Os bibliotecários, por mais que
queiram viver, como diria Voltaire, no “melhor dos mundos possíveis”, podem acabar descobrindo que
vivem em uma realidade demasiadamente frustrante para quem possui como única defesa a arma dos
nobres ideais. Tem-se a impressão de que as discussões sobre censura no meio bibliotecário acabam se
deixando levar pela ingenuidade, imaginando que os corações puros são monopólio da profissão, ou que
todos’ os ataques ao acervo sob responsabilidade dos profissionais provêm de vilões mal-intencionados.
Muitas vezes isso acontece, realmente. A imagem de uma Bette Davis bibliotecária enfrentando
com denodo as políticas restritivas à liberdade intelectual no filme No despertar da tormenta (Storm
center), de 1956, é o exemplo mais claro de como as atividades profissionais podem beneficiar a
coletividade, ainda que o preço a pagar possa ser alto em termos pessoais e profissionais. Basta lembrar
que nessa película a biblioteca é incendiada, o que significa que a personagem representada por Bette
Davis acabou perdendo o emprego (lá vou eu de novo contando o final do filme...).
No exemplo utilizado, as razões para lutar contra a censura pareceriam evidentes a qualquer
bibliotecário. Imagina-se que, como fez a profissional retratada no filme, qualquer profissional
entenderá ser seu dever insurgir-se contra todas as orientações restritivas que um pequeno número de
indivíduos, momentaneamente detentores do poder, queira exercer sobre a biblioteca, principalmente
quando tal acontece à revelia do resto da sociedade. No caso em questão, tratava-se de momentos muito
difíceis, a época da chamada ‘caça às bruxas’ nos Estados Unidos, quando autoridades governamentais,
sob o pretexto da infiltração soviética no país, atentavam contra a liberdade individual de toda a
sociedade norte-americana, desrespeitando, inclusive, a própria constituição. O papel do bibliotecário
na preservação da liberdade intelectual dos usuários é extremamente exaltado no filme, “talvez na
melhor representação da profissão já levada às telas cinematográficas, e ao vê-lo é difícil deixar de
sentir orgulho por fazer parte dessa profissão. O Brasil também viveu momentos parecidos na época da
ditadura militar, embora, infelizmente, não haja muitas notícias sobre igual tipo de reação dos
bibliotecários brasileiros.
Aos bibliotecários cabe talvez desempenhar um papel único, com o objetivo de garantir que todos
os membros da comunidade tenham acesso às informações necessárias e importantes para sua vida.
Isto inclui a luta contra as tentativas de censura aos materiais da biblioteca da forma como o fazem os
bibliotecários norte-americanos. É importante que a categoria profissional se organize para dar suporte
a seus membros, estabelecendo padrões de comportamento e normas de conduta para tais casos. É
covardia obrigar um profissional a lutar sozinho contra atitudes arbitrárias das autoridades, nos vários
níveis de governo. É isto que na prática se está fazendo quando se deixa o bibliotecário órfão tanto em
termos de diretrizes para ação contra a censura às bibliotecas como no que se refere a estratégias para
mobilização da “categoria para um posicionamento conjunto dos profissionais quando casos de censura
são identificados. Neste sentido, o caminho a ser percorrido pelos bibliotecários brasileiros parece ser
ainda bastante longo.
Felizmente, nada parece indicar que o final dos anos 90 venha a ser problemático em termos de
censura governamental. A Constituição brasileira proíbe de modo taxativo o exercício da censura, em
todas as suas formas. Ela certamente poderá, e deverá, ser utilizada como arma contra tentativas de
censura às bibliotecas. Mas a censura governamental não é a única com a qual o bibliotecário pode
entrar em contato em sua vida, apesar de ser talvez a mais deletéria e que maiores preocupações
costuma trazer. Outras formas de censura, nem sempre muito claras e nem sempre entendidas como
tal, podem surgir no dia-a-dia, trazendo outros dilemas ao exercício profissional.
Alguns membros da comunidade podem sentir-se descontentes com a forma como está sendo
constituído o acervo das bibliotecas às quais têm acesso e solicitar aos responsáveis pela seleção que
modifiquem os critérios adotados ou retirem da coleção todos aqueles títulos dos quais eles. os
membros da comunidade, discordam. Grupos religiosos ou associações preocupados com a moral e os
bons costumes exercem pressões desse tipo, com maior ou menor sucesso. Nos últimos tempos eles têm
dirigido suas baterias mais contra os meios de comunicação de massa, como a televisão ou o rádio, do
que contra as bibliotecas, mas isso não significa que não venham a fazê-lo no futuro (ou que não o

41
estejam fazendo agora, sem a mesma publicidade). Sob certos aspectos, combater essas atividades de
censura é mais complicado do que enfrentar as autoridades do governo.
Objeções quanto aos materiais constantes do acervo podem provir tanto de grupos minoritários
inexpressivos, defendendo posições extremas e isoladas, como da maioria da sociedade, expressando
uma preocupação generalizada. Nem sempre é muito fácil caracterizar aqueles que pressionam a
biblioteca para retirar materiais do acervo como sendo os vilões mal-intencionados referidos algumas
páginas atrás. Em número talvez expressivo, trata-se de indivíduos preocupados com a coletividade,
que merecem pelo menos o respeito dos bibliotecários. Não seria correto ridicularizá-los por causa
dessa preocupação, embora possa parecer que estão equivocados em seus objetivos. Assim como o
bibliotecário tem o direito de achar importante que a comunidade tenha acesso a todos os documentos
ou informações disponíveis, a comunidade tem o direito de não desejar que alguns desses itens,
contrários àquilo em que a comunidade acredita, estejam disponíveis naquelas instituições que ela
mantém, como as bibliotecas públicas. Ninguém pode ser pejorativamente taxado de censor por estar
exercendo um direito. A comunidade tem o direito de se defender.
Em casos como o acima mencionado, em que uma legítima discordância da comunidade encontra
expressão concreta – a não-inclusão de determinados materiais em instituições mantidas
financeiramente pela sociedade -, a luta para fazer valer as diretrizes éticas profissionais que orientam
para a disponibilidade irrestrita de todos os materiais informacionais independentemente dos pontos de
vista que defendam, será complexa e sujeita a um maior número de questionamentos.
Sob esse aspecto, vale a pena uma reflexão maior: embora pareça, e sob certo ponto de vista
realmente seja, uma atitude lastimável, ceder às pressões legítimas da sociedade, retirando do acervo
um documento tido como impróprio pela maioria de seus membros, não é a mesma coisa que impedir
totalmente que diferentes idéias tenham possibilidade de ser disseminadas, como acontece quando a
publicação de determinados livros é proibida ou os jornais são submetidos a censura prévia. Os
usuários interessados nos materiais excluídos continuarão a ter acesso a eles por intermédio de outras
instituições, como as livrarias ou as bibliotecas mantidas por instituições privadas. Parece lógico que as
instituições mantidas pela comunidade devam ter o ponto de vista dessa mesma comunidade como seu
parâmetro de seleção.
Isto não quer dizer que o profissional deva concordar com a maioria (que decidiu pela retirada dos
materiais) e nem o isenta, tampouco a categoria como um todo, de tentar convencê-la de que a longo
prazo as conseqüências da remoção de certos títulos do acervo poderão ser mais nefastas do que os
benefícios imediatos. Os bibliotecários estão em posição privilegiada para argumentar neste sentido,
pois têm uma visão conjuntural da ampliação de perspectivas que a informação oferece à sociedade.
Talvez o que deva mesmo preocupar seja a constatação de que os bibliotecários muitas vezes
definem-se como os árbitros definitivos ou os únicos filtros das idéias disseminadas na sociedade,
decidindo em seu próprio nome, e de acordo com a sua própria visão de mundo, sobre aquilo a que os
leitores poderão ou não ter acesso. Nem sempre isso é consciente ou percebido como censura, sendo
realizado com base em um variado número de razões e justificativas que podem até parecer bastante
razoáveis a seus perpetradores. Mas é um ato de censura. Estabelecer alguns mecanismos
administrativos mínimos, tais como os critérios ou a política de seleção, que proporcionem aos
bibliotecários uma arma contra suas próprias e eventuais fraquezas ou tentações, é no mínimo uma
atitude de prudência. Um cuidado especial com a formação profissional, inclusive em termos de
educação contínua, também parece ser uma medida necessária para aprimoramento da atuação dos
profissionais da informação.

Seleção e cooperação bibliotecária

A produção editorial atual alcança números quase incontáveis, com novos títulos sendo
publicados a cada instante. Nesse contexto, o universo para as decisões de seleção ampliou-se
consideravelmente. A diversidade de formatos trouxe novos complicadores para a seleção, pois não se
trata mais de apenas identificar e selecionar materiais impressos, mas também os meios audiovisuais e
eletrônicos. Os bibliotecários não produzem os documentos que selecionam e não podem fazer com que
o mercado altere seu ritmo de produção, ainda que isso represente uma avalanche de materiais
redundantes, inexpressivos e muitas vezes descartáveis.

42
Diante dessa realidade, conhecimentos precisos a respeito de como funciona a indústria editorial,
em todas as suas modalidades, serão úteis aos profissionais responsáveis pela seleção. Todo
bibliotecário precisará familiarizar-se com as editoras mais importantes em sua área, de modo a
identificar os títulos imprescindíveis à biblioteca e garantir que tal objetivo se concretize.
Apesar disso, será impossível a qualquer instituição bibliotecária atingir a auto-suficiência em
termos de acervo. Mesmo refinando ao máximo a seleção, de modo a só incluir materiais de máxima
prioridade, as limitações orçamentárias, para não falar das físicas, espaciais e de recursos humanos,
farão com que muita coisa valiosa deixe de fazer parte das coleções. É primordial contar com canais
alternativos de acesso ao documento prip1ário, de modo a garantir que os usuários possam utilizá-lo.
Há algum tempo os bibliotecários no mundo inteiro vêm-se preocupando com essa questão. As
redes e sistemas de bibliotecas, que são uma tendência generalizada, procuram alcançar o objetivo de
dar eficiência à totalidade do universo informacional existente em uma região ou país e maximizar a
utilização de recursos limitados. Bibliotecas isoladas têm suas chances de correto atendimento das
demandas informacionais de seus usuários comprometidas, fazendo com que a cooperação entre as
instituições da área se torne uma imposição para a própria sobrevivência da biblioteca.
Inicialmente, esta cooperação costumava dar-se de maneira informal, por iniciativa individual de
profissionais que conheciam as coleções existentes em bibliotecas vizinhas e, muitas vezes de comum
acordo com seus pares nas outras instituições, definiam suas prioridades de seleção, de maneira que
um acervo suprisse as deficiências do outro. Isto na prática se efetivava por meio do que costuma ser
denominado empréstimo entre bibliotecas, pelo qual uma instituição solicita material por empréstimo a
uma outra, para atender a um usuário específico. Bibliotecas especializadas brasileiras têm
tradicionalmente utilizado essa modalidade de cooperação, inclusive contando com funcionários que
desempenham essas funções percorrendo as diversas bibliotecas em veículo da instituição, a fim de
recolher e, depois, devolver os materiais requisitados.
O empréstimo entre bibliotecas é uma alternativa relativamente simples para sanar deficiências do
processo de seleção. Graças a ele, títulos monográficos que não puderam ser adquiridos ou periódicos
descontinuados devido a restrições orçamentárias podem chegar às mãos do usuário final, permitindo
que a biblioteca cumpra o seu papel de disseminadora de informações. Essa possibilidade é um aspecto
a ser considerado quando da decisão de seleção, para utilizar eficientemente os recursos financeiros
disponíveis.
É importante, no entanto, salientar alguns cuidados que necessitam ser tomados quando dessa
consideração:

1) Garantia de acesso: nem sempre, por razões de política institucional ou visando a maior
preservação do material, o acesso ao documento primário é permitido pela outra instituição,
frustrando o empréstimo entre bibliotecas. Mesmo quando existe essa garantia, mudanças de
política podem jogar por terra o objetivo pretendido: antes da tomada de decisão, é preciso
estar seguro de . que o acordo existente irá manter-se no futuro.
2) Possibilidades práticas de acesso: bibliotecas convivem com restrições orçamentárias que
podem implicar demora na chegada do material nas mãos do usuário. Dificuldades em
conseguir um veículo ou um funcionário para buscar o item na outra instituição às vezes
comprometem a política de fornecimento de informações e deixam o usuário insatisfeito com
os serviços da biblioteca.
3) Ônus para o usuário: algumas bibliotecas passam a responsabilidade pela retirada do
material ao próprio usuário, fornecendo-lhe apenas o formulário preenchido e deixando que
ele realize todos os deslocamentos necessários. Essa é uma alternativa muito cômoda para a
biblioteca, que certamente justificará essa medida e até se vangloriará de pelo menos estar
possibilitando alguma saída para atender a uma demanda, embora não tenha condições de
satisfazê-la com recursos próprios. Cabe, no entanto, uma reflexão a respeito das implicações
éticas que uma atitude tipo Pôncio Pilatos pode ter em um contexto de atuação profissional.
Em aula, costumo teatralizar o calvário que os estudantes da Universidade de São Paulo
(USP), onde essa prática é normalmente utilizada, têm que percorrer quando necessitam de
um material do acervo de outra biblioteca da própria USP:
a. Verificam no acervo da biblioteca de sua escola ou faculdade (não existe);
b. Verificam no catálogo coletivo em qual coleção ele consta (conseguem localizá-lo na
biblioteca x);
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c. Deslocam-se até a biblioteca X para verificar sua disponibilidade (está no acervo);
d. Retomam à biblioteca de sua escola para solicitar o impresso (em várias vias);
e. Procuram outra vez a biblioteca X para fazer o empréstimo;
f. Após a utilização, devolvem o material à biblioteca X;
g. Retornam a via correspondente do impresso, devidamente anotada, à biblioteca de sua
escola.
4) Custo para a biblioteca: nem sempre essa problemática é suficientemente equacionada pelos
profissionais. Dependendo da freqüência com que determinados títulos são necessários, o
custo para obter o material mediante empréstimo entre bibliotecas acaba sendo superior a seu
custo de aquisição e manutenção. Um estudo cuidadoso de todos os custos envolvidos na
realização dos empréstimos (desgaste do veículo, combustível, tempo dos funcionários, etc.),
comparando-os com os que se teria se o material fosse adquirido pela biblioteca, poderá
ajudar a esclarecer essa questão. Infelizmente, os custos relacionados com o usuário, ou seja,
quanto custa para ele não ter acesso imediato ao material, contentando-se, ou sendo obrigado
a contentar-se, em esperar um certo período, são mais difíceis de computar.

Mas o empréstimo entre bibliotecas é apenas uma das alternativas existentes para a cooperação
bibliotecária. Iniciativas mais estruturadas, com a constituição formal de redes de cooperação ou
sistemas de bibliotecas, estão se tornando cada vez mais comuns em nosso meio. Nesses casos, são
introduzidos mecanismos administrativos voltados para a seleção planificada ou cooperativa das
coleções, garantindo que a acessibilidade aos materiais mais relevantes em cada uma das instituições
reunidas em rede ou sistema possa ocorrer de maneira eficiente. Várias estruturas organizacionais têm
sido introduzidas com esse objetivo, com maior ou menor sucesso. Tem-se, nesses casos, uma
organização formalmente estabelecida quanto aos deveres e direitos de cada uma das instituições
componentes, de maneira que a atuação de uma não prejudique as demais. Esta tem sido uma
alternativa buscada por instituições da área universitária, nas quais os benefícios acabam ficando
muito mais evidentes do que em outros tipos de bibliotecas.
Em âmbito maior, a cooperação bibliotecária ocorre mediante o fornecimento de fotocópias, em
nível nacional e internacional. Trata-se provavelmente da forma mais corriqueira de cooperação entre
instituições bibliotecárias, na qual uma biblioteca obtém cópias de materiais, em geral artigos de
periódicos ou capítulos de livros, solicitados pelos seus usuários. Ao mesmo tempo, fornece cópias de
materiais de seu acervo para usuários de outras comunidades. Sob certos aspectos, é um
desdobramento do empréstimo entre bibliotecas, a única diferença sendo que, no fornecimento de
fotocópias, o material original não é retirado da instituição.
O Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), por meio do programa
COMUT, administra uma rede de fornecimento de fotocópias, que envolve a padronização de rotinas,
impressos, prazos, preços, etc. Parte do custo do fornecimento de fotocópias costuma ser repassado ao
usuário final, representando um ônus que ele não teria caso o documento original fosse possuído pela
instituição que ele utiliza. Tendo em vista o benefício que o material pode lhe trazer, talvez seja até
possível considerar este um custo de menor importância, embora essa decisão tenha que ser tomada
pelo usuário.
Nos serviços de fornecimento de fotocópias, é preciso atentar para os custos: dependendo do
volume de empréstimos, a biblioteca despender mais para ter acesso remoto aos documentos do que se
os adquirisse e mantivesse em seu acervo, mesmo considerando que parte dos custos é repassada ao
usuário final.

Seleção e direitos autorais

Em um primeiro momento, pode até parecer que não existe relação entre os direitos autorais e as
atividades de seleção. Afinal, alguns argumentarão, os bibliotecários estão acima dessa questão: não se
beneficiam diretamente com o empréstimo dos livros e outros materiais de informação, pois em geral
não estipulam qualquer tipo de taxa para o empréstimo ou a utilização dos documentos no recinto da
biblioteca; não recebem qualquer percentagem quando selecionam ou adquirem novos títulos; não
sonegam os direitos dos autores, pois adquirem os materiais mediante canais legalmente constituídos.

44
Os bibliotecários, em sua atividade de seleção e em qualquer outra, são os maiores incentivadores dos
direitos autorais, pois possibilitam a circulação de suas coleções, divulgando seus autores e
possibilitando-lhes a ampliação de seu público. Os autores deveriam ficar até agradecidos aos
bibliotecários pelo que realizam em benefício deles...
A rigor, os bibliotecários parecem ter alguma razão em seus argumentos. O empréstimo de livros
em bibliotecas foi tradicionalmente encarado, inclusive pelos próprios autores e boa parte dos editores,
mais como uma ajuda na divulgação do material do que como um prejuízo monetário. Apesar disso, é
certo que pelo menos uma parcela dos leitores deixa de adquirir determinados materiais por ter acesso
a eles nas bibliotecas. Isto significa uma perda para os autores, que deixam de receber os direitos
autorais correspondentes a essas vendas não realizadas. Mas isto também não é tão preocupante, pois
dificilmente todos os leitores que tiraram um determinado título por empréstimo iriam de fato comprá-
lo. Talvez alguns o fizessem, provavelmente uma percentagem pequena, não mais que dez por cento do
total. Os restantes noventa por cento constituem uma comunidade que não “teria acesso àquela
produção e não poderia usufruir aquela mensagem, se não fossem os serviços de informação. Neste
sentido, o aspecto democratizante das bibliotecas é mais uma vez enfatizado. Além disso, essa
comunidade beneficiada pelos serviços de informação será um pólo de disseminação das idéias dos
autores com que entraram em contato, e também poderá exercer influência sobre a biblioteca quanto à
seleção de obras futuras, numa espécie de compensação pelos direitos autorais que pretensamente não
teriam sido recebidos.
Boa parte das reclamações quanto à perda de direitos autorais devida à atuação das bibliotecas
provém mais das editoras do que dos próprios autores. Os autores estão mais preocupados com seu
direito moral de autor - o de ter seu nome vinculado a uma obra e ser reconhecido como seu criador
intelectual - e em divulgar o seu trabalho e suas idéias, encarando positivamente as atividades das
bibliotecas e inclusive colaborando com elas. Os editores, como empresários, costumam aplicar um
enfoque mais comercial às suas atividades, dando ênfase ao direito patrimonial de autor - o de receber
retribuição pecuniária pela obra publicada. Ao defenderem o pagamento dos direitos autorais,
geralmente equivalente a dez por cento do preço de venda, as editoras parecem estar mais preocupadas
com a parcela do lucro que lhes cabe e deixa de ser coletada do que com os direitos autorais
propriamente ditos.
Independentemente de suas motivações, a pressão dos editores sobre as bibliotecas costuma ter
uma certa intensidade, em geral tentando evitar a reprodução fotográfica dos documentos pelos
usuários. Em alguns países, como a Inglaterra, essa pressão foi até mais longe, forçando as bibliotecas
a pagarem uma taxa pelo empréstimo dos livros. No Brasil, ainda não se chegou a tanto, mas também
não se pode dizer que os editores tenham se mantido inativos a respeito. Freqüentemente, novas
tentativas são realizadas visando cercear o uso de fotocopiadoras nas bibliotecas, com o argumento de
que trazem prejuízos aos autores.
É evidente que os produtores intelectuais necessitam receber justa recompensa por sua produção
científica ou literária. Sem essa recompensa existiria pouco incentivo para o trabalho intelectual. Por
outro lado, a sociedade não pode, para beneficiar os autores, concordar que uma parte da população
deixe de usufruir dessa produção intelectual. Entre outras coisas, as bibliotecas existem para corrigir
ou minorar as distorções eventualmente existentes.
Os países têm leis que regulamentam os direitos autorais, além de haver convenções
internacionais, como as de Berna (1886), Bruxelas (1948) e Estoco Imo (1967). A legislação brasileira de
direito autoral, vigente em 1997, é a lei 5 988, de 1973, que, é claro, necessita ser revista,
principalmente para incluir tecnologias informacionais que surgiram depois da sua promulgação.
Apesar de desatualizada, a lei brasileira é bastante abrangente em termos de princípios gerais de
direito de autor, definindo algumas situações em que é lícita a realização de cópias de materiais. Uma
das possibilidades garantidas por lei é a execução de cópias únicas para uso próprio, sem fins
lucrativos, com finalidade de pesquisa ou ensino. Isso quer dizer que um estudante ou um usuário pode
tirar uma cópia de um artigo, ou até mesmo de um livro, para uso próprio, sem que esteja
transgredindo a legislação ou ferindo os direitos autorais. Essa permissão é reconhecida
internacionalmente, sendo denominada fair use, isto é, uso correto ou justo. Se alguém resolver fazer
várias cópias do material, revendendo-as com lucro, estará desenvolvendo uma atividade ilegal e,
portanto, sujeito aos ditames da lei.
As atividades de cooperação bibliotecária fazem com que a problemática da realização de cópias
de documentos apareça de modo muito mais freqüente para os bibliotecários. Uma biblioteca que, por
45
meio do serviço de comutação bibliográfica, obtém um documento ou uma cópia para um usuário,
inclusive, muitas vezes, cobrando uma taxa por esse serviço, ou seja, obtendo um pequeno lucro,
deixou efetivamente de adquirir aquele material; em conseqüência, deixou de realizar o pagamento dos
direitos autorais correspondentes. Quando esse fato ocorre uma vez ou outra, pode até ser considerado
de menor importância, concentrando-se a atenção no benefício que foi possível obter. Mas, quando os
materiais são solicitados por meio da comutação bibliográfica com uma freqüência acima de esporádica,
pode-se com justiça questionar se e quanto seus autores estão sendo prejudicados em termos
financeiros. Essa é uma pergunta difícil de responder, pois isso exigiria um acompanhamento bastante
rígido das atividades de comutação, de modo a definir onde os exageros se localizam.
Esse fato afetará muito, por exemplo, as assinaturas de periódicos. Nos Estados Unidos, a lei
estipula que uma biblioteca pode solicitar um título de periódico por comutação bibliográfica um
máximo de seis vezes ao ano, sem a obrigatoriedade de efetuar o pagamento dos direitos autorais; uma
freqüência superior caracterizará, segundo a legislação norte-americana, uma opção pela obtenção de
cópias, deixando-se de efetuar a assinatura do periódico (aliás, é importante lembrar que a palavra
inglesa copyright é muito melhor traduzida como direito de cópia do que exatamente como direito de
autor). Essa preocupação intensificou-se com o aparecimento de empresas especializadas no
fornecimento de cópias de artigos de periódicos, que recebem pagamento por elas. Com a popularização
das máquinas de fax e das diversas modalidades de comunicação eletrônica, essa atividade ampliou-se,
constituindo uma área comercial em expansão. As empresas que atuam nessa área são obrigadas a
incluir na conta um valor equivalente ao pagamento dos direitos autorais, normalmente calculado como
uma percentagem do total, o que às vezes faz com que a obtenção de uma cópia de um simples artigo
fique mais cara do que a aquisição de todo o volume anual do mesmo periódico. Esse valor costuma ser
repassado para o usuário, encarecendo o processo de obtenção de informações. Parece um pouco de
ingenuidade acreditar que os autores dos artigos serão beneficiados com isso, ainda mais quando se
considera que as editoras de periódicos científicos exigem, para a aceitação de trabalhos para
publicação, que os autores assinem um compromisso cedendo-lhes seus direitos autorais.
Os editores de periódicos não ficaram inativos em relação ao uso generalizado de cópias de seus
materiais nas instituições bibliotecárias. Com a justificativa de contrabalançar suas perdas, definiram
que as bibliotecas pagariam um preço diferenciado pelos periódicos, superior ao pago pelo assinante
individual. Isto, no entender deles, atua como um elemento compensador para os leitores extras, não-
pagantes, a que as bibliotecas atendem.
Para as bibliotecas, é claro, essa medida é um inconveniente, aumentando suas dificuldades para
aquisição de materiais. Mas pode ser vista como um elemento de despreocupação no que se relaciona à
responsabilidade dos bibliotecários quanto aos direitos autorais, pois essa quantia adicional significa o
pagamento desses direitos. Neste sentido, não existem, realmente, motivos para dramas de consciência
por colocar os materiais à disposição de um grande público ou possibilitar, instalando uma
fotocopiadora na biblioteca, que todos os interessados tirem cópias para uso próprio. Nem é necessário,
como fazem os norte-americanos, colocar um aviso a respeito dos direitos autorais nas fotocopiadoras -
como fazem os fabricantes de cigarros, quando imprimem nos maços do produto que ‘fumar é
prejudicial à saúde’... - alertando sobre os males que as cópias podem trazer aos autores dos textos
copiados.
Por outro lado, não se deve assumir uma atitude leviana em relação à utilização de cópias no dia-
a-dia da administração das coleções. O custo relativamente baixo das cópias pode tornar irresistível a
tentação de incorporar ao acervo uma cópia feita localmente, ao invés de adquirir o material pelos
canais normais. Isso acontece em relação a títulos importados, cujos preços e mesmo as dificuldades
burocráticas para aquisição funcionam como elemento desestimulador. Parece mais fácil, simples e
barato fazer uma cópia integral do material, obtido por comutação bibliográfica ou deixado pelos
livreiros como demonstração, do que se engajar no processo de compra. As implicações éticas de tal
procedimento são mais do que evidentes para serem enunciadas.
Mesmo essa atitude tem atenuantes. Veja-se este caso: a biblioteca decidiu adquirir um título e
providenciou sua inclusão na próxima aquisição. Vários fatores, no entanto, impedem a disponibilidade
imediata do material para os usuários:

 O fornecedor levará algum tempo para efetivar a entrega;


 A verba para aquisição demorará a ser liberada;

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 O título encontra-se esgotado.

Nesses casos, é possível defender a elaboração de cópias para atender à demanda mais imediata,
com sua conseqüente eliminação quando os materiais estiverem efetivamente disponíveis.
Os mesmos argumentos poderiam ser usados quanto a cópias extras de materiais existentes no
acervo, a fim de atender a aumentos imprevistos da demanda. A substituição por fotocópias de
materiais danificados ou comprometidos por uma utilização intensa parece justificar-se no caso de
títulos esgotados.
Embora os exemplos utilizados tenham se referido apenas a documentos impressos, a
preocupação em relação a cópias estende-se a todos os tipos de materiais. Por exemplo, cópias não
autorizadas de fitas para videocassete, também conhecidas como fitas-pirata, constituem violação dos
direitos autorais de toda uma classe artística e sua aquisição deve ser evitada por parte da biblioteca,
de modo que não se torne cúmplice em uma violação da lei, sem contar que a durabilidade e qualidade
dessas produções clandestinas não são confiáveis.
Em relação ao uso de fitas de vídeo em bibliotecas, deve-se notar que não existe um consenso a
respeito da gravação, pelas próprias bibliotecas, de programas ou apresentações transmitidos pelos
canais de televisão, com a posterior incorporação dessas fitas ao acervo. Alguns autores defendem que
elas se enquadram nas definições de fair use, mas nem todas as implicações se encontram totalmente
esclarecidas quanto a esse aspecto. Os riscos são menores quando se realiza a cópia de programas de
modo parcimonioso, copiando-se apenas materiais imprescindíveis e ainda não disponíveis para
aquisição no mercado, como, por exemplo, um programa recente de debates, um documentário, etc. O
risco de virar réu em um processo judicial por violação de direitos autorais será menor se as cópias em
vídeo de programas televisivos forem destinadas exclusivamente para empréstimo/ uso domiciliar, sem
qualquer finalidade lucrativa. Copiar os vídeos e depois exibi-los em audiência coletiva para a
comunidade, cobrando ingresso para a sessão e divulgando essa atividade de todas as formas possíveis
é colocar-se em uma posição muito vulnerável perante os responsáveis pela produção original e eles
talvez não apreciem muito descobrir que seu trabalho está dando lucros para outros que não eles
próprios, tomando medidas judiciais a respeito (alguém já se imaginou enfrentando uma grande rede de
televisão na Justiça?). Nesta questão, o bibliotecário deverá guiar-se por aquilo que o bom senso lhe diz
ser a opção mais apropriada. Como diz o velho ditado: “prudência e caldo de galinha nunca fizeram mal
a ninguém”.

11. O futuro da seleção

E comum ouvir falar no fim das bibliotecas, como são conhecidas até hoje, ou seja, um edifício
onde se armazenam materiais de informação (predominantemente livros) sob os cuidados de
profissionais conhecidos como bibliotecários. A bibliografia de biblioteconomia e ciência da informação e
as publicações voltadas para o grande público divulgam previsões que enaltecem as delícias de um
mundo onde a informação em papel será apenas uma lembrança, vista somente em museus.
Esse futuro foi e é idealizado em um maravilhoso cenário onde a informação fluirá até seus
interessados de maneira quase instantânea, bastando, para tanto, ter-se um computador, um modem e
um dispositivo de comunicação. Nesse contexto, falar em seleção de materiais chega mesmo a ter como
que um ranço de saudosismo antecipado. Afinal, esta é uma época marcada pela inconstância no plano
das idéias e no das tecnologias, que surgem e proliferam quase num piscar de olhos, para às vezes
desaparecer ainda mais rapidamente.
Na área da informação, os avanços ocorreram com rapidez espantosa. Segundo Paul
Shaughnessy, passamos “da biblioteca baseada em papel para a biblioteca automatizada em um período
de cerca de duas décadas”.10 A revolução da eletrônica bate às portas das bibliotecas e centros de
informação e parece acenar-lhes com o destino inexorável de seu desaparecimento.
Aparentemente, não haveria futuro para essas instituições que se encontram, em alguns casos,
instaladas em prédios imensos e suntuosos, onde armazenam prioritariamente livros e outros materiais
10
SHAUGHNESSY, Thomas w. The library director as change agent. Journal of Library
Administration, v. 22, n. 2/3, p. 43-56, 1996.
47
de informação em suporte o papel. Tampouco haveria futuro para os profissionais responsáveis por
esses acervos.
Se não há futuro, seria o caso de indagar quais os motivos que levaram países como a França e a
Inglaterra a construir novos e enormes edifícios para abrigar suas bibliotecas nacionais, edifícios esses
que parecem representar a antítese da biblioteca sem muros que o futuro prenuncia.
Sob muitos aspectos, é um mundo fascinante esse que se vislumbra, onde os indivíduos terão
acesso a todas as informações de que necessitem (ou mesmo àquelas de que jamais irão ter necessidade
alguma). Mas é também um mundo de características algo assustadoras, na medida em que ainda não
se conhecem seus contornos e se ignora o que esse novo ambiente representará em termos de
ampliação da liberdade de opções (ou mesmo de negação dessa liberdade).
Na realidade de uma informação eletrônica onipresente, imagina-se que cada cidadão será seu
próprio profissional da informação. Contará com a ajuda de sistemas especialistas, que executarão
todas as tarefas hoje desenvolvidas por profissionais humanos especializados (os bibliotecários). Isto faz
acreditar que, sem dúvida, um futuro sombrio aguarda as instituições ligadas à preservação e
disseminação da informação. Nele parece haver pouco espaço para a discussão de um assunto como a
seleção de materiais de informação, na medida em que este diz respeito ao exame dos materiais que
serão armazenados nessas instituições.
Será esse o futuro que nos espera? Devemos aceitar como irreversíveis as previsões? Devemos
acreditar que só haverá bibliotecas virtuais para os habitantes do século XXI?
Isto talvez seja um exagero. Existem motivos para pensar em outras possíveis alternativas, que
não significariam o desaparecimento dessas instituições.
Não se trata de renegar as mudanças, mas entendê-las e contextualizá-las. Com este princípio em
mente, tecerei considerações sobre as razões da permanência dos materiais impressos no panorama dos
serviços de informação do futuro, e examinarei questões relativas à desintermediação e suas
conseqüências/implicações para a seleção de materiais de informação.

A adequabilidade do livro

O livro é um objeto adequado à finalidade para a qual foi criado. É prático, pois não depende de
qualquer fonte externa de energia. É portátil, possibilitando sua utilização em qualquer local, na
posição que o leitor julgar mais confortável.
A imaginação talvez seja o único limite para as possibilidades de utilização do livro. Pode ser
utilizado das mais diversas formas, de acordo com os interesses e objetivos do indivíduo, pois nada
impede que alguém leia um dicionário da primeira à última página ou que desfrute de uma obra de
ficção pela leitura de capítulos aleatoriamente escolhidos.
O livro possui, em geral, um preço acessível para as camadas médias da população. É
relativamente resistente, conservando suas características e legibilidade, em circunstâncias normais,
por tempo bastante longo.
A tecnologia ainda não conseguiu produzir uma tela de computador que permita reproduzir com
fidelidade a experiência de leitura de um livro com todas as suas nuances. É um interessante exercício
mental imaginar um individuo sentado durante horas à frente de um computador, para a leitura das
quase mil páginas do Ulisses ou do Finnegan’s Wake, de James Joyce...
Ainda demorará muito para que toda a informação disponível em formato impresso seja
transferida para suportes eletrônicos. Grande parte da informação que as pessoas buscam nas
bibliotecas, principalmente públicas, ainda não está disponível por via eletrônica. Talvez até jamais se
venha a reconhecer como prioritária sua transferência para suportes eletrônicos. As informações
históricas, por exemplo, principalmente as de interesse local, só estão disponíveis, em sua maioria, em
formato impresso. E que dizer da literatura de ficção, da qual apenas uma parcela está disponível em
forma eletrônica, apesar dos diversos projetos desenvolvidos com o objetivo de realizar essa
transferência?

O custo do livro

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Alguns tipos de materiais de informação representam uma opção mais econômica de produção
quando em formato eletrônico. É o caso, por exemplo, de muitas obras de referência disponíveis em
suportes eletrônicos. Nesse formato, são muito mais acessíveis e fáceis de utilizar do que as verdadeiras
monstruosidades que são suas edições impressas em papel.
A passagem dessas obras para formato eletrônico, em CD-ROM ou na Internet, representa uma
vantagem para as instituições de informação. Mas o preço de uma obra de referência em CD-ROM não é
tão inferior ao da edição em papel. Sem contar os custos indiretos da utilização de formatos eletrônicos.
Em termos econômicos a substituição não parece haver trazido grande vantagem para as instituições de
informação, mas, sem dúvida, trouxe comodidade para o usuários. Isto compensa tudo o mais.
A mesma defesa da opção pelos suportes eletrônicos pode ser feita quanto a monografias e
periódicos de pequena tiragem, cujo custo em papel é alto. No caso de grandes tiragens, os custos de
produção favorecem a impressão em papel. O mesmo se pode dizer a respeito de revistas para o grande
público.11

O contexto social da informação

Uma das questões que ainda não estão bem-equacionadas na disseminação via redes eletrônicas
diz respeito à confiabilidade da informação. Não existem indicadores suficientes que garantam que um
texto recebido via Internet em um computador é exatamente o texto produzido pelo autor. A
probabilidade de alguém intervir no processo, refazendo, adulterando ou modificando um texto e
distribuindo-o segundo seus interesses constitui uma variável virtualmente (e a palavra pode ser
aplicada com duplo sentido) incontrolável. A superestrada da informação lembra a biblioteca de Babei
mencionada por Borges, contendo todo e qualquer livro possível em todas as suas possibilidades, o
original e sua cópia, a cópia da cópia e todas as outras cópias imagináveis, cada uma com pequenas e
mínimas diferenças entre si.
Essa possibilidade de deturpação das idéias não ocorre com igual facilidade nos textos impressos
em papel. Encerrado o processo de edição de um livro, as informações que contém não podem ser
facilmente modificadas, pois qualquer modificação significaria um processo de edição distinto do
primeiro. Isto traz segurança ao produtor intelectual, que quer ter garantia de que suas idéias não serão
deturpadas no processo de distribuição.12
Outro fator importante refere-se à compensação pecuniária do autor. E seria possível enfocar
também a compensação moral. A discussão desse assunto começa a aparecer na literatura
especializada, e alguns países buscam uma legislação que permita o equacionamento da questão,
embora ainda se esteja longe de uma resposta satisfatória. Inexistem formas confiáveis para controlar a
utilização de um texto disponível na rede, de modo a oferecer justa retribuição ao autor pela utilização
de suas idéias. Mas a questão não termina aí. Da forma como as coisas estão, grande parte da indústria
editorial estará fadada à implosão, caso instrumentos eficientes de controle das informações veiculadas
pelos meios eletrônicos não sejam rapidamente desenvolvidos.
Por outro lado, há dúvidas quanto a se um controle total seria realmente algo desejável ou se não
traria escondido o perigo de se estabelecer um estado de vigilância incompatível com os anseios de
liberdade do ser humano.

A seleção de materiais na era da informação eletrônica

Hoje, a expressão mais popular no mundo acadêmico parece ser desintermediação, que está
sendo utilizada por profissionais das mais variadas áreas, inclusive profissionais da informação.

11
Para quem desejar aprofundar-se nesta questão, talvez o melhor texto disponível, apesar do radicalismo de seus autores,
seja o de Walt Crawford e Michael Gorman, Future libraries: dreams, madness & reality (Chicago and London : American
Library
Association, 1995), cuja leitura aconselho.
12
Mais informações em: PROBST, Laura K. Libraries in an environment of change: changing roles, responsibilities, and
perception in the information age. Journal of Library Administration, v. 22, n. 2/3, p. 7-20, 1996, e ROWLEY, Jennifer.
Libraries and the electronic information marketplace. Library Review, v. 45, n. 7, p. 6-18,1996.
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Desintermediar seria fortalecer “o receptor para que estabeleça conexões que antes só poderiam ser
feitas com o auxílio de um intermediário humano, o que era mais dispendioso para a instituição e mais
limitante para o receptor”.13
Imagina-se que a superestrada da informação tornará realidade essa desintermediação. Talvez
extrapolando a figura utilizada autoestrada -, imagina-se que, ao trafegar por ela, os usuários tenham
autonomia para buscar seus próprios caminhos, definir os atalhos preferidos, demarcar os pontos
prediletos de descanso, as paisagens que merecem maior atenção, etc. Temos de admitir que muito
disso já é realidade. Será uma estrada sem sinalização, mas talvez a maior emoção da busca se deva
mais à incerteza sobre o que se encontrará após a próxima curva do que ao objeto/informação que se
deseja encontrar.
Não há certeza se o futuro da informação corresponderá a esse cenário. Ao ter possibilidade de
acessar as informações, a pessoa poderá optar entre o acesso direto e o recurso a um intermediário, que
as identifique e localize (no caso, o profissional da informação). A decisão pela segunda alternativa
dependerá de fatores como a disponibilidade ou interesse do usuário em aprender a utilizar a rede
eletrônica, obtendo o maior benefício possível, ou a qualidade do serviço obtido pelo profissional da
informação.
É natural pensar que nem todas as pessoas terão suficiente domínio das técnicas de recuperação
da informação, seja no ambiente dos materiais impressos, seja no ambiente da informação eletrônica.
Ainda que cedêssemos ao otimismo mais ingênuo, imaginando que a evolução dos meios eletrônicos
fará com que sejam de manuseio amigável e fácil, mesmo assim uma boa parcela dos indivíduos poderá
preferir delegar essa atribuição a um profissional mais bem preparado nas técnicas de recuperação da
informação.
No entanto, uma visão mais serena das promessas da tecnologia da comunicação eletrônica talvez
revele que as mudanças não venham a ser tão drásticas quanto desejariam alguns (embora não venham
a ser tão tímidas quanto desejariam outros). As mudanças ocorrerão, mas sua magnitude está muito
mais no terreno da especulação do que no campo da realidade possível. Embora sem a mesma emoção
das antevisões apocalípticas, é necessário reconhecer que o desaparecimento de livros e bibliotecas não
ocorrerá de maneira imediata.
Daí a necessidade de prosseguir com a discussão da problemática da seleção de materiais nesse
novo contexto informacional. É preciso, porém, encarar a questão de um ponto de vista não-exclusivista
no que concerne às fontes de informação a serem objeto da nova prática profissional.
Num mundo onde materiais impressos conviverão, espera-se que em harmonia, com os suportes
eletrônicos, serão muitas as implicações para as atividades dos profissionais responsáveis pela seleção
de materiais. Em princípio, esta realidade, que ocorrerá nos mais variados tipos de instituições de
informação, não parece apresentar grandes problemas para os profissionais, pois eles já têm,
principalmente no mundo mais desenvolvido, mas não exclusivamente nele, a percepção de que não se
pode mais atender às necessidades de informação da comunidade utilizando-se apenas os recursos
localmente disponíveis.
Faz pouco tempo, as alternativas existentes para se ter acesso efetivo ao conteúdo de um
documento eram: adquiri-lo por compra ou obtê-lo por empréstimo entre bibliotecas. Os custos disso
não eram tão complicados e nem tão difíceis de equacionar. A possibilidade de cooperação bibliotecária
sempre foi um dos elementos considerados no momento da decisão de seleção.
Hoje, ter acesso ao conteúdo de um documento pode significar muito mais do que localizá-lo em
uma biblioteca. Implica conectar-se a um computador remoto e transferir o documento para o
computador da biblioteca ou do próprio usuário. No entanto, a questão continua a mesma: tanto antes
como agora são necessárias análises que possibilitem o conhecimento preciso do custo real desse
acesso. O elemento complicador é que deverão ser incluídos custos antes inexistentes, como os de
aquisição e manutenção de equipamentos, de pessoal operacional especializado, da impressão em papel
ou gravação em disquete, do tempo de telecomunicação, etc.
É evidente que as políticas de seleção deverão ser definidas com base não só em critérios de
custo-benefício, mas também outros, desde as características inerentes ao campo de conhecimento
onde a seleção ocorre até as particularidades dos clientes e do ambiente onde os serviços de informação
se localizam. Isso coloca novas preocupações para os profissionais da informação.

13
ATKINSON, Ross. Library functions, scholarly communication, and the foundation of the digital library: laying claim to
the control zone. Library Quarterly, v. 66, n. 3, p. 239-265, 1996.
50
Imagine-se a opção pela informação eletrônica em uma região onde os serviços de
telecomunicação são insatisfatórios devido a congestionamentos, quedas e ruídos de linha e
dificuldades de manutenção. Ao invés de um usuário satisfeito, haverá mais reclamações, queixas e
frustração com os serviços recebidos.
Isso poderá ser sanado por meio de investimentos maciços na área tecnológica. Enquanto tal não
acontece, continua sendo um aspecto importante a pesar na seleção de informações eletronicamente
disponíveis. Seja qual for o meio utilizado, deve-se ter em mente que o fim almejado é o fornecimento da
informação desejada/necessária ao menor custo possível para a instituição e com o maior nível de
satisfação para o usuário.
Também é necessário refletir sobre as repercussões que a informação eletrônica terá em relação
ao próprio usuário dos serviços de informação. Hoje, a manutenção de um título no acervo significa
acesso irrestrito a esse título, sem ônus adicional. A definição dos custos da informação obtida por
intermédio de redes eletrônicas ainda é mais ou menos incerta, mas pode-se especular se será possível
às bibliotecas manterem indefinidamente a prática de não-cobrança ao usuário pela utilização de meios
eletrônicos.
Se os custos vierem a ser repassados ao usuário, haverá mais uma barreira para a utilização dos
serviços de informação, que ficarão restritos a quem puder arcar com esse ônus. Isto colocaria em
xeque, por exemplo, as biblioteca públicas como local de livre acesso às idéias, ainda que se possa
argumentar que livre acesso não significa acesso gratuito.
Em países onde os índices de desigualdade social são elevados, cabe aos responsáveis pela
seleção e aos gerentes das instituições bibliotecárias definir políticas que garantam a todos o acesso à
informação, independentemente de suas disponibilidades financeiras, definindo os casos de isenção do
pagamento.
Algumas instituições sentirão mais rapidamente as pressões para abandonar o objetivo de atender
às necessidades de informação dos usuários com recursos próprios. De um lado estão as bibliotecas de
pesquisa, e do outro, as públicas. É provável que estas demorem a mudar, e continuem utilizando,
predominantemente, seus próprios recursos para atender à demanda. Essa demora será maior em
países menos desenvolvidos. Em países avançados há bibliotecas públicas onde a informação eletrônica
faz parte da realidade cotidiana, convivendo em harmonia com os recursos impressos.
A decisão entre acesso e posse dos documentos sempre ocorreu, ou deveria ter ocorrido, levando
em conta as condições de cada instituição. Nada indica que isso deva modificar-se no futuro. É provável
que as instituições de informação continuarão a optar pelo acesso aos documentos quando esta
alternativa for menos dispendiosa do que a compra, processamento e armazenamento do documento
impresso, for a única possibilidade de acesso à informação, ou o modo de acesso significar um valor
agregado à informação, seja pela possibilidade de busca por palavras-chave, seja pela apresentação em
um formato mais conveniente.
Tradicionalmente, a seleção de materiais de informação enfocou a definição de critérios que
justificassem determinado agrupamento de documentos em um ou mais espaço(s) físico(s)
determinado(s). Este agrupamento é definido em contraposição a todos os outros possíveis, inclusive o
universo de publicações não-controlado produzido pelo mercado. Ele responde a condições específicas
da comunidade e a objetivos precisos, definidos pela organização à qual a biblioteca está subordinada
Esta descrição da realidade permanece válida. O mercado continua a produzir informações de
forma incontrolada, agora também em formato eletrônico. Definir determinados agrupamentos de
informação eletrônica em contraposição a todos os outros’ possíveis será a tarefa dos bibliotecários
responsáveis pela seleção. Talvez a importância social da atividade tenha sido incrementada, ao invés de
minimizada, pelas tecnologias da informação eletrônica.
Como comenta Thomas Nisonger, lembrando Ortega y Gasset, “os bibliotecários ainda se deparam
com a mesma responsabilidade em relação às publicações eletrônicas: filtrar do grande número
disponível a parcela que é relevante ao atendimento das necessidades de informação de seus clientes”.14
Ao possibilitar acesso a uma parcela específica da informação digitalizada, por meio de um link do
servidor da biblioteca, por uma base de dados eletrônica, o responsável pela seleção estará criando um
“subconjunto altamente seletivo de objetivos de informação disponíveis, segregados e favorecidos, aos
quais o acesso é possibilitado e aos quais a atenção do cliente/usuário é dirigida em oposição aos

14
NISONGER, Thomas E. Collection management issues for electronic journals. [FLA Journal, v. 22, n. 3, p. 233-239,
1996.
51
objetivos excluídos”.15 Com essa atividade, agregará valor ao que existe na rede eletrônica, ao informar
aos usuários que os itens ‘selecionados’ atendem a determinados requisitos de autoridade,
fidedignidade e credibilidade, assim como seus antecessores que aplicaram critérios de seleção aos
materiais impressos que armazenavam nas bibliotecas.
Esse valor será agregado por intermédio de uma política mais ampla, voltada para o
desenvolvimento global da coleção, que se consubstanciará na prática diária da seleção. Esse acréscimo
de valor será realizado a partir da consideração das características da clientela. Este continuará sendo
o requisito primário para o êxito da seleção de materiais, seja em que ambiente for. As palavras de Tefko
Saracevic, em mesa-redonda sobre o futuro das bibliotecas, vêm a calhar para o encerramento deste
capítulo:

Hoje na Internet todo mundo é um editor e não existe absolutamente qualquer controle. Não
existe qualquer controle da informação, não existe qualquer certificação da qualidade, não
existe qualquer forma de avaliar a qualidade, não existe nada nesse sentido. É um dos
segredos sujos da Internet. Você pode encontrar isso, você pode encontrar aquilo, mas
quanto disso é bom? quanto é útil? quanto é bonito? e quem vai ser o juiz? Pelo menos até
agora, nós, na biblioteconomia e na ciência da informação, não estamos desempenhando
um papel na avaliação, ou mesmo no estabelecimento de critérios para isso, mas alguém
terá que fazê-lo: alguém terá que começar a falar de critérios - sobre se se pode ter alguma
certeza de que aquilo que se está encontrando tem alguma veracidade e alguma realidade.16

12. Considerações finais

Que ninguém se engane: a leitura deste livro não capacitará o bibliotecário à auto-suficiência na
seleção de materiais de informação. Imagino, talvez com o entusiasmo de autores estreantes, que ela lhe
dará mais confiança em si mesmo, possibilitando-lhe realizar um trabalho de melhor nível. Mas minhas
ilusões param aí, pois ainda existe muito para ser falado, discutido, questionado, repensado, devido às
condições específicas de atuação, à diversidade de situações onde se identificam e avaliam os materiais
para seleção. Cada estrada será feita pelo próprio caminhar.
Este livro propõe passos iniciais, que entendo necessários para todos os profissionais,
independentemente das bibliotecas onde atuem. Acredito que instituições de informação mais eficientes,
com acervos e serviços que respondem de forma adequada às necessidades dos usuários, passam pela
definição correta das atividades de seleção. Entendo, inclusive, que não se trata de simples opção
profissional. É uma imposição ética. Nenhum profissional pode contentar-se com a mediocridade.
Quero encerrar com uma nota otimista e não como um velho de dedo em riste. Minha experiência,
como docente e autor, tem se feito acreditar cada vez mais na importância desta área. Neste mundo em
ebulição, há muito a ser feito e o papel a ser desempenhado pelos profissionais da informação está
ainda virgem, pronto para ser preenchido, à espera de que eles mesmos definam a forma como irão
ocupá-lo. O fascinante nisso tudo é que não existem limites possíveis para a atuação profissional,
bastando apenas que se tenha a coragem de ousar. Mais do que nunca, agora compensa sonhar.

13. Bibliografia complementar

Esta lista menciona títulos que trazem informações complementares para os leitores. A maioria é
em língua inglesa, refletindo a predominância desse idioma na literatura profissional. Todos foram
utilizados na elaboração deste livro, por isso alguns leitores notarão que já têm familiaridade com parte
das idéias apresentadas nas obras. Para melhor organização, agrupei os materiais segundo três
15
A TKINSON, Ross. Library functions, scholarly communication, and the foundation of the digital library: laying claim to
the control zone. Library Quarter/y, v. 66, n. 3, p. 239-265, 1996.
16
Citado por TefKo Saracevic na p. 519 do painel intitulado LIBRARIES present and future: the future of the library
profession. The Electronic Library, v. 14, n. 6, p. 517522, 1996.
52
categorias: livros, publicações periódicas (abrangendo tanto os títulos de uma publicação como
fascículos específicos), e documentos e listas de discussão eletrônicos. Relacionei títulos que tratam
especificamente da seleção de materiais e os que tratam do desenvolvimento de coleções em geral.

Livros

ANDRADE, Diva, VERGUEIRO, Waldomiro. Aquisição de materiais de informação. Brasília : Briquet de


Lemos / Livros, 1996. - Dada a exigüidade da literatura em português, um texto sobre aquisição pode
ser pertinente para ampliar as reflexões sobre as conseqüências das decisões de seleção, tornadas
efetivas a partir do trabalho da aquisição. As duas atividades estão muito ligadas e as respostas
possibilitadas por uma acabam se refletindo na outra, e vice-versa.

BARKER, Keith (Ed.) Graphic account: the selection and promolion of graphic novels in libraries for
youngpeople. Newcastle-under-Lyme: The Library Association; Youth Libraries Group, 1993. - Enfoque
pragmático sobre a seleção de histórias em quadrinhos em bibliotecas, organizado por um bibliotecário
com experiência na área. Aborda apenas as graphic novels, que são parcela.importante da indústria de
histórias em quadrinhos, mas não chegam a esgotar o leque de veículos pelos quais as histórias em
quadrinhos são divulgadas. Ainda assim, constitui uma leitura bastante proveitosa.

BROADUS, Robert N. Selecting materiais for libraries. New York : H. W. Wilson, 1981. - Um manual já
tradicional na área. Claro e preciso, busca tratar de maneira sistemática a questão da seleção em
bibliotecas. Leitura obrigatória para quem deseje aprofundar-se no assunto.

CURLEY, Arthur & BRODERICK, Dorothy. Building library colleclions. 6.ed. Metuchen, NJ. : Scarecrow,
1985. - Título antigo, originalmente escrito por Carter e Bonk, quando tinha enfoque dirigido para a
seleção de materiais. Nesta edição é mais abrangente, buscando o desenvolvimento de coleções. Os
capítulos sobre seleção são exageradamente voltados para bibliotecas públicas. Leitura valiosa para
quem deseja ampliar seus conhecimentos na área.

DICKINSON, Gail K. Selection and evaluation of electronic resources. Englewood, Co.: Libraries
Unlimited, 1994. - Provavelmente o primeiro e talvez ainda único livro dedicado exclusivamente à
seleção de materiais eletrônicos em bibliotecas. Para os bibliotecários brasileiros grande parte da
discussão poderá ter pouco sentido prático. No entanto, dada a velocidade de avanço das tecnologias
informacionais, essas discussões que hoje parecem acadêmicas logo encontrarão ressonância em nosso
meio.

ELLISON, John. W. (Ed.) Media librarianship. New York : Neal-Schuman Publ., 1985. p.171-273:
Selection. - Manual didático dedicado aos multimeios em bibliotecas, abordando-os desde o tratamento
técnico à divulgação. Os capítulos sobre seleção de multimeios são interessantes.

EVANS, G. Edward. Developing library and information center collections. 3.ed. Littleton : Libraries
Unlimited, 1995. - Imprescindível para qualquer bibliotecário interessado em aprofundar seus
conhecimentos sobre seleção. A terceira edição deste livro, que considero o manual mais completo sobre
desenvolvimento de coleções existente no mercado, traz como inovação a introdução da discussão sobre
os documentos em formato eletrônico.

FIGUEIREDO, Nice Menezes de. Desenvolvimento e avaliação de coleções. Rio de Janeiro : Rabiskus,
1993. - Coletânea de artigos sobre desenvolvimento de coleções publicados pela autora em revistas
brasileiras. Apresenta uma reflexão sobre a literatura internacional na área de desenvolvimento de
coleções, procurando refletir sobre as características da biblioteconomia brasileira. Alguns artigos foram
publicados há algum tempo, mas seus questionamentos e pontos de vista continuam atuais. Traz
capítulo sobre seleção de livros.

53
FUTAS, Elisabeth (Ed.). Collection development policies and procedures. 3.ed. Phoenix: Oryx, 1995. -
Coletânea de políticas para o desenvolvimento de coleções, utilizadas em bibliotecas públicas e
universitárias norte-americanas. Organizada de maneira bastante prática, permite o acesso por
instituições e materiais específicos. Essencial como fonte para a definição de políticas próprias.

HUGHES, Margaret 1. & KATZ, Bill (Ed.) A. V. in public and school libraries: selection and policy issues.
New York: Haworth Press, 1994. - Publicado originalmente como um fascículo de Acquisitions Librarian,
enfoca a seleção de materiais audiovisuais em bibliotecas públicas e escolares, do ponto de vista da
biblioteconomia norte-americana. Traz informações úteis para as atividades de aquisição desses
materiais. Interessante capítulo sobre livros falados.

JOHNSON, Peggy, MACEwAN, Bonnie (Ed.) Collection management and development: issues in an
electronic era. Chicago and London : American Library Association, 1994. - Coletânea de trabalhos
apresentados em um evento sobre desenvolvimento de coleções, versando sobre o desenvolvimento de
coleções na era eletrônica. Os trabalhos apresentam às vezes certo desequilíbrio entre si, na medida em
que alguns autores são mais profundos do que outros. Embora nenhum dos textos trate da seleção de
meios eletrônicos, o livro é importante para ampliar as perspectivas sobre o impacto desses meios nas
atividades dos profissionais da informação. Saliente-se o capítulo de Ross Atkinson, ‘Access, ownership,
and the future of collection development’.

MIRANDA, Antonio. Seleção de material bibliográfico em bibliotecas universitárias brasileiras: idéias


para um modelo operacional. Brasília : CAPES/ ABDF, 1978. - Apesar de publicado há muito tempo,
continua atual.

OSBURN, Charles, ATKINSON, Ross (Ed.) Collection management: a new treatise. Greenwich: JAl Press,
1991. (Especialmente os três capítulos relacionados com a seleção de materiais, nas páginas 273 a
335.) - Indispensável para os interessados em desenvolvimento de coleções. Os capítulos sobre seleção
merecem leitura atenta.

PATTIE, Ling-yuh W., Cox, Bonnie Jean (Ed.) Electronic resources: selection and bibliographic control.
New York: Haworth, 1996. - Publicado originalmente como fascículo de Cataloging & Classification
Quarterly, traz artigos sobre seleção e controle bibliográfico de recursos eletrônicos, constituindo um
guia básico para profissionais e estudantes. Os capítulos, de diferentes autores, dividem-se entre
seleção e processamento técnico. Abordagem teórica e prática.

PEROTA, Maria Luiza Loures Rocha. Multimeios: seleção, aquisição, processamento, armazenagem,
empréstimo. Vitória: O. Ceciliano Abel de Almeida, 1991. - Provavelmente a única obra em português
sobre o assunto.

SPILLER, David. Book selection: principies and practice. 5.ed. London : Clive Bingley, 1991. - Um
manual bastante tradicional de seleção, tratada de um ponto de vista prático, apesar do enfoque
demasiadamente centrado na biblioteconomia inglesa. Continua atual.

VERGUEIRO, Waldomiro. Desenvolvimento de coleções. São Paulo: Polis; Associação Paulista de


Bibliotecários, 1989. - Uma abordagem ampla e inicial sobre o desenvolvimento de coleções.

Periódicos especializados e artigos específicos

DREXEL LIBRARY QUARTERLY, V. 18, n. 1, 1982. - Número especial sobre censura em bibliotecas.
Apesar de ter sido publicado há certo tempo, continua a manter sua atualidade. Traz artigos
esclarecedores e bem-elaborados, de leitura fácil e agradável.

JOURNAL OF LIBRARY ADMINISTRATION. New York, Haworth Press, 1980-. - Título tradicional sobre
administração de bibliotecas, costuma trazer artigos sobre desenvolvimento de coleções e seleção.

54
Importante como complementação deste livro são os números publicados em 1996 sobre acesso,
compartilhamento de recursos e desenvolvimento de coleções (v. 22, n. 4), empréstimo entre bibliotecas
e fornecimento de documentos (v. 23, n. 1/2), sobre os padrões emergentes do desenvolvimento de
coleções em um ambiente de compartilhamento de recursos, informação eletrônica e redes (v. 24, n.
1/2).

KIM Fung Yip. Selecting Internet resources: experience at Hong Kong University of Science and
Technology (HKUST) Library. The Electronic Library, v. 15, n. 2, p. 9198, 1997. - Apesar de retratar uma
experiência específica de seleção, situada em um local diferente do nosso, as considerações que tece
sobre a problemática da seleção de materiais na rede Internet são perfeitamente aplicáveis às
bibliotecas brasileiras. O apêndice apresenta os principais instrumentos de identificação de
documentos disponíveis nessa rede eletrônica.

LIBRARY TRENDS. Champaign, III., Graduate School of Library and Information Science, 1952- - Um
dos periódicos mais conceituados em biblioteconomia e ciência da informação que busca apresentar e
discutir as principais tendências na área. De interesse como leitura complementar deste livro são o v.
39, n. 1/2, de 1990, sobre censura e liberdade intelectual; o v. 41, n. 2, de 1991, sobre ética e
disseminação da informação, e o V. 45, n. 1, de 1996, sobre liberdade intelectual dos usuários.

RAO, S. Subba. Information retrieval services: role of optical technologies. New Library World, v. 98, n.
1132, p. 16-24, 1997. - Descreve as principais tecnologias para acesso à informação, com especial
enfoque nas características dos CD-ROMS, serviços de bases de dados em vários assuntos e bases de
dados nesse suporte.

ULIANA, Dina Elisabete, VERGUEIRO, Waldomiro C. S. Gibitecas: estrutura, organização e acervo.


Informação Cultural, n. 10, p. 2-10, jun. 1990. - Provavelmente a primeira tentativa efetuada no pais
visando enfocar as histórias em quadrinhos do ponto de vista das bibliotecas. Procura descrever todos
os formatos existentes e apresenta proposições para seu tratamento técnico.

Documentos e listas de discussão na Internet

COLLDV-L - LIBRARY COLLECTION DEVELOPMENT LIST: colldv-I@usc.edu -Embora dedicada à


discussão do desenvolvimento de coleções de uma maneira geral, a seleção é uma presença constante
nas discussões desta lista. Certamente, seu acompanhamento pode ser bastante proveitoso para os
bibliotecários que atuam na área. Mensagens de inscrição devem ser enviadas para listproc@usc.edu.

NEW-JOUR - Endereço eletrônico que divulga os novos periódicos disponíveis via Internet. Funciona de
maneira semelhante a uma lista de discussl1o, embora apenas informações sobre novos títulos sejam
divulgadas. Encaminhar mensagem de inscrição para mjd@ccat.sas.upenn.edu.

COLLIBS-L: collibs@is.su.edu.au - Lista de discussão sobre desenvolvimento de coleções. Embora


ambicione discutir questões relacionadas com bibliotecas universitárias e de pesquisa situadas no
território australiano, é aberta para a participação de qualquer interessado. Para inscrever-se, deve-se
enviar mensagem para listerv@is.su.edu.au.

INTERNET RESOURCES NEWSLETTER - Periódico eletrônico publicado mensalmente pela biblioteca da


Heriot-Watt University, da Inglaterra, desde outubro de 1994. Destinada a acadêmicos, estudantes,
engenheiros e cientistas, busca aumentar o conhecimento sobre novas fontes de informação na
Internet, particularmente aquelas relevantes para a pesquisa universitária. Cada número traz seções
com os novos sites disponíveis na www, em ordem alfabética, novas listas de discussão, noticias sobre
redes eletrônicas e novos livros na área. Pode ser acessada em: http://www.hw.ac.uk.l lib
WWW/irn/irn.html/.

55

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