Você está na página 1de 51

MAX GEHRINGER

é comentarista corporativo, autor de nove livros sobre o mundo empresarial – incluindo Pergunte ao Max
(Editora Globo) – e escreve semanalmente em ÉPOCA.
Para enviar uma pergunta, acesse a coluna do Max em www.epoca.com.br/max

A Executiva no Céu

Foi tudo muito rápido.


A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou.
Deu um gemido e apagou.
Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal.
Ainda meio zonza, atravessou-o viu uma miríade de pessoas.
Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas.
Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos
passantes:
-Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting
importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico
é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
-No céu.
-No céu?...
-É. Tipo assim, o céu. Aquele com querubins voando e coisas do gênero.
-Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando
telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo
apitado na curva.
Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas
de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana
ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de
presidente do conselho de administração da empresa.
E foi aí que o interlocutor sugeriu:
-Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
-É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
-Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
-Assim? (...)
-Pois não?
A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem.
À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o
próprio Pedro.
Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e
reagiu rapidinho:
-Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
-Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
-Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
-Já ouví falar. Mas não é do meu tempo.
Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight.
A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas
técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva
poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na
organização.
-Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta
olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no
Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
-É mesmo?
-Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando
crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
-Ah, não sabemos.
-Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
-Hã?
-Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o
tempo isto aquí vai acabar virando uma anarquia.
Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de
targets individuais e avaliação de performance.
-Que interessante. ..
-Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos e o pessoal
começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a gente acalma a galera bolando um
sistema de stock option, com uma campanha motivacional impactante, tipo: "O melhor céu da
América Latina".
-Fantástico!
-É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização de um organograma
funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam
resolver.
-Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias
operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa
forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe,certo?
-Sobre todas as coisas.
-Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias
high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no
desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico por
exemplo, me parece extremamente atrativo.
-Incrível!
-É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo
nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis
dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega
para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos
pela frente vai resultar em um turnaround radical.
-Impressionante!
-Isso significa que podemos partir para a implementação?
-Não. Significa que você terá um futuro brilhante ... se for trabalhar com o nosso concorrente.
Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...
O que dizer na carta de apresentação

Quero ser professor, mas meus pais dizem que professor ganha pouco no Brasil. Como posso
convencê-los de que não se pode colocar um preço em uma vocação?
Diga a eles que você está mais preocupado com as pessoas que poderá ajudar do que com o salário. Mas
esteja seguro de sua vocação. Na hora de pagar as contas, muitas certezas podem virar arrependimento.

O que é uma carta de apresentação?


Uma carta de um ou dois parágrafos que vai junto com o currículo. Ela é solicitada pelas empresas porque os
currículos se parecem muito. É a carta que diferencia um candidato do outro. Ela deve sempre conter algum
dado que estabeleça uma ligação entre você e a empresa. Muita gente resume na carta o que já está escrito
no currículo ou coloca frases de autoelogio (do tipo “sou muito versátil”). Se eu fosse mandar uma carta de
apresentação para um banco, por exemplo, escreveria que minha família é cliente do banco há 20 anos e que
o atendimento sempre foi exemplar. Por isso, essa é a empresa na qual eu gostaria de trabalhar. Esse é o
segredo. O currículo pega mais pela razão, a carta mais pela emoção.

Por que pessoas sem competência chegam a cargos de chefia?


Se não estamos falando em filhotismo ou nepotismo, mas em um processo sério de promoção, é porque os
potenciais candidatos a uma promoção são avaliados de cima para baixo pelos superiores deles. A avaliação
de baixo para cima, aquela que um subordinado faz do chefe, e a avaliação lateral, aquela que um colega faz
de outro, não são levadas em conta. Não estou dizendo que todo mundo que é promovido é competente,
porque empresas são falíveis, mas posso lhe dar uma dica. Se você não se parece – profissionalmente
falando – com as pessoas que têm sido promovidas em sua empresa, muito dificilmente será promovido.
Você até pode ser melhor do que elas em alguns aspectos, mas suas qualidades não batem com as que a
empresa procura em um chefe.

Como saber o que colocar no quadrinho de ‘‘pretensão salarial” quando preenchemos uma ficha de
inscrição?
O ideal seria colocar não um número, mas uma faixa, com uma diferença de 20% entre os extremos. Se isso
não for possível – nas fichas preenchidas pela internet não é –, consulte uma tabela de cargos e salários.
Cadernos de empregos costumam publicá-la uma vez por mês, aos domingos.

Tenho um bom currículo, mas não sou chamado para entrevistas.


Perdoe-me, mas esse que você me enviou não é um bom currículo. Você tem meio currículo bom, na parte
acadêmica, que inclui um MBA. Mas a parte da experiência prática deixa a desejar. Você tem 26 anos e
nunca trabalhou. Empresas, quando avaliam um currículo, buscam equilíbrio entre teoria e prática. Minha
sugestão: consiga um emprego, sem se importar com o salário. Esse é um passo fundamental, que você
deveria ter dado há oito anos. Estando empregado, você terá mais chances de conseguir em breve a vaga que
realmente deseja.

Como evitar que puxem seu tapete

Duas vezes fui admitido por boas empresas. Em ambas me destaquei rápida e facilmente. E em ambas
fui demitido, por inveja de funcionários mais antigos que puxaram meu tapete. Como posso evitar que
isso aconteça novamente? – G.G.B.

Você provavelmente se destacou naquilo em que é bom – seu conhecimento técnico e sua ambição. E pisou
na bola no quesito relacionamento. Uma empresa funciona como o corpo humano no caso de um
transplante: um novo órgão que pareça representar uma ameaça ao funcionamento do sistema é rejeitado. Na
próxima vez, não saia mostrando aos novos colegas que você sabe mais. Consiga, primeiro, a confiança
deles. Essa profilática medida impedirá uma nova rejeição orgânica.

Estudo numa faculdade que obteve uma avaliação baixa no Enade do ano passado. Isso pode vir a
prejudicar minhas possibilidades de conseguir emprego? – C.R.R.
Um emprego, talvez não. Mas um bom emprego, sim. Empresas com muitos pretendentes a uma vaga usam
o Enade como referência. Mas essa deveria ser a sua segunda preocupação. Mais importante é você se
preocupar com a qualidade do que lhe está sendo ensinado, porque isso será muito mais nocivo para seu
futuro profissional.

Um concurso público é uma boa opção? – C.J.T.

Sim. Porém, por precaução, sugiro que você trabalhe numa empresa privada enquanto tenta passar no
concurso. Os índices de desemprego levam em consideração as pessoas que procuram trabalho – e, portanto,
só contemplam o setor privado. Muito embora não seja fácil conseguir emprego, estatisticamente é mais
difícil passar num concurso público, porque o número médio de candidatos por vaga é bem maior.

Na próxima vez, não saia mostrando a seus novos colegas que você sabe mais.

Consiga, primeiro, a confiança deles

Estou no primeiro ano de Engenharia, mas gosto mais de Administração. Meus pais dizem que o
mercado já está cheio de administradores e que o melhor seria eu me formar engenheira e depois
fazer pós-graduação em Administração. – M.A.N.

Seus pais estão corretos no conselho dado, embora o argumento da saturação do mercado não seja válido.
Uma profissão não é mensurada pelo número de formandos, e sim pela proporção entre formandos e vagas
oferecidas pelo mercado. Tanto Engenharia quanto Administração formam muitos alunos, mas também
oferecem muitas vagas.

Tenho 41 anos. Ao avaliar minha carreira, concluo que não atingi uma posição de destaque porque
não me deixei corromper. Tenho orgulho de meus princípios morais, mas infelizmente eles não são
valorizados pelo mundo corporativo. – S.G.

Perdoe-me, S.G., mas, se sua conclusão fosse verdadeira, nenhuma empresa seria ética, e todos os gestores
seriam corruptos. Talvez você tenha passado só por empresas ruins ou não tenha dado peso a fatores como
marketing pessoal e habilidade política. Acredite, o mundo corporativo não é perfeito, mas também não é
tão imperfeito.

Meu Q.I. é 142. Se eu colocar essa informação no currículo, qual será o efeito? – M.M.

Boa pergunta. Falei com cinco responsáveis por RH em grandes empresas. Duas não usam mais testes de
Q.I. Uma usa apenas em áreas que privilegiam o raciocínio lógico (para candidatos a Vendas e Marketing, o
teste não é aplicado). As outras duas aplicam testes de Q.I. apenas a candidatos iniciantes, mas ambas
fizeram a ressalva de que os resultados não são eliminatórios nem conclusivos, apenas indicativos. Nas duas,
uma dinâmica de grupo tem mais peso que o Q.I.

Cuidado: ser volúvel prejudica a carreira

Tenho 33 anos e já mudei de emprego seis vezes desde que comecei a trabalhar. Nunca fui demitido ou
tive dificuldade para conseguir me recolocar, mas meu status profissional não se alterou durante todo
esse tempo. Ainda não tenho um cargo de liderança, coisa que alguns ex-colegas de minha idade
conseguiram por terem ficado mais tempo nas empresas. Será que estou cometendo um erro?
Promoções são resultados de três fatores: resultados, relacionamento e oportunidade. Aparentemente, você é
bom no primeiro. Seus resultados devem impressionar os entrevistadores e você consegue novos empregos.
Posso também deduzir que você seja mediano no segundo. Você se relaciona de modo civilizado com os
colegas e com os chefes. O terceiro fator é o que mais incomoda os bons profissionais. O funcionário tem
todas as condições para ser promovido, mas não surgem vagas internas. Em casos assim, os mais ambiciosos
e os mais impacientes saem – e os menos apressados ficam. E, por permanecerem na empresa por mais
tempo, os que ficam acabam sendo contemplados pelas raras oportunidades. Ao mudar de emprego, você
entra em empresas que já possuem profissionais com bons resultados, bom relacionamento e algum tempo
de serviço. Sendo o mais novo de casa, você fica em desvantagem na hora de uma promoção. Tente se
estabilizar em uma empresa e seja mais paciente.

Trabalho em uma empresa nova que está crescendo muito. Nossa rotina é um caos. Passamos o dia
correndo atrás de coisas que devíamos ter planejado e trombamos uns com os outros. Há trabalhos
feitos em duplicidade e outros que ninguém faz porque não existe uma definição de funções. Fico em
dúvida se estou na melhor ou na pior empresa do mundo.
Na pior certamente você não está. Empresas que crescem aceleradamente como a sua passam todo o tempo
tentando conciliar o que precisa ser feito e o que poderia ser feito, mas a demanda força todo mundo a se
concentrar apenas no presente. A boa notícia é que essa correria desenfreada é temporária, até que a empresa
se estabilize num patamar aceitável de crescimento. Aí, haverá tempo para conversar sobre planos de
carreira. Aproveite esse momento, por mais paranoico que pareça, porque em momentos assim se aprende
muito. Pior seria você estar numa empresa estagnada, com a única preocupação de não perder o emprego.

Quanto tempo uma empresa deve levar para comunicar o resultado de um processo de seleção? Estou
angustiado com a demora.
Se o responsável pelo processo afirmou que ligaria para todos os participantes, continue aguardando. O
prazo máximo de espera é de três semanas. É bem verdade que os candidatos aprovados ou rejeitados
deveriam ser avisados do resultado, até por questão de educação, mas nem todas as empresas fazem isso. Se
após 21 dias ninguém ligar, tome o silêncio como uma resposta negativa e parta para outra.

Fui criticado por ser muito exigente

Faço todos os trabalhos de marketing na empresa em que atuo, que tem porte médio. Mas em minha
carteira profissional fui registrado como assistente administrativo. Quero me candidatar a vagas mais
ambiciosas em marketing, mas não tenho como comprovar minha experiência. Qual é a melhor
maneira de esclarecer isso em meu currículo?
Coloque o nome da função de fato. Minha sugestão seria: gestor de marketing. Em seu caso, gestor é uma
palavra recomendável porque ela situaria sua função em qualquer lugar do organograma. Se você usar
termos mais tradicionais, como “gerente” ou “encarregado”, alguém de sua atual empresa poderia dizer que
isso não é verdade, se fosse consultado por um potencial empregador. Em seguida, faça uma breve descrição
das tarefas que você vem desempenhando. Ao final, escreva: “Por decisão da empresa, fui e continuo
registrado como assistente administrativo, embora nunca tenha exercido essa função”.

Trabalhava havia oito anos em uma boa empresa e aceitei um convite para ganhar 50% a mais numa
companhia que estava se instalando no Brasil. Depois de seis meses, fui dispensado. Estou perdido e
não sei o que aconteceu.
Uma empresa nova e sem nenhuma referência só consegue admitir funcionários qualificados se oferecer
salários acima da média do mercado. Mas a nova empresa sabe que esse custo adicional não é para sempre.
Assim que ela absorve os conhecimentos dos que foram contratados e cria uma carteira de clientes, as
atenções se voltam para os custos. A recomendação é que os admitidos solicitem um contrato de trabalho
por um prazo mínimo de dois anos. Se a empresa não concordar com isso, é um indicativo de que a mudança
é uma fria.

As grandes empresas que trabalham com tecnologia da informação vêm recrutando estagiários com
conhecimentos básicos de informática. Eles recebem treinamentos e são efetivados com bons salários.
Como ficam os profissionais que se dedicaram a uma graduação na área?
No Brasil, ou existe uma lei que obrigue a contratação de profissionais com determinada formação, ou as
empresas são livres para escolher o processo de admissão e treinamento que considerem mais apropriado.
Há leis que regulam o exercício do Direito, da medicina, da contabilidade. Sem regulamentação pode haver
discussão, mas não há obrigação.

Meu diretor me criticou por eu ser exigente demais com meus subordinados. Venho de empresas em
que isso era considerado mérito, não deficiência.
Concordo com sua afirmação e com a crítica de seu diretor. Cada empresa tem sua própria cultura. Os mais
bem adaptados sobrevivem mais e melhor, independentemente do sucesso que tenham conseguido em
culturas diferentes. Se você não foi expressamente contratado para mudar a cultura da atual empresa, está
implícito que você deve se adequar a ela, e não o contrário.

O que dizer na carta de apresentação

Quero ser professor, mas meus pais dizem que professor ganha pouco no Brasil. Como posso
convencê-los de que não se pode colocar um preço em uma vocação?
Diga a eles que você está mais preocupado com as pessoas que poderá ajudar do que com o salário. Mas
esteja seguro de sua vocação. Na hora de pagar as contas, muitas certezas podem virar arrependimento.

O que é uma carta de apresentação?


Uma carta de um ou dois parágrafos que vai junto com o currículo. Ela é solicitada pelas empresas porque os
currículos se parecem muito. É a carta que diferencia um candidato do outro. Ela deve sempre conter algum
dado que estabeleça uma ligação entre você e a empresa. Muita gente resume na carta o que já está escrito
no currículo ou coloca frases de autoelogio (do tipo “sou muito versátil”). Se eu fosse mandar uma carta de
apresentação para um banco, por exemplo, escreveria que minha família é cliente do banco há 20 anos e que
o atendimento sempre foi exemplar. Por isso, essa é a empresa na qual eu gostaria de trabalhar. Esse é o
segredo. O currículo pega mais pela razão, a carta mais pela emoção.

Por que pessoas sem competência chegam a cargos de chefia?


Se não estamos falando em filhotismo ou nepotismo, mas em um processo sério de promoção, é porque os
potenciais candidatos a uma promoção são avaliados de cima para baixo pelos superiores deles. A avaliação
de baixo para cima, aquela que um subordinado faz do chefe, e a avaliação lateral, aquela que um colega faz
de outro, não são levadas em conta. Não estou dizendo que todo mundo que é promovido é competente,
porque empresas são falíveis, mas posso lhe dar uma dica. Se você não se parece – profissionalmente
falando – com as pessoas que têm sido promovidas em sua empresa, muito dificilmente será promovido.
Você até pode ser melhor do que elas em alguns aspectos, mas suas qualidades não batem com as que a
empresa procura em um chefe.

Como saber o que colocar no quadrinho de ‘‘pretensão salarial” quando preenchemos uma ficha de
inscrição?
O ideal seria colocar não um número, mas uma faixa, com uma diferença de 20% entre os extremos. Se isso
não for possível – nas fichas preenchidas pela internet não é –, consulte uma tabela de cargos e salários.
Cadernos de empregos costumam publicá-la uma vez por mês, aos domingos.

Tenho um bom currículo, mas não sou chamado para entrevistas.


Perdoe-me, mas esse que você me enviou não é um bom currículo. Você tem meio currículo bom, na parte
acadêmica, que inclui um MBA. Mas a parte da experiência prática deixa a desejar. Você tem 26 anos e
nunca trabalhou. Empresas, quando avaliam um currículo, buscam equilíbrio entre teoria e prática. Minha
sugestão: consiga um emprego, sem se importar com o salário. Esse é um passo fundamental, que você
deveria ter dado há oito anos. Estando empregado, você terá mais chances de conseguir em breve a vaga que
realmente deseja.

O desemprego não entra no currículo

O que se deve fazer quando há lacunas no currículo? Passei por três períodos recentes de inatividade
profissional, que somam oito meses.

O propósito de um currículo é mostrar as diversas atividades profissionais exercidas através dos anos, e não
explicar a falta delas. Do ponto de vista de quem avalia o currículo, há frases que só geram dúvidas (por
exemplo, “fiquei três meses afastado por motivos médicos”), há situações compreensíveis, como o
desemprego puro e simples ou uma pausa para estudar para um concurso público, e há razões que podem ser
francamente assustadoras para um futuro empregador, como um afastamento para tratamento psiquiátrico. O
mais recomendável é deixar esses períodos de inatividade em branco e esclarecer os motivos depois, em
uma entrevista pessoal. Poderá não ser fácil, dependendo da situação, mas será mais plausível que tentar
criar uma frase capaz de transformar uma verdade inconveniente em uma experiência útil.

Estou há nove anos na mesma função e na mesma empresa. Não vejo perspectivas de mudança, mas
tenho receio de me arriscar e perder a relativa estabilidade que consegui.

Sua preocupação é válida. Sugiro não se cadastrar em sites de empregos nem enviar currículos para quem
você não conhece. Procure opções por meio de conhecidos, que lhe darão referências seguras sobre o
ambiente das empresas em que eles trabalham. Quem passa quase dez anos em um mesmo lugar, fazendo o
mesmo trabalho, sofre certa “síndrome do estranhamento” quando muda de emprego. Você está receoso
porque teme perder não apenas a estabilidade, mas também o tipo de tratamento a que já está acostumado. A
melhor alternativa é partir para um ambiente de trabalho semelhante ao atual, mas em uma empresa que
ofereça mais oportunidades.

Meu diretor contratou um amigo para ser assistente direto dele e disse que eu ficaria subordinado a
esse amigo. Como eu me reportava ao diretor, sinto-me rebaixado.

A dúvida é se a entrada do amigo foi apenas por amizade ou foi porque o diretor precisava de alguém nessa
função e não viu em você as condições para ocupá-la. Minha sugestão: aguarde antes de se rebelar. Em um
primeiro momento, o diretor não fez nada ilegal. E, até que surjam evidências em contrário, também não fez
nada imoral.

Tenho apenas o ensino médio, mas consegui atingir um cargo gerencial em minha empresa, a única de
minha carreira e na qual passei 16 anos. Descontente com meu salário, fiz um acordo e saí, pensando
que não seria difícil me recolocar. Está sendo. Por falta de curso superior, nem consigo ser
entrevistado. Qual seria a solução?

A mais rápida, embora não imediata, é você começar um curso superior de dois anos, o de tecnólogo. É bem
possível que a opinião dos recrutadores já fique mais amenizada pelo fato de você estar estudando. Mas,
mesmo supondo que você consiga um emprego, não deixe de fazer o curso. Se você já percebeu que faz falta
agora, esteja certo de que fará muito mais falta no futuro.

Na entrevista, tente agradar ao gerente

Num processo de seleção, a última pergunta que o gerente me fez foi: “Qual é o seu diferencial?”. Respondi
que tinha muita experiência e formação mais do que adequada para a vaga. Creio que essa não era a resposta
que ele estava esperando, porque não consegui o emprego. O que eu deveria ter respondido?

Há várias respostas satisfatórias, mas a eficácia de cada uma delas depende do estilo do gerente. Ele pode ser
liberal ou conservador, centralizador ou delegante, voltado mais para os processos ou mais para as pessoas.
A melhor resposta é aquela que não vai desagradar ao gerente, qualquer que seja o estilo dele. Mas vamos
supor que você não conheça o gerente e ele, durante a entrevista, não tenha dado nenhuma pista sobre o
estilo dele. Nesse caso, a resposta mais apropriada seria: “Eu sou maleável. Nunca tive problemas com meus
superiores porque sou capaz de me adaptar rapidamente a qualquer situação”. Para quem responde, isso
pode parecer inócuo. Mas, para um futuro chefe que está ouvindo, a certeza de que terá um subordinado que
vai apoiá-lo incondicionalmente é um tremendo diferencial.

Estou pensando em enviar currículos para empresas de meu setor de atuação, mas desconfio que
exista algum grau de comunicação entre essas empresas e a minha. O que pode acontecer caso meu
chefe descubra que estou querendo sair?

Uma de duas coisas: ou ele começará a procurar seu substituto, sem você saber, ou então ele vai convidá-lo
a explicar a situação. Aí, você precisará ter uma resposta prontinha. Se está mandando currículos, você sabe
exatamente por que os está mandando. Ou está descontente com o salário, ou com o ambiente, ou com a
falta de perspectivas. Ao ser questionado, você tanto pode revelar o que realmente o aflige, ou explicar que,
“veja bem, estou mandando currículos só para sentir o mercado”. Como ninguém vai acreditar na segunda
hipótese, o melhor seria você inverter a situação. Fale antes com seu chefe. Exponha o que você está
sentindo em relação a sua situação profissional e pergunte se existe algum plano para você. Se a resposta
dele for negativa ou evasiva, aí você terá um motivo sólido para disparar currículos. Porque, no fim das
contas, você não quer ficar, e seu chefe não demonstrou interesse em reter você.

Minha empresa prega a inovação e o espírito criativo, mas o que eu vejo em meu dia a dia é a velha
rotina de sempre.

Empresas fortemente voltadas para a inovação buscam no mercado pessoas criativas, como deve ser seu
caso. Mas elas não esperam que cada empregado tenha uma ideia genial por dia. O que elas procuram é
gente capaz de olhar para as coisas simples e rotineiras e sugerir pequenas mudanças para aperfeiçoar os
processos. Ao longo do tempo, essas mudanças contínuas, quase imperceptíveis no dia a dia, farão diferença
diante dos concorrentes que se limitam a copiar as ideias alheias. A criatividade sempre estará na soma das
pequenas contribuições de todos os empregados, e não em um eventual estalo de um profissional
superdotado.

O relacionamento pessoal pode ter peso importante na hora de


buscar uma promoção

Eu me considero um bom técnico, mas reconheço que não tenho habilidade para lidar com pessoas.
Não gosto de bater papo durante o expediente e nunca participei do happy hour que meus colegas
promovem. Esse meu modo reservado de ser poderá afetar minha carreira?

Depende de aonde você pretende chegar. O conhecimento técnico poderá conduzi-lo a uma gerência de
segunda linha.

Daí para cima, o relacionamento pessoal terá peso cada vez maior nas promoções. Entenda que não estamos
falando de amizades, mas de política. Ser participativo não significa perder tempo com conversas inúteis,
mas em ser percebido como profissional interessado pelo que seus colegas sentem e querem relatar. Quanto
mais você se mantiver enclausurado em seu canto, menos seu nome será lembrado para uma eventual
promoção. Uma sugestão: faça um curso de expressão verbal, para aprimorar sua habilidade de
comunicação. O curso não vai alterar sua natureza reservada, apenas ensinará técnicas que o deixarão à
vontade e lhe darão mais visibilidade na empresa.

Tenho 20 anos e ouço piadas pelo fato de eu ser mulher e pretender competir de igual para igual com
os homens, maioria na empresa. Eles vivem dizendo “você é bonita, não precisa se esforçar tanto”.
Esse é o mundo que enfrentarei na vida profissional?

Não. Esse é o mundo que está nos estertores. Você vai conviver com os derradeiros representantes de uma
longa era de dominação masculina no mercado de trabalho. A mudança começou há 40 anos e, apesar de
gradual e consistente, é mais lenta do que deveria. A mulher de prendas domésticas, que se sentia
plenamente recompensada com o título de “mãe extremada e esposa dedicada”, não abdicou dessas duas
responsabilidades. Adicionou a elas mais uma: a de gestora de sua própria carreira profissional. Com isso, o
“marido provedor” ficou anacrônico. Num casal do século XXI, provê mais quem tem mais competência. A
mulher que acreditava que tinha de ser submissa apenas pelo fato de ser mulher foi extinta. Não desista de
seus objetivos. Um dia, não muito distante, alguns dos profissionais pouco sintonizados que hoje riem de
você terão de lhe responder “sim, senhora”.

Completei um curso superior, falo inglês e comecei uma pós-graduação, mas as vagas que aparecem
oferecem salários incompatíveis com minha qualificação.
É porque muitas pessoas fizeram esses mesmos cursos, e isso reduziu o diferencial acadêmico num processo
de seleção. A proliferação de faculdades, fenômeno que ganhou força no Brasil na década de 90, colocou um
diploma universitário ao alcance de milhões de jovens que, antes, nem sonhavam em ser bacharéis. O efeito
foi o aumento nos pré-requisitos para contratações. Vagas que exigiam o ensino médio agora requerem curso
superior. Com os diplomas que você tem, está apto a se candidatar a uma boa vaga. Sem eles, não estaria.
Encare isso como o começo de uma longa estrada, e não como o fim da picada.

Empresas vão sair no lucro e as mulheres terão benefícios. Mas os


homens jovens precisam se preocupar

Por que as mulheres não têm as mesmas oportunidades que os homens no mercado de trabalho? Elas têm.
Apenas ganham menos que os homens. Ainda. Os salários femininos estão 35% abaixo da média dos
masculinos para funções equivalentes. Mas não é um fenômeno brasileiro. Na Alemanha e na Inglaterra, a
disparidade salarial chega aos 25%. A situação muda quando avaliamos não dados estáticos, mas a evolução
da situação. Em 1970, só 18% das brasileiras estavam no mercado de trabalho. Hoje, esse número está perto
de 50% e bate os 55% na Grande São Paulo. Nas faculdades, há mais mulheres matriculadas que homens. E
um professor de uma universidade paulistana me forneceu um dado revelador: em média, os homens faltam
a 17% das aulas. As mulheres, a 4%. Algo me diz que, aos poucos, as mulheres ocuparão cargos mais altos e
os salários vão se igualar, embora não do jeito que gostaríamos. Como elas serão maioria no mercado de
trabalho e continuarão aceitando salários menores, puxarão para baixo os salários masculinos de admissão.
Isso será bom para as empresas, porque o custo da mão de obra cairá. Será relativamente bom para as
mulheres, porque o salário delas subirá. Ao contrário do que a situação presente parece mostrar, os jovens do
sexo masculino é que deveriam estar mais preocupados.

O que se deve alegar para faltar ao trabalho quando vamos a uma entrevista em outra empresa?

“Resolver problemas pessoais.” Olhe para sua própria empresa. A que horas ela entrevista candidatos a
emprego? Às 3 da madrugada? Aos domingos? Não. As entrevistas são conduzidas em dias úteis, durante o
horário de expediente. E certamente os entrevistadores de sua empresa não perguntam aos candidatos que
desculpas eles deram para faltar ao trabalho. Por outro lado, nas demissões que sua empresa fez no ano
passado, os demitidos foram avisados com antecedência? Não creio. A má notícia é dada no momento da
demissão. Se as empresas agem conforme seus interesses – e não estão faltando com a ética ao fazê-lo –,
elas entendem que os empregados podem agir da mesma maneira em relação a sua carreira.

Há uma vaga de supervisão aberta em meu setor. Não sou candidata, mas meu gerente me perguntou
quais de meus colegas, em minha opinião, não reuniam condições para o cargo. E eu dei três nomes.
Fiz mal?

Fez muito mal. Se isso vazar, você ficará numa situação bastante desagradável perante seus colegas. A
resposta correta seria: “Não tenho condições de avaliar o que a empresa espera de um supervisor, mas tenho
certeza de que o senhor, seu gerente, vai tomar a decisão mais correta”. Sinceridade é uma virtude, mas há
momentos em que a sabedoria recomenda manter a boca fechada. Esse era um deles.

Ter tido quatro empregos em três anos é ruim para o currículo?

Se você foi dispensado de todos, é péssimo. Se está empregado e pediu a conta três vezes para ganhar mais,
já não é tão ruim. Mesmo assim, você estreitou seus horizontes. A maioria das empresas prefere não
contratar o “funcionário-pulga”, aquele que tem um histórico de muitos saltos em pouco tempo

O que não dizer na entrevista de emprego

Em uma entrevista de emprego, perguntaram-me por que eu pretendia largar a empresa em que
trabalhava. Listei vários fatores negativos. Percebi que, depois disso, a conversa esfriou e a entrevista
acabou em três minutos. Ser sincero – e criticar o atual emprego – é um pecado para quem deseja se
recolocar?

Ao contrário do que parece, a pergunta do entrevistador nada tem a ver com sua empresa atual e tudo a ver
com situações que você encontraria na nova empresa. Muito provavelmente, a conversa esfriou porque o
entrevistador sentiu que você poderia ter, no novo emprego, reações negativas parecidas com as que você
tem no emprego atual. A melhor resposta seria que você mudaria porque enxerga mais oportunidades na
nova empresa. Ou seja, você quer trocar o bom pelo melhor. As críticas que você fez passaram ao
entrevistador a impressão, mesmo que incorreta, de que você quer trocar o ruim por qualquer coisa.

Quando as empresas voltarão a contratar?


Os 16 países que adotam o euro na Comunidade Europeia têm uma população somada de 332 milhões de
pessoas. Dessas, 158 milhões trabalham, e o índice de desemprego em maio de 2009 foi de 9,5% – 15
milhões de desempregados. Nos últimos 12 meses, 3,4 milhões perderam seus empregos – um em cada 46
trabalhadores. Segundo dados do Dieese, a região metropolitana de São Paulo tem 19,2 milhões de pessoas,
das quais 10,6 milhões trabalham. O índice de desemprego em maio de 2009 foi de 14,8%, bem mais alto
que na Europa do euro, e corresponde a 1,6 milhão de desempregados. Porém, ainda segundo o Dieese, nos
últimos 12 meses a taxa de desemprego cresceu apenas 0,8% – um em cada 126 trabalhadores ficou sem
emprego – três vezes menos que na Europa. Em um ano foram reduzidos apenas 84 mil postos de trabalho
para um contingente de 10,6 milhões de empregados. É claro que ocorreram demissões por aqui, mas elas
ganharam muito mais espaço na mídia que a reposição de vagas. O aumento mínimo da taxa de desemprego
no Brasil não é suficiente para justificar uma crise, ao contrário do que ocorre na Europa. Portanto, as
empresas estão contratando. As vagas podem não corresponder às expectativas de muitos profissionais, e
muita gente boa está de fato desempregada. Mas essa situação existia antes da eclosão da crise mundial. Há
12 meses, quando tudo parecia ir de vento em popa, tínhamos 1,5 milhão de pessoas sem emprego na região
metropolitana de São Paulo. Hoje, temos 1,6 milhão. Bom não é. Mas, comparativamente, não é nada
assustador.

Sou executiva, casada há cinco anos e estou pensando em engravidar. Compartilhei essa intenção com
meus superiores, e eles não gostaram da ideia, apesar de eu afirmar que a criação de meu filho não vai
atrapalhar minha carreira.
De coração aberto, eu lhe sugiro esperar mais um pouco, até que você possa inverter a frase e afirmar com
convicção que sua carreira não vai atrapalhar a criação de seu filho.

Quando vale a pena começar de novo?

Estou insatisfeito com o rumo de minha vida profissional. Vale a pena arriscar uma mudança radical?
Mudar de área, fazer outro curso ou mesmo me tornar autônomo?
Essa mosquinha da mudança costuma picar profissionais ali por volta dos 40 anos. É nessa idade que os
questionamentos sobre a carreira ficam mais fortes, porque o que deveria ter acontecido não aconteceu, e a
impressão é que só uma virada radical colocaria as coisas nos eixos. Empregados consideram abrir um
negócio próprio e microempresários querem retornar ao mercado de trabalho. Professores pensam em ser
executivos, e executivos em se tornar professores. Mudanças radicais podem funcionar, desde que quatro
critérios sejam observados. Primeiro: mude por uma oportunidade, não por uma desilusão. Não mude porque
você não gosta de seu chefe ou de sua empresa. Segundo: não mude só porque você conhece alguém que se
deu bem fazendo algo que você acha que também poderia fazer. Terceiro: não mude sem entender bem as
exigências da nova carreira. Ter vontade é bom e ser otimista também, mas cada carreira tem suas
exigências específicas. Quarto – e mais importante: não chute o pau da barraca. Não minimize o que você já
conseguiu. Pense na mudança como um projeto progressivo. Prepare-se para ela fazendo cursos e –
principalmente – estabelecendo contatos com pessoas da área. Sempre é possível recuperar o tempo perdido,
mas mudar sem planejamento adequado normalmente resulta em mais perda de tempo.
Vou deixar a empresa após três anos. Gostaria de mandar uma mensagem simpática de despedida,
para deixar as portas abertas. O que escrever?
Por que você escreveria uma mensagem dizendo a mesma coisa para “trocentas” pessoas? O efeito seria o
mesmo de um spam – aquelas inutilidades que pipocam diariamente em nossos correios eletrônicos e que
lemos, apagamos e esquecemos. Ao escrever aos colegas em geral, você estaria dizendo àqueles que
realmente apreciam você, como pessoa e como profissional, que você os considera iguais a todos os outros.
E o efeito é que você perderá simpatias, ao invés de ganhá-las. Em vez disso, converse pessoalmente com
aquela meia dúzia cujo contato vale a pena manter, ou por gratidão, ou porque essas pessoas poderão ser
relevantes para seu futuro profissional. Quanto a deixar portas abertas, uma mensagem final não vai ajudar
muito. As portas se abrem ou se fecham não pelo que um empregado escreve na despedida, mas pelo que
demonstrou durante os anos de convivência.

Aceitei sair de uma multinacional para ser gerente em uma pequena empresa familiar. O problema é
que o dono prefere perguntar direto para meus subordinados.
Há muitas vantagens em mudar para uma empresa menor: menos pressão, menos anonimato e não existe
aquela concorrência acirrada das multinacionais. Mas também há desvantagens: aprender a conviver com o
dono, uma figura ímpar que começou o negócio do nada e conseguiu sucesso. Isso dá a ele, no mínimo, o
direito de perguntar o que quiser para quem quiser.

Como lidar com colegas mais velhos

CURIOSIDADE. Vem do latim cura, “cuidado”. Nas empresas, ser curioso aumenta o conhecimento, mas
ser cuidadoso com as perguntas aumenta a vida útil. Como lidar com um colega de mesmo nível hierárquico
que o meu, porém com mais tempo de casa, que vive me dando ordens? – E.C.

Com paciência. Quando você receber uma ordem dele, diga que terá prazer em ajudar. E, a cada três ordens,
recuse uma, alegando que você tem um trabalho importante para concluir. Essa alternância mostrará que
você está disposto a colaborar, mas não a obedecer.

Onde encontro ofertas de vagas para tecnólogo? - V.J.

Nos jornais de maior circulação (normalmente, aos domingos) ou na internet. Se você fizer uma busca com
duas palavras-chave, como “vagas” e “trabalho”, encontrará centenas de sites com ofertas. E aí poderá
refinar sua pesquisa por Estado, cidade, setor e função. Outra opção é cadastrar seu currículo em sites. Antes
da internet, as empresas publicavam anúncios em jornais e os interessados respondiam. Agora, com milhões
(sem exagero) de currículos cadastrados em sites, elas procuram diretamente os candidatos mais adequados.
Essa se tornou praticamente a regra para funções que não envolvem liderança direta de equipes, como
tecnólogos.

Sou formado em Direito. Ao saber que empresas estão procurando técnicos, comecei a fazer
administração... - A.C.M.

Administração não é curso técnico. É graduação superior. Cursos técnicos são aqueles anteriores à
graduação, como técnico em contabilidade ou técnico químico. E, de fato, empresas estão à procura de
técnicos, porque a maioria dos jovens decide pular esse importante estágio e partir direto para uma
faculdade.

Qual é a formação mais indicada para quem deseja trabalhar em um grande banco? - D.G.

Se for alguma formação ligada à área financeira ou contábil, seria melhor, mas bancos não fazem restrições
a bacharéis em Direito, administração ou engenharia. Na verdade, eles procuram gente capaz de trabalhar
em equipe e de suportar uma pressão contínua por resultados. Isso depende muito mais de cada indivíduo
que de sua formação.
Se eles vivem dando ordens só porque têm mais
tempo de casa, o mais importante é ter paciência

É correto pensar que empresas familiares só dão oportunidades de crescimento a parentes e amigos de
parentes? - F.S.

Não, não é correto. Há empresas familiares profissionalizadas. Nelas, as promoções são baseadas no mérito.
Como também existem empresas não familiares que privilegiam a cupinchada. Em 30 dias, já dá para
perceber como uma empresa age. Se a sua não age como você gostaria, há duas saídas: adaptar-se ou se
mandar. Num momento não muito fervilhante, como o atual, sugiro que você aguente mais um pouco.
Quando a crise abrandar, muitas empresas reporão as vagas que estão cortando.

O que vale mais na hora de conseguir um emprego num escritório de advocacia: o nome da faculdade
ou a capacidade do candidato? - D.A.

Você teria primeiro de passar no exame da OAB (só 18% passam). Depois, o renome da escola certamente
terá influência. Finalmente, uma indicação direta para uma vaga fará a diferença, caso haja vários candidatos
com igual aptidão.

Estou realizando um antigo sonho de fazer pós-graduação no exterior. Para isso, tive de pedir
demissão de meu emprego. Depois de um mês, comecei a cair na real. Vou ficar dois anos fora do
mercado brasileiro de trabalho, e estou com 40 anos. - S.M.

Faça e mantenha contatos enquanto você estiver aí. Tantos quantos você puder. Com seus colegas e chefes
da empresa em que trabalhava e com qualquer um cujo nome você lembre, incluindo o pessoal da faculdade
de 15 anos atrás. Escreva dizendo em que país você está e coloque-se à disposição, mas sem mencionar
trabalho. Se você conseguir manter uma correspondência estável com umas 30 pessoas, poderá começar a
falar em emprego quando faltarem três meses para a volta.

Um antídoto contra o saco cheio

Estou de saco cheio no meu emprego... – S.L.

Ah, uma refrescante expressão que os mortais entendem. De modo geral, o que gera esse tipo de insatisfação
é a falta de perspectiva – aquela incômoda sensação de que amanhã será igual a ontem. Isso ocorre quando a
pessoa pensa em um emprego, em vez de pensar em uma carreira. Um emprego é sempre uma relação de
curto prazo, porque pode terminar a qualquer momento. Uma carreira é feita de decisões pessoais, sem a
participação da empresa, que visam ao total esvaziamento do saco no longo prazo. Sugestão: estude,
aperfeiçoe-se, participe de seminários, conheça profissionais que poderão auxiliar na construção de seu
futuro. Se você pensar apenas em trocar de emprego, sua situação continuará a mesma.

Concluí Biblioteconomia, e penso fazer uma pós em Ciência da Informação, para aumentar minha
empregabilidade... – B.M.

Epistemologicamente, são cursos congêneres. A ciência da informação é a aplicação de recursos


tecnológicos à biblioteconomia, que hodiernamente abrange tanto os livros analógicos quanto o universo
digital. Se sua graduação foi adequada, você já aprendeu isso. Seria melhor você fazer um MBA, que lhe
agregaria conhecimentos de administração e aumentaria suas chances de trabalho em outros setores, porque
o mercado para biblioteconomistas ainda é restrito no Brasil.

O que seria mais indicado: uma viagem de turismo ao exterior para aperfeiçoar o inglês ou um curso
no Brasil? – W.H.T.
Quando o entrevistador lhe perguntar “What are your earnings?”, a origem de sua fluência será irrelevante
se você não conseguir diferenciar earnings de earrings. A vantagem do curso é que você terá professores
para corrigir seus erros. A vantagem de ir para o exterior é que você se divertirá bem mais. Se você não for
com a falsa impressão de que conseguirá facilmente um emprego ao regressar, então vá, aprenda e se divirta.

A falta de perspectiva – origem da insatisfação – ocorre quando


você pensa em um emprego, em vez de pensar em uma carreira

Mudei de uma multinacional para uma empresinha, que tinha – entre outras barbaridades – um
sanitário para 24 funcionários. Forcei minha demissão e gostaria de saber como explicar em
entrevistas por que fui demitido. – P.J.D.

A média de sanitários per capita (ou outras partes anatômicas) não seria uma boa explicação. E dizer que
você forçou a demissão seria um suicídio profissional. Você pode usar o argumento de sua falta de
adaptação a métodos ultrapassados, por exemplo. Mas evite fazer críticas ou piadas sobre sua ex-
empresinha. O entrevistador pode até rir, mas não vai contratá-lo.

Meu marido e eu levamos um susto quando lemos que cursos técnicos geram mais empregos que
faculdades e cursos posteriores de nível mais alto. Estamos tentando dar a nosso filho uma educação
acadêmica diferenciada... – N.G.F.

Muitos pais incentivam os filhos a concluir quanto antes um curso superior, mesmo que, para isso, seja
necessário pular o estágio intermediário, o do curso técnico. Essa preocupação, sem dúvida louvável, acabou
criando um hiato no mercado de trabalho. Estão faltando técnicos, e sobrando bacharéis. Por isso, técnicos
se empregam mais facilmente, numa aplicação da lei da oferta e da procura. Mas não se assustem demais.
Uma formação realmente diferenciada (em faculdade de primeira linha, com prestígio junto a recrutadores
das empresas) ainda se constitui em uma vantagem.

Em que os candidatos mais erram na entrevista

PALAVRA DA SEMANA: SIMPÓSIO – Literalmente, “beber em grupo”, do grego syn, “junto”, e


posion, “beber”. Na Grécia Antiga, simpósios eram encontros sociais em que os convidados bebiam
enquanto filosofavam, ou vice-versa. Hoje, é uma assembléia solene em que o orador discursa e a platéia
escuta. Tomar uma, nem pensar.

Não vou bem em entrevistas... – 21 leitores, apenas nos últimos 15 dias.

A questão básica é de argumentação, que é o uso de premissas para chegar a uma conclusão. A conclusão é
sempre a mesma: “Sou o candidato ideal para a vaga”. Mas, na maioria dos casos, os entrevistados usam
premissas em que eles acreditam, mas que não fazem sentido para o entrevistador. Há três tipos de premissas
erradas. A primeira é a premissa subjetiva. Eu sou muito esforçado. Eu tenho espírito de liderança. Essas são
opiniões pessoais, e não fatos concretos. A segunda é a premissa acusatória. Meu ex-chefe não me dava
oportunidade. Meus colegas eram invejosos. E a terceira é a premissa de auto-indulgência. Não tive
oportunidade de fazer o curso que eu queria. Perdi tempo, mas quero recuperar. Todas essas premissas
podem ser verdadeiras, mas não são sustentáveis. A argumentação que de fato funciona em entrevistas é:
premissa um – o que já fiz de prático. Premissa dois – o que eu sei sobre esta empresa. Premissa três – que
contribuições eu posso dar em curto prazo. Conclusão – sou o candidato ideal.

Sou gerente de recrutamento de uma empresa de porte. Não temos tido dificuldade com contratações,
porque pagamos salários razoáveis. Mas não conseguimos manter os novos contratados por muito
tempo. Praticamente todos eles saem antes de completar dois anos. Será que estamos errando no
processo seletivo ou essa é mesmo a tendência dos jovens? – G.P.F.
Os jovens certamente estão mais apressados em relação ao desenvolvimento da carreira, mas não creio que
esse seja o motivo para uma rotatividade tão alta como a que você menciona. As estatísticas de sua empresa
devem estar mostrando a chamada “média enganosa”. Há um grupo estável de funcionários, com mais de
dez anos de casa, e outro grupo volátil, com menos de dois anos. A média geral dá perto de seis anos, mas
não há um único funcionário com seis anos de casa. Além disso, a média só aumenta com o passar do
tempo, porque os antigos não saem e os novos não ficam. Imagino que isso ocorra porque os recém-
contratados não vêem perspectivas de carreira. Um dos indicadores é o número de promoções, que deve ser
relativamente baixo, devido à estabilidade dos gestores. Resultado: os jovens percebem rapidamente que não
há para onde ir. Se existe um erro no processo seletivo, é bem possível que ele seja de acenar com um futuro
que não vai se realizar. Nesse caso, você deveria orientar o processo para a contratação de jovens que dêem
mais importância à estabilidade que à ambição de curto prazo. Uma pergunta comum em entrevistas –
“Como você se vê daqui a cinco anos?” – já resolveria a questão. Mas eu sugiro que sua empresa repense o
sistema de promoções, dando mais oportunidades aos jovens, mesmo que, num primeiro momento, isso
descontente os mais antigos. Caso contrário, há um sério risco de obsolescência gerencial.

O que funciona é dizer:


1) o que você já fez; 2) o que sabe sobre a empresa; 3) como você pode contribuir

Faço apresentações em PowerPoint para clientes, mas percebo que começo bem e vou perdendo o
ritmo. Nos últimos minutos, os mais importantes, não vejo a hora de encerrar... – R.R.

Supondo que você não tenha dificuldade para falar, aqui vão duas sugestões. Na primeira tela, coloque o
tempo de duração da apresentação. Se o tempo for inferior a 20 minutos, a platéia não somente ficará
informada e aliviada como tenderá a prestar mais atenção. Segunda sugestão: se sua apresentação tem mais
de 20 minutos, reduza-a para 20 minutos. Assim, você terminará antes de começar a perder o ritmo, e poderá
usar o restante do tempo para responder às perguntas dos presentes.

O direito a férias dos estagiários

Sou estagiário há 15 meses. A nova Lei do Estágio me concedeu direito a férias remuneradas de 30
dias a cada 12 meses. Já posso solicitá-las? – J.J.

Sinto desapontá-lo, mas o texto da nova lei (nº 11.788) não prevê a retroatividade. O direito ao recesso anual
de 30 dias só começa a contar a partir dos contratos assinados após a data da publicação da lei (25 de
setembro). Quanto aos contratos baseados na legislação anterior – o seu caso e de 1 milhão de estagiários
pelo Brasil –, eles podem ser refeitos ou continuar valendo até a data prevista, a critério da empresa. Na
segunda hipótese, um estagiário contratado em agosto não teria direito ao recesso ao final de um ano, mas
um contratado em outubro teria. Acredito que as empresas usarão o bom senso para evitar esse paradoxo.

Qual é o verdadeiro papel da área de planejamento? Porque trabalho em uma e não planejamos nada.
Só preparamos planilhas e mais planilhas. – C.L.B.

Imagine que você vai planejar uma viagem de férias com sua família. Você primeiro decidirá aonde quer ir e
depois se preocupará com os detalhes – custos de transporte, hotel, refeições –, para ver se o projeto se
encaixa em seu orçamento. Nas empresas, a primeira parte (aonde queremos chegar) é decidida nos escalões
mais altos. E a segunda parte (o que precisamos para chegar lá e quanto vai custar) cabe à área de
planejamento. Basicamente, por meio de solicitação de dados a todas as áreas envolvidas e da preparação de
planilhas que mostrarão se a visão da alta cúpula é ou não factível. É um papel importante por sua
complexidade, mas – e creio que essa seja sua dúvida – não é a área de planejamento que decide os rumos da
empresa.

Tenho 23 anos e estou numa fase de questionamentos. Qual é o caminho para chegar à direção de
grandes empresas? – M.N.
Esse é, de fato, um questionamento e tanto. Não que eu ache que você não deva ter grandes ambições, muito
pelo contrário. Mas, no início da carreira, isso tanto pode ser um estímulo quanto um perigo. Se você se
preocupar demais com o futuro, e não se concentrar no presente, a chance de você escorregar é grande. E,
sobretudo, tente decifrar sua empresa, entendendo quais são os critérios de promoção que ela usa. De todos
os presidentes de grandes empresas que eu conheço, nenhum tinha, aos 20 anos, a ambição de chegar a esse
cargo. E todos eles chegaram não com grandes saltos, mas dando pequenos passos, um de cada vez.

A nova lei vale para quem for contratado agora. Quem já faz
estágio depende da boa vontade das empresas

Enviei meu currículo para uma agência de head hunting. Não obtive resposta... – W.T.

Consultei uma das maiores agências brasileiras do gênero. Ela recebe, por semana, cerca de mil currículos
não solicitados. Uma triagem inicial é feita e apenas 50 vão para o banco de dados. Desses 50, três serão
convidados para participar de futuros processos seletivos. Embora isso possa soar meio descortês para os
outros 997, a falta de resposta é uma resposta.

Deixei meu emprego – de gerente, com ótimo salário – porque a empresa em que eu trabalhava não
era ética. Entre preservar meus valores pessoais e atender aos interesses dos acionistas, optei por
pedir demissão. Estou em dúvida se devo mencionar isso em entrevistas, quando for questionado
sobre os motivos de minha saída. – P.E.

Como regra geral, não se deve falar mal da ex-empresa (ou do ex-chefe) em entrevistas. Mas seu caso foge à
regra. Você não está se referindo a intrigas ou perseguições imaginárias, mas a fatos concretos. Sem dúvida,
você deve revelar os motivos que o levaram a sair. Assim, não correrá o risco de vir a ser contratado por
outra empresa semelhante à que você deixou.

As maiores insatisfações de quem trabalha

Sou diretora de RH e estou preparando o plano estratégico de minha área. Gostaria de saber quais as
questões mais freqüentes que você recebe. – S.M.I.
Boa pergunta. Para quem já está trabalhando, o principal tema é “insatisfação” com (1) a função, (2) o
salário, (3) o chefe, (4) a empresa e (5) um ou mais colegas. Para quem não está, o tema é “dúvida” com (1)
o curso que pretende fazer, (2) o curso que está fazendo, (3) o comportamento em entrevistas, (4) a
preparação do currículo e (5) aquela sensação de “estou perdido e sem rumo”. De cada dez consultas, oito
envolvem uma dessas questões.

Quero ser consultor. Por onde devo começar? – C.L.


Trabalhando para uma consultoria. De preferência, de pequeno porte. É a melhor maneira de aprender como
prospectar clientes, como preparar projetos, quanto cobrar por hora e vários outros detalhes que só se
adquire por meio da experiência prática. Em um ano, você terá informações suficientes para decidir se quer,
mesmo, ser consultor. Evidentemente, além do desejo e do entusiasmo, você precisa ter um sólido
conhecimento técnico da área em que pretende atuar.

O ramo da moda é promissor? – P.R.


Sempre foi e sempre será. Mas tudo depende de seu talento e de sua ambição. Se você pretende se tornar um
estilista, o caminho será extremamente árduo, porque vai requerer muito investimento e bons contatos para
ingressar num círculo bastante restrito. Agora, se você pretende iniciar sua carreira no setor operacional de
uma confecção, sem o objetivo de criar, um curso de tecnólogo em vestuário lhe dará condições para pleitear
uma vaga e dar os primeiros passos na carreira.

As principais queixas são (1) da função, (2) do salário,


(3) do chefe, (4) da empresa e (5) de um ou mais colegas
Depois de trabalhar quatro anos em uma empresa, troquei de emprego porque achava o ambiente
insuportável. Agora, após apenas três meses nesta nova empresa, descobri que a anterior não era tão
ruim assim, porque a atual é péssima em todos os sentidos. Devo me humilhar e pedir para voltar? –
M.R.
Tudo na vida é uma questão de referência. Quem está em uma empresa, mas não tem meios práticos para
compará-la com outras, tende a ampliar os aspectos negativos dela e a enxergar os fatores positivos como
“obrigação”. Uma mudança sempre provoca um choque de realidade e coloca as coisas na perspectiva
correta. Creio que a palavra certa no seu caso não seria “humilhação”, e sim “reavaliação”. Sem dúvida,
você deve tentar voltar, porque passará a ver o ambiente anterior com outros olhos.

Estou há cinco anos nos Estados Unidos, trabalhando legalmente, mas executando tarefas não
condizentes com minha formação (sou bacharel em Direito, e minha função é de motorista). Quero
regressar ao Brasil, mas não sei como serei avaliado pelas empresas. – T.O.B.
Certamente, como motorista. Essa é a sua real especialização prática. Você encontraria por aqui
oportunidades em empresas de transporte de executivos, que necessitam de motoristas com fluência em
inglês. Mas, lamento dizer, as chances de você ser admitido de imediato em uma área ligada ao Direito são
praticamente nulas. Sua história, porém, poderá servir de exemplo para jovens que estejam pensando em sair
do Brasil com a impressão de que passar um período no exterior, fazendo qualquer coisa, melhora o
currículo. Na quase totalidade dos casos isso não ocorre, e ainda cria um perigoso hiato na carreira.

Quando a empresa cobre a sua oferta

Depois de passar quatro anos na mesma função – analista –, recebi uma proposta de uma grande
empresa para ganhar 35% a mais. Imediatamente, minha empresa cobriu a proposta. Estou em
dúvida. – F.C.

Deixe que o quesito “oportunidades futuras” decida por você. Sua empresa atual precisou tomar o susto de
perdê-la para reconhecer que você merecia ganhar mais. Se você ficar, é bem provável que a situação se
repita. Porque, na visão de empresas que só concedem reajustes quando são forçadas a fazê-lo, um aumento
de 35% será mais que suficiente para deixá-la feliz por outros quatro anos. Se a grande empresa possui um
plano de carreira para curto e médio prazo, a opção de mudar seria melhor.

Tenho um currículo excelente, tanto que sou chamado para muitas entrevistas. Mas nunca consigo
chegar à fase final dos processos. Nos últimos dez meses, acumulei cerca de 30 frustrações. O que está
me faltando? – E.J.

De fato, tecnicamente falando, seu currículo é diferenciado. É possível que você esteja derrapando num
pormenor vital: a habilidade para convencer os entrevistadores de que você será tão bom como colega de
trabalho quanto é como técnico. Por exemplo, você pode ter um tom de voz agressivo. Ou não consegue ser
tão claro ao falar. Ou talvez seja inibido. Minha sugestão – não só para você, como para qualquer
profissional, de qualquer idade – é um curso de expressão verbal. Mesmo para quem imagina que se
comunica bem, o curso será útil como aperfeiçoamento, devido a sua curta duração – normalmente, 12 horas
– e ao conteúdo prático das aulas.

Qual é sua avaliação sobre uma carreira em Biblioteconomia? – S.M.

Pelas informações disponíveis – e que são bem poucas –, o maior número de vagas está sendo oferecido
através de concursos públicos. Mas eu sugiro que você faça, paralelamente, um curso de Ciência da
Computação. A internet é a maior biblioteca do mundo, e só vai aumentar de tamanho e de importância nos
próximos anos.

Se a empresa só concedeu reajuste porque foi forçada,


é provável que o próximo aumento demore
Sou formado em Relações Internacionais (R.I.) há dois anos e não consigo emprego em minha área... –
S.P.R.

Mesmo correndo o risco de ser corrigido pelas instituições que oferecem o curso, R.I. provê uma formação
genérica (com uma grade curricular que inclui Direito, Economia, Estatística, Sociologia, História e
Política). Enfatizo que “genérico” significa “não-especializado”, ou seja, permite ao candidato se capacitar a
vagas em qualquer setor administrativo da empresa. Em função disso, a competição acaba se dando com
formandos em Administração, também um curso genérico. A diferença é que, por exemplo, uma vaga de
assistente de crédito e cobrança é vista por um administrador como compatível com sua formação, enquanto
quem se forma em R.I. não enxerga essa eqüidade funcional. Esse é o problema: ao buscar vagas específicas
para bacharéis em R.I., os jovens descobrem que elas inexistem na maioria das empresas privadas. Por isso,
a opção preferida por eles tem sido os concursos públicos.

Um MBA é indicado para quem deseja subir de cargo ou para quem já exerce uma função gerencial?
– H.L.

As duas coisas. Só não é indicado para quem acaba de terminar a faculdade e ainda não adquiriu suficiente
experiência profissional. Nesse caso, o jovem teria o título, mas não conseguiria absorver o que o MBA
oferece de melhor, o enfoque prático e a troca de informações.

Tenho 33 anos, trabalho em vendas e ganho bem. Mas penso em ser psiquiatra... – M.D.

Deve haver alguma razão por trás dessa idéia. O curso o ajudará a descobri-la.

Para convencer os outros, convença a si mesmo

PALAVRA DA SEMANA: RESPEITO. A soma de tudo o que alguém conseguiu acumular no passado e
que merece consideração no presente. Em latim, respectus era o particípio passado do verbo specere,
“olhar”, antecedido pelo prefixo re, “para trás”.

Acho que minha profissão atual é “candidato a emprego”. É só isso que tenho feito nos últimos oito
meses – testes e entrevistas. O que mais me preocupa é que estou entrando numa crise de
autoconfiança. Quando começo a conversar com um entrevistador, fico com a impressão de que ele
está pensando: “Se nenhuma empresa contratou você, por que a nossa iria contratar?” – J.V.C.

Ou, então, o entrevistador pode estar pensando: “Como as empresas são míopes! Um candidato maravilhoso
desses disponível no mercado!”. São raros os recrutadores que perguntam por quantos processos o candidato
passou nos últimos meses e quais seriam – ainda na opinião do candidato – os motivos para não ter tido
sucesso em nenhum deles. Mas, mesmo que essa pergunta não seja feita, ela fica subentendida. E é crucial.
Porque, se o candidato não souber respondê-la para si mesmo, não vai convencer o recrutador de que é a
pessoa ideal para a vaga. E a resposta nada tem a ver com azar, ou ansiedade, ou com a situação difícil do
mercado. Tem a ver com sua concentração durante a entrevista, para não ficar imaginando caraminholas.
Você conhece a empresa? Pesquisou a história dela? Você se preparou com exemplos práticos para
demonstrar qual será sua contribuição naquela função? Nenhum entrevistador convoca um candidato para
um processo sem ter bons motivos. Por isso, na próxima entrevista, não fique pensando no que o
entrevistador possa estar pensando. Pense que você não está ali por acaso. Está ali porque sua experiência e
seu currículo já o recomendaram.

Devido à minha ambição, meus colegas me menosprezam... – L.M.D.

Ou você se supervaloriza. Quando um grupo inteiro se indispõe com uma pessoa, a possibilidade de o grupo
estar enganado é remota. Ter ambição é bom, mas leia a resposta a seguir.

Se você quer ser contratado por uma empresa, deve saber


dizer em que pode ajudá-la a ser melhor
Estou em meu primeiro emprego e quero um dia chegar a CEO. O que preciso fazer? – M.M.

A resposta daria um livro de 600 páginas, mas vamos simplificar. As habilidades a seguir são cumulativas –
isto é, não adianta ter a seguinte se você não tiver a anterior. Se você for tecnicamente competente, será um
bom empregado. Se mostrar suficiente liderança, será promovido a supervisor. Com um bom marketing
pessoal, chegará a gerente. Se tiver inteligência política, a diretor. Se for o mais eficaz dos diretores, terá
chances de chegar a CEO. Em cada uma dessas etapas, você vai deparar com pessoas com condições
similares às suas para dar o passo seguinte. E vai se diferenciar delas através de seus resultados mensuráveis
de curto prazo. Uma dica que vale para qualquer momento de sua carreira: não perca seu tempo reclamando
de situações cujas soluções estão fora de seu alcance.

Que impacto um curso de ensino a distância tem no currículo? – J.G.

Como substituto de um curso superior presencial, o impacto será pequeno. Mas, se o curso for colocado
dentro do item “aperfeiçoamento profissional”, ao lado de outros cursos, o impacto será positivo, porque
mostrará seu interesse e sua vontade de continuar aprendendo e se atualizando.

Estou em dúvida entre um mestrado e um MBA... – K.L.

Se você tem em mente uma carreira acadêmica, ou como profissional liberal, opte pelo mestrado. Se seu
foco for uma carreira em empresas privadas, pelo MBA.

Qual é o tempo máximo e mínimo que se deve permanecer em uma empresa? – C.S.

O máximo é a vida profissional inteira. O mínimo é um dia, se a pessoa entrar e descobrir que a empresa
está envolvida em atividades ilegais. Entre esses dois extremos, está o bom senso, que não tem relação direta
com o tempo. Como regra geral, não se deve mudar só por mudar nem ficar só por medo de mudar.

Sócio também pode ser demitido

PALAVRA DA SEMANA: IDIOSSINCRASIA. Uma característica de comportamento peculiar a um


indivíduo. Por exemplo, se o boy chega atrasado todo dia, ele é indisciplinado. Mas, se o chefe tem esse
mesmo hábito, ele é idiossincrático.

Abandonei uma carreira de 12 anos, juntei minha poupança e abri um negócio próprio. Como sou
mais técnico do que vendedor, fiz sociedade com um amigo, que ficou encarregado de conseguir
clientes. Só que, passados quatro meses, ele não conseguiu nenhum. Estou me matando sozinho,
enquanto meu amigo passa o dia falando ao telefone, acessando a internet e repetindo que “as coisas
estão difíceis”. – W.T.

Converse com seu contador e peça para ele preparar um demonstrativo dos custos e direitos, seus e de seu
sócio, para desfazer a sociedade. Se seu sócio entrou com um capital equivalente ao seu, menos mau. Cada
um sai com o que investiu. Se ele entrou apenas com a boa vontade, na pior das hipóteses você perderá
metade de sua poupança. Isso é ruim, mas ainda é melhor que carregar um sócio inoperante, que poderá lhe
custar a poupança inteira. Para nossos leitores que pensam em abrir um negócio próprio, uma dica: em se
tratando de sociedades, a palavra “amigo” costuma ser perigosa.

Estou indignado, porque mando currículos para empresas e não recebo respostas... – H.I.M.

Eu diria que 20% das empresas, se tanto, lêem os currículos que recebem. Se o seu foi lido, o motivo mais
lógico para a falta de resposta é também o mais doloroso. Seu currículo não interessou. E a causa mais
provável é que você esteja se candidatando a funções que exigem mais experiência ou escolaridade do que
você possui. Ou, então, você está mirando em algum setor saturado, em que as contratações são
majoritariamente feitas por meio de indicações. Portanto, ou baixe suas exigências, ou procure conhecer
pessoas que possam indicá-lo. Indignação, eu lamento dizer, não gera oportunidades de emprego.
Para se livrar de um amigo que não trabalha, você pode perder metade do investimento. É melhor que
carregar um sócio inoperante

Estou satisfeita com meu trabalho. Mas, por referência de um amigo, fui convidada a participar de
um processo seletivo em outra empresa. Fui sem muita expectativa, e agora estou entre os três
finalistas. Aí vem o problema. Já ouvi várias pessoas dizendo que lá a pressão é enorme e que não há
nenhuma consideração para com o ser humano. Porém, o salário é maior do que eu ganho aqui. O que
faço? – L.M.A.

Na verdade, você já decidiu, ao colocar a pressão e o tratamento despersonalizado como fatores negativos.
Para muita gente, isso tem menos importância que um bom salário, e esse deve ser o caso dos outros dois
finalistas. Acontece que empresas fortemente focadas em resultados não mentem em processos seletivos,
porque não faz sentido para elas contratar alguém que poderá entrar em parafuso. Por isso, eu acredito que
lhe tenha sido perguntado se você suportaria a pressão. E você respondeu que sim, induzindo o entrevistador
a uma conclusão errada. Minha sugestão: fique onde você está. Se você já entrar desconfiada na nova
empresa, vai interpretar qualquer suspiro do futuro chefe como assédio moral.

Curso de Ensino a Distância é bom? – C.J.

É bom se você deseja se aperfeiçoar no que já faz, ou aprender coisas novas, porque poderá fazer isso sem
perder tempo de deslocamento, e no aconchego de seu lar. Porém, se você está pensando somente em seu
currículo, um curso superior presencial ainda agrada muito mais aos recrutadores de empresas do que o
EAD.

Tudo o que eu faço, meu chefe diz que foi idéia dele quando dá certo. E me atribui a culpa se algo sai
errado. Isso é justo? – F.G.

Não, não é justo. Só não entendi bem se você quer apenas receber os méritos pelos acertos, ou também a
compreensão e o perdão pelos erros, como forma de compensação. Se for o primeiro caso, você certamente
encontrará chefes melhores na vida. Se for o segundo caso, você terá problemas com chefes mais justos que
o atual, porque eles não perdoam erros.

Planejar a carreira ou agarrar as oportunidades?

PALAVRA DA SEMANA: INEXORÁVEL – aquilo que não tem jeito. Embora não seja usado,
“exorável” existe. Vem do latim ex, “fora”, e orare, “rezar”. “Exorável” é aquilo que se pode conseguir com
uma prece em voz alta. “Inexorável”, com o prefixo de negação in, significa que a situação chegou a tal
ponto que nem adianta rezar.

Fiz um planejamento de carreira e pretendo manter meu foco. Porém, as oportunidades que têm
surgido são todas em outras áreas. – M.

O curto prazo e o longo prazo sempre tiveram dificuldades para manter um diálogo consistente. Enquanto o
ponderado longo prazo pega o mapa para estudar o melhor caminho, o afoito curto prazo quer mais é botar o
pé na estrada. Por isso, eles normalmente convocam o médio prazo, que é mais equilibrado, para desempatar
a discussão. E ele recomendaria que você aceitasse uma boa oportunidade no curto prazo, mas numa
empresa que poderá lhe proporcionar uma transferência interna para a área que você deseja. Assim, você
estará seguindo a direção certa para o longo prazo, mas partindo de uma via secundária.

Com receio de não passar nem pela peneira inicial de um processo seletivo, declarei uma pretensão
salarial abaixo do que eu queria e precisava. Fui admitida pelo que pedi, e agora estou desconsolada.
Como devo agir? – L.J.

Primeira hipótese. Você ganha a mesma coisa que seus colegas de trabalho. Nesse caso, o que você pediu,
embora não fosse o que você desejava, era seu real valor de mercado. A solução é esquecer o desconsolo e
mostrar resultados que lhe permitam conseguir uma promoção ou um reajuste. Segunda hipótese.
Aproveitando que você chutou baixo, a empresa a admitiu em uma função aquém de sua qualificação. A
solução é procurar outro emprego, com calma. Mas você não deve usar, nem na empresa, nem em futuras
entrevistas, o argumento de que errou na pretensão salarial.

Há cinco anos, trabalhei com um gerente. Pedi demissão porque, em termos morais, ele era a baixaria
em pessoa. Agora, esse mesmo gerente é finalista em um processo na empresa em que estou
trabalhando. Não na minha área, felizmente. Mesmo assim, fico preocupada, porque ele pode
envenenar o ambiente. O que faço? – S.T.

Nada. Sendo finalista, ele já passou por algumas entrevistas, e foi bem avaliado pelos especialistas de sua
empresa. Então, ou ele mudou ou sabe fingir muito bem. Em ambas as situações, se você levantar a lebre
sem evidências concretas, poderá gerar a desconfiança de que você é que tinha um problema com ele. Se
alguém da empresa consultá-la, sem dúvida você deve expressar sua opinião. Mas fazer isso voluntariamente
iria lhe trazer mais transtornos que benefícios.

Aceite uma oportunidade no curto prazo, mas numa empresa em


que possa haver transferência, depois, para a área que você deseja

Por que empresas não adotam os mesmos métodos dos concursos públicos, que selecionam os
melhores por meio de conhecimentos? – C.A.C.

Porque elas querem avaliar também o ser humano. Pela lógica corporativa, “os melhores” em testes de
conhecimento não serão necessariamente os melhores colegas ou os melhores gestores. Uma pessoa que foi
despedida cinco vezes pode passar num concurso público. Mas não passaria pelo crivo de uma empresa.

Minha empresa proíbe relacionamentos amorosos entre funcionários... – Ramón

Excetuando-se os casos de amor à primeira vista, a química amorosa é influenciada pela convivência. E em
nenhum lugar se convive tanto com possíveis pares como no ambiente de trabalho. Portanto, a proibição da
empresa é válida para evitar manifestações públicas e ostensivas de carinho, mas é inútil para evitar que
duas pessoas se apaixonem.

Por que as pessoas que fazem perguntas não são identificadas? – Mauro Barros

Elas é que solicitam, talvez por temer represálias. Só coloco o nome de quem autoriza expressamente, como
no seu caso e no do Ramón da resposta anterior, que se confessa apaixonado pela N.M., e faz questão que o
mundo inteiro saiba. Mas a N.M., como dá para deduzir, acha mais prudente manter o emprego.

Como se deve demitir um funcionário

PALAVRA DA SEMANA: ESQUISITO – Fora do normal. Literalmente, significava “procurar onde


ninguém procura”, do latim ex (fora) + quaerere (buscar). Em todas as línguas, incluindo o português, é
sinônimo de “fino”, “delicado”, “precioso”, “exótico”. Mas, no Brasil, quando se diz que alguém é esquisito,
a conotação é sempre negativa, contrariando o real significado da palavra.

Tenho medo de assumir riscos e desafios. Vejo oportunidades, mas tenho receio de ir atrás delas.
Quando meu chefe me pede para fazer algo novo, fico com a imediata sensação de que não estou à
altura e entro em pânico. Isso tem cura? – P. R. G.

Ter medo é normal e natural. Se o ser humano fosse totalmente desprovido de qualquer medo, a espécie já
teria sido extinta. O medo é uma emoção desencadeada por algum sinal externo de perigo, como um barulho
estranho. Imediatamente, uma série de reações químicas coloca o corpo em estado de alerta, e as opções são
duas: atacar ou fugir (sendo que ficar paralisado é uma forma de fuga). Até aí, somos todos iguais. Já o
medo não-racional é aquele que dispara essas mesmas reações – mas sem um estímulo externo
compreensível e justificável. São os casos, por exemplo, da “xantofobia”, o medo da cor amarela, e da
“ergofobia”, o medo de trabalhar. Os medos não-racionais desaparecem quando aprendemos a enfrentá-los e
superá-los. Isso pode ser alcançado por esforço próprio, ou com a ajuda da psicoterapia nos casos mais
agudos. Se você já tentou e não conseguiu, sugiro que procure um psicólogo, porque medo não curado só
gera mais medo.

Sou gerente de vendas e, às vezes, preciso demitir um vendedor por mau desempenho. Até hoje, nunca
aprendi a fazer isso de modo racional, sem me emocionar. Existe uma técnica? – Paulo

Sim, a técnica do gato que subiu no telhado. Você deve chamar o vendedor e dizer que ele não está
cumprindo as metas. Deixe claro que você entende todos os problemas pessoais ou profissionais que ele
possa ter, mas que você é pago para garantir o faturamento. Enfatize que o desempenho dele pode levar a
uma possível demissão. E combine com ele metas numéricas atingíveis para os próximos 30 dias. Aí,
quando você chamá-lo para a conversa definitiva, ele já estará mais que preparado para a notícia. E não há
mal nenhum em você se emocionar, porque mostrará que por trás de seu cargo há um ser humano que foi
obrigado, pela natureza da função, a tomar uma medida drástica.

Use a técnica do gato que subiu no telhado. Diga a ele que não está
satisfeito e dê 30 dias para que seu desempenho melhore

Fui convocado para o serviço militar. Se eu vier a servir neste ano atrapalhará minha carreira? –
Lopes

Atualmente, pelo que sei, prestar serviço militar depende mais da vontade do jovem, porque os convocados
são em número muito maior que as vagas. Logo, a escolha provavelmente será sua. Pensando no curto
prazo, você deslancharia mais em sua carreira sendo estagiário que recruta. Porém, se experiência pessoal
conta, foi servindo que eu absorvi dois conceitos vitais para minha vida profissional: disciplina e hierarquia.
Não perdi nem a rebeldia nem a ironia, mas aprendi a usá-las na hora certa e na dose certa. Em retrospecto, o
ano que passei no Exército foi mais útil para minha carreira do que a pós-graduação.

Detesto rotina! Odeio! – Ariel

Vamos supor, Ariel, que você esteja interessado em uma área tida como muito criativa – marketing.
Converse com qualquer gerente de produto e ele lhe dirá que a função dele é 80% rotineira. Levantar
números, preparar planilhas, avaliar pesquisas, controlar o orçamento, e por aí vai. A parte criativa responde
por 20% do tempo. Só que, se não executar bem os 80% que causam mais sono que satisfação, um gerente
de produto vai empacar na carreira. Isso vale para praticamente todas as áreas. Os 80% são o preço que
temos de pagar para usufruir os 20%. Sendo que na maioria das chamadas “funções iniciais”, como
auxiliares e assistentes, começamos pagando 100%.

Não basta ter talento. Tem de fazer contatos

Fui ingênuo ao imaginar que se deve fazer aquilo de que se gosta. Formei-me em Comunicação Social
e estou inutilmente procurando um emprego há 14 meses. – Raphael

A ingenuidade não está ligada à escolha do curso, Raphael, mas às informações prévias referentes ao
mercado de trabalho. Você desembarcou num setor saturado, mas isso já não era novidade há cinco anos,
quando você iniciou o curso. Embora não haja estatísticas disponíveis, eu chutaria que um em cada dez
formandos de Comunicação Social consegue a vaga com a qual sonhava. Esse um é exatamente o que não
ficou sonhando, e sim fez contatos proveitosos com profissionais da área, enquanto ainda estava na
faculdade. Talento, competência e ambição constroem carreiras, mas é o networking que abre a porta.

Leio sua coluna com atenção e sinto falta de conselhos que encaminhem as pessoas para uma vida de
meditação e espiritualidade. – Pastor Josiel
Meus respeitos, pastor Josiel. Creio que sua pertinente questão foi esclarecida por Jesus de Nazaré, em
Mateus 22, 21. O objetivo desta coluna é tentar explicar a parte que deve ser dada a César, sem que isso
implique renegar a parte, muito maior, que é devida a Deus.

Talento, competência e ambição constroem


carreiras, mas é o networking que abre a porta

Estamos (meu marido e eu) investindo na formação de nossa filha. Ela tem 24 anos, cursou uma boa
faculdade, passou um período no exterior para aprimorar o inglês e agora está fazendo mestrado.
Sempre achamos que esse investimento seria plenamente recompensado, mas nos assustamos quando
você escreveu que empresas dão igual peso aos estudos e à experiência prática (que nossa filha não
tem). É isso mesmo? Estaríamos gastando os tubos para gerar uma brilhante desempregada? – Julia e
Otávio

Num processo de seleção normal (isto é, nenhum dos candidatos tem um santo mais forte que os outros),
uma empresa de fato avalia a formação acadêmica e a experiência prática. Sua filha tem uma ótima
formação, mas, se surgir outra candidata com formação igual (ou até um pouco menos vistosa), mas com
uma experiência interessante, principalmente no tocante a resultados mensuráveis, a possibilidade de essa
pessoa ser contratada é maior. Isso está refletido nas estatísticas. Sua filha está na faixa de maior
desemprego (jovens entre 18 e 25 anos, com curso superior). Mas não se assustem demais. O investimento
que vocês estão fazendo certamente trará retorno, só que em médio e longo prazo.

O que você acha de uma carreira na política? – Mauro

É mais fácil que a carreira corporativa. Quase não requer estudo, proporciona estabilidade,
independentemente dos resultados, e não desconta faltas não-justificadas. Além disso, o número de
candidatos a uma vaga para vereador é muito menor que a de candidatos a estágio numa grande empresa.
Algo que eu nunca consegui entender, porque um vereador ganha dez vezes mais que um estagiário. Se você
tem os contatos e acredita possuir as habilidades para ser político (incluindo a arte de engolir eventuais
batráquios), vá em frente. Caso você também tenha um bom sobrenome – por exemplo, “Da Farmácia” –,
isso ajudará bastante.

Recebi uma ótima proposta para mudar de emprego, mas com um pequeno senão. Eu não seria
registrada. – Lucy

Se você aceitar, Lucy, estará compactuando com a ilegalidade. O óbvio fato de que a carga tributária
brasileira é altíssima não exime de culpa uma empresa que tenta melhorar sua competitividade por meio da
sonegação. Já no aspecto pessoal, você pode achar a proposta ótima agora, mas não demorará a se
arrepender de ser uma trabalhadora informal.

Não fique esperando sua vocação chegar

PALAVRA DA SEMANA: AMBIÇÃO. Desejo imoderado de honras não merecidas ou maiores do que
merecemos. Deriva-se do latim ambire, “rodear”, porque o ambicioso anda rodeando para se introduzir em
lugares honoríficos. Essa preciosa definição está no Vocabulário Portuguez e Latino, escrito entre 1712 e
1728 pelo padre dom Raphael Bluteau, em Coimbra, Portugal. A obra, integralmente digitalizada, está
disponível no site www.ieb.usp.br, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Tenho 18 anos e estou preocupado porque ainda não descobri minha vocação... – Leonardo

“Vocação” significa “chamamento”. É uma voz interior que diz a alguém para seguir determinado caminho,
mesmo que ele não venha a trazer riqueza, prestígio ou poder. Não por acaso, a palavra tem origem
eclesiástica – o chamado divino para dedicar a vida à obra do Senhor. Não se pode dizer, por exemplo, que
um economista ou um técnico de laboratório seguiram uma vocação. Eles, apenas, fizeram uma opção
profissional. Portanto, não se preocupe se você não está ouvindo uma voz interior lhe soprando “Largue tudo
e vá preservar focas no Ártico”. Você precisa, apenas, de uma direção para sua carreira. Sugiro que você
comece avaliando sua propensão para uma das três formações que mais oferecem vagas em relação ao
número de diplomados: Informática, Engenharia ou Administração. Mais tarde, à medida que sua carreira
for se definindo, você poderá fazer cursos específicos. Se isso o conforta, a maioria dos profissionais bem-
sucedidos que eu conheço sonhava ser outra coisa quando tinha 18 anos, e menos de 10% já tinham certeza
do que queriam ser. Portanto, relaxe. Você é normal.

Sou CLT e recebi uma proposta para ser PJ. Quanto devo ganhar a mais, em relação a meu salário
atual, para compensar a troca? – Cláudio G.

Felizmente, tive o cuidado de solicitar ajuda especializada antes de responder, senão teria respondido errado.
A resposta é “depende de quanto você ganha”, porque a variação é enorme. Quanto mais alto for o salário
CLT, menor será a influência dos benefícios fixos (assistência médica, cesta básica, vale-refeição e vale-
transporte), e vice-versa. O Conselho Regional de Contabilidade-SP fez um cálculo bem detalhado, e o
resumo é o seguinte, considerando que os dois valores representam o empate entre as opções: R$ 1.000 por
mês CLT = R$ 2.550 PJ (155% a mais); R$ 1.500 CLT = R$ 3.200 PJ (113% a mais); R$ 5.000 CLT = R$
7.300 PJ (46% a mais); R$ 10.000 CLT = R$ 13.300 PJ (33% a mais). Eu supunha que a variação fosse bem
menor, entre 20% e 50%, e agradeço ao doutor Sergio Prado de Mello pelos números.

A maioria dos profissionais bem-sucedidos


sonhava ser outra coisa quando tinha 18 anos

Meu gerente diz que, apesar do meu bom desempenho, ele não pode me dar aumento porque ainda
não tenho curso superior completo (eu me formo no ano que vem). – Vany

Tecnicamente, Vany, isso tem o nome de “tergiversação gerencial”, que é a ação de empurrar uma situação
com a barriga por falta de bons argumentos. Se você foi admitida para uma função que não exige curso
superior completo, não pode deixar de receber um aumento por esse mesmo motivo. Você está sendo
enrolada. Continue insistindo, mas sempre usando argumentos técnicos (e não emocionais) para mostrar que
você merece o aumento. Quem tergiversa muito acaba cedendo pelo cansaço.

Trabalho no setor de produção. Propus a meu gerente uma nova metodologia de processo, que foi
implantada e gerou um grande ganho de produtividade. Como resultado, sete colegas foram
dispensados e eu passei a ser chamado de “traíra” e coisas piores. – Allan

Primeiro, parabéns pela idéia e pela iniciativa. Segundo, o que você esperava? Que a empresa fosse manter
funcionários ociosos? Mas não fique deprimido nem deixe de apresentar novas sugestões. Se o ambiente
ficar insustentável e a empresa não fizer nada a respeito, lembre que você tem um diferencial em seu
currículo para futuras entrevistas

Como se preparar para a aposentadoria

Trabalho em um órgão público e vou me aposentar daqui a três anos. Estou inseguro, porque não
quero ficar parado, mas não sei o que fazer. Tenho receio de me sentir imprestável na vida pós-
aposentadoria. – J.M.

Eu sugiro que você comece já, prestando serviço a uma ONG. Sua experiência e seus contatos poderão ser
muito úteis a ela, e esse aprendizado prático talvez lhe permita constituir sua própria ONG daqui a três anos.
Outra sugestão é que você faça aquele curso que você gostaria de ter feito, mas não fez porque ele teria
pouco impacto em sua carreira. Filosofia, por exemplo, já que todos somos meio filósofos por natureza. O
ambiente acadêmico lhe abriria novas perspectivas, incluindo uma possível docência. De resto, você está
absolutamente certo: a aposentadoria não é o fim, é um recomeço.
Não posso pagar um bom advogado... – Wilson

Existem opções gratuitas, Wilson. A primeira são os sindicatos, que por lei devem prestar assistência
jurídica a seus associados. Como você é de São Paulo, uma alternativa é o Departamento Jurídico XI de
Agosto, órgão ligado à Faculdade de Direito da USP. Fica na Praça João Mendes, 62, 17o andar. Para
leitores de outras cidades, imagino que faculdades renomadas de Direito ofereçam serviços semelhantes.
Vale a pena pesquisar.

Antes mesmo de parar de trabalhar, uma boa idéia é começar a prestar


serviços para ONGs ou fazer cursos

Quando eu tinha 18 anos, fiz um teste vocacional, e a conclusão foi que eu deveria estudar Psicologia.
Confesso que estranhei, porque sempre gostei de Artes, principalmente Design. Mas minha família me
pressionou e eu me formei psicóloga. Hoje, aos 32 anos, sei que foi a escolha errada. Dá tempo para eu
mudar de rumo? – Luciane

Sempre dá, Luciane. Mas tudo depende de sua situação econômica. Se você tem um rendimento decente
como psicóloga, não abandone o que você já conseguiu para perseguir um sonho, a não ser que você esteja
disposta a baixar seu padrão de vida. Matricule-se num curso de Design, faça contatos, comece a prestar
serviços como freelance e só depois decida se mudar de rumo lhe será mesmo conveniente. Depois de ter
essa experiência prática, talvez você descubra que o teste vocacional estava certo, e que Artes poderá vir a
ser um belo hobby para você, mas não uma profissão.

Planejamento de carreira funciona? – Héber

Para pessoas metódicas e disciplinadas, funciona muito bem. Essas pessoas se colocam objetivos específicos
de carreira para daqui a três, cinco e dez anos e listam o que precisam fazer para atingi-los. A cada seis
meses, esse plano é cuidadosamente reavaliado. Mas eu lhe diria que isso funciona melhor nos países
nórdicos do que por aqui. De modo geral, o profissional brasileiro é emocional, reativo e imediatista, três
fatores que furam qualquer planejamento de longo prazo. O que a maioria de nós tem é uma noção da
direção a seguir, algo aceitável para um país em que as coisas mudam com muito mais freqüência que nas
nações já estabilizadas.

Estou me formando em Relações Públicas e tenho dúvidas... – Mara

Deve tê-las, Mara. Há seis meses, fiz um comentário não muito alvissareiro na rádio CBN sobre o mercado
de RP. Em troca, foi-me enviado pela seção paulista da associação um ótimo material com brochuras, o
texto da lei que regula a profissão e um release sobre a importância do profissional de RP. Respondi
agradecendo e fiz duas perguntas: (1) quantos profissionais de RP se formam por ano no Brasil?; (2) qual é o
número de profissionais empregados no setor? Ainda não recebi as respostas, mas terei prazer em divulgá-
las quando (e se) recebê-las

Quando o salário cresce mais que você

PALAVRA DA SEMANA: INSINUAR. O antepositivo latino sinu (curva ou calombo) deu origem a
várias palavras interessantes. Uma delas é seio (sinus), que originalmente não dizia respeito à mama
feminina, mas à prega semicircular da roupa na qual as mães carregavam os bebês. De sinu vieram também
o seno da trigonometria e a sinusite, a inflamação dos seios da face. Sinuosa é a estrada cheia de curvas. E
insinuar é dizer algo de modo oblíquo, não diretamente.

Trabalho numa empresa há 15 anos, sempre na mesma função. Alegando que meu salário está muito
alto, a empresa me fez uma proposta. Eu seria demitido agora e readmitido daqui a seis meses, como
autônomo, mas ganhando 60% do que ganho hoje. Isso não é um desrespeito? – Téo
Moralmente, sim. Matematicamente, não. Vamos supor que você ganhasse R$ 800 em 1994, ano em que a
inflação baixou em níveis que permitiram fazer contas sem a necessidade de fatores de correção. Se, a cada
ano, você tivesse recebido um miserável aumento de 4%, e nada mais, em 2008 você estaria ganhando R$
1.385, ou 73% a mais que em 1994. Porém, uma função que valia R$ 800 em 1994 vale no máximo R$
1.000 atualmente, porque os salários de contratação se mantiveram relativamente estáveis. Em outras
palavras, se você procurasse um emprego igual ao que tem, não conseguiria encontrar um que lhe pagasse o
que você ganha. Sua empresa sabe disso, por isso fez a proposta. Concordo que as empresas deveriam ser
mais camaradas com os funcionários antigos, mas a situação do Téo deve servir como alerta a quem está há
mais de dez anos na mesma função.

Estou na lista da Serasa, e não consigo emprego... – Pámela

Já abordei esse tema anteriormente, mas há uma grande novidade. No mês passado, o Tribunal Superior do
Trabalho decidiu que uma empresa não pode usar dados da Serasa – e, por extensão, do SPC – para rejeitar
candidatos a emprego. A ação foi pública, ajuizada pela regional do Ministério do Trabalho do Paraná, e a
empresa acionada se defendeu dizendo que é seu direito constitucional consultar informações que sejam de
seu interesse particular. Como última instância (a empresa já havia perdido nas anteriores), o TST não
aceitou o argumento e condenou a empresa a pagar R$ 200 mil em danos morais coletivos, além de proibi-la
de usar a Serasa como fonte de informações que não sejam aquelas para as quais a Serasa foi constituída – a
avaliação de crédito. A sentença do TST cria uma jurisprudência que passa a valer para todas as empresas.

Por causa dos reajustes, o salário do funcionário antigo costuma ser maior
que o de um novato na mesma função. É um risco

Tenho 24 anos. Estou me dedicando apenas aos estudos porque quero me preparar bem para o
mercado de trabalho... – Jeferson

Ótimo. Mas há outra maneira paralela de você se preparar bem: trabalhando. Você diz em sua carta que já
tem uma faculdade, está terminando um MBA e agora pretende passar um tempo no exterior para aprimorar
o inglês. Lamento dizer que você terá uma má surpresa ao regressar, porque seus concorrentes a uma vaga
levarão a vantagem de ter quatro ou cinco anos de experiência prática, algo que as empresas apreciam tanto
quanto os diplomas.

Tenho 34 anos. Casei aos 21 e sempre apoiei meu marido, mudando três vezes de cidade e cuidando do
lar, para que ele pudesse se dedicar inteiramente à carreira. Deu quase certo. Ele se tornou diretor e
agora decidiu me trocar por uma estagiária de 22 anos. Não tenho faculdade e nunca trabalhei. O que
você me sugere? – L.S.A.

Contrate o melhor advogado que você puder, para não ser prejudicada no processo de divórcio como você
foi durante o casamento. E comece a estudar, porque você ainda tem décadas de vida útil e ativa pela frente.
Espero que muitas mulheres de executivos estejam lendo esta coluna e abram os olhos. A mulher dedicada
que se sujeita a ficar na sombra para que o marido possa brilhar é uma relíquia do século XX

Por que tantos executivos assassinam a língua

Sou professor universitário. Recebemos em nosso auditório o vice-presidente de uma multinacional


famosa, que fez uma conferência para 300 alunos. Bom conteúdo, mas ficamos horrorizados com as
barbaridades gramaticais que o VP perpetrou. É isso mesmo? Uma carreira bem-sucedida independe
do português correto? – Tobias

Sim e não, professor. Não, porque o teste escrito de português tem reprovado uma considerável quantidade
de candidatos a emprego. E sim porque, em empresas que não têm essa preocupação – como a multinacional
em questão –, as promoções levam em conta os resultados práticos obtidos, e não a proficiência gramatical.
O que sua escola testemunhou foi a chamada “síndrome do jogador de futebol”. Sem ter tido uma
preparação adequada para falar em público, o jogador de repente se vê rodeado por câmeras e microfones. E
escolhe o caminho mais simples, o de decorar frases que ouviu de outros jogadores.

O mesmo fenômeno ocorre em empresas. Alguém ouve um diretor proferir um “a nível de” e adota a
expressão, imaginando que isso seja erudição, e não um despautério. Outro exemplo é o uso indiscriminado
de “onde” (tanto por jogadores quanto por executivos). De um bem-intencionado advérbio de lugar, o
“onde” se transfigurou em uma conjunção multiuso (“Estamos lançando uma nova campanha, onde
esperamos 40% de aumento de vendas”). Há também o “inclusive” que nada inclui (“Inclusive eu conversei
com ele ontem”) e a insólita complexidade do gerundismo (“O gerente vai estar retornando sua ligação”).
Como não há leis para castigar quem abusa do idioma, o interesse em saber o mínimo indispensável para se
apresentar bem publicamente acaba sendo individual.

De advérbio de lugar, o “onde” se transfigurou em uma conjunção multiuso.


Há também o “inclusive” que nada inclui e a praga do gerundismo

Você poderia me esclarecer quais são meus direitos... – Luciana

Eu poderia, mas não posso. Na resposta anterior, eu mencionei que não há leis que protejam o idioma contra
abusos públicos. Mas há uma que protege os advogados. A Lei Federal no 8.906 estabelece que são
privativas da advocacia “as atividades de consultoria, assessoria e direção jurídicas”. Traduzindo, eu posso,
por exemplo, mencionar em um texto de informação jornalística: “O adicional noturno deve ser pago para
quem trabalha das 22 às 5 horas”. E citar a legislação específica. Mas, se um leitor me perguntar “Quando
tenho direito ao adicional noturno?”, eu não posso reproduzir a frase entre aspas do parágrafo anterior,
porque estaria prestando uma consultoria ou uma assessoria. E, como não sou advogado, o fato de eu saber a
resposta, por experiência prática ou conhecimento da lei, não me intitula a dá-la. Nada tenho contra a
legislação, muito pelo contrário. Estou apenas dando uma satisfação a cerca de 70 leitores que me
escreveram no mês passado fazendo perguntas que versam sobre matéria de Direito trabalhista.

Fiquei sabendo da existência de uma vaga em uma empresa que é cliente da empresa em que trabalho.
Seria antiético eu enviar um currículo? – Wilton

Não, mas seria muito perigoso. Como é que você explicaria para seu chefe uma situação dessas, se ele fosse
informado? O mais recomendável é você mandar um recado para o responsável pela seleção, por meio de
uma pessoa da outra empresa, com a qual você tem contato e na qual você confie.

Quando vale a pena recomeçar tudo do zero? – Nataly

Quando você está bem próxima do zero. Se você não faz aquilo de que gosta e ganha mal ou está
desempregada, recomeçar do nada não alteraria sua situação, no caso de a mudança dar errado. Porém, se
você já construiu uma base em termos de carreira, o mais razoável seria você concentrar suas energias no
que já faz, em vez de investir sem a certeza de um retorno

As vantagens e os problemas da "CLT Flex"

PALAVRA DA SEMANA: CIÚME. Veio do latim zelumen, que tanto significava “zelo” quanto “inveja”.
O ciúme é aquela preocupação que já escapou do plano racional. Na vida pessoal, o ciúme é possessivo. Na
vida profissional, não. Ao contrário do namorado ciumento, o colega de trabalho enciumado com o sucesso
alheio se sentiria melhor se o outro desaparecesse de sua vida.

Gostaria de saber o que é CLT Flex e quais são suas vantagens. – Celina

É a abreviação de “CLT Flexível”, expressão que não consta em lei alguma. É apenas uma interpretação –
duvidosa – que algumas empresas fizeram do artigo da CLT que permite considerar como salário os gastos
com alimentação, habitação, vestuário e outras despesas. Só que essa flexibilização está sendo feita de duas
maneiras. Uma, defensável, é de incorporar esses gastos ao salário e recolher os encargos sobre o valor total.
Outra, discutível, é o pagamento “por fora”. O funcionário é registrado por 60% do salário combinado, e o
restante é reembolsado por meio de notas fiscais de combustíveis ou restaurantes. Assim, o funcionário
perde em FGTS, 13º e férias, mas paga menos INSS e Imposto de Renda. Por seu lado, a empresa
economiza nos encargos e ainda melhora a lucratividade porque os gastos são contabilizados como despesas,
reduzindo o lucro tributável. O sistema dá a impressão de não infringir nenhum dispositivo legal, mas
representa um risco trabalhista para a empresa, no caso de futuramente um funcionário demandar
judicialmente a diferença referente aos encargos.

Algumas empresas incorporam ao salário despesas como alimentação. Outras pagam “por fora”

Sou formado em Direito e trabalho no setor administrativo. Recebi uma proposta até que razoável
para mudar para a área comercial, iniciando como vendedor. Estou indeciso, porque isso nada tem a
ver com o que estudei. – Décio

Apesar da fundamental importância da área comercial para qualquer empresa, não existe uma “Faculdade de
Vendas” ou algo parecido. Esse é o setor “coração de mãe”, porque admite qualquer formação. Engenheiros,
administradores, economistas, todos podem fazer sucesso na área comercial, que requer habilidade de
relacionamento e capacidade de negociação. Portanto, “o que estudei” não é o fator que deve nortear sua
decisão. “O que eu tenho competência para fazer” é que seria. Se fosse você, eu aceitaria. Primeiro, porque
será uma experiência valiosa, mesmo que você se decida pelo Direito. Segundo, porque o mercado para
advogados está saturado, e para vendedores não.

Em entrevistas, quando me perguntam sobre minha pretensão salarial, eu me enrolo todo. Sei quanto
quero ganhar, mas prefiro não abrir o valor, por receio de que ele seja considerado muito alto ou
muito baixo. Mas, quando eu digo que prefiro ouvir uma proposta, noto que o entrevistador não se
mostra receptivo. – Almeida

Simplesmente diga o valor que você tem em mente, Almeida. A lei determina que uma empresa não pode
pagar salários diferentes para a mesma função. Se o que você pedir estiver acima do que a empresa está
pagando, o entrevistador perguntará se sua pretensão é negociável. Se estiver abaixo, a empresa será
obrigada a contratá-lo pelo valor da função, e não pelo que você pediu.

Não encontro oportunidades em minha área. Pergunto se, considerando minha idade, valeria a pena
investir num curso superior de Computação...

Parece até que três leitores combinaram perguntar a mesma coisa, mas eles moram em cidades diferentes.
São um psicólogo (28 anos), uma fisioterapeuta (29 anos) e um advogado (27 anos) que não conseguiu
passar no teste da OAB. Os três estão formados há mais de quatro anos. De fato, essas três áreas estão entre
as que vêm oferecendo menores oportunidades, proporcionalmente ao número de formandos. Já os setores
ligados à informática estão gerando empregos, e tudo indica que gerarão por mais dez anos, pelo menos.
Portanto, a resposta é sim, vale a pena. Embora o novo curso seja de fato uma corrida contra o tempo, os três
ainda terão mais 30 anos de carreira depois de se formar

O bom humor pode cicatrizar uma desavença

PALAVRA DA SEMANA: SARCASMO. Aquele tipo de humor mal resolvido, mais impertinente e
incômodo que divertido e compartilhado, tem sua origem na palavra grega sarx, “carne”. O verbo sarkazein
significava “retalhar a carne” e foi dele que derivou a palavra sarkasmos. Enquanto o bom humor pode
ajudar a cicatrizar uma desavença, o sarcasmo faz o contrário: machuca ainda mais.

Tenho 47 anos e sou engenheiro de software. Por um ano e meio, enviei currículos para sites e
anúncios de emprego. Não recebi uma só resposta. Decidi, então, me candidatar a vagas no exterior.
Enviei seis currículos para vagas com meu perfil e recebi cinco respostas. Uma delas resultou em
testes por e-mail e numa posterior bateria de entrevistas no exterior (com a empresa pagando
passagem, hospedagem e aluguel de carro). Neste momento, estou finalizando minha documentação
para mudar de país. O que acontece com as empresas brasileiras? – Luciano

Acontece que, no quesito “educação e cortesia para com quem envia um currículo”, a maioria das empresas
brasileiras ainda está empacada nos primórdios do século passado. Como muitos leitores vão se interessar
pela opção de enviar o currículo para o exterior, os sites acessados pelo Luciano foram www.monster.ca
(Estados Unidos) e www.jobboom.com (Canadá). Vale enfatizar que ele tinha currículo e experiência
suficiente para se candidatar às vagas.

Pedi demissão de meu último emprego por não concordar com algumas políticas administrativas da
empresa e por não ver possibilidades de crescimento profissional. O que devo dizer em entrevistas,
quando me for perguntado por que saí? – Líllian

Diga que você cometeu um tremendo erro ao pedir demissão. Que fez isso impensadamente, mas que já
aprendeu a lição. Em relação às políticas da empresa, desde que não firam a ética, não cabe ao funcionário
concordar ou discordar. Ele é contratado exatamente para executar essas políticas. Quanto às possibilidades
de crescimento, permita-me repetir o que já disse outras vezes: procurar um emprego estando desempregado
reduz consideravelmente as chances de consegui-lo em relação a quem está empregado.

Não cabe ao funcionário concordar ou discordar das políticas


da empresa. Ele é contratado para executá-las

Trabalho há cinco anos numa empresa de porte médio. Recebi uma proposta de uma empresa muito
maior, mas com um salário 20% menor. O que devo avaliar para decidir? – Henrique

O futuro. Seu salário atual é uma situação de curto prazo. Se a nova empresa possui um Plano de Carreira, o
que é bastante provável, você estará apostando no médio e longo prazo. Procure entender bem quais serão
suas possibilidades de ascensão nos próximos três anos, tanto na empresa atual quanto na nova. Não se deixe
levar apenas pelo nome da empresa maior.

Estou pensando em iniciar uma carreira de corretor imobiliário, porque o mercado de minha cidade
está aquecido. Estou no 3º ano de Direito. Seria conveniente eu largar esse curso e fazer outro mais
específico? – Leandro

Não, Leandro. É melhor você concluir seu curso de Direito. O setor imobiliário não requer uma formação
específica. Você dependerá mais de habilidades que não se aprende em escolas, como carisma e pendor para
a negociação. E é melhor você ter um curso superior, para o caso de sua incursão no ramo imobiliário não
surtir os efeitos que você espera. Não é recomendável abandonar uma faculdade nos últimos dois anos.

Trabalhei quatro anos sem registro. Fui dispensada, e não recebi meus direitos. Estou pensando em
mover uma ação trabalhista, mas tenho receio de que isso possa prejudicar meu futuro – Rose

Se você dispuser de provas suficientes, documentais e testemunhais, mova o processo sem receio. Em causas
trabalhistas, existe uma audiência prévia, em que o juiz pergunta se as partes preferem fazer um acordo.
Empresas que não registram funcionários (o que já é uma admissão de culpa) preferem o acordo

De que vale o networking se você não souber usá-lo?

Palavra da semana: deletar. Esse anglicismo seguiu um caminho idêntico ao de milhares de palavras, a
rota latim-francês-inglês- português. Em latim, deletus era “removido, apagado”. Cerca de 90% das palavras
inglesas que estão no menu do micro têm origem latina, como File (de filum, “novelo”), Save (de salvare) e
Print (de premere). Algumas aportaram por aqui há tempos. Outras, como deletar, estão chegando agora.
Tenho amigos dos tempos de faculdade que se tornaram empresários ou executivos, mas nunca tive
coragem de pedir algo a eles. Fico constrangido em misturar a amizade com o lado profissional.
Possuo um networking, só não sei como aproveitá-lo. – Emerson

Escolha um dos amigos. Aquele que, nas conversas, dá a impressão de se preocupar mais com seres
humanos do que com os números da empresa ou com ele mesmo. Marque uma entrevista formal com ele,
exponha sua situação e peça um conselho (não um emprego). Se ele de fato for o que aparenta ser, ele
certamente o ajudará.

Trabalho numa empresa em que o presidente fuma, e alguns diretores e gerentes também. Perguntei a
meu gerente (não-fumante) se isso não é proibido e recebi a informação de que, sendo uma entidade
privada e sem circulação de pessoas de fora, a empresa não se enquadra em leis que proíbem o
tabagismo em locais de freqüência pública, como bancos e restaurantes. – Clarice

Seu gerente está mal informado, Clarice. A Lei Federal 9.294 e o Decreto 2.018, ambos de 1996, proíbem o
tabagismo em ambientes fechados, em todo o território nacional. E a lei estabelece que ambiente fechado é
“qualquer recinto coletivo, público ou privado”. Portanto, todas as empresas estão incluídas. Também consta
na lei que o tabagismo é permitido em áreas destinadas exclusivamente a esse fim, desde que isoladas e
arejadas, e essa exceção deu origem aos fumódromos das empresas. Se a sua não tem um, o presidente não
deve fumar nem mesmo trancado na sala dele, e você pode fazer uma denúncia ao órgão de Vigilância
Sanitária de sua cidade.

Marque uma entrevista com um dos amigos que podem ajudá-lo.


E peça um conselho – não emprego

Sou psicóloga formada há dois anos e não consigo emprego em minha área... – Danielle

Pensando apenas em empresas, Danielle, essa situação é paradoxal. Por um lado, há uma multidão de
empregados necessitando de amparo psicológico, devido à constante e contínua pressão por resultados. Por
outro lado, psicólogos figuram entre as categorias profissionais com maior índice de desemprego,
proporcionalmente ao número de formandos. Como você sabe, empresas são obrigadas por lei a ter um
médico do trabalho. Se essa lei não existisse, é bem provável que 80% das empresas brasileiras não tivessem
médicos efetivos. Mas não há nenhuma lei nesse sentido em relação a psicólogos. Além disso, os planos de
convênio médico mais disseminados no mercado não contemplam a assistência psicológica, o que reduz
imensamente o número de potenciais pacientes. Juntando tudo isso, chega-se ao paradoxo da existência tanto
da necessidade quanto da oferta, mas sem que as duas pontas consigam se juntar. Sinto lhe dizer que esse é
um nó que aumenta de tamanho a cada ano e que vai muito além da simples procura por um emprego. Ele só
será desatado por meio de ações efetivas do Conselho Federal de Psicologia e do Congresso Nacional.

Trabalho em Curitiba. Recebi um convite de uma empresa de São Paulo para discutir uma possível
mudança de emprego. As conversas preliminares por telefone foram boas, mas agora preciso ir a São
Paulo para ser entrevistado. Só que não sei como explicar a meu diretor que vou perder um dia
inteiro de trabalho. O que eu faço? Digo a verdade? Minto? – Aldemar

Dizer a verdade é um risco enorme, porque você poderá acabar não conseguindo o outro emprego e
perdendo o que já tem. E mentir nunca é bom. Sugira que a entrevista seja marcada para um sábado, dada a
impossibilidade de você se ausentar num dia útil. Se a empresa realmente estiver interessada em contratá-lo,
ela aceitará sua sugestão. Se não aceitar, isso significa que você é apenas um entre vários candidatos. Nesse
caso, não perca seu tempo. Agradeça e recuse

Como tratar a síndrome pós-demissão

PALAVRA DA SEMANA: EUFEMISMO – “Falar bonito”, em grego (pheme, “discurso”, e eu, “bom”).
É amenizar uma situação, dizendo, por exemplo, “ele descansou”, em vez de “ele morreu”. Em empresas, o
eufemismo é um artifício bastante usado. “Estaremos implementando uma reestruturação estratégica” é um
modo mais poético de dizer “As coisas não vão bem”.

Fui inesperadamente dispensada há duas semanas. Ao que tudo indica, não terei dificuldade para
conseguir um novo emprego, mas estou me sentindo acabada, sem vontade de conversar. Não sou
assim, mas perdi o prumo... – Eliana

Você está sofrendo da síndrome pós-demissão. Ela ataca pessoas que foram dispensadas pela primeira vez e
que se sentiam muito seguras em seus empregos. O estrago é proporcional ao tempo de carreira. Quanto
mais anos de trabalho, maiores os efeitos da síndrome. Ela se caracteriza pela impressão de que decisões que
pareciam certas foram erradas, de que pessoas que pareciam dignas de confiança não o eram e de que o
mundo não é justo. A sensação é de fracasso após anos de sucesso, embora racionalmente isso não seja
verdade. Por enquanto, você está na fase emocional do processo, algo normal após duas semanas. Caso você
não consiga superar esse trauma por conta própria, é recomendável procurar um especialista, antes que seu
desempenho em entrevistas seja prejudicado. E, principalmente, antes que seu lado físico seja afetado.

Resido em Maceió, e não vejo perspectivas de crescimento por aqui. Sou formado em Direito e tenho
inglês fluente. Quero construir uma carreira em São Paulo... – Adson

Faça uma lista com nomes, telefones e e-mails. A primeira parte dela será composta de pessoas que você já
conhece em São Paulo. A segunda parte, de profissionais de São Paulo indicados por colegas seus de
Maceió. Antes de viajar, faça contato com todas essas pessoas, para saber quantas, realmente, estarão
dispostas a ajudá-lo. Se você chegar sem contatos e começar a procurar um emprego apenas enviando
currículos ou se cadastrando em sites, será quase impossível conseguir uma vaga em sua área.

Ela ataca pessoas dispensadas pela primeira vez e traz uma sensação
de fracasso após anos de sucesso

Tenho o hábito de orar antes das refeições. Na empresa atual, percebo que isso causa certo
constrangimento a meus colegas no refeitório. Devo procurar a direção da empresa e denunciar a
discriminação? – Miguel

Esse constrangimento dificilmente será enquadrado como discriminação. Se você estivesse sendo isolado,
criticado ou impedido de orar, aí sim você estaria sendo discriminado. No campo religioso, existem pessoas
com mais autoridade que eu para aconselhá-lo, mas sugiro que você apenas feche os olhos e faça uma curta
prece de três segundos. Imagino que a devoção tenha mais valor que a duração.

Há 12 anos, sou gerente-financeiro de uma empresa de porte médio. Sou a pessoa em quem os donos
mais confiam. Acontece que, em função de meu cargo, sei que a empresa provavelmente vai falir,
porque suas dívidas são enormes. Mas, se eu começar a procurar outro emprego, os donos ficarão
sabendo, porque a cidade é pequena. – B.

Se o prestígio dos donos na cidade for grande o suficiente para impedir que outra empresa contrate você, não
há o que pensar. Fique até o dia de apagar a luz. Se os donos não tiverem tal poder, saia procurando opções,
mas apenas se você tiver recursos para agüentar três meses sem emprego. Porque, dada a natureza de sua
função, é possível que você seja demitido assim que seu desejo de sair seja descoberto.

Após três anos, percebi que não terei chances nesta empresa... – Luciano

Se você está numa empresa na qual ninguém tem chance de ascensão (por exemplo, uma composta do dono,
do cunhado dele e de mais três funcionários), sem dúvida você deve procurar outras opções. Mas, se você
está em uma empresa que vem dando oportunidades a colegas seus, tente entender melhor por que você está
estacionado. No mais das vezes, o motivo é que um funcionário é competente no que faz, mas não mostra
aptidões para fazer mais que aquilo. Essas aptidões são espírito de liderança, proatividade, atualização
técnica e acadêmica e bom relacionamento em todas as direções do organograma. Se lhe falta uma dessas
coisas, ou algumas delas, ou todas elas, suas chances não aumentarão se você mudar de emprego

Você sabe anunciar suas qualidades?

Você poderia avaliar meu currículo? – Muitos leitores

Infelizmente, não me é mais possível, devido ao grande número de solicitações. Por isso, estou colocando no
site de ÉPOCA um modelo básico, para que cada leitor possa fazer, em seu próprio currículo, as
modificações que julgar apropriadas. O modelo pode ser acessado pelo link
www.epoca.com.br/maxcurrículo.

Sempre fui de fazer muito e falar pouco. Porém, parece que o fato de eu ser lacônico começou a me
prejudicar, já que não consigo dar as respostas que os entrevistadores esperam ouvir. Isso é realmente
um problema? – Walter

De fato, é. Saber se vender numa entrevista é algo que ganhou importância nos últimos anos, porque sempre
surgem vários candidatos com qualificações técnicas semelhantes. No fim, o desempate acaba se dando por
outras razões, e a eloqüência bem administrada é uma delas. Sugiro que você faça um curso de oratória. Não
é demorado, não é caro, e vai lhe ser muito útil pelo resto de sua vida profissional.

Ministro aulas no ensino médio, em uma instituição particular. Recebo R$ 10 por hora-aula e
pergunto se só eu ganho mal, ou se essa é a situação do ensino no Brasil. – Cássia

Seu salário, Cássia, é cerca de 20% maior que o de um professor do ensino fundamental da rede pública.
Mas é baixo para a importância do trabalho de um docente e mesmo em relação ao que o docente poderia
ganhar em outra carreira. A cada semana, recebo pelo menos meia dúzia de mensagens de professores que
desejam migrar para empresas. Não me recordo de ter recebido nenhuma de alguém querendo fazer o
caminho inverso.

Preparei um modelo básico de currículo para orientar


os leitores. Está no site de ÉPOCA

Como o mercado vê profissionais que ambicionam mudar de área de atuação, sem ter experiência
prévia na área desejada? – Paula

Certamente, não é o que você gostaria de ouvir, Paula, mas dois fatores são levados em conta num processo
seletivo: escolaridade e experiência anterior na função. Como sempre vão aparecer candidatos aptos a
preencher os dois pré-requisitos, quem possui apenas um deles acaba sendo preterido. Há duas soluções.
Conseguir uma transferência de área dentro da própria empresa ou ser indicado diretamente para uma vaga
por alguém com poder para fazer essa indicação. Por meio do envio de currículos, as chances são
praticamente nulas.

O que é mais importante, a teoria ou a prática? – Mari

Ou, em outras palavras, o que é mais importante, o que eu já tenho, ou o que ainda me falta? Pensando em
futuras vagas ou promoções, o que lhe falta é mais importante.

Fui admitido por uma empresa familiar que estava em má situação. Coloquei a área financeira em
ordem em dez meses. Quando eu esperava uma gratificação, fui dispensado sem maiores explicações.
– Lopes

Lamento, Lopes. As explicações são: (1) você desagradou a alguém da família, mesmo sem intenção ou sem
perceber; (2) seu salário era alto e só compensava mantê-lo até você colocar a casa em ordem; (3) mesmo
sendo tecnicamente ótimo, seu relacionamento com os colegas não era bom; (4) nenhuma das anteriores, o
que é altamente improvável

É justo a empresa fazer censura tecnológica?

Comecei a trabalhar em uma empresa, boa em todos os sentidos, menos um. A censura tecnológica. Os
funcionários não podem acessar a internet nem usar o e-mail profissional para mensagens pessoais. A
empresa faz auditoria semanal em nossos computadores para saber se estamos cumprindo as regras.
Isso não parece coisa da Idade Média? – Silvio

Uma empresa boa em todos os sentidos não tomaria uma atitude dessas só para contrariar os empregados. A
prática tem mostrado que, de cada dez casos semelhantes, só um ocorre por ignorância da direção da
empresa. Os outros nove resultam de abusos. Se você investigar, vai descobrir que, em algum momento, sua
atual empresa passou um comunicado alertando sobre o uso exagerado do sistema para fins pessoais. Como
o alerta foi ignorado, veio a proibição. Que não foi uma ação medieval da empresa, mas uma reação contra a
perda de foco e de produtividade. A mesma coisa aconteceu na época em que empresas botavam cadeados
no telefone para evitar ligações particulares. Apenas como informação, o procedimento adotado por sua
empresa não é ilegal.

Recebi uma proposta para mudar de uma empresa de porte médio para uma multinacional. O salário
é menor, mas os benefícios são melhores. Como posso avaliar a proposta? – Rachel

Transforme os benefícios em valores e compare os dois pacotes de remuneração. Se o valor do pacote da


multinacional for maior, leve em conta dois outros fatores: a possibilidade de crescimento nos próximos três
anos e o ambiente de trabalho. No primeiro caso, seu futuro chefe poderá lhe explicar como funciona o
plano de carreira. No segundo, é bom ouvir a opinião de pessoas que passaram pela empresa. Por fim, só
mude se a multinacional lhe oferecer no mínimo dois dos três fatores positivos (remuneração, carreira e
ambiente). Quem muda por um só quase sempre se arrepende em menos de três meses.

Proibir o uso da internet para fins pessoais é uma


reação contra a perda de produtividade dos funcionários

Qual é o salário de um estagiário recém-formado em curso superior? – Roberto

Na média, entre R$ 700 e R$ 800. Se você receber uma proposta mais alta, aceite correndo.

Por que precisamos de palavras horríveis como “empregabilidade”? – Lívia

Na verdade, não precisamos de 99,5% das palavras que estão nos dicionários. Com um vocabulário de mil
palavras, é possível manter uma comunicação eficiente. No caso de “empregabilidade”, há três motivos. (1)
Diferencial. A palavra funciona como uma marca para um produto, ajudando a identificá-lo à primeira vista.
(2) Economia. Embora empregabilidade tenha 15 letras, sua definição mais curta não tem menos de 15
palavras. (3) Democracia. Regras gramaticais e ortográficas são regidas por leis, mas não há um decreto que
proíba a invenção de palavras. Quem decide o uso é o povo. Se o povo adota, a palavra fica. Se não adota,
ela cai em desuso. “Empregabilidade” nasceu de uma regra usada em muitas outras palavras: o substantivo
que gera um adjetivo, que por sua vez gera um novo substantivo (como renda/rentável/rentabilidade). Daí,
emprego/empregável/empregabilidade. Espero que a explicação tenha tido palatabilidade.

Quando vale a pena virar pessoa jurídica

Palavra da semana: assertivo. A homofonia com “acerto” dá a impressão de que “assertividade” significa
não cometer erros. Assertar é apenas “fazer uma afirmação e se responsabilizar por ela”. Quem um dia
afirmou “Lula jamais será presidente” assertou, mas não acertou.
Aceitei uma proposta para mudar de emprego. Mas, no mês que vem, minha empresa pagará o bônus
anual por desempenho. Seria antiético eu esperar até receber o bônus e pedir a conta no dia seguinte?
– Lucas
Não. Você certamente ouviria um monte de seu chefe, mas o bônus premia algo que você já fez (seu
desempenho no ano passado). Na quase totalidade das empresas, um funcionário que pede demissão deixa
de receber o bônus a que teria direito. E isso me parece menos correto que pedir a conta depois de embolsar
o bônus.

Minha empresa resolveu terceirizar meu setor e pediu que cada funcionário fizesse uma proposta de
prestação de serviço autônomo (PJ). Como eu calculo esse valor? – Wilma
Como PJ, você pagará menos de Imposto de Renda. Mas deixará de receber FGTS, férias e 13o salário (e,
dependendo da empresa, vale-transporte e vale-refeição). E também perderá outros benefícios que sua
empresa eventualmente ofereça, como convênio de assistência médica. Para equilibrar suas finanças, você
deveria receber entre 20% e 30% a mais do que atualmente ganha. Ainda assim, a empresa faria uma bela
economia. Um empregado efetivo custa quase um salário extra por mês, considerando tudo o que a empresa
gasta com ele.

Tenho um diploma universitário de uma faculdade pouco conceituada. Mas falo quatro idiomas
fluentemente. Qual das duas coisas é mais importante no mercado de trabalho? – Lea Maria
A segunda, mas apenas se você concentrar sua busca em empresas que necessitem de poliglotas (e que não
são muitas, já que o inglês se tornou um idioma do tipo “máximo divisor comum” nas multinacionais,
mesmo as européias e asiáticas). De qualquer forma, ao elaborar seu currículo, liste os idiomas antes do
histórico acadêmico para enfatizar bem seu diferencial.

O PJ paga menos imposto. Mas não recebe FGTS, férias, 13o salário nem benefícios extras da empresa. Para
compensar, é preciso ganhar de 20% a 30% mais

Estou em meu primeiro emprego. Comecei há cinco meses com todo o gás e sou sempre o primeiro a
chegar e o último a sair. Mas meus colegas não gostaram dessa minha atitude e me isolaram. Devo
expor o problema a meu gerente? – Guilherme
Que problema, Guilherme? Aparentemente, você está conseguindo nota 10 no quesito “ambição e energia” e
zero no quesito “relações interpessoais”. Seu gerente só concordará que você está certo e o resto está errado
se ele tiver uma forma de agir igual a sua. Eu sugiro que você fale com seu gerente, mas mudando o
discurso: pergunte a ele o que você deve fazer para melhorar seu relacionamento com os colegas.

Estou infeliz em meu trabalho. Já pedi para ser mandado embora, mas meu chefe negou, afirmando
que estou na empresa há oito anos e sou bom colaborador. O que eu posso fazer para convencê-lo? –
J.R.B.
Se sua empresa é decente, e se o ambiente de trabalho é bom (imagino que você mencionaria esses fatos, se
eles fossem negativos), qual seria seu próximo passo profissional, se você fosse dispensado? Muito
provavelmente, um emprego semelhante em uma empresa parecida. Aí, você teria de voltar a provar tudo o
que já provou, para conseguir o respeito que já tem. Mas, se você realmente acredita que uma mudança terá
efeito positivo em seu estado de espírito, procure outro emprego e peça a conta. Sair, despedido ou não, sem
ter outro emprego, vai deixá-lo muito mais infeliz

Como lidar com chefes novos

Palavra da semana: Mancada. .

Em latim, mancus era quem não tinha a mão (manus), sentido conservado no idioma castelhano. Em
português, por motivos obscuros, virou sinônimo de deficiência no pé ou na perna. Com o tempo, o sentido
original se transformou em “falta”. Por isso, “dar uma mancada” é faltar com uma obrigação, deixar de
cumprir uma promessa, ou meter os pés pelas mãos.
Novos gestores foram contratados pela empresa em que trabalho. A palavra utilizada pela direção foi
“oxigenação”. Esses gestores já entraram criticando tudo o que era feito, e só falam em mudanças,
sem perguntar se temos sugestões ou opiniões. Como convencê-los de que somos mais qualificados do
que eles pensam? – Sandra

Em primeiro lugar, Sandra, respire fundo. Tanto para se oxigenar quanto para não tomar atitudes impulsivas.
Nesse período de confrontação inicial de pontos de vista, o mais importante será você conseguir a confiança
dos novos gestores. Isso levará entre três e seis meses. A partir daí, as opiniões daqueles que aderiram à
nova gestão passarão a ser ouvidas. É claro que nem tudo o que vinha sendo feito antes estava errado, mas
propostas novas também podem ser salutares. Portanto, temporariamente, exercite sua paciência.

Fiquei 17 anos numa empresa que quebrou há quatro meses. Apesar dos sinais em contrário, a
direção afirmava que tudo estava sob controle, e nós acreditamos. Estou, além de deprimido, me
sentindo meio burro por não ter percebido as coisas com clareza. – Luiz R.

Não há nada que você possa fazer para ressuscitar sua ex-empresa, mas sua situação pode servir de alerta.
Quando uma empresa começa a perder mercado, conceder grandes descontos para conseguir vender
produtos ou serviços, atrasar pagamentos e deixar de recolher impostos, não há dúvidas de que ela está
pendurada pela falangeta na borda do abismo. Porém, há empresas que, por otimismo ou leviandade,
insistem que tudo isso é apenas uma situação passageira. Uma sugestão é sempre verificar, por meio da
Caixa Econômica Federal, se os depósitos do FGTS estão sendo regularmente feitos. Quando a empresa
deixa de fazer o recolhimento, é porque o fim está próximo.

Uma empresa pode eliminar um candidato a emprego porque ele tem o nome sujo na Serasa ou no
SPC? – Leonel

Não. A Lei no 9.029 proíbe a discriminação, no acesso a empregos, pela situação familiar (o que inclui a
situação financeira). A Convenção no 111 da OIT, da qual o Brasil é signatário, também impede essa prática
discriminatória. A Serasa e o SPC são órgãos criados para auxiliar instituições financeiras na concessão de
empréstimos, e não para barrar candidatos a emprego. O problema é que empresas que usam o cadastro para
eliminar candidatos jamais dizem abertamente que esse foi o motivo da rejeição, impedindo que os
prejudicados possam mover processos por discriminação.

Sou gerente de vendas, e meu diretor insiste que devo dar expediente das 7 às 20 horas, como bom
exemplo para meus subordinados. Isso tem respaldo legal? – Roberto

Não. Se você não está sujeito a qualquer controle de presença ou de horário, a empresa entende que você
ocupa um cargo de confiança. Por um lado, você não recebe horas extras. Por outro lado, a empresa não
pode fixar sua jornada, determinando horários de entrada e saída. Um dos fatores que caracterizam um cargo
de confiança é o amplo poder de decisão. Se você não pode decidir o próprio horário, seu diretor está
interpretando a lei de modo unilateral

Vale a pena pedir emprego pelo site?

O que acontece depois que a gente envia um currículo através do site de uma empresa? Ele é lido por
alguém? – Loriane

Se no site estiver escrito “envie seu currículo”, ele será lido e avaliado. E aqueles que se enquadrarem no
perfil exigido pela empresa irão para um banco de dados. Esse perfil, que não está detalhado no site, inclui
escolaridade e experiência, mas pode também contemplar outros fatores, como “residir perto do local de
trabalho”. As boas empresas respondem, agradecendo o envio do currículo, sem mencionar se eles foram
guardados ou descartados. Mas nada disso vale para os sites que têm a frase “fale conosco”. Esse é um canal
para consumidores, e não para candidatos a emprego.

Minha empresa não tem programas de reconhecimento para quem completa um ano de casa. Isso
gera falta de motivação... – Gil

Por mais absurda que sua questão possa parecer para muita gente, Gil, você tem razão. As empresas se
acostumaram a premiar os empregados pelo tempo de casa, mas a partir dos dez anos. Essa prática
funcionava bem no século passado, quando havia mais estabilidade no emprego. Atualmente, a rotatividade
é tão alta que ficar três anos numa empresa já se tornou algo digno de registro. Um simples cartão, com um
pequeno brinde, na data de aniversário de emprego, é um reconhecimento que custa quase nada, mas tem um
impacto bastante positivo.

Temos uma nova presidenta (é assim que se diz?), bem jovem. É correto chamá-la pelo primeiro
nome?

O termo presidenta é correto, embora seja pouco usado. E, dentro da empresa, é conveniente chamá-la de
“senhora”. O tratamento respeitoso é devido ao cargo que ela ocupa, e não à idade ou à aparência dela. Se a
presidenta quiser dispensar essa formalidade, ela mesma dirá. O mesmo caso se aplica a presidentes ou
diretores homens. E a entrevistadores e entrevistadoras, mesmo que eles sejam mais jovens que os
candidatos.

O que é melhor, ser efetivo ou ser PJ? – Marcelo

Um empregado efetivo tem férias, 13º, fundo de garantia e convênio de assistência médica. Um PJ só tem a
remuneração mensal. A primeira alternativa parece melhor, mas acontece que PJ gosta de ser PJ. Ele se
sente mais dono do próprio nariz, é pouco afeito às liturgias da hierarquia, e não precisa ficar explicando em
entrevistas por que trocou de emprego. O PJ é o empreendedor da própria carreira, e é nessa direção que o
mercado de trabalho está caminhando.

Tenho 28 anos. Se eu fizer uma faculdade de educação a distância (EAD) de dois anos, ela me
colocaria em condições de igualdade com quem fez uma faculdade presencial de quatro anos? – Junior

Não, Junior. O EAD não é um atalho acadêmico. Eu vejo esses cursos como interessantes para profissionais
já graduados, que não têm tempo para freqüentar outra faculdade, mas estão interessados em adquirir
conhecimentos em outras áreas. Para mim, o EAD é um curso “além de”, e não “ao invés de”.

Já enviei mais de cem currículos... – Laís

Como você me mandou seu currículo, posso lhe assegurar que você dificilmente receberá algum retorno de
empresas. Seu e-mail tem a palavra “gatinha”. Ótimo para o Orkut, mas não para um primeiro contato
profissional

Quanto vale seu diploma?

Palavra da semana: Reputação. A palavra veio do latim putare, “somar”, “calcular”, mais o prefixo re,
“outra vez”. A reputação profissional é o somatório das coisas, boas ou ruins, que uma pessoa demonstra ao
longo da carreira.

Estou cursando Direito numa faculdade que entrou na lista do MEC como sendo de baixa qualidade.
O que isso significa para minha carreira? – Carlos
O MEC avaliou 509 cursos de Direito em todo o Brasil e concluiu que 89 deles não tinham os padrões
mínimos aceitáveis. Os formandos nesses cursos vinham obtendo notas baixas nas provas do Enade (Exame
Nacional de Avaliação de Desempenho de Estudantes) e alto índice de reprovação nos exames da Ordem
dos Advogados do Brasil. Em março, saiu a lista das 37 faculdades em situação mais grave. Na prática, já
que a lista é pública, isso significa que o diploma dessas faculdades perde valor no mercado de trabalho. O
MEC pretende estender essa avaliação a outros cursos (o de Direito foi apenas o primeiro), e muito
provavelmente chegará a conclusões semelhantes. Nos últimos 15 anos, a proliferação de faculdades no
Brasil aumentou a quantidade de vagas, mas parte delas não se preocupou com a qualidade do ensino. Eu
imagino que alguns alunos entrarão com processos para reaver o valor pago em mensalidades, da mesma
maneira que consumidores podem exigir ressarcimento quando compram um produto que não cumpre o que
prometeu.

Qual é a importância de um MBA? – Lineu

Grande. Mas leve em consideração o seguinte: na disputa por uma vaga, um candidato com boa faculdade e
três anos de experiência terá mais chances que um candidato com MBA e nenhuma experiência prática. O
MBA agrega, mas não substitui. É mais recomendável cursá-lo depois de estar empregado.

Fui estagiária durante sete meses. Participei de um processo de seleção para uma vaga efetiva em
outra empresa e fui aprovada, mas com a condição de começar imediatamente. Como estágio não tem
aviso prévio, comuniquei a meu gerente que iria sair em três dias. Ele ficou muito irritado e disse que
eu devia tê-lo avisado de que estava participando desse processo. Errei? – Vânia

Não. Qualquer pessoa que esteja participando de processos em outras empresas não tem obrigação, nem
legal nem ética, de comunicar esse fato à empresa atual. Cabe à empresa criar as condições para que o
empregado não queira sair.

Tenho 24 anos, moro em Fortaleza e sou formado em Jornalismo. Como aqui não há oportunidades,
estou pensando em me mudar para São Paulo, onde o mercado é mais promissor... – Jota

Não faça isso, Jota! O mercado de São Paulo realmente é maior, mas não é mais promissor, porque o
número anual de formandos é muito superior ao número de vagas que são abertas. Nos últimos três meses,
recebi perto de 60 consultas de formandos em Jornalismo que não conseguem se empregar, e a maioria é de
São Paulo. Nessa área, só se consegue uma vaga por meio de indicação direta. Portanto, suas chances ainda
são maiores em Fortaleza, onde você conhece mais gente.

Como há muitas empresas européias no Brasil, aprender um idioma que pouca gente domina (por
exemplo, o sueco) aumentaria minha empregabilidade? – Ana

Boa pergunta, Ana. Conversei com dois gestores de multinacionais (uma sueca e outra finlandesa). Eles
informaram que a comunicação entre a matriz e as filiais, falada ou escrita, é toda feita em inglês

Apontar coisas erradas pode ser um erro

Palavra da semana: talento. Na Grécia Antiga, tálanton era uma moeda e uma medida de peso (já que o
valor do dinheiro era determinado pelo peso, e não pela unidade, porque as moedas eram irregulares). O
sentido atual – de aptidão ou habilidade – só surgiu no século XV e foi extraído da Bíblia: a parábola dos
talentos, em Mateus, capítulo 25, versículos 14-30.

Estou pensando em relatar ao presidente da empresa as coisas erradas... – Luciano

Vamos começar definindo o que são “coisas erradas”, Luciano. Em sua mensagem, você não descreveu
nenhuma situação em que sua empresa esteja infringindo leis, sonegando impostos ou praticando qualquer
ato imoral. O que você está chamando de “coisas erradas” é sua percepção pessoal de que certos
procedimentos internos deveriam ser diferentes do que são, e que colegas que você considera incompetentes
estão mais atrapalhando que ajudando. Infelizmente, e por mais razão que você possa ter, esses não são
motivos para você ignorar a hierarquia e ir falar com o presidente da empresa. A não ser que você queira ser
dispensado para sacar o Fundo de Garantia. Nesse caso, suas chances são ótimas.

Sou formada em Marketing, mas trabalho no setor contábil. Não consigo emprego em minha área
porque não tenho experiência... – Márcia

Você não está sozinha, Márcia. Semanalmente, recebo muitas consultas de leitores que se formaram em uma
área e trabalham em outra. E a situação é comum a todos – em processos seletivos, as empresas dão
preferência a quem, além do diploma, possui experiência prática na função. Minha sugestão: procure um
emprego na área em que você atua, numa grande empresa que tenha a área que você deseja. Será mais fácil,
depois, você conseguir uma transferência interna. Mas não mencione esse “plano de carreira” na entrevista,
porque isso a eliminaria sumariamente do processo.

Marquei minhas férias para fevereiro, comprei passagens e reservei hotel. Mas meu chefe decidiu
cancelar meus planos devido a um projeto importante que surgiu. Posso pedir que a empresa
reembolse o dinheiro que gastei? – Lea

Pedir, você pode e deve. Porém, miseravelmente, a razão está do lado da empresa. Pelas leis trabalhistas, a
empresa é que determina o período em que o funcionário sairá de férias. Imagino que você tenha
comunicado a seu chefe que sairia em fevereiro, e ele tenha concordado. Mesmo assim, a decisão dele de
cancelar suas férias tem amparo legal. Moralmente, você tem toda a razão. Legalmente, não.

Quem tem um MBA pode usar o título de mestre, já que o M de MBA é de “master”? – Cláudio J.S.

Não. O título de mestre é regulamentado pelo Ministério da Educação. É elegível a ele quem faz um curso
de mestrado em uma instituição credenciada e defende uma tese oral perante uma banca examinadora. O
MBA não é um mestrado, é uma pós-graduação com uma sigla atraente.

É justo que a empresa me mande acumular o serviço de uma colega que está afastada por motivos
médicos, sem que eu receba um adicional por isso? – Vitória

Ao ser admitida, Vitória, você assinou um contrato de trabalho. Nele constam: a função que você teria, o
horário de trabalho que você se dispôs a cumprir e o pagamento acordado por seu tempo e seu serviço. O
que você está dizendo é que vai trabalhar mais, porém executando as mesmas tarefas e dentro do mesmo
tempo. Nesse caso, o salário não muda. Há empresas que oferecem uma gratificação em situações como a
sua. É justo, mas não é compulsório

Mestrado e doutorado ou experiência?

Tenho 26 anos, sou psicólogo, com mestrado completo e estou fazendo doutorado, além de ter vários
outros cursos de especialização na área. Minha família acha que não preciso de tantos títulos, e que
estou fugindo do mercado de trabalho. Não concordo, mas não sei mais que argumentos usar. – G.
Se você nunca trabalhou, essa bela coleção de títulos realmente não vai lhe garantir um primeiro emprego de
altíssimo nível. Caso seja contratado por uma empresa, você começará mais ou menos por onde começaria
se tivesse apenas concluído a graduação, devido a sua falta de experiência prática. Por outro lado, se você
pretende ter um consultório particular, ou se vê a possibilidade de seguir uma carreira acadêmica, os títulos
pesarão bem mais. Portanto, seus argumentos devem partir da seguinte pergunta: o que você de fato quer de
sua vida profissional?

Recebi uma proposta para mudar de emprego, mas a maior parte de meu salário seria variável,
dependendo do cumprimento de metas. Aparentemente, vou ganhar mais, mas estou em dúvida se
vale a pena correr o risco. – Paula
Caso você mude, Paula, terá de reestruturar suas finanças domésticas. Hoje, você sabe quanto ganha e
quanto gasta. Ao partir para um sistema de remuneração variável, você só saberá quanto ganhou quando o
mês acabar. Portanto, já não seria ajuizado de sua parte comprar bens em prestações, por exemplo. Seu
orçamento deverá ter como base apenas a parte fixa da remuneração. O segundo conselho que eu lhe daria é
só mudar se a empresa for sólida e estiver atuando no mercado há, pelo menos, cinco anos.

Há oito meses fui transferido para outro Estado, mas meu salário não foi alterado, porque a empresa
alega que a mudança é provisória, e não definitiva. – Marcos César
É o contrário, Marcos César. Quando a transferência é provisória, você tem direito a um pagamento
suplementar, não inferior a 25% de seu salário, enquanto perdurar a situação. É o que dispõe a CLT em seu
Artigo 469, Parágrafo 3o. Você não teria direito a esse adicional se a transferência fosse em caráter
definitivo. Nesse caso, a empresa teria de reembolsar somente suas despesas de mudança e instalação.

Sou bonita e inteligente, e tenho opiniões firmes. Minha gerente me disse que sou provocante, e não sei
se isso foi um elogio ou uma crítica. – CLB.
Depende. Se sua gerente estava se referindo apenas a sua beleza, foi um aviso. Se ela estava se referindo a
sua inteligência, foi um incentivo. No primeiro caso, você gera distração no ambiente de trabalho. No
segundo, cria situações estimulantes com suas opiniões. Nas empresas, há muitas mulheres bonitas e muitas
mulheres inteligentes. As que reúnem as duas condições são mais raras, e normalmente disparam
rapidamente na carreira. Se você não disparar, isso pode significar que sua auto-avaliação precisa ser revista.

No mercado de trabalho, o que vale mais? Um histórico de 25 anos ou o último emprego? – Fabio
O último emprego vale mais, infelizmente. Se, por exemplo, você já foi gerente, e hoje é assistente, é pouco
provável que surjam boas oportunidades em nível gerencial. Do ponto de vista do mercado (por vezes,
obtuso), o que você está ganhando é o que você vale.

Por que as empresas investem em felicidade

Trabalho em uma grande empresa, que volta e meia aparece na imprensa como “modelo em gestão de
pessoas”. Porém, o que vejo são colegas querendo subir a qualquer custo, chefes pressionando cada
vez mais e um ambiente de trabalho tenso. Será que estou sendo ingênua ou minha empresa cria esses
programas de gestão só para aparecer em revistas? – Lisete
Nem uma coisa nem outra, Lisete. Você não é ingênua e sua empresa é bem-intencionada, apesar de ela
mostrar certa queda pelo chamado “Marketing de RH”. Empresas não criam programas para que todos sejam
felizes, mas para balancear a tensão que nasce da pressão por resultados de curtíssimo prazo. Sem esse
equilíbrio, a situação seria de paranóia generalizada. Há três tipos de empresa: (a) as que oferecem mais
dinheiro para compensar a pressão; (b) as que oferecem programas de relaxamento e qualidade de vida; e (c)
as que acham que o empregado tem mais é de trabalhar e parar de reclamar. Sua empresa é do tipo b. Você
só vai valorizar o que ela lhe oferece no dia em que estiver numa das outras duas.

Sofri abusos morais por parte de meu ex-chefe. Fui reclamar diretamente com o presidente da
empresa, mas não adiantou e acabei sendo dispensado. Devo relatar isso em futuras entrevistas? –
Vinicius
Só relate se você não estiver interessado em conseguir um novo emprego. No caso de ir direto ao presidente,
você atropelou a hierarquia e os canais de comunicação da empresa. No caso do ex-chefe, uma regrinha
básica em entrevistas é: “Nunca diga nada negativo sobre alguém que não está presente para se defender”.

Trabalho há três anos sem registro, porque vejo vantagens em... – R. Carlos
O futuro lhe mostrará que não há vantagem nenhuma em ser um trabalhador irregular. Isso só interessa à
empresa contratante, que está “economizando” nas contribuições legais. Se você pretende ter uma carreira
profissional séria, saia da marginalidade profissional.

O que devo responder quando o entrevistador pergunta minha pretensão salarial? – Rosany
Que você está mais interessada, neste momento, em trabalhar naquela maravilhosa empresa e que a
oportunidade será mais importante que o salário inicial. O motivo da pergunta não é “contratar quem pede
menos”. É descobrir quais candidatos têm expectativas altas demais – e, portanto, já se sentiriam frustrados
desde o primeiro dia, se fossem contratados.
Pensando em meu futuro profissional, quais cursos são mais indicados? – Roberta
O ideal seria você conciliar o que gosta de fazer com o que vai gerar oportunidades de emprego. Uma das
maiores agências de contratação de São Paulo publicou uma pesquisa referente às vagas abertas no ano
passado e que exigiam curso superior completo. Os mais solicitados foram profissionais formados em
Engenharia, Administração e Informática. Os menos procurados: Direito, Comunicação e Psicologia. Isso
não significa que não existem vagas nessas áreas. Existem, mas praticamente a totalidade delas é preenchida
através de indicações diretas

Siga o exemplo do bambu

Passei por vários empregos, e não consegui me adaptar a nenhum. Gosto de dar sugestões, de ser
participativo, e fico deprimido quando percebo que meu potencial não está sendo aproveitado. Será
que estou idealizando um emprego que não existe? – Fábio
O emprego que você tem em mente existe, Fábio. Neste momento, milhões de pessoas estão em empregos
assim, embora qualquer profissional sempre ache que está participando menos do que poderia ou deveria.
Há, entretanto, algo que você deve levar em conta. Nenhuma dessas pessoas já entrou dando sugestões,
remexendo em estruturas ou alterando processos existentes. Para ter uma carreira de acordo com seu
potencial, você deve fazer como o bambu, uma planta que parece frágil, mas não é. Antes de brotar, o
bambu leva vários anos construindo uma rede subterrânea de raízes. Quando ele desponta, está firme e
sólido. É isso que está lhe faltando, Fábio. Você já quer começar pela superfície, antes de criar as raízes da
confiança. A cada mudança que você faz, você se replanta e volta ao ponto zero. Seja mais paciente,
lembrando que ser paciente não é ser acomodado.

Sou formada em Geologia, mas, como não encontrei oportunidades em minha área, venho
trabalhando como recepcionista em um hospital. Não gosto do que faço, mas não posso fazer o que
gosto. Tenho 25 anos. Devo insistir ou desistir? – Clara
Você pode ser tanto uma beneficiária quanto uma vítima das chamadas “profissões que encantam”. Elas se
caracterizam pela sonoridade dos nomes e pela possibilidade de uma carreira diferente. No Brasil, porém, o
número de vagas oferecidas para as profissões que encantam é bem inferior ao número de formandos.
Muitos pais estimulam os filhos a fazer as próprias escolhas, o que pode ter ocorrido em seu caso. Isso é
ótimo, sem dúvida. Só que, muitas vezes, a escolha é feita sem que sejam respondidas algumas
indispensáveis perguntas prévias: qual é o mercado de trabalho nessa área?; em que parte do país estão as
melhores vagas?; conheço alguém da área que possa me indicar? Você provavelmente não fez essa
investigação, Clara. Não estou afirmando que você fez o curso errado, apenas estou enfatizando que não se
deve estudar quatro ou cinco anos e transferir o momento da verdade – a busca de um emprego – para depois
que o diploma já estiver na mão. Sem dúvida, Clara, você deve insistir. Mas estabeleça também um plano
alternativo, caso não surja nenhuma oportunidade nos próximos 12 meses. Se for o caso, faça outro curso,
um que ofereça mais opções de emprego. Aos 25 anos, você ainda tem décadas de vida profissional pela
frente.

Qual é a diferença entre MBA e mestrado? – Lydiane


São várias. Um candidato a mestre defende uma tese, oral e individualmente, perante uma banca
examinadora. No MBA, o exame é escrito e coletivo, como na faculdade. Um MBA é um curso avançado de
administração de negócios, enquanto um mestrado pode ser de qualquer área. Se uma pessoa pretende seguir
carreira em empresas, o MBA fica melhor no currículo. Um mestrado dá mais brilho curricular a quem
ambiciona uma carreira acadêmica

Contenha seus desejos de vingança

Fui demitida injustamente, após quatro anos de trabalho sem nenhuma repreensão. Sei de muitas
coisas erradas que ocorrem na empresa e tenho vontade de relatá-las à diretoria. Isso seria perda de
tempo? – Vanessa
Seria, Vanessa. Se durante quatro anos você viu coisas erradas e não as relatou, uma denúncia pós-demissão
dificilmente será vista pela direção da empresa como uma tentativa positiva de contribuição. É mais
provável que seu relato seja encarado como retaliação. Porém, se você sentir que só um desabafo vai
melhorar seu estado de espírito, faça isso. Em seguida, em qualquer das hipóteses – relatando ou não –, eu
recomendo que você olhe para a frente e deixe o passado em paz.

Existe um rumor de que a empresa em que trabalho instalou uma escuta telefônica (grampo), que
permite a ela ouvir as conversas dos funcionários. Isso é legal? É ético? – Rodrigo
Por seu Artigo 5o, a Constituição proíbe gravações de conversas sem expressa autorização judicial. Ao ter
seu telefone grampeado, o cidadão tem a intimidade violada, o que é ilegal. No caso da empresa, o
funcionário estaria fazendo uso de um ativo que não lhe pertence, para falar sobre assuntos que não são do
interesse da empresa, num horário em que está sendo pago para trabalhar. O Artigo 2o da CLT dá ao
empregador poder para regulamentar, controlar e fiscalizar a forma como o trabalho é prestado pelo
empregado. A mesma discussão se aplica ao monitoramento de e-mails por parte da empresa, e o Tribunal
Superior do Trabalho já proferiu sentença reconhecendo esse direito do empregador. Portanto, é legal, mas
não é lá muito ético. Ao implantar um sistema de espionagem interna, sem prévia comunicação, a empresa
quebra o princípio da confiança mútua.

Embora meu objetivo seja uma carreira no setor privado, venho prestando concursos públicos, por
via das dúvidas. Como uma empresa privada veria, futuramente, a contratação de um funcionário
público? – Wilson
Se o que você aprendeu num órgão público puder ser útil à empresa, não haverá discriminação, se é isso que
você está imaginando. A avaliação dos candidatos a uma vaga é feita levando em conta a escolaridade e a
experiência prática. Porém, Wilson, se você passar mais de três anos na esfera pública, começará a ter
dificuldades para competir com candidatos oriundos do setor privado, porque eles terão o que se chama, no
jargão das empresas, de “experiência compatível”. Eu sugiro que você encare o serviço público como um
objetivo, e não como uma situação provisória. Ou então deixe a vaga pública para quem realmente a deseja,
e se concentre no setor privado.

Sou mãe de dois filhos pequenos, de 4 e 6 anos. Estou em dúvida quanto à escola em que eles deverão
iniciar os estudos. Uma mais cara, que lhes dará uma base melhor, mas me esgotará os recursos, ou
uma mais barata, que me permitiria investir em outras atividades culturais e esportivas para eles? O
ensino fundamental fará alguma diferença daqui a 15 ou 20 anos? – Flávia
Fará, Flávia. Vou lhe dar um exemplo banal e atual. Muitos jovens com curso superior têm sido eliminados
de processos para bons empregos simplesmente porque não sabem redigir corretamente em português. Uma
má iniciação escolar não tem conserto depois

Não se transforme no "faz-tudo" da empresa

Qual deve ser a postura de um funcionário quando o chefe descobre que ele está participando de um
processo de seleção em outra empresa? – Maya
O funcionário não deve dar a impressão de que foi apanhado fazendo algo errado, vergonhoso, imoral ou
antiético. Estar atento às oportunidades do mercado é um fator essencial na gestão da própria carreira. A
resposta deve ser: “É verdade, eu sempre participo desses processos”. Também é importante que o
funcionário não comece a explicar mais do que o chefe perguntou. Se a pergunta for “Você está insatisfeito
aqui?”, a resposta é “Não, estou muito satisfeito”. Inventar histórias ou desculpas, ou tentar aproveitar o
momento para fazer críticas ou pedir aumento só iria transformar uma conversa simples numa situação
complicada.

Vim para uma empresa em que os diretores são tratados por “doutor”. Como nenhum deles, de fato,
tem doutorado, isso não parece algo meio ultrapassado, que soa mais como puxa-saquismo que como
respeito? – S. Silva
A resposta tem 1.620 anos e foi dada por Santo Ambrósio, bispo de Milão, a Santo Agostinho: “Em Roma,
faça como os romanos”. É mais sábio se adaptar a uma cultura existente que tentar adaptá-la a nossas
próprias convicções. Santo Agostinho aceitou o conselho e se tornou um dos mais respeitados doutores da
Igreja.
Estou há oito anos na mesma função, e ganhei um rótulo: “faz-tudo”. Qualquer problema que aparece
pousa direto em minha mesa. O bom é que consegui angariar confiança. O ruim é que convivo com
excesso de trabalho, muita cobrança e nenhuma possibilidade de ascensão profissional. – J.J.
Pois é, jota-jota, você se tornou “o insubstituível”. E isso seria ótimo se seu foco principal fosse a segurança
no emprego. Para quem tem ambições mais altas, ser o depositário fiel de todos os problemas não ajuda a
criar asas. Ajuda a criar raízes. Quanto mais o tempo passa, mais os pés afundam no chão sob a mesa. Casos
como o seu têm duas explicações. Ou seu chefe é egoísta e não permite que você voe para outros cargos, ou
ele é lúcido e sabe que você já atingiu seu potencial e vai se espatifar se tentar voar mais alto. Em qualquer
das hipóteses, você precisa procurar outras opções. Ou para provar que seu chefe está errado, ou para se
convencer de que ele está certo.

Tenho uma horrível “síndrome do primeiro dia”. Foi assim nas escolas e tem sido assim no trabalho.
No primeiro dia, morro de medo de tudo. Dos colegas, do chefe, da responsabilidade. Há como me
livrar desse temor? – Nívea
Depende, Nívea. Você sofre porque acha que é incompetente e que tudo vai dar errado ou porque tem uma
enorme vontade de acertar? Como você não disse que o pânico continua pelos dias seguintes, eu imagino
que seja a segunda alternativa. Logo, encare sua reação de modo positivo. O contrário seria pior – imaginar
que tudo vai dar certo e não se preparar para eventuais frustrações. No fundo, você é feliz e não sabe.
Dissipar uma frustração leva meses, e você tem uma sindromezinha que se dissolve em oito horas

Como voltar para o emprego abandonado

Palavra da semana: achar.


Dizer “eu acho” é a mesma coisa que dizer “não sei”? Achar veio do latim ad flare, “soprar”, com o sentido
de “cheirar” (outra palavra da mesma raiz é “olfato”). Mais contundente é o verbo opinar, do latim opinari,
“acreditar”. Como certezas não deixam de ser opiniões pessoais – e, portanto, discutíveis –, normalmente
nós perguntamos: “O que você acha?”.

Tenho 21 anos. Troquei de emprego porque queria adquirir mais experiência. Quando saí, meu
gerente me disse que as portas estariam abertas se eu quisesse voltar. Não me dei bem na nova
empresa e gostaria de regressar à antiga. Como digo isso para meu ex-gerente, sem dar a impressão
de que falhei no emprego atual? – Theo
Diga a ele que você descobriu que o ambiente de trabalho da ex-empresa era muito melhor (a começar pelo
próprio ex-gerente). E enfatize que você não tem a mínima intenção de sair novamente, caso seja aceito de
volta. Apesar do que seu ex-gerente disse, não existe garantia de que as portas estarão de fato abertas.
Portanto, prepare-se psicologicamente para uma recusa. De qualquer forma, você está adquirindo a
experiência que procurava. Aprendeu que mudar de emprego sem uma razão forte e concreta pode ser uma
furada.

Trabalho há dois anos em uma empresa, mas em uma função incompatível com o curso que faço. O
que é melhor, mudar de curso ou mudar de empresa? – Danielle
Se você gosta da empresa e da função atual, e se vê boas possibilidades de progresso nessa área, mude de
curso. Ou conclua o curso, se você estiver nos últimos dois anos, e depois faça especializações. E não se
preocupe demais, Danielle. Às vezes o profissional encontra o caminho, outras vezes o caminho é que
encontra o profissional. As duas opções são boas. Ruim é ficar sem rumo.

Gostaria de saber qual o impacto que viagens ao exterior têm num currículo. – Clodoaldo
De zero (nenhum) a 10 (tremendo), ter viajado como turista, para conhecer outras culturas, tem peso 2. Ter
viajado e feito um curso de, no mínimo, seis meses, numa boa instituição, tem peso 4. Ter estudado e
trabalhado tem peso 7, mas só se o trabalho no exterior for equivalente à vaga procurada no Brasil. E o que
teria peso 10 no currículo? Um MBA em Harvard, por exemplo, conjuntamente com um trabalho numa
multinacional de respeito. É claro que estamos falando apenas de currículos. Há outros fatores que influem
numa contratação, como postura numa entrevista e um bom networking.
Fui contratada por uma empresa e minhas atribuições foram claramente expostas durante o processo
de seleção. Ao iniciar, recebi tarefas que pouco têm a ver com o que tinha sido combinado. Reclamei, e
meu chefe disse que vamos deixar assim mesmo, por enquanto. Estou pensando em pedir a conta, mas
acho que isso vai me prejudicar em futuras entrevistas. – Helen
O que aconteceu com você não é comum, Helen, mas também não é uma raridade. Pode ter sido falta de
sintonia entre as áreas que conduziram o processo, ou pode ser que você não teria concordado com a
admissão se a empresa lhe tivesse dito a verdade. Independentemente do motivo, no mais das vezes os novos
empregados se acomodam à situação. Ou imaginando que as coisas poderão mudar, ou com receio das
conseqüências. Realmente, explicar numa entrevista que você pediu a conta porque foi enganada não pega
bem, mas inventar outro motivo pode ser ainda pior, porque bons entrevistadores sabem quando o candidato
está mentindo

As férias forçadas de fim de ano

Minha empresa concedeu férias forçadas de dez dias a um grupo de funcionários e descontou do
pagamento mensal todos os dez dias, incluindo o Natal e o Ano-Novo. Isso tem amparo legal? – Mário
Infelizmente, tem. A lei concede à empresa o direito de decidir o período em que cada empregado sairá de
férias. Em boas empresas, o funcionário e o chefe discutem esse período e chegam a um acordo. Em ótimas
empresas, o empregado é quem decide e só comunica. Mas empresas “espertas” (as aspas são propositais)
aproveitam o que a lei determina: as férias são contadas em dias corridos. Assim, essas empresas podem
conceder – ou forçar – dez dias de férias que englobam o Natal, o Ano-Novo, as respectivas vésperas e mais
dois sábados e dois domingos, anteriores e posteriores. A esperteza está no fato de que, dos dez dias que vai
ficar “de férias”, o empregado não trabalharia normalmente em quatro deles, ou seis, ou até oito. Essa
decisão é tomada exclusivamente com base no ganho financeiro que a empresa terá. Mas ela ignora o efeito
– por vezes devastador – que isso vai causar no moral da tropa. No fim, a empresa economiza alguns tostões
que depois serão gastos em campanhas internas para melhorar o ambiente de trabalho.

Estou com 27 anos e trabalhei em várias empresas, algumas de grande porte. Em todas elas, ou fui
dispensado, ou pedi a conta por não me dar bem com os colegas. Nas três vezes em que fui dispensado,
o motivo alegado foi falta de perfil. Como posso resolver essa situação e parar de ficar pulando de
galho em galho? – Herbert
Falta de perfil é o motivo mais alegado por empregadores que não querem ficar dando explicações
detalhadas para uma demissão. Existem empresas que alegam falta de perfil para não dizer que o empregado
é improdutivo, ou não é esforçado. Mas isso pode acontecer uma vez ou duas, não três. Quase sempre, a
falta de perfil está na dificuldade de relacionamento com os colegas. Muito provavelmente, Herbert, ou esse
é seu caso ou você deu o enorme azar de só ter trabalhado em empresas ruins. Como essa é uma hipótese
pouco provável, a lógica sugere que o problema está em seu temperamento e em suas atitudes para com os
colegas e chefes. Ou seja, não vai adiantar você continuar mudando se você não mudar.

Tenho 27 anos. Estou morando e trabalhando nos Estados Unidos há cinco anos. Tenho muita vontade
de voltar para o Brasil, mas as pessoas com as quais converso me recomendam ficar por aqui. É isso
mesmo? O mercado de trabalho no Brasil está tão mau assim? – Gregor
Na verdade, está melhor do que estava quando você partiu, em 2002 ou 2003. Acontece que muitos
brasileiros têm o sonho de trabalhar nos Estados Unidos, e não entendem por que alguém nem sequer
pensaria em fazer o caminho inverso. De qualquer forma, sugiro que você só volte depois de ter conseguido
um emprego no Brasil. Aproveite que está empregado e faça contatos com empresas e head hunters para
avaliar suas reais possibilidades. Sua experiência certamente será valiosa, mas você topará com concorrentes
fortes e bem preparados. E, eventualmente, dispostos a ganhar menos do que mereceriam.

É impossível fugir das mudanças


Palavra da semana: ansiedade. Em latim, anxus era tanto "engasgado" quanto "oprimido". Daí veio
"ansiedade", aquela sensação de opressão que fica entalada na garganta. Em uma carreira profissional, a
ansiedade funciona como um acelerador. Se usada no momento certo, ela proporcionará ultrapassagens
rápidas e seguras. Se usada sem critério, e na hora errada, ela vai causar atropelamentos e trombadas.

Creio que meu problema seja um pouco diferente. Tenho medo de mudanças. Estou com 23 anos,
tenho boa formação, sou sociável, estou empregado, mas qualquer boato de que algo poderá mudar
me tira a concentração no trabalho e me causa insônia, para não mencionar outros distúrbios. -
Wellington
Vamos lá, Wellington. O medo da mudança é conseqüência do desejo de ter o controle da situação. E
qualquer pessoa normal gostaria de poder controlar sua vida, seu trabalho e seu destino. Como isso não é
possível, principalmente em empresas, a alternativa mais viável é adaptar-se a um ambiente não-controlável.
A maioria dos jovens faz isso por osmose, observando os funcionários mais antigos e adquirindo os hábitos
deles. Quem não consegue, como você, se sairá melhor executando tarefas repetitivas em empresas
conservadoras. Então, Wellington, ou você encontra uma empresa dessas, que lhe ofereça um trabalho
rotineiro e sem desafios, ou procura ajuda especializada. O futuro lhe mostrará que a segunda opção é
melhor.

Sou muito ansiosa, e dei o azar de ter um chefe lento demais. Ele não me dá oportunidades e engaveta
qualquer sugestão que eu apresento. Estou pensando em passar um ano estudando no exterior e
depois procurar uma empresa que valorize meu talento. - Vanessa
Você está no extremo oposto ao do Wellington, da resposta anterior. E seu caso, Vanessa, talvez seja até
pior que o dele, se você pretende mesmo construir sua carreira em empresas privadas de porte. O importante
é que você não confunda - como está confundindo - talento com ansiedade. Talento é o reconhecimento de
habilidades que você já demonstrou possuir. Ansiedade é a vontade de mostrar habilidades que você acredita
ter. Se você não está considerando a possibilidade de vir a ter o próprio negócio - algo que eu lhe recomendo
considerar -, deve primeiro se adaptar às regras das empresas privadas, para depois tentar mudá-las. E uma
regra elementar é aprender a conviver com um chefe, e ganhar a confiança dele. Por isso, me perdoe, mas
seu plano de ir para o exterior me parece mais uma fuga que uma estratégia.

Passei num concurso público e estou esperando ser chamada. Não há data prevista para isso (pode ser
daqui a 30 dias, ou daqui a um ano). Minha saída vai criar sérios problemas operacionais para a
empresa em que trabalho. Devo avisar meu gerente sobre minha eventual saída? - Rosane
Decida com base no princípio da reciprocidade, Rosane. Certamente, sua empresa demitiu alguns
funcionários nos últimos dois anos. Como ela procedeu? Primeira hipótese. Bem antes da data fatídica, o
gerente chamou o potencial demitido e disse: "Fulano, há uma possibilidade de você vir a ser dispensado.
Pode ser que isso aconteça, pode ser que não. Mas estou avisando com antecedência, para você se preparar".
Segunda hipótese. O demitido só ficou sabendo no momento em que recebeu a notícia da demissão. Eu diria,
Rosane, que 95% das empresas adotam a segunda hipótese. Se a sua for uma das 5% restantes, você deve
avisar seu gerente.

Ganhar sem trabalhar não é bom negócio

Tenho um emprego que não sei se é um prêmio ou um castigo. Não há muito a fazer, por isso eu passo
80% de meu tempo navegando na internet. – Luciane

Não sei se é um castigo, Luciane. Mas, definitivamente, não é um prêmio. Se a empresa é de grande porte,
peça oportunidades. Solicite uma transferência de área. Incorpore-se a qualquer grupo que seja formado. Se
a empresa é pequena e não oferece condições de desenvolvimento, saia daí. Você tem, como se dizia
antigamente, “uma ocupação”. Isso não existe mais. Agora, você tem uma carreira, e ela é sua
responsabilidade.

Trabalho numa capital e estou estressado. Quero mudar para o interior e ter uma vida mais tranqüila
e mais segura. Já conversei com minha família e todos concordamos que vale a pena ganhar menos e
viver melhor. É isso mesmo, ou estamos deixando de avaliar algum fator? – Marco
Normalmente, Marco, quem faz essa transição pensa mais na vida doméstica e menos na dinâmica de uma
empresa do interior, principalmente se ela for familiar. As decisões são mais pensadas, as mudanças mais
demoradas, a hierarquia mais rígida. Isso não quer dizer que essas empresas sejam anacrônicas. Muitas são
moderníssimas, mas caminham no ritmo delas. Ao mudar para uma empresa assim, você estará saindo da
cultura de uma corrida de 100 metros, mais explosiva e mais imediata, para se incorporar à cultura de uma
maratona, mais dosada e mais paciente. Se você estiver disposto a mudar seu estilo, tudo dará certo.

Qual é a diferença entre marketing e mercadologia, se é que existe alguma? – Ramon

Tudo o que termina em “logia” veio do grego logos (“palavra”, no sentido de “conhecimento”) e diz respeito
ao estudo teórico de uma atividade. Ao cunhar o termo marketing, no final do século XVIII, os americanos
juntaram market, “mercado”, com o sufixo ing, que em inglês passa uma impressão de continuidade, de algo
dinâmico e prático. A diferença, se é que existe alguma, é que um mercadólogo explica e um marqueteiro
faz.

Sou funcionário público concursado e exerço a mesma função há 14 anos. Não vejo futuro em
continuar onde estou. Tenho pensado em abrir um negócio próprio. O que eu preciso saber antes de
tomar essa decisão? – C. Araújo

Muito provavelmente, Araújo, você aprecia a segurança e a estabilidade. Caso contrário, não teria optado
pelo serviço público. E também não é de correr grandes riscos. Caso contrário, não passaria 14 anos na
mesma função. Ao pensar em um negócio próprio, você deve levar essas duas características em
consideração e optar por algo relativamente seguro e sem solavancos – um escritório contábil, por exemplo.
Não o aconselho a partir para um tipo de negócio que exija decisões rápidas, baseadas mais no sentimento
que nos dados, porque, nesse caso, suas chances de sucesso seriam remotas.

Mudar de emprego não significa ser infiel

Tudo o que sou, eu devo a minha empresa, que me deu ótimas oportunidades. Por isso, já recusei
várias propostas para participar de processos em outras empresas. Quando alguém entra em contato
comigo, já sinto uma sensação de traição só de atender o telefonema. – Lígia
Tudo o que você é, profissionalmente, você deve a você mesma. A não ser que, nos últimos anos, sua
empresa tenha promovido todos os funcionários indiscriminadamente e independentemente dos méritos e
dos resultados de cada um. Seu sentimento de fidelidade é louvável, e você não deve trocar de emprego
levianamente. Porém, se você não participar de processos de seleção, jamais saberá se existe uma empresa
que lhe dará ainda mais oportunidades. Você certamente tem o talento. O que lhe falta são referências para
comparar se seu talento foi mesmo devidamente valorizado como você acredita que foi.

Tenho um chefe que cobra muito, pressiona muito, ameaça muito, nunca elogia ninguém. Ele vive
repetindo que a motivação deve vir de dentro de cada um de nós, e não do incentivo dos chefes. É isso
mesmo? – Karla
Mais ou menos, Karla. A palavra motivação vem de “motivo”. Se você encontrar, dentro de si mesma, um
ótimo motivo para produzir mais e melhor – por exemplo, um ótimo salário –, não precisará dos incentivos
constantes de um chefe. Mas, se você trabalha numa empresa que não oferece salários e benefícios acima da
média, não paga prêmios por produtividade, nem acena com oportunidades de desenvolvimento profissional,
aí a atitude do chefe faz toda a diferença. Espero que seu caso seja o primeiro.

Sou ansioso e ambicioso. Como posso aproveitar essas características para me tornar um vencedor? –
Celso Luís
Há alguns casos peculiares em que essas características são desejáveis, como para um corretor de Bolsa de
Valores. Mas, de modo geral, a mistura de ansiedade com ambição é indigesta para uma carreira. A ambição
faz com que uma pessoa fixe seus objetivos individuais em patamares muito altos, e a ansiedade dá aquela
impressão de que nada está acontecendo no tempo certo, mesmo que esteja. Para evitar efeitos indesejáveis,
como a frustração e a depressão, é preciso adicionar uma dose de paciência e uma pitada de humildade. A
receita do sucesso consiste em saber equilibrar esses dois ingredientes com os dois que você já tem.
Estou há dois anos na Inglaterra. Vim para cá com a cara e a coragem. Fiz vários bicos, mas não tive
nenhum emprego formal. O fato de eu saber inglês fluentemente me ajudará a conseguir um bom
emprego no Brasil? – Leandro
Depende do que mais você tem a oferecer, Leandro. Se você tem formação superior, e se os bicos que fez
foram em áreas em que há oportunidades – informática, por exemplo –, é provável que você desperte a
atenção dos recrutadores brasileiros. Histórias como a sua são importantes para muitos jovens brasileiros
que vêem uma temporada no exterior como um grande impulso para a carreira. É uma bela experiência de
vida, sem dúvida, mas não necessariamente um grande diferencial.

Fazer tudo pelos outros pode ser defeito

Meu gerente me disse que meu defeito é querer trabalhar pelos outros. Eu concordo com ele. Quando
vejo que alguma coisa vai atrasar, ou não vai sair bem-feita, vou lá e faço. Só não entendo por que
meu gerente chama essa atitude de “defeito”. – Luly
Digamos que essa seja uma virtude perigosa, Luly. O trabalho pode sair bem-feito, mas sua atitude desperta
alguns sentimentos em seus colegas. Na melhor hipótese, de agradecimento por sua preocupação. Na pior,
de raiva incontida por sua intromissão. Seu gerente precisa administrar um departamento inteiro, e cabe a ele
equilibrar a parte técnica (o trabalho bem-feito) com a parte humana (o bom ambiente de trabalho). Se sua
atitude, Luly, colocar todos os seus colegas contra você, gerando um clima de insatisfação, seu gerente terá
um problema. E ele lhe deu o primeiro aviso, ao chamar de “defeito” a sua proatividade invasiva. Para que
isso se transforme em virtude, você só precisa trocar o “vou lá e faço” por “vou lá e ofereço ajuda”.

Faz um mês, vem circulando um boato de que a empresa está sendo vendida e que todos perderemos o
emprego. Como proceder numa situação dessas? Esperar para ver? – Carlos
Como dizia um antigo samba-canção, “todo boato tem um fundo de verdade”. É praticamente impossível
que surja um boato sobre a venda de uma empresa sem que alguém confiável – um diretor, por exemplo –
tenha feito algum comentário nesse sentido. Pode ser que quem ouviu entendeu mal ou pode ser que quem
passou adiante exagerou na dose. De qualquer forma, Carlos, é melhor você pensar na possibilidade de que,
na semana que vem, sua empresa terá um novo dono. Você está preparado para (1) começar a provar
novamente tudo o que você já provou? Ou (2) conseguir outro emprego? Seu currículo está atualizado? Seus
contatos estão em dia? Mesmo que o boato se mostre infundado, nunca é bom esperar o circo começar a
pegar fogo para perguntar onde fica a saída.

Minha empresa adota um sistema de avaliação em que, obrigatoriamente, 20% dos funcionários
devem ser classificados como “excelentes” e 10% como “abaixo do padrão”. O restante fica entre o
“bom” e o “razoável”. Neste ano, nós superamos todos os objetivos, e a empresa teve um lucro
enorme. Mesmo assim, 10% dos que deram o sangue pela causa precisam levar o rótulo de “abaixo do
padrão” e não vão ganhar bônus por causa disso. Esse sistema é justo? – Emanuel T.
Tecnicamente, sim. Não existe uma organização, seja ela uma empresa, seja um time de futebol ou um
exército, em que todos os participantes executam suas funções com o mesmo apuro, o mesmo entusiasmo e
o mesmo companheirismo. No caso de sua empresa, o “abaixo do padrão” não significa que os 10% sejam
péssimos funcionários. Ao contrário, eles são bons, mas há 90% que são melhores. Cabe ao chefe, a quem
compete comunicar o resultado da avaliação, explicar isso aos 10%, para que eles não fiquem revoltados. E
cabe também ao chefe defender as regras do jogo, porque elas serão as mesmas no ano que vem

É melhor ser patrão ou ser empregado?

Há quatro anos, depois de trabalhar em duas empresas de grande porte durante 17 anos, decidi ser
empresário. Financeiramente, estou bem, mas descobri que não tenho férias, nem fins de semana, nem
um mínimo de qualidade de vida. Todos os dias, entro às 6 horas e saio às 22. Por isso, pretendo
retornar à vida de empregado. Essa experiência de quatro anos será vista como positiva ou negativa?
– Marcus V.
Depende de você. O entrevistador vai querer saber: (1) por que você trocou a vida corporativa pelo negócio
próprio; (2) por que você se arrependeu e quer voltar; (3) o que você aprendeu como empresário que poderá
beneficiar a empresa; e (4) como você vai conviver com um chefe, depois de quatro anos sem chefe. Em seu
discurso, enfatize que você não está arrependido de nada. E que, por ter estado dos dois lados, pode decidir
qual é o melhor. Finalmente, Marcus, jure de pés juntos que você não tem nenhuma intenção de dirigir a
empresa como se ela fosse sua. Esse é o maior temor dos entrevistadores.

Estou em meu primeiro emprego, numa das 100 Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil. Tenho
25 anos e fui contratado há seis meses. Porém, estou frustrado. Vejo chefes sem preparo, dificuldades
para expor idéias... – Marcelo
Os três pontinhos correspondem a cinco linhas da mensagem do Marcelo, em que ele lista as deficiências
que encontrou na empresa. Bom, Marcelo, eu lhe diria que você deveria ter começado a trabalhar aos 18
anos. Se tivesse feito isso, você teria tido a mesma má impressão inicial que teve agora, aos 25. Porém, aos
20 anos, estaria vacinado. Já teria entendido que não há empresas perfeitas. Já teria aprendido a se adaptar
ao sistema, em vez de imaginar que o sistema vai se adaptar a você. Já teria sido informado de que avaliar o
desempenho do chefe não é tarefa que compete ao subordinado. É por isso que eu sugiro que os jovens
estudem, muito e sempre, mas não deixem de ter uma experiência prática quanto antes. Em seu caso,
Marcelo, você estará balanceado daqui a um ano e meio. Se não estiver disposto a gastar esse tempo, minha
sugestão é que você abra seu próprio negócio. Aí, você poderá – e digo isso sem ironia – implantar seus
conceitos de como gerir uma empresa.

Gostaria de saber como passar num teste psicológico. Como não consigo decifrar a intenção da
psicóloga, tenho me saído mal em entrevistas. – Cláudia
Apenas responda às perguntas com sinceridade, Cláudia. Muitos candidatos se complicam porque se põem a
imaginar a resposta que o psicólogo quer ouvir, em vez de dizer o que estão pensando. Outra coisa. Num
teste psicológico, o candidato é colocado sob pressão, porque esse é o dia-a-dia da empresa. No fim, são
aprovados os mais objetivos e os mais controlados. É tão simples que parece complicado.

Cursar uma faculdade de renome é garantia de emprego? – M. Cardoso


Não. Mas ajuda. Primeiro, porque empresas que recebem pilhas de currículos diariamente fazem a triagem
inicial pelo nome da faculdade. Segundo, porque, se você concorrer a uma vaga com um candidato que se
formou em uma escola sem muito prestígio, a grife da instituição é um forte critério de desempate

O maior desafio é o que você tem agora

Após quatro semanas de consultas com uma psicóloga, ela me fez ver que sou movida por desafios. O
problema é que estou há oito meses numa função burocrática e sem graça, e não vejo perspectivas de
mudanças imediatas. Como posso convencer meus superiores a me dar mais desafios? – Liliane
Imagino que a psicóloga também tenha lhe dito que você é ansiosa, Liliane. E isso tanto pode ser positivo
quanto negativo. O que existe em seu caso, e no da multidão de jovens que ingressam anualmente no
mercado de trabalho, é uma diferença de ritmo. Você, por exemplo, acredita que estar há oito meses fazendo
a mesma coisa é uma eternidade. Por outro lado, as empresas se tornaram mais rápidas nos últimos 15 anos,
mas não tanto quanto os jovens gostariam, a ponto de gerar oportunidades para todos os ansiosos.

E aí começam as frustrações. Os promovidos são aqueles que conseguem canalizar a energia para o trabalho
que fazem, e não aqueles que não gostam do que estão fazendo. Sem dúvida, Liliane, você deve manifestar a
seu chefe o desejo de mudar de área, de cidade, de país ou de planeta. Deve se colocar à disposição para
assumir tarefas mais desafiadoras. Porém, não esqueça que você está sendo avaliada pelo que você foi
contratada para fazer. Se um colega seu, menos ansioso que você, e talvez menos brilhante, mostrar mais
entusiasmo e dedicação ao executar uma tarefa rotineira e sem graça, ele é que acabará ganhando a chance
que você está querendo.

Sou uma espécie de subchefe de meu setor. Tenho as responsabilidades do cargo, delegadas por meu
gerente, mas não o título. Um funcionário antigo não aceita minhas ordens. O que eu posso fazer? –
Alípio
Faça uma carta de advertência para o referido funcionário, assine, mostre a seu gerente e diga que você vai
entregá-la dali a cinco minutos. Se seu gerente disser “tudo bem”, você está subchefe. Se, por qualquer
motivo, o gerente não permitir que a carta seja entregue, você é uma espécie. Em qualquer dos casos, você
deve aproveitar o momento e solicitar que seu gerente esclareça sua situação. Se você tem os deveres da
subchefia, mas não tem os direitos, e nem terá o salário, isso quer dizer que o funcionário antigo está certo.
E, até o dia em que você for oficialmente promovido, esqueça essa história de subchefe.

Tenho 43 anos e formação superior. Mas sou recém-separada e sem experiência profissional (meu
último emprego foi há 17 anos). Por onde devo começar a procurar uma oportunidade? – Laíssa
Infelizmente, Laíssa, se você não conhece ninguém que possa recomendá-la para uma vaga, essa
combinação de idade + inexperiência vai lhe trazer mais dissabores que alegrias se você for bater em portas
de grandes empresas. Eu diria que há duas opções viáveis que você deve considerar. Uma é um concurso
público. E outra é o marketing multinível – a venda direta de produtos de uma empresa ao cliente final. É
uma atividade que não requer muito capital, cujo resultado dependerá apenas de seu esforço e competência,
e poderá não apenas lhe dar um fôlego financeiro, mas também ajudá-la a readquirir confiança profissional
em si mesma. Por meio da internet, você encontrará muitos sites com informações mais precisas

A hora de sair e a hora de ficar

Tenho 43 anos, trabalho há 23 na mesma empresa (o único emprego de minha vida) e atuo na área de
segurança, como gerente. Vejo o tempo passar e sei que, cedo ou tarde, acabarei sendo substituído por
alguém mais jovem. Há tempos tenho o sonho de me tornar um consultor autônomo. No entanto, estou
inseguro quanto ao melhor momento para tomar essa decisão. Será agora? Ou é melhor esperar mais
um pouco? – Luciano
Será agora, Luciano. A diferença entre um empregado de 60 anos e um consultor da mesma idade é que o
empregado é visto como velho e o consultor como sábio. Se quiser chegar sabiamente aos 60 anos – no seu
caso, serão 17 anos, que passam mais rápido que parece –, você precisa começar enquanto se sente disposto,
física e mentalmente. Dito isso, minha sugestão é que você não comece sem ter um par de empresas
interessadas em seu trabalho. Inicie os contatos enquanto ainda está empregado, para que não se veja na pior
das situações – sem emprego e tendo de correr atrás de clientes. Porque, se isso vier a ocorrer, você ficará
com a sensação de que tomou a decisão errada e tentará voltar para uma empresa. Aí, não apenas seu sonho
irá para o ralo, como seu retorno ficará complicado.

Passei num concurso público e estou numa dúvida cruel. Fico na empresa em que trabalho (estou aqui
há dez anos) ou mudo para o setor público? Aqui na empresa, vejo mais possibilidades de construir
uma carreira, mas sem garantia de estabilidade.– Luiz S.
Comunique sua saída a sua empresa, Luiz. Se você não receber uma boa contraproposta para ficar, é porque
suas possibilidades de carreira são bem mais limitadas do que você imagina. Mas, se a contraproposta vier, e
for de seu agrado, fique. E lembre-se que nada é definitivo. Se você passou em um concurso, no futuro
passará em outros.

Trabalho numa ONG e estou extremamente insatisfeita, porque não vejo perspectivas de crescimento.
Estou em RH, mas não gosto da área. Quero mudar, mas não sei que setor ou atividade escolher. Já
fiz orientação vocacional, mas não adiantou. O que eu faço? – Lisa
Terapia, Lisa. Até que você descubra a razão de tanta insatisfação, não adianta mudar de empresa. Enquanto
isso, eu sugiro que considere a possibilidade de trabalhar com marketing multinível (venda em domicílio).
Embora essa seja uma atividade mais de curto prazo, que não constrói uma carreira, é algo que você poderá
fazer a partir de sua casa, com horários flexíveis, que lhe garantirá uma remuneração decente até você
encontrar seu rumo.

Seria ético eu enviar um currículo para uma empresa que concorre diretamente com a minha?–
Leonardo
Seria ético, Leonardo, sua empresa fazer uma proposta para contratar um funcionário de uma empresa
concorrente? A resposta é “sim” para as duas questões. A falta de ética, caso você seja contratado por uma
concorrente, seria caracterizada se você copiasse e entregasse dados confidenciais ou segredos industriais de
sua empresa atual. Fora isso, você é livre para trabalhar onde quiser, assim como as empresas são livres para
contratar quem elas quiserem
Não adianta se entupir de cursos

Pretendo iniciar minha carreira em breve. Se você puder me dizer uma palavra para me orientar em
minhas futuras decisões profissionais, eu agradeço. – Paulo, 18 anos

Rumo, Paulo. Muitos jovens se atrasam, ou se perdem, porque demoram demais a decidir para onde querem
ir. E, na dúvida, ficam fazendo cursos e mais cursos – de graduação, pós e especialização –, imaginando que
o número de oportunidades será diretamente proporcional à quantidade de diplomas. Depois, cogitam em
morar um ano no exterior para aprimorar o inglês. Um dia, esses jovens descobrem que já passaram da idade
ideal para conseguir um estágio, mas não acumularam experiência prática para competir por uma boa vaga.
Por isso, Paulo, quanto antes você conseguir um emprego, qualquer que seja ele, para começar a entender
como o mercado de trabalho funciona, mais facilmente você definirá um rumo para sua carreira.

Sou funcionária pública há 12 anos, e não vejo mais perspectivas de crescimento. Quero mudar para a
iniciativa privada. O que seria melhor para aumentar minhas chances de fazer essa mudança, um
MBA ou um mestrado? – Salete

Um MBA, Salete. O mestrado seria mais valorizado se você se decidisse por uma carreira acadêmica. Mas
faça um teste antes de tomar uma decisão tresloucada. Comece a mandar currículos e a participar de
processos seletivos em empresas privadas. Você descobrirá quanto sua experiência no serviço público será
benéfica ou prejudicial para uma eventual mudança. Considere também que hoje você tem estabilidade e –
eu suponho – tempo para desfrutar de uma certa qualidade de vida. Na empresa privada, você terá mais
chances de promoção em médio prazo, mas sofrerá mais pressões, trabalhará mais horas e correrá mais
riscos – incluindo o pior de todos, o de desemprego. A decisão é sua, Salete, mas tenha a certeza de que
você está avaliando corretamente a situação. Tomando como base as mensagens que recebo, há muito mais
gente querendo pular da iniciativa privada para o serviço público que o contrário.

Há quatro meses estou ocupando interinamente o cargo de encarregado de meu setor. Já perguntei
duas vezes a meu chefe se vou ser efetivado na função, e ele me respondeu, nesta ordem: “Vamos ver”
e “No momento, a empresa está passando por uma fase de transição, e mais adiante a gente conversa”.
O que eu posso deduzir? – Fausto

Várias coisas. A primeira é que seu chefe ainda não viu em você todas as qualidades necessárias para o
cargo de encarregado. A segunda é que seu chefe acredita que você é a pessoa certa, mas alguém acima dele
não acredita. E a terceira é que você está apenas tapando buraco, até que a empresa contrate um novo
encarregado. Neste momento, há uma coisa que você deve estar fazendo: demonstrar, por meio de resultados
práticos e do apoio de seu pessoal, que é de fato a melhor solução. E outra que talvez você não esteja
fazendo: preparar-se para o caso de alguém de fora ser contratado. Se você enxergar a situação como um
aprendizado, sofrerá menos caso ocorra a segunda hipótese – que, em minha opinião, é a mais provável.

É bom fazer aquilo de que você gosta

O que é melhor, fazer aquilo de que gostamos...– C.L. Souza

O melhor é fazer aquilo de que gostamos, Souza. Mas muito melhor é quando os outros gostam do que a
gente faz e nos dão as oportunidades para fazer. Conheço pessoas que têm muita vontade de fazer aquilo de
que gostam, mas não demonstram as aptidões necessárias. Também há pessoas que fazem cursos apenas
pela simpatia por uma profissão, para depois descobrir que o mercado de trabalho naquela área é
tremendamente limitado. Acertar na escolha de um curso, ou de uma profissão, requer um misto de emoção
e pragmatismo. Ser entusiasmado é bom, mas ter bom senso é muito mais recomendável.
Após um processo de seleção, não seria obrigação da empresa informar os candidatos rejeitados sobre
os motivos dessa rejeição? – Robinson

Não creio que obrigação seja a palavra exata, Robinson. Seria mais educação, cortesia e respeito. Eu nem
chegaria ao extremo de afirmar que os motivos deveriam ser informados. Mas, simplesmente, telefonar ou
mandar um e-mail dizendo “agradecemos sua participação no processo” seria recomendável. Até porque o
candidato pode ter deixado de conseguir um emprego, mas a empresa pode perder um consumidor ou um
cliente. Infelizmente, a maioria das empresas não atenta para esse fato tão óbvio.

Ao final da entrevista, o selecionador disse que eu fui muito bem... – Aline

Essa é uma frase mais cômoda que sincera, Aline. Ela evita que o selecionador fique dando explicações caso
o candidato não tenha ido assim tão bem.

Posso ligar para a empresa e perguntar sobre o andamento de um processo de seleção? – Fabiane

Claro, Fabiane. O indicado é fazer o primeiro contato 21 dias após a entrevista, embora muitos candidatos
ansiosos se sintam tentados a ligar logo na manhã do dia seguinte. Também é bom lembrar que o tempo de
duração de um processo varia conforme o cargo. Para níveis de diretoria, chega a durar cinco meses. No
caso de gerentes ou encarregados, de um a três meses. Para funções sem subordinados diretos, no máximo
um mês.

Fui contratado para uma função, mas estou executando outra, bem diferente. O salário é o que foi
combinado, mas estou me sentindo enganado... – Caetano

Se o trabalho for executável tecnicamente, se a função tiver um nível equivalente à combinada e se o serviço
não lhe causa constrangimentos, agüente firme. Pode ser uma situação apenas temporária. De qualquer
forma, Caetano, eu acho estranho que ninguém tenha lhe explicado a razão da mudança. Você tem todo o
direito de perguntar o que aconteceu, mas eu lhe recomendo não fazer isso em tom de cobrança ou de crítica.

Vale a pena mudar de uma função sem expressão numa grande empresa para um cargo de supervisão
numa empresa pequena? – Adhemar

Pensando no futuro, Adhemar, raramente vale a pena. A grande empresa poderá lhe oferecer mais
possibilidades de ascensão. Na empresa pequena, você subirá mais um degrau, se tanto

Até que a empresa os separe

Palavra da semana: conjugal.


Em latim, iugum era a canga que unia dois bois – donde veio “jugo”. Uma união “conjugal” deve ser um
compromisso de equilíbrio entre duas forças opostas – marido e mulher – que ora se atraem, ora se repelem.
Mas, durante milênios, os maridos conseguiram subverter a natureza da palavra, ao subjugar e anular suas
esposas, cultural e profissionalmente. Esse tempo já passou. Passou?

Tenho 26 anos e estou fazendo planos para casar. Meu noivo e eu trabalhamos em empresas
diferentes. Minha carreira decolou, mas a dele nem tanto. Ele tem mostrado algum ciúme de meus
colegas de trabalho, reclama que eu trabalho até tarde, que não tiro férias...
Paula

Eu sugiro que vocês não se casem até resolver esse impasse profissional, Paula. Se sua carreira decolou,
você precisa de um marido que a apóie para você progredir ainda mais, e não de alguém que lhe peça para
desacelerar. Seu noivo precisa de uma mulher compreensiva, e você precisa de um marido compreensivo. A
não ser que um de vocês encare com firme disposição uma mudança de atitude – o que não é o caso, já que
um quer que o outro mude –, o casamento de vocês seria um investimento mútuo de altíssimo risco.
Quando uma empresa promove encontros nos quais os funcionários podem (devem) levar o cônjuge,
qual é exatamente o papel do cônjuge?
Adriana

Boa pergunta, Adriana. Empresas acreditam que esses encontros criam aquele espírito de “somos uma
grande família unida”. Evidentemente, há cônjuges que nem gostam da palavra cônjuge, e se sentem como
apêndices dispensáveis quando acompanham os respectivos ou as respectivas.

Muitos cônjuges adorariam não ter de ir, e vão por pura obrigação. A não ser que a empresa patrocine um
cruzeiro pelo Caribe, e aí aparecem até candidatos a cônjuge para aproveitar a festa. Qualquer que seja o
caso, o papel do cônjuge é de cumplicidade. Beber com moderação, vestir-se sem extravagância e,
principalmente, colaborar para melhorar a imagem do cônjuge perante os colegas de trabalho. O pior
cônjuge acompanhante é aquele que se põe a opinar sobre o trabalho do cônjuge empregado ou sobre os
pequenos defeitos domésticos do dito ou da dita. E que comete alguma indiscrição ao comentar uma
coisinha ridícula que pode até parecer engraçada num instante de descontração. Porque, findo o encontro,
são exatamente essas coisinhas ridículas que virarão comentários e piadas na empresa, por meses a fio.

Meu marido foi transferido para o Canadá, por um período mínimo de três anos. Eu, toda contente,
pedi demissão de meu emprego para vir com ele. Faz seis meses que estamos aqui, e estou
profundamente infeliz. Não tenho visto para trabalhar e, a cada dia que passa, percebo que enterrei
uma carreira promissora.
Vanessa

Não se tranque em casa, Vanessa, nem vá passear em shoppings. Faça cursos. Seu visto lhe permite estudar.
Se você fala bem inglês ou francês, encare uma faculdade. Se não fala, entre numa escola de idiomas. De
preferência, estude em outra cidade, se o orçamento permitir. Assim, você e seu marido só se encontrarão
nos fins de semana. O mais importante é você se sentir independente. Se você se deixar engolfar pela
situação, sua infelicidade se transformará rapidamente em depressão. Tudo é questão de um simples “h”. Ou
haja, para agüentar o tédio, ou aja, para escapar dele

Seu colega é chato?


O chefe não acha...

Arrogância. Em latim, a palavra significava “chamar” ou “atribuir”. O sentido original continua presente na
linguagem jurídica: quando um juiz “arroga a si o processo”, ele manifesta sua competência para julgá-lo. O
sentido negativo surgiu a partir do momento em que alguns espertinhos passaram a chamar para si todos os
méritos e a atribuir aos outros os eventuais fracassos.

Trabalho com uma colega insuportável, do tipo sabe-tudo. Ela, simplesmente, é incapaz de ouvir. Só a
opinião dela conta. E o pior é que nosso chefe a aponta como exemplo para nós.
Célia

Cada empresa tem uma lista de habilidades desejáveis, Célia. A sua também deve ter. Nela constam a
liderança, o espírito de equipe, a criatividade e outros fatores louváveis. Mas, numa empresa em que
trabalhei, eu ouvi um dos conselhos mais contundentes de minha vida profissional. Na recepção, havia uma
placa com a “Nossa Missão”. Era uma longa frase, em que a empresa expressava o desejo de ter
colaboradores, fornecedores e clientes altamente satisfeitos. Em meu primeiro dia de trabalho, meu chefe me
perguntou: “Você leu a Nossa Missão?”. Respondi que sim. E ele me falou: “Então, memorize o seguinte:
estamos aqui para dar resultados práticos de curtíssimo prazo. O resto é conversa”. Muito provavelmente,
Célia, seu chefe elogia sua colega porque ela dá resultados. Esse é o grande trunfo das pessoas insuportáveis.
E é por isso que há tantas delas no mercado de trabalho.

Eu trabalhava em uma área que tinha 12 funcionários. Hoje, somos apenas sete. E a empresa está
acenando com novos cortes. Cada um de nós já está trabalhando por dois. Estamos todos cansados e
muito preocupados. O que fazer?
Paulo R.

Entendo seu ponto de vista, Paulo. Agora, vamos tentar entender o da empresa. O fato de que existiam 12
funcionários não significa que esse era o número ideal. Se os 12 tinham uma carga máxima de trabalho, não
há como cortar o efetivo pela metade sem prejudicar a produção ou a qualidade. Se isso não aconteceu, das
duas uma: ou havia gordura sobrando, ou sua empresa implantou programas de produtividade,
automatizando parte do processo e eliminando algumas atividades. O melhor exemplo dessa transformação
são as montadoras de automóveis, que hoje produzem o triplo de carros com um terço do pessoal que elas
tinham há 25 anos. Ou é isso, Paulo, ou então vocês estão sendo física e mentalmente explorados. Acredito
mais na primeira hipótese.

Não vejo futuro aqui no Recife. Não há empregos nem oportunidades. Estou pensando em me mudar
para São Paulo, mas não conheço ninguém na cidade...
Elton

Sugiro que você ouça o conselho de seu conterrâneo, o poeta Manuel Bandeira. Ele deixou o Recife e passou
por uma infinidade de cidades durante a vida. Depois desse longo périplo, Manuel Bandeira resumiu suas
andanças num poema: Vou-me embora pra Pasárgada./Lá sou amigo do Rei. Seu futuro, Elton, não está em
uma mudança radical. Está onde estiverem os amigos que poderão apoiá-lo emocionalmente e ajudá-lo
profissionalmente.

Nas promoções, minha empresa adota o preferencialismo, privilegiando os incompetentes.


Josué

Nunca tinha ouvido esse neologismo, Josué. Mas, se sua empresa não está mesmo disposta a adotar o
diferencialismo, privilegiando o mérito, você pode adotar o desistencialismo, pedindo o boné