Anna de Assis: História de um trágico amor: Euclides da Cunha, Anna e Dilermando de Assis CIP-BRASIL.

CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. A865h Andrade, Jeferson de, 1947Anna de Assis : história de um trágico amor: Euclides da Cunha, Anna e Dilermando de Assis / Judith Ribeiro de Assís ; em depoimento a Jeferson de Andrade. - Belo Horizonte, MG : Soler, 2006 ISBN 85-60004-06-8 1. Assis, Anna de, 1913-1951. 2. Cunha, Eucides de, 1866-1909. 3.Assis, Dilermando de, 1888-1951. 1. Andrade,Jeferson de, 1947-. II. Título. Copyright - Judith Ribeiro de Assis e Jeferson de Andrade, 2006 Editor S. Justo Junior Projeto Gráfico Fernanda Amarante Revisão Ortográfica Maria de Lourdes Costa (Tuch a) Todos os direitos reservados à Soler Editora Rua Flor de Jequitibá, 12-2° andar União - Belo Horizonte - MG Cep 31160-280 Tel.: (31) 3486-7006 wwvso1ereditora.com.br CDD 920.72 CDU 929:-055.2 06-2708 "Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, preocupando-se em servir ao seu todo-poderoso marido ou se recolhia à cadeira de balanço e a tricotar esperava a vida passar, Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um barão do Rio Branco, um Sílvio Romero, um Coelho Neto. Natural, já que na casa do pai se habituou a ouvir um Quintino Bocaiúva, um Rui Barbosa, um Benjamin Constant. Mulher audaz, independente, morando numa cidade pequena e provinciana como uma São José do Rio Pardo, teria seus movimentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergam o horizonte, já que as estradas têm curvas. Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de mulher fútil e namoradeira. Conclusão a que se chegou porque se postava à janela e, alegre e "moderna", não se escondia dos homens." Dedico este livro aos descendentes de Anna de Assis. Quero deixar aqui consignado o meu repúdio a tudo que já foi escrito sobre ela. Anna de Assis foi uma mulher excepcional, como

amante, como esposa, como mãe. Com muito respeito e admiração, sua filha Judith *** O autor jeferson de Andrade registra a colaboração de Denise Mordenel na revisão da obra quando inédita. Sobre este livro Meu nome registrado em cartório é Jeferson Ribeiro de Andrade. Judith era Ribeiro de Assis. Como foi casada com Andrade, por muitos foi conhecida apenas como Judith de Andrade. Tudo coincidência. Sou Ribeiro de Andrade, filho de Donato Leite de Andrade e Irene Ribeiro de Andrade, mineiros. Judith era gaúcha. Também Dilermando e Anna. Judith faleceu em 1995, no Rio de Janeiro. Quando constatamos, em nosso primeiro encontro, no ato da apresentação, esse parentesco de nomes, escancarou-se a porta do entendimento. O acaso costuma unir corações. Já havia escrito, em meu romance Um Segredo de Verão, que muitas vezes julgo a vida tão tola porque tantas vezes a felicidade depende de um imprevisto. O encontro inicial se dava porque, no meu trabalho de editor de livros, obtive a indicação de que Judith desejava publicar revelações sobre a vida de sua mãe. Mas a obra não estava escrita. As funções de editor cederam lugar à atividade de escritor. E durante três anos, após sucessivos encontros, várias horas de diálogo, pesquisas no Arquivo do Ministério do Exército e Biblioteca Nacional, surgiu o sonho de Judith - ANNA DE ASSIS - HISTÓRIA DE UM TRÁGICO AMOR: EUCLIDES DA CUNHA, ANNA E DILERMANDO DE ASSIS. Depois dessa nova experiência de minha vida literária, posso afirmar que escrever este livro foi como exercitar o dom de cantar em dueto. Creio que consegui fazer o texto exatamente no tom desejado por Judith. Como insisto em afirmar que escrevo de ouvido, exatamente como alguns músicos tocam seus instrumentos, esta obra, mais do que qualquer outra, foi assim 1 executada. Tenho escrito meus contos e romances nos tons das próprias histórias, das próprias personagens. O leitor perceberá que, em várias oportunidades, foi concedido grande espaço para transcrições de entrevistas e depoimentos de Dílermando de Assis, o que se fez necessário por dois motivos. Primeiro, suas entrevistas e livros falam também, e constantemente, de Anna de Assis. Segundo, apesar de seus esclarecimentos divulgados pela imprensa e dos livros publicados, seus filhos e netos ainda deparam com notícias equivocadas e fatos deturpados todas as ocasiões em que se trata da morte de Euclides da Cunha. Sobre Anna de Assis, o que tenho a revelar está na comunhão que existiu entre as revelações de Judith e o que procurei verter para uma linguagem literária. De nossa união, surgiu este livro. Minha admiração pela mulher Anna de Assis está nas páginas seguintes. É o que desejo passar ao leitor e à leitora. E cada um, após a leitura de ANNA DE ASSIS HISTÓRIA DE UM TRÁGICO AMOR: EUCLIDES DA CUNHA, ANNA E DILERMANDO DE ASSIS, sentirá se o consegui. Jeferson

de Andrade Introdução à 8 edição A primeira edição deste livro saiu em agosto de 1987. Foi um êxito de crítica e de público, permaneceu alguns meses nas listas de mais vendidos e teve seis edições sucessivas. Alcançou plenamente seu principal objetivo, que é mostrar a personalidade e a vida desta extraordinária mulher que foi Anna de Assis. Em nenhum momento teve como intuito denegrir a imagem de Euclides da Cunha, como os autores deste livro foram acusados por familiares do escritor, que lhes moveram até mesmo ação judicial. Qualquer homem pode ser o mais sábio do mundo, e nem assim estará a salvo das fraquezas humanas, principalmente quando suas emoções se embaraçam nos mistérios do amor e do ódio. Compreendo todas as atribulações familiares dos envolvidos nas tragédias, porque também vítimas de tantos equívocos, muitas vezes provocadas pelas paixões de fanáticos e de cegos que se confundem no emaranhado de suas pequenas batalhas e de suas pueris ilusões. Após a publicação deste livro, outros surgiram tratando do drama vivido por estas três pessoas: Euclides, Anna e Dilermando. Deu origem ainda a uma minissérie na televisão. Que cada um procure dar a sua versão, mas creio que basicamente posso reafirmar: não se pode alguém erguer e julgar Euclides, Anna e Dilermando. Apenas a palavra fatalidade pode cobrir a imagem dessas três pessoas e lhes servir de epitáfio. Índice 1 Um trem que chega é uma história que começa 13 2 A menina Anna Emília émais bela que a República 17 3 Anna e Euclides da Cunha: depois da poesia, filhos e angústias 23 4 Pensão Monat, Rua Senador Vergueiro, 14. Primeiro endereço de uma tragédia 25 5 Três vidas se encontram: Anna, Euclides e Dilermando 32 6 Cartas inéditas revelam a paixão de Dilermando de Assis 37 7 Uma criança morre de inanição 41 8 Nasce uma espiga de milho no meio de um cafezal 44 9 Tudo acontecia além do vôo da Águia de Haia 48 10 Treze tiros e uma tragédia 51 11 Meu depoimento sobre a morte de Euclides 55 12 Ele chegou para matar ou morrer 59 13 Um coração de mulher não se devassa com palavras e razões 64 14 Pedido de casamento em bilhete de 2-10-1909 67

Rio Grande do Sul 104 22 E éramos tão felizes no Rio Grande do Sul. 190 e morre com um segredo 42 Dilermando e Anna viveram um grande amor. 126 27 A vida isolada de Anna e filhos na ilha de Paquetá. Evaristo de Morais 92 20 Um livro para preservar a justiça 99 21 A vida tranqüila de Anna em Bagé. 184 40 Uma coincidência no cemitério como derradeiro lance da fatalidade. 140 30 Anna e Dilermando não se viram durante anos.15 Surge uma nuvem sangrenta 73 16 Declarações prestadas por Dilermando ao Conselho de Investigação 77 17 Quidinho foi instigado a matar Dilermando 80 18 Anna vende bolos de milho para comprar livros 89 19 A defesa histórica do Dr. 188 41 Dilermando não faz a sua última revelação. 118 26 Monteiro Lobato consulta a sua consciência. 108 23 O mistério se escondia numa rua do Encantado. Dilermando e filhos: condenados por mentiras e vinganças. 177 38 O sinal da cruz de S'Anninha é o perdão. 130 28 Anna de Assis e filhos nunca viveram separados. 167 36 Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: vivemos juntos! 173 37 Anna e Dilermando se reencontram sem testemunhas. 147 32 Anna. 152 33 Laudo da necropsia de Euclides da Cunha apresenta uma trágica sentença. 197 . 112 24 Onde estão as outras vítimas deste trágico enredo? 116 25 A vítima esquecida de Euclides da Cunha. imprensa e livros escreveram os equívocos sobre a morte deEuclides da Cunha. 159 34 O último depoimento de Dilermando de Assis. 181 39 Não se vive e não se morre em paz neste País. 144 31 Inquérito. 136 29 Manoel Afonso: um filho e irmão preocupado. 164 35 Mais uma entrevista injuriosa contra Anna de Assis.

43 Anna de Assis escreveu todas as frases de sua história. e para estes a história da guerra só terminou algum tempo depois. em maio de 1864. que . já com a guerra declarada. A Guerra do Paraguai começou para ele quando deixou a mulher Túlia grávida e marchou com o seu regimento. pois um homem na guerra sofre o suficiente para envelhecer além do tempo que se conta com o movimento do relógio. Na plataforma da estação. o tenente Frederico Solon fez parte das forças sitiadoras de Montevidéu. tantos anos ausentes. A Guerra do Paraguai começou em 12 de novembro de 1864 e só terminou com a morte de Solano López. Crianças assustadas observam. O trem se aproxima. várias vezes elogiado pelo 13 comportamento exemplar e promovido a capitão por ato de bravura praticado na batalha de 16 de agosto de 1869 nos campos de guerra. O conflito terminou no primeiro semestre de 1870. então ocupada pelas forças de Solano López. na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. condecorado com a Medalha de Mérito Militar. são pais que orgulhosos querem abençoar os filhos e crianças que. mas em 6 de agosto ele embarcava em Assunção e desembarcava em 7 em Humaitá. E porque todos têm pressa. aliado do Brasil no conflito contra o Paraguai. Logo aqueles homens fardados começam a desembarcar. Ele transpôs a linha divisória entre a província do Rio Grande do Sul e o Uruguai em 2 de dezembro e em 8 de janeiro de 1865 estava marchando em direção a Montevidéu. Nos primeiros dias do mês de fevereiro. apressado. Em outubro desse ano dirigiu-se ao Quaraí Grande para fazer parte do exército em organização. É um movimento incessante e desorganizado. Paulatinamente. O capitão Frederico Solon sai para a guerra aos 24 anos de idade e retorna sete anos depois. desejam conhecer os pais. ainda em território do Paraguai. até a sua capitulação em 20 daquele mês. E a guerra foi de sete anos para Frederico Solon. São gritos. são mães e mulheres aflitas e saudosas que sonham com um abraço apertado. como se todos desejassem em alguns minutos viver alguns longos anos de saudades e ausência. Restam alguns. Elas se aproximam mais dos vagões como que impelidas pela ânsia de logo abraçar e afagar os seus entes queridos que regressam. O trem finalmente estaciona e há um ligeiro movimento entre as pessoas que esperam na plataforma. exclamações. deixando a estação com aquela urgência de esquecer logo os momentos de aflitiva espera. permanecendo aí por longo tempo. Este é o caso do tenente Frederico Solon de Sampaio Ribeiro. rapidamente se retiram. curiosas. muito mais velho que apenas sete anos. em 1' de março de 1870. Homens calados estão atentos. 201 *** 1 Um trem que chega é uma história que começa Mulheres ansiosas esperam. cessam os alaridos. para Santana do Livramento. sob o comando do general João Propício Menna Barreto. todos impacientes para os abraços de reencontro. Mas muitos militares brasileiros permaneceram nas fronteiras. seguiu com a tropa para o Estado Oriental do Uruguai. Somente foi desligado do 2Â Regimento em Humaitá em 11 de maio de 1871 a fim de retirar-se para o Brasil. Ele traz os últimos combatentes da Guerra do Paraguai. sorrisos e choros de alegria. e em 25 de novembro.

Ou algo teria sucedido a ela e ao seu filho. diminui o movimento na plataforma. tão diferentes.Frederico? Aproximam-se. estranhos um para o outro. se locomovem mais devagar. e Frederico olha para a mulher e o menino. e exatamente em seu trajeto está uma mulher que dá a mão a uma criança. diria a seus filhos. na cidade de Jaguarão. resta um rosto desiludido. sem que ele o soubesse. no século seguinte. Tornou-se . marido e mulher. Túlia. tornar-se mulher culta e voluntariosa. Ela ficou ainda uma menina-moça. provavelmente. O capitão Frederico Solon de Sampaio Ribeiro chega da guerra para abraçar seu filho Albino e pela primeira vez ouvir alguém chamá-lo de pai. e nem ele nem Túlia se reconhecem marido e mulher. e ele a revê mulher.são mais lentos nos abraços. grávida e radiosa. como se dois desconhecidos estivessem prestes a se tocar. tentando encontrar lá dentro do trem o seu marido. com as marcas de ferimentos e cicatrizes de guerra. Os olhos daquela mulher também perscrutam os vagões vazios. O capitão Solon está a alguns metros da mulher. duradoura e feliz. Sua mulher. gorda e com as marcas de saudades e sofrimentos numa fisionomia alterada. Imagina que são Túlia e o seu filho. um menino. voltou com a barba crescida. com aqueles gestos que buscam evitar novas dores. modificado. lá no interior e longínquo Paraguai. O nome Anna Emília significa rival da graça. O novo encontro de Frederico e Túlia. Assim se deu o reencontro do capitão Frederico Solon e sua mulher Túlia. e nessa escolha surgiu a primeira ironia do destino dessa menina que iria crescer bela. ela o teria como morto na guerra. que tinha nascido depois da segunda lua-de-mel de seus pais.Túlia? Ela responde: . A última notícia recebida é de que ele regressaria aquele dia a Porto Alegre. mas não a vê. Ela começa a caminhar. marcado pelas mortes da guerra. Aproxima-se e indaga: . negra e espessa. finalmente. Caminha 14 em direção à saída. Primeiro ela se chamou Anna Emilia Ribeiro. ainda doentes. ou aqueles que. não teria sido avisada de seu retorno? Teria acontecido alguma coisa? Tantas vezes a comunicação entre eles esteve interrompida que. cessa a confusão. Por trás de sua barba. iniciada a 14 de junho de 1871 quando o seu pai se apresentou em Porto Alegre. os movimentos de um e de outro despertam-lhes a atenção. nascida em 18 de junho de 1875. timidamente. no Rio Grande do Sul. Mas nenhuma outra separação foi tão longa como esta. pondo fim a sete anos de ausência e podendo. é como um segundo casamento. Afinal. a filha Anna Emília. Frederico Solon ainda tenta encontrar a mulher entre algumas poucas pessoas que circulam pela estação. Ele partiu moço. que viveram casados com outras temporárias separações impostas por algumas missões militares do marido. 15 A menina nasceu e o nome foi escolhido segundo os estranhos desígnios de uma tradição da época: chamar a pessoa por um nome e este revelar uma significação ímpar e transcendente. determinando de forma implacável o destino de muitos que viveram em torno dela e transmitindo a seus filhos e a outras gerações um sentimento de veneração. O capitão Frederico Solon não encontra ninguém a esperá-lo. obrigada pela Guerra do Paraguai e por isso mesmo. um rosto limpo e alegre. regressando da Guerra do Paraguai e que se estendeu até o seu nascimento. conhecer o seu filho com seis anos de idade. Afinal.

a menina se apaixonar e o homem escolhido coincidir com a preferência paterna era um lance de sorte. Viveu sempre ordenada ao seu voto de pobreza. Esse padrinho poderoso se tornará o seu protetor. em 10 de setembro de 1890.Anna da Cunha. A mulher se casava quase menina e nem sempre ela escolhia o companheiro. Depois ela se casou com Dilermando de Assis e passou a se chamar Anna de Assis. Se Alquimena não pôde se casar com quem escolheu. Os três filhos do major seriam matriculados em escolas militares para seguir a mesma carreira do pai e as duas moças estavam destinadas ao casamento. Estava em Porto Alegre. mesmo quando se viu obrigada abandonar a vida de clausura religiosa. renunciando à vida mundana. e ele figura nos compêndios escolares como o major Solon Ribeiro. vítima da tuberculose. auxiliando sempre o seu primeiro marido. para alegria e felicidade dos apaixonados. tudo conforme os padrões e costumes da época. Diante de tudo o que aconteceu. 16 *** 2 A menina Anna Emília é mais bela que a República Quando Anna Emília nasceu emJaguarão. O destino de Anna Emilia se ligava à cidade do Rio de Janeiro. Ele foi promovido a major em 14 de julho de 1881 e só então se transferiu do Sul do País para a Corte. Não teve esta sorte a moça Alquimena. Intimamente foi sempre S'Anninha. o rapaz apaixonado por Alquimena descuidou-se da saúde e definhou até morrer. designado para o I Regimento da Cavalaria Ligeira. apresentando-se a 26 de setembro. E se os casamentos na época se faziaim segundo a escolha do pai.dele jamais se afastaria. se manifestou também em Anna Emília. Com a morte do rapaz. Ela se apaixonou por um rapaz e o eleito não satisfazia as vontades do austero militar Frederico Solon. não se pode afirmar também que ela tenha concorrido para o evento com a sua vontade. não se pode afirmar que ela teve mais sorte do que a irmã ao se casa com alguém escolhido. O major Solon Ribeiro tinha convidado o seu grande amigo barão do Rio Branco para padrinho de batismo da filha. afinal. um juramento mais forte e pertinent . Alquimena selou o seu juramentco: jamais se casaria e se tornaria freira. . em circunstâncias diversas e várias oportunidades: Tanto nos momentos felizes de sua vida como naqueles em que a tragédia a feriu e mortificou. Por infelicidade e desgosto. tal não se deu com a irmã. A carreira militar de Frederico Solon é histórica. Ele não cedeu aos rogos da filha e não permitiu 17 a realização do casamento. Ela chegou ungida pelo prestígio. Essa determinação de personalidade e inflexível comportamento é uma herança paterna que. Muitas se casavam seguindo as determinações do pai e segundo a vontade dos familiares. seu pai encontrava-se novamente ausente do lar. matriculado no curso de Cavalaria e Infantaria da Escola do Exército do Rio Grande do Sul. em 15 de novembro de 1889. E fez votos de pobreza. Sem dúvida. Este livro conta a vida de Anna de Assis. quando se casou com Euclides da Cunha. porém. aquele que foi um dos proclamadores da República.

no qual o Exército considerava repugnante a tarefa que lhe queriam atribuir de "capitão do mato" na captura dos negros. o governo presidido por João Alfredo. A intenção do governo monarquista era dar a impressão ao País de que mantinha sob seu domínio a disciplina no Exército. no século seguinte. no Rio de Janeiro. também o jovem Euclides participa de forma efetiva desses acontecimentos. O sentimento republicando já se havia espalhado entre tenentes. fazia o pedido de casamento ao pai e. Ela sempre repetia: . se atendesse às vontades deste. Dessa forma. em frágil equilíbrio e tudo é feito para demonstrar força e domínio. 18 Depois da Guerra do Paraguai. entre os cadetes. era retirado da Corte um dos líderes militares enviado para verdadeiro "exílio" em 27 de dezembro de 1888. bem como dos jovens militares da época. principalmente os jovens. O Clube Militar foi fundado em junho de 1887 pelo marechal Deodoro e pelo major Benjamim Constant. É no mesmo mês de dezembro de 1888 que se organiza a visita do conselheiro Tomás Coelho. ministro da Guerra. outras questões surgem para abalar o Império. demais jovens oficiais e até mesmo na Escola Militar. Afinal. à Escola Militar da Praia Vermelha. naquele período. visando à queda do Império. E confessava: o grande amor de sua vida tinha sido Dilermando de Assis. Se o seu pai vivia os momentos históricos que antecederam a Proclamação da República. fugidos do cativeiro. certamente atraiu também a atenção daquela menina de quatorze anos que. A cerimônia dirigida pelo comandante da Escola. E se o que ele fez despertou a admiração do major Frederico Solon. podia se considerar um homem favorecido pelos deuses. tomando consciência de sua força política. Naturalmente. abolindo a escravidão no Brasil. Ele escolhia a eleita. No entanto. no entanto. assumindo uma posição de destaque não só na questão militar. seu primeiro casamento não foi por amor. apesar da pouca idade. considerado um exímio disciplinador. consegue desagradar ao nomear o marechal Deodoro para comandante de armas do Mato Grosso. em que se aprovou o Memorial à Princesa Isabel. a princesa Isabel assume a regência do Império e assina a Lei Aurea em 13 de maio de 1888.já que quem se apaixonava era o homem. E o Exército se organizou. como no abolicionismo. os militares. pôde acompanhar as reuniões que se realizaram em sua casa. encontravam-se descontentes e se manifestavam rebeldes às ordens imperiais. Por isso. misto de inofensiva formatura de cadetes para prestar continência ao . ministro de Dom Pedro II. Consta de todos os registros históricos como memorável a reunião de outubro de 1887. prestigiando a Guarda Nacional. colocar a tropa perfilada e passá-la em revista. Na área militar. general José Clarindo de Queiroz. Nada melhor que promover uma pomposa solenidade no pátio de um quartel. Não se pode ignorar. O Império é uma instituição que se mantém. Mas o governo monárquico colocava o Exército em segundo plano. intensificou-se a propaganda republicana. nada poderia modificar o desfecho feliz programado pelos monarquistas para aquele evento. presidida por Deodoro. Pelo que se depreende das afirmações de Anna de Assis a seus filhos.Só se ama uma vez na vida. que ela sentiu um grande entusiasmo pelo jovem cadete Euclides da Cunha.

Era a monarquia que engendrava um ardil para esconder sua fraqueza e sua fragilidade. enviado ao Hospital do Castelo. mas uma curiosidade invulgar e uma vivacidade além do normal para as meninas da . A espada. à vista dos familiares do major Solon e. como José do Patrocínio. consolidar a autoridade do poder imperial. de Anna Emília. a seguir. além de Benjamim Constant e o major Solon Ribeiro. um herói. exceto Deodoro. De repente. não deveria empanar a cerimônia. O seu protesto é um golpe firme. O cadete Euclides da Cunha não se contém e se revolta em vista da encenação. que deveria subir em saudação e respeito à autoridade ministerial. dentre outros. inesperadament ocorre nas fileiras. tão logo instituído no País um novo poder. quando ele se viu convencido a participar da proclamação da República. Francisco Glicério. acontece o imprevisto. mas um jovem que tem os seus ideais republicanos e interpreta aquela cerimônia como um ato de humilhação a que tem de se curvar a escola. e sim. exatamente na casa do major Solon Ribeiro. Aquele simples e desconhecido soldado. os alunos da Escola Superior de Guerra relembravam o nome e o feito imponente de Euclides. prometendo lutar para a sua volta ao Exército. que aquelas figuras de escol na revolução. na casa de Deodoro. a seguir. fiéis ao Império. que providenciou incontinenti um atestado de louco para o jovem cadete. e no momento de realizá-lo se confundiu nervosamente tentando.19 ministro da Guerra e exibição destinada a impressionar as pessoas incautas que talvez sonhassem com a queda do Império. que tinha como finalidade justamente. Para os colegas que permaneceram na Escola. principalmente. Aristides Lobo. Antônio Silva Jardim. primeiro. dos oficiais militares que organizavam o evento que culminou em 15 de novembro de 1889. Euclides foi recolhido à enfermaria da Escola e. outras reuniões se deram com a presença dessas mesmas figuras. E essa áurea de heroísmo acompanhou aquele rapaz até a Proclamação da República. Não é um simples soldado perfilado para prestar continência. Lopes Trovão. à qual compareceram. e realizou a sua primeira façanha na história do Brasil. O seu nome era também falado e lembrado nas rodas civis. E em todas estas reuniões os acontecimentos que exacerbavam os ânimos republicanos foram discutidos e comentados. então. chamando a atenção. vergá-la. 20 Quando se aproximava o momento da revolução republicana. principalmente. é simplesmente atirada aos pés do atônito conselheiro depois de alguns segundos em que o jovem cadete se esforçou para quebrar a arma tentando. Quintino Bocaiúva. decidido e histórico. Euclides da Cunha não era louco. outra. Quintino Bocaiúva. então com apenas quatorze anos. É de se supor. inutilmente. excluindo-o das fileiras militares. Era um simples soldado. Não se poderia creditar aquele gesto como mais uma manifestação de desagrado aos governantes. Rui Barbosa e muitos outros. Não poderia ser de outra forma a reação dos comandantes militares. tentando abafar aquilo que. o gesto do cadete se instala na cerimônia como um ato de rebeldia e como mais um brado a favor da proclamação da República. Por isso. Por mais que ajudante de-ordem e comandantes corram nervosos para se agrupar em torno do ministro. uma coisa e realizando. soubessem do feito daquele rapaz. Antes da célebre reunião a 11 de novembro. aquele que viria a escrever ( os Sertões). Rui Barbosa. Ele sabia que deveria erigir um protesto.

uma testemunha constante e atenta das marchas e contramarchas da proclamação da República. um alvoroço se espalha pela casa. conheceu todas as causas e relacionou em sua memória todos os eventos que surgiram na época e se sucederam até o gesto histórico de Deodoro no campo de Santana. naturalmente entregue com as precauções necessárias a um primeiro encontro. em que se organiza o primeiro governo da República. sendo que dois dias depois ele passa a alferes-aluno. A história registra apenas a manifestação poética e oportuna do escritor Euclides da Cunha que. E a importância do major Solon no movimento é tão grande e insofismável que exatamente foi destacado por Deodoro para. sob a chefia de Deodoro. cruzando o Atlântico com destino a Portugal. Imediatamente. Um colega do soldado Euclides se oferece para levá-lo à casa do major Solon e ele tem. ao lado da mãe e irmãos. Ela foi. a menina Anna Emília ouviu todas as teorias da filosofia positivista que influenciaram os homens que proclamaram a República. vibrou ao conhecer um jovem herói. um dos destacados líderes da revolução. filhos e angústias. muitos compêndios escolares ilustram as páginas dedicadas à Proclamação da República com o quadro célebre que registra exatamente a entrega da mensagem de Deodoro ao imperador pelo barbado major Frederico Solon de Sampaio Ribeiro. Euclides deixou para a jovem Anna Emília um bilhete. por um decreto dos novos mandatários do País. certamente. Um casamento se faz com o dia-a-dia. . Acompanhou todos os lances. solicitando-lhe que se retirasse imediatamente do País. pois não é senão um galanteio brilhante. também começa a se delinear a vida de personagem de outra história. E Anna Emília. tudo é regozijo e apenas um assunto domina as rodas e ambientes: a Proclamação da República. Por essa ocasião. pois aquele rapaz também foi alvo de muitos comentários e admiração.. Quando é anunciada a presença do jovem cadete Euclides da Cunha na casa do major Solon. São momentos de festa e comemoração. em que se traçam os destinos da nação brasileira. assim. 22 *** 3 Anna e Euclides da Cunha: depois da poesia. levar a mensagem ao imperador Dom Pedro II. no dia 16 de novembro. A euforia se alastra pelo País e. Nessa ocasião. 21 Hoje. assim. às 9 horas da manhã do dia 15 de novembro. sem dúvida. entre os militares. no seu encantamento de menina e euforia de mocinha. cognominado Governo Provisório.época.. a chance de conhecer aquela figura importante que está conseguindo mudar os rumos de uma nação. solicitam a Benjamim Constant a reintegração do cadete Euclides da Cunha ao Exército. conquistou a bela Anna Emília. filhos e angústias Nem tudo na vida é poesia. Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem. o que se dá logo a 19 de novembro. a bordo do navio Parnaíba. Os alunos da Escola Superior de Guerra comemoram a Proclamação da República e desejam consolidar o movimento com atos que apaguem da história do País os desmandos da monarquia. Ao se retirar da residência do major Solon Ribeiro. acompanhou toda a movimentação de seu pai. Tudo foi registrado em sua memória e ressurgiria tempos depois para determinar também o seu destino. um júbilo especial toma conta de todos. Com ansiedade de filha.

chegará a marechal Frederico Solon Ribeiro. o livro mais admirado da literatura nacional. para se dedicar à engenharia. Tornou-se colaborador de diversos jornais. José do Rio Pardo da residência do doutor Euclides da Cunha nesta cidade. Nesse mesmo ano. estudando até dezembro de 1891 na Escola de Guerra. No ano seguinte à publicação de Os Sertões. que recorda o seu desaparecimento do cenário da vida. Ela começa a gerar filhos. e em todas surgem notas sobre o autor. construiu a ponte e fez a história da cidade. logo após a conclusão do curso de artilharia do jovem militar que já em abril desse ano era nomeado segundo-tenente. Em 15 de novembro de 1925. A menina morre aos quatro meses de idade. o dia 15 de agosto. Foi o engenheiro responsável pela construção de uma ponte. A vida do escritor Euclides da Cunha é muito conhecida. a Câmara Municipal resolve consagrar à memória do preclaro cidadão Dr. em São Paulo. não deixando. Anna ainda foi mãe de mais dois filhos em seu primeiro casamento: Euclides Filho e Manoel Afonso. concluída em maio de 1901. em 1904.O meu silêncio é a minha defesa. Na Bahia. Este é o nome da mãe de Euclides. nomeado chefe da comissão de reconhecimento do Alto Purus. Em São José do Rio Pardo. artigos e ensaios. A primeira a nascer é Eudóxia. Ele prossegue a sua carreira militar. vítima da varíola. Em janeiro do ano seguinte. Euclides da Cunha. estudada por meio de inúmeras reportagens. apesar disso. Euclides morou. Prefeito Municipal fez a seguinte indicação que foi unanimemente aprovada: Considerando a glória que adveio para S. Instalou-se na rua Floriano Peixoto. informando que ele se desligou do Exército em 1896. uma demorada viagem pela Amazônia. em Cantagalo. Manoel Rodrigues Pimenta. uma homenagem a dona Eudóxia da Cunha. seguindo a sua brilhante carreira militar. Em meados de 1898. esquina da 13 de maio. homenagem ao famoso avô materno que. uma vez que foi sempre acusada de ser a responsável pela trágica morte do marido. publicado em dezembro de 1902. analisada. onde escreveu Os Sertões. sempre ressalvado pela afirmação: . 24 *** . Se a vida de Euclides da Cunha pode ser facilmente levantada.Anna Emília casou-se com Euclides da Cunha em 10 de setembro de 1890. depois com a família. Nasceu a 20 de janeiro de 1866. o autor era eleito para a Academia Brasileira de Letras e. A princípio só. o prefeito da cidade sancionou o seguinte projeto da Câmara Municipal: O Coronel José Pereira Martins de Andrade DD. Circulam edições sucessivas de Os Sertões. Se a primeira filha levou o nome da avó. sendo convidado pelo O Estado de S. foi fundado o Grêmio Euclides da Cunha de São José do Rio Pardo. Ele está com 24 anos. nada se pode saber sobre Anna da Cunha. figurando nos livros escolares que tratam das letras nacionais e constantemente citado em amplas reportagens da imprensa brasileira. o filho nascido a seguir se chamará Solon. Rio de Janeiro. realizando. Ela tem 15. considerando mais que este poeta trouxe para esta cidade uma grande fama. Euclides da 23 Cunha mudou-se para São José do Rio Pardo. então. passa a primeiro-tenente. ele permaneceu de 7 de agosto a 1º de outubro de 1897. Paulo para ser correspondente em Canudos. uma linha contraargumentando apenas o testemunho verbal. Retornará apenas em 1906 ao Rio de Janeiro. o nome do avô paterno.

Esteve aqui dezoito dias e fui com ela até São Carlos. publicado no jornal Muzambinho. além de se tornar uma bela mulher. revelam como ela se comportou na ausência do marido com referência à educação dos filhos. em 22 de agosto de 1909.o que não era comum. Na verdade. pai de Euclides da Cunha. Anna da Cunha será sempre uma mulher independente . e tampouco de tratar da educação dos filhos. na sociedade brasileira. que seriam colocados em algum colégio de São Paulo. Como te mandei dizer. ainda se conservou alerta para os acontecimentos do mundo. Alguns trechos destacam a vida conjugal de Euclides e . pois. Uma faceta da personalidade da menina Anna Emilia se desenvolve e..4 Pensão Monat. Rua Senador Vergueiro. Enquanto ele se ocupava com seus compromissos e se preocupava em construir sua obra literária. Pareceu-me assim a melhor solução. Anna. surgidas logo nos primeiros anos de casamento. Ela sempre o afirmou. E todas que tentaram ser independentes naquela época. para tratar dos meus negócios. Se não temos o depoimento de Anna para narrar a sua vida conjugal com o famoso escritor. foram castigadas pela discriminação dos costumes machistas e conservadores. onde esteve com tua irmã. a Anninha veio aqui com os meninos e regressou no dia dez do corrente para São Paulo e Rio. se os últimos anos o comprovam. como estes: Trancam-se os céus: eu tenho o teu olhar. Ela veio sozinha do Rio com os meninos e voltou da mesma maneira. compreendi que a Aninha tem bastante expediente para arrumar a sua vida. nunca foram segredo.. pelo que se pode vislumbrar. 14. segundo combinamos e lá esperará o teu regresso. Os choques se sucedem. surgirá com destaque e primazia. possuidora de uma feminilidade graciosa e espontânea. pois tu existes! O convívio com o homem intelectual se mostrou complexo. à medida que vai crescendo como mulher. 25 Essa forma de proceder de Anna da Cunha. o casal nunca se entendeu bem. Penso que ela irá em agosto. Eu aconselhei a seguir para a companhia do José na Bahia. não só porque me embaraçaria muito em sair daqui. tendo eu verificado que os meninos estavam bem vestidos e tratados con venientemen te. ela não deixou de ser mãe. a seguir transcrita. visto ser-me quase impossível tê-la aqui. As desavenças domésticas. onde estará muito bem e os meninos poderão ter um bom colégio. Outro depoimento importante é o do escritor mineiro Júlio Bueno. além de tudo. Apesar de alguns versos escritos pelo marido. e. datada de 16 de julho de 1905. como porque teria de ficar longe dos meninos. A carta. portanto. preocupar-te mais com isso. Nem faz falta Deus. no entanto. estudiosa e intelectualmente acima do normal para as simples donas de casa do fim do século passado. resta-nos apelar para alguns testemunhos importantes. Não deves. muito contribuiu para a tranqüilidade do desenvolvimento da vida profissional do marido. os primeiros não teriam sido menos difíceis. é de Trindade. Trechos de cartas de Manoel Rodrigues Pimenta. igual ou pior que o de Lorena. Primeiro endereço de uma tragédia Anna não foi feliz em seu casamento de quase 19 anos com Euclides da Cunha.

mais disciplinada. quando o coronel Cristino chegava. levantou-se muito ufano. devotado à disciplina a mais rigorosa. 26 Para provar que a neurastenia já nessa ocasião começava a minar latente o organismo vibrátil de Euclides da Cunha. com a maior satisfação. o seu temperamento de impulsivo. mais circunspecta. ouviu? Isto é mera convenção. a conversa era mais sóbria. o coronel Cristino Bittencourt. não querendo extinguir aquela alegria. flore. percebi que Euclides ficava exacerbado. na Campanha. na quietude da cidade sul-mineira. Não ria nunca. Era verdadeira dona-de-casa. que provocavam do tenente Arduíno boas gargalhadas. Compreendendo o que desejava o meu adversário. inutilizando-o. eu fazia o meu jogo. era verdadeiro tipo de oficial. pilhérias picantes. empenhado em ganhar a partida. felizmente para a felicidade do lar. levanta-se e me intima que deixasse uma aberta por onde pudessem sair as suas. Fique sabendo que eu sou invencível no gamão. Nesse tempo. Euclides. que o tinham de imortalizar. Ele contava. fechando todas as casas desse lado. muito radiante. Do contrário perderia todo o interesse a batalha. Dentro em breve compreendi que tinha diante de mim um doente.Mas. dr. de seu espírito agitado. Porém. procurando arredá-lo das bancas de jogo. um grande ascendente sobre o marido. quando ali estivera como engenheiro militar. O próprio comandante desenrugava a fronte e sorria. Giologie. com a maior bonomia: . o moço.Seja assim. Conheci na intimidade o notável autor dOs Sertões. Dr. com a maior calma. Bramou ele: . deixando-o na atitude vexatória de um inativo. que. trêmulo. faune et climats du Bresil. vou relatar uma feição característica do seu temperamento nervoso. Disse-lhe simplesmente. ministro da Guerra de Prudente. uma neurastenia incipiente começava a perturbar a vida agitada do moço militar.Eu não sou escravo de regrinhas de jogo. Fica para nós estabelecido que não se deve bloquear o adversário. Eu. Liais. advertindo-o. aconselhando-o. visto lhe conhecer o gênio arrebatado. um lhe fez grande mossa e talvez fosse o inspirador dOs Sertões: é o livro de E. Euclides ganhou a partida. Era comandante do 8 Regimento de Cavalaria. como isto sucedesse várias vezes seguidas. Já nessa época distante. Eu concordei com o caro amigo. cujos surtos intelectuais não tardavam a desabrochar. Vizinhávamos e era raro o dia em que não jogássemos uma partida de inocente gamão. além de identificar o gênio temperamental do escritor. Aí. Entre os livros que lhe emprestei e que ele devorava numa grande ansiedade. Nas rodas oficiais e de civis.Você. conheci a esposa do malogrado moço. isto não é permitido. Euclides era o único que se rebelava contra aquela atmosfera de formalismo. Exercia ela. assenti na adoção de uma regra nova no mais velho dos jogos. terminando sempre por sair pisando forte e sem se despedir. . mesmo com as mais elevadas patentes do Regimento.Anna. vá aprender para jogar comigo. 1895. encarregado da adaptação da Santa Casa para quartel do 8 Regimento de Cavalaria. como o seu ilustre irmão. lhe ocorre escrever Os Sertões. Uma vez que prendi suas távolas no canto extremo do tabuleiro. dizendo-me: . Então. A princípio. retorqui: . transfigurado.

esse ponto vulnerável. tinha uma caverna escura. como Aquiles. fatal. impossibilitado como estou de entrar numa casa em que se me fez a mais dolorosa injustiça e onde se ouviram complacentemente as calúnias lançadas por um beleguim sobre um rapaz honesto. cena que nos enche de pavor e de imensa comiseração. procurando cercá-lo de uma atmosfera de calma e de repouso. correspondia mal a essas disposições da esposa. aquele Himalaia de patriotismo. mais conhecedor desta vida e mais experimentado. que sabia aquilatar do valor do grande patriota. essa caverna escura. Fui a São Paulo e trouxe a Saninha e o filhinho. Estou bem certo de que o meu velho amigo o general Solon considerar-me-á sempre co mo mereço. tinha um ponto vulnerável. Se aos 14 anos ela era uma menina passiva às determinações paternas. cheia de afeto. Estão em Palmeiras. Se a vida profissional de um homem é brilhante. aquele imenso coração tinha um ponto. Rio. essa jaça. de dedicação. Anna da Cunha exercia grande ascendência sobre o marido . era o abandono moral da companheira. ou seja.. apresentamos uma carta de Euclides da Cunha em que ele nos informa que sua vida familiar era conturbada também no relacionamento dele com os parentes da mulher. de carinho. Se a mulher no fim do século passado. para os pequeninos. Faço-a 28 por escrito. porque não a posso fazer a viva voz. 7-01-1894 D. o arredava dos perigos. esse ponto negro. transcorridos quatro anos do casamento. Á Sra. esse senão. do genial autor dOs Sertões. ele aquilatará melhor acerca destas coisas. como um novo Gulinan. de zelo. Daí a tragédia que durou tantos anos a ser representada. dados os precedentes que a determinaram.essa falha. Mas aquele grande espírito tinha uma falha. aquele cultor apaixonado do dever. de dedicação para os fracos. Não veja nestas linhas o mínimo traço de rancor. era uma simples geradora de filhos. tendo o seu desfecho fatal na cena da Piedade. entendo fazer esta participação. aquela alma adamantina. cheia de sustos. Euclides da Cunha teve a prova da estima daquele povo generoso. Anna quis ser muito mais do que uma submissa esposinha. escrevo-as perfeitamente . Porém o grande homem. apaixonada e romântica. Lá está a praça que fica em frente à Santa Casa com o nome imortal de Euclides da Cunha. não será a mesma aos 30 anos. Esta carta data de 1894. se a mulher nas primeiras décadas do século XX. de um vizinho e de quem conviveu com o casal. por uma fatalidade idiossincrásica. tinha um senão: . daquela que. não significa que a sua união conjugal tenha de ser feliz e maravilhosa. o aconselhava. para os infortunados.27 Na Campanha. como mãe de minha mulher. o advertia. Antes de novos fatos. Jamais deixou de ser uma mulher sonhadora. tinha uma jaça. Túlia. o herói de Homero. para os oprimidos. mas que seria inevitável. aos 25 ainda preocupada em organizar a vida familiar.é a conclusão de um amigo íntimo.

a mesma desordem de outrora. Anna confessou que teve de se valer do sr. procurando um recanto qualquer dos nossOs Sertões. Temos estado juntos algumas vezes. e. a minha consciência. que o meu sogro. E outra carta. tão agitada. Terminando estas linhas acredito que a Sra. ser-me-ia fácil e até agradável dar uma direção vantajosa a esse recursos. na nossa sociedade. deixando apenas o nome S'Anninha na forma escrita por Euclides da Cunha: Saninha. sobretudo a Solon. Fonseca. a quem mais estimo. me fará justiça. mas eu não compreendo que tentem aviltar-me. coisas perigosas. eu aí estive ultimamente até retirei-me bem aborrecido e até hoje não conheço nada dos teus recursos. eu realizarei ainda melhor este objetivo. restando-me permanecer num silêncio altivo e sobranceiro. cujo nome dei ao ente que mais estimo. em suma. que levam ao martírio. a que Euclides se refere na carta. pois. para isso. é porque vai muito adiantada já a surda e traiçoeira conspiração que pressinto em torno de mim. Eu compreendo que me odeiem. cujo nome pois eu desejaria por isso mesmo ver bastante elevado. proprietário do Bazar . Quando Euclides da Cunha se viu nomeado chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus e viajou para a Amazônia.sereno. Mais uma vez devo dizer que me resta a consolação de acreditar que o venerando amigo. perder-me na obscuridade a mais profunda e fazer todo o possível para que os que tanto me magoam esqueçam-me. mas. é o seu cunhado Adroaldo Solon. eu compreendi somente que havia falta de confiança. um último e grande favor: que o meu nome não seja mais pronunciado na sua sala. sobra-me experiência. Pensei que o trato que tens feito e sobretudo os meus conselhos tivessem modificado a tua maneira de viver. então. mas encontrei os mesmos destemperos. Nada me disseste. Depois da triste desilusão que sofri só tenho uma ambição: afastar-me. se eu tivesse conhecimento pleno da tua vida. são. Não tens sido franco nem leal comigo. sua ânsia de partir e cumprir a missão foi tamanha que simplesmente se esqueceu de deixar recursos financeiros para sua família de forma que pudesse subsistir na sua ausência. Quando se terminar a agitação da nossa terra. Sei apenas que tens quantia não pequena 29 em um banco de Manaus. não só por isso. de Manoel Rodrigues Pimenta. Atualizamos a grafia da carta. O beleguim. Seu genro respeitador Euclides da Cunha. sabem quanto tenho sofrido. que felizmente sabem o que valho. está neste momento perfeitamente lúcida. justificará a minha ausência enquanto persistir sobre mim o juízo ofensivamente dúbio que fez de mim e ao qual absolutamente repilo. É uma coisa deliberada. Encontrei os mesmos destemperos. visto como convenci-me de que a dignidade e toda a sensibilida de mesmo dos que vivem constantemente preocupados da própria honra. fala da vida conjugal de Anna e Euclides. como também pela forma estranha como tratas tua mulher e filhos. devo pedir a Sra. de 1905. como eu os esqueço. Desculpe-me a extensão desta explicação. E se tal não se der. desejo ser inteiramente esquecido. como esta não se impõe a ninguém. a mesma desordem de outrora. entretanto. às vezes. Terminando. A desordem conjugal foi uma constante na vida daquele casal. retirei-me daí apressadamente contrariado. Os meus amigos.

rumo à Amazônia. Ora. Aquela daria o primeiro nó da trama terrível. nesse endereço. Retorna ao Rio com o caçula. onde era o comandante do Arsenal de Guerra. além de um rapaz bonito e atraente. em Santa Vitória do Palmar. resolve morar com o menino na pensão Monat. No ano seguinte. a quem pudesse recorrer. permanecendo no mesmo educandário até 1902. Em 1898. O marechal Frederico Solon faleceu a 10 de janeiro de 1900. o nó de uma tragédia se faz com uma mulher bonita. para ter reduzida as suas despesas. por muitas dificuldades. Aos 9 anos de idade. completamente enredada em suas dificuldades financeiras. Aos seus infortúnios de ordem econômica e financeira. no Acre. foi transferido para São Paulo. D. Manoel Afonso e. Ao se ver envolvida em outras premências financeiras. que faleceu a 1 de maio de 1892. na rua Senador Vergueiro. ingressando nas forças armadas pelas .. na Rua Uruguaiana. Rio Grande do Sul. plenamente saudável e com todo o seu vigor feminino florescendo aos 30 anos de idade de um lado e a solidão. Um rascunho escrito por Dilermando de Assis e deixado para os seus filhos registra a ocasião com esta frase: Aí morava também sua velha conhecida (de Anna). Já não tem seu pai vivo. transferiu-se para o Rio. Euclides da Cunha é um nome famoso. que reside no Estado de São Paulo. aos cuidados da filha Alquimena. Nessa rua. interessado em cumprir zelosamente a tarefa de demarcar os limites do Brasil com o Peru. Mas não um homem rico. Esse homem se vê constantemente ameaçado por hemoptises imprevistas. também para colégio religioso. às suas alucinações e desvarios de homem culto e inteiramente voltado ao saber. no navio Alagoas. Esta e sua irmã Angélica Rato seriam peças de capital importância na tragédia. mas mesmo assim não hesita em embarcar a 13 de dezembro de 1904. aí ela começaria a se chamar Anna de Assis e daria o primeiro impulso à roda dos infortúnios e tragédias que ilustram a vida de tantas pessoas.. para a manutenção do seu lar. na cidade mineira de Uberaba. na região do Alto Purus. Aos 37 anos. n 14. uma tuberculose crônica. ela seria feliz e viveria o início de um grande amor. nessa ocasião. Passa. junta-se a doença incurável. inteligente. que teve de abandonar a vida religiosa de clausura para se dedicar aos afazeres domésticos e servir como enfermeira domiciliar. 30 E com os irmãos Anna não poderia buscar auxílio. morando no bairro Cosme Velho com os seus três filhos. Euclides e Dilermando O outro lado do laço tem a seguinte história: Dilermando de Assis ficou órfão de pai aos quatro anos de idade. Era filho do tenente de Cavalaria João Cândido de Assis. em Belém do Pará. Lucinda Rato. Ela receberá amparo justamente do seu sogro. uma vez que ou se encontravam fora do Rio ou não aceitariam colaborar com a mulher e filhos de um homem com o qual não se davam. Ela busca uma solução. Anna resolve viajar para São Paulo e internar os dois filhos mais velhos num colégio inglês.América. era uma mulher doente. Sua mãe. com a família. 31 *** 5 Três vidas se encontram: Anna. Dilermando foi internado em colégio religioso. a esperança e os anseios românticos de outro. Anna está no Rio de Janeiro.

era uma gleba amorfa e estéril ao cultivo dos sagrados sentimentos de família: a educação moral doméstica deixava muito a desejar. então. surge na Pensão Monat um elegante rapaz de dezessete anos. Podia morar aí. como se apaixonaram e como tudo aconteceu. A idéia é pressurosamente acolhida pelo jovem. a varíola e a malária. Forças legalistas invadiram a Escola Militar e abafaram a rebelião. De São Paulo. A pensão Monat era ótima e barata. n. aonde fora em rápida viagem. que estava no salão. Essa rebelião se deu quando a população do Rio se voltou contra o decreto do governo Rodrigues Alves determinando obrigatória 32 a vacinação para erradicar epidemias como a febre amarela. então. Estava em Santos. dezessete anos e nenhum mal se me afigurava ir naquela decisão. a cólera. cujo nem ouvia . Os lampiões de iluminação a gás espalhados pela cidade foram destruidos. Havia participado da revolta do "quebra-lampião" e por isso excluído da Escola de Guerra no Rio de Janeiro. aonde devia ir ter em breve. Lucinda. a peste bubônica. já porque me emancipava do rigoroso horário dos escaleres daquela praça de guerra. que surge como contundente justificativa para alguns acontecimentos de sua vida. em São Paulo. Ele escreveu: No Fim de setembro de 1905. tal aceitação se impunha. foi anunciado um projeto de anistia aos revoltosos e Dilermando de Assis se viu em condições de regressar ao Rio. Sabe. ao invés de seguir diretamente para o Rio. Ao se recorrer a Dilermando de Assis. a esposa de Euclides. que deixou livros publicados e falou à imprensa. Nessa passagem por São Paulo. que agiu como toda a população.a transcrição de um comentário escrito por Dilermando de Assis. e nunca a de meu desconhecido. trouxera um pacote de livros para D. o decalque natural. O endereço é rua Senador Vergueiro. díspar pelos costumes e procedência. na casa do tio João Carlos Rato. O caráter em forma ção sofreu. que contrariava vários interesses. desempenado e garboso em sua Farda apertada de cadete da Escola Militar. pois via ali a casa de uma parente e de uma amiga de minha mãe. sempre dominantes. em companhia de S'Anninha. ao embate da prepotência dos viciados. major José Pacheco Assis. Dá-lhe conselhos: não devia sacrificar a saúde. Em 30 de abril de 1904 faleceu. O meio colegial. mãe de Dilermando e de Dinorah. Contava. Já porque Ficava mais próximo à Escola. Quer nuns. entre pessoas amigas. que ali se instala. 14. Feitas as apresentações. assim. sua tia materna. decorrente do meio em que medrava e se desenvolvia. as noções de lar e de família eram aí preteridas pelos dogmas da crença e teorias da ciência. sabemos como se deu o seu encontro com S'Anninha.mãos do seu tio e padrinho. desde logo perturbada com a atraente presença do rapaz. O saneamento estava sob o comando do dr. Pensão Monat. começam os contornos de todas as tragédias. Convinha-me. alto. perto da Escola Militar. mora numa fortaleza. Oswaldo Cruz. louro. faz-lhe várias perguntas. A rebelião foi fomentada também nos quartéis. dr. dona Joaquina Carolina de Assis. Amotinou-se a escola da Praia Vermelha. Por ocasião da morte da mãe. Em 1905. Joaquim Nicolau Rato. é nomeado tutor dos menores. órfão recente. Euclides da Cunha. que o cadete Dilermando de Assís. Um instante para um parêntese . Dilermando encontrava-se em São Paulo. em condições de grande desconforto. Uma das irmãs de João Carlos Rato incumbe Dilermando de levar para o Rio um álbum de músicas para ser entregue a uma tia. Dirigiu-se a São Paulo e encontrou-se com outros parentes antes de embarcar para o Rio. O irmão da falecida. quer noutro estabelecimento. por isso.

Dilermando de Assis revelou: Foi quando vim a conhecê-lo. Errei? Não errei? Quem poderá dizê-lo? O maior erro já estava consumado. pela primeira vez. aos dezessete anos. com os empregados da casa. recebia os recursos necessários para viver. sendo-lhe apresentado como um "filho da irmã de sua comadre Angélica Rato". Contudo. o retir facilitando o império da natureza. O certo é que sofri bastante. as leituras em comum despertando fantasias. a falta de experiência ou malíci permitindo a aproximação mais íntima. em paragens longínquas. Retornemos à descrição do próprio Dilermando de Assis. a vida não mais de enclausurad abrindo novos horizontes. Vez e outra telegrafava ao amigo Domício da Gama e pedia notícias de suas "quatro enormes saudades". da rua Uruguaiana. coincidência de predileções esportivas trazendo o embevecimento. entre esposos e que muito revelaria da energia e . Jamais imaginara desse passo me adviesse tanta desventura nem no que podia degenerar. imperceptivelmente se consumou o meu crime. que passei a visitar aos sábados. não há dúvida. Dizia: "Estou na baía a bordo do "Tennyson" Mande-me buscar. tendo permanecido em 34 companhia de sua mulher durante tantos meses. na rua Humaitá. Dilermando vai ao cais. A pensão Monat deixa de ser a residência ideal para os enamorados. para evitar mal maior. Batista da Fonseca.Falar. já morais. para a revista Diretrizes. Ao jornalista Francisco de Assis Barbosa. que visava produzir um bem. Era um mal. uma mulher casada cujo marido que não conhecia se achava ausente. Nesse dia. Euclides. sem mesmo ser lembrado. Em janeiro de 1906. Um compromisso de honra obrigoume a esse vexame. ora de maior. quase três meses após a chegada de Euclides. certa manhã. 33 A convivência acarretando a intimidade. E assim. na Amazônia. Retirar-me naquele instante. meses de uma paixão intensa e exaltada. porém. Porque é só onde vejo a transgressão à Lei: no ter amado. ora de menor monta que seria ocioso enumerar. até que a Escola de Guerra terminou a sua transferência para Porto Alegre. Pensando que assim dissiparia as suspeitas do marido. puberdade vislumbrando encantos. evitando mal maior ou a catástrofe. No entanto. Era a fatalidade. pela visita de um empregado do bazar América. julguei que assim deveria proceder. seria denunciar o extremo a que chegaram nossas relações. sim. tudo concorreu para o despertar de novos sentimentos. O caixeiro trazia-lhe um telegrama que lhe fora dirigido aos cuidados da firma. o escritor não sabia sequer onde morava sua mulher. encontram-se. Já não morávamos mais na pensão de madame Monat e. tinha de ser assim. sequer por inanimada fotografia. a ausência de um conselho protetor que advertisse do curso da idolatria prestes a converter-se em paixão e tanta outras circunstâncias. Parti em março. em seu ninho de amor. em 6-11-1941. o cadete e o escritor. O que se passou. já materiais. Euclides da Cunha. quase não se correspondi com S'Anninha. através de cujo proprietário. Eu tive que o fazer. então. os espetáculos inviscerando deva neios. S'Anninha foi surpreendida. semanas. tal havia de suceder de setembro a outubro de 1905. nessa ebriez incontível. S'Anninha aluga uma casa na rua Humaitá e lá vive dias. receber Euclides. correspondente do marido. Era o fim do idílio.

Fiquei profundamente chocado com essa carta. Meus irrefletidos 17 anos fizeram com que lhe dirigisse uma carta. por havê-lo traído espiritualmente na ausência dele. um telegrama comunicando que seu marido se achava a bordo de um vapor chegado ao porto desta capital. avaliará a injustiça que fez a si próprio e a mim. devo dizer-lhe que logo nos primeiros dias de sua chegada do Acre. Estude. nesse transe. ele.. apesar de aborrecido por um sem número de contrariedades. Não querendo demorar a resposta à sua carta de ontem. à força das circunstâncias. informante. Quando souber a razão do meu aborrecimento. chamando-a depois de entregue a carta. teve de S'Anninha uma meia confissão. informante. notei-lhe que traía essa desconfiança. já que ele era um homem de grande talento e estudos científicos. cuja resposta aliás não se fez esperar. Senti que não andava bem. Em todo caso. Anna. que essa carta. Não faltou mesmo quem anonimamente o denunciasse a ele. pois constam dos autos. Não creia que lhe houvesse feito uma tal injustiça. É a seguinte: Dilermando. Seria deselegante e mesmo desnecessário. que. A minha casa continua aberta sempre aos que são dignos e bons. Euclides já desconfiava de tudo. escrevo-lhe neste papel. não esquecendo que muitos deles tiveram de vir a público. Assim: . Não poderá fechar-se para você. seu marido. conhecia a incompatibilidade de gênios entre ela. não sabendo se pelo bem-estar que tinha livre dos maus tratos e pela falta de carinho com que ele a tratava. havia profanado o seu corpo. Na sua idade nunca se é um homem baixo. Como foi. A minha resposta é simples: há grande. julgo que não o tratei mal.da dignidade de D. nessa data escreveu uma carta a seu marido. e disponha dos poucos préstimos du am. Além disso. lhe perguntou seu marido se ela. de volta do Acre. Depois de uma das minhas costumeiras visitas à rua Humaitá. "Bazar América" correspondente da informante. do contrário. recebeu da Casa Fonseca da rua Uruguaiana.que ela. informante. ela.. como se julgasse indigna dele. certo de que me desculpará... achava que ele devia prolongar a separação. Veja o inconveniente de se tirarem deduções de fatos e palavras isoladas. informante. Mas que fazer naquela contingência? Tinha que ficar calado. diante da pergunta. ela teve de relatar a um delegado de polícia anos mais tarde. obri. Que no dia 1ªde janeiro de 1906. seria pior. A questão é muito outra . 35 . 36 *** 6 . ou por meio de uma nova comissão ou pelo divórcio. ela. Até sábado. dizendo que. informante. ao que ela respondeu. absoluto engano no que imagina. crd. Ainda que o escritor Euclides da Cunha estivesse ignorando os acontecimentos.e você é inteiramente estranho a ela. seja sempre o mesmo rapaz de nobres Sentimentos. entregou a seu marido no dia de sua chegada de noite. que havia profanado só o espírito. são fatos que não precisam ser relatados em todas as suas cruéis minúcias. Euclides da Cunha Era uma bela lição de moral que eu recebia.

. certo da traição. É Dilermando quem escreve: Ao marido parece ter faltado a agudeza necessária para compreender que a incompatibilidade alegada não era fingida. Para termos uma exata idéia da paixão do jovem cadete por S'Anninha. sem sentir o calor de teu rostinho formoso. basta examinarmos as suas cartas que agora são 37 transcritas pela primeira vez. hóspede da casa. sem me molhar em suas queridas lágrimas. Evitou novos encontros com o jovem amante e procurou por todos os meios e modos dissimular a gravidez. brutal e acusadora. Admitindo. O marido. con vencido então da realidade. Euclides disse-lhe que não dava importância o que tivesse podido pensar. dói muito. ou o divórcio. a suavidade de teus seios. mas assim é preciso. lê em voz alta. dando o braço ao meu companheiro. Foi aí. te peço. as vestes. argumenta que só há uma solução: prolongar a separação entre eles por meio de uma nova ausência do escritor. lança-lhe os maiores insultos e rasga-lhe. trêmula. esperando sempre uma fase mais feliz e prazenteira. mas real e profunda. Não te deixei só ao passo que eu encaminho-me para o exílio onde sentirei tristes dores. num bilhete cerimonioso. Após a primeira humilhação na presença dos criados e de uma senhora. Eis as cartas: Carta n2 1. Foi triste o nosso adeus!. longe de ti. que não me pude conter e. em fúria. de nome Zulmira.Cartas inéditas revelam a paixão de Dilermando de Assis Quando S'Anninha confessa ao marido sua traição espiritual. E. porém. Euclides abre-o. encaminhei-me para a nossa separação. Era preciso que assim triste fosse a nossa cruel despedida. Faltou-lhe coragem para uma confissão completa. chorei.Vejam a cara dessa mulher! E me digam se não é a de quem está se desprendendo do ente que mais ama! A resposta de S'Anninha é uma desesperada crise de choro. despede-se do casal. Chorei lágrimas ardentes que me incandesceram as faces. Isto. de ameaças e de pavores constantes. a validade das razões por ela apresentadas contra ele. E ela se encontrava grávida de três meses. contemplando-lhe o rosto desfeito: ... Euclides tinha razão ao afirmar que aquele era o semblante de quem se desprendia do ente que mais amava. Dói. perante as pessoas da casa e hóspedes ocasionais. não podendo dominar as lágrimas que em borbotões jorravam-me dos olhos. uma vez que seu corpo não fora profanado.. para que nada deixássemos transparecer do nosso intenso amor. o último adeus. se não temos as respostas. S'Anninha não consegue disfarçar o seu abatimento. podendo perceber apenas a imagem querida de teu semblante adorável e a dor do teu terno coração. talvez. Guarda as tuas lágrimas que valerão mais noutra ocasião. Dilermando. que se transfere para a Escola Militar do Rio Grande do Sul. . quando o marido exclama. Os meses que se seguem são terríveis. Continuou a esposa a partilhar o leito conjugal. transtornada com aquele golpe. não é por isso que não podemos imaginar correspondência de paixão no mesmo nível. enquanto eu. logo se tornava impossível: a verdade não confessada surgia. Não chores. Foste-te pela avenida em fora. S'Anninha ouve. quem sabe. Ainda com a tua frágil e delicada mão me acenaste dando-me. Bordo do Itaítuba em viagem para Paranaguá Minha nunca esquecida e queridinha S'Anninha. onde tratarei da vida com todos os esforços.

beijo-a. Carta n. e mais ainda. só a teu lado poderei viver satisfeito. Mandes o Ant. procurei no leito acalmar a exaltação de minha alma tão apaixonada por esse anjo que desgraça ni ente descrê. levantei-me cedo e almocei às dez horas. Em cima. onde foi afiada a navalha.. que tanta falta tem sentido e há de sempre sentir de ti. não satisfeito. Talvez não acredites porque estás longe e . O dia seguinte passei na cama até a hora da janta. 2 Bordo do Itaituba no porto de Florianópolis 9-IV-07 Minha adorada e sempre idolatrada esposinha. converso com um.. n. no tombadilho. o dia foi agradável. docemente embalado nas águas do Atlântico. salvo aquele ligeiro temporal de que já te falei. não só para cumprir um dever para contigo. É a terceira vez que. sentei-me no banco em que estiveras e pedi a meu filhinho que te conserve com saúde e que te proporcione todas as felicidades que almejares. Tudo estava escuro e então convencido da dura realidade. que não sinto. pois o mar tem (Seguem-se trechos ilegíveis) faz pouco dos meus juramentos. antes que frondosos. para contentar o meu pobre coração. digo. a caixa da navalha que ele deixou na rua General Câmara. só ficamos 3 rapazes. que não posso abraçar e beijar com aquele intenso amor com que havias e fazia contigo. Adeus. mas qual. e às escondidas. Nada!. buscar a minha navalha. ainda aí não me acho bem. sinto-me sempre mal. mandando-te 38 as minhas dores. de onde te enviei a carta n. acordado até às 3 horas. Deixei a terra. de bombordo a boreste. olho para o que foi teu. as saudades e a crueldade do exílio a que me destino. com grande satisfação tomo da pena. dormi. Não podendo dormir e só. Que saudades?!. Já te mandei dizer que o vapor partiu às 2 horas e chegamos em Paranaguá ontem. para o duradoiro até a volta. contemplo tua imagem querida. procuro outro companheiro. 1. vou te comunicar o que tenho passado a bordo. Começou então o temporal que durou até Paranaguá. caminho para um lado e para outro. É com grande ânsia que às pressas delineio estas palavras para darnotícias minhas. vou a um camarote. depois de procurar nas trevas da noite divisar a poética igrejinha em que parecia-me estares ainda à minha espera. E assim. seus ramos tentem cobrir os raios do sol que já tantas vezes tem sido ofuscado pelos arrebentos de ciúme sarcástico que te orla o coração.. até Florianópolis. minha queridinha. No primeiro dia estive. abro as malas. falta-me uma causa que não vejo. meu Deus? Esperar que proporcione-se a ocasião para que todas as dúvidas sejam então dissipadas.. Adorada e saudosa esposinha. querida.até aqui. Bordo do Itaítuba. Como hás de querer. do convés ao tombadilho. Que fazer. depois que cruel e friamente te deixei. É um horror a minha vida. já era noite e na volta fui dormir. à entrada da Barra do Rio Grande. tão meu querido.. Hoje. 112. Donde te escreverei. Aceit mil beijinhos do teu Amado. Só saímos do Rio às 2 horas da noite. Carta n 3. A bordo.Não repares a letra pois o vapor está jogando muito. registrada. A viagem tem sido maravilhosíssima .. Poucas são as pessoas que saem dos camarotes. choro. como também. Decididamente.

dois. seu confidente. por toda a eternidade?! Será possível?! Poderei morrer sem te ver? Não. Euclides chega ao último desespero. Euclides dialoga com a mulher. Intimidada. ele afirma que não quer se ver envolvido num escândalo público que se refletiria também sobre os filhos. Anna pede ajuda aos empregados da casa. Em 11 de julho de 1906 nasce o menino Mauro. E prove assim que me ama. não os quer ouvindo os desvarios do pai. Mesmo debilitado. declara que a perdoará magnanimamente. não posso escrever bem. passará dias afastada de Euclides. três anos. correria. Isso ela deveria fazer. Em outros momentos. Mas não pode. promete-lhe ser fiel.." O restante da carta está ilegível. amedrontada. ainda que moribundo mal possas ouvir o rouquear do peito de quem tanto [. Ninguém dorme há horas. mantém afastados os filhos. Cândido . ela cede. Entre vômitos. hei de ver-te. Anna da Cunha não sabe se atende o marido doente. Ele não permite. Estende a pequena bacia de sangue e diz à Anna: . S'Anninha recebe as mensagens apaixonadas de Dilermando e sofre sua gravidez acusadora. Perdoa-me esta letra tão triste. mistura frases e pede-lhe que não lhe abandone. um alvoroço estranho agita o ambiente. e. S'Anninha chora a ausência de quem ama. Afinal.. quem mo dirá. Ele chama a mulher e confessa que ainda a ama. Euclides registra a criança como seu filho chamando para testemunhas um amigo íntimo. que não se afaste. com o jogo do vapor. simplesmente. enfraquecido pela crise da hemoptise. vitimado por aguda crise de hemoptise. o dr. São dias de angústia e desespero.É um dia comum na vida da cidade. exasperado. Não há calma e tranqüilidade na casa da Rua Humaitá. desde que ela não mais falseie a fé conjugal. Anna foge e. ou se busca socorro médico.não podes apreciar. Ela não poderia supor que o pior ainda estaria por acontecer. 40 *** 7 Uma criança morre de inanição É manhã de sol no Rio de Janeiro. Calmo. A pequena bacia serve para colher o sangue doente que escorre da boca de Euclides. separado por extensos 39 mares e talvez. Euclides tem certeza de tudo que aconteceu.Beba. Mas em vão ela tenta apaziguar o marido. No Rio. por um. desvairado. ele murmura pedidos de perdão. gera um filho dessa união e tem de se submeter às imposições do marido. levanta-se da cama e caminha na direção da mulher. Anna procura acalmá-lo e desfazer suas dúvidas. Já vejo de perto os belos montes de areia que orlam as praias dos nosso queridos pampas e então sinto-me bem longe de ti. que alterna momentos de paz com alucinadas atitudes de homem traído. Ele a chama de traidora. a sua companheira. que permaneça a seu lado e lhe prove ser a sua mulher. n2 Desde a madrugada. E grita. tenta se reconciliar com a mulher.

Anna terá nos braços uma única vez. filhas de Manoel Afonso. tanto quanto possível. de nome Francisco Alves. No entanto. tudo às ocultas. As dores do parto recente já não a torturam. a seus outros filhos: . Anna se lança contra a porta trancada. Nota do Autor Jeferson de Andrade: Este capítulo foi objeto de reclamações judiciais contra os autores. E. o sofrimento maior vem da incerteza do destino de seu filho.Assassino. Até os empregados da casa são mantidos afastados. Tudo o mais que se passou entre Anna e Euclides naquele atribulado mês de julho de 1906 será para sempre ignorado. o que se pode comprovar é que a criança foi enterrada no cemitério São João Batista. Esse filho. Euclides comunica à mulher a morte da criança e afirma têla enterrado no quintal da casa. impedidos de auxiliá-la. confinada na sua própria casa. sofreu e amou Anna de Assis. tudo o que sabemos é o que se dispôs a revelar Anna aos seus filhos.41 de Siqueira Campelo e o caixeiro de um armazém próximo do cartório. O marido se instala numa vigilância obstinada e não cede. E repetirá. Em vão ela implora ao marido que lhe traga a criança. Euclides da Cunha. É impedida de amamentar a criança. Os fatos aqui relatados são versões de Anna de Assis passadas à sua filha Judith Ribeiro de Assis. É importante esclarecer que para Anna de Assis ficou-lhe em mente os primeiros procedimentos de Euclides da Cunha logo após o nascimento da criança. ela teria sobrevivido. extenuada. Ela reclamou aos filhos. esmurrando-a. conservando-se indiferente ao desespero da mulher. que se não tivesse sido impedida de amamentar a criança. morre o menino. Não sabe o que está acontecendo e ninguém surge para socorrê-la. Anna. Ela não consegue fugir. procedendo de forma cruel e sádica. Ela se vê prisioneira em seu próprio quarto. Os autores. 43 *** .A criança morreu porque fui impedida de amamentá-la. livraram-se dos questionamentos com o arquivamento do processo no Fórum do Rio de Janeiro. anos mais tarde. abriga-se em seu leito. antes de se prostrar entregue às suas dores. que conta como viveu. defendidos pelos advogados Nilo Batista e Felipe Amadeo. Como escritor. grita a sua acusação: . durante toda a sua vida. registro essas revelações neste livro. filho de Anna e de Di ler mando. Ninguém pode sequer se aproximar daquele quarto. A porta do quarto permanece trancada. Perdi o meu filho que morreu de inanição. gritando e chamando pelo filho. Após sete dias de vida. verdade 42 que se elucidou para Anna tempos depois. no primeiro momento dos acontecimentos dramáticos vividos naqueles dias. lhe afirma ter enterrado a criança no quintal da casa porque não queria escândalos. quando realmente foi enterrada em cemitério. promovidas por duas netas e respectivos maridos de Euclides da Cunha. uma fraqueza enorme a domina e. Ela está só.

elas são úmidas. o menino que. 67. portanto. não deve ser recordada. nada mais me é dado fazer. ternamnente acalentando o pensamento de nosso tão desventurado quão terno amor. S'Anninha. tão distante. porém o meu coração reflete-as e eu sinto. recordando ainda aqueles alegres momentos que discorreram juntos. Ele se encontra com S'Anninha em outro local. Talvez também com o pensamento te transplantes a estas plagas balbuciando perfumadas frases de terníssimo carinho bordado com arte pela nobreza e celestial fantasia de tua alma sentida e emocionante. ignorava tudo. Os anos de 1907 e 1908 serão o tempo de espera. familiares.declarou Dilermando de Assis ao jornalista Francisco de Assis Barbosa. 32. Durante o breve período de férias de Dilermando no Rio. amigos. também meu filho. convive desordenadamente com o escritor. fortalece essa união. que se desenrolou durante a curta existência de Mauro. de olhos escuros. Sofria pressões de todos: mãe. Em começos de 1907. ela tece o destino para ser feliz ao lado dele. de meu horizonte querido. as tuas palavras. que se passava aqui. mantendo viva a sua união com Dilermando. Anna tenta. o escritor chamava "espiga de milho no meio de um cafezal. e. apesar das ameaças. continuou a viver com a esposa. que não era seu filho. pressões.Eu. Escrevo-te às 11:35. Todos os passageiros acham-se já acomodados e eu velo lembrando-me de ti. irmãos. n. Beijo-as. e eu choro de saudades. No entanto.8 Nasce uma espiga de milho no meio de um cafezal . Ele sabia. No entanto. Francisco. Em 1907 ele tem 19 anos. promovido a tenente. conseguindo novas forças para enfrentar a sociedade que se opunha àquela união. S'Anninha. Entre as minhas talvez não . nessa ocasião. destacava-se dos demais filhos de Euclides: morenos. Carta n 4 Bordo do Itapacy. quando este carro oscilante desliza sobre águas paranaguaenses com rumo do S. Eu não ouço. Além de se inteirar dos acontecimentos. Silencio sobre esse triste episódio. 44 .A tragédia doméstica. 4-5-08 Perene lembrança de meu coração. convidando-me a aparecer em sua residência. Minha surpresa não podia ser maior. E enquanto ele ainda estuda no Rio Grande do Sul. mas lhe garanto que dona Anna a suportou como verdadeira heroína .De volta a Porto Alegre. ele cordialmente me cumprimenta. Encontrei-me com Euclides em um bonde. Terminado o curso. Só então me inteirei do que ocorrera após o nascimento e a morte imediata de Mauro. a estas horas caladas em que hás de embalar certamente em teus soluços e bem torneados braços." A criança loura. segundo divulgou Medeiros e Albuquerque. vim ao Rio em gozo de férias. sob o jugo massacrante da saudade. porque sinto também que trazidas talvez pelas ondas. constatará que ainda tem o amor daquela mulher. mas úmidas de lágrimas quentes ainda. recebi em novembro a participação do nascimento de Luiz. separar-se de Euclides. Dilermando regressa ao Rio de Janeiro mais adulto. de olhos azuis. sofrimentos e muitos conflitos. E acrescentou: . apesar das provas que se apresentavam claras e insofismáveis da sua infidelidade. na rua Humaitá. Com surpresa para mim. busco o alívio à minha dor conversando contigo agora. cabelos negros e lisos. Dilermando não atende ao convite feito por Euclides. Dilermando de Assis envia do Sul novas cartas durante o ano de 1908. no Sul. e eu respondo. ou quase tudo.

nas férias de 1908 e no primeiro semestre do ano seguinte. aliviando um pouco a tensão. Que fazer?! Assim o quis a fatalidade. de meu amor sem ser importunado pelas amabilidades dispensáveis que os companheiros proporcionaram cotidianamente. 45 saudadas por um sol cheio de vida e calor como para nós é a esperança que nos dá alento e conforto. Adeus.Dos encontros posteriores que tive com Euclides. acompanhando dona Anna.. Os estudos em que se empenha. realizado em 1909. como também porque. Praia Rio Grande às 11 horas Minh'alma que tanto adoro. Nilo Peçanha. no Colégio Anchieta. pois eu só amo a ti e cada vez mais.sintas as gotas quentes envoltas de dor. E ele vira dona Anna em minha companhia. Pois bem. receba-as pois e com este fino estilete aninha aos pés mimosos de nossa gentil florzinha. assim o quis o destino. Muito sinto não poder abraçar-te em adeus. eu sinto e juro-te. vai ao presidente da República. internar o filho mais velho. além do revólver regulamentar de tenente. embora não mais trocássemos cumprimentos. não é? Pouco tempo haveremos de estar separados e este servirá para aumentar a sede de nosso amor mais irracional. também republicano histórico pedir a nomeação do marido. Chega a querer desistir. elas te farão lembrar que só de ti e por ti eu vivo. em Friburgo. Bordo do Itapacy. ao concurso para a cadeira de lógica do Colégio Pedro II. . a hora da concentração e das saudades. Ele próprio tem a consciência pesada. beijo-te muito. por insistência de amigos. E ele tivera conhecimento de que. são frias. Tira no concurso o segundo lugar. jamais resultou de sua parte a menor manifestação agressiva à minha pessoa. com o agravamento da tuberculose. outra arma excelente. são também cristalinas. vive Euclides transe dramático. longe das distrações espontâneas. traz na bagagem. Volta antigas . e sou só teu. Dilermando havia conquistado evidência como campeão de tiro.Euclides concorre. Tem amigos poderosos. Solon. é não somente porque é a hora da dor. apesar dos pesares. mais enlaçado em que nos haveremos de rolar como umas conchas levadas e trazidas pela maré que beija as areias da praia.. Acha que invalidara o direito de um candidato mais capaz. do dia. beija-a e suga-lhe o perfume e o mel como as abelhas para ouvir-me. Se procuro esta hora em que a natureza passa em trevas. mais terno. mas ainda que frias. constituem um derivativo. Ao retornar à capital do País. conquistando o primeiro cearense Farias Brito. Nomeado. as preocupações de ordem intelectual que o absorvem. a tese que tem de escrever. A última frase da carta está ilegível. Quando encerrou o seu curso na Escola Militar no Sul. E a própria S'Anninha. Declarações de Dilermando de Assis à Diretrizes: . em 1908. 6-6-08. A decisão do governo é criticada. (ilegível) ainda que pouco. prêmio ganho campeonato em que provou a segurança de sua pontaria. Haverão de nos consolar e de nos amar ainda mais. em plena Rua Humaitá. eu posso lembrar-me ternamente de ti. Mas Euclides é Euclides. que se movimentam em seu favor. O inferno doméstico que vive se torna ainda pior. pois não sou egoísta. Já é a 32 carta que te escrevo. fora eu. além de mais pobre e desamparado. Abraça bastante a nossa flor por mim. porque são de amor.

A Câmara Federal reconhecia somente os diplomas dos candidatos eleitos pelas situações em cada Estado. pois o nome não obteve apoio sequer entre políticos de Minas. O escritor não aceitou nem uma nem outra das propostas. Ela imaginou os seus argumentos fortes o suficiente para demover a teimosia do marido com um Atlântico separando-os. Por aí se vê como S'Anninha era uma mulher voluntariosa. não se sujeitou aos compromissos de um casamento acabado. no primeiro momento. A freira Alquimena. Não sabia a duração da viagem. que escolheu como candidato a seu sucessor o seu ministro da Fazenda. não acatando as suas ponderações. 46 Quando Euclides da Cunha retornou do Acre. Seus planos. Uma viagem. predominava o que se denominou política dos governadores. Tudo teria se arranjado conforme as intenções do escritor. vagos ainda. Contentou-se em atormentar a mulher e transformar o casamento em um caos doméstico. um gesto definitivo. foi impossível sustentar o segredo e imediatamente ela lhe propôs uma nova separação: pelo divórcio. os deputados eleitos pelo apoio dos governadores. o mar. estava com uma excursão para Roma marcada para a segunda quinzena do mês de agosto de 1909. Insistiu em seu relacionamento com Dilermando de Assis. Pinheiro Machado. previam apenas cartas para o marido no Brasil. assim. E ela inacessível aos seus acessos de fúria e loucura. ou ele conseguiria mais uma comissão. frases e pedidos. Anna da Cunha deliberou ausentar-se ela do Rio de Jane iro. detinha . O poder central era mantido pelas oligarquias estaduais. S'Anninha. Comprou uma passagem para ela e o filho Luiz no mesmo navio que levaria a Roma a sua irmã Alquimena e outras religiosas. Nessa época. fez-lhe apenas uma velada confissão. caso S'Anninha não fosse uma mulher ousada e plenamente consciente de seus desejos. a provisória solução. Esta escolha gerou uma crise. S'Anninha viu na Itália. dos municípios à Câmara Federal. E tudo se passou exatamente igual a tantos casos semelhantes de rompimento de uma união conjugal. ausentando-se novamente do Rio. 47 *** 9 Tudo acontecia além do vôo da Águia de Haia Em 1907. Só que antes de uma terça-feira há um domingo. uma atitude decidida falariam muito mais que algumas palavras. Tudo ela fez para convencer o marido da conveniência de uma separação. Já os governadores se apoiavam nos coronéis municipais. de um lado a mulher tentando se desvencilhar do compromisso. Dois Estados economicamente mais fortes ditavam os rumos da nação: São Paulo e Minas Gerais.hemoptises. A data da viagem estava marcada: 17 de agosto. mineiro. Diante da atitude intransigente de Euclides da Cunha. do outro o homem exigindo sua subserviência. Davi Campista. no outro lado do Atlântico. acertando o divórcio e a separação definitiva. a distância. Logo. irmã de S'Anninha. A corrente se formava. a ausência. ou seja. Apenas um líder gaúcho. o Brasil era governado pelo Presidente Afonso Pena. também mineiro.

se nos descorçoarmos desiludidos. Evidentemente. pela inteligêncía e pela riqueza. O Exército certamente o sabe. Não tinha a simpatia de Pinheiro Machado. então. Por essa via tomamos parte nessa conferência. por culpa vossa. da América Latina. iniciada a 15 de junho de 1907. Duas novas candidaturas despontaram nas campanhas préeleitorais: Rui Barbosa e Hermes da Fonseca. convocada pela rainha da Holanda e pelo czar da Rússia. Bias Fortes e Francisco Saies. também não apoiavam Campista. é inestimável o seu papel. E a Aguia de Haia trovejou: . O ministro das Relações Exteriores era o Barão do Rio 48 Branco e o nome do vice-presidente do Senado para a Conferência de Haia foi sua indicação. obedece. O outro nome lançado para presidente foi o do marechal Hermes da Fonseca.poder de influência e coordenava na Câmara uma facção que desejava influir na escolha do próximo presidente. O Exército. as forças se dividiram entre São Paulo. que foi incluído como vice na chapa de Hermes. de onde saíram com Floríano Peixoto. impelindo-nos a procurar através de grandes exércitos e nas grandes armadas o reconhecimento de nossa posição pretendida em vão pela população. Era uma conferência pela paz e quando o representante dos Estados Unidos opinou pela formação de uma corte permanente de justiça internacional. a condição de sua popularidade. classificando-se os Países em categorias conforme o poderio militar. Rui Barbosa insurgiu-se argumentando: . . Começamos a ser conhecidos como operá rios da paz e do direito. a meu ver. numa sugestão de Lauro Sodré. Pinheiro Machado apoiava a candidatura do marechal. um passo em sentido oposto. não se manifestaram. de início.Quanto a nós. Outros Estados se posicionaram a favor do candidato militar. Rui Barbosa regressou ao Brasil como líder dos Países fracos e sua defesa da igualdade das nações não foi refutada pelos poderosos. Os velhos chefes da política mineira. com a convicção de que a grandeza internacional não é avaliada senão pelas forças das armas. A aclamação da candidatura do ministro da Guerra seria. Nesses limites é necessário. porém. o resultado da Segunda Conferência da Paz teria sido o de inverter o curso político do mundo no sentido da guerra. O candidato Davi Campista era apoiado apenas por alas jovens de políticos sem muita sustentação nas oligarquias estaduais. fomos convidados a entrar pela porta da paz. Mas o embate se dava entre Rui e Hermes. Minas Gerais e os liderados por Pinheiro Machado. Ficou clara a situação política. então ministro da Guerra. Dessa forma. Rui Barbosa foi o representante brasileiro na Segunda Conferência de Paz. Mas se nos decepcionarmos. Já os paulistas e baianos se colocaram contrários ao marechal e apoiaram Rui Barbosa. os militares pretendiam retornar ao poder. Afonso Pena ainda se batia por seu candidato: Davi Campista. Foram convidados 44 Países. O baiano alcançou celebridade internacional e ficou conhecido como a Águia de Haia. como os demais órgãos do País. líder político paraense que obteve apoio nos setores militares.A nação governa. e na observância deles reside o segredo. Não quererá outra 49 função. teve o apoio do governador mineiro Venceslau Brâs. Os paulistas.

Rui iniciou a Campanha Civilista. em Piedade. o candidato da situação. O número da revista de 13-9-1941 registra assim o acontecimento UM DEPOIMENTO DE ALTO VALOR HISTÓRICO . sobreviveu e foi julgado pela morte do outro. militar. Daí que o depoimento do então coronel Dilermando de Assis ao jornalista Francisco de Assis Barbosa. Depois. lutando contra a poderosa máquina governamental que o derrotará. apenas procuravam defender suas paixões. E morreu. pelo gaúcho Pinheiro Machado que liderava os Estados nordestinos. de outro. Só que um era civil. Não fui do trono. a candidatura Hermes da Fonseca teria a seu favor a máquina eleitoral montada a partir dos coronéis municipais e o tradicional voto de cabresto. ficou de pé a versão da morte de Euclides da Cunha como assassinato. quando Afonso Pena morreu em 14 de junho de 1909 e assumiu o vice-presidente Nilo Peçanha. Não se diga que houve deliberação por parte de todos os que redigiram matérias para contar os fatos. escritor e intelectual: Euclides da Cunha.O marechal Hermes da Fonseca continuou candidato e mais forte ainda. A luta sucessória de 1910 se fez com a Campanha Civilista de Rui Barbosa de um lado e os militares. tornou-se histórico. A imprensa brasileira fazia sistemática campanha pró-Rui Barbosa para presidente da República e a morte do civil Euclides da Cunha por um militar. Contra essa situação se insurgiu Rui Barbosa. que discursou nos teatros e nas praças públicas dizendo ao povo: . aliado de Pinheiro Machado.Perderemos. o espantalho? Não nasci cortesão. Contou de várias maneiras o que teria se passado na casa n 214. O outro. decorridos alguns anos. tenente do Exército Dilermando de Assis. o militar Dilermando de Assis se viu proibido pelo Exército de se manifestar por meio da imprensa e como a tragédia da Piedade deixou de ser assunto. em 1941. da Estrada Real de Santa Cruz. da própria nação não o sou. senhores. Nessa situação política brasileira se deu o encontro de dois homens rivais que nada disputavam. apoiado pelos Estados do Rio de Janeiro. não o serei das baionetas. acabou servindo de reforço aos argumentos civilistas contra as armas. além de velhos políticos e coronéis do interior. com o apoio do novo presidente. mas a confusão dos acontecimentos e a exacerbada paixão dos envolvidos numa campanha presidencialista serviram para obscurecer a verdade e erigir mistérios e dúvidas onde só existia fatalidade ou tristeza. de São Paulo e da Bahia. . Apoiado pelos mineiros. 50 *** 10 Treze tiros e uma tragédia A imprensa brasileira da época fartou-se com a repetida chamada: A Tragédia da Piedade. E assim. O marechal passou a ser. Dilermando de Assis. não quis ser da ditadura. Era um intelectual brilhante. Mas o princípio da resistência civil se salvará.Que me importa a mim. à Diretrízes. Pela primeira vez na República um candidato a presidente se dirigia diretamente ao povo pedindo-lhe o voto. candidato oficial da oposição por uma convenção reunida no mês de agosto de 1909.

Vim para matar ou morrer. escondidos na . Ele responde: . Dói-me horrivelmente.Que entrasse . 214 da Estrada Real de Santa Cruz e. declarando: . A circunstância de nos vermos obrigados a lançar.perguntei-lhe. Vendo-me em perigo. Euclides da Cunha entrou precipitadamente em minha casa. Fez um desenho para facilitar a compreensão de sua exposição.disse a meu irmão.. dois dias após a publicação da mencionada reportagem histórica.na sala de jantar (E). Solon. inutilizando meu desventurado irmão para o resto da vida. Tomávamos café . Anna. Embora ferido. Euclides acerta-lhe um tiro na coluna vertebral. logo depois. Euclides ouve os gritos de D. E. Euclides recua o braço direito e eu consigo agarrar a manga do seu casaco. o pequeno Luiz e eu . exibiu-o em sua defesa perante o júri que o julgou.Adiantando-se de meu irmão. Seriam dez horas da manhã. então. quase à queima-roupa. Dilermando de Assis pôde retornar à casa n. No interior do meu quarto (C). embora representassem algumas dezenas 51 de milhares de exemplares. Caio. tudo rodava à minha volta. fui ao meu quarto (C) a fim de vestir minha túnica. doutor?! . A porta se abre com um pontapé.D.Bandido!.atirando contra mim. valendo-se dos indícios que encontrou. sem dúvida. procuro tomar-lhe a arma. para atender aos numerosos pedidos que recebemos de todos os cantos do Brasil. conseguiu reconstituir matematicamente a trajetória dos sete tiros de Euclides e dos seis que disparou em represália. ouvi distintamente apenas as palavras "matar ou morrer". Dinorah tenta desarmar Euclides. Ambas as edições. 52 Tudo isso é muito rápido. um segundo tiro. Recebo.. que lhe abriu o portão do jardim e a porta da sala de visitas (A). não chegaram. constitui. Corja de bandidos! . Dinorah vai até à sala de visitas (A) buscar cigarros e volta. . Desarmado. E de súbito vejo Euclides que me aponta o revólver. estou ferido no peito. uma segunda edição em papel de jornal. este corre pelo corredor (B) e ao aproximar. guardou-o e a revista Diretrizes publicou-o juntamente com o seu depoimento sobre como se desenrolou a tragédia do dia 15 de agosto de 1909. comunicando que o Dr. Desta vez. que dispara contra meu irmão.Que é isso. Dinorah. de autoria de nosso companheiro Francisco de Assis Barbosa.se da porta do seu quarto (D). Avanço com a mão esquerda. .Constituiu um acontecimento histórico na imprensa semanal do Brasil a publicação do depoimento histórico do coronel Dilermando de Assis em torno da morte de Euclides da Cunha. . Euclides estava à porta e queria falar-me. fator esse que vem aumentar ainda o valor histórico de uma edição esgotada duas vezes em menos de sete dias. Caído à porta do meu quarto (C). a maior prova do interesse público suscitado pela reportagem "Euclides da Cunha não foi assassinado". Anna e dos meninos. enquanto este retornava á sala de visitas (A). Era domingo. contudo.

Ele não me ouve. Euclides está agora no início do corredor (B). saí nas pegadas do tio Toletano que. Sabia que meu irmão estava ferido. Euclides levanta a mão. veririquei-o depois. encostado à parede. a autópsia acusou em Euclides os seguintes ferimentos: no flanco direito. atirando contra mim. Quanto a mim. A bala. . meses depois.. como que à procura do local de onde partiam os gritos. que não lhe quero matar!. alvejar-me. Fere-me. À detonação. junto à escada.Fuja. Que pretendia ele? Caído à porta do meu quarto (C). Temia.No momento da luta . causa Mortis. 54 *** 11 Meu depoimento sobre a morte de Euclides Com este título . no pulmão direito. como depois revelou a autópsia. saí da luta com quatro ferimentos recebidos de frente. Anna e dos meninos. Euclides volta pelo corredor (B) em direção à sala de visitas (A). porém. Foi quando apanhei o meu revólver. recua de costas e desaparece pela sala de visitas (A) afora. acionando desesperadamente a tecla do gatilho e pronunciando palavras confusas: . o depoimento de Mário Hora. doutor.é evidente que não sabíamos o número de tiros que havíamos trocado. Fui infeliz. no úmero. sem alvejá-lo. Este ainda no corredor (B). 53 Sigo-o. acompanhara Piragibe na fundação do jornal que seria mais tarde aquirido pelo dr. temendo uma possível emboscada.termina Dilermando . a sorte de D. Dinorah foi ferido por Euclides na coluna vertebral. Precavidamente. com outros e dentre eles o Manuel Duarte... em seu número especial de aniversário. Olhando para o corredor (B) tive a impressão de ver Dinorah caído e vi também Euclides.despensa (F) e caminha até à sala de jantar (E). O sexto tiro de Euclides. mostrando-lhe que estava em condições de reagir. pois minha intenção era de amedrontar Euclides. Contra minha expectativa. de revólver em punho.Bandidos. Chegara do Norte dois anos antes e logo ingressara no Correio da Manhã. Eu aí também atirei contra Euclides. Em suma. Surpreendido.. Disparo pela terceira vez. no pulso e sobre uma costela. procurando ainda desarmá-lo. mais uma vez. Ele insiste.. de novo. Num movimento rápido. Desferi o primeiro tiro na direção oposta à em que se encontrava o meu agressor. embora sem desarmá-lo. Chego até à porta e vejo Euclides caído. por outro lado. disparo pela segunda vez. junto à nuca. no pulso e no pulmão direito. publicado pela primeira vez na revista Dom Casmurro.. fere-o no pulso. em 1946: Naquela época eu era revisor de Folha do Dia. procurando.. movendo agitadamente a cabeça. Digo-lhe ainda: . junto à sala. levantei-me como pude. feriu-me nas costelas. na virilha. Eu vi Euclides atirar em Dinorah pelas costas. Fonseca Hermes . de acordo com o exame médico. penetro na sala de visitas (A). de onde.. Honra. Odeio. Euclides retoma o ataque. alvejando o seu revólver.um testemunho valioso -. matutino fundado por Vicente Piragibe.

mesmo de simples cumprimento. Minha Mãe acordou-me.só tinha de meu os domingos. Da janela da cozinha de minha casa viam-se as janelas do último quarto e da sala de jantar da casa em apreço. Uma manhã de domingo. As janelas da frente mantinham-se fechadas. mais franzino. moreno. ao lado do limoeiro.A senhora saberá depois. Nunca penetrei no interior da casa. hoje Avenida Suburbana. A vizinhança. exceção de mim e de minha família. Aflita ela indagou: . embora apagados. mas detido exame. se habituando. com a ampla testa aljofrada de suor e os olhos abertos e fixos vagamente. violino. de compleição atlética. E. com o peito coberto de sangue. Esses moços só eram vistos pelos vizinhos ao entrarem ou saírem da residência. Eu era órfão. Chame o Mário. com o seu Nagan. eu dormia àquela hora. onde foram morar. Ele está todo ensangüentado! Pulei da cama e corri até a porta da casa. dizendo-me: . o alferes-aluno fazia exercício de tiro ao alvo. um alferes-aluno e o outro guarda-marinha um alourado. todas as manhãs. pela janela da cozinha. na famosa Campanha Cívilista. o alferes. em Recife. minha Mãe. cerca de 10 horas. relacionando-me com Dilermando e Dinorah de Assis. 55 deixara um montepio de 145 cruzeiros . O doutor acompanhou-me. os dois irmãos.Meu filho. Chuviscava. dois jovens militares. limões verdes para que o Dilermando os acertasse. havia três ou quatro meses. porque nunca fui convidado para isto. Desde que mudaram para aquela casa. Não esperei mais. no ar. Depois de um rápido. Dilermando. militarmente belo. as calças "garante" do alferes que me atraíram para os dois irmãos habitantes solitários do casarão. vá ter com o Dilermando.Para não morrer atirei num homem. no últímo quarto. Foram certamente. o outro. havia três anos. disse-me: . ora praticando a esgrima de florete de que eu adquirira rudimentos com os oficiais do 40º Batalhão de Infantaria. à feição das casas de Aracaju e de Recife. indo-se pela Rua Berquió. na primeira de um grupo de pequenas casas alugadas por setenta mil réis mensais e que está à direita de quem entra de uma casa maior com duas janelas na fachada e vários quartos no seu interior. o mais velho dos seis irmãos para cujo sustento meu Pai. Da sala de visitas saía-se ou entrava-se por uma porta lateral e por esse flanco da casa ia-se até o quintal. com Canudos e Acre no costado. de olhos nostálgicos e gestos lentos. quase sempre. Morava na Estrada Real. da sala de visitas saíam os sons de um violino acompanhado por um violão. Vá depressa chamar um médico. comunicando-se com um corredor longo. E às tardes. vencemos o corredor e. Tendo chegado do trabalho madrugada feita. (ele não perdia um só). armado no fundo do quintal. a princípio. com ninguém.eu. É que um dos rapazes. o médico disse estas duas palavras: . cabelos e bigodes negros. de um oficial do Exército e vivi minha adolescência dentro de quartéis. Penetramos na casa pela porta lateral. Fui correndo à estação e embarafustei pela primeira casa com tabuleta de médico. estranhou o tiroteio. viu o Dílermando com o peito ensangüentado e muito pálido. o médico se debruçou sobre um homem tipo de caboclo. tocava violão e o guarda-marinha. elegante.para a defesa da candidatura do marechal. em todas as direções. Acabou porém. somente aos domingos passava algumas horas com eles e distraía-me ora a jogar para o alto. Eles não fizeram relações. que deparei.Que foi isto? . Daquele ponto à estação da Piedade espichava-se um bom quilômetro. Trabalhando na Folha do Dia durante a noite e durante o dia em um vespertino há vários anos desaparecido . ora ouvindo-os executar os seus instrumentos.

onde morava Coelho Neto. Ele devia saber de tudo. atônito. Depois. O Paiz.. a primeira vez que a vi foi ao penetrar na casa acompanhando o médico. a polícia ali estava. não havia. e perguntou: . esposa do assassinado. "a única pessoa que freqüentava a casa do criminoso". Ia acompanhá-lo até a saída. indaguei: . agência telegráfica. Durante 48 horas de detenção na delegacia. batera as palmas à porta da casa onde sabia estar a mulher. O médico se retirou sem mais uma palavra. como o senhor vê. Euclides jazia. no local. quando no primeiro quarto dei com Dinorah caído sobre uma cama. Veja. Quando regressei cerca de uma hora depois. realmente. em particular. agora. A mulher chorava. filha do célebre major Solon. ao quarto dos fundos. comunicando-lhes a morte de Euclides. Dinorah abriu a janela e o reconheceu. . impressionantemente imóvel. E. eu. Uma folha houve que chegou a empregar a expressão "cúmplice". insistiam para que o tipógrafo M. Euclides. então.Quem é este homem? . E o delegado tanto "me apertou" que acabou convencido de que o meu depoimento. Ao ouvir este nome. Naquela trágica manhã. Na Piedade. que eu acompanhei até o encerramento. Os jornais e. abraçada a Dilermando que apertava contra o peito um pano já encharcado de sangue. com o prosseguimento do inquérito. Em meio do silêncio em que essa rápida cena se passou.Ainda não. quase ipsis litere repetido nestas linhas. E me mandou em paz. Mantive firme a negativa porque.Desgraçadamente. doutor. o delegado insistiu para que eu declarasse que vira a mulher do assassinado na casa dos irmãos Assis. Ele teve tempo de acertar-me duas vezes. os olhos pregados no morto. em fortes soluços.Meu irmão está também ferido. Fui a Cascadura e expedi os telegramas para o Itamarati e para a rua do Rosa. O senhor poderá fazê-lo. naquele tempo) e penetrei na casa da tragédia. vi uma mulher de feições satisfeitas. O médico ouviu em silêncio. a que empunhava o revólver. num movimento rápido. na delegacia. Fui logo detido e arrolado entre as testemunhas "de vista". era a expressão da verdade. Anna. só então. Logo acrescentou: 56 . no intuito de desarmá-lo e errei o alvo.Está morto. Voltei. A mulher era d. também sangrando.Já se comunicou com a polícia? .O dos Sertões? Dilermando acenou com a cabeça afirmativamente e eu notei uma críspação nos lábios do médico. e para não morrer. Volvi os olhos em derredor. . pois que era. Abrindo a blusa reiúna que vestia ele mostrou ao médico um ferimento no peito de onde o sangue escorria e.É o doutor Euclides da Cunha. na virilha. vim a saber de tudo. os braços estendidos ao longo do corpo. havia lido referências altamente *?encomiásticas a Euclides. eu escutei o médico perguntar: . que na minha profissão de revisor. abrigado por uma pelerini. graças à lentidão do "maria-fumaça" em que viajei na ida e na volta (não havia bonde para Cascadura. arriou as calças e indicou outro. Hora fosse apertado. sem pinga de sangue no rosto e como que desacordado. que exploraram vastamente o crime. E. Eu alvejei a mão do doutor Euclides. pálida e trêmula que se amparava em Dilermando. com a palidez da morte no rosto de traços fortes.Foi o senhor quem o matou? . Dilermando pediu-me para telegrafar ao barão do Rio Branco e a Coelho Neto.

sozinho. pela segunda vez. livrar-se do jugo de um homem que não amava e se unir a outro de quem recebia beijos. mande-o entrar. seria o mesmo que atirar um punhado de lama na auréola da glória que cerca a figura imensa do gigante que tombou naquela manhã chuvosa depois de legar ao Brasil o maior livro da literatura continental e seria. transcorridos tantos anos. colaborar na defesa do autor forçado de sua morte defesa lavrada pelo tribunal que o julgou em memorável reunião." Méier. tentou desarmar o autor de Os Sertões. tomou-o nos braços e o conduziu à cama onde eu e o médico o encontramos já morto. fecho sublime daquele soneto: "O gênio sem ventura e o amor sem brilho. eu sinto em toda essa tragédia. apenas de raspão. minutos antes. E mal o fez. Euclides fez o disparo que o atingiu no peito. palavras suaves e declarações apaixonadas. que acabara.O doutor Euclides está aí e quer falar com você. Reviver aqui o prólogo dessa tragédia que o inquérito pormenorizou. não tinha direito de exigir o fim deum casamento infeliz. é a mão inexorável do Destino armando o braço de um moço perseguido por uma paixão doentia. alvejou-o. disse ao irmão: . carinhos. . Raras linhas foram escritas no sentido de afirmar que também o genial escritor nunca soube entender e amar a mulher Anna. mas a coroa de espinhos dos desencantos e das incompatibilidades. a posteríori. Dinorah fechou a janela. o emérito atirador alvejou a mão de Euclides. A sociedade brasileira tinha os seus padrões de comportamento e a mulher não podia amar e desejar um divórcio. contra o homem de quem ele recebera desvelos paternais . evidentemente. A esse tempo. no fim do século XIX e no principio do seguinte. 58 *** 12 Ele chegou para matar ou morrer A bela Anna nunca conseguiu entender nem amar direito o estranho e difícil homem que era Euclides da Cunha. de uma união carnal satisfatória. Como vai ser? . A bala passou. Além. o exercício de tiro ao alvo e carregava o Nagan. E ele deu-lhe as costas e correu.Dilermando está? E recebendo resposta afirmativa acrescentou: .Vá abrir a porta. Os jornais e os biógrafos do famoso escritor estiveram constantemente de acordo que a mulher. já transpondo o portão do jardinzinho fronteiro: . Não. e já prevendo uma tragédia.contra o gênio que não encontrara no amor conjugal o ramo de loureiro que merecia. que já empunhava um 57 pequeno revólver. Essa afirmativa e outras semelhantes sempre estiveram nos registros históricos que tratam da vida e morte do autor de Os Sertões. Dinoráh abriu-a. o guarda-marinha caiu de bruços. Desorientado e já ferido. janeiro de 1946. Euclides caiu pesadamente. O tiro partiu atingindo-lhe a nuca e à porta do corredor que dava entrada para a sala. correu também: e ao penetrar na sala. E Dilermando. pulando sobre o irmão caído. Dilermando.Quero falar-lhe. absorvente e insaciada. Um outro projétil atingiu-lhe a virilha e ele.Ele perguntou. com os dois ferimentos sangrando. Euclides. que empunhava o revólver e deu ao gatilho. Euclides avançara e se colocara à entrada da porta lateral. O que hoje. Não foi para Camões que Bilac escreveu o verso.

nem tinha jeito para amar aquela bela menina da forma que ela queria e desejava. Até mesmo a sua mãe. também Justiça. 59 Os tribunais não pairam acima da consciência de uma sociedade.Estão em questão os direitos do homem e da mulher. posicionando-se contra a filha: "Você chora a morte do seu irmão.E a meu pai. Não só para Judith Ribeiro de Assis e seus irmãos. apesar dos ditames dos costumes. Opus 66. Anna e Dilermando. para as conseqüências de decisões semelhantes: sobre a regra geral "não matarás". bem como para amigos. em seu livro Euclides. São o reflexo dela. oitenta anos decorridos dos acontecimentos. faculta-se a exceção: "Poderás matar a tua mulher e com esse crime resgatar uma suposta honra" Muitos casos ainda acontecem no Brasil quando há crime passional: os tribunais condenam as vítimas e absolvem os culpados. o mesmo não se pode dizer de tantos que giraram ao redor da tragédia e deixaram de ser apenas simples espectadores para intervir de forma a acirrar os ânimos e determinar que alguns 60 acontecimentos se sucedessem não por simples coincidência. mas infeliz sou eu que choro por ter trazido ao mundo essa pobre infeliz" Que acusação se pode lançar sobre S"Anninha? De que foi uma bela mulher e que tenha amado um homem. um cerebral. mas porque . dona Túlia. sociais e religiosos. Ele foi absolvido pelos tribunais. irmã de Euclides. a mulher deveria se apaixonar e ser feliz. No entanto. Não se pode alguém erguer e julgar Euclides. Estou aqui para contar a vida de minha mãe e afastar para sempre esta monstruosidade que fizeram com ela . certos segmentos de nossa sociedade ainda punem a mulher que ousa abandonar o lar por amor. escreveu uma carta a dona Adélia. Anna vivia só. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher alerta. Foi no que ela acreditou e ignorou simplesmente todas as vontades contrárias. É oportuno reafirmar que a Justiça no Brasil ainda decide que se pode matar para defender a honra. Apenas a palavra fatalidade pode cobrir a imagem dessas três pessoas e servir de epitáfio a seus túmulos. . Soltam-se criminosos mediante a máxima "em legítima defesa da honra". Paulo Dantas. em pleno vigor de seus 30 anos. estas palavras sobre Anna: Euclides era um gênio-sensitivo. ansiando ardentemente pela felicidade. assim se expressou Anna: Euclides pretendia matála também. . imagine-se o que sofreu Anna de Assis para se manter fiel aos desígnios de sua paixão? Vamos encontrar em um biógrafo de Euclides da Cunha. Se.Não aceito esta condenação. ontem e hoje. um temperamento telúrico e não podia. Dilermando de Assis? Para a sociedade brasileira trata-se de um crime. constantemente. embalada por seus arroubos românticos. Assim se entende por que Dilermando e Anna foram os condenados da tragédia da Piedade.afirma Judith. E também por sua personalidade determinada em acreditar que.

os seus desvarios foram assustadores. . Lembrou Nestor que aquele dia era o aniversário da morte do seu pai.Amanhã hei de pôr tudo em pratos limpos! Era um domingo chuvoso. 61 Anna temia retornar à sua casa. A mulher recusou-se acompanhá-lo e Euclides retirou-se. Euclides escolheu um revólver Smith and Wesson. O general Cândido Rondon. em vista da ausência da mulher em casa. Regressou à Copacabana e enviou o filho com a missão de trazer a mãe para casa. entre ameaças e imprecações. 14 de agosto. afirmou: . e se dirigiu à Rua Mena Barreto.sofreram a interferência de vontades malignas. Ao estar com dona Túlia. Euclides descobriu que Anna se encontrava em Piedade. Afinal. conta: Visita tão matinal exigia uma explicação. considerava-a adúltera e indigna de permanecer ao lado dos filhos. Anna notava a exacerbação de Euclides. a reconciliação. em 1946. tentando convencê-la . Euclides foi buscá la. Ele havia enviado. possesso. escreveu em seu depoimento para Dom Casmurro. que conviveu com o escritor na mocidade. perturbado. Ela estava certa de que Euclides voltaria à casa da sogra. Anna combinou os detalhes da viagem com sua irmã e se decidiu por refugiar-se em Piedade. Sylvio Rabello. calibre 22. que ato deixaria ele de praticar desde que o julgasse necessário para se livrar do risco de poder ser acusado de uma fraqueza ou de uma transigência com seus princípios? Bem sabemos que ele não aceitou que os seus ideais republicanos fossem humilhados pelos monarquistas. Discutiram. Euclides. seu filho Solon para o endereço em que morava Dilermando. em São Cristóvão. Ela se apavorou com o desespero de Euclides da Cunha. na Rua Nossa Senhora de Copacabana. Vocês não dispõem de um revólver?.. onde morava a tia Carolina e seus dois primos. Os primos tentaram conversar. que a sua preocupação constante era de se sentir nobre a seus próprios olhos. Enquanto Solon se encaminhava de Copacabana para Piedade. na terça-feira.Do tio Antônio? Que coincidência. com a incumbência de trazer a mãe de volta.. Ele queria a sua volta ao lar. deu-a simplesmente: . 324. ao mesmo tempo que. também biógrafo do autor de Os Sertões. Euclides. e saiu rumo à Central do Brasil. Levava consigo a intenção de lavar com sangue sua honra. De duas armas mostradas pelos primos.. número especial de aniversário. Isto posto. na noite anterior. o irmão de Dilermando. Podemos perceber como Euclides da Cunha guiou os seus passos naquela manhã de 15 de agosto de 1909. o seguinte tópico: Ele mesmo disse de si. E de fato isso ocorreu.Anda lá por perto um cão hidrófobo que me tem inquietado. Arnaldo e Nestor. Euclides saiu de sua residência. quando ele soube de sua viagem para a Itália. tio de Euclides. Dinorah de Assis. Anna fugiu aos movimentos insanos do marido e seguiu para a casa da mãe. fazia o trajeto inverso.. Na noite de sábado.

de venda em venda. o outro. Deus haveria de ter dele. onde moravam dois cadetes. demovê-la da idéia de separação. que. Humilde. Deixou Anna mais apreensiva ainda.a cancelar a viagem e. o historiador Paulo Dantas retira o seguinte trecho: Quem definirá um dia essa maldade obscura e inconsciente das causas.os irmãos Dilermando e Dinorah de Assis. Desceu e veio abrir o portão. Mesmo assim. Para Euclides.e aconselhava cuidados. doutor. E ele chegou para matar ou morrer. de qualquer jeito. Saberia encontrar os seus algozes indagando pela rua afora sobre a moradia de dois militares . que inspirou aos gregos a concepção indecisa de Fatalidade? Às vezes julgo necessário um Newton na ordem moral para fixar numa fórmula formidável o curso inflexível da contrariedade. Dinorah. num concurso.. Ao ouvir alguns gritos alucinados de Euclides da Cunha. o irmão mais moço de Dilermando. De uma carta do próprio Euclides ao poeta Vicente de Carvalho. nos dias subseqüentes à manhã de 15 de agosto de 1909. apenas tinha certeza de que a mulher estaria numa casa da Estrada Real de Santa Cruz. viu que o grande escritor. sob o sortilégio da palavra.Ou mato ou morro.um do Exército. um do Exército e outro da Marinha. O historiador Paulo Dantas conta assim as ocorrências seguintes: Desceu na plataforma. 62 Quando o trem parou na estação Piedade. Uma vaga sensação levava Anna a supor que o marido partiria para atitudes e passos inverossímeis. mais ainda. batendo palmas logo em seguida. chegou à janela. naquele chalé. seu coração estremeceu mais uma vez. ela prometeu ao filho Solon que retornaria com ele no dia seguinte para sua casa.. Não há alternativa nessa altura dos acontecimentos. Era preciso botar tudo em pratos limpos. já não sabia mais o que estava "fazendo". as páginas policiais e sensacionalistas dos jornais se ocuparam dos acontecimentos . "Piedade. conversar com o escritor e perceber-lhe o estado de ânimo. 63 *** 13 Um coração de mulher não se devassa com palavras e razões Se. Solon aceitou permanecer ao lado da mãe. nessas alturas... Este foi a à Copacabana com o objetivo de sondar o ambiente. encaminhouse para a Estrada Real de Santa Cruz. Ele não sabia o endereço do rival. Diante do portão.É logo ali. Dinorah nem entrou na casa do escritor. voltou assustado ao subúrbio. ajeitando-se num cômodo de fundos. Euclides desceu com uma certeza: .muita chuva e frio . Ouviu o filho Solon e não quis sair de Piedade. A noite de sábado era feia . Emocionado.Entre. Pediu-lhe que aguardasse o regresso de Dinorah. . xingando e amaldiçoando a mulher. queria entrar. em frente ao jardim. Ele só não quis dormir no interior da casa. Nem notou como ele estava visivelmente nervoso e tremia. tudo teria de ser colocado em ordem. o dono indicou: . perguntava. Na terceira venda. Tocou a campainha. da Marinha . Completamente alucinado. a professor de lógica no ginásio Pedro II. E ela tinha razão. promovido recente.

Como uma derivação natural do ambiente de então. dominadores da imprensa.do tribunal do povo. tudo.atual aspirante a oficial . o mesmo grande escritor pelas costas. Dilermando de Assis vai a Júri. Não posso. afinal. tendo como advogado Evaristo de Morais. Venho à imprensa provocado pelos amigos e admiradores da ilustre vítima." Como se deduz. auxiliado por Euclides da Cunha. Pois bem. alimentado. são. se alguém. uma ocasião azada de patentearem a justeza da perseguição movida ao acusado. sou forçado a dizer. não devo. criado. a favor. com este meu repto. 1Que Dilermando Cândido de Assis fora protegido. A tragédia da Piedade se misturou à Campanha Civilista. e quase mendigos. .ajudado. A imprensa acompanhou os trâmites legais para o julgamento do tenente Dilermando de Assis e tentou influenciar a opinião pública contra o militar. no outro negadas . quando. O jornalista Angelo Cibela.um dia afirmadas. não quero. se alguém ABRINDO OS AUTOS DO PROCESSO. na sua maioria. que eu nunca redigi notícias dos meus aparentes triunfos. consigo um resultado na justiça. o que me impõe o dever de patrono e a convicção de jurista. no jornal Gazeta da Tarde. registra o assunto: A paixão política espouca para todos os lados. deixando fora de dúvida sensata. eu. demonstrar que Dilermando feriu atirando de revólver. neste caso famoso de Dilermando. Eles são literatos. com responsabilidade de um nome digno. quando. protegido. existindo palavras textuais com referência a isso. em 7 de maio de 1911. se alguém ousar defender a teoria da tolerância dos maridos complacentes ao ponto de suportarem filhos alheios no lar doméstico.. que um homem de talento e excepcionalmente ilustrado pode acreditar na própria paternidade de um filho nascido a termo estando junto à esposa desde 6 meses antes. são notáveis manejadores da pena.se. apresentar a prova de ter sido Dilermando Cândido de Assis . que eu jamais solicitei o réclame da fraquíssima e humilde advocacia que venho exercendo 64 há 18 anos. na imprensa. Toda gente sabe que eu nunca forneci discursos forenses aos jornais. todo o peso de sua carga. nada". a sério. como "contra o tenente Dilermando. se viu forçado a publicar um repto no Correio da Manhã. convicto de me haver empenhado em uma defesa justa. alegava ter agido em legítima defesa. desde almirantes e generais até soldados. entretanto. E é isto que vale por verdadeiro e solene repto: . me comprometo a abandonar a causa. A campanha dos jornais contra Dilermando de Assis assumiu tal grau de contundência e destilou tantos equívocos que o seu advogado. recuar no caminho que estou trilhando. desde capitalistas e homens diplomados até simples proletários. em 14 de agosto de 1914.. no qual entrei a contragosto no princípio. de Rio Grande. nesse ambiente tremendo. a opinião pública desfere contra Dilermando. e mais: "Nem que o senhor nos pague contos de réis. acerca da minha defesa perante ao júri. ferido. em favor de representantes de todas as classes sociais. direta ou indiretamente. Os civilistas encontram ensandras no caso para todas as explorações. Evaristo de Morais. Eis aí. se alguém sustentar. Os jornais negam-se a publicar qualquer artigo.narrando a tragédia da Piedade. ainda crente nas virtudes . É absolvido. posteriormente o tema mereceu até mesmo espaços editoriais. apresentar uma só página contrária às afirmações de Dilermando. nunca respondido nem contestado em seus fundamentos: O CASO DILERMANDO Eu não discuto nem argumento. pelo fundado amor que dedico à minha santa mãe. sem grandes lucros. alguém.

Os seus filhos lhe foram retirados pelos familiares de Euclides da Cunha. O jornal O Tempo. amado dos seus chefes e respeitado de seus companheiros. o que se disse de Anna? Tudo que se possa dizer para caluniar. tornará impossível a defesa de Evaristo DE MORAIS. Eu amei. evidentemente preocupados em não ter o nome importante do marechal Solon Ribeiro enxovalhado pelo escândalo.a contragosto dos seus acusadores públicos e privados . Dilermando FOI . Ela esperou a absolvição de Dilermando de Assis em silêncio. que Dilermando não era e não é um militar brioso. 65 5 Ninguém. machistas e preconceituosas? Seus argumentos iriam de encontro às leis dos homens e da sociedade conservadora.educado.. Qualquer prova concludente e convincente virá a tempo.. Se ele recebeu por parte da imprensa uma sistemática campanha difamatória. Não concedeu entrevistas. por Euclides da Cunha. como se vê. de Manaus. nascida de sua união com Dilermando.se o autor de Os Sertões não fosse um instrumento passivo de uma campanha política difamatória contra o Exército provocando luta de classe. tem o direito de aventurar o resultado da apelação. apenas uma criança. falecido após sete dias de nascido: 4 Que o mesmo excelso e ditoso escritor . opinou desta forma: Toda essa deplorável tragédia não passaria de um fato banal . diminuir e difamar uma mulher. Deixou um breve e definitivo testemunho: . parecia "uma espiga de milho no meio de um cafezal".cuja glória constitui toda uma riqueza nacional . cumpridor dos seus deveres profissionais. 3 Que Euclides não desconfiara da paternidade que a custo se lhe atribuía de um filho. ela pacientemente aguardou o resultado do julgamento de seu futuro marido. argumentos e razões. Dilermando de Assis foi absolvido e posto em liberdade em 5 de maio de 1911. A situação é. suposto filho. robustecerá acusação fortíssima dos jornais. comparado com os demais.não dissera a amigos que o seu último. não participou das cenas minuciosamente descritas pela imprensa das reuniões de júri. destacando a campanha movida contra Dilermando de Assis envolvendo Anna. falando juridicamente. Um coração de mulher não pode ser devassado com palavras. de indiferença absoluta por meu lado.da mulher que engana o marido . Só.ABSOLVIDO. E adiantaria ela sair de seu silêncio para enfrentar hostes poderosas. puritana e inflexível daquela época. desamparada. explorada pela soberba velhacaria dos magnatas da política. com seu filho Luiz.Eu não errei. Bem se deve compreender que eu não lanço repto apaixonado nem faço desafio para armar ao efeito. 2 Que ele o conhecera familiarmente antes de haver a lamentável união adulterina de que lhe resultou a atual desgraça. de perfeita calma. não teve sequer o apoio de seus familiares. 66 . por nome Mauro.

escolher o seu novo caminho e se comunicar com Dilermando de Assis. juntando-se a seus familiares por parte de pai. ainda recebeu de Nair de Teffé 10 mil réis para as suas eventuais despesas. Ela chega até a estação da Piedade e espera o mesmo trem que trouxe aquele homem para dar sete tiros e. A casa ficou sob a guarda da policia. . muito mais uma garoa. Euclides Filho e Manoel Afonso. além de angústias das incertezas. da madrugada e da manhã. Nair de Teffé emprestou a Anna de Assis uma decidida solidariedade de mulher. É uma tarde fria de domingo. dores de quem sabia ser vítima de uma desgraça.*** 14 Pedido de casamento em bilhete de 2-10-1909 Até a absolvição de Dilermando de Assis. S'Anninha não conseguiu permanecer na casa de sua mãe em São Cristóvão. perguntas e acusações. molha o chão mansamente. não sabe em que porta bater e pedir um abrigo. deparava com acusações e era julgada como a principal culpada pela morte do mais famoso 67 escritor brasileiro. Longe de curiosos. Solon se retirou para a companhia de seus dois irmãos. buscar os seus haveres em sua residência. Para onde se voltava. O cadáver de Euclides da Cunha foi encaminhado ao necrotério público da cidade. implacável perseguição por parte de muitos que a rodeavam. abriu-lhe casa e escondeu-a. loucamente. assinando Rian. Apenas uma amiga lhe estendeu os braços e deu muito mais que carinho e apoio espiritual. repórteres e amigos. E quando Anna precisou comparecer à delegacia de polícia. desgraçar o seu destino e seus sonhos de felicidade. Um homem não tem o direito de determinar os rumos de uma paixão de mulher. Era filha caçula dos barões de Teffé e personagem proeminente da alta sociedade brasileira. e figura. Os irmãos feridos foram hospitalizados. de Euclides e dos donos. Nair de Teffé. Não só a polícia invadiu a casa dos jovens militares. Anna caminha pela Estrada Real de Santa Cruz e leva a sua criança de quase dois anos no colo. Além do dinheiro e de proteção. A mesma chuva de sábado. Quando Anna embarca naquele trem suburbano. S'Anninha precisaria mesmo do apoio. presidente do Brasil de 1910 a 1914. Além dele. não tem uma direção estabelecida. Teve de enfrentar muitas dificuldades para não se abater e se deixar guiar por mãos traiçoeiras. com grande destaque. e ela não teve respeitadas as suas dores. tornando-se primeira dama do País ao casar-se com o marechal Hermes da Fonseca. hoje. Seu desespero e a incerteza pelo estado de saúde de Dilermando de Assis não valiam peso algum na balança torta dos primeiros acusadores. S'Annínha sofreu. Tudo começou naquela mesma manhã de 15 de agosto. e se o seu jovem amante sobrevivesse. num quarto de sua casa. colaborava na revista Fon-Fon! como caricaturista. mas também curiosos. Leva em seu íntimo a resolução de tudo suportar e a tudo enfrentar em defesa daquela criança em seus braços. partir também em sua defesa e esperar por um dia de felicidade a seu lado. nessa época. Nair de Teffé protegeu-a durante a primeira semana após o domingo trágico. apenas uma trouxa de roupas. na história da caricatura no Brasil.

Quisera ver-te. para verificar. a esse cujo conhecimento e tamanha intimidade hás de chorar ainda. Não quero. se é que ainda és minha . têm de se valer de cartas clandestinas e emissários amigos. ao menos. Dilermando e Anna. para agir. Sirvam-te de conforto as infâmias e as ofensas que sabes nunca pesam. sem te ouvir. aos meus infames desígnios. com raridade e os mais diversos empecilhos. O que te ordeno. Assim. Os encontros com S'Anninha prosseguem. a minha vida é um desespero que não tem alívio. aguardará o seu julgamento. Advogados e familiares de Euclides da Cunha também se movimentam procurando cercar "os culpados". entrevistas maldosas e sistemática campanha visando à condenação do "criminoso" no momento do julgamento. as infâmias que desgraçados e espíritos miseráveis procuram lançar sobre ti muito me revoltam. em certas ocasiões. a esse mesmo que já foi procurar o meu advogado tentando desorientálo. Enquanto Dilermando ainda se recupera de seus ferimentos no Hospital Central de Exército.Somente no final de agosto ela recebeu a primeira mensagem de Dilermando de Assis. De tal forma os planos avançam que o casal apaixonado raramente se pode encontrar. manda-me dizer que ainda me amas e todas as minhas lágrimas se secarão. ainda que nas galés. forte. tentando a minha condenação a fim de destruir o único empecilho.09 Minha Eulina. onde. para dar. os jornais apenas relembram a tragédia através de depoimentos dúbios. 29-IX. desse teu futuro marido a quem te entregas de pés e mãos. Não sou nenhum bobo. algumas cartas de Dilermando para S'Anninha. não? Pois bem. A seguir. a fim de satisfazer o seu bem formulado plano de descobrir tesouros. ninguém me desvia da verdade e sei como devo agir. e então os meus padecimentos se dissipariam incontinenti. não me deixo guiar senão por meu espírito que. Acho muito conveniente seguires os meus conselhos. e este é o meu maior lenitivo. que suponhas que eu não padeço também. pondo-me num estado de revolta horroroso. pois só os dou com grande convicção e certeza. ao passo que tu não tens ninguém. Se é grande a dor que agora me aflige mais ainda é o meu amor por ti. manda-me uma palavra de conforto. Dilermando recebe alta no Hospital e é transferido para o 1 Regimento de Artilharia. a idoneidade das pessoas que me procuram uma grande guarda avançada. coragem. não te amofines que eu. As saudades são muitas e o teu sofrimento. nunca a tua imagem se apagará de meu coração. 29-VIII-09 Querida S'Anninha. Tenho. felizmente está mais lúcido que o teu. Longe. preso. Eles são de tal ordem que. sempre serei teu. senão o teu espírito vacilante manobrado convenientemente e astutamente por essa víbora que aí anda farejando. A tudo suporto em tua memória e a ti ofereço esta dor. sólido. Estou ciente também de tudo que por aí se passa. se é que ainda me amas. para se comunicarem. por essa ave de rapina que aí estendeu a suas negras asas. ver ao nosso querido Luiz. Coragem! Dilermando 68 Os dias transcorrem tumultuados. que não tem fim. Ando muito bem informado e não me deixo iludir. mas não é possível. pretendendo-te.

não o receies. 70 I Regimento de Artilharia Montada. É uma infelicidade . Quero que te abras francamente ao Evaristo. se queres ser do teu marido. em companhia dos nossos amigos e protetores. esperar-te-ei hoje. Juro-o pela memória dos mortos e por ela peço-te que me ouças e não duvides de teu Dilermando de Assis Recebi os livros que têm o perfume do Império. Não te deixes levar por falsas afirmações que só têm um fim explorar-te! Cuidado!. Sabes que sou o teu marido e desde há muito. Ele é sério. Vem á tarde. Estás cercada de amigos que por minha intervenção te procuram. à proporção que as tuas palavras me envolvem o coração. banir-me de teu espírito. Sentido! Tu estás sendo roubada. as dores da ausência.... por mentiras e calúnias. Ah! Será possível?!. Sinto-me tão teu que me custa crer nesta ingrata separação. Cuidado!. a fim de conseguirem o que sem esse resultado não obteriam. como tal se não desse. Manda sempre notícias.. por isso previno-te de que não me escrevas por essa repartição.09 Quanta satisfação acabo de experimentar com a leitura de tua cartinha. Mais do que nunca o sou agora que a nossa situa ção nos atrai. no momento em que choro. I Regimento de Artilharia 2-X-09 S'Anninh a Seja esta testemunha de teu bom estado de espírito e de corpo. é difícil duvidar. Pelo correio. tão poderoso que se me afigura uma ascensão aos píncaros da glória. defender-te-á também. Experimento mesmo um saboroso deleite que me invade a alma. Recebi os conselhos e as lágrimas. sim? 6-X.quanto mais te vejo. Não duvides deles enquanto te não 69 mentirem. Deves sair daí dessa casa o mais depressa possível. 21-5-1910 .. entretanto. a que tanto devemos. Agrada-me também esta prova de lembrança e de cuidado que tens comigo que me sinto orgulhoso possuindo-a. Reconheço-te.. Expulsa esse explorador. Lembra que quem quiser me defender. Expulsa de perto de ti essas águias. Não duvides de mim. enganada!. se é que reconheces como nosso sangue esse pequeno mártir que por aí devaneia. O correio viola as cartas que me são dirigidas. as flores que me mandaste. mais se me despertam as saudades. Vem cá. Muito espírito há interessado em. Atendes-me? Sou teu... e eu te falarei. Esperei que viesses ontem. mais te quero ver. que tenho-te como esposa. sou o teu marido. é o que deves fazer. pois só uma legítima consorte poderá assim inundar de prazeres e consolações a alma angustiada de um proscrito.. tamanha.esposa. até de tua honra. é meu defensor. á noite e te mostrarei clara e patentemente a nossa situação.. Tenho estado com imensas saudades. não.

Compraste-lhe um chapéuzinho novo? Neste momento acaba de chegar o Luiz. Gozo muito por saber que estás melhor em tuas condições domésticas. de que faço uso diariamente. do mundo. a encomenda que fiz de um colchão e travesseiro para a tua e para a cama do Luiz. os bilhetes. Sem mais. Ninguém se lembra da péssima alimentação. A provação é grande demais e já basta. O estrado só poderá estar pronto. quando foi absolvido e posto em liberdade. Tu. mais ninguém. Compraste roupas para ti? Manda o Luiz dar um passeio de 10 mil metros até aqui. daquela época.manda-o. Deve ter chegado. e alguns futuro seriam todos passados por Anna a sua filha Judith com recomendação: . Ora. depois de segundafeira. e me persegue há mais de nove meses insistentemente.. Daí as dores de cabeça. pois não quero que ele se suje por aqui. as febres. avalias o meu padecer. como te disse. Este: 1 Regimento de Artilharia 2-X. Não deixes de mandar o Luiz já. pretendo recuperá-lo. e que me perguntaste maliciosamente se era remorso. . uma vez positiva. ou está prestes a isso. a fim de fazer economias. Ninguém avalia que tudo isso me persegue. E as cartas. Adeus. ele se casava com S'Anninha. O que eu sinto. Aceita-o? Espero breve resposta que. 72 *** 15 . pois não? Reconhecendo o mal que lhe fiz. Estou com tanta saudade dele!. Todos admiram-no..Minha filha.09 S'Anninha Sabe que sou um condenado. é nada mais nada menos que meu desarranjo orgânico natural em minha organização sempre afeita ao movimento e ao exercício. um proscrito da sociedade. Já estou fatigado. que tu conheces. con quanto quase bem de alma. Abraça-te Dilermando Mando-lhe o Luiz já. Não posso continuar. tornaremos oficial o enlace que lhe proponho. Dilermando ficou preso até 5 de maio de 1911. Decorridos sete dias. as tonturas e todos os males que me flagelam. bem vestidinho. Quero vê-lo. por toda a próxima semana. Tenho nisso tamanho prazer como em estar a teu lado. Dilermando C. eu não estou habituado a passar assim tão mal.Continuo passando mal de saúde. Mas um bilhete mereceu sempre um desvelo especial. quero mostrá-lo. Está uma beleza. bem limpinho. além da minha constante anormalidade fisiológíca. sou o grato amigo Obdo. Manda me dizer se precisas de mais dinheiro e quanto gastaste ontem. oferecendo-lhe o meu nome. aí. 72 Assim que me veja livre da iniqüidade dos meus algozes. Todas as cartas enviadas por Dilermando de Assis foram guardadas por S'Anninha e entregues por ela a sua filha Judith. deveras aborrecido. risonho. de Assis A resposta foi sim. esta é a herança de um amor. a 12 de maio. porém que sou inocente. cercada de mais um pouco de conforto material. me fará seu marido.

Março 1912 Usou as páginas brancas do início do livro para os seguintes registros: Veio ao mundo meu filhinho Luiz na Capital Federal . Assistiu-a o dr. Assistiu-o mme. às 0 horas e 20 minutos. o assassino de Euclides da Cunha. 66.Rio Grande do Sul .20 do nefasto 16 de março de 1915. Lá esteve o réu. Anna de Assis tem um de seus desejos concretizado: mudar-se do Rio de Janeiro. 251.Rua Huinaitá. pela Doutora Anna Ficher-Duckelmann. entretanto. com um abraço ofereço Dilermando de Assis S. que morreu com sete dias de vida.Largo da Câmara. quando é obrigado a retornar ao Rio para comparecer à nova sessão de julgamento pela morte de Euclides da Cunha.Surge uma nuvem sangrenta Em março de 1912. Surgiu meu filhinho João Cândido na Capital Federal . 1907. Assistiu-a dr. Que vele por nós. em I de agosto de 1910. baixando a H. 20. Nessa cidade ele permanece até 3 de maio de 1913. em 30 de março de 1912. Francisco Catão.Avenida Pedro Ivo. Viu a luz minha filhinhaJudith em São Luiz Gonzaga de Missões . defronte a esta. Minas Gerais. n. 117. isto é. Lisboa. Faleceu este relicário de aladas esperanças.Livro de Higiene e Medicina Familiar. do Exército. às 3:30 da tarde. Mais uma vez. Assistiu-o Maria Mercedes. à barra do júri. em S. Maria das Dores. O jornal Folha do Dia registra o acontecimento na forma habitual: insultuosa. A 11 de julho de 1906 nasceu o menino Mauro. G. às 15:30 passou aos viventes meu filhinho Frederico Guilherme. Foi registrado como filho de Euclides da Cunha. Quatro dias depois. O marido é designado para servir no 51 B. às 18 horas. Realengo. Assistiu-o a dra. Cristóvão. sendo momentos antes batizado pelo Reverendo Séves (Ricardino). a 4 de julho. Escreveu a dedicatória: A minha amiga e esposa S'Anninha. às 8 horas e 20 minutos da noite. na Fazenda José Maria (dos Macacos). compareceu. C. Dilermando de Assis. Ermelinda Leão. Antônio Gonçalves Moreira. Logo após seu casamento.Praça da Matriz. ontem.. anjo de doce fulgor e ninho de tantos afetos. Assistiu-o a mme parteira Philomena. fui gravemente ferido. a2 67. A falta de alguns jurados deu motivo a mais esse adiamento. em 14 de setembro de 1913. Despontou meu filhinho Carlos Frederico na Capital Federal . às 2. 73 A 30 de junho de 1916. em São João Del Rei. em 29 de outubro de 1914. Nasceu minha filhinha Laura em São João D'El-Rei . Mais uma vez ainda ficou adiado esse julgamento tão imperiosamente reclamado pela voz pública. tendo como padrinho o amigo José Rodrigues de Carvalho e sua irmanzinha Laura. em 16 de Novembro de 1907. . às 6 horas e 40 minutos da manhã.Rua Figueira de Mello. Dilermando de Assis presenteava a mulher com a obra A Mulher Médica de Sua Casa . publicação da Antiga Casa Bertrand-Livraria Editora. João D'El-Rei. tudo à rua Frabick n. para satisfação da sociedade de um delito monstruoso.

audacioso e cínico, a cuspir os seus olhares de escárnio sobre a multidão que o espreitava como um ente desprezível e asqueroso. A campanha contra Dilermando, envolvendo sua mulher, nunca se arrefeceu. Foi sempre tão sistemática e cruel que eventualmente surgiam artigos em jornais das províncias em defesa de um e de outro. Um jornal do interior paulista publicou uma nota paga e anônima: A esposa de Euclides da Cunha era, em Lorena, mãe extremosa e desvelada, que seguia com carinho e solicitude a educação dos filhos e, freqüentava com assiduidade os atos de devoção na capela do próprio colégio de S. Joaquim, hoje Santuário de S. Benedito. Grata memória o padre conserva de um gesto dela. Quando em 1903, faleceu no isolamento de Guaratinguetá, vitimado por febre amarela, o padre José Fausoni, então diretor do Colégio de S. Joaquim, as autoridades sanitárias não permitiram que fosse o seu cadáver removido para Lorena, nem mesmo sepultado no cemitério de Guaratínguetá. Teve de ser enterrado nos próprios terrenos do Isolamento, pelo receio de transmissão de febre amarela. Pois foi D. Anna da Cunha que, piedosamente, providenciou a colocação de uma lápide de mármore sobre essa triste sepultura do bondoso sacerdote e manteve, enquanto residia em Lorena, o cuidado de sempre a trazer zelada e florida. 74 Cuidado de que depois se incumbiu o dr. Gama Rodrigues, até que os anos decorridos permitiram a transladação de seus ossos para o cemitério de Lorena, onde aguardam a ressurreição. Adiado o julgamento, Dilermando de Assis é designado para servir, já como 2 Tenente, no Q G. da 1 Brigada de Cavalaria, em São Luiz das Missões, no Rio Grande do Sul. Lá ficará até ser transferido novamente para o Rio de Janeiro e ir a segundo julgamento em junho de 1914. Confirmada a sentença de absolvição, Anna de Assis vê de perto a sua esperança de uma vida regular e normal ao lado de seu marido que lhe devota atenção e amor. Em 1915, ela está com 40 anos, ele com 27. Neste ano, ela perderá dois filhos: o caçula Carlos Frederico, nascido em 29 de outubro de 1914 e o seu primogênito, Solon, misteriosamente assassinado no Amazonas, onde trabalhava. Ela ainda ficará grávida mais uma vez, nascendo Frederico Guilherme em 30 de junho de 1916. Na ocasião, Dilermando de Assis encontra-se matriculado no curso de engenharia e recebe louvores pelos importantíssimos serviços prestados ao 5 R. C.. O casal reside na fazenda dos Macacos, em Realengo. A casa abriga, além dos filhos Luiz, João Cândido, Laura, Judith e o recém-nascido Frederico, o caçula de Anna e Euclides, Manoel Afonso. Na noite de 3 de julho, sobressaltada, S'Anninha chama pelo marido e reclama de barulho ouvido nas imediações da casa. Por ser um local ermo, ela julga que estão sendo assaltados. Dilermando abre a janela, vasculha a escuridão e faz dois disparos. Os tiros acordam todas as crianças e aquela noite está marcada pela agitação e o medo. Ninguém poderia supor que o dia 4 de julho seria vivido com maiores e terríveis transtornos. Anna de Assis está no leito, enfraquecida pelo parto recente e frágil como uma doente. Assim ela vê a sua casa invadida por amigos e recebe as piores notícias de sua vida: o seu filho Quidinho está morto e o seu marido gravemente ferido. Apesar de sua fraqueza e superando algumas dores físicas, Anna de Assis

foge da cama e corre desesperada por toda a casa. Tentam contê-la. Em vão. Por gritos desvairados, ela busca explicação para a nova tragédia de sua vida. E para mãe nenhuma 75 haveria pior. Um filho morto pelo próprio marido, o homem de sua vida. Os filhos, pequenos e infelizes, percebem a mãe aflita, corren como louca pela casa, vestida num enorme camisolão branco, os cabelos longos, que iam até o chão, revoltos e despenteado criando uma imagem mais forte de dor e alucinação. Os amigos tentam consolá-la. Saem e regressam com novas informações que possam tranqüilizá-la. Impossível. Tudo, naquele momento, é muito confuso e truncado. Ela apenas tem certeza da morte do filho. E quem atirou foi o seu marido. Busca um papel velho e rabisca algumas palavras, acrescentando outras alguns dias depois: Miserável! Evita te encontrares comigo aqui dentro desta casa maldita até que eu tenha meios para abandoná-la. Eu juro-te por meus pais e filhos que hoje sinto por ti o mais horrível ódio. Realengo Fazenda dos Macacos Anna. Esse juramento foi feito no dia em que um miserável tirou a vida de meu filho Euclides, desde esse dia que sua imagem é para mim uma nuvem sangrenta! 76 *** 16 Declarações prestadas por Dilermando ao Conselho de Investigação Em 28 de julho de 1916, no Hospital Central do Exército, Dilermando de Assis, Inquirido, respondeu que no dia 4 do corrente, aproximadamente às 13 horas, chegando ao cartório do 2 Ofício da 1 Vara de Órfãos, dirigiu-se ao escrevente Meilhac e, inquirindo-o sobre que decisão havia por parte do Juiz respectivo a propósito da tutoria do menor Manoel Afonso Cunha, visto o sr. General Dantas Barreto, pessoa inculcada pelo indiciado para exercer aquela função, não a ter podido assumir, - respondeu aquele escrevente que, além do despacho mandando permanecer o menor em casa de sua mãe, só havia novas declarações de Nestor da Cunha, declarações estas que ato contínuo apresentou ao indiciado sem que este as solicitasse; que, perguntando ao mesmo escrevente se lhe era permitido tomar conhecimento das referidas declarações, como este lhe respondesse afirmativamente, descansando o braço esquerdo sobre o corrimão da grade que divide em duas partes o pavimento onde funciona o cartório, conservando-se de pé e mantendo a linha de seus ombros numa certa inclinação aproximadamente paralela à diagonal da parte anterior da sala e, segurando com a mão esquerda os papéis que lhe foram apresentados, iniciou sua leitura; que ainda não havia lido quinze linhas quando, ouvindo uma detonação por trás de si, sentiu-se ferido, por isso que suas pernas fraquejaram, a vista

se lhe turvou e grande mal-estar interno se manifestou; que, voltando-se para a direita, viu recuando, um vulto trajado de escuro e notou brilharem, pendentes da cintura, alguns metais, coligindo daí tratar-se de um aspirante de Marinha; que, apesar de não ter distinguido o seu rosto, presumiu tratar-se do aspirante Euclides da Cunha Filho: - era o único aspirante de Marinha que podia tentar contra sua existência, dados os precedentes já remotos deste epílogo; que, sendo a sua posição muito crítica, pois achava-se como que encurralado, cercado entre a aludida grade à frente, vão de uma escada e parede lateral à esquerda, uma mobília à retaguarda e seu agressor à direita, portanto muito à feição para ser plenamente sacrificado e, além de tudo isso, lembrando-se de que se tratava de um filho de sua esposa, o que quer dizer, um irmão de seus próprios filhos - levado por estas considerações e 77 acreditando não haver nisso sacrifício de seu pundonor, procurou retirar-se, afastando as peças do mobiliário e dirigindo-se para a porta da rua a passos rápidos, sem, no entanto, correr, pois era esse o único caminho que lhe ficava à mercê para esquivar-se à agressão, na esperança de que, tantos homens havendo naquele recinto, algum se interpusesse e evitasse a consumação do atentado; que, entretanto, percebeu que todos ou quase todos corriam fugindo e o seu agressor continuava a disparar sua arma e feri-lo; que ainda pelas costas fora alvejado, razão por que, sentindo-se já bem mal e esgotadas as esperanças de socorro, quer por parte da força pública, quer das pessoas presentes e, conhecendo a iminência do perigo em que estava sua vida e refletindo em que não podia mais prolongar aquela esquivança para o seu nome militar, pois não lhe podia ser exigido correr, o que revelaria pusilanimidade incompatível com a farda e corresponderia à sua morte moral, ao pleno desdoiro e quebra de seu brio, reconheceu a necessidade de agir por suas mãos no sentido de evitar continuação do ataque; que nestas condições, já com o braço direito enfraquecido, mesmo caminhando procurou tirar do bolso traseiro de suas calças o revólver Smith and Wesson, calibre 32, de sua propriedade e que consigo trazia; que, dados os ferimentos já recebidos, o seu estado de fraqueza conseqüente e a grande emoção devida à surpresa da agressão, foi a custo que logrou empunhar sua arma; que não percebeu ter chegado a sair à porta do cartório, mas lhe parece inverossimilhante ter ido até ao meio da rua; que, no entanto, ao voltar para defender-se tinha a impressão de que continuava a ser visado pelos tiros de seu agressor; que nestas condições, mais ou menos no centro da área anterior do recinto, a distância superior a dois metros, divisou o vulto de seu agressor, ainda de revólver em punho e dirigido para o indiciado, fazendo-lhe, então, o primeiro disparo; que sucessivamente e da mesma posição, ao que se lhe afigura, fez os dois restantes, porém, dado o seu estado de enfraquecimento crescente, não pôde perceber bem as condições em que estes últimos foram dados; que não se recorda de ter visto quem quer que fosse junto ao seu ofensor, nem tampouco que este lhe houvesse voltado as costas e, muito menos, caído, pois neste momento sentia fugir-lhe a vida, parecendo-lhe que eram os últimos de sua existência, o que parece perfeitamente comprovado com sua imediata perda dos sentidos e conseqüente queda

ou se lhe dera as costas. embora do mesmo calibre. à noite. porque. mesmo devido ao seu estado atual. que dos vestígios encontrados e verificáveis nas peças de roupa que trazia . pois na arma apenas três balas possuía. sua residência. carregado apenas com três balas. pois seria o quinto dos que lhe foram atirados. bem como. tendo em que contraditá-las todas. assim como a causa do "ferimento contuso" encontrado na face posterior do braço. e que se lhe afigura conseqüente do ricochete de algum projétil. 79 *** 17 Quidinho foi instigado a matar Dilermando Anna de Assis se encontrou com Dilermando antes de 28 de julho. e refez a carga. de que o revólver Smith and Wesson é o de sua propriedade. 78 que a afirmação feita por testemunha de ter disparado o tiro causa mortis a queima-roupa ou a "a um palmo de distância" lhe parece absurda. cujos vestígios poderão ser lá verificados. não precisava senão de um espaço de tempo muito pequeno. quando ele prestou suas declarações ao Conselho de Investigação. dois disparos contra o tronco de um tamarineiro a esquerda existente. do indiciado. . na ocasião. fizera da segunda janela face esquerda do prédio. em que ela mesma condenou o marido. o que oportunamente fará. por isso que. o que se não verificou. um confronto dos projéteis extraídos de seu corpo com os próprios à sua arma. em segundo. que depois disso só deu acordo de si quando pensado pelos médicos da Assistência. ou mesmo se já ia caindo. que faz acentuar que para desfechar os únicos três tiros dados. por ter com elas tratado três vezes. tempo este em que lhe não seria possível. tal queda se daria sobre o corpo do seu ofensor. que pode afirmar categoricamente estar o seu revólver. podem dar testemunho seu tio e padrinho major José Pacheco de Assis e sua esposa. no máximo de três segundos. em da para não que. Perguntado se conhece e tem algo em contraditar as testemunhas? Respondeu que apenas conhece. colete e camisa . para sanar completamente toda dúvida. na véspera. compreendeu quão absurda era aquela nova tragédia. pressentindo rumor no quintal. em primeiro lugar porque o médico legista que fez a necropsia afirma o contrário e. perceber se o seu inimigo havia apenas voltado a cabeça. próximo ao cotovelo.túnica. Meilhac. Passado o primeiro momento.se poderá constatar a veracidade de sua afirmativa relativamente ao ferimento recebido pelas costas quando se retirava para poupar-se ao desgosto de ter de agir contra seu enteado. pois são diferentes as balas do revólver Colt das do Smith empregadas.asseveradas por várias testemunhas deste Conselho. tendo desfalecido em seguida e caído ibidem.

desejos de vingança. ainda menores. quase meia-noite. em seus meninos. já empregado do governo. Por ocasião de uma visita de Alquimena e Manoel Afonso à casa de Anna de Assis. A estada do menino Manoel Afonso na casa de sua mãe. Pouco tempo residiu com o seu parente. Essas declarações de Manoel Afonso constam. Todos foram educadamente repelidos. Dilermando julgou inconveniente a permanência dos rapazes em sua companhia. além de não querer morar na companhia de Nestor da Cunha. na cidade de São Paulo. já que durante uma refeição. fugiu da casa de Nestor da Cunha e. para trabalhar na Comissão de Linhas Telegráficas. ficou aos cuidados da tia Alquimena. chegando alguns à confissão de que agiam atendendo a pedidos de Nestor da Cunha. inclusive. Manoel Afonso. Ao perceberem a posição do menor. Ele foi transferido para o interior do País e ao levá-los. sendo internado e educado em colégios religiosos de São Paulo. Agentes da polícia visitaram a fazenda dos Macacos para retirar de lá o menor Manoel Afonso. Solon regressou do Mato Grosso. sendo encaminhado a seu tutor. ao marechal Cândido Mariano Rondon e ao sr. ele acusou sua mãe de "assassina de seu pai e de seu irmão". A 13 de junho de 1916. além das idéias homicidas. dos autos de inventário de Euclides da Cunha. Recusou-se a regressar ao educandário e persistiu no desejo de retornar ao Rio de Janeiro. batia à porta da fazenda dos Macacos. Apesar da sistemática campanha contra ela. Em dado momento. José Carlos Rodrigues. parentes de seus filhos e até mesmo figuras importantes da imprensa. É possível perceber que. mudou-se para o Estado do Mato Grosso. Tudo era feito irregularmente. Manoel Afonso fugiu do colégio em que estava interno. cartas e atitudes dos filhos revelam como eles a queriam e a buscavam. estaria condenando seu filho? Caso contrário. O caçula. existiram combinações além da maldade humana. Euclides Filho foi internado no Granbery. E acrescentou que. com ela e sua nova família. de qualquer forma. Nestor da Cunha. intenções de qualquer violência como desforra pela morte do pai. levava-a para difícil posição. ainda pior. Solon. os seus três filhos com Euclides da Cunha. nenhuma ordem judícíal cobrindo tais investidas. nem da de seus irmãos. declarando não existir de sua parte. respectivamente. certo tempo. chegaram a residir. afirmando que não mais se afastaria de sua mãe. que eles a repudiassem e a execrassem publicamente. em seguida. Solon e Euclides Filho foram confiados. não seria injusta? Mas ela poderia chorar o filho perdido. ambos revelaram que o tutor dos três filhos de Euclides. à mesa. 80 tentavam incutir. Anna de Assis sempre soube que falsos amigos. procurou sua mãe.provocou a série de perseguições que culminariam na tragédia de 4 de julho. colégio de Juiz de Fora. Se perdoasse ao marido. Logo após seu casamento com Dilermando de Assis. Antes de seguir para o norte do País. abraçado à mãe e . palestrou com Dilermando de Assis. estaria prejudicando-os na vida escolar. perdoar-lhe e assim mesmo continuar ao lado de seu marido. para essa tragédia. constantemente manifestava-se contrário às relações de seus tutelados com a mãe.E que razões existiam para o seu próprio filho atirar em Dilermando? O rumo do raciocínio de Anna de Assis. não o queria como tutor. E.

Depois de tal deliberação. primeíramente indagou dos motivos para todo aquele aparato. compareceu. Rodrigo São Paulo. a 4 de julho.. até a nomeação de um novo tutor. agindo unicamente por indicação do advogado de Nestor da Cunha. entendeu não existir nenhuma razão para cumprir aquela equivoca missão. às vésperas de dar à luz. uma vez que este desconhecia completamente todos os fatos. 82 Dilermando de Assis teria de completar algumas declarações iniciadas nessa audiência. ela só pôde implorar ao delegado que aguardasse a chegada de seu marido. mostrou a ordem judicial para levar o menor Manoel Afonso e se desculpou por tamanho vexame. sozinha com os filhos menores. de modo a ser ouvido por todos. O delegado. tentando mudar o rumo das declarações e procurando contradizê-las. Nunca acreditou que seu filho atirasse contra seu marido. Após algumas deliberações. antes de se retirar. compreendiam terem sido enganados e se retiravam constrangidos. Foi indicado o general Dantas Barreto. Quanto ao que escrevestes. Machado Guimarães. o juiz decidiu." E esta carta mostra como Quidinho era inseguro. Ela chorou então. juntamente com o menor. Compreendendo a ridícula situação. ouviu do marido a assertiva de Quetelet: "É a sociedade que arma o braço do criminoso". Anna de Assis. que "Euclides Filho estava muito nervoso. compreendendo ter perdido a questão. em que este o declarou: "Não me bato contigo porque tu és um covarde. já numa idade de compreensão e de vontade própria. mas tenho uma objeção a fazer: como sabes a língua é pérfida . fiquei muito satisfeito. final de junho. até mesmo a anulação de um papel com falsa assinatura do menor Manoel Afonso. Quando Dilermando de Assis chegou. então.. tantos conselhos inúteis. o encontro com Quidinho. surgiu este advogado de Nestor da Cunha. Até que um dia. Quando Dilermando de Assis se apresentou ao juiz de Ó rfãos. Atônita. o advogado de Nestor da Cunha. Anna de Assis percebeu sua casa sitiada por praças armados e 81 realizando verdadeira operação de guerra. então. como uma ameaça. além de esclarecimentos para muitas e dúbias acusações. no dia seguinte. pediu a Dilermando de Assis que. ao Cartório do 2 Ofício da 1 Vara de Órfãos. que o rapaz já estava convenientemente estimulado para pôr fim à "ignomínia" que era o seu irmão metido na casa do "assassino de seu pai". à presença do juiz de Órfãos. Mais uma vez. andava muito neurastênico e que era preciso uma providência" Pode-se depreender. imobilizada pelos últimos dias de gravidez. À vista de documentos exibidos. expondo-lhe tudo o que acontecia.recusando-se a abandoná-la. O menino. Sua sala foi invadida pelo delegado do 23 Distrito. Dr. e relembrou alguns fatos. de acordo também com a vontade do menor. Pois se ainda não tiveste coragem de matar o assassino de teu pai. recusava-se acompanhar a autoridade e retornar à casa de seu tutor. que ele continuasse ao lado da mãe. como a rixa de seu filho com um colega. o delegado ordenou que toda a força policial se retirasse. várias vezes. comparecesse. ocorrendo. a respeito de vires visitar-me. Para tal fim. um escrivão e um policial. estava abraçado a ela o menino Manoel Afonso. Dr. declarou.

Dirão que dou-me com o assassino de meu Pai. aquela tragédia foi uma inominável loucura e uma grande desgraça. o filho do homem a quem teve a desdita de causar a morte? Porque. como pode verificar por este bilhete postal. A minha impressão é que. então. Terrível. a 9 de outubro de 1911.. A seguir. . desinteressadamente solicitações de entes caros. O Jornal do Brasil encaminha-lhe algumas perguntas. como sabes. o lugar. Sua mãe jamais passou um dia sem evocá-lo e aos outros. nesta cidade (como em todas) há muita gente que só gosta de "bater língua. O Jornal do Brasil deseja conhecer a sua impressão sobre a tragédia em que foi envolvido naquele fatídico dia de julho.. o cérebro anarquizado pela brutalidade e o imprevisto da agressão. . qual o trem que toma e mande o preciso para eu ir. na cegueira da dor. via apenas o bicorne dilema: a afeição ou a honra. Vindo aqui poderão os espíritos obnubilados falarem. distraído e tranqüilo. o horror do crime ou o crime da fuga? Conheço-as bem.sangue do sangue de seus filhos. Adeus. Não quero falar contigo aqui em Juiz de Fora. As respostas ficaram guardadas. horrorosa. abraça-te o filho afetuoso Quidinh o. cumprindo deveres e praticando o bem. o esposo ou o soldado. mostrar que procederia segundo suas idéias contra mim tão revoltas. profundamente. com amor e com saudades.e injuriosa. como já disse. parte dessa entrevista não publicada.. ente cuja dor respeitava e a quem Qual havia de ser a sensação daquele tétrico momento em que. ela que me fez um frágil e pobre joguete do despotismo dos instintos. um irmão dos 83 pequeninos entes que são toda a sua preocupação na vida . Quidinho era relembrado. Qual pode ser a impressão de quem.Naturalmente. mandado de Juiz de Fora. era um filho de sua esposa. porque só a Natureza pode ser culpada. voltando-se em seguida. o espírito abalado pela surpresa. empenhado num ação meritória para satisfazer.. porque. porquanto os jogadores daqui irão jogar futebol em Petrópolis no dia 11 e eu falarei com o Diretor. turvada a vista pela natureza e sede da lesão. No entanto. Correspondiam-se mesmo. Em casa. arquitetada pela sociedade. não poderei ter muita liberdade. pois estás casada com ele. seja como for. marque o dia. Toda a imprensa brasileira reproduz os acontecimentos e retorna aos detalhes da morte do escritor Euclides da Cunha. A repercussão do novo julgamento de Dilermando de Assis é grande. desenganado do socorro. dominando o fundo troglodita que nos lembra Taine. Solon e Afonsinho. E penitencio-me. "Querida mãe Saudades Pode mandar o necessário para eu ir até aí. indescritível. pois. na ausência da calma. Só o não sabe quem ainda aquele transe não se encontrou para. naturalmente. E tanto avanço sem me deixar influenciar pelos conceitos de Quetelet. sob o império do instinto já. reconhecesse no vulto escuro donde se destacavam a chama do segundo tiro e o brilho dos metais do espadim. não publica a entrevista. ouve forte estampido de um certeiro tiro dado às suas costas e se sente gravemente ferido? Qual seria a emoção de que.." Portanto..

. algumas vezes. outras. Passou-se pelo espírito a possibilidade de. pelos jornais salientado. não. Recebeste? Adeus. devia ser leal. Mas imaginava. meu pobre marido. Quando. um íntimo e um grande amigo do Dr. aprimorando seu espírito nos sãos princípios de honra e cavalherísmo professados em nossas escolas militares. foi sempre uma boa mãe.. afetiva e sincera. porém. pois eu tenho momentos em que perco as forças dar expansão às minhas dores. Falei com o Sr. se dissuadiria do intento pelos seus amigos insuflado como um ato digno e heróico a ser. em apoteose. aceite um abraço do filho e amigo Quidinho. que ele fosse capaz de uma víndíta? . Ela estremecia-os. Outras cartas de Quidinho: Querida Mãe Saudades Recebi agora mesmo sua carta. Estas cartas o revelam: Deves perdoar. um encontro leal. chorando. não. depois de sua inclusão na Escola Naval. carpe hoje sua cruel desdita. Tarboux. que talvez sejam únicas. sim.. Ademais. para ter o valor visado. em luta honrosa. como de emboscada. e amante. Di-lo Júlio Bueno.Enquanto se correspondia com sua progenitora. perdido para sempre. senão coragem e resignação! Outra. O diretor não achará falta minha. Pensou. eu não quero de maneira alguma deixar de ver-te. Quando se recolheu ao absoluto mutismo. espalharei os pensamentos e o meu espírito ao túmulo de meus filhos e ao teu leito sangrento. portanto irei até sem o consentimento do Diretor. só poderia ir visitar-te. Adeus. sempre imaginei que. sua mãe). É digna. Dores Mãe. como foi boa esposa. diretor daqui. até aí no dia 11 porque 12 é feriado. o qual disse-me que tendo sido eu matriculado aqui. calculava que (pondo o caso em mim). quando admitia. choro os pedacinhos da minha carne! Dores de esposa!. Dr. é Enfim tenho que sofrê-las. ora. precedido de advertência. Como mãe. senão de formalidades. 84 E ainda há quem satanicamente tripudie sobre esta magna infelicidade.. José Carlos. alguma vez. Uma lágrima de tua mulher. Euclides da Cunha. não há remédio. dorme tranqüilo com o meu perdão. como um pleito à memória de seu pai" a possibilidade de uma revanche. Passarei aí o dia onze (11) e doze (12) vindo a treze (13) de manhã.para aproveitar este dia para ir visitar-te. me transportava para a sua condição de filho da "mulher do assassino de seu pai". pudesse um dia vir a acometer-me pelas costas e de surpresa. é pura. em tornando-se oficial. porquanto eu durmo numa casa separada . que eu aqui. procurar-me para um desforço. vejo o meu marido. Esposa fiel triste. pela frente. pelo Dr. Mandei-te ontem uma carta. com o consentimento do mesmo. atendendo à sua incapacidade para julgar das causas determinantes daquela catástrofe e à situação em que ficaria aquela (fosse com fosse. velando nossos filhinhos. Jamais supus que. nunca do modo porque o empreendeu. Peço mandar o necessário. nesses momentos. baleado! É único! e tenho de de mãe!.

a não ser que o dedo do Mal viesse intervir para torcê-los.. dr. é claro. O que quero é ser estimado e provar que estimo a quem verdadeiramente me estima.. quiçá inutilizá-lo. corrompê-lo quiçá. se eu pedir ao Dr. tu fostes quem me pôs no mundo. Peço mandar resposta hoje. Disseram-lhe. que ele tanto queria!. ou eu a ti!. Julgai veres-me um dia morto. Ignorava que eu defendia seus próprios interesses que acautelava seus bens e os de seu irmão.. Mas pouco ligo eu a esta vida!...: Não sei o preço da passagem. Que lágrimas amargas não se desprenderiam dos olhos ao lembrares de mim ou eu te ti!. sr. quatro dias .com outros alunos. a de um instigado.. alimentando estas idéias.. pois quero saber sua resposta logo. Abraça-te o filho e amigo Quidinho Juiz de Fora.. Quíd.. revelando estes sentimentos.Reputo-a precipitada. ardilosamente. Dizei-me. Talvez que pretendia mantê-lo em minha casa. não esperava. sr.. sapateiro. de um arrastado sem forças para vencer o maquiavelismo dos que o impeliram à morte. apenas assisto e estudo as aulas aqui. visto como.. Serei lavrador. caso alguém fale. Que acha de seu carter? . sim? Até breve. sabe bem o exmo..Nada. Não vacile em mandar-me dinheiro para eu ir porquanto não me prejudicará em nada esta visita. tendo a certeza que tenho mãe.. pouco se me dá. Não se vive com o ouro nem com o nome. Que diz de sua última atitude? . Machado Guimarães. E se esperasse não teria sido surpreendido apenas com três balas em meu revólver. José Carlos. portanto devo ser-te grato primeiro que aos outros. Que dor horrível se estivéssemos separados! .. a quem disse. Esta vida é curta. que eu disputava a tutoria de Manoel Afonso.. Tenho 17 anos. portanto quer vá quer não vá será bastante eu lhe fazer este pedido para abandonar-me... ele arranjará este pretexto para me largar de mão. pedreiro. Não devo ficar sob o jugo e sustento de outrem... poderia eu preocupar-me de vinditas? Pois se estas viriam ferir mais fundo sua própria mãe. peço perguntar por aí. suplantando-os. para desorientá-lo. Irei ver-te.. Seu fílhinho Quidinh o.. 85 Trecho de mais uma: De todo jeito eu fico proibido de ver-te. Trabalharei para ser homem. enfim até criado somente para possuir a paz de espírito. 8-10-1911 PS. irrefletida. Estou tão nervoso que escrevo esta carta sem mesmo procurar indagar. E. Com franqueza. Por isso irei ver-te no dia 11. vive-se com o trabalho e com boas obras. agora.

salientissimos amigos do dr. Euclides. muito mais do que o dos que seus amigos e protetores se intitulam sem nunca se haverem preocupado com a sua instrução e suas necessidades.. ante os fatos (até assinatura visivelmente apócrifa. foi por esta desistida a favor de Quidinho. o tenente Dilermando de Assis pode se considerar absolutamente fora de perigo. O Juiz. Amanhã ou depois o Dr. . desafiando o cinismo das contestações. ao sr. O jornal A República. não pôde deixar de concordar com as minhas razões e apreensões e intenções. e foi ao último golpe. uma declaração sua neste sentido. não ouvem. 87 Outra infâmia clamorosa é a alegação de que Dilermando foi educado por . não vêem que os seus veneráveis ossos vão ser atirados à cremação comum por falta de quem pague a sepultura. . em suma. desesperava. nos autos.. nestas condições. venho solicitar a publicação destas linhas. Euclides da Cunha. de 13 de julho de 1916.. A biblioteca. parece. a fim de amenizar a dor funda que neste momento fere o meu infortunado amigo Dilermando de Assis. a biblioteca do dr. não devo e não quero assumir estas responsabilidades". não convinha a certa gente porque. com advogado constituído. Sobre essa desgraça recebemos do nosso colega de imprensa Orestes Barbosa a seguinte carta a que daremos publicidade: "Meus caros confrades. E de que absolutamente nada quero nem querem os meus. Euclides desaparecem. basta lembrar o nome apontado para seu tutor: Dantas Barreto.o meu intuito era bem diverso e bem nobre. algumas surpresas surgiriam daqueles autos. Rio-me. Octávio Meilhac o declarei. fora do Rio. A facção oposta. aguardar a decisão. E. Lá está. Euclides avaliada em.Ainda sob a impressão terrível dessa tragédia dolorosa desenrolada no Fórum. tornando-se preciso que um jornal de 86 São Paulo entrasse com a quantia respectiva para evitar a consumação da irreverência. à voz do dinheiro os nos jornais . em minha casa. quinhentos mil-réis!). é suficiente prova dizer que. escrevia o livro "Peru versus Bolívia". que tocou a minha senhora. e Euclides Filho reservado. frase repetida ao já mencionado Juiz e por esse escrevente confirmada.antes: "Não posso. dignos de meditação. publicou a seguinte matéria: TRAGÉDIA EMOCIONANTE O estado do tenente Dilermando de Assis UMA CARTA Devido a sua constituição robustíssima. Eis como explico a sua última atitude. correr o processo à revelia. resolvendo. É que. que o tenente Dilermando jamais viveu na residência do pranteado dr.. Cícero Monteiro tomará o seu depoimento sobre a tragédia do Fórum que vitimou o aspirante Euclides da Cunha Filho. acrescentando: "Não enchafurdarei o meu nome neste tremedal". telegramas pedindo dinheiro como documentos. que Afonso devia. do inventário do dr. tendo travado relações com a hoje sua esposa ao tempo em que o escritor dos "Sertões". De que me interessava realmente pela sorte de Afonsinho. perdia a causa. intimado pelo juiz a dar parecer sobre a partilha. Era um verdadeiro conluio. Deixava. Posso garantir aos meus colegas. tudo caminhava para a mudança de tutor o que. pois. para eximir-se à responsabilidade.

guardando moedas e trocados num . 88 *** 18 Anna vende bolos de milho para comprar livros . Não enfrentou seus perseguidores. Por que o seu filho Quidinho não respeitou suas dores de um parto recente. objetivando apenas a paz e a tranqüilidade? Quando Anna de Assis optou por permanecer ao lado de seu marido após a morte de Quidinho. articulistas na imprensa e até mesmo biógrafos do autor de Os Sertões. Teria sido fácil enfrentar perseguidores. levando-o a tamanha brutalidade? E se o menino Manoel Afonso queria ficar a seu lado. tentando matar o seu marido exatamente quatro dias após o nascimento de Frederico? Que forças poderosas agiram contra ele. Com café. venha cá. Não tem bolo mais gostoso que este feito por dona Anna. já que ele procurou não interferir em nada. isto é uma delícia! . Um outro pergunta: . gritou em seu intimo o amor por aquele homem. E lá segue o garoto. satisfeito.Sim.Menino. Seu filho estava morto. por que a insistência em retirá-lo de seus braços? Se irregularidades existiam no inventário do escritor Euclides da Cunha.O senhor quer doce também? Alguns compram doces. alvejar tolos argumentos. Foi uma resolução em silêncio. . . E teria. procurando recuperar a felicidade ao lado do marido e dos filhos. senhor. senhor. reiteradas vezes repetiram a versão depreciativa e mentirosa. certamente. o certo é que ignorou detratores. Apesar do depoimento público de uma personalidade ilustrada como o jornalista Orestes Barbosa e tantos outros desmentidos e depoimentos de que Dilermando de Assis jamais dependeu do escritor Euclídes da Cunha. ninguém sabe. não quis destruí-los. não. meu Deus do céu. então.Me dá dois. Tão sediças denúncias colocam Dilermando antipático. Se perdoou. . seu confrade e amigo Orestes Barbosa. Não procurou jornais. a solução estaria na morte de Dilermando? Por que. existindo documentos que provam quão torpe é tal afirmativa. . O garoto se aproxima do grupo de militares e se dirige ao sargento que o chamou.Fico só com o bolo de milho. algumas perguntas.Menino. enquanto ela a tudo cedia. derrubar mistificações. outros. seu desespero de mãe seria um grito mais forte contra calúnias e mentiras. como um perverso matador daquele que o lançou na vida. passe todos os dias nessa hora aqui no nosso serviço que compramos de você. não usou seu prestígio nem recorreu a nomes influentes e ilustres.É.Euclides. sem justificativas e alardes. Enquanto a dor de mãe de Anna de Assis ficou ignorada portodos.O que você está vendendo aí nesta cestinha é o bolo de milho de dona Anna? . . Confiante na justiça dos honrados colegas que não tomaram parte nas fileiras daqueles que vivem alimentados na desgraça alheia.Quanto custa? O menino responde e atende aos pedidos. sim.

inchado. estava com três para quatro anos. Pois bem. a filha Judith irá recordar-se de uma imagem de criança: . E seus doces e bolos de milho agradam tanto que a produção é redobrada e outros meninos acorrem para vendê-la e também auferir lucros.Pode. posso examinar a trouxa? . fornecido pela dona Anna. ela gemendo de dor. em suas visitas a Dilermando. dona Anna. Setenta anos depois. nasci em treze. E ela recebe a sua parte da pensão do pai. Ela passava por uma dor de dente terrível. também em algumas festas de domingo. preso no 1 Regimento de Artilharia. Pegou um espelho. assim. E aqueles meninos todos saindo logo de manhã lá de casa com as suas cestinhas cheias de bolos e doces. sabendo que no dia seguinte passaria pelo mesmo calvário. mas é uma quantia irrisória diante de tantas despesas com a manutenção da casa na Fazenda dos Macacos e com os seis filhos. . Esse menino e alguns outros circulam por Realengo. Lembro-me muito bem de minha mãe fazendo doces e bolos de milho. mexendo o doce com a colher de pau. aquele calor do fogo agravava a dor de dente.Mais livros. aguardando julgamento militar pela morte de seu filho Quidinho. numa atividade incessante e sem tréguas. Anna de Assis encoraja o marido. E. Os bolos de milho e doces fazem sucesso não só na hora do lanche no quartel. Resolveu arrancar o dente. É como ela arrecada dinheiro para as despesas domésticas e ainda reserva uma parte para adquirir livros. Anna de Assis produz suas guloseimas. portanto em dezesseis ou dezessete. continuou do lado dela por mais longo tempo. pois o sangue se esparramava por todo lado.Não tenho boa memória para nomes. auxiliando-o para que possa se formar em engenharia. invariavelmente. do primeiro casamento. Datam da época alguns fatos que me voltam à memória. inclusive para comprar . Manoel Afonso.Então. que me lembro de um dia em que vi minha mãe agonizando de dores. O soldo do marido preso mal atendia às despesas com advogado de defesa. vendendo doces e bolos de milho. e o rosto vermelho. E é dessa época. segurou-o perto da boca. não podia parar. sem descanso. Os livros são obras de engenharia que ela leva para o marido. produção caseira de Anna de Assis. Ela chorava de dor. alguns bem remotos. com a mão direita e o alicate puxou o dente. preparando bolos e doces. Usou um alicate. ela não teve dúvidas. principalmente pelo quartel e vila militar. Ela conseguiu ganhar dinheiro suficiente. lá estava novamente na beira do fogão. Naturalmente. Cinco horas da manhã Anna já acende o fogão e reinicia a sua labuta diária.saquinho de pano. além dos trocos de gorjeta. dona Anna? O tenente Dilermando vai perder as vistas de tanto estudar. Tem o mesmo das outras semanas. marechal Solon Ribeiro. Sem 90 anestesia. À noite. Ali na beira do fogão. Uma coragem tremenda. Mal se recuperou desta operação primitiva. Tinha muitas encomendas. Mesmo aqueles da minha infância. Mas tenho memória irrepreensível para acontecimentos. leva uma trouxa de roupas e é questionada pela guarda: 89 . Tamanha é a sua pertinácia e afinco a seus deveres domésticos que se esquece de suas vaidades femininas e se deixa abater e envelhecer pela rotina do fogão. E. Anna. sem nada. num tacho enorme. o rosto afogueado na beira do fogão. para que no fim do dia as contas sejam feitas e ele receba a sua porcentagem.

E ao meu ilustre patrono. . semanas e meses seguidos. confio o dizer o resto. Arquivou seu bilhete em que deixou registrado seu desespero e consignada a sua dor de mãe. O anel de grau que ele usou quando se formou em engenharia foi presente de minha mãe. Ela jamais fez qualquer declaração à imprensa. Ele se tranqüiliza ao perceber que tem uma retaguarda e sabe que a mulher angaria recursos. e tratou de inocentar o marido e se preparar para mais um embate com o destino. persistir qualquer . A exposição minuciosa dos fatos sinceramente elaborada pelo próprio acusado e não contrária. As despesas são grandes. Evaristo de Morais. para comprovar: Exma. Evaristo de Morais que mais uma vez sai em sua defesa. ainda. encerrando-a com estas palavras: . não foi testemunha. dr. Evaristo de Morais. publicado por Dilermando de Assis e revisada pelo próprio advogado. Uma manifestação de solidariedade. Em 27 de setembro de 1916 ele é absolvido. articulistas e historiadores gastaram argumentos e retóricas para julgar e condenar Dilermando de Assis pela morte de Euclides da Cunha Filho. Situação.o anel de formatura de meu pai. Evaristo de Morais O tenente Dilermando de Assis coloca o seu soldo à disposição do advogado dr. 8-07-1916 (Bilhete cuidadosamente guardado por Anna de Assis e. Se a imprensa. Já na morte de seu filho. minha senhora. aliás. necessários para a sua recuperação dos ferimentos recebidos de Quidinho. Ele sempre foi agradecido a ela por tal gesto. por sua filha Judith. heroína do verdadeiro Amor! Uma Senhora Brasileira Rio.Coragem e resignação! Coragem! Anna e Dilermando. reproduziu a defesa do dr. a mãe do rapaz procedeu de forma diversa. ao que consta dos autos. Além dos gastos com a justiça. com a medicina. Anna Solon Ribeiro Muitos corações existem. apenas se viu obrigada a algumas declarações na polícia. sanando a minha incapacidade jurídica. vítimas do verdadeiro Amor! Sim! Amor que resiste a todas as provações. sra. 91 *** 19 A defesa histórica do Dr. em que descreve todos os antecedentes de seu encontro com Quidinho no cartório. posteriormente. O Destino tem sido cruel para a sua família e muito principalmente para V Excia. ardendo do amanhecer ao findar do dia. de 28 de setembro. posteriormente transcrita em livro. O seu apoio a Dilermando não foi apenas com palavras. que resiste até a injúria. ainda existem outros. apenas vítima. após apresentar a sua própria defesa. Manteve-se em silêncio após a morte do escritor Euclides da Cunha.) Passados os atordoados primeiros dias da morte do filho. anônima. compreendida por outras mulheres. O Jornal do Commercio. até a morte! Como a sociedade é vesga e cruel! Coragem. seria suficiente para formar as bases de sua absolvição. cartas e bilhetes. Anna de Assis compreendeu a trama que o encaminhou à morte. nos pontos essenciais. se não nos ocorresse que no ânimo de algum juiz pudesse. foi sedimentado no fogo brando que cozeu doces e bolos de milho. que partilham da sua dor.

consideradas as circunstâncias essenciais do lugar. não podia aumentar o mal da sua morte com o da sua desonra. caiu. e. Aproximando-se do agressor imediatamente. produzindo abundantíssima hemorragia interna. em casos como o dos autos.o tresloucado Euclides. Pergunta-se: é ou não é de admitir a justificativa da legítima defesa. sem a menor interrupção. sair do local. incumbindo-se as pessoas presentes de conter o agressor. talvez. o diafragma. na calçada. Nos casos em que se debate a legítima defesa. Voltava-se Dilermando para ver quem o agredia. os juízes em atitude do crime. Por uma das portas penetrou ali. já transido de dores e perturbado. visto fugirem as pessoas que deveriam detê-lo. o fígado e a espinha dorsal. pusilânime e inútil. Considerava-se mortalmente atingido. embora vagamente. Todos os fatos aqui resumidamente narrados se passaram. nem imaginada. quando recebeu o quarto tiro. medir os indivíduos pela bitola comum. Por isso Cícero viu . quando recebeu segundo tiro. ou. atingindo o projétil o alvo. A cena tem de ser realmente vivida e não sonhada. inexoravelmente. pois. seguidamente. dispondo da caridade evangélica dos mártires que morrem pedindo a misericórdia divina para os seus algozes! É. colocando-se às vezes. seguramente. não raro surgem objeções relativas a cada um dos seus elementos jurídicos. a arma do bolso. respectivas. que atingiu Euclides Filho no dedo. empunhando a arma. Há de o julgado ajuizar do acontecido. notou que ele mantinha a atitude anterior. expelidos pela arma de Euclides e que lhe haviam atingido os pulmões e as pleuras. encarar os fatos como eles se dão geralmente. o acusado. Disposto a não reagir por haver percebido de quem se tratava. cumpre ter em vista que a lei não pode ser interpretada desumanamente. Disparou o acusado o primeiro tiro. da qual resultou a morte de Euclides da Cunha Filho. uma compostura que só se depara nos heróis da lenda e nos do Agiologio. do tempo e da situação recíproca dos protagonistas. dada sua posição. Procurava tirar. Disparados três tiros. 92 preciso. sem que Dílermando o pudesse ver. então. conseguiu armar-se. pelas costas. baixar à realidade da vida normal. Tendo de decidir acerca de um fato capitulado crime e que se afirma cometido por um homem. sendo o primeiro a aparecer. em resumo. no momento em que era empurrado pelo escrivão interino Fernandes. que imediatamente fez um disparo de revólver contra Dilermando.dúvida acerca da legitimidade da ação. que. O que aqui temos é. é o último a abandonar a criatura humana. despreocupado e desapercebido. lendo um papel forense. em desar. com quem se agarrara. reportando-se ao momento da ação e reconstituindo o drama. Só na porta da rua. buscam alguns na pessoa do acusado um superhomem. que nenhum impedimento encontrara o agressor. Desde logo o dominou o instinto de conservação. como militar e como homem. aliás com dificuldade. tendo a mansidão divina de Jesus para dar a face à bofetada. sacrificando-se a verdade às ficções doutrinárias ou às hipóteses irrealizáveis. Aplicando a lei ao fato. Quando dava alguns passos na direção de uma das portas do cartório. o seguinte: Dilermando estava no cartório da Vara de Órfãos. os dois outros. da doutrina e da jurisprudência? A defesa privada deriva psicologicamente do instinto de conservação. instinto primitivo. sentiu-se ferido pela terceira vez. uma criatura extraordinária. Fugir era. em menos de um minuto. O último atingiu a cabeça de Euclides. ao mesmo tempo. em face da boa interpretação da lei. básico da existência. . logo. mediante as provas adquiridas e o raciocínio calmo e imparcial. tendo no corpo nada menos de quatro projéteis. compreendendo. supôs que poderia.

4° edição. mas." Por seu turno. pág. homem justo? Buscarias saber se o assassino era teu pai. ou. pergunta: ." (Su la legitima difesa. exerce. págs. Respondam por nós os mestres do direito penal. Certo. pondo na boca de Édipo as seguintes palavras em respostas às imprecações de Creonte. ensina Fiorettí . substituindo. Dada a agressão injusta. na aplicação. 1871. é legítima a defesa. 196). impelido pela própria coragem. "A legítima defesa.na legítima defesa uma prescrição da lei natural. se o golpe que ele desfere ultrapassa ou não o que necessário seria para a mesma defesa? É preciso encarar os fatos tais como comumente se apresentam e não exigir penalmente do homem mais do que sua natureza comporta. Passe o eminente Francesco Carara. apreciará de sangue frio. (Elements da droitpénal. aqui. um função social. castigarias o agressor.assente no instinto da própria conservação . de 1863. quando a acusava pelo homicídio do próprio pai: "Responde-me a esta pergunta: .Se alguém agora mesmo. 1903. por Alessandro Levi. (Programa dei corso di diritto criminale. sobretudo na situação súbita e delicada de um homem que se defende contra um agressor". sem te inquietar com a legalidade do teu ato?" (V. Resta saber como tem de ser apreciado esse perigo iminente. se aproximasse de ti e te quisesse matar. não escrita (non scripta. com frio cálculo e maduro exame. parte geral. o eminente professor da Faculdade de Direito de Paris. pág. Em seguida. as injunções do respeito filial. Delitto e Pena nel pensiero dei Greci. se praticamente. Tão imprescritivel é essa lei suprema que diante dela. perguntava: "Qual é o homem que. vol. sed nata le i). se objetivamente. se ligas importância à tua vida. Ortoian abunda na mesma ponderação. vol. o agredido se encontra na situação de quem. (V. 2 edição. 40-41).se apresenta como uma forma abreviada de juízo penal e da sua execução. que não tem consciência da injustiça do ataque. tanto se funda ela na necessidade de conservar o atacado a própria vida. nem tudo pode ser calculado matematicamente. dizendo: "A ciência dá uma regra abstrata. o professor Garraud. Doutrina ele que a reação do agredido deve ser medida. de pronto? Seguramente. se há algum meio mais suave. com exatidão. Contra o louco. da Faculdade de Direito de Lyon. se há algum recurso a chamar. pág. cedem os sentimentos 93 mais afetivos. ed. 1. 172). Haus. também. que faria. 483). pág. O indivíduo que age em estado de legítima defesa representa um instrumento de defesa do qual a sociedade se utiliza em uma situação de perigo iminente. pelo contrário. as contemplações para com o infortúnio e para com a inconsciência. 1. o punirias. se teoricamente. como de rigorosa justiça. segundo a opinião razoável do que é ameaçado na sua existência. defendendo sua vida. não segundo o que. 7). a justiça repressiva que não poderia acudir a tempo. naquele momento. Droit Pénal Belge. É o chefe incontestado da chamada "escola clássica". na perturbação e na impetuosidade de sua defesa. imprevista. vem a ser conhecido posteriormente pelo juiz. sustentava o princípio da legítima defesa .o trágico grego Sófocles. à frente de todos.

não é menos sensato quando. diante de uma agressão violenta. é difícil imaginar um caso no qual não se deva admitir como existente tal perturbação. a propósito. O código holandês (art. Fioretti: "Em se tratando de defesa.que alguns legisladores adotaram o critério de tornar impunível o ato criminoso praticado com excesso de defesa. 2. evitando-o por outros meios. pág. no momento da agressão. professor na universidade de Modena. em razão das graves lesões recebidas. considerando-o culposo. buscava a porta e era ainda alvejado pelo agressor.quando para os circunstantes ou para os futuros julgadores já tenha desaparecido. era evidente no espírito emocionado do agredido. Farinacius. diverso do que empregou. ou mau corredor (non aptus ad currendum). quando já passado o perigo. extreme de dolo. não se pode desconhecer: 1. 184). 39) e o italiano (art. um clérigo. por mais rigoroso que se pretenda ser. ao espírito. se o agredido era militar . Assim. beneficiam os acusados com a absolvição." (Obra cit. (Príncipii di diritto penale. ou de lhe atenuar grandemente a penalidade. húngaro (art. 50). Outros códigos. 554-556). Mas a lei e a doutrina. eram mortais. não só se referindo à condição da necessidade. que não se lhe apresentara.94 "Terá o agente conservado sua liberdade de espírito para medir o perigo. Covarrubias ensinava que a fuga se deveria realizar quando não infamante. cd. 1910. 3. quais o português (art. pàg. Em primeiro lugar. que ele tinha sérios motivos para sentir sua vida em perigo. 41). Ora. Foi atendendo a estas considerações doutrinárias . 83). Os códigos alemão (art. 95 Já os glossadores e os criminalistas dos primeiros tempos da Idade Moderna distinguiam as classes e as situações sociais. fosse um plebeu. depois de desaconselhar a fuga ao homem gordo (homo carnousus) débil. que assim evitasse a luta. avaliando tais condições de acordo com a consciência do homem que foi atacado e que se defendeu. atenuam consideravelmente a penalidade no caso de excesso de legítima defesa. mas não era licita a um soldado ou a um nobre secular. também. enquanto que. 53). mas. já gravíssimamente ferido. insistia na idéia de que não era tolerável. em verdade. pelo menos.que vinham sendo feitas desde muito tempo . recomenda que o julgador se coloque na situação do acusado. prevendo os casos de excesso de legítima defesa. 1895. quando. isto é. que ninguém continha. cumpre ter em vista que o primeiro tiro fora disparado com surpresa e os três seguintes enquanto Dilermando não se tinha armado e estava à mercê do agressor. naquela ocasião. proporcionando a defesa ao ataque?"(Précis de Droit Criminel. vol 1. 41) torna impunível o excesso se resulta de emoção violenta causada pelo ataque. das quais quatro. sim. completamente perturbado. outro meio de escapar à morte. A fuga não mais evitaria. não aconselham a fuga a um homem nas condições do acusado. Alimenta. a necessidade da repulsa ou da reação poderá parecer inexistente a posteriori. julgando o tenente Dilermando de Assis. que ele não estava apenas emocionado. por exemplo. págs.observa Alimenta . Comenta. quando cogitavam da fuga. como à condição da atualidade. pois infamava. quando. A atualidade da agressão pode-se afigurar ao agredido persistente . 373). pois. a efetivação do dano à integridade física do agredido. Não cremos haja aí quem pense na possibilidade da fuga para escapar à agressão. do Cantão suíço de Neufchatel (art.

3° ed. pág. 1908. isto é impossível. no seu monumental Tratado de Direito Penal Alemio. não o estavam menos os órgãos circulatórios. Um jurista contemporâneo. o diafragma e o fígado. dada a fuga. estava prejudicado. 1. refletindo na sua inteligência e na sua vontade. um homem mortalmente ferido. a anemia cerebral consecutiva tinha necessariamente de dificultar a formação das idéias e influir na determinação dos atos. pág. O acusado tinha lesados os dois pulmões. pág. porém. 524). adota a opinião contrária à fuga. Nypells. De par com a depressão física.de Nypells. no momento de principiar a reagir. seu aparelho respiratório. II. 231).. todas estas ponderações jurídicas são acrescidas de uma importantíssima ponderação médicopsicológica: ele não era. "A possibilidade de uma fuga vergonhosa ou perigosa não exclui a legalidade da defesa: mas a defesa deixa de ser legal. 1885. era. Trattato di Diritto Penale Italiano. fuja. O ultimamente citado (Manzin i) pergunta se o agredido deve fugir ou esconder-se. em tais circunstâncias. que. pág. Evitar. se quer resistir. (Droit Pénal Belge. Se quer fugir. fazendo-se afastar do seu caminho e não facilitar o encontro.ou pessoa nobre." Haus. um oficial militar apenas atacado por um seu inferior. edição da Casa Valiadrido. o Professor Florian. ao menos. não está longe de concordar com ele e quanto à situação especialíssima do militar fardado (militaire en uniform e) entende que. escrevendo: "A pessoa atacada tem o direito de recorrer ao meio de defesa que as circunstâncias lhe sugerirem. T. como na hipótese. vol. Ora. 1. A lei não pode regular ou determinar as ações de uma pessoa colocada de improviso em uma situação perigosa. nenhum criminalista aconselha a fuga. da coragem e da bravura. não possa ser considerada vergonhosa. nem prevista. 1. ia além de todos os penalistas. se é possível escapar agressão sem ignomínia ou sem perigo. que ela não seria mais perseguida. (Obra cit. Responde: não." (Vol. 479. em cujo organismo se operavam fenômenos depressivos e perturbadores de inegável gravidade e de alta significação. se for dado ao indivíduo conhecer as intenções do inimigo. Os modernos criminalistas também não sustentam a absurda obrigação de fugir à agressão. ainda que a fuga.. não procurada. Seria preciso. O legislador deve ter em conta este sentimento. isto é. já. mesmo pertencendo o individuo a uma classe subordinada aos princípios da honra. Não é diferente a manifestação doutrinária de Franz von Liszt. pois tem tal direito. uma pessoa apenas agredida. repugna a muitos homens. (V. da Universidade de Pádua. nem liberdade de espírito necessário para apreciar o que convém fazer ou não fazer. pelo Professor Vincenzo Manzini. 96 No caso do tenente Dilermando de Assis. resista. que não lhe deixa nem tempo. também primordiais na mantenção da harmonia vital. da Universidade de Siena. achando muito extremada a opinião . 229). e acrescenta: "tanto mais quanto o ânimo agitado do agredido dificilmente poderá discernir os casos em que a fuga seja possível e útil". 231-232). que a pessoa atacada pudesse estar certa de que a fuga desarmaria seu agressor. Demais. de cuja função depende essencialmente a vida. vol. sim. se for possível. tornados . e nota 13).para nós acertadíssima . quando materialmente possa fazê-lo. ocasionada pela hemorragia interna. (Trattato di Diritto Penale. págs. é inevitável a colisão. O mais autorizado comentador do código belga. Uma vez. seria desonrosa.

já em estado de semi-inconsciência. e. a agressão era atual. quando não está juridicamente provado o excesso. quando 97 esse excesso não lhes é bem consciente por estarem tomados de simples emoção. equivaleria. desfechando contra seu agressor o seu revólver. Exigir o contrário fora o mesmo que querer enxergar na figura do acusado um tipo de sacrificado super-humano. afirmar que. nem deve ser imputado a quem agia. se bem que movido por um impulso legítimo. ferido de morte. só persistiu o instinto de conservação.exames periciais. e no começo da sua ação. se estivesse. além de tudo. como recusar a absolvição ao tenente Dilermando. que atira inconscientemente uma sobre outras as pessoas que tentam fugir de uma casa incendiada. Ora. com a palavra quase tolhida pela dificuldade de respiração.reflexos. tinha tão-somente em vista não morrer como um covarde. em verdade. lhe anemiou o cérebro. Nem se argumente com a calma atual do acusado. Mas. pela recusa da justificativa da legítima defesa. O decorrer da ação não pode. transmitido aos oficiais do brioso Exército Brasileiro. a impunibilidade dos que se defendem mesmo com algum excesso. Na hipótese. arma em punho. militava em favor do acusado o seu estado de profunda anormalidade psicofisiolôgica. até mesmo. francamente é favorável ao tenente Dilermando de Assis. esse que leva o náufrago a arrancar ao companheiro de infortúnio a tábua de salvação. pouco ou nada conscientes. que lhe permite expor compridamente os fatos e descrever. desde que ele se sentiu combalido física e intelectualmente. se a doutrina e a legislação admitem. Quando o agressor tombou. o tenente Dilermando antevia a morte. ( a) EVARISTO DE MORAIS 98 . Desde que o derrame interno do sangue. em tais condições. não podia perceber. motivando a perturbação do aparelho circulatório. desfalecido. quando ainda lúcido. conforme dissemos. o ultimus moriens. Ele. porque estava diante de si. aspirando às bem-aventuranças da outra vida e por isto entregando a terrena à sanha incontida de um agressor injusto. alheio aos carrilhos de intrigantes e de perseguidores apaixonados. em Países cultos. a um triste conselho de covardia e de vilipêndio pessoal. se verificou um caso em que a legitimidade do ato foi entrevista no começo da ação e o resto resultou das condições anormais em que a agressão colocara o agredido. Ele pôde vir fazendo isto. A condenação do acusado. apenas carregado com três balas. desmoralizando a farda que até hoje tem sabido honrar. em vista das contradições manifestas das testemunhas. depoimentos de testemunhas . até certo ponto. impulsivos. com a visão diminuída.e com os raciocínios deduzidos destes elementos de convicção. desde o Conselho anterior. a lucidez bem depressa se dissipou. porque cada um julga o caso em sã consciência e não pode negar que ele procedeu como humanamente lhe era dado proceder. a cena deplorável. ele também caiu. ajudando as suas reminiscências com os fartos recursos dos autos . Pode-se. resultante das lesões recebidas antes de principiar a agir? A opinião do público sensato e imparcial. se a arma do atacante continha ou não continha outros projéteis. e só deve a vida à força de resistência do seu organismo e aos solícitos cuidados médico-cirúrgicos que lhe foram prodigalizados. o homem que o ferira mortalmente. Para ele. com maior ou menor precisão.

em artigo publicado na revista Brasilea. Creio que ninguém mais admira Euclides da Cunha do que eu próprio. Dilermando de Assis só teve em redor de si a curiosidade infernal dos que procuravam rebaixá-lo em meio da tragédia monstruosa duas vezes representada. o milagre de estimarmos seriamente o que é nosso. Aceito o que disse Júlio Bueno. As suas preocupações intelectuais. Um deles. é também impossível um julgamento seguro. que a sociedade tem maior culpa do que a criminosa. o que de mais justo se poderá induzir. porém. Mas a verdade é que essa admiração por Euclides da Cunha não devia ter incidido com o ódio a um moço. Afinal. dela e do marido. escrevendo e publicando o livro Um Conselho de Guerra . na opinião de quem. porque caímos no domínio infinito das conjecturas.. mesmo porque deve cessar a ação de toda 99 admiração de ordem literária. 41 .Rua S. impelido tragicamente para a maior desgraça que temos presenciado nestes últimos anos. popularidade que nos honra. de altas qualidades. Poderemos julgar com justiça o que foi Euclides da Cunha como esposo. fica no quadro do que os criminalistas italianos chamam de passiva. em torno de quem houve essa sucessão de desgraças. conheceu aquele lar infeliz..o que é o amor á verdade. entre nós. No primeiro ato da tragédia de que fez parte Dilermando. fosse o que fosse. quando está em jogo o que de mais alto devemos a nós mesmos e aos nossos semelhantes . é caso comum das adúlteras pela força do abandono em que se vêem. em maio de 1917: Um Conselho de Guerra (Defesa do tenente Dilermando de Assis) Jackson Figueiredo O tenente Dilermando de Assis foi talvez o único personagem da tragédia que não fez partido no jornalismo desta capital. Júlio Bueno. a verdade é que Euclides da Cunha não era um bom esposo. Porque até o próprio Barão de Werther teve por si um jornal que demonstrou claramente o procedimento miserável dos que deixaram absolutamente impunes os responsáveis pela sua morte. na verdade.A morte do Aspirante de Marinha Euclides da Cunha Filho Defesa do tenente Dilermando Candido de Assis (Rio de Janeiro Tipografia dos Anaes .1916). disse de público. Seria longo analisar os motivos da campanha injusta de que foi alvo constante. n. E a última vez sabe Deus quais foram os encenadores. José. e o mais nobre. tão de perto. O livro foi saudado pelo escritor Jackson Figueiredo. isto é. Entretanto. vemos dois personagens mais: Euclides da Cunha e sua esposa.*** 20 Um livro para preservar a justiça Dilermando de Assis tinha sido absolvido pela justiça dos homens e estava em paz com a sua mulher e filhos. ou não. pois é demonstração de que. mais das vezes. mas o meu amor pela sua obra me impõe o dever de acautelar-me contra mim mesmo e não tem o poder de impedir o que julga de justiça com relação ao tenente Dilermando de Assis. o que é caracteristicamente brasileiro. pelo menos. é necessário lembrar o que um seu amigo íntimo. Não quer . de vez em quando. e se. foi a popularidade de que gozava o autor de Os Sertões. concorreu para o estado deplorável do seu lar? Não. Eis porque o adultério. Mas ele quis deixar tudo convenientemente registrado. que é sempre uma vítima também. caráter adamantino e inteligência de escol. transcendentalmente. Da mulher. já se opera.

Ia cego. a figura de Dilermando obedece à mesma fatalidade. mais do que o podemos julgar de nós mesmos. nunca poderemos condenar que o maior criminoso conserve em si o que é fatal em todo homem. Só Jesus Cristo se deixou matar sem um protesto . uma mulher casada. como certo. pagando assim quase com a vida um erro com que outros passeiam em ostentação de luxo e cinismo. que fraqueá-la é morrer. sem mesmo ser lembrado sequer por inanimada fotografia". isto é. despedaçou e morreu. feriu. ao mesmo instinto de defesa. O livro que acaba de . os mais terríveis que nos jugulam. banhado no seu próprio sangue. A vida humana é um mistério inexplicável. no mundo exterior. A pedra ia esmagá-lo.isto dizer que nego a liberdade do indivíduo e aceite as conclusões materíalistas da escola chamada positiva. Euclides da Cunha. somente vivificado em sua pessoa por uma coragem acima do comum. Quantos os que de boa fé. como o preconceito é fórmula enigmática da nossa estática social. Daí o crime e a tragédia de todos os dias. determinando uma mudança. pequena que seja. O maior sábio na sua maior sabedoria. a mais desesperada. como na dos homens. quando os julgo com serenidade. A poesia adivinhando as conclusões da ciência já o dizia pela pena do velho Hugo: Nunca insulteis uma mulher caída. Tanto na vida das nações. o amor por esta vida tão triste. 100 Entretanto. e é o que constitui a sua liberdade. por maiores que sejam os seus erros. e sacudiu-a ao abismo. Ninguém sabe que peso a impeliu. O que é admissível é que esta liberdade pode deparar-se com maior ou menor número de circunstâncias que a diminuam. o crime foi mais um produto da fatalidade social que a objetivação da sua vontade. No caso de Dilermando de Assis. é justa a defesa. aos 17 anos. A miséria da nossa natureza vê no Calvário o ideal supremo. em paragens longínquas. Nos dois atos sangrentos. refletir-se-á mais claramente no estado depressivo em que caso estamos. Quem sabe o que criou tal preconceito? Quem nos dirá que os males causados por eles não são menores do que os que nos assaltariam se não nos protegêssemos com a aparência absurda desses mesmos preconceitos? Eu. Quanto a Dilermando de Assis ao que se reduz tudo que dele se disse é que seu crime "é ter amado. pois. cujo marido não conhecia e se achava ausente. e por sua vez caiu ensangüentado.. desviou-a. e só nos cabe sofrê-la com dignidade. que esta é a maior grandeza do ser pensante. o instinto de conservação do homem. Dilermando de Assis em plena adolescência. Não será nunca com justiça que se dirá de um homem como Dilermando que é um miserável. é quase sempre pela violência que se rompem os laços que ele dá. em que saiu morto o pobre rapaz insultado por tantos Ventos maus. se tem. e seguros de si mesmos o apedrejarão? Depois as cenas de sangue vieram como conseqüências de preconceitos sociais. apesar do seu gênio. E eis porque muitas vezes um ato livre pouco reprovável pode ter consequêncías funestas. a mesma que existe em todos nós. Na outra cena. Foi o que fez Dilermando de Assis. foi ali como uma pedra desprendida do alto da montanha social. e isto acaba por não nos deixar forças para resistir às tentações maiores. teve que bater-se contra esta coisa cega que traz em si a sabedoria dos séculos. As sociedades são sistemas de equilíbrio à beira do abismo que rodeamos desde as nossas origens. ia matar. Não. o mais Justo. E é preciso notar que eu não os condeno.mas era isto coragem de ordem divina.de que "a natureza é eminentemente dogmática". lutou. era superior ao seu desvario.. porque a fatalidade instintiva. Dilermando de Assis matou defendendo-se. tenho sempre em mente a palavra de Pascal .

e o falecido. em que é réu o V Tenente do 12a Regimento de Cavalaria Dilermando Cândido de Assis. interrogatório e mais peças desse processo. junto à mesa do escrevente Octávio Meilhac. 190 do Código Penal Militar) e "de meretis" considerando que o fato acusatório está absolutamente provado (auto de autópsia. acusado de crime de homicídio por haver no dia 4 de julho do corrente ano. que sacara do bolso traseiro da calça durante o seu movimento de retirada e alvejou por três vezes o seu agressor.publicar é a exposição dos fatos que antecederam as duas cenas dolorosas e a sua defesa. ferimentos gravíssimos produzindo hemorragia interna na sede dos mesmos ferimentos: pulmão. concorrendo em seu favor os quatro requisitos exigidos pelo art. visto como. não creio que exista quem. aluno de uma escola militar. serenados os ânimos. não se revolte contra tanta injustiça. e mais considerando que pela mesma razão de surpresa do ataque se lhe tornara prevenir ou obstar a . O réu não estava em calma nem raciocínio podia ter para calcular se finda a agressão por parte do aspirante. e no correr dele o réu caminhando a passos rápidos e céleres até a calçada fronteira ao cartório que fica situado nuu andar térreo voltou incontinenti ao local da agressão empunhando un revólver Smith and Wesson. fígado. o aspirante ali penetrou empunhando um revólver e imediatamente e de surpresa desfechou contra o réu 5 a 6 ininterruptos tiros que causaram as lesões descritas nos autos de corpo de delito e sanidade a que foi o mesmo réu submetido. Mas no seu caso o desrespeito se fez tão violento que. depoimentos de testemunhas. procurando fazer do corpo do escrivão José Luiz Fernandes. dada a situação anormal do réu no momento em que agiu. depoimento das testemunhas e confissão do réu). das muitas acusações infames de que foi vítima. sujeito a tribunal e penas militares (art. Dilermando de Assis transcreve a sentença que o absolveu: Sentença: Vistos e examinados os autos. barreira contra os tiros desfechados pelo réu. com efeito considerando que houve atualidade da agressão na rigorosa técnica da lei e de acordo com a jurisprudência dos tribunais e com a interpretação dos escritores direito e dos jurisconsultos. com quem se agarrara. hoje em dia. mas considerando que a agressão da qual resultou o homicídio do Aspirante foi imediatamente precedida de um ataque inopinado e imprevisto por parte deste contra o réu. aspirante de Marinha. considerando mais que o réu assim procedendo agiu em defesa legítima de sua pessoa. de defesa. ainda considerando que ante o inesperado ataque. de Conselho de Guerra. pleura e diafragma. a perturbação da inteligência. considerando 101 preliminarmente que o delito militar é porque o agente e o paciente são militares: o réu.). um dos quais foi causa eficiente de sua morte (auto de autópsia a fls. Em seu livro Um Conselho de Guerra. documentos. produzindo-lhe três ferimentos. no cartório do 21 ofício da 1° Vara de Órfãos e na rua Menezes Vieira. desta capital. 28 do Código Penal Militar. tal o inopinado da agressão e suas conseqüências imediatas. visto como está provado que estando o réu a ler um documento ou ato judiciário no referido cartório de pé e de costas para a rua. Parece impossível que haja quem desrespeite a desgraça. situação que se pode considerar e definir como compete. cerca das treze horas. isto é. desfechado três tiros de revólver contra a pessoa do aspirante a guardamarinha Euclides da Cunha Filho. 2 tenente de Cavalaria do Exército. que se mantivera no mesmo local a principio em atitude de provocação e após primeiro tiro.

parágrafo 2 do Código Penal Militar. na forma da lei. presidente. 8 de novembro de 1916. Olympio Fonseca. Conheces-me a alma e as intenções. pela tua magma dor. de Arrochelas Galvão. se acaso à lucidez de teu equilibrado espírito algo de minha conduta se houvesse menos digno afigurado. mais uma homenagem de veneração. ainda considerando que o réu empregou meios adequados a proporção da agressão: revólver contra revólver. em quase desfalecimento. major. prevista no art. Júlio de Almeida. e medita-o. o Supremo Tribunal Militar se pronunciou por meio de extenso acórdão. mais um preito da grande estima que te consagro. Vespasiano de Albuquerque. F. Em sessão realizada a 8 de novembro. pois. 77 da Constituição. Capital Federal. 2 tenente. tendo sempre como proeira a tua imagem dolorida. Supremo Tribunal Militar. 2 tenente. Disponho já de tua franca e sincera absolvição. Marques Porto. só almejo render-te. Luaz Santiago. a sociedade: fui-lhe passivo instrumento mecânico. com os fundamentos aludidos. reage irregularmente sobre o que o rodeia e assim sem condições de medir a reação. a página mais importante de Um Conselho de Guerra seja exatamente a primeira. Ao teu mártir coração de mãe ferido seria uma pretensa reparação. 27 de setembro de 1916. finalmente. 2 tenente. disseste. e considerando que a provocação que houve partiu ela do Aspirante. (Assinados) Joaquim de Moraes Jardim. Medeiros. Alvaro Guerreiro Bogado. considerando que ao militar não é permitido fugir a uma agressão. Desse modo. 103 *** 21 A vida tranqüila de Anna em Bagé. Auditoria de Guerra do Departamento da Guerra. auditor. que sofraldarás toda a cruel verdade. absolva o acusado 21 tenente Dilermando Cândido de Assis. Interrogante. Rio Grande do Sul . com estas palavras finais: Um organismo ferido de morte. Chrístiano Alves Pinto. Júlio de Noronha. pertence este livro. que ou se retiraram sob a ação do pavor. assim. 2 tenente. 102 Fica suspensa a execução desta sentença. mandam que seja o réu posto em liberdade. e inermes. e nenhuma injustiça me poderias fazer. Tem a seguinte dedicatória: A ti. 26. negando provimento à apelação e confirmando a decisão proferida pelo Conselho de Guerra. ou ficaram inertes. o Conselho de Guerra. exammino o caso dos autos em suas frases de direito. Manoel Liberato Bittencourt. E. em conseqüência da apelação necessária interposta para o Supremo Tribunal Militar. Talvez. Recebe-o. sendo de notar-se que o imprevisto e a brutalidade do ataque produziram estupefação e pânico nos presentes. L. responsabilizaste. Elaborado foi para julgamento humano. Argolo (president e). Como eu. Acyndino Vicente de Magalhães. capitão. com restrições quanto à interpretação dada ao art. da acusação que foi intentada por julgar o crime justificado pela justificativa da legítima defesa. Alberto Glória Puget. sob esse aspecto encarada ainda a questão da proporcionalidade da reação. caldearam-no as tuas lágrimas e o meu sangue injustamente derramados. Carlos Eugênio. Agrícola Câmara Lobo Béthem. portanto. do que uma satisfação. no conjunto dos elementos que fornece o processo. mas. como não fizeste.ação ne invocar nem receber socorro da autoridade pública. acovardando-se sob pena de desonra. e à tua bondade. Vicente Neiva (relator). por unanimidade de votos. mais do que a ninguém. esposa amiga.

Vi os meus irmãos esfregando a toalha nas costas.Após a publicação de Um Conselho de Guerra. com o seu próprio filho tentando matar o marido. No Rio de Janeiro. como também fez o levantamento da planta da cidade de Castro e o seu projeto de águas e esgotos. E a sua vida familiar. E através das frestas eu ia espiá-los tomar banho. Era uma vida maravilhosa. continuou ao lado daquele homem que matou o seu filho. primeiro a desnorteou completamente. no governo do general Waldomiro Castilho de Lima. a sociedade. pois tantos atacaram esta mulher. ele foi o responsável pela urbanização e locação do bairro Leblon e construção de prédios residenciais. Em 1946. ele freqüentava a nossa casa. permaneceu a seu lado. Nunca alguém se levantou em defesa desta mulher que. e. a minha mãe. E por isso. na fazenda. Lembro até de um detalhe. E a minha mãe? A tragédia que se abateu sobre a minha mãe. Uma Vida. Veja a sua reação através daquele bilhete que escreveu. mesmo sabendo que o 104 seu marido havia matado um filho seu. mesmo depois daqueles inúmeros sofrimentos? Quando Anna de Assis teimosamente insistiu com o seu primeiro marido pedindo o divórcio. . A vida toda me acompanhou a pergunta: será possível que não há sentimento. pegando em cada ponta da toalha e passando-a nas costas. Primeiro teve de convencer seus irmãos a aceitar a idéia. que teve três edições. assim. Afinal. onde. ela apenas lutava pelo seu direito de amar e de ser feliz. Como. poderia supor um acontecimento daquele? Nunca ela poderia imaginar que o seu filho tentasse vingar Euclides. Na cidade. Enfim. Foi o 12 lugar da turma. momentos depois da tragédia. E este rapaz. merecendo destaque também a elaboração do plano rodoviário do Estado de São Paulo. em colaboração com o jornalista Angelo Cibela. realizou outras obras de engenharia. dormia lá. no Rio Grande do Sul. Lembro-me dele lá em Realengo. Formado em engenharia. os jornais da época nunca se cansaram de agredi-la. Foi em Bagé. Lá estava Quidinho. a seguir. Mas a minha mãe continuou casada com Dilermando. mais tarde. No curriculo de engenheiro de Dilermando de Assis ainda constam muitas outras realizações. saiu Um Nome.Da maior felicidade. E foi assim que aprendi a me enxugar. tenta matar o meu pai. quando ela enfrentou a sociedade e todos os ataques. Sua atuação destacada como engenheiro não se restringiu apenas a Bagé. Uma Obra. O banheiro dos meninos era fora da casa. Dilermando de Assis ainda publicaria outros dois livros abordando novos aspectos da tragédia da Piedade. altiva e senhora de uma personalidade invulgar. Na bibliografia da tragédia da Piedade faltava um livro. Era lindo. num lançamento de O Cruzeiro. uma vez que ainda optavam pela vontade da mãe de jamais divulgar a sua participação nos acontecimentos. submeteram-se à persistência de Judith. Enxugo-me até hoje dessa forma e lembro da cena vista quando criança. E ela conseguiu alguns anos de felicidade. Tínhamos .Papai foi a julgamento e foi absolvido. é morto. A Tragédia da Piedade. ele pôde ser designado para servir no sul do País. uma cidade bem distante do Rio de Janeiro. Tinha apenas três anos de idade. como foi? É assim recordada por Judith: . Um ano antes tinha sido promovido a 12 tenente. Dilermando de Assis matriculou-se no curso de engenharia no princípio de 1916 e diplomou-se com distinção no ano de 1918. construiu o Quartel de Bagé. era de tábuas. Judith Ribeiro de Assis considerou publicá-lo como uma tarefa de sua vida. A promissora carreira de engenheiro de Dilermando de Assis se iniciou em Bagé.

declamação. se percebia alguma discussão. de nada adiantaram os argumentos de mamãe.tudo. Era pequenininha. ia lá jogar gamão. 313. A princípio. afirmando que o faria um craque de futebol. Anna de Assis fez essa afirmação. A mudança se deu para a casa da Dias da Cruz. lavava os pés dele. Nós éramos uma família muito organizada. ouvia as conversas e.Eu sempre fui muito bisbilhoteira. Aprendi vendo-o jogar com os amigos. quando ele voltava. seus cinco filhos e tio Dinorah. pedia uma bola e queria ensinar ao Luiz como chutá-la. Era ele e outros amigos de papai. quase morreu. tirava as botas dele. Era uma casa enorme. Papai ia para o trabalho. punha-se de pé. Daí que papai comprou três casas conjugadas e transformou-as numa só. não ocorreu nenhuma transformação na vida . no Méier. dama. Família mesmo. a nossa casa era muito freqüentada. que quando papai anunciou a sua intenção de voltar ao Rio para cursar a Escola Superior de Guerra. Tratavam os filhos com muito carinho. O padre da cidade freqüentava a nossa casa. toda a família se transferiu para o Rio. tinha falecido e deixado uma herança para minha mãe. E éramos tão felizes lá. nossa família passava por momentos de tranqüilidade e paz. era uma olaria muito boa. Toda noite tínhamos em casa verdadeiros saraus. reduzido a uma cadeira de rodas. quando ele já tinha dez anos. um atleta. a Laura tinha de recitar Pintainho do Pato. os fins de tarde eram calmos. já muito doente e quase que inteiramente aleijado. servia sempre uma ceia. O papai se encontrava numa situação financeira muito boa. resolveu montar uma olaria. E mamãe fazia chocolate.diz Judith. Muito conforto. Todos os bens imóveis em Bagé foram vendidos. Esta movimentação era praticamente todas as noites. Nesta época. Ela discutiu. papai tocando violão. buscava uma bacia." 106 *** 22 E éramos tão felizes no Rio Grande do Sul . não vamos. riam. Tanto conforto. O meu pai não atendeu a seus rogos. E a vida transcorria serenamente. depois ceávamos. Era canto. o tio Dinorah.Eu os ouvia discutindo no quarto . E a repetiu. ele batizou com os nomes de suas três mulheres: era S'Anninha. implorou. . tio Dinorah. Foi durante o período em que o casal discutia sobre a volta ou não para o Rio que Luiz contraiu tifo. E os fornos. afora a presença de um trágico passado. o que dia a dia se tornava quase impossível. E não foi atendida. Éramos papai. Papai tudo fazia por ele. internando-o num colégio. Esteve muito mal. De forma que. bolo de milho. minha mãe ficou contra e a ouvi várias vezes dizer a ele: "Dilermando. Enfim. mamãe. apoiado em uma bengala. Nós estamos tão bem aqui. Laura e Judith. brincavam. Enfim. Eu aprendi a jogar pôquer no colo do meu pai. morava em nossa companhia. dependendo de seu irmão para sobreviver. Pois imagine o que é um ex-jogador de futebol. É que minha avó materna. fazia-nos 105 cantar. ficava aflita e queria saber o que estava acontecendo. aos seus pedidos. Recuperou a saúde e o pai mandou-o para o Rio. Era uma família. Passado pouco tempo. . insistiu com o marido para que permanecessem em Bagé. Jogavam xadrez. amargurado por uma vida inútil? Luiz sempre se recorda que nesta ocasião. pôquer. os dois cantavam juntos. Tinha três compartimentos. tinha de recitar isto. na maior felicidade e contentamento. O Rio é a nossa desgraça. A nossa situação na sociedade de Bagé era invejável. Túlia. então. mamãe o recebia com muito carinho. Procurava sempre minimizar o seu sofrimento. tudo corria tão bem.O Rio é a nossa desgraça.

Lembro-me da festa de 15 anos do meu irmão Luiz. embrenhando-se em território boliviano e desistindo de derrubar o governo Bernardes. Aí veio a revolução de 1924. No entanto.familiar de Anna e Dilermando de Assis. Contra as forças legalistas. surgia a perspectiva de paz no País com a posse do novo mandatário. Uma questão de pequena importância levou o presidente Epitácio a punir o marechal Hermes da Fonseca. Foi na 108 casa da Dias da Cruz. encontravam-se no Paraná as tropas de São Paulo e as comandadas por Prestes. alcançando o primeiro lugar entre os da sua arma. O País encontrava-se em estado de sítio e em tais condições se manteria até o fim do governo de Bernardes. lutaram os militares descontentes e. O ano é 1922. outra revolta de forças militares. uma presença deslumbrante ao lado de papai cheio de medalhas. inicia o curso da Escola do Estado-Maior.presidente do País e de prestígio inabalável nas fileiras do Exército. O general Azevedo Costa. eleito a 12 de março. Por toda a sua vida Dilermando de Assis foi um exímio atirador.se o governo de Epitácio Pessoa. E aquela beleza de festa! Assim. seguindo depois para o Paraná. Após uma série de desavenças eleitorais. durante a revolta. eles dançando. No ano seguinte. recém-empossado. originando-se a famosa Coluna Prestes que percorreria o País espalhando o seu apelo revolucionário. Washington Luís Na carreira milítar do general Dílermando de Assis consta a seguinte anotação: 1924 . que acabou fazendo um governo quase sempre sob o estado de sítio. na coluna de operação no Sul. valsando. a vida era mais ou menos a mesma de Bagé. na cidade do Rio de Janeiro. A. A revolta não se alastrou entre outros militares descontentes pelo resto do País e se restringiu ao forte de Copacabana.Comanda o Regimento Provisório "Dilermando". ainda era muito feliz. Quando Epitácio decretou a prisão do marechal Hermes. sob a chefia do general Isidoro Dias Lopes. acionou o estopim de uma revolta nos meios militares. estes se retiraram para o interior do Estado. eclodiu nova rebelião em São Paulo. Após a revolução é que tudo se modificou. Vejo ainda a mamãe com um vestido de lamê. em 22. louvores.Papai seguia a sua carreira militar obtendo promoções. Era então uma menina de nove anos. evidenciou-se que entre os militares existiam descontentes também com o presidente Artur Bernardes.. comandante . diante de iminente derrota. Faz o curso da E. Em 7 de junho de 1922 era proclamado o 122 presidente do Brasil o mineiro Artur Bernardes. 23. que explodiu em 5 de julho de 1922. na inauguração do estádio militar. ela uma beleza de mulher. Encerrava. O. perseguida implacavelmente pelas forças legalistas de Artur Bernardes. todo garboso. E conquista a medalha de honra e o título de Grande Campeão de Tiro do Brasil. . desta vez no Rio Grande do Sul. Eu fiquei deslumbrada. abril de 1925. É o ano em que se classifica em primeiro lugar na prova de tiro de fuzil. ex. E a sua vida familiar no Rio. Foi rapidamente sufocada e ficou conhecida na história brasileira como a revolta tenentista dos "dezoito do forte". Em outubro de 1924. 109 A Coluna Prestes dissolveu-se apenas em março de 1926. conseguindo elogios. Quando se comemorava o segundo aniversário da revolta de Copacabana. sob a direção do tenente Luís Carlos Prestes. todo dourado. Foi uma festa lindíssima. já que este se findou para empossar o novo eleito. No ano seguinte. e Dilermando se vê promovido a capitão.

Para os seus acessos de cólera e agressividade. E aconteceu. Assis esperava que. a mamãe ficou desesperada. Mais agressivo. eu e Laura morríamos de saudades da mamãe. 10-X-24. ela não ia. os dois não se entenderam mais. De saudades da mamãe. desentendiam-se com maior constância. Nós ficamos apenas quatro meses no colégio.Se mamãe queria os filhos juntos dela. Dilermando. Minha irmã também. Como Anna e Dilermando estavam sempre em desacordo nas questões domésticas. Ficamos de tal maneira doentes que ele foi forçado a nos tirar do internato. o tratamento dispensado aos filhos era também diferenciado: . Rio. O João. Já a sua vida familiar merece alguns reparos. Cenas idênticas se repetiram e levaram Anna de Assis ao desespero. Eu dormia agarrada com o cinto da mamãe.A vida militar de papai não tem um senão. Não sei por que razão. Já tinha perdido quatro filhos. Ela reagia e não aceitava aquele procedimento truculento do marido. E todos éramos agarradíssimos com ela. E datam desta época os seus primeiros desentendimentos com mamãe. papai queria afastar os filhos da mamãe. como recordação da campanha do Alto Paraná. ofereço-lhe esta lembrança. O cheirinho. Brigavam. ele se desculpava por seus momentos agressivos. então dormiu num banheirinho que existia fora da casa. então ela tinha uma aflição. Era uma coisa estranha isto. A moldura de uma foto que pertence a Frederico tem a dedicatória: "Ao meu traquinas Frederico Guilherme. Ela queria os filhos juntos dela.da coluna. Quando papai levantou-se pela manhã e descobriu o João dormindo lá. Porque ficamos doentes. ele ia. Ele voltou da revolução muito diferente. esta coisa inexplicável. se referiu ao capitão Dilermando assim: "agradeço a esse bravo e valoroso oficial os inestimáveis serviços prestados á legalidade e louvo-o com muito prazer pelas admiráveis qualidades de caráter revelados na angustiosa sítuação em que os acontecimentos o colocaram e onde se houve com tanta nobreza e galhardia. ela respondia com sua altivez e valentia. um pânico terrível do que poderia acontecer com os demais. Não podia dormir dentro de casa. uma noite. Dormia agarrada com um pedacinho de roupa. com medo de papai. A mamãe detestava isto. Ele se descontrolou de tal forma que mamãe resolveu sair de casa e levou todos os filhos. Dilermando se acalmasse e tudo se normalizasse. Ele colocou o Luiz e o João interno no Colégio Militar. com o passar do tempo. fugiu. certo dia. interno no Colégio Militar. Sempre aquele desespero. Então. principalmente na forma de educar e criar os filhos. Eu e minha irmã Laura fomos internadas no Colégio Nossa Senhora da Piedade. Às vezes." Dilermando de Assis participou das campanhas militares no período de revoltas e batalhas ao lado das forças legalistas: . O que não . Aos seus gestos de autoritarismo. Veja. Foi uma revolta. Era assim. uma surra de talabarte. uma briga mais séria entre ele e a mamãe. Não sei por que razão. Ela nunca nos visitou no colégio. claro." Anna de. deu uma surra nele. A partir desta briga. Mas isto por apenas um dia. os filhos também queriam estar com ela. Estavam em constante desacordo. em que por duas vezes seu pai milagrosamente salvou a vida. dizendo que foi muito perseguido durante a revolução e que chegou a ter a sua cabeça valendo um prêmio de 50 contos. Dilermando de Assis ainda se desculpava com as seqüelas das batalhas da revolução de 24. Fugiu e veio para casa. Mas na semana que recebíamos visita. Saíamos de quinze em quinze dias. então. Para sentir o 110 cheiro dela. diante de tanta atenção e cuidado.

na porta de sua residência. Os filhos de Anna de Assis espalhavam-se por aquela casa. o raiar da velhice. Judith ouviu o motorista afirmar: . além de protegerem as passageiras da chuva. que iriam quebrantá-la. Até ali a sua vida tinha sido uma prova insofismável de sua determinação e não seriam os anos.É aqui. Era uma mulher decidida. prendê-los aos ganchos das portas do carro. tramarem a queda do Império. quando. e seu semblante perdeu o tom angustiado. por volta das 10 horas. Ela sabia que era uma mulher chegando aos 50 anos e que o seu companheiro ainda mantinha a virilidade de quem não chegou aos quarenta. Foi com certo nervosismo que a mãe percorreu a casa e escolheu uma das crianças para acompanhá-la. Apenas não atinava com as intenções de sua mãe. Ao atingir a rua desejada. era porque já sabia da cena que iria presenciar e ter a filha como testemunha. de forma que. Pontualmente. A sua angústia vinha muito mais dos gestos ansiosos e 112 tensos da mãe do que da imprevista saída. 111 *** 23 O mistério se escondia numa rua do Encantado O ambiente familiar naquela casa do Méier não era mais de felicidade e paz. não negaceou em agir e desfazer incertezas. Sempre foi. a ordem dada naquela manhã estabeleceria uma cumplicidade entre mãe e filha que se estenderia até o fim da vida de Anna de Assis. Foi ali que ela aprendeu que se os destinos de uma nação se fazem com as vontades do homem. em sua casa. Conseguiu se acalmar. Certamente. O carro se encaminhou para o interior do bairro do Méier. Ainda mais que ela não conseguiu explicar à filha para que lugar se dirigiam e qual a finalidade do passeio. Judith não raciocinou nada. entre curiosa e aflita. Se lhe passou pela alma o momento de dúvida. Judith não saberia explicar o que levou sua mãe a chamála e determinar que a acompanhasse. À véspera daquela manhã de chuva. curiosa. Tudo para Anna de Assis era inexplicável e confuso. seguiu a mãe. grande e confortável. O carro ainda rodou alguns momentos e Anna de Assis pediu ao motorista . Se Anna de Assis indicou aquele endereço com tamanha certeza e para o local se dirigia naquele dia e hora. Anna de Assis já havia combinado com um motorista de carro de aluguel para que a apanhasse. até certa manhã em que começou a se movimentar em busca de uma solução. cada um dístraído com os afazeres normais de crianças e de adolescentes daquela época. A chuva aumentou e o motorista foi obrigado a arriar os impermeáveis. nos seus 12 anos de idade. os caminhos de uma mulher se podem também ordenar por sua ação e desejos. lá estava o veículo. seguindo para os lados de Encantado. A providência satisfez Anna de Assis. impediam que fossem vistas pelo lado de fora. Desde menina. presenciou e ouviu aqueles homens importantes. Judith. Somente depois de adulta é que pôde compreender a seqüência daqueles movimentos. Muitos anos depois. Foi com a sua voz pausada que ela indicou um endereço ao motorista.aconteceu e a levou a investigar a vida do marido fora de casa. Naquele momento.

113 .Depois que mamãe descobriu a causa daquilo tudo. num gesto rápido. que saía para o quartel entre 4 e 5 horas da manhã. seguindo em direção oposta à que estava estacionado o carro com a sua mulher e filha. Tudo piorou mais ainda depois da descoberta da mamãe. sabe que o motorista percebeu todas as intenções daquela pequena corrida. A chuva fina persistia. Ela quase gritou. antes de se retirar. Judith.Nenhum dos dois cedia um milímetro de suas posições nos seus entraves domésticos. A rua está deserta. não tem com que se distrair. Hoje. muito mais uma simples garoa. ainda se volta e beija outra vez aquela mulher que o deixa sair após alguns afagos e carinhos. A água escorrendo pelo celulóide amarelado não permite que ela veja melhor. antes de voltar para o almoço. A vida corria assim até que mudamos do Méier para a Rua São Januário. mas disse papai com a voz enfraquecida.Mamãe. passava por uma rua do Encantado para se encontrar com a amante. O papai passou a residir neste porão. caminham pela estreita ruazinha do jardim plantado em frente à casa. ainda abraçados e completamente distraídos. é que aqueles pingos de chuva permitem que Judith identifique aquele homem. não muito distante do carro estacionado. reiniciam a caminhada. Por isso. um dia a sua grande paixão. Não eram refeições amigáveis. em São Cristóvão. aquele passado. Mas fazia as refeições lá em cima. Juntos. Esta casa da São Januário tinha uma escada de mármore e por baixo desta escada tinha o chamado porão habitável. já que Dilermando de Assis. vivendo momentos de dúvidas e incertezas Ele tinha de um lado S'Annínha.que estacionasse. ao ouvir a filha quase gritar. com acontecimentos constrangedores. Ela disse mamãe alto. Ele estaria apaixonado e. assim. impaciente. apenas observando o silêncio da mãe. Dilermando de Assis se afasta da casa. Nada se ouve. público e devassado. muito parecidas. mostrar por . Lá ficamos por um ano e pouco. a nova paixão? Estaria aí a explicação para a sua radical mudança diante da mulher e dos filhos? . Nem mesmo o barulho da chuva. ela percebe que alguém sai de uma daquelas casas baixas. E as duas ficam na mesma posição. como que compreendendo finalmente o motivo daquele estranho passeio. Eles caminham em direção à rua. Naquele momento. Judith se conteve calada. mas preciso contar a verdade. mais alguns momentos. seguindo-o. até que o homem desce um degrau saindo da casa e surge uma mulher. . eu fico triste de relembrar tudo isto. Ela olhou para fora do carro e viu uma rua com uma série de casas baixas. bem como cinco filhos. a vida familiar se tornou insuportável . abraçados. além do mais.Vamos voltar para casa. os impermeáveis continuaram fechados. Finalmente. Somente quando chegam ao portão e ele beija mais uma vez a mulher. beijam-se. por trás do impermeável embaciado. a responsabilidade de pai e. De outro. Anna de Assis retira a mão da boca da menina.é Judith que recorda. olha o papai. imediatamente. e se vira para se retirar. Anna de Assis regressava para a sua casa sabendo que o marido. tapa a boca da menina com a mão. Eram personalidade muito fortes. Ela apenas ordena: . mas não se permite nenhum comentário. param. Anna de Assis. eram refeições com brigas.

115 *** 24 Onde estão as outras vítimas deste trágico enredo? Manoel Afonso da Cunha. apossar-se do produto da venda dessas obras. Nunca discutimos a vida deles. Foi em certa manhã que. nunca fui ouvido a respeito. Anna de Assis foi a mulher que um dia saiu de casa.Eu vou embora desta casa. Não trocávamos idéias sobre aqueles acontecimentos. Ao marido atordoado. ela viu os cinco filhos.que os meus pais se separaram. mas inúmeras vezes ele teve de contestar. o que acontecia. cada um com a sua malinha na mão. meu pai disse um palavrão horroroso. pois não comentávamos um com o outro o que se passava. E nenhum filho comentou com o irmão que o pai procedia com maldade. abandonando Euclides da Cunha para viver o seu grande amor com Dilermando de Assis. Após esta briga é que mamãe nos chamou e comunicou que abandonaria o papai. de 24 de fevereiro de 1921. publicando-as. dois adolescentes. A sentença do juiz. Orestes Barbosa. Para se ter idéia como avançaram e a que ponto chegaram os obreiros euclidianos. visto como o jornalista Orestes Barbosa transmitiu ao público o que lhe relatei. Sei que de certa maneira estou condenando o meu pai. O processo que correu um tanto tumultuadamente porquanto testemunhas que como eu deviam ser chamadas a depor. E saíram todos. há tempos publicado um artigo em que acusava o grêmio Euclides da Cunha de apoderar-se de obras do seu patrono. após um desentendimento. fiquem. ora enfrentando os inimigos de sua mãe. Ou opinamos. Mas eu tenho que falar 114 a verdade. ora aqueles que se locupletavam com a herança deixada pelo escritor. Registre-se que o grêmio Euclides da Cunha referido não é o de São José do Rio Pardo. fundado em 1925 e mais conhecido. Se quiserem ficar com o pai de vocês. três crianças. ela esticou o dedo e o condenou: . crescia perseguido pelos falsos protetores. redator da A Folha. era injusto. Alguns anos mais tarde. Nunca um irmão chegou para o outro e comentou por que o papai e mamãe tanto brigavam. injusta porquanto o senhor Orestes Barbosa foi . Eu jamais contei a qualquer irmão a cena que vi com a minha mãe. depois de todas as tragédias e sofrimentos. o mesmo Grêmio entendeu de processá-lo por crime de injúria e calúnia. sem nem saber para onde ir. Momentos depois. Não dez. Nós ficamos espantados.Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar. Eu vou embora. constantemente enredado em assuntos envolvendo a morte e a obra de seu pai. o sr. O principal responsável por tudo quanto foi publicado sou eu. o filho caçula de Anna e Euclides. em entrevista publicada na A Folha dera a denúncia ao sr. transcrevemos um artigo que Manoel Afonso publicou no jornal Rio-Imparcial. nem vinte. UMA SENTENÇA INJUSTA Tendo o brilhante jornalista. prontos para acompanhá-la. essa mesma mulher não titubeou em chamar os filhos e comunicar: . verdadeiros algozes. visto que fora eu quem. Orestes.

os seus acusadores lhe pretendiam atirar. injusta como já disse. O juiz.o excesso de linguagens dos seus artigos . o juiz Almiro Campos salvou a reputação deste jornal. solidários com um indivíduo que merece a execração pública. Maurício Jopert. veio provar no entanto que Orestes Barbosa é um jornalista que honra a sua classe e trabalha para manter-se. A seguir. por cujo pensamento nunca passou a idéia de que semeava para que viessem a colher dos frutos Venâncios e outros indivíduos. que se constituíram numa verdadeira quadrilha para assenhorar-se do que me cabe por legítima herança. não pronunciando por calúnia o nosso companheiro Orestes Barbosa. como querem fazer crer os que o dirigem e de quando em vez fazem inserir notícias nos jornais. que são. Além de Manoel Afonso da Cunha. os srs. apesar de injusta veio tornar patente que eu só disse a verdade e que aquele jornalista não transmitiu aos seus leitores uma notícia falsa. Felizmente. afinal. tanto que o condenou apenas por crime de injúria. iludindo os incautos e continuando assim a locupletar-se com os rendimentos resultantes das publicações dos trabalhos do saudoso autor dOs Sertões. decidindo o caso como decidiu. não fazendo como os que inventaram esse grêmio clandestino a fim de viver à custa das glórias. isto é. O despacho do juiz pronunciando o jornalista por injúrias .. 117 *** 25 A vítima esquecida de . alguém mais sofria os efeitos daqueles treze tiros do dia 15 de agosto de 1909: Dinorah de Assis. veio confirmar tudo quanto Orestes Barbosa disse contra os diretores do grêmio. arranjaram um grêmio donde têm auferidos largos proventos. o meu inolvidável pai. que me pertencem. provando que tal grêmio não tem existência real e nem tem sede. por meu intermédio. 116 A sentença do juiz. Esses bens.. estão sendo gozados por Venâncios e outros seus colegas que vivem à tripa forra à custa do que me pertence. Fico aguardando a sentença para elogiar o senhor juiz por esse ato que toda a opinião pública aplaudirá. Edgar Sussekind e comandante Coriolano Martins. presidente do grêmio clandestino do qual é advogado Humberto ou Ernesto de Basconcelos Brasil. por luminosa sentença condenar Venâncio e seus comparsas pelo feio crime de se apoderarem do alheio. vendo que nesta terra não ficam à solta os ladrões. Raja Cabaglia. que entrevistou o filho do saudoso acadêmico Euclides da Cunha. Certamente o juiz que condenou o jornalista Orestes Barbosa vai muito breve.muito honra o trabalhador de jornal que vê o seu nome salvo da pecha que além de tudo. à sombra do nome do meu infeliz pai. por julgar veemente demais a sua linguagem contra os individuos que. demonstrando ao público que os bens do infortunado jovem foram assaltados por um grupo que tem por chefes Francisco Venâncio Filho. É curiosa agora a posição das testemunhas.apenas o transmissor da queixa que eu fiz. do trabalho e do nome de Euclides da Cunha. A Folha publicou esta reportagem: UMA CONDENAÇÃO QUE ABSOLVE O juiz Almiro Campos não reconheceu calúnias nas reportagens da A Folha.

que não tinha ainda predileção. Muito se fala nas tragédias que motivou Dilermando de Assis. é conhecido o tradicjonal clube. à concretização de terrível drama. iniciado pelo seu inimigo . passado adentro. sendo que este último foi vencido num dos jogos . naquela. cuja única culpa lhe vem sendo imputada . foi autor involuntário de duas tragédias. mais entressachados parecem estar os fios da lenda com os fios da história. Octavio Werneck. menos fácil tem sido separar o fantasioso do verídico. A SUA FAMA FOI DESDE LOGO CONFIRMADA. Dilermando de Assis. Para os "sportmen" de hoje. diante de seus olhos qual uma punição propinada às gotas. de Euclides da Cunha: a bala que se alojou na espinha dorsal de Dinorah de Assis.C. João Batista da Lagoa.Victor Etchegaray. em 22-10-1946. Os da velha-guarda. de Porto Alegre. trabalhou com bravura e lealdade para a conquista do título do "glorioso" com que. nalguns aspectos. um preito de saudade ao companheiro que. a fim de que o tormento. paulista também. O jornal carioca O Sport. em 1908. bem podem compreender que a missa mandada rezar pelo clube alvinegro foi. como fossem: . publicou a reportagem: 118 UM ASTRO QUE RUTILOU NO CÉU DO PASSADO Não se esqueceram os botafoguenses de Dinorah de Assis O Botafogo F. a se desenvolver. ainda vive. o acontecimento trágico. até hoje. Belford Duarte e Armínio Motta. entretanto. e o quadro do América enfrentou com galhardia o Fluminense e o Botafogo. se possível. atônito e angustiado. uma missa por alma de Dinorah de Assis . na matriz de 5. ou nada. nos moldes da tragédia grega. envergando a camiseta rubra do América. Foi há vinte e um anos passados que Dinorah surgiu na nossa capital. o ato singelo e tocante não pode ter grande significação e não passou além do registro feito pela imprensa. dure toda a eternidade.culpa que parece crescer à proporção que cresce a glória póstuma de sua vítima insigne. foi espectador.Euclides da Cunha Com este título. os dois mais afamados quadros do ano. e viveu o bastante para assistir. para que se não enodoe o grande nome daquele que a provocou: Euclides da Cunha.dos "players" do célebre conjunto alvinegro de 1910. não menos terrível. um artigo sobre Dinorah de Assis. de 24-6-1929. muitas fábulas cresceram à sombra que embrusca. uma zaga formidável com Belford Duarte. sim. irmão idolatrado de Dilermando. pouco. muito se tem dito a respeito de seu homicídio. A sua atuação foi magnífica e o seu nome correu logo pela cidade. É que Belford Duarte. Vinha da Paulicéia com fama de ser excelente zagueiro. alistou-o logo no seu clube.drama que parece materializar uma maldição. aos poucos. vem sendo furtada à primeira plana da ribalta. ou os que o assistiam no campo de luta. Começa assim: Já lá vão quase quatro décadas que Euclides da Cunha foi morto. que nasceu da bala assassina. e quanto mais esse episódio doloroso das letras brasileiras recua. em todos os detalhes. Puliem. Dilermando de Assis ainda vive. sendo comparado com os beques da época. E Dinorah. "A vítima esquecida de Euclides da Cunha". além de um ato de religião. e. Formou. deliberadamente. envergando a camisa alvinegra. o matador do maior estilista do Brasil. não se recusou a aceitar o oferecimento de Belford para disputar o campeonato de 1908 pelo referido clube. também. de uma terceira tragédia que. capitão do alvirubro. E isto ficou demonstrado logo na primeira partida em que tomou parte. os que lidaram e conheceram Dinorah. fez celebrar. o jornalista Acélio Dauat escreveu para o jornal Folha da Tarde.

pretextos fúteis para não jogar. o coração falou mais alto. pelo maior entendimento do jogo de conjunto. "O CORAÇÃO PULSOU. contra toda expectativa. pois que o quadro tricolor logrou triunfar por 2 x 1. cheio de vida e mocidade.note-se bem . para murchar como uma flor em plena primavera da vida. aliás a principal partida do ano. No jogo returno contra o Fluminense. Dinorah formou com Puilem a zaga do "team" e tornou-se campeão da cidade. pois que decidia o campeonato. AS QUALIDADES DO "PLAYER" Dinorah de Assis. era um zagueiro completo. entre o delírio da grande assistência adepta do Botafogo. não podendo resistir. uma questão. de quando em quando. E Dinorah jogou como mestre. e . como um astro de primeira grandeza. garboso na sua farda de aspirante de Marinha. Dinorah de Assis. Dinorah.. como hoje. Os "sportemen" do passado lamentaram e o Botafogo se cobriu de crepe. Os anos correram e a sua fama foi desaparecendo. ao invés do chute a esmo. nesta temporada. até que um dia chegou a triste notícia de sua morte. Fez parte.. É que. Dinorah afeiçoara-se ao Botafogo e. O seu chute firme e seguro. em esporte. levou o Botafogo a se afastar da Liga. Neste ano. 1909. Em 1911. "players" existiam superiores talvez aos de hoje. por questão que não vem ao caso 119 narrar aqui. Colocava-se perfeitamente. E . Dinorah. uma semana antes. Bem diz o poeta nos seus versos maravilhosos que a mocidade é como a cotovia de ouro que nasceu e morreu numa manhã de abril. logo ao iniciar o campeonato. o que foi. Tal. como acima já falamos. foi um dos seus maiores baluartes. deixando livre o arqueiro. Em 1910. pois. do célebre conjunto que foi a maior glória do Botafogo e.. Dinorah tinha todos os recursos sem que se desviasse das regras do "association". quando se praticava o esporte pelo esporte e os jogadores não tinham sequer o dinheiro para o jantar e o automóvel. deixou o América para envergar a camisa alvinegra. recebeu uma bala que lhe interessou um dos pulmões. havia falecido. que já era.já naquele tempo. o "player" não procurava o jogo violento como caminho de uma vitória que não pode ter significação.naqueles tempos que já se foram. em resumo. Era um botafoguense de coração. nos momentos de "scrimages" perigosas. o Botafogo foi de rara infelicidade. porém. garboso na sua farda. BOTAFOGO!" No ano seguinte. fazendo parte. para só voltar em 1913. em jogo isolado pelo menos. como um tipo perfeito de atleta que era. onde brilha o sol radiante dos . A sua resistência de moço e o amor ao seu clube levaram-no a tal imprudência. deixando os seus amigos de outrora envoltos na nuvem da saudade que. que aqui surgiu em 1908 e desapareceu pouco depois de 1910. entrava em campo para defender o Botafogo. E era belo de ver-se. turva o céu azulado. Se nos tempos atuais os quadros são mais perfeitos em técnica. procurava sempre entregar a pelota ao "half" um ardor digno de realce e não tinha. no jogo contra o América. Exemplo de lealdade. nos tempos de outrora. Aquele moço forte. um brado de guerra nas lutas esportivas. o "Ano do Glorioso". Dinorah estava no apogeu da sua gloriosa carreira.. não voltou mais. honrando a farda gloriosa da Marinha que envergava nas ruas e a camisa alvinegra do valente Botafogo com que aparecia nos campos. enviava a esfera para longe entre o delírio da multidão entusiasmada. o grande "player".pelo "team" alvirubro. E Dinorah brilhou. o que se não pode negar é que. Sete dias depois. como muitos "players" de agora. embora o Botafogo perdesse pela diferença de um gol. o jovem aspirante de Marinha.

botafoguenses. Terminara seu papel na tragédia "Assis". e sem remédio possível. tolhido na sua virilidade . Antes. num lampejo de razão. Um dia. Dinorah. cuja nobreza. implacável ressentimento. pela mão. obstinadamente. apenas. o único que resta em cena. mergulhou na demência. se tem querido deixar sem aplauso. apenas. o tiro de Euclides da Cunha o atingiu na nuca. dar um pouco de conforto ao malfadado irmão. a pedir esmolas. por isso que se considerava como o causante involuntário de mais esta desgraça: a invalidez do irmão. Exatamente o quarto. da mais humilde felicidade. ele próprio. agora. E esse personagem. seu Dinorah. a mesma que guiou a pena. finalmente. ao cabo de pouco tempo. até necessitar da caridade alheia. Sua vida miserável era irmã germana de Os Sertões. O aleijume apartara-o. Com o organismo combalido pelas insônias orgiásticas. tomou consciência de sua inutilidade. equivocadamente. Restava-lhe. irremediavelmente. se o não recusou. degradava-se mais e mais. o instrumento escolhido pelo destino para vingar Euclides da Cunha. de novo. diante de três cadáveres. não mais quis recorrer.Dinorah carregava o desgosto profundo de precisar deixar o mundo. arrojando-se nágua. foi alvejado de raspão. O jornalista gaúcho Acélio Dauat encerra o seu artigo. como o desventurado Édipo: . o único por onde o compeliam suas trôpegas passadas. encovilhada nos recessos de uma alma incompreendida. ambos nascidos da mesma destra. 120 A reportagem do jornal O Sport informa. com ênfase: Aleijado. andrajoso. a mesma que premiu o gatilho. ao chegar nesse ponto. amparado num bastão. infectado pela sífilis. seu querido Dinorah. Mas este. também ele. o hostilizava! Já não bastava vê-lo aleijado. Ao irmão... por vê-lo assim. Dinorah. há-de exclamar. teve interrompidas sua carreira na Escola Naval e como jogador de futebol. Sim! Seu irmão adorado. entrou de desavir-se com Dilermando. na sua loucura. agora. Paralítico. andando. Antes. no qual apenas entrara. com sua carreira na Escola Naval destruída. tê-lo quase como um inimigo! Tentou ainda. apenas. por isso. Fora. tampouco o aproveitou. agora. Mas. agora. que Dinorah de Assis foi ferido no pulmão. Mas a tragédia continua. pelas ruas. quando Dinorah procurava fugir do escritor. provocar os gozos fáceis da embriaguez nos contubêrnias de lupanares. porém. já não bastava vê-lo demente. no braço e seu lado esquerdo. afastado de todos os prazeres singelos e puros da mocidade. num derradeiro impulso de carinho. E não mais teve dúvida: dirigiu-se ao cais do porto. em sua loucura. comprometido pela toxidez etílica e. aquele que. aquele que tudo fora capaz de fazer para tê-lo hígido e trjunfante. E nesses sítios escusos foi que o demônio da tragédia o tomou. precisamente aquele que mais o amava. 121 era uma vítima de Euclides. seu caminho trágico encruzilhou com o do irmão. Na verdade. Dinorah ficou hemiplégico. sem dele tirar nenhum proveito. "A vítima esquecida de Euclides da Cunha". Enveredou-se por esse caminho. sofria todas as amarguras dantescas da compunção. precisava. Em conseqüência do tiro na nuca. E. remoendo.

Em notícias sobre Dilermando de Assis. 22 de agosto de 1909. ainda no noticiário sobre a tragédia da Piedade. ao se aproximar da casa de Euclides. se abstivesse de uma tal exibição. Se uma infeliz manhã de domingo não tivesse existido em sua vida. quando ele nunca passou de apenas uma vítima. Ao que consta entre os espectadores do match. Pode parecer absurdo que Dinorah de Assis tenha jogado futebol com uma . devido aos três ferimentos a bala. Como a que lhe fez Anna. seria apenas um simples espectador no drama amoroso Anna. entre o Botafogo F. não estando incluído no team que se mediu contra o campeão. Como o seu depoimento foi divulgado pela imprensa com diversas incorreções. o que quer dizer reincidir no escândalo. fosse até à Rua Nossa Senhora de Copacabana. Lá no subúrbio havia chegado a notícía de que Euclides procurou pela mulher na casa da sogra. no campo de São Cristóvão. É mesmo inacreditável que ferido a bala num domingo venha a jogar no seguinte uma partida de final de campeonato. foi para atender a solicitações. além do comentário: Seu irmão Dinorah tomou parte no grande match de futebol de desempate. Sob nossa ótica de hoje. além de sofrida. em Copacabana. na situação especial em que se acha. esse comentário jornalístico de O Paiz soa. Anna decidiu não regressar ao seu lar. Dinorah pretende brevemente exibir-se do mesmo modo em S. uma semana conturbada. contra o Fluminense. No entanto. como um equívoco ridículo. Por muito amor que ele tenha ao sport inglês. O estado de ânimo exaltado do escritor colocou Anna apreensiva. ele foi medicado em hospital militar e no dia seguinte já comparecia à delegacia de polícia para prestar depoimento sobre os acontecimentos em sua casa. Sua missão era comunicar ao escritor que Anna e o filho Luiz se encontravam em Santa Cruz. Mais curioso ainda é transcrever as notícias dos jornais da época e perceber que. ferido pelo tiro de Euclides da Cunha. a inclusão como "cúmplice". C. Paulo. chamaram-no "escandaloso".C. a sua fama teria sido outra."Oh Deus! que quisestes fazer de mim?" A reportagem do jornal O Sport de 1920 está correta quando informa que Dinorah defendeu o Botafogo na partida de domingo. Se em algum momento agiu buscando auxiliar o seu irmão e à futura cunhada. Dilermando e Euclides. Devido ao relato de Dinorah. A participação de Dínorah nos fatos elevou-o à posição de cúmplíce na morte do escritor. a que pertence e o Fluminense F. de 23 de agosto de 1909. pedindo que no sábado. e ela teve intenção de voltar à sua casa. informou: Uma nota final Causou grande estranheza e mesmo indignação entre todos que assistiam ontem ao return match do Fluminense contra o Botafogo ter Dinorah de Assis tomado parte nessa festa e o que é ainda mais notável. 23-agosto-1909 O jornal O Paiz. se duas balas não o atingissem. envolvido na emocionante tragédia da estrada real de Santa Cruz. No domingo anterior. tornou à delegacia para esclarecimentos. resolveu regressar a Santa Cruz e informar a Anna da impossibilidade de um entendimento com Euclides. 14 de agosto.. notou-lhe em grande alvoroço e maiores exacerbações de ânimo. Correio da Manhã. Viveu. que chegou a ouvir alguns gritos do escritor amaldiçoando a mulher. esperava-se que. em vez de considerá-lo um atleta incomum. realmente. Como Dinorah. nervosa. O fato despertou muitos comentários. no mínimo. ou 122 apenas aquela conseguida nos campos de futebol como beque do Botafogo.

em que as circunstâncias envolveram-no acidentalmente. o fato se deu. sem que tivesse a menor culpa. em que aparece. Rolando. e Dinorah. defendendo o nosso bravo jogador. nosso grande e infeliz zagueiro. E o clube apoiou-o. Lulu e Viveiros. Lulu e Lefévre. Pulien e Dinorah. A História do Botafogo está registrada no livro de Alceu Mendes de Oliveira Castro. que ratificou a atitude da diretoria. ainda ferido. Em 25 de junho jogou como goleiro do 22 time. que seria o campeão paulista do ano. poucos dias após o evento que abalou de surpresa. Flávio. Pulien e Octavio. Afastado do quadro para refazer-se. jogando vivaz e alegre com afronta aos sentimentos de piedade de uma sociedade inteira. Dinorah de Assis atuou pela última vez no quadro principal do Botafogo. Foi em 25 de setembro. o mais completo apoio de nossa desassombrada diretoria. Venceu por 6 x 1. como conseqüência da terrível tragédia. depois. procurou construir a hipótese de que o dr. homem próximo de genialidade. na vitória de 8 x O sobre o 22 time do América. no campo do Fluminense. contra o tricolor. Dinorah. feriu-se o encontro decisivo contra este clube e após uma luta gigantesca o Botafogo foi derrotado por 2 x 1. atuou de centro-avante. tendo sido este o time: Coggin.edição do autor). no Velódromo. . registrada no livro O Futebol no Botafogo (1904-1950). O Futebol no Bota fogo (1904-1950 . a partida final contra o Fluminense. Rolando. cuja Liga pedira sua exclusão da embaixada. MilIar. Em 14 de maio daquele ano. Décio. Dinorah. encerrado a 10 de setembro de 1909 e publicado na íntegra pelo jornal Gazeta de Notícias. a ausência dos elementos que disciplinam os homens normais e lhes moderam a ação basta lembrar que Dilermando ao dar as suas primeiras declarações. No entanto. Na temporada de 1910. contra o Rio Cricket. o seguinte comentário do escritor: A 22 de agosto. Gilbert e Emanuel. no qual o seu time foi vencido por 2 x 1 pelo forte quadro do São Paulo Athletic. ousava . era um quase demente. no capítulo referente à temporada de 1909. Exibe no parágrafo final: 123 Para documentar a insensibilidade moral. em seu campo. em São Paulo. É o relatório que contém as inúmeras inverdades refutadas por Dilermando de Assis. à página 46. Ainda no livro do Sr. Gilbert fez o nosso gol nos últimos momentos e os tricolores resistiram aos nossos impetuosos ataques. Alceu Mendes de Oliveira Castro pode-se constatar que o craque Dinorah voltou a se apresentar em 12 de setembro contra o time do cruzador inglês Amethyst e em 26 de setembro disputou o jogo oficial contra o América. Mimi e Lauro.bala encravada em sua espinha dorsal. confirmado pelas notícias dos jornais e até mesmo no relatório do delegado de polícia Oliveira de Alcântara. Emanuel. vencido pelo alvinegro por 3 x 0. Abelardo. Euclides da Cunha. a última apresentação do jogador Dinorah pelo alvinegro. Dinorah disputou 9 partidas dos 10 jogos oficiais. dor e piedade a cidade do Rio de Janeiro. num jogo interestadual.insensível e risonho comparecer a uma partida pública de futebol de "maíllor" e calção. pela voz da assembléia geral de 15 de outubro. O Botafogo sagrou-se campeão e o time ganhou naquele ano a alcunha de 'glorioso. teve. cujo resultado foi empate de 1 x 1. 124 Dinorah de Assis jogou pelo Botafogo em 7 de maio de 1911. Formou-se com: Coggin. quando cancelou uma excursão a São Paulo. absolutamente inocente no tristíssimo caso em que se envolvera um seu parente e o escritor Euclides da Cunha. impulsivo e insano.

Já então. Está sepultado em São Paulo.. Dinorah estava no apogeu da sua carreira esportiva. 125 *** 26 Monteiro Lobato consulta a sua consciencia Durante anos. sendo que Dinorah de Assis é relembrado como um dos importantes jogadores do time campeão de 1910: É que o glorioso clube alvinegro. pelo dr. ele transcreve uma crônica da Ilustração Sportiva. ou seja." Se a tragédia se fez com tiros e generais. conhecendo todos os segredos do futebol. [. Não compareceu às redações dos jornais e não foi aos livros de história para modificar lendas e desfazer equívocos. jornalistas e escritores procuraram Anna de Assis em busca de seu depoimento sobre a tragédia da Piedade. o cadete Dilermando de Assis.A minha defesa é o meu silêncio. em 1925. quer no ataque. era o melhor beque do ano.Em O Futebol no Botafogo. no Cemitério Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de São Paulo. mas ainda assim o apoio do Exército só saiu depois que o roteiro do filme foi examinado por três generais. astro de grande brilho. Respondia apenas: Eu não tenho que me defender. E o amante dela. foi extraída. quer na defesa. em São João Del Rei. publicou cartas e foi entrevistado. sendo que o grande Vitor. figurou apenas em dois ou três jogos. Dilermando de Assis". Para se aprovar um roteiro de filme sobre a vida do escritor. ao lado dos pais e do irmão. estava muito doente. jogando-se na água. E reforçava o seu raciocínio: .] Dinorah e Pullen eram os zagueiros. de 3 de setembro de 1986: "A infiel Ana era filha de general. Pôde. apresentou-Se. Dilermando de Assis escreveu livros. a mesma Folha de São Paulo noticiou a 3-9-8 6: As barreiras caíram no começo deste ano. Eu não tenho do que me defender. um excelente "full-back". quando o autor comenta sobre o time glorioso de 1910. o seu jogo firme e a sua calma assombrosa fizeram delirar os muitos apaixonados do glorioso Botafogo. embora lhe fosse inferior. em Porto Alegre. provar sua inocência e debater a principal acusação que lhe impunham: a de ter sido protegido de Euclides da Cunha. Ou como na Folha de São Paulo.. O gol estava ainda sob a vigilância de Ernesto Coggin que. Suicidou-se em 1921. onde não havia falhas. também atingiria o generalato. Mas os equívocos renascem e se espalham pelas redações dos jornais brasileiros. o certo é que o Exército brasileiro sempre criou obstáculos para veicular notícias não só envolvendo o militar Dilermando de Assís. com uma formidável equipe. no jazigo da família. se não foi um guardião de primeira ordem. publicada quinze anos depois. do Fluminense. principalmente. por sua vez. era. em conseqüência do ferimento. Puilen. Perduram nos setores de pesquisas dos jornais as frases que condenam: "O assassino de Euclides da Cunha. já em decadência. . como o ex-militar Euclides da Cunha. Zagueiro como poucos têm aparecido no Rio de Janeiro. no cais do Porto. Somente em 1913. Argumentavam que ela possuía motivos relevantes para refutar acusações. Ribeiro da Silva. no referido ano. a bala que atingiu Dinorah em sua espinha dorsal. jamais comprometeu a sua equipe. O primeiro.

algumas vezes indiferentes. Não se tem por objetivo atacar e desmoralizar o cidadão Euclides da Cunha nestas páginas. acobertar seqüelas transparentes. Os protagonistas . Orestes. torres. tão manejáveis como os peões de xadrez! ALGUÉM brinca no tabuleiro da vida com o teatrinho de títeres que somos. Dilermando. Dilermando de Assis e Anna de Assis. E sua grande paixão foi Dilermando de Assis. coisa grande. Édipo.. Vamos buscar. outros. Euclides pai e filho e uma mulher . E como não ser assim. Já o homem merece alguns verbos que o sacralizam no rol dos pecadores. coisa medíocre: era um grande rei por merecimento. surge e convence seus outros irmãos a romper o pacto de silêncio. Enquanto Anna disse e reafirmou enfaticamente: . Reafirma-se: o escritor Euclides da Cunha é inatacável. O intuito é bem outro.Só se ama uma vez na vida. Euclides era rei: Dilermando. bispos. No tumulto do trama tecido pela Fatalidade. Já o homem Euclides da Cunha é um cidadão que amou. Não há como esconder atos.. tão impotentes quanto os reis de xadrez . Judith. o que é definitivo. filhos e netos de Anna de Assis convivem com embargos militares. Se ele amou sua mulher. na realidade são movidas de acordo com os planos concebidos pelo jogador e que jamais serão penetrados. cavalos . Hitler foi um rei de xadrez. Um regicídio! A sociedade sentiu o mais profundo dos abalos porque Euclides não era rei apenas por direito de nascimento. Jogaram com ele uma tremenda partida . Euclides. se ele era "rei"? Pobres reis humanos. frases de jornais que simplificam dramas e enodoam memórias. o reforço de pena mais ilustre. E nem se deseja nas páginas de um livro sobre a vida de Anna de Assis desmerecer o escritor Euclides da Cunha. tudo se deu ao enleio de atitudes ora violentas. o rei enloqueceu e forçou o peão a matá-lo. Basta de tantas falsas lendas e tamanhas fantasias. As pedras de xadrez movem-se . outros. O autor de Os Sertões é uma glória da literatura universal.julgam-se mover-se.e rainha e rei. O seu casamento com Anna se deu pelos múltiplos interesses sociais de uma época. Até que uma das filhas de Anna de Assis.e ele sempre a julgar que quem fazia o jogo era ele. Uns somos peões. outros. E se a obra de Euclides da Cunha cresce no século e se torna clássica. pequenino peão. E a vida desse . um perfeito "caso de tragédia grega" isto é. ora mansas. insuspeita. até mesmo. de probidade absoluta: UMA TRAGÉDIA DE EsQuILo Monteiro Lobato Tivemos aqui entre nós. irretorquível.. A sua obra é intangível. Mas não se redime a viúva de Euclides desviando-se de fatos e de verdades. Somos todos nós pedras de xadrez no tabuleiro da vida. Jocasta. em 1909.. não será preciso no dia-a-dia das notícias ressuscitar a sua morte.126 E assim. imortal. E todas as fulminações choveram sobre a cabeça do peão que teve de matar o rei.tão instrumentos do Algo Superior que os maneja como os reis de xadrez! Pobres peões humanos. casou e foi infeliz em sua união conjugal.agiram todos como pedras de xadrez em movimento cego no 127 tabuleiro.Dilermando. de tragédia caracterizada pela presença invisível da deusa Fatalidade.

Mas ficou difícil sustentar toda aquela gente. . dentro daquelas circunstâncias. em decorrência da sua separação conjugal. mamãe e Laura num quarto e no outro. o . que poderia ele fazer senão o que fez? Como agir de outra maneira. além de Hidelbrando Saladino Monterroyos. Dormia eu. sou obrigado a confessar que. Mas. conseguiu o estritamente necessário para tornar a casa razoavelmente habitável. Eliseo Monterroyos. Ela estava com 51 anos e plenamente disposta a enfrentar as incertezas de uma vida solitária. fiador. os meninos. não se defendesse. que também adolescente residia em sua casa e resolveu acompanhá-la. embaixador do Brasil na França na ocasião. Em 1926. Era primo de seus filhos. comprou estrados. Mas. se somos títeres e quem dirige a trama é a grande jogadora de xadrez Fatalidade. senti em tudo a mão glacial e inexorável da Fatalidade . se chegava e dizia: quero alugar aquela casa. deixou o filho residindo com o tio Di ler mando. dominado pela incerteza. A mim a tragédia Euclides-Dilermando me abalou profundamente. seguida por seus cinco filhos.a mesma que levou aos seus crimes o inocente Orestes. eu . Entramos na casa limpa. Mamãe dividia com a tia Alquimena uma pensão do vovô. só então vi. dadas as circunstâncias. E uma coisa até hoje me pergunto: haverá uma só criatura normal das que olham Dilermando com horror. Já o homem merece alguns verbos que o sacralizam no rol dos pecadores. por parte de Dilermando. cozinha. com a responsabilidade de alimentar cinco filhos. o primo Hidelbrando. dentro do quadro daquelas circunstâncias. reagiria em pura ação reflexa . Recorda com facilidade dos acontecimentos na ilha de Paquetá. ferozmente acossado pelo animal existente no atacante. Mais nada. Judith está com 13 anos.peão passou a ser um inenarrável martírio. falava com o proprietário e estava tudo bem. nada disto. O animal que há dentro de mim. a qual se utiliza de nós como simples peças. refugiou-se na ilha de Paquetá. O pai. não fizesse a mesmíssima coisa? Que atacada por Euclides e o filho.e no ímpeto cego da legítima defesa mataria até ao próprio Shakespeare. Não tinha contrato. como Dílermando se defendeu? Se ponho a mão na consciência e me consulto. 128 O escritor Euclides da Cunha é inatacável. mamãe foi e comprou esteiras.Chegamos lá sem nada.o maior devoto de Euclides agiria tal qual Dilermando. Lá. que. quando conheci todos os detalhes do processo. Sobre ela meditei muito tempo. tomados ambos de acessos de demência. e pois tal fato só é possível quando a Fatalidade guia a mão do regicida. 129 *** 27 A vida isolada de Anna e filhos na ilha de Paquetá Quando Anna de Assis saiu de casa. Só aquelas roupinhas. Além de meus três irmãos. Como antigamente se comprava fiado com facilidade. naquele tempo. banheiro. A casa era dois quartos e uma sala. nunca se dignando nos revelar os objetivos de suas jogadas? Para a sociedade não há crime maior que o de peão matar um rei. Não tinha nada.

131 Relembrados por Judíth. Depois de muito tempo. catávamos siris. e depois a importância enviada pelo papai. a mamãe reafirmando teimosamente que não voltava de jeito nenhum. ela não deixava. esfregar fogão. Nós pescávamos. frio. procurou suprir a falta de colégio e assim fomos vivendo. tornou-se a nossa professora. Mas mamãe nunca mais falou com ele. que se distinguiram para todos que com ela conviviam. Ela cozinhava muito bem. assim passamos quatro anos. que escrevi cartas apelando para papai nos mandar coisas. pediu que mamãe voltasse para casa. são muitos os acontecimentos do período de vida isolada em Paquetá. que vivia em Paquetá. Ela usava pomada basilicão por causa das dores terríveis que sentia. De certa forma. Éramos sete para comer. E ele. fomos vivendo até 1930. Quis. Os filhos. Ele mandava o que queria. Daí. que mamãe voltasse. Aquela comida à antiga. de ódio. Passando fome. durante os quatro anos que moramos em Paquetá. tudo. sentindo falta de tudo da vida confortável de antes. Durante a discussão. Não deixava a gente fazer nada. trabalhando. E mamãe trabalhando. Era uma pensão pequena. nós procurávamos o papai. ela se trancou no quarto e não o atendeu. Depois ele nos descobriu. desesperos. É uma micose que come a unha totalmente. a vida foi melhorando. Isto depois que ele nos descobriu. que chegou a viver rodeada de luxo. não. E ficamos escondidos durante muito tempo na ilha de Paquetá. Mesmo assim. através da pressão. Pois ele ficou muito tempo sem saber onde nós estávamos. pretas de fuligem. com jornais embrulhados na cintura. eu via cozinhar. Mas ela não cedeu. por causa de muito trabalho. muito barriguda. De repente. confessou que se encontrava um pouco perturbado. Marcantes. ele passou a enviar um mínimo. Daí. Algumas moldaram a personalidade de seus filhos que cresceram imunes aos traumas de um . Fazíamos nossos pedidos através de cartas. Ouvia a mamãe. E amigos dele procuraram também ajudar. dona Regina Nunes da Costa Barbosa. Respondeu a ele 130 de dentro do quarto. Mas ela começou a cozinhar e dar pensão. em contrapartida. A senhora de Orestes Barbosa. Enfim. não pode. Com o dinheiro das marmitas. o montepio do vovô. não nos ajudava em nada. espatifando-o. passava. Minha mãe saiu fugida mesmo. Sem colégio. muito gostosa. as mãos cheias de unheiro. Ela cozinhava. lavava. brigava comigo. Quando ele esteve em Paquetá nos procurando. tendo às mãos um pote de água. Não dava. Aquela mulher que teve tanto conforto. As suas unhas viviam sujas. Ganhava um dinheirinho assim. Sem tempo para se cuidar. Ela trabalhava o dia todo. fazia tudo. ela procurou transmitir aos filhos seu caráter. íamos vivendo. Era no Quartel-General do Exército. ele jogou o pote na parede. sobressaem os fatos em que surgem a tenacidade e o estoicismo de Anna de Assis. Assim crescemos. não vai estragar as suas mãos. Ela nunca mais apareceu para ele. Eu é que ficava ali no pé dela. eu quero ajudar. Assim. o aconchego da mamãe. sabíamos onde encontrá-lo. mamãe. Ah. com as mãos calejadas de tanto arear panela.marechal Solon. atendendo aos apelos de seus amigos. como me lembro de minha mãe daquela época: muito gorda. apertos. tínhamos apenas o carinho da mamãe. Servia comida em marmitas. Papai contou de seus sofrimentos de campanha na revolução. ele teve um rompante de raiva. Habitualmente. ela os convocava para preleções. é horrível. todas as unhas dela tinham unheiro. Até que o papai resolveu colaborar mais. Não sei como.

observem: as meninas não poderão errar. Foi por dois vestidos. crianças. Não. principalmente para aqueles companheiros de vida militar. os meninos estão precisando de roupa. Apesar de uma exposição repetida com freqüência e caracterizada com ênfase especial: . Jamais ouvi qualquer coisa neste sentido em todas as discussões entre eles. Porque depois ele maltratou a mamãe. a briga dos dois. você me deve.A princípio. Todos sabiam de tudo. Mamãe mandou 132 fazer um vestido para mim e outro para Laura. carregando aquela cruz. Depois. o passado dele com mamãe não era segredo para ninguém. A partir daquele momento. por uma questão de vaidade. você mudou a minha vida. Afinal. você está sendo injusto. para nós ela cobrava. de quem agora vivia separada. . ela nunca disse a ele: você matou um filho meu. Logo que ocorreu a separação. Dilermando de Assis. Para ela. ele procurou demovê-la por meio de pressões. nem depois de separados. principalmente o apoio . como antes e depois. debaixo de excessiva proteção e desvelo. os filhos. a inquietação básica de Anna de Assis foi com os filhos. Era uma vergonha para ele aquela separação. uma raiva da parte dele por aquela teimosia da mamãe. Ouçam. atingindo a nós. você tem de fazer isto por mim. Então. Nada semelhante. principalmente negando-se a auxiliá-la financeiramente. Com todas as dificuldades e sofrimentos que se pode imaginar. do tipo. Dilermando. Os meninos não podem matar. E mantinha-os ao seu lado. Agora. começou aquela briga violenta. nem depois pela miséria que suportou. Não acredito que ele quisesse mamãe de volta por amor ou simplesmente para refazer a sua vida de casal. Jamais eu assisti a mamãe cobrar qualquer coisa para ela. . Nem antes por tudo que sofreu. em que o meu pai disse um palavrão. Daí. Anna de Assis repetiu o aviso aos seus filhos. meu pai agia mais friamente. Ele estava vivendo um outro amor. uma referência ao passado. Não só durante os anos difíceis vividos na ilha de Paquetá. Nem quando ainda vivia com ele e se altercavam diariamente. bem como ensinar o convívio social. Como a mulher se manteve irredutível. Ela exigia para nós. desde sentar-se à mesa e comer. Porque ele negando tudo à mamãe. Isto ela cobrava. Por isto. Acredito que ele quisesse reconstruir o lar porque estava prejudicando-o tremendamente em sua vida militar. Por exemplo. ele queria voltar. a viúva de Euclides da Cunha. e daquilo outro. Até me recordo agora. Você tem de se alimentar. a única preocupação de mamãe era com os filhos. Quando pediu dinheiro para pagar. que culminou na separação. Vocês são filhos de Dilermando de Assis. você tem de fazer isto. nada. Ninguém ouviu a minha mãe dizer tal frase. Quando vocês crescerem. Dilermando de Assis buscou a reconciliação. Ainda por cima. ela ministrava todas as lições.Quando mamãe vivia com papai e o relacionamento feliz entre eles havia terminado. Nunca. Para suprir a educação escolar. ela era Anna de Assis. você tem de dar colégio. se notava. eu sofri por sua causa. Dilermando. Nunca ela disse a meu pai. Não. as crianças precisam disto.Tá na hora da preleção. Nunca cobrou nada para ela. ele respondeu com um palavrão. Não.passado adverso. E com insistência. ela não cobrou mais nada e assumiu sozinha o encargo de educar e criar os filhos. para dar satisfação à sociedade. vocês são filhas de Anna de Assis. ele queria refazer a sua vida com a mulher legítima. Exaustivamente. Ela nunca fez um lamento. morto tragicamente em duelo com o seu marido. até cruzar as pernas ou cumprimentar estranhos.

os seus esforços. mas as duas . Todos os filhos de Anna disputavam uma única bicicleta e aquela ordem da mãe significou para Judith a tranqüilidade de grandes voltas sem confrontos e disputas com os irmãos. E chamou Judith . Não vou levar a Judith. tratava-se de um hábito de turistas e de moradores. As viagens mensais constituíam grande alegria para a menina Judith. e ela se lembrou de que os três apitos de partida aconteciam num intervalo mínimo. Não era por amor. a nós. Enveredou para o lado do ancoradouro e pedalou enfurecida. vá passear de bicicleta agora de manhã e volte para o almoço. bem Feito. Conseguiram ainda uma infância normal. adquirindo o necessário para a vida em Paquetá. já naquela época. ouviu os gritos alegres e brincalhões dos irmãos: . principalmente. E. antes mesmo de estacionar o seu veículo. No entanto. 134 Judith nem desceu da bicicleta. satisfeita. saudável e que. A preocupação básica de Anna de Assis naquela época era conseguir recursos para manter sua mesa farta e propiciar aos filhos um conforto ao qual se acostumaram quando permaneciam sob a proteção paterna. passeando pelas ruas e caminhos da ilha.Minha Filha. Vou na barca das dez horas e volto na barca de retorno. Mãe e filhos estabeleceram uma rotina de vida em Paquetá e anos depois relembrariam aquele período com certa saudade e satisfação. Lá estava Judith passeando e abrindo sorrisos para as companheiras com as quais cruzava. No meio do caminho ouviu o primeiro apito de aviso. os seus filhos. Depois que eu sair. Anna de Assis pôde oferecer à família. em Paquetá. Era costume trazer Judith em sua companhia nas viagens. pois além dos sorvetes e lanches. O sol forte do verão carioca não incomodava a menina saudável e cheia de energia. sem as pressões de uma sociedade ávida por estigmatizar crianças e condenar inocentes. percorriam o comércio. E ela saiu. Frases revanchistas e normais de crianças. serviu para unir os irmãos. para forçar a volta dela. Dá tempo de receber o pagamento e voltar. Bem Feito. Redobrou a pressa. uma vida livre. Recebidos os seus proventos na pagadoria do Ministério. após a visita às lojas. vocês contam para ela que eu Fui. afora os sacrifícios de um isolamento e a falta de escola e estudos regulares para seus filhos.financeiro. ela sentia a satisfação de se tornar uma ajudante próxima da mãe e sua cúmplice nas preocupações e lides domésticas. sem dúvida. normalmente. Assim analiso tudo. como habitualmente?" A indagação bastou para ela dar meia-volta e regressar a sua casa. mensalmente. Certa manhã. autorizando a bicicleta só para ela? E por que os irmãos não reclamaram. no centro da cidade. pedalando bicicleta.Bem Feito. Anna de Assis tinha de viajar ao Rio de Janeiro. quando uma inoportuna preocupação fechou o seu semblante: "Por que mamãe foi tão parcial com ela naquela manhã. mãe e filha. feliz. Anna de Assis chamou os dois filhos mais velhos e comunicou: .Hoje tenho de ir ao Rio receber a pensão do papai. ele sacrificava. mamãe Foi para o Rio e não te levou. para receber a sua parte da pensão do marechal Solon Ribeiro. O passeio pela ilha de Paquetá. 133 Além da rotina de cozinhar e atender a seus fregueses de marmita.

no Flamengo. dessa forma. determinou a possibilidade de uma mudança definitiva para o Rio. Separada do marido e enfrentando dificuldades. Foram alugados dois quartos e a dona da pensão se tornou muito amiga de Anna de Assis. 20. Entusiasmaram-se com a cidade e não quiseram voltar para Paquetá. João. Era uma casa de dois quartos.provavelmente ela teve impaludismo . nunca deixou de lutar e pensar nos filhos. Eram treze ou quatorze anos de juventude. Os cinco filhos de Anna e Dilermando acompanharam a mãe por toda a sua vida. amor e companheirismo. Laura. 14. Foi alugada uma casa na Rua Barão da Torre. Adiou a ida ao Rio de Janeiro para o dia seguinte. 135 *** 28 Anna de Assis e filhos nunca viveram separados Anna de Assis viveu com os filhos em Paquetá até adoecer. Frederico. Toda a família veio para uma pensão na Rua 2 de Dezembro. 23 anos. lá estava Hidelbrando. Ainda aí. Duas palavras dignificam a memória da mulher Anna de Assis: mãe e amor. Anna de Assis desembarcou. que praticamente foi criado como filho por Anna de Assis. Dobrou a esquina e viu a barca se locomovendo. enviou um bilhete a Dilermando de Assis. Era exímia nadadora. A idade de cada um era: Luiz. A barca se afastava indiferente. somada ao montepio do marechal Solon. Brigou contra todos por seu amor e contra tudo lutou por seus filhos. Tenho cinco filhos que me adoram. tentando suprir. Pedalou e gritou: . o que a levou. Não desistiu. Enquanto Anna de Assis recuperava a saúde . O . 17. as carências de sua hospedaria. Foi nadando atrás da barca. Quando ela ouviu o terceiro e último aviso. e emocionou-se com aquela prova de amizade. muito humilde e desconfortável. no verso de uma fotografia da filha Judith. durante os últimos anos de sua existência.Mamãe. Procurou ajudá-la e atendia a todos com muita gentileza. suas lágrimas já eram várias e gritava "mamãe". constantemente afirmar: 136 . Assim se fez mulher e mãe. 18. então um bairro em formação. em meados de 1930. A menina chegou ao ancoradouro. E levou Judith.Sou a mulher mais feliz do mundo. Dilermando colaborava na vida financeira da família com uma pensão.os filhos tiveram oportunidade de conhecer o Rio de Janeiro.primeiras lágrimas de mágoa surgiram. Ele assistiu a toda a vida de luta dessa mulher e sempre a considerou como mãe. Mudou-se para o Rio. Primeiramente. posada de joelhos e rezando: Que sua súplica te dê luz para que vejas que todos precisam de instrução e que o tempo não está perdido para eles que são ainda muito crianças. que acolheu as três mulheres em um e os quatro rapazes no outro. E iria até o Rio se os gritos dos passageiros não obrigassem o barqueiro a girar e retornar ao ponto de partida. abraçou a filha molhada de mar e lágrimas. Judjth. E a ajuda. A certeza de uma mulher que sofreu muitas tragédias e desilusões. jogou a bicicleta para o lado e mergulhou na esteira da barca que levava sua mãe. seria apenas para tratamento de saúde. em Ipanema. Nessa época.

Primeiro. luta e vence contra todos os ventos. cidade mineira que nunca foi de difícil acesso ao Rio de Janeiro. a preguiça. Internou-o no Colégio Grambery. Chorava diariamente a ausência do filho caçula. Quando Luiz se encontrava empregado na marinha mercante e realizou algumas viagens. Uma frase que foi sempre importante para todos os filhos. E guardou com carinho a carta em que a mãe lhe escreveu a frase mais bonita de todas. É com os filhos que os pais velhinhos vão fazer seu ninho. a casa materna. Depois de seus inúmeros afazeres domésticos. Aprendesse urgentemente as leis da Aritmética e as regras do Português. merecendo a preferência. Mas isso é assunto para o último capítulo. É o caso do colégio em Juiz de Fora. Tratasse de recuperar o tempo perdido na ilha de Paquetá. o mau gênio e até contra os vícios e vence. Eles se fazem ilustres. Anna de Assis se postou na . O pai esforça-se. organizando-se para conviver diariamente com a mãe.pai luta com a instrução para seus filhos como o náufrago contra as ondas coléricas. As duas moças prosseguiram os seus estudos. era bastante comum os pais internarem os filhos em colégios. assustou-se com imprevistos. Se Anna chorava saudades. Luiz. tanto assim que conseguiram a fórmula de eternizá-la muito além de suas lembranças. mediante um pedido feito a Flores da Cunha. João empregou-se como escriturário na Caixa Econômica Federal. Ele sabia que sua obrigação era permanecer no colégio. Meus filhos hoje. na época em seu apogeu na política brasileira. já que no colégio interno obedecia-se a rígida disciplina voltada apenas para os deveres escolares. ela conseguiu colocação na Marinha Mercante. acompanhava-o cartas tão saudosas da mãe que ele retornou um dia ao cais de partida e tratou de providenciar um emprego em terra. Anna de Assis recomeçou sua vida no Rio. uma vez que. recolheu trocados e pagou passagem de trem. ainda com professores particulares. Na Rua Barão da Torre. O menino Frederico ignorou todas as determinações. Naquela época. A saudade da mãe foi maior. em Juiz de Fora. providenciou emprego para dois de seus filhos. no final do século anterior. Nunca tal separação de filho e mãe seria dramática e motivo de exacerbado desassossego. Certas escolas se destacavam e atraíam a atenção dos pais. Fugiu. em decorrência dos anos passados em Paquetá. Apenas o caçula. o meu nome é o de vocês. Quando o seu pai o deixou por lá. luta. Encarada mesmo como uma rotina familiar sem graves 137 questionamentos e como necessária para o melhor aproveitamento estudantil do adolescente. A separação de pais e filhos era normal em época escolar. relicário de suas ilusões da vida passada. Pois outro não era o proceder de Anna de Assis. Frederico. Da mesma forma. Porque o presente é presente. estudar e cumprir suas tarefas escolares. o mesmo se dava com o filho Frederico em Juiz de Fora. não apresentavam currículo escolar para freqüentar colégios. permanecia em tempo de estudar. Laura etc. bate-se com todos os inimigos dos filhos. Para Luiz. vão terminar seus dias. Lamuriava-se e reclamava de forma a parecer que seria eternamente infeliz se não tivesse o filho em sua casa. Eu sou o pai do dr. então aos 14 anos. Era amigo de Anna de Assis desde o tempo em que freqüentava com assiduidade a casa do marechal Solon Ribeiro. Luiz e João estavam em idade de trabalhar. Eis uma verdade na vida de Anna de Assis: ela jamais suportou viver longe dos filhos. as recomendações foram severas e militares. Dilermando de Assis se propôs a pagar colégio para o menino Frederico. da dra. os filhos não viviam longe da mãe. Sim. mas sabia o seu destino: Rua Barão da Torre. Saiu de Juiz de Fora de carona.

para ela. estou com tanta saudade do Frederico que até tenho uma visão. orientou o seu filho para vingar a morte do pai. RJ. sobre Nestor. ainda era um bairro pequeno. sou eu. Sônia. e quero no dia de meu aniversário. Na sua primeira neta e de papai. O meu irmão Afonsinho . comigo e meus irmãos. Foi Nestor da Cunha. Acho que estou tendo uma visão.o menino dizia. não muito distante do mar. Meninos e meninas corriam e gritavam e para Anna faltava ali o seu Frederico. numa certa época. Manoel Afonso.conta Judith. As portas se fecharam 138 e todas as crianças desapareceram. Ele jamais deixou de repelir falsos protetores. segurando a minha mão. Ana Maria e Tânia. Olha ele ali. Estava ao meu lado quando nasceram meus quatro filhos: Solon. As crianças da Rua Barão da Torre brincavam pelo pátio da vila. se propôs a custear os estudos de um dos irmãos. espera o dia dezoito. Tanto assim que. que. ele pouco nos visitou. minha filha. Sônia. paradinho. Logo que se viu separada do marido e passando por dificuldades financeiras. E seu desejo foi satisfeito.A dedicação de minha mãe aos filhos durou por toda a sua vida . Se Quidinho tentou matar Dilermando de Assis. Anna de Assis agradeceu a boa vontade e a preocupação do seu filho Manoel Afonso para com os irmãos e argumentou que não aceitaria a ausência de nenhum deles. Anna de Assis várias vezes confirmou à filha Judith que foi o tio do rapaz. os mesmos que constantemente providenciaram para que a morte de Euclides da Cunha fosse um estigma aguardando vingança. Afonsinho.Sou eu. foi . vivendo em Cordeiro ou Rio.Estou morrendo de saudades do Frederico. além de armar. Ipanema. muito silêncio e paz. mamãe. Enquanto Anna de Assis se dedicava aos cinco filhos com Dilermando. 139 *** 29 Manoel Afonso: um filho e irmão preocupado A ausência de um filho foi problema para Anna de Assis sempre. foi curioso.diz Judith . residindo em Cordeiro.comentou muitas vezes. Lá mesmo em Cordeiro ou no Rio. Foi mais um gesto de Manoel Afonso que exemplifica como sempre esteve ao lado da mãe. instigando e armando Quidinho. no portão da vila. Nestor da Cunha. Morava numa rua de vila. E um dia em que apareceu por lá. Até que anoiteceu e os pais ordenaram que todos se recolhessem.janela de sua residência e admirava o entardecer carioca. que se tornou um perseguidor implacável de Dilermando de Assis. Comecei a sentir as dores de parto na noite de dezessete de junho e mamãe. Sônia nasceu aos quinze minutos do dia dezoito. quero uma neta. . O Quidinho foi instigado a vingar o pai. E ele também. . recolhida em seu isolamento da ilha de Paquetá. . o Frederico . isso não significava que Manoel Afonso vivesse totalmente afastado da mãe ou nutrisse por ela e por sua nova família alguma espécie de aversão. de repente. constantemente era recriminado pela 140 família de Euclides por freqüentar a nossa casa. Não há dúvida de que se viu induzido a atirar no padrasto. não foi por vontade própria. Anna continuou olhando a noite e.Esteve sempre presente. se lamentou: . pedia: espera só mais um pouquinho. ouvindo a mãe reclamar de uma visão. na década de 1930.

Pelo contrário. como se dava o relacionamento do último filho de Euclides da Cunha. mas por uma eventualidade perdi-o. querendo assumir a educação de um de nós. creio que Norma puxou o talento do avô. Sim. pois sou pobre e se não trabalhar estou perdido. para assim eu poder avivar as minhas saudades. Muitas de suas cartas para mamãe podem provar isto. devido a grandes afazeres que tenho tido nestes últimos tempos. revelam também. Seria para um revanchismo também? Afinal. E quando ele percebeu aquele nosso medo. O intuito é apenas evidenciar que este filho do escritor jamais imaginou repetir o gesto insano do irmão ao tentar assassinar Dilermando de Assis. manteve até a sua morte um convívio amigável e de irmão para com os filhos do padrasto. junto ao monumento de papai e ela fica satisfeita batendo palmas e chamando vovô. já foi duas vezes ao médico e com os remédios que está tomando tem estado numa dieta de mingau e leite há quase um mês. Albertina. apesar de há muito ter vontade de dar notícias minhas. o ideal de brincadeira dela é um lápis. vovô. Cordeiro. o nosso temor de que acontecesse algo. mas por hora sou obrigado a ir agüentando estas saudades até um dia eu poder ir ao Rio a fim de lhe abraçar. posteriormente. Espero carta sua breve. papel e um livro e sempre dizendo que será 141 uma escritora igual ao avô. Ele viu o medo da própria mãe de que se repetissem cenas trágicas. quando passávamos por privações. trabalhando feito um leão para dar o conforto a minha família. o encargo é muito grande e tenho que trabalhar muito para dar conta. por si próprias. sempre sinto falta dos teus carinhos e das tuas rabugices e esta falta me corta o coração de saudades. mas vou expor as minhas razões. pois é uma menina muito viva e só quer estar cercada de livros. o que felizmente veio. após a separação da mamãe e papai. Cunha . creio também que será uma inteligência igual a Norminha. Mas desta vez ele nos acalmou e. E o gesto dele. não precisam temer nada. A Elieth com seis meses e pouco já está gatinhando e muito viva. 28 de junho de 1927 Minha sempre lembrada mãe. Há tempos tinha eu o seu endereço. graças ao bom Deus. coitada tem estado bastante doente. em 1923. Mamãe peço que a senhora me escreva sempre. Não me foi possível como era o meu desejo de responder com a máxima brevidade a carta que a senhora me escreveu. Foi um sobressalto.um rebuliço. As cartas de Manoel Afonso. Lembranças de todos e no mais receba um beijo do filho amigo que lhe pede a sagrada bênção. Eu. quem me dera poder lhe abraçar e passar umas horas perto da senhora revivendo as saudades. sua mãe e irmãos. Sei que estou nesta falta gravíssima para com a senhora. transcritas a seguir. esperei uma carta sua em que viesse novamente a direção. eu venho em paz. fiquei assim impossibilitado de escrever. eu não vou criar outra tragédia. política etc. porque ninguém sabia se ele ia realmente em paz. repetir o gesto desesperado do irmão mais velho. para o bem. Ele disse exatamente assim. aos domingos levo ela a Cantagalo. aliás bem ponderadas para que minha querida mamãe me perdoe desta falta. tornou-se amigo de todos e provou o seu desvelo para com a mãe. vou indo bem. é o testemunho de sua preocupação. As notícias que posso dar dos meus é a seguinte: as suas netinhas Norma e Eliet vão indo muito bem. ou se ia para dar um tiro. mas também não pude de pronto lhe responder esta carta. ele disse. E este encontro acontecia logo após o nosso regresso de Bagé. além de expor como ele vivia ao lado da mulher e filhas. ele ficou aqui no Rio com a família de Euclides da Cunha.

O filho amigo Cunha. entro a hora que quero e saio também a hora que me apetece. Vou terminar pedindo que abraces todos os nossos irmãos por mim e no mais aceite muitos abraços e beijos do teu irmão Cunha. me escreva sempre sim? Lembranças a todos e saudades e abraços do seu filho que te pede a bênção. é preciso ires estudando cada vez mais. a única 142 amiga e conselheira deste mundo para mim. A consolação que tenho é que ainda tenho a minha mãe. vá. ficaram na encolha. Estou completamente arrependido da vida de casado. para mostrar que não me deixo levar assim na sopa. eles compreenderam que comigo não levavam vantagem. eu estou gostando do teu adiantamento. porque estava muito triste devido a falta que cometi com você no dia que telefonei aí para casa. porque tenho estado um pouco adoentado. resolvi que já estava farto dos ciúmes de Albertina. que veio encher-me de bastante contentamento. então responderei à carta dela domingo. eles pretendiam pôr a canga em cima de mim. e estranhei muito. mas não. não temos mais ciúmes em casa. a Normínha é o teu retrato. nunca procuro fazer mal a ninguém. a senhora tem boas amizades por conseguinte por intermédio seu podia me arranjar aí no Rio uma colocação de uns quinhentos mil réis por mês porque eu não tenho mais vontade de ficar aqui em Cordeiro. quem te viu em criança é olhar para a Norma. agora vivemos assim: eu não ponho os pés na casa deles e nem tampouco eles na minha. porque eu não me deixo levar na sopa. pensei que estavas zangada comigo. A mamãe como vai? Dê muitos beijos por mim nela sim? Quero sempre saber como vai de estudo. e eu também fiquei. não posso de pronto marcar o dia que posso ir aí ter a satisfação de lhe abraçar e passar uns dias junto da senhora para assim poder matar as minhas saudades. porque tenho lhe escrito inúmeras vezes sem ter algo de sua resposta e como é que por sua vez a senhora também me escreve dizendo que não recebe carta minha? Acho que isto é simplesmente relaxamento do correio. . e olha. Abraços Li e reli a tua prezada cartinha. já vê que não preciso dizer que ela é bonita. eu queria lhe pedir um grande favor. como o Luiz teve ocasião de ver quando esteve aqui. por conseguinte fiz acabar com isso. Breve mandarei o retrato das tuas sobrinhas. Quando que for ao Rio vou trazer você e a Laura para passarem uns dias comigo aqui em Cordeiro. Eu sou tão bom para todo o mundo. Agora a coisa está outra em casa. agora imagina você o meu contentamento quando comecei a ler a tua carta. e foi sopa. um assassino. já escreve bem. Norma e Eliet enviam-te muitos beijos. se eu fosse um bandido. pois estou completamente incompatibilizado com o meu sogro e a minha sogra. Tens ido muito ao cinema? Eu hoje à noite vou assistir à fita Miguel Strogof que é um assombro. Mamãe. Minha boa irmã Judith. não sei por que tenho esta sina tão triste de ser infeliz. pelo contrário. Mamãe. Albertina. Diga à Laura que não escrevo agora para ela porque a Albertina também vai escrever.. As tuas sobrinhas estão todas boas. Minha mãe. Albertina também vai te escrever. mas como eu não vou para esta fita. eu estrilei. a única coisa que me prende são as minhas duas Filhas que amo-as como um louco. se bem que eles nunca gostaram de mim. é só eu regularizar a minha vida. O bastante e dei uns coices para trás.Minha sempre lembrada mãe Saudades Ontem recebi a sua carta..

Quero falar da vida de meu pai com a minha mãe. Ficamos lá durante quinze dias. Mamãe se trancava no quarto. Suas vindas à nossa casa eram dramáticas. muita agressividade. já que em junho de 1932. Quero dar o meu testemunho da vida desta mulher que viveu muitos anos apaixonada por aquele homem que mudou a sua vida. infelizmente. também muito amei. acompanhada de meu noivo. Mécio. A palavra "agora" explicou o seu comportamento depois deste ano. Ele disse a Mécio que várias vezes seu tio Nestor dizia a ele para vingar as mortes do irmão e do pai. onde residia e era membro da diretoria do Colégio Modelo. passou por várias tragédias. Lá fui. pois às vezes me confessava que continuava apaixonadíssima pelo meu pai. a mamãe vai ficar sem uma filha. Foi o que ele disse. E mamãe repelindo todos os seus assédios. vamos deduzir: se ele procedia assim com Afonsinho. Sou mulher. depois a Laura se casa. . Antes. Eu que o diga. ouvi Afonsinho comentar que seus tios tentaram fazer com que ele vingasse a morte do pai.verdadeiro culpado da morte do rapaz? 143 *** 30 Anna e Dilermando não se viram durante anos Judith casou-se com Mécio de Andrade em 19 de setembro de 1932. que foi viúva de Euclides da Cunha.Esta nossa casa era melhor. os filhos se vão. O meu noivo ficou num hotel e eu e meu irmão nos hospedamos na casa de Afonsínho. por pouco tempo. Muito tempo depois é que fui perceber a razão da resposta. através de muita pressão. são fatos que não me interessam. muita atenção e carinho. No dia de meu casamento. e ele respondia que jamais o faria. com ela teve uma filha. Quando fiquei noiva. ele tentou a reconciliação. e meu irmão João. o . até mesmo de formas violentas. Daí. Foi quando lhe pedi: "Papai. residia com a mãe e irmãos na Rua Barão de Jaguaribe. ela vai ficar só. Vimos até cenas violentas. ele me convidou para passar uma temporada em Friburgo. tinha inclusive dois andares. O fato dele ter se apaixonado por outra mulher. é uma união que 144 . por que você não volta para casa? Será que não é possível?" Ele disse: "agora é tarde". Se depois ele se apaixonou por outra mulher. Com uma força de vontade brutal.Pela leitura das cartas e pelo comportamento de Afonsinho para com os irmãos. E posso também afirmar que o meu pai tem motivos para ser venerado e respeitado por seus filhos. sendo portanto. Tudo dentro de um entendimento perfeito. preciso mostrar como criou e educou cinco filhos e um sobrinho. Ele tentando arrombar a porta para falar com ela. Isto não quero esquecer. Afonsinho faleceu. mas nunca vi uma paixão igual. vou sair de casa. Judith revela: . Quero falar das condições de vida da minha mãe. eu vou ser a primeira a casar. com ela ter uma filha. encontrei-me com papai que subia para me buscar. Na época. como sempre foi adorada e amada por todas estas seis pessoas e seus descendentes. não procedeu igualmente com Quidinho.Mesmo quando eu já era moça. Ele revelou o mesmo também ao meu primeiro marido. Havia nascido a sua filha em abril daquele ano. Ele e Mécio ficaram muito amigos e se corresponderam depois. quando vinha descendo a escada. deduz-se que ele superou a campanha dos familiares de Euclides que tentaram induzi-lo a uma vingança. não o recebia.

10/IV/935 Meus queridos filhos Saudades. o militar Dilermando de Assis se viu impedido pelo Exército de conceder entrevistas e se defender das muitas calúnias com . Temos direito é de sermos felizes e lutarmos por isto. Como me senti feliz nesses sete dias! Foi uma semana santa que Deus me ofertou com o bondoso auxílio de vocês. sendo que então posso acreditar que além de uma vida amorosa tumultuada tenha havido também a influência dos momentos difíceis passados na revolução de 24. temos de ver a sua memória limpa de falsidades. a murmurarem: Mé cio! Judith! Não em uma floresta. ela esteve pela primeira vez com Dilermando de Assis. Ali no Imbuhi eu pedi ás almas de Pery e Cecy. Eles.escreveu uma linha de sua história que se completa com uma determinação invulgar. No dia do casamento de Judith.merece o nosso respeito e está acima de qualquer julgamento. tive filhos. ou como um homem carinhoso e pai dedicado em outro. de seus netos. Anna e Dilermando não se viram durante 18 anos. separar-se. casei-me depois com Ivan. Aqui cheguei com um atraso de duas horas. Só que diante de tudo que a minha mãe passou para viver com ele. porém dentro de um lar feliz a ouvirem o rir dos queridos filhinhos. Ninguém pode e deve julgar ninguém. o que é perfeitamente humano. após seis anos de separação. E em soluços íntimos. Minha mãe só se preocupava com a felicidade de seus filhos.B. é perfeitamente normal. preocupada com o nosso futuro. Casei-me a primeira vez com Mécio. o exemplo do amor. eu agradecia a Deus a tua união com o Mécio. O fato de amar uma vez. assim como deste pedaço de céu caído a nossos pés.Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar . Mas acredito que meu pai tenha se apaixonado pela segunda vez. E novo encontro se daria apenas em julho de 1950. E para sermos completamente felizes. As cascatas confundiam-se com as minhas lágrimas de gratidão que sIlenciosas enfileiravam-se gota a gota em meu coração. no que se refere a obrigações financeiras em determinado momento. porém sem novidades graças a Deus. 146 *** 31 Inquérito.) Mil beijinhos no Solon 145 Quando Anna de Assis disse . Eis o que deseja esta velha mãe que os abençoa. se casar. Como vai o meu Solon? Muitas saudades tenho tido de vocês. Rio. S'Anninha (N. tem um pedido meu de paz e felicidades para vocês. sempre e sempre bem unidinhos. Isto. Só lamento as ocasiões em que ele faltou para com os seus deveres de pai e para com as suas obrigações de marido. ainda murmuram no balanço das folhas e no cair das águas esses dois nomes: Pery! Cecy! Assim eu quero vocês. Veja a carta tão bonita que me enviou. em 1932. imprensa e livros escreveram os equívocos sobre a morte de Euclides da Cunha Durante anos. ela tinha razões de sobra para afirmar a ele que era o único homem que não tinha o direito de prevaricar. que os abençoasse. Em cada canto deste florestão.

. com que Dinorah estava vestido. Em resumo. Apenas contribuiu para consolidar ficções em torno da morte do famoso escritor. Seu relatório não 147 pode servir de base a qualquer juízo honesto e seguro que se pretenda fazer sobre as verdadeiras ocorrências que levaram á morte o escritor Euclides da Cunha. dando com o pé. Ao chegar à Piedade. transcrevemos as declarações de Dilermando de Assis quando trata do assunto: . foi "barbaramente assassinado. pela ignorância e pela má fé. Então.. de autoria de Elói Pontes. Para que esse livro não seja consultado e sirva para reviver falsidades e enganos surgidos pelas mãos de um incompetente delegado de polícia. Efetivamente. fora aí para matar ou morrer. Dilermando de Assis reproduziu sua entrevista à Diretrizes após uma revisão e pequenos acertos. abriu a porta do quarto de seu irmão. afirmado.. porém.as quais era perseguido. Vai à casa de parentes para armar-se de um revólver embalado. que nada há que prove a veracidade dessa atitude do saudoso escritor. tendo entrado na sala. Elói Pontes quem se presta a veicular essas inconsistências. Uma Obra. disparando sobre este o primeiro tiro. eu e meu irmão Dinorah. à procura de minha residência. de forma a elucidar melhor. primou pela falsidade e pela mentira. Aquele "saudoso escrítor" acima citado. Segue de trem para Piedade. atravessando a sala. achava-se chamuscada de pólvora e traspassada por bala no braço . o delegado não conhecia nem de nome. em 1946. a túnica branca.. Entra em minha casa armado e fere-me sem reação imediata de minha parte. Depois de tudo isto. Euclides era deputado. Andou muito mal o sr.] prosseguindo afirma o aspirante (Dinorah) que o dr. em 6-1-1941. O dr. o delegado escreve: "nada há que prove a veracidade dessa atitude do saudoso escritor. Euclides." É o sr. Atira e fere pelas costas o meu irmão Dinorah. Elói Pontes transcrevendo as sandices e as calúnias nele con tidas. o sr. perguntou "se o dr. disse." O delegado Oliveira Alcântara em todo o inquérito. constituiu-se um importante documento. de passagem.. Uma Obra: [. Uma Vida. Consta do livro de Elói Pontes um trecho que foi destacado por Dilermando de Assis em Um Nome. Uma Vida. nervoso. Dinorah agarrou-se com o dr. Elói Pontes transcreve o seguinte: "[. Euclides da Cunha. principalmente.É lamentável que um escritor tenha perpetuado numa "coleção de documentos brasileiros" as inescrupulosas informações de um delegado de polícia mentiroso e sem brio. A entrevista de Dilermando de Assis a Francisco de Assis Barbosa à revista Diretrizes." E somos.. Seja. ocorrências ligadas a 15 de agosto de 1909. dirigiu-se para o corredor e. 'detonando a quinta cápsula "com o intuito de tentar um possível cartucho de revólver etc. Um Nome. Euclides. os principais protagonistas da tragédía. edição da José Olympio Editora. conclui-se daí. que disparou contra ele dois tiros. Foi uma atitude absurda e inexplicável. segundo as declarações de Dinorah. Euclides cogita de pôr tudo em "pratos limpos" desde a véspera. Alguns trechos serão reproduzidos a seguir. Á página 291." Seu relatório está cheio de tolices assim: "à altura de 50 ctms. do qual nos valemos em algumas oportunidades para esclarecer acontecimentos da vida de Anna de Assis. E Euclides. a medir de baixo para cima" como se de címa para baixo a medida não fosse a mesma: "quando Euclides e Dinorah" monologavam "na sala. Ressaltamos que a reportagem em Diretrizes foi motivada pela publicação do livro A Vida Dramática de Euclides da Cunha. já de revólver em punho. Ao publicar o seu livro..

na defesa da minha. E por que. lhe daria eu um tiro no quadril direito. não podendo porém. apresentava "pela frente " sem que esses projéteis tivessem trans fixado a porta do quarto. Euclides. Euclides porque este estava agarrado com Dinorah. na coluna vertebral se eu estivesse já armado e em condições de o alvejar lívremente? Dinorah continuaria a "cobri-lo todo"? Haverá quem de boa fé aceite esta cantilena? 148 Quem poderá fazer a descrição exata do que se passou.. constata-se que. constatado tudo isto.. tem alguém o direito de dizer que Dinorah foi um "bárbaro assassino"? E o que me cumpria fazer neste caso. que é o primeiro. terminada a luta. sobre o bolso do lado direito. do que se resolveu praticar? Com que direito Euclides procurava assassinar Dinorah pelas costas quando este corria . que. adiante do quarto de Dinorah.para o seu quarto? Então. encaminhando-se para a porta do quarto do aspirante do Exército. pelo menos a cabeça e o braço de fora. O trecho é a transcrição do relatório do delegado Oliveira Alcântara. Euclides e correu para o seu quarto. o dr. uma vez que meu irmão não tinha responsabilidade alguma pela situação. O dr. se é que queria matá-lo? Um "bárbaro assassino" não poupa assim sua "vítima" Por . alvejar o di-. o aspirante do Exército (Dilermando) correu a uma prateleira sobre a qual estava o seu grande revólver de calibre trinta e oito (no livro do sr. já então só. que é o contíguo. do centro do quarto (veja bem: "do centro do quarto") o alvejava pela meia porta aberta. seria preciso que eu chegasse à porta e colocasse. comentando-a: ao mesmo tempo que via Dinorah fechar após si a porta do aposento. feri -lo com outro tiro.e na cintura.o delegado infame é que informa tal coisa . se estava de costas para mim. sendo nesta ocasião ferido pelas costas. em frente à qual recebeu o segundo tiro. Dinorah conseguiu livrar-se do dr. no meio do corredor. que o atingiu no pulso. O laudo da autópsia descreve todos os ferimentos de Euclides como recebidos de frente. Dilermando observa: Medite um instante. Euclides. estando eu no "centro do quarto"? Veja-se a planta da casa. do que se pensou. para alvejar Euclides. vendo em risco a vida de meu irmão. ouviu o primeiro tiro de revólver de Dilermando.Já o projétil foi encravar-se no quadril direito do dr. que foi travada no corredor. e do seu irmão. colocado no corredor. Continuando a leitura: . sendo que o corpo deste o cobria todo. enfrentava um louco armado de revólver que queria me matar? Não me assistia o direito de matar Euclides. entre a porta do quarto de Dilermando. Elói está oitenta)." A mentira é fácil de destruir. e constate-se o absurdo. cujo forro rasgou em ângulo ao sair. Nestas condições. voltou-se. ferido. Como podia Euclides voltar-me as costas perseguindo Dinorah. repito. que. Entretanto. em vez de o dar na cabeça ou no tronco. como poderia ter sido ferido no quadril direito." Pelo exame da planta da casa. muito menos pelo fato de sua esposa ter ido abrigar-se em minha casa? E as demais vidas que só a mim cumpria defender? Dilermando destacou outra parte do relatório policial. Euclides. Durante esta luta. pelas costas. apesar dos quatro ferimentos de bala que. sendo impossível apontar do "centro do quarto" Mas eu tinha que passar por um covarde.

então? Dilermando de Assis responde às suas próprias perguntas: 149 Para o delegado. um direito que eu exercia. quando se trata da minha atuação. aonde teria ido ter o projétil? Teria ferido Euclides? Teria eu errado a pontaria? Teria sido de tal natureza que nenhuma testemunha nem os exames periciais a ele se referiram? Nesse momento. o que é mais acreditável. encravando-se uma bala na fechadura da porta que dá acesso da sala de visitas para o corredor. Aí termina o relatório policial. ou com o intuito de tentar um possível cartucho de revólver. cachorro. os quais atravessaram-na.. Se se voltasse.que. Assim o autorizam o Código Penal e a jurisprudência de todo o mundo. admitamos que verdadeiro. é preciso admitir também que para mim continuaria a iminência do perigo. Sem munição. deixando o quarto. que quererá dizer "com o intuito de tentar um possível cartucho de revólver"? É impossível explicar. através da mesma (como se eu pudesse ver através de corpos opacos) disparou o terceiro e o quarto tiros. o dr. Dilermando. Não esclareceu como Euclides pôde disparar mais dois tiros. Antes de mais nada. Elói Pontes. Euclides no braço. disparando o tiro que o fez cair mortalmente ferido. que o atingiu no pulso"? Que teria feito Euclides e em que posição estaria ele para que eu lhe pudesse dar o segundo tiro nas circunstâncias verificadas pela autópsia? Por que o projétil não atravessou também a porta? Como fui eu ferido. Era.. defendia a minha própria dignidade. ou. dentro de minha casa invadida por um desvairado. pois. não se esmiuçam os acontecimentos em seus detalhes? Por que se diz simplesmente "em frente à qual recebeu o segundo tiro. é . detonando a quinta cápsula (si c) de sua arma ao mesmo tempo que proferia: . não diz quando já me acertara. Euclides. E admitir-se que Euclides se houvesse voltado. quando o perseguidor chegou a essa porta. atrás da qual esqueceu que ma havia "entrincheirado". por não poder adivinhar até aonde levaria ele o seu propósito homicida. nem onde. então. o infortunado escritor voltou-se de peito a descoberto para o seu perseguidor. uma vez que fui o agredido e defendia o meu lar. simplesmente por ter recebido um insulto. Ele desceu precipitadamente os três degraus da porta de saída e já estava no pequeno jardim da frente. defendia a vida de terceiros. Comenta: É o caso de perguntar-se. Voltar-se. ferido no amor próprio pelo insulto. se entríncheirara atrás da outra meia porta cerrada do quarto. mesmo que não tivesse essa intenção. e. a outra na parede da sala. Um desses projéteis ainda feriu o dr. frutos da fantasia e da indignidade . Volta ao relatório: Já então Dilermando. transcrito quase que na íntegra e sem comentário pelo sr.pede Dilermando em seu livro. assistia-me o direito de matá-lo. se assim de fato 150 houvesse procedido. e este o alvejou mais firmemente do alto para baixo. contra quem Euclides disparara mais dois tiros. não explicou como fui ferido sem que as balas atravessassem a porta. quis sair para a rua. depois de estar fora da casa. tudo ficou em branca nuvem. perseguiu-o. Analisemos detidamente essas tristes conclusões.Espera.

e comentam acontecimentos do dia. saindo à sua procura para desfeiteá-lo. Dilermando de Assis. 152 Dilermando se mantém a certa distância do grupo. Mas. E também. A palestra se torna agitada. Dias antes do trágico 15 de agosto de 1909. entretanto. compreendendo ser ele a causa da confusão. Figuras conhecidas. Perduraram. sob o título A Tragédia da Piedade. eminentes políticos. Também nunca foram campeões de tiro. E como se explica. que deixava o Teatro Lírico. aglomerando-se no largo. e se falam. Euclides da Cunha caminha pelo largo da Carioca. De repente. ela com os seus 34 anos. no meio do povo. ao lado de Dilermando de Assis. estabelecendo um alvoroço alegre. Anna de Assis cruza o largo da Carioca.. no centro do Rio de Janeiro. o público vai deixando o local. Está acompanhada pelos seus filhos Solon e Luiz. a alta sociedade da capital da República passeiam pelo largo. retira-se do local para evitar outros dissabores a Anna e Solon. É quase meia-noite. Encerra-se o espetáculo no Teatro Lírico. indiferente a julgamentos e interpretações maliciosas. avista no meio da multidão a sua mulher. Mas que houvesse caído imediatamente. O delegando nunca estudou balística. obrigando Dilermando a se afastar. Mais tarde. O relatório policial transcrito em A Vida Dramática de Euclides da Cunha é o mesmo que surgiu nos jornais de 1909. intelectuais e artistas. agora. no mesmo lugar. essa minha coragem de enfrentá-lo de peito descoberto. .. 151 *** 32 Anna. como nas casas balísticas. estaria contribuindo para o esquecimento de aspectos nada agradáveis de atos praticados pelo escritor em momentos de insanidade. não o encontrou. e Dilermando. também a descoberto? Não seria o caso de "entrincheirar-me" novamente atrás de uma porta? Por que essa afirmativa de "peito descoberto"? Para pôr em foco e realçar a coragem do "infortunado escritor"? Por que escrever "e este o alvejou mais firmemente do alto para baixo"? Acaso será mais segura a pontaria que se faz de cima para baixo? As melhores linhas de tiro. reduzindo constantemente Dilermando de Assis a assassino e Anna de Assis a uma adúltera vulgar.. Tão apaixonados um pelo outro que somente as cartas e os depoimentos divulgados neste livro podem mostrar agora o grau de intensidade. Dilermando e filhos: condenados por mentiras e vinganças Se quem desejasse escrever sobre Euclides da Cunha cuidasse de apenas analisar o seu talento literário e não se preocupasse em encontrar um culpado ou culpados pela sua morte. Um passa ao lado do outro. Elói Pontes também. Euclides da Cunha encaminha-se para o lado da mulher. da noite. Independentemente de qualquer possível comentário. ele com os seus 21.possível imaginar. da época. as falsas acusações e lembranças equivocadas. até que percebe Euclides se alterar com a mulher e o filho mais velho. sabendo-se que seu ferimento mortal foi no pulmão. encontram-se. são as horizontais. O sr.. uma animação maior. Dilermando saberia que Euclides abandonou a mulher e filhos. num momento de grande animação. é ainda menos provável. mas Euclides sequer toma conhecimento da presença do rapaz.

por isto recebeu o ferimento no flanco direito que ficava mais exposto. fornece esclarecimentos para rebater a acusação de que assassinou 153 Euclides da Cunha . Euclides deixa a residência da sogra. informando: "Somente hoje deixei de acordar com febre"." No capítulo 10 desse livro. na porta do corredor. base para muitas notícias biográficas sobre o autor de Os Sertões: A verdade é bem outra. Seu flanco esquerdo apoiava-se à parede e. Colocado este na vertical. aprendeu a admirar-lhe exatamente a grandeza de espírito e caráter. Euclides da Cunha estava ciente havia longo tempo. 13. pois. em série. o do sexto tiro. próximo a meu quarto. em São Cristóvão. Na sexta-feira." Só mesmo a ignorância procuraria no zigue-zague dos projéteis de arma de fogo nos tecidos orgânicos. ter eu disparado quando cheguei à porta da sala. esmaga-me. porque o revólver continha só seis balas. o 'causa mortis Dos cinco restantes foram encontrados os impactos nas paredes do corredor e da sala de visitas. Luiz nasceu. Destes. Pela quase eqüidistância desses vestígios. Quando ele recebeu esse ferimento mortal. a trajetória interior poderia parecer o prolongamento de um tiro feito de cima para baixo. mesmo porque nesse momento Euclides já havia caído. Na mesma carta. na vertical. Dilermando de Assis descreve como se deu o seu encontro com o escritor na manhã de domingo. em carta ao seu cunhado Otaviano. na casa de dona Túlia. discute com a mulher.acusação expressa principalmente no inquérito policial. mas jamais julgou que seu marido tomasse uma atitude violenta. em parte. É conhecidíssimo o capricho de tais trajetórias. Em seus muitos anos de convívio. Meu revólver foi apreendido contendo seis estojos vazios em suas câmaras. exatamente seis meses após o seu regresso do Acre. Os pronunciamentos confusos e exacerbados de Euclides da Cunha deixaram Anna indecisa. portanto. julgando que não deveria permanecer ao seu lado e ao lado dos filhos. Euclides se recusava atendê-la e queria prosseguir um casamento acabado. E mais inacreditável ainda um sétimo tiro que o delegado diz ter sido o quinto e cujos efeitos não se tornaram conhecidos. em Copacabana. Mas o delegado Alcântara não queria e . E assim se explica. recuava encostado à parede. Euclides da Cunha escreve que S'Anninha é pessoa de toda a sua confiança e quer deixar transparecer que tudo corria bem. O disparo horizontal incidiu sobre seu corpo com um certo ângulo de inclinação relativamente à linha média do tronco. Em 12 de agosto ele chamava S'Anninha de "pessoa de toda a confiança". e ele mesmo o chamou de "espiga de milho no meio de um cafezal". a prova da inclinação e da direção das respectivas trajetórias antes de tocar o corpo humano. a invencionice de Euclides ter recebido um tiro de "cima para baixo. Ao mesmo tempo que quer a sua volta ao lar e a reconciliação. recusando-se a regressar à sua casa. Anna não cede aos argumentos do marido. É falso. Fiz. do corredor ao jardim.O que se passava entre Anna e Dilermando. e o foram de fato. Três dias antes de sua morte. declarando: "O espírito desta mulher suplanta-me. Anna reiterava sistematicamente o seu pedido de separação. seis disparos. tem-se a impressão perfeita de que os tiros foram sucessivos. Em outros trechos de sua entrevista à Diretrizes. alvejando-me ainda e com o busto inclinado para a frente. deplora sua atitude de adúltera indigna. aludia à sua "miséria orgânica". apenas um projétil ficou em seu corpo. estando o busto erecto. É inacreditável uma solução de continuidade entre o quinto e o sexto disparos. Mauro nasceu após uma gravidez normal.

não podia concluir de outra forma. Devo recordar. na qualidade de atacante e de assaltante do lar de Dilermando. na posição nobre dos nobres antigos que desertaram à vida. o alvo da admiração viva e desinteressada de quantos têm procurado. na qual eu demandava o primeiro degrau e Euclides da Cunha ultrapassava o último. dignos tão-só de desprezo. 154 Com o título "O Critério da Imprensa". Não lograra ser atendido porque. Eis seu artigo recusado: Desenrolou-se mais uma vez esse tremendo drama trágico. dada a alta valia de seu muito talento! Não. que lhe apresentara um artigo defendendo-me. Por ocasião do depoimento publicado em Diretrizes era juiz. foi ele pressuroso em lavar-se das infâmias que lhe imputaram. a campanha difamatória da imprensa e a máxima díferença social e cultural que nos colocava nos extremos de uma escada ascensional. Minha defesa jamais foi aceita pela imprensa. "ele matara Euclides da Cunha" . perquirindo-lhe os incidentes pretéritos e as causas preponderantemente fortes que atuaram para o abismo. Incessante e encarniçada tem sido a fúria com que a imprensa vem bordando. hoje Juiz de direito. tudo. tem ele sabido resistir altivo a toda crassa de insultos vis e insidiosos. infelizmente. declarou um jornalista a um amigo. Forçosamente havia de ser batido. tomou destaque a figura possante de Dilermando de Assis. mas a conseqüência fatal de três elementos que se ergueram contra mim: um delegado inescrupuloso. Deixemos de parte as qualidades personalíssimas de um e outro e encaremos o fato. Em guarda. à guísa de informação. devassar a sua alma enérgica. e com esse fim enviou cartas explicativas e verdadeiras aos jornais. tornando-se depois destacado ministro do Supremo Tribunal Federal. Nem que nos pague contos de réis". de amargura e de coragem. Achava-se por esse tempo o nosso ilustre escritor em . de tristeza e de altivez. Dilermando. ferido. "Contra o tenente Dilermando. atirado num quarto de hospital. Melhorando. Foi quando ouviu a resposta a qual Dilermando de Assis fez alusão em sua entrevista à Diretrizes. de maneira mais desleal e insincera. A consciência dos justos e dos sensatos não dirá o contrário. pela fatalidade cega. Álvaro Moutinho da Costa escreveu o artigo e tentou publicá-lo. esse moço digno de lástima mas também. aqui. E a de meus adversários há de reconhecer que ainda não sou um mentecapto nem um desfibrado. A quem quer que se interesse pela verdade em torno de um montão de afirmativas falsas sobre o caso. guardasse em seu ato uma imunidade superior e privilegiada. Alvaro Moutinho da Costa foi sempre um amigo íntimo de Dilermando de Assis e de sua família. que esse mesmo Oliveira Alcântara foi indiciado cúmplice do assassinato do capitão-de-fragata Lopes da Cruz à porta do Clube Naval. Minha situação não é o resultado de um crime sofri velmente arquitetado. O dr. feita de bondade e distinções. Álvaro Moutinho da Costa. A favor. os fatos até aqui ocorridos sobre essa tragédia. não só visando orientá-los como ainda estabelecendo o que havia de fato e não o que a maldade forjara. na intimidade da sua pessoa. maltratado.como se Euclides. nada. logo após a morte de Quidinho. Por ocasião da morte do saudoso escritor que foi Euclides da Cunha. responderei diante de documentos legítimos e irrefutáveis: a) que Dilermando entrou nas relações da família de Euclides da Cunha sem o conhecer. achou-se por dias impossibilitado de uma defesa diária pelos jornais daqui. em que.

o jornal A República mostrou vivo interesse em publicá-la.. contudo. defende a conservação da vida posta em perigo por uma agressão iminente? Todavia. Dilermando agoniza. b) que não existe grau algum de parentesco entre Dilermando e Euclides. e) que jamais Dilermando. respeitado e querido. como ainda que ninguém procurou evitar que o aspirante Euclides da Cunha Filho o alvejasse e porque a ação da polícia fosse tardia e conseqüentemente inútil. verificamos que Dilermando não pôde publicamente se defender. tomou interesse pela sua publicidade. a sociedade cospe ainda sobre esse corpo inanimado de homem que há sabido resistir à sorte fria e à maldade inconsciente dos homens. com o corpo crivado de balas e o coração de pai cortado de dor. g) que se percorrermos os jornais que datam da primeira tragédia. Anna... Dilermando repousa sobre um leito de hospital e a sua vida oscila como um pêndulo gasto entre parar e não parar. não só a sua pessoa. então. talvez. f) que ao mesmo tempo defendia da fúria inconsciente de um louco. e repórteres e redatores. 155 c) que agiu em defesa própria. se desrespeita a pessoa de um justo que agiu como talvez outros jamais agiriam. após feri-lo várias vezes. Em face do Exército onde é acatado. ele era atingido pelas balas do agressor e do outro não podía fugir.comissão longínqua. Solon e a de seu filho Luíz. Enviada à Gazeta de Notícias. Esta carta foi endereçada ao jornal A Tribuna onde recebeu o desacolhimento frio de sua redação.. desisti de meu intento. tripudiam sobre o seu corpo em busca do triunfo para o ganha-pão desonrado das colunas infamantes. ficou. Por que persistir no insulto aviltante e covarde se ele não se pode defender? Por que persistir. puro! d) que jamais Dilerman do foi protegido de Euclides. Cinco vezes alvejado. da mesma forma. como ainda a de d. procedeu ele da maneira mais honrosa e brilhante. Agora. o que não logrou conseguir porque os moldes em que fora firmada estavam em desacordo com a "digníssima" redação.. esse desventurado moço. Por fim. Álvaro Moutinho Campos. em perfeito estado de necessidade. decerto. esquecida entre os papéis inúteis. Fazendo jus á farda que veste e dando prova esplêndida de quanto é grande a coragem que lhe é peculiar. porém. de um lado. 156 Afinal. sacando outra vez a arma tentava ainda atingi-lo. se ninguém ignora que a lei garante o direito de ferir ou matar aquele. que agindo por um instinto reacionário natural. um senhor da redação. em seu leito mortuário. pela má vontade manifesta epela gentileza notável dos jornalistas de então! .. em face dos homens justos e retos. porquanto. como ainda patenteando as melhores qualidades que devem preponderar no oficial de cavalaria: a ação enérgica e imediata nas conjunturas mais dolorosas e difíceis que se lhe apresentem. trazendo na serenidade augusta de seus gestos a clareza viva de seu caráter Enquanto assim é. está publicamente provado ter agido. porque o fato de por estar fardado impunha a sua permanência no local.

Álvaro Martinho da Costa Rio, 6-08-1916 Não só Dilermando de Assis sofreu ataques e perseguições. Anna de Assis jamais foi esquecida pelos adoradores da obra euclidiana. E, pior, julgaram-na e condenaram-na como culpada da morte trágica do marido. Não se pode compreender de outra forma, a não ser como uma reiterada condenação, o sistemático envio de convites a Anna de Assis para os eventos em torno da figura de Euclides da Cunha. Ela morou na Rua Barão da Torre, Rua Barão de Jaguaribe, Rua dos Oitis, mas, em qualquer endereço de sua residência chegavam os convites para solenidades de homenagem a Euclides da Cunha. Todos os anos, principalmente no mês de agosto, ela era assim lembrada da morte do primeiro marido. Por que não a deixavam em paz? Os homens são torpes e mesquinhos. Juntam-se em grêmios e, anônimos, remetem convites. São José do Rio Pardo é mais uma cidade do mapa do Brasil que só entrou para a história por meio da ponte de Euclides da Cunha. E lá fundaram o pomposo Grêmio Euclides da Cunha, que durante anos teve como uma de suas finalidades atormentar a viúva Anna da Cunha, enviando-lhe singelos convites para eventos em homenagem ao autor de Os Sertões. A resposta nunca se alterou: - O meu silêncio é a minha defesa. Os ataques a Dilermando e a Anna sempre atingiram diretamente seus cinco filhos. O que nunca foi levado em consideração pelos fanáticos adoradores euclidianos. Algumas reuniões aconteceram entre Judith e irmãos para se discutir a elaboração deste livro. Num encontro, entre Judith, Laura e Frederico, com a presença do escritor, ocorre o diálogo: - Agosto sempre foi um mês indesejado - comenta Judith. - Durante toda a minha vida - conta Laura - quando olhava para a igrejinha do outeiro da Glória e a via iluminada, eu pensava: aí, meu Deus, está chegando quinze de agosto. Ao alto do outeiro da Glória, ponto conhecido da cidade do Rio de Janeiro, na praia do Russel, localiza-se a pequena igreja de Nossa Senhora da Glória, cuja data santa é 15 de agosto. 157 Com antecedência, a igrejinha é iluminada para a realização de quermesses e outras atividades que se antecipam às comemorações e ritos religiosos, marcados para o dia 15 de agosto. - Você também? - retruca Judith. - Eu sempre pensei a mesma coisa. - Ao olhar para a igrejinha e vê-la iluminada, começava a minha sensação de mal-estar - informa Frederico. - Engraçado, e nós nunca comentamos isso - espanta-se Judith. - Sei que todos nós vivíamos o mês de agosto sentindo forte emoção e muita angústia. Como geralmente evitamos comentar o assunto, só agora estamos sabendo os detalhes sobre a ansiedade de cada um. - Ano após ano, eu rezava para passar logo o dia de Nossa Senhora da Glória - diz Laura. - O mês de agosto foi uma constante aflição. Eu nunca sabia o que estava para acontecer - informa Judith. - De repente, uma nova comemoração em torno de Euclides nos atingia em cheio. - E como sofríamos - lamenta-se Frederico. É relembrado o usual comentário de Luiz sobre a tragédia: - Por que Euclídes não deixou a minha mãe em paz? Não, transformou-se nesta asa negra, nesta sombra que vem perseguindo a memória de minha mãe e a todos nós.

158 *** 33 Laudo da necropsia de Euclides da Cunha apresenta uma trágica sentença Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, preocupando-se em servir ao seu todo-poderoso marido ou se recolhia à cadeira de balanço e a tricotar esperava a vida passar, Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um barão do Rio Branco, um Sílvio Romero, um Coelho Neto. Natural, já que na casa do pai se habituou a ouvir um Quintino Bocaiúva, um Rui Barbosa, um Benjamin Constant. Mulher audaz, independente, morando numa cidade pequena e provinciana como uma São José do Rio Pardo, teria seus movimentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergam o horizonte, já que as estradas têm curvas. Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de mulher fútil e namoradeira. Conclusão a que se chegou porque se postava à janela e, alegre e "moderna", não se escondia dos homens. Anna de Assis teve sempre muita lucidez para explicar aos filhos que a sua postura, mesmo antes da morte de Euclides, sempre causou estranheza, principalmente perante aqueles que a viam segundo os cânones dos preconceitos e da justeza de idéias. Altiva, superou a tudo e se impôs na vida. Sempre foi uma mulher alegre e vibrante. Naturalmente, assim desgostava o tímido e sisudo Euclides da Cunha. Ela confessou aos filhos que os últimos anos de sua vida ao lado do escritor foram desesperadores. Não havia elementos para provar, mas percebia que certos atos de Euclides eram totalmente insanos. Não só ansiava por uma vida de amor e tranqüilidade ao lado de Dilermando, como também esperava ardentemente pela 159 separação. A vida ao lado de Euclides tornou-se impraticável. Ela o temia, mais e mais, depois de cada manhã. Só a morte do escritor e o laudo médico da necropsia viriam provar que ele caminhava celeremente para a total demência. O laudo de 16 de agosto de 1909, assinado pelos drs. Afrânio e Diógenes, é detalhado, demonstrando a causa da morte como "hemorragia do pulmão direito decorrente de ferimento por arma de fogo, atravessando de um lado ao outro o órgão. Além desta causa, o cadáver apresenta 3 outras lesões por arma de fogo". Consta do laudo, também, a descrição: "Inspeção interna: Crânio e encéfalo. - A calota resistente. Meninges duras pouco aderentes, apresentando-se bastante desenvolvidas as granulações de Pachioni. Placas leitosas de leptomeningite. Ligeiro edema na imediação das circunvoluções rollândicas. O cérebro, pesando 1.515 gramas, foi retirado para ulteriores investigações. Meninges aderentes à base do crânio" O dr. Alves de Menezes, professor-regente de Medicina Legal e de clínica Médica da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e médico legista do Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro, analisando o laudo de necropsia de Euclides da Cunha, feito pelo dr. Afrânio Peixoto, considerou que o este apresentava "uma tangível presença emocional interferindo na construção do laudo". É que o dr. Afrânio Peixoto, muito amigo de Euclides da Cunha, seu confrade e companheiro de encontros intelectuais, teve, em mãos, uma penosa missão, ou seja, como afirmou o dr. Alves de Menezes, "a obrigação funcional de eviscerar, na qualidade de médico legista, o cadáver daquele gigante da literatura nacional"

Em sua análise, o dr. Alves de Menezes, considerando que a inquietação emocional do médico transparece no texto do laudo, aponta algumas omissões, bem como descrições mutiladas. Contudo logrou retratar a trajetória dos danos corporais feitos pelo agente lesivo que fulminou a vítima e descrever, no cérebro desta, o aspecto macroscópico de lesões meningo-encefálicas, às quais alguns eminentes psiquiatras da atualidade - apesar da falta de notícia sobre o exame microscópico da peça e de análise sorológica procedida durante a vida - se obstinam em vinculá-las a uma etiologia luética, considerando a coexistência dessas lesões com a série dos sérios desequilíbrios psicológicos, próprios da fase incipiente da Paralisia Geral, que Euclides vinha apresentando, de modo assustador, nos últimos tempos de sua vida. 160 Refiro-me às alterações estruturais das membranas meníngeas e às placas leitosas de leptomeningite assinaladas no laudo, e que, a se aceitar como válida a etiopatogenia aventada, e não tivesse havido o decesso violento, acabariam por ofuscar, como se fossem manchas solares, todo o esplendor da inteligência estelar de Euclides da Cunha, reservando-lhe um fim terrivelmente melancólico: o da abolição global de todas as suas funções intelectuais. Numa sentença trágica: a demência. Tal como sucedeu a Nietzsche, vítima dessa doença e seu êmulo em genialidade. Em artigo publicado pelo Suplemento Cultural da Revista Paulista de Medicina, n 14, o médico dr. Walter P. Guerra comenta também o laudo, após transcrevê-lo: Não olvidar, por outro lado, o comprometimento das suprarenais, que muito sofrem, assim como o cérebro, com as toxinas do parasito atiradas na circulação sangüínea. Desta forma, a atividade mental fica também sujeita à ação maléfica da parasitose. Os observadores de sua fulgurante trajetória intelectual notaram que, a partir de sua estada na Amazônia, declinou sensivelmente a produção literária euclidiana. Ele atribuiu-a, em carta ao dileto amigo Escobar, ao meio em que passara a viver. Tudo indica, porém, que esse apagamento, o enevoamento intelectual de que se queixava, era o fruto de acessos recorrentes da malária que adquirira quando de sua viagem àquelas plagas, ainda hoje, malarígenas. Ou seria conseqüente à sífilis, entrevista por ocasião da necropsia - como querem alguns - no achado de "placas leitosas de leptomeningite"? A paralisia geral progressiva é por demais conhecida. Felizmente menos encontradiça em nossos dias, graças, entre outros motivos, à penicilinoterapia. Com a devida vênia, invadindo seara alheia, pertencente aos psiquiatras e neurologistas, recordemos os principais sintomas psíquicos da neuro-lues. O indivíduo apresenta manifestações delirantes ocasionais e Euclides procedia, por vezes, como se fora um louco. Era possuído de momentos de cólera, seguidos, instantes depois, de estranha placidez. Os deficts de memória também ocorrem esporadicamente. Recordando a vida de Euclides, vamos encontrar inúmeras oportunidades em que se deixou dominar pela cólera. Em sua longa e fecunda epistolografia, em ocasiões diversas, esqueceu-se de datar as missivas. Curioso, todavia, que, como homem obrigado aos cálculos matemáticos de engenharia, ao que tudo indica, jamais confundiu-se. Atestam-no, além da ponte sobre o rio Pardo, obras outras que nos legou. A diminuição ou perda da afetividade é outro componente analisado pelos autores médicos, tal como acontece aos esquizofrênicos. Estes perdem a

Damos a palavra aos especialistas em doenças sexualmente transmissíveis. só poderia ser vista pelos pequenos e obtusos provincianos. a de excitação. em seu retorno do alto Purus. Tímido e introvertido. A aceitar-se a hipótese de sífilis nervosa. a hipótese de lues inata. ou forma retraída de meningite tuberculosa. Raiava mesmo pelos limites da castidade. apaixonada por outro. Tuberculoso. no convívio com os seus. o que se tornou sua angustiante preocupação. toda a vida. assim. Resta. que. como pessoa que "procedia mal". bem como pelos fanáticos adoradores euclidianos. não era de atrair o sexo oposto. lutou para manter seus familiares dentro de suas escassas posses. inquieto. Além do que. uma vez comprovada a suspeita. seguidas da fase contrária. não interessava penetrar mais a fundo no diagnóstico. irritadiço. Tudo leva a crer que fosse misógino. Donde se conclui que a grande incógnita e os desencontros que apresentou a vida de Euclides. como amigo que fora de Euclides. como explicá-la. assim como a tuberculose e a hanseníase. como em Manaus. por sua vez. Apresentou. persístem. quando parecia que estava para carregar o mundo. fora das relações conjugais. Andava sempre ocupado. Surge. Recorde-se que a meningite sifilítica demonstra essa característica: meningite de base. ao longo de sua trágica existência. seria um espinho. a outros exames que pudessem aclarar a suspeita de neuro-lues. em Euclides? Seu desinteresse pelas mulheres era notório. Não padece dúvida de que. aí está o fatídico elenco da paralisia geral progressiva. esquivo. Mas. E disso se vangloriava. que ainda hoje padece da incompreensão popular.afetividade para com os familiares.. muitos dos quais enquadrou-se Euclides da Cunha Lamentavelmente. Rotulá-lo de sifilítico era constrangedor. Convenhamos que. na época. transferindo-a a estranhos. que se restringiram ao meio familiar e amigos. Naqueles tempos. . como fez Anna de Assis. não se procedeu. de que o cérebro fora recolhido com esse propósito. convém recordar. Quantos conhecem Euclides da Cunha. Chegou mesmo a receber admoestação de seu pai. não era o homem do lar e muito menos o chefe de família ideal. De nada adiantaria pronunciar sua defesa e divulgar suas afirmações. não há notícia de cortes histológicos da matéria nobre e ulterior estudo anatomopatológico. ao lado de alucinações auditivas (a que não há referências). Em favor da suspeita de meningite luética. a sífilis era doença estígmatizante. Em que pese a afirmativa de Afrânio Peixoto. e que o perseguiram até à morte. A grosso modo. a magna indagação. Uma mulher que suplantava os rigores dos padrões. sabem que. de euforia extrema. 162 Mulher nenhuma tem a obrigação de permanecer ao lado de um homem. existe a menção no laudo de que aquelas membranas "estavam aderentes à base do crânio". foi vítima de alucinações vísuais.. de que um novo Édipo venha desvendá-la. sob este aspecto. Acham-se à espera. pouco representava para ele. O delírio persecutório é outra característica da maligna espiroquetose. um estigma a mais a acrescentar na martirizada vida daquele a que tanto admirara. já era. onde. agora. a Afrânio Peixoto. nesse particular. não foi o chefe 161 de família desejável. Tanto em São José do Rio Pardo. fases de depressão. O sexo feminino quase não aparece em sua obra. tal como a Esfinge.

De temperamento romântico e idealista. além de livros publicados. Venceu. porque incomum. aconteceu a tragédia. Foi morto. tentei fugir. ou sentimental . Inesperadamente. o meu marido. O cérebro mostrou "meninges aderentes à base do crânio". galhardamente. estoicamente. com a mesma mão. disse o escritor. Não teve oportunidade de conceder muitas entrevistas. acomoda-se facilmente às contingências domésticas. O homem. na mais rude e crua das materialidades. em 8 de maio de 1949. Dilermando de Assis parece que não teve outra preocupação a não ser provar sua inocência nos dramáticos acontecimentos em que foi mais vítima do que algoz. para erigir. pacientemente. sem revolta nem recriminações. Verdadeira heroína ante a incomparável brutalidade da tragédia de 1916. sua vida e seu passado. enquanto Dilermando de Assis procurou se defender e. normal e ordenadamente. uma segunda geração que se desenvolve. principalmente depois da morte do meu filhinho Mauro. 163 *** 34 O último depoimento de Dilermando de Assis Durante toda a sua vida. porque incomum Pode-se afirmar que. Incompreendida sempre. Anna? . Esse depoimento ficou em poder do filho Luiz e foi o último escrito por Dilermando de Assis sobre sua mulher. sobre as dolorosas recordações da primeira. sem rusgas nem queixumes. Dia a dia. Tentou matar. que as mais elevadas qualidades e virtudes excepcionais manifestou sempre para ser uma excelente esposa e mãe exemplar. significa que se encontrava próximo à demência. escreveu um documento sobre Anna de Assis: O que caracteriza a personalidade moral de D. a derrocada brutal e impressionante de toda uma organização familiar que soçobrou num extermínio trágico. mas deixou alguns depoimentos. estava enlouquecendo. todas as fases agrazes da existência. 164 Chama atenção a frase final: Incompreendida sempre.Eu não podia continuar com Euclides. é uma criatura digna de esmerado estudo por um psicólogo de gênio. escreveu livros e depoimentos. Eu o temia. sem atritos. E ele reagiu. não por meio da inteligência e dos argumentos. Espírito muito forte. na trepidação turbilhonante da vida atual. dominando todas as crises de desequilíbrio mental pelos abalos morais sofridos. e sim com um revólver na mão. mesmo sacrificando o meu amor por Dilermando. sob a sua orientação.Esta mulher suplanta-me e esmaga-me. ao infortúnío que os acontecimentos lhe reservaram. inteligente. Resignou-se e adaptou-se admiravelmente. ele escreveu Os Sertões. Admirava Euclides. atingindo idade avançada com perfeita lucidez de espírito e admirável senso crítico da vida. Anna se dedicou a encontrar serenidade para os dias da velhice. Incrível lembrar que. o que. Em São Paulo. é uma criatura digna de esmerado estudo por um psicólogo de gênio. Ela enviou inúmeras cartas aos filhos e em nenhuma se encontra algum lamento pelo passado ou . . o escritor. Assistiu.Deixando de lado qualquer apreciação sobre o melindroso aspecto bio fisiológico feminino.uma grande energia e uma estupenda coragem para enfrentar a desdita e a dor das injustiças. segundo parecer médico. Tudo prova que Anna de Assis tinha razão. uma obra cheia de compreensão humana e brilhante como análise social. Por isto.

desarmado. Mas que não a julguem. como católica fervorosa. Do carnaval. em São João Del Rei. o gen. Dilermando de Assis relembra: "Como disse certa vez. querida. e no famoso "Grêmio Euclides da Cunha":. Góes Monteiro. trescalando o doce aroma de saudade! Dizes que estás muito bem. em minhas carnes e em meus ossos. numa roda de oficiais. inclusive sutura do fígado e o arquivamento. simples e modesto. pessoa física. Carta de Anna para Judith. injustamente. deprimindo. em meu corpo. datada do Rio. que se revelou um herói a 15 de agosto de 1909. tem sido muito criteriosa e prudente em suas manifestações). Hoje tive notícias da Laura.) Quais as conseqüências da tragédia na vida e na pessoa de Dinorah? .. E. seja dito de passagem. Acusado e infamado. (A que afetou a espinha dorsal de Dinorah deve estar com os herdeiros do humanitário médico dr. passei esses dias em casa. diz: Em minha pessoa. não é matéria para julgamento. paixões e alegrias." Sobre as conseqüências da tragédia da Piedade em sua vida. Querida filha. as quais não puderam ser extraídas. Adeus. Recebi a tua cartinha que é toda um ramalhete sensível de palavras. grande intelectual que lha extraiu quando. Ribeiro da Silva. resignava-se com os sofrimentos.se-lhe o senso moral. pensando nos pedacinhos de meu coração que estão desgarra dos como violetas soltas ao vento. muito mais funestas. viu-se constrangido a cortar sua fatura carreira aos 20 anos de idade e deixar a Escola Naval e o meio seleto que freqüentava em Bota fogo. novas lesões graves e intervenções cirúrgicas. para onde o transportei doente. pois estás em um lugar privilegiado pela natureza. é justo. de mais dois projéteis de 165 arma de fogo. Ficaram-me. Beijos ao Mécio e netinhos e a bênção da tua mãe que muito te estima Anna O intuito deste livro não é outro senão fornecer elementos para que todos conheçam e analisem a vida de Anna de Assis. verdadeiro viveiro de vitaminas. duas balas do pai e duas do filho. com suas dores e sofrimentos. pois. outra conseqüência Foi o sofrimento de novos traumatismos. quiçá em São José do Rio Pardo (onde predomina a baleia de Os Sertões ter sido escrito num barraco de sarrafo coberto de zinco). Perdeu a energia muscular. assim como. Fiquei radiante de alegria ao receber o teu presente. sou um homem que só tem encontrado maré pela proa. aliás. chorei de gratidão. tornou-se hemiplégico. Tanto física como psiquícamente. sem dúvida para um gênio como Euclides da Cunha. quando. pois a vida humana. Estão por mim destinadas aos museus euclídianos. depois de minha morte. ficou gravemente prejudicado pela tragédia. nada te posso dizer. relevasse as conseqüências dolorosas do abalo psicofísiológico sofrido. Ela pensava mais no presente. em 18-2-1942. esteve à morte e se acreditava poder ser a compressão de medula a causa de seu grave estado de saúde de então. arriscou a sua vida para defender a minha (e o encarregado do inquérito policial classificou de cúmplice. porém nem pronunciado foi pela Justiça Pública). pois. um verdadeiro anjo de bondade. Em outro tópico de seu último depoimento. as conseqüências foram.Com relação a Dinorah.revolta e tristeza pelos dias amargos. Será muito mais motivo para compreensão e solidariedade. embora tivesse momentos lúcidos e. não tomei parte. vai bem. . nas alternanças de seu estado de desequilíbrio mental. na Academia de Letras (que.

argumentos e defesas para acalmar alguns fanáticos que buscam incessantemente confundir a produção literária genial de um homem com fatos de sua vida. estão a merecer de nossa parte apenas a complacência de uma perplexidade diante do mistério da vida humana. como sua filha Norma.Não optamos por nenhuma das sugestões oferecidas pela senhora Dilermando de Assis. procedendo com dignidade. Dona Albertina Santos. meu marido. seus filhos também. dentro de nossa casa. como escreveu o grande jornalista patrício de Porto Alegre. não obstante a participação que lhe fizemos. "a vítima esquecida de Euclides da Cunha": Ninguém recorda sua magna desdita. E ninguém diz que foi Euclides da Cunha. que o tempo não logrou atingir. ESPULHADOS OS HERDEIROS DE EUCLIDES DA CUNHA NUNCA SE PREOCUPOU COM OS NETOS.. Foi. onde meu marido foi sepultado ao lado de minha mãe. refere-se à sogra e avó sem rancor. como desejava. Valendo-se de ligeira pausa feita em sua digres são pela senhorita Norma Santos da Cunha.ANNA DE ASSIS .graças aos tiros contra ele disparados pelo dr. para a beleza física 167 da criatura que foi o "pivô" do drama da vida de Euclides da Cunha. Em 23 de novembro de 1946. serão precisos outros anos de discursos.HISTÓRIA DE UM TRÁGICO AMOR . tristes e trágicos. pelo contrário. uma reportagem chamava a atenção dos leitores do jornal Díretrizes (era o jornal. Não só os adoradores literários de Euclides da Cunha sempre estiveram prontos a condenar Anna de Assis e Dilermando de Assis. que foi fechada em 1944 pelos agentes do DIP. o grande e saudoso escritor. sob o rótulo "Um jornal completo para o povo").. aguardando-a em Friburgo inclusive com um carro para transportá-la a Cordeiro. O jornal Diretrizes circulava diariamente. Judith Ribeiro de Assis fez este seu depoimento . tantas calúnias e mentiras ainda surgem como certezas e verdades. . não bastará este livro para pontuar verdades. que o alvejou e feriu pelas costas quando corria para seu quarto. ao mostrar-lhe as últimas fotografias da senhora Anna Solon de Assis. chamando mesmo atenção do jornalista. Conseqüentemente. Se não foram simples e corriqueiros. interveio então sua genitora para dizer: . mesmo porque ela nunca se interessou pelos netos nem pelo seu filho Manoel Afonso. Acélio Dauat. não se dignando a vê-lo quando do seu falecimento. em que pesem as rugas do rosto onde brilham dois olhos que pareceram ao repórter anunciados talvez pela tragédia de que participou. na região cervical. Anna de Assis. Euclides. e não a revista Diretrizes. 166 *** 35 Mais uma entrevista injuriosa contra Arma de Assis A roda da malquerença nunca cessou de girar e perseguir Anna de Assis.como a última tentativa para se relegar o assunto a um passado remoto. não reproduziu para a história a sua vida íntima com o escritor Euclides da Cunha. porque sempre se falará sobre Os Sertões e Euclides da Cunha. cujo um lhe traumatizou a coluna vertebral. Com certeza. a polícia do ditador Getúlio Vargas. Mesmo depois de sua morte.

energia. terra natal de Euclides da Cunha. Galdino do Vale para negociar a venda dos direitos autorais. deu a uma de suas principais praças o nome do grande escritor. pois a glória imperecível do seu grande filho não cabe nas lindes restritas do município. em 15 de maio de 1901. José dos Santos. porquanto. a interessante neta do escritor mostrou ao jornalista vários objetos de uso pessoal e lembranças de sua atuação como engenheiro. jamais moveu uma palha em favor dos descendentes diretos do sociólogo. se não me engano ao governo federal.Vovô não vendeu os direitos autorais de sua obra Peru versus Bolívia. E tem motivos para tanto. diretor da Superintendência de Obras Públicas "em testemunho de seu inexcedível zelo e dedicação no desempenho de seus deveres". assegurando-lhes pelo menos a educação. esqueceu-se de velar pelos netos de Euclides da Cunha. erigindo-lhe também uma herma. quase criança ainda. disse-nos a senhorita Norma que Euclides da Cunha deixou em São Paulo uma propriedade rural. personalidade e inteligência. OBJETOS QUE EVOCAM EUCLIDES DA CUNHA Em seguida. quando na companhia de senhora Anna Solon de Assis. dizendo o seguinte: . tendo ocorrido algo nesse sentido no Senado. inclusive um cartão em prata oferecido a Euclides da Cunha pelo sr. Adiantou mais a senhorita Norma Santos da Cunha que o diploma de engenharia militar conferído a Euclides da Cunha acha-se em poder de seu avô materno. pela Livraria José Olímpio. aludiu depois às edições de outro famoso livro de Euclides da Cunha. ressumando em seus gestos e atitudes. datado da Ponte de São José do Rio Pardo. com um exemplar da primeira edição daquele livro. Sobreveio. caso não os aproveitasse no quadro de servidores municipais. O Itamarati. como os demais da autoria de meu avô . como a melhor e mais significativa homenagem póstuma .. orgulha-se desse evento. em Cordeiro. possivelmente vendida após seu assassinato.. nos Estados Unidos . Contudo. por seu turno. feita na sérje Documentos Brasileiros sob o número 17. livro que não caiu em domínio público. casa a que tantos e assinalados serviços prestou Euclides da Cunha ao tempo de Rio Branco. Ainda a propósito de um esbulho sofrido pela família. e várias placas de vidro com aspectos fotográficos das diversas fases da construção daquela obra de engenharia. Como no caso de Os Sertões . Para perpetuar esse desvanecimento cívico.que além das edições em vernáculo foram vertidos para o espanhol.nada recebemos da editora José Olímpio relativo à reedição do Peru versus Bolívia. Peru versus Bolívia. Inácio Wallace da Gama Cockrane. principalmente depois da projeção continental de Os Sertões através de sua versão castelhana e mundial com a trasladação para o inglês do livro. sendo de notar que há oportunidade ainda do resgate dessa dívida para com a memória de Euclides da Cunha. seu pai assinara em São Paulo vários papéis. Tanto assim que papai. deu plenos poderes ao dr. na Argentina e para o inglês. com um dispositivo para vê-las de encontro à luz. sr. Mais tarde fomos surpreendidas com a reedição do Peru versus Bolívia.acrescentou a senhorita Norma Santos da Cunha.O CASO DA REEDIÇÃO DO PERU VERSUS BOLIVIA A senhorita Norma Santos da Cunha. 268 PRÓ-DESCENDENTES DE EUCLIDES DA CUNHA Cantagalo. na ignorância do que fazia. apesar de sua juventude. porém a revolução de 1930 e de nada mais soubemos a respeito.

ao seu ilustre ex-auxiliar, tão do afeto do chanceler nome tutelar da casa, dando-lhes uma função condigna na sua biblioteca, senão na Fundação do Instituto Rio Branco. E dizer-se que os netos de Euclides da Cunha, as meninas Norma e Eliete fizeram preparatórios e Maria Auxliadora com o jovem Euclides da Cunha Neto estudam ainda, graças à circunstância fortuita de ser o professor Carlos Cortez, proprietário do Ginásio Modelo, de Friburgo, concunhado de seu pai... No mesmo jornal, edição de 29 de novembro, a coluna "Contra a Mão", escrita por Gondim da Fonseca, comentava a reportagem com tópico final: É de crer que o general Eurico Gaspar Dutra se interesse pela sorte das quatro crianças. Uma delas, Euclides da Cunha Neto, precisa bastante de estudar. Onde? Com que meios? E as três meninas suas irmãs? Que destino terão se o Brasil não as ampara? A tragédia de Euclides continua. Não terminou com o seu assassínio. A repercussão da reportagem prosseguiu. Na edição de 4 de dezembro, Diretrizes anunciava: A CARTA DE NORMA IMPRESSIONA OS DEPUTADOS Euclides de Figueiredo Lê da Tribuna a Carta de Uma Neta de Euclides da Cunha - O Melhor Argumento a Favor do Projeto De Lei sobre Direitos Autorais - Olegário Mariano Ficou Emocionado. 169 "Em reportagem e, logo depois, numa crônica emocionante de Gondím da Fonseca, este jornal ocupou-se, há dias, da situação de permanente apertura financeira em que vivem os descendentes de um homem que enriqueceu, como poucos, a literatura nacional - Euclides da Cunha. As revelações que fizemos, e o apelo que o cronista de "Contra a Mão" endereçou ao governo despertaram o maior interesse e simpatia pelos netos do autor de Os Sertões. Ontem, na Câmara, ao apresentar o projeto de lei sobre direitos autorais no Brasil, o deputado Euclides de Figueiredo apresentou, a favor desse projeto, o melhor dos argumentos: - uma carta de Norma, neta de Euclides da Cunha ao escritor Guilherme de Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Escritores. A leitura desta carta emocionou os deputados. A CARTA DE NORMA Documento impressionante, essa carta, que transcrevemos a seguir, confirma inteiramente o que revelamos, em primeira mão, sobre os netos de Euclides constituindo ainda a melhor justificativa do projeto de lei que visa proteger os escritores brasileiros contra a pobreza. A carta de Norma, em suas linhas gerais, expõe exatamente o que foi revelado à reportagem de Diretrizes e publicado na edição de 23-11-1946. A matéria se encerra ouvindo o poeta Olegário Maciel, então membro da Academia Brasileira de Letras. Na edição de 16 de dezembro, Diretrizes publicava a carta enviada por Luiz Ribeiro de Assis, diretamente a Albertina e filhos, já que nem desta vez a mãe saiu de seu silêncio para se proteger. A propósito da reportagem publicada por Diretrizes sob a epígrafe acima, solicitou-nos o sr. Luiz Ribeiro de Assis, filho do casal senhora Anna Solon de Assis - Coronel Dilermando de Assis, a publicação da seguinte carta, que enviou à senhora Albertina Santos e filhos, respectivamente nora e netos do pranteado autor de Os Sertões:

Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1946 Prezada Cuihada e sobrinhas. Causou-me bastante surpresa Vocês, cunhada e sobrinhos, concederem tão injusta entrevista à ilustre reportagem de Diretrízes, publicada na edição final do dia 23 de novembro p. p., visando, com o seu teor, auferir vantagens sentimentalistas para conseguir uns direitos autorais e muito embora sabendo-se que esses direitos não lhes vão proporcionar a solução de problema de como se viver melhor... 170 A minha muito idolatrada e santa Mãe (já recebeu a extrema unção por ocasião de seu internamento numa Casa de Saúde), essa que Vocês acusam de apropriar-se de direitos que lhes assistem e de indiferentismo à sorte até do próprio filho MANOEL AFFONSO DA CUNHA (Afonsinho), por ocasião de sua morte, é a mesma, hoje anciã venerável, que acolheu Você, ALBERTINA, em sua casa lá no Méier, carinhosamente, e onde Você sentiu de perto as demonstrações de amor dedicadas àquele último filho do grande escritor EuCLIDES DA CUNHA. Do meu próprio Pai, o tão "bárbaro DILERMANDO", você e o AFONSINHO, então recém-casados, receberam manifestações de apreço e carinhos. Antes do AFONSINHO morrer, em casa da minha Mãe, ele era visto freqüentemente e em perfeita comunhão de sentimentos, e em certa vez (creio que a última) ele abraçado à sua mãe e cercado de seus irmãos maternos LAURA,JUDITH, JOÃO, FREDERICO e inclusive eu, não atendia a nossos rogos para ficar em casa mais tempo, alegando que esperavam-no, em Cordeiro, os seus filhinhos dos quais tinha saudades. A Mamãe sempre quis muito bem ao AFONSINHO e hoje em dia sente vontade de ver os seus netos, manifestando-se sobre isto há pouco tempo, antes de Vocês virem a público com essa entrevista injuriosa à sua pessoa. Garanto-lhes que sobre direitos autorais a Mamãe não criaria dificuldades para proporcionar aos filhos do próprio filho o que por ventura lhes fosse de direito, mas, não dará ensejo, em absoluto, de pessoas estranhas como o Dr. MIGUEL SILVA, virem à sua casa interpelá-la a respeito de um passado doloroso. Relativamente a um esbulho sofrido pela família Cunha, com referência a uma propriedade em São Paulo, deixada por EUCLIDES antes de morrer, e vendida após o seu "assassinato", como podem mencionar tão infundada acusação, sabendo-se que foi a Mamãe a esbulhada de todos os seus haveres, e inclusive objetos do próprio EUCLIDES DA CUNHA, encontrados, atualmente, como ínstrumentos de vinganças em poder de diversas pessoas?... Na entrevista Vocês deveriam mencionar o seguinte: - Ao finar-se Euclides a Senhora ANNA SOLON DA CUNHA, foi esbulhada de todos os seus haveres, e abandonada por todos, inclusive os seus parentes mais próximos que a renegaram... Não, NORMA! Antes de qualquer apreciação ou comentários de fatos dessa natureza, devemos, com imparcialidade, sermos justos e apelo para Você (creio que a mais velha da famíli a) não se deixar levar por falsas e malévolas imaginações de mercenários exploradores da desgraça alheia. Cheguei à conclusão de que terceiras pessoas, esgotados os recursos de exploração da tragédia EUCLIDES X DILERMANDO, voltam-se agora para jovens criaturas mal informadas, utilizando-as como instrumentos de ataques em prol de torpes objetivos. Como a sobrinha NORMA, muita coisa ignoro dos detalhes de certos fatos oriundos da malfadada idéia de EUCLIDES DA CUNHA, instruído,

171 ou melhor, instigado por amigos (amigos da onça) ir à Piedade assassinar o aspirante Dilermando de Assis, mas, não ignoro que o notável escritor, absorvido pelos seus trabalhos de engenharia e literários, privava a sua muita jovem esposa, casada sem amor, por conveniência familiar, dos carinhos indispensáveis à sensibilidade de uma mulher romântica e sadia, criando- lhe um ambiente propício à consumação irresistível do que humanamente foi inevitável... Foi lamentável o desfecho desse epílogo e eu afirmo com sinceridade que admiro com respeito e acatamento todos os personagens desse drama da vida, arrastados, implacavelmente, uns à morte, outros à amargura em vida. EUCLIDES, ANNA, DILERMANDO, EUCLIDES FILHO, são vítimas de um destino cruel e todos eles, compelidos pelas circunstâncias, contribuíram, entre si, para as suas próprias desgraças; mas, em meio a essa odisséia dolorosa, emergindo da bruma da provação, todos expiaram os seus crimes e ressurgiram, redimidos, dos seus pecados para não mais merecerem incriminações estúpidas. Aqui termino estas linhas, escritas unicamente em consideração ao fato de Vocês serem a viúva e filhos do meu saudoso irmão AFONSINHO e aproveito a oportunidade para advertir-lhes que a Senhora ANNA DE ASSIS vive hoje cercada dos carinhos de grandes Amigos, filhos, genros e noras; foi e é extremamente bondosa, residindo à rua dos Oitis, número 19 na Gávea, onde Vocês serão recebidas com o máximo carinho e boa vontade. Um dia, por sugestão minha, ela que sempre calou, dará uma entrevista à imprensa, a fim de mencionar a verdade sobre a sua vida trágica e, depois... "atirem a "primeira pedra"... Luiz Ribeiro de Assis Em Diretrizes, Norma, filha de Manoel Afonso, acusa a avó e a condena publicamente pela união com Dilermando de Assis, reforçando todos os equívocos sobre a morte do avô. Isso em 3 de janeiro de 1947, em resposta à entrevista de Anna de Assis publicada em 30 de dezembro de 1946. 172 *** 36 Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: vivemos juntos! Finalmente, em 30 de dezembro de 1946, o jornal Diretrizes publicava a única entrevista concedida por Anna de Assis em toda a sua vida. Lendo-se a entrevista, que transcrevemos na íntegra, analisando-se as informações de Anna de Assis e sabendo-se que veicularam num jornal de prestígio e ampla circulação, é de estranhar como biógrafos e adoradores euclidianos jamais tomaram conhecimento daquela reportagem e suas verdades. Ignoraram as palavras de Anna de Assis e persistiram em erros históricos que, friamente analisados, só podem significar que existiram com o intuito de mistificar mentiras e torpes balelas, no que os membros do Grêmio Euclides da Cunha de São José do Rio Pardo surgem como

um ano depois de Rondon. Anna de Assis está escrevendo suas memórias . a culpa entre nós também cabe aos deuses. Contarei tudo. Não somos nós que o dissemos. uma memória de anjo. apenas. Ficara louco por mim! Depois tive a prova: ele guardava uma folhinha com a estampa de linda rapariga. É que a viúva de Euclides da Cunha está escrevendo suas Memórias. porém.Em mocinha era muito despachada.. aqui por perto. escrevendo.. Não bebe nem fuma. Mas a gauchinha de Jaguarão não era só formosura. numa casa tranqüila da Gávea. Não faço literatura. Um amor de mulher! E ela própria confessa que foi realmente linda. Enchia um salão. que somente uma parte da longa conversa seria reproduzida neste jornal. que vivo isolada." pensei comigo. E meus netos me adoram.explicou-nos ela. Quase não saio.me disse Euclídes . a viver eternamente infeliz? Não sou Maria Madalena! Não me ralo de remorsos. data em que conheci Euclides. Compreendi logo que tínhamos sido vítimas da Fatalidade. ímpios e falaciosos. Uma vez. Mas. desde 16 de novembro de 1889. e com todos os detalhes. Fui recebê-lo à porta. nem odeio a ninguém. na despedida. A BELA DE JAGUARÃO: Euclides tinha razão. Era só influência de menina. Outrora fumava três maços de cigarros por dia. Mas não estava apaixonada. em Buenos Aires. para visitar os meus filhos e netos. Admirava Euclides. Eu. Um livro mais sensacional do que o de Isadora Duncan. "NÃO ME RALO DE REMORSOS!" D. Estava a paisana.quando encontrasse uma criatura assim. Mas vivo feliz no meu ostracismo social. A não ser. Não sou nenhuma "ba bleu". Por isso me recusei em atender a um amigo de Euclides que me . Completamente feliz! Minhas filhas casaram-se bem. . excelente bom humor. sem me ocupar com as galas do estilo. até o dia de hoje. o marechal Frederico Solon. "Tipinho esquisitinho!. Como acontece nas tragédias gregas. de grande prestígio político e social." E então nos casamos. Pode haver maior ventura na velhice de uma mulher condenada. Aos 75 anos de idade. durante duas horas. Meu pai levava muito a gosto o nosso casamento. d. Acorda cedo. OSTRACISMO SOCIAL . A outra parte só será divulgada em volume. Escrevo como converso. Ficou combinado. "Não sob o aspecto artístico ou literário . Também são felizes. sim Anna Emília de Assis. 173 ENCONTRO COM EUCLIDES E d. lendo. Há muitos anos. na juventude. Não me queixo dos outros. toma banho de chuveiro e é capaz de saltar de um bonde em movimento. Queria um favor de meu pai. ouvindo rádio. Tinha "Sex-appeal" e muita personalidade.No dia seguinte ao da proclamação da República. Anna de Assis descreve o primeiro encontro: . Saúde perfeita. Anna de Assis ainda mostra o que foi aos quinze anos. Tive uma vida social muito intensa. Euclides foi lá em casa acompanhado de um rapaz de nossas relações. recebi os jornalistas e dei uma entrevista à imprensa."Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: Vivemos juntos!" Conversamos hoje. e ele escondeu-se timidamente atrás de um pé de manacá. Hoje é abstêmia. Anna Solon de Assis.sorri dona Anna de Assis. como o meu pai estivesse ocupado.. com d. também. Casamo-nos. "Eu só me casaria . quando deixou o Colégio das Irmãs para casar com o escritor. na ocasião.verdadeiros réus. Passo os dias sozinha. Ainda hoje seus olhos brilham e sua voz tem acentos de mocidade.. Basta examinarmos sua única entrevista na íntegra. Euclides deixou sobre a mesa uma declaração de amor. apesar de timido. que gozava. Euclides tinha sido expulso da Escola Militar. Quase todo o Ministério esteve presente à cerimônia.

e não ao literário. nos conheceram de perto. Nunca soube por que. 175 "DEIXARAM-ME LIMPA" . como seu marido. Mas. Deixaram-me limpa. Valente e tímido. Anna de Assis leu a entrevista que Norma. Machado de Assis. Seu "copi-right/" me pertence. . Foi uma luta para persuadi-lo a escrever o prefácio de O Inferno Verde. em causa própria. correspondência etc. Nunca me esqueço destas palavras de Gaby Coelho Neto: "Seja mentira ou verdade. e resolve escrever mentiras sobre Euclides da Cunha.os parentes de Euclídes carregaram tudo. ele não podia recitar ou discursar na minha presença. Nosso meio era fino demais para eles. Sílvio Romero. Euclides também tinha grande desgosto de ser feio. Euclides foi a criatura mais orgulhosa que conheci. era seco de coração. como todo puritano. Esses tipos nunca privaram conosco. Como Paganini. Euclides relutou muito. Ainda assim há pessoas que não julgam. concedeu a Diretrizes.pediu que acusasse Dilermando. A saga da literatura brasileira seria grande sob quaisquer circunstâncias." E Gaby. era um homem complexo. era de uma honestidade absoluta.Mas tudo isso será compreendido um dia . no entanto.. inclusive sobre o motivo determinante do grande sucesso de livraria de Os Sertões. EUCLIDES E PAGANINI .Eu é que posso escrever sobre Euclides . E é preciso conhecer para poder julgar. Quanto aos papéis que levaram. porque Orestes Barbosa procurou aplacar minha justa revolta contra o livro de Eloy numa vitrina de livraria. Quase não elogiava ninguém. que nada sabia de nossa vida. Oliveira Lima. na rua. mas prefere não falar sobre o assunto. Preferem amar. Livros. nada me coube. neta de Euclides. Tinha muita ambição e. nem acuso ninguém. 174 O SUCESSO DE "OS SERTÕES" . Vivemos juntos.continua d. Nossas relações eram com gente boa. A ENTREVISTA DE NORMA D.. Aninha. Mas o escritor era diferente do homem. Nem aos filhos.Sujeitos que nem conheceram Euclides tornavam-se seus defensores. Pois bem: vem agora um Eloy Pontes. Só não dei nele. Dormimos no mesmo quarto. era um escritor "para mulher". Esses. pouca falta me fazem como fichário. Anna de Assis. simples e ao mesmo tempo doentiamente vaidoso. Não cuidava de sua aparência. Outro defeito de Euclides: escrevia a lápis nos punhos da camisa. manuscritos. para ele. sim. mudando um pouco de assunto .continua dona Anna de Assis. Note que me refiro ao êxito comercial. Odiava a fealdade e a velhice. Insistimos. como era feio! Só uma coisa chamava atenção: seu olhar fulgurante. Não fazia carinhos.A tragédia converteu-se em fonte de renda para muitos medíocres . MENTIRAS DE ELOY PONTES . como o barão do Rio Branco. .Direi toda a verdade.prediz a viúva de Euclides. e .prossegue dona Anna de Assis. Não abro mão dos meus direitos. Coelho Neto. E depois. Mas sou a herdeira legítima das obras de Euclides. pois tenho boa memória! Reproduzi de cor tudo o que sucedeu nestes últimos 57 anos. Chegava a ser ríspido. serei sempre tua amiga. Duvido que alguém tenha por ele maior admiração do que a minha. Coelho Neto etc. apontamentos. Feito o inventário. tinha admiração por Euclides. Não acusei. Não achava que o Alberto Rangel fosse um bom escritor.Quando ocorreu a tragédia .

a dor e o desespero foram os sentimentos que se alastraram entre os filhos e os netos de Anna de Assis. Luiz e Frederico. residiam com ela. Mário Campos informou que ela tinha apenas três meses de vida. Anna de Assis: Onde Euclides escreveu Os Sertões? . Foi lá que Euclides trabalhou no livro.. que nunca se . O dr. um dos mais proeminentes da época. Encontrei-o banhado em sangue no quarto de dormir. Como tinha uma "letra mesquinha". Faz uma pausa e prossegue: . tantas vezes acometida com as suas crises de asma. no bairro da Gávea..Na Fazenda Trindade.Ri melhor quem ri por último!. continuo às ordens. o que aconteceu em muitas ocasiões. Mário Campos. segundo ouvi dizer. foi chamado para examinar a doente. E o resultado comunicado aos filhos: era câncer. Se conversasse comigo saberia então a verdade. Passamos ainda três meses na fazenda. encontrava-se esclerosada. Ele compareceu à Rua dos Oitis. num ritmo de urgência determinado pelo constante desvelo dos filhos para com a mãe. era transferida para a casa da filha Judith. O dr. procedeu à meticulosa consulta. sempre evitou que meus netos me visitassem. Minha porta nunca esteve fechada para eles. Na noite em que a obra ficou pronta. não poderia escrever sob o martelar constante das bigornas. Ao contrário. data de aniversário de Frederico. 176 *** 37 Anna e Dilermando se reencontram sem testemunhas Em junho de 1950. A cabana onde dizem que Euclides escrevera Os Sertões era apenas um ponto de reunião. Anna se encontrava muito doente e não quis deixar sua casa. em junho de 1950. Entretanto. Nélson Passarelli. escrevendo dia e noite. que se casou com um chofer. Se quiserem vir. Euclides teve a primeira hemoptise. Sempre que adoecia. Anna de Assis morava na Rua dos Oitis.Norma ignora o que se passou. por causa da idade. quis o parecer de outro afamado médico. ERRO HISTÓRICO A esta altura pedimos um esclarecimento a d. os "euclidianos" simplesmente afirmaram que Anna de Assis. Nas minhas "memórias" destruirei as fantasias dos cronistas de Euclides. em São Carlos do Pinhal informa a nossa entrevistada. Não houve festas e comemorações naquele dia. no dizer do Rangel.. Aqueles cinco filhos que acompanharam a mãe a vida toda. Por mais que Judith insistisse na sua locomoção. Dois de seus filhos. o dr. mas será verdadeiro! O jornal Diretrizes publicou a única entrevista de Anna de Assis. No entanto. Mas estou muito velha para ir buscá-los. Mas sua mãe. apesar do convite que lhes mandei. Ainda que o quisesse. ela teimou em permanecer onde estava. Foi realizada uma biópsia.ela exclama: . médico de reconhecida competência. até mesmo em certas madrugadas.. pagou a um rapaz para passar tudo a limpo em caracteres legíveis. Meu livro poderá não ser muito bonito. Ele foi examiná-la exatamente no dia 30 de junho. Euclides trabalhava o dia todo. Em resposta. Depois ele foi construir a ponte de São José do Rio Pardo.

Vamos chamar tudo quanto é medalhão para examinar a mamãe. Não se pouparam.separaram dela quando sofreu todas as dores de tantas tragédias. Nós queremos dar a ela. desta vez será maior ainda. exercendo as funções de Diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo. diante da morte iminente. enlouqueceram. Assim. Os médicos afirmam que ela tem apenas três meses de vida. quase matando-a. todos os seus filhos esmeraram-se em cuidados e atenções para com a mãe. O senhor sabe que as condições financeiras de seus filhos. a convite do governador Ademar de Barros. Dilermando de Assis se recusa a auxiliar no tratamento de saúde da mulher. mesmo reconhecendo que o câncer é uma doença inexorável. 177 O general Dilermando de Assis. Ainda desta vez. Foi a primeira grave enfermidade de Anna de Assis. com o tempo. A mãe está com a idade de 76 anos e eles a querem viva alguns anos 178 mais. O então coronel Dilermando de Assis se recusou a dispensar qualquer auxílio de natureza pecuniária para o tratamento de saúde de Anna de Assis. Judith cumpre a sua incumbência de telefonar ao pai e dialoga com ele de forma direta. pois houve uma troca de correspondência ríspida e rancorosa. ele já residia em São Paulo. neste período. Preocuparam-se em transmitir aquela notícia ao pai ausente. Judith não reencontrou o pai. Tânia. O máximo de conforto. ocorrido em 1945. Também nessa ocasião. Judith ficou encarregada de telefonar para São Paulo e fazer a triste comunicação. Só Judith e o marido romperam de forma mais drástica com Dilermando de Assis. ignorando-o completamente durante seis anos. porque em 1944 sua mãe esteve muito doente. então. movidos por um único sentimento. no seu proceder habitual: . Tentaremos minorar as suas dores. Não vamos medir esforços. Aparvalhados. apesar de relativamente bem de vida. inclusive utilizando todos os recursos financeiros disponíveis para um tratamento bastante dispendioso. A partir daí. vítima de agudas crises de asma. Se antes a conta fora alta. fazê-la menos infeliz em seus últimos dias de vida. Agora. a mamãe está com câncer. a revolta filial se desvaneceu naturalmente. reagiram identicamente: exasperaram-se. Os médícos aos quais recorreremos serão as maiores sumidades brasileiras. são insuficientes para tudo aquilo que queremos. na ocasião. Ela se lembrou. Na época. o máximo. aqueles filhos que adultos nutriam pela mãe a mesma veneração do tempo de crianças. Todos os filhos de Anna de Assis são alucinados por ela. um hospital caro por causa da sua excepcional qualidade de atendimento. Nem mesmo lhe comunicou o nascimento de mais uma neta. peço a sua ajuda. A atitude do pai deixou todos os seus filhos revoltados. A mamãe é a nossa vida. . revoltam-se contra a morte. procuraram assim mesmo agir e cuidar da mãe. e o pai se negou a prestar-lhe assistência. de que há seis anos sequer falava com o pai. inconsoláveis. Por amor. Mas a mãe recuperou a saúde e. no primeiro momento. As despesas se avolumaram e toda a família se viu obrigada a determinados sacrifícios em seu orçamento doméstico. Não se conformam com a doença.Papai. o máximo de assistência. o que se dá apenas no diálogo . Anna de Assis esteve internada na Beneficência Espanhola. residia em São Paulo. Anna de Assis está novamente doente e numa situação comprovadamente muito mais grave. novamente. A situação obrigou Judith a solicitar a interferência e a ajuda do pai. coesos.

Eu quero ver sua mãe sozinho. E desde 1932. o pai ainda lhe repete: . Eles se falaram por uma hora ou pouco mais. papai está no Rio. sequer se viam. Cuida de melhorar a sua aparência. quando ela deixou a sua casa. Judith tira a mãe do quarto. indagando. E faz um pedido: . Judith transmite a mensagem: . Eu não quis cansá-la. genros. Fiquei esperando. expressando à filha que não há nenhuma surpresa diante das duras palavras da mulher. Quando meu pai entrou na sala. uma vez que ela não me contou nada. Dilermando apenas pede: . eu saí. cumprimentam-no e se afastam. No segundo telefonema para São Paulo. E ela retorna até a mãe. Daí a alguns instantes. chegam todos os filhos.Judith. coloca-a em uma poltrona. Judith dá permissão para a entrada do pai e retira-se da sala. muito débil. em Copacabana. A reação de Dilermando é apenas um sorriso. Passam por Dilermando. Dilermando não se mostra magoado.Minha filha. Afinal. A filha acompanha o pai até o carro. A sua atitude é como se afirmasse: "Eu já esperava por isso. perguntando. Após um prolongado diálogo com a mulher. que aguarda no carro. Só eu e ela. Solicita a todos que se retirem. . filhos. de uma aparente apatia. enfermeira.Faço questão que não tenha ninguém. seguida pelos cinco filhos. todos saem da casa. Judith volta à presença do pai e não troca as palavras para transmitir a resposta da mãe. Judith deixa o pai para trás e entra na casa sozinha. muito deprimido. Um sorriso macio. A mamãe já estava muito mal. quase vinte anos transcorridos. Ele chega oa Rio e se dirige à casa de Judith.inicial com Judith.Mamãe. vá até sua mãe e diga-lhe que quero vê-la. Noras. O carro estaciona em frente ao número 19 da Rua dos Oitis. Não ouvi sequer uma palavra do que se disseram. Pelo que aconteceu no Hospital Central do Exército. chorava. Anna e Dilermando. quando ela estava internada. apaixonado. netos. lenta em seus movimentos e perdido todo o seu antigo vigor. depois da separação acontecida em 1926. Lá eu andava e chorava. Dilermando de Assis chega à janela que se abre para o quintal e chama: . esta será a única e última oportunidade para um diálogo a sós. que viveram um amor intenso. apático. 179 No caminho da casa deJudith. pode vir. Eu tenho a impressão que ele pediu perdão e ela não o perdoou.Diz a ele que a minha porta está aberta até para os cachorros. E não sei até hoje o que foi que eles conversaram. para a Gávea. Eu já vou embora. grave. Sai de um breve instante de total absorção. Ele veio para visitá-la. já então muito magra. em que na verdade realiza uma fuga ao passado e fala de forma conclusiva. a filha ouve o pai afirmar que viria ao Rio para. Não me senti no direito de indagar. Assim. pessoalmente. Era um quintal muito grande. não reclama das palavras de Anna. Sai e fui para o quintal. imperativa: . dolorido. imenso. Só deles. eu a conheço bem". empregadas domésticas. Anna de Assis demora alguns momentos antes de responder. providenciar o melhor tratamento possível para Anna de Assis. dramático. Ele se vai com a sua dor. E nota-o muito triste. leva-a de volta à cama. na sala. também era uma coisa deles.

simples apenas. alegres. olha tristemente para Anna e pronuncia a frase que dói em todos: . lá não deixaram de ir um dia ao menos. ambos velhos e doentes. compreende e faz um movimento com as mãos. Anna de Assis será internada como dependente do general Dilermando de Assis. comparecendo ao Hospital Central do Exército para aquela que será a sua mais importante visita à mulher. cercada pela tenda de oxigênio. Ouve. também. . débil. Um solene cortejo penetra no prédio. Por todas as leis dos homens ainda permaneciam casados. praticamente se mudaram para o hospital. noras e netos. E. Dilermando se aproxima. Até que o general recebe um chamado urgente. pousa no lençol. E de agosto de 1950. época em que se deu o internamento. a maio de 1951. Consegue-se para a enferma o melhor apartamento do hospital. apóia-se no pé da cama. permanece quieta. permanece imóvel. ele volta outras vezes ao Rio para visitar Anna de Assis.S'Anninha. para o gesto de um sinal-da-cruz. Dilermando de Assis. envelhecida. Ela é levada para o hospital por todos os seus filhos. Essa caminhada dos pais. Encontra sempre os filhos em torno da mãe. talvez fosse a realização de um desejo de todos os filhos. Preocupa-se com ela. genros. após o seu encontro com Anna de Assis. conseguem sorrir. muito singela. Todas as providências e acertos são realizados. E Laura. Luiz e Frederico. João. em seus últimos momentos de vida. Anna de Assis. Ele vem. Anna caminha de braço dado com Dilermando. Dilermando entra no apartamento e lá estão os seus filhos. 181 Cumprida a primeira etapa de seu dever de assistir à mulher. lentamente. eu penso isso. imediatamente. Ela não o perdoou. além de alguns netos. uma vez que a separação de ambos nunca foi oficializada pelo desquite. Judith. E a data ficará na lembrança de todos os familiares de Anna e Dilermando. Por isso. No entanto. Marca-se a data de internamento. dolorosa. Lá ela terá o melhor atendimento que a medicina brasileira da época poderia oferecer. Ela já não fala. Dilermando de Assis retorna a São Paulo e às suas obrigações de Diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Estado. enquanto choram. É uma cena bonita. acompanham Anna e Dilermando pelos vastos corredores do hospital. ela fecha os olhos. me perdoa. alguns sorrisos. respirando com dificuldade. tristes. Quer ter uma participação efetiva no seu tratamento de saúde e sugere o internamento no Hospital Central do Exército. Consegue levantar o braço direito. 180 *** 38 O sinal da Cruz de S Anninha e o perdão O general Dilermando de Assis não regressa imediatamente a São Paulo. Que mãe e pai se dessem os braços e andassem juntos num último instante da vida. se tantos desajustes e tragédias não fossem o ponto fínal desse encontro. E ela move a mão. todos percebem o seu grande esforço. O braço desce. certa alegria equilibram os sentimentos. seria uma caminhada amarga.e por tudo que aconteceu quando ele teve seus sucessivos derrames cerebrais. No período. Seria um momento para extrema tristeza. assim. ainda em 1951.

.. Vira-se. Esse jovem. retira-se. 182 Um fio de sangue escorre-lhe dos lábios. cravando-lhe as unhas fortemente. Vendo-se alvejado. Alguns trataram de revolver o passado e criaram fantasias. seu padrasto então. puxou de sua arma e disparou-a contra o enteado. O forte edema é o seu último sacrifício. um dia decidiu matar Dilermando de Assis.Meu filho. diariamente. que abate a tiros o imortal autor de "Os Sertões" vindo depois a casar-se com ela. não medindo as conseqüências que esse ato traria à própria mãe e aos demais membros da família. abre a tenda de oxigênio. 183 *** 39 Não se vive e não se morre em paz neste País Perplexos. derradeiro transe. Como exemplo. morre Anna de Assis. Do primeiro matrimônio houve um filho varão. dá um romance trágico. Nem todos foram isentos. armando-se de revólver. Quem tinha de me perdoar. No último momento de lucidez. ANNA SOLON DE ASSIS A vida de Ana Solon de Assis. Frederico se aproxima. dia de seu casamento com Dilermando. foi vingar a morte do pai. com seus erros e imperfeições. não encara os filhos. Um dia. Eu vou para um lugar muito bonito. intimamente chamada Saninha. Vários jornais noticiaram sua morte. mas este acertara em cheio e . E na data de 12 de maio. O seu sopro final de vida são as mãos apertadas na mão do filho. já fui perdoada. trabalhando pela voz da tradição e recebendo. O filho de Euclides falhara nos seus propósitos. data tantas vezes o segundo domingo do mês de maio. tantas vezes coroada com os festejos do dia das mães. se eu errei. cheio de flores. que por toda a sua vida soube ser. os filhos de Anna de Assis constatariam que nem depois de morta a mãe teria paz e seria esquecida como a viúva de Euclides da Cunha. rapaz de grande futuro e reconhecidos dotes morais e intelectuais. Dilermando não pronuncia mais nenhuma palavra.apenas a respiração ofegante. Casada em primeiras núpcias com o grande escritor Euclides da Cunha. Enquanto ele volta a São Paulo. irreprimível não lhe saía do pensamento. principalmente. não matando Dilermando. nem todos procuraram apenas registrar seu falecimento. mulher e mãe. chama por um de seus filhos. a mãe se agarra firmemente a uma de suas mãos. Ela desfalece. Anna de Assis balbucia sua despedida da vida: . Só lamento deixá-los. Mas Dilermando de Assis sempre foi um grande atirador. insinuações sobre o dever que tinha de vingar a morte do pai. Aquela idéia obsessiva. já me perdoou. é lançada na viuvez por Dilermando de Assis. transcrevemos a nota da Revista da Semana de 2/6/1951. Anna de Assis entra em estado de coma e agoniza.

a vida do casal continuou normalmente vindo outros filhos do segundo matrimônio. lhe fizeram as unhas. Da. o oficial brasileiro que entregara a Pedro II a ordem de exílio após a proclamação da República. morreu em fins de maio último. no Brasil ou em .. e refutar as mentiras torpes que ocuparam as linhas finais da notícia. mulher de uma beleza fascinante. contando apenas com a sua disposição.fuzilava o filho do grande brasileiro que também caíra morto por suas balas. Anna Solon de Assis. Ana Solon de Assis. Afastada. sempre a cumulou de conforto e dedicação. sua vida e seu passado. não pôde viver em companhia de Dilermando. vencendo os maiores obstáculos. E coisa curiosa: morreu sem saber qual a doença que a matava. Um desses exemplos foi dessa figura tão conhecida e recentemente falecida no Rio de Janeiro: Anna Solon de Assjs." A senhora romana as atendeu e foi ao interior da casa. Anna. Era a repetição da tragédia de 1908. da coragem de trabalhar para nutrir e educar os filhos pequenos e encaminhá-los na vida. e. querida Cornélia. a manicure e uma funcionária de institutos de beleza lhe aformoseavam a velhice. trazendo pelo braço os seus filhos. Há no Brasil vários casos de mães devotadas aos filhos. em sua velhice. casou em segunda núpcias. Anna. Na edição de 16 de junho. sendo visitada por outras senhoras da alta roda. pelos quais lutam e se sacrificam estoicamente. e. filha do general Frederico Solon. viúva de Euclídes da Cunha. na intimidade da família era conhecida por Sanninha. a maior glória de uma mãe. do segundo marido. porém. era dotada de virtudes peregrinas e de beleza fascinante. filha do general Frederico Solon. já era ela mãe de cinco filhos do novo matrimônio. Em novembro do ano passado. Logo que tomou conhecimento dessa notícia. depois. estóica contra tudo. um dia antes de morrer. dizendo com sorriso afetuoso: "Eis aqui as minhas jóias.. as filhas dignamente casadas e adorando-a como a grande autora de suas felicidades. criou as crianças. Judith compareceu à redação da Revista da Semana e durante horas dissertou sobre a mãe. que trouxera no deu destino o signo da tragédia e do sofrimento. Da. vieram à baila as jóias caras que usavam então. a mãe dos Gracos. Dama da mais alta estirpe. porém. que já passara pelas amarguras de uma viuvez trágica. educou-as dentro dos preceitos das virtudes cristãs. Da. cujo nome passou à História do Brasil no episódio da queda do segundo reinado. a revista publicava outra notícia: ANNA SOLON DE ASSIS Uma das facetas mais belas da história de Roma antiga é aquela em que lemos o episódio de Cornélia. tendo tido a felicidade de ver. as suas jóias. deixando no seio da família desolada um dos maiores exemplos de dedicação materna diante das contrariedades da vida: . separando-se amigavelmente. corrigindo inclusive o ano da tragédia. a fim de prestar esclarecimentos. pediram à mãe dos Fracos: "Mostrenos agora. depois. e.o exemplo da virtude. Todas as semanas." O episódio foi registrado pelos cronistas e atravessou os séculos. Certa vez. traduzido em todas as línguas civilizadas. enfrentando o destino com aquela coragem moral da mãe dos Gracos. Serenados os ânimos. S'aninha foi internada às suas expensas no Hospital do Exército atacada de câncer. Da. Não se entibiou com os reveses da vida. por motivos que não há interesse em apreciar aqui. que. As visitantes mostraram a Cornélia os adereços mais fulgurantes. Apresentou-os às matronas vaidosas. elegante e vaidosa. 184 Ele. volta a sofrer com este novo ato de um drama que se sabia como iria terminar.

a defesa deste fora custeada com os recursos provenientes de direitos autorais de Euclides da Cunha. como prisioneira". morre sete dias depois. numa clara mensagem de pedido de desculpas pelos enganos cometidos na reportagem. tendo aquela senhora renunciado inteiramente a qualquer benefício. Envolvida por trágicos acontecimentos e enfrentando árduos sacrifícios. Na verdade. Ocultava a sua vergonha. evitava o escândalo. ao tempo moça e bela. a minha sina nos anos cinqüenta. foi comparecer às redações para falar de minha mãe. Quanto ao temperamento de D. nós queríamos tudo para a nossa mãe. ficara já esclarecido a sem razão dos rumores de que. propondo-se buscar no exterior um remédio que possivelmente curaria o câncer de eminente figura política da época. Judith esteve num jornal movida pelo desespero e seu amor à mãe. Várias vezes. por causa das calúnias veiculadas na imprensa a respeito de sua mãe. foi o de uma mulher de fibra excepcional. E de falta de cuidados. a mãe. com três meses de vida apenas pela frente. da parte do escritor. publicada pela revista Manchete. Além das flores. do ano de 1916. citaremos a reportagem "A tragédia que abateu Euclides da Cunha". Procurei a direção do jornal. solicitando que trouxessem o remédio também para a mamãe. Pedi não. registrado na 7 Pretoria como filho legítimo de Euclides da Cunha. ou seja. na publicação Um Conselho de Guerra. criou uma prole numerosa. Judith esteve com o historiador Raimundo Magalhães Júnior. desaparecido no sangrento encontro com o padrasto. Nessa ocasião. em favor de Euclides da Cunha Filho. falou sobre sua mãe e seu pai.Não cessaram aí as minhas peregrinações pelos jornais e revistas. uma corbelha de flores e seus cumprimentos. sessenta. da revista Manchete: A TRAGÉDIA QUE ABATEU EUCLIDES DA CUNHA A reportagem publicada sob esse título. de seus dois matrimônios. desenganada pelos médicos. Apenas como ilustração. nesta vez. Se. no processo anterior. Implorei Afinal. de autoria de Raimundo Magalhães Júnior.qualquer parte do mundo. nas outras ocasiões ela iria também explodindo raiva e ferocidade. Anna Emília de Assis nem Dilermando tiveram que ver com o espólio de Euclides. tendo cuidado de todos os filhos com o maior desvelo e . Judith se atracou com jornalistas por meio de violentos bate-bocas. em torno de cinqüenta anos da morte do escritor. confidenciará. pois à página 73. Não tive dúvidas. testemunho vivo do adultério. com isto. no nosso primeiro número de agosto. 185 . Um lapso ocasionou alteração do texto. o que espontaneamente fazemos. A criança odiada. anos mais tarde. que não foi a mãe que concorreu 186 para a morte da criança. Fica patente. Anna Emília. O primeiro refere-se à morte do menino Mauro. Após a veiculação da matéria. devia ler-se o seguinte: "A 11 de julho nasce um menino. dando a impressão de que a esposa do escritor concorrera para a morte de um filho. recebendo depois. de Samuel Wainer. uma nota divulgada pela edição de 29 de agosto de 1959. Aliás. Quanto ao segundo ponto. que não podia sequer banhá-la e alimentá-la regularmente. em agosto de 1959. trancada num dos quartos da casa. O falso pai. está a documentação de que nem D. de debilidade congênita. empreendia uma campanha. tem três pontos a serem retificados. Seria oportuno recordar que meu acesso a jornais se deu durante o período em que minha mãe se achava enferma. pois. o jornal Última Hora. longe de ser inclinada a frivolidades e mundanismos.

em 18 de agosto de 1982. fazendo-se um certo trajeto. Manoel Afonso. assim. com seu trabalho constante e honrado. o seu pé é a ponta de um V. ali permaneceram como que para brincar com a perplexidade dos que descobriam a coincidência. Superou. apenas os corpos de ambos foram transferidos para a cidade de São José do Rio Pardo. chegava-se ao túmulo de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho. chegava-se ao túmulo de Anna de Assis. e até os restos mortais do escritor e de seu filho serem transferidos para São José do Rio Pardo. O cemitério São João Batista é enorme. estaria a própria morte. 188 Quando se desfez a nova trama do destino. descobrirmos um traço secreto comandando tudo. cobrindo-o sempre com flores e o carinho da lembrança. não naquele primeiramente escolhido. Dilermando de Assis aquiesceu aos argumentos dos filhos e esperou que eles mesmos determinassem o local onde seria sepultada a mãe. mas. Os filhos reclamaram. até o seu fim de vida solitária. A própria vida nos reserva certos caminhos e direções que. continua ignorado e esquecido em Cordeiro. O cemitério São João Batista tem os seus inúmeros caminhos e ruas. mas ignorou-se como os fatos verdadeiramente aconteceram. a nos guiar como misteriosa bússola. para depois. Como em toda bifurcação. ninguém lembrou-se. escreveu-se que foi ele quem matou o escritor e o filho. no fundo do cemitério. chega-se a uma bifurcação. Depois é que se descobriu a nova e trágica coincidência. como se o seu cadáver desaparecido nas selvas amazônicas significasse que o seu nome também devesse desaparecer. Já o de Solon.procurado proporcionar-lhes excelente educação. mencionando-se as causas de forma sucinta e equivocada. também em agosto de 1982. E como que para reforçar o mito dos fatos e entronizar pai e filho como mártires. 189 *** . Realizamos alguns atos simples e sem maiores explicações. na mesma sepultura da sogra. Escolheu para o túmulo um local de difícil acesso. Ocupa vasta área encravada no bairro de Botafogo. vicissitudes que só poderiam ser vencidas por uma grande energia e firme vontade. Seguindo-se por uma direção. Dilermando de Assis se dispôs a assumir a última dívida para com a mulher. Argumentaram que desejavam a sepultura da mãe num ponto do cemitério de fácil acesso. efetuando-se a transferência do túmulo de Euclides da Cunha e de seu filho para São José do Rio Pardo. Citou-se o nome de Dilermando de Assis. enquanto o do outro filho de Euclides da Cunha. após a separação do segundo marido. O desejo de todos era visitar o local constantemente. Só que mais uma vez foi lembrada a tragédia que matou pai e filho. 187 *** 40 Uma coincidência no cemitério como derradeiro lance da fatalidade Não só os homens brincam com o destino de seus semelhantes. no cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. permanecendo mais uma vez a insinuação de que ocorreram nas duas ocasiões um puro assassinato. Se se incorresse num engano e tomasse a outra direção. tudo aconteceu com muita pompa e divulgação jornalística. Assim foi ao se escolher o local para o túmulo de Anna de Assis.

190 Mas não saberia distinguir Judith da mãe em outra oportunidade. A outra coincidência é a sua morte em 12 de maio. determinando os repetidos enfartes do general. a primeira pessoa que ele divisou na multidão foi a filha Judith. via terrestre. Quando entrou na capela do cemitério São João Batista. E se ele. Novamente. Judith. A notícia transmitida aos filhos foi de sua morte iminente. em 1951. Dilermando não se sentiu perdoado. procurado no encontro de 1950. e por toda a sua vida. Nesse dia. exatamente um mês após a morte da mulher. No dia 12 de junho. 35 anos decorridos. onde era velado o corpo de Anna de Assis. Dilermando de Assis demorou algum tempo para compreender o que se passava com ele e não soube explicar o que lhe aconteceu ao penetrar na capela do velório. O sinal-da-cruz não o aquietou. a saúde do general estava mesmo abalada. Luiz tinha pânico das viagens aéreas e. não ia a São Paulo com assiduidade. Mas em 12 de julho. Aquele homem que tinha um vigor invulgar. ou algumas palavras de amor. sofreram muitas dores. foi amado e. Ele ainda irá implorar perdão e viver a sua atroz dor por algumas faltas cometidas para com aquela mulher a quem tanto amou. Dilermando de Assis teve o seu primeiro enfarte de vários sucessivos. Dilermando de Assis encontrava-se em São Pau lo. Não. regressaram ao Rio e só não tornaram em 12 de agosto porque houve apenas a ameaça de novo enfarte. por uma série de problemas. Esperaram a sua melhora. os filhos seguiram para São Paulo. Em 12 de setembro. Agora. Todos os filhos se deslocaram para São Paulo e permaneceram juntos do pai até ele se recuperar. Avisado da morte da mulher. preocupava os filhos e os obrigava a constantes viagens do Rio para São Paulo. ainda disse "S'Anninha. ou um aperto de mãos. o sinal-da-cruz como o gesto do perdão? Sem dúvida. me perdoa" é que ele desejava o perdão realmente. ou ele viu a mãe na filha. é ela" e desmaiou. E carregando ainda no corpo duas balas desferidas por Euclides da Cunha em 1909 e outras duas por Euclides Filho em 1916. não era fácil. o primeiro em que esteve a sós com a mulher. dois meses após a morte da mulher. um perdão. E não seria tão-somente por Anna de Assis? Aquela coincidência de datas. é preciso registrar que foi no mês de agosto o internamento de Anna de Assis no HCE. Ele apenas pronunciou as palavras "É ela. mas não tão consistente como seria talvez um abraço. jamais . todos correram para São Paulo. finalmente. ele se viu vítima de outro enfarte. juntos. Apenas a filha Laura. imediatamente deslocou-se para o Rio. após 25 anos de separação.41 Dilermando não faz a sua última revelação e morre com um segredo Dilermando de Assis teria ficado satisfeito com aquele débil movimento de mão de Anna de Assis. naquela última visita à Anna de Assis. exatamente 41 anos após a tragédia da Piedade. Enfim. Da mesma forma. E se para se escrever uma história de amor e tragédias necessitamos de alguns acasos. tropeçava nas vicissitudes da vida. Dilermando de Assis teve um derrame cerebral. Teve de ser retirado do local e se submeter a cuidados médicos. no entanto. certas vezes não viajava para lá o filho mais velho. sair do Rio para São Paulo. Ele confundiu a filha com a mãe. o coração fraquejava.

O beijo 191 do perdão. Judith completa a sua descrição: . Fiquei desesperada. para atendê-lo e recebia aquelas respostas. loucamente: "É ela. E não dizia nada mais. O modo de caminhar. Tive vontade de me jogar pela janela. É ela. o físico. E ele compareceu à cerimônia nupcial de sua filha caçula no Rio de Janeiro. me seguravam e pediam para que aceitasse o beijo do meu pai. aquilo naturalmente provocaria a sua morte. E ele respondeu: "Não. Me dá o beijo do perdão. eu falei: "Papai. não puderam me cumprimentar pela data. aproximei-me da cama. Então. nada. Pois ele me achava muito parecida com a mamãe. É aquele beijo. E apontava para o alto. Ele dizia que tinha uma coisa para me contar. Recebi dele um beijo de amor. ele não revelou o seu último segredo. O beijo do perdão". Pois isto aconteceu sucessivas vezes. a boca trêmula. ele era o meu pai. Chegava lá. ele se encontrava debilitado pelo derrame cerebral. que também nada lhe indagou. vai embora. o próprio médico. Vamos acalmá-lo. E gritou: Não. de amante que pede o perdão pela última vez. Voltei. Ele argumentava: "Amanhã você volta. marcado para 20 daquele mês. por sucessivas vezes. do rosto dele. além das marcas da .Desta vez. Mas o que ficou mais forte em minha lembrança. é ela. um médico. Judith não percebeu que a data 12 de todos os meses matava o seu pai lentamente. Eu queria apenas te ver". dia de meu aniversário. Dilermando de Assis conseguiu se recuperar desse derrame cerebral e jamais comentou a cena com a filha. Ele ficou muito mal mesmo. o meu marido. pegava o avião e ia. estavam presentes dois enfermeiros. as marcas no rosto. 192 Pelo dia 12 de outubro de 1951. ou mesmo sobre a sua obsessão pelo perdão da mulher. com muitas despesas para São Paulo. o general Dilermando de Assis passou incólume. que nesta época estava com uns problemas nas pernas. Não. Então o médico me aconselhou: Deixa ele te beijar. E. Então. a minha filha Ana Maria. Depois do beijo. no Rio. Luiz. Que era muito urgente. Eu consegui me desvencilhar e fugir. é ela". tudo eram cicatrizes do derrame cerebral de setembro. Eu ia. . apenas os cabelos negros. Eu estava com os meus irmãos. Recordo-me inclusive que não saí de São Paulo no dia quatorze de setembro. é S'Anninha. o meu pai me deu um beijo na boca. Foi dramático. a dificuldade para falar. Mas ele me segurou. e disse: "Ela me perdoou". Eu fui. Frederico. Mas ele gritava. estávamos ao seu lado. Em 1951.deixará de se lembrar dos acontecimentos de setembro de 1951. No entanto. Me dá o beijo do perdão". Eu reclamava. Todos nós. Papai?" Ele respondia: "Ah. ele caiu na cama. telefonou para o Rio e me chamou a São Paulo. Os meus filhos. erguia os dois braços. acreditávamos que papai morreria. deixava tudo para trás. dei um beijo nele.Após se recuperar do derrame cerebral. muitas dores.Vivi uma cena bárbara. a altura. Ele estava completamente alucinado. Quando o meu pai me viu. Eu queria ver este narizinho". Me deu um beijo de amor. Senti uma emoção tão forte que poderei viver mil anos e não esquecerei jamais. sou eu papai". "Ela me perdoou". . Eu não era. sou eu. João. Afinal. O meu pai estava numa agitação atroz. locomoviame com tantas dificuldades. Ele estava muito mais preocupado com o breve casamento de sua filha Dirce. esperando sua possível morte. Judith. que deixava os filhos no Rio. ele gritou: "É ela. Não. Eu tentava sair do quarto e os meus irmãos. o meu pai. a cor morena. perguntava: "Que é. foi a minha chegada ao quarto do hospital. chorando. E repetia alucinadamente: É ela. todos os filhos de Dilermando.

Nunca tive coragem de lhe contar o fato. falecendo no dia seguinte. Pelo amor de Deus. constituiu o mais severo e expiatório castigo para o seu ato. venha a São Paulo. venha. A doze ele teve novo enfarte. em seguida. Ele ligou para o meu irmão Luiz e lhe pediu para me convencer. Eu não posso ir". em qualquer outro caso. Respondi: "Papai. quando teve o último enfarte. sem que coubesse. novamente ligou-me e insistiu para que fosse a São Paulo. Já pedi a Deus. morreu dia treze. seria generosamente esquecido. Foi com destaque que a imprensa noticiou o falecimento do general. Foi um delírio. Argumentei com Luiz: "Não posso. o papai fica com essa brincadeira e não me diz nada. sem que o conseguisse. Se na morte de Anna de Assis os jornais cometeram enganos. Amanhã. eu tenho ido a São Paulo. Ficou-se a impressão de que me chamava para me contar alguma coisa. mas não sei o que de fato o meu pai desejava me revelar. autor de uma das obras-primas de nossas letras. estive com ele em São Paulo. eu não posso. é forçoso reconhecer que a condenação pública que acompanhou. dado o fato de ser o criminoso um oficial do Exército. por duas vezes absolvido nos tribunais. insistir para que fosse a São Paulo. Na primeira página do Diário da Noite. Judith notou outras: . outro dia doze de julho. Depois da estada dele aqui no Rio. já imaginei tudo. foi certamente a agravante terrível desse assassínio que. com a popularidade do civilismo contra o militarismo. e ele não tinha coragem de me revelar o que queria. está a matéria: 193 A TRAGÉDIA DA PIEDADE Faleceu o general Dilermando de Assis O falecimento. Sem querer reviver aqui a apaixonada controvérsia determinada pelo assassínio de Euclides da Cunha. É evidente. eu ia.doença. quando esse procurava vingar o pai. A circunstância de ser a vítima um dos maiores escritores brasileiros. teve um derrame cerebral a doze de setembro e o último a doze de novembro. Era a data que o atingia fortemente. agravada ainda tal condenação pelas lutas políticas contemporâneas. o infeliz oficial. Sentia-se a sua amargura. talvez sentindo a aproximação dos . um mês após o falecimento de mamãe. Acredito que agiu inconscientemente. por toda a vida. Fui atendendo a mais um chamado dele. às vésperas do dia doze de novembro. Tenho certeza que era algo com referência à minha mãe.a tragédia da Piedade. Pois lembre-se: ele teve o primeiro enfarte dia doze de junho. Eu quero te contar uma coisa. Tanto assim que. Ainda há pouco. do general Dilermando de Assis encerra a última página de uma das mais dolorosas tragédias passionais de nosso tempo. em São Paulo. autor dessa morte e. fiquei firme. Desta vez recusei. também da morte do filho de Euclides. Eu não vou". E agora me recordo de suas últimas palavras: "Venha. o reconhecimento da menor atenuante. Judith.O meu pai estava muito triste. ficou inconsciente. chego lá. Era dia dez ou onze de novembro. passou muito mal a doze de agosto. aquela que ficou em nossa crônica criminal como . a mínima isenção. já pedi que papai me surgisse em sonho. Dilermando de Assis passou toda a sua vida a procurar redimir-se da culpa. O que se notava era que ele não estava aliviado com o perdão da mamãe e talvez ele não se recordasse da cena do beijo. como os anais criminais sempre nos mostraram. O crime da Piedade crioú desde logo uma mentalidade de implacável condenação ao seu autor. tão profundamente se enraizara no espírito público a sua condenação. Era a lembrança de minha mãe. pela manhã. na morte de Dilermando de Assis não ocorreria de forma diferente. Só para a semana. nesse tremendo e incansável libelo. Eu preciso falar com você". acentuada pelos que não lhe poderiam perdoar o crime de ter abatido um grande escritor.

à cuja guarnição pertencia. por exemplo: Dilermando de Assis morre aos 63 anos de idade. sob o título "A Tragédia da Piedade". 194 A extensa reportagem reproduz o passado. já sem esperança de conquistar. dos feitos do general. Euclides pai e filho saíram do palco no primeiro e segundo ato.últimos dias. Em 1930. teve Dilermando de Assis atuação destacada nesta capital. com o desaparecimento do último e mais infeliz personagem dessa tragédia. O pano cai sobre o palco ensangüentado. As paixões humanas engendram. Sua morte vem reviver. ninguém poderá condená-lo por haver morto para salvar a sua vida. Agora. atinge às proporções esquilianas. destacando-se. possuía diversos cursos regulamentares e exerceu o cargo de secretário de Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo. conspurcando o nome e o lar de seu amigo. qualquer perdão. outras tantas paixões. escrevendo para a posteridade. Quarenta e dois anos depois Ana Solon foi chamada pela morte. durante sua gestão naquela Secretaria. sim. tanto ou mais do que o crime. quando da explosão do movimento revolucionário que culminou com a vitória de 24 de outubro. 195 *** 42 Dilermando e Anna viveram um grande amor Judith Ribeiro de Assis levou alguns anos para convencer seus outros . exercendo alta função militar no dia da revolução e nos instantes subseqüentes à vitória. de seus contemporâneos. conta sobre a morte do escritor Euclides da Cunha e de seu filho. E O PANO CAIU A "Tragédia da Piedade" continuaria em cena enquanto alguns de seus personagens estivessem atuando. com a saída do palco da vida de Dilermando de Assis. esquecendo-se de todos os filhos e geração nascidos fruto do amor de Anna de Assis e Dilermando de Assis. assinalando nas entrelinhas que Dilermando seria. um culpado. pois era ele engenheiro militar competentíssimo. juízos sobre essa dolorosa tragédia. onde o castigo. uma das páginas mais tristes da história criminal do Brasil. encerrando-se com o último comentário no qual se comete mais uma vez o engano de se considerar o jovem cadete amigo do escritor. quando a Deusa Fortuna marca uma vida. Dilermando de Assis publicou. pode ser objeto de condenação. E ainda mais: faz a crônica de um acontecimento trágico como se encerrasse com a morte de um último personagem. Se o ato do tenente Dilermando. Cai agora o pano. todos os seus personagens estão diante do Juízo Supremo. Oficial da arma de cavalaria. não é possível fugir-se aos seus azares. para a sentença que não fala nunca. onde os fantasmas dos mortos se agitavam entre os vivos. A notícia completa na segunda página fala da tragédia da Piedade. É uma matéria não assinada. De nada vale revolver razões. explicações. que pesará sem dúvida seus méritos e suas culpas. Era o terceiro ato. No equívoco em registrar que o tenente conspurcou o lar do amigo está a pista para o libelo acusatório. E. para a felicidade ou para a desgraça. medíocre. pouco tempo depois da Revolução de 1932. o relato sereno do brutal acontecimento e fez a defesa de seus atos. sempre. tendo sido organizador do "Plano Rodoviário" daquele Estado. deixando o seu nome ligado a várias obras realizadas para o Exército. que tão fundo feriu e abalou a sociedade. Quatro pessoas tiveram o seu destino marcado.

depois ela dizia: Hoje. Era apenas Anna de Assis e aquela era uma multidão de amigos. E tinha uma personalidade que atraía a atenção de todos. Fez de seus filhos uma família normal. embora em legítima defesa. mamãe não deixa. traidora. Quantas pessoas. eu tenho certeza de que ela jamais deixou de amá-lo. elas se afastavam e diziam: "Não. Analisem tudo que foi narrado em Anna de Assis . que procuravam a minha mãe para conversar. Mas tinha mágoa. existem os descendentes de Anna de Assis. basta lembrar das inúmeras amizades de minha mãe. Você é filha de assassino". Ou de que a vida daquele homem lhe era indiferente. Nunca vi uma paixão igual. Apesar de que ele pediu perdão a vida toda.História de um . posso afirmar: Mamãe tinha paixão por meu pai. E por isso faço questão de registrar tudo. Seriam apenas palavras de uma filha? Ora. Cresceram como vítimas desta perseguição atroz contra Anna e Dilermando. falava fluentemente inglês. quatorze netos. O que me disse muitas vezes. São os fatos. Quando voltamos 197 da ilha de Paquetá. tal era a quantidade de acompanhantes. Todos se casaram. Quantas vezes. foi de muita preocupação. face à gravidade da doença. São cinco filhos. Dilermando e Anna. E o meu pai foi o único amor de sua vida. se a atitude de minha mãe não estava certa? Afinal. Recordo-me que por ocasião do primeiro enfarte de meu pai. chegando a me confundir com minha mãe. Hoje. ela resistiu a tudo.Apesar de mamãe não ceder aos rogos de perdão de meu pai. viveram uma grande história de amor. até os seus últimos momentos de vida. constituíram família. Lia muito. já quase todos moços. a vida do filho que ela perdeu. as amarguras. o que recebíamos: discriminação. . no bairro de Fátima. mesmo depois dela morta. sofremos muita discriminação. Filhos de uma mulher vaidosa. isto acontecendo apenas no fim de sua vida. podemos avaliar: quão admirável foi esta mulher. quando o seu corpo deixou o Hospital Central do Exército. Ela não o perdoava por tê-la preterido. de admiradores. espanhol. ocorrido quando ele ainda residia no Rio.E se tanto amor existiu entre meu pai e minha mãe. pedindo para brincar também. Mas por ser uma mulher temperamental. Com muito amor mesmo. Levamos uma vida de sacrifícios. fomos criados e educados por Anna de Assis. mas de qualquer maneira. Nada. E os meus irmãos recebiam o mesmo tratamento. Por isso. Em inúmeras oportunidades ela reafirmou que ainda era apaixonada pelo papai. era o seu filho. De outro lado. a reação de minha mãe. mamãe nos educou para superar tudo isto. Obrigou os filhos a visitarem o pai e eu levei o recado: Se ele precisar de enfermeira. injustiças. Que foi o papai. pois vamos pensar como é viver com um homem sabendo que efe maou o filho. mulheres. Veja o que a revista A Semana publicou após a morte dela. de luta e abnegação pelos filhos. até a data de doze de maio de oitenta e sete. . No dia de seu falecimento. por aquele homem. moços. vinte bisnetos e seis tataranetos. Eu pergunto. por que esta condenação da sociedade? Veja que eu e os meus irmãos crescemos com aquele estigma: são os filhos de Anna e Dilermando. Por que persistia tal imagem de Anna de Assis?! E tudo mentira. Só nos deu amor e carinho. diga a ele que ele tem. Veja o que ela sofreu por ele. carros e mais carros.irmãos de que um livro deveria ser publicado para reforçar sua convicção de que pai e mãe. E que ela só conheceu um amor na vida dela. da parte da sociedade. Éramos olhados como filhos de um assassino e de uma mulher infiel. Ela morreu apaixonada pelo papai. Avaliem. lá mesmo na ilha de Paquetá. Ela era uma mulher muito culta. que os transeuntes paravam e indagavam que personalidade importante havia morrido aquele dia. italiano e francês. Somos testemunhas de sua vida à beira do fogão. homens. que se mostrou uma supermãe. Ela afirmava: Só se ama uma vez. este amor se transformou em ódio. doidivana. Só com muito amor. quando eu me aproximava de um grupo de meninas. No entanto.

só recebi palavras de incentivo. Procuramos não remover o passado para comentar e julgar atitudes de nosso pai. aplaudem minha iniciativa. convivemos com amizade. Nunca se queixou da vida. nós 198 temos a mais respeitosa e terna amizade por nossa irmã Dirce. mas respeitem a minha mãe. Respeitem os seus sentimentos. que se apaixonou um dia por outra mulher. é o desejo de todos nós. passava o dia cantando ópera. O escândalo todo será por que ela tinha quase trinta anos e ele apenas dezessete? Mas eles se apaixonaram. Ela foi soprano absoluto.Vamos analisar as suas cartas e raciocinar se os seus termos não são de alguém muito apaixonado. Que admirem o escritor. a quem sempre amamos e respeitamos. provam nossa amizade. Enfim. assim. o navio em que viajavam. Curioso. Se ela tudo fez pelos filhos. tanto quanto possível.trágico amor e respondam: é possível condenar esta mulher? Não quero mais calúnias para com a minha mãe. Mamãe era muito católica. se viu em meio a tempestade tão violenta que o capitão de bordo se julgou perdido e comunicou aos passageiros e . Mamãe cantava muito bem. só posso lamentar a loucura feita por Quidinho. procurava afastar dos filhos as tristezas e tudo fazia para a nossa felicidade. Minha mãe nunca foi a um enterro. dos dias alegres de minha mãe. a casa de meus irmãos. Sempre foi. a nossa união é a mesma que existiu para com Afonsinho. com quem convivemos. Diante de tudo isto. ela respondia: Quem canta seus males espanta. E graças também à sua fé religiosa. incomum. paz e amor. Sonhei durante cerca de trinta anos com este livro que mostrasse a verdadeira face da mulher Anna de Assis. Leiam as cartas em que ele a trata sempre de esposinha. Pelo contrário. Ela abandonou Euclides da Cunha por amor. cordialmente. E ela estava de resguardo de Frederico. 199 Em sua primeira viagem do Rio Grande do Sul para o Rio. E o meu pai. ela estava feliz com o nascimento de mais um filho gerado pelo seu amor a Dilermando. Nunca. Veja. Quero que a respeitem. pensei. Quando comentávamos. E também jamais ouvi qualquer lamúria da parte dela. Creio que suas cartas. minha obrigação seria publicar um livro contando tudo sobre Anna de Assis. principalmente dos famosos euclidianos. depois de escapar do mar e da morte. E conseguiu graças à sua personalidade forte. a sua obra. um basta para as insinuações. Teve. Ela é nossa irmã. Lembro-me bem. Veja. neste livro transcritas. Ele ignorou a sua mãe. ainda menina. de adorada. tanto quanto foi Afonsinho. merece também a nossa compreensão. Por amor a Dilermando de Assis. . já que há anos ela reside no exterior. então. evitando assim criar barreiras em nossa convivência. é como ele fugia das tristezas. Ou melhor. Da parte dela. como tudo agora é diferente. A sua religiosidade e a sua alegria inata de viver ajudaram-na a sobreviver aos momentos trágicos de sua vida. Inúmeras vezes comentei com a minha irmã Dirce que desejava um livro contando a vida de amor de minha mãe por meu pai. Falamos de nosso pai com respeito e saudade. Os meus filhos. se dão com os filhos de Dirce. minha mãe de suportar uma nova tragédia em sua vida. A tragédia maior da vida de Anna de Assis foi conhecer Euclides da Cunha. Agora. afinal me apoiaram. que antes se posicionaram contrários à idéia. Dirce freqüenta a minha casa. Que alegria é essa?. na costa do Estado do Paraná. Por que ele tentou matar o meu pai? Para quê? Ele não pensou em sua mãe. Meus irmãos. as injúrias. na ilha de Paquetá. quando o então major Solon Ribeiro se transferia para a Corte. Às vezes.

Os botes seriam frágeis e inúteis. rezaram e clamaram por salvação. resistindo e ameaçando soçobrar. deitou ali a estátua da santa e teceu com fina corda uma teia que juntou e prendeu a imagem ao corpo de S'Anninha. que deixem a minha memória em paz. sempre iluminada e venerada com respeito e devoção. cuja imagem se colava ao peito da menina e deveria acompanhá-la ao mar. Abandonaram os seus postos e vieram rezar. Outros passageiros presenciaram a cena e. aturdidos. Ao entregar a seu filho caçula. se esfacelariam com o bater da primeira onda turbulenta. Ela jamais se esqueceria da cena. Dona Túlia se abraçou aos dois filhos. seu filho Luiz lhe fez um nicho e deu-lhe de presente para abrigar a pequena estatueta. além da bóia. inúmeras vezes repetida. Baseando-se em tal afirmativa. incontrolável. Enquanto todos corriam e ensandecidos imploravam misericórdia aos céus. Foram distribuídos salva-vidas. todos se ajoelharam e rezaram. Espero que me esqueçam. Também os tripulantes julgaram que aquele seria o último recurso para evitar o desastre e a submersão do barco. dona Túlia. Anna de Assis passou toda a sua vida transmitindo aos filhos um sentido para a existência que se determina com honradez e dignidade. daquela data em diante. Anna de Assis carregou a sua santa. A tempestade se afastou do navio em questão de minutos e logo a embarcação singrava águas tranqüilas. Após a minha morte. queime tudo que escrevi. Os gritos alucinados de homens e de mulheres se ouviam nos intervalos dos trovões e estrondos de ondas gigantescas. Frederico. colocou-a no peito da menina.aos tripulantes que se preparassem para se lançar ao mar. minúsculas bóias que de nada adiantariam naquele mar bravio. transferida à filha Judith Ribeiro de Assis como herança e mensagem de fé religiosa. . um baú de cartas e manuscritos. nunca abandonou S'Anninha. revelando até mesmo os seus difíceis momentos de vida ao lado do temperamental Euclides da Cunha. O navio jogava. 200 *** 43 Anna de Assis escreveu todas as frases de sua história Uma vida não acaba quando se morre. No entanto. ela afirmou: Eu não tenho que me defender. ajoelharam-se. Um dia. Por onde foi e passou. despediu-se das crianças e pediu ao marido que amarrasse à menina Anna Emília. rogando pelo fim da tormenta. se possível protegendo-a e salvando-a. Eu não tenho do que me defender. mas a verdade que os mistérios do amor guardam como impenetráveis segredos. no seu rumo certo e rota estabelecida: o porto do Rio de Janeiro. Esteve em todas as suas casas. Major Solon apanhou uma tábua. Diante da menina S'Anninha. major Solon e o filho Albino se ajoelharam diante da menina S'Anninha e rezaram a Nossa Senhora da Conceição. Ela poderia se desfazer de todos os equívocos surgidos em seu passado simplesmente mostrando tudo o que deixou por escrito. o esboço de seu livro de Memórias. ela sabia que ali estava tudo o que não só uma imprensa curiosa desejava. A imagem de Nossa Senhora da Conceição. aquela imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Compreendi logo que tínhamos sido vítimas da Fatalidade. sempre confirmou a versão. S'Anninha. algumas palavras com as quais se consegue recompor a vida e o amor de Anna de Assis. E Judith relembra perfeitamente dos momentos de fugaz felicidade de sua mãe. lendo. 201 Foi ela também que afirmou: Duvido que alguém tenha por ele maior admiração do que a minha. desfazendo completamente o mito de que a obra-prima literária tenha sido escrita numa rústica cabana em São José do Rio Pardo. Ela apenas respondia: O meu silêncio é a minha defesa. Criem balelas e aventuras para o escritor. nem odeio a ninguém. Também são felizes. Passo os dias sozinha. dizendo: Mas vivo feliz no meu ostracismo social. os filhos solicitavam à mãe que se insurgisse contra tudo. aceitou o compromisso porque no final do século passado as mocinhas se casavam por imposição paterna. a culpa entre nós também cabe aos deuses. na velhice. e ele também acreditou que Anna de Assis seria esquecida pelos cronistas da fantasia. Euclides da Cunha escreveu Os Sertões na Fazenda Trindade. Como acontece nas tragédias gregas.Frederico sequer desdobrou alguns daqueles manuscritos. Mas o escritor era diferente do homem. E arrematava: a grande paixão de sua vida foi Dilermando de Assis. Afinal. um livro sobre Euclides da Cunha. Frederico foi leal à mãe. a Tragédia da Piedade e toda uma vida passada. deixem sossegada a memória de Anna de Assis. . Não me queixo dos outros. em São Carlos do Pinhal. Pode haver maior ventura na velhice de uma mulher condenada. um artigo. confirmando: Só se ama uma vez na vida. Deixou tudo se queimar. já muito idosa. Ela cresceu. efetuou correções em sua obra literária. Aos filhos. Na verdade. uma pequena fogueira desmanchou anos de frases e revelações. foi Anna Emília. No fundo do quintal da casa 19 da Rua dos Oitis. Quando surgiam comentários nas revistas e nos jornais. mentiras. É a afirmação de Anna de Assis. Ela reafirmando: Eu não errei. acusações. restaram aos filhos. Anna prometeu: Nas minhas "Memórias" destruirei as fantasias dos cronistas de Euclides. Anna de Assis bem disse que nunca esteve apaixonada pelo homem com quem se casou pela primeira vez. na juventude. principalmente à Judith. Se o fogo desmanchou 202 anos de frases e revelações. sobre a morte do escritor. tornou-se mulher. E meus netos me adoram. Não acusei. Eu amei. Vivemos juntos. Anna de Assis. Anna da Cunha e. calúnias. Novamente. Por isso me recusei em atender a um amigo de Euclides que me pediu que acusasse Dilermando. escrevendo. sobrepôs-se aos desígnios dos deuses. a viver eternamente infeliz? Ela conquistou o direito de dizer "vivo feliz". Dormimos no mesmo quarto. Completamente feliz! Minhas filhas casaram-se bem. ouvindo rádio. nem acuso ninguém. um dia ela disse em entrevista: Eu é que posso escrever sobre Euclides. Enquanto ele fez a ponte naquela cidade. Ela tinha apenas 15 anos. Sobreviveu ao vulcão da fatalidade.

Sou a mulher mais feliz do mundo. se os homens governam os destinos da História. nessas ocasiões. João.a mesma que foi Anna Emília. Ao contrário. a mais bonita menina que freqüentou os salões do Império e depois saudou a Primeira República. impulsiva sim. Tudo de bom os cinco filhos de Anna de Assis arquivaram como lembrança da mãe. a moral canhestra se arrastaria pelos anos afora. marechal Solon Ribeiro. Foi separada uma carta que ela enviou ao filho Luiz quando ele trabalhava na marinha mercante e viajava por mares distantes. como também a filosofia positivista. Benjamin Constant. Herança são as recordações. Na casa de cada um. iluminam os séculos e fazem os novos trajetos da História. Ela pode ser romântica. em benefício de sua vida e de sua paixão pelo jovem cadete Dilermando de Assis. Mas ela jamais esqueceu o grande amor de sua vida. Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar. Aristides Lobo. porém sempre inteligente. E. Cartas. estabelecendo que no Brasil deveríam prevalecer diferentes costumes. sua atitude de mulher independente e apaixonada. A sua determinação de mulher surgiria novamente no dia em que renunciou ao segundo casamento. Tenho cinco filhos que me adoram. Quando pediu ao filho Frederico que queimasse tudo o que havia escrito a respeito de Euclides da Cunha. Judith e Frederico. pedindo-lhe que os guardasse. sobre os seus desencontros com o escritor. com os enunciados de inéditas filosofias. novas normas sociais. A mulher Anna Emilia recordaria os ensinamentos filosóficos daquelas figuras históricas e trataria de colocar em prática. se espalharam pelas casas de Luiz. Rui Barbosa e inclusive o seu pai. tudo culminando com o trágico 15 de agosto. cartões-postais. lamentavelmente. E revolucionária quando e onde preciso for. Quintino Bocaiúva. as idéias de um raciocínio que pregava libertação. perseguindo uma mulher que foi incomum. audaz. 204 a mais bela da Corte. Laura. Ela nunca errou. seriam injustificáveis para os padrões da sociedade brasileira do princípio do século. esta é a herança de um amor. como os novos caminhos do mundo. sobre os seus primeiros anos de vida conjugal. jamais débil. pois aqueles que nascem fora de sua época e são revolucionários não cometem faltas. sobre os anos de aflição no princípio do século. deveriam saber também determinar a direção de uma vida. o da mulher também se dedica 203 ao amor.Nunca ninguém percebeu que aos 14 anos de idade a menina Anna Emilia participou das reuniões em que se tramou a Proclamação da República do Brasil e que. outras inúmeras frases bonitas. Minha filha. sempre existiram paredes que se enfeitavam com fotos da mãe . não só se dissertou sobre os rumos do País. Pensaram sobretudo em revolucionar o País. Foi ouvindo aqueles doutos e sábios senhores que a menina Anna Emília aprendeu que. Sua renúncia ao casamento oficial. bilhetes. . José do Patrocínio. de mãe para filho. no entanto. ao mesmo tempo ela passou à filha Judith as cartas e os bilhetes de Dilermando. digna de admiração e respeito. E todos os filhos de Anna de Assis lembram de sua mais terna afirmação. não só discutiram a queda do Império. Principalmente quando amam. E se o coração masculino apenas se preocupa com a liberdade e a independência. Eles falaram em erigir outros valores para a sociedade brasileira. singelas.

De 1997 a 1999. escreveu Um jornal assassinado . 207 . 205 O AUTOR E A SUA OBRA Jéferson de Andrade. Foi um dos organizadores do Manifesto dos Intelectuais contra a censura. nascido a 14 de julho de 1947. publicando contos. e fez parte da comitiva que esteve em Brasília para a entrega do documento ao ministro da Justiça da época. No Rio. É o autor de Anna de Assis . em sua fase inicial. Retornou para Belo Horizonte em 1996. a respeito de sua mãe. O livro foi best-seller e originou a minissérie "Desejo". mineiro de Paraguaçu. lançou publicações mimeografadas em Minas Gerais. escreveu crítica literária e fez reportagens culturais para o jornal Estado de Minas. É o editor e o proprietário do jornal de bairro Folha do Padre Eustáquio com circulação mensal na região noroeste de Belo Horizonte. Com a colaboração do jornalista Joel Silveira.E nesta carta. Anna. da TV Globo. Veio para Belo Horizonte e saiu para residir quinze anos no Rio de Janeiro e quatro em São Paulo. Passou para a Record em 1979. entre tantas frases de mãe. os filhos reunidos escolheram a que melhor servisse para realçar a mulher Anna de Assis. a que falasse de suas saudades por um filho ausente. em 1976. depoimento de Judith Ribeiro de Assis. a editora do jornal Pasquim. contando a história completa do jornal carioca fechado pela ditadura militar das décadas de 1960 e 1970. e o pai. Anna e Dilermando. a única dor que não sabia suportar. Como escritor.História de um trágico amor: Euclides da Cunha. estreou em revistas literárias no início da década de 1970.A última batalha do Correio da Manhã. Essa frase os filhos escreveram em mármore na sepultura de Anna de Assis: FELIZ DO HOMEM QUE TEM POR BÚSSOLA AS LÁGRIMAS DE UMA MÃE. Dilermando de Assis. que matou o escritor Euclides da Cunha em 1909. exercendo de junho de 1984 a dezembro de 1986 a função de editor de autores brasileiros. foi editor de livros da Codecri. Como editor.

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